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PSICANALISE E
TEMPO

O Tempo Lógico de Lacan


PSICANÁLISE E
TEMPo
O Tempo Lógico de Lacan

Erik Porge

Tradução A

Dulce Duque Estrada

MA1i.Nuco
1

© Copyright 1989, by Editions Erès , atual Epel.

Direitos em língua portuguêsa reservados à Editora Campo Matêmico

Título original francês Se Compter Trois - Le temps logique de Lacan

Coordenação Editorial
Iose' Nazar

Conselho Editorial
Iosé Nazar
Teresa Palazzo Nazar
Dulce Duque Estrada
Maria Emília Lucinda Pacheco

Tradução
Dulce Duque Estrada

Revisao
Dulce Duque Estrada

Fotolitos de capa
Copyright da Editora Campo Matêmico, cedidos pela Editions Epel - França

Editoração Eletrônica
Fatima Agra

Impressão
Markgraph - estúdio de criaçao e produção gráca ltda.

FICHA CATALOGRÁHCA

P873P Porge, Erik

Erik Forge
Psicanálise
;
e Tempo 0 tempo lógico de Lacan
:

tradução de Dulce Duque Estrada.


Rio de Janeiro : Campo Matêmíco, 1994.
-/
212 p.

Tradução de : Se compter trois : le temps logique de


Lacan
Anexos

1. Tempo. 2.Lacan, Jacques, 1901-1981. 3. Psicanálise.


I. Título. II. Título: O tempo lógico de Lacan.

94-9337 CDD - 150.195


CDU - 159.964.26
1
EDITORA CAMPO MATÊM1co
Rio DE JANEIRO - 1994
ENDEREÇO PARA coRREsPoNDÊNc1A
Rua Visconde de Pirajá, 547 sala 1123
Rio de Jzmeim - Te1.z (021) 512-3115 / 239-9096

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SUMÁRIO

Introdução ...................................................................... ..

13 PARTE
UM SUJEITO RECIPROCO (1945)
A publicação de 1945 ............................................... .. 21
A solução do sofisma ............................................... .. 27
O tempo lógico permanece um sofisma? ............... .. 35
O indivíduo e o social para Lacan no ano de 1945 ..
39
l O efeito do tempo lógico sobre o estágio do espelho
1
rrrrrrrrrrr it;........................... rrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr .T 45
Conclusao .................................................................. .. 51

ZaPARTE
O SUJEITO DAS ESCANSÕES SIGNIFICANTES (1966)
O perído 1945-1953 ................................................... .. 57
A intersubjetividade em questão ............................ .. 63
Tempo lógico e intersubjetividade ............................ .. 73
V Retomada do tempo lógico em O Eu ....................... .. 77
O tempo lógico e a garrafa de Klein ......................... ._ 81
As modificações do tempo lógico nos Écrits ........... _. 95
O coletivo não é mais é que o sujeito do individual
103
38 PARTE
A RELAÇAO INCOMENSU RAVEL DOS SUJEITOS (1973)
O texto ....................................................................... .. 115
Os paradoxos de Zenão ........................................... _. 119 1
A
A divisão anarmonica .............................................. .. 129
Releitura do tempo lógico com a cifragem de 1973 ..... ..
................................................................................... .. 137
Olhar e tempo lógico ................................................ .. 143

4a PARTE
A RELAÇÃQ NÃO CQMPLEMENTAR ENTRE Os
SUJEITOS (APÓS 1973)
Uma continuação à escritura do objeto a ............... .. 153
A relação entre os prisioneiros ................................ .. 169
Multidão freudiana e coletividade do tempo lógico
................................................................................... _. 181
Conclusão ................................................................. .. 191

Anexo l ........................................................................... .. 201


Anexo ll ......................................................................... .. 203

1
›~.

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INTRoDUcÃo

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-
-"Quantos irmãos você tem? "Tenho três irmãos,
Pedro, Paulo e eu.", responde a criança. Esse "erro"não deve
~ ser atribuído a uma fase infantil qualquer, mas deriva da
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dificuldade, para o sujeito, em contar-se e talvez lhe seja
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inerente. Ela e a fonte inesgotavel de sketches a Raymond
z

Devos.
l
Ainda que tenha, diariamente, oportunidades para
isso, não é evidente que eu reconheça em mim o registro
de uma alteridade, e no outro algo de mim. O reconhecer
passa pela dificuldade de contar-se "a si mesmo" dentre
outros. Se digo a mim mesmo, tomando-me à parte, que
"em tudo, comigo mesmo, mostro-me de acordo", como
recomenda Boileaul, quantos sou? Um? Dois? Três? Quatro?
Sou um, se penso que eu(je) e eu (moi) são idênticos.
Mas, por que então eu diria alguma coisa a mim mesmo,
separadamente? Sou dois, se conto je e moi. Mas, se decido
1
contar je e moi, então devo contar o je (de je compte, eu
conto), o moi e o je, em outras palavras, devo contar je
¬t

duas vezes e isso dá três. Amenos que dê quatro, pois se o


je é duplo, se é ao mesmo tempo moi e je, isso dá: je, moi,
je duplo.
As formaçoes do inconsciente nos recordam a
7
existência dessa dificuldade de contagem, e isso por uma
boa razão: elas se apoiam nesta. Essa dificuldade de
contagem é da mesma ordem que aquela encontrada no
sujeito do inconsciente.
Se tomarmos o exemplo do sonho paradigmático de
Freud, sonho chamado da injeção de Irmaz, vamos assistir,
na segunda parte do sonho, à entrada em cena de uma
multidão de colegas de Freud que dão, cada um, sua
opinião sobre o caso Irma: o amigo Otto, o doutor M., o
amigo Leopold; este é um momento de decomposição
espectral da função eu (moi), do aparecimento das
identificações sucessivas de que o eu é feito. Ora,
precisamente, é no momento em que o mundo do sonhador
está imerso numa espécie de caos imaginário, onde não há
mais ninguém para dizer "eu (je)", que surge a fórmula da
trimetilamina, que se imprime diante dos olhos do
sonhador em grandes caracteres. Observa-se aí o que Lacan
z
chamou da "intromistura"dos sujeitos, a saber, o carater
â

impossível de se fixar do sujeito assumindo o pensamento


do inconsciente? Assim, o sujeito se apresenta em diversos
personagens simultaneamente, e ali onde o sujeito poderia
coincidir com um "eu"(je), esse "eu"(je) desaparece; o que
aparece é um sujeito acéfalo, representado pelo puro
símbolo da trimetilamina.
Em sua análise de uma outra formação do
inconsciente, a do esquecimento do nome Signorelli4, Freud
nos relata que esse esquecimento aconteceu durante uma
viagem pelo litoral dalmata, quando ele conversava com
seu companheiro de viagem. A análise do esquecimento
revela que intervém mais sujeitos do que viajantes, e não é
evidente, de saída, sua localização, uns com relação aos
outros. O interlocutor de Freud se chama Freyhau, e a partir
do Frey pode-se ouvir ressoar frei, livre, Freud, Freyberg,
cidade natal de Freud; por outro lado, ele é um jurista de
Berlim, cidade onde mora Fliess, a quem Freud se apressa
a escrever para contar-lhe sua descoberta da análise do
esquecimento. Foi depois de deixar passar em silêncio,
recolhida, (unterdrückt), Luna frase tocante ao tema "morte
e sexua1idade" pronunciada por uma terceira pessoa, o
doutor Pick, outro de seus amigos ,que Freud presentificou,

i 8
sob a forma de esquecimento, o nome de uma quarta
pessoa: o pintor Signorelli. Freud, Fliess, Pick, Freyhau,
Signorelli: muitos sujeitos intervém no esquecimento do
nome, e Freud não é o único afetado. Freyhau tampouco
foi capaz de encontrar o nome esquecido; Freud não
esclarece se isso ocorreu também por esquecimento ou por
ignorância: o fato de tratar-se de um jurista, e a natureza
de sua conversa torna possível que fosse também por
esquecimento. Não é inverossímil supor que esse interlocu-
tor passageiro de Freud tenha presentificado alguma coisa
que, impedindo que se abordasse diante dele o tema "morte
e sexualidade", induzisse o esquecimento de Freud. A
sabedoria dos provérbios, que diz que não se fala de corda
em casa de enforcado, já adotou a possibilidade de tal
suposição.
Se não houvesse diversos sujeitos implicados num
esquecimento de nome, não se poderia explicar aquilo que
Freud chama a contagiosidade do esquecimento de nome, e
da qual testemiuiha um exemplo que ele retomou de Reikf”
Numa reunião de estudantes, uma jovem esquece o
título de um romance do qual fala a três rapazes; estes
conhecem o romance em questão, mas também não
conseguem lembrar seu titulo. Trata-se de Ben-Hur. A
b z

jovem aceita comunicar a Reik suas associações. Hur vai


conduzí-la a Hure, que significa puta em vienense. Ecce
Homo, que vinha no lugar do nome esquecido, a conduz a
Mensch: criatura, puta (em Viena). Ben é associado ao "rei
vermeiho"(as regras), ao Cristo nascido de uma Virgem,
Maria Imaculada, ao filho (em hebreu). O conjunto, Ben
Hur, vem em lugar de "filho da puta (Maria)". "O
pensamento da criança como consequência de uma relação
sexual fora do casamento formava uma das mais fortes
resistências contra as quais se chocavam suas fantasias
inconscientes de prostituição", observa Reik. E conclui: "ela
põe num mesmo plano, inconscientemente, a enunciação
de Ben Hur e uma investida sexual, e seu esquecimento
corresponde, portanto, à defesa contra uma sedução
inconsciente dessa ordem".
E quanto aos rapazes que, dessa vez, sem dúvida
alguma, esqueceram igualmente o título do romance de

9
z
que a jovem lhes falava e que, alem disso, nota Reik,
j

manifestaram durante a cena sinais de constrangimento?


Os jovens recusam submeter-se à análise do seu
esquecimento que lhes é proposta por Reik. Isso não im-
pede, no entanto, que Freud e Reik façam uma interpretação
desse esquecimento: para Reik, o esquecimento dos rapazes
"mostra a repressão de seu próprio desejo, que quer tomar
a moça como objeto sexual"; Freud, mostrando-se aqui sob
uma luz mais galante, vê isso como sinal de um 8
i

consideração pela jovem.


Sejam quais forem os motivos do esquecimento dos
rapazes, este indica claramente que eles estavam afetados

pelo esquecimento da moça, pelo equívoco do nome d O
romance e dos desejos de que este era portador. Ou seja,
eles favoreceram o esquecimento da jovem pela repressão
incompleta de seus próprios desejos; no mínimo,
esquecimento deles é uma forma de registrar aquilo que
portado pelo esquecimento dela. Mas, recusando-se
análise de seu esquecimento com Reik, eles recusam
reconhecer que, num e noutro caso, há algo deles mesmos
no esquecimento da moça.
E numa outra formação do inconsciente, o chiste, O
Witz, que Freud aborda claramente essa dificuldade de
contagem de sujeitos. O Witz é um procedimento social,
escreve Freud” Não se trata de uma formação individual
que se realizaria de maneira puramente endopsíquica e se
comunicaria em seguida, não se sabe bem como nem
porque, a um outro endopsiquismo. A condicionalidade
subjetiva (os termos são de Freud) do chiste é uma relação
ternária. Para que o Witz se realize num sujeito qualquer,
deve-se intercalar (einschieben) uma terceira pessoa. Esta
não se acrescenta à condição do chiste, mas faz parte
integrante de sua efetuação. O Witz é uma formação do
inconsciente que, para se realizar, necessita da diferenciação
simultânea de três lugares (contrariamente ao cômico, que
só precisa de dois) ocupados por pessoas, e "a terceira
* pessoa é indispensável ao acabamento do processo do
l
chiste". A condicionalidade subjetiva do-chiste é tripla, E
¡ só se realiza pelo procedimento que faz atuar essa
triplicidade. O procedimento psíquico do chiste se resolve
I

'10
É
entre a primeira, o eu (moi) e a terceira, a pessoa estranha,
e não como no cômico, entre o eu e a pessoa-objeto".
Eis porque a comunicação do chiste está
inseparavelmente ligada ao trabalho do chiste e, como diz
Freud, "não podemos rir do chiste que nós mesmo fizemos"
(Warum können wir über des selbst gemachten Witz nicht
lachen?). Aqui a tradução ( do selbst associado ao wir) nos
ajuda a valorizar a coexistência de uma unicidade do sujeito
e de sua multiplicidade, fonte de dificuldades de contagem.
O adjetivo indefinido "mesmo", que sublinha o pronome
"nós", primeira pessoa do plural, e designa seu ser próprio,
deve ser posto aqui no singular.
Esses diferentes exemplos assinalam fatores de
dificuldades e de erros de contagem que o sujeito irá
encontrar se quiser contar-se entre uma pluralidade de
sujeitos que ao mesmo tempo lhe é exterior - seja ela ou
não encarnada por pessoas - e faz parte de si.'O que é que
se conta quando se conta se? Quantos elementos, e quais,
se devem contar para contar se?
As maneiras pelas quais o problema se coloca não
permitem responder mediante apenas a regra de adição
dos números inteiros. Em outras palavras, é preciso
encontrar a base de uma lógica adequada à contagem que
se quer realizar. '

Vamos tomar as coisas pelo ponto onde elas nos


pegaram: o de um texto de Lacan que trata de contagem:
"O tempo lógico e a asserção da certeza antecipada: um
novo sofisma". Por que esse texto, epor que ele é um caso?
Trata-se do primeiro texto de Lacan que problematiza
e traz uma solução lógica à questão da relação de sujeito(s)
a sujeito(s), e de sujeito a si, articulando temporalmente a
pluralidade dos sujeitos com a unicidade de um sujeito.
Este é o único texto em que Lacan apresenta, sobre esse
tema, uma solução lógica que tem a forma, a aparência de
uma ficção. A forma ficcional é aquela, retórica, do sofisma.
Em diversas ocasiões7 Lacan recordou que a verdade
só progride por uma estrutura de ficção, que é a essência
mesma da linguagem. Ê pela estrutura de ficção que a
verdade pode ser posta contra a parede da verificação, da
prova: aquela que se empenha em compreender onde a

11
ficção estanca, e o que a detém no próprio interior de sua
estrutura. Nesse sentido a forma construída, fictícia,
l
sofística do "Tempo lógico..." lhe dá um caráter exemplar

1
para nossos objetivos.
l
Lacan tinha estima por esse texto, como demonstra
o fato de que ainda em 1962 ele o chamava de "meu
pequeno sofisma pessoal"8. Até o fim de seu ensinamento,
fez desse texto o objeto de uma fábrica. Não apenas, como
veremos, existem duas versões dele, a primeira de 1945 e
um remanejamento desta em 1966 quando de sua
publicação nos Êcrits, mas ainda "O Tempo lógico..." foi
i

l objeto de múltiplas reinterp retações e comentários por parte


de Lacan, e lhe serviu de suporte em suas formulações”-
Ao mesmo tempo, tabuleiro de xadrez sobre o qual Lacan
dispunha as peças de suas descobertas e peão que ele
deslocou em meio a essas mesmas descobertas, "O tempo
lógico..." constitui uma verdadeira invenção, que
ultrapassa, aliás, a problemática que aqui levantamos.
inversamente, essa problemática da relação de sujeito
a sujeito ultrapassa, no ensinamento de Lacan, o simples
i

l enquadre do "Tempo lógico..." e constitui um motivo de


debates sobre a teoria do sujeito segundo Lacan. Podemos,
desde já, proceder a um resumo das questões levantadas
pelo uso desse termo em Lacan, no que se refere à relação
de sujeito a sujeito.
i
› Por volta dos anos 50, Lacan empregou o termo
2
"intersubjetividade" para qualificar a relação de sujeito a
i
sujeito, enquanto mediada pela linguagem definida como
Outro, lugar do Outro. Essa noção introduziu uma lufada
de ar fresco na psicanálise da época, restituindo o valor
enunciativo à fala do analisando, fazendo-o passar da
situação de analisado àquela, precisamente, de analisante.
Depois, chegando a 1967, o termo intersubjetividade
foi eclipsado por Lacan, na medida em que a noção de
intersubjetividade deslocou-se para a relação do sujeito ao
Outro, e a existência deles provaria ser evanescente: a do
sujeito, porque ele não passa de efeito intermediário entre
i

um significante e um outro significante, e a do Outro,


tesouro dos significantes, porque este é um lugar que não
se sustenta, onde há uma falha.

12V
Se ficarmos nessa esquematização, toma-se difícil res-
ponder às questões de onde partimos, e até mesmo expô-
las: existe uma pluralidade possível de diversos sujeitos ao
mesmo tempo? Em caso afirmativo, qual é a estrutura de
sua(s) relação(ões)? Como é que o termo sujeito pode
designar ao mesmo tempo um sujeito agente, falante,
suporte de enunciados, e o efeito inapreensível de uma
relação entre significantes? Como o sujeito se conta?
Na perspectiva de um sujeito estritamente reduzido
à sua definição "canônica" (um significante representa o
sujeito para um outro significante), pode-se, certamente,
admitir a existência de vários sujeitos, mas o que acontece
com a sua relação? Terão eles a ver apenas com os
significantes que cruzam os seus, ou perceberão os outros
como sombras ou reflexos?
Pode-se replicar que, ao inventar uma escritura
daquilo que chama de discurso, Lacan prova ter resolvido
esse problema. O discurso, diz ele, "são as relações que nos
mantêm, a todos e a cada um, com pessoas que não são
forçosamente aquelas que estão ali, no nível de um certo
número de captações que necessitam uma certa ordem na
articulação significante". 1°
Vai-se observar, ainda assim, que se trata de relações
entre pessoas e não sujeitos; o efeito sujeito é o único em
cada discurso, para cada discurso só há um $ escrito. Isso
significa que esse efeito é comum atodas as pessoas do
discurso? Não estaríamos, então, tendendo a uma concepção
de discurso próxima daquela da multidão, com o que esta
comporta de hipnose, comoestabeleceu Freud?
Acrescentamos que há, em Lacan, dados que
permitem que nos apoiemos para formular nossas questões.
Em primeiro lugar, não existe, com o termo sujeito
suposto saber que está no princípio da transferência,
nomeação de um outro sujeito? Este sujeito é outro que não
o designado pela letra $. Quando Lacan aborda a questão
da transferência em função da teoria dos jogos, ele fala
igualmente de dois jogadores: "Numa análise há
separadamente, dois jogadores, esses jogadores cuja relação
tentei articular como uma relação de mal-entendido, já que
do lugar ocupado por um dos jogadores o outro é o sujeito,

13
é o sujeito suposto saber, ao passo que, se confiarem em
minha articulação esquemática, o sujeito, se podemos falar
deste polo na sua constituição pura, o sujeito só se isola
retirando-se de toda suspeição de saber"“.
› Vai-se dizer: estão vendo que se trata, aparentemente,
de dois jogadores, e o sujeito suposto saber é destinado a
ser destituído, de modo que "o sujeito só se isole..."
De acordo, responderemos, mas vamos observar no
entanto que Lacan introduz esse sujeito pela expressão "se
podemos falar desse polo na sua constituição pura", o que
tem uma conotação de ideal e, em todo caso, legitima
algumas "impurezas". Por outro lado, a destituição do outro
sujeito se efetua, se verifica ao termo de um percurso, de
uma análise; esse outro sujeito não poderia, pois, ser
descartado de saída e por princípio, à falta do quê não
haveria análise... e portanto, nenhum sujeito. Logo, é
realmente preciso que esse "aparentemente" sublinhado
acima tenha uma certa realidade. V

Em sua "Proposição de 9 de outubro de 1967", Lacan


A z
escreve que a transferencia faz por si so objeção ã
l II

intersubjetividade"“' Por que ele não disse antes! Teria


A
podido faze-lo, a acreditarmos no título de seu seminário
l

de 1961: "A transferência na sua disparidade subjetiva, sua


pretensa situação, suas excursões técnicas". De fato, ao dizer
isso em 1967, Lacan refuta que um sujeito suponha um outro
sujeito ou que um sujeito compreenda um outro sujeito.
Não é precisamente o que supomos, interrogando-nos sobre
uma relação entre uma pluralidade de sujeitos.
Lacan nos da uma outra ocasião de formular essa
questão em seu seminário "Le Sinthome". Ele identifica o
sujeito - sempre na sua pureza - ao nó em trevo”, ao mesmo
tempo, afirma que a psicose paranóica consiste
precisamente na nodulação numa só e mesma consistência,
em trevo, do simbólico, do imaginário e do real, e se
interroga sobre o que representam três paranóicos
nodulados a um quarto termo, o sintoma. Em outras
palavras, é pela nodulação de três sujeitos paranóicos que
Lacan interroga o sujeito.
Enfim, a questão de uma relação de sujeito a sujeito é
certamente exposta na sexuação, isto é, na maneira pela

14
qual os parceiros se autorizam por si mesmos e por alguns
outros na sua opção sexuada, sua declaração de sexo. Muito
tempo depois de haver cessado de promover a
intersubjetividade, Lacan ainda fala nessa ocasião em
"relação de sujeito a sujeito", ali onde no amor a relação
sexual cessa de não se inscrever”.
Mais que percorrer todo o ensinamento de Lacan para
reunir o que se refere ã relação de sujeito a sujeito e assim
constituir uma espécie de léxico, vai se tratar de mostrar,
no campo demarcado pelo próprio Lacan, por um texto
exemplar, "O tempo lógico...", como essas questões
trabalham esse texto, no que se opera de mudança entre
sua primeira versão (1945) e sua reescritura (1966), bem
como no jogo de retomadas do texto, em função ao mesmo
tempo de sua problemática própria e de sua inserção no
trilhamento de Lacan: 1945, que conduzirá a remanejar o
estágio do espelho; 1966, orientado pela definição
"canônica"do sujeito; 1973, que propõe um ciframento a
partir do qual se pode responder a questões deixadas em
suspenso; depois de 1973, o advento do nó borromeano.
Contrariamente ao que disso se poderia deduzir, a
definição do sujeito, que o define de maneira singular e
universal, não implica a univocidade do uso do termo e
reclama, para efetuar-se, uma multiplicidade de sujeitos.
Existe uma medida comum dessa multiplicidade? Fundaria
ela uma intersubjetividade? E o que teremos que resolver.

NOTAS
l"Qu'en tout avec soi-même il se montre d 'accord", Boileau, Art
poétique, citado por Grévisse, Le bon usage, Duculot, Paris, 1980, p.
557. O pronome pessoal reflexivo soi (si) não se relaciona apenas a um
sujeito indeterminado, singular ou plural, mas também ocasionalmente
a um sujeito preciso, determinado, concorrendo, no caso, com lui
(lhe,
a ele).

ZS. Freud, Die Traumdeutung, GW 2/3, p. 111 (começo do cap. 2).

15
Trad. PUF, L'interprétation des rêves, 1967, p. 99. (Em língua
portuguesa, "A Interpretação dos Sonhos", Edição Standard Brasileira,
Imago. Rio de ]aneiro, 1976, vol. IV). Cf. a tradução de La Transa n° 12,
janeiro de 1983. Este sonho de Freud de 23/24 de julho de 1895 lhe serve
de modelo para a análise do sonho. Em nota posterior a terceira edição
(1911) Freud acrescenta que este foi o primeiro sonho submetido por ele
a uma interpretação aprofundada. Lacan retoma a análise deste sonho
particularmente em seu seminário O Eu, 9 e 16 de março de 1955.

30 termo “intromistura” (immixtion) foi tomado de empréstimo,


provavelmente, por Lacan de Damourette e Pichon, Essai de grammaire
de la Iangue française, Ed. d'Artray, t. 5, cap. 28. Os autores ali
distinguem diversos tipos de intromistura conforme a maneira por que
vários sujeitos se combinam na ação de um único, conforme o modo de
participação com relação ao outro do sujeito numa ação sua. Lacan
emprega o termo pela primeira vez em sua análise do sonho da injeção
feita em lrma (Seminário ll, 9/3/55) e vai retomá-lo em La logique du
fantasme, 15/2/67.

4Publicado pela primeira vez em 1898, "Du mécanisme psychique de


l'oubIi"("Sobre o Mecanismo Psíquico do Esquecimento", ESB, vol. III).
Freud o menciona igualmente na carta a Fliess de 22/9/98. Este exemplo
foi retomado por Freud no começo do Cap. 1 da Psicopatologia da
Vida Quotidiana, CW 4, trad. Payot, 1971 (ESB vol. VI), que inclui o
esquema das associações de Freud.

5Th. Reik, L'oubli collectif, Int. Zeit. f. Fsych., 6, 1920. Tradução francesa
de M. Castres Saint-Martin, M. Wagué, com a colaboração de S. Faladé,
C. Michler. Este exemplo é retomado por Freud no final do Cap. 3 da
Psicopatologia da Vida Quotidiana, e apresentado como sendo
"estritamente falando, um fenômeno da psicologia das multidões".
°S.Freud, "Le trait d'esprit et son rapport à l'inconscient", GW 6,
("Chistes e sua Relação com o Inconsciente", ESB vol. VIII), cap. 5: "Os
motivos do chiste. O chiste como processo social". Va mos nos referir, na
continuação, à tradução francesa de La Transa, caderno n° 2. Cf. também
a tradução Gallimard, 1988.

7Particularmente em Un discours qui ne serait pas du semblant,


19/5/71, a propósito da "Carta Roubada" (inédito).

3 Seminário L'Identification, 10/1/1962, inédito.

°Cf. Anexo I, a lista de todas as ocorrências explícitas do Tempo Lógico


em Lacan.

'°]. Lacan, Ou pire, 21/6/72 (inédito). O discurso do analista se escreve:


¿ _, L
S2 S1
e os três outros pela rotaçao de um quarto de volta dos termos.

16
ll S. Lacan, Problèmes cruciaux pour la psychanalyse, 19/5/65 (inéd.).

”]. Lacan, Scilicet 1, Seuil, p. 18/19.

sinthome, 16/12/75, inédito. O nó em trevo realiza a


'3]. Lacan, Le
colocação em continuidade das três consistências do nó borromeano.

141. Lacan, Encore, Seuil, 1975, p. 131-132. Em língua brasileira, Mais,


Ainda, jorge Zahar, Rio de janeiro, 1987.

17
Primeira Parte

UM SUJEITQ RECÍPROCO
A versão 1945 do Sofisma
mf _

cAPíTULo UM

A Publicação de 1945

"O tempo lógico..."foi publicado em 1945, num


número especial dos Cahiers d'Art visando preencher o
vazio dos anos de guerra durante os quais a revista não
fora publicadal' Durante todos esses anos de guerra Lacan
praticou a psicanálise e ensinou, mas não publicou, em es-
pecial, como ele mesmo assinala, suas lições sobre o
conhecimento paranóico? A edição, nessa data histórica,
de seu primeiro artigo após um período de relativo silêncio,
e, mais ainda, referente a um tema de lógica coletiva,
acrescenta seu valor significativo e mostra até que ponto
as obras de Lacan se situam na "atualidade". Mas uma
atualidade que não se dirige às massas, pois, publicando
em Cahiers d'Art, numa edição de apenas mil exemplares,
Lacan estava ciente de que tomaria o texto, rapidamente,
"inencontrável"3.
Apesar de diversas referências de Lacan a esse texto
em artigos e seminários, foi só em 1966, 21 anos depois,
com a publicação dos Écrits, que os leitores tiveram enfim
acesso a esse texto. Mas sem saber que não era mais o
mesmo texto. Com efeito, tendo encontrado o texto de 1945,
pudemos nos dar conta da importância e da quantidade
de modificações feitas em 1966 ao original? e

21
Nao sabemos até hoje de onde Lacan, em 1945, tirou
o achado do tempo lógico, a saber, a nomeação dos três
tempos: o instante de ver, o tempo para compreender e o
momento de concluir. i

lsso não impede, e nós o faremos, de resituar esse


texto na atualidade dos debates de seu tempo ou de tem-
pos anteriores, através de um diálogo mais ou menos
velado com Descartes (único nome próprio citado no texto),
Aristóteles (a quem Lacan opõe uma nova forma
silogística), Hegel (cuja sombra paira sobre o texto na
medida em que ele também articulou uma lógica coletiva
com o tempo).
Mas essas referências não dão conta da invenção de
Lacan. Ela tem nele valor de ato, no sentido em que um ato
está ligado à determinação de um começo, especialmente
ali onde é preciso fazer-se um, precisamente porque não o
há?
Embora isso não constitua uma origem do "Tempo
lógico...", deve-se assinalar o interesse que Lacan dirige à
questão do tempo na longa crítica que publicou em 1936
da não menos longa obra de E. Minkovski intitulada "Le
temps vécu"°. Essa análise demonstra que já naquela época
ele próprio havia adiantado muito uma reflexão sobre a
variedade de distúrbios da intuição temporal, e que se
tratava para ele de um tema "de futuro", de uma
importância capital para o conhecimento da "estrutura
mental". Encontram-se além disso, sob sua pena,
formulações (sublinhadas por nós) que serão praticamente
retomadas tais e quais no "Tempo lógico...": "É mesmo
apesar dessa linguagem (inadequada à experiência
vivida) que se trata de "penetrar" a realidade dessa
experiência, apreendendo, no comportamento do doente,
o momento em que se impõe a intuição decisiva da
certeza, ou a ambivalência suspensiva da ação, e
encontrando, por nosso assentimento, a forma sob a qual
se afirma esse momento." E ainda: "A exclusão de todo
saber fora da realidade vivida da duração, da gênese for-
mal da primeira certeza empírica na idéia da morte, da
primeira lembrança no remorso e da primeira negação na
lembrança, são outras tantas intuições prestigiosas que

22
exprimem melhor os momentos mais elevados de uma
espiritualidade intensa que os dados imanentes ao tempo
que "se" vive".
Lacan, nesse artigo, já aponta (de uma maneira que
tem ressonância, particularmente, para nós hoje) para o que
será um dos nós do tempo lógico: a relação do tempo e do
espaço: "Não é, com efeito, um dos menores paradoxos
desse longo esforço (de Minkovski) para desespacializar o
tempo, sempre falseado pela medida, que ele só possa
prosseguir através de uma longa série de metáforas
espaciais (...). O paradoxo desconcerta e irrita, até que o
capítulo final dê a sua chave, sob forma de intuição, a nosso
ver a mais original desse livro, ainda que apenas iniciada
no final deste, a de um outro espaço além do espaço
geométrico: ou seja, em oposição ao espaço claro, quadro
da objetividade, o espaço negro do tatear, da alucinação e
da música. Vamos aproxima-lo de gritos surpreendentes
como este (p. 56): "Uma prisão, ainda que se confunda com
o universo, me é intolerável. É à "noite dos sentidos", é à
"noite obscura"do místico que acreditamos poder dizer sem
exagero que estamos sendo levados". Veremos mais adiante
como Lacan, para resolver a relação do espaço ao tempo,
recorre à solução topológica ali onde Minkovski encontra a
mística. Mas eis-nos já advertidos a não confundir os dois.
Quanto à prisão, vai-se tratar de saber como sair dela.
Observa-se enfim, nesse artigo, uma homenagem
apoiada em Heidegger (de que Lacan traduzirá Logos em
1951) a esse tema do tempo, e é provável que Lacan tenha
sorvido em sua leitura uma inspiração que lhe teria
permitido inventar o tempo lógico.
Mas por que Lacan escreveu 'ÍO tempo lógico..."?
Ê aqui que devemos entrar no texto do sofisma
propriamente dito, já que a resposta a essa questão deve
ser lida na literalidade do texto e de suas retomadas.
Entretanto, a fim de situar o que está em jogo nessa
leitura, podemos desde agora citar a resposta que o próprio
Lacan deu mais tarde a essa questão. Durante a sessão de
15 de junho de 1955 de seu seminário O Eu, Lacan volta ao
"Tempo lógico..." e eis como introduz suas declarações: "Isso
em direção ao qual avançam os muito lentamente é a f1 ui ção

23
do tempo. É por esse viés que podemos realmente distinguir
o que é da ordem imaginária e o que é da ordem simbólica.
Vou tomar um outro apólogo, talvez mais claro que o de
Wells, provavelmente porque ele foi feito, propositalmente,
com essa intenção. Ele é meu".
Certamente, pode-se dizer que se trata de um
julgamento posterior, e que na época da publicação do
"Tempo lógico...", dez anos antes, Lacan não utilizava as
categorias do simbólico e do imaginário. Embora no texto
de 1949 sobre o estágio do espelho encontre-se a expressão
"matriz simbólica" (Êcrits, p. 94), é apenas em 1953, em sua
conferência sobre o Simbólico, o Imaginário e o Real, que
Lacan, publicamente, anuncia sua "trindade inferna1".7 No
entanto, não se pode duvidar de que ele tenha querido,
pela publicação do "Tempo lógico...", contribuir com algtuna
coisa que não havia ainda nomeado mas para a qual
percebera a necessidade de operar uma distinção de
registros.
Como veremos, o tempo lógico introduz algo
diferente do eu (moi) e de seu fundamento imaginário, tal
como ele era instituído com o estágio do espelho, algo
diferente que ainda não é chamado de simbólico, mas de
"eu (je) psicológico" ou "sujeito da asserção" conclusiva.

NOTAS .

1Trata-se de uma revista de arte de qualidade que foi publicada de


1926 a 1960. O artigo de Lacan está cercado por trabalhos de Alquié,
Bachelard, Bataille, Char, Eluard, Paulhan, Ponge, Queneau, e de
reproduções de obras de Picasso, Braque, Matisse, Rouault, Kandinski,
entre outros.

2 ]. Lacan, Êcrits, Seuil, Paris, 1966, p. 80.

3 J. Lacan, ibid. p. 197. lntrodução de 1966 a "O tempo lógico...".

4 Cf. Anexo 1. A quase. totalidade, dos textosçdos Êcrits sofreu

24
T
modificações em 1966, mas parece que "O tempo lógico..." foi um dos
mais alterados.

5 J. Lacan, L'acte analytique, 10/1/1968, inédito. >

6 Minkovski, Le temps vécu. Reprint Imago Mundi Gérard Monfort,


E.
Brionne, 1988. O artigo de Lacan foi publicado em Recherches
philosophiques, 1935-1936, sob a rubrica "Psicologia e estética", p. 424-
431.

7 ]. Lacan, RSI, seminário inédito, 18/2/75.

25
cAPíTULo Dois

A Solução do Sofisma

Vamos começar recordando os dados do problema e


a maneira como Lacan o resolve, decompondo suas etapas
e reformulando-as. Citaremos Lacan a partir do texto de
1945, e não a partir do texto de 1966.
O diretor de uma prisão reune três prisioneiros e
promete a liberdade àquele que descobrira cor do disco que
lhe pregou às costas, disco escolhido dentre três brancos e
dois pretos. Os prisioneiros não têm meios de comunicar
uns aos outros os resultados de suas inspeções, nem de
alcançar com a vista o círculo pregado às próprias costas.
Depois de se terem observado por um certo tempo, os três
prisioneiros se dirigem juntos para a saída e cada um,
separadamente, conclui que é branco, o que é realmente o
caso, dizendo a mesma coisa: "Dado que meus companheiros
eram brancos, pensei que, se eu fosse preto, cada um deles
poderia inferir disso o seguinte: "Se eu também fosse preto,
o outro, devendo reconhecer imediatamente ser branco,
teria saído imediatamente, portanto não sou preto". E
ambos teriam saído juntos, convencidos de serem brancos.
Senão faziam nada, é porque eu era um branco como eles.
Diante disso, encaminhei-me para a porta, para dar a
conhecer minha conclusão".

27
Ao mesmo tempo em que qualifica de "perfeita" essa
solução, Lacan considera-a um sofisma. A solução dele faz
intervir duas escansões suspensivas, isto é, duas paradas e
duas partidas, antes da conclusão final.
Vamos tentar, por nossa vez, dar conta do "progresso
lógico", tal como Lacan o estabelece, colocando-nos no
lugar do "personagem" chamado A, aquele que vem concluir
por si mesmo, B e C sendo aqueles a partir de cuja conduta
ele estabelece sua dedução.

~
A soluçao perfeita
1 Esta é sua hipótese. Ele pensa
-_ A se pensa preto.
que é visto como tal pelos outros. Toma, então, o que pensa
como uma realidade.
2-Isso posto, A expõe que imagina o que B faz como

21 -
hipótese, colocando-se de alguma forma no lugar de B:
B (na mente de A, isto é, vendo A preto) pensa:

22 -
"Suponho-me preto".
Nesse caso, C deve sair imediatamente, certo de
ser um branco.

24 -
23- Ora, B Vê C que não Sai.
Logo, C está diante de duas possibilidades: um

25 -
preto e um branco ou dois brancos.
Este é o momento de lembrar a hipótese inicial
(1) e manter-se nela. Vamos nos dar conta, aliás, de que
ainda que ela se verifique falsa, é, com efeito, a única
hipótese certa, isto é, a única hipótese que permite chegar-
se a uma conclusão: se, com efeito, A começa por supor-se
branco, se ele supõe a verdade, e supõe B supondo-se preto,
C (na presença de um preto e um branco) também não
sairia; mas C tampouco sairia se B se supõe branco; portan-
to, em nenhum caso B pode concluir, nem A,
conseqüentemente; essa, pois, não é uma boa hipótese de
partida. Vamos recordar, pois, a hipótese inicial: A é preto,
B o vê preto: se C não sai é porque ele vê um branco e um
preto.
26- Logo, B pensa: eu sou branco (já que A é preto),
E Sal COHI €SSâ COI`lClUSaO. l . _ '

28
preto.
3 - Este raciocínio foi imputado a B por A, que se crê
'

31- Ora, A observa que C não sai e que B também não


sai, ou seja, B não pôde tirar a conclusão de que é branco a
partir da não saída de C.
32 _
Ora, essa conclusão ele a teria tirado apoiando-

33 -
se no fato de ver A preto.
Se B não sai, é, pois, porque ele não me viu preto,
vai pensar A nesse momento; ou seja, minha hipótese inicial
era falsa, e saio dizendo que sou branco.
Cada um deles tendo feito o mesmo raciocínio, todos
saem e esta é:

a primeira partida
Mas -l
e é aqui que Lacan situa o erro lógico _
se a
solução devesse parar aí, nesse momento, pelo próprio fato
da saída dos outros, iria se apresentar uma objeção à
solução, já que a certeza de A provinha da expectativa de B
e C. Se B e C se põem em movimento ao mesmo tempo que
A, é normal que a segurança deste seja abalada. Daí:

a primeira parada ou escansão suspensiva


A pára para refletir, refazer o raciocínio e perguntar-
se se não estaria enganado. Mas nesse raciocínio que ele vai
refazer será incluído o fato de que todos os prisioneiros
param, já que cada um deles tem o mesmo raciocínio e um
disco branco nas costas.
O que motiva essa parada é que A pensa, refazendo o
raciocínio (2) no lugar de B: B talvez tenha começado a sair
porque, justamente, tendo me visto preto no começo de seu
raciocinio, pôde concluir que era branco; concluiu que era
branco ao fim da etapa 26. Neste caso, se diz A, eu sou preto
e não branco; o raciocínio imputado a B era não somente
válido, mas real.
Mas então, pergunta-se A, por que é que ele se detém,
ou por que não toma a sair antes de mim? Se ele me vê
realmente preto, termina seu raciocínio em 26, antes de mim;
ele tem, portanto, uma dianteira sobre mim. Se não o faz é,
pois, porque não tem certeza, porque ele também faz uma
hipótese, e não por me ter visto realmente preto. Daí:

29
a segunda partida
A toma a partir, portanto, pensando-se branco, sempre
com a idéia de uma certeza fundada na expectativa de B e C.
Pelas mesmas razões precedentes, todos tornam a
partir.
Essa nova partida dos outros vai outra vez semear a
dúvida em A, que vai parar para refletir de novo, levando-
se em conta, novamente, o fato de que os outros também se
detiveram. Daí:

a segunda parada ou escansao suspensiva


A se pergunta: será isso igual à última vez? Será a
mesma coisa que recomeça? Quanto tempo isso vai durar?
Será que realmente posso fundar minha certeza na
expectativa de B já que, a cada vez, esta é suspensa? A
suspensão da expectativa de B é a objeção lógica à minha
conclusão: essa objeção é logicamente refutada? Mas que
certeza lógica vai fundar minha afirmação, senão a
expectativa de B e C? Levantando o obstáculo, nem por isso
refutei a objeção lógica.
Sim, mas existe um progresso lógico que se realizou
com a escansão precedente. Depois desta, Be C não deveriam,
em absoluto, ter parado. Se B saiu da primeira vez concluindo
que era branco, com base no fato de me ver preto, que tenha
parado para a verificação de um raciocínio que eu mesmo
pude verificar, na primeira escansão, como não apenas
válido mas (também) verdadeiro, se ele me via preto, se B
fez e pensou tudo isso, então é impossível que ele tenha
parado uma segunda vez. Se ele está parando mais uma vez,
é porque ele não me viu preto, realmente, e portanto eu sou
branco.
Mas não basta ded uzi-Io, há uma urgência em concluí-
lo. Minha segurança, minha certeza não pode mais ser
fundada na expectativa de B, pois, na primeira escansão,
também objetivei que eu tinha um tempo de atraso com
relação a B (que terminou seu raciocínio em 26); esse tempo
de atraso, ao mesmo tempo, me permitiu uma boa dedução,
a de saber que eu sou branco, mas também a manteve
suspensa a essa expectativa de B: a única maneira de
alcançar a certeza é, portanto, recuperar esse tempo de

30
atraso e concluir antes que B conclua, afirmar que sou
branco na pressa do ato de concluir.

Embora isso nem sempre fique muito claro em Lacan,


é pois nesse momento, na saída da segunda escansão e não
da primeira, que situamos logicamente a objetivação da
pressa de concluir.
Vemos que a solução de Lacan não difere do raciocínio
de base da solução perfeita; ela não lhe acrescenta um
outro, nem toma um outro ponto de partida. Ao contrário,
mesmo, ela o repete em duas etapas sucessivas. Essa
repetição muda tudo, e leva à certeza.
Por outro lado, essas escansões não se superpõem ao
processo lógico, mas são integradas a ele: "Longe, com
efeito, de trazer um dado de experiência externa ao progresso
lógico, as escansões suspensivas nada mais representam
que as instâncias do tempo integradas ao progresso lógico,
registradas na sua conclusão e que se desenvolvem numa
verdadeira experiência lógica para verifica-lo"1.

Os três tempos

Lacan não se contenta em resolver o sofisma, como


tentamos retraçar suas etapas. Ele dá um passo a mais: o
passo do sujeito.
Lacan procede a um ciframento da modulação do
tempo a partir da solução decomposta entre os três
personagens. Ele mostra que "a instância do tempo se
apresenta sob um modo diferente em cada um dos
momentos": o instante de ver, o tempo para compreender
e o momento de concluir. Assim, não apenas o tempo não
se acrescenta de modo extrínseco ao progresso lógico, mas
também, por suas mod ulações, o estrutura.
Os três tempos correspondem aos três modos de
subjetivação dos personagens. Eles não estão ligados
individualmente aos personagens A, Be C, e sim às relações
que esses personagens mantêm entre eles, cada um sendo
ao mesmo tempo A, B e C. Esse ciframento leva em conta
a simultaneidade dos raciocínios de A, B e C, dos quais não

31
podemos dar conta plenamente apresentando a soluçao do
sofisma senão de modo linear, pelo menos privilegiando
um ponto de vista, o de A.
Enfim, os três tempos constituem uma transformação

-
subjetiva temporal -verificada no momento das escansões
das combinações espaciais de cores.
A combinação dois pretos, um branco é subjetivada
no instante de ver. Ela corresponde a um sujeito irnpessoal:
diante de dois pretos, sabe-se que se é branco.
A combinação um preto, dois brancos é subjetivada
no tempo para compreender. Ela corresponde ao tempo do
raciocínio: "se sou um preto, os dois outros, que vejo
brancos, podem pensar "se sou um preto..." e não tardarão
a se reconhecer como sendo brancos". Essa subjetivação é a
de um sujeito recíproco, ou sujeitos indefinidos a não ser
por sua reciprocidade. E o sujeito de dois brancos B e C,
para mim, A, que vêem, cada um, um preto e um branco.
Enfim, a combinação três brancos é subjetivada
somente na pressa de concluir para cada um dos três. Na
medida em que cada um é A, a pressa pode ser
experimentada em cada um dos movimentos, mas ela só é
objetivada na última partida. O sentimento de pressa cresce
no decorrer da prova.
Essa subjetivação corresponde ao sujeito do
conhecimento na versão de 1945. Não se deveria referir este
sujeito do conhecimento ao que Lacan diz, noutra parte,
sobre o conhecimento paranóico? Seja como for, aí está um
dos pontos que será objeto de remanejamentos e que
tomaremos a ver adiante.
A solução de Lacan permite destacar algumas

-_
características daquilo a que já se pode chamar um sujeito:
Ele não se confunde com os personagens A, B e C.
Existe uma pluralidade de seus modos, não
cronológicos, descontínuos, que se cruza com a pluralidade

-
dos personagens e que se repete para cada um.
A subjetivação está ligada à transformação de um
dado espacial em tempo.
A -Sua "saída" está ligada a uma dedução, mas também
a um ato antecipando sua certeza.
Essas características formam um conjunto sobre o

32
qual Lacan voltará, pois ele levanta numerosas questoes.
Em particular, a leitura atenta do texto faz surgir uma
contradição que desperta nossa curiosidade, pois se refere
diretamente aos nossos propósitos. No final do texto, Lacan
se pergunta "a que espécie de relação responde a forma
lógica" do sofisma, e responde curiosamente: "à referência
de um "eu" (je), à medida comum do sujeito recíproco, ou
ainda, a outros enquanto tais, ou seja, na medida em que
são outros uns para os outros. Essa medida comum é dada
por um certo tempo para compreender, que se revela como
urna função essencial da relação lógica de reciprocidade".
Certamente, nota-se que para Lacan a reciprocidade
implica uma mudança de ponto de vista sobre os sujeitos:
eles são outros uns para os outros. Por outro lado, já que há
o "como um" no "Tempo lógico...", é realmente necessário
colocara questão da medida comum. Oproblemalevantado
pela resposta de Lacan consiste em que essa medida comum
seja referida à do sujeito recíproco do tempo para
compreender. Decerto, no estado do texto, não se vê como
o sujeito recíproco não seria aquele do tempo para
compreender. Mas não é menos certo que reduzir o "eu" (je)
da asserção conclusiva àquele do tempo para compreender
é uma contradição no texto de Lacan que, formulada como
tal, vai contra sua demonstração da originalidade do
momento de concluir. Veremos que é preciso esperar 1973
para podermos, com Lacan, propor uma solução para esse
problema.
Sejam quais forem nossas questões por ora, nem por
isso é menos verdade que em 1945 "O Tempo lógico..."
introduz uma novidade na maneira pela qual até então
Lacan havia posicionado o sujeito na sua relação com os
outros. Antes de chegar lá, vamos responder a questão que
foi possível formular: por que chamar ao "tempo lógico"
um sofisma?

NOTAS
' "O tempo lógico", Cahiers d'Art, p. 36.

33
_í, __

CAPÍTULO TRÊS

O Tempo Lógico Permanece um


Sofisma?

Lacan encontra uma solução para o problema lógico.


Por que continua ele, então, a chamá-lo de Sofisma?
O termo Sofisma assumiu um valor pejorativo desde
os ataques de que foi alvo a partir de Platão e Aristóteles.
"Foi, como se sabe, em nome da verdade que a sofística foi
originalmente e sempre condenada: a principal acusação
feita por Platão, bem como por Aristóteles, deixa-Se
consignar pelo termo pseudos. Pseudos objetivo, o "falso":
o sofista diz o que não é, o não-ser, e o que não é sendo
realmente, os fenômenos, as aparências. Pseudos subjetivos,
a "mentira": o sofista diz o falso na intenção de enganar,
utilizando, para obter um sucesso material, todos os recursos
do logos, ao mesmo tempo lingüístico (homonímia de
termos), lógico (falso raciocínio, Sofisma) e racional
propriamente dito (inaptidão ao cálculo e à estratégia,
burrice do outro)"*.
Freud reconhecia, entretanto, numa certa categoria
de Witz que ele chamava de sofísticos (tal como o do
caldeirão furado), o poder, contrário, de apresentar a
verdade: "Não seguiremos um caminho errado se, a
propósito de todas as histórias de fachada lógica, admitirmos
que elas querem efetivamente dizer o que afirmam com um

35
“I

raciocínio intencionalmente errôneo. Somente esse emp rego


do sofisma para uma apresentação oculta da verdade lhe
confere o caráter de chiste que depende, pois, principalmente
da tendência”.
Assiste-se hoje, além disso, a uma renovação dos
estudos positivos sobre a sofística3. Os sofismas são
autênticos paradoxos que revelam uma dificuldade lógica
real, exacerbando as imposições e regras da fala, da
linguagem, da lógica4. São "anomalias" que conduzem a
modificações das teorias existentes?
Com freqüência, o erro de raciocínio não pode ser
provado no momento histórico em que o sofisma é
enunciado. Tal é o caso dos paradoxos de Zenão, aos quais
voltaremos, que só encontraram uma resposta satisfatória
depois da descoberta do cálculo infinitesimal, das séries
convergentes e divergentes, das variedades de infinitos.
"Após dois mil anos de refu tações contínuas, esses sofismas
foram reinstalados e constituíram os fundamentos deum
renascimento matemático", confessa o próprio Russel°.
Mas, então, por que continuar a chamar de sofisma,
como faz Lacan, um problema que foi resolvido? Uma das
razões para isso parece estar ligada ao fato de que, apesar
da sua solução, o sofisma continua a questionar. E 0 caso 4

dos paradoxos de Zenão: "Tudo se passa como se, a cada


vez que se "resolviam" os paradoxos de Zenão, outros
problemas surgiam... e seria temerário pretender que
tivéssemos chegado a uma solução completa desses
paradoxos.;. Eles nos conduziam ao núcleo dos conceitos
de espaço, de tempo e de movimento, conceitos
extremamente complexos".
Existe, ao que me parece, uma outra razão para
continuar chamando de sofismas paradoxos que
encontraram uma solução. O sofisma "não pode se resumir,
mas apenas se repetir", e "ele se reproduz cada vez que se
o escuta"8. Ele apresenta a contradição lógica de uma
maneira tal que leva aquele que o lê ou escuta a percorrer
de novo as etapas de raciocínio para refutar o erro e resolver
o sofisma. Ele implica que o outro se envolva nele, e o
retome por sua conta. O sofisma é um exercício de raciocínio
dito "falso", pois implica, para ser resolvido, um momento

36
l
de mudança, de ponto de vista. Essa báscula, mais que o
resultado bruto de uma solução, faz a particularidade de um
bom sofisma. Ela só se pode produzir se tornarem a se
percorrer as etapas de raciocínio. Essa exigência será
reencontrada no nível da topologia e a diferencia de uma
certa apreensão espacial onde tudo pode ser visto de um só
golpe, apreensão espacial da qual Lacan critica os efeitos
perversos na busca da solução do sofisma.
É por isso que, a nosso ver, a solução de um paradoxo
não o faz desaparecer como paradoxo, e é por isso, também,
que se mantém o nome de sofisma, atribuindo-lhe um
caráter exemplar, mesmo quando se encontrou uma solução.
A solução nada é sem o meio de se chegar a ela.
A definição que Lacan dá ao sofisma em seu texto
confirma essas formulações: a solução perfeita lhe parece
"como um notável sofisma, no sentido clássico do termo,
isto é, um exemplo significativo para resolver as formas de
uma função lógica, no momento histórico em que seu
problema se expõe ao exame filosófico".
No sofisma de Lacan, o erro consiste em concluir com
base na "solução perfeita". Mas a objeção não conduz a um
novo raciocínio, nem refuta a solução perfeita (que parte, ela
mesma, de uma hipótese falsa). Ao contrário, são as objeções
ã solução perfeita que, repetidas duas vezes, em duas
escansões, fazem-na existir como solução.
Existe a objeção que provém da saída dos outros e
provoca a parada, e a objeção proveniente da parada e que
provoca uma nova partida. A objeção ao erro de ter concluído
a verdade a partir de uma hipótese falsa (onde o erro é,
portanto, redobrado) provém da parada dos outros. A
objeção ao erro de ter concluído falsamente (cedo demais) a
partir de uma hipótese verdadeira provém da partida
simultânea dos outros. O tempo dessas objeções ao raciocínio
eàs objeções é contado como tal para a validade do raciocínio,
ele não Lhe é exterior.
Chama-se a isso sempre de sofisma porque os tempos
do erro estão integrados ao próprio raciocínio, contados
como tempos necessários ao seu progresso e ã sua conclusão
antecipadora. Existe uma positivização do erro como tal,
fator de uma "saída salutar"°.

37
-Por outro lado, e esta é uma razao suplementar para
continuar chamando ao apólogo dos prisioneiros um
sofisma, essa saída salutar depende de um ato ligado a uma
retórica, que excede a dedução, o raciocínio, até mesmo a
escritura, como veremos mais adiante. A parte do raciocínio
ficaria suspensa à possibilidade de erro sem o ato que dá a
certeza. Mas o ato é uma dimensao que está na exterioridade
com relação ao raciocínio. Para concluir, o momento passou.

NOTAS
l B. Cassin, Le plaisir de parler, estudo de sofística comparada, sob a
direção de B. Cassin, Ed. Minuit, 1986, p. 6.

2Tradução de La Transa, Cahier n° 3: "As tendências do chiste", GW 6,


p. 118. Este exemplo é retomado por S. Weber em Le plaisir de parler,
p. 201-207.

3 Além da obra citada na nota 1, citamos: Positions de Ia sophistique,


org. por B. Cassin, Vrin, 1986; B. Cassin, Si Parménide, Presses
universitaires de Lille, Ed. de la Maison des sciences de l'homme, 1980;
I. de Romilly, Les grands sophistes dans l'Athènes de Pèriclès, Fallois,
Paris, 1988.

4 B. Cassin, Si Parménide, op. cit., p. 93 e 101.

5 Le plaisir de parler, op. cit., p. 198-199.

É B. Russel, Principles of Mathematics, 1903, reprint Norton and Co.


lnc., Nova York, p. 347.

7N. Falleta, Le livre des paradoxes, Belfond, Paris, 1985, p. 123-124.

8 B. Cassin, Si Parménide, op. cit., p. 83.

Lacan, Encore, seminário de 16 de janeiro, 1973. Edição brasileira


91.
Mais, Ainda, Rio de janeiro, Iorge Zahar, 1985.

38
T j

cAPíTULo oUATRo

O Indivíduo e o Social para Lacan no


Ano de 1945

V Em sua nota final ao "Tempo lógico..." (suprimida em


1966), Lacan assinala que seu artigo é um "Fragmento de
um ensaio de uma lógica coletiva"l. Mesmo que esse ensaio
jamais tenha sido publicado (o que foi que o substituiu?),
esta nota nos sugere resituar "O Tempo lógico..." num
conjunto. Este conjunto é, precisamente, o das relações do
indivíduo ao social, relação qualificada pelo termo
"coletividade" inaugurado, em Lacan, nesse artigo.
O título que conclui o artigo é "A verdade do sofisma
como referência temporalizada de sifao outro: a asserção
subjetiva antecipadora como forma fundamental de uma
lógica coletiva". "A coletividade", escreve Lacan, "está
integralmente representada na forma do sofisma, já que ela
se define como um grupo formado pelas relações recíprocas
de um número definido de indivíduos, ao contrário da
generalidade que se define como uma classe
compreendendo abstratamente um número indefinido de
indivíduos".
Com esse termo, coletividade, trata-se de uma nova
maneira, mais especificada, de tratara relação do indivíduo
ao social. Com efeito, foi no quadro de uma relação do
indivíduo ao social que Lacan começou a abordar as
39
X

manifestações do inconsciente, e a continuação de seu


percurso se encontra engajada nisso. Se não escreveu seu
"Ensaio de lógica coletiva", Lacan não cessou de especificar
a natureza do "liame social" onde assumem sentido as
manifestações do inconsciente.
Essa abordagem inaugural vai de encontro a sua
concepção da psicose paranóica, como se observa desde sua
tese em 1932. Nesta, parece que, para Lacan, o indivíduo e
o meio social formam uma "totalidade"2. Lacan critica as
concepções tradicionais de indivíduo e pessoa para propor
uma definição da personalidade, onde está incluída a
dimensão social com a noção de "tensão social"; essa definição
da personalidade é um trípode cujo terceiro termo é "uma
certa tensão das relações sociais que se traduz pelo valor
representativo pelo qual o sujeito se sente afetado diante de
outrem”.
Entre 1932 e 1939, temos as marcas
publicou durante
- Lacan não
os anos de guerra -- de diversas
intervenções de Lacan em discussões cuja tônica é a
determinação social dos distúrbios mentais: "O Dr. Lacan,
um pouco à margem da discussão, observa que nos
paranóicos as manifestações essenciais, tais como os
assassinatos representativos, etc., têm um eminente valor
representativo social. "Existe aí alguma coisa que está na
própria estrutura do social"4.
Em 1936, sempre no relatório de uma discussão,
Lacan intervém para dizer que "a grande descoberta da
análise é menos a sexualidade infantil (simples achado da
experiência) que a influência formadora da família, família
cuja natureza é irredutível a um fato biológico, pois é uma
realidade cultural"5.
Igualmente, em seu texto sobre o crime das irmãs
Papin, Lacan acentua ainda a preeminência do fator social:
"Reconhecemos, assim, como primordial, tanto nos
elementos como no conjunto do delírio e em suas reações, a
influência das relações sociais incidentes em cada uma
dessas três ordens de fenômenos; e admitimos como
explicativa de fatos da psicose a noção dinâmica de tensões
sociais, cujo estado de equilibrio ou de ruptura define
normalmente no indivíduo a personalidade"°. Encontra-se,

40
além disso, nesse texto, o início de uma separaçao de
Freud, ali mesmo onde ele o traduz. Em "Alguns
mecanismos neuróticos no ciúme, na paranóia e na
homossexualidade" (1922), traduzido por Lacan em 1932,
Freud formula que a gênese individual dos sozialen Trieben
1

(instintos sociais, traduz Lacan) provêm "de uma inversão


de sentimento (Gefühlsumwandlung) das tendências
(Regungen) hostis ciumen tas contra os irmãos mais velhos,
rivais com relação à mãe. O exagero do processo conduz ~
a
n
p

homossexualidade. Os sentimentos de identificaçao de


natureza amorosa, bem como social, nascem como forma
de reação contra os impulsos agressivos recalcados"7. Em
seu artigo sobre as irmãs Papin, onde cita "Alguns
mecanismos...", Lacan retoma ainda nesse momento a
idéia de transformação, falando de "inversão anormal",
mas acrescenta algo que não está em Freud, que "o
mecanismo é constante: essa fixação amorosa é a condição
primordial da primeira integração às tendências instintivas
daquilo a que chamamos as tensões sociais” (o grifo é
nosso). Isso está tanto menos em Freud se nos lembrarmos
de que, para Lacan, essas tensoes sociais nao sao o produto
de uma inversão, mas têm um ca ráter genérico e primordial.
\›
A noção de tensão social encontra uma primeira
estruturação com o estágio do espelho. "Alegro-me de ver
sua concordância", diz Lacan numa discussão em 1937,
"com minha própria concepção que funda a constituição do
Eu (moi) no esquema de todo(?) corporal e encara o
progresso do Eu como o desenvolvimento, a assunção
dessa imagem. Por aí são "dirigidas" as noções estruturais
essenciais na compreensão dos distúrbios genéticos da
personalidade, por aí atingimos uma realidade mais
assegurada que aquela que nos é oferecida pela ficção das
contingências históricas”. Vê-se que o estruturalismo de
Lacan, sobre o qual estão de acordo todos os oradores da
época, não data dos anos 60.
Não temos, infelizmente, o texto de 1936 sobre o
estágio do espelho. Mas, comparando o que dele diz Lacan
em 1938 em seu grande artigo "A família" e o texto de 1949
publicado na Revue française de psychanalyse, veremos
que "O tempo lógico..." deixou marcas. Antes de chegar a

41
_
ele
coisa- vamos tratar disso à parte, dada a importância da
dois outros textos merecem ser aproximados do
"tempo lógico".
Em primeiro lugar, "O número treze e a forma lógica
da suspeita", também publicado em Les cahiers d'art,
depois de "O tempo lógico...", em 1946, mas correspondend o
a um grau anterior de elaboração. Trata-se de um problema
de recreação matemática, partilhado na época com Le
Lionnais e Queneau: encontrar uma peça de peso diferente
entre doze peças, em três pesagens. Lacan escreve que
"tocamos aqui numa dialética essencial das relações do
indivíduo à coleção, na medida em que elas comportam a
ambigüidade do demasiado ou do demasiado pouco", e
que "a referência do indivíduo a cada um de todos os outros
éa exigência fundamental da lógica da coleção", da qual seu
exemplo demonstra que ela está longe de ser impensável.
Ê assim que surge o termo coleção, que no entanto
permanece preso numa referência ao indivíduo; a noção de
sujeito ali está ausente. Além disso, numa nota do Nombre
treize, Lacan faz sua própria crítica insistindo, justamente,
sobre o termo sujeito: "O estudo aqui desenvolvido toma
seu lugar nas análises formais iniciais de uma lógica coletiva
à qual já se referia o trecho publicado no número anterior
dos Cahiers d'art, sob o título "O Tempo lógico e a asserção
da certeza antecipada". A forma aq ui desenvolvida, embora
comporte a sucessão, não é absolutamente da ordem do
tempo lógico e se situa como anterior em nosso
desenvolvimento. Ela faz parte de nossas abordagens
exemplares para a concepção de formas lógicas onde devem
se definir as relações do indivíduo à coleção, antes que se
constitua a classe, em outras palavras, antes que o indivíduo
seja especificado. Essa concepção se desenvolve numa
lógica do sujeito que nosso outro estudo dá nitidamente a
perceber, já que chegamos, em seu final, a tentar formular
o silogismo subjetivo por onde o sujeito da existência se
assimila ã essência, radicalmente cultural para nós, a que se
aplica o termo humanidade"“l.
"A psiquiatria inglesa e a guerra"“ é o segundo texto
de Lacan que "enquadra" "O tempo lógico...", não apenas
por sua data de publicação, mas também pelo tema que ele

42
b
š

desenvolve: a identificação ao grupo. Esse texto foi escrito


depois de uma temporada de cinco semanas que Lacan
passou na Inglaterra a partir de setembro de 1945; ele relata
as experiências originais de Bion e Rickman sobre a dinâmica
dos pequenos grupos de soldados doentes ou feridos que
organizaram durante a guerra. Não é sem entusiasmo que
Lacan fala sobre isso: "Reencontro aí a impressão do milagre
das primeiras trajetórias freudianas: encontrar no próprio
impasse de uma situação a força viva da intervenção".
Nesse artigo, Lacan já está um pouco crítico com
relação à "Psicologia das Massas e Análise do Eu" de Freud:
"Todo deficit físico ou intelectual com efeito assume para o
sujeito no interior de um grupo um valor afetivo em função
do processo de identificação horizontal que o trabalho de
Freud evocado acima talvez sugira, mas negligencia em
proveito da identificação, se assim podemos dizer, vertical,
ao chefe".

NOTAS
' Cahiers d'art, p. 42.

2 J.Lacan, De la psychose paranoiaque dans ses rapports avec la


personnalitê, Seuil, 1975, p. 337.

3 Ibió., p. 42.

4Revue française de psychanalyse, 1934. Trechos dessas intervenções


foram publicados em Ornicar? n° 31, out./dez de 1984, sob o título
"Interventions de Lacan à Ia S.P.P.".

5 Evolution psychiatrique, 1936, p. 58.

°"Motifs du crime parano'|`aque", publicado em Le Minotaure de 1933,


e retomado em De la psychose paranoiaque, op. cit. Cf. o estudo do
caso em F. Dupré, La solution du passage 'a I'acte, col. Littoral.

75. Freud, GW 13, p. 195-207. Tradução de Lacan publicada na Revue

43
,JL
¬¬.
I
\

Française de psychanalyse, 1932, n° 3. Ed. bras. ESB, Imago, 1976, vol.


XVIII.

8 J. Lacan, De Ia psychose parano'|`aque, op. cit., p. 396.

9 Evolution psychiatrique, 1937, p. 76.

'Ú Cahiers d'art, 1946. Republicadu em Ornicar? 11° 36, 1986.

“ Evolution psychiatrique, 12, 1, 1947, p. 293-318.

44
1

I
CAPITULO CINCO
1

O Efeito do Tempo Lógico Sobre o


Estágio do Espelho

Se seguirmos o que Lacan disse em 1955 (cf. p 23), o


tempo lógico traz algo de novo quanto à elaboração do
estágio do espelho. Adiantamos que, se Lacan não publicou
o texto de 1936 sobre o estágio do espelho, foi precisamente
devido a seu trabalho sobre o tempo lógico que o tornava
demasiado imperfeito, e que podemos avaliar os efeitos
deste trabalho sobre o estágio do espelho comparando a
versão de 1938 publicada na Encyclopédie de la famille
com a de 1949, depois, portanto, do "Tempo lógico...",
publicada na Revue française de psychanalyse. A
comparação dos títulos das versões de 1936 e 1949 do
estágio do espelho já é instrutiva

1936: O estágio do espelho. Teoria de um momento


estruturante e genético da constituição da realidade,
concebido em relação com a experiência e a doutrina
psicanalítica.

1949: O estágio do espelho como formador da função


do Eu tal como esta nos é revelada na experiência
psicanalítica.

45
Em primeiro lugar, trata-se de alguma coisa "revelada
na experiência psicanalítica", e não mais "em relação" a esta,
ligada em particular ã observação da criança. Lacan pode
relatar uma prática analítica. A primeira coisa que retira
dela é um texto sobre o tempo. A relação ao tempo, aliás,
modificou-se, já que não é mais, em 1949, "a teoria de um
momento", mas o estágio do espelho é o próprio momento,
o termo "momento" tendo desaparecido em 1949. Por outro
lado, em 1949, está em jogo a "formação do Eu", como no
"Tempo lógico...", e não mais um momento "genético" da
"constituição da realidade".
Antes de comparar a versão de 1939 incluída no artigo
"A família" com a de 1949, que foi retomada nos Êcrits,
confrontamos, certamente, a versão de 1949, publicada na
Revue française de psychanalyse, com aquela publicada
nos Êcrits. As diferenças, muito menos numerosas que para
o "Tempo lógico.. .", não se referem diretamente às passagens
que desejamos sublinhar. Pode-se, porém, observar duas
coias que se aproximam de nossos objetivos. Em 1966,
Lacan não mais coloca a experiência da psicanálise em
oposição radical a filosofia do Cogito:

1949: "Experiência da qual se deve dizer que nos opõe


radicalmente a toda filosofia derivada do Cogito".

1966: "Experiência da qual se deve dizer que nos opõe a toda


filosofia derivada diretamente do Cogito". É verdade que
em 1966 o debate de Lacan com Descartes evoluiu, já que
Lacan reconheceu no sujeito cartesiano o sujeito da
psicanálise?

Por outro lado, em 1949, Lacan traduz Ideal-Ichporje


idéal, e em 1966 ele esclarece que não mantém mais essa
tradução. Optou por Moi-idéal. Ao mesmo tempo em que
Lacan distingue o sujeito e o eu (moi), designa a relação
entre eles, que qualifica, um pouco mais adiante, de
"assintótica": "A instância do eu (moi) só se reune
assintoticamente ao devir do sujeito"4.
Vejamos agora como Lacan modificou sua versão do
estágio do espelho depois da passagem do "Tempo lógico...".

46
Em "A família", reencontram-se formulações que lembram
o título de 1936 e não são encontradas mais em 1949: "...é
uma teoria dessa identificação da qual designamos o
momento genético, sob o termo estágio do espelho", "o
fenômeno surge depois dos seis meses, e seu estudo nesse
momento revela de maneira demonstrativa as tendências
que constituem então a realidade do sujeito". Entretanto, o
que difere profundamente entre 1938 e 1949 é o modo de
articulação temporal da formação do eu (moi), e isso dá uma
dinâmica inteiramente outra ao texto de 1949.
Em 1938
Lacan distingüe da forma mais absoluta o estágio do
espelho e o drama dos ciúmes, separação acentuada pelos
dois sub-títulos de tipos diferentes na paginação da
Encyclopédie, onde ambos fazem parte do capítulo ll,
intitulado Le complexe de l 'intrusion.
A noção de prematuração do nascimento é evocada
em 1939, mas sem ser desenvolvida como em 1949, e
principalmente a articulação do estágio do espelho com esta
última é muito diferente. Em 1938, é em termos de "resposta
a um mal-estar-que-traduz": "O estágio assim considerado
responde ao declínio do desmame, isto é, ao fim desses seis
meses cuja dominante psíquica de mal-estar, respondendo
ao retardo do crescimento físico, traduz essa prematuração
do nascimento que é, como dissemos, o fundo específico do
desmame no homem".
A resposta a esse mal-estar é uma percepção: a
percepção da forma do semelhante. E essa percepção tem
por efeito permitir ao sujeito encontrar uma unidade: "A
tendência pela qual o sujeito restaura a unidade perdida de
si mesmo tem lugar desde a origem no centro da consciência...
O que o sujeito reconhece (na imagem especular) é a unidade
mental que lhe é inerente; o que ele reconhece aí é o ideal da
imago do duplo". Mas o sujeito também se confunde com
essa imagem: "Mas antes que o eu (moi) afirme sua
identidade, ele se confunde com essa imagem que o forma,
mas o aliena primordialmente."
O estágio do espelho é, pois, um estágio onde o eu
(moi) ainda não afirmou sua identidade, mas restaura nele
"a unidade perdida de si mesmo" que ele procura: o estágio

47
-

do espelho permite que se represente essa unidade na


imagem do duplo com o qual o eu (moi) se confunde. A
afirmação da identidade do eu (moi) é o objeto do sub-
capítulo seguinte (na Encyclopédie): O drama dos ciúmes.
"O eu (moi) se constitui ao mesmo tempo que o outrem no
drama dos ciúmes". Na concorrência que implica rivalidade
e acordo, "ele encontra ao mesmo tempo o outro e o objeto
socializado. Aqui ainda, o ciúme humano se distingue,
portanto, da rivalidade vital imediata, já que esta forma seu
objeto, mais do que ele a determina; ela se revela como o
arquétipo dos sentimentos sociais".
A passagem do estágio do espelho ao drama dos
ciúmes se faz por substituição: a tendência do estádio do
espelho implica "a introdução de um terceiro objeto que, à
confusão afetiva, bem como à ambiguidade especular,
substitui a concorrência de uma situação triangular".
Em 1939, a articulação temporal permanece presa à
visão cronológica linear da sucessão das fases. Visão que se
reencontra em todas as ob ras de Lacan anteriores a 1945, em
particular na sua classificação das psicoses: "O progresso da
nossa pesquisa nos deveria fazer reconhecer, nas formas
mentais constituídas pelas psicoses, a reconstituição de
estágios do eu (moi) anteriores ã personalidade”.

da reação pela psicose em Aimee se demonstra a) -


Igualmente, em sua tese, Lacan escreve que o fator específico

- c)-
uma anomalia específica da personalidade; b) como uma
como

anomalia do desenvolvimento típica da personalidade;


"como uma anomalia global das funções da personalidade,
anomalia de evolução na medida em que traduz uma
fixação afetiva, precisamente nesse estágio infantil em que
se forma o supereu, pela assimilação à personalidade das
imposições parentais ou de seus substitutos"'”.
Em 1949
Os acontecimentos são nodulados numa dialética
temporal totalmente diferente.
Em primeiro lugar, é sob o título do Estágio do
espelho que o ciúme é tratado.
Em seguida, fica-se surpreso por não se encontrar o
termo "imaginário", (quando este já foi mencionado em 38:
"A identificação, específica das condutas sociais nesse estágio,

43
-'gr zz ~

funda-se sobre um sentimento do outro que só se pode


desconhecer sem uma concepção correta de seu valor
inteiramente imaginário".). Em contrapartida, o termo
"simbólico" volta com muita freqüência sob a pena de
Lacan. O estágio do espelho é, em 1949, uma experiência
especular mas com valor simbólico: "l`\/Iatriz simbólica onde
o eu (je) se precipita numa forma primordial"; "essa Gestalt. ..
simboliza a permanência mental do je ao mesmo tempo em
que prefigura sua destinação alienante", igualmente, a
propósito das imagos, Lacan retoma por sua conta a
expressão "eficácia simbólica" de Levi-Strauss.
Enfim, e principalmente, o papel da prematuração do
nascimento é esclarecido e reforçado: é ela que vai servir de
motor a uma articulação temporal diferente do estágio do
espelho.
Esclarecido: contribuem para ele o inacabamento
anatômico do sistema piramidal, bem como os resquícios
humorais do organismo materno.
Reforçado: Lacan cita a fetalização, com referência às
obras de Bolk, para quem "o homem é, do ponto de vista
corporal, um feto de primata que alcançou a maturação
sexual"; ele se caracteriza por um atraso, uma inibição no
desenvolvimento; nenhum mamífero se torna adulto tanto
tempo depois de seu nascimento.7
Em consequência, o estágio do espelho não é mais
esse dado da percepção da forma do semelhante que
responde a um mal-estar, mas "um drama, cujo empuxo
interno se precipita da insuficiência à antecipação".
Precipitar-se", "antecipação", são dois termos diretamente
herdados do "Tempo lógico...".
Esta antecipação permite a Lacan falar de uma função
"mais constituinte que constituída" da imagem e não mais,
como em 1938, de uma "restauração". O estágio do espelho
adquire o valor de uma identificação no sentido pleno: a
saber, "a transformação produzida no sujeito quando ele
assume uma imagem". A imagem toma essa importância
devido à maturação precoce da percepção visual, portanto,
de uma defasagem temporal entre duas funções: é com
relação ao atraso biológico que a função visual desempenha
seu papel na antecipação. O estágio do espelho é, pois, na

49
versao de 49, "enquadrado" pelas relações temporais pos
tas em evidência no "Tempo lógico..." (atraso, antecipação),
e são estas que lhe conferem sua função constituinte da
identificação.
A antecipação traz algo de mais complexo que "a
unidade perdida de si mesmo", uma mistura de poder, de
permanência e uma função de limiar: "O sujeito vislumbra
numa miragem a maturação de sua potência"; a Gestalt
"simboliza a permanência mental do je"; "A imagem
especular parece ser o limiar do mundo visível".

NOTAS
lCf. os comentários feitos por Jean Allouch en "Un pas ou deux dans
l'abord de Ia paranoia", p. 141 e seg., publicado em Un siècle de
recherches freudiennes en France. Ed. Erès, 1986.

2 Republicada recentemente na França sob o título Les complexes


famíliaux, Ed. Navarin, 1984. Esta edição não conservou os entretítulos
da Encyclopédie, nem a bibliografia.

31. Lacan, Livre 11, Seuil, 1973, p. 185 e seg. Ed. bras.: O seminário,
Livro 11, Jorge Zahar, Rio de janeiro, 1984.

4 J. Lacan, Écrits, op. cit., p. 94.

5 ln La famille, cap. H, "Les complexes familiaux en pathologie", p. 8,

42-1.

6 J. Lacan, De Ia psychose paranoíaque, op. cit., p. 347.

7 L. Bulk, "La genèse de l'homme", Arguments, n° 18, vol. II, Privat


reprint, 1983.

50
'Í'

Conclusão

O remanejamento da versão 1938 do estágio do


espelho pela dialética temporal do tempo lógico tem um
efeito de nodulação entre o que Lacam vai chamar de o
imaginário e o simbólico, aqui representados,
respectivamente, pelo eu (moi) e o social. Essa frase da
versão 1949 o resume: "A assunção jubilosa de sua imagem
especular pelo ser ainda imerso na impotência motora e a
dependência da alimentação, que é o pequeno homem
nesse estágio infans, vai-nos parecer desde então manifestar
numa situação exemplar a matriz simbólica onde o eu (je)
se precipita numa forma primordial antes que se objetive
na dialética da identificação a outro, e que a linguagem lhe
restitua no universal sua função de sujeito"1.
Num mesmo movimento, pois, são diferenciados e
articulados dois modos do sujeito: o eu especular, ou moi,
e o eu social (je). Contrariamente à versão 1938, 0 eu (moi)
é diferenciado antes de sua determinação social, antes do
drama do ciúme. Esta é uma diferença que o liga ao mesmo
tempo ao eu (je) social: ele é uma matriz simbólica onde o
je se precipita numa forma primordial.
Quanto ao eu (je) social, este se objetiva na dialética
da relaçao ao outro pelo drama do ciúme: "Esse momento

51
onde se acaba o estágio do espelho inaugura, pela
identificação à imago do semelhante e o drama do ciúme
primordial (tão bem evidenciado pela escola de Charlotte
Bühler nos fatos do transitivismo infantil), a dialética que
daí por diante liga o je às situações socialmente elaboradas".
Além disso, e isso se inscreve já na seqüência da
versão 1945 do "Tempo lógico..." abre-se o campo da
linguagem que restitui no universal a função de'sujeito ao
eu (je) social. Sem dúvida, esta é a razão pela qual o termo
sujeito será preferencialmente reservado a este eu (je) social.
Assim, com o "Tempo lógico...", vimos algo de novo
se situar na articulação do indivíduo ao grupo.
Lacan partiu, inicialmente, da idéia de uma
solidariedade do individuo com o grupo, presente na sua
definição da personalidade, onde o termo "tensão social"
significa "valor representativo aos olhos de outrem".
Esse valor representativo encontrou uma primeira
especificação com o estágio do espelho, versão 1936 e 1938.
Mas esta permanecia prisioneira de uma visão cronológica
em estágios e comportava contradições: se a percepção da
forma do semelhante era necessária para dar Lmidade mental
ao eu (moi), por que só dar seu sentido pleno ao outro na
segunda etapa, a do drama do ciúme? Como um eu que não
está formado pode reconhecer o ideal da imago do duplo?
O que é a unidade perdida de si mesmo para um eu
conftuidido com a imagem? Por que haveria aí a substituição
da concorrência ao eu confundido com a imagem?

alienação do moi -
A versão de 1949 traz respostas a essas questões. A

-
matriz simbólica genérica mais que
genética, fase, mais que estágio é uma antecipação e não
uma restauração ligada à percepção da imagem do duplo.
Esta última intervem como um tempo intermediário entre o
je especular e o je social ("esse momento onde se acaba o
estágio do espelho inaugura. e .. fonna primordial, antes
que ele se objetive na dialética da identificação ao outro...").
Ainda assim, a relação a outrem não está absolutamente
clara na sua relação primordial ao sujeito; se se trata de
"restituir" ("a linguagem lhe restitua no universal a sua
função de sujeito"), não podemos nos abstrair de nenhuma
das etapas.

52
Í” L

As respostas da versão 1949 do estágio do espelho


assumem sentido a partir do momento em que são referidas
a dialética do sujeito e do outro na versão 1945 de "O tempo
lógico...", à maneira como aí se nodulam os registros
imaginário e simbólico. Mas para que essa distinção possa
ser nomeada como tal por Lacan, nesse texto, será preciso
que ele desenvolva aquilo que começa a tomar lugar no
texto de 1949: a linguagem.
Ê em função dessa orientação que, como vamos ver,
Lacan procederá em 1966 a um certo número de modificações
de sua primeira versão do "Tempo lógico".

NOTAS
1 ]. Lacan, Écrits, op. cit., p. 94.

53
Segunda Parte

~
O SUJEITO DAS ESCANSOES
SIGNIFICANTES
A Versão de 1966 do Sofisma

CAPÍTULO 1

O período 1945-1953

A compreensao dos remanejamentos encontrados na


versão de 1966 de "O tempo lógico" deve levar em conta o
caminho percorrido por Lacan entre 1945 e 1966. Vamos
dividir este período em dois: 1945-1953 e 1953-1966.
Durante o período 1945-1953, "Q tempo lógico" não é
submetido a novas elaborações nem suscita novos
comentários por parte de Lacan.
Em compensação, Lacan extrai do Sofisma os três
tempos como tais para servir-se deles num comentário clínico,
o do Homem dos Lobos, que é objeto de seu Seminário em
1952. Eis os vestígios que disso encontramos nas únicas notas
(inéditas) que circulam` hoje: "Na análise do homem dos
lobos a ênfase permanece por muito tempo no eu (moi) e
num eu irrefutável. E então que Freud faz intervir um
elemento de pressão temporal. E, a partir desse momento,
a análise deslancha: o Homem dos Lobos toma sua análise

--
na primeira pessoa: é o "je" que fala e não mais o "moi".
Vamos recordar: 1 A evidência apreensível no instante
de um olhar. 2 Segunda
cogitação do "working through" (elaboração). 3 -
etapa: a do problema: trabalho de

etapa: o momento de concluir: elemento de pressa e de


Terceira

urgência própnaatoda espécie de escolhaede engajamento".

57
No "Discurso de Roma", pronunciado em 1953 e
publicado em 19561, Lacan por duas vezes comenta a
análise do Homem dos Lobos feita por Freud em função
dos três tempos do tempo lógico. Pode-se perguntar se as
notas de 1952 que citamos são confiáveis ou se Lacan
mudou de opinião, pois em 1956 ele escreve o contrário do
que disse em 1952. A saber, que ao fixar um prazo para o
término da análise do Homem dos Lobos Freud "anulou o
tempo para compreender em favor do momento deconcluir"
e que "a fixação antecipada de um término deixará sempre
o sujeito na alienação da sua verdade"2~
A censura a Freud por não haver levado em conta o
tempo lógico não é algo de menor importância para a
prática da psicanálise, pois é a este não levar em conta que
Lacan atribui o fato de que o Homem dos Lobos jamais
pode integrar a rememoração da cena primitiva a sua
história, e atribui também o deslanchamento da fase
paranóide posterior, da qual se tem o relato feito por R.
Mack Brunswick?
Nesse momento, tudo se passa como se Lacan desse
aos três tempos uma consistência, independentemente do
balé dos três personagens, como se eles pudessem ser
transpostos fora desse contexto para um sujeito particular.
De fato, a amarração tão apertada entre temporalidade e
coleção vai se afrouxar neste período. Por um lado, temos
uma aplicação "individual" do tempo lógico e por outro,
prossegue o estudo da função da relação entre o indivíduo
e o social, ou "de sujeito a sujeito" (195O)4, mas sem que o
papel do tempo esteja muito presente.
Não se deve crer que com a noção de coleção fique
regrada a questão do "social" que inaugura os trabalhos de
Lacan. A noção de coleção não substitui a do social. Aliás,
nem tinha ela esta pretensão, já que era bem dito que a
coleção se referia a um número definido de indivíduos. A
coleção, enquanto forma social específica, cria um modo,
um campo de articulação, de determinação do sujeito em
suas variedades imaginária e simbólica, do "je" especular e
do "je" da palavra.
O termo "social" vai, assim, continuar funcionando, e
especialmente durante este período, para tratar o supereu

58
_,,_

de uma forma que _ nova demarcação com respeito a


Freud _ vai relativizar o "edipianismo".

O supereu e o social

Com a nova versão do estágio do espelho (1949),


havia uma simultaneidade entre a gênese social e a do eu
(moi), havia uma amarração temporal das duas pelo fato da
antecipação ligada a uma carência inicial ao nível do eu
(moi), uma "deiscência", uma "discordância primordial
entre 0 eu e o ser"5. A noção de uma carência inicial, na
relação do eu a seu ser, se reduplica, se repete num nível de
organização superior, um nível que se poderia chamar de
generalização com relação ao do eu: o da família e da
sociedade.
Entre o sujeito e a sociedade, há a família, o valor da
família. Os valores conferidos pela família dependem por
sua vez do lugar da família na sociedade, a realidade social.
Assinalemos que o grupo familiar não é redutível,
forçosamente ao par pai-mãe e aos filhos. Pode ser muito
mais amplo. Lacan lembraf' que, na história da família
romana, distinguem-se diversas etapas: a da gens (grupo
de famílias cujos chefes descendiam de uma ancestral
comum), a da família agnática (o agnata é um descendente
da mesma estirpe masculina, à diferença do cognato), e
enfim a do patria potestas.
Lacan estabelece que o papel da família sobre o
sujeito é função do lugar da família na sociedade, de acordo

social-
com uma relação inversa: quanto mais diminui seu poder
sendo a família reduzida à forma conjugal- mais
aumenta o poder captador deste grupo sobre o indivíduo
nas primeiras identificações e no aprendizado das primeiras
disciplinas.7 Os efeitos psicopatológicos exprimem uma
queda do grupo familiar no seio da sociedade. já me servi
dessas considerações para situar os problemas da psicanálise
de criançasgz 'manifesta-se um ponto de ruptura naquilo
que, do saber familiar, pelo fato de seu poder captador, não
é mais transmissível ao grupo social.

59
N'

Acontece que um analisando seja levado pela análise


a se dar conta de que seu pai foi posto no lugar do pai
original: como se tudo houvesse começado a partir dele,
como se a linhagem que o precedia se rebatesse sobre ele
e dele partisse uma linhagem nova. Isso pode ser muitas
vezes induzido por um pai que deixou de lado suas origens,
construiu por conta própria um êxito social, no interior do
qual evolui sua descendência, o que o põe em lugar de herói
familiar, com tudo o que isso implica de lendas. Quando
vacila este lugar de pai originário enquanto tal podem
aparecer os sintomas do sujeito, sintomas ligados a uma
fantasia que visa restaurá-lo.
Lacan refere essencialmente ao supereu os efeitos
psicopatológicos do declínio do grupo familiar no seio da
sociedade e existe, para ele, um paralelismo entre a formação
do eu e a do supereu. Assim como o eu se forma pela
alienação na imagem devida a uma insuficiência, a um
atraso, o supereu vai se constituir na fronteira do social e do
grupo familiar pelo fato do declínio deste grupo na sociedade.
Isso constitui um deslocamento da posição de Freud, que
tinha o supereu como herdeiro do complexo de Édipo.
Para Lacan, "o supereu é uma manifestação individual
ligada às condições sociais do edipianismo", das quais o
supereu revela a tensão. Esta concepção de supereu se liga
à do eu e essa ligação explica que, como reparou Melanie
Klein, o supereu possa se manifestar num estágio tão
precoce que parece contemporâneo, até mesmo anterior, à
aparição do eu° e que haja uma significação genérica. É
porque ele se inscreve na mesma "miséria fisiológica" que o
eu.
Por essa amarração, coincidem o mais individual e
o mais social, o mais íntimo e o mais exterior, o mais
subjetivo e o mais estranho, e isso no lugar de uma falta,
de uma insuficiência, de um atraso.

60
L ff

NOTAS
1O texto foi retomado nos Écrits: a versão de 1966 não é modificada em
relação à de 1956 no que se refere às passagens a que aludimos.

2 ]. Lacan, Êcrits, op. cit., p. 257 e 311.

3 S. Pankejeff, aliás o Homem dos Lobos, sobre sua


Os comentários de
análise com Freud, bem como o relato de sua análise por R. Mack
Brunswick foram reunidos num volume traduzido para o francês e
publicado por Gallimard: L'homme aux loups par ses psychanalystes
et par lui-même, 1981, textos reunidos e apresentados por M. Gardner.
Cf. também K. Obholzer, Entretiens avec I'homme aux Ioups, Gallimard,
1981.

4"Psychanalyse et criminologie". Intervenção de ]. Lacan na SPP,


Ornicar? n° 31, p. 23.

5 ]. Lacan, Écrits, op. cit., p. 187, "La causalité_ psychique".

61. Lacan, Les complexes familiaux, op. cit., p. 15.

7 J. Lacan, Écrits, op. cit. p. 133. “Fonction de la psychanalyse en


criminologíe", 1950. `

B "Le transfert ã la cantonade", Littoral, n° 18, p. 10.11.

° J. Lacan, Écrits, op. cit., p. 136.

61
'IF ea

CAPÍTULO Dois

A Intersubjetividade em Questão

-
O segundo período - 1953-1966, segundo nossa
divisão se inaugura com a conferência, jamais publicada,
de julho de 1953: O Simbólico, O Imaginário e 0 Reall, onde,
pela primeira vez, Lacan tenta uma formalização do
desenrolar de uma análise, do começo ao fim, em função
dos três registros.
Nessa conferência, Lacan enuncia que a constituição
temporal da ação humana é inseparável do simbólico:
"Quando se trata do simbólico _ isto é, aquilo em que o
sujeito se engaja numa relação propriamente humana,

sujeito se engaja no "eu quero... eu amo..." -


quando se trata de um registro do "je", aquilo em que o
há sempre
alguma coisa, literalmente falada, de problemático, isto é,
há aí um elemento temporal muito importante a se
considerar". Este período é ao mesmo tempo dominado
pela noção de intersubjetividade. É por ela que vai se
rearticular a relação de sujeito a sujeito.
Depois da personalidade, submetida às tensões
sociais, a indeterminação existencial do "je" em função da
coleção2, eis agora a intersubjetividade que propõe uma
nova abordagem desta problemática relação entre um
indivíduo e o grupo .

63
Q.

A intersubjetividade não significa uma relação dual,


de duas pessoas, nem de eu a eu (moi), mas o cruzamento *F

deste plano com o do simbólico, cruzamento tomado possível


pelo próprio fato de que, no interior da relação imaginária, |..

existe um terceiro termo (conseqüência de se ter reconhecido


i

a matriz simbólica no estágio do espelho). "Se a relação


ir
,i

l
intersubjetiva na análise é, com efeito, concebida como a de
z
uma dualidade de individuos, z
ela so pode se fundar na E

l
A
unidade de uma dependencia vital perpetuada II ; tal erro
V

não poderia ser retificado "sem que se recorra à mediação l

que constitui, entre os sujeitos, a fala; mas esta mediaçao é


concebível apenas se se supuser, na própria relação
z^¡

imaginária, a presença de um terceiro termo: a realidade ?~


š
mortal, o instinto de morte uq~. ‹

A intersubjetividade implica numa relação de quatro


termos, aqueles que vão ser formalizados no esquema L:
É

S a .

a':_í_._ A l

Eis porque Lacan ensina que nao existem apenas dois


sujeitos presentes na relação analítica, mas dois sujeitos
providos, cada um deles, de dois objetos que são o eu (moi)
e o outro, este outro recebendo o índice de um a* inicial.
Devido às singularidades de uma matemática dialética com
as quais Lacan deseja que nos familiarizemos, a reunião
deles no par de sujeitos S e A conta, ao todo, com quatro
termosf* Dois pares, compostos cada um por objetos (um eu
e um outro), reduzem-se a um único par; mas o "par" de dois
sujeitos, S e A, permanece par. O fato de que o mesmo termo
"par" seja utilizado por Lacan para as relações imaginária e
simbólica mostra que existe uma dificuldade para se formular
a relação de sujeito a sujeito, ou do sujeito ao outro, de outra
maneira que não com o vocabulário do eu (moi), aquilo de
que padece a noção de intersubjetividade.
Seja como for, durante esses anos Lacan vai balizar a
análise e o seu término segundo uma estrutura que comporta
sempre quatro termos, cujos nomes podem variar, parceiros

64
il z

dois a dois e que nos propomos a dispor como se faz no jogo


de bridge, metáfora que Lacan introduz em diversas
ocasiões.5

/ \ Philiaf*

\
sujeito a morte

Neikos/

É aí que a análise do Eu (moi) encontra seu termo


ideal, aquele onde o sujeito, tendo reencontrado as origens
de seu Eu (moi) numa regressão imaginária, alcança, pela
progressão rememorativa, o seu fim na análise: ou seja, a
subjetivação de sua morte"7.
Se esses esquemas, que resumem o que se entende
por intersubjetividade, demonstram que a subjetividade
de um sujeito é atravessada por alguma coisa que intervém
"do exterior" para o "interior", poderia se dizer, no entanto,
que eles permitem definir a ligação entre um sujeito e outro
sujeito, cuja subjetividade seria também atravessada pelo
exterior? Mesmo que o lugar para este outro sujeito exista,
esses esquemas poderiam realmente não ser compreendidos
como esquemas de uma intrasubjetividade, mais do que
uma intersubjetividade? Entretanto, é bem nos termos de
uma relação de sujeito a sujeito que partiu a
intersubjetividade. Mas os termos se modulam e sua
evolução é instrutiva para nossos propósitos.

~ -›
Evoluçao da noçao de intersubjetividade (até
1967) t

Sebem que exista uma evolução dessa noção em


Lacan, os quatro tempos que distinguimos não
correspondem sempre a épocas nitidamente determinadas.
Servem também de recorte para formulaçoes diferentes
que podem se situar num mesmo período.
65
Primeiro tempo
De saída, a intersubjetividade é uma relação de sujeito
a sujeito, particular na medida em que implica na mediação
da linguagem. "A análise deve visar a passagem de uma fala
verdadeira que reune um sujeito a um outro sujeito, do
outro lado do muro da linguagem”.

Segundo tempo
~
Se a análise é isso, diz Lacan, entao z
"e evidente que é
nessa relação última do sujeito a um Outro como Tal, a um l
verdadeiro Outro, a Outro que dá a resposta que não se
espera, que se define o ponto terminal da análise"°.
Assim, vai-se deslizar da relação de sujeito a sujeito
mediada pelo Outro à relação de sujeito ao Outro que será
tomado como sujeito ("o par de sujeitos"). Esse Outro ao
qual o sujeito se dirige se impõe como "testemunha_da
verdade"1°. O registro da verdade funda a intersubjetividade: fl
1

lá onde o sujeito nada pode apreender, senão a própria


subjetividade que constitui um Outro em absoluto, um
Outro "que invoca minha mentira como garantia da verdade
na qual ele subsiste"“, um Outro onde se atam o
reconhecimento do desejo e o desejo de reconhecimento,
um Outro enfim que é um lugar onde se constitui o eu (je)
que fala com aquele que o escuta, o que o primeiro diz sendo
já a resposta, e o outro decidindo ouví-lo, quer o primeiro
tenha ou não falado"12.

Terceiro tempo
A fala só começa com a passagem para a ordem do
signicante, e o significante exige um outro lugar: o lugar do
Outro. O Outro é o "tesouro dos significantes"13. Este outro;
diz Lacan, "nada mais é que o puro sujeito da moderna
estratégia dos jogos"; uma combinatória, cuja exaustão é

66
possível, aí se inscreve.
Durante algum tempo Lacan colocou suas esperanças
na lógica combinatória na medida em que esta daria a
forma mais radical à determinação simbólica. Em 195614,
Lacansitua a análise como ciência conjectural, isto é, uma
! ciência da ação e da decisão; a conjectura não é o improvável;
,as leis da intersubjetividade são matemáticas, afirma Lacan.
A origem da teoria dos jogos se encontra na obra de
john von Neuman e Oskar Morgenstein, Theory of games
and economic behaviour, saudada como evento científico
da maior importância, inaugurando um novo ramo das
matemáticas e cuja primeira edição data de 1944, ou seja,
um ano antes do "Tempo lógico.. .". No entanto, não encontrei
em parte alguma, nas obras sobre a teoria dos jogos, o
exemplo dos três prisioneiros. Von Neuman (citado por
É
Lacan, não em "O Tempo lógico", mas em seus seminários,
| n
u
D Un Autre al autre , por exemplo) partilha com Lacan o
i 1 ~

voto de que sua tarefa "transcenda os limites de um


programa individual"15, já que não se trata de definir o ser
do indivíduo, mas as condições formais das relações
humanas nas quais um sujeito é levado a formular um
julgamento, a decidir, a agir.
O que é o "puro sujeito da modema estratégia dos
jogos"? Se nos remetermos à passagem da Subversão do
sujeito e dialética do desejo” na qual aparece esta
expressão, vamos reparar que ela é seguida pela
denominação de um outro sujeito, "o sujeito real", que, para
regular o cálculo de sua conjectura, não precisa levar em
conta qualquer aberração subjetiva, mas apenas a inscrição
de uma combinatória cuja exaustão seja possivel. Esta
quadratura, diz Lacan, é no entanto impossível pois "o
sujeito" (sem outra determinação: será o sujeito real ou o
sujeito que resulta do confronto do puro sujeito da estratégia
dos jogos com o sujeito real?) só se constitui subtraindo-se
e se tomando incompleta a exaustão da combinatória do
Outro "para ao mesmo tempo dever ser contado aí e só fazer
função de falta". Neste texto pode-se assim destacar uma
pluralidade de sujeitos sob forma de três denominações de
sujeitos que são articuladas entre si: o puro sujeito da
estratégia dos jogos, inscrição de uma combinatória cuja

67 `
exa ustãoé possível, o sujeito real que aí regula sua conjectura
e o sujeito (tout court) que faz função de falta nessa exaustão.
Mas isso não é tudo. Logo depois intervém uma quarta
denominação de sujeito:"'o puro sujeito do significante", do
qual o Outro é o "lugar prévio". Isso coloca uma nova
questão: o Outro é apenas o puro sujeito da moderna iII

estratégia dos jogos ou será um lugar prévio para esse


próprio sujeito do significante? Será ele um lugar prévio
para o sujeito, ou será ele mesmo um sujeito?
O texto de Lacan não permite responder a essas
‹‹
questões e nao as coloca enquanto tais. Hoje propomos a
~ ,
interpretaçao seguinte: || puro sujeito da estrategia dos
\

jogos", "sujeito real", "sujeito", "puro sujeito do significante"


não devem ser confundidos em "o sujeito", único e absoluto.
É um fato de linguagem que sejam necessários diversos
sujeitos na dialética do desejo. Mas suas diferenças não
devem também ser substantificadas, não se deve, portanto,
considerar cada um deles como seres autônomos. A
articulação da pluralidade de sujeitos e de uma certa
unicidade em sua denominação, fonte de equivocação,
deve levar em conta o tempo na constituição daquilo a que
Lacan chama "o puro sujeito do significante . Esta levada
1 1
l

em conta de tempo não é, porém, explicitada neste texto, jr


daí a dificuldade de articular entre eles esses sujeitos e a
facilidade de não levar em conta as diferenças de
denominação.
A isso, pode-se acrescentar que "puro sujeito da
estratégia dos j ogos" talvez não seja uma boa denominação,
ou pelo menos se pode conjecturar que ela venha a ser
substituída por Lacan, mais tarde, pelo "sujeito suposto
saber". Não será esta a conclusão que se pode tirar do fato
de que o sujeito seja definido inicialmente por Lacan como
esse puro sujeito e, em seguida, no texto, o Outro se torne
um lugar prévio para o sujeito? A combinatória cuja exaustão
é possível constitui um saber: o puro sujeito da estratégia
dos jogos é o sujeito deste saber. Se Lacan fala em seguida
do Outro como lugar prévio, isso não anunciaria que ele
deve visar um "des-ser" do sujeito suposto ao saber?

68
Quarto tempo
Lacan volta à teoria dos jogos, notadamente em 1965
e 1969, porque, ao "interessar-se por em que consiste aquilo
a que se chama o jogo, na medida em que é uma prática
fundamentalmente definida pelo fato de comportar um
certo número de golpes que se passam no interior de certas
regras, nada isola de modo mais puro o que sucede com
nossas relações com o significante". '7 Voltando à teoria dos
jogos, Lacan enfatiza a regra do jogo que, enquanto
concatenação significante, tem um efeito de perda: a essência
do jogo, naquilo que comporta de logicável porque regrad o,
diz ele, se mantém na medida em que a jogada está de saída
perdida. Nesta análise, Lacan se fixa mais particularmente,
nessa época, no cálculo de probabilidades, cujas bases
foram lançadas por Pascal e Fermat, em sua correspondência
sobre as regras das partidas, isto é, o cálculo dos ganhos e
das chances de dois jogadores que, parando antes do fim da
partida, querem repartir equitativamente seus ganhos, ou
calcular suas chances caso tivessem continuado”.
A multiplicidade de sujeitos que tínhamos destacado
em "A Subversão do sujeito..." se reencontra nas relações
sutis que Lacan tece entre "sujeito", "jogador", "pessoa".
Essas relações sutis aparecem plenamente em "Problemas
Cruciais para a Psicanálise"1°, no sentido em que, na teoria
dos jogos de Von Neuman, o que se chama de jogadores são
simples agentes, mas, pelo fato de que esses agentes possam
entrar' em acordo quanto ã partilha dos ganhos ou as
chances de ganhar, eles constituem uma só pessoa, definida,
portanto, pelo fato de um interesse comum. Na identificação
do jogo com a psicanálise, a que procede Lacan, ele chama
a esse interesse comum a cura. Em contrapartida, diz
ele
ainda, o j ogad or como pessoa "é sempre algo que comporta
essa conjunção, como tal, de dois sujeitos". Esses dois
sujeitos são, de fato, o sujeito dividido, isto é, "na medida
em que ele mesmo intervém como trama a título de objeto
a"2°; a é o ser do jogador no intervalo de um sujeito dividido
entre falta de saber e saber inconsciente. Por outro lado, o
que faz a conjunção entre a falta de saber do sujeito e o saber
inconsciente (que sabe tudo, talvez, exceto o que o motiva)

69
é aquilo que Lacan vai passar a chamar pelo nome de
Sujeito-suposto-Saber. Enfim, Lacan fala de um terceiro
jogador na análise: a realidade da diferença sexual, à qual o
homem foge na fantasia, a respeito da qual a astúcia do
Y

condutor do jogo, se o analista quer merecer seu nome,


é destacar uma forma sua, sempre mais pura.
Nessas relações entre sujeitos e j ogadores há, pois, um
cruzamento entre a multiplicidade e a unidade. Lá onde há
dois jogadores agentes, só existe, de fato, uma pessoa,
definida pelo interesse "como um". Lá onde se tem um dos
jogadores no jogo, existe multiplicidade de sujeitos, e isso
em dois eixos: ao mesmo tempo, porque o sujeito é dividido
de "si mesmo", como a caído do Outro, e porque o que faz
a conjunção entre a falta de saber do sujeito e o saber
inconsciente realiza um outro jogador, o Sujeito-suposto-
Saber; este será parceiro no jogo, e, portanto, junto com o
primeiro, só fará uma pessoa... e por aí vai. I-lá nessas
relações algo de ao mesmo tempo circular e paradoxal, algo,
pelomenos, que não se deixa delimitar por uma classificação
i
fundada na oposição dentro-fora.
Através dessa discussão, surge que a noção de
intersubjetividade, em torno do ano de 1965, sofreu
remanejamentos pela introdução decisiva, num lapso de
tempo bastante curto (1958-1961), de três tempos lógicos: o
objeto a, a definição canônica do sujeito representado por
um significante para um outro significante, e o Sujeito-
suposto-Saber.
O Outro também é um lugar faltoso. Não há Outro do
Outro, o que Lacan escreve: S(A), significante de uma falta
no Outro. Dirigindo-se ao Outro absoluto, o sujeito chegará
a perguntar-se "O que quer o Outro?", e como o Outro é
barrado, a fantasia vai constituir uma resposta "ligando à
condição de um objeto (objeto a) o momento de um fading
ou eclipse do sujeito, estreitamente relacionado à Spaltung,
ou refenda a que ele se submete por sua subordinação ao
significante"21. "O sujeito que crê poder aceder a si mesmo,
designando-se no enunciado, nada mais é que um tal
objeto"22.
Partida de uma outra forma de tratar a ligação de
sujeito a sujeito, a intersubjetividade pôs-se a tratar do liame

70
entre o sujeito e o Outro e depois do Outro ao sujeito, para
atingir uma ligação de onde o sujeito é rejeitado” e só se
reencontra na fantasia.
Do laço de sujeito a sujeito, passamos ao "que é um
sujeito que crê poder aceder a si mesmo". Na evolução que
retraçamos, o sujeito é cada vez mais definido em intensão,
mas não em extensão. Pode-se, pois, dar uma outra volta:
que laço há entre um sujeito que crê poder aceder a si
mesmo (e só consegue pela fantasia) e um outro sujeito, ou
sujeitos, que acreditam poder aceder a eles mesmos, entre
jogadores e o sujeito, entre o sujeito dividido e o Sujeito-
suposto-Saber? Na sua "Proposição de 9 de outubro de
, 1967", Lacan diz que a transferência faz objeção à
intersubjetividade compreendida como suposição de um
sujeito por outro sujeito. De fato, a evolução da noção de
intersubjetividade em Lacan vai contra tal suposição.
i
Entretanto, nessa evolução, encontramo-nos sempre
as voltas com uma multiplicidade de sujeitos. A articulação
×

deles ainda permanece opaca, mas ao menos temos os


termos com os quais se vai representar o drama.

NOTAS
* - a como inicial de autre, outro em francês (NT).

' Publicado em Fragment, boletim interno da ELP, n° 3, fevereiro de


1987.

1 "O tempo lógico", Cahiers d'art, p. 42.

3 ]. Lacan, Écrits, op. cit., p. 348, "Variantes da cura-tipo", 1955.

4 ]. Lacan, Écrits, op. cit., p. 429-30, "A coisa freudiana", 1956.

5 Em "A transferência", por exemplo, Stécriture, p. 165.

6 I. Lacan, Écrits, op. cit., p. 318: "Função e campo da fala e da linguagem":


"Tal é o morto com o qual a subjetividade faz seu parceiro na tríade
instituída por sua mediação no conflito universal de Philia, o amor, e
Neikos, a discórdia." A disposição dos "parceiros" em parceria de bridge

71
é nossa. Philia e Neikos, termos tomados de empréstimo a Empédocles,
são citados por Freud em "Análise terminável e interminável".

7 J. Lacan, Écrits, op. cit., p. 348, "Variantes da cura-tipo".

š
Lacan, Le Moi, Seuil, p. 287, sessão de 25 de maio de 1955. Ed. bras.:
81.
O Seminário Livro 2, Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 1985.
1

1
° lbid.

1° J. Lacan, Écrits, op. cit., p. 807: "Subversão do sujeito e dialética do


1
desejo", 1960. O texto original nunca foi publicado.

H lbia., P. 524.

¡ 12 Ibid., p. 431.

1
B lbid., p. 806.
1

“ Ibid., p. 472.
'5 Princeton University Press, Princeton, USA, 1980, p. 5, 32, 43.
1

16 J. Lacan, Écrits, op. cit., p. 806-807.

'7 J. Lacan, "De um Outro ao outro", seminário inédito, 15 de janeiro de


1969.

'8 "La correspondance de Blaise Pascal et de Pierre de Fermat", Cahier


de Fontenay, n° 32, setembro de 1983.

1° J. Lacan, "Problemas cruciais", seminário inédito, 19 de maio de 1965.

2°"Se há algo que sustenta toda a atividade do jogo é que algo se produz
no encontro do sujeito dividido, enquanto sujeito, com essa coisa pela
qual o jogador sabe ser ele o dejeto de algo que se passou alhures,
alhures a todo risco, alhures, de onde ele caiu, do desejo de seus pais".

2* ]. Lacan, Êcrits, op.cit., p. 816.

22 Ibid., p. 818.

23 J. Lacan, "Merleau-Ponty", Les Temps Modemes, Paris, 1961.


..
~.

gi.

vs
72
cAPíTULo TRÊS

Tempo Lógico e Intersubjetividade

Poderíamos esperar que o tempo lógico servisse de


modelo para a formalização da intersubjetividade
empreendida por Lacan. Por um lado, o tempo lógico é um
exemplo de intersubjetividade; por outro lado, é uma
forma de jogo de estratégia. Ora, pelo menos naquela
época, não foi este o caso.
Entretanto, Lacan se refere ao tempo lógico para o
"módulo intersubjetivo" da "Carta Roubada", que ele tentou
ao máximo formalizar: com o esquema L, a cadeia oi, B. y, e,
enfim, com "Parênteses dos parênteses"*. Eis em que termos:
a intersubjetividade em que as duas ações (o roubo da
carta pelo ministro, e depois o roubo da carta ao ministro
por Dupin) se motivam que queremos destacar, e os três
termos pelos quais ela as estrutura. O privilégio destes é
julgado na medida em que respondem ao mesmo tempo
aos três tempos lógicos pelos quais a decisão se precipita e
aos três lugares que ela determina aos sujeitos que separa2."
Lacan precisa, em seu texto, quais são os três olhares
sustentados por três sujeitos, a cada vez encamados por
pessoas diferentes. Voltaremos a isso. Por ora, vamos nos
concentrar na relação entre o lógico e a formalização da
intersubjetividade.
73
Lacan nos sugere que o tempo lógico participa do ;
mesmo movimento que o conduz ao puro sujeito da
estratégia dos jogos, por exemplo, quando ele qualifica o
tempo lógico de "teorema puramente lógico"3, e
principalmente quando ele escreve, em "Função e campo. ": ..

"Mas a matemática pode simbolizar um outro tempo,


notadamente o tempo intersubjetivo que estrutura a ação
humana, da qual a teoria dos jogos, dita ainda estratégia, e 1

que seria melhor chamar de estocástica, começa a nos ‹


entregar as fórmulas. O autor destas linhas tentou
demonstrar na lógica de um sofisma as marcas de tempo
por onde a ação humana, na medida em que se ordena pela
ação do outro, encontra na escansão de suas hesitações a
emergência de sua certeza, e nadecisão que a conclui dá à
ação do outro, que ela vai incluir daqui por diante, com a
sua sanção quanto ao passado, seu sentido por vir.
Demonstra-se aí que é a certeza antecipada pelo sujeito do
tempo para comprender que, pela pressa que precipita o
momento de concluir, determina no outro a decisão que faz 0
do proprio movimento do sujeito erro ou verdade. Ve-se, l

fz9
por este exemplo, como a formalizaçao matematica que ii. ,
inspirou a lógica de Boole, até mesmo a teoria dos conjuntos, jr

pode trazer para a ciência da ação humana essa estrutura ‹


h

do tempo intersubjetivo, da qual a conjectura psicanalítica


necessita para se assegurar em seu rigor.4"
Existem nessa passagem bonitas formulações sobre o
z A z z
tempo logico, que tem alem disso o merito de enfatizar o É

"outro", Lacan chega a uma inversão, designando no outro


o lugar onde se produz a decisão. Em contrapartida, quando Í
ele diz "vê-se, por esse exemplo. .", não se vê muito
.

claramente o que quer dizer, tanto mais que não ha nada em


Lacan, nessa época, que se assemelhe a uma formalização
matemática do tempo lógico. i

Incidentalmente, podem-se fazer duas observações.


Em 1956, na versão de "Função e campo..." publicada em La
psychanalyse (vol. I, intitulado "Do uso da fala e das estruturas
z
de linguagem na conduta e no campo da psicanalise II
),
i

havia a palavra "axiomatização" em lugar de "formalização",


e em lugar de "estrutura" lia'-se "formalização". Essas são as
duas alterações, em 1966, dessa passagem. Por outro lado,

74
a referência à lógica de Boole e à teoria dos conjuntos
corresponde à data de publicação do texto (1956), mas não
V à do "Discurso de Roma" (1953).
Certamente, podemos nos perguntar se a lógica de
Boole pode permitir formalizar o tempo lógico, e afinal
Lacan talvez o tenha feito; mas disso não temos qualquer
testemunho. Também não se vê como as formalizações
` da "Carta roubada" formalizariam o tempo lógico. Lacan
diz bem que, nessa formalização, os tempos são contados:
r

mas em quê eles são os do tempo lógico?

-
Chegamos, portanto, ao paradoxo:
Uma intersubjetividade que se formaliza com
tempos, na "Carta roubada", mas cuja formalização não se
adapta exatamente ao tempo lógico.
-e
um tempo lógico, modelo de tempo intersubjetivo,
em busca de uma formalização.
w
.z-
Pode-se conjeturar que as formalizações da
intersubjetividade' não puderam ser aplicadas, ao tempo
lg , ,
logico, precisamente porque, neste ultimo, esta o osso da
9:7___›)','pluralidade dos sujeitos"5, e este osso não foi roído pela
evolução da noção de mtersubjetividade no sentido
' "intencional" da linguagem formal que determina o sujeito?
Trata-se aí da tensão entre dois polos da intersubjetividade:
uma relação entre sujeitos e uma relação do sujeito a "si
H
I

mesmo .A
Reencontra-se a tensão desses dois polos no que
Lacan escreve, em 1956, sobre o final da análise: a subjetivação
da morte revela um centro exterior à linguagem, o que é
manifesto na estrutura de um toro: "Esse esquema satisfaz
a circularidade sem fim do processo dialético que se produz
r quando o sujeito realiza sua solidão, seja na ambigüidade
vital do desejo imediato, seja na plena assunção de seu ser-
para-a-morte". Imediatamente depois, ele encadeia: "Mas
pode-se aí apreender, ao mesmo tempo (o grifo é nosso) que
a dialética não é individual e que a questão do término da
análise é a do momento em que a satisfação do sujeito chega
a se realizar na satisfação de cada um, isto é, de todos
aqueles a que ela se associa numa obra humana”. Mais uma
vez, não se vê como "ao mesmo tempo" pode-se aprendê-lo
aí. Existe, entre a solidão do sujeito e a "associação" de todos

'
75

K
¬

os sujeitos, um elo faltoso.


O tempo lógico tenta produzir essa articulação, não
sem que se manifeste no próprio texto a tensão entre os dois
polos que mencionamos e que imprime sua marca nas
retomadas por Lacan do tempo lógico, a partir de 1953 até
a reescritura de 1966. Vamos examinar previamente as
retomadas do tempo lógico em outros lugares além de
"Função e campo". Elas se ordenam em tomo de dois textos:
um em 1955, no Seminário O Eu e outro em 1965, no
Seminário "Os problemas cruciais". Há também uma
passagem muito importante em u A ldentificaçao ~ u
, de 1962,
l

mas esta só vai assumir realmente seu sentido com a


cifragem de 1973 em Mais, Ainda, e dela falaremos no
momento oportuno.
"it
li

;l
il

U
,

¬
4

NOTAS
tz

I "Parênteses dos parênteses" foi acrescentado em 1966. No resto, além

das modificações do texto, Lacan modificou a ordem das partes dos l


lx ›.

dois textos publicados em 1956 em La psychanalyse.

2 ]. Lacan, Êcrits, op. cit., p. 14.

3 Ibid., p. 257. Ç

4 Ibid., p. 287. cj

5 Ibid., P. 15.

6 Ibid., p. 42.

7 Ibid., p. 320-1.

76
CAPÍTULO oUATRo

Retomada do tempo Lógico em O Eu

Essa retomada, que se deu na sessão de 15 de junho


de 1955 do seminário, se inscreve na linha da ênfase no
registro simbólico do tempo lógico. Foi nessa sessão que
f. Lacan disse que fez o tempo lógico expressamente para
distinguir o imaginário do simbólico.
Durante essa sessão, que antecede a conferência de
í Lacan na presença de ]. Delay, "Psicanálise e cibernética, ou
sobre a natureza da linguagem", trata-se principalmente da
distinção entre a fala e a linguagem.
Para o tempo lógico, a linguagem é o primeiro dado:
dois discos pretos, três discos brancos. Ê da ordem dos 0 e
1 com os quais se transmite a mensagem nas máquinas de
calcular. Poderíamos assim identifica-los aos + e -, par e
ímpar, da formalização da "Carta Roubada". O instante de
ver dois pretos e um branco corresponde ao "dado de lógica
eterna": basta ver.
A fala "se introduz" a partir do momento em que o
sujeito executa essa ação pela qual afirma "eu sou branco".
Este momento da afirmação é, diz Lacan, o momento

do tempo -
simbólico da linguagem e representa a terceira dimensão
estranha às máquinas
própria do ser humano ao tempo, à
-, a pressa, "ligação
carruagem do tempo

77
que ali está em seus calcanhares". É ali que se situa a fala.
O momento simbólico da linguagem se opõe à
linguagem aplicada ao imaginário, que corresponde ao
tempo em que cada sujeito, vendo dois discos brancos, `

deve se dizer que um dos dois outros deve ver, ou bem


dois brancos, ou bem um branco e um preto. Trata-se de
que cada um dos sujeitos pense o que devem pensar os
dois outros, de uma maneira recíproca, já que, para cada
um dos sujeitos, os dois outros vêem cada um a mesma
coisa. ldentificamos este tempo de sujeitos recíprocos ao
tempo para compreender.
a Propomos um quadro de correspondências que
podem ser estabelecidas a partir desse seminário:

Discos Tempos formas do de De/Signações Fala / .


Lacan em _ rsi
linguagem
_ _ _ _

(espaço) siil›_j‹-:tivos sujeito O Eu

.. O instante
de ver
.
- sc impessoal
, .
logica etcma › rS

. O O P d
compreen er
sujeitos
reetidos ou
.
reciprocos
linguagem
aplicada ao
_ . , .
imagmario

momento de
concluir suj eito da momamo
_ sim ból`ieo d a fala sS
Ô O O
`
asserçao Un
pressa E É _

Não existe correspondência estrita dos três tempos ~

com RSI, mas cada um corresponde a uma relação de duas


dimensões que notamos, como Lacan o faz em sua
conferência de julho de 1953, onde:

- rS, realizar o símbolo, corresponde à posição de


partida do analista, "personagem simbólico
i
- como tal";
sl, simbolizar o imaginário, corresponde ao
_

*nl
,Ar
começo da elucidação do sintoma pela

- interpretação;
sS, simbolização do símbolo. O analista deve
fazer isso. Em particular, simbolizar o supereu
que é o "símbolo dos símbolos".

Pode-se perguntar, dadas as correspondências, onde


está o Real. A proeminência do Simbólico, na função do
tempo lógico, corresponde realmente à maneira pela qual
Lacan enfatiza, nesse período, essa dimensão, tanto mais
que ele arma estar ela ligada, precisamente, à função do
tempo.
É assim que reencontramos, embora de maneira
menos articulada, em "O desejo e sua interpretação"1:V"...
essa cadeia significante, na medida em que é ilustrada na
história que publiquei noutra parte, a fábula dos discos
brancos e dos discos pretos, no que ilustra algo de estrutural
nas relações de sujeito a sujeito, na medida em que
encontramos aí três termos".
Essas retomadas do tempo lógico que se inscrevem
na ação temporal do significante, sua retroação, seu efeito
nachträglich, fazem apelo a esquemas conhecidos, tal como
o grafo. A retomada do tempo lógico em 1965 com a garrafa
de Klein parece enigmática e necessita de uma prática da
, topologia que Lacan introduziu de maneira sistemática em
seu ensinamento a partir de 1961 (seminário "A
ldentificação"). L

il
1|›,z_

NOTAS
:is
if
lj. Lacan, seminário de 27 de maio de 1959.

FÉ,

79
i


CAPÍTULO c1Nco

1,

Tempo Lógico e a Garrafa de Klein

iu

A releitura por Lacan do tempo lógico com o suporte


da garrafa de Klein* é muito desconcertante à primeira
ii abordagem. No entanto, dessa vez, em lugar de sugerir
uma referência (como anteriormente à lógica de Boole),
lí Lacan esboça ele próprio, diretamente, a formalização do
tempo lógico. O fato de que ele o faça com um objeto
topologico e, decerto, uma indicaçao preciosa para o tipo de
formalização que convém ao tempo lógico.
A natureza topológica da garrafa de Klein impede
sua apreensão imediata. Ela precisa refazer um percurso
-,
-
para que as
desenhos, colagens, traçados, cortes
particularidades de sua superfície sejam compreendidas.
Pode-se comparar esta ordem de dificuldades àquela da
compreensão de um sofisma (cf. a primeira parte deste
livro, capitulo tres) e, sob esse ponto de vista, existe uma
z A

¬i certa pertinência em já se aproximar a compreensão do


É sofisma à da garrafa de Klein, sobretudo se considerarmos
que, para Lacan, a topologia não é uma metáfora, mas
identifica-se à estrutura do sujeito2.
Essa superfície não representa os três tempos do

Í‹.
tempo lógico. Ela apresenta aquilo que Lacan chama de
1;.
uma forma do sujeito em sua relação ao Outro. Ela constitui
81
um suporte do sujeito, na medida em que ele é representado
por um significante para um outro significante, ena medida
em que os significantes podem ser postos numa rede de
duas dimensões que é, pois, redutível a uma superfície. "O
sujeito", diz Lacan nessa sessão de 13 de janeiro de 1965,
"tem uma forma tal como esta, ou duas, no máximo três
outras formas, pois o sistema de nó, de laço consigo mesmo,
de costura a si mesmo da superfície é extremamente
limitado." Essa superfície nodula "aos fundamentos do
sujeito o lugar que lhe é próp rio", isto é, o Outro, o lugar do
Outro, o lugar da linguagem. Os três tempos são as
coordenadas do Outro: "esse campo do Outro se inscreve no
que chamarei de coordenadas cartesianas, uma espécie de
espaço, este de três dimensões, com a ressalva de que este
não é absolutamente o espaço, é o tempo".
Antes de tentar compreender como as três dimensões
temporais nodulam em garrafa de Klein a relação do sujeito
ao Outro, devemos nos deter sobre o próprio
empreendimento que consiste em nodular o tempo com o
espaço. Esse empreendimento não é próprio de Lacan, mas
ele o faz de uma maneira original.
A noção mais comum do tempo é a de um tempo
espacializado, linear ou cíclico, contínuo, que tem apenas
uma dimensão, a da duração. Este ponto de vista sobre o
tempo, que nada tem de natural, toda a gramática contraria3,
permite a sua medida. O desenvolvimento da física
.

contribuiu em grande parte para reforçar essa idéia comum.


Até na Teoria da Relatividade, as três unidades cartesianas
do espaço, mais uma do tempo (afetada por um coeficiente
imaginário \/Í) definem um espaço de quatro dimensões
(não euclidiano) que permite converter a medida do tempo 'LL
na do espaço: obtém-se uma medida comum espaço-tempo
que, sem reduzir um ao outro, põe numa estrita dependência
uma dimensão única do tempo com três de espaço, com
vistas a uma medida.
A força do preconceito de um tempo unidimensional,
como se sabe, atingiu Freud, quando ele enunciou que "os
processos do sistema lcs. são atemporais, isto é, não são
ordenados no tempo, não têm absolutamente qualquer
relação com o_ t_empo"4. Sua teoria do só-depois vem,

sz
felizmente, desmentir esse enunciado.
Quando Lacan denuncia, em "O tempo lógico...", o
erro daqueles que querem dar ao tempo lógico uma
s
concepção espacializada, trata-se justamente de uma
concepção espacializada de um tempo unidimensional que
nada traz que "já não possa ser visto de uma só vez". Ao "ser
visto de uma só vez" opõe-se de alguma maneira o instante
de ver, que o antecede, aquilo que os sujeitos não vêem (...
‹ dois pretos). Essa oposição se liga à da visão e do olhar (cf.
mais adiante, p.163). Isso não significa que Lacan recuse
-a garrafa de Klein é a prova
disso-
toda espacialização do tempo
mas ele recusa toda espacialização de um tempo
que tenha apenas uma dimensão, de um tempo dependente
da espacialização, apenas, da visão.
Não somente Lacan não recusa a espacialização do
tempo, mas pode-se dizer que ela lhe é imposta.
Contrariamente a Descartes, Lacan não separa o pensamento
da extensão. Ele não os separa na gênese do eu (moi), já que
z_ esta está alienada à extensão de uma imagem devolvida A
, ,.,

pela superficie de um espelho. Ele nao os separa na genese


'fs.;.- .
-`¿

' do sujeito representado por um significante para um outro


.~' significante, já que os significantes formam uma superfície.

de ideal de toda dedução do pensamento


_ mostra nodulação entre a
-
Lacan lembra também que a geometria, que sempre serviu

dimensão
more
e a
geometrico a

› _ o pé, a polegada, a braça...


pensamento, em vez de revelar
-
combinatória, introduzindo uma medida segundo o corpo
que estrutura, "constrói" o
não se sabe que pensamento
da medida. A nodulação entre a extensão e a combinatória
e ainda mais estreita na geometria projetiva5. E por isso que
,. em 1974, em "La Troisième" (A Terceira), e em 1975, em RSI,
Lacan chega a dizer: "O pensamento só se estende em duas
~ dimensões"°.
É Mas a espacialização do pensamento implica numa
` espacialização do tempo? Sim, desde o tempo lógico, uma
vez que o estágio do espelho, por exemplo, implica uma
dimensão temporal. O que Lacan confirma em seu Seminário
A Transferência: "Quando a imagem especular começa a se
animar, quando ela se toma o outro encamado, há uma
relação temporal: "tenho pressa de me ver semelhante a ele,

83
à falta do quê, onde estarei?"7". A dimensão temporal tam-
bém está implicada na ação nachträglich (só-depois) do
significante. De modo que, se o que determina o pensamento
é temporalizado, e se o pensamento é espacializado, é
realmente necessário nodular tempo e espaço.
Ora, o tempo lógico introduz essa nodulação de outra
maneira que não do ponto de vista da formalização de uma
lógica do tempo tal como se a pode encontrar nos lógicos
que já a tentaramf* O que está realmente em jogo é uma
questão de lógica e de tempo, mas não uma lógica do tempo.
Não se trata tanto de situar os acontecimentos lógicos em
função do tempo (o que é o objetivo de uma lógica do
tempo), mas de tomar o tempo como acontecimento lógico,
que por si mesmo engendra uma certeza. O valor de verdade
da conclusão do tempo lógico depende de tempos, de
instâncias temporais objetivadas. O tempo lógico chega a
uma conclusão cuja certeza é antecipada por um ato que se
funda em "instâncias temporais inteiramente objetivadas"°.
A colocação em forma significante do real é representada
pelas duas escansões na medida em queelas são os momentos
significantes em que se objetiva a nodulação das instâncias
temporais, onde se verifica a trans form ação das combinações
em tempos de possibilidade, escansões que vão funcionar
só-depois como prova”.
A certeza não vem ao termo de um julgamento
dedutivo, nem de uma theoria (contemplação) que guiasse
um ato razoável, racional. A certeza está ligada a uma lógica
da ação; mais ainda, ela é antecipada por essa ação, o ato de
concluir. O ato é necessário para que a dedução chegue a
termo. Em suma, o tempo lógico não é tanto uma lógica do
tempo, senão uma lógica do ato. Uma lógica do ato
determinada, não pelo tempo, mas pelos tempos.
Isso não deixa de evocar o esquema dos estóicos (sob Zé

a condição, certamente, de colocar um certo número de ea

teses, aquelas ligadas à exigência moral, entre parênteses): Q

"O esquema fundamental do tempo estóico não é o antes-,


depois, mas o imediatamente. A apreensão desse esquema,
entretanto, não é oferecida a um olhar contemplativo, mas Í

proposta a um esforço moral; o tempo deriva do ato, ele não


é a imagem da eternidade“".

84
Não se trata, pois, em Lacan, nem da espacialização
do ser visto de uma só vez, nem mesmo da espacialização
como tal do tempo, mas da espacialização da relação
temporal do sujeito ao Outro”.
Superfície furada, sem bordos, de uma só face, o
interior em comunicação com o exterior, a garrafa de Klein
é irrepresentável em nosso espaço de três dimensões,
pois
ela comporta uma auto-travessia. Ela não pode ser vista de
uma só vez, deve ser percorrida, apreendida, cortada, para
que sua estrutura (ligação de duas bandas de Moebius) se
revele, no momento em que desaparece. A duplicação
dessa superfície é um toro.
___`
,zm _

r
. ñ /\U:i \

Visao do corte-
Fig.

°
1

Representaçãoesquemática de uma garrafa


›i de Klein a partir de um toro seccionado.
›«

Aqui está, de acordo com Stephen Barr13, um meio


simples de se fabricar uma de papel:
B.
C.

C C'

B A'
A B'

Fig.2

s
-É Isso mostra a impossibilidade de auto-travessia em
nosso espaço de tres dimensões. A fenda que persiste
A
'›

equivale a uma primeira volta de corte da superfície; se a


prolongarmos numa segunda volta, obtêm-se duas bandas
de Moebius que são imagens especulares uma da outra.

85
O instante de Ver

O instante de ver, diz Lacan, "talvez seja apenas um


instante; no entanto, ele não é de modo algum inteiramente
identificável àquilo a que chamei há pouco o fundamento
estrutural da superfície do quadro. Ele é algo diferente, no
que ele tem de inaugural; insere-se nessa dimensão que a
linguagem instaura como sincronia, que não se deve em
absoluto confundir com a sirnultaneidade".
O instante de ver subjetiva o fato de não ver dois
pretos e sair. Qualquer superfície poderia servir de suporte
para a subjetivação desse tempo, se ele fosse o único em
causa. A garrafa de Klein se justifica, na medida em que este
tempo opera sincronicamente com os outros.
Nesse sentido, a observação segundo a qual sincronia
não pode ser confundida com simultaneidade merece um
comentário. A simultaneidade, cuja etimologia é similis
(semelhante), evoca mais a coincidência espacial,
f
geometrica, que a sincronia (cuja raiz grega significa com
II j

~ ~ A
o tempo"), cujas conotaçoes sao mais dinamicas e temporais. i

Em nossa opinião, a simultaneidade remete à espacialização


kantiana do tempo, que Lacan convoca a rever”,
espacialização que, justamente, amputa o tempo de uma
parte importante de suas determinações. Vamos nos
explicar:

A estética kantiana revisitada


Segundo Kant, o espaço e o tempo são as duas formas
puras da intuição sensível, os princípios de conhecimento
a priori sobre os quais a matemática, em particular, funda
seus julgamentos. Teoricamente, espaço e tempo têm, cada
um, um domínio: o espaço é a condição subjetiva da
sensibilidade, sob a qual, apenas, nos é possível uma
,
intuição extema; o tempo e a forma do sentido intemo, isto t

.sv

é, a intuição de nós mesmos e de nosso estado interior.


Entretanto, Kant recoloca em questão, de certa forma,
essa separação exterior-interior, atribuindo ao tempo certos

86
privilégios sobre o espaço. Já que "o tempo é a condição
imediata dos fenômenos intemos, e por isso mesmo a
condição mediata dos fenômenos exteriores, então o tempo
é a condição formal a priori de todos os fenômenos em
â
geral"15.
Por outro lado, o tempo intervém nos princípios
sintéticos do entendimento puro, nos princípios a priori
v
if que tornam possível, por meio de uma representação, uma
Í ligação necessária das percepções, a saber, no princípio de
permanência, no princípio de produção (a lei da ligação da
S,

causa ao efeito), e no princípio de comunidade (a ação da


reciprocidade).
Mas esses privilégios, o tempo pagará por eles com a
perda de uma de suas determinações. Pois se Kant atribui
duas determinações ao tempo, a simultaneidade e a
sucessão, a idéia de um a priori implica uma transcendência
do tempo com relação a suas duas determinações ("A
âr_;
Q
i
Ê. simultaneidade ou sucessão não cairia, ela mesma, sob a
percepção, se a representação do tempo não lhe servisse a
q.

priori de fundamento".“') e implica que é preciso afirmar a


unicidade da dimensão temporal. Nesse nível, o que
qualifica a unicidade dessa dimensão é a sucessão, não a
simultaneidade. No que Kant se revela bem newtoniano, já
que, para Newton, "O tempo absoluto verdadeiro e
matemático em si mesmo e por sua própria natureza corre
-1
uniformemente sem relação com nada de exterior, epor um
' outro nome, e chamado de Duração".”
z

Mas, o que acontece com a sirnultaneidade?


É o espaço que absorve a simultaneidade. Essa
determinação (no entanto, reconhecida como a mais
L

Tr

temp oral possível no momento da escolha dos fundamentos,


dos princípios) cai na cilada e descobre só poder existir no
e pelo espaço: "Espaços diferentes não são sucessivos,
mas
simultâneos"18. Ê, de certa maneira, uma troca de gentilezas
entre o tempo e o espaço: o tempo deve a objetivação de sua
pureza, sua unicidade, sob a forma de sucessão, a uma
intuição espacial (a linha reta infinita ou o círculo, o relógio,
seu equivalente desde Desargues”, que permite a medida
do tempo); 0 espaço deve sua objetividade a uma noção
eminentemente temporal, a simultaneidade.

87
No momento em que Kant censura Leibniz por
negligenciar a sirnultaneidade, ele fala de uma segunda
dimensão do tempo nesses termos: "Embora o tempo tenha
apenas uma dimensão, a ubiqüidade do tempo, em virtude
da qual tudo aquilo que é pensável segundo os sentidos o
é num tempo, acrescenta à quantidade dos acontecimentos
uma segunda dimensão, na medida em que eles estão
ligados, de alguma maneira, ao mesmo ponto do tempo.
Pois, se representarmos o tempo por uma reta infinita e as
simultaneidades num momento qualquer por linhas que
lhe sejam aplicadas em ordem, a superfície assim
engendrada representará o mundo fenomênico, tanto em
termos de substância quanto de acidentes"2°.
Para que a simultaneidade reintegre o tempo, deve-
se situá-la nesse sistema sob a determinação da ubiqüidade,
da totalidade, do infinito. Como o exprime muito bem São
Boaventura, a simultaneidade não volta a se tomar tempo
integral senão enquanto eternidade: "Se se diz que a
A .
eternidade significa uma existencia sem termo, deve-se
responder que não se esgota dessa maneira o sentido da
palavra eternidade; pois esta não quer dizer apenas
interminabilidade, mas também simultaneidade; e como,
pelo modo da interminabilidade, deve-se entender uma
circunferência inteligível, sem começo e sem fim, assim
pelo modo da simultaneidade deve-se entender a
simplicidade e a individualidade que são os modos do
centro; e essas duas coisas são afirmadas ao mesmo tempo
pelo ser divino, porque ele é ao mesmo tempo simples e
infinito; e é assim que se deve compreender a circularidade
na eternidade"21.
A etemidade é o tempo divino por excelência, o
tempo da plenitude do ser, de uma totalidade a que nada
falta. Ê um tempo estacionário, permanente, estável, como i›
i

uma imagem, sem começo nem fim, sem sucessão, sem lí


W1

destruição, não mensurável. E uma pura duração onde


nada acontece, pois desde sempre tudo ja estaz ali. H Ela ef
z Ê

presença simultânea e imediata do todo ao todo"22. Lacan


qualificou esse tempo fora do tempo de "escroqueria"23.
A redução do tempo à dimensão única da duração
segue o movimento que converge para uma transcendência

V ss
if

do tempo como forma pura a priori. Nesse movimento, a


sirnultaneidade, no entanto reconhecida como dimensão
temporal essencial, é descartada: ela é, ou objetivada no
espaço, apenas, ou atirada a um outro mundo, e se torna
etemidade. Por essas razões, pensamos, Lacan preferia o
É termo sincronia à .simultaneidade. A consistência da

-
eternidade vem, por esse fracasso, sustentar uma dimensão
sincrônica isto é, uma relação temporal não-ordenada
como dimensão temporal integral. ~
_
já em "A ldentificação"24, Lacan recomendava não
confundir simultaneidade e sincronia. A "possibilidade
sincrônica constitui a diferença significante", o fato de que
o significante se repete e que, na repetição do mesmo, há
uma diferença, precisamente, a da repetição. Essa diferença
do mesmo é o que advém no tempo lógico quando o
raciocínio se repete no momento do tempo para
compreender.

O tempo para compreender


,g Deve-se ressaltar que a garrafa de Klein e apropriada
¡ em especial a esse tempo. Ele se inscreve num segundo
` tempo, a diacronia: compreender é apreender, e apreender
a garrafa de Klein e captura-la, e captura-la e progredir de
uma maneira circular em torno de seu vazio central: o que
~ se chama a demanda ("Tudo o que se diz enquanto se diz
" n
no lugar do Outro e uma demanda ): movimento circular

_?
_¬..
,_
que tende a ser paralelo `a si mesmo e sempre repetido."
Ê. Ora, essa captura não pode ser feita de uma só vez. Pois, se
não fizermos o percurso, não podemos reencontrar aquilo
que faz sua particularidade em relação ao toro. Num certo
k momento, depois de uma volta a partir de um ponto
qualquer da superficie, existe um ponto de retorno. a volta
que cifra a progressão circular da demanda põe-se a girar
num sentido inverso (cf. Fig. 3). '

Ê em função do momento desse percurso, que leva


um certo tempo, que alguma coisa assume sentido,
manifesta um efeito de sentido, isto é, muda de sentido.

89
tãtv
Fig. 3: Representação esquemática da
inversão do sentido das voltas depois de
uma volta da garrafa de Klein. '

Tal é o caso, por exemplo, da demanda de ser


alimentado: há resposta do lado do Outro, de uma maneira
que se pode dizer contemporânea, logicamente, pela
demanda de se deixar alimentar. Nesse momento de
confronto de duas demandas, entre a criança e a mãe, jaz
esse ínfimo gap, hiância onde se pode escorregar um desejo
que transborda a demanda; esta não poderia ser satisfeita
sem que o desejo ali se extingua: daí a anorexia. Em toda
demanda está implicado também que o sujeito não quer
que ela seja satisfeita na medida em que a demanda
testemunha a presença cega do desejo”.
A inversão de sentido depois de uma volta se aplica
bem ao sofisma. Imaginemos os prisioneiros A, B e C num
lugar da superfície, e A, que se pensa visto preto por B.
Depois de uma volta de raciocínio, isto é, 0 tempo de uma
volta, o tempo para compreender que o outro não se
mexeu, A volta ao mesmo lugar, sem que B se tenha
mexido. Sua hipótese é invertida: ele não pode ser preto:
além disso ele está atrasado uma volta com relação a B se B
realmente o viu preto. É preciso, pois, que ele se apresse em
sair. As duas escansões corresponderiam às duas voltas
pelas quais o corte da garrafa de Klein se fecha. (Cf. fig. 2,
prolongando-se o corte ao longo da linha de prega CC').

90
r
o

O momento de concluir
Ele é essa dimensão necessária sem a qual o tempo
Il
para compreender ficara fechado nessa forma que, girando
z

Q
indefinidamente sobre si mesma, não poderá em parte
alguma demarcar a certeza de um ponto de parada".
Lacan não esclarece a correspondência desse momento
com a garrafa de Klein. Portanto, somos nós que propomos
essa interpretação. A partir das indicações que se podem
tirar de "A ldentificação"2°, conjeturamos que o momento
de concluir é o momento em que se recorta a dupla ligação
do corte, aquela pela qual a superfície revela sua estrutura
(duas bandas de Moebius, direita e esquerda), no próprio
momento em que esta desaparece. Esse momento seria
precipitado pelo efeito da inversão de sentido que, pelo
afastamento onde se escorrega o desejo, introduz um atraso
da demanda com relação ao desejo, o que vai apressar sua
u. declaração.
O que traz esse novo percurso do tempo lógico com
\ a garrafa de Klein?
Ele procede, principalmente, do laço em intensão do
sujeito ao Outro. Este laço é no entanto compatível com a
pluralidade de sujeitos do tempo lógico, mesmo que fique
iftz um pouco curto quanto ao seu modo de articulação.
Mais, ainda, o sujeito encontra sua unicidade numa
si»
\._¬ -
forma ele tem uma forma que lhe serve de suporte
forma apresentada pelo objeto garrafa de Klein. Ora,
-, a
este
~»;
objeto está mais próximo do nó temporal do sujeito ao
Outro que o esquema›L ou o grafo, pois esses esquemas se
inscrevem num plano e, se levam tempo para serem
decifrados, não integram o tempo como tal à sua decifração.
Na topologia das superfícies e dos nós, o sujeito está
z

implicado de outra maneira no deciframento e no uso


daquilo que o cifra. O que dizem esses objetos topológicos,
a divisão do sujeito, não está em contradição com sua
z z
maneira de dize-lo. Essas superfícies e nos não são idéias de
1
l
A

superfícies, mas repõem em prova a própria relação ao


espaço e ao tempo daqueles que os tocam, o que não é o
caso, por exemplo, do esquema L ou do grafo.
A garrafa de Klein contribui para inscrever o tempo

91

l
lógico numa lógica do ato. Será que ela atinge seu objetivo?
Que sentido, com efeito, dar ao fato de que Lacan não indica,
na garrafa de Klein, o momento de concluir? Isso significa
que a garrafa de Klein não permite a inscrição desse
momento? Ou será preciso, antes, considerar a própria
nomeação da superfície como um ato? Essa última hipótese
concordaria com o que Lacan afirma desde seu seminário "A
Identicação", a saber, que é o corte que engendra a superfície
e nao o contrário, cada tipo de corte permitindo diferenciar
um tipo de superfície.”

NOTAS

1 J. Lacan, "Problemas cruciais para a psicanálise", seminário inédito,


13 de janeiro de 1965.

2]. Lacan, "L'Êtourdit", Scilicet 4, Seuil, 1973, p. 40: "A estrutura é o


asférico oculto na articulação linguajeira na medida em que um efeito
de sujeito se apreende", ou: "A topologia é a estrutura como retroaçao
da ordem de cadeia de que consiste a linguagem".

3 O tempo na linguagem não corresponde à linearidade física de uma


representação passado-presente-futuro. O que chamamos tempo dos
verbos não exprime uma noção unívoca do tempo (o presente pode
designar um fato presente, passado, futuro, intemporal) e se relaciona
a procedimentos de enunciação que nada têm a Ver com a idéia de uma
medida ou de uma adequação às coisas. E por isso que numerosos
gramáticos (Damourette e Pichon; Weinrich, Le temps, Seuil, 1973)
propuseram outras repartições dos tempos.

4 S. Freud, "L'Inconscient", Métapsychologie, Gallimard, ldées, 1968,


p. 97. Ed. Bras.: ESB vol. XIV., Imago, 1976.

5]. Lacan, "O objeto da psicanálise", seminário inédito, 4 de maio de


1966.

6 J. Lacan, RSI, seminário inédito, 18 de fevereiro de 1975.

7]. Lacan, Le transfert, 14 de junho de 1961. Ed. Bras.: A Transferência,


RI, Iorge Zahar, 1992.

92
5 L. Gardiès, La logique du temps, PUF, 1975. Segundo ele, os
J.
resultados são bem decepcionantes. Todas as lógicas que foram
propostas apoiam~se definitivamente na gramática, mas sem lhe restituir
a leveza e 0 poder discriminador, e mantendo o horizonte do tempo
mensurável da física. Não é com uma nota triunfante que ele conclui:
"A facilidade que temos de comparar o tempo a certos objetos da
natureza, dos quais dizemos que têm um curso, é tanto mais derrisória
quanto a noção de curso que aplicamos a esses objetos remete, ela
própria, à categoria de tempo (...) Este exemplo nos conduz a esperar,
não que um cálculo do tempo venha um dia substituir a metafísica do
tempo, mas, mais humildemente, que o uso propedêutico da
formalização, obrigando o filósofo a distinguir todas as asserções
confundidas e a perceber, em contrapartida, todas as implicações
mascaradas sob a capa da metáfora, inspire ao menos, à reflexão
filosófica sobre a natureza do tempo, a exigência ascética de se despojar
de seus omamentos e livrar-se de seus alibis."

9 ]. Lacan, Écrits, op. cit., p. 209.

1° ]. Lacan, "Les Non-dupes errent", 9 de abril de 1974, inédito.

“ V. Goldschmidt, Le système sto`|`cien et l'idée de temps. Vrin, 1979,


p. 65. .

12Já se tratava disso com 0 gráfico: já que Lacan explicita que A é um


lugar, "mais lušar que espaço", e s(A) um momento, "escansão, mais
que duração". crits, op. cit., p. 806.

13 Stephen Barr, Experiments in Topology, Thomas


Y. Crowell Co., Nova
York, 1964. Existe uma tradução francesa deste livro feita pela Point
I-lors Ligne, Paris, 1987.

14 ]. Lacan, "L'Étourdit", op. cit., p. 28.

*5 E. Kant, Crítica da Razão Pura. PUF, Ap. 28.

"" Ibid., p. 61.

17 Citado por A. Koyré, Du monde clos ã l'univers infini, ldées,


Gallimard, 1973, p. 196.

18 E. Kant, op. cit., p. 61-62.

*Q R. Taton, L'Oeuvre mathématique de Desargues. Vrin, 1981.

2° E. Kant, Dissertation de 1770, Vrin, 1976, p. 61, nota.

2'Citado por G. Poulet, Les métamorphoses du cercle, Flammarion,


Champs, p. 27.

93
z


22 J. Prigogine e I. Stengers, La nouvelle alliance, Gallimard, 1979.

23 J. Lacan, "Les Non-dupes errent", 11 de dezembro de 1973, inédito.

24 J. Lacan, "L'Identification", seminário inédito, 16 de maio de 1962.

251. Lacan, Le Transfert, op. cit., 15 de março de 1961.

25 Em particular o seminário de 16 de maio de 1962, inédito.

27"L'Identification", seminário de 30 de maio de 1962, pelo corte do


cross-cap, e "L'Êtourdit", Scilicet 4, p. 26-28, onde ele detalha a operação
de engendramento da banda de Moebius por um corte partindo de um
toro dobrado, a ponto de afirmar: "Este corte = a banda de Moebius".
Cf. o comentário que fizemos a esse respeito em Ornicar? n° 22-23,
1981.

94
CAPÍTULO sizis

As Modificações do Tempo Lógico


nos Ecrits

Em 1966, "O tempo lógico" foi incluído nos Êcrits:


nessa ocasião, submeteu-se a um certo número de
modificações, que não são assinaladas por Lacan.
5. Seu lugar não foi escolhido ao acaso: "Possa ele
,ressoar com uma nota justa entre o antes e o depois onde
vz.-_

nós o colocamos aqui, mesmo se ele demonstrar que o


-:››.
depois fazia antecamara para que o antes pudesse tomar

- -
lugarl". Não é isso ainda o que nos acontece hoje?
O tempo lógico se encontra na terceira parte de sete
dos Êcrits. Nessa parte só há dois textos: "O tempo
lógico" e a "Intervenção sobre a Transferência", que é um
estudo sobre a dialética da transferência no caso Dora.
^: Apenas uma outra parte comporta dois textos: a sexta, com
É Il II
o estudo sobre Gide e Kant com Sade . Se considerarmos
a ordem das partes e o número de capítulos que ali figuram,
observa-se uma simetria duas partes, inicialmente, depois
a terceira com dois textos, em seguida mais duas partes, e
a sexta, novamente com dois textos. Essa simetria nos leva
|| z ii f ú

a dizer que o Tempo logico esta reunido nos Êcrits com os


-

-›-

únicos textos que têm por objeto um caso clínico.


ii Observamos também que "O tempo lógico" faz
vizinhança com o termo sujeito": "Estamos aqui ainda de
ší
95

š
orelhas em pé com o termo sujeito" é a primeira frase que
segue "O Tempo lógico" (I. 215 da edição francesa, em
"Intervention sur le Transfert") e o título do apêndice que
começa a quarta parte é "Sobre o sujeito enfim em questão".
Enfim, ainda é do sujeito que se trata em "Subversão do
sujeito" que segue a sexta parte, simétrica à terceira.
Dada a inversão da ordem de inserção dos textos nos
Écrits com relação a sua ordem cronológica de publicação
(sem falar de sua ordem de redaçãol) e as modificações a
que Lacan procedeu na quase totalidade desses textos em
1966, pode-se admitir que o tempo lógico sirva também de
princípio de leitura para a composição dos Êcrits. Lacan,

"Posição do Inconsciente" -
aliás, nos convida a isso quando, num acréscimo de 1966 à
esta mesma escrita pela

a partir de uma intervenção em Bomieval em 1960 -


primeira vez (antes de sua reescritura nos Êcrits) em 1964,
ele
conclui, depois de ter citado: "Que o leitor admita que para
nós esse tempo lógico tenha podido reduzir as c ircunstâncias
àzmenção que dele é feita, num texto que reúne uma coleção
mais intima"2.
Estudemos agora as modificações trazidas ao próprio
texto do "Tempo lógico"3:
A maioria dessas modificações é no sentido de
satisfazer à constituição de um sujeito de pura lógica
representado por um significante para um ou tro significante.
Se em 1945 tratava-se para Lacan de diferenciar imaginário
e simbólico, na reescritura de 1966 trata-se de fazer valer a
articulação entre simbólico e real. "Vê-se, deste então, o
outro momento em que o simbólico e o real se conjugam, e
já o havíamos marcado teoricamente: na função do tempo,
e vale a pena nos determos um momento nos efeitos
técnicos do tempo", escreve Lacan noutra parte? Igualmente
em 1964, a propósito da ordem não comutativa da
rememoração e da repetição, tal como exposta por Freud
em "Recordar, repetir, elaborar”, Lacan diz que a função
tempo é de ordem lógica e ligada a uma colocação em forma
significante do real.”

96
O significante.
Ê em 1966 que aparece o termo significante, e para
designar, muito precisamente, as moções suspensas. "A
entrada em jogo como significantes de fenômenos aqui em
`É f
litigio H
substitui a "função dos fenômenos aqui em litígio"
(versão 45) e, mais adiante: "aquilo pelo quê elas são
significantes" substitui "aquilo pelo quê elas significam".
Ê Ao mesmo tempo em que se tomam significantes, as
escansoes suspensivas" são substituídas por "moções
É n ~

^ suspensas Deve-se ver aí a ênfase dada ao valor lógico da


.
N

cessação do movimento, do tempo de parada. Entretanto,


essa substituição não é geral e reencontra-se "escansão
ä suspensiva" nas págs. 201 e 203 dos Écrits. Esse termo
continuará, em seguida, a ser também empregado.
Í_
,tc
A parte sobre as moções suspensas foi a mais alterada
em 1966, no sentido de uma afirmação positiva de sua
`Í função:

‹'.
- Suprimindo aquilo que, em 1945, era expresso em forma
de pergunta: .

if 1945: pode-se, pois, objetar a partir daí que elas


tragam, na solução, um elemento extemo ao próprio
progresso lógico?
1966: não se pode, pois, objetar, a partir daí...;
:
*


_.
_
2'

- Fazendo das moções suspensas, não mais apenas


instâncias integradas ao progresso lógico, mas instâncias

constituintes do processo lógico:
1945: essas instâncias do tempo integradas ao
-_

., progresso lógico do sofisma permitem reconhecer


neste um verdadeiro movimento logico.
.›'Á
1966: essas instancias do tempo, constituintes do
processo do sofisma, permitem reconhecer nele um
verdadeiro movimento lógico,
F

1945: longe, com efeito, de trazer um dado de


experiência externa ao progresso lógico, as escansões
suspensivas nada mais representam que as instâncias
do tempo integradas no progresso lógico,

i
97
1966: longe de serem um dado de experiência externa
no processo lógico, as moçoes suspensas sao aí tao
necessárias que apenas a experiência pode aí faltar,

Substituindo "progresso" por' "processo", Lacan


acentua também o aspecto sincrônico do processo lógico,
com seus efeitos retroativos, opondo-se a uma marcha
iniciática. Na mesma ordem de idéias, desaparece em 1966
a expressão "experiência lógica":

1945: a tensão do tempo na asserção subjetiva e seu


valor manifesto na experiência lógica,
1966: a tensao do tempo na asserçao subjetiva e seu
valor manifesto na demonstração do sofisma,

1945: mas a experiência lógica prossegue,


1966: mas a incursao lógica prossegue,

1945: assim que ele terminou o movimento lógico,


1966: assim que ele constituiu o movimento lógico,

1945: exige que todos os sujeitos tenham consumado


a experiência lógica que verifica o sofisma,
1966: tenham consumado o descenso lógico.

De quê essas instâncias de tempo são constituintes?


Do processo do sujeito de pura lógica.

O sujeito
Em 1966 o termo "personagem" para designar A, B e
C é trocado por "sujeito real" para designar A:

1945: chama-se A o personagem que vem concluir por


si mesmo, B e C aqueles sobre cuja conduta ele
estabelece sua dedução.
1966: chama-se A o sujeito real que vem concluir por
si mesmo, BeC aqueles refletidos, sobrecuja conduta...

98
1945: cada um dos sujeitos sendo A em termos
lógicos...
1966: cada um dos sujeitos sendo A enquanto real.

Além disso, há uma unicização desse sujeito de pura


lógica:

1945: as escansões, para desempenhar seu papel de


verificação, devem ser sincrônicas entre os três
sujeitos,
1966: só a experiência pode aí fazer faltar o sincronismo
que elas implicam por se produzir de um sujeito de
pura lógica,

Vai-se relacionar essa unicização, ou talvez se devesse


dizer unariedade, do sujeito com a contagem, decisiva, de
um a mais, qualquer que seja o número de sujeitos, que faz
sua aparição numa nota acrescentada em 1966 (Êcrits, p.
213). Em outras palavras, se Lacan enfatiza "um sujeito",
este não é o um do indivíduo, nem o um oposto ao múltiplo
(aqui, três), mas o um do um-a-mais. Voltaremos a isso.
É
1.
Enfim, em 1966, Lacan tem os meios de referir
explicitamente o sujeito à linguagem. lsso se concretiza nas
alterações seguintes:
r
1945: esse movimento de genese logica do eu (je) por
A z O

uma desalienação de seu tempo lógico próprio é


1

« singularmente calcado no seu nascimento psicologico,


1966: esse movimento de gênese lógica do eu (je) por
. uma decantação do seu tempo lógico próprio é
bastante paralelo ao seu nascimento psicológico,
1945: assim o "je", terceira forma do sujeito do
É conhecimento na lógica, ainda é aí a "primeira
pessoa"... Para a terceira e pretensa pessoa gramatical,
este é um demonstrativo igualmente aplicável às
pessoas e aos objetos para particularizá-los numa
situação,
1966: assim o "je", terceira forma do sujeito da
enunciaçao na lógica, ainda é aí a "primeira pessoa"...

99
Para a terceira pessoa gramatical, ela é apenas pretensa:
éum demonstrativo, igualmente aplicável ao campo
do enunciado e a tudo o que ali se particulariza.

Vê-se aqui que a alternativa sujeito da enunciação/


.ujeito do enunciado substitui a alternativa entre um sujeito
do conhecimento (paranóico?) e as particularidades dos
personagens e objetos numa situação. A primeira altemativa
tem os caracteres de uma divisão (do sujeito), ao passo que
a segunda tem mais as características de uma oposição
construtiva.
O conjunto dessas mudanças mostra que Lacan operou
uma lirnpeza do texto do "Tempo lógico", com a escova do
"sujeito representado por um significante para um outro
significante". A mudança de 180" do final do texto parece
menos surp reendente:

1945: e q ue entretanto reserva a indeterminação


existencial do "je",
1966: e que entretanto reserva a determinação essencial
do Iljelll

Falar em determinação essencial do "je" está mais


conforme a posição de Lacan em 1966, já que existe
determinação do sujeito pelo significante na função
constituinte das moções suspensas, e essa determinação
pode ser dita essencial, pois ela é aquela, unária, de um
sujeito de pura lógica (não é a essência do "je", mas a
essência da determinação do "je").
Em 1945, Lacan escrevera: "ele nos parece dar a forma
lógica essencial do "je" psicológico", como se ele não tivesse
tido, na época, os meios de avançar mais. Pode-se
compreendê-lo na medida em que, por esse texto, ele se
dava os meios de criar o simbólico e não podia, portanto, ao
mesmo tempo, apoiar-se nele. O termo existencial é
reencontrado no texto do estágio do espelho, versão 1949,
onde ele se refere não ao existencialismo em moda, contra o
qual Lacan se insurge, mas à alienação do "je" e à
agressividade que disso decorre em toda relação ao outro?
A prova de uma "indeterminação existencial" pode

100
ser encontrada no fim de "O tempo lógico", quando Lacan
escreve que a forma lógica do sofisma responde a um "je"
à medida comum do sujeito recíproco do tempo para
compreender. Contradição que já destacamos.
Podemos então nos perguntar por que, em 1966,
Lacan não modificou essa passagem, já que ele chega ã
conclusão de uma determinação essencial do "je" pelo
significante; tanto mais que ele modificou uma outra
passagem, onde se trata da reciprocidade lógica dos sujeitos:

1945: isto é, exprimir a reciprocidade lógica dos


sujeitos,
1966: sincronismo de um sujeito de pura lógica,
a fuga do sujeito numa exigência formal.

Por que, então, Lacan não modificou também o final


de seu texto? Não sabemos, mas vamos mostrar, na terceira
parte, como se pode novamente expor o problema.

Outras modificações em 1966


fã Outras modificações, acarretadas pelo movimento
de lirnpeza estrutural, devem ser assinaladas.
Em 1966, Lacan acentua a prevalência da estrutura
temporal:

litígio só pode
1945: a função dos fenômenos aqui em
ser reconhecida numa intuição temporal,
1966: a entrada em jogo como significantes dos
fenômenos aqui em litígio faz prever a estrutura
temporal,

1945: a verificação historicamente determinada de


rs
É

um movimento lógico,
1966: do movimento de verificação instituído por um
processo lógico.

O par preto/ branco torna-se um binário:


I 1945: não encontrando realmente ver o par, um preto

101
e um branco, 9

1966: não se encontrando em presença de um preto e


. um branco,

1945: seu valorcrucial não é o de uma discriminação


contraditória,
1966: seu valor crucial não é o de uma escolha binária,

A versão de 1966 relativiza o papel do ciúme:


1945: o eu (je) psicológico se destaca de um
transitivismo especular indeterminado pelo
sentimento primordial de uma tendência própria como
ciume,
1966: 0 eu (je) psicológico se destaca de um
transitivismo especular indeterminado pelo
apontamento de uma tendência despertada como
ciúme.

Sobre a concepçao espacializada, Lacan é mais incisivo: `

1945: que nãodá conta, em caso algum, da solubilidade


do problema,
1966: que por si só objeta à solubilidade do problema,

A palavra "pressa" como substantivo faz sua aparição


com certo destaque em 1966. Em 1945, encontramos
"apressar-se" no texto. inversamente, por duas vezes o
termo "ato" é substituído por um verbo.

NOTAS
1 J. Lacan, Écúzâ, p. 197.

2 Ibid., p. 829.
3Aconselhamos ao leitor reportar-se ao anexo 1 para repôr as citações
em seu contexto.

4 J. Lzzzzm, ibââ., p. sw. `

5 S. Freud. GW 10, traduzido por La Transa no boletim n° 7, abril de


1985.

6 I. Lacan, Livro XI, op. cit., p. 40.

71. Lacan, Écrits, p. 98.

102
CAPÍTULO SETE

~
O Coletivo Nao é Mais que o Sujeito
do Individual

A versao remanejada de 1966, eaquela quea precedeu,


induzem uma certa leitura do "Tempo Iógico", especialmente
no que concerne ã tensão inerente. ã problemática da
intersubjetividade, entre a relação de sujeito a sujeito e a
relação do sujeito a "si mesmo".
Da frase "O coletivo não é mais qu`e o sujeito do
individual", que em 1966 conclui em nota o "Tempo lógico",
tiramos uma resposta: a relação de sujeito a sujeito, ou
coletivo no sentido do tempo lógico, seria o "si mesmo" do
sujeito; ele seria constitutivo da divisão do sujeito na
inversão onde intensão e extensão do sujeito se comunicam.
A noção de coletivo no tempo lógico seria uma maneira de
L

- introduzir ao um-a-mais do sujeito.


Retomemos a análise do tempo lógico em função
dessa problemática, e com a versão de 1966.
I
O sujeito do tempo logico e ao mesmo tempo um
1
vi;

multiploz há três sujeitos, A, B e C, e ao mesmo tempo, sem


H z

que sejam no entanto os mesmos, eles fazem apenas um


z.

(um sujeito de pura lógica).


A divisão se dá em diversos planos.
Primeira divisão: a de A B e C tomados a uma
1
só vez
..
1
por um e todos juntos como um. Segunda divisao: A, B, C,

4 103


todos iguais, e A, B e C, cada um diferente.
Com efeito, tomados um a um, existe uma dissimetria
entre A e B/ C; A é o sujeito "real" que vem concluir sozinho.
Ele designa cada um dos sujeitos enquanto real, na medida
em que é ele mesmo que está em questão e se decide ou não
a concluir por si. B e C são os dois outros, na medida em que
são objetos do raciocínio de A.

-
Mas essa oposição recobre uma oposição psicológica
sujeito (A) objeto (B e C) de A. Pois A é também objeto de
B e C, o tema de seus pensamentos, objeto sob o olhar dos
_
outros'. E é isso
compreeender do outro -
o que se subjetiva no tempo para
que permite a A concluir. Além
disso B e C não são apenas objetos de A, são também sujeitos
reetidos.
A, pois, não é idêntico a A. Cada um é ao mesmo
tempo A e B/C. Mais: cada um só é A se for ao mesmo tempo
B e C.

O traço unário ‹

A problemática da diferença do idêntico foi


apresentada pelo traço unário e colocada no fundamento da
identificação a partir de 1962. Lacan, naquele momento,
sentiu forte emoção diante de um osso de rena (datado de 30
mil anos antes de Cristo) no qual se alinha uma série de
entalhes:

Reproduçao em desenho do I ongo espeto em osso exposto na


_

sala Piette do Museu de Saint- Germain-en-Laye

104
Não sao as diferenças qualitativas de cada um dos
traços que os fazem funcionar como diferentes: eles são
diferentes porque se repetem. Mas I não fazem 2, diferente
I

de 1, fazem 1 e 1: repetição do um contável, da unicidade,


o l , repetindo-se, permite ao 1 existir enquanto pura
diferença. "A diferença qualitativa pode mesmo,
ocasionalmente, sublinhar a mesmidade significante"2, ou
seja, há significante "rriesmo". Sempre a propósito dessa
linha de entalhes, Lacan acrescenta algo que vem ao
encontro denossa armação: "Essa mesmidadeéconstituída
pelo fato, justamente, de que o significante como tal serve
para conotar a diferença em estado puro, e a prova disso é
que, em sua primeira aparição, o um manifestamente
designa a multiplicidade atual”. Nesse sentido, o
significante é suporte da repetição, e a repetição é, de
alguma maneira, implicada pelo significante.

As escansões significantes
Vimos que Lacan introduz o termo "significante"
para designar as escansões em sua versão de 1966, ou seja,
depois de 1962. Ele escolhe esse termo, significante, para
dar conta de alguma coisa cuja importância precisamos
captar. Algo se produz num certo mometno, que não era
dado antecipadamente. Num certo momento, o do ponto
de parada, da escansão, e pelo fato d o sincronismo, produz-
se algo de fundamental. Por um lado a escansão é um
momento de verificação de uma transformação, aquela na
qual uma subjetivação pode se realizar (vamos retomar isso
mais adiante): "Seu valor crucial (das moções suspensas)
é o do movimento de verificação instituído por um processo
lógico, onde o sujeito transformou as três combinações
possíveis em três tempos de possibilidade." Há duas
Ê

» escansões, cada uma delas objetiva um tempo: a primeira,


o tempo para compreender; a segunda, o momento de
concluir. Por outro lado há, nesse momento, uma
â homogeneização de A, B, C, sobre os quais, no entanto,

105
operou em sua pertinência a diferenciação das subjetivações
ligadas às mod ulações de tempo; mas essas diferenciações,
nesse momento, se concretizam, se reúnem, interagem, se
nodulam entre elas de uma maneira tal que elas
homogenizam os A, B, C; com isso, produz-se esse sujeito
"de pura lógica": “Longe de ser um dado de experiência
externa no processo lógico, as moções suspensas são ai tão
necessárias que só a experiência pode fazer faltar aí o
sincronismo que elas implicam por se produzirem de um
sujeito de pura lógica (grifo nosso) e fazerem cair sua
função no processo da verificação".
Esse sujeito produzido é deslocalizado, acéfalo, ele
não é mais identificável a A, B, C. Esse momento de
emergência do sujeito é também um momento de
dessubjetivação que se realiza, culminando no ato em que:
.. enfim a conclu são não se funda mais senão sobre instâncias
temporais inteiramente objetivadas e a asserção se
dessubjetiva ao mais baixo grau"~“.
Vamos notar que isso não exclui o registro do "pessoal"
(a conclusão pode ser formulada em termos em que não
pode ser assumida pelo sujeito senão pessoalmente (cf. o
anexo n° 2), mas tampouco o impõe.
Há um efeito "de um", isso é novo e necessita do
suporte de um novo termo, o de significante. U m significante
que representa um sujeito que não é nem A, nem B, nem C,
mas engendrado como efeito de um por cada um dos três
em sua identidade e sua diferença, sua multiplicidade e sua
unidade, sujeito que não tem outro suporte além de ser
representado por uma escansão para uma outra escansão
ou a afirmação conclusiva.

O corte do ato
~ .. .. z
A Verificaçao trazida pelas escansoes nao e externa ao l

movimento lógico. A urgência de concluir provém da


objetivação de um tempo de atraso ligado ao fato de que se
os outros, B e C, vêem um preto, se esta hipótese inicial de
A está correta, B e C não a fizeram como hipótese; eles o
viram, e portanto se adiantam a A, devido ao tempo levado
1,.
..¿.,
por A a fazer essa hipótese; portanto, vão sair antes dele, e
por isso é preciso que ele diga que é branco, por medo de
que não possa mais reconhecer se não for preto, o ato de
concluir antecipando-se à certeza da asserção.
Decidir, etimologicamente, é cortar, é tomar uma
"des-cisão". Nesse momento, A é aquele que se separa dos
outros, do tempo para compreender deles. A e B/C se
separam pelo tempo de uma hipótese, falsa, ainda por
cima.
A difere de B/C por não mais adiar o momento de
concluir, e é nesse momento que, de fato, ele é idêntico a
eles. De uma identidde que não é deduzida, nem
especularizada, mas afirmada de maneira antecipada num
ato.
Corte bem especial, e espacial, o desse ato, já que, ao
mesmo tempo em que separa um dos outros, ela os torna
idênticos entre eles; este é um corte de si, no momento em
que se afirma uma identificação. A partir de 1945, uma
metáfora cômica captava o inapreensível desse momento:
"Sua evidência se revela na penumbra subjetiva, como a
iluminação crescente de uma franja no limite do eclipse que
se submete, sob a reflexão, à objetividade do tempo para

letra, Ú
compreender”. Tomando essa metáfora ao pé da
(fig. 1), pode-se acrescenta-la como quarta
combinação possível (fazendo parte do momento de
concluir); essa quarta combinação não pode, no entanto,
situar-se no mesmo registro espacial das combinações
inertes, alinhadas, de "dois pretos, um branco", "um preto,
dois brancos", "três brancos".
Não foi sem já ter experimentado a questão que
Lacan retomou em 1966 (ano da publicação dos Écrits), em
seu seminário "A lógica do fantasma", a problemática do
ato enquanto fundador do sujeito; na medida em que o ato
equivale à repetição, repetição implicada pelo significante,
a não-identidade desse último encontrando suporte na
dupla ligação da bordada banda de Moebius.
lgualmenteao segtmdo traço de uma linha de entalhes,
a segunda volta (que se pode assimilar à segunda escansão
suspensiva) não faz 2, mas repete o l para fazê-lo existir
como um, volta ao um para dar esse elemento não
numerável, não redutível ã série dos números naturais,
nem adicionável nem subtraível, que Lacan chama um-a-
mais°. A dupla ligação que se fecha é uma volta a-mais que
conta a unariedade do traço da identificação (original) do
sujeito.

E `\

\\
/I `\ Ê/ É \ 2

Fig. 2 I

O corte de um cilindro engendra dois cilindros, mas


iguais, o que, em conseqüência, não coloca problema "de
identidade" ou de reconhecimento desta:

Fig. 3

Em contrapartida, há um problema na banda de


Moebius já que, através do corte, a banda de Moebius
permanece a mesma (é sempre uma banda), mas diferente
(tem dois bordos). Nesse sentido, Lacan chegou a empregar
o termo Verleugnung (renegação) para designar o
reconhecimento dos efeitos do ato sobre o sujeito. Ele
amplia, ao mesmo tempo, a extensão desse termo7:
"O ato é fundador do sujeito. O ato é precisamente o
equivalente da repetição por si mesmo. Ele é essa repetição
num só traço que designei há pouco por este corte que é
possível se fazer no centro da banda de Moebius. Ele é em
si mesmo: dupla ligação do significante. (...) O sujeito _
digamos: no ato4- é equivalente ao seu significante. Nem
por isso ele deixa de ser dividido (...) Qual é o efeito do ato?

108
Êo labirinto próprio ao reconhecimento desses efeitos por

-
um sujeito que não pode reconhecê-lo, já que ele é
inteiramente como sujeito -transformado pelo ato; são
esses efeitos que designam, em toda parte onde o termo é
justamente emp regado, a rubrica da Verleugnung. O sujeito
é, no ato, representado como divisão pura: a divisão,
diremos, é seu Repräsentanz”. j

Subjetivaçao e dessubjetívaçao

Vamos tentar observar mais de perto, a partir do


texto do "Tempo lógico...", as relações entre a subjetivação,
a dessubjetivação e a fundação do sujeito. Fazendo esse
caminho, pudemos notar um certo hiato entre a subjetivação
e a fundação do sujeito. Constatamos, porém, que
praticamente não falamos até agora dos três tempos. Serão
eles a se considerar como significantes? Vimos que Lacan
reserva esse termo, significante, apenas aos tempos de
parada. Entretanto, os três tempos correspondem a modos
de subjetivação. Essas subjetivações não seriam, pois,
determinadas pelo significante?
Não é bem assim: o significante engendra o sujeito e
os três tempos realizam formas do sujeito, às quais proponho
reservar o nome de subjetivação°.
Os três tempos, designados por três nomes (instante,
tempo, momento), associados às três qualidades (pois o
tempo não é representável, mas as qualidades o
apresentam 1°) portadas pelos três verbos (ver, compreender,
concluir), Lacan chama a eles modos diferentes da instância
do tempo. Recordemos que na gramática o modo de um
verbo exprime a atitude tomada pelo sujeito com relação ao
enunciado, isto é, uma enunciação.
Modos do tempo, também, porque esses tempos se
modulam. Cada um, na passagem ao seguinte, aí se
reabsorve, subsistindo apenas o último que os absorve: "A
modulação do instante de ver introduz a forma que, no
segundo momento, se cristaliza em hipótese autêntica (...)
a objetividade do tempo para compreender vacila com seu

109
limite...". Para concluir, o momento passou: esses tempos,
se objetivam no momento em que são passados e se resolvem
no seguinte, ou no ato de concluir. A

A subjetivação já é a transformação-- que se verifica,


em seguida, no momento da escansão _ pela qual as três
combinações possíveis de cores tornaram-se três tempos de
possibilidades, como já virnos anteriormente: o instante de
ver (sujeito im pessoal), o tempo para compreender (sujeitos
recíp rocos), o momento de concluir (sujeito da enunciação).
O sujeito pessoal do movimento lógico assume essas
formas em cada um dos momentos. Elas estão ligadas à
categoria da pessoa, já que aí emerge o "eu" (je), primeira
pessoa, mas também a única ea última (contrariamente aos
lingüistas para quem existe o par "eu-tu" e o "ele", não
pessoa).
É fundamental notar que a cada vez a subjetivação
procede de uma falta: falta-a-ver, para o instante de ver, já
que é a partir do fato de que os sujeitos não vêem dois
pretos que eles podem subjetivar essa combinação num
modo do tempo; falta-a-compreender, para o tempo para
compreender, já que este é o tempo para compreender o
outro, que se demarca pelo efeito produzido pela não-
compreensão de supor um preto e um branco; falta-a-
concluir, no momento de concluir, já que é o ato que
antecipa a declaração da conclusão. '

Modos que se modulam, os três tempos realizam


formas do sujeito que se transformam e se exprimem por
formulações gramaticais: a subjetivação pertence a esse
registro da forma, com suas deformações, suas
transformações, suas formulações; outras tantas exigências
formais por onde escapa o sujeito, mas registro diferente
deste, na medida em que ele é determinado pelo significante,
que não se deforma, mas corta, e ao final, dessubjetiva.
Pode-se a partir daí fazer um retorno a essa
dessubjetivação e tentar abordar melhor em quê ela está
nodulada à subjetivação e ao sujeito. Se a subjetivação
(primeira) é colocada como a forma do sujeito, o estofo no
qual o analista talha o sujeito”, a dessubjetivação se toma
a deforma, ou a a-forma do sujeito. A dessubjetivação é a
surpresa do encontro da forma onde "escapole o sujeito"

TIO
(no sentido de aí se refugiar e escapar a isso), o sujeito
acéfalo. Ela é a emergência do sujeito na subjetivação, isto
é, numa forma do sujeito. Uma forma onde nem tudo pode
ser visto de uma só vez, uma forma que derrota a intuição,
uma forma que só é apreensível por um certo percurso e em
funçao dos momentos deste; uma forma tal como a da
garrafa de Klein.

NOTAS
' Seminário 20, 16 de janeiro de 1973. Cf. Terceira parte.

2 Seminário "L'Identification", 6 de dezembro de 1961. Inédito.

3 Êcrits, p. 209.

4 Emis, p. 211.

5 Eme, p. 206.

6 Seminário "La logique du fantasme", 15 de fevereiro de 1967, inédito.

7 Pode-se notar que se trata aí de um movimento que Freud havia


iniciado no fim de sua vida. Freud, depois de ter introduzido o termo
Ichspaltung (clivagem do eu) para a psicose, estende a aplicação desse
termo, associado a Verleugnung, ao fetichismo e a todas as neuroses
(em "O Fetichismo", 1927; "A clivagem do eu no processo de defesa",
1938; capítulo 8 do "Esboço de Psicanálise", 1938). Note-se também que,
para Freud, a noção de Verleugnung se torna então correlativa da de
reconhecimento (Anerkenung): a Ablehnung (recusa) própria à
Verleugnung completa (ergantz) a cada vez o reconhecimento
(Anerkenung) da castração, diz ele no "Esboço". Em "A clivagem do
eu", fala de uum "vai-e-vem habitual entre renegação e reconhecimento".

8 Seminário "A lógica do fantasma", 15 de fevereiro de 1967, inédito.

°Sobre a insistência e as particularidades da forma em "O tempo lógico"


cf. Eme, p. 205-208.

1° um furo no espaço, dizia Kojève comentando a noção do tempo em


Hegel. lntroduction ã Ia lecture de Hegel, Callimard, 1947, p. 368-370.

“ J. Lacan, "L'Object de Ia psychanalyse", 8 de jtmho de 1966, inédito.

111
Terceira Parte

ARELAÇÃQINCOMENSURÁVEL
DOS SUJEITOS
A Cifragem de 1973
CAPÍTULO UM

O Texto

Por diversas vezes, manifestamos um espanto diante


da resposta de Lacan que, ao final de "O Tempo lógico", se
interroga quanto a que forma lógica corresponde o "eu" (je)
da asserção conclusiva: à referência de um eu (je) à medida
comum do sujeito recíproco, dada por um certo tempo para
compreender, diz ele. Em 1945, diante dessa questão,
estávamos frente a um impasse. Não se podia, com efeito,
encontrar outra medida comum além daquela dos sujeitos
recíprocos; sendo essa medida comum dada pelo tempo
para compreender, perdia-se a originalidade do momento
de concluir. Por outro lado, excluir essa questão de uma
medida comum equivaleria a fechar o acessoà possibilidade
de dar conta do "como um" do "eu" (je) de pura lógica, pelo
qual os três personagens se dirigem como um só homem
em direção à porta.
A partir do texto de 1973 que vamos ler, torna-se
enfim possível encontrar uma solução para este dilema.
Vamos resumir essa solução da seguinte maneira: a forma
lógica do eu (je) da asserção responde realmente à de um
sujeito recíproco cuja "medida comum" não é a do tempo
para compreender, e cuja reciprocidade revela o caráter
incomensurável, sem medida comum, que a compõe. O

115
caráter incomensurável da recip rocidade se fixa na nomeaçao
de um objeto, o objeto a.
É na virada do seminário Mais, Ainda que
encontramos, de forma inesperada, o seguinte
desenvolvimentolz
' "Escrevi alguma coisa que se chama O Tempo Lógico
ou a Asserção da Certeza Antecipada. Pode-se ler muito
bem ali, se se escreve, e não apenas se se tem bom ouvido,
que a função da pressa é a função desse pequeno a, pequeno
(a)pressado. Quero dizer que o de que se trata, e que
mereceria ser estudado com mais atenção, não é
simplesmente aquilo que já está muito articulado: a saber,
uma pequena adivinhação ligada ao fato de que as coisas se
arranjam para três pessoas para que haja três discos brancos
e dois pretos (um de men os, não é?) e que, nessa extrapolação
~
subjetiva que faz com que, aparentemente, o instante de
ver dois brancos,< para> aquele que não sabe quem ele é,
mas que sabe que os dois outros podem, ainda assim, cada
um deles ver-se tais como são (a saber, brancos), e ao mesmo
tempo, se por acaso se pensassem pretos, e esse que pensa

-
o início o fosse mesmo, <ele> saberia, muito bem, ao mesmo
tempo, que é branco há algo aí de que apenas valorizei o
fato de que algo como uma intersubjetividade pode levar a
Luna saída salutar. <O tempo lógico> mereceria, certamente,
ser observado de mais perto, muito precisamente no nível
do que é suportado por cada um dos sujeitos, não em ser um
entre os outros, mas em ser, com relação aos dois outros,
aquele que é o motivo do pensamento deles; a saber, muito
precisamente, cada um só intervém neste temário a título,
justamente, desse objeto a que ele é sob o olhar dos outros.
E é issoque sem dúvida terei ocasião de acentuar no que
formularei mais tarde. Em outras palavras, eles são três,
mas na realidade eles são dois mais a, e é realmente na
medida em que esse dois mais a, no ponto de a, se reduz, não
aos dois outros, mas a um Um mais a. Vocês sabem que,
nesse ponto, já utilizei essas funções para tentar lhes
representar o inadequado da relação de Um a Outro, dando
a esse a como suporte o número irracional que é o número
chamado "número áureo". É na medida em que, pelo a, os
outros dois sao tomados como Um mais a, que funciona esse

116
algo que pode levar a uma saída na pressa".
de
Mais uma vez, depois do trecho sobre a garrafa
com "O
Klein, mesmo aqueles que estão familiarizados
de
Tempo lógico" deverão retomá-lo várias vezes antes
compreender esse texto.
O que preparou este desenvolvimento em Mais,
eo
Ainda? De onde vem a referência à divisão anarmônica
que significa ela? Em quê isso modifica nossa
leitura do
tempo lógico? Outras tantas questões que merecem
comentários e explicações.

NOTAS
de 1973. Este
' Lacan, Mais, Ainda, seminário de 16 de fevereiro
J.
(que difere da versão de Seuil, 1975, p. 47) foi
estabelecimento do texto
pontuação e um
feito a partir de estenotipia e notas; procedí a uma
de suprimir algumas
deslocamento de um segmento da frase, além
que acrescentei estão entre < >.
palavras repetidas. As palavras

117
CAPÍTULO Dois

Os Paradoxos de Zenão L

O desenvolvimento que Lacan introduz em Mais,


Ainda sobre o tempo lógico surpreende menos quando se
observa que os temas desse Seminário (sessão de 16 de
janeiro) são os mesmos do tempo lógico: o tempo do
significante, o um e o conjunto. Lacan utiliza as categorias
L

de Richard de Saint-Victor (num tempo em que o discurso


do amor se admitia ser aquele do ser), a idéia do ser culmina
numa "violenta extração da função do tempo pelo enunciado
do etemo"; é a isso que Lacan chama "o é-terno'“*. Ora, nas
subdivisões de Saint-Victorestá descartada a idéia do ser
não eterno, que é por si mesmo. Segundo Lacan, aí está o
que concerne o significante: nenhum significante se produz
como eterno e, no entanto, ele é por si mesmo. O significante
um, o um da fusão unitiva, é operante particularmente no
amor. Lacan opõe a ele o traço unário e o exemplo da teoria
dos conjuntos, como uma outra maneira de abordar o um,
falando do um do conjunto para coisas que não têm nenhuma
relação entre si. São letras que sustentam o um dos conjuntos.
Por outro lado elas são, e não designam, essas reuniões de
coisas sem qualquer relação. O inconsciente, diz Lacan, está
estruturado como essas reuniões. Depois de ter observado
as incidências sobre o laço social dessa escritura, Lacan vem
r

119

É.
propor, ele mesmo, uma re-escritura do tempo lógico.
A predileção de Lacan pelos sofismas ou paradoxos
lógicos já se manifestava na primeira sessão do seminário
Mais, Aindal e podemos retomar sua leitura comparada à
do tempo lógico.
Lacan toma o exemplo do segundo paradoxo de
Zenão, aquele dito de Aquiles e a tartaruga. Eis como ele foi
relatado por Aristóteles: "O segundo argumento é aquele
que se chama o de Aquiles. Consiste em dizer que o mais
lento na corrida não pode ser alcançado pelo mais rápido,
dado que o perseguidor deve necessariamente atingir o
ponto de onde o perseguido partiu, de tal modoque o mais
lento deva manter sem cessar uma certa dianteira. Esse
argumento é idêntico ao da dicotomia, com a única diferença
de não ser em dois que é dividida a grandeza restante.3" O
argumento da dicotomia também é relatado por Aristóteles:
"Os argumentos de Zenão contra o movimento são em
número de quatro; eles dão muito trabalho aos que querem
resolvê-los. O primeiro argumento se refere à inexistência
do "mover-se", levando-se em conta que o móvel deve em
primeiro lugar chegar à metade, antes de atingir o termo de
seu trajeto”. Como disse Warusfel, "seria perigoso acreditar
que esses paradoxos antigos fossem inteiramente claros aos
olhos dos matemáticos do Século XX5."
Examinemos a solução que se admite comumente
hoje, solução próxima daquela da divisão anarmônica para
o tempo lógico. i

a provar a impossibilidade física do movimento -


Os dois primeiros argumentos de Zenão não tendem
nesse
sentido a refutação de Diógenes, que se ergue e caminha, é
inútil ¬~ mas tendem a provar a impossibilidade lógica de
descrever um movimento, a impossibilidade de dar conta
dele, logicamente. Como diz Russell, eles "negam que exista
alguma coisa tal como um estado de movimento (state of
motion)*"°. Trata-se de uma impossibilidade lógica e não
física. ~

120
O primeiro argumento: a dicotomia

A C D E B
I________11_ ,, l11____1____'__, I v__1__I ¬ _›______I

1/2 1/4 1/8

móvel quer ir de A a B, deve percorrera metade


Se um
da distância AB, ou seja, AC, depois a metade da metade
que resta, ou seja, 1 / 4 de AB=C D, depois a metade do resto,
ou seja, 1/8= DE, e isso ao infinito.
Cada segmento finito do percurso demanda um tempo
finito para ser percorrido. Já que estamos lidando com um
número infinito de intervalos finitos, devemos, conforme o
sofisma de Zenão, concluir que o móvel jamais atingirá o
ponto B.
"O ponto falacioso no paradoxo da dicotomia reside
na idéia de que a soma de um número infinito de intervalos
finitos de espaço e de tempo deva ser ela mesma infinita”.
Isso seria verdadeiro se se tratasse de uma série divergente,
isto é, quando todos os sinais + sucessivos permitem
superar qualquer valor dado antecipadamente. Ê o caso da
série:
S=1+
234`5ó
1+ 1+ 1+ 1+ 1+...

Mas a série do paradoxo da dicotomia não é uma série


divergente. Ela é convergente, e tende para um limite que é 1 :
S (da dicotomia): 1 + 1 + 1+ 1+ que tende a 1.
2 4 8 16

Quanto mais acrescentarmos termos à série


(aritmética), mais ela tenderá para 1.
A soma infinita dos intervalos, portanto, não é finita,
e pode ser percorrida num tempo finito até um limite, é
preciso, porém, acrescentar. Se devessemos efetivamente
-
enumerar todos os termos da série, isso demandaria um
tempo infinito.

121
O argumento de Aquiles e a tartaruga

Lacan retoma esse argumento com as modificações


que veremos: Dá-se à tartaruga uma vantagem de alguns
metros, numa pista de um número finito de metros. No
tempo que Aquiles levar para atingir o ponto de partida da
tartaruga, To, esta terá chegado ao ponto T1. Aquiles alcança
muito rapidamente o ponto T1, mas durante esse tempo a
tartaruga chegou ao ponto T2, e assim por diante, ao
infinito. Portanto, segundo Zenão, Aquiles jamais poderá
alcançar a tartaruga. O mais lento mantém uma certa
dianteira, como diz Aristóteles, de modo brincalhão.
O erro de raciocínio seria o mesmo do argumento da
dicotomia: trata-se de duas séries convergentes para um
limite finito, que pode, pois, ser atingido num tempo finito.
Mas aí, ainda, se deve acrescentar: até um limite.
É nisso que Zenão está certo afinal, como reconhece
Lacan: "Aquiles, é claro, só pode ultrapassar a tartaruga,
não pode juntar-se a ela. Ele só se junta a ela na infinitude"8.
O que significa isso?
O paradoxo de Aquiles e a tartaruga duplica o da
dicotomia pelo problema da igualdade de duas séries

dessas séries a de Aquiles -


convergentes, a da tartaruga e a de Aquiles. Ora, uma
_ partindo de um ponto
anterior, teria, supostamente, uma soma mais elevada que
a da tartaruga, que partiu com uma distância menor a
percorrer. Como diz Russel: "o paradoxo de Aquiles supõe
que todo e parte não podem ser semelhantes, e daí deduz
um paradoxo”.
Paradoxo que repousa, pois, no axioma de que o todo
é superior à parte. Mas este axioma foi invalidado,
precisamente, para os conjuntos infinitos, ao mesmo tempo
em que os números transfinitos foram criados por Cantor.
O conjunto dos números pares é uma parte do conjunto dos
números inteiros, e no entanto os dois são iguais. Têm o
mesmo número transfinito. É por isso que Lacan diz que
Aquiles só se junta à tartaruga na infinitude. i

Por que referir-se aqui ao paradoxo de Aquiles e a


tartaruga? V

Vamos começar a pressentir se, como faz Lacan,

122
substituirm os a tartaruga por uma mulher. Aquiles e
Briseida, diz ele, em vez de Aquiles e a tartaruga: "Quando
Aquiles deu seu passo, estica seu lance para junto de
Briseida, esta, tal como a tartaruga, adiantou-se um pouco,
porque ela é não-toda, não toda dele."1° Briseida era a
encantadora prisioneira que tocou a Aquiles na partilha e
que Agamenon lhe arrebatou, o que teve algumas
consequências, que Homero soube nos contar, para nosso
encantamento.
O paradoxo de Aquiles e a tartaruga toma-se para
Lacan uma metamorfose do impossível encontro sexual de
um homem e uma mulher: impossível no sentido de que
não há nenhuma garantia de que, nesse encontro, exista
uma escrita da identificação masculina como tal e da
identificação feminina como tal. O gozo do macho, o de
todo homem, está submetido ao gozo fálico, queé o obstáculo
pelo qual o homem não chega a gozar o corpo da mulher,
porque aquilo de que ele goza é o gozo do órgão; o gozo de
uma mulher é não-todo função do gozo fálico, sem que este
outro gozo seja mais nomeável do que através desse não-
todo. O encontro do gozo masculino e do gozo de uma
mulher só se produz no infinito. Tal é isso a que Lacan
chama o real da relação sexual, isto é, sua impossibiliade:
"O gozo, enquanto sexual, é fálico, isto é, não se relaciona
ao Outro como tal"“.
Veremos que a divisão anarmônica foi também
introduzida por Lacan no objetivo de metaforizar o que se
passa na relação sexual. Assim, além do contexto de Mais,
Ainda, de que acabamos de falar, a aplicação dessa divisão
ao tempo lógico levanta a questão da inscrição do tempo
lógico na problemática sexual. Já que "em toda identificação
existe o que chamei de o instante de ver, o tempo para
compreender e o momento de concluir"*2, é de se esperar
que, com efeito, o tempo lógico tenha seu lugar na
identificação sexual. Mas qual? Sem querer aqui responder
a essa questão, podemos entretanto indicar que é possível
distinguir-se, previamente, dois planos, o do desejo e o do
gozo, como faz Lacan ao fim de seu seminário A Lógica do
Fantasma: se não situarmos no registro do gozo, em vez de
no do desejo, a operaçao da copulação, sua possibilidade de

123
realização, somos condenados a nao compreender
absolutamente nada de tudo o que dizemos do desejo
feminino, sobre o qual explicamos que ele está como o
desejo masculino, numa certa relaçãoa uma falta, uma falta
simbólica que é a falta fálica (...). É daí que se deve partir
para saber a que distância situar o desejo, isto é, aquilo de
que se trata no inconsciente, o desejo na sua relação ao ato
sexual. Não é uma relação de direito e avesso. Não é uma
relação de epifenômenos. Não é uma relação de coisas que
colam. É por isso que é realmente necessário exercitar-se
durante alguns anos em saber que o desejo só tem a ver com
a demanda; que ele é o que se produz como sujeito no ato
da demanda. E o desejo não está interessado no ato sexual
senão na medida em que uma demanda possa estar
interessada no ato se×ual"13. ‹

O tempo lógico poderia referir-se ã identificação


sexual em dois planos: aquele onde ela está ligada a um
desejo, na relação do sujeito ao Outro“; e aquele dos valores
de gozo, na medida em que é posta em jogo a função fálica
com o quantificador todo nas fórmulas da sexuação.
As fórmulas da sexuação desvinculam a proporção
sexual, metade homem metade mulher, lugares de
encarnação onde o interesse do eu (moi) é dominante, dos
lugares de discurso que se situam em outra parte além de
uma relação de masculino a feminino (à la Fliess); estes se
situam por um modo de fazer argumento ã função fálica,
função terceira que torna impossível uma conjunção dos
gozos, pois ela é uma função suplementar para cada um
dos sexos e na sua relação um ao outro. O gozo sexual não
põe em relação homem e mulher, mas sim homem e
mulher, cada um dividido em relação ao seu modo de
enunciação, de declaração da função fálica.

lado dito homem


V x x (para todo x (D de x)
CD

El x(D× (existe x nao d>de x)

lado dito mulher


Vx x (não todo x CD de x)
(D
É x (DÊ (não existe x não CDde x) .

124
Essas fórmulas da sexuação estabelecem quatro
relações ao falo, cada uma fazendo disjunção entre um
lugar de enunciação, x, e um eiumciado lógico: uma variável
ligada (existe, para todo) e a negação. Quatro relações cujos
agrupamentos remetem, no discurso, ao que pode ser dito
homem ou dito mulher, e não partem de uma definição a
priori de classes que seriam lugares de identificação. O
impasse lógico do mito de Totem e Tabu (ao mesmo tempo
ele deve explicar a origem do complexo de Édipo e servir-
se deste para dar as razões do assassinato do pai) tem o
interesse de levar esse mito ao nível de estrutura. O mito é
uma tentativa de dar uma forma épica (é a retórica) àquilo
que se opera de estrutura. Lacan vê dois quantificadores
em ação neste mito. O universal é o de todas as mulheres de
que o pai gozaria. Este é um gozo absoluto, isto é,
etirnologicamente sem relação. Este pai mítico não tem
existência real: sua existência é puramente lógica, daí o
segundo quantificador existencial. Do lado masculino as
fórmulas se lêem: V x (D x, todo x está submetido à castração
e ao complexo de Édipo. Reciprocamente, é pela função
fálica que o x se inscreve como elemento de um todo.
El xÍIÍx ea exceção que confirma a regra. É aexistência desse

pai original de Totem e Tabu que, por seu gozo absoluto,


escapa ã castração. Do lado feminino, as fórmulas de Lacan
escrevem que não há exceção que negue a função fálica
(EI x (bx) e no entanto não há, ao mesmo tempo, o todo

assegurado pela função fálica (Vx (D x)“'”.


Como o tempo lógico poderia estar envolvido nessa
lógica da sexuação? "O Tempo lógico" se conclui por e com
uma afirmação universal, de uma maneira que certamente
difere de um silogismo aristotélico, já que a conclusão é
antecipada: "Afirmo que sou um homem, de medo de ser
convencido pelos homens de não ser um homem". No
entanto, trata-se realmente de uma conclusão que reserva
a determinação essencial do "eu" (je), isto é, seu valor
universal. Precisamente, em seus últimos comentários sobre
o tempo lógico, Lacan insiste na promoção que assim é feita
do universal no tempo lógico: "Esforço-me ali (no tempo
lógico) por nodular o tempo à própria lógica. (...) Até certo
ponto, conclui-se sempre demasiado cedo. Mas este cedo

125
demais é simplesmente o evitamento de um tarde demais,
isso está absolutamente ligado ao fino fundamento da
lógica. A idéia do todo, do universal, já é de alguma
maneira prefigurada na linguagem."“°
A questão que se coloca, pois, para nós, é a de saber
em que medida a versão masculina da não-relação sexual,
com seu quantificador para-todo, é envolvida pela maneira
com que o ato de concluir no tempo lógico promove uma
universalidade; inversamente, o que não é forçosamente
igual, em que medida a universalidade do tempo lógico
responde a uma versão masculina da sexuação?
Se tentarmos seguir um pouco este fio, poderíamos
dizer que o todo de para todo x CD x é representado pela
asserção de todos de serem brancos; a exceção existe x não
(D x seria representada pelo que o próprio Lacan, em "O
Tempo lógico", chama de atributo negativo, isto é, que
existe um círculo preto a menos que o número de sujeitos.
Por oposição, a vertente mulher, representada pelo
quantificador não-todo, seria logicamente não conclusiva.

NOTAS

' No original, I'étrernel, que reúne os termos éternel, eterno, e être, ser.
Reprod uzimos aqui o termo utilizado na versão brasileira do Seminário,
Mais, Ainda (NT).
' Em Inglês no original. (NT)

' J. Lacan, Encore, Seuil, 1975, p. 40. Ed. bras: Mais, Ainda, Rio de

Janeiro, jorge Zahar, 1985. '

2 Sessão de 21 de novembro de 1972, Encore, op. cit., p. 13.

3 Les Présocratiques, La Pleiade, Gallimard, p. 228.

4 lbid., p. 287.

5 A. Warusfel, Les nombres et leurs mystères, Points, Seuil, 1961, p.


135.

126
6 ¬¬
B. Russell, op. cit., p. 351.

7 N. Falleta, op. cit., p. 111.

Bj. Lacan, Encore, op. cit., p. 13.

9 B. Russell, op. cit., p. 359.

'° J. Lacan, Encore, p. 13.

1* ibid., p. 14.

12 J. Lacan, "Problemas cruciais para a psicanálise", seminário inédito,


13 de janeiro de 1965.

13 J. Lacan, "A lógica do fantasma", seminário inédito, 21 de junho de


1967.

“ Pode-se observar como os avatares do tempo lógico intervêm na


estruturação dos sintomas. No seminário "O desejo e sua interpretação"
(15 de abril de 1959), Lacan já sublinhava a importância do fator tem-
poral na estruturação dos sintomas: "É, com efeito, essencialmente esta
(hora de verdade) que distingue mais profundamente a fantasia da
neurose da fantasia da perversão. A fantasia da perversão é convocável,
está no espaço, suspende não-sei-que relação essencial. Ela não é,
propriamente falando, atemporal, mas é fora do tempo. A relação do
sujeito com o tempo na neurose é justamente essa coisa de que se fala
pouco demais e que no entanto é a própria base das relações do sujeito
com seu objeto no nível da fantasia. Na neurose o objeto se carrega
dessa significação que é buscada naquiloa que chamo a hora da verdade.
O objeto está sempre uma hora antes ou uma hora depois. essa
procrastinação do obsessivo fundada no fato de que ele sempre antecipa
tarde demais. O mesmo acontece com a histérica, repete-se sempre o
que há de inicial em seu trauma, a saber, um certo cedo demais, uma
imaturidade fundamental". No caso exposto por Freud em "O
Fetichismo" (1927, GW 14), há uma fixação espacial do tempo do olhar.
Devido às particularidades da educação do sujeito (educado na
lnglaterra, voltara depois à Alemanha, onde havia esquecido a língua
materna), seu sintoma (a condição do fetiche), Clanz auf der Nase
(brilho no nariz), deve se ler (o termo é de Freud): Glance (Blick) auf
die Nase (olhar para o nariz, sendo a palavra glance inglesa homofônica
com o alemão Glanz). No caso do sintoma, a preposição auf (sobre) e'
seguida de dativo para indicar que se trata de um complemento de
lugar, do lugar em que se encontra o objeto, o objeto fetiche revestido
de seu brilho fálico. Essa espacialização provém da transformação de
um tempo, de um momento: aquele designado por auf, seguido pelo
acusativo (auf die Nase) para marcar a direção, O movimento do olhar
(movimento e momento têm uma etimologia comum: o tempo é o
número do movimento, já dizia Aristóteles). Assim, inversamente ao
que se passa no tempo lógico, mas assumindo sentido a partir deste,

127
na formação desse fetiche particular pode-se observar a transformação
de um tempo em dado espacial.

15 Para os desenvolvimentos por Lacan dessas fórmulas da sexuação,

pode-se consultar mais particularmente os seminários "D'Un discours


qui ne serait pas du semblant", "Ou Pire" (ambos inéditos) e Encore
(Mais, Ainda).

ló Conferência em Genebra sobre o sintoma (Cf. Anexo I).

128
CAPÍTULO TRÊS

A Divisão Anarmônica

Antes de considerar a aplicação da divisão anarmônica


ao tempo lógico e a leitura que daí se deduz, devemos
lembrar por que Lacan introduziu esse cálculo, e suas
propriedades, por ele utilizadas.
A divisão anarmônica faz parte da geometria, mas
representa, nesta, uma impossibilidade: a de uma medida,
já que ela apresenta a medida não-comum de um valor ao
Um, medida não-comum que é traduzida por um número
dito irracional. A representação gráfica vem suprgça falta
da medida, como a diagonal do quadrado para \/2.
Lacan introduziu pela primeira vez a divisão
anarmônica em A Lógica do Fantasma (1967), como
metáfora da não-.existência do ato sexual, no sentido em
que este ato faria a conjunção, sob uma forma de repartição
simples, aquela evocada pela técnica usual do serralheiro,
das chamadas peça macho ou peça fêmeal. Ele volta a isso
em De um Outro ao outro (1969). Com a divisão anarmônica,
trata-se de medir o efeito de perda próprio a toda atividade
significante. A experiência testemunha que este efeito de
perda é reencontrado a cada passo, mas testemunha isso
referindo-o ao esquema de uma ferida narcísica. Entretanto,
não é porque alguma parcela que faça parte do corpo é dele
129
destacada que a ferida em questao funciona, e toda tentativa
de reparação, qualquer que seja, está condenada a prolongar
a sua aberração. O que está em questão, a ferida, se mantém
em outra parte, num efeito que inicialmente Lacan distinguiu
como simbólico. É na hiância que se produz ou se agrava
(pois ela já está lá, no organismo) entre o corpo e seu gozo,
na medida em que aquilo que a determina ou a agrava é a
incidência do significante, a incidência da marca, do traço
unário. Trata-se de medir o efeito dessa perda, do objeto
perdido, designado por a, nesse lugar sem o qual ele não se
poderia produzir, nesse lugar ainda desconhecido, não
medido, que se chama o Outro?
A divisão anarmônica é a mais notável das divisões
assimétricas de uma reta: a mediedade geométrica de
partição? É uma mediedade de três termos, dos quais o
maior é igual à soma dos outros dois. Os três termos a, b e
c são reunidos numa relação, uma proporção única. Ela
corresponde à divisão de uma reta AB onde o segmento
maior (CB = b) está para o menor (AC = c) como a soma
deles está para o maior. Seja:

A c“'
I
B
I
D
l

k C
`\`\`f~\'-~/“
_,/ _ b
` \- ____
//4
/' b
\-~--X
`\\_\___ ___..,.zz‹<'
.,.~

onde a = b+c.

e b = a = b+c
c b b

Se a = 1, temos b= É- 1 (termo médio)


2

e 1/ b = 1 + y 5 = número áureo designado pela


2 .

letra q› no começo do século.

A divisao harmônica se repete indefinidamente, se


prolongarmos a reta por um outro segmento igual ao
130
segmento maior, aqui, BD = CB. Este é o ponto de partida da
progressão ‹p . "Se uma reta é cortada em extrema e média
razão, e se acrescentarmos a ela uma reta igual ao segmento
maior, a reta inteira será cortada em extrema e média razão,
sendo o segmento maior a reta exposta em primeiro lugar"4.
Aqui, os segmentos terão os valores seguintes: se AB = 1,
AC=1, BC=l, AD=‹p .

«P «P2

Os três termos da primeira mediedade, pois, vão do


menor ao maior:
1, 1, 1 , e os três termos da mediedade superior: 1, 1, tp;
«P1 <v ‹v
Repetindo-se a operação anterior, isto é, acrescentando
o termo médio ao maior, obtemos uma terceira mediedade:
1, tp, ‹p2 (pois1 + tp = ‹p2). ‹p é, pois,arazão(relação entre
duas grandezas) da progressão; essa é uma razão constante.
A série é ao mesmo tempo aritmética (cada termo é asoma
dos dois precedentes) e geométrica (cada termo é uma
potência de tp e de seu inverso).
Além das particularidades dessa progressão, este
número tem propriedades notáveis que foram exploradas
pelos matemáticos, músicos, pintores, arquitetos... e pelos
psicanalistas.
Assim, Lacan vai formular (em "A Lógica do
Fantasma"):

a Um 1

A C B D

'-\.\__/5--\.- ¢o/.z\\\_,,/
|

b
z c b

Segmento menor (c) = objeto a; segmento maior (b) = Um e 1. O primeiro


Um metaforiza para Lacan o campo da unidade, no sentido de união, da
idéia da unidade do par, cujo modelo é a unidade mãe-criança, com a qual
a criança como a, produto do par, tem que se confrontar quando engajada
numa relação sexual. É daí que fala toda verdade, que não tem outra forma
que não o sintoma. O segundo 1 é o 1 da repetição, do traço unário no
lugar do Outro, aquele que vai repetir o primeiro quando o sujeito quiser
se contar como um na relação sexual, diante do Outro, quando quiser
identificar-se como parceiro sexual. Essa repetição reproduz a
incomensurabilidade do 1 e do a.

131
Com essas letras, 1 e a, como valores dos segmentos,
escreve-se a proporção ana rmônica, segundo as fórmulas já
dadas:

1=1+a=1+a
a 1

1- a = az

a=O,618...

a, o nome de um número
Podemos nos surpreender com o fato de Lacan
identificar a a um número, mas não é a primeira vez que
isso acontece. já em A Identificação, a propósito da aparição
do olhar dos cinco lobos no sonho do Homem dos Lobos,
Lacan notava que o objeto a "porta o número consigo, como
uma qualidade" (20 de junho de 1962). «

O número irracional, ao qual a está identificado (já


que ele tem \Í 5 em sua cifra), faz sentir a pertinência dessa
afirmação. Só se conhece este número por aproximação,
como diz Guilbaud5: 1,618... (a série de algarismos é
infinita, sempre faltará um). Enquanto tal, o número
irracional "fala" pelo objeto perdido. O objeto é, por definição
(freudiana), perdido: ele é sempre apenas reencontrado
(Wiederfindung), enuncia Freud em Três Ensaios sobre a
Sexualidade.
O objeto é parcial, mas sua parcialidade não faz parte
de um todo, de uma unidade: ele não tem medida comum
com a Lmidade. Existe um (a) resto ineliminável da operação
de divisão do Outro (A cifrado 1) pela demanda (D):

Av__D_°
a S

~ z
Dizer que a nao e parte de uma unidade ez dizer que i

ele não tem medida com um com o 1: a divisão anarmônica

132
nao diz outra coisa. O número 0,6l8... (inverso do número
áureo) é uma maneira de nomear a como resto; restam
cifras a 0,618, pois este é um número irracional, do qual só
se fixa o valor por aproximação; não há uma cifra justa.
O irracional é um número limite: ele só é atingido no
limite, mas também enquanto nome ele faz limite. À noção
de irracional correspondem, em grego, diversas expressões.
Eis algumas delas: arrhèton, aquilo queé indizível, inefável;
assumètron, incomensurável; alogon, aquilo que não tem
razão, nem a unidade como medida comum. Por "um
desses rebuscamentos de pensamento e de expressão que
sempre anunciam, em Platão, algum traço de luz ofuscante,
o irracional se torna, ao contrário, aquilo que só pode ser
nomeado." a é o nome desse objeto elementar, tal que
"seria impossível dizer qualquer outra coisa sobre ele, nem
que ele é, nem que ele não é; é impossível formular um
qualquer desses dados primeiros por meio da linguagem;
pois, para ela, nada é possível, senão denomina-lo apenas,
já que sua nomeação é a única coisa que lhe pertence"8.

a, o resto da uniao
A divisão anarmônica é a metáfora daquilo que se
passa a partir do momento em que o sujeito, como produto
("dejeto", diz Lacan) de uma história, tenta projetar seu ser
sobre o ideal de uma fusão unitiva. Ele se confronta com a
unidade instaurada pela união da criança com a mãe, que
serve igualmente de modelo para a união dos sexos. Uma
união vale uma outra união. Na relação sexual, o sujeito é
sempre confrontado com seu laço materno da unidade e a
união sexual repete a união materna. A divisão anarmônica
inscreve essa repetição do um 1 (unário, de contagem) que

zig'
j

-
repete o Um (de união).
-
com relação à idéia de par ali
onde ela se encontra no registro subjetivo que o sujeito
tem que se situar numa proporçao que ele pode chegar a
r estabelecer, introduzindo uma mediaçao
.. . . ç .
externa ao
,. ,,
enfrentamento que ele constitui, como sujeito, a ideia de par °.

A projeção de a sobre Um e 1 revela o incomensurável

,
iss
de a a 1.
a operação -
Há um resto ineliminável: a2 = 1 - 2. Reproduzindo
é a isso que Lacan chama sublimação
potências pares e ímpares de a se repartem em tomo de um
as -
ponto que converge para reproduzir az, a falta inicial.

a a3 az a2

2:3 a*

Isso é o que Lacan designa, com justeza, como cortew; i

z
é fácil ver que elas irão ao encontro uma da outra, ate, se
totalizar em um: o ponto onde se produzirá o corte entre as
potências ímpares e as potências pares é fácil de calcular:
esse ponto é, muito precisamente, um ponto determinado
pelo fato de ser igual ao az que se produzia inicialmente.
Essa reprodução da falta que chega a estreitar 0 ponto em
que seu corte último equivale estritamente à falta inicial, az,
é o de que se trata para Lacan em toda obra de sublimação
completada”. Há uma convergência das potências pares e
ímpares de a nesse ponto de corte, que se constitui, portanto,
como limite da adição. Esse limite é 1, pois que a2 + a = 1.
Em De um Outro ao outro, Lacan dá ênfase ao fato de
que é pela própria operação de adição separada das potências
pares, por um lado, e das potências ímpares, de outro, é que
encontramos efetivamente a medida desse campo do Outro
como Um, isto é, algo além de sua pura e simples inscrição
como traço unário”.

134
NOTAS

1 J. Lacan, "A Lógica do fantasma", seminário inédito, 10 de maio de


1967.

2 ]. Lacan, "De um Outro ao outro", seminário inédito, 22 de janeiro de


1969.

3De acordo com a expressão de PH. Michel, De Pythagore ã Euclide,


Les Belles Lettres, Paris, 1950, excelente obra a que muito nos referimos
para a elaboração deste capítulo.

4 Euclides, Elements, citado por P.H. Michel, p. 606.

5 T. Guilbaud, Leçons d'a peu prês, Ch. Bourgois, Paris, 1985.

6 ]. Lacan, "O desejo e sua interpretação", seminário inédito.

7 P.H. Michel, op. cit., p. 516.

8 Platão, Théêtete, Pleiade, Gallimard, 1950. Oeuvres complètes, vol.


ll, p. 178.

° J. Lacan, "A lógica do fantasma", inédito, 1° de março de 1967.

Dedekind -
Les Nombres, Bibliothèque Ornicar -
Falar de corte quanto à divisão anarmônica remete ao achado de
para definir as
irracionais sobre o contínuo da reta: "Se todos os pontos da reta forem
repartidos por duas classes, tais que todo ponto da primeira classe esteja
situado à esquerda de todo ponto da segunda classe, existirá um só e
único ponto que opera esta partição de todos os pontos em duas classes,
este recorte da reta em duas porções" e "cada'vez que estamos na
presença de um corte não produzido por um número racional, criamos
_ um número novo, irracional, x, que consideramos como perfeitamente
definido por este corte; diremos que o número x corresponde a este
corte, ou que ele opera este corte". Warusfel, em op. cit., p. 55-56, dá
uma boa representação disso:

,||||||||||u||||u luuu|||||||||||m|||u|m

Definição de \/2 por um corte:


(1)2 <2< (2)2 logo 1<\/í`<2'

(1,4)2 <2< (1,5)2 loga 1,4 <Jã¿1,5


(1,41)2 <2< (1,42)2 logo 1,41 <\/2<1,42
etc...
\/2 = 1,414...

135
z
É'
Se representarmos os enquadramentos sucessivos dados por nossos
cálculos por manipulações de duas bandas de papel, que deslocamos
diante de umarégua graduada, as distâncias serão, respectivamente,
de 1 cm, 0,1 cm, 0,01 cm, 0,001 cm, etc. As duas bandas vão se aproximar
incessantemente, sem nunca se encontrarem de todo. O termo que
simboliza este pseudo-contato, de tamanho menor que qualquer
tamanho dado antecipadamente, é um corte. A imagem é bastante boa.

“ ]. Lacan, "A lógica do fantasma", 8 de março de 1967.

'Z J. Lacan, "De um Outro ao outro", 22 de janeiro de 1969.

136
ff zz V Íz' +\zz~
×
11:,

CAPÍTULO QUATRO

Releitura do Tempo Lógico com a


Cifragem de 1973 .

A resolução do sofisma de Aquiles faz intervir a .

incomensurabilidade de dois limites que coincidem no


limite. Sendo esse limite finito, o tempo para atingi-lo pode
ser formulado como finito. Mas em que momento se decide
que a série converge para um limite finito? O momento da
passagem ao limite fica a critério do sujeito que raciocina,
sem que o tempo levado no raciocínio intervenha de uma
maneira qualquer nessa passagem. Poderíamos dizer o
mesmo da divisão anarmônica. Com a ressalva, porém, de

/
que neste caso há um recorte (de a sobre 1) que permite um
equacionamento. Mas também poderíamos dizer que não
há necessidade intrínseca, no cálculo da divisão anarmônica,
de que se atinja esta equação num tempo dado. Isso significa
que, seanarrnônica permite uma formalização do
tempo lógico, essa formalização não pode substituir
inteiramente o próprio tempo lógico; com efeito, no tempo
lógico, o tempo para chegar à conclusão é, ele mesmo,
tomado como elemento determinante dessa conclusão.
O aporte da divisão anarmônica ao tempo lógico e
seu interesse com relação ao Sofisma de Aquiles é nomear
o objeto em função do qual se produz esse momento de
concluir. Mas o inverso não é verdadeiro: isso não significa

137
que o momento de concluir esteja na divisão anarmônica:
só é necessário o tempo lógico.
A cifragem de 1973 exclui que os três prisioneiros
sejam uns entre outros (uns). Ela conceme essencialmente
as relações que nodulam os sujeitos entre si na sua relação
ao Outro. Esses sujeitos são posicionados pelo fato de
serem objetos de olhar. Isso não quer dizer jquewios três

/'FMA
sujeitos sejam três objetos a. Eles são três tobjetosèque
tentam encontrar sua ideritidade.Puma medida comum .CEE
-
Mas haverá relação entre o que eles são, como objetos a, e
~ 'li Q

aquilo pelo que eles se definem como um? Será pela


' afirmação de um comum que eles se definem como cada
um? Haverá relação entre o que são e o que afirmam ser?
O notável é que, justamente, eles afirmam sua
identidade no próprio momento em que se objetiva que
\Qe§wnã9__»tçê;mjmedida comum. Sua afirmação faz medida
comum, mas esta não se sustenta a não ser pelo fato deonão
haver medida comum. E a esse hiato, esse corte, cifrado
pela divisão anarmônica que está»l_i_gaWd_g›Mo¿a_t`ç_¿jde_g_c_›_n_çluir,.,
Lacan diz que "eles são trísímas na realidade eles são
2 + a":
Retomando as letras A, B, C, para os três sujeitos,
expõe-se:
A é a, objeto do olhar para B e C, contados como 1 por
A. Então, temos:
A B C
I I I

a 1 1 = 2+a= 1 /a2

Lacan acrescenta: "Esse 2 + a, no ponto do a, reduz-se


a um 1 + a".
Com efeito, A, tendo-se formulado como preto,
imagina que B se coloca como visto preto por C, portanto B
se toma a para C, e temos:
B + C
| | j
a + 1

O que dá no total: A,B,C = 2a e 1.

Pode-se considerar que nesse momento se coloca a

138 l
série de restos, que vai decrescendo, os a rebatidos sobre 1:
a2, a3, a4 equivalendo a 1 - a, Za - 1, 2 - 3a, ..., na medida em
que A pensa: C fica, B fica
Esse seria, então, o tempo para compreender.
Se f°fmu1fm°S umë3_§1uwêlšfnÇiê,§i9§.êy.i¢.it9S mm
os segmentos da divisãolanarmônica, tal que:
C = soma dos dois segmentos. Aquele que
sairia imediatamente se visse dois pretos,
B = segmento maior,
A = segmento menor,
o raciocínio feito por A pode-se exprimir nos termos da
divisão anarmônica:

sujeitos: B está para A como C está para B,


segmentos: o segmento maior está para 0 menor
como a soma deles está para o maior.

Este momento, o tempo para compreender,


corresponderia assim à formalização da equação: 1 /a = 1 +
a, que se leria: A, dividido pelo objeto olhar (entre aquele
que ele acredita ser, preto, e aquele que ele é para o outro,
branco ou preto), é igual, semelhante a B e C, isto é, 1 + a,
pelo fato de que os outros também se detêm na primeira
escansão.
A segunda escansão, determinando o momento de
concluir, corresponderia à objetivação de a sob a forma
disso a que se chama desenvolvimento em ¶ua¿
a = 1

1 + 1

1 + 1

1 +

Esta escritura é a mesma de Lacan, desde 19621, para


sua leitura do Cogito em sua analogia com o tempo lógico.
Essa analogia não é forçada, já que, no tempo lógico, existe
também a passagem de um "eu penso" (eu penso que sou
preto e eu penso que deduzo daí que sou branco) para um
"eu sou" (eu afirmo que sou branco num momento de
ruptura com meu "eu penso").
O "penso logo sou" de Descartes pode-se escrever:

139
"Eu penso: "logo eu sou". O "logo eu sou" não é um
pensamento? Deve-se portanto, escrever: "Eu penso que eu
penso "logo eu sou", logo eu sou". Ê como um jogo de
espelhos, onde o "eu sou" se furta. Será um infinito?
"Certamente que não", responde Lacan, e põe-se a falar
nesse momento de "meu pequeno sofisma pessoal", do
qual ele lembra a função das escansões na "limitação de
todas as possibilidades contraditórias". Para o Cogito, diz
ele, há alguma coisa de análogo: "l\lão é indefinidamente
que se pode incluir todos os "eu penso logo eu sou" num "eu
penso". Onde está o limite?" Como todo o mundo, Descartes
vai tentar uma saída pela identificação, que é a do traço
unário. E Lacan propõe cifrar por um o "eu penso" a fim de
poder decidir como vai se constituir a identificação num "eu
sou": "Se é por um que nós figuramos esse "eu penso",
repito para vocês, na medida em que ele só- nos interessa
enquanto tendo relação com o que se passa na origem da
nomeação, na medida ernmghue o que intere_ssa,çiao
nascimento do sujeito ¬¿¿/o sujeito é o que se nomeia J-
nomear-se é em primeiro ”lü'ga”ralgóique tem a ver com uma
leitura do traço um designando a diferença absoluta,
podemos nos perguntar como cifrar a espécie de "eu sou"
que aqui se constitui, de alguma maneira, retroativamente,
simplesmente pela reprojeção daquilo que se constitui
como significado do "eu penso", a saber, a mesma coisa, o
desconhecido daquilo que está na origem sob a forma de
sujeito”. Êassim que, admitindo pular etapas intermediárias
(!), Lacan escreve a série convergente de:
1 + 1

1 + 1

1 + 1

1 +

que tende para o limite 1 + gl 5


2
que é o número áureo (cujo inverso é o objeto a,e é por isso
que aqui a fração contínua difere daquela que escrevemos
anteriormente).
Nossa hipótese para o tempo lógico se esclarece, pois,
por essa analogia com o Cogito assim cifrado.

140
Como sublinha Lacan em 1973, existe na divisão
anarmônica algo que concerne especialmente aquilo para o
que tende o Sofisma, o momento de concluir, devido ao
hiato entre a dedução pela qual o sujeito se pensa branco e
o ato pelo qual ele o afirma, que se antecipa ã certeza, à falta
do que ele não saberia mais se está ou não incorrendo em
erro.
Nesse momento, há separação entre a e A. No
momento em que o sujeito renuncia à sua hipótese falsa e
se objetiva como ser visto, pensado, dependente do olhar
do Outro, ele inverte essa alienação afirmando uma
identidade. Ele afirma um Eu que deve sua certeza a uma
antecipação, ao vazio de uma antecipação.
Dol de identificação (ol fundamento da identificação
subjetiva original) ao disco branco que ele é, de fato, ao 1
que ele afirma, do "eu penso" ao "eu sou", a relação é
incomensurável. Âap resentação em fração continua é uma
apresentação desse`cõTf€;f,""dššia”frÍítLíraÊ dl\`/Íallswessalllllclivisão
temwüwmllliiriitëfiëñcontrlado depois de duas escansões: o
próprio limite do objeto ao qual o sujeito se identificou
durante seu raciocínio, e que mede a incomensurabilidade
de sua relação ao outro, ao mesmo tempo que a de seu "eu
penso" com seu "eu sou", já que seu "eu penso" é um "ser
pensado" pelo outro.
O ato de nomear um disco de identificação no
momento de concluir supre essa falta de medida comum;
há uma dimensão de falha inerente ao ato, na qual Lacan
insistiu a partir de 19674. A pressa de concluir é função do
objeto a, aqui o olhar“, que se objetiva na defasagem
temporal entre o que seria visto realmente pelo outro e o

- -
que o sujeito supôs ser visto. A conclusão não procede de
uma coincidência entre o visto pelo outro e o suposto
pelo sujeito, mas da discórdia dos dois. A pressa da conclusão
vem do hiato entre a representação (vista pelo outro) e o
representante da representação (o suposto) selando-os como
encontro faltoso.

141
NOTAS
' J. Lacan, "A identificação", 10 de janeiro de 1962, inédito.

2 Ibid.

31. Lacan, "De um Outro ao outro", 29 de janeiro de 1969, inédito.

4 "Minha proposição jaz neste ponto do ato pelo qual se verifica que ele
jamais tem tanto êxito quanto em falhar, o que não implica que a falha
seja o seu equivalente, em outras palavras, que possa ser considerada
como êxito." Discurso à EFP, 6 de dezembro de 1967, in Scilicet 2/3, p.
12-13. Essa passagem sobre o ato está ligada ao tempo lógico. Lacan
fará seu seminário de 1967/68 sobre o ato analítico; ali ele irá frisar que
Freud, na Psicopatologia da Vida Quotídiana, falou precisamente do
ato como ato falho. Os atos falhos são atos significantes. Eles nos
transmitem algo de maneira original, que marca uma luz. Toda tentativa
de interpretação representa, em relação ao modo "não tão idiota" de
dizer do ato falho, uma certa forma de "desconhecimento", que o faz
cair de seu nível.

5 Lacan não diz explicitamente que o objeto a, no tempo lógico, é o


olhar. Ele se situa no nível da nomeação do objeto a como tal, sejam
quais forem as suas encarnações. Tudo conduz, porém, a fazer do olhar
o objeto a privilegiado do tempo lógico.

142
CAPÍTULO c1Nco

Olhar e Tempo Lógico

A partir do texto de Mais, Ainda, a função do olhar


no tempo lógico pode ser explicitamente referida ao objeto
a como tal. Já se sabia que se trata do olhar no tempo lógico:
é a partir do que os prisioneiros vêem, não vêem, são vistos,
que eles concluem, sem falarem sequer uns com os outros.
Em contrapartida, devem falar com o diretor. Mas essa
função do olhar ainda não tinha, para o tempo lógico,
recebido seu nome de objeto a.1 Essa nomeação muda a
maneira pela qual se pode abordar a "intersubjetividade"
do tempo lógico. Vamos apreciar essa mudança,
aproximando dois textos de Lacan: o Seminário sobre A
Carta Roubada (1956) e a Homenagem a Marguerite Duras,
sobre O deslumbramento de Lol. V. Stein (l965)2. No
primeiro, anterior ã nomeação do objeto a, o próprio Lacan
liga a intersubjetividade, segundo a idéia que dela se faz na
época, à função do olhar no tempo lógico. Na homenagem,
somos nós que voltamos a ligar a função que Lacan ali faz
desempenhar o objeto a olhar no tempo lógico cifrado pela* qf

_\¶y/i§ã_g_a`q1laM_rmônica, para ilustrar essa cifragem e mostrar


A
suas conseqüencias sobre o tempo lógico.
(

143
/ rj
/jr
6?

O Seminário sobre a "Carta Roubada"


O complexo intersubjetivo se repete no conto de Poe,
diz Lacan, em duas “ações semelhantes": a cena primitiva
entre o rei, a rainhame o/riíinísitroye a segunda cena, entre
Dupin, o¿'ministrd“e a políciaf
Com freqüência, comentou-sea tese de Lacan segundo
a qual o trajeto da carta faz permutar os personagens no
decorrer das duas cenas, mas ainda não se enfatizou que as
permutações dos três lugares devem ser encaradas em
conjunto com os três tempos lógicos pelos quais a decisão
se precipita: "Essa decisão se conclui no momento de um
olhar... Esse olhar supõe dois outros que ele reune numa
visão da abertura deixada em sua falaciosa
complementariedade, para ali antecipar sobre a rapina
oferecida nessa descoberta. Portanto, três tempos,
ordenando três olhares, suportados por três sujeitos, cada
vez encarnados por personagens diferentes. O primeiro é
um olhar que nada vê: o Rei e a polícia. O segundo, um l
olhar que vê que o primeiro nada vê e se engana por ver
j z

z
l oculto aquilo que ele esconde: e a Rainha, e depois og
i

ministro. O terceiro, que desses olhares, vê que eles deixam
l

o que se deve esconder a descoberto para quem dele sei


1
quiser apoderar: é o ministro, e, enfim, é Dupin"3.
Esse módulo intersubjetivo é uma condensação entre
A A z z A '
tres tempos e tres sujeitos do tempo logico, ja que os tres
tempos ordenam três olhares, suportados por três sujeitos.
Se retomarmos as três letras A, B e C, que designavam os
três sujeitos do tempo lógico, as correspondências seguintes
se estabelecem: C com o primeiro olhar, B, com o segundo,
A com o terceiro.
C, o primeiro, é um olhar que nada vê: aquele que não
vê dois pretos. É o instante de ver.
B, o segundo: um olhar que vê que o primeiro nada
vê. E o tempo para compreender.
A, o terceiro, que desses dois olhares, vê que eles
deixam o que se deve esconder a descoberto para quem
dele se quiser apoderar: o sujeito da asserção que vem
concluir por si só. É o momento de concluir.
Esse módulo subjetivo se repete a cada ação.

144
Será que a referência ao tempo lógico permite ir mais
longe e, por exemplo, identificar as duas ações às duas
escansões, realizando assim esse modelo formal da Carta
Roubada reunido ao tempo lógico que se desejava?
Não é possível, pois há descontinuidade de
personagens entre a primeira e a segunda cena. Seria como
se, durante a cena dos três prisioneiros, estes fossem
substituídos por três outros prisioneiros. Tal hipótese vai
contra a noção de progresso lógico que a própria noção de
escansão sustenta.
Além disso, Lacan escreve que as duas ações são \
semelhantes. No tempo lógico, as duas ações não são `

semelhantes, já que há entre elas, precisamente, um \, 323,.


3
É/

progresso lógico. Tal não é o caso do conto de Poe, que \

termina com a declaração sintomática de Dupin.


Não se vê claramente por quê o processo não haveria
de continuar. O ato de concluir, pondo um ponto de
estancamento à repetição das ações,não surge como no
sofisma de uma necessidade temporal intema.
De modo que chegamos a nos perguntar se a
argumentação de Lacan, que identifica as duas ações
semelhantes ao automatismo de repetição* não oculta, na
época (1956), uma falha que ele se dedicará a corrigir
quando, em 1966, afirma que o dois da repetição não
completa o um para fazer dois, mas deve repetir o um para
permitir-lhe existirã. .

Homenagem a Marguerite Duras, sobre o


Deslumbramento de Lol. V. Stein
Ainda que este texto não fale explicitamente sobre o
tempo lógico, ele vem ao encontro de nossos objetivos.
Como no seminário sobre A Carta Roubada, Lacan coloca
em evidência, no romance de M. Duras, uma repetição de
situações de três personagens, situações que ele chama de
"temários".
Primeiro temário: o de Lol, M. Richardson e A. M.
Stretter, na cena do baile, no cassino de T. Beach. É a cena
inaugural do romance, onde Anne-Marie Stretter rouba o
145
noivo de Lol, M. Richardson. Lol fica estática e muda
durante a cena, à qual ela assiste, e desaparece depois da
partida do casal.
Segundo ternário: Lol, Tatiana, J. Hold, na cena em
que Lol, sabendo-se vista porj. Hold, fica deitada no campo
de centeio, diante da janela do quarto de hotel onde J. Hold
- possui Tatiana "sem piedade": "Devia fazer uma hora que
estávamos ali todos três, que ela nos tinha visto,
alternadamente, aparecer no enquadramento da janela,
esse espelho que nada refletia e diante do qual ela devia
sentir, deliciosamente, aívicção desejada de sua pessoa"“.
Esses dois teniárioscçšëräómpostos de personagens
do romance. A partir daí, Lacan traz correções e inovações
com referência ao esquema da Carta Roubada.
Por um lado ele acrescenta um terceiro temário que
inclui, e que é "exterior" ao romance: J. Lacan, M. Duras
(ep ônimo de Margarida de Navarra, autora do Heptameron,
referência ao amor cortês e à sublimação), o
"Deslumbramento de Lol. V. Stein" tomado como objeto.
Este terceiro temário se atém ao fato de que J. Hold é ao
mesmo tempo parceiro de Lol e narrador do relato de
Marguerite Duras, "seja como for, não é simples
demonstrador da máquina, e sim uma de suas molas, egnãof
sabe tudo oque ele assume Í

Por outro lado, Lacan não fala mais em ações


semelhantes, nem mesmo de repetição, no que concerne o
primeiro e o segundo ternários: "Vai-se pensar, seguindo
algum clichê, que ela (Lol) repete o acontecimento. Mas,
olhemos um pouco mais de perto... Não é o acontecimento,
mas um iiónqiiensemrepete lã é o que esse nó encerra que
Tieslumbra, propriamente, mas, aqui ainda, quem ? Ha ai
uma abordagem à qual Lacan mais tarde fará eco. Definindo .pf

o ponto, não mais como intersecção de duas retas, (o que o l§š~K.›Í`¿,i

deixa sem dimensão), mas como ponto de estiramento de Try/


um nó borromeano de três consistências, Lacan sugere: "O i '

espaço 'implica o tempo e o tempo talvez nada mais seja que


uma sucessão de instantes de estiramento"8.
Ainda que o tempo lógico não seja mencionado na
Homenagem, trata-se ali do tempo: "Basta seguir Lol,
capturando, na passagem de um ao outro, esse talismã de

146
que cada um se livra ap ressadamente, como de uma ameaça:
o olhar". A ligação entre a pressa e o objeto a, precisamente,
é o resultado da cifragem do tempo lógico em Mais, Ainda.
Partindo, pois, de um mapeamento da ação e das
relações entre os personagens bastante comparável à da
Carta Roubada, Lacan não enfatiza a permutação dos
personagens em função do trajeto de uma carta, mas sim a
relação do sujeito ao objeto a, o olhar, que ele chama de esse
talismã, na medida em que cada um se desembaraça dele às
pressas, e na medida em que não é Lol quem olha, quando
no entanto parece ser ela a observadora, deitada no campo
de centeio diante da janela do hotel onde J. Hold exaure sua
amante, mas onde "o que se passa a realiza".
Nesse sentido, esse "a" que designa Lol, designa-a
como "ser a três". "Onde se vê que a cifra deve ser nodulada
de outra maneira: pois, para compreendê-lo, é preciso
contar-se três".
A fórmula "ser a três", da qual se compreende a
adequação ao tempo lógico, encontra, a nosso ver, sua justa
interpretação com o cálculo da divisão anarmônica. Na
cena do hotel, Lol vê Tatiana como objeto a, objeto do desejo
de J. Hold tomado como Um que ao mesmo tempo a vê, a
ela, Lol: -ela é a diante de 1 + a. Então alguma coisa a realiza,
permite-lhe uma fantasia, vamos compreender, ali mesmo
onde nenhuma fantasia lhe permite, na primeira cena do
baile, tolerar Anne-Marie Stretter, objeto do desejo de M.
Richardson. Mas o que a realiza nesse momento vai
novamente "dissipar-se" ("a crise está aí", diz J. Hold, que se
dá conta: ela "enlouquece", diz Lacan), quando J. Hold faz
par com ela, quando ele quer fazer dois, quando quer
compreendêfla: porque, com efeito, o ser a três de Lol se
sustenta da incomensurabilidade da relação, porque ela
não pode ser compreendida, apreendida, salvo à maneira
de uma garrafa de Kƒlejri ou de um plano projetivo. "Você
foi... o centrdãašlhares. O que esconde essa locução?",
pergunta Lacan, "o centro não é igual em todas as superfícies.
Único num plano, em toda parte numa esfera, numa
superfície mais complexa isso pode dar um nó estranho. É
o nosso. Pois vocês sentem que se trata de um envelope sem
ter dentro nem fora, e que na costura de seu centro se

147
voltam todos os olhares no seu, que eles sao o seu que os
satura que para sempre, Lol, você reclamará a todos os
e
passantes"°.
A multiplicidade de sujeitos do ser a três realiza Lol
como olhar, na fantasia. Na fantasia ($ <> a), há inversão de
a e $, isso que Lacan atualiza, traçando o nó de uma
equivalência entre $ e a em Mais, Ainda. 1° Essa equivalência
dá conta de que o sujeito é, ao mesmo tempo, o suporte
imaginário que o sujeito se dá, no momento em que desfalece
na sua designaçao de sujeito, diante da carência do
signicante que representa seu lugar do Outro, e o objeto
cuja apreensão divide de maneira traumática o sujeito”.
N omeando o objeto a no tempo lógico, Lacan desloca
a noçao de intersubjetividade em direção à fantasia e
contribui, assim, para sua lógica.
Nos últimos seminários de Lacan, vai-se tratar da
fantasia na medida em que, referida a um axioma, ela
constitui um modo de acesso a um real do qual Lacan
procura se assegurar através da topologia do nó
borromeano”. '

NOTAS
l Como lembra Lacan em "Les non-dupes errent", o objeto a é solidário

do grafo. Ele é nomeado como tal por Lacan no final de seu seminário
"As formações do inconsciente" (26 de março de 1958) e retomado
longamente em "O desejo e sua interpretação", em função da fantasia,
de cuja fórmula ($ <> a) participa.

2
O seminário sobre "A Carta Roubada" foi publicado inicialmente em
La psychanalyse, PUF, vol. ll, 1957; em seguida nos Êcrits. A
homenagem foi publicada nos Cahiers Renaud-Barrault, dezembro de
1965. '

3
J. Lacan, Écrits, p. 15.

4
lbid.

5
]. Lacan, "De la structure comme immixion d'une alterité, préalable
z/Í7

148
à quelque sujet que ce soít", Baltimore, 1966, na tradução francesa de
A. Fontaine.

6 M. Duras, Le ravissement de Lol V. Stein, Callimard, Paris, 1964, p.


124.

7 ]. Lacan, "I-Iommage".

/BJ. Lacan, "Les non-dupes errent", seminário inédito, 11 de dezembro


de 1973.

°]. Lacan, "I-Iommage", op. cit.

A inversão de
*° $ e de a na fantasia é apresentada por Lacan em Mais,
Ainda, p. 123.

" Cf. "Le fantasme, un nouage h(â)té", Littoral, n° 22.

12Cf. ]. Lacan, "Le moment de conclure", seminários de 15 de novembro


.de 1977 a 20 de dezembro de 1977. Lacan apresenta uma amarração
borromeana (de seis consistências) do "acoplamento do real e da fanta-
sia". ]á em "L'Étourdit", p. 34, Lacan confirmava que é pelo discurso
mais esvaziado de sentido que seja, da topologia, "onde se funda a
ralidade da fantasia, que, desta realidade, o que há deNrealqse"_\¿ê_.h1scrito."

`
149
Quarta Parte

A RELAÇÃO NÃO
COMPLEMENTAR ENTRE
OS SUJEITOS
Após 1973 E
CAPÍTULO UM

~
Uma Continuaçao à Escritura do
Objeto a i

A cifragem de 1973 nao é a última palavra de Lacan


sobre o tempo lógico: ela representa, no entanto, uma
virada decisiva que irá marcar seus retornos ulteriores ao
tema, na maior parte bastante breves, mas densosl.
O primeiro, e o mais longo, desses retornos se encontra
em Les Non-Dupes Errent, em 9 de abril de 1974. É a partir
dele que vamos indicar a seqüência que Lacan dá ao tempo
lógico depois de 1973. Citaremos integralmente o
desenvolvimento sobre o tempo lógico, sublinhando as
passagens que iremos comentar especialmente. A primeira
dessas passagens conceme o que o próprio Lacan indica
como continuação ao tempo lógico: fazer superfície e tempo.
A segunda se refere à questão da identificação dos
prisioneiros, ligada ao seu modo de relacionamento. A
terceira sugere uma comparação entre a multidão freudiana
e a coletividade do tempo lógico, que permitirá uma ligação
com nosso ponto de partida.
"Há tempos, fiz um negócio que se chamava 0 Tempo
Lógico. E é curioso que eu tenha posto no segundo tempo
o tempo para compreender, o tempo para compreender o
que há para compreender. Esta era a única coisa, nessa
forma que fiz tão depurada quanto possível, a única coisa
153
que havia a se compreender. Esta era a única coisa, nessa
forma que fiz tão depurada quanto possível, a única coisa
que havia a se compreender.E que o tempo para
compreender não funciona se não houver três. A saber, o
que chamei o instante de ver, depois a coisa a compreender,
e depois o momento de concluir; concluir, como creio ter
sugerido o bastante naquele artigo, concluir obliquamente.
Sem o que, se não houver esses três, nada há que motive
o que manifesta, com clareza, o dois, a saber, essa escansão
que descrevi, que é a de ,uma parada, de um cessar e de um
recomeçar.
Graças ao quê, é evidente que esses são os únicos
movimentos convincentes, que só valem como prova

que se trata de saírem da prisão -


quando os três personagens, sobre os quais vocês sabem
como por acaso -
apenas no só-depois dessas escansões que eles podem fazê-
é

lo funcionar como prova, isto é, fazer o que lhes é pedido,


não epenas que saiam, o que é um movimento bem natural,
mas no quê eles são idênticos, a saber, cada um estritamente

preta ou branca, nas costas. Eles não podem


é pedido
-
aos dois outros. Eles têm o mesmo disco, a mesma rodela,

- o que lhes
dar explicação para isso, senão a partir do fato
de que todos fizeram o mesmo balé para sair. Esta é a única
explicação.
Esta é uma via absolutamente, enfim, absolutamente
encantadora, para explicar isso, isso que é muito mais
evidente, é que isso não comporta entre eles nenhuma
espécie de identidade de natureza, senão a ilustração, o
comentário à margem que eu dou, a saber, que é assim que
os seres imaginam um universalidade qualquer. Não há
-já
-
traço nesse apólogo que é de um apólogo que se trata
não há traço nesse apólogo da mínima relação entre os
prisioneiros, pois que é justamente isso o que lhes é
proibido, comunicar-se entre eles; eles são simplesmente,
identificando-se ou distinguindo-se (outra versão:
identificam-se ou distinguem-se) por ter ou por não ter um
disco branco ou um disco preto às costas.
Que me desculpem por ter-me estendido tanto aqueles
que nunca abriram os Êcrits, deve haver muitos aqui neste
caso, certamente. Definir, pois, aquilo que, num conjunto

154
de dimensões, faz ao mesmo tempo superfície e tempo,
eis o que lhes proponho como continuação, meu Deus,
como continuação ao que eu lhes propunha como o tempo
lógico em meus Escritos (outra versão: ao que lhes propús
sobre o tempo lógico nos meus Escritos).
(...) Este é todo o trabalho da organização, da
organização imaginária, se podemos dizer: simular, simular
com a multidão, porque esta é a outra face do que chamei
há pouco a escolha, o grupo, simular com a multidão -e

-
sempre temos de lidar com isso para daí recolher um
grupo simularcom a multidão algo que funcione como
um corpo"2.
já que Lacan propõe como continuação ao tempo
lógico dos Écrits "fazer a uma só vez superfície e tempo", é
disso que vamos tentar situar a importância para começar.


Fazer a uma só vez superfície e tempoíí//.
s ly)
/ É

Este programa nao é tao surpreendente quanto


parece. Lembramos que, desde 1945, o tempo lógico é por

de dados espaciais --
si mesmo a apresentação de uma transformação subjetiva

discos brancos e pretos


as três combinações possíveis de
em tempos? Transformação que
se verifica no momento das escansões e representa a
subjetivação propriamente dita.
Les non-dupes errent marca, entretanto, uma
insistência da parte de Lacan, em particular no a uma só
vez. Não se trata apenas de passar do espacial ao temporal,
trata-se de realizá-los ao mesmo tempo. Isso já foi tentado
por Lacan com a garrafa de Klein. Como virnos, a superfície
é convocada a título de uma escritura. A superfície são as
duas dimensões que a constituem, e que servem à inscrição
da rede de significantes que representam o sujeito. Ê por
isso que Lacan se autoriza a falar do sujeito como de uma
superfície? Mas, sem dúvida, a realização da garrafa de
Klein não basta para satisfazer Lacan. Observamos que,
com efeito, se ela é especialmente adaptada ao tempo para
compreender, a maneira de abordar com essa superfície, "a
urna só vez", o momento de concluir, levanta uma questão.
155
Em nossa opinião a insistência em Les Non Dupes Errent
sobre o "a uma só vez", não é estranha a isso, e mais
precisamente, ao fato de que Lacan tenha podido estabelecer
uma relação, com a cifragem de 1973, entre o momento de
concluir e o objeto a, relação que se resiune na formulação
do objeto a como objeto apressado.
Assim, naquilo que Lacan nos propõe como
continuação ao tempo lógico, trata-se a nosso ver de um
programa de escritura, e mais precisamente da escritura do
objeto a. Esse programa comporta uma entrada em jogo, na
medida em que se trata de saber se e como o objeto a vai se
escrever com a escritura borromeana.
Desde que foi nomeado como tal por Lacan, o objeto
a não cessou, para ele, de assumir importância e convocá-lo ao
trabalho. Em 1966 ele começa seu seminário sobre a lógica da
fantasia dizendo que "seu projeto vai consistir em determinar
o estatuto de anuma relação lógica' `4. Em 1972, em "L'étourdit",
a última versão explícita que Lacan escreveu sobre o fim da
análise, o objeto a dá sua finalidade à análises. Entretanto, a
nomeação de a por Lacan não significou para ele, nem que
tivesse regrado ag questão de sua suscitação na análise, de
como um analista chega a ocuparo lugar de semblante de um
objeto que já está lá, nem que ele tivese regrado a questão de
sua exploração. Uma coisa, porém, é certa para Lacan: a
exploração de a está ligadaa sua escritura.
Inicialmente, a letra a designava o outro no esquema
L, mas nos demais textos, o outro permanecia em geral
escrito o outro. Depois (em 1958), a letra a designou o objeto
do desejo do outro, como se dessa maneira se signjficasse
também a retirada da letra a ao outro.* A partir desse
momento, Lacan sempre designou o objeto pela letra e
ligou o destino do objeto a às escrituras: a da fantasia ($ <>
a), a da divisão anarmônica (1 / 1 = 1+a), a dos quatro
discursos... Além disso, essas escrituras nunca foram nem
unívocas nem apenas algébricas, pois simultaneamente
Lacan fez de a o nome de outras escrituras, de imagens
escritas, figuradas pela topologia: desde a rodela recortada
no cross-cap, depois de duas voltas em tomo do furo
central, até o nó borromeano.
O nó borromeano é uma escritura, pois ele pode ser

156
planicado numa superfície, e essa planificação está
submetida a regras (por cima-por baixo dos cruzamentos,
orientações. ..) permitindo urna combinatória. Mas essa não
é uma escritura como as outras. Para Lacan, é uma "nova
escritura" que possui um certo grau de autonomia com
relação ao significantefä f
De fato, desde que se pratique a escritura borromeana,
nossa relação com a escritura é modificada. É uma escritura
que nos inclui no corpo, com nosso imaginário, nossa
inibição7, nossas falhas, naquilo que ela escreve, devido ao
vai-e-vem permanente entre as cordas (irnersas no espaço
de três dimensões) e sua planicação. O nó borromeano
não se escreve sozinho e de uma vez por todas, mas se
escreve novamente, com cada um que se dedica a isso. Esta
é uma escritura que se pratica, mas onde o sujeito não pode
se figurar, pois ele é determinado pela figuras. Se o desenho,
a mostração assumem essa importância, é também porque,
no estado atual das matemáticas, a algebrização, mesmo a
mais avançada, não basta para caracterizar todos os nós e
cadeias ao mesmo tempo, para classificar toda a variedade
das cadeias borromeanas, para definir um algoritmo de seu
engendramento. A escritura borromeana de Lacan procede
matematicamente, não sem o imaginário. -

Como lembra Lacan nesse seminário de 9 de abril de


1974, no qual vamos agora nos fixar, (e do qual tiraremos as
citações), o objeto a tem duas faces, uma real e uma
imaginária. A face imaginária serve para tapar um furo do
real. Ê o que se imagina com o que se pode: o que se suga,
o que se evacua, o que domina o olhar, e em seguida a voz.
A outra face é tão real quanto possível, apenas pelo fato de
que isso se escreve, diz Lacan. uma imagem escrita,
aquela que eu dei no nó borromeano". No nó borromeano
o objeto a se escreve de uma maneira particular, já que ele
não é nada de substancial, mas é designado no "ponto"
triplo, de estreitamento dos três elos:


Como veremos no próximo capítulo, esse triplo ponto
de estreitamento substitui, no nó borromeano, a noção de
enlaçamento pela qual se imagina que dois anéis se
mantenham juntos. Ali onde se poderia esperar que um
enlaçamento mantivesse juntos os anéis, não se encontra
nenhum enlaçamento, e sim um lugar de estreitamento, de
estiramento, um lugar vazio, um furo, designado pela letra
a. A expressão "de imagem escrita" empregada por Lacan
faz pensar nos hieróglifos. Talvez houvesse, a partir daí,
uma indicação para uma teoria (ainda por se fazer) da
escritura em Lacan. O nó borromeano seria, no instante (de
ver) de seu estreitamento planificado (no entanto, nem
sempre e necessariamente), literalmente um hieróglifo a ser
lido de maneira fonemática: a. Com o nó borromeano,
teríamos igualmente de levar em conta uma temporalidade
da letra ao mesmo tempo pictogramática, fonética e lógica.
A letra inventada, na sua função lógica, seria da ordem de
um pictograma, depósito de um momento de incerteza
entre várias dimensões.
Lacan começa seu seminário de 9 de abril colocando (-
se) a questão sem rodeios:
_
-
objeto a.
"E aí, o que foi que eu inventei?"
Il

II
Vou responder assim, para situar as coisas: o
'
j

l
j

Para que uma invenção seja digna desse nome, ela


deve ser um escrito, letras. "A invenção é o escrito", esta é a
letra da lógica, que substitui as palavas com seus sentidos.
A letra é inerente a uma passagem' ao real, cuja lógica é a
ciência. Na medida em que o nó borromeano é um escrito,
trata-se pois, para Lacan, de saber se o objeto a suporta o
golpe da invenção com essa nova escritura.
É precisamente em resposta à questão de "uma
exploração possível" como escrita de a que Lacan chega ao
tempo lógico.
O que significa para Lacan essa exploração possível?
Fiel à sua trajetória, ele toma o termo "possível" no seu
sentido de modalidade lógica, em particular na sua conexão
com o necessário que, em Aristóteles, é aproximado do
universal, da essência das coisas, objeto da ciênciag. já que
a lógica se liga ao escrito, Lacan reinterpreta logicamente

158
essas modalidades em função do escrever-se. Retendo a
homofonia do não cessa no necessário, Lacan define o
"necessário que p" por "a proposição p não cessa de se
escrever", e, nesse sentido, o possível testemunha a falha da
verdade. Se digo "ele pode andar", isso quer dizer, ou que
constato que ele anda, ou que ele não anda, mas poderia
andar; e se digo "ele não pode andar", isso não prova que
seja para sempre.
Segundo um método que é freqüente nele, Lacan vai
relera conexão entre o necessário e o possível em Aristóteles
com a leitura que faz disso um outro autor, no caso,
Hiiitikkam. Lacan não adota o ponto de vista de I-lmtikka,
mas serve-se dele como de uma perspectiva parafazer
surgir aquilo que, sob seu ponto de vista, é uma verdade
originada em Aristóteles.
Em sua leitura de Aristóteles, onde não é fácil separar
as dificuldades de interpretação do texto, do vocabulário, e
as dificuldades intrínsecas ao problema tratado por
Aristóteles, Hintikka estabelece uma ponte, o que não é
feito explicitamente por Aristóteles, entre as modalidades
(necessário e possível) e a temporalidade. I-Iintikka afirma
que, em Aristóteles, a possibilidade tende a confundir-se
com o "às vezes verdadeiro", e o necessário com o "sempre
verdadeiro". Uma vez que há conexão entre o necessário e
o possível, pode-se dizer que há um intrincamento nessa
conexão de dois tempos, como havia sido pressentido por
Cícero”.
Vamos tomar o famoso exemplo da batalha naval,
escolhido por Aristóteles em Sobre a Interpretação: "Que
aquilo que é seja, quando é, e que aquilo que não é não seja,
quando não é, eis o que é verdadeiramente necessário. Mas
isso não quer dizer que tudo aquilo que é deva
necessariamente existir e que tudo o que não é deva
necessariamente não existir; (...) Tomo um exemplo.
Necessariamente, haverá amanhã uma batalha naval, ou
não haverá uma; mas não é necessário que haja amanhã
uma batalha naval, não mais do que é necessário que não
haja uma. Mas que haja ou não haja, amanhã, uma batalha
naval, eis o que é necessário”. Ê possível que a batalha
ocorra. Isso é o possível. Num segundo nível, existe a

159
necessidade. É necessário que a batalha ocorra ou nao
ocorra, que seja uma coisa ou outra. A altemativa aberta
pela existência do possível é necessária. Em Les Non-
Dupes Errent, Lacan radicaliza essa implicação, dizendo:
"Só o possível pode ser necessário". Seja como for, estabelece-
se uma conexão entre necessário e possível, atuando em
dois registros simultaneamente. Esses dois registros se
inscrevem numa temporalidade diferente: a do possível é
a de um tempo indexado (agora, amanhã ...), e a do
necessário é a de um sempre. Esses dois tempos não são
referidos a uma diacronia, passado, presente, futuro, mas
a uma simultaneidade.
É a partir daí, parece-nos, que Lacan pode tirar de sua
leitura de Aristóteles que a conexão entre o necessário e o
possível institui, não dois tempos, presos numa diacronia,
mas um tempo dois: "Longe de fazer o tempo linear, isso
institui um tempo dois, como absolutamente ftmdamental."
Chegado até aí, em 9 de abril de1974, Lacan formula
a questão "como encontrar aquilo que faz função de
superfície e que, em meu dizer, faria ftmção de tempo a
uma só vez", e volta-se então para o tempo lógico,
enunciando o que transcrevemos no começo deste capítulo. i

Vamos observar, nesse sentido, que Lacan emprega o


condicional para a função tempo (mas não para a função
superfície) antes do desenvolvimento sob re o tempo lógico,
ao passo que depois deste a frase é formulada no presente;
nessa mudança de tempo, vemos a marca de que, para
Lacan, o tempo lógico responde àquilo que "faria" função
de tempo.
A resposta do tempo lógico àquilo que faria função de

duas modalidades lógicas -


tempo passa pela identificação, a que procede Lacan, de
ligadas à escritura e dando
seu valor ã verdade-~ às duas escansões do tempo lógicas,
à pulsação parada-partida. A parada é identificada ao
cessar e a nova partida ao não-cessar; preciso que isso
cesse de se inscrever para que isso prove alguma coisa, isto 0

é, que isso não cesse de tomar a partir". Já que havíamos


partido de uma questão sobre a exploração possível do
objeto a, isso significa que só é necessário que o objeto
apressado cesse de se inscrever.

160
A partir da identificaçao a que procede Lacan, que
nodula tempo e lógica, o tempo lógico constitui resposta à
questão sobre o que faria, a uma só vez, superfície e tempo,
na medida em que ele estabelece que são necessários três
tempos para que se institua o tempo dois: "Se não houver
esses três, não há nada que motive o que manifesta com
clareza o dois, a saber, essa escansão que descrevi, que é a
de uma parada, de um cessar e de Luna nova partida". É
preciso que haja o terceiro tempo, o de concluir, para que
seja motivado _o necessário do possível do objeto a. É
também porque não há necessário (direto) do objeto a que
este surge na pressa.
Assim, em Les Non-Dupes Errent, Lacan toma um
viés diferente daquele de 1973 para nodular tempo e lógica,
e é tomando esse viés que ele introduz a expressão "fazer a
uma só vez superfície e tempo". Entretanto, como em 1973,
é ainda o objeto a que está no centro desse fazer superfície
e tempo, e o objeto a como escrita. Lembremos que Lacan
introduzia a afirmação de 1973 sobre o tempo lógico dizendo:
"Se se escreve, e não apenas se se tem bom ouvido...". A
cada vez, trata-se, como diz Lacan, de dar chance ao objeto
a, "sua chance de que isso cesse para que, se isso não cessar,
isso dê sua prova". Existe, na lógica do objeto a, em sua
escritura, algo de não-necessidade. Daí, vai-se dizer mais
uma vez, o caráter antecipado do ato de concluir.
Essa abordagem do que Lacan nos indica como
continuação ao tempo lógico dos Écrits, parece-nos
suscetível de dar significação ao fato de que os seminários
de 1977 e 1978 levam títulos tomados de empréstimo ao
tempo lógico ("O momento de concluir", "A topologia e (é)
o tempo", "é o tempo que é preciso para compreendê-lo"13).
Apresentando, como ele o faz nesses seminários,
manipulações de nós e de superfícies, ele efetua seu
.

programa de "fazer superfície e tempo", de apresentar o


caráter "pontual" (triplo) da escritura de a. "A apresentação
é o que chamei ocasionalmente o a, de uma extrema
complexidade”. Esse programa se inscreve tanto mais no
tempo lógico quanto Lacan não o realiza sozinho, mas com
uma assistência, em particular Pierre Soury, a quem ele
solicita.

161
O tempo lógico das Meninas

Se o tempo lógico é uma passagem obrigada ao "fazer


superfície e tempo", é também, em razão do papel
privilegiado desempenhado pelo olhar, no tempo lógico e
na topologia. Lacan sustenta a comparação do quadro onde
ele desenha o nó borromeano com a trama da tela onde
rabisca o pintor para domar o olhar”.
As apresentações do objeto a (onde o tempo presente
deve se estender) o confrontam com problemas de
representação. Não existe, falando propriamente,
representação do objeto a, na medida em que o objeto a não
é especular; isso quer dizer que é um objeto que não é
assimétrico, que sua imagem no espelho não permite
diferenciar nele uma forma direita e uma forma esquerda.
O olhar começa lá onde se "perde de vista" o objeto”.
Confrontando, pela topologia, o objeto a aos problemas de
representação, Lacan põe em jogo o olhar sob um duplo
título: como um objeto a qualquer, mas também como
objeto a diretamente concemido pela visão.
A entrada da perspectiva na pintura serve a Lacan de
apoio para opor visão e olhar. Segundo Lacan, a geometria
projetiva, que matematizou as regras da perspectiva, dá a E

primeira estrutura visual desse mundo topológico sobre o


qual se funda toda instauração de sujeito, anteriormente à
fisiologia do olho e da ótica. No começo da perspectiva, há
um princípio de colocação em correspondência, por projeção
sobre um plano a partir de um ponto de vista, de um
comprimento infinito com um comprimento finito. A partir
daí, a perspectiva é combinatória de pontos, linhas,
superfícies, cujo fundamento intuitivo se .desvanece por
trás dessas necessidades combinatórias.
A perspectiva faz abstração da realidade "se é
permitido, neste caso, designar por realidade a impressão
visual subjetiva. Com efeito a estrutura de um espaço
infinito e homogêneo, numa palavra, de um espaço l

puramente matemático, se situa muito precisamente no


oposto do espaço psicofisiológico"17. A perspectiva constrói
um olhar e o olhar é o produto de uma construção que tem,
segundo Lacan, as leis da perspectiva.
162
1

A realidade perceptiva e arealidade perspectiva se


opõem como a visão e o olhar. As leis da (visão são as do
espelho, as do olhar se sustentam pela construção
perspectiva do quadro que é uma "parede de vidro"
(Leonardo da Vinci), uma tela entre o sujeito e o mundo, ou
ainda uma janela pela qual, como o artista nos quer fazer
crer, "nosso olhar mergulha no espaço": "desenho um
quadrilátero e estimo que esse quadrilátero seja uma janela
aberta, pela qual posso admirar tudo o que aqui será
pintado em seguida.”
Quadro e espelho têm em comum o fato de ter uma
su perfície limitada, mas no espelho não há mais perspectiva
do que no mundo real. A perspectiva organizada é, diz
Lacan, a entrada no campo escópico do próprio sujeito. No
espelho tem-se o mundo todo bobo, dominado por intuições
onde se conjugam o campo da ótica com a prática dos
próprios deslocamentos. Ê o mundo da representação. O
quadro é o representante daquilo que é a representação no
espelho. A perspectiva, segundo Lacan, é o modo pelo qual
o pintor, como sujeito, sujeito ao desejo, se põe no quadro.
Ao mesmo tempo em que a perspectiva unifica o espaço,
ela instaura uma divisão do sujeito entre dois sujeitos, o
"sujeito que vê" (no nível do ponto de fuga) e o "sujeito que
olha" (no nível do ponto de distância) que se nodula ao
objeto a olhar.
Nesse sentido, o quadro de Velasquez "As Meninas"
tem um valor exemplar. Lacan consagra a ele um mês de
seminário em 1966”, e mais tarde volta a ele diversas vezes,
aconselhando ao analista exercitar-se na ordem de
representações que ele põe em jogo e que nada tem a ver
com aquilo que um sujeito pode se representar”.

a montagem perspectiva -
Nesse quadro, segundo a análise que dele faz Lacan,
com a temariedade, ponto de
~
distância, ponto de fuga, olho, que a compõe tem o valor
de uma montagem pulsional, o da montagem escópica que
suscita (pode suscitar) no espectador um trajeto pulsional,
instaurando, pois, uma certa maneira de fazer superfície
(quadro) e tempo (pulsão)21.
Esse quadro não funciona somente como domador
do olhar, tendo um certo efeito pacificador, apaziguando o

163
que há de invejoso, de voraz no olhar (em invidere, há
videre), convidando o espectador a "depositar" ali seu
olhar, como se depõem as armas, para repousar os olhos”.
Por seu efeito captador sobre o espectador _ que acredita
fazer parte do quadro: as personagens do quadro, como em
representação, vistas do exterior do quadro, também têm
um olhar dirigido para pontos exteriores à tela, para um
_
lugar que o espectador poderia ocupar "As Meninas" age
também como armadilha para o olhar. Ê o olhar que é o
verdadeiro tema do quadro e o olhar de Velásquez, pintado
na tela, olhar dirigido para o exterior mas voltado para
dentro, é seu suporte e elemento.
i O espectador é capturado pelo quadro, solicitado a
entrar no jogo, o jogo de um "faça ver" tal que poderia ser
pronunciado pela lnfanta Margarida no primeiro plano, no
centro da tela. O espectador, assim, vê suscitado seu olhar
e entra no jogo porque Velasquez desvirou uma carta,
obrigando-nos a baixar as nossas. Tal é a função do quadro
no quadro, da tela virada em frente à qual Velasquez se
figurou, com o pincel na mão. Múltiplas hipóteses foram
formuladas a respeito do que Velasquez estaria pintando
ali. De fato, o mais provável é que ele nada pintasse ali, mas
que aquela velha tela virada sirva de tela de projeção
graças à luz enviada por um grande espelho acionado por
-
Nieto, o homem ao fundo nos degraus, luz que passa em
seguida por um epidiascópio (espécie de lanterna mágica
de aumento) que não se vê _a uma representação já
pintada sobre um quadrinho (ele também escondido com o
epidiascópio) do casal real que se reflete em seguida no
espelho da parede ao fundo”.
O quadro dentro do quadro, virado, permite ao
conjunto do quadro desempenhar a função de representante
da representação; ele libera o resto, o objeto a olhar, daquilo
que é, no quadro, essa função de representação. Ele é uma
falta-a-ver que desempenha o mesmo papel do atributo
negativo no tempo lógico, isto é, o do disco preto, um a
menos com relação ao número de sujeitos. Dessa maneira
se realiza a ida e volta da pulsão escópica que realiza um
certo modo de fazer superfície e tempo.
Vamos observar que Velasquez não se figurou

164
'Y_'“ mm *Í Í Í

ti pintando, mas num momento de escansao, com um gesto


suspenso a um olhar. Nessa escansão, existe ao mesmo
É
tempo o instante de ver e o tempo para compreender.
Instante de ver (falta-a-ver, como já interpretamos): o de
ver o quadro e não ver 0 quadro no quadro. Tempo para
compreender (falta-a-compreender): o tempo de ser visto
pelo quadro, pelos personagens em representação, no lugar
que se supõe ocupado por um modelo, o tempo em que se
pergunta o que Velasquez estaria pintando, e onde não se
compreende de imediato o que os personagens estão
olhando, nem o que o quadro nos quer fazer ver, ao nos
colocar em lugar de sermos olhados. Na ida e volta entre
Ê,
nós e 0 quadro, há um hiato devido ao enigma do quadro
dentro do quadro, hiato que inicia um momento de concluir
(na maioria das vezes, erradamente), que anuncia a
emergência do sujeito que não pode se representar: nem
como um se vendo,nem como um se visto; é um se
irrepresentável, atuado como um se fazer ver, onde se
concentra a atividade da pulsão.
Ao "faça ver" que criamos, pela boca da lnfanta,
Velasquez responde com o quadro: "Tu não me vês de onde
eu te olho", o que equivale ao momento em que, no tempo
lógico, o sujeito A pensa: "B não me vê preto", momento que
vai precipitá-lo a concluir que ele é branco.

NOTAS
* Lembramos a grafia francesa da palavra l'autre, o outro, que explica
o uso da letra a (NT).

¡ Cf. a lista dessas ocorrências no Anexo 1.

2 ]. Lacan, "Les non-dupes-errent", 9 de abril de 1974.

3]. Lacan, "Problemas cruciais para a psicanálise", 13 de janeiro de 1965.

4 I. Lacan, "A lógica do fantasma", 16 de novembro de 1966.

165
5 "O analisando só termina fazendo
do objeto a o representante da
f
representação de seu analista", L'etourdit, Scilicet n o 4, Seuil, p. 44.

6 J. Lacan, "Le sinthome", seminário inédito, 13 de abril de 1976 e 11 de


maio de 1976.

"Os nós são a coisa contra a qual o espírito mais se rebela. É uma coisa
-
7

tão pouco em conformidade com o lado envelopado envolvendo


_
tudo o que diz respeito ao corpo que considero que lançar-se à prá tica
dos nós é romper a inibição. A inibicão: o imaginário seria formado
pela inibição mental". J. Lacan, Scilicet 6/7, 1976, p. 60.

8 J. Lacan, RSI, seminário inédito, 18 de março de 1975.

°Cf. J.M. LeBlond, Logiq ue et méthode chez Aristote, Vrin, Paris, 1973,
p. 91. Referimo-nos principalmente a Aristóteles, De Pinterprétation,
in Organon, trad. franc. Tricot, Vrin, 1977. Um exemplo de conexão é
citado por J. Hintikka, Time and necessity, Oxford University Press,
Londres, 1973, p. 161. Lacan começa a falar dessa questão no seminário
de 10 de janeiro de 1974 de "Les non-dupes errent".

l°J. I-lintikka, op. cit.

“ "A própria razão insistirá em dizer que ao mesmo tempo certas coisas
são verdadeiras por toda a eternidade e que elas não estão implicadas
num nó de causas etemas, mas são livres da necessidade do destino".
Cícero, De Fato, 16, 38, citado por J. Hintikka, op. cit., p. 167. Cf. também
J. Hintikka, p. 151 e 171.

12 Aristóteles, De Pinterprétation, op. cit., p. 102.

13 J. Lacan, abertura do seminário de Deniker, 10 de novembro de 1978.

“ J. Lacan, conferência do 23° centenário da morte de Aristóteles, 1° de


junho de 1978.

15 J. Lacan, RSI, 18 de fevereiro de 1975.

'É Foi uma experiência semelhante que Kandinski chamou de a


dissolução (Auflösung) do objeto, que subverteu sua subjetividade e
determinou-o a se tornar pintor (doutor em direito, ele até então se
envolvera na prática jurídica). Foi quando viu pela primeira vez La
meule de foin, de Monet, que ele "sentiu confusamente que o objeto
fazia falta no quadro": "Observei com espanto e perturbação que o
quadro não apenas capturava, mas ainda imprimia à consciência uma ‹
marca indelével, e que sempre nos momentos mais inesperados, se o
via, com os mínimos detalhes, flutuar diante dos olhos"... "O objeto
enquanto elemento indispensável do quadro foi desacreditado n . I

Kandinski, Regards sur Ie passé et autre textes, Paris, hermann, 1974,


p. 96-97.

166
'7 E. Panofski, La perspective comme forme symbolique, éd. Minuit,
1975, p.l9, 42-43. i

18 L. Alberti, citado por Panofski, op. cit., p. 38.

1°]. Lacan, "O objeto da psicanálise", sessões de maio de 1966. A


apresentação do quadro por Lacan é diferente da de M. Foucault (que
assistiu a uma das sessões do seminário de Lacan) em Les mots et les
choses, Gallimard, 1966.

2° "Será para nada que em torno do quadro das Meninas eu lhes tenha
feito uma exposição, sem dúvida difícil, mas que se deve tomar como
apólogo e como exemplo, e como norma de conduta para o psicanalista:
pois o que vem a ser a ilusão do sujeito suposto saber é sempre em
torno daquilo tão facilmente admitido pelo campo da visão. Se, ao
contrário, em torno desta obra exemplar que é o quadro das Meninas,
quís mostrar-lhes a função inscrita do que vem a ser o olhar
do quadro por uma ordem de
-(...)
representação
o que se institui no campo
que nada tem a ver, falando propriamente, com o que qualquer sujeito
pode se representar
de uma disciplina que
-não estará aí o exemplo e o modelo, onde algo
se liga ao mais vivo da posição do psicanalista
poderia se exercer?" ]. Lacan, "O Ato psicanalítico", 20 de março de 1968,
inédito. Vai-se observar que a oposição visão/ olhar duplica a oposição
sujeito suposto saber/ objeto a (olhar), o que vai no sentido de reconhecer
no objeto a um papel determinante no fim de uma análise.

2' Para os três tempos da pulsão, cf. I. Lacan, Os Quatro Conceitos,


de
sem. 11, p. 159-169 e 177-178. A partir de um comentário dos textos
pulsão daquilo que
aparece
A saber, a
-
Freud, Lacan distingue "o retorno em circuito
mas que também pode não aparecer
aparição de ein neues Subjekt que se
da

deve
_
num terceiro tempo.
entender assim -
não que já houvesse um, a saber, o sujeito da pulsão, mas que é novo
ver aparecer um sujeito. Este sujeito, que é propriamente o Outro
(retificamos aqui a versão Seuil que escreve: o outro), aparece na medida
em que a pulsão pôde fechar seu curso circular". Para que ir e
vir da
pulsão se possa articular, fechando seu percurso, Lacan suple menta essa

ida e volta da pulsão descritos por Freud como um se fazer onde se

concentra a atividade da pulsão. Segundo os quatro objetos da pulsão,

(vampiro) mas este não seria um quinto objeto a?


fazer-se ouvir. O sujeito é produzido
-
teremos assim um fazer-se alimentar, até mesmo um fazer sugar
_ fazer-se evacuar,
pela pulsão numa
fazer-se ver,
articulação temporal: ele não está lá antes, e lá onde ele se produz
é

enquanto Outro. '

Esta é a função que Lacan reconhece no quadro em Os Quatro


22

Conceitos Seuil, p. 93, 100, 105. Ed. bras.: Rio de janeiro, Iorge Zahar,
1983.

Retomo a hipótese sustentada por Angel del Campo y Frances, La


23

magia de las Meninas, Ed. Turnre, Colegio de ingenieros, Madrid, 1985.

167
Cf. meu artigo sobre este tema, "L'ana|yste dans I'histoire et dans la
structure du sujet comme Velásquez dans Les Menines", Littoral n°
26, novembro de 1988.

168
cAPiTULo Dois

A Relação Entre os Prisioneíros

A segunda passagem do desenvolvimento de "O


Tempo Lógico" no seminário de 9 de abril de 1974, que vai
nos deter e exercitar nosso julgamento, se refere à relação
entre os prisioneiros: eles são idênticos, cada um,
estritamente aos dois outros... Eles só podem dar alguma
explicação a partir do fato de que fizeram todos a mesma
coreografia para sair. É esta a única explicação. Este é um
caminho... para explicar o seguinte, que não há entre eles
nenhuma espécie de identidade de natureza, que a
ilustração, o comentário à margem que faço sobre isso é, a
saber, que é assim que os seres imaginam uma

-
universalidade qualquer. Não existe traço neste apólogo
pois que é de um apólogo que se trata não há traço neste
-
apólogo da minima relação entre os prisioneiros, pois é isso
justamente o que lhes é proibido: comunicar-se entre si; eles
simplesmente se identificam ou se distinguem por ter ou
não ter um disco branco ou um disco preto às costas".
Essa passagem levanta diversos problemas delicados
de interpretação, tanto no nível da sintaxe quanto pelo que
Lacan quis significar. Vamos começar retraçando o
encadeamento de idéias dessa passagem, e em seguida
situaremos aí os problemas de interpretação:
169
- No tempo lógico, cada um dos personagens é
estritamente idêntico aos dois outros;
A maneira pela qual eles o explicam (fizeram todos a
mesma coreografia) explica que isso não comporta entre

-
eles qualquer identidade de natureza;
Isso o explica, porque os prisioneiros não têm

-
relações de comunicação entre eles;
Eles simplesmente se identificam ou se distinguem
por ter ou nao ter um disco branco ou preto às costas.

Imaginar o universal
A primeira dificuldade, de origem sintática, se refere
ao "sobre isso" (o comentário à margem que dou sobre isso)
e o "assim" (é assim que os seres se imaginam). Será que eles
se referem à "identidade de natureza" ou ao "caminho"?
Segundo o caso, teremos uma alternativa diferente.
1- se o "sobre isso" e o "assim" se referem à identidade
de natureza, isso significa que Lacan faz uma oposição
_
entre: la uma universalidade fundada na identidade de
natureza, uma universalidade que se imagina pelo viés da
identidade de natureza, isto é, de modo definitivo, pelo viés
de uma substância comum, partilhada, comunicável, e: lb
--uma identificação fundada de outra maneira pelo tempo

2-
lógico, que pode ou não implicar a universalidade.
Se "sobre isso" e "assim" se referem ao "caminho",
a oposição é entre: 2a- uma identidade de natureza e 2b -
o tempo lógico a partir do qual os seres imaginam uma
universalidade qualquer. Dessa última possibilidade (Zb)
nasceria uma outra altemativa: será que o tempo lógico
explicaria que os seres imaginam o universal? Ou: será que
o tempo lógico explica o universal, mas essa explicação é da
ordem da imaginação? Descartamos essa última hipótese,
que desacreditaria o tempo lógico, pois esse não é,
manifestamente, o objetivo de Lacan.
Restam as outras hipóteses. Podemos escolher. Por
um lado, no nível sintático, por razões de vizinhança, é
mais provável que "sobre isso" e "assim" se refiram ao que
os precede imediatamente ("identidade de natureza"); é

170
mais provável que "assim" se refira à "identidade de
natureza", à qual ele está acoplado e que acompanha, ao
passo que ele precede o que será dito sobre o apólogo. Por
outro lado, o movimento da passagem vai no sentido de
fazer valer a particularidade da identificação no tempo
lógico. Enfim, sempre a favor da altemativa 1, podemos
sustentar que, segundo Lacan, o tempo lógico funda a
universalidade de outra maneira que não pelo viés da
suposição de uma identidade de natureza, mesmo que isso
não suprima, forçosamente, a imaginação. »

no próximo capítulo -e
-
Parece-nos que, ao propor uma lógica da coletividade,
diferente daquela da multidão freudiana de que falarem os
da generalidade, Lacan tenta, para
a psicanálise, dar um passo análogo àquele dado pela
lógica moderna diante da lógica clássica. De maneira
esquemática, como resume Blanche, "a lógica clássica remete
toda proposição elementar à forma atributiva S é P (sujeito-
cópula-predicado): como se todo julgamento se reduzisse,
finalmente, a afirmar ou a negar a 'merência de um atributo
a uma substância"1. A partir de Frege, que lança as bases da
teoria dos conjuntos (1879), produz-se uma inversão. Não
se trata mais de afirmar ou não um atributo, ou qualidades,
a um sujeito cuja essência pré-existe. Essas noções de
sujeito, de atributo, são substituídas pelas noções de função
e de argumento. O sujeito não é mais anterior ao atributo:
ele se torna um "argumento", uma variável, que pode ou
não verificar uma forma ou função proposicional (ou
predicado), assumindo um valor determinado,
transformando assim a forma proposicional em proposição,
verdadeira ou falsa. É a isso que se chama a lógica ou o
cálculo dos predicados. O termo predicado se diferencia,
então, do sentido de atributo na lógica clássica, já que ele é
considerado como uma função.
Lacan apoiou-se na teoria dos conjuntos, observando
ali, com justeza, a tentativa de dissociar o predicado do
atributo? Na teoria dos conjuntos, existe uma dualidade do
Um. O um do conjunto não é o mesmo um do elemento do
conjunto. Pode-se reunir (fazer um) num conjunto elementos
(uns) que não têm entre si qualquer relação. A distinção
operada entre o conjunto e seus elementos tem como

171
conseqüência que o conjunto das partes de um conjunto é
superior ao conjunto dos elementos desse conjunto. Para
um conjunto de n elementos, o conjunto das partes desse
conjunto vai comportar 2” elementos.
Tomemos o exemplo do tempo lógico simplificado:
três sujeitos, A, B e C são brancos. Para a lógica clássica,
"branco" é considerado como um atributo comum a três
sujeitos. O branco faz parte de seu ser, está soldado a ele.
Para a teoria dos conjuntos, "é branco" é a forma
proposicional que vai reunir (fazer um) o conjunto de três
variáveis, sujeitos, tomando os valores A, B, C. Pode-se
escrever: E=(A,B,C). Mas esse um que unifica não é o único
um que se conta. Existe um outro um, um um de diferença
que é contado nas partes do conjunto:

Epartes do conjunto -_ {A}, {B}, {C}, {A,B}, {B,C}, {A,C}, {A,B,C}, O.


No conjunto das partes do conjunto E, é contado o
conjunto vazio (O), isto é, aquele onde, justamente, não há
nenhum sujeito para satisfazer a forma proposicional é
branco. O conjunto das partes do conjunto faz valer que
existe um "é branco", por "contar-se como branco", isto é,
que toca não a A, B, C, reunidos exteriormente pela qualidade
branca, mas que toca A, B, C, cada um tomado isoladamente
e nas suas relações recíprocas de diferenças, dois a dois, e
a três; este conjunto de partes do conjunto faz, por outro
lado, valer que é branco permanece verdadeiro mesmo
quando não há nenhum sujeito para satisfazê-lo.
Lacan referiu-se muito ao quadrante de Peirce3 para
exemplificar essa possibilidade de afirmação, ou de negação
universal de um predicado, mesmo quandonenhum sujeito
existe para fazê-lo sustentar-se:
Afirmativa universal:
todos os traços são verticais

1 ,zz
.‹/"
n Vl.

2
} nenhum
I.
Particular afirmativa:
I , . 1
{ MIWIH Negativa universal:
/Z 7/ ,
|

3 Sum traço E Ve1`Í1Ca | traço e vertical


_

. ¬""
Particular nega tiva:
.

algum traço não é vertical


172
ݦ

As proposições universais, afirmativa e negativa,


todos os traços são verticais e nenhum traço é vertical são
verdadeiras no quadrante 2, aquele onde não há nenhum
traço. lsso exprime a natureza significante da proposição
universal e ilustra o nascimento do um a partir do conjunto
vazio.
O Um só começa no nível em que há um que falta. "O
conjunto vazio é, pois, propriamente legitimado na medida
em que ele é a porta cujo atravessamento constitui 0
nascimento do Um"4. Para ilustrá-lo, basta referir-se à
manipulação do garçon que dispõe tantas facas para tantos
garfos: ele conta um (elemento) quando há um que falta.
O tempo lógico contribui também para essa
desarticulação entre predicado e atributo. O atributo é
afirmado ao termo do processo lógico de maneira
antecipada, não como substância comum ou na generalidade
(indefinida), mas a partir das relações recíprocas entre os
sujeitos. Ele é afirmado de uma maneira que dissocia o um
do conjunto (dos brancos) do um elemento (que o afirma),
que dissocia o enunciado (universal, verdadeiro mesmo
que não haja nenhum sujeito) da enunciação (particular),
mas ao mesmo tempo mostra sua identidade básica no
tempo, inapreensível como tal, do ato. A identidade da
diferença do particular e do universal só se realiza pelo
tempo e no tempo de concluir.
A contagem do um de diferença a se contar a mais foi
sublinhada pelo próprio Lacan em sua nota acrescentada
em 19665. O atributo negativo deve ser religado à função do
mais um porque, justamente, esse atributo funciona como
faltoso. «

Entretanto, mesmo que o tempo lógico seja uma


maneira de fundar o universal de outro modo, que não pelo
viés da suposição de uma identidade de natureza,
permanece, no texto de 9 de abril de 1974, a marca de uma
ambiguidade. Esta é tanto mais perturbadora quanto em
1975, quando Lacan toma ao tempo lógico, ele diz: "A idéia
do todo, do universal, já é de alguma maneira prefigurada
na linguagem". Se 0 universal é uma idéia prefigurada,
estaríamos tão longe assim de imagina-lo?
Otempo lógico, nesse caso, não excluiriaa imaginação

173
no que concerne a afirmaçao do universal. Mas será de
surpreender se, como mostra Peirce, deve-se pagar o preço
de "não haver sujeito" para validar o universal?

A não-relação complementar
A segunda dificuldade da passagem que estudamos
se refere ao sentido da palavra "relação" e seus laços com a
comunicação. A ausência de traço da minima relação vem
como argumento a favor do fato de que a identificação dos
prisioneiros não está fundada na suposição de uma
identidade de natureza.
O que quer dizer Lacan quando afirma que os
prisioneiros não têm relação entre eles? Vimos que, ao
contrário, os prisioneiros man tinham diversas relações uns
com os outros: estão juntos, olham-se, detêm-se quando os
outros se detêm...
Essas relações, no entanto, não são relações de
comunicação: eles não se comunicam entre si nem por
palavras, nem por sinais. A comunicação implica a
referência7. Os prisioneiros, para chegar ao seu objetivo,
não utilizam um sistema de signos comuns, um código
comum com o qual, dois a dois, pelo menos, eles seriam
capazes de entrar em acordo, com o qual trocariam
informações que os esclareceriam, a cada um, em
reciprocidade com um outro. O que eles têm em comum é
serem prisioneiros, terem sido reunidos ali pelo diretor da
prisão, quererem sair da prisão, e para isso aceitarem
participar do jogo proposto. Ora, jogar esse jogo implica
privar-se do recurso a uma troca de informações, utilizando
um código comum. "Eles não se comunicam" significa que
eles não entram em acordo sobre um código comum. Nesse
sentido, sua comunicação se opõe, realmente, à comunidade
de substância implicada por uma identidade de natureza.
Dito isto, por que Lacan se exprime de uma maneira
que enfatiza a palavra relação tomada negativamente? Em
nossa opinião, Lacan confere um peso a essa palavra, aqui,
pois ele a utiliza com seu valor lógico, isto é, vamos
recordar, um valor que só assume sentido em função de

174
É
f'

uma escritura. Historicamente, a relação é em primeiro


lugar uma proporção. A divisão anarmônica é um certo tipo
_ de relação. Depois, na teoria dos conjuntos, a relação é uma
aplicação: uma aplicação fde X (o conjunto inicial) em Y (o
conjimto final) é uma forma proposicional que, a todo
elemento x de X, faz corresponder um elemento determinado
de maneira única f(x)= y de Y. O catálogo de uma cidade
que, a cada nome, faz corresponder um endereço, é o
Í exemplo de uma aplicação.
¿ Nessa série de escrituras, a escritura borromeana
ocupa um lugar decisivo na medida em que, para Lacan, ela
j éconsiderada como sustentando o enunciado "não há relação
sexual" lançado a partir de 1970. Este enunciado não signica
1
que não se faça amor, mas que existe uma impossibilidade
2
lógica de escritura da relação de par homem e mulher
enquanto tais. "O que quer dizer quando enuncio que não
z

manifestar a lógica da relação -


há relação sexual? Isso designa um ponto bem localizado:
marcar que R designa a
relação, R a ser colocado entre x e y, é entrar desde já no jogo
do escrito -- e, no que se refere à relação sexual, é estritamente
impossíel escrever xRy de qualquer maneira que seja; não
existe elaboração logicizável e, ao mesmo tempo,
matematizável da relação sexual. É esta, exatamente, a
' ênfase que eu dou a esse enunciado: não há relação sexual.
Portanto, isso vale dizer que, sem o recurso a essas
consistências diferentes que, por ora, tomo apenas como
consistências, a essas consistências diferentes que no entanto
se distinguem por serem nomeadas imaginário, simbólico e
real, sem o recurso a essas consistências na medida em que
são diferentes, não há possibilidade de esfrega-esfrega, não
existe nenhuma redução possível da diferença dessas
consistências a alguma coisa que se escreva simplesmente
de uma maneira que se sustente, quero dizer, que resista à
prova da matemática e que permita assegurar a relação
sexuais". ` .

l A cadeia de dois elos enlaçados:


z

Fig. 1

175

.L

l
define uma relação complementar. Ê essa relação
complementar aí que não existe com o nó borromeano,
cujos três elos são ligados sem que nenhum passe pelo furo
do outro, de modo tal que, se soltarmos qualquer um deles,
os três se separam. A relação complementar é o impossível
(o real no sentido de Lacan) do nó borromeano. Se essa
relação complementar se produz entre dois elos, o terceiro
escapa, e não se trata mais de um nó borromeano:

A A A

L/ ,U °Í@ Ú
Fig. 2 Fig. 3
Nó borromeano C0l1S€-:qüênda de uma
inversão de um cruzamento
entre A e B: A e B ficam
enlaçados, complementares, e
C escapa.

Devido à não-existência da relação complementar, é


preciso que haja três elos para que haja um nó borromeano.
O nó borromeano sustenta o enunciado da não-
relação (sexual) porque no nó borromeano não existe a
relação complementar definida acima. É em função dessa
propriedade do nó borromeano que se deve entender que
"cada um, na sua maneira de girar em círculos enquanto
sexo, não está ao outro nodulado"1°.
Nem toda não-relação complementar é uma não-
relação sexual, e seria abusivo concluir que a não-relação
complementar dos prisioneiros seja a mesma coisa que a
não-relação sexual. Acontece, porém, que Lacan aplica a
mesma escritura aos dois casos, se dermos à palavra "relação"
seu sentido lógico, o que julgam os fundado nessa passagem
do seminário de 9 de abril. Dizer que os prisioneiros não
têm a mínima relaçao entre eles significa, nao que eles nao
mantenham relações em geral, mas sim algo de "local" e que
176
deve ser referido a uma escritura: trata-se, realmente, da
escritura borromeana, com a qual Lacan tenta progredir
naquele seminário; a não-relação entre os prisioneiros
significa que eles não têm relação complementar dois a dois:
nenhum prisioneiro vai encontrar numa relação dual o
complemento de informação, comunicável, que. lhe falta
para saber que disco ele tem nas costas. Para deduzí-lo, ele
deve passar por um terceiro termo, que não lhe significará
diretamente, e diante do qual ele estará na mesma relação
que com 0 segrmdo, e que o segundo terá como terceiro.
Mais uma vez, como fizemos coma garrafa de Klein
e com a divisão anarmônica, vamos nos submeter ao exercício
que consiste em reformular o tempo lógico em função de
uma certa escritura. t

Vamos identificar cada um dos três prisioneiros, A, B,


C, a uma consistência: .

BíffFig. 4

/
Em vez de preto branco, vamos formular a oposição
ligado em par/não ligado em par

Fig. 5

Lembremos que, para o terceiro, ver:

Fig. 6

177
equivale a sair (Cf. Fig. 3):
A

Â..
O raciocínio dos prisioneiros seria o seguinte: A sabe
que B e C não estão enlaçados, senão ele já teria saído.
Estará ele ligado a B? A pensa que está ligado em par a B e
que, se B pensasse estar ligado a A, C teria saído (pela razão
de que o terceiro, em relação a dois ligados em par, sai). Ora,
C não sai. Portanto B concluiria daí que ele não está ligado
a A. Poderia ele concluir que está, por isso, ligado a A? Esta
era a hipótese inicial de A, que ele estivesse ligado a B. B não
sai porque, com efeito, foi A quem pensou que se B pensasse
que estava ligado a A, C sairia. Portanto, A conclui que ele
não está ligado a B. Logo, quer sair.
Mas isso pega (em a): primeira escansão, primeira
dúvida: eles estariam, então, ligados assim mesmo. O
raciocínio recomeça. Seria preciso uma segunda escansão,
uma segunda volta para que se objetivasse, absolutamente,
e na pressa, que "é pelos elos não estarem nodulados que
eles se nodulam"“ e que A, B e C são equivalentes.
Segundo Lacan, para o nó de três consistências
(quando sóhá duas consistências, é diferente), a equivalência

-
dos elos se define da seguinte maneira:
Os três elos têm a mesma consistência, são três
toros;
- Existe equivalência de consistências com referência
à consistência do nó: o nó se desata se se cortar qualquer um
dos três elos;
_ Cada elo é permutável com qualquer um dos dois
outros: sempre se terá o mesmo nó. Isso permanece
verdadeiro se acrescentarmos a cada um uma cor, ou uma
nomeação (real, simbólico, imaginário), ou uma orientação.
Em contrapartida, se colorirmos os elos e ao mesmo tempo
os orientaimos, as permutações destes vao pôr em evidência

17s
* " Û»›7%\f\7{@~
'V;j \
/ /f;¿fãf>.zâs¢f››
. í, ,1
zä-A

_
1

z¬-zfz,‹»~»«

duas séries de permutaçoes possíveis, entre as quais não se i

pode passar continuamente por simples manipulação.


Se adotarmos a lógica borromeana do tempo lógico
que propomos, isso quer dizer que o ato de concluir
corresponde ao momento, para os três (A, B, C), de afirmar
sua equivalência, isto é, ao próprio momento de não mais
se poder afirmar como um, já que eles só podem fazê-lo
afirmando a unicidade do nó, logo, do três que preexiste ao

a divisão anarmônica -
um. Daí a pressa em afirma-lo, mas aí também _-como com
sem que esta pressa se imponha
fora da dimensão retórica própria ao tempo lógico; esta
dimensão retórica permanece, portanto, irredutível a
qualquer forma de formalização que seja.
A divisão anarmônica chega a uma cifragem do
tempo lógico tal que dá conta ao mesmo tempo de uma
relação de reciprocidade entre os sujeitos e da não medida
comum na qual essa relação se inscreve. Entretanto, este
resultado é obtido ao preço de se perder algum caos na
escritura, a saber, o próprio fato do fcomo um" dos três
prisioneiros, o fato de cada um deles ser a uma só vez o
mesmo que os outros e diferente deles.
Não é este o caso do nó borromeano: já que existe
x equivalência dos elos, se identificarmos cada sujeito a um
elo, o nó borromeano sustenta, pela escritura, a equivalência
dos prisioneiros ao mesmo tempo que a não-relação
complementar entre eles.

0;3 V P/<×°'¬ W» Cczóáâfêf/ev


/(2/Mpx
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..›
É
NOTAS
lBlanche, Introduction à Ia logique contemporaine, Armand Colin,
1968, p. 125.

2 ]. Lacan, "... Ou pire", seminário inédito, 17 de maio de 1972.

3Em primeiro lugar em "A Identificação" (17 de janeiro de 1962), depois


principalmente em "O Ato psicanalítico", "Un discours qui ne serait
pas du semblant" e "... Ou pire".

179
4J. Lacan, "... Ou Pire", 19 de abril de 1972.

5 J. Lacan, Écrits, p. 213.

6 J. Lacan, conferência em Genebra sobre o sintoma, 1975.

7J. Lacan, Mais, Ainda, p. 126 da edição francesa.

8 J. Lacan, RSI, 18 de março de 1975.

°Apartir deste "real" é que Lacan situou a função reparadora da escritura


em J. Joyce como quarto elo, vindo ali onde haveria inversão
de um
por cima-por baixo no nó borromeano, para impedir a liberação do
terceiro elo, no caso, 0 imaginário do corpo de Joyce.

*° J. Lacan, RSI, 13 de maio de 1975.

“ J. Lacan, RSI, 13 de maio de 1975.

180
Ç--g -

CAPÍTULO TRÊS

Multidão Freudiana e Coletividade


do Tempo Lógico

Logo depois de ter voltado ao "Tempo Lógico" em Les


E non-dupes errent, Lacan fala da multidão: "Esse é todo o
negócio da organização: simular com a multidão, porque

É escolha: o grupo, simular com a multidão


tem de lidar com isso para aí recolher um
-
esta é a outra face daquilo a que chamei há pouco de
e sempre se
grupo". Lendo
esse termo, lembramos que no final do "Tempo Lógico",
nos Êcrits, Lacan recomenda ao leitor que pretenda continuar
sua leitura que volte ao tempo lógico para situar aquilo que
Freud produziu sob o registro de "psicologia coletiva"1. A
multidão, segundo Freud, e a coletividade do tempo lógico,

É - -
segundo Lacan, são duas formações coletivas diferentes,
mas devido ao fato entre outros de que Freud escreveu
um esquema lógico da estrutura da multidão, vamos
articular essas duas formações coletivas.
Em Psicologia do Grupo e Análise do Ego, Freud
anuncia de saída: "A psicologia individual é também,
inicialmente e simultaneamente, uma psicologia social”. S.
Moscovici compara essa obra de Freud ao trabalho de
Einstein sobre a teoria generalizada da relatividade; Freud
teria passado de uma teoria restrita do indivíduo e da
família para uma teoria generalizada.
181
N esse livro, não som ente a fronteira en tre a psicologia
do indivíduo e a do social se apaga, mas, por outro lado, a
psicologia das multidões é considerada como primeira: "A
psicologia da multidão é a mais antiga psicologia do homem;
o que isolamos enquanto psicologia individual,
negligenciando todos os resíduos da multidão, só veio mais
tarde a se destacar da antiga psicologia da multidão,
progressivamente e, por assim dizer, de uma maneira que
nunca foi mais que parcial”. Não se trata, para Freud, de
avaliar a psicologia social à luz da psicologia individual,
nem de abolir a existência desta última em proveito da
primeira; mas trata-se de considera-la do ponto de vista da
psicologia social com relação à qual ela constitui um avatar,
que dá uma aparência deiunidade, pois "cada indivíduo
tomado isoladamente é uma parte constitutiva de diferentes
multidões".
Existe, entretanto, segundo Freud, um limite para a
"decomposição do ego II , que ef o que ele chama de

_
-
procedimentos (Vorgängen) narcísicos: "A oposição entre
os atos psíquicos sociais e narcísicos Bleuler talvez
dissesse: autísticos se situa, pois, exatamente, no próprio
interior do domínio da psicologia individual e não é de
natureza a separar esta última de uma psicologia social ou
psicologia das multidões”. Em outras palavras, a supressão
da fronteira entre social e individual é correlativa da
manutenção de uma outra fronteira, aquela entre o social-
...W ~;.,do-indivíduo e o narcisismo. Com o estágio do espelho,
Lacan suprime esta última fronteira: para ele, o "auto-
erotismo" não é o sinal de um narcisismo primário, mas, ao
contrário, de uma "falta de si"Õ. Com Lacan, o "auto"
certamente não deve se confundir com o si.
A multidão freudiana se diferencia da coletividade
do tempo lógico em três pontos: o número, o fator do tempo
e a relação entre sujeitos.

O número

A multidão freudiana começa em dois, na hipnose,


mas não tem limite superior em número. Ao contrário, a

182
F__K _

ê
coletividade onde se pode exercer o tempo lógico implica
Ã
um número definido de sujeitos; quanto mais cresce este
número, mais se torna difícil a objetivação, o que constitui
obstáculo a uma lógica coletiva7. Lacan opõe o H carátern
\
definido da coletividade a generalidade, que se define
F u n

como uma classe, compreendendo abstratamente um


I
número "indefinido" de indivíduos. 1

A exigencia de um limite numerico voltara mais tarde


A z
'

em Lacan, no que toca à composição dos "cartéis", cuja cifra


não deve exceder 5 (4 mais um) ou 6 (5 mais um)8. Em outras
palavras, pode-se saber que, se uma coletividade excede
uma certa cifra, ela não pode mais permitir a função do
tempo lógico, mas vai poder organizar-se em multidão
freudiana. Se a reunião é inferior a esta cifra, ela pode se
constituir ou em multidão, ou em coletividade.

O fator tempo _

A possibilidade exercida pela função temporal é


evidentemente de capital importância, já que é ela que terá
efeitos determinantes no nível do grupo, inclusive o efeito
de constitui-lo como tal.
Isso não significa que todo fator tempo seja excluído
do funcionamento da multidão. Com efeito, o fator tempo,
como tempo da urgência, aparece no pânico, termo que
reencontramos também em Freud quando ele analisa a
formação do fetiche. 0”

O pânico é deslanchado pela falha (Verlust) do lídepk


em um sentido qualquer (in irgendeinem Sinne). O não-
saber-mais-a-que-recorrer quanto a isso (das Irrewerden
an ihm) acarreta o pânico, que tem um laço não contingente,
mas essencial, com a estrutura da multidão: é ele que
verifica que a reunião era realmente uma Amultidão. "Se, a
L exemplo de McDougall, descrevermos o panico como uma
das mais evidentes produções do "group mind", chegaremos
ao paradoxo de que esta alma das multidões (Massenseele)
abole a si mesma (selbst aufhebt) numa de suas
manifestações mais surpreendentes”.
183
Mas se o papel do tempo não está ausente da formação

É
da multidão, este não é para Freud um tempo lógico, e ele
não ocupa o lugar de uma dimensãowsignificante
determinante como em "O Tempo MMWWM

~ ~
A relaçao entre os sujeitos: a medida nao
comum do tempo lógico e o comum da multidão

\ V' U ma determinação significante do tempo é necessária


para estabelecer uma liame social diferente daquele da
multidão freudiana, a qual repousa sobre a suposição de
uma comunidade de substância. Esta provém da
incorporação oral do pai, depois de este ter sido morto, e de
seus avatares. Esta incorporação oral define a primeira
identificação e sen/e de suporte ao conjunto da construção
freudiana do mito de Totem e Tabu.
A "comunidade" da multidão é realizada por
69 7/ intermédio de uma relação comum entre os eus (mois) dos
/_, ,
' individuos da multidão e o seu líder. "]á pressentirnos",
\ 1/
1 '
escreve Freud, " que o laço reciproco entre os indivíduos da
multidão é da mesma natureza desta identificação nascida
de uma comunidade (Gemeinsamkeit) afetiva importante,
e podemos supor que essa comunidade reside no tipo de
laço com o líder"*°. Em todos os casos de ilustração, o líder
é para Freud a chave da identificação entre os eus (mois),
que partilham, seja como for, uma "comunidade".
A coletividade do tempo lógico dispensa semelhante
hipótese: bem ao contrário, ela encontra seu motor na
incomensurabilidade da relação entre os prisioneiros.
Pode-se dizer que existe algo em comum no fato de
que eles fazem o mesmo movimento em direção à saída.
Mas, como vimos, esse "mesmo" não provém de um acordo
sobre uma identidade de natureza comunicável, mas de
uma determinação que, por ser a mesma para cada um, é
função das relações entre "uns" e "outros", e põe em jogo
um atributo negativo.
O paradoxo do tempo lógico dá conta de alguma
coisa que faz liame social e que no entanto nãoesta fundada
noçpressupostgdçñalgo emcomum, de uma medida comum.
~ z ¬ ‹-..u....M.c..~..._..__
A funçao do diretor
Um ponto, entretanto, permanece nao esclarecido: o
lugar e a função do diretor.
Certamente, este não ocupa o lugar de um ideal, em
consequência (infolgedessen, diz Freud em Psicologia de
Grupo e Análise do Ego) do qual os sujeitos se identificam
uns aos outros em seu eu (moi) como os indivíduos de uma
multidão diante do líder. Os prisioneiros não buscam se
fazer amar por ele. No entanto, está ali uma função de
reunião. Ele escolhe, inicialmente, os prisioneiros, e nessa
função pode ser o objeto de uma interrogação, pois que
existe uma espécie de segredo na eleição, mesmo que esta
não seja posta em jogo no desenvolvimento lógico.
Por outro lado, na chegada, o diretor preenche uma
função de testemunha: é a ele que os prisioneiros declaram
sua asserção, a menos que este a adivinhe, só de Ver o balé
que eles efetuaram.
Então, o que representa ele? Um dejeto do processo

-
lógico? Uma espécie de apêndice, de resto? Uma função de
público já que se trata de dramatização, de cena, de balé,
e que ele é o observador disso? _ Um avalista da verdade?
O lugar do analista, como sugere, não sem pertinência, E.
Roudinesco?“ Voltaremos a isso na conclusão.
Por ora, digamos que ele representa realmente uma
função que se assemelha à do líder (ele lidera um j ogo” que
se desenvolve sem ele) que reúne, na medida em que essa
função seria a outra face, a face-multidão, da lógica coletiva
do tempo lógico.
E aqui que assume sentido a observação de Lacan, em
Les non-dupes errent, segundo a qual simular com a
multidão seria a outra face do grupo. Seria, segundo nossa
hipótese, a outra face que não a do grupo constituído pela
lógica coletiva do tempo lógico.
O termo "simular" não deixa de lembrar künstlich
(artificial)l3, utilizado por Freud para qualificar precisamente
a multidão. Além, disso, a analogia da multidão com o corpo
não data de Lacan; nãose falaem esprit-de-corps nas multidões
"artificiais"? S. Moscovici diz, quanto a ele, queias "massas
servem de corpo ao inconsciente que corre pelas ruas".
185
Inversamente, pode-se pensar na maneira pela qual
os psicóticos "incorporam " aos seus delírios as perturbações,
os rasgões do tecido social, a ponto de encontrar dessa
forma um esboço de reconhecimento: o delírio do pequeno
trabalhador de Gallardon, perto de Chartres, encontrou
ecos suficientes nos diversos meios sociais para lhe permitir
. . . H I

ter uma entrevista com o rei Luis XVIII .

Servir-se da idealização
Levando-se em conta todos esses elementos, um dos
interesses da aplicação da divisão anarmônica ao tempo
lógico talvez seja permitir levar mais longe a comparação
entre a multidão e o coletivo do tempo lógico, em outras
palavras, permitir efetuar, pela escritura, uma operação
relacionando o esquema freudiano (simplificado) da

/*Ê
multidão com a divisão anarmônica (esquematizada):

----:¡-
I

.í___íÁ--_-íí4

Esquema freudiano da multidão (simplificado)l5

lí-ví-í-1
3

\&_ã,/'
1

Divisão anarmônica (esquematizada)

Escrevendo esse esquema, Freud o faz funcionar


quase como um algoritmo”, e isso convida a confrontá-lo
com outras escrituras: "O esquema parece feito para que
nele sejam portados os signos lacanianos"”. Nessas duas

186
¡`..._..-_-~ _

escrituras, a de Freud e a de Lacan, encontram-se os lugares


1
do objeto (chamado a por Lacan) e do ideal do eu (referidos
ao seu suporte de traço unário por Lacan). Em ambos os
, casos, trata-se de projetar a sobre I. A divisão anarmônica
mostrou que a repetição dessa operação revela o
'mcomensurável da relação de a a I .
Assim, pode-se retomar o que Lacan chama de seus
votos, ao fim de seu seminário Os Quatro Conceitos, onde
ele se apoia no esquema de I-7,r_,e,;¿,d_`wp“ara falar do fim de
análise: agir no sentido desêpãrar a de Ifía identificação age
no sentido de aproximarläfde I, eodésejo do analista tende
a separa-los. Acrescentamos que a escritura da divisão
anarmônica revela que a separação de a e de I se opera
justamente na medida em que se repete a operação de fazê-
los se corresponderem.
- 'Í
MMM`I\Ilãio""semtrata de denunciar a idealização
produz regularmente novas idealizações - o que
mas de
recoiih”_ec_e,r,-_lh_ççjaj_`existênçci_adeM_o"Iuga;, distinto de a, e para
isso servir-se dela, simula-la ainda (em corpo) na
~
revelar a verdade -
transferência como a arte barroca se serve da ilusão para
para levar adiante sua lógica de
divisão a fim de dar chance ao objeto a. Uma das condições
consiste, como diz Lacan, em: de uma multidão, "recolher
um grupo".
A partir de RSI, Lacan começa a apresentar a cadeia
borromeana de quatro elos, o quarto sendo inicialmente
chamado nome-do-pai, e depois sintoma. Por que Lacan
introduziu um quarto elo borromeano? Uma das razões
concerne ao mesmo tempo o saber e a nomeação. A
nomeação é um ato que se deve contar como tal a mais, além
daquilo que é nomeado. De modo que, se contarmos dois,
devem os contar três e, se contarm os três, contam-se quatro.
O três, enquanto conta do dois não enlaçado, no nó
borromeano, é, segundo Lacan, o saber da não relação
sexual, da impossibilidade da relação sexual. Quanto ao

2
quatro como conta do três, é o saber do real do três, de seu
laço enigmático. A propósito da introdução do quarto elo
borromeano, em diversas ocasiões, em RSI, Lacan fala em
por em evidencia , demonstrar , fazer a prova do real
do três. *

187
"Mesmo que vocês sejam apenas três, isso dará
quatro", diz Lacan, numa passagem que se relaciona
diretamente com nosso propósito e que, com a expressão
~"nó social", vem ao encontro de nosso ponto de partida: "A
identificação em Freud é simplesmente genial. O que eu
desejo é o quê? A identificação ao grupo, porque é certo
que os seres humanos se identificam a um grupo; quando
eles não se identificam a um grupo, estão ferrados, devem
ser internados. Mas não digo, com isso, a que ponto do
grupo eles têm que se identificar. O ponto de partida de
todo nó social se constitui, digo, pela não-relação sexual
como furo; não há dois, pelo menos três. E o que quero
dizer é que, mesmo que vocês sejam apenas três, isso dará
quatro. A mais-uma estará ali, mesmo que vocês sejam só
três. Daí minha expressão mais-uma. E é retirando uma
,l /_,›;›ú'eal que o grupo será desnodulado; é preciso para isso que
' se possa retirar uma real para fazer a prova de que o nó é
borromeano, e de que são mesmo as três consistências
ff, cfÍ*›f mínimas que o constituem”.
\Í`/ Essas afirmações de Lacan sobre a identificação ao
grupo, a partir da escritura borromeana, recortam em
vários pontos a maneira pela qual interpretamos a
identificação ao grupo dos prisioneiros do tempo lógico: é
necessário um grupo de um número finito de sujeitos,
tomados numa relação não complementar, para que o
sujeito se identifique, e ele o faz contando-se ao menos três,
o que não impede o erro da conta, já que a mais-uma estará
ali.
Se a identificação a um certo ponto do grupo falha,
assim como quando falta uma consistência, então ca-se
louco de hospício, isto é, fica-se prisioneiro. Então, isso é o
inverso do movimento do tempo lógico que, este sim,
realiza essa identificação a um certo ponto do grupo.
A liberdade ganha pelo prisioneiro é uma liberdade
que carrega consigo o seu limite. É uma liberdade que não
é individual, que é social, que está ligada por um nó social,V
e devido a isso carrega nela o seu limite, a loucura, como
ruptura desse nó social, ruptura que seria a liberdade
completamente individual.

188
NOTAS
1I. Lacan, Écrits, op. cit., p. 213. Lacan escreve o título de Freud: Massen:
Psychologie und' Ichanalyse (Multidões: Psicologia e Análise do Eu),
o que é uma maneira de interpretá-lo. Lacan, mais tarde, vai reclamar
da tradução "psicologia coletiva" para Massenpsychologie: "uma
coleção de pérolas, sem dúvida", lançará ele em "L'Insu qui sait".

2 Freud, "Psicologia do Grupo e Análise do Ego", in Essais de


S.
Psychanalyse, Payot, Paris, 1981, p. 123; GW 13, p. 73, ESB vol. XVHI.

3 S Moscovici, L'Âge des foules, Fayard, Paris, 1983, p. 303.

4 S. Freud, op. cit., p. 191, GW 13, p. 137.

5 Ibid., p. 123, GW 13, p. 73.

6 I. Lacan, "A angústia", seminário inédito, 23 de janeiro de 1963.

71. Lacan, Êcrits, op. cit., p. 213.

5 Lacan, RSI, 15 de abril de 1975, para o número 6; e L'homme couvert


J.
de lettres, 11 de março de 1980, para o número 5.

9 S. Freud, op. cit., p. 158.

1° Ibid., p. 171.

“ E. Roudinesco, Histoire de la psychanalyse en France, vol. ll, Seuil,


P. 269-270.

12Vamos nos lembrar de que Lacan falava em "astúcia do condutor do


jogo, se o analista quer merecer seu nome". "Problemas cruciais para a
psicanálise", seminário inédito, 19 de maio de 1965.

13Dentre as diversas formas de multidão, Freud privilegia uma: a


multidão artificial, que se opõe às naturais, mais ou menos
improvisadas, passageiras, destinadas a se deslocarem ou se
-
organizarem em multidão artificial. As multidões artificiais (künstliche)
-- tais como a Igreja e o Exército são altamente organizadas e
duráveis. São artificiais na medida em que requerem, para sua coesão,
para serem preservadas da dissolução, uma obrigação que Freud chama
de exterior e que nada tem a ver com a imitação no sentido de G. Tarde
(Les lois de l'imitation, 1985). Essa obrigação exterior se liga à
"miragem" (ilusão) -
Vorspiegelung (Illusion) de que um chefe
supremo está ali e que ele ama todos os individuos da multidão com
igual amor. Além disso o chefe supremo deve encamar-se e nomear-se
líder (Fürher); ele não é simplesmente uma idéia, como a pátria, por
exemplo. Sem dúvida em razão desse caráter de miragem e de

189
exterioridade é que Freud emprega o termo "artificial" para qualificar
essas multidões. Em nota de 1923, Freud acrescenta que stabil (estável)
e künstlich parecem coincidir, ou pelo menos depender estreitamente
um do outro. Künstlich significa: feito com arte, engenhoso,
complicado, e também artificial, de imitação, postiço, falso. Com essa
palavra, lança-se de certa forma uma ponte entre a multidão como
estrutura e a arte.

14 P. Boutruy e ]. Nassif, Martin l'Archange, Gallimard, 1985.

'5Uma multidão primária, escreve Freud, é "uma soma de indivíduos


(Individuum) que puseram um (mico e mesmo objeto no lugar de seu
ideal de eu e estão em conseqüência (infolgedessen) em seu eu
identificados uns aos outros"("Psicologia de Grupo e Análise do Ego").

'É A modificação das relações entre o(s) eu, ideal do eu, objeto, vai
permitir a Freud diferenciar a hipnose (objeto em lugar de I, ideal do
eu), o apaixonamento (o eu está absorvido no objeto), a introjeção (objeto
no eu), a mania (confluência entre I e eu) e a melancolia (divisão entre
_
l e eu, identificação do eu ao objeto foracluído verworfenen).

17 J. Lacan, "Un discours qui ne serait pas du semblant", inédito,


20 de
janeiro de 1971.

181. Lacan, RSI, 15 de abril de 1975.

190
Conclusão

i
A dificuldade de contagem encontrada por um sujeito,
se este quiser se contar entre uma multiplicidade de sujeitos,
quando de uma manifestação do inconsciente, expõe a
questão da articulação das relações de sujeito(s) a sujeito(s),
e do sujeito consigo mesmo. Seguir passo a passo a
problemática do tempo lógico no ensinamento de Lacan
permite produzir uma cifragem dessa questão. Em que
essa cifragem implica na necessidade de se passar por um
"contar-se três"?
O termo "sujeito" mudou de sentido no decorrer da
¢
1

evolução do ensinamento de Lacan. Desde o primeiro


período, o que antecede a versão de 1945 do sosma, Lacan
enfatiza a determinação social do eu (moi), e o termo
"sujeito" pode designar tanto o eu (moi) quanto o indivíduo,
ou o eu (je) social. Depois, nodulando a identificação
especular e a relação a outrem à temporalidade do tempo
lógico, Lacan introduz um sujeito lógico diferente do eu
(moi), remaneja sua primeira versão do estágio do espelho
e situa a identificação com referência a uma temporalidade
que não é mais aquela, cronológica, dos estágios. Entretanto,
ao mesmo tempo, surge uma contradição em O Tempo
Lógico, ligada ao fato de que a medida comum dos sujeitos
191
pelos quais essa identificação se efetua no momento de
concluir é referida àquela do sujeito recíproco do tempo
para compreender, logicamente anterior ao momento de
concluir. É somente a partir da cifragem de 1973, com a
divisão anarmônica, que essa contradição pode ser
levantada.
- Depois da introdução do registro do simbólico, nos
anos 50, o sujeito designa principalmente o sujeito falante,
, obg" preso numa relação intersubjetiva, isto é, uma relação de
JN sujeito a sujeito que implica a mediação da linguagem
'E enquanto lugar do Outro. Essa primeira noção da
intersubjetividade vai evoluir para ser, finalmente, criticada
pelo próprio Lacan depois de haver definido, em 1961, o
sujeito como representado por um significante para outro
significante. Com esta definição, o sujeito se toma um
termo lógico, "dizer que há um sujeito nada mais é que
dizer que há hipótese"“. O sujeito não mais é definido a
partir de uma relação de sujeito a sujeito; só existe o sujeito
e este sempre é apenas "pontual e evanescente"2. Nessa
perspectiva, não se poderia, então, tratar de um sujeito que
suponha outro sujeito, já que, por definição, o sujeito é
apenas suposto. Daí a retirada da intersubjetividade.
A partir daí surgem problemas de interpretação do
texto de Lacan, principahnente se tentarmos jogar fora os
bebês sujeitos junto com a água do banho da
' intersubjetividade. De fato, se o sujeito é uma hipótese,
então quem fala? Por outro lado, constata-se a existência,
no texto de Lacan, de uma multiplicidde de designações de
sujeitos (tomados no sentido lógico), apesar da unicidade
da definição. M. Safouan, em seu último livro, toca no
problema, para logo rejeita-lo como um espectro: "Mas será
que, ao falar, com Lacan, num sujeito do inconsciente, não
obtemos dois sujeitos, em lugar de um sujeito dividido?
Não vou formular esta questão, francamente, retórica", diz
ele, "senão para sublinhar o perigo mortal que representa,
aos olhos de Lacan, toda substantificação do sujeito"3.
Francamente retórica., Sim, francamente, isso é retórica.
Mas pode-se dispensar a retórica para dizer a verdade? A
verdade fala retoricamente, e é de se esperar do analista que
ele retoricize4, e se a multiplicidade de designações de

192
.¡?_íf ___

sujeitos, depois de definição canônica do sujeito, é retórica,


isso não a desqualifica; ao contrário, isso nos obriga, a nós
leitores de hoje de Lacan, a produzir a articulação dessa
multiplicidade com a unicidade da definição.
Os exemplos dessa multiplicidade de sujeitos são
numerosos, quer se trate do "sujeito do inconsciente", do
"sujeito suposto saber", do "sujeito dividido". Em 1964,
Lacan diz que "a característica do sujeito do inconsciente é
estar, sob o significante que desenvolve suas redes, suas
f u
7
\ cadeias e sua historia, num lugar indeterminado 5. Ainda
que o sujeito suposto saber seja "uma formação de veia e
não de artifício" que tem a ver com o sujeito do inconsciente,
ele não poderia ser confundido o tempo todo com este, pois
ele tem a particularidade de um constituinte temário entre
dois parceirosó. Por outro lado, a designação do "sujeito do
inconsciente" poderia seaplicar diretamente, salva veritatae,
à divisão do sujeito, por exemplo, por ocasião da afânise
(desaparecimento) do sujeito?7 A divisão do sujeito quando
da afânise do sujeito será ela, aliás, a mesma divisão do
sujeito que se produz, segundo Lacan, ao final da partida
analítica, ou seja, nesse momento de destituição do sujeito
de sua fantasia, quando se suspende a identificação do
sujeito ao objeto a "na medida em que este constituía uma
resposta à falta do Outro"8? A esta lista de modalidades de
apresentação do sujeito se deveria acrescentar o problema
das diferentes determinações do sujeito, conforme ele ocupe
o lugar do agente, do outro, da verdade ou da produção nos
discursos escritos por Lacan.
Certamente, as designações "sujeito do inconsciente",
"sujeito suposto saber", "sujeito dividido", que aparecem
desde 1961, respondem todas à definição canônica do
I
sujeito. Mas, o _que pensar então dessa multiplicidade de
designações? Quer responda a uma necessidade retórica,
quer represente outras tantas formas do sujeito, essa
multiplicidade requer a elaboração de uma articulação com
a unicidade da definição.
Não se trata de tentar substantificar outros tantos
1

u n
sujeitos , e sim de encontrar a chave de seu modo de
l

articulação, senão a partir dos "sujeitos" que acabamos de


designar, pelo menos a partir da existência, colocada como

193
tal, de uma multiplicidade de sujeitos já tomados numa
acepção lógica. 'Tanto mais que à multiplicidade desses
sujeitos, tendo em comum a determinação significante,
deve-se acrescentar o uso, freqüente em Lacan ainda depois
de 1961, do termo "sujeito" para designar aquilo que,
precisamente, a definição do sujeito tivera por função
transformar: o sujeito falante. Por exemplo, em 1964, pode-
se ler: "A questão é, em primeiro lugar, para cada sujeito, de
onde ele se situa para dirigir-se ao sujeito suposto saber"°.
Tomada literalmente, essa frase não implicaria uma
intersubjetividde?
Se quisermos realmente nos separar da noção de
intersubjetividade, no sentido de compreensão e de
suposição de um sujeito por um outro sujeito, é preciso
produzir uma articulação que leve em conta, ao mesmo
tempo, uma multiplicidade de formas do sujeito junto com
a unicidade de sua definição pelo significante, e o equívoco
entre esse sujeito determinado, suposto, e o sujeito falante,
até mesmo a pessoa. É essa articulação que o caso do tempo
lógico permite produzir.
"O Tempo Lógico" expõe ao leitor um problema de
contagem de sujeitos interessados numa prova. Dir-se-ia
que existem três sujeitos, que são todos iguais? Mas erra-se
aí, no fato de que eles só se afirmam iguais depois do ato de
conclusão. Ou será que se trata apenas de um sujeito que
passa por tempos, por modalidades diferentes? Mas então
não se leva em conta o fato de que, assim mesmo, eles são
vários.
Esse problema de contagem encontra sua solução:
inicialmente na cifragem do tempo lógico por Lacan em
1973, com a divisão anarmônica, cifragem que permite
reunir numa relação temária os sujeitos do tempo lógico
numa multiplicidade sem medida comum; depois, no nó
borromeano, de onde se pode deduzir a equivalência dos
sujeitos na relação temária que determina um sujeito1°.
O sujeito que se afirma“, ao temio do tempo lógico,
/t/\ não e um sujeito coletivo da enunciação. Ele o faz de uma
maneira ao mesmo tempo particular e universal: afirmando-
se, eE_c¿úi sob o golpe da definição do sujeito representado
por um significante para um outro significante. A unicidade

194
_ _

do sujeito que se afirma e a multiplicidade de formas, ou


modos de subjetivação, que ele assume estão ligadas pela
divisão. Essa multiplicidade é necessária à afirmação do
sujeito da certeza. A identificação não é dada de saída; ela é
antecipada por um ato que divide o sujeito entre ser e
pensar. Com a cifragem da divisão anarmônica, coloca-se
uma igualdade entre uma divisão e uma adição: 1 /a = 1+a.
Para efetuar a afirmação onde particular e universal se
reúnem no ato, deve-se fonnular uma igualdade da divisão
do sujeito com a multiplicidade de sujeitos. O tempo lógico
esclarece a natureza e o momento dessa igualdade,
determinando as condições do laço de cada um dos sujeitos
entre eles e em relação à sua afirmação. Este é um laço
temporal, de uma temporalidade de três dimensões.
Nodulando a lógica do sujeito ao tempo, Lacan decide,
com Freud. Para este, a lógica do tempo, com a noção de só-
depois na formação dos sintomas, e a das relações do
indivíduo ao coletivo (Em Psicologia de Grupo e Análise
do Ego) permanecem separadas. O tempo só intervém
nessa última obra sob o modo de uma diacronia que remonta
às origens da História. Para Lacan, a 'lógica do sujeito se
nodula a três determinações de tempo que, agindo sobre
` três sujeitos, contribuem para precipitar o momento de
asserção do sujeito. Lacan não se contenta em dizer que os
acontecimentos são integrados no tempo do sujeito, mas
toma o tempo como acontecimento constituinte de uma
certeza no ato antecipado de concluir. Nesse sentido, o
tempo lógico não é uma lógica do tempo, mas uma lógica do
ato. O ato estabelece só-depois uma "medida comum", para
retomar esse termo que se encontra no texto inaugural de
Lacan, com unicável, já que cada um afirma que ele é branco,
mas essa afirmação procede da não medida comum dos
sujeitos entre eles.
A multiplicidade do três se desvanece no ato em que
ela se efetua; ela não pode ser e pensar-se ao mesmo tempo,
e é por isso que não se poderia falar disso fora dos tempos.
Se é tão difícil encarar a relação entre o sujeito um e múltiplo,
e a de sujeito a sujeito, é porque isso não pode ser visto de
imediato, e exige não somente o tempo de um percurso, mas
também o reconhecimento de que este percurso é ele próprio

195
guiado pela determinaçao de uma objetivaçao de tempo de
qualidades diferentes.
Além do interesse de ressituar "O Tempo lógico" em
seu contexto, a perspectiva histórica faz ressaltar que a
leitura do sofisma é um exercício que não se efetua sem o
ciframento de uma outra escritura: a do simbólico, do
imaginário e do real (1945-1955), da garrafa de Klein (1965),
do significante com a banda de Moebius (1966), da divisão ,fé
anarmônica (1973), do nó borromeano (1974). O ciframento Mig,/'
por uma outra escritura permite, em especial, dar um nome
àquilo que, no tempo lógico, precipita ao ato: 0 objeto
apressado. Entretanto, como se viu, essas escrituras não
podem substituir inteiramente o sofisma. Pode-se escrever
um laço de não-medida comum, ou de não-relação
complementar, pode-se dizer que o objeto a é função da

/
ye? pressa, mas não se pode dar conta completamente do jogo
dos três prisioneiros com a divisão anarmônica nem com o
nó borromeano. Em outras palavras, resta, ineliminável,
uma dimensão retórica que faz se sustentar a afirmação do
,f
A

xt/ sujeito no apólogo do tempo lógico. Que se trate de

i
ef cedo demais (no universal, quando não há sujeito algfum; na Õ
`

E idenfficação, quando se está no incomensurável), há uma


falha para o sujeito, na subjetivação do ato que o constitui, /,

falha inerente ao ato. O sujeito não pode se reconhecer no


ato que o constitui.
De modo que, se ele quer se contar, será com um erro
de conta. Pois este se é um se ao mesmo tempo reflexivo e
recíproco. O tempo lógico j oga com a ambiguidade dos dois.
Este é o se de um sujeito refletido com "um a mais".
Refletindo-se no objeto a, o objeto apressado, que não tem
imagem especular, o sujeito se difrata numa multiplicidade
que o precipita a concluir.
O um a mais se liga, novamente, a uma outra
dificuldade que surge no ensinamento de Lacan a propósito
da multiplicidade de sujeitos: como se contam os sujeitos
sexuados?
Enquanto a questão da relação entre os sujeitos
encontra uma solução a partir do ciframento de 1973 e do
tempo lógico, eis que ela vai repercutir alhures, no nível dos
sujeitos sexuados. Ela repercute porque, no caso dos sujeitos

196
mí, ___ _____

sexuados, não há ato que faça relação, não há relação


sexual, contrariamente ao caso do ato dos sujeitos do tempo
lógico, que permite estabelecer, na saída do momento de
concluir, uma identidade.
Lacan, no entanto, tentou aplicar as mesmas escrituras
ao caso dos sujeitos definidos pelo significante e ao caso dos
sujeitos sexuados, mas sem alcançar uma solução única. A
partir dos anos 70, mais ou menos, pode-se dizer,
esqu ematicamente, que as duas problemáticas são encaradas
de frente por Lacan: a da multiplicidade de sujeitos segundo
o desejo, e aquela, mais especificada, de sujeito sexuado a
sujeito sexuado.

dados que não foram tratados aqui


fálico, o gozo do Outro
-
A problemática da relação sexual faz intervir outros

- tais como o gozo


e reclama um desenvolvimento
especia '
' 1 ,no t a d amen t eem fu nçao d a t opo 1 ogia,
' na me dd a1 “
em que ela se apresenta como uma escritura tendo uma X

Q íLÉ
/7 certa autonomia com relação ao significante. Há um ponto,
a problemámlicadbwsujeito ao desejo e a da
não relação sexual se recobrem, é o da identificação. Esta,
em caso algum, é dada por antecipação e é (sobre)
determinada pelo significante. Já que, em toda identificação,
' existem três tempos do tempo lógico, a identificação sexual
é também envolvida por este, e mais precisamente na
declaração do sexo. Ora, se em função dessa declaração,
cada um tenta contar-se homem ou mulher, não haveria aí
um erro de contagem na medida em que, para cada um dos
sexos, na sua relação ao outro, o falo é, não complementar,
. mas sim suplementar?
No apólogo do tempo lógico, o erro da conta vai ser
formulado em termos diferentes, durante e depois da
prova. No começo do sofisrna e durante a prova, os
prisioneiros são três para um observador extemo. Mas eles
não se contam três nos tempos subjetivos de resolução do
enigma. Como diz Lacan em 1973, eles são na realidade
2 +a, e este 2 + a se reduz, no ponto do a, a um 1 -
referência a essa contagem, a cifra três aparece como um
a. Com

erro de contagem. No entanto, é um erro necessário, pois a


_
contagem da divisão anarmônica que é ternária, da qual
o três não é eliminado _ só é possível sobre o fundo dos

197
números inteiros, diante dos quais, justamente, a se verifica
um número irracional e incomensurável ao um. É por isso
que a relação entre os sujeitos não é uma intersubjetividade
no sentido em que cada sujeito compreenderia o outro; a
disparidade de sujeitos é cifrada por uma relação
incomensurável. Entretanto, como diz Lacan em Mais,
Ainda, isso é "alguma coisa como uma intersubjetividade".
"Contar-se três" marca duas coisas: por um lado, a
inerência de uma multiplicidade atual, limitada, de sujeitos
na antecipação da asserção identificatória de um sujeito;
por outro lado, o erro de cálculo a que sucumbe este sujeito
quando quer se contar nessa multiplicidade, devidoao
caráter reflexivo e recíproco do se. Nesse sentido, "contar-
se três" significa a subversão introduzida pela divisão
anarmônica numa contagem com os números inteiros. Esta
expressão remete, pois, ao erro de cálculo inerente ao
"contar-se" durante a prova, mas também à saída desta,
quando se trata de fazer inteirar, pelo diretor, a solução
encontrada.
No começo, o diretor reune três prisioneiros que ele
escolheu dizendo que deve libertar um dos três e que, para
decidir qual entre os três, decide submetê-los à prova do
tempo lógico: o primeiro a poder concluir sua cor deve se
5 beneficiar da medida libertária. Ora, ã saída do tempo

os três esentam
logico, não há "um primeiro", mas "três primeiros", já que
em conjunto com a
solução, este "conjunto" sendo, aliás, a prova do êxito para
cada um deles. Na saída da prova, não é mais possível,
portanto, decidir quando à medida libertária nos mesmos
termos que no começo. Isso é sinal de que uma mudança se
operou entre o início e o fim da prova. A questão não é mais
formulada ao final nos mesmos termos que no começo: se
o diretor pode ser considerado no início como uma espécie
de Outro garantidor da verdade, ao final não se pode
remeter-se aos termos enunciados por ele no início para
decidir a questão. Na medida em que o diretor encarna o
lugar de um Outro, iniciador do jogo, garantia de sua
solução, do qual o sujeito espera o assentimento, este
diretor é afetado pelo des-ser pela solução do sofisma.
Observa-se, além disso, que o termo "diretor", introduzido

198
_;_:¬

no começo, nao é mais mencionado no decorrer do texto de


Lacan (não mais que nas diversas retomadas do tempo
lógico), e que ele é mesmo substituído por "o observador",
joy e "nosso observador"; o diretor se toma, portanto, uma
'Wi /.uiçê_<>_‹i_e,_o,l1,1a,r...
Mas se o assentimento do Outro nao esta mais em
questão, permanece um problema de contagem. Ao final,
os prisioneiros não podem mais se contar da mesma maneira,
e a maneira pela qual cada um chega a concluir que eles são
iguais vai marcar seu cálculo por um erro, também ao final.
A solução não suprime o erro de contagem, se cada sujeito,
depois de sua afirmação, quiser se contar.
Se o diretor perguntasse a cada um dos prisioneiros,
depois de sua declaração: "Mas, afinal, quantos são vocês?",
cada um responderia: "Te:nho três companheiros, B, C e eu",
dando assim a mesma resposta que a criança a quem se
pergunta quantos irmãos tem.
Ao fim da prova, os sujeitos não são mais ao mesmo
tempo três e 1 + a, eles são três mais um. Com efeito, no
processo do tempo lógico, instituiu-se, nas des-contagem,
um outro sujeito que só é contável no a-mais dos três
sujeitos do tempo lógico: é o sujeito determinado pelas
escansões chamadas significantes por Lacan em sua
retomada de 1966. Este é o sujeito que se afirma, ao termo
do tempo lógico, e cuja existência tem em conta o um a mais
ao "três" prévio à sua efetuação. Este "a mais", não redutível
aos números inteiros, encontra em Lacan um primeiro
suporte com a banda de Moebius na contagem da "volta a
mais", para que o corte se feche. A partir da introdução 'doII f)
f II
no borromeano, o a mais e encarnado pelo elo a mais ,ø
r 0

respondendo à nomeação da nodulação. Mesmo ue vocês


sejam apenas três, isso dará quatro.

199
NOTAS
' J. Lacan, Mais, Ainda, op. cit., p. 130 da ed. franc.

2 lbid.

3 M. Safouan, Le transfert et le désir de l'analyste, Seuil, Paris, 1988, p.


237.

4 Em «Q momento de concluir" (inédito), 15 de novembro de 1977, Lacan


diz: O psicanalista e um mestre de retorica, diria que ele retoriza, o LU
V
que implica que ele retifica. O analista é um retórico, e Lçggus, palavra (
latina, equivoca com retificação. Tenta-se dizer a verdade, mas não e
fácil porque há grandes obstáculos a que se diga a verdade, no mínimo
há enganos na escolha das palavras. A verdade tem a ver com o real e
E 0 real é duplicado, se podemos assim dizer, pelo simbólico". "La chose
/~“' freudienne", onde Lacan profere "Moi la veritê je parle", é um exercício
em retórica, no caso, uma prosopopéia. Cf. M. Viltard, "L'exercice de
la chose freudienne", Líttoral, n“ 27-28.

51. Lacan, Seminário Xl, op. cit., p. 189 da ed.franc.

6 J. Lacan, "Proposição de 9 de outubro de 1967", Scilicet 1, op. cit., p.


20.

7"A alienação consiste nesse vel que condena (...) o sujeito a só aparecer
nessa divisão se ele aparece de um lado como sentido, produzido
pelo significante, do outro lado (no lugar do Outro) ele aparece como
afânise". J. Lacan, Seminário Xl, op. cit., p. 191. Cf. também p. 189, 199
e 201 da ed. franc.

8 M. Safouan, op. cit., p. 230.

9 J. Lacan, Seminário Xl, op. cit., p. 211 da ed. franc.

'° A relação ternária da divisão anarmônica não havia escapado ao


monge matemático Luca Pacioli que, em 1509, publicou em Veneza
um livro sobre "a proporção divina", ilustrado por Leonardo da Vinci.
Ali ele considerava a divisão anarmônica como proporção divina pois,
assim como a Santíssima Trindade é uma mesma substância em três
pessoas, ela é uma só proporção em três termos (o segmento menor, o
maior e a soma dos dois).

“ Se o analista na sua posição pura, original, não tem outra definição


do sujeito senão aquela que defino cartesianamente, como sendo ele o
que em todos os casos se afirma". J. Lacan, "Problemas cruciais",
seminário inédito, 9 de maio de 1965. Para a identidade do particular e
do universal, cf. Écrits, p. 292, e M. Safouan, op. cit., p. 170.

“200
ANEXO 1

¡› .

.-š

“Í
À*

A /
REFERENCIAS ExPL1c1TAs Ao
-`^

TEMPO Locrco No
ENSINAMENTO DE LACAN

1945 -- "O tempo lógico"; Cahiers d'Art (1940-1944)


1951
1953 - Seminário sobre o Homem dos Lobos
"Função e campo da fala e da linguagem", Écrits.
"rlntrodução ao comentário de Jean Hyppolite",

1955 -- Ecrits.
O Eu, seminário de 15 de junho.
1956
1958 - "A Carta roubada", Écrits, pz 15.
"As formações do inconsciente", seminário de 22
de janeiro.
1959 _ "O desejo e sua interpretação", seminário de 27 de

1961
1962
-- maio.
A Transferência, seminário de 14 de junho.
A Identificação", seminários de 10 de janeiro e 16
de maio.
1 964 ~ Os Quatro conceitos fundamentais da psicanálise,

1965 - seminários de 29 de janeiro e 11 de março.


"Problemas cruciais para a psicanálise", seminário

1966
1967
-- de 13 de janeiro.
"O tempo lógico", Êcrits, texto remanejado.
"Proposição de 9 de outubro de 1967", Scilicet 1,
p. 24. Discurso à EPP, 6 de dezembro, Scilicet 2/
3, p. 12-13. Resumo de "A lógica do fantasma",
EPI-IE, p. 192.
201
1973
1974
1975
--- Mais, Ainda, seminário de 16 de janeiro.
"Les non-dupes errent", seminário de 9 de abril.
Conferência em Genebra sobre o sintoma ~ Bloc-

1976
1977
-_ notes de la psychanalyse n° 5, p. 21.
"Le sinthome", seminário de 10 de fevereiroy ZÉ ;
"O momento de concluir", título do seminário.
§4/
1978 _ "A topologia e o tempo", título do seminário.
Abertura do seminário de Deniker, 10 de
novembro de 1978.

202
Ã._f ¬

ANEXO 2

Lista de modificações feitas por Lacan em 1966 ao


texto de 1945 de "O Tempo Lógico". (As palavras e frases
modificadas estão grifadas; a paginação indicada entre
parênteses é a dos Ecrits):

1945 1966 (p. 199)

Chamamos agora em nosso Colocamo-nos agora sob os


auxílio aatenção daquele que, 'auspícios daquele que, por
por vezes, se mostra a todos vezes, seapresenta sobohábito
sob o hábito do filósofo, que o do filósofo, que o mais das
mais das vezes se deve vezes se deve procurar,
procurar, ambíguo, nas ambíguo, nas palavras do
palavras do humorista, mas humorista, mas que se
que se encontra sempre reencontra sempre no segredo
presente no mais secreto da da ação do político: o bom
ação do verdadeiro político: o lógico, odioso ao mundo.
bom lógico, odioso ao mundo.
>(~1(~=(- >(->!~>!-

Chama-seA o personagemque Chama-se A o sujeito real que


vem concluir por si mesmo, B e vem concluir por si mesmo, B e
C aqueles sobre cuja conduta C aqueles refletidos sobre a
ele estabelece sua dedução. conduta dos quais
>(-=(~>(- =(->H(-

Mas ela está também excluída (p. 200)


de fato, nesta primeira etapa Mas ela está também excluída
da dedução, pois, ninguém se realmente nesta primeira etapa
encontrando realmente ver o da dedução, pois ninguém se
par de um preto e um branco, encontrando em presença de
não se trata de que alguém um preto e um branco, não se
saia, de fato, por essa razão. trata de que alguém saia pela
razão que daí se deduz.
X-il-ii IHHI'

cada um dos sujeitos sendo A (p. 201)


em termo lógico, na medida cada um dos sujeitos sendo A
em que se decide ou não a enquanto real, isto é, na
concluir sobre si, encontra a medida em que ele se decida
mesma dúvida no mesmo ou não.
momento que ele.

zoa
1

1
*** *%$

O sofisma conserva, pois, à todo o rigor impositivo de um


prova da discussão, todo o processo lógico.
rigor impositivo de um pro-
gresso lógico.
*** $**
Valor das escansões (p. 202)
suspensivas manifestadas Valor das moções suspensas
no processo
*$* *$*
Será justificado integrar ao Será justificado integrar ao
valor do sofisma as duas valor do sofisma as duas
escansões suspensivas assim moções suspensas assim
aparecidas? Para decidir isso, aparecidas? Para decidir isso,
deve-se examinar qual é sua deve-se examinar qual o seu
função com relação ao papel na solução do processo
progresso lógico na solução lógico.
do problema. Elas só desempenham esse
Elas só desempenham seu papel, com efeito, depois da
papel, com efeito, depois da conclusão do processo lógico,
conclusão do progresso lógico, já que o ato que elas suspendem
jáqueoatoqueelassuspendem manifesta essa conclusão
manifesta essa conclusão mesma. Não se pode, pois,
mesma.Pode-se,pois,objetar objetar a partir daí que elas
a partir daí que elas tragam à tragamàsolução um elemento
solução um elemento externo externo ao próprio processo
ao próprio progresso lógico? lógico.
É patente que esse papel é 0 Seu papel, por ser crucial na
de uma verificação crucial na prática do processológico, não
conclusão desse progresso. é o da experiência na verifi-
Isso quer dizer que ele é tal cação de uma hipótese, mas
como o de _um dado de sim o de um fato intrínseco à
experiência controlando uma ambigüidade lógica. Do
'hiplótese científica, ou o de primeiro aspecto, com efeito,
um fato que resolve uma am- os dados do problema se
bigüidade lógica irredutível, decomporiam assim:
e que, em última análise, os
dados do problema se decom-
poriam assim:

-
%$$ **$
2°) o dado de fato ou de
experiência das escansões
suspensivas queequivaleriaa
2°) -
(p. 203)
o dado de experiência
das moções suspensas, que
um sinal pelo qual os sujeitos equivaleria...: a saber, o que

ÍZÚ4
É

se comunicariam um com o eles vêem um do atributo do


l
l outro... a saber, o que eles vêem, outro.
um do atributo do outro? Não é nada disso, pois isso
t Não, pois isso seria dar, do seria dar, do processo lógico,
progresso lógico em questão uma concepção espacializada,
uma concepção espacializada, aquela mesm que transparece
aquela mesmaque transparece a cada vez que ele assume o
a cada vez que ele assume o aspecto do erro e que, por si
aspecto do erro lógico e que só, objeta à solubilidade do
não dá conta, em caso algum, problema.
da solubilidade do problema.
***
-
%$*

if

l;
(Nota 1) _ Meu caro L..., esse (Nota 1) Meu caro Lacan,
bilhete às pressas. esse bilhete às pressas.
%*$ $$$

, Ao contrário, a função dos Aocontrário,aentradaemjogo


fenomenos aqui em litígio só como significantes dos
pode ser reconhecida numa fenômenos aqui emlitígio faz
intuição temporal, e não prevalecer a estrutura
espacial, do progresso lógico. temporal, e não espacial, do
O que as escansões sus- processo lógico. O que as
K
pensivas denunciam é, não o moções suspensas denunciam
~ que os sujeitos vêem, mas o é, nao o que os sujeitos vêem,
` que eles encontraram, o que mas o que eles encontraram
eles procuram e, em última positivamente apartir do que
instância, positivamenteoque não vêem: a saber, o aspecto
eles não vêem, a saber, o dosdiscos pretos.lssopeloquê
aspecto dos discos pretos.lsso elas são significantes é
pelo quê elas significam, não constituído, não por sua
é pelo seu movimento, mas direção, mas por seus tempos
por seus tempos de parada. de parada. Seu valor crucial
Seu valor crucial não é o de nãoéodeuma escolhabinária
uma discriminação contra- entre duas combinações
ditóriaentreduas combinações justapostas no inerte, e
justapostas como objetos iner- desemparelhadas pela
tes, e desemparelhadas pela exclusãovisualdaterceira, mas
exclusãovisualda terceira, mas do movimento de verificação
da verificação historicamente instituído por um processo
determinada de um movi- lógico onde o sujeito
mento lógico no qual o sujeito transformou as três com-
organizouas três combinações binações possíveis em três
possíveis em três tempos de temposde possibilidade.Êpor
possibilidade. É por isso issotambémque,enquantoum
também que, enquanto um só só sinal deveria bastar para a

-205
sinal deveria bastar para a única escolha imposta pela
única discriminação imposta primeira interpretação
pela primeira interpretação errônea, duas escansões são
errônea, duas escansões são necessárias para a verificação
necessárias para a verificação dosdoislapsosimplicados pela
de dois lapsos implicados pela segunda, e única válida.
segunda,eúnica válida. Longe de ser um dado de
Longe, com efeito, de trazer experiência externa no
um dado de experiência processo lógico, as moções
externa ao progresso lógico, as suspensas são aí tão
escansões suspensivas nada necessárias que só a
representam além das instân- experiência pode fazeraí faltar
cias do tempo integradas no o sincronismo por elas
progresso lógico, gravadas na implicado por se produzirem
sua conclusão e que se deumsujeito de puralógicae
desenvolvem numa ver- fazerem fracassar sua função
dadeira experiência lógica no processo da verificação.
para verificá-lo. Como se vê Elasaínadamaisrepresentam,
na sua determinação lógica com efeito, que os níveis de
que, objeção do lógico ou degradação (p. 204) cuja
dúvida do sujeito, se revela a necessidade faz aparecer a
cada vez como a esquiva ordem crescente das
mental de uma instância do instâncias do tempo que se
tempo, ou, melhor dizendo, registram no processo lógico
como suadesintegração lógica para se integrar na sua con-
de um progresso que se clusão.
degradaacada vez em exigên- Como se vê na determinação
cias formais. Como se vê ainda lógica dos tempos de parada
no fato de que as duas que elas constituem, a qual,
escansões, para desempenhar objeção do lógico ou dúvida
seu papel de verificações, dosujeito,serevelaacadavez
devem ser sincrônicas entre como o desenvolvimento
os três sujeitos, e isso desde a subjetivo de umainstância do
sua partida, isto é, exprimir a tempo, ou, melhor dizendo,
reciprocidade lógica dos como a fuga do sujeito numa
sujeitos. exigência formal.
Essas instâncias do tempo Essas instâncias do tempo,
integradas ao progresso lógico constituintes do processo do
do sofisma permitem reco- sofisma, permitem aí
nhecer neste um verdadeiro reconhecer um verdadeiro
movimento lógico: elas movimento lógico. Este
apresentam aí, com efeito, processo exige o exame da
funções propriamente lógicas qualidade de seus tempos.
que fazem sua originalidade
E que VGIIIOS ãgüfã €Xãl1'lÍI\3I'

206
!--_--

nesse próprio movimento que


elas instituem.
%*% *%$
i

A modulaçao do tempo no A modulaçao do tempo no


movimento lógico: movimento do sofisma: (p. 205)
*** ***
Na equivalência lógica dos dois "Dois pretos: um branco".
termos: "Dois pretos: um
É

branco".
É $** $*$

É
A tensao do tempo na asserçao A tensao do tempo na asserçao
subjetiva e seu valor manifesto subjetiva e seu valor manifesto

na experiência lógica. na demonstração do sofisma
r (p. 207)
E
**% $**
E

E já que um só se reconhece no já que um só se reconhece no


I

outro e só descobre o atributo outro e só descobre o atributo


que é o seu na alienação de seu que é o seu na equivalência do
tempo próprio. O "eu" (je), tempo próprio deles. O "eu"
sujeito da asserção conclusiva, (j e), sujeito da asserção
se define por um intervalo de conclusiva, se isola por um
tempo lógico com relação ao intervalo de tempo lógico com
outro, isto é, com referência à referência ao outro, isto é, com
relação de reciprocidade. Este referência à relação de
movimento de gênese lógica reciprocidade. Esse movimen-
do eu (je) por uma todegeneselogicado eu (je),
desalienação dede seu tempo por uma decantação de seu
lógico próprio está singular- tempo lógico próprio, é
mente calcado no seu bastante paralela ao seu
nascimento psicológico. Do nascimento psicológico. Do
mesmo modo que, para mesmo modo que, para
recorda-lo, de fato, o "eu" (je) recordá-lo, com efeito, 0 "eu"
psicológico se destaca de um (je) psicológico se destaca de
transitivismo espetacular um transitivismo especular
É
indeterminadopelo sentimen- indeterminado pelo despon-
r
A
to primordial de uma tar de uma tendência
tendência própria como o despertadacomociúme,o"eu"
.t
n ciúme, o "eu" (je) de que se (je) de que se trata aqui se
trata aqui se define pela subje- define.
tivação de uma concorrência
com o outro na função do
tempo lógico.
*$* %$*

(Nota 3) - Assim o "eu" (je), Assimo"eu"(je), terceira forma

207
terceira forma do sujeito do do sujeito da enunciação na
conhecimento na lógica, é lógica, é ainda aí a "primeira
ainda aí a "pri1neira pessoa", pessoa", mas tambémaúnicae
mas também a única e a última. a última. Pois a segunda pessoa
Pois a segunda pessoa gramatical provém de uma
gramatical não nos parece outra função da linguagem.
poder ser esvaziada de toda Quanto à terceira pessoa
relatividade psicológica. gramatical, ela é apenas
Quanto à terceira e pretensa pretensa,éumdemonstrativo,
pessoa gramatical, esta é um igualmenteaplicávelaocampo
demonstrativo, igualmente do enunciado e a tudo o que aí
aplicável às pessoas e aos se particulariza.
objetos, para particularizá-los i

numa situação.
ii* **$
O sujeito, com efeito, captou o de um tempo de atraso que o
momento de concluir que ele é faz apressar-se em direção à
um branco sob a evidência saída, mas, se ele não captou
subjetiva de um tempo de este momento, ele não age de
atraso que precipita o ato de outra maneira, sobaevidência
sua partida: mas, senão captou objetiva da saída dos outros.
este momento, nem por isso
ele deixa de precipitar este ato
sob a evidência subjetiva da
saída dos outros.
$$* *ii
Ele será o único a se declarar Ele será o único a se declarar
tal por este motivo. tal nesses termos.
*** ii*
sua certeza se verifica numa (p. 209) sua certeza se verifica
experiência lógica numa precipitação lógica.
determinada pela descarga
dessa tensão.
$$* **$
Inicialmente reapareceotempo como que aspirado entre o
objetivo da intuição inicial do instante de seu começo e a
movimento que, como que as- pressa de seu fim.
pirado entre o instante de seu
começo e a precipitação de seu
fim, parecera estourar como
um balão.
*** $*$

o intervalo da primeira ointervalodaprimeiramoção


€SCaI'lSa0 SHSPEIISIVH. SUSPQIIS3.

208
ii* $**
Certamente,seadúvida,desde quanto à forma de asserção
Descartes, está integrada ao aqui estudada, esse valor se
valor do juízo, deve-se liga menos à dúvida que a
observar que, quanto à forma suspende que à certeza
de asserção aqui estudada com antecipada que a introduziu.
a experiência que ela Mas, para compreender a
engendra, esse valor se liga função desta dúvida quanto
menos à dúvida provisória que ao sujeito da asserção,vejamos
a suspende que à certeza o que vale objetivamente a
antecipada que a sustenta. primeira suspensão para o
Mas, para compreender a observador que já
funçãodestaprimeiracessação interessamos na moção con-
temporal quanto à certeza junta dos sujeitos. Nada mais
subjetiva da asserção,vejamos que isso é que cada um, se era
o que vale objetivamente esta impossível até então...
primeira escansão para o
observador que já colocamos
em jogo, a propósito de um
qualquer dos sujeitos. Nada
maisqueissoéqueestesujeito,
se era impossível até então
julgar em que sentido ele havia
concluído...
*$* %$*

Mas a experiência lógica (p. 210)


prossegue em direção à Mas o descenso lógico
segundaescansãosuspensiva. prossegue em direção ao
Cada um dos sujeitos, se segundo tempode suspensão.
recapturou a certeza subjeiva
do momento de concluir
$%* ***
Assim, a asserção que conclui Assim, a asserção de certeza
osofismavem,digamosassim, do sofismaivem, digamos
ao final da experiência lógica assim, ao termo da reunião
das duas escansões no ato de lógica das duas moções
sair, dessubjetivar-se ao suspensas no ato onde elas
mínimo. terminam por se dessubjetivar
ao mínimo.
*** $%$

este mesmo sujeito pode (p. 211)


também exprimir esta mesma verificação dessubjetivada ao
certeza por sua verificação mínimono movimentológico.
dessubjetivada ao mínimo pela

209
experiência lógica.
` ›‹-x-=‹- =‹-›t-=‹›

Conclusão que, sob sua desde que ele constituiu o


primeira forma, pode ser movimento lógico do sofisma,
formulada como verdadeira mas não pode como tal ser
pelo sujeito, desdeque ele assumida por esse sujeito
terminou o movimento lógico senão pessoalmente-... tendo
do sofisma, mas não pode, consumadoodescenso lógico
como tal, ser assumida senão que verifica o sofisma sem
por este sujeito pessoalmente, ter constituído o movimento
mas que, sob sua segunda lógico do sofisma.
forma, exige que todos os
sujeitos tenham consumado a
experiência lógica que verifica
o sofisma, mas é aplicável por
qualquer um a cada um dentre
eles. Não está mesmo excluído
que um dos sujeitos, mas
apenas um, aí advenha, sem
ter terminado do movimento
lógico do sofisma e por ter
apems seguido sua verificação
manifestada nos dois outros
sujeitos.
=(-=(->(- Á-ll-X'

Assim, a verdade do sofisma Assim, a verdade do sofisma


só chega a ser verificada só chega a ser verificada por
porque ela ê inicialmente, se sua presunção, se se pode
se pode dizer, presumida por dizer, na asserção que ele
antecipação na asserção que o constitui.
conclui. Ela se revela assim
depender de uma tendência
que a visa.
3('i('i(' %H|>¶'

É só por dar ao termo lógico (p. 212) Êsó por fazer aparecer
dos outros a menor ao termo lógico dos outros a
relatividade heterogênea para menor disparidade para que
que essa forma manifeste o se manifeste o quanto a
quantoa verdade para todos verdade para todos
depende do rigor de cada um
*il-Si' ilil'

para ver que ele pode se aplicar para ver que ele pode se aplicar
logicamente a um número logicamente a um número
ilimitado de sujeitos, sendo ilimitado de sujeitosl (p. 212),
dado que...“. sendo dado que o atributo

210
-I-__«_ «_ ¬__@_-_

"negativo" só pode intervir


num número igual ao número
de sujeitos menos um* (p. 213)
(Nota 1, p. 213: (If. a condição
desse menos um no atributo
com a função psicanalítica do
Um-a-mais no sujeito da
psicanálise, p. 480 dessa
compilação).
*ii $%%

a qualquer forma que seja da que se refira em conclusão.


lógica clássica que se conduza
em conclusão de tais premis-
sas que se quiser.
ii* $*%

E que no entanto reserva a E que no entanto reserva a


indeterminaçãoexistencialdo determinação essencial do
"eu" (je)5. "eu" (je)2. (p. 213)

Nota 5) Fragmento de um (Nota 2, p. 213): Que o leitor


Ensaiode umalógica coletiva. que prosseguir nessa
compilação volte a essa
referência ao coletivo que está
no fim deste artigo, para situar
o que Freud produziu sob o
registro da psicologia coletiva
(Massen: Psychologie un
Ichanalyse, 1920): o coletivo
nada mais é que o sujeito do
individual.

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* ,Ir lx, _lj f- para o sujeito de se contar como tal.


iä É mi/rwz Élí' â
r - u
O tempo logico e a asserçao
i

`
da certeza
antecipada é o primeiro (e o mais depurado) dos
textos de Lacan a abordar essa questão,
amculando, temporalmente e segundo uma logica
do ato, uma multiplicidade de sujeitos com a unicidade de um sujeito que
enuncia: desse modo ele renova a concepção freudiana do indivíduo e do
social com a noção de uma identicação "horizontal" ao grupo.
Acompanhar, passo a passo, a problemática das duas versões ( 1945 e 1966)
deste texto que Lacan chama "meu pequeno sosma pessoal" e a de suas
numerosas retomadas, permite cifrar a contagem do sujeito. Mas esta se terá
efetuado sem erro?

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