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Ricardo Reis: o poeta “Clássico”

1. Ideias da poesia de Ricardo Reis


2. Influências da filosofia antiga em Ricardo Reis

   

2. Estilo da poesia de Ricardo Reis

 Em termos literários, Reis cultiva as odes à maneira de Horácio e adota


um tom sereno que se harmoniza com a ideia de carpe diem do poeta
romano.

 Influência literária, cultural e linguística da Antiguidade greco-latina:


deuses, símbolos, etc.
 Disciplina no trabalho de composição do poema, o que transparece na
regularidade estrófica, métrica e na construção frásica elaborada.
 Recurso ao hipérbato e à anástrofe, sugerindo assim a construção de
frase latina.
 Uso de um vocabulário erudito de origem grega e latina.
 Uso do gerúndio e do imperativo.
Ricardo Reis
Ricardo Reis, heterónimo de Fernando Pessoa, foi feito nascer, pelo seu
criador, no Porto, embora num horóscopo se leia, depois da data de 19-9-
1887, 4 horas e 5 minutos da tarde, em Lisboa. Conforme Pessoa o descreve,
na conhecida carta a Casais Monteiro de 13-1-1935, era um pouco mais
baixo, mais forte do que Caeiro, mas seco, «de um vago moreno mate»; fora
educado num colégio de jesuítas e era médico e monárquico, vivendo,
expatriado, no Brasil, desde 1919.

O facto de ser «um latinista por educação alheia, e um semi-helenista por


educação própria» é adequado a um autor de poemas de índole pagã, que
Pessoa afirma ter começado a escrever por volta de 1912. Mas Reis só terá
tomado forma após a «descoberta» do mestre Caeiro, surgindo como seu
natural discípulo. Num texto incompleto sobre a vida e obra de Reis, Pessoa
afirma, contrariando em parte a versão de 1935, que o Dr. Ricardo Reis
nasceu dentro da sua alma no dia 28 de janeiro de 1914, pelas 11 horas da
noite, na sequência de «uma discussão extensa sobre os excessos,
especialmente de realização, da arte moderna».

Constrói, então, uma teoria neoclássica com a qual antevê poder reagir,


«tanto contra o romantismo moderno, como contra o neoclassicismo à
Maurras». Reis vem, portanto, dar corpo a esta teoria e toda a sua obra por
vir fará por confirmá-lo. De resto, diz Pessoa, na carta acima referida, que
escreve em nome de Ricardo Reis, «depois de uma deliberação abstrata, que
subitamente se concretiza numa ode» e que pôs nele toda a sua «disciplina
mental». Com efeito, dentro do universo pessoano, é porventura este o
heterónimo que exige a Pessoa um maior distanciamento e um maior poder
de despersonalização.

A sua escrita, fiel aos cânones clássicos, concretiza-se, realmente, quase


sempre em odes. Pessoa define-o, aliás, numa nota solta, como um «Horácio
grego que escreve em português». O modelo sintático horaciano é, com
certeza, o que melhor se adequa à poética de Reis, fundamentada numa
disciplina que age ao nível do ritmo. A emoção poética exige, pois,
uma disciplina do ritmo, isto é, nas palavras de Reis, «a frase, súbdita do
pensamento que a define, busca-o, e o ritmo, escravo da emoção que esse
pensamento agregou a si, o serve». No mesmo sentido de dar à expressão
poética um «clima latinizante» (no dizer de Prado Coelho), vai o uso de
latinismos, helenismos e arcaísmos vários, bem como de palavras com um
significado muito próximo do etimológico.

Epicurismo e Epicuro
Epicuro foi um filósofo grego a ataraxia ou estado de confiança
(Samos, 341 a. C.-Atenas, 271 a. proporcionado pelo gozo do prazer
C.). Depois de breve passagem por e ausência da dor e de qualquer
Atenas e Cólofon, criou o seu preocupação. De entre os
círculo de amigos em Mitilene sentimentos humanos haveria que
(Lesbos) e em Lâmpsaco. Terá sido cultivar em especial a amizade.
neste círculo que amadureceram
as posições mais características de Epicuro e os seus discípulos
Epicuro. deram particular relevo à
necessidade de eliminar dois
Segundo o Epicurismo, a fatores que estavam na origem de
felicidade do Homem reside no muitas perturbações não
prazer. E insiste no facto de este corporais: o temor dos deuses e o
reconhecimento do valor medo da morte. Os deuses não
insubstituível do prazer ser interferem nem se interessam
independente e anterior a pelos destinos dos homens. De
qualquer processo de justificação resto, a física iria ensinar as leis
racional. Por isso o prazer está básicas das coisas e dos
intimamente ligado à perceção. A acontecimentos. O medo da morte
experiência do prazer, definido é igualmente infundado. A
como ausência de dor em alguém consideração atenta da verdadeira
que vive conscientemente, é natureza da alma mostrará que
sempre a experiência da esta é constituída por átomos
sua bondade. muito finos, que se dispersarão
quando, na morte, o invólucro do
O prazer só pode aumentar até corpo deixar de os manter unidos.
ao momento em que a dor é Então, deixará de haver sensações
completamente afastada. A partir e, portanto, prazer ou dor. Assim, a
daí não há possibilidade de morte não deve ser temida, até
progressão. Quem assim vive pode porque, em rigor, não é um estado
conquistar a verdadeira de nós mesmos.
independência e, através dela,
racional do mundo, a identificar-se
mais plenamente com a sinfonia
universal das causas — é, por isso,
uma ética essencialmente
racionalista, na linha de grande
parte da ética grega.

Estoicismo
A sabedoria consiste no acordo
O Estoicismo retira o seu nome com a natureza, prolongando-a e
do lugar de Atenas — Stoa completando-a, encontrando nela
poikilé (pórtico ornado com as a matriz da inspiração; o Homem é
pinturas de Polignoto) — onde o ser no qual a racionalidade da
ensinaram Zenão e os primeiros natureza se revela e se reconhece
estoicos. No Estoicismo conjugam- e no qual o agir se adequa
se uma doutrina tecnicamente conscientemente a ela. Este fim,
elaborada e um estilo de vida para o Homem, consiste
perfeitamente identificável. simultaneamente no acordo
A ética estoica encontra-se consigo próprio, na unificação da
fundada no eudemonismo, a busca vida sob a regra da razão naquele
da felicidade; porém, a felicidade acordo com a natureza universal.
não consiste no prazer, mas no Por isso, «viver em
exercício constante da virtude, na harmonia», «viver de acordo com a
própria autossuficiência que razão», «viver de acordo com a
permite ao homem alhear-se dos natureza», são princípios que
bens extrínsecos. possuem conteúdos idênticos.
A ética estoica estende a A virtude é o único bem que
primazia do logos ao domínio da vale por si mesmo; a ação honesta
conduta humana. É uma filosofia possui em si mesma a sua
da resignação e da aceitação, mas recompensa, ela basta à felicidade;
que luta contra uma atitude de por oposição, o mal absoluto é o
demissão prática ou de vício. A virtude consiste na
irresponsabilidade moral, perfeição da natureza individual, é
pretensamente justificadas pela duplamente disposição da
fatalidade do destino: os estoicos natureza e também conhecimento.
conferem um lugar importante A principal tarefa ética consiste
à liberdade humana e ao juízo essencialmente numa disciplina
moral, através dos quais o Homem fortalecida por meio da sabedoria
pode vir a cooperar com a ordem ou pelo reto conhecimento,
conduzindo o Homem a um pecado tem a sua origem fora do
recolhimento na contemplação homem individual. Os estoicos
do logos. O Homem nasce bom e é distinguem dois tipos de homens:
a sociedade que o torna mau. O os sábios e os néscios.
Álvaro campos

Na apresentação que Pessoa faz de Campos a Casais Monteiro, na célebre


carta, pode perceber-se que Campos é o retrato melhorado, física e
moralmente, do seu criador: mais novo dois anos (depois de certa idade faz
sempre jeito...), dois centímetros mais alto (1,75 m, precisa Pessoa — o que lhe
favorece a silhueta), e, como ele, «entre branco e moreno, tipo vagamente de
judeu português», cabelos lisos, risco ao lado e com tendência para se curvar.
Seguramente para honrar os seus antepassados judeus, de Tavira, Pessoa aí fez
nascer Álvaro de Campos, a 15-10-1890. A «casa antiga da quinta velha» é
frequentemente evocada nos seus poemas, sempre com a pungente saudade
do «Paraíso perdido» da sua infância burguesa» e do seu «horizonte de quintal
e praia» e das «tias velhas» e do seu eterno chá, durante os longos serões em
que se jogava a feijões nos «jogos de mesa», com a presença também de uma
avó que bordava a missangas.

Já através da célebre carta a Casais Monteiro tínhamos sido informados de


que, depois de fazer o liceu em Lisboa, Álvaro tinha ido para a Escócia fazer
Engenharia, primeiro mecânica, depois naval (o que o predispunha melhor não
a exercer uma profissão, a que nunca parece se ter verdadeiramente aplicado,
mas a escrever não só a «Ode marítima», sua futura glória, mas também as
outras mais pequenas odes da primeira fase, todas ou quase todas com cenário
de barco e de mar).

Como Pessoa, Campos apresenta-se como um corpo-alma errante, até


dentro de si próprio, sem poiso, sem lar. Dir-se-ia que Campos funcionou como
seu abcesso de fixação e que, quando exclamou: «Cá está ela! Tenho a loucura
exatamente na cabeça!», estava a localizar o seu mal para dele se livrar. Campos
encarnou, da mesma forma, outras doenças de Pessoa: a abulia e a insónia.

Campos teve, pois, esse papel: o de catarticamente viver os seus males e


deles, assim, o libertar. Purgou-o do seu medo da loucura, da homossexualidade
(assumindo-se como tal), da morte (instalando-se na gare, à espera do
«comboio definitivo» e indo ao seu encontro em poemas como «Partida» e
«Ode mortal»), e «cozeu» as suas bebedeiras, impedindo-o de se mostrar
bêbedo em público.

Campos é, de facto, Pessoa bem mais intenso, mais interessante, com maior
relevo, com mais picante. Quando Pessoa concebe Campos como uma abertura
à Europa e um desafio não só ao escandaloso Futurismo então em voga mas
também a Walt Whitman, enviou Caeiro para o Ribatejo apascentar as suas
ovelhas-pensamentos e encarregou o Engenheiro de assumir todas as
provocações da Modernidade, «ardendo com ter toda a Europa no cérebro»,
como proclama na Saudação a Walt Whitman.
ÁLVARO DE CAMPOS, o poeta da modernidade
1. Poesia de Álvaro de Campos

2. O imaginário épico: A matéria épica: a exaltação do


Moderno
O arrebatamento do canto
Sujeito, consciência e tempo; nostalgia da infância