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“Sem mudar as estruturas de dominação, deixamos no lugar a

cultura da falta de amor. O amor é profundamente político. Nossa


revolução mais profunda virá quando entendermos essa
verdade”. (bell hooks, Salvation)

Em suas obras, a teórica feminista e ativista social - bell hooks - fala muito sobre
o amor. Um amor libertador, político e revolucionário. Um amor capaz de
cicatrizar as mais profundas marcas das opressões sociais. Um amor totalmente
oposto ao que cultuamos historicamente.

Vivemos em uma sociedade que celebra um amor que mais aprisiona do que
liberta; que mais exclui do que inclui; que mais fere do que afaga... O amor
romântico nada mais é que um mito construído e atravessado por uma ideologia
hegemônica patriarcal, que projeta um ideal de relação baseado em normas e
padrões socioculturais. Dessa forma, tende a abjetificar corpos dissidentes, de
possibilidades afetivas instituídas socialmente.

Se você não é “arrebatado” pelo amor romântico, se sente desprezado, abjeto,


preterido, imerso num processo de solidão e até mesmo depressão. Isso
acontece, por que a sociedade impulsiona o amor romântico como algo vital e
extremamente importante para uma vida plena. Vemos isso constantemente na
celebração do casamento, contos de fadas, filmes, novelas e principalmente nas
propagandas do dia dos namorados.

O amor romântico não é para todos. A naturalização desse tipo de amor legitima
a exclusão de muitos corpos no processo de afetividade na sociedade.
Justamente por conta disso, é necessário pensar em diversas possibilidades de
amar, que não sejam alicerçadas em construções hegemônicas.

“O amor próprio é a fundação da nossa prática amorosa, sem ele


nossos outros esforços para amar falharão”. (bell hooks, Salvation)

O amor romântico é capaz de dilacerar a nossa autoestima. Ele define quais


corpos merecem e não merecem ser amados, com base em padrões de raça,
gênero, sexualidade, corporeidade, etarismo, cisnormatividade, etc. Ele rejeita
corpos dissidentes , negociando condições mínimas de afetividade por uma
busca excessiva de nossa adequação à norma. Com isso, sofremos por sermos
quem somos, acreditando que o grande problema está em nós mesmos,
ocasionando o esvaecimento da nossa autoestima.

Parece clichê, mas o amor próprio é um ato essencial para compreendermos as


dinâmicas amorosas. Entretanto, não é um processo simples, principalmente
para corpos dissidentes, que costumam ser excluídos nos diversos campos
sociais. O amor romântico enfatiza muito sobre o sentimento que direcionamos
ao outro e bem pouco sobre a construção do nosso autoamor. Assim, vivemos
numa busca incessante pela aprovação da pessoa amada, passando por cima até
mesmo das nossas particularidades.

Uma vez que conseguimos construir um processo de autoconhecimento,


autoamor e elevação da autoestima, damos um passo importante (mas ainda
pequeno) em direção a um amor libertador.

“Se o amor não está presente em nossa imaginação, não estará


presente em nossas vidas”. (bell hooks, Salvation)

Por muitas vezes, no processo de solidão afetiva, pensamos que o amor não é pra
nós. De fato, o amor romântico nos mostra isso de todas as formas. Entretanto,
existem diversas possibilidades de praticar o amor, que geralmente são mais
invisibilizadas socialmente.

Com toda sinceridade, não posso afirmar que estas outras formas de amor darão
conta de todas as lacunas e marcas provocadas pelo vazio do preterimento
afetivo – até por que continuaremos vivendo em uma sociedade com as
dinâmicas afetivo-sexuais pautadas no amor romântico. Porém, outras formas de
amor e afeto, para além do convencional, nos direcionam para um caminho de
fortalecimento e reconstrução.

Dedico esse texto para todos os corpos dissidentes que se sentem rejeitados ou
preteridos. Principalmente para as bixas pretas afeminadas e travestis. Não
desistamos do amor. Nossos corpos dissidentes já passam por tantas provações
nessa sociedade altamente opressora, que no final das contas, o amor acaba
sendo a nossa forma de regeneração e resistência. Nossos corpos merecem ser
amados. Que nos amemos!

“Não queimem as bruxas, mas que amem as bixas

Mas que amem, clamem, que amem, clamem

Que amem as travas também,

Amém”. (Linn da Quebrada & Jup do Bairro).

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