CAIO PRADO JR.

Fernando Novais
ito ou realidade, a chamada "Revolução de 30" parece ter indiscutivelmente estimulado entre nós as atividades intelectuais, particularmente voltadas para a interpretação do país; "nunca se falou tanto em realidade brasileira como nessa época — cada um, claro está, vendo-a de maneira diferente."1 Do volumoso caudal de publicações de então, contudo, poucas resistiram à corrosão definitiva do tempo, que vai separando impiedosamente o joio do trigo. Dentre essas poucas, que ainda hoje mantêm sua vitalidade, Evolução política do Brasil (1933) talvez não tenha, quando de seu lançamento, despertado o interesse que depois viria a consolidar.2 Hoje, quando pensamos nas grandes "interpretações" surgidas naquele contexto, é sobretudo para três obras que nos voltamos: além do livro de Caio Prado Jr., Casa Grande & Senzala (1933) de Gilberto Freyre e Raízes do Brasil (1936) de Sérgio Buarque de Holanda. De lá para cá, os três autores enriqueceram enormemente nossa brasiliana, por caminhos diversos e às vezes opostos, mas vale lembrar aquele ponto de partida: aparecem no bojo do que porventura se possa chamar a "geração de 30", nos quadros de nossa história intelectual. ixado esse patamar, convém esclarecer objetivos e limitações, antes de avançar o passo. Efetivamente, o título acima não é uma manifestação da modéstia; antes, pretende ser um exercício de pre66 cisão. Caio Prado J r . , ainda que, quanto

a nós, seja sempre e antes de tudo historiador, cultivou também a filosofia, a economia e o ensaio político. Aqui cuidaremos exclusivamente de sua obra historiográfica, não nos aventurando pelas sendas filosóficas nem mesmo quando tratarmos de problemas metodológicos, quer dizer, esses problemas serão vistos tal como aparecem na prática do historiador, e não nas formulações do filósofo. O mesmo para a teoria econômica, por mais que estejam interpenetradas na obra. Dada a postura metodológica do autor — Caio Prado Jr. é marxista explícito — essa fusão é absolutamente natural, e necessária, pois as fronteiras entre as ciências tendem a se diluir. Não significa isso que deixem de existir especializações e formações profissionais, nem que trabalhos centrados numa ou noutra direção careçam de validade; significa, sim, que devem ser vistos como partes de um conjunto mais amplo e integrado, etapas de um roteiro mais longo a ser percorrido. O que tentaremos é traçar o perfil de sua obra de historiador, enfatizando o que nos pareça mais relevante em contribuições, indicando a leitura que nos pareça mais fiel e compreensiva; não deixaremos, é claro, de discutir e questionar alguns pontos, e avançar observações preliminares para situá-lo na historiografia e na cultura brasileira. Não trataremos, porém, da coerência do conjunto da obra (história, filosofia, economia). Pensamos que essa caracterização inicial seja uma etapa im-

1

Wilson Martins. História da Inteligência brasileira (São
Paulo. 1979), vol. V I I . p. 1.

2

Em seu minucioso levantam ento das public aç ões , W. Martins não menciona Evo-

lução política no contexto de 5 0 , ref erind o -se d ep o is às suas reedições.

NOVOS ESTUDOS N.º 2

Pertencente ao tronco de uma das mais típicas famílias da elite aristocratizante de São Paulo. 1979). à linha de interpretação.ª ed. 1977. escapar do esquementismo em que tantas vezes sossobram os intelectuais marxistas. São Paulo. No primeiro caso.portante para uma avaliação mais definitiva e global. 1957 (5. 1954. 1968 ( 3 . ª ed. especialm ente p p . Notícia de vária história. aos temas abordados. evidentemente. para ele. assim. e História econômica do Brasil (1945). São Paulo. ainda assim. Rio de Janeiro. Iniciada. marcando a coerência que atravessa toda a obra... a ser acrescido aos já analisados por Míchael Lowy. numa viagem pelo interior de Santa Catarina. Estruturalismo de Levi-Strauss. 1952 (6. um processo) e elencar as obras de vários autores a ele referentes. fixar um autor. uma análise das condições sociais da produção historiográfica de Caio Prado Jr. 4 Cf. 1980). 1935). 1983). o declínio de uma elite aristocratizante — declínio enquanto estilo aristocratizante de vida — parece ter o condão de estimular o espírito crítico. sabemos que as limitações indicadas impõem provisoriedade a conclusões. 6 e este parece ser o caso do clã Silva Prado. 1982. efetivamente. desde muito jovem tornou-se militante comunista e pensador marxista.7 Trata-se de merecido êxito intelectual. posições: nesse retornar quase obsessivo a certos pontos parece expressar-se a reafirmação daquelas opções ou rupturas. Percurso de vida e andamento do discurso relacionam-se. 1946 (12.ª ed. introdução e seleção de textos por F. 3 Cf. não apenas de uma facção de classe dominante. 1959. no caso de Caio Prado Jr. a recorrência e insistência em certos temas. 1967). coordenada por Florestan Fernandes. 5 mais do que isso. o engajamento como intelectual orgânico do mundo do trabalho. circunscrita. por outro lado.ª ed. retomando-se depois com A Revolução brasileira (1966) e História e Desenvolvimento (1968). 1934 (2. A família Prado. Bibliografia de Caio Prado Jr. de grande interesse. Francisco Iglésias. as opções mais fundas. pp. contamos com o sugestivo esboço biográfico de Francisco Iglésias. E reaparecem as dificuldades: a biografia é um dos mais difíceis gêneros de história. se permitem um certo equacionamento. fixar um tema (um evento. Coleção "Grandes Cientistas Sociais". Michael Lowy. não JULHO DE 1983 terá significado o desdobramento natural da radicalização do intelectual de classe média. o caso de Caio Prado Jr.ª ed. E mais uma vez. prossegue com Formação do Brasil Contemporâneo (1942). Ora. intelectual em atividade. ou. em amplo comentário. de história da história — são sempre inçados de dificuldades sem conta. essa ruptura de classe ainda pode ser vista de outro ângulo. IX a XV e 1 a 9. 92. 1959 (4. — que por serem a um tempo intelectuais e existenciais assumem a força de convicções extremas. pois os estudos de historiografia — isto é. As condições sociais. 1933. 1942 (17. 7 67 . Levi. ganhará relevo. por exemplo. Port.ª ed. como se pode acompanhar no livro do brasilianista D. 1980). São Paulo. ao mesmo tempo em que a obra dos historiadores através da história. como os senhores de engenho ou "barões" do café.. a tarefa não é. Iglésias. marxismo de Althusser. a condição de classe associa-se tanto à radicalização de suas posições como ao espírito crítico que lhe garante a independência de espírito. Quando do aparecimento de Formação do Brasil Contemporâneo (1942). Procura a historiografia conhecer melhor a história através da obra dos historiadores. em determinadas condições.ª ed. introdução a Caio Prado Júnior. Delimitada. como indicamos.: Evolução política do Brasil. Introdução à lógica dialética. mas de uma elite aristocratizante. Marxismo.ª ed. geógrafo. escrevia José Honório Rodrigues que "esse livro marca uma fase crítica na história de nossa história. Para uma sociologia dos intelectuais revolucionários. Dialética do conhecimento. 1966 (6. têm várias edições. O mundo do socialismo. com as observações anteriores. isto é. 1962 (3. Em seus pontos altos há consenso no reconhecimento de que se trata de um marco em nossa historiografia e nos estudos brasileiros em geral. URSS.ª ed. 1971. e ao estilo do discurso. mais ligados à configuração das obras. a ed. um novo mundo. É aí que radicam. Evolução política do Brasil e outros estudos. explicações. trad. pois fundada diretamente na atividade política. 7-47.3 por ali se percebe que esse percurso existencial se organiza em torno de dois eixos básicos: a militância política e a ruptura de classe que ela envolveu. apenas procuramos indicar alguns aspectos."8 E recentemente. no segundo. e acompanhar os temas por ele tratados. eis um fator de radicalização intelectual. 1945 (28. sua origem de classe. 8 José Honório Rodrigues. fácil. Neste jogo complexo. Mais ainda. implicava o rompimento com as raízes. que se configurou em certos momentos e em algumas regiões do Brasil. A "decadência". 1981). p. História econômica do Brasil.. 1979. nunca esgotam a compreensão de uma obra. A revolução brasileira. Diretrizes para uma política econômica brasileira. "Um historiador revolucionário". vários recortes são possíveis: pode-se. 1969). Esboço dos fundamentos da teoria econômica. A resenha saíra no suplemento literário de O Jornal. Dramática. problemas. iluminando-se mutuamente. a que se liga uma refinada e sólida formação intelectual. Formação do Brasil contemporâneo. em sentido inverso. 1978). Trata-se. 6 Chamou-me a atenção para a relação entre "declínio aristocrático" e espírito crítico a socióloga Maria Arminda Nascimento Arruda. em 1933. trad. que de certo modo permitiu a Caio Prado Jr. Darrel Levi. Sua produção intelectual configura a praxis-teórica em sentido pleno. 1979 (3. em que várias etapas têm de ser ultrapassadas. em seu movi- 5 Cf. que envolve sempre a marca pessoal do autor. Nem pretendemos. retornei o tema com Armem Mamigonian. Quase todos os livros de Caio Prado Jr.a ed. 1978). história. 4 Caio Prado Jr. a biografia do historiador contará menos. port. 1981). A questão agrária no Brasil. A partir de 1946 Evolução política do Brasil é reeditado com outros estudos. História e desenvolvimento. É.

seja incorporando elementos de sua exposição. portanto.º 2 . esse núcleo recorrente de concentração. São Paulo . e se desdobram por veredas laterais. ponto mais alto da obra historiográfica. oferece. dando-lhe inteligibilidade: daí. a nosso ver. portanto. etenhamo-nos. memórias. ou mesmo como manifestação de economicismo. o impacto da obra no conjunto. dispõe-se da categoria explicativa básica para a reconstrução da realidade. os temas visados. Não quero dizer que o livro não tenha sido compreendido. apreensão de seu sentido. E o seu travejamento dialético vai transparecendo: o sentido. esse texto. Nota-se que as considerações iniciais ("sentido"). Por isso. portanto. de simples recurso de ênfase. efetivamente. explica as suas manifestações. O primeiro funda-se mais na bibliografia antecedente. 28 . essa categoria que explica os vários segmentos (dálhes "sentido"). ao mesmo tempo em que por eles se explica. Carlos Guilherme Mota destaca que "com as interpretações de Caio Prado Jr. um corte num "momento decisivo" de nossa história. depois de indicar o tema (Introdução). É curioso notar que. baseiase essencialmente nas fontes coesas. assim. reconstrução do real a partir desse "sentido". isto é. O mais antigo (Evolução política. as categorias através das quais se procede à reconstrução da realidade. 1933) é um ensaio. começa a aparecer como um exemplo bem-sucedído na prática da dialética. São livros de índole inteiramente diversa. A estrutura analítica de Formação do Brasil Contemporâneo. da perseguição permanente à mesma problemática básica (a identidade nacional. embora o livro tenha sido saudado desde o início. percebe-se que.10 onde esses dois movimentos são claramente indicados. tornou-se "clássico". e os desdobramentos que se vão dispersando. Não se trata. as possibilidades de mudança inscritas no processo histórico). na constante recorrência ao ponto inicial. E isto nos remete para um outro traço. ou seja. de Florestan Fernandes. a análise dos vários segmentos vai eriquecendo e comprovando a categoria fundamental. E isto nos remete diretamente para o Marx do post-facio da Contribuição à crítica da economia política. cada um deles subdivididos em capítulos. É. mas que não se tomou como tema a discussão e o aprofundamento de sua linha de análise. Marx — Contribuição à critica da economia política." 9 Enquanto José Honório refere-se a Formação do Brasil Contemporâneo. NOVOS ESTUDOS N. Carlos Guilherme reporta-se a Evolução política do Brasil. nestes pontos centrais. K. 10 Cf. no conjunto e em cada obra. 68 Até certo ponto pode-se dizer que a sua utilização tem sido antes tópica. navegando nas grandes linhas. sendo por isso consideradas "chave" para a compreensão. desde logo. característico de seus trabalhos: eles se estruturam sempre em torno de um eixo básico. "Vida material" e "Vida Social". uma vez fixada a essência do fenômeno. Ideologia da cultura brasileira . São Paulo. seja aprofundando temas laterais por ele suscitados. voltam ao final de cada capítulo. em dois movimentos: da aparência para a essência. não se tenha destacado essa articulação mais geral que o caracteriza.. p . viajantes etc. a formulação da problemática. mas ambos de grande penetração. Há. e o livro de Caio Prado Jr. as classes emergem pela primeira vez nos horizontes de explicação da realidade social brasileira — enquanto categoria analítica. HISTORIADOR mentado balanço da cultura brasileira contemporânea. trad. o segundo sem ignorar a historiografia. 219-231. Uma indagação mais profunda revela o movimento do discurso: recorte do objeto. questionando-lhe as visões. isto é. o autor procura definir o que chamou de "sentido da colonização". À simples leitura. segue-se a análise dos vários setores da realidade histórica agrupados em três conjuntos: "Povoamento". Em certos casos. —correspondência de autoridades. o caminho mais seguro de acesso a esse núcleo mais decisivo de sua contribuição. à procura de seus procedimentos metodológicos. Formação do Brasil (1942) é uma pesquisa em profundidade. 1946. 1 9 7 7 . daí o juízo altamente positivo dos críticos. pp. entendê-lo como um exemplo de interpretação econômica da história. essa atitude empobreceu o aproveitamento da obra.CAIO PRADO JÚNIOR. e da essência para a realidade. a volta permanente ao ponto de partida. e ao mesmo tempo explica-se por elas. Recortado o objeto. — como tantas vezes tem ocorrido — parece uma leitura aca- 9 Carlos Guilherme Mota. E o fato de o autor desempenhar-se excelentemente nos dois estilos de trabalho já nos ajuda a compreender seu êxito intelectual. a essência do fenômeno. sempre muito sugestivas de novos caminhos de pesquisa. em suma. Trata-se. e venha sendo citado e estudado constantemente. e da sua retomada de vários ângulos e direções. a análise desdobra-se. — a Introdução — sempre citado.

"Brasil". e é dessa maneira que apreende o seu "sentido". é claro. e toda maneira. povoamento. no movimento de inserção no conjunto. que mesmo as obras mais penetrantes acabam por revelar. o que. identifica as categorias essenciais — parece de difícil formulação. a análise se deteve a meio caminho. na realidade aparente. parece legítimo inferir que a ordem da exposição pode ou não coincidir com os passos da análise. o caminho para explicitar essas conexões estruturais. posteriormente. embora centrada numa determinada região. integra a colonização (isto é. que não vai às últimas dimensões do texto. já estava presente em Evolução política (e. resolve apenas parcialmente o problema. Assim. A análise das formas de acumulação primitiva na gestação do capitalismo parece ser. Expansão comercial européia é a face mercantil de um processo mais profundo. temos que questionar este núcleo de sua análise. buscando permanentemente articular o particular e o geral. a dificuldade reaparece em toda sua força. e o estudo incidiu particularmente sobre o processo de emancipação. classes sociais etc. a análise. a formação do capitalismo moderno. não levando a análise até a linha do horizonte.. mas o movimento conjunto da análise. pois quando é o próprio "contexto mais amplo" que se questiona. Trata-se de definir com precisão o que deve ser inserido em que. como o que de melhor dispomos 69 . que algumas passagens menos felizes podem levar a essa visão. são os mesmos. não seguindo os passos da análise. e não será demais lembrar que o enfoque geral ali esboçado para a análise da independência como um processo mais abrangente resiste até hoje. pois guardam a mesma relação com a categoria explicativa. no clássico "sentido da colonização". "colonial" e "nacional" como as categorias que explicitam um determinado processo histórico específico. Mas. e não apenas seus aspectos laterais. a compreensão desse núcleo central parece-nos indispensável para compreender a obra nos seus desdobramentos. por outro lado. É por aí que se apreende sua extraordinária coerência. Diríamos mesmo que os segmentos (povoamento. é claro. é essa uma crítica que parte da análise de Caio Prado Jr. A segmentação aliás visa apenas a facilitar a exposição. economia. Isto. talvez se possa argüir que. Diga-se. para certo tipo de análise. Entre o sentido da colonização e o povoamento. Nesta linha. comércio.. no esforço por apreender a categoria básica. Se buscamos uma integração crítica da contribuição de Caio Prado Jr. a não ser enquanto colônia. Os pontos centrais da análise porém.: a questão é saber se não seria preciso o conjunto do mundo colonial. esse primeiro movimento consiste na inserção do fenômeno analisado num contexto mais amplo. e é da colônia portuguesa que trata Caio Prado Jr. e indagar as possibilidades de transformação inscritas nesse processo. vida social) poderiam ser descritos e analisados em qualquer seqüência. E aqui vamos nos aproximando das JULHO DE 1983 possíveis limitações.nhada. em História econômica). Não pretendemos discutir este problema. apenas anotar que. Já em Evolução política a problemática e as categorias básicas de análise estavam esboçadas. não existia. mas conexões de sentido. na obra que estamos analisando. e a incorpora. não é um ou outro trecho destacado que importa. sendo que se pode notar a interpenetração entre eles. e a questão consiste em saber se não seria preciso procurar as articulações da exploração colonial com esse processo de transição feudal-capitalista. insistimos. O que levaria à reformulação das unhas gerais. Caio Prado Jr. a nosso ver. isto é.. É o tipo de análise que permite ultrapassar a visão segmentária e economicista. Assim. Trata-se de compreender a nação a partir da colônia e por oposição a ela. envolvem problemas teóricos altamente complexos: sobretudo o "primeiro movimento". sociedade) de uma determinada área no contexto da expansão comercial européia. produção. seria sempre a análise do movimento em seu conjunto. Mas. ma outra questão liga-se a essas considerações: a mesma visão. que assimile seus avanços procurando ao mesmo tempo ultrapassá-los. isto é. e da própria visão do conjunto. contudo. o que existe não é relação causal. mas a exposição cronológica. insistimos. vida material. dificulta a compreensão do procedimento metodológico. e talvez o Brasil na expansão marítima européia seja um recorte que apanhe apenas algumas dimensões da realidade. em função da mesma problemática: a constituição da nação a partir da colônia. Esses passos. de passagem. Assim.

isto é. É essa última dimensão que se enfatiza em A Revolução brasileira (1965) e A questão agrária no Brasil (1979).CAIO PRADO JÚNIOR. no Nordeste. Ambos se ligam às classes dominantes. é criticando os esquemas da chamada economia política cepalina que o marxismo entre nós adquire força de interpretação. HISTORIADOR para o estudo do problema. pensa sempre o país pelas suas potencialidades. ultrapassando esquemas simplificadores. voltada para dentro. que começa a ser estudado entre nós) parece ser excepcional. caberia discutir o interior da "geração de 30". ao contrário.º 2 . para além da análise do processo histórico. Assim. alguns tratados por novos pesquisadores. Esta linha seria desenvolvida na História econômica. que acompanha a obra dos três. Esse caráter seminal é outra marca das grandes obras. a análise das características da economia colonial. Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo. v. mas a partir dela. dando início a estudos no capítulo que dedicou a essas lutas. Caio Prado Jr. nas suas obras. daquilo que deixou de ser. isto é. 2. Caio Prado Jr. esboçada no primeiro livro. de duas regiões que entretanto evoluem de forma divergente. ao contrário. no seu conjunto. na introdução à edição do Tamoio. de mais difícil assédio. analisa sempre o Brasil a partir de seu passado. Outros autores aprofundariam o estudo dessas rebeliões. Essas constatações importam para uma futura história do pensamento marxista na América Latina. um dos pontos mais altos do livro. Por todas essas obras. São Paulo. Gilberto Freyre talvez por isso. Por outro lado. Ela pode. tiveram razão os críticos ao considerá-la um marco em nossa história intelectual. das citações rituais características da ortodoxia estéril. E aqui sua posição (ao lado da de J. com que iniciamos estas notas. sua forma de articulação e desenvolvimento etc. Como que se recompõe de novo coerência da obra no conjunto. esta como um todo está em franca ascenção econômica. para uma avaliação crítica da obra historiográfica de Caio Prado Jr. na procura dessa identidade. pelo que ele pode vir a ser.. Sérgio Buarque. Se. Grande obra. a primeira é seguramente nostálgica. p. e é isto que vimos esboçando. Ele mesmo retomaria o tema. historiador pode 70 F ainda ser visto no quadro do marxismo latino-americano. assume no segundo seu pleno desenvolvimento. Talvez valha a pena meditar um pouco sobre o significado dessa avaliação. inalmente. ou no estudo sobre Cipriano Barata. A discriminação de seus setores. o autor foi semeando pistas e sugerindo temas. Aqui. e Gilberto Freyre formam um curioso contraponto. Mas Caio Prado Jr. ou noutros termos. 2. Caio Prado Jr. se transita para as potencialidades nele inscritas. obviamente. Mariátegui. altamente sugestivos. com essas notas preliminares. Neste sentido. Novos Estudos Cebrap. centrada no mercado interno. Basta lembrar a ausência. escrevendo suas principais obras no período anterior a essa renovação. três ângulos de análise se abrem. Durante muito tempo o que caracterizou o marxismo latino-americano foi um extremado esquematismo: a renovação. a decadência econômica faz declinar inexoravelmente o peso de suas elites no conjunto da nação. Pois quando dizemos que uma obra é um "marco" convém explicar em que "série". ser vista no quadro da historiografia brasileira. Não pode haver dúvida quanto ao seu significado preeminente nesse campo. formularam diferentes "interpretações". em São Paulo. permitiram caminhar para a configuração do que seria a economia nacional. tem as características do segundo período. caminhando-se no sentido da atuação política efetiva. à espera dos estudiosos. E isso levaria à comparação com as obras de Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda. os quais. Fernando Novais é historiador e professor da Faculdade de Filosofia. Caio Prado Jr. não somente pela contribuição efetiva como pela fermentação que vem provocando. outros ainda não abordados. insistiu na importância de levar o processo até as lutas da regência. parece ligar-se à crítica do pensamento cepalino. (como Mariátegui). isto é. — em processo de constituição. 66-70. pode-se pensar num declínio de estilo aristocratizante de uma elite da camada dominante. Se esta visão talvez possa considerar-se utópica. C. Inserido no contexto da formação do estado nacional. formula mais explicitamente a questão da identidade nacional. 83 NOVOS ESTUDOS N. jul. e retomada em Diretrizes para uma política econômica (1954). em curso.. a emancipação política ganhou sentido e ultrapassou a visão dos lances mais pitorescos ou mesmo dramáticos.