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PLATÃO

DIÁLOGOS
O B A N Q U E T E - F É D O N - SO FIST A - PO LÍTICO

Traduções de:
J o s e ' C a v a l c a n t e d e S o u z a ( O Banquete)
J o r g e P a l e i k a t e J o ã o C r u z C o s t a (Fédon, Sofista, P olítico)

CuLnfrat

m
1972

EDITOR: VICTOR CIVITA


Títulos originais:
"ZvniróffLOv (O Banquete)
<$ a í6 ii)v (Fédon)
S o ^ w r r r js (Sofista)
IloXtTiKÓs (Político)

1.* edição — N ovem bro 1972

© - Copyright desta edição, 1972


Abril S.A. Cultural e Industrial, São Paulo
Traduções publicadas sob licença de:
D ifusão Européia d o Livro, São Paulo (O Banquete)
Editora G lo b o S .A ., Porto Alegre (Fédon, Sofista, Político)
Su m a r io

O Banquete .......................................................................................................................................... 7

F edon ............................................................................................................................................. 61

So f i s t a .......................................................................................................... .. .............................. 135

P o l ít ic o ........................................................................................................................................... 2 0 5

i
O BANQUETE

/
Texto, tradução e notas

Para a presente tradução servi-m e dos textos deJ. Bum et, da Bibliotheça O xo-
niensis (O xford) e de L . R obin, da coleção “L es Belles L ettres". C om o com ecei
a trabalhar com o prim eiro, serviu-me ele naturalmente de primeiro fundamento,
ao qual apliquei algumas lições do segundo, que é mais recente1 e que oferece um
aparato crítico bem mais rico. O confronto dessas duas excelentes edições possi-
bilitou-me m esm d a apresentação de um terceiro texto, que representa uma tenta­
tiva de aproveitamento do que elas têm de melhor, e que espero poderá ser um
dia aproveitado numa edição bilingüe. N a impossibilidade de o fa zer agora, julgo
todavia que não será de todo fo ra de interesse, sobretudo para a apreciação da
tradução, prestar algum esclarecimento sobre a maneira com o se preparam as
edições modernas dos textos gregos.
O estabelecimento de um texto grego antigo é um trabalho à primeira vista
altamente maçante, sem dúvida alguma árduo, mas qfinal capaz de suscitar p ro­
fundo interesse e m esm o empolgar o espírito de quem se disponha a abordá-lo.
Um editor moderno encontra-se em fa c e de várias edições anteriores, de uma
profusão de manuscritos medievais, de alguns papiros e uma quantidade de cita­
ções de autores antigos. Tudo isso perfaz a tradição do texto que ele se dispõe a
reapresentar. Num a extensão de dois mil e tantos anos, as vicissitudes da história
fizeram -na seccionar-se em etapas com desenvolvim ento próprio, sob o qual se
dissimulam os sinais de sua continuidade. A ssim , ele tem que levar em conta
uma tradição antiga, uma tradição medieval e m esm o, podem os acrescentar,
uma tradição moderna. Cada uma delas reclama um tratamento especial, a se
efetuar todavia sempre em correlação com as demais.
Os docum entos que lhe vão servir de base são o s da tradição medieval, os
manuscritos. A quantidade destes é considerável para uma boa parte dos autores
gregos, mas seu valor é naturalmente desigual. Im põe-se um trabalho de seleção
e classificação em que se procure o liame perdido da tradição antiga, e em que
portanto o testemunho dos papiros e das citações dos autores antigos podem
muitas vezes ser de grande préstim o. A lém desse cotejo precioso com os restos
1 D e 1929, enquanto que a de Burnet é de 1901. (N . d o T .)
PLATÃO

da tradição antiga, muitas vezes é a ciência da tradição moderna, iniciada com


as primeiras edições do Renascim ento, que corrige as insuficiências das duas tra­
dições precedentes. A través dos dados e instrumentos de interpretação dessas
três tradições é que se exerce o esforço para reconstituir o texto que possa repre­
sentar o mais possível o próprio texto de um autor dos séculos V ou IV , p or
exem plo, esforço capaz, com o f o i dito acima, de estimular poderosam ente a
curiosidade intelectual.
N o que se refere a Platão2, contam -se atualmente 150 manuscritos de suas
obras. Sem dúvida, sua seleção e classificação já se encontra em estabelecimento
mais ou m enos definitivo, depois do trabalho sucessivo de vários editores e críti­
cos, a partir do Renascimento. À medida que se foram sucedendo as edições, fo i-
se elevando o número dos manuscritos consultados e colacionados, o que eviden­
temente complicava cada vez mais o trabalho crítico. Essa dificuldade culminou
com a atividade extraordinária de Immanuel Bekker, que no com eço do século
X I X colacionou 77 manuscritos, sobre os quais baseou sua edição, provida de
dois volum es de Commentaria Critica, aparecidos em 1 9 2 3 3.
Os críticos e editores seguintes sentiram então a necessidade de simplificar o
aparato crítico resultante de um tão grande acervo de docum entos, que só p od e­
ria estorvar, em lugar de facilitar o seu uso proveitoso. F o i então que surgiu a
idéia de remontar à origem dos manuscritos medievais e de, em função dessa ori­
gem , proceder à sua classificação. Tal projeto tom ou logo aform a de uma procu­
ra do arquétipo, isto é, do manuscrito da tradição antiga do qual proviriam todos
os manuscritos medievais. Em função do arquétipo foram os manuscritos agru­
pados em fam ílias, cujas características procurou-se explicar pelas várias lições
que ele apresentava, em notas abaixo ou à margem do texto. A s variantes do
arquétipo denotariam, assim, que se tratava de uma edição erudita, e portanto
representante das melhores correntes da tradição antiga do texto platônico. Tais
correntes estariam, desse m odo, representadas pelas várias famílias de manus­
critos medievais, e assim, p or conseguinte, teríamos garantida a continuidade
entre a tradição antiga e a moderna, aparentemente quebrada.
À luz dessa teoria f o i possível a utilização metódica dos manuscritos. Agrupa­
dos em fam ílias, apenas o s melhores, os mais representativos de cada uma delas
foram tomados para colação e referência. D e uma primeira destaca-se o Bodleia-
nus 3 9, da Biblioteca de Oxford, também chamado Clarkianus, do nom e do
mineralogista inglês, Edw . D . Clarke, que o adquiriu juntam ente com outros do
mosteiro de Patm os, em com eços do século X I X . E sse manuscrito data do fim
do século I X ou do com eço do seguinte, e contém apenas o primeiro dos dois
volumes que geralmente perfazem , nos manuscritos, as obras completas de Pla­
tão. Os aparatos críticos desde Schanz, um dos grandes estudiosos do texto
platônico, assinalam-no com a sigla B . Uma segunda fam ília tem dois principais
representantes, que se complementam; o Parisinus gr. 1807 (sigla A ), da mesma
época que o Bodleianus, e que ao contrário deste tem apenas o segundo volum e;
2 Todas as informações sobre o texto de Platão foram tiradas do belo livro de Alline, Histoire du
Texte de Platon, Edouard Champion, 1915. ( N .d o T .)
3 Essa edição é a vulgata dos aparatos críticos. V. Alline, op. cit., p. 317. ( N .d o T .)
O BANQUETE 11

e o Venetus, append. class. 4, n.° 1 (sigla T), da Biblioteca de S. M arcos de Vene­


za, que parece derivar-se do primeiro e data do fim do século X I ou com eço do
seguinte. Enfim, uma terceira fam ília é representada pelo Vindobonensis 54, sup-
plem .philo. gr. 7 (sigla W ), que data provavelm ente do século X II.
Qualquer outro manuscrito porventura utilizado no estabelecimento de um
texto será sempre a título suplementar e com o representante de uma tradição
especial dentro de uma das três famílias acima referidas. Por exem plo, no caso
do Banquete, enquanto B um et utiliza apenas o s manuscritos B, T e W , Robin
serve-se, além desses, do Vindobonensis 21 (sigla Y), cujas lições em parte se
aproximam da tradição A T , em parte da de B . A o lado desses manuscritos*, os
nossos dois editores conferem também o Papyrus Oxyrhynchus n.° 843 , que con­
tém um texto integral do Banquete, a partir de 201 a 1. A esses textos de base
acrescentam-se as citações dos autores antigos (que com o Papyrus O xyrhyn­
chus representam a tradição antiga, designada também de indireta pela crítica) e
as correções dos críticos e editores m odernos. É esse o material que figura num
aparato crítico, condensado em algumas linhas abaixo do texto.
A s edições de B um et e de Robin apresentam em seu texto muitas concordân­
cias. A m ba s se efetuaram ao termo de uma longa evolução da crítica de texto, e
em conseqüêncip trazem ambas um traço comum que as diferencia da maioria
das edições do século X I X , e que é uma acentuada prudência na adoção das cor­
reções modernas, abundantes entre os editores do século anterior. O aparato crí­
tico de ambas, particularmente o de R obin, bem mais rico a esse respeito, dá bem
uma idéia disso. O texto de Robin, quanto à escolha das lições, parece■mais
conservador ainda que o de Bum et, mais respeitador da tradição dos manuscri­
tos, o m esm o não ocorrendo porém quanto à pontuação do texto e à disposição
dos parágrafos, que e le procura apresentar à moda dos livros modernos. Tal
procedim ento, justificável aliás diante da irregularidade que os manuscritos apre­
sentam a este respeito — com o aliás a tradição antiga — , se tem a vantagem da
clareza, muitas vezes qfeta o estilo ou m esm o o sentido de certas passagens do
texto. A dissimulação do estilo é particularmente sensível aqui no Banquete, nos
discursos de Pausânias e de Alcibíades, em que uma pontuação moderna reduz
os longos períodos do primeiro e disciplina as fra ses naturalmente desordenadas
do segundo. E sse m otivo levou-m e qfinal a conservar o texto de B um et com o
base, em bora adotando um maior número de lições de R obin.
Em algumas dificuldades da tradução vali-m e das traduções francesas de L .
Robin ( “L es B elles Lettres ’) e de Em ile Cham bry (Edições Gam ier), assim com o
em uns p ou cos casos da tradução latina de B . B . Hirschig, da coleção D idot.
Todavia, cumpre-m e declarar, com o risco embora de parecer incorrer em peca­
do de fatuidade, o prazer especial que m e deu a versão direta do texto grego ao
vernáculo, cujas genuínas possibilidades de expressão me parecem ofuscadas e
ameaçadas no tradutor brasileiro de textos gregos e latinos pelo prestígio das
grandes línguas modernas da cultura ocidental. Ê bem provável que a presente
* A s correções que esses manuscritos apresentam são indicadas por Burnet com a letra minúscula
(b, t, w) e por Robin com as mesmas maiúsculas, mas cóm o expoente 2 (B2, T 2, W2). (N. do T.)
12 PLATÃO

tradução nada tenha de excepcional, e que o seu autor, em muitos torneios defra ­
ses e em muita escolha de palavra, tenha sido vítima da falta de disciplina e de
tradição que está porventura alegando nesse setor da nossa atividade intelectual.
N o entanto, em alguma passagem ele terá talvez acertado, e esse parco resultado
poderá dar uma idéia do que seria uma reação especial nossa a um texto helêni-
co, que conhecem os geralmente através da sensibilidade e da elucubração do
francês, do inglês, do alemão, etc. N ossa língua tem necessariamente uma malea­
bilidade especial, uma peculiar distribuição do vocabulário, uma maneira p ró­
pria de utilizar as imagens e de proceder às abstrações, e todos esses aspectos da
sua capacidade expressiva podem ser poderosam ente estimulados pelo verda­
deiro desafio que as qualidades de um texto grego muitas vezes representam para
uma tradução. A linguagem filosófica sobretudo, e em particular a linguagem de
Platão, oferece sob esse aspecto um vastíssimo campo para experiências dessa
natureza. Alguns exem plos do Banquete ilustram muito bem esse tipo especial de
dificuldades que o tradutor p od e encontrar e para as quais ele acaba muitas vezes
recorrendo às notas explicativas. N o entanto, se estas são inevitáveis numa tra­
dução moderna, não é absolutamente inevitável que sejam as mesmas em todas
as línguas modernas. Fazer com que se manifestasse nesta tradução justam ente a
diferença que acusa a reação própria e o caráter de nossa língua, eis o objetivo
sempre presente do tradutor.
Quanto às pequenas notas explicativas, dão elas naturalmente um rápido
esclarecimento sobre nom es e fa tos da civilização helênica aparecidos no con­
texto do Banquete, mas o que elas almejam sobretudo é ajudar à compreensão
desta obra platônica, ao m esm o tempo em seus trechos característicos e em seu
conjunto. Alguns anos de ensino de literatura grega levaram-me à curiosa cons­
tatação da impaciência e desatenção com que uma inteligência moderna lê um
diálogo platônico. Quem quiser p or si m esm o tirar a prova disso, procure a uma
primeira leitura resumir qualquer um desses diálogos, m esm o dos menores, e de­
p ois confira o seu resumo com uma segunda leitura. F o i a vontade de ajudar o
leitor moderno nesse ponto que inspirou a maioria das notas.
Finalmente devo assinalar que, não obstante a modéstia de conteúdo e de
proporções deste trabalho, eu não teria sido capaz de efetuá-lo sem a constante
orientação do Prof. Aubreton, cujas observações levaram-me a sucessivos reto­
ques, particularmente na tradução e na confecção das notas. A ele, p or conse­
guinte, quero deixar expressos, com a minha admiração, os mais sinceros
agradecimentos.

J. C . de Souza
Apolodoro 1 e um Companheiro

i72 a APOLODORO continuou, dize-me se tu mesmo esti-


— Creio que a respeito do que que-
veste presente àquele encontro ou
reis saber não estou sem preparo. Com não.” E eu respondi-lhe: “ É muitíssimo <■
efeito, subia eu há pouco à cidade, provável que nada de claro te contou o
vindo de minha casa em Falero2, teu narrador, se presumes que foi há
quando um conhecido atrás de mim pouco que se realizou esse encontro de
avistou-me e de longe me chamou, que me falas, de modo a também eu
exclamando em tom de brincadeira3 : estar presente. Presumo, sim, disse ele.
“ Falerino! Eh, tu, Apolodoro! Nâo D e onde, ó Glauco?, tornei-lhe. Não
me esperas?” P^rei e esperei. E ele dis­ sabes que há muitos anos Agatão não
se-me: “ Apolodoro, há pouco mesmo está na terra, e desde que eu freqüento
eu te procurava, desejando informar- Sócrates e tenho o cuidado de cada dia
me do encontro de Agatão, Sócrates, saber o que ele diz ou faz, ainda não se
b Alcibíades, e dos demais que então passaram três an os5? Anteriormente,
assistiram ao banquete4, e saber dos rodando ao acaso e pensando que fazia ma
seus discursos sobre o amor, como alguma coisa, eu era mais miserável
foram eles. Contou-mos uma outra que qualquer outro, e não menos que
pessoa que os tinha ouvido de Fênix, o tu agora, se crês que tudo se deve fazer
filho de Filipe, e que disse que também de preferência à filosofia” 6. “ Não fi­
tu sabias. Ele porém nada tinha de ques zombando, tomou ele, mas antes
claro a dizer. Conta-me então, pois és dize-me quando se deu esse encontro” .
o mais apontado a relatar as palavras “ Quando éramos crianças ainda, res-
pondi-lhe, e com sua primeira tragédia
do teu companheiro. E antes de tudo,
5 Entre a data da realização do banquete (v.
1 0 interlocutor de Sócrates não está só. infra 173a) e a d a sua narração .por A polodoro
(N. do T.) medeiam portanto muitos anos. Tanto quanto
2 Porto de Atenas, ao sul do Pireu, a menos de um indício cronológico, essa notícia vale com o
6 km da cidade. (N . do T .) uma curiosa ilustração da importância da me­
3 A brincadeira consiste no tom solene da inter­ mória na cultura da época. V. infra 173 b e cf.
pelação, dado pelo patronímico e pelo emprego Fédon, 57 a-b ( N .d o T .)
do demonstrativo em vez do pronome pessoal. 6 O entusiasmo de A polodoro, raiando o ridí­
(N . do T .) culo, constitui sem dúvida o primeiro traço dó
4 Literalmente, jantar coletivo. Depois da refei­ retrato que o Banquete nos dá de um Sócrates
ção propriamente dita é que havia o simpósio, capaz de suscitar desencontradas adesões, e nes­
i.e., “ bebida em conjunto” , acompanhado das se mentido é uma hábil antecipação da atitude
mais variadas diversões, entre as quais as com ­ de Alcibíades, também ridícula, mas noutra
petições literárias. ( N . d o T . ) perspectiva. Cf. infra 222 c-d ( N .d o T .)
14 PLATÃO

Agatão vencera o concurso7, um dia r o ! Sempre te estás maldizendo, assim


depois de ter sacrificado pela vitória, como aos outros; e me pareces que
ele e os coristas8. Faz muito tempo assim sem mais consideras a todos os
então, ao que parece, disse ele. Mas outros infelizes, salvo Sócrates, e a
quem te contou? O próprio Sócrates? começar por ti mesmo. Donde é que
Não, por Zeus, respondi-lhe, mas o pegaste este apelido de mole, não sei
b que justamente contou a Fênix. Foi um eu; pois em tuas conversas és sempre
certo Aristodemo, de Cidateneão, pe­ assim, contigo e com os outros esbra­
queno, sempre descalço9; ele assistira vejas, exceto com Sócrates.
à reunião, amante de Sócrates que era,
APOLODORO
dos mais fervorosos a meu ver. Não — Caríssimo, e é assim tão evi­
deixei todavia de interrogar o próprio dente que, pensando desse modo tanto
Sócrates sobre a narração que lhe ouvi, de mim como de ti, estou eu delirando
e este me confirmou o que o outro me e desatinando?
contara. Por que então não me contas^
C O M P A N H E IR O
te? tomou-me ele; perfeitamente apro­
— Não vale a pena, Apolodoro,
priado é o caminho da cidade a que
brigar por isso agora; ao contrário, o
falem e ouçam os que nele transitam.”
que eu te pedia, não deixes de fazê-lo;
E assim é que, enquanto caminhá­
conta quais foram os discursos.
vamos, fazíamos nossa conversa girar
sobre isso, de modo que, como disse ao APOLODORO
início, não me encontro sem preparo. — Foram eles em verdade mais ou
Se portanto é preciso que também a menos assim . . . M as antes é do come- n* «
vós vos conte, devo fazê-lo. Eu, aliás, ço, conforme me ia contando Aristo­
quando sobre filosofia digo eu mesmo demo, que também eu* tentarei contar-
algumas palavras ou as ouço de outro, vos.
afora o proveito que creio tirar, ale­
gro-me ao extremo; quando, porém, se Disse ele que o encontrara Sócrates,
trata de outros assuntos, sobretudo dos banhado e calçado com as sandálias, o
vossos, de homens ricos e negociantes, que poucas vezes fazia; perguntou-lhe
ã mim mesmo me irrito e de vós me então onde ia assim tão bonito.
apiedo, os meus companheiros, que Respondeu-lhe Sócrates: — A o jan­
pensais fazer algo quando nada fazeis. tar em casa de Agatão. Ontem eu o
i Talvez também vós me considereis evitei, nas cerimônias da vitória, por
infeliz, e creio que é verdade o que pré- medo da multidão; mas concordei em
sumis; eu, todavia, quanto a vós, não comparecer hoje. E eis por que me
presumo, mas bem sei. embelezei assim, a fim de ir belo à casa
C O M P A N H E IR O de um belo. E tu — disse ele — que tal »
— És sempre o mesmo, Apolodo- te dispores a ir sem convite ao jantar?
7 Em 416, no arcontado de Eufemo. V. supra — Com o quiseres — tomou-lhe o
nota 5. (N. do T.)
8 Os que formavam o coro de sua tragédia. outro.
(N. d o T .) — Segue-me, então — continuou
9 Tal com o o próprio Sócrates (v. infra 174a).
Sócrates — e estraguemos o provér­
Sem dúvida, outra indicação do fascínio que
Sócrates exercia sobre os amigos. (N d o T .) bio, alterando-o assim: “ A festins de
O BANQUETE 15

bravos10, bravos vão livremente.” ce. Chegado à casa de Agatão, encon- <
Ora, Homero parece não só estragar tra a porta aberta e aí lhe ocorre, dizia
mas até desrespeitar este provérbio; ele, um incidente cômico. Pois logo
pois tendo feito de Agamenão um vem-lhe ao encontro, lá de dentro, um
homem excepcionalmente bravo na dos servos, que o leva onde se recli-
guerra, e de Menelau um “ mole lancei- navam13 os outros, e assim ele os
ro” , no momento em que Agamenão encontra no momento de se servirem;
fazia um sacrifício e se banqueteava, logo que o viu, Agatão exclamou: —
c ele imaginou Menelau chegado sem Àristodem o! Em boa hora chegas para
convite, um mais fraco ao festim de um jantares conosco! Se vieste por algum
mais bravo11. outro motivo, deixa-o para depois, pois
A o ouvir isso o outro disse: — É ontem eu te procurava para te convi­
provável, todavia, ó Sócrates, que não dar e não fui capaz de te ver. M a s . . .
como tu dizes, mas como Homero, eu e Sócrates, como é que não no-lo
esteja para ir como um vulgar ao fes­ trazes?
tim de um sábio, sem convite. Vê — Voltando-me então — prosse­
então, se me levas, o que deves dizer guiu ele — em parte alguma vejo Só­
d por mim, pois não concordarei em che­ crates a me seguir; disse-lhe eu então
gar sem convite, mas sim convidado que vinha com Sócrates, por ele convi­
por ti. dado ao jantar.
— Pondo-nos os dois a caminho12 — Muito bem fizeste — disse A ga­
— disse Sócrates — decidiremos o tão; — mas onde está esse homem?
que dizer. A vante! — Há pouco ele vinha atrás de m«
Após se entreterem em tais conver­ mim; eu próprio pergunto espantado
sas, dizia Àristodemo, eles partem. Só­ onde estaria ele.
crates então, como que ocupando o seu — Não vais procurar Sócrates e
espírito consigo mesmo, caminhava trazê-lo aqui, menino1 4? — exclamou
atrasado, e como ò outro se detivesse Agatão. — E tu, Àristodemo, reclina-
para aguardá-lo, ele lhe pede que avan- te ao lado de Erixímaco.
Enquanto o servo lhe faz ablução
10Ilíada, X V II, 587, “ de bravos” (àyaõCiv) coin­
cide com o nome do poeta Agatão < . para que se ponha à mesa, vem um
O provérbio homéricò fica estragado, primeira­ outro anunciar: — Esse Sócrates reti-
mente por se subentender de Agatão, e também
pelo fato de o próprio Sócrates se qualificar de rou-se em frente dos vizinhos e parou;
bravo, contra o hábito de sua irônica modéstia. por mais que eu o chame não quer
( N .d o T .)
n A “mais fraco” e “mais bravo” correspondem
entrar.
no texto grego simplesmente os comparativos — É estranho o que dizes — excla­
de “ ruim” e “ bom ” . Tal relação deixa-nos ver
assim, sob a capa de uma crítica ao grande poe­ mou Agatão; — vai cham á-lo! E não
ta*, o aspecto fundamental do pensamento de mo largues!
Sócrates, i.e., sua constante referência à idéia do
bem. Outra indicação dramática, sem dúvida, Disse então Àristodemo: M as não! »
que preludia a doutrina da atração universal do
bom e do belo. V. infra 205d-e. (N . do T .) 13 Em longos divãs, que geralmente comporta­
12 Outra alteração de um verso homérico tam­ vam dois convivas, às vezes três. (N . do T .)
bém tornado proverbial (llíada, X , 22 4), em 1 4 Agatão está falando a um servo, tal com o
que npo õ Toii ( = um pelo outro) é substi­ muitas vezes um patrão entre nós fala com em­
tuído por irpò òôóü ( = a caminho). (N. d o T .) pregado. (N . do T .)
16 PLATÃO

Deixai-o! É um hábito seu esse1 5: às dos copos que pelo fio de lã escorre1 7
vezes retira-se onde quer que se encon­ do mais cheio ao mais vazio. Se é
tre, e fica parado. Virá logo porém, assim também a sabedoria, muito
segundo creio. Não o incomodeis por­ aprecio reclinar-me ao teu lado, pois
tanto, mas deixai-o. creio que de ti serei cumulado com
— Pois bem, que assim se faça, se é uma vasta e bela sabedoria. A minha
teu parecer — tornou Agatão. — E seria um tanto ordinária, ou mesmo
vocês, meninos, atendam aos convivas. duvidosa como um sonho, enquanto
Vocês bem servem o que lhes apraz, que a tua é brilhante e muito desenvol­
quando ninguém os vigia, o que jamais vida, ela que de tua mocidade tão
fiz; agora portanto, como se também intensamente brilhou, tornando-se an­
eu fosse por vocês convidado ao jan­ teontem manifesta a mais de trinta mil
tar, como estes outros, sirvam-nos a gregos que a testemunharam.
fim de que os louvemos. — És um insolente, ó Sócrates —
— Depois disso — continuou Aris- disse Agatão. — Quanto a isso, logo
todemo — puseram-se a jantar, sem mais decidiremos eu e tu da nossa
que Sócrates entrasse. Agatão muitas sabedoria, tomando Dioniso por
vezes manda chamá-lo, mas o amigo juiz18; agora porém, primeiro apron­
não o deixa. Enfim ele chega, sem ter ta-te para o jantar.
demorado muito como era seu costu­
— Depois disso — continuou Aris-
me, mas exatamente quando estavam
todemo — reclinou-se Sócrates e jan­
no meio da refeição. Agatão, que se
tou como os outros; fizeram então
encontrava reclinado sozinho no últi­
libações e, depois dos hinos ao deus e
mo leito1 6, exclama: — Aqui, Sócra­
dos ritos de costume, voltam-se à bebi­
tes! Reclina-te ao meu lado, a fim de
da. Pausânias então começa a falar
que ao teu contato desfrute eu da sábia
mais ou menos assim: — Bem, senho­
idéiá que te ocorreu em frente de casa.
res, qual o modo mais cômodo de
Pois é evidente que a encontraste, e
bebermos? Eu por mim digo-vos que
que a tens, pois não terias desistido
estou muito indisposto com a bebe­
antes.
deira de ontem, e preciso tomar fôlego
Sócrates então senta-se e diz: —
— e creio que também a maioria dos
Seria bom, Agatão, se de tal natureza
senhores, pois estáveis lá; vêde então
fosse a sabedoria que do mais cheio
de que modo poderíamos beber o mais
escorresse ao mais vazio, quando um
comodamente possível.
ao outro nos tocássemos, como a água
Aristófanes disse então: — É bom o
15 £ curiosa essa explicação de um hábito so- que dizes, Pausânias, que de qualquer
crático a amigos de Sócrates, tanto mais que,
modo arranjemos um meio de facilitar
um pouco abaixo (d 1-2), Agatão revela estar
familiarizado com ele. Isso denuncia a ficção
platônica, e em particular a intenção de sugerir 17 Sem dúvida um processo de purificação da
desde já a. capacidade socrática para as longas água. Aristófanes ( Vespas, 701-702) refere-se
concentrações de espírito, com o a que Alcibía­ ao mesmo processo, mas com relação ao óleo.
des contará em seu discurso (220c-d). (N. do T.) ( N .d o T .)
16 Os divãs do banquete se dispunham em for­ 18 Patrono dos concursos teatrais e deus do vi­
ma de uma ferradura. N o extremo esquerdo fi­ nho, Dioniso é apropriadamente mencionado
cava o anfitrião, que punha à sua direita o hós­ por Agatão com o o árbitro natural da próxima
pede de honra. É o lugar que Agatão oferece a competição entre os convivas, no simpósio pro­
Sócrates. ( N .d o T .) priamente dito. (N . do T.)
O BANQUETE 17

a bebida, pois também eu sou dos que mas bebendo cada um a seu bel-pra­
ontem nela se afogaram. zer2 1.
Ouviuros Erixímaco, o filho de Acú- — Com o então — continuou Erixí­
meno, e lhes disse: — Tendes razão! maco — é isso que se decide, beber
M as de um de vós ainda preciso ouvir cada um quanto quiser, sem que nada
como se sente para resistir à bebida; seja forçado, o que sugiro então é que
não é, Agatão? mandemos embora a flautista que aca­
— Absolutamente — disse este — bou de chegar, que ela vá flautear para
também eu não me sinto capaz. si mesma, se quiser, ou para as mulhe­
— Um a bela ocasião seria para res lá dentro; quanto a nós, com dis­
nós, ao que parece — continuou Erixí­ cursos devemos fazer nossa reunião
maco — para mim, para Àristodemo, hoje; e que discursos — eis o que, se
Fedro e os outros, se vós os mais capa­ vos apraz, desejo propor-vos.
zes de beber desistis agora; nós, com Todos então declaram que lhes ma
efeito, somos sempre incapazes; quan­ apraz e o convidam a fazer a proposi­
to a Sócrates, eu o excetuo do que ção. Disse então Erixímaco: — O
digo, que é ele capaz de ambas as coi­ exórdio de meu discurso é como a
sas e se contentará com o que quer que Melanipa22 de Eurípides; pois não é
fizermos19. Ora, como nenhum dos minha, mas aqui de Fedro a história
presentes parece disposto a beber que vou dizer. Fedro, com efeito,
muito vinho, talvez, se a respeito do freqüentemente me diz irritado: —
que é a embriaguez eu dissesse o que Não é estranho, Erixímaco, que para
i ela é, seria menos desagradável. Pois outros deuses haja hinos e peãs, feitos
para mim eis uma evidência que me pelos poetas, enquanto que ao Amor
veio da prática da medicina: é esse um todavia, um deus tão venerável e tão
mal terrível para os homens, a embria­ grande, jamais um só dos poetas que »
guez; e nem eu próprio desejaria beber tanto se engrandeceram fez sequer um
muito nem a outro eu o aconselharia, encômio2 3 ? Se queres, observa tam­
sobretudo a quem está com ressaca da bém os bons sofistas: a Hércules e a
véspera. outros eles compõem louvores em
— Na verdade — exclamou a se­
prosa, como o excelente Pródico2 4 —
guir Fedro de Mirrinote20 — eu costu­
mo dar-te atenção, principalmente em 21 Geralmente o aipnooiápxn^ , i.e., o chefe
do simpósio, eleito pelos convivas, determinava
tudo que dizes de medicina; e agora, se
o programa da bebida, fixando inclusive o grau
bem decidirem, também estes o farão. de mistura do vinho a ser obrigatoriamente
« Ouvindo isso, concordam todos em ingerido. V. infra 213e, 9-10. ( N .d o T .)
22 Melanipa, a Sábia, tragédia perdida de Eurí-
não passar a reunião embriagados, pedes, que também escreveu Melanipa, a Prisio­
neira. Erixímaco refere-se ao verso ovh ô
19 A OLOfipaawi-i socrática, i.e., o domínio do&_ íiSâoç, èjiiK nriTpòt; nápa (frag. 487 Wag­
apetites e sentidos do corpo, resiste tanto à fa­ n er): não é minha a história, mas de minha
diga e à dor com o ao prazer (v. infra 220a 77 mãe. (N . d a T .)
'tal com o Platão queria, que fossem os guardiães 23 Isto é, uma composição poética, consagrada
da sua cidade ideal. V. República III, 413d-e. exclusivamente ao louvor de um deus ou de um
(N . do T .) herói. Um elogio poético belíssimo, embora no
20 U m dos numerosos demos (no tempo de espírito da tragédia, encontra-se no famoso 3?
Heródoto 100), i.e., distritos em que se subdi­ estásimo da Antígona de Sófocles, 783-800.
vidia a população de Ática. ( N .d o T .) ( N .d o T .)
18 PLATÃO

e isso é menos de admirar, que eu já tom o de Dioniso e de Afrodite, nem


me deparei com o livro de um sábio2 5 qualquer outro destes que estou vendo
em que o sal recebe um admirável elo­ aqui. Contudo, não é igual a situação
gio, por sua utilidade; e outras coisas dos que ficamos nos últimos lugares;
desse tipo em grande número poderiam todavia, se os que estão antes falarem
ser elogiadas; assim portanto, en­ de modo suficiente e belo, bastará.
quanto em tais ninharias despendem Vamos pois, que em boa sorte comece
tanto esforço, ao Am or nenhum Fedro e faça o seu elogio do Am or.
homem até o dia de hoje teve a cora­ Estas palavras tiveram a aprovação
gem de celebrá-lo condignamente, a tal de todos os outros, que também aderi­
ponto é negligenciado um tão grande ram às exortações de Sócrates. Sem
deus! Ora, tais palavras parece que dúvida, de tudo que cada um deles
Fedro as diz com razão. Assim, não só disse, nem Àristodemo se lembrava
bem, nem por minha vez eu me lembro
eu desejo apresentar-lhe a minha
de tudo o que ele disse; mas o mais
quota2 6 e satisfazê-lo como ao mesmo
importante, e daqueles que me pareceu
tempo, parece-me que nos convém,
que valia a pena lembrar, de cada um
aqui presentes, venerar o deus. Se
deles eu vos direi o seu discurso.
então também a vós vos parece assim,
primeiramente, tal como agora
poderíamos muito bem entreter nosso
estou dizendo, disse ele que Fedro
tempo em discursos; acho que cada um
começou a falar mais ou menos desse
de nós, da esquerda para a direita, deve
ponto, “ que era um grande deus o
fazer um discurso de louvor ao Am or,
Am or, e admirado entre homens e deu­
o mais belo que puder, e que Fedro
ses, por muitos outros títulos e sobre­
deve começar primeiro, já que está na
tudo por sua origem. Pois o ser entre
ponta e é o pai da idéia.
os deuses o mais antigo é honroso,
— Ninguém contra ti votará, ó Eri­ dizia ele, e a prova disso é que genito­
xímaco — disse Sócrates. — Pois nem res do Am or não os há, e Hesíodo afir­
certamente me recusaria eu, que afir­ ma que primeiro nasceu o C a o s — .
mo em nada mais ser entendido senão
nas questões de amor, nem sem dúvida
Agatão e Pausânias, nem tampouco . . .e só depois
Aristófanes, cuja ocupação é toda em Terra de largos seios, de tudo assento

24 Natural de Ceos, nasceu por volta de 465. sempre certo, e A m o r . . . 2 7


Preocupou-se especialmente com o estudo do
vocabulário. N o Protágoras (315d) Sócrates
chama-o de Tântalo, aludindo ao seu tormento
na procura da expressão exata. ( N .d o T .)
Diz ele então28 que, depois do Caos
25 O sábio em questão é talvez Polícrates, o foram estes dois que nasceram, Terra e
mesmo autor do panfleto que justificava a con­
denação de Sócrates e que também escrevera 27 Hesíodo, Teogonia, 116 ss. ( N .d o T .)
peças retóricas de elogio à panela, aos ratos, 28 Alguns editores, entre os quais Bumet, acham
aos seixos. (N. do T.) que esse comentário de Fedro é ocioso, razão
26 Erixímaco vai atender à queixa de Fedro por que transferem para aqui a primeira frase
com a proposta de um concurso de discursos, de c (E com Hesíodo também concorda Acusi-
ao qual ele logo se prontifica a dar sua parte la u . . . ) . C om o pondera Robin, de fato ele está
( ipamv ) com o se fa z num piquenique, em que “ dando uma lição” , atitude perfeitamente con­
cada um traz uma parte da refeição coletiva. forme com a seriedade do seu espírito medío­
(N .d o T .) cre (N . do T .)
O BANQUETE 19

Amor. E Parmênides diz da sua ori­ resse de se fazer uma cidade ou uma
gem ~ ’ expedição de amantes e de amados,
não haveria melhor maneira de a cons­
tituírem senão afastando-se eles de
bem antes de todos os deuses pensou29 tudo que é feio e porfiando entre si no
em A m or. apreço à honra; e quando lutassem um m„
ao lado do outro, tais soldados vence­
c E com Hesíodo também concorda riam, por poucos que fossem, por
Acusilau30. Assim , de muitos lados se assim dizer todos os homens31. Pois
reconhece que Am or é entre os deuses um homem que está amando, se deixou
o mais antigo. E sendo o mais antigo é seu posto ou largou suas armas, aceita­
para nós a causa dos maiores bens. ria menos sem dúvida a idéia de ter
sido visto pelo amado do que por todos
Não sei eu, com efeito, dizer que haja
os outros, e a isso preferiria muitas
maior bem para quem entra na moci­
vezes morrer. E quanto a abandonar o
dade do que um bom amante, e para
amado ou não socorrê-lo em perigo,
um amante, do que o seu bem-amado.
ninguém há tão ruim que o próprio
Aquilo que, com efeito, deve dirigir
Am or não o torne inspirado para a vir­
toda a vida dos homens, dos que estão
tude, a ponto de ficar ele semelhante
prontos a vivê-la nobremente, eis o que
ao mais generoso de natureza; e sem
nem a estirpe pode incutir tão bem,
mais rodeios, o que disse Homero “ do »
nem as honras, nem a riqueza, nem ardor que a alguns heróis inspira o
i. nada mais, como o amor. A que é deus” 32, eis o que o Amor dá aos
então que me refiro? À vergonha do amantes, como um dom emanado de si
que é feio e ao apreço do que é belo. mesmo.
Nao é com efeito possível, sem isso, E quanto a morrer por outro, só o
nem cidade nem indivíduo produzir consentem os que amam, não apenas
grandes e belas obras. Afirmo eu então os homens, mas também as mulheres.
qué todo homem que ama, se fosse des­ E a esse respeito a filha de Pélias,
coberto a fazer um ato vergonhoso, ou Alceste33, dá aos gregos uma prova
a sofrê-lo de outrem sem se defender 31 Se não é isso uma alusão ao batalhão sagra­
por covardia, visto pelo pai não se do dos tebanos, que se notabilizou em Leutras
(3 7 1 ), uns dez anos depois da provável publi­
envergonharia tanto, nem pelos amigos cação do Banquete, é pelo menos um indício de
e nem por ninguém mais, como se fosse que essa idéia já corria o mundo grego, origi­
nária de cidades dóricas. (N . do T.)_
visto pelo bem-amado. E isso mesmo é 32 H omero, Ilíada, X , 182 r<5 &' e’'dirvevoe
o que também no amado nós notamos, tiêvoç yXctuKCxniç 'A&rjvrj ~ inspirou-lhe ardor
(a Diomedes) Atena de olhos brilhantes; e X V ,
que é sobretudo diante dos amantes 262: òx eínòv ê/jnveuoe /jé w iièya TtOL^évt
que ele se envergonha, quando sur­ Xaüiv assim tendo dito, inspirou um
grande ardor no pastor de povos. ( N .d o T .)
preendido em algum ato vergonhoso.
33 Casada com Admeto, rei de Feres, na Tessá-
Se por conseguinte ^lgum meio ocor- lia, Alceste aceita morrer em lugar do esposo,
quando os próprios pais deste se tinham recusa­
29 Isto é, a deusa Justiça (Simpl. Fís. 39, 18 do ao sacrifício. Mas pouco depois de sua mor­
D iels). ( N .d o T .) te, Hércules, hospedado por Admeto e informa­
30 Natural de Argos (século V I a .C .), Acusilau do d ò ò c o rr id o , desce ao Hades e traz Alceste
escreveu várias genealogias de deuses e homens. de volta. É o tema da bela tragédia de Eurípe-
( N .d o T .) des, que traz o nome da heroína. ( N .d o T .)
20 PLATÃO

cabal em favor dessa afirmativa, ela coragem de preferir, ao socorrer seu


que foi a única a consentir em morrer amante Pátroclo e vingá-lo, não ape­
pelo marido, embora tivesse este pai e nas morrer por ele mas sucumbir à $ua
c mãe, os quais ela tanto excedeu na morte; assim é que, admirados a mais
afeição do seu amor que os fez apare­ não poder, os deuses excepcionalmente
cer como estranhos ao filho, e parentes o honraram, porque em tanta conta ele
apenas de nome; depois de praticar ela tinha o amante. Que Ésquilo sem dúvi­
esse ato, tão belo pareceu ele não só da fala à toa, quando afirma que Aqui­
aos homens mas até aos deuses que, les era amante de Pátroclo, ele que era
embora muitos tenham feito muitas mais belo não somente do que este
ações belas, foi a um bem reduzido nú­ como evidentemente do que todos os
mero que os deuses concederam esta heróis, e ainda imberbe, e além disso
honra de fazer do Hades subir nova- muito mais novo, como diz Homero.
i mente sua alma, ao passo que a dela M as com efeito, o que realmente mais
eles fizeram subir, admirados do seu admiram e honram os deuses é essa
gesto; é assim que até os deuses hon­ virtude que se forma em torno do
ram ao máximo o zelo e a virtude no amor, porém mais ainda admiram-na e »
'ãmor. A Orfeu, o filho de Eagro, eles o apreciam e recompensam quando é o
fizeram voltar sem o seu objetivo, pois amado que gosta do amante do que
foi um espectro o que eles lhe mostra­ quando é este daquele. Eis por que a
Aquiles eles honraram mais do que a
ram da mulher a que vinha, e não lha
deram, por lhes parecer que ele se Alceste, enviando-o às ilhas dos bem-
acovardava, citaredo que era, e não aventurados.
ousava por seu amor morrer como Assim , pois, eu afirmo que o Amor é
Alceste, mas maquinava um meio de dos deuses o mais antigo, o mais hon-
penetrar vivo no Hades3 4. Foi real­ rado e o mais poderoso paria a aquisi­
mente por isso que lhe fizeram justiça, ção da virtude e da felicidade entre os
«, e determinaram que sua morte ocor­ homens3 5, tanto em sua vida como
resse pelas mulheres; não o honraram após sua morte.”
como a Aquiles, o filho de Tétis, nem o De Fedro foi mais ou menos este o c
enviaram às ilhas dos bem-aventu­ discurso que pronunciou, no dizer de
rados; que aquele, informado pela mãe Àristodemo; depois de Fedro houve al­
de que morreria se matasse Heitor, guns outros de que ele não se lembrava
enquanto que se o não matasse voltaria bem, os quais deixou de lado, pas­
à pátria onde morreria velho, 4eve a sando a contar o de Pausânias. Disse
este: “ Não me parece bela, ó Fedro, a
34 N ão é essa evidentemente a versão comum da
lenda. Descendo ao Hades para trazer de volta maneira como nos foi proposto o dis­
sua querida Eurídice, Orfeu consegue convencer curso, essa simples prescrição de um
a própria Perséfone, rainha daquele reino, gra­
ças aos doces acentos de sua música. Mas esta elogio ao A m or. Se, com efeito, um só
lhe impõe uma condição: Orfeu não deve olhar fosse o Am or, muito bem estaria; na
para trás, enquanto não subir à região da luz.
Já quase ao fim da jornada, porém, o músico realidade porém, não é ele um só; e
duvida da sinceridade de Perséfone e olhajpara
trás: logo sua amada desaparece, e para sem­ 35 Confrontar essa peroração com o final do
pre. A lembrança constante de Eurídice faz-lhe discurso de Sócrates, particularmente 212a-b.
esquecer as outras mulheres que, enciumadas, O poder do amor, a virtude e a felicidade têm
matam-no. ( N .d o T .) conteúdo diferente nos dois discursos. (N. do T.)
O BANQUETE 21

d não sendo um só, é mais acertado pri­ res3 7 que os jovens, e depois o que
meiro dizer qual o que se deve elogiar. neles amam é mais o corpo que a alma,
Tentarei eu portanto corrigir este e ainda dos mais desprovidos de inteli­
senão, e primeiro dizer qual o Amor gência, tendo em mira apenas o efetuar
que se deve elogiar, depois fazer um o ato, sem se preocupar se é decente­
elogio digno do deus. Todos, com efei­ mente ou não; daí resulta então que
to, sabemos que sem Am or não há eles fazem o que lhes ocorre, tanto o
Afrodite. Se portanto uma só fosse que é bom como o seu contrário. Tra­
j a - se com efeito do amor proveniente
esta» um só seria o A m or; como porém
da deusa que é mais jovem que a outra
são duas, é forçoso que dois sejam
também os Amores. E como não são e que em sua geração participa da
fêmea e do macho. O outro porém é o
duas deusas? Uma, a mais velha sem
da Urânia, que primeiramente não par­
dúvida, não tem mãe e é filha de
ticipa da fêmea mas só do macho — e
Urano3 6, e a ela é que chamamos de
é este o amor aos jovens3 8 — e depois
Urânia, a Celestial; a mais nova, filha
é a mais velha39, isenta de violência;
„ de Zeus e de Dione, chamamo-la de
daí então é que se voltam ao que é
Pandêmia, a Popular. É forçoso então
másculo os inspirados deste amor,
que também o Am or, coadjuvante de
afeiçoando-se ao que é de natureza
uma, se chame corretamente Pandê-
mais forte e que tem mais inteligência.
mio, o Popular, e o outro Urânio, o
E ainda, no próprio amor aos jovens
Celestial. Por conseguinte, é sem dúvi­
poder-se-iam reconhecer os que estão
da preciso louvar todos os deuses, mas
movidos exclusivamente por esse tipo
o dom que a um e a outro coube deve-
de amor 4 0 ; não amam eles, com efeito,
se procurar dizer. Toda ação, com efei­
os meninos, mas os que já começam a
to, é assim que se apresenta: em si ter juízo, o que se dá quando lhes vêm
mesma, encjuanto simplesmente prati­ chegando as barbas. Estão dispostos,
cada, nem e bela nem feia. Por exem­
penso eu, os que começam desse
plo, o que agora nós fazemos, beber,
ponto, a amar para acompanhar toda a
cantar, conversar, nada disso em si é vida e viver em comum, e não a enga­
belo, mas é na ação, na maneira como nar e, depois de tomar o jovem em sua
enfeito, que resulta tal; o que é bela e inocência e ludibriá-lo, partir à procu­
corretamente feito fica belo, o que não ra de outro. Seria preciso haver uma lei
o é fica feio. Assim é que o amar e o proibindo que se amassem os meninos,
Amor não é todo ele belo e digno de a fim de que não se perdesse na incer­
ser louvado, mas apenas o que leva a teza tanto esforço; pois é na verdade
amar belamente. incerto o destino dos meninos, a que
Ora pois, o Am or de Afrodite Pan- ponto do vício ou da virtude eles che-
b dêmia é realmente popular e faz o que 37 Confrontar com 208 e, onde Sócrates encon­
lhe ocorre; é a ele que os homens vul­ tra o grande sentido do amor normal à mulher,
aqui especiosamente confundido com o o tipo
gares amam. E amam tais pessoas,
inferior do amor. ( N .d o T .)
primeiramente não menos as mulhe- 38 Muitos editores consideram esta fràse uma
glosa. (N. do T .)
36 Hesíodo, Teogonia, 188-206. Urano foi mu­ 39 N a velhice .domina a razão. Daí é que os
tilado por seu filho Zeus, e o esperma do seu amantes desse amor procuram os que já com e­
membro viril, atirado ao mar, espumou sobre çam a ter juízo . . . (N. do T.)
as águas, donde se form ou Afrodite. Em H o­ 40 Confrontar com 210a-b. A progressão do
mero, no entanto, essa deusa é filha de Zeus, amor, segundo Diotima, exige que o amante
e de Dione ( Ilíada, V , 370). ( N .d o T .) largue o amor violento de um só. (N. d o T .)
22 PLATÃO

gam em seu corpo e sua alma. Ora, se veita aos seus governantes que nasçam
os bons amantes a si mesmos se grandes idéias entre os governados,
impõem voluntariamente esta lei, de­ nem amizades e associações inabalá­
via-se também a estes amantes popula­ veis, o que justamente, mais do que
res obrigá-los a lei semelhante, assim qualquer outra coisa, costuma o amor
como, com as mulheres de condição inspirar. Por experiência aprenderam
livre41, obrigamo-las na medida do isto os tiranos4 4 desta cidade; pois foi
possível a não manter relações amoro- 0 amor de Aristogitão e a amizade de
m «. sas. São estes, com efeito, os que justa­ Harmódio que, afirmando-se, destruí­
mente criaram o descrédito, a ponto de ram-lhes o poder. Assim , onde se esta­
alguns ousarem dizer que é vergonhoso beleceu que é feio o aquiescer aos </
o aquiescer aos amantes; e assim o amantes, é por defeito dos que o esta­
dizem porque são estes os que eles beleceram que assim fica, graças à
consideram, vendo o seu despropósito ambição dos governantes e à covardia
e desregramento, pois não é sem dúvi­ dos governados; e onde simplesmente
da quando feito com moderação e se determinou que é belo, foi em conse­
norma que um ato, seja qual for, incor­ qüência da inércia dos que assim
reria em justa censura. estabeleceram. Aqui porém, muito
Aliás, a lei do amor nas demais mais bela que estas é a norma que se
cidades é fácil de entender, pois é sim­ instituiu e, como eu disse, não é fácil
ples a sua determinação; aqui42 porém de entender. A quem, com efeito, tenha
b ela é complexa. Em Élida, com efeito, considerado 4 5 que se diz ser mais belo
na Lacedemônia, na Beócia, e onde amar claramente que às ocultas, e
não se saiba falar, simplesmente se sobretudo os mais nobres e os melho-
estabeleceu que é belo aquiescer aos ^res, embora mais feios que outros; que
amantes, e ninguém, jovem ou velho, por outro lado o encorajamento dado
diria que é feio, a fim de não terem difi­ por todos aos amantes é extraordinário
culdades, creio eu, em tentativas de e não como se estivesse a fazer algum
persuadir os jovens com a palavra, ato feio, e se fez ele uma conquista pa­
incapazes que são de falar; na Jônia, rece belo o seu ato, se não, parece feio; «
porém, e em muitas outras partes é e ainda, que em sua tentativa de con­
tido como feio, por quantos habitam quista deu a lei ao amante a possibili­
sob a influência dos bárbaros. Entre os dade de ser louvado na prática de atos
1
c bárbaros, com efeito, por causa das 44 Hípias e Hiparco, filhos de Pisístrato. Numa
tiranias, é uma coisa feia esse amor, primeira conspiração em 514, ao que parece
por -motivos pessoais, Hiparco foi assassinado,
justamente como o da sabedoria e da enquanto Arm ódio morria na luta e seu com ­
ginástica4 3 ; é que, imagino, não apro- panheiro Aristogitão era condenado à morte.
Quatro anos depois Hípias perdia o poder, víti­
<1 Isto é, não escravas. ( N .d o T .) ma de uma nova conspiração (V. Tucídides, VI,
42 Os manuscritos trazem a expressão “e na 54). ( N .d o T .)
Lacedemônia” depois de “ aqui” , o que não con­ 45 Essa subordinada, iniciando um longo perío­
corda com a notória tendência dos lacedemô- do, não tem seqüência lógica com a sua princi­
nios ao homossexualismo. ( N .d o T .) pal, formulada em 183c (Poder-se-ia pensar
43 Observar a expressão grega correspondente que . . . ) . M esmo à custa da clareza, preferimos
( ifiKoacxfía Kai V •jx.Xo-yuiivaoía ) e lembrar conservar a mesma articulação ampla e irregu­
que os ginásios eram dos locais prediletos de lar, a fim de permitir uma melhor apreciação
SScrates (cf7 a iiífrtíã. do" Cármides, Lísís, Lã~- do estilo do discurso, geralmente apontado
ques, e‘íc .). ( N .d o T .) com o uma paródia de Isócrates. (N . do T .)
O BANQUETE 23

extravagantes, os quais se alguém amados que conversem com os aman­


ousasse cometer em vista de qualquer tes, e ao pedagogo é prescrita essa
outro objetivo e procurando fazer ordem, e ainda os camaradas e amigos
à qualquer outra coisa fora isso, colheria injuriam se vêem que tal coisa está
as maiores censuras da filosofia46 — ocorrendo, sem que a esses injuria- *
pois se, querendo de uma pessoa ou dores detenham os mais velhos ou os
obter dinheiro ou assumir um coman­ censurem por estarem falando sem
do ou conseguir qualquer outro poder, acerto, depois de por sua vez atentar a
consentisse alguém em fazer justa­ tudo isso, poderia alguém julgar ao
mente o que fazem os amantes para contrário que se considera muito feio
com os amados, fazendo em seus pedi­ aqui esse modo de agir. O que há
dos súplicas e prostemações, e em suas porém é, a meu ver, o seguinte: não é
juras protestando deitar-se às portas, e isso uma coisa simples, o que justa­
dispondo-se a subserviências a que se mente se disse desde o começo, que
não sujeitaria nenhum servo, seria não é em si e por si nem belo nem feio,
impedido de agir desse modo, tanto mas se decentemente praticado é belo,
b pelos amigos como pelos inimigos, uns se indecentemente, feio. Ora, é inde­
incriminando-o de adulação e indigni­ centemente quando é a um mau e de
dade, outros admoestando-o e envergo- modo mau que se aquiesce, e decente­
nhando-se de tais atos — ao amante mente quando é a um bom e de um
porém que faça tudo isso acresce-lhe a modo bom. E é mau aquele amante
graça, e lhe é dado pela lei que ele o popular, que ama o corpo mais que a e
faça sem descrédito, como se estivesse alma; pois não é ele constante, por
praticando uma ação belíssima; e o amar um objeto que também não é
mais estranho é que, como diz o povo, constante48. Com efeito, ao mesmo
quando ele jura, só ele tem o perdão tempo que cessa o viço do corpo, que
dos deuses se perjurar, pois juramento era o que ele amava, “ alça ele o seu
de amor dizem que não é juramento, e vôo” 49, sem respeito a muitas palavras
c assim tanto os deuses como os homens e promessas feitas. A o contrário, o
deram toda liberdade ao amante, como amante do caráter, que é bom, é cons­
diz a lei daqui — por esse lado então tante por toda a vida, porque se fundiu
poder-se-ia pensar que se considera com o que é constante. Ora, são esses
inteiramente belo nesta cidade não só o dois tipos de amantes que pretende a <•
fato de ser amante como também o nossa lei provar bem e devidamente, e
serem os amados amigos dos amantes. que a uns se aquiesça e dos outros se
Quando porém, impondo-lhes um pe­ fuja. Por isso é que uns ela exorta a
dagogo4 7 , os pais não permitem aos perseguir e outros a evitar, arbitrando
^ Por que da filosofia? Vários críticos tenta­ e aferindo qual é porventura o tipo do
ram corrigir essa lição dos mss. Burnet apôs-lhe
amante e qual o do amado. Assim é
o óbelo da suspeita. N o entanto, não se deve
entender a palavra no seu conceito platônico, que, por esse motivo, primeiramente o
mas antes na acepção menos específica de cul­ se deixar conquistar é tido como feio, a
tura superior, tal comO, por exemplo, a enten­
dia Isócrates, um saber prático que incluía 48,Uma longínqua antecipação da idéia desen­
entre .outras coisas o conhecimento das boas volvida plenamente em 207d-208b. ( N .d o T .)
normas do cidadão. (N . d o T .) 49 Expressão homérica (Ilíada, II, 7 1 ), aplicada
47 £ o escravo encarregado de acompanhar os a Oneiros, o sonho personificado, que veio a
jovens à palestra e à escola. (N . d o T .) Agamenão. (N . do T.)
PLATÃO
24
fim de que possa haver tempo, que bem segundo em precisão de adquirir para
parece o mais das vezes ser uma exce­ a sua educação e demais competência,
lente prova; e depois o deixar-se con­ só então, quando ao mesmo objetivo
quistar pelo dinheiro e pelo prestígio convergem essas duas normas, só
político é tido como feio, quer a um então é que coincide ser belo o aquies­
mau trato nos assustemos sem reagir, cer o amado ao amante e em mais
quer beneficiados em dinheiro ou em nenhuma outra ocasião. Nesse caso,
sucesso político não os desprezemos; mesmo o ser enganado não é nada feio;
nenhuma dessas vantagens, com efeito, em todos os outros casos porém é
parece firme ou constante, afora o fato vergonhoso, quer se seja enganado,
de que delas nem mesmo se pode deri­ quer não. Se alguém com efeito, depois
var uma amizade nobre. Um só cami­ de aquiescer a um amante, na suposi­
nho então resta à nossa norma, se deve ção de ser este rico e em vista de sua
o bem-amado decentemente aquiescer riqueza, fosse a seguir enganado e não
ao amante. É com efeito norma entre obtivesse vantagens pecuniárias, por se
nós que, assim como para os amantes, ter revelado pobre o amante, nem por
quando um deles se presta a qualquer isso seria menos vergonhoso; pois pa­
servidão ao amado, não é isso adula- rece tal tipo revelar justamente o que
ção nem um ato censurável, do mesmo tem de seu, que pelo dinheiro ele servi­
modo também só outra única servidão ria em qualquer negócio a qualquer
voluntária resta, não sujeita a censura: um, e isso não é belo. Pela mesma
a que se aceita pela virtude. N a verda­ razão, também se alguém, tendo
de, estabeleceu-se entre nós que, se aquiescido a um amante considerado
alguém quer servir a um outro por jul­ bom, e para se tornar ele próprio me­
gar que por ele se tomará melhor, ou lhor através da amizade do amante,
em sabedoria ou em qualquer outra fosse a seguir enganado, revelada a
espécie de virtude, também esta volun­ maldade daquele e sua carência de vir­
tária servidão não é feia nem é uma tude, mesmo assim belo 51 seria o
adulação 50. É preciso então congraçar engano; pois também nesse caso pare­
num mesmo objetivo essas duas nor­ ce este ter deixado presente sua própria
mas, a do amor aos jovens e a do amor tendência: pela virtude e por se tomar
ao saber e às demais virtudes, se deve melhor, a tudo ele se disporia em favor
dar-se o caso de ser belo o aquiescer o de qualquer um, e isso é ao contrário o
amado ao amante. Quando com efeito mais belo de tudo; assim, em tudo por
ao mesmo ponto chegam amante e tudo é belo aquiescer em vista da virtu­
amado, cada um com a sua norma, um de. Este é o amor da deusa celeste, ele
servindo ao amado que lhe aquiesce, mesmo celeste e de muito valor para a
em tudo que for justo servir, e o outro cidade e os cidadãos, porque muito
ajudando ao que o está tomando sábio esforço ele obriga a fazer pela virtude
e bom, em tudo que for justo ajudar, o tanto ao próprio amante como ao
primeiro em condições de contribuir amado; os outros porém são todos da
para a sabedoria e demais virtudes, o 51 Paradoxo tipicamente retórico, bem encaixa­
do na argumentação, e aparentemente resultan­
50 T odo esse detalhe dos casos feios do amor é do em louvor da virtude — a virtude enganada.
ao mesmo tempo caraterístico do realismo prá­ Para Sócrates porém o engano, uma falta de
tico de Pausânias e revela o que para ele é tam­ sabedoria, é, portanto, uma falta de virtude e
bém conteúdo da filosofia. ( N .d o T .) com o tal não é belo. (N . d o T .)
O BANQUETE
25
outra deusa, da popular. É essa, ó está ele apenas nas almas dos homens,
Fedro, concluiu ele, a contribuição e para com os belos jovens, mas tam­
que, como de improviso 52, eu te apre­ bém nas outras partes, e para com
sento sobre o Am or” . muitos outros objetos, nos corpos de
Na pausa53 de Pausânias — pois todos os outros animais, nas plantas
assim me ensinam os sábios a falar, em da terra e por assim dizer em todos os
termos iguais — disse Àristodemo que seres é o que creio ter constatado pela
devia falar Aristófanes, mas tendo-lhe prática da medicina, a nossa arte;
ocorrido, por empanturramento ou por grande e admirável é o deus, e a tudo »
algum outro motivo, um acesso de se estende ele, tanto na ordem das coi­
d soluço, não podia ele falar; mas disse sas humanas como entre as divinas.
ele ao médico Erixímaco, que se recli- Ora, eu começarei pela medicina a
nava logo abaixo dele: — ó Erixí­ minha fala, a fim de que também
maco, és indicado para ou fazer parar homenageemos a arte5 4 . A natureza
o meu soluço ou falar em meu lugar, dos corpos, com efeito, comporta esse
até que eu possa parar com ele. E Eri­ duplo A m or; o sadio e o mórbido são
xímaco respondeu-lhe: cada um reconhecidamente um estado
— Farei as duas coisas: falarei diverso
em e dessemelhante, e o desseme­
teu lugar e tu, quando acabares com lhante deseja e ama o dessemelhan­
isso, no meu. E enquanto eu estiver te 5 5. Um portanto é o amor no que é
falando, vejamos se, retendo tu o fôle­ sadio, e outro no que é mórbido. E
go por muito tempo, quer parar o teu então, assim como há pouco Pausânias
soluço; senão, gargareja com água. Se dizia que aos homens bons é belo c
e então ele é muito forte, toma algo com aquiescer, e aos intemperantes é feio,
que possas coçar o nariz e espirra; se também nos próprios corpos, aos ele-
fizeres isso duas ou três vezes, por mentos bons de cada corpo e sadios é
mais forte que seja, ele cessará. — belo o aquiescer e se deve, e a isso é
Não começarás primeiro o teu discur­ que se dá o nome de medicina,
so, disse Aristófanes; que eu por mim é enquanto que aos maus e mórbidos é
o que farei. feio e se deve contrariar, se se vai ser
Disse então Erixímaco: “ Parece-me um técnico. É com efeito a medicina,
em verdade ser necessário, uma vez para falar em resumo, a ciência dos
que Pausânias, apesar de se ter lança- fenômenos de amor, próprios ao corpo,
186 a dq bem ao seu discurso, não o rematou no que se refere à repleção e à evacua-
convenientemente, que eu deva tentar
54 A arte por excelência para esse médico, isto
pôr-lhe um remate. Com efeito, quanto
é, a medicina. A palavra réxi>r> indica geral­
a ser duplo o Am or, parece-me que foi mente uma determinada atividade disciplinada
uma bela distinção; que porém não e orientada por um corpo de preceitos e princí­
pios. Assim, a medicina era também uma arte.
52 Num concurso improvisado essa indicação ( N .d o T .)
inútil seria estranha se não fosse entendida 55 o contexto manda interpretar a frase de Eri­
com o uma alusão irônica ao repertório de luga- xímaco assim: o mórbido (dessemelhante do
res-comuns fornecido pelo ensino formal da sadio) ama o mórbido (dessemelhante do sadio)
retórica. ( N .d o T .) e vice-versa. N o entanto, em d 4 infra, há uma
53 A expressão grega é IIavoaviov navoay.èvov , transição, que não fica muito clara, para a idéia
que na boca de A polodoro é com o um eco dos de atração (identificada ao amor por Erixíma­
desenvolvimentos simétricos e dos paralelismos co) dos contrários no organismo. Tal idéia é
( iba \eyoiieva. ) do discurso de Pausânias. atribuída ao médico Alcm eão de Crotona (fr. 4
(N . do T .) D iels), do com eço do século V. ( N .d o T .)
26 PLATÃO

i ção, e o que nestes fenômenos reco­ grave, antes discordantes e posterior- t


nhece o belo amor e o feio é o melhor mente combinados, ela resultou, gra­
médico; igualmente, aquele que faz ças à arte musical. Pois não é sem dú­
com que eles se transformem, de modo vida do agudo e do grave ainda em
a que se adquira um em vez do outro, e discordância que pode resultar a har­
que sabe tanto suscitar amor onde não monia; a harmonia é consonância,
há mas deve haver, como eliminar consonância é uma certa combinação
quando há, seria um bom profissional. — e combinação de discordantes,
É de fato preciso ser capaz de fazer enquanto discordam, é impossível, e
com que os elementos mais hostis no inversamente o que discorda e não
corpo fiquem amigos e se amem combina é impossível harmonizar —
mutuamente. Ora, os mais hostis são assim como também o ritmo, que
os mais opostos, como o frio ao quen­ resulta do rápido e do lento, antes
te, o amargo ao doce, o seco ao úmido, dissociados e depois combinados. A *
, e todas as coisas desse tipo; foi por ter combinação em todos esses casos,
entre elas suscitado amor e concórdia assim como lá foi a medicina, aqui é a
que o nosso ancestral Asclépio, como música que estabelece, suscitando59
dizem estes poetas aqui5 6 e eu acredi­ amor e concórdia entre uns e outros; e
to, constituiu a nossa arte. A medicina assim, também a música, no tocante à
portanto, como estou dizendo, é toda harmonia e ao ritmo, é ciência dos
tu a ela dirigida nos traços deste deus, fenômenos amorosos. Aliás, na pró­
assim como também a ginástica e a pria constituição de uma harmonia e
agricultura; e quanto à música, é a de um ritmo não é nada difícil reconhe­
todos evidente, por pouco que se lhe cer os sinais do amor, nem de algum
preste atenção, que ela se comporta modo 60 há então o duplo amor; quan­
segundo esses mesmos princípios, do porém for preciso utilizar para o <*
como provavelmente parece querer homem uma harmonia ou um ritmo,
dizer Heráclito, que aliás em sua ou fazendo-os, o que chamam compo­
expressão não é feliz. O um, diz ele sição, ou usando corretamente da
com efeito, “ discordando em si melodia e dos metros já constituídos, o
mesmo, consigo mesmo concorda, que se chamou educação, então é que é
como numa harmonia de arco e difícil e que se requer um bom profis-
lira” 5 7 . Ora, é grande absurdo dizer
59 E assim a arte acaba sendo criadora do
que uma harmonia está discordando amor, e este um mero produto. Erixímaco pa­
ou resulta do que ainda está discordan­ rece não perceber as dificuldades qúe encerra a
relação desses dois elementos, cuja conceitua-
do 5 8. M as talvez o que ele queria dizer ção rigorosa não lhe importa muito, e conti­
era o seguinte, que do agudo e do nua a fazer com as outras artes o que fez com
a medicina e a música. (N . d o T .)
5* Erixímaco refere-se a Aristófanes e Agatão. 80 Essa expressão trai a habilidade retórica do
Asclépio, filho de A poio e da mortal Coronis, cientista orador: depois de afirmar que há dois
da Tessália, é o herói patrono da medicina. tipos de amor no organismo (v. nota 5 5 ), Eri­
(N . do T .) xímaco passa a falar da saúde com o o equilí­
57Fr.5i, Diels. ( N .d o T .) brio (isto é, concórdia, am or) dos contrários,
58 N o entanto, é bem isso o que Heráclito quer e do mesmo m odo da harmonia dos sons, sem
dizer, e não há realmente uma expressão infe; evidentemente referir-se ao que seria, por exem­
Iiz_da 5ua p»rte. Convém lembrar que'a riqueza plo, o resultado do amor de contrários mórbi­
de particípios na língua grega, e em particular dos. Aqui, porém, no momento de referir-se à
a nítida distinção entre o particípio aoristo utilização humana da harmonia, reaparece-lhe
(pretérito) e o particípio presente, não lhe per­ a idéia do bom e do mau amor que é preciso
mitiriam perpetrar a confusão -que Erixímaco discernir e que justifica ou não o aquiescimento
lhe atribui. (N . do T.) do bem-amado ao am ante. . . (N . do T .)
O BANQUETE 27

sional. Pois de novo revém a mesma cujo conhecimento nas translações dos
idéia, que aos homens moderados, e astros e nas estações do ano chama-se
para que mais moderados se tomem os astronomia. E ainda mais, não só
que ainda não sejam, deve-se aquiescer todos os sacrifícios, como também os
e conservar o seu amor, que é o belo, o casos a que preside a arte divinatória
celestial, o Am or da musa Urânia; o — e estes são os que constituem o
outro, o de Polímnia61, é o popular, comércio recíproco dos deuses e dos
que com precaução se deve trazer homens — sobre nada mais versam
àqueles a quem se traz, a fim de que se senão sobre a conservação e a cura62
colha o seu prazer sem que nenhuma do Am or. Toda impiedade, com efeito,
intemperança ele suscite, tal como em costuma advir, se ao Am or moderado
nossa arte é uma importante tarefa o não se aquiesce nem se lhe tributa
servir-se convenientemente dos apetites honra e respeito em toda ação, e sim
da arte culinária, de modo a que sem ao outro, tanto no tocante aos pais,
doença se colha o seu prazer. Tanto na vivos e mortos, quanto aos deuses; e
música então, como na medicina e em foi nisso que se assinou à arte divina­
todas as outras artes, humanas e divi­ tória o exame dos amores e sua cura, e
nas, na medida do possível, devesse assim é que por sua vez é a arte divina­
conservar um e outro amor; ambos tória produtora63 de amizade entre
com efeito nelas se encontram. De deuses e homens, graças ao conheci­
fato, até a constituição das estações do mento de todas as manifestações de
ano está repleta desses dois amores, e amor que, entre os homens, se orien­
quando se tomam de um moderado tam para a justiça divina e a piedade.
amor um pelo outro os contrários de Assim , múltiplo e grande, ou me­
que há pouco eu falava, o quente e o lhor, universal é o poder que em geral
frio, o seco e o úmido, e adquirem uma tem todo o A m or, mas aquele que em
harmonia e uma mistura razoável, che­ tom o do que é bom se consuma com
gam trazendo bonança e saúde aos sabedoria e justiça, entre nós como
homens, aos outros animais e às plan­ entre os deuses, é o que tem o máximo
tas, e nenhuma ofensa fazem; quando
poder e toda felicidade nos prepara,
porém é o Am or casado com a violên­
pondo-nos em condições de não só
cia que se tom a mais forte nas estações
entre nós mantermos convívio e amiza­
do ano, muitos estragos ele faz, e ofen­
de, como também com os que são mais
sas. Tanto as pestes, com efeito, costu­
poderosos que nós, os deuses. Em
mam resultar de tais causas, como
conclusão, talvez também eu, lou­
também muitas e várias doenças nos
vando o Am or, muita coisa estou dei­
animais como nas plantas; geadas,
xando de lado, não todavia por minha
granizo s e alforras resultam, com efei­
vontade. M as se algo omiti, é tua tare­
to, do excesso e da intemperança
fa, ó Aristófanes, completar; ou se um
mútua de tais manifestações do amor,
outro modo tens em mente de elogiar o
61 Padroeira da poesia lírica. A o contrário de
Pausânias, Erixímaco associou o amor às M u­ deus, elogia-o, uma vez que o teu solu­
sas e não a Afrodite, o que está de acordo com ço já o fizeste cessar.”
o caráter que seu discurso lhe empresta: o de
uma força de aglutinação universal, suscetível 62 a assimilação das outras artes à medicina
de ser tratada pela afte. Em lugar de Afrodite tornou-se tão completa que o A m or é conside­
Pandêmia, ele imaginou a Musa da poesia líri­ rado com o uma afecção com o as outras doen­
ca, a poesia dos sentimentos pessoais e das pai­ ças. ( N . d o T . )
xões. (N . do T.) 83~V. supra p. 26, nota 59.
PLATÃO
28
is9 c Tendo então tomado a palavra, con­ sacrifícios lhe fariam, não como agora
tinuou Àristodemo, disse Aristófanes: que nada disso há em sua honra, quan­
— Bem que cessou! Não todavia, é do mais que tudo deve haver. É ele *
verdade, antes de lhe ter eu aplicado o com efeito o deus mais amigo do
espirro, a ponto de me admirar que a homem, protetor e médico desses
boa ordem do corpo requeira tais ruí­ males, de cuja cura dependeria sem dú­
dos e comichões como é o espirro; pois vida a maior felicidade para o gênero
logo o soluço parou, quando lhe apli­ humano. Tintarei eu portanto iniciar-
quei o espirro. vos 6 5 em seu poder, e vós o ensinareis
E Erixímaco lhe disse: — Meu bom aos outros. M as é preciso primeiro
b Aristófanes, vê o que fazes. Estás a aprenderdes a natureza humana e as
fazer graça, quando vais falar, e me suas vicissitudes. Com efeito, nossa
forças a vigiar o teu discurso, se por­ natureza outrora não era a mesma que
ventura vais dizer algo risível, quando a de agora, mas diferente. Em primeiro
te é permitido falar em paz. lugar, três eram os gêneros da humani­
Aristófanes riu e retomou: — Tens dade, não dois como agora, o mascu­
razão, Erixímaco! Fique-me o dito lino e o feminino, mas também havia a *
pelo não dito. M as não me vigies, que mais um terceiro, comum a estes dois,
eu receio, a respeito do que vai ser do qual resta agora um nome, desapa­
dito, que seja não engraçado o que vou
recida a coisa; andrógino era então um
dizer — pois isso seria proveitoso e
gênero distinto, tanto na forma como
próprio da nossa musa — mas ridícu-,
no nome comum aos dois, ao mascu­
lo 64.
lino e ao feminino, enquanto agora
— Pois sim! — disse o outro —
nada mais é que um nome posto em
lançada a tua seta, Aristófanes, pensas
desonra. Depois, inteiriça66 era a
em fugir; mas toma cuidado e fala
c como se fosses prestar contas. Talvez forma de cada homem, com o dorso
todavia, se bem me parecer, eu te redondo, os flancos em círculo; quatro
largarei. mãos ele tinha, e as pernas o mesmo
“ Na verdade, Erixímaco, disse Aris­ tanto das mãos, dois rostos sobre um ma
tófanes, é de outro modo que tenho a pescoço torneado, semelhantes em
intenção de falar, diferente do teu e do tudo; mas a cabeça sobre os dois ros­
de Pausânias. Com efeito, parece-me tos opostos um ao outro era uma só, e
os homens absolutamente não terem quatro orelhas, dois sexos, e tudo o
percebido o poder do amor, que se o mais como desses exemplos se poderia
percebessem, os maiores templos e supor. E quanto ao seu andar, era tam­
altares lhe preparariam, e os maiores bém ereto como agora, em qualquer
das duas direções que quisesse; mas
64 D e fato seu discurso é engraçadíssimo. A pre­
caução de Aristófanes faz lembrar o tom e a quando se lançavam a uma rápida cor-
função de uma parábase, na comédia antiga,
onde o poeta, pela voz do coro, explica-se a 65 A palavra é própria da linguagem dos Misté­
respeito de sua peça. V. Os Cavaleiros, 515- rios. Aristófanes não vai explicar as virtudes do
516, e 541-545, onde se sente a mesma nota de Am or, com o os dois oradores precedentes, mas
prudência que aqui. Além desse traço de veros­ tentará o acesso direto à sua natureza, com o
similhança dramática, Platão estaria insinuan-, numa iniciação. ( N .d o T .)
do uma alusão à insuficlêncfá da arted e-A ris» 66 Cf. Empédocles, fr. 62, vs. 4 (Diels).oú\<vuer<:
tôfãnes. que não tem domínio r1? sm g pr*prina (ièv npCira TÍmoi xSovcx; é£avireWov : primeiro,
recursos, dependente que é de u«Ja-ÍnSEka£.ão^ tipos inteiriços surgiram da terra. (N . do
( N .d o T .) T .)
O BANQUETE 29

rida, como os que cambalhotando e ele, eu os cortarei em dois, e assim


virando as pernas para cima fazem sobre uma só perna eles andarão, salti-
uma roda, do mesmo modo, apoian­ tando.” Logo que o disse pôs-se a cor­
do-se nos seus oito membros de então, tar os homens em dois, como os que
rapidamente eles se locomoviam em cortam as sorvas68 para a conserva,
» círculo. Eis por que eram três os gêne­ ou como os que cortam ovos com *
ros, e tal a sua constituição, porque o cabelo; a cada um que cortava manda­
masculino de início era descendente do va Apoio voltar-lhe o rosto e a banda
sol, o feminino da terra, e o que tinha do pescoço para o lado do corte, a fim
de ambos era da lua, pois também a de que, contemplando a própria muti­
lua tem de ambos; e eram assim circu- lação, fosse mais moderado o homem,
lares, tanto eles próprios como a sua e quanto ao mais ele também mandava
locomoção, por terem semelhantes ge­ curar. Apoio torcia-lhes o rosto, e
nitores. Eram por conseguinte de uma repuxando a pele de todos os lados
força e de um vigor terríveis, e uma para o que agora se chama o ventre,
grande presunção eles tinham; mas como as bolsas que se entrouxam, ele
voltaram-se contra os deuses, e o que fazia uma só abertura e ligava-a firme­
diz Homero de Efialtes e de Otes 6 7 é a mente no meio do ventre, que é o que
eles que se refere, a tentativa de fazer chamam umbigo. A s outras pregas,
uma escalada ao céu, para investir numerosas, ele se pôs a polir, e a arti- m«
contra os deuses. Zeus então e os de­ cular os peitos, com um instrumento
mais deuses puseram-se a deliberar semelhante ao dos sapateiros quando
sobre o que se devia fazer com eles, e estão polindo na forma as pregas dos
embaraçavam-se; não podiam nem sapatos; umas poucas ele deixou, as
matá-los e, após fulminá-los como aos que estão à volta do próprio ventre e
gigantes, fazer desaparecer-lhes a raça do umbigo, para lembrança da antiga
— pois as honras e os templos que lhes condição. Por conseguinte, desde que a
vinham dos homens desapareceriam nossa natureza se mutilou em duas,
— nem permitir-lhes que conti­ ansiava cada um por sua própria meta­
nuassem na impiedade. Depois de de e a ela se unia, e envolvendo-se com
laboriosa reflexão, diz Zeus: “ Acho as mãos e enlaçando-se um ao outro,
que tenho um meio de fazer com que no ardor de se confundirem, morriam
os homens possam existir, mas parem de fome e de inércia em geral, por nada *
com a intemperança, tomados mais quererem fazer longe um do outro. E
fracos. Agora com efeito, continuou, sempre que morria uma das metades e
eu os cortarei a cada um em dois, e ao a outra ficava, a que ficava procurava
mesmo tempo eles serão mais fracos e outra e com ela se enlaçava, quer se
também mais úteis para nós, pelo fato encontrasse com a metade do todo que
de se terem tornado mais numerosos; e era mulher — o que agora chamamos
andarão eretos, sobre duas pernas. Se mulher — quer com a de um homem; e
ainda pensarem em arrogância e não assim iam-se destruindo. Tomado de
quiserem acomodar-se, de novo, disse 68 Emile Chambry (Platon, Oeuvres complètes,
III, p. 577, Garnier) cita o seguinte texto de
67 Os dois gigantes que tentaram pôr sobre o Varrão: “ Putant manere sorba quidam dissecta
Olimpo o monte Ossa e sobre este o Pelião, a et in sole macerata, ut pira, et sorba per se ubi-
fim de atingirem o céu e destronarem Zeus. V. cumque sint posita, in arido facile durare” (D e
Odisséia, X I, 307-320. ( N .d o T .) re rústica, L, 60 ). ( N .d o T .)
30 PLATÃO

compaixão, Zeus consegue outro expe­ uma mulher não dirigem muito sua
diente, e lhes muda o sexo para a frente atenção aos homens, mas antes estão
— pois até então eles o tinham paravoltadas para as mulheres e as amigui-
c fora, e geravam e reproduziam não um nhas provêm deste tipo. E todos os que
no outro, mas na terra69, como as são corte de um macho perseguem o
cigarras; pondo assim o sexo na frente macho, e enquanto são crianças, como
deles fez com que através dele se cortículos do macho, gostam dos ho­
processasse a geração um no outro, o mens e se comprazem em deitar-se ma
macho na fêmea, pelo seguinte, para com os homens e a eles se enlaçar, e
que no enlace, se fosse um homem a são estes os melhores meninos e
encontrar uma mulher, que ao mesmo adolescentes, os de natural mais cora­
tempo gerassem e se fosse constituindo joso. Dizem alguns, é verdade, que eles
a raça, mas se fosse um homem com são despudorados, mas estão mentin­
um homem, que pelo menos houvesse do; pois não é por despudor que fazem
saciedade em seu convívio e pudessem isso, mas por audácia, coragem e
repousar, voltar ao trabalho e ocupar- masculinidade, porque acolhem o que
á se do resto da vida. É então de há tanto
lhes é semelhante. Uma prova disso é
tempo que o amor de um pelo outro
que, uma vez amadurecidos, são os
está implantado nos homens, restau­ únicos que chegam a ser homens para
rador da nossa antiga natureza, em sua a política71, os que são desse tipo. E
tentativa de fazer um só de dois e de
q u an dcrsn om am homens, são os jo - *
curar a natureza humana. Cada um de vens que eles amam, e a casamentos e
nós portanto é uma téssera comple­
procriação naturalmente eles não lhes
mentar 70 de um homem, porque corta­
dão atenção, embora por lei a isso
do como os linguados, de um só em
sejam forçados, mas se contentam em
dois; e procura então cada um o seu
passar a vida um com o outro, soltei­
próprio complemento. Por conse­
ros. Assim é que, em geral, tal tipo tor­
guinte, todos os homens que são um
na-se amante e amigo do amante, por­
corte do tipo comum, o que então se
que está sempre acolhendo o que lhe é
chamava andrógino, gostam de mulhe­
aparentado. Quando então se encontra
res, e a maioria dos adultérios provém
com aquele mesmo que é a sua própria
<■ deste tipo, assim como também todas
metade, tanto o amante do jovem
as mulheres que gostam de homens e
como qualquer outro, então extraordi- c
são adúlteras, é deste tipo que provêm.
nárias são as emoções que sentem, de
Todas as mulheres que são o corte de
amizade, intimidade e amor, a ponto
69N o mito do Político (271a), Platão refere-se de não quererem por assim dizer sepa­
a essa geração da terra, e Aristófanes nas Nu­
vens (vs. 853) alude sem dúvida a essa idéia. rar-se um do outro nem por um peque­
( N .d o T .) no momento. E os que continuam um
70 N o grego omflókov (de au^páXKetv , juntar,
fazer conjunto). Era um cubo ou um osso que com o outro pela vida afora são estes,
se repartia entre dois hóspedes, com o sinal de
um compromisso. Transmitindo-se aos descen­ 71 A sátira mordaz aos homossexuais comple
dentes de ambos, podiam estes conferir os seus ta-se habilmente com a sua identificação com
“ símbolos” e ter assim a prova de antigos tia- os políticos. Comparar essa passagem com 184
-nes de hospitalidade. (N . do T .) a-7. ( N .d o T .)
O BANQUETE 31
os quais nem saberiam dizer o que que­ tanto ao desejo e procura do todo que
rem que lhes venha da parte de um ao se dá o nome de âmor. Anteriormente,
outro. A ninguém com efeito pareceria como estou dizendo, nós éramos um
que se trata de união sexual72, e que é só, e agora é que, por causa da nossa m«
porventura em vista disso que um injustiça, fomos separados pelo deus, e
gosta da companhia do outro assim como o foram os árcades pelos lacede-
com tanto interesse; ao contrário, que mônios7 4 ; é de temer então, se não for­
uma coisa quer a alma de cada um, é mos moderados para com os deuses,
evidente, a qual coisa ela não pode que de novo sejamos fendidos em dois,
dizer, mas adivinha o que quer e o in­ e perambulemos tais quais os que nas
dica por enigmas. Se diante deles, dei­ esteias estão talhados de perfil, serra­
tados no mesmo leito, surgisse Hefes- dos na linha do nariz, como os ossos
t o 73 e com seus instrumentos lhes que se fendem7 5. Pois bem, em vista
perguntasse: Que é que quereis, ó dessas eventualidades todo homem
homens, ter um do outro?, e se, diante deve a todos exortar à piedade para
do seu embaraço, de novo lhes pergun­ com os deuses, a fim de que evitemos
tasse: Porventura é isso que desejais, uma e alcancemos a outra, na medida *
ficardes no mesmo lugar o mais possí­ em que o Amor nos dirige e comanda.
vel um para o outro, de modo que nem Que ninguém em sua ação se lhe opo­
de noite nem de dia vos separeis um do nha — e se opõe todo aquele |que aos
outro? Pois se é isso que desejais, deuses se toma odioso — pois amigos
quero fundir-vos e forjar-vos numa do deus e com ele reconciliados desco­
mesma pessoa, de modo que de dois briremos e conseguiremos o nosso pró­
vos tomeis um só e, enquanto viverdes, prio amado, o que agora poucos
como uma só pessoa, possais viver fazem. E que não me suspeite Erixí­
ambos em comum, e depois que mor- maco, fazendo comédia de meu discur­
rerdes, lá no Hades, em vez de dois ser so, que é a Pausânias e Agatão que me
um só, mortos os dois numa morte estou referindo — talvez também estes c
comum; mas vede se é isso o vosso se encontrem no número desses e são
amor, e se vos contentais se conse- ambos de natureza máscula — mas eu
guirdes isso. Depois de ouvir essas no entanto estou dizendo a respeito de
palavras, sabemos que nem um só diria todos, homens e mulheres, que é assim
que não, ou demonstraria querer outra que nossa raça se tomaria feliz, se ple­
coisa, mas simplesmente pensaria ter namente realizássemos o amor, e o seu
ouvido o que há muito estava desejan­ próprio amado cada um encontrasse,
do, sim, unir-se e confundir-se com o
tomado à sua primitiva natureza. E se
amado e de dois ficarem um só. O mo­ isso é o melhor, é forçoso que dos
tivo disso é que nossa antiga natureza
era assim e nós éramos um todo; e por- 74 Em 385 os lacedemônios destruíram a cida­
de de Mantinéia, na Arcádia, e dispersaram
72 Observar a facilidade com que o discurso seus habitantes por várias povoações (Xenofon-
muda de tom, atingindo aqui um lirismo saudá­ te, V , 2, 1). É o que os gregos chamavam de
vel que permite a eclosão de uma idéia impor­ &iotKíun<k , o contrário de uma colonização,
tante nessa sucessão dialética dos discursos: a isto é, um owoiKianác .Notar que o diálogo se
de que o sentimento amoroso não é exclusiva­ passa em 416 (v. supra p. 14 nota 7). O ana­
mente sexual. ( N .d o T .) cronismo é gritante. ( N .d o T .)
73 O deus do fog o e da metalurgia, o Vulcano 75 Justamente um dos tipos ( Xioimi ) dos “ sím­
dos latinos. (N. do T .) bolos” , referidos acima, p .30, n .70. (N. do T .)
32 PLATÃO

casos atuais o que mais se lhe avizinha que eu me alvoroce com a idéia de que
é o melhor, e é este o conseguir um o público está em grande expectativa
bem-amado de natureza conforme ao de que eu vá falar bem.
i seu gosto; e se disso fôssemos glorifi­ — Desmemoriado eu seria, Agatão
car o deus responsável, merecidamente — tomou-lhe Sócrates — se depois de
glorificaríamos o Am or, que agora nos ver tua coragem e sobranceria, quando
é de máxima utilidade, levando-nos ao subias ao estrado com os atores e
que nos é familiar, e que para o futuro encaraste de frente uma tão numerosa
nos dá as maiores esperanças, se for­ platéia, no momento em que ias apre­
mos piedosos para com os deuses, de sentar uma peça tua, sem de modo
restabelecer-nos em nossa primitiva algum te teres abalado, fosse eu agora
natureza e, depois de nos curar, fazer- imaginar que tu te alvoroçarias por
nos bem-aventurados e felizes. causa de nós, tão poucos.
Eis, Erixímaco, disse ele, o meu dis­ — O quê, Sócrates! — exclamou
curso sobre o Am or, diferente do teu. Agatão; — não me julgas sem dúvida
Conforme eu te pedi, não faças comé­ tão cheio de teatro que ignore que, a
dia dele, a fim de que possamos ouvir quem tem juízo, poucos sensatos são
« também os restantes, que dirá cada um mais temíveis que uma multidão insen­
deles, ou antes cada um dos dois; pois sata!
restam Agatão e Sócrates.” — Realmente eu não faria bem,
— Bem, eu te obedecerei — tor­ Agatão — tomou-lhe Sócrates — se a
nou-lhe Erixímaco; — e com efeito teu teu respeito pensasse eu em alguma
discurso foi para mim de um agradável deselegância; ao contrário, bem sei
teor. E se por mim mesmo eu não sou­ que, se te encontrasses com pessoas
besse que Sócrates e Agatão são terrí­ que considerasses sábias, mais te preo-
veis nas questões do amor, muito teme­ cuparias com elas do que com a multi­
ria que sentissem falta de argumentos, dão. No entanto, é de temer que estas
pelo muito e variado que se disse; de não sejamos nós — pois nós estáva-
fato porém eu confio neles. mos lá e éramos da multidão — mas
Sócrates então disse: — É que foi se fosse com outros que te encontras­
bela, ó Erixímaco7 6, tua competição! ses, com sábios, sem dúvida tu te
Se porém ficasses na situação em que envergonhar ias deles, se pensasses
agora estou, ou melhor, em que estarei, estar talvez cometendo algum ato que
depois que Agatão tiver falado, bem
fosse vergonhoso; senão, que dizes?
grande seria o teu temor, e em tudo por
— É verdade o que dizes — res­
tudo estarias como eu agora.
pondeu-lhe.
— Enfeitiçar é o que me queres, ó
— E da multidão não te envergo­
Sócrates, disse-lhe Agatão, a fim de
nhadas, se pensasses estar fazendo
76 A observação de Sócrates é fina. Comentan­ algo vergonhoso7 7 ?
do o discurso de Aristófanes, Erixímaco expres­
sava seu receio de que os dois últimos concor­ 77 Esse breve diálogo, aqui interrompido, tem
rentes tivessem dificuldades “ pelo muito e va­ um duplo efeito dramático: serve de intervalo
riado que se disse’-’ (Isto é, não apenas Aristó­ entre os discursos de dois poetas, tão diferentes
fanes). Sócrates o ajuda então nesse pequeno de método e de espírito, e constitui com o um
detalhe e insiste na sua contribuição. A o mes­ prelúdio ao discurso especial de Sócrates, que
mo tempo ele tem uma ótima deixa para diri- vai começar, ao contrário dos outros, por um
gir-se à competência de Agatão. ( N .d o T .) diálogo. ( N .d o T .)
O BANQUETE 33

* E eis que Fedro, disse Àristodemo, Amor, se é lícito dizê-lo sem incorrer
interrompeu e exclamou: — Meu caro em vingança80, o mais feliz, porque é
Agatão, se responderes a Sócrates, o mais belo deles e o melhor. Ora, ele é
nada mais lhe importará do programa, o mais belo por ser tal como se segue.
como quer que ande e o que quer que Primeiramente, é o mais jovem dos
resulte, contanto que ele tenha com deuses, ó Fedro. E uma grande prova ‘
quem dialogue, sobretudo se é com um do que digo ele próprio fornece, quan­
belo. Eu por mim é sem dúvida com do em fuga foge da velhice, que é rápi­
prazer que ouço Sócrates a conversar, da evidentemente, e que em todo caso,
mas é-me forçoso cuidar do elogio ao mais rápida do que devia, para nós se
Am or e recolher de cada um de vós o encaminha. De sua natureza Amor a
seu discurso; pague78 então cada um o odeia e nem de longe se lhe aproxima.
que deve ao deus e assim já pode C om os jovens ele está sempre em seu
conversar. convívio e ao seu lado; está certo, com
<• — Muito bem, Fedro! — excla­ efeito, o antigo ditado, que o seme­
mou Agatão — nada me impede de lhante sempre do semelhante se aproxi­
falar, pois com Sócrates depois eu ma. Ora, eu, embora com Fedro con­
poderei ainda conversar muitas vezes. corde em muitos outros pontos, nisso
“ Eu então quero primeiro dizer não concordo, em que Amor seja mais
como devo falar, e depois falar. Pare- antigo que Crono e Jápeto, mas ao <■
ce-me com efeito que todos os que contrário afirmo ser ele o mais novo
antes falaram, não era o deus que elo­ dos deuses e sempre jovem, e que as
giavam, mas os homens que felici­ questões entre os deuses, de que falam
tavam pelos bens de que o deus lhes é Hesíodo81 e Parmênides, foi por Ne­
as a causador; qual porém é a sua natureza, cessidade82 e não por Amor que ocor­
em virtude da qual ele fez tais dons, reram, se é verdade o que aqueles
ninguém o disse. Ora, a única maneira diziam; não haveria, com efeito, muti­
correta de qualquer elogio a qualquer lações nem prisões de uns pelos outros,
um é, no discurso, explicar em virtude e muitas outras violências, se Amor
de que natureza vem a ser causa de tais estivesse entre eles, mas amizade e paz,
efeitos aquele de quem se estiver falan­ como agora, desde que Amor entre os
d o 79. Assim então com o Am or, é deuses reina. Por conseguinte, jovem
justo que também nós primeiro o lou­ ele é, mas além de jovem ele é delica­
vemos em sua natureza, tal qual ele é, e do; falta-lhe porém um poeta como era
depois os seus dons. Digo eu então que Homero para mostrar sua delicadeza
de todos os deuses, que são felizes, é o de deus. Homero afirma, com efeito, d

78 C om o um bom “ simposiarca” , Fedro zela 80 Cf. 180e-3. As palavras e os atos humanos


pelo bom andamento do programa estabelecido. podem suscitar a justiça vingativa (nemesis) dos
V. supra p. 1 7 , n . 21. ( N .d o T .) deuses. (N. do T.)
79 Sócrates louvará mais adiante a excelência 81 Cf. Teogonia, passim. ( N .d o T .)
desse princípio, que representa uma etapa deci­ 82 É talvez idéia de Parmênides. O que este
siva na progressão dos discursos. Com efeito, escreveu sobre os deuses devia estar na parte
embora não vá acertar na definição da natu­ do seu poema referente às “opiniões” dos mor­
reza do Am or, Agatão traz à baila o problema, tais. Segundo A écio II, 7, 1 (Diels 28, A , 37),
possibilitando assim a refutação socrática (189 ele punha Justiça e Necessidade no meio de vá-
d-204c) e a definição platônica (201c-204a). ias esferas concêntricas, com o causa de movi-
(N. do T .) íento e geração. ( N .d o T .)
34 PLATÃO

que Ate é uma deusa, e delicada — parte a parte há guerra. Quanto à bele­
que os seus pés em todo caso são deli­ za da siia tez, o seu viver entre flores
cados — quando diz: bem o atesta; pois no que não floresce,
seus p és são delicados; p ois não como no que já floresceu, corpo, alma t
[sobre o solo ou o que quer que seja, não se assenta
se m ove, mas sobre as cabeças dos o Am or, mas onde houver lugar bem
[homens ela anda83. florido e bem perfumado, aí ele se
Assim, bela me parece a prova com assenta e fica.
que Homero revela a delicadeza da Sobre a beleza do deus já é isso bas­
deusa: não anda ela sobre o que é tante, e no entanto ainda muita coisa
« duro, mas sobre o que é mole. Pois a resta; sobre a virtude de Am or devo
mesma prova também nós utilizaremos depois disso falar, principalmente que
a respeito do Am or, de que ele é delica­ Am or não comete nem sofre injustiça,
do. Não é com efeito sobre a terra que nem de um deus ou contra um deus,
ele anda, nem sobre cabeças, que não nem de um homem ou contra um
são lá tão moles, mas no que há de homem8 s . À força, com efeito, nem ele
mais brando entre os seres é onde ele cede, se algo cede — pois violência c
anda e reside. Nos costumes, nas não toca em Am or — nem, quando
almas de deuses e de homens ele fez age, age, pois todo homem de bom
sua morada, e ainda, não indistinta­ grado serve em tudo ao Amor, e o que
mente em todas as almas, mas da que de bom grado reconhece uma parte a
encontre com um costume rude ele se outra, dizem “ as leis, rainhas da cida­
afasta, e na que o tenha delicado ele de” 8 6, é justo. Além da justiça, da má­
habita. Estando assim sempre em con­ xima temperança ele compartilha. É
tato, nos pés como em tudo, com os com efeito a temperança, reconhecida­
que, entre os seres mais brandos, são mente, o domínio sobre prazeres e
os mais brandos, necessariamente é ele desejos; ora, o Am or, nenhum prazer
196 „ o que há de mais delicado. É então o lhe é predominante; e se inferiores, se­
mais jovem, o mais delicado, e além riam dominados por Am or, e ele os
dessas qualidades, sua constituição é dominaria, e dominando prazeres e
úmida. Pois não seria ele capaz de se desejos seria o Amor. excepcional­
amoldar de todo jeito, nem de por toda mente temperante. E também quanto à
alma primeiramente entrar, desperce­ coragem, ao Am or “ nem Ares se lhe
bido, e depois sair, se fosse ele seco8 4. opõe” 8 1. Com efeito, a Amor não pega *
De sua constituição acomodada e Ares, mas Amor a Ares — o de Afro­
úmida é uma grande prova sua bela dite, segundo a lenda — e é mais forte
compleição, o que excepcionalmente o que pega do que é pegado: domi­
todos reconhecem ter o A m or; é que nando assim o mais corajoso de todos,
entre deformidade e amor sempre de
85 Com o a seguinte, essa frase, com seus para-
83 Híada, X IX , 92. Ate é a personificação da lelismos exagerados, é típica do maneirismo do
fatalidade. ( N .d o T .) estilo retórico de Agatão. ( N .d o T .)
84 Sendo úmido, mole, Am or cede à pressão, 86 Expressão do retórico Alcidamas, aluno de
adapta-se, modela-se; ao contrário, sendo seco, Górgias, citado por Aristóteles, Ret., 1406a.
não se adapta e não adquire forma convenien­ ( N .d o T .)
te. O argumento é de uma fantasia extrava­ 87 Frag. de um Tiestes de Sófocles: IIpòc rhv
gante, de acordo com o caráter requintado de 'kvà-ynr\v oúíi' "Aptjç àvíorarat (fr. 235 Nau-
Agatão. ( N .d o T .) ck2), ( N .d o T .)
O BANQUETE 35

seria então ele o mais corajoso. D a jus­ evidentemente da beleza — pois no


tiça portanto, da temperança e da feio não se firma A m or92 — , en­
coragem do deus, está dito;, da sua quanto que antes, como a princípio
sabedoria porém resta dizer; o quanto disse, muitos casos terríveis se davam
possível então deve-se procurar não ser entre os deuses, ao que se diz, porque
omisso. E em primeiro lugar, para que entre eles a Necessidade reinava; desde
também eu por minha vez honre a porém que este deus existiu, de se ama­
, minha arte como Erixímaco a dele, é rem as belas coisas toda espécie de
um poeta o deus, e sábio, tanto que bem surgiu para deuses e homens.
também a outro ele o faz; qualquer um Assim é que me parece, ó Fedro, que <
em todo caso toma-se poeta, “ mesmo o Am or, primeiramente por ser em si
que antes seja estranho às Musas” 88, mesmo o mais belo e o melhor, depois
desde que lhe toque o Am or. Ê o que é que é para os outros a causa de ou- -
nos cabe utilizar como testemunho de tros tantos bens. M as ocorre-me agora
que é um bom poeta o Am or, em geral também em verso dizer alguma coisa,
em toda criação artística89; pois o que que é ele o que produz
não se tem ou o que não se sabe, tam­
bém a outro não se poderia dar ou paz entre os homens, e no mar
197 a ensinar. E em verdade, a criação90 dos bonança,
animais todos, quem contestará que repouso tranqüilo de ventos e
não é sabedoria do Am or, pela qual sono na dor.
nascem e crescem todos os animais?
M as, no exercício das artes, não sabe­ É ele que nos tira o sentimento de d
mos que aquele de quem este deus se estranheza e nos enche de familiari­
toma mestre acaba célebre e ilustre, dade, promovendo todas as reuniões
enquanto aquele em quem Am or não deste tipo, para mutuamente nos en­
toque, acaba obscuro? E quanto à arte contrarmos, tornando-se nosso guia
do arqueiro, à medicina, à adivinha- nas festas, nos coros, nos sacrifícios;
b ção, inventou-as Apoio guiado pelo de­ incutindo brandura e excluindo rude­
sejo e pelo amor, de modo que também za; pródigo de bem-querer e incapaz de
Apoio seria discípulo do Am or. Assim mal-querer; propício e bom; contem­
como também as Musas nas belas-ar- plado pelos sábios e admirado pelos
tes, Hefesto na metalurgia, Atena na deuses; invejado pelos desafortunados
tecelagem, e Zeus na arte “ de governar e conquistado pelos afortunados; do
os deuses e o s homens” 91. E daí é que luxo, do requinte, do brilho, das gra­
até as questões dos deuses foram regra­ ças, do ardor e da paixão, pai; dili­
das, quando entre eles surgiu Amor, gente com o que é bom e negligente
*# i »» 1
8® Mouoikòi' 8’ ãpa Epcjç otSáonet, Koti' com o que é mau; no labor, no temor, <
aiiouoK i) rò irpiV Eur., Stenobeia (fr. 663
no ardor da paixão, no teor da expres­
Nauck2). (N .d o T .)
89 O grego tem itoítiok; , correspondente a são, piloto e combatente, protetor e
JT0117- rjç , ação e agente respectivamente de salvador supremo, adorno de todos os
iroieTv ■ fazer, produzir. O sentido lato de
noírçoíç presta-se assim muito bem às analo­ deuses e homens, guia belíssimo e
gias que a seguir faz Agatão. Cf. infra 205b-7 excelente, que todo homem deve se-
e ss. (N. do T .)
90 Também noirioK . V. nota anterior. (N. do T.) 92 É dessa pequena afirmação que Sócrates par­
91 Fragmento de alguma tragédia, não identifi­ tirá não só para a refutação do poeta com o
cada. ( N .d o T .) para a sua própria definição do A m or.(N . do T.)
36 PLATÃO
guir, celebrando-o em belos hinos, e quem não se teria perturbado ao ouvi-
compartilhando do canto com ele lo? Eu por mim, considerando que eu
encanta o pensamento de todos os deu­ mesmo não seria capaz de nem de
ses e homens. perto proferir algo tão belo, de vergo- c
Este, ó Fedro, rematou ele, o dis­ nha quase me retirava e partia, se
curso que de minha parte quero que tivesse algum meio. Com efeito, vi­
seja ao deus oferecido, em parte joco­
nha-me à mente o discurso de Górgias,
so93, em parte, tanto quanto posso,
a ponto de realmente eu sentir o que
discretamente sério.”
disse Homero9 6 : temia que, con­
198 « Depois que falou Agatão, continuou
cluindo, Agatão em seu discurso en­
Àristodemo, todos os presentes aplau­
diram, por ter o jovem falado à altura viasse ao meu a cabeça de Górgias,
do seu talento e da dignidade do deus. terrível orador, e de mim mesmo me
Sócrates então olhou para Erixímaco e fizesse uma pedra, sem voz. Refleti
lhe disse: — Porventura, ó filho de então que estava evidentemente sendo
Acúmeno, parece-te que não tem nada ridículo, quando convosco concordava
de temível o temor9 4 que de há muito em fazer na minha vez, depois de vós,
sinto, e que não foi profético o que há o elogio ao A m or, dizendo ser terrível i
pouco eu dizia, que Agatão falaria nas questões de amor, quando na ver­
maravilhosamente, enquanto que eu
dade nada sabia do que se tratava, de
me havia de embaraçar?
como se devia fazer qualquer elogio.
— Em parte — respondeu-lhe Eri­
Pois eu achava, por ingenuidade, que
xímaco — parece-me profético o que
disseste, que Agatão falaria bem; mas se devia dizer a verdade sobre tudo que
quanto a te embaraçares, não creio. está sendo elogiado, e que isso era
i> — E como, ditoso amigo — disse fundamental, da própria verdade se
Sócrates — não vou embaraçar-me, eu escolhendo as mais belas manifesta­
e qualquer outro, quando devo falar ções para dispô-las o mais decente­
depois de proferido um tão belo e colo­ mente possível; e muito me orgulhava
rido discurso? Não é que as suas de­ então, como se eu fosse falar beím,
mais partes não sejam igualmente como se soubesse a verdade em qual­
admiráveis; mas o que está no fim, quer elogio. No entanto, está aí, não «
pela beleza dos termos e das frases9 5, era esse o belo elogio ao que quer que
seja, mas o acrescentar o máximo à
93 Essa advertência de Agatão atenua, em favor
do mérito do seu discurso, o significado que coisa, e o mais belamente possível,
comumente se atribui à extravagância dos seus quer ela seja assim quer não; quanto a
argumentos, tais com o o que vimos à página 34,
n. 84. Ele tem consciência do caráter leve e ser falso, não tinha nenhuma impor­
fantasioso dos argumentos com que preencheu tância. Foi com efeito combinado
o esquema sério do seu discurso. (N . d o T .)
94 N o grego aôeeq Séoç um medo que não é como cada um de nós entenderia elo­
medo. Com o que contagiado pela retórica de giar o A m or, não como cada um o elo­
Agatão, Sócrates imita suas aliterações e para­
doxos. ( N .d o T .) giaria. Eis por que, pondo em ação
95 Na segunda parte (197c-e) do discurso de
Agatão, a preciosidade do seu estilo atinge o 98 Odisséia, X I, 633-635: . . . ífik 5é xkupov hé<K
máximo com aquela longa litania de epítetos. rjpeL, / fi77 um ropyeírjv òtwoio
Alguns críticos querem ver na palavra Muara rreAcópou / éi- 'Alôoc 7ré/j7n//eiep àyoarq
(que está "traduzida por “ frases” , mas que em Ilepaeyweia. um medo esverdeante me tomava,
Platão significa às vezes “ verbos” , em oposição não me enviasse do Hades a augusta Perséfone
a “ nomes” ) , uma ambigüidade de sentido que a cabeça de Górgona, “ o monstro terrível” .
esconde assim uma irônica alusão à ausência O adjetivo Top-yeiV ( = G órgona) é hom ófono
de verbos nesse trecho. (N. do T.) de ropyiav ( = G órgias). ( N .d o T .)
O BANQUETE 37

todo argumento, vós o aplicais ao mostrar o próprio Am or, qual a sua


Am or, e dizeis que ele é tal e causa de natureza, e depois as suas obras. Esse
ma tantos bens, a fim de aparecer97 ele começo, muito o admiro. Vamos
como o mais belo e o melhor possível, então, a respeito do Am or, já que em
evidentemente aos que o não conhecem geral explicaste bem e magnificamente
— pois não é aos que o conhecem — equal é a sua natureza, dize-me também
eis que fica belo, sim, e nobre o elogio. o seguinte: é de tal natureza o Amor *
Mas é que eu não sabia então o modo que é amor de algo ou de nada? Estou
de elogiar, e sem saber concordei, tam­ perguntando, não se é de uma mãe ou
bém eu, em elogiá-lo na minha vez: “ a de um pai — pois ridícula seria essa
língua jurou, mas o meu peito não” 98; pergunta, se Am or é amor de um pai
que ela se vá então. Não vou mais elo- ou de uma mãe — mas é como se, a
b giar desse modo, que não o poderia, é respeito disso mesmo, de “ pai” , eu
certo, mas a verdade sim, se vos apraz, perguntasse: “ Porventura o pai é pai
quero dizer à minha maneira, e não em de algo ou não? Ter-me-ias sem dúvida
competição com os vossos discursos, respondido, se me quisesses dar uma
para não me prestar ao riso. Vê então, bela resposta, que é de um filho ou de
Fedro, se por acaso há ainda precisão uma filha que o pai é pai99; ou não?”
— Exatamente — disse Agatão.
de um tal discurso, de ouvir sobre o
— E também a mãe não é assim?
Am or dizer a verdade, mas com nomes
e com a disposição de frases que por — Também — admitiu ele.
acaso me tiver ocorrido. — Responde-me ainda, continuou <
Sócrates, mais um pouco, a fim de me­
' Fedro então, disse Aristodemo, e os
lhor compreenderes o que quero. Se eu
demais presentes pediram-lhe que,
te perguntasse: “ E irmão100, enquanto
como ele próprio entendesse que devia
é justamente isso mesmo que é, é irmão
falar, assim o fizesse.
de algo ou não?”
— Permite-me ainda, Fedro — re­
— É, sim, disse ele.
tomou Sócrates — fazer umas pergun-
— De um irmão ou de uma irmã,
tinhas a Agatão, a fim de que tendo
não é? Concordou.
obtido o seu acordo, eu já possa assim
— Tenta então, continuou Sócra­
falar.
tes, também a respeito do Am or dizer-
— M as sim, permito — disse
me: o Am or é amor de nada ou de
Fedro. — Pergunta! — E então, disse
algo?
Aristodemo, Sócrates começou mais — De algo, sim.
ou menos por esse ponto: — Isso então, continuou ele, guar- *»«
— Realmente, caro Agatão, bem da contigo101, lembrando-te de que é
me pareceste iniciar teu discurso, que ele é amor; agora dize-me apenas o
quando dizias que primeiro se devia
99 Entender: Assim com o pai é pai com rela­
97 Sócrates critica nos elogios anteriores a preo­ ção a filho, amor é amor com relação a algu­
cupação exclusiva da aparência, em detrimento ma coisa. É por esse objeto específico do amor
da realidade. C om o concorrentes, os oradores que Sócrates pergunta. (N . do T.)
agiram com o se a máxima beleza dos seus dis­ 100 A repetição dos exemplos numa argumenta­
cursos fosse uma conseqüência da máxima be­ ção, que muitas vezes nos parece ociosa e ge­
leza atribuída ao Am or. Sócrates evita essa f3 - ralmente nos impacienta é típica dos diálogos,
lha fundamental. (N . d o T .) que parecem nesse ponto refletir um hábito da
98 Eurípedes, Hipólito, 612. 17 fXCiooa ônúfiox' época. (N . do T .)
17 Sè ippfiv àvú)fi0T0<;. (N . d o T .) 101 Para dizê-lo em 201 a 206. (N. d o T .)
38 PLATÃO

seguinte: Será que o Am or, aquilo de za, saúde e fortaleza, o que queres é
que é amor, ele o deseja ou não? também no futuro possuir esses bens,
— Perfeitamente — respondeu o pois no momento, quer queiras quer
outro. não, tu os tens; observa então se, quan­
— E é quando tem isso mesmo que do dizes “ desejo o que tenho comigo” ,
deseja e ama que ele então deseja e queres dizer outra coisa senão isso:
ama, ou quando não tem? “ quero que o que tenho agora comigo,
— Quando não tem, como é bem também no futuro eu o tenha.” Deixa­
provável — disse Agatão. ria ele de admitir?
— Observa bem, continuou Sócra­ Agatão, dizia Aristodemo, estava de
tes, se em vez de uma probabilidade acordo.
não é uma necessidade que seja assim, Disse então Sócrates: — Não é isso
o que deseja deseja aquilo de que é então amar o que ainda não está à mão
carente, sem o que não deseja, se não nem se tem, o querer que, para o futu­
for carente. É espantoso como me ro, seja isso que se tem conservado
parece, Agatão, ser uma necessidade; e consigo e presente?
a ti? — Perfeitamente — disse Agatão.
— Também a mim — disse ele. — Esse então, como qualquer
— Tens razão. Pois porventura de­ outro que deseja, deseja o que não está
sejaria quem já é grande ser grande, ou à mão nem consigo, o que não tem, o
quem já é forte ser forte? que não é ele próprio e o de que é
— Impossível, pelo que foi admiti­ carente; tais são mais ou menos as coi­
do. sas de que há desejo e amor, não é?
— Com efeito, não seria carente — Perfeitamente — disse Agatão.
disso o que justamente é isso. — Vam os então, continuou Sócra­
— É verdade o que dizes. tes, recapitulemos o que foi dito. Não é
— Se, com efeito, mesmo o forte certo que é o Am or, primeiro de certas
quisesse ser forte, continuou Sócrates, coisas, e depois, daquelas de que ele
e o rápido ser rápido, e o sadio ser tem precisão?
sadio — pois talvez alguém pensasse — Sim — disse o outro.
que nesses e em todos os casos seme­ — Depois disso então; lembra-te de
lhantes os que são tais e têm essas qua­ que é que em teu discurso disseste ser o
lidades desejam o que justamente têm, Am or; se preferes, eu te lembrarei.
e é para não nos enganarmos que estou Creio, com efeito, què foi mais ou
dizendo isso — ora, para estes, Aga­ menos assim que disseste, que aos deu­
tão, se atinas bem, é forçoso que te­ ses foram arranjadas suas questões
através do amor do que é belo, pois do
nham no momento tudo aquilo que
têm, quer queiram, quer não, e isso que é feio não havia amor102. Não era
mesmo, sim, quem é que poderia dese- mais ou menos assim que dizias?
já-lo? M as quando alguém diz: “ Eu, — Sim, com efeito — disse A ga­
mesmo sadio, desejo ser sadio, e tão.
mesmo rico, ser rico, e desejo isso — E acertadamente o dizes, amigo,
mesmo que tenho” , poderíamos dizer- declarou Sócrates; e se é assim, não é
lhe: “ ó homem, tu que possuis rique­ 102 V. supra p. 35, n. 92. (N. d o T .)
O BANQUETE 39

certo que o Am or seria da beleza, mas discurso que sobre o Amor eu ouvi um
não da feiúra? Concordou. dia, de uma mulher de Mantinéia, D io-
— Não está então admitido que tima, que nesse assunto era entendida e
aquilo de que é carente e que não tem é em muitos outros — foi ela que uma
o que ele ama? vez, porque os atenienses ofereceram
— Sim — disse ele. sacrifícios para conjurar a peste, fez
— Carece então de beleza o Am or, por dez anos10 6 recuar a doença, e era
e não a tem? ela que me instruía nas questões de
— É forçoso. ãmor — o discurso então que me fez
— E então? O que carece de beleza aquela mulher eu tentarei repetir-vos, a
partir do que foi admitido por mim e
e de modo algum a possui, porventura
por Agatão, com meus próprios recur­
dizes tu que é belo?
sos e como eu puder. É de fato preciso,
— N ão, sem dúvida.
Agatão, como tu indicaste, primeiro
— Ainda admites por conseguinte
discorrer sobre o próprio Am or, quem
que o Am or é belo, se isso é assim?
é ele e qual a sua natureza e depois
E Agatão: — É bem provável, ó Só­ sobre as suas obras. Parece-me então ,
crates, que nada sei do que então que o mais fácil é proceder como
disse103? outrora a estrangeira, que discorria
— E no entanto, prosseguiu Sócra­
interrogando-me107, pois também eu
tes, bem que foi belo o que disseste,
quase que lhe dizia outras tantas coi­
Agatão. M as dize-me ainda uma pe­ sas tais quais agora me diz Agatão,
quena coisa: o que é bom não te parece que era o Am or um grande deus, e era
que também é belo?
do que é belo; e ela me refutava, exata­
•— Parece-me, sim. mente com estas palavras, com que eu
— Se portanto o Am or é carente do estou refutando a este, que nem era
que é belo, e o que é bom é belo, tam­ belo segundo minha palavra, nem bom.
bém do que é bom seria ele carente10 4 E eu então: — Que dizes, ó Dioti-
— Eu não poderia, ó Sócrates, ma? É feio então o Am or, e mau?
disse Agatão, contradizer-te; mas seja E ela: — Não vais te calar? Acaso
assim como tu dizes. pensas que o que não for belo, é forço­
— É à verdade10 5, querido A ga­ so ser feio?
tão, que não podes contradizer, pois a — Exatamente.
Sócrates não é nada difícil. — E também se não for sábio é
— E a ti eu te deixarei agora; mas o ignorante? Ou não percebeste que exis­
103 Agatão reage com o um discípulo ou um te algo entre sabedoria e ignorância?
amigo de Sócrates, isto é, confessando franca­ — Que é?
mente a ignorância que acaba de descobrir em
si. (N. d o T .) 106 Se se trata da peste que assolou Atenas no
104 Essa associação do bom e do belo, bem fa­ com eço da guerra do Peloponeso, Diotima te­
miliar ao grego (ob. o epíteto corrente: kaXirc ria feito o sacrifício em 440, quando Sócrates
Kàyadm ), e insistentemente defendida na argu­ entrava na casa dos trinta. (N. d o T .)
mentação socrática (v. por exemplo, Górgias, 107 £ estranho que uma sacerdotisa use o mé­
474d-e), será de muita utilidade em 204e. todo de explicação dos sofistas do século V,
(N . do T .) através de perguntas forjadas por ela mesma.
105 Não se trata aqui de refutar a A ou a B, é Esse parece um dos mais fortes indícios de que
o que quer dizer Sócrates; uma vez estabeleci­ o fato contado por Sócrates é fictício, sobretu­
da a veracidade de um argumento, não é mais do se se considera a exata correspondência dos
possível, ou melhor, não é mais questão de diálogos Sócrates-Agatão, Diotima-Sócrates.
cor>testá-lo. (N . do T .) (N. do T .)
40 PLA TÃ O .

— O opinar certo, mesmo sem E ela: — É simples. Dize-me, com


poder dar razão, não sabes, dizia-me efeito, todos os deuses não os afirmas
ela, que nem é saber — pois o que é felizes e belos? Ou terias a audácia de
sem razão, como seria ciência? — nem dizer que algum deles não é belo e
é ignorância108 — pois o que atinge o feliz?
ser, como seria ignorância? — e que é — Por Zeus, não eu — retomei-
sem dúvida alguma coisa desse tipo a lhe.
opinião certa, um intermediário entre — E os felizes então, não dizes que
entendimento e ignorância. são os que possuem o que é bom e o
— É verdade o que dizes, tomei- que é belo?
lhe. — Perfeitamente.
— Não fiques, portanto, forçando o — M as no entanto, o Am or, tu
que não é belo a ser feio, nem o que reconheceste que, por carência do que
não é bom a ser mau. Assim também o é bom e do que é belo, deseja isso
Amor, porque tu mesmo admites109 mesmo de que é carente.
que não é bom nem belo, nem por isso — Reconheci, com efeito.
vás imaginar que ele deve ser feio e — Com o então seria deus o que
mau, mas sim algo que está, dizia ela, justamente é desprovido do que é belo
entre esses dois extremos. e bom ?
— E todavia é por todos reconhe­ — De modo algum, pelo menos ao
cido que ele é um grande deus1 10 que parece.
— Todos os que não sabem, é o — Estás vendo então — disse —
que estás dizendo, ou também os que que também tu não julgas o Am or um
sabem? deus?
— Todos eles, sem dúvida. — Que seria então o A m or? —
E ela sorriu e disse: — E como, ó perguntei-lhe. — Um mortal?
Sócrates, admitiriam ser um grande — Absolutamente.
deus aqueles que afirmam que nem — M as o quê, ao certo, ó Diotima?
deus ele é? — Com o nos casos anteriores —
— Quem são estes? perguntei-lhe. disse-me ela — algo entre mortal e
— Unv és tu — respondeu-me — e imortal.
eu, outra. — O quê, então, ó Diotima?
E eu: — Que queres dizer com isso? — Um grande gênio, ó Sócrates; e
com efeito, tudo o que é gênio está
108 Cf. M enão, 97b-e. ( N .d o T .)
entre um deus e um mortal.
109 N o l.ísis (216d - 221e) Sócrates faz uma
proposição semelhante (é amigo do belo e do — E com que poder? perguntei-lhe.
bom o que não é nem bom nem m au), que ele — O de interpretar e transmitir aos
encaminha para a seguinte aporia: A presença
do mal no que não é bom nem é mau é o que deuses o que vem dos homens, e aos
faz este desejar o belo e o bom, e assim, ausente homens o que vem dos deuses, de uns
o mal, o belo e o bom não seriam capazes de
suscitar o amor. C om o se vê trata-se de puras as súplicas e os sacrifícios, e dos ou­
idéias, cuja relação é dificultada na razão di­ tros as ordens e as recompensas pelos
reta da sua exata conceituação. (N. do T .)
n o Essa observação de Sócrates vai determinar sacrifícios; e como está no meio de
a passagem do método dialético para a exposi­ ambos ele os completa, de modo que o
ção alegórica. Demonstrada a natureza inter­
mediária do Am or, Diotima chama-o de gênio,
todo fica ligado todo ele a si mesmo.
conta sua origem e traça seu retrato.(N. d o T .) Por seu intermédio é que procede não
O BANQUETE 41

só toda arte divinatória, como também sem lar, sempre por terra e sem forro,
a dos sacerdotes que se ocupam dos deitando-se ao desabrigo, às portas e
sacrifícios, das iniciações e dos encan- nos caminhos, porque tem a natureza
m« tamentos, e enfim de toda adivinhação da mãe, sempre convivendo com a pre­
e magia. Um deus com um homem não cisão. Segundo o pai, porém, ele é insi-
se mistura, mas é através desse ser que dioso com o que é belo e bom, e cora­
se faz todo o convívio e diálogo dos joso, decidido e enérgico, caçador
deuses com os homens, tanto quando terrível, sempre a tecer maquinações,
despertos como quando dormindo; e ávido de sabedoria e cheio de recursos,
aquele que em tais questões é sábio é a filosofar por toda a vida, terrível
um homem de gênio111, enquanto o mago, feiticeiro, sofista112: e nem <■
sábio em qualquer outra coisa, arte ou imortal é a sua natureza nem mortal, e
ofício, é um artesão. E esses gênios, é no mesmo dia ora ele germina e vive,
certo, são muitos e diversos, e um delesquando enriquece113; ora morre e de
é justamente o Am or. novo ressuscita, graças à natureza do
— pai; e o que consegue sempre lhe esca­
E quem é seu pai — perguntei-
lhe — e sua mãe? pa, de modo que nem empobrece11 4 o
t — É um tanto longo de explicar, Am or nem enriquece, assim como tam­
disse ela; todavia, eu te direi. Quando bém está no meio da sabedoria e da
nasceu Afrodite, banqueteavam-se os ignorância. Eis com efeito o que se dá 204 a

deuses, e entre os demais se encontrava Nenhum deus filosofa ou deseja ser


também o filho de Prudência, Recurso. sábio — pois já é — 11 5, assim como
Depois que acabaram de jantar, veio se alguém mais é sábio, não filosofa.
Nem também os ignorantes filosofam
para esmolar do festim a Pobreza, e
ou desejam ser sábios; pois é nisso
ficou pela porta. Ora, Recurso, em­
mesmo que está o difícil da ignorância,
briagado com o néctar — pois vinho
no pensar, quem não é um homem dis­
ainda não havia — penetrou o jardim
tinto e gentil, nem inteligente, que lhe
de Zeus e, pesado, adormeceu. Pobreza
basta assim. Não deseja portanto
então, tramando em sua falta de recur­
quem não imagina ser deficiente naqui­
so engendrar um filho de Recurso, dei-
lo que não pensa lhe ser preciso.
c ta-se ao seu lado e pronto concebe o
Amor. Eis por que ficou companheiro 112 O epíteto de sofista vem sem dúvida por
associação com os dois anteriores. V. Protágo-
e servo de Afrodite o Am or, gerado em
ras, 328d. (N . d o T .)
seu natalício, ao mesmo tempo que por H3 N o grego evnopftori (derivado de irópoç
natureza amante do belo, porque tam­ = recurso). A transposição dessa temporal
para depois de “ ressuscita” , feita por Wilamo-
bém Afrodite é bela. E por ser filho o vits e adotada por Robin, não nos parece sufi­
Am or de Recurso e de Pobreza foi esta cientemente justificada por razões estilísticas.
A o contrário do que alegam os seus defenso­
a condição em que ele ficou. Primeira­ res, tal com o está o texto dos mss., o período
mente ele é sempre pobre, e longe está mostra-se bem articulado, pela correspondên­
cia dessa temporal com a expressão “ graças à
de ser delicado e belo, como a maioria natureza do pai” no seguinte esquema: vive
d imagina, mas é duro, seco, descalço e quando enriquece/ m orre/ ressuscita graças à
natureza do pai (N . d o T .)
111 A expressão grega é baiiiòvuK òw-qp , isto 114 N o grego róropeí (também derivado de
é , homem marcado pelo gênio, pela divindade 7rópoç ). (N . do T .)
( Sakicov ). Nossos correspondentes “ genial” ou H5 Cf. no Lísis um argumento semelhante: o
“ de gênio” derivam para a idéia de talento. bom, bastando-se a si mesmo, não é amigo
(N. d o T .) (isto é, não ama e não deseja) do bom .(N . do T.)
42 PLATÃO

— Quais então, Diotima — per­ — M as essa resposta — dizia-me


guntei-lhe — os que filosofam, se não ela — ainda requer118 uma pergunta
são nem os sábios nem os ignorantes? desse tipo: Que terá aquele que ficar
<> — É o que é evidente desde já — com o que é belo?
respondeu-me — até a uma criança: — Absolutamente — expliquei-lhe
são os que estão entre esses dois extre­ — eu não podia mais responder-lhe de
mos, e um deles seria o Am or. Com pronto a essa pergunta.
efeito, uma das coisas mais belas é a — M as é, disse ela, como se al- e
sabedoria, e o Amor é amor pelo belo, guém tivesse mudado a questão e,
de modo que é forçoso o Am or ser filó­ usando o bom 119 em vez do belo,
sofo e, sendo filósofo, estar entre o perguntasse: Vam os, Sócrates, ama o
sábio e o ignorante. E a causa dessa amante o que é bom; que é que ele
sua condição é a sua origem: pois é ama?
filho de um pai sábio e rico11 6 e de — Tê-lo consigo — respondi-lhe.
uma mãe que não é sábia, e pobre. É — E que terá aquele que ficar com
essa então, ó Sócrates, a natureza o que é bom?
desse gênio; quanto ao que pensaste — Isso eu posso — disse-lhe —
ser o Am or, não é nada de espantar o mais facilmente responder: ele será
que tiveste. Pois pensaste, ao que me feliz.
parece a tirar pelo que dizes, que Amor — _ E com efeito pela aquisição do 205 „
era o amado e não o amante; eis por que é bom, disse ela, que os felizes são
que, segundo penso, pârecia-te todo felizes, e não mais é preciso ainda perT
belo o Amor. E de fato o que é amável guntar: E para que quer ser feliz aquele
é que é realmente belo, delicado, per­ que o quer? A o contrário, completa
feito e bem-aventurado11 7; o amante, parece a resposta.
porém é outro o seu caráter, tal qual eu — É verdade o que dizes — tor-
expliquei. nei-lhe.
E eu lhe disse: — Muito bem, — É essa vontade então e esse
estrangeira! É belo o que dizes! Sendo amor, achas que é comum a todos os
porém tal a natureza do Am or, que homens, e que todos querem ter sempre
proveito ele tem para os homens? consigo o que é bom, ou que dizes?
— Isso — respondi-lhe — é
, — Eis o que depois disso — res-
comum a todos.
pondeu-me — tentarei ensinar-te. Tal é
— E por que então, ó Sócrates, não t
de fato a sua natureza e tal a sua ori­
são todos que dizemos que amam, se é
gem; e é do que é belo, como dizes.
que todos desejam a mesma coisa120 e
Ora, se alguém nos perguntasse: Em
sempre, mas sim que uns amam e ou­
que é que é amor do que é belo o
tros não?
Amor, ó Sócrates e Diotima? ou mais
— Também eu — respondi-lhe —
claramente: A m a o amante o que é
admiro-me.
belo; que é que ele ama?
118 A expressão no grego é pitoresca ( nodel ,
— Tê-lo consigo — respondi-lhe.
isto é, deseja), por sua relação com a idéia
discutida no contexto. (N . d o T .)
116 N o grego eihtopo<: , assim com o infra artopoc; 119 V. supra p. 39. n. 104. (N . d o T .)
= pobre, ambos derivados de nópoç (N . do T.) 120 isto é, o que é bom ou, mais literalmente,
Cf. supra 180a-4. (N . d o T .) as coisas boas. (N . d o T .)
O BANQUETE 43

— M as não! Não te admires! — — É bem provável que estejas


retrucou ela; — pois é porque destaca­ dizendo a verdade — disse-lhe eu.
mos do amor um certo aspecto e, apli­ — E de fato corre um dito123, con­
cando-lhe o nome do todo, chamamo- tinuou ela, segundo o qual são os que
lò de amor, enquanto para os outros procuram a sua própria metade os que
aspectos servimo-nos de outros nomes. amam; o que eu digo porém é que não
— Com o, por exemplo? — pergun­ é nem da metade o amor, nem do todo; «
tei-lhe. pelo menos, meu amigo, se não se
— Com o o seguinte. Sabes que encontra este em bom estado, pois até
“ poesia” 121 é algo de múltiplo; pois os seus próprios pés e mãos querem os
toda causa de qualquer coisa passar do homens cortar, se lhes parece que o
não-ser ao ser é “ poesia” , de modo que que é seu está ruim. Não é com efeito o
as confecções de todas as artes são que é seu, penso, que cada um estima,
“ poesias” , e todos os seus artesãos a não ser que se chame o bem de pró­
poetas. prio e de seu, e o mal de alheio; pois x* «
— É verdade o que dizes. nada mais há que amem os homens
— Todavia — continuou ela — tu senão o bem; ou te parece que amam?
sabes que estes não são denominados — N ão, por Zeus — respondi-lhe.
poetas, mas têm outros nomes, en­ — Será então — continuou — que
quanto que de toda a “ poesia” uma é tão simples12 4 assim, dizer que os
única parcela foi destacada, a que se homens amam o bem?
refere à música e aos versos, e com o — Sim — disse-lhe.
nome do todo é denominada. Poesia é — E então? Não se deve acres­
com efeito só isso que se chama, e os centar que é ter consigo o bem que eles
que têm essa parte da poesia, poetas. amam?
— É verdade — disse-lhe. — Deve-se.
— Pois assim também é com o — E sem dúvida — continuou —
amor. Em geral, todo esse desejo do não apenas ter, mas sempre ter?
que é bom e de ser feliz, eis o que é “ o — Também isso se deve acrescen­
supremo e insidioso amor, para todo tar.
homem” 122, no entanto, enquanto uns, — Em resumo então — disse ela
porque se voltam para ele por vários — é o amor amor de consigo ter sem­
outros caminhos, ou pela riqueza ou pre o bem.
pelo amor à ginástica ou à sabedoria, — Certíssimo — afirmei-lhe — o
nem se diz que amam nem que são que dizes.
amantes, outros ao contrário, proce­
123 Essa alusão ao discurso de Aristófanes é,
dendo e empenhando-se numa só com o nota Robin em sua introdução ao Ban­
forma, detêm o nome do todo, de quete, um indício habilmente dissimulado na
verossimilhança da narração do caráter fictício
amor, de amar e de amantes. de Diotima. ( N .d o T .)
124 o que segue até b deve ser relacionado com
121 noirjoiç é no grego ação de roíeiv = fa­ 200b-e. O desejo de ter para o futuro é o de­
zer, isto é, confecção, produção e num sentido sejo de ter sempre. Daí associar-se a idéia do
mais limitado, poesia. ( N .d o T .) bem à de continuidade, a qual, logo mais refe­
122 Provavelmente uma citação do verso não rida ao homem, ser mortal, assume a feição de
identificado ( N .d o T .) imortalidade. (N. do T .)
44 PLATÃO

b — Quando então — continuou ela vista do belo, que de uma grande dor
— é sempre isso o amor, de que modo, liberta o que está prenhe. É com efeito,
nos que o perseguem, e em que ação, o Sócrates, dizia-me ela, não do belo o
seu zelo e esforço se chamaria amor, como pensas.
amor12 s? Que vem a ser essa ativida­ — M as de que é enfim?
de? Podes dizer-me? — D a geração e da parturição no
— Eu não te admiraria então, ó belo.
Diotima, por tua sabedoria, nem te — Seja — disse-lhe eu.
freqüentaria para aprender isso — Perfeitamente — continuou. — «
mesmo. E por que assim da geração? Porque é
— M as eu te direi — tornou-me. algo de perpétuo e imortal para um
— É isso, com efeito, um parto em mortal, a geração. E é a imortalidade
beleza, tanto no corpo como na alma. que, com o bem, necessariamente se
— É um adivinho — disse-lhe eu deseja, pelo que foi admitido, se é que
— que requer o que estás dizendo: não o amor é amor de sempre ter consigo o
entendo. bem1 2 7 . É de fato forçoso por esse
— Pois eu te falarei mais clara­ argumento que também da imortali­
mente, Sócrates, disse-me ela. Com dade seja o amor.
efeito, todos os homens concebem, não Tudo isso ela me ensinava, quando
só no corpo como também na alma, e sobre as questões de amor discorria, e
quando chegam a certa idade, é dar à uma vez ela me perguntou: — Que
luz que deseja a nossa natureza. M as pensas, ó Sócrates, ser o motivo128
ocorrer isso no que é inadequado é desse amor e desse desejo? Porventura
d impossível. E o feio é inadequado a não percebes como é estranho o com ­
tudo o que é divino, enquanto o belo é portamento de todos os animais quan­
adequado. Moira então e Ilitia12 6 do do desejam gerar, tanto dos que andam
nascimento é a Beleza. Por isso, quan­ quanto dos que voam, adoecendo b
do do belo se aproxima o que está em todos em sua disposição amorosa, pri­
concepção, acalma-se, e de júbilo meiro no que concerne à união de um
transborda, e dá à luz e gera; quando com o outro, depois no que diz respeito
porém é do feio que se aproxima, som­ à criação do que nasceu? E como em
brio e aflito contrai-se, afasta-se, reco­ vista disso estão prontos para lutar os
lhe-se e não gera, mas, retendo o que mais fracos contra os mais fortes, e
concebeu, penosamente o carrega. Daí mesmo morrer, não só se torturando
é que ao que está prenhe e já intumes- pela fome a fim de alimentá-los como
cido é grande o alvoroço que lhe vem à tudo o mais fazendo? Ora, os homens,

125 N ova mudança no método de exposição,


continuou ela, poder-se-ia pensar que é
que agora passa a ser dircursivo. Assimilando pelo raciocínio que eles agem assim;
abruptamente, à maneira dos profetas, a ativi­
dade amorosa ao processo da geração, Diotima
discorre então sobre o sentido desta, revelan­ 127 206a. V. nota respectiva. ( N .d o T .)
do-a com o uma maneira de participarem os 128 Diotima e Sócrates já se entenderam sobre
seres deste mundo da perene estabilidade do o motivo do amor (206-207a, 207c-8-d). Por
mundo ideal. ( N .d o T .) conseguinte, sua pergunta agora é apenas para
126 Divindade que preside aos nascimentos, iniciar uma verificação desse motivo, conside­
assim com o uma das três Moiras ou Parcas. rando-o a partir do amor físico, a form a mais
(N. d o T .) sçnsível do amor. V. supra 205b-d. ( N .d o T .)
O BANQUETE 45

c mas os animais, qual a causa desse seu nascem e outras morrem para nós, e ja ­
comportamento amoroso? Podes di­ mais somos os mesmos nas ciências,
zer-me? mas ainda cada uma delas sofre a
De novo eu lhe disse que não sabia;
mesma contingência. O que, com efei­
e ela me tom ou: — Imaginas então to, se chama exercitar é como se de nós
algum dia te tomares temível nas ques­
estivesse saindo a ciência; esqueci­
tões do amor, se não refletires nesses mento é escape de ciência, e o exercí­
fatos?
cio, introduzindo uma nova lembrança
— M as é por isso mesmo, Diotima
em lugar da que está saindo, salva a
— como há pouco eu te dizia — que
ciência, de modo a parecer ela ser a
vim a ti, porque reconheci qyue preci­
sava de mestres. Dize-me entao não só mesma. É desse modo que tudo o que é
a causa disso, como de tudo o mais mortal se conserva, e não pelo fato de
que concerne ao amor. absolutamente ser sempre o mesmo,
— Se de fato — continuou — crês como o que é divino, mas pelo fato de
d que o amor é por natureza amor daqui­ deixar o que parte e envelhece um
lo que muitas vezes admitimos, não fi­ outro ser novo, tal qual ele mesmo era.
ques admirado..Pois aqui, segundo o É por esse meio, ó Sócrates, que o
mesmo argumento que lá, a natureza mortal participa da imortalidade, no
mortal procura, na medida do possível, corpo como em tudo mais130; o imor­
ser sempre e ficar imortal. E ela só tal porém é de outro modo. Não te
pode assim, através da geração, porque admires portanto de que o seu próprio
sempre deixa um outro ser novo em rebento, todo ser por natureza o apre­
lugar do velho129; pois é nisso que se cie: é em virtude da imortalidade que a
diz que cada espécie animal vive e é a todo ser esse zelo e esse amor acompa­
mesma — assim como de criança o nham.
homem se diz o mesmo até se tornar Depois de ouvir o seu discurso,
velho; este na verdade, apesar de ja ­ admirado disse-lhe: — Bem, ó doutís­
mais ter em si as mesmas coisas, diz-se sima Diotima, essas coisas é verdadei­
todavia que é o mesmo, embora sem­ ramente assim que se passam?
pre se renovando e perdendo alguma E ela, como os sofistas consumados,
coisa, nos cabelos, nas carnes, nos tomou-me: — Podes estar certo, ó Só­
!e ossos, no sangue e em todo o corpo. E crates; o caso é que, mesmo entre os
não é que é só no corpo, mas também
homens, se queres atentar a sua ambi­
na alma os modos, os costumes, as
ção, admirar-te-ias do seu desarrazoa-
opiniões, desejos, prazeres, aflições,
temores, cada um desses afetos jamais !30 Alguns críticos querem ver nessa passagem
uma contradição com a doutrina da imortali­
permanece o mesmo em cada um de dade da alma, e conseqüentemente um indício
nós, mas uns nascem, outros morrem. da anterioridade do Banquete ao Fédon, onde
aquela doutrina é longamente exposta. Na ver­
20 Sa M as ainda mais estranho do que isso é dade, ela não autoriza a inferência de que a
que até as ciências não é só que umas alma é mortal. Diotima diz que seus afetos e
conhecimentos são passageiros, com o os ele­
129 Segue até 208b um quadro muito vivo da mentos do corpo, mas não afirma que a alma
visão heraclitiana da realidade. Mas, sob o são esses afètos e conhecimentos. A idéia de vá­
fluxo desesperador das coisas, Diotima vê em rias encarnações da alma e a do conhecimento-
sua geração, a sua maneira de continuar, o seu reminiscência, exposta também no Fédon, ilus­
m odo de participar do ser perene das idéias. tra muito a compatibilidade de uma alma imor­
(N . do T .) tal com ácidentes transitórios. (N. d o T .)
PLATÃO
46
mento, a menos que, a respeito do que estes estão todos os poetas criadores e
te falei, não reflitas, depois de conside- todos aqueles artesãos que se diz serem
rares quão estranhamente eles se com­ inventivos; mas a mais importante,
portam com o amor de se tomarem disse ela, e a mais bela forma de pensa­
renomados e de “ para sempre uma gló­ mento é a que trata da organização dos
ria imortal se preservarem” , e como negócios da cidade e da família, e cujo
por isso estão prontos a arrostar todos nome é prudência e justiça134 — des- b
d. os perigos, ainda mais do que pelos tes por sua vez quando alguém, desde
filhos, a gastar fortuna, a sofrer priva­ cedo fecundado em sua alma, ser divi­
ções, quaisquer que elas sejam, e até a no que é, e chegada a idade oportuna,
sacrificar-se. Pois pensas tu, continuou já está desejando dar à luz e gerar, pro­
ela, que Alceste131 morreria por Ad- cura então também este, penso eu, à
meto, que Aquiles morreria depois de sua volta o belo em que possa gerar;
Pátroclo, ou o vosso Codro132 morre­ pois no que é feio ele jamais o fará.
ria antes, em favor da realeza dos Assim é que os corpos belos mais que
filhos, se não imaginassem que eterna os feios ele os acolhe, por estar em
seria a memória da sua própria virtu­ concepção; e se encontra uma alma
de, que agora nós conservamos? Longe bela, nobre e bem dotada, é total o seu
disso, disse ela; ao contrário, é, segun­ acolhimento a ambos, e para um
do penso, por uma virtude imortal e homem desses logo ele se enriquece13 5
de discursos sobre a virtude, sobre o c
por tal renome e glória que todos tudo
que deve ser o homem bom e o que
fazem, e quanto melhores tanto mais;
deve tratar, e tenta educá-lo. Pois ao
<• pois é o imortal que eles amam. Por
contato sem dúvida do que é belo e em
conseguinte, continuou ela, aqueles
sua companhia, o que de há muito ele
que estão fecundados em seu corpo
concebia ei-lo que dá à luz e gera, sem
voltam-se de preferência para as mu­
o esquecer tanto em sua presença
lheres, e é desse modo que são amoro­
quanto ausente, e o que foi gerado, ele
sos, pela procriação conseguindo para
o alimenta justamente com esse belo,
si imortalidade, memória e bem-aven-
de modo que uma comunidade muito
turança por todos os séculos seguintes,
maior que a dos filhos ficam tais indi­
209 a ao que pensam; aqueles porém que é víduos mantendo entre si, e uma ami­
em sua alma — pois há os que conce­ zade mais firme, por serem mais belos
bem na alma mais do que no corpo, o e mais imortais os filhos que têm em
que convém à alma conceber e gerar; e comum. E qualquer um aceitaria obter d
o que é que lhes convém senão o pen­ tais filhos mais que os humanos, de­
samento e o mais da virtude133 ? Entre pois de considerar Homero e Hesíodo,
131 É uma referência ao discurso de Fedro, 179 e admirando com inveja os demais
ss. (N. d o T .) bons poetas, pelo tipo de descendentes
132 Rei legendário de Atenas. Informado de
que um oráculo prometera vitória aos dórios,
que deixam de si, e que uma imortal
se estes não o matassem, disfarça-se em solda­ glória e memória lhes garantem, sendo
do e com o tal encontra a morte com que sal­
vou sua pátria. (N . d o T .) 134 Prudência ( ooxppooúvri ) e justiça são aqui
133 Entender .virtude no sentido amplo de exce­ formas do pensamento ( ippóvijoK ) ; com o no
lência, tal com o o grego apenj . Notar a dis­ Protágoras (361b ss.) elas são, com o as de­
tinção feita no Banquete entre wóvtiok (de mais virtudes, formas ou aspectos de uma
ifpovèopai ) = disposição para a sabedoria, ciência ( èmotvuv )• (N . do T .)
pensamento e oapia , isto é, sabedoria (v. 202) 135 N o grego eimopeí . V. supra p. 41 , n. 113.
que só os deuses possuem. (N . d o T .) (N . do T .)
O BANQUETE 47
eles mesmos o que são; ou se prefe­ seu dirigente, deve ele amar um só
res13 ®, continuou ela, pelos filhos que corpo e então gerar belos discur­
Licurgo deixou na Lacedemônia, sal­ sos139; depois deve ele compreender &
vadores da Lacedemônia e por assim que a beleza em qualquer corpo é irmã
dizer da Grécia. E honrado entre vós é da que está em qualquer outro, e que,
também Sólon13 7 pelas leis que criou, se se deve procurar o belo na forma,
e outros muitos em muitas outras par­ muita tolice seria não considerar uma
tes, tanto entre os gregos como entre os só e a mesma a beleza em todos os cor­
bárbaros, por terem dado à luz muitas pos; e depois de entender isso, deve ele

obras belas e gerado toda espécie de fazer-se amante de todos os belos cor­
pos e largar esse amor violento de um
virtudes; deles é que já se fizeram mui­
só, após desprezá-lo e considerá-lo
tos cultos por causa de tais filhos,
mesquinho; depois disso a beleza que
enquanto que por causa dos humanos
está nas almas deve ele considerar
ainda não se fez nenhum.
mais preciosa que a do corpo, de modo
São esses então os casos de amor era
que, mesmo se alguém de uma alma
210 o* que talvez, ó Sócrates, também tu
gentil tenha todavia um escasso encan­
pudesses ser iniciado138; mas, quanto
to, contente-se ele, ame e se interesse, e *
à sua perfeita contemplação, em vista
produza e procure discursos tais que
da qual é que esses graus existem,
tomem melhores os jovens; para que
quando se procede corretamente, não
então seja obrigado a contemplar o
sei se serias capaz; em todo caso, eu te belo nos ofícios e nas leis, e a ver assim
direi, continuou, e nenhum esforço que todo ele tem um parentesco
pouparei; tenta então seguir-me se comum1 40, e julgue enfim de pouca
fores capaz: deve com efeito, começou monta o belo no corpo; depois dos ofí­
ela, o que corretamente se encaminha a cios é para as ciências que é preciso
esse fim, começar quando jovem por transportá-lo, a fim de que veja tam­
dirigir-se aos belos corpos, e em pri­ bém a beleza das ciêricias, e olhando *
meiro lugar, se corretamente o dirige o para o belo já muito, sem mais amar
como um doméstico a beleza indivi­
136 A ordem em que aparecem os exemplos da
poesia e da legislação parece sugerir a preemi- dual de um criançola, de um homem
nência da primeira sobre a segunda. Cf. toda­ ou de um só costume, não seja ele,
via República, X , 597 e ss., em que Platão, ao
contrário, explica a superioridade da segunda. nessa escravidão, miserável e um mes­
(N . do T .) quinho discursador, mas voltado ao
137 Em conferência na Associação dos Estudos
vasto oceano do belo e, contemplan­
Clássicos do Brasil (Seção de São P aulo), so­
bre o autocriticismo em Atenas, o Prof. Aubre- do-o, muitos discursos belos e magní-
ton observou com muito acerto os sentimentos
de laconismo que revela essa maneira de um 139 Evidentemente não se trata aqui do amor
ateniense citar depois das leis de Licurgo — físico entre o homem e a mulher, que tem a
salvadores da G ré cia . . . — as leis do seu con­ justificação na procriação (208e), e sim de
terrâneo — e também Sólon . . . (N . do T .) uma primeira etapa do amor entre o amante e
138 Feito o exame das diversas formas da ativi-' o bem-amado, que deve estar condicionado à
dade amorosa (proscrição, poesia, legislação), produção dos belos discursos. Essa etapa ini­
Diotima as considera com o estágios prelimina­ cial' corresponde ao que Pausânias, numa pers­
res do supremo ato do amor, que é a conquista pectiva menos clara, afirma ser o nobre amor
da ciência do belo em si. Para dar no entanto de Afrodite Urânia. ( N .d o T .)
a entender o caráter dessa ciência e de sua 140 Assim com o, pouco antes, um belo corpo é
aquisição, ela recorre à alegoria da iniciação irmão de um belo corpo, todos estes por sua
aos mistérios. Compará-la a esse respeito com vez têm a mesma relação com os belos ofícios
o mito da Caverna na República. ( N .d o T .) e as belas leis. ( N .d o T .)
48 PLATÃO

ficos ele produza, e reflexões, em ines­ tudo mais que é belo dele participa, de
gotável amor à sabedoria, até que aí um modo tal que, enquanto nasce e pe-
robustecido e crescido141 contemple rece tudo mais que é belo, em nada ele
ele uma certa ciência, única, tal que o fica maior ou menor, nem nada sofre.
«. seu objeto é o belo seguinte. T en ta . Quando então alguém, subindo a partir
agora, disse-me ela, prestar-me a máxi­ dó que aqui é belo1 4 4, através do cor­
ma atenção possível. Aquele, pois, que reto amor aos jovens, começa a con­
até esse ponto tiver sido orientado para templar aquele belo, quase que estaria
as coisas do amor, contemplando
a atingir o ponto final. Eis, com efeito, c
seguida e corretamente o que é belo, já
em que consiste o proceder correta­
chègando ao ápice dos graus do amor,
mente nos caminhos do amor ou por
súbito perceberá algo de maravilhosa­
mente belo em sua natureza, aquilo outro se deixar conduzir: em começar
mesmo1 42, ó Sócrates, a que tendiam do que aqui é belo e, em vista daquele
todas as penas anteriores, primeira- belo, subir sempre, como que servin-
211 a mente sempre sendo, sem nascer nem do-se de degraus, de um só para dois e
perecer, sem crescer nem decrescer, e de dois para todos os belos corpos, e
depois, não de um jeito belo e de outro dos belos corpos para os belos ofícios,
feio, nem ora sim ora não, nem quanto e dos ofícios para as belas ciências até
a isso belo e quanto àquilo feio, nem que das ciências acabe naquela ciên­
aqui belo ali feio, como se a uns fosse cia, que de nada mais é senão daquele
belo e a outros feio; nem por outro próprio belo, e conheça enfim o que em
lado aparecer-lhe-á o belo como um si é belo. Nesse ponto da vida, meu d
rosto ou mãos, nem como nada que o caro Sócrates, continuou a estrangeira
corpo tem consigo, nem como algum de Mantinéia, se é que em outro mais,
discurso ou alguma ciência, nem certa­ poderia o homem viver, a contemplar o
mente como a existir ém algo mais, próprio belo. Se algum dia o vires, não
b como, por exemplo, em animal da terra
é como ouro1 4 5 ou como roupa que
ou do céu, ou em qualquer outra coisa;
ao contrário, aparecer-lhe-á ele ele te parecerá ser, ou como os belos
mesmo, por si mesmo, consigo mesmo, jovens adolescentes, a cuja vista ficas
sendo sempre uniforme1 43, enquanto agora aturdido e disposto, tu como ou­
tros muitos, contanto que vejam seus
141A abundância é a grandeza dos discursos
decorrentes da extensão do belo já contempla­ amados e sempre estejam com eles, a
do ( irpòç TtoXv ri&n rò ka\óv ) é condição para nem comer nem beber, se de algum «
atingir a contemplação do próprio belo.
(N. do T .) modo fosse possível, mas a só contem­
142 Observar r o que precede até essa expressão plar e estar ao seu lado1 4 6. Que pensa­
uma extraordinária técnica de suspense para
preparar o deslumbramento do que segue, isto mos então que aconteceria, disse ela,
é, a descrição do belo em si. Desencantados da se a alguém ocorresse contemplar o
magia desse trecho, podemos perceber que ele
é uma reSposta àquela litania final do discurso próprio belo, nítido, puro, simples, e
de Agatão (197d-e), mas quão superior em
emoção e grandeza! (N. d o T .) 144 O pronome rcjvòf parece-me aqui refe­
143 Essas expressões, que aparecem freqüente­ rir-se claramente à idéia do belo. Assim, tradu­
mente no Fédon para caracterizar as idéias em zim o-lo especificando: “ as coisas belas daqui” .
sua pureza essencial, contrapõem-se a fórmulas A menção explícita rdv KaXüv, um pouco
usadas pouco acima (de um je ito . . . de ou ­ abaixo, explica-se pelo fato de que Diotima
tro . . ora . . . ora . . . quanto a isso . . . quanto está resumindo sua lição. (N . d o T .)
àquilo . . . etc.) para qualificar as coisas deste 145 C om o o sofista Hípias o define para Sócra­
mundo, e que representam por assim dizer os tes. V . Hípias Maior, 289e. (N. d o T .)
marcos da argumentação socrática. (N. d o T .) 146 Cf. supra 192d-e. (N . d o T .)
O BANQUETE 49

não repleto de carnes, humanas, de coisa1 50, que era a ele que aludira Só­
cores e outras muitas ninhãrias mor­ crates, quando falava de um certo dito;
tais, mas o próprio divino belo pudesse e súbito a porta do pátio, percutida,
ele em sua forma única contemplar? produz um grande barulho, como de
212 <. Porventura pensas, disse, que é vida vã foliões, e ouve-se a voz de uma flautis­
a de um homem a olhar naquela dire­ ta. Agatão exclama: “ Servos! Não d
ção e aquele objeto, com aquilo1 4 7 ireis ver? Se for algum conhecido, cha­
com que deve, quando o contempla e mai-o; se não, dizei que não estamos
com ele convive? Ou não consideras, bebendo, mas já repousamos” .
disse ela, que somente então, quando Não muito depois ouve-se a voz de
vir o belo com aquilo com que este Alcibíadesj no pátio, bastante embria­
pode ser visto, ocorrer-lhe-á produzir gado, e a gritar alto, perguntando onde
não sombras148 de virtude, porque estava Agatão, pedindo que o levassem
não é em sombra que estará tocando, para junto de Agatão. Levam-no então
mas reais virtudes, porque é no real até os convivas a flautista, que o
que estará tocando? tomou sobre si, e alguns outros acom­
panhantes, e ele se detém à porta, cin-
b Eis o que me dizia Diotima, ó Fedro
gido de uma espécie de coroa tufada de <■
e demais presentes, e do que estou
hera e. violetas, coberta a cabeça de
convencido; e porque estou conven­
fitas em profusão, e exclama:
cido, tento convencer também os ou-
“ Senhores! Salve! Um homem em
, tros de que para essa aquisição, um
completa embriaguez vós o recebereis
colaborador da natureza humana me­ como companheiro de bebida, ou deve­
lhor que o Am or não se encontraria mos partir, tendo apenas coroado A ga­
facilmente. Eis por que eu afirmo que tão, pelo qual viemos? Pois eu, na ver­
deve todo homem honrar o Am or, e dade, continuou, ontem mesmo não fui
que eu próprio prezo o que lhe con­ capaz de vir; agora porém eis-me aqui,
cerne e particularmente o cultivo, e aos com estas fitas sobre a cabeça, a fim de
outros exorto, e agora e sempre elogio passá-las da minha para a cabeça do
mais sábio e do mais belo, se assim
o poder e a virilidade do Am or na me-
devo dizer. Porventura ireis zombar de
c dida em que sou capaz. Este discurso,
mim, de minha embriaguez? Ora, eu, m«
ó Fedro, se queres, considera-o profe­
por mais que zombeis, bem sei por­
rido como um encômio1 49 ao A m or;
tanto que estou dizendo a verdade.
se não, o que quer que e como quer que
M as dizei-me daí mesmo: com o que
te apraza chamá-lo, assim deves fazê-
disse, devo entrar ou não? Bebereis co­
lo.
migo ou não?”
Depois que Sócrates assim falou, Todos então o aclamam e convidam
enquanto que uns se põem a louvá-lo, a entrar e a recostar-se, e Agatão o
Aristófanes tenta dizer alguma chama. Vai ele conduzido pelos ho­
147 Isto é, com a inteligência, ou antes, com a mens, e como ao mesmo tempo colhia
própria alma, livre das suas relações com o as fitas para coroar, tendo-as diante »
corpo. V. Fédon, 65b-e. ( N .d o T .)
148 São as virtudes praticadas pelo comum dos i5U Aristófanes não parece, com o os demais
homens, tais com o Platão as explica no Fédon, convivas, empolgado com o que foi dito por
68b-69b. ( N .d o T .) Sócrates, o que bem revela sua pouca predis­
149 Porque foi proferido à maneira socrática. posição para captar o conteúdo do discurso de
V. supra 199b. ( N .d o T .) Alcibíades. ( N .d o T .)
50 PLATÃO

dos olhos não viu Sócrates, e todavia mitido dirigir nem o olhar nem a
senta-se ao pé de Agatão, entre este e palavra a nenhum belo jovem, senão
Sócrates, que se afastara de modo a este homem, enciumado e invejoso, faz
que ele se acomodasse. Sentando-se ao coisas extraordinárias, insulta-me e
lado de Agatão ele o abraça e o coroa. mal retém suas mãos da violência. Vê
Disse então Agatão: — Descalçai então se também agora não vai ele
Alcibíades, servos, a fim de que seja ofazer alguma coisa, e reconcilia-nos;
terceiro em nosso leito1 61. ou se ele tentar a violência, defende-
— Perfeitamente — tomou A lci­me, pois eu da sua fúria e da sua pai­
bíades; — mas quem é este nosso ter­ xão amorosa muito me arreceio.
ceiro companheiro de bebida? E en­ — N ã o ! — disse Alcibíades —
quanto se volta avista Sócrates, e mal entre mim e ti não há reconciliação.
o viu recua em sobressalto e exclama: M as pelo que disseste depois eu te
Por Hércules! Isso aqui que é? Tu, ó castigarei; agora porém, Agatão, ex­
c Sócrates? Espreitando-me de novo aí clamou ele, passa-me das tuas fitas, a «
te deitaste, de súbito aparecendo assim fim de que eu cinja também esta aqui,
como era teu costume, onde eu menos a admirável cabeça deste homem, e
esperava que haverias de estar? E não me censure ele de que a ti eu te
agora, a que vieste? E ainda por que coroei, mas a ele, que vence em argu­
foi que aqui te recostaste? Pois não foi mentos todos os homens, não só ontem
junto de Aristófanes1 5Z, ou de qual­ como tu, mas sempre, nem por isso eu
quer outro que seja ou pretenda ser o coroei. — E ao mesmo tempo ele
engraçado, mas junto do mais belo dos toma das fitas, coroa Sócrates e recos-
que estão aqui dentro que maquinaste ta-se.
te deitar. Depois que se recostou, disse ele: —
E Sócrates: — Agatão, vê se me Bem, senhores! Vós me pareceis em
defendes! Que o amor deste homem se plena sobriedade. É o que não se deve
me tomou um não pequeno proble­ permitir entre vós, mas beber; pois foi
m a1 53. Desde aquele tempo, com efei- o que foi combinado entre nós. Com o
i to, em que o amei, não mais me é per- chefe então da bebedeira, até que tiver-
des suficientemente bebido, eu me elejo
151V. supra p. 15 , n. 13, e p. 16 , n. 16. a mim mesmo1 5 4 . Eia, Agatão, que a
(N . do T .)
152 por que essa referência a Aristófanes? Não tragam logo, se houver aí alguma gran­
temos nenhuma outra notícia da predileção de de taça. Melhor ainda, não há nenhu­
Sócrates pelos cômicos, em particular por Aris­
tófanes. Por outro lado é de supor que Alcibía­ ma precisão: vamos, servo, traze-me
des de pronto percebesse a possibilidade de aquele porta-gelo! exclamou ele, quan- 2 u«
Sócrates ter sido convidado pelo próprio A ga­
tão, com o de fato aconteceu. Assim, suas pala­
do viu um com capacidade de mais de
vras devem ser entendidas mais com o um arti oito “ cótilas” 1 5 6. Depois de enchê-lo,
fício dramático para chamar a atenção sobre a
primeiro ele bebeu, depois mandou Só­
incapacidade em Aristófanes de entender o ver­
dadeiro aspecto côm ico da atitude de Alcibía­ crates entornar, ao mesmo tempo que
des para com Sócrates. (N . d o T .)
153 Essa observação de Sócrates, com o a de 154 Alcibíades sente em sua embriaguez que o
Alcibíades logo a seguir, anuncia à maneira de “ simposiarca” (v. supra p. 17 , n. 21) não se
um prelúdio as conclusões que vamos tirar do houve bem em sua função e pretende reparar a
discurso de Alcibíades sobre a irresponsabilida­ f a l t a . . . (N. d o T .)
de de Sócrates no comportamento de Alcibía­ 155 Uma “ cótila” eqüivalia a pouco mais de
des. (N. do T .) um quarto de litro. (N. do T .)
O BANQUETE 51

dizia: — Para Sócrates, senhores, meu amigo, convence-te Sócrates em algo


ardil não é nada: quanto se lhe man­ do que há pouco disse? Ou sabes que é
dar, tanto ele beberá, sem que por isso o contrário de tudo o que afirmou? É
jamais se embriague1 5 6. ele ao contrário que, se em sua pre­
Sócrates então, tendo-lhe entornado sença eu louvar alguém, ou um deus ou
o servo, pôs-se a beber; mas eis que um outro homem fora ele, não tirará
Erixímaco exclama: — Que é então suas mãos de mim.
b que fazemos, Alcibíades? Assim nem — Não vais te calar? — disse
dizemos nada nem cantamos de taça à Sócrates.
mão, mas simplesmente iremos beber, — Sim, por Posidão — respon-
como os que têm sede? deu-lhe Alcibíades; nada digas quanto
Alcibíades então exclamou: — Ex­ a isso, que eu nenhum outro mais lou­
celente filho de um excelente e sapien- varia em tua presença.
tíssimo pai, salve! — Pois faze isso então — disse-lhe
— Também tu, salve! — respon­ Erixímaco — se te apraz; louva
deu-lhe Erixímaco; — mas que deve­ Sócrates.
mos fazer? — Que dizes? — tomou-lhe Alci­
— O que ordenares! É preciso com bíades; — parece-te necessário, Erixí­
efeito te obedecer: m aco? Devo então atacar-me ao
homem e castigá-lo1 58diante de vós?
p ois um homem que é médico — E h ! tu ! — disse-lhe Sócrates —
vale que tens em mente? Não é para carre­
muitos outros' 5 7; gar1 59 no ridículo que vais elogiar-
me? Ou que farás?
ordena então o que queres.
— A verdade eu direi. Vê se acei­
— Ouve então — disse Erixímaco.
tas!
c — Entre nós, antes de chegares, deci­
— M as sem dúvida! — respon­
dimos que devia cada um à direita pro­
deu-lhe — a verdade sim, eu aceito, e
ferir em seu turno um discurso sobre o
mesmo peço que a digas.
Am or, o mais belo que pudesse, e lhe
— Imediatamente — tornou-lhe
fazer o elogio. Ora, todos nós já fala­
Alcibíades. — Todavia faze o seguin­
m os; tu porém como não o fizeste e já
te. Se eu disser algo inverídico, inter­
bebeste tudo, é justo que fales, e que
rompe-me incontinenti, se quiseres, e
depois do teu discurso ordenes a Só­
dize que nisso eu estou falseando; pois m«
crates o que quiseres, e este ao da direi­
de minha vontade eu nada falsearei. Se
ta, e assim aos demais.
porém a lembrança de uma coisa me
— M as, Erixímaco! — tornou-lhe
Alcibíades — é sem dúvida bonito o
158 Contando a decepção que lhe causou 0
que dizes, mas um homem embriagado outro com o “ amante” . O comportamento de
proferir um discurso em confronto Sócrates desfizera seus planos escabrosos, pon­
do a nu suas verdadeiras intenções. Comparar
com os de quem está com sua razão, é essa confissão de Alcibíades com a apologia
de se esperar que não seja de igual de Pausânias. (N . d o T .)
159 Sócrates está falando em conhecimento de
d para igual. E ao mesmo tempo, ditoso causa. A experiência de Alcibíades foi ridícula,
e o elogio que este lhe promete fazer vai
156 v. infra 220a. (N . d o T .) expô-lo, portanto, a mal-entendidos com o os que
157Híada, X I, 514. (N . d o T .) já sofreu por parte de Aristófanes. (N . d o T .)
52 PLATÃO

faz dizer outra, não te admires; não é flautista quer uma flautista ordinária,
fácil, a quem está neste estado, da tua são as únicas que nos fazem possessos
singularidade dar uma conta bem feita e revelam os que sentem falta dos deu­
e seguida. ses e das iniciações, porque são divi­
“ Louvar Sócrates, senhores, é assim nas. Tu porém dele diferes apenas
que eu tentarei, através de imagens. Ele nesse pequeno ponto, que sem instru­
certamente pensará talvez que é para mentos, com simples palavras, fazes o
carregar no ridículo, mas será a ima­ mesmo. Nós pelo menos, quando *
gem em vista da verdade, não do ridí­ algum outro ouvimos mesmo que seja
culo. Afirmo eu então que é ele muito um perfeito orador, a falar de outros
b semelhante a esses silenos] 6 0 coloca­ assuntos, absolutamente por assim
dos nas oficinas dos estatuários, que os dizer ninguém se interessa; quando
artistas representam com um pifre ou porém é a ti que alguém ouve, ou pala­
uma flauta, os quais, abertos ao meio, vras tuas referidas por outro, ainda que
vê-se que têm em seu interior estatue­ seja inteiramente vulgar o que está
tas de deuses. Por outro lado, digo falando, mulher, homem ou adoles­
também que ele se assemelha ao sátiro cente, ficamos aturdidos e somos em­
Mársias1 6 1. Que na verdade, em teu polgados. Eu pelo menos, senhores, se
aspecto pelo menos és semelhante a não fosse de todo parecer que estou
esses dois seres, ó Sócrates, nem embriagado, eu vos contaria, sob jura­
mesmo tu sem dúvida poderias contes­ mento, o que é que eu sofri sob o efeito,
tar; que porém também no mais tu te dos discursos deste homem, e sofro
assemelhas, é o que depois disso tens ainda agora. Quando com efeito os «
de ouvir. Ès insolente1 6 2 ! N ão? Pois escuto, muito mais do que aos cori-
se não admitires, apresentarei testemu­ bantes1 6 4 em seus transportes bate-me
nhas. M as não és flautista? Sim ! E o coração, e lágrimas me escorrem sob
muito mais maravilhoso que o sátiro. o efeito dos seus discursos, enquanto
c Este, pelo menos, era através de instru­ que outros muitíssimos eu vejo que
mentos que, com o poder de sua boca, experimentam o mesmo sentimento; ao
encantava os homens como ainda ouvir Péricles porém, e outros bons
agora o que toca as suas melodias — oradores, eu achava que falavam bem
pois as que O lim po1 6 3 tocava são de sem dúvida, mas nada de semelhante
Mársias, digo eu, por este ensinadas — eu sentia1 6 B, nem minha alma ficava
as dele então, quer as toque um bom perturbada nem se irritava, como se se
encontrasse em condição servil; mas
160 Também chamados sátiros, os silenos eram
divindades campestres que faziam parte do sé­
com este Mársias aqui, muitas foram 216 „
quito de Dioniso. Eram figurados com cauda e as vezes em que de tal modo me sentia
cascos de boi ou de bode e rosto humano, sin­
que me parecia não ser possível viver
gularmente feio. ( N .d o T .)
161 Exímio flautista, Mársias desafiou A poio em condições como as minhas. E isso,
com sua lira e, vencido, foi esfolado pelo deus. ó Sócrates, não irás dizer que não é
162 A liberdade espiritual de Sócrates dá-lhe
realmente, em muitas circunstâncias, essa apa­ 164 Sacerdotes de Cibele, da Frigia, que dança­
rência. V. Apol. 20e-23c, 30c e ss. e 36b-37. vam freneticamente ao som de flautas, címba-
(N. d o T .) les e tamborins. ( N .d o T .)
163 Em M inos Sócrates cita-o com o bem-amado 165 é que não eram estes oradores “ homens de
de Mársias. Muitas canções antigas lhe eram gênio” , suscetíveis de uma inspiração divina (v.
atribuídas. (N. do T .) supra 203a). ( N .d o T .)
O BANQUETE 53

verdade. Ainda agora tenho certeza de Que esta sua atitude não é conforme à
que, se eu quisesse prestar ouvidos, dos silenos? E muito mesmo. Pois é
não resistiria, mas experimentaria os aquela com que por fora ele se reveste,
mesmos sentimentos. Pois me força ele como o sileno esculpido; mas lá den­
a admitir que, embora sendo eu mesmo tro, uma vez aberto, de quanta sabedo­
deficiente em muitos pontos ainda, de ria imaginais, companheiros de bebida,
mim mesmo me descuido, mas trato estar ele cheio? Sabei que nem a quem
dos negócios de Atenas1 6 6 . A custo é belo tem ele á mínima consideração,
então, como se me afastasse das antes despreza tanto quanto ninguém
sereias, eu cerro os ouvidos e me retiro poderia imaginar, nem tampouco a e
em fuga, a fim de não ficar sentado lá e quem é rico, nem a quem tenha qual­
aos seus pés envelhecer. E senti diante quer outro título de honra, dos que são
deste homem, somente diante dele, o enaltecidos pelo grande número; todos
que ninguém imaginaria haver em esses bens ele julga que nada valem, e
mim, o envergonhar-me de quem quer que nós nada somos — é o que vos
que seja; ora, eu, é diante deste homem digo — e é ironizando e brincando
somente que me envergonho. Com efei­ com os homens que ele passa toda a
to, tenho certeza de que não posso vida. Uma vez porém que fica sério e
contestar-lhe que não se deve fazer o se abre, não sei se alguém já viu as
que ele manda, mas quando me retiro estátuas lá dentro; eu por mim já uma
sou vencido pelo apreço em que me vez as vi, e tão divinas me pareceram
tem o público. Safo-me então de sua elas, com tanto ouro, com uma beleza
presença e fujo, e quando o vejo enver­ tão completa e tão extraordinária que in »
gonho-me pelo que admiti. E muitas eu só tinha que fazer imediatamente o
vezes sem dúvida com prazer o veria que me mandasse Sócrates. Julgando
não existir entre os homens; mas se por porém que ele estava interessado em
outro lado tal coisa ocorresse, bem sei minha beleza, considerei um achado e
que muito maior seria a minha dor, de um maravilhoso lance da fortuna,
modo que não sei o que fazer com esse como se me estivesse ao alcance, de­
pois de aquiescer a Sócrates, ouvir
homem.
D e seus flauteios então, tais foram tudo o que ele sabia; o que, com efeito,
as reações que eu e muitos outros tive­ eu presumia da beleza de minha juven­
mos deste sátiro; mas ouvi-me como tude era extraordinário! Com tais
ele é semelhante àqueles a quem o idéias em meu espírito1 6 8, eu que até
comparei, que poder maravilhoso ele então não costumava sem um acompa­
tem. Pois ficai sabendo que ninguém o nhante ficar só com ele, dessa vez,
conhece^ mas eu o revelarei, já que despachando o acompanhante, encon­
comecei. Estais vendo, com efeito, trei-me a sós — é preciso, com efeito, »
como Sócrates amorosamente se com ­ 168 Alcibíades passa a contar os seus esforços
para conquistar o amor de Sócrates. Tais esfor­
porta com os belos jovens, está sempre ços constituem, com o observa Robin em sua
ao redor deles, fica aturdido e como Introdução, uma verdadeira tentação, isto é.
uma caricatura da iniciação amorosa tal como
também ignora tudo e nada sabe1 67.
é caracterizada por Diotima. Através dessa
166Cf. Alcibíades, 109d e 113b. (N. d o T .) caricatura, Platão pretende ilustrar a qualidade
167 C om o numa cilada para atrair os incautos. superior do côm ico obtido com uma verdadeira
Cf. supra 203d. (N. d o T .) arte. (N. d o T .)
54 PLATÃO

dizer-vos toda a verdade; — prestai dizer se, primeiramente, como diz o


atenção, e se eu estou mentindo, Sócra­ ditado, no vinho, sem as crianças ou
tes, prova — pois encontrei-me, senho­ com elas, não estivesse a verdade1 6 9; e
res, a sós com ele, e pensava que logo depois, obscurecer um ato excepcional­
ele iria tratar comigo o que um amante mente brilhante de Sócrates, quando se
em segredo trataria com o bem-amado, saiu a elogiá-lo, parece-me injusto. E
e me rejubilava. M as não, nada disso ainda mais, o estado do que foi mordi­
absolutamente aconteceu; ao contrá­ do pela víbora é também o meu. Com
rio, como costumava, se por acaso co­ efeito, dizem que quem sofreu tal aci­
migo conversasse e passasse o dia, ele dente não quer dizer como foi senão
retirou-se e foi-se embora. Depois aos que foram mordidos, por serem os 2,í a
* disso convidei-o a fazer ginástica co­ únicos, dizem eles, que o com­
migo e entreguei-me aos exercícios, preendem e desculpam de tudo que
como se houvesse então de conseguir ousou fazer e dizer sob o efeito da dor.
algo. Exercitou-se ele comigo e comigo Eu então, mordido por algo mais dolo­
lutou muitas vezes sem que ninguém roso, e no ponto mais doloroso em que
nos presenciasse; e que devo dizer? se possa ser mordido — pois foi no
Nada me adiantava. Com o por ne­ coração ou na alma,, ou no que quer
nhum desses caminhos eu tivesse resul­ que se deva chamá-lo que fui golpeado
tado, decidi que devia atacar-me ao e mordido pelos discursos filosóficos,
homem à força e não largá-lo, uma vez que têm mais virulência que a víbora,
que eu estava com a mão na obra, mas quando pegam de um jovem espírito,
logo saber de que é que se tratava. não sem dotes, e que tudo fazem come­
Convido-o então a jantar comigo, exa­ ter e dizer tudo — e vendo por outro
tamente como um amante armando ci- lado os Fedros, Agatãos, Erixímacos,
d lada ao bem-amado. E nem nisso tam os Pausãnias, os Aristodemos e os *
bém ele me atendeu logo, mas na Aristófanes; e o próprio Sócrates, é
verdade com o tempo deixou-se con­ preciso mencioná-lo? E quantos
vencer. Quando porém veio à primeira m ais. . . Todos vós, com efeito, parti-
vez, depois do jantar queria partir. Eu cipastes em com um 1 7 °, do delírio filo­
então, envergonhado, larguei-o; mas sófico e dos seus transportes báquicos
repeti a cilada, e depois que ele estava e por isso todos ireis ouvir-me; pois
jantado eu me pus a conversar com ele haveis de desculpar-me do que então
noite adentro, ininterruptamente, e fiz e do que agora digo. Os domésticos,
quando quis partir, observando-lhe que e se mais alguém há profano e inculto,
« era tarde, obriguei-o a ficar. Ele des­
cansava então no leito vizinho ao meu, 169 Alusão ao provérbio o íw «ai Tralfieç àXrçiSelç
: o vinho e as crianças são verídicas. (N. do
no mesmo em que jantara, e ninguém T .)
mais no compartimento ia dormir 170 Não deixa de ser estranha essa inclusão de
Aristófanes no grupo dos amantes da filosofia.
senão nós. Bem, até esse ponto do meu C om o poeta côm ico, este devia estai presente
discurso ficaria bem fazê-lo a quem a todas as reuniões desse tipo, e daí poder
Alcibíades confundi-lo naturalmente com os
quer que seja; mas o que a partir daqui que ardorosamente a defendiam, em oposição
se segue, vós não me teríeis ouvido aos indiferentes. (N . d o T .)
O BANQUETE 55

que apliquem aos seus ouvidos portas ser verdade o que dizes a meu respeito,
bem espessas1 7 1. e se há em mim algum poder pelo qual
Com o com efeito, senhores, a lâm- tu te poderias tornar melhor; sim, uma
c pada se apagara e os servos estavam irresistível beleza verias em mim, e
fora, decidi que não devia fazer ne­ totalmente diferente da formosura que
nhum floreado com ele, mas franca­ há em ti. Se então, ao contemplá-la,
mente dizer-lhe o que eu pensava; e tentas compartilhá-la comigo e trocar
assim o interpelei, depois de sacudi-lo: beleza por beleza, não é em pouco que
— Sócrates, estás dormindo? pensas me levar vantagens, mas ao 2 /5 «
— Absolutamente — respondeu- contrário, em lugar da aparência é a
me. realidade do que é belo que tentas
— Sabes então qual é a minha adquirir, e realmente é “ ouro por
decisão? cobre” 1 7 3 que pensas trocar. No en­
— Qual é exatamente? — tomou- tanto, ditoso amigo, examina melhor;
me. não te passe despercebido que nada
— Tu me pareces — disse-lhe eu sou. Em verdade, a visão do pensa­
— ser um amante digno de mim, o mento começa a enxergar com agude­
único, e te mostras hesitante em decla­ za quando a dos olhos tende a perder
rar-me. Eu porém é assim que me
sua força; tu porém estás ainda longe
sinto: inteiramente estúpido eu acho
disso.
não te aquiescer não só nisso como E eu, depois de ouvi-lo: — Quanto
também em algum caso em que preci- ao que é de minha parte, eis aí; nada
sasses ou de minha fortuna ou dos
do que está dito é diferente do que
d meus amigos. A mim, com efeito, nada
penso; tu porém decide de acordo com >>
me é mais digno de respeito do que o
o que julgares ser o melhor para ti e
tomar-me eu o melhor possível, e para
para mim.
isso creio que nenhum auxiliar me é
— Bem, tomou ele, nisso sim, tens
mais importante do que tu. Assim é
razão; daqui por diante, com efeito,
que eu, a um tal homem recusando
decidiremos fazer, a respeito disso
meus favores1 7 2, muito mais me en­
como do mais, o que a nós dois nos
vergonharia diante da gente ajuizada
parecer melhor.
do que se os concedesse, diante da
Eu, então, depois do que vi e disse, e
multidão irrefletida.
E este homem, depois de ouvir-me, que como flechas deixei escapar, ima­
com a perfeita ironia que é bem sua é ginei-o ferido; e assim que eu me ergui
do seu hábito, retrucou-me: — Caro sem ter-lhe permitido dizer-me nada
Alcibíades, é bem provável que real- mais, vesti esta minha túnica — pois
<• mente não sejas um vulgar, se chega a era invemo — estendi-me por sob o
manto deste homem, e abraçado com c
171 Alusão a uma fórmula de Iniciação órfica: estas duas mãos a este ser verdadeira­
tpâéyÇoixat olç dé/jiç èoriv dupaç b' èm&eode, (létftiXoi,
“Falarei àqueles a quem é permitido; aplicai mente divino e admirável fiquei deita-
portas (aos ouvidos), ó profanos.” (N d0
T .) 173 llíada, VI, 236. Enganado por Zeus, Glauco
iw Alcibíades aplicou literalmente a doutrina troca suas armas de ouro pelas de bronze de
de Pausânias. Cf. supra 184d-185b. ( N .d o T .) Diomedes (N . do T .)
56 PLATÃO

do a noite toda. Nem também isso, ó mos ali companheiros de mesa. Antes
Sócrates, irás dizer que estou falsean­ de tudo, nas fadigas, não só a mim me
do. Ora, não obstante tais esforços superava mas a todos os outros —
meus, tanto mais este homem cresceu e~ quando isolados em algum ponto,
desprezou minha juventude, ludibriou- como é comum numa expedição, éra­
a, insultou-a e justamente naquilo é mos forçados a jejuar, nada eram os
que eu pensava ser alguma coisa, outros para resistir — e por outro lado
senhores juizes; sois com efeito juizes nas fartas refeições, era o único a ser
da sobranceria de Sócrates1 74 — pois capaz de aproveitá-las em tudo mais,
ficai sabendo, pelos deuses e pelas deu­ sobretudo quando, embora se recusas­
sas, quando me levantei com Sócrates, se, era forçado a beber, que a todos
foi após um sono em nada mais vencia1 7 * ; e o que é mais espantoso de
extraordinário do que se eu tivesse dor­ tudo é que Sócrates embriagado ne­
mido com meu pai ou um irmão mais nhum homem há que o tenha visto. E
velho. disso, parece-me, logo teremos a
Ora bem, depois disso, que disposi­
prova. Também quanto à resistência
ção de espírito pensais que eu tinha, a
ao inverno — terríveis são os invernos
julgar-me vilipendiado, a admirar o
ali entre outras façanhas extraordi­
.caráter deste homem, sua temperança e
nárias que fazia, uma vez, durante uma
coragem, eu que tinha encontrado um
geada das mais terríveis, quando todos
homem tal como jamais julgava pode­
ou evitavam sair ou, se alguém saía,
ria encontrar em sabedoria e fortaleza?
era envolto em quanta roupagem estra­
Assim, nem eu podia irritar-me e pri-
nha, e amarrados os pés em feltros e
var-me de sua companhia, nem sabia
peles de carneiro, este homem, em tais
como atraí-lo. Bem sabia eu, com efei­
circunstâncias, saía com um manto do
to, que ao dinheiro era ele de qualquer
mesmo tipo que #ntes costumava tra­
modo muito mais invulnerável do que
zer, e descalço sobre o gelo marchava
Ájax ao ferro, e na única coisa em que
mais à vontade que os outros calçados,
eu imaginava ele se deixaria prender,
enquanto que os soldados o olhavam
ei-lo que me havia escapado. Embara-
de soslaio, como se o suspeitassem de
çava-me então, e escravizado pelo
estar troçando deles. Quanto a estes
homem como ninguém mais por ne­
fatos, ei-los aí:
nhum outro, eu rodava à toa. Tudo
isso tinha-se sucedido anteriormente; mas também o seguinte, com o o
depois, ocorreu-nos fazer em comum fe z
uma expedição em Potidéia1 7 5, e éra­ e suportou um bravo177

174 Em sua embriaguez, Alcibíades figura m o­ lá na expedição, certa vez, merece ser
mentaneamente um processo em que a acusa­ ouvido. Concentrado numa reflexão,
ção de sobranceria dissimula justamente sua
logo se detivera desde a madrugada a
defesa no processo histórico: a recusa de Só­
crates, um crime de orgulho nessa patuscada, examinar uma idéia, e como esta não
significa de fato sua inocência. (N. d o T .) lhe vinha, sem se aborrecer ele se con­
*75 Em 432, Potidéia, na Calcídica, recusou-se
a pagar, tributo a Atenas e foi pelos atenienses servara de pé, a procurá-la. Já era
sitiada, capitulando em 430. Essa insurreição
foi uma das causas imediatas da Guerra do 176 v . supra p. 1 7 , n. 19. (N . d o T .)
Peloponeso. (N. d o T .) 177 Odisséia, IV, 2 4 2 .(N . d o T .)
O BANQUETE 57

meio-dia, os homens estavam obser­ suas armas de hoplita. Ora, ele se reti­
vando, e cheios de admiração diziam rava, quando já tinham debandado os
uns aos outros: Sócrates desde a nossos homens, ao lado de Laques:
madrugada está de pé ocupado em acerco-me deles e logo que os vejo
süas reflexões ! Por fim, alguns dos exorto-os à coragem, dizendo-lhes que
jônicos 1 7 8, quando já era de tarde, de- os não abandonaria. Foi aí que, me­
i pois de terem jantado — pois era lhor que em Potidéia, eu observei Só­
então o estio — trouxeram para fora crates — pois o meu perigo era menor,
os seus leitos e ao mesmo tempo que por estar eu a cavalo — 1 primeiramente
iam dormir na fresca, observavam-no a quanto ele superava a Laques, em
ver se também a noite ele passaria de
domínio de si; e depois, parecia-me, ó
pé. E ele ficou de pé, até que veio a au­
Aristófanes, segundo aquela tua ex­
rora e o sol se ergueu; a seguir foi
pressão1 8 1, que também lá como aqui
embora, depois de fazer uma prece ao
ele se locomovia “ impando-se e olhan­
sol. Se quereis saber nos combates —
do de través” , calmamente exami­
pois isto é bem justo que se lhe leve em
nando de um lado e de outro os amigos
conta — quando se deu a batalha pela
e os inimigos, deixando bem claro a
qual chegaram mesmo a me condeco­
rar os generais, nenhum outro homem todos, mesmo a distância, que se
, me salvou senão este, que não quis alguém tocasse nesse homem, bem
abandonar-me ferido, e até minhas vigorosamente ele se defenderia. Eis
armas salvou comigo. Eu então, ó Só­ por que com segurança se retirava, ele
crates, insisti com os generais1 7 9 para e o seu companheiro; pois quase que,
que te conferissem essa honra, e isso nos que assim se comportam na guer­
não vais me censurar nem irás dizer ra, nem se toca, mas é aos que fogem
que estou falseando; todavia, quando em desordem que se persegue.
já os generais consideravam minha Muitas outras virtudes certamente
posição e desejavam conceder-me a poderia alguém louvar em Sócrates, e
insigne honra, tu mesmo foste mais admiráveis; todavia, das demais ativi­
solícito que os generais para que fosse dades, talvez também a respeito de al­
eu e não tu que a recebesse. E também, guns outros se pudesse dizer outro
ó senhores, valia a pena observar Só- tanto; o fato porém de a nenhum
221 a crates, quando de D elião 1 8 0 batia em homem assemelhar-se ele, antigo ou
retirada o exército; por acaso fiquei ao moderno, eis o que é digno de toda
seu lado, a cavalo, enquanto ele ia com
admiração. Com efeito, qual foi Aqui­
178 Robin prefere aqui a lição de Schmidt les, tal poder-se-ia imaginar Brasi-
( rCiv ISávTa»' = dos que o viram) à lição
dos mss. ( r&v 'lúvGw - dos jôn icos), sob a das1 8 2 e outros, e inversamente, qual
alegação de que não havia tropas da Jônia, e foi Péricles, tal Nestor e Antenor 1 8 3
de que a lição dos mss. se compreende dificil­
mente com o uma especificação da expressão 181 N as Nuvens, 362: (JJ-t 0pevâvei t ' ev tcüç bSã.<;
“ homens” , usada pouco acima. Essa última ra­ Kai TdydaX^u) irapajjáWeit; (N . d o T .)
zão absolutamente não convence. (N . d o T .) 182 Grande general espartano, vencedor dos ate­
1TOEssa batalha, travada em 432, precedeu nienses em Anfípolis (422 a .C .), onde morreu.
imediatamente o cerco de Potidéia. (N . d o T .) (N . d o T .)
180 Cidade da Beócia, na fronteira da Ática. Os 183 Dois grandes conselheiros, o primeiro dos
atenienses foram aí batidos pelos tebanos, c o ­ gregos e o segundo dos troianos, durante a
mandados por Pagondas, em 424 a.C .(N . do T.) Guerra de Tróia. (N . d o T .)
58 PLATÃO

í — sem falar de outros — e todos os Eis aí, senhores, o que em Sócrates


demais por esses exemplos se poderia eu louvo; quanto ao que, pelo contrá­
comparar; o que porém é este homem rio, lhe recrimino, eu o pus de permeio
aqui, o que há de desconcertante em e disse os insultos que me fez. E na ver- *

sua pessoa e em suas palavras, nem de dade não foi só comigo que ele os fez,
perto se poderia encontrar um seme­ mas com Cármides18 8, o filho de
lhante, quer se procure entre os moder­ Glauco, com Eutidemo, de Díocles, e
nos, quer entre os antigos, a não ser com muitíssimos outros, os quais ele
que se lhe faça a comparação com os engana fazendo-se de amoroso, en­
que eu estou dizendo, não com nenhum quanto é antes na posição de bem-
homem, mas com os silenos e os sáti­ amado que ele mesmo fica, em vez de
ros, e não só de sua pessoa como de amante. E é nisso que te previno, ó
suas palavras. Agatão, para não te deixares enganar
N a verdade, foi este sem dúvida um por este homem e, por nossas experiên­
ponto em que em minhas palavras eu cias ensinado, te preservares e não
deixei passar, que também os seus dis­ fazeres como o bobo do provérbio, que
cursos são muito semelhantes aos sile- “só depois de sofrer aprende” 1 8 7.
« nos que se entreabrem. A quem qui­ Depois destas palavras de Alei- c
sesse ouvir os discursos de Sócrates bíades houve risos por sua franqueza,
pareceriam eles inteiramente ridículos que parecia ele ainda estar amoroso de
à primeira vez: tais são os nomes e fra­ Sócrates. Sócrates então disse-lhe: —
ses de que por fora se revestem eles, Tu me pareces, ó Alcibíades, estar em
como de uma pele de sátiro insolente! teu domínio. Pois de outro modo não
Pois ele fala de bestas de carga, de fer­ te porias, assim tão destramente fazen­
reiros, de sapateiros, de correeiros, e do rodeios, a dissimular o motivo por
sempre parece com as mesmas pala­ que falaste; como que falando acesso-
vras dizer as mesmas coisas, a ponto riamente tu o deixaste para o fim,
de qualquer inexperiente ou imbecil como se tudo o que disseste nâo tivesse
222 . zombar de seus discursos 1 8 4. Quem sido em vista disso, de me indispor
porém os viu entreabrir-se e em seu com Agatão, na idéia de que eu devo i

interior penetra, primeiramente desco­ amar-te e a nenhum outro, e que Aga­


brirá que, no fundo, são os únicos que tão é por ti que deve ser amado, e por
têm inteligência, e depois, que são o
nenhum outro. Mas não me escapaste!
quanto possível divinos, e os que o
Ao contrário, esse teu drama de sátiros
maior número contêm de imagens de
e de silenos ficou transparente1 8 8. Pois
virtude1 8 8, e o mais possível se orien­ 186 T io materno de Platão, um dos membros
do governo dos Trinta, seu nome intitula um
tam, ou melhor, em tudo se orientam dos diálogos menores do filósofo. Quanto a
para o que convém ter em mira, quan­ Eutidemo, não se trata evidentemente do so­
fista ridicularizado no diálogo do mesmo no­
do se procura ser um distinto e honra­ me, mas sem dúvida do jovem que aparece nas
do cidadão. M em oráveis de Xenofonte, IV, 2-6. ( N .d o T .)
187 Hesíodo, Trabalhos e Dias, 218: nadòw Sé
184 Cf. Hípias Maior, 288c-d. (N . do T .) t« viprux êyvu : “ depois de sofrer é que o
185 Tal com o os silenos esculpidos (_215b) tê_m tolo aprende” . ( N .d o T .)
em seu interior estátuas divinas. Confrontar 188 N o propósito de insistir na feiúra de Sócra­
cõffi essa a expressão análoga em 213a-5, mas tes e, conseqüentemente, afastá-lo de Agatão.
num contexto diferente. (N . do T .) (N . d o T .)
O BANQUETE 59

bem, caro Agatão, que nada mais haja tar-se ao lado de Sócrates; súbito
para ele, e faze com que comigo nin­ porém uns foliões, em numeroso
guém te indisponha. grupo, chegam à porta e, tendo-a
Agatão respondeu: — D e fato, ó encontrado aberta com a saída de
Sócrates, é muito provável que estejas alguém, irrompem eles pela frente em
dizendo a verdade. E a prova é a direção dos convivas, tomando assento
maneira como justamente ele se recos- nos leitos; um tumulto enche todo o
tou aqui no meio, entre mim e ti, para recinto e, sem mais nenhuma ordem,
nos afastar um do outro. Nada mais é-se forçado a beber vinho em demasia.
ele terá então; eu virei para o teu lado Erixímaco, Fedro e alguns outros,
e me recostarei. disse Aristodemo, retiram-se e partem;
— Muito bem — disse Sócrates — a ele porém o sono o pegou, e dormiu
reclina-te aqui, logo abaixo de mim. muitíssimo, que estavam longas as noi­
— ó Zeus, que tratamento recebo tes; acordou de dia, quando já canta­
ainda desse hom em ! Acha ele que em vam os galos, e acordado viu que os
tudo deve levar-me a melhor. M as pelo outros ou dormiam ou estavam ausen­
menos, extraordinária criatura, permi­ tes; Agatão porém, Aristófanes e Só­
te que entre nós se acomode Agatão. crates eram os únicos que ainda esta­
— Impossível! — tomou-lhe Só­ vam despertos, e bebiam de uma
crates. — Pois se tu me elogiaste, devo grande taça que passavam da esquerda
eu por minha vez elogiar o que está à para a direita. Sócrates conversava
minha direita. Ora, se abaixo de ti 1 8 9 com eles; dos pormenores da conversa
ficar Agatão, não irá ele por acaso disse Aristodemo que não se lembrava
fazer-me um novo elogio, antes de, — pois não assistira ao começo e
pelo contrário, ser por mim elogiado? ainda estava sonolento — em resumo
Deixa, divino amigo, e não invejes ao porém, disse ele, forçava-os Sócrates a
jovem o meu elogio, pois é grande o admitir que é de um mesmo homem o
meu desejo de elogiá-lo. saber fazer uma comédia e uma tragé­
— Evoé! — exclamou Agatão; — dia, e que aquele que com arte é um
Alcibíades, não há meio de aqui eu poeta trágico é também um poeta cô­
ficar; ao contrário, antes de tudo, eu mico. Forçados a isso e sem o seguir
mudarei de lugar, a fim de ser por Só­ com muito rigor eles cochilavam, e pri­
crates elogiado. meiro adormeceu Aristófanes e, quan­
— Eis aí — comentou Alcibíades do já se fazia dia, Agatão. Sócrates
— a cena de costume: Sócrates presen­ então, depois de acomodá-los ao leito,
te, impossível a um outro conquistar os levantou-se e partiu; Aristodemo,
belos! Ainda agora, como ele soube como costumava, acompanhou-o; che­
facilmente encontrar uma palavra per- gado ao Liceu 1 9 0 ele asseou-se e,
suasiva, com o que este belo se vai pôr como em qualquer outra ocasião, pas­
ao seu lado. sou o dia inteiro, depois do que, à
Agatão levanta-se assim para ir dei- tarde, foi repousar em casa.
190 Ginásio dedicado a A poio, às margens do
189 Isto é, à sua direita, entre ele e Sócrates. Ilisso, mais tarde utilizado por Aristóteles para
Agatão passara para a direita de Sócrates, a sua escola, que ficou com esse nome.
ficando este no meio do divã. (N . do T .l fN . do T .)
NOQ3J
/
Introdução

EQUÉCRATES FÉDON
— Estiveste, Fédon, ao lado de Só­ — Houve no seu caso, Equécrates,
crates, no dia em que ele bebeu o vene­ uma coincidência fortuita: a do dia que
no na prisão? Ou acaso sabes, por precedeu ao julgamento com a coroa­
outrem, o que lá se passou? ção da popa do navio qüe os atenienses
FÉDON mandam a Delos.
— Lá estive em pessoa, Equécrates. EQUÉCRATES
EQUÉCRATES — E que navio é este?
— E então, de que coisas falou ele FÉDON
antes de morrer? Qual foi o seu fim? — Segundo conta a tradição, é o
Isso eu gostaria de saber, pois atual­ navio no qual Teseu transportou outro-
mente não há nenhum de meus conci­ ra os sete moços e as sete moças que
dadãos de Flionte 1 que esteja em Ate­ deviam ser levados para Creta2. EJe os
nas, e de lá, faz muito tempo, que não
2 A peregrinação a Delos é um simples culto ao
nos vem nenhum estrangeiro capaz de deus A poio e à deusa Ártemis. A lenda é a
nos dar informações seguras, a não ser seguinte: Androgeu, filho do afamado rei Mi-
nos de Creta, visitara Atenas e tomara parte
que Sócrates morreu após ter bebido o
nos jogos ginásticos; fora superior a todos, des­
veneno. M as, quanto ao mais, ninguém pertando assim a inveja dos atenienses, que o
nada nos soube relatar. mataram. Seu pai, então, para vingar a morte
do filho, declarou guerra aos atenienses, ven­
FÉDON cendo-os, e estabelecendo com o condição de
— Não sabeis, tampouco, nada paz que os vencidos enviassem periodicamente
7 m oços e 7 moças a Creta. Estes jovens iriam
também a respeito das circunstâncias servir de alimento ao monstro Minotauro que
do seu julgamento? vivia no Labirinto de Creta, palácio fabuloso
cuja saída ninguém conseguira encontrar. Por
EQUÉCRATES muito tempo os atenienses continuaram a
— Sim, dele tivemos alguma infor­ enviar novas vítimas para Creta, até que o he­
rói Teseu, herdeiro do trono, voluntariamente
mação. E uma das coisas, mesmo, que entrou no número das vítimas sorteadas, a fim
muito nos surpreendeu foi ter ocorrido de pôr termo a esse sacrifício periódico. Teseu
conquistou em Creta o amor da princesa
sua morte muito tempo depois do
Ariadne, que lhe deu um novelo de lã verme­
julgamento. Que houve, Fédon? lha e, assim, entrando no Labirinto, atou ele
uma ponta do novelo numa pedra da entrada
1 Em Flionte 'ou Flio, no Peloponeso, um dis­ e, enquanto avançava, o desenrolava, ficando
cípulo de Filolau, Eurito de Tarento, havia desta form a com o caminho de regresso asse­
estabelecido um círculo de pitagóricos, em cuja gurado. Conseguiu assim matar o Minotauro
sede Fédon foi recebido por Equécrates e asso­ e retornar com seus companheiros salvos para
ciados (58d, 102a). (N . do E.) a pátria. (N . d o T .)
64 PLATÃO

salvou e salvou a si mesmo. E assim, se disse e fez então? Quais de seus


como a Cidade houvesse feito a Apoio, discípulos se achavam a seu lado? Os
segundo se diz, a promessa de enviar magistrados não lhes permitiram assis­
todos os anos uma peregrinação a tir a seu fim, ou este foi, pelo contrário,
Delos se daquela vez os jovens fossem privado de amizade?
salvos, desde aquele fato até o presente FÉDON
se continuou a fazer essa peregrinação — Não, não. A verdade é que vá­
ao templo do deus. Manda uma lei do rios o presenciaram, um bom número
país que, a partir do momento em que mesmo.
se começa a tratar da peregrinação e EQUÉCRATES
enquanto ela dura, a Cidade não seja — Apressa-te, pois, a contar-nos
maculada por nenhuma execução capi­ todas essas coisas com a maior exati­
tal em nome do povo, até a chegada do dão possível, a menos que algo to
navio a Delos e sua volta ao porto. À s impeça.
vezes, quando os ventos são contrá­ FÉDON
rios, sucede ser longa a travessia. Além — Não, realmente nada tenho que
disso, a peregrinação começa no dia fazer no momento, e tratarei de vos dar
em que o sacerdote de Apoio coroa a uma descrição minuciosa. Aliás, nada
popa do navio, e aconteceu, como vos há para mim que seja tão agradável
disse, que tal fato se realizou no dia como recordar-me de Sócrates, seja
que precedeu o julgamento. Foi por que eu mesmo fale dele, seja que ouça
esse motivo que Sócrates, entre o jul­ alguém fazê-lo!
gamento e a morte, teve de passar EQUÉCRATES
tanto tempo na prisão. — Pois, Fédon, encontras em idên­
E Q U É C R A TE S tica disposição a todos os que te vão
— M as quanto às circunstâncias da escutar. Portanto, procura ser o mais
própria morte, Fédon? Que foi o que exato possível e nada esquecer.

A Narrativa

FÉDON sob os olhos, Equécrates, era um


— Enquanto estive ao lado de Só­ homem feliz: feliz, tanto na maneira de
crates minhas impressões pessoais comportar-se como na de conversar,
foram, de fato, bem singulares. Na ver­ tal era a tranqüila nobreza que havia
dade, ao pensamento de que assistia à no seu fim. E isso, de tal modo que ele
morte desse homem ao qual me achava me dava a impressão, ele que devia
ligado pela amizade, não era a compai­ encaminhar-se para as regiões do
xão o que me tomava. O que eu tinha Hades, de para lá se dirigir auxiliado
FÉDON 65

por um concurso divino, e de ir encon­ Peânia, Menexeno e alguns outros da


trar no além, uma vez chegado, uma mesma região. Platão, creio, estava
felicidade tal como ninguém jamais doente4.
»» conheceu! Por isso é que absoluta­
EQUÉCRATES
mente nenhum sentimento de compai­ — Havia estrangeiros presentes?
xão havia em mim, como teria sido
natural em quem era testemunha duma FÉDON
— Sim, havia, notadamente Símias
morte iminente. M as o que eu sentia
o Tebano, Cebes e Fedondes; e mais,
não era também o conhecido prazer de
de Mégara, Euclides e Terpsião.
nossos instantes de filosofia, embora
fosse essa, ainda uma vez, a natureza EQUÉCRATES
das nossas conversas. A verdade é que — Dize-me: Aristipo e Cleômbroto
havia em minhas impressões qualquer não estavam presentes?
coisa de desconcertante, uma mistura FÉDON
inaudita, feita ao mesmo tempo de pra­ — Não. Dizia-se que andavam por
zer e de dor, de dor ao recordar-me que Egina5.
dentro em pouco sobreviria o momen­
EQUÉCRATES
to de sua m orte! E todos nós, ali pre­ — E quem mais lá estava?
sentes, nos sentíamos mais ou menos
com a mesma disposição, ora rindo, FÉ D O N
— Creio que foram estes, mais ou
ora chorando; um de nós, até, mais do
menos, todos os que então se encon­
que qualquer outro: Apolodoro3.
travam a seu lado.
b Deves saber, com efeito, que homem é
ele e qual seja o seu feitio. EQUÉCRATES
EQUÉCRATES — Bem; e agora, dize, sobre que
— Sim, bem o sei. cousas falaram eles?
FÉDON FÉDON
— Nele, esse estado confuso de dor — Tomando as cousas desde o
e prazer atingia o auge; mas eu mesmo começo, vou esforçar-me por contá-las d
me encontrava presa duma agitação todas minuciosamente. Sabe, pois, que
semelhante, e, da mesma forma, os em nenhum dos dias anteriores havía-
outros.
4 De todas estas pessoas, os únicos importan­
EQUÉCRATES tes são Antístenes, Euclides e Aristipo, funda­
— M as os que então estiveram a dores de escolas filosóficas. Antístenes, na
seu lado, Fédon, quais foram? época em que foi escrito o presente diálogo,
já' é grande adversário da metafísica de Platão,
FÉDON mas .o autor o considera boa pessoa e lhe per­
— Além do mencionado A polo­ mite, no drama, assistir à morte de Sócrates,
embora com o personagem muda. Mas Aristi­
doro estavam lá, de sua terra, Crito- po, o filósofo dos gozadores, é unicamente
bulo com seu pai, e também Hermóge- objeto de desprezo, e por isso Platão o afasta.
( N .d o T .)
nes, Epígenes, Ésquines, e Antístenes.
5 Egina: ilha perto de Atenas. Platão quer sig­
Lá se encontravam ainda Ctesipo de nificar que estes homens fizeram tal viagem
para se recrearem, não se tratando de uma via­
3 A polodoro já é nosso conhecido do Banque­ gem longa, necessária e intransferível; logo, é
te: não era o mais inteligente, mas, por certo, que ambos não sentiam interesse pela sorte de
o mais entusiasta <los discípulos de Sócrates. Sócrates nem por sua grandiosa filosofia.
(N . do T .) (N . do T .)
66 PLATÃO
mos deixado de encontrar-nos, eu e os os Onze 6 estão a tirar as correntes de
outros, junto a Sócrates, segundo era Sócrates e a comunicar-lhe que este
nosso hábito. Nosso local de encontro, será o seu dia derradeiro.” Depois
ao romper do dia, era o tribunal onde disso quase não demorou a voltar, e
se realizava o julgamento, pois ficava convidou-nos para entrar.
próximo à prisão. E assim todos os Entramos, pois, e encontramos junto
dias, a conversar, esperávamos que a a Sócrates, que acabava de ser desagri-
lhoado, X a n tip a 7 (tu a conheces!), que
prisão fosse aberta. Èla não se abria
segurava o filho mais novo, sentada ao
muito cedo; logo, porém, que era fran­
lado do marido. Assim que ela nos viu,
queada, dirigíamo-nos até onde estava
choveram maldições e palavrórios
Sócrates, e muitas vezes, passávamos o
como só as mulheres sabem proferir:
dia todo em sua companhia. Naquele
“ Vê, Sócrates, esta é a última vez que
dia, como deixáramos ajustado, encon­
conversam contigo os teus amigos, e tu
tramo-nos ainda mais cedo que de cos­
com eles!” Sócrates lançou um olhar
tume, porque na véspera, ao sair da na direção de Críton: “ Críton, disse,
prisão pelo entardecer, havíamos sabi­ faze com que a conduzam para casa !”
do que o navio sagrado retornara de E, enquanto era levada pela gente de
Delos. Por isso ficara assentado que Críton, ela se debatia e gritava.
nos reuniríamos o mais cedo possível
6 Os Onze: um grupo de onze homens esco­
no lugar habitual. A o chegarmos, o
lhidos por votação cuidava em Atenas do cár­
porteiro, vindo ao nosso encontro (era cere e das execuções. Cf. Arist., Const. Aten.,
52, 1. (N. d o T .)
ele quem sempre nos àtendia), até
7 Xantipa deixou a fama .de ser uma senhora
pediu-nos que ficássemos por ali e algo violenta, que atormentou a vida do ma­
rido. Segundo Xenofonte, era uma verdadeira
esperássemos, para entrar, que nos
megera, mas enterneceu-se por ocasião da mor­
houvesse chamado. “ É, disse ele, que te de Sócrates. (N . d o T .)

O Prazer e a Dor

Quanto a Sócrates, sentara-se no simultâneos no homem; mas procure-


leito e, tendo encolhido a perna, esfre­ se um deles — tenhamos preso um
gava-a fortemente com a mão. E deles — e estaremos sujeitos quase
enquanto a esfregava dizia-nos: sempre a encontrar também o outro,
“ Com o parece aparentemente descon- como se fossem uma só cabeça ligada
cèrtante, amigos, isso que os homens a um corpo duplo! Parece-me, mesmo,
chamam de prazer! Que maravilhosa que Esopo, se nisso tivesse pensado,
relação existe entre a sua natureza e o teria composto uma fábula a esse res­
que se julga ser o seu contrário, a d o r! peito: A Divindade, desejosa de lhes
Tanto um como a outra recusam ser pôr fim aos conflitos, como visse frus-
FÉDON 67

trado o seu intento, amarrou juntas as sonho me exortava e me incitava a


duas cabeças; e é por isso que, onde se fazer o que justamente fiz em minha
apresenta um deles, o outro vem logo. vida passada. Assim como se animam
É, assim, que se lhe afiguram as coi­ corredores, também, pensava eu, o «;«
sas: devido ao grilhão, há pouco sentia sonho está a incitar-me para que eu
dor na minha perna, e já agora sinto persevere na minha ação, que é com­
prazer! por música: haverá, com efeito, mais
Cebes interrompeu: — Por Zeus, alta música do que a filosofia, e não é
Sócrates, foi bom me haveres lem- justamente isso o que eu faço? M as su­
i brado isso ! D e fato, a propósito dessas cede agora que, depois de meu julga­
tuas composições, em que transpuseste mento, a festa do Deus está retardando
para o metro cantado os contos de minha morte. O que é preciso então,
Esopo e o hino a Apoio, várias pessoas pensei, no caso de que o sonho me
já me têm perguntado — e entre elas, tenha prescrito essa espécie comum de
há pouco tempo, Eveno 8 — com que composição musical, é que eu não lhe
intenção as compuseste depois de tua desobedeça; é que eu componha ver­
chegada aqui, tu que até agora jamais sos. E, de fato, é muito mais seguro
fizeras coisas desse gênero. Se tens, não me ir sem antes ter satisfeito esse
pois, qualquer interesse em que eu escrúpulo religioso com a composição
possa responder a Eveno quando ele de tais poemas, nem antes de haver *
novamente me interrogar (porque bem prestado obediência ao sonho. E, por
sei que tornará a fazê-lo!), fala: que isso, minha primeira composição foi
deverei dizer-lhe? dedicada ao Deus em cuja honra esta­
— Dize-lhe a verdade, Cebes: não va sendo realizado o sacrifício. Depois
foi com a intenção de lhe fazer concor­ de haver prestado a minha homenagem
rência, e muito menos às suas compo- ao Deus, julguei que um poeta para ser
• sições, que fiz aqueles versos: sei que verdadeiramente um poeta deve empre­
isso teria sido difícil! Eu os fiz em vir­ gar mitos e não raciocínios. Não me
tude de certos sonhos, cuja significa­ sentindo capaz de compor mitos, por
ção pretendia assim descobrir, e tam­ isso mesmo tomei por matéria de meus
bém por escrúpulo religioso — versos, na ordem em que me vinham
prevendo, sobretudo, a eventualidade ocorrendo à lembrança, as fábulas ao
de que as repetidas prescrições que me meu alcance, as de Esopo que eu sabia
foram feitas se relacionassem com o de cor. Assim , pois, aí está, Cebes, o
exercício dessa espécie de poesia. Eis que deverás dizer a Eveno. Transmite-
como se passaram as cousas: Várias lhe também a minha saudação, e além
vezes, no curso de minha vida, fui visi­ disso o conselho, se de fato ele é sábio,
tado por um mesmo sonho; não era de seguir minhas pegadas o mais
através da mesma visão que ele sempre depressa que puder! Quanto a mim, »
se manifestava, mas o que me dizia era parece que me vou hoje mesmo, uma
invariável: “ Sócrates” , dizia-me ele, vez que os atenienses me ordenam.
“ deves esforçar-te para compor músi­
Então Símias disse:
ca !” E, palavra! sempre entendi que o
— Que belo convite, Sócrates, para
8Eveno: poeta grego (N . d o T .) Eveno! Já por várias vezes tive oca-
68 PLATÃO

sião de encontrar esse homem, e, a jul­ — Dize-nos pois, Sócrates, por que
gar pela minha experiência, ele sem dú­ motivo se pode certamente negar que
vida seguirá de boa vontade o teu seja coisa permitida o suicídio? Eu
conselho! mesmo, com efeito (é o que nos
— Ora — tornou Sócrates — , será perguntavas há pouco), já ouvi Filolau
que Eveno não é filósofo? dizer, no tempo em que se encontrava
— Segundo penso, é — respondeu entre nós, e também a outros, que tal
Símias. coisa não se pode fazer. M as ninguém
— Então não há de desejar coisa já foi capaz de ensinar-me qualquer
melhor, ele ou quem quer que dê à filo­ coisa de exato a esse respeito.
sofia a atenção que ela merece. Toda­ — Vamos — disse Sócrates — , 62 <,
via, é de esperar que Eveno não fará vamos examinar isso. É possível, tal­
violência contra si mesmo, pois, segun­ vez, que eu te possa ensinar alguma
do dizem, isso não é permitido. coisa. É provável também que isso te
i Assim falando, desencolheu as per­ pareça maravilhoso e que te espantes
nas e, desde então, foi sentado dessa ao saber que, para todos os homens, há
forma que continuou a conversar. A uma absoluta necessidade de viver,
esta altura Cebes lhe fez a seguinte necessidade invariável mesmo para
pergunta: aqueles para os quais a morte seria
— Com o podes dizer, Sócrates, que preferível à vida. Acharás espantoso
não é -permitido fazer violência contra ainda que não seja permitido àqueles,
si mesmo, e, por outro lado, que o filó­ para os quais a morte seja um bem
sofo não deseja nada melhor do que preferível à vida, o direito de procura­
poder seguir aquele que morre? rem, por si, esse bem e que, para o
— Quê? Então, Cebes, não fostes obterem, necessitem recebê-lo de ou­
instruídos a respeito deste gênero de trem.
questões, tu e Símias, que vivestes Cebes sorriu docemente:
tanto tempo em companhia de Filo- — Deus o sabe! — disse no modo
de falar de seu país1 °.
lau9?
— Poder-se-ia, com efeito — vol- &
— N ão, nada de claro, Sócrates.
veu Sócrates — encontrar nisso, pelo
— Eu, também, o que digo é por
menos considerado sob essa forma,
ouvir dizer, e seguramente nada impe­
qualquer coisa de irracional. Todavia
de que se transmita o que dessa forma
não é assim, e, muito provavelmente,
me foi dado aprender. E, com efeito,
aí não falta razão. A esse respeito há,
talvez convenha particularmente aos
mesmo, uma fórmula que usam os
<• que devem transladar-se para o além a
adeptos dos Mistérios11: “ É uma espé-
tarefa de empreender uma investigação
sobre essa viagem e de relatar, num 10 Cebes é de Tebas, e os tebanos têm a fama de
serem pouco instruídos e falarem um grego algo
mito, o que julgamos ser tal lugar. E
provinciano. Cebes, o aluno ardente de Sócra­
por que não? Que poderíamos fazer tes, fala em geral a língua da gente letrada,
senão isso durante o tempo que nos se­ mas neste momento, apaixonado por uma inte­
ressante questão filosófica, descura a lingua­
para do por do sol? gem e usa o dialeto regional de seu país.
(N . d o T .)
9Filolau: filósofo pitagórico. Platão o conhe­ 11 Platão refere-se aos mistérios órficos, que
cia pessoalmente, e muito o estimou. (N . do T.) mencionara no M enão. (N . do T .)
FÉDON 69

cie de prisão o lugar onde nós, homens, alguém, destituído de inteligência,


vivemos, e é dever não libertar-se a si possa ter essas idéias e, desse modo,
mesmo nem evadir-se.” Fórmula essa, fuja a seu dono sem refletir que, quan- *
sem dúvida, que me parece tão gran­ do este é bom, não se deva escapar à
diosa quão pouco transparente! M as sua autoridade mas, ao contrário, ficar
não é menos exato, Cebes, que aí se o mais possível junto a ele. Fugir, pois,
encontra justamente expresso, creio, o seria mostra de falta de reflexão por
seguinte: os Deuses são aqueles sob parte de tal homem. E quanto ao que
cuja guarda estamos, e nós, homens, tem inteligência, sem dúvida alguma
somos uma parte da propriedade dos teria o desejo de encontrar-se incessan­
Deuses. Não te parece que é assim? temente ao lado de quem vale mais do
— Parece-me — respondeu Cebes. que ele próprio. Ora, Sócrates, desta
c — E tu, por acaso — continuou forma o que é natural é justamente o
Sócrates — não havias de querer mal a contrário do que dizíamos há pouco.
um ser de tua propriedade que se Porque são justamente os homens de
matasse sem que tal lhe tivesses permi­ bom senso que devem irritar-se no
tido? E não tirarias de seu ato a vin­ momento da morte, enquanto que os
gança que fosses capaz de tirar? insensatos se alegrarão.
— Efetivamente. Sócrates havia escutado Cebes e
— É provável, portanto, que neste sentira prazer, pareceu-me, ante a difi­
sentido nada exista de irracional no culdade levantada por ele. Olhando « «.
dever de não nos matarmos, de aguar­ para o nosso lado disse:
darmos que a divindade envie qualquer — Verdadeiramente Cebes sempre
ordem semelhante àquela que hoje se está em busca de argumentos: não tem
apresenta para mim. a mínima inclinação para acreditar
— Seja — disse Cebes. — Acho, imediatamente no que se lhe d iz !
sim, acho isso natural. M as a coisa — M as, Sócrates — acudiu Símias
toma outro aspecto quando se trata do — , segundo penso, há também muita
que há pouco dizias, acerca da facili­ razão nos dizeres de Cebes: de fato,
dade com que os filósofos consenti­ com que intenção homens incontesta-
riam em morrer. Isso, Sócrates, pare- velmente sábios haveriam de fugir de
d ce-me uma inconseqüência, se é que há donos que valem mais do que eles pró­
boas razões para afirmar o que dizía­ prios, e sem grandes cuidados, se afas­
mos faz poucos instantes: que nos tariam deles? Meu pensamento tam­
encontramos sob a tutela da Divinda­ bém é que, além disso, a objeção de
de, e que em nós ela tem uma de suas Cebes se dirige contra ti mesmo, pois é
propriedades. Que não haja irritação da mesma forma que, sem muito pesar,
da parte de homens sensatos, quando suportas a contingência de abando- b
se lhes retira essa tutela dos Deuses, nar-nos, a nós e àqueles excelentes
que são, precisamente, os melhores donos — acabaste de convir nisto! —
tutores, é coisa bem difícil de com­ que são os Deuses.
preender! Não é crível, em tais cir­ — Tendes razão — disse Sócrates;
cunstâncias, que alguém, em liberdade, — eu vos entendo: eis uma acusação
possa encontrar maiores vantagens na de que me devo defender como se esti­
sua própria autonomia. É possível que vesse no tribunal.
70 PLATÃO

— Isso mesmo — volveu Símias. — Que dizer, Sócrates? — tomou


— Pois bem, vamos a isso! E pro­ Símias. — Serás capaz de guardar uni­
curemos sobretudo apresentar diante camente para ti esses pensamentos,
de vós uma defesa mais convincente do quando tens a intenção de partir? Não
que a que fiz perante os juizes! Sim, os partilharás conosco? Pois aí está
confesso-o, Símias e Cebes: eu comete­
certamente, segundo penso, um bem
ria um grande erro não me irritando
que nos é comum a todos. A o mesmo
contra a morte, se não possuísse a con­
tempo terás feito tua defesa, se tuas
vicção de que depois dela vou encon-
trar-me, primeiro, ao lado de outros palavras conseguirem convencer-nos.
Deuses, sábios e bons; e, segundo, — Pois b em ! Esforçar-me-ei por
junto a homens que já morreram e que fazê-lo. M as antes vejamos o que o
valem mais do que os daqui. M as, em bom Críton tem desde algum tempo a
realidade, ficai sabendo que, se não me intenção de dizer-me.
esforço por justificar a esperança .de — Que quero dizer? — perguntou
dirigir-me para junto de homens que
Críton. — Nada mais do que o que
são bons, em troca hei de envidar todo
está a repetir-me há muito o homem
o esforço possível para defender a
esperança de ir encontrar, depois da que deve ministrar-te o veneno: pede-
morte, um lugar perto dos Deuses, que me te explique que deves falar o menos
são amos em tudo excelentes, e, se há possível. Porque falando muito a gente
coisa a que eu me dedique com tôdas se aquece, e é necessário não contra­
as minhas energias, será essa! Assim, riar assim a ação do veneno. Se conti­
por conseguinte, não tenho razões para nuas a conversar desse modo talvez
estar irritado. M as, ao contrário, tenho seja preciso que o tomes duas ou três
a firme convicção de que depois da
vezes para ter efeito.
morte há qualquer coisa — qualquer
— Dize-lhe que vá às favas! —
coisa, de resto, que uma antiga tradi­
respondeu Sócrates. — Para desempe­
ção 1 2 diz ser muito melhor para os
bons do que para os maus. nhar-se de sua missão, ele que me dê o
veneno uma, duas ou mesmo três
12 Platão refere-se às tradições religiosas do
pensamento grego, no centro das quais se vezes, se for preciso!
encontra, também, a crença de uma boa sorte
— A rre ! era essa mais ou menos a
no Além. Os mistérios mais afamados eram os
de Elêusis, cujos adeptos esperavam ter me­ resposta que eu previra — disse Críton
lhor sorte do que os demais mortos. Cf. De-
charme, La Critique des Traditions Religieuses
— mas há muito que este homem esta­
ches les grecs e E. Rohde, Psyché. (N. d o T .) va a importunar-me.
FÉDON 71

A morte como libertação do pensamento

— Deixa-o falar! — prosseguiu ramente pensarão, é que é justamente


Sócrates. — A vós, entretanto, que esse o fim que eles merecem!
sois meus juizes, devo agora prestar- — E o vulgo teria razão, Símias, de
vos contas, expor as razões pelas quais dizer isso, embora, é claro, não sou­
considero que o homem que realmente besse que estava a dizer uma verdade.
consagrou sua vida à filosofia é senhor Pois os que ignoram ele e os que lhe
de legítima convicção no momento da fazem coro é de que modo se estão pre­
morte, possui esperança de ir encon­ parando para morrer aqueles que ver­
trar para si, no além, excelentes bens dadeiramente são filósofos, de que
quando estiver m orto! M as como pode modo eles merecem a morte, e que
ser assim? Isso será, Símias e Cebes, o espécie de morte merecem. Entre nós,
que me esforçarei por vos explicar. com efeito, é que devemos tratar dessa
Receio, porém, que, quando uma pes­ questão, e, quanto ao vulgo e aos
soa se dedica à filosofia no sentido cor­ outros, não lhes demos atenção!
reto do termo, os demais ignoram que — Segundo nosso pensar, é a morte
sua única ocupação consiste em prepa­ alguma cousa?
rar-se para morrer e em estar morto! — Claro — replicou Símias.
Se isso é verdadeiro, bem estranho — Nada mais do que a separação
seria que, assim pensando, durante da alma e do corpo, não é? Estar
toda sua vida, que não tendo presente morto consiste nisto: apartado da alma
ao espírito senão aquela preocupação, e separado dela, o corpo isolado em si
quando a morte vem, venha a irritar-se mesmo; a alma, por sua vez, apartada
com a presença daquilo que até então do corpo e separada dele, isolada em si
tivera presente no pensamento e de que mesma. A morte é apenas isso?
fizera sua ocupação! — Sim, consiste justamente nisso.
Nesta altura Símias se pôs a rir: — Examina agora, meu caro, se te
— Por Zeus, Sócrates, eu não tinha é possível compartilhar deste modo de
nenhuma vontade de rir, mas tu me ver, pois nisso reside, com efeito, uma
fizeste rir! É que, penso, se o vulgo te condição do progresso de nossos co­
ouvisse falar desse modo se conven­ nhecimentos sobre o presente objeto de
ceria de que há muito boas razões para estudo. Crês que seja próprio de um
atacar os que se ocupam de filosofia, e filósofo dedicar-se avidamente aos pre­
a ele fariam coro sem reserva os nos­ tensos prazeres tais como o de comer e
sos amigos13: “ na verdade” , diria ele, de beber?
“ os que se dedicam à filosofia são ho­ — Tão pouco quanto possível, Só­
mens que se estão preparando para crates ! — respondeu Símias.
morrer” ; e, se há uma cousa que segu- — E aos prazeres do amor?
13 Alusão ao que diz Aristófanes nas Nuvens.
— Também não!
Cf. 65 e 67 deste texto. ( N .d o T .) — E quanto aos demais cuidados
72 PLATÃO

do corpo, pensas que possam ter valor intermédio da vista ou do ouvido, ou


para tal homem? Julgas, por exemplo, quem sabe se, pelo menos em relação a
que ele se interessará em possuir uma estas coisas não se passem como os
vestimenta ou uma sandália de boa poetas não se cansam de no-lo repetir
qualidade, ou que não se importará incessantemente, e que não vemos nem
* com essas coisas se a força maior ouvimos com clareza? E se dentre as
duma necessidade não o obrigar a sensações corporais estas não possuem
utilizá-las? exatidão e são incertas, segue-se que
— Acho que não lhes dará impor­ não podemos esperar coisa melhor das
tância, se verdadeiramente for filósofo. outras que, segundo penso, são inferio­
— D e forma que, na tua opinião — res àquelas. Não é também este o teu
prosseguiu Sócrates — , as preocupa­ modo de ver?
ções de tal homem não se dirigem, de — É exatamente esse.
um modo geral, para o que diz respeito — Quando é, pois, que a alma atin­
65 aao corpo, mas, ao contrário, na medida ge a verdade? Temos dum lado que,
em que lhe é possível, elas se afastam quando ela deseja investigar com a
do corpo, e é para a alma que estão ajuda do corpo qualquer questão que
voltadas? seja, o corpo, é claro, a engana
— Sim, sem dúvida. radicalmente.
— É, pois, para começarmos a — Dizes uma verdade.
nossa conversa, em circunstâncias — Não é, por conseguinte, no ato <•
desta espécie, que se revela o filósofo, de raciocinar, e não de outro modo,
quando, ao contrário de todos os ou­ que a alma apreende, em parte, a reali­
tros homens, afasta tanto quanto pode dade de um ser?
a alma do contato com o corpo? — Sim.
— Evidentemente. — E, sem dúvida alguma, ela racio­
— Sem dúvida, a opinião do vulgo, cina melhor precisamente quando ne­
Símias, é que um homem, para o qual nhum empeço lhe advém de nenhuma
não existe nada de agradável nessa parte, nem do ouvido, nem da vista,
espécie de coisas e que com elas não se nem dum sofrimento, nem sobretudo
preocupa, não merece viver, mas, pelo dum prazer — mas sim quando se
contrário, está muito próximo da isola o mais que pode em si mesma,
morte quem assim não faz nenhum abandonando o corpo à sua sorte,
caso dos prazeres de que o corpo é quando, rompendo' tanto quanto lhe é
instrumento? possível qualquer união, qualquer con­
— É a própria verdade o que aca­ tato com ele, anseia pelo real?
bas de dizer. — É bem isso !
— E agora, dize-me: quando se — E não é, ademais, nessa ocasião
trata de adquirir verdadeiramente a que a alma do filósofo, alçando-se ao
sabedoria, é ou não o corpo um entra­ mais alto ponto, desdenha o corpo e d
ve se na investigação lhe pedimos auxí­ dele foge, enquanto por outro lado pro­
lio? Quero dizer com isso, mais ou cura isolar-se em si mesma?
b menos, o seguinte: acaso alguma ver­ — Evidentemente!
dade é transmitida aos homens por — M as que poderemos dizer, Sí-
FÉDON 73

mias, do seguinte: afirmaremos a exis­ mesmo, por si mesmo e sem mistura,


tência do “justo em si mesmo” , ou a se lançasse à caça das realidades
negaremos? verdadeiras, também em si mesmas,
— Certamente que a afirmaremos, por si mesmas e sem mistura? e isto só
por Z e u s! depois de se ter desembaraçado o mais
— E também a do “ bélo em si” e a possível de sua vista, de seu ouvido, e,
do “ bom em si” , não é verdade? numa palavra, de todo o seu corpo, já
— Com o não? que é este quem agita a alma e a impe­
— Ora, é certo que jamais viste de de adquirir a verdade e exercer o
qualquer ser desse gênero com teus pensamento, todas as vezes que está
olhos? em contato com ela? Não será este o
— Jamais. homem, Símias, se a alguém é dado
— M as então é porque os apreen- fazê-lo neste mundo, que atingirá o
deste por qualquer outro sentimento real verdadeiro?
que não por aqueles de que o corpo é — Impossível, Sócrates, falar com
instrumento? Ora, o que eu disse há mais verdade!
pouco é para todos os seres, tartto para — Assim , pois — prosseguiu Só- b
a “ grandeza” , a “ saúde” , a “ força” , crates — , todas essas considerações
como para os demais — é, numa só fazem necessariamente nascer no espí­
palavra e sem exceção — , a sua reali- rito do autêntico filósofo uma crença
e dade: aquilo, precisamente, que cada capaz de inspirar-lhe em suas palestras
uma dessas coisas é. E será, então, por uma linguagem semelhante a esta:
intermédio do corpo que o que nelas há “ Sim, é possível que exista mesmo uma
de mais verdadeiro poderá ser observa­ espécie de trilha que nos conduz de
do? Ou quem sabe se, pelo contrário, modo reto, quando o raciocínio nos
aquele dentre nós que se tiver o mais acompanha na busca. E é este então o
cuidadosamente e no mais alto ponto pensamento que nos guia: durante todo
preparado para pensar em si mesma o tempo em que tivermos o corpo, e
cada uma dessas entidades, que consi­ nossa alma estiver misturada com essa
dera e toma por objeto — quem sabe coisa má, jamais possuiremos comple­
se não é esse quem mais deve aproxi­ tamente o objeto de nossos desejos!
mar-se do conhecimento de cada uma Ora, este objeto é, como dizíamos, a
delas? verdade. Não somente mil e uma con­
— Isso é absolutamente certo. fusões nos são efetivamente suscitadas
— E quem haveria de obter em sua pelo corpo quando clamam as necessi­
maior pureza esse resultado, senão dades da vida, mas ainda somos aco- ®
aquele que usasse no mais alto grau, metidos pelas doenças — e eis-nos às
para aproximar-se de cada um desses voltas com novos entraves em nossa
seres, unicamente o seu pensamento, caça ao verdadeiro real! O corpo de
sem recorrer no ato de pensar nem à tal modo nos inunda de amores, pai­
66 ‘ vista, nem a um outro sentido, sem xões, temores, imaginações de toda
levar nenhum deles em companhia do sorte, enfim, uma infinidade de bagate­
raciocínio; quem, senão aquele que, las, que por seu intermédio (sim, verda­
utilizando-se do pensamento em si deiramente é o que se diz) não recebe-
74 PLATÃO

mos na verdade nenhum pensamento puro, então de duas uma: ou jamais


sensato; não, nem uma vez sequer! nos será possível conseguir de nenhum
Vede, pelo contrário, o que ele nos dá: modo a sabedoria, ou a conseguiremos
nada como o corpo e suas concupis- apenas quando estivermos mortos,
cências para provocar o aparecimento porque nesse momento a alma, sepa­
de guerras, dissenções, batalhas; com rada do corpo, existirá em si mesma e «
efeito, na posse de bens é que reside a por si mesma — mas nunca antes.
origem de todas as guerras, e, se somos Além disso, por todo o tempo que
irresistivelmente impelidos a amontoar durar nossa vida, estaremos mais pró­
bens, fazemo-lo por causa do corpo, de ximos do saber, parece-me, quando
« quem somos míseros escravos! Por nos afastarmos o mais possível da
culpa sua ainda, e por causa de tudo sociedade e união com o corpo, salvo
em situações de necessidade premente,
isso, temos preguiça de filosofar. M as
quando, sobretudo, não estivermos
o cúmulo dos cúmulos está em que,
mais contaminados por sua natureza,
quando conseguimos de seu lado obter
mas, pelo contrário, nos acharmos
alguma tranqüilidade, para voltar-nos
puros de seu contato, e assim até o dia
então ao estudo de um objeto qualquer
em que o próprio Deus houver desfeito
de reflexão, súbito nossos pensamentos
esses laços. E quando dessa maneira
são de novo agitados em todos os sen­
atingirmos a pureza, pois que então
tidos por esse intrujão que nos ensur­ teremos sido separados da demência
dece, tonteia e desorganiza, ao ponto do corpo, deveremos mui verossimil-
de tomar-nos incapazes de conhecer a mente ficar unidos a seres parecidos
verdade. Inversamente, obtivemos a conosco; e pôr nós mesmos conhece­
prova de que, se alguma vez quisermos remos sem mistura alguma tudo o que
conhecer puramente os seres em si, é. E nisso, provavelmente, é que há de
ser-nos-á necessário separar-nos dele e consistir a verdade. C om efeito, é lícito »
encarar por intermédio da alma em si admitir que não seja permitido apos-
mesma os entes em si mesmos. Só sar-se do que é puro, quando não se é
* então é que, segundo me parece, nos há puro!” Tais devem ser necessaria­
de pertencer aquilo de que nos declara­ mente, segundo creio, meu caro Sí­
mos amantes: a sabedoria. Sim, quan­ mias, as palavras e os juízos que profe­
do estivermos mortos, tal como o indi­ rirá todo aquele que, no correto
ca o argumento, e não durante nossa sentido da palavra, for um amigo do
vida! Se, com efeito, é impossível, saber. Não te parece a mesma cousa?
enquanto perdura a união com o — Sim, Sócrates, nada mais prová­
corpo, obter qualquer conhecimento vel.
FÉDON 75

A Purificação

— Assim pois, companheiro — não são por acaso aqueles que, no bom
continuou Sócrates — , se é verdade o sentido do termo, se dedicam à filoso­
que acabamos de dizer, que imensa fia? O exercício próprio dos filósofos
esperança não existe para aquele que não é precisamente libertar a alma e
se encontra nesta altura de minha afastá-la do corpo?
rota! Lá no além, se tal deve acontecer — Evidentemente.
em algum lugar, ele irá possuir com — Não seria, pois, como eu dizia
abundância tudo aquilo que exigiu de ao começar esta nossa conversa, uma
nós a realização de um imenso esforço, coisa ridícula por parte dum homem,
em nossa vida passada. E assim esta que durante toda a vida se houvesse
viagem, esta viagem que ora me foi esforçado por se aproximar o mais
prescrita, é acompanhada de uma feliz possível do estado em que ficamos
esperança; e o mesmo acontece a quem quando estamos mortos, irritar-se con­
quer que possa afirmar que seu pensa­ tra a morte quando esta se lhe apresen­
mento está pronto e o possa dizer tasse?
purificado.
— Absolutamente certo — disse — Por certo que seria ridículo!
Símias. — Assim , pois, Símias, em verdade
— M as a purificação não é, de fato, estão se exercitando para morrer todos
justamente o que diz uma antiga aqueles que, no bom sentido da pala­
tradição? 14 Não é apartar o mais pos­ vra, se dedicam à filosofia, e o próprio
sível a alma do corpo, habituá-la a evi­ pensamento de estar morto é para eles,
tá-lo, a concentrar-se sobre si mesma menos que para qualquer outra pessoa,
por um refluxo vindo de todos os pon­ um motivo de terrores! Eis como deve­
tos do corpo, a viver tanto quanto mos julgá-los. Não seria o supra-sumo
puder, seja nas circunstâncias atuais, da contradição que eles, por uma parte
seja nas que se lhes seguirão, isolada e sentindo-se de todos os modos mistu­
por si mesma, inteiramente desligada rados com o corpo, e por outra dese­
do corpo e como se houvesse desatado jando que sua alma existisse em si
os laços que a ele a prendiam? mesma e por si mesma, se tomassem
— É exatamente isso. de pânico e de irritação quando sobre­
— Ter uma alma desligada e posta viesse a realização de seus desejos?
à parte do corpo, não é esse o sentido Sim, não seria uma contradição se não
exato da palavra “ morte” ? se encaminhassem com alegria para o
— Ê exatamente esse o sentido. além onde, uma vez chegados, terão a
— Sim. E os que mais desejam essa esperança de encontrar aquilo por que
separação* os únicos que a desejam, em toda a sua vida se mostraram apai­

14 Esta tradição é do Orfismo. Veja Çhantepie xonados: a sabedoria, que era o seu
de la Saussaye, História das Religiões, Cap. amor; e também não seria contradi­
XII. Cf. também E. Rohde, op. cit., assim com o
tório deixarem de sentir alegria ante a
S. Reinach, Orpheus; Zielinski, La Religion
dans la G rèce Antique. (N . d o T .) esperança de serem libertados da com­
76 PLATÃO

panhia daquilo que os molestava? M as coragem também convém ou não con­


então! Os amantes, as mulheres, os fi­ vém, no seu mais alto grau, àqueles em
lhos não foram capazes, quando mor­ quem se encontram, pelo contrário, as
tos, de inspirar a muitos o desejo de ir disposições de que eu falava?
voluntariamente para as regiões do — Sem nenhuma dúvida!
Hades, na esperança de lá os encontra­ — Não acontece a mesma cousa
rem, de rever o objeto de seus amores e com a temperança, e até com a tempe­
permanecer ao seu lado; ao passo que rança no sentido comum da palavra?
um homem que fosse apaixonado pela Porventura a ausência de veemência
sabedoria, que tivesse ardorosamente nos desejos e uma atitude desdenhosa e
abraçado a esperança de em nenhuma prudente não são próprias unicamente
parte senão no Hades encontrá-la sob daqueles que» no mais alto grau, sen­
uma forma digna de ser desejada, tem desprezo pelo corpo e vivem na
então esse homem haveria de irritar-se filosofia?
no momento de morrer, então esse — Necessariamente.
homem não se rejubilaria de poder — Aliás, basta que tenhas a bonda­
dirigir-se para aquelas regiões? Eis o de de refletir um momento apenas
que deve pensar, meus companheiros, sobre a coragem e a temperança do
um filósofo, se realmente é filósofo; resto dos homens, para que percebas
pois nele há de existir a forte convic­ toda a sua estranheza.
ção de que em parte alguma, a não ser — Que queres dizer, Sócrates?
num outro mundo, poderá encontrar a — Não ignoras que a morte é
pura sabedoria. Ora, se assim é, não considerada por todo o resto dos ho­
será o cúmulo da extravagância, como mens como pertencendo ao número
disse há pouco, que exista o temor da dos grandes males.
morte no espírito de um tal homem? — A h ! bem o sei.
— Seguramente que seria o cúmu­ — O temor de mates maiores não
lo, por Z e u s! leva, por acaso, os que dentre eles têm
— Dize-me, pois — continuou Só­ mais coragem a enfrentarem a morte,
crates — , não tiveste oportunidade de quando se apresenta a ocasião de
observar várias vezes que quando enfrentá-la?
alguém se irrita no momento de mor­ — Conjo n ã o !
rer, não é a sabedoria que alguém — Assim , pois, é por serem medro­
ama 1 5, mas sim o corpo? E que esse sos e por temerem que são corajosos
alguém talvez ame ainda as riquezas, todos os homens, com exceção dos
ou as honrarias, quer uma, quer outra filósofos. E, contudo, é absurdo pensar
dessas coisas, ou quem sabe senão as que o temor e a covardia dêem
duas juntas? coragem!
— Realmente. É como dizes. — Tens toda a razão!
— Assim, Símias, o que chamamos — Vejamos agora os que dentre
15 Platão serve-se de um jogo de palavras: eles são considerados prudentes. Não é
philósophos (o que ama a sabedoria), philosô- uma espécie de desregramento, o prin­
matos (o que ama o co rp o ), philokhrématos
(o que ama as riquezas) e philótimos (o que cípio de sua temperança? Podemos
ama as honrarias). (N. do E.) afirmar enfaticamente que é impossível
FÉDON 77

serem as cousas assim, mas é um fato, contrário, a verdade nada mais seja do
contudo, que eles se encontram em que uma certa purificação de todas
situação análoga, na sua ridícula tem­ essas paixões e seja a temperança, a
perança! Porque é pelo fato de teme­ justiça, a coragem; e o próprio pensa- c
rem ser privados de outros prazeres mento outra coisa não seja do que um
que cobiçam que se abstêm em face de meio de purificação. É possível que
alguns — porque, afinal, há muitos ou­ aqueles mesmos a quem devemos a
tros que os dominam. Parece errôneo instituição das iniciações não deixem
69 a chamar de desregramento a uma certa de ter o seu mérito, e que a verdade já
continência em face dos prazeres, e de há muito tempo se encontre oculta
todavia é certo que, se esses homens sob aquela linguagem misteriosa. Todo
suportam o jugo de certos prazeres, é aquele que atinja o Hades como profa­
porque dessa forma conseguem domi­ no e sem ter sido iniciado terá como
nar alguns outros. Ora, isto concorda lugar de destinação o Lodaçal, en­
com o que acabamos de dizer há quanto aquele que houver sido purifi­
pouco. D e qualquer modo, é num cado e iniciado morará,-uma vez lá
desregramento que está o princípio de chegado, com os Deuses. É que, como
sua temperança! vês, segundo a expressão dos iniciados
— Verossimilmente, com efeito. nos mistérios: “ numerosos são os por­
— Na verdade, excelente Símias, tadores de tirso, mas poucos os Bacan-
talvez não seja em face da virtude um tes1 6” . Ora, a meu ver, estes últimos
procedimento correto trocar assim pra­ não são outros senão os de quem a
zeres por prazeres, sofrimentos por filosofia, no sentido correto do termo,
sofrimentos, um receio por um receio, constitui a ocupação. E quanto, a mim,
o maior pelo menor, tal como se se tra­ durante toda a vida e pelo menos na *
tasse duma simples troca de moedas. medida do possível, nada deixei de
Talvez, ao contrário, exista aqui ape­ fazer para pertencer ao número deles;
nas uma moeda de real valor e em nisso, pelo contrário, pus sem reservas
troca da qual tudo o mais deva ser ofe­ todos os meus esforços. Entretanto, se
recido: a sabedoria! Sim, talvez seja tudo o que fiz estava certo, se meus
t esse o preço que valem e com que se esforços obtiveram algum êxito, é
cpmpram e se vendem legitimamente coisa que espero saber com certeza
todas essas coisas — coragem, tempe­ dentro em pouco, no além, se Deus
rança, justiça — a verdadeira virtude, quiser: tal é, pelo menos, minha opi­
em suma, acompanhada de sabedoria. nião.
É indiferente que a elas se acrescentem “ Aqui está, Símias e Cebes, minha
ou se tirem prazeres, temores e tudo o defesa; são estas as razões pelas quais
mais que há de semelhante! Que tudo vos deixo, tanto a vós como a meus
isso seja, doutra parte, isolado da sabe­ donos daqui, sem sentir dor nem cóle­
doria e convertido em objeto de trocas ra, pois que — disso estou convencido
recíproc&s, talvez não passe de aluci­ !6 Alusão aos mistérios em que havia cerimô­
nação uma tal virtude: virtude real­ nias de purificação e graus de consagração: o
grau de Bacante é o superior, enquanto que os
mente servil, onde não há nada de são portadores de tirso constituem o grau inferior.
nem de verdadeiro! Talvez, muito ao (N . do T .)
78 PLATÃO

— no outro mundo irei encontrar, não peito dessas coisas. Se, pois, diante de
menos do que aqui, outros bons donos vós fui em minha defesa mais persua-
como outros bons companheiros. O sivo do que diante dos juizes de Ate­
vulgo, na verdade, é incrédulo a res­ nas, bem haja!”

A Sobrevivência da Alma

70 a

A s palavras de Sócrates suscitaram Sócrates, nasceria da verdade de teu


esta réplica de Cebes: “ Tudo isso é, na discurso! Isso, todavia, requer sem dú­
minha opinião pessoal, muito bem vida uma justificação, a qual provavel­
dito, ó Sócrates; mas de tudo isso exce­ mente não há de ser coisa fácil, para
tuo todas aquelas coisas que dizem res­ fazer crer que depois da morte do
peito à alma e que são, para os homem a alma subsiste com uma ativi­
homens, uma fonte abundante de incre­ dade real e com capacidade de pensar.
dulidade. Talvez, dizem eles, uma vez — É verdade, Cebes — disse Só­
separada do corpo, a alma não exista crates. — E então? Que nos resta
mais em nenhuma parte e talvez, com fazer? Não desejas que a respeito deste
maior razão, seja destruída e pereça no mesmo assunto examinemos se de fato
mesmo dia em que o homem morre. é verossímil ou não que as coisas se
Talvez desde o momento dessa separa­ passem dessa forma?
ção, se evole do corpo para dissipar-se — Naturalmente que sim! — res­
tal como um sopro ou uma fumaça 1 7, pondeu Cebes. — Eu teria até muito
e que assim separada e dispersa nada prazer em ficar sabendo que idéias tens
mais seja em parte alguma. E em a esse respeito.
conseqüência, se fosse verdade que em — Pelo menos, se assim fizer —
qualquer parte ela se houvesse concen­ observou Sócrates — , talvez não haja
trado em si mesma e sobre si mesma, ninguém, ao ouvir-me falar neste mo­
depois de se ter desembaraçado daque­ mento — ninguém, mesmo que seja
les males que há pouco passaste em um poeta côm ico 1 8 , — para pretender
revista, que grande e bela esperança, que sou tagarela e que falo de coisas
que não me dizem respeito! Se, pois,
i? Alusão às doutrinas dos primeiros filósofos
gregos que, ainda com o os primitivos, conside­
tal é o teu desejo, eis uma coisa que
ram a alma com o um sopro (pneum a). Foi. deve ser examinada a fundo.
aliás, por essa razão que ao conjunto dos
fenômenos que mais tarde seriam estudados se 18 Alusão a Aristófanes que, nas Nuvens, apre­
deu, até à Idade Média, o nome pneumatologia. senta Sócrates com o mero conversador ridículo.
(N. do T .) (N. do T .)
FÉDON 79

Os contrários

“ Ora, examinemos a questão por Eis, pois, o que devemos examinar:


este lado: é, em suma, no Hades que será que necessariamente, em todos os
estão as almas dos defuntos, ou não? casos em que existe um contrário, este
Pois, conforme diz uma antiga tradi­ não nasce de outra coisa que não seja
ção nossa conhecida, lá se encontram o seu próprio contrário? Exemplo:
as almas dos que se foram daqui, e elas quando uma coisa se torna maior, não
novamente, insisto, para cá voltam e é necessário que anteriormente ela
renascem dos mortos. E se assim é, se tenha sido menor, para em seguida se
dos mortos nascem os vivos, que pode­ tornar maior?
mos admitir senão que nossas almas — É.
devem mesmo estar lá? Sem dúvida, — Não é verdade que, quando ela
não poderia haver novo nascimento se torna menor, um estado anterior, em
que era maior, deve dar origem poste­
para almas que já não tivessem exis­
riormente a um estado em que será
tência, e para provar esta existência
menor?
bastaria tornar manifesto que os vivos
— Assim é.
não nascem senão dos mortos. M as se
— E, por certo, é dum mais forte
as coisas não se passarem assim, então
que nasce o mais fraco, e dum mais
algum outro argumento será necessá­
lento o que é mais rápido?
rio.
— Evidentemente.
— Isso é absolutamente certo —
— E que mais? Se uma coisa se
disse Cebes.
tom a pior, não é porque antes era
— Tom a cuidado, pois — conti­ melhor, ou mais justa porque antes era
nuou Sócrates — , não caias no erro de mais injusta?
encarar essa questão unicamente em — Com efeito, como não haveria
relação ao homem, mas, se desejas que de ser assim?
ela se torne mais fácil, considera-a — Isto nos basta. Assim obtemos
também em relação a tudo que é ani­ este princípio geral de toda geração,
mal ou planta. Quero dizer, numa segundo o qual é das coisas contrárias
palavra, que, levando em conta todas que nascem as coisas que lhes são
as coisas que nascem, devemos verifi­ contrárias.
car se em cada caso é bem assim que — Efetivamente.
nasce cada um dos seres, isto é, se os — E agora dize-me além disso, não
contrários não nascem senão dos seus ocorre com essas coisas mais ou
próprios contrários, em toda parte menos o seguinte: entre um e outro
onde existe tal relação: entre o belo, contrário não há, em todos os casos,
por exemplo, e o feio, que é, penso, o uma vez que são dois, uma dupla gera­
seu contrário; entre o justo e o injusto; ção; uma que vai de um desses contrá­
e assim em milhares de outros casos. rios ao seu oposto, enquanto outra,
80 PLATÃO

inversamente, vai do segundo para o enfim, para estes dois termos, as gera­
primeiro? Observemos, com efeito, ções são, uma, “ adormecer” , outra,
uma coisa maior e uma coisa menor: “ acordar” . Achas que isto basta, ou
não há entre as duas crescimento e não?
decrescimento, o que permite afirmar, — Certo que basta!
de uma, que ela cresce, e, da outra, que — Cabe-te agora a vez de dizer
descresce? outro tanto a respeito da vida e da
— Há. morte. N ão dirás, de início, que
— E a decomposição e a composi­ “ viver” tem por contrário “ estar
ção, o resfriamento e o aquecimento, e morto” ?
todas as oposições semelhantes, ainda — É o que eu diria.
que às vezes não possuam nomes apro­ — E, em seguida, que esses estados
priados em nossa língua, não haveriam se engendram mutuamente?
de comportar em todos os casos essa — Diria.
mesma necessidade, tanto de engen- — Que é, por conseguinte, o que
drar-se mutuamente como de admitir provém do que está vivo?
em cada termo uma geração dirigida — O que está morto.
para o outro? — E do que está morto, que é que
— Sim, perfeitamente. provém?
— Por conseguinte, que deveremos — Impossível — disse Cebes —
dizer? — continuou Sócrates. — não admitir que é o que está vivo.
Acaso “ viver” não possui um contrá­ — É, pois, de coisas mortas que
rio, assim como “ estar acordado” tem provêm, Cebes, as que têm vida, e,
por contrário “ estar dormindo” ? com elas, os seres vivos?
— E absolutamente necessário que — É claro.
tenha. — Quer dizer, então, que nossas
— Qual é? almas existem no Hades 1 9.
— “ Estar morto” . , — Parece mui verossímil.
— Não é verdade que esses estados — D as duas gerações, enfim, que
se engendram um ao outro, já que são aqui temos, não há pelo menos uma
contrários, e também que a geração que não nos deixe dúvida sobre sua
entre um e outro é dupla, já que são realidade? Por que o termo “ morrer” ,
dois? penso, está fora de dúvida! Não está?
— Assim é ! — Sim, é absolutamente certo.
— Que faremos, então? Não o
— Ora pois — continuou Sócrates
compensaremos pela geração contrá­
— vou mencionar-te um dos dois
ria? Porque, se não fosse assim, a
pares de contrários, de que há pouco
Natureza seria coxa! Ou, pelo contrá­
falei, e sua dupla geração; e tu depois
rio, será preciso supor uma geração
me indicarás o outro par. Primeiro falo
contrária ao “ morrer” ?
eu: dum lado, direi “ estar dormindo” ,
— Isso é, segundo penso, absoluta­
do outro, “ estar acordado” ; em segui­
mente necessário.
da, é de “ estar dormindo” que provém
“ estar acordado” , e de “ estar acorda­ 19 Hades. Para Platão este nome tem aqui a
significação de Invisível, o país do Invisível, o
do” que provém “ estar dormindo” ; reino das sombras. ( N .d o T .)
FÉDON 81

— E qual é essa geração? nesse caso, hás de percebê-lo, a situa­


— É “ reviver” . ção resultante tomaria uma infantili­
— Por conseguinte — continuou dade a aventura de Endimião20, que já
Sócrates — uma vez que “ reviver” não teria sentido algum, uma vez que
existe, oão se poderá dizer que o que tudo mais se encontraria no mesmo
constitui a geração dos mortos para os estado, e como ele dormiria! Suponha­
vivos é precisamente “ reviver” ? mos, agora, que todas as coisas se
— Evidentemente. unam e que não mais se separem; em
— Há, pois, acordo entre nós ainda pouco teriam realizado as palavras de
neste ponto: os vivos não provêm Anaxágoras: “ Todas as coisas esta-
menos dos mortos que os mortos dos vam juntas ! ” 2 1 Suponhamos, da
vivos. Ora, assim sendo, haveria aí, mesma forma, meu caro Cebes, que
parece, uma prova suficiente de que as venha a morrer tudo o que participa da
almas dos mortos estão necessaria­ vida, e que, uma vez mortos, os seres
mente em alguma parte, e que é de lá permaneçam nesse estado, sem reviver.
que voltam para a vida. Nesse caso, não será forçoso que tudo
— É também o que penso, Sócra­ no fim esteja morto, e que nada mais
tes; segundo os princípios em que con­ viva? Admitamos, com efeito, que o
viemos, as coisas necessariamente que vive provém de outra coisa que
devem ser assim. não a morte, e que o que vive, morre;
— Vê agora, Cebes, por que motivo haverá algum modo de evitar que tudo
não cometemos erro, segundo me pare­ se venha a perder na morte?
ce, ao ficarmos de acordo a respeito — Absolutamente nenhum, pelo
dessas coisas. Suponhamos, com efei­ que penso — disse Cebes. — Segundo
to, que não haja uma eterna compensa­ me parece, o que dizes é a pura
ção recíproca das gerações, alguma verdade.
coisa assim como um círculo em que — Nada há, com efeito, Cebes, que
giram esses contrários, mas que a gera­ conforme meu próprio modo de pensar
ção vá em linha reta somente de um seja mais verdadeiro do que isso; e não
dos contrários para o outro que lhe erramos, creio, ao ficar de acordo a
está em frente, sem voltar em sentido esse respeito. N ão, aí estão coisas bem
inverso para o outro contrário e sem
fazer a volta; então, bem o percebes, 20 Endimião: figura da lenda grega. Era um
belo adolescente, a quem Zeus deu um sono e
todas as coisas se imobilizariam na
uma mocidade eternos. A deusa da Lua se
mesma figura, ,o mesmo estado se esta­ apaixonou pelo belo rapaz, raptou-o e o depo­
beleceria em todas elas, e cessaria a sitou no monte Latmos, onde ficava a dormir,
e onde a deusa o visitava e acariciava à von­
geração. tade. (N . d o T .)
— Com o assim? 21 Palavras tiradas ao princípio do livro de
Anaxágoras, filósofo naturalista. Segundo ele,
— Nenhuma dificuldade há — a matéria e composta de pequenas partículas
disse Sócrates — em compreender o denominadas homeomenas. N o princípio do
mundo, todas as moléculas formavam uma
que acabei de dizer. Em vez disso, mistura desordenada, um caos no qual o Espí­
suponhamos, por exemplo, que existe o rito ( nous) introduziu ordem, determinando
que cada molécula procurasse suas compa­
“ adormecer” , mas que não existe o nheiras. Platão menciona ainda uma vez Ana­
“ acordar” para fazer-lhe equilíbrio; xágoras em nosso diálogo, e o critica. (N. do T.)
82 PLATÃO

reais: o reviver, o fato de que os vivos menos dessa maneira, não se consiga
provêm dos mortos, de que as almas convencer-te! Vê se, encarando a ques­
dos mortos têm existência, e — insisto tão de outra forma, poderás comparti­
» neste ponto — de que a sorte das lhar de minha opinião. Porque, o que
almas boas é melhor, e pior a das parece difícil de ser compreendido é
almas ruins! precisamente de que maneira o que
— Em verdade, Sócrates — tomou chamamos aprender seja apenas recor­
então Cebes — é precisamente esse dar.
também o sentido daquele famoso — Incredulidade a respeito disso?
argumento que (suposto seja verda­ — volveu Símias; — não, não a
deiro) tens o hábito de citar amiúde. tenho! Sinto apenas necessidade de ser
Aprender, diz ele, não é outra coisa posto nesse estado de que fala o argu­
senão recordar23. Se esse argumento é mento, e de que me façam recordar.
de fato verdadeiro, não há dúvida que, N a verdade, Cebes contribuiu um
numa época anterior, tenhamos apren­ pouco, com a exposição que fez, para
dido aquilo de que no presente nos despertar minhas lembranças e con-
73 • recordamos. Ora, tal não poderia vencer-me. M as nem por isso, Sócra­
acontecer se nossa alma não existisse tes, deixarei de ouvir, com prazer, a
em algum lugar antes de assumir, pela tua explicação.
geração, a forma humana. Por conse­ ‘ — Aqui a tens: estamos sem dúvi- c
guinte, ainda por esta razão é veros­ da de acordo em que para haver recor­
símil que a alma seja imortal. dação de alguma coisa num momento
— M as, Cebes — atalhou por sua qualquer é preciso ter sabido antes
vez Símias — de que modo se poderá essa coisa?
provar isso? Faze com que me lembre, — Sim.
pois, de momento, não consigo recor­ — E, por conseguinte, sobre o
dar-me muito bem desse argumento. ponto que segue estamos também de
— Temos disso — volveu. Cebes acordo: que o saber, se se vem a pro­
— uma prova magnífica: interroga-se duzir em certas circunstâncias, é uma
um homem. Se as perguntas são bem rememoração? Que circunstâncias
conduzidas, por si mesmo ele dirá, de sejam essas, vou dizer-te: se vemos ou
modo exato, como as coisas realmente ouvimos alguma coisa, ou se experi­
são. N o entanto, esse homem seria mentamos não importa que outra espé­
incapaz de assim fazer se sobre .essas cie de sensação, não é somente a coisa
coisas não possuísse um conhecimento em questão que conhecemos, mas
e um reto juízo! Passa-se depois às temos também a imagem de uma outra
figuras geométricas e a outros meios coisa, que não é objeto do mesmo
b do mesmo gênero, e assim se obtém, saber, mas de um outro. Então, dize-
com toda a certeza possível, que as me, não temos razão em pretender que
coisas de fato assim se passam. aí houve uma recordação, e uma recor­
— Entretanto — disse Sócrates — dação daquilo mesmo de que tivemos a
é muito provável, Símias, que, pelo imagem?
— Com o assim? d
22 Cf. M enão, 80 (N .d o T .) — Tomemos alguns exemplos. São
FÉDON 83

coisas muito diferentes, penso, conhe­ sua semelhança com aquilo de que nos
cer um homem e conhecer uma lira? recordamos?
— Efetivamente. — Sim, isso é necessário.
— Ignoras tu que os amantes, à — Examine agora — tornou Só­
vista duma lira, duma vestimenta ou de crates — se não é deste modo que isso
qualquer outro objeto de que seus ama­ se passa: afirmamos sem dúvida que
dos habitualmente se servem, rememo­ há um igual em si; não me refiro à
ram a própria imagem do amado a igualdade entre um pedaço de pau e
quem esse objeto pertenceu? Ora, aqui outro pedaço de pau, entre uma pedra
temos o que vem a ser uma recorda­ e outra pedra, nem a nada, enfim, do
ção. D a mesma forma, também acon­ mesmo gênero; mas a alguma coisa
tece que, se alguém vê Símias, muitas que, comparada a tudo isso, disso,
vezes isso lhe faz recordar Cebes. E porém se distingue: — o Igual em si
poder-se-iam encontrar milhares de mesmo. Deveremos afirmar que ele
exemplos análogos. existe, ou negar?
— Milhares, seguramente, por — Seguramente que devemos afir­
Z e u s! — assentiu Símias. má-lo, por Z eu s! — disse Cebes. —
— Assim , pois, um caso desse gê­ Muito b em !
nero constitui uma recordação, princi­ — E sabemos também o que ele é
palmente quando se trata de coisas que em si mesmo?
o tempo ou a distração já nos tinham — Também.
feito esquecer, não é verdade? — E onde obtemos o conhecimento
— Absolutamente certo. que dele temos? Acaso não foi dessas
— M as responde-me — continuou coisas de que falamos há pouco?
Sócrates: — ao ver o desenho dum Acaso não foram esses pedaços de
cavalo, o desenho de uma lira, pode-se pau, essas pedras, ou outras coisas
recordar um homem? A o ver um retra­ semelhantes, cuja igualdade, percebida
to de Símias, recordar-se de Cebes? por nós, nos fez pensar nesse igual que
— Certo que pode. entretanto é distinto delas? Ou dirás
— A o ver um retrato de Símias, não que ao teu parecer ele não se distingue
é fácil recordar-se do próprio Símias? delas? Pois bem; examina outra vez a
— Seguramente que sim ! questão, mas sob este outro aspecto:
— Assim — não é verdade? — o não acontece que pedaços de pau ou
ponto de partida da recordação em pedras, sem se modificarem, se apre­
todos esses casos é, algumas vezes, um sentem a nós ora como iguais, ora
semelhante, outras vezes também um como desiguais?
dessemelhante? — Acontece, realmente.
— É verdade. — M as então? O Igual em si acaso
— M as, considerando o caso em te pareceu em alguma ocasião desi­
que o semçlhante nos sirva de ponto de gual, isto é, a igualdade uma desigual­
partida para uma recordação qualquer, dade?
não somos forçosamente levados a — Jamais, Sócrates!
reflexões como esta: falta ou não algu­ — Logo, a igualdade dessas coisas
ma coisa ao objeto considerado, em não é o mesmo que o Igual em si.
84 PLATÃO

c — De nenhum modo, Sócrates. mos tido ocasião de conhecer esse ser


Isso para mim é evidente. de que se aproxima o dito objeto, ainda
— E, entretanto, não é certo que que imperfeitamente.
foram essas mesmas igualdades que, — Sim, é necessário.
embora sendo distintas do Igual em si, — Que poderemos concluir? Encon­
te levaram a conceber e adquirir o tramo-nos, sim ou não, no mesmo caso
conhecimento do Igual em si? a propósito das coisas iguais e do Igual
— Nada mais certo! em si?
— E, isso, quer ele se lhes asseme­ — Sim, seguramente.
lhe, quer seja dessemelhante delas, não — Portanto, é necessário que te­
é? nhamos anteriormente conhecido o
— Realmente. Igual, mesmo antes do tempo em que
— Sim, por certo; isso é indife­ pela primeira vez a visão de coisas
rente. Desde que, vendo uma coisa, a iguais nos deu o pensamento de que 75 a
visão desta faz com que penses numa elas aspiram a ser tal qual o Igual em
outra, desde então, quer haja seme- si, embora lhe sejam inferiores?
d lhança ou dessemelhança, necessaria­ — É isso mesmo.
mente o que se produz é uma recorda­ — M as também estamos de acordo
ção ? 2 3 sobre o seguinte: uma tal reflexão e a
— Necessariamente. possibilidade mesma de fazê-la provêm
— M as dize-me — continuou Só­ unicamente do ato de ver, de tocar, ou
crates: — passam-se as coisas para de qualquer outra sensação; pois o
nós da mesma forma como as igualda­ mesmo podemos dizer a respeito de
des dos pedaços de pau e como as de todas.
que falávamos há pouco? Essas coisas — D e fato, é o mesmo, Sócrates,
nos parecem iguais assim como o que é pelo menos em relação ao fim visado
Igual em si? Falta-lhes ou não lhes pelo argumento.
— Com o quer que seja, segura­
falta algo para poderem convir ao
mente são as nossas sensações que
Igual?
devem dar-nos tanto o pensamento de
— Oh, falta-lhes m uito!
que todas as coisas iguais aspiram à
— Estamos, pois, de acordo quan­
realidade própria do Igual, como o de
do, ao ver algum objeto, dizemos:
que elas são deficientes relativamente a
“ Este objeto que estou vendo agora
este. Quer dizer, senão isto? b
tem tendência para assemelhar-se a um
— Isso m esm o!
outro ser, mas, por ter defeitos, não — Assim , pois, antes de começar a
consegue ser tal como o ser em ques­
ver, a ouvir, a sentir de qualquer modo
tão, e lhe é, pelo contrário, inferior” .
que seja, é preciso que tenhamos
« Assim, para podermos fazer estas
adquirido o conhecimento do Igual em
reflexões, é necessário que antes tenha-
si, para que nos seja possível comparar
23 Alusão ao Fedro: as idéias eternas são o ser com essa realidade as coisas iguais que
verdadeiro; os objetos materiais não passam de
as sensações nos mostram, percebendo
imitações insuficientes daquelas. As almas,
antes de entrar nos corpos, contemplaram as que há em todas elas o desejo de serem
idéias eternas, e a percepção sensível dos obje­
tal qual é essa realidade, e que no
tos materiais lhes desperta uma recordação des­
sas idéias (teoria da reminiscência). (N . do T .) entanto lhe são inferiores!
FÉDON 85

— Necessária conseqüência, Sócra­ minamos “ esquecimento” não é, por


tes, do que já dissemos. acaso, o abandono de um conheci­
— Logo que nascemos começamos mento?
a ver, a ouvir, a fazer uso de todos os — Sem dúvida, Sócrates.
nossos sentidos, não é verdade? — E em troca, penso, poder-se-ia
— Efetivamente. supor que perdemos, ao nascer, essa
— Sim, mas era preciso antes, aquisição anterior ao nosso nasci­
como já dissemos, ter adquirido o mento, mas que mais tarde, fazendo
conhecimento do Igual? uso dos sentidos a propósito das coisas
— Sim. em questão, reaveríamos o conheci­
— Foi, portanto, segundo parece, mento que num tempo passado tínha­
antes de nascer que necessariamente o mos adquirido sobre elas. Logo, o que
adquirimos? chamamos de “ instruir-se” não consis­
— É o que parece. tiria em reaver um conhecimento que
— Assim , pois, que o adquirimos nos pertencia? E não teríamos razão
antes do nascimento, uma vez que ao de dar a isso o nome de “ recordar-se” ?
nascer já dele dispúnhamos, podemos — Toda a razão.
dizer, em conseqüência, que conhe­ — É possível, com efeito — e
cíamos tanto antes como logo depois assim pelo menos nos pareceu — que
de nascer, não apenas o Igual, como o ao percebermos uma coisa pela vista,
Maior e o Menor, e também tudo o que pelo ouvido ou por qualquer outro sen­
é da mesma espécie? Pois o que, de tido, essa coisa nos permita pensarmos
fato, interessa agora à nossa delibera­ num outro ser que tínhamos esquecido,
ção não é apenas o Igual, mas também e do qual se aproximava a primeira,
o Belo em si mesmo, o Bom em si, o quer ela lhe seja semelhante ou não.
Justo, o Piedoso, e de modo geral, Por conseguinte, tom o a repetir, de
digamos assim, tudo o mais que é a duas uma: ou nascemos com o conhe­
Realidade em si, tanto nas questões cimento das idéias e este é um conheci­
que se apresentam a este propósito, mento que para todos nós dura a vida
como nas respostas que lhes são dadas. inteira — ou então, depois do nasci­
De modo que é uma necessidade mento, aqueles de quem dizemos que
adquirir o conhecimento de todas essas se instruem nada mais fazem do que
coisas antes do nascimento. . . recordar-se; e neste caso a instrução
— É bem isso. seria uma reminiscência.
— E também, supondo pelo menos — É exatamente assim, Sócrates!
que depois de tê-lo adquirido não o — Qual é, por conseguinte, dessas
esqueçamos constantemente, é uma alternativas a que escolhes, Símias? O
necessidade lógica que tenhamos nas­ saber inteiro e perfeito para nós ao
cido com esse saber eterno, conservan- nascermos, ou talvez uma recordação
do-o sempre no curso de nossa vida. ulterior de tudo aquilo de que anterior­
Saber, com efeito, consiste nisto: de­ mente havíamos adquirido o conheci­
pois de haver adquirido o conheci­ mento?
mento de alguma coisa, dispor dele e — De momento, Sócrates, estou in­
não mais perdê-lo. Aliás, o que deno­ capacitado de fazer uma escolha.
86 PLATÃO

— M as responde, eis aqui uma mesmo em que adquirimos tais conhe­


escolha que estás em condições de cimentos; pois essa é a ocasião que nos
fazer, dizendo-me a seu respeito qual é resta.
a tua opinião: um homem que sabe é — É verdade, meu amigo; mas
capaz, ou não; de dar razões daquilo então, em que outra ocasião nós os
que sabe? perdemos? É certo que não dispú-
— Necessariamente, Sócrates! nhamos deles quando nascemos, e a
— Crês, além disso, que toda a este respeito estávamos de acordo faz
gente seja capaz de explicar o que são pouco. Assim , ou nós os perdemos no
os seres de que há pouco nos ocupáva­ momento mesmo em que os adquiri­
mos? m os; ou acaso podes alegar algum
— A h ! Bem o desejaria eu — res­ outro momento?
pondeu Símias. — M as receio, pelo — Impossível, Sócrates! A verdade
contrário, que amanhã não haja mais é que, sem o perceber, falei leviana­
um só homem no mundo que esteja em mente.
condições de sair-se dignamente dessa — Em conseqüência, Símias, se
tarefa. 2 4 existe, como incessantemente o temos
— Daí resulta pelo menos, Símias, repetido, um Belo, um Bom, e tudo o
que, no teu entender, o conhecimento mais que tem a mesma espécie de reali­
das idéias não pertence a todo o dade; se é a essa realidade que relacio­
mundo? namos tudo o que nos provém dos sen­
— Absolutamente n ã o ! tidos, porque descobrimos que ela já
— Vale então dizer que os homens existia, e que era nossa; se, enfim, à
se recordam daquilo que aprenderam realidade em questão comparamos
num tempo passado? esses fenômenos — então, em virtude
— Necessariamente. da mesma necessidade que fundamenta
— E que tempo foi esse em que a existência de tudo isso, podemos
nossas almas adquiriram saber acerca concluir que nossa alma existia já
desses seres? Seguramente, não havia antes do nascimento. Suponhamos, ao
de ser a datar de nosso nascimento contrário, que tudo isso não exista.
humano? Não seria, então, pura perda o que esti­
vemos a demonstrar? Não é desta
— Seguramente que n ã o !
forma que se apresenta a situação?
— Seria pois, anteriormente?
Não há acaso uma igual necessidade
— Sim.
de existência, tanto para esse mundo
— A s almas, Símias, existiam, por
ideal, como também para nossas
conseguinte, antes de sua existência
almas, mesmo antes de termos nasci­
numa forma humana, separadas dos
do, e a não-existência dó primeiro
corpos e dotadas de pensamento?
termo não implica a não-existência do
— A menos, Sócrates, que o ins­
segundo?
tante de nosso nascimento seja aquele
— Não há quem sinta, Sócrates,
24 Glorificação um tanto exagerada de Sócra­ mais do que eu — disse Símias — que
tes: amanhã Sócrates estará morto, e após sua
a necessidade é idêntica em ambos os
morte não se há de encontrar mais um bom
filósofo. (N . do T .) casos! Que bela base para uma prova,
FÉDON 87

esta semelhança entre a existência da tade do que cumpre demonstrar. É pre­


77 ■ alma antes do nascimento com a reali­ ciso provar ainda que depois da morte
dade de que acabas de falar! Quanto a ela existe como antes do nascimento.
mim, parece-me que não há evidência Só assim a demonstração atingirá ple­
que se emparelhe com esta: tudo o que namente o seu alvo.
é deste gênero possui o mais alto grau — Essa demonstração já está feita,
de existência, Belo, Bom, e tudo o mais Símias e Cebes — tornou Sócrates; —
de que falavas há um instante. Assim , tê-la-eis neste mesmo instante, uma vez
pelo que me toca, estou satisfeito com que estejais dispostos a unir, em uma
tua demonstração. só, esta prova com aquela que a prece­
— M as quanto a Cebes? — tomou deu e a respeito da qual estávamos de
Sócrates — é preciso também conven­ acordo; a saber, que tudo o que vive
cer Cebes. nasce do que é morto. Não é verdade
— Ele também há de estar satis­ que admitimos há pouco a preexis­
feito — respondeu Símias; — pelo tência da alma, e, além disso, a impos- *
menos assim creio, embora no mundo sibilidade de que seu advento à vida e
não haja em matéria de demonstra­ que o seu nascimento tenham outra
ções, duvidador mais obstinado que origem que não a morte? Logo, como é
» • ele! Entretanto julgo-o plenamente que sua existência, mesmo que se este­
convencido de que a alma existe antes ja morto, não há de ser necessária,
do nascimento. M as será verdade que uma vez que ela deve ter uma nova
depois de nossa morte ela continua a geração? De qualquer modo, já aí exis­
existir? Aqui está, Sócrates, segundo te uma prova, uma demonstração.
me parece, uma coisa que ainda não Contudo, parece-me que gostarias,
foi demonstrada. Muito pelo contrário: Cebes, e tu também, Símias, de apro­
em face de nós ainda permanece de pé fundar esta prova, pois estais domina­
dos pelo medo pueril de que um vento
a opinião vulgar há pouco lembrada
qualquer possa soprar sobre a alma no
por Cebes. É possível que, no momen­
momento de sua saída do corpo para >
to da morte, a alma não se dissipe, e se
dispersá-la e dissipá-la, sobretudo
esse não é, também, o seu fim? Com
quando, por pura coincidência, há uma
efeito, que há que impeça isso? A alma
brisa forte no instante de morrer­
pode muito bem ter alguma outra ori­
mos ! 2 5
gem, pode existir, enfim, antes de vir
Cebes nu:
para um corpo humano, mas por outro
— Não são uns poltrões, Sócrates?
lado, quando, depois de ter vindo, dele
Talvez, mas procura reconfortá-los!
se separa, é possível que também ela
Admitamos, porém, que não sejamos
encontre nesse instante o seu fim e a
poltrões, mas que dentro de cada um
sua destruição.
de nós há não sei quê de infantil a que
c — Muito bem dito, Símias! — vol­ este gênero de coisas causa medo. Por
veu Cebes. — Com efeito, é evidente isso, esforça-te para que essa criança,
que da demonstração decorre que a convencida por ti, não sinta diante da
nossa alma existe antes do nascimento.
25 Ironia contra os naturalistas, que conside­
M as é imprescindível demonstrar ram a alma com o sendo constituída pelo ar.
ainda que nos achamos apenas na me­ (N . do T .)
88 PLATÃO

morte o mesmo medo que lhe infun­ — A h, é bom ouvir isto! — disse
dem as assombrações. Cebes.
— M as é preciso então — replicou — Não é uma questão, mais ou
Sócrates — que lhe façam exorcismos menos como esta, a que temos de
todos os dias, até que as encantações o propor-nos: quais são as coisas que
tenham libertado disso uma vez por são suscetíveis de decomposição? A
todas ! 2 6 propósito de que espécie de coisas
— M as, Sócrates, onde poderemos devemos temer esse estado, e-para que
encontrar contra esse gênero de terro­ espécie de seres isso não acontece? D e­
res um bom exorcista, uma vez que pois disso, teremos ainda de examinar
estás prestes a deixar-nos? qual dos dois é o caso da alma, para
finalmente, conforme o resultado que
— A Grécia, Cebes, é bem grande
obtivermos, haurir daí confiança ou
— respondeu Sócrates — e nela não
temor com respeito à nossa alma.
faltarão homens capazes! E, além
— É verdade.
dela, quantas nações bárbaras exis­
— Não é, pois, às coisas compostas
tem ! 2 7 Dirigi vossa busca por entre
ou àquelas cuja natureza é composta,
todos esses homens; e na procura de
que cabe corresponder precisamente a
um tal exorcista não poupeis trabalhos
composição? M as, se acontece haver
nem bens, repetindo convosco, a cada
alguma coisa não-composta, não é só a
momento, que nada há em que possais
ela que convém, mais do que a qual­
com mais proveito gastar a vossa for­
quer outra coisa, o escapar a esse esta­
tuna! M as, antes disso, é necessário
do de decomposição ? 2 9
que procureis entre vós mesmos, pois
— Sim — disse Cebes — é o que
talvez vos seja muito difícil encontrar penso; assim deve ser.
uma pessoa que esteja em melhores — Dize-me então: os seres que
condições do que vós para realizar
sempre se conservam imutáveis e sem­
essa tarefa ! 2 8
pre se comportam do mesmo modo,
— Pois bem, assim faremos! — não é altamente verossímil que sejam
disse Cebes. — Agora voltemos à esses precisamente os seres que não se
investigação, no ponto em que a deixa­ decompõem? A o contrário, o que ja ­
mos, a menos que isso te cause mais é o mesmo, o que ora se com­
aborrecimento. porta de um modo, ora de outro, é ou
— Muito ao contrário, isso agra- não é isso o que chamamos composto?
da-me m uito! Por que havia de ser de — Segundo penso, é.
outro modo? — Passemos, agora, àquilo para
onde nos havia encaminhado a argu­
26 Alusão aos costumes populares, que acredi­ mentação precedente! Essa essência,
tavam na possibilidade de expulsar fantasmas
de cuja existência falamos em nossas
e assombrações mediante a recitação cantada
de certas fórmulas mágicas. ( N .d o T .) interrogações e em nossas respostas,
27 Nações bárbaras quer dizer nações estran­
geiras, e não nações incultas; Platão não igno­ 29 Opinião dos filósofos Anaxágoras e Empé-
rava que os egípcios possuíam doutrinas muito docles: o transformar-se resulta da composi­
importantes acerca da ciência. ( N .d o T .) ção de certas substâncias simples; o desapare­
28 D e fato foram os discípulos de Sócrates, cer nada mais é do que a decomposição ou
que constituíram a mais rica sementeira de desagregação destas substâncias anteriormente
doutrinas e escolas da antiguidade. ( N .d o T .) unidas num corpo composto. ( N .d o T .)
FÉDON 89

dize-me: comporta-se ela sempre do — Admitamos também isso.


mesmo modo, mantém a sua identi­ — Bem, prossigamos — tomou Só­
dade, ou ora se apresenta de um modo, crates. — Não é verdade que nos
ora doutro? Pode-se admitir que o somos constituídos de duas coisas,
Igual em si mesmo, o Belo em si uma das quais é o corpo e a outra, a
mesmo, que cada realidade em si — o alma?
ser — seja suscetível de uma mudança — Nada mais verdadeiro!
qualquer? Ou acaso cada uma dessas — Com qual dessas duas espécies
realidades verdadeiras, cuja forma é de seres podemos dizer, pois, que o
uma em si e por si, não se comporta corpo tem mais semelhança e paren­
sempre do mesmo modo em sua imuta­ tesco?
bilidade, sem admitir jamais, em ne­ — Eis uma coisa que é clara para
nhuma parte e em coisa alguma, a toda a gente: com a espécie visível.
menor alteração? — Por outro lado, que é a alma?
— É necessário — disse Cebes — Coisa visível ou coisa invisível?
que todas conservem do mesmo modo — Não é visível, pelo menos aos
a sua identidade, Sócrates! homens, Sócrates!
— E, doutra parte, que dizer dos
— Todavia, quando falamos do
múltiplos objetos, como homens, cava­
que é visível e do que não o é, fizemo-
los, vestimentas, ou quaisquer outros
lo com relação à natureza humana?
do mesmo gênero, e que são ou iguais,
Ou talvez creias que foi a propósito de
ou belos — são sempre os mesmos ou
qualquer outra coisa?
apostos às essências pelo fato de nunca
— Foi a propósito da natureza
estarem no mesmo estado nem em rela­
humana.
ção a si nem em relação aos outros?
— Portanto, que diremos da alma?
— E dessa maneira — atalhou
Que ela é coisa visível, ou que não se
Cebes — eles nunca se comportam da
vê?
mesma forma.
— Que não se vê.
— Assim , pois, a uns podes tocar,
— Vale dizer, por conseguinte, que
ver ou perceber por intermédio dos
ela é uma coisa invisível?
sentidos; mas quanto aos outros, os
— Sim.
seres que conservam sua identidade,
não existe para ti nenhum outro meio — Logo, a alma tem com a espécie
de captá-los senão o pensamento refle­ invisível mais semelhança do que o
tido, pois que os seres desse gênero são corpo, mas este tem, com a espécie
invisíveis e subtraídos à visão? visível, mais semelhança do que a
— Nada mais certo! alma?
— Admitamos, portanto, que há — Necessariamente, Sócrates.
duas espécies de seres: uma visível, — Não dizíamos, ainda há pouco,
outra invisível. que a alma utiliza às vezes o corpo
— Admitamos. para observar alguma coisa por inter­
— Admitamos, ainda, que os invi­ médio da vista, ou do ouvido, ou de
síveis conservam sempre sua identi­ outro sentido? Assim o corpo é um
dade, enquanto que com os viáveis tal instrumento, quando é por intermédio
não se dá. de algum sentido que se faz o exame da
90 PLATÃO
coisa. Entãc a alma, dizíamos, é arras­ — Com a outra espécie.
tada pelo corpo na direção daquilo que — Tomemos agora um outro ponto
jamais guarda a mesma forma; ela de vista. Quando estão juntos a alma e
mesma se torna inconstante, agitada, e o corpo, a este a natureza consigna ser­
titubeia como se estivesse embriagada: vidão e obediência, e à primeira co­
isso, por estar em contato com coisas mando e senhorio. Sob este novo
desse gênero. aspecto, qual dos dois, no teu modo de
— Realmente. pensar, se assemelha ao que é divino, e
— M as quando, pelo contrário — qual o que se assemelha ao que é mor­
nota bem ! — ela examina as coisas tal? Ou acaso pensas que o que é divi­
por si mesma, quando se lança na dire­ no existe, por sua natureza, para dirigir
ção do que é puro, do que sempre exis­ e comandar, e o que é mortal, ao
te, do que nunca morre, do que se com ­ contrário, para obedecer e para ser
porta sempre do mesmo modo — em escravo?
virtude de seu parentesco com esses — Penso como tu.
seres puros — é sempre junto deles — Com qual dos dois, portanto, a
que a alma vem ocupar o lugar a que alma se assemelha?
lhe dá direito toda realização de sua — Nada mais claro, Sócrates! A
existência em si mesma e por si alma, com o divino; o corpo, com o
mesma. Por isso, ela cessa de vaguear mortal.
e, na vizinhança dos seres de que fala­
— Bem; examina agora, portanto,
mos, passa ela também a conservar
Cebes, se tudo o que foi dito nos con­
sempre sua identidade e seu mesmo
duz efetivamente às seguintes conclu­
modo de ser: é que está em contato
sões: a alma se assemelha ao que é
com coisas daquele gênero. Ora, este
divino, imortal, dotado da capacidade
estado da alma, não é o que chamamos
de pensar, ao que tem uma forma
pensamento?
única, ao que é indissolúvel e possui
— Muito bem dito, Sócrates, e sempre do mesmo modo identidade: o
muito verdadeiro! corpo, pelo contrário, equipara-se ao
— Portanto, ainda uma vez: com que é humano, mortal, múltiforme,
qual das duas espécies mencionadas, desprovido de inteligência, ao que está
segundo te parece, diante de nossos sujeito a decompor-se, ao que jamais
argumentos passados e dos de agora, a permanece idêntico. Contra isto, meu
alma tem mais semelhança e paren­ caro Cebes, estaremos em condições
tesco? de opor uma outra concepção, e provar
— Penso não haver ninguém, Só­ que as coisas não se passam assim?
crates, por mais dura que tenha a cabe­ — N ão, Sócrates.
ça, que seja capaz de não concordar, — Que se segue daí? Um a vez que
seguindo este método, em que, em tudo as coisas são assim, não é acaso uma
e por tudo, a alma tem mais seme­ pronta dissolução o què convém ao
lhança com o que se comporta sempre corpo, e à alma, ao contrário, uma
do mesmo modo, do que com as coisas absoluta indissolubilidade, ou pelo
que não o fazem. menos qualquer estado que disso se
— E o corpo, por seu lado? aproxime?
FÉDON 91

— E por que não, com efeito? lugar, um lugar que lhe é semelhante,
— M as a esta altura podes fazer a lugar nobre, lugar puro, lugar invisível,
seguinte reflexão: depois da morte do o verdadeiro país de Hades, para cha­
c- homem, o que nele há de visível, seu má-lo por seu verdadeiro nome30,
corpo, a parte que continua visível, ou, perto do Deus bom e sábio, lá para
por outra, o que chamamos cadáver, a onde minha alma deverá encaminhar-
isto é que convém dissolver-se, desa­ se dentro em breve, se Deus quiser;
gregar-se, dissipar-se em fumo, e entre­ então há de ser essa alma, digo, cujos
tanto nada de tudo isso lhe acontece caracteres e constituição natural aca­
imediatamente. Bem ao contrário, ele bamos de ver, então há de ser ela que,
resiste durante um tempo relativa­ tão depressa se separe do corpo, se
mente longo. Sobretudo para um corpo dispersará e aniquilará, assim como
que, ao morrer, está cheio de vida e em pretende o comum dos homens? Não, - *
todo o seu viço, tal duração é de fato muito ao contrário, meu caro Cebes,
muito grande. Ademais, é fato que, se meu caro Símias; muito ao contrário,
for reduzido e embalsamado como as vede o que acontece.
múmias do Egito, sua conservação
será quase perfeita durante uma dura­ 30 Alusão à filosofia contemporânea de Platão:
os gregos derivavam a palavra isrçç
ção, por assim dizer, incalculável.
(Hades) de a e i&fjc encontra­
d Além disso há, mesmo num corpo em ram nesta palavra a significação de invisível,
putrefação, certas partes, como os explicando simplesmente que Hades, com o rei
dos mortos, mora com as almas destes debaixo
ossos, os tendões e outras do mesmo da terra, e é por isso invisível aos homens e
gênero, que são, pode-se dizer, imor­ aos outros deuses. Mas Platão modifica a acep­
ção: Hades é o “ invisível verdadeiro” , isto é,
tais. Não é verdade? a substância invariável, eterna e imperceptível
— É . aos sentidos, mas ‘captável pelo espírito, que
depois da morte se aparta dos obstáculos da
— M as então a alma, aquilo que é matéria (corp o) e vê diretamente o Hades,
invisível e que se dirige para um outro isto é, o ser eterno. (N. do T .)

O Destino das almas

“ Suponhamos que seja pura a alma tado que ela tendeu. O que eqüivale
que se separa do corpo: deste ela nada exatamente a dizer que ela se ocupa,
leva consigo, pela simples razão que, no bom sentido, com a filosofia, e que,
longe de ter mantido com ele durante a de fato, sem dificuldade se prepara » «
vida um contato voluntário, ela conse­ para morrer. Poder-se-á dizer, pois, de
guiu, evitando-o, concentrar-se em si uma tal conduta, que ela não é um
mesma e sobre si mesma, e também exercício para a morte?”
pela razão de que foi para esse resul­ — Sim, realmente é isso.
92 PLATÃO

— Ora, se tal é o seu estado, é para — Realmente.


o-que se lhe assemelha que ela se diri­ — Sim, mas isso tem peso, meu
ge, para o que é invisível, para o que é caro; não o duvidemos: é denso, terro­
divino, imortal e sábio; é para o lugar so, visível! E uma vez que é este o con­
onde sua chegada importa para ela na teúdo de tal alma, por ele é que ela se
posse da felicidade, onde divagação, tom a pesada, atraída e arrastada para
irracionalidade, terrores, amores tirâ­ o lugar visível, devido ao medo que lhe
nicos e todos os outros males da condi­ inspira o que é invisível e o que chama­
ção humana cessam de lhe estar liga­ mos de país do Hades; essa alma
dos, e onde, como se diz dos que ronda os monumentos funerários e as d
receberam a iniciação, ela passa na sepulturas, ao redor dos quais de fato
companhia dos Deuses o resto do seu foram vistos certos espectros sombrios
tempo! É deste modo, Cebes, que de almas, imagens apropriàdas das
devemos falar, ou cumpre-nos procu­ almas de que falamos. Elas, por terem
rar outro? sido libertadas, em estado de impureza
— Esse mesmo, por Z e u s! e de participação com o visível, são
b — Segundo me parece, pode-se assim também elas visíveis!
também supor o contrário: que esteja — Pelo menos é verossímil, Sócra­
poluída, e não purificada, a alma que tes!
se separa do corpo; do corpo, cuja — Seguramente, Cebes! E o que
existência ela compartilhava; do certamente não o é, é pretender que
corpo, que ela cuidava e amava, e que essas almas sejam as almas dos bons.
a trazia tão bem enfeitiçada por seus São as dos maus, que se vêem obriga­
desejos e prazeres, que ela só conside­ das a vaguear nesses lugares, que rece­
rava real o que é corpóreo, o que se bem assim o castigo de sua maneira de
pode tocar, ver, beber, comer e o que viver anterior, que foi má. E vagueiam
serve para o amor; ao passo que se desse modo até o momento em que c
habituou a odiar, a encarar com receio encontram o companheiro desejado,
e a evitar tudo quanto aos nossos olhos algo corporiforme, e tomam a entrar
é tenebroso e invisível, inteligível, pelo num corpo! Ora, aquilo a que elas
contrário, pela filosofia e só por ela assim novamente se juntam, deve ser,
apreendido! Se tal é o seu estado, crês como é natural, possuidor dos mesmos
c que essa alma possa, ao destacar-se do atributos que as distinguiram no curso
corpo, existir em si mesma, por si de sua vida.
mesma e sem mistura? — Quais são, Sócrates, esses atri­
— É totalmente impossível. butos de que falas?
— Muito ao contrário, julgo eu, tu — Exemplo: em corpos de asno ou
a crês mesclada de qualidades corpó- de animais semelhantes é que muito
reas que sua familiaridade com o naturalmente irão entrar as almas
corpo, de cuja existência partilhou, lhe daqueles para quem, a voracidade, a
tomou íntimas e naturais, pois que ja ­ impudicícia, a bebedeira constituíram
mais cessou de viver em comunhão um hábito, as almas daqueles que ja ­
com ele e até mesmo procurou multi­ mais praticaram a sobriedade. Não
plicar as suas ocasiões de contato? pensas assim? « °
FÉDON 93

— Perfeitamente! É muito natural, que nós chamámos de temperança e de


com efeito. justiça e nas quais eles se formaram
— E para aqueles para os quais o pela força do hábito e do exercício,
mais alto prêmio era a injustiça, a tira­ sem o auxílio da filosofia e da refle­
nia, a rapina, esses animarão corpos de xão?
>

lobos, falcões e milhafres. Ou acaso — M as em que sentido, dize-me,


pode haver outra destinação para essas são esses os mais felizes?
almas? — É que muito naturalmente sua
— N ão. E bem é que assim seja — migração se fará, de um modo adequa­
disse Cebes; — as almas desses ho­ do, para alguma espécie animal que
mens tomarão essas formas. tenha hábitos sociais e seja organizada
— E é perfeitamente claro, para de modo policiado, sem dúvida abe­
cada um dos outros casos, que o desti­ lhas, vespas, ou formigas; ou ainda, se
no das almas corresponderá às seme­ é que voitam realmente à forma huma­
lhanças com o seu comportamento na na, será para dar nascimento a pessoas
vida? honestas.
— Bem claro; e como não haveria — Naturalmente.
de ser assim? — E quanto à espécie divina, abso­
— Os mais felizes — continuou lutamente ninguém, se não filosofou, se
Sócrates — serão aqueles cujas almas daqui partiu sem estar totalmente puri­
hão de ter um destino e lugar mais ficado, ninguém tem o direito de atin­
agradáveis, serão aqueles que sempre gi-la, a não ser unicamente aquele que
exerceram essa virtude social e cívica é amigo do saber!

A função da filosofia

“ Pois bem, aí estão, Símias, meu que lhes confere o infortúnio, não é
amigo, e tu, Cebes, os motivos pelos capaz de atemorizá-los, como faz aos
quais os que, no exato sentido da pala­ que amam o poder e as honras. Por
vra, se ocupam com a filosofia, perma­ isso, eles permanecem afastados dessa
necendo afastados de todos os desejos espécie de desejos.”
corporais sem exceção, mantendo uma — Aliás, o contrário de tudo isso,
atitude firme e não se entregando às Sócrates, é que lhes ficaria m al! —
suas solicitações. A perda de seu patri­ acrescenta Cebes.
mônio, a •pobreza não lhes infunde — D e fato, por Zeu s! Eis aí por
medo, como à multidão dos amigos que motivo se aparta de todas essas
das riquezas; e, da mesma forma, a pessoas, Cebes, o homem que tem al­
existência sem honrarias e sem glória, guma preocupação com sua alma e
94 PLATÃO

cuja vida não é gasta em mimar o Que não creiam enfim senao no pró­
corpo. Seu caminho não se confunde prio testemunho desde que tenham
com o daqueles que não sabem para examinado bem o que cada coisa é na
onde vão. Acreditando que não deve sua essência e que se persuadam de
agir em sentido contrário a filosofia, que as coisas que são examinadas por b
nem ao que ela proporciona para liber- meio de um intermediário qualquer
tar-nos e purificar-nos, esse homem nada possuem de verdadeiro, e perten­
volta-se para o lado dela e segue-a na cem ao gênero do sensível e do visível
rota que ela lhe aponta. enquanto que o que elas vêem pelos
— De que modo, Sócrates? seus próprios meios é inteligível e, ao
— Vou dizer-te. É uma coisa bem mesmo tempo, invisível!
conhecida dos amigos do saber, que “ Contra essa libertação a alma do
sua alma, quando foi tomada sob os verdadeiro filósofo persuade-se de que
cuidados da filosofia, se encontrava não se deve opor, e por isso se afasta
completamente acorrentada a um tanto quanto possível dos prazeres,
corpo e como que colada a ele; que o assim como dos desejos, dos incômo­
corpo constituía para a alma uma dos e dos terrores. Ela sabe com efeito
espécie de prisão, através da qual ela que, quando sentimos com intensidade
devia forçosamente encarar as realida­ um prazer, um incômodo, um terror ou
des, ao invés de fazê-lo por seus pró­ um desejo, por maior que seja o mal c
prios meios e através de si mesma; que, que possamos sofrer nesse momento,
enfim, ela estava submersa numa igno­ entre todos os que se podem imaginar
rância absoluta. E o que é maravilhoso — cair doente, por exemplo, ou arrui­
nesta prisão, a filosofia bem o perce­ nar-se por causa de suas paixões — ela
beu, é que ela é obra do desejo, e quem sabe que não há nenhum desses males
»3 ». concorre para apertar ainda mais as que não seja ultrapassado por aquele
suas cadeias é a própria pessoa! que é o mal supremo; é deste mal que
Assim, digo, o que os amigos do saber sofremos, e não o notam os!”
não ignoram é que, uma vez tomadas — E que mal é esse, Sócrates?
sob seus cuidados as almas cujas con­ — É que em toda alma humana,
dições são estas, a filosofia entra com forçosamente, a intensidade do prazer
doçura a explicar-lhes as suas razões, a ou do sofrimento, a propósito disto ou
libertá-las, mostrando-lhes para isso de daquilo, se faz acompanhar da crença
quantas ilusões está inçado o estudo de que o objeto dessa emoção é tudo o
que é feito por intermédio dos olhos, que há de mais real e verdadeiro, em­
tanto como o que se faz pelo ouvido e bora tal não aconteça. Esse é o efeito
pelos outros sentidos; persuadindo-as de todas as coisas visíveis, não é?
ainda a que se livrem deles, a que evi­ — Efetivamente.
tem deles servir-se, pelo menos quando — E não é em tais afetos que no ' J
não houver imperiosa necessidade; mais alto grau a alma fica sujeita às
recomendo-lhes que se concentrem e se cadeias do corpo?
voltem para si, não confiando em nada — D e que modo, dize?
mais do que em si mesmas, qualquer — A ssim : todo prazer e todo sofri­
que seja o objeto de seu pensamento. mento possuem uma espécie de cravo
FÉDON 95

com o qual pregam a alma ao corpo, presente nele; toma o verdadeiro, o


fazendo, assim, com que ela se tome divino, o que escapa à opinião, por
material e passe a julgar da verdade espetáculo e também por alimento, fir­
das coisas conforme as indicações do memente convencida de que assim
corpo. E pelo fato de se conformar a deve viver enquanto durar sua vida, e h
alma ao corpo em seus juízos e que deverá, além disso, após o fim
comprazer-se nos mesmos objetos, ne­ desta existência, ir-se para o que lhe é
cessariamente deve produzir-se em aparentado e semelhante, desembara­
ambos, segundo penso, uma conformi­ çando-se destarte da humana miséria!
dade de tendências assim como tam­ Tendo sido esse o seu alimento, não há
recear que ela tenha medo; nem —
bém uma conformidade de hábitos; e
porquanto foi precisamente nisso, Sí­
sua condição é tal que, em conse­
mias e Cebes, que ela se exercitou —
qüência, ela jamais atinge o Hades em
que tema vir a decompor-se no mo­
estado de pureza, mas sempre contami­
mento em que se separar do corpo, ou
nada pelo corpo de que sai; o resultado
ser dispersada ao sopro dos ventos, ou
é que logo recai num outro corpo, onde
dissipar-se em fumo e, uma vez dissol­
de certa forma se planta e deita raízes.
vida, não ser mais nada em nenhuma
E por força disso fica desprovida de
parte!
' todo direito a participar da existência
Depois destas palavras de Sócrates,
do que é divino e, portanto, puro e
fez-se um silêncio que durou algum c
único em sua forma.
tempo. Sócrates, isso se notava ao
— Tuas palavras, Sócrates — disse
olhá-lo, tinha o espírito completamente
Cebes — são a própria verdade!
absorto na meditação do argumento
— Aí estão, pois, Cebes, os moti­
que acabara de expor, e o mesmo
vos pelos quais aqueles que são, de
acontecia com a maioria dos presentes.
fato, amigos do saber, são prudentes e
Quanto a Cebes e Símias, estavam
corajosos, e não pelas razões que alega
conversando a meia voz. Vendo issò,
o vulgo. Ou talvez penses também
Sócrates dirigiu-se aos dois: — Dizei-
como o vulgo?
me se também não é vosso pensamento
— N ão, seguramente que n ã o ! que falta alguma coisa ao que até
a — Não, é verdade! Muito pelo agora dissemos? É bem certo que para
contrário, eis como, sem dúvida, refle­ trás ficou mais de um ponto suspeito,
tirá uma alma de filósofo: ela não irá que daria margem a ataques contra
pensar que, sendo o trabalho da filoso­ nós se não fizéssemos uma suficiente
fia libertá-la, o seu possa ser; enquanto revisão deles todos. M as, se falais de
a filosofia a liberta, o de se entregar outra coisa neste momento, então
voluntariamente às solicitações dos estou a interrogar-vos em v ã o ! Se, pelo
prazeres e dos sqfrimentos, para tomar
31 Penélope: esposa de*Ulisses, figura da Odis­
a colocar-se nas cadeias, nem o de rea­ séia. Na ausência de seu marido, perseguida
lizar o labor sem fim duma Penélope por muitos pretendentes que desejavam com
ela casar, Penélope prometeu desposar um de­
que trabalhasse de maneira contrária les quando houvesse acabado de tecer um pano
àquela com que trabalhou aquela31. em que estava trabalhando. Mas desfazia du­
rante a noite a parte que tecera de dia, de m o­
N ã o ! ela acalma as paixões, liga-se do que jamais concluiu o trabalho, nem casou
aos passos do raciocínio e sempce está com nenhum pretendente. ( N .d o T .)
96 PLATÃO

contrário, é isto mesmo o que vos nenhuma ave canta quando sente fome
embaraça, nada de hesitações! Falai, ou frio, ou quando sente dor; não, nem
dizei, o que vos parecer necessário e, mesmo o rouxinol, a andorinha e a
por vossa vez, tomai-me por auxiliar, poupa, que são precisamente, segundo
se acreditais que vos será mais fácil a tradição, os pássaros cujo canto é
sair das dificuldades com o meu um lamento dolorido. Para mim, não é
auxílio! a dor que faz com que eles cantem,
— Pois bem, Sócrates — respon­ como não é ela que faz cantar os cis­
deu Símias — vou dizer-te a verdade; nes32. Estes, muito ao contrário, pro­
já faz um bom tempo que, sentindo vavelmente porque são as aves de
certa dificuldade a propósito do teu Apoio, possuem um dom divinatório, e
argumento, cada um de nós está procu­ é a presciência dos bens existentes no
rando fazer com que o outro se decida Hades que os faz, no dia de sua morte,
e te interrogue; temos, com efeito, cantar de modo tão sublime, como ja ­
muito desejo de ouvir-te falar, mas mais o fizeram no curso anterior de
receamos também causar-te incômodo sua existência. Ora, eu, quanto a mim,
e angústia, pois levamos em conta a penso ter a mesma missão que os cis­
situação penosa em que te encontras! nes; creio que estou consagrado ao
Ouvindo isso, Sócrates teve um leve mesmo Deus, que os cisnes não me
sorriso: — Misericórdia, Símias! superam na faculdade divinatória que
Como me seria difícil e incômodo con­
recebi de nosso Soberano33, e que, do
vencer a outros homens de que não
mesmo modo, não sinto mais tristeza
considero penosa a situação em que
do que ele ao separar-me desta vida.
atualmente me encontro, uma vez que Essas são as cousas que deveis ter em
não consigo convencer disso nem a vós mente quando quiserdes falar e propor
próprios, e que, além disso, tendes a as questões que desejardes, tanto quan­
desconfiança de que nesta ocasião eu to o permitirem os Onze 3 4 em nome
esteja possuído de uma enorme triste­ do povo de Atenas.
za, como nunca senti em minha vida
— Alegra-me, Sócrates, esse teu
passada! Isso, possivelmente, provém
modo de falar! — disse Símias. —
de me julgardes menos bem dotado do
Vou, portanto, expor-te o que está me
que os cisnes para a adivinhação.
embaraçando, e Cebes, depois, dirá
Realmente, quando eles sentem aproxi-
por que motivo não aceita o que até
mar-se a hora da morte, o canto que
agora foi dito. Meu ponto de vista, Só­
antes cantavam se torna mais fre­
crates, a respeito de questões deste gê-
qüente e mais belo do que nunca, pela
alegria que sentem ao ver aproximar-se 32 Há aqui alusão a uma antiga lenda da Ática,
o momento em que irão para junto do segundo a qual a andorinha e o rouxinol são
Procne e Filomela, filhas do rei Pandião, de
Deus a que servem. M as os homens, Atenas. (N . d o T .)
com o pavor que têm da morte, calu­ 33 O cisne é a ave consagrada a A poio, deus
da adivinhação. Sócrates aqui se compara poe­
niam até os cisnes: estes estão, dizem, ticamente ao cisne e considera com o seu derra­
a lamentar a sua morte, e a dor é que deiro canto a doutrina sobre a imortalidade da
alma. (N . d o T .)
lhes inspira aquele canto supremo. N o 34 Funcionários encarregados da execução dos
entanto, ninguém se lembra de que condenados e de fiscalizar a prisão. (N . d o T .)
FÉDON 97

nero — e sem dúvida será também o lugar a esta mesma argumentação: a


teu — é que um conhecimento certo harmonia, dir-se-ia então, é uma coisa
disso tudo é, na vida presente, se não invisível, incorpórea, absolutamente
impossível, pelo menos extremamente bela, divina, enfim, quando a lira é
difícil de obter. M as por outro lado, dedilhada, ao passo que a própria lira
está claro, se as opiniões relacionadas e suas cordas são coisas corpori-
com tudo isso não forem submetidas a formes, compostas, terrenas, aparen­
uma crítica realmente aprofundada, se tadas com a natureza mortal. Supo­
se abandonar o assunto sem antes ser nhamos, pois, que alguém quebre a
examinado em todos os sentidos — lira, que se lhe cortem ou rebentem as
então, é porque se tem uma natureza cordas; e depois que se sustente, com
fraca! É necessário, pois, a este propó­ uma argumentação idêntica à tua, que
sito, fazer uma das cousas seguintes: a harmonia de que falamos existe
não perder a ocasião de instruir-se, ou necessariamente e que não foi des­
procurar aprender por si mesmo, ou truída. De que modo compreender que
então, se não se for capaz nem de uma subsistam, tanto a lira, depois que suas
nem de outra dessas ações, ir buscar cordas se partiram, como as próprias
em nossas antigas tradições humanas o cordas, que são de natureza mortal, e a
que houver de melhor e menos contes­ harmonia — a harmonia que é da
tável, deixando-se assim levar como mesma natureza e da mesma família
sobre uma jangada, na qual nos arris­ que o divino e o imortal, destruída
caremos a fazer a travessia da vida, mesmo antes do que é mortal? Não,
uma vez que não a podemos percorrer, seria o que diriam; é necessário que a
com mais segurança e com menos ris­ harmonia continue ainda a existir em
cos, sobre um transporte mais sólido: alguma parte, embora a madeira da
quero dizer, uma revelação divina! lira e suas cordas apodreçam, à har­
Assim , pois, já estamos entendidos: monia nada sucederá! Aliás, Sócrates,
não terei, de minha parte, cerimônia creio que não esqueceste aquela con­
em interragar-te, já que a isso me con­ cepção da natureza da alma, a que
vidas, e para que no futuro eu não damos preferência. Admitido que
tenha de recriminar-me por não te nosso corpo seja semelhante a um
haver dito hoje o que penso! D e fato, instrumento de cordas e que sua unida­
Sócrates: depois da revisão à qual eu de seja mantida pelo calor e o frio, pelo
mesmo submeti, como Cebes, o que se seco, pelo úmido e outras qualidades
disse em nossa conversa, fiquei con­ análogas, é a combinação e a harmo­
vencido de que as provas não são nia desses mesmos contrários que
satisfatórias. constitui a nossa alma, quando se com­
Então disse Sócrates: — Pode binam em proporções convenientes.
muito bem ser, meu amigo, que real­ Portanto, se justamente a alma é uma
mente estejas com a verdade. M as harmonia, a coisa é clara: desse modo
dize-me em que, precisamente, não sempre que nosso corpo for excessiva­
estás satisfeito. mente relaxado ou retesado pelas
— É que, para mim, uma harmonia doenças ou por outros males, é neces­
e uma lira com suas cordas podem dar sário que a alma, apesar de divina, seja
98 PLATÃO

logo destruída como as outras harmo­ não tenha sido (se pelo menos não é
nias, quer se realizem em sons, quer presunção afirmá-lo) demonstrado de
em outras formas de arte; ao passo que modo plenamente satisfatório. M as,
o despojo corporal resiste ainda por pretender que depois de nossa morte a
muito tempo, até o dia em que o tenha alma continue a existir, eis uma coisa
d destruído o fogo ou a putrefação. Exa­ com que não estou de acordo. Por
mina, pois, Sócrates, o que poderíamos certo, a alma é uma entidade mais
objetar a essa teoria segundo a qual a vigorosa e durável que o corpo; e isso
alma, sendo a combinação dos elemen­ não concedo à objeção levantada por
tos de que é feito o corpo, deve ser des- Símias, pois minha convicção é a de
truídá em primeiro lugar quando so­ que, em todos os pontos, a superiori­
brevêm aquilo a que chamamos morte. dade da alma é imensa. “ Então por que
Sócrates teve aquele olhar pene­ motivo, dir-me-ão, permaneces ainda
trante que, em muitas circunstâncias, em dúvida? Não reconheces que, uma
lhe era habitual, e sorriu: — Há algu­ vez morto o homem, o que continua a
ma verdade, palavra!, no que Símias subsistir é precisamente o que há de
acaba de dizer! Com efeito, se há den­ mais frágil? E quanto ao que é mais
tre vós alguém que esteja menos atur­ durável não achas necessário que con­
tinue a viver durante esse tempo?”
dido do que eu por suas palavras, por
Examina agora se minha linguagem
que não lhe responde? Pois é um temí­
encerra alguma verdade, pois eu, natu­
vel golpe que ele parece ter desfechado
ralmente, assim como Símias, sinto
contra as minhas provas! Contudo,
necessidade duma imagem para que
« segundo penso, antes de responder-lhe
me possa exprimir. Para mim, com
devemos primeiramente ouvir dos lá­
efeito, seria isso o mesmo que dizer
bios de Cebes o que este por sua vez
alguém a respeito da morte dum velho
reprova no meu argumento. Assim
tecelão: “ O bom do velho tecelão não
teremos tempo para refletir sobre o que
está morto; ele continua a viver em
devemos dizer. Depois disso, ouvidos
qualquer parte, e, como prova, aqui
ambos, por-nos-emos acordes com está o vestuário que ele usava, e que ele
eles, se julgarmos que seu canto está próprio tecera, conservado em bom es­
bem cantado; senão, será porque o tado e não destruído.” E a quem não
processo do argumento deve ser revisa­ concordasse, poderia fazer esta per­
do. Pois bem, Cebes, avante! Fala, por gunta: “ Qual dos dois, em seu gênero,
tua vez, sobre o que te preocupa. é mais durável: o homem ou a veste de
— Para mim — disse então Cebes que se serve e traz no corpo?” Então,
— é bem claro que o argumento ainda
baseado na resposta de que muito mais
se encontra na mesma situação e conti­ durável é o homem, imaginaria ter
nua a ser passível das mesmas obje- demonstrado que, com maior razão
s ;« ções de há pouco. Que nossa alma ainda, o homem deve permanecer intei­
realmente existiu antes de assumir a ro em alguma parte, pois o que é
forma que agora possui, isso não sou menos durável do que ele não foi
obrigado a admitir. Nada aí existe que destruído!
vá contra o meu modo de pensar e que “ Contudo, segundo penso, as coisas
FÉDON 99

não se passam assim, Símias; e, por­ dizer: “ A esse raciocínio, concedo


tanto, deves tu também prestar atenção ainda mais do que tu” . E o que lhe
ao que vou dizer, pois no que respeita concederia é que não somente as nos­
à argumentação precedente, todos sas almas existem no tempo que prece­
podem facilmente perceber sua inge­ deu o nascimento, mas que também
nuidade. E vou prová-lo: se é verdade nada impede, mesmo após a morte,
que o desaparecimento de nosso tece- que algumas delas continuem a existir,
d lão, após haver usado uma multidão de para dar lugar a futuros nascimentos e
tais vestuários e de haver tecido outros a novas mortes. Nesta hipótese, com
tantos, ocorre depois deles todos, mas efeito, a alma é bastante forte para
antes daquele que foi sua última vesti­ fazer frente a esses repetidos nascimen­
menta, aí não se encontra menor moti­ tos. Entretanto, depois de haver conce­
vo para afirmar que o homem seja infe­ dido isto, esse alguém se recusaria a
rior às suas vestes e mais frágil do que admitir que a alma não se esgote nes­
elas! Pois bem: esta mesma imagem, ses múltiplos nascimentos e não termi­
se não me engano, é aplicável à alma ne por ser radicalmente destruída, afi­
em sua relação com o corpo. Quem nal, em uma dessas mortes. Ora, essa
fizer uso dela dirá (acertadamente, no morte, essa dissolução do corpo que b
meu entender) que a alma é coisa durá­ vibra na alma o golpe fatal, não há
vel, e o corpo, por seu lado, coisa frágil homem, diria esse alguém, que a possa
e de menor duração. Quem assim fizer, conhecer, pois é impossível a quem
poderá acrescentar ainda que cada quer que seja que possa ter essa
alma usa diversos corpos, principal­ impressão. M as, se as coisas são
mente se ela vive muitos anos, pois assim, não há homem que possa estar
sendo o corpo — como é possível tranqüilo diante da morte, a menos que
supor — uma torrente que se esvai ele seja capaz de provar que a alma é
enquanto o homem vivè, a alma inces­ totalmente imortal e imperecível. Se
santemente renova o seu vestuário assim não for, necessariamente, todo
perecível. M as, assim mesmo, é neces­ aquele que vai morrer deve sempre
sário que a alma, no dia em que for temer que sua alma, no momento em
destruída, se revista com a última ves­ que se separa do corpo, seja destruída
timenta que teceu e que seja esta a inteiramente.”
única anteriormente à qual tenha lugar Tendo-os ouvido falar, todos nós
esta destruição. Um a vez aniquilada a experimentamos um sentimento de an­
alma, o corpo patentearia desde logõ a gústia, como aliás, mais tarde, mutua- c
sua fragilidade essencial e, caindo em mente no-lo confessamos. O que pouco
podridão, não tardaria a desaparecer antes fora exposto nos havia firme­
definitivamente. Por conseguinte, não mente convencido, e eis que agofa
estamos -ainda em condições de aceitar esses dois nos lançam outra vez na
o argumento de que tratamos, e, assim, inquietação e nos abandonam à incre­
confiar em que mesmo depois de nossa dulidade, não só quanto aos argumen­
morte nossa alma continue a existir em tos já expostos, mas também de ante­
alguma parte! mão quanto a tudo que se viesse a
si * “ A prova é que qualquer um poderia dizer a seguir. Não seriamos nós, real-
100 PLATÃO

mente, incapazes de decidir de obter estáveis? Ou, ao contrário, acudiu com


solução sobre o que quer que fosse? serenidade em socorro de sua teoria? E
Ou era porventura a própria questão esse socorro foi eficaz ou não? Conta-
que não comportava certeza? nos tudo isso minuciosamente, com a
E Q U É C R A TE S maior exatidão de que fores capaz.
— A h, Fédon, bem vos com­
FÉDON:
preendo! A mim mesmo, com efeito, — Em verdade, Equécrates, muitas
enquanto te escutava, me ocorriam vezes me maravilhei diante de Sócra­
mais ou menos estas palavras: “ Qual tes, mas confesso qua nunca senti tanta
será, doravante, o argumento em que admiração por ele como naquelas
nos poderemos fiar, uma vez que, não horas finais em que estive a seu lado.
obstante sua forma persuasiva, o argu­ Que um homem como ele fosse capaz
mento exposto por Sócrates assim se de responder, é coisa que nada tem de
esboroa na incerteza?” É o efeito do extraordinário. M as o que achei mara­
maravilhoso poder que sempre exerceu vilhoso de sua parte foi antes de tudo o
sobre mim a teoria que afirma que a bom humor, a bondade, o ar interes­
alma é uma harmonia. A exposição sado com que acolhia as objeções
dessa tese me fez, por assim dizer, daqueles moços e, além disso, a finura
recordar que ela tivera até então o meu com que percebeu e soube avaliar o
assentimento; mas eis que, novamente, efeito que sobre nós tinham produzido
sinto também grande necessidade de as suas objeções. E, enfim, como nos
que, partindo de novas razões me soube curar! Pois parecíamos uns fugi­
demonstrem que nossa morte não é tivos, uns vencidos. Sua voz nos alcan­
acompanhada pela morte da alma! çou novamente, nos obrigou a fazer
Dize-nos, pois, em nome de Zeus, de meia volta e a tomar, sob sua conduta
que modo Sócrates defendeu o seu e com ele, ao exame do argumento.
argumento. Ele se mostrava descoro- E Q U É C R A T E S:
çoado, assim como dizes que vós todos — De que modo?

Fédon retoma a narrativa

FÉDON: cabeça, brincando com os cabelos que


— Vou contar-te. Eu me encon­ caíam sobre meus ombros; era, com
trava então à sua direita, sentado num efeito, um costume seu troçar às vezes
tamborete e encostado ao seu leito, de de minha cabeleira. E disse-me:
modo que ele ficava muito mais alto — Então será amanhã, Fédon, que
do que eu. Pôs-se então a afagar-me a mandarás cortar esta soberba cabe­
FÉDON 101

leira?3 5 inimigos da ciência, em misólogos,


— E com toda a razão, Sócrates! assim como há alguns que se conver­
— Não, não por isso. tem em inimigos dos homens, em
— Explica-te, então! misantropos; pois não há maior mal
— Hoje mesmo — respondeu — do que tomar-se inimigo da ciência.
mandarei cortar a minha e tu a tua, se Aliás, desenvolvem-se do mesmo
é verdade que este dia é o último de modo tanto o ódio à ciência como o
nossa discussão, e que somos incapa­ ódio aos homens. O ódio aos homens,
zes de lhe infundir vida! Quanto a a misantropia, penetra nos corações
mim, em teu lugar, e se o argumento quando confiamos demais numa pes­
me escapasse assim por entre os dedos, soa, sem nos acautelarmos; quando
eu me comprometeria por um juramen­ acreditamos que uma pessoa é boa,
to, seguindo o exemplo dos argeus,3 6 a sincera, honesta, e vimos a descobrir
não mais ostentar uma tal cabeleira mais tarde que tal não é, que pelo con­
enquanto não obtivesse, em novos trário é má, desonesta e mentirosa; e se
combates, uma vitória sobre a argu­ isso acontecer repetidas vezes a um
mentação de Símias, assim como sobre mesmo homem, e justamente a propó­
a de Cebes! sito daquelas pessoas a quem conside­
— Mas contra dois — interpus — rava como seus melhores e mais since­
o próprio Hércules, ao que se diz, nada ros amigos, esse passará finalmente a
podia! odiar todos os homens, persuadido de
— E eu, entãõ — emendou Sócra­ que em ninguém há de encontrar a
tes. — Eu sou Iolau!37. Chama-me menor qualidade boa. Acaso não no-
em teu auxílio enquanto ainda é dia.
taste que, efetivamente, as coisas se
— Sim, eu te chamo! — respondi.
passam dessa forma?
— Apenas, não sou Hércules, mas é a
— Sim — respondi — , justamente
Hércules que Iolau pede socorro!
desse modo.
— Isso não faz diferença alguma.
— E proceder assim não é, acaso,
— Mas, antes, tomemos cuidado
proceder mal? Não é claro que esse
para que não nos venha a acontecer descrente vive entre os homens sem
um desastre. entretanto conhecer a humanidade? Se
— Qual? — perguntei.
procedesse com juízo, notaria que bem
— O de nos transformarmos em
poucos homens são absolutamente
35 Cortar os cabelos era prova de tristeza: ama­ botís ou maus, e que inúmeros são os
nhã Fédon cortará sua basta cabeleira por causa
da morte de Sócrates. Sócrates costumava tro­ que se encontram entre esses extremos.
çar da longa cabeleira de Fédon, que era do — Que queres dizer?
Peloponeso. Em Atenas não se usavam cabelos
longos. ( N .d o T .) — Que se dá aqui o mesmo que se
36 Alusão a um texto de H eródoto: Os argeus, dá a próposito das coisas pequenís­
após uma derrota sofrida, fizeram a promessa
de não mais deixar crescer os cabelos enquanto
simas e grandíssimas — respondeu-
não tiVessem obtido uma vitória sobre o ini­ me. — Achas que possa haver coisa
migo. Da mesma form a Sócrates e Fédon, que
mais rara do que um homem enorme­
desejam vencer os argumentos inimigos de sua
doutrina. ( N .d o T .) mente grande ou extraordinariamente
37 Hércules é o grande herói fabuloso; Iolau, pequeno? E isso vale também para o
quem o ajudou uma vez. Sócrates se compara
a Iolau, que é o mais fraco dos dois.íN . do T.) cão, como para qualquer outra coisa.
102 PLATÃO

E não te parece também que é muito mento verdadeiro, sólido, suscetível de *


difícil encontrar-se um ser rapidíssimo ser compreendido, que, — aqueles que
e um vagarosíssimo, assim como um se puseram a ouvir argumentos que ora
belíssimo e um feiíssimo, ou um muito são verdadeiros e ora são falsos — que
alvo e outro muito negro? Acaso não aqueles mesmos, em lugar de acusarem
notaste por ti mesmo como são raros as suas próprias dúvidas ou a sua falta
em todas essas coisas os pontos extre­ de arte, lancem toda a culpa na própria
mos, ao passo que os termos médios razão e passem toda a vida a caluniá-
são muito mais numerosos? la e odiá-la, privando-se, desse modo,
— De fato. da verdade dos seres e da ciência? 4 0
» — De modo que, se fosse feito um — Por Zeu s! — disse eu — isso
concurso de maldade, não te parece seria, com efeito, um lamentável desas­
também que apenas uns poucos seriam tre!
premiados? — Ora pois — volveu Sócrates —
— Com certeza — concordei. tomemos cuidado para que não venha
— Com certeza, com efeito. M as a penetrar em nossas almas o pensa­
não é nesse ponto que os argumentos mento de que nos argumentos nada há
são comparáveis aos homens. Com o de razoável. Suponhamos sempre, ao
enveredaste nessa direção, nada mais contrário, que nós é que não temos
fiz do que seguir-te. . . M as a compa­ ainda bastante discernimento. Deve­
ração é esta: uma pessoa, que desco­ mos, com efeito, ser corajosos e fazer
nhece a arte de provar por argumentos,
tudo o que for necessário para obter os
se entrega com cega confiança a um
conhecimentos verdadeiros — tu e os
argumento que lhe parece verdadeiro;
outros, porque ainda vivereis bastante,
pouco depois, este passa a lhe parecer
eu simplesmente porque vou morrer.
c falso. Ora o é, ora não o é; e assim
Pois estou exposto, visto que se trata «
muitas vezes. Sabes também, com efei­
apenas da morte, a não me comportar
to, que os que se dedicam a demonstrar
como filósofo mas sim à maneira dos
o pró e o contra3 8 afirmam ter encon­
homens completamente iletrados, que
trado o cume da sabedoria e haver
só pensam em levar a melhor. Repara
descoberto, como mais ninguém, que
quando discutem um problema: não se
em nenhuma coisa ou demonstração
preocupam em absoluto com obter a
que seja, existe absolutamente base se­
solução certa, mas o que desejam é
gura ou certeza, mas sim que, em tudo
unicamente conseguir que todos os
o que existe, à semelhança do Euri-
ouvintes estejam de acordo com eles. É
pes39, a parte inferior se mistura com
isso que querem; entretanto, creio que
a parte superior, jamais permanecendo
estável e em seu lugar. me distingo desses argumentadores
— Tens razão — assenti eu. pelo menos num ponto: não pretendo
— M as não seria deplorável des­ convencer os ouvintes de que é verda­
graça, Fédon, quando existe um argu- deiro tudo o que eu disser— embora o
deseje secundariamente — mas em pri­
38 Crítica à Sofistica que se liga ao ceticismo
lógico. (N . d o T .) meiro lugar desejo persuadir-me, a
39 Estreito que separa do continente a ilha de
Eubéia; célebre pelo fato de suas correntes 40 Platão critica ainda aqui a Sofistica e o de­
variarem sete vezes por dia. (N. d o T .) senvolvimento do ceticismo. (N . d o T .)
FÉDON 103

mim mesmo, disso. Penso, pois, caro dele, pois pensa que aquela nada mais
amigo, como um egoísta. Se é verdade é do que uma espécie de harmonia.
o que digo, então é bom estar conven­ Quanto a Cebes, concede, por seu
cido; se, pelo contrário, não há espe­ lado, que a alma dure mais do que o
rança- para quem morre, eu, pelo corpo, mas, segundo pensa, é bem difí­
menos, não terei tornado meus últimos cil saber se a alma, depois de haver
instantes desagradáveis para meus gasto muitos corpos sucessivamente,
amigos, obrigando-os a suportar mi­ não se dissolve ao sair do último, e se a
nhas lamentações. De resto, não terei morte não consiste justamente nisto,
muito tempo para meditar nisso (o que na destruição da alma, pois que o
seria efetivamente desagradável). Mais corpo, esse, está continuamente des-
um pouco e logo tudo estará acabado. truindo-se. Não é isto, Símias e Cebes,
Assim, preparado com esse espírito, o que devemos examinar?
Símias e Cebes, entro na discussão. Am bos declararam que sim.
Vós, entretanto, se me acreditais, cui­ — Ora — tornou Sócrates — , não
dai menos de Sócrates que da verdade! aceitais o conjunto das afirmações que
Concordai comigo, se achardes que fizemos ou que apenas aceitais umas e
digo a verdade; se não, objetai-me a outras, não?
cada argumento, a fim de que — ilu­ — Umas sim, outras não — res­
dindo a vós e a mim também, com meu ponderam os dois.
entusiasmo — eu não me vá daqui, — Que pensais a respeito da dou­
como a abelha, deixando o ferrão ! 4 1 trina segundo a qual instruir-se é ape­
“ Então, avante! Antes de tudo, nas recordar e, que sendo assim, é
porém, fazei-me recordar bem o que necessário que nossa alma, antes de vir
dissestes, se notardes que não me encadear-se em nosso corpo, tenha vi­
recordo. Para Símias, salvo erro meu, vido primeiramente noutro lugar?
o objeto de sua dúvida e dos seus — Quanto a mim — respondeu
temores é o de que a alma, sendo algo Cebes — estou perfeitamente persua­
de mais belo e mais divino do que o dido disso, e que não há pensamento
corpo, venha a corromper-se antes ao qual eu mais ligado esteja.
41A abelha, que deixa seu ferrão na ferida, — Eu também — ajuntou Símias
provoca dores. Assim Sócrates, que faria mal e
— ficaria muito admirado se viesse a
causaria sofrimentos a seus discípulos se se
fosse, deixando-lhes erros. (N . d o T .) mudar de opinião a esse respeito.
104 PLATÃO

Resposta a Símias

— Pois deverias mudar de opinião, opinião, de coerente. É necessário


ó homem de Tebas — disse Sócrates então escolher entre essas duas lingua­
— se de fato persiste em ti a idéia de gens; qual é aquela que preferes? A
que a harmonia é uma coisa composta que afirma que instruir-se é lembrar-se
e que a alma nada mais é do que a har­ ou a de que a alma é uma harmonia?
monia, uma composição das tensões — Evidentemente a primeira, caro
das cordas do corpo. Pois é claro, com Sócrates; a outra se apresentou diante
efeito, que não podes ter aquela opi­ de mim sem provas em seu favor;
nião e afirmar ao mesmo tempo que a c o m o . apenas plausível ao sabor de
harmonia existiu antes dos elementos uma conveniência apenas verossímil e
dos quais viria a ser composta. Ou especiosa, como tudo que é fonte da
pensas assim? opinião da maioria42. Bem sei que as
— Não, Sócrates. teorias baseadas em demonstrações
— Percebes então — disse Sócra­ prováveis nos enganam e, se não
tes — o que resulta do teu juízo? Afir­ tomarmos cuidado com elas, elas de­
mas, de um lado, que a alma existia monstram tudo e até a geometria! A o
antes de tomar a forma de homem, contrário, a teoria relativa à recorda­
num corpo e, de outro que ela é com ­ ção e ao estudo está assente em bases
posta de coisas que ainda não exis­ mais sólidas. O que nós dissemos é que
tiam ! A alma não é , pois, como a har­ a nossa alma, antes de vir animar um
monia com a qual tu a comparas. A corpo, existe como a própria essência,
harmonia, com a qual comparas a isto é, que tem existência real. Reco­
alma, não apresenta analogia com ela nheço que esta proposição é correta e
neste ponto: primeiro, com efeito, exis­ foi suficientemente provada; tal é
tem a lira e as cordas, e depois os sons minha convicção. E por esse motivo
inarticulados e a harmonia, que se
não me parece certo afirmar que a
forma por último e desaparece antes de
alma é uma harmonia, seja eu quem o
tudo mais. Com o, pois, farás concor­
diga ou seja outrem.
dar esta teoria com aquela opinião?
— Bem; mas eis outra questão, Sí­
— É impossível — confessou Sí­
mias: crês que uma harmonia, ou qual­
mias.
quer outra coisa composta, possa ter
— No entanto — retrucou Sócrates
qualidades outras e diferentes daquelas
— , se há uma linguagem que seja coe­
rente, é bem aquela que fala da
42 A opinião vulgar dos gregos é que a alma
harmonia! sem corpo passa a ter uma vida sem consciên­
cia no Hades. É interessante que Hom ero no
— De fato isso lhe convém! — limiar da Uíada diga mais ou menos a mesma
disse Símias. coisa: a ira de Aquiles enviou muitas almas
de heróis para o Hades, mas quanto a “ eles
— Ora, essa linguagem — acres­
mesmos” (isto é, seus corp os), entregou-os aos
centou Sócrates — nada tem, na tua cães e às aves para comerem. (N. d o T .)
FÉDON 105

m« que possuem os elementos de que é — É absolutamente certo, com efei- *


composta? to !
— Nunca! — M as, então, aqueles que conside­
— Nem, segundo me parece, pode­ ram a alma como uma harmonia,
rá fazer ou sofrer senão aquilo que como irão eles explicar a virtude e o
fazem ou sofrem as coisas que a vício que se encontram nas almas?
empolgam? Dirão que uma é uma harmonia e a
Símias concordou. outra uma dissonância? Dirão eles que
— E, por conseguinte, a harmonia a alma boa, sendo por natureza uma
não pode reger os elementos de que se harmonia, possui ainda consigo uma
compõe, mas, pelo contrário, os deve outra harmonia dentro de si43, en­
seguir? quanto que a outra, desprovida de har­
Símias concordou novamente. monia, nada mais possui?
— É, então, absurdo dizer que uma — Não sei dizer-te — respondeu
harmonia se move ou soa contraria­ Símias. — É bem provável que um
mente às suas partes constitutivas, ou
partidário dessa opinião havia de dizer
que a elas se opõe?
algo de parecido.
— Por certo que é absurdo!
— M as nós concordamos — disse d
— Com efeito. Entretanto, eis outra
Sócrates — em que uma alma não é
questão: a harmonia não será precisa­
nem mais nem menos alma do que
mente aquela que exigem as suas par­
outra alma; e o acordo era este: nada
tes constitutivas?
há de maior ou mais numeroso, nem
— Não entendo — disse Símias.
nada de mais fraco ou mais extenso
— Pergunto se, quando os elemen­
numa harmonia do que noutra, não
tos estão mais ou menos de acordo, se
foi?
<> a harmonia também não existe mais ou
menos? E quando mais fracos e menos — F o i!
extensos, se a harmonia também não é — E que a harmonia, visto que nem

mais fraca e menos extensa? é mais nem menos harmonia, também


— Claro! não pode ser nem mais nem menos
— E com a alma se passará o harmonizada, não é assim?
mesmo? É o fato' de uma alma ter, no — Sim.
menor de seus elementos, em grau — Ora, a harmonia, não sendo nem
mais elevado do que outra, mais exten­ mais nem menos harmonizada, pode
são e mais grandeza ou menos exten­ participar mais ou menos da harmo­
são e mais fraqueza, que precisamente nia, ou o faz sempre da mesma
constitui o que ela é, a saber, uma maneira?
alma?
43 Trecho difícil de traduzir. O que Platão quer
— D e modo algum ! dizer é que há um acordo essencial e mais uma
— Prossigamos, por Z e u s! Quando modalidade desse acordo. A virtude, por exem­
plo, é na opinião de Plantão (cf. República)
uma alma possui razão e virtude, não um acordo das três partes da alma, cada uma
se diz que é boa, e quando é cheia de delas agindo na sua modalidade própria. Cf.
Semelhança com as cordas — alta, média e
desrazão e maldade, que é má? E não é baixa — da lira. Cf. León Robin, Platon, ed.
exato dizer isso? P.U.F. (N . d o T .)
106 PLATÃO

— D a mesma maneira, é claro. — Ademais — volveu Sócrates —


— Ora, visto que uma alma não afirmarás que o governo de todas as
pode ser mais nem menos alma do que coisas que se encontram no homem
outra, também não pode ser mais nem cabe a algo que não seja a alma e a
menos harmonizada? inteligência?
— Exatamente. — Eu n ã o !
— Portanto, não pode participar — Crês que é a alma que cede às
nem mais nem menos da desarmonia paixões do corpo ou que ela as contra­
nem da harmonia? ria? Por exemplo: temos febre, temos
— Não. sede, e a alma nos diz: “ tu não bebe-
rás” , temos fome, e a alma nos diz: “ tu
— Em conseqüência, uma alma
não com erás!” , e em mil outros casos
pode participar mais da maldade ou da
obervamos que a alma resiste às incli­
virtude do que outra, considerando-se
nações do corpo, não é verdade?
a maldade como desarmonia e a virtu­
— Absolutamente certo.
de como harmonia?
— E não havíamos, acaso, concor­
— Nunca!
dado antes em que a alma, sendo har­
— Ou a razão nos leva, Símias, a
monia, jamais poderia ressoar em
dizer que a maldade não se encontra
desacordo com as tensões, relaxamen­
em nenhuma alma se a alma é uma tos, movimentos e quaisquer outras
harmonia, pois é claro que a genuína modificações dos elementos de que é
harmonia nunca poderá participar da constituída, mas que, pelo contrário,
desarmonia? deveria segui-los e nunca dirigi-los?
— Nunca! — Realmente, concordamos nisso
— Nem, portanto, uma alma, — confirmou Símias — e nem poderia
sendo plenamente alma, participará da ser de outra forma.
maldade! — E agora? A alma não nos parece
— Com o seria isso possível, com fazer exatamente o contrário disso?
efeito, diante de nossas premissas? Porventura não dirige ela tudo aquilo
de que, segundo se pretende, é consti­
— Se permanecermos de acordo
tuída? Não é ela que resiste e governa,
com tua comparação e com o que dela
como um senhor, todas as modali­
se infere, deveremos considerar todas
dades da vida, às vezes rigorosamente
as almas, de todos os seres vivos, como
e com dores, como na ginástica e na
sendo uniformemente boas, se as almas medicina, e às vezes com menos rude­
se formaram tal como são, isto é, como za, como uma pessoa que conversa
alm as! com outra, ameaçando-a e advertin­
— Assim me parece, Sócrates. do-a contra cobiças, cóleras ou temo­
— Achas também que isso assim res? É mais ou menos assim, com efei­
estaria bem expresso e razoável, se to, que Homero apresenta Ulisses na
fosse certa a teoria segundo a qual a Odisséia:
alma é harmonia? “ Batendo no peito, apostrofou rude­
— De modo algum ! mente seu coração:
FÉDON 107

“ Suporta, coração! Infelicidades, já suma como uma coisa por demais divi­
as suportaste bem piores!” 4 4 na para se comparar à harmonia?
— Crês que ele teria dito isso se — Por Zeu s! é isso justamente o
houvesse considerado a alma como que penso, Sócrates.
simples harmonia, inteiramente sujeita
— Logo, meu excelente amigo, não
às inclinações do corpo, e não como
é coisa assisada considerar a alma
algo que rege e governa o corpo, em
como uma simples harmonia; pois,
44 O autor recorre aqui a H omero, divino poeta, assim, não ficaríamos de acordo nem
porque este dístico se encaixa perfeitamente na com Homero, divino poeta, nem co­
tese que vem desenvolvendo no diálogo; mas em
outras obras Platão o censura, deixando de lhe nosco mesmos.
chamar divino e sem reconhecê-lo com o autori­
— É justamente isso — concedeu
dade com a qual é conveniente “ estarmos de
acordo” . ( N .d o T .) Símias.

Resposta a Cebes

— Muito bem — continuou Sócra­ quando sua objeção não resistiu ao


tes. — Agora que a Harmonia teba- ataque de tua argumentação. E pela
na 4 5 se nos tomou de certo modo pro­ mesma razão eu não me espantaria
pícia, e do modo que lhe convém, isto agora se o argumento de Cadmo viesse
é, com comedimento, ocupemo-nos de a ter a mesma sorte.
seu esposo Cadmo. M as com o, meu — Evita, meu caro — disse Sócra­
caro Cebes, e com que provas, podere­ tes — , de falar assim com tanta con­
mos conciliar Cadm o? 4 6 fiança! É bem possível que o mau
— Creio que o saberás — respon­ olhado volte contra mim o argumento
deu Cebes; — a prova contra a harmo­ que desejo apresentar agora ! 4 7 Enfim,
nia, tu a desenvolveste de modo admi­ de qualquer modo, isso ficará sob os
rável e imprevisto. Quando Símias cuidados da Divindade! Nós, porém,
expôs a dificuldade que havia encon­ nos aproximaremos um do outro à
trado, fiquei assombrado e perguntei a moda homérica 4 8 e averiguaremos se
mim mesmo se alguém seria capaz de disseste alguma coisa de importância.
movimentar um único argumento con­
tra ele. Por isso admirei-me muito 47 Alusão a uma superstição vulgar, para signi­
ficar que quem é ambicioso e deseja demais é
orgulhoso e não consegue nada perdendo às
45 Alusão à fábula de Anfião, que construiu vezes o que já tem. ( N .d o T .)
Tebas com a harmonia da sua lira. Símias é 48 Homero na Ilíada descreve numerosas vezes
tebaro. ( N .d o T .) o m odo cauteloso com o dois inimigos se apro­
46 Cadmo é o esposo da mencionada deusa ximam no combate para mutuamente se ataca­
Harmonia. Cebes é tebano com o Símias, e rem: Sócrates compara-se a um herói que luta
ambos estão a discutir com Sócrates.(N. d o T .) contra outro. ( N .d o T .)
108 PLATÃO

Ora, o essencial do que queres saber é localizar-se num corpo humano marca
isto: desejas que se demonstre que o início de seu fim, e uma espécie de
c nossa alma é indestrutível e imortal; doença; por isso, é num estado de
sem o que, para o filósofo que está pró­ miséria que deve viver essa existência,
ximo de morrer, a confiança, a convic­ e, quando a termina por aquilo a que
ção de ir encontrar no além, depois da chamamos morte, deve ela ser des­
morte, uma felicidade que jamais teria truída. É indiferente, como dizes, saber
alcançado se vivesse doutra forma, se ela se localiza em corpos uma só ou
essa confiança seria, pensas, desarra- muitas vezes; cada um de nós tem
razão de recear por sua alma. Quem
zoada e tola. Mostrar que a alma é
não tem certeza, nem sabe provar que
forte e semelhante à divindade, e que
a alma é imortal, deve temer a morte,
existia antes de nos havermos tornado
se não for tolo. É mais ou menos isto, t
homens, pode ser prova, como dizes, caro Cebes, o que dizes? Repito-o
não de que a alma é imortal, mas ape­ propositadamente, para que não olvi­
nas de que ela dura muito, de que sua demos nada e para que acrescentes ou
existência anterior preencheu um tires alguma coisa, se quiseres.
tempo incalculável com uma multidão Então Cebes — Nada tenho, no
enorme de conhecimentos e de ações; o momento, que acrescentar, nem que
que, no entanto, não lhe confere imor- tirar. É aquilo justamente o que preten­
d talidade, pois o próprio fato de vir do.

O Problema da Física

A esta altura fez Sócrates uma longa em minha mocidade senti-me apaixo­
pausa, absorto em alguma reflexão. nado por esse gênero de estudos a que
Depois disse — Não é coisa sem dão o nome de “ exame da natureza” ;
importância, Cebes, o que procuras. A parecia-me admirável, com efeito, co­
causa da geração e da corrupção de nhecer as causas de tudo, saber por
todas as coisas, tal é a questão que que tudo vem à existência, por que pe­
96« devemos examinar com cuidado. Se o rece e por que existe. Muitas vezes
desejares, poderei relatar-te detalhada­ detive-me seriamente a examinar ques- b
mente as minhas experiências a esse tões como esta: se, como alguns pre­
respeito. E se vires que uma ou outra tendem, os seres vivos se originam de
coisa do que eu disser é útil aproveita- uma putrefação em que tomam parte o
a para reforçar tua tese. frio e o calor; se é o sangue que nos faz
— Sim — disse Cebes — é justa­ pensar, ou o ar, ou o fogo, ou quem
mente o que eu quero. sabe se nada disso, mas sim o próprio
— Escuta, então, o que vou contar: cérebro, que nos dá as sensações de
FÉDON 109

ouvir, ver e cheirar, das quais resulta­ é visto ao lado dum pequeno, ele é de
riam por sua vez a memória e a opi­ uma cabeça 5 0 maior do que o peque- e
nião, ao passo que destas, quando no, e, da mesma forma, um cavalo é
adquirem estabilidade, nasceria o co­ maior do que outro. E o que é mais evi­
nhecimento49. Examinei, inversa­ dente: o número “ dez” me parecia
is mente, a maneira como tudo isso se maior do que o número “ oito” , preci­
corrompe, e, também, os fenômenos samente por causa do acréscimo de
que se passam na abóbada celeste e na “ dois” , e o tamanho de dois côvados
terra. E acabei por me convencer de me parecia ser maior do que o de um
que em face dessas pesquisas eu era côvado por este ser a metade daquele.
duma inaptidão notável! Vou contar-te — E agora — perguntou Cebes —
uma ocorrência que bem esclarece qual é a tua opinião a esse respeito?
minha situação naquele tempo. Havia — Por Zeus, atualmente estou
coisas acerca das quais eu antes pos­ muito longe de saber a causa de qual- >7 .
suía um conhecimento certo, ao menos quer dessas coisas! Não sei resolver
na minha opinião, e na dos outros. nem sequer se quando se adiciona uma
Pois bem, essa espécie de estudo che­ unidade a outra, a unidade à qual foi
gou a produzir em mim uma tal acrescentada a primeira torna-se duas,
cegueira que desaprendi até aquelas ou se é a acrescentada e a outra que
coisas que antes eu imaginava saber, assim se tomam duas pelo ato de adi­
como, por exemplo, o conhecimento ção. Fico admirado! Quando as duas
que eu julgava ter das causas que unidades estavam separadas uma da
determinam o crescimento do hom em ! outra, cada uma era uma, e não havia
d Outrora eu acreditava, como é claro dois; logo, porém, que se aproximaram
para todos, que isso acontece em virtu­ uma da outra, esse encontro tornou-se
de do comer e do beber: adicionando, a causa da formação do dois. Também
pelos alimentos, carne a carne e ossos não entendo por que motivo, quando
aos ossos, e em geral substância seme­ alguém divide uma unidade, esse ato
lhante a substância semelhante, acon­ de divisão faz com esta coisa que era
tece que o volume, antes pequeno, uma se transforme pela separação em
aumenta, e assim, o homem pequeno se duas! Essa coisa que produz duas uni- <>
torna grande. Desse modo pensava eu dades é contrária à outra: antes, acres­
naquela época. Não achas tu que isso centou-se uma coisa a outra — agora,
era razoável? afasta-se e separa-se uma de outra51.
— Pelo que me parece, sim — res­ Nem sequer sei por que um é um !
pondeu Cebes. Enfim, e para dizer tudo, não sei abso­
— M as repara no seguinte: naquele lutamente como qualquer coisa tem
tempo, eu também achava razoável origem, desaparece ou existe, segundo
pensar que quando um homem grande este procedimento metodológico. Esco­
lhi então outro método, pois, de qual­
49 Platão, quer dizer aqui que em sua m oci­
dade se dedicou ao estudo de todas as teorias quer modo, este não me serve. Ora,
da filosofia naturalista pré-socrática. N ão há
dúvida de que ele coloca nos lábios de Sócra­ 50 o tainanho da cabeça é usado aqui com o
tes a história de sua própria evolução intelec­ medida. (N. d o T .)
tual. Cf. Burnet, Early Greek Philosophy. 51 Crítica aos filósofos eleáticos, que abusam
(N. do T .) às vezes da dialética. (N. d o T .)
110 PLATÃO

certo dia ouvi alguém que lia um livro relativas como de suas revoluções e de
de Anaxágoras. Dizia este que “ o espí­ outros movimentos que lhes são pró­
rito é o ordenador e a causa de todas prios; Nunca supus que depois de ele
' as coisas” . Isso me causou alegria. haver dito que o Espírito os havia
Pareceu-me que havia, sob certo aspec­ ordenado, ele pudesse dar-me outra
to, vantagem em considerar o espírito causa além dessa que é a melhor e que b
como causa universal. Se assim é, pen­ é a que serve a cada uma em particular
sei eu, a inteligência ou espírito deve assim como ao conjunto.
ter ordenado tudo e tudo feito da me­ Grandes eram as minhas esperan­
lhor forma. Desse modo, se alguém ças! Pus-me logo a ler, com muita
desejar encontrar a causa de cada atenção e entusiasmo os seus livros.
coisa, segundo a qual nasce, perece ou Lia o mais depressa que podia a fim de
existe, deve encontrar, a respeito, qual conhecer o que era o melhor e o pior.
é a melhor maneira seja de ela existir, M as, meu grande amigo, bem depressa
seja de sofrer ou produzir qualquer essa maravilhosa esperança se afas­
d ação. E pareceu-me ainda que a única tava de m im ! À medida que avançava
coisa que o homem deve procurar é e ia estudando mais e mais, notava que
aquilo que é melhor e mais perfeito, esse homem não fazia nenhum uso do
porque desde que ele tenha encontrado espírito nem lhe atribuía papel algum
isso, necessariamente terá encontrado como causa na ordem do universo, c
o que é o pior, visto que são objetos da indo procurar tal causalidade no éter,
mesma ciência. no ar, na água em muitas outras coi­
Pensando desta forma, exultei acre­ sas absurdas! 52. Parecia-me que ele se
ditando haver encontrado em Anaxá­ portava como um homem que dissesse
goras o explicador da causa, inteligível que Sócrates faz tudo o que faz porque
para mim, de tudo que existe. Esperava age com seu espírito; mas que, em
que ele iria dizer-me, primeiro, se a seguida, ao tentar descobrir as causas
* terra é plana ou redonda, e, depois de o de tudo o que faço, dissesse que me
ter dito, que à explicação acrescentasse acho sentado aqui porque meu corpo é
a causa e a necessidade desse fato, formado de ossos e tendões, e os ossos
mostrando-me ainda assim como é ela
52 F oi discutido muitas vezes o problema de sa­
a melhor. Esperava também que ele,
ber se Platão tinha razão ao descrever histori­
dizendo-me que a terra se encontra no camente, desta forma, o pensamento de Anaxá­
centro do universo, ajuntasse que, se goras. Os mencionados livros de Anaxágoras só
nos chegaram em reduzidos fragmentos. O que
assim é, é porque é melhor para ela sabemos é que aquele filósofo reconhecia,
estar no centro. Se me explicasse tudo com o princípio material, umas partículas míni­
mas de matéria — as homeomerias — e ainda,
isso, eu ficaria satisfeito e nem sequer com o outro princípio — o espírito — cuja fun­
desejaria tomar conhecimento de outra ção para nós não é ainda bem clara, e sobre a
qual, aliás, já havia dúvidas na antiguidade:
espécie de causas. Naturalmente, a alguns explicadores antigos viam nesse espírito
propósito do sol eu estava pronto tam­ um deus, outros, um ordenador do mundo, e
finalmente outros, com o nosso autor e também
bém a receber a mesma espécie de Aristóteles, uma simples primeira força motriz,
*» o explicação, e da mesma forma para a isto é, um princípio quase material ou mesmo
material. Cf. J. Burnet, Early G reek Philoso-
lua e os outròs astros, assim como phy e Carl Joel, Geschichte der Antiken Philo-
também a respeito de suas velocidades sophie. ( N . d o T . )
FÉDON 111

são sólidos e separados uns dos outros melhor e com inteligência — essa é *
d por articulações, e os tendões con­ uma afirmação absurda. Isso importa­
traem e distendem os membros, e os ria, nada mais nada menos, em não
músculos circundam os ossos com as distinguir duas coisas bem distintas, e
carnes, e a pele a tudo envolve! Articu- em não ver que uma coisa é a verda­
lando-se os ossos em suas articulações, deira causa e outra aquilo sem o que a
e estendendo-se e contraindo-se, sou causa nunca seria causa. Todavia, é a
capaz de flexionar os meus membros, e isso que aqueles que erram nas trevas,
por esse motivo é que estou sentado segundo me parece, dão o nome de
aqui, com os membros dobrados. Tal causa, usando impropriamente o
homem diria coisas mais ou menos termo 5 6. O resultado é que um deles,
semelhantes a propósito de nossa con­ tendo envolvido a terra num turbi­
versa, e assim é que consideraria como lhão 5 7, pretende que seja o céu o que a
causas dela a voz, o ar, o ouvido e mantém em equilíbrio, ao passo que
muitas outras coisas — mas, em reali­ para outro ela não passa duma espécie
dade, jamais diria quais são as verda­ de gamelaS8, à qual o ar serve de base
deiras causas disso tudo: estou aqui
56 Esta frase exprime desprezo pela filosofia
« porque os atenienses julgaram melhor naturalista: “os demais” poderia ser entendido
condenar-me à morte, e por isso pare­ aqui como indicando apenas a opinião vulgar,
ceu-me melhor ficar aqui, e mais justo mas o que o autor posteriormente atribui aos
‘demais” são os sistemas filosóficos naturalis­
aceitar a punição por eles decretada53. tas. Platão, como quase sempre quando fala nas
Pelo Cão 54. Estou convencido de que teorias naturalistas, acha que não vale a pena
citar os nomes de seus autores, contentando-se
estes tendões e estes ossos já poderiam com dizer “uns” , “ alguns” e “outros” .(N. doT .)
n « há muito tempo se encontrar perto de 57 A palavra díne (turbilhão) é técnica no
sistema de Demócrito e Leucipo. Para estes
Mégara ou entre os Beócios, para onde naturalistas gregos, o princípio de todas as coi­
os teria levado uma certa concepção sas são os átomos, corpos minúsculos e indivi­
síveis (donde átomos, em grego), eternos e invi­
do melhor, se não me tivesse parecido síveis; esses átomos estão a cair no vácuo; os
mais justo e mais belo preferir à fuga e mais pesados caem mais depressa, pelo que se
à evasão a aceitação, devida à Cidade, apartam dos demais. Dão, assim, encontrões
uns nos outros, com a conseqüente formação
da pena que ela me prescreveu! de turbilhões, produtores de complexos dè áto­
Dar o nome de causas a tais coi­ mos, que nada mais são do que os objetos exis­
tentes. Esses turbilhões jamais terminam, e con­
sas55 seria ridículo. Que se diga que tinuamente os átomos estão a separar-se e a
sem ossos, sem músculos e outras coi­ reunir-se; é a isto que damos o nome de geração
e corrupção. A terra existe e permanece em seu
sas eu não poderia fazer o que me lugar, porque continuamente está a receber e a
parece, isso é certo. Mas dizer que é perder átomos; e o mesmo vale para os demais
por causa disso que realizo as minhas corpos. Logo, quando um corpo não recebe
novos átomos em troca dos que vai perdendo,
ações e não pela escolha que faço do dá-se sua destruição. Platão se refere aqui ao
turbilhão do céu para meter a ridículo esta
53 Platão conta que Sócrates, tendo uma opor­ teoria, que mais tarde iria ter grande impor­
tunidade para fugir do cárcere, não se apro­ tância nas ciências naturais. (N. d o T .)
veitou dela porque era sua convicção que um 58 É uma ironia contra Anaxímenes,. mas indi­
cidadão deve obedecer sempre às leis e decre­ cadora das doutrinas deste filósofo. Conforme
tos do Estadt), mesmo quando os concidadãos e ele, o princípio de todas as coisas é o ar: tudo
as autoridades legítimas são injustos. (N. do T.) se forma do ar, volta ao ar, e o próprio ar é
54 Pelo Cão: Sócrates jura muitas vezes desta também o sustentáculo da terra, a qual tem a
forma, certamente porque o cão sempre foi con­ forma de um tamborim. O termo propriamente
siderado como símbolo da lealdade. (N. do T.) empregado por Platão é o de “gamela” , com o
55 Isto é: as causas materiais. (N. d o T .) que exprime seu desprezo deste sistema.
112 PLATÃO

c e de suporte. Mas quanto à força, que a mem e conservem todas as coisas.


dispôs para que essa fosse a melhor Ardentemente desejaria eu encontrar
posição, essa força, ninguém a procu­ alguém que me ensinasse o que é tal
ra; e nem pensam que ela deva ser uma causa! Não me foi possível, porém, *
potência divina. Acreditam, ao contrá­ adquirir esse conhecimento então, pois
rio, haver descoberto um A tlas59 mais nem eu mesmo o encontrei, nem o re­
forte, mais imortal e mais garantidor cebi de pessoa alguma. Mas quererias,
da existência do universo do que esse estimado Cebes, que descrevesse a
espírito; recusam-se a aceitar que efeti­
segunda excursão que realizei em
vamente o bom e o conveniente for-
busca dessa causalidade?
59 Atlas: figura da lenda grega; um gigante
que trazia sobre os ombros a abóbada celeste.
— É impossível que alguém o dese­
(N. do T.) je mais do que eu — respondeu Cebes.

A Idéia

— Então — prosseguiu Sócrates uma observação por imagens — seja


— minha esperança de chegar a melhor do que aquela que deriva de
conhecer os seres começava a esvair- uma experiência dos fenômenos 60. En­
se. Pareceu que deveria acautelar-me, a tretanto, será sempre para o lado-
fim de não vir a ter a mesma sorte daquela que me inclinarei. Assim, de­
daqueles que observam e estudam um pois de haver tomado como base, em
eclipse do sol. Algumas pessoas que cada caso, a idéia, que é, a meu juízo, a - m *
assim fazem estragam os olhos por não mais sólida, tudo aquilo que lhe seja
tomarem a precaução de observar a consoante eu o considero como sendo
imagem do sol refletida na água ou em verdadeiro, quer se trate de uma causa
matéria semelhante. Lembrei-me disso ou de outra qualquer coisa, e aquilo
e receei que minha alma viesse a ficar que não lhe é consoante, eu o rejeito
completamente cega se eu continuasse como erro. Vou, porém, explicar com
a olhar com os olhos para os objetos e mais clareza o que estou a dizer, pois
tentasse compreendê-los através de me parece que não o compreendeste
cada um de meus sentidos. Refleti que bem.
devia buscar refúgio nas idéias e pro­ — Por Zeus, com efeito, que não o
curar nelas a verdade das coisas. É entendo bem ! — confirmou Cebes.
possível, todavia, que esta comparação — Quero dizer o seguinte — vol-
não seja perfeitamente exata, pois nem 80 O sensualista é que observa mais em “ ima­
eu mesmo aceito sem reservas que a gens”, pois os objetos materiais não passaih de
imitações imperfeitas das idéias eternas.
observação ideal dos objetos — que é (N.d oT.)
FÉDON 113

veu Sócrates — e não estou a enunciar faça a sua comunicação com este. O
nenhuma novidade, mas apenas a repe­ modo por que essa participação se efe­
tir o que, em outras ocasiões como na tua, não o examino neste momento;
pesquisa passada, tenho me fatigado afirmo, apenas62, que tudo o que é
de dizer 61. Tentarei mostrar-te a espé­ belo é belo em virtude do Belo em si.
cie de causa que descobri. Volto a uma Acho que é muitíssimo acertado, para
teoria que já muitas vezes discuti e por mim e para os demais, resolver assim o
ela começo: suponho que há um belo, problema, e creio não errar adotando
um bom, e um grande em si, e do esta convicção. Por isso digo convicta-
mesmo modo as demais coisas. Se con­ mente, a mim mesmo e aos demais,
cordas comigo também admites que que o que é belo é belo por meio do
isso existe, tenho muita esperança de, Belo. Acaso não é esta também a tua
por esse modo, explicar-te a causa opinião?
mencionada e chegar a provar que a
— É.
alma é imortal.
— E o que é grande é grande por
— Naturalmente admito que isso
meio da Grandeza; e o que é maior
existe — confirmou Cebes; — e,
pelo Maior; e o que é menor é Menor
agora, faze depressa o que dizes.
por meio da Pequenez?
— Examina, pois, com cuidado, se
— Indubitavelmente.
estás de acordo, como eu, com o que se
— Em conseqüência, jamais esta­
deduz dessa teoria! Para mim é evi­
rias de acordo com quem te viesse
dente: quando, além do belo em si,
existe um outro belo, este é belo por­ dizer que um é maior do que outro pela
que participa daquele apenas por isso e cabeça, e que o menor é menor pelo
por nenhuma outra causa. O mesmo mesmo motivo; mas continuarias fir­
afirmo a propósito de tudo mais. Reco­ memente a afirmar que tudo aquilo que
nheces isto como causa? é maior do que outro, não o é por
— Reconheço. nenhuma outra causa senão pela Gran­
— Logo — prosseguiu Sócrates — deza; e que o que é menor, não o é por
não compreendo nem posso admitir nenhuma outra causa senão pela Pe­
aquelas outras causas científicas. Se quenez. Pois acho que terias medo de
alguém me diz por que razão um obje­ cair em contradição se dissesses que
to é belo, e afirma que é porque tem uma coisa é maior ou é menor pela
cor ou forma, ou devido a qualquer cabeça: primeiro, porque nesse caso o
coisa desse gênero — afasto-me sem maior seria maior e o menor seria
discutir, pois todos esses argumentos menor, ambos em virtude da mesma
me causam unicamente perturbação. coisa; segundo, porque o maior seria
Quanto a mim, estou firmemente con­
maior pela cabeça — que é pequena!
vencido, de um modo simples e natu­
Seria, com efeito, prodigioso que al­
ral, e talvez até ingênuo, que o que faz
guém fosse grande em virtude de uma
belo um objeto é a existência daquele
coisa pequena! Acaso essa tolice te
belo em si, de qualquer modo que se
assusta?
6! Alusão ao Fedro e ao Banquete, que já apre­
sentaram a doutrina das idéias. (N .d o T .) 62 Cf. Parmênides. (N .d o T .)
114 PLATÃO

— Eu? Claro que sim ! — cebes riu ignorância e o teu apego à segurança
e disse. que encontraste ao tomar por base a
— E não temerias igualmente dizer tese em questão — tudo isso te inspira­
— continuou Sócrates — que o dez é ria uma resposta semelhante. E se
maior do que o oito porque o ultra­ alguém se apresentasse censurando
passa de dois e considerar isso como essa tese, porventura não o deixarias
causa, ao invés de dizer que é pela em paz e sem resposta, até o momento
quantidade e por causa da quantidade? em que houvesses examinado as conse­
E serias capaz de dizer, da mesma qüências dela extraídas e verificado se
forma, que um objeto do tamanho de ela concorda consigo mesma ou se
dois côvados é maior do que outro de contradiz? E depois, quando viesse a
um côvado pela metade, em lugar de ocasião de dar as razões desta tese em
dizer que é pela grandeza? Pois, sem si mesma, não o farias da mesma
dúvida, isso não é menos estapafúrdio! forma, tomando desta vez por base
— Efetivamente. uma outra tese, aquela em que encon-
trasses maior valor, até atingires um
— Não te envergonharias de dizer
que, acrescentando-se a unidade à uni­ resultado satisfatório? E não é claro
dade, esse acréscimo, e dividindo-se a que tu, desejando uma doutrina do ser
unidade, essa separação, são ambos verdadeiro, te absterias de tagarelices e
causas da formação do dois? Não mais discussões a propósito do princí­
protestarias aos gritos que não com­ pio e das suas conseqüências, assim
preendes como cada coisa se possa for­ como fazem os que polemizam profis­
mar por outro modo que não seja pela sionalmente? Nada daquilo, com efei­
participação na própria substância em to, figura nas pesquisas e preocupações
que essa coisa toma parte? Não dirias, de tais homens: dão-se por superior­
neste caso, que não encontras outra mente satisfeitos com a sabedoria que
causa de formar-se o dois a não ser a possuem, embora confundam tudo64.
participação na idéia do dois, e que Tu, porém, se na verdade és filósofo,
deve participar dela o que vem a tor­ tenho a certeza de que farás o que
nar-se dois, e também que deve partici­ digo!
par da idéia de unidade o que se toma — O que dizes é a pura verdade —
unidade? E, em conseqüência, não responderam ao mesmo tempo Símias
haverias de pôr de lado essas tais sepa­ e Cebes.
rações e acréscimos e demais artima­ EQUÉCRATES:
nhas do mesmo gênero, deixando a dis­ — Por Zeus, caro Fédon, e com
cussão de tais coisas a homens que são 84 Golpe violento contra naturalistas e sofistas:
mais sábios do que tu? Mas o medo estes desejam apenas discutir por discutir, sem
cogitar de obter a verdade; aqueles podem ter
que tens, como se costuma dizer, da uma convicção pessoal da veracidade de suas
tua própria sombra63, o receio da tua teorias, mas seus métodos são tão deficientes
que não conseguem oferecer mais do que fra­
83 Temer a própria sombra: expressão prover­ cas tolices, não merecendo por isso o nome de
bial que exprime o cúmulo do medo.(N. do T.) filósofos. (N. d o T .)
FÉDON 115

toda a razão! Quanto a mim, parece- EQUÉCRATES:


me que Sócrates explicou tudo com — E também a nossa, dos que lá
maravilhosa clareza, mesmo para não estivemos, mas que ouvimos agora
quem-tenha pouca inteligência! o teu relato! Dize-me, porém: como
FÉDON: prosseguiu a conversa? 6 5
— Nada mais certo, Equécrates! E 65 Platão torna a lembrar ao leitor que Fédon
tal foi também a opinião de todos os está contando em Flius, a Equécrates e a uma
roda de fliásios, as discussões havidas no últi­
que lá estavam presentes. mo dia de Sócrates. (N. doT.1

O Problema dos Contrários e as Idéias

FÉDON: participa da pequenez, em relação à


— Se não me engano, depois de grandeza dele?
haverem concordado com ele nesse — Efetivamente assim é.
ponto e admitido a existência real de — E, da mesma forma, também
cada uma das idéias, e igualmente que Fédon não o ultrapassa pelo simples
os demais objetos, que delas partici­ fato de ser Fédon, mas sim porque
pam, delas também recebem as suas Fédon possui grandeza em compara­
denominações, Sócrates perguntou o ção com a pequenez de Símias?
seguinte: — De fato.
— Se disseres que Símias é maior — Ora, temos que Símias é chama­
do que Sócrates, mas menor do que do pequeno e também grande; está
Fédon, não terás dito, acaso, que em entre ós dois: submete sua pequenez à
Símias se encontram essas duas coisas: grandeza de um, para que este o ultra­
grandeza e pequenez? passe, enquanto que o outro apresenta
— Sim. uma grandeza que ultrapassa sua pe­
— Mas, na realidade — não é? — quenez. — Então, sorrindo: “Parece
reconheces que nesta frase: “Símias é —: prosseguiu — que estou a redigir
maior do que Sócrates”, o modo por um contrato. Entretanto acho que as
que a linguagem se exprime não coisas estão certas assim como as
corresponde à verdade e que indubita­ digo” .Cebes aquiesceu.
velmente não pertence à natureza de — Digo isto, porque desejo que te­
Símias o ser maior, pelo simples fato nhas a mesma opinião que eu. Pois,
de ser Símias, mas sim pela grandeza, quanto a mim, parece-me claro isto: a
na medida em que a possui, e tam­ grandeza em si jamais consente em ser
pouco se pode dizer que seja maior do simultaneamente grande e pequena. Da
que Sócrates porque Sócrates é Sócra­ mesma forma procede a grandeza,
tes, mas unicamente porque Sócrates nunca admitindo a pequenez nem dese­
116 PLATÃO

jando ser ultrapassada, mas optando o contrário em si não se forma de seu


por uma destas alternativas: ou se reti­ contrário, tanto em nós mesmos como
ra e foge quando o seu contrário, a em sua própria natureza. Antes, meu
pequenez, se aproxima — ou, então, amigo, falávamos de coisas que pos­
cessa de existir quando aquela avança. suem qualidades contrárias, e então as
O que admite e aceita a pequenez ja­ classificamos de acordo com estas.
mais deseja ser outra coisa senão o que Agora, porém, estamos a falar daque­
é. Eu, por exemplo, havendo admitido les próprios contrários que estão den­
e aeeitado a pequenez, continuo a ser o tro de uma coisa e lhe dão o nome, e
que sou, pequeno; mas a grandeza em não dissemos que esses contrários pos­
si não suportou ser grande e ao mesmo sam ter sua origem na coisa contrária.
tempo pequena; e, da mesma forma, a Ao mesmo tempo, olhou para Cebes
nossa pequenez jamais deseja tornar-se e perguntou:
ou ser grande; aliás, nenhuma outra — Acaso alguma coisa do que este
coisa deseja, enquanto existe, tomar-se disse, caro Cebes, causou-te perturba­
ou ser o seu contrário, mas se retira ou ção?
se destrói quando isso acontece. Cebes respondeu: — Oh, n ão! abso­
— Com tudo isso estou, eu tam­ lutamente. Mas confesso que muitas
bém, de acordo — declarou Cebes. coisas me preocupam.
Mas, nesse momento, um dos que — Responde-me, então, simples­
estavam presentes (não me recordo mente, se estamos de acordo em que
bem quem foi) ao ouvir isso tomou a um contrário nunca poderá ser o seu
palavra: contrário?
— Mas, pelos deuses! Não se afir­ — Estamos completamente de
mou já, nesta discussão, justamente o acordo.
contrário do que acaba de ser dito — Vejamos, pois, se concordarás
agora? Acaso não foi dito que o maior também com o que vou dizer. Há uma
se desenvolve do menor e o menor do coisa a que chamas quente e outra a
maior, e que realmente constitui a que chamas frio?
geração para os contrários, é provir — Há.
dos contrários? O que se diz agora, — São elas as mesmas coisas a que
pelo que vejo, é que jamais isso chamas neve e fogo?
acontece! — Por Zeus que n ão!
Sócrates volveu a cabeça para o — Quer dizer, então, que o calor é
lugar de onde vinha a voz, escutou e uma coisa e o fogo, outra; e que o frio
depois disse: é uma coisa e a neve, outra?
— És um bravo por nos haveres — Evidentemente.
recordado isso! Entretanto, não refle- — Pof certo há de ser também tua
tiste na diferença que há entre o que se opinião que a neve jamais aceita o
diz agora e o que se disse antes. No iní­ calor, conforme antes dissemos, nem
cio de nossa palestra foi afirmado que continuará a ser o que foi quando o
uma coisa se forma da coisa contrária; calor se aproximar: ou fugirá dele, ou
mas, neste momento, o que se diz é que deixará de existir; não é assim?
FÉ D O N . 117

— Efetivamente. metade dos números, por sua natureza,


— E o fogo, por sua vez, ao aproxi­ são tais que cada um deles, embora
mar-se o frio, retirar-se-á ou deixará de não seja o ímpar, sempre é ímpar 6 7. E
existir, mas nunca se resolverá a acei- o mesmo com o contrário: o dois, o <>
* tar o frio e continuar ao mesmo tempo quatro e a outra metade inteira dos nú­
a ser o que era, fogo e frio. meros não são a mesma coisa que o
— Tens razão. par, mas cada um sempre é par. Con­
— Poderá acontecer, pois, conti­ cordas comigo, ou não?
nuou Sócrates, que em outros exem­ — Como não concordar?
plos análogos as coisas sucedam de tal — Pois bem, repara agora atenta­
sorte, que não somente a forma em si mente no que desejo explicar. Não só
mesma tenha direito a seu próprio tais conceitos excluem os seus contrá­
nome por um tempo eterno, mas que rios, mas o mesmo fazem estes objetos
haja ainda aí outra coisa que, embora que, sem ser contrários, possuem o
não sendo a forma propriamente dita, contrário; com efeito, eles não admi­
possua todavia o caráter desta, e isto tem a idéia, contrária à que os informa,
em virtude da eternidade de sua exis­ mas, ao aproximar-se esse contrário,
tência. 6 8 Todavia, é possível que mi­ ou fogem ou cessam de existir. Ou
nhas palavras se tomem mais claras acaso não devemos dizer que o três se
com o seguinte: o ímpar, por exemplo, destruiria ou sofreria qualquer coisa de c
deve ser chamado sempre por este preferência a tomar-se par?
nome com que o denominamos agora, — Isso é absolutamente certo.
— Mas o três não é contrário do
ou não? dois?
— Claro que sim ! — Não, seguramente.
— Agora, pergunto-te: isto vale só — Portanto, não são só as idéias
para o ímpar, ou acaso poderá apli­ que não permitem a aproximação de
car-se também a outra coisa que não é seus contrários, mas certas outras coi­
104 a o mesmo que o ímpar em si, mas que sas, por sua vez, não consentem tam­
apesar disso deve ser chamada pelo bém que eles se aproximem.
seu nome, porquanto por sua natureza — O que dizes é a pura verdade —
é de tal modo que jamais pode abando­ tomou Cebes.
nar o ímpar? Refiro-me, por exemplo, — Queres então — prosseguiu Só­
a uma coisa como o “três”, e muitas crates — que determinemos, se puder­
outras semelhantes. Reflete sohre o mos, de que natureza são essas coisas?
três: não achas que ele deve ser chama­ — Desejo-o muitíssimo.
do sempre pelo seu próprio nome e
87 O número três participa da idéia eterna de
também pelo nome de ímpar que toda­ três; o número cinco, da idéia de cinco — mas
via, não é a mesma coisa que o três? ambos, assim como muitos outros números, “ a
Da mesma maneira, o três, o cinco e a metade da série numérica” , participam também
da idéia de imparidade, ou de ímpar, que é
86 O fogo, por exemplo, se forma pela partici­ essencial a esses números. O número três como
pação na idéia eterna de fogo, mas o calor é tal não é o contrário do número dois; mas a
atributo especial do fogo; logo, a idéia de imparidade é o contrário da paridade, e por
calor também se encontra dentro do fogo. isso o três nunca aceita a paridade, nem o dois
(N.doT.) a imparidade. (N .d o T .)
118 PLATÃO

d — Não serão, caro Cebes, essas trário da que nelas existe. Volta, aliás,
coisas cuja existência as obriga a con­ às tuas lembranças (não há mal que se
ter em si não só sua própria idéia, mas repitam as mesmas coisas!): O cinco
também, e sempre, a idéia contrária a não receberá em si a natureza do par;
uma certa coisa? nem o dez, que lhe é o dobro, a do
— Não compreendo o que dizes. ímpar. Este dez, como tal, não é con­
— Quero dizer o que disse há trário ao outro, mas apesar disso não
pouco: sabes, com efeito, que o que receberá a idéia do ímpar. É o mesmo
contém a idéia do três necessariamente o que acontece com o um e meio e com
não é só três, mas é também a idéia de os outros números que comportam o
ímpar. “meio”, em face da natureza do intei­
— Sim. ro; e o mesmo, também, com o terço e
— E que dele jamais se aproximará as demais frações dessa espécie. Supo­
a idéia de par? nho que estás a acompanhar-me e a
— É. participar da minha opinião?
— Então a idéia de par jamais se — Participo com todas as minhas
aproximará do três? forças — disse Cebes — e te acompa­
— Efetivamente, jamais se aproxi­ nho.
mará. — Agora — disse Sócrates —
— Em conseqüência, o três não recorda-te de nosso ponto de partida e
participa da idéia de par? fala, sem empregar, para responder, as
— Nunca, com efeito. próprias palavras de minha pergunta,
— Com isso, então, diremos que o mas tomando-me por modelo. Expli­
três é ímpar? co-me: ao lado da resposta de que eu
— Necessariamente. em primeiro lugar falava, a resposta
— Desta forma, pois, é que se certa a que me referia, vejo, à luz do
determina, como disse, a natureza das que agora dissemos, uma outra certe­
coisas, que, sem serem contrárias, não za. Podes perguntar-me: que é que
admitem a presença de seu contrário: o entrando num corpo o faz quente? Não
três, por exemplo, sem ser contrário ao te darei aquela resposta certa, mas
par, nunca o aceita, e não o aceita por­ simples, que é o calor, mas responder-
que sempre tem incluído em si o con­ te-ei com uma mais hábil, dizendo que
trário do par; e do mesmo modo o dois é o fogo. Perguntas: que é que,
inclui o contrário do ímpar, o fogo o entrando num corpo, o torna doente?
do frio, e assim em muitíssimos outros Não direi que é a doença, mas a febre.
ws« exemplos. Pensa agora e dize-me se Da mesma forma, não irei declarar que
não concluirias assim: não é somente o um número se toma ímpar devido à
contrário que não recebe em si o seu imparidade, mas sim devido à unidade,
contrário, mas o mesmo acontece tam­ e assim por diante. Examina, entre­
bém a coisas que, sem serem mutua­ tanto, se compreendeste bem o que
mente contrárias umas às outras, pos­ quero dizer!
suem sempre em si os contrários, e as — Compreendi suficientemente —
quais verossimilmente não receberão respondeu Cebes.
jamais uma qualidade que seja o con­ — Então responde-me, se puderes:
FÉDON 119

qual é a coisa que, entrando num — Se o que não contém o calor em


corpo, o toma vivo? si fosse necessariamente indestrutível,
— A alma. e dado que alguém aproximasse calor
— M as é sempre assim? à neve, a neve não haveria de retirar-se
— Com o n ã o ! conservando sua essência e sem se fun­
— Portanto a alma, empolgando dir? Pois ela não poderia ser destruída,
uma coisa, sempre traz vida para essa nem, se subsistisse, aceitaria o calor.
coisa? — É verdade!
— Sempre traz vida! — E, da mesma forma, se o que
— Existe um contrário da vida, ou não possui o frio fosse indestrutível, o
não? fogo, ao aproximar-se o frio, não seria
— Existe. extinto nem destruído, mas, fugindo
— Qual é? depressa, continuaria a subsistir.
— A morte. — Necessariamente.
— Não é verdade que a alma ja ­ — E não podemos falar do mesmo
mais aceitará o contrário do que ela modo a propósito do que é imortal?
sempre traz consigo? Assim, pois, se também o imortal é
— Decididamente! indestrutível, a alma não pode ser des­
— Ora pois; como chamávamos há truída quando a morte se aproxima.
pouco ao que não aceita a idéia do Em conseqüência do que dissemos, a
par? alma nem aceitará a morte, nem ficará
— ímpar. morta, da mesma forma como — de
— E ao que não aceita o justo e ao conformidade com as nossas prece­
que não admite o harmônico? dentes explanações — nem o três será
— Inarmônico — respondeu Cebes par, nem o ímpar será par, nem o fogo
— e injusto. será frio, nem o calor no fogo será frio,
— Bem; e ao que não admite a e assim .por diante. Todavia, alguém
morte como chamaremos? nos poderia dizer: bem, o ímpar pela
— Imortal. aproximação do par não se torna par,
— A alma não admite a morte, pois mas que impede que depois da destrui­
não é? ção do ímpar se forme o par? A tal lin­
— É. guagem, não poderíamos replicar que
— Logo, a alma é imortal? o ímpar não cessa de existir: pois o
— É imortal! ímpar não é indestrutível. Se isso fosse
— E, então, afirmaremos ou não provado poderíamos responder que, ao
que isso está provado? Que achas? aproximar-se o par, o ímpar e o três
— Parece-me que está suficiente­ fogem depressa. E o mesmo pode­
mente provado, caro Sócrates! ríamos dizer a propósito do fogo, do
— Por conseguinte, meu caro calor e das demais coisas. Ou porven­
Cebes, se o ímpar fosse necessaria­ tura não?
mente indestrutível, o três poderia ser — Poderíamos, sim.
outra coisa, senão indestrutível? — Portanto, se a propósito do que
— Claro que n ã o ! é imortal está provado que também é
120 PLATÃO
indestrutível, segue-se que a alma não — não tenho, caro Sócrates, depois
* só é imortal, mas também indestru­ disso nada mais a ajuntar, nem nada a
tível. Se não, precisamos ir em busca apresentar contra a tua demonstração.
doutra prova. Se há, todavia, alguma coisa que Sí­
— Mas não é necessário buscar mias aqui presente, ou alguém mais, te­
outra prova! Se o que é imortal, quer nham a dizer, será bom que não silen­
dizer, o que é eterno, aceitasse a ciem. Pois haverá outra ocasião, além
destruição, não poderia haver nenhu­ desta, para a qual possa adiar o desejo
ma outra coisa que deixasse de admi­ de falar ou de ouvir falar sobre tais
ti-la! 68 questões? 69
— Creio, por conseguinte — conti­ — Tampouco eu — confessou Sí­
nuou Sócrates — , que todos estão de mias — jamais poderia duvidar, após
acordo em que Deus e a própria idéia essas demonstrações — mas, apesar
da vida, e o mais que de imortal existe, disso, devido à magnitude da matéria
nunca desaparecem? tratada e por desconfiança em face da b
— Evidentemente, por Zeus! — fraca natureza humana, acho neces­
exclamou Cebes. — Todos os homens, sário não confiar na discussão.
e mais ainda os deuses, segundo penso, — Nem só isso, caro Símias —
concordam nisso! exclamou Sócrates. — A justeza de
— Por conseguinte, o que é imortal tuas palavras se estende também às
é também indestrutível; e a alma, premissas: por mais certas que vos
sendo imortal, não deve ser também pareçam ser, não deixam por isso de
indestrutível? exigir um exame mais profundo70.
— Necessariamente! Sim, com a condição de que as exami­
— Logo, quando a morte sobrevêm neis com toda a precisão requerida, a
ao homem, a sua parte mortal natural­ marcha do raciocínio será seguida por
mente morre — mas a parte imortal
vòs, se não me engano, com a maior
foge, rápida, subsistindo sem se des­
proficiência de que o homem é capaz!
truir, escapando à morte.
E suponhamos, enfim, que isso se
— Evidentemente!
tenha revelado a vós como certo e evi­
— Portanto, meu caro Cebes, a
dente — então, não precisareis procu­
alma é antes de tudo uma coisa imortal
rar mais nada!
.o? a e indestrutível, e nossas almas de fato
— É verdade — assentiu Cebes.
hão de persistir no Hades!
— Quanto a mim — disse Cebes 69 Sócrates tem poucas horas de vida, e quem
quiser algum esclarecimento a propósito da
68 A neve é portadora do frio; logo, aproxi­ imortalidade da alma deve aproveitar esta oca­
mando-se o calor, a neve se deve retirar ou sião; dentro em breve o mestre não mais estará
cessar de ser neve; mas naturalmente a neve com eles. (N. d o T .)
nem sempre pode escapar do calor, e por isso 70 Este último diálogo entre Sócrates e Símias
se destrói sob a sua influência, deixando de ser não é expressão de ceticismo, como se poderia
neve. Isto é também verdadeiro de todas as pensar, mas leal reconhecimento da dificulda­
coisas que são portadoras de certas idéias cujo de da matéria em tratamento: o discípulo de
contrário não podem aceitar. Esses corpos po­ Sócrates, isto é, de Platão, deve sempre revi­
dem ser destruídos pelo seu contrário, mas a sar estas argumentações difíceis, para com­
alma, como portadora da vida, faz exceção: o preendê-las sempre de modo mais perfeito. Esta
conceito da imortalidade exclui a destruição. filosofia, portanto, não é divertimento, nem
Logo, a única coisa que a alma sofre é reti- pode ser compreendida rapidamente. Exige re­
rar-se quando a morte se aproxima. (N. d ò T .) flexão. (N. do T.)
FÉDON 121

Mito do Destino das Almas

— Há, entretanto — volveu Sócra­ ordem de levá-los para lá. Depois de e


tes — , pelo menos uma coisa sobre a haverem recebido o que mereciam e de
qual seria justo que vós — sim, vós terem lá permanecido durante o tempo
i todos — ainda refletísseis: se verdadei­ conveniente, outro guia os reconduz
ramente a alma é imortal, cumpre que para cá, através de muitos e demora- .
zelemos por ela, não só durante o dos períodos de tempo. O que quer
tempo atual, isso a que chamamos dizer, portanto, que o caminho não é
viver, mas também pela totalidade do tal como o pretende o Télefo de Ésqui-
tempo; pois seria um grande perigo lo 71: este, com efeito, diz que é simples «
não se preocupar com ela. Admitamos o caminho que conduz ao Hades; a
que a morte nada mais seja do que mim, todavia, quer me parecer que ele
uma total dissolução de tudo. Que não é nem simples, nem um só: pois, se
admirável sorte não estaria reservada houvesse uma só estrada para ir ao
então para os maus, que se veriam Hades, não era necessária a existência
nesse momento libertos de seu corpo, de guias, já que ninguém poderia errar
de sua alma e da própria maldade! a direção. Mas é evidente que esse
Mas, em realidade, uma vez eviden­ caminho contém muitas encruzilhadas
ciado que a alma é imortal, não existi­ e voltas: e prova disso são os cultos e
costumes religiosos que temos72.
rá para ela nenhuma fuga possível a
<1 seus males, nenhuma salvação, a não
“Desta maneira, pois, a alma orde­
nada e sábia acompanha obediente­
ser tornando-se melhor e mais sábia. A
mente ao guia, pois bem conhece a
alma, com efeito, nada mais tem consi­ situação. Mas a alma que se agarra
go, quando chega ao Hades, do que avidamente ao corpo — coisa que
sua formação moral e seu regime de antes expliquei — permanece por
vida — o que aliás, segundo a tradi­
ção, é justamente o que mais vale ou 71 Télefo é o herói de uma tragédia do mesmo
prejudica ao morto, desde o início da nome, escrita pelo grande trágico grego Ésquilo,
e sobre a qual temos apenas umas poucas notí­
viagem que o conduz ao além. Assim, cias dos historiadores antigos. (N .d o T .)
dizem que o mesmo gênio que acompa­ 72 Cf. Decharme, op. cii. Veja também Pe. Fes-
tugière, “La Religion de Platon dans 1‘Epino-
nha cada um de nós durante sua vida é, nus” in Bulletin de la Société Française de Phi-
n. 1-2 (1948). A religião grega não
também, quem conduz cada morto a losophie,
conhecia dogmas estabelecidos por uma igreja
um determinado lugar. Então, os que autoritária. Por esta razão, as opiniões sobre
lá se encontram reunidos são submeti­ arentes
outra vida divergiram de acordo com as dife­
épocas e regiões. Entretanto, sempre e
dos a um julgamento e, imposta a sen­ em toda parte houve um culto aos mortos e
conjurações dirigidas a estes, assumindo aspec­
tença, são levados ao Hades, conduzi­ tos diferentes conforme o que a respeito deles
dos por um guia a quem foi dada a se imaginava. (N .d o T .)
122 PLATÃO

muito tempo ainda adejando ao redor cida com a de que falas. Teria, pois,
do cadáver e dos monumentos funerá­ muito prazer em te ouvir a esse
rios, oferece resistência e sofre, e só se respeito.
deixa levar pelo gênio sob violência e — Pois bem, meu caro Símias.
exigindo grandes esforços. Mas quan­ Todavia, para explicar como isso é,
do essa alma, afinal, chega ao lugar em evidentemente não necessitamos da
que já se encontram as outras almas, arte de Glauco7 4. Provar, porém, que
cada uma destas imediatamente se isso de fato assim é, eis uma tarefa que
afasta e a evita, pois sabem que ela de muito ultrapassa a arte de Glauco.
praticou uma das negras ações seguin­ Eu talvez não seja capaz de demons­
tes: ou matou injustamente alguém, ou trá-lo, e, mesmo que fosse, parece-me
praticou qualquer crime desse gênero, que ainda assim a minha própria vida,
ou qualquer obra que seja própria caro Símias, não seria suficiente para
dessa espécie de almas. Por isso, nin­ fazê-lo, tendo em vista a extensão do
guém deseja ter sua amizade e ser seu assunto. Quanto a explicar-vos, entre­
companheiro, nem servir-lhe de guia. tanto, as minhas opiniões a respeito da
Assim, essa alma erra desnorteada terra e de suas regiões, nada me impe­
daqui para lá, em ignorância absoluta, de de fazê-lo.
durante certo tempo, e em virtude de — Nada mais queremos! — excla­
uma necessidade fatal é levada a uma mou Símias.
residência que lhe é conveniente. Inver­ — Pois bem — continuou Sócra­
samente, a alma cuja vida na terra foi tes. — Em primeiro lugar, estou con­
pura e sábia lá encontra, por compa­ vencido de que a terra, sendo redonda
nheiros e guias, os próprios deuses, e e estando colocada no centro da abó­
sua residência será, da mesma forma, a bada celeste, não precisa nem do ar
que lhe é adequada. nem de qualquer outra matéria para
“Ora, a terra possui grande número não cair. Ao contrário, a uniformidade
de regiões maravilhosas, e nem pela existente em cada parte do céu, dum
sua constituição nem pela sua grande­ lado, e, de outro, o próprio equilíbrio
za, ela não é o que admitem as pessoas da terra são suficientes para sustentá-
que têm o costume de falar sobre ela, la. Assim, pois, um objeto que se man­
conforme a convicção que alguém me tém em equilíbrio no centro de um con­
transmitiu 73.” tinente uniforme não tem motivo
— Mas que queres dizer, Sócrates? nenhum para inclinar-se mais para lá
— perguntou Símias. — Já tenho ou­ ou mais para cá e mantém-se efetiva­
vido dizer muitas coisas a propósito da mente em sua posição, sem descair
terra, mas, confesso, nenhuma pare- para os lados. Aqui tendes o primeiro
73 Platão apresenta a exposição de uma fantás­ 74 Glauco: nome de alguns personagens da lenda
tica teoria cosmográfica, na qual não se mostra grega, que realizaram obras dificílimas. A ex­
de acordo com nenhuma das teorias naturalis­ pressão “obra de Glauco” serve para designar
tas que haviam sido elaboradas até então. uma realização árdua e complicadíssima.
(N. do T,.) (N .d o T .)
123
FÉDON

ponto de que me convenceram7 5. que vivem em torno dum paul. Muitos


— E essa teoria me parece efetiva­ outros homens moram em muitas ou­
mente muito certa — concordou Sí­ tras partes semelhantes a essa. É que
mias. em muitas partes, ao redor da terra, há
— Aquilo de que me convenci em um grande número de cavidades79,
segundo lugar — prosseguiu Sócrates diferentes entre si pela forma e pelo
— é que a terra é muito grande e que tamanho, para as quais correram e
nós moramos apenas numa pequena onde se juntaram águas, vapor e ar.
parte dela — naquela que do Fásis às Quanto à terra em si mesma, pura,
colunas de Hércules7 6, ao redor do encontra-se situada na pura abóbada
mar77, assim como formigas e rãs78 celeste, lá onde demoram os astros, e
75 Combinação das teorias de Anaximandro de
parte é chamada de éter pelos que
Mileto e dos filósofos do sul da Itália, em pri­ disso tratam. A borra precipitada do
meiro plano dos pitagóricos. Anaximandro, éter vem aglomerar-se nas cavidades
como todos os filósofos pré-socráticos da Jônia,
tem a terra como um corpo de forma cilíndrica, da terra80. Nós habitamos, pois, essas
numa de cujas bases nós, os homens, estamos cavidades, embora não o notemos: cre-
estabelecidos. Anaximandro é o primeiro a
negar que a terra para se manter no espaço mos.que estamos a morar na superfície
necessite de um sustentáculo. Deste modo, foi superior da terra, da mesma forma
levado por primeira vez a reconhecer a lei da
gravitação universal, declarando que cair sig­
como acreditaria morar na superfície
nifica apenas mover-se em direção ao centro do oceano aquele que habitasse o seu
do universo, e Como a terra se encontra (para fundo, pois, vendo o sol e os demais
ele) no centro do universo, não cai e, por­
tanto, não necessita que a sustentem. Os fi­ astros através da água, haveria de
lósofos pitagóricos, por sua vez, concluíram tomar o oceano por um céu. Sua indo­
que a terra e o universo inteiro são esféricos,
porque viam na esfera o corpo mais perfeito. lência e fraqueza jamais lhe permiti­
Platão combina ambas opiniões: a terra é riam vir ter à flor do mar, nem, uma
uma esfera que se acha colocada no centro do
universo e ao redor dela gravita a abóbada vez emerso da água e volvida a cabeça
celeste, que é uma esfera oca e cujo centro se na direção desses lugares, ver como
confunde com o centro da própria terra. Cf. são mais puros e mais belos do que os
Fedro e veja ainda L. Robin, La Science
Grecque, A. Reymond, Hisloire des Sciences outros, sobre os quais aliás ninguém o
Exactes et Naturelles dans VAntiquité G reto- poderia informar por jamais tê-los
Romaine. (N. do T.)
7®Fásis e Colunas de Hércules, na linguagem visto. É mais ou menos a mesma coisa
geográfica tradicional, indicavam o extremo o que sucede a nós. Morando num bu­
leste e o extremo oeste da terra conhecida até
então. Fásis é um rio que desemboca no Mar raco da terra, acreditamos estar em
Negro, próximo da cadeia do Cáucaso e as sua superfície exterior, e damos ao ar o
Colunas de Hércules são o estreito de Gibral-
tar. (N. do T.) 79 Aqui ressalta claramente que Platão faz uma
77 O mar aqui referido é o Mediterrâneo: os combinação da teoria segundo a qual a terra
países conhecidos naquele tempo estavam agru­ é uma esfera com a outra, segundo a qual
pados ao redor desse mar. (N. do T.) nosso planeta é uma chapa: a terra como tal
78 Formigas e rãs são pequenas como o ho­ é uma esfera, mas está cheia de cavidades no
mem em relação à terra: tal a característica fundo de uma das quais moramos nós, os ho­
comum a esses dois animais. Quanto à segun­ mens. Ou seja: a parte da terra ocupada pelos
da — a de viver em torno de um paul — cabe homens é plana, e no seu centro está o Me­
somente ès rãs. Platão emprega aqui o que diterrâneo. (N. do T .)
se denomina em filologia clássica um ana- 80 Transparece aqui claramente que o éter é o
coluto, isto é, uma união de termos discor­ invólucro da superfície da terra e que o ar não
dantes supondo que o leitor saiba fazer por si passa de uma borra ou dejeto do éter, precipi­
a distinção. (N. do T.) tado nas cavidades da terra. (N. d o T .)
124 PLATÃO

nome de céu, como se os astros de fato colorida, correspondendo a cada gomo


planassem no ar, nosso céu. O caso é uma diferente cor, das quais são fracas
e bem o mesmo: por fraqueza e indo­ imitações as cores aqui usadas por
lência estamos impossibilitados de nossos pintores. Ora, naquela longín­
subir até o ar superior. Se alguém esca­ qua região a totalidade da terra é deco­
lasse a parte superior da terra, ou voas­ rada com tais cores — aliás muito
se com asas, esse alguém haveria de mais nítidas e puras do que as nossas
contemplar o que existe por lá, e se sua conhecidas: aqui, com efeito, ela é púr-
natureza fosse bastante forte para lhe pura e de uma beleza deslumbrante, ali
permitir uma observação prolongada, semelha o ouro puro, além é perfeita­
verificaria que aqueles é que são o céu mente branca e muito mais alva do que
verdadeiro, a luz verdadeira e a terra o giz e a neve; e as demais cores de que
verdadeira — assim como os peixes, está revestida são, da mesma forma,
que sobem do mar, vêem o que há em ainda mais numerosas e muito mais
no nossa terra! Esta parte da terra em que belas do que todas aquelas que nós
nos achamos, as próprias pedras e suas conhecemos. Ademais, as grandes ca- *
diferentes regiões, estão corroídas e vidades de que falei, cheias de ar e de
desgastadas, assim como está desgas­ água, se mostram também coloridas, e,
tado e corroído pela água salgada tudo em combinação com os outros orifí­
o que há no mar, onde nada existe que cios, igualmente coloridos, apresentam
mereça menção, onde nada é perfeito, um conjunto de visão esplêndida, um
acabado, por assim dizer, mas onde só todo de harmoniosas cores. Quanto à
se encontram anfratuosidades e areia e outra terra, constituída como é, tudo o
lama, muita lama, e sujeira onde há que aí existe existe adequadamente —
terra — nada, enfim, que se possa cha­ árvores, flores e frutos; do mesmo
mar belo, em comparação com nossas modo, por sua parte, as montanhas; e
coisas. Ao contrário, aqueles lugares as pedras aí têm, proporcionadamente,
que se encontram na parte superior da muito mais beleza quanto ao polimen­
terra hão de ser indubitavelmente to, transparência e coloração: e as
muito mais belos do que os nossos. E pedrarias de cá embaixo, as pedrarias
b se há, caro Símias, ocasião propícia que qualificamos de preciosas, nada
para referirmos uma lenda mitológica, mais são do que suas lascas — sim,
seria esta; assim poderíamos conhecer lascas são os nossos sárdios, o nosso
o que se encontra na parte superior da jaspe, as nossas esmeraldas, e tudo o
terra, debaixo do céu verdadeiro. Não mais do mesmo gênero. Enfim, nessa <■
vos parece? remota região, se não há nada compa­
— Sim, e teríamos vivo prazer, Só­ rável às coisas daqui, tudo é muito
crates, em ouvir essa lenda — respon­ mais lindo e mais precioso. A causa
deu Símias. disso é a seguinte: as pedras daquela
— Pois dizem, meu excelente região são puras; não estão, como as
amigo — prosseguiu Sócrates — , que daqui, corroídas e deterioradas pela
a terra, se alguém a observasse do alto, ação da água suja e salgada, que inqui-
ofereceria o aspecto de uma mola de na de doença e fealdade as pedrarias, a
couro formada de doze gomos, toda terra e as outras coisas, assim como
FÉDON 125

aos animais e às plantas. E ao orna­ “Assim, pois, tal é a natureza da


mento dessa terra verdadeira, consti­ terra em seu conjunto e a do que per­
tuída pela multidão deslumbrante das tence à terra. Quanto às regiões inte­
gemas, se ajuntam ainda o ouro, a riores encontram-se muitos espaços
prata e tudo o mais que pertence à ocos, conforme as cavidades: uns são
mesma espécie. Ornamentação que de mais profundos e mais largamente
per si e por sua natureza se revela aos abertos do que este em que moramos.
olhos de um modo tão pleno, tão gran­ Outros, embora sejam mais fundos,
dioso e tão universalmente esparso apresentam aberturas menores do que
sobre a terra que esta é na verdade um a de nossa região; e outros enfim, com
espetáculo especialmente feito para a menor profundidade do que a daqui,
contemplação dos bem-aventurados! têm uma largura maior. Mas todas *
“Nessa terra verdadeira vivem ani­ essas cavidades estão de muitas manei­
mais em grande número diferentes dos ras ligadas entre si no seio da terra:
daqui e também homens. Destes al­ por meio de canais, uns mais amplos,
guns moram no interior da terra; outros mais estreitos; e muita água se
outros, na orla do ar, como nós outros precipita de uma cavidade para outra,
à beira do mar; outros, ainda, em ilhas assim como o vinho nos vasos em que
cercadas de ar e próximas do conti­ o misturam. Há, com efeito, enormes
nente. Numa palavra, o que para nós caudais subterrâneos, de imensa gran­
representam a água e o mar em face de
deza, carregando água quente e água
nossas necessidades, lá é o ar; e o que fria; e também há muito fogo e grandes
para nós é o ar, para esses homens é o rios de fogo. E há muitos, enfim, que
éter. Há, no clima de que gozam, uma são de lama líquida, ora mais claros,
tal perfeição de temperatura que se ora mais barrentos — e é por isso que *
acham isentos de doenças e, ademais, na Sicília escorrem antes das lavas os
quanto à duração da vida, ultrapassam
rios de lama e depois a própria lava.
de muito os homens cá debaixo. E
Esses rios inundam cada região, con­
quanto à vista, ao ouvido, ao pensa­
forme o sentido em que a corrente de
mento e todas as funções análogas,
eles se encontram mais ou menos à cada vez se encaminha para cada uma.
Ora, o que causa todos esses movimen­
mesma distância de nós, como, quanto
tos de subida e descida é uma espécie
à pureza, o ar da água e o éter do ar.
“Lá também existem lugares sagra­ de oscilação que se faz na parte inte­
dos e templos, nos quais os deuses rior da terra, e a existência dessa osci­
efetivamente residem; e vozes, e profe­ lação deve provir do seguinte:
cias, mediante as quais os deuses se “Entre os abismos da terra há sobre­
tornam sensíveis a eles; desse modo, tudo um, que é o maior, precisamente
entram em contato com as divindades, porque atravessa a terra inteira dum
face a face. E o sol, a lua e os demais lado a outro. É dele que fala Homero, ma
astros são contemplados por esses quando diz: Bem longe, no lugar em
homens, tais como verdadeiramente que sob a terra está o mais fundo dos
são em si mesmos. A esses privilégios abismos, e é a ele que o próprio Home­
se junta uma felicidade que lhes é ro em outros trechos, e da mesma
acompanhamento natural. forma muitos outros poetas, dão o
126 PLATÃO

nome de Tártaro81. O fato é que esse rios deste lado que, por sua vez, se
vazio é o lugar para onde convergem encherão. Cheios, os rios correm pelas
os cursos de todos os rios, e também o vias de passagem e atravessam a terra,
de onde inversamente partem, adqui­ chegando a lugares que se abrem para
rindo cada um então características o exterior, dando nascimento a mares,
próprias, conforme o terreno que atra­ a lagos, a outros rios e a fontes. Mas,
vessa. Quanto à razão pela qual todos daqui, a água desce novamente para o
os rios vão ter a esse lugar e dele saem, interior da terra e, depois de haver feito
está no fato de que a água aí não ora circuitos de grande extensão e em
encontra nem fundo nem base: é, pois, grande número, ora mais curtos e em
natural que aí haja um movimento de menor número, desemboca no Tártaro;
oscilação e de ondulação, que a faça uns, muito abaixo do lugar de saída;
subir e descer. O ar e o sopro que a ele outros, um pouco menos — mas todos
se prende fazem o mesmo82: ambos sempre abaixo da saída do Tártaro.
acompanham e seguem, com efeito, o Alguns desses rios correm pelo lado
movimento da água, tanto quando este oposto àquele por onde saíram; outros,
lança para o outro lado da terra como pelo mesmo lado. Alguns deles tam­
quando para o nosso lado — mais ou bém descrevem um círculo completo,
menos assim como no processo da enlaçando a terra uma ou duas vezes,
respiração, quando se inspira e expira, como serpentes, e descem à maior
se forma uma corrente de ar. Do profundidade que é possível, para vol­
mesmo modo o sopro, aí entrando e tar ao Tártaro. Ora, o que é possível é
saindo com as massas d’água, produz que, numa ou noutra direção, a descida
ventos de uma irresistível violência. se faça apenas até o centro, mas nunca
Suponhamos que a água se tenha além; pois a parte da terra que se acha
retirado para as chamadas regiões infe­ de cada um dos dois lados do centro é,
riores; afluindo então através do solo para cada corrente, a origem de uma
nos lugares onde, como vimos, se ascensão.
opera a descida da sua corrente, ela “Seguramente esses rios são muito
enche os rios do outro lado, do mesmo numerosos, enormes e variados: nessa
modo que nos processos de irrigação. multidão, porém, se podem distinguir
Suponhamos, inversamente, que a quatro mais importantes. O maior de
água fuja desses lugares e se arroje em todos, e aquele cujo curso descreve o
direção ao nosso lado. Serão então os círculo mais exterior, é o rio a que cha­
mam de Oceano83. Face a face com
81 Platão neste passo interpreta dados da mito­
logia com grande liberdade poética: Tártaro é este, e rolando em sentido oposto,
às vezes sinônimo de Hades, mas em geral a corre o Aqueronte8 4: serpeia por entre
mitologia o considera como uma parte do Ha­
des, na qual os maiores criminosos recebem a desertos, várias vezes corre também
pena merecida. Jamais se disse, porém, que o por baixo da terra, e ao cabo precipi­
Tártaro fosse o centro do sistema hidrográfico
universal. (N .d o T .)
ta-se no lago Aquerúsia. A este lago é
82 O Tártaro de Platão é um orifício que per­
fura completamente a terra, passando pelo seu 83 Oceano: na lenda, é ele um rio que perfaz
centro. A água corre no Tártaro de uma para um círculo ao redor da terra plana. (N. d o T .)
a outra extremidade, mas jamais sai fora desse 84 Aqueronte (ao pé da letra: rio dos lamentos)
canal, porque o centro da terra, como centro é um fabuloso rio que existe no Hades; a men­
de gravidade, a mantém segura. O ar, no Tár­ cionada lagoa Aquerúsia é também um dado
taro, faz movimentos como a água. (N. d o T .) mitológico que Platão utiliza. (N. d o T .)
FÉDON 127

que vêm ter as almas dos mortos, as avança, nas proximidades do lago
quais, após ali permanecerem durante Aquerúsia, mas do lado oposto. Suas
o tempo que lhes foi prescrito, tempo águas tampouco se misturam com
mais longo para umas, mais breve para outra; também elas, após o trajeto cir­
outras, são outra vez enviadas para cular, finalmente desembocam no Tár­
formarem os seres vivos. Um terceiro taro, num ponto oposto ao Periflege­
rio nasce a meia distância entre os dois tonte: o nome deste rio, ao dizer dos
primeiros e, perto do ponto em que poetas é Cocito88.
nasceu, vem a desembocar num vasto “Tal é, pois, meus amigos, a distri­
espaço onde arde um fogo imenso; aí, buição natural desses rios. Eis, agora,
então, forma um lago muito maior do os mortos chegados ao lugar para onde
que o nosso mar8 5, fervendo sempre cada um foi conduzido por seu gênio
água e lama; e daí sai, sujo e cheio de
tutelar. Aí, antes do mais, todos são
lama, serpeando por muitas voltas e julgados, tanto os que tiveram uma
passando por muitos lugares, che­ vida sã e piedosa como os outros. Em
gando a cruzar pela extremidade do seguida, aqueles de quem se verifica
lago Aquerúsia, sem todavia se mistu­
que tiveram uma existência comum
rar com suas águas, para ir, final­ são dirigidos ao Aqueronte, e nele, em
mente, após mais alguns coleios repeti­ qualquer embarcação, se encaminham
dos, lançar-se no Tártaro, num ponto para o lago Aquerúsia. Lá, então, pas­
mais abaixo: é a este terceiro rio que se sam a morar e a submeter-se a purifi­
dá o nome de Periflegetonte8 6, e dele é cações, quer remindo-se pelas penas
que brota toda lava que se encontra, que sofrem das ações de que se torna­
onde quer que ela exista, sobre a face ram culpados, quer obtendo pelas boas
de nossa terra. Fazendo por sua vez ações que praticaram recompensas
face a este, corre o quarto rio: rolam
proporcionadas aos méritos de cada
suas águas primeiramente por uma
região de assombrosa horripilância e um89. Outros, porém, que se verifica
selvageria, completamente revestida de serem incuráveis por causa da gran­
uma uniforme coloração azulada — é deza dos pecados que cometeram,
a região que se denomina região Estí- autores de roubos em templos repeti­
gia; e Estige8 7 é então o nome do lago dos e graves90, de muitos homicídios
formado por esse rio. Depois de se 88 Cocito (rio das queixas) é igualmente um
haver lançado nesse lago, onde suas dos fabulosos rios do Hades. Platão esclarece:
águas adquirem temíveis propriedades, “ao dizer dos poetas” . Mas aproveitou dos poe­
tas apenas o nome do rio, pois em nenhuma
mergulha pela terra adentro e, descre­ poesia ele desempenha o papel que Platão lhe
vendo espirais, corre em sentido con­ empresta. (N. d oT .)
89 Os que viveram uma vida comum consti­
trário ao Periflegetonte, ante o qual tuem a maioria: não têm nem grandes vícios,
nem grandes virtudes. Corforme a vida que le­
85 Não é bem claro se “nosso mar” indica o varam, recebem punição ou recompensa tempo­
Mediterrâneo ou o Egeu, que é o mar propria­ rária e, ademais, como indica o trecho ante­
mente grego. Em todo caso, este lago é bem rior, voltam a inserir-se em novos corpos.
grande. (N. d o T .) Platão não descreve as punições nem as recom­
86 Periflegetonte (ao pé da letra: rio de cha­ pensas. (N. d o T .)
mas de fogo) é também um rio fabuloso que 90 Os salteadores de templos figuram entre os
corre no Hades. Nosso autor utiliza este rio em maiores criminosos: onde se observa o respeito
sentido naturalista para explicar os vulcões. de Platão à religião tradicional. Sócrates, acusa­
(N. do T.) do de inimigo desta religião, é que expressa tais
87 Estige, na mitologia, é um rio do Hades. pensamentos. Assim, Platão está defendendo seu
Platão o transforma em lago. (N. d o T .) caro mestre. (N. d oT .)
128 PLATÃO

contra a justiça e contra a lei, e de mui­ da verdadeira terra!92 E, entre estes,


tas outras coisas desse gênero — estes aqueles que pela filosofia se purifi­
recebem a paga merecida e são precipi­ caram de modo suficiente passam a
tados no Tártaro, de onde nunca mais viver absolutamente sem os seus cor­
sairão91. Quanto àqueles cujos erros pos, durante o resto do tempo, e a resi­
foram reconhecidos como sendo faltas dir em lugares ainda mais belos que os
que, não obstante sua gravidade, não demais93. Mas descrever esses lugares
deixam de ter remédio, como as come­ não é fácil nem possível, pois temos
tidas pelos que sob o domínio da ira pouco tempo!
usaram de violência contra o pai e a “Pois bem, meu caro Símias, são
mãe, e que disso se arrependeram para estas as realidades, cuja exposição
o resto da vida, ou que, em condições fizemos por alto, e, que nos devem
semelhantes, se tornaram assassinos levar a tudo fazermos por participar da
— estes, também, devem necessaria­ virtude e da sabedoria nesta vida. Bela
mente ser lançados no Tártaro; mas, é a recompensa e grande a esperança!
quando houver decorrido um ano de­ Entretanto, pretender que essas coisas
pois que foram precipitados, uma onda sejam na realidade exatamente como
os arremessa para fora — e os assassi­ as descrevi, eis o que não será próprio
nos são lançados no Cocito, e os crimi­ de um homem de bom senso! Mas crer
nosos contra pai e mãe no Periflege- que é uma coisa semelhante o que se
tonte. Comboiados por esses rios, dá com nossas almas e o seu destino
chegam ao lago Aquerúsia: e ali, cha­ — porque a alma é evidentemente
mam e pedem em altos brados, uns imortal — eis uma opinião que me pa­
àqueles que mataram, outros àqueles rece boa e digna de confiança. Belo
que violaram; e lhes suplicam que os será ter esta coragem! É preciso repe­
deixem passar do rio ao lago e vir ter ti-lo como fórmula mágica e é — pala­
com eles. Se conseguem o que pedem, vra! — por tal razão que há muito
saem do rio e não sofrem mais. Em estou a falar nessa lenda mitológica.
caso contrário são de novo jogados ao Pois bem! Considerando estas cren­
Tártaro, e de lá outra vez aos rios, ças, deve permanecer confiante sobre o
assim numa repetição sem tréguas, até destino de sua alma o homem que
que hajam obtido o perdão de suas ví­
timas — pois essa é a punição que os 92 Chegamos enfim a conhecer quais são os fe­
lizes habitantes da superfície da verdadeira
juizes lhes impuseram. Aqueles, enfim, terra,, sobre os quais e sobre cuja bem-aventu-
cuja vida foi reconhecida como de rança Platão tanto tem falado: são os adeptos
da religião tradicional, os piedosos. Agora se
grande piedade, são libertados, como compreende também por que Platão disse antes
de cárceres, dessas regiões interiores que estes tinham comunicação direta com os
deuses: adoravam os deuses nesta vida e nas
da terra, e levados para as alturas da cavidades da terra, e sua recompensa na super­
morada pura, indo morar na superfície fície da mesma será uma vida feliz e o contato
com os deuses. (N. do T .)
91 Castigo eterno para os maiores pecadores. 93 Grau supefior da classificação dos homens:
Platão não dá precisão acerca dos sofrimentos oá filósofos. Estes fazem parte dos piedosos a
por que passam no Tártaro. Possivelmente, é que nos referimos na nota anterior; mas são
opinião sua que os turbilhões de água e ar, entre eles os mais genuinamente piedosos, e por
atrás descritos, façam padecer os habitantes da­ este motivo terão uma sorte melhor do que os
quela região. (N .d o T .) demais adeptos da religião tradicional. (N. do T.)
FÉDON 129

durante sua vida desprezou os prazeres tanto a mim e aos meus quanto a vós
do corpo e os ornamentos deste, princi­ mesmos, ainda que não tenhais assu­
palmente, pois são, a seu ver, coisas mido esse-compromisso. Suponhamos,
estranhas e nocivas. O homem que, ao pelo contrário, que de vós próprios não
contrário, se dedicou aos prazeres que tomeis cuidado, e que não queirais
têm a instrução por objeto, e que dessa absolutamente viver em conformidade
forma ornou sua alma, não com ador­ com o que foi dito tanto hoje como em
nos estranhos e nocivos, mas com o outras ocasiões. Então, quaisquer que
que é propriamente seu e mais lhe con­ possam ser hoje o número e a força de
vém, com a temperança, a justiça, a vossas promessas, nada tereis adianta­
coragem, a liberdade, a verdade9 4 — do !
esse aguarda confiante e corajoso o — Poremos todo o nosso coração,
momento de por-se a caminho do naturalmente — disse Críton — em
Hades, quando seu destino o chamar! conduzir-nos dessa forma. Mas como
“Vós, seguramente — ajuntou Só­ haveremos de enterrar-te?
crates — , vós, Símias, Cebes, e todos — Como quiserdes — respondeu
os outros — será mais tarde, não sei — , isto é, se conseguirdes reter-me a
quando, que vos poreis a caminho. mim, e se eu não vos escapar! —
Quanto a mim, o meu destino neste Então riu-se docemente e, voltando-se
momento me chama, como diria um para nós, disse: — Não há meio, meus
amigos, de convencer Críton de que o
ator de tragédia9 5.
“Creio que ainda me sobra algum que eu sou é este Sócrates que se acha
tempo para tomar um banho: parece- presentemente conversando convosco e
me melhor, com efeito, lavar-me antes que regula a ordem de cada um de seus
de tomar o veneno, e não deixar para argumentos! Muito ao contrário, está
as mulheres o trabalho de lavar um persuadido de que eu sou aquele outro
cadáver.” Sócrates cujo cadáver estará daqui a
Depois destas palavras de Sócrates, pouco diante de seu olhos; e ei-lo a
Críton falou: — Então, que ordens nos perguntar como me deve enterrar! E
dás, Sócrates, a estes ou a mim, a res­ quanto ao que desde há muito venho
peito de teus filhos ou de qualquer repetindo — que depois de tomar o ve­
outro assunto? Quanto a nós, essa neno não estarei mais junto de vós,
seria, por amor a ti, nossa tarefa mais mas me encaminharei para a felicidade
que deve ser a dos bem-aventurados —
importante!
tudo isso, creio, eram para ele vãs
— Justamente, Críton, não cesso de
palavras, meras consolações que eu
falar sobre ela — respondeu — e nada procurava dar-vos, ao mesmo tempo
de novo tenho para vos dizer! Vede: que a mim mesmo! Sede, pois, meus
cuidai de vós próprios, e de vossa parte fiadores junto a Críton, garantindo-lhe
então toda tarefa será feita com amor, o contrário daquilo que ele afiançou
94 Nesta enumeração de virtudes, a liberdade só aos juizes9 6. Ele jurou que eu ficaria
pode ter o sentido de “ libertação de paixões e no meio de vós; vós, porém, afirmai-
vícios” . ( N . d o T . )
95 Nas tragédias, os heróis despedem-se de seus 96 Alusão ao processo de Sócrates: Críton ga­
amigos com frases como esta e em tom dramá­ rantiu ao tribunal que Sócrates não fugiria.
tico. ( N. d o T . ) (N.doT.)
130 PLATÃO

lhe que não ficarei entre vós quando estou sofrendo dores inenarráveis, e
morrer, mas que partirei, que me irei que no decorrer dos funerais diga estar
embora! Este é o único meio de fazer expondo Sócrates, conduzindo-o à se­
com que esta provação seja mais pultura e enterrando-o! Nota bem,
suportável a Críton, o meio de evitar meu bravo Críton: a incorreção da lin­
que, vendo queimar ou enterrar meu guagem não é somente uma falta
corpo9 7, se impressione e pense que cometida contra a própria linguagem.
Ela faz mal às almas! N ão! É preciso
97 A época clássica dos gregos não conheceu o perder esse temor. Realiza estes fune­
costume generalizado dos funerais, tendo insti­ rais como quiseres e como achares
tuído a liberdade de queimar ou enterrar os
cadáveres, como se quisesse. ( N .d o T .) mais conforme aos usos.

Epílogo

Dito isto, Sócrates pôs-se de pé, e, com eles em presença de Críton, fazen­
para banhar-se, passou a outra peça. do-lhes algumas recomendações. Em
Críton seguiu-o, fazendo-nos sinal que seguida ordenou que se retirassem e
esperássemos. Ficamos, pois, a conver­ veio para junto de nós.
sar e a examinar tudo quanto se havia Já o sol estava próximo de recolher-
dito. Lamentávamos a imensidade do se, pois Sócrates havia passado muito
infortúnio que sobre nós descera. Ver­ tempo no outro quarto. Ao voltar do
dadeiramente, era para nós como se banho sentou-se novamente, e a con­
perdêssemos um pai, e iríamos passar versa desta vez durou pouco. Apresen­
como órfãos o resto de nossa vida! tou-se então o servidor dos Onze, e, em
Depois de se ter banhado, trouxe- pé, diante dele disse:
ram-lhe seus filhos (tinha dois peque­ — Sócrates, por certo não me darás
nos e um já grande), e as mulheres de a mesma razão de queixa que tenho
casa98 também vieram; entreteve-se contra os outros! Esses enchem-se de
98 Esta frase suscitou na antiguidade a seguinte cólera contra mim e me cobrem de
tentativa de explicação: em seguida à guerra imprecações quando os convido a
do Peloponeso, em que morreram muitos ho­
mens; os atenienses consentiram que cada cida­ tomar o veneno, porque tal é a ordem
dão passasse a ter mais mulheres além da legí­ dos Magistrados. Tu, como tive muitas
tima esposa; e Sócrates, modelo de patriota,
acrescentou a Xantipa uma nova esposa, da ocasiões de verificar, és o homem mais
qual teve um de seus três filhos. Mirto era o generoso, o mais brando e o melhor de
nome desta última. Mas tudo isso não está bem
provado. Platão, quando aqui fala em mulhe­ todos aqueles que passaram por este
res de casa, talvez queira significar apenas que lugar. E, muito particularmente hoje,
Xantipa compareceu ao cárcere acompanhada
de parentes ou de escravas. (N .d o T .) estou convencido de que não será con­
FÉDON 131

tra mim que sentirás ódio, pois conhe­ do demais; vai, obedece, e não me
ces os verdadeiros culpados, mas con­ contraries.
tra eles. Não ignoras o que vim Assim admoestado, Críton fez sinal
anunciar-te, adeus! Procura suportar a um de seus servidores que se manti­
da melhor forma o que é necessário! nham nas proximidades. Este saiu e
Ao mesmo tempo pôs-se a chorar e, retornou daí a poucos instantes, con­
escondendo a face, retirou-se. Sócrates duzindo consigo aquele que devia
tendo levantado os olhos para ele: administrar o veneno. Este homem o
— Adeus! — disse. — Seguirei o trazia numa taça. Ao vê-lo Sócrates
teu conselho. disse:
Depois, voltando-se para nós: — Então, meu caro! Tu que tens
— Quanta gentileza neste homem! experiência disto, que é preciso que eu
Durante toda a minha permanência faça?
aqui veio várias vezes ver-me, e até — Nada mais — respondeu — do
conversar comigo. Excelente homem! que dar umas voltas caminhando, de­
E, hoje, quanta generosidade no seu pois de haver bebido, até que as pernas
pranto! Pois bem, avante! Obedeça­ se tornem pesadas, e em seguida ficar
mos-lhe, Críton, e que me tragam o ve­ deitado. Desse modo o veneno produ­
neno se já está preparado; se não, que zirá seu efeito.
o prepare quem o deve preparar! Dizendo isso, estendeu a taça a Só­
Então disse Críton: crates. Este a empunhou, Equécrates,
— Mas, Sócrates, o sol se não me conservando toda a sua serenidade,
engano está ainda sobre as montanhas sem um estremecimento, sem uma alte­
e não se deitou de todo. Ademais, ouvi ração, nem da cor do rosto, nem dos
dizer que outros beberam o veneno só seus traços. Olhando em direção do
muito tempo depois de haverem rece­ homem, um pouco por baixo e perscru-
bido a intimação, e após terem comido tadoramente, como era seu costume,
e bebido bem, e alguns, até, só depois assim falou:
de haverem tido contato com as pes­ — Dize-me, é ou não permitido
soas que desejaram. Vamos! nada de fazer com esta beberagem uma libação
precipitações; ainda há muito tempo! às divindades?"
Ao que Sócrates respondeu: — Só sei, Sócrates, que trituramos
— É muito natural, Críton, que as a cicuta em quantidade suficiente para
pessoas de quem falas tenham feito o produzir seu efeito, nada mais.
que dizes, pensando que ganhavam al­ — Entendo. Mas pelo menos há de
guma coisa fazendo o que fizeram. ser permitido, e é mesmo um dever,
Mas, quanto a mim, é natural que eu dirigir aos deuses uma oração pelo
não faça nada disso, pois penso que bom êxito desta mudança de residên-
tomando o veneno um pouco mais
99 Nos banquetes dos gregos era costume que
tarde nada ganharei, a não ser, tornar- todos os convivas, antes de tocarem na primeira
me para mim mesmo um objeto de taça, derramassem no chão algumas gotas, em
homenagem aos deuses, e que ao mesmo tempo
riso, agarrando-me dessa forma à vida recitassem uma breve oração. Aqui, Platão quer
e procurando economizá-la quando sublinhar a tranqüilidade de Sócrates: este se
comporta como se estivesse num banquete.
dela nada mais resta! Mas temos fala­ (N. do T.)
132 PLATÃO

cia, daqui para além. É esta minha então de costas, assim como lhe havia
prece; assim seja! recomendado o homem. Ao mesmo
E em seguida, sem sobressaltos, sem tempo, este, aplicando as mãos aos pés
relutar nem dar mostras de desagrado, e às pernas, examinava-os por interva­
bebeu até o fundo. los. Em seguida, tendo apertado forte­
mente o pé, perguntou se o sentia. Só­
Nesse momento nós, que então
crates disse que não. Depois disso
conseguíramos com muito esforço
recomeçou no tornozelo, e, subindo
reter o pranto, ao vermos que estava
bebendo, que já havia bebido, não nos aos poucos, nos fez ver que Sócrates
contivemos mais. Foi mais forte do começava a ficar frio e a enrijecesse.
que eu. As lágrimas me jorraram em Continuando a apalpá-lo, declarou-nos
ondas, embora, com a face velada, esti­ que quando aquilo chegasse até o cora­
vesse chorando apenas a minha infeli­ ção, Sócrates ir-se-ia101. Sócrates já se
cidade — pois, está claro, não podia tinha tornado rijo e frio em quase toda
chorar de pena de Sócrates! Sim, a a região inferior do ventre, quando des­
infelicidade de ficar privado de um tal cobriu sua face, que havia velado, e
companheiro! De resto, incapaz, disse estas palavras, as derradeiras que
muito antes de mim, de conter seus pronunciou:
soluços, Críton se havia levantado — Críton, devemos um galo a
para sair. E Apolodoro100, que mesmo Asclépio ; não te esqueças de pagar
antes não cessara um instante de cho­ essa dívida.
rar, se pôs então, como lhe era natural, — Assim farei — respondeu Crí­
a lançar tais rugidos de dor e de cólera, ton. — Mas vê se não tens mais nada
que todos os que o ouviram sentiram- para dizer-nos.
se comovidos, salvo, é verdade, o pró­ A pergunta de Críton ficou sem res­
prio Sócrates: posta. Ao cabo de breve instante, Só
— Que estais fazendo? — excla­ crates fez um movimento. O homem
mou. — Que gente incompreensível! então o descobriu. Seu olhar estava
Se mandei as mulheres embora, foi fixo. Vendo isso, Críton lhe cerrou a
sobretudo para evitar semelhante cena, boca e os olhos.
pois, segundo me ensinaram, é com Tal foi, Equécrates, o fim de nosso
belas palavras que se deve morrer. companheiro. O homem de quem po­
Acalmai-vos, vam os! dominai-vos! demos bendizer que, entre todos os de
Ao ouvir esta linguagem, ficamos seu tempo que nos foi dado conhecer,
envergonhados e contivemos as lágri­ era o melhor, o mais sábio e o mais
mas. justo.
Quanto a Sócrates, pôs-se a dar
umas voltas no quarto, até que decla­ 101 A descrição minuciosa do efeito do veneno
está a mostrar que na realidade se trata da ci-
rou sentir pesadas as pernas. Deitou-se cuta, planta muito venenosa; e manifesta, da
mesma forma, a humanidade com que os ate­
100 o leitor do Banquete já conhece Apolodoro nienses realizavam suas execuções capitais, pro­
como o mais emotivo dos alunos de Sócrates. curando torrá-las isentas de sofrimentos e do­
(N . do T.) res. ( N .d o T .)
SOFISTA
Teodoro, Sócrates,
Estrangeiro de Eléia, Teeteto

TEODORO SÓCRATES
— Fiéis ao compromisso de ontem, — Tens razão, caro amigo. Temo,
caro Sócrates, aqui estamos. Trouxe­ entretanto, tratar-se de um gênero que
mos conosco este estrangeiro natural não é em nada mais fácil de determinar
de Eléia e que, aliás, é realmente um do que o gênero divino, tais as aparên­
filósofo, pertencente ao círculo de cias diversas de que ele se reveste ao
Parmênides e Zenão. juízo ignorante das multidões, quando
SÓCRATES “indo de cidade a cidade”, aqueles que
— Caro Teodoro! Não terias trazi­ não apenas parecem, mas que real­
do, sem o saber, um deus em lugar de mente são filósofos, observam das
um estranho, para empregar uma ex­ alturas em que estão, a vida dos ho­
pressão de Homero? Ele diz que, em­ mens de nível inferior. A uns eles pare­
bora haja outros deuses companheiros cem, na realidade, nada valer, e a
dos homens que reverenciam a justiça, outros, valer tudo. Tomam as formas
é especialmente o Deus dos Estrangei­ de políticos, ou de sofistas, e outras
ros, que melhor pode avaliar a dispari­ vezes dariam ainda, para certas pes
dade ou a eqüidade das ações huma­ soas, a impressão de estarem comple­
nas. Certamente quem te acompanha é tamente em delírio. E precisamente ao
um desses seres superiores que virá estrangeiro é que queria perguntar, se é
observar e contradizer, como refutadof' que a minha pergunta não o desagrada,
divino, a nós que somos fracos pensa­ por quem os tomam as gentes de seu
dores. país e por que nomes os chamam.
TEO DO RO TEODORO
— Tal não é o costume do nosso — A quem?
estrangeiro, Sócrates. Ele é mais come­
SÓCRATES
dido do que os ardorosos amigos da — Ao sofista, ao político e ao
Erística1. Não o vejo como um deus, filósofo.
mas parece-me um ser divino, pois
TEODORO
chamo assim a todos os filósofos. — Que queres saber, precisamente;
1 Erística (de éris, querela, controvérsia, de qual a questão que te propuseste a res­
onde, erist-ikos), relativo à controvérsia. Escola peito deles e para a qual queres uma
erística, escola fundada por Euclides, em Mé-
gara. (N. do T . ) resposta?
138 PLATÃO

SÓCRATES fácil é esse mesmo; com um interlocu­


— Esta: vê-se, nesse todo, uma tor. Do contrário, valeria mais a pena
única unidade ou duas? Ou ainda, pois argumentar apenas para si mesmo.
que há três nomes, ali se distinguiriam SÓCRATES
três gêneros, um para cada nome? — Neste caso, escolhe tu mesmo a
TEODORO quem, dentre nós que aqui estamos,
— Creio que não haveria dificul­ queres por interlocutor, pois que todos
dade alguma em explicá-lo. Não é esta o serão igualmente dóceis. Se aceitas
a nossa resposta, estrangeiro? meu conselho, toma a este jovem, Tee-
ESTRANGEIRO teto, ou a qualquer outro, à tua
— Perfeitamente, Teodoro. Não escolha.
terei dificuldade alguma nem tam­ ESTRANGEIRO
pouco qualquer mérito em responder — ó Sócrates! Sinto-me confuso
que se tomam por três gêneros distin­ neste primeiro encontro em que deve­
tos. Mas defini-los claramente, um por ríamos conversar, trocando nossas
um, não é trabalho fácil nem pequeno. idéias por frases curtas, em vir aqui
TEODORO desenvolver longamente uma argumen­
— As questões que propuseste, Só­ tação copiosa, quer fazendo-o só, ou
crates, foram realmente bem escolhi­ mesmo dirigindo-me a um interlocutor,
das, pois se avizinham das questões tal como se fizesse uma demonstração
sobre as quais o havíamos interrogado, oratória. Na realidade, a questão em
antes de virmos até aqui. Discutia, que tocamos não é assim tão simples
então, conosco, precisamente as mes­ como parece, na maneira por que a
mas dificuldades que agora te opôs, e a propões; ao contrário, ela exige uma
propósito das quais diz ele haver ouvi­ longa conversação. Por outro lado
do tantos ensinamentos quantos neces­ compreendo bem que seria incivil e
sários, e não havê-los esquecido. grosseiro, não me tornar, eu, teu hós­
SÓCRATES pede, a instâncias tuas e de teus ami­
— Não queiras, pois, estrangeiro, gos, e especialmente depois de ouvir o
recusar-te ao primeiro favor que te que disseste. Aliás consinto de bom
pedimos. Mas dize-nos antes se, de grado em que Teeteto me replique, pois
costume, preferes desenvolver toda a com ele já conversei e agora tu o
tese que queres demonstrar, numa recomendas.
longa exposição ou empregar o método TEETETO
interrogativo de que, em dias distantes, — Faze pois assim, estrangeiro,
se servia o próprio Parmênides ao como disse Sócrates, que a todos nós
desenvolver, já em idade avançada, e nos darás prazer.
perante mim, então jovem, maravi­ ESTRANGEIRO
lhosos argumentos? — Ao que dizes, temo que toda
ESTRANGEIRO palavra a mais será supérflua. Mas ao
— Com um parceiro assim agradá­ que parece, tu é que deves, doravante,
vel e dócil, Sócrates, o método mais proceder à discussão. E, se afinal, este
SOFISTA 139

trabalho prolongado vier a cansar-te, acoiiitecer, tomaremos a este Sócrates


acusa a teus amigos aqui presentes e que aqui se encontra. Homônimo de
não a mim. Sócrates, ele é da minha idade e meu
TEETETO parceiro no ginásio, e já está acostu­
— Não creio, de modo algum, que mado a comigo realizar o mesmo
vá cansar-me logo. Se entretanto assim trabalho.

O diálogo entre o estrangeiro e Teeteto:


a definição do sofista

ESTRANGEIRO propriamente aos temas grandiosos.


— Disseste bem. Aliás, a decisão No caso presente, Teeteto, também me
importará a ti e poderás tomá-la parece ser esse o método que aconse­
durante a discussão. Entretanto cabe a lho a nós: antes desta procura difícil e
mim e a ti, ao empreender esta análise, penosa a que, bem sabemos, nos obri­
iniciá-la desde logo pelo estudo do gará o gênero sofistico, deve-se, pri­
sofista, ao que me parece, procurando meiramente, ensaiar em algum assunto
saber e definir claramente o que ele é. mais fácil o método aplicável a esta
Até aqui só concordamos, tu e eu, pesquisa; a menos que tenhas outro
quanto ao seu nome, mas a função que, caminho mais fácil a propor-nos.
por esse nome lhe cabe, poderia ser, TEETETO
para cada um de nós, uma noção toda — Não, não tenho nenhum outro.
pessoal. Todavia, em qualquer análise, ESTRANGEIRO
é sempre indispensável, antes de tudo, — Concordas, pois, que investi­
estar de acordo sobre o seu próprio guemos um assunto simples qualquer,
objeto, servindo-nos de razões que o procurando nele encontrar um modelo
definam, e não apenas sobre o seu para o nosso tema grandioso?
nome, sem preocupar-nos com a sua TEETETO
definição: Não é nada fácil saber o que — Sim.
são as pessoas, objeto de nossa análise, ESTRANGEIRO
e dizer o que é o sofista. Mas, o méto­ — O que, então, de mínimo pode­
do aceito por todos, e em todo lugar, ríamos propor-nos, que fosse fácil de
para levar a bom termo as grandes conhecer, comportando, entretanto,
obras é o de que se deve procurar, uma definição tão trabalhosa quanto a
primeiramente, ensaiar em exemplos de qualquer outro assunto mais impor­
pequenos e mais fáceis antes de chegar tante? O pescador com anzol, por
140 PLATÃO

exemplo, não te parece um assunto ESTRANGEIRO


conhecido de todos e que não exige — Ora, este poder é próprio a todas
atenção demasiada? as artes que há pouco enumeramos.
TEETETO TEETETO
— Sim. — Tens razão.
ESTRANGEIRO ESTRANGEIRO
— Apesar do que, creio, o método — Produção é, pois, o nome em
que comporta em sua definição será, que todas elas necessariamente se
certamente, de algum proveito ao fim incluem.
que perseguirmos. TEETETO
TEETETO — Seja.
— Seria excelente. ESTRANGEIRO
ESTRANGEIRO — Consideremos depois as ativida­
— Pois bem: vê por onde começa des que têm a forma de disciplina e de
remos. Dize-me: devemos reconhecer- conhecimento, e ainda, de ganho pecu­
lhe uma arte, ou se não uma arte, qual­ niário, de luta e de caça. Na realidade,
quer outra faculdade? nenhuma delas nada fabrica; trata-se
TEETETO sempre do preexistente, ou do já pro­
— Negar-lhe uma arte seria inad­ duzido que ou bem é apoderado pela
missível. palavra ou pela ação, ou bem é defen­
ESTRANGEIRO dido contra quem pretenda dele apos-
— Mas tudo o que é realmente arte, sar-se. Seria melhor, então, reunir de
se reduz, afinal, a duas formas. uma vez todas estas partes num só
TEETETO todo sob o nome de arte de aquisição.
— Quais? TEETETO
ESTRANGEIRO — Sim, na realidade, é o que seria
— A agricultura e todos os cuida­ melhor.
dos relativos à manutenção dos corpos ESTRANGEIRO
mortais; todo o trabalho relacionado — Se a aquisição e a produção
ao que, composto e fabricado, se com­ assim compreendem o conjunto das
preende pelo nome de mobiliário, e, artes, sob que título devemos nós, Tee-
enfim, a imitação, não podem, como teto, colocar a arte do pescador com
um todo, merecer um único nome? anzol?
TEETETO TEETETO
— Como assim, e que nome? — Em algum lugar da aquisição,
ESTRANGEIRO evidentemente.
— Das coisas que do não-ser ante­ ESTRANGEIRO
rior foram posteriormente tornadas — Mas não há duas formas de
ser, não se dirá que foram produzidas, aquisição? De um lado a troca volun­
pois que, produzir é tornar ser, e ser tária, por presentes, locação e compra,
tornada é ser produzida? ao passo que o resto, onde tudo o que
TEETETO se faz é apoderar-se pela ação ou pala­
— É certo. vra, seria a arte da captura?
SOFISTA. 141

TEETETO compreendendo todos os seres vivos


— É o que se segue do que disse­ nadadores, a caça aos aquáticos?
mos. TEETETO
ESTRANGEIRO — Certamente.
— E também' a arte da captura não ESTRANGEIRO
deve dividir-se em duas? — E ainda, no gênero nadador, há
TEETETO o grupo dos animais voadores e o dos
— De que maneira? que só vivem na água.
ESTRANGEIRO
— Tudo o que nela se faz às claras TEETETO
seria dito pertencer à luta e tudo o que — Evidentemente.
e nela se faz por armadilha, à caça. ESTRANGEIRO
TEETETO
— A toda caça ao gênero voador
— Sim. creio que poderemos chamar de caça
ESTRANGEIRO
às aves.
— Mas a própria arte da caça deve TEETETO
ela mesma ser dividida em duas, se — É esse, na realidade, o seu nome.
quisermos evitar um absurdo. ESTRANGEIRO
TEETETO — Ao contrário, a caça aos aquáti­
— Em quais? — dize-me. cos é, creio, em sua quase totalidade, a
ESTRANGEIRO pesca.
— A primeira relativa ao gênero
TEETETO
inanimado, e outra ao animado. — Sim.
TEETETO
— Na verdade, é inegável que elas ESTRANGEIRO
— E, nesta espécie de caça aquáti­
se distinguem.
ca, não podemos, atendendo às suas
ESTRANGEIRO
— E como se distinguem? Aliás, partes mais importantes, distinguir
desde que para a caça ao gênero inani ainda duas divisões?
mado não há nomes próprios senão TEETETO
para algumas partes do ofício do — Atendendo a que partes?
mergulhador e outras artes muito limi­ ESTRANGEIRO
tadas, teremos que abstrair-nos com­ — A que, numa delas, a caça se faz
pletamente delas. De outro lado há a por meio de redes que por si mesmas
caça ao que possui alma e vida: nós a prendem a presa; e noutra, fere-se a
chamaremos de caça aos seres vivos . presa.
TEETETO TEETETO
— Seja. — Que pretendes dizer e como dis­
ESTRANGEIRO tingues uma da outra?
— Mas, nesta caça aos seres vivos ESTRANGEIRO
não poderemos distinguir duas formas, — De um lado, tudo que serve para
uma para o gênero dos seres que envolver e cercar o que se quer pren­
andam sobre a terra e que se distribui der, pode chamar-se de cerca.
numa pluralidade de formas e de TEETETO
nomes, a caça aos terrestres; outra, — Certamente.
142 PLATÃO

ESTRANGEIRO baixo, terá empregado o arpão, na


— Às redes, aos laços, às enseadas, maioria das vezes, e daí o seu nome de
às armadilhas de junco e aos engenhos caça por arpão, creio.
semelhantes caberá outro nome que
TEETETO
não o de cerca? — Pelo menos é como alguns a
TEETETO chamam.
— Certamente não.
ESTRANGEIRO
ESTRANGEIRO — Todas as demais constituem,
— Esta parte da caça designare­ pode-se dizer, uma forma única.
mos, pois, pelo nome de caça por
cerco, ou por algum outro nome TEETETO
análogo. — Qual?
ESTRANGEIRO
TEETETO
— Sim. — A que ferindo em sentido inver­
so ao da primeira, e por meio do anzol,
ESTRANGEIRO
não fere o peixe em qualquer parte do
— Mas aquela que se faz por anzol
corpo, como faz o arpão, mas segura a
ou arpões é diferente da primeira e o
presa, sempre, nalgum lugar da cabeça
nome que, agora, devemos dar a toda
ou da boca, tirando-a do fundo até a
ela é o de caça vulnerante. E de que
superfície por meio de varas e paus.
outra forma poderíamos melhor deno­
Por que nome, Teeteto, teríamos de
miná-la, Teeteto?
chamá-la?
TEETETO
— Não nos preocupemos com o TEETETO
nome; e, aliás, esse está bem. — Ao que me parece, encontramos
ESTRANGEIRO o objeto a que há pouco nos havíamos
— Para esta caça vulnerante, quan­ proposto procurar.
do ela se realiza durante a noite e à luz ESTRANGEIRO
do fogo, os seus próprios profissionais — Chegamos, pois, a um acordo,
deram o nome, creio, de caça ao fogo. tu e eu, a respeito de pesca por anzol; e
TEETETO não apenas a respeito do seu nome
— Perfeitamente. mas, sobretudo, relativamente a uma
ESTRANGEIRO definição que nos propusemos sobre o
— E quando se realiza à luz do dia, seu próprio objeto. Na realidade, con­
armando-se de fisga a própria ponta do sideradas as artes em seu todo, uma
arpão, cabe-lhe o nome comum de metade inteira era a aquisição; na
caça por fisga. aquisição havia a arte de captura, e,
TEETETO nesta, a caça. Na caça, a caça aos
— É esse, na realidade, o nome que seres vivos, e nesta a caça aos aquáti­
se lhe dá. cos. Da caça aos aquáticos, toda a últi­
ESTRANGEIRO ma divisão constitui-se da pesca, e na
— Mas esta caça vulnerante, ser­ pesca, há a pesca vulnerante e nela a
vindo-se da fisga, se ferir do alto para pesca por fisga. Nesta última, a que
SOFISTA 143

golpeia de baixo para cima, por tração monstração plenamente evidente.


ascendente do anzol, recebeu seu nome
de sua própria maneira de proceder: ESTRANGEIRO
— Tomando-a por modelo, procu­
chama-se aspaliêutica, ou pesca por
remos determinar de igual modo, para
anzol — e essa era a própria forma
o caso do sofista, o que ele poderá ser.
que procurávamos.
TEETETO TEETETO
— Aí está, pelo menos, uma de­ — Perfeitamente.

A aplicação do método na definição dos sofistas

ESTRANGEIRO ao que parece, como tendo uma arte


— No caso anterior a questão ini­ determinada?
cial fora de saber se o pescador com TEETETO
anzol devia ser considerado um leigo — Mas que arte seria ela precisa­
ou um técnico. mente?
TEETETO ESTRANGEIRO
— Sim. — Pelos deuses! Não teremos
ainda compreendido a afinidade entre
ESTRANGEIRO
— E a este homem, Teeteto, como estes dois homens?
consideraremos? Como um leigo, ou, TEETETO
em toda a sua competência de sofista? — Entre que homens?
ESTRANGEIRO
TEETETO — Entre o pescador com anzol e o
— De forma alguma como um
sofista.
leigo; pois entendo bem o que queres
TEETETO
dizer: nada tem de leigo quem traz um — E que afinidade?
nome assim importante.
ESTRANGEIRO
ESTRANGEIRO — A mim, ambos parecem clara­
— Devemos, então, considerá-lo, mente caçadores.
144 PLATAO

TEETETO — Uma delas já discutimos, tendo


— E que espécie de caçador seria
em vista os nadadores que vivem só na
este? — pois, quanto ao outro, já água. Da outra, a dos seres que andam
sabemos. sobre a terra, apenas dissemos distri-
ESTRANGEIRO buírem-se numa pluralidade de formas,
— Dividimos há pouco, creio, a mas não a dividimos.
caça a toda presa em duas partes: TEETETO
numa consideramos os nadadores e — Perfeitamente.
noutra os seres que andam sobre a ESTRANGEIRO
terra. — Até aqui, portanto, o sofista e o
TEETETO
pescador com anzol caminham juntos,
— Sim. tendo em comum a arte de aquisição.
TEETETO
ESTRANGEIRO — Pelo menos, assim parece.

A primeira definição do sofista: caçador


interesseiro de jovens ricos

ESTRANGEIRO sobre a terra permite duas grandes


— Entretanto, a partir da caça aos divisões.
seres animados, os seus caminhos TEETETO
divergem. Um deles se dirige ao mar, e — Quais são elas?
talvez aos rios e lagunas; e a sua presa ESTRANGEIRO
é o que ali dentro vive. — Uma delas é a dos animais
TEETETO ^ domésticos; a outra a dos animais
— Não há dúvida. selvagens.
ESTRANGEIRO TEETETO
— O outro se dirige à terra e a ou­ — Haveria, então, uma caça aos
tras espécies de rios, e aos campos animais domésticos?
onde, se assim podemos dizer, floresce ESTRANGEIRO
a riqueza e a juventude: o que ali vive — Sim, se considerarmos o homem
lhe será boa presa. como um animal doméstico. Escolhe a
TEETETO tese que mais te agrade; que não há ne­
— Que queres dizer? nhum animal doméstico, ou que, em­
ESTRANGEIRO bora havendo, o homem não está entre
— A caça aos seres que andam eles, pois é selvagem; ou ainda, mesmo
SOFISTA 145

considerando que o homem seja do­ TEETETO


méstico, que não há caça ao homem. — Não entendo.
Qualquer que seja a tese que te agrade, ESTRANGEIRO
dize-nos o que decides. — Ao que parece, não pensaste
ainda na caça aos amantes.
TEETETO
— Pois bem: nós somos um animal TEETETO
doméstico, é o que creio, estrangeiro, e — E o que tem ela?
acredito ainda haver uma caça ao
ESTRANGEIRO
homem. — Pois nela a perseguição se
ESTRANGEIRO acompanha de presentes.
— Digamos então que há, na pró­
pria caça aos domésticos, duas partes. TEETETO
— Isso é verdade.
TEETETO
— Sob que ponto de vista? ESTRANGEIRO
ESTRANGEIRO — Façamos, pois, desta arte do
— A rapina, a caça ao escravo, a amor, uma espécie distinta.
tirania, a guerra em todas as suas for­ TEETETO
mas constituirão uma só unidade que — Concordo.
definiremos por caça violenta.
ESTRANGEIRO
TEETETO — Mas na caça interesseira, há
—- Muito bem. uma arte que consiste em conviver à
ESTRANGEIRO custa de favores, em atrair apenas o
— Mas as razões jurídicas, a orató­ prazer, não procurando outro ganho
ria pública e as conversas privadas que não a própria subsistência, arte
constituem um todo novo ao qual dare­ essa que, acredito, todos nós chama­
mos o nome de arte de persuasão. ríamos de arte do galanteio ou da
TEETETO lisonja.
— Certo.
TEETETO
ESTRANGEIRO
— E nesta mesma arte de persua­ — E como não haveríamos de
são distinguiremos dois gêneros. assim chamá-la?
TEETETO ESTRANGEIRO
— Quais? — Por outro lado, dizer que nesta
convivência apenas se tem interesse na
ESTRANGEIRO
— Num deles ela se dirige ao públi­ virtude, mas receber por ela bom
co, noutro a indivíduos. dinheiro, não é um outro gênero a que
TEETETO
devemos dar um nome diferente?
— Consideremos pois, cada um TEETETO
deles, como uma forma distinta. — Sem dúvida alguma.
ESTRANGEIRO ESTRANGEIRO-
— A caça ao particular, por sua — Mas que nome? Vê se o desco­
vez, se faz tendo-se, algumas vezes, a bres.
intenção do lucro, e outras, por meio TEETETO
de presentes? — É evidente, a meu ver, que é
146 PLATÃO

precisamente esse o caso do sofista, aos animais domésticos, ao homem


que agora encontramos. E, assim di­ como indivíduo, na caça interesseira
zendo, creio haver-lhe dado o nome em que se recebe dinheiro a pretexto de
que lhe convém. ensinar, na caça que persegue os jo­
vens ricos e de alta sociedade encon­
ESTRANGEIRO tramos o que devemos chamar, como
— Recordando, pois, o nosso ra­ conclusão de nosso próprio raciocínio,
ciocínio parece-me, Teeteto, que na de sofistica.
arte da captura, na caça, na caça aos TEETETO
seres vivos, às presas da terra firme, — Certamente.

A segunda definição do sofista:


o comerciante em ciências

ESTRANGEIRO comercial tenha duas partes?


— Tomemos agora um outro ponto
TEETETO
de vista, pois a arte a que se refere o — Quais?
objeto de nossa pesquisa, longe de ser
ESTRANGEIRO
simples, é muito complexa. Segundo as — Na primeira, há a venda direta
divisões precedentes, esse objeto apre­ pelo produtor; noutra, em que se vende
senta não o aspecto que definimos, e o que foi produzido por terceiros, há o
sim, o simulacro de um outro gênero. comércio.
TEETETO
TEETETO
— Como assim? — Perfeitamente.
ESTRANGEIRO
— Na arte de aquisição havia duas ESTRANGEIRO
formas: uma era a caça, a outra a — Pois bem, deste comércio, quase
troca. a metade se realiza dentro das cidades;
é o comércio a varejo.
TEETETO
— É exato. TEETETO
ESTRANGEIRO — Sim.
— Podemos dizer, agora, que na ESTRANGEIRO
troca há duas formas: de um lado, o — Mas o comércio de cidade para
presentear; de outro, a troca comer­ cidade, de compra ou venda, não é a
cial? importação?
TEETETO TEETETO
— Digamos. — Como não?
ESTRANGEIRO ESTRANGEIRO
— E ainda, que a própria troca — Ora, na importação não perce­
SOFISTA 147

bemos esta distinção: que são os obje­ parte não será menos ridículo que o da
tos que servem ao alimento ou ao uso, primeira e, pois que o que ela vende
tanto do corpo como da alma, que se são as ciências, deveremos chamá-la,
vendem e se trocam por dinheiro? necessáriamente, por um nome que
TEETETO tenha correspondência próxima com o
— Que queres dizer com isso? nome de sua própria prática.
ESTRANGEIRO TEETETO
— Que, talvez, falte-nos reconhecer — Certamente.
parte relativa à alma, pois a outra,
ESTRANGEIRO
creio, é-nos clara. — Assim, nesta importação por
TEETETO atacado das ciências, a seção relativa
— Sim. às ciências das diversas técnicas terá
ESTRANGEIRO um nome; e a que cuida, em sua impor­
— Podemos dizer que a música em tação, da virtude, um outro nome.
todas as suas formas, levada de cidade
em cidade, aqui comprada para ser TEETETO
— Naturalmente.
para lá transportada e vendida; que a
pintura, a arte dos prestidigitadores em ESTRANGEIRO
— À primeira convém o nome de
seus prodígios, e muitos outros artigos
importação por atacado das técnicas.
destinados à alma, que se transportam
Quanto à outra, procura tu mesmo
e vendem, seja a título de divertimento
encontrar-lhe o nome.
ou de estudos sérios, dão àquele que as
transporta e vende, tanto quanto ao TEETETO
vendedor de alimentos e bebidas, direi­ — Que nome daremos, que não pa­
to ao título de negociante? reça falso, a menos que digamos: aí
TEETETO
está o objeto que procuramos, o famo­
— O que dizes é a pura verdade. so gênero sofistico.
ESTRANGEIRO ESTRANGEIRO
— Àquele que, de cidade em cidade — Esse, e nenhum outro. Agora,
vende as ciências por atacado, trocan- vejamos, recapitulando, e repitamos:
dò-as por dinheiro, darias o mesmo esta parte da aquisição, da troca, da
nome? troca comercial, da importação, da
TEETETO importação espiritual, que negocia dis­
— Certamente. cursos e ensinos relativos à virtude, eis,
ESTRANGEIRO em seu segundo aspecto, o que é a
— Nesta importação espiritual, sofistica.
uma parte não se chamaria, com-justi­ TEETETO
ça, arte de exibição? O nome da outra — Perfeitamente.
148 PLATÃO

Terceira e quarta definições do sofista:


pequeno comerciante de
primeira ou de segunda-mão

ESTRANGEIRO próprio produtor — não importa — ,


— Há um terceiro aspecto: a quem desde que este comércio se refira aos
se estabelecer numa cidade, para ven­ ensinos de que falamos,*será sempre, a
der os ensinos relativos a este mesmo teu ver, a sofistica?
objeto, os quais, uma parte compra e
TEETETO
outra produz, vivendo desse mister, da­ — Necessariamente, é uma conse­
rias nome diverso daquele que há qüência que se impõe.
pouco lembraste?
TEETETO ESTRANGEIRO
— Como poderia fazê-lo? — Vejamos ainda se é possível
assimilar o gênero que procuramos ao
ESTRANGEIRO
— Então, a aquisição por troca, seguinte.
£ por troca comercial, seja ela uma TEETETO
venda de segunda-mão ou venda pelo — Ao quê?

Quinta definição do sofista:


erístico mercenário

ESTRANGEIRO ESTRANGEIRO
— Dentre as partes da arte de aqui­ — Colocando, de um lado, a sim­
sição, havia a luta. ples rivalidade, e de outro, o combate.
TEETETO TEETETO
— É exato. — Bem.
ESTRANGEIRO ESTRANGEIRO
— Não está, pois, fora de propósito — Poderíamos definir conveniente­
dividir a luta em duas partes. mente o combate que se realiza corpo
TEETETO a corpo, como um assalto a força
— Explica de que modo. bruta?
SOFISTA 149

TEETETO TEETETO
— Sim. — É certo; as suas divisões são
ESTRANGEIRO realmente muito pequenas e muito
— Mas, àquele em que se opõem diversas.
argumentos contra argumentos, por ESTRANGEIRO
que outro nome chamaríamos, Teeteto, — Mas a contestação conduzida
além de contestação? com arte, e relativa ao justo em si, ou
TEETETO ao injusto em si, e a outras determina­
— Por nenhum outro. ções gerais, não a chamamos, comu­
ESTRANGEIRO mente, por erística?
— Ora, o gênero de contestação TEETETO
deve ser considerado em duas partes. — E de que outra forma have­
TEETETO ríamos de chamá-la?
— De que ponto de vista? ESTRANGEIRO
ESTRANGEIRO — Ora, na realidade, a erística ou
— Uma vez, opondo-se a um longo bem nos leva a perder ou a ganhar
desenvolvimento outro desenvolvi­ dinheiro.
mento igualmente longo de argumen­ TEETETO
tos contrários, mantendo-se uma con­ — Perfeitamente.
trovérsia pública sobre as questões de ESTRANGEIRO
justiça e de injustiça; é a contestação — Procuremos dizer que nome pró­
judiciária. prio se aplica a cada uma delas.
TEETETO TEETETO
— Sim. — Sim, procuremos.
ESTRANGEIRO ESTRANGEIRO
— Mas, se a contestação é privada, — Quando, encantados por esta
fragmentando-se na alternância de per­ ocupação, sacrificamos os negócios
guntas e respostas, que outro nome lhe pessoais sem darmos, como se diz, pra­
damos, comumente, além do de contes­ zer algum à massa de nossos ouvintes,
tação contraditória? ela se chamará, ao que creio, e tanto
TEETETO quanto posso julgar, simplesmente,
— Nenhum outro. tagarelice.
ESTRANGEIRO TEETETO
— A contradição que tem por obje­ — É precisamente esse o nome que
to contratos e que, realmente, é contes­ se lhe dá.
tação, mas que procede ao acaso e sem ESTRANGEIRO
arte, deve, é certo, constituir uma — É tua vez, agora. Procura dizer
forma especial, uma vez que a sua que nome se dá à arte oposta que rece­
originalidade ressalta claramente de be dinheiro por disputas privadas.
nossa discussão. Mas, os que viveram TEETETO
antes de nós não lhe deram nome — Que hei de dizer, ainda desta
algum, e a procura de um nome que lhe vez, sem risco de erro, senão que nova­
seja próprio não merece agora a nossa mente aí está o prestigioso personagem
atenção. e que assim nos aparece, pela quarta
150 PLATÃO

vez, aquele a quem procuramos: o na arte da erística, da contradição, da


sofista? contestação, do combate, da luta, da
aquisição, é o que, segundo a presente
ESTRANGEIRO definição, chamamos de sofista.
— Assim, tão simplesmente como TEETETO
parece, o gênero que recebe dinheiro, — Certamente.

Sexta definição: o sofista,


refutador

ESTRANGEIRO respeito e a que questão se destinam


— Compreendes agora a razão ao todos estes exemplos?
afirmar-se que este animal é mutável e ESTRANGEIRO
diverso, e que bem justifica o provér­ — É à separação que se referem
bio: “Não o apanharás com uma só todas estas palavras.
mão”? TEETETO
TEETETO — Sim.
— Nesse caso é preciso usar as ESTRANGEIRO
duas mãos. — Assim deduzo que há uma
ESTRANGEIRO mesma arte incluída em todos eles, e
— Sim, certamente é preciso que que nos parece digna de um nome
nós assim tentemos fazer, na medida único.
de nossas forças, seguindo-lhe as pega­ TEETETO
das, nesta pista. Dize-me: não temos — E como a chamaremos?
nomes para designar os trabalhos ESTRANGEIRO
domésticos? — A arte de separar.
TEETETO TEETETO
— Muitos. Mas quais os que, den­ — Seja.
tre eles, te interessam? ESTRANGEIRO
ESTRANGEIRO — Agora, examina se nela pode­
— Os do gênero seguinte: filtrar, mos distinguir, sob algum ponto de
peneirar, escolher, debulhar. vista, duas formas.
TEETETO TEETETO
— Que mais? — O exame que pedes é muito rápi­
ESTRANGEIRO do para mim.
— Além deles, cardar, desembara­ ESTRANGEIRO
çar, entrelaçar, e mil outros que, sabe­ — Entretanto, ao falar das separa­
mos, constituem misteres completos. ções, havia dito que elas tinham por
TEETETO fim dissociar, fosse o melhor do pior,
— Que queres demonstrar a esse ou o semelhante do semelhante.
SOFISTA 151

TEETETO TEETETO
— Agora que tu o dizes, é quase — E bem ridículos, certamente.
evidente. ESTRANGEIRO
ESTRANGEIRO — Totalmente ridículos, Teeteto.
— Para a última espécie não tenho Mas, afinal, ao método de argumenta­
nome algum que a designe, mas para a ção não importa menos a lavagem com
primeira, a que retém o melhor e rejei­ esponjas do que os medicamentos,
ta o pior, tenho um nome. atendendo-se a que a ação purificadora
TEETETO de uma arte seja mais ou menos bené­
— Dize-o. fica que a de outra. Na realidade, é
ESTRANGEIRO para alcançar a penetração de espírito t
— Toda a separação desta espécie que, investigando todas as artes, ele se
é, creio, universalmente chamada de esforça em descobrir as suas afinida­
purificação. des e as suas dessemelhanças. Assim,
TEETETO deste ponto de vista, todas elas valem
— É precisamente assim que é igualmente para ele. Nenhuma arte,
chamada. desde que atenda à conformidade pro­
ESTRANGEIRO curada, lhe parecerá mais ridícula que
— A dualidade desta forma de outra. Que a arte da estratégia seja
purificação não é visível à primeira uma ilustração mais grandiosa do que
vista? a arte da caça, o que não aconteceria
TEETETO com a arte de matar piolhos, não admi­
— Talvez, se refletirmos. Por en­ te o método de argumentação que,
quanto, não vejo dualidade alguma. naquela primeira arte, apenas vê maior
ESTRANGEIRO pompa. Assim, no caso presente, ele
— Em todo o caso, as múltiplas apenas considera a questão que pro-
formas de purificação que se aplicam pões: que nome se deve dar ao con­
aos corpos podem ser reunidas sob um junto destas forças purificadoras desti­
único nome. nadas aos corpos, animados ou
TEETETO inanimados, sem se preocupar em <■
— Que formas e que nome? saber que nome seja o mais distinto.
ESTRANGEIRO Bastará separar tudo o que purifica a
— Para os corpos vivos, todas as alma e agrupar, em um novo todo,
purificações internas que se operam, tudo o que purifica outras coisas que
graças a uma exata discriminação, não a alma. O que lhe compete, agora,
pela ginástica e pela medicina, e todas se é que compreendemos os seus
as purificações externas, por fnenos propósitos como método de argumen­
característico que lhe seja o nome, e as tação, é discernir, realmente, a purifi­
quais a arte do banhista nos prescreve; cação que se dirige ao pensamento e
e para os corpos inanimados, todos os distingui-la de todas as demais.
cuidados próprios do apisoador, ou TEETETO
mais universalmente, próprios à prepa­ — Sim, compreendo, e concordo
ração do couro, e que se distribuem em que há duas formas de purificação,
nomes que parecem ridículos. uma das quais tem por objeto a alma e
152 PLATÃO

é perfeitamente distinta daquela que se TEETETO


dirige ao corpo. — Também agora não sei o que
ESTRANGEIRO
responder.
— Ótimo! Presta atenção, agora, ESTRANGEIRO
ao que se segue, e procura acompanhar — Na discórdia, vês algo de diver­
esta divisão. so do seguinte: uma corrupção qual­
TEETETO
quer nascida da ruptura do acordo
— Procurarei acompanhar-te neste entre o que a natureza havia tornado
trabalho de divisão em todos os passos afim?
por onde me conduzires. TEETETO
— Nada de diverso.
ESTRANGEIRO
— A maldade, na alma, é para nós ESTRANGEIRO
algo de diferente da virtude? — E na fealdade, vês algo de diver­
so da falta de medida que a tudo leva a
TEETETO
— Naturalmente. sua deformidade genérica?
TEETETO
ESTRANGEIRO — Não, nada de diverso.
— Pois bem: purificar não é afastar
ESTRANGEIRO
tudo o que possa haver de mal, conser­
-— Pois bem ! Não notamos que na
vando o resto?
alma dos maus há um desacordo
TEETETO mútuo e geral entre opiniões e desejos,
— Exatamente. coragem e prazeres, razão e sofri­
ESTRANGEIRO mento?
— Então, estaremos sendo conse­ TEETETO
qüentes conosco mesmos ao chamar, — Muito claramente.
também com relação à alma, de purifi­ ESTRANGEIRO
cação, a todo meio que possamos — Entretanto, há, entre tudo isso,
encontrar para suprimir o mal. uma afinidade original inevitável.
TEETETO TEETETO
— Perfeitamente conseqüentes. — Ninguém o nega.
ESTRANGEIRO ESTRANGEIRO
— É preciso que digamos que o — Se, pois, dissermos que a malda­
mal, na alma, assume duas formas. de é uma discórdia e uma enfermidade
TEETETO da alma estaremos servindo-nos de
— Quais? uma linguagem correta?
ESTRANGEIRO TEETETO
— Uma delas é a enfermidade que — Absolutamente correta.
sobrevêm ao corpo; outra, a que nele ESTRANGEIRO
constitui a fealdade. — Pois bem! Quando algo que par­
TEETETO ticipa do movimento e que se tenha
— Não compreendo. proposto um fim, esforçando-se por
ESTRANGEIRO atingi-lo, se desvia e falha em cada um
— É que talvez não reconheças a de seus impulsos, dizemos que ele deve
identidade entre a enfermidade e a tais fracassos à simetria que há entre
discórdia. eles, ou à sua assimetria?
SOFISTA 153

TEETETO ESTRANGEIRO
— Evidentemente à sua assimetria. — E para o corpo, ao menos, já
ESTRANGEIRO não se encontram duas artes relativas a
— Mas para a alma e para qual­ estas duas afecções?
quer alma, nós sabemos que toda a TEETETO
ignorância é involuntária. — Quais?
TEETETO ESTRANGEIRO
— Completamente involuntária. — A ginástica para a fealdade, e a
medicina para a enfermidade.
ESTRANGEIRO
— Ora, ignorar é precisamente o TEETETO
fato de uma alma atirar-se à verdade, e — É o que parece.
neste próprio impulso para a razão, ESTRANGEIRO
desviar-se: não é outra coisa senão um — Assim, a correção para a falta
contra-senso. de medida, para a injustiça e a covar­
dia é, dentre todas as técnicas, a que
TEETETO
— Perfeitamente. melhor se aproxima da Justiça.
TEETETO
ESTRANGEIRO
— É o que parece, pelo menos se
— Deveremos, pois, afirmar que na
quisermos falar conforme à opinião
alma insensata há fealdade e falta de
humana.
medida.
ESTRANGEIRO
TEETETO
— E ainda: para toda a ignorância
— Parece que sim.
haverá uma arte mais apropriada que o
ESTRANGEIRO ensino?
— Há pois, aparentemente, na
TEETETO
alma, estes dois gêneros de males: e
— Nenhuma.
um deles a que o vulgo chama malda­
ESTRANGEIRO
de, é para ela, evidentemente, uma
— Vejamos, pois: o ensino consti­
enfermidade.
tuirá um único gênero ou deveremos
TEETETO nele distinguir vários gêneros dos quais
— Sim. dois são os principais? Examina a
ESTRANGEIRO questão.
— Ao outro, o vulgo chama igno­ TEETETO
rância; recusando-se entretanto a ad­ — É o que faço.
mitir que este mal, na alma, e apenas ESTRANGEIRO
para ela, seja um vício. — A meu ver, este é o meio mais
TEETETO rápido de resolvê-la.
— Sim, é preciso admitir ainda que TEETETO
há dois gêneros de vício na alma: a — Qual?
covardia, a intemperança e a injustiça ESTRANGEIRO
devem todas ser consideradas como — Ver se a ignorância permite uma
uma enfermidade em nós; e nesta afec- Unha mediana de divisão. Se a igno­
ção múltipla e diversa que é a ignorân­ rância for dupla, torna-se claro, real­
cia, devemos ver uma fealdade. mente, que no próprio ensino haveria,
154 PLATÃO

necessariamente, duas partes, respon­ TEETETO


dendo, uma e outra, a cada um dos gê­ — Teremos então de proceder a
neros de ignorância. esse exame.
TEETETO ESTRANGEIRO
— Pois bem, queres indicar alguma — Creio, realmente, ter encontrado
solução do problema? ainda aqui onde realizar uma divisão.
ESTRANGEIRO TEETETO
— Creio, pelo menos, distinguir — Onde, então?
uma forma especial de ignorância, tão ESTRANGEIRO
grande e tão rebelde que eqüivale a — No ensino pelo discurso, um dos
todas as demais espécies. caminhos que se oferecem é, ao que
parece, mais áspero; entretanto, a sua
TEETETO
— Qual é ela? segunda ramificação é mais fácil.
ESTRANGEIRO TEETETO
— Nada saber e crer que se sabe; — Quais são eles?
temo que aí esteja a causa de todos os ESTRANGEIRO
erros aos quais o pensamento de todos — Há, primeiramente, a antiga ma­
nós está sujeito. neira de nossos pais, a de que preferi­
velmente se servem para com seus fi­
TEETETO
— É verdade. lhos e que ainda hoje muitos deles
empregam quando os vêem cair em
ESTRANGEIRO
— E é precisamente esta única algum erro: nela se alterna a repreen­
espécie de ignorância que qualifica o são com o tom mais terno da admoes-
nome de ignaro. tação. Em seu todo, poder-se-ia muito
justamente chamá-la de admoestação.
TEETETO
— Perfeitamente. TEETETO
ESTRANGEIRO
— É bem assim.
— Mas que nome daremos à parte ESTRANGEIRO
do ensino à qual compete dela liber­ — Quanto ao outro método, parece
tar-nos? que alguns chegaram, após amadure­
TEETETO
cida reflexão, a pensar da seguinte
— A meu ver, estrangeiro, a outra forma: toda ignorância é involuntária,
parte é da competência do ensino das e aquele que se acredita sábio se recu­
profissões; mas o ensino de que falas, sará sempre a aprender qualquer coisa
aqui chamamos de educação. de que se imagina esperto; e apesar de
toda a punição que existe na admoesta­
ESTRANGEIRO
— E, na realidade, esse o seu nome, ção, esta forma de punição tem pouca
Teeteto, entre quase todos os helenos. eficácia.
Mas é preciso ainda que examinemos TEETETO^
se aí existe um todo já indivisível ou se — Eles têm razão.
ele permite alguma divisão na qual ESTRANGEIRO
valha a pena colocar nomes. — E propondo livrar-se de tal ilu­
SOFISTA 155

são, se armam contra ela, de um novo a acreditar saber justamente o que ela
método. sabe, mas nada além.
TEETETO TEETETO
— Qual? — Essa é, infalivelmente, a melhor
ESTRANGEIRO disposição e a mais sensata.
— Propõem, ao seu interlocutor, ESTRANGEIRO
questões às quais acreditando respon­ — Aí estão, pois, muitas razões,
der algo valioso ele não responde nada Teeteto, para afirmarmos que a refuta­
de valor; depois, verificando facil­ ção é o que há de mais importante e de
mente a vaidade de opiniões tão erran­ mais eficaz na purificação e para acre­
tes, eles as aproximam em sua crítica, ditarmos, também, que permanecer à
confrontando umas com outras, e por parte desta prova é, ainda que se trate
meio desse confronto demonstram que do grande Rei, permanecer impurifi- «
a propósito do mesmo objeto, sob os cado das maiores máculas e conservar
mesmos pontos de vista, e nas mesmas a falta de educação e a fealdade onde a
relações, elas são mutuamente contra­ maior pureza, e a mais perfeita beleza
ditórias. Ao percebê-lo, os interlocu­ se requer, a quem pretenda possuir a
tores experimentam um descontenta­ verdadeira beatitude.
mento para consigo mesmos, e TEETETO
disposições mais conciliatórias para — Perfeitamente.
<■ com outrem. Por este tratamento, tudo ESTRANGEIRO
o que neles havia de opiniões orgulho­ — Pois bem! Que nome daremos
sas e frágeis lhes é arrebatado, ablação aos que praticam esta arte? Pois eu
em que o ouvinte encontra o maior tenho receio de chamá-los de sofistas. «
TEETETO
encanto e, o paciente, o proveito mais — Que receio?
duradouro. Há, na realidade, um prin­
ESTRANGEIRO
cípio, meu jovem amigo, que inspira — De dar muita honra aos sofistas.
aqueles que praticam este método pur- TEETETO
gativo; o mesmo que diz, ao médico do — E entretanto, há algurr\a seme­
corpo, que da alimentação que se lhe lhança entre eles e aquele de quem, há
dá não poderia o corpo tirar qualquer pouco, falamos.
proveito enquanto os obstáculos inter­ ESTRANGEIRO
nos não fossem removidos. A propó­ — Na realidade, tal como entre o
sito da alma formaram o mesmo con- cão e o lobo, como entre o animal mais
i ceito: ela não alcançará, do que se lhe selvagem e o mais doméstico. Ora,
possa ingerir de ciência, beneficio para estarmos bem seguros é sobre­
algum, até que se tenha submetidò à tudo com relação às semelhanças que é
refutação e que por esta refutação, preciso manter-nos em constante guar­
causando-lhe vergonha de si mesma, se da: na verdade, é um gênero extrema­
tenha desembaraçado das opiniões que mente escorregadio. Mas, por enquan­
cerram as vias do ensino e que se tenha to, admitamos que sejam os mesmos,
levado ao estado de manifesta pureza e pois desde que observem uma fronteira
156 PLATÃO

rigorosa, não haveria o mínimo con­ TEETETO


flito de termos. — Chamemo-la por esse nome.
TEETETO Mas sinto-me hesitante ante a multipli­
— Pelo menos, é o que parece. cidade de seus aspectos: como deverei
ESTRANGEIRO realmente definir a sofistica se quiser
— Estabeleçamos, pois, como parte dar uma fórmula verídica e segura?
da arte de separar, a arte de purificar. ESTRANGEIRO
Nesta última separemos a parte que — Compreende-se a tua dificul­
tem por objeto a alma. Coloquemos de dade. Mas a do sofista, procurando um
lado a arte do ensino e, nesta, a arte da meio de, a esta altura, escapar à nossa
educação. Enfim, na arte da educação, argumentação, é bem grande, creia-se;
a argumentação presente nos mostrou, pois com razão diz o provérbio: “Não
ao acaso, exercendo-se em tomo duma é fácil esquivar-se a todas elas.” Mais
vã demonstração de sabedoria, um mé­ do que nunca, é a hora de ir ao seu
todo de refutação no qual não vemos encalço.
mais que a sofistica autêntica e verda TEETETO
deiramente nobre. — Falaste bem.

Recapitulação das definições

ESTRANGEIRO TEETETO
— Primeiramente descansemos e — Sim, e o quarto personagem que
durante esta pausa vejamos o que dis­ ele nos revelou foi o de um produtor e
semos. Sob quantos aspectos se apre­ vendedor destas mesmas ciências.
sentou a nós o sofista? Creio que, em
ESTRANGEIRO
primeiro lugar, nós descobrimos ser ele — Tua memória é fiel. Quanto ao
um caçador interesseiro de jovens seu quinto papel, eu mesmo procurarei
ricos. lembrá-lo. Na realidade, filiava-se ele à
TEETETO arte da luta, como um atleta do discur­
— Sim. so, reservando, para si, a erística.
ESTRANGEIRO
— Em segundo lugar, um nego­ TEETETO
ciante, por atacado, das ciências relati­ — Exatamente.
vas à alma. ESTRANGEIRO
TEETETO — O seu sexto aspecto deu margem
— Perfeitamente. à discussão. Entretanto, nós concor­
ESTRANGEIRO damos em reconhecê-lo, dizendo que é
— Em seu terceiro aspecto, e com ele quem purifica as almas das opi­
relação às mesmas ciências, não se niões que são um obstáculo às ciên­
revelou ele varejista? cias.
SOFISTA 157

TEETETO divinas que estão escondidas das vistas


— Perfeitamente. do vulgo?
ESTRANGEIRO TEETETO
— Não crês, que, quando um — Pelo menos, pretende-se que
homem se nos apresenta dotado de assim ensinem.
múltiplos misteres, ainda que para ESTRANGEIRO
designá-lo baste o nome de uma única — E de tudo o que é visível na
arte, trata-se apenas de uma aparência, terra, no céu e de seus fenômenos?
que não é uma aparência verdadeira, e TEETETO
que ela, evidentemente, só se impõe, a —- Certamente.
propósito de uma dada arte, porque ESTRANGEIRO
não sabemos nela encontrar o centro — Mas, não os vemos também, em
em que todos esses misteres vêm unifi- reuniões particulares, hábeis em con­
car-se, ficando nós, dessa forma, obri­ tradizer, comunicando aos demais o
gados a dar, a quem for assim dotado, que sabem sobre qualquer questão
vários nomes em lugar de um só? geral do devir ou do ser?
TEETETO
TEETETO — Exatamente.
— É essa, provavelmente, a expli­
cação mais natural. ESTRANGEIRO
— E ainda, a propósito das leis e de
ESTRANGEIRO todas as coisas políticas, não preten­
— Nós, pelo menos, não sejamos
dem eles formar bons discutidorês?
indolentes a ponto de deixar em meio a
TEETETO
nossa pesquisa. Antes, voltemos a uma — Pode-se dizer que não teriam
de nossas definições do sofista. Na ver­ ninguém para ouvi-los se assim não
dade, uma delas me pareceu realmente pretendessem.
revelá-lo melhor.
ESTRANGEIRO
TEETETO — Na discussão sobre o conjunto
— Qual? das artes e sobre cada uma em particu­
ESTRANGEIRO lar, os argumentos necessários para
— Nós o chamamos, creio, contra- contradizer a cada profissional em sua
ditor. própria especialidade são conhecidos,
TEETETO pode-se dizer, de todo mundo, pois se
— Sim. encontram à disposição de quem quer
ESTRANGEIRO que queira aprendê-los.
— Pois bem! Não acontece que ele TEETETO
ensina aos outros esta mesma arte? — Ao que parece, queres falar
TEETETO sobre os escritos de Protágoras, a res­
— Como não? peito dos exercícios físicos e outras
ESTRANGEIRO artes.
— Examinemos, pois, a propósito ESTRANGEIRO
de que assuntos pretendem eles formar — E também, dos de muitos ou­
contraditores. Procederemos a este tros, meu caro amigo. Mas na realida­
exame, mais ou menos, desta forma: de, o que parece essencialmente pró­
ensinam eles a discussão das coisas prio a esta arte de discussão, não é
158 PLATÃO

uma aptidão sempre pronta a discutir, ESTRANGEIRO


seja o que for, a propósito de qualquer — Se é possível que um homem
assunto? saiba tudo.
TEETETO
TEETETO — Se assim fosse, estrangeiro, nós
— Pelo menos, ao que parece, seriamos felizes.
quase nenhum assunto lhe escapa.
ESTRANGEIRO
— Como poderia então o incompe­
ESTRANGEIRO
— Mas, pelos deuses, meu jovem tente, ao contradizer a alguém compe­
amigo, tu acreditas ser isso possível? tente, jamais dizer qualquer coisa de
Talvez, vós, jovens, o percebeis com verdadeiro?
olhares mais penetrantes, e nós, com TEETETO
vistas menos sensíveis. — De modo algum.
ESTRANGEIRO
TEETETO — O que então poderia dar à sofis­
— Como assim? Em que pensas, tica este poder prestigioso?
precisamente? Ainda não percebi cla­ TEETETO
ramente a questão que propões. — Qual?

As artes ilusionistas: a mimética

ESTRANGEIRO TEETETO
— Como chegam esses homens a — E bem voluntariamente.
incutir na juventude que somente eles,
ESTRANGEIRO
e a propósito de todos os assuntos, são — É que, ao que creio, eles pare­
mais sábios que todo o mundo? Pois, cem ter uma sabedoria pessoal sobre
na realidade, se como contraditores todos os assuntos que contradizem.
não tivessem razão, ou não pareces­
TEETETO
sem, à sua juventude, ter razão; se, — Irrecusavelmente.
mesmo assim, a sua habilidade em dis­
cutir não desse algum brilho à sua ESTRANGEIRO
— E assim fazem, a propósito de
sabedoria, então seria caso de dizer,
tudo, segundo cremos?
como tu, que ninguém viria voluntaria­
mente dar-lhes dinheiro para deles TEETETO
— Sim.
aprender estas duas artes.
TEETETO ESTRANGEIRO
— Certamente. — Dão, então, a seus discípulos a
impressão de serem oniscientes.
ESTRANGEIRO
— Ora, na verdade, os que os pro­ TEETETO
curam o fazem voluntariamente. — Como n ão!
SOFISTA 159

ESTRANGEIRO TEETETO
— E sem o ser, na realidade; pois, — Que dizes com isso?
como vimos, isso seria impossível. ESTRANGEIRO
TEETETO
— Quem se julgasse capaz de pro­
— E como não haveria de ser duzir a mim e a ti e a tudo que nasce e
impossível? cresce. . .
ESTRANGEIRO TEETETO
— Ao que vemos, pois, o que traz o — A que produção te referes? Cer­
sofista é uma falsa aparência de ciên­ tamente não pensas num agricultor,
cia universal, mas não a realidade. pois esse homem produz até mesmo
seres vivos.
TEETETO
— Exatamente! O que dizes parece ESTRANGEIRO
ser o que de mais justo se possa dizer a — Perfeitamente, e com eles, o
seu propósito. mar, a terra e o céu, e os deuses e tudo
o mais. Produzindo, de um só golpe,
ESTRANGEIRO
— Tomemos agora, a seu propó­ uma e outra destas criaturas, ele as
sito, um exemplo mais claro. vende por uma quantia bem pequena.
TEETETO
TEETETO
— Pretendes brincar ao falares
— Qual?
assim !
ESTRANGEIRO
ESTRANGEIRO
— Este. E procura seguir-me bem — E então? Quando se afirma que
atentamente para responder-me. tudo se sabe e que tudo se ensinará a
TEETETO outrem, por quase nada, e em pouco
— A quê? tempo, não é caso de se pensar que se
ESTRANGEIRO trata de uma brincadeira?
— Quem se afirmasse capaz, não TEETETO
de explicar nem contradizer, mas de — Creio que sim, inteiramente.
produzir e executar, por uma única ESTRANGEIRO
arte, todas as coisas. . . — Ora, conheces alguma forma de
TEETETO brincadeira mais sábia e mais graciosa
— Que entendes por todas as coi­ que a mimética?
sas? TEETETO
ESTRANGEIRO — Nenhuma, pois a forma a que te
— É o próprio princípio de nossa referiste, como a unidade a que subor-
explicação que deixaste de perceber, dinaste todas as demais, é a mais com­
pois parece nada compreenderes da plexa, e quase a mais diversa que
minha expressão “todas as coisas”. existe.
TEETETO ESTRANGEIRO
— Realmente nada compreendi. — Assim, o homem que se julgasse
ESTRANGEIRO capaz, por uma única arte, de tudo
— Ora, minha expressão “todas as produzir, como sabemos, não fabrica­
coisas” quer dizer tu e eu e, além de ria, afinal, senão imitações e homôni­
nós, tudo o que mais há, tanto os ani­ mos das realidades. Hábil, na sua téc­
mais como as árvores. nica de pintar, ele poderá, exibindo de
160 PLATÃO

longe os seus desenhos, aos mais ingê­ ESTRANGEIRO


nuos meninos, dar-lhes a ilusão de que — É precisamente porque todos
poderá igualmente criar a verdadeira nós que aqui estamos nos esforçare­
realidade, e tudo o que quiser fazer. mos, e desde agora, em fazer-te avan­
TEETETO
çar o mais perto possível, poupando-te
— Sem dúvida. as provas. E, para voltar ao sofista,
dize-me: já está claro que se trata de «
ESTRANGEIRO
— Não devemos admitir que tam­ um mágico que somente sabe imitar as
bém o discurso permite uma técnica realidades ou guardamos ainda alguma
por meio da qual se poderá levar aos veleidade acreditando que, de fato e
ouvidos de jovens ainda separados por '-ealmente, ele tem a ciência de todos
uma longa distância da verdade das os assuntos aos quais parece capaz de
coisas, palavras mágicas, e apresentar, contradizer?
a propósito de todas as coisas, ficções TEETETO
verbais, dando-lhes assim a ilusão de — Como ainda hesitar, estran­
ser verdadeiro tudo o que ouvem e de geiro? Em vista do que precedeu já
que, quem assim lhes fala, tudo conhe­ está bastante claro que o seu lugar é
ce melhor que ninguém? entre aqueles que participam das diver­
sões.
i TEETETO
— Por que razão não existiria tam­ ESTRANGEIRO
bém essa técnica? — Devemos, pois, situá-lo como
mágico e imitador.
ESTRANGEIRO
— Para a maior parte daqueles que TEETETO ^
— Sem dúvida alguma.
então ouviram tais discursos, não é
inevitável, Teeteto, que, transcorrido o ESTRANGEIRO
tempo suficiente de anos, com o avan­ — Tratemos agora de não mais dei-
çar da idade, e vistas as coisas de mais xar-nos escapar a presa que, na reali­
perto, as provas que os obrigam ao dade, já está bem amarrada às malhas
claro contato com as realidades os com que o raciocínio sabe deter estas &
levem a mudar as opiniões então trans­ caças. Também a nossa não se esqui­
mitidas, a julgar pequeno o que lhes vará mais, pelo menos, disto.
havia parecido grande, difícil o que TEETETO
c lhes parecera fácil, uma vez que os — Do quê?
simulacros que transportavam as pala­
ESTRANGEIRO
vras desapareçam em presença das — De ter de colocar-se no gênero
realidades vivas? dos prestidigitadores.
TEETETO TEETETO
— Sim, tanto quanto, à minha — A esse respeito, pelo menos eu,
idade, posso julgar. Quanto a mim, concordo contigo.
entretanto, creio que ainda me encon­ ESTRANGEIRO
tro dentre os que uma longa distância — Eis, pois, o que ficou decidido:
separa. dividir sem demora a arte que produz
SOFISTA 161

imagens e, avançando nesse esconde­ devem modelar ou pintar uma obra de


rijo, se, desde logo, nos aparecer o grandes dimensões. Se, na realidade,
sofista, apanhá-lo conforme o edito do reproduzissem estas maravilhas em
rei, entregando-o ao soberano, e decla- suas verdadeiras proporções, sabes que
rando-lhe a nossa captura. E se, nas as partes superiores nos apareceriam
sucessivas partes da mimética, ele exageradamente pequenas e as partes
encontrar um covil onde esconder-se, inferiores, muito grandes, pois, a umas
persegui-lo passo a passo, dividindo vemos de perto, e a outras, de longe.
logo cada parte em que se resguarde, TEETETO
até que ele seja apanhado. Nem ele, — Perfeitamente.
nem espécie alguma, poderá jamais ESTRANGEIRO
vangloriar-se de se haver esquivado a -— Dando de mão à verdade, não
uma perseguição levada a efeito tão sacrificam os artistas as proporções
metodicamente, em seu todo e em seus exatas para substituí-las, em suas figu­
pormenores. ras, pelas proporções que dão ilusões?
TEETETO TEETETO
— Tens razão no que dizes e é o — Perfeitamente.
que devemos fazer. ESTRANGEIRO
ESTRANGEIRO — À primeira destas produções,
— Prosseguindo na divisão à ma­ então, não poderemos chamar, com
neira do que até aqui fizemos, creio razão, uma cópia, desde que ela é fiel­
perceber duas formas de mimética; e mente copiada do objeto?
apenas ainda não me sinto capaz de TEETETO
descobrir em qual delas encontraremos — Sim.
o aspecto preciso que procuramos. ESTRANGEIRO
— E esta primeira parte da mimé­
TEETETO
— Pelo menos, dize e distingue tica não deve chamar-se pelo nome que
primeiramente as duas formas de que anteriormente lhe havíamos dado, arte
falas. de copiar?
ESTRANGEIRO TEETETO
— A primeira arte que distingo na — É certo.
mimética é a arte de copiar. Ora, ESTRANGEIRO
copia-se mais fielmente quando, para — Mas que nome daremos ao que
melhorar a imitação, transportam-se parece copiar o belo para espectadores
do modelo as suas relações exatas de desfavoravelmente colocados, e que,
largura, comprimento e profundidade, entretanto, perderia esta pretendida
revestindo cada uma das partes das fidelidade de cópia para os olhares
cores que lhe convêm. capazes de alcançar, plenamente, pro­
TEETETO porções tão vastas? O que assim simu­
— Como? Não é assim que procu­ la a cópia, mas que de forma alguma o
ram fazer todos os que imitam? é, não seria um simulacro?
ESTRANGEIRO TEETETO
— Menos aqueles, pelo menos, que — Como n ão!
162 PLATÃO

ESTRANGEIRO TEETETO
— Ora, não é neste caso que se — É mesmo o que parece.
encontra uma grande parte da pintura ESTRANGEIRO _
e da mimética, em seu todo? — É a consciência da dificuldade
TEETETO que te leva a essa afirmação ou estará
— Sem dúvida. sendo levado pelo curso da argumenta­
ESTRANGEIRO ção e pela força do hábito, ao afirma-
— Mas à arte que, em lugar de uma res, tão prontamente, o que eu afirmo?
cópia, produz um simulacro, não cabe­ TEETETO
ria, perfeitamente, o nome de arte do — Que queres dizer? Por que essa
simulacro? pergunta?
— Sim, perfeitamente. ESTRANGEIRO
ESTRANGEIRO — É que, realmente, jovem feliz,
— Aí estão as duas formas que te nos vemos frente a uma questão extre­
anunciei da arte que produz imagens: a mamente difícil; pois, mostrar e pare­
arte da cópia e a arte do simulacro. cer sem ser, dizer algo sem, entretanto,
— Isso mesmo. dizer com verdade, são maneiras que
trazem grandes dificuldades, tanto
ESTRANGEIRO
— Para o problema que então me hoje, como ontem e sempre. Que modo
deixara perplexo, o de saber em qual encontrar, na realidade, para dizer ou
destas artes colocar o sofista, ainda pensar que o falso é real sem que, já ao
não vejo, claramente, uma solução. proferi-lo, nos encontremos enredados
Esse homem é verdadeiramente um na contradição? Na verdade, Teeteto,
assombro e é muito difícil apanhá-lo a questão é de uma dificuldade extre­
completamente, pois ainda desta vez, ma.
lá está ele, belo e bem refugiado, em TEETETO
uma forma cujo mistério é indecifrável. — Por quê?

O problema do erro e a questão do não-ser

ESTRANGEIRO dade, nada de falso é possível sem esta


— A audácia de uma tal afirmação condição. Era o que, meu jovem, já
é supor o não-ser como ser; e, na reali­ afirmava o grande Parmênides, tanto
SOFISTA 163

em prosa como em verso, a nós que TEETETO


então éramos jovens: — Como haveríamos de fazê-lo?
“Jamais obrigarás os não-seres a ser; ESTRANGEIRO
Antes, afasta teu pensamento desse — Ora, se não podemos atribuí-lo
caminho de investigação.” ao ser, seria igualmente de todo incor­
Dele, pois, já nos vem o testemunho. reto atribuí-lo ao “qualquer”.
Entretanto, a própria afirmação o TEETETO
testemunharia mais claramente, por — Como não?
pouco que a submetêssemos à prova. ESTRANGEIRO
Essa, pois, é que devemos examinar — Ao que creio, está também claro
desde logo, se nada tiveres a opor. a nós, que este vocábulo “qualquer” se
TEETETO aplica, em todas as nossas expressões,
— Minha opinião será a que tu qui­ ao ser. Com efeito, é impossível formu­
seres. Quanto à discussão, cuida tu lá-lo só, nu, despido de tudo o que
mesmo da melhor maneira de condu­ tenha o ser, não é?
zi-la e prossegue; pelo caminho esco­ TEETETO
lhido, eu te seguirei. — Sim, é impossível.
ESTRANGEIRO ESTRANGEIRO
— Pois bem, comecemos. Dize-me: — Considerando a questão dessa
atrever-nos-íamos a proferir de uma ou forma tu concordarás comigo que
outra maneira o que absolutamente dizer “qualquer” é dizer inevitavel­
não é? mente pelo menos “qualquer um”.
TEETETO TEETETO
— Como haveríamos de fazê-lo? — Sim.
ESTRANGEIRO
ESTRANGEIRO
— Sem, pois, qualquer espírito de — Pois, e com isto concordarás,
discussão ou de brincadeira, suponha­ este “qualquer” quer dizer precisa­
mos que, ponderada seriamente a ques­ mente “um’ e “quaisquer” quer dizer
tão, alguém que nos ouve tivesse que ou dois ou vários.
indicar a que objeto se deve aplicar TEETETO
este nome de “não-ser”; pensamos — Como não concordar?
como ele o aplicaria, a que objeto e ESTRANGEIRO
com que qualidades, quer em seu pró­ — E, inevitavelmente, quem não
prio pensamento quer em explicação diz alguma coisa, ao que parece,
que então tivesse de apresentar? absolutamente, nada diz.
TEETETO TEETETO
— Tua pergunta é difícil e, para um — Sim, incontestavelmente.
espírito como o meu, diria que é quase ESTRANGEIRO
completamente insolúvel. — Não será mesmo necessário evi­
ESTRANGEIRO tar essa concessão, pois que nada dizer
— Em todo o caso, uma coisa é é não dizer? Ao contrário, não será
certa: não se poderia atribuir o não-ser caso de afirmar que o esforçar-se por
a qualquer ser que se considere. enunciar o não-ser é nada dizer?
164 PLATAO

TEETETO mento os não-seres ou o não-ser, sem


— Aí está quem haveria de pôr um servir-nos do número?
ponto final às dificuldades da questão. TEETETO
ESTRANGEIRO
— Explica-te.
— Não te exaltes demasiadamente ESTRANGEIRO
ainda; a questão subsiste, jovem feliz, e — Ao falarmos dos não-seres não
a dificuldade que permanece é a maior tentamos aí aplicar o número plural?
e a primeira de todas. Na realidade, ela TEETETO
reside no próprio princípio. — Indubitavelmente.
ESTRANGEIRO
TEETETO
— Que queres dizer? Explica-te — E ao falar do não-ser, de aplicar,
sem tergiversar. desta vez, a unidade?
TEETETO
ESTRANGEIRO — Manifestamente.
— Ao ser, creio, pode unir-se
algum outro ser. ESTRANGEIRO
— Ora, afirmamos que não é justo
TEETETO nem correto pretender unir ser e
— Sem dúvida alguma. não-ser.
ESTRANGEIRO TEETETO
— Mas poderíamos afirmar como — É bem verdade.
possível que um ser jamais se unisse ao ESTRANGEIRO
não-ser? — Compreendes então que não se
TEETETO poderia, legitimamente, nem pronun­
— Como afirmá-lo? ciar, nem dizer, nem pensar o não-ser
em si mesmo; que, ao contrário, ele é
ESTRANGEIRO
— Ora, para nós, o número em sua impensável, inefável, impronunciável e
totalidade é o ser. inexprimível?
TEETETO
TEETETO — Perfeitamente.
— Sim, se há algo com direito a
esse título é precisamente ele. ESTRANGEIRO
— Estaria eu errado, há pouco, ao
ESTRANGEIRO dizer que iria enunciar a maior das
— Evitemos, pois, até mesmo a ten­ dificuldades a ele relativas?
tativa de transportar para o não-ser o
TEETETO
que quer que seja do número, plurali­ — Como? Haverá outra mais
dade ou unidade. grave que ainda nos falte'enunciar?
TEETETO ESTRANGEIRO
— Ao que parece, nós erraríamos — E então, surpreendente jovem,
se assim tentássemos: a razão nos im­ só do enunciado das'frases preceden­
pede de fazê-lo. tes, não percebes em que dificuldade o
ESTRANGEIRO não-ser coloca mesmo a quem o refuta,
— Como então enunciar oralmente de modo que tentar refutá-lo é cair em
ou mesmo apenas conceber em pensa­ inevitáveis contradições?
SOFISTA 165

TEETETO ra de falar lhe aplicaria a forma de


— Que disseste? Explica-te mais unidade.
claramente.
TEETETO
ESTRANGEIRO — Perfeitamente.
— Não é em mim que é preciso
procurar esta maior clareza. Eu que, ESTRANGEIRO t
há pouco e ainda agora, afirmei como — Por que então falar de mim por
princípio que o não-ser não deve parti­ mais tempo? Para mostrar que fui ven­
cipar nem da unidade nem da plurali­ cido, agora como sempre, nesta argu­
dade, já ao afirmá-lo eu o disse uno; mentação contra o não-ser? Não é,
pois disse “o não-ser”. Compreendes pois, no que eu falo, como te dizia, que
certamente. devemos procurar as regras de falar
corretamente a respeito do não-ser.
TEETETO
— Sim. Mas prossigamos e agora vamos pro-
curá-las em ti.
ESTRANGEIRO
— Instantes antes afirmava ainda TEETETO
que ele é impronunciável, inefável e — Que queres dizer?
inexprimível. Estás seguindo? ESTRANGEIRO
— Adiante pois. Tu que és jovem,
TEETETO
— Sim, como não te seguir? sê grande e bravo. Concentra todas as
tuas forças e, sem unir ao não-ser, nem
ESTRANGEIRO
— Tentar aplicar-lhe este “é” não é o ser, nem a unidade, nem a plurali­
239 a- contradizer as minhas proposições an­ dade numérica, procura dar-nos um
teriores? enunciado correto a seu respeito.
TEETETO TEETETO
— Provavelmente. — Seria grande a minha temeri­
ESTRANGEIRO dade, e insensata a minha empresa se
— E então? Aplicar-lhe não era me atrevesse onde vi sofreres um tal
dirigir-me, nele, a uma unidade? revés.
TEETETO ESTRANGEIRO
— Sim. — Pois bem! Se te parece melhor,
ESTRANGEIRO não cogitemos nem de ti nem de mim.
— E mais: dizendo-o inexprimível, Mas, até que encontremos alguém
inefável, impronunciável, eu o expres­ capaz dessa proeza, digamos que o
sava como unidade. sofista, da maneira mais astuciosa do
TEETETO mundo, se escondeu num refúgio inex-
— Como não reconhecê-lo? tricável.
ESTRANGEIRO TEETETO
— Ora, nós afirmamos que é im­ — É precisamente o que parece.
possível a quem fale com rigor, defini- ESTRANGEIRO
lo, seja como uno ou como múltiplo, e — Em conseqüência, se afirmamos
mesmo absolutamente impossível de que ele possui uma arte de simulacro, o
falar dele, pois, ainda aqui, essa manei­ emprego de tais fórmulas lhe tornaria *
166 PLATÃO

fácil a resposta. Facilmente ele voltaria todos eles. Fala agora, e sem permitir-
contra nós as nossas fórmulas, e quan­ lhe vantagem alguma, repele o adver­
do o chamássemos de produtor de ima­ sário.
gens ele nos perguntaria o que, afinal TEETETO
de contas, chamamos de imagens. — Que outra definição daríamos à
Devemos, pois, procurar, Teeteto, o imagem, estrangeiro, se não a de um
que se poderia responder, com acerto, segundo objeto igual, copiado do ver­
a este espertalhão. dadeiro?
TEETETO E S T R A N G E IR O
— Evidentemente que responde­ — Teu “ segundo objeto igual” sig­
remos lembrando as imagens das nifica um objeto verdadeiro, ou, então,
águas e dos espelhos, as imagens pinta­ que queres dizer com esse “ igual” ? *
das ou gravadas, e todas as demais, da TEE TETO
mesma espécie. — De forma alguma um verda­
E S T R A N G E IR O deiro, certamente, mas um que com ele
— Bem se vê, Teeteto, que jamais se pareça.
viste um sofista. E S T R A N G E IR O
TEE TETO — Mas, por verdadeiro, tu entendes
— Por quê? “ um ser real” ?
E S T R A N G E IR O TEETETO
— Ele te parecerá um homem que — Certamente.
fecha os olhos ou que, absolutamente, E S T R A N G E IR O
não tem olhos. — Então? Por não-verdadeiro tu
TEETETO entendes o contrário do verdadeiro?
— Como assim? TEETETO
E S T R A N G E IR O — Certamente.
— Quando assim lhe responderes, E S T R A N G E IR O
ao lhe falar do que se forma nos espe­ — O que parece é, pois, para ti, um
lhos ou do que as mãos amoldem, ele não-ser irreal, pois o afirmas não-ver-
se rirá de teus exemplos, destinados a dadeiro.
um homem que vê. Fingirá ignorar TEETETO
espelhos, águas e a própria vista e te — Entretanto, há algum ser.
240 o perguntará, unicamente, o que se deve E S T R A N G E IR O
concluir de tais exemplos. — Em todo o caso, não um ser
TEETETO verdadeiro, é o que dizes.
— O quê?
TEETETO
E S T R A N G E IR O — Certamente não; ainda que ser
— O que há de comum entre todos por semelhança seja real.
esses objetos que tu dizes serem múlti­ E S T R A N G E IR O
plos mas que honras por um único — Assim, pois, o que chamamos
nome, que é o nome de imagem, e que semelhança é realmente um não-ser
entendes como uma unidade sobre irreal?
SOFISTA 167

TEE TETO seres, o que a opinião falsa concebe.


— Temo que em tal entrelaçamento TEE TE TO
é que o ser se enlace ao não-ser, de — Necessariamente sim.
maneira a mais estranha. E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O — Isto quer dizer que ela concebe os
— Estranha, certamente. Vês, pen­ não-seres como não sendo ou que con­
sando bem, pelo menos que, ainda cebe como sendo de algum modo o qut
agora, por um tal entrecruzamento, o não é de modo algum?
nosso sofista de cem cabeças2, nos
TEE TETO
obrigou a reconhecer a contragosto — Que ela concebe os não-seres
que, de alguma forma, o não-ser é. como sendo de algum modo; é o que se
TEE TE TO impõe se se quer que o erro, por menor
— Vejo-o perfeitamente. que seja, seja possível.
E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O
— Pois bem ! Que dizer, agora, de
— E então? Não conceberia tam­
sua arte? Como deveremos defini-la se
bém ela como não sendo, absoluta­
não quisermos contradizer-nos?
mente, o que absolutamente é?
TEE TE TO
TEE TETO
— Que queres dizer e o que temes? — Sim.
E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O
— Atribuindo-lhe o simulacro por
— E isso também seria falsidade?
domínio e caracterizando por embuste
TEE TE TO
a sua obra, afirmaremos que a sua arte
— Também.
é uma arte ilusionista, e, então, dire­
E S T R A N G E IR O
mos que a nossa alma se forma de opi­
— Neste caso, creio que também
niões falsas, em conseqüência da sua
este discurso seria condenado por
arte? D o contrário, que poderemos
falso, pela mesma razão, que é a de
dizer?
dizer, dos seres, que eles não são, e dos
TEE TE TO não-seres, que eles são.
— É isso mesmo. Que mais pode­
TEE TE TO
ríamos dizer?
— Poderia ser ele falso por alguma
E S T R A N G E IR O outra razão?
— A opinião falsa seria, agora, a
E S T R A N G E IR O
que concebe o contrário daquilo que é,
— Não vejo nenhuma outra. Mas
ou o quê?
essa o sofista recusará. Haverá algum
TE E TE TO meio de fazê-la aceitar por um homem
— O contrário do que é.
de bom senso, quando já anteriormente
E S T R A N G E IR O concordou ele que ali está algo de
— A o que crês, então, são os não- impronunciável, inefável, inexprimível,
impensável? Compreendemos, Teeteto,
2Alusão à lenda do combate de Hércules com
a hidra. o que o sofista pode dizer?
(N. do T .)
168 PLATÃO
TEETETO sível apoderar-nos do sofista.
— Como não compreender que ele E S T R A N G E IR O
nos acusará de dizer agora o contrário — Com o? A esta altura perde­
do que então dizíamos, nós que temos ríamos nós a coragem, a ponto de nos
a audácia de afirmar que há falsidade furtarmos?
tanto nas opiniões como nos discur­ TEE TETO
sos? Na verdade, isso mesmo nos leva — Absolutamente não, por menor
a unir o ser ao não-ser em muitas fór­ que seja a nossa possibilidade de
mulas, quando havíamos concordado alcançar com a mão o nosso homem.
na sua impossibilidade, a mais absolu­ E S T R A N G E IR O
ta. — Nesse caso posso contar com a
E S T R A N G E IR O tua indulgência, e como acabas de
— Tua lembrança é exata. Mas dizer, tu te contentarás com o pouco
chegamos ao ponto de perguntar-nos o que possamos ganhar, não importa em
que fazer do sofista; pois, se preten­ quê, sobre uma tese de tal vigor.
dermos melhor observá-lo, atribuindo- TEE TETO
lhe como arte a dos impostores e mági­ — Com o poderias duvidá-lo?
cos, vês que as objeções e as E S T R A N G E IR O
dificuldades se acumulam à vontade. — Far-te-ei, pois, um pedido ainda
TEETETO mais veemente.
— Vejo-o muito bem. TEE TETO
E S T R A N G E IR O — Qual?
— Ora, é mínima a parte que E S T R A N G E IR O
examinamos: seu número, por assim — De não me tomares por um
dizer, não tem fim. parricida.
TEETETO TEETETO
— Então, se é assim, parece impos­ — Que queres dizer?

Refutação à tese de Parmênides

E S T R A N G E IR O TE E TE TO
— Que, para defender-nos, teremos — Evidentemente, esse é o ponto
de necessariamente discutir a tese de que teremos de debater em nossa
nosso pai Parmênides e demonstrar, discussão.
pela força de nossos argumentos que, E S T R A N G E IR O
em certo sentido, o não-ser é; e que, — Com o não haveria de ser evi­
por sua vez, o ser, de certa forma, não dente mesmo para um cego, como se
é. diz? Enquanto não houvermos feito
SOFISTA 169
esta contestação, nem essa demonstra­ contestação sempre ultrapassou as mi­
ção, não poderemos, de forma alguma, nhas forças e, certamente, ainda ultra­
falar nem de discursos falsos nem de passa.
opiniões falsas, nem de imagens, de có­
TEE TE TO
pias, de imitações ou de simulacros, e
— Sim, declaraste.
muito menos de qualquer das artes que
deles se ocupam, sem cair, inevitavel­ E S T R A N G E IR O
mente, em contradições ridículas. — Temo, depois do que declarei,
que me tomes por insensato, vendo-me
TE E TE TO
— É bem verdade. passar à vontade, de um a outro extre­
mo. Ora, na verdade, é somente para
E S T R A N G E IR O
— Essa é a razão por que é chega­ teu agrado que nos decidimos a contes­
da a hora de atacar a tese de nosso pai tar a tese, no caso de tal contestação
ou se algum escrúpulo nos impede de ser possível.
fazê-lo, de renunciar absolutamente à T E E TE TO
questão. — Confia que, pelo menos eu,
T E E TE TO
nunca te observarei se te lançares
— Isso não; creio que nada deve nessa contestação e nesta demonstra­
deter-nos. ção. Se é só o que te preocupa, prosse­
E S T R A N G E IR O
gue sem nada temer.
— Nesse caso, pela terceira vez E S T R A N G E IR O
quero pedir-te um pequeno favor. — Então prossigamos. Por onde
TEE TE TO começaremos uma argumentação tão
— Dize o que é. perigosa? A meu ver, este é o caminho
E S T R A N G E IR O que se impõe.
— Declarei há pouco, creio, e de T E E TE TO
uma maneira expressa, que uma tal — Qual?

As teorias antigas do ser.


As doutrinas pluralistas

E S T R A N G E IR O — Expressa mais claramente o que


— Iniciar o nosso exame pelo que queres dizer.
nos parece evidente, evitando que, E S T R A N G E IR O
mantendo a seu respeito noções confu­ — A meu ver, Parmênides e todos
sas, não concordemos tão facilmente a os que com ele empreenderam discer­
seu propósito, como concordaríamos nir e determinar o número e a natureza
se tivéssemos idéias bem claras. dos seres, assim fizeram sem proceder
170 PLATÃO

a uma análise cuidadosa. E S T R A N G E IR O


— Que pouco se interessaram e
TEETETO
— Com o? pouca consideração tiveram para co­
nosco, o vulgo; pois todos eles prosse­
E S T R A N G E IR O
guem em suas teses até ao fim, sem se
— Dão-me todos eles a impressão
importarem em saber se nós os esta­
de contar-nos fábulas, cada um a seu
mos acompanhando ou se, já muito
modo, como faríamos a crianças. Se­
antes, nos perdemos.
gundo um deles, há três seres que, ou
bem promovem entre si uma espécie de TEE TETO
— Que queres dizer?
guerra ou, tomando-se amigos, fazem-
nos assistir a seus casamentos, ao nas­ E S T R A N G E IR O
— Quando algum deles levanta a
cimento de seus filhos, os quais edu­
voz para dizer que o ser é, que foi, que
cam. Outro, contenta-se com dois;
se torna múltiplo ou uno ou duplo; e
úmido e seco ou quente e frio, os quais
quando outro nos conta a mistura do
faz coabitar e casar em forma devida.
quente ao frio depois de haver afir­
Entre nós, os eleatas, vindos de Xenó-
mado o princípio das associações e
fanes e mesmo de antes dele, admitem
dissociações, pelos deuses, Teeteto,
que o que chamamos o Todo é um
compreendes alguma coisa do que
único ser e assim o apresentam em
dizem, um ou outro? Quanto a mim,
seus mitos. Posteriormente, certas
quando jovem, eu acreditava, todas as
Musas da Jônia e da Sicília concluíram
vezes que se falava deste objeto que
que o mais certo seria combinar as
ora nos põe em dificuldade, o não-ser,
duas teses e dizer: o ser é, ao mesmo
compreendê-lo exatamente. E agora, tu
tempo, uno e múltiplo, mantendo-se a
vês que dificuldades ainda encon­
sua coesão pelo ódio e pela amizade. O
tramos a seu respeito.
seu próprio desacordo é um eterno
TEE TE TO
acordo: assim dizem, entre estas
— Sim, vejo.
musas, as vozes mais elevadas; mas as
E S T R A N G E IR O
de voz mais fraca diminuíram o eterno
— Ora, bem pode acontecer que,
rigor desta lei: na alternância que pre­
com relação ao ser, a nossa alma se
gam, umas vezes o Todo é uno, pela encontre em igual confusão; e que nós
amizade que nele Afrodite mantém, que acreditamos tudo compreender,
outras vezes é múltiplo e hostil a si sem dificuldade, quando dele ouvimos
mesmo, em virtude de não sei que falar, e nada compreender a propósito
discórdia. Quem, dentre eles, fala ver­ do outro termo, na realidade estejamos
dadeiramente, e quem falsamente? na mesma situação no que concerne a
Seria difícil dizer e pretensioso levan­ um e outro.
tar críticas, em assuntos tão importan­ TEE TE TO
tes, a homens que defendem a sua gló­ — Sim, pode.
ria e antiguidade. M as, sem incorrer E S T R A N G E IR O
em censura, podemos declarar que. . . — Façamos, pois, a mesma reserva
TEETETO para todos os termos de que acabamos
— O quê? de falar.
SOFISTA 171

TEE TETO nenhuma maneira de fazer com que


— De bom grado. dois “ sejam” .
E S T R A N G E IR O TEE TETO
— Se concordas, examinaremos — O que dizes é verdade.
mais tarde os demais; mas primeira­ E S T R A N G E IR O
mente examinemos o maior deles, o — “ Seria, pois, ao par, que preten-
principal. deis chamar de ser?”
TEE TE TO TE E TE TO
— A qual deles te referes? Eviden­ — É possível.
temente, ao que crês, é o ser que deve E S T R A N G E IR O
ocupar-nos de início para desco­ — “ M as então, amigo” , responde­
brirmos que significado lhe emprestam ríamos, “ ainda nesse caso se afirmaria
aqueles que dele falam. muito claramente que dois é um” .
E S T R A N G E IR O TEE TETO
— Descobriste logo meu pensa­ — Tua réplica é perfeitamente
mento, Teeteto. Aí está, pois, ao que justa.
creio, o método que se impõe à nossa E S T R A N G E IR O
pesquisa. Nós os suporemos presentes, — “ Uma vez, pois, que nos encon­
pessoalmente, e lhes proporemos estas tramos em dificuldade, caberá a vós
perguntas: “ Que devereis vós todos, explicar-nos o que entendeis por este
para quem o Todo é o quente e o frio vocábulo “ ser” . Evidentemente estas
ou algum par desta espécie, entender coisas vos são, de há muito, familiares.
por esse vocábulo que aplicais ao par Nós mesmos, até aqui, acreditamos
quando dizeis que tanto o par, como compreendê-las, e agora nos sentimos
cada um de seus termos, “ é” ? Que pre- perplexos. Começai, pois, por nos ensi-
tendeis fazer-nos entender por este ná-las desde o princípio, de sorte que,
“ é” ? Deveremos nele ver um terceiro acreditando compreender o que dizeis,
termo somado aos dois outros, ou não nos aconteça, na verdade, o
deveremos, segundo acreditais, admitir contrário” . Estas são as questões e as
que o Todo é três, e não mais dois? observações que faremos a estas pes­
Pois, se chamardes de ser a um dos soas e a todas as demais que dizem que
dois, não podereis mais dizer que os o Todo é mais que um. Encontras nela,
dois igualmente “ são” ; e nesse caso, meu filho, algo de falso?
teríamos, em rigor, uma maneira dupla TEE TETO
de fazer com que apenas um seja, mas — Absolutamente nada.
172 PLATÃO

As doutrinas unitárias

E S T R A N G E IR O existe o Uno, e nada mais, é um pouco


— E mais: não envidaríamos todos ridículo.
os esforços para saber, dos que dizem
TEE TETO
que o Todo é uno, o que entendem eles — Sem dúvida.
pelo ser?
E S T R A N G E IR O
TEETETO — Por outro lado, rigorosamente
— Com o n ã o ! falando, concordar com quem afir­
E S T R A N G E IR O masse que um nome seja ele qual for,
— Deverão eles responder-nos, tem existência seria insensato.
pois, a esta pergunta: “ Vós afirmais, TE E TE TO
creio>que não há senão um único ser?” — Em quê?
E não é certo que responderão: “ Sím, E S T R A N G E IR O
nós o afirmamos” ? — Afirmar que o nome é diferente
da coisa é dizer que, afinal, há duas
TEETETO
— É. coisas.
TEE TETO
E S T R A N G E IR O
— “ Bem, pelo nome de Ser, enten- — Sim.
deis vós alguma coisa?” E S T R A N G E IR O
— Por outro lado, afirmar que o
TEETETO
nome é idêntico à coisa é necessaria­
— Sim.
mente, ou dizer que ele não é nome de
E S T R A N G E IR O nada, ou, se dissermos que ele é nome
— “ E sendo essa coisa o mesmo de alguma coisa, admitirmos como
que o uno, empregais dois nomes para conseqüência que o nome só será nome
um mesmo e único objeto, ou, que de um único nome e de nenhum outro.
deveremos nós pensar?”
TEE TETO
TEETETO — Certamente.
— Com o te responderão eles a essa E S T R A N G E IR O
pergunta, Estrangeiro? — E, sendo o Uno, unidade apenas
E S T R A N G E IR O de si mesmo, não será, ele mesmo,
— Evidentemente, Teeteto, para senão a unidade de um nome.
quem supuser esta hipótese, não será TEE TETO
nada fácil responder à questão presen­ — Necessariamente.
te, nem aliás, a qualquer outra. E S T R A N G E IR O
TEETETO — M as, que dizer do Todo? Afir­
— Com o assim? marão eles que é diferente do Uno, ou
E S T R A N G E IR O que é idêntico a ele?
— Admitir que há dois nomes TEE TETO
quando se acabou de afirmar que só — Certamente eles afirmarão,
SOFISTA 173

como afirmam, que é idêntico. caráter de unidade, ser Uno e Todo ou


E S T R A N G E IR O é absolutamente necessário recusar
— Se, então, ele é um Todo, como que o ser é um Todo.
o diz o próprio Parmênides: TEE TETO
“ Semelhante à massa de uma esfera, — A alternativa que propões é
bem redonda, em todas as suas difícil.
partes, E S T R A N G E IR O
Do centro, igualmente distante, em — Tua observação é, realmente,
todos os sentidos, muito certa; pois o ser com esta unida­
Pois, é impossível que de um lado, de relativa não apareceria de forma al­
seja maior ou menor do que do guma idêntico ao Uno e, assim sendo,
outro” , a totalidade seria maior que um.
o ser que assim é tem um meio e extre­ TEE TETO
midades; e, desse fato, necessariamente — Sim.
tem partes, não é certo?
E S T R A N G E IR O
TE E TE TO — Se, pois, o ser não é o Todo, em
— Sim. virtude deste caráter de unidade que
E S T R A N G E IR O recebeu do Uno, e se o Todo absoluto
— Entretanto, nada impede ao que existe em si mesmo, segue-se que o ser
assim é dividido de ter uma unidade falta a si mesmo.
que se sobreponha ao conjunto de suas
TEE TETO
partes e de ser, dessa forma, não ape­
— Perfeitamente.
nas total mas também una.
E S T R A N G E IR O
TE E TE TO
— E, por este raciocínio, o ser,
— Nada haveria de impedir.
assim privado de si mesmo, não seria
E S T R A N G E IR O ser.
— M as, o que assim é não pode ser
em si mesmo, o próprio Uno, não é? TEE TETO
— É certo.
TE E TE TO
— Por quê? E S T R A N G E IR O
— Assim, ainda mais esta vez a
E S T R A N G E IR O
— Porque o verdadeiro Uno, corre­ totalidade se torna maior que o uno
tamente definido, só pode ser absoluta­ pois que o Ser, de um lado, e o Todo,

mente indivisível. de outro, têm agora, cada um, sua


natureza distinta.
TEE TETO
— Necessariamente. TEE TETO
— Sim.
E S T R A N G E IR O
— E um Uno assim constituído de E S T R A N G E IR O
várias partes não corresponderia, ab­ — M as se supusermos que o todo
solutamente, a esta definição. absoluto não existe, o mesmo aconte­
TEE TE TO cerá ao ser que, além de não ser “ Ser” ,
— Compreendo. jamais poderá vir a sê-lo.
E S T R A N G E IR O TE E TE TO
— Poderia então o Ser, com este Por quê?
174 PLATÃO

E S T R A N G E IR O terá como um todo.


— Tudo o que veio a ser, veio a ser
TEE TE TO
sob forma de um todo; de sorte que — Certamente.
não se pode admitir como reais, nem a
E S T R A N G E IR O
existeqncia, nem a geração se não — E assim surgirão, em cada caso,
considerarmos o Uno ou o Todo no milhares e intermináveis dificuldades a
número dos seres. quem definir o ser ou como um par ou
TEE TETO como uma unidade.
— Parece ser bem certo o que
TEE TETO
dizes. — É o que nos permitem supor as
E S T R A N G E IR O que ora se entrevêem. Na verdade, elas
— E mais: o que não for um Todo se seguem, sem cessar, uma à outra, e a
não poderá ter nenhuma quantidade, dúvida que levantam, a propósito de
pois, o que tiver alguma quantidade, cada solução dada, é cada vez maior e
seja ela qual for, necessariamente a mais inquietante.

Materialistas e Amigos das Formas

E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Embora não tenhamos proce­ — Alguns procuram trazer à terra
dido aqui ao exame de todos os que, tudo o que há no céu e no invisível,
pormenorizadamente, tratam do ser e tomando, num simples aperto de mão,
do não-ser, aceitemos o exame que a rochas e carvalhos. E, na verdade, é
fizemos como suficiente. Há outros em virtude de tudo o que, dessa forma,
que, em suas explicações, têm preten­ podem alcançar que afirmam obstina­
sões diferentes; e devemos examiná- damente que só existe o que oferece
los, igualmente, para convencer-nos, resistência e o que se pode tocar. Defi­
por um exame completo, que não é nem o corpo e a existência como idên­
nada mais fácil dizer o que é o Ser do ticos e logo que outros pretendam atri­
que o que é o não-ser. buir o Ser a algo que não tenha corpo,
TEETETO mostram por estes um soberbo des­
— É preciso então examiná-los prezo nada mais querendo ouvir.
também. TE E TE TO
E S T R A N G E IR O — É verdade. Os homens de quem
— Na verdade, parece que, entre falas são intratáveis! Eu mesmo já
eles, há um combate de gigantes, tal o encontrei vários deles.
ardor com que disputam, entre si* E S T R A N G E IR O
sobre o ser. — Por sua vez, os seus adversários
TEE TETO nesta luta se mantêm cuidadosamente
— Com o assim? em guarda, defendendo-se do alto de
SOFISTA 175

alguma região invisível, e esforçando- E S T R A N G E IR O


se por demonstrar que certas formas — Pergunta, pois, aos que se toma­
inteligíveis e incorpóreas são o ser ram mais tratáveis e faze-te o intér­
verdadeiro. A o que os demais tomam prete de suas respostas.
por corpos, e por “ única Verdade” , TEE TE TO
c eles a despedaçam em seus argumen­ — Assim farei.
tos, e recusando-lhe o ser, neles vêem E S T R A N G E IR O
apenas um móvel devir. É em tomo a — Procuremos então saber se ao
tais doutrinas, Teeteto, que há sempre falarem de um vivo mortal afirmam ali
uma luta sem fim a esse propósito. alguma realidade.

TE E TE TO TEE TE TO
— É verdade. — Naturalmente que sim.

E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Perguntemos, pois, a uns e ou­ — Em sua opinião, esta realidade
tros a explicação do que entendem por não é um corpo animado?
ser. TEE TETO
— Certamente.
TEE TE TO
— Com o obteremos essa explica­ E S T R A N G E IR O
ção? — Colocam assim a alma no grupo
dos seres?
E S T R A N G E IR O
— D os que fazem a existência con­ TEE TE TO
sistir em formas nós a obteríamos mais — Sim.
facilmente, pois são mais acessíveis. E S T R A N G E IR O
M as, dos que pretendem, à força, tudo — - E não afirmam também que a
reduzir ao corpo, é mais difícil e talvez alma é, às vezes justa, outras vezes
d mesmo quase impossível. Entretanto, injusta; umas vezes sensata, outras
parece-me que esta será a maneira pela insensata?
qual devemos proceder com relação a TEE TE TO
eles. — Sem dúvida.
TEE TE TO E S T R A N G E IR O
— Qual? — Ora, não é na posse e na pre­
E S T R A N G E IR O sença da justiça que as almas assim se
— Se possível, o ideal seria torná- tornam justas; e na posse dos contrá­
los, realmente, mais razoáveis. M as, se rios que se tornam o contrário?
tal não estiver ao nosso alcance, admi­ TEE TETO
tamos por hipótese que eles são razoá­ — Sim, ainda aí eles concordarão
veis e suponhamos que concordam em contigo.
responder-nos de uma maneira mais E S T R A N G E IR O
cordial do que a de agora. A palavra — M as, etn sua opinião, tudo o que
dos honestos tem mais valor, creio, que pode começar ou deixar de ser presente
a dos demais. Aliás, não são propria­ em qualquer parte, será certamente um
mente eles que nos preocupam; o que ser.
procuramos é a verdade. TEE TETO
TEE TE TO — Efetivamente, eles assim reco­
— Perfeitamente. nhecem.
176 PLATÃO

E S T R A N G E IR O foram semeados3 e nasceram da terra,


— Um a vez que se concede o ser à de sustentar o contrário até o fim,
justiça, à sabedoria e à virtude em dizendo que tudo o que não possam
geral, e a seus contrários, e finalmente apertar em suas mãos, por essa razão,
à alma, onde residem, afirmarão que absolutamente não existe.
alguma destas realidades é visível e TE E TE TO
tangível ou dirão que todas elas são — O que dizes é quase que palavra,
invisíveis? por palavra, o que eles pensam.

TEE TETO E S T R A N G E IR O
— Dirão que quase nenhuma delas — Continuemos então a interrogá-
é visível. los; pois, por poucos que sejam os
seres que admitam incorpóreos, já bas­
E S T R A N G E IR O tará. Terão de explicar agora o que, na
— E estas realidades invisíveis, verdade, encontram de essencialmente
terão elas, segundo eles, algum corpo? comum entre estes e os corpóreos e que
lhes permita dizer, referindo-se tanto a
TEE TETO
uns como a outros, que eles existem. É
— A esse propósito, não se limita­
possível que se sintam em dificuldades,
rão mais a uma única e mesma respos­
e nesse caso examina se estariam dis­
ta. Segundo dizem, a alma é, certa­
postos a admitir e concordar com a
mente, corpórea. M as, quanto à
seguinte definição do ser, oferecida por
sabedoria e a todas as demais realida­
nós.
des a que se refere tua pergunta, o
TEE TETO
temor lhes impedirá de se atreverem
— Qual? Dize-a e saberemos logo.
tanto a negar-lhes, absolutamente, o
ser, quanto a afirmar, categoricamente, 3 Alusão à lenda grega que narrava haver Cad­
mo semeado os dentes de um dragão que ma­
que todas são corpos. tara. Dessa semeadura surgiram homens arma­
dos que se puseram a assaltar Cadmo. A con ­
selhado pela deusa Minerva, este lançara entre
E S T R A N G E IR O
os seus assaltantes uma pedra e, então, os
— Isto prova claramente, Teeteto, assaltantes puseram-se a bater uns contra os
que nossos homens se tornaram mais outros, havendo uma verdadeira mortandade.
Desse combate acharam cinco homens que,
razoáveis, pois nenhum temor impedi­ com Cadmo, fundariam a cidade de Tebas.
ria, pelo menos aos que, dentre eles, (N. d o T .)

Uma definição do ser. Mobilistas e estáticos

E S T R A N G E IR O agente mais insignificante, e não por


— A seguinte: o que naturalmente uma única vez, é um ser real; pois afir­
traz em si um poder qualquer ou para mo, como definição capaz de definir os
agir sobre não importa o quê, ou para seres, que eles não são senão um
sofrer a ação, por menor que seja, do poder.
SOFISTA 177

TEE TETO E S T R A N G E IR O
— Uma vez que, até agora, eles não — A paixão ou a ação resultante de
têm nenhuma definição melhor, aceita­ um poder que se exerce ao encontro de
rão essa. dois objetos. Talvez tu, Teeteto, desco­
E S T R A N G E IR O nheças a resposta que dão a esta per­
— Está bem. Talvez adiante, tanto gunta, mas eu talvez a saiba, pois, eles
nós como eles mudaremos de opinião. me são familiares.
Por enquanto, fique assim entendido, TEE TETO
entre eles e nós. — Qual é, então, essa resposta?
TEE TETO E S T R A N G E IR O
— Sim, entendido. — Não concordam, absolutamente,
E S T R A N G E IR O
com o que há pouco dizíamos, a res­
— Passemos agora aos outros, aos peito do Ser, aos filhos da Terra4.
Amigos das Formas, e ainda aqui TEE TETO
traduze-nos tu a sua resposta. — O quê?

TE E TE TO E S T R A N G E IR O
— Assim farei. — A definição que adiantamos:
“ aquilo em que está presente o poder
E S T R A N G E IR O
— Vós separais o devir do ser e a de exercer ou de sofrer a ação, por
ele vos referis como sendo distintos, menor que seja” , bastaria para, de
algum modo, definir os seres?
não é?
TEE TETO
TE E TE TO — Sim.
— Sim.
E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O — Pois eles responderão o seguin­
— E é pelo corpo, por meio da sen­ te: o devir participa, certamente, do
sação, que estamos em relação com o poder de sofrer e de exercer; mas ao
devir; mas pela alma, por meio do ser, nenhum destes poderes convém;
pensamento, é que estamos em comu­
TEE TETO
nhão com o ser verdadeiro, o qual di­ — E, no que dizem, há alguma
zeis vós, é sempre idêntico a si mesmo coisa?
e imutável; enquanto que o devir varia
E S T R A N G E IR O
a cada instante. — Alguma coisa a que devemos
TE E TE TO responder pedindo-lhes que nos ensi­
— É precisamente o que afirma­ nem, mais claramente, se concordam
mos. em que a alma conhece e que o ser é
conhecido.
E S T R A N G E IR O
— M as que sentido, diremos, em­ TEE TE TO
prestais vós, excelentes pessoas, a esta — Quanto a isso, certamente con­
comunhão, em sua dupla atribuição? cordam.
Será o mesmo sentido a que há pouco E S T R A N G E IR O
nos referimos? — Pois bem, conhecer ou ser co-
4 Referência irônica aos filósofos, ou mais pre­
TEE TETO cisamente, aos sofistas por sua impiedade.
— Qual? ÍN. do E.)
178 PLATÃO

nhecido é, segundo vós, ação, paixão, de uma e outra poderemos negar que
ou ambas ao mesmo tempo? Ou ainda tenha tais presenças numa alma?
um é paixão, outro ação? Ou então, T E E TE TO
nem um nem outro não têm qualquer — De que outra forma poderia
relação nem com uma nem com outra? tê-las?
TEETETO E S T R A N G E IR O
— Evidentemente nem um nem — Teria, então, inteligência, vida e
outro, nem em relação a uma, nem em alma, e ainda que animado, permane­
relação a outra. D o contrário seria ceria estático sem mover-se de nenhu­
contradizer suas afirmações anteriores. ma maneira?
E STR A N G E IR O TEE TE TO
— Compreendo. M as, nisto ao — Seria absurdo!, ao que me pare­
menos, concordarão: se se admite que ce.
conhecer é agir, a conseqüência inevi­
E S T R A N G E IR O
tável é que o objeto ao ser conhecido — Temos, pois, de conceder o ser
sofre a ação. Pela mesma razão o ser, ao que é movido e ao movimento.
ao ser conhecido pelo ato do conheci­
TEE TETO
mento, e na medida em que é conheci­ — Com o negá-lo?
do, será movido, pois que é passivo, e
E S T R A N G E IR O
isso não pode acontecer ao que está em
— D o que se segue, Teeteto, que se
repouso.
os seres são imóveis, .não há inteli­
TEETETO gência em parte alguma, em nenhum
— É certo.
sujeito e para nenhum objeto.
E S T R A N G E IR O
— M as como? Por Zeus! Deixar- TE E TE TO
nos-emos, assim, tão facilmente, con­ — Certamente.
vencer de que o movimento, a vida, a E S T R A N G E IR O
alma, o pensamento não têm, realmen­ — Por outro lado se admitirmos
te, lugar no seio do ser absoluto; que que tudo está em translação e em
ele nem vive nem pensa e que, solene e movimento excluiremos a própria inte­
sagrado, desprovido de inteligência, ligência do número dos seres.
permanece estático sem poder movi­ TEE TE TO
mentar-se? — Com o?
TEETETO E S T R A N G E IR O
— Na verdade, estrangeiro, esta- — Haverá jamais, a teu ver, perma­
ríamos aceitando, assim, uma doutrina nência de estado, permanência de
assustadora! modo e permanência de objeto onde
E S T R A N G E IR O não houver repouso?
— Admitiremos então que ele tem TEE TE TO
inteligência e não tem vida? — Nunca.
TEE TETO E S T R A N G E IR O
— Com o admiti-lo? — E, faltando estas condições, crês
E S T R A N G E IR O que exista a inteligência ou que jamais
— M as, afirmando nele a presença tenha existido, em alguma parte?
SOFISTA 179

TE E TE TO que coloque este bem acima de todos,


— Certamente não. parece prescrever-se uma regra absolu­
ta: recusar a doutrina da imobilidade
E S T R A N G E IR O
— Ora, se há alguém a quem deve­ universal que professam os defensores
mos combater com todas as forças do ou do Uno ou das formas múltiplas,
raciocínio é quem, eliminando a ciên­ bem como não ouvir aos que fazem o
cia, o pensamento claro ou a inteli­ ser mover-se em todos os sentidos. É
gência, a esse preço afirma uma tese preciso que imite as crianças que que­
qualquer. rem ambos ao mesmo tempo, admi­
tindo tudo o que é imóvel e tudo o que
TEE TE TO se move, o ser e o Todo, ao mesmo
— Muito bem !
tempo.
E S T R A N G E IR O TE E TE TO
— A o filósofo, pois, e a quem quer — É a pura verdade.

A irredutibilidade do ser
ao movimento e ao repouso

E S T R A N G E IR O TEE TE TO
— E então? Não parece que, a par­ — Era o que pelo menos eu acredi­
tir de agora, encerramos perfeitamente tava, e não sei bem em que estejamos
o ser em nossa definição? assim enganados.
T E E TE TO
E S T R A N G E IR O
— Perfeitamente.
— Examina, então, mais clara­
E S T R A N G E IR O mente, se a propósito de nossas últi­
— O h ! assim fosse, Teeteto!, pois
mas conclusões, não se teria direito de
ao que creio é precisamente este o
propor-nos as mesmas questões que
momento em que veremos o quanto o
propusemos antes aos que definiam o
seu exame é difícil.
Todo pelo quente e o frio.
TEE TE TO
— Em quê, ainda? Que quçres TEE TETO
— Que questões? Dize-as de novo.
dizer?
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— ó jovem feliz! Não te apercebes — De bom grado. A o recordá-las,
de que, embora acreditando discerni-lo procurarei fazê-lo interrogando-te da
claramente, nós agora nos encon­ mesma forma como então os interro­
tramos na ignorância mais profunda a gara; o que nos servirá para, ao mesmo
seu respeito? tempo, progredir um pouco.
180 PLATÃO

TEE TE TO TEE TETO


— Muito bem. — É mais ou menos assim.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Vejamos: o repouso e o movi­ — Para onde deve dirigir o racio­
mento não são, na tua opinião, absolu­ cínio quem quiser descobrir uma teoria
tamente contrários um ao outro? bem fundada a esse respeito?
TEE TETO TEE TETO
— Sem dúvida. — Para onde? Dize.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Entretanto tu afirmas que — Creio que em nenhuma parte é
ambos são e tanto um como outro? fácil; pois, se uma coisa não se move,
TEE TETO como é possível que não esteja para­
— Sim, certamente o afirmo. da? E como deixará de ter movimento
E S T R A N G E IR O aquilo que nunca está quieto? Portan­
— Dizendo que são, declaras esta­ to, o ser revelou-se agora como sepa­
rem os dois e cada um deles em rado dos dois. Isto é possível?
movimento? TEE TETO
TEE TETO — É a coisa mais impossível entre
— Nunca. todas.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— M as dizendo que ambos são, — Aqui devemos lembrar isto.
declaras que estão imóveis? TEE TE TO
TEE TETO — O quê?
— Com o é isso? E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O — Que encontramos grande difi­
— Logo, supões em teu espírito, culdade quando alguém nos perguntou
além dessas duas coisas, uma terceira: com que coisa se relaciona a expressão
o ser. Este abrange repouso e movi­ “ não-ser” . Recordas?
mento. Não dizes que os dois são, TEE TETO
unindo-os e observando a sua partici­ — Certamente.
pação na existência? E S T R A N G E IR O
TEETETO — Será porventura menor a dificul­
— Parece realmente que pressen­ dade em que ora nos encontramos a
timos uma terceira coisa, o ser, quando propósito do ser?
dizemos que movimento e repouso são. TE E TE TO
E S T R A N G E IR O — A meu ver, estrangeiro, se me
— Logo, o ser não é a reunião de permites dizer, é ainda maior.
repouso e movimento, mas é coisa dife­ E S T R A N G E IR O
rente de ambos. — Nesse caso, paremos nossa ex­
TEETETO posição nessa delicada questão. Já,
— Naturalmente. pois, que o ser e o não-ser nos trazem
E S T R A N G E IR O iguais dificuldades, podemos dora­
— Por sua própria natureza, o ser vante esperar que, no dia mais ou
não está imóvel nem em movimento. menos claro, em que um deles se reve­
SOFISTA 181

lar, o outro se esclarecerá de igual que nos for possível, tomando a ambos
modo. Se nenhum deles se revelar a simultaneamente.
nós, não deixaremos de prosseguir em TEE TE TO
nossa discussão, da melhor maneira — Muito bem.

O problema da predicação e
a comunidade dos gêneros

E S T R A N G E IR O resposta imediata: é impossível que o


— Expliquemos, pois, como pode múltiplo seja um e que o uno seja múl­
acontecer que designemos uma única e tiplo. E, na verdade, aprazem-se em
mesma coisa por uma pluralidade de não permitir que o homem seja chama­
nomes. do bom, mas apenas que o bom seja
TE E TE TO chamado bom, e o homem, homem.
— Tens um exemplo? Dize-o. Creio que freqüentemente encontras,
E S T R A N G E IR O Teeteto, pessoas cujo zelo se inflama a
— Com o sabes, ao falarmos do respeito deste assunto: muitas vezes,
“ homem” damos-lhe múltiplas deno­ pela pobreza de sua bagagem intelec­
minações. Atribuímos-lhe cores, for­ tual, pessoas de idade mais que madu­
mas, grandezas, vícios e virtudes; em ra, se extasiam a esse propósito, cren­
todos esses atributos, como em inúme­ do, certamente, haver feito uma
ros outros, não afirmamos apenas a descoberta de grande sabedoria.
existência do homem, mas ainda do TEE TE TO
bom, e outras qualificações em número — Perfeitamente.
ilimitado. O mesmo se dá com todos E S T R A N G E IR O
os objetos: afirmamos, igualmente, — Para que nossa argumentação se
que, cada um deles é um, para logo a aplique a todos aqueles que, não
seguir considerá-lo múltiplo e desig­ importa em que sentido, discorreram a
ná-lo por uma multiplicidade de respeito do ser, suponhamos que dirigi­
nomes. mos as questões que se seguem não
TEE TE TO apenas a nossos atuais contendores
— É, verdade. mas a todos aqueles com quem acaba­
E S T R A N G E IR O mos de dialogar.
— E creio que assim fazendo esta- TE E TE TO
.remos servindo aos jovens e a alguns — Que questões?
velhos, que só agora começam a E S T R A N G E IR O
instruir-se, um verdadeiro banquete. — Ser-nos-á vedado unir o ser ao
Está ao alcance de qualquer um dar a repouso e ao movimento, assim como
182 PLATÃO

unir uma a outra quaisquer coisas que imobilizam, e a tese de todos aqueles
sejam, e, considerando-as, ao contrá­ que, classificando os seres por Formas,
rio, como inaliáveis, como incapazes afirmam-nos eternamente idênticos e
de participação mútua, tratá-las como imutáveis. Pois todas essas pessoas
tais em nossa linguagem? Ou as unire­ fazem essa atribuição do ser, quer
mos todas supondo-as capazes de se falando do ser realmente móvel, quer
associarem mutuamente? Ou, enfim, falando do ser realmente imóvel.
diremos que algumas possuem essa T E E TE TO
capacidade e outras não? Dessas pos­ — Certamente.
sibilidades, Teeteto, à qual poderemos E S T R A N G E IR O
afirmar que se orientará a preferência — Além do mais, todos aqueles
dos homens? que ora unificam o todo e ora o divi­
TEETETO dem, seja conduzindo à unidade, ou da
— Eu, pelo menos, nada posso res­ unidade fazendo surgir uma infinidade;
ponder em seu nome, a esse respeito. seja decompondo-o em elementos fini­
E S T R A N G E IR O tos e em elementos finitos recom­
— Por que não resolves estas ques­ pondo; quer descrevam este duplo
tões uma a uma, procurando as conse­ devir como uma alternância ou uma
qüências a que cada hipótese nos coexistência eterna, não importa: nada
conduz? dizem, desde que nada pode associar-
TEETETO se.
— Tua idéia é excelente. TEE TE TO
E S T R A N G E IR O — É certo.
— Suponhamos, pois, pelo menos E S T R A N G E IR O
como hipótese, que a primeira afirma­ — M as aqueles que, entre todos,
tiva seja, se concordas, a seguinte: exporiam sua tese ao ridículo mais rui­
nada possui, com nada, possibilidade doso, são os que não querem, em caso
alguma de comunidade sob qualquer algum, consentir que, pelo efeito dessa
relação que seja. Isto não significa comunidade que um ser suporta com
excluir o movimento e o repouso de outro, qualquer que seja ele, receba
toda participação na existência? outra denominação que não a sua.
TEETETO TEE TE TO
— Perfeitamente. — Com o?
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— E então? Poderá dar-se o caso — É que a propósito de tudo,
de algum deles existir e não possuir vêem-se obrigados a empregar as ex­
comunidade com a existência? pressões “ ser” “ à parte” , “ dos outros” ,
TEETETO “ em si” , e milhares de outras determi­
— É impossível. nações. Incapazes de delas se livrarem
E S T R A N G E IR O e delas se servindo em seus discursos,
— Eis uma conclusão que, rapida­ eles não necessitam que outro os refute
mente, inverteu tudo, ao que parece: a mas, como se diz, alojam no seu ínti­
tese daqueles' que movem o Todo, a mo, o inimigo e o contraditor; e essa
tese daqueles que, afirmando-o uno, o voz que os critica no seu interior eles a
SOFISTA 183

arrastam para onde queiram à maneira TEE TE TO


do bizarro Euricles 5. — Sim.

d T E E TE TO E S T R A N G E IR O
— Tua comparação é admirável e — Quem quiser responder correta­
verdadeira. mente, poderá sustentar apenas a últi­
E S T R A N G E IR O ma.
— M as que aconteceria se conce­ TEE TETO
dêssemos a todas as coisas este poder — Certamente.
de mútua comunidade? E S T R A N G E IR O
T E E TE TO — Desde que, pois, algumas vezes
— Essa pergunta eu mesmo posso se consente a união, e outras vezes se
responder. recusa, o caso seria mais ou menos 253 a

E S T R A N G E IR O idêntico ao que se dá com as letras:


— Em que sentido? entre elas também, com efeito, há desa­
TEETETO cordo entre algumas e acordo entre
— D o seguinte modo: o movimento outras.
se tomaria repouso absoluto e o pró­
TE E TE TO
prio repouso, por sua vez, mover-se-ia — Não há dúvida.
no momento em que eles se unissem
E S T R A N G E IR O
um ao outro. — M as as vogais, certamente, se
E S T R A N G E IR O
distinguem das outras letras, pelo fato
— Ora, é impossível, absoluta­
de circularem como laços através de
mente impossível, creio, que o movi­
todas; além disso, sem uma delas é
mento seja imóvel e o repouso móvel?
impossível que as outras se combinem
T E E TE TO
uma a uma.
— Sem dúvida alguma.
TEE TE TO
E S T R A N G E IR O
— Resta-nos, então, somente a ter­ — Certamente.
ceira hipótese. E S T R A N G E IR O
T E E TE TO — Nesse caso, saberá o novato
— Realmente. quais são aquelas que podem ter essa
E S T R A N G E IR O comunidade, ou será necessária uma
— Ora, uma ao menos, destas hipó­ arte a quem, a respeito delas, pretender
teses, é certamente verdadeira: ou tudo o emprego de uma ciência eficaz?
se une ou nada se une, ou então, há
TE E TE TO
algo que se presta e algo que não se — É-lhe necessária uma arte.
presta à mútua associação.
E S T R A N G E IR O
TEETETO — Qual?
— Sem dúvida.
TE E TE TO
E S T R A N G E IR O
— A gramática.
— M as precisamente as duas pri­
E S T R A N G E IR O
meiras se revelaram impossíveis.
— Com relação aos tons agudos e b
5 Euricles, célebre ventríloquo daquela época,
graves não acontece o mesmo? Aquele
mencionado também nas Vespas de Aristófanes.
(N . do T .) que possui a arte de saber quais os que
184 PLATÃO

se combinam e quais os que não se E S T R A N G E IR O


— E em toda arte, entre competên­
combinam é músico; e aquele que nada
cias e incompetências encontraremos
entende a esse respeito não é um leigo?
as mesmas diferenças.
TEE TETO TEE TE TO
— Perfeitamente. — Naturalmente.

A dialética e o filósofo

E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Muito bem. Desde que os gêne­ — Dividir assim por gêneros, e não
ros, como conviemos, são eles também tomar por outra, uma forma que é a
mutuamente suscetíveis de semelhantes mesma, nem pela mesma uma forma
associações, não haverá necessidade que é outra, não é essa, como diríamos,
de uma ciência que nos oriente através a obra da ciência dialética?
do discurso, se quisermos apontar com
TEE TETO
exatidão quais os gêneros que são — Sim, assim diríamos.
mutuamente concordes e quais os ou­
E S T R A N G E IR O
tros que não podem suportar-se, e mos­
— Aquele que assim é capaz dis­
trar mesmo, se há alguns que, estabele­
cerne, em olhar penetrante, uma forma
cendo a continuidade através de todos,
única desdobrada em todos os senti­
tornam possíveis suas combinações, e
dos, através de uma pluralidade de for­
se, ao contrário nas divisões, não há
mas, das quais cada uma permanece
outros que, entre os conjuntos, são os
distinta; e mais: uma pluralidade de
fatores dessa divisão?
formas diferentes umas das outras
TEE TETO envolvidas exteriormente por uma
— Certamente é necessária tal
forma única repartida através de plura­
ciência que é, talvez, a suprema ciên­
lidade de todos e ligada à unidade;
cia?
finalmente, numerosas formas inteira­
E S T R A N G E IR O mente isoladas e separadas; e assim
— Que nome, então, daríamos a
sabe discernir, gêneros por gêneros, as
essa ciência, Teeteto? Por Zeus, não
associações que para cada um deles
estaremos, sem o sabermos, dirigindo-
são possíveis ou impossíveis.
nos para a ciência dos homens livres e
correndo o risco, nós que procuramos TE E TE TO
— Perfeitamente.
o sofista, de haver, antes de encontrá-
lo, descoberto o filósofo? E S T R A N G E IR O
TEE TETO — Ora, esse dom, o dom dialético,
— Que queres dizer? não atribuirás a nenhum outro, acredi­
SOFISTA 185

to, senão àquele que filosofa em toda E S T R A N G E IR O


pureza e justiça. — Quanto ao filósofo, é à forma do
TEE TE TO
ser que se dirigem perpetuamente seus
— Com o atribuí-lo a outrem? raciocínios, e é graças ao resplendor
dessa região que ele não é, também, de
E S T R A N G E IR O
— Eis, pois, em que lugar, agora ou todo fácil de se ver. Pois os olhos da
mais tarde, poderemos encontrar o alma vulgar não suportam, com persis­
filósofo se chegarmos a procurá-lo. Ele tência, a contemplação das coisas
próprio é difícil de ser visto com bas­ divinas.
tante clareza. M as esta dificuldade não TEE TETO
é a mesma para ele e para o sofista. — É uma explicação tão verossimi-
TEE TE TO lhante quanto a primeira.
— Com o assim? E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O — Dentro em pouco procuraremos
— Este se refugia na obscuridade uma idéia clara do filósofo, se assim
do não-ser, aí se adapta à força de aí quisermos. M as quanto ao sofista,
viver; e é à obscuridade do lugar que se parece-me que hão devemos abando­
deve o fato de ser difícil alcançá-lo ná-lo antes de o havermos examinado
plenamente, não é verdade? muito bem.
TEE TE TO TEE TE TO
— A o que parece. — Tens razão.

Os gêneros supremos e suas relações mútuas

E S T R A N G E IR O nessa multidão. Consideraremos, en­


— Já que, relativamente aos gêne­ tretanto, algumas destas, que nos pare­
ros, chegamos ao acordo de que uns se cem as mais importantes, e veremos,
prestam a uma comunidade mútua, ou­ em primeiro lugar, o que são elas,
tros não; de que alguns aceitam essa tomadas separadamente, para em se­
comunidade com alguns, outros com guida examinar em que medida são
muitos, e de que outros, enfim, pene­ elas suscetíveis de se associarem umas
às outras. Dessa forma, se não chegar­
trando em todos os lugares, nada
mos a conceber com plena clareza o
encontram que lhes impeça de entrar
ser e o não-ser, poderemos ao menos
em comunidade com todos, resta-nos
deles dar uma explicação tão satisfa­
apenas deixarmo-nos conduzir por
tória quanto o permita este método de
essa ordem de argumentação, prosse­
pesquisa. Saberemos então se podemos
guindo em nosso exame. Não o esten­ dizer que o não-ser é realmente inexis­
deremos aliás, à universalidade das tente e dele nos livrarmos sem nada
formas, temendo confundirmo-nos perder.
186 PLATÃO

TEETETO E S T R A N G E IR O
— É o que é necessário fazer. — M as certamente nem o movi­
E S T R A N G E IR O mento nem o repouso não serão o
— Ora, os mais importantes desses “ outro” nem o “ mesmo” .
gêneros são precisamente aqueles que T E E TE TO
acabamos de examinar: o próprio ser, — Com o assim?
o repouso e o movimento. E S T R A N G E IR O
TEETETO — O que quer que atribuamos de
— De longe, os maiores. comum ao movimento e ao repouso
E S T R A N G E IR O não poderá ser nem um nem outro
— Dissemos, por outro lado, que deles.
os dois últimos não podiam associar-se TEE TE TO
um ao outro. — Por quê?
TEETETO E S T R A N G E IR O
— É exato. — Porque ao mesmo tempo o mo­
vimento se imobilizaria, e o repouso se
E S T R A N G E IR O
— Mas o ser se associa a ambos: tornaria móvel. Com efeito, se qual­
pois, em suma, os dois são. quer um dentre eles se aplicar a esse
par, obrigará o outro a mudar sua pró­
TEETETO
— Não há dúvida. pria natureza na natureza contrária,
pois o tornará participante de seu
E S T R A N G E IR O
contrário.
— Então, há três.
TEETETO TEE TETO
— Evidentemente. — Certamente.

E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Assim , cada um é outro com — M as ambos participam, quer do
relação aos dois que restam, e o mesmo, quer do outro.
mesmo que ele próprio. TEE TETO
— Sim.
TEETETO
— Sim. E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O — Não digamos, pois, que o movi­
— Mas que significado demos a mento é o mesmo ou o outro, nem o
este “ mesmo” e a este “ outro” ? Serão digamos para o repouso.
estes dois gêneros diferentes dos três TEE TETO
primeiros, se bem que sempre necessa­ — Realmente, não o diremos.
riamente associados a eles? Devere­ E S T R A N G E IR O
mos, então, considerar cinco seres e — Muito bem, deveremos entender
não três, ou este “ mesmo” e este o ser e o mesmo como constituindo
“outro” serão, sem que o saibamos, um?
simplesmente outros nomes que damos TEE TE TO
a qualquer um dos gêneros preceden­ — Talvez.
tes? E S T R A N G E IR O
TEETETO — M as se o ser e o mesmo não sig­
— Talvez. nificam nada de diferente, ao afirmar-
SOFISTA 187

mos que o movimento e o repouso são, vimos perfeitamente que tudo o que é
c diremos que eles são o mesmo, como outro só o é por causa da sua relação
seres que são. necessária a outra coisa.
T E E TE TO TEE TE TO
— Entretanto, isso é impossível. — É verdade o que dizes.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Então é impossível que o mesmo — É necessário, pois, considerar a
e o ser não sejam senão um. natureza do “ outro” como uma quinta
TE E TE TO forma, entre as que já estabelecemos.
— Sim, ao que parece. TEE TE TO
E S T R A N G E IR O — Sim.
— Deveremos, pois, às três formas E S T R A N G E IR O
precedentes, adicionar “ o mesmo” — Diremos, também, que ela se
como quarta forma? estende através de todas as demais.
TE E TE TO Cada uma delas, com efeito, é outra
— Perfeitamente. além do resto, não em virtude de sua
E S T R A N G E IR O própria natureza, mas pelo fato de que
— E então? “ O outro” deverá ser ela participa da forma do “ outro” .
contado como uma quinta forma? Ou TEE TE TO
será necessário entender a ele e ao ser — Certamente.
como dois nomes que servem a um gê- . E S T R A N G E IR O
nero único? — Eis, pois, o que nos é necessário
TEE TE TO dizer a respeito dessas cinco formas
— Talvez. tomadas uma a uma.
E S T R A N G E IR O TE E TE TO
— M as concordarás, creio, que — O quê?
dentre os seres uns se expressam por si E S T R A N G E IR O
mesmos e outros, unicamente em algu­ — Em primeiro lugar, o movimen­
ma relação. to: ele é absolutamente outro que não o
TE E TE TO repouso. Não é o que dizemos?
— Evidentemente. TEE TE TO
' E S T R A N G E IR O — É.
— Ora, “ o outro” se diz sempre E S T R A N G E IR O
relativamente a um outro, não é? — Logo, ele não é repouso.
TEE TETO TEE TE TO
— Certamente. — De maneira alguma.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Isso não se daria se o ser e o — Entretanto, ele “ é” pelo fato de
“ outro” não fossem totalmente diferen­ participar do ser.
tes. Supondo-se que o “ outro” partici­ TEE TE TO
passe das duas formas, como acontece — É.
com o ser, poderia acontecer que, a um E S T R A N G E IR O
dado momento, houvesse um outro que — E mais: o movimento é outro
não fosse relativo a outra coisa. Ora, já que não o “ mesmo” .
188 PLATÃO

TEETETO TEE TE TO
— Seja. — Seria, ao contrário, perfeita­
mente correto, se devemos convir que,
E S T R A N G E IR O
— Então ele não é “ o mesmo” . entre os gêneros, uns se prestam à
associação mútua, outros não.
TEETETO
E S T R A N G E IR O
— Certamente não.
— Ora, essa é justamente a de­
E S T R A N G E IR O monstração à qual havíamos chegado
— Entretanto, vimos que ele é o antes de atingirmos esta, e havíamos
mesmo, pois como conviemos tudo provado que é precisamente essa a sua
participava do mesmo. natureza.
TEETETO TEE TETO
— Certament-e. — Evidentemente.

E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Então o movimento é o mesmo, — Retomemos, pois: o movimento
e não o mesmo: é necessário convir é outro que não o “ outro” , assim como
nesse ponto sem nos afligirmos, pois, era outro que não o mesmo e que não o
quando dizemos o mesmo e não o repouso?
mesmo, não nos referimos às mesmas TE E TE TO
relações. Quando afirmamos que ele é — Necessariamente.
o mesmo é porque, em si mesmo, ele E S T R A N G E IR O
participa do mesmo, e quando dizemos — Em certa relação ele não é, pois,
que ele não é o mesmo, é em conse­ o outro; e é outro de acordo com o
qüência de sua comunidade com “ o nosso raciocínio de agora.
outro” , comunidade esta que o separa T EETETO
do “ mesmo” e o torna não-mesmo, e — É verdade.
sim outro; de sorte que, neste caso, E S T R A N G E IR O
temos o direito de chamá-lo — Daí o que se segue? Iremos nós,
“ não-o-mesmo” . afirmando-o outro que não os três pri­
meiros, negar que seja outro que não o
TEE TETO quarto, havendo concordado que os
— Perfeitamente.
gêneros que estabelecemos e que nos
E S T R A N G E IR O propusemos examinar eram cinco?
— Se, pois, de alguma maneira, o TEE TETO
próprio movimento participa do repou­ — E o meio? Não podemos admitir
so, haveria algo de estranho em cha­ um número menor que aquele que há
má-lo estacionário? pouco demonstramos?
SOFISTA 189

Definição do não-ser como alteridade

E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— É, pois, sem temor que susten­ — Assim , vemos que tantos quan­
tamos esta afirmação: o movimento é tos os outros são, tantas vezes o ser
outro que não o ser. não é; pois, não os sendo, ele é um em
TEE TE TO si; e por sua vez, os outros, infinitos
— Sim, sem sombra de escrúpulo. em número, não são.
E S T R A N G E IR O TEE TE TO
— Assim , pois, está claro que o — Parece ser verdade.
movimento é, realmente, não ser, ainda E S T R A N G E IR O
que seja ser na medida em que parti­ — Aqui, ainda, não há nada que
cipa do ser? nos deva preocupar, pois a natureza
TEE TETO dos gêneros comporta comunidade
— Absolutamente claro. mútua. Aquele que se recusa a concor­
E S T R A N G E IR O dar conosco neste ponto, que comece
— Segue-se, pois, necessariamente, por converter à sua causa os argumen­
que há um ser do não-ser, não somente tos precedentes, antes de procurar
no movimento, mas em toda a série negar as conclusões.
dos gêneros; pois na verdade, em todos TEE TE TO
eles a natureza do outro faz cada um — O que pedes é justo.
deles outro que não o ser e, por isso E S T R A N G E IR O b
mesmo, não-ser. Assim, universal­ — Eis, ainda, um ponto a conside­
mente, por essa relação, chamaremos a rar.
todos, corretamente, não-ser; e ao TEE TE TO
contrário, pelo fato de eles partici­ — Qual?
parem do ser, diremos que são seres. E S T R A N G E IR O
TE E TE TO — Quando falamos no não-ser isso
— É possível. não significa, ao que parece, qualquer
E S T R A N G E IR O coisa contrária ao ser, mas apenas
— Assim , cada forma encerra uma outra coisa qualquer que não o ser.
multiplicidade de ser e uma quantidade TEE TE TO
infinita de não-ser. — Com o assim?
E S T R A N G E IR O
TEE TE TO — Quando, por exemplo, falamos
— É possível. de algo “ não grande” , crês que por
257 a E S T R A N G E IR O essa expressão designamos mais o
— Logo, é necessário afirmar que o pequeno que o igual?
próprio ser é outro que não o resto dos T E E TE TO
gêneros. — Que razão teríamos nós?
TEE TE TO E S T R A N G E IR O
— Necessariamente. — Não podemos, pois, admitir que
190 PLATÃO

a negação signifique contrariedade, TEE TE TO


mas apenas admitiremos nela alguma — Sim, há um nome: pois tudo o
coisa de diferente. Eis o que significa o que chamamos não-belo, é outro que o
“ não” que colocamos como prefixo belo, exclusivamente.
dos nomes que seguem a negação, ou E S T R A N G E IR O
ainda das coisas designadas por esses — Eis agora minha questão.
nomes. TEE TE TO
TEE TETO — Qual?
— Perfeitamente. E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O
— O não-belo não é um ser que
— Ainda uma observação se me separamos de um gênero determinado,
permites. e que depois opomos a outro ser?
TEETETO TEE TE TO
— Qual? — Sim.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— A natureza do outro me parece — O não-belo se reduz, pois, ao
dividir-se do mesmo modo que a que parece, a uma oposição determi­
ciência. nada de ser a ser.
TEE TETO TEE TETO
— Com o? — Perfeitamente justo.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Também a ciência é una, não é? — Poderíamos então, dizer que,
M as cada parte que dela se separa, desta maneira, o belo seria mais ser, e
para aplicar-se a um determinado obje­ o não-belo, menos?
to, tem um nome que lhe é próprio: é TEE TETO
por isso que se fala de uma pluralidade — Absolutamente não.
de artes e ciências. E S T R A N G E IR O
TEETETO — Devemos afirmar, então, que o
— Perfeitamente. não-grande é, pela mesma razão que o
E S T R A N G E IR O . próprio grande?
— Pois bem; as partes dessa unida­ TEE TE TO
de que é a natureza do outro, especifi- — Sim, e pela mesma razão.
cam-se do mesmo modo. E S T R A N G E IR O
TEETETO — Logo, o não-justo deve colocar-
— Talvez sim; mas explique-nos de se, também, na mesma plana que o
que maneira. justo, na medida em que, de maneira
E S T R A N G E IR O alguma, um não é mais ser que o outro.
— Há alguma parte do outro que se TEE TETO
oponha ao belo? — Certamente.
TEE TETO E S T R A N G E IR O
— Sim. — O mesmo se dirá de todo o resto,
E S T R A N G E IR O pois que a natureza do outro, pelo que
— Ela é anônima ou tem um nome vimos, se inclui entre os seres; e se ela
particular? é, é necessário considerar as suas par­
SOFISTA 191

tes como seres pela mesma razão que o samente; o não-ser que buscávamos a
que quer que seja. propósito do sofista.
TEE TE TO
E S T R A N G E IR O
— Evidentemente.
— Ele não é, pois, como disseste,
E S T R A N G E IR O
inferior em ser a nenhum outro. É
— Assim , ao que parece, quando
uma parte da natureza do outro e uma necessário animarmo-nos a proclamar,
parte da natureza do ser se opõem desde já, que o não-ser é, a título está­
mutuamente, esta oposição não é, se vel, possuidor de uma natureza que lhe
assim podemos dizer, menos ser que o é própria do mesmo modo que o gran­
próprio ser; pois não é o contrário do de era grande e o belo era belo, e o
ser o que ela exprime; e sim, simples­ não-grande, não-grande, e o não-belo,
mente, algo dele diferente. não-belo; por essa mesma razão tam­
TEE TE TO bém, o não-ser era e é não-ser, unidade
— É claro. integrante no número que constitui a
E S T R A N G E IR O
multidão das formas. Ou a teu ver,
— E, então, que nome lhe dana­
Teeteto, teríamos alguma dúvida?
mos?
TEETETO TEE TE TO
— Claro que o de “ não-ser” preci­ — Nenhuma.

Recapitulação da argumentação sobre


a realidade do não-ser

E S T R A N G E IR O “ Jamais obrigarás os não-seres a


— Sabes, a este respeito, que nosso ser;
desafio a Parmênides, nos levou bem Antes, afasta teu pensamento
além dos limites por ele interditados? desse caminho de investigação.”
TE E TE TO TEETETO
— Para onde? — Sim, foi exatamente o que disse.
E S T R A N G E IR O
— Levamos nossas pesquisas E S T R A N G E IR O
muito além, estendendo-as a um — Ora, não nos contentamos ape­
campo bem mais vasto que aquele que nas em demonstrar que os não-seres
ele nos permitia explorar, e, contra ele, são, mas fizemos ver em que consiste a
estabelecemos nossas demonstrações. forma do não-ser. Um a vez demons­
trado, com efeito, que há uma natureza
TE E TE TO
— Com o? do outro, e que ela se divide entre
E S T R A N G E IR O todos os seres em suas relações mú­
— Se me recordo, ele disse: tuas, afirmamos, audaciosamente, que
192 PLATÃO

e cada parte do outro que se opõe ao ser TE E TE TO


constitui realmente o não-ser. — É verdade.
E S T R A N G E IR O
TEETETO
— Quem se recusar a crer nessas
— E a meu ver, estrangeiro, o que
oposições, que pesquise, então, e expli­
dissemos é a pura verdade.
que melhor do que acabamos de expli­
E S T R A N G E IR O car. Mas crer que realizamos uma
— Não nos venham, pois, dizer,
invenção difícil por sentirmos prazer
que é porque denunciamos o não-ser em forçar os argumentos em todos os
como o contrário do ser, que temos a sentidos, é preocupar-se com coisas
audácia de afirmar que ele é. Para nós, que não valem esse trabalho; nossos
há muito tempo que demos adeus a argumentos presentes o confirmam.
259 * não sei que contrário do ser, não nos Não há aqui, com efeito, invenção ele­
importando saber se ele é ou não, se é gante nem descoberta difícil. M as, eis
racional ou totalmente irracional. o que ao mesmo tempo é difícil e belo.
Quanto à definição que há pouco TE E TE TO
demos do não-ser, que nos convençam — O quê?
de sua falsidade, refutando-a, ou, não E S T R A N G E IR O
— Já o disse: abandonar essas
lhes sendo possível, que aceitem afir­
argúcias próprias ao novato, e que não
mar o que nós afirmamos. Há uma
envolvem dificuldade alguma, e mos­
associação mútua dos seres. O ser e o
trar-se capaz de seguir a marcha de
outro penetram através de todos e se
uma argumentação, criticando-a passo
penetram mutuamente. Assim , o outro,
a passo, e, quer ela afirme ser o mesmo
participando do ser, é, pelo fato dessa
sob uma certa relação o que é outro,
participação, sem, entretanto, ser aqui­
ou outro o que é mesmo, discuti-la de
lo de que participa, mas o outro, e por
acordo com a própria relação e o
ser outro que não o ser, é, por mani-
ponto de vista que ela considera em
4 festa necessidade, não-ser. O ser, por
uma ou outra dessas assertivas. Mas,
sua vez, participando do outro, será
mostrar não importa como, que o
pois, outro que não o resto dos gêne­
mesmo é outro, e o outro, o mesmo; o
ros. Sendo outro que não eles todos,
grande, pequeno; o semelhante, desse­
não é, pois, nenhum deles tomado à
melhante, sentindo prazer em apresen­
parte, nem a totalidade dos outros,
tar perpetuamente essas oposições nos
mas somente ele mesmo; de sorte que argumentos, isso não constitui a verda­
o ser, incontestavelmente, milhares e deira crítica: é apenas, evidentemente,
milhares de vezes não é, e os outros, o fruto prematuro de um primeiro con­
seja individualmente, seja em sua tota­ tato com o real.
lidade, são sob múltiplas relações, e, TEE TETO
sob múltiplas relações não são. — Certamente.
SOFISTA 193

Aplicação à questão do erro na


opinião e no discurso

E S T R A N G E IR O TEE TETO
— Na verdade, meu caro amigo, — Tens razão nesse ponto. Mas
esforçar-se por separar tudo de tudo, não compreendo por que devemos,
não é apenas ofender à harmonia, mas agora, definir em comum o discurso.
ignorar totalmente as musas e a filoso­ E S T R A N G E IR O
fia. — Eis, talvez, algumas razões que
te farão — se me quiseres ouvir —
TE E TE TO
compreender mais facilmente.
— Por quê?
TEE TE TO
E S T R A N G E IR O — Quais?
— É a maneira mais radical de ani­
E S T R A N G E IR O
quilar lo d o discurso, isolar cada coisa
— Havíamos descoberto que o
de todo o resto; pois é pela mútua
não-ser é um gênero determinado entre
combinação das formas que o discurso
os demais, e que se distribui por toda
nasce.
série dos gêneros.
T E E TE TO
TEE TE TO
— É verdade.
— É exato.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Vês, pois, como era oportuno, — Muito bem; resta-nos agora exa­
como o fizemos há pouco, lutar contra minar se ele se associa à opinião e ao
essas pessoas e constrangê-las a acei­ discurso.
tar a associação mútua. TEE TE TO
TE E TE TO — Por quê?
— Oportuno para quê? E S T R A N G E IR O
— Se ele não se associa, segue-se
E S T R A N G E IR O
— Para assegurar ao discurso lugar necessariamente que tudo é verdadeiro.
no número dos gêneros do ser. Privar- M as, uma vez que a ele se associe,
mo-nos disso, com efeito, seria, desde então, a opinião falsa e o discurso
logo — perda suprema — privar-nos falso serão possíveis. O fato de serem
da filosofia. Além disso, é-nos necessá­ não-seres o que se enuncia ou se repre­
rio, agora, definirmos a natureza do senta, eis o que constitui a falsidade,
discurso. Se dele fôssemos privados, quer no pensamento, quer no discurso.
recusando-lhe absolutamente o ser, TEE TETO
isso significaria negar-nos toda possi­ — Com efeito.
bilidade de discorrer sobre o que quer E S T R A N G E IR O
à que fosse, e dele estaríamos privados — Ora, se há falsidade, há engano.
se concordássemos que absolutamente TEE TETO
nada se associa a nada. — Sim.
194 PLATÃO

E S T R A N G E IR O sação ou, dela o absolvendo, procurá-


— E desde que há engano, há em lo em qualquer outro gênero.
tudo, inevitavelmente, imagens, cópias
TE E TE TO
e simulacros. — Eis que me parece bom, estran­
TEE TETO geiro, verificar com certeza o que dis­
— Naturalmente. semos do sofista, no início: que seu gê­
E S T R A N G E IR O nero era de difícil caça. Realmente, ele
— Ora, como dissemos, é exata­ nos aparece fértil em problemas; e tão
mente neste abrigo que o sofista se logo nos proponha um, é necessário
d refugiou, e, uma vez ali, negou obstina­ destruí-lo violentamente, antes de che­
damente a própria existência da falsi­ gar até ele, sofista. Na verdade, apenas
dade. A seu ver, ninguém há que con­ chegamos ao fim do problema que ele
ceba ou que enuncie o não-ser; pois o nos opôs, negando o não-ser, e eis que
não-ser não possui, sob relação algu­ ele nos propõe outro: o do falso, cuja
ma, parte nenhuma no ser. existência no discurso e na opinião nos
TEE TETO é necessário agora demonstrar. Após o
— Foi exatamente essa sua atitude. que se levantará, talvez, um novo pro­
E S T R A N G E IR O blema, que um outro ainda virá secun­
— Agora, entretanto, o não-ser se dar, e, ao que parece jamais veremos o
revelou participar do ser, e aquele fim.
argumento já não lhe servirá mais de E S T R A N G E IR O
arma. Objetaria ele, talvez, que algu­ — É necessário ter coragem, Teete­
mas formas participam do não-ser, e to, por pequeno que seja o avanço que
outras não, e que, precisamente, o dis­ possamos, a cada passo, progredir.
curso e a opinião estão no número Desencorajando-nos diante desses pri­
daquelas que não possuem essa partici­ meiros obstáculos, que poderíamos
pação. Assim , à arte que produz ima­ contra os demais já não avançando se­
gens e simulacros, e na qual preten­ quer um passo, ou mesmo sendo impe­
díamos alojá-lo, ele negaria lidos para trás? Com o diz o provérbio,
c absolutamente e com toda sua força o um tal espírito, fraco, nunca tomará
ser, uma vez que a opinião e o discurso uma cidade. Já que, por ora, meu caro,
não possuem comunidade com o não- levamos a termo a demonstração que
ser; pois não poderá haver ali falsidade dizes, a mais forte muralha está venci­
se essa comunidade não existe. Eis, da: o resto será, de agora em diante,
pois, por que razões nos é necessário mais fácil e de menor importância.
examinar cuidadosamente o que TEE TE TO
podem ser o discurso, a opinião e a — Disseste bem.
imaginação; e, uma vez assim esclare­ E S T R A N G E IR O
cidos, descobrir a comunidade que eles — Tomemos, pois, de início, como
2 “ « possuem com o não-ser; e a partir dizíamos há pouco, o discurso e a opi­
desta descoberta, demonstrar a exis­ nião, para verificar mais claramente,
tência da falsidade; demonstrada a se o não-ser a eles se prende, ou se eles
existência da falsidade, nela aprisionar são absolutamente verdadeiros, um e
o sofista se contra ele couber esta acu­ outro, e jamais falsos.
SOFISTA 195

TEETETO ESTRANGEIRO
— Sim. — Quanto aos sujeitos que execu­
d ESTRANGEIRO tam essas ações, o sinal vocal que a
— Prossigamos, a exemplo do que eles se aplica é um nome.
falamos das formas e das letras, e do TEETETO
mesmo modo refaçamos esta pesquisa, — Perfeitamente.
tomando por objetos os nomes. Este é
ESTRANGEIRO
um ponto de vista, no qual se deixa — Nomes apenas, enunciados de
entrever a solução que procuramos. princípio a fim, jamais formam um dis­
TEETETO curso, assim como verbos enunciados
— Que questão proporás, pois, a sem o acompanhamento de algum
propósito desses nomes?
nome.
*
ESTRANGEIRO TEETETO
— Se todos concordam, ou ne­ — Eis o que eu não sabia.
nhum; ou se uns se prestam a um acor­
ESTRANGEIRO »
do, e outros não.
— É que, certamente, tinhas outra
TEETETO coisa em vista, dando-me, há pouco,
— A última hipótese é evidente: teu assentimento; pois o que eu queria
uns se prestam a ele; outros não. dizer era exatamente isso: enunciados
ESTRANGEIRO numa seqüência como esta, eles não
— Eis, talvez, o que entendes por formam um discurso.
isso: aqueles que, ditos em ordem,
TEETETO
« fazem sentido, concordam; os outros,
— Em que seqüência?
cuja seqüência não forma sentido
nenhum, não concordam. ESTRANGEIRO
— Por exemplo, anda, corre,
TEETETO
dorme, e todos os demais verbos que
— Com o assim? Que queres dizer?
significam ação; mesmo dizendo-os
ESTRANGEIRO
todos, uns após outros, nem por isso
— O que julguei teres no espírito,
formam um discurso.
ao concordares comigo. Possuímos, na
verdade, para exprimir vocalmente o TEETETO
ser, dois gêneros de sinais. — Naturalmente.
TEETETO ESTRANGEIRO
— Quais? — E se dissermos ainda: leão,
262 a ESTRANGEIRO cervo, cavalo, e todos os demais nomes
— Os nomes e os verbos, como os que denominam sujeitos executando
chamamos. ações, há, ainda aqui, uma série da '
TEETETO qual jamais resultou discurso algum;
— Explica tua distinção. pois, nem nesta, nem na precedente, os
ESTRANGEIRO sons proferidos indicam nem ação,
— O que exprime as ações, nós nem inação, nem o ser, de um ser, ou
chamamos verbo. de um não-ser, pois não unimos verbos
TEETETO aos nomes. Somente unidos haverá o
— Sim. acordo e, desta primeira combinação
196 PLATÃO

nasce o discurso que será o primeiro e E S T R A N G E IR O


mais breve de todos os discursos. — Não será necessário, também,

TEETETO
que ele possua uma qualidade determi­
— Que entendes com isso? nada?

E S T R A N G E IR O TEE TETO
— A o dizer: o homem aprende não — Sem dúvida.
reconheces ali um discurso, o mais E S T R A N G E IR O
simples e o primeiro? — Tomemos, pois, a nós mesmos,
por objeto de nossa observação.
i TEETETO
— Para mim, sim. TEE TE TO
— É o que devemos fazer.
E S T R A N G E IR O
— É que, desde esse momento, ele E S T R A N G E IR O
nos dá alguma indicação relativa a coi­ — Vou pronunciar’ diante de ti um
sas que são, ou se tornaram, ou foram, discurso, unindo um sujeito a uma
ou serão; não se limitando a nomear, ação por meio de um nome e de um
mas permitindo-nos ver que algo acon­ verbo; e tu dirás sobre o que é esse
teceu, entrelaçando verbos e nomes. discurso.
Assim, dissemos que ele discorre, e TEE TE TO
não somente que nomeia, e, a esse — Se puder, assim farei.
entrelaçamento, demos o nome de E S T R A N G E IR O
discurso. — Teeteto está sentado, será um
longo discurso?
TEETETO
— Justamente. TEE TE TO
— N ão; aliás, bem curto.
E S T R A N G E IR O
— Assim, pois, do mesmo modo E S T R A N G E IR O
que, entre as coisas, umas concordam — Cabe-te, pois, dizer a propósito
mutuamente, outras não; assim, tam­ de quem e sobre o que ele discorre.
bém, nos sinais vocais, alguns deles TEE TE TO
<■ não podem concordar, ao passo que — Evidentemente, a propósito de
outros, por seu mútuo acordo, criaram mim e sobre mim.
odiscurso. E S T R A N G E IR O
— E este?
TEETETO
— Perfeitamente exato. TEE TETO
— Qual?
E S T R A N G E IR O
— Mais uma pequena observação. E S T R A N G E IR O
— Teeteto, com quem agora con­
TEE TETO
— Qual? verso, voa.

E S T R A N G E IR O TEE TETO
— O discurso, desde que ele é, é — Aqui, ainda, só há uma resposta
necessariamente um discurso sobre al­ possível: a propósito de mim e sobre
guma coisa; pois sobre o nada é mim.
impossível haver discurso. E S T R A N G E IR O
TEE TE TO — M as cada um desses discursos
— Certamente. tem, necessariamente, uma qualidade.
SOFISTA 197

T E E TE TO TEE TETO
— Sim. — Certamente.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Que qualidade devemos, pois, — Ora, se não se refere a ti, não se
atribuir a um e outro? refere, certamente, a ninguém mais.
TE E TE TO TEETETO
— Poderemos dizer que um é falso, — Evidentemente.
outro verdadeiro. E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O — Não discorrendo sobre pessoa
— Ora, aquele que, dentre os dois, alguma, não seria então, nem mesmo
é verdadeiro, diz, sobre ti, o que é tal um discurso. Na verdade demons­
como é. tramos que é impossível haver discurso
que não discorra sobre alguma coisa.
TEE TE TO
— C laro! TEE TETO
— Perfeitamente exato.
E S T R A N G E IR O
— E aquele que é falso diz outra E S T R A N G E IR O
coisa que aquela que é. — Assim , o conjunto formado de
verbos e de nomes, que enuncia, a teu
T E E TE TO
— Sim. respeito, o outro como sendo o mesmo,
e o que não é como sendo, eis, exata­
E S T R A N G E IR O
mente, ao que parece, a espécie de con­
— D iz, portanto, aquilo que não é.
junto que constitui, real e verdadeira­
TEE TETO
mente, um discurso falso.
— Mais ou menos.
TE E TE TO
E S T R A N G E IR O — É a pura verdade.
— Ele diz, pois, coisas que são,
E S T R A N G E IR O
mas outras, que aquelas que são a teu — E então? Não é evidente, desde
respeito; pois, como dissemos, ao já, que o pensamento, a opinião, a
redor de cada realidade há, de certo imaginação, são gêneros suscetíveis,
modo, muitos seres e muitos não-seres. em nossas almas, tanto de falsidade
TE E TE TO como de verdade?
— Certamente. TEE TE TO
E S T R A N G E IR O — Com o?
— Assim , o último discurso que fiz E S T R A N G E IR O
a teu respeito deve, em primeiro lugar, — Compreeuderás mais facilmente
e tendo em vista o que definimos como a razão se me deixares explicar em que
a essência do discurso, ser, necessaria­ eles consistem e em que diferem um
mente, um dos mais breves. dos outros.
T E E TE TO TEE TETO
— Pelo menos é o que resulta de — Explica.
nossas conclusões de há pouco. E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O
— Pensamento e discurso são, pois,
— Deve, em segundo lugar, refe­ a mesma coisa, salvo que é ao diálogo
rir-se a alguém. interior e silencioso da alma consigo
198 PLATÃO

mesma, que chamamos pensamento. mas por intermédio da sensação, este


TEETETO estado de espírito poderá ser correta­
— Perfeitamente. mente designado por imaginação, ou
ESTRANGEIRO haverá ainda outra palavra?
— M as a corrente que emana da TEETETO
alma e sai pelos lábios em emissão — Nenhuma outra.
vocal, não recebeu o nome de discur­ ESTRANGEIRO
so? — Desde que há, como vimos, dis­
TEETETO curso verdadeiro e falso, e que, no dis­
— É verdade. curso, distinguimos o pensamento que
ESTRANGEIRO é o diálogo da alma consigo mesma, e
— Sabemos, além disso, que há, no a opinião, que é a conclusão do pensa­
discurso, o seguinte. . . mento, e esse estado de espírito que
TEETETO designamos por imaginação, que é a
— O quê? combinação de sensação e opinião, é
ESTRANGEIRO inevitável que, pelo seu parentesco
— Afirmação e negação. com o discurso, algumas delas sejam,
TEETETO algumas vezes, falsas.
— Sim, sabemos. TEETETO
ESTRANGEIRO — Naturalmente.
— Quando, pois, isto se dá na ESTRANGEIRO
alma, em pensamento, silenciosa­ — Percebes como descobrimos a
mente, haverá outra palavra para de­ falsidade da opinião e do discurso bem
signá-lo além de opinião? mais prontamente do que esperáva­
TEETETO mos, quando, há bem pouco, receá­
— Que outra palavra haveria? vamos perder o nosso trabalho, em­
ESTRANGEIRO preendendo tal pesquisa?
— Quando, ao contrário, ela se TEETETO
apresenta, não mais espontaneamente, — Sim, percebo.

Retomo à definição do sofista

ESTRANGEIRO ESTRANGEIRO
— Não nos desencorajemos, pois, — Dividimos a arte que produz as
com aquilo que resta fazer. Um a vez imagens em duas formas: uma produz
esclarecido este ponto, recordemos a cópia, outra produz o simulacro.
nossas anteriores divisões por formas. TEETETO
— Sim.
TEETETO ESTRANGEIRO
— Exatamente que divisões? — Quanto ao sofista, embaraça-
SOFISTA 199

mo-nos sem saber em que forma este método, têm as mais próximas afi- m «
colocá-lo. nidades de espírito.
T E E TE TO TEE TETO
— Realmente. — Muito bem.
E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O
— E no meio desta dificuldade uma — Não começamos, então, nossas
vertigem ainda mais tenebrosa nos ata­ divisões pela arte da produção e arte
cou quando se propôs o argumento da aquisição?
que, contrariando a todos, sustenta que TEE TE TO
nem a cópia, nem a imagem, nem o — Sim.
i simulacro são; pois não há falsidade E S T R A N G E IR O
de modo algum, em tempo algum, em — E, na arte da aquisição, a caça,
parte alguma. a luta, o negócio, e outras formas desta
espécie, não nos deixaram entrever o
TE E TE TO
— É verdade. sofista?

E S T R A N G E IR O T E E TE TO
— Agora, entretanto, uma vez des­ — Perfeitamente.
coberta, pelo menos, a existência do E S T R A N G E IR O
discurso falso, e da opinião falsa, são — Já que ele está incluído na arte
possíveis as imitações dos seres; e da mimética 6, é evidentemente necessário,
intenção em produzi-las, pode nascer em primeiro lugar, dividir em dois a
uma arte da falsidade. própria arte da produção. Pois a imita- <>
ção é, na verdade, uma espécie de pro­
TEE TE TO
dução; produção de imagens, certa­
— É, realmente, possível.
mente, e não das próprias realidades.
E S T R A N G E IR O Não é certo?
— Que o sofista, finalmente, fosse
TEE TE TO
colocado em uma das formas acima
— Sim, perfeitamente.
referidas, é uma conclusão sobre a
E S T R A N G E IR O
qual já concordamos anteriormente.
— Comecemos, então, por distin­
T E E TE TO guir, na produção, duas partes.
— Sim.
TEE TETO
E S T R A N G E IR O — Quais?
— Procuremos* então, prosseguir
E S T R A N G E IR O
novamente, dividindo em dois o gênero — Um a divina, outra humana.
* proposto, e seguindo sempre a parte
TEE TE TO
direita de nossas divisões, e prenden­ — Ainda não compreendo.
do-nos ao que elas apresentam de
E S T R A N G E IR O
comum com o sofista, até que, haven­ — É produtor, dizíamos, se nos
do-o despojado de tudo o que ele tem recordamos de nosso início, todo
de comum, só lhe deixemos a sua natu­ poder que se torna causa daquilo que,
reza própria. Poderemos, assim, tor­
6 Arte mimética é a arte da imitação, conside­
ná-la clara, primeiramente a nós mes­ rada em seus caracteres gerais e em suas seme­
mos, e, em seguida, àqueles que, com lhanças com o que se produz. (N. d o T .)
200 PLATÃO

anteriormente, não era, e, ulterior- monstrar, pois seria perder tempo.


mente, começa a ser. Afirmarei, entretanto, que as obras
TEE TETO ditas da natureza são obras de uma
— Recordamo-nos. arte divina, e aquelas que os homens
E S T R A N G E IR O compõem, com elas, são obras de uma
— Todos os animais mortais, pois, arte humana. De acordo com este prin­
todas as plantas que sementes e raízes cípio há, pois, dois gêneros de produ­
fazem surgir sobre a terra, finalmente ção: um humano, outro divino.
tudo o que se agrega, no interior da TEETETO
terra, em corpos inanimados, fusíveis e — Muito bem.
não fusíveis, não é unicamente uma E S T R A N G E IR O
operação divina que o faz nascer, — Divide, ainda, cada um deles em
ulteriormente, do seu não-ser primiti­ dois.
vo? Ou usaremos a maneira vulgar de T E E TE TO
crer e falar. . . — Com o?
TEETETO E S T R A N G E IR O
— Qual? — Por exemplo: depois de haver
E S T R A N G E IR O dividido a produção em toda sua lar­
— Que a natureza os engendra por gura, divide-a, agora, em todo seu
uma causalidade espontânea e que se comprimento.
desenvolve sem o auxílio de pensa­ TEE TE TO
mento algum? Ou deveremos dizer que — Pois dividamos.
se criaram por uma razão e uma ciên­ E S T R A N G E IR O
cia divina, emanada de Deus? — Obteremos, assim, quatro par­
TEETETO tes: duas relativas a nós, e humanas;
— Quanto a mim, talvez, devido à duas relativas aos deuses, e divinas.
minha idade, passo muitas vezes de TEE TE TO
uma opinião a outra. Neste momento, — Sim.
entretanto, basta olhar-te para ver que, E S T R A N G E IR O
para ti, estas gerações possuem, certa­ — M as, se retomarmos a divisão
mente, uma causa divina; e eu faço no primeiro sentido, de cada parte
minha esta crença. principal se destacará uma parte pro­
E S T R A N G E IR O dutora de realidade e as duas partes
— Pensas corretamente, Teeteto. restantes devem, em rigor quase abso­
Se tivéssemos de incluir-te entre aque­ luto, chamar-se produtoras de ima­
les que, no futuro, terão outras opi­ gens. Eis, pois, que a produção nova­
niões, este seria o momento de procu­ mente se desdobra.
rar empregar, nesta demonstração, a T E E TE TO
persuasão constrangedora que alcan­ — Explica-me esse novo desdobra­
çasse o teu assentimento. M as vejo o mento.
íntimo de tua natureza: sem que haja E S T R A N G E IR O
necessidade de nossas demonstrações, — Nós mesmos, creio, e o resto dos
ela se inclina, por si mesma, para onde, seres vivos e ainda seus princípios
como confessas, te sentes atraído neste componentes — fogo, água e substân­
momento; e não me deterei em de­ cias congêneres — somos conside­
SOFISTA 201

rados igualmente a produção e a obra pela arte que produz as coisas reais; de
de Deus. É o que sabemos, não é outro, a imagem, devida à arte que
certo? produz imagens.

TEE TETO TEE TE TO


— Sim. — Agora compreendo melhor e
estabeleço, para a arte da produção,
E S T R A N G E IR O
— A o lado de cada uma delas vêm, duas formas, das quais cada uma é
em seguida, colocar-se suas imagens dupla; de um lado, produção divina e
que não são mais suas realidades, e produção humana; de outro, criação
que também devem a sua existência a de coisas, ou criação de certas seme­
uma arte divina. lhanças.

TEE TE TO E S T R A N G E IR O
— Que imagens? — Muito bem; mas lembremos que
E S T R A N G E IR O esta produção de imagens deveria
— Aquelas que nos vêm no sono e compreender dois gêneros: a produção
todos os simulacros que, durante o dia, de cópias e a produção de simulacros,
se formam, como se diz, espontanea- uma vez demonstrado ter o falso um
c mente: a sombra que projeta o fogo ser real de falso e assim contado, por
quando as trevas o invadem; e esta direito de sua natureza, como unidade <•
aparência, ainda, que produz, em su­ entre os seres.
perfícies brilhantes e polidas, o concur­ TEE TE TO
so, num mesmo ponto, de duas luzes: — Foi exatamente esse nosso ra­
sua luz própria e uma luz estranha, e ciocínio.
que opõe, à visão habitual, uma sensa­
E S T R A N G E IR O
ção inversa. — Ora, a demonstração foi feita e,
T E E TE TO por conseguinte, é incontestável nosso
— Eis, pois, as duas obras da pro­ direito de distinguir essas duas formas.
dução divina: de um lado, a coisa em TE E TE TO
si mesma; e de outro, a imagem que — Sim.
acompanha cada coisa.
E S T R A N G E IR O 26
E S T R A N G E IR O — Dividamos, ainda, o simulacro
— M as que diremos de nossa arte em dois.
humana? Não afirmaremos que, pela TEE TETO
arte do arquiteto, se cria uma casa — Em que sentido?
real, e, pela arte do pintor, uma outra
E S T R A N G E IR O
casa, espécie de sonho apresentado — De um lado, o simulacro se faz
pela mão do homem a olhos desper­ por meio de instrumentos. De outro, a
tos? pessoa que executa o simulacro se
* TEE TE TO presta, ela própria, como instrumento.
— Perfeitamente. T E E TE TO
E S T R A N G E IR O — Que queres dizer?
— Assim , pois, se repete até o fim E S T R A N G E IR O
esta dualidade de obras de nossa ação — Supõe que alguém movimente o
produtora: de um lado, a própria coisa, seu corpo para reproduzir uma atitude
202 PLATÃO

tua, ou sua voz para reproduzir a tua suas forças e zelo, para fazê-la apare­
voz; esta maneira de simular é, acredi­ cer como uma qualidade pessoal real­
to, o que se chama propriamente por mente neles presente, imitando-a o
mímica. mais que podem em seus atos e
TEETETO palavras?
— Sim. TE E TE TO
E S T R A N G E IR O — Muitos, realmente, muitos.
— Separemos, pois, esta parte com E S T R A N G E IR O
o nome de mímica. Quanto ao resto, — E será que todos falham em
deixemos tranqüilamente de lado, sem parecer justos sem absolutamente o
com ele preocupar-nos, ficando a ou­ serem? Ou é exatamente o contrário o
tros o cuidado de reduzi-lo à unidade e que acontece?
de dar-lhe um nome conveniente. TEE TETO
TEETETO — Exatamente o contrário.
— Sim, separemos e prossigamos. E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O — Eis, pois, dois imitadores que é
— M as esta primeira parte, Teete­ necessário considerar diferentes um do
to, deve ainda ser dividida em dois. outro: aquele que não sabe e aquele
Vejamos por quê. que sabe.
TEE TETO TEE TETO
— Dize-o. — Sim.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Dentre os que imitam, uns co­ — Sendo assim, onde encontra­
nhecem o objeto que imitam, e outros remos para cada um deles um nome
assim fazem sem o conhecer. Orá, que que lhes caiba? Evidentemente é difícil
maior princípio de divisão poderemos encontrá-lo, pois para esta divisão
estabelecer senão este do não-conhe- por gêneros e formas, parece ter sido
cimento e do conhecimento? inveterada a indolência de nossos
TEE TETO predecessores que dela tiveram tão
— Nenhum. pouca noção que nem mesmo o tenta­
E S T R A N G E IR O ram. Assim , nossos recursos a propó­
— Bem; a imitação de que faláva­ sito de nomes são, necessariamente,
mos há pouco, era imitação por pes­ pouco abundantes. Entretanto, embora
soas que conhecem, pois tua figura e pareça muito ousada nossa expressão,
tua pessoa são possíveis de serem nós a usaremos para distinguir bem
conhecidas por quem quer que queira uma da outra: à imitação que se apóia
imitá-las. na opinião daremos o nome de doxo-
TEE TETO mimética; e à que se apóia na ciência,
— Naturalmente. o nome de mimética sábia.
E S T R A N G E IR O TE E TE TO
— M as que dizer da figura da justi­ — Está bem.
ça, e, em geral, de toda virtude? Não E S T R A N G E IR O
haverá muitos que, sem a conhecer, — Ora, é da primeira que nos deve­
mas dela tendo apenas uma opinião mos ocupar, pois o sofista não per­
qualquer, se desdobram em todas as tence ao número daqueles que sabem,
SOFISTA 203

mas daqueles que se limitam a imitar. argumentos breves, obrigando seu in­
TE E TE TO terlocutor a se contradizer.
— Certamente. T E E TE TO
E S T R A N G E IR O — O que dizes é bem exato.
— Examinemos, então, o doxô- E S T R A N G E IR O
mimo para ver se ele é perfeito como — Que personagem, será, pois,
uma barra de ferro ou se há nelè algu­ para nós, o homem dos discursos lon­
ma divisão. gos? Político ou orador popular?
T E E TE TO TEE TETO
— Examinemos. — Orador popular.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Há, realmente, e uma divisão — E como chamaremos ao outro?
268 a bem visível. Dentre estes imitadores há Sábio ou sofista?
o ingênuo, que crê ter ciência do que TE E TE TO
apenas tem opinião, e, além dele, outro — Sábio, exatamente, é impossível,
que, de tanto haver revolvido os argu­ pois já afirmamos que ele não sabe
mentos, em si mesmo desperta uma nada. M as, porque imita ao sábio, ele
forte desconfiança, uma viva apreen­ terá um nome que se aproxime deste, e
são de ignorância pessoal, mesmo em já estou quase convencido de que é a
relação a assuntos sobre os quais, seu propósito que devemos dizer: eis,
diante dos outros, ele se dá ares de verdadeiramente, nosso famoso sofista.
sábio. E S T R A N G E IR O
TE E TE TO — Encerraremos aqui a cadeia,
— Um e outro gênero existem, como o fizemos anteriormente, rea­
certamente, tal como dizes. tando juntos, de ponta a ponta, retros­
E S T R A N G E IR O pectivamente, os elementos de seu
— Assim , a um consideraremos nome.
simples imitador, e a outro como imi­ TEE TETO
tador irônico? — É precisamente o que quero.
TEE TE TO E S T R A N G E IR O
— É razoável. — Assim , esta arte de contradição
E S T R A N G E IR O que, pela parte irônica de uma arte fun­
— E o gênero ao qual pertence este dada apenas sobre a opinião, faz parte
último, consideraremos único ou da mimética e, pelo gênero que produz
duplo? os simulacros, se prende à arte de criar
TEE TE TO imagens; esta porção, não divina mas *
— Decide tu mesmo. humana, da arte de produção que, pos­
” E S T R A N G E IR O suindo o discurso por domínio próprio,
— Ao examinar, percebo clara­ através dele produz suas ilusões, eis
mente dois gêneros. No primeiro, dis­ aquilo de que podemos dizer “ que é a
tingo o homem capaz de praticar esta raça e o sangue” do autêntico sofista,
ironia em reuniões públicas, em longos afirmando, ao que parece, a pura
discursos, diante de multidões; ao verdade.
passo que o outro, em reuniões parti­ TEE TETO
culares, dividindo seu discurso em — Perfeitamente.
POLÍTICO
Sócrates, Teodoro, Estrangeiro,
Sócrates, o Jovem

SÓ CRATES erro de cálculo. Um dia ainda me vin­


— Quanto te agradeço, Teodoro, garei por isso. Agora, entretanto,
por me haveres apresentado Teeteto e quero pedir ao Estrangeiro que, espero,
0 Estrangeiro1 ! não faltará com a sua boa vontade
TEODORO para conosco, nem nos abandonará,
— Pois em breve, Sócrates, hás de para falar-nos do político ou do filóso­
dever-me uma gratidão três vezes fo, escolhendo o de que prefere falar-
maior, ao completarem eles o retrato nos primeiramente.
do político, e a seguir o do filósofo.
E S T R A N G E IR O
SÓ CRATES — É o que faremos, Teodoro, pois
— Que assim seja! M as, meu caro já que iniciamos esta discussão é preci­
Teodoro, poderíamos dizer também so não abandonar a nossa obra. M as o
que o que ouvimos nos foi contado que farei com Teeteto?
pelo mais notável mestre de cálculo e
TEODORO
de geometria?
— Que queres dizer?
TEODORO
E S T R A N G E IR O
— O quê, Sócrates?
— Não seria melhor que o deixás­
SÓ C R A T E S semos descansar, tomando em seu
— Que tu dás a cada um desses ho­
lugar o seu companheiro, este outro
mens o mesmo valor2, quando, entre­
Sócrates4 que aqui está? Que te
tanto, a diferença que os separa não
parece?
poderia expressar-se por qualquer pro­
TEODORO
porção da vossa arte3.
— Sim, toma ao outro em seu
TEODORO lugar, como propuseste. Ambos são jo ­
— ó Sócrates, por nosso Deus
vens e suportarão melhor esta prova,
A m o n ! Eis aí uma crítica boa e justa
até o fim, se tiverem algum descanso.
com que revelas, de memória, o meu
SÓ C R A T E S
1 O início deste diálogo liga-se às últimas pági­ — Aliás, meu caro Estrangeiro,
nas do Sofista. Sócrates refere-se, neste passo,
à discussão deste último diálogo. ( N .d o T .) 4 A s personagens do Político são, é bom notar
2 Referência aos perigos da analogia. Cf. Sof. desde logo, Sócrates, Teodoro, o Estrangeiro
231a. ( N .d o T .) de Eléia; Teeteto e mais Sócrates, o jovem.
3 Sócrates refere-se à matemática. ( N .d o T .) (N. do T .)
208 PLATÃO

estes jovens poderão ser meus parentes Sócrates, ele não teria lugar na mesma
longínquos. Dizes que um deles se pa­ classificação.
rece comigo, pelos traços fisionómi- S Ó C R A T E S , O JO VEM
258 a c o s 5; o outro, tendo nome semelhante — Em qual, então?
ao meu, terá comigo certo parentesco. E S T R A N G E IR O
E nós devemos sempre procurar reco­ — Em outra.
nhecer nossos parentes pela maneira SÓ C R A T E S , O JOVEM
por que conversam. Com Teeteto con­ — Sim, é o que parece.
versei ontem e ouvi, ainda há pouco, o E S T R A N G E IR O
que te respondeu; mas do jovem Sócra­ — E onde poderíamos encontrar o
tes, nada ouvi. É mister, porém, que o caminho pelo qual poderemos chegar à
conheçamos. Interroga-o tu primeiro e compreensão do que é o político? É
mais tarde responderá a mim. mister que o encontremos e que o sepa­
E S T R A N G E IR O remos dos demais, diferenciando-o por
— Muito bem. Ouviste, jovem Só­ aquilo que lhe é característico, para, a
crates, o que disse Sócrates? seguir, dar aos outros caminhos, que
S Ó C R A T E S , O JO VE M dele se afastam, um caráter único espe­
— Sim. cífico a todos, de sorte a finalmente
E S T R A N G E IR O permitir ao nosso espírito classificar
— Concordas com o que ele pro­ todas as ciências em duas espécies.
põe?
S Ó C R A T E S, O JO VEM
S Ó C R A T E S , O JO VEM
— Esse trabalho, caro Estrangeiro,
— Com todo o gosto.
parece-me ser teu, e não meu.
» E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O *
— Assim se tu não te recusas,
— Entretanto, jovem Sócrates, en­
muito menos posso eu recusar-me. D e­
contrando esse caminho, ele será tanto
pois do sofista, penso que devemos
teu quanto meu.
agora estudar o político. Dize-me,
SÓ C R A T E S , O JO VE M
pois: devemos ou não colocar o polí­
— Está bem.
tico entre os sábios?
E S T R A N G E IR O
SÓ C R A T E S , O JO VEM
— A aritmética assim como outras
— Sim.
artes que lhe são semelhantes não são
E S T R A N G E IR O
— Nesse caso devemos classificar separadas da ação e dirigidas apenas
as ciências do mesmo modo como o para o conhecimento?
fazíamos ao estudar a personagem S Ó C R A T E S , O JO VEM
precedente 6? — É verdade.
S Ó C R A T E S, O JO VE M E S T R A N G E IR O
— Creio que sim. — Entretanto, as artes que se rela­
E S T R A N G E IR O cionam com a arquitetura ou com
— M as, ao que me parece, jovem qualquer outra forma de construção
5 Também no diálogo Teeteto assinala-se a se­ manual estão ligadas originalmente à
melhança fisionômica entre Sócrates e Teeteto. ação e o seu concurso à ciência faz «
(N. do T .)
8 A personagem precedente é o Sofista. (N.
com que sejam produzidos corpos que
do T .) antes não existiam.
POLÍTICO 209

S Ó C R A T E S , O JO VEM em virtude de sua arte, ao título real?


— E certo. SÓ C R A T E S , O JO VE M
E S T R A N G E IR O — Certamente que sim.
— Classifiquemos então todas as
E S T R A N G E IR O
ciências atendendo a este princípio. — Poderíamos dizer o mesmo do
Demos a uma parte o nome de ciência senhor de escravos ou do cabeça de
prática e, à outra, de ciência puramente casal?
teórica.
SÓ C R A T E S , O JO VEM
SÓ C R A T E S , O JO VEM — Sem dúvida.
— Sejam essas, se assim o queres,
E S T R A N G E IR O
as duas espécies compreendidas na
— E haverá alguma diferença entre
unidade de todas as ciências.
o governo de uma casa e o de uma
E S T R A N G E IR O
pequena cidade?
— Poderemos então admitir que o
político, o rei, o senhor de escravos, e o SÓ C R A T E S , O JO VE M
— Nenhuma.
cabeça de casal são uma só coisa, ou
haverá tantas artes quantos os nomes E S T R A N G E IR O
— Assim também, em relação ao
pronunciados? M as segue-me agora
problema que discutimos, é evidente
num outro caminho.
que só há uma ciência, quer se diga
SÓ C R A T E S , O JO VEM
real, política ou econômica. Sobre isso
— Qual?
não discutiremos.
E S T R A N G E IR O
SÓ C R A T E S , O JO VEM
— Imagina que um leigo seja capaz
— Sim ,para que. . .
de dar conselhos a um médico. Não
deveremos chamá-lo pelo mesmo nome E S T R A N G E IR O
— Por outro lado, é evidente tam­
que damos a esse profissional?
bém que um rei para manter-se no
SÓ C R A T E S , O JO VE M poder não recorre à força das mãos ou
— Sim.
ao vigor de seu corpo, mas à força de
E S T R A N G E IR O sua inteligência e de sua alma.
— Pois bem, se um cidadão qual­
S Ó C R A T E S , O JO VE M
quer é capaz de dar conselhos ao sobe­ — É evidente.
rano de um país, não poderemos dizer
E S T R A N G E IR O
que nele existe a ciência que o próprio — Então diremos que o rei tem
soberano deveria ter? muito mais relação com a ciência teó­
S Ó C R A T E S , O JO VE M rica do que com as artes manuais, ou
— Sim, poderemos. com todas as artes práticas?
E S T R A N G E IR O SÓ C R A T E S , O JO VE M
— M as a ciência de um verdadeiro — É certo.
rei, não é a ciência própria do rei? E S T R A N G E IR O
— Poderemos fazer então da ciên­
SÓ C R A T E S , O JO VE M
— Sim. cia política e do político, da ciência
real e do homem real, uma só unidade?
E S T R A N G E IR O
— E aquele que a tiver, sendo rei SÓ C R A T E S , O JO VE M
ou simples cidadão, não terá direito, — Evidentemente.
210 PLATÃO

E ST R A N G E IR O SÓ C R A T E S , O JO VE M
— Não seria conveniente então, a — Perfeitamente.
fim de proceder com método, classi­ E S T R A N G E IR O
ficar a ciência teórica? — Ele, no entanto, uma vez traça­
SÓ C R A TE S, O JO VE M do o plano, não deve considerar-se
— Perfeitamente. livre e abandonar a tarefa como o faria
E S T R A N G E IR O o calculista. A o que creio, cabe-lhe
— Examina, pois, com cuidado, se ainda indicar a cada um dos operários
nela encontramos uma dualidade de tudo quanto lhes compete fazer até que
conhecimento. tenham terminado todo o trabalho.
SÓ C R A TE S, O JO VE M S Ó C R A T E S , O JO VEM
— Qual? — É certo.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— A seguinte: lembras-te de que — Assim , pois, todas essas ciências
falávamos da arte do cálculo. . . são teóricas, incluindo as que partici­
SÓ C R A TE S, O JO VE M pam da arte do cálculo, mas os dois
— Sim. gêneros que elas formam diferem; pois
E S T R A N G E IR O um deles, em seus cálculos, apenas
— Pois toda ela faz parte, creio eu, julga, e outro, além de julgar, também
das ciências teóricas. dirige.
SÓ C R A TE S, O JO VEM SÓ C R A T E S , O JO VE M
— Nem poderia ser de outro modo. — Parece que sim.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Bem, o cálculo, que nos dá a — Se então distinguirmos em toda
conhecer a diferença entre os números, a ciência teórica uma parte a que cha­
terá ainda outra função além daquela maremos diretiva e outra crítica, tere­
de julgar estas diferenças? mos feito uma divisão correta?
SÓ C R A TE S, O JO VE M SÓ C R A T E S , O JO VE M
— Que teria ele mais a fazer? — É o que creio.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Nenhum arquiteto trabalha — M as quando realizamos alguma
como operário, mas apenas dirige os coisa em comum é mister que nos sin­
operários. tamos felizes em nos entendermos.
SÓ C R A T E S, O JO VE M SÓ C R A T E S , O JO VE M
— É certo. — Sem dúvida.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— A sua contribuição é um conhe­ — E, enquanto nós assim nos senti­
cimento, e não uma colaboração ma­ mos felizes, não nos preocupamos com
nual. o que pensam os outros.
S Ó C R A TE S, O JO VEM SÓ C R A T E S , O JO VE M
— Sim. — Claro.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Seria certo então dizer que ele — Pois bem, em qual dessas duas
participa da ciência teórica? partes colocaremos o rei? Na arte críti-
POLÍTICO 211

ca, com o papel de simples espectador, pesquisa tem por objeto o dirigente e
ou será melhor decidirmos pela arte não o oposto do dirigente.
diretiva, pois na realidade ele ordena, S Ó C R A T E S, O JO VEM
como o senhor? — Sim.
SÓ C R A T E S , O JO VE M E S T R A N G E IR O
— Não há razão para hesitar. — Ora, muito bem, se o gênero em
E S T R A N G E IR O questão está bem separado dos outros
— Devemos agora examinar se por meio desta oposição, do poder pes­
também a arte de dirgir permite qual­ soal e do poder de empréstimo, é mis­
quer divisão. Penso que do mesmo ter que o dividamos, por sua vez, se
modo que na arte dos comerciantes se encontrarmos nele possibilidade para
distinguem os produtores dos revende- isso.
d dores, da mesma foram se diferencia o
S Ó C R A T E S, O JO VE M
gênero real do gênero dos arautos.
— Perfeitamente.
S Ó C R A T E S , O JO VEM
E S T R A N G E IR O
— Com o?
— Julgo que há essa possibilidade.
E S T R A N G E IR O Acompanha-me e faze comigo essa
— Os comerciantes, comprando as
divisão.
mercadorias produzidas por outrem, as
SÓ C R A T E S , O JO VEM
revendem a terceiros.
— Qual?
S Ó C R A T E S , O JO VEM
— Claro. E S T R A N G E IR O
— Quando pensamos em dirigen­
E S T R A N G E IR O
tes, no exercício de alguma direção,
— Assim também a família dos
não vimos também que as suas ordens >>
arautos recebe as decisões alheias para
têm sempre como finalidade alguma
transmiti-las a terceiros.
coisa a ser produzida?
S Ó C R A T E S , O JO VEM
— É verdade. SÓ C R A T E S , O JO VEM
— Evidentemente.
E S T R A N G E IR O
— E então? Confundiremos a arte E S T R A N G E IR O
do rei com a do intérprete, do patrão — Pois bem. Não é difícil dividir-se
* de barco, do adivinho, do arauto e em duas partes tudo o que se produz.
muitas outras semelhantes, que têm em SÓ C R A T E S , O JO VE M
si, realmente, um poder diretivo? Ou — De que maneira?
preferes que, prosseguindo a nossa E S T R A N G E IR O
comparação, forjemos, por analogia, — Um a parte desse todo é formada
um outro nome, pois nenhum existe pelos seres inanimados, e a outra pelos
para designar esse gênero de dirigentes seres animados.
cujo mando deriva deles mesmos? Este SÓ C R A T E S , O JOVEM
característico servirá para a nossa — Sim.
divisão e assim poremos o gênero real E S T R A N G E IR O
na classe autodirigente sem nos preo­ — É desse mesmo modo que a
cuparmos com as demais e darmos a parte diretiva da ciência teórica deve
elas outro nome qualquer, pois a nossa ser dividida.
212 PLATÃO

SÓ C R A T E S, O JO VE M como criador de indivíduos, tal como o


— Com o? lavrador que cuida do seu boi ou do
E S T R A N G E IR O tratador que cuida de seu cavalo, mas
— Atribuiremos uma das suas par­ sim como o criador de todos os cava­
tes à produção dos seres inanimados e los ou de todos os bois.
<■ a outra à dos seres animados, e assim SÓ C R A T E S , O JO VE M
teremos uma primeira divisão do con­ — O que disseste é evidente.
junto.
E S T R A N G E IR O
SÓ C R A T E S, O JO VEM — À parte relativa à criação de
— Perfeitamente. seres vivos, especialmente relacionada
E S T R A N G E IR O com grupos, chamaremos de “ criação
— Deixemos de lado uma das par­ em rebanhos” ou de “ criação coleti­
tes e tomemos outra; e novamente divi­ va” ?
damos essa parte em dois.
SÓ C R A T E S , O JO VE M
SÓ C R A T E S, O JO VE M
— Daremos o nome que convier.
— Que parte queres que tomemos?
E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O
— Muito bem, meu caro Sócrates!
— Naturalmente aquela que dirige
Se continuares assim serás um sábio
os seres vivos. É natural que a ciência
na tua velhice. Façamos, pois, como
real não dirige, do mesmo modo que a
dizes. De que maneira seria possível,
arquitetura, coisas sem vida: seu papel
porém, mostrar que há duas espécies
é muito mais nobre. É sobre os seres
de rebanhos e, ao mesmo tempo, con­
i vivos que ela reina e é sobre eles que
seguir que este nosso inquérito, em
ela sempre exerceu o seu império.
lugar de ser relativo a um duplo objeto, «2 «
SÓ C R A T E S , O JOVEM
se faça apenas em relação à sua
— É certo.
metade?
E S T R A N G E IR O
— No que diz respeito à população SÓ C R A T E S , O JO VE M
e à criação dos seres vivos é possível — Aplicarei todos os meus esfor­
distinguir a individual e o cuidado ços. A criação de homens, todavia,
coletivo pelos seres que vivem em parece-me ser diversa da dos animais.
rebanhos. E S T R A N G E IR O
S Ó C R A T E S, O JO VEM — Distinguiste com diligência e
— É claro. coragem. Tomaremos todo o cuidado a
E S T R A N G E IR O fim de não incidir mais uma vez em
— Não consideremos o político erro.
POLÍTICO 213

Uma pequena lição de lógica:


Espécie e parte
SÓ C R A T E S , O JO VEM comum de “ bárbaros” ; supondo que
— Que erro? por causa dessa denominação coletiva
E S T R A N G E IR O formem também uma unidade, quando
— Não ponhamos de parte, isola­ de fato são numerosíssimas, distintas
da, uma pequena porção em face de entre si e de linguagens bem diferentes,
b outras maiores, sem considerar a sua ou ainda, se se acreditasse que para
espécie. Cuidemos, ao contrário, que a dividir os números por dois, bastasse
parte traga em si a espécie. É fácil, por apenas destacar a cifra “ dez mil” de
certo, separar logo o objeto que se pro­ todos os outros e colocá-la à parte,
cura do restante, mas é preciso ter como que constituindo uma só espécie e
sorte para desse modo acertar. Assim, e dar ao resto um único nome acredi­
tu, ainda há pouco, acreditaste fazer tando, desta vez ainda, que esse sim­
uma divisão e precipitaste o teu racio­ ples nome fosse suficiente para criar
cínio, logo que percebeste que ele dizia um segundo gênero em face do primei­
respeito aos homens. M as de fato, meu ro. Creio que a divisão seria melhor;
amigo, essas pequenas divisões não que melhor seguiria às formas especí­
deixam de oferecer perigo. É mais se­ ficas e seria mais dicotômica se, divi­
guro proceder por partes, dividindo as dindo os números em “ pares” e
metades. Assim , há mais probabilidade “ ímpares” , dividíssemos, do mesmo
de encontrar os caracteres específicos. modo, o gênero humano em machos e
Ora é isso que principalmente importa fêmeas; e se nos decidíssemos a não
c na nossa pesquisa. separar nem caracterizar, relativa­
SÓ C R A T E S , O JO VE M mente aos demais, os Lídios, os Frí-
— Que queres dizer com isso? gios, ou outras unidades senão quando
E S T R A N G E IR O já não fosse mais possível obter uma
— Agrada-me a tua índole, e, por divisão em que cada um dos termos
isso, falarei mais claramente. N o ponto seria, ao mesmo tempo, gênero e parte. ™«
em que estamos é impossível explanar SÓ C R A T E S , O JO VE M
o que disse a não ser de modo imper­ — É verdade. M as, caro estran­
feito. Não obstante, procurarei fazê-lo geiro, como poderia alguém conhecer
tendo em mira maior clareza. com maior clareza que o gênero e a
SÓ C R A T E S , O JO VEM parte não são idênticos mas diferentes?
— Por que dizes então que a nossa E S T R A N G E IR O
divisão não fora feita corretamente? — Sócrates, tu, homem encantador,
E S T R A N G E IR O desejas algo que não é fácil. Já estamos
— Porque é o mesmo que tentar desviados de nossa discussão mais que
alguém dividir a humanidade em duas o necessário, e queres desviá-la ainda
i partes, como costuma a maioria, isto é, m ais! Por ora, convém que voltemos
separando-a como se o gênero helênico ao nosso trabalho. O problema que 4
constituísse uma unidade distinta das propões discuti-lo-emos em outra oca­
demais e dando-se a estas o nome sião, com calma, como bons pesquisa-
214 PLATÃO

dores. Cuidado, porém! Não penses necessariamente parte daquilo de que é


que de mim ouviste, sobre esse ponto, espécie; mas nada impede que a parte
uma perfeita explicação. seja, ao mesmo tempo, uma outra espé­
S Ó C R A T E S , O JO VEM cie. Estas são, caro Sócrates, das duas
— Que explicação? explicações aquela que tu deverás dar
E S T R A N G E IR O como sendo minha.
— Que gênero e parte são coisas SÓ C R A T E S , O JO VE M
diversas. — É o que sempre direi.
SÓ C R A T E S , O JO VEM E S T R A N G E IR O
— De que maneira? — M ais uma coisa, agora.
E S T R A N G E IR O SÓ C R A T E S , O JO VE M
— O quê for uma espécie será — Qual?

O Grou e a sua opinião

E S T R A N G E IR O vivo dotado de inteligência — o que


— Lembras-te onde estávamos parece verificar-se com os grous ou
antes da digressão que nos trouxe até com outras espécies de animais —
aqui? Era, creio, no momento em que poderia classificar do mesmo modo
te perguntava como se podia dividir a que tu classificas: oporia os grous,
arte de criar os rebanhos, e em que me como integrando um gênero a todos os
declaraste, com tanta afoiteza, que há outros seres vivos e, orgulhoso, consi­
dois gêneros de seres vivos: o gênero deraria os demais seres, inclusive os
humano e, de outro lado, todo o res­ homens, como pertencentes a uma
tante dos animais, constituindo um só mesma família, dando-lhes talvez o
bloco. nome de “ animais” . Procuremos, pois,
SÓ C R A TE S, O JO VEM evitar erros semelhantes.
— É verdade.
SÓ C R A T E S , O JO VE M
E S T R A N G E IR O
— Com o?
— Nessa passagem notei que tu,
separando uma parte, pensavas que E S T R A N G E IR O
todos os outros seres constituíssem um — Não dividindo o gênero inteiro
gênero, pois que lhes deste o nome de dos animais, a fim de não incorrermos
“ animais” . no mesmo erro.

SÓ C R A T E S, O JOVEM SÓ C R A T E S , O JOVEM
— De fato assim foi. — De fato, é o que se deve evitar.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— M as, meu intrépido amigo! se­ — Já antes cometêramos erro idên­
gundo essa maneira de julgar, outro ser tico.
POLÍTICO 215

SÓ C R A T E S , O JO VE M SÓ C R A T E S , O JO VEM
— Com o? — Sim.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Lembras-te de que havíamos — Não faremos a divisão como
considerado toda a parte diretiva da antes fizéramos, tendo em vista todos
ciência teórica, no gênero da “ criação os seres; nem nos apressaremos a atin­
de animais” , de animais em rebanhos? gir a política, pois que isso nos imporia
S Ó C R A T E S, O JO VEM o contratempo que está cominado no
— Sim. provérbio7.
E S T R A N G E IR O
S Ó C R A T E S , O JO VE M
— M as nesse caso, já não estaria
— Qual?
implícita a divisão dos animais em
E S T R A N G E IR O
mansos e selvagens? Aqueles que, por
— O de caminhar com maior pres­
sua natureza, podem ser domesticados
sa e só mais tarde chegar ao fim.
chamam-se mansos, e selvagens os que
SÓ C R A T E S , O JO VEM
não são domesticáveis.
— Feliz contratempo, caro estran­
S Ó C R A T E S , O JO VEM geiro.
— Bem.
E S T R A N G E IR O 7 Os gregos possuíam o seguinte provérbio
Apressa-te devagar, cujo sentido é: quem corre
— A ciência que perseguíamos muito depressa cai e chega ao fim mais tarde
sempre se referiu aos mansos, devendo do que aquele que não corre. O eleata refere-se
ao jovem que quer descobrir com demasiada
ser procurada entre as criaturas que rapidez a arte real e que por isso faz divisões
vivem em rebanhos. precipitadas e temerárias. ( N .d o T .)

Animais aquáticos e terrestres

E S T R A N G E IR O criação. É possível, porém, que a tives-


— Pode ser. Recomecemos, então, ses visto nas fontes.
dividindo a arte de criar coletivamente.
S Ó C R A T E S , O JO VEM
Talvez, uma vez terminada a pesquisa, — Sim, nas fontes vi pessoalmente;
ela te mostre o que desejas saber. A e ouvi o que muitos contaram a res­
propósito dize-me uma coisa . . . peito das outras.
SÓ C R A T E S , O JO VEM E S T R A N G E IR O
— Quê? — Ouviste e acreditaste que há
E S T R A N G E IR O criação de gansos e grous apesar de
— Sei que pessoalmente não obser- não teres passeado pelos campos da
vaste a domesticação dos peixes no rio Tessália.
Nilo ou nos aquários reais mas, talvez, SÓ C R A T E S, O JO VEM
já ouviste falar muitas vezes dessa — Com o não?
216 PLATÃO

E S T R A N G E IR O rá ser dividida, tal como o número, em


— Perguntei tudo isso porque na duas partes.
arte de criação em rebanhos existem
S Ó C R A T E S , O JOVEM
animais que são aquáticos e outros
— Claro.
terrestres.
E S T R A N G E IR O
SÓ C R A TE S, O JO VE M
— Notamos dois caminhos que
— Exatamente.
conduzem a essa subdivisão que pre­
E S T R A N G E IR O
tendemos examinar. Um é mais curto e
— Não achas que a ciência da cria­
opõe a pequena parte à grande, en­
ção em rebanho deve ser dividida em
quanto o outro, embora seja mais
duas partes, uma delas correspon­
longo, respeita o que disséramos, isto
dendo à criação na água, e outra à
é, que se deve, sempre que possível,
criação em terra?
dividir ao meio. Podemos, todavia,
SÓ C R A T E S, O JO VEM
tomar o caminho que desejarmos.
— Concordo.
E S T R A N G E IR O SÓC R A T E S , O JOVEM
— Não será necessário examinar a — C om o? Não é possível tomar os
que grupo pertence a arte régia pois dois caminhos?
que isso é evidente a qualquer homem? E S T R A N G E IR O
SÓ C R A TE S, O JO VEM — Simultaneamente, não, admirá­
— Com o não? vel amigo. M as claro que é possível ir
E S T R A N G E IR O primeiro por um e depois por outro.
— Qualquer pessoa saberá dividir
SÓ C R A T E S , O JOVEM
a criação em rebanhos feita em terra — Então, decido. Percorreremos os
firme. dois, tomando, inicialmente, um, de­
SÓ C R A TE S, O JO VEM pois o outro.
— Com o?
E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O
— É fácil, pois o que nos falta fazer
— Eu distinguiria entre seres que
é pouco. N o princípio ou no meio do
voam e seres que andam sobre a terra.
caminho, seria difícil atender ao teu
SÓ C R A T E S, O JO VE M pedido. Agora, já que assim queres,
— É verdade.
iremos pelo caminho mais longo. Des­
E S T R A N G E IR O cansados como estamos caminha­
— Examinemos, então, se é certo
remos sem dificuldade. Repara agora
que a arte política se refere aos que
como eu divido.
andam sobre a terra. Não julgas que o
maior ignorante concordaria com SÓ C R A T E S , O JO VEM
isso? — Fala!

SÓ C R A TE S, O JO VEM E S T R A N G E IR O
— Julgo. — Os animais que andam sobre a
E S T R A N G E IR O terra, mansos, e que vivem em reba­
— N o entanto, a arte de criar os nhos estão distribuídos, por natureza,
animais que andam sobre a terra deve­ em dois grupos.
POLÍTICO 217

SÓ C R A T E S , O JO VE M E S T R A N G E IR O
— Com o? — Queres dividi-lo em seres de
E S T R A N G E IR O duas e de uma só unha? Ou, conforme
— Um grupo não possui chifres, o princípio da procriação, em cruzados
enquanto o outro os tem. e puros? Creio que compreendes o que
S Ó C R A T E S , O JOVEM quero dizer?
— Sim.
SÓ C R A T E S , O JO VE M
E S T R A N G E IR O — O quê?
— Divide, pois, a arte de criar os
E S T R A N G E IR O
animais que andam sobre a terra
— Que, por exemplo, é natural
consagrando uma parte a cada um des­
realizar-se a reprodução de cavalos e
ses grupos; e observa que, se quisesses
burros por cruzamento.
dar um nome a cada espécie, encontra-
SÓ C R A T E S , O JO VE M
rias maiores dificuldades do que as que
— Sim.
são necessárias.
E S T R A N G E IR O
SÓ C R A T E S , O JOVEM
— Com o deverei denominá-las? — Por outro lado, os outros ani­
mais deste rebanho domesticável não
E S T R A N G E IR O
— Assim : dividindo-se a ciência da se podem procriar por cruzamento.
criação dos animais que andam sobre S Ó C R A T E S , O JO VEM
a terra em duas partes; uma abrangerá — Claro.
a parte do rebanho com chifres e a
E S T R A N G E IR O
outra, a parte sem chifres. — Pois bem, de qual destes grupos
SÓ C R A T E S , O JO VEM parece cuidar o político, dos que se
— Concordo que isso é bem claro. procriam por cruzamento, oli dos
E S T R A N G E IR O demais?
— Quanto ao rei é evidente que
SÓ C R A T E S , O JO VE M
pastoreia um rebanho sem chifres.
— Evidentemente, daqueles que
SÓ C R A T E S , O JO VE M não se cruzam.
— Nem poderia deixar de ser.
E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O
— Temos, ao que parece, de dividir
— Dividamos, então, esse rebanho,
esta família, como as anteriores, em
e procuremos atribuir ao Rei o que lhe
pertence. duas partes.

S Ó C R A T E S , O JO VEM S Ó C R A T E S , O JO VE M
— Sim. — Sim, temos.
218 PLATÃO

Quadrupedes e bípedes.
O concurso das duas majestades
266 a E S T R A N G E IR O SÓ C R A T E S , O JO VEM
— Todos os seres mansos e que — Não.
vivem em rebanho já estão discrimi­ E S T R A N G E IR O
nados, exceto duas espécies, pois, ao — Ora, o modo de caminhar pró­
que creio, não convém incluir a família prio a um segundo gênero tem um
dos cães no número dos animais que se valor igual à diagonal daquele valor
criam em rebanhos. próprio ao nosso modo de caminhar,
S Ó C R A TE S, O JO VE M pois que, naturalmente, ele vale duas
— N ão, mas segundo que princípio vezes dois pés.
dividiremos essas duas espécies? SÓ C R A T E S , O JO VEM
E S T R A N G E IR O — É certo. Agora começo a com­
— Segundo o princípio que distin­ preender aonde queres chegar.
gue Teeteto de ti, pois que vós ambos E S T R A N G E IR O
vos ocupais da geometria. — M as, caro Sócrates, não vemos
SÓ C R A T E S, O JO VE M ocorrer novamente, nessa divisão, algo *
— Com o? ridículo?
E S T R A N G E IR O SÓ C R A T E S , O JO VEM
— Pela diagonal, e depois pela dia­ — O quê?
gonal da diagonal. E S T R A N G E IR O
SÓ C R A TE S, O JO VE M — Colocar o gênero humano na
— Com o? mesma liça e fazê-lo disputar em velo­
b E S T R A N G E IR O cidade com o gênero de seres ao
— A natureza do gênero humano mesmo tempo imponente e o mais
nos permitirá um modo de caminhar indolente.
diverso daquele que se exprime pelo S Ó C R A T E S , O JO VEM
— Sim, vejo, é uma coincidência
valor da diagonal, igual a dois pés8.
curiosa.
8 Pé é medida grega. N o M enão está substituí­
do pelo metro, a fim de facilitar a leitura do E S T R A N G E IR O
diálogo pelo leitor moderno. Encontramos no — M as com o? Não é natural que o
Político idêntico quadrado ao que aparece na­
quele livro. A diagonal dessa figura é o lado
mais vagaroso venha por último?
de um quadrado cuja área é o duplo da área SÓ C R A T E S , O JO VEM
do primeiro quadrado. A digressão pela mate­
— Sim.
mática é puramente simbólica. A área do qua­
drado cujo lado mede dois pés de quatro pés E S T R A N G E IR O
quadrados e sua diagonal é o lado do quadra­ — M as não observas também que o
do de área dupla. Por causa desses dois núme­
ros — dois e quatro — o autor considera a rei será ainda mais ridículo ao concor­
diagonal ,do 10 quadrado com o símbolo do m o­ rer com seu rebanho e ao medir-se,
do de andar dos seres de dois pés e a d o 2°
quadrado — cujo lado é a diagonal do 19 — sobre a pista, com o homem mais *
com o símbolo do m odo de andar dos quadrú­ entregue a esta vida indolente9.
pedes. Essas proposições provocam sorrisos
entre os ouvintes, predispondo-os a prestar mais 9 Platão refere-se aqui aos monarcas persas que
atenção. Tal método didático era empregado estão sempre cercados de ajudantes, fâmulos e
pelo autor em suas aulas. ( N .d o T .) companheiros. ( N .d o T .)
POLÍTICO 219

SÓ C R A T E S , O JOVEM mentar não se preocupa com o mais ou


— É exato. menos nobre e que não concede maior
E S T R A N G E IR O atenção ao que é grande do que ao que
— E agora, Sócrates, toma-se mais
é pequeno, porquanto só tomando a si
claro o que dissemos em nosso inqué­
mesmo por inspiração procura levar
rito sobre o sofista.
até ao fim o seu inquérito sobre a
SÓ C R A T E S , O JOVEM
— Com o? verdade.

E S T R A N G E IR O SÓ C R A T E S , O JO VEM
— Que este nosso método de argu­ — Sim.

O caminho mais curto. Recapitulação.

E S T R A N G E IR O bem tua dívida, pois que este desvio


— Dito isto e para que não pergun­ em tua argumentação rendeu-me juros.
tes antes qual é o caminho mais curto
E S T R A N G E IR O
que mencionei para definir o rei, inqui­ — Agora voltemos ao ponto de que
ro: queres conhecê-lo? partimos, ligando tudo o que dissemos,
S Ó C R A T E S , O JOVEM do princípio ao fim, para a definição
— É o que peço. deste termo: a arte do político.
E S T R A N G E IR O SÓ C R A T E S , O JO VEM
— Deveríamos, desde logo, ter di­ — De acordo.
vidido os animais terrestres em bípedes E S T R A N G E IR O
e quadrúpedes e desde que somente os — Pois bem, nas ciências teóricas
animais com asas ali estariam ao lado nós começamos por distinguir uma
dos homens, deveríamos dividir o reba­ parte diretiva, e, nesta, uma divisão a
nho bípede, por sua vez, em uma famí­ que chamamos, por analogia, autodiri-
lia sem penas e uma família com gente. A criação dos animais foi, por
penas. Nessa classificação, esponta­ sua vez, considerada como uma das
neamente se revelaria a arte de pasto­ divisões da ciência autodiretiva, da
rear homens, e assim poderíamos des­ qual é um gênero e certamente não o
cobrir o homem político e real, menor; a criação de animais nos deu a
colocando-o como condutor e entre­ espécie da criação em rebanho, e a
gando-lhe, como um direito, as rédeas criação em rebanho, por sua vez, deu-
do Estado por serem homens que pos­ nos a arte de criar os animais pedes­
suem a ciência que lhes é necessária. tres; e a seguir, esta arte de criar os
S Ó C R A T E S , O JOVEM animais pedestres nos deu, como seção
— C om esta discussão saldaste principal, a arte que cria a raça de ani­
220 PLATÃO

mais sem chifres; e, ainda, esta raça de procuramos; a arte que se honra por
animais sem chifres inclui uma parte dois nomes: política e real.
que só poderá ser compreendida por S Ó C R A T E S , O JO VEM
um único termo pela adição necessária — Exatamente.
E S T R A N G E IR O
de três nomes: ela se chamará “ a arte
— M as, Sócrates, essa pesquisa foi
de criar raças que não se cruzam” . Por
realizada por nós assim como acabas
fim, a última subdivisão restante nos de dizer?
rebanhos bípedes, será a arte de dirigir SÓ C R A T E S , O JO VEM
os homens. É precisamente o que — Que pesquisa?

Crítica da definição. Os
rivais do político

E S T R A N G E IR O cuida de homens que vivem em comu­


— Resolvemos o problema? Não nidade.
falta em nosso exame o principal? A
SÓ C R A T E S , O JO VEM
pesquisa foi realizada de modo um — Sim.
tanto vacilante, e não teremos come­
E S T R A N G E IR O
tido uma falta das mais graves che­ — Observaremos as diferenças que
gando a uma definição, mas não a uma existem entre os pastores e os reis.
definição perfeita sob todos os pontos? SÓ C R A T E S , O JO VEM
SÓ C R A T E S, O JO VE M — Que diferenças?
— Que queres dizer? E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O — Imagina que qualquer dos ou­
— Tentarei explicar o que penso, a tros pastores tenha um rival, titular de
ti e a mim mesmo. outra arte, que afirme e pretenda com
SÓ C R A T E S, O JO VE M ele participar da arte da criação do
— Fala! rebanho.
E S T R A N G E IR O S Ó C R A T E S , O JO VEM
— Entre as muitas formas da arte — Que pretendes dizer?
de pastorear encontra-se uma: a políti­
E S T R A N G E IR O
ca, e vemos qual é o seu rebanho. — Sabes que todos os comercian­
SÓ C R A T E S, O JO VEM tes, agricultores, moleiros, inclusive
— Sim. atletas e médicos, protestariam energi­
E S T R A N G E IR O camente junto a estes pastores de ho­
— A discussão não a conceituou mens a quem chamamos políticos afir­
como criação de cavalos ou quaisquer mando que eles é que cuidam da
outros animais, e sim como ciência que criação dos homens, não apenas dos
POLÍTICO 221

membros do rebanho, mas também dos que 10 0 0 0 outros que pretendam


governantes? sê-lo.
SÓ C R A T E S , O JOVEM SÓ C R A T E S , O JO VE M
— E não teriam razão de assim — De nenhum modo.
protestar? E S T R A N G E IR O
— Não teríamos nós razões para
E S T R A N G E IR O
inquietação quando, ainda há pouco,
— Talvez. Haveremos de ver. Uma
nos assaltou a suspeita de que talvez
coisa, porém, sabemos, e que ninguém
houvéssemos traçado um esboço plau­
negará, é que isso também se estende
sível do caráter real mas que, no entan­
ao criador de bois. É ele que alimenta
to, não o leváramos até o retrato fiel
o seu rebanho, é ele o médico e só ele
do político, pelo fato de não o distin-
escolhe os coitos: tanto na procriação
guirmos de todos aqueles que à sua
como no nascimento, é o único par­
volta se agitam e que reclamam uma
teiro competente. N a medida em que
parte dos seus direitos de pastor? Não
seus animais participam da sedução da
o separamos suficientemente dos seus
música, nenhum outro é mais capaz de
rivais para mostrá-lo, unicamente, na
acalmá-los e de consolá-los por meio
sua pureza?
de sons. Sabe executar excelentemente
SÓ C R A T E S, O JO VEM
a música de que seu rebanho gosta,
— Muito bem.
seja por intermédio de instrumentos,
E S T R A N G E IR O
seja apenas pela voz. O mesmo poder-
— É o que faremos, caro Sócrates,
se-ia dizer dos demais pastores, ou
se não quisermos levar esta discussão
não?
a um fim que a desmereça.
S Ó C R A T E S , O JOVEM S Ó C R A T E S , O JO VEM
— Claro. — É o que preciso evitar a todo
E S T R A N G E IR O custo.
— M as, então, será tão certa e E S T R A N G E IR O
inatacável a nossa teoria sobre o rei? — Partiremos de outro ponto, pros­
Nós o consideramos como pastor e seguiremos por outro caminho.
alimentador do rebanho humano, di­ SÓ C R A T E S , O JO VEM
zendo que é ele mais importante do — Qual?
222 PLATÃO

O Recurso ao Mito

E S T R A N G E IR O horrível crime de Atreu, Deus alterou


— Nesta conversa falaremos de o seu curso para a ordem atual.
algo que parece uma brincadeira, ser-
SÓ C R A T E S , O JO VEM
vindo-nos de grande parte de uma — É o que se conta11.
grande lenda; após o que, retomaremos
E S T R A N G E IR O
até ao fim o ponto em que estávamos, — Também ouvimos falar muitas
prosseguindo, de divisão em subdivi­ vezes do reino de Crono .
são, até que cheguemos ao fim deseja­
SÓ C R A T E S , O JO VEM
do. Não é esse o método que se impõe? — Muitíssimas.
SÓ C R A T E S, O JO VE M E S T R A N G E IR O
— Certamente. — Diz-se também que os homens,
E S T R A N G E IR O nesses tempos, nasciam da terra, e não
— Presta bem atenção à minha uns de outros.
lenda, como o costumam fazer as
SÓ C R A T E S , O JO VEM
crianças. Aliás, não estás tão distante — Ê o que se diz em muitas das ve­
dos anos de infância! lhas lendas.
SÓ C R A T E S, O JO VE M E S T R A N G E IR O
— Fala! — Todos esses sucessos resultaram
E S T R A N G E IR O do mesmo fenômeno; e não somente
— Contavam-se, então, muitas len­ esses, mas outros ainda mais espanto­
das de eras remotas e que ainda sos. Pelo longo tempo que se escoou,
hão de ser contadas. Um a delas versa uma parte deles foi esquecida, en-
sobre a luta de Atreu e Tiestes. Ouviste cfuanto outros transformaram-se em
contar e certamente guardas na memó­ episódios isolados. Ninguém, todavia,
ria o que, segundo dizem, aconteceu falou da causa desses sucessos a qual,
naquele tempo.
li Conform e uma lenda, Atreu convidou Ties­
SÓ C R A T E S, O JO VEM tes com seu filho para jantar. Quando o peque­
— Referes-te, talves, à lenda do no estava brincando no pátio, prendeu-o Atreu,
matou-o e, assando-lhe a carne, pô-la na mesa
cordeiro de ouro?10
para ser servida. Tiestes, sem de nada suspei­
269 a E S T R A N G E IR O tar, comeu-a. Perguntando onde estava o me­
— Não. Refiro-me à mudança que nino, Atreu, sorridente, mostrou-lhe a cabeça
do pequeno, explicando que há pouco ele c o ­
se operou no nascer e no por do sol e mera a carne do próprio filho. Desse crime
de outros astros. Naquele tempo desa­ monstruoso, a única testemunha foi o deus do
sol. De acordo com a mitologia, o sol é a co ­
pareciam onde atualmente nascem e roa brilhante do deus que dia após dia per­
levantavam-se onde agora se põem. corre num carro a abóboda celeste, produzin­
do assim a luz do dia. A divindade em questão
Foi então, que, para testemunhar o tudo vê, e, quando presenciou o crime que se
acabava de cometer, perturbada virou a dire­
10 Atreu e Tiestes eram dois irmãos e lendários ção do carro. E desde aquele tempo o sol não
príncipes que viviam a disputar. O cordeiro de mais nasce no oeste e sim a leste. Outros
ouro havia sido dado a Atreu precisamente astros o acompanharam, mudando do mesmo
para causar discórdia. ( N .d o T .) m odo o sentido de seus movimentos. (N. do T.)
POLÍTICO 223

agora, deveremos conhecer, pois que é capaz. Eis por que foi animado do
ela nos será útil para definir a natureza movimento de retrocesso circular que
do rei. dentre todos é o que menos o afasta de
seu movimento primitivo. Ser a causa
SÓ C R A T E S , O JOVEM
— Disseste bem. Conta-a, e nela contínua de sua própria rotação não é
não suprimas nada! possível senão ao que rege tudo aquilo
que se move. Esse ser, porém, não
E S T R A N G E IR O
pode mover-se, ora num sentido, ora
— Escuta! Este universo, em que
no sentido contrário. Por estas razões
estamos, algumas vezes é o próprio
todas não podemos afirmar que o
Deus que lhe dirige o curso e preside à
mundo seja a causa contínua de sua
sua revolução; outras vezes, termina­
própria rotação nem dizer que toda
dos os períodos que lhe foram determi­
ela, sem interrupção, é dirigida por um
nados, ele o deixa seguir; e então, por
deus nas suas revoluções contrárias e
si mesmo, o Universo retoma o seu
alternadas e muito menos que ela se
curso circular, em sentido inverso, em
deve a duas divindades cujas vontades
virtude da vida que o anima e da inteli­
se opõem. M as, como dizia há pouco,
gência que lhe foi dada, desde a sua
a única solução que resta é que umas
origem, por aquele que o criou. Esse
vezes ela seja dirigida por uma ação
movimento de retrocesso faz parte
estranha e divina e assim, recebendo
necessariamente da sua natureza, pelo
uma nova vida, recebe, igualmente de
motivo seguinte.
seu autor, uma nova imortalidade, que
SÓ C R A T E S , O JO VEM
outras vezes, abandonado a si mesmo,
— Que motivo?
caminhe em retrocesso durante milha­
E S T R A N G E IR O res e milhares de períodos, pois que a
— Somente ao que há de mais divi­ sua grande massa se move num per­
no convém conservar sempre as mes­ feito equilíbrio sobre um eixo extrema­
mas qualidades, permanecer no mesmo mente pequeno.
estado e ser sempre o mesmo. A natu­
SÓ C R A T E S , O JO VEM
reza corpórea não participa dessa — Tudo a que acabas de dizer pa­
ordem. O que chamamos céu e mundo, rece estar bem próximo da verdade.
apesar dos muitos dotes esplêndidos
E S T R A N G E IR O
que recebeu de seu criador, está preso — Prossigamos no raciocínio e
à sorte do corpo. Por isso é impossível examinemos a causa, como dissemos,
que fique eternamente alheio à mudan­ de todos esses prodígios. Ele consiste
ça e, na medida de suas forças, move- no seguinte:
se no mesmo espaço, com um movi­ SÓ C R A T E S , O JO VEM
mento mais idêntico e mais uno de que — Em quê?
224 PLATÃO

As alternâncias do movimento e o seu curso

E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Na rotação do universo que ora — M as não sabemos, também, que
se faz no sentido atual, ora em sentido é com grande dificuldade que a natu­
oposto. reza dos seres vivos suporta mudanças
SÓ C R A T E S, O JOVEM profundas, numerosas e diversas ao
— Com o? mesmo tempo?
E S T R A N G E IR O SÓ C R A T E S , O JO VEM
— Essa mudança de sentido deve — Sim.
ser considerada como a mais impor­ E S T R A N G E IR O
tante e mais perfeita das variações a — Nessas ocasiões é fatal que a
que está sujeito o universo, o maior e o morte faça as suas maiores devasta­
mais completo. ções entre os seres vivos, reduzindo,
S Ó C R A T E S, O JO VEM especialmente, o gênero humano a um
— Isso é claro. número ínfimo de sobreviventes. A o
E S T R A N G E IR O realizar-se a inversão do movimento
— Logo, deveremos supor que na­ atual, os que sobrevivem sofrem toda
quela época é que se produziram as espécie de estranhos e insólitos aciden­
transformações mais importantes para tes, dos quais o mais grave, que se deve
nós que residimos e vivemos no seu à mudança de sentido do movimento
interior. do universo, é este:
SÓ C R A T E S, O JO VE M SÓ C R A T E S , O JOVEM
— É claro. — Qual?

Os filhos da Terra

E S T R A N G E IR O Naqueles em que a barba já era cres­


— Todos os seres vivos, então, cida as faces se alisaram e cada um
pararam na idade em que estavam e retomou à flor da mocidade. Os cor­
tudo o que era mortal já não contem­ pos dos imberbes tomando-se ainda
plou mais o espetáculo de um envelhe­ mais tenros e menores, dia por dia,
cimento gradual. Depois, progredindo noite por noite, voltaram afinal ao es­
em sentido contrário, cresceram em tado de crianças recém-nascidas, a elas
juventude e frescor. Os cabelos bran­ semelhantes em corpo e alma, e prosse­
cos dos velhos tomaram-se pretos. guindo, após o seu declínio, acabavam
POLÍTICO 225

por desaparecer completamente. Os garantias destas tradições de que mui­


cadáveres dos que naquele tempo ha­ tos de nossos contemporâneos duvi­
viam padecido morte violenta sofreram dam, sem razão. A meu ver, impõe-se
as mesmas transformações, e com tal pensar assim: desde que os anciãos
rapidez que em poucos dias deles nada voltavam a ser crianças, os mortos
restava. sepultados na terra conseqüentemente
S Ó C R A T E S , O JO VEM deveriam reconstituir-se e voltar à
— E como então, naquele tempo, se vida, levados por este movimento de
dava o nascimento dos seres vivos, volta que fazia com que as gerações
caro estrangeiro? Com o se procriavam caminhassem em sentido oposto; e
uns aos outros? sendo que assim nasciam, necessaria­
E S T R A N G E IR O mente, do seio da terra, dela receberam
— É claro, Sócrates, que segundo a o seu nome e a sua história; quando
natureza de então, não podiam, como não foram dirigidos por um deus para
dizes, procriarem-se uns aos outros; e outros destinos.
foi, nesse tempo, que aconteceu a his­ SÓ C R A T E S , O JO VEM
tória de que se fala, de uma raça, — O que dizes se confirma perfei­
outrora nascida da própria terra; e os tamente pelo que antes afirmaste ;
homens desse tempo, nascidos do seio mas, dize-me agora se a vida que, a teu
da terra, guardaram essa lembrança ver, existia sob o império de Crono,
que nos foi transmitida pelos nossos pertencia ao outro ciclo ou a este, pois
mais remotos antepassados, homens de que a mudança de sentido no curso dos
um tempo que se seguiu imediatamente astros e do sol aconteceu, evidente­
ao fim deste antigo ciclo. Eles são as mente, em ambos.

Os Pastores Divinos

E S T R A N G E IR O mundo estavam distribuídas entre os


— Acompanhaste bem a discussão. deuses encarregados de governá-las.
M as a ordem a que tu te referes, em Aliás, os próprios animais então se
que tudo nascia de si mesmo para ser­ dividiam em gêneros e rebanhos sob o
vir aos homens, não tem relação algu­ bordão de gênios divinos e cada um
ma com o ciclo ora em curso: perten­ deles provia, plenamente, todas as
cia ela ao ciclo precedente. Nesse necessidades de suas ovelhas não ha­
tempo, a direção e a vigilância de Deus vendo feras selvagens, nem aconte­
se exercia, primeiramente, tal como cendo que uns devorassem a outros,
hoje, sobre todo o movimento circular, nem guerras, sem desentendimentos; e
e essa mesma vigilância ainda existia eu poderia contar, ainda, milhares de
localmente, pois todas as partes do outros benefícios a esse tempo dispen-
226 PLATÃO

sados ao mundo. M as, voltando ao que S Ó C R A T E S , O JOVEM


se refere aos homens que, então, não ti­ — Claro que sim.
nham preocupação alguma para viver,
E S T R A N G E IR O
esta é a explicação: era o próprio Deus — Se os tutelados de Crono, em
que pastoreava os homens e os dirigia seus lazeres que eram muitos, e tendo a
tal como hoje, os homens (a raça mais faculdade de entreter-se, não apenas
divina) pastoreiam as outras raças ani­ com homens, mas também com ani­
mais que lhes são inferiores. Sob o seu mais, se usaram de todas essas vanta­
governo, não havia Estado, constitui- gens para praticar a filosofia, conver- c
272 a ção, nem a posse de mulheres e crian­ sando com os animais e entre si, e
ças, pois era do seio da terra que todos
interrogando a todas as criaturas para
nasciam, sem nenhuma lembrança de
ver se haveria uma que, melhor dotada,
suas existências anteriores. Em com­
enriquecesse, com uma descoberta ori­
pensação tinham em quantidade os
ginal, o tesouro comum dos conheci­
frutos das árvores e de toda uma vege­
mentos humanos, fácil seria dizer que
tação generosa, recebendo-os, sem cul­
eles eram infinitamente mais felizes do
tivá-los, de uma terra que, por si
que os homens do presente. Se, porém,
mesma os oferecia. Nus, sem leito, vi­
apenas se ocuparam em fartar-se de
viam no mais das vezes ao ar livre,
alimentos e bebidas, não procurando
pois as estações lhes eram tão amenas
que nada podiam sofrer, e por leitos ti­ contar ou ouvir de outros e dos ani­
nham a relva macia que brotava da mais senão fábulas, tais como as que
b terra. Era esta, Sócrates, a vida que se hoje se contam a seu respeito, a res- d
levava sob o império de Crono; e posta seria fácil, creio. M as, deixemos
quanto à outra, a de agora, e que, ao este problema até que encontremos
que se diz, está sob o império de Zeus, alguém, bastante hábil, que nos teste­
tu a conheces por ti mesmo. Podes munhe com que espírito os homens
dizer qual delas é a mais feliz? deste tempo procuravam o conheci­
SÓ C R A T E S, O JO VE M mento e entre si discutiam. Quanto à
— Impossível. razão por que lembramos este mito, eu
E S T R A N G E IR O a direi agora, pois já é tempo de conti­
— Queres, então, que eu mesmo o nuarmos o nosso raciocínio se quiser­
diga? mos levá-lo a bom termo.
POLÍTICO 227

O mundo abandonado

Quando se completou o tempo de­ ção, aos caracteres herdados de sua


terminado a todas as coisas, e chegada natureza primitiva, que comportava
a hora em que deveria produzir-se a uma grande parte.de desordem antes
mudança, esta raça nascida da terra de alcançar a ordem cósmica atual. De
e desapareceu por completo, havendo seu construtor é que recebeu tudo o
cada alma completado o seu ciclo de que tem de belo e de sua constituição
nascimentos e voltado à terra tantas anterior decorrem todos os males e
vezes como sementes quantas determi­ todas as iniqüidades que se cometem *
nara a sua própria lei. Então o piloto no céu, e que daí passaram ao mundo,
do Universo, abandonando, por assim transmitindo-se aos animais. Enquanto
dizer, o leme, voltou a encerrar-se em desfrutava da assistência de seu piloto
seu posto de observação; e o mundo le­ que alimentava aos seus, que viviam
vado pela sua tendência e pelo seu des­ em seu seio, salvo raros fracassos, só
tino natural, moveu-se em sentido produzira grandes bens; mas uma vez
contrário. Todos os deuses locais que dele desligado, quando o mundo foi
assistiam a divindade suprema em seu abandonado a si mesmo, nos primeiros
governo, compreendendo prontamente tempos que se seguiram ainda procu­
o que se passava, abandonaram, tam­ rou levar todas as coisas para o
bém eles, as partes do mundo confia- melhor; entretanto, com o avançar do
273 a das aos seus cuidados. E o mundo, tempo e do esquecimento, torpando-se
subitamente mudando o sentido de seu mais poderosos os restos de sua turbu­
movimento, de começo a fim, provo­ lência primitiva que finalmente alcan- d
cou, no seu próprio seio, um terremoto çou o seu apogeu, raros são os bens e
violento em que pereceram os animais numerosos os males que a ele se incor­
de toda espécie. Depois, ao fim de um poram, arriscando-se à sua própria
tempo suficiente, terminados os distúr­ destruição e à de tudo o que ele encer­
bios e o terremoto, prosseguiu num ra. Por esse motivo, o Deus que o
movimento ordenado o seu curso habi­ organizou, compreendendo o perigo
tual e próprio, zelando e governando, em que o mundo se encontra, e temen­
como senhor, tudo o que havia em seu do que tudo se dissolva na tempestade
b seio, bem como a si próprio e relem­ e desapareça no caos infinito da desse­
brando, tanto quanto lhe fora possível, melhança, toma de novo o leme e
as instruções de seu criador e pai, de recompondo as partes que, neste ciclo, *
início, com maior exatidão, mas, ao percorrido sem guia, tombaram em
fim, com crescente enfraquecimento. dissolução e desordem, ele o ordena e
Esta falta se deveu aos princípios cor­ restaura de maneira a tomá-lo imortal
porais que entraram na sua constitui­ e imperecível.
228 PLATÃO

O homem no estado de natureza

Assim termina este mito, do qual a tomaram desde logo selvagens, agora
primeira parte servirá à nossa teoria do que também eles se viram sem força e
Rei. Quando o mundo, por um movi­ sem proteção, os homens se tomaram
mento reverso, desviou-se para o modo presas desses animais. N os primeiros
atual de geração, a evolução das ida­ tempos, não tiveram qualquer indús­
des parou uma segunda vez para voltar tria ou arte; e foi desde este momento
num sentido contrário àquele que de grande abandono, em que seus ali­
então seguia. Os seres vivos que se ha­ mentos deixaram de vir-lhes esponta­
viam reduzido a quase nada voltaram neamente, e em que não sabiam ainda
a crescer e os corpos recém-nascidos procurá-los, pois que nenhuma necessi­
da terra tomaram-se grisalhos, defi- dade os havia, até então, obrigado a
274 « nharam-se e voltaram à terra. E todo o isso, que, segundo as antigas tradições,
resto voltou, da mesma forma em sen­ nos foram dadas, pelos deuses, lições e
tido contrário, amoldando-se e regu- ensinamentos indispensáveis: o fogo
lando-se à nova evolução do universo; por Prometeu1 2; as artes por Hefes-
e especialmente a gestação, o parto e a to 1 3 e sua companheira; as sementes e
criação imitaram e seguiram o pro­ as plantas por outras divindades.
cesso geral. Já não era possível que o Assim tudo o de que a vida humana é
animal nascesse do seio da terra, por feita nasceu desses primeiros passos;
um concurso de elementos estranhos; quando os homens, como disse, vi­
uma vez que o mundo assim se tomara ram-se privados da vigilância divina,
o seu próprio senhor, sujeito a dirigir a devendo conduzir-se sós e zelar por si
sua evolução, também as suas partes mesmos, tal como o universo, pois
deveriam, por uma lei análoga, conce­ tudo o que fazemos é imitá-lo e segui-
ber, dar à luz e criar por si mesmas, na lo, alternando, na eternidade do tempo,
•> medida em que pudessem. E assim eis- estas duas maneiras opostas de viver e
nos agora chegados ao ponto a que se nascer. Terminemos aqui o nosso mito,
dirigia todo este raciocínio. N o que se dele nos servindo para medir a falta
refere aos outros animais seriam neces­ que cometemos ao definir, como o fize­
sárias muitas palavras e muito tempo mos anteriormente, o homem real e o
para dizer qual era então a condição político.
de cada espécie e por que influências SÓ C R A T E S , O JO VE M
ela se modificou; mas relativamente — A que falta te referes, e qual a
aos homens, esta exposição será mais sua importância?
breve e mais a propósito. Um a vez pri­ 12 Prometeu: gigante amigo dos homens. D oou
o fo g o aos homens, contra a vontade de Zeus.
vados dos cuidados deste deus que os Nesta versão, porém, o fog o é dádiva feita aos
possuía e os mantinha sob sua guarda, homens pelos próprios deuses. ( N .d o T .)
13 Hefesto: deus dos ferreiros. A companheira
cercados de animais dos quais a maior
de Hefesto é Atena, protetora dos trabalhos
parte era naturalmente feroz, e que se manuais femininos, com o o bordado. (N . do T.)
POLÍTICO 229

E S T R A N G E IR O S Ó C R A T E S , O JO VE M
— Pequena, uma vez; outra vez, — Justamente.
considerável, muito mais séria e mais E S T R A N G E IR O
grave que a outra. — M as a meu ver, Sócrates, esta fi­
gura do pastor divino é ainda muito
SÓ C R A T E S , O JOVEM
elevada para um rei; os políticos de
— Com o assim?
hoje, sendo por nascimento muito
E S T R A N G E IR O semelhantes aos seus súditos, aproxi-
— A o indagarmos do rei e do polí­ mam-se deles, ainda mais, pela educa­
tico do ciclo atual, e do modo atual de ção e instrução que recebem.
gerações, fomos até ao ciclo oposto e
SÓ C R A T E S , O JO VEM
falamos do pastor que governava o — Perfeitamente.
rebanho humano, pastor divino ao
E S T R A N G E IR O
invés de humano, o que é uma falta — M as, mesmo assim, eles devem
grave. Por outro lado, apresentá-lo ser examinados igualmente de sorte a
como chefe de toda uma cidade, sem ver se estão acima de seus súditos, tal
explicar de que maneira ele assim o é, como o pastor divino, ou no mesmo
era dizer a verdade, mas não a verdade nível.
completa, nem a verdade clara, e esta
SÓ C R A T E S , O JO VEM
última falta é menor do que a primeira. — Sem dúvida.
SÓ C R A T E S , O JO VEM E S T R A N G E IR O
— É verdade. — Voltemos, então, onde estáva-
E S T R A N G E IR O mos. Lembras-te de que falamos desta
— Precisamos, pois, ao que me arte que concede um poder autodire-
parece, determinar primeiramente o gê­ tivo sobre os animais e que deles cuida
nero de governo que o político exerce não individual, mas coletivamente, e a
sobre a cidade, se quisermos orgulhar- qual, aliás, logo chamamos de “ arte de
nos de lhe haver dado uma definição cuidar dos rebanhos” ?
perfeita. SÓ C R A T E S , O JO VE M
S Ó C R A T E S , O JO VEM — Sim.
— É certo. E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O — A li também cometemos algum
— Foi precisamente com esse pro­ erro. Em nenhum lugar consideramos
pósito que nos referimos a este mito: o político nem falamos em seu nome;
nossa intenção não era apenas mostrar antes, afastamo-nos dele sem dar-nos
que o título de tratador do rebanho, o conta, embora acreditando referirmo-
chefe a quem procuramos, é disputado nos a ele.
por todos; quisemos também revelar SÓ C R A T E S , O JO VE M
melhor aquele que, sendo o único a — Com o assim?
assumir tão completamente como os E S T R A N G E IR O
pastores de ovelhas e de bois os encar­ — Cuidar de seu rebanho, para si
gos de educar o seu grupo de homens, mesmo, é comum a todos os demais
fosse também o único com direito a pastores; mas ao político não cabia o
honrar-se daquele título. nome que lhe atribuímos; seria neces-
230 PLATÃO

sario, pois, um nome que servisse a comum a todos? Falando, pois, da arte
todos, ao mesmo tempo. que se ocupa dos rebanhos, que por
S Ó C R A T E S, O JO VE M eles vela e deles cuida, designando a
— O que dizes é certo, desde que função que compete a todos, haveria
tal nome exista. um termo capaz de servir ao político e
E S T R A N G E IR O a todos os seus rivais, e é esse, precisa­
— Com o não? O cuidado para mente, o fim de nossa pesquisa.
com os rebanhos desde que não se SÓ C R A T E S , O JOVEM
determine como alimentação ou qual­ — Bem, mas como proceder então m ,
quer outro cuidado específico, não é à divisão que seguiria?

O pastor humano: tirano ou rei?

E S T R A N G E IR O dar de que ela implicasse algum


— Tal como fizemos há pouco, ao cuidado, qualquer que fosse. Ora,
dividir a arte de cuidar de rebanhos vimos há pouco, com razão, que não
enumerando: animais que andam sobre existe arte alguma entre nós que pudes­
a terra e não-voadores, animais que se ser entendida como a de cuidar dos
não se cruzam e animais sem chifres. rebanhos; e ainda, se existisse, muitos
Procedendo por distinções análogas homens haveriam de pretender, com
poderemos, numa mesma noção, com­ maior pressa e maior razão que qual­
preender a arte que cuida dos rebanhos quer rei, ser ela a sua arte.
no período atual e aquela que se exerce SÓ C R A T E S , O JO VEM
sob o reino de Crono. — É exato.
SÓ C R A T E S , O JO VEM E S T R A N G E IR O
— É o que parece; mas o que segui­ — Pois bem. Nenhuma arte preten­
ria daí?, pergunto eu. deria, com maior pressa e maior razão
E S T R A N G E IR O do que a arte real, ter a si os cuidados
— É claro que assim caracteri- para com a comunidade humana, em
b zando a arte que se ocupa dos reba­ seu todo, e constituir-se numa arte de *
nhos jamais ouviríamos alguém duvi­ governo dos homens, em geral.
POLÍTICO 231

SÓ C R A T E S , O JOVEM SÓ C R A T E S, O JO VEM
— Tens razão. — Sim, compreendo.
E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O — E foi precisamente por não
— M as, dito isto, Sócrates, não nos
haver feito esta distinção que nós
apercebemos de que, ao fim de nossa
cometemos este erro, mais por distra­
análise, cometemos um grave erro? ção, confundindo o rei e o tirano, bem
S Ó C R A T E S , O JOVEM
distintos entre si, pelas suas maneiras
— Qual? de governar.
S Ó C R A T E S, O JO VEM
E S T R A N G E IR O — É verdade.
— O seguinte: como poderíamos
E S T R A N G E IR O
nós, supondo que existisse uma arte à
— Corrigindo-nos, dividamos,
qual coubesse cuidar dos rebanhos bí­ então, como dizia, a arte do cuidado
pedes, tê-la por certa e desde logo dizer para com os homens em duas, aten­
que essa arte é a do rei e a do político? dendo a que este cuidado seja imposto
SÓ C R A T E S , O JOVEM pela força ou aceito de boa vontade.
— E então? SÓ C R A T E S , O JO VE M
— Perfeitamente.
E S T R A N G E IR O
— O que devemos, primeiramente, E S T R A N G E IR O
* é precisar-lhe o nome, aproximando-o — Poderemos, então, quando ela se
exerce pela força, chamá-la tirânica, e
mais da idéia de um cuidado geral do
quando seus préstimos, livremente ofe­
que da idéia de um cuidado pela
recidos, são livremente aceitos pelo
alimentação, e a partir daí, dividi-la,
rebanho de bípedes, chamá-la política;
pois ela mesma será ainda suscetível
afirmando, desde já, que quem exercer
de divisões que não podem ser negli­
esta arte e tiver a si estes cuidados
genciadas.
será, verdadeiramente, um Rei e um
SÓ C R A T E S , O JO VEM
Político?
— Quais?
SÓC R A T E S , O JO VE M m a
E S T R A N G E IR O — E assim fazendo, Estrangeiro,
— A primeira divisão nos levará a
creio havermos terminado a nossa
distinguir o pastor divino, do admi­
demonstração, relativamente ao Políti­
nistrador humano.
co.
SÓ C R A T E S , O JO VEM
E S T R A N G E IR O
— Muito bem.
— Seria esplêndido, Sócrates.
E S T R A N G E IR O M as não basta a tua convicção, ape­
— Depois, havendo assim determi­ nas; é preciso que tu e eu, em comum,
nado esta arte de cuidar, devemos divi­ a tenhamos. Ora, a meu ver, a nossa
di-la novamente em duas partes. descrição do Rei ainda não está termi­
SÓ C R A T E S , O JO VE M nada. A o contrário: tal como esculto­
— Com o? res que, algumas vezes, trabalhando
E S T R A N G E IR O apressadamente e havendo exagerado
— Distinguindo entre o que é im­ várias partes de sua obra, perdem
posto pela força e o que é aceito de boa tempo, depois, em corrigi-las, retar- *
vontade. dando o que lhes cabe fazer, da mesma
232 PLATÃO

forma nós, procurando corrigir, sem minado, mas ao qual, entretanto, falta
demora, e de maneira grandiosa o erro o relevo que lhe será dado pela pintura
cometido em nossa exposição anterior, e pela harmonia de cores. E o que me­
acreditamos que para o Rei só eram lhor nos convém não é o desenho, nem
dignos os modelos de alta grandeza; e uma representação manual qualquer;
assim tomamos uma parte enorme de são as palavras e o discurso; pois que
uma lenda da qual nos servimos mais se trata de expor um assunto vivo a
do que seria necessário, alongamo-nos espíritos capazes de segui-lo. Para
na demonstração sem havermos, afi­ outros, seria necessária uma represen­
nal, chegado ao fim de nosso mito. A o tação material.
contrário do que te parece, o nosso dis­ SÓ C R A T E S , O JO VEM
curso se assemelha a um quadro muito — É certo. M as é preciso mostrar
bem desenhado em suas linhas exterio­ então o que, segundo crês, falta em
res, de sorte a dar a impressão de ter­ nossa exposição.

Definição e uso do paradigma

E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Seria difícil, meu caro amigo, — Sim, falarei, pois vejo que estás
tratar satisfatoriamente um assunto pronto a seguir-me. Nós sabemos,
importante sem recorrer a paradigmas. creio, que as crianças, logo que come­
Poderíamos quase dizer que cada um çam a aprender a escrita. . .
de nós conhece todas as coisas como
SÓ C R A T E S , O JOVEM
sonho, mas que, à luz do despertar, se — Que vais dizer?
apercebe de nada saber.
E S T R A N G E IR O
SÓ C R A T E S , O JO VE M — Que elas distinguem suficiente­
— Que queres dizer?
mente bem as várias letras, nas sílabas
E S T R A N G E IR O
mais curtas e mais fáceis, e são capa­
— Parece-me ser uma descoberta
zes de, a esse respeito, dar respostas
curiosa que me leva a falar em que
exatas.
consiste, em nós, a ciência.
SÓ C R A T E S , O JO VE M SÓ C R A T E S , O JO VEM
— Em quê? — Sem dúvida.

E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Precisarei, meu caro, de um — Entretanto, já não as distinguem
outro paradigma para explicar o meu. em outras sílabas, e pensam e falam
SÓ C R A T E S , O JO VE M erradamente a seu respeito.
— Pois bem, fala. Não há razão SÓ C R A T E S , O JOVEM
para hesitares ao falar comigo. — É certo.
POLÍTICO 233

E S T R A N G E IR O dade com relação a cada elemento de


— Pois bem-, o melhor método, o certos compostos; outras vezes errante
mais fácil e o mais seguro para levá-las em seus julgamentos sobre todos os
aos conhecimentos que ainda não pos­ elementos de outros; e a respeito de
suem, não seria. . . uns ou de outros elementos destas
S Ó C R A T E S , O JO VE M combinações, capaz, às vezes, de en­
— Qual? contrar a opinião certa mas incapaz de
E S T R A N G E IR O reconhecê-los quando transportados
— Mostrar-lhes primeiramente os para algumas destas sílabas do real,
grupos em que interpretaram essas le­ complexas e difíceis.
tras corretamente e depois colocá-las SÓ C R A T E S , O JO VE M
b. frente aos grupos que ainda não conhe­ — N ão, nada há que admirar.
cem, fazendo-as comparar uns com os E S T R A N G E IR O
outros a fim de ver o que há de igual — Por que meios poderá, meu
em ambas estas combinações; até que caro, quem parte de uma opinião falsa
à força de mostrar-lhes, ao lado dos alcançar alguma porção da verdade e «
grupos que as confundem, aqueles que chegar à sabedoria?
interpretam com exatidão, estes assim SÓ C R A T E S , O JO VE M
mostrados paralelamente se tomam, — Por nenhum meio.
para elas, paradigmas que as auxilia­ E S T R A N G E IR O
rão, seja pela letra que for, e em qual­ — Se é assim, haverá mal em que
quer sílaba, a soletrar diferentemente o tu e eu, após este esforço para ver num
c que for diverso, e sempre de uma pequeno paradigma particular o que é
mesma e invariável maneira, o que for o paradigma em geral, procuremos
idêntico. agora elevar à sua mais alta forma, à
SÓ C R A T E S , O JO VEM sua forma real, este mesmo processo
— Perfeitamente. que ensaiamos a propósito de peque­
E S T R A N G E IR O nos objetos, tentando, por um novo
— Vê, pois, se não é verdade, e bem uso do paradigma, explicar-nos meto­
compreensível: constitui um para­ dicamente em que consiste o cuidado
digma o fato de, ao encontrar-se um para com as coisas da cidade, e assim
mesmo elemento em um grupo novo e passar do sonho à vigília?
bem distinto, aí interpretá-lo exata­ SÓ C R A T E S , O JO VE M
mente e, uma vez identificado nos dois — Seria perfeitamente legítimo.
grupos, permitir que ambos se incluam E S T R A N G E IR O 2
numa noção única e verdadeira. — Retomemos então o raciocínio
SÓ C R A T E S , O JO VE M de há pouco: milhares de rivais dispu­
— É o que parece. tam ao gênero real a honra dos cuida­
E S T R A N G E IR O dos que ele dispensa às cidades; para
— Haveria então de que se admirar bem isolá-los é preciso, naturalmente,
d ao saber que a nossa alma está sujeita separá-los; e para tanto é que dissemos
às mesmas vicissitudes no que se refere ser necessário um paradigma.
aos elementos de todas as coisas? S Ó C R A T E S , O JOVEM
Umas vezes solidamente segura da ver­ — Exatamente.
234 PLATÃO

O paradigma da tecedura

E S T R A N G E IR O guerra, outras abrigos. D os abrigos,


— Que paradigma poderíamos uns são providências contra o frio e o
tomar, o qual, embora curto, pela sua calor, e dentre estes há os telhados e os
analogia com as operações da política tecidos. O s tecidos, por sua vez, ou ser­
nos permitisse encontrar, por compa­ vem como cobertas ou como vestimen­
ração, o objeto que procuramos? Con- tas, e estas se compõem de uma ou de
b cordas, por Zeus, meu caro Sócrates, várias peças. A s vestimentas de várias
que na falta de melhor, tomemos a peças são costuradas ou não, e dentre
tecedura por exemplo? Se assim con­ as que não são costuradas umas são «
cordas, tomemos não toda e qualquer feitas de fibras de plantas e outras de
tecedura, mas somente a de lã: pode pelos. D as que são feitas de pêlo, umas
ser que somente ela baste para teste­ são ligadas com água e terra, e noutras
munhar o que nós procuramos. os próprios pelos se entrelaçam. Ora, a
SÓ C R A T E S, O JO VE M estes meios de defesa, e a estes tecidos
— Por que não? feitos de pelos que se ligam uns com os
E S T R A N G E IR O outros é que se deu o nome de vesti­
— E por que, tendo até aqui distin- mentas. Pois que demos o nome de
guido as diferentes partes para, a política à arte que se ocupa da pólis, m *
seguir, dividi-las, não procedemos daremos, da mesma forma a esta nova
agora da mesma forma relativamente à arte que se ocupa especialmente das
c tecedura? E por que não havemos de vestimentas, atendendo ao seu objeto,
tentar conhecê-la numa visão rápida, o nome de arte vestimentária. Não
para voltarmos logo ao que nos é útil poderemos dizer, então, que a tecedu­
no momento? ra, na medida em que ela é a parte
S Ó C R A T E S, O JO VEM mais importante na confecção da vesti­
— Que queres dizer? menta, em nada se distingue da arte
E S T R A N G E IR O vestimentária, a não ser pelo nome, da
— À medida que assim fizer, res­ mesma forma como a arte real só dife­
ponderei à tua pergunta. re em nome da arte política?
SÓ C R A T E S , O JO VE M S Ó C R A T E S , O JO VEM
— Disseste bem. — Sim, seria perfeitamente justo.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Pois bem, tudo o que fazemos — Isso dito, lembremos que a arte
ou adquirimos nos serve ou como meio de tecer as vestimentas poderia parecer b
para alguma ação ou para prevenir-nos suficientemente explicada nessa expo­
de algum sofrimento. D o que nos pre- sição se não refletíssimos o bastante
i vine, há os antídotos divinos ou huma­ para ver que ainda não a distinguimos
nos, e há os meios de defesas. Dentre de artes muito próximas, que apenas
estas defesas, umas são armaduras de lhe são auxiliares, e muito embora já a
POLÍTICO 235

tenhamos separado de outras da tos, só deixando assim a arte que nos


mesma família. interessa, a que nos preserva do frio do
SÓ C R A T E S , O JO VE M inverno, fabricando-nos as defesas de
— A que outras te referes? lã, e que tem o nome de tecedura.
E S T R A N G E IR O S Ó C R A T E S, O JO VE M
— Não acompanhaste minhas pa­ — De fato é o que parece.
lavras, ao que parece; teremos, pois, de E S T R A N G E IR O
voltar recomeçando pelo fim. Se algu­ — M as, caro jovem, ainda não che­
ma coisa compreendes com relação a gamos ao fim de nossa enumeração,
parentesco, lembra-te de que há pouco pois ao iniciar a fabricação de vesti­
pusemos de lado a fabricação de mentas fazemos o contrário de tecer. w «
cobertas distinguindo entre o que serve SÓ C R A T E S , O JO VEM
de vestimenta e o que serve de manta. — Com o assim?
SÓ C R A T E S , O JO VE M E S T R A N G E IR O
— Entendo. — Tecer, afinal, consiste em entre­
E S T R A N G E IR O laçar.
— E o que se faz com o linho, o SÓ C R A T E S , O JO VEM
esparto e com tudo o que acabamos de — É certo.
chamar, por analogia, nervos das plan­ E S T R A N G E IR O
tas, eis uma fabricação que descar­ — Falamos agora, precisamente,
tamos inteiramente; também separa­ em separar o que estava unido e
mos a arte de piscar, e a de unir trançado.
furando e costurando, que tem como SÓ C R A T E S , O JO VEM
parte maior a cordoaria. — De que falas?
S Ó C R A T E S , O JO VE M E S T R A N G E IR O
— Perfeitamente. — D o que faz a arte do cordador;
E S T R A N G E IR O ou poderíamos dizer que tecer é cardar
— Depois afastamos a peleria, que, e que o cardador é, na verdade, um
pela curtidura, nos dá uma só peça; tecelão?
assim como a fabricação de telhados, SÓ C R A T E S , O JO VEM
quer para a construção, ou quer, em — Nunca.
outras artes, para defender das águas E S T R A N G E IR O
correntes; e ainda todas as artes que — O mesmo acontece com a arte
i permitem os diferentes engenhos de de fabricar urdiduras e tramas; cha-
cercamento para proteger-nos contra má-la de tecedura seria faltar à verda­
roubos e atos de violência, e as que de e à verossimilhança. b
dirigem a feitura de tampas e a coloca­ SÓ C R A T E S , O JO VE M
ção de portas e que são as partes espe­ — Sem dúvida.
ciais da carpintaria. Afastamos tam­ E S T R A N G E IR O
bém a fabricação de armas que é — E que dizemos da arte do pi-
apenas uma divisão da indústria gran­ soeiro em todas as suas formas e a do
de e complexa dos meios de defesa. E remendão; não terão nada a ver com a
* de início já eliminamos toda a parte da feitura das vestimentas ou dizemos que
magia, que tem por objeto os antído­ se trata sempre da tecedura?
236 PLATÃO

S Ó C R A T E S , O JO VE M suficientemente determinada se, dentre


— De nenhum modo. todas as técnicas relativas às vesti­
mentas de lã, nós a definirmos como a
E S T R A N G E IR O
— Entretanto, todas estas artes dis­ mais nobre e a mais importante? Ou
putarão com a arte da tecedura este ao contrário, estaríamos dizendo então
privilégio de cuidar e fabricar as vesti­ algo de verdadeiro, mas que nada
mentas, e, embora lhe concedam maior esclarece nem nada conclui, enquanto
importância, reivindicarão para si uma não houvéssemos afastado todas estas
grande parte. artes rivais?
SÓ C R A T E S , O JO VE M
SÓÇ R A TE S , O JO VE M
— Tens razão.
— Certamente.
E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O — E não será este o momento para
— Segundo elas, as artes que fabri­ assim fazer, se quisermos que a nossa
cam os instrumentos, com os quais se
dissertação prossiga ordenadamente?
exerce a tecedura, hão de pretender,
SÓ C R A T E S , O JO VE M
creia-se, serem, pelo menos, causas — Não há por que hesitar.
auxiliares de cada tecido fabricado.
E S T R A N G E IR O
S Ó C R A T E S, O JO VEM — Consideremos, pois, em pri­
— É certo. meiro lugar, que tudo aquilo que se
E S T R A N G E IR O produz é objeto de duas artes.
— A noção de tecedura, desta parte SÓ C R A T E S , O JO VE M
da tecedura que escolhemos, estará — Quais?

Causas próprias e causas auxiliares.

E S T R A N G E IR O cução são apenas causas auxiliares; ao


— Um é causa simplesmente auxi­ passo que as que a produzem são cau­
liar da produção, outro a sua própria sas próprias.
causa. SÓ C R A T E S , O JO VEM
SÓ C R A T E S, O JO VE M — A distinção é bem fundamen­
— Com o? tada.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Todas as artes que não produ­ — Por conseguinte, àquelas que
zem a coisa propriamente mas que for­ fornecem os fusos, as lançadeiras e os
necem àquelas que a produzem os demais instrumentos necessários à pro­
instrumentos indispensáveis à sua exe­ dução da vestimenta, nós chama-
POLÍTICO 237

riamos auxiliares, enquanto as demais, cluem-se a cardadura e todas as opera­


que a executam e fabricam direta­ ções de que falamos, pois o trabalho
mente, seriam suas causas. que separa as lãs ou os fios e que se
S Ó C R A T E S , O JO VE M executa aqui com a lançadeira, lá com
— Justamente. as mãos, tem todos os nomes que aca­
E S T R A N G E IR O bamos de enunciar.
— Ora, com relação a essas artes- SÓ C R A T E S , O JO VEM
causas, a arte de lavar e de remendar, e — Perfeitamente.
os demais cuidados relativos à vesti­ E S T R A N G E IR O
menta, sendo tão vasto o domínio de — Observemos agora outra parte
sua preparação, poderemos reuni-los que pertence também ao trabalho da lã
num todo que constituirá uma parte e e que é a arte de unir, deixando de lado
que se chamará, de modo geral, a arte a arte de separar que aí havíamos
do pisoeiro. encontrado, dividindo, assim, o traba­
SÓ C R A T E S , O JO VE M lho da lã em suas duas partes: aquela
— Muito bem. em que se separa e aquela em que se
E S T R A N G E IR O reúne.
— M as a arte de cardar, tecer e SÓ C R A T E S , O JO VE M
todas as operações relacionadas com — Façamos, pois, a divisão.
aquilo que chamamos a fabricação di­ E S T R A N G E IR O
reta da vestimenta formam uma arte — Agora, esta parte que une, com­
única, universalmente conhecida: a preendida no trabalho da lã, deve ser
arte de trabalhar a lã. dividida por sua vez, Sócrates, se qui­
SÓ C R A T E S , O JO VEM
sermos apreender perfeitamente a cha­
— Sem dúvida. mada arte da tecedura.
E S T R A N G E IR O SÓ C R A T E S , O JO VE M
— Ora, nesse trabalho da lã há — Sim, devemos dividi-la.
duas divisões, cada uma das quais é E S T R A N G E IR O
constituída pela reunião de duas artes. — Diríamos que sua finalidade é
S Ó C R A T E S , O JOVEM ou torcer ou entrelaçar.
— Com o? SÓ C R A T E S , O JO VE M
E S T R A N G E IR O — Terei compreendido bem? Pois
— A cardadura, a metade do traba­ a meu ver, é na confecção do fio da
lho que executa a lançadeira, e todas urdidura que pensas, ao falares em
as operações cujo fim é separar o que torção.
estava embaraçado, tudo isto tomado E S T R A N G E IR O
em conjunto constitui verdadeiramente — Não apenas no fio da urdidura
o trabalho da lã, e nós sempre distin- mas também no da trama. Ou haveria
guimos universalmente duas grandes um meio de produção sem torcê-lo?
artes: a arte de unir e a arte de separar. SÓ C R A T E S , O JO VE M
SÓ C R A T E S , O JO VEM — Nenhum.
— Sim. E S T R A N G E IR O
E S T R A N G E IR O — Analisa, pois, pormenoriza­
— Ora, na arte de separar in­ damente cada uma dessas operações:
238 PLATÃO

talvez essa distinção te seja lição mamos fios da trama e dizemos que a
oportuna. arte que preside sua colocação tem por
finalidade a fabricação da trama.
S Ó C R A T E S, O JO VE M
SÓ C R A T E S , O JO VEM
— Com o fazê-lo?
— Muito bem.
E S T R A N G E IR O
— D o seguinte modo: entre os pro­ E S T R A N G E IR O
dutos da cardadura, existe um que pos­ — Eis, pois, a parte da tecedura
sui comprimento e largura, a que cha­ que nos interessava, perfeitamente
mamos roca? compreensível daqui por diante. Quan­
do a operação de reunião, que é a parte
SÓ C R A T E S , O JO VE M
do trabalho da lã, entrelaçou a urdi­
— Sim.
dura e a trama, de maneira a formar
E S T R A N G E IR O
um tecido, damos, ao conjunto do teci­
— Muito bem, pela fiação rotativa
do, o nome de vestimenta de lã, e, à
no fuso, que a transforma num sólido
arte que o produz, o nome de tecedura.
fio, obteremos o fio da urdidura e a
arte que dirige esta operação é a arte SÓ C R A T E S , O JO VE M
— Muito bem.
de fabricar urdidura.
E S T R A N G E IR O
S Ó C R A T E S, O JO VE M — Bem, mas então por que não
— Correto. dizer logo: “ A tecedura é a arte de
E S T R A N G E IR O entrelaçar a urdidura e a trama” em
— M as todas as fibras que produ­ lugar de fazer tantos rodeios e um
zem apenas fios frouxos e que possuem acervo de distinções inúteis?
justamente a flexibilidade necessária SÓ C R A T E S , O JO VE M
para se entrelaçarem na urdidura e — A meu ver, Estrangeiro,nada há
resistirem às trações da tecedura, cha­ de inútil no que dissemos.

A medida relativa e ajusta medida

E S T R A N G E IR O S Ó C R A T E S , O JOVEM
— Não me admira o que respon- — Explica-te melhor.
E S T R A N G E IR O
deste; mas, caro amigo, o que dissemos
— Examinemos primeiramente, de
poderia, a outros, parecer inútil, e
maneira geral, o excesso e a falta; e
sendo bem possível que esse mesmo assim teremos uma regra para elogiar
mal te acontecesse, mais tarde — o ou censurar, nó momento próprio, o
que bem pode suceder — ouve estas que parecer demasiado ou o que for
considerações que convêm a todas as muito pouco, nas conversas que man­
questões deste gênero. temos.
POLÍTICO 239

SÓ C R A T E S , O JO VE M __ S Ó C R A T E S, O JO VEM
— Examinemos, então. — Aparentemente.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— Ora, penso que é exatamente a — Eis-nos, pois, forçados a admi­
essas coisas que deveríamos aplicar as tir, para o grande e para o pequeno,
considerações que faço. dois modos de existência e dois pa­
SÓ C R A T E S , O JO VE M drões: não nos podemos ater, como
— A que coisas? fazíamos há pouco, à sua relação recí­
E S T R A N G E IR O proca, mas sim distinguir, como o
— À grandeza e à pequenez, a tudo fazemos agora, de um lado, sua rela­
d que constitui excesso ou falta; pois ção recíproca e, de outro, a relação de
acredito que é a isso tudo que se aplica ambos com a justa medida. Não nos
a arte da medida. seria interessante saber a razão disso?
SÓ C R A T E S , O JO VEM SÓ C R A T E S , O JO VE M
— Sim. — Certamente.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O 284 a
— Dividamos, pois, essa arte em — Negar à natureza do maior,
duas partes: tal divisão é necessária ao qualquer relação que não seja com a
propósito que nos domina. natureza do menor, não será excluí-lo
de toda relação com ajusta medida?
SÓ C R A T E S , O JOVEM
— Explica-me em que ela se funda­ S Ó C R A T E S, O JO VE M
— Sim.
mentará.
E S T R A N G E IR O E S T R A N G E IR O
— No seguinte: de um lado, na — Não iríamos destruir, com tal
relação que possuem entre si a gran­ pretensão, as artes e tudo o que elas
deza e a pequenez; de outro, nas neces­ produzem, e abolir, por out