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O EXISTENCIALISMO É UM HUMANISMO

Albio Fabian Melchioretto1

O fichamento que apresento é do texto O existencialismo é um humanismo, escrito por


Jean-Paul Sartre. O texto após sua primeira apresentação foi pouquíssimo retocado. Ele foi
proferido numa conferência em Paris, em 29 de outubro de 1945. O fichamento será dividido
em três partes. Na primeira, apontarei alguns elementos históricos do autor e da obra em si
com intenção de contextualiza-la. Na segunda parte, a apresentação dos principais temas e
argumentos descritos pelo autor no texto em si. Por fim, tentarei, ainda que superficialmente,
relacionar o tema com a elemento curricular de Políticas Públicas e Desenvolvimento
Regional.
O filósofo Jean-Paul Sartre, nasceu em Paris em 1905, e veio a falecer em 1980. É
reconhecido como uns maiores representantes do existencialismo. Em alguns momentos chega
inclusive a confundir-se com a própria corrente. Aos 19 anos, ingressou na École Normale
Supérieure no curso de filosofia, lá conheceu a pensadora Simone de Beauvoir com quem veio
a constituir um relacionamento. Lecionou nos liceus de Le Havre e Paris até o início da
Segunda Guerra Mundial. Serviu, foi preso e fugiu de um campo de concentração. Regressou
a Paris, onde criou um grupo de resistência intelectual chamado Socialismo e Liberdade, onde
conheceu Merleau-Ponty. A partir deste grupo, transitou com pensadores e líderes políticos
comunistas durante a Guerra Fria.
Sua obra nasce no período das violentas guerras que assolou a Europa, de modo mais
intensivo. Publicou diversas obras como A náusea, o Muro, As moscas, O ser e o nada entre
muitas outras. Foi indicado ao recebimento do Prêmio Nobel de Literatura, mas se recusou a
recebê-lo. Sob protesto afirmou que um escrito não pode ser transformado em instituição por
meio de premiações. Foi influenciado por autores como Kant; Kierkegaard e Heidegger. A
conferência em Paris, onde Sartre expõe pela primeira vez o Existencialismo é um humanismo,
é um momento onde ele se preocupa em responder diversas interpretações equivocadas de O
ser e o nada, que foi publicada dois anos antes, 1943. Entre alguns filósofos, há um debate se,
a produção de Sartre é de fato filosófica ou literatura. Não pretendo entrar no mérito desta
discussão. O que de fato nos importa aqui é perceber que o texto é um tanto circunstancial, e
que alguns argumentos, posteriormente traçarão outro itinerário.

1
FURB – Universidade Regional de Blumenau; PPGDR – Programa de Pós-graduação em
Desenvolvimento Regional, Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional, Prof. Dr. Oklinger Mantovaneli
Júnior, III/2019, Blumenau, 28 de agosto de 2019.
O Existencialismo é um humanismo é uma resposta de algumas acusações que a crítica
lhe tem dirigido, como por exemplo, o tom pessimista de seu existencialismo. São críticas
feitas por marxistas; por católicos; por naturalistas e por políticos. São críticas vindas de várias
direções. Muitas delas vem pelo tom desesperançado e por soluções inacessíveis que uma
leitura da obra O ser e o nada apresenta ao questionar a condição humana. O ponto essencial
é pensar que o ser humano não é de modo algum sujeitado ao determinismo. Sua vida não está
enrijecida a um futuro circunscrito, como de uma planta. O ser humano é responsável pelo seu
futuro, pois, não tem uma essência fixa.
O existencialismo prevê uma relação da filosofia com a vida. A época moderna é
marcada pelo humanismo. O estabelecimento da hegemonia do ser humano que constrói o seu
próprio destino. Sartre aponta a construção hegemônica do humanismo, dada a partir dos
princípios do Cogito de Rene Descartes, institui o ser humano como coisa pensante – res
cogita. O cartesianismo defende que todo conhecimento começa sempre pela essência do
objeto a ser conhecido. Depois disso, desdobra-se a uma série de atributos que nos permite
conhecer. A essência é o atributo principal do conhecimento. O que quebra com as correntes
epistêmicas medievais colocando a valorização do pensamento humano, em primeiro plano.
O que Sartre faz, é questionar a proposição epistemológica dada a partir de Descarte.
Primeiro vem a existência. “A existência, precede a essência” (SARTRE, 2014, p. 25). Este é
o primeiro princípio do existencialismo. Se o ser humano não tem essência, então por que ele
existe? O que o leva a criticar as teorias de determinação prévia. Se, o ser não é determinado,
ele possui uma carga de responsabilidade sobre suas ações. O ser humano é plenamente
responsável, ele é aquilo que ele se faz. Mas isto não nos leva a totalidade do individualismo.
A escolha do ser humano, não é para o homem apenas. O ato individual é envolve toda a
humanidade. “Quando o homem se escolhe, ele escolhe toda a humanidade” (Ibid., 28).
A escolha do ser humano não é deliberada e amoral. Ela está regida dentro de um
constructo social. Não há uma moral geral, existem ações dentro daquilo que é possível. “Só
existe realidade na ação” (Ibid., 43). Se o ser humano é mobilizado para uma guerra, ela é a
sua guerra. Logo, ele a mereceu. O ser humano inventa a humanidade. Dentro desta invenção
ele está condenado a ser livre, pois sua essência não é fixa. O ser humano está só; surge e
desaparece gratuitamente no mundo; não tem fundamento e não possui raízes metafísicas nem
naturais. Então, dentro de um contexto moralizante, não há valores universais. Então, cada
vez que o ser humano o escolher o valor, ele também escolherá o critério. O que são
consequências da liberdade absoluta. O ser humano é livre. A liberdade não lhe causa atrito.
Ela abre possibilidades para ele escolha o que ser.
Entretanto é preciso considerar que o próprio ser humano cria condições de
humanidade e desumanidade. O progresso, nos leva para determinações. O progresso é
pensado para a liberdade. O ser humano cria determinações sobre ele por meio do progresso.
Paradoxal, mas neste estágio ele cria também, uma história de alienação. Um sujeito livre é
sempre um sujeito histórico. A situação histórica é vivida dentro de limites de um tempo e de
um lugar. E assim, as pessoas agem historicamente. A história não é uma margem que
aprisiona. O ser humana faz a história, na medida que outros seres existam e também a fazem.
“O homem se faz; ele não está feito de antemão, mas se faz escolhendo sua moral, e a pressão
das circunstâncias é tal que ele só não pode não escolher uma” (Ibid., 53).
Na conclusão do texto, Sartre aponta que a existência ou não de Deus, nada muda. “O
homem precisa encontrar-se a si mesmo e convencer-se que nada poderá salvá-lo de sim,
mesmo que houvesse uma prova incontestável da existência de Deus” (Ibid., 62). Elemento
que o faz otimista. Ao convencê-lo o ser humano aceita que é condenado a ser livre.
O fichamento da leitura chega a última parte, e para as considerações proponho a
seguinte questão: qual a ligação entre o texto de Sartre e a discussão própria do elemento
curricular de Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional? O texto de Sartre (2014), não é
um tratado teórico de política em si. A questão central é o ser humano a partir de uma
perspectiva existencialista. Agora, se considerarmos a máxima aristotélica2 que o homem é
um animal político, e a política se faz apenas com indivíduos livres, e fosse possível aplicar o
mesmo raciocínio, desconsiderando as diferenças elementares entre o texto de Aristóteles a
Sartre, então poder-se-ia traçar algumas especulações.
A primeira delas é a defesa da liberdade. A liberdade é uma condição inquestionável.
O ser humano está condenado a liberdade e ele é o responsável por ela, por suas escolhas e o
faz escolhendo pela humanidade. O ser humano inventa a humanidade. Com a questão da
liberdade, Sartre, apresenta questionamentos acerca das políticas (como todas as ações)
deterministas anteriores a ele. Se há este questionamento, e ainda encontramos diversas linhas
que pensam as ações a partir de um determinismo, o texto em questão serviria de modelo para
um debate mais aprofundado de questões correlacionadas à algumas verdades. Por exemplo,
a aceitação de determinados eventos climáticos como catástrofes naturais, ou ainda, lemas
políticos de ordem metafísica que guiam decisões de natureza pública. O determinismo aqui

2
ARISTÓTELES. A política. São Paulo: Lafonte, 2012.
cabe como uma antítese à liberdade, e poderíamos arriscar, como um elemento que cerceia
escolhas.
Outro ponto, seria a responsabilidade para com a humanidade ao desenvolvimento de
uma ética do altruísmo. Alguns existencialistas católicos, como Gabriel Marcel, apontaram
esta possibilidade. Mas aqui quero referir-me a uma alteridade como um critério moral. Se a
constituição da moral é uma escolha do ser humano, de acordo com Sartre, ao pensar o próprio
ser ele escolhe a humanidade, e os critérios que a fundamentam. Escolher a alteridade parece-
me um caminho evidente. A alteridade poderia supor uma base para escolhas racionais que
considerem o ser em si e o ser no mundo. “O outro é indispensável para minha existência,
tanto quanto, ademais, o é para meu autoconhecimento” (Ibid., 47). Uma perspectiva para
uma ação desenvolvimentista que considerasse a aventura humana no Planeta Terra em sua
totalidade, não apenas numa perspectiva econômica.
E por último, o elemento que pensa a responsabilidade das escolhas com o fazer da
história. O existencialismo se opõe ao quietismo e prevê um ser humano envolvido na
construção de sua realidade circundante. O ser humano está para a ação e para o mundo. A
liberdade de escolha o conduz para uma escolha de transformação. Então, não caberia a
desesperança, mas sim, a perspectiva. Ao fazer a história, também faz a si mesmo e a outrem.
Uma relação possível estaria então na leitura correlacionada entre liberdade; alteridade e a
história numa perspectiva de proposições para a vida. Mas como já apontado, isto não é uma
resposta precisa, apenas uma especulação a partir de uma das muitas leituras possíveis.

REFERÊNCIA
SARTRE, Jean-Paul. O existencialismo é um humanismo. 4 Ed. Petrópolis: Vozes, 2014.