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NODESTE 1817

Problemas metodológicos: o estudo da história da mentalidade nordestina do século


XIX esbarra em alguns obstáculos de difícil superação
I. Caracterização da sociedade
Como era aquela sociedade? Tipo estamental-escravista
Logo, não é possível aplicar para a compreensão da insurreição de 1817 o esquema
explicativo (modelo) “luta de classes”, porque a sociedade não era de classes.
Também não há consciência de classe, no sentido de lukacs
—Devem-se eliminar explicações simplistas (luta de classes é válido para mesma
época, onde ocorreram revoluções burguesas)

Método a ser utilizado: nível das consciências


Privilegia-se o universo rústico, interferências de ideias e valores europeus no
Nordeste
Primeiro não há como simplificar as realidades sociais e mentais que fornecerem a
trama singular da insurreição de 1817, não se pode atribuir a este ou aquele fator unicamente.
Se na prática, insurreição de 6 de março beneficiaria o setor social lastreado pela
grande sociedade, não se pode inferir daí que sempre houve atenção dos elementos dessa
categoria tinham consciência plena das metas a serem alcançadas.
Segundo, não havia unanimidade de opiniões entre os insurgentes de 1817 quanto os
alvos a serem atingidos.
Além disso, apelo ao setor escravizado provocou retração dos insurgentes mais
opulentos.
Não se pode simplificar universo social nordestino como estruturado apenas por
senhores e escravos, no período há:
I. “caboclos” que desempenham papel relevante.
Eles não eram nem senhores nem escravos, engrossavam a camada dos homens
pobres. (não se integram ao conjunto dos homens livres, muitos permaneciam em
dependência de grandes proprietários).
II. “os cabras da revolução”. Já se constituem categoria imponderável. Interferem no
processo através de ação direta ou através dos seus “cabos de escolta” Nem sempre
eram mulatos. Muitos são pretos e escravos aforriados nos meses da insurreição.
O engrossamento dessa categoria intermediária com as medidas de alforria
certamente pesou no processo insurrecional
LIDERANÇA DO MOVIMENTO: Permaneceu nas mãos da aristocracia rural– único
setor da sociedade em condições de diagnosticar os processos em curso, articular o
movimento e tentar sua difusão.

Não havia consciência límpida


Engana-se quem pena que a sociedade que produziu os eventos revolucionários de
marco e abril de 1817 possuia límpida consciência do tempo vivido. Grande maioria da
população não tinha recursos – intelectuais e materiais para entender a participar de maneira
consciente.

Em suma: ingredientes do mundo sertanejo e da cultura europeia se mesclaram nos


processos mentais.

Uso de termos ou expressões da época da revolução.


QUANTITATIVO:

Dimensionamento relativo aos “estados mentais” – estudo de termos ou expressões –


fornecem pistas das maneiras de especular dos homens de 1817
Não apenas quantificar o uso de um termo-chave que é “classe”, mas sim delimitando
os contextos sociais em que ocorreram
Uso cada vez mais constante do termo “classe” – viragem mental que acompanhou o
processo de descolonização no Brasil

DO USO QUANTITATIVO PASSA-SE AO QUALITATIVO


Uma vez determinado, verificar os “usos” e “sentidos” da palavra classe – delimitar
sempre que possível os contextos sociais- formas de pensamento que aparecem tais conceitos

Consciência social- pautando-se no universo do trabalho “universo do trabalho é que


se localizava a determinação ultima da consciência social nordestina em 1817”
Frequencia de termos como classe, revolução, política, sociedade é indicativa de
modificações- modificações expressivas no plano da consciência brasil
Método qualitativo: mais viável para períodos que não dispõem de séries documentais
completas – caso da História do Brasil. Revela realidades poucos tangíveis: estilo rústico. Que
por certo escapariam a técnicas quantitativas.
Dificuldades: grande parte do acervo documental provem de fontes oficiais – agentes da
repressão – regime absolutista. Há triagem que condiciona o tipo de informação disponível.
Exemplo: críticas ao Rei – nunca, ou quase nunca são explicitadas nos documentos da devassa
Textos oficiais: revelam necessidade da manutenção do sistema.

PROCURA DA ORDEM PERDIDA: revolucionários e homens do sistema prezam pela busca do


equilíbrio social, estão a procura da ordem perdida.
Acirramento levava ambos a reequacionar e redefinir posições.

Revolucionários:pensam em termos de “regeneração”


Agentes liberais da Coroa – não deixavam de reconhecer mazelas da política errada.
Tranformações após a Chegada da Corte, definidas mais claramente após chegada da Corte
levaram a ajustamentos mais claramente na época da Revolução de 1817.

Ajustamentos mais claros: propriedade, organização militar, organização do trabalho (negros,


indígenas e “vadios”), tributação, e comportamento religioso.

Liberdade do sistema era erigida pelos revolucionários – propriedade, descolonização e


“liberalidade” – trinômio definidor da Revolução de 1817.

Transformações estruturais e semânticas exigem reorganização do poder.

 Reajuste das hierarquias militares, para enfrentar os problemas emergentes e definir a


nova ordem social. Porém setor militar não era homogêneo e isento das agruras
sociais.

Queixas se sucediam ininterruptamente- certos revolucionários almejavam quadros altos antes


mesmo de terem sido soldados – setor militar servia de canal de ascensão rápida.

Havia preocupação do contágio revolucionário. Arouche escreve ao Conde de Palma


lembrando da necessidade de marcharem os soldados debaixo do comando de seus oficiais,
nunca adidos a tropa de linha.

DETER DESOCUPADOS

Tentativa de ajustamento no processo produtivo. Detidos aqueles elementos que em qualquer


parte forem achados sem ocupação permanente. Reajustar o sistema a sua feição, essa era a
meta da aristocracia rural.

Pág. 98- Colonizador absolutista “enquanto os ânimos não estiverem em toda a


quietação, será sempre útil conservar dois batalhões a mais europeus para contrabalancear a
tropa da terra”

No processo de descolonização haviam antagonismos, as soluções preconizadas pelo


representante da coroa eram de natureza militar e estreitamente recolonizadoras.
ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA NÃO ERA INTERESSANTE PARA MILITARES:

-desorganizaria produção

-constituiriam nova força

O sistema ficaria dupplamente enfrquecido e a beira de uma radical mudança. Tentativas


radicais de abolição da escravatura não vingaram, pois bases em que se assentava a economia
brasileira continuavam amplamente apoiadas no modo de produção escravista.

PROBLEMA DA ESCRAVIDÃO

Revolução de 1817 deve ser entendida como um movimento de proprietários rurais que
incluíam em suas posses ponderável número de escravos. Posse de escravos era requisito para
a revolução.

Incitamentos à escravaria acabavam quebrando a unidade de grandes proprietários revoltados


e favorecendo a contra-revolução.

Perigos de “enchente escrava” continuavam provocando as maiores intranqüilidades nas


lideranças revolucionárias.

Papel dos pretos na revolução não pode ser superestimado. Havia falta de consciência de
interesses e dispersão da economia nordestina. Em suma, sem condições materiais para
articulação de movimento maior.

TRIBUTAÇÃO

Certamente é no campo da tributação que se poderá notar o caráter descolonizador das


medidas revolucionárias. Lideranças colocam “economia pública” como fonte das mazelas do
país.

Exemplo: Alvará de 20 de outubro de 1812 atingia largos setores da população, aumentava


sobremaneira o preço da carne.

No 4º dia do Gorverno Provisório pernambucano – lançou proclamação a respeito no quarto,


os tributos não tinham outra tendência mais do que o encarecer sobremaneira um gênero de
primeira necessidade, e extorvar a criação de gados.

TRIBUTOS AFETAM DE MANEIRA DESIGUAL SOCIEDADE

Na mesma proclamação: abolição total dos tributos que tornavam “desigual a sorte dos
habitantes do país”. Mudança notória de consciência no Brasil, não mais pensam sociedade
como bloco homogêneo.

Ajustamento: âmbito da Igreja e da religião. Representantes mais autorizados da Igreja católica


no Nordeste passaram a atuar em sentido conciliatório, tentando moderar choques entre
brasileiros e europeus. Vinculações ente patriotismo e religiosidade se misturavam.
Atitude moderada representada por aqueles que valorizavam os comportamentos que
deveriam harmonizar brasileiros e europeus. Continuidade racial a ser preservada num
momento entendido como de “regeneração”. Caráter racista do sistema permanecia.

Subscritores da proclamação: quem contava efetivamente no universo social era a espécie


branca, toda européia ou descendente de europeus. Às cúpulas da Igreja interessava
permanência da oredem que se assentava a colonização. Porém, havia tentativas de ajuste –
“temperar os antagonismos gerados pela diferença de natalício em nome da fraternidade de
todos os homens (independente de pátria, religião e profissão) que aqui habitam ou vierem a
habitar.

Pág 104- “As tentativas de ajustamento em diversos níveis demonstram amplamente o quanto
estavam abaladas as estruturas do sistema colonial.”

Estudo de vocabulário.

NOVOS USOS DE VELHAS PALAVRAS: A NOÇÃO DE “CLASSE”

Conceito-chave: palavra “classe” – merecem particular atenção no estudo do vocabulário dos


homens que fizeram ou viveram a descolonização portuguesa no Brasil.

Se compararmos a movimentos que antecederam Independência de 1822 – Inconfidência


Mineira de 1789 e Revolução Nordestina de 1817 – ponderável aumento na utilização.

Pág. 105. Para além da mudança quantitativa, entretanto, importa indicar uma outra
modificação no universo mental brasileiro:

novos sentidos – entre eles, o de camada social – vão sendo veiculados através de tal palavra,
constituindo nova maneira de entender as relações entre os homens e os grupos sociais, e
acelerando o processo de viragem mental que anuncia a fase nacional de nossa história.

LIMITES DA CONSCIENCIA SOCIAL: O MUNDO DO TRABALHO

Quadro crítico que se esboçara no mundo luso-brasileiro em 1817 – aristocracia rural


nordestina procurava assumir o poder. Duas contradições:

I) tensões entre colonizadores e colonizados (negociantes portugueses versus


grandes proprietários rurais)
II) estrutura social interna – antagonismos sociais se polarizavam em torno de duas
categorias básicas do modo de produção – grandes proprietários e escravos

Não havia consciência de classe nos dirigentes da revolução também.

A camada que se propunha dirigente estava longe de se caracterizar pela coesão interna, ou
pela unidade de propósitos - não se pode falar numa consciência de classe.

A questão central para a compreensão da natureza da revolução e da consciência social


nordestina reside no problema da escravidão.
Principal problema enfrentado pelas elites dirigentes – medo de “enchente escrava” – perigo
da desorganização do modo de produção

Pág 143. “No mundo do trabalho é que se encontra a determinação última da consciência
social nordestina e em certa medida, brasileira, em 1817”

Elemento dominante era composto pela escravaria.


Porém, não se pode situar a raiz dos conflitos apenas nos segmentos de onde havia mão de
obra escrava. Outros setores também havia constestação a ordem estabelecida – parcela da
população livre: mulatos, pretos forros, índios e até mesmo militares de baixa estração.

Questão: em que medida se pode definir insurreição de 1817 como movimento popular?
Processo revolucionário envolveu baixas camadas da população então não se pode definir
como movimento exclusivo das oligarquias contra estruturas político-jurídicas legadas pelo
sistema colonial.
Movimento assumiu aspecto mestiço e popular em certas regiões nordestinas
1- Núcleos como a Vila do Pilar “povo” participou de atos sediciosos
2- Resistência de Itabaiana – participação de índios e mulatos
3- Resistência da passagem de Bacuara

Antieuropeismo: “ódio geral, antigo e estranhável dos filhos do Brasil contra os europeus” –
consubstanciado na ideia de propriedade – “direitos de propriedade orientava revolucionários
tendo como referência sucesso obtivo na restauração contra holandeses.

Porém, repressão absolutista atingirá apenas lideranças capazes de liderar as massas.

“Num momento de seca e de opressão tributária, conseguiram as lideranças articular


temporariamente as massas. Realizada a repressão, verificam-se com nitidez as diferenças de
perspectiva que caracterizavam as elites proprietárias e a massa.

Portanto, pág 145. Caráter popular da inssureição deve sedr indicado em sua dupla
manifestação: antieuropéia e, apís a repressão, antiaristocrática.”

Problema da mão de obra excedente: mão de obra não-integrada no processo produtivo era
uma fratura no sistema, gerava grupos de opinião que não coadunavam com princípios do
regime.

Problemas que tiveram origem no mundo do trabalho – comportamentos da ampla camada


social composta pela escravaria.

Problema de fontes: poucos são os vestígios que permitem o estudo do comportamento de


escravos. Não deixaram traços marcantes nem documentos escritos – logo, tipos de
consciência só podem ser captados e estudados indiretamente – assim, é impossível recompor
o universo mental – dá para indicar alguns tipos de comportamento ocorrentes no momento
de descolonização
Contudo, como a estabilidade do sistema dependia do mundo do trabalho, as impressões
deixadas pelas camadas dominantes é suficiente. A revolução era liderada por proprietários, e
os proprietários nordestinos incluíam entre seus bens a escravaria.

Outra questão: Escravaria estava inquieta no período de descolonização?

Na pág. 148 um ofício de Caetano Pinto de Miranda Montenegro de 13 de agosto de 1814 ao


Marquês de Aguia mostra a tensão existente nas relações sociais de produção. Levante
premeditado para o dia do Espírito Santo – provocou medidas excepcionais por autoridades do
sistema. Caetano Pinto tomou medidas pra tranqüiliza-los – pronto castigo caso meditassm
alguma coisa.

Movimento de 1817 adquire expressividade, se comparado com revoluções francesas de 1830


e 1848 uma vez que insurgentes detiveram o poder – seis anos antes da independência –
durante 74 dias.

HAVIA MEDO DA PARTICIPAÇÃO DE ESCRAVOS

O apelo a participação dos pretos, no início foi decisiva para abafar qualquer tentativa de
contra-inssureição.

Ideia que população do Recife participacva do conflito, fornecendo cerca de 3000 homens em
armas “de todas as cores”.

Participação de escravos pesou positivamente para desencorajar tentativas de contra-


revolução.

TAMBÉM MEDO DA DESORGANIZAÇÃO DO MUNDO DO TRABALHO

Porém, havia medo da desorganização do mundo do trabalho que atingiu também a camada
proprietária insurgente. Reação das elites – medo de modificação radical no regime de
trabalho e, portanto na propriedade.

 Fugas de escravos, sempre presentes tornaram-se inquietantes

Pág 151: “escravo que escapou” – medo de perderem a propriedade – “cada um escondia seus
escravos como podia”

Pág. 152. A crise do Antigo Regime no lado brasileiro do mundo luso-brasileiro não implicava
na desorganização do modo de produção que se estabelecera no correr dos três séculos de
colonização. A única alteração que se propunha a camada dirigente nordestina situava-se no
nível dos setores dominantes, no plano político. E os conflitos básicos envolviam a
propriedade, aí incluídos os escravos: na perspectiva dos grandes proprietários rurais, com
raríssimas exceções, os escravos permaneciam objetos e não sujeitos.”

RESPOSTA DA PERGUNTA:

Tanto na perspectiva da revolução, bem como na da contra-revolução, a permanência da


organização do trabalho escravo era, pois, uma necessidade por assim dizer estrutural.
Descolonização implicava no fortalecimento dos grandes proprietários rurais = fortalecimento
das relações de dominação. Repressão implicava na revitalização das estruturas de dominação
colonial, dominação colonial = manutenção da sociedade escravocrata.

Contradições entre os dois subgrupos operaram ao longo dos meses revolucionários de março
e abril de 1817.

Escravismo e liberalismo foram obrigados a se reajustar.

Governo Provisório foi obrigado a explicitar sua posição em relação a liberdade dos escravos.

Pág 154. Permite observar que as lideranças de 1817 já se pensavam num momento liberal, ou
seja, numa revolução liberal. Propugnava a colocação na prática do princípio de igualdade – o
que equacionava a questão não apenas em termos sociais, como na França, mas também
raciais.

Porém propugnava pela “inviolabilidade de qualquer espécie de propriedade.

Revolução liberal chocava-se com princípio de igualdade: liberdade sim, igualdade, em termos
restritos, circunscrita aos proprietários.

Somos obrigados a denominar fenômeno 1871 como momento insurrecional das elites
coloniais.

“ver tão longínqua uma época tão interessante” – oligarquia nordestina, mais progressista e
radical tomava consciência do penso das estruturas, mas ao esbarrar nelas recuava,
moderando o discurso.

Na base das soluções – embora divergissem, revolucionários e agentes do regime absolutista


encaminhara, soluções para mesma direção: abolição gradual.

Abolição repentina seria catastrófica, pois país precisa muito de braços. Abolição gradual
poderia satisfazer pressão européia antiescravista, e favorecer aumento da população branca.

Medida sugerida ao rei, da abolição gradual, era liberalizante e racista.

Em suma, três tendências na época da insurreição.

1. Revolucionária – embora minoritária, era composta pelos elementos mais radicais-


queriam liberdade dos escravos
2. Majoritária, grandes proprietários rurais, não aceitavam revolução na organização do
trabalho.
3. Reformista. Conciliação entre duas primeiras – abolição apenas a longo prazo

A curto prazo, apenas a segunda realizou-se historicamente, - escravidão era necessidade


estrutural para emancipação dos grandes proprietários rurais. Em suma, houve abalo mas não
revolução na estrutura da sociedade estamental-escravocrata.