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Sumário

Prefácio - Rumor das ruas, clamor das instituições - Sérgio Adorno ............................... 3
Agradecimentos ................................................................................................................ 6
Introdução ......................................................................................................................... 8
I. Das “Rebeliões” na Infância e na Juventude............................................................... 13
1. Dos adolescentes infratores como uma via de pesquisa ...................................... 20
2. Do modo de realização da pesquisa..................................................................... 26
2.1. A estratégia documental ............................................................................... 27
1.2 A estratégia dos depoimentos orais .............................................................. 29
A pesquisa no Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente .......... 37
II. Inventário de Rebeliões.............................................................................................. 39
1. O corpo como prova ou a rebelião como dispositivo de fala .............................. 39
O caso Maguila........................................................................................................ 42
2. Rebelião-justiçamento ......................................................................................... 49
Rebelião como reação à violência institucional ...................................................... 50
Rebelião como reequilíbrio de forças...................................................................... 57
3. Condenados à rebelião... ...................................................................................... 59
Reações adversas ..................................................................................................... 60
4. Rebelião-indiciada... rebelião criminalizada ....................................................... 63
O caso UE-13 .......................................................................................................... 63
5. Rebelião: ponto-limite... ...................................................................................... 73
Rebelião como choque liberal ................................................................................. 75
6. Rebelião: uma (in)certa política... ....................................................................... 77
7. Rebelião-“suprendimento” .................................................................................. 85
O caso Imigrantes .................................................................................................... 87
8. Da exterioridade à implosão: “o seguro”........................................................... 110
O caso “Moji-Mirim” ............................................................................................ 117
Condenados à rebelião e contra-legal: por um direito novo.................................. 124
Inversão argumentativa ......................................................................................... 126
9. Corpos em rebelião ............................................................................................ 128
A “vida nua” .......................................................................................................... 133
Voltemos ao paradoxo...: condenados à rebelião! ................................................. 136
III. “Não Nasci para Semente”: o Hiper-realismo como Modo de Subjetivação ........ 140
1. A tematização da juventude “infratora”: o paradoxo da insubmissão ............... 141
O dilema do decente malandro .............................................................................. 141
A rebelião da pobreza e a “orfandade política”..................................................... 142
O paradoxo moral dos adolescentes em conflito com a lei ................................... 144
A “criminalização” da infância e da juventude e os mecanismos de resistência .. 146
O ato infracional como busca exacerbada de autonomia ...................................... 149
Intensificar o paradoxo .......................................................................................... 151
2. Não nasci para semente: uma estratégia hiper-realista ...................................... 154
Uma “verdade-arma”: projeção de si mesmo na mais audaciosa das vidas... ....... 159
O caso Meia-Lua ................................................................................................... 162
“Pegar uma criança” .............................................................................................. 174
3. Podemos falar em rebeliões da juventude?........................................................ 176
Um sobrevôo pelas questões da rebeldia............................................................... 178
Considerações finais ................................................................................................. 187
Apêndice 1 - De revoltas e rebeliões: uma problemática conceitual .................... 190
Apêndice 2 - Resistência e sublevação: as contribuições de Foucault .................. 200
Apêndice 3 - A desobediência civil: uma questão de direito? .............................. 210
Anexo 1 – Cronologia ............................................................................................... 214
Algumas observações finais .................................................................................. 226
Anexo 2 – Glossário ................................................................................................. 229
Anexo 3-Glossário técnico........................................................................................ 233
Micropolítica/desterritorizalização/linha de fuga.................................................. 233
Subjetivação/singularização .................................................................................. 234
Implicação ............................................................................................................. 235
Bibliografia ............................................................................................................... 237
Prefácio - Rumor das ruas, clamor das instituições - Sérgio Adorno

Este livro trata de nossa contemporaneidade, de nossas incertezas e vacilações,


da ausência de horizontes futuros, da falência das utopias, enfim do final de uma era em
que se apostava no progresso da razão, da liberdade e da felicidade humana. A violência
nas suas múltiplas dimensões e alcances – do conflito entre nações ao conflito
intersubjetivo, que preenche de vazio a ausência de sentido da vida cotidiana – se
encarregou de dissipar ilusões.

O livro não trata da violência em geral, mas de uma modalidade singular: as


rebeliões de jovens em conflito com as leis, tutelados pelo poder público nas chamadas
instituições de “bem-estar do menor”. O que significam? Formas particulares de desvio
e de transgressão às leis penais? Protestos coletivos contra as formas insidiosas de
dominação de classe? Desobediência civil contra as autoridades encarregadas de aplicar
lei e ordem? Ou formas vitais de recomposição do sentido da existência para aqueles
adolescentes que vivem nas estreitas fronteiras entre a vida e a morte?

Em seus escritos sobre violência, poder e democracia, a filósofa Hannah Arendt


reconheceu o papel e o alcance da desobediência civil na construção da vida
democrática e republicana norte-americana. Distinguindo esta modalidade de agir
político de outras ações como a dos objetores de consciência e a desobediência
criminosa, Arendt reputava aos movimentos de desobediência civil virtudes capazes não
apenas de pressionar por mudanças necessárias e inevitáveis, como também – e
sobretudo – a restauração do equilíbrio de poderes do governo, a recomposição da
autoridade responsável pelo cumprimento das leis, a garantia de que os cidadãos
continuariam a gozar do direito a ter direitos. Ao mesmo tempo, examinando três ordens
de desobediência civil presentes na sociedade norteamericana entre as décadas de 1950
e 1970 – o movimento pela defesa dos direitos civis pela igualdade racial, o movimento
estudantil e a resistência contra a Guerra do Vietnã – Arendt manifestou inquietação
com a entrada da violência no cenário da desobediência civil, ou, em suas próprias
palavras: “quando uma associação já não é mais capaz ou não mais deseja unir ´em um
só canal os esforços de mentes divergentes (Tocqueville), perdeu seu talento para a
ação”.1

1
Arendt, H. Da desobediência civil. In: Crises da República. São Paulo: Perspectiva, 1973, p. 86.
Sob a perspectiva arendtiana, o que dizer então das rebeliões na Febem? Este
livro, fundado em rigorosa pesquisa documental e de coleta de depoimentos orais junto
aos principais protagonistas desses acontecimentos, busca problematizar essa leitura.
Rebeliões na FEBEM consistem em uma estranha mélange de desobediência civil e de
desobediência criminosa; paradoxalmente, os jovens em conflito com as leis – e
portanto, através das mediações do mundo do crime e do controle social – reivindicam
na forma extrema da violência, que inclui mortes, agressões e depredação de patrimônio
público, o direito a ter direitos – isto é, o direito à existência, ao reconhecimento, à
dignidade e à participação na vida coletiva, civil e pública. No seu esforço por decifrar a
significação desses acontecimentos singulares, o livro procura e logra libertá-los das
visões imediatas, impressionistas, preconceituosas que habitam o senso comum e até
mesmo o senso científico. Para além de simples expressão de delinqüência, uma sorte
de descida aos infernos – como se verá pela descrição densa das rebeliões na fala de
seus protagonistas principais (capítulo 3) – revela o que neles está em jogo: a resistência
contra a sujeição materializada nas relações tensas entre jovem, instituição e sociedade.

Não é fácil, nos limites de um prefácio, ressaltar todas as qualidades deste livro.
Há, de início, os méritos próprios do figurino acadêmico: formulação adequada do
problema de investigação, fundada em sólido tratamento teórico-metodológico, rigoroso
tratamento metodológico dos dados empiricamente levantados, análise cuidadosa e
criteriosa compulsando fontes e referências bibliográficas de forma a evitar exagerações
desnecessárias, em especial na abordagem de temas tão à flor da pele como o
envolvimento de adolescentes e jovens no mundo do crime e da delinqüência,
abordagens essas que, no mais das vezes, oscilam entre dois eixos: da responsabilização
moral e penal pela agressão à construção da vítima indefesa. Além da redação clara e
precisa , o respeito às formalidades e convenções acadêmicas igualmente enriquecem a
qualidade do texto.

Todavia, é sem dúvida a própria tese defendida no livro que constitui o maior
mérito. A construção do problema de investigação e do objeto propriamente dito tem
como ponto de partida as diferentes falas sobre crime, criminalidade, delinqüência
juvenil, rebeliões nas instituições de “bem-estar do menor”. Isto é, parte do rumor das
ruas para adentrar os labirintos da instituição FEBEM”. Ao cotejar diferentes falas e
identificar o silêncio dos protagonistas principais, a pesquisa procurou não apenas
percorrer a inconsistência dos discursos, porém, mais do que isto, ouvir a outra versão,
o ponto de vista dos jovens em conflito com a lei. É sob esta perspectiva metodológica
que foi possível à pesquisa perfilar caminhos teóricos alternativos, fundados, sobretudo,
nas leituras acuidadas de Foucault e de Guattari, que permitiram articular o circuito de
micro-poderes com as idéias de subjetivação e territorialização. Deste modo, a análise
recorta de modo transversal estruturas, atores e processos sociais; espaços e
temporalidades. Ao fazê-lo, deixa entrever uma tese que, se não constitui originalidade
teórica, sua ilustração empírica é em si mesmo uma contribuição: a tese segundo a qual
as rebeliões de jovens em conflito com a lei resultam da disjunção entre espaços e
temporalidades que jamais coincidem: o espaço institucional e o da resistência, o tempo
das agências de controle e de seus agentes com o tempo fugaz da delinqüência. É nesse
apertado campo de gravitação de forças que jovens em conflito com a lei vivem sua
experiência de hiper-realidade – a rebelião como subjetivação entre vida e morte, entre
utopia e limite, entre projeto e finitude.

Certamente, este livro trará enorme impacto ao debate acadêmico, notadamente


no campo dos estudos sobre adolescência e jovens em conflito com a lei. Sua tese
demonstra a necessidade de escapar de armadilhas simplistas que reputam a tais
acontecimentos causas como aumento da pobreza, maior agressividade dos jovens,
envolvimento precoce de adolescentes no mundo do crime, falência das instituições
como família e escola, crise das autoridades encarregadas de aplicar lei e ordem. Por
certo, tais fenômenos não deixam de estar presentes seja no rumor das ruas, seja no
clamor das instituições; são, porém, antes sintomas do que causas. Se é que possível
identificar causas, elas se encontram em níveis de profundidade e de densidade da vida
social que somente o olhar atento e bem informado de pesquisadores experientes são
capazes de auscultar.

Sérgio Adorno

Núcleo de Estudos da Violência


Para Paulo Vicentin, meu pai, que resistiu.

Agradecimentos

Este trabalho não se realizaria sem a força de um coletivo que reúne:

- o Meia-Lua, o Delei e os jovens internos na Febem-SP que, com suas vozes de


rebelião, forjaram o contra-discurso ao discurso da “delinqüência” que percorre toda
esta pesquisa;

- o Prof. Peter Pál Pelbart, que me orientou, legitimando as “insurreições” que esta
pesquisa precisou realizar e o Grupo de Orientação (por ele também coordenado) que
reúne pesquisadores do Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade do Pós-
graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP, que ancorou e problematizou o tema desta
pesquisa, ajudando a encontrar os mais potentes caminhos conceituais e metodológicos:
Paulo Sérgio de Carvalho, Felícia Knobloch, Maurício Lourenção Garcia, Edson Olivari
de Castro, Maria Cecília Galletti, Elizabeth Lima, Abrahão de Oliveira Santos, Luís
Eduardo P. Aragon, Damian Krauss, Erika Alvarez, Angela Adonini, Sérgio Vizzacaro,
Maita, Cristina Lopérgulo e Ana Paula Assírios;

- os professores Sérgio Adorno e Regina Benevides que, desde o exame de qualificação,


fizeram sugestões valiosas que permitiram que a pesquisa ganhasse maior amplitude; os
professores Glória Diógenes e Márcio Alves da Fonseca que na ocasião da defesa de
tese aportaram novas leituras; o professor Eduardo Passos, Regina (de novo!) e os
colegas do grupo Clínica Trans, sustentadores poderosos do pensamento micropolítico
de que se vale esse trabalho;

- os muitos parceiros e amigos, militantes da defesa e da promoção dos direitos da


infância e da juventude, vigorosas “redes” que alavancaram a pesquisa, em constantes
interlocuções comigo ou abrindo caminhos concretos para a sua realização: os
professores do Direito da Infância e da Juventude da PUC-SP - Claúdio Hortêncio
Costa, Eduardo Dias de Souza Ferreira e Martha Toledo de Machado- ; do Fórum da
Infância e da Juventude: o “trio” de promotores - Ebenezer Salgado, Suely Riviera e
Wilson Tafner -, a juíza coordenadora do Deij, Mônica de Souza Paukoski, e o defensor
público Flavio Américo Frasseto; a Comissão de Criança e Adolescente do Conselho
Regional de Psicologia (2000-2002): Maria de Lourdes Trassi Teixeira, Patrícia
Grandino, Stella Maris Chebli; o pesquisador Maurício Maia (com quem divido o gosto
pelas garimpagens de processos “raros” nos Cartórios); a equipe de educadores da Casa
10 (Cedeca Ipiranga): Bel, Lindalva, Ana, João, Fábio (que me conectaram ao Meia-Lua
e a uma das muitas juventudes desta cidade); a turma do “Olha o Menino”, jovens
estudantes e profissionais de Direito e de Psicologia; a turma do Mobiliza: Selma de
Souza Bastos, Carmen de Godoy Alvarez, Maria Luiza Sardenberg; aos colegas e ex-
colegas da Oficina de Idéias (com quem criei horizontes mais felizes para as crianças e
adolescentes): Adalberto Boletta, Cenise Monte Vicente, Simone Al-Behy André, Yara
Sayão e Willians Valentini; o Prof. Antonio Carlos Gomes da Costa, o Pde Agostinho
Duarte e o Pde Julio Lancelotti.

- os amigos de toda hora e todo o tempo, parceiros destas tantas lutas “inclusivas”:
Sílvia Esteves, Lilian Lubochinski, Leonel Braga, Maurício Porto, Tiche, Beto
Guerreiro, Cristina Seguin, Nil, Maggy Harisson, Mara Cardeal, Suely Pacífico, Liliana
Jalfen, Lis Basile, Deborah Sereno e Paulo Teixeira.

Por fim, agradeço:

- à Comissão de Ensino e Pesquisa da PUC-SP pela bolsa-capacitação docente, que


permitiu realizar parte desta pesquisa, à Fapesp pelo fundamental apoio na publicação,
ao Egon Rangel, Clesio Sabino e Antonio Lancetti, interlocutores fundamentais na
transformação da tese em livro.

- à minha família e a Marilene Felinto, pela força e alegria!


Introdução

O presente texto2 focaliza os modos de existência e de resistência de jovens infratores às


lógicas de poder presentes no “sistema Febem”3. O sistema Febem expressa hoje com
todo o vigor o que vem sendo apontado por vários estudiosos como o paradoxo
brasileiro: o do imbricamento de violência e democracia4. Paradoxo que poderíamos
traduzir na seguinte questão: como, a despeito das inúmeras conquistas no plano da
legislação (com o Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990), a Febem continua
sendo objeto de denúncias de tortura, maus-tratos e condições de internação cruéis,
desumanas e humilhantes afetando milhares de adolescentes?

Esses processos contraditórios de simultânea expansão e desrespeito aos direitos de


cidadania ou essa democracia disjuntiva5 evidenciam a enorme resistência à expansão
da democracia para novas dimensões da cultura brasileira, entre elas as relações sociais,
a vida cotidiana e o próprio corpo - objeto de intervenções e violências amplamente
toleradas.

Este paradoxo ganha extrema visibilidade na associação do processo de


redemocratização e das políticas de defesa dos direitos humanos com a escalada da
violência urbana e com a divulgação sensacionalista dos índices crescentes de
criminalidade. A ativa produção de medo e de alarmismo incita a população a exigir
mais rigor com os criminosos e a admitir os abusos da polícia (Caldeira, 2000). Outros
estudiosos (Pinheiro, 1984, 1991; Batista, 2002) também têm mostrado a passagem da
ideologia da segurança nacional e de seu aparato de tortura à ideologia de segurança
urbana com o direcionamento do arsenal de violência do estado para o controle,
encarceramento e até extermínio das camadas mais pauperizadas do país, vistas como
perigosas.

Esta tem sido a situação de diversos setores da juventude pobre, especialmente daqueles
“em conflito com a lei”, que são alvo sistemático da violação de direitos (maus-tratos e
torturas da polícia e das instituições de internação) e que constituem uma espécie de
paradigma analisador da situação geral da juventude brasileira. Um primeiro dado que
nos permite verificar essa relação é o elevado índice de mortes violentas na juventude:

2
Ele foi originalmente minha tese de doutoramento, elaborada no Programa de Estudos Pós-graduados
em Psicologia Clínica da PUC-SP (Núcleo de Estudos e Pesquisas da Subjetividade) sob orientação do
Prof. Peter Pál Pelbart e defendida em maio de 2002.
3
Endossamos a nomenclatura Sistema Febem (cf Rolim, 2001) para ressaltar a similaridade de
funcionamento presente em grande parte da política de atendimento aos adolescentes em conflito com a
lei em nosso país e as dificuldades de superação do modelo segregador-repressivo que estão na origem da
constituição da Fundação do Bem-Estar do Menor.
4
Paradoxo trabalhado por Tereza P. Caldeira em Cidade de Muros (2000), por Angelina Peralva, em
Violência e Democracia-o paradoxo brasileiro (1999) e por Adorno, Cardia e Pinheiro, em pesquisa do
Núcleo de Estudos da Violência: “Construção da democratização e continuidade autoritária” (1997).
5
Para T. Caldeira, a cidadania brasileira é disjuntiva porque, embora o Brasil seja uma democracia
política e embora os direitos sociais sejam razoavelmente legitimados, os aspectos civis da cidadania são
continuamente violados, como atestam as estatísticas sobre violência doméstica, escravidão e abusos de
crianças, homossexuais, mulheres e índios (2000, p. 343).
recente pesquisa da UNESCO revela que, no Brasil, entre 1991 e 2000, a taxa de
homicídios para a população em geral cresceu 29%, mas entre os jovens chegou a 48%.
O Brasil é o terceiro país em mortes violentas na juventude, atrás da Colômbia e da
Costa Rica (Waiselfisz, 2002). Pesquisa realizada pelo Núcleo de Estudos da Violência
da USP, que traça um perfil social dos jovens infratores e da participação dos jovens na
criminalidade urbana na cidade de São Paulo, no período de 1993-1996, se de um lado
chega à hipótese de um crescimento efetivo da criminalidade juvenil de tipo violento,
crescimento também verificado na literatura internacional, de outro lado alerta também
para a crescente vitimização desses segmentos: “em essência, na atualidade os jovens
são mais freqüentemente vítimas da violência” (Adorno, Lima e Bordini, 1999, p. 22).

Constrói-se socialmente, entretanto, uma imputação sistemática da violência à


juventude, a qual incide não só sobre os jovens infratores, mas também sobre os
movimentos juvenis populares, crescentemente estigmatizados, condenados à
invisibilidade ou reduzidos à imagem ameaçadora do crime e da delinqüência, como é o
caso dos bailes funk ou do rap (Arce, 1999; Herschmann, 2000).

Sem respostas sociais viáveis para suas inquietudes ou reivindicações, os jovens pobres
têm sinalizado uma não-aceitação dos processos de rejeição, estigmas e violência a que
estão submetidos, produzindo muitas vezes movimentos de encurtamento da distância
entre a formalidade dos direitos de cidadania e a prática desses direitos, encurtamento
que desestabiliza muitas vezes a fronteira entre violência e protesto, entre delinqüência
e revolta. Assim, a conflitualidade urbana contemporânea, protagonizada fortemente
pela juventude, dá sinais de operar em diferentes dimensões: como protesto, como
revolta, como estratégia de sobrevivência e como estratégia de individuação. Nesse
contexto, conflito e criminalidade, violência e protesto compõem, muitas vezes,
fronteiras indiscerníveis.

A cartografia dessas fronteiras constituiu grande parte do interesse dessa pesquisa e as


rebeliões protagonizadas por internos da Febem-SP, especialmente as ocorridas no
período 1999-2000, foram o material privilegiado para a análise dessa
“indiscernibilidade”, seja nos seus impasses, seja na sua potência de transformação. 6

Se grande parte da história da infância e da juventude brasileiras, consolidada até o


momento, conta-nos fundamentalmente dos dispositivos para sua captura e tutela pelos
aparatos de vigilância, repressão e até extermínio, era fundamental construir a história
das linhas de fuga, da resistência empreendida por estes jovens. Privilegiamos escutar o
saber e as ações de internos e ex-internos da Febem-SP nos momentos em que mais
agudamente se defrontavam com as práticas institucionais de que eram objeto: as
rebeliões nos pareceram as situações mais estratégicas para acompanhar esta
experiência. Entendia que testemunhar essa dimensão-rebelião, essa dimensão de

6
Certamente as hipóteses aqui formuladas podem ser estendidas a outros estados da federação, como
observamos no trabalho de Carmem Silveira de Oliveira sobre a Febem-RS (2001) e nos relatórios de
diversas entidades de defesa dos Direitos Humanos, dentre eles o da Anistia Internacional, 2000. Cabe
ressaltar, no entanto, que os dados aqui trabalhados referem-se especificamente às unidades de internação
do município de São Paulo e foram sistematizados no período de 1999-2001.
resistência dos jovens, era fundamental para lançar luz nas questões que afetam não
apenas a juventude dita “infratora”, mas também outras existências juvenis. Buscamos
verificar as conexões, os pontos de contato e de vibração do singular modo de ser e estar
na vida - que os jovens infratores inventavam- com outras expressões juvenis, que,
recentemente, vêm também, por vezes, carregadas socialmente com as tintas da
delinqüência e da violência. Sabemos que uma das condições para combater a exclusão
e o lugar de sub-cidadania que estes jovens são levados a ocupar é de não desconectar
seus modos de produção e suas lutas específicas daquelas que também constróem as
outras juventudes e as tantas exclusões do nosso mundo.

É impossível passar pela Febem (e também por outras tantas instituições letais,
como os manicômios, ou outros territórios da exclusão) sem que nos posicionemos ética
e politicamente de um modo muito intenso. De certo modo, desde meu primeiro contato
com a Febem-SP7, não parei de experimentar uma necessidade de rebelião: rebelião
quanto aos saberes, principalmente os psi, predominantes nesta área, que só faziam
patologizar ao infinito os jovens em conflito com a lei (e, por extensão, todos os
adolescentes), rebelião quanto às práticas institucionais de controle e de esmagamento
de toda expressão de dissidência, de desobediência ou de diversidade.

Desde seu surgimento, a Febem tem sido objeto de denúncias de diversas


ordens de violação de direitos. Grande parte dessas denúncias foram, especialmente
nestes últimos anos, comprovadas materialmente (pelo trabalho do Ministério Público e
do Poder Judiciário, das Comissões Parlamentares de Inquérito e do conjunto de
entidades de defesa dos direitos da criança e do adolescente) e tornadas públicas por
organismos nacionais e internacionais de Direitos Humanos. Há anos também que os
inúmeros esforços de mudança lá empreendidos são sistematicamente desmontados para
dar lugar a novas e velhas práticas de violação de direitos, a despeito das inúmeras
conquistas no plano da legislação e da mobilização social.

Mas é exatamente a partir do período de intensa redemocratização política


(Constituição, 1988; Estatuto da Criança e do Adolescente, 1990) que vamos observar,
nos equipamentos de internação de adolescentes com práticas de delitos, a sistemática
violação de direitos ganhar novos contornos. Intensificam-se os processos de
resistência: do lado dos jovens, as fugas e as rebeliões que pudemos acompanhar pela
mídia atingem padrões quantitativos e qualitativos surpreendentes (uma delas, em
outubro de 1999, destrói completamente o Complexo Imigrantes); do lado dos adultos,
uma aguda convocação de nosso posicionamento crítico que coloca em evidência e em
ação nossos corpos e nossos próprios riscos.8

7
No período de 1985-1987 trabalhei como psicóloga e coordenadora técnica no atendimento direto a
jovens privados de liberdade em várias unidades educacionais da Febem-SP, no Complexo do Tatuapé.
8
Cito como exemplos desta intensificação do lado dos adultos: a) o episódio da rebelião de março de
2001 de Franco da Rocha, em que membros do Ministério Público (MP) e de entidades da sociedade civil,
chamados como interlocutores do conflito, foram ameaçados e/ou agredidos por funcionários da Febem;
b) também houve uma alteração nas estratégias de ação do Poder Judiciário e do Ministério Público, neste
período, que passam a mostrar, em consonância às cenas dos jovens em cima dos telhados, “o que se
Um dado que nos permite dimensionar esta intensificação é que no período situado
entre agosto de 1999 e março de 2001 foi requisitada pela Promotoria de Justiça do
Departamento de Execuções da Infância e Juventude-SP (DEIJ) a instauração de
noventa e seis inquéritos policiais para apuração de crimes de tortura supostamente
praticados por funcionários da Febem contra adolescentes que cumprem a medida
sócio-educativa de internação9.

Essa intensificação me levou à hipótese de que estávamos diante de outra modalidade


de poder. Já não se tratavam apenas de mecanismos repressivos ou disciplinares, mas de
estratégias biopolíticas do poder, como nos ensinou M. Foucault (1988, 1999), em que o
poder se confronta com a pura vida sem qualquer mediação. Reduzidos a mero corpo
orgânico, despojados de qualquer direito, os jovens da Febem estão muito próximos do
que G. Agamben (1998) chama de “vida nua” ou vida matável: a vida que pode ser
descartada, pois foi empurrada para fora dos limites do contrato social e da humanidade.

Se tomo esta temática da violação de direitos nas instituições das quais se pretende o
exercício de um processo socioeducativo, das quais se pretende a proteção da vida, não
é apenas para atestar a distância entre a lei e a prática, essa nossa conhecida democracia
disjuntiva. Penso que é importante entender um pouco mais através de que processos
institucionais e de que dispositivos políticos tantos seres humanos são integralmente
privados de seus direitos e das suas prerrogativas, a ponto de não ser delito qualquer ato
cometido contra eles (Agamben, 1998).

Esta pesquisa não se realizaria se não estivesse inscrita na contingência e na emergência


desses próprios acontecimentos-resistência. Não se realizaria também se não estivesse
em conexão permanente com estas vigorosas redes de grupos, organizações e amigos
comprometidos com a perspectiva da infância e da juventude brasileiras no seu direito a
ser, a conviver, a se desenvolver e a ser protagonista de seu tempo. A intensidade da
violência e do desamparo, como a experiência que vivem muitos dos internos da
Febem-SP, não será suficiente para alterar este estado de coisas. É também nossa
vontade ética de incluir as memórias e as lutas destes jovens numa perspectiva política e
histórica precisa que fará com que os ecos do horror ganhem a ampliação de seu sentido
e força.

A decisão de publicar os resultados dessa pesquisa, ainda que três anos depois de sua
realização, justifica-se porque a situação das unidades de internação de adolescentes em
conflito com a lei em nosso país ainda estão distantes do patamar de garantia de direitos

passa embaixo dos telhados...” (filmagens, fotos com evidências de maus-tratos oriundas das inúmeras
fiscalizações ensejadas pelo MP e pela Justiça nas unidades da Febem passaram a ser disponibilizadas
para a mídia).
9
De fato, o estado de São Paulo protagonizou uma intensa violação de direitos nesta área, conforme
denunciaram seguidamente o MP e o Poder Judiciário (de primeira instância), o Legislativo (Rolim,
2001b) e até as pesquisas do próprio Ministério da Justiça (1998), além dos organismos internacionais de
Direitos Humanos (ONU, 2001; Anistia Internacional, 1999, 2000, 2001) e de diversas entidades
nacionais de defesa e promoção de direitos.
que desejamos10 e porque a complexidade da análise dos processos que atravessam essa
política tem sido crescente.

Além disso, em tempos de medo social, de risco de uma “sideração pela


violência”, é bastante comum que se construam respostas cada vez mais “penais”,
repressivas ou simplificadoras, como temos visto com a discussão em torno da redução
da idade penal. O excesso de tematização sobre a violência teve o efeito de construir um
determinado imaginário sobre ela, que passou a informar e produzir atitudes sociais a
ela referenciadas, ou seja, a violência também aparece como linguagem, como ato de
comunicação. É vital que se constituam novas linhas de demarcação que nos permitam
discernir a violência do protesto e da luta por direitos, para escaparmos de uma
“generalização da violência” ou de sua suposta “irracionalidade”.

Acompanhar um pouco mais de perto as lutas empreendidas pelos jovens da Febem


talvez contribua para a necessária tarefa de desmontar a sistemática associação
violência-juventude. Uma pesquisa, na medida em que produz uma modelização teórica,
participa da construção de territórios existenciais para esses jovens e tem
responsabilidade nos destinos que ela ajuda a configurar.

No capítulo I, “Das rebeliões na infância e na juventude”, apresentamos as razões para


tomar a temática da rebelião como tema de pesquisa e situamos o leitor em algumas das
questões conceituais e metodológicas que a pesquisa percorreu. No capítulo II,
“Inventário de rebeliões”, fazemos a análise da multiplicidade de sentidos emprestado
às rebeliões, resultantes da pesquisa de campo, e tecemos um conjunto de hipóteses
sobre os mecanismos de poder-resistência aí operantes. No capítulo III, apresentamos
nossas hipóteses sobre os modos de produção de subjetividade dos adolescentes e sua
relação com os processos sócio-políticos-culturais que os atravessam. Nos apêndices,
“Das revoltas e rebeliões: uma problemática conceitual”, “Resistência e sublevação: as
contribuições de Michel Foucault” e “Da desobediência civil: uma questão de direito?”,
apresentamos algumas ferramentas teóricas em torno da rebelião e da sublevação de que
nos valemos na pesquisa e que podem ampliar a informação do leitor em torno dos
conceitos utilizados. Finalmente, apresentamos uma cronologia de acontecimentos
significativos da Febem-SP, reunindo tanto episódios de rebelião quanto as denúncias
de violações de direitos e algumas ações desencadeadas pelos diversos atores do campo
da infância e da juventude que compõem uma visão panorâmica do contexto Febem no
momento da pesquisa.

10
Conforme atestam as pesquisas do Ministério da Justiça (MJ/ Departamento da Criança e do
Adolescente, 1998; MJ/ IPEA, 2002 em torno das políticas de atendimento para os adolescentes em
conflito com a lei e as notícias que vemos sistematicamente na mídia.
I. Das “Rebeliões” na Infância e na Juventude

Dificilmente concebível, pode-se considerar possível


uma história das revoltas infantis? Duvido. Há de faltar
sempre o essencial: o testemunho das crianças. Não
obstante, valeria a pena que os pesquisadores
remexessem os arquivos, só para ver... Talvez, com
tempo e método, um pouco de entusiasmo, de sorte, eles
pudessem sacudir a poeira que encobre perspectivas tão
lindas quanto às de uma cidade maia. (Meunier, 1976,
pp. 136-137)

Ainda que encontremos algumas referências históricas, outras literárias quanto às


insubordinações e desobediências civis da infância, a indagação de Jacques Meunier é
absolutamente apropriada: é possível uma história das revoltas infantis?11.

Ela faz eco inclusive para o lugar da infância na sociedade ocidental moderna12.
Sociedade responsável pela produção da consciência da particularidade da infância –
isso que Ariès (1981) chamou de "o sentimento de infância" – mas às custas de situar a
criança no centro de um intenso interesse psicológico e de inúmeras preocupações
morais, de "conformá-la às normas".

Particularidade reconhecida, mas sob a mira de potentes dispositivos de codificação.


Daí, a proposição de Godard: "as crianças são prisioneiros políticos" (apud Deleuze,
1992, p. 55) e de Lourau (1990, p.9): "A criança não existe. Nela cuidamos desta
doença sexualmente transmissível: a infância. Doença mortal: a criança se torna
fatalmente adulto".

11
Dentre as referências históricas: as cruzadas de crianças e de pastorinhos na Idade Média, também
narrada em romance (Marcel Schwob, 1987); a greve de estudantes, em setembro de 1911, na Inglaterra:
um movimento nacional que durou quinze dias e atingiu setenta e duas cidades (Meunier, 1976); os
distúrbios nos liceus e universidades, na França, entre 1883-85; motins nos reformatórios como os de
1886, em Belle-Ile e Anianne, de 1887 em Mettray, que inauguram uma era de revoltas endêmicas nos
estabelecimentos penitenciários da juventude (Perrot ,1988). Poderíamos acrescentar, no caso do Brasil: o
Movimento Nacional dos Meninos e Meninas de Rua, por muitas vezes, nas décadas de 1980 e 1990,
mobilizou crianças em todo o país na luta pela garantia de seus direitos. A utilização do conceito de
desobediência civil referida à infância tem aqui o sentido de nos levar a escutar esta dimensão disruptiva e
inventiva, as “forças vivas da infância”, como chama Meunier (1976). Para uma maior compreensão
desse conceito que será retomado ao longo desse trabalho, vide o apêndice: Da desobediência civil: uma
questão de direito?
12
As formas sociohistóricas de produção e reprodução das crianças são muitas. O conceito de infância é
uma construção cultural relativa aos modos pelos quais cada formação sociohistórica organiza a
reprodução de suas condições materiais e culturais de trabalho e de vida. Esta construção varia de
sociedade para sociedade e em cada época histórica (Ariès, 1981; Donzelot, 1986; Santos, 1996).
Diferença historicamente reconhecida em relação aos adultos, mas apenas depois de
depois de fixada política e culturalmente a sua incapacidade e a sua desigualdade. Nossa
tradição cultural com a infância-juventude não pôde ou não soube pensar a proteção de
seus componentes mais vulneráveis fora dos parâmetros de declaração prévia de algum
tipo de “institucionalização estigmatizante” ou de uma “judicialização do problema da
menoridade”. (Méndez, 1998, p.192)

É verdade que o século XX trouxe, para as crianças, seu reconhecimento como sujeito
de direitos, com consideráveis conquistas e avanços seja do ponto de vista jurídico-
formal, seja do ponto de vista das práticas concretas.13 No entanto, persistem as práticas
autoritárias e violentas de que são objeto as crianças, com características singulares em
cada formação sociohistórica. Mesmo em sociedades em que não está em jogo a
sobrevivência e as condições de dignidade da vida das crianças, encontramos outra
ordem de práticas em que persistem o adultocentrismo, o exercício da dominação e a
codificação da criança numa infantilização que não é sua.

Na França, por exemplo, no final da década de 1980, estimava-se em torno de 40% a


proporção de crianças excluídas do circuito de escolaridade "normal", parte delas
definitivamente estigmatizada e segregada, portadora de carteira de identidade
correspondente ao estatuto de invalidez. Para elas, estão destinados uma série de

13
As altas taxas de mortalidade infantil, agravadas durante a Primeira Guerra Mundial pela fome, pela
incidência de doenças e pela utilização precoce do trabalho da criança, levaram ao desenvolvimento, em
diversos países, de uma rede de assistência social, que teria encontrado no Tratado de Versalhes o modelo
marcante da história da assistência infantil. Concretizando as idéias mais avançadas em favor da criança
naquele momento, foram aprovadas a regulamentação do trabalho infantil, a garantia de repouso à
operária gestante, antes e depois do parto, além de outras medidas para estimular a amamentação.
Gradativamente, diversos países tomaram iniciativas visando à proteção da maternidade e da infância,
incorporando às suas Constituições uma série de artigos voltados para essa área.
A questão da infância começou a tomar caráter jurídico com o enunciado em Genebra, em 1924, de uma
Declaração sobre os Direitos da Criança, que foi adotada pela assembléia geral da ONU de 20 de
novembro de 1989. O documento desta assembléia – A Convenção sobre os Direitos da Criança –
transformou a intenção da Declaração em direito internacional.
Outras regras internacionais foram sendo estabelecidas nas últimas décadas (as Regras mínimas das
Nações Unidas para a administração da justiça juvenil e para os jovens privados de liberdade; a
Convenção 138 da OIT – Organização Internacional do Trabalho – que dispõe sobre a idade mínima de
ingresso no trabalho; as Diretrizes de Riad para a prevenção e tratamento da delinqüência), no sentido de
proteger a criança e o adolescente, os quais passaram a ser concebidos como seres em desenvolvimento
cujo amadurecimento precisa estar garantido por meio da proteção integral.
No Brasil, a preocupação com a criança, em particular, com a mortalidade infantil, o menor abandonado e
a delinqüência infantil, aparece nos primeiros anos Vargas. A Constituição de 1937 inclui em seu texto
uma série de preceitos atribuindo ao Estado o dever taxativo de rodear a infância e juventude de cuidados
e garantias especiais.
Estudiosos do período 1930-1945 (Fonseca, 1993) apontam o caráter bastante autoritário e
intervencionista das políticas de saúde e educação dirigidas à criança. Embalados por um ideal
construtivista, em que o desenvolvimento físico e intelectual da criança precisava ser assegurado, tendo
em vista os interesses da nação a mais longo prazo, teriam estabelecido as bases de uma concepção de
política social assistencialista e paternalista. Tal concepção ganha seu caráter mais exemplar e autoritário
quando da formulação da Política Nacional de Bem-Estar do Menor, de 1964, e do Código de Menores,
de 1979, os dois principais instrumentos de controle social da infância e da juventude pobres deste país.
A nova legislação brasileira (art. 227 da Constituição de 1988 e o Estatuto da Criança e do Adolescente,
de 1990) rompeu com a doutrina da situação irregular, que considerava os menores objetos da
intervenção jurídico-social do Estado no interior de uma ótica correcional-repressiva e introduziu no
direito infanto-juvenil brasileiro a doutrina da Proteção Integral das Nações Unidas.
equipamentos coletivos – que vão do mais pedagógico (as classes especiais nas escolas),
ao mais psiquiátrico (hospital-dia), passando por diferentes fórmulas para onde são
encaminhadas as "crianças-problema" através da escola ou da família (Rolnik, 1987,
p.136).

Em relação a isso, Manonni aponta:


A infância não é administrável. Artificialmente, se fez dela uma classe à parte.
(...) Antes de seguirmos avançando na nossa colonização da infância, tentemos escutar o
que tem a nos dizer. (...) O problema da prevenção no campo da infância, só se pode
colocar partindo-se primeiramente da forma como nós participamos da inadaptação que
provocamos. Deveríamos revisar radicalmente todas nossas concepções, eu diria,
preconceitos, a respeito do mito da infância. Enquanto tenhamos necessidade de uma
classe de crianças como suporte de nossas crenças e de nossas angústias, nada novo será
promovido. (1976, p.247)

No Brasil, é ainda recente a nova consciência jurídica que coloca crianças e


adolescentes como sujeito de direitos (a promulgação do Estatuto da Criança e do
Adolescente é de julho de 1990) e apesar de importantes conquistas no plano das
práticas com a infância e juventude, ainda são muitas as crianças impedidas de sê-lo:
“crianças seqüestradas na sua infância” (Martins, 1993).

Além disso, em nosso país, o aparato institucional destinado ao controle e gestão da


infância prima, muitas vezes, por um repertório de práticas violentas que quando não se
traduzem em violência aberta (espancamentos, maus-tratos), configuram outras
modalidades de sujeição igualmente violentas. Dentre estas, as significativas
modelagens psicossociais – por exemplo a imposição de regras e normas que
contrastam com os modos de ser e de estar de seus tutelados.

Mas, como aponta Sergio Adorno, mesmo expostas a tantas ordens de violência, estas
crianças
(...) constroem trajetórias que vingam o destino que se lhes impõe. (...)
Algumas enveredam pelo duro caminho da sujeição e do disciplinamento subjacentes ao
mundo do trabalho. Conformam-se, desde cedo, ao rito regular das fábricas, das
oficinas, dos estabelecimentos comerciais, dos escritórios de serviços. Optam por um
horizonte, o do pobre, porém honrado, respeitador da ordem, obediente, civil. Outras
espalham-se pelas cidades, vagam pelas ruas, aproveitam as oportunidades que outros
não aproveitam, situam-se nos mais diversos e recônditos espaços de reprodução social
da existência, lá onde sequer é possível imaginar que a vida seja viável. (Adorno,
1993a, p.183)

Ou seja, nessas trajetórias, as crianças e adolescentes nem sempre enveredam pelas


trilhas da sujeição e do disciplinamento; ao contrário, promovem muitas vezes rituais de
rebeldia, movimentos de insubordinações – de comportamentos inconformistas a
revoltas coletivas –, chegando a instalar certas formas de “contra-sociedade”, como
sugere Jacques Meunier, referindo-se ao caso do gaminismo, sistema de organização
dos “chinos de la calle” de Bogotá:14
Trata-se, a princípio, simplesmente de uma associação de misérias, de
infortúnios. Os meninos procuram uma maneira de subsistir. Em grupo de dois, três,
dez, eles se sentem mais fortes. Apoderam-se de um bairro, de um território. De uma
margem de liberdade. Reagrupam-se diante da adversidade e da repressão. (Meunier,
1976, p.18)

Sociedade “sem escritura e sem arquivos” – também no dizer de Meunier – são crianças
que detêm, no entanto, uma capacidade de invenção e de escape, capaz de fazer frente
aos inúmeros "esforços de homogeneização e esmagamento das singularidades"
(Perlongher, 1986, p.6). Homogeneização empreendida desde a violência aberta à
violência doce, branda; dos aparatos repressivos às modalidades disciplinares e às de
controle15, pois conforme já apontava Castel (1978): não se tratou da substituição de
uma forma de controle por outra, mas do apoio de uma na outra e de suas possíveis
relações.

Rebeldia, criança irregular, distúrbio de conduta, tendência anti-social, reação de


oposição, desadaptação infantil... são inúmeras as classificações e procedimentos
técnicos desenvolvidos pelos saberes psi que pretendem responder, explicativa e
administrativamente, às insubmissões de crianças aos pais e aos aparatos de
socialização:
Por que a vontade, numa criança, mesmo das mais dotadas, é, em geral tão
vacilante e tão instável? É porque, antes de mais nada, seu cérebro, ainda mal
organizado, é muito pouco capaz de manter em equilíbrio duas tendências opostas e não
lhe permite exercer uma grande força de abstração. É essa fraqueza da abstração que é
causa de sua impotência para esquivar-se das fascinações. Portanto, quando o desejo de
vagabundear, originado numa curiosidade, numa atração ou num exemplo, apodera-se
da criança, se ela não for vigiada, se as circunstâncias lhe forem favoráveis, em suma, se

14
Meunier (1976), etnólogo e jornalista, documentou no livro Os Moleques de Bogotá a sua experiência
de quatro meses junto aos gaminos, denominação originada do francês "gamins", utilizada para referir-se
aos meninos em situação de rua de Bogotá.
15
Foucault (1977, 1988) distingue a ordem da lei da ordem da norma. Na ordem da lei, o tipo de poder
operado é essencialmente coercitivo, repressivo e busca extinguir o indesejável, o ilegal. Na ordem da
norma, ainda que ela possa incluir o aspecto repressivo, trata-se de uma vontade de controle, regulação e
prevenção, que não se satisfaz com a pura abolição do indesejável, mas busca criar, estimular a produção
de novas características corporais, sentimentais e sociais. Nessa perspectiva, encontram-se as estratégias –
desenvolvidas a partir do século XVIII – do que Foucault (1985) chamou de biopolítico, de microfísica do
poder: uma proliferação das tecnologias políticas que irão investir sobre o corpo, a saúde, as condições de
vida, a regulação do comportamento, a normalização do prazer, enfim, sobre o espaço completo da
existência do indivíduo.
A crise generalizada de todos os meios de confinamento (prisão, hospital, fábrica, escola, família), a partir
da segunda metade do século XX, já aponta para a instalação de outras formas de exercício do poder:
Deleuze (1992) chama de sociedades de controle aos sistemas de modulação contínuos e permanentes
pelos quais o poder passa a operar.
nada se opuser à realização de seu desejo, ela fatalmente se lançará no caminho da
aventura, podendo esta última degenerar-se em fuga completa. (Marie e Meunier, apud
Donzelot, 1986, p. 120)

Texto do início do século XX – 1909 – ele é representativo do processo de


psiquiatrização da vagabundagem iniciada ao fim do século XIX. Donzelot o toma
como exemplar do próprio surgimento da psiquiatria infantil: forma encontrada para o
vazio produzido pela "procura de uma convergência entre os apetites profiláticos dos
psiquiatras e as exigências disciplinares dos aparelhos sociais". (ibid)

E segue apontando como a psiquiatria, a justiça de menores, a assistência social foram


importantes instâncias de estancamento das linhas de fuga16 que os menores
vagabundos representavam. Ainda hoje, estas instâncias continuam produzindo
significativas práticas de controle da infância e respondendo ao mandato social de
"institucionalizar estes animais selvagens, mentirosos, predadores, perversos, para que o
Estado possa dormir em paz" (Lourau, 1990, p.10).

Tal como a infância, mas sujeita a mecanismos singulares de produção e de controle, a


figura da juventude foi por sua vez sistematicamente associada à rebeldia. O jovem tem
ocupado, para o nosso tempo, um lugar certamente problemático. Na maior parte das
vezes o que emerge do mundo adolescente ecoa no mundo adulto como impertinência,
como apatia, como doença, como delinqüência. São muitas as produções científicas
sobre a juventude que desconhecem ou negam suas potencialidades: a juventude vista
como subcultura marginal e delinqüente; como população em risco; como etapa
transitória, na qual se está, mas todavia, não se é. São extensas também as atribuições
moralistas em torno da juventude: “juventude sem valores”; “juventude desviada”;
“juventude violenta”.17

16
Vide Glossário técnico.
17
A tematização da juventude pela ótica do “problema social” é histórica e já foi assinalada por muitos
autores. Como bem coloca Helena Abramo, a ênfase quase que de toda a sociologia preocupada com o
tema da juventude recai sobre o processo de socialização vivido pelos jovens e sobre as possíveis
disfunções nele encontradas: “a juventude só está presente para o pensamento e para a ação social como
‘problema’: como objeto de falha, disfunção ou anomia no processo de integração social; e, numa
perspectiva mais abrangente, como tema de risco para a própria continuidade social” (Abramo, 1997, p.
29). Esta concepção da juventude tem sido também dominante nas políticas públicas: em grande parte, o
foco dos programas desenvolvidos tem sido a contenção do risco real ou potencial dos adolescentes, pelo
seu afastamento das ruas ou pela ocupação de sua ociosidade. Estes programas, baseados em políticas
repressivas ou de prevenção, buscam enfrentar os problemas sociais que afetam a juventude, tomando os
próprios jovens como problemas sobre os quais é necessário intervir, para salvá-los e reintegrá-los à
ordem social.
Mais recentemente, vem ganhando expressão um pensamento que deixa de ver o jovem como problema,
como agente da insegurança e da violência, e passa a considerá-lo na sua dimensão de potencialidade
(social e pessoal). Crescem assim os projetos que trabalham na perspectiva do protagonismo juvenil: os
jovens como colaboradores e partícipes nos processos educativos que com eles se desenvolvem (Costa,
1998a). As pesquisas vêm assumindo também a perspectiva de dar visibilidade ao ponto de vista da
juventude sobre a realidade em que vivem, privilegiando o mapeamento das visões, sentidos e concepções
que estes imprimem a sua vida cotidiana e no âmbito de sua cultura específica e adotando a perspectiva
da condição histórica, situacional e relacional da juventude, isto é, considera-se impossível definir as
características dos jovens sem considerar o complexo campo de interações juventude-sociedade.
A condição juvenil, na medida em que é formulada como passagem, como relatividade,
carrega uma imensa ambigüidade e passa a estar marcada pela negatividade (Abramo,
1994; Lapassade, 1968, 1973): “o que não é mais criança, mas não chegou a ser adulto”,
“o que ainda não se é”.

Não nos perguntamos se esse lugar definido por uma negatividade não é justamente o
responsável pela produção das características e as angústias da adolescência, tratadas
como de sua natureza. Não é exagerada a observação de Françoise Dolto de que os
adolescentes transformaram-se numa “classe social” de tanto serem rejeitados como
inaptos para ingressarem na sociedade.

Esta suspensão da vida social não seria responsável pela marginalidade adolescente na
medida em que os jovens permanecem alijados dos processos de poder e de criação
social? (Abramo, 1994).

Tomemos, ao contrário, algumas imagens reiteradas da adolescência: rebeldia,


turbulência, luta... mas não para enquadrá-las numa síndrome, numa sintomatologia ou
numa espécie de fase, transição necessária ao mundo adulto. Fiquemos justamente com
essa característica da mutação, da deriva, da rebelião como aquilo que justamente é a
riqueza da adolescência e não sua angústia ou seu desatino.

Não estou propondo que isto seja visto como a essência ou natureza da adolescência:
um bom percurso histórico nos permitiria perceber que a idéia de juventude tal como
concebida atualmente origina-se junto com a “crise das disciplinas” (greves e
insurreições dos trabalhadores fabris e distúrbios nos liceus, motins, reformatórios,
etc.); e que, portanto, seu potencial de recusa da sociedade também é uma produção
desta sociedade. Mas vamos reter o quê, desta produção, é o melhor: sua capacidade de
analisar a própria sociedade.

A adolescência é uma produção moderna (séc. XX) e ela se faz problema de indagação
sociológica e psicológica quando determinados setores juvenis parecem problematizar o
processo de transmissão das normas sociais, ou seja, quando se tornam visíveis jovens
com comportamentos que fogem aos padrões de socialização aos quais deveriam estar
submetidos. Como o Movimento Juvenil Alemão – de jovens estudantes na última
década do século XIX – que, em nome dos direitos dos jovens à autonomia, como
sociedade juvenil, declarou guerra a todas as formas de vida adulta (Abramo, 1994).18

O destaque a esta dimensão da “juventude como problema” ocorre por ser ela a hegemônica, mas coube
também à juventude encarnar no imaginário social o lugar das transformações (seja na forma de produtora
de uma contracultura ou de revoluções). Atualmente outras questões já se colocam: ser jovem hoje tem
tido valoração altamente positiva, inclusive como uma operação de mercado, e a juventude está passando
a ser matriz de um novo ator social, o que faz muitos estudiosos considerarem que estamos passando por
uma verdadeira inversão de sentido na construção social da juventude, na medida em que a juventude
passa a ser elemento constitutivo da identidade, independente da idade, o que vem se chamando
juvenilização (Margulis e Urresti, 1998a; Martín-Barbero, 1998).
18
Desde a segunda metade do século XX, os jovens têm sido protagonistas centrais de muitas das
principais transformações culturais, configurando novos espaços de expressão e de construção de utopias
constituindo importantes campos de disputa pela construção de sentidos coletivos e pela
Ou os Apaches, bandos de jovens da periferia parisiense do início do século XX: rede
de camaradagens, micro-sociedade em sua geografia, linguagem e códigos, eles
vagabundeiam, escapam da escola, vivem de pequenos serviços e de pequenos furtos,
zombam da polícia, gostam de estar bem arrumados, inventam formas de se apropriar da
cidade: apoderam-se do coração da cidade, de onde seus pais tinham sido expulsos,
apreciam as festas e os bailes, reivindicam abertamente o direito à diferença. “Por que
desperdiçar sua juventude?”; “quem trabalha é imbecil e como diz Boné de Ouro, um
apache, em suas Memórias: ‘não quero fazer parte do horrível cortejo dos miseráveis e
sem um tostão’ ” (Perrot, 1988, pp. 323, 319).

Como propõe ainda Perrot, podemos ver nessa deriva adolescente um gosto pela
aventura, uma dimensão lúdica, uma espécie de “último prazer antes de entrar na linha”
(Cousin apud Perrot, 1988, p.319)... mas podemos entender também que eles são como
que “os últimos rebeldes contra a disciplina industrial” (idem, p. 317) e
(...) exprimem parte dos desejos, elementos também afetivos, dos sonhos e das
recusas de uma juventude – a mais despossuída – em confronto com as normas de uma
sociedade áspera, que não lhes reconhece um lugar coletivo, e não lhes oferece outra
saída além da obediência, paciência, monotonia dos dias cinzentos e submissos numa
incessante repetição. (idem, p. 325)

Daí o interesse que, em particular, a temática do “desvio” e da “divergência” desperta (e


no interior dela, o infrator): a marginalidade é o lugar onde se podem ler os pontos de
ruptura nas estruturas sociais; é a parte mais viva e móvel das coletividades humanas
nas suas tentativas de encontrar respostas às mudanças nas estruturas sociais e materiais
(Guattari, 1987).

Guattari propõe que, ao invés de considerarmos alguns fenômenos marginais – como as


gangues de jovens – como respostas coletivas improvisadas, como mecanismos de
autodefesa a uma carência, creditando sua existência apenas ao fato de que as
instituições ainda não responderam a esta problemática – deveríamos estudá-los como
uma experimentação social na marra, que indica novas modalidades de organização da
subjetividade coletiva. Daí que deveríamos “tomar a sério” os adolescentes, porque
grande parte de suas derivas é indicativa de novas formas de organização subjetiva,
individual e coletiva.

construção/preservação de campos identitários. Nas últimas três décadas, têm aparecido diferentes
movimentos protagonizados por jovens pobres e dos setores médios, especialmente no campo cultural
(funk, punk, grafite, rap e hip-hop).
Os estudos sobre culturas juvenis têm sido cada vez mais estratégicos para a mudança de enfoque em
relação à juventude, uma vez que muitas das expressões contemporâneas da juventude têm sido, via de
regra, condenadas à estigmatização ou à invisibilidade, em parte porque irrompem em um clima social
definido pelo incremento mundial da violência, sendo imediatamente associadas a isto; em parte porque
as estratégias dominantes de controle e captura desses movimentos, ao configurá-los como
“problemáticos” têm contribuído para a recorrente associação violência-juventude (Margullis e outros,
1998).
Desse ponto de vista, a crise juvenil, como já sugerira Lapassade (1968, 1973), é uma
manifestação coletiva que problematiza a própria ordem social. Assim, não “rebeldes
sem causa”, mas recusa ativa à organização social. As subculturas juvenis são formas de
negociação e resistência frente à cultura dominante e meios expressivos de negociar
espaços e sentidos no campo da luta cultural (Abramo, 1994, p. 14). Sempre que a crise
juvenil é tomada como delinqüência, portanto, quando é patologizada, perde sua
potência disruptiva.

Perlongher (1986) já chamara de subjetividades nômades ou dissidentes aos modos


"'contraculturais" de subjetivação que abririam "pontos de fuga" para a implosão de
certo paradigma normativo de personalidade social. Interessa-nos, então, estes modos de
subjetivação “fronteiriços”, isto é, as individualidades, grupos ou coletivos no momento
em que encarnam um movimento de desterritorialização19, um “devir minoritário”20,
esse "poder secreto e admirável de embaralhar os códigos, subverter as regras do jogo e
transpor ou deslocar os limites" (Pelbart, 1993, p.23). Movimento de desterritorialização
em que têm uma "espontaneidade rebelde" e escapam "tanto aos saberes constituídos
quanto aos poderes dominantes" (Deleuze, 1992, p. 217).

Contra-sociedade de crianças, rebeliões da juventude: é possível produzir alguma


escritura desses movimentos fronteiriços entre os de “menor-idade”?

1. Dos adolescentes infratores como uma via de pesquisa

Num seminário, em 1998, para educadores e dirigentes de instituições para adolescentes


infratores em privação de liberdade, a apresentação de uma análise de situação do
atendimento ao adolescente autor de ato infracional em São Paulo, provocou muitos
risos entre os participantes quando um gráfico – sobre número de internações nos
últimos três anos – fortemente ascendente, era brutalmente interrompido por uma queda
(num único mês) para em seguida retomar sua vertiginosa ascensão.21

A queda abrupta, em meio ao progressivo aumento de 81,6%, não era resultado do


equacionamento das superlotações das unidades ou ainda de uma articulação entre
Poder Judiciário e instituições de atendimento para aplicação correta e eficiente da
medida de internação (o que se supunha poder diminuir o número de internações). A

19
Vide Glossário técnico.
20
Conforme aponta Deleuze (1992, p.214): “As minorias e as maiorias não se distinguem pelo número.
Uma minoria pode ser mais numerosa que uma maioria. O que define a maioria é um modelo ao qual é
preciso estar conforme: por exemplo, o europeu médio adulto macho habitante das cidades... Ao passo
que a minoria não tem modelo, é um devir, um processo. Pode-se dizer que a maioria não é ninguém.
Todo mundo, sob um ou outro aspecto, está tomado por um devir minoritário que o arrastaria por
caminhos desconhecidos caso consentisse em segui-lo. Quando uma minoria cria para si modelos, é
porque quer tornar-se majoritária, e sem dúvida isso é inevitável para sua sobrevivência ou salvação (por
exemplo, ter um Estado, ser reconhecido, impor seus direitos). Mas sua potência provém do que ela soube
criar, e que passará mais ou menos para o modelo, sem dele depender”.
21
O seminário foi realizado na PUC-SP como parte de um convênio entre PUC, Fundação Luis Amigó da
Colômbia e Ministério da Justiça e integrava um conjunto de atividades de formação de equipes de
educadores da Febem-SP.
queda era resultado da grande rebelião do final do ano de 1997 nas unidades de
acolhimento provisório da Febem (Imigrantes) em que fugiram em torno de quinhentos
adolescentes. Num total de três mil internados, quinhentos produziam uma significativa
diferença!

Os risos dos participantes pareciam indicar que esta era a solução conveniente quando
os dirigentes não a produziam de outra maneira, mas deixavam no ar a forte impressão
de ser a única e surpreendente maneira de os adolescentes ganharem visibilidade e
poder de irromper em meio às distanciadas ações de planejamento pelas quais suas
vidas são, via de regra, definidas.

Este riso remeteu-me a várias outras rebeliões que pude testemunhar, enquanto
trabalhadora, no interior destas instituições:

 Àquelas que se traduzem em fugas de todas as espécies, muitas delas com resultados
desastrosos: fugir pelo telhado e não ter como sair, fugir e pedir socorro para
voltar... fugas que pareciam novamente redundar na prisão. Rebeliões que pareciam
não dar conta das marcas dos processos de institucionalização, tão bem inscritas nos
corpos e nos hábitos dos internos.

Ronaldo22, quando transferido de uma unidade fechada para outra com uma proposta
aberta (com saídas, escola na comunidade, etc.), amarra-se inúmeras vezes no mastro da
bandeira em frente à unidade, numa cena-pelourinho, e grita que o estão prendendo.
Instala-se uma força-tarefa para conversar com ele e demovê-lo de tal cena inquietante e
constrangedora para nós, técnicos de propostas pedagógicas-terapêuticas que
supúnhamos ao menos humanizadas, para não dizer libertárias. Cena que fala das
marcas– elimináveis? –, em Ronaldo, das tantas prisões a que já fora condenado aos
quinze anos, mas que evidencia certamente sua potência de problematizar e evidenciar
brutalmente o lugar-prisão. Rebelião que denuncia, no lugar da homenagem à pátria, o
ainda destino de escravo das modelagens psicossociais de que era objeto.

 Outras em que era o limite do corpo – o suicídio ou as automutilações – a única


forma de dizer, o último lugar de poder.

E outras, onde pude testemunhar adolescentes protagonizando situações de contestação


e de enfrentamento das lógicas institucionais e culturais que tentavam subordiná-los.

Sempre me propunha a acompanhar Sérgio nas suas saídas para audiências no Fórum ou
a outros serviços. Era no Fórum que ele parava em frente aos escriturários, suas pilhas
de papéis, máquinas de escrever e seus pequenos poderes e anunciava sarcástico: “olha
aí, se não fosse por nós, vocês estavam desempregados!”

22
Os nomes ou apelidos de internos e ex-internos da Febem em todas as referências neste texto são
fictícios.
Fazia o mesmo nas assembléias, quando nos reuníamos – direção, educadores, técnicos
e adolescentes – para tratar coletivamente das questões da Unidade: de nós, técnicos –
psiquiatra, pedagogo, psicólogo e assistente social – dizia que éramos comissários de
quinta categoria, porque sequer chegávamos a executar plenamente a ação de
encarceramento. Para nós, leitores de Franco Basaglia, Michel Foucault e outros
estudiosos, críticos das nossas próprias instituições de trabalho, ouvir isto era a um só
tempo importante porque analisava as determinações a que estávamos todos ali
submetidos e inseria-se, portanto, na nossa proposta de não ocultar os conflitos que nos
movimentavam, mas era, por vezes, totalmente desesperador por revelar nossa própria
prisão: onde estávamos atados aos mastros da ciência, da legalidade e das normas.

Não me esqueço também de como Eduardo, outro interno, buscou me ajudar num dos
embates mais graves que tive com vários adolescentes numa das nossas reuniões
semanais. Embate derivado das minhas escolhas e pertinências culturais, as quais por
vezes imaginava poder também atribuir a eles. Eduardo, um tanto compadecido da dura
batalha verbal que eu enfrentara em uma das reuniões com os internos, solicita um
horário para me explicar algumas coisas: me ensina então uma lição que me serviu de
bússola para transitar nos seus territórios singulares de subjetivação, sem dobrá-los ao
meu e sem impingir-lhes quaisquer modelos: “nós podemos aprender seu sotaque, mas
nunca sua língua!”

Além de Eduardo e seu ensinamento sobre as diferenças nos nossos processos de


subjetivação, lembro-me que tão logo comecei a trabalhar na Febem, ocorrera uma
rebelião numa prisão peruana, quando os presos cortaram a língua da psicóloga.
Imediatamente compreendi o que os jovens falavam sobre o “chaveco”23 dos técnicos,
seu “171”, seu “jogar areia”. Aprendi então que muito pouco aí era da ordem das
metáforas e que era necessário recusar as formas patologizantes de pensar a infração, no
mínimo por duas razões:

 Porque sabíamos que função social cumpriram as ciências humanas no que diz
respeito à reprodução de determinada formação social: ao deslocar a produção social
da delinqüência para a hereditariedade, a família, a estrutura psíquica, ocultam-se
suas origens históricas e sociopolíticas. As ciências humanas produziram uma gama
ampla de conceitos e técnicas – da família desestruturada às psicopatias, da cultura
da pobreza às debilidades egóicas – que, sob a suposta neutralidade formal, sempre
possibilitaram a confirmação da desigualdade social, sempre foram álibis para a
legitimação da violência (Basaglia, 1975, 1976; Lima, Silva e Vieira, 1987).

 Porque conhecemos o encargo social atribuído aos trabalhadores sociais no tocante


às problemáticas da marginalidade: “disciplinar os indesejáveis emergentes do
campo social”; “dar conta dos resíduos de uma economia política – os que não se

23
As palavras ou siglas sublinhadas no texto são esclarecidas no Glossário, Anexo 2.
encaixam no modo de produção – e de uma economia social – os que não se
encaixam na família, na escola, etc.”; “mantê-los bem contidos” (Maida e Marazina,
1982).

Outro exemplo claro desta “patologização” dos adolescentes em conflito com a lei é o
fato de os estudos em torno da delinqüência juvenil privilegiarem a pergunta pelo que
produziu a entrada na delinqüência, seus determinantes, sua instalação na “carreira de
delinqüente”. Quase nada se perguntou pelo que faz sair, ou melhor, sobre como um
adolescente pode transitar por ela – pela deriva infracional – sem que isto lhe grude à
pele. Penso que compreender melhor esta dimensão traria enormes conseqüências sobre
as intervenções institucionais, pois como bem assinalam Adorno, Lima e Bordini (1999,
pp. 14-15) a pergunta pelas causas da delinqüência e pela sua evolução, encontram-se
entre os estilos mais consolidados e recorrentes de falar sobre a delinqüência juvenil.

Nessa direção de despatologizar, Sérgio Adorno (1993a) sugere como via de pesquisa
indagar como os jovens se desterritorializam e se reterritorializam no microterritório da
delinqüência.

Ele contribui para uma crítica dos “perfis da delinqüência” e das teses explicativas de
sua causalidade, como a desorganização familiar, a pobreza, a baixa escolaridade, a
intermitência no trabalho e busca entender os processos de entrada na delinqüência
como linhas de fuga, como “derivações”.24

Excetuando situações trágicas, nenhuma experiência de infração se dá abruptamente,


são seqüências de rupturas... Além disso, insiste Adorno (1993a), não há trajetórias
biográficas típicas que derivem para a delinqüência. Este processo de
desterritorialização do campo social é progressivo e certamente o contato com as
agências de controle e repressão adestram os adolescentes a um cotidiano de horrores e
humilhação, frente ao qual só podem querer reafirmar mais fortemente a capacidade de
resistir ao medo e à violência. Ser mais forte que a punição é o caminho: ser mais
bandido, ser mais violento... e, assim, para eles “Febem é cadeia de chocolate”.25

Daí também os adolescentes responderem às intervenções institucionais e aos


questionamentos de educadores e técnicos em torno do seu projeto de vida ou da
vitalidade de seus projetos com a clássica frase “eu não nasci para semente...”

Esta frase, recorrente nos infratores, mantém para mim, apesar de tê-la significado de
diferentes formas ao longo do meu trabalho, todo seu enigma. Apesar de

24
Nesta via de “despatologizar” o ato anti-social, o pensamento do psicanalista inglês D. W. Winnicott é
também crucial porque retirou as tendências anti-sociais da esfera da atuação da pulsão de morte para
colocá-las como guardiãs da vida: ele formula que o ato anti-social é sinal de esperança (Winnicott,
1987).
25
Cadeia de chocolate é a maneira como os adolescentes referiam-se à Febem quando queriam mostrar
que era moleza passar por lá. Penso que era estratégia da Febem fazer-se às vezes de chocolate:
danoninhos e chocolates eram fartamente distribuídos em datas em que se temiam maiores agitações,
como Carnaval, Natal, etc. Em relação a isto ver: “Sobre a psicologia do ato de comer” em Canetti (1995)
e Jean Genet (1988), quanto a um desejo de heroísmo nas crianças criminosas.
freqüentemente entendida como expressão de destrutividade e conotada negativamente,
penso ao contrário, como Helena Abramo (1994), que a atitude “negativista” na
adolescência, sua distopia – projeção negativa de uma sociedade futura: quando o jovem
destaca e amplia os traços negativos, chamando a atenção de forma crítica sobre esses
traços – não é necessariamente uma patologia mórbida ou uma exaltação do horror, mas
sim uma representação crônica da visão que têm da realidade.

Os que buscamos transitar por uma via ética de trabalho com estes adolescentes, temos
tido a necessidade de produzir uma análise crítica de conceitos e práticas produtores de
exclusão e segregação, além de realizar um trabalho de garimpagem de conceitos
capazes de operar positivamente, isto é, de “fazer passar a língua dessas rebeliões”.

Considerei importante, então, inscrever esta pesquisa na concepção do desafio e não na


do dano. Por perspectiva do dano, estou chamando um olhar centrado nas faltas, nas
seqüelas, nas dificuldades; nas perguntas em torno das determinações dos fracassos.
Esta visão condiciona as perspectivas de resolução dos problemas em profecias
negativas, criando um futuro anunciado. Outra perspectiva é a do desafio, na qual as
considerações sobre os problemas são acompanhadas do reconhecimento de
possibilidades de enfrentamento e as perguntas condutoras do pesquisar inclinam-se na
direção das positividades dos processos (Valentini e Vicente, 1996, p. 51).

Trata-se de abordar os adolescentes autores de atos infracionais como um desafio social


e não como um dano social. Ao privilegiá-los como campo empírico de pesquisa, nossa
intenção era a de que os jovens configurassem seus singulares processos de resistência
e de subjetivação, por meio de uma espécie de inventário de suas rebeliões26.

As rebeliões foram entendidas tanto em seu sentido sociológico, como “confronto e


oposição, mais ou menos violentos, ao estabelecido” (Dicionário de Ciências Sociais,
1987, p. 1030)27, quanto num sentido mais ampliado, aproximando-as de certos
processos singulares de subjetivação, como subjetivação nômade ou dissidente28.

A decisão de trabalhar essa temática levou em conta também as seguintes


considerações:

 Que não havia registro de pesquisas sobre rebeliões de adolescentes

26
Para um aprofundamento conceitual em torno da temática da resistência e das rebeliões, consultar os
Apêndices: De revoltas e rebeliões: uma problemática conceitual; Resistência e sublevação: as
contribuições de Michel Foucault .
27
Outra acepção sociológica sobre rebelião coloca-a como um “modo de adaptação... que leva a pensar e
a tentar implantar uma estrutura social nova, isto é, muito modificada. Supõe o abandono das metas e
normas existentes, que são consideradas puramente arbitrárias” (Merton, 1972, apud Dicionário de
Ciências Sociais, 1987, p. 1030). E segundo Bobbio, “a rebelião propriamente dita é sempre derivada de
ações coletivas, de um ou de vários grupos de indivíduos, que põem verdadeiramente em xeque o
funcionamento das instituições político-administrativas (sem as transformar, no entanto) por meio de
reiteradas ações de insubordinação, freqüentemente associadas à violência física e ao confronto armado”
(apud Pinheiro, 1998, p 311)
28
Vide Glossário técnico.
institucionalizados.29

 Que as rebeliões são fenômenos potencialmente analisadores. Analisador no sentido


da Análise Institucional: acontecimento ou dispositivo revelador das instituições, do
jogo de forças, dos interesses presentes numa determinada situação. O analisador
“produz análise”, explicita os conflitos, provoca rupturas nos modos naturalizados
da vida institucional, convocando a potência de produção de realidades alternativas
e/ou alterativas. (Lourau, 1996; Rodrigues, Leitão e Barros, 1992). Resultado do
entrelaçamento de múltiplos componentes, de múltiplas linhas de força, penso que a
potência analisadora da rebelião estaria neste embaralhamento das determinações e
da margem de liberdade da própria vida histórico-social-libidinal da Febem. Além
disso, seu inequívoco efeito “massa” ou efeito “contágio” ou ainda efeito “surpresa”
contribuiria para produzir uma análise da infernal montagem que são as instituições
de internação de adolescentes infratores, ou melhor dizendo, a instituição mesma da
delinqüência.

 Que poderiam ser uma via especialmente interessante para configurar os singulares
processos de resistência e subjetivação dos adolescentes. Se de um lado, as rebeliões
da Febem tinham uma face de sobrecodificação: produções dos adultos, mais do que
propriamente protagonizadas pelos jovens, também podiam ser um dispositivo de
decomposição e de crise, dando lugar a processos disruptivos, de
desterritorizalização e à produção de novos acontecimentos (cf. Guattari, Deleuze,
Foucault).

Assim, passamos a ouvir os diferentes e múltiplos sentidos que os jovens


imprimem às rebeliões por eles empreendidas no processo de internação e mapeamos
também os diversos discursos e práticas institucionais a elas referidas: agentes da
Febem, polícia, justiça, consultando os processos judiciais instaurados para sua
apuração.

29
Tomei como referência o importante trabalho realizado na Faculdade de Educação da USP: trata-se de
levantamento sobre as temáticas de pesquisa em torno da juventude em importantes centros de pesquisa
do Brasil, nas áreas de Educação e Ciências Sociais de 1980 até 1995, realizado pela professora Marilia P.
Sposito da Faculdade de Educação da USP e pelo professor Sérgio Haddad, da Ação Educativa e da PUC-
SP (Sposito, 1997). No entanto, de 1995 para cá cresceu muito a produção de pesquisas sobre a
juventude. Ressalta-se aí o importante trabalho da Unesco no Brasil, que elegeu a juventude como uma de
suas três grandes prioridades temáticas para o biênio 1997-1999, desenvolvendo o projeto “Juventude,
Violência e Cidadania”, que realizou extensas pesquisas entre jovens do Distrito Federal, Rio de Janeiro,
Curitiba e Fortaleza, focalizando essencialmente as “formas emergentes de sociabilidade transgressora”:
as gangues e galeras (Abramovay e outros, 1999; Barreira e outros, 1999; Minayo, 1999).
De outro lado, tratamos de redimensionar a perspectiva da rebelião, encontrando
histórias, feitos e processos (individuais, grupais ou coletivos) em que os jovens
efetivamente tenham encontrado canais de criação e invenção de vida e de mundo. Isto
é, situações individuais, grupais ou coletivas em que as modalidades de resistência e
rebelião indiquem que estamos mais perto de processos singulares de subjetivação ou,
nas quais as rebeliões pudessem encontrar destinos diferentes dos normativos ou
homogeneizantes.30

Sabemos também como o “esquecimento” e o “apagamento’” das situações de crise e de


convulsão são estratégias institucionais para obturar os processos instituintes. Por isso
cuidamos de acompanhar a memória institucional, mas também de produzir outras
informações.

2. Do modo de realização da pesquisa

Definido o interesse por adolescentes em conflito com a lei, sabia, no entanto, que
encontrá-los em situação de internação, em condições muito adversas de
institucionalização (uma vez que estamos falando do contexto Febem-SP)31, era
encontrá-los encarnando o discurso institucional e sua ladainha.

Refiro-me não apenas aos jargões institucionais, como os clássicos: “veio aqui dar um
adianto?”, “veio fazer uma correria?” (grifos meus), “é advogado, assistente
(designação indiferenciada para qualquer técnico) ou corregedô?”, via de regra, as
primeiras perguntas dos internos da Febem dirigidas a uma visita e que demarcam que
eles estão no lugar do “atraso”. Os contatos com os internos da Febem falam das marcas
da institucionalização em seus próprios corpos, em seu modo de sentir e pensar e
também constituem uma reação à minha própria demanda de pesquisa.

Meu ingresso na Febem se daria mediado pelas instâncias jurídicas e gerenciais da


Febem, o que me colocaria irremediavelmente, por mais que minha escuta fosse de
outra natureza, do lado dos operadores do controle social. Assim, especial atenção foi
conferida aos modos de contratação da pesquisa com os jovens e com a Febem-SP e à
permanente análise da implicação da pesquisadora para assegurar um campo propício à
emergência dos diversos aspectos e sentidos que a rebelião mobilizava.

30
Conforme define Guattari, “os modos singulares de subjetivação seriam uma maneira de recusar os
modos de codificação preestabelecidos, todos esses modos de manipulação e telecomando, recusá-los
para construir, de certa forma, modos de sensibilidade, modos de relação com o outro, modos de
produção, modos de criatividade que produzam uma subjetividade singular. Uma singularização
existencial que coincida com o desejo, com um gosto de viver, com uma vontade de construir o mundo no
qual nos encontramos, com a instauração de dispositivos para mudar os tipos de sociedade, os tipos de
valores que são os nossos” (Guattari e Rolnik, 1986, p. 58).
31
Para uma contextualização da Febem-SP, no período de realização da pesquisa, ver Anexo 1:
Cronologia.
O campo empírico circunscreveu-se à Febem-SP, particularmente ao Complexo Tatuapé
– exclusivo para adolescentes em privação de liberdade, e onde já eclodiram episódios
bastante significativos de rebelião; a um equipamento para cumprimento de medida
socioeducativa de liberdade assistida, um Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do
Adolescente e ao Departamento de Execuções da Infância e da Juventude, um dos
grandes responsáveis pela fiscalização da execução das medidas socioeducativas e por
eventuais irregularidades nessa execução, nas quais se situam as rebeliões. 32

As estratégias de pesquisa em torno das rebeliões foram de duas ordens:

 uma, documental;

 outra, de depoimentos orais (de internos).

2.1. A estratégia documental

Do ponto de vista documental, as rebeliões já são mostradas em várias formas de


registro: – na mídia; – nas sindicâncias internas da Febem (que buscam apurar
responsabilidades de funcionários, especialmente em episódios de violência); – nos
processos administrativos (instaurados pelo Ministério Público, para apurar
responsabilidades do Poder Executivo, ou seja, da própria Febem); – nos processos
jurídicos (instaurados pela Justiça); – em inquéritos policiais (quando há vítimas); – nos
dados estatísticos da Assessoria de Planejamento da Febem (Relatórios de Informações
Técnicas) que revelam, entre outros, informações sobre número de fugas (algumas delas
acontecidas em rebeliões); – dados do Setor de Vigilância da Febem (principalmente
sobre fugas, conflitos e rebeliões, quando são chamados mais especialmente a atuar,
porque trabalham externamente às unidades cuidando da segurança). O rastreamento e a
análise das informações concentradas em todo este material documental, dado seu
volume e complexidade, exigiriam uma pesquisa própria. Assim, estabeleci alguns
critérios iniciais para a pesquisa documental.

Um rastreamento amplo e mais genérico nas reportagens da imprensa foi crucial para
acompanhar a emergência das rebeliões e o modo como ia se produzindo a opinião
pública em torno desta questão (ainda que não tenha sido feita uma análise detalhada
deste conteúdo para os propósitos desta pesquisa).

Considerei de maior relevância para a análise documental a consulta aos chamados


“processos administrativos”, instalados pela promotoria (Ministério Público) do

32
O Departamento de Execuções da Infância e Juventude (DEIJ) é o setor do Forum das Varas da Infância
e Juventude do município de São Paulo responsável pela execução das medidas socioeducativas para
adolescentes em conflito com a lei. O Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), em seu artigo 95,
atribuiu a fiscalização de entidades responsáveis pelo desenvolvimento de políticas de proteção especial
para crianças e adolescentes ao Judiciário, o Ministério Público (MP) e conselhos tutelares (CT),
disciplinando os procedimentos para apuração de irregularidades nos artigos 191 a 193 do ECA.
Departamento de Execuções da Infância e da Juventude (DEIJ) do município de São
Paulo e pela Justiça da Infância e da Juventude deste mesmo Departamento, que visam
apurar irregularidades no processo de execução de medidas socioeducativas pelas
entidades por elas responsáveis, no caso, a Febem-SP. Cabe ao Ministério Público, bem
como ao Judiciário e aos conselhos tutelares a atribuição de fiscalização, apuração de
irregularidades e responsabilização dos implicados. Esta priorização se deu por duas
razões:

 pelo rigor documental de que se revestem: grande parte destes processos


administrativos (PA) reúne documentos de várias origens e vários atores: inquérito
policial, sindicâncias internas da Febem, depoimentos de adolescentes,
documentação das unidades educacionais – de normas internas ao projeto
socioeducativo –, laudos técnicos, como do Instituto de Criminalística, Contru,
Bombeiros, etc., oferecendo, então, uma perspectiva bastante diversificada de
posições institucionais e discursivas;

 pela finalidade pública, de defesa e promoção de direitos de que estão encarregados,


constituindo-se, assim, em instrumento de produção de dados e de luta pela
implementação do ECA.

O Cartório do DEIJ consigna cronologicamente, num Livro de Registros, todos os


processos administrativos (PA) lá constituídos.33 O livro de registro geral dos processos
administrativos contabiliza a instalação de 56 PAs no período de 3/09/97 a 2/09/2000.
Destes, sete se referem explicitamente a rebeliões; um a tumulto em uma Unidade; dois
a fuga ou tentativa de fuga de adolescentes e outro a apreensão de entorpecentes.

A grande maioria dos processos apura o descumprimento total ou parcial de direitos


previstos no ECA por parte do Poder Executivo e responsabiliza direção da Febem e das
unidades educacionais por esta situação. O descumprimento de direitos vai desde as
condições materiais das unidades (falta de condições de habitabilidade, superlotação) à
inexistência de projetos socioeducativos (falta de atividades pedagógicas e de lazer),
incidindo muitas vezes na violação da integridade física e mental dos jovens: do
constrangimento corporal à morte de um jovem e se referem a diferentes unidades da
Febem. Foram consultados todos os PAs que estavam em andamento até junho de 2000,
que se referiam a rebelião, tumulto e irregularidades na execução da medida
socioeducativa (quatorze), além dos já concluídos e que se referiam a rebeliões
(quatro).34

Numa análise inicial, quantitativa, é possível dizer que nos PAs, há muito mais
processos em que os adolescentes aparecem como objetos de uma violação de direitos

33
A pesquisa no Cartório do DEIJ realizou-se no período de abril a dezembro de 2000.
34
PAs consultados: 01/97; 07/97; 09/97; 10/98; 01/99; 02/99; 05/99; 06/99; 07/99; 13/99; 15/99; 19/99;
20/99; 21/99; 01/00; 02/00; 03/00; 06/00.
do que como atores de violência: 46 a 10. Tal proporcionalidade não é novidade: ela
acompanha outros dados sobre a relação entre adolescentes como atores e como vítimas
da violência.

Os PAs, embora bastante similares em sua ordenação processualística e no rigor


investigativo, são heterogêneos no volume de informações produzidas, heterogeneidade
de certa forma compatível com a gravidade da situação apurada e com o envolvimento
de outros protagonistas na fiscalização, denúncia e apuração (Conselhos Tutelares,
Centros de Defesa, a própria imprensa). Desta forma, privilegiei, para a análise, entre
todos os processos consultados, alguns, por diferentes critérios:

 O PA 13/99 por se tratar do conjunto de informações relativos ao Complexo


Imigrantes, compreendendo uma grande rebelião, a de outubro/99 que culminou
com a desativação de todo o Complexo e que foi até o momento da pesquisa o mais
trágico incidente da história da Febem, conforme amplamente divulgado na mídia,
com quatro adolescentes mortos e 16 funcionários reféns. É no âmbito destes
episódios que vimos pela primeira vez na TV imagens de monitores espancando
internos (setembro/99) e a presença de familiares num corpo a corpo com os
funcionários e polícia no interior do Complexo. É também um dos processos mais
extensos e exaustivos em termos de documentação (até fevereiro/2001 com 36
volumes).

 O PA 01/99, que se refere à rebelião ocorrida na UE-17 (Quadrilátero do Tatuapé),


seguida de incêndio e morte de um adolescente. Tratou-se de incêndio provocado
por funcionários, oferecendo uma clara demonstração dos modos da instituição
Febem reagir a uma situação de conflito com os internos. É uma peça importante
também pelos efeitos de responsabilização e demissão de funcionários que
provocou.

 O PA 05/99, referente à rebelião na UE-13, por reunir um conjunto significativo de


documentos de atores diversos que aparecem opinando ou depondo sobre o
ocorrido. Não é episódio de grandes proporções, mas revelará não se tratar de uma
rebelião, mas de um espancamento de internos empreendido por funcionários.

1.2 A estratégia dos depoimentos orais

Do ponto de vista da produção de informações que revelem as perspectivas ocultas ou


pouco visíveis das rebeliões, penso que a principal tarefa é justamente a de suscitar sua
construção, numa tarefa aparentada ao que propõe Jacques Meunier (1999): uma espécie
de “etnologia do efêmero”, que é uma etnologia do evanescente e da figura ausente, que
“possibilita interrogar os silêncios da história” (pp. 84-85). Em montagens sociais de
tamanha exclusão, construir diversos planos de visibilidade é quase uma necessidade
vital.

Nos anos de 1999 e de 2000, a Presidência da Febem e a Justiça da Infância e da


Juventude forneceram-me autorização de acesso a internos para entrevistas. Todas as
entrevistas foram realizadas em unidades do Quadrilátero do Tatuapé.35

Desde uma abordagem qualitativa de pesquisa, não era minha preocupação assegurar
uma amostra estatisticamente significativa. Interessava-me, ao contrário, poder mapear
as diferentes e múltiplas concepções presentes sobre o tema entre os adolescentes. A
concordância dos diretores era uma condição para assegurar inclusive uma maior
liberdade no trânsito dentro da unidade e a disponibilidade da mesma em intermediar
meu contato com os internos. No entanto, o estilo de trabalho das unidades e o perfil
dos internos traziam determinações importantes no conteúdo das entrevistas. Assim, nas
minhas entradas nas unidades, buscava configurar minimamente – por meio de
conversas informais e/ou formais com técnicos e monitores e observações do cotidiano:
circulação das pessoas no espaço-tempo institucional, frases e ditos – as concepções aí
presentes principalmente sobre o comportamento dos jovens, as normas e a disciplina
vigente.36

35
Na cidade de São Paulo concentra-se o maior número de adolescentes privados de liberdade de todo o
Estado (em junho de 1999, o Estado tinha 3926 adolescentes em privação de liberdade, sendo que mais de
48% eram da capital e 19% da Grande São Paulo, cf. Relatório Febem/1999), que por sua vez se dividiam
majoritariamente em dois Complexos (há alguns internatos de pequeno porte em outros bairros da
cidade): um no Tatuapé (Av. Celso Garcia) e outro na Rodovia dos Imigrantes. Ainda em 1999, optei por
trabalhar com o Tatuapé, pois na Imigrantes a maior parte dos internos encontrava-se em situação de
internação provisória, aguardando decisão judicial (são unidades onde o jovem permanece até 45 dias;
este é o prazo legal, mas há registros de conhecidas situações de superlotação, insalubridade e outras
tantas situações de desrespeito a seus direitos). A possibilidade de conduzir uma pesquisa parecia poder
acontecer mais adequadamente nas unidades de internação, onde se realiza um projeto socioeducativo, a
permanência do jovem é maior e as condições de interlocucação com a equipe e com os internos pareciam
mais facilitadas. Como o Complexo do Tatuapé contava com 15 unidades de internação e duas de
internação provisória, pareceu-me mais conveniente fazer a proposta naquele local, uma vez que as
chances de concretização da pesquisa eram maiores, pois uma condição para sua viabilização era a
concordância da direção, equipe técnica e internos quanto à participação na mesma. Posteriormente, em
outubro de 1999, o Complexo Imigrantes viveria uma rebelião de enormes proporçães, que levou à sua
desativação. Ao final do ano de 1999 e em 2000 os internos foram transferidos provisoriamente para
unidades do sistema prisional e depois para unidades definitivas em Franco da Rocha e Parelheiros.
Decidi não propor a pesquisa nestas novas unidades, em razão da nova empreitada burocrática e de
autorizações que isto demandaria e em maior parte porque havia um trânsito grande de internos, pelas
seguidas transferências, entre unidades educacionais do Tatuapé e as demais. De forma, que pude, mesmo
no Tatuapé, ouvir relatos de internos que estiveram na Imigrantes e em outras destas unidades. O acesso
às unidades foi precedido de reuniões com diretores das unidades e encarregados técnicos para
apresentação da proposta de pesquisa e posteriormente em cada unidade para combinar a forma de seu
desenvolvimento.
36
As entrevistas foram realizadas em quatro unidades, consecutivamente e nesta ordem:
1.UE-2: unidade para reincidentes graves e médios, com uma média de 120 internos. Quando das
entrevistas, a unidade estava “invicta” (conforme diziam diretor e encarregada técnica) há dois anos, isto
é, não havia passado por nenhuma rebelião. Geograficamente posicionada, fica ao lado das UEs 12, 13 e
Cabe dizer que o período em que realizei a pesquisa de campo (julho-dezembro/1999 e
abril-dezembro/2000) coincide com a eclosão de inúmeras situações de fugas e
rebeliões nas unidades da Febem.

Tal situação colocou a pesquisa numa condição bastante peculiar e favorável: de um


lado, o tema ocupou a mídia, com farta produção de textos, reportagens, opiniões... De
outro lado, a intensidade dos acontecimentos, de conseqüências bastante graves
(inclusive com mortes de internos e de funcionário) produziu uma visibilidade social e
uma intensidade de análise talvez jamais alcançada.

Estas questões modularam de diferentes maneiras a condução da pesquisa de campo.


Em muitos momentos não pude realizar as ações planejadas, pois a direção da unidade
temia pelo clima e os acontecimentos (esperavam-se rebelião, transferências ou outros
desdobramentos em diversas das ocasiões em que tinha atividade marcada e isto
contribuiu para que eu não pudesse cumprir boa parte das atividades previstas; as
inúmeras transferências – de internos, de equipe e às vezes da unidade inteira –
imprimiram uma situação de descontinuidade que comprometeu a intenção original da
pesquisa, seja em termos de tempo de realização, seja de quantidade de atividades).37
Em outras situações, minha ida parecia poder se confundir para os internos com uma
estratégia de sondagem – seria eu uma “olheira” da instituição? Com relação a ser
olheira, em alguns grupos precisei combinar que só falaríamos das rebeliões passadas
para que não recaísse nenhuma suspeita quanto a minha presença: “Que jeito assim,

14, tradicionalmente conhecidas como unidades mais fechadas, com sistema mais rígido para
adolescentes com infrações graves e via de regra, as que protagonizavam rebeliões, a UE-2 sofria o
impacto destas rebeliões. Estive lá no período de agosto a setembro/99. De fato ela finalmente acabou
protagonizando uma rebelião em outubro/99, tendo sido sua equipe e os internos transferidos para outras
unidades.
2. UE-19: unidade para primários graves, com 120 internos. Quando das entrevistas (setembro-
novembro/99), esta unidade não havia passado por nenhuma situação de rebelião. Na rebelião do final de
julho/99 no Quadrilátero, a unidade foi chamada pelas outras, mas, segundo a encarregada técnica, o que,
em geral é motivo de orgulho para os trabalhadores, os internos “defenderam a unidade”, quiseram
inclusive sair para evitar a invasão, mas a tropa de choque entrou inclusive na 19, para fazer a contenção.
Pode-se considerar uma unidade de perfil mais “aberto”: de negociação e estabelecimento de normas com
os próprios internos, além de metas de progressão. No entanto, após a rebelião de julho e transferência de
internos para o COC (prédio do sistema prisional), a unidade entendia que os internos da UE-19 estavam
mais reivindicativos, como efeito do tratamento dado no COC: “voltam como ‘bandido’ reconhecido,
com direito a TV a qualquer hora, mais tempo de visita e querem implantar o mesmo sistema: direito a
isqueiro, gilete, etc.” (na grande maioria das unidades da Febem, por razões de segurança, apenas os
funcionários podem portar isqueiros ou fósforos).
3. UE-14: unidade para 60 internos, reincidentes graves (homicídios, latrocínios, tráfico e roubo com
violência), com idades de 17 a 20 anos, muitos analfabetos, usuários de drogas e com famílias envolvidas
na delinqüência (irmãos, mãe, etc., principalmente no tráfico de drogas), segundo a descrição da equipe
técnica da unidade. Considerada unidade fechada, do dito “circuito grave”, protagonizou uma grande
rebelião em maio de 2000, quando os internos foram todos transferidos para Franco da Rocha, o que fez
encerrar meu trabalho com esta unidade. As entrevistas foram realizadas em abril-maio/2000.
4. UE-15: 112 internos, maioria de reincidentes graves e médios, alguns primários graves (roubo, tráfico,
assalto, roubo qualificado, latrocínio, tentativa de homicídio), divididos em duas alas: B, com 75 internos,
os que “se garantem na dinâmica da Febem” e A, com 36, considerados do “seguro”. Entrevistas
realizadas de outubro a dezembro/2000, nas duas alas.
37
Certamente esta descontinuidade fala do modo de funcionamento institucional que impede a
sustentação de qualquer dimensão processual e de trabalho com o próprio interno: perdem-se as histórias,
os projetos, etc.
senhora? A senhora não está tipo querendo saber se vai acontecer uma rebelião ou não?
(E- Eu não sou informante, mas vocês têm todos os motivos para levantar esta suspeita.
Prefiro então que só falemos das que já passaram...) “Melhor falar do que passou, tá
ligado, né senhora, do que do presente!” (UE-15; 16/10/00). Em outras, ainda, eu me via
atravessada pela fantasia de que na condução dos grupos algo da ordem de uma rebelião
poderia se produzir.

Assim, em diversas ocasiões, precisei realizar mudanças táticas no trabalho para


favorecer o alcance dos objetivos da pesquisa.

Desde o início da pesquisa era possível perceber a pertinência da estratégia grupal para
a finalidade do trabalho, por algumas razões:

 A situação de entrevista individual tende a reproduzir a desigual situação da


abordagem laudatória a que estão sistematicamente submetidos estes adolescentes
nos infindáveis estudos psicossociais de que são alvo e também como parte dos
procedimentos jurídicos (refiro-me aos relatórios técnicos que subsidiam as decisões
da Justiça e a própria situação de “audiência” para decisão quanto à medida
socioeducativa indicada ou sua liberação).

 Estudiosos desta temática indicam a pertinência da abordagem grupal: Meunier


(1976, p. 41) alerta que “isoladamente, ele (o menino de rua de Bogotá) não existe.
Apanhado fora do grupo, sua palavra é menos fluente e o gesto mais canhestro. É
mister que sejam muitos para expressar-se, comportar-se, assumir-se como
Gamino”. Do mesmo modo, Diógenes (1998, p. 59) fala da impossibilidade de
abordar em separado um participante de uma gangue: “eles são um conjunto,
apresentam-se no coletivo...”. Guardadas as diferenças entre as gangues, meninos
em situação de rua e adolescentes privados de liberdade, era freqüente nos grupos de
adolescentes que escutei até o momento (e em outras experiências de trabalho
anteriores) que falem ao mesmo tempo ou encadeadamente produzindo uma espécie
de amplificação sonora: um brado, um eco retumbante, ou formulações totalmente
coletivas, com um completando a frase do outro.

Na montagem dos grupos, tentei conciliar os seguintes critérios:

 Adolescentes indicados pela equipe, a partir da minha sugestão de que tivessem


características de rebeldia, resistência, de uma capacidade de análise crítica da
instituição ou ainda adolescentes que tivessem uma postura ativa na situação de
rebelião, de fuga ou de reivindicação; quando possível incluía os que a unidade
costumava identificar como “lideranças” de rebelião.
 Adolescentes que queriam espontaneamente participar quando me viam no pátio
convidando os indicados ou ainda quando do meu retorno, uma vez que os que
haviam participado anteriormente, contavam a outros, que se ofereciam para
participar.

 Adolescentes “primários” (que estavam em sua primeira internação) e os


“reincidentes”, além de adolescentes com diferentes gravidades de delitos. Esta
estratégia procurava considerar os efeitos do próprio tempo de institucionalização
nas maneiras de pensar, sentir e agir relativas à rebelião. De modo que foram
entrevistados também alguns jovens que não tinham participado diretamente de
rebeliões. Este critério era particularmente importante para a temática das rebeliões,
porque era uma das opiniões correntes entre os internos e a equipe técnica, que os
líderes de rebelião são os mais antigos, os “velhos de Febem”, os que não eram
primários...38 De certa forma, os internos da Febem admitem que os reincidentes –
volta e meia, nomeados tanto por internos Febem, quanto por presos, como
“residentes”, num maravilhoso lapso – têm influência na eclosão de incidentes nas
unidades. No entanto, preferi não privilegiar a lógica de lideranças, como recorte
específico da pesquisa, por entender que isto só legitimaria a estratégia da Febem de
responder a questão das rebeliões no âmbito mesmo de um problema de lideranças,
minorando os efeitos-massa e efeitos-contágio que estas vinham assumindo. Tem
sido estratégia de administração das rebeliões na Febem identificar as lideranças de
rebelião para transferi-las, puni-las e melhor controlá-las. Por exemplo, na rebelião
de 19/02/2000, 17 adolescentes, já maiores, foram indiciados pela polícia sob
acusação de tentativa de homicídio, danos e formação de quadrilha e transferidos
para o sistema penal de adultos (Folha de São Paulo, 23 e 24/02/2000, pp. 3-5 e 3-
6).

Não se trata, com esta opção, de desconsiderar que haja diferenças entre os
internos, bem como inserções diferentes seja na própria construção da trajetória na
criminalidade, quanto nas posições institucionais que cada um pode ocupar. Minha
preocupação era evitar dar elementos para a construção da categoria “líder” como
espaço de manipulação institucional. Na ocasião em que desenvolvia a pesquisa,
38
Diversos estudiosos (Adorno e Bordini, 1986; Ramalho, 1979) destacam a crucial diferença entre
liderança e massa no sistema penal adulto, bem como a questão do tempo de institucionalização como
determinante da participação do preso em incidentes prisionais. No estudo do Ilanud (1998), confirma-se
que o preso sem esperança é aquele que mais se envolve em incidentes, uma vez que imagina que sua
situação não pode piorar mais. A lógica da liderança se baseia em parte nesta concepção.
declarações do então Secretário de Desenvolvimento Social, secretaria a qual se
subordinava a Febem, baseado em documento “diagnóstico” sobre a Febem elaborado
por equipe do Projeto Quixote, da Universidade Federal de São Paulo (Sarti, 2000),
reiterava a periculosidade de 200 adolescentes, e os responsabilizava pelas rebeliões.
Certamente a leitura do documento e meu contato direto com os profissionais que o
elaboraram, permitem afirmar a impertinência desta afirmação. Assim, solicitei a
presença de “lideranças” nos grupos, mas não propus nenhum recorte de análise
diferenciado para esta questão por estes motivos. Além disso, considerei importante
revelar a figura dos anônimos participantes das rebeliões, para deixar ver a massa
“insurgente” e ouvi-los para que não sejam dados como envolvidos num turbilhão de
lutas por questões e interesses que lhes eram exteriores. Partilhamos das observações de
Pinheiro (1998), de que a conseqüência mais previsível de toda e qualquer fabricação de
heróis (novos ou antigos) líderes (positivos ou negativos) é o aumento da mitificação
grosseira que retira dos múltiplos agentes sociais (antigos ou novos) o dom
intransferível de formar, transformar e interferir na sociedade em que vivem.

Independentemente desta análise mais contextual e estratégica, outro dado que


problematiza a questão da liderança é a leitura que dela faz Vanderlei, ex-interno da
Febem-SP.39 Ele “liderou” a primeira grande fuga em massa da UE-9, em 1979, que
teve 13 fugas em massa em três anos, sendo que a última destruiu a unidade:
“Quando eu já estava em Taubaté, em 1980, destruíram (outros internos) a
Moji-Mirim...foram para a prisão de Sorocaba, mesma coisa que eles faz hoje (refere-se
à transferência para unidades prisionais depois de um incidente). (...) Não era só eu que
queria sair dali! Não precisou eu lá! Foi a mesma coisa que eu fiz: vieram uns de fora,
armados, um enquadramento e eles aproveitaram para quebrar tudo!” (25/06/2001)

Desmonta-se assim, na própria fala de Vanderlei, qualquer construção heróica ou de


liderança e ressalta-se a dimensão coletiva de reação.

De uma ida a outra, na mesma unidade, sempre deixava em aberto o convite para os que
haviam participado, para a possibilidade de retorno no próximo grupo de discussão, seja

39
Compôs também a estratégia dos depoimentos orais, entrevistas com Vanderlei, ex-interno da Febem-
SP. Em 1990, como parte da pesquisa para o mestrado, sobre a Casa de Custódia e Tratamento de
Taubaté, já havia realizado várias entrevistas com Vanderlei, em que ele abordara rapidamente sua
passagem pela Febem-SP. No período de fevereiro a junho de 2001, já como parte da pesquisa de
doutorado, realizei com ele três entrevistas. Vanderlei cumpre pena há 18 anos, tendo passado por
diversos estabelecimentos do sistema penal do Estado se São Paulo. Considerei-o um interlocutor
privilegiado para pensar o tema das rebeliões, porque além de ter vivido estas situações no âmbito penal
adulto, ele tem contato com jovens recém internados no sistema penal, oriundos de passagens pela
Febem-SP e que tinham participado ou vivido situações recentes de rebelião (1999, 2000), além de ter
protagonizado na própria Febem, quando adolescente, diversas situações de fuga e rebelião. A análise da
fuga em massa que ele “liderou”, encontra-se no cap. II.
para aprofundarmos as questões trabalhadas, para acompanharmos alguns
desdobramentos, seja para facilitar para os demais a introdução ao tema e ao contato
comigo. Os adolescentes que participaram por uma segunda vez, sempre facilitavam a
aproximação dos demais ao tema, convidando colegas, indicando pessoas-chave ou
apresentando de modo favorável a atividade. Considerando-se que alguns internos
participaram duas ou mais vezes, ouvi em torno de 115 internos, de idades variando
entre 15 e 19 anos.40

Com todos estes jovens, deparei-me rapidamente com uma dificuldade: sua pertinente
desconfiança com relação ao mundo adulto.

Uma vez que o contato era pontual, pois a cada encontro formava-se um novo grupo,
era crucial a forma de abrir o grupo; em geral, buscava deixar muito claros os objetivos
da pesquisa e minha posição (distinta das posições institucionais). Por vezes dizia que
buscaria escrever o ponto de vista deles sobre as rebeliões, uma vez que esse ponto de
vista era em geral bastante desconsiderado, pois que sempre vigorava o ponto de vista
dos adultos. Como essa compreensão era bastante consensual, muitos concordavam em
falar.

Propunha falarmos das rebeliões: o que sabiam sobre elas, como aconteciam, o que as
disparava, quais seus efeitos, como era estar no meio de uma; enfim, o conjunto de
representações, opiniões e modulações afetivas que este tema punha em jogo. Buscava
também abordar outros temas que eu supunha indicativos de modos de resistência:
greve, gírias, tatuagens... ou outros assuntos que desejassem falar. Os grupos duravam
em média de uma hora e meia a duas horas.

No entanto, no decorrer do processo, a partir do acúmulo das próprias problematizações


que iam se tecendo e com a presença dos mesmos internos de um grupo para outro,
favoreceu-se a constituição de uma estratégia bastante próxima à pesquisa como
“intervenção”. Seja ao modo da “intervenção sociológica” (Dubet, 1987; Dubet e
Martucelli, 1996), em que os sujeitos não somente testemunham sua experiência, mas
também produzem uma análise de seus problemas; seja ao modo da “intervenção
institucional” em que se trata de desvendar as instituições determinantes do discurso e
da ação grupal, de decifrar as relações que os indivíduos e grupos mantêm com as
instituições para convocar os processos instituintes e criativos (Lapassade, 1983,
Lourau, 1996).41

40
Foram realizadas, na UE-2, quatro entrevistas individuais e três grupos com uma média de 10 internos
(agosto-outubro/99) e na UE-19, três grupos, com uma média de 10 internos (setembro-dezembro/99); na
UE-14 (abril-maio/99), cinco grupos, com uma média de sete internos e na UE-15, foram realizados doze
encontros, com uma média de sete participantes. Nesta unidade muitos internos participaram várias vezes,
assim, o total de internos ouvidos ficou em torno de 30.
41
Um exemplo desta dimensão problematizadora da pesquisa é o de uma certa formulação coletiva que
apareceu nos grupos de internos da UE-19: a de que, de certo modo, eles estavam condenados à rebelião.
Esta possibilidade de problematização foi mais possível naqueles grupos que tiveram uma certa
continuidade, como por exemplo na UE-15, em que optei por fazer um dos grupo fechado, no qual os
internos participaram de até seis encontros comigo.
Nos grupos, minha intervenção buscava, em geral, favorecer a circulação da palavra e o
desenvolvimento do tema, a elucidação e clarificação das diferentes opiniões e, sempre
que possível e oportuna a problematização de alguns aspectos (principalmente onde
havia divergências, ou emergia um forte impacto afetivo ou ainda em que eu me via
fortemente implicada). Em várias ocasiões, precisei explicitar a justa desconfiança na
relação comigo. E, ainda assim, por vezes, silêncios e olhares de inspeção.

A forma de escuta buscou acompanhar não apenas o conteúdo verbal, mas todas as
linguagens: a corporal, a gráfica, os silêncios, a entonação, os mínimos e os grandes
sinais. Sempre levava papel, lápis de cera, caneta... para possibilitar outras maneiras de
dizer: desenhos, rabiscos, pequenas mensagens, etc. As entrevistas grupais foram
gravadas, sempre que os adolescentes autorizavam. Via de regra topavam, alegando ser
a única maneira de falar...

Era freqüente que eu precisasse desenvolver uma percepção mais aos moldes do cinema
do que da literatura. O tom cinema-adrenalina com que contam as rebeliões precisou ser
considerado na forma de para narrá-las: destituídos deste colorido cênico e intenso
parecem perder o que têm de melhor.

Como bem observa Meunier (1976, p. 102):


...os adultos, que se atêm ao conteúdo, teimam em decodificar o saber dos
Gaminos como se esse linguajar fosse um esforço de comunicação explícita: na
verdade, quando fala, o Gamino não deseja exprimir um pensamento; o que ele tenta é
comover. É agradar ou desagradar. Sua conversa constitui mais um comportamento
expressivo, uma facécia, que uma informação. A essência da mensagem se encontra
fora das palavras. As mentiras do gamino, sua mitomania, só se equiparam à
incompreensão do ouvinte que sacrificou definitivamente a palavra ao sentido. O poema
à razão. O Gamino que, numa mesma frase se contradiz, nem sempre está querendo
enganar o adulto que o ouve: ao passar de um extremo para outro, ele tenta fazê-lo
compartilhar os mil e um caminhos da sua história...

De fato, se pretendemos trabalhar com a coerência e a racionalidade de suas produções


discursivas, rapidamente reproduzimos uma estratégia de tutela e controle, retirando-
lhes sua potência e sua capacidade de escape. Ao contrário, se ouvimos, como indica
Meunier, sua sonoridade e seus ritmos, seu comportamento expressivo, podemos
acompanhar o intenso jogo de criação de estratégias que eles produzem: nos grupos era
bastante freqüente que criassem circunstâncias para burlar uma regra institucional,
colocando-me como negociadora ou cúmplice, que criassem uma cena para impactar a
pesquisadora, ou ainda que fizessem passar num desenho, bilhete ou comentário
marginal – no sentido de ser à margem da conversa/tema principal – uma mensagem
transgressiva em relação às normas ali configuradas.

Além disso, “entre os jovens pertencentes a grupos visivelmente estigmatizados, a fala é


um terreno ambíguo, ‘deslizante’, sendo necessário (...) tentar perceber como aqueles
atores ‘falam’, como organizam a lógica de sua cadeia discursiva” (Diógenes, 1998, p.
65).

A segunda etapa de construção de narrativas, inicialmente planejada, deveria consistir


na escuta dos adultos, funcionários e gestores da Febem-SP, em torno das rebeliões. No
entanto, no decorrer do trabalho, optei por fazer, no que se refere a estes atores, apenas a
pesquisa documental, porque pela sua posição institucional, pelas suas possibilidades de
articulação são inúmeros os canais de expressão e manifestação de que dispõem:
Sindicato, Febem, imprensa. Além disto, é bastante conhecida a desvantagem logística e
de própria possibilidade discursiva em que se encontram os adolescentes. Certamente
que a escuta dos funcionários nos traria dados importantes principalmente sobre os
mecanismos institucionais que também determinam efeitos bastante danosos e tóxicos
sobre o trabalho (vide número de funcionários com problemas de saúde mental); mas,
certamente isto nos remeteria para muito perto de uma análise da instituição Febem, o
que não era o objetivo principal. De todo modo, os funcionários foram ouvidos
informalmente ao longo de toda a pesquisa.

Como já disse, a pesquisa de campo coincide com um momento de intensa ação


político-institucional, seja no tocante às inúmeras críticas ao modelo adotado pela
Fundação formuladas pela sociedade civil, seja no tocante aos esforços do Poder
Executivo em construir e implementar um novo projeto para a Febem. Desde aí, minha
implicação com esta temática passou a adotar também como estratégia de trabalho a
participação num grupo interinstitucional relativo à temática do autor de ato infracional,
sediado no Conselho Regional de Psicologia.

Certamente esta militância mostrou-se também crucial para a pesquisa, na medida em


que me colocou muito mais próxima do acompanhamento dos acontecimentos na
Febem, pois uma de nossas tarefas era a produção permanente de informações. Em
instituições tão fechadas e avessas à transparência era crucial que acompanhássemos as
situações, principalmente as de violação de direitos, para sua necessária divulgação e
intervenção. Além disto, o contato com os internos era permanentemente tomado por
inúmeras denúncias de maus-tratos e espancamentos e por suas interrogações quanto ao
que eu podia fazer em relação a isto. Este contato só fez intensificar minha participação
nos fóruns em defesa dos seus direitos.42

A pesquisa no Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente

São Paulo tinha à época da pesquisa dois tipos de serviço de Liberdade Assistida (L.A.):
o desenvolvido pela própria Febem e o realizado pelos Centros de Defesa dos Direitos

42
A Comissão de Criança e Adolescente do CRP organizou Campanha contra a redução da idade penal,
com produção de vídeo, concurso e gibi sobre o tema (em 2000-2001) e colaborou na produção de um
vídeo sobre a tortura nas instituições totais, onde se aborda, em particular, a questão da Febem-SP (2001).
da Criança e do Adolescente, este último de caráter mais comunitário, em geral mais
conectado ao contexto cultural do jovem.

Entrei em contato com um dos Centros de Defesa que tinha, além de importante
trajetória política de defesa e promoção dos direitos da criança e adolescente, uma
tradição de estímulo à pesquisa e de formação de seus educadores. A Casa 10, como é
conhecida, por localizar-se no número 10 da Rua Estilac, na região do Ipiranga, mantém
fortes vínculos com o movimento hip-hop e é possível ver nos grafites da parede da sala
de oficinas várias mensagens de rappers (dentre eles, Mano Brown) referidas à equipe
que lá trabalha e aos jovens.

No primeiro semestre de 1999, freqüentei algumas atividades que os jovens lá realizam


(oficina de vídeo, de sexualidade, de esporte, de instrumentos musicais; cursos de street
dance; eventos de rap) tanto para me colocar sintonizada nas suas questões e interesses e
para que eles também se familiarizassem comigo. Sabemos da importância e da
necessária presença para constituir com esses jovens uma relação de confiança. Esta
freqüentação nos grupos permitiria também garimpar situações, histórias, casos que
merecessem um aprofundamento. Além disso, com os educadores, procurei encontrar
casos cujo perfil se aproximasse dos interesses de pesquisa – jovens com trajetórias de
rebeldias, de resistência. Localizado o jovem, discutidas e analisadas com o educador as
razões de tal sugestão, fazíamos um contato inicial com o mesmo, convidando-o a
participar da pesquisa e os contatos seguintes podiam acontecer na própria Casa 10 ou
mais próximo de seu cotidiano (casa, escola, locais que freqüenta). Já ao final do
primeiro semestre, na discussão do oitavo caso, deparei-me com Meia-Lua, de 19 anos,
que mobilizou os interesses da pesquisa. Desinternado em abril de 1999, e cumprindo
em 1999 a medida de Liberdade Assistida, ele esteve ao todo quatro anos internado na
Febem. Conheço-o então num momento crucial, em que pode configurar alguma outra
trajetória de vida. Como para muitos outros jovens, esta busca tem se dado
especialmente por meio do hip-hop. Todo o segundo semestre de trabalho na Casa 10
girou em torno de contatos sistemáticos com este jovem e com o educador que o
acompanhava. De agosto de 1999 até fevereiro de 2000, realizamos em torno de 15
encontros (de duas horas em média) e tal como se configuraram os desdobramentos do
contato com o jovem (em 2000 e 2001), é possível dizer que a própria pesquisa
converteu-se, de certa forma também num dispositivo socioeducativo, na medida em
que foi uma oportunidade de reconfigurar sua história, suas trajetórias, além de um
reconhecimento e apropriação de outros territórios da cidade (uma vez que pedia a ele
me apresentasse seus lugares de circulação social e que também enveredamos por
lugares que ele ainda não conhecia). Os meus encontros com o jovem se deram ora na
Casa 10 – nas Oficinas de que participava –, ora em espaços da cidade: centros
culturais, lanchonetes, parques, museus, shows de rap, ora na sua casa, ou mesmo na
PUC, quando ele freqüentou algumas de minhas aulas), somando-se ao projeto
socioeducativo estabelecido pela Casa 10.
Do mesmo modo, o caso Meia-Lua me serviu fundamentalmente como um guia, um
condutor da própria pesquisa, espécie de sinalizador móvel das trilhas socioculturais
que estes jovens percorrem.

Conforme sugere Glória Diógenes (1998) em torno das questões da pesquisa de campo
com as gangues e a temática da violência, “tanto as práticas da violência urbana, de
modo geral, têm sido difusas, como também os seus principais protagonistas, os jovens,
nomadizam em espaços múltiplos da cidade” que faz-se necessário “nomadizar o
esforço de investigação”. (p. 56)

II. Inventário de Rebeliões

...abaixar o limiar a partir do qual se suportam os


mecanismos de poder já existentes; trabalhar para tornar
mais irritáveis as epidermes e renitentes as
sensibilidades; aguçar a intolerância aos fatos de poder e
aos hábitos que o saciam; fazê-los aparecer no que eles
têm de pequenos, de frágeis e, por conseguinte, de
acessível; modificar o equilíbrio dos medos; fazer surgir
do ordinário, o exorbitante, e daquilo que se tolera
habitualmente, a brutalidade que revolta. Multiplicar no
tecido político os pontos de repulsão e estender as
superfícies das dissidências possíveis... (Foucault, 1994,
pp. 139-140)

1. O corpo como prova ou a rebelião como dispositivo de fala

“Vão achar que estamos escrevendo uma ficção científica... não vão acreditar!
Não temos liberdade de expressão, não podemos falar...” (19/04/2000, UE-14, 17a,
grifo meu)43

Este é o comentário de um interno da Febem-SP, duvidando que a sua participação na


pesquisa pudesse de fato possibilitar o testemunho sobre sua realidade para outras
pessoas. Ainda que este fosse um sentimento bastante presente para os internos e para a

43
As falas dos internos da Febem, citadas neste texto, estão nesta ordem referenciadas: data da entrevista,
unidade em que estava internado – exceto quando se tratar de ex-interno – e idade do jovem. O jovem
está referido pelas iniciais ou codinome para evitar possível identificação. Eventualmente podemos não
dispor da idade do jovem. UE é Unidade Educacional, onde o jovem cumpre medida de internação
(atualmente chamada de UI, Unidade de Internação).
pesquisadora ao longo do trabalho de campo: - seja o da descrença, seja o da
impossibilidade de oferecer visibilidade “fidedigna” à “realidade” da Febem, de forma
geral, a grande maioria dos internos com quem tive contato se dispunha a falar, mesmo
que sua participação não os beneficiasse imediatamente (ou mesmo sabendo que talvez
não os beneficiasse de modo algum) ou ainda sabendo do longo tempo necessário à
divulgação dos seus depoimentos.

As poucas recusas mais intensas à participação referiam-se a um sentimento de ser mais


uma vez usado: “ainda quer ganhar dinheiro às nossas custas, vendendo livro sobre
nós!” (08/99, UE-2)

Foi na UE-14, no entanto, que a experiência de ouvi-los e gravar as conversas revestiu-


se de um enorme poder-resistência do lado deles.

Quando apresentava, para um grupo de internos, a proposta de entrevista grupal para a


pesquisa, fui surpreendida por uma inusitada contraproposta: para que eu pudesse gravar
o que falariam, eu deveria transcrever a fita cassete, fazer uma cópia assinada, com
registro em cartório, para que eles deixassem com a família. A idéia era que tivessem
garantia de que eu não adulteraria o que eles disseram e que eles pudessem se proteger.

Curiosa utilização dos procedimentos jurídicos, desta vez a favor deles, mas, ao mesmo
tempo, um importante sinalizador de que estão vivendo uma situação de intensa
desproteção, e de que cada vez mais estão tendo que assegurar seus próprios métodos de
defesa.

As adesões para participar da pesquisa justificavam-se pelo desejo de “mostrar e contar


a realidade”. Aliás, a insistência dos adolescentes no tema da “realidade”, melhor
dizendo um certo tom hiper-realista que os atravessa permanentemente, longe de poder
ser considerado um empobrecimento de linguagem e de pensamento (numa oposição à
lógica abstrata), precisa ser tomado na sua dimensão de presentificação, como diz
Alexandre, no seu rap: “Somos projeto realidade, viemos aqui só para falar a verdade...”
(outubro/2000, UE-15, 18a). Projeto Realidade é o nome do grupo de rap de Alexandre,
também interno da Febem, mas quase pode ser estendido ao modo mesmo de
subjetivação destes jovens44.
“Nós somos porta-voz da realidade. Aqui tá querendo explicar a realidade! Não
é que nós somos a realidade, tamos tentando explicá-la, fazer alguém entender!”
(30/10/2000, UE-15, 18a)

Hiper-realismo presente também num modo específico de apresentar seu cotidiano: com
enorme riqueza de detalhes, planos cênicos.

44
Projeto Realidade é também o nome da parceria do setor de programas especiais da Febem-SP com o
grupo de rap Jigaboo, constituído desde 1999 e que reúne educandos e ex-educandos da unidade da
Febem do Tatuapé. O projeto derivou na gravação do CD “As aparências enganam”, de setembro de 1999
(Rocha e outros, 2001). O grupo é referência para muitos dos internos e durante a pesquisa ouvi vários
deles cantando o som do Jigaboo, especialmente a música “Realidade”.
Explicando um dos segredos do rap, Meia-Lua, ex-interno da Febem, insiste na idéia da
necessidade de detalhar “a real”:
“Detalhar a real é pegar mais pesado! A mensagem [o recado principal de uma
letra, em geral uma dica de conduta], a mensagem é uma boa, mas não chega no foco. O
foco é o cara ele ajuntar a real da boca, a real da favela, a real da Febem, a real da
cadeia, a real do crime e a real dele e pôr na letra! Juntar todos os planos e jogar na
mesma letra! Política, educação, desemprego, McDonald’s. É! McDonald’s! Sério
mesmo [querendo reafirmar que o McDonald’s tem tudo a ver com política], shopping,
vendinha da tia, da esquina...45” [27/03/2000, Meia-Lua, 19a]

Ao imaginar umas cenas que colocaria certamente num vídeo sobre a vida deles,
Raimundo, interno da Febem, começa a descrever uma cena de rebelião, destas bem
cinematográficas, aos moldes dos filmes americanos de ação e violência: “Um grupo de
jovens encapuzados, andando do muro da unidade em direção ao portão, com naifas na
mão. São muitos e caminham em direção aos funcionários para tomar a chave e sair. Do
outro lado, a câmera gravando...”. Raimundo dispara a rir e diz que, na seqüência, já
pulariam mesmo o muro e deixariam de filmar: “Vê, senhora, do nada, o filme vira
realidade!” (risos de todos) (17/04/2000, UE-14, 17a, grifo meu).

Do nada para a realidade, da ficção para a ação; de fato, como diz o rapper, protagonista
do filme O Rap do Pequeno Príncipe e as Almas Sebosas, numa síntese precisa do
modo de existência dos jovens da periferia do Recife: “A gente não pode nem imaginar,
a gente tem que acontecer!”46

Outra das motivações para a participação na pesquisa relacionava-se às poucas chances


de fala que normalmente têm:47
“Nunca aparece a gente falando, nunca aparece o que nós pensamos...”
[05/08/99, UE-2, 16a]

“Rebelião passa na TV direto! Quando nóis apanha, não passa não!”


[12/04/2000, UE-14, 17a]

“Eles mostram a rebelião, mostram que foi contida, mas não mostram que foi

45
Mano Brown, rapper do Racionais, ao comentar o estilo de criação do seu grupo, também faz alusão a
este hiper-detalhamento, que nos remete à idéia do hiper-realismo: “Racionais tem de fazer música e fazer
detalhado, porque as coisas não são muito simples. Você vai contar a história de um crime, as coisas não
são simples, não é fácil você apontar um culpado e um inocente, tem muitas coisas envolvidas e isso
demora. Vai muitos detalhes, vai nomes, vai lugares, vai cor, tudo tem a ver, tudo tem fundamento” (em
Caros Amigos Especial, n. 3, setembro 1998, p.16).
46
Documentário com direção de Marcelo Luna e Paulo Caldas, Raccord, 2000.
47
O uso do gravador passou a ser um elemento importante desta prova da realidade. Curtiam ouvirem-se
falando e destacavam, às vezes, o que eles gostariam de ver escrito: “Põe isso aí, senhora, no que você vai
escrever!” Outras vezes, a oportunidade da conversa comigo era o pouco de atividade que tinham. Por
vezes, eles próprios faziam-se de repórteres e passavam a entrevistar uns aos outros. Nestas horas, alguns
depoimentos ganhavam enorme contundência e poder de impacto. Era como se estivessem falando como
coletivo para um outro coletivo. Mas a maior curtição foram as gravações de rap e funk no gravador
destinado à pesquisa. Pediam insistentemente que eu os conectasse com a TV e o rádio. Eles percebem
agudamente a necessidade do diálogo com a mídia.
espancamento. Isto aí eles encobrem...” [UE-15, 16/10/2000]

“O que vai ser mostrado? Só mal de menor!” [Meia-Lua, 29/08/99, 19a]

“Eles [a sociedade] estão sabendo pela boca de funcionário e de juiz. Da nossa


boca, que nóis quer falar a real para eles, nunca chega... nunca tem uma oportunidade
desta. (...) A rebelião do dia 19 [refere-se a 19/02/2000, no Tatuapé] só não chegou no
momento certo porque não falamos com a reportagem. Porque ali, com a nossa palavra,
muita gente vai acreditar que é verdade! Esta é a oportunidade que nóis quer: falar com
a reportagem.” [17/04/2000, UE-14, 17a, grifo meu]

“Senhora, tem que fazer um trabalho para mostrar que nóis não é isso que eles
pensam! Para falar da realidade, o que acontece mesmo, o porquê de rebelião: mau-
trato, estes baratos! Tem que falar a realidade!” [16/10/2000, UE-15, 17a]

“Só se a sociedade viesse ver a rebelião aqui dentro, não pela TV, porque só os
menor é culpado, é isso – tem sim, uns que destrói com os outros – só para eles ver o
que é aqui dentro. Tem que vir a sociedade trabalhar um dia aqui e no dia, o bicho
pegar! E eles vão ver. Sabe o que é 2000 menor correndo aqui dentro com a naifa na
mão? Tem professor que dá aula com medo de nóis, nem passa lição!” [27/12/2000,
UE-15, 16a, grifo meu]

Essas falas parecem confirmar, de certa maneira, o que já me orientara a realizar esta
pesquisa: fazer aparecer a perspectiva deles, para que não sejam dados como “ficção
científica”, mas também para que possam “imaginar”, ou como eles mesmos dizem,
para castelar, e para que não precisem falar todo o tempo, pagando o preço de uma
extrema realidade.

Afinal, “falando é melhor que fazendo (uma rebelião)... menos risco, né senhora?”
(30/10/2000, UE-15, 18a)

Podemos dimensionar o preço dessa extrema realidade a partir de Maguila, adolescente


morto carbonizado na rebelião de 25/12/98, na UE-17 (Complexo Tatuapé).

O caso Maguila

“No momento em que o fogo se alastrava, vira quando Maguila riscava o rosto
com um caco de vidro e dizia para os demais: ‘vamos ficar e morrer todos’, não sabendo
informar como o mesmo viera a entrar em óbito, pois saíra para fora...” [p. 355]

“...que no momento do incêndio tentaram apagar o fogo com os colchões com


o auxílio de Maguila, não obtendo êxito, Maguila dissera: ‘não, ninguém sai. Vamos
morrer todo mundo aqui’, e de posse de alguns vidros da janela, quebrados pelos
internos, passou a lesionar-se no rosto...” [p.362]
“Diante do alastramento do fogo, os adolescentes começaram a deixar o
alojamento pelas portas e pelo teto, mas Maguila, totalmente fora de controle, começou
a auto-lesionar o rosto com estilhaços de lâmpada, dizendo durante todo o tempo:
‘vamos morrer todo mundo junto’; que o declarante, em cima do forro, presenciou
quando Maguila jogou um colchão sobre o fogo e ajoelhou, onde caiu de bruços e ali
permaneceu até seu óbito; que o declarante entende que Maguila talvez conseguisse
sair, caso quisesse, porém não pode dar a certeza, diante da dificuldade em sair devido
ao tumulto e às agressões oferecidas pelos monitores.” [p. 395]

“...que Gilberto e Maguila tentaram negociar (com os funcionários) dizendo


que ‘todos estavam numa boa e não pretendiam fugir’, que, sem acordo, funcionários
chutavam a porta e atearam fogo (...) no momento do incêndio, não encontrando seu
irmão gêmeo, chamara por Maguila, para que saíssem para fora, pois eram os dois
últimos que permaneciam e Maguila respondera: ‘não! vamos morrer aqui para ter a
prova que os pirril bateram em nós’, tendo o declarante saído e Maguila permanecido,
que os funcionários sabiam que Maguila ficara ali, pois este ao negociar dissera: ‘que
todos sairiam de mãos dadas e que estavam sossegados e não iriam fugir’, tendo
inclusive Maguila contado o número de internos no ambiente, a pedido dos funcionários
e informado aos mesmos; que, no entanto, Maguila não fora socorrido.” [p. 398, grifo
meu]

“...que presenciou quando Maguila ficou desesperado e se cortou com


estilhaços de vidro; que, logo ouviu o mesmo gritando, enquanto se ardia em chama (...)
que diante do alvoroço, não ouviu Maguila dizer que queria se matar, somente ouviu
comentários posteriores de que havia convidado a todos para não deixarem o
alojamento.” [p. 390]

“... que Maguila tentara sair, não conseguindo, gritou: ‘não, não vamos sair,
vamos morrer todo mundo’.” [p.406]

“... ‘Não, ninguém sai, vamos morrer todos aqui’ e, de posse de alguns vidros
da janela, quebrados pelos internos, passou a lesionar-se no rosto.” [p. 635]

“Eles se trancaram para os pirril não zoar eles! Pediram a brasa para os pirril
para acender um cigarro. Pirril tacou fogo! Eles conseguiram apagar, urinando. O chefe
dos pirril foi negociar, tacaram lâmpada fluorescente na cara dele! Depois tacaram fogo
e eles não queriam abrir não! E os menores conseguiram ir saindo. E o Maguila falou: já
que é para morrer, vamos morrer mesmo! Ele pegava pedaço de vidro, ficava se
cortando e entrando para dentro do fogo. Meu parceiro queimou as costas toda. Ele
achava que o Maguila quis se matar!” [16/10/2000, UE-15, 18a]
Exceto o último, são todos fragmentos de depoimentos de diferentes internos da UE-17
à polícia.48

O Laudo do Instituto de Criminalística49 confirma, pelo exame do cadáver, a morte de


Maguila por carbonização e sugere exame mais acurado pelo Instituto de Medicina
Legal, tendo em vista a estranha situação de imobilização do cadáver:
Notava-se, também, ao virar o corpo da vítima, a existência de uma extensa
área do dorso que não apresentava queimaduras extensas, sugerindo que as chamas
atingiram a vítima na posição de imobilização. A par disto, estranhamente, a situação
de imobilização da vítima não se assemelhava à clássica posição defensiva ou de
“pugilista”, o que faz recomendar um exame mais acurado dos sinais vitais, sendo que
a descrição minuciosa dos feridos acima mencionados, de outros porventura existentes e
a palavra final no tocante à morte, caberá, por competência legal, ao legista do IML, em
laudo a ser expedido em separado. [p.537, grifos meus]

A “estranha” situação da morte de Maguila reveste-se, para os jovens da Febem, de


muitos sentidos. Ouvidos posteriormente ao episódio50, voltam a falar de Maguila, por
vezes para sustentar sua posição de “vítima do sistema falido”; outras para dá-lo como
“louco”, na medida em que voluntariamente quis machucar-se; outros ainda para
colocá-lo como “tomado pelo demônio”,51 explicação recorrente entre muitos internos
para as situações de grande violência ou de muita maldade.52

48
Tomados ao final de dezembro de 1998 e início de janeiro de 1999, como parte dos autos do inquérito
policial de nº 391/98, instaurado no 81º DP em 25 de dezembro de 1998. O último depoimento é de
interno que não estava naquela unidade quando do episódio do incêndio e que ouvi como parte da
pesquisa de campo. Todas as citações documentais apresentadas neste caso (BOs, relatórios, depoimentos
de internos e funcionários) foram extraídas do Processo Administrativo 01/99 (DEIJ), que apura a
rebelião de 25/12/98, na UE-17 (Complexo Tatuapé) e que deu causa à morte de um adolescente no
interior desta unidade.
49
Laudo n. 43.023/98 expedido em 9/02/99.
50
Entre 1999 e 2000, já como parte da pesquisa de campo. Portanto, não participaram diretamente do
episódio, mas souberam ou eventualmente o acompanharam à distância.
51
Diz um interno da UE-15: “eu sempre ia fazer curso com o Maguila. Sempre ele falava que tinha feito
um pacto com o demônio. E para nóis, não foi ele que quis se matar. Se ele recebia o diabo antes, com
certeza o diabo dominou o corpo dele uma hora destas. Já quis a alma dele!” (16/10/2000)
52
A presença de uma discursividade apoiada numa hierofania, nas figuras de demônios e fantasmas e em
justificativas religiosas, compõe parte das explicações sobre as mortes de internos durante as rebeliões:
“estavam (os demônios) pedindo sangue!!!”, bem como sobre as brigas, conflitos e também sobre seus
atos delitivos, fato também observado por Diógenes (1998), na pesquisa sobre gangues e por Oliveira
(2001) nos internos da Febem-RS. Quando trabalhei nas unidades da Febem-SP, por diversas vezes
precisamos nos valer de ritualizações - missa, cultos afro-indígenas, com velas no pátio, rezas, etc - para
processar o temor a fantasmas, expresso pelos jovens. De fato, trabalhávamos em prédios que tinham
sido palco de torturas e espancamentos: os jovens ouviam vozes e sentiam presenças! Sentiam a
pregnância da morte e do sofrimento. Não precisamos recorrer a explicações de caráter espiritual para
testemunharmos a opressão que lá vivíamos como efeito da arquitetura e das camadas de “subjetivação”
ali produzidas, como estas densidades de que nos vemos tomados quando visitamos espaços ou sítios
históricos que pela sua capacidade de síntese e de visibilidade nos carregam para muito perto do
acontecimento que ali se protagonizou. Penso que ainda que as rebeliões invoquem uma certa ritualidade,
não podemos nos esquecer da tangibilidade da tortura e do horror que estes jovens vivem, conforme a
análise mais à frente; bem como da “escassez de futuro” e do valor que o discurso religioso pode tomar,
neste contexto, como esforço de produção de sentido.
Interessa destacar no ato-Maguila o valor de “dito” de que se reveste: corpo como
resistência, corpo-testemunho, corpo dado como prova: “Não! Vamos morrer aqui para
ter a prova que os pirril bateram em nós”.

Corpo marcado pelas inscrições institucionais: rosto retalhado com os vidros das janelas
quebradas. Corpo incendiado, não mais como resultado da luta, na posição de pugilista
e de sua defesa, mas corpo dado às chamas: o jovem narra que Maguila joga um colchão
sobre o fogo e ajoelha, caindo de bruços e ali permanecendo até a morte.

Corpo institucionalizado: Maguila teria participado das negociações para sair, como
conta outro jovem: Maguila, ao negociar, dissera que todos sairiam de mãos dadas, que
estavam sossegados e não iriam fugir, tendo inclusive contado o número de internos no
ambiente, a pedido dos funcionários e informado aos mesmos.

Corpo-ato, este é o primeiro sentido que queremos também destacar do funcionamento-


rebelião: a rebelião é o lugar de aparecimento possível dos jovens, de visibilidade.
“Rebelião é a única maneira que a gente tem de se aparecer...” [29/09/99, UE-
19, 16a]

“É uma hora de liberdade de expressão, de poder falar o que nóis quer!”


[17/04/2000, UE-14, 18a]

“A hora da rebelião é uma hora de expressão...” [17/04/2000, UE-14, 18a]

Em geral esse era também o emergente inicial de todas as entrevistas realizadas com
eles: a possibilidade de expressão. Para quem vive um cotidiano de “ser nada,
ninguém”, o esforço de presentificação é imensamente importante.
“Eu penso que eles acham que porque a gente tá aqui, nóis não é nada! Pensam
que a gente nunca foi ninguém.” [29/09/99, UE-19, 17a, explicando porque pensam que
apanham tanto]

Certamente esta tarefa – “presentificar-se” – está colocada como questão para todos os
que são tomados como objeto de violência, seja ela repressiva ou doce (as tutelas), mas,
especialmente no campo da juventude, dado o lugar problemático e patológico de que
esta tem sido revestida, esse esforço de presentificação tem sido destacado por muitos
estudiosos.53

53
Esta presentificação, como “performatividade”, está tematizada nos vários estudos realizados com
punks, darks, carecas do subúrbio, gangues e funkeiros que ressaltam a natureza impactante da presença
pública desses personagens no cenário urbano, que adotam o “movimento”, “velocidade” e a
“superexposição” como referentes centrais nas suas “encenações”, fazendo da cidade um campo de
“ocupação” e “extensão” (Abramo, 1994; Sposito, 1994; Caiafa, 1989): Abramo (1994) destaca, em
pesquisa sobre os punks, que a cidade é palco onde “vêm realizar um aparecimento na cena pública (...),
vêm se expor, apresentar suas questões através do espetáculo em praça pública”(p.xv); Caiafa (1989)
assinala que a flânerie, entre os punks do Rio de Janeiro, este “andar a esmo, sem meta, sem rumo”
(p.14), como “tribo que nomadiza em ruas perigosas” (p.16) revela, por meio da rotatividade, dos gestos,
de uma estetização que se sobrepõe à palavra, uma comunicação “em movimento” (p. 46). Diógenes
(1998) vê nas gangues e no Hip-Hop “uma inversão no uso da cidade; ao invés de proteger-se, de
Para seguirmos compreendendo o valor-ato da morte de Maguila, é importante
avançarmos no desenho do ocorrido. Voltemos aos depoimentos dos jovens, como parte
do inquérito policial:
“...que no dia 24, durante o jantar, ouvira quando alguns internos combinaram
para empreenderem fuga naquela noite, que vira quando os internos empreenderam fuga
em um “cavalo doido” e trancaram alguns monitores na Ala A, juntamente com alguns
internos; que o interno G. tomara o monitor M. pelo gogó, com um pedaço de ferro na
mão, levando-o para fora e vira o coordenador ferido no olho direito, que a fuga fora
frustrada pelos vigilantes e monitores, sendo que o declarante com alguns internos
correram para a Ala B e ali se trancaram, pois não tinham intenção de fugir; que ali
encostaram na porta de madeira um guarda-roupa e algumas cama-beliche, sendo que
do lado de fora alguns monitores gritavam para que saíssem para fora; que o declarante
e demais internos permaneceram dentro do recinto, pois tinham receio de que fossem
surrados pelos funcionários; que avistava, do lado de fora, monitores da UE e outros,
aproximadamente dez, encapuzados; o coordenador pedia para eles saírem, pois nada
aconteceria, sendo que os mesmos empurravam a porta de madeira, avistando quando os
monitores encapuzados jogaram jornais com um líquido com odor de querosene,
incendiados, para dentro do alojamento (...) que os monitores instigavam para que os
encapuzados ateassem fogo; que o fogo alastrou-se e os internos desesperados
conseguiram puxar o guarda-roupa e as beliches e um empurrando o outro saíram para o
lado de fora, enquanto os outros internos agonizantes, conseguiram escapar.” [p. 355-
356]

“...que jogaram um líquido com odor de querosene, que o fogo alastrara-se


rapidamente, enquanto os internos saíam, os funcionários gritavam: ‘saem, saem...
vocês vão morrer todos queimados aí dentro? Vocês são loucos?’; ‘Vocês botaram fogo
aí dentro?’; ‘Quando vocês saírem daí, vão ser todos quebrados’; que no momento do
incêndio, tentaram apagar o fogo com os colchões.” [p. 362]

“...em seguida à fuga, os vigilantes e grupo de apoio [funcionários de outras


unidades] adentraram a unidade e foram em direção ao módulo B e pediram aos
adolescentes que saíssem, tendo saído alguns internos, que foram agredidos, razão para
os demais não saírem e se trancarem no alojamento. (...) Em um dado momento ouviu

esconder-se, de resguardar-se nos muros das casas, cria-se uma contra-ordem: exibir e movimentar-se nos
escuros, nos becos e até mesmo, se necessário, nos esgotos” (p.154). A autora vê também esta
performatividade na expressão da violência entre as gangues: “a violência para as gangues é um grande
espetáculo e parte dele é pura encenação. Não que eles mintam, adulterem os fatos. É que para elas, a
sensação do excesso, do exagero, do que resvala e transgride ritmiza todo o conjunto de suas
experiências. Elas são a caricatura da sociedade do espetáculo e do medo.”(p.16); Vianna (1988) em
estudo sobre o funk carioca coloca que o funk apresenta uma espécie de encenação da realidade dos
jovens favelados, da condição suburbana ou da pobreza que se estrutura através de demarcações de classe
e de cor, sendo a violência das festas, uma violência ritualizada: um teatro inventado para impedir que a
violência real tenha lugar em outras situações. Penso que esta presentificação adquire uma função-limite
no caso dos infratores, isto é, ela estaria extremamente potencializada, constituindo-se num “hiper-
realismo”.
alguém dizer: ‘vocês gostam de agredir funcionário, vocês têm que morrer queimados’ e
a seguir ouviu a claridade do fogo (...) que, com o incêndio, os internos que estavam no
alojamento B foram obrigados a abandonar o local, fugindo pelo telhado e conforme
iam descendo, eram agredidos por monitores e vigilantes com pedaços de paus e
ferros.” [p. 27]

“...como estava no alojamento A, só ouviu a gritaria dos internos do alojamento


B, dizendo que iriam morrer queimados. (...) ouviu um monitor dizer: ‘vocês gostam de
cortar o rosto de funcionário, agora vão morrer queimados’” [p.25]

“...quando há fugas, aqueles que não fogem costumam trancar-se para não
serem surrados pelos vigilantes.” [p.361]

“...que sete a oito internos dominaram os monitores e os trancaram no A; que


os que quiseram participar da rebelião, trancaram-se no B (...) que do A, onde estava
trancado, viu por baixo da porta, os vigilantes e o monitores colocando fogo no telhado
do alojamento B, para forçar os internos a saírem daquele local (...); que viu monitores e
vigilantes encapuzados com garrafas de álcool na mão.” [p.24]

“...que vira um fogo na Ala B e ouvira quando os manos gritaram: ‘pelo amor
de Deus, estamos sendo queimados’, não tendo visto nenhum funcionário portando
extintor de incêndio para apagar o fogo.” [p.353]

“...que fizeram (os funcionários) buracos nas colméias (guarda-roupas


encostados nas portas) e atearam fogo, inicialmente contido por urina, mas depois
alastrou-se. Que Maguila e Gilberto tentaram negociar sem sucesso: ‘não tem acordo
com vocês’; que ouviu os monitores dizendo: ‘enquanto vocês estão aí dentro, nós
estamos comendo a mãe de vocês aqui fora!’” [p. 405]

Diversos depoimentos, dos quais extraímos apenas alguns fragmentos, são coincidentes
no relato da tentativa de fuga, com um monitor como refém, seguida da tentativa de
proteção da surra, trancando-se no Alojamento B, quando se inicia o incêndio.54

O Ministério Público (MP) abre o processo de apuração de irregularidade. Em visita à


unidade em 25/12/98, os promotores constatam que os adolescentes com lesões
corporais não haviam sido submetidos a exame de corpo delito (ECD) e também não
haviam sido arrolados no boletim de ocorrência (BO) e requerem: afastamento

54
Certamente esses relatos dos jovens à polícia ou ao MP carregam uma versão destinada a este
interlocutor, destacando estrategicamente sua posição de objeto ou de vítima. Um outro relato, desta vez
no âmbito da tomada de depoimentos para a pesquisa, pode dar o devido contraponto: “meu parceiro tava
lá e me contou a fita todinha: eles levantaram uma meia-noite, no Natal. Dominaram, tentaram fuga e não
conseguiram. Voltaram para a unidade, mas os pirril viram. Já tinham zoado; quebrado o maxilar do
coordenador! Eles se trancaram para os pirril não zoar eles! Pediram a brasa para os pirril para acender
um cigarro. Pirril tacou fogo! Eles conseguiram apagar, urinando. O chefe dos pirril foi negociar, tacaram
lâmpada fluorescente na cara dele! Depois tacaram fogo e eles não queriam abrir não! E os menores
conseguiram ir saindo...” (16/10/2000, UE- 15, 18 a).
provisório da diretora da unidade e dos monitores identificados pelos internos; citação
da Febem; oitiva dos jovens e realização de diversos laudos (MP, V.1, pp. 2-3).55

Em 26/12, o MP faz nova petição baseada em documento de representantes da


sociedade civil e conselhos.56 O documento aponta, entre outras coisas, que não se
providenciou efetivo isolamento do local e que um dos membros da equipe de peritos
formulara comentários de cunho pessoal:
Indagado se já havia efetuado outros trabalhos na Febem, respondeu,
mostrando um disquete que retirou do bolso, dizendo que ali estavam as apurações e
que os resultados eram sempre os mesmos, ou seja, o fogo, sem dúvida alguma, fora
provocado pelos adolescentes. [p. 14]

Na petição, o MP requer: autuação do presente expediente como produção antecipada


de provas; preservação do sítio; requisição de exame pericial por peritos da Unicamp;
citação e intimação do presidente da Febem-SP (p.15).

Em 25/12, assim narra o episódio no boletim de ocorrência,57 o coordenador de turno da


unidade:
Setenta internos vieram a rebelar-se, organizando-se em grupos, empunhando
pedaços de pau obtidos através dos próprios móveis da Febem, dominando todos os
funcionários, encarcerando-os em um dos dormitórios da UE por aproximadamente 15
minutos, saindo apenas com a chegada dos agentes de segurança, constatando a evasão
de parte dos internos que posteriormente foram recapturados no Complexo. A outra
parte se alojou no dormitório da Ala B, fazendo barricada na porta e embora feitas
tentativas de diálogos com os mesmos para evitar um dano maior, acabaram por atear
fogo no referido alojamento, acabando por iniciar um incêndio que viera a destruir por
completo a ala B da UE-17. (...) Após controlada a rebelião, fora encontrado um
cadáver totalmente carbonizado naquele dormitório que fora utilizado pelos internos
anteriormente, cuja identificação ainda não foi possível, e que vários internos vieram a
se ferir com a rebelião. [pp. 12-13]

O inquérito policial é aberto com base neste depoimento destacando tratar-se de “evasão
em massa sem êxito [e que] não satisfeitos, atearam fogo no dormitório da Ala B” [p.
262, V. 2], configurando uma espécie de pré-julgamento do ocorrido e uma certa
atribuição de causalidade: porque insatisfeitos, óbvio, então atearam fogo.

No entanto, a conseqüente ação do MP e da sociedade civil faz com que este processo
resulte em responsabilização penal e punição de funcionários.58 O laudo do Instituto de
55
As citações de documentos constantes no processo estão assim referidas: autor da fala, volume e página
do processo. Quando identificado no corpo do texto o autor do depoimento citado, cito só a página em
que consta no processo.
56
Cedeca (Centro de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente), Condepe (Conselho dos Direitos
da Pessoa Humana), Conanda (Conselho Nacional de Direitos da Criança e do Adolescente) e NTC-
PUC/SP (Núcleo de Trabalhos Comunitários)
57
BO n. 2789/98, 81º Distrito Policial.
Criminalística já concluíra pela intencionalidade do incêndio, através de substância
derivada de petróleo (querosene ou removedor encontrado no depósito da unidade),
lançada no local. A própria sindicância interna da Febem-SP59 propõe a demissão por
justa causa de quatro funcionários: três monitores e um coordenador e a suspensão, por
29 dias, da diretora da unidade.

O disquete, tirado do bolso do legista, com a afirmação de que “o fogo, sem dúvida
alguma, fora provocado pelos adolescentes”, talvez seja o exemplo mais paradigmático
de um mecanismo de poder que liga o aparato repressivo à ilegalidade do Estado. No
entanto, a ação da sociedade civil, do MP e da Justiça, neste caso, produziu um
diferencial importante, quebrando a hegemônica versão institucional, policial e social. O
valor-ato da presença da sociedade civil e do MP recoloca a morte de Maguila também
em seu valor de ato e faz aparecer um novo sentido para as rebeliões: o de fazer justiça.

2. Rebelião-justiçamento

Marcos (da UE-14) ao procurar entender a proposta da pesquisa, tentando dizer se eu


queria saber o que significa a rebelião, assim a formula: “Você quer saber o que é que
julga a rebelião?”, inscrevendo a rebelião como um operador de justiçamento.

Ele prossegue, redigindo um pequeno e curioso texto, onde o parco português, mais que
tomado na sua versão de erros, precisa ser compreendido como revelador deste modo
“julgamento’” que ele tenta pôr em cena:
“Rebelião acusalmente suprendimento por nóis infrator. A rebelião indiciada
não só apenas por nóis. Indicalmente por causa dos funcionario si gera a revolta do
adolescente. Apenas eles nos si considera como um marginal mais saiba que o mondo
não são só para um, são para todo (...) momento de rebelião é um momento de
sofrimento para todos nos.” [19/04/2000, UE-14, 17a]

Dado o enigmático do texto, busquei ainda conversar com Marcos sobre sua escrita.
“Indiciada” é para ele “iniciada”, assim como na primeira frase a idéia era dizer que os
infratores são sistematicamente os acusados de fazer a rebelião. Mas, ao seu modo,
parece-me que Marcos disse mais, por isso gostaria de reter estas três palavras assim
encadeadas: rebelião acusalmente suprendimento.

Marcos sintetizou talvez um dos sentidos mais intensos da rebelião para estes jovens:
rebelião como suprendimento-surpresa, com valor de uma acusação.
“Rebelião é o meio de mostrar para a sociedade como é aqui dentro!”

58
Até a data da pesquisa (fevereiro/2002), tramitava processo criminal (052.99.012582-9) de quatro
funcionários no I Tribunal do Júri da Capital por homicídio qualificado e tentativa de homicídio
qualificada contra internos da UE-17. Em 26/10/2001 a juíza do Deij, no âmbito do processo
administrativo sentencia o afastamento definitivo da então diretora da unidade de qualquer cargo de
direção no âmbito da Febem-SP.
59
Sindicância nº. 1908/98, em seu relatório conclusivo, de 8/10/99.
[29/09/99, UE-19, 17a]

“É para mostrar o que estamos sentindo e o que está passando...” [15/12/99,


UE-19, 16a]

“Pior é que promotor, juiz... sabe tudo dessas coisas e espera a rebelião para
tomar providências. Esse negócio de curso [refere-se a escola e curso
profissionalizante], para quê não oferece esse curso lá fora, porque espera virar infrator
para oferecer o curso aqui dentro?” [29/09/99, UE-19, 17a]

Ela é justiçamento em primeiro lugar à violência institucional. Ela aparece então como
sendo reativa e provocada via de regra pelos funcionários.

Rebelião como reação à violência institucional

“A gente não faz rebelião porque quer fugir. A gente faz


rebelião porque sente revolta. Somos tratados como
lixo.” (agosto de 1999, UAP - Imigrantes)60

Os internos destacam as diversas formas de violência institucional de que são alvo. A


principal são os espancamentos e as humilhações, exercidos principalmente pelos
monitores e funcionários da vigilância, ou seja, todo tipo de ameaça à integridade física
e moral.61 Aqui a rebelião é claramente atribuída aos funcionários:
“Se não tiver um motivo do lado dos funcionários, não tem rebelião... pode ter
fuga, mas rebelião não. Rebelião tem mais por causa de funcionário mesmo, senhora...
os menor sossegado não faz rebelião. Sempre tem que ter um motivo. Nunca levanta
rebelião de graça. Vai dos funcionários não ficar espancando.” [29/09/99, UE-19, 18a]

“Tem rebelião porque tem muita patifaria aí. Agora parou um pouco. Arrastava
tudo nóis para bater. Apanha quem participou e quem não participou...” [12/04/2000,
UE-14, 16a]

60
Depoimento dado a repórteres do Jornal Laboratório da Faculdade de Comunicação Social Cásper
Líbero (Garçoni e Cotes, 1999).
61
A humilhação faz parte de um rito perverso de submissão dos internos à disciplina da Febem/SP. O
sistema de controle e segurança das unidades de internação recorre muitas vezes a métodos vexatórios de
inspeção, que incluem a nudez total ou parcial, o que é sentido como ultrajante e vergonhoso (Guará,
2000, p. 194).
As práticas de espancamento e tortura são utilizadas também como medidas disciplinares nas Febems
como pode ser constatado pelas recorrentes denúncias do MP e das entidades de direitos humanos. Nestes
casos, os procedimentos usuais de insultos, intimidação e uso da força física encontram-se exacerbados,
obrigando o adolescente a lidar com uma experiência de excesso de indiferença e de ódio destruidor. A
intenção é prioritariamente fazer sofrer, manifestar no corpo e na alma a subordinação daquele jovem a
uma lei superior (Oliveira, 2001).
“O funcionário pensa que nóis é bobo. Nóis não é bobo não. O que eles faz,
nóis pode fazer também. Não é porque eles estão na guarda, para tomar conta de nóis
que podem fazer o que eles acham e o que bem pretendem. Não é bem assim... fazer a
gente passar por humilhação. Apanhando sem fazer nada. Muitos apanham sem fazer
nada. Esquecido aí na vida. Muitos aí têm capacidade de vencer na vida, mas passando
por uma dificuldade destas aí... vai girando, girando e volta. Isso que gera a rebelião.”
[12/04/2000, UE-14, 17a]

“Sempre tem um motivo... essa de maio aí falaram que um funcionário jogou a


comida do menor... aí ele ficou revoltado... começou o auê...” [29/09/99, UE-2, 16a]

“Muito mau-trato, muita violência de parte dos funcionários: bate ni nóis! E,


claro, criou um tipo de rebelião!” [16/10/2000, UE-15, 17a, grifo meu]

“Na 16, senhora, a casa tava dominada entre eles (monitores)... faziam nóis
dormir no chão. (...) falavam que nóis não era homem, que se nóis quisesse levantar
rebelião nóis levantava. Aí teve um dia que teve uma rebelião: nóis já tava injuriado... aí
nos levantamos na 16. Fugiu um monte! Um monte ficou lá dentro apanhando. Por isto
nóis fizemos rebelião lá dentro. Tinha um funcionário que mandava nóis ficar de coco
na parede e ele batia em nóis, na cabeça... nóis ficamos revoltados! Aí quando acabou a
rebelião, a choque invadiu também. Quando acabou, nós apanhamos mais. Não sei
porquê, porque nós fizemos a rebelião por causa deles mesmos! Porque eles provocava
nós e se for para levantá, eles falavam para nóis levantar!” [16/10/2000, UE-15, 17a,
grifo meu]

“Eles batiam para pôr medo na gente, mas eles punham mais era revolta! Aí
condicionava a rebelião!” [30/10/2000, UE-15, RV 18a, grifo meu)

“A rebelião só sai se a monitoria quiser. Tem os dois lados. Desde o início eles
[monitores] temperam. Eles sabem quando é que vai acontecer! O que faz isto é a
inveja. Muitos pagam pau prá ladrão. (...) É tudo temperado [tempero é um jogo de
inveja e ódio]. Querem dar um couro de rebelião nos caras... o que ele vai fazer? Vai
querer revoltar o lugar. Primeiro pau os menor vão sair montando rebelião. Para que
eles querem rebelião? Para bater nos monitores... e você acha que eles [monitores] não
sabem que os caras querem bater nos monitores? Lógico que sabem. E aí eles vão
temperando mais!. Na hora que o bicho pegar, os monitores sabem que eles podem até
correr um certo risco, mas o maior preju cai do lado mais fraco. Qual é o lado mais
fraco? O lado dos infratô. Ele não tem uma ajuda. A ajuda do infratô é o infratô...”
[29/08/99, ex-interno, 19 a]

“Criou, temperou, condicionou um tipo de rebelião; nós fizemos rebelião por causa
deles mesmos!” São indicadores bastante agudos desta dimensão em que eles
protagonizam uma ação em resposta direta às práticas de violência pelos agentes
institucionais.
Em artigo publicado após seu pedido de demissão da presidência da Febem-SP
(março/1986), Maria Ignês Bierrenbach, nomeia as rebeliões de “configurações” de
rebelião, já para minimizar a dramatização pela mídia dos incidentes envolvendo fugas
e eventos similares e insiste na utilização dos jovens como massa de manobra pelos
funcionários que incitavam a agressividade entre os internos, em resposta à política de
erradicação da violência, implementada por aquela gestão:
O estímulo à agressividade entre os menores também é freqüente, tendo sido
particularmente utilizado diante do rigor das demissões sumárias com que foram
tratados os casos de violência física e como forma paralela e subliminar de manutenção
das condições de repressão, constituindo-se uma das mais graves manipulações, porque
rompe e compromete os laços de solidariedade e companheirismo entre os menores. Do
ponto de vista coletivo, são levados às manifestações conjuntas, das quais as mais
comuns são as fugas em grupo e as configurações de “rebelião”. (...)Toda essa situação
belicosa é urdida sistematicamente pari passu com a conivência ou omissão do sistema,
que, por fechado, pressupõe uma vigilância contínua e portanto, em tese, a salvo de
imprevistos; na realidade institucional torna-se regra o que deveria ser exceção. O cerne
do descontentamento está no sentimento de injustiça, em geral localizado pelos menores
no espancamento propositado para gerar tumulto, não se visualizando nas humilhações
constantes, na postura subserviente de mãos entrelaçadas para trás e cabeça baixa a
opressão que cria o clima para a revolta. (Bierrenbach, 1987, pp. 85-86)62

A violência institucional tem, no entanto, modos mais sofisticados de operação, para


além da repressão física e das humilhações constantes.
“Sempre eles têm que armar algum motivo para passar despercebida a rebelião,
né, senhora! Para não falar que é culpa deles. Para falar que é briga entre nós!”
[16/10/99, UE-15, grifo meu]

Esses modos são percebidos pelos internos, principalmente quando se trata de incitá-los
a uma ação que favoreça o emprego – mais ou menos justificado ou planejado – da
força física:
“Na Imigrantes o funcionário perguntava: ‘– que idade tem a sua mãe? Ah!
Vou transar com ela’. Eles falam isto para quê? Para nóis reagir e para eles quebrar,
dar tiro! Faziam os moleques tomar o xixi que estavam nos frascos ou então não lavava:
‘vocês querem tomar água? Então toma aí mesmo, no frasco misturado com o xixi’.
Faziam a gente bater palma e cantar: ‘eu amo a Choque!’” [refere-se ao batalhão de
choque da PM –15/12/99, UE-19, 18a, grifo meu]

“Sabe o que os funcionários faz? Forma a casa ali, fecha as portas. A vigilância

62
Costa (1998c) também assinala que a promoção de rebeliões e motins em série é um recurso bastante
utilizado para dissuadir dirigentes bem-intencionados, produzindo um quadro que passa para o governo e
a opinião pública a impressão de anomia na instituição, tornando os dirigentes políticos desses orgãos
literalmente reféns, em alguns momentos, dos operadores do sistema.
fica aqui e eles falam: ‘levanta a casa, agora! Quer levantar? Levanta, aí!’ Eles mandam
a gente levantar para começar do zero. Para deixar a casa no veneno, eles querem
deixar que nem na UAP. Sem nenhuma regalia! A gente não dá motivo para eles
tesourarem a gente!” [29/09/99, UE-19, 17a]

“Agora eles estão ameaçando. Quando nos vêem perguntam: ‘Que unidade?
qualquer dia a gente entra lá... pelo menos umas pernas a gente quebra!’ Às vezes, a
rebelião começa por causa disso aí. Na maioria das unidades eles já entraram... Uma
hora a gente se arma e fica esperando eles.” [29/09/99, UE-19, 17a]

“Em maio passado, na rebelião da 13-14, eu tava na 13, funcionário falou que
ia me furar todinho... que eu não era homem. Me ameaçou, me provocando para eu
tomar uma decisão!” [UE-15,16/10/2000, 17a, grifo meu]

“Eles provocam... porque gostam de ver o mal. Eles fazem isto para ter um pé
nosso para poder espancar... para entrar os ninjas. Vêm mascarados para não serem
reconhecidos!” [17/04/2000, UE-14, 17a]

“Tem rebelião por causa de funcionário querer... quando a casa é dominada,


eles gostam de ficar: “vai! [riem] levanta, vem!” Fica desacreditando!” [16/10/2000,
UE-15, 18a]

“Para nóis reagir e para eles quebrar, dar tiro!” Assim, a rebelião devolve à instituição
sua própria feição: contra-violência, como resposta à violência. Certamente aqui a
rebelião aparece como um analisador muito agudo da produção de delinqüência e de
violência no interior das instituições de tutela.63 Oliveira (2001) também hipotetiza que
a tão propalada agressividade dos jovens internos deve-se muito à dinâmica
institucional, particularmente à existência de maus-tratos e de relações perversas e que,
em alguns casos, as rebeliões e motins são extremadas formas que os adolescentes
encontram para dar visibilidade a conflitos que permaneceriam ignorados se não
houvesse essas manifestações.

Revela-se também o instituído do emprego da força física:

 como “repique”: apanhar depois de um tumulto ou de uma rebelião;

 ou, quando de uma transferência, em que o interno pode ser recebido “na porrada”
na unidade em que chega, porque está indo por retaliação, castigo, porque algo fez
de “problemático”:

“Os funcionários ficam provocando: sobe no banquinho, ‘quero ver os


bandidão! Quero ver quem é o trouxa que vai vir por cima!’, ‘Ri hoje, para não chorar
amanhã!’, ‘Ri hoje, para não chorar sobre leite derramado’ (...) Sabe porque eles

63
Esse dado também está presente no relatório-diagnóstico do Projeto Quixote sobre a Febem, de
junho/2000, e na análise da Assessoria de Planejamento da Febem: 1997-1998 feita por Isa Guará e Maria
Ângela Rudge, então técnicas do setor de Planejamento da Febem-SP.
[funcionários] estão quietos? Não estão fazendo nada? Por causa do bonde para
Parelheiros [bairro da zona sul, onde localiza-se uma Unidade da Febem]: eles vão
aproveitar e quebrar todo mundo na madeira.” [12/04/2000, UE-14, 17a]

Aliás, o emprego sistemático da transferência ou do chamado “bonde” como forma de


administrar os conflitos e dificuldades de gestão das unidades é um dos modos de a
violência institucional exercer-se e reproduzir-se. É um modo de fazer pressão,
intimidar e fazer os internos obedecerem, entrarem num “proceder”:
“Ficam só ameaçando nóis. Que vai ter bonde, que vai piorar...” [12/04/2000,
UE-14, 16a]

“Tão ameaçando mandar nóis para Parelheiros, Franco da Rocha...”


[12/04/2000, UE-14, 16a]

“Eles falam que nóis vai para Parelheiros, que os pirril vai invadir, para
amedrontar... isso dá revolta!” [17/04/2000, UE-14, 17a]

“O diretor falou que o governo deu autorização para a tropa de choque invadir
todas as unidades e levar os menores que estavam dando problema para o Cadeião de
Santo André. Tava tudo sossegado e sem menos invadiram [ao final de novembro/99]. É
para intimidar! Pegaram a gente de surpresa. Falaram que era para pôr camisa, porque
tinha visita e tinha é uma lista para ser transferidos. Mas agora, se alguém mais for
transferido, nós vamos nos rebelar!” [15/12/99, UE-19, 16a]

“Se a gente tenta falar o que está certo ou o que está errado, a gente já pode ir
de bonde... para eles, nóis nunca está certo! Aí nóis vai ter que seguir a doutrina deles.”
[30/10/2000, UE-15, 18a]

Os jovens percebem os efeitos danosos do uso das transferências como estratégia de


gestão das unidades:
“É do cadeião que vem a revolta, senhora! Passei nos três cadeiões. Apanhei no
COC, em Santo André, e em Pinheiros. Todos os lugares, senhora... Tem menor que
tem problema de saúde por causa destes caras que batem... Aqui também outros dão
ocasião...” [12/04/2000, UE-14, 17a]

“A transferência, mandar um de bonde, só piora, senhora! Porque os manos sai


revoltado! Quando mandar um de bonde, tem que mandar todos. Porque os outros ficam
revoltados e vão tomar a decisão que eu tomaria: porque mandaram eu de bonde? E se
mandar todos de bonde, vem piores para cá. De que adianta? Eles mandam nóis de volta
aqui e vem mais do cadeião para cá. Cada um que vai lá, vira perigoso também...”
[12/04/2000, UE-14, 17a]

“A rebelião geral do Tatuapé [refere-se provavelmente a maio de 2000] foi


porque os funcionários falaram que ia ter bonde para os cadeião da vida [refere-se a
Franco/Parelheiros] e que lá nóis sofrer muito... ainda mais longe da visita. Falaram
para nóis que era no meio do mato, que as visitas iam passar no meio do mato!”
[16/10/2000, UE-15, 17a]

Consideram também como estão sendo utilizados para vários propósitos institucionais:

 Como massa de manobra:

“Levantou geral lá [referindo-se à Imigrantes, em outubro/99], porque foi


assim: no sábado levantou a Ala B e a Ala D... levantou porque os monitores estavam
falando para todos os menores que a Choque ia tomar conta de nóis na terça-feira
[refere-se à data chamada pelos funcionários para uma paralisação tendo em vista
negociação salarial]. Que eles iam entrar em greve porque o governo não queria pagar o
que eles queriam. Aí todo mundo ficou com medo da Choque entrar e fazer o que
queria, aí levantou no domingo mesmo. “Vamos levantar segunda! Não, vamos levantar
no domingo de madrugada! tanto foi que os funcionários acenderam para nóis mesmo
tocar a rebelião, que no dia de visita – sábado e domingo – eles começaram a distribuir
panfleto para as mães e no panfleto estava escrito que eles iam entrar de greve e a
Choque ia entrar lá... e ia arriar com nóis direto.” [15/12/99, UE-19, 18a]

Um importante testemunho de como as “rebeliões” podem (e foram, em muitos casos)


produzidas por interesses de grupos de funcionários e que os jovens ocuparam aí a
posição de massa de manobra, pode ser encontrado no discurso de demissão64 da então
presidente da Febem-SP, Maria Ignês Bierrenbach, menos de um mês após a grande
rebelião de 24 de fevereiro de 1986:
Solicito demissão da presidência da Febem-SP em caráter irrevogável. (...) Não
obstante os dados de realidade que determinaram a medida (refere-se às conseqüências
da rebelião de 24.02.86, quando algumas unidades sofreram avarias e internos foram
transferidos provisoriamente para estabelecimento prisional) – em caráter provisório e
emergencial – e, haver compartilhado a decisão tomada neste sentido, o fato de ter sido
utilizado o espaço da ICT como se fora unidade desta Fundação não esconde a mancha
indelével que isto representou, significando um recuo da política de atendimento à
criança e ao jovem deste país. A entrada da polícia foi o marco simbólico do
desequilíbrio na correlação de forças. Em menos de um mês, 12.2.1986 a 10.3.1986,
tivemos por três vezes a entrada da polícia, com aquiescência, a primeira, do presidente
em exercício e, as consecutivas, com autorização desta presidência. Embora não
tivéssemos podido prescindir dela, face à situação de descontrole e tumulto gerada pela
assim chamada “rebelião” e, na perspectiva de evitar desdobramentos mais sérios,
comprometendo a integridade física dos jovens e trabalhadores, ocorreu um retrocesso,
que tínhamos conseguido evitar por mais de dois anos”. (Bierrenbach, Sader e
Figueiredo, 1987, pp. 120-121)

64
Discurso proferido em reunião aberta do Conselho Estadual do Bem-Estar do Menor, realizada em
21/03/86 com a presença do Sr. Secretário de Estado da Promoção Social, Carlos Alfredo de Souza
Queiroz e publicado em Bierrenbach, Sader e Figueiredo (1987, pp. 120-128).
Segue expondo como forças conservadoras procuram minar o trabalho lá
desenvolvido...
Eis, Sr Secretário, os motivos pelos quais não posso permanecer à frente desta
Fundação, uma vez que a evidência dos fatos e o acirramento das contradições
configuram um desequilíbrio na correlação de forças, em detrimento dos interesses dos
menores que estão servindo como massa de manobra e sendo manipulados, às
escâncaras, agredindo-se, dopando-se e promovendo as sempre arquitetadas “rebeliões”.
(idem, p.123)

 Pelos interesses financeiros e corrupção:

“Os monitô já falou para nóis que os diretô qué que faça rebelião, porque tem
grana aí! Que nem em 92, estoura tudo para eles construir e botar os menor tudo no
cadeião!” [12/04/2000, UE-14, 18a]

“Pra falar o que eu achei mesmo? [refere-se à rebelião ocorrida ao final do mês
de julho/99 na Febem-Tatuapé] Saber que ia acontecer, eu já sabia... porque isso aí tá
vindo lá de cima... não foi os menor que quis esta rebelião... foi o Covas... porque ele
quer gastar dinheiro, ele quer verba para roubar. De que jeito vai ter isto daí? Fazendo
rebelião. Porque aí vai vim verba para ele chegar e educar funcionário, colocar um
funcionário lá dentro. Mas não, o que é que ele faz? Ele coloca um cara que se alista
para ser monitor da Febem, que sabe bater, ele vai lá e coloca o cara... E essa cozinha
Denadai?65 É do tempo do Quércia... Era para ter mudado essa Denadai faz tempo. É
serviço do Covas. Porque que não mudou? Acabou a rebelião e tá lá, tá lá...” [15/08/99,
ex-interno, 18 anos, grifo meu]

“O governador é um patife. Porque é o seguinte: ele gosta de uma rebelião.


Destrói uma casa, sabe o que ele faz? Ah! vai ter que reformar! Põe umas coisas velhas
lá dentro e fica com o dinheiro! Eles ganham e metem a culpa em nóis!” [16/10/2000,
UE-15, 18a]

 Para justificar uma mudança na legislação:

“Para nos ver no veneno. Os que mandam na Febem, querem mudar a lei:
passou de 16 anos vai para a cadeia. Querem uma rebelião geral para mudar essa lei.”
[12/04/2000, UE-14, 17a]

 Para provocar a transferência dos maiores para o sistema prisional:

“Para mandar os maior para cadeia... eles querem mandar os maior para
cadeia.” [12/04/2000, UE-14, 17a]

65
Denadai é a empresa de alimentação conveniada pela Febem, pelo menos desde a gestão de Orestes
Quércia no governo do Estado (1986), e que distribui refeições para todas as unidades. Sempre houve
suspeitas de superfaturamento e há constantes reclamações dos internos sobre a qualidade da alimentação.
 Enfim, porque entendem que à Febem interessa a destruição deles:

“Eles querem ver o lado da Febem: se nóis morrer, é bom para eles...”
[12/04/2000, UE-14, 17a]

“Gostam de ver a guerra entre nóis...” [19/04/2000, UE-14, 17a]

“Os funcionários faz bilhetes para pôr um interno contra o outro. Eles querem
nos jogar um contra o outro. Querem que a gente se mate! Quer que nóis levante
rebelião para ganhar ponto!” [18/10/2000, UE-15, 18 a]

“Afinal, Febem é onde o filho chora e a mãe não vê.” [12/04/2000, UE-14,
17a]

Rebelião como reequilíbrio de forças

Uma outra dimensão do justiçamento aparece na perspectiva de a rebelião funcionar


como um mecanismo de (re)equilíbrio de forças. Ela contribui para redefinir a
correlação de forças a favor dos internos: depois da rebelião, tudo fica mais calmo e eles
são mais bem tratados ou conseguem obter algumas regalias. A rebelião é
fundamentalmente, do lado dos internos, a forma principal de pressão para obter
algumas reivindicações; forma de virar o jogo, configurando-se, também, como uma
estratégia de sobrevivência.
“Quando uma casa tenta fuga duas vezes numa semana, eles começam a tratar
a casa bem, assim [gesto de ‘na palma da mão’]. Agora, quando uma casa é sossegada, é
no proceder... eles abusam, eles aproveitam. É o medo! É o medo! [outro completa:
‘eles têm medo’] Quando a casa tá meio agitada é: ‘Meu filho, faz isto! Por favor, faz
aquilo!’. Deixam a visita até mais tarde. Jogam uma comida melhor. As visitas ficam
mais tempo pra não vir a rebelião... Um monitor até falou assim: ‘quando vocês
quiserem comer um macarrão do mundão, vocês falam de novo que vai ter rebelião,
que daí o diretor faz uma para vocês.” [29/09/99, UE-19, 17a, grifo meu]

“Depois da rebelião, tem unidade que os homê começa a ficar mais humilde,
começa a entender o nosso lado também.” [16/10/2000, UE-15, 17a]

Nesta perspectiva ela é também “vingança”, descarga da raiva, tentativa de virar o jogo:
“É a felicidade dele [do interno, quando tem rebelião]: ver o monitor correndo
com o rabo entre as pernas. Só que aquele monitor já colocou o rabo dele entre as
pernas e já bateu nele prá caramba. Ele olha para o monitor, o monitor correndo
gritando de medo. O que vai vir na cabeça deste menor? Primeira coisa: ‘ah! tô às
pampas com este maluco aí’. Os monitor vai espancando, vai espancando, vai
espancando. Vai chegar uma hora que a coisa vai virar, não vai ser sempre assim.”
[15/08/99, ex-interno, 18a]

“Na hora da rebelião, o funcionário: ‘pelo amor de Deus! Sou pai de família!
Tenho filho’. Pede pelo amor de Deus para não morrer e quando a Choque entra aqui,
eles se crescem! Os pirril agora estão com medo de entrar, porque numa rebelião quase
mataram um lá embaixo... jogaram um extintor na cabeça dele!” [15/12/99, UE-19, 17a]

“A moral desta história é assim. O que o infrator pensa? Esses caras, desde que
nasceu a Febem tá batendo nos menor. Esses caras nunca apanhou. Então, vou dar um
pouco do que ele dá para o ladrão, vou dar para ele... para, se um dia, o couro voltar, se
é liberado, ele pára de bater no ladrão. Ele [menor] só quer pagar um pouco com a
mesma moeda, o que ele sofreu!” [29/08/99, ex-interno, 18a]

“O espancamento lá [na Imigrantes] parecia que era o motivo dos home ficar
mais alegre, porque eles vinham revoltado com os problema da casa deles e não tinha
em quem descontar, descontava em nóis... Por que? porque ali quem ditava as regras é
eles, né, mano! Numa parte, foi ótimo ter levantado uma rebe gê, uma rebelião geral...
infelizmente não deu paro (parada) num funcionário daqueles (espancador)... mas
poderia até acontecer, porque eles têm que pagar, já fez muita gente sofrer! No fundo,
a gente sofre um pouco, mas mais as nossas famílias, que vêm aí e vê nóis tudo
quebrado!” [16/10/2000, UE-15, 17a, grifo meu]

“Porque se eles forem para uma unidade que está desandada, que está
dominada pelos menores, eles passam mal! Quando a casa tá tudo formada pelo
Choque, eles pega e aproveita esta oportunidade. Tudo mascarado, bate na gente!
Quando a casa é dominada pelos funcionários, tem couro; agora, quando é dominada
pelos menores, funcionário não tem voz ativa. É a pura realidade!” [16/10/2000, UE-15,
17a]

Esta dimensão da “virada” é destacada pelo diretor do Sintraenfa (Sindicato dos


Trabalhadores nas Entidades de Assistência ao Menor e à Família), comentando as
rebeliões:
“Quando a gente entra em uma unidade e ela está toda quieta, naquele
silêncio... Olha, dá até um frio na espinha, você sabe que vem coisa. Então, começam os
gritos dos jovens: “Vamos virar! Vamos virar! Virou! Virou!”. Uma ala grita aqui, a
outra ecoa ali, dali a pouco já é o inferno. É uma gritaria que ninguém ouve mais nada,
porque nós, monitores, gritamos também e tentamos gritar mais alto que eles. “Já era! Já
era! Acabou! Senta! Senta!” É uma competição de grito para ver qual ordem que
predomina. Mas nessa hora já está voando estilete, os meninos estão dobrando as
mesas.” (Silva, 1999)

Nesta mesma direção aponta Carmen de Oliveira (2001): a rebelião é um modo de


“impedir que a conduta institucional de excessos se estabeleça de forma duradoura”, ao
mesmo tempo em que se busca “vingar o contínuo ultraje”. Sobre isto, essa autora relata
que em um dos motins na Febem/RS, o grupo de adolescentes amotinados obrigou os
monitores reféns a fazer “formatura”, sob ordens exigentes dos internos: “de novo,
porque assim não tá bom”, reproduzindo os scripts presentes no cotidiano institucional
apenas com os papéis trocados (Oliveira, 2001, p.163).

Ainda que as rebeliões na Febem possam “carecer” de projeto político, ensejando-se


“fora da órbita” do poder mais amplo, elas operam, no entanto, no intra-muros uma
subversão da ordem natural. Certamente porque aí, na relação funcionário-interno,
vigilante-interno, as relações de opressão, poder e submissão são percebidas com maior
ênfase, a rebelião abre espaço para o revide, para a vingança e assim, vítimas e algozes
vêem-se, frente a frente, numa inusitada troca de papéis.

Do mesmo modo, pode-se analisar o ódio que nutrem contra aqueles que são os dedos-
duros (das fugas ou de outras armações), identificados (por uma troca de regalias ou de
favores) como colaboradores da opressão empreendida pela Febem.

Sentimentos de dor, raiva e humilhação alimentam o desejo de vingança, expresso


também neste “justiçamento”, que parece revelar a descrença desses jovens no sistema
vigente. De fato, é difícil não se sentir injustiçado, principalmente quando as
sindicâncias e os inquéritos sobre as torturas, maus-tratos e irregularidades
administrativas pouco resultam em penalidades para os responsáveis ou em mudanças
efetivas na realidade institucional.66 Cabe lembrar que esta saída pelo ressentimento,
assinalada também por outros estudiosos (Guará, 2000; Oliveira, 2001) tende a
desenvolver um sentido de injustiça entre os internos, retardando a avaliação e a
aceitação do erro e conseqüentemente indo na contramão de um trabalho
socioeducativo.

3. Condenados à rebelião...

Justiçamento, equilíbrio de forças e expressão. Reação, estratégia de sobrevivência e


modo de visibilidade. Nestes três planos, a rebelião parece compor a própria lógica
institucional, o que fez os internos da UE-19, em mais de uma conversa, formularem um
estranho paradoxo: “estamos condenados à rebelião”.

Frase paradigmática desta condenação: “Se eles quiserem, nóis taca fogo aqui neste
Complexo inteiro! Nóis taca!” [12/04/2000, UE-14, 17a, grifo meu], como a dizer que a
eles cabe cumprir este imperativo institucional.

66
É recente na história da Febem sua responsabilização jurídica por irregularidades e descumprimento de
direitos: o primeiro inquérito, apurando denúncias de tortura, realizadas por funcionários, com base na Lei
de Tortura foi instaurado devido a episódio ocorrido em novembro de 2000, na unidade Raposo Tavares.
A Promotoria de Justiça Criminal da Capital instaura em 28/09/2001 processo como incursos na Lei
9455/97 (crime de tortura) contra 22 funcionários da Unidade Educacional-27 por, entre os dias 14 e 22
de novembro de 2000, submeterem os internos que se encontravam sob sua guarda e autoridade, com o
emprego de violência e grave ameaça, a intenso sofrimento físico e mental, como forma de aplicar castigo
pessoal e medida de caráter preventivo (Protocolado MP 18.007.0032451/01.2, Sexta Promotoria
Criminal, 28/09/2001). Há outros processos criminais instaurados contra funcionários, mas não
tipificados como tortura.
Curiosa condenação que os mantém, como eles mesmos se intitulam, como “refém do
sistema falido” ou “sobrevivente do sistema falido”, num mecanismo que para alguns
parece incompreensível:
“Aí quando acabou a rebelião, a Choque invadiu também. Quando acabou, nós
apanhamos mais. Não sei porque, porque nós fizemos a rebelião por causa deles
mesmos!” [16/10/2000, UE-15, 17a, grifo meu]

e, para outros, apenas ocasião de manifestação, mas sem ilusão:


“Dá licença de falar, de agir, estou no Complexo Tatuapé, UE-15, pode-se
dizer, ala de infrator médio, mas não se engane, para nós, não há remédio.”
[setembro/2000, UE-15, 17a, escrevendo sobre rebelião]

Vimos que uma compreensão possível deste justiçamento é tomá-lo como um


mecanismo especular à própria instituição, uma espécie de devolução à instituição de
sua própria face, num hiper-realismo institucional, numa reação similar à proposição de
Diógenes (1998) no tocante às gangues e à sua “encenação da violência”, como ato de
caricaturar a sociedade do espetáculo e do medo.

Reações adversas

Justiçamento breve, porque


“Só tendo rebelião que eles olham, mas daí, virou as costas... volta tudo.
Depois que acaba a rebelião, fica tudo do mesmo jeito que era. Acaba rebelião, fica tudo
no veneno: acaba peça de roupa do mundão, tem que usar peça de roupa só da Febem,
que dá um monte de coceira.” [29/09/99, UE-19, 18a]

As falas dos adolescentes internos na Febem contam deste incerto destino das rebeliões:
podem trazer pequenas conquistas, tipo direito ao uso de bombeta e à correntinha de
ouro, um certo reequilíbrio do jogo de forças, mas podem produzir também represálias,
secretando assim outras ações violentas.

Não só volta tudo ou fica do mesmo jeito que era, mas pior: os internos sabem dos
efeitos “adversos’”, das “conseqüências adversas’”.

Sejam as retaliações, o “repique” ou o “bê-á-bá” do choque:


“A realidade é esta: rebelião no final todo mundo apanha. Todo mundo fica
marcado. Todo mundo. Jogaram uma bomba ni mim, a Choque!” [12/04/2000, UE-14,
17a]

“Os que estão na finalidade de ir embora, vão embora. Só os mano que estão a
pampa, não fica a pampa, porque sabem que vai sobrar para eles também. Eles vão zoar,
porque vai sobrar para eles. Eles vão apanhar.” [12/04/2000, UE-14, 16a]

“Rebelião geral, o benefício é a liberdade para quem foi embora. Mas do


contrário, para quem ficou é o bê-á-bá: o Choque, o Choque, O CHOQUE! Daí o
Choque invade: é cruel!” [12/04/2000, UE-14, 17a]

Seja o risco de contribuir para referendar o estigma de marginal:


“Rebelião é um jeito da sociedade ficar contra nóis: ‘olha o que eles estão
fazendo... Nóis apoiava eles, agora olha lá!’” [12/04/2000, UE-14, 17a]

“Todo mundo dá risada quando tem rebelião, todo mundo gosta... porque a
sociedade fica mais contra nóis: eles, governo, ganha um ponto a mais, porque a
sociedade vê que estão fazendo algo para eles.” [17/04/2000, UE-14, 18 a]

“A gente se queima: é um ponto para os gravatinhas...” [12/04/2000, UE-14,


17a]

Risco mais claro ainda de perpetuação do estigma, principalmente na medida mesma em


que as rebeliões participam de um efeito de dramatização/espetacularização, pela ação
da mídia:
“Rebelião não é tudo aquilo que as pessoas que estão aí fora estão dizendo.
Rebeliões são os motivos de revoltas e rixas entre funcionários e menores. Isto é comum
em qualquer lugar.” [18/10/2000, UE-15, 17a]

“Rebelião passa na TV direto! Quando nóis apanha, não passa não!”


[12/04/2000, UE-14, 17a]

Criticando estas reações da mídia e da população, o rap denominado “Realidade”,


composto e gravado por internos do Quadrilátero Febem-Tatuapé, posiciona-se:
“Televisão explora, lá fora ninguém percebe / Rebelião deu ibope, virou
manchete/ (...) Somos presas fáceis da sociedade/ Rebelião, IBOPE na televisão, muda
de canal/ Não aguento mais ver isso, não / É sempre assim, é bem assim que acontece:
ou você condena, ou você esquece.” (Jigaboo, 1999)

Se de um lado os internos realizam a rebelião na sua dimensão comunicativa,


encarnando a linguagem do espetáculo, de outro lado percebem que, neste mesmo ato,
podem ser aprisionados: “condenados ou esquecidos”. Em outra vertente comunicativa,
que colaborou para uma inflexão importante na “visibilidade” conferida pela mídia às
rebeliões, a ação do MP (DEIJ), pautou-se por colocar na mídia as cenas de violência da
Febem-SP que aconteciam “embaixo dos telhados”, numa ação que punha em análise o
funcionamento da Febem, ao mesmo tempo que realizava um jogo às avessas com o
fascínio da mídia pela violência.67

Em 10/05/2000 a Febem-SP ingressa com representação junto à Corregedoria Geral de Justiça do


67

Ministério Público de São Paulo contra os promotores do DEIJ “por extrapolarem de suas atividades
Reação adversa também pelo risco de aumentar o nível de violência a que estarão
submetidos:
“Cada vez que eles vêm acabar com rebelião e bate mais, nas outras que tiver,
vai ficando pior. Vai ter mais violência por parte dos menor também.” [29/09/99, UE-
19, 17a]

“Hoje em dia, qualquer coisinha a Choque já vem. Não dá para conseguir


alguma coisa. Se a gente for pedir alguma coisa, o homem já pensa que nóis quer fazer
rebelião! Aí não dá para fazer nada: já invade a Choque. Tem que se contentar com o
que tem. Daqui para frente não consegue mais nada.” [16/10/2000, UE-15, 17a]

“Se nois somo maioria, eles (funcionários) querem tipo interpretar que nóis é
uma panela, um barato que não conjumina... mas é tipo uma família. Para fazer a nossa
de boa, mas eles pensam que nois quer maioria para caçar surpresa, então eles querem
ver nois diminuir para eles ficar na maioria e aí eles partir pro arrebento.” [27/11/2000,
UE 15]

Comentando os efeitos sobre a morte do vigilante após rebelião de Parelheiros


“O que pode acontecer, é que mataram um funcionário lá e agora qualquer
tretinha que tiver na unidade, quando os agentes invadir, pode matar nóis também na
paulada e nóis não vai querer morrer, então vai sair morte entre nós e entre eles!”
[08/11/2000, UE-15, 17a]

E, numa conclusão bastante sintética dos efeitos adversos:


“Se faz rebelião, pega mal; se não faz, pega mal! Só pega mal!” [17/04/2000,
UE-14, 18a]

funcionais ao extraírem fotos e filmarem os adolescentes internados, findando por expô-los a imprensa.
Tal prática vem a ferir a dignidade dos adolescentes, violando seus direitos e garantias, em desacordo
com o artigo 17 do ECA (...) Ao propiciarem a exibição das imagens, por intermédio da imprensa,
culminam por provocar o julgamento antecipado da sociedade não só sobre os fatos, como também em
relação à autoria das agressões” (Ofício Febem n. 585/2000, pp. 1-2) Em 15/09/2000, após divulgação
pela TV das imagens de espancamento em internos que resultaram na instalacão de processo criminal
contra funcionários, a Febem-SP ingressa com ação cautelar contra o Ministério Público da Infância e da
Juventude para que não sejam divulgadas imagens da UAI (Unidade de Atendimento Inicial) tomadas em
visita de inspeção de 4 e 09/09/2000, por “ferirem o direito à intimidade e imagem de funcionários e
adolescentes, conforme assegura a Constituição e o ECA”, (...) “além de poder ocasionar instabilidade
(...) tais como rebeliões e risco à integridade física de adolescentes e funcionários.” A Juíza de Direito do
DEIJ sentencia na mesma data, que o procedimento de fiscalização do MP trata de apuração de
irregularidades da entidade de atendimento por violação de direitos assegurados aos adolescentes, que o
funcionamento de entidade deve ser pautado pela transparência de sua gestão e administração e que a
divulgação de imagens, desde que não exponham ou identifique os jovens autores de ato infracional,
decorre do princípio de publicidade que deve nortear a administração do Estado.
4. Rebelião-indiciada... rebelião criminalizada

De fato, “só pega mal”. Tal como com as reações adversas, o destino mais recorrente da
rebelião será, como já nos disse Marcos, o de ser “indiciada”, criminalizada, como se
fora produzida exclusivamente por eles e contra a instituição: sempre iniciada por eles...

Mais que isto, veremos como uma violência exercida por funcionários é convertida em
rebelião, seguindo as peças e as diferentes “vozes” do processo que apura o motim
ocorrido na UE-13.

O caso UE-13

O boletim de ocorrência (BO) do 81º Distrito Policial assim narra o ocorrido em 8 de


janeiro de 1999:
Natureza: Motim

O local do fato é a UE-13 da Febem, onde está, ope legis, asilados setenta e
seis penitentes. Entre os calcetas e os mantenedores da coerção, há uma permanente
testilha, pois aqueles, anelam constantemente a liberdade e estes, em razão de seus
cruciantes misteres, se constituem em feroz empeço. Assim, o confronto entre as duas
vertentes é dura realidade.O presente registro foi elaborado para tornar materializada,
per saecula saeculorum, a infração que lhe dá título. Em circunstâncias a serem
esclarecidas in opportuno tempore, consta que quinze grilhetes, componentes da
unidade sobredita, procurando desestabilizar a Instituição, violando normas
disciplinares internas, partiram para o confronto físico com os monitores e
coordenadores. Da derriça, consta que restaram feridas as vítimas elencadas [três
funcionários da Febem, nota minha] e trinta e três internos. A autoridade policial que
firma o presente, determinou que os feridos fossem medicados no PS Tatuapé, face a
proximidade do nosocômio. Diante da pletora de feridos e a falta de condições humanas
e materiais, sobrecarga de serviço e carência de médicos no hospital, somente as vítimas
supra-referidas (três monitores) e seis internos, até este momento, foram medicados.68

Para além do tom “magistral”, dos efeitos estilísticos do latim, que parece inscrever a
peça no âmbito das “formas jurídicas”, é interessante aqui atentar para os seguintes
aspectos:

 A precedência, antes mesmo de sua averiguação, da natureza do fato: “motim” e sua


“naturalização”:

68
BO 59/99: pp. 76-77, v.1 do PA 05/99. Todos os documentos aqui referidos constam do processo
05/99. Assim, os documentos estarão assim referidos: natureza ou autor, página e volume do processo.
(...) entre os calcetas e os mantenedores da coerção, há uma permanente
testilha, pois aqueles, anelam constantemente a liberdade e estes, em razão de seus
cruciantes misteres, se constituem em feroz empeço. Assim, o confronto entre as duas
vertentes é dura realidade. [grifos meus]

Naturalização que parece evidenciar o inquérito policial como uma peça favorável à
construção do fato como rebelião/motim, enquanto outros dados configurarão o fato
como um espancamento.

 De outro lado e apesar do seu desfecho ser favorável aos “mantenedores da


coerção”, seu tom um tanto épico, colocando ombro a ombro, corpo a corpo,
calcetas e mantenedores da coerção, parece fazer jus à potência de luta e de embate
atribuída aos internos da Febem.

(...) em circunstâncias a serem esclarecidas in opportuno tempore, consta que


quinze grilhetes, componentes da unidade sobredita, procurando desestabilizar a
Instituição, violando normas disciplinares internas, partiram para o confronto físico com
os monitores e coordenadores... (grifo meu)

Ainda que a atribuição da intencionalidade do motim aos adolescentes pareça fazer mais
jus à desfiguração do episódio como crime contra a integridade dos adolescentes, como
ato de tortura, e a sua configuração como violência por parte dos adolescentes, não
deixa de chamar a atenção a “desestabilização da Instituição” como objetivo a eles
atribuído, antes mesmo da violação às normas disciplinares.69

É na retrospectiva, na seqüência de episódios que precederam este “motim”, que melhor


se poderá acompanhar sua produção, sendo talvez este conjunto de documentos uma das
melhores “demonstrações” de uma rebelião institucionalmente forjada. Forjada no duplo
sentido da palavra: produzida, modulada e também “falseada”, pois não será necessário
ser um especialista em investigação para deduzir da leitura do processo e de alguns
sinais mais evidentes que, antes de ser rebelião, tratou-se de um conflito, seguido de um
espancamento. De novo, três adultos “feridos” contra trinta e três jovens feridos parece
uma conta desproporcional demais para tal “derriça”.

O Ministério Público (MP) responde ao fato rapidamente, com visita de fiscalização


(08/01/99) e instauração de representação contra a Febem (18/02/99), acolhida pela
Justiça.

69
O inquérito policial instaurado em 08/01/99, para apuração do caso, abre os procedimentos de
investigação sob a mesma ótica do Boletim de Ocorrência, marcando a intencionalidade dos internos em
desestabilizar a instituição e os ferimentos como resultantes do confronto físico: “Ciente de que por volta
das 14h do dia 7/01, na UE-13 da Febem, do Quadrilátero Tatuapé, cerca de 15 internos visando
desestabilizar a instituição e do fato sobrevem testilha física entre os amotinados e os funcionários
encarregados de manter a ordem e a disciplina e por via de conseqüência um dos parciários da contenda
restaram feridos (...), declaro instaurado o inquérito policial para pleno esclarecimento do fato,
determinando que se junte BO e requisição para exame médico legal” (Inquérito 010/99, p.245, v.2.).
A apresentação do fato pelos promotores do DEIJ coloca em primeiro plano a violação
de direitos de que foram vítimas os adolescentes: instala-se o PA para apurar o fato de
que em 07/01/99, à noite, adolescentes foram agredidos por monitores e “submetidos
indignamente a espancamentos e intenso sofrimento físico e moral com o fim de aplicar
castigo” [p.2, v.1]. O MP assim historia o fato:

 houve um desentendimento entre internos e funcionários da Febem, quando da


apresentação aos jovens do novo coordenador e das novas normas de conduta;

 em razão do inconformismo dos adolescentes, alguns monitores passaram a agredi-


los ocasionando lesões corporais (conforme comprovam os Exames de Corpo de
Delito).

O processo arrola 29 internos como vítimas e aponta como agravamento da situação os


fatos:

 a dificuldade de manutenção da equipe de monitores e a falta de funcionários


devidamente qualificados;

 a visita da promotoria para fiscalização em 08/01/99 constatou que o livro de


ocorrências da monitoria era preenchido apenas no final do plantão e, segundo
funcionários, eram redigidos com base em rascunhos que eram destruídos;

 que os jovens feridos não haviam sido encaminhados para exame de corpo de delito,
mas para o Pronto Socorro;

 que o Boletim de Ocorrência elencava só os nomes dos monitores como vítimas e


não constavam os nomes de todos os adolescentes (pp. 2-5, V.1).

Ora, os três últimos motivos, que justificam inclusive o pedido de agravamento,


referem-se a um modus operandi típico do ocultamento ou ainda deliberado
impedimento de apuração dos fatos: não encaminhar para exame de corpo de delito é o
ato mais visivelmente contrário à apuração, pois retarda e impede a produção material
de provas.

O primeiro motivo refere-se, no entanto, a uma situação da gestão mesma da unidade


(evidenciada por meio de inúmeros documentos constantes do processo) muito anterior
à referida “rebelião ou motim” e que parece ser indicativa de sua própria produção.

Há no PA documentos da própria unidade – as chamadas comunicações internas (CI) –


que fazem referências à falta de funcionários, à inabilidade ou omissão de
coordenadores de turno, além de inúmeros pedidos de horas extras, transferências de
funcionários e solicitação de funcionário para não trabalhar mais naquela unidade. Esta
documentação concentra-se no período de agosto/98 a janeiro/99 (consta do V.3 do
PA). Também aparecem denúncias reiteradas de fuga ou risco de fuga de internos por
escassez ou omissão de funcionários, bem como denúncias de maus-tratos e agressões a
adolescentes por funcionários, além de permanentes “substituições” de funcionários.70

Estas situações parecem se concentrar no período de setembro/98 a março/99 e alguns


sinais parecem ser indicativos da presença/ação do “grupo de funcionários” que entra
nas unidades para espancar deliberadamente os adolescentes: o grupo de ninjas, como se
referem os internos ou grupo de “plantão de apoio” que visita outras unidades, conforme
descrição dos funcionários.71

É absolutamente intrigante o conjunto de documentos relativos à avaliação de


funcionários: eles limitam-se a poucas palavras e concluem dizendo se o funcionário
tem ou não tem perfil para trabalhar naquela unidade. Avaliação feita por dois
coordenadores de turno não explicita qual o perfil desejado e nem sempre fica claro em
que aspecto tal funcionário não tem o perfil desejado.72 O grande número de
funcionários “sem perfil” ou faz pensar num rigorosíssimo processo seletivo, que
exercido por apenas um selecionador já põe em dúvida a transparência do processo, ou
levanta a suspeita de uma “seleção” que privilegia funcionários afeitos à lógica da
violência.

Se não, como entender, os aí sim intrigantes “recados” da encarregada técnica e/ou


direção ao coordenador de turno e monitoria?

Em 23/02/99, a Diretora da UE-13 recomenda em CI “cautela” ao novo coordenador:


Recomendo cautela na sua disposição em disciplinar a Unidade, deixando
claro, para todos, que não incentivaríamos e nem admitiríamos receber “colegas de
outras unidades” a pretexto de “visitas” para coibir os internos, não sendo momento
para adotar este tipo de estratégia e que o pacto da palavra ficaria desacreditado, afinal a

70
Em 17/08/98, CI comunica que adolescente queixou-se de maus-tratos (p.577, v.3); em 8/09/98, a
Divisão Técnica sugere abertura de sindicância para apurar ocorrência entre adolescente e dois monitores
(p.571, v.3); em 22/09/98, CI comunica evasão de 45 adolescentes em 21/09 (p.574, v.3); em 21/10/98 é
feita a substituição de um coordenador de turno (p.582, v.3); em 17/11/98, é comunicada a agressão entre
dois adolescentes (p.605, v.4); em 23/11/98: rebelião com lesão corporal em adolescente e funcionário: 27
adolescentes foram encaminhados a exame de corpo de delito (p.607, v.4); em 14/12/98 e 28/12/98, CI
da Direção da Unidade para Divisão Técnica 3 pede demissão do coordenador de turno e sua substituição
por omissão na condução da coordenação da unidade (p.486-7, v.3); em 15/12/98, CI informa sobre
imprudência do monitor em saída para campo com 40 adolescentes (p.623, v.4); em 31/12/98 CI informa
sobre fuga de 3 adolescentes e tentativa de fuga de 13 em 30/12 (p. 631, v.4); em 01/01/99, ocorrência
com interno, também encaminhado a ECD (p. 632, v.4); em 04/01/99: CI sobre dificuldades de
instalação/qualificação de quadro de funcionários (p.635, v.4); em 06/01/99, CI comunica sobre
funcionário que não quer mais trabalhar naquela unidade (p.638, v.4); em 06/01/99, CI comunica
agressão entre funcionário e adolescente (p.639, v.4); em 14/01/99, CI informa sobre agressão a
adolescente em 11/01 (p.640, v.4).
71
Este grupo de funcionários que reúne pessoas de diversas unidades foi referido por vários internos
como os “Ninjas”, nas entrevistas e depoimentos ao MP e por trabalhadores também, além de, neste
mesmo processo, haver referência quanto ao “plantão de apoio” ter entrado na unidade.
72
As avaliações são, em geral, deste teor: “é notório que seu perfil condiz com a população desta casa”;
“é notório que seu perfil seria para uma casa mais leve”; “não possui perfil para trabalhar com esta
população”; “nota-se sua insegurança em relação à população desta casa, talvez fosse aproveitado em
unidade mais leve” (pp. 528-552 do PA 5/99).
experiência também já tinha nos ensinado a todos – meninos, funcionários, direção –
que o “caminho do meio” não se encontra tomando essas veredas. (PA 5/99, pp.742-
744)

É importante atentar para a referência a “visitas” de “colegas de outras unidades”, que


aparecem exatamente entre aspas, no documento original, bem como para o uso do
verbo: futuro do pretérito, apenas no item – “incentivaríamos” e “admitiríamos” –
colocando no passado a condenação deste fato, parecendo atestar sua existência.

Um mês e meio depois do referido “motim”, uma CI de 18/02/99, assinada pela


encarregada técnica73 curiosamente apresenta uma versão bastante diferente: coloca em
foco a própria instituição e alerta para as condições de funcionamento das unidades,
promotoras elas próprias da violência. Espécie de atestado da responsabilidade
institucional nas rebeliões, esta posição será insuficiente, no entanto, para alterar o
quadro já montado de responsabilização estrita dos adolescentes, mas servirá para
relativizar a suposta intenção de desestabilização, uma vez que inscreve o motim no
campo da reação e da sobrevivência:
Dando continuidade à preocupação geral pela qual passa a Fundação e as
unidades educacionais, na cruzada anti-violência (...) vimos pela presente ressaltar o que
segue abaixo:

A realidade da UE-13 é um histórico de sucessivas ocorrências que põem em


evidência, de um lado queixas dos alunos que reclamam por um modelo de atendimento
que contemple suas necessidades e direito de recuperação e reabilitação psicossocial; de
outro, os funcionários fragilizados na sua capacidade funcional diante das mudanças
que se impõem neste momento e a necessidade de rever posturas arraigadas ao longo de
anos de trabalho, somado ao estresse próprio vigente na realidade Febem. Tal situação
nos tem levado a questionar possíveis relações de causa e efeito no caso específico da
UE-13. [p. 759]

Em seguida fala da existência de um plano de ação técnica e da necessidade de


assegurar condições externas ideais a sua efetivação, como redução da população
atendida adequando-a ao espaço físico e aos preceitos do ECA, quanto à habitabilidade
e proteção à integridade física e psíquica dos internos. Critica também as condições de
deterioração física da Unidade que...
(...) interferem na dinâmica psicoafetiva do ser humano sujeitado a elas e as
mesmas por si só constituem uma variável que faz aflorar reações de irritabilidade,
intolerância, desencadeando agressividade deslocada. O abrigamento coletivo em
espaço insalubre, o desrespeito às liberdades individuais, o constrangimento moral e
afetivo fazem emergir conteúdos instintivos de reação, proteção e sobrevivência. O ser
humano, a exemplo dos animais, quando em situação de contenção se tornam

73
CI dirigida ao GDT (Gabinete Técnico da Presidência da Febem-SP) e DT-3 (Divisão Técnica-3),
responsável pela gestão e planejamento de todo o circuito de adolescentes em privação de liberdade.
vulneráveis à agressividade, violência e somatização dos afetos reprimidos, fatores
observáveis clinicamente em jovens poliqueixosos. [p. 759]

Tal posição é insuficiente por várias razões, como veremos. Ainda que esta seja a
compreensão de uma dirigente de unidade (encarregada técnica) e portanto, de certo
modo, expressiva de um aspecto do pensamento da própria instituição, esta não será
preponderante no interior da instituição e o pós-rebelião revelará que a “testilha” não
cessara.

Vejamos como apresenta o fato à Direção Técnica da Febem a, na ocasião, diretora da


unidade:
Aos 7/01, por volta das 11h30, vivemos nesta unidade um movimento de
tumulto que envolveu cerca de 33 adolescentes, dentre os quais seis maiores de 18 anos.

A ocorrência demandou firmeza do corpo funcional para controlar a situação.


Como resultado da mesma tivemos adolescentes escoriados, monitores feridos, porém
sem maiores danos a integridade física de jovens e adultos. Salientamos que a unidade
vinha há meses desestabilizada, com os jovens cada dia mais ousados ou agressivos, em
resposta a nossa tentativa em fazê-los reconhecer limites e discipliná-los, conforme
parâmetros das normas de convivência e compromisso com a medida socioeducativa.
No período das duas últimas semanas, foram várias as tentativas dos jovens em
mobilizarem-se para fragilizar a direção e criar conflitos entre a equipe de monitores e
destes com a equipe técnica. Felizmente pudemos agir antecipadamente,
desmobilizando-os.

Segundo falas isoladas dos adolescentes para monitores e também nos


atendimentos técnicos, a unidade estaria tomando uma dinâmica que não os agradava.
Queriam retomar as condições que vigoravam antes, ou seja, fazer na unidade o que
bem entendessem, coerente ao código deles, inclusive voltar a decidir quais os
funcionários que seriam elegidos para servi-los. Em conseqüência deste estado de
coisas, buscamos definir nossa linha de trabalho primeiramente disciplinando e
organizando a unidade de forma a possibilitar o nosso projeto de trabalho
socioeducativo.

Buscamos fortalecer emocionalmente nosso corpo de trabalho, deslocando


também alguns monitores e trazendo outros para compor a nossa equipe;
concomitantemente e como estratégia remanejamos alguns internos, principalmente
algumas das lideranças visando enfraquecer os sub-grupos.

Os jovens, na sua perspicácia, sentiram que estariam perdendo terreno e teriam


que pautar sua conduta dentro dos limites necessários ao trabalho, quando um grupo
mais ou menos coeso formado por jovens mais estruturados, decidiram rebelar-se pelas
vias que sempre lhes pareceu mais fácil: reivindicar impondo, ameaçando. Para tanto,
escudaram-se em episódios isolados havidos nos dias que antecederam o de ontem. Em
conseqüência da fuga e recaptura do dia 30/12/98, quando em atividade desportiva, no
campo externo, do confronto de um adolescente com um dos monitores, na manhã do
dia 6/01, acenando que o que lhes caberia era a feitura de mais um BO, mas que aos
monitores estava em boa hora de serem apagados. Na noite de 6/01, após o banho, os
internos estavam movimentando-se para uma intercorrência que propiciasse
enquadramento de funcionário para obter fuga. A grande maioria deles trajava-se com
suas melhores roupas e tênis, havendo certa ironia nas suas atitudes. A Direção chamou
a vigilância para que se postassem próximos à unidade e para que os jovens se
aquietassem. Entre 21h30 e 22h, eles já estavam subindo aos quartos. Porém, na manhã
do dia 7, ao anoitecer, perceberam que tínhamos um novo coordenador assumindo o
plantão. Como de praxe, no modus vivendi dele, puseram-se a reclamar da unidade e
reivindicar atividades que não faziam parte da rotina do dia, num movimento expresso
de testar os limites e avaliar a postura desse novo coordenador. (pp. 190-192, v.1, grifos
meus)

O documento segue narrando que foi explicado aos jovens que aquelas atividades não
seriam possíveis naquele dia...
Puseram-se a reclamar, iniciando um tumulto. Um dos adolescentes acercou-se
de uma monitora, dizendo que estava na hora de um monitor morrer, que talvez pudesse
ser ela.

Outros verbalizaram agitadamente que queriam destruir tudo. Os próprios


jovens recolheram a TV, desligaram o som e ameaçaram não almoçar, caso não fossem
atendidas as suas reivindicações. O coordenador tentou amenizar a situação existente
conversando com os internos rebelados, contudo sua ação foi repelida de forma
agressiva, vendo-se o mesmo forçado a sair para o pátio porque diretamente ameaçado
contra sua vida. A esta altura dos acontecimentos, a situação já estava grave e foi
necessário os esforços de toda a equipe para convencer os adolescentes a colocarem-se
em formação para o diálogo, visando chegar a um consenso. No entanto, alguns jovens
recusaram-se ao diálogo, encontrando-se incontroláveis e o confronto foi iniciado.
Imediatamente, acionamos a DT-3... (idem)

O relato continua, descrevendo as providências: atendimento médico dos jovens na


própria unidade ou no PS, encaminhamento para delegacia e revista geral.74

Em depoimento à Polícia, fala o coordenador de turno de plantão na ocasião:


No período da tarde do dia anterior, um monitor pediu para levar 10 internos ao
campo; que por conta própria, desobedecendo as ordens, 39 foram para o campo; que
sabendo do ocorrido, no dia do fato, como medida disciplinar, proibiu a saída para o

74
É o que se chama na Febem, “formação”: tradicional esquema disciplinar, empregado com os internos
que inclui: fila, com mãos às costas e cabeça baixa, podendo agregar variações: só de cuecas, sem roupa,
agachados, etc.
campo; que essa medida desagradou os internos que, por conta própria desligaram o
aparelho de TV e caixas de som, colocando essas coisas ao lado da escada da sala da
coordenação; que esta atitude foi entendida como sendo de protesto contra a proibição
de irem ao campo; que no período da tarde o declarante percebeu que o clima estava
tenso, que chegou a solicitar reforço de monitores para a unidade, que alguns internos
passaram a ofender os monitores com palavrões, que no sentido de preservar a
disciplina, determinou que fossem colocados em formação no pátio da unidade, quando
então, informou aos internos que deles seria tirado o que os parentes haviam trazido no
dia da visita, exceto o Jumbo, que os internos em resposta, não permitiram que lhes
fossem tiradas as coisas recebidas, protestando pela presença da direção, cujos
membros não compareceram, que um grupo de 15 internos, entre os quais alguns
maiores de 18 anos, pediu para usar o banheiro no andar de cima e ao invés, passaram a
atacar os monitores que ali se encontravam, que diante da situação, pediu reforço e
para que parasse o ataque aos monitores e para a defesa da disciplina houve luta
corporal entre os funcionários e os internos que estavam no andar de cima, que durou
cerca de 15 minutos o confronto e a sua preocupação era que os funcionários
extrapolassem de suas funções, que além dos 15, outros que estavam no pátio, subiram e
se misturaram aos demais, que no confronto saíram feridos 33 internos e três monitores,
que os internos foram dominados e colocados no alojamento após o confronto, que os
feridos foram examinados na enfermaria da unidade, que por determinação da
autoridade policial, todos os machucados passaram por cuidados no PS Tatuapé. (p.
253)

Tal é a compreensão básica do “motim” pela direção da Unidade: jovens ousados e


agressivos, mandando na unidade, submetendo os adultos a servi-los; os mais
estruturados rebelando-se pela imposição e ameaça, desestabilizando a instituição,
atacando corporalmente os funcionários por não terem suas “reivindicações” atendidas.

Mesmo considerando que se trata de unidade de circuito grave, com alguns internos já
maiores de idade, com compleição física “avantajada”, com dificuldades de
convivência, trata-se de indagar se não é essa a matéria-prima do trabalho educativo.
Ainda que consideremos – como tem sido uma das justificativas de técnicos da Febem –
“que o perfil dos jovens mudou, que estão mais ‘agressivos, que há o problema das
gangues e do crime organizado’, pelo menos a constatação que extrairíamos destas
considerações acima é que a Febem não está minimamente equipada para implementar
medidas socioeducativas para jovens com estas características.75

É esta também a opinião de alguns dos jovens entrevistados (já na etapa de tomadas de
depoimentos). Referindo-se à impossibilidade de deixar de ter rebeliões na Febem, um
deles diz:

75
Não estou desconsiderando tratar-se de uma pedagogia em meio ao conflito. Ao contrário, sempre
partilhei de uma posição crítica aos que pretendem eliminar o conflito de qualquer ação educativa, ainda
mais a realizada com estes jovens (Sobre esta discussão ver Makarenko, 1986).
“Febem é sempre assim: cão e gato. Os dois nunca vai dar certo! Eles nunca
vão querer ver nóis no lazer e nóis nunca vamos querer estar no veneno. Vai ser só
disputa!” (12/04/2000, UE-14, Complexo Tatuapé)

De fato, na UE-13, a testilha não parara: no pós-rebelião, de 8/01 a 24/02/99, o processo


documenta outras tantas “estranhas intercorrências”: agressão a jovem, em 10/01
(p.640, v.4); não entrega de alimentos, em 12/01 (p.641, v.4); conflito entre
adolescentes e monitor em 27/01/99 (p. 667, v.4); adolescentes destruíram camisetas e
bermudas e o conserto é impossível, em 4/02/99 (p.676, v.4); telefonemas de mães de
internos temendo que aconteça algo grave com os filhos, em 22/02 e adolescentes
solicitando transferência de unidade por receio a mudança de regras a qualquer
momento com prováveis riscos à sua integridade física, em 22/02 (pp .742-743, v.4);
atraso na entrega de alimentos em 25/02/99 (p. 739, v.4).

A testilha, pelo menos no episódio do dia 7/01, foi absolutamente desfavorável aos
jovens que esboçaram alguns protestos:
“... é verdade que alguns internos desligaram a TV e duas caixas de som,
colocando tudo embaixo de uma escada próxima à sala da coordenação, que assim foi
feito, pois havia comentários de que as roupas recebidas por parentes iam ser tiradas dos
internos...” [V., 18a]

“... que no dia do acontecido, estava no pátio com outros internos, quando o
coordenador mandou formar fila, mandando tirar a roupa, que alguns tiraram e ele não,
que todos, 79, foram levados para a coordenação e que nesse local havia funcionários de
outras unidades e que apanharam dos funcionários...” [A., 18a]

“... que terminada a formação, foi dada a palavra e alguns internos reclamaram
da proibição de usar as roupas, que, em seguida, foram levados para a coordenação e no
corredor foram agredidos a porrada e paulada.” [Vi, 17a]

Protestos suficientes para disparar a pancadaria:


“... que um monitor perguntou se algum dos internos tinha alguma coisa para
falar, ao que um interno perguntou se iriam apanhar, que, em seguida, um por um dos
internos foram levados até um corredor, onde apanharam...” [O., 17]

E, ainda, apresentam a sua versão da rebelião que não existiu:


“... que não houve rebelião, que apanharam sem dar motivo...” [S.,18a]

“... que não houve rebelião quando ficaram sabendo que não poderiam usar a
roupa dada pela visita...” [C.,18a]

“... que os internos foram colocados em formação, que passaram a usar a roupa
própria da Febem, ficando antes pelados no pátio, que três internos menores de 18 anos,
por reclamar, apanharam no pátio, que não é verdade que tenham agredido a qualquer
funcionário, que a agressão sofrida aconteceu no pátio e no corredor, que inclusive
funcionários de outras unidades apareceram na hora da agressão.” [V., 18a]

“... que os homens falavam que os internos estavam querendo dominar a


Febem...” [O.,16a]

“... que apesar de não gostar das normas, nenhum interno agrediu qualquer
funcionário...”

“... que ouviu de alguns internos que no dia 7, os internos iriam fazer
movimento para agilizar a casa, ou seja, criar condições para uma fuga, que iriam
agredir dois internos...”

Os depoimentos dos jovens, que compõem parte do inquérito policial [foram ouvidos no
81º DP dezesseis adolescentes] e da representação do MP [outros sete adolescentes
foram ouvidos pelos promotores públicos], coincidem em muitos pontos, especialmente
nos relatos quanto ao espancamento a que foram submetidos.76

Proximamente ressaltarei o valor de guerra, de luta, de testilha de que se


revestirão outros episódios protagonizados pelos adolescentes, uma vez que neste
episódio prevaleceu o imperativo dos mantenedores da coerção, conforme atesta “per
saecula saeculorum” o Boletim de Ocorrência:

O presente registro foi elaborado para tornar materializada, per saecula


saeculorum, a infração que lhe dá título. [BO]

Mas, nesta grandiosidade cômica, quase “non-sense”, do Boletim de Ocorrência que


faz, como vimos, uma narrativa gloriosa e eloqüente do embate, valeria lembrar
Foucault. Em “A Vida dos homens infames” (1992), ele comenta sobre a
grandiloqüência e a ênfase “que parece convir aos mais trágicos” de que se revestem
estas “vidas deploráveis”, fragmentos de vidas de “homens obscuros” que encontra em
alguns documentos.
Efeito cômico; há algo de irrisório em convocar todo o poder das palavras e,
através delas, a soberania do céu e da terra, a propósito de desordens insignificantes ou
de infortúnios tão comuns...(p. 108) (...) Riremos, talvez; mas é preciso não o esquecer:
a esta retórica que não é grandiloqüente senão em virtude da pequenez das coisas às
quais se aplica, o poder responde em termos que de modo nenhum nos parecem mais
comedidos; com a diferença, porém, que nas palavras que são suas perpassa o clarão de
suas decisões; e a solenidade delas pode tomar autoridade, senão da importância daquilo
que punem, ao menos do rigor do castigo que impõem. (Foucault, 1992, p.109)

Na grandiloquência “jurídica” da peça policial parece convocada a soberania do céu e


da terra, esse modo de poder-soberano, como a nos confirmar também, não exatamente
sua soberania, mas sua fragilidade. Daí ressaltarmos o valor do embate-testilha que

76
Constam às pp. 253-270 (inquérito) e 83-91 (representação) do referido PA.
mesmo aí parece se processar: se tanta retórica, tanta ênfase quer ocultar a violação de
direitos, ela testemunha também a magnitude da empreitada social para o controle
desses amotinados...

Como vimos neste caso, para além da construção da “materialidade dos fatos”, objeto e
função mesma de um inquérito, estamos diante da materialização mesma da condição
“criminosa” imputada aos jovens.77

5. Rebelião: ponto-limite...

Vimos anteriormente, na vertente de reação e de estratégia de sobrevivência,


predominar um movimento do acúmulo, onde a rebelião instala-se como ponto-limite.
Ponto-limite, resultado de um acúmulo de violência, de um acúmulo de tentativas de
negociação e de interlocução com a instituição. Vai acumulando... não tem como
segurar:
“Faz greve de fome para ver se melhora a comida, conversa com diretor para
ver se tem algum adianto...chegamos a fazer política [conversa] com o diretor para
liberar a bombeta, mas cada vez mais vai acumulando, comendo comida azeda,
apanhando todo dia... tem hora que não agüenta mais. Ninguém segura...” [01/09/99,
UE-2, 16a, grifo meu]

“É quando ajunta tudo isso que acontece com a gente aqui, todos os problemas,
todos os atrasos que todo mundo faz prá nós... isso vai juntando, juntando... é aí que
surge a rebelião... todo mundo vai juntando aquilo na cabeça.” [29/09/99, UE-19, 17a]

“É quando já está quase estourando e passou dos limites... aí, já era!”


[15/12/99, UE-19, 16a, grifo meu]

“Vão batendo, batendo e vai acumulando: quando estoura em uma, estoura em


todas.” [Vanderlei, jun/2000]

“Como é que alguém agüenta ficar preso com tanto sofrimento: humilhação,
espancamento? Você não agüenta: é muita raiva que dá!” [17/04/2000, UE-14, 18a]

A rebelião é, então, insurgência corporal quando os limites e os constrangimentos


(sejam eles as humilhações, os espancamentos ou a necessidade de sair do isolamento,
de falar) tornam-se intoleráveis. Ela é ponto-limite na expressão de conflitos para cuja
solução não se pode contar com formas institucionalizadas de negociação política ou
jurídica legítimas.

77
A responsabilidade individual dos funcionários envolvidos, até fevereiro de 2002, continuava sendo
apurada na órbita criminal, por meio de inquérito policial. O poder judiciário do Deij em 18/05/2001
responsabilizou dois dirigentes da Febem-SP, aplicando medida de advertência e admoestação de que
medidas judiciais mais gravosas poderão advir caso deixem de implementar nas unidades de internação os
mecanismos para assegurar o cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente (PA 5, p.1158).
“Eu não posso falar tudo que eu quero com a assistente... aí, fica guardado. Na
próxima rebelião, você desabafa um pouco.” [12/04/2000, UE-14, 17a, grifo meu]

“A rebelião também é para encontrar as pessoas. Quando tem uma rebelião


você tromba um monte de amigos... pam, desabafa, pam, zoa um pouco, quebra um
pouco... uns vai embora, outros não... Uns fica todo quebrado, outros não, quebra
osso...” [12/04/2000, UE-14, 17a, grifo meu]

Frente à sensação de isolamento, de não interlocução, as fugas e as rebeliões parecem


ser também a contrapartida necessária de adrenalina e desabafo.
“Tinha uns que tinha coragem de tomar a iniciativa! Quer dizer, não é
coragem, é mais medo! Num dia, numa fuga, perguntaram: “quem dá a frente?” “–
deixa comigo!” Pulei em cima do funcionário. Fiquei com tanto medo, que bati em todo
mundo! Também pelo meu corpo (grande) a gente escolhia!” [Vanderlei, ex-interno,
maio/2000)

“Rebelião é desabafo. Rebelião é a alegria dos presos. Na rebelião você fica


alegre. Se a gente vê a rebelião pela TV, os caras indo embora, a gente pensa: é menos
um no sofrimento. É um motivo para ficar contente.” [12/04/2000, UE-14, 17a]

“Rebelião é 1000 de adrenalina.” [19/04/2000, UE-14, 18a]78

Oliveira (2001) ressalta a repercussão quase direta que as rebeliões de 1999 da Febem-
SP tiveram nos internos da Febem em Porto Alegre. Assistindo TV, eles
confraternizavam pelas ações consideradas vitoriosas (como as fugas, o domínio da
situação, os funcionários como reféns, as autoridades sob pressão), festejando e
ameaçando repetir ali seus “atos heróicos”. Em contrapartida, reagiam com vaias e
gritos diante do que era vivido como um retrocesso (a apreensão dos fugitivos, a entrada
em cena dos pelotões de choque, a transferência de internos, etc.) Quando a cobertura
da imprensa se referia aos eventos protagonizados por eles próprios era comum que
pedissem jornais para guardar os recortes, tomados como insígnias de reconhecimento.
“Neste caso, o episódio servia como um trânsito, mesmo que efêmero e custoso, do
lugar de submissão para o de protagonismo. ‘Nóis na fita’, como um deslocamento do
lugar de anonimato institucional” (Oliveira, 2001,p.172).

78
É comum nas rebeliões que os jovens invadam os setores de saúde para ter acesso à medicação,
especialmente sedativos e psicotrópicos. Neste contexto por si mesmo evocador de adrenalina,
“amplificam-se as fantasias de onipotência. Desta forma, as expressões de uma coragem desmedida se
aliam à impetuosidade juvenil, transformando alguns adolescentes em aríetes humanos, perigosas
máquinas de guerra, mais temidas do que os presos adultos, segundo opiniões de quem conhece o sistema
prisional. O jogo do ‘tudo ou nada’ faz vizinhança com a morte e qualquer um pode, por algum motivo,
ser visto como inimigo potencial. Neste clima em que a desconfiança se transforma em estratégia
defensiva, a palavra é um dispositivo por demais impreciso para servir como garantia de alguma coisa”
(Oliveira, 2001, p.165).
Rebelião como choque liberal

Em contraposição ao Choque, à polícia, aos monitores e aos pirril, a rebelião é “choque


liberal”, choque de liberdade:
“Com a rebelião, é um choque liberal para o menor que tá lá dentro. Porque
aquela hora ali, pode saber... a rebelião pode durar meia hora, mas nessa meia hora ele
pode fazer o que ele quiser. Como se estivesse de liberdade. Como eu agora, se eu
quiser gritar no meio da rua, eu vou. Tanto que numa rebelião o que mais tem? Assobio
e grito... Nossa, ele tá adrenalina ali. É como se estivesse vendo o Corinthians ganhar. É
a felicidade dele: ver o monitor correndo com o rabo entre as pernas.” [15/08/99, ex-
interno, 18a, grifo meu]

Esta dimensão do “choque liberal”, essa “meia hora de intensa liberdade” nos remete à
concepção de massa em Canetti (1995), que destaca o conflito humano entre o temor de
ser tocado – que faz nascer as distâncias individuais, a hierarquia e a ordem – versus a
tentação de ser tocado: que faz nascer a massa. Controlada pelas instituições que
mantêm a ordem social, a massa pode surgir, no entanto, espontaneamente,
imprevisivelmente, quando um aglomerado de pessoas atinge certa intensidade,
abandonando as distâncias e as hierarquias. Quando uma massa se forma, ela se
expande com rapidez e procura densidades novas e intensas e ocorre o que ele chama de
“descarga”, momento de densidade máxima, “onde cada um fica tão perto do outro
como de si mesmo” (Canetti, 1995, p.17). Ela é acompanhada de enorme “alívio” e de
destruição de tudo que fundamenta as hierarquias e todos se sentem iguais. Igualdade
real e não fictícia: “é em razão desse momento feliz, no qual ninguém é mais ou melhor
que os outros, que os homens transformam-se em massa” (idem, p. 17). Canetti assinala
também que toda demanda por justiça bem como as teorias igualitárias, retiram sua
energia dessa experiência de igualdade que cada um conhece a partir da massa (idem,
p.28).
“Vai vendo como era a UE-12, uma das mais pesadas: era 15 dias de tranca, 2
de pátio e rebelião de novo. Um dia, todo mundo trancado e uns no corredor apanhando,
daquele jeito, a cabeça encostado na parede... chegou dois corregedô [refere-se
provavelmente a promotores], chegou catando, pegou os cara no flagra; até algemou o
monitor. Aí, o que aconteceu? Tesourou o couro. Aí, o que libera? Tesourou o couro,
libera o que os menor quer. Aí, o que vai acontecer? De repente, chama o diretor da
unidade no pátio: “se não liberar o disc-man e visita íntima nóis vai aprontar uma
rebelião aqui!” Aí, vai ter que liberar... de repente, não sou louco de falar o que falei
aqui, vai... lá dentro... mas numa unidade com o couro tesourado... libera a bagunça para
os menor e ao mesmo tempo tira o sofrimento... (Pesquisadora: – você acha que é
bagunça o que fica liberado?) Nessa unidade com o couro tesourado, um dia, vai chegar
uma hora que... todas as cabeças... que a rebelião acontece assim... quando muitas
cabeças pensam juntas as mesmas coisas. Que vai acontecer, cedo ou tarde? “Mano,
nóis tem tudo aqui dentro: visita íntima, roupa, anel, vejo minha mãe uma vez por
mês”... Entendeu? Vai chegar no ponto X: o que está faltando para mim? Só está
faltando a rua... então... ‘vamo prá rua, rapaziada...!’” Isso é a rebelião! [15/08/99, ex-
interno, 18a]

Essa definição da rebelião como o ponto X, onde “se vai prá rua”, similar à importância
do "ocupar a rua" nos atos de sedição, sugere que os próprios corpos podem “abrir-se
para algo que os transborda, um curto instante revolucionário, um impulso
experimentador” (Deleuze e Guattari, 1997, p. 33).79

Ir prá rua: depois da rebelião “condicionada”, “criada” ou “provocada”, é a rebelião


para “sair fora”, o outro determinante mais fortemente arrolado:
“Eu me envolvo em rebelião para buscar minha liberdade, de um jeito ou de
outro. A finalidade é ir embora, é a cota!” [12/04/2000, UE-14, 17a]

“Rebelião é porque ninguém quer passar preso!” [16/10/2000, UE-15, 18a]

“A gente perde o pelo, mas não perde o vício...o vício é querer ser livre!”
[06/2000, ex-interno]

“Ou se a família não vem, o maluco já se acha esquecido... aí quer fugir.


Ninguém quer viver preso.” [12/04/2000, UE-14, 17a]

“Se a unidade dá corre, maluco fica sossegado. Se não dá corre, a gente não vai
ficar no veneno, qualquer ser humano ia pensar em ganhar a liberdade.” [17/04/2000,
UE-14, 18a]

Dentro das instituições totais existe – por parte dos internos – um pacto irretratável
quanto ao direito de fuga e ninguém ousa quebrá-los sem sofrer graves conseqüências
(Silva, 1997). O Código Penal não pune fuga ou a tentativa, desde que ela não implique
danos ao patrimônio público nem violência contra terceiros. Conforme também observa
Guará (2000), a aceitação do “contrato” de internação não elimina o valor da liberdade.
O desejo de liberdade aparece também como uma forma de reparação da humilhação
sofrida pela coercitividade da lei, resgatando-se uma identidade guerreira e forte com a
qual esses jovens se impunham no mundo do crime (idem, p. 171).80

79
Cabe lembrar, no entanto, conforme alertam Canetti e Deleuze-Guattari, que este ponto-limite, de
descarga, onde podem se romper antigos vínculos e formar-se outros, encerra um perigo: “embora sintam-
se subitamente iguais, os homens não o são de fato, nem para sempre. (...) Somente o crescimento da
massa impede que seus componentes voltem a arrastar-se sob o peso de suas cargas privadas” (Canetti,
1995,p.17). Um outro perigo que vimos com Deleuze e Guattari é o de sua captura numa máquina de
guerra.
80
Silva constatou em sua pesquisa com crianças internadas na Febem por abandono que o maior índice de
fugas no período de internação encontra-se entre os que se tornaram infratores. Se, como parte do
processo de institucionalização, trata-se de reduzir até a mais completa anulação, a capacidade de reação
da criança (as fugas sempre foram entendidas como infrações disciplinares), Silva hipotetiza que os que
se tornaram infratores representam aqueles que “de forma aleatória e desordenada tentaram resistir ao
processo de institucionalização e às tentativas de completa supressão da sua autonomia. A fuga, a maior
agressividade, a rebeldia e a desobediência são indicadores claros desses mecanismos de resistência e o
Outros criticam a necessidade de rebelião para fugir, valorizando as fugas no espianto
ou outras na moral:
“Sempre tem gente que não quer ficar preso mesmo, certo? Daqui a pouco
chega uma notícia ruim, da família, qualquer coisa assim. O cara vai embora. Não vai
machucar ninguém, ele vai embora. Não vai ter porque ter rebelião. Já teve tantas fugas
na Febem que nunca saiu na TV...” [12/04/2000, UE-14, 18a]

6. Rebelião: uma (in)certa política...

Há na perspectiva dos jovens algo que ainda faz das rebeliões, um espaço de luta e de
revolta, afirmando-se então como um campo de certo modo protagônico, potente e
revelador de suas maneiras peculiares de operar o poder. Eles imprimem à rebelião uma
clara dimensão de luta e de resistência, para além da política cotidiana da correlação de
forças no interior da unidade, como ter a casa dominada por uns ou por outros, como
história de cão e gato. Vejamos os principais componentes desta política:

a) A rebelião vista como atitude mesma de resistir, até o limite:


“Mas, aí, coisa de louco! Eu, eu ficava besta, porque eu vi a situação da
rebelião... você sabe como é que é quando a corda estoura. Olha que eu vi... você tinha
que ver! Tava os quatro no telhado assim: telhado da unidade, pátio [descreve como se
fosse a câmera], telhado, pátio. Esse foi o primeiro que os caras invadiu. Onde tinha
mais menor, na base de uns 30 em cima deste telhado, com um monitor. Tavam batendo
nele. Nossa! A hora que a Choque subiu, já fecharam o clip. Só dava nego apanhando e
se jogando... Os caras resistiram bastante porque aí, os caras jogando bomba – porque
olha aí, quando eu tava na Imigrantes (97), a hora que os caras jogou a bomba, já era,
acabou a rebelião! O primeiro barulho que escutei: pum! Já era, eles invadiram e acabou
tudo – e essa não: os caras tudo em cima do telhado... pá, jogava bomba, aquela
fumacinha branca saindo e os caras lá, batendo no fulano – era o B.! [monitor conhecido
pela prática de espancamento] – e os outros menor jogando telha prá cima do polícia!
Os caras não tava nem aí, bem dizer, tava com a atitude querendo dizer mesmo: ‘só vai
parar se vim aqui em cima... se não subir, não vai parar não’.

Aí foi aquilo, os caras invadiram este primeiro telhado aí. Tudo de cueca, eles
jogando as roupas, porque eles já mandam ficar de cueca prá não ficar cabreiro. O
menor não vai carregar uma faca na cintura, de cueca, né? E essas coisas parecidas
mesmo, o veneno. Toda rebelião é assim, eles mandam tirar a roupa.

Não, não é que eles resistiram e deixaram de resistir... não tem como! Aí, tá lá:

tornar-se infrator indica que àqueles meninos não foi oferecida nenhuma alternativa para que
aprendessem a lidar positivamente com a sua rebeldia, com a revolta e com a indignação” (1997, p.111).
uns 30 menor, a maioria de mão limpa, cinco com um caibro na mão e um com uma
faca e os polícia armado: de escudo, cassetete e capacete... Tem como? Não tem como
existir confronto!

É onde os caras que já estão no poder sabe que se der a voz ativa, a voz ativa
vai ser ouvida e cumprida... é onde ele já invade: “tira a cueca, tira a roupa, senta todo
mundo e cabeça baixa” e já era! É onde a situação já muda. Mas do jeito que tava ali, ó,
da próxima não passa...” [21/02/2000, ex-interno, 19 a]

b) O “levantar” por um “motivo”, para lutar pelos seus direitos ou para falar:
“Se a gente não levanta, se fica sossegado, a gente apanha; se a gente levanta, a
gente apanha... aí já apanha com um motivo. Pelo menos a gente conseguiu o que a
gente quer, pelo menos falar a gente vai falar... apesar da gente saber que não vai ter
resposta. Vai ver eles fazem alguma coisa... até hoje não fizeram nada.” [29/09/99, UE-
2, 16a]

“Para uma casa inteira, todo mundo para uma casa só prá ver se acontece o que
a gente quer... não tudo o que a gente quer, pelo menos o que a gente tem direito...”
[29/09/99, UE-2, 17a]

c) O “levantar” por solidariedade ou por reunião, como eles preferem chamar,


evidenciando uma dimensão de defesa coletiva de interesses:
“Rebelião acontece também assim: tem tentativa de fuga, tem uns que quer ir
embora e eles tenta fuga e quebra, aí os homens começam a bater e bate nos que não
têm nada a ver também. Aí o resto se revolta por ver aqueles pessoal gritando... aí se
revolta e precisa fazer alguma coisa... porque um sozinho não tem jeito, senhora, tem
que juntar nóis tudo aqui para conseguir parar os homê. Aí só assim mesmo... Isso
quando a vigilância não entra e quebra todo mundo.” [29/09/99, UE-2,17a]

“Não tem jeito de não entrar na rebelião! Vejo a senhora apanhando, vou ficar
parado?” [12/04/2000, UE-14, 17a]

“Dia 19 os cara da Choque tirou a gente do telhado. A gente fez isto por causa
da URT. Os caras estavam no maior sofrimento lá. Aqui não é cadeia, senhora. Aqui é
Febem. Nóis é feito de carne e osso. Nóis tem direito. Não é porque nóis estamos aqui,
que nóis tem que ser discriminado.” [12/04/2000, UE-14, 18a]

“Esta última aí [refere-se à de 19/02/2000 no Quadrilátero] foi por causa da


URT. Choque, polícia invadia para bater nos malucos. Um dia tavam batendo neles...
daqui a pouco nos levantamos tudo isto aqui... daí acabaram (com a URT) e tão dizendo
que tem outra lá!” [12/04/2000, UE-14, 17a]

“Pode estar aqui jogando bola normal e teve uma confusão em outra unidade lá
embaixo. Tem uns monitor zoando menor. Aí a outra unidade do lado já se revolta e
sobe no telhado... já ajuda os manos, já chama os outros manos...” [12/04/2000, UE-14,
17a]

“... começou o auê... para não deixar os manos quebrar sozinho, porque nóis
sabia que eles iam apanhar, começou a levantar as outras unidades... aí foi virando,
subiu aqui prá cima.” [29/09/99, UE-19, 16a]

“Se um é ameaçado ou sofre algum coisa, os outros se rebelam em defesa dos


seus interesses...” [Vanderlei, ex-interno, junho/2000]

“Um camarada não gosta de ver outro apanhando... a rebelião começa por isto
também...” [17/04/2000, UE-14, 18a]

Para outros não será tanto a perspectiva da “reunião” que prevalecerá, mas a de
“reforço”:
“Eu não acho que tem esse negócio de solidariedade. A gente sai junto para
reforçar, porque precisa ir mais gente para enfrentar os pirril. Mas cada unidade faz seu
próprio corre, não tem essa de ajudar a outra.” [30/10/2000, UE-15, 18a]

Configuram, de certo modo, planos e modalidades de organização:

 Destacando a importância de serem unidos:

“Aqui nóis é tudo unido [JOV, UEs 12, 13, 14 – geograficamente contíguas],
porque nóis é tudo tranca. Qualquer tretinha que levantar uma, a gente levanta atrás, vai
embora! Porque os funcionários não gostam de se unir para bater na gente? Nóis
também se une para pegar eles!” (17/04/2000, UE-14, 17a)

“[Elogiando a UE-12] É o sistema de lá, o sistema dos menor mesmo! Porque


ali, você chegou, você é sangue bom... você já colava com os caras e os caras já jogava
a maior letra ni você: ‘Aí... o barato aqui é o seguinte: isso, isso e isso; estourou, é isso,
isso e aquilo. Não pode ter comédia, não!’ Se estourou, todo mundo vai! Quem fica de
fora, é comédia! ‘– Você é sangue bão, meu?’ ‘– Sou sangue bão!’ ‘– Ah! Você é
sangue bão, então, aqui: vai ter rebelião amanhã, quero ver sua atitude!’ Os caras
levantam mesmo! Era a unidade que pagava o maior veneno! mas também na 12, só
tinha cara com 12, seqüestro, 121, homicídio... infração mais pesada. Eles tinham que
sair de fila, mão atrás, sem conversar... qualquer coisinha, quebrava braço dos caras.
Começaram a levantar em 96. Começaram a levantar já era! Os caras levantavam
rebelião; uns 40 iam para PS. Não dava 30 dias, os caras tava no pátio, era cinco dias no
pátio e ah!!! (outra). Os caras não cansaram... vai ver o resultado lá! Os caras trincaram:
tesouraram o couro lá... pelo menos um tempinho – de 97 a 98, a 12 tava quieta: boné,
correntinha, roupinha do mundão, falar para o monitor que não podia mais ter couro!
Até que enfim! Acho que é isso que eles queriam, conseguiram... mas prá isso
acontecer – pelo amor de Deus! – quantas pernas e quantos braços foram quebrados,
quantas cabeças foi trincada? quantos nariz foi estourado, quantos dentes foi cuspido?
Precisa, cara? É por isso que é famosa, porque quando tem, eles não se entregam,
todos, todos! É maior união! Se a Febem se unir, já era! Não tem tropa de choque para
segurar o bagulho! Pode ter, mas vai tomar uma canseira... quantas vezes a 12
levantou sozinha e os caras tudo quebrado na UTI e tudo de tranca!.” [21/02/2000, ex-
interno, 19a]

 De ter um proceder em relação à rebelião:

“A partir do momento que teve rebelião, ninguém pode deixar falando


ninguém! Pergunta quem vai, quem não vai! Quem tiver a pampa, é um direito que
tem... tudo bem.” [30/10/2000, UE-15, 17a]

“Tem um esquema que é velho para levantar rebelião: tipo você é um menor
também, eu olho para você e digo ‘vamos sair na mão só para levantar aqui dentro’...
Você fala: ‘firmeza!’ Eu dou um soco em você e você dá em mim. O monitor fala: ‘pára
essa briga, aí!’ Aí o outro: ‘– pára, um caralho!’, e levanta. Os 50 que estão sentados
vão para cima dele... aí os caras já desceram e subiram no telhado da Ala A. Aí, uns
caras, primeira passagem, no embalo de monitor: ‘nóis não quer fugir, não!’ Cataram
até uns pedaços de pau para trocar com ladrão que queria fugir, tipo do lado dos monitô.
Falei: ‘não vou ficar nessa Ala, não’. Os cara entra aqui e mata tudo esses ladrão-
comédia. Já pulei, fui para o lado dos caras que tava rebelado!” [15/08/99, ex-interno,
18a]

 E de usar os procedimentos corretos:

“O certo é levantar e sair da unidade. Se ficar aqui é dentro, não tem para onde
correr. Agora, se levantar e sair para fora e buscar a 20, a 17... se a gente estoura aqui e
busca o pessoal da 20; a 20 já vai querer os parceiros da 17, os da 17 vai na 16... aí vai
indo.” [15/12/99, UE-19, 17a]

“Se for ter rebelião (geral) aqui no Tatuapé tem que planejar, porque levantar
uma Ala para ir buscar as outras, não dá... Tem que fazer um planejamento muito sério,
porque se levantar só uma, quebra. É a chamada aliança. Que une todos. Vai pela
maioria. Se todos concordar há rebelião!” [30/10/2000, UE-15,18a]

“Rebelião geral tem que fazer uma conexão de menores...” [30/10/2000, UE-
15, 17a]

“Vai mandando pipa para as outras unidades. Quem vai fazer UDM [cursos]
entrega para as outras unidades. Esse pipa chegando... pensam tal dia, tal hora, todo
mundo já tá sabendo. Então estoura, já cata monitor de refém! Tem que ter sempre uma
unidade que dá a testa, que é a de frente.” [30/10/2000, UE-15, 17a]

Sabem também da importância de avaliar os riscos e de realizar uma certa análise de


conjuntura:
“Até o cara que tava lá zoando, se colocar na cabeça: ‘aí, não vai virar o
bagulho...’; três minutos, os caras vai entrar e vai quebrar todo mundo...; se sente que
não vai ter nexo o bagulho, ele não vai se envolver...”

“O lugar é tenebroso: imagina fugir e não conseguir! Para evitar represália, já


arrebenta tudo. Já envolve todo mundo: quem estava e quem não estava. Aí vem juiz,
imprensa e os caras não põem a mão! É uma forma de proteção!” [Vanderlei, ex-
interno, maio/2000]

“Se os caras [monitores e vigilância] já estão esperando a rebelião, já sentiram


o clima tenso... você vai ter que ver o movimento: se as outras unidades levantar, você
tem esperança... porque aí não vai ter como segurar, mas aí, 150 na unidade, uns 80
sangue bão, os pirril e os monitores já lá fora, a maior muvuca! E aí: 80 com 300? É
pedir para morrer, para apanhar!” [21/02/2000, ex-interno, 19a]

Por exemplo, para muitos a rebelião é uma boa estratégia de fuga, porque permite a
evasão com menos risco de captura, na medida em que são feitas em massa, além de
também poderem ser aproveitadas para acerto de contas:
“Rebelião em massa é mais oportunidade, mais muvuca, mais chance de fugir,
poucas pessoas pode vir os pirril e trocar com nóis. Nóis quebra e apanha. Fica ali
apanhando. Mais gente, vai juntando bastante gente... aí estoura tudo... vai cada um para
um lado, mais difícil de pegar. Não tem para que lado eles correr!” [08/11/2000, UE-15,
16a]

“Ela tem outra vantagem: aproveita a oportunidade para matar um treta, porque
não vai precisar assinar (BO); é para envolver todo mundo, para não sobrar para o cara
sozinho...” [Vanderlei, ex-interno, fevereiro/2000]

Há inclusive uma idéia de que eles teriam que se fazer representar, “pega mal” se não
fizerem:
“Porque eles levantam [uma unidade], estão em minoria... aí os pirril pode
dominar. Para não deixar os malucos em minoria, para não acontecer isto, nóis pega,
levanta tudo para ajudar. Conforme tá tudo levantado, tem mais chance de nóis ir
embora. Mesmo que eu fique, eu quero ver o mano indo embora.” [08/11/2000, UE-15,
17a]

“Nós levantamos na 16, para tentar representar a casa, mostrar que nóis
também pode ajudar...” [27/12/2000, UE-15]

 E de que podem produzir efeitos de impacto, a partir de suas ações:

“O governo ia perder o cargo dele. Botaram ele contra a parede: tá vendo a


rebelião que tá dando em SP? Se não melhorar isto aí, você perde o cargo! Aí deixou a
Choque direto... e mandaram os moleques problemáticos para o cadeião, uns para cá,
outros para lá! É os pulos deles! Não é bobo! Quem quebra é os menor que tava aqui,
que vai tudo para o cadeião!” [15/12/99, UE-19, 17a]
“Quando um funça morre, eles param de bater! (...) Esse diretor aí, tem que pôr
ele em cima do telhado, meter uma faca no pescoço dele! Num instante, eles param de
judiar de nós!” [08/11/2000, UE-15, Al]

Mas, ainda que produzam um impacto, sabem que o inimigo não é bobo. Como diz A
(UE-15, 18a), comentando a rebelião de outubro de 1999 na Imigrantes:
“A Choque só não invadiu lá porque tinha muita reportagem. Mais a
reportagem que os corpos... (que segurou) Porque se fosse funcionário que jogasse para
lá, tinha acabado a rebelião de uma hora para outra... a Choque tinha entrado com tudo,
mas ia ter mais morte!” [30/10/2000, UE-15,18a]

Reconhecem suas dificuldades de organização:81


“... é que ninguém combina direito... é aquela coisa. Tem 300 menores aqui. Se
os 300 se levantam, não precisa nem levantar rebelião. É só chegar e dizer: dá logo a
chave da porta, aí, vai! Já era! Tem 300, levanta 50... quer que 50 domine o bagulho?
Tem que se levantar!” [15/12/99, UE-19, 17a]

e os riscos da desunião:
Um cola com o outro e se houve uma treta entre dois, os que colam com um,
não colam mais com o outro. Aí rola a desunião.” [16/10/2000, UE-15, 17a],

quando, eventualmente, as rebeliões podem ser resultado de acertos entre eles, por conta
de tretas:
“A causa da rebelião foi porque morreu um mano da quebrada e os manos não
se agradou do que aconteceu e tal e tinha uns manos na Febem que tinha treta de uma
quebrada com a outra... aí causou uma rebelião. Uma briga de fora, veio trazer para
dentro da Febem.” [16/10/2000, UE-15, 17a]

Formulam um “ideal de rebelião”, a que reúne no mínimo duas condições: ser desejada
e ser efetivamente um confronto:
“Aí, mas eu achei que eles tinham que descer do telhado, sabe para quê? Para
estourar as outras unidades que não estavam estouradas e para dominar a Febem,
mesmo!, realmente! Não fazer uma na unidade! Foi muito fácil os caras dominar – tudo
bem, os caras resistiu...– por quê? Porque os caras (Choque) tinham acesso à portaria
para entrar no Quadrilátero. Não era o caso da Imigrantes, na rebelião de 97: ficou três
dias e três noites e nóis lá. Você chegava na frente do polícia, e aí meu, xingava ele, o
caramba... Não pegava nada. Porque eles precisava de uma ordem para entrar na Febem.

81
Oliveira (2001, p. 165) observa que é freqüente durante as rebeliões que a equipe de negociação
constate que entre os internos inexista uma pauta específica, um projeto, um programa ou, até mesmo,
uma ilusão. Trata-se para a autora de uma violência desencantada e desesperada. As primeiras exigências
incluem demandas sofisticadas como a garantia de potentes armas e carros para as fugas, até singelos
cachorros quentes com refrigerantes.
Porque era a Febem que tava rebelada. Ali não era a Febem: era umas unidades. Então
os caras já passeia ali e fecha, igual aconteceu. Eles (menores) estavam querendo
invadir a cozinha central porque é onde está o arsenal da Febem; estiletão, facona! Que
aconteceu? Acabou, meu! A polícia cercou a cozinha e as unidades rebeladas, meu! Não
precisou de mais de 100 choque para acabar com a rebelião. Pelo que eu vi na TV – eu
não sei, porque não estava – mas pelo que eu vi, não deve ter sido nada esquematizada!

[Pesquisadora: A da Imigrantes foi?] não! foi! [parece que foi e não foi, pois
responde assim, seqüencialmente... Pesquisadora: o que faz a diferença?] Ah! Sei lá,
meu... igual;... acho que é o barato do querer, querer se rebelar e não querer. Quantas
vezes em rebelião, vi uma pá de cara assim: parado, esperando a Choque invadir, para
acabar...

De quantas eu não participei! Mas no final, na 15, com a casa já invadida, eu


comecei a fazer uns assovio e jogar chinelo havaiano para dentro na UE-2 e os caras
dando paulada na cara, indo prá cima dos monitor. Aí que tá a verdadeira rebelião! Eu
tava só colaborando um pouco no barulhinho... [Pesquisdora: qual a verdadeira?] O
confronto, lógico! Por isto que eu falo que a 12 é a unidade, sempre foi! Passaram um
veneno uns dois anos, mas quando começaram a fazer rebelião, também, é o seguinte!
Faz até hoje... duvido também se não foi eles que começaram esta. Porque os caras vai
pro confronto, porque para eles, a Choque é tudo comédia. Os caras invade e eles vão
prá cima também!” [21/02/2000, ex-interno, 19a]

Confronto que pretende a destruição integral da Febem... esta é a rebelião por vir:
“Senhora, pode ter certeza, não vai demorar muito para destruir esse Tatuapé
todo. Tá quase chegando a hora certa e quando chegar... se tiver monitor, vai subir no
céu...” [17/04/2000, UE-14, 17a]

“Esse ano ainda vai acontecer muita besteira, não só na Febem; em


Penitenciária também. Tenho certeza. Porque tá acumulando muita maldade. Do jeito
que tá, nunca teve. (...) Nostradamus falou... claro, o mundo não acabou; mas o
apocalipse tá acontecendo aqui: maldade acumulada num lugar só. Nunca teve tanta
superlotação em Febem e cadeia como agora. Onde tem tanta maldade assim, é onde o
demônio manda e onde o demônio manda, acontece o que o demônio quer. Que é o
quê? Destruir... [P: essa última rebelião foi a pior?] A pior tá prá vir...[ri].” [ML,
15/08/99]

Da rebelião que está por vir, deste “inacabado” da rebelião, fala um interno:
“enquanto não puser fogo em tudo, não termina. Sempre vão ter onde nos prender”.
Ilusão de escapar, porque sempre terão onde os prender – conforme atestam as
transferências de adolescentes “rebelados” para o Centro de Observação Criminológica
(COC) do Complexo do Carandiru.
“Lugar muito ruim mesmo tem que quebrar para não ter mais! Quebraram tudo
[refere-se ao CI], não tem mais, não! Lá era o maior veneno: no pátio o dia todo. O
único direito que você tem é ficar sentado o dia todo, quieto, no proceder. Todo mundo,
o maior silêncio. Uma hora tem que quebrar!” [12/04/2000, UE-14, 17a]

Comentando sobre a participação na rebelião Imigrantes em outubro de 1999:


“Passou na minha cabeça destruir a Febem... Nem tudo é impossível, né? A
senhora não viu a finada Imigrantes? Tudo começou na Ala B. Eu tava na B,
levantamos a B, fomos buscar a C, os moleques levantou também! Aí já chegou a D e a
A; as outras não participaram porque já tinham mais condições de liberdade deles. Aí
entornou tudo... aquela muvuca. Nem Choque, nem pirril ficava naquele pedaço.
Naquele pedaço só ficou nós e nós começamos a destruir... Já ficou tudo na nossa mão,
tomamos! Aí quebra tudo para ficar finada mesmo... [riem] Acabou a Imigrantes,
acabou o inferno!!! [P: Acabou? e depois: o COC, Pinheiros?] É, tem a UAI (Brás), que
é mais veneno ainda: não pode falar, nem olhar de lado.” [13/11/2000, UE-15, J. 17a]

Há uma certa idéia de que se quebram e destroem os prédios, não terão mais onde os
prender.
“Aí o presidente da Febem vai e dá dois anos para mudar a Febem e o
governador cento e poucos dias... não sei se vai ter Febem quando este prazo se esgotar
[ri]. Vai explodir que nem uma bomba mesmo. Do jeito que está, vai chegar uma hora
que não vai ter mais como mandar para tal lugar e reformar a unidade. Vai acabar
mesmo, vai extinguir. Vai extinguir porque, tipo assim: vai rolar as rebeliões, como tá
rolando, freqüentemente, uma atrás da outra, o que vai acontecer? Vai chegar uma hora
que elas vão estar tão devastadoras assim que tipo rola uma rebelião – só que em vez de
mandar os caras para o Tatuapé, não vai ter como, porque vai tar rolando rebelião lá
também. Não vai ter prá onde mandar! Vai ficar segurando o quê? Dento de ônibus, os
caras? Não vai ter. Vai ter que ter uma solução para isso aí logo, porque do jeito que
está não vai mais estourar do lado dos menores. Vai estourar do lado do governo!”
[24/09/99, ex-interno, 19a]

Cenário de uma rebelião sem fim, uma atrás da outra, devastadora... “não vai ter como
segurar os caras!”

Nesta perspectiva, a rebelião é da ordem do disruptivo, do “suprendimento”, ainda que


possa até ser previsível! Um disruptivo capaz de fazer frente ao que vislumbram mesmo
do projeto social para com eles: como diz Meia Lua, o que os aguarda é “A Lista de
Schindler”, ou a “Lista de FHC”:
“É o fim, é o extermínio. Para mim isso já existe faz tempo... já existe planos
com este intuito há anos, com certeza. Do Maluf chegar e mandar derrubar os barracos,
por exemplo da favela de Heliópolis. De deixar tudo estourar, de chegar nas Rondas
(Policiamento Municipal) e dizer: ‘você não enquadra mais, você sai com essa viatura
na rua e sai matando todo mundo’. Que vai chegar uma hora que o cara vai se
empapuçar... eu não sei, eu tenho o meu pensamento... O FHC está lá em cima do
poder, já sabia o que ia acontecer, já imaginava que o país ia estar do jeito que está...
então já sabia que a Febem ia estourar do jeito que está estourando. Então, o que eu
imagino, esse tanto de rebelião... os caras... vai acontecer de puro instinto, de pura
maldade. Com certeza vai ter aumento de criminalidade aqui fora. Pode até acontecer do
presidente fazer que não está vendo e viajar, como acontece algumas vezes (...) Pode ter
muitos jeitos de acontecer essa matança; fazer acerto com algum presidente que tem o
mesmo ideal que ele e tipo, vai o exército de tal país chegar aqui, sentar o pau em todo
mundo, matar os que estão envolvidos com estes baratos de tráfico: traficante, nóia....
tudo: 157, 155, tudo!” [29/08/99]

7. Rebelião-“suprendimento”

Orlando (abril/2000, UE-14, 18a) faz questão de mostrar seu funk. A letra conta como
ele chegou à Febem e prossegue, falando de sua trajetória lá dentro:
“Voltei para a Imigrantes,
Veneno, meu irmão! (o que?)
Nem podia usar a roupa do mundão
O tempo passou, o bonde chegou
No Tatuapé, que o veneno acabou
Eu vi a minha mina,
Eu vi o meu irmão (o que?)
Uma família formando a união!
A hora tá passando
O mundo tá girando
Escute esta letra
Olha só o que eu tô falando
Que chega aquele mano
Com a naifa na mão
Olha meu amigo, ele gritou: Rebelião!
Alevanta todo mundo
Corra logo para o portão
Arromba essa porta
Vamos todos para o mundão...” (grifo meu)

Vemos aqui a rebelião aparecendo, como dizem os internos, assim do nada! Que chega
aquele mano com a naifa na mão. Olha, ele gritou: rebelião!!!! Alevanta todo mundo!!!!
É do nada, como a destacar um disruptivo:
“Rebelião é do nada. Como se fosse estalo de dedo. É do nada. Quando você
menos espera, qualquer hora é hora. [P: – Pode ser planejada?] Não existe planejo, a
não ser dentro da unidade onde você está... mas... todas as unidades combinando
assim... não existe. É do nada. Uma unidade começou a gritar, a outra já começa a gritar
de novo... vai indo...” [29/09/99, UE-19, 17a]

“É do nada, tá todo mundo na paz, um monitor dá um tapa na cara de alguém


ou acontece algum motivo. Aí nóis sobe no telhado.” [12/04/2000, UE-14, 17a]

“Às vezes é uma palavra que um monitor fala para um menor e se o menor não
gostar: ‘quê, senhor, tá me tirando?’ É do nada, senhora. É do nada. Ninguém espera! A
gente tá aqui, conversando agora... pode chegar uns menor batendo na porta: ‘sai, sai!’”
[29/09/99, UE-19, 17a]

“É o momento, senhora! O motivo! O bote certo! Sem maldade, a cobra dá o


bote certo!” [17/04/2000, UE-14, 17a]

“Do nada é assim: nóis tá sossegado, levanta uma rebelião naquela unidade,
nóis levanta também: é assim, de repente, sem nem um motivo, momentaneamente...”
[17/04/2000, UE-14, 17a]

“Acaba surgindo o inesperado... Aí começa a rebelião! [P: Sempre tem um


inesperado?] Tem. É de momento, senhora. Nunca espera. Quando você menos se
espera. Vale tudo ou nada!” [UE-15,16/10/2000]

Quando você menos se espera! Como a dizer que a rebelião é acontecimento mesmo de
presentificação, de fazer-se!!! No limite, no ninguém segura, desenha-se um
imprevisível:

Epifânio, 16 anos, ao vir falar comigo [11/08/99, UE-2], traz uma camiseta enrolada na
mão, parecendo uma luva de boxe. Ao falar sobre a rebelião, destaca diversas vezes que
“chega uma hora que ninguém segura”, “nem Choque (batalhão de choque) segura”
para, logo em seguida, usar a mesma idéia do “ninguém segura” ligada às tatuagens
(tem várias tatuagens feitas todas na Febem, uma delas clássica: “Amo a vida e a morte
me namora”).
“Aqui não tem nada para fazer... a gente faz tatuagem, vai passando o tempo...
Cada minuto que passa, melhor prá gente... Muita tatuagem: num lugar, no outro...
quando vê... o corpo já virou um gibi... Vai acumulando, não tem como segurar. Aí...
daqui a pouco, a Febem toda tá tatuada...” [grifo meu]82

A Febem toda tatuada: esta talvez seja uma das melhores imagens desse movimento
dispersivo, irradiador e intensivo de que as rebeliões parecem querer falar.

82
A temática da tatuagem e do corpo-gibi é particularmente interessante, como toda temática do corpo em
geral: os adolescentes costumam fazer uma classificação, em três grandes categorias, das suas marcas
corporais: F, C, M – respectivamente marcas das porradas recebidas na Febem, marcas de Criação, as da
família e marcas de Matador, dos enfrentamentos da rua, da polícia ou dos rivais.
O caso Imigrantes

“Menores “sem um pingo de juízo”


Levantou rebelião (Isso sempre tem)
Não, desta vez foi um caso sério
Eles mataram alguém e desvendaram o mistério”
(rap Alexandre, UE 15, grifo meu)

Um “caso sério”

Desde o início da pesquisa, temia que ela acabasse por revelar menos os processos de
resistência e mais os violentos efeitos de apassivação e mortificação dos jovens e dos
trabalhadores; que a investigação encontrasse um já sabido: a tristeza deste
funcionamento institucional sem saída. Estava em um terreno empírico no qual são
grandes as linhas de força “territorializando” a juventude no campo da exclusão e nesta
medida, de certa forma, o que mais me preocupava é que se rebelassem tão pouco...
Mas, forjada como máquina disciplinar, a Febem estoura.

Vimos, em 1999, mais especialmente no segundo semestre, na Febem-SP, rebeliões que


ganharam enorme visibilidade e poder de análise por uma conjunção de fatores:

 Pelo ponto-limite que atingiram, com mortes violentas de internos e funcionários


machucados.

 Pela freqüência com que apareceram e pela intensidade de que se revestiram. Foram
1322 fugas entre janeiro e julho daquele ano, o dobro de 1998 (656) no mesmo
período. Numa das grandes rebeliões, em julho, 459 internos fugiram do Complexo
do Tatuapé. Em agosto de 1999, 350 internos fugiram do Complexo Imigrantes; e
em outubro deste mesmo ano, uma enorme rebelião destrói quase completamente o
Complexo Imigrantes.

 Pelos desdobramentos que provocaram: Mário Covas, então governador do Estado,


chegou a assumir pessoalmente a gestão da Febem (em novembro de 1999), vindo a
público responsabilizar-se pelo ocorrido.

Cheguei a pensar que finalmente não precisaríamos da pesquisa como documento da


função/funcionamento das rebeliões, uma vez que a eclosão de todos estes
acontecimentos propiciou um certo trabalho ampliado de análise. Como insiste Foucault
(1998):
(...) o que as revoltas nas prisões põem em questão não são os detalhes, tipo ter
ou não ter televisão, ou a autorização para jogar futebol mas, pelo contrário, elas
questionam o status do plebeu marginal na sociedade capitalista. O status dos
desalentados. (p. 268)

Se as rebeliões podem problematizar este status é o que me interessa observar. A


rebelião da Imigrantes de outubro de 1999 parece ser o melhor analisador para esta
pergunta, em grande medida porque sua tematização – seja a feita pelos internos, seja
pela imprensa, seja pelos agentes do sistema de Justiça – encontrou curiosas
ressonâncias e convergências, bem como parece ter configurado, de fato, um ponto-
limite: também para os internos, ela é considerada uma rebelião diferenciada. Neste
sentido ela talvez tenha assumido essa dimensão de “acusalmente-suprendimento” de
que nos falava o interno Marcos.

Alexandre, num rap83 que compôs logo após a rebelião, assim formula o que considera
essa diferença:
“E a Febem?
Já passei por lá
Governador tomou prejuízo
Menores “sem um pingo de juízo”
Levantou rebelião (Isso sempre tem)
Não, desta vez foi um caso sério
Eles mataram alguém e desvendaram o mistério
Cadê?
Onde está o fundamento para recuperar o menor detento?

Governador! Encare a realidade!


Dinheiro tem para mandar cada um para sua cidade
Menores todos juntos só causam maldade.
Você mesmo viu... cabeça rolou
Tropa de choque se intimidou
Eles são desta vida e da liberdade
Deus desse povo é Deus da igualdade.”

83
Somos projeto realidade / Viemos aqui só para falar a verdade / Já estamos cansados de ouvir tantas
mentiras e ser ameaçados / De viver nas desgraças / Não vejo nenhuma graça / Olé Olá / Classe alta quer
nos matar / Estão ficando loucos / Ao invés de ajudar / Querem acabar com meu povo / Mas meu Deus é
forte, / Eles não vão conseguir liberar a pena de morte / Isso é porque vocês são ricos e não correm o risco
de perderem o emprego / Não vão precisar partir para o desespero / Seus filhos não vão passar fome / Só
queremos igualdade e viver como homem / E a Febem? / Já passei por lá / Governador tomou prejuízo /
Menores ‘sem um pingo de juízo’ / Levantou rebelião (Isso sempre tem) / Não, desta vez foi um caso sério
/ Eles mataram alguém e desvendaram o mistério / Cadê? / Onde está o fundamento para recuperar o
menor detento? / Governador! / Encare a realidade! / Dinheiro tem para mandar cada um para sua cidade /
Menores todos juntos só causam maldade. / Você mesmo viu...cabeça rolou / Tropa de choque se
intimidou / Eles são desta vida e da liberdade / Deus desse povo é Deus da igualdade / Moleque inocente,
onde está com a mente / Está se iludindo num caminho sem destino / Vire suas cartas! Dispense suas
armas!Vai para a escola, seus pais estão sofrendo / Pare de usar drogas, / Você que está morrendo, / Vim
aqui para te ajudar / Saia do crime, e só me escutar / Não monte uma quadrilha, eu conheço esta trilha /
Guerra de sempre / Não seja chefão de mais uma gangue / Moleque inocente, onde está com a mente /
Está se iludindo num caminho sem destino / Minha idéia eu já dei / Agora vai de você / Se quer continuar,
espero que vá sozinho, / Que não leve ninguém para o mau caminho. (Rap do AM, composto após a
rebelião da Imigrantes em 1999).
Outros internos da UE-15, comentando este rap, concordam com a idéia de que, desta
vez, foi um caso sério:
“Morte como essa nunca tinha tido. Pelo jeito das mortes foi diferente.
Tacaram fogo, deceparam a cabeça do moleque e jogaram do outro lado! Não existia
uma morte dessas, senhora!” [30/10/2000]

E que desvendaram o mistério:


“Nóis com a rebelião, desvenda o mistério... desvenda o que aconteceu.
Fazendo a rebelião, o pessoal (a sociedade) já vê que não é nada disso. Porque a
rebelião... pensou, pensava que era só para zoar, só para ir embora, essas paradas... mas
mataram alguém e desvendaram o mistério. Mostraram a realidade da Febem!
Mostraram que aqui tem o que tem na cadeia. E aqui não é educacional? Tá que nem
na cadeia, porque na cadeia é que mata um monte. Só não tem grade. [Outro
complementa] Com a diferença de que na cadeia, não apanha! [outro] Aqui só morre
quando tem rebelião...” [30/10/2000, grifo meu]

Desvendar o mistério é revelar o sistema prisional-repressivo atravessando a Febem, é


revelar a farsa do “educacional”. Eles também acreditam que puderam alterar, em
alguma medida, a percepção social sobre o problema, pois o pessoal (a sociedade) já vê
que não é nada disso:84
“De repente, eles podem até enxergar de outro jeito!” [30/10/2000]

“Nossos amigos e nossa família já pensa que a Febem é horrível, que não é
aquilo que eles imaginavam!” [30/10/2000]

De fato, esta mudança de percepção sobre a Febem poderá ser mais bem evidenciada
com os acontecimentos que as famílias protagonizaram, elas próprias arrastadas numa
espécie de rebelião...

Em 09/08/99, 12 familiares de internos denunciam à Procuradoria de Assistência


Judiciária (PAJ) a situação de espancamento de que seus filhos foram alvo (na Unidade
de Atendimento Provisório – UAP Imigrantes) e pedem transferência para as unidades
educacionais. Vejamos como um dos pais relata ao procurador o ocorrido:
“No dia 07/08/99, por volta de 15 h, no horário de visita, mantive contato com
meu filho e outros jovens que relataram que, em 04/08, houve uma tentativa de fuga,
tipo “cavalo louco”, quando dez tentaram fugir, mas não conseguiram; todos acabaram
sendo castigados; os materiais de trabalhos manuais (papel, cola, palitos, etc.) foram
retirados e alguns quebrados, foi suspenso o consumo de cigarro e, como o próprio
coordenador de turno confirmou, os jovens foram mantidos o tempo todo de cuecas até

84
Certamente o funcionamento prisional da Febem não é novidade, mas a extensão/intensificação da
percepção desta questão é de fato um elemento a ser considerado, principalmente se levarmos em conta a
rebelião como estratégia comunicativa.
o dia da visita. Diante desta notícia, a mãe de um adolescente procurou um monitor para
pedir esclarecimento, momento em que este admitiu que tinha batido mesmo no filho
dela; iniciou-se uma discussão entre pais e monitores, com questionamentos sobre os
instrumentos com que eles batiam nos jovens; neste contexto, diversos adolescentes se
uniram e quiseram mostrar onde estavam escondidos os paus e ferros utilizados no
espancamento; os pais e mães seguiram os jovens para olhar os instrumentos e os
monitores impediram o acesso ao local indicado pelos jovens; os monitores começaram
a determinar a saída dos pais, por estar o horário de visita encerrado; os jovens pediam
para os pais não irem embora, porque seriam espancados; os pais permaneceram
próximos aos filhos e se recusaram a sair; ao mesmo tempo, os jovens que não tiveram
visitas foram reunidos no interior do alojamento da ala e os pais ouviram gritos, com
sugestão de que estavam sendo agredidos. Os monitores negociaram que um pai e
quatro mães passariam a noite lá e conseguiram autorização para os outros pais
voltarem no dia seguinte para ver a situação dos adolescentes; por volta das sete horas
os jovens foram reunidos no pátio e às 23h, outro tumulto formou-se na ala C, anexa à
D e diversos jovens tentaram fugir, sendo que vários conseguiram. Antes disso, sete da
noite, dois adolescentes conseguiram arrombar o armário de um monitor onde foi
localizado um pedaço de pau, aparentemente um pé de cadeira, que ficou em posse do
depoente (...) Por fim, esclarece que teme pela sorte do filho.” [PA 13, pp. 1025-1042]

Resistência das famílias imediatamente criminalizada pela instituição, como se pode


perceber a partir do relato do coordenador de turno, sobre este mesmo episódio:
A visita teve início às 14h e por fatos ocorridos na última quarta (04/08),
tivemos desdobramentos graves na mesma. Vários familiares dos adolescentes se
revoltaram com os funcionários da Ala e por conseguinte com esta Fundação,
levantando questionamentos sobre agressões dos funcionários contra os menores.
Agressões estas infundadas e sem as devidas provas que pudessem de forma cabível
comprovar as agressões citadas. Faz-se lembrar aqui que os fatos ocorridos na quarta
foram devidamente apurados seguindo os trâmites legais, como o IML dos participantes
do levante, atendimento médico, abertura do Boletim de Ocorrência, etc. Sendo assim,
nada foi feito que justificasse tais protestos por parte dos familiares já que não havia
nenhum machucado, ferido ou quaisquer tipos de marcas que comprovassem as citadas
agressões. Incluo aqui os adolescentes diretamente ligados ao levante último. Voltando
aos relatos dos incidentes da visita, os familiares começaram a protestar de maneira
agressiva (falando alto) com os funcionários que estavam no plantão e tentando
organizar os adolescentes para o protesto. Por parte dos funcionários, houve uma
tentativa de diálogo, com o intuito de contornar a situação. Com o apoio dos familiares
que começaram a inflamar mais e em maior número, os adolescentes começaram a
discutir de maneira ríspida (um verdadeiro bate-boca) com os funcionários e a
levantarem as camisas e mostrarem algumas marcas no corpo, ditas por eles, feitas
pelas agressões dos monitores. O movimento foi se arrastando e cada vez mais a
situação saía do controle, inclusive alguns monitores começaram a ter a integridade
física ameaçada. Os monitores – visados pelos familiares e adolescentes – começaram a
tentar separar, através do diálogo, os familiares e adolescentes que não estavam de
acordo com o que estava ocorrendo. Esta ação resultou positivamente e a situação
entrava num impasse sem conseqüências maiores. De um lado os familiares e os
adolescentes no aguardo do final da situação. De outro os revoltados que não aceitaram
nenhum tipo de proposta feita pela Direção da casa conjuntamente com a Direção do
Complexo. Outro grupo de adolescentes, os que não receberam visita, estavam
instalados dentro da Ala e começaram a rebelião e com a intenção de saírem para o
pátio e foram contidos pelos monitores que ali estavam. Neste momento, houve
tentativa de quebrarem as janelas da Ala, ação essa que não resultou em êxito. Por volta
das 20 h, a situação ficou insustentável e os meninos foram liberados para o pátio junto
com os demais. No pátio, a situação era totalmente dominada por um grupo de mais ou
menos 150 adolescentes e mais uns sessenta visitantes que até então permaneciam
insuflando os adolescentes com pedidos de reportagem, juiz corregedor e coisas do tipo.
Essa insuflação gerou atos de ‘quebra-quebra’ na Ala, onde foram destruídos e
arrombados os armários de funcionários, com a ajuda dos familiares; o muro que separa
a Ala D da Ala C; chuveiros, portas da copa e refeitório, algumas torneiras. Ainda
tivemos todos os lanches e sucos pegos pelos adolescentes, mais os maços de cigarro
dos outros adolescentes, roupas, cobertas e colchões, produtos de limpeza, criando no
estado físico um verdadeiro caos. Houve uma tentativa de se atear fogo nos colchões
que foi rapidamente contida pelos monitores, pois o fogo era a preocupação maior dos
mesmos, devido a conseqüências que gerava nesta situação, principalmente a garantia
de integridade física dos presentes, que estava até o momento controlada, inclusive de 9
adolescentes jurados de morte. Em torno das 22h, um grupo de mais ou menos 150
adolescentes subiram no telhado e tentaram fuga, 93 conseguiram êxito e 19 foram
recapturados. Após estes incidentes, os adolescentes foram formados e devidamente
identificados. Fizemos a limpeza da Ala e servimos o lanche noturno e acolhemos para
o repouso. [PA 13, p. 2237, v. 12, grifos meus]

Estas coisas do tipo “defesa de direitos” realmente parecem atrapalhar a ordem do


trabalho, mesmo quando eles tentam contornar a situação. Contornar aqui parece falar
da mesma intencionalidade colocada nos banhos gelados dados nos internos após os
espancamentos: mascarar, impedir o aparecimento.

O boletim de ocorrência (BO),85 feito com base no relato de coordenador de turno e


monitor, sintetiza a versão do coordenador de turno acima exposta, agregando uma frase
de um curioso paradoxo. Ao falar da tentativa, sem êxito, de os funcionários dominarem
a situação e, frente ao tumulto provocado por adolescentes e pelos familiares, assim
formula o BO: “após a incitação à ordem e à segurança, perdeu-se o controle e a

85
BO nº 3837/1999, emitido em 10/08, no 97º Distrito Policial.
rebelião foi concretizada, sendo que aproximadamente 70 familiares permaneciam
dentro das alas” [p. 2235, v 12, PA 13/99].

Curioso como, de novo, é a extremada incitação à ordem e à segurança, tal como a


propõe a Febem, a produtora da rebelião.

Por mais que se possa pensar que houve uma “dramatização”/um efeito “performático”
dos adolescentes, utilizando-se das famílias, é impossível supor que 60 familiares
“rebelados” tenham perdido (ou melhor, é razoável supor que nunca tenham adquirido)
qualquer confiança na equipe de funcionários, capaz de sustentar um diálogo mínimo.
Outros elementos nos farão pensar que se tratou de fato, de um ponto-limite em que os
corpos das famílias já começaram a ser postos em cena, como forma de proteger seus
filhos. Corpo posto em cena também porque as tentativas de produção de justiça, pelas
vias instituídas, parecerão pouco suficientes.

O analisador “carta”

Encontrei em meio aos 36 volumes do PA 13, que buscam traçar uma rigorosa apuração
da situação do Complexo Imigrantes, uma carta manuscrita. Um único documento
personalizado entre as quase 8 mil páginas do processo: papel de caderno, letra
redonda, quase infantil, é um dos poucos elementos que dão lugar à fala original dos
pais.86 Escrita em 06/07/99 por cinco pais de quatro adolescentes internados na UAP-6
do Complexo Imigrantes, ela já anuncia o ponto-limite e a gravidade da situação
daquela unidade. A carta é comovente por muitas razões, mas principalmente pelo tom
indubitável com que afirma as denúncias; indubitável pelo valor que imprime à palavra
dos adolescentes e pela dignidade com que coloca a perspectiva dos pais. A carta
conclui com simplicidade: “os próprios menores nos contaram...”, como sendo a palavra
deles mais que suficiente para dar crédito ao relatado. Restituem assim a posição de
adultos responsáveis frente a jovens que necessitam de cuidados em contraposição às
posições que a Febem parece propor: adultos violentos para segurar jovens perigosos.
“Senhor Juiz Corregedor da Vara da Infância e da Juventude, nós os
responsáveis pelos menores infratores que se encontram internados na UAP-6, ala D, na
Rodovia Imigrantes. Viemos aqui pedir a sua proteção e mais segurança para a
integridade física de nossos filhos.

Porque, sr. Juiz Corregedor lá na instituição os monitores estão cometendo


agressão gravíssima com muita violência e covardia contra os meninos que lá estão
internados, segundo relato dos nossos filhos. O Diretor da Febem sabe e não liga.

Na ala D da UAP-6 tem muitos meninos que reclamam da violência e agressão


e tem muitos meninos com lesão no corpo, que sofrem com dores de ouvidos, de
cabeça, no peito, nas costas, nas pernas, etc. Motivo das dores: espancamento por parte
dos monitores. Violência e covardia, crueldade.

86
Todas as outras falas estão tomadas como depoimentos a agentes do sistema de Justiça (promotoria,
procuradoria, juiz).
Os nossos filhos contaram que tem uma sala com vários sarrafos de madeira
que os monitores usam para espancá-los com muita violência. Os meninos falaram que
o diretor sabe de tudo que acontece e nem liga.

Sem contar que os meninos dormem amontoados dentro de um quarto muito


pequeno, o espaço do quarto só cabe cinco colchonetes tipo de maca de hospital forrado
no chão. Cinco colchonetes para quinze meninos dormirem.

Os meninos que ficam doentes são atendidos precariamente na enfermaria da


instituição. Não são levados para hospital para serem encaminhados para especialistas.
Talvez isto aconteça para os médicos não descobrirem qual o motivo que causou a
doença- pneumonia: banho frio, friagem que por culpa dos monitores que obrigam os
meninos tomarem banho frio e tirarem as roupas no pátio esteja frio ou calor, noite ou
dia. Os monitores judiam dos menores por qualquer motivo. Se um erra, todos pagam.
Não tem diálogo, nem respeito pelos meninos. Só pancada e covardia. Por qualquer
coisa que eles se aborrecem, lá vem pancada e violência.

Sr. Juiz Corregedor, se o sr. não tomar uma providência, nossos filhos correm
risco de vida ou talvez de no futuro ficarem com seqüelas graves e até o aparecimento
de tumores, porque o sr. sabe que pancada pode virar tumor no órgão mais tarde.

Muitos meninos têm feridas e coceira no corpo. Eles não cuidam do problema e
não deixam nós, os responsáveis, cuidarmos e nem levar remédio.

Os nossos filhos que já apanharam, mostraram os monitores que bateram e não


nos deixaram reclamar por medo dos monitores, porque eles ameaçam os meninos se
contarem para seus pais. Quando a visita acabar, eles vão bater e espancá-los pior.

Nós sabemos o risco que estamos correndo em denunciar, mas esperamos


Justiça e que o sr. Juiz investigue e processe os culpados e que os meninos que estão
machucados sejam levados para fazer exame de corpo delito. As lesões são nas costas e
no peito. Só não no rosto, os próprios menores nos contaram.”87 (PA 13, pp. 3577-3578,
v. 18)

As famílias tentarão outros modos de apelar à justiça, seja pelo MP:


“Aos 26/08/99, nesta Promotoria de Justiça de Adamantina, presente a
Promotora, comparece a sra F.M.A., casada, que declarou o seguinte: meu filho F. A. F.
R. por determinação deste Juízo foi internado na Febem em 2 de agosto de 1999,
estando atualmente na UAP-6 Imigrantes, ala D. No último domingo, 22 de agosto, fui
até a Febem visitá-lo e fiquei muito impressionada com a maneira que o encontrei. F.

87
A Procuradoria de Assistência Judiciária, a partir da denúncia destes pais encaminha à Justiça
solicitação de transferência dos internos para unidades educacionais, por cautela, além do
encaminhamento dos adolescentes para exame de corpo de delito (ECD) e oitiva dos jovens. A Justiça
determina no mesmo dia encaminhamento para ECD e audiência logo após conclusão do exame, para
decidir quanto à transferência dos adolescentes (PA 13, p. 3575, v 18).
estava sujo, com uma roupa encardida. Indaguei-lhe o motivo dele estar daquele jeito e
ele me informou que os funcionários não deixavam que os internos trocassem de roupa,
determinando que vestissem as roupas sujas. F. relatou-me ainda que naquela semana
foi utilizar o banheiro, onde havia outros menores que promoviam bagunça, momento
em que os monitores chegaram e espancaram todos que estavam ali, inclusive F. que
levou uma cotovelada nas costelas. Em razão disto, ele está com dificuldades de se
locomover. Na Febem, F. contraiu herpes labial o que não o permite comer direito.
Outra reclamação do meu filho é no sentido de ser humilhado por todos os monitores,
que exigem que as coisas sejam da maneira deles e não atende os adolescentes em nada,
ou seja, eventual necessidade. Para que F. possa fumar tem que se humilhar e implorar
pela permissão dos monitores. Os adolescentes dormem em número de quinze num
quarto apertado. Face o pouco espaço, é freqüente que durante a noite, um encoste o
joelho nas nádegas do outro, isto é motivo para iniciar verdadeira guerra entre os
adolescentes. Tenho acompanhado as rebeliões que estão acontecendo pelos noticiários
da televisão e jornais. Desde terça-feira, em companhia da psicóloga AV., tenho ligado
para a unidade da Febem. Porém, não conseguimos falar com ninguém, pois o telefone
não é atendido. Procurei pela autoridade judiciária desta cidade no intuito de que seja
providenciada a remoção do meu filho para unidade do Tatuapé. F. foi operado do
ouvido recentemente e tem suportado dores por isso. Ele tem medo que algum monitor
possa vir a lhe bater na cabeça e até mesmo nos ouvidos.” (PA 13, p. 3077, v. 16)

Seja por intermédio de advogado constituído, que formalizará uma defesa:


“Douto julgador: Infelizmente nos fazemos portadores da notícia de maus
tratos a menores naquela filial do inferno que se chama Febem, a mesma onde está
internado o menor J. (...) A violência naquele subúrbio do além está inserta no ar. Basta
o contacto com um menor para, em seus olhos, estampar-se a síndrome do medo. E,
segundo informes do nosso constituído, são homens grandalhões que os vêm espancar.
Nesse particular, ressalvando que nosso constituído é franzino, baixinho e novinho, e
infelizmente sendo ele de cor negra, sobre ele desabam, sem motivo, iras e rancores de
quem não conseguiu outra coisa para fazer na vida. Pasme, Excia. que ocorridas as
denúncias, fomos no sábado, dia 20/02/99, imediatamente encontrar com o cliente e
realmente estava mancando e com os olhos cheios de terror e medo. Pior: corre o risco
(que preferiu) de denunciar e, como represália dos seus algozes, ser novamente
escorchado, surrado, humilhado e desmoralizado.” (PA 13, 16/03/99, pp. 2394-2395, v.
12)

A defesa conclui pedindo que o adolescente permaneça com a família – cumprindo


então medida em meio aberto – para estar a salvaguarda da violência!

Este ponto-limite arrastará as famílias para o interior das unidades da Febem num
embate corporal com a tropa de choque e funcionários da Febem na rebelião de outubro.
Ponto-limite que já estava, entretanto, anunciado.
“Roteiro prévio de um filme de terror” ou uma “tragédia anunciada”

O primeiro dado que chama a atenção no apenso do PA 13,88 que apura especificamente
a rebelião de 23, 24 e 25 de outubro de 1999 que destruíra o Complexo Imigrantes e
terminara com a morte de quatro internos e vários monitores e jovens feridos, é o tom
épico, literário de que se reveste a própria escritura jurídica, quase como se pudéssemos
dizer que ali o acontecimento rebelião toma a cena e queima as mãos da promotoria.89

Considerando-se o tom mais ou menos formal e reiterativo das proposições jurídicas e o


modo de estas serem apresentadas no âmbito de um processo, que os promotores
tenham utilizado uma imagem contundente (“filme de terror”), similar às descrições dos
adolescentes, para descrever os acontecimentos vividos na Imigrantes na ação cautelar
que o MP instala contra a Febem, é digno de nota, mais ainda quando lidamos com a
sistemática ausência de voz dos internos.90
“Desde a propositura da ação (agosto/98), inúmeras rebeliões ocorreram, com
mais de mil fugas. Imagens divulgadas pelas redes de TV em 12/13 de setembro
próximo passado mostraram jovens despidos e subjugados sendo barbaramente
espancados, situação conhecida como ‘repique’ no jargão da Instituição e que já havia
sido descrita pelos depoimentos colhidos pelo MP como o roteiro prévio de um filme de
terror. Contudo, no dia 23/10 (sábado) nova rebelião iniciou-se, sendo que vários
jovens foram espancados e torturados por outros internos diante da imprensa. Debelada
mais esta rebelião através da intervenção da tropa de Choque, a situação foi controlada,
porém, somente até por volta das 22h do dia 24/10 (domingo) quando iniciou-se novo
levante dos internos, o qual se estendeu por todo o complexo até por volta das 17h do

88
As péssimas condições existentes no Complexo Imigrantes já eram conhecidas desde há muito tempo: a
Febem-Imigrantes já fora alvo de ação civil pública proposta pelo MP, em outubro de 1992; bem como do
Relatório Final da Comissão Parlamentar de Inquérito da Assembléia Legislativa do Estado de São Paulo
(março de 1999), além de ter sido objeto dos Laudos do Instituto de Criminalística (novembro de 1997) e
do Departamento de Controle e Uso de Imóveis – CONTRU (agosto de 1998). O MP propusera, em 1993,
outra representação diante das irregularidades na execução de medidas socioeducativas e uma nova
representação contra a Febem/Complexo Imigrantes (CI) já tramitava também desde agosto de 1998,
alertando novamente para a gravidade das irregularidades lá existentes. Esta representação deu origem ao
processo administrativo de n. 13/99. Com a violenta rebelião de outubro/99, ocorrida neste mesmo
Complexo, o MP propõe ação cautelar incidental aos autos do PA 13/99, pleiteando a interdição do
Complexo, ante o perigo na demora e o risco iminente que sofriam os adolescentes custodiados no
Complexo Imigrantes e em virtude da rebelião que destruiu o CI e fez o governador Mario Covas
anunciar sua interdição. Constituiu-se, então, um apenso ao processo já instaurado para elencar
especialmente as informações concernentes a esta rebelião, mantendo-se o mesmo processo, uma vez que
se considerava que os acontecimentos eram decorrentes das irregularidades já descritas na ação inicial.
89
Como “queima” a mão dos promotores ter tido partes do corpo carbonizado de um jovem arremessadas
em sua direção. De fato, promotores, advogados e militantes desta área relatam a enorme dificuldade de
enfrentar aquela situação, pela barbárie ali ocorrida. Comentando o episódio de se defrontarem com os
corpos carbonizados dos internos, o promotor Wilson Tafner relata, que quando os internos jogaram os
pedaços dos corpos, diziam: “é para vocês acreditarem!”. “Tivemos que seguir a intervenção, fazendo as
negociações, como se a cabeça não estivesse ali. Era como se estivéssemos vendo um filme: tínhamos que
fazer como se não estivéssemos ali!” (Tafner, conversa, agosto 2001). No capítulo 6 voltarei a esse
“excesso de realidade”, que obriga a operar uma espécie de conversão em ficção.
90
Como já comentei anteriormente, no âmbito dos processos, os internos e seus familiares comparecem
na qualidade de depoentes e, em geral, os dados que apresentam costumam ser organizados pelos próprios
tomadores dos depoimentos seja o MP, a polícia ou a Febem.
dia 25, marcando o mais trágico incidente da história da Febem, conforme amplamente
divulgado por todos os órgãos de imprensa. Em razão da grave ocorrência, 16
monitores foram feitos reféns, sendo que vários deles foram feridos gravemente. De
igual sorte, em princípio, em razão de confronto entre os próprios internos, 4
adolescentes foram mortos, sendo que dois tiveram os corpos carbonizados, e um
destes, a cabeça e membro inferior decepados e cerca de 59 ficaram feridos entre
monitores e internos.” (PA 13, representação de 28/10/99, pp. 6-7, apenso)

O tom literário a que me refiro ainda se faz sentir na mesma ação pela indignação
demonstrada frente ao ocorrido, traduzida como “uma tragédia anunciada”. “Apesar da
Tropa de Choque estar há vários dias no Complexo, tais levantes não foram evitados,
bem como as fugas deles decorrentes, fatos, infelizmente já previsíveis, ou seja, era
uma tragédia anunciada.” (PA 13, p. 8, apenso, grifo meu). De fato, as providências
indicadas, quando da propositura da ação, se tomadas, teriam ao menos evitado boa
parte dos previsíveis episódios da última rebelião e seus desdobramentos.91

Tragédia anunciada, porque se repetia de certo modo o mesmo roteiro de outros


períodos da Febem. Em julho de 1993, após a violenta rebelião de outubro de 1992, a
Febem foi três vezes oficiada pela Promotoria para o “risco de rebelião iminente”
(Folha da Tarde, 15/07/93, Caderno Cidade, p. B-1).

Em outubro de 1992 o MP já ingressara com uma ação civil pública contra a Febem em
virtude do descumprimento do ECA, focalizando especialmente as irregularidades no
Complexo Imigrantes. A ação foi julgada, em agosto de 1995, procedente (depois dos

91
A ação proposta em agosto de 1998 pelo MP fundou-se em visita do MP, Ata de Inspeção Judicial, em
Laudos: do Contru, da Vigilância Sanitária, da Vigilância Epidemiológica, do Corpo de Bombeiros, de
peritos do Centro de Acompanhamento de Execução do MP (CAEX-MP), depoimentos de internos e
outros documentos, como relatórios do Conselho Tutelar. O local apresentava superpopulação; falta de
condições de habitabilidade e de salubridade; inexistência de atividades pedagógicas, deficiências nos
procedimentos de contenção e segurança; violação da integridade física e mental dos jovens através de
espancamentos.
O MP solicitou então: afastamento provisório do presidente da Febem, do diretor do Complexo e das
unidades UAP 1 e 6; prazo de 30 dias, a contar da decisão judicial, para que a Fundação disponibilizasse
outros locais para recebimento de jovens com determinação judicial de internação provisória; ao término
dos 30 dias, que passasse a ter eficácia a determinação judicial de proibição absoluta da entrada de
qualquer jovem nas UAPs Imigrantes, até que fossem sanadas todas as irregularidades apontadas; no
prazo de 90 dias, que a Fundação disponibilizasse outros locais, exclusivos para adolescentes infratores,
com capacidade limitada ao atendimentos dos jovens em pequenos grupos, obedecendo-se rigorosa
separação por critérios de idade, compleição física e gravidade da infração, com condições aceitáveis de
salubridade, habitabilidade, contenção e segurança, não vinculadas ao sistema prisional, para a
transferência do excedente de mais de mil jovens, que, à época extrapolavam a capacidade real das UAPs
1 e 6, sendo que, findo tal prazo, as quatro alas das mesmas, não poderiam ter população excedente a 80
jovens cada uma; que, em 90 dias, se fizessem as reformas estruturais determinadas pelo Contru,
Vigilância Sanitária e Corpo de Bombeiros. A Justiça deferiu a ação, com a modificação de alguns
prazos. No entanto, contra esta decisão, a Febem ingressou com agravo de instrumento no Tribunal de
Justiça de SP, que concedeu liminar para sustar os efeitos daquela decisão até que a Febem prestasse
informações. Até o momento do encerramento da pesquisa no DEIJ, o processo seguia em andamento: em
fevereiro/2001, a Justiça determinara afastamento dos dirigentes do Complexo naquela época dos cargos
de direção na Febem, bem como advertência da Fundação, considerando-se a negligência na remoção das
irregularidades constatadas. A Febem ingressara com novo recurso, acolhido pelo Tribunal de Justiça, em
fevereiro/2001.
recursos da Febem) pelo Tribunal de Justiça de São Paulo, considerando que a Febem
tivera tempo suficiente para adequar-se ao ECA.

Do mesmo modo, outros atores da sociedade civil já alertavam para a existência de uma
situação grave, a mesma que viria a produzir a rebelião de outubro de 1999 –
superlotação e uma série de irregularidades na execução das medidas socioeducativas:
“A rebelião é uma questão de tempo. Se o governo não tomar nenhuma providência, a
tragédia é inevitável!”, afirmou Wanda Maria Pereira do MNMMR (Movimento
Nacional de Meninos e Meninas de Rua) (Folha da Tarde, 15/07/93, Caderno Cidade,
p. B-1).

Tragédia anunciada, porque de agosto a outubro de 1999, repetia-se o “roteiro prévio


de um filme de terror”, conforme acompanharemos, por meio dos depoimentos de
internos.92 São pelo menos 37 depoimentos de diferentes jovens à polícia e ao MP,93
que retratam a seguinte situação: dentes quebrados; braços quebrados; cortes e pontos
na cabeça, costas, joelhos, mãos; desmaios, escoriações e hematomas... jovens
pisoteados e severamente machucados. Este é o saldo do modus operandi da Febem em
relação aos adolescentes e suas tentativas de levante e fuga.

Em 21 de agosto de 1999, alguns jovens da UAP 1 do Complexo Imigrantes foram


acordados e arrastados pelos monitores com pauladas, chutes e socos, encaminhados
para o pátio, despidos e deitados de bruços, com a determinação de não se olharem,
quando os monitores passaram a agredi-los com pedaços de pau, cassetetes de ferro,
mangueiras de extintor de incêndio, pedaços de banco, tapas e socos no rosto. Enquanto
batiam, xingavam, falavam palavrões, provocavam: “levantem para quebrarmos suas
cabeças” e exigiam que alguém se apresentasse como autor do início da rebelião. Além
dos monitores, chegaram funcionários de outras alas, encapuzados. Os jovens foram
espancados das 11h às 17h e ficaram este período também sem receber alimentação ou
água. Depois de apanharem, já sangrando, os funcionários pararam de bater e jogaram
sobre eles e sobre os ferimentos, água gelada e suja. Um jovem se identificou como
líder da rebelião e identificou outros três colegas. Estes apanharam ainda mais. Depois,
os funcionários mandaram todos tomarem banho gelado para tirar as marcas e vestirem-
se para passar no PS.

92
“Roteiro prévio” evidenciado também pelo número de procedimentos jurídicos instalados em relação à
UAP num curto período. De 11/09/98 a 07/99 foram feitos 22 pedidos de providência referentes a UAP-1.
Isto dá uma média de dois por mês. Destes 22, um é por rebelião, outro por tentativa de resgate de
adolescente, dois por irregularidade na desinternação de adolescente, um por irregularidade no
atendimento e os demais (17) por agressão de funcionário a adolescente ou tentativa de agressão. De
novo, contabilizamos duas “irregularidades” dos adolescentes contra 20 da instituição! (p. 3128, v. 16)
Esta mesma UAP já somava cinco processos administrativos: n. 01/93, por irregularidades; n. 07/97, pela
rebelião de dezembro de 1997; n.11/99, por irregularidade; n. 08/99 pela morte de um adolescente e o n.
13/99, por diversas irregularidades na execução da medida socioeducativa.
93
Depoimentos tomados em 24 e 26/08/99, constantes às pp. 711-799, v. 4 e 803-869, v. 5 do PA 13. Em
boa parte, foram as denúncias de espancamento coletivo de 70 jovens em uma das alas da UAP-
Imigrantes e a divulgação pela imprensa da descoberta durante a inspeção judicial de vários instrumentos
utilizados para espancamento dos jovens (23/08/99), que favoreceram uma visibilidade mais aguda e
ampliada para a situação de algumas unidades da Febem.
Destes jovens, covardemente espancados, alguns tinham conclamado a um levante
(“estava dormindo, num quarto, com mais treze adolescentes, quando quatro
começaram a gritar ‘rebelião, rebelião’, conclamando para o levante, que não
aceitamos”). Os que tentaram a fuga foram perseguidos e arrastados; outros que
estavam na mesma Ala, dormindo, foram acordados; outros, ainda, já esperavam o
procedimento:
“Estava jogando dama com outros internos no pátio, quando percebi tumulto na
quadra ao lado: os monitores estavam batendo nos menores. Imediatamente eu
descasquei e fiquei esperando (pois quando acontece este tipo de tumulto temos de
proceder assim)...”,

evidenciando também que o repique é bastante habitual.

Quando encaminhados ao Instituto Médico Legal (IML), foram pressionados, por


funcionários da Febem, a não falar que tinham apanhado e a dizer, por exemplo, que
haviam caído do beliche... Os funcionários ficavam durante o exame na sala para ver se
eles falavam e de volta do IML, foram espancados pelos mesmos monitores. Justificam
o receio que têm de denunciar, porque são “agredidos sem piedade”. Diz o interno que o
monitor fala: “o juiz vai embora, mas eu fico e quando ele virar as costas, eu vou
quebrar vocês na paulada” ou ainda: “não adianta reclamar para ninguém aqui dentro,
que a visita de vocês não vale nada!”. Entendem que os diretores das alas autorizam os
monitores a espancar até que se identifiquem os líderes de rebelião.

Agredidos desta vez pela tentativa de tumulto, a grande maioria dos depoimentos
constantes do PA 13 e outros (da pesquisa de campo no Tatuapé, com internos que
passaram pela UAP), informam que é comum serem agredidos, nas UAPs, por motivos
irrelevantes: por escreverem carta, quando conversam durante o proceder ou no quarto,
quando vão dormir, por arrastar chinelo no chão, por esquecer de pedir licença para
tomar água ou para sair da mesa. É castigo freqüente “ficar de coco na parede” por
muito tempo. “Os monitores, havendo ou não rebelião, mantêm objetos, como pedaços
de pau, barras de ferro e cabos de vassoura escondidos no telhado e por qualquer coisa
ou motivo, batem utilizando estes objetos”. [interno UAP]

Ainda que a imprensa tenha noticiado amplamente a existência de vários instrumentos


utilizados para o espancamento dos jovens, no interior de unidade da Imigrantes,94 que o

94
Conforme relata o Padre Júlio Lancelotti, sobre estes episódios de 22-23 de agosto/99: “Chegamos à
noite e havia muitos meninos feridos e machucados, chamamos os promotores (...) veio um grupo de
promotores e juízes como nunca havíamos visto. E ao se depararem com a situação, eles nos disseram:
‘divulguem para a imprensa, porque nós não podemos fazê-lo’. (...) Eu disse: ‘Pela primeira vez na
história, três juízes, cinco promotores estão aqui e encontramos muitos instrumentos de tortura’ e a
imprensa foi toda para lá e a juíza, num fato inédito, deixou a imprensa entrar para filmar os objetos e os
meninos feridos. Isso foi o início da crise da Febem. Tudo isso foi colocado a público, depois daquelas
imagens” (2000, p. 36, grifo meu). De fato, em 2000, o MP e Justiça da Infância e da Juventude, sofrem
representações e ações da Febem-SP seja para impedir o uso das imagens pela mídia ou
responsabilizando-os por descumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente e ainda, finalmente,
tentando baixar portaria impedindo a entrada de câmeras fotográficas ou de filmadoras no interior das
unidades.
Laudo Técnico95 tenha atestado os danos que aquele tipo de material pode produzir e
que em 11/09/99 várias emissoras de televisão tenham registrado e transmitido para o
mundo inteiro, cenas de brutal espancamento de jovens já contidos e “dominados”,96
cabe atentar para a argumentação utilizada na defesa jurídica – realizada pelo sindicato
dos trabalhadores – dos funcionários identificados nestas imagens de vídeo dos
espancamentos:
“Em relação à alegação de que são submetidos à tortura, com os instrumentos
apreendidos na ala D, após as tentativas de fuga em rebelião, tal alegação não merece
melhor sorte, sendo totalmente improcedente, visto que tais objetos, nada mais são que
fruto da destruição de mesas, cadeiras e bancos, promovida pelos jovens durante a
rebelião, utilizadas pelos adolescentes como armas contra os funcionários, com o
objetivo de “enquadrá-los” e obterem êxito nas fugas em massa, o que impedido pelos
funcionários que, no “confronto”, desarmaram os internos, recolheram referidos e
instrumentos que ficaram espalhados nas alas, amarraram e ensacaram os objetos, que
eram colocados na parte externa da unidade, no aguardo de que os componentes da
Frente de Trabalho os recolhessem em forma de lixo.

Ressalte-se que a Defesa juntou nos autos cópias do ‘Livro de Visitas’,


instituído pelo diretor da UAP-6, cuja finalidade era obter depoimentos dos familiares
dos jovens quanto ao tratamento dado ao adolescente, sendo que nenhuma alegação de
maus-tratos foi denunciada por ninguém, o que demonstra a improcedência da acusação
do MP, mesmo porque, se houvesse algum indício de verdade na alegada tortura
praticada contra os internos, jamais a Direção colocaria à disposição das famílias um
meio de denúncia expressa.” (p. 7122, v 36, pa 13/99, grifos meus)

Ainda que contextualizando esta peça de defesa no âmbito da “artificialização” do


próprio processo jurídico, isto é, dos seus modos específicos de produção de provas e de
construção de uma retórica, chega a ser impressionante a argumentação utilizada: seja
pela capacidade de “incitação à ordem”, presente entre os funcionários, que amarram e
ensacam tão perigoso “lixo”! De novo, a incitação a tão extremada ordem é que parece
disparar o tumulto... (cf. texto BO). Impressiona também a revelação “indireta” da
possível cumplicidade dos dirigentes com a violência: pois, se houvesse alguma
responsabilização por parte de funcionários em relação às agressões, a Direção não
duvidaria em ocultar o fato: “se houvesse algum indício de verdade na alegada tortura

95
Foi elaborado Laudo do Instituto de Criminalística, consta à p. 4344 do v. 22 do PA 13.
96
É importante destacar o papel que teve a imprensa no episódio do dia 11/09, com imagens mostradas no
SP-TV e no Jornal Nacional da Rede Globo e na Rede Record. O episódio deu ensejo à instauração de
inquérito policial e de sindicância interna na Febem (SI n. 1391/99). Além disso, no processo de apuração
de irregularidades na Imigrantes, o MP juntou 16 volumes de documentos referentes a pedidos de
providência que tramitam pelo DEIJ nos quais se trata das inúmeras fugas das UAPs e de incontáveis
denúncias de maus-tratos e torturas praticadas contra internos. Conforme argumenta o próprio texto do
MP, de 9/10/2000, pleiteando novamente a responsabilização da Febem (p. 7077, v. 36, PA 13): “os
documentos falam por si”. Realmente, trata-se de uma impressionante seqüência de fotos e depoimentos
de internos fortemente machucados, além dos ECD comprovando a existência de espancamento.
praticada contra os internos, jamais a Direção colocaria à disposição das famílias um
meio de denúncia expressa!”

Fugas provocadas, rebelião incitada...

Vimos acima a presença do “repique” – outro roteiro prévio de um filme de terror –


como retaliação às tentativas de fuga e de rebelião, mas, segundo os internos, a própria
suspeita de rebelião já poderia provocar retaliação: “eles suspeitaram que queríamos nos
rebelar, selecionaram 20 e fomos espancados individualmente na sala da monitoria, a
‘sala da alegria’”.97

Mais ainda, os internos hipotetizam que estava havendo uma incitação à rebelião:
“Os monitores da Ala B ficam provocando os jovens ‘para eles levantarem uma
rebelião’, para eles poderem bater em todo mundo...” (RCCS).

“Dizem: se eles são bons com as armas de fogo lá fora, por que não levantam a
unidade fazendo rebelião?” (AYA)

“Para mostrar força e poder, xingam os internos – mandam tomar no cu, filho
da puta – e insultam para nos deixar nervosos. Quando os adolescentes não toleram a
irritação, eles começam a pancadaria e abrem os portões, chamando os monitores das
demais alas e os vigilantes. Cantam música de mau-gosto e mostram pedaços de pau
onde está escrito: “passe o Natal aqui, cú”. Há cerca de duas semanas atrás, na Ala B, os
menores vinham sendo agredidos e pensaram em falar para as visitas e a para a direção
para evitar a agressão. Os diretores foram até o local e prometeram que mandariam
embora qualquer monitor que agredisse os internos. Quando terminou a visita, o
monitor X começou a agredir os jovens e estes começaram a gritar, iniciando-se um
tumulto. Os portões foram abertos e chamaram monitores e vigilantes e houve
pancadaria. Os internos não pretendiam fugir, mas a atitude dos monitores é que levou à
confusão e eles passaram a achar que haveria fuga.” (RZ) (grifo meu)

“Há cerca de duas semanas atrás, véspera do dia dos pais (agosto/99), antes da
visita, estavam enfileirados, quando monitores, sem crachá para não serem
identificados, começaram a insultar; “filhos da puta, Zé Buceta”. Insuflaram, agrediram
com tapas na cara, o que culminou na rebelião daqueles dias, pois os adolescentes se
sentiram humilhados. Lembraram até do interno que morreu em 97, dizendo que ele
morreu porque eles bateram até matar e que eles não têm medo de juiz ou de qualquer
outra autoridade.” (GC)

Frente às investidas do MP, dos grupos da sociedade civil e da pressão das próprias
famílias no tocante à averiguação das irregularidades, os internos percebem os
movimentos e as contradições institucionais: têm clareza do interesse de alguns
97
Todos os depoimentos de internos citados neste item são de internos da UAP e foram tomados entre 24
e 26/08/99, no inquérito policial ou nos depoimentos ao MP e constam do PA 13/99, pps. 711-799; 803-
869.
funcionários em desconstruir qualquer possibilidade de prova e impedir a averiguação
do ocorrido:
“Ontem à noite, os monitores incentivaram um confronto entre os adolescentes
para que eles perdessem a razão e ficasse demonstrado para a Promotoria que são os
adolescentes que são responsáveis pelos problemas da unidade, quando na verdade são
os monitores que agitam, provocando os jovens, xingando suas mães, dando tapas na
cara dos internos para que eles fiquem nervosos e percam o controle. Acho que isto
que aconteceu há pouco foi este tipo de episódio, uma vez que a Promotoria está
fazendo a colheita de provas referente à rebelião de sábado passado e dos
espancamentos ocorridos, bem como a unidade foi visitada por médicos sanitaristas... o
que certamente levou os monitores a agir de maneira a permitir a fuga, pois se
quisessem evitar era só fechar o portão e fazer como sempre: fecham os portões e
quebram os adolescentes de pau, com a ajuda dos vigilantes e demais monitores.”
(WVO, grifo meus)

Como sintetiza a própria sindicância interna da Febem, em seu relatório conclusivo,


referente ao espancamento de 11/09/99: “segundo os adolescentes, no dia seguinte à
rebelião, 12/09/99, os jovens resolveram parar a visita para reivindicar que cessassem as
agressões por parte dos monitores, nessa ocasião o monitor X abriu a porta e disse que
todos poderiam ir embora” (p. 890, relatório 139/2000, de 5/05/2000, SI 1391/99).

A mesma sindicância agrega outros depoimentos sugestivos da facilitação de fuga,


como o depoimento da mãe de um interno da UAP, por ocasião da fuga do dia 24/09:
“Comparece a esta Promotoria (DEIJ) espontaneamente para declarar que seu
filho F.E.F.S. encontrava-se internado na Ala B da UAP, sob a acusação de que teria
matado um policial civil. Na última sexta, 24/09/99, tomou conhecimento pela TV que
alguns internos desta unidade teriam empreendido fuga. Não se preocupou porque o
filho teria prometido não fugir. Na madrugada de 25/09 foi surpreendida com a chegada
de F. em sua residência. (...) F. confidenciou que fora obrigado a fugir pelos próprios
monitores que estavam no plantão da tarde de sexta-feira. F. comentou que foi
ameaçado por eles, caso não aderisse ao convite de fuga. Os monitores comentaram que
quem ficasse na unidade, morreria, até porque estavam planejando uma greve, a fim de
paralisar o atendimento na unidade. Alguns internos foram selecionados e incentivados
a fugir, inclusive ele. (...) No domingo, acordou às 9h, tomou café, pegou a bicicleta,
dirigiu-se à casa de uma vizinha, comprou geladinho, retornou e guardou a bicicleta.
Por volta de 11h, comentou que iria até um conjunto habitacional em Itaquera, na casa
de um colega que tinha fugido junto. Logo em seguida, foi procurada por uma vizinha
que comentou que um rapaz com o mesmo apelido do filho dela, havia sido morto no
final da rua. Imediatamente foi até o local e reconheceu o filho que estava estirado no
chão. (...) Ouviu comentários de vizinhos que na madrugada de sábado perceberam
alguns homens à paisana, nas proximidades da casa da depoente, aparentando ser
policiais. O filho havia sido ameaçado de morte por policiais civis quando foi
encaminhado para a Febem e ela acredita que foram esses policiais que o mataram.”
(30/09/99, pp. 720-722)

Nesta mesma direção vão os depoimentos do delegado e do então diretor do Complexo.


O delegado do 92º DP encontrava-se na UAP em 24/09/99 justamente para colher
depoimentos dos internos visando apurar denúncia de crime de tortura (11/09/99),
quando ao dar lista dos internos que deveriam se apresentar...
... foi procurado pelo Dr Guedes (então Diretor do Complexo) que relatou
preocupação ante o fato de que os adolescentes poderiam ter se evadido, uma vez que
ocorrera fuga de 89 internos nesta data e que tal fuga fora facilitada por funcionários,
fato este diversas vezes observado anteriormente. Segundo o Diretor, tal artifício
(facilitação de fuga) se justificava diante do fato de que haveria outros interesses,
principalmente na desestruturação da unidade, da nova diretoria, da nova presidência.
Soubera pelo supervisor da unidade que o sindicato dos funcionários da Febem teria
incentivado, induzido os funcionários a praticarem atitudes de ilegalidade, isto é, não
reagir diante de uma fuga ou até mesmo facilitá-la. Quando da ocorrência de tumultos,
todos os funcionários são convocados em regime de horas-extra e ganham substancial
aumento de salário. Segundo sr. Guedes, a fuga foi planejada pois, justamente na Ala B,
encontravam-se as vítimas do crime de tortura. Sabendo com antecedência da presença
de dois delegados, os monitores deram fuga aos internos, evitando desta maneira a
formal colheita de informação e futura responsabilização criminal. (BO 5697/1999, pp.
334-335, SI)98

E o Diretor do Complexo informa que a equipe da ala em que ocorreu a fuga


... é uma das que possui maior controle sobre os internos e por esta razão,
causou estranheza na maioria dos funcionários, a ocorrência de duas fugas em massa,
durante o plantão da mesma equipe, ocasionando a evasão de 258 adolescentes. Foi

98
Em seguida à rebelião de 11 de setembro cerca de 1000 (mil) adolescentes fugiram em 12 incidentes
separados, ocorridos no período de duas semanas, o que motivou alegações de que os monitores
facilitaram a fuga para impedir que os adolescentes testemunhassem contra eles. (Anistia Internacional,
2000, p. 11). Os funcionários alegaram que ficaram acuados e ameaçados pelos internos, no entanto é
importante ressaltar que a associação de episódios de rebelião com a pressão dos funcionários no
momento de dissídio ou de mudanças nas diretrizes de ação são recorrentes. Vários trabalhadores da
Febem testemunhamos esta utilização dos internos como massa de manobra. No segundo semestre de
1999, fora nomeado novo presidente com a promessa de apurar as situações de violência. Reportagens da
imprensa à época da rebelião de outubro também apontavam esta questão: “existe um poder oculto na
instituição, que inviabiliza qualquer tentativa de mudança. E vem ao longo dos anos derrubando
presidentes da instituição. Graças a rebeliões manipuladas por razões salariais ou por descontentamento
com a linha política. (...) O demissionário Guido Andrade confirma a violência e diz que parte dos
funcionários é impossível de controlar. “A violência era que fazia a contenção. Ela mantinha os menores
nas alas. Como eu não permiti a violência, ela explodiu.” Os relatos de adolescentes e funcionários vão na
mesma direção: “Sempre que tem eleição se aproximando, as rebeliões começam a pipocar”, confirma o
ex-monitor OMB, 44 anos. “As rebeliões começam sempre de cima para baixo. Tem muito interesse
político na história. Se o governo ferra o pessoal (os monitores) e eles querem dar a resposta, é fácil. Nem
precisa fazer a rebelião. É só facilitar a revista nas visitas e a entrada de moleques na cozinha, onde tem
arma branca” (Isto É, 1570, 3/11/99).
informado pelo supervisor T. que o sr. A. (coord.) relatou que praticou o ato por
incitação de membros do sindicato, que afirmaram que tinham notícia que o atual
presidente da Febem; já na segunda-feira iria proceder uma demissão em massa dos
funcionários e que com isso queria provar que sem os coordenadores e os monitores, a
Febem não funciona. (p 339, SI 1391/99)

Rebelião portanto “insurgente” na formulação da própria Justiça. Uma das sentenças da


Juíza do DEIJ, que responsabiliza a Febem pelos acontecimentos na Imigrantes, assim
formula parte da compreensão do caldo propício à rebelião:
No tocante ao disposto no artigo 94, IV e 124, V (direito a um ambiente de
respeito e dignidade), observou-se que os adolescentes queixavam-se de maus-tratos,
espancamentos, insurgindo-se contra a forma indigna e aviltante de tratamento a que
eram submetidos (...) durante a inspeção judicial realizada (refere-se a 23/08/99),
exibiram aos magistrados e promotores de justiça, os ferimentos corporais, resultantes
das sevícias praticadas... (p. 7138, PA 13/99, sentença de 16/02/01, grifo meu)

Rebelião “acusamento”, “programada” então, desde agosto, segundo entendem alguns


internos:
“Já tava tudo programado... porque senão você não juntava as quatro Alas...
fazer tudo levantar e levantar de novo, no outro dia. Tava tudo programado desde
agosto...” [30/10/2000, UE 15]

“Fui preso dia 23/08, em 12/09 teve a rebelião que teve muita reportagem. Já
tava o comentário que eles iam levantar por causa do problema da greve. Para ser de
uma hora para outra, tem que planejar...” [30/10/2000, UE-15]

A imprensa imprime o tom da barbárie:


Em mais uma das incontáveis rebeliões na vergonhosa Febem, quatro jovens
são massacrados por seus companheiros. A população assiste perplexa e estarrecida,
enquanto o governo continua sem saber o que fazer. De quem é a culpa? Nossos
bárbaros adolescentes. (Capa da Isto É, 03/11/99)

E mesmo após a destruição do Complexo Imigrantes na rebelião de outubro de 1999,


“observa-se a espantosa recusa do governo de São Paulo a reconhecer que perduram os
maus-tratos, a tortura e as condições cruéis, desumanas e humilhantes de internação”
(Anistia Internacional, julho 2000, p.27) De fato, em maio de 2000, o então governador
Mário Covas, declara à imprensa sobre as recentes rebeliões na unidade de Franco da
Rocha:
Não são os monitores que arrebentam. Não é a polícia que arrebenta. Entraram
(em Franco da Rocha) na semana passada e já fizeram duas rebeliões. Rebelião contra o
que? Vocês nunca ouviram uma reclamação sobre comida na Febem. Nunca li ou ouvi
em nenhum jornal reclamação contra comida. Bom, então reclamam de que? (Folha de
São Paulo, maio 2000; apud Anistia Internacional, 2000, p.27)

“Suprendimento”... e a finada Imigrantes

Passo ao lado da UE 19, uma grande casa de paredões azuis com a porta
trancada. Do outro lado, uma UE completamente destroçada numa rebelião, tudo
queimado, destruído. Pelo que me lembro foi aberta uma sindicância contra os
funcionários, o ar da construção é assustador: no prédio de dois andares, as pedras
quebradas de concreto queimado se entrelaçam construindo um mosaico sem teto, um
pequeno museu da destruição, onde os gatos habitam sem tirar aquele olhar de vigília.
Aqui, todos os animais andam atentos. Para chegar ao meu destino, UE 16, faço sempre
o contorno nesta unidade, e, ao passar pela frente dela posso ver a escada interna se
dividindo em duas, o que levaria ao céu. É inevitável tentar reconstruir a imagem da
molecada subindo e descendo aquela escadaria de camiseta amarrada na cara, gritos,
estardalhaços. Às vezes pode-se até ouvi-los. (Régis, fevereiro de 2001)

Este é o trecho de um texto de um estagiário de direito que atua como defensor em


unidade de internação da Febem, como parte do processamento que a experiência de
trabalho na Febem suscita nele.99

De fato, impressiona na Febem, aos olhares mais atentos aos planos já naturalizados e
àqueles invisíveis ou ocultos de uma instituição, o montante da destruição já acumulada
e depositada no plano físico mesmo das unidades. Certamente estamos diante de
acúmulo de descaso: mato crescido, reformas não concluídas, umidade pelas paredes,
carcaças de carros incendiados, destroços...

Partilho totalmente da compreensão que faz o MP do descaso do órgão executor das


políticas socioeducativas, quando já alertara, por exemplo, para a necessidade de
interdição da quase totalidade do Complexo Imigrantes:
É imperioso que tais instalações passem por profundas reformas (...) (porque)
como já aconteceu em rebeliões anteriores, a Fundação acaba fazendo uma recuperação
precária de tais prédios, inserindo novamente os jovens naqueles locais absolutamente
inadequados (por exemplo, no Complexo Tatuapé, rebelião de maio de 99, quando as
UEs 12, 13 e 14 foram parcialmente depredadas e queimadas e, após uma mera limpeza
superficial, os jovens foram novamente ali internados em condições totalmente
insalubres, com fuligem pelas paredes, equipamentos não reparados, portas ainda
danificadas, etc.). (PA-13, p. 9, V.1)

No entanto, não cabe atribuir algo desta “precariedade” e desta “destruição” à luta dos
internos?

99
Trata-se do projeto “Defensor ao seu lado” (parceria Ilanud-Febem-Ministério da Justiça), para
qualificação de profissionais para o trabalho de defensoria e para a ampliação do acesso e a promoção de
direitos dos adolescentes em conflito com a lei, realizado em 2000 e interrompido em fevereiro de 2001.
Texto apresentado para discussão em atividade de supervisão institucional do trabalho.
“Passou na minha cabeça destruir a Febem... Nem tudo é impossível, né? A
senhora não viu a finada Imigrantes? (...) Aí quebra tudo para ficar finada mesmo...
Acabou a Imigrantes, acabou o inferno!” [13/11/2000, UE-15, 17a, grifo meu]

“A Imigrantes era motivo para levantar rebelião mesmo! Porque lá eles


(monitores) não era de murro, não, batia de caibro de enxada, era motivo para se
revoltar!” [30/10/2000, UE-15, 18a]

Ainda que a principal tematização da rebelião de 1999 recaia sobre a barbárie e o terror,
pelo modo como a imprensa retratou o episódio, dimensão presente inclusive para os
próprios internos, como vimos acima (o caso sério da Imigrantes), muitos internos
ressaltam e valorizam a posição de protagonismo dos jovens, como resposta ao “couro”
e pela capacidade de enfrentamento da “Choque” naquela ocasião:100
“Se pelo menos nóis matar, eles (a Choque) vão botar uma fé! Mataram e
jogaram o corpo para cima. A Choque parou!” [30/10/2000, UE -15, 18a, grifo meu]

“A Choque foi zoada, jogaram pedra. Botaram a cabeça do moleque no saco e


falaram: ‘se vocês chegarem mais perto, se invadirem, tem uma cabeça aqui dentro, nóis
vai matar outro’. A Choque desacreditou e foi vindo... quando vieram, jogaram a
cabeça, eles recuaram e ‘se vim, o bicho pega!’ Aí eles começaram a jogar bomba e os
menor começaram a cortar a orelha do outro! Aí : ‘eu desacredito! eu desacredito!’ O
moleque já cortou e o monitor: ‘Pelo amor de Deus!’ Saiu correndo...” [15/12/99, UE-
19, 18 a, grifo meu]

“Matamos primeiro, para Choque não zoar com a gente... para ver se ela aceita
algum tipo de negociação.” [30/10/2000, UE-15, 18a, grifo meu]

“A rebelião que destruiu a Imigrantes foi por causa de couro!” [27/12/2000,


UE- 15]

Ainda que impactados também com o tipo de morte – como se pode perceber pela foto
estampada em muitos jornais e revistas, com os internos olhando entre assustados e
horrorizados o corpo de um colega morto – muitos não duvidam que a responsabilidade

100
Quanto às formas que a rebelião assume, penso que devemos cuidar para não transformar em
“barbarismos”, ritos que podem inscrever-se no âmbito do que Foucault analisou como a “justiça
popular” (em contraposição ao direito formal) ou que historiadores mapearam como as peculiaridades das
revoltas populares. Thompson, por exemplo, revelou que os populares ingleses (envolvidos em motins)
demonstravam formas características de revolta, que incorporavam, entre outras, a tradição anônima, o
contrateatro (o ridículo ou ultraje das figuras de autoridade) e a ação rápida e direta (Pinheiro, 1998, p.
342).
A morte de autoridades (ou o seu desejo), a destruição das prisões e a libertação dos prisioneiros, é uma
atitude que se encontra em muitos movimentos de revolta (Cabanagem, Motins ingleses, sendo o da
Bastilha- Revolução francesa, o mais universalmente conhecido). Da mesma maneira que a morte das
autoridades, a destruição das prisões traz em si uma forte carga simbólica que revela de forma inequívoca
o desejo dos populares de romper com a continuidade das práticas repressivas e despóticas, destruindo
seus símbolos mais eloquentes (Pinheiro,1998, p.333).
pelo que aconteceu foi da conduta da Febem e da Choque e que as mortes foram uma
estratégia necessária de luta e sobrevivência.101
“Foi por causa da Choque...(as mortes e a violência). Porque falaram que a
Choque ia tomar conta deles (internos) no tempo da greve. Eu tava lá! Os próprios
funcionários falavam para os menores... foi o que causou isso aí. Soltaram os
funcionários... só sobrou os menor lá dentro, os que era chamado de seguro. O que
sobrou para eles tentar se segurar, para a Choque não invadir, foi isso...” [30/10/2000,
UE-15, 18a]

“Porque chama a Choque e ela já cerca tudo e não tem como fugir! Para a
Choque não invadir, lógico que tem que ter refém!” [16/10/2000, UE 15, 17a]

“Na Imigrantes, se não viesse a Choque, não tinha morte! Aqui vai acabar
acontecendo que nem lá. Escuta só: cercou, colocou Choque, maluco não vai conseguir
ir embora, vão começar a matar, os pilantra, até funça. É o que vai acontecer! Eles
querem ir embora e não tem jeito...” [17/04/2000, UE 14, 17 a]

“O governador é um safado. Ele dava idéia lá, mas ele sabia dos funcionários!
Sabia que os menores apanhava, que os funcionários dava caibrada, batia com pau, com
pedaço de ferro! Ele falava para os funcionários que nóis era o inferno da Imigrantes!
Ele tava ciente que os funcionários zoava nóis. Por que nós levantamos?” [27/12/2000,
UE-15]

Mesmo quando provocados de que os prejudicados são eles, alguns respondem:


“Sempre quem leva prejuízo é nóis. Mas se não matasse os moleques, a
Choque invadia. Tinha que mostrar que não estávamos brincando!” [15/12/99, UE-19,
18a]

Outros não se iludem nem sequer com esta perspectiva do enfrentamento:


“Eles (os internos) mais procuram não é menor, é mais funcionário. É a
maneira de segurar mais rápido. Que o menor (de refém), ainda assim mesmo, a Choque
invade. A Choque só não invadiu lá porque tinha muita reportagem. Mais a reportagem
que os corpos... (que segurou) Porque se fosse funcionário que jogasse para lá, tinha
acabado a rebelião de uma hora para outra... a Choque tinha entrado com tudo, mas ia
ter mais morte!” [30/10/2000, UE 15, 18a]

“Nossa reputação caiu por causa da rebelião da Imigrantes. Mataram uma pá de


menores na frente das mães! Isso não pegou bem! Matou só menor! Nem um
funcionário morreu! Tinha que morrer funcionário. Foram matar menor para ganhar
Ibope! Jack, sim! Tinha que matar! Mas tinha um monte de maluco que não era seguro,
que foi isqueirado por vagabundo. Jack não tem idéia, tem que subir mesmo.”

101
É importante ressaltar que estamos tratando de sublinhar o caráter coletivo que isto assume mesmo no
“a posteriori”, porque não parece tratar-se de uma estratégia “planificada” coletivamente.
[27/12/2000, UE-15]

“Numa rebelião assim (refere-se ao tipo de rebelião como a da Imigrantes), os


reféns é ele: Jack, estuprador. Se tiver um jack, ele pode esquecer, que a vida dele já
era!” [30/10/2000, UE-15, 18a]

“Jamais a gente ia conviver com gente assim, estuprador... Também, na hora da


rebelião, os funcionários se joga tudo, sai correndo. Eles dão umas caibradas e já vão se
proteger lá fora, atrás da Choque. Daí tem que pegar os pilantras, colocar umas naifas
nos pescoços deles para forçar uma negociação.” [30/10/2000, UE-15, RV, 18a]102

O “Mano Flávio”, que estava na Imigrantes quando da rebelião de outubro/99, enquanto


sigo uma conversa com os demais internos, grava no espianto, em voz grave e
assustadora, um funk bastante elucidativo do que foi a dimensão da experiência da
rebelião Imigrantes. Retirado assim do seu contexto rítmico, seu sentido se esvai um
tanto, mas o conteúdo ainda é capaz de nos transmitir algo. Ritmicamente, a música
sugere que estamos na dimensão de uma elaboração do traumático, pela emergência de
uma repetição (eu mesma não conseguia parar de cantar a música, quando a ouvi):
“A choque entrou...
mas começou a dar caibrada
Pegou no pescoço dele, dele
Jogou na frente da choque
O choque acreditou,
eles não quis entrar

Eles mandou foi invadir para dar caibrada


Nós começou dar tijolada
Teve que parar a visita, lá, lá, lá
Se não eles pega a visita e machuca...
Mas nóis cata ele, cata ele
Começa a arrancar os pescoço
Nóis pega o pescoço dele
e começa a bater uma bola
e pega eles, eles
e joga do outro lado da B
Mais nós pega ele e começa a dar caibrada
Na UAP Imigrantes, Imigrantes

102
As razões por eles levantadas para explicar esta “escolha”: matar adolescentes ou os funcionários,
recaem em geral sobre o argumento de que os pilantras, os jack (escolhidos para serem mortos) são como
os pirril e a Choque, estão no mesmo nível, os dois têm que morrer, mas matam primeiro os internos para
evitar um confronto excessivamente violento: senão vai ter mais morte. De outro lado, não é desprezível a
hipótese, que eles também formulam – ver temática do “seguro”, item 5.8. deste capítulo – de que as rixas
e os jovens no seguro estão aumentando, produzindo-se como conseqüência de estarem sendo empurrados
para uma lógica prisional. Aliás, a similaridade desta estratégia com as utilizadas no sistema penal é
enorme!
eles cata e dá caibrada
Se você não andar de mão prá trás e de cabeça baixa!
Eles pega você e dá um trem
para você ficar a pampa,
para você não ficar bandidão
Se você é bandidão, no Tatuapé você vai quebrar
Se você vim bandidão da Ala B, você vai quebrar
Os cara da Ala B machucou o São José
Veio para cá
Mandei cigarro para ele e ele não representou
O São José tem que lutar Tem que lutar com os caras lá
Para eles não quebrar...” [23/10/2000, UE 15, grifos meus]

Para não quebrar, para “não sucumbir”, para não “perder uma luta”, mas também para
não ser literalmente quebrado na caibrada. Essa colocação do jovem num plano
corporal-físico que a Febem opera cotidianamente, ao subtrair deles a possibilidade de
imaginação e de fala, inscreve-os numa ordem de subjetivação que os leva a uma
apropriação bastante singular deste plano físico: “Nóis pega o pescoço dele e começa a
bater uma bola”.

A ação cautelar do MP, proposta logo após a rebelião (em 28/10/99) encerra-se tentando
evitar mais uma vez a repetição da tragédia:
Após os resultados catastróficos da rebelião já relatados (referem-se além dos
mortos e feridos, à destruição quase completa dos prédios do Complexo: houve a quase
destruição dos prédios do setor administrativo das UAP 1 e 6, os prédios das Alas A, B
e C e UE-4 foram totalmente incendiados e depredados), os demais internos que
permaneceram no CI foram alojados de forma e em condições precaríssimas,
subhumanas, colocando-os em risco direto e iminente, alguns em condições próximas às
das torturas física e mental, situação que deve ser liminarmente abortada para se evitar
nova tragédia. Em visita de inspeção realizada no CI no dia 27/10/99, por volta das
6h30, constatou-se que em um salão de aproximadamente 10x30 m2, no prédio
denominado Núcleo 21, havia 350 internos alojados de forma dramática e degradante.
Como se observa pelas fotos, os internos estavam amontoados, apenas com cobertores,
dormindo no chão sem colchão, obrigados a permanecer sentados com as mesmas
roupas que usavam durante a rebelião, sem tomar qualquer banho desde então, dispondo
de menos de 1 m2 para cada, sem realizar qualquer atividade e mal podendo conversar
entre eles. Para tornar ainda mais aviltante a situação, são obrigados a urinar em
garrafas de refrigerantes que são colocadas em caixas e depois retiradas do local pelos
próprios jovens. As refeições são servidas no mesmo local, sendo que se alimentam
sentados no chão, ou seja, em resumo, a dantesca situação que coloca-os piores do que
animais do zoológico, assemelhando-se aos nefastos campos de concentração, violando
os direitos mais comezinhos de qualquer ser humano. O fato é tão chocante que nem se
avalia mais a obrigação do artigo 94 do ECA, mas sim aquelas básicas inerentes à
pessoa humana. (PA 13/99, p.14, apenso)

Reduzidos sequer à “corporeidade de animal de zoológico”, não é de se estranhar, como


fez Flávio no funk, que um pedaço de corpo seja investido da função de “objeto”: para
bater uma bola!

O MP destaca também o risco de ocorrência de nova tragédia, caso não se sanem


imediatamente as irregularidades.103 Vai desenvolver sua argumentação na direção de
responsabilizar a Febem por negligência, omissão e inércia. A Febem tentará se
desresponsabilizar sustentando o argumento do “fortuito” e do “imprevisível” da
rebelião e seu conjunto de esforços em sanar as irregularidades... e os jovens forjarão
uma saída que pareceria, pelo menos por alguns instantes, reunir estas duas dimensões,
a de uma acusação à instituição (foi por revolta, por insurgência) e a de quantum de
imprevisível (nunca teve morte assim...): assim, acusalmente-suprendimento.

Ato que destrói completamente o Complexo Imigrantes e podem dizer, ironicamente, a


finada Imigrantes, mas ato que os inscreverá mais agudamente ainda num limiar ao
campo prisional propriamente dito. Eles serão, após a rebelião, transferidos (“em caráter
provisório”) para equipamentos do sistema penal: Centro de Observação Criminológica
do Carandiru, Cadeião de Santo André, Cadeião de Pinheiros e mais recentemente
(julho/2000) para as “unidades prisionais” de “Francão 1 e 2” e no Presídio de
Parelheiros e o tema da redução da idade penal ganhará amplitude.104

Alexandre parece, então, coberto de razão pelo que vislumbrou: com a rebelião,
desvendam o mistério e mostram que a Febem não é educacional, é prisão. E vão além,
como Renato propõe em outro rap, mostrando-nos que a rebelião é acusamento, porque
os “menores infratores (estão) na razão de processar, porque a Febem não é o que se
pensa, nem o que se diz...”

103
A ação cautelar proposta em 28/10/99 solicita à Justiça: a interdição das Alas A, B e C das UAPs 1 e 6
e da UE-4 até que sejam realizadas todas as obras necessárias (“a análise das imagens – refere-se às fotos
que o próprio MP produziu e às da imprensa – deixa patente e irrefutável que as referidas instalações não
possuem as mínimas condições de habitabilidade, salubridade, higiene, contenção e segurança exigidas
pelo ECA nos seus artigos 94, inciso VII, 124, inciso X e 125, colocando em risco a saúde e a integridade
física dos internos privados de liberdade”, p. 9, v.1); fixar prazos para que a Ala D ganhe condições de
habitabilidade, salubridade contenção e segurança; transferência dos jovens que excederem as 80 vagas
(havia 238 alojados) (“deve ser sanada liminarmente (a superpopulação, a inadequação do agrupamento e
as condições de habitabilidade e segurança) sob o risco de ocorrência de nova tragédia como a que abalou
o país neste último final de semana” (p. 13, v.1); transferência dos 350 internos do Núcleo 21 para local
adequado; citação da Febem, na pessoa de seu presidente e representante legal; que seja julgada
procedente a ação cautelar, com a condenação da requerida ao cumprimento da obrigação de realizar as
providências elencadas. Em 16/02/2001 a juíza do DEIJ sentencia os dois funcionários dirigentes das
unidades de acolhimento inicial 1 e 6 do Complexo Imigrantes a afastamento definitivo de qualquer cargo
de direção da Febem-SP, por não demonstrarem quaisquer ações concretas para fazer cessar a marcante
violação de direitos em marcha no local, nem mesmo para coibir os constantes atos de violência contra os
internos, permitindo, com sua omissão, que fosse perpetuado o quadro de irregularidades existentes (PA-
13, pp. 7145-7146). Em 23/02/01, o Tribunal de Justiça suspende os efeitos da sentença.
104
Até fevereiro/2001 já se contabilizavam 14 projetos de lei na Câmara Federal propondo a redução da
idade penal.
“E a Febem não é o que se pensa
Aqui você paga muito mais que a sentença
E a Febem não é o que se diz,
De dia ou de noite, não se pode ser feliz...
É papo doido, neurótico, de inconsciente
Mas eu não tô devendo, porque sou linha de frente
Tô pronto para outra rebê levantar
E simplesmente é assim que eu tenho de pensar
Porque catar naifadas para mim não é problema
Bandido bom, bandido ruim, você não paga no sistema
Ladrão apetitoso em cima do telhado
Quem não quer fugir, que fique preso sossegado
Que a Febem não é o que se pensa
Aqui você paga muito mais que a sentença
E a Febem não é o que se diz,
De dia ou de noite, não se pode ser feliz...
Mas é na ponta do ... (inaudível)
eu vou tentar me expressar
Sentimentos de um detento quando para prá pensar
Sua família, sua mina, como ser aqui está
Sua revolta só aumenta de estar neste lugar
Mas uma vez, na UE-15, levantou rebelião
e enquadraram os monitores, foi aquela confusão
Tropa de Choque, vigilantes para contra-atacar
Menores infratores na razão de processar
Que a Febem não é o que se pensa....” (27/11/2000, UE-15,
18 a, grifos meus)

8. Da exterioridade à implosão: “o seguro”

Ao longo da pesquisa sobre as rebeliões emergiu com força na fala dos internos,
ocupando a maior parte das conversas e denunciando o caráter de vida ou morte que ele
portava, o tema do “seguro” e sua contrapartida, a “isqueiragem”, que nos pareceu ser
um analisador por excelência daquele momento da vida institucional. “Isqueirar”
alguém é inventar uma história sobre um interno, atribuindo-lhe uma conduta
desaprovada pelas regras da malandragem, para alcançar ascendência, controle e até sua
morte, provocando, então, a condição de “seguro”.
Trata-se do perverso uso do corporativismo funcional, quando funcionários
propugnam a defesa de um certo código de honra, espalhando rastilhos de vingança de
uma unidade a outra, provocando perseguições a internos, principalmente quando da
transferência de rebelados. (Oliveira, 2001, p.169)

Fica no seguro quem “não se garante na malandragem, por fazer alguma falha no
sistema” (cf. definição dos internos). As razões pelas quais pode-se ficar no “seguro”
inclui desde o tipo de ato infracional (por exemplo, estupro) até falha no convívio (por
exemplo, masturbar-se, mesmo no banheiro, em dia de visita):
“Seguro é fita de isqueiragem... de maluco com maluco, por inveja, para ter
Ibope ou de funcionário com maluco, porque não vai com a cara do maluco!”
[27/12/2000, UE 15, D]

A existência da figura do “seguro” é antiga na Febem. Pode-se dizer que ela é tributária
mesmo da própria idéia da prisão: as divisões entre o penal e o não penal não cessaram
na formatação binária que separou presos de não presos. Foucault (1977) analisou a
função utilitária da delinqüência: ora, os “pilantras” entre os presos é figura antiga do
próprio estabelecimento de uma moralização, agora no interior dos “sem moral”.

No entanto, o que quero destacar mais contemporaneamente, no momento de realização


da pesquisa, é a emergência de um número espantoso de internos no seguro, sua
proliferação, a ponto de haver unidades ou alas inteiras de internos no “seguro” (a UE-5,
no período de outubro/2000 ou alas inteiras de uma unidade – por exemplo na UE-15,
36 internos da ala A, no suposto seguro contra 76, da ala B). Além disto, depreende-se
dos relatos dos jovens, que a prática de isqueiragem tem sido utilizada sistemática e
indiscriminadamente na Febem-SP.

Alguns técnicos e diretores de unidade da Febem, internos, agentes do sistema de justiça


e da sociedade civil partilham da opinião de que o seguro foi uma produção
institucional, incrementada principalmente a partir da utilização dos “cadeiões”, isto é
da transferência “provisória” de internos para equipamentos prisionais, principalmente
quando de situações de fugas ou rebeliões.105
“Com certeza foi os cadeião que provocou isto, porque por nada os menor já é
zoado!” [30/10/2000, UE-15, RV, 18a]

“Vai abrindo mais cadeião, vai virando isso... bandidão.” [30/10/2000, UE-15,
18a]

No momento mesmo em que estavam se dando as transferências e quando elas estavam


muito recentes (por exemplo, no pós-rebelião Imigrantes), os próprios internos já
previam:
“Você vai ver como esses menores (os que foram para os cadeiões) não vão
querer saber de nada! Eles já levantaram o cadeião...! Eles (o governo) não usam o

105
Cadeião aqui inclui além dos equipamentos prisionais usados ‘provisoriamente’, as unidades de
Parelheiros e a de Franco da Rocha, uma ex-penitenciária para adultos, reformada para abrigar uma
unidade educacional e outra construída aos moldes da arquitetura prisional e para abrigar muitos jovens,
portanto, macro instituições, na contra-mão do que propõe o ECA.
nome, a cabeça... Agora porque eles resolveram mandar daqui para lá? Vão juntar só os
problemáticos! Vai dar o quê? [Todos do grupo respondem em uníssono, rindo!]: ‘–
Problema!’” [15/12/99, UE-19, 17a]

Para compreender um pouco melhor porque os cadeiões estão relacionados com a


produção do seguro e com o incremento da violência, vamos acompanhar o que pensam
os internos:
“Cadeião é polícia mesmo, qualquer coisa eles, a GOE (Grupo de Operações
Especiais), invadiam! Aqui (Febem) é pirril (vigilante que não é policial)! Lá é tiro de
verdade! Então, no Cadeião Pinheiros, o seguro nóis já nem deixava ir pro seguro. Já
segurava de refém... tipo: (e falava para os funcionários) “não vai entrar funcionário
aqui, porque se entrar nóis mata!” Segurava o refém, fazia o acordo... aí a GOE não
invadia. Fazia o acerto e liberava os reféns. Lá teve moleque torturado por outros
internos, de choque! Eu vi! Eu não cheguei a ter essa coragem de fazer, mas eu vi!
Cadeia é o seguinte: a partir do momento em que você dominou, é do portão para fora.
Do portão para dentro, quem comanda é a gente! Aí, cada um por si. Quem é, é! Quem
não é, acabou!” [30/10/2000, UE-15, RV, 18a]

“Ele (o menor que tá no cadeião) pensa que não tem mais nada a perder, que
Parelheiros é pior ainda: então, vamos zoar! Lá é o menor que dita as regras. Porque já
tá no cadeião, sabe que não tem mais nada a perder... se deixar dominar... então é onde
que acaba dominando e funcionário tem que fazer o que menor quer!” [16/10/2000,
15a]

“O diretor fala – o próprio diretor de Parelheiros, senhora!!! (ressaltando o


absurdo) – “a cadeia tá nas suas mãos, faz o que vocês quer, mas eu quero ‘proceder’...
nada de zoar funcionário!” Aí vira bolinho podre! Vai ter um monte de moleque de
seguro!” [27/12/2000, UE-15,18a, D]106

Essa produção de uma “guerra interna”, essa utilização deles mesmos contra eles
mesmos, é percebida por alguns107:
“Seguro não existe mais hoje na Febem! Tem mais seguro que interno... se vim
falar de seguro, maluco tá sendo patife, porque isso aí é tudo isqueiragem! Febem de

106
Novamente é importante ressaltar que esta modalidade de “administração” das unidades da Febem não
é nova. Era comum encontrar principalmente disseminada no corpo da antiga “inspetoria” ou “monitoria”
o procedimento de negociar com alguns líderes de banca e por meio deles querer assegurar o controle da
casa. Procedimento empregado também no sistema prisional e em outras instituições disciplinares. Fez
parte das lutas pela instalação de outro paradigma de trabalho na Febem o pensar coletivamente as
normas de convivência e negociar isto permanentemente, com todos, sem permitir negociações em
paralelo ou na surdina. O que interessa ressaltar aqui atualmente é a extensão, a institucionalidade e a
visibilidade deste procedimento, a ponto de o próprio interno considerar um absurdo. Os efeitos desta
extensão sentem-se na própria incitação à figura do seguro.
107
Os internos também informaram de outras modalidades de discriminação e de procedimentos de
“justiça” entre eles: debate, inquérito e bolinho podre, bastante sugestiva da incitação de uma guerra
interna, na medida em que não são evitadas ou minimamente reguladas pela instituição.(Ver Glossário,
Anexo 2)
hoje em dia é patifaria! É bolinho podre! Caiu a moral da malandragem! O bagulho tem
que ser a união, não dá para um matar o outro! Para isqueirar um o outro, tá cheio! Mas
quando os pirril invade: “abaixa o coco, abaixa o coco”, vai todo mundo para o páteo e
nessa aí, não tem uma união para se destruir contra os pirril. Antigamente pirril não
entrava, começou de 99, de fim de 98 para cá!” [27/12/2000, UE-15, 18a, D]

“Você fala com os funcionários que não é seguro, que você é maluco
sossegado, que quer tirar o seu tempo de boa; que não quer se envolver numa rebelião,
porque é de maior e pode acabar indo para a cadeia. Aí eles fizeram uma crocodilagem
comigo: falaram que eu era testa de rebelião, me deram um couro e me mandaram para
cá. Chegou aqui, a mesma coisa, falaram que eu era testa.” [16/10/2000, UE-15, 18a]

“Em janeiro, vim do Cadeião de Pinheiros para essa ala. Arrumei uma briga
aqui. Teve um rapaz que me comparou com outra pessoa, eu não conhecia ele. Falou
que eu era pé de pato. E pé de pato na cadeia, já viu, né? Mata vagabundo. Aí, armei
uma briga com ele aqui. Fui para o pátio, debati, coordenador achou que eu não ia ficar
bem aqui. Aí fui para a ala B. Debati tudo de novo. Aí funcionário me jogou para a ala
A de novo e aí caçaram assunto comigo de novo.” [16/10/2000, UE-15, 18a]

Inclusive nos seus efeitos mais adversos:


“Porque aqui na A (pavilhão dito do ‘seguro’), se tá correndo risco de rebelião
(na B), nóis vai querer o que? Se proteger! Aí, onde nóis vai se proteger, é onde pensam
que nóis tá levantando rebelião! Vai complicar a gente. Nóis pede ajuda para eles e eles
complicam a gente. Ali é onde tem revolta, nóis faz revolta!” [16/10/2000, UE-15, 18a]

Um bom analisador da produção das “discriminações internas” a serviço do controle é a


proposta da Unidade de Referência Terapêutica (URT), de junho/99, destinada aos
adolescentes mais problemáticos, aos “líderes negativos”, com um programa intenso de
atividades e de atendimento psicológico, apelidada pelos internos de Unidade de
Repressão e Tortura.

Separar os problemáticos para melhor geri-los, produzir mesmo os “problemáticos” pela


prática da isqueiragem: a experiência durou pouco, pois a URT protagonizou uma
grande rebelião em 19/02/2000 (descrita pelos internos e pelo MP como aquela em que
se viu “todos no telhado”) e foi alvo de um processo administrativo.108 Os próprios
internos já diagnosticavam, quando da criação da URT: “Vai juntar todos os problemas,

108
Trata-se do PA 02/2000 que às páginas 62-64 contém um conjunto de depoimentos de internos sobre
espancamentos realizados à noite, por grupo de funcionários, os chamados “ninja”. Segundo depoimentos
tomados aos jovens pelo MP, o “estopim” da rebelião teria sido o tratamento dispensado aos internos que
são encaminhados à denominada “Unidade de Referência Terapêutica-URT”, onde, de forma uníssona,
relataram que tal “Unidade” é utilizada como “castigo”, onde aqueles que apresentam qualquer problema
de indisciplina em qualquer outra Unidade, sem qualquer critério objetivo, é para aquele local transferido,
ficando em isolamento em celas diminutas, sofrendo agressões físicas e psicológicas, sem que tenha
atendimento psicológico, social ou pedagógico, com rigor carcerário não existente nem na Lei de
Execuções Penais, aplicável aos maiores imputáveis. O local era conhecido entre os internos como a
“Masmorra”. A Justiça determinou sua “transformação em unidade educacional”
num lugar. O que vai acontecer? Só problema...!!! (riem) Parece que a Febem não tem
cabeça!” (UE-19, 09/99)

De fato, alguns trabalhadores da equipe técnica avaliam que o efeito da instalação da


URT foi contrário ao esperado: “o que era para ser para menino-problema, virou
‘benefício’, ‘tomaram conta’.” Benefício para quem exatamente?
“Aconteceu a rebelião (refere-se a junho de 1999, no Quadrilátero), fiquei
dando um rolê. Primeiro dia, a tropa de choque deu uma geral na casa. Era ordem do
governador: os de maior iam para cadeia. Pôs no buzão e desceu para as trancas.
Tomamos a maior surra no COC (Centro de Observação Criminológica do Complexo
Carandiru). Depois de duas semanas, vim de volta, no segundo bonde para a URT. Lá
só era para os ‘problemáticos’, os que tentavam fuga (...) Depois ficou maior zoada a
casa. Ninguém queria ir para a escola (...) Vai ser embaçado se levantar outra (rebelião)
geral: eu não quero estar aqui. Qualquer coisinha já está entrando Ninja com máscara e
porrete. O choque vai entrar. Esta semana entrou a elite, coisa especializada, na 12,
porque os menor estavam dominando a casa. Não quero mais estar aqui não. Se eu
estiver, vou apanhar muito.” [13/10/99, UE-2, 19a, C]

E, de forma ainda mais aguda, eles contam que têm se feito “de seguro” para proteger-
se da própria pancadaria, “do veneno”, como já havíamos visto acima. Muitos que
estavam no Cadeião de Santo André, alegavam que estavam no seguro para poder
descer para o Quadrilátero, para poder ficar “mais sossegado”:
“Muitos que estavam em Santo André – que tava um veneno lá – falavam que
estavam no seguro para descer para o Quadrilátero, para poder ficar mais sossegado. Aí,
chega aqui, vem o funcionário, eu não sei o que ele quer fazer, se quer ajudar ou
atrapalhar a vida do moleque. Ele chega e fala: você vai ficar aqui, mas se você não
ficar a pampa, eu vou isqueirar que você é jack.” [16/10/2000, UE-15, 18a]

“Eu tava no Cadeião de Santo André, aí eu tretei com o meu parceiro de


barraco. Aí eu fiquei sabendo que uns caras iam descer de bonde. Para não acabar eu
matando ele e ele me matando, porque ia ser na faca, e arriscar... para não acontecer isto
e eu complicar mais ainda minha situação, eu fiz uma dessas para descer. Vim de bonde
junto com uns menor. Falaram que era seguro.” [16/10/2000, UE-15, 18a, grifo meu]

“Tem gente vindo de bonde (de seguro) para cá (para a 15), por exemplo da
(UE) 5, porque já não está aguentando tanta pancadaria. Funcionário judia muito. Eu
mesmo, para não ficar só apanhando – porque onde eu tava eu ia acabar brigando direto,
de tanta ameaça que tinha... ia ser obrigado a partir para uma violência maior, eu me
cortei (é portador de HIV) e ameacei os funcionários. Eles falaram então que não me
queriam mais ali, porque eu punha a vida deles em risco...” [8/11/2000, UE-15,
Marcos,18a]
Mesmo que utilizem a “transferência” a seu favor, numa apropriação invertida da
própria estratégia de controle institucional e como resposta à insegurança e à ilegalidade
mesma da instituição, será a custo de ser dado como seguro, de ser descredenciado junto
aos colegas. Fazer-se seu próprio seguro, às custas de seu próprio corpo, como vimos
com Maguila e com este último depoimento, de Marcos, da UE-15, não é uma estratégia
de sobrevivência frente a esta soberania institucional? Soberania que captura para além
dos muros, o próprio desejo, como podemos ver com muitos dos internos “pedindo
cadeia”... Osvaldinho, um interno considerado infrator grave, estruturado, líder de
rebelião, etc., de passagem pela UE-15, porque já havia um movimento para que fosse
transferido para Parelheiros ou Franco da Rocha, pede e insiste que quer ir mesmo para
a cadeia:
“Quero ir para a cadeia! Não quero mais não saber se vou dormir e ser
acordado com paulada. Ontem não quisemos dormir, porque apanhamos, no dia
anterior, de noite!” [16/10/2000, UE-15]

Vemos aqui a produção do horror e do medo e como ele impele o próprio jovem à
lógica prisional.

Estou chamando de “implosivo” este modo que vem caracterizando (especialmente


neste período analisado: 1999-2001) as formas de relação do jovem em conflito com a
lei com os mecanismos de controle social, como uma “tendência” predominante na
gestão da “delinqüência juvenil” operada pela Febem-SP, que se caracterizaria:

 Pela intensificação da produção do adolescente infrator como “criminoso” e


“periculoso”, que vimos principalmente presente na estratégia discursiva-narrativa,
onde se constrói uma explicação sobre as rebeliões calcada em dois paradigmas:
como responsabilidade dos próprios jovens, tratando as rebeliões como crime; como
responsabilidade dos defensores dos direitos humanos e do Estatuto da Criança e do
Adolescente, vistos como incitadores de rebelião.109

 Pela adoção de uma estratégia “assumidamente” prisional na gestão do modelo de


execução da medida socioeducativa: executando-a em equipamentos mesmos do
sistema penal de adultos, ou reformados; colocando a gerência das unidades

109
Intensificação que já produz seus efeitos agora nos corpos dos adultos: será na unidade de Franco da
Rocha, unidade nos moldes prisionais, que em 11/03/01 uma rebelião provocará a morte de um
funcionário da Febem-SP. Segundo as autoridades presentes no local, os distúrbios haviam irrompido
após o fracasso de uma tentaiva de fuga. Os familiares dos internos, no entanto, alegaram que o motim
fora uma reação à tortura infligida por monitores dias antes, após uma visita da Comissão de Direitos
Humanos do Congresso Federal. No dia do motim alguns negociadores, convidados pelas autoridades:
Padre Júlio Lancelotti e Ariel de Castro Alves sofreram agressões por parte dos monitores. Do mesmo
modo, promotores do DEIJ foram obrigados a recorrer a escolta policial como proteção contra agressões
de monitores. No dia 15/03, retornando à unidade, para examinar e entrevistar os 302 internos, os
promotores e médicos legistas constataram que 80% deles apresentavam ferimentos resultantes de tortura
e maus-tratos. (Anistia Internacional, outubro 2001, pp. 35-36).
educacionais subordinada à segurança e não mais à área técnica (em 23/10/2000, a
Unidade de Parelheiros passa a ser dirigida pelo Setor de Vigilância e não mais pela
Divisão Técnica, evidenciando que o norte da ação não é mesmo educacional, mas
sim, prisional).

 Pela utilização intensa de mecanismos de discriminação entre os próprios internos,


incitando uma permanente “guerra interna”, como vimos mais especialmente com o
tema do seguro.

Desta forma, agudiza-se uma posição mais repressiva, pró-redução da idade penal e pró-
“limpeza social”. Nesta montagem, as chances de o “delinqüente” funcionar como um
vetor de “exterioridade”, de crítica e de problematização da ordem social são mínimas.
Para evidenciar esta hipótese, do modo “implosivo”, apresentarei um outro momento
paradigmático: uma fuga em massa, em 1979, na Unidade da Febem-SP, de Moji-
Mirim, onde os internos ganham alguma visibilidade e as rebeliões ainda pareciam
ocupar o lugar de uma “exterioridade”.

Apenas para dar uma idéia inicial do que estou chamando de exterioridade, vejamos o
modo como a imprensa comenta a rebelião de 1992 no Complexo do Tatuapé. Sob o
título “Campo de batalha”, diz o editorial de O Estado de São Paulo: “...mais de dois
terços dos feridos são os menores que se envolveram em acertos de conta mútuos ou se
machucaram na alegria irresponsável e selvagem com que comemoram a ilusão de
vitória sobre o sistema” (24/10/92, grifo meu).

Na rebelião de 1992, no Quadrilatéro do Tatuapé, diversas notícias e fotografias


publicadas na imprensa mostram os internos “pilhando a Febem e distribuindo seu
patrimônio para a favela ao lado”. A sindicância instaurada pela Febem sobre esta
rebelião compõe-se de dois volumes: o primeiro é um conjunto de notícias publicadas
pela imprensa. O segundo volume, enorme, é a lista do patrimônio (que vai de cadeiras
a computadores, de TVs ao prédio central do Quadrilatéro – setor da administração,
completamente incendiado!) que o Estado “perdeu” nesta imensa rebelião. E mais
nenhuma palavra!

Aqui ainda se formula a idéia de uma batalha entre os animais selvagens e o sistema, de
um conflito sociedade-infratores, mas nos últimos acontecimentos, como os do seguro
(2000-2001) parecem ganhar hegemonia os conflitos internos: monitores X internos;
famílias X trabalhadores; internos X internos.

Alonso Salazar (1998) também nomeou como um “movimento implosivo” o saldo


altíssimo de mortes entre setores da juventude colombiana envolvida de alguma forma
com o conflito violento (milícias, “bandas” e “pandillas”110), resultante principalmente

110
Preferi manter os termos no espanhol e precisar seu significado nesta nota, devido às conotações
diversas que atravessam os termos gangues e/ou quadrilhas e bandos, e que poderiam corresponder
respectivamente a bandas e pandillas. Na Colômbia, a “banda” corresponde a um sistema organizado de
dos conflitos e das guerras entre eles próprios (há dois bairros em Cali, cuja divisa é
chamada de “Franja de Gaza” e onde há uma guerra permanente entre as
gangues/bandas), por efeitos seja da auto-limpeza social estimulada pela polícia, seja
pelo narcotráfico que os usa como “bucha de canhão” na disputa do mercado:
Os jovens dos setores populares parecem participar do confronto como uma
forma de autoimolação. Já não estamos essencialmente frente a uma violência de classe,
nem sequer de retaliação social, é uma violência que Lipovetsky chama dura (hard),
sem substância, na qual os jovens destróem seu próprio entorno, sua própria geração e
os referenciais de uma identidade perdida” (Salazar, 1998a, p.111)

Esta hipótese (exterioridade/implosão) quer apenas apontar uma “tendência”,


pois, os efeitos “implosivos”, de fechamento e marginalização da própria Febem em
relação ao campo social mais amplo, datam de muito tempo. Do mesmo modo, vimos
efeitos de exterioridade nas recentes rebeliões (por exemplo, quando as relacionamos a
uma estratégia comunicativa). Além disto, não podemos desconsiderar as significativas
diferenças de contexto histórico entre as décadas de setenta, oitenta e noventa
(lembremos que o Estatuto da Criança e do Adolescente é de 1989), o que exigiria uma
análise diacrônica, que não pude realizar. Assim, trata-se ainda de avaliar se há uma
maior inflexão atualmente para o pólo “implosão”, quando antes havia para o pólo
“exterioridade”. Vejamos como o caso Moji-Mirim pode nos dar pistas desta dimensão
de “exterioridade”.

O caso “Moji-Mirim”

98 menores de São Paulo, na maior fuga do Brasil: esta é uma das manchetes do jornal
Notícias Populares de 12/01/79, sobre fuga ocorrida na Unidade Educacional-9, da
Febem-SP em Moji-Mirim.111 Ainda que não se trate exatamente de uma rebelião e sim

jovens, com finalidade delitiva e de rentabilidade econômica e com estrutura de poder e chefia que
correspondem a esta experiência. Já as pandillas têm também uma organização e hierarquização para a
prática de delitos, mas se diferenciam das bandas pelo menor alcance na “profissionalização do crime”.
Cabe lembrar que na Colômbia se designa “parche” ao que no Brasil diríamos galera: grupos abertos com
relações de amizade e afetividade, constituindo lugar de encontro, de compartilhar de experiências e de
comunidade de sentido (Suárez, 1998, p.19). Costa, Tornero e Tropea (1996) preferem chamar “tribos
urbanas” a todos os agrupamentos de jovens que se vestem de modo parecido e chamativo, seguem
hábitos comuns e se fazem visíveis, sobretudo, nas grandes cidades.
111
O jornal Folha da Tarde, menos exagerado no estilo, na mesma data noticia: “98 menores escapam da
Febem”. Esta Unidade destinava-se então a “infratores de alta periculosidade” e localizava-se a alguns
quilômetros do centro da cidade de Moji-Mirim. Comportava 200 adolescentes, sendo considerada a
unidade mais fechada e de maior controle sobre o interno: havia trancas e inspetores em todas as
passagens, desde o portão de entrada; verificava-se quem saía, quem entrava, com quem ele falava, por
quanto tempo, o que eles recebiam. O adolescente era internado por, no mínimo, 8 meses e a transferência
de unidade levava em conta: o tempo de permanência na UE-9, o comportamento disciplinar, o
aproveitamento educacional e escolar, a faixa etária e principalmente o prognóstico de atenuação da
periculosidade: não apresentar faltas disciplinares graves, nem tentativas de fuga, participação na
“praxiterapia”, que ia desde o trabalho manual ao forçado e bom relacionamento. Caso não “cessasse sua
de uma fuga em massa, tomo este episódio pelo que ele mobilizou na opinião pública,
pelos seus desdobramentos112 e fundamentalmente pelo contraponto que pode oferecer à
análise dos episódios de 1999, na medida em que pode ser considerado ato inaugural de
uma seqüência de fugas e rebeliões que acompanharão a história da Febem-SP nos
últimos 20 anos. A importância do episódio é confirmada de certa forma pelo então juiz
titular de menores daquele município que a classifica como a primeira grande fuga de
internos daquele estabelecimento.

O mesmo juiz atribui as fugas ao pressuposto de que “quem está preso, quer fugir”. O
então presidente da Fundação, ainda segundo o noticiário, “encara com naturalidade a
fuga”, pois “não usamos grades, nem temos prisões; se eles quiserem fugir, fogem”
(Folha da Tarde, 12/01/79). E responsabiliza os adolescentes pela situação: “... falta de
consciência (dos menores) da necessidade de serem reeducados e por não estarem
habituados à disciplina de estudos e trabalho” (Folha de São Paulo, 12/01/79, p. 13,
apud Violante, 1982, p. 94).

Certamente estas explicações, que “naturalizam” seja um desejo de liberdade, seja uma
“carência psicossocial” do próprio adolescente, podem estar cumprindo a função de
escamoteamento de irregularidades na condução do processo de internação, como
sugere a própria imprensa. Referindo-se à explicação dada pelo juiz – “foge, porque está
preso” – o noticiário da Folha da Tarde comenta: “com isso, ele deu a entender que está
excluindo a possibilidade da existência de irregularidade administrativa ou educacional

periculosidade”, após completar 18 anos, podia ser mandado para a cadeia pública de São Caetano, ou
para a Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté, e daí para a penitenciária. Eram diversas as normas,
cuja infração trazia castigos como conseqüência: não podiam conversar no refeitório, nem no lavatório
durante o banho, não podiam pôr as mãos embaixo da mesa de comer ou da carteira em sala de aula, não
podiam se masturbar nem no quarto, nem no banheiro, nem em lugar nenhum, não podiam tocar a mão
em nenhum agente institucional, não podiam falar palavra ou expressão que possibilite ser sexualmente
maliciada e tinham que pedir licença para ir a qualquer lugar. A fuga em massa é seguida de castigo mais
severo do que a individual (Violante, 1982, p. 84-85). Um relato contundente do cotidiano da UE-9 pode
ser encontrado na autobiografia de Luiz Alberto Mendes (2001), presidiário há 30 anos e que foi interno
desta unidade no final dos anos 60 e início dos anos 70.
112
Cogitou-se da instalação de uma Comissão Especial de Inquérito (CEI) para averiguação de maus-
tratos na quela unidade. A UE-9 foi desativada em janeiro de 1980, depois de três sindicâncias
instauradas, sendo uma judicial, a fim de averiguar a prática de violência nesta UE. Após a 13ª fuga em
massa aí ocorrida, desde janeiro de 1979 (esta que narrei foi a primeira), sob o protesto da comunidade
local que pedia providências da polícia, o prefeito decidiu solicitar ao governo estadual a desativação da
unidade, justificando sua iniciativa pelo “clima de tensão muito grande em que a população está vivendo”
(O Estado de São Paulo, 22/1/1980, p. 18). Com a desativação da Unidade, alguns adolescentes foram
encaminhados para o presídio de Sorocaba (Maio/80), uma vez frustrado o plano de enviá-los para a Ilha
Anchieta; outros foram redistribuídos pelas UE-22 (Raposo Tavares, São Paulo) e UE-17 (Ribeirão
Preto). Em 1º de janeiro de 1981 ocorre rebelião e fuga em massa em Sorocaba, motivada pelo não
atendimento a suas reivindicações – entre outras há denúncia de maus-tratos – quando é instaurada
sindicância para averiguar as condições de tratamento dispensadas naquela unidade. Em 13/01/81, os
adolescentes relataram à Comissão de Sindicância que as condições estavam piores que em Moji, por ter
menos atividades e pelo fato de os castigos serem piores: surras com corrente, ferro e borracha e reclusão
em cela forte, por tempo variável. Na ocasião do protesto da população mojiana – “por uma espécie de
psicose de medo em face da insegurança que se evidencia a cada dia, ganhando proporções de
instabilidade plenamente justificadas” (no manifesto “Febem: Insegurança para Moji-Mirim”, de janeiro
de 1980, publicado n’O Estado de São Paulo, 22/1/1980, p.18), o Secretário de Segurança Pública
propusera a diminuição da idade penal de 18 para 16 ou 14 anos, a fim de “controlar a marginalidade” (cf.
Violante, 1982, pp. 83, 86-87 e 95).
naquela unidade”. Do mesmo modo, o presidente da Febem nega que a fuga se deva a
maus-tratos naquela unidade, “que possui moral alto e cujo diretor, reside ao lado do
dormitório deles, sem nunca ter tido problemas”. No entanto, esta fuga em massa nos
interessa em particular por atribuir aos internos uma posição protagônica, mais evidente
ainda no relato posterior que faz a imprensa. Em notícia na Folha de São Paulo, de
15/01/79, Vanderlei, dado como “líder” da fuga, tem voz no noticiário em quantidade
no mínimo equivalente aos representantes da instituição. Vejamos a história da fuga:
A história dessa fuga em massa começou na segunda, quando seis menores
fugiram da UE-9, chefiados pelo delinqüente conhecido apenas por Vanderlei. Porém,
uma hora depois da fuga, os vigilantes da Febem conseguiram recapturar cinco deles.
Apenas Vanderlei evadiu-se da cidade. Aparentemente, a fuga do menor Vanderlei não
preocupa a população de Moji-Mirim e a situação da Unidade Educacional-9 era de
perfeita calma. Na madrugada de ontem (11/01/79), porém, viria a surpresa. Sete
elementos, armados de revólveres, chegaram sorrateiramente naquela entidade.
(Notícias Populares, 12/01/79, grifo meu)

Um deles era Vanderlei, emissário de dupla surpresa:

 pelo retorno sorrateiro daquele que tinha conseguido fugir, para libertar os
recapturados;

 por dominarem todos os funcionários e ordenarem a soltura de todos (dos 176, 78


preferiram permanecer nas dependências da unidade).

Ato de retorno que faz colocar a pergunta quanto às razões de tamanha visibilidade: a
maior fuga de menores do Brasil! Vanderlei alegará suas motivações. Para a imprensa
declarará, três dias depois, quando novamente apreendido:
“A gente sofre, apanha mesmo, todos os inspetores batem na gente com pau e
cabo de machado; lá dentro é duro; se ofender um dos fiscais, eles batem na gente. Fugi
porque num dava mais. Tá certo que eles não usam revólver, mas eles batem na gente!”
(FSP, 15/01/79)

Apreendido, não voltará a Moji-Mirim. O argumento oficial, transmitido pelo presidente


da Febem será: “não queremos que os menores que lideraram a fuga de 98
companheiros seus voltem para a Unidade Educacional 9, em Moji-Mirim, porque eles
seriam recebidos como heróis pelos demais”. “Não queriam eu lá (na UE-9) nem
pintado de ouro, porque eu era influência negativa, ia acabar tudo....” (25/06/2001).
Vanderlei ficará na UT-3 (Unidade de Triagem, no Quadrilátero do Tatuapé, em São
Paulo), segundo a direção da Febem, por ser considerado “um caso especial”, não só
“porque revela inteligência aguda”, mas “porque fez declarações que precisam ser
melhor apuradas pela Febem” (FSP, 15/01/79). Vanderlei denunciara, além dos maus-
tratos e espancamentos, a existência de celas-forte. A inteligência aguda que lhe
permitiu escapar e produzir tal surpresa, será doravante, como veremos a seguir,
tremendamente vigiada, principalmente por meio de sua internação na Casa de Custódia
e Tratamento de Taubaté (CCTT).113

Mas, olhemos mais de perto a fuga em massa: em 8 de janeiro de 1979, conforme relato
do diretor da unidade:
No horário do jantar, cerca de seis alunos invadiram a portaria interna e, sob
ameaça e gritos, forçaram a passagem, após inclusive ferirem (levemente) o
encarregado de inspetores, no abdomen com uma estocada e o vigilante na mão direita,
correram e galgaram atravessar o rio, alcançaram a rua próxima onde causaram
tumultos atacando carros que passavam e aos inspetores que os perseguiam. (Ofício,
Prontuário Febem).

Foram recapturados cinco, tendo apenas Vanderlei conseguido esconder-se. No relato


de Vanderlei (em entrevista de 14/02/2001), é possível ver outras motivações para a
fuga. Em dezembro de 1978, alguns internos da UE-9 tinham traçado um plano de fuga,
que foi denunciado por outro interno. Abordados pelos funcionários para entregarem as
facas, foram “arrebentados” na caibrada: “sangue era mato!”. Vanderlei ficou 30 dias de
castigo. “Moji-Mirim bate mais que qualquer penitenciária: se não pedisse licença para
o funcionário, para fazer qualquer coisa, levava 10 porradas. Eu não passei em nenhum
lugar que batesse como em Moji-Mirim”.

Quando os funcionários da UT-3 (onde esteve anteriormente, realizando triagem)


disseram para ele que ele ia para Moji, avisaram: “se quiser dar cabeçada na parede,
pode dar... eles queriam dizer que estávamos ferrados”. Em Moji, a recepção foi:
“‘Aqui é onde o filho chora e a mãe não vê’, deram um banho de creolina,
‘para tirar a zica que vocês trouxeram’ e fizeram duas horas de sermão, onde não podia
nada: se conversasse no refeitório, dez borrachadas, se risse, dez borrachadas, se
falassse: ‘dá licença, aí’ dez borrachadas... Os funça apelidavam os paus de bater, de
nomes de cantores (Toni Tornado, Martinho da Vila, Rita Lee...) porque quando batiam,
a gente dançava. Quando falavam para a psicóloga que tinham apanhado, ela
perguntava: ‘bateu muito? doeu?’” [14/02/01]

Aí, quando conseguiram fugir, “já tinham um trato: destruir tudo! Queimar tudo e matar
os funcionários. Inclusive, íamos queimar a casa do diretor. Íamos trucidar o neguinho
delator antes!”

113
Vanderlei fora internado em 19/08/78 na Unidade Educacional 9, com sentença judicial concisa:
“declaro infrator o menor VCP (...) e determino sua internação na Unidade Educacional de Moji-Mirim,
até que se reconheça judicialmente cessada sua periculosidade”. Periculosidade que já começara a se
construir com um histórico razoável para sua tenra idade: nascido em agosto de 1961, em 1977 já tinha
passagens por furto de carro, arrombamento e assaltos; em fevereiro de 1978, depois de prática de
homicídio em cadeia pública é internado para estudos em Unidade de Triagem da Febem-SP (UT-3), mas
no dia 16 de março foge do Cartório. Em 15/08 é novamente apreendido e internado na UE-9 de onde
foge em 01/09/78. Recapturado um mês depois, é reinternado em 29/09 na UE-9. Em outubro, suspeito de
nova tentativa de fuga é mantido no isolamento, por cerca de dois meses (dados extraídos de prontuário
da Febem-SP).
Depois da trabalhosa fuga (cãibra de tanto correr, escondido num milharal por 14
horas), reúne em São Paulo outros três colegas e rumam para a UE-9: “a promessa era
buscar os outros!”. Amarraram os funcionários da guarita e invadiram a unidade: “a
mente era pôr fogo no colchão, com os funça dentro, mas foi muita coisa, porque tinha
que liberar os caras do castigo e os outros. Não deu tempo!”. Encontrou os colegas com
quem havia feito o trato de voltar, nus na cela: os funcionários estavam esperando o
retorno de Vanderlei para “fazer a festa”, para os arrebentarem. Só depois é que avaliou
que foi bom não ter dado tempo: “se queimo os caras, eu tava ferrado na Casa de
Custódia. A regra é: matou funça, vai ser torturado em todo lugar que passar, pelo
menos uns cinco anos!”

Dos 98 internos fugitivos, 82 foram recolhidos, segundo o presidente da Febem:


“muitos voltaram com fome, não tinham para onde ir nem o que fazer.” Neutralizando a
potência da fuga, ele reiterará que “a filosofia da Febem será mantida a todo custo, e
sempre que se puder comprovar atos de violência contra os menores, os responsáveis
serão punidos” (FSP, 12/01/79, p. 13).

Vanderlei contará outra história, dizendo que muitas fugas se concretizaram: “só na
Belina em que nós estávamos voltaram 10, até tentaram nos metralhar, mas chegamos
em São Paulo. Saiu caminhão lotado de interno... que chegou até Ribeirão Preto, muitos
escaparam pelo mato...”

Se sua voz pôde aparecer na imprensa, o juiz corregedor não autorizará, no entanto, seu
depoimento para a CEI na Assembléia Legislativa. Quanto à possibilidade de ter falado
tanto à imprensa, Vanderlei tem suas hipóteses:
“Sem dúvida, porque foi a primeira e foi inesperada, porque ainda não tinha
tido reação, por isso eles abusavam, seguravam na mão grande!; também porque já tinha
um clima de democracia...quer dizer, lá em Moji, não tinha democracia, não!...no país,
já era a coisa da Anistia... eu mesmo nem sabia da gravidade da Febem, eu fugi mais
pelos parceiros, porque era nosso combinado, eu nem imaginava a repercussão. Aí,
quando fui preso – porque tava na hora errada, no lugar errado – é que vi aquele monte
de imprensa. A imprensa não sabia nada como era lá dentro (a Febem)! Eu falei porque
já tava ferrado... tudo o que eu já tava passando. Veja como eu era inocente: declarei
para a imprensa: se eu voltar, eu vou fugir de novo!; teve repercussão também porque a
cidade ficou apavorada, teve um arrastão na cidade, na fuga, porque a gente odiava a
cidade.” [entrevista, 14/02/2001]

Os funcionários da Febem davam recompensa para a população quando eles pegassem


algum adolescente que tinha conseguido fugir: “era cada sacão de arroz e feijão que eles
distribuíam! Na minha fuga, um monte de gente da população veio atrás, botaram fogo
até no canavial para ver se nos pegavam!” (entrevista, 25/06/2001). Mas não deixará de
relembrar a cena que parece ter sido um dos motivos para ter feito as denúncias: em
Moji, quando apanhou após a primeira fuga, tiveram que pintar a cela para rapidamente
esconder o sangue (dos espancamentos): “vinha visita, gente alta da Febem e os
funcionários estavam com medo que nós denunciássemos”. Durante a visita uma das
diretoras da Febem, referiu-se à cela do castigo, como “instalações para reeducar os
menores”, o que segundo Vanderlei, só deu “força” para a truculência dos funcionários.
Reencontrou esta diretora, depois da fuga, já na entrevista para a imprensa. “Ela veio
falar comigo, eu disse: ‘– dá licença!’ Quer dizer: não quis idéia, quis mostrar a
hipocrisia dela; ela tava com história ali, porque tava a imprensa e lá ela viu a gente
pintando sangue!!!!”

Depois de ter soltado o pessoal em Moji e tendo sido apreendido em São Paulo, ficou
por dois meses incomunicável numa cela na UT-3, sem direito a sol e sem atendimento
de nenhum tipo, por medida de segurança, pois além de temerem que o resgatassem, o
empreendimento era silenciá-lo. Só saía para ir ao banheiro, sempre acompanhado de
funcionário e quando os outros internos estavam no páteo.
”Na UT-3 o funça queria que eu limpasse a cela, recusei, lógico! Aí o cara deu
um soco na minha boca. Saiu sangue. Aí perdi a linha! Peguei o estilete (que já tinha
fabricado com madeira do rodapé para tentar fugir) e corri atrás dele. Fiquei doido, tava
cego de raiva! Chutei o vidro do banheiro, caiu um monte de pedaço. Peguei um pedaço
e me cortei... de raiva. (Tem inúmeros cortes nos dois antebraços). Me pegaram com
camisa de força, me deram uma injeção na veia, dormi dois dias.” [14/02/01]

Em março de 1979 é encaminhado para a UE-17, Ribeirão Preto, de onde se evade


poucos dias depois, numa fuga em massa. De volta à UT-3, tentou fuga, com outros
doze colegas, mesmo estando com os braços enfaixados, tenta outra fuga, mas não
consegue. Em abril, é internado na Funabem do Rio de Janeiro, “porque já não tinha
lugar para eu ficar; nada me segurava. Porque os parceiros queriam retribuir o que eu
tinha feito” (grifo meu). Apesar de achar o tratamento do Rio melhor que o de São
Paulo, foge após 12 dias.

Em junho, nova infração grave depois de fuga do Rio, é acautelado na UT-3, com
ferimento a bala.
“A direção da Febem tinha caído, uma diretora nova até veio falar comigo,
dizendo que o tratamento não era mais aquele... mas não tinha mais volta! A Febem ia
mudar, eu até podia ficar, mas tava fazendo 18 anos. Ia ser mandado para São Caetano.
Não dava mais tempo, não acreditava mais”. [14/02/00]

Foge quando estava sendo transferido para Moji: “é a única coisa de que me arrependo,
porque a mulher não merecia (que ele fugisse), ela não era pilantra!” O novo laudo
psiquiátrico, de outubro de 1979 o definirá como portador de periculosidade social em
grau elevado (“trata-se de um caso de atavismo psíquico”, de “jovem com a mente
inteiramente voltada para a delinqüência”) e o levará para o cumprimento de medida de
segurança por três anos na Casa de Custódia e Tratamento de Taubaté.

Já na Custódia, recebeu a visita do então psiquiatra da UE-9. Ele foi agradecer por
Vanderlei não ter matado os funcionários na fuga de 1979. Este psiquiatra teria proposto
a Vanderlei na época da sua internação na UE-9 que ele fosse informante das fugas, em
troca de facilitações na sua vida institucional na Febem. Resposta de Vanderlei: “Não;
eu sou bandido. Tenho minha dignidade.”
“Quando eu tava em Taubaté, em 80, destruíram a Moji-Mirim... foram para a
prisão de Sorocaba, mesma coisa que eles faz hoje (refere-se à transferência para
unidades prisionais depois de um incidente) (...) Não era só eu que queria sair dali! Não
precisou eu lá! Foi a mesma coisa que eu fiz: vieram uns de fora, armados, um
enquadramento e eles aproveitaram para quebrar tudo!” [25/06/2001]

Desmonta-se assim, na própria fala de Vanderlei, qualquer construção “heróica” ou de


“liderança”, ou ainda de um atavismo psíquico na produção das fugas e das rebeliões e
ressalta-se a dimensão de reação em massa a um imperativo institucional: “os
funcionários de Ribeirão, uns 30, foram, em 79, na unidade de Moji, fazer treinamento,
para ver como agia, como batia, na tortura, para implantar o terror lá na 17 (Ribeirão).
Quando eles aprenderam, também acabou a unidade: teve uma rebelião...” (25/06/2001)

Vinte anos depois, como vimos na análise das rebeliões do período de 1999, os motivos
parecerão os mesmos (maus-tratos, espancamentos, tortura, humilhação), o que leva
Vanderlei a afirmar sobre as recentes rebeliões na Febem que não vê diferença entre as
rebeliões de 79 e de 99.
“A raiva é a mesma! as razões são as mesmas....: “nunca é a toa; é porque
causa dos maus-tratos e espancamentos (...). Porque, lembrando Moji: dói até hoje! eu
odeio os caras até hoje! Febem não é escola de criminalidade, eu não aprendi nada sobre
isso lá; é escola de ficar com ódio! Você aprende a ficar com ódio! Eu mesmo não era
revoltado! Eu queria era sair de lá, mas quando voltava, era só lembrança triste! Lugar
de ódio! (...) Vai um não faz nada, vai outro, não faz nada!, aí só sobra mesmo resolver
na rebelião, na bala! (sobre a presença de mortes de internos pelos próprios internos): O
mais fraco quer fazer pior que fizeram com ele. É tanto ódio, que para descontar faz no
outro!” [25/06/2001]

Para concluir, interroga-se: “se sou a favor da rebê? Sou contra legal!!!”. Assinalo o
legal e ele esclarece:
“Legal é: sou muito contra, sou bastante contra. É o maior prejuízo a rebelião:
pelado, sem nada, encarando bomba, fuzil, cachorro, cela-forte, sem visita. Uma noite
de gandaia e um monte de prejuízo! De fuga, sou a favor! Na Febem acontece legal
mesmo (muitas rebeliões), porque eles batem!” [25/06/2001, grifo meu].

Volto a brincar com a sua frase: “sou contra-legal”, porque dita assim, justaposta, sem a
necessária pausa entre as duas palavras, parece dizer também: ‘sou contra a lei!’.
Assinalo novamente se não é porque os funcionários estão contra a lei, batendo, que
parece que eles têm que ser também contra-legal, contra a lei. Vanderlei responde: “Eu
não sou contra a lei, a lei é que é contra eu!”.
Contra-legal, seja na sua evocação de intensidade, seja na de oposição, parece dizer de
uma posição de exterioridade. Este contra-legal que Vanderlei enuncia, conjuga, no
mínimo, dois sentidos: ser muito contra a rebelião, principalmente pelas suas
conseqüências dramáticas, mas ter que se posicionar, rebelando-se sempre que a lei for
contra ‘eu’ ! Somos reenviados assim a uma outra dimensão do paradoxo da
“condenação à rebelião”, que vimos aparecer nas falas dos internos da Febem.114 Se
nesta estranha formulação – de uma condenação à rebelião – quase somos remetidos a
este inexorável do controle, do sem saída, estamos agora com o contra-legal, instalados,
no mínimo, na temática da desobediência civil, na contrapartida do escape.

Condenados à rebelião e contra-legal: por um direito novo

Quando nos referirmos à desobediência civil, no âmbito desta pesquisa, não temos a
pretensão de “tipificar” as rebeliões da Febem no campo do direito jurídico à
desobediência. Sequer se reconhece no Brasil, juridicamente, o direito de resistência,
mas entendemos, na vertente da filosofia política contemporânea, que politicamente, o
que faz valer a sociedade democrática, de consentimento (horizontal) é o direito de ter
direitos (Arendt, 1979). Portanto: resistir quando as instituições estabelecidas de um
país deixam de funcionar adequadamente, ver-se desobrigado a cumprir a lei quando a
reciprocidade inerente a toda promessa for rompida (Arendt, 1999), mostrar
publicamente a injustiça, a ilegitimidade e a invalidade da lei (Bobbio, 1986) são atos
eticamente válidos. Deste ponto de vista, as rebeliões da Febem, enquanto reação à não-
garantia de direitos inscrevem-se certamente no âmbito deste direito (político) à
resistência: elas são ato de demonstração pública da injustica, ato de “justiçamento”,
mas sua característica de ação violenta pode inscrevê-las no campo da desobediência
civil? Aparentemente não.

Mas, podemos falar que estamos numa sociedade de “consentimento”, quando lidamos
com uma “democracia disjuntiva”? Podemos falar em “civil” quando os internos nem
sequer estão numa condição de cidadania? Que concepção de contrato social pode ser
veiculada num contexto de escassez da dimensão pública e de exacerbamento da defesa
de interesses particulares de dominação, “onde um grande número de pessoas encontra-
se abaixo da lei e um reduzido número de privilegiados coloca-se acima dos controles
sociais?” (Oliveira, 2001, p. 97). Não estão os adolescentes “condenados” a esta mesma
visão de justiça? Se a cidadania implica uma reciprocidade entre o sujeito e o Estado, e
se o Estado descumpre a legislação, como exigir dos jovens o cumprimento de deveres,
quando seus direitos não cessam de ser cassados?115 Não seriam, então, as rebeliões atos

114
Paradoxo similar ao que Vanderelei atribui à lógica do sistema penal, que diz ter levado um certo
tempo para aprender: “toda a vez que eu falei a verdade (para um laudo), eu não passei! Quando eu menti,
eu passei!”. Desenvolvi a análise desse paradoxo: “meu maior crime foi ter me regenerado”, na
dissertação de Mestrado (Vicentin, 1992).
115
“Com a predominância de laços sociais perversos no cotidiano e com a ausência de participação cívica
dos adolescentes brasileiros na construção de acordos coletivos, não estaria sendo favorecida uma lógica
de desobediência “de-vida”?116 Em condições nas quais a vida é suprimida ou tomada
como objeto, não são as rebeliões a afirmação da potência de viver?

E se pensarmos que a rebelião é justamente ato de inscrição no campo social (é “para a


gente se aparecer”), ela não é também um fazer-se “civil”, num ato de desobediência?
Ato que diz ao mesmo tempo que nem todos são cidadãos e que é necessário ser
“contra-a-lei”, quando a lei for contra ‘eu’, quando a lei não assegurar que possam estar
inscritos (‘eu’) no campo social. Contra-legal é ato de desobediência para evidenciar
que não estão inscritos no plano da cidadania. Torna-se mais evidente o duplo caráter do
contra-legal que acompanhamos com Vanderlei: a rebelião é zona de intensidade, é
“legal” e é também um contra, um analisador da “lei”, quando esta invalida que ‘eu’
exista.

Se a questão da desobediência civil foi trazida para o âmbito da pesquisa foi para
destacar – a despeito da dimensão violenta, não pacífica das rebeliões – sua dimensão
de resistência e para retirá-las da perspectiva criminalizante de que se vêem investidas.
E, principalmente, para colocá-las também como uma forma de luta por direitos: para
evidenciar este ponto-limite, este ponto-fronteira, onde afirmam uma reivindicação de
direitos, mas problematizam ao mesmo tempo a concepção mesma de “direito”,
“declarando conjunta e simultaneamente os direitos e a guerra” (Foucault, 1999). É a
“posição estratégica assumida pelos indivíduos, são os acontecimentos concretos, é o
gesto factual de se posicionar” (Fonseca, p. 300) que fundam a pretensão a novos
direitos.

Na medida em que “a ação não é o predicado de um enunciado legal, mas é, ao


contrário, o momento juridicamente indiferenciado que funda a pretensão de novos
direitos” (Napoli, P. apud Fonseca, 2001, p. 301), o direito seria então “inquietação
permanente na medida em que constitui um domínio de saberes e de práticas
continuamente chamado a participar do jogo (sempre inacabado) da arbitragem, da
regulamentação social”.

Seria muito dizer que as rebeliões, então, afirmam-se como luta por um “direito
singular”, um direito novo117 - direito anti-soberania e direito anti-disciplinar -, como
nos ensinou Foucault (1999)?

de justiça baseada apenas na obediência/desobediência às figuras de autoridade e às leis? Quais as


ressonâncias disto para o desenvolvimento da autonomia juvenil?” (Oliveira, 2001, p. 91). Diversos
estudiosos da temática do sistema socioeducativo (Costa, 1998; Guará, 2000; Teixeira, 2001; Oliveira,
2001) insistem no ponto de que o sistema de responsabilização do jovem deve incluir sua compreensão de
que o convívio social exige reciprocidade. Se o adolescente não participa da construção das normas
coletivas e se não confirma que o Estado e os adultos respeitam seus direitos e cumprem suas obrigações,
torna-se muito difícil que ele compreenda e respeite o código de referências que rege as relações sociais.
Uma arguta e crucial análise sobre a questão do delito juvenil e do sistema Febem, sobre o risco de, na
escassez de contrato social, solidificar-se entre os adolescentes uma “responsabilidade narcísica” e
principalmente as implicações operativas para a construção de um outro “fazer”, é realizada por Oliveira
(2001).
116
Jogo aqui com um contra-sentido para a idéia de “obediência devida”, argumento que sustentou na
Argentina a anistia para os integrantes das forças armadas que participaram de torturas e extermínios,
“por estarem cumprindo ordens” (Lei da Desobediencia Debida”, 1986, Governo Alfonsin).
Inversão argumentativa

Vimos, tanto no caso UE-13 quanto no caso Imigrantes, comparecer, em diversos


momentos, na relação Febem-internos, uma “inversão argumentativa”: o que era
espancamento é convertido em rebelião, o que eram objetos utilizados por funcionários
para tortura e espancamento, convertem-se em material que os jovens produziram nos
tumultos e rebeliões, o que era a luta das famílias pela segurança dos filhos é tratado
como “levante” das famílias. Este modo de “inversão argumentativa” ganha sua mais
impressionante visibilidade, quando da vinda ao Brasil, em agosto de 2000, de
representante da ONU que tomou depoimentos de internos da Unidade Educacional de
Franco da Rocha. Após os depoimentos para apuração de situações de tortura no Brasil,
os jovens relataram terem sido espancados em retaliação aos depoimentos feitos. Os
monitores contra-argumentaram dizendo que os adolescentes se autoflagelaram e que
chegaram, antes da visita, a se bater com toalhas molhadas e a combinar de um agredir o
outro, insinuando assim que eles são os próprios responsáveis por sua situação de
degradação física e psíquica.118

Para além da realidade de violência a que os jovens estão cotidianamente submetidos,


surpreende-nos agora a argumentação de alguns dos funcionários:

 Primeiro, pela suposição aí embutida de que não se poderá chegar a uma


averiguação suficiente dos fatos e de uma devida responsabilização, como a desafiar
qualquer possibilidade de intervenção neste panorama.

 Segundo, pela inversão de lógica de que se reveste: “nós não batemos, são os jovens
que armam ardilosamente uma situação para nos incriminar”. Sabemos quantos
mortos sob tortura foram “suicidados” no período da ditadura militar, não sendo,

117
Encontramos esta idéia de um “direito novo” bastante trabalhada na tese de doutoramento de Márcio Alves da Fonseca (2001),
sobre as dimensões do direito no pensamento de Michel Foucault. O autor nos indica que são diversas estas “imagens do direito”,
sistematizando e “desenhando” as três mais mais importantes: na primeira, a do direito como legalidade, correlato do “modelo
jurídico” do poder, desenha-se uma relação de oposição entre direito e normalização (imagem bastante clara, no âmbito da
elaboração da analítica do poder em Foucault, quando ele contrapõe dois modelos ou duas representações do poder: o “jurídico-
discursivo” e o “estratégico”); na segunda, a do direito normalizado-normalizador, trata-se de uma relação de implicação, de
“continuidade”, de “colonização recíproca” entre os mecanismos disciplinares e o domínio legal; e, finalmente, a de um “direito
novo”, em que se configura uma “nova oposição entre normalização e direito”, mas oposição que se refere à possibilidade de pensar
em práticas do direito que se oponham à normalização, isto é, que possam representar uma forma de resistência ao poder
normalizador. Fonseca identifica também nesta imagem do “direito novo”, duas posturas: uma “negativa”, de “desconfiança” da
forma do direito, sempre que mecanismos de normalização e estrutura formal, derivada do princípio de soberania, formarem uma
unidade. E a “positiva” que aponta para a valorização das possibilidades concretas de certos saberes e de certas práticas do direito
constituírem um direito liberado simultaneamente da soberania e da normalização. Esta idéia de um “direito novo” foi identificada
ainda segundo o autor principalmente nas discussões foucaultianas em torno da ética, da valorização de atitudes que expressam uma
forma de resistência dos indivíduos em ser “governados”, na possibilidade de uma “atitude crítica”, entendida como o “movimento
pelo qual o sujeito se dá o direito de interrogar a verdade sobre seus efeitos de poder e (interrogar) o poder sobre seus discursos de
verdade”, constituindo então uma forma “ética” do direito.
118
Tratou-se da visita ao Brasil do relator da ONU para tortura, Nigel Rodley, que realizou, entre outras
ações, visitas a unidades da Febem, ao final do mês de agosto de 2000, tendo recebido diversas
informações sobre espancamentos e maus-tratos no interior das unidades (Folha de São Paulo,
02/09/2000). Os resultados da visita estão consolidados no Relatório sobre a Tortura no Brasil
(ONU,2001).
portanto, novo ou desconhecido este “modo de operar”. Do mesmo modo, esta
argumentação não é isolada (ao modo: “são alguns funcionários que depõem contra
o trabalho e que devem ser sumariamente demitidos, se comprovada a violência”),
sequer pode ser compreendida no âmbito exclusivo de um sintoma institucional
(ainda que não possamos desconsiderar os efeitos destas montagens na produção da
violência e conforme o próprio MP considera, em sua argumentação: “para
contenção de jovens nesta situação degradante, o emprego da força bruta, da tortura,
tornaram-se práticas rotineiras” (PA 13, v. 36, p. 7076) e muito menos é gratuita,
uma vez que tem consonância com muitas das declarações do então secretário de
Desenvolvimento Social, que veio, nas suas falas, imputando aos próprios jovens a
responsabilidade pela situação em que se encontram, além de responsabilizar os que
cumprem a função de defesa e promoção de direitos pelo incitamento de rebeliões e
pelo aumento de violência.119 Assim, nada mais próprio desta “inversão
argumentativa” que dizer que é a presença da ONU em sua missão de investigar a
tortura a produtora mesmo de autotortura.

Encontramos nesta “inversão argumentativa”, nesta “reversibilidade narrativa”, uma


guerra pela produção dos sentidos que nos coloca na temática da “produção da verdade”
como um ponto nevrálgico das operações de poder, como nos sugere Foucault (1988, p.
25):
O grande jogo da história será de quem se apoderar das regras, de quem tomar
o lugar daqueles que as utilizam, de quem se disfarçar para pervertê-las, utilizá-las ao
inverso e voltá-las contra aqueles que as tinham imposto; de quem, se introduzindo no
aparelho complexo, o fizer funcionar de tal modo que os dominadores encontrar-se-ão
dominados por suas próprias regras.

Mas como não se trata, nesta pesquisa, de apresentar nenhuma “veracidade” dos fatos,
mas justamente de problematizá-los naquilo que funcionam a serviço de um modo de

119
Representantes da Comissão Criança, Adolescente e Família do Conselho Regional de Psicologia, em
audiência com o Secretário (09/05/2000), ouvimos suas considerações sobre as rebeliões: “percalços que
estes jovens vêm colocando ao processo de transição da Febem na direção de um outro modelo”, numa
clara minimização da gravidade da situação e da responsabilidade do Poder Executivo. Em reunião
(23/05/2000) no CRP com psicólogos da Febem, o Secretário teceu as seguintes observações:
“A Secretaria tem um mapeamento claro de quem provoca as rebeliões: são os mesmos 200 garotos, com
problemas de dependência química ou problemas psiquiátricos. Substituem a fissura da droga pela fissura
da provocação, como atestam as universidades que vêm trabalhando com o diagnóstico desta situação” e
levantou o argumento de que “o nível de agressão dos jovens aumentou: as pesquisas do NEV indicam
que eles estão mais petulantes”.
Os jovens rebelados maiores de 18 anos estão sendo indiciados, pois são maiores de 18 anos e “sabem
muito bem o que estão fazendo”.
Não há hipótese de tolerância para com os espancamentos, mas comenta a dificuldade de produção de
“provas”.
produção de subjetividade e de vida, é preciso determo-nos um pouco nesta paradoxal
argumentação.

Esta inversão da lógica, que põe torturados como autotorturadores, associada à


conivência/omissão do Estado (governantes, dirigentes da Febem-SP e setores da
Justiça) e da sociedade, já vem produzindo efeitos bastante intensos e de grande
visibilidade como para nos fazer perguntar de que produção se trata.120

São estratégias mais estritamente repressivas as que estão se efetivando aí? São
mais assumidamente genocidas, como as ensejadas no massacre do Carandiru (1992)?
Como podem estar tão estritamente reduzidos ao corpo físico?

9. Corpos em rebelião

Sobre o corpo se encontra o estigma dos acontecimentos


passados do mesmo modo que dele nascem os desejos,
os desfalecimentos e os erros; nele também eles se atam
e de repente se exprimem, mas nele também eles se
desatam, entram em luta, se apagam uns aos outros e
continuam seu insuperável conflito. (...) ele é formado
por uma série de regimes que o constroem; ele é
destroçado por ritmos de trabalho, repouso e festa; ele é
intoxicado por venenos –alimentos ou valores, hábitos
alimentares e leis morais simultaneamente; ele cria
resistências. (Foucault, 1986, pp.22 e 27)

Foucault já propunha, ao pensar o poder disciplinar como um dispositivo que assegura a


sujeição constante das forças do corpo – os corpos “dóceis” – que “o controle da
sociedade sobre os indivíduos não se opera simplesmente pela consciência ou pela
ideologia, mas começa no corpo, com o corpo (...) o corpo é uma realidade biopolítica”
(1988, p. 80). Aprendemos com Foucault, a partir da idéia de genealogia como o “ponto

120
As práticas reiteradas de maus-tratos e tortura devem ser lidas para além dos horizontes institucionais,
jurídicos ou policiais, sob a perspectiva de uma economia política da violência (Silva, 1997, p.155), isto
é, entendendo que há métodos e processos pelos quais as classes dominantes transformam a violência e a
criminalidade em fatores de consolidação do poder. No período do regime militar (1964-1985), o
emprego da tortura pelas forças de segurança era política oficial aprovada e, como tal, sua prática tornou-
se institucionalizada e cada vez mais enraizada entre as forças de segurança, permanecendo difundida e
sistemática (Anistia Internacional, 2001). Conforme alerta Pinheiro (1991, p. 51): “A política de
segurança pública, nas suas linhas mais gerais e na maior parte dos estados durante os dois governos da
transição democrática, continua sendo a mesma da violência explícita e ilegal da ditadura”. É importante
destacar que durante os 21 anos de regime militar, as instituições totais estiveram completamente
fechadas à curiosidade e à intervenção da sociedade, sendo sua concepção, manutenção e administração
orientada por motivos estratégicos de natureza ideológica, sendo que foi neste circuito que se configurou
o ciclo de formação da criminalidade (Silva, 1997, p. 156).
de articulação do corpo com a história” (1988, p. 20), a situar o corpo como “superfície
de inscrição dos acontecimentos”.

Ainda segundo Foucault, desde o século XVIII, teríamos entrado na era do biopoder,
porque, seguindo-se à disseminação de técnicas que visavam obter a sujeição dos
corpos, desenvolveram-se outras, relativas à gestão da vida (natalidade, mortalidade,
saúde pública, movimentações das pessoas, etc.)
Nos mecanismos de biopoder a normalização não mais se configura como uma
disciplina dos corpos dispostos no interior das instituições de seqüestro, mas como o
resultado de mecanismos de regulação, ou mecanismos de seguranças, que atuam sobre
os processos da vida pertinentes a uma população. (Fonseca, 2001, p. 213)

No entanto, é importante ressaltar alguns componentes singulares que configuram uma


certa especificidade para o lugar do corpo em sua articulação com a história em nosso
país. Tereza Caldeira propõe pensar o debate sobre os Direitos Humanos no Brasil
como parte de uma tensão básica entre duas visões de punição: uma, a perspectiva da
lei, da justiça e do sistema judiciário, a outra, a da vingança, do corpo e da dor como
instrumento de punição, configurando um universo de vingança privada e imediata
(Caldeira, 2000, p. 359). É no âmbito do crime, do abuso policial que os direitos
humanos são mais violentamente rechaçados, configurando-se como “privilégio de
bandidos”, e em que se pode visualizar o lugar que tem o corpo do criminoso e a falta
de limites para tratá-lo e puni-lo. Em parte, a ótica vingativo-repressiva apóia-se na
idéia de que frente à ineficácia do sistema judiciário são cabíveis meios privados,
violentos e ilegais de conseguir as mesmas coisas.
Como o medo da dor gera obediência, provocar tal medo é considerado boa
pedagogia. A marcação do corpo pela dor é percebida como uma afirmação mais
poderosa do que aquela que meras palavras poderiam fazer, e deveria ser usada
especialmente quando a linguagem e os argumentos racionais não são entendidos. Em
geral, as pessoas que entrevistei acham que crianças, adolescentes e mulheres não são
totalmente racionais, da mesma maneira que os pobres e, obviamente, os criminosos.
Contra essas pessoas, a violência é necessária; ela é uma linguagem inequívoca. (...) A
dor é entendida como caminho para o conhecimento (especialmente moral) e reforma.
(...) Essa associação de dor, conhecimento e verdade torna-se especialmente clara em
discussões sobre a tortura. (Caldeira, 2000, p.367)

Este corpo percebido como “locus de punição, justiça e exemplo no Brasil”, este corpo
“manipulável”, Caldeira chamará de corpo incircunscrito: corpo permeável, sem
barreiras claras de separação ou de evitação, corpo desprotegido por direitos individuais
que o circunscreveriam, no sentido de estabelecer barreiras e limites à interferência ou
abuso de outros, na medida em que sua concepção na sociedade excede a associação
entre dor e desenvolvimento moral ou dor e autoridade, atravessando outras áreas da
vida social, onde as intervenções e manipulações corporais são vistas como naturais
(por exemplo, na medicina), em contraposição ao corpo circunscrito, ao indivídio
autocontido, resultado do “processo civilizatório” (na acepção de N. Elias) e à
docilidade dos corpos e ao eu circunscrito, resultado da combinação das disciplinas com
o aparato jurídico da sociedade do contrato (na acepção de Foucault), que forjaram a
passagem da marcação de corpos ao disciplinamento da alma como a principal forma de
exercício de poder (Caldeira, 2000, p. 372).
A associação do desenvolvimento das disciplinas com o dos direitos
individuais e democracias liberais e com o controle e enclausuramento do corpo, assim
como o abandono progressivo da violência seja como método pedagógico seja como
forma de punição, são claros nas histórias dos países que inventaram o modelo liberal-
democrático (França, Inglaterra e Estados Unidos). Estudiosos de cidadania têm tendido
a generalizar esta história... (...) Países como o Brasil, mas também outros com histórias
diferentes e que hoje têm democracias disjuntivas, forçam-nos a dissociar os elementos
dessa história e a questionar sua seqüência. Eles nos forçam a ver a possibilidade de
cidadania política sem o controle da violência, de um Estado de Direito coexistindo com
abusos da polícia e de democracias eleitorais sem direitos civis ou sem um sistema
judiciário legitimado. (Caldeira, 2000, p.374)

Ao sugerir que nada indica que a democracia política e o Estado de Direito irão
circunscrever corpos e gerar respeito pelos indivíduos, na medida em que justamente a
violência e as violações dos direitos humanos aumentaram sob o atual regime
democrático e o desejo de inflingir a dor no corpo dos dominados foi usado para
desafiar o Estado de Direito, Caldeira hipotetiza que
(...) por meio da questão da punição violenta e do crime, os brasileiros
articulam uma forma de resistência às tentativas de expandir a democracia e o respeito
pelos direitos além do sistema político.(...) ...o medo do crime e os desejos de vingança
privada e violenta vieram simbolizar a resistência à expansão da democracia para novas
dimensões da cultura brasileira, das relações sociais e da vida cotidiana.(idem, p. 375)

Estas análises de Caldeira iluminam fortemente o lugar de que se reveste o “corpo” dos
jovens na sociedade brasileira contemporânea e, em particular, o corpo dos jovens
pobres, como se depreende da análise das mortes violentas na juventude e atesta a
necessária alteração dos jogos de poder e abusos de autoridade sobre os corpos dos
dominados como crucial para a conquista de uma democracia menos violenta (Caldeira,
2000; Peralva, 2000). Mas, se o abuso do corpo é resistência ao processo de
democratização do lado dos setores dominantes, é importante que pensemos como, do
lado dos “abusados”, tem se processado o corpo mesmo como locus de resistência.

Pudemos acompanhar nestas histórias de rebeliões os diversos embates e posições que o


corpo encarna, e que nos permitiram visualizar algumas nuances e inflexões. Como
vimos com Maguila, o corpo institucionalizado; nas mortes de internos nas rebeliões da
Imigrantes e de Santo André, um misto de corpo ritualizado e de corpo ‘midiático’; o
lugar do corpo na tortura e nas mortes de internos nas rebeliões, como “pedaço de carne
à disposição da manipulação do outro”.
A redução ao corpo como efeito das “instituições totais’” e as estratégias de contrapoder
que o corpo aí enseja: as fugas, motins, automutilações parecem agora não efetivamente
investidos (pelo menos em sua maior parte) da função de resistência, que conhecíamos:
como resposta do corpo às disciplinas.121

Em relação a isto, considere-se o “estilo” adotado pelos adolescentes nestas recentes


rebeliões, com mortes de internos: carbonizar, esquartejar, pregar o corpo na grade, num
estranho misto de “oferta” do corpo (corpo crucificado e exposto), e de encenação
mesma daquilo a que estão condenados: a tortura, os espancamentos e os maus-tratos.122

O Padre Julio Lancelotti, comentando o papel da imprensa na cobertura dos episódios


violentos na Febem, levanta algumas hipóteses:
Por que os adolescentes estão se matando? Mas eles (os repórteres) não querem
ouvir isto. (...) A gente procurou fazer a leitura, o simbolismo dessa morte entre os
jovens, deles se ferirem... um jovem foi decapitado. Qual a mensagem que eles estão
passando para nós: “nós estamos valendo tão pouco, a nossa falta de perspectiva é tão
grande, que o que resta é a morte. E nos matamos”. Uma coisa chamou muito a atenção:

121
Chamo atenção para a presença de uma estratégia já biopolítica e não apenas disciplinar em razão também de vários relatos de
internos e de funcionários, ao longo das entrevistas realizadas, que atestavam uma grande intensidade de todo tipo de sinais
corporais “implosivos”: desmaios, tonturas, diversos mal-estares, ao contrário das fugas, rebeliões que eu diria portarem um maior
grau de “exterioridade”. A solicitação de cuidados corporais nunca foi também tão intensa. Tive a oportunidade de participar em
27/04/2000, pelo Conselho Regional de Psicologia, de uma visita de vistoria à Penitenciária de Parelheiros, na época em reforma
para abrigar adolescentes infratores (que desde julho foram para lá transferidos a despeito de todos os pareceres técnicos e ações
judiciais tentarem impedir). No parecer elaborado (Parecer Técnico, 2000), elenco várias “sinais” desta “perda do sujeito e do corpo
como organismo”: “São muitos os indicadores na ordenação do espaço institucional, da redução do adolescente a um puro corpo
orgânico e, portanto, da desconsideração da sua condição de sujeito em processo de desenvolvimento pessoal e social:
A inexistência de portas nos banheiros e a presença de visores em todos os banheiros, atestando a
intolerável desconsideração das necessidades de intimidade e privacidade dos jovens, que para além de
ser normativa internacional é fundamental para o desenvolvimento psíquico. Fica explícita a vigilância
ininterrupta sobre o corpo e a condição extrema de vulnerabilidade em que se colocam o adolescentes.
Objeto a ser olhado, não resta espaço para constituição de aspectos fundamentais de sua identidade: o
cuidado de si e a dimensão de interioridade.
A existência de trancas, fechadas e abertas por fora, na maioria dos espaços: – quartos, salas ‘multi-uso’,
quartos de repouso ou de isolamento psiquiátrico – são indicativos do exíguo espaço para o aprendizado
da convivência e da construção de pautas coletivas que regulem o convívio. A decisão de usar a tranca
como forma de regulação do convívio é sinal do pouco investimento no necessário processo educativo,
elemento crucial para o desenvolvimento pessoal e social destes jovens.
É significativo que o espaço funcional mais claramente planejado seja o espaço médico, com suas salas de
atendimento clínico, psiquiátrico e odontológico, além de dois quartos, com trancas, para ‘repouso’ ou
isolamento psiquiátrico, de um armário para remédios (como disse uma funcionária: remédios fortes, que
não pode deixar eles pegarem) e de uma enorme sala de espera. Aliás, a sala de espera parece ser já
indicativa do tamanho da demanda que se espera e que com certeza poderá ser intensamente produzida,
pelas condições mesmas do espaço carcerário. Quando não há reconhecimento do psíquico, do simbólico,
da palavra e dos processos educativos como eixo do desenvolvimento pessoal e social, é o corpo que fala
(por meio de doenças, amotinamentos, fugas e automutilações). Uma sala de espera tão grande e espaços
tão planificados de controle do corpo deixam entrever que boa parte da rotina será dedicada a controlar,
por remédios e práticas medicalizantes, a maior parte das demandas existenciais e subjetivas dos
adolescentes.
Chama a atenção a existência nas salas de repouso ou de isolamento, de inclinação que impede que a
pessoa se sustente por muito tempo em pé. Qual será seu uso? Uma vez que ela obriga o sujeito a deitar-
se a maior parte do tempo, numa perda sistemática das condições de controle e autonomia do corpo, ou
seja, numa condição de submetimento, é possível supor seu uso como castigo.”
122
Lembremos também que este “corpo exposto” tem, na história brasileira, outros elementos de
constituição, conforme vimos com Caldeira (2000), o corpo incircunscrito e sua relação com a história da
escravidão.
os adolescentes tinham vários reféns nas mãos, com as machadinhas na cabeça. Mas
eles não atacaram os reféns, pessoas que eles odeiam. Porque eles pegaram aqueles que
mais batem neles. E eles não atacaram estas pessoas. Eles estressaram essas pessoas,
mas não feriram gravemente. (...) Depois eles diziam: se a gente matasse um monitor ia
ser ruim demais. Mas se é um de nós que se mata, ninguém liga. Eu valho tão pouco,
sou tão porcaria que posso matar o meu igual e não vai acontecer nada. (...) Eles se
matam entre si porque não têm perspectiva, não têm futuro, a perspectiva é a morte.
Então a morte está presente e o próprio jovem disse “eu joguei um pedaço do corpo do
outro na tropa de choque”, com uma suprema agressão. “Vocês estão felizes agora? Nós
estamos aos pedaços. Ou seja, nós nos vemos aos pedaços, nós estamos aos pedaços.
Nós estamos destruídos”. (2000, pp. 29-30)

Ainda que estas hipóteses sejam extremamente pertinentes e façam sentido para muitos
que acompanham estas questões, sugerindo algo do âmbito da
espetacularização/especularização da violência, estes episódios parecem não se
subsumirem totalmente a estas hipóteses, suscitando-nos pensar mais além, se já não se
trata de uma modificação nos modos de operação do poder aí colocadas. Serão já a
“posta em cena” de uma situação-limite, evidenciando o limite da exclusão e o corpo
levado a seu limite, inclusive ao limite físico? Meia-Lua é direto na sua afirmação: ”o
que nos aguarda é ‘A Lista de Schindler’, ou a ‘Lista de FHC’. É o fim, é o extermínio.
Para mim isso já existe faz tempo... já existe planos com este intuito há anos, com
certeza”. A representação do MP, no tocante à rebelião da Imigrantes chega também a
um limite: ”a dantesca situação que coloca-os piores do que animais do zoológico,
assemelhando-se aos nefastos campos de concentração, violando os direitos mais
comezinhos de qualquer ser humano”.123 (PA 13/99, p.14, apenso).

De fato, para pensar a Febem, devemos levar em conta a mesma reflexão que Agamben
propõe em relação aos campos de concentração:
A pergunta correta acerca dos horrores cometidos nos campos de concentração
não consiste, portanto, na interrogação hipócrita sobre como foi possível cometer delitos
tão atrozes sobre seres humanos; seria mais honesto e sobretudo mais útil procurar
atentamente saber através de que processos jurídicos e dispositivos políticos tantos seres
humanos foram integralmente privados de seus direitos e das suas prerrogativas, ao
ponto de não ser delito qualquer ato cometido contra eles (de fato, tudo tinha se
tornado verdadeiramente possível). (1998, pp. 164-165, grifo meu)

Não estão estes jovens, passíveis de morte num grau sem precedentes? Não estamos
frente a uma curiosa conjugação de espetacularização e tortura, de corpo-espetáculo e
corpo-organismo, de “biopolítica” e “tanatopolítica”? Não está colocado aí o corpo na
expressão máxima do biopoder? Sobre isto, Basaglia já nos alertava: “Quanto mais as

O título do relatório da Anistia Internacional de julho de 2000 que analisa em especial a situação da
123

Febem-SP já anuncia claramente o caráter mortífero do empreendimento Febem: “Brasil. Desperdício de


Vidas. Febem-SP. Crise de direitos humanos e não questão de segurança pública”.
sanções perdem o seu valor e são substituídas pela tortura e pela morte como sanções
extremas, mais nos damos conta de que a reapropriação da vida significa tomar
contemporaneamente consciência também da morte como problema da vida” (apud
Pinheiro, 1984, p. 60).

A “vida nua”

Agamben, no livro O poder soberano e a vida nua, parte da hipótese de Foucault de que
a vida natural124 no início da Idade Moderna começa a ser incluída nos mecanismos e
nos cálculos do poder do Estado, operando-se então a conversão da política em
biopolítica125, para extrair daí as implicações desse ingresso da zoé na polis, isto é, da
politização da “vida nua”.

Sua indagação o levará a uma certa “complementação” da tese de Foucault, entendendo


que o que caracteriza a política moderna não é tanto o fato de a vida enquanto tal se
tornar um objeto eminente dos desígnios e das previsões do poder do Estado. O que é
decisivo é o fato de “o espaço da vida nua, situado originalmente à margem da ordem
jurídica, vir progressivamente a coincidir com o espaço político, de tal modo que
exclusão e inclusão, exterior e interior, bios e zoé, direito e fato entram numa zona de
irredutível indistinção” (1998, p.18). Acompanhemos um pouco mais esta a proposição
de Agamben.

O homo sacer é uma enigmática e obscura figura do direito romano arcaico, em que a
vida humana é incluída na ordem jurídica apenas sob a forma da sua exclusão – isto é,
sob a forma da possibilidade absoluta de, sem punição, lhe ser infligida a morte (idem,
p.17). O autor toma esta vida matável e insacrificável do homo sacer, como chave de
compreensão do paradigma político do Ocidente, chamando-a de “vida nua” (termo que
empresta de W. Benjamin).

É o caráter particular da dupla exclusão a que o homo sacer se encontra exposto que
interessa a Agamben destacar, na medida em que se avizinha do poder de soberania:
esta violência, a morte que qualquer um lhe pode infligir impunemente e que não é
classificável nem como sacrifício nem como homicídio, nem como execução de uma
pena, nem como sacrilégio, evidencia uma esfera-limite do agir humano que se mantém
numa relação de exceção. Esta esfera é para Agamben a da decisão soberana que, no

124
Vida natural como zoé, em grego, que exprimia o simples fato de viver, comum a todos os seres vivos,
diferentemente de bios que indicava a forma ou maneira de viver própria de cada indivíduo ou de um
grupo ou uma vida qualificada. A vida natural estaria excluída da dimensão da polis.
125
Segundo Agamben, a partir de 1977, nos seus cursos no Collège de France, Foucault começa a
sublinhar a passagem do “Estado territorial” para o “Estado de população” e o conseqüente aumento
vertiginoso da importância da vida biológica e da saúde da nação como problema do poder soberano, que
se transforma progressivamente em “governo dos homens” (Agamben, 1998, p.13): “Durante milênios, o
homem foi sempre o que era para Aristóteles: um animal vivo e, além disso, capaz de existência política;
o homem moderno é um animal em cuja política está em questão a sua vida de ser vivo” (Foucault, apud
Agamben, 1998, p.12).
estado de exceção, suspende a lei: é uma “forma extrema da relação que só inclui algo
através da sua exclusão” (idem, p.28), não podendo ser definida nem como uma
situação de fato, nem como uma situação de direito. Ela institui entre ambas um
“paradoxal limiar de indiferença”, em que “a violência se transforma em direito e o
direito em violência” (idem, p.39).

O que é capturado nesta relação de exceção, no banimento, é a “vida nua”: uma vida
humana residual e irredutível, que deve ser excluída e exposta à morte como tal, sem
que nenhum rito e nenhum sacrifício a possam resgatar. “Não se poderia dizer de
maneira mais clara que o fundamento primeiro do poder político é uma vida
absolutamente exposta à morte (vida nua), que se politiza através do fato de poder ser
morta” (idem, p.88).

Mas é com a análise da estrutura jurídico-política do campo de concentração que as


postulações de Agamben ganham enorme evidência: os campos nascem não do direito
prisional ou de sua transformação, mas do estado de exceção e da lei marcial e passam a
vigorar em situação normal, isto é, “o campo é o espaço que se abre quando o estado de
exceção começa a torna-se a regra” (idem, p. 161).

Assim, nos campos não só a lei é integralmente suspensa, mas fato e direito se
confundem e tudo “é verdadeiramente possível”. Ao realizar a exceção de uma maneira
permanente, produz-se uma zona de indistinção entre exterior e interior, exceção e
regra, lícito e ilícito e os conceitos de direito subjetivo e de proteção jurídica deixam de
ter sentido. “Espoliados de todo o estatuto político e integralmente reduzidos à vida nua,
o campo é também o espaço biopolítico absoluto, nunca antes realizado, em que o poder
não se confronta senão com a pura vida sem qualquer mediação” (idem, p. 163).

Mas Agamben ressalta que a vida nua não é um fato extrapolítico natural que o direito
se limitaria a verificar ou reconhecer; trata-se, antes, de um limiar em que o direito se
transforma sempre em fato e o fato em direito e em que estes dois planos tendem a
tornar-se indiscerníveis. É significativo que os campos surjam ao mesmo tempo que as
novas leis sobre a cidadania, ele é o acontecimento decisivo que assinala o próprio
espaço político da modernidade, “momento em que a política se torna biopolítica e o
homo sacer se confunde virtualmente com o cidadão” (idem, p.163); ele é “o signo da
impossibilidade do sistema funcionar sem se transformar numa máquina letal” (idem,
p.167). Agamben pergunta-se: o projeto democrático-capitalista não transforma em vida
nua todas as populações do Terceiro Mundo?126

Ele desenvolve então uma concepção de política contrária ao que estamos habituados a
representar, isto é, referida às concepções de direito do cidadão e de contrato social: ele
sustenta que “apenas a vida nua é autenticamente política” e “a violência soberana não
é, na verdade, fundada num pacto, mas na inclusão exclusiva da vida nua no Estado”
(idem, p. 104), retomando as teses de Hobbes em outra perspectiva.

126
Agamben percorre inúmeras situações para formular esta tese: dos campos de concentração ao habeas
corpus, da declaração dos direitos humanos à eutanásia, etc.
É necessário afastarmo-nos sem reservas de todas as representações do ato
político originário como um contrato ou uma convenção que marcaria de modo pontual
e definido a passagem da natureza ao Estado. Existe aqui, pelo contrário uma bem mais
complexa zona de indistinção entre nomos e physis, em que o laço estatal, tendo a
forma do banimento, é também, desde logo, algo não estatal e uma pseudonatureza, e a
natureza apresenta-se desde logo como nomos e estado de exceção. Este deficiente
entendimento do mitologema de Hobbes em termos de contrato e não de banimento
condenou a democracia à impotência sempre que se trata de enfrentar o poder soberano
e, simultaneamente, tornou-a constitutivamente incapaz de pensar verdadeiramente na
modernidade uma política não-estatal. (Agamben, 1998, p.106)

O banimento é justamente a força simultaneamente atrativa e repulsiva, que liga os dois


pólos da exceção soberana: a vida nua e o poder, o homo sacer e o soberano (idem,
p.107) e “a relação de exceção é uma relação de banimento” (idem, p.36).
A relação de banimento é, de fato, tão ambígua que nada é mais difícil que
livrarmo-nos dela. O banimento é essencialmente o poder de remeter algo para si
próprio, isto é, o poder de manter-se em relação com um exterior à relação, que é
pressuposto. O que foi votado ao banimento é remetido para a sua própria separação e,
ao mesmo tempo, entregue à mercê de quem o abandona, simultaneamente excluído e
incluído, liberto e, ao mesmo tempo, capturado. (idem, p. 106)

Assim, quem é banido não é simplesmente posto fora da lei, de modo a que esta lhe é
indiferente, é abandonado por ela, ficando exposto e em risco no limiar em que vida e
direito, exterior e interior se confundem. Dele não é literalmente possível dizer se está
fora ou dentro da ordem (por isso, na origem, “in bando”, “a bandono” significam em
italiano “à mercê de” e também “a seu bel-prazer, livremente”; assim, o significado de
“corriere a bandono”e “bandito” tanto é “excluído, abandonado” como “aberto a todos,
livre”...) (idem, p.36).

E Agamben vê, na vida do bandido, uma similaridade com a do homem sagrado:


a vida bandida não é algo de natureza selvagem sem nenhuma relação com o direito e
com a cidade; é pelo contrário, “um limiar de indiferença e de passagem entre o animal
e o homem, a exclusão e a inclusão: lobisomem, justamente, nem homem nem fera, que
habita paradoxalmente em ambos os mundos sem pertencer a nenhum” (idem, p.103).

Agamben insiste na necessidade de ter em vista uma política em que a vida nua deixe de
ser separada e tomada como exceção na ordem estatal, mesmo através da figura dos
direitos humanos, pois ele entende que a separação entre humanitário e político, a
separação entre direitos do homem e do cidadão só reproduz o isolamento da vida
sagrada sobre a qual se funda a soberania e mantém, involuntariamente, uma secreta
solidariedade com as forças que deveriam combater (1998, p. 129). Esta necessidade é
mais imperiosa ainda na medida em que se assiste a um progressivo alargamento, para
além dos limites do Estado de exceção, da decisão sobre a vida nua, em que consistia a
soberania.
Se, em todo o Estado moderno, existe uma linha que assinala o ponto em que a decisão sobre a
vida se torna decisão sobre a morte e a biopolítica pode, assim, transformar-se em tanatopolítica,
esta linha já não se apresenta hoje como um limite fixo que divide duas zonas claramente
distintas; ela é antes, uma linha em movimento que se desloca em zonas cada vez mais amplas da
vida social, em que o soberano entra em simbiose cada vez mais íntima não só com o jurista, mas
também com o médico, com o cientista, com o especialista, com o padre. (Agamben, 1998,
p.118)127

Se aceitamos essa vertente proposta por Agamben, segundo a qual estamos na vigência
de uma estrutura biopolítica de absoluta impossibilidade de decidir entre fato e direito,
entre norma e aplicação, entre exceção e regra e que no entanto decide incessantemente
sobre eles; se admitimos esta indiscernibilidade entre fato e direito, certamente a
democracia disjuntiva brasileira ganha novos ingredientes e a indiscernibilidade que
vimos desenhar-se –principalmente por meio das rebeliões – entre violência e política,
ganha novas urgências.

Voltemos ao paradoxo...: condenados à rebelião!

Estas vozes de rebelião nos contam, então, sobre diversas formas de fazer frente à
dominação. A diversidade de significados atribuídos às rebeliões pelos internos, revela
que elas mesclam interesses diversos, num campo de tensões mais multifacetado do que
se podia imaginar. Além disso, pudemos ver que os internos nada têm de ingênuos ou
desinformados (que são “laranjas” dos líderes, por exemplo), mas que se movem por
ações derivadas de seu próprio posicionamento moral, institucional, político.

Vimos como a Febem ao pretender situar a rebelião exclusivamente na perspectiva das


“lideranças” e da “resistência à mudança” ou ainda, ao situar a rebelião exclusivamente
na “perspectiva de crime”, quer retirar dela todo caráter de cunho político-institucional.

Quando se examina no tempo, a emergência destas rebeliões, pode-se ver um continuum


de tensões e lutas. Não foi possível fazer esta análise diacrônica em profundidade, mas
certamente isto revelaria com mais densidade que há interesses e situações bastante
diferentes em cada momento, ainda que a violência institucional se apresente como o
disparador de grande magnitude, como vimos no caso do estado de São Paulo. A
dimensão, quantitativa e qualitativa, de intensidade – que aí ganharam as rebeliões –
não pode ser compreendida se não se entende que São Paulo protagonizava uma intensa
violação de direitos nesta área, conforme denunciaram seguidamente o MP e o Poder
Judiciário (de primeira instância), o Legislativo (Rolim, 2001b) e até as pesquisas do

Agamben leva mais longe ainda sua problematização, colocando em questão a origem contratual do
127

poder estatal e toda a possibilidade de designar como fundamento das comunidades políticas algo como
uma “pertença”, pois se a relação política originária é o banimento, a política ocidental é desde o início
uma biopolítica que torna vã qualquer tentativa de fundar as liberdades políticas nos direitos do cidadão.
próprio Ministério da Justiça (1998), além dos organismos internacionais de Direitos
Humanos (ONU, 2001; Anistia Internacional, 1999, 2000, 2001) e de diversas entidades
nacionais de defesa e promoção de direitos.128

Mas, queremos acentuar o paradoxo que as rebeliões permitiram entrever:


“condenados à rebelião”, sem outra saída que a expressão espetacular da violência, mas
condenados à rebelar-se, a ser “contra-legal”, a reivindicar um “direito singular”, porque
“a lei está contra nós...”. Não são esses “condenados à rebelião” os que problematizam
estas fronteiras entre crime e violência legítima, entre fato e direito? Não são as revoltas
o ponto crítico desta indiscernibilidade, a emergência mesma destes hiatos?

Minha abordagem em relação aos episódios de rebelião da Febem-SP, evitou a


pergunta quanto a se seriam ou poderiam configurar uma via “revolucionária”. Ao
contrário, destaquei sua multiplicidade de sentidos, para fazer ver os atravessamentos e
as transversalidades nelas atuantes. Vimos, de outro lado, a necessidade ético-política-
teórica de descriminalizá-las. Preferimos tomar de Hobsbawm exatamente o ponto em
que ele vê no banditismo social um paradoxo, de Foucault a dimensão insurrecional da
história, para apostar na seguinte direção: Não será exatamente na brevidade trágica ou
dramática destes episódios de rebelião, nas fagulhas de indiscernibilidade entre
desordem e política, não será nesta fugacidade da revolta, nestes ritos incendiários, que
os adolescentes infratores secretam e alimentam (pelo menos no campo discursivo, do
imaginário social), nossas potências mais indômitas?

Se numa versão do condenados à rebelião, estes jovens parecem estar “abandonados a e


por uma lei que nada mais prescreve senão a si própria” (Agamben, 1998, p. 64)
permanecendo então num estado de exceção, nesta zona de indistinção entre lei e vida,
com seus corpos, feitos pedaços de carne, à mercê do outro; em outra versão, a do
contra-legal, parece ser possível “levar ao extremo a experiência do abandono”,
marcando uma tentativa de dissolução da lei, num movimento de estar “aberto a todos,
livremente...” Experiência-limiar de “indiferença e de passagem entre a exclusão e a
inclusão”, entre o fato e o direito. Por isso quis destacar da rebelião, sua dimensão de
revolta, seu “furor contra a medida”, sua “celeridade contra a gravidade”, seu “potencial
nomádico” (Deleuze e Guattari, 1997). Como nos lembra o próprio “bandido”: “o que
vale no banditismo é a revolta, depois tudo é de um conformismo...” e, como vimos
emergir nos depoimentos dos jovens, o que vale na rebelião é seu “choque liberal”.

128
Buscamos evitar o risco de emprestar às rebeliões uma racionalidade que os jovens não esboçaram...
Mas talvez esta hipótese do efeito reativo, contra-institucional, como resposta a uma violência maior, da
própria Febem-SP, não deixe de ser também um meio de colocar uma ordenação e de acreditar que se
houver formas democráticas, participativas e mais justas de convívio e portanto de pacificação social,
estas cessarão...
“Choque liberal” que se evidencia também na profusão de sentidos que ela
revela e também na fugacidade dos mesmos. Revolta que se performatiza na rebelião
como acusamento-supreendimento, porque, “abandonados a uma lei”, “à mercê da lei”,
“condenados a rebelar-se”, os “menores infratores (estão) na razão de processar, porque
a Febem não é o que se pensa, nem o que se diz...” Mas, “dissolvendo a lei”, numa ação
“contra-legal”, eles não “estão devendo nada, porque são linha de frente/ Tão prontos
para outra rebê levantar/E simplesmente é assim que eu tenho de pensar /Ladrão
apetitoso em cima do telhado/Quem não quer fugir, que fique preso sossegado....”
(27/11/2000, UE-15, 18a).

Sublevam-se e produzem com as rebeliões uma inversão das polaridades tradicionais


de inteligibilidade sobre a sociedade, uma inversão do eixo explicativo da lei e da
história chamando uma “explicação por baixo”:
de descobrir sob as formas do justo tal como ele está instituído, do institucional
tal como ele é admitido, o passado esquecido das lutas reais, das vitórias efetivas; (...)
sob a estabilidade do direito, redescobrir o infinito da história, sob a fórmula da lei, os
gritos de guerra, sob o equilíbrio da justiça, a dissimetria das forças. (Foucault, 1999,
p.66)

As rebeliões são fundamentalmente o entrecruzamento das dimensões: - de reação-


insubmissão (de desobediência); - de luta por direitos (fazer justiça) ou pelo “direito” a
“outro direito” (um “novo direito”?) e - de afirmação de si (presentificar-
se/performatizar-se). São atos hiper-realistas: conjugam a um só tempo comunicação
(visibilidade social), ação (articulação pragmática entre meios e fins) e atuação
(enunciação simbólica de si e de um coletivo).

Seu “efeito disruptor está no gesto violento que quebra, contra a disciplina, a
organização de tempo e espaço, que quebra a organização hierárquica”, que embaralha,
inverte os códigos institucionais; que desobedece, que reage; mas está também na
“quebra de uma posição dependente e reivindicadora, na quebra de uma certa concepção
de luta política” (Rolnik, em Guattari e Rolnik, 1986, p. 62) infletindo a
indiscernibilidade entre fato e direito na direção de uma pergunta por “outro direito” e
também na perspectiva de uma “ruptura existencial”, quando “a vida se insurge contra
aquilo que a confina...”

No paradoxo do “condenados à rebelião” e do contra-legal, expressa-se uma relação de


incitação recíproca, própria da resistência: a rebelião é esse entre a insubmissão da
liberdade e a captura institucional, esse limiar de passagem e o hiper-realismo destes
jovens é a forma-resistência, forma-rebelião pela qual eles desenvolvem seus processos
de subjetivação: linha de fuga, mas risco permanente de linha de abolição... (como
veremos no próximo capítulo).
Foucault destaca em Hobbes um outro sentido da dominação, lembrando-nos que não é
a derrota que fundamenta uma sociedade de dominação, uma sociedade de servidão,
mas o que se passou nesta derrota e de certa maneira independentemente dela: é o medo,
a renúncia ao medo, a renúncia aos riscos da vida que faz entrar na ordem da soberania
e num regime jurídico que é o do poder absoluto.
A vontade de preferir a vida à morte: é isso que vai fundamentar a soberania
que é tão jurídica e legítima quanto aquela que foi constituída a partir do modo da
instituição e do acordo mútuo.(...) a soberania nunca se forma por cima, por uma
decisão do mais forte... ela se forma sempre por baixo, pela vontade daqueles que têm
medo. (Foucault, 1999, pp.110-111)

Numa estranha composição como a brasileira – onde persistem formas repressivas e


genocidas de demonstração de força, associadas a padrões disciplinares e biopolíticos e
à ineficácia do estado de direito; num país onde “a exceção é a regra” (Romano,1984;
Pinheiro, 1984, 1991)129 – os modos de resistência não precisam de um lado “introduzir
o direito” e de outro “combater a sociedade de dominação”?

Se privilegiamos nesta análise o modo como os internos constróem os sentidos de suas


ações e como entendem as injunções políticas, históricas e institucionais que lhes
atravessam, se privilegiamos principalmente suas próprias narrativas num contra-
discurso ao da Febem, é importante agregar algumas informações que complementem
ou ainda situem o leitor no tocante ao contexto Febem-SP e aos acontecimentos-
rebelião. É importante esclarecer que os motivos alegados pelos jovens para as rebeliões
– principalmente para a imprensa - não coincidem necessariamente com os motivos
“apurados” nos processos jurídicos. É desde um lugar e função institucional que se
operam os diferentes discursos. Como não foi nossa intenção fazer uma apuração
objetiva dos fatos, apresentamos no Anexo 1 algumas informações relevantes que
podem balizar as narrativas dos internos, bem como uma cronologia dos acontecimentos
na Febem-SP, reunindo tanto os principais episódios de rebelião, quanto as denúncias
de violações de direitos e as ações desencadeadas pela Promotoria e pelo Poder
Judiciário. A cronologia é por si só bastante reveladora da “recíproca incitação” entre a
violação de direitos (Febem) e as ações dos jovens.

129
“Entre nós (refere-se à realidade brasileira), a exceção é a regra. (...) É por isto que os fuzilamentos, as
prisões cautelares e todas as demais “medidas preventivas” são aplicadas na prática e encontram tão
inexpressiva resistência. É também por este motivo que os agentes repressivos desejam sua legalização.
Consideram que o arbítrio já é visto como norma e a violência do Estado aparece como rotineira
(Romano, 1984, p. 245, grifo meu).
III. “Não Nasci para Semente”: o Hiper-realismo
como Modo de Subjetivação

Este capítulo pretende acompanhar a tematização do adolescente em conflito com a lei


no tocante aos seus processos de subjetivação, mas não tanto para destacar o impacto
perverso na formação dos sujeitos que os processos de segregação e institucionalização
produzem e nem tampouco para focalizar a construção histórico-política da figura do
adolescente infrator e das instituições das quais é objeto. Diversos estudiosos
empreenderam este trabalho, mostrando-nos como se deu no Brasil a produção social da
delinqüência e sua estreita relação com os mecanismos políticos, ideológicos e
institucionais130.

Privilegio as leituras que focalizam o sujeito e a construção de seus territórios


existenciais coextensivamente às estruturas sociopolíticas, elegendo especialmente
aquelas que colocam em foco a situação-limite que atravessa os adolescentes em
conflito com a lei, tematizando-a na forma do dilema, do trágico, do paradoxo, do
exacerbamento ou ainda do risco, permitindo vislumbrar suas conexões com as
“emergências” sociopolíticas do contemporâneo.

Restrinjo-me às reflexões e pesquisas brasileiras das últimas três décadas, quando um


pensamento crítico das instituições totais pôde se exercitar na esteira mesma do
processo de democratização que o país vivia ou já no período de vigência do Estatuto da
Criança e do Adolescente, quando os desafios da desinstitucionalização e da
implementação de uma lógica socioeducativa estavam em andamento. Trata-se, então,
de pensamentos que se constituíram numa resistência conceitual e operativa, na dupla
acepção do constituir-se: foram constituídos no âmbito mesmo da resistência e foram
importantes operadores de resistência. Eles foram todos produzidos no interior do
próprio “sistema Febem”: os autores que acompanharemos no próximo item
trabalharam como dirigentes da Febem (SP ou RS): Maria Lúcia Violante, Emir Sader,
Maria Ignês Bierrenbach, Isa Guará, em São Paulo, e Carmem Silveira de Oliveira, no
Rio Grande do Sul ou, no caso de Roberto da Silva, lá estiveram na condição de interno,
- e revelam a força deste impacto com o poder, ao modo do que Foucault (1992) aponta
no texto “ A vida dos homens infames”:
Afinal, não será um dos traços fundamentais de nossa sociedade o fato de o
destino tomar aqui a forma da relação com o poder, da luta com ou contra ele? O ponto
mais intenso das vidas, aquele em que se concentra sua energia, encontra-se
efetivamente onde elas se confrontam com o poder, se batem com ele, tentam utilizar-

130
Não percorreremos a história pela qual o adolescente infrator foi constituído como “doença social e
perigo moral para as cidades”, ou “classe perigosas”, ou “desviante” ou ainda “carente” de condições
materiais, psicológicas e sociais para viver de acordo com a lei. Ver: Altoé, 1990; Queiroz, 1984; Silva,
1997; Oliveira, 2001; Passeti, 1991 e 1995. Remeto o leitor principalmente a Mendez (1998) para a
análise da passagem da criança como objeto de “repressão-tutela” a “sujeito de direitos”. Ver também a
interessante “categorização” dos modelos de “tutela” do adolescente, proposta por Silva (1997), conforme
nota n. 8 deste capítulo.
lhes as forças ou escapar-lhes às armadilhas. (Foucault, 1992, p. 99)

Do mesmo modo que vimos, na narrativa do internos da Febem, os “corpos em


rebelião” neste impacto com o poder, são privilegiadas as leituras que, a meu ver, desde
outra posição, a do mundo adulto, exercitaram também a necessária “insurreição de
saberes” (Foucault, 1999) capaz de infletir a indiscernibilidade entre violência e
política, ordem e desordem na direção da construção de outros modos de existência
“sociopolíticossubjetiva”.

1. A tematização da juventude “infratora”: o paradoxo da


insubmissão

O dilema do decente malandro

Estudo exemplar dos anos 1970 foi produzido por Maria Lúcia Violante sobre “o modo
marginal de sobrevivência” dos adolescentes da Febem-SP. Analisando a criação do
personagem marginal e dos atributos a eles conferidos (agressivos, revoltados,
insensíveis, frios, sujos, etc.) como construção ideológica, como construção de sentido
para dissimular as reais relações de força no modo capitalista de produção, a autora
sustenta que “marginal é condição de vida que lhe está socialmente reservada”. Sob o
ponto de vista psicossocial, os comportamentos dos chamados marginalizados devem
ser considerados manifestações e não causa de sua condição marginal de vida.

São manifestações de revolta, de insubmissão às condições de vida que lhes


são socialmente impostas. Não podem ser considerados comportamentos
revolucionários porque se dão ao nível individual, competitivo, de modo desorganizado,
demonstrando o limite possível da consciência desses indivíduos e a presença das
crenças e valores dominantes. Não são, por isso, comportamentos transformadores de
sua condição de vida, senão mantenedores. Não são a causa da desordem social, mas
se constituem na sua denúncia. (Violante, 1982, p. 186, grifo meu)

Vemos apresentar-se aqui a vertente marxista de análise, atravessada pelo modelo


conceitual de revolução, mas a autora, sustentando também uma positividade na ação
destes jovens131 formula sua constituição subjetiva ao moldes de um dilema, o dilema

131
É neste momento do trabalho social que se forjará como diretriz para a Febem o menor como “sujeito
de sua própria história”. Entre as diretrizes da Febem-Sp, adotadas a partir de 1983, encontramos:
“recolocar o menor na condição de sujeito de sua própria história”, o que significaria alterar as práticas no
sentido de: “estimular a participação ativa ou seja discutir, influir e decidir seu próprio processo
educativo”...”prover o menor de elementos críticos, que lhe permita uma participação crítica em seu meio
e na sociedade; “propiciar ao menor o desenvolvimento da solidariedade, da possibilidade de
grupalização, para que sua participação não seja individualizada, mas coletiva, em que o individual esteja
intimamente relacionado com o bem comum” (Febem-SP, Diretrizes educacionais, 1984, pp.8-9, mimeo)
do “decente malandro”: esta curiosa e paradigmática forma de subjetivação que coloca
no jovem, como efeito identitário, uma tensão, um conflito permanente entre sentir-se
“decente” e ter que ser ou um “regenerado” ou um “malandro”.
Ser “decente” é ser socialmente aceito, apesar de se sentir marcado, ou ser
“malandro” e ser respeitado no grupo. A decência implica a acomodação às suas
condições marginais de sobrevivência, sem lhe garantir a desejada aceitação social e
sem o “livrar” das “garras” da polícia. A malandragem expressa a insubmissão às suas
condições anti-sociais de existência; não as transformará, viverá encalacrado entre
prisão e morte, caso não seja cooptado pela polícia, tornando-se um “sangue ruim”.
(Violante, 1982, p. 182, grifo meu)

A rebelião da pobreza e a “orfandade política”

É por meio das análises de Emir Sader e Maria Ignês Bierrenbach, na década de 1980,
que encontraremos a radicalidade desta posição de insubmissão atribuída ao adolescente
infrator: “O aumento da criminalidade e sua extensão a faixas de idade menores faz
parte de uma rebelião da pobreza, de uma guerra cada vez menos surda pela
sobrevivência, para não serem incluídos nas centenas de milhares deles que morrem
vítimas do genocídio, que os perversos mecanismos do capitalismo brasileiro
engendram e reproduzem” (Sader, 1987, p 34, grifo meu).

Configurava-se neste contexto, a idéia de uma cultura da violência, no bojo da


concepção da cultura da pobreza.132 A cultura da violência é cunhada para evidenciar o
processo de socialização que molda o adolescente, principalmente o infrator, onde ao
invés do “reconhecimento paulatino da existência do outro, de convivência, de conflito
e de solidariedade, instala-se a lei da força: onde tudo o que possuem foi conseguido
com violência e tudo o que lhes foi retirado, foi extorquido com violência” (Sader,
1987, p.30). Como graus instintivos de consciência social, esse tipo de vida produziria e
reproduziria a delinqüência como meio de luta pela própria vida (idem, p.33). Essa idéia
de inconformismo, de insubmissão, coloca o adolescente infrator numa posição similar
ao bandido social como figura de resistência à opressão, “produto e contrapartida da
passividade geral dos pobres”, tal como já assinalara Hobsbawm (1975, p. 31).

A década de 1980 defrontou-se com as dificuldades no processo de


desinstitucionalização da violência e abertura institucional, de onde se entendia que as
rebeliões e as crises denunciavam não o desvio do jovem, mas o desvio da instituição. A
instituição Febem, no bojo das análises de Foucault e Basaglia é compreendida, então,
132
Conforme assinala Sader, o antropólogo norte-americano Oscar Lewis popularizou o termo cultura da
pobreza, retirando a pobreza de um estado de privação, desorganização ou de falta e inscrevendo-a numa
perspectiva positiva: “tem uma estrutura, uma disposição refletida e mecanismos de defesa sem os quais
os pobres dificilmente poderiam tocar as coisas para frente. Em resumo, é um sistema de vida
notavelmente estável e persistente, que passou de geração a geração ao longo de linhas familiares” (Em
Los hijos de Sanchez, apud Sader, 1987, p. 33).
como “comporta da ‘marginalização social’ ”, e a “instituição fechada como um dos
tripés de sustentação do poder das elites dominantes, ao lado da polícia e da justiça
penal” (Bierrenbach, 1987, p. 115). Admitindo os limites da tentativa de
democratização da Febem, na sua gestão como presidente, Bierrenbach diagnostica:
Reconhecem-se os desvios da instituição dos objetivos para os quais foi
retoricamente concebida; contudo, instada a retomá-los, mediante adequação de suas
práticas, não o consegue, não se desprendendo de sua imagem desviante. Esta, na
realidade, reflete a essência do papel que lhe foi destinado e que permanece arraigado à
sua história: de manutenção de delitos num nível aceitável para a sociedade, sem
ameaças à ordem econômico-social vigente. Caso a instituição não cumprisse a função
delimitadora dos delitos, estes tenderiam a assumir proporções incontroláveis e até
mesmo conduziriam às lutas políticas que se visualizam nos horizontes destas práticas
ilegais. (1987, p. 115-116, grifo meu)

O título do livro da equipe de gestão da Febem neste período, escrito após sua demissão,
é curioso: Fogo no pavilhão: uma proposta de liberdade para o menor. O longo artigo
da ex-presidente Maria Ignês Bierrenbach é concluído com a cena dos internos apoiados
às grades dos muros da Febem, na rebelião de 24/02/1986, gritando: “Liberdade!
Liberdade! Liberdade!” De fato, vemos aqui, esta fronteira das práticas ilegais com as
lutas políticas ganharem a cena e a rebelião mesma, o “fogo no pavilhão”, ser o lugar de
voz dos internos, um lugar de “proposta”.

Se havia aqui um esforço de mudança institucional acompanhando o processo de


democratização do país, eles já avaliavam os limites que esta mesma fronteira com o
político deixava para a temática do “menor”. A situação de “irregularidade” social do
contingente majoritário das crianças e jovens do país (“irregularidade do jovem”, tal
como formulado pelo Código de Menores) que os jogará na luta pela sobrevivência nos
espaços residuais da sociedade, na chamada cultura da violência, os lançará, como
analisa Sader, numa “dupla orfandade”:
Situados no espaço vazio entre a institucionalidade liberal e o classismo
sindicalista, os milhões de crianças e jovens carentes, abandonados e infratores ficam
relegados a uma orfandade política. Situação mais grave ainda pela incapacidade, até
aqui, para eles, de se constituírem como sujeitos de suas próprias lutas. Enquanto outras
minorias políticas – como as mulheres, os negros, os índios, os homossexuais, os idosos
e, de forma ainda inicial, os presos – têm conseguido congregar-se para assumir sua
condição de dominados e discriminados, os menores, junto com os doentes mentais, não
foram até agora capazes de dar esse passo emancipador inicial. (Sader, 1987, p. 22)

Cabe, então, perguntar: podem efetivamente dar conta desta luta, quando estão, como
diz o próprio Emir Sader, institucionalizados “numa relação em que a sociedade devora
seus próprios filhos, sepultando-os em organismos totalitários, depois de classificá-los
como excedentes e indesejáveis...” (idem, p.30)?
Podem, segundo ele mesmo analisa, ir à luta com os meios que encontram disponíveis, à
falta de organizações sociais e políticas adequadas para que os setores pobres e
majoritários da infância e da juventude lutem de forma organizada e plenamente
conscientes por seus próprios interesses. “De alguma forma, a diferença entre uma
criança abandonada e uma infratora é que esta última não se conformou com a pobreza,
a miséria, a provocação e a expropriação da sociedade de consumo, arbitrariedade
policial e judiciária, os muros fechados das instituições totais. Não se conformou e foi à
luta...” (idem, p. 33).

Reencontramos aqui, com outras tonalidades, a temática do “menor como sujeito de sua
história”, como vimos na análise de Violante. Se aí ele realiza a denúncia, protestando,
mas reiterando o modo capitalista de produção, se era assim um analisador do modo
capitalista de produção e precisava ser apoiado para ser sujeito de sua história, aqui, ele
já aparece fazendo uma ação mais propriamente política, ainda que limitada e
desorganizada.

Vemos esboçar-se também outra questão anunciada no início deste trabalho: Podem os
de menor-idade serem sujeitos de suas próprias lutas? É possível uma história das
revoltas infantis?

O paradoxo moral dos adolescentes em conflito com a lei

Em recente pesquisa, Isa Guará (2000) toma esta reiterada e atual expressão dos
internos da Febem – “o crime não compensa, mas não admite falhas” – como expressão
máxima do paradoxo moral que os atravessa. Estudando os “dilemas morais” vividos
por estes adolescentes, ela mostra como esta expressão aponta a dualidade de suas
referências de ação, presentes em duas ordens morais: a da ética do trabalho, definida
pela comunidade e família pobre e a do código e exigências do mundo da criminalidade.

O crime não compensa pela certeza da punição e da morte, pela frustração de não
alcançar a riqueza, perdida na efemeridade do consumo imediato e fugaz. Mas o crime
também não admite falhas para os que assumem seus códigos, sendo que a principal
falha é a delação (Guará, 2000, p. 185). Na primeira afirmação pode-se ler a
compreensão dos perigos e dos riscos envolvidos em sua escolha de vida, reveladora de
uma consciência moral utilitária, que cogita controlar-se em função das desvantagens e
conseqüências das transgressões. Já na segunda, numa clara coincidência com o
pensamento dos modernistas, a certeza de que, se a vida é perigosa, agir é envolver-se
sem arrependimentos ou medos, é ir às últimas conseqüências – matar ou morrer (idem,
p. 225). Para Guará, a consciência deste paradoxo que se aplica aos internos da Febem
fala também da “metáfora da modernidade que devora seus filhos num movimento
antropofágico”.
Trata-se então de uma moral híbrida ou dilacerada que tenta continuamente encontrar
uma unidade e se recompor; onde o bem e o mal são continuamente relativizados e onde
os freios afetivos são fontes importantes de energia e estabilidade para contrabalançar a
força da punição social.
Os jovens que convivem com essa dupla vinculação moral sentem-se de certo
modo, tolhidos pela perda de poder e de reconhecimento e submetidos à dominação das
forças perversas que presidem as atividades e a cultura da criminalidade. Por outro lado,
é a adesão a essa mesma cultura que oferece a ilusão da onipotência e a fantasia da
dominação. Sua identidade é marcada por essa indefinição: são ao mesmo tempo os
filhos “humildes” dos trabalhadores pobres urbanos e os corajosos ladrões que
provocam o medo social. (Guará, 2000, p. 228)

Embora a pesquisa tenha demonstrado que os jovens tendem a demonstrar empatia,


mostrando-se sensíveis e solidários com os mais fracos, especialmente as pessoas de sua
comunidade, o “colocar-se no lugar do outro” ou “assumir uma outra perspectiva” ainda
é um aspecto frágil de seu desenvolvimento quando se trata de enfrentar a contradição
entre a moral convencional, que se viabiliza na ética do trabalho, e a moral do “mundo
do crime”, ou seja, quando o que está em jogo é sua coerência e integridade psicológica
e social. As experiências de incerteza e contradição que vivenciam produzem também
um discurso maniqueísta, próprio de uma moral heterônoma, linear e pouco flexível,
que recorre sempre a polarizações – sangue bom/sangue ruim; ladrão/polícia; rico/pobre
–, com base em um padrão radical de julgamento e de conduta (Guará, 2000, p. 185).

Além disso, a carga emotiva presente nos dilemas relatados pelos jovens que
participaram da pesquisa e as discussões em grupo permitiram inferir que, devido à sua
situação de maior vulnerabilidade, o critério ético dos jovens infratores da Febem-SP
parece estar mais vinculado à ética do “cuidado” do que a da “justiça” (idem, p. 220).
Considerando que os jovens internos pertencem a uma sociedade e a uma comunidade
concreta, a autora relembra que os elementos históricos, culturais e sociais, que
conformam a situação de exclusão social de parcela significativa de jovens
delinqüentes, são também responsáveis pelas contradições, dissonâncias e instabilidade
pessoal, social e moral dos sujeitos. Isto é, os jovens que praticam delitos não têm
vivenciado situações que promovam seu desenvolvimento moral, além do que sua
própria condição social e o ambiente moral da sociedade como um todo, não têm
contribuído para uma mudança dos padrões morais desses jovens (idem, p.224).

Finalmente Guará assinala que eles não são nem “amorais e nem heróis de uma nova
revolução social, eles são porta-vozes dos dramas e das contradições sociais” e insiste
em que é preciso que a justiça distributiva – em forma de políticas sociais – se efetive
mais do que a punitiva. Uma alteração legal, que resulte apenas no aumento da
repressão e na reclusão dos adolescentes em prisões de adultos, contribuiria apenas para
reforçar a moral heterônoma, fazendo-os pautar sua vida não em metas de
desenvolvimento, mas em estratégias de acomodação aos códigos perversos do crime
(idem, p. 205).
A “criminalização” da infância e da juventude e os mecanismos de
resistência

Já o estudo de Roberto da Silva (1997) ganha especial interesse para nosso foco de
trabalho, pelas seguintes razões:

 Ele pesquisou especialmente os destinos e a trajetória de institucionalização da


primeira geração de crianças internadas na Febem, por abandono – do abandono
ocorrido entre 1958 e 1964, até o final da década de 90 – e as práticas
pedagógicas que resultaram na criminalização de um número tão grande de
crianças que antes não tinham nenhum histórico de infração ou de criminalidade.
 Ele mesmo é um destes sujeitos e é essa condição peculiar que inscreverá a
pesquisa como uma estratégia política, que objetiva “caracterizar a
responsabilidade do Estado no processo de criminalização da criança e do
adolescente sob sua tutela” (Silva, 1997, p.30).133 Também por ter vivido na
própria pele os “mecanismos de resistência” ao processo de institucionalização
este será um dos seus particulares interesses de pesquisa, sendo que a própria
pesquisa passa a configurar um dispositivo de resistência:
A compreensão dos mecanismos de funcionamento do micromundo das
instituições e a percepção dos seus estreitos limites ao meu desenvolvimento me
levaram a instrumentalizar tais mecanismos de resistência, de forma que eu pudesse
trabalhar na modificação do meio e de minha própria situação. Passei a compreender a
lógica que orienta o funcionamento das leis penais e a aplicação das penas, assim como
busquei compreender a forma pela qual a sociedade legitima ao Estado a prerrogativa de
ter pessoas sob sua tutela. (...) Não posso afirmar que tenha desatado definitivamente
todos os laços – eles são suficientemente fortes para manter uma pessoa em relação de
subordinação e de dependência pelo resto da vida e o Estado não abre mão deles
facilmente –, mas desenvolvi a capacidade de auto-determinação, um senso crítico e
uma capacidade de argumentação que me permitem desatar os poucos laços que faltam.
(idem, p.173)

Silva (1997) postula que é na fase de “institucionalização” da criança órfã e


abandonada, que foi característica predominante e particular do sistema
Funabem/Febem, idealizados sob o espírito autoritário da doutrina da segurança
nacional, a partir de 1964,134 que se processa a “criminalização” da infância e da

133
Em termos metodológicos o autor valeu-se de importante estratégia: ele constrói uma avaliação
bastante precisa dos danos causados pela institucionalização prolongada a partir da comparação entre o
laudo criminológico (pós-institucionalização) e o laudo psicopedagógico (da época da institucionalização)
do interno, configurando assim tanto a omissão, quanto a ação do Estado na construção da identidade
criminosa.
134
Silva (1997) propõe as seguintes fases na história da assistência à criança e ao adolescente: filantrópica
(1500-1874); filantrópica-higienista (1874-1922); assistencial (1924-1964); institucional (1964-1990);
desinstitucionalização/ECA (1990-?).
adolescência órfã e abandonada. Ou seja, trata-se de crianças e adolescentes que não
tinham um destino previamente traçado, muito menos uma “índole criminosa” que as
empurrou para a criminalidade, mas que foram profundamente vitimadas por este
processo de institucionalização: é a forma mesma de socialização dos internos, a
interação entre grupos e subgrupos e a utilização de alguns mecanismos de resistência
que forjam a “identidade institucional” que, ao longo do ciclo de institucionalização,
metamorfoseia-se em “identidade delinqüente”, posteriormente consolidada pela
reincidência.

Os dados da pesquisa revelam que 35,9% destes “ex-menores” incorreram em algum


tipo de infração penal depois da desinternação, prenunciando o caráter nefasto desta
proposta de “socialização”. Destes, 66% foram presos por delitos cometidos em três
anos ou menos depois da desinternação, 14% foram presos por tê-los cometido no
período médio de dois anos ou menos e cerca de 11% incorreram na mesma situação em
um período médio de um ano. O maior contingente de ex-menores que passaram a
delinqüir e que, ao final, foram parar no sistema penitenciário, teve o seu período de
institucionalização mais intenso e a sua desinternação nessa fase “institucional”.
Somente os desinternados depois de 1964 enveredaram pela carreira criminosa, ao passo
que na fase “assistencial” nenhum ex-menor incorreu na delinqüência ou na
criminalidade (idem, p.155).

Ele conclui que esta primeira geração de ex-menores da Febem, criada sob o jugo da
disciplina e da obediência militar não se tornou infratora dentro da própria Febem, mas
aprendeu a arte de usar a violência como mediadora de todas as suas relações; a
camuflar seu próprio eu sob a máscara de uma identidade institucional e a identificar a
instituição como sua protetora e a sociedade como sua inimiga: “O tornar-se infrator foi
a resposta comportamental do menino à violência simbólica com que se defrontou na
sociedade e com a qual ele não estava preparado para lidar. Isso demonstra que a
desinternação foi o momento crucial para todos eles...” (idem, p. 118).

Silva preferirá falar de “reincidência institucional” para contextualizar a “virtual


incapacidade de viver e orientar-se fora do quadro referencial tão intensamente
introjetado pela vida institucional, especialmente quando esta foi a única fonte de
valores e de referências para o indivíduo” (1997, p. 177) e de uma “pedagogia do
crime”, esta prática sistemática de formação e consolidação de identidades criminosas,
reforçada e estimulada pelas ações e omissões da instituição e dos agentes
institucionais.

Daí chamar de “filhos do governo” ao universo de crianças, hoje adultos, que receberam
entre 1964 e 1990 uma sentença judicial de abandono e uma sentença definitiva de
internação até os 18 anos e que tiveram suas identidades, seu caráter e sua personalidade
formados enquanto estavam sob tutela do Estado, para acentuar as conseqüências da
ingerência do Estado na questão do “menor” como um “problema de segurança
nacional”: a enorme dívida social que o país tem para com essas crianças e jovens – das
quais foram subtraídos “mais que os direitos de cidadania, os direitos naturais e de
dignidade de qualquer ser humano”–, bem como a necessidade de reparar a injustiça
cometida: “restituir-lhes a dignidade própria de todo ser humano não pode ser entendida
como um gesto de benevolência nem como uma concessão do Estado” (idem, p.191).

Silva define os “mecanismos de resistência” como uma antítese ao conformismo em


relação ao processo de institucionalização e como o conjunto de esforços para a
preservação dos fatores que compõem a subjetividade do indivíduo. Se as estratégias de
fuga, são a busca da liberdade para o corpo, os mecanismos de resistência o seriam para
a preservação da subjetividade, sendo então determinados pelo quanto de auto-estima o
indivíduo consegue reunir para motivar suas atitudes. A ênfase aqui está colocada nos
esforços mentais, uma vez que ele considera também que sendo a vida física na
instituição uma rotina entediante, ociosa, com uma rígida delimitação dos espaços e
controle dos corpos e dos movimentos, a vida, naquilo que ela tem de mais dinâmico, de
livre e de criador, acontece efetivamente no plano da mente (idem, p.162).

O autor propõe também um critério de qualificação (ou melhor, de discernimento)


destes mecanismos de resistência, distinguindo as situações em que a resistência projeta
o indivíduo numa escalada ascendente de evolução e de aperfeiçoamento, rumo à
construção de sua própria identidade, numa confrontação com os mecanismos
institucionais daquela que conduz para a auto-exclusão e para a degeneração na
instituição.

No primeiro caso, ao se sentir pressionado pela estrutura institucional a apresentar um


substitutivo para os valores inerentes ao status que lhe querem impingir, o indivíduo
consegue sobrepor-se a todas essas injunções e patentear seus próprios valores, como
marca distintiva de sua individualidade, evidentemente que com conflitos advindos da
luta pela sobrevivência em situações tão adversas.

No segundo, a incapacidade de acionar positivamente os mecanismos de resistência


levam ao caminho da exclusão social, com o indivíduo “incorporando de corpo e alma”,
o status institucional e dele se servindo, assim como dos recursos a ele inerentes para
assegurar o seu espaço e angariar respeito dentro do micromundo das instituições (Silva,
1997, p. 169). Tal fato gera, por sua vez, uma cultura da exclusão em que as pessoas
passam a re-elaborar suas experiências em um processo de desenvolvimento limitado
pelas próprias condições de exclusão.

Silva entende que é especialmente nas respostas às situações-limite com que todo
indivíduo institucionalizado vai ter de se defrontar, onde o orgulho pessoal, o amor-
próprio e a capacidade de reação estão peculiarmente convocados, que se constituirá um
divisor de águas na formação dos estigmas, da identidade institucional, dos sentimentos
de inferioridade e de outras patologias. Ao indivíduo institucionalizado aparecerão
inúmeras ocasiões em que a estrutura do micromundo o convidará a exercitar sua
capacidade de resistência. Conscientemente discernidas e avaliadas, essas oportunidades
permitem que ele se supere na elaboração de suas respostas, caso contrário surgem
processos de resistência não para projetar-se fora do micromundo, mas para assegurar a
sobrevivência dentro dele. Além disso, quando a estrutura institucional impõe um limite
ao exercício da capacidade de resistência individual, torna-se necessário, então, a partir
do ponto de saturação, que tal capacidade seja dimensionada para uma resistência
orgânica, isto é, em que ele passe a exercer sua capacidade de resistência no sentido da
evolução coletiva, sem a qual ele próprio não terá mais espaço para se desenvolver.

O autor alerta que, se as resistências se expressam em planos tanto comportamentais


quanto na estrutura psíquica, pode acontecer que frente às pressões do meio
institucional se relegue a um segundo plano a resistência comportamental, por sua
inviabilidade e ela passe a ser exercida internamente, “em uma íntima e surda batalha”,
sendo “mortificante travar uma batalha psicológica dentro de uma instituição de cuja
estrutura não se conhecem todos os elementos constitutivos” (idem, pp.168-169).

Ele nos conta que dada sua possibilidade da percepção das dimensões físicas e
psicofísicas do micromundo das instituições, “questionou-se se seria possível ao
homem, com o exercício dos seus recursos cognitivos, apreender pela via do intelecto
toda a multiplicidade de implicações que tem a vida institucional” (p. 171), como a
tentar levar ao extremo esta batalha psicológica.

E concluiu que é a partir dessa possibilidade de viver “na fresta entre mundos” (p.172),
de estar na fronteira entre o micro-mundo do crime e o mundo livre, vivendo os limites
tangíveis de cada um, que se agudizaram para o sujeito-autor da pesquisa a necessidade
de discernimento.
Atingir esse limite significava também, para mim, uma consciência tão forte e
tão latente quanto às limitações que esse micromundo me impunha, que eu só poderia
continuar vivendo nele se fosse para transformá-lo ou para me livrar completamente
dele. (idem, p.172, grifo meu)

Ou seja, para Silva, o único meio eficiente para escapar da “teia macabra institucional”
é responder de modo diverso ao imposto pela contracultura institucional (ou o
micromundo da prisionização).

O ato infracional como busca exacerbada de autonomia

Carmen de Oliveira (2001) enfatizará no ato infracional sua dimensão de resposta à


omissão social em um país de “direitos virtuais”. Ele configura-se como uma recusa
recíproca de integração: a marginalização que a sociedade dirige à juventude de
periferia se faz acompanhar de uma recusa destes jovens aos parâmetros socialmente
aceitos. O delito expressaria, então, essa “zona de vazio para a participação na vida
pública”, onde os adolescentes são “fortemente convocados ao palco principal do
cenário contemporâneo”, mas “sem usufruir as prerrogativas da cidadania” (Oliveira,
2001, p.99).
Ou seja, diante da recusa de reconhecimento simbólico desses jovens, frente ao
desprezo e indiferença a que estão submetidos (mais acentuadas ainda frente às
desigualdades sociais do cenário brasileiro), é esperado que a instância da lei se faça
valer pela força bruta, que eles busquem inventar outro espaço, um deslocamento de
lugar, o que permite definir o delinqüente juvenil como “um adolescente desalojado que
busca de forma exacerbada um atalho de reconhecimento” (idem, p.64) e o delito
juvenil como “a busca (exacerbada) de autonomia” (p.106). Embora seja demandado a
escolher entre as duas formas dominantes do laço social, a reivindicação e o
conformismo, ele identifica um terceiro modo entre exigir e resignar-se: a infração,
misto de subversão do poder do outro e busca de tutela social.

A perversa combinação de “exclusão” e “integração” (pela via do consumo) é também


apontada pela autora como um novo “divisor de águas”: “estamos diante não apenas de
uma desapropiação material de um majoritário segmento da juventude brasileira, mas de
uma desapropiação simbólica, que torna o adolescente suburbano mais vulnerável a uma
decepção consigo mesmo pela comparação com esse outro padrão que o mostra
insuficiente, tornando-se presa fácil da armadilha da idealização do outro”(Oliveira,
2001, p. 42).

No entanto, numa sociedade onde o poder está em todos os lugares e em nenhum, o que
desampara os adolescentes, esta busca suscita, via de regra uma rebeldia reativa (p.106)
e uma auto-afirmação mais como busca narcísica de reconhecimento do que como
emancipação.
O sentido desta rebeldia se dá em uma relação de forças segundo a qual elas
reagem, buscando adaptação no mercado cultural, as vantagens da normalização, de ser
“como todo mundo é” (...) estamos diante de uma vontade domesticada, pois não se
trata de um devir-outro que escapa à ordem dominante; ao contrário, é nela inspirado e
trabalha para o seu reforço. (...) Trata-se de uma desobediência que pode ser até
interessante à ordem vigente pois, via de regra, é catártica, imobilista, passiva e
individual. Não se trata de uma desobediência civil coletiva capaz de renovar os termos
do pacto civilizatório. (Oliveira, 2001, p.103)

O predomínio de manifestações de autonomia de cunho reativo não levaria a um campo


de individuação, ao contrário, deixa os adolescentes mais “enredados na teia do controle
da cultura narcísica na contemporaneidade”, reforçando a ilusão infantil de completude.
Na medida em que esta “autonomia reativa” potencializa um modo dominante de
subjetivação, sem choques nem contradição e que tem a arbitrariedade como principal
premissa, ela não é resistência, mas efeito e reprodução do individualismo
contemporâneo, instaurando um outro tipo de tirania: a ditadura de “quem fala mais
alto” (idem, p.105)135

135
A autora ressalta que nesta lógica encontram-se tanto os jovens totalmente incluídos, quanto os
excluídos, os onipotentes e os impotentes, vinculados pela mesma política do desamparo.
Carmen de Oliveira também critica tanto as atitudes de responsabilização dos internos
pelos confrontos e violências (rebeliões), quanto a que glamuriza e enaltece a violência
juvenil. Ela aponta a cilada dessas posições, tendo como referência a psicanálise: “indo
no sentido de uma repressão social, confirmar para o adolescente sua queixa de ser
vítima de um mundo injusto; ou, em nome de uma compreensão educativa, negar essa
manifestação intempestiva do sujeito desejante, em benefício de uma cumplicidade
egóica” (Rassial, apud Oliveira, p.173).

Portanto, dentre os desafios que estão colocados, trata-se de pensar como mobilizá-los a
uma rebeldia ativa e como agenciar novas formas de lidar com a liberdade que não seja
o modelo “fora-da-lei”? (idem, p.100).

Mas Oliveira (2001) ressalta que não pode ser ignorado que, em muitos casos, estamos
diante de adolescentes para quem a própria vida perdeu o sentido. Ela exemplifica com
o relato de uma funcionária: “...em uma dessas últimas rebeliões, um adolescente jogou
um botijão de gás no fogo e não saiu de perto. Alguém perguntou se ele não pensou que,
se aquilo explodisse, ele iria junto. A resposta foi simplesmente essa: ‘E que diferença
faz?’ ” (idem, p.188).

Do mesmo modo, ela entende ser um equívoco considerar as bravuras juvenis de


arriscar a pele ou de valorizar a força física manifestações de coragem. Colocar-se em
situações de alto risco e testar os limites, faz-se acompanhar do fantasma onipotente de
aproximar-se da morte sem se deixar vencer por ela:
Uma ilusão infantil de imortalidade, mas também uma forma de driblar a
morte como uma metáfora de não se deixar minguar em vida.(...) Se é verdade que
estamos todos desamparados, é mais provável que o adolescente suburbano vivencie
esta natural orfandade de um modo muito mais dramático. (Oliveira, 2001, p.114, grifo
meu)

Para a autora, a via niilista e o caráter mortífero instalam-se se não há matéria de


expressão que dê consistência a essas sensações e principalmente quando este
empreendimento é pilotado por forças reativas, como se pode constatar pelo elevada
mortalidade por causas violentas entre os jovens no país.

Intensificar o paradoxo

Podemos extrair desse panorama conceitual sobre a deriva delinqüente na juventude,


algumas observações:

 Evidencia-se insistentemente o caráter ora dilemático, ora paradoxal da participação


desses jovens na trajetória criminal: o “decente malandro”, a ética do trabalho X
ética da malandragem; ou “o crime não compensa, mas não admite falhas”.
Insubmissão, contestação, denúncia... mas, reprodução do sistema, encalacramento
entre prisão e morte, como vimos com Violante; rebelião da pobreza, instintiva
consciência social e dupla orfandade política (incapacidade de serem sujeitos de
suas próprias lutas e espaço político vazio onde situar suas lutas), como vimos com
Sader; filhos “humildes” dos trabalhadores pobres urbanos e “corajosos” ladrões que
provocam o medo social; consciência moral utilitária, moral híbrida ou dilacerada,
como vimos com Guará; posição que provoca um desvelamento da função
institucional: a “manutenção de delitos num nível aceitável para a sociedade, sem
ameaças à ordem econômico-social vigente” e, ao mesmo tempo, o vislumbrar das
“proporções incontroláveis que conduziriam às lutas políticas nos horizontes destas
práticas ilegais”, como vimos com Bierrenbach; resposta à omissão social, mas
reprodução do individualismo contemporâneo, “rebeldia reativa”, como vimos com
Oliveira. Parece confirmar-se ainda a hipótese de Hobsbawm (1975), ao enunciar o
paradoxo e a tragédia do banditismo social: “para serem defensores de seu povo,
teriam de deixar de ser bandidos”... ; “divisam a terra prometida, mas não podem
alcançá-la...”.

 A adesão desses jovens, muitas vezes circunstancial e carregada de dúvidas – como


vimos com a “moral híbrida”, a “rebeldia reativa”, ou a resistência como “auto-
exclusão” –, aos valores e regras de uma atividade que os coloca cotidianamente em
contato com a morte, com o risco, com a guerra, faz desses indivíduos personagens
trágicos, em conflito consigo mesmos, com seus parceiros, com suas prováveis
vítimas, como sugere Zaluar (1994, p. 216): “A autoconsciência destes conflitos,
embora esteja longe de ser completa, não pode ser confundida com a cegueira
absoluta de quem apenas segue os determinismos do social e do cultural”.

 Esta “conflitualidade com a lei”, é também vista como uma “forma-revolta” e


indicativa de uma dimensão “protopolítica”, como vimos com Violante e Sader;
bem como das condições gerais de subjetivação no mundo contemporâneo (Peralva,
2000; Oliveira, 2001; Diógenes, 1998), podendo configurar, por vezes, como nos
indicou Wieviorka, uma busca, uma “produção de sentido”, um “esforço para
produzir por meios próprios aquilo que antes lhe era dado pela cultura ou pelas
instituições”, chegando a expressar-se como “projeção de si mesmo até a morte
eventual”; ou então como “apelo à subjetividade impossível ou infeliz, expressão de
recusa pela pessoa em dar prosseguimento a uma existência em que ela se sente
negada” (1997, p.23).

 Estes percursos conceituais – e também os alertas de diversos estudiosos


(Zaluar,1994; Diógenes,1998) sobre as implicações de uma “sociologia do desvio”
– nos permitem compreender que pensar a juventude infratora como subcultura ou
contra-sociedade ou como eterna resistência de uma cultura dominada à outra pode
ser um grande modo de encapsulamento e segregação, ou uma boa forma de manter
a nossa “democracia disjuntiva”. São estes também os riscos que especialmente
Oliveira e Silva insistem em que devem ser esconjurados: seja o da “rebeldia
reativa”, seja a da “resistência” que não consegue “escapar” da trama institucional...

Mas, se insistimos em focalizar nestas produções conceituais esta dimensão trágica e


paradoxal presente nos atos destes jovens, foi para evidenciar que talvez neles
encontramos este ponto crítico de indiscernibilidade entre violência e política, entre fato
e direito, constituído propriamente como um modo de subjetivação.

Se Silva parece ter “resistido” por meio de um esforço “cognitivo” – no mais amplo
sentido da palavra (que resultou inclusive numa produção científica) – ele assinala a
necessidade que teve de construir “metáforas” frente ao “tão real” e ao tão “tangível” do
micromundo institucional. Esta realidade, esta tangibilidade num plano que ele chamou
de físico ou de comportamental e, ao mesmo tempo, o mortificante esforço de travar
uma batalha psicológica dentro de uma instituição de cuja estrutura não se conhecem
todos os elementos constitutivos, configuram, a meu ver, de outro modo, isto que vimos
emergir nas falas dos internos da Febem como um hiper-realismo.

Esta dupla desapropriação – material e simbólica – que incide sobre os internos da


Febem, e que produz, conforme assinalou Oliveira (2001), uma arte do escapismo, este
driblar a morte como uma metáfora de não se deixar minguar em vida; esta dupla
orfandade política- social e subjetiva (Sader, 1987); esta distinção que Silva faz entre
direitos de cidadania e direitos naturais, argumentando que é destes últimos que os
internos da Febem foram inclusive expropriados, esta tangibilidade da vida institucional
que o obrigou a um esforço extremo de metaforização, não falam também da “vida
nua”? Não são os filhos do governo a expressão máxima desta captura do poder
soberano: ingerência plena do Estado, com sua política de segurança nacional,
transformando crianças em criminosos?

Mas não é também o “hiper-realismo” a estratégia de subjetivação por excelência para


estes tempos de extremado exercício da “vida nua”? Não foi, para Silva, a vivência dos
“limites tangíveis” destes dois mundos, o habitar as “fronteiras entre o micromundo do
crime e o mundo livre” que lhe permitiu entrar neste “ponto de saturação” que fez
infletir a resistência para a sua dimensão orgânica e coletiva? Não foi no ponto de
saturação, neste momento hiper-realista, que, escapar da “teia macabra institucional” era
“transformá-lo (o mundo institucional) para (ou) me livrar completamente dele”?
Lembremos o alerta de Silva (1997) quanto às dificuldades de resistência em
meio a máquinas tão mortíferas: ele nos conta que, em algum momento, para não se ver
incorporando de “corpo e alma” a cultura institucional, é necessário exercer a
resistência num plano e abandonar o outro: “pode acontecer que frente às pressões do
meio institucional se relegue a um segundo plano a resistência comportamental, por sua
inviabilidade e ela passe a ser exercida internamente, em uma íntima e surda batalha”
(p.168). Ele mesmo parece ter precisado privilegiar o mental, esta íntima batalha,
“tentando apreender pela via do intelecto a multiplicidade de implicações que tem a
vida institucional”... para daí extrair uma metáfora em relação à qual pudesse ganhar
uma capacidade de crítica e de auto-determinação.

Então, diante de um “pacto mortífero”: de um lado, “a sociedade querendo que ele


morra e de outro o próprio jovem desejando sua morte numa via niilista” (Oliveira,
2001, p.188), diante, como apontou Júlio Lancelotti, do “simbolismo dessas mortes
entre os jovens” – “nós estamos valendo tão pouco, a nossa falta de perspectiva é tão
grande, que o que resta é a morte. E nos matamos...” –, como discernir, como distinguir
nesta complexa trama político-subjetiva o que é “linha de fuga” e o que é “linha de
abolição” (Deleuze e Guattari, 1997)? Ou, como propõe Peralva (2000): quando a
ambivalência na relação com a lei torna-se uma dinâmica de auto-destruição? Ou, como
delimitar o que é “resistência orgânica” e o que é “auto-exclusão?” (Silva, 1997); o que
é “rebeldia ativa” e “rebeldia reativa” (Oliveira, 2001)?

Como traçar estas distinções principalmente quando estes jovens encontram-se na mais
“tangível das realidades”: a da “vida nua”, num sistema (Febem) “fora-da-lei”,136 num
“estado permanente de exceção” (Pinheiro, 1991; Romano, 1984), em meio a uma
estratégia de normalização que é a de “reterritorializar os adolescentes pobres na
posição de subcidadãos” (Oliveira, 2001, p.151)?

2. Não nasci para semente: uma estratégia hiper-realista

O deputado Marcos Rolim (2001c) relata a conversa que teve com um interno da
Febem-SP (Unidade de Franco da Rocha) que tatuou em seu braço a frase: “Por que o
medo se o futuro é a morte?” e comenta que a frase só aparentemente constitui uma
interrogação: “Na verdade, a frase expressa uma proposição que poderia ser escrita
assim: ‘Nada há a temer, pois nosso futuro é a morte’ ”, simbolizando, para o deputado,
os termos de um problema mais radical, nem sempre percebido, e que está além de um
enfrentamento exclusivamente pelo Estatuto da Criança e do Adolescente (p.12) e que
diz respeito ao fato de que “um número indeterminado de seres humanos, excluídos e
marginalizados socialmente, percebem-se não apenas como carentes de sentido, mas

136
“Somos todos fora-da-lei: família, sociedade e Estado” é o título da revista da Anced (Associação
Nacional dos Centros de Defesa dos Direitos da Criança e do Adolescente), que analisa em especial a
situação dos adolescentes em conflito com a lei no Brasil.
mergulhados em uma dinâmica de tamanha negatividade que a sua vida mesma lhes
aparece como desprovida de realidade” (Rolim, 2001b). Vida, portanto, “confinada ao
presente e desprovida de sentido” (idem).

Um dos maiores impactos que tive quando trabalhadora da Febem (1985-87), foi com a
reiteração da frase: “Não nasci para semente”, pelos internos, que me levou a propor um
primeiro sentido para ela, num debate, em 1989, sobre práticas psi com infância e
juventude:
Esta frase era repetida quando se perguntava sobre seus planos para quando
saíssem da Febem... Eles respondiam: “não nasci para semente...”. Então, “posso morrer
mesmo”. Eu não tenho futuro, não posso crescer, não tenho como me desenvolver, não
sou planta que vai vigorar e se sustentar. (...) Acho que no trabalho com infratores, eles
são alvo de uma regulação social talvez muito mais violenta, no sentido do extermínio,
dos embates com a morte; violência que está plantada no corpo deles, como se não
pudessem sustentar mais nenhuma vida. (em Braga Neto e outros, 1992, p.182)

Naquele momento já vislumbrava a dimensão da “máquina letal” que era o “sistema


Febem”, mas não dimensionava na justa medida o vigor da resistência que os internos
operavam.

Durante a realização desta pesquisa na Febem (1999-2000), constatei novamente a


reverberação destes motes da morte, já em outra versão: “Amo a vida e a morte me
namora” (ou, “namoro a morte”), interessante inflexão que nos ajuda a perceber que não
é deles, como traço atávico, a dimensão mortífera, mas de um agenciamento coletivo, de
uma captura nesta máquina letal que os “namora”.137

Também em 1998, durante visita ao sistema socioeducativo para adolescentes


infratores, na Colômbia, deparei-me com o mesma tema: “No nacimos pa’ semilla”
também era mote dos jovens de Medellin envolvidos no confronto com a guerra e a
morte... As circunstâncias agudas da violência que incide sobre os jovens naquele país,
com “as organizações da morte” perfeitamente estabelecidas (sicários, milícias...) faz
alguns colombianos afirmarem que “não podemos ocultar que há um espaço em todos
nós em que está quebrada a base de toda ética capaz de estruturar uma sociedade de
convivência para todos: o valor prioritário da vida” (Salazar, 1998b, p.9, grifo meu).138
Eles nos confirmam a necessidade de ir além de um “sentimento de culpa vergonhoso” e
de “esclarecer as responsabilidades da guerrilha, da polícia, da classe dirigente, da
esquerda, do narcotráfico, dos sacerdotes, das mães ou dos jovens” na geração desta

137
Cabe aqui um pequeno esclarecimento: esta frase tinha duas versões: “amo a vida e namoro a morte” e
“amo a vida e a morte me namora”. Há entre elas uma diferença importante na posição do sujeito (ativo
ou passivo) e houve várias polêmicas entre eles sobre qual a frase “certa”. Penso que esta oscilação só
confirma esta posição paradoxal em que se encontram.
138
Meu contato com a produção colombiana se deu por meio dos professores da Fundación Luis Amigó
(Medellin) que me aportaram diversas referências latino-americanas sobre juventude, ainda pouco
“incorporadas” na produção acadêmica brasileira, mas que lançam importantes parâmetros para a nossa
realidade.
realidade (Borrero, 1998, p.12). Na Colômbia, muito se polemizou quanto à utilização
da expressão cultura da morte, para qualificar esta situação em “que dá quase na mesma
viver ou morrer” (Salazar, 1998a, p.125). Certamente eles sabem do peso dos
imaginários sociais sobre a juventude e do que significa colocar a carência de todo o
sentido de futuro, a desesperança e a frustração como as únicas linguagens possíveis da
juventude (Perea, 1998, p.135).139

Se a violência vem cumprindo, em parte, esta função “construtora” de territórios e de


sujeitos que permitiu a um segmento de jovens ter rosto para a sociedade e configurar-se
como ator público (Salazar,1998a; Abramo; 1994; Diógenes, 1998; Perea, 1998), de
outro lado, vimos que ela também configura, por vezes, um “movimento implosivo”
(Salazar, 1998a), deixando, então, de ser marcada por um “plus vital” (Margulis, 1996),
de distância em relação à morte, para colocar-se exatamente na suas proximidades, nas
fronteiras com a linhas de abolição140.

Vi-me forçada então a acompanhar, como também nos sugeriu Agamben (1998), com
menos “humanitarismo” e com um olhar mais “político”, o que se operava aí,
respaldada também num conjunto de outras pesquisas que já vinham tematizando a
juventude pelo prisma do desafio e não da vulnerabilidade, da positividade e não da
patologia. A idéia de “distopia” tal como Abramo trabalhou os darks e punks ou de
“inclusão social às avessas” com as gangues e galeras em Diógenes, como já
comentamos, ajudaram a dar sustentação à idéia de que o que estava em jogo não era
apenas um empreendimento niilista ou mortífero.141

139
Pesquisa colombiana, realizada em 1997, pelo Departamento de Investigaciones de la Universidad
Central de Bogotá (Amaya, 2000), para determinar o efeito do conflito armado que vive o país nas
concepções de vida e morte de diversos grupos de jovens de Bogotá, trouxe elementos importantes para
pensar o impacto da extensão, difusão e da cotidianização da violência na vida de jovens de diferentes
estratos socioculturais-econômicos que testemunham uma experiência cada vez mais presente de
“aprender a viver com a possibilidade de morrer jovem”. Frente à cotidianização da violência e, num
contexto de perda de legitimidade do Estado, onde o “político” não se configura como cenário de
resolução de conflitos, o autor da pesquisa hipotetiza que os jovens parecem fazer um exercício de
“desconectar-se” de seu entorno social, numa espécie de “impermeabilização” como estratégia de
sobrevivência e de “conectar-se” a um novo entorno, altamente “individual, globalizado,
desterritorializado” que se expressa por canais diferentes do sociopolítico: as tecnologias, as indústrias do
consumo, a afirmação de estilos. Trata-se para o autor, então, de dinâmicas culturais que não podem ser
entendidas somente a partir da noção de “violência”: o que o mundo adulto vê como “violência juvenil”
são efusões do sensitivo, são éticas e estéticas centradas no “excesso”.
140
Margulis e Urresti (1998) definem a juventude como uma particular afiliação à geografia temporal, na
medida em que gozam de um excedente temporal que é consideravelmente maior que o das gerações
coexistentes: experiência que faz com que o mundo pareça novo, a própria história curta, o conhecimento
escasso, a memória acumulada objetivamente menor, enfim, um modo heterogêneo de ser
contemporâneo. Isto configura o que eles chamam de moratória vital ou facticidade.
141
É como encenação distópica que Helena Abramo entende as representações mórbidas e as imagens
apocalípticas que compõem os estilos dos grupos juvenis por ela estudados. Ao contrário da utopia – que
projeta o que se quer atingir, negando desta maneira o estado de coisas atual – a distopia procura a
negação desse estado de coisas projetando a ampliação dos traços e princípios negativos que a
constituem. Funciona assim, como uma alerta crítico sobre o possível desenvolvimento futuro das
tendências inscritas no presente. Ela faz também referência a Yonnet (1985) que ressalta que não se deve
interpretar essa postura como uma afirmação de desespero, mas sim de contemporaneidade, de uma aguda
localização na realidade, não se constituindo nem uma aceitação desse real desencantado, nem uma
Vimos que é em torno deste traço de intensidade que se assentam boa parte das formas
de pensar, sentir e agir dos jovens que estamos focalizando; e antes que defendamos
rapidamente o “valor da vida”, escutemos o que eles dizem: “não nascemos para
semente”, numa paradoxal combinação de vida e morte, de utopia e limite, de projeto e
finitude. Lançados na impossibilidade, acentuam a provisoriedade e acentuam a vida:
evidenciam uma vitalidade que se nega a ser destruída, constroem uma vida hiper-
realista...142

Obviamente que não pretendo, ao empreender esta análise, naturalizar ou


legitimar por meio de uma teorização psicológica – seja do lado das angústias de morte
ou dos comportamentos de “risco” – o genocídio que impera neste país, especialmente o
dirigido aos jovens pobres, como depreendemos do panorama epidemiológico sobre
mortes violentas na juventude e especialmente entre jovens em conflito com a lei: como
os bandoleiros estudados por Hobsbawm, a maioria dos bandidos morre antes dos 25
anos (Zaluar, 1994).143

Em pesquisa com adolescentes infratores, Guará afirma que:


No contexto de vida e morte em que estão imersos os adolescentes, a prática da
justiça retributiva ilegal – como é o caso do extermínio feitos pela polícia – fomenta
(para os jovens) a idéia de que é necessário buscar a liberdade, mesmo que essa seja
uma escolha fatal: ele escolhe como quer morrer. (Guará, 2000, p. 167)

adequação pragmática a ele (Abramo, 1994, p.153). Já Diógenes (1998, p.32) entende que a violência se
exerce na experiência das gangues como um modo peculiar de um segmento ignorado se fazer ver e
existir, configurando uma “inclusão às avessas”, na medida em que o passaporte utilizado é a violência.
142
Certamente que esta dimensão da provisoriedade-intensidade não é peculiar a estes jovens; outras
pesquisas vêm apontando esta dimensão em outras expressões juvenis: Vianna (1997), na análise do funk,
ressaltou esta combinação de efêmero e de intensivo; Costa, Tornero e Tropea (1996) destacam nas tribus
urbanas a intensificação afetiva e expressiva como resposta, social e simbólica, à racionalidade
burocrática e ao isolamento individualista, signos da sociedade contemporânea; Amaya (2000) destaca em
pesquisa sobre a juventude colombiana o aparecimento de uma subjetividade que se define na ação
mesma, na mudança e na afirmação permanente do instante: num estar juntos que alude a um ato
improdutivo que se esgota em si mesmo, pois sua finalidade não é o ideal do progresso e da acumulação,
mas o excesso: é o carpe diem de que falam alguns jovens de setores médios, o descontrole narrado por
jovens das galeras, o viver bem e a boa vida dos jovens de setores de maior poder aquisitivo (Amaya,
2000, p.26).
143
Estudo da Unesco (Waiselfisz, 1998), tomando como base os dados do Sistema de Informações sobre
Mortalidade (Ministério da Saúde) e o conjunto das mortes violentas ou das chamadas “causas
externas”de mortalidade (acidentes de transporte, homicídios e outras violências e suicídios) na faixa de
15 a 24 anos, revela que: em 1980 as “causas externas” já eram responsáveis por mais da metade do total
de mortes dos jovens no país (52,9%). Dezesseis anos depois, mais de 2/3 dos jovens (67,4%) morrem
por essas razões, fundamentalmente por homicídios e outras violências. Trabalho realizado por Souza
(1994) da Fundação Osvaldo Cruz (RJ) apontou acentuado crescimento dos homicídios entre jovens, no
período de 1980-1988, no Brasil, sendo da ordem de 79,5% o aumento de homicídios nas faixas de 10-14
anos e de 45,3% na de 15-19, fazendo deste grupo o principal responsável por anos potenciais de vida
perdidos (APVPs); Prado Jorge (1998) observou que, no município de São Paulo, nas faixas de 15 a 19
anos, a mortalidade proporcional por homicídios, nos homens, passou de 21% a 71% em trinta anos
(1965-1995). (Adorno, Lima e Bordini, 1999, p.22).
Também não pretendo, como nos alerta Guattari, cair no risco de um
“microfascismo”, pois se pode haver nestes atos uma corajosa afirmação da vida, há
também um grande perigo: o do desmanchamento, da desterritorialização virar
finalidade em si mesmo, configurando uma linha de abolição, ao invés de propiciar a
criação de novos agenciamentos sociais. Ou seja, uma coisa é “não temer a violência
com que a vida se insurge contra aquilo que a confina”, outra é sucumbir ao “fascínio da
destruição”... (Guattari e Rolnik, 1986, p.63).

Convém também lembrar Hobsbawm, quando ele aponta que a própria familiaridade
com a morte e a violência torna os homens extremamente sensíveis a distinções morais
não percebidas por sociedades mais pacíficas:
Existe a morte justa e legítima, como também o assassinato injusto,
desnecessário e indiscriminado; há atos louváveis e atos vergonhosos. Tal distinção se
aplica tanto ao julgamento daqueles que são vítimas potenciais da violência armada,
como aos próprios combatentes. (Hobsbawm, 1975, p. 42)

Agamben (1998) nos lembra que o habitante do campo já não era capaz de distinguir as
feridas provocadas pelo frio das que eram infringidas pela crueldade das SS (Robert
Antelme, apud Agamben, 1998, p.176) para sublinhar esta absoluta indiscernibilidade
entre fato e direito, vida e norma, natureza e política e para justamente fazer ressaltar aí
uma “inaudita resistência”: justamente por isso, perante ele, que não distingue o frio da
ordem, o guarda parece de repente impotente. “Uma lei que pretende transformar-se
integralmente em vida encontra-se aqui perante uma vida que se confundiu inteiramente
com a norma, e é justamente esta indiferenciação que ameaça a lex animata do campo”
(idem, p.176).

Do mesmo modo, Agamben vê o homo sacer, a quem qualquer um pode matar sem
cometer homicídio, e que tem sua existência reduzida a uma vida nua despojada de
qualquer direito: justamente na medida em que está continuamente exposto a uma
incondicional ameaça de morte, ele mantém-se para sempre em relação com o poder que
o baniu. “Neste sentido, como sabem os exilados e os bandidos, nenhuma vida é mais
‘política’ do que a do homo sacer” (Agamben, 1998, p.174).

Entendo que o hiper-realismo é um modo de fazer frente à “vida nua”: evidenciando-a,


analisando-a, denunciando-a, mas fundamentalmente, é uma “verdade-arma”, pois, em
meio a esta indiscernibilidade de fato e direito, exercita uma feroz indiscernibilidade
entre política e violência.
Uma “verdade-arma”: projeção de si mesmo na mais audaciosa das vidas...

No texto “A vida dos homens infames” (1992) Foucault registra o impacto – ao modo
“vibração” e “efeito-força” – que sobre ele teve a leitura de fragmentos de existências,
“lendas dos homens obscuros”, encontradas a esmo em alguns documentos. A estas
“vidas ínfimas”, Foucault chamou “poemas-vida”, “existência-clarão” por “não saber se
a intensidade que os percorre vem mais do fulgor das palavras ou da violência dos fatos
de que eles estão repletos” (p.90).

Ele alerta, no entanto, para o fato de que para que algo delas chegasse até nós, foi
necessário o choque com um poder que mais não quis que aniquilá-las, ou, pelo menos
apagá-las:
Todas aquelas vidas, que estavam destinadas a passar ao lado de todo o
discurso e a desaparecer sem nunca terem sido ditas, não puderam deixar traços –
breves, incisivos, enigmáticos muitas vezes – senão em virtude do seu contato
momentâneo com o poder. (Foucault, 1992, pp. 98-99)

Da sua busca para manter/disseminar este efeito-intensivo (que a ordenação do material


num âmbito racional, poderia pôr a perder), Foucault estabelecerá algumas regras –
espécie de método para preservação do fulgor destas existências –: ele faz “questão que
estes textos mantivessem sempre uma relação, ou antes, o maior número possível de
relações, com a realidade: não apenas que se lhe referissem, mas que nela operassem;
que fossem uma peça da dramaturgia do real (idem, p. 95, grifo meu). Assim, Foucault
excluiu todos os textos que relatavam a realidade, “mas mantendo face a ela a distância
do olhar, da memória, da curiosidade ou do divertimento” (p.95).

Se com a idéia de dramaturgia do real, Foucault pretendeu construir uma estratégia de


escrita que mantivesse a potência do vivido por aqueles sujeitos, gostaria de aproximar
esta idéia – da “dramaturgia do real” – à do hiper-realismo: estratégia de subjetivação
em que o “outro” (a sociedade) não pode manter face a eles a distância do olhar, da
memória, da curiosidade ou do divertimento. Relembremos do esforço de
presentificação/performatização dos adolescentes para não serem dados como
“ficção”... (cf capítulo II).

Realizar este hiper-realismo, esta dramaturgia do real, sendo “porta-voz da realidade”,


“projeto realidade”, “mostrando a real”, constituindo uma “experiência existencial,
direta, concreta, dramática, corpórea” (Pasolini, 1990) dessa realidade, é talvez uma das
principais estratégias de resistência dos adolescentes entrevistados e fundamentalmente
um modo de ser, um vetor de existencialização, como a nos dizer que o que eles fazem
não é uma referência à realidade ou uma representação da realidade, mas uma “operação
na realidade”, uma performatização de si. Operação “verdade-arma”, pelas insurreições
do corpo, pelas rebeliões de si, portando nesta “projeção de si mesmo na mais audaciosa
das vidas...” (Genet, 1988), uma certa dimensão existencial/subjetivante da revolta,
como vimos com Meia-Lua:
“Detalhar a real é pegar mais pesado! O foco é o cara ele ajuntar a real da boca,
a real da favela, a real da Febem, a real da cadeia, a real do crime e a real dele (...)
Juntar todos os planos!” [27/03/00, Meia-Lua]

Encontramos na literatura contemporânea “transrealista” ou “supra-real”, um


empreendimento similar: um esforço de “expressar o real, além da realidade”, de criar
ficcionalmente “efeitos de realidade”, e de, através das emoções mais violentas,
revitalizar a linguagem poética, “transgredindo as barreiras da significação”
(Schollhammer, 2000).144 A tese deste autor é de que “o problema na representação
contemporânea não está na escolha do objeto fascinante da violência, mas na falta de
capacidade de expressá-lo de modo suficientemente “real”, quer dizer, simbolicamente
redentor” (p.250) e que esta literatura, ao “representar uma realidade inaceitável do
ponto de vista ético ou político, abre um diálogo com seu conteúdo desarticulado,
permitindo assim, enxergar uma procura de comunicação abafada culturalmente”
(p.257).

Encontramos também de forma contundente esta temática do “excesso” de realidade, de


uma “hiper-realidade” nos relatos dos efeitos subjetivantes dos que viveram a
experiência dos campos de concentração: (nos campos há) “mais realidade do que é
possível” (Hans Jonas, apud Seligmann-Silva, 2000, p. 91) ou relembrando Primo Levi:
“o problema do futuro longínquo foi se apagando, perdeu toda a intensidade perante os
problemas do futuro imediato, bem mais urgentes e concretos: como a gente comerá
hoje, se vai nevar, se vamos ter que descarregar carvão” (apud Seligman-Silva, 2000,
p.92).

Ainda Seligman-Silva (2000) ressalta que esse excesso de realidade produz a destruição
da capacidade de discernimento entre o real e o irreal e implica um “perfuramento” do
próprio campo (geográfico, simbólico e semântico) da morte: devido à onipresença da
morte, ela não orientaria mais a distinção entre o aqui e o além. “A essência do fascismo
não é o sacrifício da vida, mas matar a morte, fazer reinar a morte da morte, infectando
com isso a vida, que perde assim, todo sentido outro que a força pura” (Rabant, apud
Seligman-Silva, p. 93).

Somos reenviados assim à “vida nua” e certamente devemos nos interrogar quanto ao
esforço de elaboração subjetiva desta dimensão traumática que estes jovens também
realizam: não é à toa que oscilam entre “querer mostrar mesmo a real: colocar uma
camêra de vídeo para que tudo seja visto...” e “desacreditarem que algo possa ser
contado ou mostrado sobre esta realidade: vão pensar que é ficção!”.

144
O autor refere-se à produção de Rubem Fonseca, Patrícia Melo, Paulo Lins, entre outros. O fato de um
segmento significativo desta literatura (Patrícia Melo: O matador, Inferno; Paulo Lins, Cidade de Deus;
Rubem Fonseca: Secreções, excreções e desatinos) tratar da dimensão da criminalidade e do conflito com
a lei, nos aproxima ainda mais desta hipótese do hiper-realismo.
Talvez outro não tenha sido o esforço de Jean Genet, expresso particularmente no
primoroso texto, “A criança criminosa”, ao comparar a vida nos campos e as prisões
para menores.145

Os jornais ainda mostram fotografias de cadáveres a transbordar de silos ou a


encher planícies, presos nos arames-farpados, nos fornos crematórios; mostram unhas
arrancadas, peles tatuadas, curtidas para fazer quebra-nozes: são os crimes hitlerianos.
Mas ninguém se lembra de que sempre houve torcionários que martirizaram crianças e
homens nas prisões de crianças, nas prisões na França. Não é importante saber se, aos
olhos de uma justiça mais do que humana, uns são inocentes e outros culpados. Aos
olhos dos Alemães, os Franceses eram culpados. Tanto e tão covardemente nos
maltrataram na prisão, que vos invejo, Alemães, nas vossas torturas. (Genet, 1988, p.
22)

Ao falar da “aventura” infracional que também foi a dele,146 Genet nos instala numa
dimensão da infração e da transgressão, muito além de uma zona moral, como uma
“audácia de prosseguir um destino contrário a todas as regras”, um “gosto pela aventura
contra as regras do Bem”, numa espécie de dimensão subjetivante/existencial da
rebelião, inscrevendo-a como resistência e como recusa: “seremos a matéria que resiste”
(idem, p.23).
Se for baixa a vossa alma, chamai então inconsciência ao movimento que leva
a criança de quinze anos até ao delito ou ao crime; eu chamo-lhe outro nome. Porque é
preciso um senhor orgulho, uma formosa coragem, para nos opormos a uma sociedade
tão forte, às mais severas instituições, a leis protegidas por uma polícia cuja força tanto
está no fabuloso, mitológico, informe terror que instala na alma das crianças, como na
sua organização. O que as leva ao crime é (...) a projeção de si na mais magnífica, mais
audaciosa, mais perigosa enfim de todas as vidas. (...) E a mim próprio me pergunto se
também as não perseguis por despeito, por elas vos desprezarem e abandonarem. (idem,
p. 20, grifo meu)

145
Jean Genet fora convidado pela Radiodifusão Francesa a participar de um de seus programas, o “Carta
Branca”. Ele decide participar para falar da infância criminosa, ou como o próprio Genet (1988, p. 11)
diz: “para que a voz do criminoso se fizesse ouvir. E não o seu lamento mas canto de glória”. Nesta
ocasião, a fala de Genet seria precedida por um interrogatório, que ele faria, a um magistrado, a um
diretor de penitenciária e a um psiquiatra oficial. Mas todos se recusaram a responder e o próprio texto de
Genet acabaria por ser recusado; os jornais se espantaram por colocarem à disposição de um arrombador
e de um pederasta, um teatro! O texto é finalmente publicado, com o título de L’ enfant criminel.
146
Genet nasceu em Paris em 1910 e foi abandonado pela mãe na Assistance Publique. “Ilegítimo”,
jamais conheceu os pais. Foi adotado por uma família camponesa de Morvan e na idade de dez anos, ao
ser várias vezes surpreendido roubando, foi enviado a um reformatório de Mettray. Passou alguns anos na
instituição e então fugiu para a Legião Estrangeira, de onde em breve desertou. Como vagabundo e ladrão
vagueou ela Europa, passando algum tempo nas prisões de diversos países. Na prisão, em 1942, escreveu
seu primeiro livro, Notre-Dame des Fleurs, seguido, nos cinco anos subseqüentes, por romances, peças e
poemas. Em 1948, após dez condenações por roubo na França, escapou da prisão perpétua graças a um
perdão do Presidente da República, que acolheu a intercessão de diversos escritores e artistas eminentes,
inclusive Cocteau, Picasso e Sartre (Cooper, 1976, pp. 47-48).
Vejamos esta dimensão da rebelião como vetor de existencialização por meio da história
de Meia-Lua.

O caso Meia-Lua

Desemprego, ignorância, descaso estatal. De um lado


um livro aberto, do outro um punhal, situação difícil que
pode amenizar, se cada um acreditar que também pode
mudar, voltar logo pra casa, pra aqueles que te querem
bem, faça uma rebelião no cérebro que você tem, aí
dentro você é mais de um, aqui fora seria mais de cem
(rap Thaíde e DJ Hum, 2000)

Uma vontade de rua

Meia-Lua saiu de casa pela primeira vez aos 10 anos. Depois de dois meses na rua, volta
pra casa. Aos 11 anos, foge de novo; aos 12, já tinha um barraco no Glicério, comprado
com dinheiro de roubo e já usava crack: “desandou...”
“Eu colei (no Glicério) com 12, rolou uma desandada no crack; saí do mundo
da minha casa e vim praí, pá; aí, depois, dei uma desencanada eu mesmo, voltei prá
área, para minha goma, cheguei todo sujão em casa; (...) o que tinha que chorar,
chorou... Voltei de saudade, eu acho!” [27/03/00]

Dois modos de falar desta disposição-rua ou desta vontade-de-rua:

 Um, por reação, porque “era discriminado daqui” (da casa):

“Tem um complô em casa contra mim. Tudo cai nas minhas costas. (...)
Sempre fui ovelha negra desde pequenininho.” [15/08/99]

 Outro, por um gosto andarilho:

“Eu saí porque eu quis (...) porque minha casa tava lá, minha mãe tava lá... (...)
Sou andarilho... o que vou conhecer dentro de um ônibus? O que eu já conheço. Mas na
rua não, pode conhecer outras coisas...” [15/08/99]

A mãe tentava impedir suas fugas, pondo-se na porta. Resistência insuficiente:


“uma hora a senhora vai sair daí! posso muito bem sair pela janela que é
primeiro andar... (...) Foi só coice que eu dei na porta! Já me biquei com a
mochilinha...” [15/08/99]

Nas suas voltas para casa, “por saudade”, chorando, todo sujo, era “um filho
desiludido”. Por algumas vezes a família o procurou... “mas não me acharam...”
“Minha mãe quase desmaiou quando me viu voltando para casa (com 13 anos),
magro, com o zóio deste tamanho, sujo, assustado. Tudo me dava medo. De tudo eu
tinha um pouco de medo.” [23/03/00]

Medo que atribui ao uso do crack. Agradece pela polícia o ter capturado nesse
momento, porque estava perdendo a coordenação motora. Dos efeitos desta disposição-
rua, contabiliza o aprender a vida como ela é:
“Eu passei por muita coisa nessa aí... tipo eu conheci muitas coisas, muito
cedo... e de uma vez só, tipo uma tempestade. Acho que isso aí que faz eu ser do jeito
que eu sou, “meio de lua”, como meu apelido, Meia-Lua. (...) Meia-lua é ser tipo um
cigano... ou tipo do nada dar a maior tristeza, uma lembrança. (...) O motivo é eu ter
sofrido muito quando era criança, o certo era eu estar apanhando agora, com 18, 17
anos... o meu acidente mesmo foi com 12.” [15/08/99, grifo meu]

Duplo acidente...

Duplo acidente: a intensidade da vida como ela é, seu sofrimento e um acidente


concreto: no dia 25/01/93 despenca de 16 metros de altura do telhado de uma garagem
de ônibus, da Transuniversal (Vila das Mercês), ao correr atrás de uma pipa!
“Távamos jogando bola, vimos 3 pipas caindo. Todo mundo foi atrás. Uns 16
metros de altura. Fui querer correr ali... tudo era Brasilit. Tava o maior sol. Nessa aí, eu
fui o único apetitoso que chegou lá em cima para pegar. Tava a torcida toda! O telhado
cedeu e eu fui junto. Eu bati no ônibus. Bati de quina no motor do ônibus... estourou o
rim dentro. E haja rim! De lá prá cá, muita droga, muita porrada. Não tenho o baço
também... também não tinha sensibilidade no braço. Hoje, só tenho problema no braço:
é um pouco travado, porque cicatrizou errado, o cotovelo. Eles [os médicos] é que
viajaram... cicatrizou errado... Fiquei 12 horas na sala de cirurgia. (...) Todo mundo
falou... no dia 26 eu fui capa do Diário Popular e da Folha de São Paulo. (...) Acho que
nem vai aparecer [acidente] igual o meu de gravidade. Eu morri, eu cheguei a morrer...
cheguei... o coração parou de bater e voltou sozinho. Por segundos, mas esses segundos
aí o médico já tinha dito: ‘seu filho já era!’ Foi ali no Santa Isabel, como se fosse
negócio de parto, que a mãe, que o pai vê o filho. Como se fosse um vidro desses. Aí,
minha mãe falou que o meu corpo fez assim [imita movimento de pulo], meu corpo
pulou dos pés à cabeça... nem usaram aquele negócio lá [de Choque].” (15/08/99)

Poderíamos invocar aqui um “passagem ao ato”: na volta prá casa, “tudo caiu nas suas
costas”, ou ainda, um apetite intenso demais – “fui o único apetitoso” – mas Meia-Lua
recusa esta idéia:
“Não, senão não ia chamar de acidente, ia chamar de burrice. Para mim, foi
acidente mesmo, porque do mesmo jeito que subi para pegar um pipa e caí, tinha uns 50
moleques lá. Um dos cinqüenta podia chegar e ter caído. Aconteceu... podia ter sido
com qualquer um. [Pesquisadora: você disse que foi o mais apetitoso!] Fui o mais
mesmo. Uns tentaram subir e não conseguiram. Mas depois do meu, teve uns três casos
de queda lá! Só que nenhum chegou a cair de onde eu caí. Caíram tentando subir 6 ou 7
metros.”147 [15/08/99]

Poderíamos buscar ainda, neste ato-acidente, um renascimento, uma tentativa de fazer-


se um novo filho, sair desta desilusão... Afinal, seu primeiro desaparecimento registrado
em BO é de 25/01/94, exatamente um ano após o acidente,148 mas o que veremos de
mais instigante na história de Meia-Lua é, sim, o inventar-se um corpo, mas corpo
fugidio ao discurso materno, à psiquiatria e aos processos de institucionalização que
caem sobre suas costas.

Mas vejamos, primeiro, os esforços destas instituições no sentido de “pegá-lo”.


“Ela [mãe] tem minha vida por escrito, mano... tudo no papel, tudo no papel...
tudo da minha vida que foi para o papel, ela tem. Eu sei que ela tem uma pasta enorme,
maior do que esta que você trouxe com coisas minhas.149 Sabe de coisa que eu não sei!
(...) Eu nunca catei minha pasta do médico para ler. [Pesquisadora: Você não quer
saber?] Lógico que não! Ela fala que não existe mais a pasta. Só que hoje eu fucei nas
coisas dela e já vi, mano! Não quis nem ver porque ela é esperta para caramba, ia falar
que eu mexi. (...) Hoje em dia, eu ficaria mais feliz se ela jogasse fogo na minha frente,
do que eu saber. Sei lá! acho que se eu souber e eu achar que – puta! – ela devia ter me
falado... eu esqueço que tenho mãe! (...) Na época que era para eu ficar sabendo, ela não
me falou... hoje em dia só serve como motivo de alguma coisa de ruim porque ela teve
este pensamento: “vou esperar ele crescer para falar...” Hoje em dia, já cresci, já dá para
saber o que é certo e o que é errado. Só falta reproduzir e morrer! Se tinha que falar, já
era para ter falado. Se não é isso aí, o que é que é, então? Coleção? Coleção de
prontuário sobre a vida do filho? Minha mãe não confia em mim, até hoje!” [24/09/99,
grifo meu]

“Minha mãe me rotula. Ela escreve aqui [aponta a testa]: ‘Transuniversal’.

147
Conforme consta no prontuário da Febem-SP, o relatório médico da Santa Casa de Misericórdia, onde
ficou 43 dias internado, dignostica politraumatismo e uma seqüela: gleose do lobo frontal. É perceptível
em Meia-Lua o afundamento frontal do crâneo e a cicatriz que divide a calota craniana em duas exatas
metades, além de cicatrizes nos braços e tórax. Vem da cicatriz na calota craniana o apelido de Meia-Lua,
dado por um outro interno da Febem, em 1994.
148
Cf prontuário da Febem-SP. Mais recentemente (fevereiro/2001) Meia-Lua confirmou de certa forma
esta hipótese ao relatar que em 25 de janeiro comemora também uma espécie de aniversário. Ele nasceu
em 11/09/80.
149
De fato, neste dia, após algumas conversas em torno do que ele dizia não saber sobre si, ele decide
fuçar nas coisas da mãe, mas entrega a mim a pasta que pegou, para que eu olhasse, um tanto receoso de
desmontar totalmente esta história. Há entre os documentos (exames, marcações de consulta, recorte de
jornal com a notícia do acidente, etc.), algumas folhas de caderno com a letra da mãe, descrevendo
detalhe a detalhe vários dias da vida de Meia-Lua: o que fez desde que acordou até dormir. O tom do
texto não deixa margens à dúvida: ela parece buscar sinais do uso de drogas, pelas finas descrições
comportamentais e corporais – como estava o olho, o cheiro, a voz, etc. Certamente fez isto também por
orientação de algum profissional, mas parece um bom exemplo desta “carreira medicalizante”, desta
“prontuarização” que Meia-Lua encarnará.
Desde que eu me conheço por gente, que depois deste acidente eu falo para ela que não
é por aí... mas para ela é. Ela prefere chegar e falar que ‘ele caiu... fez isso e isso e está
assim hoje...’ do que falar: ‘Ah, meu filho já foi ladrão... mas olha onde ele está agora:
gordinho, cantando rap’. Mas não... ela prefere voltar oito anos atrás e falar do meu
acidente. (...) Todas as minhas audiências [no sistema de justiça] ela envolvia meu
acidente. É por isto que eu não me sentia bem... quando ela falava isso, sabe o que eu
fazia? Tava lá sentado, com as duas mãos nas pernas, quando ela falava eu fazia assim
[imita pose de um derrotado, ombro caído]. (...) Isso me derruba psicologicamente,
sentimentalmente. (...) Eu não tenho vergonha de falar que sou ex-Febem, nem que sofri
o acidente.” [14/10/99]

“Vai chegar um dia, eu vou ter muito dinheiro e vou dizer para ela: é a cicatriz
o problema de você lembrar do meu acidente? Se falar: ‘é!’, no dia seguinte, eu venho
sem nenhuma cicatriz: vou numa Clínica de Plástica e já era. ‘E aí, mãe! Seu filho
nunca caiu da Transuniversal! Dá para botar fogo naqueles papéis?’ Sou louco para ver
isso aí... para minha mãe esquecer... eu esqueço, às vezes, mesmo com o braço assim.
Eu trago comigo o acidente e esqueço. Esqueço mesmo! Sabe o que é esquecer de
nunca aconteceu? Vivo bem melhor comigo mesmo quando eu tô sem esse
pensamento!”150 [14/10/99]

Mas como esquecer se a saga da mãe e de algumas instituições de saúde será justamente
a de constituir um adolescente “acidentado”, “medicalizado”, administrado por
procedimentos médicos, psicológicos?

Já no momento do acidente, declara a mãe: “ele não tinha medo de nada!” e “era doido
por pipa”. Em novembro de 1992, antes do acidente e após as primeiras fugas de casa,
já passara por avaliação psicológica (Clínica São Marcos), por distúrbio de
aprendizagem: não parava quieto na escola!

Em 1994, um ano após o acidente, é diagnosticado pelo setor de Neurologia da Santa


Casa, como tendo distúrbio grave de conduta e a mãe solicita que o encaminhem a um
“Centro de Recuperação”. É solicitada sua internação “por colocar em risco sua vida e a
dos outros”.

Ganha força a versão do acidente como o motivo de sua estranha conduta: o HC


(Hospital das Clínicas) diagnostica uma “oligofrenia” resultante da lesão frontal e
destaca a fala da mãe: “a partir do traumatismo tornou-se agressivo, dormindo fora de
casa, não aceitando limites”, versão adotada também pelo hospital em que é internado
(Hospital Psiquiátrico de Vila Mariana): “depois do traumatismo, passou a apresentar
fugas, furtos e agressividade”. Dirá a mãe, em várias entrevistas nos serviços de
assistência ou nos do sistema de Justiça: “tem problemas mentais, desde o acidente”;

150
É visível sua enorme tentativa de elaboração desta situação, assim como são visíveis suas idas e vindas
em relação a saber/não saber: é louco pra ver os papéis e louco pra esquecer. Louco para apagar esta
história, pôr fogo nos papéis, destruindo este “papel de acidentado”.
“vive sob medicação”, “tem tumor no cérebro, não tem condições de estudar, precisa ser
internado!” De fato, de acordo com dados extraídos do prontuário da Febem, foi
“classicamente” medicado: Amplictil, Tegretol, Gardenal...

A sua transformação em moleque-acidentado ganha sua mais intensa visibilidade com


dois atos maternos:

 Um cartaz com a foto de Meia-Lua na maca, no dia do acidente (a mesma foto


publicada na grande imprensa) pedindo contribuições financeiras ou em espécie para
ajudar no tratamento dele. O cartaz foi afixado nos prédios do condomínio em que
moram e em outros locais em que a mãe circulava.

 Seu apelo no programa Paulo Lopes (programa muito popular, da Rádio Globo-
onde há espaço para depoimentos de diversas naturezas: para encontrar pessoas
desaparecidas, solicitar ajuda, pedidos públicos de desculpas, etc.), após mais um
“desaparecimento” do filho (fevereiro de 1996, quando ele estava sob LA): “ele
deve estar com a mente fora do ar, porque está sem a forte medicação psiquiátrica de
que necessita”.

Deste discurso materno, investigativo e vigilante, dirá ainda Meia-Lua:


“Recentemente (99) caiu no ouvido da minha mãe que eu tava fumando
maconha aqui perto de casa. E eu negando, negando... ‘aí, mãe, quer saber de uma
coisa?’ Admiti. Aí começou: ‘seu maconheiro, sem-vergonha... para ter um filho sem
vergonha, eu prefiro não ter’. ‘– Se for para ter uma mãe desta aí, que não entende,
prefiro não ter! Faz de conta que a senhora não é minha mãe e eu não sou seu filho’.
Chegou nesse ponto aí... do jeito que ela me chamou é do jeito que as polícia me chama.
(...) Ela consegue ser uma mãe e uma investigadora ao mesmo tempo.” [15/08/99, grifo
meu]

Em seguida, releva a atitude da mãe, buscando uma explicação: “acho que é por causa
do trabalho que ela é assim: trabalha desde pequena!”. Como a dizer: foi “pega” nesta
normativa social faz muito! Para ela, não haverá esperança!151 Para Meia-Lua, a questão
será como escapar de tornar-se uma “coleção de prontuários”, de fazer-se uma vida sob
investigação?

Vejamos algumas de suas incursões para escapar de tornar-se um “psiquiatrizado”.

151
Refiro-me à frase que Meia-Lua atribui à mãe: “hoje em dia eu passo fome, mas não roubo...”,
indicativa para ele, de uma espécie de conformismo.
Escapando pela intensificação

Lembremos que de volta para casa, com 12 anos, tinha “dado uma sossegada”, mas,
“nesta aí pegou o acidente”:
“Aí rolou o hospital... fiquei bom, bom entre aspas, porque tava rolando a
medicação. Um lado da medicina achava que a medicação ia me melhorar e o outro lado
tava achando que ia me piorar, tá ligado? E de repente foi o que aconteceu: na minha
opinião, a medicação tava me piorando psicologicamente. Aí com 13, eu desencanei da
goma e catei uma cartela de comprimido e vim para o Glicério.” [27/03/00]

Usou a cartela (Gardenal, Tegretol) para aditivar o crack:


“Aí já: pô meu, tô com um comprimido que de repente é da hora. Nóis
tentando fazer uma droga... a mesma droga, mas com comprimido. Aí ficou veneno de
rato mesmo. Muito forte, não precisava.... (...) Para mim, o Gardenal fazia mais efeito
que o crack! Falei: ‘vou misturar os dois para ver se eu fico louco mesmo!’ (...) Depois
dos 13 anos e meio, deviam ter parado com o remédio, nunca pararam [tomou dos 12
aos 15 anos]. Eu fazia umas coisas que eu desacreditava... [relata episódios agressivos
em casa, como quebrar coisas, arremessar contra os irmãos] Ué, se o bagulho tá me
deixando louco... comecei a fazer pedra do bagulho: amassava, misturava cocaína,
bicarbonato, o gardenal e o tegretol também. (...) Essa era a moral da história: se o
bagulho tava me deixando louco, eu queria ficar bem mais louco do que fumando pedra
normal. Pedra normal para mim, já tava fraca!” [14/02/00, grifo meu]

Fez tentativas mais “polidas” de enfrentar-se com a prisão-remédio:


“Com 13 anos e meio, achei que podia parar, que meu cérebro já tava da hora!
O médico explicava que eu precisava tomar para “não vir bagulho no seu telhado e você
começar a fazer umas coisas, isto é, dar uma de louco”. Tipo atravessar a rua com carro
andando... [Pesquisadora: Você fazia isso?] Até hoje eu atravesso, mas é porque eu
gosto mesmo! [risos] Mas aí, para mim, eu fazia uns testes! Ela [mãe] deixava o
comprimido e o copo de água. Aí eu fazia que tomava e depois cuspia. Não via
diferença nenhuma! Às vezes, ficava até melhor que se tivesse tomado. Aí minha mãe
começou a descobrir: fuçava o lixo ou desconfiava.” [14/02/00]

Finalmente, estará livre do remédio, paradoxalmente, por meio da psiquiatria da Febem-


SP:
“A hora que eu fui preso, tomei [o remédio] umas duas semanas na Imigrantes
[UAP; junho/96]. Mas troquei a maior idéia com o médico e ele pôs a maior fé no Meia-
Lua. Ele falou: ‘vamos fazer um teste, ficar uma semana sem tomar e ver o que
acontece’. Fiquei na moral. Firmeza. O médico seguiu acompanhando e parou com a
medicação. No domingo falei com a minha mãe: ela entrou em pânico! (...) Depois o
médico que tirou o bagulho de mim, falou que o remédio tava chapando a minha
cabeça. Os caras me enrolou demais!” [14/02/00]

Um modo de “sair” da prisão: “enlouquecendo” na medicina, intensificando os efeitos


do remédio, levando ao limite a experiência de ser medicado. Como sua regra de
“intensidade”: “fazer cada dia, como se o mundo fosse acabar amanhã”.
“Isso que vou falar agora, carrego desde pequeno. Tenho certeza. Que é
vontade de chegar perto do perigo é... como se fosse... levar a vida como um filme.
Como se o amanhã não fosse existir... Quando digo um filme, não digo um conto... eu
digo o Rambo 2. O cara não faz tudo que pode fazer naquele filme? O cara pula de
cachoeira, o caramba, dá tiro de metralhadora... eu sou assim também... o que eu puder
fazer... assim, sabe assim, não digo assim, pelo amor de Deus... essa fita, quem escutar
não pense que é tudo de errado, não... digo assim: tudo o que eu puder fazer! Você tá
entendendo onde eu quero chegar... para me divertir. Para tipo, se eu falecer amanhã, aí,
tô feliz. Eu fiz isto ontem... era o que faltava eu fazer. Este é o meu pensamento com 18,
com 30...” [15/08/99, grifo meu]

Um menino-tempestade, que de uma vez só conheceu muitas coisas, muito cedo...; não é
à toa que invoca o cinema e não um conto, como regra de vida. Um menino-movimento:
“Eu não gosto de ficar parado. Tipo assim: se eu tiver uma lousa, um giz, um
lugar fechado e 15 alunos, eu coloco para cantar num shopping depois de três meses.
Minha mãe fala para eu ficar em casa: fazendo o quê? Parado, só se me trancassem
mesmo, como na Febem.” [15/08/99]

Parado... preso demais!

“Mais da metade da minha adolescência, fiquei na Febem...” [29/08/99]

Primeira passagem na Febem, aos 13 anos, por roubo com uso de arma branca.
“Era apetitoso, mesmo. Se a vítima não trincava..., graças a Deus, todas as
vítimas trincou! Digo apetitoso, porque se a vítima não trincasse, eu furava mesmo, sem
pensar duas vezes, sem reflexo e é aquilo: vivendo pelo momento!” [24/03/00]

Em 94, foge várias vezes de casa; segundo a mãe está andando em más companhias,
furta objetos de casa para vender e comprar drogas. Em 95, mais uma passagem pela
internação provisória da Febem, depois de “dois meses de sossego” em casa.
“Voltei para o Glicério. O centro já tava mais evoluído, expandido nesta
questão de droga, crack... Foi no Glicério que começou o crack em São Paulo. Cheguei
a vender... Uma força ruim que me puxava para o crack. Fui me acostumando a roubar...
e usar droga para caramba.” [24/03/00]

Em fevereiro de 1996, nova internação provisória na Febem, desta vez é indicada pela
primeira vez, uma medida socioeducativa: a Liberdade Assistida.
“Depois que fiz 16 anos, tinha um lado meu querendo fugir da droga, mas tinha
uma coisa mais forte me empurrando. Ao mesmo tempo não queria e ao mesmo tempo
ia atrás... Passava na minha cabeça ter um trabalho bonitinho, vestir arrumadinho...
comecei a trabalhar de auxiliar de escritório e às vezes de boy. Meu erro nesta época foi
não ter me abrido com ninguém, não ter falado com ninguém, ter guardado para mim,
quando começou estes pensamentos ruins. Certo dia, acordei e falei: ‘não quero mais
trabalhar’ e já era! [Pesquisadora: não tinha com quem conversar?] Naquele tempo eu
não tinha galera: ou era nóia ou era careta. O que liga o usuário de crack é a própria
droga.

Eu procurava não misturar, já queria fazer sozinho: é eu, é eu, é eu, já era!
Falso comigo ninguém vai ser! Pode ser, mas pela droga não. Então eu não usava junto;
até dava pedra para o cara, mas mandava ele cair fora. Junto só com parceiro, mesmo.
Fora isso, sempre sozinho: comprar sozinho, fumar sozinho. Tinha muita cabreiragem!”
[24/03/00]

Mais uma vez, não consegue ficar em casa; pego por roubo é internado em junho/96 na
UAP-1 (Imigrantes). Já com medida de privação de liberdade, em virtude de “ser
reincidente, já ter tido passagem pela Febem e ter vínculos familiares frágeis”, é
internado na UE-16, Quadrilátero do Tatuapé.

Em agosto/96, é suspensa a medicação psiquiátrica. Em janeiro de 1997, laudo


psiquiátrico da Febem atesta que ele não tem distúrbio psiquiátrico. Em fevereiro/97, é
encaminhado pela Febem para uma clínica para dependentes de drogas (Desafio
Jovem),152 mas logo desiste de seguir o tratamento, voltando para Febem.

É desinternado em julho de 1997, mas para seguir em Liberdade Assistida. Em


setembro é encaminhado para Projeto Quixote, porque queria tratar-se. Em outubro foge
de casa e é pego novamente por furto. Mais uma vez na UAP-1 (Imigrantes), desta vez
terá novamente sentença de internação:
Denota estar em processo de autodestruição que se intensificou após a queda
com lesão cerebral em área que comanda o comportamento e a aquisição de limites
impostos para o convívio adequado em sociedade. Submeta-se a exame psiquiátrico,
neurológico e a tratamento cabível. (Parecer da promotoria, dezembro/97, prontuário
Febem)

Em dezembro de 1997 é internado na UE-15, onde fica até fevereiro de 1999. Nesse
período faz tratamento na Prosam para dependência do uso de droga. Em fevereiro/99 é
transferido para a UE-19, a pedido da mãe, por tratar-se de uma unidade “menos
violenta”. Em abril/99 é desinternado, mas segue em LA até dezembro de 99,
acompanhado pela Casa 10.

152
Instituição de internação para dependentes de substâncias psicoativas, aos moldes dos “Doze passos”,
de onde sai porque “tinha que orar, carpir mato 6 horas por dia e ainda por cima tinha que pagar!”
(fevereiro/2000).
Parado pela Febem, “tive que aprender pela dor, o que não aprendi em casa, com a
minha mãe” (29/08/99). Parado pela Febem, terá que transformar a pressa em vontade:
“Eu era afobado demais. Eu sempre tive essa regrinha: precisava ver o que eu
queria fazer num dia só. Tudo, tudo... o que eu podia, o que dava e o que não dava num
dia, eu queria fazer. Mesmo sabendo que não dava, de burrice, eu queria fazer. (...) Não
tenho mais uma afobação, nem pressa. Muita coisa eu venho aprendendo sobre o tempo,
sobre mim. (...) Não tenho pressa, tenho vontade.” (29/08/99)

Parado pela Febem, não é só lá que estará/continuará “preso demais”. Comentando


porque nunca se casaria, diz Meia-Lua:
“Não caso... acho que já sou preso demais. (...) Pode aparecer uma gringa, num
Mitsubshi Eclipse [para ele, o melhor carrão do mundo], com um padre ambulante
falando: ‘essa é de ouro [a aliança], põe no dedo que você vai ser feliz; moro no
Brooklin, sou vizinha do Sílvio Santos’. Vou falar: ‘vai você, seu Mustang, sua Eclipse,
sua aliança e o Sílvio Santos, tudo lá para China!’ Porque, sabe, acho que já sou preso
demais. Agora que tô conseguindo me desprender da família. Eu sou eu mesmo. Agora,
para onde vou? Ah! Vou fazer um rolê na Anchieta! Se der na louca... quando tiver já
quase em Santos, falo, vou voltar agora! Sabe o que me considero? Um louco lúcido!”
[15/08/99, grifo meu]

Vemos aí se insinuar uma definição de si como movimento: sou eu mesmo-para onde


vou. Depois de formular uma regra de intensidade, vida-filme, formula uma regra de
proteção:
“Sabe que regra eu estou usando? Saber jogar para todos os lados... antes de eu
ser preso eu tava jogando para o mundo do crack, para o mundo do crime... contra o
mundo da polícia, contra o mundo familiar, entendeu? Hoje em dia, eu jogo para todos
os lados. Eu não me dou bem aqui e mal aqui, eu me dou bem em todos os lados...”
[15/08/99]

Vemos insinuar-se também uma definição de si como um paradoxo: um louco lúcido!


Ele acha que existem três tipos de loucura: o louco total, que não está nem aí com nada;
o louco lúcido, que olha para as conseqüências, sabe qual é que é e de vez em nunca, vai
lá e faz e tem aquele que não faz, que não pratica, mas carrega a vontade com ele, este
último é o louco pacato. Estes tipos de loucura variam também para cada um em relação
ao tema em que estamos metidos. Assim, com roubo, Meia-Lua é pacato, mas com
mulher, é louco lúcido!

Um louco lúcido é também como um pecador consciente. Ele dá um exemplo:


“Um roubo de carro, do nada... eu to aí... aí chega o cara: ‘ô, mano! vamo catá
aquele carro, ali?’, ‘Ah! Vamo!’ Só isso aí já demonstrou tudo, que eu sou um pecador
consciente. Eu sei que tá errado, sei as conseqüências, sei que é um pecado e vou lá e
faço. Ao mesmo tempo, sou um louco lúcido, porque, ao mesmo tempo, não sou louco e
ao mesmo tempo, eu sou. Porque eu já passei por um monte de negócio, pelo menos do
que eu iria pegar (de cana) num roubo de carro e de repente, eu tô indo lá e tô
roubando.” [24/9/99]

Ser um louco lúcido é encontrar a melhor estratégia para produzir suas pequenas
rebeliões:
“Eu gostava de escrever versinho e palavrão com catchup no muro do
shopping. Os caras [vigias] me catavam, eu negava até as últimas, só tomava uns tapas
na cabeça e era liberado. Eu fazia um teatrinho! Dava uma de bundão... ‘esse aí nem
compensa bater! Vai embora, vai!’ Mas na sua consciência mesmo, aquele sorrisão de
Coringa [imita o Coringa]. ‘Aquele trouxa, em vez de dar um couro ni mim, sendo
tirado! Ah! Ah! Ah!’ Se nessas horas, você dá uma de maluco, você apanha igual gente
grande mesmo! Dar de maluco é falar: ‘foi eu mesmo e daí?’ Eu não dou de louco, não!
Nessas horas eu uso a lucidez. Chamo até o cara de tio: ‘ô tio! minha mãe vem aqui
todo o dia.... Aquele 171!” [14/10/99]

Posição nem sempre tranqüila de sustentar:


“Para minha mãe, não existe este cara. Para ela, existe ou o louco ou o lúcido.
Então, muitas vezes, eu passo por um louco.” [15/08/99]

Esta forma-paradoxo reaparecerá numa definição de si como uma questão de múltipla


personalidade (em concordância com o educador da LA que o acompanhava neste
período): “múltipla personalidade é o que eu tenho, pareço um monte de gente ao
mesmo tempo” [24/09/99].

De fato, vemos desdobrar-se no relato de Meia-Lua, um menino de “lua”: tipo “do nada
dar a maior tristeza”, uma lembrança, uma nostalgia; tipo “de repente estar nervoso, de
repente estar a pampa...”, mas também um menino-tempestade, um menino-movimento,
na linha da intensidade, da vida-filme, de uma experimentação dos limites; também um
louco lúcido, no desejo do perigo e da transgressão... e finalmente um menino
transuniversal: num árduo aprendizado de que “tem que jogar para todos os lados”.

Transuniversal ou de como juntar muitos mundos

A relação de Meia-Lua com o rap e o hip hop passa por muitos caminhos, muitos deles
coincidentes com o que fez o hip hop ser hoje talvez uma das modalidades mais intensas
e extensas de participação de uma importante parcela da juventude brasileira –
especialmente a juventude pauperizada – na discursividade e nos destinos socioculturais
do nosso país.

Ele destaca a importância que teve o rap na sua saída da criminalidade e do mundo das
drogas:
“A Febem para mim foi uma porta que abriu... e fechou. Não que abriu para
mim entrar lá dentro e fechou para mim não sair. De repente, a porta do mundo se
fechou para mim e outras portas estavam abertas... era só eu escolher, aí foi onde eu
consegui escolher o caminho certo. Foi o rap que apareceu!” [14/10/99]

“O rap, primeiro eu curti, com o Thaíde, desde 88, para depois fazer.”
[15/08/99]

Critica no entanto o risco de mercantilização do rap e o possível distanciamento dos


grupos que ao enriquecerem se afastam das suas origens e da periferia:
“Se eu chegar lá, quero ser igual o Thaíde, mesmo nível de pessoa, humildade
em tudo! Vai comparar o carro do Thaíde com o do Belo. O do Belo é importado, com
certeza; o do Thaíde é um XR-3, nem fabrica mais!” [14/10/99]

“O cara [refere-se ao burguês, ao play-boy] curte aquela música adrenalinosa,


aventureira. É o que o cara adora: dirigir cheirado, escutando Mano Brown e o cara lá,
aquela adrenalina! Se não tivesse aquele som, acho que o cara não estaria bem. Parece
que é movido à música. Ou de repente se espelha no barato; acha o Mano Brown o
bandidão da cocada preta e vai lá ver se consegue fazer igual a historinha que ele conta.
Diferente da periferia, que quando compra o CD, já sabe o que vai ouvir. Sabe o que o
cara está dizendo...” [24/09/99]

Mas vê no rap um caminho para aproximar dois mundos:


“Eu imagino o meu futuro no hip hop ou o futuro do meu grupo... eu digo
assim, perante um país, uma sociedade, tipo, eu posso imaginar, mas não com tanta
convicção, tipo, positivamente, eu imagino que vá melhorar. Melhorou em termos de
discriminação. Os bairros nobres, os play-boys são os que levantam financeiramente o
rap...” [24/09/99]

“Você vê que os boys podem começar a entender o rap, mas mesmo se for por
embalo, ele já está ajudando.” (24/02/2000)

Insiste na importância que teve o rap para que ele desenvolvesse uma capacidade de
aprender o jogar para todos os lados e a dialogar com diversos mundos. É pelo rap que
se apresentará também no mundo da “universidade”.

Em fevereiro de 2000, depois de termos já feito várias entrevistas para a pesquisa e


depois de mais de um mês de férias da pesquisadora, ele relata um sonho, no nosso
reencontro:
“Estou na PUC, te procurando quando um segurança fala que eu tinha roubado
um caixa eletrônico. Aí eu falei que não, que tava procurando a professora X. Falou que
ninguém conhecia essa professora aqui, que eu tinha que ir para a cadeia. Comecei a
correr, entrei num prédio grande, cheio de salas abertas e vazias. Eu correndo e uns
quatro ou cinco vindo atrás. Eu não chegava no sonho e eles também não. Só ficavam
vindo atrás. Eu não chegava para mim, nem para eles!” [14/02/00]
Comenta o sonho:
“Já pensou eu indo lá mesmo e acontecer isso? Depois do acontecido, ia ser
engraçado, porque eu ia ser inocente! Pensei umas três vezes em ir lá, pensei que eu ia
lá e não te encontrava, achei melhor nem ter esta idéia. Acho que iam me olhar
diferente. (...) Eu vi um filme na Globo sobre um professor, eu vi a PUC ali... Pensei:
como será que é? É outro mundo. Eu desconheço. Não sei qualé que é a do bagulho. Sei
que deve ser uma sala maior que o normal, uma lousa quilométrica e que os baratos lá é
difícil. Pensei isto, o resto nem imagino! Curiosidade de ir lá, estou sentindo agora.
Naquele tempo eu tinha vontade, mas era desencanado: fazer o quê lá? Não tem nada
que ver comigo! Quero ver qualé que é! Queria ver como é lá, para ver se consigo
montar uma história, uma música... ou você acha que eu vou ficar ali só olhando? Vou
dar uma de Cris, rapaz, com a cadernetinha!” [14/02/00]

No mês seguinte, apareceria numa aula minha na PUC, apresenta-se como meu “auxiliar
de pesquisa” e “rapper”, arrastando a classe numa experiência de ouvir beat-box e rap.
Arrastará também um grupo de alunos para conhecer seu mundo...153

Inventar um corpo, dar-se um corpo... para ter uma história sem fim!

Um dia, pergunto a Meia-Lua pelas tatuagens que recobrem total ou parcialmente as


cicatrizes do acidente:
“Eu vou falar prá você: eu prefiro mostrar uma tatuagem no meu corpo do que
uma cicatriz. Você [referindo-se à curiosidade descabida da pesquisadora] pergunta
sobre esta tatuagem e a cicatriz. [Rimos, porque ele me acusava de um “truque”, para
investigar a cicatriz, e não de uma curiosidade efetiva pela tatuagem]. Aí eu vou estar
cheio de vontade para falar a história da tatuagem. Mas a história desta tatuagem,
mesmo tendo... olha aí, eu vou inventar uma cicatriz aqui embaixo... eu não vou falar
dela para você! Mas aí você vai perguntar desta aqui [mostra outra] e é capaz que eu
nem queira falar dela para você. Então, tente mentir para você, para não cair no
acidente... Ah! Uma linha de pipa bateu aqui! Ah! caí de bicicleta! Nunca mais caí da
Transuniversal!” [14/10/99, grifos meus]

É essa fabulação: “vou inventar uma cicatriz aqui embaixo”; “tente mentir prá você,
para não cair no acidente”, esta artificialização da vida que encontramos como principal
estratégia subjetiva em Meia-Lua e que lhe permite enveredar por uma história sem fim
e por um corpo “sem fechamento”:
“Você assistiu aquele filme “A História sem fim”? A minha história vai ser
essa aí! (...) Acho que vai ser como a matemática infinita essa lista aí... [de coisas que
quer escrever para me entregar ou que quer contar]. Da história sem fim, o que eu vou

Volta em outra aula para passar um vídeo sobre o uso de drogas entre adolescentes na favela de
153

Heliópolis, que Meia-Lua e outros jovens fizeram na Casa 10, numa Oficina de Vídeo.
escrever para você, eu nunca vou colocar um ponto final... tó, acabou. (...) Sempre vou
ter uma coisa para te entregar... é isso que eu tô querendo dizer. Porque a história vai
estar sempre ali, porque é como uma cadeia alimentar... que não tem fim. Tá sempre
ali.” [14/10/99]

No nomadismo de Meia-Lua, duplo desafio: escapar às injunções familiares,


institucionais, pela qual sua vida “intensiva” é objeto permanente de captura, aprender a
“desfazer”, a descodificar-se, a “desatar os liames”, escapando de ser o corpo da mãe, o
corpo da psiquiatria...; constituir-se, construir seu próprio corpo, ganhar território, poder
passar “entre” vários mundos, ser transuniversal, mantendo um corpo sem fechamento e
uma história sem fim: “desfazer-se”. “Aprender a desfazer, e a desfazer-se, é próprio da
máquina de guerra: o ‘não-fazer’ do guerreiro, desfazer o sujeito” (Deleuze e Guattari,
1997, p. 80).

Do ídolo Thaíde, Meia-Lua certamente encarnou o mote: “faça uma rebelião no cérebro
que você tem, aí dentro você é mais de um, aqui fora seria mais de cem...”

“Pegar uma criança”

Num de nossos encontros, passando pela Baixada do Glicério, local que há tempo não
via, Meia-Lua se surpreende:
“Olha a favela do Glicério, onde eu brinquei, ali! Aquele parquinho ali onde eu
brincava quando era pivete...” [aponta embaixo do viaduto; ri, um tanto emocionado!]

Em seguida, referindo-se aos guardas que ficam por ali:


“Os caras não pegam nem barata! Já dei várias perdidas nos caras! Eu tiro a
base porque eu era uma criança... e é o seguinte: se o cara não pega uma criança, um
cara barbado, que tá treinado ali prá ser vigia, o cara não pega uma criança... o cara,
numa cozinha, não deve ter apetite nem para pisar numa barata! [Pesquisadora: o que
acha que acontece que ele não pega uma criança?] Porque ele não me pegou ou, de
repente, eu é que sabia dar um perdido. De repente... hoje em dia eu posso estar falando
com você que ele que não me pegava mesmo... porque na época eu era inocente. Eu não
tinha esta maldade: “Ah! vou me esconder ali e ele não vai pegar!” Qualquer rua que,
pá, eu tava correndo, eu tava dando pinote e o cara, sei lá, de repente ou desistia de me
pegar, pode ter esta hipótese, de repente o cara podia até ter esta possibilidade e não
também pegar, sei lá! Mas meu pensamento é este aí mesmo, que o cara é um bunda e
não pega nem uma barata.” [27/03/00, grifos meus]

Poderíamos tomar esta fala de Meia-Lua como aparentemente corriqueira, como um


“zoar com os guardinhas”, mas o tom carregado de afeto, de uma certeza do que se
passara ali com ele na relação com os adultos... e mais ainda, nossa preocupação
justamente com esta temática da relação adulto-criança, quando falamos de uma
mudança ou de uma transição de paradigma, neste campo, levam-nos a desejar extrair
daí outras tantas questões: talvez para encontrar não apenas o fundamento de ordem
psicológica ou cultural – porque uma criança deve ser considerada um ser em condição
peculiar de desenvolvimento – que se agregue a uma ordem de escolha ético-política
que é a do ECA, mas de modo a ampliar nossa potência de narratividade e
discursividade sobre esta diferença adulto-criança, de modo a evitar que ela se inscreva
apenas num formalismo legal.

Seria necessário “pegar” uma criança, como propõe Genet: “seria necessário que fôsseis
esta criança, seria necessário que fôsseis também vós, o crime, e o santificásseis, com
uma vida magnífica, quero dizer com a audácia de romper com o todo poderoso
mundo” (1988, p.22, grifo meu); seria necessário não atenuarmos ou matarmos a revolta
com suavidade, bondade, indulgência: “o jovem criminoso recusa também a mesma
indulgente compreensão e a solicitude contra a qual acaba de insurgir-se e exige um
castigo sem doçuras. Deseja o rigor. (...) Exige que a provação seja terrível. Talvez para
aplacar uma impaciente necessidade de heroísmo” (Genet, 1988, pp. 13-14).

Ou seja, em boa medida, voltando à nossa questão da delimitação entre rebeldia ativa ou
reativa, linha de fuga ou de abolição, o que provocará sua distinção são os
agenciamentos sociais com que estas expressões juvenis estarão conectados, ou seja,
dependerá da “tangível virtualidade” com que o mundo adulto “pegará uma criança...” e
“inventará seus corpos” e “fabulará sua vida”.

Alonso Salazar chama atenção para o que aconteceu com os grupos punk e com outras
formas de expressão juvenil na Colômbia, que eram “sementes de uma contracultura
que não germinou frente a capacidade de sedução e submetimento do poder das armas e
do dinheiro” (1998a, p.121): terminaram eliminados ou incorporados às estruturas
militares do narcotráfico, converteram-se em bandas, em agrupamentos estruturados ao
redor do exercício da violência, com rígidas hierarquias e defesa militar de seu
território, ou pelo menos, foram assimilados à sua órbita cultural e replicaram suas
crenças, linguagem e iconografia, profundamente conservadoras.

Rossana Reguillo traz um contraponto com o caso do México: os jovens de setores


médios e altos – universitários, yuppies, com pleno emprego –, herdeiros do desencanto
político, do descrédito das grandes bandeiras, muitos cúmplices involuntários de relatos
paralisantes, e que adotaram a denominação de geração X – “categoria” que serviu para
definir o niilismo, o consumismo, a depressão profunda e a renúncia ao futuro dos
jovens de setores acomodados da América do Norte – tiveram radicalmente alteradas
suas visões e ações a partir da rebelião zapatista, na medida em que se sentiram
convocados de um lado e de outro experimentaram uma solidariedade que não exigia
maiores militâncias além da que permite sua paixão. Além disto, contribuiu também o
fato de terem entrado em contato com o componente indígena do país, não como um
elemento folclorizado do passado, mas como presente lacerante e vivo e ao mesmo
tempo esperançoso. “O zapatismo funcionou como um movimento aglutinador
interclassista dos jovens mexicanos” (Reguillo, 1998, p.61).

São dois exemplos que nos ajudam a perceber que as “emergências” da expressividade
juvenil configuram uma máquina letal ou uma rebelião feliz a depender dos
agencimentos sociais com que se conectam: “Sem a explicitação formal de projetos
políticos, as culturas juvenis atuam como expressão pura que codifica através de
símbolos e linguagens diversas, a esperança e o medo” (Reguillo, 1998, p.81).

Vimos até aqui que o hiper-realismo é estratégia de subjetivação combativa, que faz
frente ao risco de “desaparecer” (ao risco do extermínio), é trabalho de processamento
mesmo da violência, portanto, uma elaboração dos efeitos de um traumático; é
estratégia comunicativa, que os conecta aos modos midiáticos/performáticos do
contemporâneo e a todas as lutas sociais... Examinemos agora um pouco destas
conexões.

3. Podemos falar em rebeliões da juventude?

Não se trata neste momento do trabalho de fazer um panorama analítico das produções
conceituais sobre juventude; tal empreitada tem sido realizada por diversos
pesquisadores, principalmente na área das ciências sociais (Abramo, 1994, 1997;
Sposito, 1997; Cardoso e Sampaio, 1995; Sousa, 1999; Diógenes, 1998).

No âmbito desta pesquisa, pretendi focalizar especialmente a tematização da juventude


na sua interface com a rebeldia/rebelião. Este é um dos eixos mais presentes nas
elaborações sobre juventude, representada ora como “revolucionária”, “portadora de
utopias e de projetos de renovação social”, ora como “ameaça e risco” (Abramo, 1994;
Diógenes, 1998; Lapassade, 1973), numa ambigüidade que também reflete/espelha a
que a sociedade mantém frente a eles, que oscila entre a “idealização e a
estigmatização” (Costa, Tornero e Tropea, 1996). Ambigüidade que Georges Lapassade
já analisara criticamente ao assinalar a desconfiança da sociedade com os indivíduos
que levem demasiadamente longe a iniciativa e o espírito crítico: “aqui está sua
contradição (da sociedade): manter um sistema conformista, baseado em valores
ilusórios e, ao mesmo tempo pretender preparar adultos capazes de humanizar tal
sistema e integrar-se a ele ativamente” (1973, p.223), de onde a “rebeldia juvenil”
expressar, para o autor, uma contestação a este impasse.

Vimos também, no capítulo I, como este eixo derivou na formulação atual da juventude
como “problema” e em sua recorrente associação com a temática da violência. Abramo
(1994) analisa, por exemplo, como a cristalização da “essência” da condição juvenil
como portadora de utopias projeta sobre a geração jovem contemporânea a marca de
uma negatividade ou de um desvio, “pela ausência de capacidade de reflexão crítica” ou
pela “falta de empenho transformador” (vide sua nomeação como geração Coca-Cola,
geração AI-5) e impede que se acompanhem as respostas singulares que estão se
produzindo no contexto social em que se encontram.

Por isto, devemos nos perguntar se insistir na pergunta pelas “rebeliões da juventude”
não poderia, além de parecer quase anacrônico, nos colocar sob o risco de um rebote
melancólico: o de introduzir na diversidade das expressões juvenis contemporâneas a
‘régua’/a ‘medida’ da rebelião como um parâmetro de análise, tal como os movimentos
estudantis foram uma transcendência exemplar para as outras produções juvenis, “forma
predominante assumida pela ‘rebelião juvenil’ na sociedade moderna” (Foracchi apud
Abramo, 1994, p.25).

No entanto, também temos visto como as produções mais recentes sobre juventude,
buscam validar/positivar suas expressões num vasto campo de forças e de luta por novas
produções de sentidos, configurando assim, num sentido ampliado, lutas de resistência.

Assim, ainda que as rebeliões da Febem configurem um fenômeno que emerge num
setor bastante específico da juventude e que não possa ser parâmetro para o conjunto
dos grupos juvenis, penso que ao encontrarmos seu singular modo de “aparecer” e de
“subjetivar-se”: seu hiper-realismo, encontramos também sua conexão com outras
movimentações intensivas, fortemente expressivas e até “implosivas” de grupos juvenis,
parecendo ser possível tomar estas rebeliões também como um “analisador” do que
convoca hoje a juventude. Por isto, neste item, indagarei que relações podemos
estabelecer entre a ação específica/local de jovens infratores e a “condição juvenil”,
não para extrair daí um parâmetro de comportamento, numa espécie de construção de
uma escala de “risco”, onde o infrator ocupa o grau mais elevado, mas para pensar que,
se os “delinqüentes juvenis” com seu hiper-realismo e suas rebeliões, operam talvez
“uma subversão no campo dos possíveis” (Meunier, 1976, p. 133), que “disposição-
rebelião”154 pode encarnar hoje a juventude?

De fato, como bem problematiza Alberto Melluci (2001), uma ação não pode ser
deduzida de uma condição social. A questão para este autor não é saber se os jovens são
sujeitos potenciais de ação coletiva antagonista, mas em que campos de conflitos,
mediante que fatores conjunturais de ativação a juventude pode ser o suporte desta
mobilização (pp. 100-101).

Faremos inicialmente um breve sobrevôo pela questão da rebeldia, retomando uma


questão que já apresentei no início deste trabalho (capítulo I).

154
Conforme sugestão da Profa Regina Benevides de Barros, preferi falar de uma “disposição-rebelião”,
para evitar tomar a rebeldia como um atributo substancialista da juventude e para acentuar na idéia de
rebelião, sua dimensão de dispositivo: “a noção de dispositivo aponta para algo que faz funcionar, que
aciona um processo de decomposição, que produz novos acontecimentos, que acentua a polivocidade dos
componentes de subjetivação.” (Barros, 1994, p. 151)
Um sobrevôo pelas questões da rebeldia

O pachuquismo foi um movimento significativo das décadas de 30, 40 e 50 que reuniu


tanto os jovens pobres do norte do México, quanto os chicanos (os nascidos nos EUA,
filhos de imigrantes mexicanos) dos Estados Unidos e que imprimiram um novo estilo
às ruas de cidades texanas, californianas e do norte do México, como nos conta o
professor José Manuel Valenzuela Arce (1999).155 Eles causavam impacto por seus
trajes (zoot-suits) folgados, suas correntes na cintura, seus sombreiros com uma pena na
lateral, pelas poses de dândi, por atitudes e gestos desafiadores, pelo uso das tatuagens
no corpo, marca de cárceres e milícia, pela invenção de uma linguagem emanada do
cotidiano do bairro, da violência ou do cárcere, que recriava com extraordinária riqueza
palavras provenientes do inglês e do espanhol. O pachuco utilizou símbolos mexicanos
como referentes de demarcação de identidades de fronteira com o mundo anglo-
saxônico, assumido como opressor e discriminador, elementos demasiado visíveis e
ameaçadores para a população anglo-saxônica. Esta é a hipótese do autor para a intensa
e violenta perseguição de que foram objeto, principalmente durante os zoot-suits riots
(motins dos pachucos) de junho de 1943, em Los Angeles, quando foram brutalmente
agredidos pelos marinheiros com a cumplicidade da polícia. Não só os pachucos
sofreram a repressão e o encarceramento, mas a turba “oficial” também atacou cinemas,
bilhares, parques públicos, piscinas e outros espaços públicos freqüentados pela
população mexicana. Também foram agredidos jovens afro-americanos, enquanto a
imprensa apresentava um clima de violência supostamente gerado pelos pachucos,
atiçando ainda mais os elementos racistas de amplos setores da população anglo-
saxônica que voltavam a defender a existência de uma predisposição biológica para a
delinqüência e o crime de grupos minoritários, especialmente na população mexicana
(Arce, 1999, p. 81).

Tomo este breve exemplo porque ele nos ajuda a ver as linhas de força que forjaram a
juventude como lugar por excelência da rebelião, como espaço de perturbação:
geracional, das relações de poder, da autoridade. O exemplo também aponta esta
associação juventude-rebelião mostra já as marcas de uma inflexão para sua
criminalização.

Acompanharemos um pouco mais a perspectiva de análise de Arce, porque ela destaca a


seletividade das atribuições-representações sociais, evidenciando um intenso campo de

155
Cabe ressaltar a posição estratégica deste pesquisador, que é, a meu ver, uma das dimensões que faz
com que ele insista em pensar os marcantes processos de exclusão de amplos setores da juventude latino-
americana pobre. O Prof. Valenzuela Arce é mexicano e coordena centro de estudos e pesquisas sobre
juventude no Colegio de La Frontera, em Tijuana, exatamente na fronteira do México com os EUA
(Califórnia), espaço sociopolítico-geográfico “quente” – é por onde tenta a migração clandestina parte da
população mexicana e onde se “cruzam” e se “confrontam”, principalmente no âmbito da juventude, os
impasses da “globalização” e da “exclusão”. Lá, os “fenômenos fronteiriços” são propriamente
“geopolíticos”.
disputas pelas definições de sentidos que atravessam a própria conceituação de
juventude.

O autor destaca que a ativação do jovem de classe média como ator emergente que
caracterizaria a condição juvenil situa-se, entre outros fatores, no forte crescimento
populacional do século XX, acelerado na década de 40 com a urbanização da
população, o crescimento econômico do pós-guerra, a expansão da classe média, o
desenvolvimento dos meios de comunicação com seu papel na formação de protótipos
jovens e a segregação socioespacial urbana. “As perspectivas dominantes estabeleceram
que nas zonas e bairros populares havia delinqüentes, desocupados ou trabalhadores,
mas não movimentos juvenis” (Arce, 1999, p. 75). Posteriormente, nas décadas de 50 e
60, com a figura do rebelde sem causa, que a indústria cultural se apressou a capturar,
perdeu-se o controle sobre os jovens dos setores médios que se “rebelaram a continuar
com a representação do exemplo dócil e participativo que lhes destinavam os projetos
dominantes que obrigou a proscrevê-los como atores prototípicos do ser jovem” (idem,
p.77).

Focalizando a dimensão de poder-resistência que atravessa a história da própria


construção do fenômeno, Arce vê nas expressões juvenis contemporâneas um
importante campo de batalha, pois a crise econômica de finais da década de 1970 e da
chamada década perdida dos 1980, no caso do Brasil, pôs os jovens das favelas, das
zonas e dos bairros populares em primeiro plano: eles conseguiam maiores âmbitos de
expressão, construíam novas formas de recriação e de resistência cultural, novos
umbrais de adscrição de identidade que puderam ser disseminados pela maior
mobilidade que os espaços abertos na própria cidade conferiram aos jovens da periferia
(fenômeno que o autor também identifica nos punks na maioria das grandes cidades do
mundo, nos cholos do México e dos Estados Unidos, nos chavos banda do México, no
reggae e no rap, entre outros movimentos). Mas a irrupção destas expressões juvenis
apresentou-se num clima social definido pelo aumento mundial da violência, o que
levou a estigmatizações recorrentes sobre os movimentos juvenis, principalmente contra
aqueles protagonizados pelos jovens das classes populares.
A resposta social dominante tratou de reduzi-los à imagem ameaçadora de
delinqüência e crime, mas suas redes socioculturais resultaram mais fortes do que o
imaginado. Seus campos de definição de identidade mostraram enorme capacidade
convocatória. Sua perseguição, seu acossamento e sua proscrição permitiram-lhes
desenvolver novos umbrais de adscrição, definidos por referentes simbólicos de classe
ou geracionais. (Arce, 1999, p.79)

Arce prossegue sua análise, destacando como, no entanto, as décadas de 1980 e 1990
agravaram a ausência de projetos nacionais com propostas confiáveis para seus jovens,
que foram reintegrados a seus espaços sem respostas viáveis para suas reivindicações.
Novamente, o jovem dos setores populares ficou condenado à invisibilidade ou
à proscrição ou então ficou sujeito à identificação social mediante formas unilaterias,
estereotipadas e condenatórias, mas sem respostas ou propostas que resolvessem suas
inquietudes. (idem, p. 84)

Assim, contemporaneamente, temos visto ações juvenis que emprestam enorme


expressividade à delinqüência e à violência. Integrados culturalmente – pelo acesso à
sociedade de consumo e pela disseminação dos valores oriundos do processo de
democratização (e não tanto da experiência real de democracia, como evidenciamos
com as rebeliões da Febem-SP) – os jovens pobres têm sinalizado uma não aceitação
dos processos de rejeição, estigmas e violências a que estão submetidos. (Arce, 1999;
Peralva, 2000; Neto e Quiroga, 2000; Herschmann, 2000). Os estudos que
acompanhamos destacaram a emergência de uma diversidade de expressões grupais
afirmativas de sua singularidade e não de uma exclusão, bem como interpelativas de um
reconhecimento da fragmentação e diversidade sociocultural existente no país.
A expressão de conflitos e interesses diferenciados emerge na forma de
manifestações socioculturais que encontram no consumo, na produção cultural e na
afirmação de “estilos de vida” um importante canal de articulação, negociação de
sentidos e significados e o estabelecimento de novas formas de representação social que
lhes permitem expressar seu descontentamento, sua insatisfação. (Herschmann, 2000, p.
170)

Neto e Quiroga (2000) hipotetizam que talvez o que assuste no comportamento da


juventude urbana pobre, e que acione os modelos de leitura social do desvio e da
transgressão, seja esse movimento de sair do lugar onde sempre estiveram seus pais, que
viveram sua subordinação e seu confinamento a determinados espaços da cidade como
normalidade.
O invadir as praias ou transitar ruidosamente pela cidade indicam um
afastamento até mesmo do pacto territorial que serviu à organização da cidade. São pois
movimentos certamente simbólicos, mas também reais, de ampliação dos limites
impostos aos diferentes grupos e segmentos sociais, na sua convivência urbana e
social. Representam, certamente, uma ruptura, um encurtamento do hiato que separa a
formalidade dos direitos de cidadania e a prática destes direitos por seus presumidos
sujeitos. (Neto e Quiroga, 2000, p.233, grifo meu)

Teremos encontrado aqui algo da disposição-rebelião que vimos com os internos da


Febem: movimentos reais que encurtam a distância entre a formalidade e a prática de
direitos? Pode se tratar de um “hiper-realismo sociopolítico”?

Para ancorar um pouco mais esta observação, olhemos dois cenários juvenis, de
diferentes períodos.

Abramo (1994) nos conta que o “aparecimento espetacular no espaço público” que os
punks e darks ensejaram, com sua estratégia de “choque” pela apresentação do
inusitado, do desconcertante e da agressão, como forma de denúncia do presente e de
submeter à prova os projetos existentes, foram perdendo a força de produzirem
interferências ou deram lugar a uma fragmentação do aparecimento juvenil, ao longo
dos anos 1980.

Já nos anos 1990, Diógenes (1998) nos mostra como o “aparecimento violento” das
gangues não tem uma natureza instrumental: “é puro espetáculo, um ato de expressão de
vazio, de uma ausência de sentido” que revelam que “não há mais nada a dizer” (p.213).
É a face mais eloqüente, embora “muda”, da vivência da exclusão social. Ela entende
tratar-se de uma “afirmação da auto-exclusão”, da afirmação de “um não-lugar” e que a
violência juvenil seria “o ‘lugar por excelência’ da incerteza e do acaso” (p.91). Auto-
exclusão e lugar do acaso: encontramos aí as figuras do banimento que vimos com
Agamben e que ganham formas mais evidentes ainda entre os jovens da Colômbia.
Desechable é o termo cunhado originalmente em Medellin para chamar os jovens
sicários utilizados para algum trabalho como camicase. Hoje, na Colômbia, o termo se
aplica aos habitantes das ruas e esquinas do país, condenados a morrer prematuramente,
sem sequer a promessa sicarial do enriquecimento pelo narcotráfico (Guzmán e Mejía,
1996, p.174). Desechable, isto é, descartável, que se pode jogar fora, é o homo sacer do
nosso tempo.

Cabe indagar: estes dois modos de aparecimento juvenil que vão do “choque
espetacular” à “auto-exclusão”, não são também indicativos de uma inflexão em direção
a um “movimento implosivo”, como vimos com o “seguro” da Febem e que aparece já
em seus efeitos mais ferozes, com a figura do desechable?156 Não estamos defrontados
justamente com a conversão das possibilidades de rebelião potente, de “projeção de si
na mais audaciosa das vidas” em “vida nua”: captura de “si” pelas lógicas
contemporâneas, tomem elas a forma de um “individualismo utilitário” (Tornero, 1998)
ou da “delinqüência”?

Lembremos o quanto diversos estudiosos têm analisado a situação contemporânea como


propícia à encarnação pela juventude de um individualismo ou de uma combinação
niilismo-individualismo (Marin, 2001; Oliveira, 2001, Rocha, 2000, Robledo, 1999),
principalmente neste contexto de hegemonia do mundo das mercadorias e do consumo,
de perda das identidades coletivas e do espaço público, de fragmentação dos capitais
simbólicos.157

Narcisismo, delinqüência, tribalismo são paradoxalmente, derivações críticas


da pressão por identidade que o fenômeno da juvenilização geral da sociedade exerce

156
Alguns estudiosos identificam também contemporaneamente na juventude uma experimentação da
violência pela violência, de difusão do êxtase destrutivo, numa espécie de agenciamento do desejo onde
está em jogo a ultrapassagem da limitação corpórea: pessoal e a do outro, podendo levar à auto-destruição
e destruição do outro (Rocha, 2000, p. 59).
157
Refiro-me às análises que têm focalizado o narcisismo como resposta funcional ao sistema econômico
midiático, que constrói uma “correspondência formal entre os valores que são funcionais à sociedade de
consumo e aqueles referentes ao estatuto dos jovens no nosso sistema social” (Tornero, 1998, p. 265), o
que vem sendo chamado de juvenilização. Tais valores, adaptados ao sistema produtivo e fortemente
calcados nos discursos da publicidade e da moda, centram-se na “inovação, na velocidade, na aceleração,
na visibilidade e na sobre-representação” e os jovens vêem-se “pressionados a negociar com eles (estes
valores) do modo mais cru e descarnado, sentindo em sua psique e em seu caráter as tensões próprias do
seu meio” (idem, p.268).
frente aos jovens. São, provavelmente os aspectos mais “chamativos” de uma
mediatização social que incide sobre o imaginário dos jovens. (Tornero, 1998, p.273).158

Neste contexto onde os processos de marginalização e exclusão se conjugam com os de


subjetivação, onde as tecnologias políticas são cada vez mais tecnologias de produção
de identidades, é bom relembrar de um lado, o peso que exercem os imaginários sociais
sobre a produção das “juventudes” e de outro lado a densidade mesma dos efeitos de
realidade que se estão provocando. Ou seja, individualismo, narcisismo, niilismo,
delinqüência não são traços de personalidade, são “agenciamentos coletivos de
enunciação”. Sua persistência ou seu desmonte dependem da aposta ética, política,
comunicativa, cultural e educativa que o mundo adulto faça em torno das
experimentações juvenis, dependem dos pensamentos que construamos e das ações
concretas que efetivamos. Do peso dos “efeitos de realidade”, esta pesquisa deu uma
amostra com as rebeliões e Salazar nos lembra que a insurgência dos jovens como
atores da violência e da criminalidade organizada é massiva e ocorre em diferentes
partes do mundo, constituindo-se num enorme desafio para a governabilidade
democrática de cidades e nações (Salazar, 1998a, p.126): serão todos facilmente
elimináveis, “desechables”? Então, de novo, é preciso colocar uma regra de prudência e
um alerta ao pensamento.

Jesús Martín-Barbero (1998, p. 29) considera que o que há de novo na juventude de


hoje é a percepção ainda obscura e desconcertada de uma reorganização profunda nos
modelos de socialização, prevalecendo uma cultura da fragmentação, a identificação da
juventude com o presente, a hegemonia do corpo e da expressividade e uma
contracultura política. Do mesmo modo, com a afirmação “Somos expressão, não
subversão”, tomada dos próprios jovens, Perea sintetiza a posição da juventude como de
emergência de novas sensibilidades que já não são as mesmas que durante muito tempo
teceram as identidades coletivas, evidenciando a atomização do espaço público, a
fragilidade dos valores da democracia e a globalização e fragmentação dos capitais
simbólicos (Perea, 1998, p.149). São observações que colocam a juventude no mais
contemporâneo dos mundos: num virtual estado de desfazer o mundo e de “desfazer-
se”, como uma máquina de guerra. Não é “entre a dissolução do eu e a afirmação
excessiva nos estilos, que se dá o plus vital do juvenil contemporâneo”?, pergunta-se
Amaya (2000, p. 27).

Em torno das formas de pensar a juventude, acompanhemos outros olhares. Para


Reguillo, muitas das formas de convivência dos coletivos juvenis, em que pese a
atribuição crescente de individualismo, fundamentam-se num princípio ético-político
generoso:

158
Tornero entende que o narcisismo é propiciado pelo embotamento perceptivo decorrente da economia
midiática – é um ensimesmamento midiatizado, um individualismo consumista; uma insatisfação
inapetente por saturação dos objetos apresentados pela mídia e uma narcose como resposta à prolongação
brusca da sensibilidade que opera o sistema midiático (1998, p. 270) –; a delinqüência seria forma de
auto-apresentação que privilegia a gestão de sua reputação pública e uma contranegociação (por meio de
uma identidade perigosa) com as instituições que privam de boa reputação alguns jovens e a tribalização
uma reação negativa, mas não subversiva ao individualismo utilitário da modernidade.
(...) o reconhecimento explícito de não ser portadores de uma verdade absoluta
em nome da qual se possa exercer um poder excludente. O quase religioso respeito
pelos demais e sua exigência inversa com relação às suas próprias visões assinala a
importância de um conceito promovido pelos zapatistas e que se tentou escamotear com
argumentos jurídicos: a autonomia, que no caso dos jovens se formula como direito a
pronunciar-se com certeza sobre si mesmos e sobre o mundo. (Reguillo, 1998, p. 80)159

Na mesma direção caminha Sousa (1999) que, ao estudar a militância política de jovens
brasileiros dos anos 90, evidencia a resistência que estes imprimem à lógica
contemporânea da fragmentação por meio da construção de coletivos solidários, que
incorporem, no entanto, a individualidade. “A utopia para esses jovens passa pela
cidadania, pelo respeito, pela ética, pela luta contra a intolerância, pelo antidogmatismo,
pela participação não-excludente, mais ampliada, que inclua aqueles que não são
necessariamente revolucionários” (Sousa, 1999, p.196).

Analisando os punk, os taggers (grafiteiros) e os ravers, Reguillo (1998) entende que os


jovens, principalmente os dos setores populares, se autodotaram de formas
organizativas que atuam em relação ao exterior – em suas relações com os outros –
como formas de proteção e segurança frente a uma ordem excludente; e que em relação
ao interior operam como espaços de pertencimento e adscrição identitária a partir dos
quais é possível gerar um sentido em comum sobre o mundo.
A anarquia, os ritmos tribais, os rachas na cidade, a busca de alternativas, os
compromissos itinerantes devem ser lidos como formas de atuação política não
institucionalizada e não como práticas inofensivas de um montão de loucos
“inimputáveis”. (Reguillo, 1998, p. 80)

Vemos assim comparecer nestes estudos (Diógenes, 1998; Reguillo, 1998, 2000;
Amaya, 2000), uma espécie de lugar “dentro-fora” da expressão juvenil: uma “fora-
inclusão”, como a nos apontar que haverá um lugar marginal que não precisa
corresponder a um banimento ou à exclusão. Um lugar de “estranha participação”, “uma
adesão sem verdadeira vinculação”, ou seja, uma situação onde “qualquer que seja o
grau de sua precariedade, de sua solidão, de sua alienação, o ser humano, na medida em
que todas as suas posições estão inacabadas, segue sendo capaz de superar suas
servidões” (Lapassade, 1973, p. 279).

159
Alguns estudiosos têm visto na tribalização juvenil (Maffesoli, 2000; Costa, Tornero e Tropea, 1996;
Tornero, 1998) uma forma de resposta que não passa exatamente pelo individualismo, mas pelo contágio
e pela imersão na sociedade: “os jovens não aceitam a assepsia dos ambientes individualizantes, as
distâncias da modernidade, mas buscam a tactilidade, própria da infância, o corpo a corpo, a multidão –
frente ao isolamento que supõe o espaço público – e a reclamação espetacularizante de uma identidade
chamativa, em definitiva de uma sobrerepresentação”.(Tornero, 1998, p.273). As tribos são agrupamentos
provisórios, efêmeros e instáveis que proporcionam aos jovens um sistema simbólico e prático que lhes
permite suportar a pressão “identitária”, por meio de: defesa de interesses comuns e de construção de
vínculos gregários com valores específicos, consolidação – por meio de ritos e experiências – de um
sentido de pertencimento grupal (Tornero, 1998, p. 272).
Meunier formula a idéia de que os gaminos, os meninos de rua de Bogotá, parecem
encontrar-se nesta posição: equilibram-se entre a infância e a selvageria (1976, p. 28),
são “crianças que assumiram sua infância”. “É justamente porque é o presente, sem
futuro, que é uma criança maravilhada com a infância. Uma criança total” (idem, p.34).
Meunier convoca assim a rebelião enquanto “capacidade de invenção e de destruição”,
de um modo similar ao que encontramos com Lapassade, que entende que o adulto
como um modelo para as novas gerações não é mais que um mito construído para
legitimar as repressões. “As idéias de término, consecução, maturidade, estabilidade e
equilíbrio pertencem desde sempre às ideologias da ordem e da dominação” (Lapassade,
1973, p. 13), pois, para ele toda história individual e coletiva é “entrada permanente na
vida” e nunca resultado definitivo.
Se admitimos efetivamente que toda empresa humana permanece inacabada, a
idéia clássica de uma ética que permite estabilizar a vida deve ser abandonada e deixar
lugar a uma reflexão orientada simplesmente a circunscrever uma estratégia de
existência. Porisso eu tomaria aqui a linguagem de uma atividade social essencialmente
questionadora e estratégica, a política, o conceito de entrismo,160 chamado a designar o
movimento permanente pelo qual o homem se esforça em entrar na vida. (Lapassade,
1973, p. 278)

Haverá posição mais estratégica que essa – a da juventude, nesta acepção “entrista” –,
se admitimos que já nos encontramos frente a uma “mutação das formas de organização
do social, que já não permite pensar em sua unidade”, que já nos encontramos frente ao
questionamento da própria idéia de integração como fundante mesma da nossa
concepção do social? (Castel, 1991, p.173).161

Vimos que, nas rebeliões da Febem-SP, se comparece um “gosto pela sordidez e pelo
perigo (...) estes são apenas os sinais exteriores de uma rebelião, de um protesto que só
adquire sentido se o conseguimos inserir numa história mais ampla” (Meunier, 1976, p.
136, grifo meu), se conseguimos conectar esta capacidade de invenção e de destruição,
de desobediência civil, esta “potência das forças vivas da infância” (idem, p.134) a um
“plano revolucionário”. Plano revolucionário entendido aqui não ao “modo
programático”, mas ao “modo diagramático”, isto é onde as lutas pelas transformações
sociais e econômicas liberadoras em grande escala “não invalidem as realidades
contingentes e as singularidades da ordem do desejo”, onde as revoluções moleculares,
todas as lutas pelos espaços de liberdade articulem-se com os agenciamentos
explicitamente revolucionários (Guattari, 1987, p. 221), “onde a subjetividade, de
qualquer homem, se introduza na história...” (Foucault, 1994, 1999).

160
O entrismo é, em sentido estrito, uma estratégia de oposição interna definida por uma corrente do
movimento trotskista, em que o militante entra num partido já constituído que não é o seu para convertê-
lo ao marxismo verdadeiro. Lapassade (1973, p. 279) toma da idéia de entrismo sua posição estratégica:
está no partido, sem ser do partido.
161
Castel pergunta-se se neste “estallido do social”, caminhamos para a resignação na direção de uma
sociedade dual ou para uma abertura em direção a formas de solidariedade mais locais, mais negociadas
que impostas, enfim, mais democráticas (1991, p.172).
Existirá uma rebelião das crianças e dos jovens, se estes puderem constituir uma “fuga
ativa”162, isto é, se encontrarem mais armas: se mais adultos “entristas militarem para
um novo destino” (Lapassade, 1973, p.279), se os adultos puderem deixar os jovens
num “sossego identitário” (diminuindo a pressão identitária sobre os jovens), se se
ampliam os espaços de “interlocução intergeracional” e se os jovens ampliam sua
“participação comunicativa no mundo”... (Tornero, 1998, pp. 275-276). Para que as
rebeliões incitem um “novo direito”, será necessário cada vez mais politizar esta
discussão, será necessário agenciá-las com todas as “rebeliões da juventude”, com todas
as “subversões” que tenham a “audácia de romper com o todo poderoso mundo” para
instaurar outros mundos...
Os jovens podem, portanto, tornarem-se atores de conflitos porque (...)
fundam-se na incompletude que lhes define para chamar a atenção da sociedade inteira
para produzir sua própria existência ao invés de submetê-la; fazem exigência de decidir
por eles próprios, mas com isto mesmo reivindicam para todos esse direito. (Melluci,
2001, p.102, grifo meu)

Ao forjarem este modo hiper-realista de viver, os jovens inventam sua própria


existência. “Imaginemos a fria revolução como devendo aquecer o mundo
superaquecido de hoje. Hiper-realismo, por que não, se significa extrair ao real morno e
opressivo um ‘a mais de realidade’ em favor de uma alegria, de uma detonação, de uma
revolução” (Deleuze, 2002, p.349)

Poderá este hiper-realismo, este “não nascer para semente”, esta assunção dos “riscos da
vida”, realizar um combate à sociedade de dominação? Penso que uma primeira
condição para que o hiper-realismo opere como “insurreição” é o de ser escutado mais
além de um processo “psíquico” ou “psicossocial” que afeta os internos da Febem, mas
em seu duplo “laço político”: como lugar-cruzamento de técnicas do eu e de técnicas
políticas e como dimensão que afeta a todos e não apenas aos jovens da Febem-SP,
porque fala dos limiares em que a vida está colocada.163

Penso que o hiper-realismo nos ajuda a perceber que talvez seja estratégico atualmente,
lutar pelo direito à vida, se, pelo direito à vida, entendermos o combate ao biopoder,
pois, como vimos, pode ser estratégico, como Maguila e outros internos nos ensinaram,
recusar a vida quando esta recusa for ato de reivindicação de poder.164 Mas que também

162
Deleuze e Guattari tomam essa idéia de Jackson: “não paro de fugir, mas ao fugir procuro uma arma”
(1976b, p. 202)
163
E que redimensionam a luta contra a redução da idade penal como uma luta política por excelência,
uma vez que com a proposta redução trata-se de jogar o limiar dos que estarão expostos à morte mais para
baixo!
164
Explico-me melhor: acompanhamos com Agamben a vigência de uma forma de poder (biopoder ou
biopolítica, em Foucault), que se funda sobre a separação entre zoé – o fato da vida, a vida biológica, a
sobrevivência, a vida nua – e bios, a forma ou maneira peculiar de viver, e que faz da vida nua a forma
dominante de vida por toda a parte. Pelbart (2000, p. 27) nos lembra o complexo problema político que
isto coloca, na medida em que “o campo de ancoragem da resistência coincide com o campo de
incidência do poder”, isto é, a “resistência não poderia (ou deveria) deslocar-se dos termos ditados pelo
próprio poder?” e como autores como Michael Hardt, Toni Negri e o próprio Agamben buscaram alargar
é estratégico validar o direito à rebelião, sempre que ela for ato de desobediência civil,
sempre que ela for ato de subjetivação, isto é, de inclusão de si e de suas questões, de
seus problemas, num âmbito coletivo.

Em outros termos: não se trata de fazer a apologia da infração ou da transgressão; mas,


se o adolescente em conflito com a lei puder ser hoje menos “marginal”, seria
importante que isso não se fizesse às custas de pacificar suas diferenças.

Não sabemos se estas rebeliões de adolescentes poderão reconfigurar as fronteiras do


intolerável em meio a tanta naturalização da violência, mas se elas servirem para operar
em nós estas fagulhas de um devir-revolucionário, certamente os jovens terão outras
histórias para contar...

os limites do enfoque foucaultiano: seja invertendo o uso do biopoder, entendido também como o poder
de criação de vida, “desde baixo” (Hardt), ou distinguindo biopoder de biopolítica, entendendo a
biopolítica na dimensão produtiva e positiva (Negri) ou investindo na “potência” da vida para além do
“poder” sobre a vida, como propõe Agamben. Pelbart também nos lembra que outros autores interpretam
a estética da existência do último Foucault “como uma resistência ao biopoder, ou seja, como uma ética
cujo objetivo seria justamente livrar-nos das forças que buscam submeter a existência humana (bios) à
vida biológica (zoé)”. (Pelbart, 2000, pp. 27-28) Estou sugerindo, então, que o hiper-realismo, este “não
nascer para semente” inscreve-se na dimensão da resistência: como recusa à redução à vida nua, portanto,
como afirmação da existência humana (bios).
Considerações finais

...abaixar o limiar a partir do qual se suportam os


mecanismos de poder já existentes; trabalhar para tornar
mais irritáveis as epidermes e renitentes as
sensibilidades; aguçar a intolerância aos fatos de poder e
aos hábitos que o saciam; fazê-los aparecer no que eles
têm de pequenos, de frágeis e, por conseguinte, de
acessível; modificar o equilíbrio dos medos..., fazer
surgir do ordinário, o exorbitante, e daquilo que se
tolera habitualmente, a brutalidade que revolta.
Multiplicar no tecido político os pontos de repulsão e
estender as superfícies das dissidências possíveis...
(Foucault, 1994, pp. 139-140)

Se aceitamos a vertente proposta por Agamben (1998, p. 166), segundo a qual estamos
na vigência de uma estrutura biopolítica de absoluta impossibilidade de decidir entre
fato e direito, entre norma e aplicação, entre exceção e regra e que no entanto decide
incessantemente sobre eles; se admitimos esta indiscernibilidade entre fato e direito,
certamente a “democracia disjuntiva” brasileira ganha novos ingredientes e a
indiscernibilidade que vimos desenhar-se –principalmente por meio das rebeliões –
entre violência e política, ganha novas urgências.

Agamben insiste na necessidade de ter em vista uma política em que a vida nua deixe de
ser separada e tomada como exceção na ordem estatal, mesmo através da figura dos
direitos humanos, pois ele entende que a separação entre humanitário e político, a
separação entre direitos do homem e do cidadão só reproduz o isolamento da vida
sagrada sobre a qual se funda a soberania e mantém, involuntariamente, uma secreta
solidariedade com as forças que deveriam combater (1998, p. 129). Esta necessidade é
mais imperiosa ainda na medida em que se assiste a um progressivo alargamento, para
além dos limites do Estado de exceção, da decisão sobre a vida nua, em que consistia a
soberania.
Se, em todo o Estado moderno, existe uma linha que assinala o ponto em que a decisão sobre a vida se
torna decisão sobre a morte e a biopolítica pode, assim, transformar-se em tanatopolítica, esta linha já não
se apresenta hoje como um limite fixo que divide duas zonas claramente distintas; ela é antes, uma linha
em movimento que se desloca em zonas cada vez mais amplas da vida social, em que o soberano entra em
simbiose cada vez mais íntima não só com o jurista, mas também com o médico, com o cientista, com o
especialista, com o padre. (Agamben, 1998, p.118)165

Agamben leva mais longe ainda sua problematização, colocando em questão a origem contratual do
165

poder estatal e toda a possibilidade de designar como fundamento das comunidades políticas algo como
Foucault destacou em Hobbes um outro sentido da dominação, lembrando-nos que não
é a derrota que fundamenta uma sociedade de dominação, uma sociedade de servidão,
mas o que se passou nesta derrota e de certa maneira independentemente dela: é o medo,
a renúncia ao medo, a renúncia aos riscos da vida que faz entrar na ordem da soberania
e num regime jurídico que é o do poder absoluto.
A vontade de preferir a vida à morte: é isso que vai fundamentar a soberania
que é tão jurídica e legítima quanto aquela que foi constituída a partir do modo da
instituição e do acordo mútuo.(...) a soberania nunca se forma por cima, por uma
decisão do mais forte... ela se forma sempre por baixo, pela vontade daqueles que têm
medo. (Foucault, 1999, pp.110-111)

Poderá este hiper-realismo, este “não nascer para semente”, esta assunção dos “riscos da
vida”, realizar um combate à sociedade de dominação? Penso que uma primeira
condição para que o hiper-realismo opere como “insurreição” é o de ser escutado mais
além de um processo “psíquico” ou “psicossocial” que afeta os internos da Febem, mas
em seu duplo “laço político”: como lugar-cruzamento de técnicas do eu e de técnicas
políticas e como dimensão que afeta a todos e não apenas aos jovens da Febem-SP,
porque fala dos limiares em que a vida está colocada.166

Para que as rebeliões incitem um “novo direito”, será necessário cada vez mais politizar
esta discussão, será necessário agenciá-las com todas as “rebeliões da juventude”, com
todas as “subversões” que tenham a “audácia de romper com o todo poderoso mundo”
para instaurar outros mundos...

Penso que o hiper-realismo nos ajuda a perceber que talvez seja estratégico atualmente,
lutar pelo direito à vida, se, pelo direito à vida, entendermos o combate ao biopoder,
pois, como vimos, pode ser estratégico, como Maguila e outros internos nos ensinaram,
recusar a vida quando esta recusa for ato de reivindicação de poder.167 Mas que também

uma “pertença”, pois se a relação política originária é o banimento, a política ocidental é desde o início
uma biopolítica que torna vã qualquer tentativa de fundar as liberdades políticas nos direitos do cidadão.
166
E que redimensionam a luta contra a redução da idade penal como uma luta política por excelência,
uma vez que com a proposta redução trata-se de jogar o limiar dos que estarão expostos à morte mais para
baixo!
167
Explico-me melhor: acompanhamos com Agamben a vigência de uma forma de poder (biopoder ou
biopolítica, em Foucault), que se funda sobre a separação entre zoé – o fato da vida, a vida biológica, a
sobrevivência, a vida nua – e bios, a forma ou maneira peculiar de viver, e que faz da vida nua a forma
dominante de vida por toda a parte. Pelbart (2000, p. 27) nos lembra o complexo problema político que
isto coloca, na medida em que “o campo de ancoragem da resistência coincide com o campo de
incidência do poder”, isto é, a “resistência não poderia (ou deveria) deslocar-se dos termos ditados pelo
próprio poder?” e como autores como Michael Hardt, Toni Negri e o próprio Agamben buscaram alargar
os limites do enfoque foucaultiano: seja invertendo o uso do biopoder, entendido também como o poder
de criação de vida, “desde baixo” (Hardt), ou distinguindo biopoder de biopolítica, entendendo a
biopolítica na dimensão produtiva e positiva (Negri) ou investindo na “potência” da vida para além do
“poder” sobre a vida, como propõe Agamben. Pelbart também nos lembra que outros autores interpretam
a estética da existência do último Foucault “como uma resistência ao biopoder, ou seja, como uma ética
cujo objetivo seria justamente livrar-nos das forças que buscam submeter a existência humana (bios) à
vida biológica (zoé)”. (Pelbart, 2000, pp. 27-28) Estou sugerindo, então, que o hiper-realismo, este “não
é estratégico validar o direito à rebelião, sempre que ela for ato de desobediência civil,
sempre que ela for ato de subjetivação, isto é, de inclusão de si e de suas questões, de
seus problemas, num âmbito coletivo.

Em outros termos: não se trata de fazer a apologia da infração ou da transgressão; mas,


se o adolescente em conflito com a lei puder ser hoje menos marginal, seria importante
que isso não se fizesse às custas de pacificar suas diferenças.

Não sabemos se estas rebeliões de adolescentes poderão reconfigurar as


fronteiras do intolerável em meio a tanta naturalização da violência, mas se elas
servirem para operar em nós estas fagulhas de um devir-revolucionário, certamente os
jovens terão outras histórias para contar...

nascer para semente” inscreve-se na dimensão da resistência: como recusa à redução à vida nua, portanto,
como afirmação da existência humana (bios).
Apêndice 1 - De revoltas e rebeliões: uma problemática conceitual

O que é válido no banditismo, é a revolta. Depois, o


papel do bandido é um conformismo, e tudo que havia
de verdadeiro no início termina por poder ou por ser
completamente eliminado.168 (apud Maffesoli, 1987,
grifo meu)

O que leva ao crime é o sentimento romanesco, a


projeção de si na mais magnífica, mais audaciosa, mais
perigosa, enfim, de todas as vidas... (Genet, 1988, p. 20)

Cada vez que há operação contra o Estado, indisciplina,


motim, guerrilha ou revolução enquanto ato, dir-se-ia
que uma máquina de guerra ressuscita, que um novo
potencial nomádico aparece... (Deleuze e Guattari, 1997
, p. 60)

O tema das rebeliões e do incremento dos incidentes prisionais – fugas, evasões,


tentativas de fuga, movimentos reivindicatórios, motins – no âmbito do sistema penal
vem conhecendo, nos últimos anos no Brasil, crescente interesse tanto nos meios
acadêmicos, quanto entre os formuladores de políticas públicas, principalmente os da
área da segurança. A emergência de rebeliões simultâneas e sincronizadas, em fevereiro
de 2001, em 29 presídios, em enorme abrangência geográfica, com a duração de 27
horas, envolvendo cerca de 30 mil presidiários e milhares de visitantes e funcionários
como reféns, com inquestionável organização hierárquica e sofisticado sistema de
comunicação utilizado pelos detentos, colocaram de forma aguda esta questão em cena,
além de desmistificar e problematizar a idéia de anomia ou de desagregação grupal
atribuídas às rebeliões e aos motins (Rolim, 2001a).

Ganha então relevância para compreender os incidentes prisionais a própria estrutura


informal do sistema e a perspectiva instituinte, protagônica dos agentes institucionais.
De fato, como indicam vários pesquisadores desta temática (Adorno e Bordini, 1986;
Paixão, 1987; Fischer, 1989; Adorno, 1991; Castro, 1991; Coelho, 1988) a pesquisa
sociológica de sistemas penitenciários mostrou que os presos também exercem poder no
ambiente carcerário e que a ordem social desse ambiente resulta, em grande parte, de
suas coalizões e negociações com a administração169.

168
Fala de um jovem criminoso em: D. AUROUSSEAU e M. LABORDE, Parole de bandits. Paris,
Seuil, 1976.
169
A compreensão dos singulares padrões de interação e organização dos detentos e dos agentes
penitenciários foi estudada por Sykes (1958), que a nomeou “sociedade de cativos”. Esta “sociedade
dentro da sociedade”, resultante do isolamento do preso, seria caracterizada por um individualismo
No entanto, a hipótese dos motins e rebeliões como portadores de uma dimensão
política tem sido sistematicamente desconsiderada, como pode ser facilmente
constatado pela ação da mídia, dando lugar ao contrário, a sua criminalização. É o que
sugere a pesquisa do Ilanud sobre 225 incidentes prisionais ocorridos entre 1994 e 1997
no estado de São Paulo, noticiados pela imprensa como casos de “motins” ou de
“rebeliões”. Ainda que provavelmente subestimados, como alerta a pesquisa – uma vez
que os jornais são informados somente dos casos de maior relevância –,
(...) importa frisar que as rebeliões propriamente ditas, de acordo com a
qualificação das autoridades, ocorrem numa frequência menor do que aquela assumida
pelos meios de comunicação. Todos os 225 casos investigados pela imprensa entre 1994
e 1997 foram definidos genericamente como motins ou rebeliões. Por outro lado,
segundo dados do perfil do Sistema Carcerário do estado de São Paulo, no ano de 1996
ocorreram no sistema penitenciário 5 incidentes prisionais que poderiam ser
qualificados efetivamente como rebeliões. Em 1997, assume-se que tenham ocorrido 8
rebeliões. (Ilanud, 1998, p. 17, grifos meus).170

Além disso, a mídia, ao tratar indiscriminadamente fugas, tentativas de fugas,


movimentos reivindicatórios, motins e rebeliões, contribui para construir e fomentar um
imaginário social de medo e insegurança. Os meios de comunicação agem como
construtores privilegiados de representações sociais sobre o crime e a violência, não
apenas nomeando e classificando esta prática social, mas criando um circuito de
produção de sentidos, passando mesmo a organizá-la, na medida em que pauta a
violência na agenda diária da constituição dos discursos e dos sujeitos sociais, aciona
práticas institucionais e políticas, convocando sujeitos em direção a alguma ação social.
Dentre as produções de sentido que a mídia faz circular, destaca-se a espetacularização
a partir de uma lógica da visibilidade, do sensacionalismo, do fascínio e da banalização

exacerbado. Paixão (1985) destaca algumas de suas características: a natureza e a gravidade do crime
cometido determinam o status individual nas hierarquias, também peculiares, de prestígio e poder, e sua
coesão é produto da adesão a valores e crenças (ou “código”) que tanto orientam comportamentos
individuais, como canalizam-nos para a manutenção de compromissos coletivos. O “código” proscreve o
recurso a autoridades do sistema para a resolução de conflitos internos e legitima a punição severa de seus
transgressores. Por exemplo: não ver, não ouvir e não falar constitui algo mais do que uma estratégia de
sobrevivência duramente aprendida nos xadrezes policiais e aperfeiçoada nas penitenciárias. O “código”
institucionaliza a cultura dos fortes e sua dominação sobre o ambiente carcerário. (p. 101-102), como
vimos também na mega-rebelião de fevereiro/2001: a organização hierárquica do PCC está fundada por
um pacto de sangue. Dissensões e traições são punidas com a morte (Rolim, 2001a). Pinheiro (1984) já
recomendava que a análise das prisões utilizasse o acumulado sobre as organizações concentracionárias,
na medida em que o que se passa no interior dos presídios escapa ao controle da lei e das autoridades,
apesar dos ritos e processos. Não podemos deixar de considerar os efeitos deste tipo de “sociedade” no
tocante à constituição da dimensão política no âmbito prisional ou mesmo de um conjunto de
reivindicações coletivas.
170
“Motins” e “rebeliões”, tal como definidos pelos gestores do sistema penal, implicam insubordinação
por parte dos detentos com relação às autoridades e normas da unidade e, independentemente do número
de detentos envolvidos, implicam no uso da violência física (ou ameaça de violência) e na existência de
reféns. Já os “movimentos reivindicatórios” não envolvem violência contra a pessoa, embora possam
acarretar danos ao patrimônio do Estado. Outro tipo de incidente prisional é a fuga, tentativa de fuga ou
evasão (quando tratar-se de regime não fechado de prisão) . Estas formas não são mutuamente exclusivas,
podendo acontecer as três num mesmo incidente: movimentos reivindicatórios e motins podem acabar em
fugas ou fugas transformarem-se em motins, etc. (Ilanud, 1998, p. 17)
(Rondelli, 2000). Em dias de rebeliões e motins, inúmeros profissionais da mídia fazem
a cobertura, às vezes chegando ao local antes mesmo da direção, especialmente quando
são avisados por funcionários, em linha direta.

Quando não se opera uma dramatização ou criminalização da rebelião, ocorre uma


desqualificação do fato na sua dimensão coletiva ou de protesto. Eda Goes (1991, p. 78)
chama a atenção para a “insistência obstinada da imprensa em ignorar o inconformismo
dos presos e procurar sempre um ‘estopim’, um fato que teria insuflado os detentos à
rebelião”, desconsiderando que houve rebeliões de caráter coletivo, de grande vulto,
onde a meta principal não foi a fuga, mas a reivindicação de melhores condições de vida
ou do cumprimento de seus direitos.

Outras formulações inscrevem os motins e as rebeliões como portadores de uma


desordem política, construção que procura criminalizar a ação política mais do que
revelar o político da ação de sublevação171:

O preso político e o preso comum, aliciados por organizações políticas


radicais, começam a formar contingentes importantes nas prisões e a transferir para
dentro de seus muros, comportamentos de agressão e violência. Mais importante que
isso é a capacidade de mobilização e doutrinação desses grupos, os quais exploram os
menores motivos de queixa e protesto dos outros presos levando-os à subversão. No seu
entender e na sua visão final, trata-se de convencer os presos comuns de que, em última
instância, são vítimas da sociedade e, portanto, presos políticos. (...) O século XX, que
se caracterizava pelo protesto, verá cada vez esse tipo de ação social prolongar-se dentro
das prisões, alternando as expectativas e atitudes dos presos. Cada vez mais estes
empregam técnicas usadas pelos movimentos políticos para exprimirem seus
descontentamentos. (Rios, 1999, pp. 11-12, grifo meu)

No episódio da mega-rebelião no sistema penal (fevereiro/2001), na versão veiculada


pela maior parte dos órgãos de imprensa, as autoridades governamentais sustentaram
que a rebelião possuía um “caráter político”, uma vez que os amotinados não
apresentaram qualquer tipo de reivindicação relativa à execução das penas e que, pelo
contrário, pretendiam simplesmente fazer o governo recuar na decisão das
transferências – o que, por óbvio, seria inaceitável.172

171
Conforme sublinha Hobsbawm (1978, p. 21), veja-se a tendência persistente, sistematizada pelos
criminologistas positivistas de fins do século XIX, de considerar os movimentos revolucionários como
fenômenos psicopatológicos. Também “não é por acaso que a palavra ‘bandido’ tornou-se a forma
habitual pela qual os governos descrevem as guerrilhas revolucionárias” (idem, p. 30). Vide também
análise de Barros (1980) sobre a utilização político-ideológica da delinqüência e Góes (1991), que aponta
como é na década de 1970, durante o período ditatorial, que a questão penitenciária passa a fazer parte do
debate público, com amplos espaços dedicados pela imprensa às ocorrências violentas e dramáticas nas
prisões, dentre elas as rebeliões. Lembremos que na virada dos anos 80, a dramatização pela mídia da
violência urbana e o tema da criminalidade era uma justificativa sob medida para explicar a resistência
oposta à reforma do aparelho policial (Peralva, 2000, p. 77).
172
De outro lado, os presos afirmaram aos representantes da Câmara Federal e do Senado que possuíam
uma "pauta de reivindicações" onde o problema das tranferências para Taubaté era apenas um ponto; e
Os escassos estudos existentes sobre rebeliões no sistema penal (Goes, 1991) destacam
que os fatores favoráveis à eclosão de rebeliões são intrínsecos às instituições
penitenciárias: a conduta dos agentes penitenciários determina/modula as proporções
do ocorrido, seja porque eles se retiram ao menor sinal de agitação, seja porque eles se
utilizam de práticas de violência, seja porque insuflam motins como forma de fazer
oposição ou resistência a determinadas injunções políticas, seja ainda pelo caráter
profundamente hostil e violento entre guardas e presos (pp. 83, 87).

Essa positividade dos incidentes prisionais é também compreendida por outros


estudiosos como reativa mesma à omissão do Estado ou ao descumprimento pelo
Estado das regras do direito:
(...) é preciso não perder de vista que o desrespeito dos presos pelas normas
internas de disciplina nos estabelecimentos carcerários está diretamente vinculado ao
sentimento generalizado de que o próprio Estado descumpre freqüentemente as normas
básicas da administração prisional. É o Estado que submete o condenado ao
cumprimento de pena irregularmente em distritos policiais, em celas superlotadas e
insalubres, que lhes nega a possibilidade de remissão pelo trabalho, condições de defesa
jurídica e de ressocialização. Como exigir moralmente por parte dos presos a
obediência a leis que o Estado mesmo é o primeiro a descumprir? Os incidentes
prisionais, são, assim, em larga medida, o reflexo deste desrespeito generalizado às
regras da execução penal no Brasil. O primeiro e maior passo para controlar os
incidentes, neste sentido, é a obediência do poder público às suas próprias regras
(Ilanud, 1998, p. 37, grifo meu)

Partindo do pressuposto de que na ordem liberal, que se fundamenta na obediência à lei


pactuada, a obediência ao Estado só é devida se as condições elementares que induziram
ou induzem à vida ordeira, sob a autoridade concertada do Estado, forem mantidas ou
enquanto o forem, Luis Eduardo Soares (2000) também afirma: “A impotência do
Estado em prover segurança e meios adequados de sobrevivência, que incluem chances
de prosperidade, libera os indivíduos do dever de obediência e legitima a desobediência
civil” (Soares, 2000, p. 30, grifo meu).

As rebeliões e motins podem configurar-se assim como recursos políticos estratégicos,


podendo ser entendidas como “manifestações extremas de violência contra as relações
que se estabelecem no interior da prisão” e também como “resistência de um segmento
marginalizado a uma instituição de controle social (Goes, 1991, p. 67, grifos meus) ou
como um protesto político contra a deterioração das condições penais, profundamente
ancorados na cultura e sociabilidade das cadeias (Paixão, 1985, p. 105).

que estavam exigindo o fim dos espancamentos no sistema; a maior agilidade na tramitação dos seus
processos e na concessão dos benefícios de progressão de regime; o contato com a Corregedoria do
sistema; providências quanto a alguns diretores de presídios que estariam, propositalmente, misturando
presos de facções rivais e o fim da humilhação das visitas -submetidas à praxe do desnudamento, exibição
dos órgãos sexuais, etc.quando das revistas.
Lembremos também que Foucault assinala que, ao longo do século XIX, foi uma
constante os detentos e suas revoltas se solidarizarem com os movimentos
revolucionários e estes abrirem as portas das prisões para libertá-los. Já no século XX,
em razão de diversos processos sociais, dentre eles a progressiva ruptura entre o
proletariado política e sindicalmente organizados e o lumpen, os movimentos políticos
não estiveram mais associados aos movimentos dentro das prisões (“Prisons et
révoltes...” [1973], em Foucault, 1994, p. 426).

Separação operada principalmente pelo sistema penal, pois no fim do século XVIII e no
princípio do XIX, a criminalidade foi percebida pelo próprio proletariado como uma
forma de luta social:

Trata-se para a burguesia de impor ao proletariado, pela via da legislação penal, da prisão...
certas categorias da moral dita “universal” que servirão de barreira ideológica entre ela e a
plebe não proletarizada (...) separação que permite à burguesia servir-se de alguns desses
elementos plebeus contra o proletariado; ela os usa como soldados, policiais, traficantes,
pistoleiros e utiliza-os na vigilância e na repressão do proletariado. (Foucault, 1988, pp. 50-
51)

Esta ligação reaparecerá, conforme ele analisa e acompanha na França, na década de 60,
com as revoltas de presos constituindo-se de modo totalmente diferente, coletivizadas e
articuladas com a opinião pública. Assim, Foucault ressalta que o “caráter político ou
não de uma ação não é mais determinado unicamente pela sua finalidade, mas pela
forma, a maneira com que os objetos, problemas, inquietações e sofrimentos que a
tradição política européia do século XIX baniu como indignas da ação política, são
politizadas” (“Prisons et révoltes dans les prisons” [1973], em Foucault, 1994, p.428).

Esse breve percurso em torno da tematização da rebelião do sistema penal já nos


permite identificar e destacar uma certa problematização da tradicional linha divisória
entre ordem e desordem, entre o legítimo e o ilegítimo, na medida em que se questiona a
falência da legitimidade do Estado em assegurar a ordem. Esta certa indiscernibilidade
entre desordem e desobediência legítima que as rebeliões parecem poder encarnar,
ganha maior pertinência se levarmos em conta o modo mesmo como a violência vem
sendo pensada na contemporaneidade, numa certa fronteira/interface com a luta por
cidadania.

A ausência de uma cidadania mais plena no Brasil tem sido para onde aponta boa parte
da especificidade da questão da violência contemporânea, que deixa entrever se não
uma reivindicação por ordenamentos sociais mais justos, pelo menos uma denúncia da
impotência do Estado em assegurar o equilíbrio social:
(...) neste contexto marcado pelo descaso, podemos considerar a violência
desencadeada pela sociedade, no Brasil, não só como indícios de uma “desordem
urbana”, mas também, em certo sentido, como uma forma de expor a insatisfação
perante uma estrutura autoritária e clientelista que promove sistematicamente a exclusão
social. Em um país no qual o modelo político tradicional está saturado e o aparato
jurídico-legal, “na prática”, só é capaz de punir as camadas menos favorecidas da
população, podemos conceber a violência como uma forma de ruptura da ordem
jurídico-social e como uma “resposta” concreta da sociedade. (Herschmann, 2000,
p.171)

Ameaça à convivência pública e democrática de um lado e papel constitutivo,


estruturador ou fundador de novas instâncias da experiência social, de outro; ela vem
sendo tematizada como “um tipo de ação política não necessariamente organizada ou
programada, mas que alicerça novas práticas e discursos” (p. 22), enfim, como um
importante recurso que vem garantindo a perpetuação ou a renovação social.
É crescente o número de estudiosos que consideram a explicitação da violência
como um desfecho possível para as mais distintas situações e tensões, as quais vão desde as
formas mais simples e diretas – e eventualmente “irracionais” ou menos conscientes – de
manifestação de desejos até os grandes conflitos envolvendo, por exemplo, interesses
comerciais ou a rivalidade entre grupos raciais, políticos ou religiosos. (Pereira e outros,
2000, p.21)

Na mesma direção, destacando a fragmentação ou declínio dos espaços políticos,


Wieviorka (1997) identifica uma deriva da violência política em formas infra ou
metapolíticas, espécie de “avesso do político enfraquecido”.173

Esse autor entende que mesmo não sendo “políticas”, essas violências remetem ao
ponto central onde se situa a política, isto é: a violência surge e se desenvolve através
das carências e dos limites do jogo político e, se as condições políticas estiverem
reunidas, ela pode regredir ou desaparecer em função de um tratamento institucional das
demandas que ela vem traduzir. Ele destaca o exemplo dos “sicários”, assassinos de
aluguel na Colômbia, para afirmar como é tentador analisar de um lado a personalidade
dos jovens que parecem guiados por um desejo de dinheiro e de consumo potente e
desprovidos de barreiras morais, e por, outro lado, tratar da economia mundial da droga
ou das relações entre Estados Unidos e Colômbia; mas como é muito mais útil mostrar
como a
(...) violência instrumental do jovem assassino de aluguel de Medellin oscila
entre a política e a criminalidade, e se inscreve num tecido de relações sociais e
políticas, ao nível do bairro, da cidade, do país e do continente, que não se limita à
imagem de dois universos separados, internacional (a droga e sua economia), e pessoal
ou psicológico (a ausência de normas interiorizadas que torne possível o fato de ser um
assassino). (Cf. Sarmiento, apud Wieviorka, 1997, p.25, grifo meu)

As questões do crime e da lei como pontos estratégicos onde se verifica intrincada rede
de resistência e dominação e mediação legítima intergrupos e classes sociais vem sendo
173
No conjunto, para Wieviorka, a importância da violência infrapolítica no mundo contemporâneo
deriva do fato de que ela parece bem mais ligada ao enfraquecimento dos Estados e a práticas referentes
ao crime organizado, e mesmo à criminalidade mais banal, porém crescente, do que à emergência de
conflitos sociais e políticos dos quais ela constituiria a fase primitiva. (1997, p. 32)
tematizada na história e na sociologia há algum tempo. Os estudos do historiador
Hobsbawm, nos clássicos Rebeldes Primitivos e Bandidos, publicados respectivamente
em 1959 e 1969, em torno do “banditismo social” como “endêmico protesto camponês
contra a opressão e a pobreza” e como uma espécie de rebelião social são
paradigmáticos.

Uma das principais indagações do historiador será quanto ao papel que desempenham
os bandidos nas transformações da sociedade, de onde o crivo de análise “reforma X
revolução” aparecerá percorrendo todo o estudo, marcando os limites deste “primitivo
protesto social organizado” (1978, p. 22):
O banditismo social é um protesto, sim, mas modesto e não-revolucionário, que
se coloca não contra o fato de que os camponeses sejam pobres e oprimidos, mas contra
o fato de que as vezes o sejam excessivamente. Não se espera que os heróis-bandidos
construam um mundo de igualdade. Eles só podem reparar as injustiças e mostrar que o
processo de opressão é reversível. A função prática do bandido é, no máximo, impor
certos limites à opressão tradicional numa sociedade tradicional, ao preço da desordem,
do assassinato e da extorsão. (Hobsbawm, 1978, pp.32-33)

Assim, o bandido se apresenta como um fenômeno pré-político e sua força está na


proporção inversa da emergência dos movimentos revolucionários agrários organizados,
do socialismo ou do comunismo ou meios mais eficientes de agitação social.
O bandoleiro social só surge antes que os pobres tenham adquirido consciência
política, ou meios mais eficientes de agitação social. O bandido é um fenômeno pré-
político e sua força está na proporção inversa da força dos movimentos revolucionários
agrários organizados, do socialismo ou do comunismo. (Idem, p. 31)

Interessado na relação do banditismo com as transformações sociais, Hobsbawm


distinguirá o banditismo social do anti-social, isto é, do submundo do crime, que seria
uma “anti-sociedade”: “ele existe pela inversão dos valores do mundo convencional,
mas possui com este uma relação parasitária” (Hobswbawm, 1975, p.96).

E formulará a situação dos bandidos sociais como um paradoxo, pois para serem
defensores eficazes de seu povo, teriam de deixar de ser bandidos: “os bandidos que não
aderem aos novos modos de lutar pela causa camponesa (...) deixam de ser os
defensores dos pobres e se transformam em simples criminosos ou agregados de
latifundiários ou comerciantes. Não há futuro para eles” (1978, p. 36). Ou ainda como
uma condição “trágica”: divisar a terra prometida, mas não poder alcançá-la (1975, p.
107).

Mais recentemente, as análises “contextualistas” da violência (que privilegiam o


enfoque da microfísica da atividade criminosa e a modernização mesma da
criminalidade metropolitana no país, como se pode vislumbrar especialmente com o
narcotráfico e suas exigências de ação organizada) apontam para um diagnóstico
bastante dramático desta indiscernibilidade, pois a diluição das diferenças entre
comportamentos transgressores de ambos os lados – os desfechados em nome da lei ou
a mando de lideranças criminosas – cria e estabiliza “um padrão de interação entre
pessoas honestas e infratores que facilita a propagação social do desregramento, as
infrações de oportunidade, e um trânsito, enfim, barato e generalizado entre o mundo
legal e o mundo do crime” (Carvalho, 2000, p.53).174

Além disto, quando o poder não é legitimado socialmente e, pior, quando parece
corrompido, as fronteiras entre a lei e o crime se esvanecem na percepção dos cidadãos,
conforme aponta Alba Zaluar em suas pesquisas sobre violência urbana (1994, p. 41).
Em Da revolta ao crime S. A. (1985) Zaluar já sugeria, para pensar o Brasil, a existência
de uma “sociedade anônima” em que as contravenções e a violência estatal e civil
funcionam como modelos e promotores da criminalidade social, compartilhando de seus
lucros obscuros e aceitando tacitamente sua manutenção. Essa autora considera que, na
falta de uma ordem moral compartilhada por todos, o tema da mobilidade social tendeu
no Brasil a se traduzir em estratégias que, no limite, podem incluir a experiência da
ilegalidade. Nesta perspectiva, o “bandido” é a expressão de uma saída individual para a
expectativa de mobilidade que se encontra obstruída, “operando como uma metáfora de
potencialidade explosiva inscrita na adesão virtual dos pobres a estratégias imediatistas
de inclusão social e busca por reconhecimento” (Carvalho, 2000, p. 54).

Com Hobsbawm e Zaluar nos afastamos assim, contemporaneamente, do banditismo


como protesto ou contestação: os bandidos contemporâneos almejam os bens que a
sociedade de consumo oferece, mesmo que haja diferenças na concepção dos
trabalhadores e dos bandidos ou candidatos ao banditismo quanto ao valor moral do
trabalho e, portanto, sobre o que leva um jovem a optar pelo modo de vida do bandido –
“sina”, “drama pessoal” ou “estratégia de sobrevivência” (Zaluar, 1994). Mais do que
contestação, estaríamos frente a um “confuso panorama de revolta, ambição pessoal e
uso de formas coercitivas de poder” (idem, p.30). Não estamos, pois, segundo essa
autora, diante de heróis de um movimento social:

Suas ações podem ser interpretadas como uma mistura de resistência à sociedade capitalista
sob a forma de recusa ao trabalho destinado à população pobre e a participação num dos mais
rendosos comércios de que se tem notícia na sociedade capitalista. Mas de pobres revoltados a

174
Por diluição de diferenças a autora refere-se desde a cultura organizacional dos gentes policiais e o
aliciamento de informantes no próprio mundo do crime, incluindo-se a leniência, a corrupção e a própria
violência dos gestores dos serviços públicos de segurança até o próprio padrão organizacional do crime,
que transmuta-se em atividade cada vez mais “empresarial”, conforme se evidencia no narcotráfico. No
caso das instituições para os adolescentes privados de liberdade, a autora refere-se à tradicional
ambigüidade que as preside: uma prática carcerária sem disfarces e a obrigação de se fazerem
“educativas”. Ainda, como assinalam diversos estudiosos (Adorno, 1993; Carvalho, 2000) a literatura
sobre a criminalidade e sobre a violência urbana privilegiou a relação entre o modelo de modernização
econômica excludente e seus efeitos na crise social, atrelando os comportamentos criminosos a processos
amplos, tais como a urbanização, industrialização e pobreza. Considerou-se posteriormente que a
extensão desses eventos, atingindo a sociedade como um todo, pode ocultar realidades históricas
multifacetadas, uma vez que tais processos não abrangem ao mesmo tempo, nem da mesma maneira,
todos os grupos sociais, ao contrário, redundam em estruturas específicas e tempos históricos variáveis no
interior de uma mesma sociedade. Atualmente privilegiam-se as análises mais microfísicas da
criminalidade, o que tem ensejado a possibilidade de complexificar a leitura do fenômeno.(Carvalho,
2000, p. 52)
membros menores de uma gigantesca rede de crime organizado, estes bandidos pobres ainda
têm longo percurso a fazer e repetem em si mesmos todas as ambigüidades do bandido
anotadas por Hobsbawm. (Zaluar, 1994, p.32, grifo meu)

Neste ponto de nosso percurso já podemos vislumbrar a complexidade das questões que
atravessam esta temática: se a revolta popular só recentemente ganhou estatuto de
objeto de estudo, saindo da posição de nota de rodapé à história, o que não dizer das
rebeliões e motins no âmbito das instituições “correcionais”, onde se agregam aos temas
da insubordinação e da revolta, os da moralidade social ou onde a “sombra do crime”
(Peralva, 2000) eclipsa qualquer dimensão de protesto. E, complexidade maior ainda
para pensar essa questão na contemporaneidade, quando a própria expressão da
conflitualidade pela via do ato infracional parece encontrar-se num campo
infrapolítico...

Pinheiro (1998) em seu estudo sobre a Cabanagem, rebelião popular da província do


Grão-Pará, no século XIX, alerta para de fato de que a incorporação das “massas” à
história, de sua maior visibilidade, nem sempre veio acompanhada de um
reconhecimento de sua autonomia ou da especificidade de sua participação, quando não
era raro estabelecer um “julgamento” das revoluções populares sob a ótica do modelo
da revolução socialista:
De fato, no âmbito das Ciências Sociais, rebelião e revolta são dois termos
problemáticos, exatamente porque nunca aparecem definidos a partir de suas
significações internas, mas sempre no interior de uma relação com algo que lhes é
superior, no caso o conceito de revolução.(idem, p.77)

Pinheiro credita o próprio abandono do tema da revolta nas pesquisas históricas a esta
estratificação. Ou seja, tomar a revolução ou a existência de um projeto político como o
paradigma de avaliação das revoltas nos conduz fatalmente a olhar nestes movimentos
uma “infindável seqüência de carências” (idem, p. 80), produzidas a partir de um
sentido pré-definido na história (no campo do projeto socialista, o vir-a ser-classe)
conduzindo de novo a uma minimização da importância das camadas populares
enquanto agentes de transformação histórica, desqualificando a revolta como
“‘acontecimento menor’ no devir histórico das sociedades” (Pinheiro, 1998, p.78).175

175
Se estamos entendendo que as revoltas precisam ser “qualificadas” como campo de análise, impõe-se,
de outro lado, uma regra de prudência, como nos sugere Machado: elas também não podem ser tomadas
como o paradigma por excelência da resistência. Machado (1987) em seu estudo sobre crime e escravidão
no estado de São Paulo (1830-1888), aborda a necessidade de ampliar os conceitos de resistência e
acomodação seja escapando da tradicional oposição entre o escravo adaptado ao mundo dos senhores e
das casas-grandes nordestinas (cf. Gilberto Freyre) e o escravo aquilombado e não corrompido pelo
universo branco (cf. Clovis Moura), seja escapando da imagem do escravo violento e rebelado baseado
num conceito de resistência considerado enquanto formas extremas de negação ao sistema: as
insurreições organizadas e os quilombos. A autora considera que, subtraem-se assim, à análise, as
possibilidades de oposição no interior do sistema, considerando, ao contrário que as pequenas faltas, a
figura do escravo preguiçoso ou fujão, os desvios da produção agrícola do senhor, o trabalho malfeito ou
constantemente inacabado configuram aspectos fundamentais da mentalidade escrava na escravidão,
espaços de autonomia do escravo e limites à dominação senhorial, “pois é necessário considerar que
Então, como escutar em alguns atos ditos desviantes, para além de sua função, de sua
utilidade no interior de uma formação social, um sinal de dissidência? Dissidência na
sua positividade: “pontos de ruptura nas estruturas sociais, esboços de novas éticas em
gestação” (Guattari, 1987).

Uma primeira via de trabalho, que podemos extrair como lição da pesquisa de Pinheiro
(1998) e que coincide em parte com minha estratégia metodológica é o de privilegiar
uma ótica heterogênea e multifacetada na compreensão da sublevação:
(...) analisar autonomamente a multiplicidade da ação popular insurgente,
recusando enquadrá-la como manifestações espontâneas, instintivas e inconseqüentes, e
propondo entendê-las como o resultado de deliberações auto-conscientes, onde tanto o
tipo de ação empregada quanto os alvos escolhidos nessa ação, derivavam diretamente
das contradições alicerçadas na base das relações de opressão e controle social,
cotidianamente experimentadas pelos setores populares... (Pinheiro, 1998, p. 2, grifo
meu)]

Outra via é dialogar com pensadores que tematizaram a sublevação em sua dimensão
positiva: como Michel Foucault e o pensamento em torno da desobediência civil.

resistir significa, por um lado, impor determinados limites ao poder do senhor, onerá-lo em sua amplitude,
colocar à mostra suas inconsistências.” (Machado, 1987,p. 20).
Apêndice 2 - Resistência e sublevação: as contribuições de Foucault

Com Foucault, os umbrais de intolerância de uma sociedade sempre mereceram grande


atenção, tanto do ponto de vista da reflexão histórica, quanto da análise política, pois
não se trata simplesmente de “sensibilidade”, mas também de resistência, de capacidade
de recusa e de vontade de luta.

Em “O sujeito e o poder”, ele insiste que as formas de resistência devem ser tomadas
como ponto de partida para pensar/enfrentar o poder:
Gostaria de sugerir uma outra forma de prosseguir em direção a uma nova
economia das relações de poder, que é mais empírica, mais diretamente relacionada à
nossa situação presente, e que implica relações mais estreitas entre a teoria e a prática.
Ela consiste em usar as formas de resistência contra as diferentes formas de poder como
um ponto de partida. Para usar uma outra metáfora, ela consiste em usar esta resistência
como um catalisador químico de modo a esclarecer as relações de poder, localizar sua
posição, descobrir seu ponto de aplicação e os métodos utilizados: mais do que analisar
o poder do ponto de vista de sua racionalidade interna, ela consiste em analisar as
relações de poder através do antagonismo das estratégias. (Foucault, apud Rabinow e
Dreyfus, 1995, p. 234)

Uma tomada de posição: agudizar a intolerância

Em 1971, Foucault, ocupado com o projeto de uma história das prisões, se lança, junto
com Daniel Defert, na constituição de um grupo de informação sobre as prisões (GIP).
É um grupo de intervenção e de ação sobre a justiça, o sistema penal, as instituições
penitenciárias na França. A idéia era formar um coletivo em que pudessem tomar a
palavra os próprios detentos, assim como vários intelectuais específicos (intelectuais,
técnicos, juristas, jornalistas), como os chamava Foucault, que já não toleravam mais
sua cumplicidade no exercício da opressão e do poder político.

O grupo, defendendo a circulação de informações, logo realiza uma pesquisa com


detentos sobre as condições do sistema carcerário, inspirado nos instrumentos que o
proletariado havia criado no século XIX: as pesquisas feitas pelos próprios operários
sobre a condição operária. Seu objetivo não é acumular conhecimentos, nem mesmo
fazer com que as pessoas tomem consciência, mas “difundir o mais amplamente as
revelações feitas pelos próprios prisioneiros, de modo a unificar o combate político e o
combate judiciário numa mesma luta interna e externa à prisão” (Eribon, 1990, p.211).

Intolerável é o título do primeiro folheto (maio/1971) que o GIP publica com o


resultado das pesquisas com detentos de vinte prisões. A introdução do folheto explica
mais detidamente os objetivos do movimento: “aumentar nossa intolerância, e fazer dela
uma intolerância ativa. Tornemo-nos intolerantes a propósito da justiça, do sistema
hospitalar, da prática psiquiátrica, do serviço militar, etc.” (“Sur les prisons” [1971], em
Foucault, 1994, p. 174) pois,
(...) através de todas essas instituições e sob diferentes máscaras se exprime
uma opressão que no fundo é política. A classe trabalhadora sempre soube reconhecer
essa opressão; nunca deixou de resistir a ela; mas foi obrigada a suportá-la. Ora, eis que
ela se torna intolerável a novas camadas sociais... os encarregados de distribuir justiça,
saúde, saber, informação, começam a sentir no que fazem a opressão de um poder
político. (Eribon, 1990, pp. 211-212)

As “enquetes-intolerância”, como as denominará Foucault, tinham por princípios:

 Não melhorar, atenuar ou tornar mais suportável um poder opressivo, mas atacá-lo
ali onde ele se exerce sob um outro nome, o de justiça, técnica, saber, objetividade.
Cada uma deve ser um ato político.

 Visar alvos precisos, instituições com um nome e lugar, administradores,


responsáveis, dirigentes. Cada uma dessas enquetes deve ser o primeiro episódio de
uma luta.

 Reunir em torno desses alvos camadas diversas que o poder mantinha estanques e
separadas pelo jogo das hierarquias sociais e dos interesses econômicos divergentes:
prisioneiros e advogados, doentes e equipe hospitalar, etc. Cada alvo é um ponto
estratégico importante, deve virar um front de ataque.

 Os pesquisadores não são um grupo de técnicos do exterior, são os próprios


pesquisados, cabe a eles tomar a palavra e formular o que é intolerável. Cabe a eles
empreender a luta que impedirá o exercício da opressão (“Preface” [1971], em
Foucault, 1994, pp. 195-196; Eribon, 1990, p. 212).

O GIP não defendia os presos políticos em particular, mas, sobretudo, os de direito


comum. Renato Janine Ribeiro (1995) comenta que justamente o que Foucault se
proibiu foi interessar-se pelos presos só para conferir sentido e destinação à luta dos
presos políticos, aquela que parcelas da intelectualidade francesa adotava: dando a
palavra a quem não a tinha,
(...) o essencial era romper com o padrão de ser ‘voz de quem não em voz’, que
apareceu em parte da pedagogia progressista de matriz católica, ou de quem traduz,
decifra, totaliza, interpreta melhor mesmo do que o sujeito falante o que este deseja (ou
o que este tem de desejar). (Ribeiro, 1995, pp. 169-170)

Mais ainda, não se trata de se colocar à escuta, deixando falar os loucos, os detentos,
aceitando-se a partilha como já feita: seria melhor, segundo Foucault, colocar-se no
ponto em que funciona a maquinaria que opera qualificações e desqualificações,
colocando uns em face dos outros. Assim, a loucura não é menos um efeito de poder
que a não-loucura; e mesmo o crime fala de dentro: “são respostas táticas a táticas que
os investem” (“Sorcellerie et folie” [1976], em Foucault, 1994, p. 91). Cabe então fazer
aparecer esse ponto da revolta e mostrá-lo, de “aguçar a intolerância aos fatos de poder
e aos hábitos que os saciam... multiplicar no tecido político os pontos de repulsão e
estender as superfícies das dissidências possíveis” (“Préface” in Les Juges Kaki [1977]
em Foucault, 1994, p. 139).

Se o que já se desenha aqui é também a discussão sobre como uma maquinaria


metodológica-conceitual inscreve-se também num campo de lutas, neste momento
vamos tratar de assinalar o modo como ele está tematizando o poder numa relação direta
com a resistência.176

O primado da resistência

Em 1980, por iniciativa de Maurice Agulhon e Michelle Perrot, um debate se instaura


com Michel Foucault, a propósito da prisão.177 Nele, tematiza-se um tanto da estranheza
e das dificuldades dos historiadores na relação com a obra de Foucault, estranheza que
Margareth Rago (1995) credita em parte ao fato de ele
(...) ir buscar no final do século XVIII, onde todos celebravam a conquista da
liberdade e dos ideais democráticos durante a Revolução Francesa, nada menos do que a
invenção da prisão e das modernas tecnologias da dominação. Enquanto todos os
olhares convergiam para a centralidade da temática da Revolução, Foucault deslocava o
foco para as margens e detonava com a exposição dos avessos. (Rago, 1995, p.68)

Ou seja, se o século XVIII traz o “gosto de novas liberdades”, Foucault mostrará que
nesta nova sociedade os “poderes de controle se dissimulam ao mesmo tempo que se
multiplicam”, o que ele trabalha no Vigiar e Punir: “as luzes que inventaram as
liberdades inventaram também a disciplina...” (Foucault, 1977, p. 195).

Estranheza dos historiadores também por sua forma de tematizar os objetos históricos:
“com ele os objetos históricos assim como os sujeitos emergiam como efeitos das
construções discursivas, ao invés de serem tomados como ponto de partida para a
explicação das práticas sociais” (Rago, 1995, p. 71). Seu interesse era conhecer a
maneira pela qual as práticas discursivas e não-discursivas, as redes de poder,
constituíam determinadas configurações culturais e históricas que resultaram na
produção de determinados objetos e de determinadas figuras sociais. “O poder se exerce
em rede e, nessa rede, não só os indivíduos circulam, mas estão sempre em posição de
176
Como sabemos, o tema do poder-saber atravessa toda a obra de Foucault e nos interessa aqui destacar
os elementos do seu pensamento sobre contra-poder, resistência e sublevação, dada a temática desta
pesquisa.
177
L’impossible prison (Recherches sur le système pénitentiaire au XIX siècle réunies par Michelle Perrot
– Débat avec Michel Foucault). L’Univers historique, Editions du Seuil, Paris,1980. Parte deste debate
encontra-se publicado em edição espanhola: La imposible prision. Debate com Michel Foucault.
Cuadernos Anagrama. Barcelona, Editorial Anagrama, 1982.
ser submetidos a esse poder e também de exercê-lo. Jamais eles são o alvo inerte ou
consentidor do poder...” (Foucault, 1999, p.35)

A resistência é, então, coextensiva e absolutamente contemporânea ao poder que ela


contraria. Para resistir, é preciso que ela seja como o poder: tão inventiva, tão móvel,
tão produtiva quanto ele. Onde há poder, há sempre resistência: “...a partir do momento
em que há uma relação de poder, há uma possibilidade de resistência. Jamais somos
aprisionados pelo poder: podemos modificar sua dominação, em determinadas
condições e segundo uma estratégia precisa” (Foucault, 1988, p. 241).

Há sempre algo, no corpo social, nas classes, nos grupos, nos próprios indivíduos, que
escapa de uma certa maneira às relações de poder; algo que não é a matéria prima mais
ou menos dócil ou renitente, mas que é o movimento centrífugo, a energia inversa, a
escapada...:
“A” plebe não existe, mas há “plebe”, há plebe nos corpos, e nas almas, e nos
indivíduos, no proletariado, na burguesia... Essa parte de plebe é menos o exterior em
relação às relações de poder do que seu limite, seu avesso (“Pouvoir et stratégies”
[1977], em Foucault, 1994, p. 421).

É verdade que o poder está “sempre aí”; que não se está jamais “fora”, que não há
“margens” para a cambalhota daqueles que estão em ruptura. Mas isso não quer dizer
que é preciso admitir uma forma incontornável de dominação ou um privilégio absoluto
da lei. Que não se possa jamais estar “fora do poder” não quer dizer que se está de toda
forma “capturado”.

Ao recusar uma concepção puramente negativa e repressiva do poder, jurídica, Foucault


privilegia a tecnologia, táticas e estratégias. “O poder não se dá, nem se troca, nem se
retoma, mas ele se exerce e só existe em ato” (1999, p.21) O poder não é primeiramente
manutenção e reprodução das relações econômicas, mas é, ele mesmo, primariamente,
uma relação de forças, e deve portanto ser lido na perspectiva do combate, da guerra, do
afrontamento.

“Em toda a parte estamos em luta (...) e, a todo instante, vamos da rebelião à
dominação, da dominação à rebelião, e é toda essa agitação que eu gostaria de tentar
fazer que apareça” (“Pouvoir et savoir” [1977], em Foucault, 1994, p. 407)

Na medida em que o poder é entendido como relação de forças, todas as relações sociais
são relações de poder e resistência (Foucault, 1988).

Mas, o “diagrama”, este conjunto de relações de força, uma repartição dos poderes de
afetar e de ser afetado, jamais esgota a força, que pode entrar em outras relações e
dentro de outras composições, pois esta dispõe de um potencial em relação ao diagrama,
na medida em que vem do lado de fora (Deleuze, 1995).

Deleuze destaca no pensamento de Foucault a constância do tema do Fora, articulando-


o com a noção de força: o Fora concerne às forças (Deleuze, 1995). Uma força não tem
realidade em si, ela só pode ser pensada no contexto de uma pluralidade de forças: é
uma relação com outra força. “Cada força se ‘define’ pela distância que a separa das
outras forças. (...) O Fora é essa pluralidade de forças. (...) é a distância entre as forças, é
a Diferença” (Pelbart, 1989, p.121)

Ao evidenciar esta relação entre a força e Fora, Deleuze configura de forma muito clara
a dimensão da resistência no pensamento de Foucault: se a força está sempre em relação
com outras forças e estas remetem necessariamente a um fora irredutível, “há um devir
das forças que não se confunde com a história das formas” (Deleuze, 1995, p. 93).
Assim, o diagrama exibe relações de força e também emite singularidades: é um misto
de “aleatório e dependência” (idem, p. 93). O diagrama vem do lado de fora, mas o lado
de fora não se confunde com nenhum diagrama, ele é sempre abertura de um futuro e o
diagrama jamais esgota as forças (idem, p. 96).

Este potencial da força em relação ao diagrama no qual está presa configura a


capacidade de resistência. Assim,
(...) a resistência tem o primado, na medida em que as relações de poder se
conservam por inteiro no diagrama, enquanto as resistências estão necessariamente
numa relação direta com o lado de fora, de onde os diagramas vieram. De forma que um
campo social mais resiste do que cria estratégias, e o pensamento do lado de fora é um
pensamento da resistência. (Deleuze, 1995, p. 96)

Uma problematização do direito

Se a ascensão da burguesia, no século XVII, se deu sob a proteção de um quadro


jurídico formalmente igualitário; simultaneamente se desenvolveram e generalizaram
dispositivos disciplinares, estes “sistemas de micro-poder essencialmente desiguais e
assimétricos”, que finalmente constituíram “o subsolo das liberdades formais e
jurídicas” (Foucault, 1977). Nos séculos XVII e XVIII ocorreu a invenção de uma nova
mecânica de poder: o poder disciplinar, fundado na normalização, supondo um
empreendimento sobre o corpo e sobre o que eles fazem, fazendo com que cresçam ao
mesmo tempo as forças sujeitadas e a força e a eficácia daquilo que as sujeita,
configurando novas relações de poder nas sociedades modernas: de um lado uma
legislação e uma organização do direito público articulados em torno do princípio da
soberania do corpo social e de sua delegação (de sua soberania ao Estado) e, ao mesmo
tempo, uma “trama cerrada de coerções disciplinares” que garante, de fato, a coesão
desse mesmo corpo social: “o poder se exerce, nas sociedades modernas, através, a
partir do e no próprio jogo dessa heterogeneidade entre um direito público da soberania
e uma mecânica polimorfa da disciplina” (Foucault, 1999, pp. 44-45).

Foucault faz então uma crítica das teorias jurídicas e das doutrinas políticas, naquilo que
elas são incapazes de explicar bem as relações de poder e as relações de força no
enfrentamento dos saberes e das lutas reais.178 Ele examina o direito, então, menos sob o
aspecto de uma legitimidade a ser fixada, portanto, soberania-obediência e mais quanto
aos procedimentos de sujeição que ele põe em prática. Decorre daí também o interesse
de Foucault (1999, p.36) em fazer uma análise ascendente do poder: partir dos
mecanismos infinitesimais e ver como foram investidos, colonizados, utilizados,
deslocados, estendidos. Para ele o papel essencial da teoria do direito, desde a Idade
Média, é o de fixar a legitimidade do poder:
(...) o discurso e a técnica do direito tiveram essencialmente como função
dissolver, no interior do poder, o fato da dominação, para fazer que aparecessem no
lugar dessa dominação, que se queria reduzir ou mascarar duas coisas: de um lado, os
direitos legítimos da soberania, do outro, a obrigação legal da obediência. (...) o direito
veicula e aplica relações que não são relações de soberania, mas relações de dominação.
(Foucault, 1999, p.31)

Fontana e Bertani (1999) lembram que se para Foucault o poder não é dedutível e
inteligível a partir da categoria jurídico-política da soberania (mesmo que representem
uma codificação ou fortalecimento mesmo desse poder), tampouco a resistência, então,
não é da ordem do direito, de um direito, indo além do que se chamou, desde o século
XVII, o “direito de resistência”: ela não se fundamenta na soberania de um sujeito
prévio. Poder e resistências se enfrentam, com táticas mutáveis, móveis, múltiplas, num
campo de relações de força cuja lógica é menos aquela, regulamentada e codificada, do
direito e da soberania, do que aquela, estratégica e belicosa das lutas (pp. 338-339).

Se foi para Foucault importante examinar como a normatização avança sobre o


normativo, a norma sobre a lei, o momento “em que o direito se inverte e passa ao
exterior dele próprio”, onde os procedimentos da normalização colonizam cada vez
mais os procedimentos da lei179, ele alerta que não é recorrendo à soberania contra a
disciplina que poderemos limitar os próprios efeitos do poder disciplinar.
De fato, soberania e disciplina, legislação, direito da soberania e mecânica
disciplinares são duas peças absolutamente constitutivas dos mecanismos gerais de
poder em nossa sociedade. Para dizer a verdade, para lutar contra as disciplinas, ou
melhor, contra o poder disciplinar, na busca de um poder não disciplinar, não é na
direção do antigo direito de soberania que se deveria ir; seria antes na direção de um
direito novo, que seria antidisciplinar, mas que estaria ao mesmo tempo liberto do
princípio de soberania. (Foucault, 1999, p.47)

178
Como nos sugere Fonseca (2001), esta imagem do direito não é a única presente no pensamento de
Foucault, conforme esclareceremos no cap V.
179
“Aparentemente as disciplinas nada mais constituem senão um infra-direito, que elas parecem
prolongar, até o nível infinitesimal das existências singulares, as formas gerais definidas pelo direito
(mesmo se é preciso antever aí um tipo de ‘contra-direito’)” (Foucault, 1977).
Uma contra-história ou uma inversão do eixo explicativo da lei e da
história

É no campo “estratégico e belicosos das lutas” que Foucault localizará o aparecimento


de um novo discurso histórico, diferente do discurso da soberania, no extremo fim da
Idade Média, ao fim das guerras civis e religiosas do século XVI. Trata-se de um
discurso que permitirá articular um modo político e um modo histórico – que ele
chamou “historicismo político” – e que situará no centro da história o enfrentamento
permanente das raças (em detrimento da identificação entre a nação e seu soberano, o
povo e seu monarca), que colocará a guerra como fundamento das relações sociais,
justamente quando a guerra se viu expulsa para os limites do Estado (ao mesmo tempo
centralizada em sua prática e recuada para a sua fronteira).

Neste discurso “histórico-político”, a lei não é a pacificação, o poder político não é o


que vem no lugar da guerra; e o sujeito não é neutro ou universal. É um discurso de
perspectiva, onde o direito funda-se numa história e é descentralizado politicamente: há
uma concepção binária da sociedade (dois grupos, dois exércitos, duas categorias de
indivíduos em confronto); o sujeito que fala está na batalha, tem adversários, trabalha
para uma vitória particular. É um sujeito “guerreador” e trata-se de impor “um direito
marcado pela dissimetria, de fundar uma verdade vinculada a uma relação de força, uma
verdade-arma e um direito singular” (Foucault, 1999, p.63). É também um discurso que
inverte os valores, as polaridades tradicionais de inteligibilidade, que chama “a
explicação por baixo”:
O que deve valer como princípio de decifração da sociedade e de sua ordem
visível é a confusão da violência, das paixões, dos ódios, das cóleras, dos rancores, dos
amargores; é também a obscuridade dos acasos, das contigências, de todas as
circunstâncias miúdas que produzem as derrotas e garantem as vitórias.(...) Cabe ao
furor justificar a calma e a ordem. (Foucault, 1999, pp. 63-64)

Portanto, “inversão do eixo explicativo da lei e da história”: se o esforço explicativo do


direito e da história era o de destacar uma racionalidade fundamental e permanente, que
seria por essência vinculada ao justo e ao bem, de todos os acasos superficiais e
violentos, que seriam vinculados ao erro, neste novo discurso histórico-político, trata-se,
ao contrário, de definir e de descobrir sob as formas do justo tal como ele está
instituído, do institucional tal como ele é admitido, o passado esquecido das lutas reais,
das vitórias efetivas:
Trata-se de redescobrir o sangue que secou nos códigos, e, por conseguinte,
não, sob a fugacidade da história, o absoluto do direito: não reportar a relatividade da
história ao absoluto da lei ou da verdade, mas sob a estabilidade do direito, redescobrir
o infinito da história, sob a fórmula da lei, os gritos de guerra, sob o equilíbrio da
justiça, a dissimetria das forças. (Foucault, 1999, p.66)
Discurso das “grandes pulsões míticas”, do “ardor das desforras populares”, ele é
sombriamente crítico e o das mais loucas esperanças; totalmente alheio à grande
tradição dos discursos filosófico-jurídicos, ele é para estes, o discurso exterior,
estrangeiro. Não é sequer o discurso do adversário, pois eles não discutem com ele:
É o discurso, forçosamente desqualificado, que se pode e que se deve manter à
margem, precisamente porque é preciso, como uma preliminar, anulá-lo, para que possa
enfim começar – no meio, entre os adversários, acima deles – como lei, o discurso justo
e verdadeiro. (Foucault, 1999, p. 68)

Foucault dirá que este discurso pode ser considerado uma contra-história: “discurso da
revolta e da profecia, do saber e do apelo à subversão violenta da ordem das coisas”, da
servidão sombria, da degradação, do saber secreto que deve ser reencontrado e
decifrado. Se o exercício da história até o final da Idade Média era um ritual da
soberania: de exercício, exibição e fortalecimento do poder, esta outra história “dilacera
a sociedade e só fala de direito justo para declarar guerra às leis”: é ataque ao poder e a
reivindicação dele, é “declaração conjunta e simultânea dos direitos e da guerra” (idem,
p.85).

É do lado desta história – “história-reivindicação”, “história-insurreição” – que Foucault


coloca o discurso revolucionário (Inglaterra, século XVII e França, século XIX):
Que significariam, que poderiam ser, a idéia e o projeto revolucionários, sem,
primeiro, essa decifração das dissimetrias, dos desequilíbrios, das injustiças e das
violências que funcionam apesar da ordem das leis, sob a ordem das leis, através da
ordem das leis e graças a ela? (...) sem a vontade de tornar outra vez visível uma guerra
real, que se desenvolveu e continua a se desenvolver, mas que, precisamente, a ordem
silenciosa do poder tem por função e por interesse sufocar e mascarar? Que seriam a
prática, o projeto e o discurso revolucionários, sem a vontade de reativar essa guerra,
através de um saber histórico preciso, e sem a utilização desse saber como instrumento
nessa guerra e como elemento tático no interior da guerra real que se trava? Que querem
dizer o projeto e o discurso revolucionários, sem o objetivo de uma certa inversão final
da relação de forças e o deslocamento definitivo no exercício do poder? (Foucault,
1999, p.92)

A insistência de Foucault em evidenciar esta outra história, reafirma também sua forma
de pensar o poder: todo tipo de poder deve ser analisado não nos termos de um direito
natural e da constituição da soberania, mas como o movimento indefinido – e
indefinidamente histórico – das relações de dominação de uns sobre os outros (idem,
p.131).

O autor nos relembra que há dois (na verdade três, o terceiro seria a relação mãe-
criança) modos de pensar a soberania em Hobbes, duas categorias de soberania: a
soberania de instituição e a soberania de aquisição. Na de instituição prevelecem o
pacto, o acordo mútuo, a representação. Na de aquisição, mesmo tendo havido relações
de força (guerra, batalha, etc.), se os vencidos preferirem a vida e a obediência, fazendo
de seus vencedores, seus representantes, reconstitui-se a soberania. Foucault destaca,
então, com Hobbes, que
Não é a derrota que fundamenta uma sociedade de dominação, de escravidão,
de servidão, de uma maneira brutal e fora do direito, mas o que se passou nesta derrota,
depois mesmo da batalha, depois mesmo da derrota, e de certa maneira
independentemente dela: é algo que é o medo, a renúncia ao medo, a renúncia aos riscos
da vida. É isso que faz entrar na ordem da soberania e num regime jurídico que é o do
poder absoluto. A vontade de preferir a vida à morte: é isso que vai fundamentar a
soberania que é tão jurídica e legítima quanto aquela que foi constituída a partir do
modo da instituição e do acordo mútuo. (...) a soberania nunca se forma por cima, por
uma decisão do mais forte (...) ela se forma sempre por baixo, pela vontade daqueles
que têm medo. (Foucault, 1999, pp. 110-111)

No esquema binário do historicismo político, a revolta então não se funda apenas no


fato de que a situação dos mais infelizes se tornou intolerável e que cumpre mesmo que
estes se revoltem, já que não podem se fazer ouvir e porque é necessário romper a
ordem se se quiser restabelecer uma justiça mais justa, mas tem-se também uma revolta
que vai formular-se como direito absoluto, como uma espécie de necessidade da
história, “que põe a nu a guerra como traço permanente das relações sociais, como
trama e segredo das instituições e dos sistemas de poder” (idem, p.132).

Da sublevação e da revolta

Em 1979, numa homenagem a Clavel, Foucault fala sobre aquilo que escapa à história,
que não é o universal, o imóvel, mas o instante, a fratura, o esgarçamento, a interrupção.
Ele contrapõe, então, revolução e sublevação:
A revolução se organiza segundo toda uma economia interior ao tempo:
condições, promessas, necessidades; ela se aloja portanto na história, aí faz seu leito e
afinal nele se deita. A sublevação, cortando o tempo, levanta os homens na vertical de
sua terra e de sua humanidade... (“Vivre autrement le temps” [1979], em Foucault,
1994, p. 790)

E ao falar sobre o Irã, retorna o tema das sublevações, que num certo sentido pertencem
à história, em outro lhe escapam, nesse movimento pelo qual um grupo, uma minoria ou
um povo inteiro diz: “Não obedeço mais”, e joga na cara do poder que ele considera
injusto o risco de sua vida. Movimento que parecerá irredutível, para Foucault, pois
nenhum poder jamais é capaz de o tornar absolutamente impossível:
Varsóvia terá sempre seu gueto revoltado e seus esgotos povoados de
insurgidos. É porque o homem que se levanta é finalmente sem explicação; é preciso
um arrebatamento que interrompe o fio da história, e suas longas cadeias de razões, para
que o homem possa, “realmente”, preferir o risco da morte à certeza de ter de obedecer.
.. por trás de todas as aceitações e coerções, ameaças, violências, persuasões, há a
possibilidade desse momento onde a vida não se troca mais, onde os poderes não podem
mais nada e onde, diante dos cadafalsos e das metralhadoras, os homens se sublevam.
(“Inutile de se soulever” [1979], em Foucault, 1994, p. 791)

Em torno do enigma da sublevação, Foucault não pretenderá explicar suas “razões


profundas”, porém sim buscar (é o que fez no Irã) a maneira em que ela era vivida, para
tentar entender o que ia na cabeça desses homens e mulheres que arriscavam sua vida.
Ele repete o que há nela de não redutível, e constata que é por esta sublevação que a
subjetividade (não a dos grandes homens, mas de qualquer um) se introduz na história:
“o delinqüente que põe sua vida contra os castigos abusivos, o louco que não agüenta
mais estar encerrado, o povo que recusa o regime que o oprime...” (idem, p. 793).

Ao se estender sobre o caráter imediato dessas lutas, que não esperam nem visam uma
revolução, uma liberação final, Foucault chama essas lutas de anárquicas, pois se
inscrevem numa história imediata, aberta. “O que está em questão nessas lutas é o fato
que um certo poder se exerce, e de que o fato mesmo que ele se exerça seja
insuportável.” (“La philosophie analytique de la politique” [1978], em Foucault, 1994,
p. 545).

Essas lutas, agitações, não obedecem, diz Foucault, à morfologia clássica da revolução
como luta global e unitária de toda uma nação, de todo um povo e de toda uma classe. A
“idade da revolução” constituiu um gigantesco esforço para aclimatar a sublevação no
interior de uma história racional e controlável; ela lhe deu uma legitimidade, ela a triou
nas suas boas e más formas, ela definiu as leis de seu desenvolvimento; ela fixou suas
condições prévias...

Seria então, pergunta ele, o fim da revolução? Não cabe dizer isso, mas ao menos
detectar o fim de um período histórico monopolizado pela idéia de revolução, sem que
essa mudança signifique uma revalorização do reformismo, já que este visa estabilizar
um sistema de poder, ao passo que nessas lutas trata-se da desestabilização dos
mecanismos de poder, uma desestabilizaçao aparentemente sem fim (idem, p. 547).

Daí esse ensinamento de que o poder é infinito, mas que diante dele nunca nada é
suficiente. Então é preciso espreitar, um pouco abaixo da história, o que a rompe e a
agita, e vigiar, um pouco atrás da política, o que a deve incondicionalmente limitar.
(“Inutile de se soulever” [1979], em Foucault, 1994, p. 791)
Apêndice 3 - A desobediência civil: uma questão de direito?

Todos reconhecem o direito à revolução, ou seja, o


direito de negar lealdade e de oferecer resistência ao
governo sempre que se tornem grandes e insuportáveis
sua tirania. (Thoreau, 1986, p.40)

O tema da desobediência civil ingressa no vocabulário político a partir do famoso


ensaio de Thoreau (1817-1862), Civil desobedience, escrito em 1849, depois de
incidente protagonizado pelo autor, quando passa uma noite na cadeia por se recusar a
pagar impostos para o governo norte-americano que permitia a escravidão e que usava
seus recursos para financiar a guerra do México.

Nele, Thoreau sintetiza sua proposta de “resistência não-violenta” e de crítica à sujeição


à lei, sempre que esta não disser respeito ao exercício do “discernimento”, da
“consciência” ou do “senso moral”. Para ele, sempre que esta sujeição à lei colocar-nos
como agentes da injustiça, devemos “cuidar de não participar das misérias que
condenamos” e, neste caso, fazer de nossas vidas “um contra-atrito que pare a máquina”
(do governo) (1986, p.47):
Sob um governo que prende qualquer homem injustamente, o único lugar
digno para um homem justo é também a prisão. (...) É aí que deverão encontrá-los o
escravo foragido, o prisioneiro mexicano em liberdade condicional e o índio que
queiram protestar contra as injustiças sofridas por sua raça; é aí, nesse chão
discriminado, mas tão mais livre e honroso, onde o Estado planta os que não estão com
ele, mas contra ele – a única casa num Estado-senzala na qual um homem livre pode
perseverar com honra. Se alguém pensa que ali sua influência se perderá, que sua voz
não mais atormentará os ouvidos do Estado e que ele não será como um inimigo dentro
de suas muralhas, é porque não sabe o quanto a verdade é mais poderosa que o erro,
nem o quão mais eloqüente e eficazmente pode combater a injustiça aquele que já a
tenha experimentado em sua própria carne. (...) Uma minoria é indefesa quando se
conforma à maioria, nem chega a ser uma minoria então, mas torna-se irresistível
quando intervém com todo o seu peso. Se a alternativa for a de manter todos os homens
justos na prisão ou desistir da guerra e da escravidão, o Estado não hesitará em sua
escolha. Se no ano corrente mil homens não pagassem seus impostos, isso não seria
uma iniciativa tão violenta e sanguinária quanto o próprio pagamento, pois nesse caso o
Estado ficaria capacitado para cometer violências e para derramar o sangue dos
inocentes. Esta é, na verdade, a definição de uma revolução pacífica, se tal for possível.
(idem, pp. 50-51)

Thoreau protagonizou importante polêmica sobre os limites legítimos do governo


democrático, criticando a aplicação indiscriminada do princípio da maioria e
defendendo a rebeldia ética contra padrões políticos majoritariamente constituídos.
Segundo Drummond (1986), o impacto deste manifesto foi enorme, especialmente fora
dos EUA, tendo sido inspiração para movimentos coletivos de enorme importância
política: para o pensamento humanitário de Tolstói, para a luta anticolonial de Mahatma
Ghandi, inclusive para os movimentos libertários contemporâneos como os contra a
discriminação étnica, racial e sexual, na resistência ao serviço militar e à convocação
para a guerra, na recusa ao pagamento de impostos ilegais, na luta contra a devastação
do meio ambiente, no movimento pacifista, etc.

O tema da desobediência à lei, da contestação e do desprezo pela autoridade tornam-se,


segundo Arendt, um fenômeno de massa na segunda metade do século XX. No seu
ensaio intitulado “Desobediência civil” (1999), ela buscará retirar a desobediência civil
do risco de situar-se no âmbito de uma filosofia subjetiva, exclusivamente pessoal e
injustificável legalmente, distinguindo a objeção de consciência da contestação civil.

Os objetores de consciência, aqueles que fazem apelo a imperativos morais, religiosos


ou às mais altas das leis para desobedecer um imperativo legal distinguem-se dos
contestadores civis pois os últimos inscrevem-se necessariamente no âmbito de uma
coletividade. Se na objeção de consciência o indivíduo não cumpre a lei pela recusa em
violar um imperativo supremo de sua ética, na desobediência civil busca-se demonstrar
a injustiça da lei através de uma ação que almeja a inovação e a mudança da norma
através da publicidade do ato de transgressão.
A desobediência civil aparece quando um número significativo de cidadãos se
convence de que, ou os canais normais para mudanças já não funcionam, e que as
queixas não serão ouvidas nem terão qualquer efeito, ou então, pelo contrário, o
governo está em vias de efetuar mudanças e se envolve e persiste em modos de agir cuja
legalidade e constitucionalidade estão expostas a graves dúvidas. (idem, p. 68)

A principal crítica de Arendt a Thoreau é de que ele inscreve o debate da relação com a
lei no campo da consciência individual e do compromisso moral da consciência. Se sua
validade é subjetiva, não pode ser generalizada; além disto, a idéia da consciência
pressupõe que o homem possui a inata faculdade de discernir o certo do errado, além de
que as deliberações da consciência são apolíticas e inteiramente negativas: elas não
dizem o que fazer, dizem o que não fazer; não sugerem princípios para a ação, colocam
demarcações que as ações não devem transpor (idem, p. 59).

Mas há uma segunda diferença que Arendt tratará de marcar, entre desobediência civil e
criminosa:
Há um abismo de diferença entre o criminoso que evita os olhos do público e o
contestador civil que toma a lei em suas próprias mãos em aberto desafio. A distinção
entre a violação aberta da lei, executada em público, e a violação clandestina é tão
claramente óbvia que só pode ser ignorada por preconceito ou má vontade (...) o
transgressor comum, mesmo que pertença a uma organização criminosa, age
exclusivamente em seu próprio benefício; recusa-se a ser dominado pelo consentimento
dos outros e só cederá ante a violência das entidades mantenedoras da lei. Já o
contestador civil, ainda que seja normalmente um dissidente da maioria, age em nome e
para o bem de um grupo; ele desafia a lei e as autoridades estabelecidas no terreno da
dissenção básica, e não porque, como indivíduo, queira algum privilégio para si, para
fugir com ele. (Arendt, 1999, p.69)

Se esta distinção parece mais evidente, aquela entre o contestador civil e o


revolucionário mostra-se mais difícil de ser sustentada: o contestador civil aceita,
enquanto o revolucionário rejeita, a estrutura da autoridade estabelecida e a legitimidade
geral do sistema de leis (idem, p.70). Arendt está interessada em debater a
compatibilidade da desobediência civil com a lei, porque vislumbra aí uma via “para
determinar se as instituições da liberdade são ou não bastante flexíveis para
sobreviverem ao violento ataque da mudança sem guerra civil nem revolução” (idem, p.
74). Assim, a questão que ela precisará colocar é com que conceito de lei a
desobediência civil é compatível; uma vez que não o será evidentemente se formulamos
que a mudança em si é sempre resultado de uma ação extra-legal. Ela chega assim à
proposição da lei como consentimento, indicando a existência de pelo menos três
diferentes tipos de contrato social: o bíblico, entre um povo e seu Deus (Teocracia); o
vertical, do indivíduo com a autoridade, onde o primeiro renuncia a direitos e poderes
para garantir sua proteção e segurança (Hobbes) e o horizontal, onde há uma “aliança”
dos indivíduos, que estando mutuamente comprometidos, fazem um contrato de
governo. Arendt entende que este último tipo de consentimento é fundado na
reciprocidade e a sociedade é mantida unida pela força das promessas mútuas.
Promessa é o modo exclusivamente humano de ordenar o futuro, tornando-o
previsível e seguro até onde seja humanamente possível. E uma vez que a
previsibilidade do futuro nunca é absoluta, as promessas são restringidas por duas
limitações essenciais. Estamos obrigados a cumprir nossas promessas enquanto não
surgir alguma circunstância inesperada, e enquanto a reciprocidade inerente a toda
promessa não for rompida. (idem, p. 83)

Em sua visão, o consentimento (que é tácito) subentende o direito de divergir, pois a


dissidência implica em consentimento e é a marca do governo livre: “quem sabe que
pode divergir sabe também que de certo modo está consentindo quando não diverge”
(idem, p. 79). Arendt entende que encontrar um nicho constitucional para a
desobediência civil seria muito importante, mas se isto é particularmente difícil, a
desobediência civil deve ter lugar nas instituições políticas e nas instituições de
governo, porque
(...) emergências sempre estão por perto quando as instituições estabelecidas de
um país deixam de funcionar adequadamente e sua autoridade perde o poder, e é tal
emergência que transformou, nos Estados Unidos de hoje, a associação voluntária em
desobediência civil e dissidência em resistência. (idem, p. 90)
Do mesmo modo, Bobbio considera a desobediência civil uma das situações em que a
violação da lei é considerada eticamente justificada, chegando a configurar uma
obrigação de desobediência pela relação de reciprocidade entre cidadão e legislador: “se
é verdade que o legislador tem direito à obediência, também é verdade que o cidadão
tem direito de ser governado com sabedoria e leis estabelecidas” (Bobbio, 1986, p. 335).
Assim, a lei injusta e a lei ilegítima (emanada de quem não tem competência legislativa)
levariam à obrigação de desobediência. É, então, ato que se entende inovador e não
destruidor da lei, pois é executado com o fim imediato de mostrar publicamente a
injustiça, a ilegitimidade e a invalidade da lei e com o fim mediato de induzir o poder a
mudá-la.
Anexo 1 – Cronologia

14/10/92 - A Promotoria de Justiça da Infância e da Juventude move uma ação civil


pública contra a Fundação do Bem-Estar do Menor (Febem) e o governo de São Paulo,
denunciando o descalabro da situação de atendimento dos jovens custodiados no
Complexo Imigrantes. Nas visitas feitas ao Complexo, Promotores de Justiça e da
Comissão de Direitos Humanos da OAB verificam grave superlotação, observando
também que o número de assistentes sociais, psicólogos e monitores é insuficiente para
prestar assistência aos internos. A ação requer a determinação de um prazo para a
tomada, pela Febem, de medidas para solucionar a superlotação e contratar pessoal
suficiente

10/92 - Uma rebelião destrói parte do Complexo Tatuapé. Os adolescentes são


transferidos para o Complexo Imigrantes, o que constituiria uma medida provisória.

30/03/93 - Pelo menos 40 adolescentes sofrem espancamento e outros maus-tratos nas


mãos de monitores, policiais militares e integrantes de uma empresa privada de
segurança contratada pela Febem após a contenção de uma rebelião no Tatuapé. Seis
adolescentes são hospitalizados. A operação é comandada por um chefe de segurança
que já responde a inquérito por denúncias de espancamento e maus-tratos de internos
em 1991. Um inquérito sobre os espancamentos é arquivado posteriormente.

18/08/95 - O DEIJ concede liminar à ação civil da Promotoria de Justiça e determina


que a Feb