Você está na página 1de 288

Cartografia Imaginária

da Tríplice Fronteira
a c l í n i c a c o m o Ac o n t e c i m e n t o

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 1 29/04/14 18:58


Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 2 29/04/14 18:58
D i a n a A r a u j o P e r e i r a ( o RG. )

Cartografia Imaginária
da Tríplice Fronteira
a c l í n i c a c o m o Ac o n t e c i m e n t o

universitário

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 3 29/04/14 18:58


dobra EDITORIAL
Editor Reynaldo Damazio
Consel ho Ed itorial Adolfo Montejo Navas, Carlos Felipe Moisés,
Edison Carmagnani Filho, Eduardo Sterzi,
Frederico Barbosa, Tarso de Melo
COMERCIAL Paula Amorim
Inte rne t Ricardo Botelho
con tato Rua Araújo, 154 • 2° andar • Centro • São Paulo • SP
CEP 01220-020
www.dobraeditorial.com.br
imagem da capa Nuvens nos olhos, de Fran Rebelatto
© Dobra Editorial 2014 Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou
armazenada, por quaisquer meios, sem a autorização
prévia e por escrito da editora e do autor.
APOIO Programa de educação tutorial

Ministério da educação – MEC


SECRETARIA DE EDUCAÇÃO SUPERIOR – SESU

Pereira, Diana Araujo


Cartografia Imaginária da Tríplice Fronteira / Diana
Araujo Pereira (org.). – São Paulo: Dobra Editorial, 2014
288 p.; 14x21 cm
ISBN 978-85-8282-020-9
1. Ensaios 2. Literatura 3. Arte 4. América Latina I. Título
CDD B869.4

Índice para catálogo sistemático


I. Ensaio : Literatura latino-americana : Crítica

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 4 29/04/14 18:58


Sumário

APRESENTAÇÃO..........................................................................................................7

Imaginários da Tríplice Fronteira

Paraguay y sus fronteras. Apuntes sobre culturas en movimiento


en territorios que se reconfiguran ......................................................................... 13
Aníbal Orué Pozzo

Definiendo fronteras culturales: narrativas de experiencias entre


inmigrantes árabes en la Triple Frontera............................................................ 31
Silvia Montenegro

La construcción del imaginario geopolítico de la Triple Frontera............. 49


Antonino Zunino, Danilo Ferreira e Carla Orihuela

Metáforas da Tríplice Fronteira............................................................................... 93


Vanessa Cristhina Zorek Daniel

Narrativas de identidades: a linguagem como lugar de (in)visibilização.......117


Maria Elena Pires Santos

Geopoética Trifronteiriça

Um bestiário digital narrado em portuñol selvagem: as breves narrativas


transculturais de Bichos Paraguaios.....................................................................141
Anselmo Peres Alós

Notas para representarse/Decires en frontera.................................................167


Damián Cabrera

Leitura imaginária da Tríplice Fronteira............................................................181


Diana Araujo Pereira

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 5 29/04/14 18:58


Antologia Literária – Poéticas da fronteira.......................................................201
Fávio Bargas, Erick Cavalcante, Gilberto Carlos Macedo, Douglas Diegues, Pedro
Granados, Nilton Bobato, Marcelo Moreyra e Carlos Aguasaco

Cultura em movimento – Entrevista a Silvio Campana ...............................225


Juliana Zacarias e Diana Araujo Pereira

Outras fronteiras

Frontera Norte: ¿todo puede suceder?...............................................................235


Raquel Mosqueda Rivera

Cuentos pintados del Perú: memorias, imágenes y lenguas del ande ..... 265
Rosaura Andazabal Cayllahua

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 6 29/04/14 18:58


A p r e s e n t a çã o

A região sobre a qual se debruça este livro (anteriormente de-


nominada de trinacional), formada pelas cidades de Foz do Iguaçu,
Puerto Iguazu e Ciudad del Este, na fronteira entre Brasil, Argentina
e Paraguai, depois dos atentados de 11 de setembro de 2001 foi reba-
tizada pela imprensa norte-americana, passando a ser denominada
como Tríplice Fronteira. Uma construção que, através do discurso
midiático, associava – e ainda associa – este lugar ao narcotráfico e
ao terrorismo. No entanto, por trás desta imagem discursivamente
construída, há uma região que se constitui como laboratório inter-
cultural, e que reivindica para a fronteira trinacional outra imagem,
contra hegemônica, associada as suas riquezas naturais e culturais.
A construção deste território em disputa pelos novos interesses
geopolíticos do continente se dá na arena midiática, entre discursos e
imagens que negociam espaços no imaginário coletivo e que incidem
nos âmbitos políticos decisórios.
Nesta região de extrema diversidade sociocultural (sobretudo
étnica e linguística), se experimenta a fronteira como uma realida-
de cotidiana, cujo modus vivendi é muito mais amplo do que sua
dimensão meramente territorial. O contato com o “outro” se dá em
todos os aspectos, e a reflexão sobre a alteridade é uma condição de
sobrevivência para um “eu” já enormemente fragmentado por tantas
outras fronteiras pós-modernas. No contexto da Tríplice Fronteira,
somam-se elementos como a língua e a cultura guarani, o “portunhol
selvagem”, as fortes presenças árabe e asiática, o intenso comércio

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 7

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 7 29/04/14 18:58


em Ciudad del Este, o segundo destino turístico do Brasil, as fron-
dosas Cataratas do Iguaçu, a imponente Itaipu, a Conscienciologia,
etc... atores socioculturais que se imbricam em uma relação ambígua,
às vezes tensa e às vezes complementar, em uma região que abriga
todas as contradições da vida contemporânea, somadas as suas pró-
prias idiossincrasias, como é o caso da memória tão presente da guerra
da Tríplice Aliança (conhecida no Brasil como guerra do Paraguai).
De forma mais ampla, este livro pretende problematizar o conceito
de fronteira como construção geográfica que se sobrepõe a imaginários
e processos históricos compartilhados e que, por outro lado, impõe
restrições territoriais e identitárias voltadas ao Estado Nacional; propo-
mos outra abordagem da fronteira como lugar de passagem, trânsito e
circulação de mercadorias, seres, ideias, línguas e práticas sociais que
criam novas territorialidades, novas paisagens (Milton Santos), com
características próprias e particulares. O limite imaginário da fronteira
em contraposição à prática social articulatória que gera hibridações
em diversos âmbitos culturais.
Os textos reunidos na primeira parte do livro – Imaginários da
Tríplice Fronteira – refletem sobre a construção contemporânea deste
lugar a partir dos usos sociais e culturais dos seus espaços. Partem
do princípio de que a região se constrói – e reconstrói – através de
imagens e discursos gerados dentro e fora do seu território. Tais
representações criam uma cartografia imaginária na qual circulam
antigos e novos interesses geopolíticos, além de um imaginário cole-
tivo alimentado pelo trânsito do seu capital simbólico e da memória
histórica regional. Através da análise das distintas vozes que compõem
o cenário trifronteiriço (árabes, brasiguaios, membros da conscien-
ciologia, mídias hegemônicas e alternativas), elaboram uma espécie
de mosaico, no qual a diversidade das peças emprestam o colorido e
as formas inusitadas de um território em movimento.
Já o segundo bloco – Geopoética Trifronteiriça – parte da análise
de textos do poeta Douglas Diegues (certamente um dos mais em-
blemáticos da criativa porosidade linguística e cultural da região),
passando pelo híbrido capítulo (entre o ensaio e a prosa poética)
do também escritor Damián Cabrera, e pela análise do projeto e da

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 8 29/04/14 18:58


produção da UNILA Cartonera, para chegar a propor uma Antologia
Literária nascida da experiência de habitar este lugar, de apreendê-lo
e torná-lo “legível”; inclui, também, uma entrevista com o ativista cul-
tural Silvio Campana. Compõem a Antologia alguns textos publicados
pela UNILA Cartonera e colaborações de poetas que vivem a fronteira
como realidade cotidiana: Douglas Diegues, Pedro Granados, Nilton
Bobato, Marcelo Moreyra e, complementarmente, Carlos Aguasaco,
colombiano radicado nos Estados Unidos, que nos brinda um conto
nascido nesta outra fronteira linguístico-cultural que sempre nos
servirá de contraponto para nossa própria observação.
Ainda neste sentido, de estabelecer contrapontos que permitam
uma relação dialógica, isto é, procurando ampliar o espectro de re-
flexão do livro, foram incluídos dois capítulos que fogem da Tríplice
Fronteira e se voltam para outras importantes fronteiras culturais da
América Latina: a que une e separa o México dos Estados Unidos, e a
que une e separa a capital peruana, Lima, da serra andina. Fronteiras
que permeiam relações historicamente construídas entre culturas
diferentes que habitam o mesmo território; entre nações diferentes
ou entre regiões diversas de uma mesma nação.
Cartografia Imaginária da Tríplice Fronteira tem por objetivo
introduzir o leitor neste contexto que, se por um lado é de tensão
e conflitos, por outro é de extrema riqueza cultural e criatividade.
Os horizontes desta região trifonteiriça procuram acomodar a ex-
periência de habitar tempos e espaços que sonham com criar uma
nova territorialidade própria, híbrida, tão física quanto subjetiva
ou simbólica.
Esta publicação busca, portanto, contribuir para a reflexão sobre
as fronteiras – este espaço que oscila entre o âmbito territorial e o
simbólico, e que vem preocupando cada vez mais a crítica cultural
latino-americana. Pretendemos incluir a região trinacional neste amplo
debate que teve na fronteira entre o México e os Estados Unidos um
forte ponto de partida. A Tríplice Fronteira, com suas peculiaridades,
tem muito a acrescentar à reflexão sobre os “laboratórios” sociocultu-
rais da contemporaneidade. E assumimos sua (re)nomeação – Tríplice
Fronteira – para subvertê-la e reinventá-la.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 9

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 9 29/04/14 18:58


Com este livro encerramos o primeiro ciclo do projeto interdisci-
plinar Literatura e cultura como espaços de integração da universidade
no projeto latino-americano (2010-2013), financiado pelo Programa
de Educação Tutorial do MEC. Para tanto, conta com a colaboração
de bolsistas do programa e de pesquisadores de outras instituições
que, ao longo deste período, dialogaram com as atividades realiza-
das pelo grupo ou com os temas de interesse para a pesquisa que foi
levada a cabo.
Diana Araujo Pereira
Foz do Iguaçu, fevereiro de 2014.

10

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 10 29/04/14 18:58


Imaginários da Tríplice Fronteira

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 11 29/04/14 18:58


Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 12 29/04/14 18:58
Paraguay y sus fronteras
Apuntes sobre culturas en movimiento
en territorios que se reconfiguran
Aníbal Orué Pozzo1
(Universidad Nacional del Este, UNE – Paraguay
Centro de Estudios de las Relaciones Paraguay-Brasil)

Introducción general

Las fronteras territoriales de Paraguay constituyeron, a lo largo


de su historia, uno de los grandes temas de preocupación colocadas
por las autoridades políticas, aunque en la realidad nunca claramente
resueltos. Desde la Provincia Gigante de las Indias, y luego, con la
primera gran división en tiempos del gobernador Hernando Arias
de Saavedra, Hernandarias – en 1617 cuando se parte la entonces
Provincia –, los territorios y fronteras fueron una preocupación per-
manente. Por otro lado, la presencia de las invasiones bandeirantes
buscando incorporar no solamente territorio, sino también mano de
obra indígena al entonces reino portugués de Brasil – que se inicia
posteriormente a la división de la Provincia en 1617 –, constituían

1 Máster y Doctor en Comunicación, Profesor-Investigador Universi­dad


Nacional del Este (UNE), donde coordina la Maestría en Comuni­cación para
el Desarrollo y el Centro de Estudios de las Relaciones Paraguay-Brasil.
Docente de la Universidad Nacional de Asunción, carrera de Ciencias de
la Comu­nicación. Profesor Visitante (2001-2002): Hofstra University y en la
Uni­versidad de New York, USA. Autor de varias publicaciones sobre historia
del periodismo paraguayo, y sobre la emergencia de un campo de bienes
simbólicos en Paraguay.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 13

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 13 29/04/14 18:58


una permanente reconfiguración de fronteras físicas, transformándose,
principalmente para los indígenas, en fronteras móviles – debían
huir a cada invasión buscando “seguridad”. Uno de los más gran-
des relatos sobre estos procesos se encuentra en el texto del jesuita
Antonio Ruiz de Montoya, Conquista espiritual, quien a partir de
una estructura bíblica describe el desplazamiento de grandes grupos
indígenas huyendo de las penetraciones bandeirantes; los indígenas
al huir, según el relato del jesuita, buscan la tierra prometida, el
lugar donde mana la leche y miel, reconfigurando, de esta manera,
los espacios de frontera de la entonces Provincia de Paraguay (Orué
Pozzo, 2002). Igualmente, durante los años de la dictadura francista
y de su sucesor, Carlos Antonio López, los límites de la república con
sus vecinos siempre constituyeron una de las tantas asignaturas pen-
dientes. El reconocimiento de la independencia de Paraguay por parte
de los países vecinos (Argentina, Brasil, Bolivia), implicaba también
reconocer las fronteras físicas existentes entre éstos y Paraguay; en la
práctica no se dio de esa manera, pues continuaron como fronteras
sumamente gelatinosas.
Con la guerra de la Triple Alianza o guerra del Paraguay (1865-
1870), las fronteras paraguayas con sus vecinos se rediseñan. Emerge
un nuevo país, distinto a aquel que existía antes del inicio de la con-
tienda. Nuevos territorios nacionales emergen de los tratados de límites
firmados con Argentina y Brasil, en el último tercio del siglo XIX, como
consecuencia de los resultados de la guerra que llevaron al país a la
pérdida no solo de territorio, también de una parte de la población y
de un modelo socio-político que los Aliados se encargaron de destruir.
Posteriormente, y girando la vista hacia el occidente paraguayo, hacia
el gran Chaco, cuyo territorio, a pesar de una documentación que
demostraba la pertenencia de dichos espacios a Paraguay, entraba
en disputa con Bolivia. Nuevamente una guerra se encarga de definir
y reconfigurar estos espacios sociales como territorio y ocupación
humana, entre los años 1932-1935.
Sin embargo, si bien lo explicitado más arriba corresponde a uno
de los grandes componentes de lo que se dio en llamar el Estado-
Nación – es imposible la existencia de un estado, en los moldes de

14

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 14 29/04/14 18:58


la modernidad, sin un territorio claramente definido y limitado –,
existen también fronteras en movimientos como resultado de un
intenso y extenso movimiento o flujo migratorio humano. Desde el
fin de la guerra de la Triple Alianza, Argentina fue el país al cual los
paraguayos concurrieron masivamente, sea para trabajar en cosechas
de algodón en territorios fronterizos con este país, sea como exiliados
políticos – y económicos – buscando de alguna manera una protección
a sus ideas, reprimidas en Paraguay. Esto fue Argentina para Paraguay
por muchos años, un lugar, un espacio, la posibilidad de construir
un ágora del exilio paraguayo sin presiones y sin control político de
las fuerzas de seguridad. Este fue otro componente de frontera para
Paraguay. Ubicados o situados en ciudades límites con Argentina,
los paraguayos y sus familiares consideraron casi siempre la frontera
como algo en movimiento, es decir, pasible de eludir los controles
de seguridad, conviviendo inclusive con la población de las ciudades
paraguayas fronterizas.
A fines de la década del ’50 e inicios de los ’60 del siglo XX,
otra nueva frontera física y cultural comenzó a ser configurada en
Paraguay, con la fundación de Puerto Presidente Stroessner, hoy
Ciudad del Este, en el año 1957. Se inicia la gran “marcha hacia el
Este” en Paraguay; el giro geopolítico de la diplomacia paraguaya,
iniciada ya por vuelta de 1941, se consolida. Desde ese momento,
la frontera Este del país pasó a ser un sitio de conflicto, de intensos
desplazamientos humanos, ocupando tierras fiscales, en las cuales
supuestos beneficiarios de la reforma agraria volvían a vender sus
tierras – ilegalmente adquiridas o apropiadas –, a colonos brasileños
expulsados de sus posesiones en el sur y sudeste de Brasil (Ipardes,
1982). Los ’60 y ’70 son años de ocupaciones de esta frontera del
Este paraguayo por parte de migrantes internos estimulados, pocos
años más tarde, por el inicio de la construcción de la hidroeléctrica
de Itaipu en 1974; pero también por colonos brasileños, provocado
por el bajo costo de la tierra, a la cual accedían luego de venderlas
o perderlas en su país, en función de la penetración del capital en el
campo, señalado en el estudio citado más arriba. En este contexto,
Ciudad del Este, y el departamento de Alto Paraná, pasaron a ser

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 15

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 15 29/04/14 18:58


espacios sociales de intensos relacionamientos no sólo económicos,
también culturales y simbólicos.
El cruce permanente de la frontera hacia uno u otro país, incluyen-
do Argentina, configuró esta región como una de las más dinámicas
en los últimos 40 años. Allí se da un intercambio comercial, cultural,
emergen nuevas realidades socioculturales. La lengua se convierte
en algo vivo, en permanente transformación y adaptación; los inter-
cambios culturales, al mismo tiempo que imponen ciertos aspectos
hegemónicos, la domestican transformándolos en posibilidades de
entendimientos más horizontales. El guaraní, español y portugués,
circulan libremente al igual que el mate y el tereré. Emerge una lin-
gua franca que desde la época de los jesuitas – con el Guaraní como
proyecto histórico – estuvo en el horizonte simbólico, concretándose
ahora en una lengua-dialecto-comunicacional que dialoga con el te-
rritorio y con sus ocupantes.
Es esta frontera social y cultural, la que se desplaza continua-
mente en la región. Igual situación se presenta – aunque con menor
intensidad, pero no menos dinámica – en otras regiones de frontera
Paraguay-Brasil, como es el caso existente entre las ciudades de Pedro
Juan Caballero (Paraguay) y Ponta Porã (Brasil), y otros espacios
semejantes a lo largo de esta división física entre ambos países.
Con Argentina se presenta una situación un tanto diferente, aun-
que no menos significativa. Los intercambios comerciales pasan a ser
el epicentro de toda esta nueva configuración de frontera. Apoyada
por la presencia de familias paraguayas en territorios argentinos, pro-
ducto de intensas y extensas migraciones políticas y económicas desde
mediados del siglo XIX, estos intercambios reconfiguran nuevamente
las fronteras territoriales, a pesar de existir una clara demarcación de
fronteras, ya como producto de acuerdos políticos y diplomáticos.
La dinámica de los intercambios Paraguay-Argentina, sumamente
intensos y dinámicos hasta los años ’60, se reconfigura en una suerte
de flujo paralelamente construido entre Paraguay y Brasil, con carac-
terísticas diferentes a la primera. Ocupaciones ilegales de territorio,
tensiones sociales, aglomeraciones de grupos humanos que huyen
o son expulsados por el desarrollo capitalista del campo brasileño,

16

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 16 29/04/14 18:58


marchan hacia el Este como forma de ocupar territorios históricamen-
te abandonados – todo esto da una nueva significación a la política
de la dictadura Stronista, acentuada durante los largos años de la
transición encabezada por el mismo partido político que sustento
a la misma. Finalmente, llegamos a los tiempos actuales, a las grandes
plantaciones de soja en manos de extranjeros y empresas multinacio-
nales, a la introducción del agronegocio extensivo, que nada más es
que la llegada de un capitalismo tardío al territorio paraguayo, y que
nuevamente rediseñan esta frontera del Este paraguayo.
En consecuencia, a lo largo de la historia del país, sus fronteras
físicas, territoriales, y aquellas humanas y culturales, han estado en
permanente movimiento, siguiendo sinuosamente los pasos guiados por
el poder político; en otros momentos por expresiones más autónomas
e independientes, aunque no por eso menos autoritaria y socialmente
controladas. Es sobre estas fronteras humanas y culturales que voy a
tratar de referirme en las siguientes líneas. Desde esta perspectiva, los
párrafos que siguen apuntan más a la introducción y presentación de
un borrador de línea de investigación, aportes y apuntes a su estruc-
turación, antes que a un análisis de datos empíricos levantados. Son
borradores que introducen y predisponen una perspectiva a futuro.

Algunos estudios sobre procesos y movimientos


en las fronteras paraguayas

Durante los años de la colonia, los límites territoriales de la


Provincia Gigante de las Indias – que se extendía a través del territorio
de Paraguay – estaban comprendidos, en general, en los marcos de
los límites del Imperio español. En las consideraciones que siguen,
voy a evitar entrar en este espacio de tiempo – periodo colonial –,
asimismo excluiré las primeras décadas de Paraguay independiente,
que abarca desde 1811 hasta el fallecimiento de José Gaspar Rodríguez
de Francia2 en 1840 y la asunción al poder de Carlos Antonio López.

2 Francia asume como dictador perpetuo de la República en 1816, falle-


ciendo en setiembre de 1840.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 17

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 17 29/04/14 18:58


Este asume inicialmente como Cónsul en 1841 y, posteriormente, en
1844, se transforma en Presidente.
Los sucesivos Mensajes al Congreso realizados por el presidente
Carlos Antonio López – 1842, 1844, 1849, 1854, 1857 –, dan cuenta
de la preocupación del mismo con respecto a las fronteras físicas del
país (López, 1987). Durante los primeros años de esta presidencia
se firman tratados de límites, comercio y navegación con Brasil y
Argentina. A pesar de existir como república en los términos de la
modernidad, por esos años el país carecía de una delimitación clara
y exacta de su territorio. Una gran reconfiguración territorial se da
en Paraguay como resultado de la guerra que, entre los años 1865-
1870, involucró a Brasil, Argentina y Uruguay. Nuevamente desde los
tratados de límites posteriores a la finalización de la contienda – que
significó una derrota para el país –, los territorios se delimitan, sien-
do parte del mismo anexado por Argentina, entre los ríos Bermejo y
Pilcomayo; otra, la del pantanal al norte, y más allá de las cordilleras
del Mbaracayu y Amambay, por Brasil (Cardozo, 1989).
En relación a la situación de la frontera con Bolivia, en los años
posteriores a la finalización de la guerra de la Triple Alianza – y tal
vez una vez que los territorios de frontera con Brasil y Argentina
estuvieron mejor delimitados –, comienza en Paraguay una intensa
discusión respecto a los derechos sobre la región Occidental o Chaco,
por esos años reclamada por Bolivia. Entre fines del siglo XIX y los
primeros años del siglo XX, varios trabajos surgen en esta dirección.
Audibert (1901), Domínguez (1925, 1946), Báez (1932), De Gandía
(1935), entre otros, se dedicaron a investigar y publicitar de manera
más explícita la cuestión de límites entre ambos países, reivindicando
una determinada tesis paraguaya. Inclusive, una de las más emble-
máticas revistas científico-literaria de Paraguay de inicios del siglo
XX, la Revista del Instituto Paraguayo (Orué Pozzo, 2007), llegó
a publicar, entre 1899 y 1905, varios números con artículos y docu-
mentos históricos relacionados a los límites entre Paraguay y Bolivia.
Sin embargo, el conflicto latente por esos años se resuelve más tarde,
entre los años 1932-1935, por medio de una guerra cuyo resultado trae
consigo una nueva configuración del territorio paraguayo.

18

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 18 29/04/14 18:58


Lo apuntado más arriba explicita, de alguna manera, ciertas vi-
siones y problemas con relación a las fronteras del país, que tuvieron
como una de las vías de resolución, la guerra; con esta acción se
resuelve el conflicto político por otras vías. Desde entonces, lo que
se inserta y está presente en Paraguay, en su población y en su cultu-
ra, es la emergencia de fronteras móviles relacionadas a ocupaciones
hacia el Este del país, asimismo también con Argentina, que implican
pensar en territorios que, a pesar de bien delimitados, poseen fronteras
culturales sumamente flexibles y gelatinosas. Es el caso de los amplios
territorios que separan a Paraguay de Argentina, con el cauce de los
ríos Paraguay y Pilcomayo como líneas demarcadoras definidas, pero
con un permanente flujo migratorio que implican ocupaciones del
territorio en ambas márgenes y el desarrollo de una cultura propia
desde esta situación.
La gran marcha hacia el Este, es decir hacia Brasil, tiene como
un punto de inflexión la visita del presidente Getulio Vargas a
Paraguay en el año 1941, y la retribución del presidente paraguayo,
Higinio Morínigo a ese país, al año siguiente. Desde ese momento
estaba planteada la posibilidad del giro geopolítico de la diplomacia
paraguaya. Es decir, volver la vista hacia Brasil, desalentando la
mirada hacia Argentina, país que siempre fue el gran receptáculo
de la migración paraguaya.
Con la fundación del entonces Puerto Presidente Stroessner, en el
año 1957, se consolida este giro, que por su vez es interno y externo
(Ynsfrán, 1990); el país, bajo la conducción de la dictadura cívico-
militar de Stroessner, comenzaba a ocupar amplias extensiones de
tierra al Este, en el Departamento de Alto Paraná, distribuyendo exten-
siones de tierras fiscales, de manera prebendaría, a grupos de amigos
y simpatizantes del gobierno. Con la firma del Tratado de Itaipu, en
1973, y luego con el comienzo de las obras de construcción de la
hidroeléctrica al año siguiente, esta región cobra un nuevo impulso.
Varios estudios e investigaciones emergen en este contexto, entre
los cuales citamos el de Velilla Laconich (2008) y el de Fogel (2002),
éste último como resultado de una amplia investigación histórica,
sociocultural y arqueológica en el área de Itaipu; varios artículos en

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 19

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 19 29/04/14 18:58


la Revista Paraguaya de Sociología entre los años 1970-1990, también
apuntan al estudio de este fenómeno en el país.
No es mi intención agotar o, en todo caso, profundizar la discusión
con relación al levantamiento bibliográfico existente sobre territorio
de fronteras en Paraguay. Lo que traté de apuntar es simplemente
que este tema estuvo presente desde los primeros momentos de la
república. En estos últimos años, si bien existen fronteras físicas
aun indeterminadas – la construcción de Itaipu desdibujó los hitos
fronterizos entre Paraguay y Brasil que aun están en discusión –, esta
dinámica física y territorial fue desplazada por otra dinámica, humana,
de ocupación de territorios, de intensos intercambios comerciales y,
consecuentemente, culturales y simbólicos. Todo este proceso da paso
a la emergencia de nuevas realidades y, por su vez, a las brechas por
las cuales se introducen nuevos problemas en estos intercambios.
Lo que se da en denominar Triple Frontera, intersección de tres
países (Paraguay, Brasil y Artentina), se constituyó en los últimos años
en uno de los territorios de mayor efervescencia comercial, de gran
intercambio humano y, en este sentido, una región que se reconfigura
a cada momento. Lengua, territorio, culturas están en permanente
movimiento y transitando fluidamente en algunos tiempos de forma
menos conflictiva, más tensamente, en otros, contribuyendo a redise-
ñar nuevos espacios sociales como producto de estas interacciones e
integraciones. Pero también la denominación de Triple Frontera es algo
nuevo que emerge como producto “externo” y de bruscos acontecimien-
tos políticos; en consecuencia, también puede ser entendida como una
denominación socialmente construida, desde arquetipos hegemónicos.

Fronteras y culturas, reflexiones transitorias

Partiendo del concepto de culturas en movimiento (Clifford,


1997), asimismo de las consideraciones sobre territorios defronteriza-
dos que expanden el entendimiento del territorio fuera de los límites
del estado-nación, con un desfase entre el constructo legal de la so-
beranía de un estado sobre su territorio y la territorialidad del mismo
(Sassen, 2013), voy a intentar construir una línea de abordaje del

20

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 20 29/04/14 18:58


proceso que emerge y se desarrolla en el espacio comprendido entre
tres ciudades: Foz do Iguaçu, Ciudad del Este y Puerto Iguazú. Para
tal efecto, voy a centrarme en las configuraciones que la segunda ciu-
dad, Ciudad del Este, impone y derrama sobre su población y cultura.
Para Clifford (1997), un espacio, un territorio, es siempre entendi-
do como una práctica espacial. Desde esta perspectiva, la construcción
de un determinado espacio como un lugar fijo de asentamiento/hogar
que implique un espacio neutral, fue una creación histórica y política,
incluyendo también aquella de una lengua y una cultura asociada al
mismo. Señala al mismo tiempo, la necesidad de pensar las culturas
como sitios de hogar/asentamiento y de movimiento/desplazamiento,
es decir, sostiene que el movimiento o desplazamiento debe ser toma-
do y llevado a serio. De esta forma, lo que está en juego o lo que es
necesario realizar, señala este investigador, “son estudios culturales
comparativos, aproximaciones o entendimientos de determinados
situaciones, tácticas, prácticas del día-a-día de asentamiento y mo-
vimiento: movimientos/desplazamientos-en-asentamientos/hogar,
asentamientos-en-movimientos.” (Clifford, 1997:36)
Por su parte Sassen (2013) sostiene la existencia actual de un
desfase entre el territorio y su construcción legal que incluye la au-
toridad soberana sobre el territorio por parte del estado, es decir, la
territorialidad. Apunta, en este sentido, que el territorio no puede
reducirse a un territorio nacional o territorio estatal, otorgando de
esta manera a la categoría de territorio una medida de autonomía
conceptual al del estado-nación; es necesario extender o ampliar el
entendimiento del territorio más allá de la territorialidad del estado.
Para la autora, ello requiere un cambio conceptual alejándose del
tradicional entendimiento de frontera bajo el estado-nación, como un
lugar de cambios/intercambios y de significados, únicamente.
Sassen propone la existencia de distintos territorios dentro de
la territorialidad del estado-nación. El territorio “existe como punto
de convergencia, prolongación y tensión entre lo material e inma-
terial, entre espacios y relaciones, entre extensiones (movimientos)
e intenciones (afecciones y pasiones)” (Sassen, 2013:26). Según
Sassen, algunos componentes de esta autoridad sobre el territorio

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 21

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 21 29/04/14 18:58


ya no pertenecen al campo de lo nacional en el sentido histórico del
término. Constituyen, señala, “componentes desnacionalizados de la
autoridad estatal: parecen nacional pero en realidad están orientados
por agendas globales, algunas buenas, otras sin embargo no muy
buenas, finalmente.” (Sassen, 2013:38)
Son transfronteras o lugares defronterizados (debordering) que
constituyen nuevos espacios de frontera dentro del mismo territorio
nacional; las mismas pueden ser internas al territorio del estado o
cruzarlas a través de las fronteras del estado, concluye la investigadora.
Estos espacios pueden ser elementales (como los espacios que ocupan
los movimientos sociales y otros), o complejos (como territorios de las
finanzas globales, o una mezcla de redes digitales y ciudades globales).
Así, una especial protección para ejecutivos y técnicos altamente
calificados de empresas multinacionales se posicionan en estos nuevos
espacios territoriales con protecciones especiales institucionalizadas
globalmente; mientras, el flujo de personas y culturas, al contrario,
pierde protección legal y los mismos emprenden una lucha para tratar
de igualar estos flujos con los primeros citados. Es el caso de funcio-
narios altamente calificados de las multinacionales del agronegocio
afincadas en el departamento de Alto Paraná (Monsanto, Bunge y
Born, Dreifus, y otras), que contrasta profundamente con el flujo
diario de personas en el intercambio comercial del menudeo (boias
frias globales y mundializados en su consumo, expulsados del dis-
frute y del lazer/ocio necesario). Se establecen también diferencias:
cruzar el puente diariamente caminando, con “sacolas” al hombro,
o en algunos casos navegando el río Paraná, a diferencia del cruce
frecuente por aire, directamente a aeropuertos privados.
Dos formas de “intercambio”, dos maneras distintas de culturas en
movimiento en un espacio cada vez menos nacional. Lo hegemónico
y lo subalterno, lo dominante y lo residual o emergente (Williams,
1977), presentes en estas fronteras móviles entre los tres países. En
todas estas esferas, públicas y privadas, se dan profundos cambios/
intercambios culturales, entrelazados con hegemonías presentes en
los mismos cambios/intercambios. Ejecutivos globales, compradores
y boias frías subalternos “también” globales.

22

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 22 29/04/14 18:58


Pero, paralelamente a estos dos flujos mencionados, existen
también otros, más allá de lo movedizo diario, un poco más distan-
tes de esta instantaneidad de las relaciones establecidas en el cruce
diario por tierra o por aire. Son los migrantes forzados, obligados a
desplazarse del territorio brasileño al paraguayo, buscando un hogar/
asentamiento producto de un continuo movimiento/desplazamiento
humano y cultural; es la búsqueda de la tierra prometida del oeste
al este – por parte de grupos expulsados de la tierra y también de
aventureros de las finanzas ligados a la tierra –, a diferencia de de la
gran utopía Guaraní de la tierra prometida al oeste, donde sale el sol.
Estos asentamientos/desplazamientos al tensionarse con aquellos
ya asentados/desplazados de Paraguay, van conformando nuevos
asentamientos/desplazamientos necesarios de ser estudiados a fon-
do, de ser pensados seriamente, como señala Clifford (1997). Esta
fue la conformación del territorio del este paraguayo en los últimos
30 años aproximadamente.
Estas fronteras como espacios transversalizados no constituyen
meros andariveles de cruces de idas y vueltas, como es el caso de
Ciudad del Este, también son constitutivos de capacidades terri-
toriales distintivas; algunos buscan bienes de consumo asociados
a la frivolidad de la posmodernidad, otros bienes inmuebles, éstos sí
ya asociados a la necesidad de una acumulación originaria de manera
a dar paso, en poco tiempo, a un capitalismo tardío en estas regiones.
Si continuamos pensando en territorio desde la perspectiva del estado-
nación, corremos el riesgo de difuminarlo, quedándonos en la sombra
de la territorialidad del estado-nación, sin percibir los movimientos
internos y externos que fluyen desde estos procesos sociales.
La tierra como un bien inmueble cuya búsqueda ha generado todo
tipo de apropiaciones indebidas, muertes y asesinatos, intercambios
desiguales y combinados, conviviendo con la búsqueda de otro tipo
de bienes inmuebles y simbólicos, que también ha generado trans-
formaciones sociales y construcciones hegemónicas en el tiempo.
Lo crudo y lo cosido, lo manifiesto y lo latente, conviven diariamente
en este territorio movedizo, denominado y construido, desde el poder,
como Triple Frontera.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 23

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 23 29/04/14 18:58


Por otro lado, y desde una perspectiva que implica el desdibu-
jamiento de los territorios de fronteras en el contexto del estado-
nación, Beck (2008) plantea como una opción metodológica crítica,
la adopción de un nuevo tipo de mirada cosmopolita con sentido
amplio del mundo y ausencia de fronteras. Esta cosmopolitización
obliga, según este autor, a una nueva interpretación de los procesos
territoriales y de fronteras, huyendo de los entendimientos nacio-
nalistas que no contribuyen para una comprensión más amplia de
los mismos. Estas cosmopoliticidades sociales, políticas, culturales,
presentes en la Triple Frontera, en los entrecruzamientos, pero
también en los asentamientos, son por su vez locales y globales.
Por eso es imposible pensar una cultura yopara en estos espacios,
sin tener presente el profundo enraizamiento de la cultura Guaraní
en estos territorios sociales paraguayos, brasileños y argentinos,
desde los cuales se da la intermediación y diálogo tensionados con
culturas externas a esta localidad, siendo éstas, también, productos
de intercambios y migraciones en Brasil, Argentina, asimismo de
regiones más distantes.
Desde una perspectiva de las ciencias sociales paraguayas, Prieto
Bazán (2002) señala la existencia de un ethos migratorio en Paraguay,
que se advierte como una constante a través de su evolución socio-
cultural. Por otro lado, este ethos también cambia o se transforma en
función del tiempo, asumiendo características y significados distintos
en relación a los procesos en curso; pierde claridad, se difumina. Así,
es posible identificar un intenso flujo de personas y culturas en la re-
gión del Este paraguayo, en los últimos 25 años: La gran marcha hacia
el Este emprendida por la dictadura de Alfredo Stroessner desde los
años ’60 del siglo pasado; la fundación del entonces Puerto Presidente
Stroessner, hoy Ciudad del Este, en 1957; la venta indiscriminada
de tierras a colonos brasileños expulsados de su tierra en el sur de
Brasil que se agudiza desde 1970; la construcción de la hidroeléctrica
de Itaipu en 1974 y, finalmente, el enclave comercial electrónico y
de todo tipo de bienes de consumo en esta ciudad, conformaron un
espacio social que dotó a la frontera de una configuración especial en
términos de dinámica poblacional y de proceso cultural.

24

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 24 29/04/14 18:58


El territorio ya no puede ser definido como un único y singular
significado; expresa y puede ser entendido desde diferentes contextos
históricos y sociales. Desde esta perspectiva el territorio puede ser
mejor comprendido como una tecnología política que incluye técnicas
para medir y controlar el territorio (Elden, 2010), y también como un
artefacto literario-cultural, es decir, socio-históricamente construido.
Palau (1994) sostiene que es cada vez mayor la tendencia de
pensar y estudiar los patrones migratorios de los últimos años, desde
perspectivas distintas a las encaradas en los años ’60 y ’70, y que son
necesarios nuevos enfoques para el estudio de tales desplazamientos;
tendencia que refuerza lo señalado poco más atrás por Beck. Este
mismo autor señala la existencia de sociedades fronterizas, a partir
de la experiencia de Ciudad del Este y otras en Paraguay, en la cual
se presenta una exposición continuada de valores, ideas, costum-
bres, gustos que se incorporan tanto de Brasil como de Argentina.
Una ida y vuelta permanente para usufructo de servicios sociales
ofrecidos del otro lado como escuelas, puestos médicos, seguridad
social, y otros3.
Emerge de esta manera un tipo de familia, la familia de los fronte-
rizos binacionales, o la familia binacional transfronteriza, siendo que
“la combinación de ambas es bastante frecuente” (Palau, 1994:118).
En estos espacios sociales existe un desplazamiento de muy corta dis-
tancia y corto tiempo hacia el otro lado, según apunta este autor. Sólo
resta pensar – y datos empíricos pueden apoyarnos a desbrozar esta
situación – en la posibilidad de la existencia de una familia trinacional
transfronteriza, – en un entendimiento más amplio del concepto de
familia – con características particulares y por su vez mundializadas
en este espacio social tensionadamente compartido.

3 Parte importante de la población paraguaya en regiones de lindantes


con Brasil, asimismo con Argentina, hacen uso de este “beneficio de fronte-
ra”. Esta situación es destacada en el documento Bases para uma proposta
de desenvolvimento e integração da faixa de fronteira, Grupo de trabalho
Interfederativo de Integração Fronteiriça, Ministério da Integração Nacional,
República Federativa do Brasil, 2010.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 25

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 25 29/04/14 18:58


El espacio social de la Triple Frontera,
rompen los blindajes del Estado-Nación?

Cuando señalaba más atrás que espacios sociales del tipo existente
en la Triple Frontera rompen los contenedores y límites del tradicional
estado-nación que la modernidad introduce, me estaba refiriendo a
un ejemplo específico que queda fuera de los clásicos levantamientos
estadísticos emprendidos por un estado para orientar sus relaciones
y compromisos. Es el caso, por ejemplo, de los flujos y movimientos
migratorios transitorios diarios, de corta duración, de mercancías y
bienes simbólicos, que quedan fuera de los levantamientos oficiales,
de los diferentes instrumentos de medición que la república desarrolla:
censos, encuestas de hogar, encuestas de población y otros tantos
levantamientos cuantitativos. ¿Cómo medirlos?, ¿cómo o de qué
manera ecuacionarlos cuantitativamente en toda su amplia comple-
jidad? Estos recorridos humanos no pueden ser incorporados como
“fotografía de la realidad”. Se necesitan ciencias nómadas (García
Canclini, 1990), o aluviales nocturnas (Martín Barbero, 1987) o
cosmopolitas como Beck, para dar cuenta de estos procesos sociales.
Pero no solamente en los levantamientos estadísticos oficiales
estos procesos en movimiento no pueden ser “capturados” en su
amplia dimensión, sino también en las propias esferas del estado.
Al presentarse una situación de transnacionalidad, de familias bi-
trinacionales transfronterizas, gran parte de los beneficios sociales,
educación, e inclusive ingresos en función de trabajos duros y también
ocasionales, quedan fuera de estos levantamientos. Es imposible pla-
nificar el desarrollo o crecimiento de una ciudad de frontera sin llevar
en cuenta, al mismo tiempo, un igual proceso de planificación en la
otra ciudad, en aquella situada frente a la misma. Las asimetrías de
desarrollo continuarán en dichos espacios sociales si estos aspectos
no son llevados en cuenta.
En su aspecto macro, existen los Fondos Estructurales del Mercosur
(FOCEM), como instrumentos y estrategias para vencer las grandes
asimetrías entre países miembros de dicho acuerdo de integración.
Por su parte, a nivel de estos espacios sociales, también es necesario

26

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 26 29/04/14 18:58


llevar en cuenta los procesos transnacionales de frontera para pensar
un desarrollo en equidad. Y esto, sin duda, no puede ser puesto sobre
la mesa desde las estructuras rígidas nacionales; una superación del
estado-nación, de su territorialidad, es necesaria.
¿Cómo expresar cuantitativamente una lengua en continuo movi-
miento y transformación, e insertarla en los límites del estado-nación?
Si es necesaria la exploración de ciencias nómadas para dar cuenta
de estos procesos sociales, lenguajes nómadas también existen que
expresan, denotan y construyen estas realidades. Nuevamente en
este punto emergen situaciones que, desde un comienzo, las per-
sonas incorporan: varias formas de expresión para comunicar ideas
y sentimientos; como Falstaff, es difícil agarrarlas con las manos.

Conclusiones provisorias

1. Territorio de la Triple Frontera. Es importante que cientistas


sociales, investigadores y académicos de Paraguay, Argentina y Brasil
lleven a serio el estudio de este espacio y territorio, en el cual con-
vergen y divergen intercambios de mercancías, culturas, sociedades
diversas y también construcciones sociales desarrolladas en el tiempo.
Estas situaciones y sus presentaciones hegemónicas, orientan perma-
nentemente determinada forma de entender y pensar la región. Un
abordaje crítico de estas realidades es necesario.
2. Ciudad del Este, Foz do Iguaçu y Puerto Iguazú, deben ser estudia-
das y pensadas como realidades integradas en la región. El permanente
flujo de personas, consumidores y ciudadanos, en los márgenes o bordes
del estado, al mismo tiempo que presentan experiencias innovadoras
introducen, y también transfieren, propuestas conservadoras. Las
largas filas de vehículos y de personas que transitan durante parte del
día – de lunes a jueves principalmente – en el Puente de la Amistad
(Foz do Iguacu-Ciudad del Este), asimismo el aumento cada vez ma-
yor del mismo flujo – personas y vehículos – en el puente Presidente
Tancredo Neves, (Foz do Iguacu-Puerto Iguazu) los días jueves
a sábado, es también parte de la necesaria investigación requerida
para dar cuenta de los procesos sociales en marcha. ¿Y el flujo inverso,

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 27

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 27 29/04/14 18:58


desde Puerto Iguazu para Foz, y también para Ciudad del Este?
Si existe un movimiento de un lado para el otro, también debe existir
el movimiento inverso; es cuestión de hacerlo visible.
3. Las transformaciones sociales en curso en cada país, la manera
de abordarlos y encararlos internamente, es decir, desde las ciencias
asentadas en cada tradición, no nos permiten hoy pensar y abordar
estos territorios y territorialidades desde una perspectiva semejante;
es necesario rebasar estas ciencias asentadas, encarándolas de otra
forma. El espacio socialmente construido ya no puede ser estudiado y
pensado desde la realidad de una sola lengua y un único territorio. Se
hace cada vez más urgente estudiar los asentamientos-en-movimiento,
las transfronteras y los espacios deborderizados para poder comenzar
a entender algo de este complejo enmarañado social denominado
Triple Frontera.

Referencias Bibliográficas

Audivert, A. (1901) Cuestión de límites entre el Paraguay y Bolivia,


Asunción: Escuela Salesiana.

Báez, C. (1932) Historia diplomática del Paraguay, Asunción: Imprenta


Nacional, T. II

Beck, U. (2008) “Generaciones globales en la sociedad del riesgo mundial,


Revista CEDOC de Relaciones Internacionales, 82-83:19-34.

Cardozo, E. (1989) El Paraguay de la conquista, Asunción: El Lector.

Clifford, J. (1997) “Traveling cultures”, in J. Clifford, Routes, Cambridge:


Harvard University Press.

De Gandía, E. (1935) Los derechos del Paraguay sobre el Chaco Boreal,


Buenos Aires: Rosso.

Domínguez, M. (1946) El alma de la raza, Buenos Aires: Ayacucho (primera


edición 1917)
(1925) El Chaco Boreal, Asunción: Ministerio de Relaciones Exteriores.

Elden, S. (2010) Land, terrain, territory, in Progress in Human Geography


34, 6:799-817.

28

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 28 29/04/14 18:58


Fogel, G. (2002) Sociedad, cultura y dinámica regional, Buenos Aires:
Ediciones del del Mercosur.

García Canclini, N. (1990) Culturas híbridas, México: Grijalbo

Ipardes (1982) Paraná. Economía e sociedade, Curitiba: Goberno do Estado/


Secretaría do Planejamento/Ipardes.

López, C. A. (1987) Mensajes de Carlos Antonio López, Asunción: Fundación


de Cultura Republicana.

Martín Barbero, J. (1987) De los medios a las mediaciones, Barcelona:


G. Gili.

Montoya, A. R. (1639) Conquista espiritual hecha por los religiosos de la


Compañía de Jesús en las Provincias del Paraguay, Paraná, Uruguay y Tape,
Madrid: Imprenta del Reino.

Orué Pozzo, A (2002) “Comunicación en el siglo XVII en la Provincia del Para­


guay”, en A. Orué Pozzo, Oralidad y escritura en Paraguay, Asunción: Arandura.
(2007) “Periodismo científico-literario en Paraguay 1890-1920), en A. Orué
Pozzo, Periodismo en Paraguay, Asunción: Arandura.

Palau, T. (1997) “Modificaciones del patrones migratorios y movilidad trans-


fronteriza en el Paraguay, Revista Paraguaya de Sociología, 31, 90:113-129.

Prieto Bazán, A. (2002) “Investigaciones demográficas y sociocultura-


les”, en G. Fogel (Ed.) Sociedad, cultura y dinámica regional, Buenos Aires:
Ediciones del Mercosur, T. III

Sassen, S. (2013) When Territory Deborders Territoriality, in Territory,


Politics, Governance, 1, 1: 21-45.

Velilla Laconich, J. (2008) Paraguay. El camino hacia el oeste, Asunción:


CEADUC.

Williams, R. (1977) Marxism and literature, New York: Oxford University Press.

Ynsfran, E. L. (1990) Un giro geopolítico, Asunción: Ediciones y Arte.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 29

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 29 29/04/14 18:58


Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 30 29/04/14 18:58
DEFINIENDO FRONTERAS C ULTURALES:
narrativas de experiencias entre inmigrantes árabes
en la Triple Frontera

Silvia Montenegro1
(CONICET, Universidad Nacional de Rosario – Argentina)

Introducción

No caben dudas dudas de que la “Triple Frontera” suscita los


más variados imaginarios, muchas veces exteriores a la experiencia
cotidiana de habitarla. La constatación de la diversidad cultural, lin-
güística y migratoria que la caracteriza es materia prima de dos polos
discursivos contradictorios que se diluyen y retornan coyunturalmente,
uno la torna anatema, el otro es celebratorio. Recordemos la época
en que la Triple Frontera fue retratada por la prensa estadounidense

1 Doctora en Sociología por la Universidade Federal do Rio de Janeiro.


Investigadora del Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas
(CONICET, Argentina), forma parte del Observatorio de la Triple Frontera.
Sociología, Antropología y Estudios Transnacionales www.observatoriotf.
com. Publicó artículos y capítulos de libros sobre el tema de la Triple
Frontera; en coautoría con Verónica Giménez Béliveau – La Triple Frontera.
Globalización y construcción social del Espacio, Buenos Aires, Miño y Dávila,
1era de 2006, 2da 2010; coordinó junto a otros colegas – A Tríplice Fronteira
Espaços nacionais e dinámicas locais, Curtiba, UFPR, 2011 y La Triple
Frontera: dinámicas culturales y procesos transnacionales, Buenos Aires,
Espacio Editorial, 2010.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 31

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 31 29/04/14 18:58


como una zona peligrosa y fuera de los controles estatales, un “nido
de terroristas”, un espacio habitado por “mafias étnicas”. Ese discurso,
con consecuencias tangibles, sobre todo para la comunidad árabe-
musulmana, condensó visiones estigmatizantes de larga duración,
aspecto que hemos analizado detalladamente en abordajes anteriores2.
En parte como reacción a esa mirada negativa, pero también con
relativa autonomía, comenzó a plasmarse un relato que celebró la
diversidad cultural como un patrimonio de la región y que fue con-
virtiendo en slogan la noción de que en la Triple Frontera conviven
en plena harmonía decenas y decenas de etnias. La existencia de una
especie de “sobrecarga” discursiva sobre la región acabó por instalarse
y uno de sus efectos fue el de generar caracterizaciones apriorísticas
de la zona, alejadas de las prácticas, creencias e imaginarios de los
grupos que efectivamente la transitan3.
Desde otra perspectiva, vienen realizándose trabajos sociológicos
y antropológicos sobre la Triple Frontera y los grupos sociales que la
componen, privilegiando la investigación empírica y el conocimiento
en terreno4. En los últimos años abordé distintos aspectos relativos a la
comunidad árabe musulmana enfatizando o, al menos sin descuidar,

2 Para un análisis detallado de la cobertura de la prensa internacional y


nacional argentina en relación a la Triple Frontera, ver Montenegro & Giménez
Béliveau (2006).
3 Por mencionar un ejemplo de mi experiencia como investigadora en la
región, fueron numerosas las ocasiones en que fui contactada por periodistas
y documentaristas extranjeros que, imbuidos de visiones a veces exotistas
o prolíficamente condimentadas por las fantasías circulantes sobre el área,
buscaban reunir opiniones antes de “aventurarse” a visitar la frontera. En
otros momentos, fueron estudiantes de posgrado de universidades extranje-
ras los que se aproximaron con la intención de comprobar la viabilidad de
proyectos de investigación, construidos sobre ejes de la agenda temática que
los medios de comunicación construyeron sobre la región.
4 Ver los trabajos reunidos en Verónica Giménez Béliveau & Silvia Monte­
negro (2010) y en Lorenzo Macagno, Silvia Montenegro & Verónica Giménez
Béliveau (2011) y consultar el sitio web del Observatorio de la Triple Frontera.
Sociología, Antropología y Estudios culturales: www.observatoriotf.com

32

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 32 29/04/14 18:58


lo que podríamos denominar como espacios de intersecciones. Uno
de esos espacios fue el de los imaginarios construidos por la prensa;
otro, el de las conceptualizaciones que otras comunidades religiosas
de la región elaboraban en relación a la presencia del Islam en un
campo religioso marcado por la diversidad. Posteriormente, analicé los
proyectos misionarios evangélicos que tenían a la comunidad árabe
como destino de esfuerzos conversionistas, considerando un sistema
de interacciones motivado por el presupuesto proselitista de “llevar el
mensaje a los pueblos no alcanzados por el Evangelio”. He abordado
también, entre otros temas, el análisis de las narrativas de pertenen-
cia étnico religiosa y del “estar en la frontera” entre inmigrantes de
la comunidad árabe (MONTENEGRO, 2009; 2011; 2013). Este texto
tiene como objetivo continuar explorando el estudio de la comunidad
árabe-musulmana privilegiando el propio discurso de los actores y el
modo en que, a partir de sus experiencias de vida como inmigrantes y
descendientes, construyen y atenúan fronteras culturales con “Otros”
con quienes interactúan cotidianamente. Apelando a distintas formas
de presentarse y narrar sus trayectorias, distancias y proximidades
con los habitantes locales, nuestros entrevistados construyen diversas
narrativas de territorialización, entre las cuales escogemos algunas
para desarrollar en este trabajo.
Los relatos fueron recogidos en distintas instancias de trabajo
de campo, sea a través de entrevistas, de conversaciones informa-
les posteriormente registradas o en el contexto de observaciones
y participación en actividades de la comunidad. Preferentemente,
privilegiamos la expresión de experiencias individuales de su-
jetos de distintas generaciones a uno y otro lado de la frontera
brasileño-paraguaya5.

5 En el análisis seleccionamos ejes temáticos que se reiteran y permiten


aunar diferentes relatos que son comunes a un mismo tipo de narrativa. En
general, en este artículo, y a diferencia de otros de nuestros trabajos sobre
el tema, preferimos parafrasear estos discursos en lugar de utilizar la trans-
cripción literal de los dichos de nuestros informantes. Para un trabajo que
prioriza la otra opción, ver Montenegro 2013.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 33

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 33 29/04/14 18:58


Experiencias y narrativas de territorialización

Experiencias y discursos se relacionan de un modo no mecánico,


que no puede reducirse a la idea dicotómica que jerarquiza como más
o menos relevante lo que los actores “dicen” y lo que “efectivamente
hacen”. Esa visión, basada en una tajante distinción, relega los dis-
cursos al plano del estudio de las “representaciones”, argumentando
privilegiar el universo de las prácticas como dimensión más legítima
para indagar acerca de la experiencia de los actores, reconociendo, a
pesar de esto, una relación entre ambos órdenes. Hace ya tiempo que
algunas discusiones sobre la relación entre experiencias y narrativas
en el estudio de las formaciones identitarias complejizaron el modo
de pensar esa mutua implicación. Un conjunto de nociones básicas
forman parte del sentido común de este tipo de abordajes: los relatos
guían las acciones; los sujetos construyen identidades, múltiples y
mutables, localizándose a sí mismos o son localizados en un repertorio
de relatos; la “experiencia” se constituye por medio de narrativas y las
personas otorgan sentido a lo que les sucede o les está sucediendo al
integrar esos hechos en una o más narrativas; tienden a actuar en una
forma y no en otra sobre la base de proyectos, expectativas y memo-
rias derivados de un repertorio disponible, múltiple pero finalmente
limitado, de narrativas públicas, sociales y culturales (SOMMER:
1994). Como argumentara Bruner (1986) en otro clásico trabajo, la
experiencia no equivale al comportamiento, concepto que nos es más
familiar, y que supone un observador externo que describe la acción
de otro, como si uno formase parte de la audiencia de un evento que
implica el transcurrir de una rutina estandarizada. La experiencia
puede considerarse como algo más personal, como referida a un self
activo que no sólo se involucra sino que moldea una acción. En tal
sentido, podemos tener una experiencia pero podemos no relacionarla
a un comportamiento, describimos el comportamiento de otros pero
caracterizamos nuestra propia experiencia.
Desde ese punto de vista, dado que como característica distintiva
la comunicación de la experiencia tiende a ser auto-referencial nos
encontramos con la dificultad de que sólo es posible experimentar

34

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 34 29/04/14 18:58


la propia vida y, por ende, no es posible conocer completamente la
experiencia de otro. De este modo, la materia prima del análisis
son apenas las expresiones de esas experiencias, es decir, represen-
taciones, performances, textos, narrativas, etc6. Para el caso de las
historias de vida, Bruner reconoce una distinción entre la vida como
vivida (“realidad”) la vida como experimentada (experiencia) y
como narrada (expresión).
Este trabajo analiza el modo en que los relatos sobre la experien-
cia migratoria de llegar, vivir e interactuar en la frontera, elaborados
por inmigrantes árabes musulmanes y sus descendientes, se integran
en narrativas sobre el trabajo, la religión y las diferencias generacio-
nales. Al mismo tiempo, considero el papel de esos tres ejes en la
construcción y atenuación de fronteras culturales en el contexto de
la experiencia de territorializarse en la Triple Frontera7.

6 Esa visión supone una relación dialógica entre experiencia y sus expre-
siones, considerando que la experiencia estructura expresiones y que enten-
demos a las otras personas y sus expresiones sobre la base de nuestra propia
experiencia y auto-entendimiento. Pero las expresiones también estructuran la
experiencia. Así, determinadas narrativas, rituales, etc, en tanto expresiones,
también definen, iluminan y articulan las experiencias. La advertencia de
Bruner es que sólo un positivista naive podría considerar que las experiencias
son equivalentes a la realidad, olvidando la brecha que en la vida cotidiana
se produce entre experiencia y su manifestación simbólica en una expresión.
7 En lo que respecta a las instituciones creadas por la comunidad árabe,
una de las más antiguas en Foz do Iguaçu es el Club Unión Árabe (1962)
que permaneció cerrado en la última década y fue revitalizado en 2011.
Cabe mencionar también la Asociación Beneficiente Musulmana de Foz de
Iguaçu (finales de los ’70) y la mezquita Omar Ibn Al-Khattab (1983) de la
comunidad sunnita. En lo que respecta a las instituciones shiitas, en 1986 se
funda la Sociedade Islâmica de Foz do Iguaçu, siendo finalizada la construc-
ción del edificio donde funciona la sede de la entidad en 1993, que incluye
la Hussayniah Imam Al-Khomeini. En Ciudad del Este se funda en 1988 el
Centro Árabe Islámico Paraguayo, la Mezquita del Profeta Mohammed (1984)
de orientación shiita. En 2012 la comunidad sunita comenzó la construcción
de la mezquita Alkhaulafa Al-Rashdeen, cuya inauguración se prevee para
2014. Para más detalles ver las referencias bibliográficas de este artículo.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 35

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 35 29/04/14 18:58


La frontera como oportunidad: inmigración,
trabajo y “progreso”

Tanto los primeros inmigrantes llegados alrededor de la década


del 60 como los más numerosos de mediados de la década de 1980
reconocen una multiplicidad de factores que motivaron la decisión
de salir de su país de origen (Líbano, y Palestina en menor medida).
La conflictividad política, la violencia, la guerra civil, la ocupación
israelí y las crisis económicas son motivos que, mencionados conjunta
o separadamente, siempre forman parte del repertorio discursivo de
los inmigrantes, de acuerdo a la época en que iniciaron sus itinerarios
migratorios. Estos relatos periodizan el proceso tomando como punto
de partida el momento previo a la decisión de salir de sus lugares de
origen, prosiguen retratando el espacio de destino para luego insertar
los eventos rememorados en una narrativa del inmigrante como sujeto
que busca el progreso a través de las oportunidades laborales, en este
caso ofrecidas por la frontera.
Uno de los espacios ocupacionales más importantes de los in-
migrantes árabes ha sido la actividad comercial, como minoristas,
mayoristas o empresarios vinculados a la importación de productos
diversos en el radio Ciudad del Este-Foz do Iguaçú. Pequeños loca-
les, grandes tiendas, galerías comerciales, restaurantes, etc. reflejan
los distintos emprendimientos de individuos de la comunidad. En
general, en ambas ciudades, la comunidad árabe es asociada con la
actividad comercial, representaciones de los árabes como dedicados
al comercio son preponderantes entre los paraguayos y brasileños
que en Ciudad del Este muchas veces trabajan como empleados en
sus tiendas. Incluso, con frecuencia, el crecimiento comercial de
la región es asociado al arribo y permanencia de una inmigración árabe
claramente visible. Por otro lado, entre muchos de los inmigrantes, este
retrato se ajusta a una de las marcas más fuertes de pertenencia a la
comunidad en cuanto “comunidad económica”, como fuera calificada
por algunos de mis entrevistados. En ese sentido, se identificaban
como perteneciendo a un grupo que, “como otras comunidades”,
permanencia en la frontera debido a las “oportunidades económicas”

36

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 36 29/04/14 18:58


y a las “relaciones de mercado” que era posible establecer en el nicho
ocupacional ya construido en ese espacio comercial.
Los pioneros, aquellos pocos que llegaron en la década del 60,
describen las ciudades de Foz y Ciudad del Este como lugares por en-
tonces poco poblados, carentes de infraestructura urbana, pero como
espacios propicios para intentar emprender la apertura de sus primeras
tiendas. Estos relatos presentan como hechos concomitantes la gradual
estabilización y mejora de sus condiciones económicas personales
y el crecimiento de la ciudad. Podemos decir que la expresión de la
propia trayectoria biográfica de este grupo de inmigrantes aparece
entrelazada con la biografía de las ciudades. Al aludir tanto a sus
historias personales como a la de las ciudades destacan los procesos
de expansión, desarrollo y mejora.
Algunos de los inmigrantes que llegaron a mediados de la década
del ‘80 también se refieren a la frontera como espacio de oportunidades
comerciales. Sin embargo, la mayoría estableció un corte temporal
recordando la existencia de una “época dorada”, que coincidió con
finales de la década del ‘80 y comienzos de la década del ’90. Al com-
parar con el presente, muchos comentaron que difícilmente pueda
volver a darse una coyuntura como esa. Como lo explicaba uno de
nuestros entrevistados: “A finales de los 80 pasé por un período muy
bueno, de despegue, compré casa, automóvil, traje a mis hermanos
para aquí, compré casa para mi familia en mi pueblo”. Otros relatan
cómo en ese período de una tienda pasaron a tener dos o más su-
cursales, cómo consiguieron comprar locales en lugar de alquilarlos
o mencionan la adquisición de otras propiedades que sirvieron para
obtener una renta extra. La experiencia de haber testificado épocas de
crisis del polo comercial de Ciudad del Este también aparece en estos
relatos y esos períodos de incertidumbre son atribuidos a los vaivenes
del tipo de cambio, a las políticas de fiscalización implementadas en
los últimos tiempos por Brasil y a otras coyunturas. La explicitación
de este cambio de situación se realizaba también en el contexto de
considerar cual sería el escenario para quienes decidieran migrar hoy.
Sobre este aspecto, nuestros interlocutores coincidieron en afirmar
que sería difícil o prácticamente imposible que recién llegados a la

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 37

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 37 29/04/14 18:58


frontera pudiesen repetir la trayectoria de aquellos que, como ellos,
ya llevan décadas en la zona. Sin embargo, podemos decir que en la
mayoría de lo relatos la frontera es presentada como un espacio de
oportunidades, donde la alusión a las crisis se contrarresta con una
visión que destaca las potencialidades que ofrecería la región.
Las condiciones laborales encontradas en la zona aparecen como
un factor determinante en la decisión de permanecer en ella. Los moti-
vos de la migración fueron siempre remitidos a múltiples factores, pero
siempre haciendo mención a la posibilidad de mejorar las condiciones
de vida. En este núcleo de relatos, la inflación, los salarios bajos o el
trabajo sin progreso visible en la tierra de origen fueron puestos por
encima de otras motivaciones. En ese contexto, la elección del lugar
de destino se relaciona a la existencia de redes familiares o de amistad
pero la permanencia es explicada por la “promesa” económica que
la frontera supondría.
En relación a los espacios de destino, tanto Ciudad del Este como
Foz de Iguaçu aparecían en este conjunto de narrativas como destinos
que no habían sido planeados, como ocasionales pero acertados, porque
“en la frontera hay trabajo” y “hay comercio árabe que facilita las cosas”.
Al vincular la migración con el trabajo y el progreso, estos discursos
exaltaron la existencia de un espacio económico y minimizaron otros
aspectos compartidos por la comunidad árabe, como su pertenencia
religiosa. De ahí que, al caracterizarse a sí mismos como comerciantes,
muchos hayan argumentado que esta actividad les dejaba poco tiempo
para participar de la vida religiosa y sus instituciones o, incluso, para
vincularse más estrechamente con otros miembros de la comunidad.
Como afirmaba uno de los inmigrantes entrevistados: “Podemos prac-
ticar nuestra religión en cualquier parte, incluso en nuestra casa, pero
sólo en algunos lugares es posible conseguir trabajo y progresar”.
El trabajo también apareció como determinante del padrón de
asentamiento a uno u otro lado de la frontera. Vivir en Foz do Iguaçu
pero trabajar en Ciudad del Este es una forma típica de localizarse a
ambos lados. Este tránsito cotidiano permite que los sujetos construyan
nociones diferenciadas de ambas ciudades. En tal sentido, podemos
reconocer algunos argumentos que tienden a distinguir entre una y otra

38

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 38 29/04/14 18:58


urbe. Para muchos, Foz es buena para residir, por su infraestructura,
servicios, orden y limpieza, mientras que Ciudad del Este es buena
para trabajar, por su dinámica configurada en torno a la actividad
comercial. Otros sostienen que residir en Foz supone haber alcanzado
un cierto grado de estabilidad comercial y progreso, pues en épocas de
mayor precariedad vivieron en Ciudad del Este y se mudaron cuando
pudieron, manteniendo la ciudad paraguaya sólo como espacio de
trabajo. No obstante, comerciantes que vivían y trabajaban del lado
paraguayo muchas veces contradijeron estos argumentos, destacan-
do los aspectos positivos de la ciudad paraguaya y la comodidad de
vivir y trabajar en un mismo espacio, negando que el lado brasileño
les resultara más atrayente. Muchos también reconocen que ciertas
“informalidades” atribuidas al Paraguay favorecieron sus situaciones
individuales cuando no cumplían con los requisitos necesarios para
acceder a la documentación como residentes. Como sintetizó un in-
migrante que ahora vive del lado brasileño: “la verdad es que durante
cinco años no tuve ninguna clase de documento y no tuve ningún
problema, me movía libremente, esto no representaba un problema”.
Es posible afirmar que esta presentación de sí mismos como co-
merciantes, como inmigrantes que se instalan en un espacio propicio
para el trabajo, inserta las trayectorias individuales, otorgándoles sen-
tido y coherencia, en una narrativa que conecta en un continuum la
inmigración, el trabajo y el “progreso”. De este modo, los inmigrantes
también se consideran en una posición análoga a otros inmigrantes
que comparten su nicho ocupacional, como los chinos y otros que,
aunque considerados “distantes”, diferentes y, a veces, “cerrados”,
son también vistos como permaneciendo en ese espacio por las opor-
tunidades y potencialidades de la frontera.

La frontera como espacio de diferencias: pertenencia


religiosa y representaciones sobre “costumbres” locales

La conciencia de una pertenencia religiosa diferente a la de la


población local está en la base de la elaboración de comparaciones
y de reflexiones sobre los estilos de vida considerados propios y

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 39

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 39 29/04/14 18:58


aquellos atribuidos a la cultura brasileña o paraguaya. No obstante, no
podemos hablar sólo de la construcción de fronteras sino también de
concepciones que consideran las posibles influencias que los valores
del Islam podrían tener sobre la población local.
Por un lado, en muchos discursos encontramos una minimiza-
ción de las diferencias. Nociones como las siguientes colocaron en
un segundo plano la supuesta distancia entre estilos de vida: “las
costumbres locales que a simple vista son contrarias a nuestra prác-
tica religiosa son sólo cuestiones secundarias”, “muchos brasileños
no comen cerdo, tampoco los judíos, muchos no beben alcohol por
cuestiones de salud”. Apostando a estas posibles compatibilidades
algunos entrevistados alegaron que, con el transcurrir del tiempo, las
costumbres de los musulmanes dejarán de ser vista como extrañas o
exóticas y los valores religiosos del Islam terminarían influenciando
la forma de vida de las poblaciones locales. Este tipo de discursos
muchas veces menciona a las instituciones educativas que la co-
munidad ha construido a lo largo del tiempo8 como espacios que
terminarán atrayendo a la sociedad local. Esta posibilidad aparece
elaborada en el contexto de una imaginación o proyección sobre el
futuro pues, según afirmaban algunos, la sociedad local ya percibe
la diferencia entre el tipo de educación que ofrecen las escuelas de la
comunidad y las otras. Las primeras son descriptas como luchando
por preservar valores morales que las otras ya no pueden transmitir
o como ejerciendo, a pesar de las dificultades, un mayor cuidado y
control sobre el comportamiento de niños y adolescentes. Los pocos
casos de brasileños y paraguayos que alguna vez han frecuentado
o frecuentan las escuelas de la comunidad árabe son puestos como
ejemplos de esta posible valorización del tipo de educación que estas
escuelas representan.

8 En la zona existen tres instituciones educativas creadas por la comunidad


árabe durante las últimas dos décadas; del lado brasileño, la Escola Árabe
Brasileira, que congrega 400 alumnos y la Escola Libanesa Brasileira de Foz
do Iguaçu donde concurren 700 alumnos. En Ciudad del Este se localiza el
Colegio Libanés, donde acuden casi 300 alumnos.

40

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 40 29/04/14 18:58


Otros imaginan que a través de las generaciones es probable que
su cultura comience a perderse o a “diluirse” por fuerza de la adopción
de los estilos de vida locales pero, al mismo tiempo, sostienen que es
la religión lo que perdurará por encima de los cambios que puedan
producirse. “Somos un pueblo espiritual” afirmaba uno de mis entre-
vistados. Coincidiendo con ese punto de vista, uno de los líderes de
la comunidad musulmana expresaba: “(…) van a predominar los que
entiendan bien la religión, en unas décadas religiosamente no va a
haber más libaneses o palestinos, todos serán locales, la religión nunca
acaba (…)”. Nuestro interlocutor señaló que el objetivo no era generar
conversos sino esclarecer estereotipos y mostrar compatibilidades. Y en
sus reflexiones esta posibilidad implicaría “salir del tribalismo y del
racismo de las primeras generaciones”. En su visión, la desaparición
de los vínculos ligados a la etnicidad será un proceso normal del
futuro lejano de esas comunidades, que conducirá a la preponde-
rancia de todo lo ligado a la religiosidad, afirmando al respecto que
“estos procesos son normales y forman parte del crecimiento y de la
globalización”. Otro de nuestros entrevistados, religioso observante,
planteo incluso que en el futuro la región podría transformarse en
una pequeña Malasia, atrayendo musulmanes de todo el mundo y
esto estaba asociado a su idea de que en esta zona era posible vivir
y practicar la religión con tranquilidad.
Es interesante considerar cómo en algunos de éstos discursos,
y también entre algunos jóvenes descendientes que participan en
la vida religiosa de la comunidad, aparece un desdoblamiento de
la adscripción cultural y la religiosa, suponiendo una perennidad de la
segunda y un peligro de pérdida respecto de la primera. Como se ha
señalado en otros trabajos (MONTENEGRO, 2011; PINTO 2011), y
a diferencia y semejanza de otros contextos que hemos estudiado, en
la Triple Frontera ser árabes y ser musulmanes configuran aspectos
yuxtapuestos y el Islam es aún una religión restringida al círculo de los
inmigrantes árabes y sus descendientes. A esto debemos sumarle que
no existe un grupo de conversos paraguayos o brasileños visible o que
participe en las instituciones religiosas de la comunidad, aunque exis-
ten, como hemos podido comprobar en nuestros trabajos de campo,

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 41

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 41 29/04/14 18:58


algunos individuos aislados que se han convertido sin frecuentar los
espacios religiosos de la comunidad árabe9. No obstante, notamos
que en algunos casos cuando nuestros interlocutores arriesgaban
proyecciones sobre el futuro de la comunidad, consideraban lo que
denominaban “costumbres”10 como menos duraderas que la religión
o, al menos, como una dimensión más sujeta a la influencia local.
Es lógico que en una comunidad de inmigrantes donde los pioneros
llegaron hace más de 4 décadas, la camada siguiente hace casi 30 años
y donde hay ya un número considerable de descendientes nacidos en
Brasil y Paraguay que supera los 20 años, aparezcan distintas elabo-
raciones, proyecciones y puntos de vista en torno al futuro.
De este modo, inmigrantes y descendientes inscriben sus expe-
riencias, sobre las tensiones entre su cultura de origen y la atribuida
a las sociedades locales, en narrativas de diferencia, posicionándose
como singulares. Al apropiarse del discurso generalizado que los
concibe como “diferentes” construyen argumentos sobre el papel de
su especificidad religiosa en relación a los Otros locales.

Narrativas de rupturas y continuidades


en clave generacional

Sin embargo, al lado de esta idea de que futuramente los valores


religiosos propios pueden influenciar al medio local, existen también
algunos que consideran la relación con las costumbres y estilos de
vida locales como lo que podríamos denominar una tensión perma-
nente entre verse atraídos por ésta y preservar sus tradiciones. El
contexto de esos relatos generalmente se relaciona a una evaluación,

9 En relación al caso de uno de estos conversos, analizado en tanto trayec-


toria de un disidente y teniendo como telón de fondo una discusión sobre la
transnacionalidad y las tentaciones etnicistas del análisis de contextos como
la Triple Frontera, ver Lorenzo Macagno (2011).
10 Estamos haciendo referencia a nociones construídas por los sujetos que,
en este caso, aludían a rasgos como la comida, la forma de vestir, el hecho
de cultivar amistades sólo dentro del círculo de la comunidad.

42

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 42 29/04/14 18:58


realizada por las generaciones anteriores, del comportamiento de los
jóvenes, descendientes nacidos en Brasil o Paraguay, o a una mirada
retrospectiva sobre la trayectoria biográfica propia. En general, las
jóvenes generaciones son consideradas, por aquella que les precede,
como en una situación de tensión entre seguir con las costumbres
de la comunidad u optar por vivir como sus pares brasileños o pa-
raguayos. La idea de que algunos jóvenes se apartan de la religión,
cultivan amistades locales, beben o se distancian de la comunidad
muchas veces es considerada como una circunstancia pasajera pero
que eventualmente puede incluir el peligro de una futura “dilusión”
de la comunidad. De ahí que las escuelas árabes creadas por los inmi-
grantes sean consideradas posibles garantías de “reproducción”, tanto
de los aspectos religiosos como de los vinculados al origen nacional
libanés de la mayoría de los descendientes de los inmigrantes.
Otros relatos sumaron a esta esperanza en la eficacia de las escuelas
la importancia de propiciar que los jóvenes puedan viajar para pasar
un tiempo en las tierras de sus padres, en visita familiar o también
para perfeccionar el uso de la lengua en la comunidad de hablantes.
Las tensiones generadas por estilos de vida considerados diferentes se
expresa también en el discurso de algunos jóvenes que elaboran vi-
siones críticas de la educación recibida en las escuelas. En tal sentido,
algunos alegaron que este tipo de educación no los preparaba muy
adecuadamente para la vida local. Otros, enfatizando su fe religiosa,
se refirieron con cierta ironía a que muchas veces eran cuestionados
por sujetos que se alejan de la religión durante la mayor parte de su
juventud y vida adulta y regresan al final de sus vidas. A su vez, en
las propias instituciones educativas encontramos siempre relatos sobre
estas tensiones, la dificultad de educar a niños y jóvenes que, como
todos, acceden a estímulos contrarios a los valores que se les intenta
transmitir. Otra fuente de estos relatos es el discurso de algunos padres
que se muestran preocupados de que sus hijos varones inicien relaciones
con mujeres brasileñas o paraguayas; algunos explicitan su deseo de
que se casen dentro de los círculos de la comunidad y, otros, suponen
que es mejor no ejercer presiones dado que “solos se darán cuenta”
de los posibles conflictos que esto podría implicar.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 43

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 43 29/04/14 18:58


Al analizar un conjunto de discursos que expresa las diferencias
en clave generacional, a la luz de ciertas representaciones que los ma-
yores elaboran sobre las jóvenes generaciones, notamos que subyace
la construcción de una visión dicotómica entre el lugar de origen y la
especificidad cultural atribuida al espacio de destino. Evidentemente,
nos referimos a un lugar de origen resignificado e, incluso, idealizado,
como un espacio donde la religión y los vínculos familiares aparecen
configurando las sociabilidades de los jóvenes. Un punto de vista
según el cual la religión parece constituirse en un legado cultural y,
como tal, se transmitiría de forma fluida en el contexto más amplio
de una cultura permeada por ella. Al mismo tiempo, siempre en el
contexto de estas representaciones, el espacio de destino migratorio
es categorizado como un ámbito donde los controles de la comunidad
no llegar a ser demasiado fuertes o posibles, teniendo en cuenta la
diversidad de opciones de estilos de vida asequibles en el mundo local.
Algunos entrevistados señalaron que esos jóvenes se encontraban
en una “fase transitoria” por la cual ellos mismos también habían
pasado, en momentos en que, en los espacios de destino, se alejaron
de la religión y postergaron el retorno a las prácticas. Entre nuestros
interlocutores pioneros, un conjunto coincidió en afirmar que antiguos
y nuevos inmigrantes pertenecían a una “misma cultura”, lo cual
garantizaba la existencia de redes de solidaridad y aprendizaje de las
tradiciones. No obstante, señalaron límites: “mientras los jóvenes no
hagan nada malo”, “siempre que no beban alcohol o vayan al casino
aprovechando que nadie los ve”, “cuando no terminen abandonando
su personalidad religiosa”, recordando también casos en los cuales las
amistades locales terminaron generando influencias en los estilos de
vida. En síntesis, este discurso se elabora a partir de un reconocimien-
to de las diferencias intergeneracionales, que propiciarían distintos
“modos de estar” en la frontera.

Consideraciones finales

Los inmigrantes y sus descendientes relatan e inscriben sus expe-


riencias en narrativas que les permiten insertar sus trayectorias en el

44

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 44 29/04/14 18:58


cotidiano de la frontera. Se trata de elaboraciones a través de las cuales
los actores enuncian “quienes son” y cómo entienden su posición en
las dimensiones tiempo-espacio del destino migratorio. Hemos visto
que, por un lado, muchos se presentan como comerciantes, como
sujetos que encontraron un espacio para mejorar, aunque en distinto
grado, sus condiciones de vida. Estos discursos construyen una se-
cuencia que va de las condiciones previas a la partida, marcada por la
falta o agotamiento de las oportunidades, a veces en un contexto de
conflictividad política, y culmina con la incorporación a la dinámica
laboral entre Foz de Iguaçu y Ciudad del Este o en alguna de las dos
ciudades. De este modo, las trayectorias biográficas adquieren sentido
y pasan a formar parte de una dimensión más amplia de migración/
trabajo/”progreso”, en un espacio donde sujetos de diferente origen
confluyen también en la búsqueda de oportunidades de vida. En este
plano, nuestros entrevistados se consideraron insertos en una posición
análoga a la de otros contingentes migratorios de la zona.
Los sentidos otorgados a las diferencias culturales conforman otro
de los nodos a partir de los cuales nuestros entrevistados elaboraron
relatos que les permitieron posicionarse como singulares. Esa especifi-
cidad fue pensada o bien como una capacidad de influir y diseminarse
en los espacios locales o bien como una “propiedad” que podía per-
derse, desdibujarse o diluirse. Ambas tendencias tienen en común el
mantener el reconocimiento de una diferencia que demarca fronteras,
sean o no porosas. La perennidad atribuida a la religión de origen hizo
que, en algunos relatos, se produzca un desdoblamiento entre lo que
fue mencionado como “culturas” o “costumbres” y la religión, vista
como aquello que permanece a pesar de otros cambios. Al mismo
tiempo, estas narrativas sobre las diferencias hicieron emerger las
distinciones generacionales como un aspecto que también atraviesa la
propia mirada sobre las tensiones entre la preservación de la tradición
y el tornarse poco distinguibles de paraguayos y brasileños. Si bien en
los relatos las distinciones generacionales suponen diferenciaciones
al interior de la comunidad, también son incluidas para señalar las
tensiones entre los estilos de vida considerados como “propios” y los
atribuidos a la vida local.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 45

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 45 29/04/14 18:58


Intentar referirse a las especificidades de una “comunidad”
árabe y/o musulmana implicaría homogeneizar una realidad de
por sí heterogénea. Esto constituye un problema empírico y al mismo
tiempo de perspectiva metodológica, vinculado a la forma de recor-
tar unidades de análisis. Lógicamente, si consideramos instituciones
(escuelas, mezquitas, asociaciones) es posible encontrar discursos
que retratan a la comunidad de modo más homogeneizante que si
nos centramos en el discurso de sujetos que expresan sus experien-
cias. Ambos análisis son importantes y necesarios aunque, para el
caso del estudio de las narrativas, puede ser propicio recordar la
advertencia que podríamos denominar post-anti-substancialista, de
Brubaker (2002), referida a la posibilidad de pensar la etnicidad sin
grupos o más allá de éstos. Considerar el carácter eventual de la
“grupedad”, que puede o no cristalizar identificaciones, lenguajes y
proyectos políticos de etnicización, puede funcionar como antídoto
a la tendencia de analizar a los grupos étnicos como unidades a las
que pueden atribuirse identidades, fronteras, intereses o agencias.
Nuestra opción fue trabajar con los relatos de un conjunto de indivi-
duos e identificar los nodos temáticos que estructuran las narrativas
que otorgan sentido a sus trayectorias individuales. De este modo,
no pretendemos generar caracterizaciones generalizantes, pero es
posible afirmar que no siempre los actores elaboran sus identificacio-
nes a través de categorizaciones étnicas. En realidad, entre los árabes
musulmanes de la Triple Frontera encontramos una multiplicidad de
discursos, marcados por espacios de posiciones: portavoces institucio-
nales, comerciantes comunes, inmigrantes antiguos o recientes, jóve-
nes, hombres o mujeres, musulmanes observantes o no. Lo anterior
supone una complejidad que puede ser observada al enfocar o tener
en cuenta esos recortes específicos.
El objetivo de conocer cómo los sujetos se piensan en el espacio
de la frontera brasileño-paraguaya no implica desconocer que las
formas de territorialización construídas por estos grupos está también
permeada por el establecimiento de relaciones transnacionales, por
la manutención de referencias y relaciones con sus lugares de origen.
Sin embargo, cabe considerar que esta dimensión, materializada en

46

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 46 29/04/14 18:58


la forma de viajes frecuentes, en el interés por lo que sucede en la
tierra de origen o en preservar costumbres asociadas a éste, se pro-
duce o es construida también desde una “localización local”. Algunos
inmigrantes de mediados de la década del 80 relataron el asombro
por las transformaciones que habían visto al regresar a sus lugares de
origen, de los cuales habían conservado una cierta imagen que parecía
transformada. Las referencias al espacio de origen como imaginado
es, evidentemente, un elemento clave en la configuración identitaria
de los inmigrantes, pero no creemos que sea la única o la dimensión
que genera procesos de identificación más fuertes. Las contribucio-
nes de los debates en torno a la importancia de considerar el papel
de las prácticas de transnacionalismo en estos contextos destacaron
nociones como la de “localización dual” para señalar, precisamente,
una especie de localización y construcción de identificaciones en dos
espacios al mismo tiempo (TAMBIAH, 2000). No obstante, lo que pue-
de ser cierto para el caso de las primeras generaciones de inmigrantes
puede no tener la misma intensidad en el caso de las generaciones
subsiguientes. De hecho, tal vez prestar atención a las diferencias
generacionales sea el modo mas propicio de comprender la dinámica
y transformación de una comunidad que, como la árabe-musulmana,
tiene ya una prolongada presencia en la Triple Frontera.

Referencias Bibliográficas

BRUBAKER, Roger. “Ethnicity without Groups”, Arch. europ. Sociol., XLIII,


2 (2002), pp. 163-189.

BRUNER, Edward. “Experience and Its Expressions”, In: Victor W. Turner and
Edward Bruner (eds.) The Anthropology of Experience, Chicago: University
of Illinois Press, 1986.

GIMENEZ BÉLIVEAU, Verónica y MONTENEGRO, Silvia (comp.). La Triple


Frontera: dinámicas culturales y procesos transnacionales, Buenos Aires:
Espacio Editorial, 2010.

MACAGNO, Lorenzo. “Representações (trans) nacionais e trajetórias: uma


reflexão preliminar”. In: Lorenzo Macagno, Silvia Montenegro e Verónica

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 47

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 47 29/04/14 18:58


Giménez Béliveau (orgs), A Tríplice Fronteira. Espaços nacionais e dinâmicas
locais, Curitiba: Editora da Universidade Federal do Paraná, 2011.

MONTENEGRO, Silvia. “Projetos missionários e representações sobre a diver-


sidade cultural: o evangelho transcultural para árabes na “Tríplice Fronteira”.
In: Lorenzo Macagno, Silvia Montenegro e Verónica Giménez Béliveau (com-
piladores) A Tríplice Fronteira. Espaços nacionais e trânsitos globais, Curitiba:
Editora da Universidade Federal do Paraná, 2011.

_______________ “Imigrantes árabes na fronteira sul-americana: narrativas


de trabalho, religião e futuros imaginados”, Rever – Revista de Estudos da
Religião, Pontifica Universidade Católica de São Paulo, Brasil, Vol 13, N 1
(2013) pp. 9-30.

________________”Arabes en la selva: migración, religión e identidad en el


imaginario de católicos y pentecostales”. In: Olga Odgers y Juan Carlos Ruiz
Guadalajara (comp.) Migración y Creencias: pensar las religiones en tiempos
de movilidad, Tijuana: El Colegio de la Frontera Norte, 2009.

________________ “La inmigración árabe en el Paraguay”, “Comunidades


árabes en Brasil”, In: Abdeluahed Akmir, Los árabes en América Latina,
Madrid: Siglo XXI-Casa Árabe, 2009.

MONTENEGRO, Silvia y GIMÉNEZ BÉLIVEAU, Verónica. La Triple Frontera:


globalización y construcción social del espacio: Buenos Aires, Miño y
Dávila, 2006.

PINTO, Paulo. “As comunidades muçulmanas na Tríplice Fronteira: signi-


ficados locais e fluxos transnacionais na construção de identidades étnico-
religiosas”, In: Lorenzo Macagno, Silvia Montenegro e Verónica Giménez
Béliveau (Orgs), A Tríplice Fronteira. Espaços nacionais e dinâmicas locais,
Curitiba: Universidade Federal do Paraná, 2011.

SOMMERS, Margaret . “The narrative constitution of identity: a relational and


network approach”, Theory and Society, (1994) 23, pp. 605-649.

TAMBIAH, Stanley. “Transnational Movements, Diaspora and Multiples


Modernities”, Daedalus, (2000) 129/1, pp. 163-194.

48

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 48 29/04/14 18:58


LA C ONSTRU C C I Ó N DEL IMAGINARIO
GEOPOLÍTI C O DE LA TRIPLE FRONTERA

Antonino Zunino, Danilo Ferreira e Carla Orihuela1


(Bolsistas PET-UNILA)

Introducción

El objetivo principal de este artículo es indagar acerca de la construc-


ción del imaginario geopolítico de la Triple Frontera que une a Brasil,
Paraguay y Argentina. Para esto hemos enmarcado los estudios sobre
el imaginario en el análisis de la política internacional, observando la
construcción del imaginario geopolítico de la región en algunos medios
de comunicación, fuentes institucionales, investigaciones académicas
y discursos alternativos.
Abordaremos las construcciones en torno al espacio denominado
Triple Frontera, las narrativas sobre la importancia estratégica que
tiene esta zona, “mitos” políticos que la describen. Verónica Béliveau
y Silvia Montenegro en su libro La Triple Frontera: Globalización
y construcción social del espacio (2006) denominan a esta región
como un “espacio imaginado”, en el sentido de construido social-
mente (y por lo tanto, mutable). Las autoras de dicho libro examinan
un cierto sentido común que se ha instalado en la prensa interna-
cional y nacional acerca de la relevancia política y la peligrosidad
de esta frontera. Indagan en medios argentinos e internacionales,

1 Orientadora: Prof. Dra. Diana Araujo Pereira, grupo PET/CONEXIONES


DE SABERES (UNILA, 2010 – 2013).

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 49

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 49 29/04/14 18:58


así como en lo que ellas llaman “altermedios” (blogs, foros sociales,
etc.), que presentan un imaginario alternativo al de los medios. Aquí
se realiza un seguimiento actual de estos discursos, desde 2010
hasta marzo de 2013, incluyendo medios de Brasil y Paraguay no
tomados en cuenta por las autoras. También se consideran fuentes
institucionales (Mercosur y sus Estados partes), lo que nos permite
contemplar el surgimiento de un posible discurso alternativo tam-
bién a nivel oficial. Para estas fuentes el recorte temporal utilizado
es más amplio (2001-2013), intentando captar su trayectoria y
contrastarla con las otras.
El trabajo se organiza en dos partes, la primera exponiendo el
marco teórico utilizado, y la segunda consistiendo del análisis de los
diferentes discursos.
En la realidad, la dinámica con la que se construyen los imagi-
narios consiste en una yuxtaposición conflictiva de unos discursos
sobre otros, en complejas interrelaciones. La Triple Frontera en la que
confluyen Ciudad del Este (Paraguay), Puerto Iguazú (Argentina), y
Foz do Iguaçú (Brasil) es por varias razones una zona muy relevante
para el continente. Su posición geográfica es estratégica en Sudamérica
por ubicarse en el centro de la hidrovía Paraguay-Paraná-Río de la
Plata (que conecta Argentina, Paraguay, Uruguay, Brasil y Bolivia2),
a medio camino entre los Océanos Pacífico y Atlántico, y uniendo
importantes puertos de ambas costas con centros comerciales de
América del Sur. Al respecto, Montenegro y Béliveau (2006, p111) citan
a Ana Esther Ceceña, que en su libro La guerra infinita, hegemonía y
terror mundial menciona que “existen fuertes intereses económicos
ligados a la puesta en marcha del ALCA y a la obtención de recursos
naturales valiosos. La Triple Frontera [...] funciona como llave de
acceso político y militar a la región amazónica; es una frontera que
comunica a dos de los países más importantes de América del Sur
y está en un lugar rico en biodiversidad [...] y con mucha agua que
puede ser una buena fuente de energía eléctrica”.

2 Desde el puerto Cáceres en la frontera de Brasil y Bolivia, hasta la Cuenca


del Plata.

50

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 50 29/04/14 18:58


Además de su biodiversidad, se trata de una región clave por
ser la principal área de recarga y descarga del Acuífero Guaraní3,
una de las reservas más grandes de agua dulce del mundo. Ubicada
geográficamente en el corazón de la Cuenca del Plata, el corredor
transfronterizo del Acuífero tiene su centro significativamente en la
Triple Frontera. Por otra parte, es una importante zona comercial
y turística, principalmente por las Cataratas del Iguazú, declaradas
recientemente como una de las Siete Maravillas del mundo natural,
y la zona franca de Ciudad del Este, una de las mayores de América
Latina y considerada por la revista Forbes el tercer polo comercial de
todo el mundo después de Miami y Hong Kong. Se agregan factores
culturales y sociales, relacionándose al tránsito fronterizo y una gran
diversidad étnica (fuerte presencia árabe, asiática, indígena, etc).
Adicionalmente, se trata de una zona delicada para la seguridad
regional por la presencia de la represa Itaipú (la mayor del mundo
en generación de energía), y por los peligros potenciales que trae
aparejados la confluencia de tres Estados nacionales.

El imaginario geopolítico de la Triple Frontera

Como sintetizan Béliveau y Montenegro, la Triple Frontera,


denominación relativamente reciente que se instala con la atención
internacional sobre la zona después de los atentados del World Trade
Center de Nueva York en 2001,

[…] comienza a ser categorizada como un área con características


propias, al ser construida como noticia en la prensa internacional y
nacional. El discurso periodístico asimila la zona a un espacio trans-
nacional, una tierra sin ley, que escapa a los controles estatales. La
Triple Frontera se convierte en metáfora de las “zonas grises” y de
los amenazantes espacios a los que se atribuye imprevisibilidad, en
el marco de discursos relacionados con agendas de seguridad, en la
era del “terrorismo global”. (2006, p.17)

3 “Es decir, el punto en que el reservorio subterráneo recambia sus aguas


con la superficie” (Montenegro y Béliveau, 2006, p. 20).

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 51

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 51 29/04/14 18:58


Las investigadoras también presentan una visión alternati-
va difundida desde de lo que denominan “altermedios”, que se
muestra crítica con los intereses subyacentes a ese imaginario de
frontera peligrosa (publicaciones de organizaciones sociales, foros,
eventos de la sociedad civil, etc.) Confluyen desde los dos ámbitos
discursos contradictorios que dan forma a este espacio; dos polos
que compiten pero, como demuestran, son permeables – la prensa
más “oficial” incorpora, con el correr del tiempo, elementos del
discurso de los altermedios. Se trata de una lucha por el poder de
nominación sobre la realidad. Estas disputas por nominar y definir
el objeto Triple Frontera deben ser comprendidas como “luchas
por el poder entre actores interesados en imponer su punto de
vista sobre la realidad social” (Montenegro y Béliveau, 2006,
p.22). La atribución de características influye en cómo se piensa
la región y en las acciones que se legitiman sobre la misma. Al
decir de las autoras, “lograr cristalizar el propio punto de vista
sobre el lugar implica imponer la cosmovisión vehiculizada por el
agente, y vuelve válidos y justificativos los intentos de los grupos
y de los actores de operar sobre la realidad social” (2006, p.233).
Así, mientras unos advierten sobre los peligros del terrorismo y la
falta de control de la Triple Frontera, otros llaman a la resistencia
frente a peligros diferentes, como la militarización de la región,
o la depredación de la biodiversidad, a causa de la codicia de las
potencias extranjeras.
Cuando hablamos de “imaginario geopolítico” pensamos en el
conjunto de representaciones que la sociedad construye sobre cierto
territorio y su importancia en términos políticos/estratégicos; dis-
cursos e imágenes que orientan la percepción de las personas acerca
de un espacio, la forma de las relaciones de poder y la vida pública
que en él existen, además de su relevancia estratégica, ya sea para
los Estados u otros actores políticos.
Para la geografía política, la Triple Frontera es muy particular.
Migraciones, fronteras nacionales porosas, recursos naturales y
conflictos políticos en torno a ellos, tienen aquí particular magni-
tud, tornando a la zona muy interesante desde un punto de vista

52

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 52 29/04/14 18:58


geopolítico4. No obstante, en este trabajo no hacemos un análisis de
la geopolítica de la Triple Frontera en sí misma, sino de las percep-
ciones acerca de ella que comparten grandes colectivos de personas.
Cómo se imagina geopolíticamente la Triple Frontera, desde dentro
y desde afuera, a veces desde muy lejos. Nuestro objetivo es con-
jugar los estudios sobre el imaginario social con el análisis político,
asumiendo que la producción de unas u otras imágenes se relaciona
a intereses y formas de entender las relaciones internacionales, de-
latando proyectos y valores políticos que pueden ser antagónicos.
Limitamos nuestro interés a los discursos objetivados en fuentes
periodísticas o documentales a nuestro alcance; noticias en medios
masivos de comunicación (procurando incluir al menos un medio de
cada país, para que sea representativo), o declaraciones de actores
políticamente relevantes (actas parlamentarias, por ejemplo), que
consideramos formadores de opinión.
La construcción del imaginario, y especialmente de un imaginario
geopolítico, implica una lucha por la hegemonía de unas imágenes
y discursos sobre otros. Antonio Gramsci elaboró en los años ‘30 el
concepto de hegemonía, que se refiere a la dirección ideológica y
cultural de una sociedad, y las luchas por el control del imaginario
colectivo. En América Latina su importante obra se difunde sobre todo
a partir de los años ‘60. Dênis de Moraes (2007) comenta al respecto:

La notable contribución de Gramsci sobre las luchas por la hegemo-


nía en la sociedad civil – a partir de su teoría marxista ampliada del
Estado – nos permite meditar particularmente sobre el desempeño
de los medios de comunicación como soportes ideológicos de los

4 La geografía política es la disciplina científica inaugurada por autores


como F. Ratzel y C. Vallaux a finales del siglo XIX que estudia la política en su
dimensión espacial/territorial. La geopolítica es una síntesis de conocimiento
geográfico aplicado e ideología, desde su origen pensada en el ámbito de la
guerra. Esta disciplina es subsidiaria de la anterior y surge en la plenitud del
imperialismo moderno; “geografía política de guerra” que aplica los principios
de ésta como instrumento estratégico, iniciada principalmente por Rudolf
Kjéllen, A. T. Mahan y H. J. Mackinder. (Messias Da Costa, 2008)

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 53

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 53 29/04/14 18:58


sistemas hegemónicos de pensamiento. […] La diseminación de
contenidos amplía o silencia manifestaciones del real histórico […]
Pero no olvidemos que los medios también pueden ser lugares
de producción de estrategias que objetivan replantear el proceso
social. […] los aparatos de difusión tienen capacidad ideológica de
definir una cartografía del imaginario colectivo. Pero, simultánea-
mente, existen puntos de resistencia a los discursos hegemónicos.
[…] Esa concepción dinámica del imaginario nos posibilita obser-
var la vitalidad histórica de las creaciones de los sujetos – esto
es, el uso social de las representaciones y de las ideas. […] Su
eficacia política va a depender del grado de reconocimiento social
alcanzado por la producción de imágenes y representaciones en
el cuadro de un imaginario específico a una cierta colectividad,
la cual “designa su identidad haciendo una representación de sí;
marca la distribución de los papeles y posiciones sociales; expre-
sa e impone creencias comunes que determinan principalmente
modelos formadores.”

Por eso, además de presentar un esbozo del imaginario geopolítico


predominante y las reacciones que genera, más adelante hablaremos
de la posible consolidación de un nuevo imaginario, distinto, emer-
gente, y los consecuentes conflictos entre un relato y otro.
El concepto de imaginario, por su parte, abarca las imágenes y
representaciones que, implícita y explícitamente, orientan los pen-
samientos y actitudes de una persona hacia cierto objeto. Gilbert
Durand, en unos años ‘60 de difícil aceptación para sus ideas,
comenzaba su libro Las estructuras antropológicas del imaginario
(1960) con una cita perteneciente al Menón de Platón5, asociando el
imaginario a los sueños: hasta cierto punto, no se tiene conciencia

5 “¿Es decir que, incluso en aquél que piensa no saber ciertas cosas, exis-
ten pensamientos relativos a esas mismas cosas que él cree no saber y que
son pensamientos verdaderos?”, pregunta Sócrates. “Sin duda”, responde
Menón. “Y ahora esos pensamientos despiertan en él, como sueños...”, divaga
Sócrates. (Durand, 1960).

54

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 54 29/04/14 18:58


de él. Teixeira Coelho propone en su libro Guerras culturales: Arte
y política en el 900 tardío (2000) entender el imaginario “como el
conjunto de imágenes no gratuitas y de las relaciones de imagen que
constituyen el capital inconsciente y el capital pensado del ser huma-
no.”. Imágenes “no gratuitas”, es decir, no un signo arbitrariamente
colocado como puente entre el objeto y su significado, sino por el
contrario, que “de algún modo” contienen “materialmente” su sentido.
La obra de Gilbert Durand ha sido fecunda y aún hoy vemos desar-
rollarse una ciencia del imaginario, que considera a éste:

[…] esencialmente identificado con el mito, el arte y el pensamien-


to religioso de las sociedades tradicionales, constituye el sustrato
básico de la vida mental que, lejos de agotarse en la producción de
conceptos o en la mera praxis instrumental, alude a una dimensión
del anthropos a partir de la cual el hombre elabora su interpretación
del mundo y organiza el conjunto de su cultura.(Altamirano,
2011, p. 14).

Las imágenes simbólicas son consideradas fuentes de conocimien-


to, y así Durand pretendía en su época enfrentarse a las “hermenéuti-
cas reductivas” de la cultura. En la década siguiente, en libros como
La constitución imaginaria de la sociedad (1975), Cornelius Castoriadis
empezará a hablar de imaginario social – poniendo el énfasis en la
dialéctica dinámica del hecho y su dimensión colectiva. En sentido
estricto este concepto se refiere solamente a “las representaciones de
la sociedad que se encarnan en distintas instituciones”.
La dimensión imaginaria y discursiva de la realidad ha ganado
atención, tal vez porque los cambios de nuestras sociedades en las
últimas décadas la vuelven pertinente como objeto de estudio; se
hace más necesario atender a la imaginación de los sujetos en la era
de la información y la comunicación. En su obra ya mencionada, a
la que hemos recurrido profusamente en nuestro trabajo, las autoras
Montenegro y Giménez Béliveau proponen recuperar el interés por
lo imaginario en el estudio de las ideas políticas, una idea “hetero-
doxa” que atribuyen a Raoul Girardet. Se refieren a las mitologías
políticas de las que se nutre la vida social, pero proponen al “mito”

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 55

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 55 29/04/14 18:58


político no en sentido de invención o mentira, sino en tanto narrativa
verosímil que orienta las acciones políticas. Lo importante de estas
narrativas es que permiten ordenar los hechos – seleccionando unos
y excluyendo otros – de una manera que parece coherente. Como
afirman Montenegro y Béliveu,

Las mitologías políticas se expresan y transmiten en el orden de los


discursos, poseen función explicativa en cuanto permiten ordenar
los hechos y sucesos y tienen la potencialidad de servir de rectores
para la movilización. En nuestro caso se trata de un conjunto de
construcciones mitológicas reunidas en torno a un mismo tema, ex-
plicar la Triple Frontera y el interés internacional que suscita […] la
Triple Frontera aparece como un significante en disputa, que no se
ajusta exactamente con las fronteras nacionales. (2006:198, negrita
en el original)

Existe una dinámica conflictiva, donde algunos intereses políticos


tienen capacidad de hablar más fuerte o incluso silenciar los discursos
que los contradicen. Estas construcciones sobrepuestas alimentan las
decisiones políticas y la subjetividad de los actores, inmersos en una
realidad narrada por voces disonantes. Teixeira Coelho habla de una
verdadera “guerra” cultural, porque “los imaginarios de la identidad
se confrontan de modo continuado y persistente en más de una are-
na” (2000, p. 91). Los discursos encontrados de medios y altermedios
identificados por Montenegro y Béliveau compiten entre sí por narrar
la Triple Frontera. Los medios internacionales y los nacionales más
importantes, especialmente a partir de los atentados de Nueva York
en 2001, describen la región como peligrosa e incontrolada, refugio y
fuente de financiación de terroristas, corrupta, centro de contrabando.
Otros medios independientes, radios, movimientos sociales que se
expresan en foros o a través de internet, cuentan a la región como
un tesoro natural codiciado por las potencias, que quieren explotar
sus problemas para militarizarla.
Estudiamos el imaginario geopolítico tejido en torno a esta región,
antes denominada como Tres Fronteras y más recientemente como Triple
Frontera – rebautizada así a partir de los dos atentados en Argentina en

56

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 56 29/04/14 18:58


1992 y 19946, que fueron relacionados con esta zona. (Montenegro
& Béliveau, 2006, p.16). Mencionada con este nombre, aparece fre-
cuentemente en la prensa de los tres países fronterizos o internacional,
especialmente desde 2001 en adelante, con connotaciones negativas.
¿Quiénes tejen ese imaginario, y por qué canales lo expresan?
Como toda narrativa, debe disputar espacio de nominación con otras
representaciones aún no consolidadas en un bloque coherente; ¿a qué
intereses responde, y contra qué otros relatos posibles? Dada la asi-
metría de poder existente en el sistema internacional, entre la prensa
regional y mundial, y los altermedios con que cuenta la ciudadanía,
¿qué márgen hay para la construcción de una narrativa contrahege-
mónica de la Triple Frontera?
En este artículo presentamos un recorte de la realidad social: una
muestra de esta “guerra” de imaginarios expresada en documentos
y actas institucionales, declaraciones políticas y proyectos de desar-
rollo para la región, y un relevamiento de prensa que da continuidad,
ocho años después, al realizado por Montenegro y Béliveau en 2006.

Los mapas posibles de la Triple Frontera

Para ejemplificar el poder instituyente del discurso al crear


imaginarios que se pretenden objetivos sobre una región, podemos
contrastar algunos mapas de la Triple Frontera que la retratan de di-
ferentes maneras. Los mapas también construyen discurso, a través
de la escritura cartográfica, en soporte diferente a la palabra.
La construcción del mapa de un territorio está determinada por las
narrativas sociales que lo envuelven, de manera que dibujarlo en un mapa
es cristalizar ciertas ideas, imágenes y datos disponibles socialmente al
respecto de él. A la vez, el mapa condiciona la forma en que las personas
imaginan la vida e importancia política del territorio, al conocerlo a través
de sus “ojos”. La selección de las informaciones que van a ser incluidas
y las que serán excluidas es lo central en el proceso de cartografiar un

6 Ataque a la embajada israelí en Bs. As., 17/03/1992; ataque a la Aso­


ciación Mutual Israelita Argentina en Bs. As., 18/07/1994.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 57

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 57 29/04/14 18:58


territorio. El mapa, geopolítica concretizada, fue definido por Yves Lacoste
en La geografía: Un arma para la guerra (1977, p.7) de esta forma:

Mucho más que una serie de estadísticas o que un conjunto de textos,


el mapa es la forma de representación geográfica por excelencia; sobre
el mapa deben ser llevadas todas las informaciones, necesarias para
la elaboración de las tácticas y de las estrategias. La formalización
del espacio significada por el mapa no es gratuita ni desinteresada:
medio de dominación indispensable, de dominación del espacio, el
mapa fue elaborado en primer lugar por militares y para militares.
La producción de un mapa, es decir, la conversión de una concreción
mal conocida en una representación abstracta, eficaz y digna de
confianza, es una operación, ardua, larga y costosa que sólo puede
ser realizada por y para el aparato del Estado. El trazado de un mapa
implica cierto dominio político y científico del espacio representado, y
es un instrumento de poder sobre dicho espacio y sobre las personas
que viven en él.

Por tanto, el mapa es una expresión geopolítica de poder, adonde


estudiar la dominación territorial de modo privilegiado. La Triple
Frntera puede imaginarse a partir de tres mapas muy diferentes.
Mapa nº1 – La Triple Frontera, cruce de tres Estados Nacionales
y centro del Mercosur7.
Mapa nº2 – La Triple Frontera, corazón de las tierras guaraníes8.
El territorio de vida del pueblo Guaraní, en honor de quienes, por
coincidir con esta área, se nombró al mayor acuífero del continente.
Mapa nº3: La Triple Frontera, tesoro natural codiciado por
las potencias9.
Aquí aparecen las bases militares con colaboración o bajo control
estadounidense, superpuestas con los recursos hídricos de Sudamérica:
Coincidencia elocuente.

7 Todos los mapas son de elaboración propia a partir de materiales con


licencia libre, con base en las fuentes especificadas.
8 Fuente: http://indigenas-sc.zip.net/
9 Fuente: Laboratorio Latinoamericano de Geopolítica, www.geopolitica.ws

58

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 58 29/04/14 18:58


Mapa nº1: triple frontera

Mapa nº2: triple frontera

Ca rto g ra f i a i m a g i n á r i a d a t r í p l i C e f ro n t e i ra 59

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 59 29/04/14 18:58


Mapa nº3: Triple Frontera

los recursos naturales como eje de disputa:


El Acuífero Guaraní

El Acuífero Guaraní es una de las reservas de agua potable más


grandes del mundo, con una superficie aproximada de 1.194.000 ki-
lómetros cuadrados. De la superficie total del acuífero, la mayor parte
le corresponde a Brasil, con 839.000 km2; Argentina tiene 226.000
km2, Paraguay 71.700 km2 y Uruguay 59.000 km2,10 y su capacidad

10 Ver www.sg-guarani.org. Además, ver Bruzzone, Elsa: “Proyecto para la


protección ambiental y desarrollo sustentable del sistema acuífero Guaraní”
desarrllado por el Banco Mundial.

60

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 60 29/04/14 18:58


alcanza para abastecer a toda la población mundial durante 200 años
a razón de 100 litros diarios por persona (Latarroca, 2005, p.17).
A pesar de su relevancia como recurso, el Acuífero sólo entró
en la atención internacional y el discurso político en la década de
1990. Esta preocupación se enmarca en una resignificación más
amplia de las reivindicaciones sociales que abarca a toda América
Latina, conjugando la defensa de la tierra y el medio ambiente con
la valorización de los pueblos originarios y su cultura. Las reformas
neoliberales de décadas recientes y la posibilidad de la creación del
ALCA11, generaron como respuesta movimientos de resistencia en
cuyo discurso los recursos naturales eran fuente de la soberanía
nacional y regional. En este contexto los recursos hídricos cobraron
mayor relevancia; discursivamente se afirma el carácter esencialmente
social del agua como derecho indispensable para la vida, rechazando
su mercantilización. La “guerra del agua” (levantamiento popular en
Cochabamba, Bolivia, en el año 2000) marca sin duda un punto de
inflexión que indica el comienzo de este nuevo ciclo de protestas. En
el año 1999 se aprueba en el congreso boliviano la “Ley de Servicios
de Agua Potable y Alcantarillado Sanitario”, que extendía el marco
legal para las privatizaciones de los recursos hídricos, ya privatizados
en Cochabamba desde 1993. Sumado a los aumentos tarifarios, pro-
vocó una gran protesta social. La victoria de los movimientos sociales
llegaría en abril de 2000, cuando la ley fue finalmente derogada. Se
proponía pensar al agua como un derecho de los pueblos, y por tanto
parte de su soberanía, y no tan solo como un recurso a ser explotado.
Otro caso es el de la reforma constitucional de 2004 en Uruguay, que
declara al agua como un derecho humano fundamental, impulsada
por un amplio abanico de organizaciones y movimientos sociales y
aprobada por el 64,6% de la ciudadanía. El proceso de politización
del agua abarca a toda la región, con muchos foros, movimientos y
altermedios que toman parte en esta lucha y en su discurso enfatizan
la importancia geopolítica que tiene el agua.

11 Área de Libre Comercio de las Américas que comprendería las economías


de todo el continente americano.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 61

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 61 29/04/14 18:58


En este contexto, diversos actores recuperan la importancia del
Acuífero Guaraní, cuyo centro está en la Triple Frontera (zona impor-
tante de recarga y descarga, donde el agua de precipitación se infiltra
y sale del acuífero; y punto de unión simbólico de tres de los cuatro
países en los que se ubica). Esto es identificado por Montenegro y
Béliveau en discursos como el del CEMIDA (Centro de Militares para
la Democracia Argentina)12 y del Foro Social de la Triple Frontera
(FSTF). Este último tiene lugar por primera vez en el año 2004 en la
ciudad de Puerto Iguazú, Argentina; surgió alineándose al Foro Social
Mundial (2001)13. En el primer FSTF se destacaron las temáticas lati-
noamericanas: la lucha contra la militarización, el pago de la deuda
externa y el ALCA, y la reivindicación de la “soberanía y la integración
solidaria de los pueblos”. En la segunda edición del Foro (Ciudad del
Este, 2006) tuvo centralidad el Acuífero Guaraní, considerado uno de
los “bienes naturales de Latinoamérica” que es necesario defender de
organismos internacionales, como el Banco Mundial (Montenegro
y Béliveau, 2006, p.213). Se rechaza el financiamiento otorgado
por el Banco Mundial al Fondo de Universidades para investigaciones
científicas del acuífero, que podrían disponibilizar los conocimientos
del mismo a las grandes potencias.
El CEMIDA participó activamente de foros como el FSTF, denun-
ciando la importancia estratégica del Acuífero Guaraní y los intere-
ses de apropiación del mismo, convirtiéndose en una de las fuentes
principales para la prensa alternativa. En una entrevista realizada por
Montenegro y Béliveau a la secretaria del CEMIDA, Elsa Bruzzone,
ella afirma: “Nosotros estamos en la vereda de los países pobres...
nosotros pensamos que ni el agua potable, ni la vida humana, ni la
vida vegetal, ni la vida animal ni la naturaleza, ni el planeta son mer-
caderías...” (2006, p.218) No obstante, luego de estas dos ediciones del

12 El CEMIDA nace en 1984, fundado por un grupo de militares retirados


convencidos de la importancia de la subordinación de las Fuerzas Armadas
a los poderes constitucionales.
13 Carta de principios del Foro Social Mundial (São Paulo, el 9 de abril de
2001), disponible en: http://www.fsm2013.org/es/node/194

62

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 62 29/04/14 18:58


FSTF, el foro comenzó a perder impulso, debido en parte a que uno
de sus objetivos principales se viera realizado: la derrota definitiva
de la iniciativa del ALCA en noviembre de 2005. Algo similar aconte-
ció con el CEMIDA, que anunció su disolución en abril de 2012, por
considerar que “ya había cumplido su ciclo de vida”14.
Más allá de este declive en la sociedad civil, el acuífero no ha
perdido relevancia en los discursos regionales. Como veremos des-
pués, instancias oficiales incorporan la defensa del agua y la vida,
especialmente en la última década, e incluso al propio indígena que
le da nombre al acuífero (imaginados a menudo de manera homo-
génea, impregnada del mito del buen salvaje). Omar Arach, citado
por Montenegro y Béliveau, examina cómo el discurso ecologista,
asimilando el indio a la naturaleza y la pureza no contaminada por
la modernidad, imagina a los pueblos originarios americanos como el
sujeto portador de una racionalidad respetuosa del medio ambiente por
excelencia. “Las poblaciones indígenas y/o ‘tradicionales’ son vistas
como los ‘guardianes de la biodiversidad’ y como sujetos ecologistas
per se” (2011, p.119)
El acuífero es imaginado desde esta “vereda” como símbolo de
vida: la riqueza natural en su potencialidad e importancia para el
futuro. Según Montenegro y Béliveau (2011, p.66), el par pobreza
presente/riqueza pasada marca el pensamiento y la autopercepción
de los latinoamericanos. Esta “[…] riqueza originaria, pocas veces
discutida, siempre fantasmagórica […] es una ausencia mítica que
articula deseos y proyectos […]. Los actores de frontera parten de
la idea de la abundancia de las aguas superficiales y subterráneas,
para imaginar un mundo futuro en el cual este recurso falte”. En la
Triple Frontera esa riqueza es metaforizada en las aguas del Acuífero
Guaraní, el centro de la construcción imaginaria de la riqueza de la
región. Los términos utilizados para referirse al agua, “ ‘petróleo blan-
co’, mayor reserva de agua dulce del planeta, reflejan esta concepción
que la elevan al nivel de capital incalculable para la construcción de

14 http://www.pagina12.com.ar/diario/elpais/1-191617-2012-04-11.html,
visitado en junio de 2013.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 63

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 63 29/04/14 18:58


un futuro utópico que cambie los términos de la ecuación actual, que
describe una región potencialmente rica pero efectivamente pobre.”

La Triple Frontera en los medios

El imaginario se construye y modifica al enfrentarse, como hoy


en día, a grandes volúmenes de información oral, icónica y escrita, de
orientaciones encontradas. Aprehendidas socialmente, las represen-
taciones difundidas en masa tienen la capacidad de instituírse como
sentido común – una doxa compartida tanto por ortodoxos como por
heterodoxos – tornando a los medios de comunicación en un “cuarto
poder”. Montenegro y Béliveau, distinguiendo entre medios regio-
nales y mundiales cercanos al establishment, y los altermedios que
expresan las voces de movimientos sociales y habitantes de la Triple
Frontera, analizan la evolución de los mensajes transmitidos en el
tiempo. Cambiando con el correr de los años, medios y altermedios se
“contaminan” mutuamente; esto queda particularmente claro en los
medios nacionales argentinos, que van incorporando, con el paso del
tiempo, preocupaciones e interpretaciones voceadas originalmente en
el seno de movimientos sociales, foros y medios alternativos.
Las autoras se remontan al tratamiento periodístico que la Triple
Frontera recibía antes de los atentados de Nueva York del 11/09/2001,
que marcaron un antes y un después en la visibilidad y reputación de
esta región para la prensa. Primero el viejo nombre “Tres Fronteras”,
que ya era referido como una “tierra sin ley” y había sido relacio-
nado en algunos reportes periodísticos con los atentados a la AMIA,
va siendo sustituído por el actual “Triple Frontera” que a partir de
2001 entra en la agenda contra el terrorismo global. Relacionando
eventos distantes con circunstancias locales, los medios han pasado
por diferentes etapas discursivas, “creando realidades”: En un primer
momento, especialmente a partir de 2001, se dijo que la Triple Frontera
contiene células terroristas “dormidas”; la zona es un “nido de espí-
as” y se caracteriza por la dimisión de los estados fronterizos, que la
dejan sin ningún control. Posteriormente declina el discurso de las
células dormidas, y aparecen en la narrativa las “células financieras”,

64

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 64 29/04/14 18:58


que presuntamente financiarían desde aquí el terrorismo islámico,
enviando al exterior fondos obtenidos con actividades ilegales. Una
nota del Washington Times de 2003 nos ofrece un ejemplo fuerte
de estas imágenes: “campamentos de entrenamiento en esta región
selvática son una alianza de pesadilla entre Hamas, Hezbollah, IRA
[!] y rebeldes colombianos.”15
Estos “mitos” difundidos por los medios internacionales y repro-
ducidos por los nacionales, son expresiones variadas de un imaginario
que se encuentra en guerra contra otro, disputándose el narrar la regi-
ón; no obstante, los altermedios tienen su propia versión de la historia.
A partir de 2004, comienza a aparecer mencionado en los medios
hegemónicos un tema que originalmente sólo pertenecía a los alterme-
dios: los recursos acuíferos vinculados al interés internacional por la
Triple Frontera, y preocupaciones por una posible militarización de la
zona (a través de propuestas de colaboración internacional para hacer
frente a sus incontrolables problemas). Elsa Bruzzone, secretaria del
CEMIDA, “contesta” a la descripción anterior de la región en 200416:

La supuesta actividad de grupos terroristas en la Triple Frontera que


une a Argentina, Brasil y Paraguay ha sido el pretexto de Estados
Unidos para incrementar su presencia militar en la región y cumplir su
verdadero objetivo: apoderarse silenciosamente del Acuífero Guaraní,
la reserva de agua más importante del mundo.

Montenegro y Béliveau destacan que en 2005 no se registra una


disminución en la cobertura periodística de la Triple Frontera; por
el contrario, el interés continúa, la “guerra” sigue siendo intensa.
Pero el “contraimaginario” promovido por los altermedios parecería
ganar espacio en medios nacionales importantes como Clarín y La
Nación, coincidiendo con los intentos de declarar al Acuífero Guaraní
como patrimonio de la humanidad, y con la llegada de 400 marines

15 http://www.washingtontimes.com/news/2003/aug/5/20030805-084101-
6466r/?page=all – 5/08/2003
16 http://www.paginadigital.com.ar/articulos/2004/2004prim/noti-
cias2/17267-1.asp – 11/1/04

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 65

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 65 29/04/14 18:58


estadounidenses a territorio paraguayo con una ley de inmunidad apro-
bada por el parlamento de Paraguay en 26/05/200517, para colaborar
en tareas de seguridad. Las autoras señalan que incluso especialistas
y figuras políticas de oposición en Paraguay también comenzaban
a relacionar de forma explícita la presencia militar EE.UU. con el
interés por el Acuífero, incorporando así el principal argumento de
los altermedios.
Entre los medios internacionales (CNN, The New York Times,
etc.) que sostienen un imaginario, y los altermedios locales o de
menor alcance (blogs, foros reales y virtuales), que divulgan un
relato antagónico a aquél, están los medios de comunicación de los
países fronterizos, nacionales o regionales (Clarín, ABC, Folha de São
Paulo); en éstos, los mitos empiezan a divulgarse juntos, mezclados
y contradictorios. Montenegro y Béliveau registran diferencias iniciales
entre los tres países de la frontera: Al comienzo, algunos medios y
funcionarios argentinos se mostraron alineados con las “acusaciones”
internacionales. Brasil, tal vez por ser el país con mayor margen para
una política independiente, se mostró contrario desde un comienzo;
posteriormente los tres países se alinearon más con esta postura.
En estas “arenas” discursivas, surgen ocasionalmente cuestionamien-
tos explícitos de un actor a la veracidad de lo que dice otro. Se trata
de procesos de negociación de una realidad.
Un ejemplo claro de confrontación explícita se dio a partir de
la posibilidad de que Kathryn Bigelow, directora de cine ganadora
de un Oscar, realizara una película de acción explotando la imagen
negativa de la Triple Frontera18. El anuncio de esta película en 2009
generó reacciones de rechazo por parte de funcionarios de gobierno

17 Claudio Alisconi, “Los marines de EE.UU. ponen un pie en Paraguay”,


Clarín, Suplemento Zona, 11/09/2005.
18 Una muestra del poder que el cine de alcance mundial tiene sobre los
imaginarios colectivos; los anuncios aparecieron en 2009. La película tenía ori-
ginalmente respaldo de Paramount Pictures, que recientemente ha “enfriado”
el proyecto. http://www.nytimes.com/2012/12/30/movies/awardsseason/
kathryn-bigelow-on-zero-dark-thirty.html?pagewanted=all&_r=0. 12/2012

66

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 66 29/04/14 18:58


de Argentina, Paraguay y Brasil, así como de funcionarios de la zona,
preocupados con la imagen negativa creada del lugar y sus efectos
sobre el turismo, uno de los sostenes económicos de la región. Los
medios internacionales cubrieron, por primera vez, algunas voces
discordantes en la región.
“Tom Hanks protagonizará polémico filme en la Triple Frontera”,
anunciaba la BBC en español19 en 2010, y el diario The New York
Times20 reportaba que los gobiernos de Paraguay y Argentina “no
cooperarían” con la película; Enrique Meyer, ministro de turismo
de Argentina, dijo a France-Presse que su país había discutido el
proyecto con su colega de Paraguay y el gobernador de Misiones y
habían concordado que estaban “profundamente indignados cuando
descubrieron que el proyecto busca retratar negativamente esta regi-
ón.” Más elocuentemente, Liz Cramer, ministra de turismo paraguaya,
decía en la nota de BBC: “¿Y si con este filme resulta que somos el
nuevo eje del mal? Aunque sea ficticio, no importa21.”
En la actualidad, el estilo de la narrativa que se teje sobre la Triple
Frontera continúa evolucionando. Examinamos, entre 2010-2013, cambios
tanto en los medios de comunicación como en la retórica institucional
– sudamericana y estadounidense –, que presentamos a continuación.

Medios Internacionales

De las varias fuentes relevadas por Montenegro y Béliveau para


cubrir el período 2001-2005, hemos seleccionado seis (el Departamento
de Estado de EE.UU., periódicos The New York Times, The Washington
Times y The Washington Post, y las cadenas BBC y CNN) que ejempli-
fican bien los cambios y constancias ocurridos en los últimos 8 años.

19 http://www.bbc.co.uk/mundo/noticias/2010/12/101202_cine_biego-
low_hanks_triple_frontera_jrg.shtml 03/12/2010
20 http://artsbeat.blogs.nytimes.com/2010/05/12/paraguay-and-argentina-
-wont-support-bigelows-new-film/ 12/2012
21 El destacado es nuestro, al igual que los próximos trechos que aparecen
en negrita.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 67

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 67 29/04/14 18:58


La cobertura periodística internacional de la región, que llegó
a ser muy fuerte durante el auge de la “guerra al terror” post 11 de
setiembre, es fluctuante; cobrando fuerza a raíz de eventos concre-
tos como los rumores de la mencionada película hollywoodense.
Si buscamos los registros de búsquedas en internet del término
inglés “triple frontier” en Google22, que es la principal manera de
referirse a esta área en el mundo angloparlante (“tri-border” es la
segunda variante) podemos ver que en diciembre de 2010 volvió a
tener un efímero auge: A fines de 2010 se anuncia que Tom Hanks
sería protagonista de la película23, lo cual tal vez explique este pico
de popularidad.

Búsquedas en Google del término en inglés “Triple Frontier” en función del


tiempo. La gran mayoría realizada desde Estados Unidos.(fuente: Google Trends)

En años recientes ha habido una confirmación oficial de que no


hay pruebas de presencia terrorista en la Triple Frontera. A este res-
pecto, podemos comparar cómo se fue moderando en la úiltima década
el tono de las afirmaciones del gobierno estadounidense. Por un lado,
en 2003, un extenso documento de la Federal Research Division (Rex
Hudson, 2003) afirmaba explícitamente que

varios grupos terroristas islámicos, incluyendo el egipcio Al-Jihad,


Al-Gama’a al-Islamiyya, Hamas, Hezbollah y Al Qaeda, tienen pro-

22 http://www.google.com/trends/explore#q=triple%20frontier%2C%20
&cmpt=q 12/2012
23 http://www.comingsoon.net/news/movienews.php?id=72002 11/2012

68

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 68 29/04/14 18:58


bable presencia en la TF” (pág. 69), “el terrorismo islámico está
usando la TF con el propósito de guarecerse, recolectar fondos, lavar
dinero, reclutar, entrenar, planear y otras actividades terroristas
(…) asesinatos mafiosos a hombres de negocios y líderes de la
comunidad que puedan oponerse a sus intereses.

En contraste, ocho años después, la edición de 2008 del Country


Reports on Terrorism24 publicada anualmente por el Departamento
de Estado de EE.UU., afirmaba que

Estados Unidos continúa preocupado con que Hezbollah y Hamas


estén recaudando fondos en la Triple Frontera a través de acti-
vidades ilegales y solicitando donaciones entre los extremistas
de las abultadas comunidades musulmanas de la región (…).
Sin embargo, no hubo información corroborada de que estos u
otros grupos islámicos extremistas tuviesen presencia operativa
en el área.

Y ya en la edición más reciente del reporte, de 2011, vemos que:

Ninguna información creíble indicó que Hezbollah, Hamas u otros


grupos extremistas usen la Triple Frontera para entrenamientos
terroristas u otras actividades operativas, pero EE.UU. continuó
preocupado con que estos grupos usen la región para reunir fondos
entre simpatizantes locales.25

24 http://www.state.gov/documents/organization/105904.pdf
25 (Continúa) “Los gobiernos de Argentina, Brasil y Paraguay han es-
tado preocupados desde hace tiempo con el tráfico de armas y drogas,
fraudes de documentos, lavado de dinero, tráfico de personas, y la ma-
nufactura y movimiento de bienes contrabandeados a través de la Triple
Frontera.” “Brasil ha conseguido resultados visibles en infraestructura
legal y fronteriza para controlar el flujo de bienes – legales e ilegales –
a través de la TF [...] En particular, la estación de inspección en el Ponte
da Amizade, completada por la Receita Federal en 2007 […]”. Informe
completo: http://www.state.gov/documents/organization/195768.pdf
03/2012

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 69

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 69 29/04/14 18:58


De las audaces declaraciones de antes, sólo quedaba en el reporte
de 2011: “Hezbollah recibe apoyo financiero de comunidades Shiitas
libanesas en América del Sur. La Red Barakat – una red criminal que
opera en la Triple Frontera entre Paraguay, Brasil, y Argentina – es
un ejemplo de esta actividad criminal.”
Es decir, aunque se continúa viendo a la región como peligrosa,
la imagen de los terroristas se sustituyó por la de una tierra sin ley
donde operan células financieras de apoyo económico a militantes
extranjeros; hay un tono más moderado y más precaución en respal-
dar las afirmaciones. Las “acusaciones” internacionales a la Triple
Frontera tienen seguimiento en los medios locales de la zona. Por ejem-
plo, la edición nº 1199 del diario Primeira Linha de Foz do Iguaçú
(03/2012) anunciaba triunfalmente que “EE.UU. admite inexistencia
de terrorismo en la Triple Frontera”. Sería de esperar que, a partir
de esto, el periodismo internacional adoptase también un tono más
moderado. Comparemos aquella imagen de 2003 (campamentos de
entrenamiento terrorista en la selva), con el tono que la CNN usa en
2013 para referirse a la región26:

La región de la Triple Frontera, donde Paraguay se encuentra


con Argentina y Brasil, ha sido largamente asociada al tráfico
de drogas y demás comercio de contrabando. También es hogar
de una grande comunidad árabe, y Estados Unidos y periodistas
independientes la han identificado como una fuente de financia-
miento para grupos militantes, en particular el libanés Hezbollah
y Hamas, de Palestina – aunque Argentina, Brasil y Paraguay
rechazan las alegaciones.

No obstante, en la prensa internacional se da menos énfasis a la


confirmación oficial de la “inocencia” de la zona que en los medios
locales. En la siguiente tabla mostramos la frecuencia con que aparece
mencionada la Triple Frontera y los mitos con los que se la asocia,
en cada uno de los medios relevados y en total.

26 http://www.bbc.co.uk/news/world-latin-america-19978115, 13/03/2013

70

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 70 29/04/14 18:58


La Triple Frontera en los medios internacionales (2010-2013)
50,00%
45,00%
40,00%
35,00%
30,00%
25,00%
20,00%
15,00%
10,00%
5,00%
0,00%
Terror Tierra sin ley Pelicula Otros

The New York Times


60,00%

50,00%

40,00%

30,00%

20,00%

10,00%

0,00%
Terror Tierra sin ley Pelicula

The Washington Post


100,00%
90,00%
80,00%
70,00%
60,00%
50,00%
40,00%
30,00%
20,00%
10,00%
0,00%
Terror Tierra sin ley

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 71

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 71 29/04/14 18:58


BBC
60,00%

50,00%

40,00%

30,00%

20,00%

10,00%

0,00%
Terror Tierra sin ley Pelicula

La CNN se refirió a la Triple Frontera apenas dos veces entre


2010 – 2013. La BBC de Londres, en inglés, también la mencio-
na solamente dos veces en el período; algo interesante es que la
edición en español de la BBC tiene una cobertura mucho mayor
de la Triple Frontera en este período, mencionándola en nueve
publicaciones. El Washington Times, medio estadounidense de
orientación conservadora, escribe sobre la región nueve veces, todas
asociándola al terrorismo, mientras que el New York Times – más
liberal – informó mayoritariamente al respecto de la película de
Hollywood referida.
En ninguna publicación de 2010 hasta la fecha (marzo/2013) de
ninguno de estos medios (la mirada verdaderamente internacional)
se hace mención del Acuífero Guaraní o la importancia de la Triple
Frontera en otros planos – con excepción de apenas dos noticias:
una sobre el dengue y otra que hablaba sobre la situación de la
prensa en Paraguay, mencionando que en esta región hay varias
radios comunitarias no registradas. Toda la cobertura pertenece al
imaginario hegemónico; el “contraimaginario” no existe internacio-
nalmente. La narrativa internacional se teje en torno a dos mitos,
si se quiere complementarios (el terrorismo y la tierra sin ley), con
el proyecto de la película reforzando estas representaciones. Sobre
este silenciamiento del adversario en los grandes medios volvere-
mos después, en el caso de la denuncia judicial por difamación a
la cadena CNN.

72

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 72 29/04/14 18:58


La pérdida de eficacia del discurso antiterrorista puede ser la
razón por la que, sin salir de la narrativa de la Triple Frontera como
un peligro, el mito de la tierra sin ley haya recobrado fuerza (tráfico
de drogas, contrabando y piratería). Las acusaciones de crímenes
comunes, no relacionados con el terrorismo, son menos controver-
tidas porque no obligan al país acusado a reconocer la existencia de
organizaciones extremistas dentro de sus fronteras. Matthew Levitt,
experto estadounidense en terrorismo islámico, defiende explícita-
mente este viraje en una nota para CNN27:

Aunque muchos países son reticentes a cooperar con Estados


Unidos en la lucha contra el terrorismo por temor a admitir que
hay terroristas operando en su suelo, les preocupa menos tra-
bajar con el país en el cumplimiento de la ley criminal. Esto ha
sido evidente en los esfuerzos de EE.UU. para contrarrestar la
actividad de Hamas y Hezbollah en el área de la llamada Triple
Frontera de América Latina, donde Argentina, Brasil y Paraguay
se encuentran. En diciembre de 2006, el Departamento del Tesoro
designó cierto número de prominentes expatriados libaneses del
área como terroristas por sus lazos con Hezbollah. Inmediata-
mente después, Buenos Aires, Brasilia, y Asunción emitieron una
declaración conjunta exculpando a los sospechosos y rechazando
las alegaciones estadounidenses sobre actividad terrorista en
la región. […]. Los países de la Triple Frontera tienen, pues,
más voluntad en cooperar con Estados Unidos si éste presenta
sus esfuerzos como anticriminales y antidrogas, antes que
como antiterrorismo.

Coincidentemente con esta nueva “estrategia”, Ron Kirk, repre-


sentante de la Cámara de Comercio EE.UU., presenta a la región
en la “Lista de paraísos notorios de la piratería”28 de 28/02/2011

27 http://globalpublicsquare.blogs.cnn.com/2011/07/29/hezbollah-party-
-of-fraud/?iref=allsearch
28 http://www.bbc.co.uk/mundo/noticias/2011/03/110301_pirateria_lu-
gares_paginas_jmp.shtml

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 73

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 73 29/04/14 18:58


sin mencionar al terrorismo una sola vez, pero enfatizando en
la ilegalidad:

La economía de Ciudad del Este, Paraguay, se basa en parte en el


tráfico de productos falsificados o robados [!], especialmente elec-
trónicos […] Esta actividad se extiende a toda la región de la Triple
Frontera entre Paraguay, Argentina y Brasil, creando un semillero
para la piratería y la falsificación.

Medios nacionales

Para relevar las temáticas levantadas por los medios de prensa de


nuestra región a la hora de narrar la Triple Frontera nos centramos
en algunos de los principales periódicos de tiraje nacional de los
países que la componen. Partimos del análisis de cinco diarios en
el intervalo 2010 – 2012 buscando todas las noticias que nombraran
las palabras “Triple Frontera”: ABC de Paraguay, La Nación y Página
12 de Argentina, y O Globo y Folha de São Paulo de Brasil, de modo
análogo a como hicimos con los medios internacionales. Por tratarse
de una región que agrupa tres países, se hace necesario pensar en la
prensa de cada país por separado antes de esbozar la representación
general que los medios de la región divulgan en conjunto. Ésta, por
supuesto, influye en las miradas nacionales y a la vez refuerza la per-
cepción continental de la Triple Frontera como un área homogénea,
separada del resto de sus países.
A continuación presentamos los motivos por que la Triple Frontera
aparece en la prensa de cada país, ordenados según la frecuencia y
los mitos con los que se la asocia, sin tomar en cuenta las diferencias
de un medio a otro que reflejan corrientes políticas diferentes (La
Nación y Página 12 representan posiciones diferentes en Argentina
como oposición y gobierno, por ejemplo), con el fin de tratar a
la prensa de cada país como un conjunto que, si bien es contradictorio,
transmite sus imágenes a la nación como un todo.

74

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 74 29/04/14 18:58


Argentina
35,00%

30,00%

25,00%

20,00%

15,00%

10,00%

5,00%

0,00%
Terror Tierra sin ley Pelicula Otros Comercio y turismo

Brasil
35,00%

30,00%

25,00%

20,00%

15,00%

10,00%

5,00%

0,00%
Terror Tierra sin ley Pelicula Otros Comercio y turismo

Paraguay
40,00%

35,00%

30,00%

25,00%

20,00%

15,00%

10,00%

5,00%

0,00%
Terror Tierra sin ley Pelicula Otros Comercio y turismo

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 75

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 75 29/04/14 18:58


En estas gráficas se puede observar que la atención brindada
a la zona por terrorismo ocupa un lugar similar en los periódicos
de Argentina y Brasil, con un 27,58% y 28,57% respectivamente,
y una atención considerablemente menor en Paraguay, donde
el 16,8% de las noticias en los tres años refieren a esta temáti-
ca. Con respecto a las noticias que muestran la Triple Frontera
como una tierra sin ley, los porcentajes de Argentina y Brasil
también son muy similares, alcanzando niveles en torno al 30%,
mientras que Paraguay presenta un porcentaje apenas mayor,
alcanzando el 35%.
En los tres paises, los mitos del terror y la tierra sin ley suman
la mayoría absoluta de las noticias relevadas. Sin embargo, en el
caso paraguayo la región parece ser más que eso, presentándose al
mismo tiempo como polo turístico y comercial importante del país.
No sucede lo mismo con la prensa de Argentina y Brasil, donde
solo tiene peso como zona de conflicto y dificultades. Incluso en
aquellas noticias que agrupamos en la categoría “otros” (eventos,
problemas municipales y estaduales, etc.) se hace énfasis en cosas
como la dificultad de la región para combatir el dengue, y la pobre-
za. Si agregamos las noticias que refieren al comercio y el turismo,
en Paraguay ABC se ocupa del tema en más de 16%, mientras que
los diarios argentinos y brasileños lo hacen en menos de 7% y 4%
respectivamente. Este dato, contrapuesto a las diferencias en torno al
mito del terror, marca las miradas divergentes del diario paraguayo
con respecto a los otros.
Ahora bien, a la hora de pensar en la mirada regional que estos
periódicos producen y reproducen, es de relevancia la importancia
relativa que cada medio da a la región. A pesar de tomar para el
estudio un solo periódico paraguayo, la región es nombrada un
total de 268 veces, contra 161 de los dos diarios brasileños y 87 de
los dos argentinos.

76

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 76 29/04/14 18:58


La Triple Frontera en los medios regionales (2010-2012)
40,00%

35,00%

30,00%

25,00%

20,00%

15,00%

10,00%

5,00%

0,00%
Terror Tierra sin ley Pelicula Otros Comercio y turismo

Frecuencias por país


300

250

200

150

100

50

0
Paraguay Brasil Argentina

Es comprensible que para Paraguay la región tenga mayor impor-


tancia nacional, tomando en cuenta la relevancia de Ciudad del Este
como segunda ciudad del país y su mayor peso relativo en la economía
nacional, y la importancia primordial de ITAIPU como proveedor de
energía para el país. Por otro lado, para Argentina y Brasil, aunque
también se trata de una región estratégica, es pensada sobre todo
desde los problemas que acarrea a la nación.
A la hora de agregar las representaciones regionales como un todo,
hemos igualado el peso de cada país promediando los porcentajes en
que aparece cada uno de los mitos, en lugar de agregarlos en una suma

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 77

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 77 29/04/14 18:58


simple que dejaría al periódico paraguayo ABC con una importancia
desproporcionada frente a los otros.
Como muestra la gráfica de arriba, las noticias que muestran a la
región como una “tierra sin ley” ocupan la mayor cantidad de espacio
con un 34%, seguidos por el terrorismo con 24% y temáticas diversas
agrupadas en “otros” (problemáticas municipales y regionales como
el dengue, eventos en la frontera, noticias de Itaipú y proyectos edu-
cativos, de infraestructura e inversión), también con 24%. A su vez
el comercio y el turismo llegan a apenas un 9%, que contrapuesto al
16% ya mencionado en ABC remarca la particularidad paraguaya de
tender a pensar la región también como una potencialidad mas allá
de sus problemáticas.
Finalmente, este análisis se complementa con el peso que tie-
ne la mirada de EE.UU. en las noticias regionales, ya que, como
mencionan Montenegro y Béliveau (2006) las imágenes de la Triple
Frontera creadas desde los medios regionales surgen muchas veces
como repercusión o reacción a ella. En este sentido, es relevante
mencionar que del total de noticias que nombran la Triple Frontera
desde el año 2010 hasta el 2012 en los medios de Argentina, Brasil
y Paraguay relevados, más de una de cada cinco responden o se
refieren a la preocupación estadounidense con esta zona (22%),
concentrándose en la sospecha de financiamiento al terrorismo. El
papel de EE.UU. en la prensa es contradictorio, denunciado a veces,
otras tomado por la prensa de nuestros países como fuente para
reproducir acusaciones.
La prensa de la región, más allá de algunos cambios graduales,
mantiene la atención en el terrorismo y la delincuencia. La Triple
Frontera es presentada en los medios de gran alcance en términos
geopolíticos, ya sea desde la preocupación de EE.UU. con el terrorismo
o de sus intenciones de controlar la región, o por los problemas que
delincuencia y contrabando acarrean para el país. En cualquier caso,
la mirada es netamente nacional, centrándose en los intereses de cada
país; es mínima, en contraposición, la mirada hacia las potencialidades
de la región, su interculturalidad, perspectivas de integración de los
tres países o que trasciendan el horizonte nacional.

78

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 78 29/04/14 18:58


Junto a estos medios, podemos colocar a Wikileaks29 como un “al-
termedio internaconal”. Hacia finales del año 2010 y 2011, los medios
de la región se hicieron eco de varios cables diplomáticos filtrados por
Wikileaks y publicados en diarios internacionales30. En ellos se explicita
la preocupación norteamericana con la situación geopolítica de la región,
así como la conciencia estadounidense del recelo local, y en especial
de Brasil, ante la injerencia norteamericana en los asuntos regionales.
En un cable de febrero de 2009, divulgado en marzo del 2011 y
firmado por el entonces embajador norteamericano en Brasil, Clifford
Sobel, queda clara la preocupación:

Puesto que el gobierno brasileño está empeñado en construir una


arquitectura regional de seguridad en Sudamérica que no incluye a
los Estados Unidos (por ejemplo los grupos de trabajo de Mercosur
en temas de seguridad y el Consejo Sudamericano de Defensa de
Unasur), hay que revitalizar el Tres Más Uno31 por dos motivos:
como un modo de conseguir un compromiso de Brasil al más alto
nivel político en esta cuestión y como una forma de mantener un pie
dentro de las discusiones de seguridad regional.

Asimismo, en otro cable del mismo año, filtrado en diciembre de


2010, el embajador se muestra consciente de cómo se interpreta la
posición de EE.UU. en la geopolítica regional:

29 Wikileaks es una organización mediática internacional creada por Julian


Assange en diciembre de 2006, que publica a través de internet documentos
filtrados a partir de fuentes anónimas. Entre los documentos secretos más im-
portantes que ha publicado se pueden mencionar aquellos concernientes a las
guerras de Afganistán e Irak, así como miles de cables entre el Departamento
de Estado de EE.UU. y sus embajadas alrededor del mundo.
30 Diario El País, España, 5 diciembre 2010, http://www.elpais.com/
articulo/internacional/EE/UU/Brasil/colaboran/secreto/islamistas/
elpepuint/20101205elpepuint_29/Tes 03/2011, Pagina 12 http://www.pagi-
na12.com.ar/diario/elpais/1-164588-2011-03-20.html 03/2011
31 Grupo de inteligencia multilateral entre Argentina, Brasil, Paraguay y
EE.UU. creado en el año 2006 para intercambiar información sobre la región
de la Trile Frontera.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 79

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 79 29/04/14 18:58


Aunque para los [norte] americanos sea ridícula la idea de que Esta-
dos Unidos pueda albergar planes para invadir o internacionalizar el
Amazonas o de apoderarse de las reservas petroleras en el pre-sal, lo
cierto es que esa preocupación se plantea regularmente en nuestras
reuniones con funcionarios, académicos o periodistas brasileños y que
está en la raíz de su desconfianza e inseguridad respecto a nuestra
presencia en la región.

Se alega asimismo que Brasil, al contrario de lo que declara ofi-


cialmente, sí está preocupado con la posible presencia terrorista en
su territorio, teniendo en cuenta los eventos de talla mundial de los
que será sede:

Pese a la retórica negativista de Itamaraty (ministerio de Exteriores


brasileño), la Policía Federal, las Aduanas y la Agencia Brasileña de
Inteligencia (ABIN) son conscientes de las amenazas (…) debido al
hecho de que Río de Janeiro será la sede de los Juegos Olímpicos en
2016 (….) La Policía Federal detiene a menudo a individuos con vincu-
laciones terroristas, pero les acusa de una gran variedad de delitos no
relacionados con el terrorismo, para evitar llamar la atención de los
medios y de los más altos niveles del Gobierno.

Los cables revelan el realismo político de la política exterior nor-


teamericana y delatan los intereses geopolíticos de fondo de EE.UU.
en la región. En los cables de Wikileaks el discurso periodístico se
conjuga con el de los políticos y diplomáticos, arrojando luz sobre
cómo interpretar las noticias que provienen de ese país. La difusión
de puntos de vista estratégicos confidenciales de EE.UU. sobre la
región respalda los imaginarios que denuncian sus intenciones in-
tervencionistas, con lo cual Wikileaks se coloca internacionalmente
como un altermedio.

Guerra de imaginarios

Encontramos algunos ejemplos de la dinámica de conflicto entre


imaginarios en el capítulo de John Tofik Karam del libro A Tríplice
Fronteira. Espaços nacionais e dinámicas locais (2011), donde describe

80

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 80 29/04/14 18:58


cómo la comunidad árabe y los habitantes de la Triple Frontera en
general reaccionaron a las acusaciones de la prensa internacional du-
rante el auge post – 11 de setiembre. El autor destaca tres iniciativas
que reúnen a gobierno, medios y sociedad civil, a través de las cuales
se combate la sospecha de terrorismo en la región: En noviembre de
2001 se realizó el evento “Paz sem Fronteiras” en rechazo a las es-
peculaciones a las que la Triple Frontera estaba siendo sujeta; en el
final del 2002 se inició un proceso jurídico por parte de la Prefectura
de Foz de Iguazú contra la CNN por daños a la imagen de la región;
y a mitad de 2003 se realizó una campaña publicitaria que satirizó la
supuesta visita de Osama Bin Laden a Foz de Iguazú para promover
el turismo. En una guerra de palabras, el silencio es derrota. Buscando
ganar visibilidad pública para no quedar sin voz y responder por los
mismos canales en los que fueron “atacados” (medios de comunica-
ción), los residentes de la Triple Frontera contestan las acusaciones
de las que son objeto en estas tres formas.
El evento “paz sem fronteiras”, que tuvo lugar apenas dos meses
después de la caída de las torres gemelas, reunió a 45.000 personas
de las ciudades fronterizas según la Policía Militar de Foz de Iguazú,
para condenar los actos de terrorismo y especialmente repudiar la
difamación de la Triple Frontera. Pese a que buscaba “producir una
repercusión en los medios de comunicación nacionales e internacio-
nales”, el autor subraya que “el impulso mediático proveniente de
la frontera […] registró un efecto nulo o limitado en los medios de
comunicación norteamericanos [...] efectivamente ignorados por la
prensa en Estados Unidos”. Este silenciamiento usado como arma es
caracterizado por el autor como un “embargo” mediático; los periódicos
que sí publicaron una noticia sobre la movilización, se encargaron de
“relativizar su mensaje mayor” (se trataba de rechazar las acusaciones
de terrorismo en la frontera), presentándolo apenas como una mani-
festación en contra de los atentados.
Un año después, como relata Karam, los “reportajes” de la CNN
generaron indignación y repudio no solo entre los árabes en la frontera
brasilero – paraguaya, sino también entre los dirigentes de la prensa
y del gobierno en Foz de Iguazú y Ciudad del Este. Para combatir el

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 81

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 81 29/04/14 18:58


llamado “terrorismo de la CNN”, ellos unieron esfuerzos para “de-
fender” la imagen de una etnia, y más aún, de una región fronteriza
sudamericana, culminando en la tentativa de procesar la emisora de
televisión norteamericana.
Es significativo que entre los demandantes estaban órganos gu-
bernamentales de dos países (así sea solamente a nivel municipal)
porque le da carácter oficial a la acción. Vemos a la sociedad civil e
instituciones locales enfrentándose directamente a un ente privado,
en este caso un consorcio mediático muy poderoso, pero a quien
se acusa de promover fraudulentamente los intereses estratégicos
de otro Estado. En esta ocasión, los medios internacionales tampoco
se hicieron eco de la respuesta local. Karam interpreta este “desbor-
damiento asimétrico” del mundo de las comunicaciones en el sentido
de “saturaciones que desinforman”. Los medios de comunicación son
a la vez la arena de disputa y parte interesada en el conflicto. Karam
caracteriza a los “flujos de imágenes circulados” (2011, p.205) por su
“disyunción”, es decir, imágenes contradictorias y fracturadas, que
circulan según relaciones de poder muy asimétricas.
Por último, en 2003 se satirizó la especulación a la que la zona
está sujeta utilizando a Bin Laden como “garoto propaganda” de las
cataratas – si él se arriesgó a venir hasta aquí, es porque vale la pena
– demostrando que el humor también puede utilizarse como arma.

La Triple Frontera en instituciones regionales

El recorte temporal utilizado para relevar los medios de prensa


(2010-2013) es diferente del que usamos para los documentos de
Mercosur y Parlasur32, de más largo plazo. En un proceso distinto al

32 Actas y documentos de la base de datos del Mercosur (reuniones ordi-


narias y extraordinarias desde su creación en 1991, declaraciones oficiales
del órgano y actas del Parlasur, Parlamento del Mercosur que funciona desde
2007). http://www.mercosur.int/innovaportal/v/383/1/secretaria/busque-
da_avanzada http://www.parlamentodelmercosur.org/ 06/2012.
Hugo Daniel Ramos/Eduardo Rivas – Actas y Documentos emanados de la

82

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 82 29/04/14 18:58


de otros actores, más lentamente, las instituciones regionales también
construyen un discurso que incorpora preocupaciones e imágenes
originadas en los altermedios (aparecen en la retórica oficial, signi-
ficativamente, los pueblos originarios, la Conquista y las riquezas
americanas, al lado del Acuífero Guaraní, el agua como símbolo de la
vida). Esa trayectoria varía de un país a otro pero está enmarcada en
un viraje geopolítico regional: un antes y después de la “war on terror”
en 2001. Gobiernos de signo progresista en la mayoría de Sudamérica,
derrota definitiva de la iniciativa del ALCA en 2005, e incorporación de
Venezuela al Mercosur en 2012, generan un contraimaginario oficial
en proceso de consolidación.
La mayoría abrumadora de las veces, en el Consejo y el Parlamento
del Mercosur se aborda esta región por preocupaciones medioambien-
tales, en el centro de las cuales está el Acuífero Guaraní. Siendo ésta,
como dijimos, una zona de recarga para el acuífero en la que el agua
se encuentra a relativamente pocos metros de profundidad, los riesgos
de contaminación y la facilidad de acceso son grandes. De todos mo-
dos, así como vimos que el discurso ambiental es utilizado por otros
Estados y actores como el Banco Mundial para aumentar el control
internacional sobre la región, percibimos que para los Estados del
Mercosur el Acuífero Guaraní es un símbolo muy fuerte de soberanía.
La prehistoria del Mercosur está asociada con la Triple Frontera,
pues uno de los antecedentes más importantes del bloque es el Acta
para la Integración Argentino-Brasileña de 1985, conocida como
“Declaración de Iguazú” y firmada por los presidentes Sarney y
Alfonsín. La propia denominación del acuífero como Guaraní es
reciente (1996)33, muy significativa porque enlaza esa cuestión de

Comisión Parlamentaria Conjunta del MERCOSUR (1991 – 2006), (hhtp://


www.iadb.org/intal/intalcdi/PE/2013/10873.pdf ).
Como el Parlasur es un órgano consultivo y no resolutivo (es decir, no tiene
poder de decisión en los Estados miembros), lo consideramos especialmente
apropiado para explorar el rol del poder simbólico en la política internacional.
33 http://www.uruguayeduca.edu.uy/Portal.Base/Web/verContenido.
aspx?ID=137567 03/2013

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 83

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 83 29/04/14 18:58


soberanía con la larga duración de la historia de nuestro continente
y remite a la memoria de los pueblos americanos y la Conquista; la
imagen-símbolo del Guaraní, una nación que pasaba de un margen del
río al otro sin cruzar ninguna “frontera”, permite además una lectura
integracionista. Coincide, por otra parte, con la constitución de un
Comando Tripartito, ese mismo año, y el comienzo de reuniones de
los Ministros del Interior de los tres países.
Durante los años ‘90, la Triple Frontera está en la agenda de se-
guridad del Mercosur; la década está marcada por esta preocupación
por la “tierra sin ley” en la que insistían gobierno y prensa estadouni-
denses.34 Sin embargo, a lo largo de esta década la preocupación por
la preservación del medioambiente de la región fue creciendo, indiso-
ciable del acuífero. En Noviembre de 2002 ocurre en Foz do Iguazú el
Primer Foro de Debates sobre Integración Fronteriza, promovido por el
Mercosur y, notablemente, la Comisión de Relaciones Exteriores y de
Defensa Nacional de la Cámara de Diputados brasileña, como también
la Prefectura Municipal de Foz, que ya había participado de la demanda
judicial contra la CNN por su difamación de la Triple Frontera en 2001.
Este foro, en 2002, no apenas municipal sino en el ámbito del Mercosur,
representó una instancia más alta de oficialización de los problemas

que en este momento asolan la Triple Frontera entre Argentina,


Brasil y Paraguay, y que generan graves consecuencias de natura-
leza económica y social para la sub-región y para la totalidad de
los tres países que la integran. (…) el Mercosur debe significar un
nuevo escalón en el proceso civilizatorio de la región, implicando
una mudanza de mentalidad (…) cuestiones estratégicas, como la
negociación del Área de Libre Comercio de las Américas (…) de-
ben ser resueltas desde el punto de vista del conjunto de la región.
(RAMOS & RIVAS)

Además de destacar las “particularidades geopolíticas” de la


región, en el foro se recomendó el “reconocimiento de la región de

34 http://www.ub.edu.ar/investigaciones/dt_nuevos/233-fontana.pdf
03/2013

84

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 84 29/04/14 18:58


frontera trinacional como laboratorio para las cuestiones de inte-
gración del Mercosur”.
Esto marca el tono de lo que será el tratamiento de la Triple
Frontera por parte de las instituciones regionales durante el auge de la
“war on terror” estadounidense en la nueva década, diferenciándose
de los medios de prensa de sus países que, particularmente al inicio,
reproducían el imaginario negativo internacional. En el Mercosur se
destaca el turismo (Mercosur/CPC/ACTA Nº 3/02), la “convivencia
armónica integrada de hace más de 100 años” (CPC/DIS. 28 /02),
y la “importancia geopolítica de la Triple Frontera en el desarrollo
de los Estados partes y del Mercosur”. En 2002 se declara a la zona
“Laboratorio para las Cuestiones de Integración del Mercosur – Como
área de estudios y de implantación para acciones y proyectos de
desarrollo para regiones de Frontera”. Ahora se intenta convertir la
Triple Frontera en una metáfora de América Latina, diversa, expoliada.
En 2004 la Comisión Conjunta del Mercosur declaraba al
Acuífero Guaraní Patrimonio Natural del Mercosur (CPC/DEC.
Nº 5/04), declarando

Que estas tierras sudamericanas saben mucho acerca de expropiacio-


nes, hace 500 años fue la mina del mundo por su oro, luego el granero
del mundo por su materia prima y hoy vienen por tierras vírgenes,
el último recurso del mundo. […] el Acuífero Guaraní es quizás, el
reservorio subterráneo transfronterizo más grande de agua dulce
del Planeta. […] ha sido muy significativa en los últimos tiempos
la importancia que se está dando al agua potable como un recurso
escaso para los próximos años y lo fundamental que resultará para
la humanidad. En realidad mucho más fundamental que los hidro-
carburos: ‘quien controle el agua controlará la economía universal
y toda la vida de un futuro no lejano’. […] El área más importante
y fundamental de recarga y descarga es el corredor transfronterizo
entre Paraguay, Brasil y Argentina, y este corredor está ubicado sig-
nificativamente en la ‘Triple Frontera’. […] en medio de la más que
potencial crisis hídrica presente en algunas regiones del hemisferio,
sobre todo en las principales ciudades de USA, la preocupación del
Banco Mundial (BM) y otros actores por el acceso, gestión y usufructo

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 85

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 85 29/04/14 18:58


de las principales reservas de agua dulce no se ha hecho esperar.
Que los 27.24 millones del ‘Proyecto del Sistema Acuífero Guaraní’
servirán para elaborar e implementar en forma conjunta un marco
institucional y técnico para el manejo y la preservación del Acuífero.
La reserva de agua es reconocida por el Banco Mundial en ese mismo
documento como “un recurso estratégico de agua potable en el Cono
Sur” (BM, Environmental Protection and Susteinable Development of
the Guaraní Aquifer System. Reporte Nº 23490 – LAC. Washington,
D.C. USA, 17 de mayo de 2002). […] debe ser declarado nuestro
interés por mantener este recurso natural bajo el control nacional y
del MERCOSUR, [...] más allá del modelo económico y de estado.

El nuevo tono anti imperialista sólo cobra su total relevancia cuan-


do recordamos que coincide en el tiempo con los intentos de convertir
el acuífero en patrimonio de la humanidad desde los países centrales.
Junto a las mencionadas críticas a la película hollywoodense de
parte de funcionarios de gobierno de los tres países, en el período
reciente los Estados fronterizos han iniciado proyectos políticos de de-
sarrollo para la zona. La respuesta a los “ataques” mediáticos a la Triple
Frontera parecería pasar por una mayor integración: La instalación de
la UNILA35, en 2010, una universidad federal bilingüe que trae alumnos
de toda América Latina (integración educativa) y la proyección de un
segundo puente entre Brasil y Paraguay (integración infraestructural).
Los imaginarios de la Triple Frontera movilizados en estas instancias
pretenden instituir a la zona como un polo turístico (como se aborda
en otro trabajo de este libro, que destaca la divulgación de las Cataratas
del Iguazú como Séptima Maravilla Natural del mundo), y más reciente-
mente polo educativo, poseedor de grandes tesoros naturales y ejemplo
de convivencia pacífica en la diversidad latinoamericana.

35 La Universidad Federal de la Integración Latinoamericana, proyectada


para tener 10.000 alumnos, que recibió su aula inaugural del entonces pre-
sidente de Brasil Lula da Silva. Se ha dicho muchas veces que fue ubicada
en la Triple Frontera precisamente por ser ésta un lugar ideal para la misión
latinoamericanista de la universidad.

86

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 86 29/04/14 18:58


En 2008 se recomendó y en 2010 fue aprobada la creación de
un área de preservación integral del Medio Ambiente (10/2010/
INFCOM/SO XXIII – MEP/50/2010). Y en ocasión de la firma del
Acuerdo sobre el Acuífero Guaraní entre los países del Mercosur,
de 2010, volvió a reiterarse la denuncia explícita a la codicia impe-
rialista sobre la Triple Frontera36.
Mención especial merece el intento de creación de un Foro de
Legisladores de la Triple Frontera, lanzado en 2011 con intención de
darle continuidad aunque después, y esto es sintomático de cómo
funcionan estos procesos de lenta construcción, parece haber quedado
suspenso37. Las respuestas de nuestra región se intensifican cuando
los ataques extrarregionales ganan intensidad, y en otros momentos
retroceden. El fundamento político del Foro38 es que

existe la intención de instalar la idea de que la Triple Frontera es


sinónimo de delito, tráfico, contrabando y también de un presunto
“terrorismo”. Se trata de un minucioso trabajo de construcción
de ideología que constituya la base legitimadora de futuras inter-
venciones en la región por parte de fuerzas extrarregionales. La
región – creemos – es un objetivo geopolítico de vital importancia
estratégica, y de gran riqueza en términos de recursos naturales. [Es]
fundamental abordar el tema de la Triple Frontera [...] en términos
políticos, regionales, estratégicos [...] con el objetivo de interpelar
el discurso que se pretende constituir hegemónico sobre la región.
[...] tratar los temas regionales reuniéndonos en ese punto estraté-
gico [...] clausurando toda posibilidad de que un actor externo se
pretenda arrogar el derecho a intervenir de cualquier forma (discur­
siva o materialmente) en los asuntos estrictamente regionales (...)
no dar lugar a la iniciativa externa de intervenir en la región bajo

36 http://archivo.presidencia.gub.uy/sci/proyectos/2011/11/mrree_1261.
pdf 03/2013
37 http://www.parlamentodelmercosur.org/innovaportal/v/5465/1/secre-
taria/primer_foro_de_legisladores_de_la_triple_frontera.html 03/2013
38 http://www.forotresfronteras.com.ar/ 03/2013

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 87

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 87 29/04/14 18:58


el pretexto de que los actores competentes no han podido, sabido
o querido, lidiar con esas cuestiones.(...) poner sobre la mesa el
criterio de autodeterminación y también de una forma “regional”
de ejercer soberanía.

Ocurrido el 30 y 31 de marzo en Puerto Iguazú, contó con dos mesas


de debates, una sobre recursos hídricos y medio ambiente, y la otra
específicamente sobre “Geopolítica y estrategias regionales: Estrategia
y políticas de defensa comunes para la integración, Trata de personas
y el rol de los medios de comunicación en la integración cultural”.

Reflexiones preliminares: ¿un nuevo imaginario?

Las disputas en torno al imaginario colectivo son una parte


fundamental de la lucha política. A lo largo de este trabajo hemos
enfatizado en el poder instituyente del imaginario y su capacidad de
crear realidad, para bien o para mal. Como coloca Dênis de Moraes
(2007) sintetizando el potencial político que el imaginario encierra:

El imaginario no es sólo copia de lo real; su potencial simbólico


agencia sentidos, en imágenes expresivas. La imaginación nos libera
de la evidencia del presente inmediato, motivándonos a explorar
posibilidades que virtualmente existen y que deben ser realizadas.
Lo real no es sólo un conjunto de hechos que oprime; él puede ser
reciclado en nuevos niveles.

Hemos constatado la construcción de la Triple Frontera como un


territorio en disputa, atravesado por grandes intereses económicos
y geopolíticos. Lejos de tratarse de un enfrentamiento simple entre
actores externos que demonizan la zona y actores de la región que
se defienden, vimos que existe una interacción compleja entre los
distintos discursos, que se sobreponen conflictivamente unos a otros.
Las dos narrativas se “contagian”: Los medios de prensa hegemónicos
en nuestra región incorporan elementos oriundos de los “altermedios”
al mismo tiempo que reproducen contradictoriamente el discurso de
los grandes medios internacionales. Y los habitantes de la frontera no
son pasivos en este proceso: Participan activamente de esta guerra

88

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 88 29/04/14 18:58


de imaginarios. Los gobiernos de Argentina, Paraguay y Brasil han
reaccionado de manera diferente entre sí a lo largo del tiempo; durante
2003-2013, la intensidad del enfrentamiento y la atención que se le
presta a la región en la prensa e instituciones son fluctuantes, y los
discursos se modifican.
A pesar de todo, la Triple Frontera parece estar ganando impor-
tancia en nuevos sentidos. Por una parte, vimos un cambio en la
retórica del gobierno estadounidense, más cauteloso en sus acusa-
ciones a medida que transcurre el período; en la prensa internacional
se sustituye un mito por otro (continúa la preocupación con la zona,
pero se tiende a presentarla como una “tierra sin ley” antes que como
refugio de terroristas). Por otra parte, los gobiernos e instituciones
regionales parecen finalmente haber cobrado conciencia del valor
estratégico de la Triple Frontera y pretenden movilizar otro tipo de
representaciones sobre ella.
Del mismo modo que las representaciones negativas seleccionan
ciertos trazos del objeto para construir su relato exclusivamente a
partir de ellos, el imaginario alternativo de la Triple Frontera gira en
torno a tres mitos positivos: Primero, la Triple Frontera como metá-
fora de la diversidad latinoamericana en convivencia pacífica (desde
manifestaciones logradas hasta los shows “típicos” ofrecidos para
turistas extranjeros). Luego, la Triple Frontera como polo educativo
regional y centro turístico internacional que ofrece sus tesoros natu-
rales. Por último, y a causa de esos tesoros, la Triple Frontera como
objeto codiciado por las potencias imperialistas.
La reflexión académica también ha vuelto su atención hacia la
Triple Frontera en años recientes: Además de las autoras Montenegro
y Béliveau, nucleadas en el más amplio Observatorio de la Triple
Frontera39 junto a Tofik Karam y otros, encontramos estudios sobre
los brasiguayos radicados en Paraguay provenientes de Brasil, o la
vida de los sacoleiros que revenden mercaderías de la frontera. Con
carácter más oficial, el trabajo de Melina Cosso, El Acuífero Guaraní

39 http://www.observatoriotf.com/ 04/2013

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 89

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 89 29/04/14 18:58


como Recurso Vital y Estratégico, en el marco de la Defensa Nacional
(s/d)40, divulgado por el Instituto Nacional del Agua y el ejército
argentino, aborda esta discusión explícitamente como una cuestión
de soberanía.
Finalmente, proyectos políticos de Brasil para la región que
intentan (descoordinadamente) regular el comercio del área (lei do
sacoleiro, Operación Ágata41).
El sentido de todas estas acciones tomadas en conjunto es un
intento de reapropiarse de esta frontera triple, “la” Triple Frontera,
en términos de soberanía nacional y posiblemente regional. La cons-
trucción de un nuevo imaginario es condición necesaria para ello.
¿Es esto posible? Con una imagen tan estratégicamente negativa, se
hace necesario levantar un contraimaginario de la región: Nuevas
narrativas que no solo expliquen creíblemente a la Triple Frontera en
términos distintos al imaginario hegemónico, sino que le contesten
directamente, desconstruyendo sus verdaderas motivaciones.
¿Cómo se imaginará a la Triple Frontera dentro de otros diez años?
Eso es lo que se está disputando actualmente.

Referencias Bibliográficas

Coelho, Teixeira. Guerras Culturais. Arte e Política no Novecentos Tardio.


San Pablo, Iluminuras, 2000.

Durand, G. Las Estructuras Antropologicas del Imaginario. Madrid, Fondo


de cultura económica, 2005

Montenegro, S. & Giménez Béliveau, V. La Triple Frontera: globaliza-


ción y construcción social del espacio. Buenos Aires, Ed. Miño y Davila, 2006.

40 http://www.ina.gov.ar/pdf/ifrrhh/01_024_Cosso.pdf 04/2013
41 Ágata: Una serie de varias operaciones del ejército brasileño para incautar
drogas, armas y contrabando, que mereció la visita de la Presidenta Rouseff.
Lei do sacoleiro: Una solución legislativa que coloca un valor límite a la
cantidad de mercadería que los “sacoleiros” pueden llevar desde la Triple
Frontera para comerciar en otros lugares.

90

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 90 29/04/14 18:58


Montenegro y Béliveau (compiladores). A Tríplice Fronteira. Espaços
nacionais e dinámicas locais. Curitiba, Editora da Universidade Federal do
Paraná, 2011.

TOFIK K., John. Atravessando as Américas: a “guerra ao terror”, os árabes


e as mobilizaçoes transfronteriças em Foz do Iguaçu e Ciudade Del Este. In:
MACAGNO, Lorenzo; MONTENEGRO, Silvia y BÉLIVEAU, Verónica G.
(compiladores). A Tríplice Fronteira. Espaços nacionais e dinámicas locais.
Curitiba, Editora da Universidade Federal do Paraná, 2011.

Costa, Wanderley Messias Da. Geografía política y geopolítica: Discursos


sobre el territorio y el poder. San Pablo, EdUSP, 2008.

Lacoste, Yves. La geografía: Un arma para la guerra. Barcelona, Anagra­


ma, 1977.

Ramos y Rivas. Actas y Documentos emanados de la Comisión Parlamentaria


Conjunta del MERCOSUR (1991–2006). Disponible en hhtp://www.iadb.org/
intal/intalcdi/PE/2013/10873.pdf .

Revistas

Altamirano, Blanca Solares. Gilbert Durand, imagen y símbolo o hacia


un nuevo espíritu antropológico. Revista Mexicana de Ciencias Políticas y
Sociales. Disponible en: http://www.politicas.unam.mx/cedulas/profesores/
prof064363.pdf

Moraes, Dênis de. Imaginario social, cultura y construcción de la hegemonía.


Contratiempo Revista de cultura y pensamiento. La cultura crítica en América
Latina, Edición Impresa.(UFRJ).Otoño-Invierno 2007/N° 2

Latarroca, Martín y Martinez, Maximiliano. La sed de apropiarse del


agua. Sistema Acuífero Guaraní, en Le Monde diplomatique, Edición Cono
Sur. Buenos Aires, agosto 2005.

Otras fuentes

Bruzzone, Elsa. Proyecto para la protección ambiental y desarrollo susten-


table del sistema Acuífero Guaraní desarrollado por el Banco Mundial. Centro
de Militares por la Democracia (CEMIDA), en www.cemida.org (Presentado

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 91

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 91 29/04/14 18:58


en el marco del seminario internacional Acuífero Guaraní “Gestión y Control
Social”, realizado en Foz de Iguazú, Brasil, 14-15 de octubre de 2004.

Hudson, Rex. Terrorist and Organized Crime Groups in the Three Border Area
of South America, Federal Ressearch Division, Library of Congress, Washington,
2003.Actas y Documentos emanados de la Comisión Parlamentaria Conjunta
del MERCOSUR (1991 – 2006), Hugo Daniel Ramos // Eduardo Rivas

Página 12: www.pagina12.com.ar/ – 04/2013

La Nación: www.lanacion.com.ar/ – 04/2013

ABC: www.abc.com.py/ 04/2013

Folha de São Paulo: www.folha.uol.com.br/ 06/2013

O globo: oglobo.globo.com/ – 06/2013

The New York Times: www.nytimes.com/ – 05/2013

The Wasington Post: www.washingtonpost.com/ – 05/2013

BBC: www.bbc.co.uk/ – 05/2013

Parlamento del MERCOSUR: http://www.parlamentodelmercosur.org/ 03/2013

92

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 92 29/04/14 18:58


METÁFORAS DA TRÍPLI C E FRONTEIRA

Vanessa Cristhina Zorek Daniel1


(Bolsista PET-UNILA)

A Tríplice Fronteira (TF), localizada entre Argentina, Brasil e


Paraguai, ganhou notoriedade a partir do ano de 2001, em decorrência
dos denominados ataques terroristas aos Estados Unidos, ocorridos
em setembro do referido ano; passando a ser monitorada por grandes
empresas midiáticas, internacionais e nacionais, como também pelo
Departamento de Segurança dos EUA, devido a suspeita da existência
de células terroristas neste território.
Neste período, em que o foco da atenção mundial sobre a fronteira
foi intensificado (principalmente entre 2001 e 2005), como nunca antes
ocorrido, o discurso construído sobre a região, e que se tornou hegemôni-
co, segundo Béliveau e Montenegro (2006), foi o de uma “terra sem leis”,
“berço do narcotráfico” e espaço poroso, no qual as forças coercitivas do
Estado não podiam adentrar. Desse modo, o imaginário coletivo incor-
porou tal discurso da facilidade para a criminalidade, para o tráfico de
drogas e armas, como também a possível presença de células terroristas
pertencentes a grupos como o Hezbolla e Al-Queada. Estes discursos
circularam por meios de comunicação como The New York Times, The
New York Post, BBC de Londres, Clarín, entre outros, e foram legitimados
depois da presença de agentes de segurança dos EUA na região.

1 Orientadora: Prof. Dra. Diana Araujo Pereira, grupo PET/CONEXÕES DE


SABERES (UNILA, 2010 - 2013)

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 93

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 93 29/04/14 18:58


Após esses episódios, foi criado um contra discurso, proveniente
de ambientalistas, religiosos e ONGs, divulgado em meios digitais,
agências de notícias alternativas, revistas e jornais, que argumentavam
que o interesse dos EUA seria ressaltar os possíveis aspectos negativos
da região, a fim de legitimar uma futura invasão e domínio dos países
da América Latina, para exploração dos recursos naturais, sobre tudo
o Aquífero Guarani. Além disso, esses meios tentaram legitimar este
discurso utilizando trechos de estudos científicos sobre o Aquífero
Guarani, ou seja, não se explorava todo o estudo, apenas pontos que
interessavam e que auxiliavam na defesa desse discurso, bem como
na sustentação da ideia de que a água é uma das maiores riquezas
do futuro.
A descrição e a análise da construção desses discursos, que se
formaram sobre o espaço social e geopolítico da TF, fazem parte da
pesquisa realizada por Béliveau e Montenegro (2006), publicada no
livro intitulado La Triple Frontera: globalización y construcción social
del espacio. Este livro aborda os discursos que circularam nos primeiros
anos da década de 2000, e constata que foram totalmente voltados
à discussão sobre as possíveis células terroristas, evidenciando uma
força dicotômica, um embate entre aqueles que concordavam e os
que discordavam do tema. O poder hegemônico da discussão, apa-
rentemente, não possibilitou um espaço para se construir debates
diferentes sobre outros temas.
Nesse contexto, a expressão “Tríplice Fronteira” não se relaciona-
va apenas ao lugar. Conforme já dito, para o governo dos EUA a TF
significava terrorismo longe dos territórios do Oriente Médio, narcotrá-
fico, “terra sem lei”. Para os grupos contrários à ideia da presença de
células terroristas, a TF significava riquezas naturais, biodiversidade,
Aquífero Guarani, comércio, turismo, diversidade étnica.
Partimos deste estudo preliminar, visando contribuir com as refle-
xões acerca do tema e problematizando a construção imaginária da TF.
Para tanto, neste capítulo estudaremos algumas metáforas que trazem
outra corrente discursiva sobre a região, a qual passa a relacionar a
cidade à natureza, à difusão do conhecimento e às energias místicas
positivas. Nos últimos anos, a ideia da presença do terrorismo na

94

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 94 29/04/14 18:58


fronteira perdeu força e, no ano de 2012, foi parcialmente refutada
pelo próprio governo dos EUA, restando apenas a preocupação de que
os grupos no Cone Sul pudessem financiar o que o governo americano
entende por células terroristas. Vale observar que o governo do Brasil
reconhece o Hezbollah, por exemplo, como um partido político.
Essa outra perspectiva discursiva, abordada aqui através das me-
táforas da Conscienciologia sobre a TF, procura abrir a possibilidade
de se pensar a região sob outra ótica, haja vista que o discurso que
figurava como hegemônico, embora ainda esteja presente no discurso
midiático e no imaginário coletivo, vem perdendo força.
Portanto, para o presente estudo foram selecionadas, como objeto
de análise, algumas expressões metafóricas desenvolvidas e utiliza-
das pelo grupo da Conscienciologia. Esta amostra foi escolhida pela
sua orientação bastante oposta aos termos trabalhados pelo discurso
hegemônico da primeira década do século XXI.
A posição discursiva que o grupo selecionado mantém sobre a
região, abre a possibilidade de novos relatos e imagens, pautados
em outros atributos e características não trazidos à tona pela mídia2.
E, nesse sentido, possibilita lançarmos um questionamento: o novo
discurso proferido pela Conscienciologia pode ser considerado um
contra-argumento, como descrevem Béliveau e Montenegro (2006),
ou seja, respostas aos discursos negativos vinculados à região, ou
uma espécie de novo polo discursivo alheio a está realidade? Vale
observarmos que a escolha do referido grupo não o coloca como o
mais representativo da TF, ou um tipo ideal weberiano de organização
social desta região. Entendemos que não se pode eleger na TF apenas
um grupo como característico ou representativo, pois esse é um espaço
habitado por muitas e variadas “tribos urbanas”3 (MAFFESOLI, 2010).

2 Os discursos midiáticos sobre a região são massivamente negativos,


e exploram o fato das fronteiras entre Brasil e Paraguai não serem totalmente
controladas, creditando a isso e a outras razões o narcotráfico, o contrabando
e a presença de crime organizado na região.
3 Como tribos urbanas, reconhecemos aqui os diversos grupos étnicos
e culturais que fazem parte da Tríplice Fronteira, como os grupos árabes,

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 95

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 95 29/04/14 18:58


Para tecer a reflexão proposta, no desenvolvimento deste estudo
abordamos o conceito multifacetado de imaginário social e coletivo,
principalmente a partir da análise de Emmanuel Lizcano (2006).
Esse autor define o imaginário como a instância na qual a sociedade
recria-se e modifica-se a si mesma, ou seja, o imaginário é visto como
o espaço social criativo da mudança, e as metáforas se constituem
como material essencial para sua investigação.
Frente à amostra e aporte teórico selecionados, nosso propósito é
refletir sobre a ideia de que a modulação de discursos tem a capacidade
de criar e transformar espaços sociais. Para o caso da TF, abordamos
as construções metafóricas utilizadas pelo Centro de Altos Estudos da
Conscienciologia (CEAEC), e como tais expressões desenham um espaço
social diferente do que foi construído entre os anos de 2001 e 2005.

O conceito de imaginário coletivo

O conceito de imaginário, introduzido pela antropologia, está


cada dia mais presente nas pautas das Ciências Sociais, entre outras
áreas do conhecimento. Ainda assim, tentar explicar o conceito de
imaginário é um trabalho complexo. Para esse feito, Lizcano (2006,
p.54) utiliza-se de metáforas:

La imposibilidad de su definición es una imposibilidad lógica. Preten-


der definir lo es tarea semejante a la de – según el proverbio chino
– intentar atrapar el puño con la mano, siendo el puño sólo una de
las formas concretas que la mano puede adoptar. Pero su indefinición
no trasluce un defecto o carencia, sino, al contrario, un exceso o
riqueza. Lo imaginario excede cuanto de él pueda decirse pues es
a partir de él que puede decirse lo que se dice. Por eso, al imaginario
sólo puede aludirse por referencias indirectas, especialmente mediante
metáforas y analogías.

chineses, evangélicos, espíritas, budistas, entre outros. Para Maffesoli (2010),


o termo tribos urbanas serve para designar microgrupos de todos os campos
sociais, que se formam em torno de afinidades e cujos indivíduos estão ligados
entre si por laços de solidariedade.

96

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 96 29/04/14 18:58


Como afirma Lizcano, para chegar ao imaginário não existe outro
caminho a não ser pelas metáforas e analogias. O imaginário existe
antes da própria imagem, pois é criador dessa, e faz uso das metáforas
para se autodescrever.
Apesar de sua base intrínseca estar ligada às metáforas, o imagi-
nário não está presente apenas onde se supunha que ele estivesse: no
mito, na literatura, na fantasia, na utopia coletiva; também faz parte
da chamada racionalidade, está presente na ciência e nas instituições
sociais. Para Lizcano (2006, p. 57), o seio da racionalidade seria,
inclusive, o melhor refúgio do imaginário:

Lo imaginario está así presente en lo más íntimo de la fuerza


coercitiva de un argumento lógico o en la entraña del más elabo-
rado concepto científico, con la misma pregnancia con que puede
estarlo en los hábitos de alimentación o en la legitimación de un
sistema político.

Como exemplo, o autor trata da legitimação do conceito de demo-


cracia que se fortalece pelas metáforas de “vontade geral” ou “voz das
urnas”, demonstrando que as metáforas são os principais habitantes
do imaginário e o alicerce de todas as instituições humanas. Para
Lizcano (2006), o imaginário é ainda o lugar dos pressupostos, onde
cada grupo social ou cultural se encontra previamente. É o local das
crenças, não de um único indivíduo, mas das crenças compartilhadas
por toda uma coletividade.
Sobre o termo imaginário social, pode-se dizer que ele foi uti-
lizado pela primeira vez por Cornelius Castoriadis (1975), no livro
A instituição imaginária da sociedade. Nesse trabalho, o autor recor-
reu às várias disciplinas com o intuito de construir uma teoria sobre
o funcionamento social, e compreendeu que a formação da sociedade
se baseava no imaginário. Na perspectiva introduzida por Castoriadis,
o imaginário social é uma construção histórica que abrange o conjunto
de instituições, normas e símbolos que compreendem certo grupo so-
cial, demandando oportunidades e restrições para a ação dos sujeitos.
Nesse sentido, o imaginário não é nenhuma ficção nem falsidade, mas
uma realidade que condiciona a vida cotidiana.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 97

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 97 29/04/14 18:58


Embora tratem de assuntos comuns, existe uma diferença ter-
minológica entre Castoriadis (1975) e Lizcano (2006). O segundo
prefere usar a expressão “imaginário coletivo” ao invés de “imagi-
nário social”, já que o termo “social” é um conceito que teve suas
origens em uma coletividade muito particular na Europa no século
XVII. Nesse contexto, o social era um termo reservado às associações
restritas de pessoas que desenvolviam alguma atividade em comum.
Porém, a burguesia da época transformou o vocábulo em algo abs-
trato, dispensando essa comunidade de hábitos, valores e práticas
para imaginar um “pacto social” mítico feito entre “[...] unidades
individuales atómicas, extrañas entre sí, y movidas sólo por sus inte-
resses egoístas, al modo de los socios que participan en un negocio”
(LIZCANO, 2006, p. 48).
Em síntese, Lizcano (2006) define o termo como criação do ima-
ginário burguês, que mais tarde serviu como base para a “sociedade
de consumo” e “sociedade de massas”. O autor entende que o termo
“social” seria mais direcionado a imaginários particulares sendo,
assim, mais adequado e genérico o uso do termo “imaginário coleti-
vo”, o qual abarcaria em seu bojo um número maior de imaginários.
Como já foi dito, um dos elementos basilares do imaginário são as
metáforas, e ao investigar suas origens comuns em uma coletividade,
pode-se conhecer a origem da constituição imaginária desse grupo.
O imaginário tem a capacidade de instituir e de ser instituído conti-
nuamente, ou seja, de permanecer e também de criar novas formas
recriando a si mesmo.
O imaginário possibilita a vida em comum dos grupos humanos
através da preservação dos hábitos, tradições, crenças consolidadas,
na criação de instituições e, contraditoriamente, também na criação
de significações novas.
Lizcano (2006 p.56) descreve o imaginário como “denso em todas
as partes”, e complementa:

Esto es, permanece inextirpablemente unido a cualquiera de sus


emergencias y puede, por tanto, rastrearse en cualquiera de sus formas
instituidas. Por grande que haya sido el trabajo de depuración de la
ganga imaginaria, como es el caso de las formulaciones de las mate-

98

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 98 29/04/14 18:58


máticas o las de las ciencias naturales, siempre puede desentrañarse
de ellas la metáfora, la imagen, la creencia que está en su origen y
las sigue habitando. Cada dato, cada hecho, cada concepto, nunca es
así un ‘mero dato’, un ‘hecho desnudo’, un ‘concepto puro’... pues
está cargado con las significaciones imaginarias que lo han hecho, in-
-corpora en su propio cuerpo los presupuestos desde los que ha sido
concebido, está revestido del tejido magmático cuyo flujo ha quedado
en él embalsado.

Como já foi dito, o autor reconhece que o imaginário não está


apenas nos mitos, ritos e símbolos, mas também arraigado onde menos
se supõe: na chamada racionalidade, na ciência dura. O imaginário se
faz presente em argumentos lógicos, em conceitos científicos, com a
mesma força com que está nos hábitos de alimentação e no sistema es-
colhido para gerir politicamente uma sociedade. Complementarmente,
podemos inferir que o imaginário é o lugar da criatividade, no qual
cada sociedade, em qualquer tempo, pode desdobrar sua imaginação,
reflexões e práticas, ainda assim permanecendo e se transformando.
Neste sentido, o imaginário também é o lugar da autonomia. A partir
do imaginário, cada coletividade forma-se a si mesma. É nesse espaço
que a sociedade se recria e se altera, e é também nesse mesmo âmbito
que algumas coletividades se autoreconhecem.
Ao observar toda essa complexidade que é o imaginário, como
então investiga-lo? Segundo Lizcano (2006, p. 60), a melhor ferramenta
seria a metáfora:

Aquí es donde la metáfora se nos ha revelado, en nuestros trabajos,


como un potente analizador de los imaginarios que, sin embargo, se
atiene estrictamente a lo que ellos mismo dicen de modo explícito.
Por así decirlo, en la metáfora el imaginario se dice al pie de la letra;
o, en su caso, al pie de la imagen. Al pie, es decir, en aquello en que
la letra, la palabra o la imagen se soportan, se fundamentan.

As metáforas têm um duplo significado, não contraditórios entre


si, mas como se um significado fosse outro sem sê-lo evidentemente.
Tem a possibilidade de dizer coisas diferentes ao mesmo tempo em
que diz apenas uma coisa. Como o “tempo voa”, “você é uma flor”

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 99

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 99 29/04/14 18:58


e “seus olhos são como um oceano”. Literalmente, o tempo não voa,
uma pessoa não pode ser uma flor, e olhos são partes do corpo hu-
mano e não da composição geográfica da terra. No entanto, nessas
expressões os sentidos das palavras acabam unindo-se e criando um
novo sentido, sem que cada palavra separadamente deixe de significar
o que realmente é.
Lizcano (2006, p. 65) nos apresenta sua própria sistematização
das metáforas. O autor prefere chamá-las de metáforas “mortas” ou
“zumbis”, pois são mortas viventes, e assim as descreve: “muertos
que viven en nosotros y nos hacen ver por sus ojos, sentir por sus
sensaciones, idear con sus ideas, imaginar con sus imágenes”. Essas
metáforas zumbis demonstram as camadas mais solidificadas do
imaginário, no qual a qualidade de instituírem se solidificou há muito
tempo. Neste grupo se incluem as metáforas “ideológicas”, que são
capazes de convencer e comover. Esse tipo de metáfora observa-se
corriqueiramente nas falas políticas, como por exemplo: “o caminho
para a modernidade é o futuro”, “o que não queremos de forma algu-
ma é retroceder ao passado”. No entanto, as metáforas não carregam
consigo apenas significados, mas também sentimentos e valores, como
aqueles que demonstram a esperança no futuro, no sentindo de que
ele seja diferente e melhor do que o passado: mesmo que seja algo
que o homem não conheça, ainda o vê como bom e frutífero, não
importa como esteja agora, mas com certeza no futuro estará melhor.
Em oposição às metáforas mortas, Lizcano nos fala das “metáforas
vivas”, que possuem como característica principal a capacidade de
imposição, ou seja, a capacidade social criativa da mudança. Essas
metáforas utilizam significantes já desvinculados de seus significados
originais – que lhe deram origem –, e os fazem ser vistos sob novos
ângulos. Assim, elas oferecem uma nova perspectiva a algo já conheci-
do, ou seja, um novo significado a um velho significante. No entanto,
nem toda metáfora viva tem a capacidade de causar uma mudança
social radical. Para isso, essa nova metáfora precisa encontrar um
cultivo adequado para conseguir consolidar-se.
Uma das formas de criar metáforas vivas seria inverter as me-
táforas “zumbis”, criando-se assim expressões de impacto. Esse

100

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 100 29/04/14 18:58


processo produz a verossimilhança necessária para serem melhor
acolhidas. As metáforas vivas são obtidas pelas mudanças das
velhas metáforas, que podem encontrar lugar em determinados
grupos sociais e neles obter um sentindo, tornando-se valiosas. Só
depois de instituídas, essas “metáforas vivas” poderão mostrar seu
poder de mudança.
Lizcano (2006) cita os filósofos Gracían e Nietzsche como pensa-
dores que ensinaram o mundo a perceber que por baixo de um con-
ceito, seja do cotidiano ou do campo científico, sempre existirá uma
metáfora. Mas, com o passar do tempo e o uso reiterado do conceito,
a sua origem metafórica fica esquecida. E é dessa maneira que ocorre
a transformação de uma metáfora em um conceito fossilizado, que
passa a ser chamado de “dura realidade”.
As metáforas têm um poder enorme na vida social. Entre as suas
capacidades está a de modelar a percepção, o pensamento e as ações,
principalmente as que são usadas mais corriqueiramente como, por
exemplo, “o pé da mesa” ou o “impacto da ciência”. Para Lizcano
(2006), não somos nós que dizemos as metáforas, mas elas próprias
que nos dizem.
Mas onde nascem ou surgem as metáforas? O seu marco zero
pode estar no ato de nomear. O momento de dar nome a algo ainda
sem nome equivale à transmissão de um significado, um ato que
singulariza, que particulariza algo.

Las etiquetas ordenan el mundo; o mejor, hacen de un caos, un mun-


do. Por eso, etiquetar, nombrar, es crear. Y por eso también conseguir
alterar las etiquetas, reetiquetar las cosas o los acontecimientos, es
destruir un mundo y hacer otro, es hacer de un terrorista un resistente
o, de un excluido, un oprimido. (LIZCANO, 2006, p. 124).

Para Lizcano (2006), a analogia e a sua contração, que é a metáfora,


têm uma função cognitiva, no sentido de que o problemático ou desco-
nhecido torna-se compreensível, através do processo de assimilação a
algo próximo ou familiar. Como ocorre, por exemplo, com as metáforas
antropomórficas, que criam expressões como “formigas operárias”, “abe-
lha rainha” ou “fatos que falam por si mesmos”. A partir do momento

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 101

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 101 29/04/14 18:58


em que essas assimilações são aceitas, pode-se entender o formigueiro
e a colmeia ou qualquer outra ideia de maneira mais coerente, pois
a coerência vem emprestada pelos sujeitos metafóricos projetados.

A construção social da TF

A TF não pode ser descrita como uma região homogênea. As três


cidades desse espaço (Foz do Iguaçu, Puerto Iguazú e Ciudad del Este)
caracterizam-se, principalmente, por terem várias zonas distintas entre
si, que acolhem diferentes culturas em seu bojo. Essa heterogeneidade
se intensifica pela proximidade geográfica entre os espaços urbanos
dessa região, gerando, em algumas circunstâncias, uma grande e
única figura urbana, principalmente no que se relaciona às questões
de comércio e turismo, as principais atividades econômicas da TF.
Segundo dados levantados por Béliveau e Montenegro (2006),
Ciudad del Este e Foz do Iguaçu estão extremamente ligadas. Observam
que os muitos moradores do lado brasileiro, como também os do lado
paraguaio, têm em diversas ocasiões seu lugar de trabalho como donos
de lojas e/ou empregados do comércio. O centro comercial paraguaio,
fora dos horários de atendimento, fica vazio, pois os comerciantes
e funcionários residentes no Paraguai retornam para outros bairros
alheios ao centro comercial de Ciudad del Este ou às cidades metro-
politanas do lado paraguaio, como Presidente Franco, Hernandarias
e Minga Guazú, e também para a cidade brasileira de Foz do Iguaçu.
Não são apenas os trabalhadores do centro comercial paraguaio
que participam do fluxo intenso desta integração regional, mas tam-
bém aquelas pessoas que cruzam a Ponte da Amizade diariamente
para deixar seus filhos na escola, os universitários que se deslocam e
outras pessoas que passam de um lado para outro para fazerem suas
atividades mais corriqueiras como ir ao supermercado, visitar amigos,
ir ao médico ou ainda fazer algum programa cultural.
Puerto Iguazu, em relação à Foz do Iguaçu e Ciudad del Este, apre-
senta além de uma distância física maior, uma aduana de imigração
mais rígida. Para entrar ou sair da Argentina, é necessária a posse
de algum documento de identificação, dinheiro para a passagem do

102

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 102 29/04/14 18:58


ônibus, ou outro meio de locomoção. Diferente do trânsito Brasil/
Paraguai, que pode ser feito a pé, com ou sem identificação.
Mesmo Puerto Iguazu sendo um pouco mais distante das outras
figuras urbanas citadas, é à Foz do Iguaçu que os moradores do lado
argentino recorrem muitas vezes, em assuntos relacionados à saúde
e ao ensino. E, em relação às compras de produtos eletrônicos, entre
outros, buscam a Ciudad del Este. Já os brasileiros e paraguaios vão
até Puerto Iguaçu em busca de alimentos como: carne, salames, azei-
tonas, queijos e também combustível. Isso ocorre, devido ao preço
baixo e à boa qualidade desses produtos. No entanto, o trânsito nessa
fronteira se comprova de menor intensidade quando comparado ao
trânsito entre Brasil e Paraguai, principalmente, pelo rigor da aduana
de migração.
O sociólogo Park (1987) argumenta que a cidade não é formada
apenas pela sua estrutura física, mas, principalmente, pelas relações
que se estabelecem entre as pessoas. Além disso, define a cidade como
um ambiente natural do homem civilizado, configurando-se como
uma área cultural, ou seja, a cidade tem a sua própria cultura por ser
um meio urbano, e também a capacidade de trazer em si várias áreas
que compõem esse cenário. E é nesse sentido que consideramos esta
região da TF como um único espaço urbano.
As três cidades, juntas, fornecem, portanto, uma construção de
extrema vitalidade social:

[...] a cidade é algo mais do que um amontoado de homens indivi-


duais e de conveniências sociais, ruas, edifícios, luz elétrica, linhas
de bonde, telefones, etc.; algo mais também do que uma mera
constelação e instituições e dispositivos administrativos – tribunais,
hospitais, escolas, polícia e funcionários civis de vários tipos. Antes
a cidade é um estado de espírito, um corpo de costumes e tradições
e dos sentimentos e atitudes organizados, inerentes a esses costumes
são transmitidos por essa tradição. Em outras palavras, a cidade não
é meramente um mecanismo físico e uma construção artificial. Está
envolvida nos processos vitais das pessoas que a compõem; é um
produto da natureza, e particularmente da natureza humana. (PARK,
1987, p. 26).

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 103

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 103 29/04/14 18:58


No entanto, embora haja fluxos e circuitos que comunicam as
três cidades, há também um sentido de segregação grupal, que se
dá por interesses, no qual as pessoas se associam por afinidades.
O conceito de “tribos urbanas” ajuda-nos a entender os diferentes
grupos culturais da TF, que são muitos em decorrência da sua hete-
rogeneidade e, principalmente, por sua população ser formada por
etnias muito distintas entre si (como chineses, árabes, indígenas, além
das três nacionalidades presentes na região). Essas “tribos” dividem
internamente emoções, afetos, recordações; não se trata apenas de
uma troca de bens, é também um “comércio de ideias”, um “comércio
amoroso” (MAFFESOLI, 2010):

Universidad, prensa, política, sindicato, podríamos continuar la lista:


administración, clubes, formación, trabajo social, patronato, iglesias,
etcétera. El proceso tribal ha llegado a contaminar el conjunto de las
instituciones sociales. Y es en función de gustos sexuales, de soli-
daridades de pensamiento, de relaciones amistosas, de preferencias
filosóficas o religiosas que van a instalarse las redes de influencias,
los compadrazgos y otras formas de ayuda mutua de las que ya se ha
hablado, que constituyen el tejido social. (MAFFESOLI, 2010, p.22).

Portanto, no sentido usado por Maffesoli (2010), as tribos ur-


banas são compostas por vários tipos de grupamentos sociais em
torno de algo em comum a ser cultivado, e de laços de solidariedade
entre seus componentes. Segundo esta perspectiva, consideramos
que o grupo da Conscienciologia forma uma “tribo urbana”, pois os
indivíduos que fazem parte desse grupo compartilham entre si uma
filosofia, um ideal de pesquisa e conhecimento sobre a consciência
humana; buscam desenvolver em conjunto, com esforço grupal e
individual, conhecimentos. E ainda podemos descrever o espaço
em que está localizada a Cognópolis, como uma “região moral4”,

4 Ainda segundo Park (1987, p. 66), “não é preciso entender-se pela ex-
pressão “região moral” um lugar ou uma sociedade que é necessariamente ou
criminosa ou anormal, antes ela foi proposta para se aplicar às regiões onde
prevaleça um código moral divergente, por uma região em que as pessoas

104

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 104 29/04/14 18:58


na qual indivíduos se reúnem para compartilhar gostos e ideias
em comum.
Tal grupo foi descrito em dezembro de 2012, pelo jornal “A Gazeta
do Iguaçu”5, através de uma entrevista concedida pelo seu líder, Waldo
Vieira, como um grupo formado por 692 pessoas, que se dividem em
58 equipes técnicas do Holociclo6, 73 autores do Holocliclo publica-
dos, 200 enciclopedistas, 154 professores universitários, 68 mestres,
doutores e pós-doutores, 84 psicólogos, 40 médicos, 35 engenheiros,
29 advogados, 14 arquitetos. Percebemos que a sua formação é ma-
joritariamente composta por um alto nível de instrução, sendo essa
uma das características principais do grupo, que busca desenvolver
pesquisas e estudos sobre a consciência, considerando o princípio
inteligente e imaterial dos indivíduos.
A Conscienciologia conta com uma infraestrutura ampla para
o desenvolvimento de suas pesquisas e estudos. No CEAEC existe o
Holociclo, uma espécie de laboratório ou incubadora de autores da
Enciclopédia da Conscienciologia. O prédio da Holoteca, que é um
espaço destinado à pesquisa e a exposições de artefatos culturais,

que a habitam são dominadas, de uma maneira que as pessoas normalmente


não o são, por um gosto, por uma paixão, ou por algum interesse que tem
suas raízes diretamente na natureza original do indivíduo. Pode ser uma arte,
como a música, ou um esporte, como a corrida de cavalos. Tal região diferiria
de outros grupos sociais pelo fato de seus interesses serem mais imediatos
e mais fundamentais. Por essa razão, suas diferenças tendem a ser devidas
mais a um isolamento intelectual.
5 Periódico local, com sede na cidade de Foz do Iguaçu. Principal jornal
impresso da região.
6 O Holociclo é o laboratório técnico de pesquisa especializado na elaboração
da Enciclopédia da Conscienciologia, formado por dicionários, enciclopédias,
recortes de jornais, revistas e outros periódicos, expostos em ordem alfabética
de temas, localizado no campus da Associação Internacional do Centro de Altos
Estudos da Conscienciologia (CEAEC). Essa definição foi retirada da enciclo-
pédia da conscienciologia, a qual está disponível na web page: <http://www.
tertuliaconscienciologia.org/index.php?option=com_docman&task=cat_view
&gid=25&dir=ASC&order=name&Itemid=13&limit=20&limitstart=20>.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 105

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 105 29/04/14 18:58


englobando várias áreas, conta com 276 diferentes coleções. Existem
também laboratórios utilizados para experimentos de autopesquisa.
A influência urbana do grupo pode ser percebida pela mudança
que causaram na cidade com a sua instalação. O CEAC está locali-
zado no bairro Cognópolis, na Rua da Cosmoética, ambas criadas
após a instalação do Instituto. Este bairro foi criado no ano de 2009.
As nomenclaturas urbanas fazem com que percebamos que a influên-
cia da Conscienciologia ultrapassa os muros do CEAC, agindo sobre
a realidade geográfica e espacial da cidade, participando diretamente
da sua construção e transformação.
A TF não é formada apenas pelos diferentes grupos sociais, mas
também pelos diversos discursos produzidos sobre ela. Os espaços
não são criados apenas fisicamente, mas também através das rela-
ções que as pessoas que nele vivem traçam e expressam através do
discurso. Na seção seguinte, vamos nos ater às produções discursivas
provenientes da TF, criadas pela Conscienciologia. A forma como esse
grupo concebe a região é claramente verificada através de expressões
metafóricas que a retratam como um lugar de abundância cultural,
refúgio natural e energético. A descrição que fazem da região é alta-
mente positiva, ressaltando pontos e qualidades da TF que geralmente
não são lembrados pelos discursos midiáticos hegemônicos.
Também para Bourdieu (1998), a linguagem contribui para a
construção e formação da realidade social: “[...] o ditado, o provérbio
e todas as formas estereotipas ou rituais de expressão, são programas
de percepção” (BOURDIEU, 1998, p. 82). Em outras palavras, o que
se fala e como se fala, expressam e materializam uma forma da reali-
dade pensada pelos sujeitos. Quando existe um grupo de sujeitos que
dividem pensamentos que se expressam em discursos similares, em
torno disso forma-se uma realidade. Segundo esse autor, a linguagem,
quando proferida por sujeitos socialmente reconhecidos, tem o poder
de impor determinada visão de mundo.
Dessa maneira, o discurso de sujeitos reconhecidos como inte-
lectuais, sábios ou especialistas em comunicação, como por exemplo
os que falam através das grandes empresas midiáticas, possuem
um peso maior do que o de homens comuns; consequentemente,

106

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 106 29/04/14 18:58


os indivíduos mais fortes no campo social constroem um real mais
verossímil, através de seus discursos.

Análise das metáforas vivas na Tríplice Fronteira

Como já foi dito, TF denomina uma região com inúmeras pecu-


liaridades e abarca três países em um espaço único. Não é peculiar
apenas por agregar cidades de três nações, mas também por receber em
suas terras cidadãos de todo o mundo, atraídos pelas belezas naturais
do lugar e outros atrativos turísticos e/ou comerciais. A circulação
enorme de pessoas faz com que, consequentemente, o imaginário
local seja também muito rico e diverso.
A Conscienciologia, autodescrita como neociência, tem como carac-
terística a criação e utilização de neologismos e metáforas. O espaço do
CEAEC atrai muitos visitantes e curiosos, com o intuito de conhecerem
sua proposta, e outros que vêm em busca de autoconhecimento. Nesse
contexto, a Conscienciologia vai muito além de um novo agrupamento
que escolheu esse lugar para desenvolver estudos. Ela tornou-se parte
da configuração do espaço urbano da cidade, já que com sua presença
gerou a criação do bairro “Cognópolis”, no qual existem três condomí-
nios, além do CEAC. A observação dos discursos emitidos pelo CEAC,
especialmente no que toca às metáforas, torna-se relevante na medida
em que se trata de um grupo cuja prioridade é “reinventar” a lingua-
gem para com isso “reinventar” a sua relação com o real, através da
produção de novos significados para antigos significantes.
Portanto, a sua atuação criativa intervém na cidade geográfica
e simbolicamente, na nomeação de rua, bairro e ressignificação do
contexto social por meio, principalmente, das metáforas, geradoras
de uma nova discursividade sobre a região. Como já foi dito ante-
riormente, entendemos que a criação de metáforas e neologismos
envolve o ato de tentar dar novos sentidos às velhas coisas, ou seja,
olhar para algo e buscar um novo ângulo, uma nova abordagem com
a qual lidar com o real.
A maioria das metáforas e neologismos utilizados pela Conscien­
ciologia remetem a termos utilizados para descrever as pesquisas

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 107

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 107 29/04/14 18:58


conscienciológicas. No entanto, a riqueza vocabular do grupo é
grande, e se estende na relação com o lugar que ocupam e habitam.
As metáforas analisadas são utilizadas e criadas por frequentadores
e voluntários do CEAC. Elas foram selecionadas a partir dos vídeos
das tertúlias proferidas pelo propositor da neociência, Waldo Vieira,
disponibilizadas no site Youtube, e também por meio de sua entrevista,
divulgada pelo Jornal “A Gazeta do Iguaçu” sobre a cidade de Foz do
Iguaçu – em uma matéria especial, que entrevistou personalidades da
cidade com o objetivo de entender o que essas pessoas, consideradas
formadores de opinião, pensam sobre o futuro da cidade. Observamos
que esse periódico legitima a Conscienciologia, reconhecendo o seu
propositor Waldo Vieira como um importante ator social local.
Dividimos as metáforas selecionadas em três grupos: a) metáforas
relacionadas aos conceitos urbanos e culturais; b) metáforas relacio-
nadas à natureza; e c) metáforas aplicadas, que se concretizam em
espaços urbanos:
Quadro – Metáforas referentes à Tríplice Fronteira
A B C

Megalópole Balneário energético Cosmoética


Cosmopolita força hídrica Cognópolis
Capital das Águas chakra positivo
Capital bioenergética hidroenergia
Capital do verde geoenergia
Capital multicultural aeroenergia
Capital da Educação
TRIFON
reciclagem existencial

Grupo A

Ao analisar a metáfora “Megalópole Cosmopolita”, utilizada


como título para a entrevista de Waldo Vieira ao periódico “A Gazeta
do Iguaçu”, sobre o futuro da cidade de Foz do Iguaçu, notamos a
dimensão grandiosa com que a Conscienciologia encara a cidade e a
une às outras localidades urbanas vizinhas, demonstrando que Foz é

108

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 108 29/04/14 18:58


muito mais conhecida e identificada como parte da região da TF, do
que por uma cidade brasileira do oeste paranaense. “Megalópole”,
segundo o dicionário Priberam on-line (megalo – + latim polis, – is,
do grego pólis, – eos, cidade) significa: Metrópole de grandes dimen-
sões. Zona urbana vasta e com grande concentração populacional,
que corresponde ao território ocupado por várias áreas metropolitanas
interligadas. Já o “cosmopolita” (grego kosmopolítes, – ou, cidadão do
mundo), significa: Pessoa que considera o mundo como pátria. Pessoa
que viaja muito e que se sente bem em qualquer país. Que é de todos
os países. Que é relativo ou próprio dos grandes centros urbanos.
Essa metáfora descreve a cidade como receptiva às pessoas de
todas as nações e culturas, como lugar de morada para indivíduos de
diferentes etnias, e ainda um lugar de passagem. Em outras palavras,
por meio dessa construção linguística apresenta-se a realidade social
da TF, de fato construída por diversas diferenças étnicas e culturais,
como também por visitantes e turistas. A TF também é conhecida como
um lugar de passagem; passam por essa região, diariamente, pessoas
com diversos objetivos, que iniciam ou terminam aqui sua jornada.
As metáforas precedidas pela palavra “capital”, que designa ge-
ralmente o lugar no qual está fisicamente o governo de um Estado ou
País, ou qualquer lugar principal de uma nação, pretendem chamar a
atenção para a localidade, para suas características e qualidades. Tais
expressões conferem à região um grande potencial, considerando-a
como uma das regiões mais influentes em determinados assuntos.
A metáfora “Capital Bioenergética” pode ser encarada pelo lado
tecnológico, pela presença da Usina Hidrelétrica de Itaipu, ou ainda
em relação às energias espirituais, pois estudos esotéricos consideram
este lugar – por possuir um encontro de grandes rios – como uma re-
gião energética no sentido espiritual. Já a metáfora “Capital do verde”
faz referência ao Parque Nacional do Iguaçu, que tem sua extensão
dividida entre Brasil e Argentina.
A metáfora “Capital multicultural” retoma a ideia da presença de
diversas etnias, não só da América Latina como de todo o mundo, que
escolhem esse espaço para viverem sem maiores problemas. Ainda
dentro do contexto de capital, a metáfora “Capital da Educação”

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 109

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 109 29/04/14 18:58


faz referência às inúmeras universidades da cidade e à instalação,
em 2010, da Universidade Federal da Integração Latino Americana
(UNILA), como também ao bom desempenho apresentado pelo
ensino fundamental do Município de Foz do Iguaçu, no cenário
nacional, no ano de 2012.
A palavra Trifon é formada por aglutinação, que consiste no pro-
cesso de formação de palavras pela junção de duas ou mais unidades
linguísticas. Nesse caso: Tríplice + Fronteira = Trifon. Essa nova
palavra reforça, ainda mais, a necessidade de particularizar a região
e diferenciá-la do sentido associado ao termo Tríplice Fronteira 7.
Portanto, demonstra a necessidade da Conscienciologia de “reinven-
tar”, por meio da linguagem, a percepção da realidade regional.
Nesse grupo, temos ainda a expressão “reciclagem existencial”,
referente às pessoas que buscam a Conscienciologia para iniciar es-
tudos relacionados à vida e à consciência, com o intuito de buscar
novos sentidos para a existência como um todo. A palavra reciclagem
remete à renovação, à transformação, à mudança e ao melhoramento
de algo já usado. Nesse sentido, a reciclagem existencial significa reno-
var a vida já existente, transformá-la, melhorá-la. Utilizar como base
a existência até o momento e recriá-la, a partir desse novo instante.
No sentido utilizado pela Conscienciologia, provavelmente, a partir
da busca pelo incessante autoconhecimento.

Grupo B

Neste grupo, foram incluídas metáforas que redimensionam a


natureza e as energias elétrica e espiritual. Para análise da metáfora
“Balneário energético”, novamente recorremos ao dicionário Priberam:
termo “Relativo a banho (ex.: terapias balneárias). BALNEAR. Estação
balnear de águas medicinais. Recinto público onde se pode tomar ba-
nho. Local devidamente equipado onde se pode tomar banho, trocar de
roupa e guardar pertences pessoais temporariamente.” (DICIONÁRIO

7 Tríplice Fronteira é uma expressão excessivamente marcada por sentidos


negativos, criados por agentes externos ao seu contexto.

110

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 110 29/04/14 18:58


PRIBERAM, 2013, Não paginado). Em relação ao termo balneário,
percebemos uma grande referência à água como um meio de higiene
pessoal, medicinal, ou ainda de desfrute, deleite.
A palavra balneário tem relação próxima com a região, devido
à importância que a água tem para a formação histórica, social e
econômica da localidade: o grande Rio Paraná, que dá origem à
Usina de Itaipu, e o Rio Iguaçu, que passa pelo Parque Nacional do
Iguaçu e forma as Cataratas do Iguaçu. Foi também desses rios que,
em tempos históricos, os habitantes da região tiraram o alimento,
e usaram-nos como meio para locomoção através de embarcações.
Existem ainda, do lado paraguaio, outros afluentes do Rio Paraná que
formam a paisagem dessa região. Neste contexto, a palavra energético,
pode ser entendida de duas maneiras: primeiramente, em relação à
energia elétrica produzida pelas águas dos rios que aqui desembocam
(salientamos que a Itaipu Binacional é uma das maiores hidroelétricas
do mundo e parte da composição do cenário da TF). Por outro lado,
o Rio Iguaçu, no seu curso até chegar à região, passa por diversas
barragens de pequenas hidrelétricas.
A segunda maneira de entendermos o temo energético pode ser
como referência a uma energia espiritual, já que estudiosos esotéricos,
como também a Conscienciologia, consideram as Cataratas do Iguaçu
um dos chakras da terra, ou seja, um lugar de renovação energética
e espiritual.
A expressão “Estuário cultural”, utilizada para se referir à diver-
sidade cultural da TF, faz novamente referência às águas. A palavra
estuário, segundo o dicionário Priberam significa: “Parte de um rio,
próxima à sua foz no mar, onde a água doce se confunde com a
salgada. Braço de mar ou de rio que se estende pela terra a dentro.”
(DICIO­NÁRIO PRIBERAM, 2013, Não paginado).
O termo estuário, que descreve o rio no momento em que ele não
é apenas rio, mas se alarga e também é mar, remete ao lugar no qual
todas as grandes águas se encontram e desejam chegar ao oceano. Ao
completar-se com o termo cultural, denomina o lugar de encontro e
de convergência ecumênica para as culturas mundiais, assim como
as águas dos rios em algum momento se descobrem todas no mar.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 111

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 111 29/04/14 18:58


Outra metáfora ainda relacionada à água e à energia é a “força
hídrica”, que também pode ser entendida como a força que a água
possui para girar turbinas e produzir energia elétrica e, ainda, a força
hídrica das Cataratas do Iguaçu, que demonstra uma beleza peculiar
quando milhões de litros por segundo despencam de cânions. Os dois
rios representativos da “força hídrica” juntam-se no Marco das Três
Fronteiras, formando apenas um rio. Então, a metáfora pode ainda
ser entendida em um sentido simbólico, como se as águas presentes
nessa localidade possuíssem uma força/energia diferente das de outras
localidades. A água, por si só, já nos remete às imagens de fonte de
vida renovada, de força e energia em sentido concreto ou abstrato.
Há também expressões formadas a partir da palavra energia, re-
tomando a ideia da produção de energia elétrica e também espiritual:
geoenergia, hidroenergia e aeroenergia. Trata-se de energias presentes
na terra, na água e no ar da região. Sugere a configuração do lugar
como sagrado ou místico, seja pela preservação e cuidado ecológicos,
pela sua peculiaridade, ou ainda por energias ocultas presentes nos
elementos da natureza.
As expressões que incluem a palavra chakra8 sugerem para a região
das Cataratas do Iguaçu o reconhecimento de atuarem como “chakra(s)
da terra”, “chakra positivo” e “chakra telúrico”. Positivo no sentido de
fazer circular boas energias no local, além de transmiti-las às pessoas
que visitam o lugar. Telúrico, segundo o dicionário Priberam, significa:
“Relativo à Terra”. Nesse sentido, une a palavra chakra, relacionada
ao corpo humano, à Terra como planeta, ou seja, um chakra terrenal.

Grupo C

Nesse grupo estão as palavras que foram aplicadas ao espaço


urbano de Foz do Iguaçu, como a palavra Cosmoética, que denomina

8 Segundo Judith (2004, p. 5) “Um chakra é um vórtice giratório de energia


criado dentro de nós pela interpenetração da consciência e do corpo físico.
Através dessa combinação, os chakras tornam-se centros de atividade para
a recepção, assimilação e transmissão de energias vitais”.

112

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 112 29/04/14 18:58


uma rua nessa cidade. Trata-se da junção de duas palavras, cosmo
+ ética. Cosmo significa universo, e ética, segundo o dicionário
Priberam, é a “parte da Filosofia que estuda os fundamentos da moral.
Conjunto de regras de conduta”. Nesse sentido, a palavra Cosmoética
faz referência a um universo ético e moral.
A palavra Cognópolis, que nomeia um bairro da cidade de Foz do
Iguaçu, no qual está localizada a sede da Conscienciologia, é formada
pela aglutinação das palavras cognição+pólis, resultando em algo
como “a cidade do conhecimento”.
A partir dessa breve análise de expressões metafóricas, utilizadas
pela Conscienciologia, podemos interpretar a sua necessidade de
criar novas expressões para descrever o ambiente geográfico no qual
vivem, como uma tentativa de expressar a percepção do grupo sobre
a realidade local. Transmitem para o social aquilo que entendem e
percebem desse espaço. Ou podem, ainda por outro lado, procurar
imprimir, com tais expressões, seu desejo de sobrepor à região novos
sentidos e interpretações, mais adequados aos objetivos do grupo.
Para Pierre Bourdieu (1998, p.81-82), a linguagem tem uma eficácia
simbólica de construção da realidade social: “A nomeação contribui
para construir a estrutura desse mundo, de uma maneira tanto mais
profunda quanto mais amplamente reconhecida (isto é, autorizada).
Todo agente social aspira, na medida de seus meios, a este poder de
nomear e de constituir o mundo nomeando-o.”

Considerações Finais

Podemos inferir, através das palavras e expressões criadas pelo


CEAC, que há, por parte deste grupo, o desejo de contribuir para um
imaginário coletivo diferente daquele que é construído pela mídia,
sobre a TF. O grupo estudado propõe, através da palavra, a criação
de um novo lugar, não apenas no sentido de mais um bairro ou área
habitacional, mas um espaço de conhecimento, ético e fomentador
de novas ideias, que recria a região simbolicamente.
No contexto trinacional, entendemos tais práticas discursivas não
como um contra discurso em relação às mídias hegemônicas, pois

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 113

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 113 29/04/14 18:58


não fazem referência a esse legado, mas como um claro exemplo
da prática social de construção de um espaço por meio da criação
discursiva. As expressões linguísticas reforçam a própria relação que
o grupo estabelece com o lugar, a forma como o entendem e assim
buscam habitá-lo.
A sua posição ideológica em relação a TF, expressada em suas
construções linguísticas, exerce influência a nível local, por serem
vistos como um grupo detentor de capital simbólico e cultural, o que
os legitima. Desse modo, participam da construção desse espaço jun-
tamente com os outros indivíduos e grupos que nesse lugar habitam,
construindo-o por meio de suas práticas sociais e discursivas.
A linguagem, segundo Bourdieu (1998), é o primeiro mecanismo
formal que possui capacidade ilimitada de criação, ou seja, ela pode
dizer tudo, e a partir do momento em que algo existe através da lingua-
gem, passa a existir na realidade. A linguagem possibilita criar novas
situações e perspectivas, moldar espaços e imaginários coletivos.
As metáforas aqui observadas podem ser consideradas, ainda,
como “metáforas vivas”, principalmente pela brevidade de sua existên-
cia. Existe a possibilidade de que algumas delas se tornem metáforas
fossilizadas e passem a fazer parte do uso corriqueiro da população
local, ou de qualquer indivíduo que venha a se referir à TF. E quando
isso ocorrer, o sentido dessas expressões discursivas fará parte da
“dura, pura e simples constituição da realidade”.
Existe a possibilidade de que as ideias transmitidas por meio des-
sas expressões passem a fazer parte hegemonicamente do imaginário
local, a partir do momento em que ingressem no ideário coletivo da
comunidade. Existe a possibilidade de que no futuro ninguém mais se
lembre de onde e como surgiram essas expressões metafóricas; se isso
ocorrer, as pessoas terão a impressão de que elas sempre estiveram
presentes no imaginário da TF, e essa construção imaginária será tão
verdadeira e tão pertencente à realidade, que dará a entender que
nunca poderia ter sido de outra maneira.

114

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 114 29/04/14 18:58


Referências Bibliográficas

BÉLIVEAU, V.G.; MONTENEGRO, S. La Triple Frontera: globalización y cons-


trucción social del espacio. Buenos Aires, Miño & Dávila, 2006.

BOURDIEU, P. A economia das trocas linguísticas: o que falar quer dizer. 2.


ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1998.

CASTORIADIS, C. A instituição imaginária da sociedade. Rio de Janeiro:


Editora Paz e Terra, 1975.

DICIONÁRIO PRIBERAM. Disponível em: <http://www.priberam.pt/DLPO/>.


Acesso em: 15 de dez., 2013.

JUDITH, A. A verdade sobre os chakras. Rio de Janeiro: Mauad, 2004.

LIZCANO, E. Metáforas que nos piensan. Sobre ciencia, democracia y otras


poderosas ficciones. Ediciones Bajo Cero/Traficantes de Sueños, 2006.

MAFFESOLI, M. El tiempo de las tribus. Buenos Aires, Argentina: Siglo XXI


Editores, 2010.

PARK, R. A cidade: sugestões para a investigação do comportamento humano


no meio urbano. In: VELHO, Octávio Guilherme (Org.). O fenômeno urbano.
4. ed. Guanabara: Rio de Janeiro, 1987. p. 26-67.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 115

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 115 29/04/14 18:58


Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 116 29/04/14 18:58
N a r r a t i v a s d e i d e n t i d a d e s:
a linguagem como lugar de (in)visibilização

Maria Elena Pires Santos1


(UNIOESTE)

Introdução

As Políticas Educacionais voltadas para os interesses dos grupos


dominantes e, consequentemente, para o apagamento da diversidade
e das diferenças, marginalizam, progressivamente, uma parcela con-
siderável da população, principalmente, em contextos plurilíngues/
pluriculturais de fronteira. A ideologia da homogeneidade linguística
parece ser prática comum não apenas no Brasil, como já apontavam
Bortoni-Ricardo (1984); Kleiman, Cavalcanti & Bortoni-Ricardo (1990);
Martin-Jones & Saxena, (1995); Cavalcanti (1999); Pires-Santos
e Cavalcanti (2007). Exemplo disso são os alunos “brasiguaios”2

1 Possui graduação em Português/ Francês e suas respectivas Literaturas pela


Uni­versidade Federal de Uberlândia (1972), mestrado em Letras pela Univer­si­
da­de Federal do Paraná (1999) e doutorado em Lingüística Aplicada pela Uni­
versi­da­de Estadual de Campinas (2004). Está cursando Pós-doutoramento pela
Uni­ver­sida­de Estadual de Campinas. É professor adjunto nível C da Universidade
Esta­dual do Oeste do Paraná. Tem experiência na área de Letras e Linguística Apli­
cada. Vem desenvolvendo, desde 1999, Projetos de Extensão em Leitura e Escri­ta
para professores da rede pública de ensino. Com formação na área de Lin­guística
Aplicada, realiza pesquisas etnográficas colaborativas no contexto escolar.
2 Embora à denominação “brasiguaio” esteja subjacente a ambivalência do
termo, o que muitas vezes tem provocado a criação de estereótipos negativos

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 117

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 117 29/04/14 18:58


nas escolas brasileiras, mais pontualmente, em escolas do Oeste
do Paraná.
Esses alunos têm como língua materna a língua portuguesa e/ou
outra língua estrangeira (como o alemão e/ou italiano). Iniciaram o pro-
cesso de alfabetização no Paraguai, em espanhol, onde também faz parte
do currículo escolar a língua guarani. Ao retornarem ao Brasil, deparam-
-se, na escola, com a língua portuguesa escrita que pouco conhecem.
Embora a denominação “brasiguaio” aponte para a homogeneidade de
um grupo, as pesquisas que venho realizando desde a década de 1990,
principalmente no contexto escolar, evidenciam a impossibilidade de
delimitação de características comuns e partilhadas por todos. Como
exemplificação da heterogeneidade, faço menção aqui a apenas alguns
traços, focalizados no contexto escolar, que refletem a complexidade
dessa nominação: alunos que não tiveram acesso à educação com re-
gularidade no Paraguai, ao retornarem ao Brasil, foram colocados nas
séries iniciais, resultando na formação heterogênea quanto à diferença
de idade em relação aos demais alunos, e também quanto aos interesses
próprios das respectivas faixas etárias, ou foram incluídos em cursos de
Educação de Jovens e Adultos (EJA); alunos filhos de “brasiguaios” bem
sucedidos no país vizinho, que ainda lá mantêm residência, cujos filhos
vêm para as escolas privadas brasileiras para dar prosseguimento aos
estudos; alunos que, embora tenham estudado nas escolas paraguaias,
não possuem documentação que comprovem o grau de escolaridade
já adquirido, sendo colocados nas séries iniciais na escola brasileira, o
que dificulta o reconhecimento das dificuldades desses alunos quanto à
sua linguagem “híbrida”3 (Bhabha, 2001), principalmente na escrita,

em relação aos assim nominados, será aqui mantida pela construção reco-
nhecida não só na região de fronteira, sendo empregada aqui no sentido de
referência aos brasileiros transfronteiriços Brasil/Paraguai, tanto em relação
aos que permanecem no país vizinho, quanto aos que retornaram ao Brasil.
3 Para Bhabha (2001), o hibridismo não é o resultado da soma das partes,
nem a lógica binária da construção de identidades construídas nas diferenças
(branco/negro, índio/não índio, eu/outro etc.). Pelo contrário, é o espaço inters-
ticial, liminar, em permanente deslocamento e construção, num constante mo-
vimento de ir e vir. O espaço intersticial é o lugar de ligação, o “entre-lugares”,

118

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 118 29/04/14 18:58


altamente estigmatizada na escola brasileira, motivo pelo qual, muitas
vezes, são considerados alunos fracos e/ou incapazes; alunos que foram
alfabetizados no país vizinho em espanhol e guarani, ao retornarem ao
Brasil, são visibilizados, no contexto escolar, pela linguagem híbrida
português/espanhol/guarani, sendo que alguns ainda mostram a pre-
sença de traços de línguas próprias de suas culturas, como alemão, ou
italiano, ou chinês, etc. Como se pode observar, essa pequena ilustração,
que poderia ser consideravelmente ampliada, comprova a complexidade
escondida sob a denominação “brasiguaio”.
Considerando o exposto, o objetivo do presente trabalho é inves­
tigar como são construídas e (in)visibilizadas, na linguagem, as iden­
tidades de alunos “brasiguaios”.
Concordo com Moita Lopes (2002: 16) quando afirma que “a escola
é um dos espaços institucionais mais importantes para aprendermos
a nos constituir como seres sociais e também para construirmos
os outros”. Assim, espero que, ao estender o olhar sobre o cenário
escolar da Tríplice Fronteira, possa contribuir para a compreensão
das situações das minorias linguísticas da região, e talvez contribuir
também para a reflexividade e formação continuada do professor para
atuar nesse complexo contexto plurilíngue/pluricultural.
Para desenvolver o objetivo proposto, em primeiro lugar, faço
uma rápida apresentação da abordagem qualitativa/interpretativista
utilizada para a geração de registros; na sequência, discuto os concei-
tos de linguagem e identidade, os quais darão sustentação à análise
que será, na sequência, apresentada para, finalmente, apresentar as
considerações finais.

Geração de Registros

Focalizada no campo da Linguística Aplicada, a abordagem meto-


dológica seguiu os princípios da pesquisa qualitativa/interpretativis-
ta, de cunho etnográfico (ERICKSON, 1985, 1987, 1989; DURANTI,

marcado pela descontinuidade, que possibilita o embaralhamento, o trânsito


para lá e para cá, uma nova configuração que se atualiza na contingência.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 119

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 119 29/04/14 18:58


1997; ELY et al. 1980/ 1996; DENZIN E LINCOLN, 2006; FRITZEN
E LUCENA, 2012), sendo que os registros aqui apresentados foram
gerados a partir de uma pesquisa mais ampla, como parte de minha
tese de doutoramento orientada pela professora doutora Marilda do
Couto Cavalcanti, em 2004, mas de continuidade no momento atual.
A escolha dessa abordagem metodológica de deve ao fato de que
propõe a consideração da opinião dos atores sociais em seu papel social
e princípios culturais, buscando entender os significados locais que os
acontecimentos têm para as pessoas envolvidas focalizando, então,
situações da ‘vida real’ ou do contexto social ‘naturalístico’ (Bortoni-
Ricardo, 2008; Denzin & Lincoln, 2006; Christians, 2006).
Lincoln & Denzin (2006) apontam uma série de tensões, contradi-
ções e hesitações que perpassam o vaivém do campo da pesquisa qua-
litativa e nos alertam para o perigo de leituras equivocadas do passado
quanto a suas vertentes positivistas, pós-positivistas e naturalistas mais
tradicionais e esperanças utópicas do futuro. Buscando ser cuidadosos
quanto aos perigos de escrever o presente, os autores apontam quatro
teses que sustentam a visão por eles denominada de sétimo momento
da pesquisa qualitativa. A primeira, distanciando-se de uma visão
linear progressiva do campo, refere-se às interrupções e rupturas que
definem a história da pesquisa qualitativa, não sendo possível descartar
a eventualidade de um retorno e exaltação de uma fase rétro, em que
seria criticado o momento atual como confuso e imperfeito.
Como segunda tese, os autores apontam a centralidade do com-
plexo compromisso humanista do pesquisador, no sentido de realizar
suas pesquisas a partir do ponto de vista do “indivíduo marcado pelo
gênero, situado historicamente, em interação” (p. 389), havendo sem-
pre a possibilidade de novos deslocamentos e articulações. Segundo os
autores, “todos acreditam que uma política da libertação deve sempre
iniciar com a perspectiva, os desejos e os sonhos daqueles indivíduos
e grupos que foram oprimidos pelas maiores forças ideológicas, eco-
nômicas e políticas de uma sociedade ou de um momento histórico”
(LINCOLN & DENZIN, 2006, p. 389).
A terceira tese está relacionada às encenações etnográficas dos
textos pelos respectivos autores, como uma forma de propiciar um

120

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 120 29/04/14 18:58


diálogo contínuo, ou seja, para que “as audiências realmente ma-
nifestem sua oposição às performances e aos seus significados, e
que de fato participem da performance e da criação de significado”
(p. 390) – o significado entendido como plural e sempre aberto a
novas interpretações – passando a atuar, tanto os autores quanto o
público, como críticos culturais.
A quarta tese pressupõe um direcionamento para uma epistemolo-
gia sagrada, em que a ética e a política são centrais, posicionamentos
também subjacentes às propostas de Moita Lopes (2006), Sousa Santos
(2003), Maher (2008), Cavalcanti (2006), entre outros, os quais nos
convocam à indagação sobre a escolha que fazemos quanto às me-
todologias utilizadas; quanto às teorias e arcabouços teóricos muitas
vezes naturalizados que usamos para criar inteligibilidade sobre a vida
contemporânea ao produzir conhecimentos; quanto aos contextos em
que são produzidos e a quem servem esses conhecimentos que produ-
zimos, considerando a importância dos cuidados que devemos ter em
relação ao ser humano. Para Moita Lopes (2006, p. 103), “a escolha
deve se basear na exclusão de significados que causem sofrimento
humano ou significados que façam mal aos outros”.
Christians (2006) ao tratar da ética na pesquisa, questiona os prin-
cípios do modelo por ele denominado de “ética utilitária” – proposta
pelos Conselhos de Ética – porque apresentam uma visão restrita,
revelando-se própria de uma ciência neutra que tem como objetivo,
basicamente, proteger as instituições que os estabelecem.
Para o autor, a ética utilitária se sustenta em quatro princípios:
(1) consentimento informado – segundo esse princípio, os participantes
devem concordar voluntariamente em fazer parte da pesquisa e têm
o direito de serem informados sobre a natureza e sobre as consequên-
cias de seus resultados; (2) fraude – esse princípio prevê uma postura
uniforme contrária à fraude; (3) Privacidade e confiabilidade – esta-
belece tanto a proteção das identidades dos participantes e dos locais
de pesquisa quanto dos dados, para que ninguém seja prejudicado ou
constrangido com os resultados da pesquisa. (4) Precisão – assegura a
ausência de mentiras, materiais fraudulentos, maquinações e omissões.
Para o autor, esses princípios neutros não são suficientes para que sejam

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 121

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 121 29/04/14 18:58


percebidos de quem são os interesses que merecem ser discutidos, para
que a pesquisa tenha um planejamento colaborativo e uma execução
participativa, garantindo que os participantes tenham poder de decisão
nos direcionamentos dados pesquisa, garantindo que seus resultados
possam reverter para o bem da comunidade na qual é executada.
Assim, Christians (2006) amplia a visão de ética na pesquisa, pro­
pondo os princípios da ética por ele denominada de social:
1. Suficiência interpretativa – As interpretações construídas pelo
pesquisador precisam retratar com seriedade as múltiplas interpre-
tações dos participantes da pesquisa, os quais pertencem a grupos
culturais complexos, como contribuição para que estes aprendam a
lidar sozinhos com suas experiências da vida cotidiana.
2. Representação transcultural e multivocal – Os diferentes grupos
sociais constroem significados particulares, sendo prejudicial o pesqui-
sador olhar para os valores culturais dos participantes da pesquisa com
base nos significados apenas da sua própria cultura, não considerando
os valores culturais próprios de cada grupo. Dessa forma, é importante
que se leve em conta a influência de uma cultura sobre a outra, pois elas
não existem de forma isolada, mas de forma transcultural, e se reco-
nheça aqueles valores condizentes com a dignidade humana universal.
Diferentemente da característica contratual entre instituição – para quem
são transferidos, o consentimento ou a obrigação – e participantes da
pesquisa, a pesquisa passa a refletir múltiplas vozes, pois o empenho
da palavra é feito e mantido entre pesquisador e comunidade.
3. Discernimento moral – O discernimento moral não pode se
restringir à ética utilitária. Além de nos levar a descobrir as verdades
morais sobre nós mesmos, devemos considerar também que “as co-
munidades são entrelaçadas por narrativas que revigoram sua com-
preensão comum do bem e do mal, da felicidade e da recompensa, do
significado da vida e da morte” (p. 155), ou seja, torna-se importante
verificar não o que os participantes consideram virtuoso, mas como
a ordem moral acontece na formação da comunidade.
4. Resistência e capacitação – Na pesquisa, é preciso deixar claro
que as concepções do bem são compartilhadas por pesquisador e
participantes, e as definições propostas pelos participantes precisam

122

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 122 29/04/14 18:58


ser trazidas, como contribuições importantes, para dentro da pesquisa,
pois representam uma possibilidade de transformação humana em
relação às múltiplas formas de pertencimento humano na vida da
comunidade, como na religião, na política, etnicidade, gênero, etc.
Seguindo os princípios da pesquisa qualitativa/interpretativista
de cunho etnográfico, foram gerados os dados aqui apresentados com
base em entrevistas não estruturadas. As entrevistas, por terem sido
realizadas em grupo, e, principalmente, por representarem construções
que atendiam àquele momento interacional em que estavam envol-
vidos interlocutores específicos, ou seja, participantes da pesquisa e
pesquisadora, estão sendo consideradas como narrativas, isto é, como
tendo potencial de contribuir para a construção dos processos identi-
tários dos participantes. Conforme Moita Lopes (2002), as narrativas
têm uma natureza dual, possibilitando um duplo olhar. Ao mesmo
tempo em que se prestam para a construção de quem somos enquanto
narramos, também introduzem no jogo nosso(s) interlocutor(es).
Para dar prosseguimento aos objetivos aqui propostos, na se­
quência, discuto os conceitos de linguagem, identidade e discurso,
por considerá-los imbricados e fundamentais para a análise.

Linguagem, Discurso e Identidade

Fairclough (1992, 1995 a, 1995 b), ao discutir a conexão entre a lingua-


gem e as relações desiguais de poder, conceitua linguagem como ação e
discurso como prática social, isto é, como forma de as pessoas agirem sobre
o mundo e sobre o outro e também como forma de representação. Assim,
tanto as pessoas constroem como são construídas nos/pelos discursos.
Em consonância com o conceito de discurso como prática social,
considero como “processos interativos adequados” não apenas aqueles
em que as pistas de contextualização são corretamente interpreta-
das, mas os espaços de conflito e malentendidos (SIGNORINI, 1998;
Cavalcanti, comunicação pessoal). Dessa maneira, se não há lugar
para a regularidade nas atividades interacionais, também não há
espaço para uma concepção de linguagem monolítica, homogênea,
mas para a linguagem híbrida.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 123

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 123 29/04/14 18:58


Seguindo essa perspectiva, parece-me possível considerar que
o processo interacional cumpriu sua função, até mesmo quando a
intenção é justamente a de que não haja uma interpretação correta,
como acontece com as políticas governamentais invisíveis, que acabam
induzindo os indivíduos a empreender uma determinada caminhada,
mesmo que estes não compreendam as decisões reais que motiva-
ram essas ações e que, quase sempre, se destinam a encobrir outros
interesses e ideologias, revelando relações desiguais de poder, como
acontece, por exemplo, quanto aos “brasiguaios”.
As singulares relações desiguais de poder são apresentadas por Elias
& Scotson (2000) em termos de estabelecidos e outsiders. Os estabele-
cidos se autorepresentam e são percebidos como fazendo parte de um
grupo mais poderoso, e se pensam a si mesmos como humanamente
superiores, constituindo o que os autores denominam a “minoria dos
melhores”. Por outro lado, os outsiders são caracterizados como um
conjunto heterogêneo e difuso, que não chega a se constituir como um
grupo social e, por isso, existem sempre no plural. O mais surpreen-
dente, constatam os autores, é que os estabelecidos, ao se verem como
melhores, como partilhando virtudes que faltam aos outros, acabam
fazendo os outros se sentirem realmente como carentes de virtudes.
As relações desiguais de poder, embora não-determinísticas,
revelam a procura de um lugar próprio, ou seja, de identidades que,
sempre complexas e em permanente fluxo, se atualizam nas práticas
discursivas em uma determinada interação, atendendo aos interesses
daquele momento histórico.
Para uma discussão da problemática da identidade, dois paradig-
mas se colocam: os estudos orientados pelos paradigmas da moderni-
dade, com tendência essencialista, e os estudos orientados pelos pa-
radigmas da pós-modernidade, não-essencialistas (SIGNORINI, 1998).
Os paradigmas essencialistas, relacionados à tradição racionalista, o
Iluminismo do século XVIII, permanecem até hoje como um ideal na
cultura ocidental. Segundo essa tradição, “o pensamento científico
se organiza em torno da razão e do método, buscando sempre uma
‘rigorosa unificação’ (aspas da autora) do pensamento científico”
(SIGNORINI, 1998, p. 349), induzindo à busca de leis gerais, da

124

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 124 29/04/14 18:58


redução do complexo ao simples, da busca da unidade. Em relação
à denominação “brasiguaio”, por exemplo, uma perspectiva essen-
cialista sugere que existe um conjunto de características partilhadas
e que não se alteraria ao longo do tempo.
Já para os paradigmas não-essencialistas, seria impossível, no
mundo contemporâneo, sustentar uma identidade una e homogê-
nea. Assim, busca-se revisar o conceito e incluir a probabilidade e a
irreversibilidade, o que permite uma abordagem da problemátia do
sujeito como não tendo uma identidade fixa, essencial ou permanente,
mas fragmentada, complexa, instável (HALL, 2000; BHABHA, 2001,
SARUP, 2006; MOITA LOPES, 2002, 2003; CAVALCANTI, 2003).
Para a compreensão do conceito de identidade, busco em Certeau
(2001) os conceitos de estratégias e táticas. As estratégias permitem o
gerenciamento do tempo para garantir um lugar próprio, e assim se
valem de um saber em que um poder é a preliminar desse saber. Por
outro lado, as táticas, na ausência de um lugar próprio, se introduzem
de surpresa no lugar do outro, para aproveitar a ocasião. Seguindo essa
perspectiva, busco relacionar o conceito de identidade às estratégias e
o de identificação, às táticas. Explicando melhor, as rápidas e grandes
mudanças que ocorrem atualmente e as respectivas transformações
dos valores agregados a essas mudanças geram, consequentemente,
diferentes modos de integração, transformação, combinação, distorção,
isto é, de apropriação (CERTEAU, op.cit.), tornando difícil o surgimento
de identidades classificáveis, o que provoca também o deslocamento
constante das identificações. As identificações, como as identidades, tor-
nam-se então sempre complexas, provisórias, contraditórias e mutantes.
Por sua vez, as identificações engendram subjetivações que,
consequentemente, também não têm unidade nem fixidez primordial,
estão em eterno processo de (re)construção, nunca sendo a mesma
nem havendo nunca a possibilidade de um fechamento ou do retorno
a um princípio, constituindo-se um eterno devir.
Após as conceituações apresentadas, passo à análise da constru-
ção das identidades “brasiguaias” filtradas pelos olhares alheios, que
será realizada com base nas notícias divulgadas pela mídia impressa
e on-line, e também a partir do olhar da escola.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 125

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 125 29/04/14 18:58


O outro migrante e a construção de identidades
“brasiguaias” pelo discurso da mídia

Inicialmente, devo esclarecer que a análise realizada a partir do


olhar da mídia impressa e on-line não pretende ser exaustiva porque
tem por finalidade apontar a influência desses veículos de comunica-
ção numa construção encadeada que, ao contribuir para a construção
das identidades “brasiguaias”, acaba influenciando, sutilmente, o
imaginário popular no sentido de rejeição aos “brasiguaios”, com
reflexos visíveis no contexto escolar.
Milhares de brasileiros que se deslocaram para o Paraguai têm
buscado fazer o caminho de volta, o que fez com se tornarem alvos
de um controle rigoroso das autoridades brasileiras que procuram
impedir sua entrada no país, negando-se a reconhecê-los como bra-
sileiros, como exemplificado no fragmento abaixo:

Excerto I – Polícia Paraguaia tortura e persegue brasiguaio

Brasileiros pobres estão sendo torturados e espancados pela Polícia


Nacional Paraguaia em Santa Rita, cidade a 175 qui1ômetros de
Foz do Iguaçu. A vítima foi um garoto de 16 anos. Mesmo baleado,
o rapaz foi torturado e quase morreu. Em Santa Rita, brasileiros ricos e
policiais nacionais formaram um grupo para reprimir pobres e negros,
conforme admite o próprio comissário da PN, Gilberto Viveiro: “bra-
sileiro branco e rico é bem vindo, mas pobre e preto, nós queremos
distância”. Boa parte dos casos de tortura da polícia tem apoio dos
“brasileiros-coronéis”. No último final de semana, o vice-cônsul brasi-
leiro no Paraguai, Djalma Mariano de Souza, investigou as denúncias
e cobrou atitudes do comissário (Franca, A. A Gazeta do Iguaçu,
21/02/1996, p. 1/6/7).

A denominação “brasiguaio” cria no leitor uma expectativa da


denominação como uma representação (FAIRCLOUGH, 1995a, 1995b;
WORTHAM, 2001; SARUP, 1996) de todos os brasileiros que vivem
no Paraguai, ou seja, faz pressupor a homogeneidade de um grupo.
Mas, conforme o fragmento acima, já fica difícil manter a delimitação

126

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 126 29/04/14 18:58


das identidades “brasiguaias” em termos de conceitos universais de
classe, raça, nacionalidade. No texto, aparecem outras especificações
que apontam profundas particularidades: brasileiros pobres, negros,
brasileiros ricos, “brasileiros-coronéis”. Como apenas os brasileiros
pobres e negros estão sendo perseguidos pela polícia paraguaia, con-
forme o texto, torna-se possível a leitura de que “brasiguaios” são
apenas os pobres e os negros. Para os demais, essa identidade não se
aplica, ou não há interesse em se aplicar, pelo menos por enquanto.
Embora a imprensa pretenda a neutralidade na veiculação de noti-
cias, seu papel é primordial na construção das identidades “brasiguaias”
ao construir uma representação homogênea que colabora para criar no
imaginário popular uma determinada imagem estereotipada dos brasi-
leiros que migraram para o Paraguai, tanto daqueles que permanecem
no país vizinho como daqueles que estão retomando. O resultado é a
atualização de um estereótipo em que predomina uma semantização
negativa que os representa numa relação com a pobreza, o fracasso,
a invasão de terras, a causa de problemas sociais, a exclusão, o desem-
prego, etc., tanto em um país como no outro, que induzem a atitudes
de rejeição e estigmatização por parte da comunidade envolvente, o que
pode, por sua vez, gerar uma autorepresentação nos mesmos moldes
e, consequentemente, levar a uma baixa auto-estima.

O discurso da escola e a construção


de identidades “brasiguaias”

Embora o aluno “brasiguaio” seja “visibilizado” na escola brasilei-


ra já no ato da matrícula, por causa da documentação e dos diversos
procedimentos institucionais, já que muitos são registrados como
paraguaios ou trazem documentação escolar incompleta, sua visibi-
lização ocorre, principalmente, na sala de aula pela linguagem, mais
especificamente pela leitura e pela escrita, conforme excerto abaixo:

Excerto II – Entrevista com professor

Maria Elena: Olha/ outra coisa/ quanto aos alunos do Paraguai/ como
você vê essa questão dentro da escola?

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 127

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 127 29/04/14 18:58


João: Olha/ sabe/é tão natural! é tão natural a quesito dos alunos
que vêm do Paraguai é tão natural que nós não temos/ pra ser bem
realista contigo/ que nós não temos nenhum projeto específico pra
cuidar dos alunos que retomam do Paraguai. [...] na questão das
línguas/o que está sendo muito discutido e valorizado é o quesito
de que o conhecimento de línguas estrangeiras modernas isso é
muito valorizado na atualidade/ então/ contando uma história//
chegou um aluno aqui na escola que o pai descreveu o seguinte//
nós somos de origem alemã/ eu voltei com os meus filhos de
colo ainda para o Paraguai/ lá no Paraguai eles aprenderam na
escola espanhol e guarani e traziam de casa como eu havia fala-
do o alemão e agora eu mudei pro Brasil/ no município de (X)/
estou aqui na tua escola e existe no currículo aqui o português/
é lógico NE/ e também o inglês// eu tenho um filho que entre
essas todas línguas o português pode não ser o mais forte dele/
então// o aluno falava alemão/ falava espanhol e guarani que
havia aprendido no Paraguai e agora// ele era muito pequeno
quando tinha ido pro Paraguai/ agora ele tinha que vir para o
Brasil aprender português e conhecendo o currículo tinha inglês/
então os professores quando ouviram a história eles ficaram
perplexos/ a professora de português chegou e disse “esse aluno
não sabe quase português”/ daí/ discutindo com as professoras
nós chegamos a uma conclusão que o que estava acontecendo
na vida daquele aluno não era um problema/ era um privilégio/
tendo em vista do que se quer na totalidade/ eu vejo que/e nós
estamos tentando desenvolver, que não saber desenvolver cor-
retamente o português// porque aprender o Espanhol/ porque
aprender o guarani no Paraguai não e um problema/ isso deve
ser visto como um privilégio/ então não existe aquela rejeição/
aquela discriminação/ aquele voto pro aluno paraguaio/ nós não,
francamente/ nós não temos o aluno/ eu não to querendo dizer
que o ensino no Paraguai é ótimo e que a realidade lá é bom/ que
o aluno que vem do Paraguai tá acima do nível dos alunos dessa
escola/ eu não estou querendo dizer isso/ só que nós temos uma
proposta de sensibilidade/ né/ eu acho que nós temos a obrigação

128

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 128 29/04/14 18:58


de valorizar de compreender o momento difícil daquela criança
daquela famí1ia e trabalhar essa quesito/ assim/ sem trauma/
sem tanta polêmica/ sem tanto rigor.

Os significados das interações vão sendo construídos conjun-


tamente, mostrando como as personagens agem em suas práticas
discursivas e constroem o mundo a sua volta (FAIRCLOUGH, 1995 A,
1995 B; MOITA LOPES, 2002, 2003; SARUP, 1996) e, consequente-
mente, suas identidades.
Considerando a narrativa acima, há um reconhecimento de que
o aluno “brasiguaio” têm algumas dificuldades, principalmente em
relação à língua portuguesa, o que leva à confirmação de que esse
aluno é visibilizado na escola pelos seus usos linguísticos. No entanto,
parece não haver preocupação dos diferentes segmentos da comuni-
dade escolar com a homogeneidade linguística, podendo esta escola
ser vista como uma exceção porque, além da atitude de compreensão
em relação ao período de adaptação necessário para a integração na
escola brasileira, também o bilinguismo dos alunos “brasiguaios” é
visto como enriquecedor.
Como a cidade em foco foi colonizada principalmente por alemães
e italianos, compreende-se que haja uma valorização das línguas
correspondentes, muitas vezes ainda conservadas nos meios fami-
liares. O interessante, no entanto, é a valorização do conhecimento
do espanhol e ainda do guarani, fato não muito comum na região. E,
o mais surpreendente é que se espera desse aluno a conservação da
sua complexidade linguística, ou seja, a prática linguística desses
alunos nem sempre é vista como uma anormalidade que é preciso
normalizar, o que contradiz a existência de um preconceito extrema-
mente injusto no contexto de fronteira.
Nas minhas observações, também não pude perceber a visibiliza-
ção do aluno “brasiguaio” em relação aos traços dialetais da língua
portuguesa, na oralidade. Uma possível explicação para o fato talvez
seja devido ao esvaecimento das fronteiras rural/urbana naquela lo-
calidade. Como a cidade é de pequeno porte, porém com terras férteis
e muito valorizadas e com um alto índice de renda per capita, tendo

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 129

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 129 29/04/14 18:58


uma economia baseada essencialmente na agricultura e na pecuária,
pode estar havendo uma valorização justamente dos traços dialetais
mais comuns ao meio rural.
Um fato que me parece relevante é que aqueles que voltaram para
a cidade e conseguiram se readaptar mantinham vínculos de paren-
tesco anteriores à ida para o Paraguai, ou já haviam anteriormente
morado na cidade, o que significa terem uma ascendência alemã e/ou
italiana, já que estes constituem a base da colonização do município.
Por outro lado, aqueles que, por falta de estrutura econômica ou
por não terem vínculos na cidade, são estigmatizados pela popu-
lação envolvente, acabam retomando o processo migrat6rio. Como
pude ouvir em entrevistas com moradores da cidade, os problemas
sociais do município são atribuídos a pessoas “estranhas” que para
lá têm-se dirigido.
A representação negativa do “brasiguaio” no entorno social tem
uma influência marcante na discriminação do aluno “brasiguaio” que
só consegue vaga para estudar na escola em foco. No entanto, nessa
escola em foco, além do aluno ser devidamente acolhido, também
consegue uma integração e consequente invisibilidade, ocupando
a posição privilegiada de estabelecido ao lado de outros alunos com a
mesma ascendência italiana e/ou alemã, em relação àqueles que, por
fazerem parte de grupos considerados de risco, como os que fazem
parte dos projetos sociais, podem ser caracterizados como outsiders.
Busco, nesta seção, ancoragem nas narrativas dos próprios “bra-
siguaios” que, construindo as narrativas, constroem a si mesmos.
Conforme Sarup (1996: 15) “identidade é uma história”

Olhares para si e os processos identitários

No excerto abaixo, ao narrar as dificuldades dos “brasiguaios”


para permanecer no Paraguai, também evidencia a complexidade das
identificações e atualização de identidades contraditórias e provisórias.

Excerto III – Entrevista com pai de aluno

Maria Elena: E essas pessoas que se deram bem? Querem continuar


lá ou querem voltar?

130

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 130 29/04/14 18:58


Fernando: ... como nos últimos tempos/ o brasileiro há mo sendo
muito perseguido pelos campesinos/ então o Paraguai tá dando apoio
aos campesinos/ eu não vou dizer que eles não têm o direito de viver
a pátria deles/ mas há de ter uma reforma pacífica! porque eu conhe-
ço lugar lá quando eu tava lá eles entravam dentro de terra até com
soja dessa altura/ eles quebravam o soja e faziam barraco do lado do
soja/ invadindo terra dos proprietários/ gente que tinha escritura na
mão/ que pagou sua terra e as vezes até financiada pelo banco mas
eles num respeitavam como até boje não respeitam/ infelizmente eu
vejo muito amigo meu reclamando a respeito disso aí/ tá difícil pra
pessoa ter uma vida sossegada/ e agora mais a mais esses dias até
saiu uma conversa/ dizer que tão querendo afastar os brasiguaio ou
que seja qualquer imigrante/ distância de 50 km daqui da fronteira/
eles querem limpar/ agora eu não sei se vai acontecer isso aí/ tá no
Congresso/ uma coisa eu digo/ se acontecer vai dar muito sangue no
Paraguai/ na época quando eu morava no Paraguai o que aconteceu/
eles queriam 100 km afastado da fronteira/ mas na época que eu
tava lá aqueles brasileiros mais fortes/ aqueles proprietários mais
fortes/ eles vieram pra Cidade Del Leste/ Foz do Iguaçu/ onde eles
achavam/ eles compravam armamento e munição porque eles sabiam
que quem ia defender a pátria lá era eles/ num tinha quem defendia/
é o que vai tá acontecendo aqui/ para os brasiguaio no Paraguai/ se
não tiver uma pessoa política que interessa o brasileiro aqui pra se
entender com o Paraguai a respeito disso aí/ vai dar coisa terrível/
vai dar um combate terrível/ porque ninguém vai sair de dentro de
casa dele pra deixar outro entrar! Difícil uma pessoa chegar dentro
da casa do outro/ tocar o cara pra rua e ir morar/ num vai aceitar
né/ então é aonde que vai dar uma esbarrada muito feia/ então eu
acharia que o Brasil aqui/ os políticos brasileiros que nem agora/
para levar o conhecimento ao Paraguaio e tomar providência nesse
caso porque isso aí vai dar dor de cabeça pra o povo/ tanto dos
paraguaios como pros brasileiros que tão lá/ então tinha que tomar
uma providência nesse caso//.

Na narrativa, aparece um mosaico de personagens em que são


protagonistas: brasileiro perseguido por campesino; amigo meu;

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 131

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 131 29/04/14 18:58


imigrante; “brasiguaio”. Já como antagonistas: brasileiro que persegue
outros brasileiros; campesinos; Paraguai que dá apoio aos campesinos;
paraguaios. Assim, o narrador mitiga o fato de ter invadido a pátria do
Outro. Já em relação aos brasileiros mais fortes/ aqueles proprietários
mais fortes, da maneira como são posicionados (WORTHAM, 2001;
SARUP, 1996), podem fazer parte tanto dos antagonistas como dos
protagonistas, dependendo de ‘quem’ vão defender e quais interesses
estão em jogo.
Assim, a referência a brasileiros vai sendo construída de maneira
a englobar tanto os que vivem no Paraguai quanto os que vivem no
Brasil, como os políticos: pessoal [...] perseguido pelo próprio brasileiro;
brasileiro que quer vir embora; brasileiro lá tão sendo muito perse-
guido por campesinos de lá; proprietários, gente que tinha escritura
na mão; brasileiros mais fortes; uma pessoa política que interessa o
brasileiro; políticos brasileiros. Essa sequência, importante para a
argumentação do narrador no sentido de sensibilizar e conseguir a
adesão do interlocutor, culmina com a universalização em povo, de
um lado os brasileiros, e de outro os paraguaios, mas ambos como
possíveis vitimas do processo.
Já em relação a “brasiguaios”, é interessante observar que não se
consegue precisar, no mosaico apresentado, quem são. Seriam todos os
brasileiros que migraram para o Paraguai, inclusive os proprietários mais
fortes? Só os que são vulneráveis às injustiças? As identidades constru-
ídas, das quais não se podem traçar linhas de fronteira definidas, vão
sendo compostas na contradição, na incompletude, na complexidade.
Outra questão que chama a atenção nas entrevistas, e em parti-
cular nesta, é a referência à pátria. Num momento, trata-se da pátria
dos paraguaios: eu não vou dizer que eles não têm o direito de viver
a pátria deles. Depois, há referência a brasileiros mais fortes, aqueles
proprietários mais fortes [...] quem ia defender a pátria lá era eles/
num tinha quem defendia. Se de um lado a palavra ‘pátria’ é empre-
gada no sentido de país com fronteiras políticas definidas, de outro há
uma apropriação de sentido, sendo empregada para significar a posse
da terra (território), para além de qualquer fronteira. Parece possível
compreender essa diferenciação de sentidos como uma evidência de

132

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 132 29/04/14 18:58


que, para aqueles de origem rural, o sentimento de pátria está mais
relacionado à posse da terra, independente de fronteiras políticas.
A seguir, apresento a análise quanto à (in)visibilização das identi-
dades “brasiguaias” no contexto escolar, a partir dos olhares para si.

A linguagem como lugar de (in)visibilidade

Como já mencionado, a maneira mais evidente de visibilização do


aluno “brasiguaio” é através da linguagem, mais especificamente pela
sua escrita e leitura em voz alta, como se evidencia na narrativa abaixo:

Excerto IV – Entrevista com alunos

Paulo: Como na minha sala/ pra eles já/ num sei porque eu sou
menino ou o que, né/ num sei, mas com ele não/ eles dão risadas
por qualquer coisa assim (referindo-se ao irmão Carlos que está
na 5ª série)/ quando eu lia né/ eles não davam risadas porque
eu puxava bem pro português/ ele é meio/ meio espanhol assim/
eles dããão risada/ (risos). Daí, né/ num sei se é porque ele é piá/

Maria Elena: Você fica bravo quando eles dão risada? Não? Não liga?
(o aluno responde negativamente apenas com acenos de cabeça)

Gabriel: 0 E e Y, é estranho//

Maria Elena: Logo/logo! pega o jeito! não é ?

Elza: Tem um ou outro que sempre ajuda, né//

Marcia: [quando eu vim pro Brasil, eu tive que aprender sozinha/

Maria Elena: Os colegas nunca criticaram você assim/ o jeito


de falar?

Marcia: No começo sim/ no começo “ah/ num é assim/ parece para-


guaia!”/ aí me dava uma raiva “mas eu num seeeeei!”//

Gabriel: [a professora né/ no primeiro dia de aula eu tive que ficar


lendo né/ eu fui lendo/ né “Deus o livre! umas palavras erradas lá
devagarinho né “eh! num sei o quê/ nunca leu não?” Ah! eu des-

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 133

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 133 29/04/14 18:58


casquei// “eu vim do Paraguai/ vai lá embaixo ver!”// nossa/ mas
dá um esgaaaano! (risos)/ nem vê a gente e já tá criticando ainda//

Marcia: [É/ eles começavam a dar risada/ “ah! tá parecendo para-


guaia/ tá falando tudo errado”/ era bem assim/ sabe/ eu aprendi/
hoje é diferente/ o ano que vem vão tá bonzinho/ eles (referindo aos
dois irmãos, Paulo e Carlos) (risos)

Gabriel: Ano que vem vai tá tirando sarro dos outros// (risos)

Aos poucos, cada um vai trazendo, em suas narrativas, outras


vozes para afirmar as identidades às quais se opõem, evidenciando a
característica multivocal (Moita Lopes, 2002) das narrativas.
É interessante observar que, nas práticas discursivas dos alunos,
em momento algum aparece a denominação “brasiguaia”, o que me
parece possível interpretar como uma maneira de fugir ao estereótipo
do “brasiguaio” rejeitado pela comunidade em geral.
Na narrativa acima, fica evidente que a maior visibilidade dos
alunos acontece pela linguagem, tanto em relação aos olhares dos
professores como em relação aos colegas. Evidencia-se também
o estereótipo negativo do aluno “brasiguaio” quando, na referência
à pergunta da professora nunca leu não? Considerando que suas
dificuldades estão relacionadas à pouca familiaridade com a leitura.
Desconsidera-se que, para os alunos “brasiguaios”, a língua portu-
guesa escrita, modalidade valorizada pela escola, é justamente a que
menos conhecem, já que foram alfabetizados em espanhol.
Assim, como o aluno é visibilizado pela sua linguagem, é justa-
mente esta que ele procura modificar rapidamente para se invisibilizar,
uma vez que, fisicamente, se identifica com a maioria dos alunos da
escola, ou seja, com os estabelecidos. Construir outras identidades,
então, atende aos interesses de invisibilização e também à adesão ao
grupo de maior prestígio na escola.
O que emerge do olhar do “brasiguaio” sobre si é a complexidade,
a mutação e a dificuldade de traçar linhas de fronteira de uma iden-
tidade homogênea, com características partilhadas por todos, numa
constante (re)significação e surgimento de novas possibilidades,
novas subjetividades.

134

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 134 29/04/14 18:58


Considerações Finais

Buscando responder à pergunta de pesquisa “investigar como são


construídas e (in)visibilizadas, na linguagem, as identidades de alunos
‘brasiguaios’”, duas construções se evidenciaram.
Por um lado, uma identidade “brasiguaia” com tendência essen-
cialista, construída e filtrada pelos olhares da mídia e pelo olhar da
escola, embora a complexidade subjacente possa ser vislumbrada.
Por outro, os olhares para si permitem trazer à tona a complexi-
dade que subjaz aos chamados “brasiguaios”, ampliando as possi-
bilidades para a percepção de estados híbridos e desvelando toda a
instabilidade, a fragmentação e a complexidade que permitem o sur-
gimento de novas identificações e possibilitam novas subjetividades,
eternos devires, possibilitando que não se veja a identidade como
inerente e constitutiva, mas como um processo sempre em fluxo.
Da mesma forma, também não há lugar para a linguagem enquanto
sistema homogêneo, mas em desequilíbrio, sempre heterogênea e em
constante transformação.
Assim, tanto no entorno social quanto no contexto escolar,
as identidades “brasiguaias” são visibilizadas principalmente pe-
las práticas linguísticas: pela linguagem midiática; pelas práticas
discursivas da/na escola; pela escrita e pela leitura dos alunos
“brasiguaios”; pelas narrativas dos próprios “brasiguaios”. Assim,
para se invisibilizarem, procuram, justamente, apagar a linguagem
híbrida que os diferencia, o que confirma a crença no monolinguismo
e monoculturalismo brasileiro.

Referências Bibliográficas

BHABHA, H.K. O local da cultura. Belo Horizonte: UFMG, 2001.

BORTONI-RICARDO, S.M. O professor pesquisador: introdução à pesquisa


qualitativa. São Paulo: Parábola, 2008.

______. Problemas de comunicação interdialetal. Tempo Brasileiro. 78/79, jul/


dez., 1984, p. 32.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 135

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 135 29/04/14 18:58


CAVALCANTI, M.C. Um olhar metateórico e metametodológico em pesquisa em
Linguística Aplicada: implicações éticas e políticas. In: MOITA LOPRES, L.P. Por
uma Linguística Aplicada Indisciplinar. São Paulo: Parábola, 2006, p. 233-252.

______. Collusion, resistence, and reflexivity: indigenous teacher education


in Brazil. Linguistics and Education. 8 (2), 1996, p.175-188.

______. Estudos sobre educação bilíngue e escolarização em contextos de


minorias linguísticas no Brasil. DELTA, vo1.15, no.spe., 1999, p.385-417.

______. Um evento de letramento como cenário de construção de identida-


des sociais. Em: COX, M. I.; ASSIS-PETERSON, A. A. Cenas de sala de aula.
Campinas: Mercado de Letras, 2003, p. 105-124.

CHRISTIANS, C.G. A ética e a política na pesquisa qualitativa. In: DENZIN,


N.K.; LINCOLN, Y.S. O planejamento da Pesquisa Qualitativa: teorias e
abordagens. Porto Alegre/São Paulo: Artmed/Bookman, 2006, p. 141-162.

CERTAU, Michel De. A invenção do cotidiano. Petrópolis: Vozes, 2001.

DENZIN, N.K.; LINCOLN, Y.S. O planejamento da pesquisa qualitativa: teorias


e abordagens (Orgs.). Porto Alegre: Artmed, 2006.

ELIAS, N. & SCOTSON, J.L. Os estabelecidos e os outsiders: sociologia das relações de


poder a partir de uma pequena comunidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.

ELY, M. et al. Doing qualitative research: circles within circles. London/New York/
Philadelphia: The Falmer Press, 1991.

ERICKSON, F. Qualitative methods in research on teaching. Michigan: East Lansin, 1985.

ERICKSON, F. Transformation and School Success: The politics and culture of edu-
cational achievement. (1987). Anthropology & Education Quartely,1987, p. 335-356.

ERICKSON, F. Metodos cualitativos de investigation. Em: WITTROCK, M.C. La inves-


tigation de la ensenanza, II. Barcelona-BuenosAires-México: Paidós, 1989, p. 195-299.

FAIRCLOUGH, N. Critical discourse analysis: the critical study of language.


London: Polity Press, 1995a.

FAIRCLOUGH, N. Discourse and social change. Cambridge: Longman, 1995b.

FRANCA, A. Polícia Paraguaia tortura e persegue brasiguaio. A Gazeta do Iguaçu


(Foz do Iguaçu, 21/02/1996, p. 1/6/7.

136

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 136 29/04/14 18:58


FRITZEN, M.P.; LUCENA, M.I. (Orgs.) O olhar da etnografia em contextos educacionais:
interpretando práticas de linguagem. Blumenau, Edifurb, 2012.

HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP & A


Editora, 2000.

KLEIMAN, A.B; CAVALCANTI, M.C. & BORTONI, S.M. Considerações sobre o ensino
de língua materna. Atas do IX Congresso Internacional da Associação de Linguística
e Filologia da América Latina (ALFAL). Campinas. Vol. II, 1990, p. 476-498.

LINCOLN, Y.S. & DENZIN, N.K. O sétimo momento: deixando o passado para trás.
In: DENZIN, N.K.; LINCOLN, Y.S. O planejamento da pesquisa qualitativa:
teorias e abordagens (Orgs.). Porto Alegre: Artmed, 2006.

MAHER, T.M. Em busca do conforto linguístico e metodológico no Acre in-


dígena. Trabalhos em Linguística Aplicada, Campinas, 47(2): jul.dez.2008,
p. 409-428.

MARTIN-JONES, M. & SAXENA, M. Supporting or containing bilingualism? Policies,


power asymetries, and pedagogic practices in mainstream primary classrooms. In:
TOLLEFSON, J. W. (ed.) Power and inequality in language education. Cambridge
Applied Linguistic, 1995, p. 73-90.

MOITA LOPES, L.P. Identidades fragmentadas. Campinas: Mercado de


Letras, 2002.

______. Discursos de Identidades. Campinas: Mercado de Letras, 2003.

______. Linguística Aplicada e vida contemporânea: problematização dos


construtos que têm orientado a pesquisa. In:: MOITA LOPES, L.P. (Org.) Por
uma Linguística Aplicada Indisciplinar. São Paulo: Parábola, 2006, p. 85-108.

PIRES-SANTOS, M.E.; CAVALCANTI, M.C. Identidades híbridas, língua(gens)


provisórias – alunos “brasiguaios” em foco. Trabalhos em Linguística Apli­
cada, Campinas, 47(2) – jul./dez. 2008.

SANTOS, B. S. Do pós-moderno ao pós-colonial: e para além de um e ou-


tro. In: VIII CONGRESSO LUSO-AFRO-BRASILEIRO DE CIÊNCIAS SOCIAIS.
COIMBRA: CENTRO DE ESTUDOS CULTURAIS, Anais...,2003.

SARUP, M. Identity, culture and postmodern world. Edinburg: Edinburg


University Press, 1996.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 137

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 137 29/04/14 18:58


SIGNORINI, I. Do residual ao múltiplo e ao complexo: o objeto da pesquisa em
Linguística Aplicada. In: SIGNORINI, I. & CAVALCANTI, M.C. Linguística Aplicada
e transdisciplinaridade. Campinas: Mercado de Letras, 1998, p. 99-112.

WORTHAM, S. Narratives in action: a strategy for research and analysis. New


York: Teachers College Pres, 2001.

138

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 138 29/04/14 18:58


Geopoética Trifronteiriça

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 139 29/04/14 18:58


Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 140 29/04/14 18:58
UM BESTIÁRIO DIGITAL NARRADO
EM PORTUÑOL SELVAGEM:
as breves narrativas transculturais de Bichos paraguaios1

Anselmo Peres Alós


(UFSM)2

Portunhol selvagem, portuñol salvaje, portuñol selvátiko, trans-


portuñol borracho: um conjunto de variantes linguísticas distintas
e, concomitantemente, um projeto poético, ético, estético e político

1 Bichos paraguaios: mitologia popular paraguaia recriada em portunhol


selvagem por Douglas Diegues con mucho esperma y sangre du corazom é
o título de um blog redigido por Douglas Diegues entre 18 de março e 15
de junho de 2006. Apesar de sua “curta vida” (nenhuma nova postagem
foi realizada após 15 de junho de 2006), o blog continua disponível, e até
agora recebeu muito pouca atenção, mesmo por parte daqueles que vem se
dedicando ao estudo do portuñol selvagem. Disponível em: <http://www.
bichosparaguaios.blogspot.com.br>. Acesso em: 01 de janeiro de 2014.
2 Doutor em Letras (Literatura Comparada) pela Universidade Federal do
Rio Grande do Sul (UFRGS). Professor de Teoria Literária, Cultura Brasileira
e Literaturas de Língua Portuguesa no Departamento de Letras Vernáculas
da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), e no Programa de Pós-
Graduação em Letras da mesma instituição. Coordenador dos Projetos de
Pesquisa Ressonâncias e dissonâncias no romance lusófono contemporâneo:
o imaginário pós-colonial e a (des)construção da identidade nacional, bem
como do projeto Poéticas da masculinidade em ruínas, ou: o amor em tem-
pos de AIDS (que conta com apoio financeiro do CNPq), ambos na UFSM.
É autor de A letra, o corpo e o desejo: masculinidades subversivas no romance
latino-americano (Florianópolis: Mulheres, 2013).

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 141

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 141 29/04/14 18:58


completamente singular que se materializa em cada obra publicada
sob sua rubrica. Se um pidgin, se uma língua crioula, ou se apenas o
resultado de uma poética translinguística simultaneamente subversiva e
transgressora, não se sabe ao certo3. A questão que merece ser analisada,
entretanto, é que o portuñol selvagem e suas variantes autorais/idiole-
tais têm ganhado imenso destaque como fenômeno intelectual, como
proposta poética transgressiva, e como língua literária produtiva, parti-
cularmente no triângulo transnacional não necessariamente equilátero
formado pelas margens borradas do Paraguai, da Argentina e do Brasil:

It is only comparatively recently that linguists have realized that


pidgins and creoles are not wrong versions of other languages but
rather new languages. Their words were largerly taken from an older
language during a period of linguistic crisis to fill an urgent need for
communication (HOLM, 2000, p. 1).

Para iniciar uma reflexão sobre a Tríplice Fronteira Brasil/Paraguai/


Argentina, um dos locus de origem do portuñol selvagem, cabe retomar
um trecho de A cultura da conveniência: usos da cultura na era global,
de George Yúdice, publicado originalmente em inglês em 20034. O trecho
aqui citado é uma exemplificação dada por Yúdice à sua discussão sobre
a interferência do cultural na esfera política e jurídica, ao problematizar
a questão da pirataria de bens culturais na contemporaneidade:

No entanto, uma estratégia dessa natureza impulsiona a indústria a


melhorar seu domínio jurídico e militar sobre as pessoas e espaços
em que a atividade [de pirataria] é realizada. Isso já se evidencia no
fato de Ciudad del Este estar na mira do governo dos Estados Unidos.
No local, zona de fronteira tripla entre o Paraguai, a Argentina e
o Brasil, alega-se, há pirataria, tráfico de drogas e terrorismo relacio-
nados uns com os outros, fazendo a conexão de comerciantes locais

3 Acerca desta discussão, conferir o artigo “Portuñol selvagem: da ‘língua


de contato’ à poética da fronteira” (ALÓS, 2012, p. 283-304).
4 Para esta citação, utilizo a tradução para o português, publicada em 2004
(e reeditada em 2006) pela Editora da UFMG.

142

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 142 29/04/14 18:58


com guerrilhas e traficantes de drogas colombianos e com redes
terroristas do Oriente Médio. Na maioria das vezes, não há provas
concretas, mas vagas alegações, como no caso de Ali Khalil Mehri,
um paraguaio naturalizado, nascido no Líbano, que estava sendo
processado por vender milhões de dólares em software falsificado,
cujo lucro foi alegadamente canalizado para o grupo islâmico militante
Hezbollah, no Líbano. Em consequência dos rumores das ligações
entre grupos dentro da comunidade árabe da cidade, composta de
12 mil membros e os ataques de 11 de setembro, uma rede de vigi­
lância transnacional sob a liderança americana vinha espionando
aquela comunidade (YÚDICE, 2006, p. 60-61).

Talvez pelo recente aniversário de dez anos do ataque ao World


Trade Center, em setembro de 2011, o fragmento do texto de Yúdice
pareça tão contemporâneo, apesar de ter sido publicado pela primeira
vez em 2003. O imaginário em torno da Tríplice Fronteira é fortemen-
te marcado por elementos como o contrabando de eletro-eletrônicos,
o narcotráfico e os crimes violentos, a corrupção das forças policiais
argentina, brasileira e paraguaia, o forte influxo turístico entre as três
cidades fronteiriças (Foz do Iguaçu, no Brasil, Ciudad del Este, no
Paraguai, e Puerto Iguazú, na Argentina), a imensidão das matas preser-
vadas nos Parques Nacionais, a força titânica da natureza representada
pelas Cataratas do Iguaçu e o igualmente titânico esforço humano para
dominar as forças naturais, representado por um faraônico projeto de
engenharia: a Usina Hidrelétrica de Itaipu-Binacional.
O portuñol selvagem, como língua literária, possui uma espécie de
documento escrito fundacional: a “Karta-Manifesto-del-Amor-Amor-en-
Portunhol-Selvagem”. Trata-se de uma carta dirigida aos presidentes Luís
Inácio Lula da Silva e Fernando Lugo, redigida por Douglas Diegues e
assinada por um número expressivo de poetas, dramaturgos e intelectuais
do Brasil, dos Estados Unidos, de Portugal, do Paraguai e da Argentina5.

5 Assinam a “Karta-Manifesto-del-Amor-Amor-en-Portunhol-Selvagem”:
Amarildo Garcia (El Domador de Yacarés), Aurora Bernardini, Carla Fabri,
Douglas Diegues, Lucy Yegros, Osvaldo Codas, Cristino Bogado, Diego Brom,

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 143

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 143 29/04/14 18:58


A carta obteve bastante atenção, mas foi apenas alguns meses depois
de redigida que alcançou uma grande divulgação, através de sua publi-
cação no jornal fluminense O Globo, no dia 17 de agosto de 2008. Na
Karta, não está presente apenas um libelo em favor da livre expressão
artística em portuñol selvagem, mas também um apelo para que os
presidentes brasileiro e paraguaio joguem ao fogo ritual guaranítico
o contrato bilateral da Itaipu-Binacional, e que escrevam outro, mais
igualitário e menos despótico:

Nosotros poetas y demás artistas reunidos em la kapital mundial


de la ficción 2008 escribimos esta karta-manifesto a Lula y a Lugo
para pedirles que non deixem de hacer algo que solamente Lugo y
Lula lo pueden hacer: QUEMAR EL CONTRATO VIGENTE DE LA
ITAIPÚ BINACIONAL. Contrato redigido por ditadores em época de
ditaduras y que hasta el PRESENTE PRESENTE apenas ha servido
para dificultar las buenas relaciones, la integración cultural, política
y econômica entre ambos países fronteros desde 1870 hasta el 2008
que nos toca vivir.

Después de QUEMAR com fuego guaranítiko, fuego incorruptible,


fuego del amor amor, fuego divino, fuego humano, fuego inumano,
el mencionado contrato mau de Itaipu Binacional, pedimos a Lugo
y a Lula y a Itamaraty que inventem un nuebo contrato que de hecho
seja justo y beneficie de fato a ambos países en la mesma medida
y si possível escrito em portunhol selvagem, la lengua mais hermoza
de la Triple Frontera, pues que nel portunhol selvagem cabem todas
las lenguas del Brasil y del Paraguay (incluso las ameríndias) y todas las
lenguas del mundo (DIEGUES, 2008).

Xico Sá, Walther Castelli Júnior, Silvana Nuovo, Ricardo Alvarez, Enrique
Collar, Alejandro Vial, Edgar Pou (El Pombero Tamaguxi), Fátima E. Rodríguez,
Charles A. Perrone, Jorge Kanese, Guillermo Sequera, Eli Neira, Fátima Pérez
C., Fabian Casas, Alai Garcia Diniz, Fredi Casco, Verónica Torres, Jorge Britez
(Bochin), Marisa Cubero, Aura Britez, Sérgio Medeiros, Dirce Waltrick do
Amarante, Claudio Daniel, Diana Viveros, Susy Delgado, Miguelángel Meza,
Luiz Roberto Guedes e Luis Serguilha.

144

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 144 29/04/14 18:58


De acordo com Diegues, o portuñol selvagem é “el primeiro non-
-movimento literário del mundo! El primeiro non-movimento post-his-
tóriko em movimento indeterminado e irredutível al pensamento único”
(DIEGUES, [s./d.]b). Ao responder sobre as origens do nascimento deste
“não-movimento literário”, Dieges afirma sem rodeios: “¿Sinceramente?
Nasceu como flor de la bosta de las vacas!” (DIEGUES, [s./d.]b). Nesta
afirmação, ressoam os ecos do projeto estético marginal do brasileiro
Glauco Mattoso expresso no poema “Manifesto coprofágico”:

ó merda com teu mar de urina


com teu céu de fedentina
tu és meu continente terra fecunda onde germina
minha independência minha indisciplina
(MATTOSO, 1991, p. 171).

Na afirmação de Diegues sobre a gênese do portuñol selvagem,


que nasce como “flor da bosta das vacas”, lê-se também, de maneira
implícita, uma estética vestigial do reaproveitamento do lixo cultu-
ral, do qual brota uma nova poesia que tira sua força justamente do
seu caráter marginal e residual. Este ciclo de transformação do lixo
em arte, da bosta de vaca em flor, sugere a ideia da tradução como
transcriação, tal como elaborada pelo poeta e tradutor brasileiro
Haroldo de Campos: “se a tradução é uma forma privilegiada de lei-
tura crítica, será através dela que se poderão conduzir outros poetas
[...] à penetração no âmago do texto artístico, nos seus mecanismos
e engrenagens mais íntimos” (CAMPOS, 1998, p. 46).
Em sua elaboração de uma teoria da tradução como transcriação,
Haroldo de Campos considera o trabalho semiótico realizado pelo
tradutor como algo que vai muito mais além do que o simples ato de
“transportar” um texto poético de um idioma para outro. De acordo
com Campos, certos elementos estruturais do poema, como o tom e o
ritmo, bem como as combinações sonoras (rimas internas e externas,
assonâncias e aliterações) são, muitas vezes, mais importantes e sig-
nificativas para o efeito lírico do poema traduzido do que o léxico e
a precisão semântica das palavras da língua-meta. Em função disso,
não basta traduzir o sentido das palavras: é necessário que o texto

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 145

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 145 29/04/14 18:58


poético sofra um processo de reestruturação, que cabe ao tradutor,
no sentido de que este deve restituir ao máximo possível os efeitos de
sentido da estrutura original do poema na língua para a qual este está
sendo traduzido. Neste jogo de transposição semântica, o ofício do
tradutor é transformado em um processo de transcriação, na medida
em que o tradutor assume um papel de co-autor na reestruturação
dos sentidos via processo tradutório:

Tudo isso o tradutor tem que transcriar, excedendo os lindes de sua


língua, estranhando-lhe o léxico, recompensando a perda aqui com
uma intromissão inventiva acolá, a infratradução forçada com a hi-
pertradução venturosa, até que desatine e desapodere aquela última
hybris (culpa luciferina, transgressão semiológica?) que é transformar
o original na tradução de sua tradução (CAMPOS, 1998, p. 82).

Joca Reiners Terrón pode ser considerado um profícuo tradutor-


-transcriador do portuñol selvagem, língua à qual se refere como
transportuñol borracho. A propósito, Transportuñol borracho é o título
da primeira coletânea de poesia traduzida ao portuñol selvagem, e
é o próprio Terrón que deixa explícitas suas afiliações com a teoria
tradutória desenvolvida por Haroldo de Campos:

Lo mío es lo contrabando, lo lirikotráfico; como saber adonde si


ubica la frontera si non sei onde empieza el dia y si acaba el sueño?;
como conocer onde empieza el portugués y termina el castellano, si
lo unico que sei és que el portuñol és infinito, assim como la bor-
rachera? Lo mío és la poesia y el infinito, esa broma que llamamos
vida (TERRÓN, 2008, p. 6).

Levando ao extremo a proposta da tradução entendida como


transcriação, Terrón apropria-se de outras metáforas para refletir so-
bre o seu processo tradutório: a do contrabando e a do lirikotráfico,
engendrando uma nova teoria da tradução marcada pelas peculiari-
dades locais da Tríplice Fronteira. A dinâmica do contrabando, que
pressupõe a quebra, a subversão e o desrespeito às regras de circulação
de bens de um lado a outro da fronteira, é inserida na sua proposta
de circulação simbólica de significados. E é justamente a partir da

146

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 146 29/04/14 18:58


categoria lirikotráfico que se pretende analizar as pequenas narrativas
do bestiário Bichos paraguaios, de Douglas Diegues.
O bestiário paraguaio narrado por Diegues é composto por cinco
pequenas narrativas, ademais de um post introdutório, que recupe-
ra entidades míticas do imaginário guarani (à exceção da figura das
quinceañeras, advinda da tradução popular paraguaia) e as reconstrói
dentro do imaginário triplefronterizo do portuñol selvagem. Para além
de uma simples recuperação do imaginário guarani, nestas pequenas
narrativas, Diegues hibridiza a matriz guaranítica com imagens, valores
e enunciados relacionados às mitologias contemporâneas que enxergam
no Paraguai um paraíso de traficantes, oportunistas, contrabandistas e
marafonas. Espécie de jardim zoológico pós-moderno, através de cada
um destes Bichos paraguaios o leitor é levado a ler a permanência do
imaginário dos povos originários da América Latina nas figuras e estereó-
tipos culturais acerca dos paraguaios que circulam pela Tríplice Fronteira:

SÁBADO, MARÇO 18, 2006

Bichos paraguaios

U Paraguay es un país lleno de bichos. Bichos raros. Bichos impossibles.


Bichos que voam. Bichos que rastejam. Bichos irreales. Bichos salbajes.
Bichos que falam. Bichos que namoram. Bichos que fodem. Bichos que
amam. Bichos filhus da puta. Bichos gente-finas. Bichos paraguayos.

Inspirado por los Bichos de la minina Índigo, una de las escritoras


mais interessantes de la nuebíssima generación, empiezo hoy a escri-
bir aqui sobre los bichos que conoci lá, du outro lado de la fronteira,
en las selvas de meu Paraguai, selvas de mio corazom6.

Já no post de abertura do blog Bichos paraguaios, Douglas Diegues


mobiliza o recurso ao bestiário como estratégia literária para construir

6 Bichos paraguaios: mitologia popular paraguaia recriada em portunhol


selvagem por Douglas Diegues con mucho esperma y sangre du corazom.
Dispo­nível em: <http://www.bichosparaguaios.blogspot.com.br>. Acesso
em: 01 de janeiro de 2014. Todas as citações referentes a Bichos paraguaios
são provenientes deste mesmo blog.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 147

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 147 29/04/14 18:58


personagens arquetípicas conhecidas in loco, “du outro lado de la
fronteira, en las selvas de meu Paraguai, selvas de mi corazom”. O bes-
tiário, pensado como gênero literário, pertence a uma longa tradição
que remonta à Baixa Idade Média européia. Consistia basicamente de
enumerações e descrições de bestas, reais ou imaginárias, bem como
dos ambientes nos quais habitavam, dos seus hábitos alimentares e
das relações que estabeleciam com o ambiente, com outras bestas e
com os homens. Foram muito comuns entre as classes monásticas
medievais e, em função disso, não raro eram acompanhados de algum
tipo de mensagem moralizadora.
Ademais disso, cumpre assinalar que dois dos mais destacados
e celebrados escritores latino-americanos pertencentes ao período
do boom – Julio Cortázar e Jorge Luis Borges – apropriaram-se da
estrutura do bestiário em suas poéticas autorais. Bestiário (1951) é
o primeiro livro de contos de Cortázar publica utilizando seu nome.
Borges, por sua vez, publica em parceria com Margarita Guerreiro,
em 1957, o Manual de zoología fantástica7. Em 1958, o mexicano Juan
José Arreola publica Punta de plata. Em 1967, Nicolás Guillén publica
em Cuba El gran zoo, e Martha Paley de Francescato publica, em 1977,
Bestiario y otras jaulas. Estas obras, emblemáticas para a compreensão
do realismo mágico latino-americano, ressoam no projeto de Douglas
Diegues, em especial pelo elemento estilístico que este conjunto de
releituras do bestiário medieval compartilha: uma escrita literária que
criptografa a esferas do político sob o recurso da expressão alegórica.
O Kurupí é o primeiro dos deuses guaraníticos ancestrais abor-
dado no bestiário de Douglas Diegues. Trata-se de uma divindade
associada à masculinidade, à fertilidade e à virilidade masculinas
(Figura 1). Segundo a mitologia guarani, o Kurupí possui um mem-
bro exageradamente longo. A estatuária tradicional em madeira dos
santeros paraguaios costuma representar esta criatura com o pênis
enrolado e amarrado à volta da cintura, como um laço. Kurupí é o

7 Em 1967, uma versão significativamente mais extensa do livro é publicada


sob o título El libro de los seres imaginários. É a partir desta versão estendida
que se realizou a tradução para o português.

148

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 148 29/04/14 18:58


senhor das selvas e dos animais silvestres e, no imaginário popular,
diz-se que costuma sequestrar mulheres, bem como jovens e crian-
ças de ambos os sexos, os quais eram laçados e marrados com o seu
longo membro viril (GONZALES TORRES, 2010, p. 71). Ao longo dos
regimes de exceção que se sucederam na história do Paraguai, o Kurupí
era responsabilizado pelos desaparecimentos de mulheres e jovens.
A existência da criatura era comprovada em função dos corpos viola-
dos que não raro eram encontrados nas bermas das estradas8.

Figura 1. Estátua pertencente ao acervo do Museu Mítico Ramón Elías,


localizado na cidade de Asunción, Paraguai. Imagem disponível em: http://
i48.tinypic.com/142sytx.jpg. Acesso em: 10 de janeiro de 2014.

Ainda é corrente, nas zonas campesinas do Paraguai, crenças tais


como aquela que afirma que quando o Kurupí (conhecido também
como Kurupira, entre os povos originários de língua tupi) toca o ven-
tre de uma vaca, esta terá vários bezerros fortes. Também é corrente

8 Agradeço a Damián Cabrera pela informação acerca da utilização do


Kurupí como bode expiatório para justificar os assassinatos e estupros reali-
zados ao longo dos 35 anos do governo ditatorial de Alfredo Stroessner.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 149

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 149 29/04/14 18:58


a crença de que quando o Kurupí descansa ou dorme em um roçado
de mandioca, os tubérculos que estão logo abaixo dele crescem des-
mesuradamente (GONZALES TORRES, 2010, p. 75). O Kurupí “tiene
por hábito perseguir a las mujeres que andam solas fuera de casa, por
la capuera, por el campo o el bosque o buscando leña; las atrapa con
el miembro viril que usa como lazo, las posee o las deja enloquecidas o
muertas” (GONZALES TORRES, 2010, p. 75). A única maneira de se ver
livre do abraço sádico do Kurupí é cortar-lhe o membro, de maneira
que o Kurupí perde assim todo o seu poder (GONZALES TORRES,
2010, p. 76).
Na breve narrativa que dedica ao Kurupí em Bichos paraguayos, tal
qual na versão da tradição oral, é o membro descomunal e a virilidade
assustadora que caracterizam este duende das matas triplefronterizas:

SÁBADO, MARÇO 18, 2006

U KURUPI

Com sua longa, imensa, enorme verga salbaje enrolada en la cintura,


u Kurupi faz sucesso até hoje en todo u território paraguaio.

Ele gosta de mininos assim como di mininas. Es considerado un bicho


maléfico. Porque longas, minina Índigo, longas y gruessas son las
vergas dus Kurupis. Umas di 9 metros. Otras di 12 metros. Otras de
até 18 metros.

Non hay tamanho oficial. Los tamanhos variam de Kurupi pra Kurupi.
Nunca se sabe al cierto. Non hay estudios científicos. Pero se sabe
(en Paraguay também se sabe una porrada di cosas) que la verga dus
Kurupis son exageradamenti longas.

Los putos ficam encantados. Las putas ficam assustadas. Las mininas
birgens lo idealizam um poko nomás. Pero todos. Todos en Paraguay
les respetam a los Kurupis. Putaquelospariu qué muchos estragos
pode fazer um Kurupi com su enorme verga dura!

Us Kurupis sabem ficar invisíbles. Por isso nunca ninguém los vê


cruzando la frontera. Mas quando están bisibles, las mininas gos-
tam. Gostam de ser abrazadas. Abrazadas por su pau imenso. Hay

150

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 150 29/04/14 18:58


mininos que também se apasionam por ele. Ele non precisa penetrar
los mininos y mininas com sua verga. Para satisfazer suos instintos
sexuales, para gozar como um homem di verdade, basta-lhe encostar
la glande grande y cor de rosa en la piel, en el cuerpo, en la flor de
los lábios de los adolescentes ainda belamente imaturos.

Suo pene enorme impressiona estudiosos di todo el mundo. En Mitos


Vivientes de Misiones, Elsa Leonor Pasteknik diz que u Kurupi gosta
di roubar mozas quinceañeras. Mas quando essas mininas paraguaias
engravidam, de suas bucetas nascem somente deformados filhos.

Ele já foi visto andandu di duas pernas. Mas también ya fue visto
caminando di quatro pernas arrastrando su enorme verga por la calle.

Dizem que u Kurupi tem poderes especiais. Tem uma forza espantosa.
Y hay los que creen que ele es un duende protetor de los enamorados
y de las mulheres embarazadas.

Muitos estudiosos confunden Kurupi com Yasiyaterê.

Alguns Kurupis usam grandes bigotes.

Quando están romanticos, enlazan las mininas por la cintura com


sua imensa verga, y dicen, en suos oubidos, delicadas, salvajes,
antigas bobagens en guarani. Las mininas se sentem mais mininas.
Mais selvagens. Mais ardentes. Mais femininas. Mais belas. Mais
mulheres. Mais en flor. La noche quente combina ainda mais com
ellas. Sus ollos brillam.

Las mininas nunca imaginaram que un monstruo paraguayo podria


ser un cara legal.

Um dos primeiros e mais marcantes traços na construção do Kurupí


por Douglas Diegues é a bissexualidade do Kurupí: “[e]le gosta de
mininos assim como di mininas. Es considerado un bicho maléfico”.
Diegues esforça-se para reabilitar o polimorfismo perverso de Kurupí,
ao descrever este bicho paraguaio como um ser injustamente tido como
maléfico, justamente em função de uma sexualidade para além dos
regimes heteronormativos. O tamanho do membro viril também não é

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 151

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 151 29/04/14 18:58


descrito exatamente por Diegues, que tão somente levanta especulações
a partir do ouvir falar a respeito: “[n]on hay tamanho oficial. Los tama-
nhos variam de Kurupi pra Kurupi. Nunca se sabe al cierto”. À ausência
de estudos científicos (ironicamente invocados como fonte legítima de
saber acerca de seres imaginários), é mobilizada a sabedoria popular
como discurso de verdade acerca dos membro gigantesco do Kurupí:
“[n]on hay estudios científicos. Pero se sabe (en Paraguay também se
sabe una porrada di cosas) que la verga dus Kurupis son exageradamenti
longas”. Finalmente, não apenas o tamanho do membro do Kurupí é
considerado como unanimidade; unãnime também é o fato de que
ninguém consegue ficar indiferente diante de um Kurupí: “[l]os putos
ficam encantados. Las putas ficam assustadas. Las mininas birgens lo
idealizam um poko nomás. [...] Las mininas nunca imaginaram que
un monstruo paraguayo podria ser un cara legal”.
O segundo dos bichos imaginários elencados por Diegues é o Aô-
Aô (Figura 2). Aô-Aô, deus que habitava os morros e as montanhas,
era também associado à fecundidade, tal qual o Kurupí.

Figura 2. Estátua pertencente ao acervo do Museu Mítico Ramón Elías,


localizado na cidade de Asunción, Paraguai. Imagem disponível em:
http://i47.tinypic.com/28ku1ox.jpg. Acesso em: 10 de janeiro de 2014.

152

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 152 29/04/14 18:58


De acordo com a mitologia guaranítica, deixou imensa descen-
dencia sobre a terra, e era considerado caníbal (GONZALES TORRES,
2010, p. 71). Este ser mitológico é descrito como tendo o aspecto de
uma ovelha, mas não uma ovelha qualquer, e sim uma ovelha armada
com poderosas e terríveis garras (GONZALES TORRES, 2010, p. 76).
Trata-se de um “lobo em pele de cordeiro”, um monstro carnívoro
disfarçado de ser inofensivo:

TERÇA-FEIRA, ABRIL 04, 2006

AÔ-AÔ

Mescla bizarra di macho y fêmea, coxas grossas di musa, cabelos em


cachos di ovelha, lá se vai u Aô-Aô, uno de los bichos mais filhus-
-da-puta de las selvas paraguaias.

Este vae solitário, desgarrado, fúnebre, cabisbaixo, envergonhado


sabe se lá por qual motivo.

Mas geralmente los Aô-Aô seguem em manadas, uns protegendo aos


outros, uns se escorando nos outros, uns se apoiando nos outros,
sempre em manadas, pelos bosques du Paraguai, onde muito se di-
vertem perseguindo y devorando cazadores y aventureiros distraídos.

Há quem diga que los Aô-Aô non existem. Dizem que son personas,
homens, mulheres, advogados, autoridades, gente que se fantasia de
ovelha pra disfarçar sua fome insaciável di carne crua.

Outros estudiosos de la Mitologia Popular Paraguaia afirmam que


eles existem, que son demônios genti-boas, que los que falam mal
deles assim lo fazem por mera inveja.

Eminentes estudiosos de la cultura guarani afirmam que u gozo dus


Aô-Aô´s, mais que fornicar, es devorar, devorar las personas, assim,
enteras, com cabeza y todo.

Olhos grandes e ingênuos, estilo mocinhas ingênuas, desprotegidas,


que precisam di protección de la Polízia. Sus manos tem apenas 3
dedos, de donde salem garras pontudas. Sus pés son patas di cabras. 

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 153

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 153 29/04/14 18:58


Devorar u corazom ainda caliente de suas vítimas, eis la alegria
impagáble dus salbajes Ao-Aô du Paraguay.

A única maneira de escapar dum Aô-Aô es trepando no alto duma Pin-


dovy, la Palmeira Azul, la mítica palmeira sagrada dos antigos guaranies.

Por que? Porque las palmeiras azules, las Pindovy, es u único árbole
que us Aô-Aô respeitam. Las outras árvores eles non respeitam. Y
cavam, com suas garras pontudas, cavam ao redor da árvore, até
derrubá-las y deborar aquellos que nela se refugiabam.

Aô-Aô, é tudo que dizem, é tudo que sabem dizer. Aô-Aô, duas letras
antiguas, duas sílabas salbajes.

Quem diria, por trás de esas sílabas infantiles, Ao-Aô, de essas caras
di ovelhinas ingênuas, Aô-Aô, se escondem monstruos carnívoros
capaz de roubar tuo corazom y devora-lo, assim, crudo y quente,
fumegante, pulante, Aô-Aô, com gosto enferrujado di sangue.

A partir da imagem do Aô-Aô, e dos traços comportamentais atri-


buídos a este ser, Diegues cria uma fábula em torno do arquétipo das
segundas intenções. O hábito deste bicho Paraguai de se camuflar de
ovelha para devorá-las minimiza o aspecto canibal deste mito originário,
para acentuar a questão do caráter amoral, traço de personalidade que,
infelizmente, não raras vezes é atribuído à personalidade paraguaia.
Pode-se atribuir diferentes sentidos para esta alegoria do perigo oculto,
tais como um alerta para os homens que se entregam a travestis, pen-
sando que se tratam de mulheres (“[m]escla bizarra di macho y fêmea,
coxas grossas di musa, cabelos em cachos di ovelha, lá se vai u Aô-Aô,
uno de los bichos mais filhus-da-puta de las selvas paraguaias”), aos
riscos dos personagens sedutores da noite, que podem encantar e matar
a quem se apaixona (“[q]uem diria, por trás de esas sílabas infantiles,
Ao-Aô, de essas caras di ovelhinas ingênuas, Aô-Aô, se escondem
monstruos carnívoros capaz de roubar tuo corazom y devora-lo, assim,
crudo y quente, fumegante, pulante, Aô-Aô, com gosto enferrujado di
sangue”). Em especial neste último caso, o imaginário hematológico da
morte permite ao leitor ver na crueldade do Aô-Aô a crueldade daquelas
criaturas sem caráter da noite, das vamps e vampiros sexuais que se

154

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 154 29/04/14 18:58


alimentam da energia de seus parceiros. A imagem do “lobo em pele
de cordeiro”, remetendo a uma espécie de travestismo cultural, pode
ainda ser lida, em um nível mais profundo, como uma alegoria da per-
manência da cultura dos povos originários e da cultura guarani, de forma
disfarçada e dissimulada, como presença fundamental na constituição
da identidade nacional paraguaia, em uma linha argumentativa que não
deixa de lembrar, de certo modo, as críticas ao modus vivendi paraguaio
presentes na obra de Helio Vera, em especial nos ensaios En busca del
hueso perdido: tratado de paraguayología, ou o olhar antropológico de
Saro Vera em El paraguayo (un hombre fuera de su mundo).
O Pombero (Figura 3), por sua vez, é considerado por alguns
folcloristas como um mito recente no imaginário paraguaio/guarani:
“[e]ste mito o leyenda no debe ser muy antiguo porque la palabra
Pombero no es guarani, ya que no se encuentra en los textos antiguos”
(GONZALES TORRES, 2010, p. 78).

Figura 3. Estátua pertencente ao acervo do Museu Mítico Ramón Elías,


localizado na cidade de Asunción, Paraguai. Disponível em: http://upload.
wikimedia.org/wikipedia/commons/9/91/Pombero.Mito_paraguayo.JPG.
Acesso em: 10 de janeiro de 2014.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 155

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 155 29/04/14 18:58


Gonzales Torres levanta a hipótese de que o mito do Pombero esteja
associado aos bandeirantes brasileiros que adentraram as regiões para-
guaias do Guairá e do Alto Paraná. Em português, pombeiro equivale
a “espião policial”, “alcaguete”. O mesmo Gonzales Torres lembra
que, ao longo da guerra do Paraguai, pombero era o termo utilizado
para se referir a “los hombres astutos y valientes que se deslizabam
a través de las líneas enimigas” (GONZALES TORRES, 2010, p. 78).
Costuma-se acreditar também que o Pombero tem o hábito de possuir
as mulheres que dormem ao ar livre nas noites de verão. Também a
ele são atribuídos raptos de mulheres que, quando conseguem dele
fugir, retornam grávidas às suas casas. Quando responsabilizado pela
gravidez de jovens virgens, o Pombero ser visto como arquetipicamente
análogo ao mito amazônico do boto, que costuma ser responsabilizado
pela gravidez das jovens solteiras ribeirinhas:

DOMINGO, MARÇO 26, 2006

U POMBÊRO

Por los campos iluminados di vagalumes vagabundos, lá vem ele, u


Pombêro, u mais peludo de los Bichos Paraguaios. Qué peludo es el
tal Pombêro! Non entendo como un bicho enano y tan peludo pode
deixar muchas mujeres tan mojadas.

Perder-se en aquelas selvas di pêlos di Pombêro – el suenho de muitas


respetables senhoras, quem diria!

Sobre a mesa estudo agora uma foto dum Pombêro fornicando una
dulze senhora européia de passagem por Assunção. Quem me passou
la foto fue la jornalista especializada en assuntos de la carne Cristina
Livramento. En la foto u Pombêro faz pose de importante magistrado
enquanto fode la dulce senhora.

No Brasil, Pombero trabalhou muito como cagüeta. Pombêro vem du


verbo pomberiar, que significa, ou significava, espionar.

En algumas versiones, ele es apresentado como um ser gordo, petizo, pe-


ludo, repugnante, lo que também deixa algunas mujeres muy calientes.

156

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 156 29/04/14 18:58


En otras versiones, Pombêro es presentado como um bicho alto,
magro, de chapelón de palha, protetor de los passarinhos, amigo
de los sapos, rancoroso, um bicho que non se vinga diretamente de
sus opressores, mas pode deixar o cachorro deles bobo pra sempre.

Conforme el dia, ele puede aparecer disfarçado de índio, árbole


ou camalote.

Dizem que ele veio fugido do Brasil colonial, cruzou la fronteira, e


ficou morando clandestinamente no Paraguai, onde se tornou tan
famoso quanto los Kurupis y los Luizôns.

Diferente dus Kurupis, a verga du Pombêro es muy pequena. Y fica


sempre perdida naquela selva de pêlos que camina que es un Pombêro.

Como se puede notar, Pombêro non passa frio. Ele ya nasceu di casa-
co. Casaco de pêlos. Pronto para enfrentar los inviernos mais salvajes.

Ele também gosta di roubar crianças ingênuas que ficam marcandu


toca depois du almoço. Los historiadores oficiales nunca dizem lo
que es que los Pombêros fazem com las crianzas que eles roubam.
Mas isso non es necessário. Todo mundo em Paraguay sabe lo que
los Pombêros fazem com las crianzas que eles roubam.

Los Pombêros costuman entrar até hoje pelo buraco de la fechadura


de los quartos de las mininas virgens. Eles sabem como foder mini-
nas virgens sem tirar la virgindade delas. Por isso, até hoje, cuando
aparece una minina virgem grávida en la fronteira, dizem: la minina
engravidou du Pombêro. 

Pombêro também gosta de se divertir confundindo las personas.

Muchas mininas se apasionan por sus lábios carnudos y bermelhos.


Y se abren todas a los Pombêros en la siesta calcinante. 

Quando uma mulher jovem fica apasionada, encantada, por un Pom-


bêro, ela nunca mais se cura de essa paixôm.

Quem diria, los monstruos também sabem beijar na boca. Los mons-
truos também son carinhosos.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 157

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 157 29/04/14 18:58


Moñai, na mitologia guarani, era considerado o deus dos campos
abertos, dos ares e das aves (Figura 4). Era considerado também o
protetor dos roubos e das picardias, o que permite que esta figura
arquetípica seja associada ao deus Mercúrio da mitologia romana,
ou ainda, com o Hermes olímpico. Monãi pode escalar as árvores
com facilidade, e alimenta-se dos pássaros que paraliza com o poder
hipnótico das duas antenas que possui no alto da cabeça.

Figura 4. Estátua pertencente ao acervo do Museu Mítico Ramón Elías, localizado


na cidade de Asunción, Paraguai. Disponível em: http://upload.wikimedia.org/
wikipedia/commons/5/5d/Mo%C3%B1ai.png. Acesso em: 10 de janeiro de 2014.

Entre os prazeres que deleitam Moñai, estão o prazer do roubo e


do acúmulo de pertences roubados, os quais guarda em uma caverna
secreta. Toda a vez que esta criatura realiza uma incursão pelas aldeias
e povoados, sua presença e sua ação geram inúmeras discórdias, uma
vez que os habitantes da região passam a acusar uns aos outros pelo
desaparecimento de seus pertences, pertences estes rapinados por Moñai.
Esta criatura mítica oriunda do imaginário guarani não apenas era asso­
ciada ao roubo: a ele também era atribuído o gosto pelo acúmulo do
fruto de suas rapinagens, o que permite que se associe a esta entidade
valores como a ganância e a avareza (GONZALES TORRES, 2010, p. 71).

158

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 158 29/04/14 18:58


DOMINGO, ABRIL 23, 2006

LAS MOÑAI

Pelos brejos, pelos pantanales, pelos lagos sujos, pelos esteros, pelos
rios anônimos, se escondem, se ocultam, se disfarçam, us Moñai, las
Moñai, esses horripilantes bichos dúbios, duas caras, duas farpas na
cabeça y dentes pontudos.

Em suo Diccionário de Supersticiones, Felix Coluccio escribe que su


cuorpo es animal, mas suos pés são como rodas, rodas de lata, quando
giram produzem infernal ruído.

Hay versiones generosas que apresentam us Moñai como duendes


protetores de roubos, plagios y otras rapinagens.

Dizem também que se trata de uma serpente pequena, muito pequena


y muito gruessa, gruessa como tronco di árvore.

Algunos imbeciles chegam a se casar com moças belas y simpáticas.


Mas quando se dan cuenta, já es tarde. Se casaram com una Moñai.
Non hay mais nada a fazer. Se casaram com un monstruo. Um
monstruo com buceta.

Mas, para que sirvem las Monãi? Para assustar? Para divertir? Para espan-
tar? Para afastar personas indesejáveis? Para despistar? Para horrorizar? 

Qual a preferência de los Moñai? Homens? Mulheres? Adolescentes?


Velhos decrépitos? Crianzas sensuais? 

Solamente encuentro respuestas vagas. Nunca se puede saber qual


é la dus Moñai. Um dia querem machos. Noutro dia querem fêmeas.
Outro dia, crianzas. Outro dia, adolescentes. Mas parece que nem us
Moñai sabem bien lo que quieren.

No fundo, no fundo, us Monãi non prestam pra nada. Son bichos,


assim, inútiles. Son monstruos inútiles como flores.

A narrativa de Douglas Diegues em Bichos paraguaios parece de-


masiadamente cifrada, em uma primeira leitura. Mas Diegues faz um

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 159

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 159 29/04/14 18:58


acréscimo importante ao atualizar o imaginário em torno de Moñai.
Um primeiro elemento importante é que ele fala das Moñai no plural,
e não no singular, utilizando o arquétipo para falar de uma categoria
de seres, mas do que de um ser em especial. Em seguida, ao associar
as Moñai às “moças belas y simpáticas” com as quais são por vezes
confundidas, fica evidente que o autor se utiliza do mito para falar
das mulheres que casam por interesse. Não apenas das mulheres, mas
também dos homens que se casam apenas por interesse, o que fica
evidente no momento em que o autor vacila na descrição do gênero
de Moñai: “[pelos brejos, pelos pantanales, pelos lagos sujos, pelos
esteros, pelos rios anônimos, se escondem, se ocultam, se disfarçam,
us Moñai, las Moñai, esses horripilantes bichos dúbios, duas caras,
duas farpas na cabeça y dentes pontudos”. Em seguida, ele qualifica
as Moñai de “monstruo com buceta”, ao falas dos ingênuos que caem
nas trampas dstes seres maléficos e interesseiros: “[a]lgunos imbeciles
chegam a se casar com moças belas y simpáticas. Mas quando se dan
cuenta, já es tarde. Se casaram com una Moñai. Non hay mais nada
a fazer. Se casaram com un monstruo. Um monstruo com buceta”.
Finalmente, encerrando seu bestiário pantanoso dos arredores do
Rio Paraná, Diegues inclui no seu rol de bichos e monstros errantes das
cercanias a imagem da Quinceañera (Figura 5). O ritual de passagem
conhecido no Brasil oitocentista como début ou festa de debutantes é
tradicionalmente associado a uma convenção social da nobreza euro-
péia, e consiste em uma celebração do aniversário da menina debutante,
que ao completar quinze anos deixa de ser uma criança e passa a ter
uma existência social na comunidade. O termo debutante é uma cor-
ruptela da palavra francesa débutante, cuja acepção literal é estreante,
iniciante. Nestes termos, a festa de début é muitas vezes vista como a
apresentação da jovem moça, que passa a ter o direito de frequentar as
festas e eventos sociais, e a ser cortejada pelos jovens solteiros das famí-
lias importantes. Tradicionalmente, a menina debutante recepcionava
os convidados com um vestido muito simples, de cor clara e cheio de
detalhes infantis e, após a meia-noite, abria o salão de danças com um
vestido de gala. A tradição da troca do vestido à meia-noite simboliza
o final da infância e a entrada da menina na vida de mulher adulta.

160

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 160 29/04/14 18:58


Figura 5. Cartaz de divulgação do filme Quinceañera (2006), direção e roteiro
de Richard Glatzer e Wash Westmoreland. Imagem disponível em:
http://www.imdb.com/media/rm4206334464/tt0451176?ref_=tt_ov_i.
Acesso em: 14 de janeiro de 2014.

Quando se pensa na imagem das quinceañeras na América Hispâ­


nica, em especial no México e em Porto Rico, a primeira imagem que
remonta às origens da celebração não é a dos bailes aristocráticos
europeus, mas sim os antigos ritos de passagem dos povos originá-
rios meso-americanos, tais como os maias e os toltecas (Figura 6).
Alguns arqueólogos e antropólogos que se dedicam ao estudo dos
povos originários latino-americanos afirmam que, entre os maias,
as meninas começavam a ser preparadas para o casamento logo
após a primeira infância. Tidas como cidadãs de segunda categoria,
as jovens mulheres terminavam por ser educadas pelas mulheres
mais velhas, e sua educação consistia em aprenderem a cozinhar,
a cuidar dos filhos e a realizar as tarefas domésticas. Às vésperas
do casamento, a jovem moça, envolta em uma capa branca, era

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 161

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 161 29/04/14 18:58


carregada por uma mulher mais velha até a casa do futuro marido,
sendo então entregue simultaneamente à família do marido e apre-
sentada à comunidade.

Figura 6: antigo manuscrito meso-americano, no qual se descreve o ritual


de apresentação de uma jovem à comunidade no período imediatamente
anterior ao seu casamento. Imagem disponível em: http://users.polisci.wisc.
edu/LA260/cultures_image002.jpg. Acesso em: 10 de janeiro de 2014.

As Quincañeras de Douglas Diegues, entretanto, ignorantes de


suas origens fundadoras, estão muito mais preocupadas com o pre-
sente imediato do que com as origens ancestrais que lhes permitiu
emergir como seres fundamentais do imaginário fabuloso construído
em Bichos paraguaios:

QUINTA-FEIRA, JUNHO 15, 2006

LAS QUINCEAÑERAS

Llenas di vida, llenas di dengos, llenas di luz, llenas di hormônios


hirviendo en sus bellos cuerpos, llenas di fantasias, van, vienen,
suben, bajan, las bellas mininas di quince años, por las calles di
Asunción y por las calles di Mariscal Pedro Juan Caballero y por las
calles di Villa Rica y por los becos di Luquelândia.

162

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 162 29/04/14 18:58


Bellas mininas salvajes, las tetas siempre duríssimas, morenas, claras,
rosadas, pura rebeldia, pura juventudi, pura magia de la vida, pura
rebeldia di tetas duríssimas. 

Algumas Quinceañeras son muy yaguaretês, tienen fuego en los lábios,


tienen fuego en las tetas, tienen fuego en la concha.

Miles de fantasias hiervem en los ollos, en las tetas durísismas, en las


hermosas conchas de essas dulces y salbajes Quinceañeras.

Quieren saber tudo, quierem aprender todo, quierem ler tudo, querem
mamar todo, querem chupar inteiro, querem beber toda la leche,
querem si embriagar di leche y miel salvaje.

Non se brinca com essas lolitas de las selvas paraguaias. Non se


brinca com essas bugrinhas tetudas encantadoras di concha rosa-
-xoque. Brincar com ellas es como brincar com fuego. Usted puede
si queimar feo.

Gustam di mostrar. Gustam di ser olhadas. Gustam di si exibir pra


mim. Gustan di seren bistas como fêmea y como flor.

Ellas tienen fuego en la concha. Y pueden dar nó em tua verga, nó


en tuo porongo, nó en tuo pau, nó en tuo cérebro. Y bocê puede ficar
perdidamenti apasionado por la miel de la vagabundinha salvaje.

Asunción, Pozo Colorado, Concepción, Caacupê, Luquelândia, Yby-


-Yaú, Loreto, por todas las ciudades paraguayas onde passei, esas
inesquecibles Quinceañeras fueron los bichos más hermosos, los
monstruos mais bellos que encontrei.

Con ellas aprendi que viemos ao mundo para nos alegrar, nos mara-
billar, nos encantar com la miel di suos sexos, non para perder tempo
com problemas idiotas.

Como ler, em chave ampla, a permanência das cosmofonias


dos povos originários nos exercícios literários de Douglas Diegues?
E como tentar fixar, em termos de estudos literários, experiências
como Bichos paraguaios, que se utiliza de um suporte volátil como

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 163

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 163 29/04/14 18:58


o formato blog, e que se encontra abandonado nas infovias pelo seu
próprio autor? Um caminho seria pensar estes impromptus narrativos
como restos do processo criativo do autor, abandonados nos caminhos
digitais que se bifurcam ad aeternum. Outro, que me parece mais
interessante, é pensar Bichos paraguaios como um exercício limite de
questionamento do objeto livro como suporte para o discurso literário
na contemporaneidade. Em tempos nos quais as edições artesanais,
alternativas e subversivas das editoras cartoneras tornam-se objeto de
desejo cult, abrir mão da materialidade do livro seja, talvez, um gesto
de desprendimento absurdamente subversivo. Mas, para retomar uma
estratégia discursiva à la Michael Ende, esta é uma outra história, e
terá de ser contada em outra ocasião.

Referências Bibliográficas

ALÓS, Anselmo Peres. Portuñol selvagem: da “língua de contato” à poética da


fronteira. Cadernos de Letras da UFF, v. 45, p. 283-304, 2012. Disponível em:
<http://www.cadernosdeletras.uff.br/images/stories/edicoes/45/diversa1.
pdf>. Acesso em: 01 de janeiro de 2014.

ALÓS, Anselmo Peres. A letra, o corpo e o desejo: masculinidades subversivas


no romance latino-americano. Florianópolis: Mulheres, 2013.

ARREOLA, Juan José. Punta de plata. México: Universidad Nacional Autó­


noma de México, 1958.

BORGES, Jorge Luis y GUERRERO, Margarita: Manual de zoología fantástica.


México: Fondo de Cultura Económica, 1957.

BORGES, Jorge Luis; GUERREIRO, Margarita. O livro dos seres imaginários.


Trad. Carmen Vera Cirne Lima. São Paulo: Globo, 2006.

BORGES, Jorge Luis. El libro de los seres imaginarios. Barcelona: Destino, 2007.

CAMPOS, Haroldo de. Pedra e luz na poesia de Dante. Rio de Janeiro: Imago, 1998.

CORTÁZAR, Julio. Bestiário. Buenos Aires: Suma das Letras, 2003.

DE LA GARZA, Mercedes (edición). Literatura maya. Compilación y prólo-


go de Mercedes de la Garza. Cronología de Miguel León-Portilla. Estudios

164

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 164 29/04/14 18:58


introductorios y traducciones de Adrián Recinos, Antonio Mediz Bolio, Francisco
Monteverde, Alfredo Barrera Vásquez, Dionisio José Chonay. Caracas: Biblio­
teca Ayacucho, 1980.

DIEGUES, Douglas. Dá gusto andar desnudo por estas selvas. Curitiba: Travessa
dos Editores, 2003.

DIEGUES, Douglas. Uma flor na solapa da miséria. Buenos Aires: Eloísa


Cartonera, 2005.

DIEGUES, Douglas et alli. “Karta-Manifesto-del-Amor-Amor-en-Portunhol-


Selvagem”. O Globo. Rio de Janeiro, 17 de agosto de 2008. Disponível em: <http://
oglobo.globo.com/cultura/mat/2008/08/15/confira_manifesto_em_defesa_do_por-
tunhol_selvagem_-547768677.asp>. Acesso em: 29 de novembro de 2010.

DIEGUES, Douglas. Triplefrontera dreams. Florianópolis: Katarina Karto­nera, 2010.

DIEGUES, Douglas. Bichos paraguaios: mitologia popular paraguaia recriada


em portunhol selvagem por Douglas Diegues con mucho esperma y sangre du
corazom. [s./d.]a. Disponível em: <http://www.bichosparaguaios.blogspot.
com.br>. Acesso em: 01 de janeiro de 2014.

DIEGUES, Douglas. “Que diablos vein a ser isso?”. Portal de Literatura e de


Arte Cronópios. [s./d.]b. Disponível em: <http://www.cronopios.com.br/site/
printversion.asp?id=3505>. Acesso em: 10 de setembro de 2011.

ENDE, Michael. A história sem fim. 5. ed. Trad. Maria do Carmo Cary. São
Paulo: Martins Fontes, 1990.

GUILLÉN, Nicolás: El gran zoo. La Habana: Instituto del libro, 1967.

GONZÁLEZ, Natalicio. Proceso y formación de la cultura paraguaya. Asunción:


Editorial Guarania, 1948.

GONZALES TORRES, Dionisio M. Folklore del Paraguay. Asunción: Servi­


libro, 2010.

HOLM, John. An introduction to pidgins and creoles. Cambridge: Cambridge


University Press, 2000.

LEÓN-PORTILLA, Miguel (edición, compilación, estudios introductorios,


versión de textos, traducción y cronología). Literatura del México antiguo: los
textos em lengua nahuált. Caracas: Biblioteca Ayacucho, 1978.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 165

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 165 29/04/14 18:58


MATTOSO, Glauco. Memórias de um pueteiro: as melhores gozações de Glauco
Mattoso. Rio de Janeiro: Edições Trote, 1982.

MATTOSO, Glauco. “Manifesto coprofágico”. In: MASSI, Augusto (org.). Artes


e ofícios da poesia. Porto Alegre: Artes e Ofícios, 1991. p. 171.

MATTOSO, Glauco. JORNAL DOBRABIL: 1977/1981. São Paulo: Ilumi­nuras, 2001.

PALEY DE FRANCESCATO, Martha: Bestiario y otras jaulas. Buenos Aires:


Sudamérica, 1977.

SAGUIER, Rubén Bareiro (Compilación, estudios introductorios, notas y


cronología). Literatura guaraní del Paraguay. Recopilación y versiones de
textos, estudios y notas de León Cadogan, Pierre Clastres, Marcel Samaniego,
Bartomeu Meliá, Georg y Friedl Grünberg, Kurt Nimuendajú Unkel, Mark
Münzel, Christine Münzel, Augusto Roa Bastos, Miguel Alberto Bartolomé,
Maxence Coleville, Juan Francisco Recalde y Narciso R. Colmán. Caracas:
Biblioteca Ayacucho, 1980.

TERRÓN, Joca Reiners. Transportuñol borracho. Asunción: Yiyi Jambo, 2008.

VERA, Helio. En busca del hueso perdido: tratado de paraguayología. 15. ed.
Corregida. Asunción: Servilibro, 2011.

VERA, Saro. El paraguayo (un hombre fuera de su mundo). 4. ed. Asunción:


El Lector, 1996.

YÚDICE, George. A cultura da conveniência: usos da cultura na era global.


2. ed. Trad. Marie-Anne Kremer. Belo Horizonte: UFMG, 2006.

166

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 166 29/04/14 18:58


NOTAS PARA REPRESENTARSE
Decires en frontera

Damián Cabrera1
(Seminario Espacio/Crítica – Paraguai)

En la frontera de un nombre hay un río

El Alto Paraná es un espacio que se encuentra atrapado por los


límites que dibuja la representación. Ciudad del Este, cifrada en los
estereotipos que parecen clausurar toda otra posibilidad de ser de la
ciudad: ¿qué hay en los bordes del contrabando, el comercio y la
piratería? En primera instancia, Ciudad del Este es el otro nombre
de una fecha traumática, y es la excusa del programa del coloniaje
que se completó bajo la dictadura de Alfredo Stroessner. Entre las
imágenes previas y las imágenes del porvenir se producen fisuras a
través de las cuales se filtran otros modos de hacer, otros modos de
estar y de decir el lugar propio. Pero lo que resplandece en la oscuridad
de los cuerpos en oposición es la tensión.
En el origen era el “infierno verde”, el sublime desbordado y
amenazante, “ese laberinto que no se acaba nunca”, que para Barret

1 Damián Cabrera. Escritor. (Asunción, 22 de agosto de 1984). Es licen-


ciado en Letras por la Facultad de Filosofía de la Universidad Nacional del
Este. Desde 2010 participa del Seminario de crítica cultural Espacio/Crítica.
Publicó la colección de cuentos sh… horas de contar… (2006) y Xiru (2012).
Participó de la antología Los chongos de Roa Bastos. Narrativa contemporánea
del Paraguay (2011).

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 167

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 167 29/04/14 18:58


–y luego para Rivarola-Matto y Roa Bastos – era escenario de explo-
taciones en los obrajes, bajo el yugo de la Industrial Paraguaya o la
Matte-Laranjeira. Un virus ataca la corteza de una célula en un ángulo
particular, prolifera en ese recodo de su dermis hasta que la perfora,
entra, hace estragos; así, el monocultivo extensivo que ya no tenía
hacia dónde en el Brasil se abrió camino por Canindeyú, y a lo largo
de toda la frontera, y más tierra adentro, cada vez.
El autodenominado “sector productivo” del Paraguay: El bos-
que es la rémora de su “progreso”, una representación stronista
que ha sido eternizada por el discurso del sector y el discurso de
los medios corporativos de comunicación. Ahora, el bosque es se-
ñalado como escondrijo del EPP (el grupo guerrillero denominado
Ejército del Pueblo Paraguayo); más una negligencia al restarle
peso al pasado poniendo en clave de insólito lo que ha sangrado
sobre la memoria.
El infierno: laberinto y desierto verde, despoblado, susceptible de
políticas de colonización desde ambos márgenes del Paraná. Más de
cien años de disputas transitan el territorio altoparanaense, entre in-
dígenas, campesinos y terratenientes –de nacionalidad heterogénea-.
El espacio fronterizo altoparanaense tiene sus claves de lectura en
un complejo de tres íconos constituidos por la represa hidroeléctrica
de Itaipú, la Ruta Internacional Nº 7 “Dr. José Gaspar Rodriguez de
Francia” (que une Coronel Oviedo con Ciudad del Este) y el Puente
de la Amistad. Estos tres elementos modernizadores de la región,
además de ser infraestructura constituyen artefactos simbólicos que
inauguran un nuevo tiempo y reestructuran la vida local. Estos arte-
factos inauguran, además, la marcha hacia el Este, desde el interior
del Paraguay, y la marcha hacia el Oeste, desde el Brasil, que termina
permeando su exterior.
Esto genera disputas territoriales, pero que no se reducen a la
disputa por la tierra. Bajo la apariencia de una dicotomía brasile-
ños/paraguayos propagandística se disimula la naturaleza de las
oposiciones: la lucha por los sistemas de producción; y no sólo de
producción económica sino también simbólica, y sus mecanismos
de puesta en circulación.

168

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 168 29/04/14 18:58


La ciudad nueva es de paso pero también de visita, y allí prolifera
el contrabando como negocio típicamente militar y de la clase política
stronista hasta principios de los 90; cuando, por decirlo de alguna
manera, se democratiza. En su novedad hay lugar para ocupaciones
temporales, pero el trabajo informal e ilegal sobrevive al crecimiento
explosivo, y lo temporal se vuelve permanente.
La visible presencia de otras colectividades puede hacer pensar
en más un mito que se autoconsume: la integración multiculturalista
y las coexistencias armónicas; pero lo diferente existe hostilmente
sobreviviendo su espacio según sus potencias.
En la lucha por los sistemas de producción económica, la produc-
ción simbólica tiene poca visibilidad. En principio porque las políticas
de institucionalización y las prácticas ministeriales están ausentes,
pero también porque cualquier emprendimiento independiente debe
abrir, cada vez, su propio espacio para acontecer; y éste se cierra,
cada vez, dejando una cicatriz imperceptible.

Frontera

Se le ha puesto nombre a tu lugar desde muchos distritos. Hay un


Alto Paraná que ha sido fundado con representaciones de procedencia
diversa, construcciones transmutantes, pero que han grabado algunos
perfiles en el imaginario colectivo de los esteños o en los imaginarios
sobre el Este.
En este espacio atravesado por territorialidades en conflicto,
que pulsan por consolidarse, y en ocasiones por imponerse sobre
otras, hay señales de un campo abierto a múltiples semanticidades;
la cercanía y las relaciones de poder suscitan travesías posibles:
ingresos en universos simbólicos otros; pero también propician otro
tipo de cruces: hay interferencias lingüísticas, hay aculturación, y
también hibridaciones.
Ahora: ¿en qué registro contarse? El problema de cómo representarse
genera ansiedad, y se suma la incomodidad que implica el hecho de
que las representaciones contribuyen en la construcción de identidad
y de memoria. Aquí hay otros transgénicos: pero estas interferencias

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 169

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 169 29/04/14 18:58


lingüísticas ¿dicen algo? Pensás, además, en el hecho de que la imagen
de la frontera esteña está atrapada en medio de las estereotipaciones,
construidas, principalmente, desde los medios de comunicación.
Didi-Huberman cita a Karl Krauss, quien reflexiona sobre la verdad
y sobre el supuesto de objetividad de las informaciones ofrecidas por
los medios periodísticos: “no hay otra objetividad que una objetividad
artística. Sólo ella puede representar un estado de cosas de manera
conforme a la verdad” (DIDI-HUBERMAN, 2008, p. 21). Pero en este
espacio, reciente en tanto cómo es reconocido, las representaciones
que buscan nombrarlo desde la poesía son apenas incipientes; creés
reconocer, sin embargo, en cierta literatura, especialmente en aquella
que ejerce su experimentación en una escena fronteriza imaginada,
las señales de una forma que dice una verdad sobre él.
Al decirse, estas voces poéticas oponen no sólo una imagen alter-
nativa del lugar, sino transparentan en su forma los procesos que lo
atraviesan. Esta imagen podrían leerse como el reverso de las represen-
taciones autoritarias que atestan el espacio vacío del nombre propio, el
cual, en un territorio falto de memoria colectiva plenamente consciente,
no tiene asignación imaginable. El ejercicio de la mezcla, que quizás
valga más como acto que por lo que se dicta en su decir, se asemeja
a la posición del híbrido cultural en tanto actor político que confunde
los artefactos de reconocimiento y discriminación. Así como la hibridez
hace tambalear las posiciones de la autoridad colonial y de la contes-
tación de la diferencia, las palabras que estas voces poéticas profieren
podrían activar mecanismos para tornar fluctuantes algunas posiciones:

Las palabras no están en el lugar de las imágenes. Son imágenes, es


decir, formas de redistribución de los elementos de la representación.
Son figuras que sustituyen una imagen por otra, palabras por formas
visuales o formas visuales por palabras. Esas figuras redistribuyen al
mismo tiempo las relaciones entre lo único y lo múltiple, lo escaso
y lo numeroso. (DIDI-HUBERMAN, 2008, p. 95).

Como ha ocurrido en muchos departamentos del Paraguay,


durante la dictadura stronista varios pueblos y ciudades del Alto
Paraná han sido bautizados y rebautizados. Pueblos como Che’irokue

170

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 170 29/04/14 18:58


y Ka’arendy hoy honran con su nombre a Juan E. O’Leary y a Juan
León Mallorquín, respectivamente. Y Ciudad del Este se llamaba
Puerto Presidente Stroessner. Atravesados por el nombre plural, hay
desde una primera mirada la impresión de una atmósfera inquieta,
inestable y perversa.

Interferencia

Las zonas de convivencia pueden transformarse en zonas de inter-


ferencia; cuando un cuerpo choca contra otro se producen movimien-
tos de reubicación: la imagen de esos cuerpos nos llega menguada,
en retazos. La escena puede volverse, por un instante, caóticamente
policromada, y por momentos, sus colores parecen asentarse; puede
entreverse cierta coherencia, algún sentido, en el montaje hostil de
caracteres diferentes.
Es el polvo –pensás, desde tu posición– después de la turbulen-
cia: se sitúa por un tiempo, y no definitivamente; susceptible de ser
desalojado de su nuevo sitio, hacia otro, por una fuerza que irrumpe.
Así es cómo tomás un cuerpo de textos: una turbulencia compuesta
de porciones móviles.
Hay un momento en esta escritura en el que la composición ex-
trema un distanciamiento de ciertos órdenes lingüísticos; esto pone
las imágenes en situación de extrañamiento. La voz poética aparece
enrarecida, mediada por interferencias léxicas –primero entre el
guaraní y el castellano, finalmente el portugués–; pero también por
medio de una transliteración creativa: hay un juego en los límites
de una inteligibilidad fonológica, pero asimismo en el límite de la
legibilidad/ilegibilidad literal.
Esa frontera oscura que las palabras habilitan te remite a un
espacio físico, real, atravesado por piezas transmutantes, y que, al
menos para vos, se define en función de sus cruces, de sus coexis-
tencias e interferencias.
Decís: Hay, frente al fenómeno de las interferencias lingüísticas, la
posibilidad de concebir soluciones creativas para las tensiones. Decís
esto pensando en las soluciones creativas del habla coloquial, pero

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 171

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 171 29/04/14 18:58


deseando un diálogo con los otros lugares desde los cuales se (des)
traba una lucha en los campos semánticos y en las territorialidades
superpuestas de las lenguas; por ejemplo, en la escritura, en particular
en un tipo de escritura: la literaria.
Partís del supuesto de que la articulación, en un mismo espacio dis-
cursivo, de dos lenguas con cargas semánticas e ideológicas distintas
operaría como un montaje –no sólo de imágenes o puros enunciados,
sino también de ficciones – capaz de hacer decible una experiencia,
habilitando nuevas formas de subjetividad y redistribuyendo posicio-
nes en el orden discursivo pero también político.
Si como sugiere Rancière en La distribución de lo sensible la escri-
tura destruye los cimientos “legítimos” de la circulación de la palabra,
¿qué desarreglos en la manera de imaginar identidades y la adminis-
tración de territorios y cuerpos en un espacio común propondría el
montaje de un discurso literario en el cual lenguas –tanto colonizantes
como colonizadas – se interfieren mutuamente? Y, finalmente, ¿qué es
lo que convocaría este discurso, y qué es lo que conjura y desregula
o legitima las voces de quienes se escriben en esta clave?

Una escritura menor

Deleuze y Guattari bosquejan los contornos de lo que se da en


llamar una literatura menor. En el espacio de territorialidades lin-
güísticas sobrepuestas, hay lugar para que las lenguas estén sujetas
a determinadas posiciones. Así, en la metáfora de las transparencias,
el paisaje diglósico obedece al arreglo y ordenamiento de los espacios
que son proyectados por las lenguas subordinantes. Si realizaras una
taxonomía de las posiciones consignadas a las lenguas, el guaraní se
trasluciría opacado bajo las capas subyugantes del castellano, la lengua
del Estado y con mayor prestigio social, y el portugués, una de las
nuevas lenguas del poder. Pero para Deleuze y Guattari, la literatura
menor no sería aquella escrita en la lengua subalterna, “sino la litera-
tura que una minoría hace dentro de una lengua mayor” (DELEUZE,
1978, p. 28). No la poesía de las minorías que se dicen a sí mismas con
sus palabras – ¿porque el subalterno no puede hablar? –, sino el uso

172

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 172 29/04/14 18:58


menor de una lengua mayor, el empleo desubicado de una lengua, la
dislocación de la lengua de su estado habitual. Así, continúan diciendo
Deleuze y Guattari, lo que en primera instancia caracterizaría la litera-
tura menor es que “el idioma se ve afectado por un fuerte coeficiente
de desterritorialización” (DELEUZE, 1978, p. 28).
Pero el ejercicio que efectúan escritores como Jorge Canese, así
como otros varios autores en cuya escritura se despliega una zona de
interferencias lingüísticas (Wilson Bueno, Néstor Perlongher, Paulo
Leminski, Douglas Diegues, por ejemplo), excede la radicalidad del
uso menor de una lengua mayor y extrema la desterritorialización de
las lenguas al montar, sobre un mismo espacio discursivo, la suma de
acentos y de claves en una acción socarronamente contaminadora. Lo
que tiene más visibilidad en esta poesía no son las imágenes que el
significante hace parpadear cuando se leen o se pronuncian las pala-
bras, sino un gesto: el movimiento desarreglador de los espacios; un
traspapelar ese primer montaje que de hecho constituye la superposi-
ción de territorios lingüísticos; un golpe sobre la desmemoria orgánica
de los cuerpos con relación a sus espacios previos que produce una
nueva amnesia territorial: no una que niega el orden actual de las
posiciones, sino una que hace caso omiso a tal orden.
Decís: Las características del mapa diglósico del Paraguay obsta-
culizan la posibilidad de que los sujetos hablen en cualquiera de las
lenguas, se digan profiriendo palabras o escribiéndolas en cualquier
lengua. “En consecuencia, un pueblo que se des-lengua es un pueblo
que se des-piensa, se des-dice y, finalmente, se des-hace”, dice Melià,
y agrega que “el alingüismo es por desgracia un fenómeno posible”
(MELIÀ, 1997, p. 39).
Deleuze y Guattari hablan del valor colectivo de la literatura
menor. En los usos menores de una lengua mayor habría pocas
condiciones para profusas producciones de calidad, habría dificul-
tades para individualizar al sujeto del enunciado como “maestro”,
y, por lo tanto, la escritura menor iría en una dirección opuesta:
hacia una expresión de acción colectiva: “lo que el escritor dice
totalmente solo se vuelve una acción colectiva, y lo que dice o hace
es necesariamente político, incluso si los otros no están de acuerdo”

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 173

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 173 29/04/14 18:58


(DELEUZE, 1978, p. 30). Pensás: En Paraguay toda literatura sería
una literatura menor, puesto que éste sería un uso subalterno de
las lenguas mayoritarias, tanto en cuanto a la cantidad de hablantes
como a las posiciones a las que las lenguas están consignadas. No
hay, pensás, hablantes plenamente competentes, y no habría, salvo
detrás de la autoridad de algún nombre, una escritura magistral.
Pero oponés la atmósfera afásica de apariencia terrorífica que Melià
anticipa a una consternación de otro orden: Más que las palabras,
más que los significados cuya persistencia se vería amenazada con
la desaparición de los significantes que los nombren, te aterra el
destierro de las funciones del lenguaje; al expropiarse una función
lingüística de una lengua, los que hablan y piensan en esa lengua
estarían deportados de la posibilidad de desarrollar plenamente su
subjetividad. Pero hay una expectativa: El colectivo des-hecho por la
afasia podría eventualmente tener la oportunidad de re-imaginarse.
No hay literatura mayor, pensás, pero hay escrituras marginales.

El portuñol y el portunhol selvagem

A mediados de 2000 se desata un debate efímero pero intenso


sobre el portuñol en la literatura de Paraguay, a raíz de un artículo
publicado por Andrés Colmán Gutiérrez en el Correo Semanal de
Última Hora el sábado 8 de diciembre de 2007.
El artículo, titulado El portuñol se instala en la literatura fue
publicado con motivo de un encuentro de poesía organizado por el
escritor Cristino Bogado, denominado Asunción, kapital mundial de
la fikción, al cual acudieron varios cultores de lo que por entonces
empezaba a llamarse “portunhol selvagem”.
En el artículo, Colmán Gutiérrez da muestras de lo que es el por-
tuñol en el habla coloquial con textos propios; además se refiere a
una cita del crítico literario español José Vicente Peiró Barcos quien
afirma que Colmán Gutiérrez fue el primero en introducir en la lite-
ratura de Paraguay esta mezcla entre castellano, guaraní y portugués,
que efectivamente se observaba en el habla coloquial de la frontera
paraguaya con el Brasil.

174

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 174 29/04/14 18:58


El fenómeno de mezclas translingüísticas en la literatura de
Paraguay empezaba a llamar la atención tanto de académicos como de
críticos en diversas universidades de Latinoamérica, Estados Unidos
y Europa; pocos años después se suscitarían publicaciones de anto-
logías y realización de congresos en los cuales este fenómeno estaría
en el centro de las discusiones. El escritor Jorge Montesino asumía
que Colmán Gutiérrez no sólo no quería quedar fuera de esa vibrante
escena que empezaba a agitarse en el Paraguay, sino que también
se estaría adjudicando una suerte de pionerismo en la cuestión de
mezclas entre el castellano, el portugués y el guaraní. A raíz de esto,
en febrero de 2008 escribe en su blog:

Sin pudor alguno, Colmán G. agrega de su propia autoría: “Hasta en-


tonces lo que en la novela se me ocurrió bautizar como portuguarañol
(la unión forzada del portugués, el guaraní y el español), se manejaba
a un nivel puramente oral y marginal, y no encontraba eco ni en la
poesía ni en la narrativa”. Cita luego como antecedentes el portuñol
de Caetano Veloso y Gilberto Gil. La pretensión de Colmán Gutiérrez
es temeraria, pues los antecedentes de estas mezclas de idiomas se
abanican en infinidad de ejemplos y comienzan a verse en escritos
desde principios del siglo XX (Montesino, 2008).

Efectivamente, El último vuelo del pájaro campana de Andrés


Colmán Gutiérrez se publica en 1995. En esta novela aparecen algunos
diálogos en portuñol, aunque la narración está hecha primordialmente
en castellano. En 1992, el escritor Wilson Bueno había publicado Mar
Paraguayo, una inquietante novela narrada completamente en un por-
tuñol inventado, con interferencias del guaraní, para las cuales el poeta
y novelista curitibano contó con el asesoramiento de Jorge Canese.
Cabe decir que la diferencia de años es ínfima, y que, a pesar
de que son dos proyectos evidentemente diferentes, ambos son con-
temporáneos. El portuñol en la literatura, sin embargo, es anterior y
bastante profuso en la poesía de Néstor Perlongher, Paulo Leminski,
Xico Sá, entre otros.
Algo que aquí estaba también puesto en cuestión era la naturale-
za de las mezclas que se estaban realizando. Por un lado, los que se

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 175

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 175 29/04/14 18:58


adscribían al “portunhol selvagem” veían las interferencias lingüísti-
cas como instancia creativa, y montaban una zona de interferencias
que no respondía a los mecanismos ni a las economías del lenguaje
coloquial. Por otro lado, Andrés Colmán Gutiérrez –y el mismo Jorge
Montesino, que cuestiona su nota– representaban en sus textos el
habla coloquial, las contaminaciones que la oralidad creativa producía.
Cabe señalar, sin embargo, que tanto Canese como Douglas
Diegues, Edgar Pou (quizás en menor medida Cristino Bogado), eje-
cutan estas interferencias creativas primordialmente en la poesía y
excepcionalmente en la narrativa.

Tengo nombre

Hay cartografías superpuestas, territorio sobre territorio, modos


de ver que ordenan y asignan valor al lugar, y que en devolución son
en función del lugar. Es posible encontrar el hito con varios nombres,
pero el curso de la historia y los espíritus que la signan también dis-
locan nombres, asignan otros.
Cambiar de signo no borra el nombre anterior, que se constituye
en una presencia flotante sobre el espacio, sobre las cosas y las per-
sonas a las que les comunica su sentido.
El cambio convierte al territorio en casa rodante, que se mueve
y se reacomoda como transformer según el nombre dado, según el
grado de presencia del nombre suprimido.
Pero hay otros nombres que flotan sobre este territorio, como
nubes ancladas a la tierra por hilos demasiado tenues como para ser
creíbles. La representación de un espacio gobernado por el caos pue-
de ser desbaratada por ordenamientos de fondo demasiado fuertes,
a pesar de su presencia disimulada detrás de nombres e idearios que
no siempre coinciden con la vivencia.
La imagen de un espacio de presencias difuminadas que pulsan
por corporizarse –como fantasmas que parpadean en su intento por
hacerse carne – es arrojada como una de las representaciones que se
hace de la escena fronteriza del Este, que en el curso de su historia,
reciente tanto, ha sido atravesada por múltiples territorialidades y

176

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 176 29/04/14 18:58


grupos sociales de procedencia diversa que la han elegido como hogar
o como lugar de paso en su tránsito hacia dónde; y que en la última
década ve una explosión en slow motion de subjetividades que de-
sean inscribirse en el espacio, hacerse cuerpo; produciendo sentido,
significando, para que el hogar elegido sea un hueco a la medida del
que lo habita.
Pero un espacio abierto a múltiples subjetividades, grupos
sociales, naciones –una escena con mapas y territorialidades su-
perpuestas – es susceptible de tensiones, porque, en sus intentos
por consolidarse en la escena, los anhelos ajenos pueden chocar
con los de uno, y cuando no es posible encontrar la coincidencia la
tolerancia parece comprometida.
Las pujas por la producción y puesta en circulación de los sentidos
se hallan inscriptas en un entramado que se complejiza al contemplar
la diversidad lingüística en la que se llevan a cabo; el escenario es
polifónico, y podría hacer pifiar la voz única de una autoridad altiso-
nante que opacara las demás voces; sin embargo, existen presencias
autoritarias más audibles cuyos sentidos subordinan la producción
de grupos subalternos.
En ciertos campos semánticos, la conjunción poder económico,
una determinada lengua, y la capacidad de agencia constituyen una
nueva fuerza que aparece no sólo colonizando los otros sentidos sino
como autoridad colonial de hecho.
La dicotomía castellano/guaraní, en su relación diglósica, cobra
otros matices frente a la presencia del portugués principalmente, y en
menor medida frente a algunas lenguas indígenas y diversas lenguas
de las colectividades de inmigrantes en el Alto Paraná.
El portugués como lengua del coloniaje disloca los sentidos y
consolida una ideología que se halla implícita no necesariamente en
la lengua sino en el modo de hacer y estar de una Mayoría de sus
hablantes –mayoría no en el sentido de cantidad sino en señal de su
fuerza autoritaria-; en el habla cotidiana las señales de esta dislocación
ofrecen oportunidades creativas –porque siempre ha habido mezclas,
y la idea de “pureza”, de identidad previa impoluta es un construc-
to muy fácil de desestabilizar-, pero también construye relaciones

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 177

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 177 29/04/14 18:58


subordinantes y hace que el hueco del hogar elegido sea habitable
sólo de una manera, excluyendo otros modos de estar en el lugar.
¿Calificarlos como mejores o peores? ¿Cómo puede la tierra no
ser suficiente para modos de hacer “poco productivos” en manos
de poca gente y a su vez ser insuficiente para prácticas “altamente
productivas” en manos, también, de poca gente?

Distancias

Querés forzar una traducción. Si distanciar es, como dice Didi-


Huberman “mostrar, es decir adjuntar, visual y temporalmente,
diferencias” (2008, p.78), ¿qué es lo que nos muestran los textos
fronterizos oscurecidos en la forma? ¿De qué diferencias da cuenta
esta poesía polifónica e intolerable?
Encontrás en otra poesía –milenaria ésta e igualmente contempo-
ránea– una ejecución de las distancias, muy diferente por cierto, pero
que, quizás, pueda arrojar cierta claridad con respecto al poder
de conjuro de la palabra en-clave: En el guaraní ˜ pá1 existen un
lenguaje cotidiano y un lenguaje religioso, que coincidiría con
el lenguaje estético. Dice Arístides Escobar que “el lenguaje puede
oscurecerse, hacerse muy complejo y hasta dificultar la comunicación
misma” (ESCOBAR, 2012, p. 67):

El guaraní cuenta con palabras shamánicas incomprensibles que son


puro sonoridad, leve sonido; en algunas ocasiones son mera sugeren-
cia y su significado resulta esquivo: apenas se vislumbra, brilla y, de
pronto, se va. No puede ser atrapado: es la contracara de lo que sería
el lenguaje claro y cotidiano, en que cada palabra puede significar algo
y mediante el cual nos comunicamos e integramos al cuerpo social.
A medida que el lenguaje se acerca a lo sacro remite a más rincones
del pensamiento humano; se aparta la palabra de su linealidad y se
vuelve críptica, pero más rica y potente: se hace poesía (Ibídem).

Pensás que quizás el cripticismo que alcanzan las obras de los


autores fronterizos que se dicen en los intersticios de las lenguas
mezcladas podrían hacer destellar algo abrumador pero muy difícil de

178

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 178 29/04/14 18:58


capturar, y que sólo podés conocer mediante una traducción. Querés
imaginar la distancia de esa sonoridad, el silencio que inscribe, a la
manera en que Rancière piensa la distancia entre el ignorante y el
saber del maestro. Conocer para:

practicar mejor el arte de traducir, de poner sus experiencias en pala-


bras y sus palabras a prueba, de traducir sus aventuras intelectuales
a la manera de los otros y de contra-traducir las traducciones que
ellos le presentan de sus propias aventuras (RANCIÈRE, 2011, p. 18).

Leés estos textos y en ellos se cifra una tensión real. Hay una
referencia que aparece distanciada y se nombra oblicuamente –como
nombra la poesía, pero como nombra el lenguaje en general–. Pensás
en Derrida quien sugiere que a veces el silencio puede devenir voz,
la interrupción de la alocución como la propia alocución, pero quizás
otra cosa: este montaje podría transgredir las posiciones consignadas
a las mismas – cifradas en el estatus y en la jerarquía–, no sólo en
un objeto como lo es el libro, canonizante del decir, sino en el lugar
donde se elabora toda habla: un territorio.
No siempre te resulta posible leer los significados. Los signifi-
cantes, sin embargo, son altisonantes, hablan más fuerte: antes que
la imagen de un espacio, la forma de la poesía puede representar
el tenso movimiento de los signos, las posiciones, los poderes, los
espacios fronterizos. Son el otro nombre, el apodo de un lugar: igual
que el polvo.

Referencias Bibliográficas

BOGADO, Cristino. (2011, 11 de mayo). El ser de Kanese: Curazäo Kastellano


y Guaraní Paraguayo. Recuperado el día 1 de agosto de 2013 de http://kurupi.
blogspot.com/2011/03/kanese-en-cartonerita-nina-bonita.html

DELEUZE, Gilles y Félix Guattari. “¿Qué es una literatura menor?”(,) en Kafka.


Por una literatura menor. Jorge Aguilar Mora (trad.). México: Ediciones Era, 1978.

DERRIDA, Jacques. Schibboleth. Para Paul Celan. Jorge Pérez de Tudela


(trad.). Madrid: Arena Libros, 2002

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 179

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 179 29/04/14 18:58


DIDI-HUBERMAN, Georges. Cuando las imágenes toman posición. Madrid:
Antonio Machado, 2008.

ESCOBAR, Arístides. Tesapé. Territorio, lengua y frontera. Asunción: Centro


de Artes Visuales/Museo del Barro y FONDEC, 2012

MELIÀ, Bartomeu. Una nación, dos culturas Asunción: Centro de Estudios


Paraguayos “Antonio Guash”, 1997.

MONTESINO, Jorge. (2008, 12 de febrero). De cómo Andrés Colmán Gutiérrez


pretendió ser dueño de carro ajeno. Recuperado el día 1 de agosto de 2013 de
http://jorgemontesino.blogspot.com/2008/02/de-cmo-andrs-colmn-gutirrez-
pretendi.html

RANCIÈRE, Jacques. El espectador emancipado. Buenos Aires: Manantial, 2011.

180

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 180 29/04/14 18:58


LEITURA IMAGINÁRIA DA TRÍPLI C E FRONTEIRA

Diana Araujo Pereira*


1
(UNILA)

Cada lugar es la frontera de otro lugar,


cada ser humano es la frontera del otro.
(Fernando Ainsa)

Introdução

“¿Qué es una frontera? ¿Tiene sentido seguir hablando hoy de


fronteras, en un mundo globalizado, interdependiente e interco-
municado como el nuestro?” Com esta pergunta o crítico uruguaio
Fernando Ainsa abre a terceira parte do seu livro Del Topos al Logos:
Propuestas de Geopoética (2006), dedicada à reflexão sobre as fron-
teiras. Este espaço, que oscila entre o âmbito territorial e o simbólico,
vem preocupando cada vez mais a crítica cultural latino-americana,
suscitando debates que se não se encaminham para uma unanimidade,
coincidem em avaliar as fronteiras como “laboratórios” sociais, nos
quais a dimensão cultural assume um caráter cada vez mais político
e politizador das relações regionais.

* Professora de Literatura Latino-Americana da Universidade Federal da


Integração Latino-Americana (UNILA). É Doutora em Literaturas Hispânicas pela
Universidade Federal do Rio de Janeiro, com período de Doutorado Sanduíche
(Capes) na Universidad de Sevilla. De 2008 a 2010 realizou estágio pós-doutoral
na UFRJ. É tradutora e poeta. Colaborou em diversos livros de crítica literária
e tem vários artigos publicados em revistas especializadas.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 181

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 181 29/04/14 18:58


Mas o que significa pensar a fronteira como laboratório da pós-
-modernidade (García Canclini, 2000), ou pensá-la como “lugares
estratégicos para configurar nuevas relaciones entre las sociedades y
las culturas”? (Grimson, 2010, p. 62). Na medida em que os projetos
de integração regional, tradicionalmente voltados para o âmbito eco-
nômico, mostram-se insuficientes, as relações culturais nas fronteiras,
construídas entre as identificações e as identidades, mostram-se mais
capazes de abranger a complexidade das relações sociais contempo-
râneas, tão fortemente marcadas pelas transnacionalizações e pelas
migrações – o que demanda novas concepções para a relação antes
tão estreita entre cultura e território.
De fato, em qualquer cidade do mundo existem fronteiras que
demarcam, por exemplo, bairros como territórios sociais diferentes;
ou seja, através do conceito de fronteira podemos explorar quaisquer
linhas divisórias entre grupos ou classes sociais. E, em última instân-
cia, até mesmo a antiga discussão sobre a alteridade também poderia
pensar a relação entre o eu e o outro baseada na ideia de fronteira
como a membrana que separa e ao mesmo comunica os indivíduos,
como afirma Ainsa na epígrafe acima.
No entanto, as fronteiras geográficas acumulam todas estas
possíveis concepções de fronteira (entre grupos, classes, territórios
ou indivíduos) embora levando o seu potencial divisório e também
transgressor (os dois extremos que a configuram) a um nível maior
de intensidade. Ora limitar-se na fronteira e ora transgredi-la – de
maneira concreta ou simbólica – são movimentos que formam a
dinâmica pendular e ambígua da realidade mais cotidiana de quem
habita uma região de fronteira geográfica.
Portanto, torna-se cada vez mais necessário problematizar o con-
ceito mais simples de fronteira como construção geográfica que define
uma linha divisória entre nações, e que se sobrepõe a imaginários
e processos históricos compartilhados, impondo restrições territoriais e
identitárias voltadas ao Estado Nacional. A esta abordagem1 devemos
somar outra forma de entender a fronteira como lugar de passagem,
trânsito e circulação de mercadorias, seres, ideias, línguas e práticas
sociais que criam novas territorialidades, ou seja, novas paisagens

182

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 182 29/04/14 18:58


(Santos, 2008) com características próprias e particulares. O limite
imaginário da fronteira em contraposição à prática social articulatória
que gera hibridações em diversos âmbitos culturais.

Fronteiras e Cultura

Como conclusão de uma longa obra dedicada ao pensamento geo-


gráfico, no seu último livro, Milton Santos (2008, 96) definia o território
como “o resultado da superposição de um conjunto de sistemas naturais
e um conjunto de sistemas de coisas criadas pelo homem. O território é
o chão e mais a população, isto é, uma identidade, o fato e o sentimen-
to de pertencer àquilo que nos pertence.” A tal espaço de identidade
associava uma “solidariedade orgânica”, marcada por “solidariedades
horizontais internas, cuja natureza é tanto econômica, social e cultural
como propriamente geográfica.” (Santos, 2008, 109-110).
No entanto, uma concepção mais móvel do território vai se impon-
do desde a década de 70, em grande medida associada ao conceito de
“desterritorialização” utilizado por Deleuze e Guattari, até ganhar novos
sentidos ao ser cada vez mais incorporada pela crítica cultural. Na década
de 90, tanto o antropólogo Néstor García Canclini quanto o filósofo Felix
Guattari (entre outros) propunham, complementarmente, a abordagem
do território a partir das dinâmicas de subjetivação deflagradas na ve-
locidade das relações socioculturais contemporâneas. García Canclini
(2000) nos incita a “desterritorializar” e a “descolecionar” as vinculações
identitárias consagradas pela memória histórica forjada pela nação, como
possíveis procedimentos “para entrar e sair da modernidade”; como
“poderes oblíquos” que nos permitem saltar o cerco das fronteiras mais
estritas, a fim de valorizar os processos de hibridação que se impõem
sobre as culturas, tanto em sentido coletivo como individualmente.
Na mesma linha, Guattari (2008, 14) também nos impele a pen-
sar em termos de territórios existenciais territorializados e universos
incorporais desterritorializados: “[...] parece indicado forjar uma con-
cepção mais transversalista da subjetividade, que permita responder
ao mesmo tempo a suas amarrações territorializadas idiossincráticas
(Territórios existenciais) e a suas aberturas para sistemas de valor

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 183

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 183 29/04/14 18:58


(Universos incorporais) com implicações sociais e culturais.” Para
este autor, o “universo incorporal” é uma instância da subjetividade2
individual (mas que também pode ser pensado em termos de corpo
coletivo) que se organiza mais ou menos vinculada ao território, no
sentido miltoniano.
De alguma forma, o território – e as práticas econômicas, políticas,
artísticas e culturais que o demarcam – está no centro do pensamento
contemporâneo, desde as questões de geopolítica até as mais recentes
propostas de geopoética3. Neste sentido, o território – sempre pensa-
do como o “chão” de Milton Santos, mas também como a tessitura
subjetiva que carregamos e que é passível de hibridações – fornece o
arsenal simbólico das identidades contemporâneas, e permite à crítica
estabelecer um objeto de análise, um recorte através do qual com-
preender os mecanismos e as dinâmicas que criam as polifonias e as
heterogeneidades atuais, assim como certas tendências de resistência
essencializadora (Grimson, 2010).
Neste âmbito mais amplo do território, encontra-se a atenção reno-
vada para as fronteiras, “laboratórios” que tornam ainda mais complexos
os mecanismos e processos de desterritorialização e reterritorialização
que marcam nossa contemporânea relação entre tempo e espaço
(Canclini, 2000). Tais processos baseiam-se nos fluxos, nos movi-
mentos que rompem a linearidade da tradicional relação entre cultura e
território. As produções simbólicas são “realocadas”, “relocalizadas” nas
sociedades contemporâneas, normalmente de forma relativa, parcial e,
muitas vezes, híbrida e fragmentada. Mas até mesmo aqueles que não
se movem, que não fazem nenhum tipo de migração, estão também
expostos a tais reterritorializações, na medida em que interagimos com
um número muito grande de referentes simbólicos e bens culturais,
sobretudo através dos meios de comunicação e das novas mídias.
A fronteira – interpretada como “laboratório” sociocultural –
emerge em um momento histórico que demanda pensar a cultura
não como acessório, mas como prioridade para a reflexão dos novos
fenômenos que se dão no contexto sociopolítico contemporâneo.
Michel Maffesoli (1990, 21), no final da década de 80, já afirmava que
a cultura “[...] actualmente está en trance de imponerse al enfoque

184

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 184 29/04/14 18:58


económico-político.” Uma década depois, novas vozes somavam-se a
esta perspectiva, como é o caso do sociólogo Andrea Semprini (1999,
9) que afirma que o debate cultural chega a ser “um importante in-
dicador da crise do projeto da modernidade”, já que “ao colocar à
modernidade a questão da diferença, o multiculturalismo ultrapassa a
especificidade de qualquer contexto nacional e propõe um sério desafio
de civilização às sociedades contemporâneas.” No mesmo período,
o crítico Teixeira Coelho (2000, 10) vai mais longe ao afirmar que,
de fato, é o paradigma cultural que determina, inclusive, as opções
econômicas. A cultura, portanto, como “cimento” e “catalisador” da
convivência social e do sentido de comunidade.
A diversidade (étnica, linguística, regional, etc.), plenamente ins-
taurada na contemporaneidade, sobretudo pelos fluxos migratórios,
reforça este novo cuidado com o tema cultural que congrega pensado-
res dos mais diversos âmbitos, desde a psicanálise até a sociologia ou
a economia. O que se impõe é a reflexão sobre os paradigmas sobre
os quais se rearrumam as comunidades – ou as novas tribos urbanas
– em um contexto comunicacional que promove a circulação das
palavras, do capital simbólico, dos bens culturais; e, sobretudo, um
contexto que forma a arena onde se dão as disputas pela legitimidade
das representações e do conhecimento.
Guattari (2008, 169), por exemplo, afirma que “o ser humano
contemporâneo é fundamentalmente desterritorializado”; ou seja,
“[...] seus territórios etológicos originários – corpo, clã, aldeia, culto,
corporação... – não estão mais dispostos em um ponto preciso da
terra, mas se incrustam, no essencial, em universos incorporais. A
subjetividade entrou no reino de um nomadismo generalizado.”
Subjetividades que, de fato, extrapolam o contexto pessoal ou
familiar e entram em circulação através de práticas socioculturais que
compõem, em sentido amplo, a reorganização do espaço individual
dentro de uma coletividade cada vez mais pensada em termos de
diversidade. A dimensão ontológica do indivíduo em estreita rela-
ção com o território e as tramas culturais que permeiam as redes de
convivialidade das sociedades contemporâneas; portanto, um sujeito
“entre-autosuficiente” (Maffesoli, 2009, 111).

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 185

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 185 29/04/14 18:58


Em tempos de globalização e trânsitos cada vez mais intensos, a
subjetividade – tão importante para a ideia de individualidade sobre a
qual se estruturou a modernidade – negocia constantemente seu papel
junto àquela “solidariedade orgânica” que instaura novos laços e cumpli-
cidades a partir de novas agregações sociais: “la cotidianidad se funda en
una serie de libertades intersticiales y relativas.” (Maffesoli, 1990, 54)
Tais relações – que não se eximem da tensão inerente às negociações
cotidianas dos espaços de poder em nível individual e coletivo – são ain-
da mais intensificadas nas regiões de fronteira geográfica. Estas regiões
ganham em complexidade e podem ser vistas como laboratórios experi-
mentais, cuja ênfase nos trânsitos e circulações variados transforma-as
em espaços privilegiados para a observação da diversidade e, de forma
mais explícita, das conflitivas e ricas dinâmicas de diálogo e hibridação
cultural. Como afirma Ainsa, “la frontera genera expresiones culturales
y relaciones de intercambio basadas en la disponibilidad recíproca de
los espacios que separa, porque la noción de frontera contiene en sí
misma sus límites y sus errancias.” (AINSA, 2006, p. 230).
Fronteira como linha demarcatória que une e separa, cada vez
mais pensada em termos de porosidade; espaço que permite o pensar
e o viver “através”, em um entre-lugar demarcado por variados ritos
cotidianos. Lugares que impõem um aprendizado para o corpo social,
para as tramas coletivas e também individuais, onde o espaço vivido é
constantemente marcado pela ambiguidade que o fundamenta: no qual
se aprende a viver a proteção da segurança impressa pela identidade
(étnica e/ou nacional) e as necessárias e cotidianas negociações que
enfatizam a flexibilidade e a permeabilidade. É fundamental pensar a
fronteira como um espaço privilegiado para as relações interculturais:

[…] Por interculturalidade compreende-se aqui não uma posição


teórica, nem tampouco um diálogo de/e/entre culturas […], no qual
as culturas se tomam como entidades espiritualizadas e fechadas;
senão que interculturalidade quer designar, antes, aquela postura
ou disposição pela qual o ser humano se capacita para, e se habitua
a viver “suas” referências identitárias em relação com os chamados
“outros”, quer dizer, compartilhando-as em convivência com eles. Daí
que se trata de uma atitude que abre o ser humano e o impulsiona a

186

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 186 29/04/14 18:58


um processo de reaprendizagem e recolocação cultural e contextual.
É uma atitude que, por nos tirar de nossas seguranças teóricas e
práticas, permite-nos perceber o analfabetismo cultural do qual nos
fazemos culpáveis quando cremos que basta uma cultura, a “própria”,
para ler e interpretar o mundo (Fornet-Betancourt, 2004, 13).

A associação entre fronteira e interculturalidade, no contexto


latino-americano, vai ficando mais clara, e talvez justifique o interesse
da crítica por este espaço tão marginalizado durante décadas. Relações
interculturais que não eludem a tensão e o conflito; ao contrário, ao
enfrentá-los constituem atitudes deflagradoras de uma vitalidade cole-
tiva, alimentadas pela “centralidade subterrânea informal” que escapa
da lógica mecanicista e privilegia a Potência das relações socioculturais
que, “mediante la abstención, el silencio y la astucia se opone al Poder
de lo económico-político”. (Maffesoli, 1990, 25).

UNILA Cartonera – ler a paisagem

Uma das formas possíveis de aproximação a qualquer lugar é através


da observação dos seus relatos, das narrativas que compõem a sua car-
tografia imaginária e que seguem seus próprios percursos. Como afirma
Michel de Certeau (2009, 183), “os relatos, cotidianos ou literários, são
nossos transportes coletivos.” Neste sentido, tocar a fronteira, caminhar
por ela, atravessar suas pontes é, também, um exercício de leitura. Parte-
se da cartografia urbana para alcançar uma cartografia imaginária, cons-
truída sob os pés – “os jogos dos passos moldam espaços” (Certeau,
2009, 163) – e através da observação dos discursos e imagens que se
entrecruzam, formando uma paisagem natural e social particular.
A UNILA Cartonera surge neste contexto (como fruto da necessidade
investigativa de aproximação a este lugar), primeiramente associada
ao Clube de Leitura Ñe’e Poty (“palavra que floresce” ou “poesia”, em
guarani), realizado mensalmente ao longo de 2011 em Foz do Iguaçu,
como parte do projeto Literatura e Cultura como espaços de integração
da universidade no projeto latino-americano (Programa de Educação
Tutorial do MEC/2010-2013). Portanto, aqui me permito introduzir o meu
próprio relato, meu processo de “apropriação” da paisagem trifronteiriça.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 187

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 187 29/04/14 18:58


Esta editora artesanal e independente segue os princípios ampla-
mente difundidos pelas mais de 80 editoras cartoneras da América
Latina, que publicam livros com material reciclável e a baixo custo.
Pretende somar-se aos poucos espaços de circulação literária que
existem na região4:

“Editoras” alternativas e artesanais vinculadas a grupos que se autorre-


gulam pela economia solidaria, pelo sistema cooperativo. Os coletivos
cartoneros são, em última instância, um exemplo de tal insubordinação
que tenta contra-atacar a lógica do mercado e seu sistema financeiro,
pois permitem a publicação e a leitura de todos que tenham muito
interesse e pouco (ou muito, não importa) dinheiro, democratizando
o acesso a este suporte livresco tão elitista em muitos sentidos.”5

Como afirmamos em todas as suas edições: O projeto UNILA


Cartonera teve seu início durante o VI Congresso Internacional
Roa Bastos, em setembro de 2011, com uma oficina oferecida por
Washington Cucurto, poeta emblemático e fundador da primeira
experiência cartonera – a Eloísa Cartonera, de Buenos Aires. Em
sentido amplo, vem para somar-se à rede latino-americana de proje-
tos irmãos, com o objetivo de ampliar a possibilidade de publicação,
democratizando a prática da leitura através da inclusão de setores
sociais até então completamente distantes do mercado editorial, seja
como produtores ou consumidores.
Parte de um projeto educativo e investigativo, a UNILA Cartonera
foi implementada com alguns objetivos: 1. Promover práticas de co-
nhecimento envolvendo os âmbitos da tradução e da literatura; 2. Criar
redes de leitura e intercâmbio cultural na Tríplice Fronteira, através da
produção de livros artesanais, associando a leitura a um processo de
dimensões interculturais mais concretas; 3. Promover a reflexão sobre
a cultura, em sentido amplo e 4. Criar espaços culturais de incentivo
à criação e difusão literárias, porém associados à sua territorialidade
fronteiriça; ou, em outras palavras, promover e difundir uma escritura
ancorada na fronteira – seja ela geográfica ou simbólica –, em estreita
relação com a problemática analisada anteriormente sobre a territo-
rialidade e seus contemporâneos processos de desterritorialização e

188

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 188 29/04/14 18:58


reterritorialização. Uma proposta, enfim, que se inclui na perspectiva
da geopoética, para a qual a literatura deve ser “fundada en la memoria
que su trama urbana es capaz de condensar [...], donde se redimen-
siona la perdida noción de genius loci y se sientan las bases de una
nueva ‘arquitectura espiritual’”. (AINSA, 2006, 142)
Assim, para alcançar tais objetivos, promovemos dois concursos
literários – o primeiro aberto apenas à comunidade acadêmica da
UNILA, e o segundo aberto a toda a comunidade interna e externa.
O primeiro número – Relatos em fronteira – nasce como resultado do
I Concurso Literário realizado nos limites da comunidade acadêmica,
mas com a clara intenção de fugir de tais limites ou, por outro lado,
de procurar reconhecer que dentro destes limites há um microcosmo
plurilingue e multicultural, suficientemente abrangente para chegar a
representar a região e o contexto no qual estamos inseridos: a Tríplice
Fronteira. Lembramos que, neste momento, a comunidade acadêmi-
ca da UNILA (principalmente no âmbito discente) era composta por
brasileiros, paraguaios, uruguaios e argentinos.
Com a intenção de ampliar o foco da fronteira para além da
geografia, no segundo concurso literário a chamada divulgada pelo
site da UNILA fazia clara alusão a este objetivo, e o tema era Entre
mundos: “Viver em trânsito, construindo redes e fluxos de saberes
diversos. Este viver contemporâneo, nômade e plural. A ideia do
tema é também promover a reflexão de uma fronteira que não é só
geográfica, mas de culturas e línguas, por exemplo. A experiência de
estar neste lugar que são muitos lugares.”6
Paralelamente, em 2012 o Clube de Leitura torna-se itinerante
(realizado em livrarias nas três cidades fronteiriças), e a leitura será
acompanhada da criação in situ dos livros que, no final do evento,
deverão ser levados para casa pelos assistentes.
A leitura que propomos das duas edições da UNILA Cartonera –
Relatos em fronteira e Entre mundos –, frutos destes concursos literários
(2011 e 2012), privilegia um claro propósito: observar como a Tríplice
Fronteira aparece retratada pelos seus próprios moradores; e, por outro
lado, como a ideia de fronteira, em termos mais amplos, insere-se na
subjetividade dos sujeitos comuns, dos narradores ou poetas que não

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 189

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 189 29/04/14 18:58


se incluem naquela perspectiva romântica da arte, da genialidade do
artista; mas que expressam a experiência discursiva e imaginária da
territorialidade, da fronteira em sentido geográfico ou metafórico.
Escritores, enfim, da cotidianidade e do anonimato que, no
entanto, reivindicam o direito de participação na construção de
uma polifonia (no sentido bakhtiniano, de uma multiplicidade de
consciências-vozes) que seja capaz de criar, neste lugar geográfico e
sociocultural, um campo de experimentação artística ligado à escrita
literária. Segundo Certeau (2009, 61), “o enfoque da cultura começa
quando o homem ordinário se torna o narrador, quando define o lugar
(comum) do discurso e o espaço (anônimo) de seu desenvolvimento.”
Mas a UNILA Cartonera tem mais duas edições que correspon-
dem ao período do projeto (2010-2013) – Contos/cuentos/mombe’u
de Horacio Quiroga e Contos/cuentos/mombe’u de Machado de Assis
– também realizadas paralelamente ao Clube de Leitura, e ligadas a
uma produção literária mais canônica: dois autores de reconhecida
importância na historiografia literária do continente.
Duas produções ligadas aos concursos literários e duas produções
ligadas a autores já consagrados pela crítica. Objetivos diferentes,
mas complementares: observar e apreender a paisagem através da
escrita literária, aquela que privilegia o imaginário coletivo, que se
submerge na complexa relação entre subjetividade e sociabilidade,
entre o “eu” e o “outro”. Por outro lado, além das edições que
privilegiam o âmbito literário, a UNILA Cartonera promoveu, junto
com o GIRA (Grupo de Pesquisa Interdisciplinar em Racionalidades,
Desenvolvimento e Fronteiras – UNILA), as três edições cartoneras
da Revista Digital Orbis Latina.
A UNILA Cartonera pretende, portanto, promover um ambiente
artístico-cultural no qual a literatura seja um lugar onde “la dimensión
ontológica del espacio integra la dimensión topológica como parte de
una comunicación y tránsito natural del exterior al interior y viceversa,
entre presente y memoria, entre lugares vividos y espacios inéditos”.
(AINSA, 2006, 142)
Além de promover espaços de diálogos interdisciplinares e de fomen-
tar a aproximação da literatura e do pensamento acadêmico investigativo

190

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 190 29/04/14 18:58


aos setores mais amplos da sociedade, como as bibliotecas públicas, por
exemplo, através da UNILA Cartonera procuramos reconhecer que os
horizontes desta região trifronteiriça acomodam a experiência de habitar
tempos e espaços diversos, e que sonham em criar uma territorialidade
própria, híbrida, tão física quanto subjetiva ou simbólica.
A escolha de Horacio Quiroga, autor uruguaio radicado na
Provincia de Misiones, em San Ignacio (pequena cidade vizinha à
Puerto Iguazu), vem respaldar as intenções já comentadas. Em maio
de 2012, propusemos ao grupo a publicação de um autor que fosse
de interesse para a região, que representasse o imaginário local, re-
velando mais do que sua paisagem selvática ou imersa nas águas das
cataratas e dos rios que cortam as três cidades; um autor que falasse,
também, da sua paisagem humana e social. Neste contexto, Horacio
Quiroga surgiu naturalmente, pois ele havia sido lido e analisado no
ano anterior, com o Clube de Leitura. Esta edição conta com o texto
de apresentação reproduzido abaixo:

HORACIO QUIROGA, Cuentos, Contos, Mombe’u – o segundo volume


da UNILA Cartonera – traz para a comunidade da Tríplice Fronteira
a oportunidade de ler sua região, seu contexto e idiossincrasias,
através da escrita de um dos grandes autores da literatura latino-
-americana. Uma região rica em personagens e linguagens, cujos
conflitos de ordem histórica e sócio-política não diminuem em nada
sua diversidade cultural, transformada em hibridação de línguas e
imaginários. A obra de Horacio Quiroga é um claro exemplo de como
a literatura e as artes em geral se apropriam da riqueza do continente,
para transformar seus possíveis conflitos em criatividade e espaços
de diálogo, comunicação e autoconhecimento.

Quiroga (1878-1937), que começa como um “señorito” que viaja a


Paris em busca da inspiração artística de sua época, termina escreven-
do contos “a puño limpio”, como ele dizia, antecipando a literatura
regionalista ou “da terra” e os procedimentos linguísticos e narrativos
que não tardarão em dominar o cenário das letras latino-americanas.
Para “(d)escrever” a terra de Misiones e a dinâmica da fronteira entre
os três países, ele se despe do imperativo vigente e encontra uma

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 191

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 191 29/04/14 18:58


“imperfeição” estilística (para o cânone da época) plenamente eficaz
para dar conta do contexto no qual está inserido.

Sempre em diálogo com os bolsistas, propusemos a sua tradução


do espanhol para o português, a fim de tornar a leitura acessível às
três cidades. Qual não foi a nossa surpresa quando um dos bolsistas
brasileiros (aluno do curso de Letras – Artes e Mediação Cultural)
propôs a sua tradução também ao guarani, fato que seria inédito na
historiografia literária latino-americana.
Aceitamos o desafio, entendendo-o como parte de uma política
linguística cada vez mais clara, de inserção do guarani em uma relação
de igualdade com o espanhol e o português; reconhecendo, portanto,
a importância cultural e a dimensão artística e estética desta língua.
Formamos, então, uma pequena equipe: estudantes paraguaios de
vários cursos, com a colaboração do professor de guarani da UNILA,
Mario Ramão, que realizou a revisão final. Depois desta primeira
experiência, o volume dedicado a Machado de Assis não poderia ser
diferente. Temos, portanto, outro fato inédito na literatura latino-
-americana: a tradução de um conto de Machado de Assis ao guarani.
Aqui cabe um pequeno esclarecimento a respeito da importância
da tradução em todo este contexto: historicamente, o processo tradu-
tório pode ser compreendido como o modus operandi por excelência
do Novo Mundo, ou seja, como uma prática inerente à constituição
histórica e ontológica da América Latina e, por isso mesmo, fundamen-
tal para a compreensão das relações sociais e culturais da atualidade:

Al día siguiente de la conquista, el mundo poscolombiano empezaba


en un acto de traducción: en las versiones parciales y lecturas cruzadas
de los hechos. El sujeto del Nuevo Mundo, que había aprendido a
hablar y leer en el lenguaje del Viejo Mundo, era ya el intérprete de
un traducir permanente. Y éste es el gesto que definirá la temprana
modernidad del sujeto de las Américas. (ORTEGA, 2010, 167)

A atividade tradutória não é apenas coerente como também


necessária à prática intercultural, pois estabelece a experiência con-
flitiva, embora rica e criativa, da “vivência da impropriedade dos
nomes próprios com que nomeamos as coisas”, como explica Raúl

192

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 192 29/04/14 18:58


Fornet-Betancourt (2004, 13): “Interculturalidade é a experiência de que
nossas práticas culturais devem ser, também, práticas de tradução.”
Para estimular o interesse dos bolsistas para a árdua tarefa de
tradução de contos de Horacio Quiroga – ao português e ao guarani
– realizamos uma pequena viagem a casa-museu do escritor, a fim de
que o cenário natural e subjetivo transmitido pelas suas narrativas,
claramente ligadas à paisagem da fronteira argentina, se tornasse mais
visível, perceptível, para os novos tradutores de sua obra. Tradução,
portanto, como processo de reelaboração da expressão do outro em
expressão própria e vice-versa, fundamental para a constituição deste
“lugar” trifronteiriço como um espaço vivido, onde o “sujeito comuni-
tário” que o habita exercita, constantemente, o diálogo em e com seu
correspondente mundos vitae. (Fornet-Betancourt, 2004, 101)
Nas três cidades onde realizamos a edição deste Clube de Leitura
dedicado a Horacio Quiroga, e associado à confecção dos livros pela
UNILA Cartonera, contamos com grande participação de moradores
locais, além de alunos e professores da UNILA. Em Puerto Iguazu,
no lado argentino, o êxito foi enorme: contamos com a presença de
escritores residentes nesta cidade, todos emocionados de verem tão
valorizado um escritor que, naquele lugar específico, tem enorme
representatividade. Já em Ciudad del Este, no lado paraguaio, os
comentários posteriores à leitura voltaram-se mais para a tradução
ao guarani, e para o debate sobre a relação ambígua e contraditória
do país com respeito a esta língua.
O quarto volume publicado pela UNILA Cartonera, em 2013,
é dedicado ao grande narrador Machado de Assis (1839-1908).
Ainda que a apresentação (assinada por Marco Roberto de Souza
Albuquerque, aluno do curso de Letras – Artes e Mediação Cultural
e bolsista do projeto) privilegie certa relação entre os dois autores,
enfatizando a continuidade “natural” que poderia relacioná-los –
a mata atlântica –, é facilmente perceptível que a paisagem (em
sentido miltoniano7) sobre a qual se debruçam as preocupações e di-
lemas literários de Machado de Assis não é, em absoluto, semelhante
àquela que alimenta o imaginário da obra de Horacio Quiroga. Este
(d)escreve a natureza da selva, do rio, dos “ex-hombres”, como ele

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 193

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 193 29/04/14 18:58


mesmo se refere aos forasteiros que, por alguma razão, permaneciam
na fronteira e se juntavam para formar essa paisagem tão particular.
Já Machado de Assis percorre as estreitas ruas da cidade finissecular,
e seus passos reconstroem – para nós, leitores – as tramas urbanas
da capital do Brasil.
No entanto, Machado de Assis cria um contraponto com Horacio
Quiroga, o que estabelece uma interessante relação complementar
entre estes dois números, dentro do âmbito literário. Ambos os au-
tores se tocam no cuidadoso estilo despojado dos adornos que ainda
impregnavam a escrita literária na virada do século XIX e início do
XX. E ambos são considerados pela crítica como os fundadores do
conto moderno – em português e em espanhol – na América Latina.
Também compartilham certa crueza narrativa e um realismo que
conecta o leitor a dois cenários diferentes, mas que se tocam em um
ponto fundamental: o ser humano – com seus temores e pesares, dores
e angustias – em relação com a paisagem que o cerca (e que ajuda a
compor), seja ela urbana ou selvática.
Já a leitura dos textos que compõem os dois volumes realizados a
partir dos concursos literários assinalam algumas direções, indicam cami-
nhos que deverão ser mais percorridos para de fato chegarem a compor
a cartografia imaginária que pretendemos. Novos Concursos Lite­rários8
– assim como a observação de outras linguagens artísticas escritas ou
orais, em formatos e suportes diversos – deverão continuar alimentando o
corpus necessário para a composição da geopoética da Tríplice Fronteira.
No primeiro número – Relatos em fronteira (2011) – há duas compo-
sições claramente ligadas à experiência cotidiana de habitar a fronteira
(e de viver em fronteira). Ambas são narradas em primeira pessoa,
centram-se na diversidade da região e a sua escritura se dá na fronteira
linguística que nos une e separa: “Portuñol és miña língua, miña pátria
és la fronteira”, cujo autor é o poeta Fabio Aristimunho (que assina como
Fávio Bargas), nascido em Foz do Iguaçu, e “Uma viagem, uma história”,
de Daniela Tamara Fernández. Esta tem um formato mais próximo ao
depoimento, e pretende ser uma crônica de um dia cotidiano deste lugar.
Mais interessante é o relato “Portuñol és miña língua, miña pátria
és la fronteira”, ele mesmo tecido como um território composto por

194

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 194 29/04/14 18:58


hibridações linguísticas que certamente determinam uma percepção
mais plural do entorno – o exercício de nomear desliza entre uma
língua e outra e às vezes precisa incorporar também o guarani na
mistura do espanhol com o português, em um esforço de criação
vocabular que é, em última instância, um esforço de cognição, de
compreensão desta realidade que se mostra heterogênea e diversa.
Esforço de transformar o topos em logos, de dizer-escrever-nomear a
paisagem (AINSA, 2006). Como afirmo no prefácio, este relato

tem o ambicioso projeto de retratar, através de uma prosa poética


em portunhol (nada mais coerente) a realidade trifronteiriça que nos
demarca – e marca. Seu autor procura captar o olhar e a língua de
quem vive este lugar cultural, “la frontiera de nós miesmos”, uma
fronteira “que me afronta i me conforta”.

Pelas suas linhas passeia, como passeia pelas ruas da fronteira,


uma enorme variedade de personagens emblemáticos deste lugar:
os engenheiros, os turistas, os estudantes, as vendedoras de chipa9,
os muambeiros, etc... Este conjunto parece ser muito mais relevante do
que as águas da região; a “fauna humana trinacional” são os seres
que a habitam e que a fazem diferente, especial, com uma identidade
própria – trans: “[...] miña identidá és la frontiera [...]. Aquí en la
fronteira todas las personas son un poquito trans: transnacionaes,
transplantados, transculturados”.
O que seu autor nos propõe é o acompanhamento da criação de
uma identidade que singulariza este lugar, ainda que tal identida-
de seja móvel, efêmera, fragmentada: trans. Segundo o Dicionário
Priberam Online, trata-se de um prefixo que significa “além de, para além
de, em troca de, para trás, através.” Ou seja, a identidade da fronteira
escreve-se sobre a sua paisagem e com os passos que caminham por
ela e para além dela. Conforma-se na circulação e no intercâmbio de
bens simbólicos, mercadológicos, culturais. Como o próprio prefixo,
a fronteira se cola em outros substantivos, modificando o seu sentido
para adequá-lo e readequá-lo constantemente.
O segundo número da UNILA Cartonera, fruto do II Concurso
Literário – Entre mundos (2012) –, também conta com dois poemas

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 195

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 195 29/04/14 18:58


claramente ligados ao habitat fronteiriço: “Fronteiras”, de Erick
Cavalcante e “Xirú”, de Gilberto Carlos Macedo.
“Fronteiras”, escrito em português, transforma a realidade coti-
diana em uma espécie de aventura, onde o verbo “descobrir” aparece
reincidentemente, marcando o movimento necessário para dialogar
com as possibilidades oferecidas pelas riquezas do lugar. O poema cria
uma sequência que vai se ampliando: cidade, país, muitas pessoas e,
finalmente, pluralidades forjadas através de uma operação que não
respeita a lógica tradicional, na qual a soma do “eu” e do “outro” é
três, remetendo claramente o seu leitor à realidade trinacional: “Eu
em um mesmo céu,/pensei,/ que um mais um é/ três, e por fim:
Pluralidades infindas por se descobrir.”
O poema “Xirú” – palavra em guarani que significa amigo, mas que
é usada de forma irônica em determinados contextos (como no trânsi-
to, por exemplo) – é mais complexo. O sentido ambíguo desta palavra
(amigo-inimigo) percorre todo o poema, através das imagens que vão
entrelaçando diferentes aspectos da região. A lenda das cataratas dá iní-
cio à composição, e remete-nos a uma mitologia bastante utilizada pela
propaganda turística da cidade (um claro exemplo é o Iporã Lenda Show,
exibido na Churrascaria Rafaim desde 201210), mas dotando a narrativa
de Tarobá e Naipi de um novo sentido, no qual a lendária impunidade
do deus se atualiza na impunidade das autoridades políticas, fazendo dos
jovens em geral – encarnação coletiva de Naipi11 – vítimas de um sistema
que os condena por antecipação: “Em que destino haveremos de cair?...”
Além de encarnarem o vazio social onde os jovens, como Naipi,
tem por destino cair, as cataratas são apresentadas em outro sentido:
o poema brinca com a acepção médica da palavra “cataratas”, levando-
-nos a refletir sobre a cegueira daqueles que veem o espetáculo, mas
não veem a realidade que o circunda12.
Segundo o poema, a cidade de Foz do Iguaçu é parte de uma re-
gião ligada por fatores econômicos, físicos e subjetivos (psicológicos),
cujas conexões “piradas” são dominadas por suas elites – grupos que
se voltam mais para as grandes capitais do que para o seu próprio
território, colhendo “sempre, como resultado a soma: – dos pesadelos
das grandes ‘cidades’”.

196

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 196 29/04/14 18:58


O seu autor nos leva, ainda, a uma “foz... embevecida”, cujas
bonitas imagens servem aos interesses de um “mundo globalizado”
que não reconhece todas as facetas desta paisagem, sobretudo no que
diz respeito ao seu aspecto humano:

pois na TV só aparece as quedas


sem suas rendas
e ausentes de paraquedas.
Elas mostram apenas a nossa água...
sofrida, empalidecida;
numa enxágua
em riste,
que ao cair
fica triste...
contínua
e nua –
parecendo ser de ninguém.
Em resumo... alguém
que apossou da imagem,
fria – frita
as cópias como se fossem prendas
do mundo globalizado

O autor de “Xirú” tem a clara preocupação de denunciar o descaso


das autoridades com os jovens da cidade. Seu poema termina com
uma triste conclusão: “E o pior – por aqui, nós... não tentamos fazer
coisíssima nenhuma.”
Os quatro textos aqui comentados (três deles fazem parte da
Antologia Literária proposta ao final), foram escritos por moradores
locais que têm em comum a necessidade de ressaltar o aspecto huma-
no, sociocultural, da região, em oposição ao trabalho midiático que
sempre relaciona a Fronteira Trinacional (Brasil, Paraguai e Argentina)
a duas imagens extremas: o lugar da maravilha das cataratas ou
o lugar do contrabando e do terrorismo. Entre um e outro certamente
há uma paisagem composta por objetos naturais e objetos sociais
(Santos, 2009), cujo fluxo contínuo não apenas permite, como

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 197

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 197 29/04/14 18:58


também fomenta, toda uma circulação simbólica e subjetiva que pre-
tende transformar esta região em um lugar dotado de singularidade
cultural; além disso, este mesmo fluxo é o que define a cotidianidade
dos seus moradores, seu sentido de comunidade e de pertencimento.
Este imaginário compartilhado reivindica para si um novo status
geopolítico e geopoético: a Tríplice Fronteira como laboratório de rela-
ções interculturais permeadas por conexões e redes que singularizam
a região, tornando-a um centro de ramificações nervosas que partem
em direção a todo o continente.

Referências Bibliográficas

AINSA, Fernando. Del Topos al Logos. Propuestas de Geopoética. Madrid:


Iberoamericana, 2006.

CERTEAU, Michel de. A invenção do cotidiano. Artes do fazer. RJ: Vozes, 2009.

COELHO, Teixeira. Guerras Culturais. SP: Iluminuras, 2000.

CORSINI, Leonora. “Fronteiras, atravessamentos e deslocamentos: desenhan-


do novas cidadanias.” In: Fronteiras e diversidades culturais no século XXI.
RJ: Mauad X: FAPERJ, 2012.

Entre Mundos. UNILACartonera, 2012.

FORNET-BETANCOURT, Raul. Interculturalidade: críticas, diálogo e perspec-


tivas. São Leopoldo: Nova Harmonia, 2004.

GARCÍA CANCLINI, Néstor. Culturas Híbridas. SP: Edusp, 2000.

GRIMSON, Alejandro. “Fronteras, naciones y región”. In: Latinidade da América


Latina: aspectos filosóficos e culturais. SP: Aderaldo & Rothschild, 2010.

GUATTARI, Félix. Caosmose: um novo paradigma estético. SP: Editora 34, 2008.

HORACIO QUIROGA. Cuentos, Contos, Mombe’u. UNILACartonera, 2012.

MACHADO DE ASSIS. Cuentos, Contos, Mombe’u. UNILACartonera, 2013.

MAFFESOLI, Michel. El reencantamiento del mundo. Una ética para nuestro


tiempo. Buenos Aires: Dedalus, 2009.

_________________ . El tiempo de las tribus. El declive del individualismo en


las sociedades de masa. Barcelona: Icaria, 1990.

198

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 198 29/04/14 18:58


PEREIRA, Diana Araujo. “Supervivencia y celebración del libro: La experien-
cia cartonera”. Revista Legenda. Universidad de los Andes. Vol. 17, Nro.17,
Agosto-Diciembre 2013 http://erevistas.saber.ula.ve/index.php/legenda/
article/view/4645

Relatos em Fronteira. UNILACartonera, 2011.

SANTOS, Milton. Por uma outra globalização: do pensamento único à cons-


ciência universal. RJ: Record, 2008.

Notas

1 Há toda uma discussão que divide opiniões acerca do papel de interven-


ção sociocultural do Estado e da relação de pertencimento dos indivíduos na
ideia de nação. Cito Grimson (2010, p. 65): “[...] lejos de entrar en alguna
era ´posnacional´ estamos más cerca de nuevos usos de la nación, incluso
usos cosmopolitas y transnacionales, que aún deben ser estudiados.”
2 Segundo Guattari (2010, 19), a subjetividade é “o conjunto das condições
que torna possível que instâncias individuais e/coletivas estejam em posição
de emergir como território existencial auto referencial, em adjacência ou em
relação de delimitação com uma alteridade ela mesma subjetiva.” E comple-
mentarmente afirma: “A subjetividade não é fabricada apenas através das
fases psicogenéticas da psicanálise ou dos ´matemas do inconsciente´, mas
também nas grandes máquinas sociais, mass-mediáticas, linguísticas, que
não podem ser qualificadas de humanas.” (Guattari, 2010, 20).
3 Há, de fato, uma forte tendência na arte contemporânea de conectar
conceitos vinculados à geopolítica (como é o caso do território associado
aos processos migratórios e de fluxos variados) com a arte, tornando-a
um espaço importante de crítica e reflexão. Dois exemplos recentes são
a Bienal do Mercosul de 2011 – Ensaios de Geopoética – e a Trienal da Tate
Britain de 2009 –  Altermodern. José Roca, responsável conceitualmente
pela 8ª Bienal do Mercosul, afirma que a sua curadoria “está inspirada
nas tensões entre territórios locais e transnacionais, entre construções po-
líticas e circunstâncias geográficas, nas rotas de circulação e intercâmbio
de capital simbólico.”(http://www.bienalmercosul.org.br/novo/arquivos/
release_materia/1315252927.pdf)
4 É importante destacar que a revista Guatá (http://www.guata.com.br/)
editada pelo jornalista Sílvio Campana, circula na região desde 2004. Além
dela, também há um fanzine chamado Adelante, que mistura literatura e
militância política. E, desde 2012, a revista Peabirú (http://www.unila.edu.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 199

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 199 29/04/14 18:58


br/revistapeabiru/) vem realizando uma importante contribuição para a
circulação da produção local.
5 Pereira, Diana A: http://erevistas.saber.ula.ve/index.php/legenda/arti-
cle/view/4645
6 http://unila.edu.br/noticias/ii-concurso-liter%C3%A1rio
7 A paisagem, para Milton Santos, é a soma dos objetos naturais e socioculturais.
8 No momento da escrita deste capítulo, realiza-se o III Concurso Literário
da UNILA Cartonera, que encerra seu período de inscrições em fevereiro de
2014 com um total de 541 inscrições. No entanto, não houve tempo hábil
para que esta terceira produção fosse incorporada aqui, ficando a sequência
pendente de análise (http://unila.edu.br/noticias/cartonera).
9 Chipa é uma espécie de pão de queijo típico do Paraguai e muito consu-
mido na região trinacional.
10 http://www.iporashow.com.br/
11 Segundo consta no site oficial do Parque Nacional (http://www.cataratas-
doiguacu.com.br/portal/paginas/226-lenda-das-cataratas.aspx), “conta-se que
os índios Caigangues, habitantes das margens do Rio Iguaçu, acreditavam que
o mundo era governado por M’Boy, um deus que tinha a forma de serpente
e era filho de Tupã. Igobi, o cacique dessa tribo, tinha uma filha chamada
Naipi, tão bonita que as águas do rio paravam quando a jovem nelas se mi-
rava. Devido à sua beleza, Naipi era consagrada ao deus M’Boy, passando a
viver somente para o seu culto. Havia, porém, entre os Caigangues, um jovem
guerreiro chamado Tarobá que, ao ver Naipi, por ela se apaixonou. No dia
da festa de consagração da bela índia, enquanto o cacique e o pajé bebiam
cauim (bebida feita de milho fermentado) e os guerreiros dançavam, Tarobá
aproveitou e fugiu com a linda Naipi numa canoa rio abaixo, arrastada pela
correnteza. Quando M’Boy percebeu a fuga de Naipi e Tarobá, ficou furioso.
Penetrou então as entranhas da terra e, retorcendo o seu corpo, produziu uma
enorme fenda, onde se formou a gigantesca catarata. Envolvidos pelas águas,
a canoa e os fugitivos caíram de grande altura, desaparecendo para sempre.
Diz a lenda que Naipi foi transformada em uma das rochas centrais das cata-
ratas, perpetuamente fustigada pelas águas revoltas. Tarobá foi convertido em
uma palmeira situada à beira de um abismo, inclinada sobre a garganta do
rio. Debaixo dessa palmeira acha-se a entrada de uma gruta sob a Garganta
do Diabo onde o monstro vingativo vigia eternamente as duas vítimas.”
12 O artista pernambucano Paulo Bruscky realizou uma performance nas
cataratas, em novembro de 2012 (seguida de uma Exposição no Ecomuseu
de Itaipu), trabalhando sobre a mesma ambiguidade do olhar que, em nossa
sociedade saturada de imagens, move-se entre a cegueira e o espetáculo:
“OperAção nas Cataratas Iguaçu”.

200

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 200 29/04/14 18:58


Antologia Literária
Poéticas da fronteira

Portuñol és miña língua, miña pátria és la frontera


De Relatos em Fronteira (2011)

Fávio Bargas

Despertarê jo un dia con estas ruas entrañadas em min. Por


ellas andarê como antes n’otras tantas ruas de la frontiera. Passarán
meos passos como non passassem, como foessem un só i prolongado
espreguiçarse. Non verê las personas que por min passam, non lles
darê pelota a las gurias callexeras nin ellas me la darán. Las árvoles
floridas me farán outoño, non se venderán a min las promocions de las
lojas. Los carros mal los divisarê nel asfalto, lo bermexo nel semáforo
i lo vierde de las follas se mesclando em miñas retinas reposadas.
Passados años los estraños xa non me serán estraños nin estraño lles
serê a elles, sien embargo alguna dificultá em la saludacióm. Xa non
tropeçarê em las raíces que afloram nel camiño nin tampoco pisaré
em falso los aguxeros negros que constelam meo traxeto baxo las
estrellas. Los cachorros non latirán al meo passar. Los filipeteros non
me direcionarán seos bolantes. Los laçadores non me tentarán con
seos puteros. Meos passos alternándose em la indiferéncia, los ollos
de la rua a me acompañar caninos, acecho de sombra. Todos, desde
meos piés haté lo viento, todos coñocedores de meo destino como si
un código de barras. ¡Oh incerteza de solitú que desmotiba los xestos!
¡Oh ladrillos non rebelados a quiém de fôra!

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 201

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 201 29/04/14 18:58


Mas esse instante xa lo bibí. Non lo bibieram por min. Ser ator em
escena condicionado porlos ollos que me bixilam. Meos própios ollos
que me bixilam.
A los sacoleros que converxem de todas partes, a los mercadores
libaneses que facem un prêcio boeno, a la feroz enerxia que canta em
los filos, a las águas salbaxes du Yguassú i domesticadas du Paraná, a
los borrachos binacionaes, a los terroristas incomprobados, a los en-
xeñeros xeniosos, a las chiperas que equilibram la cesta em la cabeça,
a bocês lles dô adiôs; a los brasiguayos latifundiários em Paraguay,
a los brasiguayos sien-tierra nel Brasil, a los profesores forastieros i
los frontieriços, a los estudeantes latinoamericanos sien diñero nel
bolso, a los turistas gringos que xegam d’excursióm, a los xirús ami-
gos con tererê em la mano, a los debotos de la Birxem de Caacupê,
a las kuñakaraí con foego entre las piernas, a los comerciantes chinos
que apenas se comunicam, a bocês lles dô adiôs; a los fablantes de
guaraní i guarará, a los menonitas de la colónia, a los colonos que
tomam leithe quenthe, a los porteños desaculturados, a los polacos
leminskianos de la distante Curitiba, a las alemaniñas facieras de la
Oktoberfest, a los gaúchos de la frente agrícola, a los paulistas que
non entendem, a los catarinas que reinam por un marreco rexeado
con repollo roxo, a los sulmatogrossenses perdidos nel mapa, a los
paranaenses, altoparanaenses i misioneros, a bocês lles dô adiôs;
a los guárdias de la xendarmeria arxentina, a los federaes brasileros,
a los milicos paraguayos, a los muamberos que atiram cigarro de la
poente, a los traficantes presos al acumpliciar los rios, a los indio-
ciños que piedem diñero em la feiriña, a los cobradores de las vans
que cruzam la frontiera, a los mototaxistas que viéem bolando, al
comércio trifrontieriço que circula cinco diñeros, a las tias xogadoras
compulsibas de cassino, a bocês lles dô adiôs; a los que tomam mate
quiente de veróm a veróm, a los que fumam narguile con cachaça,
a los que non confundem sopa paraguaya con cuscús, a los que
non piensam que chipa és un pan de quexo c’un buraco nel mêdio,
a los que voelta i mêdia pirateam una chipá-guassú, a los que nunca
ábriem una cuca sien un café, a los que tomam tê si tiém coquito,
a los que non passam la semana sien un shawarma con pasta de allo,

202

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 202 29/04/14 18:58


a bocês lles dô adiôs; a los laranxas que atrabiessam l’aduana con
lo culo em la mano, a los motoristas de autobusses apreendidos, a
los taxistas que tomam clientes d’otro lado, a los guias de turismo
que nos desbiam de sofismas, a las bellas recepcionistas trilíngoes de
los hotées, a las onças ocultas con fundo falso nel Parque Nacional,
a los cuatís que nos robam la comida por los dexarnos robar, a los
piás i los gurís, los niños i mita’ís, a las meninas i las gurias, las niñas
i mitakuñás, a bocês lles dô adiôs; a los termómetros boladores que
migram d’Amazónia a Patagónia sien escalas, a los bañistas de la
costa oeste i los pescadores du lago, a los produtos falsificados con
etiqueta de la marca requerida, a los compristas que los compram
xustamente por saber lo que compram, a las foerças submersas que
moebem las turbinas d’Itaypú, a las lexendas urbanas i la fauna
humana trinacional, a los que bibem em la frontiera pero non la bi-
benciam piensando estar em Sampavlo, Assuncióm ou Boenossaires,
a los destierrados de cualquer parte, nacionaes, naturalizados ou
importados, a bocês todos jo lles dô adiôs, jo que non valorê lo que
tiña i precisê cotizarlos todos con ollos d’exílio, jo, d’un lado ñeto de
labradores que só sê labrar palabras, de l’otro ñeto de gaúcho que só
adulto fui gustar de chimarróm i ñeto d’una abó que fabulaba portuñol
de nascida, jo, fillo d’una brasilera filla de la frontiera como jo i fillo
d’un refuxiado paraguayo que nunca me prendí al guaraní nin a la
política, jo que fui creado a churrasco i mandioca pero non sê poer
la carne nel espeto, que só fui fablar l’español n’España, que non tiña
una identidá haté que me diê coenta que miña identidá és la frontie-
ra, miña metafísica és radicada em tembe’y, tembe’y de meo papá i
miña mamá i meos abós, fontiera de miña infáncia i de la infáncia de
miña filla, frontiera de meos balores, meos amores, meos sudores,
tembe’y de excessos i comiseracions, frontiera que me afronta i me
conforta, a bocê, tembe’y que és três i és una, a bocê, Triplafrontiera
que imbentô una língua trífida, miña cabeça, meo coracióm, miñas
entrañas a bocê lle dan adiôs.
Como trabaxadores, todos somos un poco a cada dia assessinados.
A cada dia un poco recordados que traemos em nossos cromosso-
mos lo que seríamos porém non fuomos por nossa culpa, poes poco

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 203

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 203 29/04/14 18:58


estudiados. N’esta guerra fiscal contra esfoerçados, nossa enorme
maleta, como pomos de Adán em los trabéstis, nos faria bisíbleis a
la guárdia aduanera, que non libera haté que se tribute todo excesso.
Habitamos la frontiera de nós miesmos, i somos lo matute que és
confiscado un poco a cada dia.
Aquí em la frontiera todas las personas son un poquiño trans:
transnacionaes, transplantados, transculturados. Transformers au-
tobots decepticons con lo chassi raspado i lataria mêdio amassada.
Xa nós otros, los transborders, transamos i transacionamos em la
frontiera: somos putas falsificadas, mixês de aduana, maricones non
declarados, milfs con taxímetro desligado, xiletes trinacionaes bitribu-
tados, lesbianas importadas made in Taiwan, militares con arma em
puño, celíbatos traficantes de amor, transxéneros glbt-sbt, femenistas
terroristas em queima de estoque de sutiânes, pederastas mal pirate-
ados, trabéstis montadas em maquiladoras mexicanas, patriciñas de
frescurita que non recusam una chupada a cobro reverso. Persona
non gratis, cada umno. Transxenerosos, todos. Que em la frontiera
somos todos un pouquito trans.
Nel México existe una língua a la míngua, que tiém dôs fablantes
somiente, persistientes. Los dôs, peleados, non se fablam. I l’acabam.
Al portuñol passa l’oposto: sien un rosto, todo mundo és seo fabulante
circunstante. ¿Que otra língua s’imbentaria todo dia?
Cuando Diôs, nel oichavo dia, despertô de soeños intranquilos,
lo verbo aunda estaba llá.

204

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 204 29/04/14 18:58


Fronteiras
De Entre Mundos (2012)

Erick Cavalcante
Eu, que vivo e sou,
Não sei
Se rei
Ou devedor, eu sei:
Uma cidade inteira ainda por descobrir.
Eu, que cedo e dou,
Não sei
Do chão que me calejou
Mesmo assim eu sei:
Um país inteiro ainda por descobrir.
Eu, nunca sozinho
Viverei
É a lei
Do meu caminho, e sendo assim eu sei:
Muitas pessoas ainda por descobrir.
Eu em um mesmo céu,
Pensei,
Que um mais um é
Três, e por fim:
Pluralidades infindas por se descobrir
Eu, que por amor,
Fiquei a beira de cair
Mas sei:
Muitas fronteiras por transpor.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 205

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 205 29/04/14 18:58


Xirú

Gilberto Carlos Macedo

Uma foz... esquecida


por todas as suas pratas,
até mesmo pela Naipi –
que divorciada do Tarobá despenca
no véu aquecido
das cataratas.
Na descida genocida
desesperada... visualiza
pela baliza
da catarata de cada olho nossas crias,
que cantando árias
destemperadas – choram sozinhas. São crianças em penca,
sem aipi
e nem naipe: vivendo no céu enriquecido
com as cotas erratas – numa ação protestante
da tripla impunidade.
Que por isso... matam,
na estante
da unidade,
alguns dos nossos visitantes.
Mas... instante
antes – desacatam,
roubam meus raros netos
e abortam
seus vários fetos.
São gentes que apetecem,
as quais acontecem
– assim, aqui... se drogam
e rogam.
Eu assunto – por isso
não envelhecem. Nisso...
alguns jovens que sobram,

206

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 206 29/04/14 18:58


os quais obram;
estão a perguntar: Quando podemos sair?...
Em que destino haveremos de cair?...
Nisto... os que aqui ficam
e não se picam,
questionam: Onde trabalharemos?...
Com o quê viveremos?...
Assento – “eles”... mesmo com isto:
não aprendem.
Insisto –
do futuro nada entendem.
Uma foz... enlouquecida
no interior
duma tríplice fronteira:
Econômica.
Física.
Psicológica.
Todas... donas duma elite portadora de conexões piradas,
cada uma com sua tonteira.
Sim... mesmo bem anterior
à Itaipu; quando, na época, por ela – já era desmerecida.
A posterior...
embora bem envelhecida,
terminou ficando mais empobrecida – só com suas favelas
repletas de velas
as margens dos rios com seus navios
piratas.
Todas... órfãs com seus pires vazios
a cata dos políticos;
de cada metrópole
a cobrar uns ágios sem atavios;
principalmente em Brasília,
lá como seres sem avios
ficando a esmolar uns ticos.
Assim... elas colhem, sempre, como resultado a soma:

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 207

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 207 29/04/14 18:58


– dos pesadelos das grandes “cidades”
os quais mais parecem com o som dos tocadores de sinos
no caos duma inexistente métrica;
– de dias dum verão eterno,
numa fornalha tétrica...
num cenário do inferno;
– de praias em Buenos Aires, Assunção e Curitiba
todas sem uma imbetiba,
implorando o alívio dum subalterno
inverno;
– de ganhos duma família
ausente. Cujos membros parecem assassinos,
que por não ter ética... trocam suas necessidades
morais pela busca da “pole”,
ainda que estejam atados em estado de coma.
Assim... são – todas as gentes que apetecem,
as quais acontecem.
E por isso... alguns se drogam
e vários – rogam.
Eu assunto – por isso
“eles” não envelhecem. Nisso...
os jovens que dobram,
alguns deles – os quais ainda obram
para onde irão?
Os raros... ao chegarem – o que dirão?
Nisto...
os que aqui ficam
e não se picam –
interrogam: O que comeremos?
Onde moraremos?
Assento – mesmo com isto...
não apreendem.
Insisto – do futuro nada tendem.
Enfim... “eles” nem pretendem.
Uma foz... embevecida

208

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 208 29/04/14 18:58


que continua não tendo
nem retendo;
pois na TV só aparece as quedas
sem suas rendas
e ausentes de paraquedas.
Elas mostram apenas a nossa água...
sofrida, empalidecida;
numa enxágua
em riste,
que ao cair
fica triste...
contínua
e nua –
parecendo ser de ninguém.
Em resumo... alguém
que apossou da imagem,
fria – frita
as cópias como se fossem prendas
do mundo globalizado
que ao sair
elas agem
balizando um único interesse: o de conhecer
seu abalizado
dividendo.
Assim... irrigada pelo esgoto
e sem se animar
por não amar;
intrigada: grita
ao Tupã o seu desgosto
bem açu...
verbalizando sua reza em todo cânion da foz do rio Iguaçu.
Um adendo:
tal cena
a qual nossa natureza não ensina
e rotineiramente...

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 209

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 209 29/04/14 18:58


encena –
tem por sina
a meta de matá-la um pouco diariamente.
No fim... tudo redunda
num engodo para todos, por não amanhecer
no gosto
da tripla bandeira de cada sonho.
E... na prática tudo finda
sem nem um ganho.
São gentes que apetecem,
as quais acontecem –
assim, aqui... se drogam
e rogam.
Eu assunto – por isso
“eles” não envelhecem.
Nisso...
os jovens que cobram,
de todos, porque eles ainda obram
e alguns – irão indagar: Como denotarão cada ser?
Em quem devotarão por crer?
Para quem dotarão todo seu ter?
Nisto...
os que aqui ficam
e não se picam
poderão inquirir: Com quem gozaremos?
De que maneira nós... morreremos?
Assento – os animais... mesmo com isto
não se prendem.
Insisto – do futuro nem atendem.
E o pior – por aqui, nós... não tentamos fazer coisíssima nenhuma.
E a vida? Bem... ela termina sem valer coisa alguma.

210

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 210 29/04/14 18:58


Triple frontera selvagem
Poema inédito

Douglas Diegues

Bievenidos a la Triple frontera selvagem, amables lectores,


kontradiciones frias y dicciones kalientes,
koreanos, árabes, chinos, paraguayos, brasilenhos,
vos saludam en uma lengua que non existe como idioma
pero que puede ser escrita y hablada
como el amor
que voce mais ou menos puede entender
mismo que non entenda puerra ninguma.
La Triple frontera es bella, fea, aburrida,
punk, divertida, romántica,
y te puede comer vivo.
El puente de la amizade es traicionero,
usted puede desaparecer para sempre antes de llegar
a uno de los lados.
Por essa puente carnivora,
van y vienen sakoleiros, terroristas (1),
pastores evangelikos, índios, musulmanes,
trabêstis, modelos, traficantes,
operários, prostis, turistas nipônikos,
comerciantes católicos, empresarios libaneses,
tranbiqueros, espías, contrabandistas,
pyragües (2), dólar falso, sicarios, periodistas,
akademikos, poetas, espertos y otários, 
pero ninguem es mejor do que ninguem.
Non tentem entender la triplefrontera, amables lectores:
mejor curtir las kataratas del yguazu,
las noches cumbianteras em City del Leste,
las calles sonâmbulas llenas de árboles gigantes de Puerto Yguazu. 
Tenemos todas las monedas del mundo.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 211

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 211 29/04/14 18:58


Hay cambistas on line 24 horas por las calles.
Y esse excesso de outdoors, letreros, pankartas, propagandas
flotantes,
lembram las calles de Hong Kong
vista en alguna pelikula china
pirateada en Paraguay.
Abundam nel aire
um mix de olor a plásticos,
cheiro de mercadorias importadas,
perfumes lerrítimos y fakes,
olor a carton y kataratas irradiando
la dulce brisa de los yguazues (3).
Mejor non creer em tudo que se diz en los noticieros. 
Non es necessário ver los noticieros
ou leer los periódicos kapitalistas
para entender lo que non tiene sentido.
Del lado paraguayo, la gente se alimenta de mandioca,
carne de vaka, suenhos, futebol, esperanza,
cerveza, chorizo parrillero, chipás y chipaguazues.
Hay mais libaneses que en Lebanon,
musulmanes que curtem kibe cru y kibe frito,
shawarmas, homus, babaganush,
falefi, tabule, esfiha de kiche ou zattar
y hermosas musulmanas que bailan
la milenaria danza del ventre
para sus maridos bigotudos. 
Los koreanos son ya personajes importantes
en la fauna Triple frontera.
El mais famoso de los koreanos 3 F,
Beto Hong, playboy versado en tae kwon do,
solo namora las modelos mais infartantes del lado paraguasho.
Beto Hong y los koreanos curtem pulpos ainda vivos,
camaron pistola, sashimi, karne de vaka na chapa,
mucha acelga, mucho ajo, mucha cebola, mucho kinchi,
mucha cebolinha y mucha pimenta bermeja tipo dedo de moza. 

212

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 212 29/04/14 18:58


Puerto Iguazú, durante la crisis financiera nel inicio del siglo XXI
se tornou uma city fantasma.
Igual los kurepis sabem fazer
las mejores papas fritas del mundo. 
Pero las churrascarias gauchezcas 
son las que mais fazem mais sucesso
en toda la trabuzana triple fronteira.
Muitos brasileiros de Foz de Yguazú
se recusam a comer nel lado paraguayo
que, segundo dizem, além de pobre, es feio y sujo.
Comer nel lado paraguayo es arriesgado dizem eles. 
Pero num kopetin invisíble próximo a la catedral de City del Este
podemos encuentrar la sopa paraguaya mais deliciosa del mundo.
La moda sport gay futurista unissex de las camisas y pantalones
coladitos al kuerpo predomina también entre los avás (4) triple-
fronteros,
mas isso non quer dizer que todos sigam la moda,
yo por ejemplo ando siempre fuera de moda. 
Zapatillas de marcas famosas lerrítimas
para los piés de los ricos.
Zapatillas de marcas famosas fakes
para las patas de los pobres.
Pero siempre llenas de brishos
las famosas zapatillas com desing futurista gay.
Para las patas de los machos
la dictadura gay de la moda,
sapatos bizarros kafona chic y botas texanas de cuero.
Los ricos tienen el pescuezo cargados de gruessas cadenas de oro.
Los pobres llevan cadenitas de lata.
Anillito de rubi estilo mafioso en los dedos de los ricos.
Anillito de lata platinada nel polegar de los pobres
que curtem imitar los atores de los famosos kulebrones brasileros. 
Las yiyis ricas se vestem como las actrizes
de los famozos kulebrones brazilenhos.
El peinado, el sapatito, el color de los esmaltes

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 213

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 213 29/04/14 18:58


siguen el padron del kalor de la hora del kulebronismo lusofoniko.
El kulebron posmo brazuka dita la moda
por intermédio de suos personajes mais famozos del momento.
Tambien hay influenzias del estilo Barbie
que faz la cabeza de las yiyis ricas.
Las yiyis mboriahus (5), las meninas de la perferia,
montan suo guarda roupa com piezas baratas made in china de
kontrabando,
garimpadas en tiendas koreanas de City del Este y de Pedro Juan
Caballero.
La moda del lado argentino es influenciada
por Buenos Aires, Tinelli y las teles kurepas.
Los índios, com sus pantalones vakeros,
sus remeras del Che, de los Rolling Stones, de Bob Marley,
son los mais originaes del pedazo. 
Em todos los lados de la Triple Frontera
parece que solamente yo y mais cuatro ou cinco
curtimos jazz y blues.
La mayoria se encuentra copada
com los hits del kalor de la hora. 
Nel lado paraguayo, los hits seguem siendo cumbia villera,
cumbia romantikona, kachaka pirú (6).
Son ritmos aburridos, horribles, hermosos,
y nos quitan de la rutina del trabajo.
La novedad, em materia de ritmo,
es la tecnobuesta panamerikana. 
Nel lado brazileiro predomina el sertanejo unibersitario,
pero também se baila tecnobuesta panamerikana. 
Nel lado paraguayo, los ricos non curtem cumbia,
solo los pobres la sabem curtir. 
Nel lado argentino los pobres y los ricos
curtem y bailan cumbia.
Se cultua el tango ainda,
pero tambien se baila tecnobuesta panamerikana,
el funk carioca, y el rockandrroll remix ochentoso,

214

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 214 29/04/14 18:58


Nel lado Paraguayo, kuando los jóvenes
de diferentes sexos se encuentren solos
en las aguas del arroyo,
van a querer hacerse el amor. 
Aquele que non fue aun bautizado en iglesia cristiana
sigue siendo animal.
Solamente depois de bautizado en iglesia,
el paraguayo deixa de ser un animal
y pasa a ser um cristiano.
Es la triplefrontera lado paraguayensis,
onde um menino llorón
después de grande puede llegar a ser un buen cantante,
y el alcool & las prostis
pueden arruinar a qualquer músico.
Se muere abundantemente en la triplefrontera,
pero tambiém se nasce em abundancia.
Desde los tiempos de la faraonika Itaipu (7),
oficialmente apenas 132 peones han muerto
nel cantero de obras
que hay llegado a reunir mais ou menos unos 40 mil obreros.
Pero los que estudam el tema dizem que nem
las empreiteras nem Itaipu cuentan con datos precisos
sobre el numero de muertos en la obra. 
Dizem que mais de mil obreros
han caido vivos nel cemento fresco,
quedando sepultados alli
bajo los 12,3 millones de metros cubicos
de concreto usados para la edificacione de itaipu. 
Recentemente encontraron um importante
yacimiento de titanio en Minga Poran,
a 94 km de City del Este.
El hallazgo del mineral valioso
fue anunciado em Hong Kong
por el geólogo-empresário yankee David Lowell. 
Los pobladores de Minga Poran

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 215

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 215 29/04/14 18:58


receberam perplexos a la notízia.
Muitos de los que ayudaram
a cavar buracos
nem sabiam porque ganaban
60 mil guaranies por metro cavado.
Agora eles sabem que ajudaram a descobrir talvez
el mais importante valoroso yacimiento de titanio del mundo,
pero non sabem para que karajo sirve el tal titanio.
Igual todos aqui têm esperanzas
que la puerra del titanio
ayude a liberar la región
del atraso y de la pobreza.

Notas del autor

(1) Sectores del gobierno yankee por ejemplo alegam que la triplefrontera
serve de área de refúgio para agentes del terrorismo internacional y sede de
los fondos de financiación de las actividades de terroristas em diversasione
partes del mundo. Dicen tambien que Bin Laden pode estar escondido bajo
las kataratas del Yguazú. Pero até este momento non se ha encontrado por
aki nem Bin Laden nim sequer um miserable terrorista anônimo kurtiendo
la piscina dum hotel cassino en Puerto Yguazú (lado argentino) ou City del
Leste (lado paraguaio), donde el juego de azar es libre, diferente del lado
brasileño, donde ainda es proibido pero segue errristiendo klandestinamente...
(2) Caguetas, delatores.
(3) Ríos caudalosos, inmensos. 
(4) Homens.
(5) Pobres.
(6) Ritmos populares de la Triple Frontera.
(7)P(i)edra que kanta.

Douglas Diegues (Rio de Janeiro, 1965) publicou Dá gusto andar des-


nudo por estas selvas, Travessa dos Editores, Curitiba, 2002; Uma flor...
(Eloisa Cartonera, Bs.As., 2005; Triple frontera dreams, Katarina Kartonera,
Florianópolis (2010) e El astronauta paraguayo (Eloisa Cartonera, Bs.As.,
2012). É fundador da Yiyi Jambo, a primeira editora cartonera do Paraguay.
Publicou também textos em antologias da Alemanha e de Buenos Aires.

216

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 216 29/04/14 18:58


No he nacido no he de morir

Pedro Granados
I
Pensaba hacer otra cosa
Y no escribir
Salir para puerto iguazu
Desde foz
O irme al paraguay
Que es como quien dice
Para los brasileños
En fin ir a mis pesadillas
De la noche pasada
E intentar enmendar
Aquello horrible
Y tan injusto para los que amamos
Limitado estoy
Aunque ilimitado va mi deseo
Que no muere esta mañana
Aunque me quiten esta piel
Y mis agradables recuerdos
Lágrimas involuntarias
Ícaro andino
Ave oscura de ojos
Tomados ya por el fuego

II
Una muchacha muy joven
Un cachorro que mira las musarañas
Intentan cruzar la avenida
La auténtica frontera
De nuestra casa
No busco el remedio
No intento hallar el camino
No tengo razón, qué duda cabe

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 217

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 217 29/04/14 18:58


Pero la felicidad anda enredada
Entre nuestros pies la salida
La rozan en el aire todos los días
Nuestras manos
Lengua de perro contra huesos y musarañas

Pedro Granados, Lima, Perú, 1955. Ph.D (Hispanic Language and Literatures)
por Boston University. Ha publicado Poéticas y utopías en la poesía de César
Vallejo (2004), Vallejo sin fronteras (2010) y Autismo comprometido: sobre
poesía peruana reciente (2013). Poemarios: Sin motivo aparente (1978), Juego
de manos (1984), Vía expresa (1986), El muro de las memorias (1989), El
fuego que no es el sol (1993), El corazón y la escritura (1996), Lo penúltimo
(1998), Desde el más allá (2002), Al filo del reglamento [www.miradamalva.
com/biblioteca/biblioteca.html], Soledad impura (2009), Poesía para teatro
(2010) y Poemas en hucha (2012). Narrativa reunida: Prepucio carmesí y otras
novelas cortas (2012). Parte de su obra ha sido traducida al inglés, portugués y
alemán. Leyó su poesía en: Festival Internacional de Poesía en Medellín, Casa
de América en Madrid, Cornell University, Boston University, Universidad de
Puerto Rico, Municipio de Montevideo, etc. El 2008 fue jurado de la I Bienal
Internacional de Poesía Copé (Petroperú). El 2010 representó al Perú en el
Cuarto Festival Int. de Letras “Jaime Sabines” (Chiapas, México). Actualmente
es profesor visitante en la UNILA (Brasil).

218

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 218 29/04/14 18:58


Prólogo
De Risos da Fronteira, 2003

Nilton Bobato

O coração bate no peito!


As gargalhadas da cidade e suas mazelas!
Há uma dor na alma!
A fronteira... Perdida!
Uma prostituta na esquina!
Uma criança no semáforo!
Noite... sirenes!
A fronteira ri...
É um assalto!
Querem minha alma...
Nas calçadas iluminadas
O sorriso triste sem futuro!
A falta de um ombro para chorar!
Querem minha alma...
Querem meu sorriso...
Não tenho culpa...
Ou tenho?
Querem que eu sorria...
Mas como?
Serei culpado?
As linhas tortas contam o presente!
Querem esconder a verdade!
Querem mostrar o belo!
Mas cadê a beleza?
As ruas... as esquinas choram...
Dizem que o tempo cura...
Mas cadê o tempo?
Quero minha alma de volta!
Quero meus sentimentos de volta!
Não sou culpado...

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 219

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 219 29/04/14 18:58


As linhas tortas dirão...
O futuro dirá...
Minha alma mostrará...
E a fronteira ri... sem medo!

Nilton Bobato reside em Foz do Iguaçu desde 1980. É professor de Língua


Portuguesa, mas está licenciado para exercer o segundo mandato de vereador
pelo PC do B. Bobato também integra o Conselho Estadual de Cultura e é voz
presente no debate sobre a literatura no Paraná e no Brasil, já que representou
a literatura no Conselho Nacional de Política Cultural até 2012. Nilton Bobato
é membro da Academia de Letras de Foz do Iguaçu – ALEFI e autor de Risos
da Fronteira (2003), Prato Feito (2005), Prosa de Sacada (2005), Sobremesa
(2008), Um Brinde a Três Amigos (2010), Prosa de Estrada (2011) e A Sorte
Não Sorriu para César Rondicatto (2014).

220

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 220 29/04/14 18:58


Mensú
De De Espadas y Duendes, 2008

Marcelo Moreyra
Digo río
y un obrajero doblado
salta sobre mis venas
rota jangada de huesos
a la deriva, sin estrellas.
Digo selva
y un látigo de fuego
busca vaciar mis ojos
ahogarme en barro, quebrar mis sueños.
Mensú digo
y viejos fantasmas de reviro y plomo
caen sobre mis manos
como raíces muertas.
Digo monte
y violentos árboles
levantan sus cruces negras
sobre manos agrietadas
de olvidados tareferos.
Canción digo
y algún perdido poeta
enarbola sobre los muros
los clamores de allá lejos
mezcla de caña y tierra
de mujeres y martirios
de antigos brazos sin luna
que no pudieron ser niños.

Marcelo Moreyra (Misiones, 1958) es escritor, pintor, muralista, locutor, do-


cente y fotógrafo. Desde 1969  vive en  Puerto Iguazú. Como escritor ha
publicado: Distancias (poemas), Gritos en el viento (poemas y cuentos), La
cárcel (novela), De espadas y duendes (poemas y prosas poéticas), y (novela)
Un son para Yolanda.  Es ganador de varios premios de poesía y de pintura.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 221

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 221 29/04/14 18:58


Medialengua1

Carlos Aguasaco

Medialengua, así me llama mi Mamá ’cause my tongue es parti-


da en two slices. Usté me pregunta poque no sabe my story, poque
usté recién se movió al building y no sabe nada de inglés. Además,
a mí no me gusta contá my story ’cause people never listen to it
completely. I suppose it is ’cause they can’t mirar at my boquita con
la lengua partida como la de la snake in The Bronx Zoo. Si usté me
compla un ice cream de strawberry I can show you how fan it’s to
have la lengua partida.

II

Hoy yo no fui a la escuela ’cause I forgot to do my homework and


I don’t want to be embarrassada in front of los otros niños. Teachers
always do that, embarrassan a los niños que no hacen the homework.
But eso nunca me va a pasar a mí poque mi Mamá taught me how
no quedá embarrassada. Cuando el maestro me llama in front of
the class y trata de embarrassarme, yo comienzo a gritá –fucking
bastard I know you are trying to fuck me and get me embarrassada
in front of the class, mandinga, hijo puta, I’m gonna say that you
raped me!– y entonces yo arranco a corré y corré gritando –¡Diablo,
maldita vaina, coño; I hate this fucking school! Hey, el professor de
inglés is trying to get me embarrassada in front of the class!–. Y yo
sigo corriendo y corriendo hasta que the social worker stops me y
me habla en español –Cálmate, Desiree, que no te ha pasado nada,
don’t worry about that teacher, he can’t get you pregnant ’cause
he is gay–. Entonces yo me recuerdo que el maestro de inglés es
maricón y que tiene un boyfriend que le mete el dick por el ass y lo

1 “Medialengua” fue publicado en la revista Casa de las Américas No. 273


octubre-diciembre/2013 pp. 89-90. Conto gentilmente cedido pelo escritor
Carlos Aguasaco.

222

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 222 29/04/14 18:58


hace sentir feliz. Anyway, la escuela siempre abre una investigation
y el maestro tiene que escribí un report of the «incident» y se va
suspendido por tres semanas mientras lo investigan para asegurarse
de que es maricón y que es verdad que tiene un boyfriend que le
mete el dick por el culo y lo hace sentir feliz. They say que él se
quiere cortá la verga para no tené más problemas conmigo y poderme
enseñá a leer a Oscar Wilde que no era maricón but homosexual
como siempre dice en la clase.

III

Usté tiene que aprendé inglés pa’ podé encuentrar un trabajo o ¿es
que se piensa quedá aquí de househusband, como una sirvienta,
babysitting me all the time? No me diga que en su país no había
bilingual schools. No me dé cuerda, coño, que yo no creo que en su
país bilingual schools are for rich people. ¿Cierto que usté no tiene
green card y que por eso se casó con mi mamá y que por eso you sleep
together y usté le mete la verga por el coño y la hace sentir feliz, pero
mi mamá no queda embarrassada porque usté se pone los condoms
que me regalan en la escuela?

IV

–My father? I don’t really remember him; they say he is in jail


for tratar de matar a mi mamá. Pero yo no sé nada de nada, yo no
vi cuando se agarraron a peleá ni cuando comenzaron dizque to
divide everything. Yo no vi cuando él se manejó crazy y comenzó
a romper las cosas por la mitá con ese cuchillo que trajo cuando
volvió del ARMY. Rompió la mesa por la mitá, las sillas por la mitá,
the mattress por la mitá, he broke los platos por la mitá, he cut the
remote control por la mitá and draw a line por la mitá del apart-
ment dizque para no pagar two hundred and ninety nine for the
divorce. Entonce, yo tampoco vi cuando mi mamá le dijo dizque
she vas gonna sue him por child support y él se manejó más loco
y con el cuchillo empezó a romperme a mí por la mitá pa’ coger

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 223

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 223 29/04/14 18:58


his half part y darle de comer él mismo pa’ que no lo demandaran
for child support. Entonce llegó the police y no lo dejó terminá de
romperme. Pero yo no le dije nada a nobody porque yo no soy snitch
y lo metieron in jail just for tratar de matar a mi mamá.

¿Qué hizo ella después que he left the apartment? Nada, sacó
un piedrecita del la purse y se puso a calentarla para que oliera
chistoso. Yo me puse a bailar con la boca cerrada y a tragarme la
blood como si fuera el wine que mi mamá keeps debajo de la cama.
They say they can coser mi lengua pa’ que yo no sea más una freak
con la lengua como la de la snake en el Bronx’s Zoo; but I like that
’cause people always me compra candy or strawberry ice cream pa’
que yo lescuente my story, but they never listen to it completely.

Carlos Aguasaco Ph.D. (Bogotá, 1975).


Profesor de Estudios Culturales Latinoamericanos y Español en el Departamento
de Estudios Interdisciplinarios en The City College of The City University of
New York. Doctor en lenguas hispanas y literatura (Stony Brook University),
Master en literatura (The City College of New York CUNY), Profesional en
estudios literarios (Universidad Nacional de Colombia). En marzo de 2010 re-
cibió el premio India Catalina en la modalidad de video arte dentro del Festival
Internacional de cine de Cartagena de Indias. Fue fundador y organizador del
Festival Latinoamericano de Poesía Ciudad de Nueva York. Dirige la editorial
Artepoética Press. Es coeditor de cinco antologías: Festival Latinoamericano
de poesía ciudad de Nueva York (2013); Festival Latinoamericano de poesía
ciudad de Nueva York (2012); Ensayos sin frontera (Estudios sobre narrativa
hispanoamericana) (2005); Narraciones sin frontera 27 cuentistas hispanoame-
ricanos (2004) y 10 poetas latinoamericanos en USA (2003). Libros de poemas:
Conversando con el Ángel (2003), Nocturnos del Caminante (2010) & Antología
de poetas hermafroditas (2014).

224

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 224 29/04/14 18:58


Cartografias de Fronteira
Entrevista a Silvio Campana

Juliana Zacarias1
(Bolsista PET- UNILA)

1. Como você gostaria de se apresentar?


Meu nome é Silvio Campana, tenho 52 anos, me formei como
jornalista e trabalhei nessa área há muitos anos atrás. Fiz parte de
um grupo que organizou a Fundação Cultural há 26 anos, talvez
isso seja um marco para fazermos uma referência, mas antes disso
eu já participava de atividades culturais; naquela época nós ainda
não tínhamos noção da importância de tais atividades em relação à
cidadania, somente que havia um foco e uma intuição que coincidia
com o que necessitávamos.
Sou nascido em Foz do Iguaçu, mas fui estudar em outra cida-
de no ano de 1979, como todos da minha geração, pois na época
a cidade não comportava faculdade, tampouco ensino de 3ºgrau, e
assim regressei à Foz do Iguaçu em 1985. Completei minha forma-
ção em Londrina, mas antes viajei por Curitiba e algumas outras
cidades. Londrina me foi um ótimo centro cultural, lugar de grande
importância quanto à resistência política ao regime militar; me serviu
como orientação e me guiou no trabalho que posteriormente iniciei
aqui na cidade.

1 Orientadora: Prof. Dra. Diana Araujo Pereira, grupo PET/CONEXÕES DE


SABERES (UNILA, 2010 - 2013).

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 225

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 225 29/04/14 18:58


Antes de sair de Foz do Iguaçu eu tinha um vínculo mais familiar
do que propriamente político e quando eu voltei, passei a me organizar
de uma forma mais cidadã (digamos assim).
Minha primeira atividade foi a participação na organização da
Fundação Cultural, que ainda hoje é o organismo oficial de cultura na
cidade, no qual eu trabalhei 8 meses e fui embora por não entender
a cultura como uma extensão, como um braço partidário de quem
está instalado no poder.

2. Há quanto tempo você trabalha com a Associação Guatá?


A Guatá completa 10 anos em 2014. É uma associação que também
é fruto de um movimento político, pela cultura da cidade, que envolve a
Casa do Teatro e outros organismos que se originaram nesse processo.
A Guatá e a Casa do Teatro são uma espécie de irmãs siameses que
nasceram dentro de um projeto chamado “Praça em Movimento”. Ele
era feito na praça do Colégio Mitre, quando foi revitalizada, há 13 anos.
Resolvemos ocupar aquela praça, porque haviam feito todo um trabalho
arquitetônico, mas não fizeram o trabalho social de levar as pessoas até
o local. Naquela época o centro de Foz do Iguaçu era tido como um lugar
muito violento, então as pessoas não conviviam com esses espaços.
Assim formalizamos a Casa do Teatro, que já existia como grupo,
“Teatral Foz”, e que existe até hoje, dentro de um “guarda-chuva”
da Casa do Teatro.
Havia também um grupo de jornalistas, fotógrafos, professo-
res, pessoas que trabalhavam com a leitura, que foram formando e
gestando a ideia da Guatá, como uma cultura em movimento com
especialidade (digamos assim) em memória e expressões populares.
Em fins de 2004, ano de sua fundação, a Associação desenvolve a
exposição “Todas as Cores do Mundo”, tratando da questão da diver-
sidade étnica de Foz do Iguaçu, através de retratos de 42 mulheres
de nacionalidades e etnias diferentes, fotogradas e entrevistadas pela
jornalista Áurea Cunha. Essa exposição percorreu várias cidades pa-
ranenses e foi montada no Fórum Social Mundial, em Porto Alegre.
Também nesse ano, surge a revista “Escrita”, ainda experimental.
De lá até aqui foram feitos 33 números.

226

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 226 29/04/14 18:58


3. O que significa Guatá?
É uma palavra guarani, um verbo que significar caminhar. Na
verdade, a gente tomou essa palavra como experimentação da vida.
Os guaranis, de uma certa forma, reagem ao território deles, expe-
rimentam a vida como coletores e vão construindo um caminho.
Pensamos que a cultura é isso. A vida diária de um povo, de uma
comunidade, de uma cidade, de um grupo como nós, tem uma expe-
rimentação possível só no presente. Mas é preciso ter memória e ter
sonhos coletivos. Muito mais que o resultado acabado, é o processo
de construção e comunicação da realidade presente com a que já foi
e a utopia é o que nos importa.

4. Como surge a ideia de fazer uma revista “escrita”?


A revista “escrita” é sempre um processo de juntar muitas dife-
renças: uma cozinheira que fotografa, um médico que escreve, um
operário que gosta de fazer poesia, um estudante que pela primeira
vez vê uma ação de Hip Hop e resolve também escrever uma rima.
Isso é o que nos interessa nessa revista, este é o grande mote. Mas não
gostamos de tratar como espetáculo do mundo; o mundo do espetá-
culo é um mundo falso que se propõe às pessoas como cultura, tudo
tem que ser sensacional para ser razoável e interessante. Qualquer
manifestação artística tem que obter uma moldura de pastiche, como
é a indústria cultural, ou uma moldura sensacional elitista –, o que na
verdade só faz reforçar a estratificação de classes, que separa pobres e
ricos, doutores e a tal cultura popular, quando na realidade são várias
culturas que coexistem, se harmonizam e principalmente combatem
entre si numa sociedade complexa como a brasileira.
No meu entender há muitas contradições, há muitos caminhos
comuns e há muitas expressões que nós não chamaríamos de arte ou
de cultura se não tivéssemos hoje um entendimento um pouco mais
claro do que seria isso. Quando eu comecei a trabalhar com arte e
cultura, o estatuto da Fundação Cultural, e que é o mesmo até hoje,
dizia lá: “O conselho fiscal da Fundação Cultural será composto de
algumas pessoas da prefeitura e cinco pessoas de ilibada cultura da
sociedade”. Que cultura? Quem são esses cinco? Ninguém pode dizer

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 227

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 227 29/04/14 18:58


que uma cultura é melhor que a outra, são as expressões dos inte-
resses de classe, de gênero, e elas não podem ser comparadas, não
podem ser colocadas numa prateleira e definidas segundo qual tem
mais valor. O estatuto é antigo. Ainda representa, em certa medida,
o pensamento oficial da política de cultura que se faz em Foz do
Iguaçu, onde certas coisas são extremamente referendadas e outras
não. Penso que o processo político que temos que buscar é a valori-
zação das culturas e a representação destas, com espaços possíveis
para tudo, com a possibilidade de ser extraído de cada uma delas
o que um cidadão possa querer compartilhar.
O que isso tem a ver com a Guatá é a carga de importância que isto
traz para a revista, por ser a forma como agimos. Para expressar tal
âmbito pensa-se em três coisas. Primeiro, tem que haver uma história,
ninguém pode falar de diversidade cultural, se não falar da memória
de um lugar, ou de algo, ou de um povo, ninguém pode dizer que
diversificamos culturalmente, se não conhecemos a história e se não
referendamos essa história. Então quando digo referendar a história,
não estou dizendo a história no formal e oficial, tampouco da memória
dos que ganharam a guerra, estou dizendo toda a história, todas as
possibilidades de memorizar o fenômeno social de algum lugar. Por
exemplo, a cidade de Foz do Iguaçu completa 100 anos, na verdade
quem vai completar 100 anos é a nomenclatura de um município, uma
estrutura burocrática do estado brasileiro que criou um município há
100 anos. Mas antes dos 100 anos havia pessoas que inclusive fizeram
com que a vila virasse um município, e antes deles havia gente aqui,
que não tinha nada a ver com a estrutura do Estado brasileiro, para-
guaios, argentinos, e antes disso havia pessoas que também não tinham
nada a ver com os ocidentais e a cultura judaico-cristã que veio parar
aqui, que são os próprios guaranis, os caingangues; enfim, esta região
tinha pelo menos duas grandes nações indígenas, falando, debatendo,
digladiando, vivendo aqui. Quando falamos da história de uma cidade,
não podemos falar dos 100 anos do município, essa história para trás
deve ter muitas cicatrizes, muitas feridas a se entender. Então esse
é o primeiro eixo que eu acho que devemos sempre levar em conta.
Nesse sentido, a Guatá oferece isso na conversa, a história das coisas,

228

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 228 29/04/14 18:58


tudo tem história. Toda a poesia que o menino traz no colégio para a
revista “Escrita” tem uma história; queremos saber quem é ele, porque
escreveu, onde escreveu, de onde ele tirou as referências para aquilo;
esta é a micro história da revista, todo número que a revista publica
tem uma micro história, assim como a cidade.
O segundo âmbito é justamente a valorização da diversidade
cultural, mas não uma diversidade que é classificada como exótica.
Não, é mais do que isso, pois existem diversos recortes possíveis para
entender as culturas. Entre a classe popular, existe um monte de re-
cortes possíveis. Os descendentes de africanos, por exemplo, têm uma
história particular, dentro da outra história. Uma pessoa que mora na
Vila C é diferente de um cara que mora no Porto Meira, são recortes
possíveis, todos eles devem ter a possibilidade de em determinado
momento comparecer na história maior, na conversa maior e entre
todos os recortes possíveis.
E o terceiro eixo que trabalhamos é, ao mesmo tempo que res-
peitar e admitir a diversidade de todas essas culturas, estabelecer
critérios e organismos que permitam a sua expressão. Não basta no
dia do Folclore falarmos do saci Pererê e depois no resto do ano não
saber nada de como se constrói uma lenda, baseada numa história
tão crítica como foi a escravidão. São necessários canais que possam
ser usados. Eu acho que a cidade, de uma certa maneira, há algum
tempo começou a perceber certas coisas. O grupo de Maracatu, por
exemplo, é um organismo novo na cidade, no entanto está vinculado
a uma história tão antiga e que não aparecia.
E a religiosiade de origem africana, ela já existe na cidade, com
seus elementos artístico-culturais. Mas é uma religião tão rechaçada,
como se ela não existisse no nosso simbólico, como se ninguém fre-
quentasse um terreiro de Candomblé nessa cidade. Então talvez a arte
ajude a puxar um fio lá de baixo, que talvez mostre mais dor do que
a gente está vendo aqui em cima. Nós vemos somente o artesanato
dos indígenas, mas onde está o território e como acabou a história
deles no território, ninguém puxou até agora, para falar desses temas
e ao mesmo tempo da arte desses povos. O que já bebemos da cultura
paraguaia, da cultura argentina?

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 229

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 229 29/04/14 18:58


A UNILA (Universidade Federal da Integração Latino-americana)
de repente veio e colocou tudo isso na moda; é um fenômeno de
modismo, mas não estou falando pejorativamente. Ela apareceu e é
tão forte que consegue colocar em evidência toda esta situação, mas
o som do portunhol existe há muito tempo aqui, muito depreciado,
embora agora se discuta o portunhol até na literatura, mas você admite
discutir isso como uma oportunidade de expressão. A nossa cidadania
está atrasada, assim como os direitos civis, os direitos elementares
de um cidadão, eles não são vistos ainda como possibilidade real
de convívio na cidade. E nesse caso, a cultura não é apenas para
o entretenimento da família, como diz o compositor argentino Fito
Páez, na música “Al lado del Camino”: “Não vim para divertir a sua
família, vim falar outra coisa”. Cultura é algo muito sério, apesar de
ter bastante humor, bastante musicalidade; e a cultura não é só a arte.
Ela é na verdade a expressão de como a gente se organiza para viver.
Então tudo pode estar nessa brincadeira. Enfim, esses três caminhos
nos colocam numa situação política de entendimento da cultura, en-
tão foi isso que fizemos, um projeto que desse resposta a tudo isso.
É por isso que a Guatá faz o “Tirando de Letra”, um projeto que
começou como um mediador de leitura, mas hoje é muito mais um
projeto de construção de expressões populares, que nos levam à
possibilidade das pessoas até começarem a ler: somos estimulados
e estimulamos. Quem é um agente cultural tem que perceber isso,
tem que viver isso de verdade. Quando se faz um trabalho que pode
ser lindo, bonito, bem acabado, você pode registrar, mas você deve
pensar: se é feito para alguém e aquele alguém não recebe o tesão de
participar, então não é um trabalho dinâmico e vivo.

5. Você acredita que, pelo fato de estarmos neste lugar, a Trí­


plice Fronteira, existem elementos comuns na produção cultural
que se sobrepõem à própria fronteira?
Claro que sim. Embora exista a fronteira, mesmo sendo uma
situação artificial que se criou, você tem a comunicação entre as
partes, tem um circuito de coisas acontecendo de forma invisível. É
claro que com o tempo essa fronteira foi se sedimentando, criando

230

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 230 29/04/14 18:58


diferenças e divisões, mas ainda assim. Por exemplo, toda vez que
alguém passa a ponte, não apenas cruza a fronteira, passa a ter um
vínculo. O centro de Foz do Iguaçu e o centro de Ciudad del Este são
diferentes, mas as pessoas se intercomunicam. Ainda é muito pequena
a capacidade de produzir elementos simbólicos disso pela linguagem
da arte. Mas existe um trânsito de informações, de conhecimentos
e de saberes nessa história. Percebe-se que uma fronteira geográfica
é um obstáculo – o rio pode ser um obstáculo –, como pode ser uma
ligação, depende da ótica que vemos as coisas. Quem pesca aqui,
pesca lá, quem nada aqui, nada lá, nos dois sentidos. É um rio que
divide ou junta. Acredito até que dividiu mais do que uniu. Mas o
rio faz essa mediação. Como o nome de um peixe que conhecemos
dos dois lados, ou o som de lá do outro país que ultrapassa o rio.
O outro país vem de algum jeito, ele vem de dentro da caminhonete
do homem que vende gás, como do cara que vai daqui para comprar
bugiganga para revender, ou um comerciário que vai invisivelmente
às 5h00 da manhã trabalhar na loja do Paraguai e que volta de lá e já
não é mais como era antes. Enfim, vemos as coisas de forma estanque
e elas não são assim. Mas do ponto de vista da criação simbólica,
ainda somos muito tímidos. Não conhecemos as pessoas que fazem
arte em Ciudad del Este, como eles também não nos conhecem. Puerto
Iguazu tem uma orquestra de meninos que vieram pela primeira vez
se apresentar em Foz do Iguaçu no “Café com Teatro”, que ajudamos
a realizar. E Foz tem uma orquestra sinfônica, uma tentativa de or-
questra sinfônica, e ambos nunca se encontraram. Mas estão por vir as
políticas culturais que nos aproximem. Quantos livros são publicados
no Paraguai? Muitos livros são editados no Paraguai, por incrível que
pareça, inclusive em Ciudad del Este, e nós não sabemos aqui, nos-
sas livrarias não vendem, nossas bibliotecas não tem acesso, ou não
dão acesso à isso. Então há muito por fazer, há muito por entender.
Como se aproximar? Como se aproximar sem subordinação? Sem ter
hegemonia? Porque a nossa história é uma história de hegemonia,
os brasileiros, em relação aos paraguaios e até aos argentinos, man-
tiveram sempre uma hegemonia cultural; é um genocídio cultural o
que a nossa televisão faz com o Paraguai, por exemplo. Nós temos

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 231

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 231 29/04/14 18:58


acesso de 80 à 100 km de distância de português, a língua portuguesa
através da televisão. Ainda não sabemos o que isso representa para
a população daquele pedaço de terra que se chama Paraguai, acho
que a UNILA vai ter que estudar, vai ter que dar dimensão para isso,
vai ter que responder essas perguntas. Existem muitas coisas que nos
constituem de um jeito, mas não as conhecemos. É por isso que eu
digo que cultura na verdade é tudo: política é a cultura ou cultura é
a política? Não sei. Tem coisas que são sutis e tem coisas que não.
Geralmente nos choca os olhos aquilo que não é sutil, mas talvez
o que seja sutil, seja ainda mais violento, não é?
São problemas muito complicados que geram resistência; às
vezes resistências erradas, como contraposições nacionalistas. Na
verdade nós precisamos reunir aqueles que querem fazer uma grande
“sopa” disso tudo, ainda que a “sopa” não seja de ninguém. É esta
a questão, a cultura está intimamente ligada à hegemonia de poder.
As políticas culturais permitem você aumentar o seu grau de poder
ou diminuir. Nós não sabemos nem quais são os equipamentos de
cultura das três cidades. Nós, iguaçuenses, não sabemos quantos
equipamentos de cultura existem nem em Foz do Iguaçu. Estamos
dentro do Teatro Barracão, e 90% da população não sabe nem se
ele é da prefeitura ou não; ele é da prefeitura e está conveniado com
uma ONG de teatro para poder ficar aberto, porque senão, ele não
fica. O ponto de cultura da Guatá é uma biblioteca lá na escola Paulo
Freire, na Vila C, que estava fechada, mas é equipamento público,
um equipamento que não estava funcionando. Temos um caso igual
ao da Vila C no Porto Meira, sendo que esta fechou. A biblioteca
pública de Foz do Iguaçu não compra livros, ela não tem dotação
para comprar livros. Eu não sei se é assim nos outros dois países,
mas acho que temos que nos aproximarmos disso. Todos os que
tenham interesse em quebrar a hegemonia que está instalada dentro
de um sistema de sub imperialismo brasileiro, digamos assim. Enfim,
eu acho que o mundo é movimento: existe uma hegemonia, existe a
sua contradição e existe a dança dessas duas coisas. E dentro desse
jogo existem as pessoas, os indivíduos, o ser humano que também
não é algo acabado.

232

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 232 29/04/14 18:58


Outras fronteiras

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 233 29/04/14 18:58


Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 234 29/04/14 18:58
F r o n t e r a N o r t e: ¿todo puede suceder?

Raquel Mosqueda Rivera1


(Universidad Nacional Autónoma de México
Instituto de Investigaciones Filológicas)

Hay ciudades que se hallan en la frontera y otras que tienen las


fronteras dentro y están constituidas por ellas. Son ciudades a las que
las vicisitudes políticas les sustraen parte de su realidad, como el área
de influencia, su fuerte vínculo con el resto del territorio nacional;
la historia las desgarra como una herida y hace de ellas un teatro del
mundo, esto es, un teatro del absurdo. En esas ciudades es donde se
experimenta de forma particularmente intensa la duplicidad de la fron-
tera, sus aspectos positivos y negativos; las fronteras abiertas y cerradas,
rígidas y flexibles, anacrónicas y franqueadas, protectoras y destructivas.
Claudio Magris

Lo primero que llama la atención de aquel que quiera (o pretenda)


acercarse a este espacio/ tema/fenómeno de investigación es, por una par-
te, la gran cantidad de estudios que desde todas las disciplinas (economía,
antropología, sociología, periodismo, etcétera) abordan la problemática,
la complejidad de la vida, de las cuestiones políticas y económicas, de

1 Doctora en Letras por la Universidad Nacional Autónoma de México.


Investigadora de tiempo completo en el Instituto de Investigaciones Filológicas
de la UNAM, profesora de asignatura en La Facultad de Filosofía y Letras,
profesora de asignatura en el programa de posgrado en Letras de la misma
institución. Ha participado en distintos Congresos nacionales e internacionales.
Es miembro del Sistema Nacional de Investigadores. Colaboró en diversos libros
de crítica literaria y tiene varios artículos publicados en revistas especializadas.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 235

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 235 29/04/14 18:58


las manifestaciones artísticas y, por supuesto de la terrible situación de
violencia y narcotráfico que azota a los estados fronterizos del país.2
Por la otra, la proliferación en los medios masivos de noticias e imáge-
nes sobre lo que acontece en la frontera; cabe preguntarse entonces,
¿es posible saber qué es, qué sucede en el norte de México?, ¿es factible
hacer una síntesis del límite entre ambas naciones? ¿Cómo “explicar”
el caos, el sinnúmero de transacciones (comerciales, culturales, vi-
venciales) que diariamente ocurren entre uno y otro territorio? Tal
como lo afirman Montezemolo, Peralta y Yépez respecto a Tijuana
“Así es la ciudad. No tiene síntesis” (2006, p. 5), lo mismo podría
decirse de los seis estados de nuestro país (25 ciudades fronterizas)
que colindan con Estados Unidos. De acuerdo con Bernardo García
Martínez, “‘el encuentro en la frontera’ es algo más complejo que
un asunto de ‘mexicanos y norteamericanos’ [...], pues involucra a
poblaciones que por diversas circunstancias escapan o han escapado
de esos calificativos [...]” (García Martínez: 2001, p. 19).
HeribertoYépez también aborda esta cuestión:

Lo primero que tenemos que saber de la frontera entre México y Esta-


dos Unidos es que el conflicto intercultural no se limita a dos cultura
enfrentadas, sino a todo un juego de repulsiones internas de varias
civilizaciones. Mexicanos contra chicanos, gringos contra mexicanos,
mestizos contra indígenas... Definir la frontera en términos bipolares
es quedarse con las apariencias” (Yépez: 2006, p. 41).

Quizá lo único cierto es que todos los mexicanos (del sur o del
centro) tenemos una “idea” de lo que sucede en los lindes entre
nuestro país y Estados Unidos, con base en dicho imaginario llega-
mos a conclusiones con frecuencia reduccionistas y, tal como anota
Alejandro Grimson, maniqueas:

2 Importantes instituciones educativas como El Colegio de la Frontera Norte


se dedican por completo al análisis y reflexión de las relaciones entre México
y Estados Unidos, su revista Frontera Norte constituye uno de los más serios
aportes al estudio de dicha relación.

236

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 236 29/04/14 18:58


Si la frontera es dicotomizada, como una línea entre el bien y el mal,
se confirmaría por otro camino la fuente misma de su poder: el po-
der de establecer los parámetros del conocimiento. Para ello, no es
necesario llegar al simplismo de generar una oposición entre quienes
habitan a uno y otro lado de una línea. Puede reconocerse que hay
migraciones y que la gente se desplaza. Por este camino, se supone
que la frontera ya no está allí y sus rastros deben ser reconstruidos.
Este supuesto suspenso, de todos modos, anuncia un final conocido:
la frontera ya no es material, sino simbólica; ya no es la línea de las
aduanas, sino el límite de la identidad. (Grimson: 2003, p. 14).

Como habitante del centro y no de la frontera, propongo enton-


ces seguir, a manera de directriz del presente trabajo, el análisis de
algunos de los principales factores que conforman esta suerte de
abstracción para confrontarlos con la postura crítica asumida por dos
escritores emblemáticos del norte, Heriberto Yépez y Luis Humberto
Crosthwaite, lo anterior con el propósito de cuestionar, así sea míni-
mamente, nuestra noción de la frontera.3

¿A mayor violencia… mejor arte?


Toda frontera tiene que ver con la inseguridad y con la necesidad de
seguridad. La frontera es una necesidad, porque sin ella, es decir sin dis-
tinción, no hay identidad, no hay forma, no hay individualidad y no hay
siquiera una existencia real, porque esta queda absorbida en lo informe
y lo indistinto. La frontera conforma una realidad, proporciona contornos
y rasgos, construye la individualidad, personal y colectiva, existencial y
cultural. Frontera es forma y es por consiguiente también arte.
Claudio Magris

3 Es importante aclarar que debido a las distintas dinámicas culturales,


política, económicas y de todo tipo establecidas entre las principales ciudades
fronterizas (Ciudad Juárez – El Paso, Nogales, Sonora –Nogales, Arizona, Nuevo
Laredo-Laredo, Matamoros, Brownsville) este trabajo se centrará en la ciudad
fronteriza de Tijuana pues me parece que gran parte del imaginario aludido se ha
generado a partir de esta región y sus problemáticas. Para un estudio detallado de
otras poblaciones véase (Encuentro en la frontera: mexicanos y norteamericanos
en un espacio común; Manuel Ceballos Ramírez, coordinador, 2001).

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 237

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 237 29/04/14 18:58


El primero de estos elementos es el más evidente, el más alar-
mante también, me refiero por supuesto a la violencia, generada por
la lucha entre carteles de droga o entre éstos y el ejército. La terrible
persecución que sufren los migrantes ilegales en la frontera sobrepasa
las intenciones de este ensayo, no obstante debe considerarse como
uno de los factores que, junto con el narcotráfico, tensan aún más las
relaciones entre ambos países.
Por el momento aludiré sólo a la violencia de “este lado”. Dicho
fenómeno no es nuevo, varios estudiosos han abordado ya cómo, a lo
largo de su historia, las ciudades fronterizas han padecido la conocida
“leyenda negra”.

Varios elementos conforman esta leyenda. Se habla con mayor inten-


sidad de que sus centros de diversión, legales o ilegales, las hacen
muy atractivas para la población norteamericana, lo cual recuerda los
tiempos de la ley seca en Estados Unidos. Sin embargo llama la aten-
ción cómo, incluso en estudios actuales, se otorga tanta importancia
a este aspecto [...] se destaca de modo desproporcionado el hecho
de que Nuevo Laredo tenga un área de tolerancia donde subsisten
cantinas, prostíbulos y cabarets, escenario habitual en cualquier
ciudad de Estados Unidos o de México. Esta visión sólo puede expli-
carse por una idea falsa de la frontera que tiene que ver con otro de
los elementos que conforman la leyenda negra: la idea de que en la
frontera existe una sociedad de paso, es decir una sociedad que sólo
está ahí esperando ir hacia el vecino país, o que sólo va establecer
una serie de negocios temporalmente y que regresará a sus lugares de
origen en cuanto esos negocios terminen. Esta perspectiva ha creado
una imagen trivial, efímera y sin permanencia de los habitantes de la
frontera, lugar de paso de trabajadores, de viajeros, de comerciantes,
de mercancías y de droga (Ceballos Ramírez: 2001, p. 255).

Aunque es cierto que no toda la población de la frontera se


encuentra de paso, también lo es que otro gran porcentaje sí lo
está, incluyendo además a expulsados y migrantes en espera de
pasar “al otro lado”. Así lo expone por ejemplo la extensa nota de
la autoría de Henia Prado publicada en el periódico Reforma el 3

238

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 238 29/04/14 18:58


de noviembre de 2013 (con base en un estudio elaborado por El
Colegio de la Frontera Norte) acerca de la situación de migrantes
“varados” en la frontera:

“Alerta el Colef sobre situación precaria de migrantes. Viven indi-


gencia migrantes varados”

Hacen expulsados e indocumentados su hogar bajo puentes de


línea fronteriza.

La zona conocida como El Bordo, en Tijuana, Baja California, se ha


convertido en refugio de migrantes que esperan el momento para
cruzar a Estados Unidos.

Ahí, a unos metros de la línea fronteriza, aguardan hombre y mujeres,


mexicanos y extranjeros, de diversas edades.

Algunos prueban suerte por primera vez, y otros, tras haber sido ex-
pulsados, buscan regresar al país donde, en la mayoría de los casos,
dejaron familia y empleo.

Como la espera es larga, migrante e indigentes se rolan un espacio


en improvisadas “viviendas” clandestinas, elaboradas con desechos
de cartón, lámina, madera, y hasta tela.[...] Sin embargo, la creciente
dificultad para atravesar el muro obliga a las personas a quedarse en la
frontera por tiempo indefinido, en condiciones sumamente precarias.

Ceballos Martínez puntualiza:

Es necesario recordar que, para quienes viven permanentemente


en ella, la frontera genera una serie de relaciones temporales y
espaciales que tienen que ver con realidades tan profundas como
la historia que une a hombres y mujeres que viven en la región
desde mucho antes que se inventaran las leyes que los separan o
los limitan. [...]. Aún así, estas comunidades conservan una serie de
relaciones mutuas que abarcan diversos aspectos de la vida pública
o privada: educativas, artísticas, culturales, sanitarias, aduanales,
sociales, recreativas y deportivas, además de realidades familiares
de parentesco, o aún de mayor envergadura como las relaciones

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 239

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 239 29/04/14 18:58


antropológicas que derivan del hecho de tener a sus muertos en
ambos lados de la frontera (p. 256).

Aunado a lo anterior, debe considerarse a aquellos que dicen


“estar de paso”, cuando en realidad han hecho de la frontera su lugar
de residencia:

Mucha gente dice que Tijuana es fea, es sucia, y sí, en parte sí, tienen
razón. Pero tiene mucho que ver que la gente no sea nativa de aquí,
sino que viene con el interés de cruzarse a los Estados Unidos y no
toman a su ciudad como nuestra. Dicen “yo nada más estoy aquí de
paso” y no les importa tirar la basura en la calle, tirar las botellas, ni
siquiera barrer el frente de su casa, porque al fin y al cabo me voy a
ir del otro lado. Y se pasan viviendo aquí veinte años, pero ellos van
a ir al otro lado, o se van a regresar a su pueblo, porque esta es una
ciudad muy fea” (García Canclini:1989, p. 23).

Es decir, la indefinición comienza ya desde el momento mismo en


que se trata de ubicar a los habitantes de la frontera. De tal modo, un
primer grupo lo componen los residentes permanentes que han estable-
cido una compleja red de relaciones con los vecinos del norte; le siguen
los miles de migrantes legales e ilegales que atraviesan todos los días
la frontera; otro sector lo integran quienes, aún sin reconocerlo se han
quedado a vivir en ella y, por último, una significativa población “en-
callada” en los límites de las ciudades. Si bien no puede afirmarse que
esta peculiar circunstancia sea una de las causas del incremento de la
violencia, sí puede inferirse que, sobre todo en el caso de los varados, la
favorece e intensifica, de acuerdo con la nota periodística ya mencionada:

En el 38 por ciento de los casos [de migrantes varados en la fronte-


ra], la expectativa es regresar a Estados Unidos; en 26, trabajar en
Tijuana; 12, reunificarse con su familiar, y en 97, acudir a un centro
de rehabilitación, pues la expulsión y su condición de vida actual
les provoca depresión, y los ha hecho adictos: el 69 por ciento es
consumidor activo.

En Ciudad Juárez, Chihuahua, frontera con El paso, Texas, las co-


sas no parecen ser muy distintas, el reportaje publicado por Jonathan

240

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 240 29/04/14 18:58


Littell en la revista Letras Libres en julio de 2012 “Ciudad Juárez: un
infierno de lo más normal” expone sin rodeos la realidad de esta región:

Justo enfrente, más allá del hilo de agua marrón del río Bravo, que
puede vadearse en algunas temporadas, se aprecian los edificios des-
lumbrantes del centro de El Paso. Las personas que viven aquí trabajan
en las maquilas, en algún mercado, a veces para la policía o en un
prostíbulo, y muchas se drogan. Cada dos o tres calles hay un punto de
venta[...] Aquí la heroína está disponible las veinticuatro horas; basta
tener el dinero, poco más de cuarenta pesos para una dosis de “lodo
mexicano”, una pasta café, impura y poco refinada que rápidamente
tapa las agujas y las venas. Uno puede inyectarse en cualquier parte, en
los picaderos –locales controlados por los narcos, en los que la entrada
cuesta cinco pesos – o en casa, a menudo con toda la familia (p. 55).4

Matamoros, Tamaulipas, frontera con la ciudad de Brownsville,


Texas, atraviesa una situación similar, la alerta de la joven alcaldesa
de la ciudad no deja lugar a dudas:

Alerta para que no salgan de sus casas; es virtual toque de queda,


acusan vecinos. Crece el asedio del narco en Matamoros; ¡escóndan­
se!, la estrategia de la alcaldesa

[...] Desgraciadamente hay que reconocer que los ciudadanos en Ta-


maulipas hemos aprendido a vivir con la violencia, las balaceras; ya
se volvió parte de nuestra vida, de nuestra cotidianidad. Antes había
una balacera y el pueblo se quedaba vacío, se quedaba fantasma.

4 Aunque no es el tema de este trabajo, debe hacerse notar el papel que los
medios de comunicación tienen no sólo en la construcción del imaginario sobre
la frontera, sino también en su “trivialización”; por ejemplo, este número de
la revista aludida incluye un meloso cuento de Peter Stams, una conversación
entre el sociólogo Gilles Lipovesky y Vargas Llosa y sus tradicionales colum-
nas y secciones; es decir, desde mi perspectiva, este estremecedor reportaje
pierde cierto “peso” en medio de sesudas conversaciones y recomendaciones
para leer a autores cuya realidad (a juzgar por el cuento incluido) obviamente
nada tiene que ver con lo que sucede en México.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 241

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 241 29/04/14 18:58


Ahora ya no. Hay una balacera, te proteges, pasa el tiroteo y sales
[…] (La Jornada, 21/11/13)

Si aceptáramos esta información sin más, una cosa quedaría


clara: en la frontera no se vive, se sobrevive precariamente; es ob-
vio entonces que bajo estas circunstancias sería muy difícil (por no
decir imposible) el surgimiento de expresiones artísticas notables
(esconderse para escribir, para pintar, para hacer música…) Tal
como lo advierte el declarante de la nota anterior, la violencia es
ya parte de la vida diaria de todos los habitantes de la frontera; sin
embargo, tras la alerta “se sale”, se continúa con el trajín cotidia-
no. De nuevo resulta ocioso hacer una síntesis del problema; resta
entonces inquirir ¿cuál es la función que las expresiones artísticas
juegan en esta compleja dinámica social, de qué manera se acercan
al fenómeno de la violencia?
Antes de acometer el ámbito artístico me detengo sobre algunas
consideraciones respecto al tema de la violencia. La primera de ellas
es que, lógicamente, dicha “calamidad” no es (nunca lo ha sido)
exclusiva de los estados fronterizos; basta revisar la prensa nacional
para darse cuenta que Michoacán, Jalisco, Veracruz y casi todo el
país padece este implacable azote; las causas pueden ser varias pero
todas derivan de una sola: la descomposición del tejido social debido
a la brutal desigualdad de oportunidades.
Como segundo punto debe señalarse quizás una obviedad, la
violencia no es una ni única, las diferentes manifestaciones de este
fenómeno se tornan cada vez más complejas, a la evidente lucha por
el poder y el dinero debe aunarse la imposición tácita de un estado
de terror permanente en toda la población (nadie está a salvo en
ningún lugar).
Es por lo antes anotado que durante estos periodos de “excepción”,
el arte ratifica su papel como espacio de resistencia. Los artistas del norte
han puesto de relieve además un aspecto decisivo: ante una violencia
que vuelve al individuo un número más, un sicario, adicto o víctima
de recambio anónima, ellos han entendido la importancia vital de crear
colectivos, grupos donde el sujeto forma parte de un objetivo común,

242

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 242 29/04/14 18:58


donde su nombre se une a los de otros para crear.5 El enunciado parece
sencillo: la individualidad que otorga el arte se intensifica dentro de un
conjunto de artistas entre cuyos fines se encuentra el aprendizaje cons-
tante de “andar juntos”. De acuerdo con Salvador Salazar Gutiérrez, en
un contexto de fractura social como el que viven los estados fronterizos,
las expresiones artísticas representan:

[una] estrategia clave de manifestación político-ideológica, que fa-


vorece procesos pedagógicos de reflexividad y crítica colectiva en el
escenario de la ciudad fronteriza, caracterizado por la irrupción de
una violencia cotidiana y un imaginario dominado por los miedos,
favorecido por la narrativa mediática que se encarga de espectaculizar
la nota violenta (p. 259).

Otro enfoque es el que expone el pintor Gustavo Monroy, para


quien la violencia “se ha convertido hasta en un género artístico”, su
juicio es contundente:

Ahora se trata de una crónica de la barbarie que sucede frente a


nuestros ojos; ahí está la impotencia que se siente ante un país que
se nos va de las manos. Remplacé [en su obra Nuevo biombo de la
conquista] a españoles e indígenas por personajes de la sociedad civil,
el Ejército, los cárteles, el narco. Por el otro lado, en la visión aérea,
se ve un territorio sembrado de cadáveres. Lo que resultó fue una
combinación terrorífica: una guerra. (La Jornada, 29/10/13)

Para el creador, “Ese cáncer [el de la violencia] surgió hace años


en la frontera y ya es metástasis en el país”. Tal idea muestra asimis-
mo otro lugar común respecto a la cultura del norte, la violencia no

5 En el ámbito musical, y pese a la críticas de constituir una empresa y no


representar a la “auténtica” música de la frontera, se encuentra por ejemplo
el Colectivo Nortec que agrupa a músicos de distintas bandas con proyectos
independientes pero que se fusionan (y fusionan) diversos sonidos. En las
artes plásticas estos colectivos son aún más sobresalientes, en los años ochenta
surge por ejemplo el Taller de Arte Fronterizo y actualmente Rezizte colectivo
de arte urbano.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 243

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 243 29/04/14 18:58


surge en la frontera. Es erróneo asumir este fenómeno como causa
y no como consecuencia de varios procesos sociales; se acentúa sí
en este territorio dado su cercanía con Estados Unidos, principal
consumidor de drogas. Es decir, el país no se “fronteriza” sino que,
la problemática de la frontera tan sólo delata con mayor visibilidad
la descomposición social de todo México. Al respecto Néstor García
Canclini –ante la pregunta de Fiamma Montezemolo “¿Estamos en
un momento de nueva “Leyenda Negra?” – comenta:

Pero no es ya la “Leyenda Negra” del siglo pasado, que estigma-


tizaba a Tijuana en particular. Lo que está pasando en Tijuana
de alguna forma pasa en todo México: ejecuciones violentísimas,
descuartizamientos, corrupción en todos los niveles policiacos
y del Estado. Los enfrentamientos entre mafias, los cadáveres
decapitados y la complicidad policial y política se reproducen en
regiones alejadas de la frontera: Acapulco, Michoacán, la Ciudad
de México. (García Canclini-Montezemolo, dirección elec-
trónica en bibliografía).6

En este enclave se encuentra también la conocida polémica sos-


tenida en el 2005 sobre la literatura del norte entre Rafael Lemus y
Eduardo Antonio Parra en la revista Letras Libres, el primero plantea:

¿Cómo narrar el narcotráfico? Otra pregunta sin respuesta. Nuestra


narrativa no responde, actúa. En vez de teorizar, noveliza. Produce
relatos y novelas sobre el narco, demasiados, demasiadas [...] la
abulia teórica es apenas comparable al entusiasmo narrativo [...]

6 Entre los múltiples esfuerzos por dar “otra visión de Tijuana” se encuen-
tra el festival Entijuanarte que a la fecha lleva nueve ediciones. Respecto a
este encuentro multidisciplinario su director, Julio Rodríguez Ramos declara:
“Tomamos las calles de la ciudad y los espacios urbanos con intervenciones
de artistas nacionales y extranjeros; desarrollamos espectáculos de música y
teatro en las calles y con esto demostramos que Tijuana es una ciudad viva
que se puede disfrutar en cualquier momento, y que las situaciones difíciles
que suceden aquí –como en todas partes del mundo – sabemos superarlas”
(La Jornada, 29/19/ 2013).

244

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 244 29/04/14 18:58


Tanto entusiasmo es norteño y, con más precisión fronterizo. Desde
allá se escribe una literatura que alude irreparablemente al narco.
Es imposible huir: el narcotráfico lo avasalla todo y toda escritura
sobre el norte es sobre el narcotráfico [y páginas adelante enfa-
tiza] Retratar cualquier cosa es sobrevalorarla. La narrativa del
narco no escapa a la tentación sacralizadora. Dibuja el norte con
demasiada tinta. Desea, aunque no lo pronuncie, construir una
epopeya, una épica de la frontera (Las cursivas son mías. Letras
Libres, sep. 2005).

Adelante me referiré a la respuesta de Eduardo Antonio Parra,


empero me interesa observar que juicios como el anterior han pro-
vocado en los habitantes y escritores de Tijuana una reacción que
oscila entre el hartazgo,7 o, como advierte Marco Kunz en la obra
ensayística y de ficción de Heriberto Yépez, la intención burlona de
ratificar los estereotipos:8

Capitalinos y gringos están ansiosos de que les comprobemos que


somos seres exóticos, ¿qué más da?, ¡se los comprobamos! ¿Quién,
en su sano juicio, rechazaría ser un ser excepcional, ligado al nar-
cotráfico, a la leyenda de una nueva Babilonia, a un infierno entre

7 En video disponible en youtube, cuando se les pregunta a varios tijua-


nenses qué es lo que menos les gusta de Tijuana, responden casi sin titubear:
“la imagen que se da de la ciudad en los medios masivos”, no obstante debe
señalarse que se trata de una campaña (desde varios sectores) por promover
una visión distinta de la ciudad fronteriza. (Agradezco al profesor José Luis
Navarro Solís, tijuanense de nacimiento, el envío de estos videos y un escrito
inédito). (http://www.youtube.com/watch?v=K92G2cdnQec)/ http://www.
youtube.com/watch?v=TUD2NCcSN3Y
8 “La refutación de los tópicos termina en el empleo de estos mismos tó-
picos. Los tijuanenses, aunque saben que Tijuana no es como se la imaginan
los que la definen sin conocerla o a pesar de conocerla perfectamente, no
tiene otro remedio que confirmar los estereotipos para satisfacer una demanda
que, en fin de cuentas, les resulta provechosa, con el resultado de que poco
a apoco, Tijuana se va tijuanizando como consecuencia de la tijuanología
forastera y vernácula […]” (Kunz: 2012, p. 266).

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 245

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 245 29/04/14 18:58


dos mundos o como ahora se dice el mero mero laboratorio de la
posmodernidad? (Yépez, 2006, pp. 116-117)

Otro tijuanense, Luis Humberto Crosthwaite sortea también con


humor e ironía los estereotipos fronterizos, en su ya famosa “Misa
fronteriza” incluida en Instrucciones para cruzar la frontera escribe:

Frontera nuestra que estás en la tierra

[...] Líbranos de toda la violencia contra inocentes; líbranos del nar-


cotráfico y la inseguridad de los que vienen a vender drogas para el
feliz consumo de los estadounidenses. Toda la cocaína y mariguana
que se aspira y fuma en Estados Unidos pasa por mi ciudad, dejando
un rastro de sangre. Por eso digo: está bien que la fumen, pero ¿no
podrían cultivarla ellos mismos?

Mueren policías en la Frontera; mueren periodistas en la Frontera;


mueren hombres y mujeres, cadáveres se acumulan en el río, en el
desierto, en las grandes ciudades fronterizas desde Tijuana hasta
Matamoros, desde San Ysidro hasta Brownsville. La violencia se ha
metido a todos los rincones de nuestras vidas y nuestros sueños.
(Crosthwaite: 2012, p. 190).

Es claro que, aunque se lo propusieran, los escritores del norte


no pueden dejar atrás su contexto –ridícula exigencia-, es patente
asimismo que echar mano de dicho contexto no significa apologizar
los elementos que lo componen (narcotráfico, violencia...), implica
más bien una suerte de reacción ante dos frentes, y no hablo de me-
xicanos y norteamericanos, sino del narcotráfico por un lado y, del
otro, la visión fabricada por los medios masivos de comunicación;
en esta dirección Eduardo Antonio Parra formula su respuesta a las
críticas de Lemus:

La violencia es un elemento, no la esencia, pues el narcotráfico es


un fenómeno integral, capaz de cimbrar –no destruir – todos los
aspectos de la existencia humana, y también sacar a relucir todas
las miserias. Éste es el contexto desde el que escriben los narradores
norteños. Imposible reducirlo a la visión histérica y superficial de la

246

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 246 29/04/14 18:58


clase media cuya información proviene de la prensa y la televisión.
(Letras Libres, oct. de 2005).9

El debate parece centrarse en cómo narrar una realidad de la que


es imposible sustraerse. Otro de los “peligros” de observar fenómenos
como la violencia y el narcotráfico desde la perspectiva artística es, de
acuerdo con Yépez, la sobreestetización del discurso: “Definir la fron-
tera estéticamente conviene al proyecto hegemónico; sobreestetizando
el análisis se despolitiza el discurso” (Yépez: 2005, p. 73), me resulta
casi ilusorio la despolitización del discurso argüido por Yépez,10 sin
embargo su apreciación no se dirige a los artistas, sino sobre todo a
ciertas aproximaciones teóricas acerca de la frontera. Algunos apor-
tes críticos justifican la preocupación del autor de Tijuanologías, por
ejemplo para Paola Suárez Ávila los artistas del norte:

Usan materias elaboradas, que van desde el aprovechamiento de la


tecnología de la región, hasta la resignificación y uso de los imagina-
rios colectivos y los mitos como la propia leyenda negra de Tijuana,
que propone que es un centro de prostitución y ocio al servicio de los
estadounidenses, y un centro importante de narcotráfico.

Otra connotación se manifiesta en la diversidad de propuestas ar-


tísticas, las cuales han descentrado el discurso hegemónico sobre la

9 Al respecto tampoco puede ignorarse lo apuntado por García Canclini “Gran


parte del circuito artístico se ha vuelto elocuente por su relación con los medios.
Muchos artistas tratan de producir una perturbación, una sorpresa, para que
los medios se ocupen de las obras dando ampliación mediática, para impactar
con su obra. Pero es complicado porque en parte requiere subordinarse a la
lógica de los medios, que es efímera, que casi nunca genera ciudadanía sino
espectáculo, que puede manipular el mensaje” (NGC-FM).
10 La crítica de Yépez cobra mayor sentido cuando sabemos que una película
como El infierno, dirigida y escrita por Luis Estrada en 2010 y que narra con
lujo de detalle las atrocidades cometidas por el narcotráfico, consiguió un
gran éxito en taquilla. No pongo en duda la calidad de la cinta, preocupa eso
sí la idea de que gran parte de los espectadores creen haber visto sólo “una
película” sin cuestionarse apenas lo que dicha película revela acerca de lo
que está sucediendo en todo el país.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 247

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 247 29/04/14 18:58


frontera y han aprovechado otros discursos de la sociedad como la
forma de producción de la región, la vida cotidiana, la cultura norteña
y la narcocultura para expresarlos en el arte. (“Arte y cultura en la
frontera”, p. 33. Dirección electrónica en bibliografía).

Sin negar la seriedad del ensayo, la “arbitraria” (casi desenfa-


dada) confluencia de elementos tan dispares pareciera apuntar a
que éstos surgen ex profeso para que los artistas tengan material de
creación o como si se pretendiera encontrar un “lado positivo” a algo
que definitivamente no puede tener ninguno. El narcotráfico es ante
todo un síntoma más de la desintegración social del país, uno de los
factores que evidencian la perversión de un sistema profundamente
corrupto, sus efectos son siempre devastadores… y los artistas del
norte lo saben.11

Todo cabe en una frontera…

Una apasionada y problemática literatura de frontera,


agobiada por la proclamación de su propia no pertenencia,
puede convertirse también en un rancio repertorio de lugares
comunes […] La crítica feroz al propio mundo de origen, con
ser mejor que su empalagosa celebración, se convierte fácil-
mente en un tópico manido.
Claudio Magris

11 “¿Quién se olvida del narco si ve al Ejército en las calles, si atiende el


sonido de las ambulancias, si no escapa del estrépito de las ocho columnas
y los noticieros? En tiempos del auge del desempleo el narco es un emple-
ador obstinado; en la hora de la inmovilidad social el narco centuplica los
ascensos económicos; en el torbellino del rencor y el resentimiento el narco
construye un desahogadero no menospreciable. Ignoro si es verdad, como
tanto dicen, que el narco es un Estado dentro del Estado, lo que sí se advierte,
y categóricamente, es su carácter de versión monstruosa la prueba del espíritu
trágico pese a todo: en la desesperación cualquier suicidio es bueno, y más
si, por razones del oficio, lo antecede la obligación de asesinar. De todas las
catástrofes del país, el narco es la más devastadora” (Carlos Monsiváis, “La
frontera norte y sus arraigos”, El Universal en línea, 27/01/2008. Dirección
electrónica en bibliografía).

248

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 248 29/04/14 18:58


Otro de los temas recurrentes sobre la frontera es su concepción
de espacio híbrido, donde casi todo tiene cabida, esta idea parte de la
tesis de los años 90 propuesta por Néstor García Canclini en Culturas
híbridas estrategias para entrar y salir de la posmodernidad, ensayo
hacia el final del cual el estudioso argentino planteaba la visión de
Tijuana como un “laboratorio de la posmodernidad”. El propio García
Canclini en entrevista con Fiamma Montezemolo ha revisado esta
teoría, a dicha entrevista regresaremos más adelante, empero durante
más de una década su afirmación devino en lo que Yépez llamó una
“canclinización de la frontera”:

Algunas de las ideas de Canclini (acompañadas de un veloz e intri-


gante análisis de Tijuana cerca del final del volumen) se volvieron la
definición oficial de cultura fronteriza del noroeste de México entre
académicos, artistas, escritores, periodistas y otros agentes culturales.
Fuimos canclinizados […] Entre estas comunidades interesadas en
el discurso sobre la frontera mexicana, Tijuana se volvió sinónimo
de laboratorio de “fusión” y “cultura híbrida”

La tesis era, indudablemente, excitante. Era un elogio. Y era, por


supuesto, una forma de glamurizar la región fronteriza mexicana,
de volverla cool. Era un mito muy conveniente: incrementaba el ca-
pital simbólico de nativos y tijuanólogos foráneos. Se volvió nuestra
tijuanología preferida (Yépez, “Lo post-transfronterizo”. Dirección
electrónica en bibliografía)

El también autor de La producción simbólica. Teoría y método


en sociología del arte explica cómo y por qué esta caracterización ha
dejado de ser válida:

Junto con esos procesos de regresión económica y social, se fue


consintiendo en las últimas décadas del siglo pasado el avance de la
informalidad y la ilegalidad en las relaciones laborales, el creciente
poder de los narcos y hasta se les dio protección política […] Por
eso es posible decir que Tijuana fue desde entonces el laboratorio de
una desintegración sociopolítica de todo México como consecuencia
de una ingobernabilidad fomentada. Con esa descomposición, el

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 249

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 249 29/04/14 18:58


volumen de la migración aumentó, y también la posibilidad de en-
viar remesas a las familias que quedaron en México: así se mantuvo
un muy precario equilibrio entre la población que se perdía y la
sobrevivencia de los que se quedaban (García Canclini-Fiamma
Montezemolo).12

Como puede notarse, la constante transformación social ha obli-


gado tanto a críticos como creadores a repensar sus planteamientos
teóricos, no obstante todavía hace algunos años el gran influjo creativo
en Tijuana provocaba la admiración del mismísimo Carlos Monsiváis,
gurú de la cultura popular:

En una rueda de prensa previa a la conferencia, los escritores [Carlos


Monsiváis y Mike Davis] expusieron sus opiniones sobre la migración,
la política y la cultura en la frontera.

Monsiváis declaró su admiración hacia las nuevas manifestaciones


artísticas que se desarrollan en la frontera, en particular a la nueva
disciplina del arte instalación, expresando que este es el momento de
las instalaciones, y considera que “la inventiva, la ironía, el sentido
del humor y la creatividad, la representación artística en la manera
tradicional ya no rinde resultados efectivos”. 

“La idea misma de concebir la frontera como un símbolo de una


mitología quebradiza, poderosa, omnipresente y desvanecida, todo
sin contradicciones, me gusta mucho” comentó el escritor mexicano,
asombrado por la idea de transformar el muro en un “espacio mural y

12 Por otra parte, la transformación de las teorías sobre la frontera (o sobre


cualquier temática) expresa un proceso natural, de acuerdo con Edward Said:
“Al igual que las personas y las escuelas críticas, las ideas y las teorías tam-
bién viajan; de una persona a otra, de una situación a otra y de una época a
otra […] no obstante, deberíamos pasar a especificar los tipos de movimiento
posibles, con el fin de preguntar si en virtud de haber pasado de un lugar y
un tiempo a otro una idea o una teoría gana o pierde fuerza, y si una teoría
en un período histórico y una cultura nacional se vuelve completamente
diferente para otro período o situación (Said: 2004, p. 303).

250

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 250 29/04/14 18:58


espejo de nuevas costumbres”13 (laprensadesandiego: 2006, dirección
electrónica en bibliografía).

Tal parece que la “tentación” de caracterizar a la frontera como


una tierra que admite todas las posibilidades sigue latente.14 El origen
de dicha tipificación podría buscarse no en la definición, sino en el
efecto que, de acuerdo con Jameson, provoca lo posmoderno:

En efecto, lo que fascina a los posmodernismos es precisamente todo


este paisaje “degradado”, feísta, kitsch, de series televisivas y cultura
de Reader´s Digest, de la publicidad y los moteles, del “último paso” y
de las películas de Hollywood de serie B, de la llamada “paraliteratura”,
con sus categorías de los gótico y lo románico en clave de folleto turístico
de aeropuerto, de la biografía popular, la novela negra, fantástica o de
ficción científica: materiales que ya no se limitan a “citar” simplemente
[…] sino que incorporan su propia esencia (Jameson: 1991, p. 13).

Hasta cierto punto, ésta es la impresión que se desprende de libros


como Tijuana, la casa de toda la gente (1989) de Néstor García Canclini

13 No puedo dejar de mencionar que, para tres tijuanenses radicados en la


ciudad de México, estas declaraciones del autor de Los rituales del caos, les
parecen, cuando menos, inexactas.
14 Por ejemplo apenas el pasado 2 de junio de 2013 en La Jornada Semanal,
suplemento cultural del periódico La Jornada, se publica una selección de
“nuevos poetas en Tijuana”, en la presentación Jair Cortés repite algunos de
los lugares comunes aludidos: “Podría considerarse a Tijuana, Baja California,
como una ciudad fronteriza, pero su condición de imán atrae a gente de
todo el mundo y la convierte en un centro en constante movimiento que se
expresa en un lenguaje artístico, propositivo y renovador, marcando la pauta
a seguir en muchos sitios del orbe. Ahí se encuentran músicos, poetas, escri-
tores, bailarines, pintores, todos ellos artistas precursores del uso de nuevas
tecnologías pero que no olvidan su tradición. Casos como el del movimiento
Nortec en la música; Heriberto Yépez en la literatura; Daniel Ruanova en la
escultura; Roberto Romero Molina en la instalación; Julio Orozco en el arte
conceptual, o Melina Peña en el performance, reafirman que Tijuana modifica
nuestra idea de frontera porque es, precisamente, su actitud frente a la obra y
su contexto la que tiende puentes sin aduanas a otras latitudes del mundo”.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 251

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 251 29/04/14 18:58


en colaboración con Patricia Safa y la fotógrafa Lourdes Grobet o
Aquí es Tijuana (2006) colaboración entre Fiamma Montezemolo
(antropóloga) Heriberto Yépez (escritor e investigador) y René Peralta
(arquitecto); el primero reúne textos de carácter académico con frag-
mentos de entrevistas y con fotografías diversas (lugares, paisajes,
zonas distintas de Tijuana; moteles prostitutas, artistas, grafitis, y un
largo etcétera). El segundo también, pero mezcla multitud de citas de
artistas, académicos y personajes varios con fotografías de espacios,
momentos, lugares y gente; así como con fragmentos de cuentos o
textos sobre la ciudad. De ambos proyectos se infieren conclusiones
similares, de entrada se ratifica la idea de una ciudad-collage, una
especie de mosaico múltiple, llena de contrastes. La mezcla de textos
con fotografías tal vez pone de manifiesto la imposibilidad del discurso
de mostrar dichos contrastes y multiplicidad… por último, es válido
preguntar: ¿no se conforman así todas las ciudades? ¿No es sólo con
la fusión de la imagen con el texto que podríamos acercarnos un poco
más “atinadamente” a la cultura, a la realidad de cualquier ciudad? La
diferencia radica sin duda en el muro que atraviesa a las poblaciones
fronterizas, herida imposible de sanar que, día con día, recuerda a
sus habitantes que ellos también están “del otro lado”,15 así es por
ejemplo para Luis Humberto Crosthwaite:

Mi nombre es Luishumberto y mi religión es la frontera […] Estoy


ante ustedes, tal como soy, biseccionado, dividido entre el aquí y
el allá. ¿Les dije que estoy biseccionado? ¿Quieren que les muestre
mi bisección? (Pausa). Atraviesa mi alma de un extremo a otro.
Es la frontera, brother, la traigo tatuada en el brazo; la frontera,
baby, la llevo atravesada en el pescuezo; la frontera, míster, se me
ha metido al corazón y ahí está clavada. Y ahí es donde la quiero
(2011, p. 167).

15 De acuerdo con José Luis Navarro Solís: “Todas las ciudades fronterizas
nacen como una cicatriz que sana día a día, surge una costra y quizá en el
futuro borre su marca./ Pero no, aquí, cada día se ve más cercana la sangre,
la lesión llega al hueso, más y más profunda la herida” (Inédito).

252

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 252 29/04/14 18:58


Lejos ya de la retórica posmodernista, las ciudades fronterizas,
su cultura, su devenir cotidiano, viven hoy en día una reformulación
de los criterios con que han sido pensadas por propios y extraños.

La frontera como heterotopía

La frontera es doble, ambigua; en unas ocasiones es un


puente para encontrar al otro y en otras una barrera para recha-
zarlo. A menudo es la obsesión de poner a alguien o algo al otro
lado; la literatura entre otras cosas, es también un viaje en busca
de la refutación de ese mito del otro lado, para comprender que
cada uno se encuentra ora de este lado ora del otro –que cada
uno, como en un misterio medieval, es el Otro.
Claudio Magris

“Espacios absolutamente otros” tal es la definición que propone


Michelle Foucault de las heterotopías (Fractal. Dirección electrónica
en bibliografía) y más adelante añade un calificativo: heterotopías
de desviación, “lugares que la sociedad acondiciona en sus márge-
nes, en la áreas vacías que la rodean, esos lugares están más bien
reservados a los individuos cuyo comportamiento representa una
desviación en relación a la media o a la norma exigida”; en este sen-
tido, no es absurdo afirmar que la frontera norte de México cumple
a cabalidad con lo expuesto por el estudioso francés, no solamente
por su condición de margen, de límite en sí misma, sino que además,
el “atasco” de los migrantes que no alcanzan el ansiado american
dream puede considerarse como una especie de “desviación”, pues,
a la manera de una cárcel, la frontera “los mantiene atrapados”.
Sin duda en el imaginario popular, la idea del “otro” (el otro lado,
los otros habitantes, la otra cultura) cobra especial relevancia, sin
embargo debe hacerse una aclaración, me atrevo a aventurar que
no es precisamente en los moradores de la frontera en quienes el
resto de los mexicanos piensa cuando se refiere a los otros; sino en
aquellos que ostentan cabello rubio y ojos azules, que hablan una
lengua que a muchos nos cuesta siquiera balbucir, y cuyo dinero
tiene más valor que el nuestro.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 253

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 253 29/04/14 18:58


Naturalmente cuando se trata desde la perspectiva de frontera,
el problema del “otro” lleva implícito un cuestionamiento profundo
sobre la identidad, concepto en constante (obsesivo) debate para los
mexicanos, tal como apuntan Alejandra Cebrelli y Víctor Arancibia,
(glosando a Fernández Bravo):

Deudora de las categorías de espacio y de estado, la frontera funciona


como una sinécdoque de nación y constituye una noción geográfica y
territorial, estrechamente relacionada con la irrupción del otro en el
discurso oficial al punto de interpelar las certezas acerca de la iden-
tidad, de la cultura y de estado (Cebrelli-Arancibia. Dirección
electrónica en bibliografía).

Al respecto se ha llegado a concebir la frontera como el territorio


donde la identidad mexicana, dada su cercanía con una cultura tan
avasalladora como la norteamericana, “corre el peligro de perderse”,
para Tito Alegría:

[...] esa noción implica también que en la frontera una tercera nación
está en proceso de conformarse con la mezcla de rasgos culturales
mexicanos y estadounidenses. El autor [D. Arreola] considera que
esta última implicación [...] es errónea porque los habitantes de la
frontera mexicana, por ejemplo en Tijuana, muestran impaciencia
con quienes dudan de su mexicanidad. (Alegría: 2009, p. 29)

Entre estos “impacientes” se encuentra por supuesto Yépez


quien anota:

En Tijuana la multiculturalidad es negada sistemáticamente por sus


intelectuales y clases sociales dominantes. Tijuana desprecia al otro
extranjero y propio, sea éste mujer, indígena, chicano o gringo, tra-
bajador de maquila o moreno. A unos los quiere enmudecer, a otros
venderles una mexicanidad de pacotilla, a otros uniformar; en fin,
lo importante es fingir y despreciar la otredad (Yépez: 2006, p. 13).

Ya apuntamos la intención paradójica que Marco Kunz observa en


el también autor de Al otro lado; ironía aparte, me parece que lo que
este fragmento revela es la confluencia de realidades contundentes

254

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 254 29/04/14 18:58


con imaginarios y des-idealizaciones, otra de las características pro-
pias de las heterotopías: “Por lo general, la heterotopía tiene como
regla yuxtaponer en un lugar real varios espacios que normalmente
serían, o deberían ser incompatibles”. Aunque varios más de los
rasgos descritos por Foucault sobre estos territorios-otros (sistemas
de cierre y aperturas específicos, lugares a los cuales se puede entrar
pero no siempre salir, impugnación de lo real frente a lo imaginario,
representar zonas de pasaje o transición…) coinciden con las diná-
micas de la frontera, no quisiera incurrir en el error de dar una nueva
definición a un territorio sobrepoblado de ellas. Importa sí destacar el
modo en que la frontera se ha erigido (la han erigido) como noción
privilegiada desde la cual es posible continuar cuestionando no sólo
lugares comunes sino tópicos que incumben a todos los mexicanos:
migrantes, cholos, tijuanenses… forman parte del ser mexicano, un
ser al que como nunca (como siempre) le es indispensable “dar el
salto a la otra orilla”. En un interesante ensayo sobre la significación
de El Río Bravo en la narrativa, Rodrigo Fernández Prado resume este
asunto de la siguiente manera:

De lo que se trata, al fin es de la raíz, el origen, el afán de constituir


(descubrir, recuperar) la identidad. Toda la narrativa sobre la mi-
gración, sobre la frontera como herida y sobre los mexicanos como
pueblo, se conforma a partir de la idea de la raíz al aire, sin sustento:
el desarraigo. La organización del espacio y la constitución de un
lugar propio (individual y colectivo) suceden en lo concreto y en el
imaginario (Frontera Norte, dirección electrónica en bibliografía).

Queda esbozada al menos la idea de que el otro y la identidad


son conceptos que van de la mano y que en este punto el imaginario
parece coincidir con la realidad; con todo, resta hacer hincapié en
un “amenaza” planteada por Yépez respecto a los discursos sobre
Tijuana: el de la frontera entre México y México.

La tijuanología como construcción busca –quizás inconscientemente–


hacer que la frontera de México con Estados Unidos sea también
una tramposa frontera entre México y México. Esto incluso explica

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 255

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 255 29/04/14 18:58


sus contradicciones. Por ejemplo, si ciertos tijuanólogos afirman que
Tijuana se está achilangando (por la migración de sureños), otros,
en cambio, se alarman porque México se está “tijuanizando”[…] En
ambas teorías (claramente opuestas), sin embargo, la tijuanología
cumple su cometido: hacer creer que México es diferente de sí mismo,
que los otros (tijuanenses o chilangos) son los malos o son, sobre
todo, los peores. (Yépez: 2006, p. 83).

Esta idea también es parte del imaginario pero no del de los po-
bladores del resto del país, sino de los propios tijuanenses, tal como
advierte Magris en el epígrafe de este trabajo: “Hay ciudades que se
hallan en la frontera y otras que tienen las fronteras dentro y están
constituidas por ellas” (Magris: 2001, p.58). Tijuana es ambas;
empero en dicha peculiaridad radica asimismo un rasgo definitorio
de la idiosincrasia mexicana, la constante tendencia a crear fronteras
entre nosotros y los otros.

Other modo de hablar

Es nuestra lengua mojada, la que entra oculta a los Estados


Unidos en los furgones de carga, hacinada en los techos de los
vagones del tren de la muerte en viaje de Chiapas a Sonora
(México). Es la que pasa debajo de las alambradas, traspasa el muro
inteligente, la que burla los detectores infrarrojos, que no se deja
encandilar con los reflectores. Es la misma lengua que huye de los
perros que saben oler pobreza y sudores, y de los cebados granjeros
de Arizona convertidos en vigilantes armados de fusiles automáticos
para detenerla. El español “emigra” desde tan lejos como Bolivia,
Perú, Ecuador, acampa en el Río Suchiate, esperando la noche pasa
a nado, siempre acosada, a lo largo de su marcha temerosa hacia el
otro río, el Río Bravo, clandestina y por tanto subversiva.
Sergio Ramírez

Uno más de los temas recurrentes sobre la frontera es el lengua-


je, ¿Cómo se habla en la frontera?, de entre las muchas respuestas
posibles la más repetida es la percepción de un lenguaje “viciado”
que deforma o corrompe ambos idiomas (al español y al inglés).

256

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 256 29/04/14 18:58


Al decir de Yépez: “Gran parte del encanto de Tijuana es su lenguaje.
Ese lenguaje de hibridismo, remix y remate de todos los signos, esa
impureza donde lo otro es asimilado en su cliché más barato. Su
constante sabotaje de todo significado. Su perversión lingüística”
(Yépez: 2006, p.30).
Antes de comenzar con este punto conviene hacer una aclaración,
el spanglish, como se le ha llamado a esta mezcla (¿fusión?) de ambos
idiomas se habla, de acuerdo con Silvia Betti, principalmente por una
“Población […] que desea mantener su propia identidad dentro de un
país que no es el de origen (Betti: 2008, p. 16) y añade:

El spanglish, llamado también espanglish o espanglés, es el fruto,


pues, del encuentro (o del choque) entre dos mundos, dos sensibi-
lidades, dos culturas y dos idiomas: el hispánico y el anglosajón.

Como tal, este fenómeno se refiere sobre todo a la experiencia lingüís-


tica y cultural de latinos emigrados a los Estados Unidos de América,
pero afecta también a los países latinoamericanos y a España (Betti:
2008, p. 4).

La misma estudiosa realiza un seguimiento de las distintas postu-


ras acerca de este fenómeno; así mientras para Rojas Marcos el cambio
de código indica, “un elemento de fraternidad, de confianza. Insertar
en el diálogo una o dos palabras en español es siempre un gesto de
aproximación, de familiaridad y tiene en los debates tensos un efecto
tranquilizador.” (apud Betti: 2008, p. 13), Roberto Guareschi observa
en esta práctica, “un empobrecimiento del español si ese hibridaje se
realiza entre un inglés sólido y un español enclenque. El problema es
sobre todo una cuestión económica y política”. (apud Betti, p. 26);
por último hay quienes restringen este fenómeno a las poblaciones
fronterizas: “El spanglish no es una lengua. Más que un idioma, me
parece un estado de las cosas propio de los lugares fronterizos, una
mezcla sin más” (Carlos Fresneda apud Betti, p. 29). Obviamente la
lengua, en tanto expresión fehaciente de la identidad, entra en conflic-
to en un territorio donde la pugna entre culturas deviene, asimismo,
manifestación indiscutible de poder, tal como advierte Pierre Bourdieu:

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 257

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 257 29/04/14 18:58


hay que mostrar que, por legítimo que sea tratar las relaciones so-
ciales –y las propias relaciones de dominación– como interacciones
simbólicas, es decir, como relaciones de comunicación que implican
el conocimiento y el reconocimiento, no hay que olvidar que esas
relaciones de comunicación por excelencia que son los intercambios
lingüísticos son también relaciones de poder simbólico donde se ac-
tualizan las relaciones de fuerza entre los locutores y sus respectivos
grupos (Bourdieu: 2008, p. 11).

Dicha relación puede explicar la violenta reacción de Yépez res-


pecto a este tema:

Lo que nos marca localmente no es el gusto por el inglés (son pocos y


esporádicos nuestros traductores de literatura norteamericana), sino,
desgraciadamente nuestro repudio hacia él. Todo esto sin embargo,
pasa inadvertido a nuestros visitantes, que citan, por ejemplo, como
ilustración de nuestro anglicismo a los empleados y enganchadores
de la multicitada avenida Revolución que hablan en inglés “rastrero”
a los clientes para hacerlos entrar a las tiendas y congales. Lo que no
saben esos observadores es que el inglés que hablan los enganchado-
res de gringos es una parodia no sólo del inglés mismo, sino también
del español que hablan los norteamericanos (Yépez: 2006, p. 47).

Yépez insiste en el uso paródico el spanglish pero no sólo en


Tijuana sino que, de acuerdo con el escritor, tal empleo se extiende
a ambos lados de la frontera:

En los dos lados de la frontera nuestro uso cotidiano del otro idioma
(inglés/español) obedece frecuentemente a fines ridiculizantes. Los
dos idiomas son usados por sus no-hablantes como forma de balbuceo
universal […] En las estaciones de radio de San Diego, el español es
usado periódicamente para mostrar su vulgaridad, para demostrar
que está esencialmente vinculado a la cocina (“Hey, mamacita, do
you want tamales along with that song?”) (Yépez: 2006, pp. 52-53).

No obstante, no puede afirmarse que en el ámbito literario sea éste


(cuando menos no siempre) el objetivo de la práctica del spanglish;

258

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 258 29/04/14 18:58


otro escritor también tijuanense, Rafa Saavedra quien falleció el año
pasado, recreó esta mezcla de lenguas; más allá de la burla fácil, los
textos de su blog (Bukonica) permiten observar una intención dife-
rente, un tono más cercano a lo trágico que a la sátira:

1. ANTO ENDO FOREVER!

Where’s the beef?

“La vida realmente se repite en sí misma” se puede leer en una pared llena
de graffiti al momento de emprender el ride de la nostalgia. “Nadie es ino-
cente” gritaba, veinte años atrás, el tal Johnny Rotten pero eso no importa
ahora; mejor baila, baila with the designer’s music del disco-club o juega
maquinitas mientras dure la fiebre, el jodido mañana no tardará en llegar.
Aquí se habla everything pero ¿para qué? Nuestro Cristo Pop es skinhe-
ad, lleva piercings y un par de tatuajes too cool que, si se fijan bien, se
puede leer en ellos un anticipo del dogma de los noventas: “Yo no fui,
nadie me vio” (Rafa Saavedra, Bukonica blog. Dirección electrónica
en bibliografía)

Como todo en la frontera, la cuestión del lenguaje entra en debate,


optar por una lengua o por otra implica asumir no sólo una forma de
vida, sino toda una postura ideológica respecto al otro. Así lo expone
Yépez con referencia al artículo de Federico Campbel, “La frontera
del idioma”.16

Creer que el español-mexicano es más español que el spanglish sería


tan absurdo como suponer que el español-cubano es un español de-
generado o que es inferior al español ibérico. Y sin embargo, tampoco
podemos pensar que su denuncia del angloñol sea mera paranoia.
Muchos fronterizos piensan en inglés y se traducen al español.

Sin embargo, para continuar la contradicciones borderizas, el span-


glish nos parece fuchi. Es la naquez del otro lado del río. Es ésa la
verdadera razón por la cual lo rechazamos y lo creemos inferior.

16 Dato curioso: los tres tijuanenses a quienes formulé la pregunta, ¿se habla
spanglish en la frontera?, respondieron respectivamente: sí, no, a veces ….

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 259

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 259 29/04/14 18:58


Quienes lo hablan, los chicanos, nos parecen repelentes […] (Yépez:
2006, pp. 54 – 55).

Muchas otras cosas pueden decirse del encuentro entre ambos


idiomas, empero es cierto que tal como anota Magris,: “La frontera es
puente o barrera; estimula el diálogo o lo ahoga”(Magris: 2001, p.
57); hasta el momento, en la frontera entre México y Estados Unidos,
prevalece lo segundo.

La obsesión por cruzar

Resta una breve referencia a un punto más del amplio imaginario


sobre la frontera: la obsesión por cruzar, por ir al otro lado. No todos
los que cruzan la frontera van en búsqueda de mejores oportunidades
o del anhelado american dream; la desesperada situación que obliga
a miles de migrantes centroamericanos y mexicanos a arriesgar su
vida no es la de aquellos otros miles que por negocios o por múltiples
causas cruzan la frontera. La pregunta es, ¿por qué hacer filas inter-
minables?, ¿por qué aceptar un interrogatorio y un trato humillante
por parte de los policías aduanales o los de la “migra”? ¿Conocer el
“mágico mundo Disney” vale el tiempo y el esfuerzo invertidos?, ¿com-
prar ropa de moda y aparatos que en tres meses serán obsoletos es
realmente tan importante? Luis Humberto Crosthwaite responde estas
interrogantes: “No hay frontera si no existe la necesidad de cruzar.
Existen los cercos para mantener afuera lo que no se desea adentro,
cierto; pero esas barreras no tendrían razón de ser, un sentido, si
alguien no intentará cruzarlas. O sea el límite prevalece porque hay
quien desea traspasarlo” (Crosthwaite: 2011, p. 94). Traspasarlas,
transgredirlas, cruzarlas, tal es la razón de ser de las fronteras; el
mismo autor termina su “Misa fronteriza” con una incitación al cruce:

XII. Despedida
Hermanos en la fe:
[Eufórico]
Ya con esta me despido, pero pronto doy la vuelta. Sólo resta invi-
tarlos a cruzar la Frontera.

260

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 260 29/04/14 18:58


Cuando ustedes vean una; cuando estén frente a ella y sientan el
poderoso llamado, no se aten a los mástiles, no cierren los ojos, no
pasen de largo con gran indiferencia; arrójense, más bien.
Crucen, crucen, crucen.
Que no quede una frontera en este mundo sin cruzar, crúcenlas todas,
que al fin para eso están ahí. Para eso delimitan, para eso nos res-
tringen, nos retan, nos agreden. Para eso, para que crucemos la línea
que forman, para desaparecerla en el momento que la traspasamos.
Y si alguien les impide el paso, ustedes pasen.
Y si les dicen que nada tienen que hacer ahí, ustedes pasen.
El mundo es de todos. (p. 201).

La invitación queda ahí, cada quien decide si cruza o no su frontera.

Referencias Bibliográficas

Alegría Tito, Metrópolis transfronteriza. Revisión de la hipótesis y evidencias


de Tijuana, México y San Diego, Estados Unidos. México, El Colegio de la
Frontera Norte: 2009.

Betti, Silvia, ¿El spanglish ¿medio eficaz de comunicación? Bologna, Italy,


Pitagora Editrice: 2008.

Bourdieu, Pierre, ¿Qué significa hablar? Economía de los intercambios


lingüísticos, traducción de Esperanza Martínez Pérez. Madrid, Akal: 2008.

Ceballos, Ramírez Manuel (coord.), Encuentro en la frontera: mexicanos


y norteamericanos en un espacio común; México, El Colegio de México/ El
Colegio de la Frontera Norte/ Universidad Autónoma de Tamaulipas: 2001.

___________________. “Los dos Laredos: historia compartida y experiencia


de la frontera”, en Encuentro en la frontera: mexicanos y norteamericanos
en un espacio común.

Crosthwaite, Luis Humberto, Instrucciones para cruzar la frontera, 2ª ed.


México, Fábula Tusquets, 2011.

García Canclini, Néstor; Safa, Patricia y Grobet, Lourdes, Tijuana,


la casa de toda la gente. México, INAH/ENAH/Programa Cultural de las
Fronteras/UAM-Iztapalapa/Conaculta: 1989.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 261

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 261 29/04/14 18:58


García Martínez, Bernardo, “El espacio del (des) encuentro”, en Encuentro
en la frontera: mexicanos y norteamericanos en un espacio común; Manuel
Ceballos Ramírez (coord.). México, El Colegio de México/ El Colegio de la
Frontera Norte/ Universidad Autónoma de Tamaulipas: 2001.

Jameson, Fredric, El posmodernismo o la lógica cultural del capitalismo


avanzado, trad. de José Luis Pardo Torio. Barcelona, Paidos: 1991.

Magris, Claudio, “Desde el otro lado. Consideraciones fronterizas”, en Utopía


y desencanto. Historias, esperanzas e ilusiones de la modernidad, trad. de J.A.
González Sainz. Barcelona, Anagrama, 2001, 351 pp.

Montezemolo, Fiamma, Peralta René, Yépez, Heriberto, Aquí es


Tijuana. London, Blackdog: c2006.

Said, Edward W, “Teoría ambulante”, en El mundo, el texto y el crítico, trad.


de Ricardo García Pérez. Barcelona: Debate, 2004, pp.303-330.

Yépez, Heriberto, Made in Tijuana. Mexicali, Instituto de Cultura de Baja


California: 2005.

______________, Tijuanologías. Mexicali, Baja California, Universidad


Autónoma de Baja California, Libros del Umbral: 2006. (El clan, 15).

Teoría de la frontera. Los límites de la política cultural, introducción de


Alejandro Grimson, Scott Michaelsen, David E. Johnson (compiladores).
Barcelona, Gedisa: 2003.

Navarro Solís José Luis, “Carta cuarta. De los significados del arte, la
educación, la frontera y los falsos ángeles”, en Epistolario celeste (Inédito).

Hemerografía

Cortés, Jair “Nuevos poetas en Tijuana”, en La Jornada Semanal, núm.


952, 2 de junio de 2013, pp. 4-5.

Littell, Jonathan, “Ciudad Juárez: un infierno de lo más normal” en Letras


Libres, núm. 163, julio de 2012, pp. 46-59.

Martínez, Sanjuana, “Crece el asedio del narco en Matamoros; ¡escóndanse!,


la estrategia de la alcaldesa”, en La Jornada, 21 de noviembre de 2013, p. 4.

Mateos-Vega, Mónica, “Ese cáncer surgió hace años en la frontera y ya es

262

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 262 29/04/14 18:58


metástasis en el país: Gustavo Monroy. La violencia se ha convertido hasta
en un género artístico”, La Jornada, 18 de septiembre de 2013, p. 3.

Palapa Quijas, Fabiola, “Promueve Entijuanarte la promoción y venta de


obras de noveles artistas”, La Jornada, de septiembre de 2013, p. 9.

Prado, Henia, “Alerta el Colef sobre situación precaria de migrantes. Viven


indigencia migrantes varados”, periódico Reforma, domingo 3 de noviembre
de 2013, p. 5.

Consultas en la red

Cebrelli, Alejandra y Arancibia, Víctor, “Las representaciones y


sus márgenes. Identidades y territorios en situación de frontera” http://
v2.reflexionesmarginales.com/index.php/no-10/219-prologo

Montezemolo, “Cómo dejó de ser Tijuana laboratorio de la posmodernidad.


Diálogo con Néstor García Canclini”

http://www.scielo.org.mx/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0188-
-70­172009000200010

Fernández Prado, Rodrigo, “La ficción narrativa de la frontera: El río


Bravo en tres novelas mexicanas”

http://www.scielo.org.mx/scielo.php?pid=S0187-73722013000100007­
&script=sci_arttext

Foucault, Michel, “Topologías. Dos conferencias radiofónicas” en


Fractal http://www.mxfractal.org/RevistaFractal48MichelFoucault.html
(20/10/2013)

Kunz, Marco, “Tijuana la indefinible: narcorrealismo y esperpento en la


obra de Heriberto Yépez”, en Nuevas narrativa mexicanas, Marco Kunz,
Cristina Mondragón, Dolores Phillipps-Lópes (eds.) http://www.academia.
edu/5128046/Tijuana_la_indefinible (06/08/2013)

Lemus, Rafael, “Balas de salva. Notas sobre el narco y la narrativa mexicana”


http://www.letraslibres.com/revista/convivio/balas-de-salva (20/11/2013).

Monsiváis, Carlos “La frontera norte y sus arraigos”, El Universal en línea,


27/01/2008 http://www.eluniversal.com.mx/editoriales/39586.html (20/09/2013)

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 263

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 263 29/04/14 18:58


Parra, Eduardo Antonio, “Norte, narcotráfico y literatura” http://www.
letraslibres.com/revista/convivio/norte-narcotrafico-y-literatura (20/11/2013)

Pérez, Alonso, “De este y otro lado. Carlos Monsiváis y Mike Davis reflexio-
nan sobre la frontera” http://laprensa-sandiego.org/archieve/2006/july07-06/
monsivais.htm (24/10/2013)

Saavedra, Rafa http://bukonica1.blogspot.mx/2004/06/1-anto-endo-


-forever.html (05/08/2013)

Suárez Ávila Paola, “Arte y cultura en la frontera. Consideraciones teóricas


sobre procesos culturales reciente en Tijuana” http://www.journals.unam.
mx/index.php/anuhist/article/view/31575 (16/11/2013)

Yépez, Heriberto, “Lo post – transfronterizo”.

http://www.literalmagazine.com/english_post/lo-post-transfronterizo/
(13/10/2013)

264

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 264 29/04/14 18:58


CUENTOS PINTADOS DEL PERÚ:
memorias, imágenes y lenguas del Ande

Rosaura Andazabal Cayllahua1


(UNMSM – Peru)

Introducción

El Perú posee un abanico cultural rico en tradiciones, costumbres y


vestigios que reflejan la evolución y diversidad de nuestra sociedad a través
de los siglos. Dentro de esa riqueza cultural está la evolución y resistencia
de las diferentes lenguas, que desde tiempos remotos se han manejado
y aún hoy se hablan en diferentes puntos de nuestro territorio. Mucho
antes de la expansión Inca, existían numerosas lenguas que pertenecían a
familias y dialectos diferentes; que fueron distorsionándose, olvidándose y
muchas de ellas extinguiéndose por el dominio Quechua. Con la invasión
española, las comunidades andino/ amazónicas han sufrido la imposición
del español (hasta hoy en día) como medio de comunicación oral y escri-
ta, lo cual fue imprescindible para el éxito del proceso de evangelización
española, como también les facilitaba el manejo político administrativo

1 Historiadora. Egresada de la Maestría de Historia por la Pontificia Uni­


versidad Católica del Perú (1990) y Licenciada en Historia por la Universidad
Nacional Federico Villarreal (1990). Desde 1985 a la fecha trabaja como inves-
tigadora permanente en el Seminario de Historia Rural Andina de la Univer­
sidad Nacional Mayor de San Marcos. Habiendo orientado desde entonces
sus investigaciones a la Historia Social y Económica del Perú y Latinoamérica
entre los siglos XVI y XVIII; al Arte popular andino, y en torno a la Educación
Intercultural y Bilingüe del Ande peruano.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 265

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 265 29/04/14 18:58


de los diferentes estamentos de la sociedad colonial. Ese proceso de con-
solidación del español se ha mantenido durante la Repú­blica y parte del
siglo XX, en que se inicia una serie de investigaciones que han contribuido
a afianzar el uso del Quechua y el Aimara respectivamente. Sin embargo
esa atención para las comunidades amazónicas ha sido inferior lo cual
ha contribuido en parte, a la desaparición de numerosas comunida-
des como los resígaro, andoque, chetebo, angotero, omagua, cholón,
munichi o taushiro. De 42 remanentes, 18 están formadas por menos
de 225 individuos, por lo que se les considera en peligro de extinción.
A pesar de todos estos factores en contra, la mayor variedad lingüística
se da en la Ama­zonía, donde alrededor de 300,000 peruanos usan cuarenta
idiomas diferentes (EL COMERCIO, 2002, p. 52-53)
En el caso de las lenguas andinas, el Quechua según Decreto Ley 21156
de 25 de mayo de 1975, es oficial nacional (RAVINES y AVALOS, 1998.),
formada por aproximadamente 31 dialectos geográficos; es la más exten-
dida entre la comunidad andina del Perú, con 4,5 millones de hablantes
(18% de la población total nacional); seguido del Aimara hablado por
400,000 habitantes (1% de la población nacional) localizados en Puno,
Arequipa, Moquegua, Tacna y la serranía limeña de Yauyos, donde aún
se habla –aunque en proceso de extinción – en Jacaru (en los pueblos
de Tupe, Asia y Colca) y Cauqui (en el pueblo de Cachuy) que vienen a
ser los antecedentes del Aimara que, a nivel de países se extiende en un
amplio territorio que comprende a Bolivia y el Perú, y en menor porcentaje
a Chile. En el caso peruano se circunscribe a la periferia del lago Titicaca
(sudoeste/noreste del lago) y al noreste de Puno. (UNEBI, 2000).
En Lima Metropolitana y la provincia Constitucional del Callao se
condensan casi todas las lenguas andinas y amazónicas, como pro-
ducto de poblaciones migrantes procedentes de diferentes regiones,
donde se evidencia la cifra más alta de quechua hablantes (99%),
incluida a todas sus variantes. Esta alta concentración de migrantes
andinos se observa principalmente en los distritos de los conos sur y
este, donde se perfila a una población mayor de 25 años. Tendencia
en la que coinciden varios estudios señalando en cifras y mapas a un
alto porcentaje ubicado en San Juan de Lurigancho, el Agustino, Santa
Anita, Ate, San Juan de Miraflores, Villa María del Triunfo, Chorrillos,

266

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 266 29/04/14 18:58


Villa el Salvador, Cieneguilla y Pachacámac; siendo los dos últimos
los de reciente migración, los menos integrados a la metrópoli y los
de mayor porcentaje quechua (CHIRINOS, 2001, p. 118-119)2.
Sin embargo, los migrantes andinos asentados en las periferias de la
urbe limeña, no solo se comunican en quechua y/o aimara, sino que como
producto de adaptarse y socializar con el entorno de población costeña
con la que conviven, tienden a hablar en Quechuañol3 y/o en Aimaroñol,
y así, de similar forma se va produciendo con las demás lenguas que cons-
tituyen “los mejores testimonios actuales de la heterogloxia (diversidad
de lenguas) conflictiva que define al Perú”, donde no necesariamente se
produce desentendimiento entre ellas (MACERA, 1999, p.12).
En este contexto, Pablo Macera señala que las narraciones de los
pintores del Ande – como Carmelón Berrocal – en la urbe limeña se
enfrentan a varias situaciones, por un lado si bien conservan la pureza
artística de sus oralidades con su propia sistemática, a la vez, al asumir
sus lenguas – subordinadas del español – “la escritura, de algún modo
se occidentalizan.” Más aún, cuando la oralidad es llevada al análisis
científico4, esta se altera al ser sistematizada para la lectura de una
sociedad “escrituraria y alfabetizada”. Para sentenciar finalmente que,
“nuestras lenguas subordinadas se hallan en trance de insubordinación.”
Es decir, van a la búsqueda de una normativa lingüística acorde a sus
lenguas de origen, tendiendo de este modo a la posible fragmentación
– a futuro – del español, que se retrasará todo el tiempo que el sistema
de poder pueda hacerlo, tanto en el Perú como en toda Latinoamérica.
Por tanto, el relato popular no debe compararse con los géneros
de la gran literatura, ni considerársele inferior, porque es el resultado
de la voz colectiva que si bien no necesariamente agota todas las

2 Véase a Chirinos Rivera (2001), y los datos del INEI (1993 y 1994).
3 Término que señala Pablo Macera fue propuesto por el historiador José
Tamayo Herrera con un énfasis crítico negativo respecto al quechua empleado
por José María Arguedas. La heterogloxia definida por Ballón, y en torno a las
relaciones de subordinación de las lenguas estructurado por Cornejo Polar.
4 Para ver la evolución de los estudios sobre la tradición oral en el Perú
desde 1896 hasta 1976, y en torno a la relación del testimonio oral peruano
y las ciencias sociales, Véase a Chonati (1978) y Andreu (2000),

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 267

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 267 29/04/14 18:58


posibilidades de expresión del mundo y de las cosas (URBANO, 1982,
p.I-III); sin embargo trasmite tal cual la concepción cosmológica de
un espacio, de una colectividad, válido para un análisis comparativo
a posteriori de todo un universo mayor que compone un país, con
sus lenguas, sus costumbres y sus tradiciones.
Esbozado así, a grandes rasgos, sobre el cuidado que se debe
tener en el tratamiento de los relatos y/o testimonios orales, hay que
advertir también lo que la experiencia nos va dejando, y es el de ver
hacia qué público se dirigirán estas informaciones y cómo deben ser
canalizadas. Para el científico social será de mayor utilidad la trasmisión
escrita tal cual, mientras que para la población escolar deberá hacerse
una adecuación mínima de la redacción y ortografía, manteniendo la
forma coloquial del informante del relato, sin alejarnos demasiado de
la oralidad de las gentes de los pueblos de la costa, del Ande y de la
Amazonia peruana. Pero, debemos pensar en incluir una tercera op-
ción –aunque debiera ser lo primero a elaborar – para la colectividad
trasmisora, donde lo publicado conserve tal cual la oralidad de origen,
con una mínima organización de la escritura a cargo de especialistas.

El historiador Pablo Macera


y el Proyecto Cuentos Pintados del Perú
La mirada hacia la oralidad andina no es de interés reciente en las
investigaciones del historiador Pablo Macera, baste una revisión a su
activa participación en numerosas investigaciones y exposiciones sobre
el arte y la oralidad andina desde la década de 1970 al presente, que ha
venido impulsando con diversas instituciones limeñas y especialistas
en el tema. De igual modo puede verse en la producción bibliográfica
del Seminario de Historia Rural Andina – fundada por él en 1966 – para
percibir que desde entonces empieza a figurar el tema de la oralidad
con la publicación titulada Poncho Prieto (ANDAZABAL, 2006, p.38),
que destaca la historia de un sui generis poblador del pueblo de
Sartimbamba, cuyo autor es don Prisciliano Infantes Saavedra5, natural

5 Nacido en el distrito de Sartimbamba, provincia de Sánchez Carrión, en


el departamento de La Libertad, el año 1917. Don Prisciliano publicó hasta

268

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 268 29/04/14 18:58


de la zona y maestro carpintero que laboraba por esos años en la sede
Colegio Real de San Felipe, de la Universidad Nacional Mayor de San
Marcos, en el mismo lugar donde quedan las oficinas del historiador,
quien con este cuento huamachuquino y a través de la “Dirección de
Proyección Social de San Marcos inicia su serie La Quillca destinada a
recoger testimonios del arte oral andino y a promover las realizaciones
creadoras de los trabajadores del Perú” (MACERA, 1975, p.II).
A ello prosigue la apertura de estudios de historia, antropología,
arqueología, etnohistoria, literatura y sociología, desde donde se han
abordado temas en torno al arte, oralidad, folklore, iconografía, ritua-
les, artesanía, retablos y biografías de personajes de la sierra norteña
y del sur del ande peruano (ANDAZABAL, 2006, p.19).
En esta perspectiva de estudio y trasmisión se enmarca el proyecto
Cuentos Pintados del Perú, creado y dirigido desde el año 1994 a la
fecha por Pablo Macera Dall´Orso, en torno al fomento y desarrollo
de la educación intercultural y bilingüe, a través de la recopilación de
cuentos tradicionales del Ande (Ayacucho, Puno, Ancash, Cusco), de
la Amazonia (Shipibo, Bora, Asháninca, Aguaruna) y de los hijos de
migrantes de colegios públicos de Lima. Trabajado por el área de histo-
ria [Rosaura Andazabal (Andes) y María Soria (Amazonia] y el valioso
apoyo externo de la docente Idelsa Mestas Delgado y el antropólogo
Javier Macera Urquizo, con el concurso activo de pintores y narradores
autodidactas, quienes han producido relatos orales tradicionales asocia-
dos a la concepción propia de las cosmogonías locales de sus lugares de
origen que, se complementan con pinturas elaboradas por ellos mismos.
Inicialmente, estos materiales en quechua y aimara procedentes
de Ayacucho y Puno, así como sobre los Bora y Shipibo, se han
publicado a color, en lengua bilingüe (español/nativo) normatizado
y con interpretaciones antropológicas que, han contado con el apo-
yo de la Editorial Bruño, el Ministerio de Educación, de la GTZ de
Alemania, del Seminario de Historia Rural Andina y de la Universidad
Nacional Mayor de San Marcos. Posteriormente el proyecto logró

1994 cuatro títulos más en torno a la historia, cosmogonía y personajes de


su pueblo en el Seminario de Historia Rural Andina.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 269

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 269 29/04/14 18:58


ampliar su radio de acción a otras zonas rurales andinas (Cusco,
Ancash y Lima) y amazónicas (Asháninca y Aguaruna) que, no sólo
ha incluido publicaciones normatizadas (para escolares) y sin nor-
matizar (de interés académico), sino también la exposición de los
relatos con información sucinta y sencilla dirigido a la comunidad
en general, lo cual se hizo efectivo con la inauguración de la Sala de
exposiciones Colegio Real con la muestra titulada Pintura Popular:
Niñas y Madres (2001)6y, a través de calendarios de Arte Popular que
se han ido publicando desde el año 2002 hasta el 20097, con obras de
artistas del Ande como Carmelón Berrocal, Félix Condori, Zorayda
Jara y Genoveva Núñez; seguido de las de Enrique Casanto y Katty
Casanto Ríos (Ashánincas), Lastenia Canayo García, Diana Rodríguez
Pacayo y Anita Angulo Rodríguez (Shipibas) y Félix Chumacero
(Piura). De este modo el proyecto va cumpliendo sus objetivos de
difusión –oral, visual y escrita – de nuestras tradiciones culturales, a
través del rescate, revaloración y puesta en valor de nuestras lenguas
andinas y amazónicas, pero también fomentando el desarrollo de la
pintura autodidacta, expresado en diversos temas, formatos, soportes
(madera, llanchama, telas y cartulinas) y tintes naturales (tierras y
plantas) o industriales (plumones, témperas, lapiceros y lápices de
colores). La realización de esta segunda fase ha sido posible gracias
al auspicio de la UNESCO.

Oralidad, memoria e imagen:


artistas del Ande en la urbe limeña

Desde hace más de dos décadas venimos recopilando diversos


registros plásticos que han ido de la mano con la oralidad propia de
hombres y mujeres del Ande peruano. Obras de artistas populares
que construyen un espacio propio, y obtienen, con limitaciones, un

6 Desde allí al presente, venimos impulsando exposiciones de pintura y


palabra de artistas de los pueblos del Ande y de la Amazonia peruana.
7 gracias al apoyo de la editorial Tarea Asociación Gráfica Educativa, del
propio Seminario de Historia Rural Andina, de la UNMSM y de CARE Perú

270

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 270 29/04/14 18:58


reconocimiento justo, dentro y fuera de ese cuarto mundo que opera
al interior del tercer mundo8.

Artistas que han innovado sus tradiciones sin dejarse avasallar por
ese monstruo tecnológico que viene del primer mundo y que mantie-
nen sus identidades a través de códigos orales, pictóricos y musicales.
En el área andina del cual me ocupo, son artistas migrantes de habla
Quechua y Aimara establecidos con sus familias en los conos de Lima
Metropolitana, que son los casos de Carmelón Berrocal, Félix Condori,
Zorayda Jara y Genoveva Núñez, lo cual ha facilitado el desarrollo de
nuestro trabajo mutuo. Población que es parte de ese flujo migratorio
del interior del país concentrado en Lima desde 1940 (10%), cuyo índice

8 Una visión en torno al proceso del arte popular y las artesanías del siglo
XX, y su relación con la interculturalidad del Perú. Véase a Macera (1998).

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 271

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 271 29/04/14 18:58


en las últimas décadas muestra un crecimiento vertiginoso del 40%,
que indica que cada uno de tres peruanos vive en Lima (INEI, 2002).

Carmelón Berrocal: Arte, historia y tradición de Sarhua

Discípulo del maestro pintor don Víctor Yucra, Carmelón Berrocal


Evanán fue un pintor precoz que desde los 15 años firmaba su obra.
Descendiente de la milenaria tradición de Sarhua (provincia de Víctor
Fajardo, departamento de Ayacucho), nació en ella un 18 de julio de
1964, en el hogar de don Adrián Berrocal Yupa y doña Filomena Evanán
Pumacanchari, donde creció junto a sus hermanos (Pompeyo, Julia,
Profeta, Marciano y Margarita), absorbiendo el conocimiento en torno
a la técnica y elaboración de las tablas pintadas, así como del estricto
ritual familiar9 que acompañaba la entrega de estas vigas de maguey –
o madera – donde iba representada la genealogía de la familia, los dioses
tutelares andinos y los santos de la religión occidental. Junto a estos
primeros recuerdos de infancia, Carmelón Berrocal se nutrió también
de los relatos orales que la abuela Francisca Pumacanchari10 les tras-
mitía al final de la faena del pastoreo de ovejas, en las estancias que
tenían en las alturas de Sarhua. Allí supo de los cuentos de cóndores,
de fenómenos naturales, de la justicia, de phistacos, demonios, brujas
y almas; así como del significado de las constelaciones y su relación
con la vida cotidiana. La preparación in situ de este notable artista se
fue consolidando en el día a día a través de experiencias adquiridas
en torno al patrimonio – inmaterial y material – que como legado an-
cestral posee su pueblo, trasuntado a través de tecnologías ancestrales
de producción agrícola, del renuevo del puente de fibra vegetal, de la
limpieza de los canales de agua y de las celebraciones rituales festivas
para diversos contextos celebrados según el calendario anual.

9 Donde junto a la tabla pintada con la genealogía de la familia que techa


la casa, los compadres ofrecen además dos cargas de ichu (tejas o calami-
nas) para el techado y dos botijas de chicha de maíz, al compás de huaynos
alusivos al ritual, bajo los acordes del arpa y el violín.
10 Además de haber oído otros tantos de su abuelo y un tío viejo llamado
Máximo Yupa.

272

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 272 29/04/14 18:58


Carmelón Berrocal pertenece a una cuarta generación de pintores11
habiendo iniciado su ruta de artista en el ADAPS12, bajo la dirección del
maestro Yucra en la Casa Cural de Sarhua, donde entre 1980 y 1981 pule
su técnica de pintura, aprende a diferenciar las illas13 y los frijoles de colo-
res, entendiendo el significado de cada una. Allí también Berrocal –junto
a Reynalda Quispe-, además de recibir un pago por su obra, empezó a
pintar a pedido, escenas costumbristas de la vida cotidiana de Sarhua,
manejando ya nuevos formatos en soporte de triplay, así como el uso de
tintes industriales para el pintado. Estas nuevas tablas pintadas de Sarhua
eran solicitadas por el ADAPS de Lima, para satisfacer los requerimientos
del usuario limeño. De este modo, se puede aseverar que a partir de esta
generación se deja un tanto el uso de las tierras naturales y los soportes
de maguey, de pati, de aliso y de molle; sin perder el estilo tradicional
y la temática intrínseca de su cosmos circundante.
Hacia la década de 1980 nuestro artista migra a la ciudad de Lima,
y en ella se inserta en un sistema laboral eventual e informal (vendedor
de loterías y jardinero), con la que obtiene exiguos ingresos, pero, que a
contraparte le dejo espacio para culminar sus estudios hasta la secundaria
(1990), en colegios públicos de los distritos de San Juan de Miraflores y
Chorrillos, etapa donde sus dotes de adiestrado pintor aflora con fuerza
y por mérito propio obtiene los primeros lugares en concursos de dibujo,
con temas en torno al trabajo en Sarhua, como el titulado Recolección
de la cochinilla. Paralelamente, a mediados de esta década ingresa al
ADAPS14 hasta 1991, lapso donde alterna con maestros experimentados
como Juan Walberto Quispe y Julián Ramos, siendo este último el que
depura la técnica de la pintura de Carmelón Berrocal, adiestrándolo en
la mezcla de colores y el manejo de pinceles industriales.

11 Junto a Abdalina Pomasonqo, Gaudencia Quispe y Reynalda Quispe


12 Asociación de Artistas Populares de Sarhua.
13 Amuletos en forma de animales de piedras, de plantas u otros elementos,
cuyo valor intrínseco era el proteger a las personas y sus cosas.
14 Ubicado en la segunda zona de la Asociación Rural Industrial Agropecuaria
(ARIA) “Las Delicias de Villa”, en el distrito de Chorrillos (Lima), dirigido
por Primitivo Evanán.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 273

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 273 29/04/14 18:58


La búsqueda de un mejor norte para sí y los suyos lo orilla a la
apuesta por el taller familiar al lado de su hermano Pompeyo, apenas
iniciado el año 1991, cuya ventaja era que las obras que producían en
conjunto – y algunas que hacía de manera individual – se expendían
en el puesto para venta de artesanía que su hermano posee en el
distrito de Miraflores, lo cual garantizaba el ingreso familiar, pero no
la ansiada independencia personal en términos de economía y lo que
como artista quería desarrollar. En este trayecto estaba hasta que en
1994, conoce al historiador Pablo Macera, quien era asiduo cliente de
su hermano Pompeyo, y precisamente en una de sus visitas al puesto
de Miraflores se interesó Macera en una tabla que aludía al cuento El
joven ocioso o Qilla Maqta que Carmelón había pintado.
Este encuentro define su ingreso al proyecto Cuentos Pintados del
Perú, accediendo a la invitación de Pablo Macera, donde tuvimos la oca-
sión única para apreciar los valores personales y artísticos de Berrocal.
Fase a la que llegó como un artista de tradición de alta especialización,
con la oralidad a raudales que sobrepasaba a sus pinturas. Oralidad e
imagen que en esta nueva etapa tuvo la ocasión de vincularla a su na-
rrativa quechua/ español/ quechuañol. Donde su producción plástica
involucionó –para bien – del uso de tintes industriales hacia las tierras
naturales y los tintes vegetales. De este modo, Berrocal consolidaba
in extenso su obra que pudo ser apreciada por la crítica especializada
en Lima, con motivo de la apertura del Museo de Arte de la Casa de
la Moneda (BCR), donde una sala estaba dedicada a ella. Vino luego
en 1996 la publicación de dos libros de cuentos, y tras ella su viaje a
Dinamarca en 1997 al Festival de Aarhus donde expuso con gran éxito,
estableciendo nexos internacionales con invitaciones en curso hacia
Colombia, Japón, Estados Unidos y Europa, avizorando un prometedor
futuro para la exportación de sus obras. Todo lo cual queda trunco el 4 de
febrero de 1998, con una extraña muerte15 de Carmelón junto a sus hijos

15 curiosamente representada por él en 1995, en una tabla en torno al cuento


Cargar un alma o el Alma qipiy, donde al extremo inferior derecho grafica la
fosa de un adulto flanqueada por dos de niños, al pie del río Qaracha, donde
se observa a un hombre de espaldas que carga a un alma para que cruce el río.

274

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 274 29/04/14 18:58


Andrés y Jorge, en circunstancias poco claras. Que según dicen, fueron
arrastrados por las aguas del río Qaracha hasta el pueblo de Huancapi,
donde estuvieron sepultados hasta el año 2006, de donde hace poco han
sido exhumados los restos y trasladados al cementerio del distrito de
Sarhua para el descanso eterno, en ese universo tan mágico como real.

Carmelón Berrocal. Cargando un alma . Lima, 1995.


Técnica mixta sobre triplay, 30 x 35 cms.

En esta fase final de consolidación de la obra de Berrocal, jugó


un papel decisivo el oficio de historiador de Pablo Macera, quien con
sumo conocimiento, tino y respeto, dejó que el artista fluyera con total
libertad, atendiendo Berrocal tan solo el pedido de escribir narraciones
y producir ilustraciones para ellas.
“Cada uno de estos ciclos de Carmelón Berrocal ha tenido su valor
propio…Todos los que hemos participado directa o indirectamente
en la vida de Carmelón Berrocal debemos entender que nosotros,

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 275

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 275 29/04/14 18:58


en forma individual o colectiva, fuimos los instrumentos para que
él pudiera pintar y hacer todo lo que hizo”. (MACERA, 1999, p.17).
“Sin exagerar todos podemos decir que Carmelón Berrocal era un
nuevo Guamán Poma viviendo en el siglo XX. Como todos los grandes
maestros Carmelón Berrocal ha cumplido una doble función dentro
del arte andino peruano: formar parte de una tradición y al mismo
tiempo cambiarla” (MACERA, 1999, p. 11).

Félix Condori: Lagos. Demonios y serpientes


en la cosmogonía vilqueña

A diferencia de Carmelón Berrocal, la destreza plástica de Félix


Condori Vilca si bien no le venía de tradición familiar, era sí una
habilidad inherente que dormía en él, esperando sin siquiera saber
que algún día pintaría y narraría la tradición oral de Llachacata, una
comunidad ubicada en el distrito de Vilque Chico al noreste del Lago
Titicaca, en la provincia de Huancané, departamento de Puno. Donde
Félix nació un 28 de mayo de 1973, siendo criado junto a sus herma-
nos – Demetrio, Inocencio, Virginia, Yolanda y Rubén – en casa de
sus padres, don Pablo Condori Quinto y doña Eduarda Vilca Apaza
dedicados a la agricultura y al comercio.
Tras la muerte de Carmelón Berrocal, el Proyecto Cuentos Pintados
del Perú requería cubrir el vacío dejado, y en medio de trámites le-
gales seguidos a favor de su viuda Emilia Irene Gómez Serna y de su
hija Cecilia Berrocal Gómez, se conversaba de varias posibilidades
para hallar a otros artistas en proceso de formación, nombrándose a
Félix Condori en una de las reuniones, quien es sobrino de la cuñada
de la viuda de Berrocal. De este modo llega Félix a formar parte del
proyecto, quien había conocido en vida a Carmelón Berrocal y había
practicado en su taller en numerosas ocasiones, por lo que sabía cómo
se cubrían las tablas con masilla blanca, para luego delinear el dibujo16

16 habiendo destacado desde niño en numerosos concursos de dibujo y


pintura que organizaban los colegios nacionales Almirante Miguel Grau y en
la Gran Unidad Escolar San Carlos de Puno.

276

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 276 29/04/14 18:58


en negro antes del pintado y acabado final. Berrocal había ini-
ciado con Félix Condori el desarrollo de su taller propio, donde
posiblemente iría congregando a jóvenes – con aptitudes – de
diversos lugares del Perú asentados alrededor suyo en las Delicias
de Villa (Chorrillos), para legar en ellos todos los conocimientos de
su tradición.
Era abril de 1998, a Félix Condori al igual que a Carmelón Berrocal
invitado a trabajar en el proyecto, se le dejó que planteara los temas
a narrar y pintar, de aquellos saberes que había escuchado de su
abuelo, de su padre y de su entorno familiar.
A los inicios pintó Condori algunas tablas en torno a animales
y plantas que iban centrados sobre fondo blanco, el que con el
tiempo devino en un extraordinario manejo de la perspectiva y de
la proporción de los personajes. Todo lo cual se tradujo en una bella
explosión cromática de colores fuertes y cálidos, donde devanea con
fuerza los ocres, azules y verdes en un sinfín de tonalidades que,
contrasta bien con los tonos de resplandor e iridiscencia de los astros
y fenómenos atmosféricos, imprimiendo al final sutiles figuras que
emergen a manera de tenues halos blancos.
Habiendo producido desde entonces en disímiles forma-
tos, soportes (cartulina, cartón y triplay), pinturas industriales
(témperas, óleos y acrílico) y lápices de colores, varias series en
torno a fiestas, danzas, trajes, máscaras, flora, fauna y relatos
puneños donde cobran vital importancia las pozas, las serpien-
tes y las ranas como agentes primordiales que regulan el ciclo
del agua. Donde Félix Condori vincula también – a su obra-, las
celebraciones rituales, en el que se mezclan sueños y seres mi-
tológicos en una relación cíclica que establece el hombre aimara
con el cielo, la tierra y el agua, las cuales reflejan un eje mágico
constante que actúa para canalizar, ordenar y fiscalizar el com-
portamiento de los animales y de los seres humanos. Lazo que
establecido entre lo cotidiano y lo mágico se traduce en disímiles
escenarios, en el que se engarzan elementos andino/occidenta-
les como también la práctica oral y escrita de la lengua aimara
(ANDAZABAL, 2002).

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 277

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 277 29/04/14 18:58


Félix Condori. La mujer que vive en el lago. Lima, 1995.
Técnica mixta sobre cartulina, 27 x 37 cms.

Zorayda Jara: de las labores del campo en Huasta


a la dirigencia vecinal en Pamplona Alta (Lima)

Leonidas Zorayda Jara Palacios, es migrante de la sierra norte,


nacida en 1959 en el distrito de Huasta (provincia de Bolognesi, de-
partamento de Ancash), es madre de 6 hijos, y vive desde fines de
la década de 1970 en Pamplona Alta, uno de los pueblos jóvenes del
cono sur limeño, en el distrito de San Juan de Miraflores.
Zorayda se incorpora al proyecto de manera fortuita. Estaba ella
en la Sede Colegio Real (UNMSM) con una comisión de padres de
familia, en gestiones para lograr donativos de equipos de cómputo y
muebles para las aulas del colegio de sus hijos. Cuando supo que allí
trabajaba el historiador Pablo Macera y queriendo conocerlo logra
entrevistarse con él para que interceda a favor de su cometido. A la
par, en un ambiente de empatía mutua, quedó ella impresionada con
las tablas de Carmelón Berrocal que cubrían casi todo el recinto, y

278

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 278 29/04/14 18:58


en el diálogo señaló Zorayda su deseo de participar con sus dibujos
y la oralidad de su pueblo.
Prefirió ella las cartulinas y plumones, para graficar en sus pri-
meras pinturas los relatos tradicionales de Huasta, pero a medida que
nuestras reuniones avanzaban su testimonio personal más reciente y
urbano se imponía sobre la tradición campesina de su pueblo, Zorayda
elaboraba su propia terapia. El resultado fue gratificante: la fusión
oral y plástica de Zorayda Jara marcaba un registro del rol que ha
desempeñado la mujer migrante, en los últimos cuarenta años, del
mundo del cual ella ha sido y es parte, de ese engranaje atiborrado de
mecanismos de “asistencia social” promovido por el Estado, la Iglesia
y las ONGS, de iniciativas populares, lo que le ha permitido a Zorayda
subsistir con los suyos en un medio sórdido y hostil.
Sin duda historias como la de Zorayda se suceden a diario en la
periferia limeña. Características personales que también han vivido o
viven muchas mujeres migrantes de diversos puntos de nuestro país
coincidentes en estos sectores.
El registro personal de Zorayda desliza disímiles posibilidades
para un estudio socio histórico de poblaciones migrantes asentados
en los principales conos de Lima de las últimas décadas, donde un
gran porcentaje de migrantes andinos figuran inmersos en un vaivén
constante de trabajos informales, eventuales y mal remunerados, cuyas
protagonistas principales son mujeres (madres de familia) que subsis-
ten solas o apoyando el ingreso económico de sus familias. Condición
laboral que las circunscribe como subempleadas de instituciones
estatales o privadas, cuyos pagos la mayoría de veces se limitan al
canje de artículos de primera necesidad, canje que se incrementa en
épocas de elecciones presidenciales, congresales y edilicias.
Por otro lado, su testimonio nos sirve de termómetro a través
del cual podemos ver el comportamiento interno de los programas
de asistencia social del Estado y de las ONGS, sus formas de operar,
rastreando si dichas medidas favorecen y/o solo usufructúan de es-
tas poblaciones. Asimismo podemos discernir el desenvolvimiento
de las dirigencias comunales y de las organizaciones individuales
de dichas instituciones.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 279

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 279 29/04/14 18:58


Zorayda Jara. Mudanza a Pamplona. Lima, 2000.
Plumón y lápiz de color sobre cartulina. 30 x 35 cms.

Existen, es cierto, un buen porcentaje de investigaciones publica-


das en la década pasada que explican en gran parte la canalización y
distribución de alimentos dentro de los programas de ayuda asistencial
del Estado y de las Organizaciones privadas; como también, el desa-
rrollo de proyectos de apoyo económico para obras de infraestructura
comunal. Coexistiendo además, como en este caso, modelos indivi-
duales que perfilan desde otra arista (la pintura y la lengua nativa),
la inserción, permanencia y desarrollo de las mujeres como agentes
conductoras en la economía de sus hogares y gestionando activamente
el logro de mejoras de infraestructura e instalación de los principales
servicios básicos de agua potable y tendido eléctrico, amén de otras
acciones comunitarias en torno a la salud, vivienda y educación.
La obra plástica de Zorayda Jara desliza a personajes desenvuel-
tos en escenarios reales, enmarcados en una policromía vivaz que
maneja con materiales sencillos y distribuidos en todo el espacio que
la homogeneidad del formato le ofrece. Plasticidad y rigidez afloran
en direcciones contrarias produciendo un efecto que transita entre lo
tradicional y lo moderno. (ANDAZABAL, 2003, pp.16-18)

280

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 280 29/04/14 18:58


Genoveva Núñez:
de la hacienda Rumira a Huampaní Alto

En el año 2000, la retablista e imaginera Genoveva Núñez Herrera


fue invitada a participar en el proyecto Cuentos Pintados del Perú, en
una etapa en que la convocatoria requería la compilación de cuentos,
relatos y mitos del Ande y la Amazonia peruana contado por mujeres,
como principales receptoras de las tradiciones orales de sus pueblos,
a través del diálogo fecundo que en lengua quechua establecían las
mujeres con sus hijas y nietos durante el día, mientras realizaban
en conjunto diversas labores al interior del espacio doméstico y en
lugares adyacentes a ella, como los pequeños huertos de plantas o
los corrales de aves y otros animales.
En esta área del proyecto titulado Madres y Niñas, doña Genoveva per-
filó gran parte de lo que su memoria había almacenado desde la infancia,
que además de su abuela y su madre, supo oír de varios familiares de su
entorno, de las gentes que la criaron en las haciendas de Ollantaytambo,
y de las personas que conoció ya jovencita en la ciudad del Cusco.
Hija de don Samuel Núñez Bellido (Arequipa) y de doña Ermitaña
Herrera Teniente (Cusco); doña Genoveva Núñez Herrera nació un
3 de enero de 1939, en el anexo Rumira (ex hacienda de la familia
Varela), del distrito de Ollantaytambo, provincia de Urubamba, en el
departamento del Cusco. Donde sus padres se establecieron frente a
Macchu Picchu, en la quebrada de Wayllabamba.
De allí procede gran parte de la riqueza narrativa quechua de
doña Genoveva, en el que confluyen su autobiografía, la historia de
su pueblo y la cosmogonía de su medio circundante. Cuya memoria
oral acopia mayor información de su padrastro don Samuel Huamán,
quien le contaba cuentos y relatos que él había oído en noches de
tertulia con los vallunos –que eran las gentes de Lares, Ocobamba y La
Convención-, cuando iba a Quillabamba a intercambiar productos. Por
otro lado, la difícil y azarosa vida de nuestra artista la asocia a hechos
sobrenaturales y marcada por permanencias temporales en varias ca-
sas y/o haciendas, donde hizo varios trabajos menores y alternó con
diversas personas que trabajaban en dichos lugares, quienes como

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 281

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 281 29/04/14 18:58


Margarita Piñares le narró historias de su pueblo Mamara (Apurímac),
o el que la buena Agripina le contaba – en casa del doctor Gabriel
Cosío – de lugares adyacentes al valle del Ollantaytambo. Sumando
a su imaginario, lo vivido in situ en la casa de Chacchapata, de sus
tíos Encarnación Huamán y Laurencio Miranda, un espacio mágico
con un cerro-encanto de la época de los Incas, pródigo en fauna y
flora silvestre, rodeado de cerros minerales, donde palomas encanto
dominan el escenario. Cerca de allí, en Chokkebamba conoció a la
pastora Dorotea, a quien los lugareños conocían como la hija del
cerro, la hija del ukuko (oso), o como el Ángel de los animales silves-
tres. Aprendió de ella a comer kallampas, setas (hongos) y gusanitos
Sukampo; a comprender que los cerros, lagos y nevados tenían vida,
y que se alimentaban a través de los cóndores, quienes devoraban
las ofrendas que los campesinos y hacendados les hacían en pos de
una óptima producción agrícola y ganadera.

Genoveva Núñez. Chacchapata. Lima, 2006.


Técnica mixta sobre cartulina, 30 x 35 cms.
Finalmente, forman parte de la oralidad de Genoveva, aquellos
relatos sobre la pródigas tierras de La Convención trasmitidas por

282

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 282 29/04/14 18:58


don Luciano y doña Asunta Sayre, sus vecinos de Icmapampa; y el
que compartió su tío Inocencio Herrera Teniente sobre el maravillo-
so mundo de las sirenas que pernoctan en las cataratas del Nevado
Salccantay, a quienes debía su fama de gran músico debido a los
poderes que ellas le habían otorgado.
La miscelánea obra plástica de doña Genoveva, refleja una marca-
da preferencia por los Orqos (Cerros/Nevados/Montañas) en actividad,
a los cuales imprime colores intensos como el rojo/naranja para el
escenario mágico, el amarillo vivaz para el ocaso del sol; mientras que
los azules grisáceos compiten con tonos rojizos y amarillos (cobre),
evidenciando ser indicadores de la existencia de vetas minerales,
cuyas venas distingue en disímiles grosores de líneas en color negro.
Para armonizar seguido en inagotables verdores a la flora silvestre,
a las que sabe encauzar con el discurrir de aguas cristalinas que en
ascenso llegan a un celeste intenso.

Conclusiones

El Proyecto Cuentos Pintados del Perú valora la obra narrativa y


plástica de migrantes del Ande y de la Amazonia en la urbe limeña,
donde la biografía se engarza al contexto histórico local de sus pueblos
de origen que, confluye en un entorno cosmogónico que nos traduce a
una serie de híbridos personajes sobrenaturales, vinculados a otorgar
poderes y riquezas; pero también, para normar, encauzar y sancionar
la conducta humana. Todo lo cual perfila el corpus general de una
tradición oral quechua y aimara, que las gentes del Ande han sabido
salvaguardar por generaciones, como tesoro intangible para todos los
peruanos, y para compartirlos con los países de frontera, a la búsqueda
de establecer nexos de educación intercultural y multilingüe.
La experiencia nos permite señalar que no solo se debe escuchar las
voces de los pintores narradores populares, a la búsqueda de informa-
ción histórica de sus respectivos lugares de origen, sino también en su
condición de migrantes en la urbe limeña donde se conjugan historias
particulares que convergen en espacios de encuentro, de conflicto y de
esperanza, formando parte de la historia contemporánea.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 283

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 283 29/04/14 18:58


Referencias Bibliográficas

ANDAZABAL CAYLLAHUA, Rosaura. “Arte de Ayacucho: Celebración de la vida,


14,000 a. a. C.-siglo XXI.” En: Arte de Ayacucho. Celebración de la vida. Lima:
Universidad Ricardo Palma, Instituto Cultural Peruano Norteamericano, 200p.

ANDAZABAL CAYLLAHUA, Rosaura. Publicaciones. Seminario de Historia


Rural Andina (1968-2000). Lima: Seminario de Historia Rural Andina,
UNMSM, 2006, 179p.

ANDAZABAL CAYLLAHUA, Rosaura. Me contó mi abuelita este cuentito que


he pintado. Lima: Colegio Johannes Gutenberg; Seminario de Historia Rural
Andina, UNMSM; Tarea Asociación Gráfica Educativa, 2004, 106p.

ANDREU, Alicia G. El testimonio Peruano Oral y las Ciencias Sociales: Una


problemática postmoderna. Lima-Berkeley: CELACP (Centro de Estudios
Literarios “Antonio Cornejo Polar”), Latinoamericana Editores de Michigan
y Revista de Crítica Literaria Latinoamericana, 2000, 187p.

BERROCAL EVANÁN, Carmelón; Pablo MACERA y Rosaura ANDAZABAL.


Cuentos Pintados del Perú 9 / Perupa Llushisqa Willakuykuna 9 (Español /
Quechua Ancash). Lima: Fundación Inca Kola, con el apoyo de The Coca
Cola Company, 2002, 48p.

BERROCAL EVANÁN, Carmelón; Pablo MACERA y Rosaura ANDAZABAL.


Cuentos Pintados del Perú 8 / Perupa Llushisqa Willakuykuna 8 (español /
Quechua Ancash). Lima: Fundación Inca Kola, con el apoyo de The Coca
Cola Company, 2002, 48p.

BERROCAL EVANÁN, Carmelón; Pablo MACERA y Rosaura ANDAZABAL.


Cuentos Pintados del Perú 7 / Perupa Llushisqa Willakuykuna 7 (Español /
Quechua Ancash). Lima: Fundación Inca Kola, con el apoyo de The Coca
Cola Company, 2002, 44p.

BERROCAL EVANÁN, Carmelón; Pablo MACERA y Rosaura ANDAZABAL.


Cuentos Pintados del Perú 6 / Perú Hatun Suyumanta Llimp¢isqa Willakuykuna
6 (Español / Quechua Cusco Collao. Lima: Fundación Inca Kola, con el apoyo
de The Coca Cola Company, 2002, 48p.

BERROCAL EVANÁN, Carmelón; Pablo MACERA y Rosaura ANDAZABAL.


Cuentos Pintados del Perú 5 / Perú Hatun Suyumanta Llimp¢isqa Willakuykuna

284

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 284 29/04/14 18:58


5 (Español / Quechua Cusco Collao). Lima: Fundación Inca Kola, con el apoyo
de The Coca Cola Company, 2002, 48p.

BERROCAL EVANÁN, Carmelón; Pablo MACERA y Rosaura ANDAZABAL.


Cuentos Pintados del Perú 4 / Perú Hatun Suyumanta Llimp¢isqa Willakuykuna
4 (Español / Quechua Cusco Collao). Lima: Fundación Inca Kola, con el apoyo
de The Coca Cola Company, 2002, 44p.

BERROCAL EVANÁN, Carmelón; Pablo MACERA y Rosaura ANDAZABAL.


Cuentos Pintados del Perú 3 / Perú Hatun Suyumanta Llimpisqa Willakuykuna
3 (Español / Quechua Ayacucho Chanca). Lima: Fundación Inca Kola, con el
apoyo de The Coca Cola Company, 2002, 48p.

BERROCAL EVANÁN, Carmelón; Pablo MACERA y Rosaura ANDAZABAL.


Cuentos Pintados del Perú 2 / Perú Hatun Suyumanta Llimpisqa Willakuykuna
2 (Español / Quechua Ayacucho Chanca). Lima: Fundación Inca Kola, con el
apoyo de The Coca Cola Company, 2002, 48 p.

BERROCAL EVANÁN, Carmelón; Pablo MACERA y Rosaura ANDAZABAL.


Cuentos Pintados del Perú 1 / Perú Hatun Suyumanta Llimpisqa Willakuykuna
1 (Español / Quechua Ayacucho Chanca). Lima: Fundación Inca Kola, con el
apoyo de The Coca Cola Company, 2002, 44 p.

BERROCAL EVANÁN, Carmelón; Pablo MACERA y Rosaura ANDAZABAL.


Pintura y palabra: Flora y Fauna de Sarhua (Textos en Quechuañol). Lima:
Banco Central de Reserva del Perú (BCRP), Instituto Francés de Estudios
Andinos (IFEA), Hidrocarbures Pérou (ELF), Universidad Nacional Mayor
de San Marcos (UNMSM), 2000, 232p.

BERROCAL EVANÁN, Carmelón; Pablo MACERA y Rosaura ANDAZABAL.


Cuentos Pintados del Perú / Piruwata Samichata Jawarinaka. T. V (Español
/ Aimara). Lima: Seminario de Historia Rural Andina (UNMSM). Dirección
Nacional de Formación y Capacitación Docente (Ministerio de Educación del
Perú). Deutsche Gesellschaft Für Technische Zusammenarbei (GTZ), GMBH,
1ª Ed., 1997, 36p. Tarea Asociación Gráfica Educativa, 2ª Ed., 1998, 36 p.

BERROCAL EVANÁN, Carmelón; Pablo MACERA y Rosaura ANDAZABAL.


Cuentos Pintados del Perú / Pirumanta Qillqasqa Willakuykuna. t. IV (
Español / Quechua Ayacucho-Chanca ). Lima: Seminario de Historia Rural
Andina (UNMSM) / Dirección Nacional de Formación y Capacitación Docente
(Ministerio de Educación del Perú) / Deutsche Gesellschaft Für Technische

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 285

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 285 29/04/14 18:58


Zusammenarbei (GTZ) GMBH, 1ª Ed., 1997, 32p. Tarea Asociación Gráfica
Educativa, 2ª Ed., 1998, 32 p.

BERROCAL EVANÁN, Carmelón; Pablo MACERA y Rosaura ANDAZABAL.


Cuentos Pintados del Perú / Pirumanta Qillqasqa Willakuykuna. T. III ( Español /
Quechua Ayacucho-Chanca ). Lima: Seminario de Historia Rural Andina (UNMSM).
Dirección Nacional de Formación y Capacitación Docente (Ministerio de Educación
del Perú). Deutsche Gesellschaft Für Technische Zusammenarbei (GTZ) GMBH;
1ª .Ed. 1997, 36p. Tarea Asociación Gráfica Educativa, 2ª Ed., 1998, 36 p.

BERROCAL EVANÁN, Carmelón; Pablo MACERA y Rosaura ANDAZABAL.


Cuentos Pintados del Perú / Pirumanta Qillqasqa Willakuykuna. T. II (Español
/ Quechua Ayacucho – Chanca). Lima: Editorial Bruño, 1996, 48 p.

BERROCAL EVANÁN, Carmelón; Pablo MACERA y Rosaura ANDAZABAL.


Cuentos Pintados del Perú / Pirumanta Qillqasqa Willakuykuna. T. I (Español
/ Quechua Ayacucho – Chanca). Lima: Editorial Bruño, 1996, 24 p.

CERRÓN PALOMINO, Rodolfo. Lingüística Quechua. Cusco: Centro de


Estudios Rurales Andinos “Bartolomé de las Casas”, 1987, 427p.

CONDORI, Bernabé y Rosalind GOW. Tradición oral andina. Kay Pacha.


Colaboración de David Gow y prefacio de Enrique Urbano. Cusco: Centro de
Estudios Rurales Andinos “Bartolomé de las Casas”, 2da. Edición, 1982, 99p.

CONDORI VILCA, Félix y Rosaura, ANDAZABAL CAYLLAHUA. Lagos, Demo­nios


y Serpientes. Lima: Seminario de Historia Rural Andina, UNMSM, 2002, 208p.

CHIRINOS RIVERA, Andrés. Atlas Lingüístico del Perú. Cusco: Centro de


Estudios Regionales Andinos Bartolomé de las Casas, Ministerio de Educación,
2001, 300p.

CHONATI, Irma; José CERNA; Santiago LÓPEZ y Miguel RODRÍGUEZ.


Tradición Oral Peruana. I. Hemerografía (1896-1976). Lima: Instituto Nacional
de Cultura (Cuadernos del INC N° 2), 1978, 133p.

EDITORIAL SOL 90. Gran Atlas Universal. Perú. Lima: Empresa Editora El
Comercio, S.A., 2002, 124p.

INEI. Las estadísticas vitales en el área metropolitana de Lima-Callao, 2002.


Lima: Instituto Nacional de Estadística e Informática (Dirección Técnica de
Demografía e Indicadores Sociales), 2003, 95p.

286

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 286 29/04/14 18:58


INFANTE, Priciliano. Poncho Prieto. Lima: Ediciones La Quillca, Dirección de
Proyección Social, Seminar3io de Historia Rural Andina, UNMSM, 1975, 11p.

JARA PALACIOS, Leonidas y Rosaura, ANDAZABAL CAYLLAHUA. Zorayda


Jara. Testimonio de vida. Lima: Seminario de Historia Rural Andina, UNMSM,
2003, 115p.

MACERA, Pablo. “Las Tablas de Sarhua”. En: Miray. Boletín de la Comisión


Peruana de Cooperación con la UNESCO. Año 1, N° 1, marzo 1998, pp.33-36.

MINISTERIO DE EDUCACIÓN DEL PERÚ. Boletín UNEBI. Lima: MINEDU,


Bol. N° 2, enero, 2000, 12p.

NÚÑEZ HERRERA, Genoveva y Rosaura ANDAZABAL CAYLLAHUA. Cusco:


Arte y Tradición oral quechua del valle del Ollantaytambo. Lima: Seminario
de Historia Rural Andina. Centro de Producción Fondo Editorial, UNMSM,
2012, 182p.

RAVINES, Roger y Rosalía AVALOS de MATOS. Atlas Etnolingüístico del Perú.


Lima: Convenio Andrés Bello. Instituto Andino de Artes Populares. Comisión
Nacional del Perú, 1988, 100p.

TORERO, Alfredo. Idiomas de los Andes. Lingüística e Historia. Lima: Instituto


Francés de Estudios Andinos, Editorial Horizonte, 2002, 568p.

Ca rto g ra f i a I m a g i n á r i a d a T r í p l i c e F ro n t e i ra 287

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 287 29/04/14 18:58


Este livro foi impresso pela Belacop
sobre papel Avena 80 g/m2,
para a Dobra Editorial, em abril de 2014.

Miolo_CartografiaImaginaria_07_revisado.indd 288 29/04/14 18:58