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RESUMO

Mãe solteira, Josey Aimes, é parte do grupo das primeiras mulheres a trabalharem em minas
de ferro, em Minnesota. Os homens ficam ofendidos por terem que trabalhar com mulheres.
Assim, trabalhadores das minas em Eveleth, submetem Josey a assédio sexual. Consternada
com o fluxo constante de insultos, linguagem sexual explícita, e abuso físico, ela decide, apesar
de ser advertida pela família e amigos, abrir uma histórica ação judicial contra assédio sexual.

REFLEXÃO
Na minha opinião, o tema principal do filme são as relações entre homens e mulheres. Apesar
dele se focar na problemática das relações entre homens e mulheres num contexto
profissional, isto é, no trabalho. Problema que muitas mulheres se deparam atualmente.
Muitas sofrem de assédio sexual, má educação, incompreensão, desvalorização e desigualdade
ao trabalhar com homens. Especialmente quando o trabalho é duro e num meio ambiente
dominado por homens.

O filme retrata bem esse tipo de problemas mas tendo como foco principal, a falta de respeito
e o assédio sexual. Situações como as reveladas no filme sempre aconteceram ao longo dos
tempos pelo mundo fora. As suas revelações e a influência das lutas que as mulheres
estabeleceram pela igualdade e seus direitos fez com que a sociedade começasse a mudar sua
mentalidade e seu sistema. Todavia, existe ainda muito trabalho a realizar, a problemática de
gênero é uma realidade presente em quase todos os países do mundo. Independentemente da
raça, gênero e cor da pele… todo o ser humano deveria usufruir de igual forma dos mesmos
direitos.

Este filme mostra-nos um dos problemas mais graves da atualidade - a discriminação. O


problema não é novo e tem sido uma constante há vários séculos. A discriminação feminina,
em particular o assédio sexual sempre algo em destaque na relação homem-mulher. Hoje,
existem muitas organizações em todo o mundo que se dedicam a lutar pelos direitos das
mulheres e as ajudam a obter justiça em casos que assim o exijam.

No final dos anos 80 e no começo dos anos 90 poucas pessoas estavam preocupadas com os
direitos humanos, especialmente quando se tratavam de mulheres. Por isso, este caso teve
grande impacto e foi importante para a mulher em geral. Após isso, foi necessário verificar a
relação das mulheres na sociedade, os seus direitos e como e de que forma elas podem
desempenhar o seu papel sem que sejam vítimas de discriminação por parte dos homens. Para
que houvesse igualdade, era importante que os seus direitos fossem vistos, revistos e
reformulados.

North Country demonstra uma realidade que, na maioria das vezes não é muito agradável.
Muitas das vezes as mulheres são expostas e sujeitas a situações desagradáveis e as “aceitam”
para não serem excluídas e não perderem seu posto de trabalho. A atmosfera de trabalho da
mina e o clima que ali se encontrava na relação entre homem-mulher caracterizam claramente
e perfeitamente essa situação. O diretor mostrou com maestria a atmosfera de desespero que
as mulheres viviam na mina. A linguagem, as piadas másculas e ofensivas, as situações a que
eram expostas e o assédio sexual geravam uma sensação de impotência e medo nelas. As
mulheres eram discriminadas perante o chamado poder masculino.

Charlize Theron é mostrada como uma mãe americana geral de dois filhos entre as mesmas
mulheres, que estão na mesma situação com ela. Eu nunca gostaria que alguém aparecesse
em tal situação, quando você está tentando abrir as portas fechadas e não tem resposta, mas
essa resposta é uma das coisas mais importantes do mundo.
OUTRA rEFLEXÃO

Na minha aula de ética nos negócios, fomos designados para assistir a um filme chamado "País
do Norte". North Country é um filme que explica como os locais de trabalho mudaram para
sempre. Ele é baseado no caso Lois Jenson x Eveleth Taconite, que foi o primeiro processo de
assédio sexual em ação coletiva. Este filme explicou, através dos recursos visuais, como era ser
uma mulher trabalhando em um local de trabalho “dominante por homens”. Josey Aimes, que
foi interpretado pela adorável Charlize Theron, é o personagem principal deste filme. A história
dela é que ela deixou o marido abusivo e voltou com os pais. Ela trouxe seus filhos, Sammy e
Karen. Josey não está em boas relações com seu pai, Hank, por causa de como Josey
engravidou em tenra idade. Isso também se deve ao fato de ela não saber quem era o pai.
Enquanto ela estava se ajustando e trabalhando em um salão de cabeleireiro, ela se reúne com
sua amiga Glory. Por acaso, Glory trabalhou na mina de ferro e sugeriu o trabalho para ela. Era
a mesma mina de ferro em que Hank, pai de Josey, trabalhava. Josey e seus filhos acabam
morando com Glory e seu marido. Josey então começa a trabalhar na mina de ferro e se
familiariza com as outras trabalhadoras. Neste filme, mostra como pouquíssimas
trabalhadoras foram comparadas aos trabalhadores masculinos nesta mina.

Outra coisa notável, não apenas para o público do filme, mas para Josey, foi como houve
vários atos de assédio sexual e comportamento inadequado por parte dos trabalhadores do
sexo masculino. Neste filme, foram mostradas muitas questões éticas. De fato, todo esse filme
parecia ser apenas uma grande questão ética. As mulheres foram maltratadas nas minas de
ferro. Sherri lidou com "brinquedos inapropriados" em sua lancheira, encontrando sêmen em
suas roupas e sendo empurrada para dentro de um penico. E não foi só ela que sofreu com
isso. Foram todas as mulheres. As trabalhadoras chegaram ao vestiário um dia com uma
linguagem vulgar / explícita escrita nas paredes. Quando acusados de agir, os trabalhadores do
sexo masculino simplesmente respondem com "mas não estamos machucando-os, estamos?".
Josey também teve que lidar com o ex-namorado da escola. Ele passou a trabalhar na mina
também. Ele mexia com Josey encurralando-a e "acariciando-a". Chegou ao ponto em que ele
ficou agressivamente "físico" com Josey, o que a deixou em lágrimas. Nunca deve haver um
local de trabalho onde qualquer um desses atos seja permitido, nem eles são considerados
moralmente corretos.

Este filme abriu meus olhos para como nosso mundo mudou. É difícil acreditar como as
mulheres maltratadas eram naquela época. Fomos informados sobre esses eventos, bem
como lemos sobre eles em nossos livros. No entanto, assistir a um filme sobre isso realmente
coloca a mensagem na sua cabeça. As mulheres hoje ainda estão lutando pela igualdade. E
depois de assistir a este filme, parece que é hora de todos entenderem o trabalho duro e os
eventos infelizes que nos levaram aonde estamos hoje.

2 reflexao

O filme North Country é um filme muito frio que enfrenta os fatos da realidade de maneira
honesta e aberta. Por se basear em fatos reais e ser visualizada no início do filme, sua
mensagem se torna mais forte à medida que você se sente pelos personagens e suas
dificuldades. O personagem principal, Josey, luta por sua vida em assédio sexual. Como ela
nem sempre teve uma boa experiência quando se trata de homens, ela enfrenta uma mina
inteira na luta por todas as mulheres da mina e outros casos semelhantes aos dela pelo que
aconteceu na história ao criar políticas de assédio sexual em homens. o local de trabalho.
Embora o filme fosse frustrante e difícil para mim assistir às vezes, eu realmente gostei e achei
a mensagem extremamente poderosa, real.

As principais atrizes do filme, Charlize Theron, não são uma atriz bem conhecida, no entanto,
seus papéis são poderosos e destacados. Ela faz o trabalho perfeito em manter e criar seu
personagem, para que você se torne tão emocional ligado à história e à vida dela, que sinta
uma empatia e dor por ela. Suas expressões faciais e linguagem corporal melhoram seu
desempenho. Uma cena em particular é que quando seu pai finalmente a defende diante dos
homens e da reunião do sindicato. Ela ficou tão emocionada e emocionalmente feliz que seu
pai finalmente se destacou e, como espectador, você pode sentir o forte senso de emoção e
felicidade enquanto ele faz seu discurso. Sua linguagem corporal diz tudo o que ela está
sentindo, o que a torna uma personagem crível.

Muitas cenas do filme tendem a usar as mesmas cores. Apresenta cores mais escuras e frias da
mina às árvores nuas do inverno lá fora. Você tem uma sensação de frio ao assistir ao filme e
um senso de sujo, imundo, molhado e frio nas cenas com a mina. Isso aprimora o filme à
medida que você percebe como é trabalhar nas minas, como se sente. Também aprimora o
filme à medida que você sente o caráter frio e sem coração da própria mina e dos
trabalhadores. A música de fundo clara não aprimora necessariamente o senso emocional do
filme, mas preenche as partes silenciosas para proporcionar um pouco mais de profundidade.

O enredo geral é baseado em uma história verdadeira e, portanto, apresenta uma dura
realidade. O dialeto e a maneira como foi apresentado no filme é o que o tornou divertido. O
filme usa flashbacks para contar a história, o que aconteceu durante a vida de Josey e como
ela chegou aonde está. Começa com ela na banca sendo interrogada e, quando a pergunta é
feita, ela tem flashbacks em sua mente para esse período. Todos os flashbacks se combinam
para criar uma história fluente de como ela começou seu trabalho na mina, e o que aconteceu
enquanto ela trabalhava lá e como isso afetou o resto de sua vida como mãe, filha, mulher e
membro da cidade. . Isso acrescenta suspense à medida que você se pergunta por que ela está
lá e como chegou lá. À medida que você descobre e a história se desenrola, ela começa a se
encaixar e faz sentido. O dialeto e a escrita estavam adequados para os papéis que estavam
sendo interpretados. Os homens da mina disseram coisas muito inapropriadas para as
mulheres e, embora eu ache difícil acreditar, também sinto que é realidade e crível.

O enredo foi muito revelador e, como o final conclui, não indica diretamente se ela venceu o
caso ou não. A última cena mostra-a no caminhão ensinando seu filho a se relacionar. Devido
aos eventos da vida dela e do filho ao longo do filme, o filho achou muito difícil entender e
respeitar a mãe. Com a ajuda de um amigo da família e aprendendo a verdade, o filho,
juntamente com o pai de Josey, começa a apoiar Josey no processo judicial. A ligação dos dois
no final é a última cena que deixa você feliz. Em seguida, é digitada a cena que explica que
Josey venceu o processo judicial e fornece informações factuais dos eventos que ocorreram
em cascata graças a ela.

O tema principal do filme era convencer o público de que Josey estava certo e que algo
precisava ser feito sobre o assunto. O diretor queria mostrar a natureza humana durante
aquela época em que as mulheres não eram tratadas de maneira justa e como foi necessária a
coragem de uma mulher para provar a elas tudo que ela não era realmente o que a
consideravam. É um filme sobre coragem, força, tempos difíceis, realidade e perseverança. Ele
mostra esse personagem principal através do dialeto, desenhos emocionais, além de apoiar
atores e simbolismo. Um ator coadjuvante, Glory, atua como amigo de Josey desde o
momento em que chegou à cidade. Glory é quem convenceu Josey a trabalhar nas minas e,
assim que Josey começa a "criar problemas", Glory acha difícil apoiá-la. Glória se torna
extremamente semana e murcha neste ponto do filme. A condição médica da Glory simboliza
as mulheres da mina. Eles não podiam se defender ou ser tratados com respeito pelos
homens. Eles apenas tiveram que sofrer o assédio e manter a boca fechada. Eventualmente,
eles murchariam em suas personalidades, pois não tinham voz. Assim como Glória, que se
torna decrépita e sem voz no final. Uma ironia no filme incluía a do chefe da mina que
contratou uma advogada no processo judicial para fazer a declaração de que ele não
discriminava mulheres. Ele foi adicionado à trama e aprimorou os personagens do mineiro
como uma população em geral.

Este filme tem uma mensagem forte para todos os seus espectadores. A mensagem de como é
ser tratado tão mal por toda a sua vida e aguentar coisas como assédio sexual e estupro e não
o poder de fazer nada a respeito. É necessária a natureza humana pura de algumas das suas
formas mais malignas e tenta provar ao público que esse tipo de comportamento não é bom.
Também está tentando educar o público que coisas como essa em nossa sociedade
acontecem. Eles acontecem todos os dias e nós os fechamos os olhos, porque é mais fácil não
fazer nada a respeito. Josey teve coragem e força para se levantar, ao contrário das outras
trabalhadoras da mina. Ela tinha uma mensagem e uma lição para ensinar a todos e conseguiu.
Ela é admirada e apoiada no final e ganha o respeito e a coragem que qualquer humano deve
ter o direito de possuir. Segundo o livro The Art of Watching Films, este filme seria considerado
um filme com problemas sociais, pois é claro e evidente que o assédio sexual era uma questão
no local de trabalho e injusta. Qualquer espectador deste filme será movido, pois envia uma
forte mensagem à sociedade. Pode ser difícil ver, como a cena do estupro, mas reflete nossa
própria sociedade ainda hoje em uma dura realidade que é inesquecível.

Reflexão
Caro vê a história em termos de dois mundos. O primeiro é o mundo das mulheres da
comunidade, exemplificado por uma mineira chamada Glory (Frances McDormand), que é a
única mulher no comitê de negociação sindical e tem uma abordagem folclórica e sem sentido
que desarma os homens. Ela encontra uma maneira de conseguir o que quer sem confronto.
As outras mulheres mineiras são sobreviventes trabalhadoras que suportam a obscenidade e
coisas piores e ficam caladas porque precisam mais de seus empregos do que precisam fazer
um ponto. Josie tem dois problemas: ela é escolhida mais do que as outras, e um de seus
perseguidores é um supervisor chamado Bobby Sharp (Jeremy Renner), que compartilha um
segredo com ela que remonta ao ensino médio e o deixou cheio de culpa. e hostilidade. No
mundo masculino, escolher mulheres faz parte de um dia de trabalho. É o que um homem faz.
Uma mulher opera uma maquinaria pesada sem saber que uma placa pintada no táxi anuncia
sexo à venda. As mulheres encontram obscenidades escritas em excrementos nas paredes de
seus vestiários. Quando McDormand convence o sindicato a pedir Porta-Potties para as
mulheres, "que não podem segurá-lo enquanto você tiver", uma das primeiras mulheres a usá-
lo tomba enquanto está dentro. Também há todo tipo de toque e carinho, mas se uma mulher
insistir em ter seios, como um homem pode ser responsabilizado por lidar com uma sensação?
Depois que Bobby Sharp ataca Josey, sua esposa grita com ela em público: "Fique longe de
Bobby Sharp!" Supõe-se e é amplamente divulgado que Josey é um vagabundo, e ela é
aconselhada a "gastar menos tempo agitando suas colegas de trabalho e menos tempo nas
camas de seus colegas de trabalho".
Ela apela a um advogado local (Woody Harrelson), que aceita o caso em parte porque ele
estabelecerá uma nova lei. Faz. O protocolo do tribunal nas cenas finais não é exatamente
convencional, mas este não é um documentário sobre procedimentos legais, é um drama
sobre a luta de uma mulher em uma comunidade onde até as pessoas boas têm medo de
apoiá-la. As cenas da corte funcionam magnificamente nesse nível. "North Country" é um
daqueles filmes que agitam e enlouquecem, porque dramatiza práticas que você já ouviu falar,
mas nunca visualizou. Lembramos que Frances McDormand interpretou uma policial na
mesma área em "Fargo" e valorizamos essa memória, porque ela fornece uma base para Josey
Aimes. O papel de McDormand neste filme é diferente e muito mais triste, mas traz a mesma
coragem e bom senso para a tela. Coloque essas duas mulheres juntas (como atores e
personagens) e elas podem realizar praticamente qualquer coisa. Observá-los é uma ótima
experiência de cinema.

Sumário e Análise
O filme North Country foi baseado no livro "Ação coletiva: o caso histórico que mudou a lei do
assédio sexual", que conta a história de Lois Jenson, que entrou com a primeira ação coletiva
por assédio sexual na história americana. No filme, Theron interpreta a filha de um mineiro de
ferro (Richard Jenkins) trabalhando em uma mina na Mesabi Iron Range, no norte de
Minnesota. Quando Josey deixa um marido abusivo e volta para sua cidade natal na casa de
seus pais, ela não é bem-vinda. O pai dela assume, sem sequer interrogar a filha, que foi sua
infidelidade ao marido que criou a situação. Até o próprio filho pensa que ela é uma prostituta.
O que isso mostra é a tendência de assumir que a culpa é da mulher em qualquer conflito com
os homens. Tais vieses foram mais prevalentes no cenário cronológico do filme, que abrange
as últimas décadas do século XX (Rosen).

Tudo o que Josey quer é possuir uma casa, comer refeições decentes e poder comprar patins
de hóquei para o filho de vez em quando, o que é completamente razoável. Mas mesmo o pai
dela, Hank, expressa seu descontentamento com as mulheres que trabalham nas minas,
porque não é "trabalho de mulheres". Ele também culpa Josey de tirar um emprego de um
homem de quem toda a família depende. Mas Hank não percebe que sua filha também tem
uma família para sustentar. Até as mulheres da comunidade acreditam que há algo errado se
ela não encontrar um homem para cuidar dela. Aponta para a aceitação comum na sociedade,
que é a dependência das mulheres e a subordinação aos homens (Ebert).

A cena mais emocionante do drama fora do comum de Niki Caro, “North Country”, ocorre
quando o personagem principal, Josey Aimes (interpretado por Charlize Theron) se dirige a
seus colegas hostis na reunião do sindicato para deixar claro que ela não faz isso. quer que a
mina seja fechada, mas apenas o assédio sexual das mulheres pare (Ebert).

As mulheres eram tão cúmplices de tais abusos quanto é evidente pelo fato de que as outras
colegas de trabalho de Josey optam por sofrer a humilhação em vez de se arriscarem a perder
o emprego. As mulheres se sentiram desamparadas, apesar da proteção oferecida por lei. Isso
mostra que os direitos concedidos aos cidadãos do país como resultado do movimento pelos
direitos civis ainda não haviam conseguido arrancar a natureza patriarcal da sociedade. Isso é
tão verdadeiro no século XXI quanto no século anterior. O que diminuiu é a prevalência e a
institucionalização de tais atitudes e crenças. Como as decisões do tribunal sobre direitos civis,
isso não mudou tudo da noite para o dia. A ação afirmativa foi aplicada na Faixa de Ferro em
1974, quando o governo finalmente ordenou que as siderúrgicas reservassem 20% de seus
empregos para mulheres e minorias. (Ronning)
Quando Josie assume o emprego de cabeleireira de uma mulher tradicional, ela pode ganhar
apenas um sexto do que acabará ganhando como mineira. Isso mostra a disparidade de
salários entre os dois sexos. As mulheres geralmente não são pagas tanto quanto os homens
pela mesma quantidade de trabalho que realizam. Outra disparidade está na composição da
força de trabalho nas minas. Os homens superam as mulheres de 29 para 1, o que é altamente
desproporcional aos números reais da população. No entanto, quem consegue e consegue o
emprego não pode se considerar sortudo, pois estava sujeito a todo tipo de assédio sexual por
parte de seus colegas de trabalho por não provocá-los. As outras mulheres mineiras são
sobreviventes trabalhadoras que toleram a obscenidade e pior, e ficam caladas porque não
podem se dar ao luxo de perder o emprego na tentativa de fazer uma observação (Rosen).

Durante o período em que o filme foi ambientado, Anita Hill foi mostrada testemunhando
contra Clarence Thomas por assédio sexual. O que isso significa é a permeação de tais crenças
e práticas em todas as camadas da sociedade, incluindo os escritórios políticos. O filme mostra
a abordagem e a expansão de uma fronteira legal (Rosen).

No ambiente de trabalho dominado por homens da mina, escolher mulheres faz parte de um
dia de trabalho. Uma mulher opera uma maquinaria pesada sem saber que um cartaz está
pintado anunciando sexo à venda. Eles encontram obscenidades escritas em excrementos nas
paredes de seus vestiários. Quando, finalmente, o sindicato decide pedir banheiros portáteis
para as mulheres, uma das primeiras mulheres a usar um deles o vira enquanto ela está
dentro. Acrescente a isso outros tipos de tocar e acariciar, mas se uma mulher vai insistir em
ter seios, como pode um homem ser responsabilizado por lidar com uma sensação, segue a
lógica. Supõe-se e é amplamente divulgado que Josey é um vagabundo, e ela é aconselhada a
“gastar menos tempo mexendo com suas colegas de trabalho e menos tempo nas camas de
seus colegas de trabalho”. (Ronning)

A natureza patriarcal da sociedade americana no século XX é evidente pelo fato de que o juiz
aposentado nomeou mestre especial para supervisionar o julgamento e decidir o valor da
compensação para as mulheres, tinha seus próprios preconceitos. Ele possuía crenças
tradicionais e tinha um histórico de má conduta sexual. Também foi relatado que ele
freqüentemente adormecia durante o testemunho e parecia gostar das narrativas de assédio
quando acordado. O principal advogado de Eveleth Mines durante esta fase era uma mulher, e
ainda assim agrediu verbalmente os queixosos para reduzir os danos. Sua estratégia envolvia
provar que o assédio era o ato de fazer as próprias mulheres devido ao seu comportamento
provocativo em relação aos colegas de trabalho e os queixosos eram desonestos quanto à
gravidade e aos efeitos psicológicos. O que isso mostra é o grau em que as próprias mulheres
foram inculcadas a acreditar em sua subordinação inquestionável aos homens (Mishkind 147).

No geral, Lois e as outras mulheres passaram por três julgamentos humilhantes, em que seu
caráter e suas vidas pessoais foram assaltadas repetidamente pelos advogados de Eveleth.
Além disso, eles suportaram o tortuoso processo de litígio e mais o tormento do sistema
judicial federal. O juiz Donald Lay escreveu:

“Deveria ser óbvio que o padrão insensível e a prática de assédio sexual praticada por Eveleth
Mines inevitavelmente destruíram a auto-estima das trabalhadoras expostas a ele. O dano
emocional, causado por esse registro de indecência humana, procurou destruir a psique
humana, bem como o espírito humano de cada demandante. A humilhação e degradação
sofrida por essas mulheres é irreparável. Embora o dano financeiro não possa tornar essas
mulheres inteiras ou mesmo começar a reparar o ferimento causado, pode servir para
estabelecer um precedente de que, no ambiente do local de trabalho, essa hostilidade não
será tolerada. ”(Belton)

O status e os direitos das mulheres durante o século passado foram em grande parte apenas
no papel. Somente quando Anita Hill testemunhou contra Clarence Thomas, em outubro de
1991, os Estados Unidos finalmente acordaram para a realidade do assédio sexual. Antes desse
evento marcante, poucas pessoas sabiam o que chamar de comportamento predatório
persistente, como era aceito como norma. Se as mulheres precisassem ganhar a vida,
esperava-se que elas se separassem e aceitassem. A idéia de que o assédio sexual poderia ser
visto como uma violação dos direitos civis de uma mulher e sua capacidade de ganhar a vida
era muito lenta para alcançar o público (Mishkind 142).

As políticas de assédio sexual muito mais justas e equilibradas que vemos hoje em empresas e
instituições de ensino devem em grande parte à determinação de Lori Benson de pôr fim a
alguns dos mais vergonhosos assédios sexuais já descritos na imprensa. Embora ela tivesse que
esperar mais 10 anos para alcançar a justiça, o processo acabou se tornando a pedra angular
da moderna lei de assédio sexual. As mulheres muito liberadas do século XXI gozam de sua
liberdade e segurança devido à perseverança e paciência dessas mulheres (Belton).

A MULHER NA SOCIEDADE
é crescente a participação da mulher no mercado de trabalho e é
notório o aumento de sua importância na economia. É progressiva também
a responsabilidade feminina no sustento da família e destaque profissional
em diversos setores. Entretanto, as funções exercidas, os cargos e as
remunerações dessas mesmas mulheres ainda se encontram em
defasagem considerável quando comparados com os dos homens.
As mulheres brasileiras ainda recebem em média 70% do salário que os
homens ganham para executar as mesmas tarefas, nos mesmos postos
de trabalho. Além disso, as condições de trabalho e a hierarquia nas
instituições ainda desfavorecem as mulheres em relação aos seus colegas
do sexo masculino. Os cargos de chefia ainda são exercidos, na maioria
dos setores, por homens, mesmo em profissões tidas como historicamente
femininas.

Profissões femininas
As ocupações socialmente associadas às mulheres são aquelas que
derivam do histórico papel social da “mulher cuidadora”. Essas profissões
possuem status sociale remunerações inferiores. Na saúde, por exemplo,
as auxiliares e técnicas de enfermagem (cargos com menor
remuneração) são em sua maioria mulheres. Já os médicos cirurgiões
são em sua maior parte homens e possuem valorização social e
remuneração infinitamente superiores. Essa discrepância ocorre em
quase todos os setores.
Acúmulo de tarefas
Um dos fatores preponderantes para a conservação desse quadro
desigual envolve aspectos históricos, culturais e sociais. As mulheres
continuam sendo as principais responsáveis pelas tarefas domésticas,
cuidado com os filhos e demais responsabilidades familiares. A mulher
continua acumulando papéis, mesmo quando inserida com sucesso no
mercado profissional. Conciliar a vida profissional e as atividades da vida
pessoal ainda é um desafio muitas vezes impossível para as mulheres
trabalhadoras.

A questão da dupla jornada feminina não está apenas na sobrecarga,


muitas vezes, insuportável. Reside também no problema real da rejeição
do mercado de trabalho à mulher com responsabilidades familiares. A
mulher que possui filhos, muitas vezes, é preterida em seleções de
emprego ou para cargos de chefia.
Alternativas para a diminuição do abismo que ainda separa homens e
mulheres no mercado de trabalho podem vir de políticas públicas que
priorizem abertura de vagas e ampliação do número de pré-escolas,
creches e escolas de tempo integral. Além disso, é necessário e inadiável
nutrir o debate e a desconstrução dos papéis sociais de gênero a fim de
edificar um mercado de trabalho e uma sociedade mais igualitários em
condições e oportunidades para homens e mulheres.

Mulheres e homens ao longo de boa parte da história da


humanidade desempenhavam papéis sociais muito diferentes.
Mas do que se trata o papel social? Segundo a Sociologia, trata-
se das funções e atividades exercidas pelo indivíduo em
sociedade, principalmente ao desempenhar suas relações
sociais ao viver em grupo. A vida social pressupõe expectativas
de comportamentos entre os indivíduos, e dos indivíduos
consigo mesmos. Essas funções e esses padrões
comportamentais variam conforme diversos fatores, como
classe social, posição na divisão social do trabalho, grau de
instrução, credo religioso e, principalmente, segundo o sexo.
Dessa forma, as questões de gênero dizem respeito às relações
sociais e aos papéis sociais desempenhados conforme o sexo do
indivíduo, sendo o papel da mulher o mais estudado e discutido
dentro dessa temática, haja vista a desigualdade sexual
existente com prejuízo para a figura feminina. Assim, enquanto
o sexo da pessoa está ligado ao aspecto biológico, o gênero (ou
seja, a feminilidade ou masculinidade enquanto
comportamentos e identidade) trata-se de uma construção
cultural, fruto da vida em sociedade. Em outras palavras, as
coisas de menino e de menina, de homem e de mulher, podem
variar temporal e historicamente, de cultura em cultura,
conforme convenções elaboradas socialmente.
As diferenças sexuais sempre foram valorizadas ao longo dos
séculos pelos mais diferentes povos em todo o mundo. Algumas
culturas – como a ocidental – associaram a figura feminina ao
pecado e à corrupção do homem, como pode ser visto na
tradição judaico-cristã. Da mesma forma, a figura feminina foi
também associada à ideia de uma fragilidade maior que a
colocasse em uma situação de total dependência da figura
masculina, seja do pai, do irmão, ou do marido, dando origem
aos moldes de uma cultura patriarcalista e machista. Assim,
esse modelo sugeria a tutela constante das mulheres ao longo
de suas vidas pelos homens, antes e depois do matrimônio.
Aliás, o casamento enquanto ritual marcaria a origem de uma
nova família na qual a mulher assumira o papel de mãe,
passando das “mãos” de seu pai para as de seu noivo, como se
vê no ato da cerimônia.
Mas como aqui já se abordou, se as noções de feminilidade e
masculinidade podem mudar ao longo da história conforme as
transformações sociais ocorridas, isto foi o que aconteceu na
cultura ocidental, berço do modo capitalista de produção. Com
o surgimento da sociedade industrial, a mulher assume uma
posição como operária nas fábricas e indústrias, deixando o
espaço doméstico como único locus de seu trabalho diário. Se
outrora a mulher deveria apenas servir ao marido e aos filhos
nos afazeres domésticos, ou apenas se limitando às tarefas no
campo – no caso das camponesas europeias, a Revolução
Industrial traria uma nova realidade econômica que a levaria ao
trabalho junto às máquinas de tear. Obviamente, não foram
poucos os problemas enfrentados pelas mulheres,
principalmente ao se considerar o contexto hostil de um regime
de trabalho exaustivo no início do processo de industrialização
e formação dos grandes centros urbanos.
Após um longo período de opressão e discriminação, a passagem
do século XIX para o XX ficou marcada pelo recrudescimento do
movimento feminista, o qual ganharia voz e representatividade
política mais tarde em todo o mundo na luta pelos direitos das
mulheres, dentre eles o direito ao voto. Essa luta pela cidadania
não seria fácil, arrastando-se por anos. Prova disso está no fato
de que a participação do voto feminino é um fenômeno também
recente para a história do Brasil. Embora a proclamação da
República tenha ocorrido em 1889, foi apenas em 1932 que as
mulheres brasileiras puderam votar efetivamente. Esta
restrição ao voto e à participação feminina no Brasil seriam
consequência do predomínio de uma organização social
patriarcal, na qual a figura feminina estava em segundo plano.
Mesmo com alguns avanços, ainda no início da segunda metade
do século XX, as mulheres sofriam as consequências do
preconceito e do status de inferioridade. Aquele modelo de
família norte-americana estava em seu auge, em que a figura
feminina era imaginada de avental e com bobs nos cabelos, no
meio da cozinha, envolta por liquidificador, batedeira, fogão,
entre outros utensílios domésticos. Seria apenas no transcorrer
das décadas de 50, 60 e 70 que o mundo assistiria mudanças
fundamentais no papel social da mulher, mudanças estas
significativas para os dias de hoje. O movimento contracultural
encabeçado por jovens (a exemplo do movimento Hippie)
transgressores dos padrões culturais ocidentais outrora
predominantes defendiam uma revolução e liberação sexual,
quebrando tabus para o sexo feminino, não apenas em relação
à sexualidade, mas também no que dizia respeito ao divórcio.
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Como se sabe, o desenvolvimento de novas tecnologias para a
produção requer cada vez menos o trabalho braçal,
necessitando-se cada vez mais de trabalho intelectual.
Consequentemente, criam-se condições cada vez mais
favoráveis para a inserção do trabalho da mulher nos mais
diferentes ramos de atividade. Ao estudar cada vez mais, as
mulheres se preparam para assumir não apenas outras funções
no mercado de trabalho, mas sim para assumir aquelas de
comando, liderança, cargos em que antes predominavam o
terno e a gravata. Essa guinada em seu papel social reflete não
apenas nas relações de trabalhos em si, mas fundamentalmente
nas relações sociais com os homens de maneira em geral. Isto
significa que mudanças no papel da mulher requerem mudanças
no papel do homem, o qual passa por uma crise de identidade
ao ter de dividir um espaço no qual outrora reinava absoluto.
Mulheres com maior grau de escolaridade diminuem as taxas de
natalidade (têm menos filhos), casam-se com idades mais
avançadas, possuem maior expectativa de vida e podem assumir
o comando da família como no exemplo da propaganda de
automóvel citada. Obviamente, vale dizer que as aspirações
femininas variam conforme seu nível de esclarecimento, mas
também conforme a cultura em que a mulher está inserida.
Contudo, é preciso se pensar que mesmo com todas essas
mudanças no papel da mulher, ainda não há igualdade de
salários, mesmo que desempenhem as mesmas funções
profissionais, ainda havendo o que se chama de preconceito de
gênero. Além disso, a mulher ainda acaba por acumular algumas
funções domésticas assimiladas culturalmente como se fossem
sua obrigação e não do homem – funções de dona de casa. Da
mesma forma, infelizmente a questão da violência contra a
mulher ainda é um dos problemas a serem superados, embora
a “Lei Maria da Penha” signifique um avanço na luta pela defesa
da integridade da mulher brasileira.
Mas a pergunta principal vem à tona: qual o papel da mulher na
sociedade atual? Pode-se afirmar que a mulher de hoje tem uma
maior autonomia, liberdade de expressão, bem como
emancipou seu corpo, suas ideias e posicionamentos outrora
sufocados. Em outras palavras, a mulher do século XXI deixou
de ser coadjuvante para assumir um lugar diferente na
sociedade, com novas liberdades, possibilidades e
responsabilidades, dando voz ativa a seu senso crítico. Deixou-
se de acreditar numa inferioridade natural da mulher diante da
figura masculina nos mais diferentes âmbitos da vida social,
inferioridade esta aceita e assumida muitas vezes mesmo por
algumas mulheres.
Hoje as mulheres não ficam apenas restritas ao lar (como donas
de casa), mas comandam escolas, universidades, empresas,
cidades e, até mesmo, países, a exemplo da presidenta Dilma
Roussef, primeira mulher a assumir o cargo mais importante da
República. Dessa forma, se por um lado a inversão dos papéis
sociais ilustrada pela campanha publicitária (citada no início do
texto) de um automóvel está em dissonância com um passado
não tão distante, por outro lado mostra os sinais de um novo
tempo que já se iniciou. Contudo, avanços à parte, é preciso
que se diga que as questões de gênero no Brasil e no mundo
devem sempre estar na pauta das discussões da sociedade civil
e do Estado, dada a importância da defesa dos direitos e da
igualdade entre os indivíduos na construção de um mundo mais
justo.

Mulheres continuam a ser alvo


de discriminação económica e
social
Relatório da ONU reclama mais e melhores empregos para mulheres
e a redução da disparidade salarial.

Em média, nos países desenvolvidos as mulheres têm rendimentos 23%


inferiores aos dos homens, todos os meses. ADRIANO MIRANDA

As mulheres continuam a sofrer de discriminação económica e social e


são forçadas a ajustar-se a um “mundo de homens”, lê-se num relatório
da Organização das Nações Unidas (ONU) publicado nesta segunda-
feira. Globalmente, há mais desemprego feminino do que masculino e
mesmo quando trabalham, as mulheres têm rendimentos inferiores:
em média, dispõe de um rendimento mensal 24% mais baixo do que o
dos homens. Em Portugal, o hiato é de 17,8%, de acordo com o
documento — abaixo, ainda assim, de vários outros países
desenvolvidos que têm apostado em políticas de promoção do emprego
feminino, como a Alemanha (19,3%).
Nas chamadas “regiões desenvolvidas”, onde Portugal e Alemanha se
incluem, o hiato médio em termos de rendimentos atinge os 22,9%. As
contas são apresentadas para o período 2008-2014.

Estas são algumas das conclusões do estudo Progresso das Mulheres


do Mundo 2015-2016, produzido pela ONU Mulheres, a organização
dentro das Nações Unidas dedicada à igualdade e emancipação das
mulheres.

O documento é publicado numa altura em que a comunidade


internacional discute a agenda do desenvolvimento para o pós-2015 e
coincide com o 20.º aniversário da comemoração da 4.ª Conferência
Mundial sobre Mulheres, em Pequim, que determinou uma agenda
para melhorar a igualdade entre géneros.

A partir de estatísticas de fontes diversas e de diferentes anos,


o Progresso das Mulheres do Mundo 2015-2016 refere que apesar da
diferença de rendimentos observada, as mulheres trabalham, muitas
vezes, mais horas do que os homens uma vez que dispendem, em
média, 2,5 vezes mais tempo no chamado trabalho não pago (trabalho
doméstico, cuidados com as crianças e idosos, etc). Sobre este ponto
específico, os dados apresentados para Portugal são antigos: cita-se um
estudo de 1999 para dizer que as portuguesas dedicam em média
quatro vezes mais tempo por dia em trabalho doméstico e não
remunerado do que os homens (302 minutos por dia contra 77 minutos
por dia gastos pelos homens).

Ainda assim, Portugal é um país considerado desenvolvido em várias


matérias: tem leis contra discriminação entre géneros a nível salarial e
no recrutamento e proíbe o assédio sexual no local de trabalho.

Evoluiu também em termos de taxa de participação laboral das


mulheres, que aumentou de 49%, em 1990, para 55%, em 2013. Nas
chamadas “regiões desenvolvidas”, onde Portugal se inclui, a evolução
foi de 49,3% para 53,4%.
Desde 1995, reconhece a ONU, o mundo tem assistido a vários
progressos, nomeadamente num maior acesso de mulheres ao ensino,
à participação política e a posições de liderança e também a uma maior
protecção jurídica contra a violência e a discriminação laboral,
económica e social.

Porém, as mulheres continuam na generalidade a ter trabalhos pouco


qualificados e baixos salários e muitas vezes não têm acesso a cuidados
de saúde, água potável ou saneamento básico.

O relatório determina 10 prioridades para a acção pública, começando


por reivindicar mais e melhores empregos para mulheres, a redução da
disparidade profissional e salarial entre homens e mulheres, o
fortalecimento da segurança económica das mulheres ao longo da vida,
a redução e redistribuição do trabalho doméstico e o investimento em
serviços sociais com consciência das questões de género.

Discriminação à mulher no
mercado de trabalho
Caros leitores,

No artigo de hoje falarei sobre a discriminação da mulher no mercado de


trabalho.

“EM MÉDIA, NO MUNDO OS SALÁRIOS DAS MULHERES SÃO 24%


MENORES DO QUE OS DOS HOMENS”

A pesquisa mostra que no mundo, em média, os salários das mulheres são


24% inferiores aos dos homens na mesma função. Essa problemática é
mundial: “As mulheres continuam recebendo em todo o mundo um salário
diferente pelo mesmo tipo de trabalho”.

Segundo a ONU, as mulheres são responsáveis por uma carga excessiva de


trabalho doméstico não remunerado referente aos cuidados com filhos, com
pessoas idosas e doentes e com a administração do lar.
DEZ PRIORIDADES NO RELATÓRIO DA ONU MULHERES

Para respaldar essa meta, o relatório traz dez prioridades para intervenção de
políticas públicas para nortear os países:

1. Criação de mais e melhores empregos para mulheres;

2. Reduzir a segregação ocupacional e as lacunas salariais entre os gêneros;

3. Reforçar a seguridade das mulheres em todo o ciclo de vida;

4. Ajudar as organizações de mulheres a exigirem seus direitos e influenciarem


a agenda do poder público;

5. Aumentar os recursos destinados à igualdade entre os gêneros;

6. Reconhecer, reduzir e redistribuir o trabalho doméstico não remunerado;

7. Investir em serviços sociais com perspectiva de gênero;

8. Criar um ambiente mundial favorável aos direitos das mulheres;

9. Utilizar os direitos humanos para conceber políticas para catalizar a


igualdade de gênero;

10. Obter evidências empíricas que permitam a avaliação do progresso no


domínio dos direitos econômicos e sociais das mulheres.

“NO BRASIL, O SALÁRIO DAS MULHERES EQUIVALE A 72,3% DO


SALÁRIO DOS HOMENS”

Nas 500 (quinhentas) maiores empresas do Brasil, menos de 14% dos cargos
de diretoria são ocupados por mulheres. A participação das mulheres
aumentou no mercado de trabalho formal, mas os salários das mulheres
aumentaram menos do que o dos homens. Segundo dado do IBGE de 2009,
no Brasil existe diferença de salário entre sexos, o salário da mulher equivale a
72,3% do salário dos homens.

Vivemos em uma sociedade preconceituosa e machista,


onde as mulheres são discriminadas. Gleide Ângelo

Ainda existem em muitos locais o preconceito contra a mulher no âmbito


profissional. Em alguns setores, existem cargos específicos para homens, onde
a mulher não é “capaz” de ocupar.

“A discriminação ao trabalho da mulher é uma realidade no dia-a-dia da mulher


que trabalha: se não uma realidade presente, há, pelo menos, a ameaça
constante da discriminação. Seu combate se faz com uma legislação
trabalhista eficaz e, acima de tudo, com educação formal, para que assim haja
o devido respeito às diferenças. (CALIL, 2007, p.116).”

As mulheres conseguiram um avanço na inserção no mercado de trabalho,


mas ainda há um grande desafio para reverter às desigualdades salariais e
ascensão funcional. Ainda há muita discriminação para ocupação de muitos
cargos, inclusive na política, onde 52% dos eleitores são mulheres (TSE), mas
apenas 9,9% da Câmara dos Deputados e 5% do Senado são ocupados por
mulheres. É necessário lutar pelo maior empoderamento das mulheres em
todas as áreas da sociedade, afinal, a busca é pela igualdade de gênero que é
um direito constitucional.

Igualdade de gênero: O papel da mulher no


desenvolvimento sustentável da sociedade

O estabelecimento de igualdade de direitos entre homens e mulheres está


diretamente relacionado com o desenvolvimento das sociedades. Ao longo dos
tempos, muitas mulheres e homens lutaram para que o seu papel no mundo fosse
valorizado, de uma forma justa e em igualdade.
Se procurarmos o significado de Igualdade entre o Homem e a Mulher
encontramos na Wikipedia: “A igualdade entre os sexos(também chamada
de igualdade entre os gêneros ou igualdade sexual) é um conceito que define a
busca da igualdade entre os membros dos dois
gêneros humanos, homens e mulheres, derivado de uma crença numa injustiça,
existente em diversas formas, de desigualdade entre os sexos.”
A crença de que uma injustiça “vive” dentro da própria definição do conceito de
Igualdade de Gênero, torna imperativo refletir profundamente sobre esta
associação. A injustiça surge como uma incapacidade da sociedade para aceitar
um fato óbvio de que, naturalmente, os homens e as mulheres deveriam ser iguais.
A luta por essa paridade é secular, mas a constatação de que sem igualdade entre
homens e mulheres não é possível existir desenvolvimento sustentável, é uma
conclusão relativamente recente e diretamente ligada aos temas da
sustentabilidade.
Atrevo-me a abordar a humanização da sustentabilidade como um dos caminhos
mais importantes para que essa igualdade possa existir. O mundo precisa, com
urgência, que se definam as questões da responsabilidade social, as grandes
temáticas relacionadas com o ser humano, com as pessoas. É muito importante
cuidar de um planeta cada vez menos verde, mas mais importante é certamente
cuidar das pessoas que nele vivem.
Defender a igualdade entre os homens e as mulheres, ou os meninos e as
meninas, é tão importante como combater a violência doméstica, ou capacitar
populações de baixa renda. Ensinar que os direitos deverão ser iguais, assim
como as oportunidades e o desempenho, são temas obrigatórios a par de muitos
outros ensinamentos curriculares.
A importância do tema é inquestionável e a Igualdade de Gênero é o terceiro
Objetivo do Milênio da Organização das Nações Unidas (ONU), ”Igualdade entre
sexos e valorização da mulher”.
Na verdade, a importância do papel da mulher no desenvolvimento sustentável da
sociedade já não é um tema apenas teórico ou uma discussão meramente
intelectual. É um fato objetivo e urgente, que une as mulheres de todo o mundo na
consciencialização do seu papel fundamental para que esse desenvolvimento
sustentável seja alcançado.
A mulher contribui ativamente em todos os setores de atividade produtiva, lado a
lado com os homens, buscando uma igualdade baseada no respeito e
reconhecimento do seu papel na sociedade, mas assim mesmo, os seus direitos
continuam a ser negados e desprezada a sua contribuição para a sustentabilidade
da sociedade.
Cada vez mais o seu papel deve ser valorizado como “consciência” ativa da família
com responsabilidades no mundo do trabalho, da política ou apenas como mães
de família. A sua contribuição é indispensável para que exista uma sociedade
sustentável, já que a sua participação se tem tornado forte exemplo de inclusão
social e emponderamento feminino. Estas mulheres são empresárias, tomadoras
de decisões, trabalhadoras e líderes.
Para muitas mulheres este reconhecimento e valorização das suas capacidades
faz parte do seu dia a dia, mas para a maior parte delas trata-se de um problema
grave e sério, martirizante e psicologicamente debilitante. Ganham menos que os
homens nas mesmas funções profissionais, são vítimas de discriminação, lutam
com a dupla jornada no trabalho e em casa e são muitas vezes ainda alvo de
agressão e assédio sexual.
Como é possível então imaginar o desenvolvimento sustentável sem o potencial da
mulher, que não tem sido apoiado de maneira eficiente até agora? Implementando.
Transformando os obstáculos em caminhos e criando os mecanismos necessários
para que as novas ideias sejam consideradas de forma séria e responsável.

TRABALHO SOBRE CIENCIA


Como a ciência influencia o modo de
pensar da sociedade

O impacto da ciência em sua vida


Segundo um dicionário, ciência é o “conjunto de conhecimentos exatos e
sistemáticos da realidade, decorrente de estudos, observações [e]
experimentos”. Esse processo é trabalhoso e, às vezes, frustrante. Cientistas
passam semanas, meses e até anos observando e realizando experiências.
Algumas vezes, eles se deparam com problemas sem solução, mas em muitos
casos seu trabalho traz benefícios para a humanidade. Veja alguns exemplos.
Uma empresa europeia criou um purificador de água portátil constituído de um
tubo de plástico e filtros avançados. Usando esse purificador, uma pessoa
pode evitar doenças causadas por água contaminada. Aparelhos como esse
foram usados após desastres naturais, como o terremoto no Haiti em 2010.
Bem acima da Terra, redes de satélites formam o chamado Sistema de
Posicionamento Global (GPS, sigla em inglês). Inicialmente projetado para fins
militares, o GPS ajuda motoristas, pilotos de aeronaves, navegadores e até
caçadores e montanhistas a se orientar. Graças aos cientistas que criaram o
GPS, ficou mais fácil chegar a seu destino.
Você usa celular, computador ou internet? A medicina avançada contribuiu
para você ter uma saúde melhor? Você viaja de avião? Nesses casos, você
está se beneficiando da ciência. De várias formas, a ciência tem uma influência
positiva na vida de todos nós.
O ALCANCE DA CIÊNCIA MODERNA
Para expandir seu conhecimento, cientistas modernos estão pesquisando cada
vez mais a fundo a natureza e o Universo. Físicos nucleares investigam o
interior do átomo, e astrofísicos tentam entender a origem do Universo, como
que voltando bilhões de anos no tempo. À medida que as pesquisas científicas
avançam, conseguindo até mesmo investigar domínios invisíveis e intocáveis,
alguns cientistas acham que, se o Deus da Bíblia existe, eles vão conseguir
encontrá-lo.
Alguns cientistas e filósofos de destaque vão mais além. Eles promovem o que
o escritor científico Amir Aczel chamou de “argumentação científica contra a
existência de Deus”. Por exemplo, um físico mundialmente famoso afirmou que
“a ausência de evidências de algum deus que exerça um papel importante no
Universo certamente prova que esse deus não existe”. Outros descrevem as
atividades do Deus da Bíblia como “artifícios sobrenaturais” e “mágica”. *
Mas isso gera uma dúvida: o que a ciência aprendeu sobre a natureza é
suficiente para se chegar a conclusões definitivas? Na verdade não. A ciência
tem avançado de forma extraordinária, mas diversos cientistas reconhecem
que ainda há muitas coisas desconhecidas e talvez outras impossíveis de
saber. Ao falar sobre a natureza, o físico e vencedor do Prêmio Nobel Steven
Weinberg disse: “Nunca saberemos o porquê de tudo.” O professor
universitário Martin Rees, Astrônomo Real da Grã-Bretanha, escreveu: “Talvez
haja coisas que os humanos nunca entenderão.” A verdade é que muito do que
existe na natureza, da minúscula célula ao vasto Universo, ainda está além da
compreensão da ciência moderna. Veja os seguintes exemplos:

Biólogos não entendem plenamente os processos que ocorrem nas células.


Como elas consomem energia, como produzem proteínas e como se dividem
são dúvidas para as quais a ciência ainda não tem todas as respostas.
A gravidade nos afeta em cada segundo de nossa vida. Mesmo assim, de certa
forma ela continua um mistério para os físicos. Eles não entendem
completamente como a gravidade puxa você para baixo quando você pula ou
como ela mantém a Lua orbitando a Terra.

Cosmologistas calculam que uns 95% dos elementos que compõem o Universo
são invisíveis e indetectáveis por instrumentos científicos. Eles dividem esses
elementos em duas categorias: matéria escura e energia escura. Ainda não se
conhece a natureza deles.
Existem outras coisas desconhecidas que confundem os cientistas. O que isso
indica? Um conhecido escritor científico escreveu: “Nossa ignorância
ultrapassa muito nosso conhecimento. Para mim, uma vida dedicada à ciência
não deve levar a uma atitude de certeza absoluta, mas a uma profunda
admiração e a um desejo de investigar mais.”
Então, se você está em dúvida se a ciência pode substituir a Bíblia e descartar
a crença em Deus, considere o seguinte: se cientistas brilhantes com seus
poderosos equipamentos têm apenas um entendimento limitado da natureza,
seria lógico rejeitar de imediato assuntos que estão além do alcance da
investigação científica? No final de um extenso artigo sobre a história e o
desenvolvimento da astronomia, a Encyclopedia Britannica resume o assunto
da seguinte maneira: “Após quase 4 mil anos de astronomia, o Universo
continua tão misterioso para nós quanto era para os babilônios.”
As Testemunhas de Jeová respeitam o direito de cada pessoa de tirar suas
próprias conclusões sobre esse assunto. Nós procuramos seguir esta
orientação bíblica: “Seja a vossa razoabilidade conhecida de todos.” (Filipenses
4:5) Com isso em mente, convidamos você a considerar a seguir exemplos que
mostram como a ciência e a Bíblia estão de acordo e se complementam.

A ciência
ea
sociedade
As sociedades têm sofrido alterações ao longo do tempo e, consequentemente,
a ciência também as sofreu. Por exemplo, durante a primeira metade do século
XX, quando o mundo estava envolto em guerra, os governos disponibilizaram
financiamento para que os cientistas fizessem investigação com vista a aplicações
militares — pelo que a ciência progrediu nessa direção, desvendando os mistérios
da energia nuclear. Noutros tempos, forças de mercado têm impulsionado o
progresso científico. Por exemplo, empresas modernas que procuram gerar
rendimentos através do tratamento médico, da produção de fármacos, e da
agricultura, têm dedicado cada vez mais recursos para investigação em
biotecnologia, resultando em avanços significativos na sequenciação do genoma e
em engenharia genética. Em contrapartida, as fundações modernas, financiadas
por particulares, podem investir o seu dinheiro em projetos que considerem ser
socialmente responsáveis, encorajando a investigação em tópicos como as
tecnologias de energias renováveis. A ciência não é estática; muda ao longo do
tempo, refletindo as alterações que ocorrem nas sociedades em que está
inserida.

A IMPORTÂNCIA DA CIÊNCIA PARA A SOCIEDADE


Anselmo Gomes de Oliveira, Dâmaris Silveira

Resumo

A Ciência exerce uma grande influência em nossa vida cotidiana a ponto de ser difícil
imaginar com seria o mundo atual sem a sua contribuição ao longo do tempo.
Particularmente no mundo dos medicamentos é fácil relembrar a grande evolução
acontecida após a segunda guerra mundial. A Ciência tem sido a grande responsável pelas
transformações tecnológicas que têm suportado as incríveis evoluções nas concepções dos
novos medicamentos, aos entendimentos de mecanismos de ação de fármacos, das
particularidades das relações entre estruturas químicas e efeitos farmacológicos, assim
como dos efeitos adversos

3.4 AS FACES DA CIÊNCIA E DA TECNOLOGIA


Para não tomarmos posições impensadas de supervalorizar ou não os pontos
positivos ou negativos, os efeitos e repercussões da ciência e da tecnologia
no comportamento humano, é importante que tenhamos claras as diferentes
faces que elas assumem nas suas estreitas relações com a vida cotidiana de
todos nós. Os aparatos, máquinas ou instrumentos, produtos da atividade
cientí-fica, não são maus nem bons, nem positivos nem negativos em si
mesmos. Nem poderíamos tomar este caráter irracional em tal análise
porque estaríamos sendo animistas e inconseqüentes, atribuindo a uma
construção do próprio homem um comportamento que não lhe é pertinente.
O que se pode e se deve analisar, no entanto, é o uso que se faz destes
aparatos, máquinas e processos que, aí sim, pode resultar negativo ou
positivo, bom ou mau para a vida humana.
É inegável a contribuição que a ciência e a tecnologia trouxeram nos últimos
anos. Porém, apesar desta constatação, não podemos confiar
excessivamente nelas, tornando-nos cegos pelos confortos que nos
proporcionam cotidianamente seus aparatos e dispositivos técnicos. Isso
pode resultar perigoso porque, nesta anestesia que o deslumbramento da
modernidade tecnológica nos oferece, podemos nos esquecer que a ciência e
a tecnologia incorporam questões sociais, éticas e políticas.
É importante ter sempre presente que nem tudo que se pode
fazer tecnicamente, deve-se fazer moralmente. Estas preocupações, estas
relações e as diferentes interpretações que criamos no tocante aos
verdadeiros fins da tecnologia e o seu caráter neutro, que muitos lhes
querem atribuir no sentido de afastá-las das questões de ordem social e
política, têm sérias repercussões na forma como os conhecimentos são
construídos nas escolas. Constituem, por isso, a abordagem buscada neste
item.
Uma relação de desconhecimento, medo e ufanismo
O medo da técnica ou da tecnologia não é assunto novo. É só recorrer à
história recente da humanidade para perceber isso. A revolução causada pela
introdução da imprensa, no século XV, fruto de consideráveis melhorias num
antigo processo chinês, é um exemplo. O 'invento' de Gutenberg, em 1450,
que proporcionou a disseminação de conhecimento numa velocidade até
então desconhecida e que deu novo dinamismo à cultura e à ciência, teve
também os seus percalços. Os copistas, que na época pacientemente
reproduziam os livros letra por letra, num instante perderam sua
importância. Desta forma uma nova máquina substituiu vários indivíduos. A
introdução da máquina a vapor, com as melhorias estabelecidas numa
também antiga invenção, por James Watt, em 1764, é outro exemplo. Aliada
ao tear mecânico multifusos, a máquina a vapor criou condições para a
revolução industrial, que sacudiu a humanidade.
Os choques provocados por essas e por muitas outras novidades e
acontecimentos relacionados à tecnologia23 podem ajudar a compreender o
que se passa na sociedade atual.
Avião a jato, forno de microondas, tomografia computadorizada, clonagem,
internet, microcirurgia a laser, cateterismo, telefone celular, pentium.
Poderíamos listar uma série infindável de novidades que nos estonteiam e
nos apequenam diante da nossa ignorância. Como funcionam, quem as criou,
para que servem, para onde nos leva tudo isso? Se compararmos muitas
dessas novidades ao impacto da aparentemente simples introdução da
agricultura na sociedade humana, há cerca de dez mil anos, talvez quase
todas sumam em importância. Mas a sua contemporaneidade com a nossa
vida particular é que deve majorar o seu impacto, elevando a sua
importância relativa.
Sugestão para encarar as novas tecnologias e trabalhar os seus impactos sem
medos e sem ufanismos: cautela, uma boa dose de reflexão de suas
vantagens e limitações, e acima de tudo uma contextualização das suas
implicações. Se a revolução industrial causa problemas até hoje sentidos
— poluição, degra-dação ambiental, acumulação de capital, exploração de
trabalho humano — ela também permite confortos de que ninguém quer
abdicar — medicamento, televisão, carro, telefone, geladeira. Se a imprensa
desempregou os monges copistas, ela também permite hoje que cada aluno
tenha o seu livro, que todos possam ler jornais diariamente e que se montem
bibliotecas em cada cidade ou em cada escola.
O tipo de posicionamento colocando a ciência e a tecnologia como isentas
dos outros acontecimentos da vida, ao qual este ensaio busca contrapor-se,
que tem influenciado e dirigido em certa escala os sistemas de ensino das
escolas de engenharia, teve uma das suas fontes de origem nos escritos de
Bacon, no século XVI, onde ele dizia ter a ciência somente bondade e
neutralidade, inerentes ao próprio processo, e que qualquer mal que ela
causasse seria conseqüência de sua má utilização. Tal tradição seguiu
ganhando adeptos e foi reforçada por Galileu, na mesma época, que dizia
não poder e não dever a ciência estar sujeita a nenhuma limitação. Deveria
ter o seu caminho livre e desinteressado. Os cientistas deveriam ter o direito
de buscar e praticar a verdade científica sem se preocuparem com suas
possíveis conseqüências sociais perturbadoras. Por isso ela foi sempre
tratada de maneira asséptica e completamente afastada de outras variáveis
que não dissessem respeito exclusivamente aos resultados empíricos que
confirmassem ou não os seus estabelecimentos teóricos eminentemente
racionais.
A defesa intransigente de tal comportamento da ciência vinha
acompanhando o desenvolvimento científico, e encontrava um forte adepto
em Descartes, que tinha a ambição de converter o homem em dono e
possuidor da natureza. Descartes, no entanto, apesar de defender a não-
interferência de elementos externos no fazer ciência, reforçava que o ideal
do cientista não poderia ser apenas especulativo, curioso e desinteressado.
Deveria, sim, ser ligado ao conjunto de desenvolvimento da hoje conhecida
civilização ocidental, da exploração e da colonização, da conquista militar e
da indústria.
A interpretação de Descartes pode direcionar o pensamento de que, apesar
da veemência com que se estabelece a cultura do método cartesiano como
decorrente de uma interpretação eminentemente mecanicista da ciência,
começa a surgir, tenuamente, a questão da neutralidade científica imposta à
sua utilização mas não ao seu fazer. Este aspecto parece ser, dentro do que
está estabelecido nos seus currículos, o mais sensato e possível de ser
trabalhado no ensino de engenharia.
Em decorrência das interpretações dúbias que praticamente sempre
estiveram presentes nestas questões desde a revolução científica, um novo
episódio importante vem estampado no conceito de progresso ligado
umbilicalmente ao desenvolvimento científico, que surge no projeto da
'Enciclopédia' de Diderot, por volta do século XVII. Nela se buscava
recompilar todo o conhecimento que existia disperso sobre a face da terra,
dar a conhecer a sua estrutura geral aos homens e, além disso, transmiti-lo
àqueles que viriam depois. Continuava vivo na cultura humana que o
progresso era irreversível e que a ciência só poderia ser benéfica. No século
XIX surge novo reforço a esta afirmativa, agora através de Marx e outros
pensadores que tiveram relevância no desenvolvimento econômico e social
(Revilla, Márquez e Stingl, 1993).
A revolução industrial, entre os anos 1750 e 1830, significou a grande
expansão da tecnologia e deu motivos para um conjunto de suposições em
torno dela, fundamentalmente a crença de que a ciência se traduz em
tecnologia, a tecnologia modifica a indústria e a indústria regula o mercado
para produzir o benefício social. Esta concepção simplista, que poderíamos
chamar de concepção positivista da evolução humana, parece ter
contribuído para que a análise da neutralidade passasse com mais vigor da
ciência para a tecnologia, por dois motivos: primeiro porque sendo a
tecnologia uma aplicação da ciência, esta análise abarcaria também as
questões científicas; a outra porque, em função de suas a-plicações diretas, a
tecnologia estava muito mais próxima dos resultados sociais.
Porém, a tese e as perguntas continuavam a ser as mesmas que permeavam
a questão científica: a tecnologia é neutra? A neutralidade só existe na sua
criação? Como se comporta esta neutralidade quando utilizamos a
tecnologia?
Depois desta suposta transferência de análise sobre a neutralidade, num
período compreendido entre os anos 1830 e 1890 — conhecido como a
etapa da prosperidade — consolida-se de fato a vinculação do progresso com
a tecnologia, principalmente ostentada num fato de repercussão universal na
época: a primeira Exposição Mundial Industrial24, realizada na Inglaterra. A
idéia de progresso tecnológico associado ao desenvolvimento humano, a
partir deste evento, tornou-se definitivamente um artigo de fé para a
humanidade.
Anos mais tarde, na seqüência destes arroubos de ufanismo, a Corporação
de Tecnologias Unidas dos Estados Unidos dizia aos quatro cantos do
mundo: “Eticamente a tecnologia é neutra, não há nada bom nem mau
inerentemente a ela. É simplesmente um instrumento, um servente para ser
refinado, dirigido e utilizado por pessoas para qualquer propósito que
queiram conseguir”.
É uma afirmação que reforça o discurso contemporâneo acerca da tecnologia
como uma ferramenta neutra facilmente manipulável para o uso humano
(Gana, 1995).
A civilização ocidental continuava embalada por este 'canto da sereia',
acreditando em tempos de progresso desenfreado abarrotado de saldos
positivos. Todas as eventuais conseqüências negativas seriam corrigidas pela
própria tecnologia. Afinal, como sua repercussão dependia apenas da forma
de utilização, parecia inconcebível que qualquer resultado não-positivo
pudesse decorrer dela.
O grande impacto, já realçado anteriormente, surgiria com uma atitude
política que viria a abalar o mundo. O homem usava um artefato tecnológico
para produzir uma das maiores catástrofes da história contemporânea. O
domínio da natureza serviria para, através de uma forma de energia
acumulada, ceifar milhares de vidas com uma arma idealizada e construída
pelo próprio homem.
A questão ética, a neutralidade, a utilização, a vulnerabilidade da ciência e da
tecnologia em relação a questões políticas infames começam a colocar em
xeque o velho chavão do desenvolvimento humano associado linearmente
ao conceito de progresso científico-tecnológico. Estes aspectos fazem a
sociedade começar a questionar o conceito de que o progresso tecnológico é
suficiente para o desenvolvimento humano. E, mais do que nunca, estas
indagações começam a fervilhar nas mentes, agora também, dos homens
comuns. Não ainda com a intensidade necessária, porque a população mais
dependente da tecnologia continuava vivendo das benesses que ela oferecia.
Por mais hedionda que a explosão atômica tenha sido, ela ficou longe da
análise crítica do cidadão, porque também foi defendida, e sempre com a
maestria peculiar daqueles interessados em assim fazê-lo, como importante
e boa por ter contribuído para estancar um dos maiores conflitos humanos, a
Segunda Guerra Mundial. Além disso, justificava-se a expansão do
desenvolvimento atômico como fundamental para a geração de energia
limpa e não-poluente. Continuava quase inabalável a crença na tecnologia
como instrumento imprescindível de desenvolvimento humano.
No século XIX, quando a civilização estava embevecida com o advento das
novidades tecnológicas, julgava-se ser a ciência uma grande aventura para o
espírito humano e, mais do que isso, um meio para libertar o homem da
escravidão. Certamente precisávamos dela da forma como nos era posta.
Hoje, porém, e com as incertezas e suspeitas quanto aos efeitos da ciência e
da tecnologia, a crise de confiança e identidade sentida dentro dos próprios
círculos científicos é notável. Talvez — e é importante pensar assim — este
aspecto seja devido à maior preocupação dos próprios cientistas em escrever
sobre a ciência e suas aplicações. Seus resultados começam a não mais ficar
circunscritos a poucos entendidos que decidem seus destinos. Estas novas
percepções estampadas dentro dos grupos que trabalhavam a ciência e a
tecnologia faziam nascer diferentes colocações sobre a representatividade
destas atividades na vida humana.
Como decorrência destes aspectos, nos anos 60 se registravam frases de
ufanismos em relação à ciência e à tecnologia, como esta, devida a Alvin
Weinberg — diretor do Oak Ridge National Laboratory, Tennessee —
, reproduzida no livro Para que serve a ciência:
“Quando a história olhar para o século XX, verá a ciência e a tecnologia como
seu tema [...] Verá nos monumentos da Big Science — os enormes foguetes,
os aceleradores de alta energia, os reatores de pesquisa de alto fluxo —
símbolos da era, tão certamente quanto Notre Dame o é da idade média”
(Weinberg apud Dixon, 1973, p. 2).
Porém, nos anos 70 esta unanimidade já começava a fazer água, quando
outros cientistas vislumbravam algumas possibilidades emergentes de
destruição ocasionadas pela utilização indiscriminada da ciência e da
tecnologia. Alguns livros e ensaios, publicados em revistas especializadas,
começavam a ser editados na ânsia de segurar um pouco este ufanismo
desenfreado que, inconscientemente, procurava fazer ver a todos uma
ciência e uma tecnologia dissociadas dos problemas sociais que poderiam
causar. Frases bombásticas — talvez de cunho muito alarmante, também
— surgiam na outra ponta do debate estabelecido e que Dixon fazia questão
de citar para reforçar seus argumentos de discutir com mais profundidade
semelhantes assuntos, constantes do seu ensaio. Uma delas era atribuída ao
Dr. Desmond King-Hele, em sua publicação The end of the twentieth
century, quando se perguntava: “Será que a nossa civilização não se destruirá
antes do ano 2000?” (King-Hele apud Dixon, 1973).
Essa modificação veio ocorrendo com o cidadão comum desde aquela época,
provocando uma primeira mas ainda, no entanto, pequena alteração
cultural, transformando os medos, os desconhecimentos e as dúvidas em
constante busca de esclarecimentos sobre o que a relação entre a ciência, a
tecnologia e a sociedade poderia significar em sua vida. Apesar da admiração
pelos efeitos da ciência e da tecnologia, a preocupação é agora muito mais
aguçada com as conseqüências negativas dos seus usos, tanto nas questões
do meio ambiente, do domínio de armas poderosíssimas, quanto em relação
às questões sociais decorrentes da minoria dominante de todos estes
conhecimentos.
Técnica, ciência e tecnologia, uma relação confusa
Existem diferenças entre ciência, técnica e tecnologia? Parece que responder
diretamente a esta pergunta é cair no reducionismo e não acrescenta muito
em termos de interpretação de sua evolução ao longo do desenvolvimento
social. Mas, ao contrário, discutir diferenças e separações se revestem de
uma importância conceitual para além da semântica e que pode mudar
alguns posicionamentos em relação às suas abordagens no ensino
tecnológico, tanto de ordem sociológica quanto de ordem epistemológica.
Uma reflexão é buscada neste item, com o intuito de tentar mapear as
repercussões sociológicas que tais posicionamentos ocasionam, deixando a
questão epistemológica para uma análise conjunta com os aspectos didáticos
contemplados no capítulo 6.
Pode-se dizer que nestas diferenças vem embutida a questão da
neutralidade que elas arrastam, quanto aos seus usos e aplicações, e que
tanto confunde o posicionamento das pessoas em relação a este aspecto.
Essa confusão sobre a neutralidade é tão evidente que, em diversas
situações, cria nas pessoas um padrão equivocado de comportamento para
aqueles que trabalham, ou pretendem trabalhar, com a ciência e a
tecnologia. O estereótipo construído nesta perspectiva aponta que, para
trabalhá-las com maior sucesso, o cientista ou tecnólogo deve estar afastado
das questões do comportamento humano.
Como ilustração desta constatação, a afirmação proferida por um jovem
universitário de graduação em área não tecnológica reflete bem a opinião do
senso comum sobre a questão da neutralidade da ciência e da tecnologia em
relação ao comportamento de quem com elas trabalha. Dizia ele, em linhas
gerais, ao ser inquirido sobre um problema decorrente do sistema de
abastecimento de água de sua cidade: ‘Não sei responder sobre este assunto
porque isto não diz respeito a mim. É um assunto estritamente da alçada dos
engenheiros responsáveis. Ademais, mesmo que eu quisesse, quem sabe um
dia, lidar com a tecnologia, não poderia fazê-lo, pois sou uma pessoa muito
sensível, emotiva até, e não poderia opinar sobre a sua utilização pelo fato
de não conseguir me manter neutro’.
Na procura de alguma informação para esta intrincada questão, se partirmos
para uma revisão nas definições clássicas acerca da técnica, parece que não
existe diferença alguma entre ela e a tecnologia. Elas sempre foram
identificadas com utensílios, ferramentas, instrumentos e máquinas. Mas,
numa visão mais aprofundada, a técnica sempre é trazida para análise
através das transformações consecutivas dos diferentes artefatos utilizados
pelo homem com o sentido estrito de ferramenta. Sempre se refletiu uma
explicação de técnica na história do homem através de sua aplicação
eminentemente instrumental. Ela vem sendo entendida como a arte,
produção e manutenção de instrumentos e, na maioria das vezes, para não
dizer na sua totalidade, nesse entendimento sempre procurou não levar em
consideração as inter-relações dentro do entorno que abrange o sistema e o
ser humano. Suas definições e estudos excluem o fator cultural, social e o
meio ambiente desta técnica. A bibliografia sobre este tema, na grande
maioria de suas interpretações, tem trazido este posicionamento, apesar de
atribuir à técnica inúmeros desenvolvimentos sociais na história humana25.
A história da técnica é a história das grandes transformações dos artefatos
caracterizadas em dois tipos de mudanças: em primeiro nível, as mudanças
que provocam alterações nos artefatos e nos processos; e, em segundo nível,
as mudanças na estrutura e na organização social.
É importante notar que, apesar das mudanças sociais, os registros históricos
procuram ser enfáticos em querer mostrar que estas revoluções
aconteceram independentemente das repercussões e conseqüências sociais
advindas da adoção das técnicas. Grande parte destes registros enfatizam
que as revoluções aconteceram estritamente em decorrência de um
movimento puramente material. Até por isso as dificuldades de
interpretação surgem. E quando, na busca de uma saída para este tipo de
análise, os fundamentos se prendem a uma separação que se supõe existir
entre técnica e tecnologia, algumas afirmações26 de filósofos da ciência
fazem reacender a discussão da autonomia e neutralidade da técnica que é
tida como uma entidade sujeita à sua própria dinâmica interna de
desenvolvimento alheia a qualquer tipo de intervenção social. Estas
independências de desenvolvimentos, baseadas nestas declarações, então
voltam a se comprometer.
Diante desse impasse pode-se tomar dois posicionamentos: revisar a noção
tradicional da técnica, reformular as perguntas fundamentais em matéria de
seu desenvolvimento e, por conseguinte, examinar o conjunto mais amplo
que a técnica poderia fazer em termos de contexto, seu entorno, seus riscos,
impactos, vantagens, desvantagens e as modificações na organização e no
meio ambiente do homem; ou então estabelecer de pronto diferenças
marcantes entre técnica e tecnologia para fazer frente à atual diversidade do
fenômeno tecnológico, posicionando o domínio da técnica realmente em um
nível de menor relevância27.
Gana, neste direcionamento, efetivamente estabelece algumas diferenças
entre a técnica e a tecnologia em função dos métodos e meios utilizados
para realizar as modificações no entorno que pode clarear esta questão. Diz
ela que estas diferenças têm relação com o tipo de conhecimento
empregado, a metodologia estabelecida, o alcance, risco e impacto da
prática utilizada, o tipo de propagação, os requerimentos de sua
implementação, os avanços, vantagens e desvantagens e as mudanças sócio-
culturais.
Em outras palavras, e até com a finalidade de uma separação de ordem
metodológica, pode-se dizer que a esfera de ação da técnica é mais reduzida
e se posiciona em um nível de menor complexidade em relação à tecnologia.
Mas, apesar desta limitação, continua difícil uma definição precisa, agora
para o termo tecnologia28. No entanto, dentro da coerência que procura este
trabalho e assumindo como fundamental este posicionamento para a linha
de atuação adotada nesta tese, quando o termo tecnologia for utilizado ele o
estará sendo no seguinte sentido: “É uma parte do conhecimento humano
que trata da criação e uso de meios técnicos e suas inter-relações com a vida,
sociedade e seu entorno, recorrendo a recursos tais como as artes
industriais, engenharia, ciência aplicada e ciência pura”. 29
Para ampliar o escopo deste entendimento do que tecnologia representa
nesta abordagem, novamente alguns tópicos do resumo que Gana realiza
podem ser utilizados.
A tecnologia simboliza uma grande complexidade e qualquer intento por
defini-la deveria considerar que:
a tecnologia tem relação com a ciência, com a técnica e com a sociedade;
a tecnologia integra elementos materiais — ferramentas, máquinas,
equipamentos — e não-materiais — saber fazer, conhecimentos,
informações, organização, comunicação e relações interpessoais;
a tecnologia tem relações com fatores econômicos, políticos e culturais;
a evolução da tecnologia é inseparável das estruturas sociais e econômicas
de uma determinada sociedade.
Posto isso, o objetivo que se persegue neste tratamento da tecnologia é a
evolução: a evolução do ser humano. Fica claro que neste intento não se
pode assumir a imagem de uma tecnologia neutra e objetiva como
fundamento e legitimação do desenvolvimento tecnológico. Pode-se até
admitir a existência e assunção, por parte de muitas pessoas, do
‘sonambulismo tecnológico’, mas o mais importante é, paralelo a isto, e
principalmente, também admitir que é possível assumir um posicionamento
crítico e reflexivo e passar a viver, dentro destes novos parâmetros, com as
mais diferentes alternativas sócio-técnicas.
Na tentativa de lidar com os confusos entendimentos da ciência, da técnica e
da tecnologia, e tendo cada vez mais claro que o tratamento sociológico da
neutralidade é fator fundamental para estabelecer os critérios de sua
utilização junto à sociedade durante os últimos vinte anos, os especialistas,
os professores, os cientistas e os encarregados da gestão pública têm
reconhecido, na sua grande maioria, de forma crescente, que a ciência e a
tecnologia — a partir de agora estaremos utilizando apenas a palavra
tecnologia tendo em conta as diferenciações estabelecidas com a técnica nos
itens anteriores — são processos sociais carregados de valores. Nem a ciência
e muito menos a tecnologia são empreendimentos autônomos com vida
própria, nem tampouco são instrumentos neutros que possam ser facilmente
modificados e utilizados para as necessidades ou interesses de plantão. São,
na realidade, complexos empreendimentos que têm lugar em contextos
específicos configurados, e por sua vez configuradores de valores humanos
que se refletem nas instituições culturais, políticas e econômicas. O interesse
criado por parte dos consumidores, dos empresários, dos governos, dos
banqueiros, define os problemas e estabelece os parâmetros em que se
deverão buscar os resultados aceitáveis. Simultaneamente, a ciência e a
tecnologia afetam a configuração e a definição de valores e instituições, de
forma que a relação é dinâmica, de constantes e complexas relações
recursivas (Sutcliff apud Medina & Sanmartín, 1990). Teríamos que ser muito
ingênuos para pensar que a aplicação e a produção da ciência e da tecnologia
se conformam como algo neutro.
Winner nos adverte sobre este ponto de vista, em certas situações definidor
de um novo comportamento social, quando novas e surpreendentes
tecnologias são postas em uso:
“ [...] já temos começado a advertir sobre outro ponto de vista do
desenvolvimento tecnológico, que transcende os defeitos empíricos e morais
dos modelos de causa e efeito. Inicia-se com o reconhecimento de que, à
medida que as tecnologias são construídas e postas em uso, já se está
produzindo alterações significativas nos padrões da atividade humana e das
instituições humanas. Estão sendo criados novos mundos. Não há nada de
‘secundário’ neste fenômeno. De fato, é a conquista mais importante de
qualquer nova tecnologia. A construção de um sistema tecnológico que
envolve seres humanos como parte de seu funcionamento requer uma
reconstrução dos papéis e das relações sociais. Muitas vezes isto é resultado
das exigências operativas próprias de um novo sistema: simplesmente não
funcionam a menos que se modifique a conduta para adaptar-se à sua forma
e processo. Daí que somente o ato de utilizar as classes de máquinas,
técnicas e sistemas disponíveis gera modelos de atividades e expectativas
que logo se convertem em ‘instintivos’. É certo que ‘usamos’ os telefones, os
automóveis, a luz elétrica e os computadores no sentido convencional de
tomá-los e logo deixá-los. Mas nosso mundo logo se converte em um sistema
no qual a telefonia, os automóveis, a luz elétrica e os computadores são
formas de vida no sentido mais poderoso: a vida seria quase impensável sem
eles” (Winner, 1987, p. 27).
Trabalhar a neutralidade ou a não-neutralidade da tecnologia na sociedade
e, mais especificamente na escola, passa a ser então uma questão de
valores30.
E esta análise sociológica reveste-se de fundamental importância porque ela
pode deixar clara uma diferenciação importante na geração das novas
tecnologias. Não se pretende, de forma acrítica, limitar sua criação e sim,
através destas reflexões, poder interferir na pertinência e necessidades desta
criação. Elas constituem duas coisas bem diferentes e por isso devem ser
tratadas de forma diversa. Quando se advoga o fato de dar-se oportunidade
ao cidadão comum para que ele entenda o discurso científico, defende-se
enfaticamente a disponibilização de condições para que ele possa discutir os
rumos da ciência e da tecnologia como fator importante na sua própria
forma de vida. Este tipo de posicionamento promove a quebra de um
pensamento equivocado de que o fazer e entender estes ‘intrincados’
caminhos da ciência e da tecnologia são de interesse apenas dos
profissionais, parecendo ser deles também a definição dos tipos de uso que
poderão ser observados pela sociedade.
Estes questionamentos apresentam um importante desafio para todas as
áreas de conhecimento das quais as ciências sociais e as humanidades
obrigatoriamente precisam fazer parte. De fato, existe uma grande
quantidade de historiadores, antropólogos, sociólogos, psicólogos e também
toda a espécie de artistas cujo trabalho ilumina diversas dimensões humanas
da tecnologia descuidadas por muito tempo. Reforça-se aqui, no entanto,
que com estas noções de ‘neutralidade’ e convictos de que a tecnologia é
realmente um constructo social, os engenheiros e outros profissionais
técnicos, quando tiverem coragem suficiente para ir mais além das
categorias intransigentes de sua capacitação, terão muito mais a contribuir
para o desenvolvimento social e humano.

3.5 CIÊNCIA E TECNOLOGIA ATRAVÉS DOS TEMPOS


A ciência é um determinado tipo de conhecimento, porém não é o único. É
um conhecimento que busca leis explicativas gerais estabelecendo conexões
entre fatos e fenômenos. Existe, há muito tempo, como uma importante
atividade humana. Desde os babilônios, os egípcios e outros povos mais
antigos era desenvolvida por curiosidade mas, a partir desta curiosidade, foi
gerando muitos resultados importantes até hoje utilizados pelo homem. Na
Grécia e em alguns outros povos na época clássica, a ciência surgiu em
convivência paralela e estreita com a filosofia31.
Apesar de todas as interpretações, que por motivos diversos na área de
conhecimento tecnológico são muitas vezes levadas a extremos, geralmente,
tanto a ciência quanto a filosofia são, em suas origens, a mesma coisa: a
busca da racionalização do mundo e a tentativa da eliminação do mito.
Ao longo de toda a história existiram pessoas, além dos gregos, que
assumiram conjuntamente entre as suas prioridades de estudos tanto a
filosofia quanto a ciência, desenvolvendo, com isso, capacidades de análise e
reflexão extremamente acuradas. Entre eles poderíamos citar os mais
famosos da antigüidade representados nos nomes de Tales, Pitágoras,
Platão, Epicuro, entre outros.
A ciência sempre se constituiu numa atividade extremamente importante no
desenvolvimento da história. No entanto, apesar de todas as evidências
desta importância para a civilização, até o século XVII a ciência teve pouca
relevância para a vida humana. Ela efetivamente se implantou como saber e
conhecimento e, no conceito dominante na época, capaz de transformar a
natureza e influenciar as reflexões dos homens, através de Galileu. Nesta
perspectiva, a ciência, desde os finais do século XVIII, tem se convertido em
fator determinante para o desenvolvimento e comportamento da sociedade
contemporânea.
Nesta evolução é necessário fazer referência aos séculos XVI e XVII com a
chamada 'Revolução Científica', em que aparece a ciência moderna
proporcionando uma mudança radical na forma de conceber seu
comportamento e estrutura. Produz-se, então, talvez a maior revolução num
conceito já estabelecido pelo ser humano. A física se opõe à ciência grega
que dizia ser a Terra o centro do Universo. O modelo geocêntrico dá lugar ao
modelo heliocêntrico, abalando estruturas, costumes e convicções. Começa a
se estabelecer, mesmo que não admitida explicitamente, a dependência do
comportamento humano aos desenvolvimentos científicos e às suas
interpretações.
Newton, ao utilizar as contribuições de Copérnico, Kepler e Galileu, parte
para uma sistematização de todos estes conhecimentos e conceitos,
consolidando com isso a física clássica e, por decorrência, estabelecendo o
despertar de uma nova ciência.
De uma rápida descrição das origens da ciência e da tecnologia, dentro de
diferentes contextos, é essencial, para justificativa desta análise reflexiva,
que se faça claramente uma diferenciação dos procedimentos, digamos,
desde a época medieval até a atual, para que se possa defender
enfaticamente as diferentes formas de abordagens que se deve assumir para
processar as reflexões sobre a sua influência nos homens e nas relações
sociais.
Na era medieval, a física e as heranças da ciência grega dominavam as
reflexões da época. Naquele tempo era uma ciência qualitativa e não
quantitativa, em função de uma demanda que assim permitia. Hoje, com a
ciência moderna — que gerou uma tecnologia assombrosa e que
constantemente se vê frente à responsabilidade de descrever relações entre
fenômenos quantificáveis, comprovar a regularidade de suas aparições e,
ainda como decorrência de uma nova ordem sociológica, decifrar as
repercussões destes fenômenos na dinâmica do meio ambiente e as
conseqüências destas criações no desenvolvimento do ser humano — parece
que o método, as abordagens e as interpretações precisam mudar. Tanto na
forma de fazer a ciência e a tecnologia, quanto na forma de trabalhá-las no
processo educacional.
A ciência e sua metodologia
Para justificar uma alteração que deva acontecer na forma de trabalhar a
ciência e a tecnologia, é fundamental saber como elas se comportaram e se
comportam através de suas diferentes abordagens e interpretações.
A atitude científica não é uma atitude espontânea. O modo de ver, a maneira
de olhar e o cuidado em vigilar o que acontece em seu entorno, por parte do
cientista, se processa de forma diversa da do homem do cotidiano que, por
força de expressão, podemos chamar aqui de 'homem normal'. E mais ainda.
A maneira de olhar do cientista, quando ele está imbuído desta atividade, é
até mesmo diferente daquela que ele possui no seu viver habitual. Pode-se
descrever um mesmo objeto com diferentes atitudes a partir de diferentes
perspectivas. A maneira 'científica' de ver o mundo supõe um esforço mental
que se conhece por racional, e atribui-se esta atitude científica como fruto de
uma conquista histórica do homem ao longo dos tempos.
A necessidade que se estabeleceu no homem para que ele conhecesse o
mundo para nele orientar-se, para nele viver, para tentar dominá-lo ou
simplesmente para saber acerca dele, fez com que as perguntas, os
problemas, os fenômenos ganhassem relevância ímpar e, acima de tudo, um
estudo metódico de modo que sobre eles não pairassem dúvidas e
merecessem crenças seguras. Nasce o método científico como a chave para
desvendar os segredos e proporcionar a crença inabalável na ciência. Com
ele se determina o que são verdadeiramente as coisas e se procura a
liberdade do homem através do conhecimento da realidade tal como se
apresenta. Esta foi sempre a aspiração do método científico. Ele sempre se
destacou do senso comum que procedia de uma atitude natural para se
impor com sua racionalidade através da 'infalível' atitude científica. A grande
diferença, em tese, que se estabelece entre o saber comum e o científico não
está no conteúdo, na matéria ou na natureza, e sim na organização, na
sistematicidade; em suma, no método. Dentro desta ótica, o saber comum é
a acumulação imperfeita e incompleta de conhecimentos, enquanto a ciência
se reconhece pela contundência em tornar a natureza explícita por meio da
elaboração de um sistema completo e coerente de enunciados com suas
explicações perfeitamente construídas e repletas de 'verdades'.
Ao longo de todo este processo de afirmação como conhecimento e, em
certas ocasiões, pela postura inflexível das pessoas que com ela trabalhavam
como doutrina, a ciência recebeu inúmeras classificações de acordo com sua
utilização e pertinência. Uma delas é a distinção entre ciências empíricas e
formais. As empíricas são aquelas cujos enunciados se referem a fatos,
afirmando ou negando algo que acontece no mundo. As formais32 são
aquelas cujos enunciados não se referem a fatos, não afirmam e nem negam
o que sucede no mundo e portanto carecem de conteúdo factual. Elas se
ocupam das relações entre elementos, sejam estes o que sejam, existam ou
não existam. No seu desenvolvimento e aplicação são utilizados símbolos
vazios de conteúdo, com os quais se realizam inúmeras operações de regras
rígidas; suas linguagens são próprias e servem de ferramentas
imprescindíveis para o saber científico.
Na busca do domínio de todas estas possibilidades de verificações, verdades
e outros preceitos supostos da ciência, o homem sempre procurou o
‘melhor’ método. Dentre eles se destacaram dois mais gerais: a indução e a
dedução. Foram utilizados habitualmente como forma de pensar e raciocinar
e, trabalhados com rigor, constituem instrumentos indispensáveis do fazer
científico. Nas ciências naturais onde, a priori, devemos domar a natureza
para colocá-la a serviço do homem, combinam-se a indução e a dedução,
fazendo nascer o método hipotético-dedutivo33. Este método, que consta de
uma série de passos34, vai desembocar numa lei que, quando sistematizada,
organiza-se estruturalmente, fazendo nascer as teorias.
Desta forma a ciência, com suas análises internalistas, foi se impondo, e
poucas vezes, apesar de suas contradições históricas, foi analisada de outra
forma que não para supervalorizar seus feitos e repercussões.
Em paralelo às ciências naturais surgem as ciências humanas, que procuram
seguir o mesmo modelo na psicologia, na sociologia, na economia e outras.
São os dois tipos de ciência que se unificam pelo método que utilizam. No
decorrer do tempo se cria uma aproximação entre ambas, e as dificuldades
impostas às ciências humanas, por parte de um método linear e inflexível,
tende a estabelecer perguntas que, inapelavelmente, começam a atingir
também as ciências naturais.
Os fatos humanos se mostravam não tão fáceis de serem explicados como o
podiam ser os fenômenos da natureza. Não é a mesma coisa um fenômeno
natural e um fato humano. É necessário distinguir nestas diferenciações o
'explicar' e o 'compreender'. Parece que começam a surgir aqui os primeiros
respingos que poderão alterar a forma direcionada e não-reflexiva de ver um
método como absoluto na sua aplicação.
O entendimento de que não basta a aplicação simples de um método, como
o hipotético-dedutivo, por exemplo, nas ciências humanas, por enquanto faz
surgir a necessidade de, em paralelo, adotar-se o método hermenêutico, que
tem a função de lidar com a interpretação para o entendimento da ciência.
Nesta perspectiva, parece estar hoje superada a forte dicotomia entre
explicação pura ou entendimento puro predominante no início do atual
século. Já se aceita, permitindo a mudança que me parece imprescindível, a
presença de fundamentos compreensivos nas atividades explicativas, assim
como a necessidade da intervenção da explicação na própria compreensão.
Estas importantes mudanças que começam a se processar no
comportamento das ciências têm repercussões diretas também nos
processos de aprendizagem.
Uma nova atitude
O fato de que as ciências, tanto as naturais quanto as humanas, precisavam
mais do que métodos internalistas, que pareciam alheios a outros
acontecimentos que poderiam influenciar seus resultados para análises mais
completas de seus funcionamentos, começava a ganhar contornos bem
definidos. A partir destas evidências tende-se a dar destaque aos elementos
contextuais, à história — principalmente a externa à ciência. Isto acontece
com maior ênfase em tempos mais recentes, a partir dos anos 60, com a
presença constante dos elementos históricos, contextuais ou compreensivos
dentro da atividade científica.
Tornava-se lugar-comum, nas teorias que buscavam explicar o
desenvolvimento da ciência, o rechaço ao positivismo ou ao empirismo
lógico35. O rechaço é contundente também nas suas teses fundamentais,
dentre as quais se destacam a existência de uma base empírica teoricamente
neutra, a importância exclusiva de contexto de justificação e também o
caráter cumulativo do desenvolvimento científico. Surge a partir disso um
confronto com os positivistas lógicos, pois estas novas teses passam a gerar
uma imagem da ciência que não corresponde à visão da ciência clássica
dominante até o início do século XX. Para os empiricistas lógicos o
desenvolvimento da ciência se explica unicamente pela expansão de velhas
teorias em outras. Somente isso.
A contribuição de novos pensamentos
Esta revolução e borbulhamento na ciência fez surgir novas propostas
teóricas que vieram à luz nos anos 70, sob a influência incontestável do
modelo kuhniano, mas também, e com importantes contribuições, sob as
mais diferentes abordagens de diversos outros autores36.
Segundo Agazzi (1996), o momento de nascimento desta concepção
— sociológica — pode ser situado com a publicação, em 1962, da obra de
Thomas Kuhn37 A estrutura das revoluções científicas, que rapidamente
suscitou amplos debates ao contrastar categoricamente a epistemologia do
empirismo lógico e os pensamentos popperianos. Após a publicação desta
obra, tiveram início os debates entre kuhnianos e popperianos durante
quase toda a extensão dos anos 70 que vieram, mais tarde, a gerar o
desenvolvimento das epistemologias de Lakatos e Feyerabend.
Nestes debates epistemológicos surgiram as conseqüências do fato de se
afirmar uma dependência demasiado forte da ciência com respeito ao
contexto social: relativismo radical, anti-realismo, desaparecimento da noção
de verdade e do conceito fechado de objetividade científica. Além disso se
torna evidente a dissolução dos critérios rígidos para estabelecer uma
preferência somente de uma teoria em relação a outra, incluindo neste
terreno a forma de conhecimento referente às pseudociências38.
Destas propostas mescladas pode ser enumerada uma série de teses que
estes autores mais ou menos compartem e que nos oferecem uma visão da
ciência — talvez aqui já se possa também incluir a tecnologia — que pode ser
chamada de 'pós-empírica' (Ayarzagüena et al., 1996):
A história da ciência é a principal fonte de informação para construir e
colocar à prova os modelos sobre a ciência; diante das análises lógicas
adquirem importância os desenvolvimentos históricos na compreensão do
conhecimento científico.
Não há uma única maneira de organizar conceitualmente a experiência;
todos os fatos da ciência estão carregados de teoria.
As teorias científicas se constroem e evoluem sempre dentro de marcos
conceituais mais amplos, são autênticos pressupostos que estabelecem 'uma
maneira de ver'. Recebem diferentes nomes segundo os mais variados
autores, como por exemplo: paradigmas, programas de investigação, teorias
globais.
Os marcos conceituais mudam, e, por isso, buscam-se marcos os mais
profundos e duradouros possíveis.
A ciência não é um empreendimento totalmente autônomo.
O desenvolvimento da ciência não é linear e nem cumulativo.
A racionalidade da ciência não pode ser determinada a priori.
Os modelos de desenvolvimento científico não têm uma base neutra de
contrastação.
Para a continuidade desta análise, de trocas na abordagem da ciência a partir
destes fatos, é necessário que estabeleçamos mais algumas referências em
relação aos modelos desenvolvidos por Kuhn. No seu livro A estrutura das
revoluções científicas39, ele marca um ponto de partida tanto de uma nova
imagem da ciência como de uma nova maneira de fazer filosofia da ciência.
Expõe, a partir de agora, uma concepção global alternativa à forma
tradicional de trabalhar a ciência. O modelo kuhniano estabelece uma série
de etapas no desenvolvimento de uma disciplina científica. Começa com uma
etapa pré-paradigmática criando corpo e consistência para depois, quando o
campo de investigação se agrupa sob um conjunto de conceitos básicos
estabelecidos, nos colocar frente a um paradigma, o qual se converte na base
de toda a investigação que se processará neste campo de conhecimento.
O consenso acerca de um paradigma marca o início do que se conhece, na
teoria de Kuhn, como ciência normal. O paradigma vai então se articulando e
se aperfeiçoando através do trabalho rotineiro dos cientistas. O
desenvolvimento da investigação na etapa da ciência normal, por mais
padronizada que possa ser, leva ao descobrimento de certas anomalias que
resistem a ser resolvidas mediante o uso do paradigma. Este fato leva a
pensar que alguma coisa está precisando ser alterada no paradigma porque
ele não oferece mais capacidade de solução através da aplicação simples da
ciência dita normal. Ele passa então a entrar no campo chamado de crise do
paradigma, começando pelo que conhecemos por 'ciência extraordinária', e
passa a provocar a possibilidade de uma revolução científica. Esta ciência
extraordinária estará em ação enquanto algumas atividades se desenvolvem
na busca de caminhos alternativos, buscando resolver esta crise que surgiu
dentro do paradigma. Esta crise cessará se:
o paradigma posto em questão consegue se impor, ainda, e resolve as
anomalias em questão;
para a resolução das anomalias é obrigatório o surgimento de novas
perspectivas de solução a partir de um paradigma alternativo que, em função
disso, começa a ganhar novo consenso dentro da comunidade de
especialistas. Estas mudanças de paradigmas são chamadas, então, de
'Revoluções Científicas'.
O fato marcante da teoria de Kuhn que ajuda significativamente nesta
análise e na defesa das minhas posições é que ela permite abordar a ciência
e a tecnologia de forma alternativa à clássica estabelecida durante séculos,
pois ela ataca os modelos confirmacionistas e a noção de racionalidade que
pressupõe.
A troca de paradigma é de fato uma revolução. Não uma revolução que
possa ser resolvida pela aplicação simples de um algoritmo neutro. Ele é
enfático em afirmar que as anomalias não se resolvem mediante a lógica ou
a experiência isenta de todos os outros fatores 'externos' de seu
funcionamento. Ele rompe com a lógica dos empiricistas puros. Seu enfoque
promove uma mudança radical na noção de racionalidade científica. Sua
teoria importa em certo relativismo. As normas não são mais tão rígidas no
tratamento da ciência. As mudanças científicas, ainda que permaneçam
racionais, não arrastam consigo princípios absolutos de racionalidade nos
marcos conceituais. Nenhum componente do empreendimento científico é
imutável ou absoluto. Em resumo, tudo na ciência está sujeito a alterações.
A compreensão de ciência que nos foi legada após as análises de Kuhn se
apresenta bastante diversa daquela dos princípios do século, que ainda, por
incrível que pareça, é abordada nas escolas de engenharia, relevando a
importância ímpar do método hipotético-dedutivo. Segundo estas análises, a
compreensão da mudança científica tem de se realizar, inexoravelmente,
tendo-se em conta os pressupostos básicos dentro dos quais se desenvolvem
as atividades científicas. Porém, a partir de agora tende-se a pensar no
caráter não-monolítico dos marcos conceituais. Na avaliação de qualquer
teoria científica tem-se de levar conta mais fatores do que somente a
evidência empírica. A partir deste marco, a avaliação e a construção da
ciência e da tecnologia passam a ser questões basicamente comparativas.
Uma função importante nos currículos
Em decorrência de todos os aspectos surgidos pelas mudanças conceituais
dentro do tratamento da ciência com suas diferentes abordagens, pode-se
dizer que a partir de então a ciência é uma atividade social, estando sujeita a
mudanças estruturais, variações e, sem dúvida alguma, permanecendo
atrelada a uma infinidade de outros interesses. Segundo Ayarzagüena et
al. (1996), a construção social da ciência abarca uma ideologia que pode ser
vista dentro de três funções principais que servem de subsídios para sua
futura compreensão dentro dos processos de ensino:
a) 'Representação' do mundo — repetimos que queiramos ou não vivemos
numa sociedade científico-tecnológica —; a ciência é um dos elementos que
nos definem como projeto social.
b) 'Legitimação' — neste mundo contemporâneo só se legitima o que passa
pelo crivo 'científico' —; a ciência avaliza e se converte na única forma de 'dar
razão' às coisas. Nos dias atuais se confunde racionalidade científica com
racionalidade e, acima de tudo, conhecimento com conhecimento científico.
c) 'Encobrimento'. Chegamos a pensar, em muitas situações, que a única
solução para os problemas está na ciência. Esquecemos — ou nos fazem
esquecer — que nem todos os problemas são de caráter científico-
tecnológico. Em suma, precisamos trabalhar o fato de que mais ciência, mais
técnica, não significa, necessariamente, 'vida melhor para todos'.
Este tripé, presente no jogo de interesses nos currículos, das escolas, das
instituições, em suma dentro da sociedade, possui conteúdo ideológico
suficiente para justificar o desenvolvimento de estudos em ciência,
tecnologia e sociedade e, acima de tudo, a busca da implantação de uma
filosofia que nos permita tratar das questões da sociedade sem a idealização
de uma ferramenta mágica para pronta solução de todos os nossos
problemas.
3.6 A NECESSIDADE DE UMA NOVA FILOSOFIA
É mais do que razoável supor que uma sociedade plenamente comprometida
com a fabricação de realidades artificiais que impõem dúvidas, medos e
ufanismos pense com bastante intensidade na natureza de tal compromisso.
Seria mais do que lógico e natural pensar, por exemplo, que uma filosofia da
tecnologia pudesse aflorar exuberante dentro de uma escola de engenharia,
ge-rando discussões e debates entre professores, estudantes e todas as
outras pessoas que formam a comunidade acadêmica. A tese da
dependência social da ciência e da tecnologia vem ganhando adeptos e
adquirindo uma presença cada vez mais forte, empurrando as instituições
que trabalham com estas áreas a buscar subsídios nos campos sociológicos e
epistemológicos que possam ajudar a desvendar e a resolver algumas
pendências que influenciam sobremaneira o aprendizado nas escolas de
engenharia.
A filosofia da tecnologia, como a devemos entender, deve surgir como uma
tentativa de procurar respostas a alguns dos principais problemas de nossa
época. Estes problemas têm a sua origem nos impactos do fazer científico-
tecnológico no âmbito da questão ecológica e da questão social e cultural,
pois a racionalidade científico-tecnológica nos conduz a mudanças e crises,
inclusive na forma de compreendermos a nós mesmos.
Esta filosofia, como todas as demais, vive e necessita de uma ampla
interdisciplinaridade. Deve elaborar suas reflexões a partir das experiências
tecnológicas que constantemente vêm alterando nossa visão de mundo. Este
é um predicado importante, mas não o único. Ela deve tratar, na realidade,
de muitos outros temas, entre os quais pode-se enumerar: a busca de uma
definição clara do que seja tecnologia e o que realmente representa para o
bem-estar do ser humano; o estudo da vinculação entre progresso social e
progresso tecnológico, envolvendo todos os seus questionamentos e
dúvidas; análises sobre as complexas relações entre a ciência e a tecnologia;
o questionamento e a elaboração de critérios de comportamento sobre a
problemática ética que comportam a ciência e a tecnologia dentro do seu
entorno sócio-cultural. A filosofia da tecnologia deve carregar consigo uma
função crítica permanente, para estar constantemente em sintonia com as
novas imagens do homem que a ciência e a tecnologia promovem dentro das
estruturas sociais.
Com toda esta evidência, aqui restrita às escolas de engenharia mas
certamente válida para toda a sociedade, os problemas deveriam estar bem
definidos, merecedores de profundos estudos e alvo de investigações. Mas
não é isso que acontece. Winner é taxativo ao afirmar que, nesta época
avançada no desenvolvimento de nossa civilização industrial-tecnológica, a
observação mais exata que se poderia fazer com respeito à filosofia da
tecnologia é que na realidade ela não existe40.
Para ele, a tarefa fundamental da filosofia tecnológica consiste em examinar,
de forma crítica, a natureza e o significado das ajudas artificiais para a
atividade humana. Este é o terreno adequado de investigação que deveria
advir da filosofia da ciência. No entanto, continua ele, se recorrermos aos
escritos dos filósofos do século XX, nos surpreenderemos ao descobrir a
pouca atenção que se tem dado a perguntas desta natureza.
Na verdade, parece ser um pouco extremada a posição de Winner ao afirmar
que não existe nenhuma bibliografia ou escritos que comecem a tratar com
rigor deste tema. Muitos autores41vêm abordando com profundidade tal
assunto, juntando para estes estudos as questões da condição humana,
através dos enfoques da epistemologia, da metafísica, da estética, da ética,
das leis. A ciência, a tecnologia e a sociedade tornam-se cada vez mais
importantes como tópicos dignos de investigação na busca de uma filosofia
tecnológica.
Existem, indubitavelmente, inúmeras questões que merecem ainda muitas
investigações. Algumas de caráter conceitual que podem interferir, inclusive,
na forma de abordar estes estudos. Uma delas diz respeito ao fato de que na
filosofia atual ainda continua a existir uma ambigüidade no uso dos termos
'técnica', 'tecnologia' e 'ciência', embora esteja se generalizando a idéia de
utilizar 'técnica' como um termo genérico e 'tecnologia' para referir-se às
técnicas industriais com base na ciência e no entorno social, como já
discutido.
Tradicionalmente, a relação entre ciência e a tecnologia tem sido: a ciência
faz as descobertas e a tecnologia as aplica. Então, dizem alguns, é como se a
ciência fosse a teoria e a tecnologia a sua aplicação. Muitos afirmam que
seria importante que houvesse uma relação contínua entre a ciência e a
tecnologia. Seria perfeito, na visão destes defensores, se a ciência criasse as
teorias, as testasse com experiências simples, produzisse conjuntos de fatos,
e os tecnólogos os usassem para nos tornar mais ricos e confortáveis. Esta
seria a visão dos idealistas que veriam esta relação linear como o desejo do
homem de ter sempre a natureza, independente de sua utilização, a serviço
de seus anseios. Infelizmente não é tão simples assim. Este conjunto de
questionamentos, e muitos outros, tornam cada vez mais evidente a
necessidade do aparecimento de uma 'filosofia' que se ocupe destes
problemas.
Este tipo de preocupação começou a ganhar contornos bem definidos
através do pensamento marxista 'não-ortodoxo' que trazia à tona a
importância de um enfoque sociológico bem definido para a utilização e
também para a interpretação dos valores da ciência no desenvolvimento da
sociedade contemporânea. Esta linha marxista advogava a defesa
intransigente da dependência social da ciência, especialmente em relação ao
terreno das atividades, das aplicações e compromissos com o poder — pela
questão do pragmatismo. Seguramente, já nessas discussões embutia-se o
novo termo tecnologia.
Esta característica evidente esteve também bastante presente no debate
acerca da neutralidade — a ciência dependia dos aspectos sociais,
econômicos e políticos envolvidos no seu desenvolvimento —, fazendo com
que esta linha de pensamento tomasse, obviamente, posição fechada contra
este posicionamento. Ainda nos anos 60 os neomarxistas europeus
desenvolviam estas teses, através de alguns escritos da teoria crítica da
Escola de Frankfurt. Nos anos 70, no entanto, sempre em busca de respostas
a esta intrincada problemática, começava-se a desenvolver uma nova
concepção sociológica da ciência, principalmente no mundo anglo-
americano, que desde então não tem cessado suas análises. Todas estas
evidências tornavam cada vez mais acesa a necessidade de uma filosofia que
se ocupasse da ciência e, por decorrência, da própria tecnologia.
Dentro deste mundo em constante mutação deve-se, apesar de seu
arrefecimento dentro das discussões acadêmicas, salientar a forte
contribuição que teve a cultura do marxismo na Europa, e também da cultura
sociológica dentro dos países anglo-americanos durante os últimos trinta
anos na procura de decifrar os inúmeros enigmas da relação complexa entre
ciência, tecnologia e sociedade. Estas influências ainda continuam vivas nos
estudos desta área de conhecimento, permitindo novas investidas e novos
importantes conceitos para a criação desta nova filosofia.
Naturalmente, junto a estas análises, na tentativa de busca de uma
possibilidade de reflexão desapaixonada, é necessário adendar uma gama
enorme de novos estudos a esta área, dando-nos conta das novas
implicações que os tempos modernos impingem a estes acontecimentos. Por
isso é positivo introduzir a dimensão histórica e social na compreensão da
ciência e da tecnologia e também submetê-las a estudos sociológicos, pois as
informações que se podem obter poderão ser interessantes e iluminadoras.
Porém há que se ter um cuidado imenso nestas novas visões, para que não
se reduza o conhecimento científico-tecnológico a nada mais que um
produto estritamente social, às vezes, por incrível que pareça, independente
dos conhecimentos específicos. As radicalizações têm sempre conduzido a
análises equivocadas, por levarem em consideração posicionamentos de
ordem pessoal que prejudicam o aparecimento de uma filosofia que possa
analisar com profundidade as implicações da ciência e da tecnologia dentro
do meio social.
A filosofia da tecnologia surge em função de uma nova dinâmica que move o
ser humano, em que os problemas filosóficos estão mesclados com as
técnicas industriais de base científica e com as suas repercussões sobre o
meio ambiente e o meio social que delas farão uso. Apesar das colocações de
Winner, os compêndios da história destacam que a técnica sempre mereceu
sim a atenção dos filósofos em suas reflexões sobre a ação humana. O que se
pode dizer, no entanto, é que somente nas últimas décadas vem se
configurando como uma área especializada da filosofia, apesar de muitos
engenheiros, tecnólogos e cientistas insistirem que ela é dispensável para
seus propósitos. No entanto, esta mudança é incontestável e deve-se, sem
dúvida, à própria transformação experimentada pela ciência e pela
tecnologia — aliás, transformação devida àqueles mesmos que negam a
importância de uma análise não tão mecanicista sobre suas criações — e ao
destaque que adquiriram no mundo atual.
A transformação retumbante iniciou-se com a Revolução Industrial nos
séculos XVIII e XIX. A partir daí, graças principalmente ao modelo capitalista e
à alta dependência da produtividade industrial, a influência da técnica foi
decisiva no comportamento social. Hoje em dia este aspecto, guardada a
devida proporção, é talvez mais exacerbado em função da velocidade com
que a tecnologia toma conta de nossas vidas. É a eletrônica, a informática, os
projetos genéticos que podem mudar completamente a civilização humana,
os novos materiais, a tecnologia nuclear, enfim toda sorte de artefatos que
nos fazem dependentes e usuários de maravilhas que muitas vezes nos tiram
a racionalidade da análise de seus resultados. Dentre estas preocupações, os
traços que mais influenciam no aparecimento de uma 'filosofia tecnológica'
sem dúvida são os relacionados com o sistema cultural de nossos tempos,
sua indiscutível vinculação ao conhecimento científico, sua forte potência de
transformação da realidade, e a forma aparentemente autônoma e
imperativa de seu acelerado ritmo de desenvolvimento.
3.7 APOSTANDO NO PROCESSO EDUCATIVO
O cientista e o usuário desta ciência que a transforma em tecnologia
— podemos incluir aqui o professor de engenharia ou o pesquisador
engenheiro — começam a sofrer rechaços da opinião pública dado o seu
posicionamento equivocado em fingir que seus trabalhos, de alguma forma,
são independentes do resto de suas vidas. Este posicionamento tem lhes
trazido uma espécie de hostilidade do público geral, em decorrência de suas
próprias faltas. Nós, professores, engenheiros, tecnólogos e cientistas,
deixamos a cargo de uma imprensa não especializada a conscientização dos
resultados positivos e negativos desta ciência que não raro, através de
sensacionalismo, trata a questão de forma equivocada.
Esta interferência indubitável começa a atingir a nossa vida familiar e os
processos educacionais com uma intensidade nunca antes vista. Nossos
filhos, animados pelo uso de todas as grandes realizações e confortos, dos
quais nós pais e avós somos os mentores, tornam-se indefesos quais crianças
que se vissem de um momento para outro enfrentando a dura realidade de
um mundo cada vez mais agressivo em constante mutação para o
desconhecido. Sentimos a necessidade inadiável de criar ambiente para que
os problemas com os quais eles se defrontarão sejam estudados, refletidos e,
quem sabe, resolvidos. Apresenta-se-nos cada vez mais claro que as
questões educacionais devem procurar perder o excesso de paternalismo
com que 'cuidam' desta juventude. Passa despercebido, em função das
inúmeras atribuições que a vida moderna nos incute, que a escola, para
cumprir seus ditames formais, força os alunos a exercerem atividades
bastantes para ocupar-lhes toda a semana de trabalhos rotineiros, castrando
sua capacidade de criar e refletir.
Simplesmente (agora numa reflexão de ordem pedagógica) na qualidade de
professores nos julgamos muito mais capazes de observar, corrigir e refletir
por eles e medir o aprendizado através mais de exercícios de repetição do
que de qualquer outra atividade abstrata que lhes desenvolva o raciocínio.
Parece-nos mais fácil e mais seguro, só que, em vista de todas as revoluções
e mutabilidades sobre as quais venho alertando até aqui, sob tais condições
estaremos pondo em risco a oportunidade para progredir e também a
própria possibilidade da construção de conhecimentos, tornando impossível
uma mudança nesta característica cultural que se arrasta há tanto tempo.
Se não queremos que esta relação de aprendizado de ciência e tecnologia se
perpetue, carregando consigo os medos, os ufanismos e o desconhecimento,
não podemos alimentar o conformismo, a ponto de não permitirmos que os
estudantes estruturem seriamente uma nova idéia e não busquem sempre
novas reflexões. Temos que discutir a possibilidade de no início nem sempre
compreendermos aquilo que queremos fazer. De não sabermos como
devemos fazê-lo. O caminho que conduz ao aprendizado inclui sucessivos
erros. A precisão e a ordem vêm depois. Devemos usar a dúvida como uma
ferramenta importante e não como uma mazela que deve ser prontamente
extirpada do processo construtivo do aprendizado. É comum, entre nós
professores, querer poupar os estudantes de reflexões críticas, concedendo-
lhes com isso mais tempo para tarefas mais 'relevantes' na formação do
engenheiro. Tal postura é imensamente cerceadora da liberdade do
pensamento que vai, inclusive, refletir na própria formação mecanicista que
tanto está consumindo a criatividade de nossos alunos. Procuramos usar com
eles um 'código' de comunicação que facilite a sua tarefa de 'não precisar
pensar'. Fourez trata muito bem deste assunto quando separa estes códigos
entre restrito e elaborado nesta citação:
“Consideremos como a noção de ‘ciência’ é utilizada no código restrito e no
código elaborado. O código restrito é aquele utilizado na maior parte dos
cursos de ciências [também o é nos cursos de engenharia]. Supõe-se saber do
que se fala, e não se exige reflexão ulterior. Porém, caso se procure fazer uma
idéia do que seja ‘em definitivo’ a ciência, isto é, dar uma interpretação que
faça ‘sentido’ para nós, a tarefa se faz mais complexa. Todas estas
interpretações não são equivalentes. Nesse nível interpretatório, a noção que
se tem da ciência será ligada, graças a uma linguagem elaborada, a outros
conceitos, tais como a felicidade dos humanos, o progresso, a verdade etc.
Essa linguagem elaborada — essa filosofia da ciência — permitirá uma
interpretação daquilo que a linguagem restrita diz a respeito da ciência. Além
disso, a palavra ‘ciência’ pode por vezes ‘aprisionar’, por exemplo, quando
alguns passam a impressão de que, uma vez que se falou de cientificidade,
não há nada mais a fazer senão se submeter a ela, sem dizer ou pensar mais
nada a respeito. Um filósofo ‘crítico’ ou ‘emancipatório’ da ciência procurará
portanto compreender como e por que as ideologias da cientificidade podem
mascarar interesses de sociedade diversos” (Fourez, 1995, p. 21).
São estas preocupações que têm levado alguns cientistas e profissionais
ligados ao ensino de ciência e tecnologia — eu aqui me incluo com este
trabalho — a desempenhar um papel ativo na busca de tornar públicas estas
questões que influenciam nossa vida. Porém, muitos continuam com suas
posições imutáveis, pensando e falando como antes, incapazes de
compreender as circunstâncias — na grande maioria não por
desconhecimento, mas sim por vontade própria, para poder usufruir de certos
privilégios que esta postura proporciona — radicalmente mudadas, nas quais
prosseguem com sua profissão. Por que será que alguns professores e
cientistas não se conformam com estas mudanças e não acrescentam a esta
realidade outras ferramentas que tanto contribuiriam na sua própria atuação
junto aos seus alunos e à sociedade? Será que é a sua posição dogmática do
infalível que estará caindo por terra? Querem continuar como 'mágicos' na
busca de 'repassar' conhecimentos que fatalmente levarão ao maior conforto
humano independentemente de a quem estão servindo?
Bernard Dixon já detectava há vinte anos, com muita propriedade, este
problema de intocabilidade de certos profissionais nas suas atuações e que
se mantém, em muitos casos, até hoje:
“De repente os cientistas estão sendo analisados. Enquanto os artistas
profissionais — poetas, pintores e compositores — prosseguem seu trabalho
numa posição social segura — se bem que mal paga; enquanto encanadores
continuam a consertar encanamentos; enquanto médicos continuam a curar
doenças, os cientistas enfrentam dúvidas crescentes quanto a seu papel na
sociedade. Não sabemos ao certo se gostamos da nossa civilização
tecnocrata, e duvidamos se queremos mais e melhores engenhocas e teorias
mais brilhantes que nos levem adiante na mesma estrada. O que quer que
possa acontecer no futuro, continuaremos a precisar da ciência e dos
cientistas, nem que seja só para resolvermos os problemas que eles criaram.
Mas, no momento, os cientistas passam por uma menopausa coletiva,
acometidos de ansiedade sobre como sair dela. Alguns sairão ilesos, e até
rejuvenescidos do processo. Outros não” (Dixon, 1976, p. 8).
Esta citação mostra que o problema não é novo. Para nós talvez seja, pois
nossas escolas que trabalham na formação dos futuros profissionais que
atuarão neste campo nem sequer produzem discussões que possam trazer à
tona semelhantes preocupações. Estamos no final dos anos 90. E este
problema não está só ligado a nós professores que lidamos com tecnologia.
O 'outro lado' — os humanistas, os filósofos da ciência, os sociólogos... —,
que nas críticas dos tecnologistas só fica a procurar as mazelas da ciência e
da tecnologia, também não atacou a fundo semelhantes questões. Enquanto
bisbilhotavam alegremente os outros aspectos da sociedade — ainda que
importantes — relutavam em examinar os efeitos e as conseqüências da
ciência e da tecnologia na mutação social do ser humano. Dixon volta à carga
quando comenta este aspecto, agora ligado aos sociólogos e quem sabe aos
filósofos e historiadores:
“Algumas das razões — para não se preocuparem com a ciência — são muito
claras — sua complexidade intimidadora e seu jargão, o sabor irreal e
sufocadamente intelectual da disciplina acadêmica conhecida como ‘filosofia
da ciência’, e a exclusão patológica do conteúdo real dos assuntos científicos
de publicações e periódicos especializados. Mas, a negligência dos sociólogos
a esse respeito continua sendo uma omissão surpreendente e lastimável”
(Dixon, 1976, p. 8).
Parece ser, agora, uma preocupação mais sólida a discussão sobre estes
aspectos. Aqui encontramos vários autores — que estarão seguidamente
citados ao longo deste ensaio — que nos dão subsídios para análises bem
sedimentadas sobre a inclusão destes assuntos dentro das academias que
lidam com o ensino tecnológico. Morin, Sanmartín, Schatzman, Postman,
Holton, Fourez, Prigogine, Pacey, Winner, Luján e outros possibilitam este
tipo de estudo. O tempo em que vivemos aparentemente nos propicia um
ambiente favorável para atacarmos estes problemas e preocupações.
Precisamos aproveitar esta possibilidade, agora que a unanimidade sobre os
resultados da ciência e da tecnologia como apenas bons resultados para os
seres humanos findou.
A existência desta nova concepção e desta atuação crescente em direção aos
problemas gerados pelo ressentimento compreensível de que foi permitida à
comunidade científica uma autonomia de vôo exacerbada, em que os
cidadãos tiveram pouca ou nenhuma influência, está proporcionando
discussões mais abertas, mais críticas e mais conscientes. Elas devem frear
esta conduta internalista e, por outro lado, analisar com mais propriedade as
suas conseqüências externas. Este procedimento poderá realmente
contribuir para um desenvolvimento científico-tecnológico imbricado ao
desenvolvimento de toda a sociedade. Como um importante começo nesta
mudança de cultura, ainda fortemente presente em nossa civilização,
precisamos, de certa maneira, no ensino tecnológico, além da adoção de
uma nova abordagem epistemológica, levar em consideração outros
aspectos fundamentais. Para isso a educação nas escolas de engenharia não
pode pensar apenas em ‘equipar’ os estudantes com conhecimentos e
habilidades para que eles 'consigam' empregos na sua vida de adulto. Ela
precisa muito mais: precisa tornar os jovens criativos e críticos em relação às
realizações da ciência e da tecnologia que, em inúmeras situações, eles
próprios ajudaram a criar; precisa ajudá-los a pensar com respeito às
aspirações de seus colegas e de todos os cidadãos; precisa torná-los
cuidadosos com a sua saúde — hoje fortemente dependente de muitos
resultados tecnológicos — e, acima de tudo, precisa levá-los a pensar, num
processo coletivo, nos resultados e conseqüências dos artefatos científico-
tecnológicos. A educação deve, sobretudo, apontar na direção do
pensamento crítico da riqueza dos valores culturais e das dimensões morais
e espirituais da vida. Ela precisa ser levada a todos os jovens, com estes
pressupostos, independente de sua bagagem de conhecimento, sexo, credo,
raça ou cor.