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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

MAIRA LUISA GONÇALVES DE ABREU

POLITIZANDO A ANATOMIA: ANTINATURALISMO E


MATERIALISMO NO PENSAMENTO FEMINISTA FRANCÊS
(1960-1980)

CAMPINAS

2016
Agência(s) de fomento e nº(s) de processo(s): FAPESP, 2010/522324

Ficha catalográfica
Universidade Estadual de Campinas
Biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas
Paulo Roberto de Oliveira - CRB 8/6272

Abreu, Maira, 1981-


Ab86p AbrPolitizando a anatomia : antinaturalismo e materialismo no pensamento
feminista francês (1960-1980) / Maira Luisa Gonçalves de Abreu. – Campinas,
SP : [s.n.], 2016.

AbrOrientador: Angela Maria Carneiro Araújo.


AbrTese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de
Filosofia e Ciências Humanas.

Abr1. Teoria feminista. 2. Crítica marxista. 3. Materialismo. 4. Feminismo -


França. I. Araujo, Angela Maria Carneiro,1952-. II. Universidade Estadual de
Campinas. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. III. Título.

Informações para Biblioteca Digital

Título em outro idioma: Politicizing anatomy : antinaturalism and materialism in french


feminist thought
Palavras-chave em inglês:
Feminist theory
Marxist criticism
Materialism
Feminism - France
Área de concentração: Ciências Sociais
Titulação: Doutora em Ciências Sociais
Banca examinadora:
Angela Maria Carneiro Araújo [Orientador]
Helena Hirata
Bila Sorj
Miriam Grossi
Regina Facchini
Data de defesa: 29-11-2016
Programa de Pós-Graduação: Ciências Sociais

Powered by TCPDF (www.tcpdf.org)


UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS

INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS

A Comissão Julgadora dos trabalhos de Defesa de Tese de Doutorado, composta pelos


Professores Doutores a seguir descritos, em sessão pública realizada em 29 de
novembro de 2016, considerou a candidata Maira Luisa Gonçalves de Abreu aprovada.

Prof.ª. Dr. ª. Angela Maria Carneiro Araújo

Prof.ª. Dr. ª Helena Hirata

Prof.ª. Dr. ª Bila Sorj

Prof.ª. Dr. ª Regina Facchini

Prof.ª. Dr. ª Miriam Pillar Grossi

A Ata de Defesa, assinada pelos membros da Comissão Examinadora, consta no


processo de vida acadêmica da aluna.
AGRADECIMENTOS

Muitas foram as pessoas que, por sua presença, amizade, ou palavras de encorajamento,
contribuíram com este trabalho. Limito-me aqui a agradecer aquelas/es que participaram deste
projeto de forma mais direta.

Primeiramente agradeço a todas aquelas que me forneceram depoimentos fundamentais para


esta pesquisa e que me contaram sua experiência de militância em tempos de grande
efervescência: Colette Guillaumin, Colette Capitan Peter, Christine Delphy, Emmanuelle de
Lesseps, Josette Trat, Liliane Kandel, Dominique Fougeyrollas, Helena Hirata, Danièle Kergoat,
Michele Ferrand, Anne-Marie Devreux e Danièle Senotier.

À Angela Araújo pela orientação e compreensão no momento de finalização deste trabalho. À


Marisa Corrêa por ter apoiado meu projeto, num momento no qual duvidava da sua viabilidade.
À Regina Facchini pelas contribuições na banca de qualificação.

Durante minha estadia na França, pude contar com a ajuda de diversas pesquisadoras sem as
quais este trabalho não teria sido possível. Agradeço à Isabelle Clair, Danièle Linhart, Cornelia
Möser, Jules Falquet e Lucie Tanguy. Um agradecimento especial à Helena Hirata pelo apoio e
encorajamentos permanentes.

Às amigas e amigos que acompanharam de perto as longas jornadas de trabalho e, para além da
amizade, leram, discutiram e opinaram sobre alguma parte deste texto: Malek Bouyahia e
Nehara Feldman pelas inúmeras correções de textos em francês e pelos diálogos que tanto
enriqueceram esta tese; Lettícia Leite, escudeira fiel e incansável; Juliana Guanais, sempre
presente e encorajadora; Danielle Tega, pela ajuda preciosa e determinante no fechamento destr
testo. Agraço também à Daniela Vieira, Maria Angélica, Sylvie Bastian, Sophie Noyé, Maíra
Mano e Rafael Silva pelas trocas, sugestões e contribuições.

Um agradecimento especial à Aluana Abreu, minha irmã, que me acolheu no último ano de
doutorado e que me deu a infraestrutura necessária para a conclusão deste trabalho.

Esta tese foi financiada pela Fapesp e se beneficiou também de uma bolsa “sanduíche” Capes na
França.
RESUMO

Este trabalho tem por objetivo analisar a emergência de um pensamento feminista materialista
e antinaturalista no bojo das intensas mobilizações feministas dos anos 1970 e início dos anos
1980 na França. A partir de um diálogo entre diferentes campos disciplinares e temáticos,
como os estudos de gênero, a teoria feminista e a história das ideias, o objetivo é analisar essa
produção em estreita relação com o contexto histórico e teórico no qual tais análises surgiram
e que lhe confere sentido. É dada especial ênfase à constituição do que ficaria conhecido
como “feminismo materialista”, corrente associada aos trabalhos de Christine Delphy, Colette
Guillaumin, Nicole-Claude Mathieu e Monique Wittig, que fizeram parte do coletivo de
redação da revista Questions féministes (1977-1980) e que foram pioneiras ao propor uma
abordagem antinaturalista articulada a uma análise materialista. Utilizando diferentes tipos de
fontes como panfletos, textos de jornais militantes, além de textos publicados sob a forma de
livro e artigo, o objetivo é restituir os caminhos trilhados por essa reflexão e os embates
teóricos que marcaram o seu desenvolvimento, ressaltando a conflitualidade e o caráter
coletivo dessa reflexão.

Palavras-chave: teoria feminista, feminismo-França, materialismo, critica marxista.


ABSTRACT

This paper aims to analyze the emergence of a feminist materialist and anti-naturalist thought
in the midst of the intense feminist mobilizations of the 1970s and early 1980s in France.
From a dialogue between different disciplinary and thematic fields, such as gender studies,
feminist theory and the history of ideas, the objective is to analyze this production in close
relation with the historical and theoretical context in which such analyzes have arisen and
which makes sense to it. Particular emphasis is given to the constitution of what would be
known as "materialist feminism," associated with the works of Christine Delphy, Colette
Guillaumin, Nicole-Claude Mathieu, and Monique Wittig, who were part of the editorial
collective of the journal Questions féministes (1977-1980). They were pioneers in proposing
an anti-naturalist approach articulated to a materialistic analysis. Using different types of
sources, such as pamphlets, magazines and newspapers, as well as texts published as book and
article, the objective is to restore the paths followed by this reflection and the theoretical
clashes that marked its development, highlighting the conflict and the collective character of
this reflection.

Keywords: feminist theory, feminism-France, materialism, Marxist criticism


LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS

AMR – Alliance Marxiste Révolutionnaire.


ARCL – Archives, Recherches et Cultures Lesbiennes.
BDIC – Bibliothèque de documentation internationale contemporaine.
BMD – Bibliothèque Marguerite Durand.
BnF – Bibliothèque National de France.
CNRS – Centre national de la recherche scientifique.
FMA – Féminin Masculin Avenir, num primeiro momento, e depois
Féminisme, marxisme, action.
GEDISST – Groupe d’études sur la division sociale et sexuelle du travail.
GLF – roupe de lesbiennes féministes.
LC – Ligue Communiste.
LCR – Ligue Communiste Révolutionnaire.
MDF – Mouvement Démocratique Féminin.
MLF – Mouvement de Libération des Femmes.
MLAC – Mouvement pour la liberté de l'avortement et de la contraception.
MSH – Maison des Sciences de L’homme.
PCF – Parti Communiste Français.
VLR – Vive la Révolution.
SUMÁRIO

Introdução ........................................................................................................................................11

Capítulo 1 - “Questão feminina” e natureza nos debates do pós-Guerra...................................32

Naturalismo, biologismo e alguns de seus antônimos............................................................34

O segundo sexo de Simone de Beauvoir.................................................................................38


Marcos históricos........................................................................................................40
Beauvoir e o antinaturalismo: uma ruptura inacabada?..............................................43
Perspectivas de transformação....................................................................................48
Natureza e cultura nos anos 1950-1960: a “questão feminina”..............................................51

Capítulo 2 - A radicalização do movimento: do FMA ao MLF...................................................64

Os “anos 1960”.......................................................................................................................64

O FMA e a radicalização do feminismo.................................................................................67


Ação............................................................................................................................72
“Nossa perspectiva do problema é marxista”............................................................75
Antinaturalismo ..........................................................................................................79
Revolução sexual........................................................................................................83

Mouvement de Libération des Femmes..................................................................................85


Diálogos transatlânticos..............................................................................................98
Tendências no movimento: problematizações..........................................................102
Um “nós mulheres”?.................................................................................................107
Formas de organização do movimento.....................................................................109
Capítulo 3 - Teorizando a opressão .............................................................................................113

Teoria feminista....................................................................................................................117

Como nomear a opressão?....................................................................................................124

Unidade de classe ou múltiplas opressões?..........................................................................134

Capítulo 4 - Questões feministas em revista: desafios e problemas da produção e publicação

de ideias feministas .......................................................................................................................141

Condições materiais de produção de saberes feministas nos anos 1970..............................141


Questions féministes: uma revista teórica feminista radical.................................................154

Encontros e debates em torno de uma proposta........................................................156


Variações sobre um tema comum: o projeto político da revista...............................165
Recepção da revista...................................................................................................168
Temas de debate........................................................................................................172
O trabalho militante..................................................................................................174
Feminist Issues..........................................................................................................175
Capítulo 5 - Anti-naturalismos feministas...................................................................................178

O MLF e a questão da diferença sexual................................................................................178

Debates sobre a relação entre sexo e gênero........................................................................187

Colette Guillaumin – Naturalização da raça e do sexo: duas faces de uma


mesma lógica........................................................................................................................193
Christine Delphy e a crítica à ideologia naturalista..............................................................201

Nicole-Claude Mathieu e a idéia de “sexo social”...............................................................207

Monique Wittig e o pensamento straight.............................................................................214

Capítulo 6- Materialismos feministas..........................................................................................221

Feminismo e a esquerda........................................................................................................221
Em busca das bases materiais da opressão feminina............................................................225
Christine Delphy e o inimigo principal..................................................................225
Outras análises materialistas...................................................................................230
Salário para o trabalho doméstico..........................................................................236
O domestic labour debat........................................................................................239
Encontros em torno de uma perspectiva comum....................................................242
Sexagem.................................................................................................................245
Debates em torno de alguns conceitos..................................................................................249
Marxismo e marxismos..........................................................................................249
Mulheres como classe.............................................................................................250
Patriarcado e capitalismo........................................................................................257

Relações sociais de sexo: emergência de uma nova perspectiva..........................................261

Capítulo 7 - Questões feministas e questões lésbicas ..................................................................268

Feminismo e lesbianismo nos anos 1970..............................................................................269


A emergência de uma mouvance lésbica radical .................................................................274
Questions féministes e questões lésbicas..............................................................................280
Considerações finais.......................................................................................................................292

Bibliografia......................................................................................................................................299
11

Introdução

A crise atual do capitalismo neoliberal teria modificado a paisagem do


pensamento feminista? Nancy Fraser1 responde positivamente a essa questão. Para a autora,
essa crise recoloca, para a reflexão feminista, a questão da sociedade capitalista na ordem do
dia. O sentido da reincorporação dessa questão pode ser captado na emergência de novas
tendências, como outras autoras e autores, além de Fraser, têm evidenciado. Presencia-se, nos
últimos anos, um novo interesse pela temática das desigualdades sociais, acompanhado, em
alguns casos, da reapropriação de um referencial marxista, tanto nos “estudos de gênero”
como em estudos que se identificam com uma perspectiva queer.

Na bibliografia anglófona, evoca-se uma “virada (ou giro) materialista” ou uma


“virada econômica”, referindo-se a diversos esforços para articular queer e materialismo,
feminismo materialista e queer etc. Esse “renascimento” do marxismo/materialismo2 se
constituiu, em grande medida, em resposta a determinadas perspectivas teóricas consideradas
como pouco atentas às desigualdades de classe e aos aspectos materiais da dominação. Como
exemplo dessa tendência, podemos citar marxistas queers como Alan Sears3 e Kevin Floyd.4
O debate está em curso e os seus contornos, assim como as perspectivas que compõem a
diversidade de seu espectro, ainda estão indefinidos.

No contexto francês, nos últimos dois anos, seminários, ateliers, livros e números
especiais de revistas indicam o interesse por esse tipo de debate.5 Somente no ano de 2016
foram publicados: um número especial da revista Cahier du genre (“Análises críticas e

1
FRASER, Nancy. Entre marchandisation et protection sociale. Les ambivalences du féminisme dans la crise du
capitalisme. In: Le féminisme en mouvements. Des années 1960 à l’ère néolibérale. Paris: La Découverte, 2012,
p. 309. Este artigo foi publicado originalmente em 2010.
2
Esses termos são usados frequentemente como sinônimos. Entretanto, em alguns casos, o uso do termo
“materialista” é uma forma de se distanciar de perspectivas mais ortodoxas do marxismo.
3
Ver, por exemplo, SEARS, Alan. Queer Anti-Capitalism: What's Left of Lesbian and Gay Liberation? Science
and Society, vol. 69, n.1, 2005.
4
Floyd, Kevin. La reification du désir. Vers un marxisme queer. Paris: Édition Amsterdam, 2012.
5
Por exemplo, dois ateliers sobre feminismo materialista no 7e Congrès international des recherches féministes
dans la francophonie “ Penser créer agir les féminimes. De la révolution des savoirs au changement social ”
realizado em Montreal nos dias 24 – 28 de agosto de 2015. “ Usages et actualité des théories féministes
matérialistes francophones: réflexions antiracistes, lesbiennes , décoloniales et postcoloniales ” (4 sessões).
Organizadoras: Dominique Bourque, Ochy Curiel, Lucia Direnberger, Jules Falquet ; e “ Actualité du
matérialisme ” (5 sessões) organizado por Anne-Marie Devreux, Michèle Ferrand e Marie Mathieu. Um
seminário organizado por Danièle Kergoat, Helena Hirata e Michelle Paiva tinha igualmente a questão como
temática,“ Féminismes matérialistes et analyses critiques ”. Apresentei na quarta sessão no dia 12 de maio de
2014, a comunicação “Genèse et débats autour du concept de rapports sociaux de sexe ”.
12

feminismo materialista”)6 e dois volumes do livro Matérialismes, culture et communication7


um deles especificamente sobre os estudos culturais, teorias feministas e estudos descoloniais.
Além disso, está no prelo um número especial da revista Comment s’en sotir8 igualmente
sobre a temática “feminismos materialistas”. Mas, por trás desse termo “unificador”, existem
múltiplas conceituações e disputas do que viria(m) a ser o(s) materialismo(s).9 Nesse
contexto, além das novas formulações teóricas materialistas vê-se um retorno do interesse
pelas análises feministas materialistas elaboradas nas décadas precedentes.

Esta tese procura analisar um desses múltiplos materialismos, o feminismo


materialista que se constitui na França, nos anos 1970 e início dos anos 1980. No contexto
francês, essa corrente praticamente prescinde de definição. Esta é frequentemente10
caracterizada como um approche anti-naturalista, de inspiração marxista, que emerge nos
anos 1970, conduzindo análises da opressão das mulheres em termos de classe. Os nomes de
Christine Delphy, Collette Guillaumin, Nicole-Claude Mathieu e Monique Wittig, assim
como a revista Questions féministes (1977-1980) são associadas a esse tipo de reflexão.

O interesse pelo “materialismo” no contexto francês não é, portanto, uma


novidade. Na verdade, algumas das principais referências dos “estudos de gênero” são
identificadas como materialistas.11 Nos últimos anos, algumas outras autoras foram incluídas
como parte dessa perspectiva teórica. Danièle Kergoat reivindica o epíteto e considera que
haveria dois momentos da reflexão “feminista materialista”, um primeiro identificado com

6
“Analyse critique et féminismes matérialistes ” Cahiers du genre. Hors serie 2016 . Número organizado por
Annie Bidet-Mordrel, Elsa Galerand e Danièle Kergoat.
7
GRANJON, Fabien (org.)Matérialismes, culture & communication, Tome1 (Marxismes, théorie et sociologies
critiques). Paris: Presses des Mines, Collection Matérialismes, 2016 ;CERVULLE, Maxime ; QUEMENER,
Nelly ; VOROS, Florian (org.). Matérialismes, culture & communication, Tome2 (Cultural studies, théories
féministes et décoloniales). Paris: Presses des Mines, Collection Matérialismes, 2016.
8
Comment s’en sotir n.4 intitulado “Matérialismes féministes” organizado por Isabelle Clair e Maxime Cervulle
(no prelo, publicação prevista para abril de 2017). Neste número publicarei um artigo intitulado “De quelle
histoire le ‘féminisme matérialiste’ (français) est-il le nom?”.
9
Sobre o chamado “neo-materialismo” que, apesar do nome, se distingue completamente das reflexões que, em
geral, se reivindicam “materialistas”, ver: Stancy Alaimo e Susan Hekman, e New Materialism: Interviews &
Cartographies. Open University Press, 2012. Para uma análise desse tipo de reflexão, consultar: MOSER,
Cornelia. Neo- matérialisme. Um nouveau courant féministe ? In: CERVULLE, Maxime ; QUEMENER, Nelly ;
VOROS, Florian (org.). Matérialismes, culture & communication, Tome2. Paris: Presses des Mines, Collection
Matérialismes, 2016.
10
Para definições recentes de “feminismo materialista” ver: FALQUET, Jules. Introdução. In: FERREIRA,
Verônica; ÁVILA, Maria Betânia; FALQUET, Jules; ABREU, Maira (org.) O Patriarcado Desvendado: teorias
de três feministas materialistas. Colette Guillaumin, Paola Tabet e Nicole-Claude Mathieu. Recife: Edições SOS
Corpo, 2016; BERENI, Laure ; CHAUVIN, Sébastien, Alexandre Jaunait et Anne Revillard. Introduction aux
Gender Studies. Manuel des études sur le genre. Bruxelas: De Boeck, 2008.
11
Como exemplo, podemos os títulos listados como “obras teóricas essenciais sobre o gênero” no Manuel des
études sur le genre na qual contam sete títulos, três são identificadas com essa corrente (Christine Delphy,
Nicole-Claude Mathieu e Colette Guillaumin) sem contar Simone de Beauvoir. Constam também La domination
masculina de Pierre Bourdieu, Problemas de gênero de Judith Butler e Masculin/Féminin de Françoise Héritier.
13

autoras como Delphy e Guillaumin, sustentando a perspectiva da irredutibilidade das relações


sociais de sexo ao capitalismo, e um segundo, marcado pelas teorizações sobre o trabalho
assalariado, a divisão sexual do trabalho e a articulação entre diferentes relações sociais.12

No Brasil, por razões que precisariam ser investigadas, predominam nos estudos
de gênero, autoras e questionamentos oriundos, sobretudo, de um contexto anglófono,
particularmente estadunidense. Embora as ciências humanas no Brasil tenham sofrido uma
forte influência da produção teórica francesa, o mesmo não ocorre neste campo específico. As
autoras que constituem a base deste trabalho começaram a ser traduzidas recentemente13 e são
praticamente desconhecidas no país, com exceção de Monique Wittig, que se tornou mais
conhecida, ao que parece, em decorrência de sua passagem pelos EUA, mas, sobretudo, por
referências presentes nos textos de Judith Butler.

Este trabalho surgiu justamente de questionamentos em torno da escassa presença


de autoras feministas francesas nos debates brasileiros. A ideia dessa pesquisa surgiu a partir
de um trabalho sobre grupos feministas formados por mulheres latino-americanas na França
nos anos 1970. Iniciado na graduação e prosseguido no mestrado14, esse trabalho demandou,
em diferentes momentos e para o exame de diferentes questões, aproximações com a
bibliografia francesa sobre feminismo e com os debates teóricos feministas franceses. As
questões e o vívido interesse que o contato com essa literatura suscitou materializam-se numa
proposta de estudo apresentada, em 2009, ao programa de Ciências Sociais.

O projeto, intitulado “Politizando a anatomia: uma análise das obras de Monique


Wittig e Christine Delphy”, tinha por objetivo, retomando aqui os termos originais, “analisar
as elaborações teóricas do ‘feminismo materialista’ francês por meio das obras de duas
importantes autoras dessa corrente, Christine Delphy e Monique Wittig, situando-as em seu
contexto histórico-social e teórico”. Centrando-se em conceitos como patriarcado, natureza,
12
GALERAND, Elsa; KERGOAT, Danièle. Les apports de la sociologie du genre à la critique du travail. La
nouvelle revue du travail, n.4 , 2014.
13
O texto “L’ennemi principal” foi traduzido e publicado num livro que teve pouca circulação no Brasil
(DURAND, E. et.al. Liberação da mulher: ano zero. Belo Horizonte: Interlivros, 1980). Posteriormente um
artigo de Colette Guillaumin e outro de Christine Delphy foram traduzidos e publicados em 1994 num número
especial da revista Estudos feministas. Em 2016, a publicação do livro Patriarcado desvendado vem cobrir
algumas dessas lacunas publicando três textos de feministas materialistas francesas: FERREIRA, Verônica;
ÁVILA, Maria Betânia; FALQUET, Jules; ABREU, Maira (org.) O Patriarcado Desvendado: teorias de três
feministas materialistas. Colette Guillaumin, Paola Tabet e Nicole-Claude Mathieu. Recife: Edições SOS
Corpo, 2016.
14
Durante o mestrado foram pesquisados dois grupos feministas formados por mulheres brasileiras exiladas na
França durante a ditadura militar, o Círculo de Mulheres Brasileiras em Paris (1976-1979) e o Grupo Latino-
Americano de Mulheres em Paris (1973-1976). ABREU, MAIRA. Feminismo no exílio: o Círculo de Mulheres
Brasileiras em Paris e o Grupo Latino-Americano de Mulheres em Paris. Dissertação de mestrado.
Departamento de Sociologia. Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. Unicamp, 2010, publicada em 2016,
pela editora Alameda.
14

mulher, essencialismo, este trabalho se propunha a fazer uma análise sistemática desse quadro
conceitual, buscando relacioná-lo tanto com o contexto histórico e teórico-prático da
emergência dessas ideias, como promover um diálogo com outras perspectivas e conceitos
derivados das mesmas, como, por exemplo, as teorizações de gênero influenciadas pelo “pós-
modernismo”.

À medida que a pesquisa avançava, alguns dos pressupostos dessa proposta


começaram a ser questionados. Percebi que a ideia de um “feminismo materialista” não era a
mais apropriada para caracterizar o período estudado, isto é, os anos 1970 e início dos anos
1980. Essa “etiqueta” parecia fazer muito mais sentido para o período atual que para os anos
1970-80. Além disso, a proposta de um trabalho de exegese de textos publicados pareceu-me
insuficiente diante de alguns questionamentos trazidos da história das ideias e do material de
arquivo que pude consultar na França. Deve-se ressaltar que essas mudanças foram suscitadas
e propiciadas por um estágio de doutorado (sanduíche) na França, sob a orientação de Helena
Hirata, entre setembro de 2011 a fevereiro de 2013, dentro do acordo Capes-Cofecub15 num
laboratório, o GTM (Genre, Travail et Mobilités)16, cuja história estava intimamente ligada
aos debates que eu pretendia promover.

A partir desses questionamentos, decidi partir de dois grandes eixos do


“feminismo materialista”, as noções de materialismo e de antinaturalismo, para analisar como
esses dois elementos se articulam, a partir dos anos 1960, nas teorizações e no movimento e
como se consolidam como marca de uma reflexão específica. Toda a tese é atravessada por
esses dois grandes eixos temáticos.

História do feminismo, história das ideias, sociologia dos movimentos sociais

Este trabalho procura trazer questões de diferentes campos disciplinares e


temáticos como os estudos de gênero, história do feminismo, a teoria feminista e a história
das ideias. Sem nenhuma pretensão de exaustividade, discutirei aqui alguns elementos desses
campos para melhor localizar a perspectiva deste trabalho.

História do feminismo

A história do feminismo na França é um campo que se desenvolveu


significativamente nos últimos 20 anos. Até os anos 1980, como indica um balanço feito por
15
Projeto Capes-Cofecub: Organização e condições do trabalho moderno. Emprego, desemprego e
precarização do trabalho, eixo – Mercado de trabalho e movimentos sociais: quais contribuições para a
sociologia?
16
O GTM (Genre, Travail e Mobilités) é um laboratório do CNRS (Centre National de Recherche Scientifique)
que tem origem num laboratório criado em 1979 e que se institucionalizou como equipe de pesquisa em 1983,
com o nome de GEDISST (Groupe d’études sur la division social et sexuelle du travail).
15

Genviève Fraisse17, poucos eram os títulos dentro dessa temática e a maioria foi publicada a
partir do final dos anos 1970. É, portanto, no bojo das movimentações feministas dos anos
1970 que surgiu um maior interesse pela história desse movimento.

Alguns desses trabalhos surgem dentro de uma proposta explicitamente militante,


como é o caso de L’histoire du féminisme des origines à nous jour, de Maité Albistur e Daniel
Armogathe18, publicado em 1977 pela editora Des femmes. Mas, nesse período, começariam
a surgir também os primeiros trabalhos oriundos do contexto universitário, muitos deles teses
orientadas pela historiadora Michelle Perrot, na Universidade Paris 7.19 A primeira tese
defendida sobre o Mouvement de libération des femmes (MLF) é de 1979 e de autoria de Naty
Guadilla Garcia, sob a orientação de Alain Tourraine.20 Este trabalho foi publicado em 1981,
sob o título de Libération des femmes. Le MLF.21

É sobretudo nos anos 1990 que se vê um aumento significativo de trabalhos


dedicados à questão. Dois deles merecem ser mencionados: a tese de Florence Rochefort e
Laurence Klejman22 (quando era possível fazer uma tese em dupla na França), intitulada
L’égalité en marche. Histoire du mouvement féministe en France, 1868-1914, e o trabalho de
Christine Bard23 Les féministes en France. Vers l'intégration des femmes dans La Cité
(1914-1940). Ambos foram posteriormente publicados em livro. Em 1993, Françoise Picq
publicou Libération des femmes. Les années mouvement 24sobre as mobilizações do MLF em
Paris.

Entre as grandes “ondas” feministas desse século pairava ainda um grande


desconhecimento. A tese de Sylvie Chaperon25, Le reflux de la vague. Mouvements féminins

17
FRAISSE, Geneviève. Singularité féministe. Historiographie critique de l’histoire du féminisme en France. In:
PERROT, Michèle (org.). Une histoire des femmes est-elle possible ? Marselha: Rivages, 1984.
18
ALBISTUR, Maïté ; ARMOGATHE, Daniel. Histoire du féminisme français du moyen âge à nos jours. Paris:
Des Femmes, 1977.
19
Para uma lista das teses de doutorado orientadas por Michele Perrot, ver: Annexe I: Histoire, Paris 7. Thèses
soutenues sur l'histoire des femmes, sous la direction de Michelle Perrot (par ordre chronologique) Quelques
thèses sur l'histoire des femmes (XIXe s.). Les cahiers du CEDREF n.10, 2001.
20
GARCIA GUADILLA, Naty. Le Mouvement de Libération des Femmes (M.L.F) en France de 1968 à 1978.
Thèse de Doctorat: Troisième cycle sociologie. Paris: Écoles des Hautes Etudes en sciences sociales, 1979.
21
GARCIA GUADILLA, Naty, Libération des femmes. Le MLF, PUF, 1981.
22
Laurence Klejman et Florence Rochefort. L'égalité en marche. Histoire du mouvement féministe en France,
1868-1914. Tese doutorado. Paris: Université Paris 7, octobre 1987 (publicado com o título: L'égalité en marche.
Le féminisme sous la Troisième République, FNSCPO/Des femmes, 1989.
23
BARD, Christine. Les féministes en France. Vers l'intégration des femmes dans La Cité (1914-1940). Tese
doutorado. Paris: Université Paris 7, janvier 1994. BARD Christine, Les Filles de Marianne. Histoire des
féminismes. 1914-1940, Fayard, 1995.
24
PICQ, Françoise. Libération des femmes, quarente ans de mouvement. Paris: Editions dialogues, 2011
[publicado originalmente em 1993].
25
CHAPERON, Sylvie. Le reflux de la vague. Mouvements féminins et féministes 1945-1970, Université
européenne de Florence, en co-direction avec Paris 7, 1996.
16

et féministes 1945-1970, defendida em 1996 e publicada em 2000 sob o título Les années
Beauvoir, veio preencher essa lacuna. A autora nos fornece um detalhado quadro das
movimentações feministas entre o período posterior à concessão do voto feminino e o início
das mobilizações do MLF, período que a autora chama de “anos Beauvoir”.26 Além disso,
Chaperon nos mostra como neste período, particularmente a partir dos anos 1960, opera-se
uma lenta e discreta gestação de um conjunto de ideias e práticas que viriam a se transformar
no Mouvement de libération des femmes. Fora da França, neste mesmo período, surgem os
trabalhos, de caráter mais panorâmico como os de Claire Duchen: Feminism in France: From
May 1968 to Mitterrand (1986) e Women’s Right and women’s lives 1944-1968 (1994).27

Em relação ao MLF, cabe ressaltar que a maioria dos livros publicados é de


autoria de pessoas direta ou indiretamente envolvidas com esse movimento. Naty Guadila
participou do mesmo e circulou por diferentes grupos, dentre eles, o Grupo de Mulheres
Latino-Americanas. Ela define sua démarche de pesquisa como “observation implicante” para
caracterizar uma tentativa de combinar “engajamento”, “distância”, “olhar crítico” e “auto-
análise”.28 Françoise Picq participou do MLF e assume essa posição como vantajosa dentro
de um movimento que valoriza a experiência da opressão como base para a formulação
teórica sobre a opressão das mulheres.29 Já nas primeiras páginas do livro, Picq esclarece “de
onde ela fala”: pesquisadora e ativista, ela considera que uma posição que acumula
conhecimento direto e distância crítica apresenta grandes vantagens30. Mas, sublinha, não se
trata de um testemunho, “eu não sou o centro do relato”.31

Nos últimos anos, alguns outros trabalhos foram publicados sobre o tema,
oriundos em grande medida de outra geração, dentre eles, os de Bibia Pavard32, Les éditions
des femmes. Histoire des premières années 1972-1979 (2005), sobre a história dos primeiros
anos da editora Des femmes, ligada ao grupo Psicanálise e Política. Cabe ainda ressaltar que
diversos títulos foram publicados na coleção Archives du Féminisme, da editora Presse
Universitaire de Rennes.33 Sobre o período que nos interessa, podemos mencionar: L’État et

26
CHAPERON, Sylvie. Les années Beauvoir, Fayard, 2000.
27
DUCHEN Claire, Feminism in France: From May 1968 to Mitterrand, London, Routledge, 1986; DUCHEN
Claire, Women’ s Rights and women’s lives 1944-1968, Routledge, 1994.
28
GARCIA GUADILLA Naty, Libération des femmes. Le MLF, PUF, 1981. p.25.
29
PICQ, Françoise. Libération des femmes 1993 Op. cit., 487.
30
Ibidem, p. 487.
31
Ibidem, p. 489.
32
PAVARD Bibia. Les éditions des femmes. Histoire des premières années 1972-1979, L’Harmattan, 2005.
33
Para uma lista completa, ver o site internet da editora: http://www.pureditions.fr/collection.php?idColl=105
17

les droits des femmes, de Sandrine Dauphin; Si je veux quando je veux, de Bibia Pavard34; Les
féministes de la deuxième vague, organizado por Christine Bard35; e À tire d’elles. Itineraires
de féministes radicales des années 1970, de Françoise Flamant. Estes dois últimos se
concentram em trajetórias individuais. Françoise Flamant procura recuperar os itinerários de
onze feministas radicais oriundas de diferentes contextos (sobretudo França, Estados Unidos).
Para a autora, os relatos de vida na história do feminismo, embora raros, são fundamentais
para tornar visíveis as atrizes desse movimento.36 Nesse mesmo sentido, Les féministes de la
deuxième vague, organizado por Christine Bard, pretende fazer uma história do feminismo a
partir da história das feministas.

Cabe mencionar também alguns títulos que procuram divulgar outras fontes para
se compreender esse movimento tais como Luttes de femmes. 100 ans d'affiches
féministes37que reproduz cartazes feministas dos últimos 100 anos e ainda MLF// textes
premiers38, uma antologia de importantes documentos relativos aos primeiros anos do
movimento. Um exaustivo panorama da imprensa feminista e lésbica a partir dos anos 1970,
Mouvement de presse des années 1970 à nos jours, luttes féministes et lesbiennes39,
publicado em 2011, completa esse quadro.

A comemoração dos 40 anos do MLF e as polêmicas em torno da data do seu


nascimento (1968 ou 1970) e quais grupos e indivíduos estariam na origem do mesmo,
geraram uma série de conferências, artigos, livros e depoimentos. Dentre os títulos lançados
nesse contexto, podemos citar Genération MLF 1968-200840, organizado por Antoinette
Fouque, composto por depoimentos de diversas mulheres que fizeram parte do MLF e que
eram próximas da tendência da qual participava a autora; um número especial da revista
Prochoix intitulado MLF, le mythe des origines41 e até mesmo a criação de uma associação
intitulada Association 40 ans du mouvement (Associação, 40 anos do movimento).

34
PAVARD, Bibia. Si je veux, quand je veux. Contraception et avortement dans la société française (1956-
1979). Rennes: PUR, 2012.
35
BARD, Christine. (org.) Les féministes de la deuxième vague, Rennes: PUR, 2012.
36
FLAMANT, Françoise. À titre d’elles. Itinéraires de féministes radicales des années 1970. Rennes: PUR
(collection Archives du Féminisme), 2007, p.13.
37
PAVARD, Bibia ; ZANCARINI-FOURNEL, Michelle. Luttes de femmes. 100 ans d'affiches féministes. Paris:
Les Échappés, 2013.
38
COLLECTIF. MLF. Textes premiers. Paris: Stock, 2009.
39
LAROCHE Martine, LARROUY Michèle, Le collectif des Archives Recherches cultures lesbiennes,
Mouvement de presse des années 1970 à nos jours, luttes féministes et lesbiennes. Paris: éditions ARCL, 2011.
40
FOUQUE, Antoinette et. Al. Génération MLF 1968-2008. Paris, Éditions des femmes-Antoinette Fouque,
2008, 614 p.
41
Prochoix, n.46, dez. 2008.
18

Deve-se salientar que a história do MLF é marcada por polêmicas e disputas em


torno da sua memória. É uma posição delicada entrar em algumas dessas controvérsias, cujas
feridas ainda continuam abertas e cujos desdobramentos ultrapassaram o movimento e
chegaram até mesmo nos tribunais.42 Para Michelle Zancarini-Fournel, vivemos um momento
particular, no qual os usos memorialísticos sociais e políticos da história são intensificados,
um momento que conjuga nostalgia e opacidade do passado perdido e crise do futuro.43

Embora o número de trabalhos tenha crescido, o feminismo ainda continua um


terreno fértil para pesquisas e aberto a novas descobertas.44 O “surgimento” de novos
arquivos, a descoberta de outros pouco explorados e, sobretudo, novos olhares convidam a
realização de novas pesquisas nesse campo. Consideramos válido para o contexto atual o que
afirmava Bard, em 1999:
Trazer novidades não é difícil quando se trata da história do feminismo na
França. Sobre o vasto quadro como qual sonhamos, existem alguns traços
vivos e atrativos, mas, o resto da tela é ainda virgem e os elementos já
colocados poderiam ser melhor retocados.45

Um ponto particularmente frágil dessa “história” são as análises históricas e


sociológicas da produção teórica feminista. Como afirmam Isabelle Clair e Jacqueline Heinen
em 2013, “raros são os balanços que se apresentam como análises sociológicas ou históricas
da produção feminista”.46

Nos últimos dez anos, uma produção deste tipo começou a tomar corpo.
Entretanto, trata-se, em geral, de trabalhos de cunho mais didático.47 Esses livros, cuja
importância é inegável para a consolidação de um campo de estudos, não se propõem como
análises sociológicas ou históricas dessas teorizações feministas recentes. Por razões de
ordem didática, são selecionadas algumas questões consideradas como importantes ou atuais e
algumas autoras, e eventualmente autores, cuja importância é reconhecida e consolidada.

42
Para o MLF, ver “Les temps des procès” In: PICQ, Françoise. Libération des femmes, quarente ans de
mouvement. Paris: Editions dialogues, 2011.
43
ZANCARINI-FOURNEL, Michelle. Récit. 68. Une histoire collective (1962-1981). Paris: La Découverte,
2008, p.273.
44
BARD, Christine. Écrire l’histoire du féministes: bilan et perspectives . In: BARD, Christine (org.). Les
féministes de la deuxième vague, Rennes, PUR, 2012.
45
BARD, Christine. Ecrire l’histoire du féminisme. CORRADIN, Irène, MARTIN, Jacqueline (org.). Les
femmes, sujets d’histoire, Toulouse, Presses universitaires du Mirail, 1999, p.13.
46
CLAIR Isabelle; HEINEN, Jacqueline. Le genre et les études féministes françaises: une histoire ancienne.
Introduction. Cahiers du genre, n.54, 2013, p. 13.
47
Ver, por exemplo, DORLIN, Elsa. Sexe, genre et sexualités: Introduction à la théorie féministe. Paris: PUF,
2008; BERENI, Laure. et. al. Introduction aux Gender Studies. Op. cit.; PFEFFERKORN, Roland. Genre et
rapports sociaux de sexe. Lausanne: Éditions page deux, 2012.
19

Alguns livros sobre as teorias feministas francesas foram publicados nos últimos
anos, entre eles, Inégalités et rapports sociaux48 de Roland Pfefferkorn, Déplier le genre.
Enquête epistemologique sur le féminisme materialiste Fabienne Malbois49 e Féminismes en
traductions50 Cornelia Möser.

Cornelia Möser se aproxima mais da proposta desta tese, mas trabalha com um
período diferente. Möser procura reconstituir os debates sobre a “teoria do gênero” na França
e Alemanha, destacando “a presença de discussões e controvérsias precedentes”, integrando a
conflitualidade desse processo como um elemento constitutivo desse debate. Nesse sentido,
ela procura evitar a “armadilha de uma construção historiográfica do pensamento feminista
que procede de uma visão teleológica e linear que defende que a pesquisa feminista é
necessariamente o que ela é e sabe em consequência também do que ela deve se tornar”51, isto
é, a autora procura escapar de narrativas já prontas sobre o feminismo. Esse trabalho
compartilha, nesse sentido, alguns dos questionamentos levantado pela autora, embora para
um período anterior ao abordado por Möser.

Esta pesquisa se diferencia de outros trabalhos citados acima por razões ligadas
à escolha das fontes e à forma de interpretá-las. Partimos da ideia de que não se pode
compreender as teorias feministas desvinculadas dos movimentos que permitiram a sua
eclosão. Separar alguns escritos do contexto que lhes permitiu emergir e que dá sentido a
essas ideias amputa uma dimensão importante da reflexão feminista. Consideramos os
movimentos sociais como produtores de teorias e, por essa razão, fontes e abordagens devem
levar em consideração esse aspecto. No próximo item, procuraremos abordar alguns aspetos
da proposta metodológica deste trabalho.

Por uma nova história das ideias feministas?

Este trabalho procura trazer, para uma reflexão sobre as ideias feministas, uma
série de questionamentos metodológicos de diferentes campos disciplinares como da história
das ideias, história intelectual e sociologia das ideias.

A partir dos anos 1960, diversos autores, com diferentes perspectivas teóricas,
promoveram críticas a certa forma de analisar o objeto “ideias”. Arnault Skornicki e Jérôme

48
PFEFFERRKON, Roland. Inégalités et rapports sociaux. Paris: La Dispute, 2007.
49
MALBOIS, Fabienne. Déplier le genre. Enquête épistémologique sur le féminisme antinaturaliste, Zurich:
Editions Seismo, 2011.
50
MÖSER, Cornelia. Féminismes en traductions. Théories voyageuses et traductions culturelles. Paris:
Éditionsdes archives contemporaines, 2013.
51
Ibidem, p. 5.
20

Tournadre propõem abranger sob a designação de “nova história das ideias políticas”52
diversas iniciativas que compõem o esforço teórico de autores de diferentes países (Inglaterra,
Alemanha, Estados Unidos), incluindo desde os “contextualistas” da escola de Cambrigde
(Skinner, Poccok, dentre outros), à genealogia de Foucault ou perspectivas desenvolvidas no
Science studies. O que permite reunir esse conjunto de autores e perspectivas sob tal
designação é muito mais a oposição a certa forma de conceber as ideias políticas do que
propriamente uma coerência interna das propostas metodológicas. Alguns dos principais
aspectos questionados são: a restrição da análise a um corpus de autores considerados como
grandes clássicos; uma história retrospectiva que avalia o passado a partir de questões do
presente, desconsiderando o seu contexto de emergência e imputando questões a esse passado
que não eram relevantes ou não se apresentavam da mesma forma neste, dentre outras. Em
oposição, propõem chamar a atenção para os “contextos linguísticos, retóricos, políticos e
sociais no seio dos quais os discursos, teorias, argumentos e slogans ganham sentido”.53

Não é possível retomar aqui todos esses questionamentos. Serão mencionadas


somente algumas questões mais relevantes para este trabalho.

Um elemento importante neste trabalho é a crítica a uma análise de tipo exegese


que trata textos teóricos, autores e conceitos autonomizados em relação ao seu contexto de
produção. Em ruptura com esse tipo de produção, procuram recolocar as ideias no contexto
mais amplo que permitiu sua emergência e que lhe confere sentido. Referindo-se
especificamente a uma “história intelectual”, Chaubet considera que um dos principais
desafios é “relacionar as obras a um contexto histórico dado e às interrogações de uma época
a fim de esclarecê-los corretamente”.54 As “ideias” têm usos historicamente situados e não
existem independentemente desses. Os conceitos de democracia, república, socialismo,
feminismo, materialismo são “tanto palavras quanto armas, e não têm outro sentido que
aquele que os atores lhes emprestam em uma situação historicamente determinada de lutas
políticas do momento”.55 Como afirma Skinner, a persistência do uso de uma expressão diz-
nos muito pouco acerca da “persistência das questões que elas supostamente estariam a
responder”.56 É necessário compreender os sentidos que tais termos ganham, em oposição a
outras teorias num momento preciso. Como afirma Mucchielli é necessário compreender que

52
SKORNICKI Arnault, TOURNADRE Jérôme. La nouvelle histoire des idées politiques, Paris, La Découverte,
2015.
53
Ibidem, p. 5.
54
CHAUBET, François. Enjeu-Histoire des intellectuels, histoire intellectuelle. Bilan provisoire et perspectives.
Vingtième Siècle. Revue d'histoire. 2009/1 - n° 101.
55
Ibidem, p. 5.
56
SKINNER, Op. cit., p. 121.
21

os textos “têm contexto, que os discursos foram pensados e enunciados para um certo público,
que os artigos e livros foram pensados e escritos visando um leitor”.57

Outra crítica é à ideia de “grandes autores”, os “pais fundadores” de disciplinas


(Durkheim, como pai fundador da sociologia, Freud, como “fundador” da psicanálise etc).
Esse tipo de narrativa descontextualiza esses autores e invisibiliza uma série de figuras que
hoje são consideradas como “secundárias”, mas que falavam uma mesma linguagem e
compartilhavam ideias. É preciso estar atento aos critérios de seleção assim como a política
de citações, dentre outros elementos, que constroem o cânone de um certo campo.

Cabe ainda ressaltar que as ideias não necessariamente ganham a forma de


conceitos abstratos, mas se exprimem também sob a forma de crenças, valores, slogans etc.
Essa perspectiva permite ampliar o corpus a partir do qual realizar o trabalho, não se
restringindo a textos consagrados (consagrados por quem e quando é uma questão que se
impõe), mas incluindo também uma série de outros materiais reputados menos importantes
para esse tipo pesquisa, como panfletos, manifestos políticos etc. Embora estas constituam
fontes frequentemente usadas por historiadores, elas são muitas vezes subutilizadas, quando
se trata de “teoria” e “ideias”. Nesse sentido, essas teorizações promovem uma expansão dos
horizontes da disciplina, o interesse por novos locais de produção teórica.

Há também uma tentativa de romper com a dicotomia entre uma análise externa e
interna, isto é, entre uma hermenêutica prisioneira do texto e uma análise que tende a reduzir
as ideias ao contexto que permitiu sua emergência.

Neste trabalho, pretendo incorporar algumas dessas críticas para uma análise das
ideias feministas. Muitas análises da “teoria feminista” continuam reproduzindo alguns dos
problemas indicados acima. A teoria feminista tratada a partir de algumas “grandes autoras”,
muitas vezes, descontextualizadas, a partir de um corpus limitado de textos – sobretudo
aqueles publicados sob a forma de livros –, ignorando ou menosprezando um rico material
produzido pelo movimento feminista, é praticamente uma constante nos livros sobre o tema.
Além disso, o passado é frequentemente visitado a partir de questões do presente e poucos são
os esforços para compreender como e por que alguns debates emergiram no momento
histórico no qual foram formuladas. Para formar uma narrativa coerente, acumulativa e em
constante aperfeiçoamento, algumas questões são eleitas como relevantes e outras não.
Questões que não fazem sentido no contexto atual, questões que não deixaram “herdeiros”,

57
MUCCHIELLI, Laurent. La découverte du social. Paris: La Découverte, 1997, p.13.
22

caminhos que foram abandonados, pistas e indicações que não tiveram continuidade terminam
por caírem no esquecimento.

Alguns esforços de problematizar esse tipo de análise foram empreendidos nos


últimos anos. Clare Hemmings58, por exemplo, se opõe a certa narrativa, baseada num
processo evolutivo e linear, dominante nas análises sobre a história do pensamento feminista
nas últimas décadas. Esse tipo de narrativa pode ser resumida na seguinte “fórmula”: “Um
feminismo essencialista e universalizado é direta ou indiretamente associado aos anos 70, e
críticas raciais e sexuais são contidas nos anos 80 para que o pós-estruturalismo possa,
finalmente, superar o essencialismo e incorporar as identidades associadas à diferença sexual,
sexualidade e raça.59 Se essa “cronologia” pode fazer algum sentido no contexto
estadunidense, não é possível utilizá-lo como modelo para outras realidades, mesmo de outros
países chamados de “ocidentais”. Mas, ainda que a análise se concentre nos Estados Unidos,
esse tipo de reconstrução, baseada numa seleção bastante precisa de autores e problemáticas,
exclui uma série de “ricas discussões sobre as relações entre gênero, sexualidade e raça que
foram travadas naquela década”60 ocorridas nos anos 1970. Outras autoras, como Bárbara
Crown61, assim como uma série de artigos procuram trazer à tona outras discussões, grupos e
problemáticas que não compõem essa narrativa dominante.

Considero que a crítica a esse tipo de narrativa passa necessariamente por uma
problematização dos tipos de fontes utilizadas. Por que algumas autoras são eleitas como as
legítimas representantes do feminismo desse período é uma questão que se impõe. Analisar a
“teoria feminista” gestada nos anos 1970, a partir de algumas autoras eleitas como
representativas do movimento (Shulamith Firestone, Kate Millet no caso dos EUA), nos
conduz a um panorama empobrecido das teorizações dessa rica década. É preciso levar em
consideração que textos publicados sob a forma de livro tiveram que passar frequentemente
por uma seleção de um comitê editorial, e que outros instrumentos, como panfletos, cartazes e
revistas com pouca tiragem e baseadas na mão de obra militante, constituem formas muito
mais acessíveis de divulgação de ideias e foram frequentemente usados por pequenos grupos

58
HEMMINGS, Clare. Contando estórias feministas. Revista Estudos feministas, 17, 2009.
59
Ibidem, p. 229.
60
Ibidem, p. 220.
61
CROW, Barbara. (org.) Radical feminism. A documentary reader. Nova York e Londres: New York
University Press, 2000.
23

que não tinham outro meio de divulgação e expressão. Como afirma Guillaumin62, uma
grande parte da reflexão feminista foi veiculada sob formas frágeis, efêmeras, de difusão
limitada e militante, destinadas ao rápido desaparecimento, tais como panfletos, textos de
preparação de encontros, chamadas mimeografadas de reuniões etc. Os relatórios, artigos e
livros, ou seja, as formas mais permanentes e que ganham com mais facilidade a posteridade,
constituem somente uma parcela pequena dessa massa de trabalhos produzidos pelo
movimento.

Não se trata, contudo, de propor somente uma incorporação de novas fontes, mas
também uma crítica à própria separação entre textos considerados “teóricos” e “militantes”.
Como estabelecer essa diferença? Os Condenados da terra, de Fanon, O Dezoito Brumário de
Luís Bonaparte, de Marx, Discurso sobre o colonialismo, de Césaire, são textos teóricos ou
militantes? Os primeiros escritos feministas da segunda onda foram frequentemente rejeitados
como pouco teóricos e excessivamente militantes e até hoje um véu de suspeição paira sob as
teorizações na área de estudos de gênero. Trata-se de uma crítica recorrente direcionada às
teorizações de grupos dominados ou que ameaçam certa forma de dominação. Essa separação
implica frequentemente, embora não necessariamente, a ideia de que há textos teóricos,
neutros e puramente objetivos e outros que são claramente partidários. Procuro mostrar que
essas produções são situadas e como qualquer produção exprime interesses e uma
perspectiva. Utilizamos neste trabalho tanto textos reconhecidos como “teóricos”, quanto
panfletos, materiais de congressos, textos da imprensa feminista, dentre outros materiais
claramente identificados como “militantes” ou “partidários”. Isso não significa ignorar as
diferenças entre um texto curto, voltado para divulgação, e um texto denso, no qual há uma
preocupação em lapidar conceitos e analisar de forma aprofundada teorias ou fenômenos.

Essa perspectiva permite também borrar as fronteiras entre um grupo que produz
teoria, as intelectuais, e as “outras”, que receberiam passivamente essa produção. Nada mais
equivocado para o contexto e o movimento em questão. Como afirma Christine Delphy63,
uma das bases do feminismo é justamente a ideia de que todas as mulheres (e não algumas)
são capazes de teorizar. Isso não significa negar o fato de que algumas delas possam dispor de
maior capital cultural, assumindo a iniciativa de sintetizar teoricamente algumas questões
lançadas pelo movimento, ou ainda com mais tempo ou disposição para fazê-lo. Muitos dos

62
GUILLAUMIN, Colette. Femmes et théories de la société: Remarques sur les effets théoriques de la colère des
opprimées. [1981]. IN: GUILLAUMIN, Colette. Sexe, race et pratique du pouvoir. L’idée de nature. Paris:
Côté-femmes, 1992, p. 225.
63
DELPHY, Christine. Un féminisme matérialiste est possible. [1982 em inglês]. In: DELPHY, Christine.
L’ennemi principal 2. Penser le genre. Paris: Syllepse, 2009, p. 122.
24

nomes recorrentes neste trabalho estavam vinculados à universidade ou a centros de pesquisa


e exerciam uma atividade claramente identificada como “intelectual”. No momento de uma
certa institucionalização dos estudos de gênero, esse capital cultural teria um papel
fundamental na estruturação desse novo campo de estudos e reforçaria ainda mais a separação
entre as teorizações oriundas desses dois mundos.

Skinner afirmava sobre os textos clássicos – mas podemos extrapolar para outros
– que estes respondem a “problemas que eles próprios colocam e não aos nossos”.64 O
objetivo deste trabalho é justamente tentar entender quais eram os problemas colocados em
certo contexto por certo tipo de feminismo e compreender os usos que foram feitos de alguns
conceitos num contexto preciso. Isso não significa recusar “apropriações indevidas”, tomando
aqui os termos de Butler, para a elaboração de novas teorias. Os textos feministas podem e
devem servir como caixa de ferramentas na qual buscar instrumentos para compreender a
realidade atual. Analisar o feminismo dos anos 1970 e 1980 a partir de questões relevantes
para os debates atuais constitui, sem dúvida, uma possibilidade de trabalho, mas não se trata
da perspectiva adotada neste trabalho. Não se propõe aqui, portanto, uma exegese das obras
das autoras que são identificadas sob o epíteto de “feministas materialistas” assim como não
se trata também de um trabalho sobre a recepção a recepção mais recente dessa corrente ou
ainda dos debates sobre as divergências e convergências entre queer e materialismo.65

Procurei analisar alguns debates feministas no bojo de um movimento que


permitiu a existência desses questionamentos e com os quais estava em permanente debate.
Inclui também, na medida do possível, alguns debates e críticas oriundos de setores exteriores
ao movimento. O debate com o marxismo e a esquerda foi privilegiado, pois, como
reconhecem diversas autoras, o feminismo francês foi profundamente influenciado pelos
debates em torno do marxismo nos anos 1970.

Outro questionamento que percorre este trabalho gira em torno da constituição de


“correntes” e “escolas” de pensamento. Como se constroem, em que momento e em oposição
ao que se forja uma corrente de pensamento? Se essas construções constituem, como afirma
Topalov, uma forma de estilização e também uma arma, uma das tarefas consiste em
determinar em que combate teórico-político estas são construídas e para que servem num
64
SKINNER, Quentin. Visões da política. Sobre os métodos históricos. Algés: Difel, 2005, p.125.
65
Para um trabalho deste tipo consultar: NOYÉ Sophie, “Pour un féminisme matérialiste et queer”.
Contratemps. Site: http://www.contretemps.eu/interventions/f%C3%A9minisme-mat%C3%A9rialiste-queer
(consultado em 15 de setembro de 2014); NOYÉ, Sophie. «Féminisme matérialiste et queer Politique(s) d’un
constructivisme radical. Tese (Ciências Políticas). Paris: Institut d'Etudes Politiques de Paris, 2016.
25

momento histórico preciso.66 No caso do “feminismo materialista”, procuramos questionar o


que hoje é concebido como uma “corrente”. Como se constituiu e sob quais bases o encontro
de pessoas com preocupações comuns e um léxico compartilhado? A partir de que momento,
em oposição a quais perspectivas essas autoras passaram a ser identificadas como fazendo
parte de uma corrente e em que termos?

Por todas as razões acima apresentadas, os arquivos feministas constituíram fontes


privilegiadas para este trabalho e sobre esse rico material farei alguns comentários no próximo
item.

O gosto dos arquivos67

Um elemento fundamental dessa pesquisa foram os materiais de diferentes


tipos consultados em arquivos.68 Consultamos arquivos privados e públicos, organizados ou
não. Alguns eram especificamente sobre o movimento feminista, outros, sobre o movimento
lésbico (que não se encontrava desvinculado do primeiro numa grande parte dos anos 1970),
mas também arquivos mais acadêmicos. Sobre esses arquivos e seus conteúdos cabem alguns
comentários.

A Bibliothèque Marguerite Durand, especializada em história das mulheres e do


feminismo, foi um arquivo fundamental que me permitiu acesso a um grande número de
publicações feministas dos anos 1970 mas também a teses sobre o tema, dossiês temáticos
(que reúnem recortes de revista, textos , panfletos e outros tipos de documentos por tema, por
exemplo “imprensa feminista”, “MLF”, “Cercle Dimitriev’, etc). Um fundo pessoal, de Anne
Zelensky, nos forneceu peças importantes para essa pesquisa. Doado nos anos 2000, pouco
explorado até o momento, este fundo contém documentos de diferentes tipos, entre eles,
diversos materiais internos do FMA (Féminin, Masculin, Avenir), grupo que antecedeu ao
MLF e do qual fizeram parte além de Zelensky, Christine Delphy, Emmanuèle de Lesseps,
entre outras. São materiais de reuniões, esboços de textos, chamados para reuniões que
permitem reconstituir algumas das movimentações desse grupo.

66
TOPALOV, Christian. Les usages stratégiques de l’histoire des disciplines. Le cas de l’ ‘école de Chicago’ en
sociologie. In HEILBRON, Johan ; LENOIR, Remi ; SAPIRO, Gisèle. Pour une histoire des sciences sociales.
Paris: Fayard, 2004, p. 128.
67
Tomo de empréstimo o título do livro de Arlette Farge Le goût de l’archive. Paris: Seuil, 1989.
68
Cito aqui alguns dos guias consultados para essa pesquisa: COLLECTIF. Mémoires de 68. Guide des sources
d’une histoire à faire. Lagrasse: Verdier, 1993; ANNICK, TILLIER (org.) Des sources pour l’histoire des
femmes: guide. Paris: Biblithèque nacional de France, 200 ; Christine Bard, Annie Metz, Valérie Neveu (org.),
Guide des sources de l'histoire du féminisme. Rennes, Presses universitaires de Rennes, Collection Archives du
féminisme, 2006.
26

A BnF (Bibliothèque National de France) foi também fundamental para essa


pesquisa. Além de disponibilizar todos os livros publicados na França, lá se pode encontrar
arquivados, de maneira menos sistemática, panfletos, brochuras, etc. Zancarini-Fournel69
ressalva como um tipo de recurso chamado “Recueils” é pouco explorado, particularmente
para a história dos anos 1960-1970. Este tipo de arquivo, referente à temática aqui abordada,
armazena diferentes tipos de materiais não publicados, particularmente panfletos.
Diferentemente do sistema de depósito obrigatório, a coleta desse tipo de material é feita de
forma aleatória e, por essa razão, não é necessariamente “representativo” da diversidade do
movimento.

Foram consultados também os arquivos da BDIC (Bibliothèque de Documentation


Internationale Contemporaine) em Nanterre assim como os arquivos Maison des Sciences de
L’homme. Esta última possui documentos relativos a um grupo de trabalho franco-britânico
que funcionou entre 1975 e 1977 e do qual participaram diversas pesquisadoras que viriam a
fazer parte da revista Questions féministes.

Para acompanhar esses debates num contexto mais acadêmico consultei também
alguns fundos de arquivo do CNRS (Centre National de la Recherche Scientifique),
particularmente aqueles relativos a grupos ligados a essa instituição exclusivamente dedicados
aos a temática mulheres, feminismo, relações sociais de sexo ou que tinham entre os eixos de
pesquisa tais questões, fundamentalmente: Fundo GEDISST (Groupe d’études sur la division
sociale et sexuelle du travail) e do Groupe d’Ethnologie Sociale. Esses materiais encontram-se
arquivados nos Archives Nationales (France). Dentro dessa categoria de materiais mais
universitários, cabe mencionar também o Centre de Documentation do CRESPPA que
arquiva textos apresentados em congressos, relatórios de atividades de pesquisadores e dos
centros de pesquisa vinculados a esta instituição (GTM, CSU e Labtop).

Uma parte importante do trabalho de arquivo foi realizado no Archives de


Recherches et cultures lesbiennes (ARCL). Trata-se de um arquivo militante localizado na
Maison des femmes – espaço de reuniões no qual se desenvolvem diferentes atividades
feministas e cujo acesso é restrito às mulheres. O ACRL surge em 1983 a partir da iniciativa
de mulheres que, segundo Claudie Lesselier, definiam-se como “lésbicas radicais”70 que
queriam preservar a história do movimento lésbico e feminista. No primeiro boletim elas
69
ZANCARINI-FOURNEL, Michelle. Tracts, presse et publications féministes des ‘années 68’: des ressources
méconnues de la Bibliothèque nationale de France. Revue de la Bibliothèque nationale de France, n°17, juin
2004, pages 79-81.
70
Ver verbete “lesbianidade” escrito por Jules Falquet In: HIRATA, Helena. LABORIE, Françoise et. al.
Dicionário Crítico do feminismo. São Paulo: Editora UNESP, 2009.
27

explicitam que o objetivo do arquivo era proporcionar um “espaço de luta e resistência” e


contribuir para uma “tomada de consciência” e “afirmação das lésbicas” e construção de
solidariedades, inciativas e apoio a “projetos lésbicos”.71

Tomei contato com o ARCL “acidentalmente” por ocasião da comemoração dos


trinta anos da Maison des Femmes de Paris. O horário restrito de abertura (uma vez por
semana durante 2 horas no período noturno) não facilitou um primeiro contato com aquela
que seria uma fonte importante para este trabalho. Michelle Larrouy, membro do grupo e
ativa na militância feminista desde o final dos anos 1970 apresentou-me o acervo da ARCL.
Ao tomar conhecimento do meu tema de pesquisa, mostrou-me uma série de caixas doadas
fazia pouco tempo por Nicole-Claude Mathieu e que permaneciam fechadas a espera de
alguém que as abrisse, triasse e descrevesse o seu conteúdo. Propuseram-me essa tarefa e eu
prontamente aceitei. Essas caixas, viria descobrir pouco a pouco, constituíam parte do acervo
da revista Questions féministes e continham documentos de diferentes tipos referentes à essa
publicação.

Uma parte das caixas era composta por revistas e jornais feministas e lésbicos
publicadas nos anos 1970, sobretudo na França, mas também em outros países, que
provavelmente compunham uma pequena “biblioteca” da revista. A maioria tinha marcado na
capa a sigla QF. Em geral essas publicações não apresentavam grandes novidades e faziam
parte do acervo de outros arquivos. Mas, as outras caixas continham um conjunto de materiais
de difícil acesso e que só poderia ser encontrados de forma dispersa em alguns arquivos
pessoais. Novos horizontes se abriam para essa pesquisa.

Essas caixas arquivavam diferentes tipos de material conservados de forma mais


ou menos aleatória. Percebi logo que a ideia de “organizar” aquele material seria algo não
somente difícil mas exigiria estabelecer um critério que acabou não se definindo. A saída foi
listar todos os documentos presentes nas seis caixas de documentos e escanear uma grande
parte para que o trabalho de análise pudesse ser realizado no Brasil. Essa atividade consumiu
longas jornadas na Maison des femmes, muitas vezes no subsolo desta, mas abriu novas
possibilidades para este trabalho.

O trabalho com esse arquivo mesclava euforia – diante de um material inédito e


inexplorado – com as diversas dificuldades, algumas delas ligadas a esse ineditismo. A
escritura manuscrita numa língua estrangeira, os pseudônimos desconhecidos, o caos dos
71
LAROCHE Martine, LARROUY Michèle, Le collectif des Archives Recherches cultures lesbiennes,
Mouvement de presse des années 1970 à nos jours, luttes féministes et lesbiennes. Paris: éditions ARCL, 2011,
p.107.
28

materiais arquivados de uma forma aleatória foram algumas das dificuldades com as quais me
deparei num primeiro momento. O trabalho com este tipo de material requer tempo por
diferentes razões. Algumas são de ordem prática: desvendar caligrafias numa língua
estrangeira, descobrir pseudônimos, compreender a origem de um documento, de um carimbo,
revelou ser um trabalho um tanto árduo. Nessas situações, é necessário um contato
prolongado com as fontes para restituir o contexto no qual se encontram aqueles documentos.
Caso contrário, estes podem se tornar ilegíveis, como bem lembra Artières em relação ao
trabalho com arquivos pessoais. “Sem um enquadramento exterior ao documento, não se
compreende nada” afirma. Caberia então “fabricar uma contextura”, algo que permitisse ligar
uma série de textos a um contexto:
Sem elementos contextuais, ficamos desarmados diante da aparente
desordem. Cada página da escrita é duplicada por uma cena social a ser
conhecida, a se documentar, a se informar, o que supõe outras explorações
numa cidade, numa organização, num evento político, uma cultura da leitura,
72
um modo de pensar compartilhado, uma experiência de trabalho.

Pouco a pouco e com a ajuda de algumas militantes da ARCL fui tecendo essa
contextura. Este trabalho me abriu também outras portas. Fui convidada para fazer um estágio
neste arquivo com o objetivo de organizar o acervo de revistas e panfletos. Este trabalho
envolvia limpeza das estantes, dos materiais, separação e organização nas prateleiras além de
inserir as informações sobre as revistas numa base de dados. Uma vez por semana, durante
cinco horas, dediquei-me a essa atividade, privilegiando as produções dos anos 1970 num
primeiro momento. Essa atividade trouxe diversas contribuições a este trabalho. Algumas das
militantes do grupo tinham um histórico de militância desde os anos 1970 e as inúmeras
conversas e trocas foram enriquecedoras. Além disso, proporcionou-me uma familiaridade
com a imprensa feminista nos anos 1970 e, sobretudo, a descoberta de panfletos, materiais de
congresso inexistentes em outros arquivos. Esses materiais foram fundamentais sobretudo
para a redação do capítulo 6 no qual procuro contextualizar um conflito no seio da revista
Questions féministes no bojo de um debate mais amplo sobre a lesbianidade e o movimento
feminista. Como praticamente não existem trabalhos sobre a história do movimento lésbico na
França (com exceção de uma dissertação de mestrado sobre o tema)73, foram esses materiais
que me deram subsídios para compreender o contexto no qual emergiram alguns debates em
torno de uma tendência lésbica radical que estaria, por sua vez, relacionada com o conflito

72
ARTIERES, P. Archives personnelles; histoire; anthropologie et sociologie. Paris: Armand Colin, 2011, p.17.
73
ELOIT, Llana. Le sujet politique lesbien à Paris: compositions, recompositions et décompositions du sujet
féministe (1970-1984). Mémoire de master 2, 2013.
29

que deu origem ao fim da revista Questions féministes. Esse conflito, pouco abordado na
bibliografia francesa74, teve um impacto importante na militância lésbica subsequente e, para
Isabelle Clair75, seria até mesmo um dos elementos que teria freado a inclusão dos estudos
sobre sexualidade na França.

Outra fonte utilizada nessa pesquisa foram as entrevistas. O objetivo das


entrevistas é reconstruir as dimensões subjetivas e, sobretudo, as sociabilidades76 e visões que
marcaram o movimento. Muitas das feministas que fizeram parte da revista Questions
féministes, mas também da reflexão que daria origem ao conceito de rapports sociaux de sexe
apresentam esse trabalho teórico como algo “coletivo”, como fruto de trocas políticas e
intelectuais com outras mulheres. Um dos objetivos desse trabalho é reconstituir o contexto e
as condições de possibilidade desse debate. Quais eram os “diálogos interrompidos”, aos
quais Colette Guillaumin faz referência na introdução de Sexe, race et pratique du pouvoir?
Como se deu, e sob quais bases, o encontro de pessoas com preocupações comuns? Como
surgiu a ideia de publicar uma revista, de formar um grupo, de fundar um laboratório de
pesquisa? As entrevistas, embora secundárias neste trabalho, permitem a reconstituição de
alguns fios de uma teia para os quais os documentos escritos são insuficientes.

Foram realizadas entrevistas com diversos membros do comitê de redação da


revista Questions féministes: Christine Delphy, Colette Guillaumin, Colette Capitan Peter,
Emmanuelle de Lesseps além um breve encontro com Nicole-Claude Mathieu alguns meses
antes do seu falecimento. Outras feministas próximas da revista ou da perspectiva em questão
foram também entrevistadas: Liliane Kandel, Claire Michard, Josette Trat Foram
entrevistadas também algumas daquelas ligadas à reflexão em torno do conceito de rapports
sociaux de sexe: Danièle Kergoat, Helena Hirata, Dominique Foygerollas e Michele Ferrand.

Esta tese está dividida em sete capítulos. Partindo de Simone de Beauvoir, que
é considerada a base das análises antinaturalistas feministas, e depois expandindo para outros
autores que escreveram sobre a temática nos anos 1950 e 1960, procuro analisar como a
questão da “natureza” feminina era tematizada e quais eram as saídas políticas propostas para

74
Encontramos breves menções em: MARTEL, Frédéric. Le Rose et le noir: Les homosexuels en France depuis
1968, Paris: Éditions du Seuil, 1996 ; DUCHEN, Claire. Feminism in France: From May 1968 to Mitterrand,
London, Routledge, 1986; LESSELIER, Claudie. Les regroupements de lesbiennes dans le mouvement féministe
parisien: positions et problèmes 1970-1982. In: GEF, Crises de la société, féminisme et changement, Éditions
Tierce, 1991.
75
CLAIR, Isabelle. Porquoi penser la sexualité pour penser le genre en sociologie ? Retour sur quarente ans de
réticences. Cahiers du genre. n. 54, 2013.
76
Para a noção de sociabilidade intelectual, ver: SIRINELLI, Jean-François. Le hasard ou la nécessité ? une
histoire en chantier: l'histoire des intellectuels. Vingtième siècle, vol. 9, n.1, 1986.
30

a superação da chamada “questão feminina”. Trata-se somente de um panorama dessas


discussões.

No capítulo 2, “A radicalização do movimento: do FMA ao MLF”, procuro


analisar o processo de radicalização das ideias e movimentos femininos na França no final dos
anos 1960 e a emergência do Mouvement de Libération des femmes (MLF). Opera-se, no final
dos anos 1960, uma lenta e discreta gestação de um conjunto de ideias e práticas que viriam a
constituir a base para a emergência do MLF. Um caso emblemático desse processo foi o
grupo FMA (inicialmente Féminin, Masculin, Avenir e depois Féminisme, marxisme, action).
A segunda parte do capítulo é dedicada ao MLF, movimento que tem suas primeiras
manifestações públicas em 1970 e que constitui o início do que é conhecido como “segunda
onda” feminista na França.

É no bojo dessas movimentações que surgem uma série de conceitos com o


objetivo de explicar a opressão feminina. O capítulo 3 “Teorizando a opressão” procura
reconstituir algumas dessas primeiras tentativas de formulação teórica.

No quarto capítulo “Questões feministas em revista: desafios e problemas da


sistematização, publicação de ideias feministas”, procuro, como indica o título, problematizar
questões relativas à produção e divulgação de ideias nos debates feministas franceses dos anos
1970. A segunda parte é dedicada à revista Questions féministes, que constituiu um local
importante para uma reflexão materialista.

Os capítulos de número 5 e 6 são dedicados à análise dos dois eixos principais da


reflexão materialista: o antinaturalismo e a ideia de formular uma análise da opressão a partir
das relações sociais. Em “Antinaturalismos feministas” o objetivo é apresentar as teorizações
antinaturalistas que emergem naquele contexto com uma ênfase particular em algumas autoras
como Christine Delphy, Monique Wittig, Nicole-Claude Mathieu e Colette Guillaumin.
“Materialismos feministas”, o capítulo 6, é dedicado a analisar os diversos caminhos trilhados
em torno da discussão sobre “materialismo”. Procuro mostrar a recepção que essas ideias
tiveram, quais foram os pontos de tensão e como esses embates suscitaram reelaborações e
novas teorizações.

Por fim, apresento um debate sobre a lesbianidade e engajamento feminista que


provocou acalorados debates no início dos anos 1980 e que culminou com a cisão do coletivo
de redação da revista Questions féministes e o fim dessa publicação. O objetivo é partir de um
momento de controvérsia como um momento chave para compreender alguns debates e
questões que marcaram a reflexão feminista no final dos anos 1970 e início dos anos 1980.
31

As fontes utilizadas neste trabalho não necessariamente podem ser citadas dentro
das normas vigentes de citação. Alguns textos não tem data, outros não têm autor ou são
assinados só pelo nome ou por um pseudônimo. Citar pseudônimos e nomes sem sobrenome
não é, portanto, um recurso escolhido mas a única forma de se fazer referência a uma
produção teórica que procurava criticar os cânones de produção de saber e publicação. Cabe
ainda mencionar que uma grande parte da bibliografia deste trabalho foi publicada
originalmente em francês. Todas as citações foram traduzidas para o português e, dado o
volume, só foram reproduzidos os originais em alguns casos.
32

Capítulo 1

“Questão feminina” e natureza nos debates do pós-Guerra

É uma ideia corrente a tese de que as teorizações feministas que procuraram


desnaturalizar a diferença sexual têm, apesar das divergências, uma filiação direta com a
reflexão de Simone de Beauvoir segundo a qual “não se nasce mulher, torna-se mulher” e
com contexto do pós-guerra.1 Diversos foram os caminhos trilhados buscando formular novas
perspectivas teóricas que escapassem da concepção da biologia como destino e uma grande
parte do feminismo da chamada segunda onda se construiu em contraposição a essa ideia.
Mas, essa desnaturalização do “feminino” faz parte de um processo mais amplo que inclui
também outras/os atores/atrizes e objetos naturalizados.

Se hoje podemos afirmar que é “amplamente admitido que o natural seja


construído pela cultura”2, isso foi resultado de uma longa gestação no decorrer sobretudo do
século XX. Essa desnaturalização faz parte de um vasto processo de busca de perspectivas
que promovessem uma “explicação do social pelo social” – tomando aqui os termos de
Durkheim –, que marcaram não somente os esforços de uma certa sociologia, mas que
também tomou corpo nos debates sobre a raça, sexualidade e sobre o que intitularíamos hoje
gênero.

A busca por explicar uma série de fenômenos sociais a partir de uma ideia de
“natureza” dominou os séculos XVIII e XIX. O século XX representa o início do fim de um
ciclo. Em diversos domínios, essa abordagem do problema será objeto de contestação e de
reelaborações. A sociologia seria uma das disciplinas a dar importantes contribuições nesse
sentido. A sociologia de Durkheim e de outros dos seus contemporâneos nasce e ganha
terreno num contexto de embate com teorias biologizantes que dominavam o campo
intelectual no final do século XIX.3 Essa sociologia surge em contraposição à ideia de que a
natureza fisiológica seria uma fonte para uma análise do comportamento social. As análises

1
HARAWAY, Donna. ‘Gênero’ para um dicionário marxista: a política sexual de uma palavra. Cadernos Pagu,
n.22, jan./junho 2004; JACKSON, Stevi. Théoriser le genre: l’heritage de Beauvoir . In: DELPHY, Christine
CHAPERON,Sylvie. Cinquantenaire du Deuxième Sexe. Colloque International Simone de Beauvoir. Paris:
Édition Syllepse, 2002.
2
LÖWY, LLANA; ROUCH,HELENE. Gênese et développement du genre: les sciences et les origines de la
distinction entre sexe et genre. Cahiers du Genre, n.34, 2003, p. 8 .
3
Sobre essa questão ver: MUCCHIELLI, Laurent. La découverte du social. Paris: La Découverte, 1997 ;
MUCCHIELLI, Laurent. Sociologie versus anthropologie raciale. L’engagement décisif des durkheimiens dans
le contexte ‘fin de siècle’ (1885-1914). Gradhiva, n.21, 1998.
32
33

de Durkheim sobre o suicídio e sobre a divisão do trabalho marcam a emergência de uma


nova forma de se conceber esses fenômenos. Mas, ainda que o autor critique, em diferentes
momentos, o uso da biologia para explicar fenômenos sociais, essa mesma perspectiva não é
adotada quando se refere às mulheres. Em A divisão do trabalho social, Durkheim ancora as
diferenças entre os sexos num plano claramente biológico, usando até mesmo dados da
craniometria.

Diversas outras iniciativas desessencializantes em relação à raça ou a outros


objetos não incluiriam uma crítica à ideia de uma “natureza feminina”. É sobretudo a partir da
segunda metade do século XX que esforços nesse sentido serão empreendidos.

Um elemento que vai marcar um ponto de virada é o contexto do pós-Guerra. O


horror provocado pelo Holocausto provocaria esforços para descontruir a noção de “raça”. A
Organização das Nações Unidas (ONU)4 e diversas outras iniciativas criaram um ambiente
político e teórico no qual essa categoria passou a ser banida do vocabulário científico das
ciências humanas como sinônimo de enfoques ultrapassados. A formulação de uma diferença
entre natureza e cultura foi parte desses esforços. Essa perspectiva exerceria, de alguma
forma, influência nos debates que se desenvolviam, nesse mesmo período, sobre a diferença
entre homens e mulheres, como afirma Donna Haraway:
A versão da distinção natureza/cultura no paradigma da identidade de gênero
era parte de uma vasta reformulação liberal das ciências da vida e das
ciências sociais no desmedido do pós-guerra, feito pelas elites
governamentais e profissionais do Ocidente, das exibições de racismo
biológico de antes da segunda guerra.5

Para Elsa Dorlin, nesse mesmo sentido, os argumentos desenvolvidos pela


comunidade científica após a Segunda Guerra contestando a pertinência da noção de “raças
humanas” foi retomado para “criticar de forma análoga a pertinência do conceito de ‘sexo’,
quer dizer, a ideia de uma incomensurabilidade biológica entre homens e mulheres, fundada
na natureza”.6 A crítica à categoria raça como oriunda da biologia serviu como modelo teórico
para redefinir as mulheres como um grupo naturalizado e não natural.

As teorias que visavam uma desessencialização no campo da sexualidade também


emergem nesse contexto, entre os anos 1950 e 1960. Gayle Rubin, por exemplo, critica a
construção de narrativas que privilegiam o trabalho de Michel Foucault como base para o que

4
Para a ação da ONU nesse sentido ver: MAUREL, Chloé. La question des races. Gradhiva, n. 5, 2007.
5
HARAWAY, Donna. ‘Gênero’ para um dicionário marxista... Op. cit., p.217.
6
DORLIN, Elsa. Sexe, genre et sexualités. Paris: PUF, 2008, p.79-80.
33
34

é designado por “construtivismo social” e que apagam uma série de autoras/es que já
trabalhavam nesse sentido. Rubin destaca o papel de figuras como Mary McIntosh, Jeffrey
Weeks, Kenneth Plummer, dentre outros sociólogos, antropólogos e historiadores”.7 Jeffrey
Weeks, por sua vez, também mostra insatisfação com algumas dessas narrativas do campo de
sexualidade8 e destaca a importância do artigo de Mary McIntosh, “The homosexual role”,
publicado pela primeira vez em 1968, que representaria um texto fundamental para um debate
sobre a construção social da sexualidade.

Como nomear essas perspectivas? Antinaturalismo, antiessencialismo,


construtivismo? Nos debates feministas os termos naturalismo e essencialismo, assim como
os seus respectivos antônimos, antinaturalismo e antiessencialismo, são frequentemente
evocados. Podemos acrescentar também “construtivismo”. Esses conceitos são utilizados
como se o seu sentido fosse unívoco e evidente. Mas, como veremos, seus sentidos variam
historicamente e segundo os contextos teóricos e políticos. Por essa razão, começaremos por
algumas definições preliminares e problematizações dos mesmos.

Naturalismo, biologismo e alguns de seus antônimos

Para Dominique Gillo9, nos debates atuais sobre o naturalismo em ciências


sociais, o termo é usado para caracterizar “os modelos que recorrem, de uma maneira ou
outra, às ciências da vida para explicar os fenômenos sociais”.10 Ela identifica dois principais
grupos. Um primeiro reúne autores que desde o século XIX fazem um uso analógico da
biologia, como August Comte, Herbert Spencer, Émile Durkheim, entre outros. Esses autores
procuravam criar uma teoria da sociedade a partir da comparação com a ideia de organismo.
Atualmente, outros tipos de naturalismo analógico emergiram, como os “miméticos” que
usam modelos como os dos genes para explicar fenômenos sociais. Esse “naturalismo
analógico” diferenciar-se-ia de um segundo naturalismo que utilizaria a biologia não
indiretamente mas diretamente para explicar fenômenos sociais. Nessa visão, poderíamos
incluir uma série de teorias elaboradas a partir do século XIX, que procuram explicar

7
RUBIN, Gayle; BUTLER, Judith. Tráfico sexual – uma entrevista. Cadernos Pagu, n.21, 2003, p. 184.
8
WEEKS, Jeffrey. Le rôle homosexuel’ trente ans plus tard: retour sur le travail de Mary McIntosh.Genre,
sexualité & société, hors de série n.1, 2001, p.1.
9
GUILLO, Dominique. Des sciences de la vie aux sciences sociales: les visages du naturalisme. In:
KEUCHEYAN, Razmig ; BRONNER, Gérald. La Théorie sociale contemporaine. Paris: PUF, 2012.
10
Idem, p.51.
34
35

fenômenos sociais a partir das características anatômicas de indivíduos. A frenologia e a


antropologia física são exemplos nesse sentido. A partir do século XX essas teorias perderam
espaço, e a sociologia e antropologia desse século construíram-se, em grande medida, contra a
ideia de um determinismo biológico.

Sebastien Lemerle11 prefere o uso do termo “biologismo” para caracterizar essas


“óticas de leitura biológicas do mundo social” que se difundem particularmente a partir dos
anos 1970. Nicole-Claude Mathieu, no início dos anos 1970, pretende demarcar seus trabalhos
de perspectivas “biologisantes”. Colette Guillaumin, usa , por sua vez, “naturalismo” no lugar
de “biologismo”.12 Mas o termo “essencialismo” é frequente também nesses debates, embora
ganhe muitas vezes um sentido mais amplo e não remeta necessariamente a uma
essencialização a partir do biológico.

Para Pierre-André Taguieff, o termo essencialismo, assim como o verbo


essencializar tem uma longa história no pensamento filosófico, mas começa a ser utilizado
mais frequentemente a partir da segunda metade do século XX, sobretudo por historiadores e
sociólogos para fundamentar análises críticas sobre o nacionalismo ou sobre o racismo.13
Entre as/os autoras/es citados consta Abd-el-Malek, autor esquecido, mas pioneiro da crítica
ao orientalismo; Maxime Rodinson, marxista, autor de alguns livros sobre o mundo árabe
como Marxisme et monde musulman (1972) e Colette Guillaumin, citada por seus trabalhos
sobre a raça, entre eles L’ideologie raciste publicado em 1971. Para Taguieff, a crítica ao
orientalismo no campo intelectual árabe teria contribuído à formação de uma corrente
antiessencialista nas ciências sociais. Franz Fanon, mesmo que não tenha empregado o termo,
empreendia esforços já nos anos 1950 contra a essencialização de “culturas”. “Essencialismo”
é usado, nesse contexto, para caracterizar um pensamento que fixava uma essência, um ato de
homogeneizar e de reduzir um grupo de pessoas a uma essência. O racismo seria, nesse
sentido, um exemplo clássico de essencialização, seja nas suas vertentes biologizantes seja
nas suas versões mais “culturalistas”14, isto é, seja naquelas versões que reduzem
determinados grupos humanos a uma diferença considerada como biológica, como em versões

11
LEMERLE Sébastien. Le singe, le gène et le neurone. Du retour du biologisme en France, Presses
universitaires de France, 2014.
12
GUILLAUMIN, Colette. Compte-rendu de ACHARD, Pierre ; CHAUVENET, Elisabeth, et. al. Discours
biologique et ordre social. Paris: Le Seuil, 1977. L’Homme , tome 17, n.4, 1977, p.123.
13
TAGUIEFF, Pierre-André. Essencialisme. In: TAGUIEFF, Pierre-André (org.) Dictionnaire historique et
critique du racisme. Paris: PUF, 2013.
14
Sobre o racismo “cultural” no contexto francês ver, entre outros: TAGUIEFF, Pierre-André (org.), Face au
Racisme, Editions La Découverte, Paris 1993.
35
36

do chamado racismo cultural, largamente difundidas na França, que fixam determinados


grupos a uma certa cultura, esta última tomada de forma a-histórica.

Taguieff considera que há um “triunfo do pensamento antiessencialista”15 a partir


dos anos 1970. Os antiessencialistas mais radicais seriam ao mesmo tempo
“desconstrutivistas” e “construtivistas”, embora o autor não defina o que ele entende pelos
dois termos, essa associação é bastante comum. Estamos cientes de que esse é um problema
recorrente nas ciências sociais, e um trabalho exaustivo de definição poderia tornar difícil um
trabalho nessa área.

Embora essas perspectivas ganhassem terreno ao longo do século XX, elas foram
alvo de contestação. A sociobiologia é uma das principais manifestações da reemergência de
um discurso naturalisante nas ciências humanas. Ela surge primeiro para explicar
comportamentos animais, uma “sociobiologia animal” que alguns pesquisadores proporiam
transpor para explicar os fenômenos sociais. Particularmente sobre a França, afirma Sébastien
Lemerle, a partir dos anos 1970 há uma difusão cada vez mais ampla de “óticas de leitura do
mundo social”16 e uma “renovação do biologismo”.17 Trata-se de um discurso que usa
elementos das ciências da vida, que são importados, explorados e transformados, para servir a
um outro tipo de discurso, notadamente para explicar fenômenos sociais. Para Lemerle, entre
1968 e 1972, o sucesso de alguns livros como de Konrad Lorenz, Jacques Monod e François
Jacob marcam o início de uma onda de ensaios de pesquisadores que, a partir de suas
competências científicas, consideravam válido promover análises sobre fenômenos que
fugiam do escopo das suas respectivas disciplinas e a partir dessa ótica de leitura. Essa
perspectiva, deslegitimada no pós-guerra, volta a ganhar força nesse período. Em reação a
esse discurso, diversas são as críticas que tomam corpo.18

Ao naturalismo, contrapõe-se também um certo “construtivismo” 19, cujo sentido


está longe de ser claro e unívoco. O chamado “construtivismo social” é considerado um dos
paradigmas mais em voga nas ciências sociais contemporâneas.20 Sua aparição enquanto
“corrente” se daria a partir dos anos 1960 e teria ganhado espaço sobretudo a partir dos anos

15
Ibdem, p.562.
16
LEMERLE Sébastien. Le singe, le gène et le neurone. Du retour du biologisme en France, Presses
universitaires de France, 2014, p. 3.
17
Ibdem, p. 13.
18
Para uma crítica ao crescimento da sociobiologia no contexto estadunidense ver: SAHLINS, Marshall. The
Use and Abuse of Biology: An Anthropological Critique of Sociobiology. London: Tavistock, 1976.
19
Para um exemplo de oposição entre “naturalismo” e “construtivismo”, ver: JAUNAIT, Alexandre; RAZ,
MICHAEL; RODRIGUEZ, Eva. La biologisation de quoi? Genre, sexualité & société n.12, 2014.
20
KEUCHEYAN, Razmig. Le constructivisme. Des origines à nos jours. Paris: Hermann, 2007, p.9.
36
37

1980 e 1990. Embora seja concebido frequentemente como um conjunto coerente de


princípios, a ideia de “construção” ganha diferentes colorações nas ciências sociais atuais.
Nesse sentido, Razmig Keucheyan considera o construtivismo muito mais como uma
“nebulosa sociológica” que como um paradigma. Michael Lynch, na mesma direção, ressalta
que é difícil “imputar ao construtivismo conteúdos intelectuais e implicações políticas”.21 Os
“programas” e “movimentos” que se reivindicam “construtivistas” são diversos e com
conexões fracas: “os construtivistas parecem estar ligados uns aos outros antes por uma
filiação nominal – e talvez por alguns slogans –, do que por um conjunto de ideias originais
ou por uma teoria, ou ainda por uma metodologia fundadora”.22 Podemos encontrar diversas
genealogias do construtivismo mas, para Michael Lynch, haveria uma incompatibilidade entre
a forma tradicional de escrever a história das disciplinas, baseada por exemplo na ideia de
“descobertas”, avanços teóricos, expansão de um desenvolvimento progressivo e para as quais
as disciplinas são definidas frequentemente em termos de realização cognitiva individual, e
uma perspectiva construtivista.23 Muitas dessas genealogias do construtivismo não seriam,
nesse sentido, “construtivistas”. Um exemplo do equívoco dessa forma de se conceber a
questão é a eleição do livro The Social Construction of Reality de Peter Berger e Thomas
Luckmann como título central para essa perspectiva. Mas, para além do título, pouco da
dimensão intelectual do livro teria sido preservada nas obras construtivistas atuais. Berger e
Luckmann teriam uma versão pouco radical da construção social comparado a outras
perspectivas desenvolvidas no final dos anos 1960, ainda que estas não tenham no título a
fórmula “construção social”, como explica Lynch:
Em ciências sociais, um conjunto diverso e redundante de abordagens
semióticas, etnometodológicas, interacionistas, simbólicas, feministas
radicais, marxistas culturais, teórico-literárias e de análise do discurso
coincidiu com a obra de Berger e Lukmann, mostrando-se mais influentes
para os diversos coletivos de construtivistas modernos.24

A conclusão do autor, que adotamos neste trabalho para diversas outras


“etiquetas” e “escolas”, é que a noção de “construtivismo” seria útil na medida em que
fornece um ponto de partida para agrupar alguns esforços teóricos, metodológicos e políticos
sob um mesmo nome. Entretanto, trocar essa “afinidade superficial e eclética” que provocou o

21
LYNCH, Michael. Vers une généalogie constructiviste du constructivisme. Revue du MAUSS 1/2001, n. 17,
p.225.
22
Ibdem, p. 237.
23
Ibdem, p.226.
24
Ibdem, p. 238.
37
38

sucesso do construtivismo num primeiro momento, por algo mais “profundo e coerente”25,
traria diversos problemas.

Este é um caso emblemático das dificuldades em estabelecer “escolas” e


“correntes” de pensamento. Frequentemente definidas em oposição a uma certa forma de se
conceber uma questão, essas correntes não possuem necessariamente um núcleo comum e um
conjunto de preceitos teóricos definidos. Além disso, essas denominações ganham
preeminência em contextos específicos, no bojo de lutas políticas e acadêmicas que criam
oposições e clivagens e que dão sentido a esses termos que, sem contexto, perdem sua
historicidade e, até mesmo, qualquer poder explicativo.

Utilizaremos nesta tese o termo “antinaturalismo” num sentido amplo,


enquadrando diversos empreendimentos teóricos e militantes que se opunham ao uso da
biologia para explicar fenômenos sociais. Essas teorias antinaturalistas ganharam contornos
particulares nas diferentes correntes feministas e em diferentes países. Podemos dizer que o
elemento unificador é a crítica à ideia de uma “essência feminina” não somente quando essa
era usada para fins opressivos (violência, desigualdade salarial, feminicídio) mas também nas
formas consideradas mais “positivas” (apologia de valores femininos, valorização de
elementos da biologia feminina, etc.)

Para iniciar uma análise de como as teorizações feministas inseridas nessa


perspectiva foram construídas no contexto francês, partiremos de Simone de Beauvoir. Não
temos a pretensão de trabalhar com as interpretações da obra de Beauvoir, o que seria, por si
só, um longo projeto de trabalho. A bibliografia sobre O segundo sexo, particularmente
anglófona, é bastante extensa e, a cada ano, novos livros são publicados. O objetivo aqui é
somente lançar alguns elementos que ajudarão a compreender as rupturas e continuidades das
teorizações posteriores.

O segundo sexo de Simone de Beauvoir

O Segundo sexo é considerado uma obra fundamental para o feminismo que


ressurge nos anos 1960-1970. A importância desse livro é reconhecida por teóricas dos mais
diversos matizes políticos e teóricos. Para Maité Albistur e Daniel Armogathe “todo

25
Ibdem, p.243.
38
39

feminismo contemporâneo procede de O segundo sexo”.26 Para Michèle le Doeuff o livro


seria, para sua geração “o Movimento antes do Movimento”.27

Mas, o impacto que a leitura dessa obra provocou na vida das mulheres
individualmente é algo mais dificilmente mensurável. Ménie Grégoire afirmava que Simone
de Beauvoir “foi mais importante para as mulheres da minha geração do que os historiadores
nunca admitirão”.28 Diversos são os relatos, oriundos de diferentes partes do mundo, sobre o
impacto dessa obra.

A narrativa de uma mulher estadunidense, que participou de um encontro de


comemoração dos 30 anos de publicação da obra, em 1979, em Nova York, é um dentre
muitos outros registros de como esse livro afetou a vida de milhares de mulheres no mundo:
Eu tenho 60 anos. Há 27 anos eu era uma mulher vítima de violência,
prisioneira na minha casa no Long Island com quatro crianças. E aí eu
descobri O Segundo sexo . Quanto mais eu lia, mais eu tinha vergonha. Eu
me dizia: ‘Se essa mulher teve coragem de dizer todas essas coisas, eu
deveria ao menos ter a força de reagir. É minha vida, apesar de tudo, e caso
eu continue a aceitar essa escravidão ela está perdida. Então, um dia, salvei-
me com meus filhos. Três vezes ele veio me procurar, arma em punho e eu
resisti. Graça a O Segundo sexo (...) quando eu fiquei sabendo que essa
conferência seria realizada eu não hesitei. Eu peguei meu fusca e vim de
Wisconsin [até Nova York].29

Beauvoir afirma ter recebido centenas de cartas após a publicação do livro. Para
essa pesquisa consultamos, na Bibliothèque National de France (BnF), algumas cartas
recebidas por Beauvoir, entre 1975 e 1977, com o objetivo de compreender a relação da
autora com a revista Questions féministes. Encontramos diversas cartas enviadas por leitoras
de todo o mundo, inclusive do Brasil, relatando o impacto que a obra teve nas suas vidas,
mais de vinte e cinco anos após a publicação do livro.

O livro, por diferentes razões, provocaria inúmeras polêmicas. Como afirma


Ingrid Galster, organizadora de um livro que reúne resenhas e comentários críticos à obra,
veiculados no momento da sua publicação30, passados mais de 50 anos após a sua publicação,

26
ALBISTUR Maïté, ARMOGATHE Daniel. Histoire du féminisme français du moyen âge à nos jours. Paris:
Des Femmes, 1977. P. 606.
27
Apud RODGERS, Catherine. Le Deuxième sexe de Simone de Beauvoir. Une héritage admiré et contesté.
Paris: L’Harmattan, 1998, p. 18.
28
Apud CHAPERON, Sylvie. Les années Beauvoir ... Op. Cit., p. IX.
29
SUTTON, Nina. Colloque Le ‘Deuxième Sexe’ a trente ans. F Magazin, p. 69.
30
GALSTER, Ingrid (org.), Le Deuxième Sexe de Simone de Beauvoir, Paris, Presses de l’Université Paris-
Sorbonne, 2004.
39
40

“temos dificuldade em acreditar que esse livro pôde suscitar um escândalo”.31 A dificuldade
em compreender o impacto e as críticas que este livro recebeu é um sinal das intensas
transformações pelas quais passou o “segundo sexo” na segunda metade do século XX, e para
as quais o livro foi um elemento não negligenciável.

Marcos históricos

O Segundo sexo foi gestado no imediato pós-Guerra e publicado quatro anos após
o fim da Grande Guerra. Em 1948 a revista Les Temps Modernes publica um primeiro texto
de Beauvoir, apresentado como um “excerto de um livro, prestes a ser publicado, e que
tratava da situação da mulher”. “Le mythe de la femme et les écrivains” foi publicado em
fevereiro, “L’initiation sexuelle de la femme” em maio, “La lesbienne” em junho e “La
Maternité” em julho. Em junho de 1949 seria publicado pela editora Gallimard o primeiro
volume de Le deuxième sexe e, em novembro, o segundo.

Na primeira semana, mais de vinte mil cópias do primeiro volume foram


vendidas.32 Graças à violenta polêmica que se instaura em torno do livro – antes mesmo da
publicação da obra, a partir dos trechos publicados em Les Temps modernes – este se torna
um sucesso editorial.33 Censurado pela Igreja Católica, que o colocou no Index, rejeitado por
setores à esquerda e à direita, O segundo sexo é objeto de cartas de injúria, textos sarcásticos e
críticas virulentas. “A direita só poderia detestar o meu livro, que Roma colocou no Index”
escreve Beauvoir. A autora esperava, entretanto, que o livro seria “bem acolhido” pela
“extrema esquerda”34, o que também não foi o caso.

Católicos e comunistas, imersos na ideologia do retorno ao lar do pós-guerra,


defendiam sobretudo as mães, distanciando-se de reivindicações feministas. As organizações
sufragistas, por sua vez, não se viam representadas nas elaborações de Beauvoir. Crítica à
ideia de uma busca por direitos – “os direitos abstratos (…) jamais foram suficientes para
assegurar que a mulher se apropriasse concretamente do mundo”, afirmava35 – ela também

31
GALSTER, Ingrid. Préface. In: GASTER, Ingrid. Le Deuxième Sexe... Op. cit., p. 11.
32
Ibidem, p. 8.
33
CHAPERON, Sylvie. 1949-1999: cinquante ans de lecture et de débats français. In: DELPHY, Christine ;
CHAPERON, Sylvie. Cinquantenaire du Deuxième Sexe. Colloque International Simone de Beauvoir. Paris:
Édition Syllepse, 2002, p. 352.
34
GALSTER, Ingrid (org.). Le Deuxième Sexe de Simone de Beauvoir, Op. cit., p. 11.
35
CHAPERON, Sylvie. Les années Beauvoir. Op. cit., p. 161.
40
41

abordava temas como sexualidade e aborto, os quais não faziam parte da pauta política dos
grupos existentes. Sobre o clima hostil desse momento, Sylvie Chaperon comenta:
O segundo sexo foi publicado em 1949, nesse clima hostil. Os comunistas e
os católicos acusam o livro de ser pornográfico. Uma polêmica violenta
eclode em torno das questões sexuais, que a maioria das mulheres gostariam
de guardar em segredo e em privado. Mesmo as feministas não se
reconhecem nas novas reivindicações acerca da contracepção, da liberdade
amorosa defendida por Simone de Beauvoir.36

É sobretudo a partir da publicação do texto “L’initiation sexuelle de la femme”,


em maio de 1949, que a polêmica eclode. François Mauriac escreveria logo após a publicação
desse artigo: “Atingimos, literalmente, os limites do abjeto”.37 Esse texto seria, para Mauriac,
mais um exemplo de um fenômeno mais amplo que atingiria a literatura como um todo.
Pouco após a publicação do texto, o autor lançaria uma enquete entre os jovens sobre a
literatura:
Vocês acreditam que o recurso sistemático, no âmbito literário, às forças
instintivas e à demência, assim como a exploração do erotismo que foi por
ela favorecida, constitui um perigo para o indivíduo, para a nação, ou para a
própria literatura, e que, certos homens, certas doutrinas são os
responsáveis?38

Um dos elementos de crítica deve ser localizado dentro desse contexto. A importância
do existencialismo na conjuntura do pós-Guerra e as críticas que essa corrente recebia tiveram
um papel importante na recepção da obra da autora. A posição hegemônica dessa corrente
filosófica em tal momento histórico explicaria, em parte, segundo Sylvie Chaperon39, a
amplitude dos debates. Grandes revistas intelectuais entram em guerra contra o livro. Mas,
através de Beauvoir, apelidada de “Notre-Dame-de-Sartre” ou “Grande Sartreuse”, por alguns
de seus críticos, são visados, frequentemente – como se pode ver – Sartre, considerado como
“pornográfico”, “mau preceptor e corruptor da juventude”40, e o existencialismo, acusados de
provocar a decadência da literatura francesa.

Cabe ressaltar que, embora a figura de Beauvoir seja frequentemente associada


com a de Sartre, antes da publicação de O segundo sexo ela não era uma figura desconhecida.

36
CHAPERON, Sylvie. Les années Beauvoir, Fayard, 2000, p. 114.
37
GALSTER, Ingrid (org.), Le Deuxième Sexe de Simone de Beauvoir. Op. cit., p. 6.
38
Apud GALSTER, Ingrid (org.), Le Deuxième Sexe de Simone de Beauvoir. Op. cit, p. 6
39
CHAPERON Sylvie, Les années Beauvoir. Op. cit.
40
Apud GALSTER, Ingrid (org.), Le Deuxième Sexe de Simone de Beauvoir. Op. cit p. 6
41
42

Seu primeiro romance L’invité (1943), além da sua participação na revista Le Temps
Modernes, faziam de Beauvoir uma figura já conhecida do público.41

Mas, para Chaperon, a relação com o existencialismo e sua condição de


companheira de Sartre são somente alguns dos fatores que explicam a repercussão. É
sobretudo por ser porta-voz de novas reivindicações que Beauvoir provoca intensas reações.
O segundo sexo teria dado “palavras a um discurso titubeante”, que as mulheres começavam a
enunciar sobre os seus corpos, sexualidade e gravidez.42. A “modernidade” do livro reside
sobretudo nas temáticas novas que introduz, as relações amorosas e sexuais, a relação com o
marido, crianças, corpo, etc.43

Porém, como afirma já, em 1949, Colette Audry, trata-se de um livro “muito lido,
mal lido e mal compreendido”.44 A hostilidade à obra se concentra claramente nos capítulos
sobre a sexualidade e a maternidade.45 Os capítulos mais polêmicos teriam sido “La mère” (A
mãe), “L’initiation sexuelle” (A iniciação sexual) e “La lesbienne” (A lésbica), publicados
previamente em Les Temps modernes. O primeiro capítulo mencionado é um manifesto a
favor da contracepção livre e do aborto, num contexto marcado por um forte incentivo ao
aumento da natalidade, da esquerda à direita. A descrição minuciosa de aspectos da
sexualidade feminina chocaria leitores pouco acostumados a esse tipo de abordagem,
particularmente por se tratar da sexualidade feminina. Por fim, o capítulo sobre “a lésbica”,
com uma abordagem longe da patologização e da ideia de perversão. Para Chaperon:

o caso mostra também o quanto Beauvoir estava à frente da maioria dos seus
contemporâneos, pois esses capítulos tão escandalosos prefiguram,
precisamente, os temas chave do MLF, que surgiria vinte anos mais tarde e
que, como sabemos, reivindica de maneira ainda mais ruidosa, que as
mulheres tenham direito a dispor de seus corpos, reivindicando a
liberalização do aborto e uma sexualidade escolhida livremente.46

Em relação à questão que mais nos interessa, deve-se ressaltar que somente uma
minoria se posicionaria completamente favorável à ideia do slogan “On ne naît pas femme: on

41
Sobre essa questão há controvérsias. Ver: CHAPERON, Sylvie. Les années Beauvoir. Op. cit., p. 8 (nota 5).
42
Ibidem, p. 167.
43
Ibidem, p. 161.
44
AUDRY, Colette. “Le 2o. Sexe” et la presse. Livre très lu, mal lu et mal compris. In: Galster GALSTER,
Ingrid (org.), Le Deuxième Sexe de Simone de Beauvoir. Op. cit p. 234.
45
CHEPERON, Sylvie. , Les années Beauvoir. Op. cit., p. 180.
46
CHAPERON, Sylvie. 1949-1999: cinquante ans de lecture et de débats français . In: DELPHY, Christine ;
CHAPERON, Sylvie. Cinquantenaire du Deuxième Sexe. Colloque International Simone de Beauvoir. Paris:
Édition Syllepse, 2002, p. 359.
42
43

le devient” (Não se nasce mulher: torna-se mulher), entre elas Colette Audry e Françoise
d’Eaubonne47. D’Eaubonne foi, ao que tudo indica, segundo Chaperon, a primeira a resumir o
livro pela citação supracitada, que mais tarde se tornaria um slogan48 e frase símbolo do livro.
Essa ideia seria, para Audry, uma “novidade tão nova”, que a maior parte daqueles e daquelas
que escrevem sobre mulheres a consideram ruim por não tê-la compreendido. “Para a maioria
das pessoas” afirma Audry, a “negação da ‘pequena diferença’ provinha de um feminismo
delirante”.49

Beauvoir e o antinaturalismo: uma ruptura inacabada?

Quando emprego as palavras ‘mulher ou ‘feminino’ não me refiro


evidentemente a nenhum arquétipo, a nenhuma essência imutável; após a
maior parte de minhas afirmações cabe subentender: ‘no estado atual da
educação e dos costumes.50

Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico,


psíquico, econômico define a forma que a fêmea humana assume no seio da
sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produto
intermediário entre o macho e o castrado que qualifica o feminino. Somente
a mediação de outrem pode constituir um indivíduo como um Outro.51

Esses dois trechos abrem as primeiras páginas do segundo volume de O segundo


sexo. Elas constituem alguns exemplos de posições claramente antinaturalistas de Simone de
Beauvoir. Recusando a ideia de um destino biológico para as mulheres, Beauvoir procura
reconstruir uma teorização sob outros moldes, uma perspectiva que vai de encontro ao
determinismo natural amplamente difundido. “Seu volumoso tratado”, afirma Chaperon,
parece de uma “rara coerência”, inteiramente estimulado por um desejo “de acabar para
sempre com o eterno feminino”.52

O segundo sexo é considerado, nesse sentido, uma das obras fundadoras de um


feminismo radical baseado em perspectivas antiessencialistas ou “culturalistas”, na França.
47
Ibidem, p.185.
48
CHAPERON, Sylvie. Le reflux de la vague. Mouvements féminins et féministes 1945-1970, Université
européenne de Florence, en co-direction avec Paris 7, 1996, p. 359.
49
AUDRY, Colette. Dix ans après ‘Le Deuxième Sexe’. In: La NEF (La française d’aujourd’hui). Nouvelle
série. Cahier n.4, outubro-dez. 1960, p. 120.
50
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo sexo. 1 Fatos e mitos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000, p.7.
51
Idem. O Segundo sexo 2. A experiência vivida. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1990, p. 9.
52
CHAPERON, Sylvie. La deuxième Simone de Beauvoir. Les temps modernes, n.593, abril-maio de 1997, p.
120.
43
44

Ele rompe com um pensamento naturalista, dominante naquele contexto. Para Armengaud, a
crítica ao naturalismo em Beauvoir comporta três elementos: 1-filosóficos: “a primazia da
existência impõe-se contra o naturalismo essencialista.” 2- epistemológicos: a série
causal/explicativa situa-se de maneira homogênea do lado da sociedade, da civilização; 3-
políticos: a crítica à ideia de fatalidade biológica é um elemento propulsor à mudança. Para
Chaperon, O segundo sexo repousa em pressupostos claramente culturais. Muitos dos
postulados de Beauvoir implicariam num profundo rompimento com o pensamento
naturalista: sua concepção existencial do humano, a importância constitutiva das relações
interpessoais na formação do indivíduo e o estudo do humano, não em sua forma abstrata,
mas situado, anula toda pretensão de uma essência corporal.53

Alguns anos após a publicação de O segundo sexo, numa entrevista realizada em 1966,
Beauvoir se declarava “radicalmente feminista”, compreendendo essa radicalidade no sentido
de reduzir “radicalmente a diferença enquanto dado tendo uma importância em si”. Ela afirma
uma evidência de uma diferença física entre homens e mulheres mas “essa diferença poderia
ser, na minha visão, retomada em contextos que a anulariam completamente”.54

Beauvoir, influenciada provavelmente por Lévi-Strauss55, trabalhava com a ideia de


natureza e cultura, noção pouco difundida na época. Para Colette Audry, muitos tiveram
dificuldade em compreender, pois a oposição entre natureza e cultura não estava vulgarizada,
sendo assim, seu livro contribuiu para isso, a começar pela frase: ‘Ninguém nasce mulher:
torna-se mulher’, oposição que hoje é aceita”.56

Mas, apesar de promover uma forte crítica aos pressupostos naturalistas, Beauvoir
não conseguiu se desvincular totalmente das concepções que combatia.57 Embora procure
escapar de uma visão naturalizante, sua concepção de corpo e sexualidade continua refém de
uma lógica naturalista.58 Encontramos, ao longo dos dois volumes da obra, elementos dessa
ambiguidade, ou, para usar os termos de Chaperon, dessa “ruptura epistemológica inacabada”.

53
Ibidem, p.117.
54
Simone de Beauvoir apud ARMENGAUD, Françoise. Le matérialisme beauvoirien et la critique du
naturalisme dans le Deuxième sexe: une ‘rupture épistemologique inachevée’? Nouvelles Questions féministes,
vol. 20, n.4, 1999, p. 44.
55
As estruturas elementares do parentensco de Lévi-Strauss foi publicado em 1949, mas Beauvoir teve acesso a
essa obra antes da publicação e escreveu uma resenha bastante favorável em Les temps modernes
56
AUDRY, Colette. [Necrologie de Simone de Beauvoir, 15 avril 1986]. Publicado originalmente no jornal
Libération e reproduzido em GALSTER, Ingrid (org.), Le Deuxième Sexe de Simone de Beauvoir p. 315.
57
CHAPERON, Sylvie. Les années… Op. cit., p. 158-159.
58
Ibidem, p. 158.
44
45

As passagens biologizantes deveriam ser interpretadas como “tentativas infrutíferas de se


separar da ideologia naturalista”.59

A maioria das comentadoras dessa obra retêm os momentos antiessencialistas do


livro. Mas, há quem afirme justamente o contrário, ressaltando os aspectos mais biologizantes
da obra, como Juliet Mitchell e Ann Oakley:
Em O segundo sexo, Simone de Beauvoir argumenta que a divisão dos sexos
é algo irredutível, um fato contingente à biologia. A categoria mulher é
biológica, não histórica, consequentemente a mulher sofre uma opressão
singular, que desconhece um período que preceda a essa condição. Sem a
existência de um passado diferente, como podemos conceber um futuro
distinto?60

Christine Delphy relembra que, o teor das suas anotações das leituras das suas
primeiras leituras de O segundo sexo. Este não seria “suficientemente radical”61 e em alguns
momentos Beauvoir aparecia como “francamente biologisante”.62

Para Sylvie Chaperon, as duas grandes tendências do pensamento feminista, uma


naturalista e outra cultural, estão presentes na obra de Beauvoir. Em diversos trechos da obra
ela afirma que algumas ações femininas seriam por essência naturais, e não sociais, e há até
mesmo uma afirmação de uma preeminência do biológico: “Nem sempre houve proletários:
sempre houve mulheres, elas são mulheres devido à sua estrutura fisiológica”63. Sua
explicação sobre o corpo das mulheres, a menstruação dolorosa, maternidade, frigidez, etc.,
ficam impermeáveis aos princípios antinaturalistas reivindicados pela autora. Simone de
Beauvoir não consegue se desvincular completamente das concepções que ela combate.
Beauvoir abre novos caminhos, mas que não podem senão se apoiar nas referência existentes.

As ambiguidades da posição de Beauvoir já eram objeto de polêmica pouco


depois da publicação do livro. Em 1949, uma das críticas afirmava: “Ele continha uma
formula ambivalente, na qual se chocava uma espécie de reconhecimento de uma condição
natural e a recusa em aceitá-la como tal, para transfigurá-la em uma vida pessoa original”64.
Lillar, autora de Le Malentendu du deuxième sexe, publicado em 1969, ressaltava também
essas ambiguidades:
59
CHAPERON, Sylvie. La deuxième Simone de Beauvoir. Op. cit., p. 138.
60
OAKLEY, Ann; MITCHELL, Juliet. Introduction. In: OAKLEY, Ann; MITCHELL, Juliet.What is feminism?
Oxford /Cambridge USA: Blackwell, 1992, p. 1.
61
RODGERS, Catherine. Le Deuxième sexe de Simonde de Beauvoir. Une héritage admiré et contesté. Paris:
L’Harmattan, 1998, p. 103.
62
Idem, p.103.
63
Apud CHAPERON, Sylvie. La deuxième Simone de Beauvoir. Op. cit, 1997, p. 123.
64
GALSTER, Ingrid (org.), Le Deuxième Sexe de Simone de Beauvoir. Op. cit., p. 160.
45
46

Sim ou não, a mulher diferencia-se do homem? Essa diferença é natural ou


artificial? A mulher é diferente ou apenas se encontra distintamente situada?
Repostas variadas, e por vezes contraditórias, são dadas pela autora. Disso
decorre a oscilação, em meio a esse aglomerado ideológico, que se sustenta
65
tão somente por fazer referência à prótese sartriana.

Suzanne Lillar afirmaria que era necessário superar tal livro, porque a posição de
Beauvoir seria incorreta: “Não podemos recorrer à pura negação do feminino e da natureza”.
Para Lillar a posição sustentada por Beauvoir culmina numa “neutralização do sexual, uma
identificação da mulher ao homem através de uma desexualização”.66 Afirmar que a diferença
entre homens e mulheres seja de “ordem cultural e não natural” seria um erro, conclui a
autora67. Para Rodgers, o duelo “Beauvoir–Lilar” prefigura alguns debates dos anos 1970 e
1980 entre feministas “igualitárias” e “diferencialistas”.

Para Michel Kail68 O segundo sexo é uma obra de grande radicalidade


antinaturalista. Os elementos naturalistas presentes na argumentação de Beauvoir não tirariam
a pertinência dessa apreciação. Para Chaperon, são justamente essas inconsistências que
deram vitalidade à obra. Outras obras, como a de Françoise d’Eaubonne, mais radical e
coerente, não encontraram a mesma recepção:
É a ambiguidade de O segundo sexo que lhe garante um público amplo,
apesar das suas milhares de páginas. Expondo os conflitos conhecidos por
todas aquelas que tentavam dar sentido às suas vida e às suas aspirações, ele
acompanhou milhares de mulheres investidas de um desejo de realização
profissional, e isso, no contexto repressivo e conformista dos anos 1950.69

Menos que discutir sobre a coerência interna do livro, o objetivo aqui é analisar
quais possibilidades foram abertas e que seriam posteriormente desenvolvidas por outras
feministas. Stevi Jackson, num texto de 1999, considera que Simone de Beauvoir teria
apresentado os “fundamentos de uma análise feminista do gênero”, ainda que não dispusesse
do conceito. Afirmando o caráter social da feminilidade, Beauvoir teria antecipado a distinção

65
LILAR, Suzanne. Le malentendu du deuxième sexe. Paris: PUF, 1969, p. 45-46.
66
LILAR, Suzanne ; DURANTEAU, Joseane. Suzanne Lilar s'explique sur deux malentendus. Le Monde, 25 de
outubro de 1969.
67
Ibidem.
68
KAIL, Michel. Pour un matérialisme anti-naturaliste. La leçon de Simone de Beauvoir. Nouvelles questions
féministes. Vol. 20, n.4, 1999.
69
CHAPERON, Sylvie. Les années… Op. cit., p. 167.
46
47

entre sexo e gênero, adotada pelas feministas anglófonas, nos anos 1970, e dado uma base
para reflexões feministas antiessencialistas do feminismo materialista.70

Para Butler, a teoria de Beauvoir abria a possibilidade de questionar a naturalidade


do sexo, embora a autora não tenha explorado essa possibilidade. Quando Beauvoir afirma
“Não se nasce mulher, torna-se mulher”, a autora pressupõe uma separação entre sexo e
gênero e sugere que o gênero é um aspecto da identidade gradualmente adquirido. Sexo, nesse
sentido, é entendido como invariante enquanto gênero seria um significado cultural. Para
Butler, se a distinção for “consistentemente aplicada” torna-se pouco claro em que medida ter
um dado sexo teria alguma consequência necessária para tornar-se um dado gênero.
Se gênero é a variável cultural que interpreta o sexo, então ele carece da
fixidez e do acabamento que são característicos da noção de identidade (...).
Gênero deve ser entendido como uma modalidade de levar a cabo ou realizar
possibilidades, um processo de interpretação do corpo, que confere uma
forma cultural.71

Embora Beauvoir afirme que as diferenças sexuais são um fato, ela defende, por
outro lado, que estes, em si mesmos, não têm nenhuma significação, e que seu sentido
depende da totalidade do contexto. A ênfase de Beauvoir no corpo como objeto de
interpretação cultural abre a possibilidade de um questionamento do corpo como um dado
natural. As implicações radicais dessa ideia não foram, ainda segundo Butler, desenvolvidas
por Beauvoir, mas o seriam por autores como Foucault e Monique Wittig:

If the pure body cannot be found, if what can be found is the situated body,
a locus of cultural interpretations, then Simone de Beauvoir’s theory seems
implicitly to ask whether sex was not gender all along. Simone de Beauvoir
herself does not follow through with the consequences of this view of the
body, but we can see the radicalization of her view in the work of Monique
Wittig and Michel Foucault: the former self-consciously extends Simone de
Beauvoir’s doctrine in ‘One is not Born a woman’; the latter is not indebted
to Simone de Beauvoir (although she was a student of Merleau-Ponty) and
yet promotes in fuller terms the historicity of the body and the mythic status
of natural ‘sex’.72

Embora a autora mencione somente Monique Wittig, a reflexão desta última


está inserida num contexto mais amplo. “On ne naît pas femme” e “La pensée straight” foram

70
JACKSON, Stevi. Théoriser le genre: l’héritage de Beauvoir . Nouvelles Questions féministes, vol. 20, n.4,
1999, p. 10.
71
BUTLER, Judith. Sex and Gender in Simone de Beauvoir’s second sex. In: FALLAIZE, Elisabeth. Simone de
Beauvoir: a critical reader. London/New York, 1998, p.31.
72
Ibidem, p. 39-40.
47
48

publicados na revista Questions féministes, e a própria Wittig faz referência à importância de


um trabalho coletivo para as suas reflexões. Para Jackson, Delphy, dentre outras feministas
materialistas, levaram até as últimas consequências o antinaturalismo que não foi plenamente
desenvolvido em O segundo sexo, e seriam estas últimas que teriam “inspirado a
desconstrução do gênero empreendida por Butler”, fato que não seria suficientemente levado
em consideração em muitas análises sobre a obra de Butler, que preferem privilegiar outras
influências como a de Foucault nos trabalhos da autora.73

Perspectivas de transformação

Em diversos momentos do texto, Beauvoir afirma claramente sua posição a favor


do socialismo, embora ela fosse bastante crítica à política do Partido Comunista.74 Desde a
introdução, referências a figuras importantes do socialismo aparecem.75 Na primeira parte do
primeiro volume, o capítulo intitulado “O ponto de vista do materialismo histórico” é
destinado a analisar como essa perspectiva tratou a questão feminina. Esse capítulo se abre
com algumas considerações sobre como o materialismo histórico teria posto em evidência
algumas “verdades importantes”:

A humanidade não é uma espécie animal: é uma realidade histórica. A


sociedade humana é uma antiphisis: ela não sofre passivamente a presença
da Natureza, ela a retoma em mãos. Essa retomada de posse não é uma
operação interior e subjetiva; efetua-se objetivamente na práxis. Assim, a
mulher não poderia ser considerada apenas um organismo sexuado: entre os
dados biológicos só têm importância os que assumem, na ação, um valor
concreto; a consciência que a mulher adquire de si mesma não é definida
unicamente pela sexualidade. Ela reflete uma situação que depende da
estrutura econômica da sociedade, estrutura que traduz o grau de evolução
técnica a que chegou a humanidade.76

O materialismo histórico forneceria, assim, elementos para pensar de uma forma


não-biologizante a “alienação feminina”. Mas, embora essa teoria, particularmente a síntese
esboçada por Engels, seja considerada como um “progresso” em relação a outras, como o

73
JACKSON, Stevi. Théoriser le genre. Op. cit.
74
DAUPHIN, Sandrine. Du socialisme au féminisme radical: Les fondements du militantisme. In: DELPHY,
Christine ; CHAPERON, Sylvie. Cinquantenaire du Deuxième Sexe. Colloque International Simone de
Beauvoir. Paris: Édition Syllepse, 2002.
75
Ibidem.
76
BEAUVOIR, Simone de. O Segundo sexo. 1 Fatos e mitos. Op. cit., 2000, p. 73.
48
49

ponto de vista da psicanálise e da biologia, Beauvoir considera que os problemas mais


importantes teriam sido escamoteados.77 Uma série de questões ficaram sem respostas e só é
possível aprofundá-las saindo do materialismo histórico. Este último só veria homens e
mulheres como “entidades econômicas”78, numa espécie de “monismo econômico”. Para
Beauvoir, é impossível “deduzir a opressão da mulher da propriedade privada”79: “Por baixo
de dramas individuais como da história econômica da humanidade, há uma infraestrutura
existencial que permite, somente ela, compreender em sua unidade essa forma singular que é
uma vida”.80

Seria necessário articular contribuições da biologia, da psicanálise, do


materialismo histórico de forma a integrar o corpo, a vida sexual, as técnicas numa
“perspectiva global de sua existência”. É somente num “mundo de valores” que estes
elementos poderiam ser definidos.

No último capítulo de O segundo sexo, “A caminho da libertação”, Beauvoir


explora alguns dos caminhos para a mudança. Para a autora, a superação da questão feminina
estaria vinculada a uma transformação mais ampla da sociedade e, por isso, uma união entre
homens e mulheres. A última frase é bastante clara sobre esse ponto: “É dentro de um mundo
dado que cabe ao homem fazer triunfar o reino da liberdade; para alcançar essa suprema
vitória é, entre outras coisas, necessário que, para além de suas diferenciações naturais,
homens e mulheres afirmem sem equívoco sua fraternidade”.81

Numa entrevista concedida no início dos anos 1970 ela afirma que não se
considerava feminista nos anos 1940: “eu achava que a solução dos problemas femininos
deveria ser encontrada em uma evolução socialista da sociedade. Por feminista, eu entendia
lutar por reivindicações propriamente femininas, independentemente da luta de classes”.82 Na
época da publicação do livro, a autora considerava que a solução do “problema das mulheres”
estaria inexoravelmente ligada a “uma solução global” e as mulheres deveriam “se encarregar
de outras coisas que não delas”, afirmava em 1968.83 Nos anos que antecederam a emergência
do MLF, Beauvoir não tinha nenhum contato com os grupos feministas ou de mulheres

77
Ibidem, p.75.
78
Ibidem, p. 80.
79
Ibidem, p. 77.
80
Ibidem, p.80.
81
BEAUVOIR, Simone. O segundo sexo 2. Op. cit., p. 500.
82
La femme révoltée. Un entretien de Simone de Beauvoir avec Alice Schwarzer. Le Nouvel Observateur, no
379, 14-20 février 1972.
83
CHAPERON, Sylvie. ‘Monomes’ et les ‘bonnes femmes’ ou Beauvoir et le MLF. In: BARD, Christine. (org.)
Les féministes de la deuxième vague, Rennes: PUR, 2012, p.87.
49
50

existentes. Numa entrevista dada no início dos anos 1980, ela afirma que os grupos que
existiam antes dos anos 1970 eram “reformistas e legalistas” e por isso ela não tinha
“nenhuma vontade” de fazer parte dos mesmos.84

O nascimento de uma nova “onda” feminista nos anos 1970 teria impacto nas
posições da autora. Logo após os primeiros sinais do movimento, em 1970, Beauvoir teria
entrado em contato com algumas militantes e, ao longo doa década, se engajaria numa série
de iniciativas. Ela assina, em 1971, o manifesto das 343 mulheres que declaram ter abortado,
publicado na revista Le Nouvel Observateur, participa do processo de Bobigny, que se tornou
emblemático na luta pela legalização do aborto, das Journées de dénonciation des crimes
contre les femmes, em 1972, participa da fundação da Ligue du droit des femmes e, no final
dos anos 1970, da revista Questions féministes.

Através de algumas introduções de livros e entrevistas, a autora expressa um novo


ponto de vista claramente feminista. Em 1972, numa entrevista à revista Le Nouvel
Observateur, sua posição já havia se alterado em relação às décadas precedentes: “Tudo o que
eu posso constatar, e que me levou a modificar as posições expostas em O segundo sexo, é
que a luta de classes propriamente dita não emancipa as mulheres”.85 Em ruptura com essa
tese, ela se afirma feminista e considera necessário formular novas análises que articulem
exploração dos trabalhadores e das mulheres:
eu me convenci que seria necessário que as mulheres fossem de fato
feministas, que elas tomassem em suas mãos o problema da mulher. Agora,
seria necessário analisar a sociedade de uma maneira totalmente séria, para
tentar compreender a relação entre a exploração do operário e a exploração
da mulher.86

O segundo sexo serviu de referência para diversas gerações. A geração do baby


boom, que nasce logo após o fim da Segunda Guerra, seria também leitora dessa obra. Mas, a
relação entre O segundo sexo e o MLF não é de uma referência incontestável. Rogers, que
entrevistou diversas feministas sobre esse livro, afirma que este não teria sido discutido nas
reuniões feministas, nos anos 1970, na França, e que não se fazia referência de forma
consciente a esse livro.87 Os escritos da autora eram considerados por algumas ativistas como
pouco radicais, como indicou Delphy, pois a ideia de que o socialismo resolveria o problema

84
SCHWARZER, Alice. Simone de Beauvoir hoje. Rio de Janeiro, RJ: Rocco, 1986, p. 28.
85
“La femme révoltée” . Propôs recueillis par A. SCHWARZER. Le Nouvel Observateur, 14 février 1972.
86
SCHWARZER, Alice. Simone de Beauvoir hoje. Rio de Janeiro: Rocco, 1986, p.36.
87
RODGERS, Catherine. Le Deuxième sexe de Simone de Beauvoir. Op. cit.
50
51

da opressão feminina não era uma boa resposta para muitas militantes que justamente se
confrontavam com essa visão para construir um movimento autônomo de mulheres.
Entretanto, muitas das militantes o haviam lido e, dentre elas, algumas tiveram tempo de
assimilar suas ideias ao ponto de considerá-las como “insuficientes, inadequadas e
ultrapassadas”.88

O livro torna-se um clássico que é incorporado e apropriado, sem necessidade de


uma referência explícita, como afirma Delphy em relação à sua própria apropriação:

Quando bato os olhos, toda vez, percebo que eu reconheço a frase que
encontro. Mas, o mais estranho, é que, frequentemente, o que eu reconheço é
um dos meus pensamentos: mais precisamente, um pensamento que eu
acreditava ser meu. Eu me apropriei do pensamento, já faz tempo, desde que
eu li o livro pela primeira vez, e eu o fiz tão meu, que me esqueci que era de
Beauvoir.89

Suscitadas ou não pelas ideias de O segundo sexo, vê-se o crescimento do número


de trabalhos sobre a temática, a partir dos anos 1950, como podemos observar no próximo
item.

Natureza e cultura nos 1950-1960: a “questão feminina”

Os anos 1950 e 1960 são marcados por intensas transformações sociais e políticas.
Algumas delas afetariam particularmente a vida das mulheres nesse período, como o fim do
baby boom, o aumento dos divórcios, um crescimento da taxa de atividade feminina, entre
outros. Para Chaperon, há uma progressiva destruição do modelo da dona de casa, provocada
por fenômenos como as mudanças no trabalho doméstico (ligado a mudanças de infraestrutura
como acesso à água corrente, eletricidade, dentre outros), assim como pela extensão de
serviços do Estado de bem-estar social, o que também contribui para a diminuição da carga de
trabalho doméstico. Essa modernização seria acompanhada também por novas reivindicações
políticas de grupos femininos.90 Para Claire Duchen91, o período após o fim da Segunda

88
Ibidem, p. 25.
89
DELPHY, Christine. Beauvoir, l’heritage oublie. Travail, genre et sociétés. nº 20, 2008, p. 174.
90
CHAPERON, Sylvie. La radicalisation des mouvements féminins de 1960 à 1970. Vingtième Siècle, n° 48,
octobre-décembre, 1995.
91
DUCHEN, Claire. Une femme nouvelle pour une France nouvelle? Clio n.1, 1995, p. 5.
51
52

Guerra é marcado por uma “confrontação entre a feminilidade tradicional e a busca de uma
feminilidade nova”, uma confrontação que se esgotaria somente nos anos 1960.

A partir dos anos 1950 e particularmente nos anos 1960 presencia-se o


crescimento do número de livros e artigos publicados sobre “mulheres” na França92,
provenientes tanto do mundo universitário quanto fora dele. O fenômeno é ainda mais forte
nos anos 1960, quando aumenta o número de títulos e surgem, para além de uma literatura
mais engajada, análises com pretensões científicas, em diversas áreas das ciências humanas.93
Há também congressos, emissões de rádio, e números especiais de revistas, como os
publicados em Les Temps modernes, Combat, Esprit, La Nef. Uma novidade nesse contexto é
a criação de coleções sobre o assunto em algumas editoras. Um dos exemplos mais
importantes é a coleção “Femmes”, da Gonthier, sob a direção de Colette Audry, que, em
1965, publica, entre outros títulos, a tradução de La Mystique Féminine, de Betty Friedan.

Esse aumento no interesse pela temática era bastante visível e comentado em


obras do período. O número especial da revista católica Recherches et débats dedicado ao
tema, em 1963, referia-se à publicação como “mais um livro sobre as mulheres”.94 Neste
mesmo ano, Chombart de Lauwe et al. comentava a profusão de trabalhos publicados:

Multiplicaram-se nos últimos anos os estudos publicados sobre mulheres,


sobre o trabalho, sobre o seu papel social ou político, sobre seu estatuto,
sobre sua psicologia, etc. A promoção de autoras mulheres contribuiu muito
para esse quadro. Os trabalhos mais sérios em ciências humanas tratam
principalmente da situação da mulher, da sua condição, da psicologia
diferencial dos sexos.95

Como mencionam os autores do trecho acima, uma grande parte dessa literatura é
de autoria feminina. Andrée Michel, Évelyne Sullerot, Geneviève Texier, Madeleine Guilbert,
Marie-José Chombart, Françoise d’Eaubonne e Edith Thomas são alguns dos nomes que
compõem essa geração “nos rastros de Simone de Beauvoir”, que tematizava a questão. Uma
parte delas estaria envolvida com alguns dos movimentos femininos que surgem nesses anos,
como a Maternité heureuse, que surge em 1956 e depois torna-se Mouvement français pour le

92
Para um panorama da produção nesse período ver: Chaperon, Sylvie. Une génération d’intellectuelles dans le
sillage de Simone de Beauvoir. Op. cit.
93
CHAPERON, Sylvie. La radicalisation des mouvements féminins... Op. cit.
94
R.D. Liminaire. Recherches et débats du Centre Catholique des Intellectuels Français. Cahier n.45, dez. 1963,
p.7.
95
CHOMBART DE LAUWE, Marie-José e Paul-Henry et. al. La femme dans la société. Son image dans
différents milieux sociaux. Paris, Centre national de la Recherche scientifique, 1963, 441 p. (Travaux du Groupe
d’Ethnologie sociale), p.9.
52
53

planning familial, a Union des femmes françaises, fundada em 1944 pela federação de
comitês comunistas da resistência feminina, e o Mouvement démocratique féminin. Muitas
haviam militado durante a Resistência na Segunda Guerra.

Essas mulheres são provenientes, com algumas exceções, de uma mesma geração,
que nasce nas primeiras duas décadas do século e é marcada pela experiência da Guerra.96
Elas são também parte de uma geração que feminizou o ensino superior e está entre as
primeiras gerações que viveram o ensino sem restrições formais para as mulheres.97 Em 1900,
as mulheres representavam 2% do total de estudantes no ensino superior; em 1930 esse
número já havia aumentado para 25,9%, chegando a 35,6%, em 1950.98

Embora as restrições formais tivessem sido abolidas, a inserção profissional


especificamente numa carreira universitária era ainda bastante precária. Elas eram pouco
numerosas entre os docentes no pós segunda guerra, e praticamente não detinham cátedras.
Muitas das primeiras pesquisadoras que tratavam da “questão da mulher” tinham uma
inserção “às margens” da universidade.

Nesse panorama, ainda segundo Sylvie Chaperon, o CNRS (Centre national de la


recherche scientifique) constituía uma exceção singular. Instituto criado em 1939 e sem o
prestígio que ganharia posteriormente, constituiu um local com abertura para uma presença
feminina. Em 1946, as mulheres formavam 30% dos pesquisadores, enquanto que, na mesma
época, elas compunham somente 5 a 6% dos professores de nível superior.99 O CNRS abrigou
alguns dos nomes pioneiros de pesquisadoras que trabalhariam essencialmente sobre
mulheres, entre as quais podemos mencionar: Marie-José Chombart de Lauwe, Madeleine
Guilbert, Viviane Isambert-Jamati, Andrée Michel, Germaine Tillion, todas chargées de
recherche. Com exceção de Tillion, todas as outras citadas fizeram pesquisa em sociologia.

Entre os nomes já mencionados, Madeleine Guilbert aparece como uma das


pioneiras a trabalhar com a temática. Conhecida por alguns de seus livros publicados nos anos
1960, tais como Les fonctions des femmes dans l’industrie e Les femmes et l’organisation
syndicale avant 1914, ambos publicados em 1966, Guilbert publicou seu primeiro artigo sobre

96
CHAPERON, Sylvie. Les années Beauvoir. Op. cit., p.4.
97
“Les baccalauréats féminin et masculin sont uniformisés en 1924, les classes de khâgne s’ouvrent aux filles la
même année, l’École Normale supérieure en 1927, à partir de cette date les salaires de professeurs hommes et
femmes sont égalisés.” CHAPERON, Sylvie. Une génération d’intellectuelles dans le sillage de Simone de
Beauvoir. CLIO. Histoire, femmes et sociétés, 13, 2001, p. 4.
98
GUELAND-LERIDON, Françoise. Recherches sur la condition féminine dans la société d’aujourd’hui.
Travaux et documents. Cahier n.48, 1967.
99
BATTALLON, Anne-Marie; BLANCHARD, Raymond et. al. Présence des femmes au CNRS. L’homme et la
société, n.99-100, 1991, p.174.
53
54

a temática ainda nos anos 1940, “Le travail des femmes”, que é publicado na Revue Française
du Travail, no ano de 1946.

Outro nome que se destaca é Viviane Isambert-Jamti, que entra no CNRS em


1947, no recém-criado Centre d’Études Sociologiques. Em co-autoria com Madaleine
Guilbert publica, em 1956, Travail féminin et travail à domicile, no qual discute a escolha de
muitas mulheres pelo trabalho remunerado realizado em casa. Ela também foi autora de
artigos sobre o tema.100

Outra autora relevante nesse contexto foi Andée Michel que publicou, entre
outros, em 1959, Famille industrialisation logement101, editado pelo CNRS e identificado
como parte dos trabalhos do CES (Centre d’études Sociologiques). Andrée Michel é autora de
diversos artigos sobre o trabalho feminino. Em colaboração com Texier, ela foi autora de um
importante livro para a época: La condition de la française102, composto por dois volumes
(vol. 1 Mitos e Realidades – como o primeiro volume de Beauvoir; e vol. 2 Os grupos de
pressão. Novas perspectivas).

Um laboratório em específico reterá nossa atenção, dado o pioneirismo em tratar a


questão, e por ter reunido algumas daquelas que, posteriormente, nos anos 1970, se
encontrariam identificadas com uma mesma perspectiva. O Groupe d’ethnologie sociale, é
criado em 1950 como parte do Centre d’Études sociologiques, sob a direção de Paul
Chombart de Lauwe, e teria adquirido um estatuto administrativo independente
posteriormente. Pesquisas deste laboratório deram origem a dois livros sobre a temática: La
femme dans la société. Son image dans différents milieux sociaux103, em 1963 e um número
especial da Revue internationale des sciences sociales, em 1962, intitulada “Images de la
femme dans la société”104, que foi traduzido e publicado no Brasil em 1967.105

A orientação geral da pesquisa nesse laboratório, segundo um texto de 1960


publicado na Revue française de sociologie, seria “o estudo das relações entre os meios

100
Para maiores informações, consultar: CACOUAULT-BITAUD, Marlaine; ROGERS, Rebecca; ISAMBERT-
JAMATI, Viviane. Le féminisme est, pour moi, une sorte d'évidence. Travail, genre et société, n.18, 2/2007.
101
MICHEL, Andrée. Famille, industrialisation, logement. Paris: CNRS Editions, 1959. (Travaux du Centre
d'études sociologiques)
102
MICHEL, Andrée ; TEXIER, Geneviève. La condition de la française d’aujourd’hui. Paris: Gonthier
(Collection Femme), 1964.
103
CHOMBART DE LAUWE, Marie-José e Paul-Henry , HUGET, Michèle ; PERROY, Elia ; BISSERET,
Noelle. La femme dans la société. Son image dans différents milieux sociaux. Paris, Centre national de la
Recherche scientifique, 1963, 441 p. (Travaux du Groupe d’Ethnologie sociale).
104
Revue internationale des sciences sociales , revue trimestrielle, vol. XIV, no 1, 1962. Paris: UNESCO, 1962.
105
Chombart de Lauwe, Paul Henry (org.). Imagens da mulher na sociedade (trad. Genny Carvalho Pinto). São
Paulo, SP: Senzala, 1967.
54
55

sociais e os comportamentos”. Nesse texto são ressaltados alguns dos novos estudos
empreendidos pelo grupo “sobre as atitudes com respeito ao trabalho da mulher e à posição da
mulher na sociedade”. Três anos depois, nessa mesma revista, o grupo apresenta de forma
mais detalhada seus objetivos e pesquisas em curso:
O aparecimento de novas formas de vida social encontra-se ligado ao
nascimento de novas necessidades e aspirações, e seria útil detectar as suas
origens. O grupo de Etnologia Social procura estudar certos aspectos desse
problema. Trata-se ao mesmo tempo de procurar o sentido possível das
transformações, de analisar o processo e de dar ao conjunto da população a
possibilidade de uma participação cada vez maior na elaboração de planos de
106
desenvolvimento.

No programa de pesquisa são listados seis itens. Dois deles nos interessam mais
particularmente: “A família, a mulher e o homem. Suas imagens na sociedade. As aspirações
a novas formas de família e a novos papeis, com relação às transformações sociais” e “As
segregações de classes e de grupos étnicos. A oposição das imagens recíprocas e seu papel
nas transformações sociais”. Entre as integrantes do laboratório, cabe mencionar os nomes de
Marie-José Chombart de Lauwe, Nicole-Claude Mathieu, Colette Guillaumin e Nöelle
Bisseret.

Essa literatura produzida no pós Guerra, universitária ou não, pouco estudada, nos
dá elementos para analisar como a “questão feminina” era tematizada nos anos que
antecederam a aparição do MLF. Certos temas são recorrentes e merecem alguns comentários.

É muito frequente que esses trabalhos partam da constatação que muitas foram as
mudanças na “condição feminina” na primeira metade do século. A pesquisa do Groupe
d’ethnologie sociale, que daria origem aos dois títulos acima mencionados, tinha como
objetivo estudar “a imagem que dela fazem os homens e as mulheres nas diversas regiões do
mundo, em função de sua cultura, das transformações sociais” etc. A finalidade era
compreender como as transformações sociais em relação à situação da mulher eram
percebidas, visando também como essas imagens poderiam frear ou acelerar as mudanças107.
Os dois primeiros parágrafos da Introdução de La femme dans la société nos dão alguns
elementos para pensar as mudanças que se operavam naquele contexto:

O homem e a mulher de hoje se questionam sobre as suas vocações.


Demissão do homem ou manutenção dos seus privilégios, recusa da

106
“Actualité de la recherche” . Centre d’Ethnmologie sociale. Revue Française de sociologie, 1963, 4-4, p. 445.
107
Idem, p.10.
55
56

‘feminilidade’ ou aceitação de um papel ‘inferior’. Falsos problemas que são


responsáveis pelo surgimento de uma crise do casal e uma crise da
sociedade. No momento em que a igualdade dos sexos parece em vias de
ocorrer, de fato, uma inquietação mal definida impede as parceiras de
aproveitarem dessa liberação. O novo diálogo do casal mostra-se, por vazes,
108
difícil.

As intensas transformações teriam provocado um mal-estar, fruto de uma


distância entre as aspirações novas e o papel tradicionalmente ocupado pelas mulheres. Seria
justamente essa situação que teria motivado a pesquisa que deu origem ao livro acima, como
uma tentativa de “definir a crise sentida e tentar resolvê-la”.109 Assim como em diversas
outras publicações do período, há a ideia de que se vivia um momento de grandes
transformações sociais em relação às mulheres. La Nef fala de um “período de transição”110 e
também de um “mal-estar”.

Outro elemento recorrente é a ideia de que haveria um progresso inelutável rumo


à emancipação feminina. Marie-José Chombart de Lauwe constata um “movimento evolutivo
incontestável” que “transforma há um século a situação da mulher na sociedade e a conduz
progressivamente a gozar das mesmas vantagens como o homem”.111 Lucie Fauré, na
introdução de um número especial da revista Nef, sublinha o fato de estarem diante de um
processo “muito lento, cortado por períodos de pausa e mesmo de retrocessos, mas seguindo
uma linha inelutável, uma evolução que prossegue, às vezes dissimulada, às vezes provocante,
para resultar nessa metamorfose da condição feminina”.112Andrée Michel e Texier abrem o
livro La condition de la française com um trecho de Condorcet no qual ressalta a necessidade
de destruição dos preconceitos estabelecidos entre os dois sexos, tida como uma desigualdade
de direitos funesta, destruição considerada como condição para o progresso geral do espírito
humano113. As autoras consideram esse processo como parte de um movimento mais amplo
de libertação dos povos, um processo “dialético que conduz lentamente, mas seguramente, ao
universalismo humano” no qual “as mulheres terão, talvez, o último lugar, depois dos proletários e dos
colonizados”.114

108
CHOMBART DE LAUWE, Marie-José e Paul-Henry et. al. La femme dans la société... Op.cit. , p.9.
109
Ibidem, p.9.
110
FAURE, Lucie. La femme démystifiée: libre, mais.... La Nef . Nouvelle série, Cahier n.4, outubro-dez. 1960,
p. 9.
111
CHOMBART DE Lauwe, Marie-José. Images de la Femme dans la Société, conflits et malaises . Recherches
et débats du Centre Catholique des Intellectuels Français. Cahier n.45, dez. 1963, p.11.
112
FAURE, Lucie. La femme démystifiée: libre, mais.... Op. cit., p.6
113
MICHEL, Andrée; TEXIER, Geneviève. La condition de la française d’aujourd’hui 1... Op. cit., p.5.
114
Ibidem, p. 37.
56
57

Chaperon evoca o “humanismo clássico” que domina algumas análises do


período. As mudanças na “condição” feminina fariam parte de um processo mais amplo,
quase inelutável, rumo ao progresso, que eliminaria resquícios arcaicos e avançaria rumo à
igualdade de todos:
É em nome do progresso, da justiça, da racionalidade, de uma igual
liberdade e dignidade entre os sexos, que são reivindicadas as
transformações sociais necessárias às mulheres. Esse modernismo, oriundo
do Iluminismo, apoia-se em uma visão linear acerca das melhorias da
condição feminina.115

O debate sobre a “natureza” da feminilidade estava também na ordem do dia.


Havel (1960) identifica duas posturas em relação ao problema. Uma primeira “sublinharia o
aspecto biológico” e frequentemente afirma a superioridade de um sexo em relação ao outro.
A segunda atitude, ao contrário “prima pela identidade humana” e considera não, a princípio,
“as mulheres e os homens, mas os seres humanos”. Desta forma, há a ideia de uma
“humanidade comum a todos” e, nesse sentido, a ausência de hierarquia.116Essa segunda visão
era compartilhada por muitos daqueles que escreviam sobre o tema, numa perspectiva
“progressista” nesse momento.

Para Michel e Texier, as diferenças sexuais “não rompem com a unidade da


espécie” – quer ele seja macho ou fêmea, branco ou negro, o ser humano define-se
exclusivamente pela razão”.117 Anne-Marie Rocheblave-Spenlé considera que as condutas dos
homens e das mulheres são “plásticas” e que seria vão “estabelecer tipos masculinos ou
femininos, correspondente a alguma ‘essência eterna’”.118

Em diversos textos encontramos a ideia de uma plasticidade do gênero, embora a


noção de um sexo biológico ainda se mantivesse presente. A mulher, “pertencendo
biologicamente à natureza”, faria parte “de maneira constitutiva do universo da cultura”,
afirma.119 A mulher, tal como o homem, não seria uma “espécie natural, mas uma ideia
histórica”.120 O “eterno feminino” seria “muito relativo”, afirma Havel. “Para além da
constatação de certas características fisiológicas próprias a cada um dos sexos, descobrimos

115
CHAPERON, Sylvie. La radicalisation des mouvements féminins de 1960 à 1970. Op. cit., p.65-66.
116
Havel Jean-Eugène. La condition de la femme. Paris: A. Colin, 1961.
117
MICHEL, Andrée; TEXIER, Geneviève. La condition de la française d’aujourd’hui 1... Op. cit., p. 34.
118
ROCHEBLAVE-SPENLÉ, Anne-Marie. Rôle féminin et rôle masculin. Recherches et débats du Centre
Catholique des Intellectuels Français. Cahier n.45, dez. 1963, p. 29.
119
HAVEL, Jean-Eugène. La condition de la femme. Op. cit., p. 5.
120
SALOMON-BAYET, Claire. La femme en question. La Nef . Nouvelle serie, Cahier n.4, outubro-dez. 1960,
p. 12.
57
58

que quase todo o restante é apanágio da educação e da crença”.121 Para Havel, “Com exceção
de algumas consequências próprias às características fisiológicas de cada sexo, é a cultura,
quer dizer, o conjunto dos hábitos e das crenças, o que determina as respectivas posições
ocupadas pelas mulheres e pelos homens em uma sociedade”.122

Para Chombart de Lauwe et. al., “se nos colocarmos em uma perspectiva
evolutiva, a oposição entre natureza e cultura é ilusória”. Há a ideia de uma progressiva
apropriação das forças da natureza pelo homem. A cultura, nesse sentido, permitiria uma
libertação em relação à natureza. A cultura, “que cada vez mais regula as relações entre os
sexos”, tenderia, por ela mesma, em certa medida, a mudar a natureza. Em apoio à hipótese,
mencionam, sem citar nomes, descobertas científicas recentes, sobretudo sobre hormônios,
que mostrariam “a instabilidade de certos traços sexuais e conferem ampla possibilidade de
dosar a parte feminina e masculina em um indivíduo”.123 Em relação às mulheres, isso
significa que, embora elas fossem distintas dos homens por razões biológicas, essa diferença
poderia diminuir em função das transformações culturais: “Evolução biológica e evolução
social não são opostas”124, afirma.

Autoras/es oriundos de diferentes tradições teóricas contestariam a ideia da


natureza como destino para as mulheres. Mas o peso dado ao “cultural” e ao “natural”
variaria. Além disso, uma “relativização” do papel da natureza é, em alguns desses autores/as,
acompanhada pela ideia da necessidade de manutenção de uma certa diferença entre os sexos.
Para Anne-Marie Rocheblave-Spenlé, “uma certa complementaridade entre papéis masculinos
e femininos é necessária para que uma sociedade possa existir”. Mesmo num contexto
“igualitário”, haveria a necessidade de um “mínimo de diferenciação” entre homens e
mulheres”.125

Essa ideia de complementaridade e de uma necessária diferenciação estaria


presente em outros autores. R. D. afirma “desconfiar de um sociologismo positivista que
reduziria a condição da mulher à consequência pura e simples de situações históricas”126; e

121
HAVEL, Jean-Eugène. La condition de la femme. Op. cit., p. 5.
122
Ibidem, p.38.
123
Idem, p.11.
124
CHOMBART DE LAUWE (org.) Imagens da mulher... Op. Cit, p. 29.
125
ROCHEBLAVE-SPENLÉ, Anne-Marie. Rôle féminin et rôle masculin. Recherches et débats du Centre
Catholique des Intellectuels Français. Cahier n.45, dez. 1963, p. 48.
126
R.D. Liminaire. Recherches et débats du Centre Catholique des Intellectuels Français. Cahier n.45, dez.
1963, p. 8.
58
59

considera que “complementaridade homem-mulher é evidente e nos convida a considerar a


mulher em termos de humanidade”.127

Chombart de Lauwe et al. recusam as “aberrações” a que chegariam “algumas


feministas” que confundiriam igualdade dos sexos e semelhanças, o que seria um erro.
Encontramos aqui uma forte defesa da ideia, bastante difundida, de igualdade na diferença. A
verdadeira igualdade, afirma, “consiste em criar estruturas sociais e instituições tais que as
mulheres possam gozar plenamente dos mesmos direitos que os homens, mantendo sua
feminilidade. A mulher liberada é igual ao homem, embora diferente”.128

Diante dessas transformações, há uma forte preocupação com a coesão social,


sobretudo, do casal. Fala-se em renascimento de uma rivalidade entre os sexos. A igualdade
progride, mas, dentro da família, “as diferenças continuam e a vida do casal só é possível
graças a elas”129 (grifos meus). Não se pode compreender, afirma, uma “semelhança
progressiva”, que culminaria numa “definitiva solidão”.130

Andrée Michel e Geneviève Texier consideram essa visão de “Igualdade,


concordo, mas não identidade” um equívoco, uma tese não religiosa, mas que é/seria utilizada
por sociólogos católicos – entre os quais elas citam o casal Chombart de Lauwe:

Na realidade, o que se esconde por trás desta doutrina da Igreja Católica,


tomada em uníssono pelos sociólogos católicos, é a sacralização dos gêneros
e do sexo (o sexo sendo um gênero) à revelia da pessoa, trata-se da
metafísica postulada, na Idade Média, por São Tomás de Aquino acerca da
imutabilidade das essências (a essência do Homem, a essência da Mulher)
em detrimento da noção de Pessoa.131

A ideia de “não-identidade” e de “complementaridade”, presente nessas análises,


serviria para a manutenção de uma ideologia retrógrada, cujo objetivo seria manter a
subordinação da mulher ao homem. As autoras espantam-se com a continuidade desse
“arcaísmo filosófico”, numa época na qual o existencialismo e o marxismo estabelecem a
“pessoa”, independentemente do sexo ou da raça, como “valor fundamental e universal da
nossa sociedade”.132

127
Ibidem, p. 9.
128
CHOMBART DE LAUWE (org.) Imagens da mulher... Op. cit., p.16.
129
Ibidem, p.29.
130
Ibidem, p.29.
131
MICHEL, Andrée; TEXIER, Geneviève. La condition de la française d’aujourd’hui 1... Op. cit., p. 216.
132
Ibidem.
59
60

Como superar esse “problema” não se constituía em objeto de muitas análises. Por
um lado, para alguns desses autores, essa superação seria fruto de um movimento evolutivo da
sociedade, sem a necessidade de um movimento social ou quaisquer outras intervenções. Para
setores mais próximos dos comunistas, a solução era, fundamentalmente, a revolução
socialista, e os esforços de homens e mulheres deveriam ser reunidos em prol dessa grande
transformação. Mas em algumas dessas análises surgem críticas a essas visões e outras
alternativas começam a ser vislumbradas. Nesse sentido, podemos destacar algumas propostas
de Andrée Michel, Texier e Colette Audry. Michel e Audry estariam também engajadas em
movimentos femininos no qual se gestaram algumas das experiências de militância que
dariam origem ao MLF, como será abordado no próximo capítulo.

Andrée Michel e Geneviève Texier consideram que a impotência das francesas


para conquistar seus direitos seria menos fruto da sua “alienação”, que da falta de perspectivas
claras em relação aos objetivos e meios de ação. Essas insuficiências deveriam ser buscadas
nas carências tanto das associações femininas, como dos partidos de esquerda, assim como na
recusa em uma união de ambas.133 As autoras diferenciam as associações femininas chamadas
de “enfeudadas”, nas quais se incluem organizações que estariam sob a tutela seja da Igreja ou
do Partido Comunista, e as associações femininas autônomas que, embora sofram influência
da “ideologia burguesa” ou da Igreja, gozam de uma autonomia de princípio ou de fato e
conseguem exercer uma certa liberdade. As primeiras são criticadas por permanecerem
atreladas à ideologia do Partido ou do catolicismo. Mas as segundas são também alvo de
críticas, pela timidez das suas reivindicações por suas “concessões aos preconceitos
masculinos e burgueses”. Essas associações, para ganharem a audiência de mulheres jovens,
deveriam “romper corajosamente com a atitude tímida que consiste em pedir menos por medo
de nada conseguir”.134

Andrée Michel, em “La française et le démocrate”135, traça um panorama bastante


crítico da esquerda da época. Se direita e esquerda se opõem por serem contra ou a favor da
“emancipação” da mulher, a posição da segunda não passaria de uma afirmação de princípio
“que jamais assume uma atitude positiva”. Michel fala de impotência diante de uma esquerda
incapaz de se exprimir enquanto esquerda coerente e eficaz:
É um fato que o homem de esquerda acredita que ele se distingue do homem
da direita com relação ao estatuto feminino, mas é também um fato que a

133
MICHEL, Andrée; TEXIER, Geneviève. La condition de la française d’aujourd’hui 2... Op. cit., p. 227.
134
Ibidem, p. 99.
135
MICHEL, Andrée. La française et le démocrate. La Nef . Nouvelle serie, Cahier n.4, outubro-dez. 1960.
60
61

própria francesa constata na esquerda apenas impotência e falatório com


relação a si e que, sendo assim, é dado o sinal verde a uma sociedade que faz
da mulher, ao lado do colonizado e do trabalhador braçal, a principal
136
oprimida.

Contra a ideia de que não há mais um “problema feminino porque a igualdade se


realizou”137, Michel, como socióloga, procura mostrar, a partir de dados estatísticos e estudos,
como, na verdade, haveria uma “degradação do status da francesa” em diversos planos como
o jurídico e no plano do trabalho. A França estaria atrasada mesmo em relação a países
“católicos subdesenvolvidos” como Itália, Peru e Bolívia (a Itália, assim como outros países
europeus, como Portugal, neste período é frequentemente colocada neste tipo de categoria).

Em relação aos “homens de esquerda”, Michel é implacável:


Nascido nesse contexto cultural que modelou a sua sensibilidade profunda e
as suas atitudes, o ‘homem de esquerda’, na França, vive a sua relação com o
outro segundo o esquema dominante-dominado. Não causa surpresa que, nas
suas relações com a mulher, ele imita o seu pai: assim como este, ele é
paternalista, condescendente, censor, moralista, imbuído de sua
personalidade, odioso e, com frequência, ridículo do ponto de vista
democrático.138

Ela critica a inércia da esquerda, incapaz de tratar verdadeiramente a questão, sua


incapacidade de mudar a si próprio e a realidade que condena verbalmente. É interessante
ressaltar que Michel traça, em diversos momentos comparações com a situação do colonizado
e com a raça, como no trecho abaixo:
A barreira do sexo e tão intolerável, injusta, abjeta, quanto a barreira que se
baseia na cor da pele. O ‘homem de esquerda na França’, o ‘democrata’,
aceita essa dupla barreira com frequência. São os fatos que contam, não a
intenção.139

Em relação ao Partido Comunista, Michel e Texier consideram que este é


dominado por uma “mentalidade natalista retrógrada”140 e, num plano mais geral, pelo
“abandono dos princípios essenciais do marxismo relativos à libertação da mulher”141.
Critica-se também a ideia de que a libertação do proletariado seria automaticamente
acompanhada por uma libertação feminina, um dogma que poderia “resultar em uma

136
Ibidem, p.21.
137
Idem, p.21.
138
Idem, p. 31.
139
Idem, p. 36
140
MICHEL, Andrée; TEXIER, Geneviève. La condition de la française d’aujourd’hui 2... Op. cit., p. 107.
141
Ibidem, p. 122.
61
62

desmobilização das mulheres, para que elas deixassem os seus destinos nas mãos do
proletariado”142. Para as autoras, assim como a emancipação dos operários deve ser obra dos
próprios operários, a libertação feminina deve partir delas mesmas. O fim da propriedade
privada dos meios de produção seria, afirmam, uma condição “necessária” para a
“emancipação efetiva das mulheres”143 não sendo, entretanto, suficiente mas criaria
“condições objetivas” que facilitariam consideravelmente sua integração política, econômica
e social.144

Para Michel, a emancipação feminina não seria independente da “estrutura da


sociedade na qual ela vive” e por isso a obtenção da primeira estaria vinculada ao “futuro da
democracia e à emergência de uma nova pessoa, suscetível de trabalhar em prol da
instauração dessa democracia”.145 Mas esse estágio democrático não seria possível no quadro
da sociedade existente. A superação da opressão da mulher estaria inexoravelmente ligada à
destruição do sistema em vigor:
sociologicamente, o molde capitalista não pode produzir esses homens novos
a partir dos privilegiados da classe dominante, assim como o colonialismo
não é capaz de produzir os homens necessários à emancipação do colonizado
a partir da classe dos Brancos opressores, qualquer que seja a etiqueta
146
reivindicada por eles.

Mas, a última frase do texto permite pensar outros caminhos diferentes de uma
dissolução total da questão nas organizações de esquerda. Para Michel, “nas suas lutas
libertárias, as mulheres devem contar, sobretudo, com elas mesmas”.147

Colette Audry também considera como pouco apropriadas algumas estratégias


usadas pelos comunistas para tratar a questão, que não permitiam “avançar o problema”. Num
texto escrito em 1965, que constituiu um comentário referente à “semana do pensamento
marxista” sobre o tema “A mulher na nação”, ela, tomando de empréstimo um texto de Lenin,
afirma que se a emancipação dos trabalhadores deve ser obra dos trabalhadores, o mesmo
deve ser dito para as trabalhadoras. A autora não fala aqui de “mulheres” mas de
“trabalhadoras”, reafirmando a importância da clivagem de classe entre as mulheres. Para
Audry, a luta pela emancipação feminina deveria ser feita de forma conjunta pela libertação

142
Ibidem, p. 123.
143
Ibidem, p. 123.
144
Ibidem, p. 124.
145
MICHEL, Andrée. La française et le démocrate. Op. cit., p. 36.
146
Ibidem, p.36.
147
Ibidem, p. 36.
62
63

dos “dois sexos” e por uma transformação mais ampla da sociedade. O erro dos movimentos
feministas seria justamente atacar a injustiça sem uma luta para “transformar o conjunto da
sociedade”. Audry sugere uma participação das mulheres em lutas mais gerais que não
resolverão o problema imediatamente, mas criarão as condições para que esses sejam
resolvidas:
Uma vez que as condições econômicas e sociais forem alcançadas em escala
global, poderemos afirmar, com relação à questão feminina, o que outrora
André Breton escreveu, no Point du Jour, sobre a revolução social
concretizada, a saber: que ela não resolveria os problemas propriamente
ditos, mas que ela permitiria que eles fossem tomados de forma direta.
Quando a organização econômica, o arsenal jurídico, o estatuto da família,
deixarem de impor suas limitações à existência feminina, desde os
primórdios, a mulher poderá, enfim, colocar-se como sujeito de pleno direito
perante o homem, nessa realidade purificada, homens e mulheres poderão
começar a experienciar as suas distinções naturais e, conforme os termos que
encerravam O segundo sexo, ‘para além das suas distinções naturais, afirmar
de forma inequívoca, a sua fraternidade.148

No bojo da efervescência feminista dos anos 1960-1970, novos conceitos


emergem buscando exprimir uma nova forma de se conceber a “questão feminina” e
procurando outros caminhos para superar a opressão. Nem progresso inelutável, nem espera
por uma revolução, as feministas dos anos 1970 vão encontrar novas formas de conceber o
problema. Nos próximos capítulos procuraremos apresentar alguns dos caminhos que essa
reflexão tomou.

148
AUDRY, Colette. Dix ans après ‘Le Deuxième Sexe’. La NEF (La française d’aujourd’hui). Nouvelle série.
Cahier n.4, outubro-dez. 1960, p. 128.
63
64

Capítulo 2

A radicalização do movimento: do FMA ao MLF

Entre o final da Segunda Guerra e o nascimento do MLF, mais particularmente


nos anos 1960, no bojo de uma série de transformações sociais e políticas, vê-se uma
radicalização dos movimentos femininos na França.1 Opera-se, nesse contexto, uma lenta e
discreta gestação de um conjunto de ideias e práticas que viriam a constituir a base para a
emergência do Mouvement de Libération des femmes. Alguns dos grupos existentes passam
por transformações e novos são criados. Há uma renovação das reivindicações e a
incorporação de novas bandeiras como aborto e sexualidade. Para compreender esse momento
de radicalização, começaremos por algumas breves observações sobre os “anos 1960”.

Os “anos 1960”

Para Fredric Jameson2, podemos situar o início do que viria a ser conhecido como
“anos 60” no Terceiro Mundo, particularmente no movimento de descolonização na África.
As expressões mais características dos anos 1960 no Primeiro Mundo viriam mais tarde,
sejam os movimentos identificados como contraculturais, sejam a nova esquerda estudantil e
o movimento contra a guerra, com exceção somente para o movimento pelos direitos civis.

No final dos anos 1950 ocorre uma série de movimentos de descolonização em


locais da África que eram, até então, de posse inglesa ou francesa. As independências de Gana
(1957), da Tunísia, Marrocos e Sudão (1956) abririam esses anos de intensas movimentações.

Mas, para além de terem sido um marco inicial, esses movimentos influenciaram,
pelo menos indiretamente, a maioria dos grandes movimentos dessa década. Para alguns,
forneceram modelos político-culturais, como foi o caso do movimento feminista. Para outros,
proveram a própria “missão”, a resistência a guerras cujo objetivo era justamente reprimir as
novas forças revolucionárias atuantes no Terceiro Mundo.3

1
CHAPERON, Sylvie. Les années Beauvoir 1945-1970. Paris: Fayard, 2000; CHAPERON, Sylvie. La
radicalisation des mouvements féminins français de 1960 à 1970. Vingtième siècle. Revue d’histoire, n.48, 1995.
2
JAMESON, Frederic. Periodizando os anos 60. In: BUARQUE, Heloisa. Pós modernismo e política. Rio de
Janeiro: Rocco, 1992.
3
Ibidem, p. 84.
65

Mas não apenas os povos do Terceiro Mundo emergiram em cena como agentes
políticos que se reconheceram na qualidade de sujeitos históricos. Houve também uma
espécie de “Terceiro Mundo” dentro do Primeiro Mundo que começou a protagonizar
movimentos políticos de importante impacto naquele período, como afirma Jameson:
Os anos 60 foram, assim, a época em que todos esses ‘nativos’ tornaram-se
seres humanos, e isto tanto interna quanto externamente: aqueles
internamente colonizados do Primeiro mundo – as ‘minorias’, os marginais e
as mulheres – não menos que os súditos externos e os ‘nativos’ oficiais desse
mundo.4

A emergência dessas novas “identidades coletivas” ou “novos sujeitos” foi


interpretada de forma diversa, dependendo do referencial político adotado. Para Jameson, a
emergência dessas novas categorias sociais e políticas – o colonizado, a raça, a marginalidade,
o gênero, dentre outros – deve ser relacionada à crise da categoria (clássica) da classe social,
que até então “parecia subsumir todas as variedades de resistência social”.5 Jameson não se
refere aqui somente a uma crise do conceito, mas a uma crise das instituições tradicionais que
expressavam a política classista.

Outros autores, como Alain Touraine6, relacionam a eclosão desses “novos”


movimentos sociais, como o feminista, o ecológico, o negro, etc. à configuração histórica de
um novo tipo de sociedade, pós-industrial, na qual o foco da transformação social não mais se
concentrava na economia, mas na cultura, demandando novos agentes e diminuindo a
importância do movimento operário. Para outros autores, ainda, como Terry Eagleton (2005),
a prosperidade econômica nos países de capitalismo avançado seria um dos fatores que
promoveram a transferência do protagonismo revolucionário da classe operária para uma série
de “setores excluídos”. As “novas demandas por liberação” eram reações a um capitalismo
que se encontrava numa fase de prosperidade, o alvo seria “a falta de alma numa sociedade
afluente, não as agruras de uma sociedade despossuída”.7

Além da emergência desses “novos” sujeitos coletivos, houve também, no seio da


esquerda, uma maior abertura tanto do leque teórico quanto temático. Particularmente para o
marxismo, os anos 1950 e 1960 foram frutíferos. O colapso do stalinismo nos anos 1950 abriu
novas vias para o pensamento marxista. Autores e questões silenciadas pela ortodoxia
marxista-leninista ganharam um novo interesse teórico e questões preeminentes naquele
4
Ididem, p.85.
5
Ibidem, p. 86.
6
TOURAINE, Alain. O pós-socialismo. Porto: Afrontamento, 1981.
7
EAGLETON, Terry. Depois da teoria: um olhar sobre os Estudos Culturais e o pós-modernismo. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2005, p.50.
66

contexto puderam ser integradas, ainda que de forma periférica, ao escopo de análises
marxistas. A natureza do regime soviético, os problemas da transição nas sociedades ditas
“primitivas”, a cultura, as mulheres, o racismo emergem como novas questões colocando em
causa um certo tipo de marxismo.

O sociólogo Manuel Castels ressaltava as limitações das análises sobre a “questão


urbana” e a necessidade de um trabalho “lento e difícil” e empreender na “adequação dos
conceitos gerais do materialismo histórico à situações e processos muito diferentes daqueles
que foram a base da sua produção.8 O antropólogo Emmanuel Terray postulava uma
transformação de “conceitos fundamentais do materialismo histórico” como uma das
condições para o estudo das “formações sociais primitivas” numa perspectiva marxista”.9
Nesse mesmo esforço, diversas feministas serviram-se do marxismo, de forma mais ou menos
ortodoxa, para analisar a opressão feminina.

É nesse contexto de grande ebulição política e teórica, na esteira das mobilizações


dos anos 1960, que a emergência da segunda onda feminista na França deve ser
compreendida. Contudo, a relação entre os eventos de Maio de 1968 e as mobilizações
femininas não é tão óbvia como algumas análises sugerem. Na França, a chamada “questão
feminina” não apareceu, senão de forma periférica, em 68. Um debate, algumas reuniões,
algumas pichações. Espontaneamente surgem algumas reivindicações entre estudantes e
operárias, tais como creches nas universidades e igualdade salarial, mas essas reivindicações
não deram origem a um movimento e não foram incorporadas pelas organizações femininas já
existentes. A quase totalidade dessas últimas passou ao largo desse evento.

Para Chaperon10, o casamento entre Maio de 1968 e o MLF, cujas primeiras


mobilizações teriam início em 1970, apresenta-se muito mais como um desejo, do que como
algo possível de ser argumentado. Michele Zancarini-Fournel, por outro lado, considera que,
embora a consciência das identidades de gênero tenha sido afirmada somente depois de 1968,
a questão do masculino e feminino estava latente nos eventos de maio-junho de 1968.11 Além
disso, como indicam diversas/os autoras/es, Françoise Picq, por exemplo, o MLF é um
herdeiro, ainda que em ruptura parcial, dos eventos de 1968.

8
CASTELS, Manuel. La question urbaine. Paris: Maspero, 1973, p.11.
9
TERRAY, Emmanuel. Le marxisme devant les sociétés “primitives”. Paris: Maspero, 1969, p. 8.
10
Chaperon, Sylvie. La radicalisation... Op. cit., p. 61.
11
ZANCARINI-FOURNEL, Michelle. Genre et politique: Les années 1968. Vingtième Siècle. Revue d'histoire,
n. 75, 2002, p.133.
67

No próximo item, o objetivo é, num primeiro momento, partir de uma


apresentação do grupo Féminin, Masculin, Avenir para, num segundo momento, abordar, de
forma panorâmica, as movimentações feministas dos anos 1970. Na impossibilidade de
analisar de forma mais detida esse movimento na sua diversidade, restringir-nos-emos a
apresentar alguns traços mais gerais da sua história nessa década, assim como alguns pontos
que provocaram polêmica, entre eles, a possibilidade de conceber uma identidade “mulheres”
e as formas de organização do movimento. Essas duas questões assim como o debate sobre a
“diferença sexual” são pontos fundamentais para compreender algumas das principais
divergências entre as diferentes orientações do movimento.

O FMA e a radicalização do feminismo

O FMA (Féminin Masculin Avenir) é um caso emblemático de um processo de


radicalização pelo qual passaram alguns grupos feministas nesse contexto e nos servirá de elo
para compreender a gestação do MLF. O grupo, que surge em 1967 no interior do MDF
(Mouvement Démocratique Féminin), é invariavelmente citado nos trabalhos sobre o MLF.
Algumas de suas ativistas começaram sua militância feminista no FMA, como Christine
Delphy, Anne Zelensky, Emmanuelle de Lesseps, Jacqueline Feldman, dentre outras. As
principais fontes sobre esse grupo são de ordem memorialística12.

Considerando a importância do FMA para o que veio a ser o MLF, pretendemos,


nessa parte do trabalho, reconstituir algumas questões que marcaram sua vida e sua reflexão a
partir de textos produzidos pelo grupo como notas, comentários de textos, esboços e
manifestos. Outras, como o antinaturalismo, a crítica à hierarquização de lutas e a relação
com o marxismo, serão retomadas e tratadas de forma mais aprofundada nos próximos
capítulos.

O Mouvement démocratique féminin13 é uma associação, criada em 1962, em


estreita relação com as movimentações de esquerda do período. Para Yvette Roudy, membro
do grupo e futura Ministra dos direito da mulher (1981-1986) durante primeiro governo
François Mitterand, esse seria “um dos numerosos clubes que brotavam como cogumelos nos

12
FELDMAN, Jacqueline. De FMA au MLF. Un témoignage sur les débuts du mouvement de libération des
femmes. Clio n. 29, 2009; PISAN Annie de, TRISTAN Anne, Histoires du MLF. Paris: Calmann-Lévy, 1977.
13
Para análise desse grupo foram consultados: Lettres, invitations, comptes-rendus de reunions, articles de
presse 1966-1970 Mouvement démocratique féminin. BMD; Dossier MLF, BDIC e os boletins produzidos pelo
grupo La femme du 20 e siècle (BnF e BMD).
68

anos 1960 com o objetivo de dar respostas a um certo público de esquerda”14. Ele era
composto por militantes socialistas como Roudy, sindicalistas como Jeannette Laot e
intelectuais como Evelyne Sullerot, presidente de honra e fundadora do Planning familial,
Andrée Michel, Colette Audry, dentre outras. Segundo o jornal Le Monde, em 1967, cinco
anos após sua aparição, o grupo contava com uma ficha de dez mil aderentes ou
simpatizantes15. Uma das mais importantes atividades do grupo foi a publicação do boletim
La femme du 20 e siècle, entre 1965 e 1969.16

Entre os pontos fundamentais defendidos pela agremiação constam: “a libertação


e a promoção da mulher no contexto das instituições democráticas”, “luta contra todas as
formas de racismo”, “combate pela paz”.17 Pautas clássicas dos grupos femininos do período.
A questão da democracia e o papel das mulheres em sua construção são pontos-chaves do
grupo:
O movimento democrático feminino tem por objetivo agrupar mulheres
francesas decididas a defender a democracia e a república, conforme a
Declaração dos Direitos do Homem e a realizar, por exemplo, a união da
esquerda democrática, e promover uma tomada de consciência das mulheres,
que representam a maioria do corpo eleitoral, do papel que elas possuem na
república.18

Jacqueline Feldman inicia seu contato com o MDF por volta de 1967. Interessada
pela questão e dissuadida a procurar os comunistas, devido às tomadas de posição que ela
considerava como “reacionárias” sobre a contracepção, Feldman tenta encontrar, entre os
socialistas, um grupo no qual pudesse militar. Anne Zelensky, interessada pela questão nesse
mesmo período, entra em contato com Andrée Michel e, por seu intermédio, conhece o grupo
por volta do ano de 1967.

Feldman rememora que pensava, no final dos anos 1960, que após a conquista do
voto era o momento para tratar as “relações entre homens e mulheres” assim como pautar uma
questão que consideravam central, a sexualidade. Mas, não foi exatamente o que encontrou no
grupo em questão. Anne Zelensky, nesse mesmo sentido, descreve, com um olhar
retrospectivo, as reuniões do MDF como pouco interessantes. Desse descontentamento surge

14
Yvette Roudy. A cause d’elles, 1985, p.83.
15
Nicole Bernheim. Le mouvement démocratique féminin a précisé ses revendications et ses projets. Le monde
14 de novembro de 1967. BMD
16
Segundo o artigo supracitado publicado em Le monde, o jornal teria uma tiragem de 7000 exemplares.
17
Bulletin MDF. Sem data. BMD
18
Boletim sem data, MD.
69

o desejo por uma estrutura mais jovem, dinâmica que não temesse “a provocação como único
meio de mudar as mentalidades”19 e a vontade de criar algo novo, como relembra Zelensky:
Com Jaqueline pensávamos o que fazer. Formar um grupo mais radical e
formado por homens e mulheres? Nós queríamos nos demarcar das
associações femininas, sempre sem homens. Não tínhamos compreendido
ainda que cada categoria oprimida deve levar o seu combate inicialmente à
parte, longe dos seus opressores de fato. No caso, os homens. Nosso futuro:
F.M.A. (Féminin Masculin Avenir) já estava lá, em germe. Faltava ainda um
20
ano para que este finalmente fosse oficializado, em fins de 1967.

Sobre esses momentos de formação do FMA, temos somente os relatos daquelas


que participaram, particularmente de Anne Zelensky e Jaqueline Feldman21, e algumas breves
menções ao grupo no jornal do MDF. As primeiras referências ao FMA fora dos depoimentos
e
datam do final de 1967. Em La femme du 20 siècle do final deste ano22 menciona-se o
surgimento de um “grupo de estudantes” composto por universitárias e estudantes cujo objeto
seria estudar “particularmente as mudanças no interior do casal e as reestruturações sociais
que devem resultar da transformação do status da mulher”. A responsável pelo grupo é
identificada como Jacqueline Hogasen.23

A efervescência de Maio de 68 teria um impacto importante no FMA e nesse


processo de radicalização que estamos a descrever. O MDF e o FMA figuram entre as raras
organizações femininas que tiveram participação nesses eventos e que promoveram ações e
produziram textos nesse contexto específico. O jornal do MDF de n.11 tem como matéria de
capa as movimentações de maio:
Desde os primeiros dias as mulheres do MDF participam do Movimento, nas
manifestações, nos Comitês de Ação, nas comissões das faculdades. Muitos
médicos e enfermeiras se esforçam para ajudar a cuidar dos feridos. Nossa
seção “estudantes” (FMA: Feminino Masculino Futuro) suscita e organiza
diversos debates nos anfiteatros sobre o tema: as novas relações dos casais
na sociedade moderna. Esses debates foram acompanhados com paixão por
um auditório que contava com homens e mulheres, os primeiros não sendo
os menos interessados. Nossa amiga Evelyne Sullerot chamada pelo FMA
para intervir e debater no Halle au Vin e depois na Sorbonne,
respectivamente durante 5 e 3 horas diante de auditórios lotados, compostos
tanto por moços como moças “Os melhores auditórios da minha vida”
afirma.24

19
FELDMAN, Jacqueline. De FMA au MLF... Op. cit., p.195.
20
Tristan, Anne; Pisan, Annie. Histoires du MLF. Op. cit., p. 34.
21
FELDMAN, Jacqueline. De FMA au MLF… Op. cit., p.195.
22
La femme du 20 e siècle. N.11, décembre 1967 - janvier 1968.
23
“Groupe d’études”. La femme du 20 e siècle, n.11, décembre 1967 - janvier 1968. No número seguinte, n.12
(março-abril de 1968), o grupo é identificado como um grupo universitário FMA “Feminin, Masculin, Avenir”
que realizaria reuniões duas vezes por mês e cuja responsável seria a mesma já mencionada.
24
Les femmes et le mouvement de mai 68. La femme du 20 e siècle, n.13, dez. 1968.
70

Além das atividades de apoio às ocupações e manifestações, o grupo promoveu


debates, como o citado acima. É nesse contexto que Christine Delphy inicia seu contato com o
FMA por intermédio de Jacqueline Feldman, que também trabalhava no CNRS. Ao
rememorar os debates organizados com Gisele Halimi e Evelyne Sullerot, Delphy destaca que
tais eventos foram um marco para o grupo, que chegou, logo após esses eventos, a realizar
reuniões com até 40 pessoas.

Sair das grandes discussões sobre igualdade, trabalho feminino entre outras e
pensar a relação entre homens e mulheres no seio da família já mostrava a preocupação do
grupo com o privado, com sua politização, elemento que seria fundamental nos movimentos
femininos que começam a se constituir nesse momento. Outro elemento importante, e que
seria ressaltado num panfleto distribuído nessa mesma universidade, com data de final de
junho25, foi a necessidade de que os movimentos encampassem essas bandeiras como parte da
sua pauta política. O texto em questão conclama as mulheres, que tiveram participação ativa
nos eventos de 68, a levantarem também pautas feministas.
No imenso debate que se instaura no país, na grande remise en cause de
estruturas e valores, nenhuma voz se levantou para declarar que a mudança
das relações entre os homens implica também a mudança das relações entre
homens e mulheres (...) É necessário que a sociedade que será construída
seja obra das mulheres como dos homens, que ela dê a todas as mulheres
chances iguais àquelas dos homens. Se você concorda com isso, o que está
disposta a fazer? Venha discutir conosco.26

O objetivo era problematizar uma concepção de mudança social que, apesar de


pensar a subversão de diversas hierarquias, não levava em consideração a transformação das
“relações entre homens e mulheres”. Uma revolução que não incluísse essa questão estaria,
como afirma o grupo, fadada a reproduzir hierarquias da sociedade que combate. Caberiam às
próprias mulheres se organizarem para impor esses temas e construir um movimento.

O FMA se oficializa como associação em fevereiro de 1969.27 A maioria do


material que dispomos data do final do ano de 196828 até o início de 1970. O grupo realiza
diferentes atividades durante esse período e produz textos internos e de divulgação. Para Anne

25
Nesse panfleto consta a existência de um stand no grupo na Sorbonne ocupada.
26
Recueil MDF. BnF. Reproduzido em: FAURÉ, Op. cit, p. 18.
27
“15 janvier 1969 déclaration à la Prefecture de Police F.M.A (Féminin, Masculin, Avenir). But: Définir et
diffuser les modalités d’une adaptation des rôles respectives des hommes et des femmes aux exigences de la
société actuelle. Siège social ? 54, Avenue de Chosy, Paris, (13è) ”. Journal Officiel de la République Française.
101è année, n.31, Jeudi 6 février 1969. (Fundo Anne Zelensky, BMD)
28
Temos registro de duas reuniões realizadas no final de 1968 e uma assembleia geral do FMA em 26 de
setembro, uma reunião em 24 de outubro.
71

Zelensky, haveria no FMA uma tentativa de “encontrar razões de existir” que se manifestava
em “tomadas de posição quase nunca publicadas, análises, sonhos de ações impossíveis”.29
Feldman relembra que se escrevia “manifesto sobre manifesto para definir nosso combate
específico”.30 A partir desses textos e esboços podemos acompanhar as tentativas de formular
teoricamente a existência de um grupo feminista em moldes distintos da maioria das
organizações existentes.

Embora o material seja escasso, é possível acompanhar claramente um processo


de radicalização do grupo entre 1968 e 1970. Sinais dessa transformação podem ser notados
nas diferentes apresentações feitas de si mesmo ao longo desse período. O grupo altera até
mesmo o seu nome, de Féminin, Masculin, Avenir (Feminino, Masculino, Futuro) para
Féminisme, Marxisme, Action (Feminismo, Marxismo, Ação), ao que tudo indica no ano de
1969.31

A revista La femme du 20 e siècle, o identifica como “grupo de estudos” e “grupo


de estudantes” na primeira menção ao grupo que encontramos. Em outubro de 1968, ele se
apresenta como um “grupo formado por homens e mulheres” cujo objetivo seria “suscitar o
interesse, notadamente por meio de debates, em questões como: trabalho feminino, o casal, a
família, os papéis masculinos e femininos na nossa sociedade”. Um ano depois, se define
como “feminista revolucionário”.32 Numa carta de 8 de novembro de 1969 endereçada a
Daniel Guérin33, o grupo se vincula às mobilizações de 68 e afirma associar “marxismo,
feminismo e revolução sexual”:
Nascido antes de maio de 1968, e na linhagem de maio, este se propõe a
estudar todos os problemas da libertação sexual e, sobretudo, de agir, na
medida dos seus meios, para acelerar essa libertação, que não está senão no
seu estágio puramente verbal. O grupo associa de forma estreita marxismo,
feminismo e revolução sexual. Não é o objetivo dar prioridade a nenhum
desses combates. Deve-se fazê-lo conjuntamente.34

Três elementos se destacam nessa definição: a importância da ação, a crítica à


hierarquização das lutas e a importância de articular marxismo, feminismo e revolução sexual.

29
Tristan, Anne; Pisan, Annie. Histoires du MLF. Op. cit, p. 46.
30
FELDMAN, Jacqueline. De FMA au MLF… Op. cit., p 196.
31
Não há nenhum documento que ateste a data dessa mudança. Como para a maioria dos documentos desse
grupo, as datas são aproximadas.
32
Révolution sexuelle ou erotisme bourgeois? Acte ou parole ?, s.d. Fundo Anne Zelensky. BMD.
33
Daniel Guérin (1904-1988) é um escritor, autor de numerosos livros sobre temáticas como capitalismo,
revolução, sexualidade e colonialismo. Sobre a discussão em questão cabe mencionar: Kinsey et la sexualité
publicado em 1955 e Essai sur la révolution sexuelle après Reich et Kinsey em 1969. Militou nos anos 1970 em
grupos homossexuais como o FHAR (Front Homosexuel d’Action Révolutionnaire).
34
Paris 8/11/69. Carta do FMA endereçada a Daniel Guérin. Fundo Anne Zelensky. BMD.
72

Nos próximos itens, voltaremos a essas três questões, não somente pela centralidade que
tinham no grupo em questão, mas também pela importância que ganhariam nas mobilizações
da década seguinte.

Ação

A mudança do “A” da sigla “FMA” de Avenir (futuro) para Action (ação) não é
fortuita, representa um desejo concreto de um tipo de militância que não se contentasse
somente com discussões, mas tivesse também outro programa de intervenção. Essa seria a
base da crítica às associações femininas existentes, que seriam “mais inclinadas à discussão
que à ação”. Simone de Beauvoir, por exemplo, é criticada nesse sentido pelo grupo. Um dos
chamados de reuniões, que data do final de 1968, um dos mais antigos documentos que
encontramos do grupo, menciona esses encontros e a proposta para as ações vindouras:
Nossas últimas reuniões nos permitiram tomar posição em relação a certos
problemas. Visamos agora passar à ação concreta. Solicitamos sua
participação na próxima reunião. Sua presença é indispensável para
desenvolver nossa ação. Nossa próxima reunião será realizada na quinta, 24
de outubro, às 20h.35

Como vimos no capítulo anterior, a partir dos anos 1950, uma série de livros e
publicações sobre as “mulheres” são lançados na França. A questão era, portanto, analisada e
debatida. Para o FMA, era o momento de uma ação concreta. Denunciando a ideia de uma
“idade de ouro” para as mulheres e recusando a concepção de um progresso “natural” que
agiria independente da “ação humana”, elas reivindicam a herança das feministas e a
necessidade de se organizarem para travar uma luta contra essa opressão.36 A proposta de sair
da teorização e partir para a “prática” perpassa diversos textos do grupo. Era necessário,
afirmam, passar “da teoria da igualdade à prática da igualdade” e isso só poderia ser feito a
partir do momento que as mulheres se encarregassem do seu próprio destino. Se isso é
reconhecido para diferentes grupos oprimidos, é considerado como “ridículo quando se trata
das mulheres” que não teriam o direito de figurar entre os “movimentos revolucionários”.37 O
FMA deseja justamente ser parte desses movimentos com uma perspectiva feminista.

35
FMA, sem data. Fundo Anne Zelensky. BMD.
36
[Panfleto] Porquoi F.M.A?, s.d., Fundo Anne Zelensky. BMD.
37
Ibidem.
73

Imagem 1: Convite para reunião do FMA, outubro de 1968. Fundo Anne Zelensky. BMD
74

Mas, a forma que essa intervenção política deveria ganhar não constituía uma
questão cuja resposta era clara. Pelas cartas, podemos ver que o grupo procurava divulgar
suas ideias e suscitar alguns debates que considerava importante, além de denunciar artigos
discriminatórios publicados na imprensa. Dentre os documentos do grupo há diversas cartas
enviadas ao jornal Le Monde com o objetivo de denunciar a discriminação sexual em alguns
anúncios de emprego. Encontramos também trocas de cartas com a revista Nouvel
observateur, L’avenir est à nous e com organizações como Ligue Communiste. O grupo
também entrou em contato com intelectuais e militantes cujas ideias o interessavam. Essas
cartas nos permitem reconstituir uma rede de contatos com importantes intelectuais como
Simone de Beauvoir, Daniel Guérin e Albert Memmi38, particularmente os dois últimos.

Não sabemos se o FMA manteve contato com outras organizações femininas


existentes. O único registro nesse sentido que encontramos é uma lista manuscrita de contatos
de grupos femininos e outros que tematizavam a “questão feminina”. Numa carta, datada de
1970 ao Nouvel observateur, elas se identificam como “feministas revolucionárias” e afirmam
ser o único grupo do gênero na França.

O grupo recusa a ideia de que a opressão feminina poderia ser resolvida


individualmente. A ação proposta pelo grupo deveria passar pela reunião das mulheres com o
objetivo de travar uma luta conjunta. Christine Delphy, comparando a opressão feminina com
a colonial, afirma que tanto mulheres como colonizados não podem “resolver seu problema
sozinhos”39 e que mudanças na atitude face ao colonizador não provocariam alterações na sua
condição. Nesse mesmo contexto, ela afirma a necessidade de um grupo de mulheres cujo
objetivo é se unir para combater coletivamente sua opressão.

A crítica à ideia de que não se tratava de problemas individuais foi um elemento


fundamental para se conceber uma ação coletiva das mulheres. Essa proposta, embora
continuasse vinculada a uma transformação mais ampla da sociedade, não se confundia com
ela e exigia instrumentos específicos para levar a cabo os seus objetivos.

A recusa das organizações de esquerda em levar em consideração esses


“proletários dos proletários” é duramente criticada pelo grupo em diversos momentos. O
FMA denuncia uma hierarquização das lutas e uma invibilização de um problema: “como se

38
Albert Memmi (1920-) é um escritor de origem tunisiana, autor de romances e ensaios, diversos deles sobre a
temática colonial. Entre eles podemos citar La Statue de sel (1953), Portrait du colonisé précédé de Portrait du
colonisateur (1957), L'Homme dominé (1968) e Le Racisme (1982).
39
Compte-rendu du débat: Échec au Couple? (avec la participation d’Albert Memmi). Fundo Anne Zelensky.
BMD.
75

pode denunciar a opressão dos proletários e dos colonizados sem denunciar a opressão das
mulheres e a opressão das crianças?”.40

Mas, não se tratava, naquele contexto, da defesa de uma luta que incluísse
somente as mulheres. Elas procuravam dialogar com os homens. Apesar de considerarem que
esses tinham vantagens em manter a posição subordinada das mulheres, essa posição seria
“alienante” para os homens e estes deveriam lutar para sair do papel de opressor imposto pela
sociedade41. A emancipação feminina passaria pela instauração de relações “realmente
igualitárias” e, nesse sentido, homens devem fazer parte do processo.

Como afirmou Zelensky, a presença de homens e mulheres no grupo era


considerada um diferencial positivo em relação a outros grupos existentes, num primeiro
momento da reflexão do FMA. Os homens aparecem até mesmo na primeira versão do nome
do grupo (“Feminino, Masculino, Futuro”). Esse princípio parece estar relacionado também a
uma certa concepção da diferença sexual. A recusa a qualquer forma de especificidade
feminina e a necessidade de combatê-la impunha uma luta conjunta de homens e mulheres.

O grupo manteve esse princípio durante quase toda sua existência, mas essa
posição altera-se em seus momentos finais. Em 1970, afirma-se a necessidade de se organizar
somente entre mulheres, sob o argumento de que a reunião entre oprimidos seria a única
forma de recriar uma identidade, longe daquela forjada pelo opressor:
Quando um indivíduo é psicologicamente oprimido desde o seu nascimento,
devido à sua raça ou ao seu sexo, ele não pode se libertar do seu sentimento
de inferioridade e recriar uma identidade senão num grupo exclusivamente
de sua raça ou do seu sexo.42

Esse princípio organizativo seria adotado por amplos setores do movimento


feminista dessa década e vai constituir uma marca das mobilizações nesse contexto.

“Nossa perspectiva do problema é marxista”

Uma das dificuldades enfrentadas pelo grupo era justificar sua existência e os
moldes da luta que propunha. O marxismo foi, para muitas feministas, um ponto de partida

40
Porquoi F.M.A?
41
Idem.
42
Carta enviada à revista Nouvel Observateur , 18/02/1970. Fundo Anne Zelensky. BMD.
76

para suas teorizações. No manifesto do grupo43, as militantes constatam que não haveria uma
“tradição feminista” na França mas, por outro lado, as feministas poderiam contar com a
“vivacidade da tradição marxista na França, com o seu poder de contestação e análise crítica”.
Para o grupo, tratava-se de partir de um marxismo “crítico”, o qual recusa toda forma de culto
à personalidade e procura historicizar e renovar um pensamento cujos “escritos datam de mais
de um século”. Essa perspectiva poderia ser um ponto de partida, mas não era possível
encontrar respostas já prontas às questões que esse movimento começava a lançar:

Para aqueles que querem mudar a sociedade, o esquema da dominação é o


esquema da dominação marxista de dominação do proletariado pela
burguesia capitalista. Mas as classes médias se desenvolvem e escapam
desse esquema binário. Onde nos colocar? E onde colocar as mulheres? A
teoria marxista é inexistente sobre esse ponto, mesmo se ela permanece a
44
única ideologia não feminista a reconhecer sem equívoco nossa opressão.

A categoria “opressão” marcaria uma ruptura em relação às teorizações anteriores.


Essa categoria ganharia um importante lugar nas reflexões do MLF, mas já vemos sua
aparição nos documentos do FMA. Pode-se dizer que, grosso modo, o conceito abarca
diversas hierarquias que não se resumiriam às relações de classe. Na literatura dos anos 1950
e 1960 ela é pouco utilizada, prefere-se termos como “subordinação feminina”, “condição
feminina”, etc.

Simone de Beauvoir, em O segundo sexo, já fazia analogias entre a situação das


mulheres, negros, colonizados, mas, parece ser fundamentalmente nos anos 1960 que a ideia
segundo a qual esses grupos partilhariam uma condição comum de serem oprimidos, entra de
fato na retórica e no discurso militante.

Para o FMA, a categoria opressão parece constituir uma chave de explicação para
pensar a subordinação feminina, mas também para pensar sua superação e as articulações com
outros grupos igualmente oprimidos. Quem seriam os “grupos oprimidos”? Os “negros dos
EUA, os povos do Terceiro mundo, as inúmeras minorias étnicas e as mulheres em todo o
mundo”45, afirmam. Segundo o grupo, a história da servidão e da libertação de grupos
oprimidos mostraria que nada jamais é dado pelo opressor, logo, os oprimidos não podem

43
Manifeste F.M.A. Fundo Anne Zelensky. BMD.
44
FELDMAN, Jacqueline. De FMA au MLF... Op. Cit., p. 196.
45
Porquoi FMA. (s.d., aproximadamente 1969). Fundo Anne Zelensky. BMD.
77

esperar nada senão deles mesmos. A revolução seria sempre uma revolução de um grupo
contra uma opressão específica e só resolveria os problemas atacados.

Trata-se claramente de uma perspectiva que procurava analisar a questão a partir


de novos moldes, uma tentativa de nomear algo que não podia ser simplesmente explicado a
partir da categoria da exploração capitalista. Haveria uma opressão específica que deveria ser
combatida de forma igualmente específica. Como veremos, nomear e teorizar essa opressão
constituiu um dos pontos nodais para o feminismo que começava a emergir.

Essa nova forma de conceber teoricamente a questão e a proposta política de uma


estruturação de um movimento a partir dessa opressão específica assim como a crítica à
hierarquização de lutas marcaria uma reviravolta nas reflexões feministas.

Esse ponto é reafirmado em diversos momentos, como no manifesto do grupo no


qual afirma-se recusar “subordinar o ‘problema’ feminino ao problema do movimento
operário ou estudantil”, assim como esperar uma revolução proletária para pautar a questão da
“alienação da mulher”, pois eladeve ser pensada ao mesmo tempo que a “alienação operária e
estudantil”.46 Além disso, “não se deve esperar A ‘revolução’ que resolverá todos os
problemas”.47

A revolução não seria uma panaceia para todos os males. Atacar a sociedade de
classes não significa atacar todas as outras relações de dominação que a perpassa, por isso a
necessidade de um grupo “feminista revolucionário”. Por “revolucionário” o grupo entende
uma postura política que recusa arranjos dentro do sistema opressor e propõe a sua destruição,
além de “não esperar a mudança do poder para resolver de um dia para o outro todos os
problemas”.48 Aqui a retórica já é muito próxima daquela que seria a marca do MLF.

No Fundo Anne Zelensky, encontramos também um rascunho de duas páginas,


sem data, intitulado Texte de Christine49, que constituiu um primeiro esboço das ideias do
texto L’ennemi principal, escrito por Christine Delphy, um importante texto que seria
publicado naquela que foi considerada a primeira publicação coletiva do movimento, um
número especial de Partisans com data de 1970.

O texto começa definindo o approche do problema como “marxista” e centra-se


na importância do trabalho doméstico: “consideramos que todas as sociedades atuais,

46
Sobre a importância da categoria “alienação” nas movimentações de maio, voltaremos posteriormente.
47
Féminin Masculin Avenir. Féminisme Marxisme Action. [Manifesto do grupo]
48
Idem.
49
Texte de Christine. Fundo Anne Zelensky. BMD.
78

incluindo as sociedades ‘socialistas’, se apoiam, para produções essenciais como a criação de


filhos serviços domésticos, no trabalho gratuito das mulheres”. As mulheres, tal como os
proletários, não têm acesso aos meios de produção, mas, enquanto esses últimos podem
vender sua força de trabalho, as mulheres não podem fazer o mesmo, pois essa é adquirida,
parcialmente ou totalmente, pelo marido. Além disso, a opressão das mulheres não é limitada
à apropriação de sua produção e ao roubo de sua força de trabalho, mas inclui também o
controle da reprodução.

O controle da sexualidade e da reprodução é, segundo o texto, considerado


secundário pelas análises marxistas, porque não seria econômico. Baseado nesse mesmo
argumento, a criação de filhos e os serviços domésticos não são considerados como
“produtivos”, pois por produtivo entende-se um trabalho que produz valor, valor que é, por
sua vez, produto da troca: “A exclusão dos bens e serviços fornecidos pelas mulheres do
domínio do ‘econômico’ resulta na sua exploração” afirma. Esses bens são produzidos
gratuitamente sob um “modo de obrigação”.

Para a autora, as relações das mulheres à produção e reprodução são


“precisamente de escravidão” e as mulheres burguesas não estariam fora dessa análise. Elas
também seriam expropriadas dos meios de produção e submetidas a relações de escravidão:
“As mulheres de burgueses não pertencem à classe burguesa tal como o escravo de um
agricultor não pertence à categoria dos agricultores”. A autora conclui o texto afirmando que
não há diferença de classe entre as mulheres e, portanto, não há conflito de interesse entre
elas.50

Tratava-se claramente de uma resposta aos questionamentos vindos de setores da


esquerda os quais consideravam que as divisões de classe entre mulheres impediam a união de
todas num mesmo movimento. O que se pode perceber nesse texto é que Delphy promove
uma separação entre as relações de classe e as relações de “escravidão” a qual estão
submetidas as mulheres. Em contraposição às análises de setores de esquerda que
subordinavam todas as formas de “opressão” às relações de classe, Delphy aqui defende uma
autonomia da opressão feminina. A conclusão tirada dessa ideia é que não somente é possível
como necessária a formação de um movimento que reúna todas as mulheres, para além das
divisões de classe. Essas ideias, apesar das polêmicas provocadas após sua publicação,
constituem um momento fundador de uma nova forma de se conceber a questão e um marco
para as reflexões vindouras, ainda que muitas de suas teses tenham sido alvo de duras críticas.

50
Idem.
79

Além de fornecer a base para pensar a dominação – com as noções de oposição e


conflito – o marxismo também foi o ponto de partida para a formulação de uma explicação
social da opressão feminina. Nos textos do FMA esses dois approches estavam intimamente
vinculados. O manifesto do grupo começa com dois pontos fundamentais: 1- “Nosso ponto de
partida é feminista” e 2- “Nossa abordagem do problema é marxista”.51 Esses se articulam
para permitir pensar uma explicação social da opressão:
Consideramos que a situação específica entre os sexos é definida pelas
relações de produção da sociedade e não por dados “naturais” tal como o
papel que exerce a mulher na procriação.

Não é possível saber, a partir desse texto, se o grupo se refere a relações de


produção capitalistas ou se já indicava no sentido de relações de produção outras, patriarcais,
como na formulação de Delphy, que propõe a ideia de um “modo de produção doméstico”.
Independentemente disso, cabe ressaltar a importância e o pioneirismo do antinaturalismo do
grupo, questão que será abordada no próximo item.

Antinaturalismo

O FMA posiciona-se claramente, na esteira de Beauvoir, numa perspectiva


antinaturalista. Contra a ideia de uma diferença essencial entre homens e mulheres, isto é, de
uma natureza feminina definida “fora do social”52, o grupo afirma o direito à igualdade. Uma
“especificidade feminina” é considerada como algo forjado por um sistema opressivo e que
deveria ser combatida. Na leitura do próprio grupo, esse seria um elemento de diferenciação
em relação a outras organizações femininas:
Nós nos diferenciamos das associações femininas dado que não aceitamos,
como estas últimas fazem frequentemente, trabalhar a partir dos estereótipos
e os tabus da nossa sociedade. Nós buscamos destruir essa sociedade. E
também não admitimos que haja papéis imutáveis, feminino e masculino: a
especificidade do feminino é sua opressão e essa opressão nasceu dessa
especificidade.

A posição é bastante clara. Não há uma especificidade feminina senão dentro de


um sistema opressivo que permitiu sua emergência. Em diversos documentos do grupo essa
posição é reiterada. Em seu manifesto, o primeiro ponto é “Nosso ponto de partida é
feminista” – e por “feminista” o grupo entende uma posição antinaturalista. Simone de

51
Féminin Masculin Avenir. Féminisme Marxisme Action. [Manifesto do grupo]. Fundo Anne Zelensky. BMD
52
Idem.
80

Beauvoir é citada já no primeiro parágrafo. Denuncia-se “slogans” como “feminilidade,


virilidade, igualdade na diferença” e outras variações de uma perspectiva naturalizante que
seria usada para mascarar “sob uma aparente simetria, a realidade das relações entre homens e
mulheres que são relações de dominador à dominante”.53 Dessa forma:
A referência a uma ‘natureza’ eterna, definida fora da sociedade é uma
manobra utilizada pela ideologia reacionária para justificar essa situação; ela
consiste em acentuar as diferenças entre os sexos sejam elas biológicas,
psicológicas ou sociais, ao invés de trabalhar para reduzi-las.54

Essa questão estaria no centro de um debate promovido pelo grupo em 10 de


fevereiro de 1969, Echec du Couple? realizado com a presença de Albert Memmi, pretendia
discutir um capítulo de L’homme domine dedicado “às amigas do FMA”.55 O capítulo em
questão intitula-se La femme. Plaidoyer d’un tyran. Nesse estranho capítulo, Memmi na
verdade analisa a trajetória de vida de Beauvoir. Para tanto, o autor aborda, por exemplo, a
questão da escolha desta de não ter filhos, o tipo de relação que ela mantém com Sartre,
dentre outros aspectos. No Fundo Anne Zelensky, encontramos um resumo de algumas
páginas desse debate que nos permite apreender algumas questões importantes para o grupo,
particularmente suas ideias sobre a “natureza” feminina.

Um ponto-chave nesse debate foi a questão da maternidade. A discussão em


questão gira fundamentalmente em torno da possibilidade de generalização da experiência de
Simone de Beauvoir para todas as mulheres. Memmi, tanto no capítulo citado, quanto no
debate, mostra estar atrelado a concepções fortemente naturalistas. A maternidade é
considerada um elemento fundamental da feminilidade e deve “ser reinscrita na natureza da
mulher”56, afirma. O autor é taxativo ao condenar os movimentos que não levam em
consideração a “natureza”, tomada aqui num sentido biológico. Para ele “uma libertação que
começa colocando a natureza em parêntese é uma libertação mutilada” e acusa os membros
do FMA de desconsiderar a natureza (“Vous faites trop bon marché de la nature”). Para
Memmi haveria um corpo natural contra o qual não podemos lutar e, assim, posicionar-se
contra a natureza poderia ocasionar problemas graves, afirma.

53
Idem.
54
Idem.
55
MEMMI, Albert. L’homme dominé. Paris: Gallimard, 1968.
56
Todas as citações desse debate foram extraídas de um resumo da reunião. “Compte-rendu du débat: Echec au
couple? (avec la participation d’Albert Memmi). Fundo Anne Zelensky. BMD.
81

Imagem 2: Divulgação do debate “Echec au couple”? com Albert Memmi.


82

Há, para o autor, um verdadeiro conflito entre natureza e sociedade. “Não


sabemos como fazer para que o conflito entre a natureza e a organização social seja menos
oneroso”.57

As reações do grupo em relação a essa questão são explicitamente de oposição:


“Por que a natureza é um valor sagrado?, questiona uma pessoa do público. Christine Delphy,
com seu humor característico, lança a questão: ‘Gostaria de saber o que é natureza para você.
Você é aparentemente um desses felizes mortais a quem a natureza falou’”.58

É importante ressaltar que, embora Memmi afirme que o essencialismo está na


base do racismo e da opressão, não consegue incluir as mulheres nessa mesma crítica. Vê-se
aí uma questão recorrente nesse contexto e que não sofreu grandes alterações, mesmo nos dias
atuais. A ideia de uma diferença racial biológica foi alvo de críticas virulentas no pós-guerra.
Entretanto, esse mesmo esforço de desessencialização não incluía as mulheres. No número
especial de Partisans, de 1970, algumas militantes retomam essa crítica em relação ao
L’homme dominée:
No seu livro, ele coloca, sem hesitação, a mulher entre os outros dominados:
o colonizado, o judeu, o doméstico. E sua análise do racismo convém
perfeitamente à mulher (...) Mas, no capítulo consagrado às mulheres, ele as
define justamente pelo seu papel na procriação, insiste na diferença e se
mostra, portanto, racista segundo a sua própria definição.59

Em contraposição, o grupo deixa claro que essa concepção de natureza é uma


construção social usada com propósitos opressivos. A natureza específica da mulher
constituiria uma imposição e seria a expressão da cultura. Para Delphy, o conceito de natureza
serve para esconder “fatos culturais, fatos humanos”. A libertação feminina exige o fim das
particularidades pretensamente impostas pela natureza, para que as mulheres finalmente
possam ser reconhecidas simplesmente como “seres humanos”. Assim, “não terá que se
conformar a uma natureza que lhe foi imposta” e, tal como os homens livres naturalmente (e
não os colonizados), poderá “escolher ser aquilo que ela quer ser”60.

57
Idem
58
Idem.
59
Anne e Jacqueline. D’un groupe à l’autre. Partisans (Libération des femmes. Année zero), n.54-55, julho-
outubro de 1970, p.190.
60
Compte-rendu du débat: Echec au couple? (avec la participation d’Albert Memmi). Fundo Anne Zelensky.
BMD.
83

Esse tema reaparece nos textos de algumas integrantes do FMA. Christine


Delphy, em A propos du service civique des filles. Un projet de loi dangereux61 (Sobre o
serviço cívico feminino. Um projeto de lei perigoso), provavelmente um dos seus primeiros
textos a ser publicado, critica um projeto de lei que pretendia tornar o serviço “cívico”
obrigatório para as mulheres. Um dos aspectos que mais retém a atenção da autora é que tal
projeto traz uma afirmação da “especificidade feminina” e de uma “natureza feminina”.
Algumas das consequências dessa afirmação de feminilidade presente nesse projeto seriam:
fazer “renascer” a ideia “demolida pela ciência” de que o sexo determina atitudes específicas;
fazer do papel reprodutivo o centro da vida das mulheres e perpetuar sua dependência
econômica, social e moral; reforçar a ideia de que as contribuições das mulheres à sociedade –
à imagem do papel principal que assumem as mães de família – não podem e nem devem ser
efetuadas fora do modelo de gratuidade. No mesmo número, Anne Zelensky critica o livro de
Suzanne Lilar, Le malentendu du deuxième sexe62, e sai em defesa da perpectiva do livro.

Terminaremos essa parte dedicada ao FMA com uma discussão sobre a revolução
sexual. A questão ocupa um lugar importante nas discussões do grupo nos documentos mais
próximos do ano de 1970. Essa temática era praticamente ausente nos grupos feministas
anteriores e é um símbolo da emergência de novas temáticas e reivindicações.

Revolução sexual

Para Chaperon63 a partir de meados dos anos 1950, após um longo eclipse, as
questões sexuais ganham “direito de existência” na França. Diversas obras sobre a questão
são publicadas nesse contexto. A década de 1960 é um momento particularmente importante
de politização da sexualidade. “Libertar” a sexualidade dos entraves impostos socialmente era
uma pauta importante e algumas das frases lendárias dos muros em 1968 “Gozar sem
barreiras” (Jouir sans entraves) são emblemáticas desse momento. Para Zancarini Fournel a
reinvindicação de liberdade sexual foi determinante na cristalização e erupção da
mobilizações dos anos 1968, mesmo que a questão passe para o segundo plano a partir de

61
DELPHY, Christine. A propos du service civique des filles. Un projet de loi dangereux. La femme du 20 e
siècle, n.16, março de 1970.
62
ZELENSKY, Anne. Le malentendu du Deuxième Sexe. La femme du 20 e siècle, n.15, dez. 1969.
63
CHAPERON, Sylvie. Kinsey en France: les sexualités féminine et masculine en débat. Le Mouvement social,
n.198, 2002.
84

maio de 1968. A questão tornou-se mesmo uma marca do “maio de 68” ganhando uma
preeminência em relação a outras mobilizações.64

A questão receberia uma ênfase importante no FMA que procuraria articulá-la


com uma perspectiva feminista e com uma transformação mais ampla da sociedade. Reich é
um autor mencionado em algumas das memórias e materiais do grupo. Danièl Guérin também
faria parte das leituras do grupo.65

Entre 1969 e 1970, o tema parece ter recebido particular atenção no seio do grupo.
Um texto publicado em 12 de janeiro de 1970 no Nouvel Observateur, Sexe à gauche (Sexo à
esquerda) parece ter dado ainda mais força ao debate no seio do grupo. O artigo, assinado por
Roger Cremant, (pseudônimo de Roger Rosset), constituía uma resenha do livro de Reich La
révolution sexuelle. O texto de Rosset provocaria reações contundentes e numerosas por parte
dos leitores. Dentre as diversas cartas, uma era assinada pelo FMA e outra por Daniel Guérin
e Anne Zelensky.

Trechos da carta do FMA são publicados sob o título de Caricatural. O grupo


critica duramente o texto, considerado-o uma caricatura grosseira, uma difamação sistemática
e deformada do pensamento de Reich “um dos mais ricos e fecundos do nosso século”. Para o
grupo esse artigo mostraria que “a revolução sexual ainda está por fazer com urgência”. Deve-
se ressaltar que a partir da publicação desse texto, o grupo receberia diversas cartas de pessoas
interessadas em conhecê-lo. Data dessa época os contatos com Daniel Guérin. O texto
Révolution sexuelle ou érotisme bourgeois? (Revolução sexual ou erotismo burguês)
constitui, ao que tudo indica, um chamado para um debate com Guérin, identificado como
“um dos únicos na França que associa revolução social e revolução sexual”. É dentro dessa
perspectiva que o grupo apresenta a questão. Para uma liberação sexual, três condições seriam
necessárias: libertação do capitalismo patriarcal, libertação real das mulheres e libertação das
minorias sexuais. Na ausência dessas condições, o que se via era a “recuperação da revolução
sexual pela minoria burguesa a seu proveito material e moral”. O debate sobre o caráter da
“revolução sexual” seria também alvo de polêmica no seio do MLF.

64
Como exemplo da importância que a questão ganha no final dessa década, podemos citar a publicação, em
1966, de um número especial da revista Partisans, intitulado Sexualité et repression Partisans “Sexualité et
répression” (organizdo por Emile Copferman), n° 32- 33, outubro de 1966.Ver também Partisans, “Sexualité et
répression II”, n° 66-67, julho de 1972 (organizado por Boris Fraenkel). Henri Lefebvre dá um curso na
Universidade de Nanterre sobre ‘sexualidade e sociedade” neste período. A revolução sexual de Reich é
traduzida e publicada em francês em 1968. No ano seguinte Danièl Guerin publica Essai sur la révolution
sexuelle après Reich et Kinsey.
65
No final de 1969 o grupo entra em contato com Guérin: “Nós lemos seu último livro ‘Ensaio sobre a
Revolução sexual’. Gostaríamos de encontrá-lo para discutir com o objetivo de eventualmente realizar um debate
público sobre a questão” (Paris, 8/11/69).
85

Por fim, cabe ressaltar que o grupo, ou uma parte dele, decidiu promover algumas
atividades relacionadas ao tema. Nos arquivos podemos encontrar diversos questionários
preenchidos com questões sobre sexualidade, realizado na Université de Vincennes. Não
sabemos se esses questionários foram utilizados para alguma finalidade. Paralelamente,
Feldman e Zelensky pensavam na produção de um livro sobre o tema. Na primavera de 1970
o livro estaria concluído, mas teria dificuldades de encontrar um editor. O texto seria
finalmente publicado sob a forma de artigo no número especial de Partisans.

A partir do que foi exposto pode-se perceber semelhanças com temas e polêmicas
que marcariam o Mouvement de Libération des Femmes. Esse movimento surge a partir da
reunião de pequenos grupos já existentes que daria origem a um movimento mais amplo.
Segundo o relato de Anne Zelensky66, uma carta publicada pelo FMA no Nouvel Observateur
obtém respostas e uma delas de um grupo que se intitulava Les Oreilles Vertes. Ao que tudo
indica, ela se refere à polêmica do texto sobre Reich, mencionado acima. Nesse mesmo
momento, em maio de 1970, o jornal L’idiot international publica um texto, intitulado
Combat pour la libération de la femme, assinado por Monique Wittig, Gille Wittig, Marcia
Rothenburg e Margaret Stephenson. Segundo Françoise Picq, esse grupo se constitui após os
eventos de 68 e é formado pelos nomes citados acima, além de Françoise Ducrocq, Josiane
Chanel, Antoinette Fouque e Suzanne Fen.67 É do encontro desses grupos que surge o
embrião do Mouvement de Libération des Femmes. As primeiras aparições públicas desse
movimento datam de meados de 1970.

Mouvement de Libération des Femmes

O ano de 1970 é repleto de momentos fundadores do Mouvement de Libération


des femmes (MLF). Data de maio de 1970 a publicação do artigo Combat pour la libération
de la femme no periódico L’idiot international; uma manifestação na Universidade de
Vincennes também em maio na qual é possível ver faixas e bandeirolas que evocavam a
“libertação das mulheres”; uma manifestação no Arco do Triunfo em agosto de 1970 assim
como a publicação de um número especial da revista Partisans Libération des femmes, année
0 em novembro do mesmo ano.

66
PISAN Annie de, TRISTAN Anne, Histoires du MLF. Op. citl, p. 48.
67
PICQ, Françoise. Libération des femmes.Op. cit., p.15.
86

A manifestação no Arco do Triunfo é considerada a primeira manifestação pública


do movimento. Trata-se de ato em solidariedade a uma greve chamada por mulheres
estadunidenses no aniversário de 50 anos da conquista do voto feminino nos EUA. Um grupo
de mulheres deposita uma coroa de flores no monumento do Arco do Triunfo com os dizeres
“Em honra à mulher ainda mais desconhecida do soldado desconhecido”. Um panfleto,
Solidarité avec les femmes en grève aux USA les 26 et 27 août (Solidariedade com as
mulheres em greve nos EUA nos dias 26 e 27 de agosto), é distribuído no qual denuncia-se a
escravidão da mulher pelo “sistema patriarcal”, suporte fundamental da “exploração
capitalista” e anuncia-se uma nova etapa:
Até o momento atual, as mulheres, por sua resignação e isolamento,
contribuíram para perpetuar esse estado de coisas.
Hoje nós, mulheres de todas as condições, tomamos consciência de nossa
opressão e estamos decididas a nos unir para lutarmos, para tomar em mãos
nossa libertação.
Ousemos nos revoltar em casa, contra o marido, no trabalho, na rua, contra o
sistema capitalista que nos oprime e sua ideologia que nos torna servis.68

Essa ação daria visibilidade na mídia ao movimento, que, segundo diversas fontes,
seria batizado, nesse contexto, de Mouvement de Libération des Femmes, em analogia ao
movimento estadunidense, nome que as próprias militantes passariam a adotar. Participaram
dessa ação, entre outras, antigas FMA como Christine Delphy, Emmanuèle de Lesseps e Anne
Zelensky, assim como outras pessoas com outras trajetórias como Monique Wittig, Cathy
Bernheim e Christine Rochefort.

Alguns outros eventos públicos marcariam o nascimento desse movimento. Em


outubro, diante da prisão La Roquette, um novo ato é organizado, para protestar contra a
“repressão geral que se exerce sobre os militantes políticos”, mas também para denunciar uma
repressão “cotidiana e particular” que sofrem as mulheres, a qual permitiria criar um
sentimento de solidariedade com todas aquelas que “estão presas” quaisquer que sejam as
razões: “Prostitutas, ladras, mulheres que fizeram aborto, donas de casa, mães-solteiras,
homossexuais, heterossexuais, manifestantes, militantes, nós somos todas irmãs”.69

Destacamos também a intervenção de algumas integrantes do movimento num


evento organizado pela revista feminina Elle70 em novembro de 1970, denunciando o não

68
COLLECTIF. Mlf Textes premiers. Op. cit., p.37.
69
Esse ato foi organizado por militantes da VLR (Vive la Révolution). [Panfleto] Solidarité avec les femmes em
greve aux USA les 26 et 27 août. Fundo Anne Zelensky. BMD. Reproduzido em: COLLECTIF. Mlf Textes
premiers, p. 36-37.
70
O evento se intitulava Etats Géneraux de la Femme, no qual aconteceriam debates, sobre temas diversos.
87

questionamento de noções como amor, casamento, feminilidade, instinto maternal, etc.


Recusando a ideia de uma “natureza eterna da mulher”, elas afirmam: “A mulher não existe, é
uma das criações do patriarcado destinadas a massacrar as mulheres” e distribuem um
contraquestionário bem humorado no qual procuravam ridicularizar algumas das questões
propostas pela revista. À questão: “Se uma mulher trai o seu marido, é: um erro
indesculpável. Um erro mais ou menos perdoável segundo as circunstâncias?”, elas
contrapõem: “Você considera que uma mulher que compartilha o seu opressor com outras
mulheres tem o direito de se fazer oprimir em outros lugares?”; e apresentam outras como:
“Uma feminista é: esquizofrênica, histérica, paranoica, homossexual, ou simplesmente
perversa?”.71

Logo após o verão de 1970, uma Assembleia Geral do movimento é convocada no


Beaux-Arts (prédio das Belas-Artes) e mais de 100 pessoas participam. Essas reuniões,
realizadas periodicamente a partir dessa data, constituíram um momento de encontro de
diferentes iniciativas, grupos, feministas isoladas, etc. Sem inscrição para falas, sem pauta,
tentava-se forjar novas formas de organização. Algumas descreveriam essas assembleias
como uma grande bagunça, era “a explosão, o borbulhar de ideias, logo contestadas e
frequentemente abandonadas. É a insolência, a derrisão. A palavra pertence a todo mundo
mas ela deve ser tomada, com autoridade. É ‘um pouco a lei da selva’” afirmava Françoise
Picq.72

Para Picq, o MLF faz parte de uma corrente de contestação que surge a partir de
maio de 68, “mesmo desejo de mudar a vida, imediatamente. Mesmas palavras para dizê-lo,
mesma forma de passar uma mensagem, de desvendar questões implícitas, quebrar tabus:
denúncia espetacular, humor corrosivo, insolência, derrisão, encenação dramatizada”.73 Mas,
promoveria também críticas aos esquemas revolucionários e proporia novas formas de
estruturar o movimento, novas formas de ação e de manifestação.

Pela sua própria forma de organização, esse movimento é avesso a uma definição
mais precisa dos seus contornos. O movimento se pretendia amplo “com contornos
indefinidos e definição maleável”.74 Nos panfletos produzidos pelo movimento, sobretudo em
seu momento inicial, encontramos uma recusa a uma definição precisa:
O movimento de libertação das mulheres:

71
Politique Hebdo, n.9, 3 dez. 1970.
72
PICQ, Françoise. Libération des femmes...Op. cit., p. 52.
73
Ibidem, p. 114.
74
Ibidem, p. 125.
88

-É você
-São todas as mulheres que tomam a palavra
-São todas as mulheres em revolta que tomam a palavra
-É quando duas ou três mulheres se reúnem e falam da sua experiência e do
seu mal-estar.
-São todas aquelas que se revoltam coletivamente contra essa sociedade de
homens feitas por homens e para os homens.75

O MLF não se configurava como uma organização com estatuto, normas de


funcionamento, etc. Era um movimento sem uma forma pré-fixada, calcado
fundamentalmente numa unidade espontânea. Influenciado pelo conteúdo antiautoritário e
antiburocrático de 68, o feminismo fazia eco à demanda de uma nova forma de organização
política, horizontalizada, sem lideranças, sem separação entre público e privado e com uma
nova linguagem. Avesso a definições, a enquadramentos e a fórmulas prontas, o movimento
prefere se definir como sem forma e longe das categorizações existentes:

O movimento não é nem centralista democrático, nem leninista, nem


piramidal, nem em forma de cone: ele não é atravessado por correntes que
vão da base ao topo ou inversamente: não há topo ainda. A base é constituída
do todo ou de cada uma, ele é disforme, heterogêneo, centrípeto e muito
ativo.76

O MLF não se pretende uma organização, nem um partido, não há carta de


adesão, contribuição financeira, não há líderes, não há base: “É uma corrente de ideias, de
ações, é uma união de indivíduos em revolta”.77 Falar em organização, afirmavam no boletim
Le torchon brûle de n.2, é “preparar a morte do movimento”.78 A organização não organizaria
nada além dela mesma.79 Françoise Picq descreve de forma bastante precisa esse “espírito”:
O movimento de mulheres toma forma na recusa de toda forma, de todo
compromisso. A democracia direta não é uma palavra vã. Nada de
organização a refrear o movimento espontâneo de cada uma. Nem teoria de
liberação, nem regras comuns, nem decisões coletivas. Nenhum chefe ou
responsável, nenhuma palavra que faça lei. O MLF não quer reproduzir em
nada aquilo que se critica nos outros, nos grupos mistos dominados pelos
homens. Entre as mulheres, inventamos algo de radicalmente novo, na
confiança, na espontaneidade, na igualdade entre todas; na afetividade
necessária a uma ação comum. (...) O MLF não fala em nome das mulheres,
que não são representáveis. (...) O MLF “são todas as mulheres”.80

75
LE MOUVEMENT DE LIBÉRATION DES FEMMES. s.d. Recueils BnF.
76
LESSEPS, Emmanuèle de; HENNEQUIN, Claude. Trois ans de MLF. Actuel, n° 25, 1972.
77
LE MOUVEMENT DE LIBÉRATION DES FEMMES. s.d. Recueils BnF.
78
Le torchon brûle de n.2 p. 3.
79
Le Tourchon Brûle, n.2 apud GUADILLA, Naty. Libérations des femmes le M.L.F. Paris: Puf, 1981, p. 32.
80
PICQ, Françoise. Libération des femmes. op. cit., p.125.
89

“Como se cria um grupo?” perguntam num panfleto. À essa questão elas


respondem: “como quisermos, quando quisermos, onde quisermos e sobre o tema que
quisermos. Os grupos são abertos: cada uma escolhe aquele que a interessa”.81 Estes se
formavam a partir de afinidades pessoais e políticas, por bairro, por tema. Surgiam para
discutir um problema particular ou simplesmente para preparar uma ação, uma manifestação,
como afirma Picq:
Reuníamo-nos para refletir juntas sobre a origem do patriarcado, o trabalho
doméstico, o aborto, o estupro, a homossexualidade, o desejo, o prazer, o
ciúme, a violência... Reuníamo-nos por bairro. Reuníamo-nos por afinidades.
Para fazer música, costura, pintura ou cuidar das crianças. Reuníamo-nos
para falar de nós, da nossa experiência, dos nossos problemas, como se o
grupo de mulheres possuísse a solução que cada uma não conseguia
encontrar sozinha. 82

Essas agremiações poderiam durar anos, uma estação, alguns meses ou mesmo o
“tempo de uma rosa”83, como nos mostra Picq. Em janeiro de 1971, poucos meses após as
primeiras ações públicas, alguns grupos são citados: prostituição, solidariedade cinema, grupo
aborto, ligação com o interior, Vincennes, Nanterre, la Halle aux vins, grupo de estudos
econômicos, grupo sobre a sexualidade, grupo sobre o ciúme, grupos de bairro”. 84

Alguns desses encontros funcionavam e davam continuidade às atividades,


outros, desapareciam com o tempo. Novas ações, novas demandas e questões davam origem a
novas reuniões, grupos, momentos de encontro. Uma lista de grupos existentes em 1975
publicada pelo jornal L’information des femmes85 nos fornece um bom panorama do
movimento no período: havia aqueles que se formaram a partir de diversos critérios,
nacionalidade ou região (grupo anglófono, grupo latino-americano, mulheres imigrantes), a
partir de temas (ecologie feminisme, spiral), para a organização de uma ação (Musidora,
Tribunal Internacional) ou por orientação política (Femmes en lutte, Cercle Dimitriev, etc).

Um princípio comum a todas essas atividades era a reunião entre mulheres. “Só o
oprimido pode analisar e teorizar sua própria opressão e consequentemente escolher os meios
de luta”86 afirmavam na introdução de Partisans. (Libération des femmes. Année zero). Essa

81
[Panfleto] Le Mouvement de Libération des femmes. s.d. BMD.
82
PICQ, Françoise. Libération des femmes. Op. cit p. 157.
83
Ibidem. .
84
Actuel, 1971, p.11.
85
L’information des femmes, n.1, 24 de novembro de 1975.
86
UN GROUPE DES FEMMES. Introduction à l’édition de 1972. Partisans. Libération des femmes. Paris:
Maspero, 1973, p.5.
90

forma de organização é uma característica típica do feminismo desse período. Em parte,


parece, por um lado, ter se espelhado na luta do movimento negro estadunidense e na
experiência feminista desse país, por outro lado, em eventos específicos do nascente
feminismo francês.87 Na primeira publicação coletiva do movimento, esse aspecto já é
ressaltado: “tomamos consciência que, a exemplo de todos os grupos oprimidos, caberia a nós
tomar em mãos nossa própria libertação”.88

O movimento se estrutura a partir da ideia de que cabe ao oprimido organizar, de


forma autônoma, sua própria luta. Caberia às mulheres, reunidas entre si, definir suas próprias
estratégias de luta, sua teoria, sem ingerência dos homens ou das organizações de esquerda.
Os homens teriam vantagens por sua “situação de opressores” e, por isso, não deveriam
participar do movimento. Mas, para além disso, havia uma questão prática, nas assembleias
formadas por homens e mulheres as mulheres não se “sentiriam livres para exprimir sua
revolta na presença de seu companheiro”.89 Era necessário se reunir entre mulheres para que
experiências de opressão fossem compartilhadas entre oprimidos.

A defesa da “autonomia” constituía também um elemento de aprendizagem e de


desnaturalização de uma experiência marcada pela opressão. O fim da opressão não pode ser
algo concedido por outrem, mas deve ser parte do aprendizado para a liberdade:

Eu tenho um passado de passividade. Quando não somos livres, não somos


independentes. E se esta noite, recebêssemos uma ligação telefônica nos
anunciando que a Revolução acaba de ser realizada, e que, por consequência,
nós somos libertadas, DO-IT-YOURSEFS, BABY; nos sentiríamos tão
desesperadas quanto macacos na porta de suas celas (...) É lutando por nossa
libertação que nos preparamos para ela. 90

Coabitavam nesse movimento diversas formas de conceber o feminismo e as


estratégias de luta. Para Françoise Picq, é esse debate entre pontos de vista indissociáveis e
contraditórios que faz a riqueza do movimento.91 Coexistiam no seu seio militantes para as
quais a luta das mulheres deveria ser parte do movimento social e outras para as quais essa
luta não deveria se subordinar a nenhuma outra luta; diferentes concepções sobre a diferença

88
QUELQUES MILITANTS. Présentation. Partisans. Op. cit., p. 5.
89
UN GROUPE DES FEMMES. Introduction à la premier édition .Partisans. Libération des femmes. Paris:
Maspero, 1973, p. 9.
90
[Panfleto] Féministes revolutionnaires. Fundo Anne Zelensky, BMD.
91
PICQ, Françoise. Libérationdes femmes. Op. cit., p.233.
91

sexual (a diferença é, para algumas, um produto da opressão enquanto que para outras seria
algo a ser valorizado); formas diversas de se conceber a estrutura do movimento.

Muitas militantes eram provenientes de organizações de esquerda, mas é em


oposição e até mesmo em ruptura com suas organizações que esse movimento se configura.
Como relembram algumas militantes trotskistas, no final da década, não era apenas a
indiferença que caracterizava a relação do movimento operário e dos partidos de esquerda
com a pauta feminista, mas frequentemente a hostilidade aberta.92 A reprodução dos velhos
papéis sexuais dentro das organizações de esquerda, o menosprezo à condição da mulher e ao
nascente movimento feminista seriam duramente criticados pelas mulheres militantes:
Quem cozinha enquanto eles discutem a revolução?
Quem cuida das crianças enquanto eles vão às reuniões políticas?
(...) Quem toma notas enquanto eles estão no microfone?
Somos nós, sempre nós! 93

Diversas palavras de ordem do movimento, usando o humor que lhe era


característico, constituíam uma denúncia ao machismo que era reproduzido também por
militantes de esquerda: “O cozimento de um bife de um militante é tão longo como o de um
burguês”, “Estupro de esquerda, estupro de direita, mesmo combate”, “Proletários de todos os
países... quem lava suas meias?” são alguns exemplos.

Simone de Beauvoir afirmava em 1949 que as mulheres “não dizem ‘nós’”; “não
temos meios concretos de nos reunirmos em uma unidade que se afirmaria em se opondo”94.
Uma grande onda feminista se constitui, 20 anos depois, justamente a partir desse “nós
mulheres”. Esse processo ganhou formas variáveis, dependendo do país e do contexto
político. Na França, foi fruto de um processo cujos contornos não é possível reconstituir
somente a partir dos traços escritos do movimento, pois se forjou, fundamentalmente, nos
diferentes espaços de militância. Já nos primeiros panfletos, esse sentimento é expresso:
Você é porque você é parte desse 1 milhão e meio e que, seja qual for o lado
para onde se vire, você terminará por encontrar só irmãs, semelhantes a
você, oprimidas e doentes dessa opressão, que, como você, colocarão um dia
os seus problemas em termos que lhes serão próprios, numa linguagem que
passará pelo corpo e vida, onde se encontra a verdadeira expressão.
É necessário que você encontre outras mulheres, que fale com elas da
opressão que lhes é comum, que fale de todas as maneiras possíveis.95

92
10 ans de luttes des femmes. Cahiers du féminisme, n.3, março 1978, p.22.
93
Idem, p. 31.
94
BEAUVOIR, Simone de. O segundo sexo. Fatos e mitos. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, p. 13.
95
Combat pour les femmes. Le torchon brûle – L’idiot international, décembre 1970, p.2.
92

Esse encontro foi vivenciado por muitas como uma enorme descoberta. É
justamente nesses momentos de encontro que se forja a ideia de uma unidade, de um “nós”
para além de outras diferenças. Foi no contato com outras mulheres, na troca e no
reconhecimento de uma vivência comum que esse caráter coletivo da opressão pôde ser
verbalizado e elaborado. Em diversos textos do movimento podemos encontrar relatos que
ressaltam a importância desse processo

Em alguns casos, a percepção de uma opressão compartilhada e a ideia de uma


solidariedade entre mulheres foi expressa na metáfora familiar “irmãs”. Em frente à prisão de
La Roquette, em solidariedade à prisão de um membro da organização Gauche Proletarienne,
é nesses termos que elas se exprimem quando se identificam como “irmãs”96. Essa metáfora,
comumente utilizada pelo movimento feminista do período, denota a percepção não só do
sentimento de compartilhar uma experiência comum, mas também da possibilidade de
convertê-la em solidariedade, numa irmandade.

Sem dúvida, esse processo não foi desprovido de dificuldades. A questão da


necessidade de superação da rivalidade entre mulheres é um aspecto presente nos relatos e nas
memórias do movimento. No boletim Nosotras, Ana Tegui menciona as dificuldades em lutar
contra a rivalidade e como a solidariedade entre mulheres seria uma construção que avança a
contrapelo dos próprios condicionamentos sociais a que as mulheres estão submetidas:

Muito mais difícil que lutar contra o sistema (tarefa para verdadeiros
combatentes), é unirmos as mulheres e concordamos umas com as outras.
Parece-me que não podemos ir muito longe se não superarmos essa etapa
que deveria ser a primeira a ser percorrida. Temo ainda que levar em conta
97
que estamos condicionadas pela sociedade para que sejamos inimigas.

Num texto publicado no jornal Torchon brûle, pelas “feministas revolucionárias”,


afirma-se a necessidade de romper com “nossos reflexos de oprimidos” e desenvolver “nossa
solidariedade de mulheres, o que chamamos de nossa consciência feminista”, que implicaria a
“rejeição da sociedade do macho (mâle)”.98 Essa “consciência política” que não poderia ser
guardada em nenhuma “gaveta” e que pode “mudar muita coisa”.99 Poderíamos aqui
multiplicar os exemplos de textos feministas que apontam para o poder divisionista das

96
[Panfleto] Solidaires de nos soeurs avec qui nous sommes sur le chemin du ‘sés honneur’, outubro de 1970.
Reproduzido em COLLECTIF. MLF. Textes premiers. Paris: Stock, 2009, p.87.
97
Ana Tegui. Testimonio: soy una mujer más. Nosotras,n.7, julho de 1974.
98
Féministes Révolutionaires. Torchon brûle n.5, s.d., p.9 [data aproximada: primeiros meses de 1973].
99
Idem.
93

disposições sociais herdadas e insistem no caráter contra-inercial (ativo) da construção da


“consciência” e da solidariedade das mulheres.

Para superar essas dificuldades seria necessário forjar uma “consciência


feminista” na medida em que a naturalização da opressão não conduz espontaneamente a ela.
Há, inclusive, teorizações acerca de como se constrói tal consciência, como encontramos, por
exemplo, em Annie e Anne, que concebem esse processo como um movimento ascendente,
por etapas. Tendo como base os argumentos de James Baldwin em relação ao movimento
negro, escrevem:
Cada feminista vive também essas três etapas de tomada de consciência, a
humilhação, a recusa de se reconhecer em outras mulheres e, enfim, a
reinvindicação de sua identidade (...) Cada vez mais mulheres se encontram
pelo mundo se revoltando contra aquilo que o que fez delas o mundo dos
homens.100

Encontrar outras mulheres com uma experiência de opressão similar,


desnaturalizar tal opressão e transformá-la em fator de luta coletiva foram elementos
fundamentais do que era conhecido como uma tomada de consciência feminista. Esse
processo permitia ir além do aspecto mais fenomênico e individual dessa opressão,
apreendendo seu caráter sistêmico e a necessidade de um combate coletivo para sua
superação.
Quando 25 milhões de mulheres têm o mesmo problema, ele deixa de ser
individual. Deixemos de olhar as outras mulheres como rivais. Pois nós
estamos submetidas a uma opressão comum, nós temos interesses comuns.
Sejamos solidárias. Ajamos conjuntamente. Sugerimos que em todo lugar
onde haja mulheres elas façam reuniões para esse trabalho político de
tomada de consciência.101

Essa “tomada de consciência” foi um elemento importante nas práticas e reflexões


de diferentes grupos feministas. Ela deveria ocorrer a partir do contato com outras mulheres,
nas reuniões, assembleias. Mas, algumas atividades específicas foram concebidas para
promovê-la, como os grupos de autoconsciência, chamados nos EUA de consciousness-
raising groups. Pequenos grupos partiam das experiências pessoais e cotidianas das mulheres,
compreendendo que, por meio de processos de tradução e comparação recíprocas dessas

100
Annie e Anne. Lutte des femmes et révolution. Les femmes s’entêtent. Paris: Gallimard, 1975, p.271.
101
Contre le terrorisme male . L’idiot international, juillet aout 1970.
94

experiências, poderia emergir a percepção de uma opressão comum e de uma identidade que
superasse as suas “experiências atomizadas e fragmentárias”.102

Sarachild foi uma das primeiras a propor atividades desse gênero nos EUA. Alice
Echols identifica as origens dessa ação no quadro do New York Radical Women103, onde o
termo foi cunhado. A técnica, no entanto, teria surgido a partir de outras experiências:
As a civil rights worker in Mississippi, Sarachild knew that the sharing of
personal problems, grievances, and aspirations could be a radicalizing
experience. In a 1973speech, she explained “[w]e organizers the practice a
number of us had learned in the civil rights movement in the Wouth in the
early 1960’s’. The proponents of consciousness-raising took their inspiration
front the Chinese revolution when peasants were urged ‘to speak pains to
recall pains’ and from the revolutionary struggle in Guatemala where
guerillas used similar techniques. 104

Juliet Mitchell evoca também a influência da Revolução Cultural. O conceito


de “criação de consciência” seria uma nova interpretação da prática revolucionária chinesa
denominada “expressando amarguras”, uma reinterpretação marcada pela experiência das
práticas “psicoterapêuticas” e por uma configuração de classe diferente. Essa prática difundiu-
se por diferentes países, assumindo contornos diversificados.

As “feministas revolucionárias”, uma das orientações presentes no MLF,


promoveram, desde o verão de 1970, atividades desse tipo. O objetivo não era fazer uma
atividade de “psicanálise selvagem ou de grupo” ou uma “terapia de grupo”, mas
“desenvolver laços entre as mulheres, ver que todos os problemas das mulheres são nossos
problemas”.105 Diversos pequenos grupos desse gênero foram formados por essa tendência do
movimento e constituíam também parte de uma estratégia de organização sob novos termos,
sem hierarquias:
Os pequenos grupos nos parecem uma estrutura que permite chegar à
formação de um movimento de massa das mulheres, limitando ao máximo os
riscos de tomada de poder e de controle. Eles permitem às mulheres
confrontar sua experiência pessoal e, assim, tomar consciência claramente
que a opressão a qual ela está submetida individualmente é uma opressão
coletiva. Nesses grupos, as mulheres rompem o isolamento, aprendem a
falar, a se escutar, a se aceitar, a se amar, transformando assim as relações

102
ROWBOTHAM, Sheila. A conscientização da mulher no mundo do homem. Rio de Janeiro: Globo, 1983, p.
74.
103
“The New York groupe included a number of the mouvement’s most significant thinkers-women livre. Kathie
Sarachild, S. Firestone, Anne Koedt, Kate Millet, Robin Morgan, and Ellen Willis”. ECHOLS, Alice. Daring to
be bad.Op. cit ., p.74.
104
ECHOLS, Alice. Daring to be bad.Op. cit, p.83-84.
105
Féministes Révolutionaires. Torchon brûle n.5, s.d.[data aproximada: primeiros meses de 1973].
95

que as oprimidos têm entre elas nessa sociedade e em relação a elas


próprias.106

Uma questão que nos interessa particularmente é como movimento nomeou e


teorizou essa “opressão”. Seria uma opressão, uma exploração, uma dominação, uma
alienação? As mulheres seriam uma classe, uma raça, uma casta? As reflexões em torno da
questão partiam de algumas das análises já existentes sobre a exploração de classe, sobre o
racismo, etc. As analogias com o racismo, com a situação das colônias e com a exploração de
classe foram frequentes e marcam as primeiras tentativas de teorização do movimento.
Recorreu-se frequentemente também ao vocabulário marxista (classe, modo de produção,
etc.). São etapas de uma reflexão coletiva de um movimento que procurava teorizar uma
situação vivida. Essas questões serão abordadas no capítulo 3 “Teorizando a opressão”.

Diversas seriam as temáticas abordadas pelo movimento. Não é possível retomar


aqui essas inúmeras discussões. Limitar-nos-emos a elencar alguns em torno dos quais foram
organizadas mobilizações de maior fôlego.

Para Françoise Picq, o tema central mobilizador do MLF era a liberdade de dispor
do próprio corpo, resumido na palavra de ordem “Nosso corpo nos pertence”, largamente
utilizada. Grandes mobilizações em torno dessa temática foram um elemento fundamental
desse movimento na primeira metade da década de 1970. Elas se baseavam na ideia de que
“não há liberdade para as mulheres sem livre disposição de seus corpos”.107 “Nosso corpo nos
pertence” afirmam, “não pertence nem ao Papa, nem a Debré108, nem aos publicitários, nem
ao nosso marido, nem a nenhum homem”. Essa luta exige a total liberdade para aborto e
contracepção. O aborto constituiu um tema fundamental nos primeiros anos do movimento.

A luta pela legalização do aborto tem uma história que remonta à França dos anos
1960109, com a fundação da associação Maternité Heureuse que se transformaria no Planning
Familial. Não se trata de uma luta conduzida somente pelo MLF, mas também por grupos
como MLAC (Mouvement pour la liberté de l'avortement et de la contraception), Choisir e Le
Planning Familial. Em 5 de abril de 1971 a revista Nouvel observateur publica o manifesto
das 343 mulheres declarando terem abortado – que o jornal satírico Charlie Hebdo batizaria

106
Féministes Révolutionaires. Torchon brûle n.5, s.d. [data aproximada: primeiros meses de 1973].
107
PICQ, Françoise. Libération des femmes. Op. cit., p. 85.
108
Michel Debré era à época ministro de Estado encarregado da defesa nacional.
109
Para mais informações sobre os mais de 20 anos de luta por essa causa ver: PAVARD, Bibia. Si je veux,
quand je veux. Contraception et avortement dans la société française (1956-1979), Rennes: PUR (collection
Archives du féminisme), 2012.
96

das 343 sallopes (putas) – e que se tornou um manifesto símbolo da luta pela legalização do
aborto.

Podemos indicar como momentos importantes desse combate, além da publicação


desse manifesto, as grandes manifestações e o processo de Bobigny (processo de 1972, que
ganharia difusão mediática, contra cinco mulheres que realizaram um aborto e foram
defendidas por Gisele Halimi). Em 1975, uma primeira vitória seria conquistada, a aprovação
de uma lei, chamada de Loi Veil, válida por um prazo de cinco anos, que autorizava a
interrupção da gravidez, ainda que com restrições. Tal lei volta a ser discutida em 1979,
gerando grandes manifestações de rua e é finalmente adotada de forma permanente em
novembro de 1979.

Na pauta da livre disposição dos corpos, outros temas foram debatidos, entre eles
o sentido da revolução sexual para as mulheres e a violência, entre elas o estupro. A
“libertação da sexualidade” dos entraves impostos por uma sociedade repressora constituía
um tema importante, na esteira dos debates que marcaram a década anterior. O MLF se
posiciona pela “libertação sexual e contra todos os tabus”.110 Denúncias ao mito do orgasmo
vaginal e à frigidez feminina assim como a afirmação da necessidade de uma redefinição da
sexualidade, que não passe pela procriação obrigatória, pela satisfação exclusivamente dos
desejos masculinos e pela heterossexualidade obrigatória se impõem para o movimento.

Esse tipo de crítica vai de encontro a uma concepção de libertação sexual


propagada por alguns homens. Um número do jornal maoísta Tout! dá fôlego ao debate sobre
o que significa uma revolução sexual numa perspectiva feminista. Visões diferentes se
afrontam sobre o que seria uma tal libertação sexual e algumas feministas, contra o que
consideravam uma visão patriarcal dessa revolução, afirmam: “A libertação sexual de vocês
não é a nossa”.

A questão do estupro já aparece no número de Partisans diversas vezes evocado.


Uma palavra de ordem que sintetizaria a banalização da violência sexual contra as mulheres é
“Quando uma mulher diz não, é não”. A questão ganha preeminência e o centro de algumas
mobilizações, a partir do processo contra três homens acusados de estuprar duas mulheres
num camping próximo de Marselha em 1975. As mulheres seriam defendidas pela advogada
Gisèle Halimi e diversas ações em torno da temática ganham força a partir desse momento,

110
PICQ, Françoise. Libération des femmes. Op. cit., p.129.
97

como Dix heures contre le viol (Dez horas contra o estupro), em junho de 1976. A lei sobre o
estupro é finalmente alterada em 1980.111

A denúncia do trabalho doméstico gratuito que recai exclusivamente sobre as


mulheres é um outro tema fundamental. Desde os primeiros documentos produzidos pelo
movimento, podemos encontrar a denúncia desse trabalho realizado de forma praticamente
exclusiva por mulheres, não remunerado e não reconhecido como trabalho. Uma das
primeiras aparições públicas do movimento já estava ligada à temática: tratava-se de um
movimento de solidariedade à greve chamada por militantes estadunidenses em agosto de
1970. Em diversos outros panfletos e textos do movimento, essa questão ocupa um lugar
central. Para Kergoat, não seria a luta pela legalização do aborto que teria marcado o início
das mobilizações feministas dessa década mas as reivindicações relacionadas ao trabalho
doméstico.112

No panfleto On n’appelle pas ça du travail (Não se chama isso de trabalho)


podemos visualizar o teor dessas primeiras denúncias por meio da listagem de diversas
atividades domésticas realizadas gratuitamente pelas mulheres no seio da família, as quais não
são reconhecidas como trabalho. A partir dessa lista elas lançam a questão:
Se isso é amor
Se isso é família
Transformemos isso
O amor não deve ser escravidão.113

Em torno dessa temática são organizadas, por exemplo, ações contra o dia das
mães – “Comemoradas um dia, exploradas todo o ano” era o mote –, uma greve das mulheres
em 1973, tendo por objetivo a paralização de todos os trabalhos realizados por mulheres.

O movimento tem o seu auge entre 1970 e 1973. Nestes anos, apesar das
divergências, este conseguia manter uma certa unidade. A partir de 1974, segundo Picq, o
movimento entra numa nova fase, na qual as divergências vão levar a uma certa
fragmentação, visível, por exemplo, na multiplicação da imprensa. Um jornal unificado como
o Torchon brûle não era mais possível.

111
Ver: PICQ, Françoise. Libération des femmes. Op. cit., cap. 20 “Ras le viol”.
112
KERGOAT, Danièle. Divisão sexual do trabalho e relações sociais de sexo. In: HIRATA, Helena. LABORIE,
Françoise et. al. Dicionário Crítico do feminismo. São Paulo: Editora UNESP, 2009, p. 68.
113
[Panfleto] “On n’appelle pas ça du travail ” s.d. Recueils BnF.
98

Diálogos transatlânticos

Nos anos 1990, alguns debates, entre eles sobre o uso do conceito de gênero e
sobre o “politicamente correto”, ambos considerados como uma importação dos Estados
Unidos, trouxeram para o debate político e teórico a ideia de “singularidade francesa” 114 e
algumas tentativas de “nacionalização” de conceitos e perspectivas, como nos mostra
Cornelia Moser.115 Mas, nos anos 1970, não há uma defesa de “especificidade nacional” ou a
recusa em utilizar determinados conceitos porque foram produzidos em outro país. Na
verdade, o movimento se pretende internacional e contra uma opressão que, apesar das
variações, seria universal. Nos documentos do MLF podemos encontrar diversos elementos
dessas trocas, particularmente com os Estados Unidos. Contudo, para Ezekiel e Gaslter116, a
influência do feminismo estadunidense é pouco reconhecida nos trabalhos sobre tema. Para
Galster, seria uma ocultação extremamente problemática dado que “a maioria das feministas
praticariam fundamentalmente o que elas haviam aprendido nos Estados Unidos”.117
Consideramos um exagero tal ideia. O feminismo francês apropriou-se de determinados
conceitos elaborados nos EUA, traduziu textos e categorias gestadas do outro lado do
Atlântico, mas, ao mesmo tempo, formulou, a partir de um contexto político, teórico e
intelectual particular, um feminismo que não pode ser caracterizado simplesmente como uma
replicação do woman’s liberation estadunidense.118 Neste item, o objetivo é mostrar algumas
dessas trocas transatlânticas.

É importante lembrar que a chamada “segunda onda” feminista toma corpo na


França a partir de 1970, três anos depois das primeiras manifestações do chamado women’s
libération mouvement. Antes da emergência do MLF, notícias sobre o movimento
estadunidense aparecem na imprensa francesa, como na revista Le nouveau observateur. Na

114
Para debates sobre a ideia de “singularidade francesa” ver OZOUF, Mona. Les mots des femmes. Paris:
Fayard, 1995, o dossier “Femmes: une singularité française ? ”. Le Debat, n.87 (nov.-dez 1995) e BADINTER,
Elisabeth . Rumo equivocado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
115
MÖSER. Cornelia. Feminismes en traductions. Op. cit.
116
EZEKIEL, Judith. Anti-féminisme et anti-américanisme: um mariage politiquement réussi. Nouvelles
Questions Feministes. vol. 17, n.1, 1996 ; e GALSTER, Ingrid. Les chemins du féminisme entre la France et les
Etats-Unis. In: RACINE, Nicole; TREBITSCH, Michel (org.). Intellectuelles. Du genre en histoire des
intellectuels. Bruxelles: Complexe, 2004.
117
GALSTER, Ingrid. Les chemins du féminisme entre la France et les Etats-Unis. In: RACINE, Nicole;
TREBITSCH, Michel (org.). Intellectuelles. Du genre en histoire des intellectuels. Bruxelles: Complexe, 2004,
p. 251.
118
As disputas em tornos de teorias “nacionais” pertencem a outro momento histórico, particularmente os anos
1990, e estão relacionadas, em grande medida, à controvérsia sobre o conceito de gênero e sobre a categoria
french feminism.
99

lembrança de algumas daquelas que viveram esse período, o feminismo parecia algo que
dificilmente chegaria à França. Sobre isso, Beauvoir comenta:

In 1969 we first heard of the American women’s liberation movement, and


this exciting news bolstered the few scattered French feminists in their
determination that is was possible to build a movement of their own. In the
French political climate of that time, such an idea was anathema to all men
and event to most of women.119

Esse ceticismo sobre a possibilidade de emergência de um movimento do mesmo


tipo na França aparece também em outros relatos, como na Plataforma do Cercle Dimitriev:
O mínimo que se pode afirmar é que o MLF surpreendeu todo mundo.
Conhecíamos os movimentos americanos e pensávamos que esse grito de
revolta não chegaria até o Velho Continente. Podíamos admitir que as
mulheres se organizassem em massa nos partidos tradicionais ou nos
grupúsculos mas não como movimento autônomo composto somente por
mulheres. 120

Esses relatos chamam a atenção para o fato de que o movimento estadunidense


não passou despercebido no cenário francês e, certamente, contribuiu para a construção do
imaginário social que precedeu a emergência do MLF. Em alguns textos dos primeiros anos
do MLF essa relação é ressaltada. Colette Audry fala de um “jovem MLF à imagem do
movimento americano”.121 Godchaud considera que o “precedente americano marca
profundamente, para o melhor e o pior, o que começa a se fazer em outros lugares, na França
principalmente, sem que seja sempre levado em consideração as especificidades políticas
nacionais”.122 Outros relatos registram essa identificação. Esta foi, inclusive, um dos motes da
crítica da esquerda ao movimento. O antiamericanismo, bastante presente em setores de
esquerda francesa, era aqui usado como uma forma de criticar o feminismo. Sylviane Mercier
expõe de forma caricatural essa posição num artigo de Partisans: “Mas quais referências
teóricas efetivamente? Quais análises concretas para dar vida ao movimento? Uma vez mais,
em nome do quê se assenta a autonomia do movimento na França? Em nome do exemplo

119
BEAUVOIR, Simone de. France: Feminism – Alive, Well, and in Constant Danger. In: MORGAN, Robin.
Sisterhood is Global. The International Women’s Movement Anthology. Garden City, Nova York: 1984.
120
Plate-forme du Cercle Dimitriev apud COLLECTIF. MLF textes premiers... Op. Cit., p. 144.
121
AUDRY, Colette. Les pièces du dossier. Après demain, n.140, janeiro 1972, p. 4. Fundo Colette Audry,
BMD.
122
GODCHAUD, J.F. Introduction: de noveau sur la libération des femmes. Partisans n.57, jan.-fev. 1971, p.64.
100

americano!”.123 Num sentido similar, o jornal trotskista Rouge critica a importação de


modelos que não corresponderiam às tradições políticas francesas:
A analogia do MLF nesses países onde a radicalização passa pelas camadas
periféricas com falta de tradição marxistas revolucionárias e de um
movimento operário realmente organizado a partir de posições de classe, não
pode, de forma alguma, servir como fundamento para a criação de um
movimento de mulheres de massa autônomo na França.124

Esse tipo de argumento seria retomado em outros contextos para criticar a


importação de um certo feminismo ou de ideias vindas dos Estados Unidos. Mas, no seio do
movimento, esse tipo de argumentação não tinha eco.

A primeira ação pública do movimento foi em solidariedade a uma greve chamada


por feministas estadunidenses. A revista Le nouvel observateur de 31 de agosto de 1970,
poucos dias após o ato no Arco do Triunfo, descreve esse movimento de “solidariedade às
mulheres americanas”.125 O nome do movimento viria igualmente de uma analogia com o
woman’s liberation mouvement, segundo Françoise Picq e outras autoras. Essa visão é,
entretanto, contestada pela militante do FMA e posteriormente do MLF, Emmanuelle de
Lesseps, que recorda discussões acerca do nome do grupo antes que ele fosse batizado pela
imprensa.

No seio do MLF, as referências ao movimento de libertação nos EUA e à sua


literatura são frequentes nos primeiros anos. Em Partisans, diversos textos foram traduzidos.
Elas afirmam que se inspiraram amplamente nos artigos publicados em Notes from the Second
Year: Women’s Liberation e esperavam que a tradução de artigos das feministas radicais
fornecesse um “um ponto de partida para uma reflexão feminista entre as francesas cujos
problemas são similares ao das americanas”.126 Entre as referências, constam diversos nomes
de feministas desse país.127 Posteriormente, outros textos seriam traduzidos e publicados nos
jornais e revistas do MLF mas também na imprensa de esquerda. Antes mesmo das primeiras

123
MERCIER, Sylviane. La foire à la libération. Partisans n.57, jan.-fev. 1971, p. 41.
124
HEDIN, Anne. Pour l’avortement libre et gratuite. Rouge, n.109, 12/04/1971, p. 6.
125
Le nouvel observateur 31 de agosto de 1970, p.18. “En solidarité avec les femmes américaines et pour mettre
l’accent sur leurs propres problèmes, un “ mouvement de Libération des femmes ” a été créé en France. Il dit
avoir trois mille adhérentes. Une délégation de ce mouvement a déposé mercredi dernier une gerbe à l’Arc de
Triomphe ”.
126
QUELQUES MILITANTS. Présentations. In: Partisans (Libération des femmes. Année zero), n.54-55, julho-
outubro de 1970, p. 7.
127
Na bibliografia de textos sobre o tema arrolada no final desse número especial, há um tópico de literatura
sobre a liberação das mulheres nos Estados Unidos, em que constam diferentes títulos que poderiam ser
encontradas na seção “Femmes” da livraria da editoira Maspero La Joie de Lire. Partisans (Libération des
femmes. Année zero), n.54-55, julho-outubro de 1970, p.246.
101

manifestações públicas do movimento em agosto de 1970, algumas atividades de tradução já


eram planejadas:
Haverá neste verão em Paris diversos grupos de trabalho que se encarregarão
de traduzir alguns textos do movimento de libertação das mulheres
americanas, inglesas, alemães e outras.
Haverá grupos de estudos e discussão
Haverá um ou diversos grupos que tentarão tenteront colocar em prática um
teatro guerrilha.128

La dialectique du sexe. Le dossier de la révolution féministe de Firestonen é


traduzido em 1970. La politique du mâle de Kate Millet e SCUM Manifesto de Valerie
Solanas o foram em 1971. Os livros obviamente circulavam também em inglês, mas a
tradução é um indício de um maior esforço de difusão de alguns desses textos.

Não há nesse momento uma defesa da “especificidade nacional” por parte do


movimento.129 Essa questão nem mesmo parece fazer sentido. Ao contrário, são, sobretudo, as
semelhanças entre a situação vivida por mulheres em diferentes contextos e suas lutas que são
ressaltadas. Os escritos circulavam sem ressalvas em relação à nacionalidade. O que
provocava clivagens era, fundamentalmente as divergências em termos de orientações
políticas.

Não temos elementos para analisar as trocas no sentido inverso. A questão


linguística não pode ser subestimada. Os textos em francês, sem tradução, tinham, nos
Estados Unidos, certamente um público restrito. Além disso, as traduções para o inglês das
feministas francesas não parecem ter sido frequentes. Para Duchen, muitos textos franceses
tiveram maior difusão entre círculos próximos de departamentos universitários de francês, nos
quais os aspectos literários, linguísticos e filosóficos constituíam o foco.130 Uma das primeiras
antologias de textos feministas franceses foi publicada nos EUA só em 1980 French
Feminism. A partir de 1980 Feminist Issues traduziu diversos textos publicados originalmente
na revista Questions féministes. Em 1987 Claire Duchen organizaria uma coletânea publicada
na Inglaterra French connections.131

128
L’idiot international , julho-agosto de 1970.
129
Para debates mais recentes sobre a ideia de “singularidade francesa” ver OZOUF, Mona. Les mots des
femmes. Paris: Fayard, 1995, o dossier “Femmes: une singularité française ? ”. Le Debat, n.87 (nov.-dez 1995) e
BADINTER, Elisabeth . Rumo equivocado. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2005.
130
DUCHEN, Claire (org.) French connections. Op. cit Idem, p. 11.
131
DUCHEN, Claire (org.) French connections. Op. cit.
102

Tendências no movimento: problematizações

Estabelecer uma “taxonomia” do movimento feminista envolve diversas


dificuldades. Os riscos de homogeneização e de simplificação são numerosos. Identificar
“tendências” ou “correntes” não constitui tarefa fácil dado o caráter cambiante dessas
etiquetas. Diversos são também os problemas de atribuição e auto-reivindicação. O sentido
que vão ganhar algumas dessas etiquetas como “radical” “socialista”, “materialista” varia
segundo o contexto histórico, geográfico mas também em relação ao interlocutor e locutor.
Essas taxonomias devem ser usadas com cautela e não podem servir para fixar algo que está
em constante movimento.

No contexto francês, o movimento feminista é pensado frequentemente a partir de


uma divisão tripla: “feminismo revolucionário”, “psicanálise e política”, “feminismo luta de
classes”. Apesar das limitações e problemas deste tipo de abordagem, apresentaremos, neste
momento do texto, para fins didáticos, algumas ideias chaves que marcaram a reflexão dessas
“tendências” cujos contornos e historicidade serão, posteriormente, problematizados ao longo
desta tese.

Uma das tendências que nos interessa particularmente é o “feminismo


revolucionário”. Ela estaria na base do chamado “feminismo materialista”. Segundo Françoise
Picq, não há propriamente uma “tendência” feminista revolucionária, nem mesmo um grupo
regular. Esta se constitui mais como corrente de pensamento, de limites imprecisos e
variáveis.132 Algumas das ideias compartilhadas era a luta prioritária contra o patriarcado e
contra a subordinação da mulher pelo trabalho doméstico. Havia um gosto por ações
espetaculares. São principalmente desta “tendência” as manifestações públicas que marcaram
o surgimento do MLF assim como outras ações como a “Journées de dénonciation des crimes
contre les femmes” (1972), a Greve das Mulheres (1974) entre outras.133

Segundo o texto Féministes révolutionnaires publicado no jornal Le torchon brûle


n°5, as “feministas revolucionárias” surgem numa assembleia geral do movimento em 1970.
“Fala-se muito das Feministas Revolucionárias no Movimento” afirmam; entretanto, aquelas
que recebem a etiqueta não se reivindicam necessariamente dessa forma “há entre as ditas
“F.R” tantas opções que é difícil falar de uma ‘linha geral’”. Um elemento unificador é a ideia
de que o feminismo quer dizer “para as mulheres e com todas as mulheres ”, isto é, que

132
PICQ, Françoise. Libérationdes femmes.Op. cit, p.249.
133
Ibidem, 251.
103

haveria um “nós mulheres ”, algo em comum a partir do qual deveria se constituir o


movimento, o que implicaria não excluir nenhuma mulher134. “Revolucionário” era
apresentado como sinônimo de “radical ”. O grupo recusa a ideia de lutas principais e
secundárias, contradição principal e secundária: não haveria “a opressão” mas sim “opressões
múltiplas, combinadas, todo mundo ao mesmo tempo opressor e oprimido”135. Esse ponto
constituiria uma crítica importante às organizações de esquerda, que subsumiam a opressão
feminina nas relações de classe e deslegitimavam a necessidade de um movimento autônomo:
Nós que não viemos de grupos ditos revolucionários ou que rompemos com
os mesmos, pensamos que somos no Movimento não para nos organizar
enquanto força de apoio à revolução dos homens (para isso é suficiente de ir
a um grupo esquerdista) mas para nos liberar de nossa exploração principal e
primordial.136

Essa exploração principal e primordial seria o patriarcado, cuja base seria o


trabalho doméstico gratuito. Esse ponto seria uma das principais divergências em relação a
posições tomadas por organizações de esquerda. Essa polarização é apresentada, de forma
esquemática, segundo as próprias autoras do texto, como: de um lado uma orientação para a
qual a luta das mulheres é um “aspecto marginal da luta de classes, considerada como
principal” e do outro, uma posição, com a qual se identificam que:
questiona todos os aspectos da sociedade global (na qual se insere à
exploração de classe), assim como o caráter privilegiado da luta
anticapitalista. Dois sistemas de exploração coexistem, o mais antigo
determinando o outro. 137

Não há por parte do feminismo revolucionário uma negação das desigualdades de


classe. Elas se localizam claramente numa perspectiva anticapitalista. Entretanto, consideram
que haveria um sistema patriarcal, que seria mais antigo que o capitalismo e determinaria este
último, e que o feminismo seria uma forma de provocar um questionamento desses dois
sistemas.

A tendência luta de classes começa a se constituir no interior dos grupos de bairro


e do Cercle Elisabeth-Dimitriev. Este grupo, segundo Françoise Picq, foi criado em maio de
1971 por mulheres do grupo trotskista Alliance Marxiste Révolutionnaire (AMR)138. Segundo
o relato de uma das militantes dessa organização, Corine, esta idéia partiu de mulheres que

134
Ibidem.
135
Féministes Révolutionaires. Torchon brûle, n.5, s.d., p.8 [data aproximada: primeiros meses de 1973].
136
[Panfleto] Pour un groupe feministe revolutionnaire (1971).
137
Idem.
138
PICQ, Françoise. Libération des femmes...Op. cit., p. 280.
104

tinham ido individualmente às reuniões do MLF e posteriormente do MLA (Mouvement pour


la liberte de l’avortement) e, diante da abertura da AMR para os movimentos sociais”139,
formaram o tal Círculo. Essas militantes lançam em maio de 1972 uma plataforma “Sortir de
l’ombre”140 na qual ressalta-se a necessidade de se construir um movimento de libertação das
mulheres a partir de uma concepção “alternativa àquelas propostas pelas correntes dominantes
do feminismo radical”.141 Nessa plataforma, há uma defesa da autonomia do movimento
feminista mas ao mesmo tempo a ideia de que a luta feminista deve estar articulada à luta pelo
fim do sistema capitalista. A revolução não seria, entretanto, um fator suficiente para o fim da
opressão – “É por isso que proclamamos a necessidade de um movimento de mulheres, antes,
durante e depois da revolução.”142 – e a ideia de dupla militância, no movimento feminista e
numa organização de esquerda.143 Uma crítica recorrente dos grupos identificados como “luta
de classes” é em relação à forma de organização do MLF, como veremos no próximo item.

Para Picq, as mulheres ligadas a organizações revolucionárias conhecem o


feminismo através principalmente do MLAC. Essas militantes não teriam passado pelas
“rupturas fundadoras”144 do MLF e muitas não conseguem abandonar completamente
algumas posições de suas organizações. Muitas dessas militantes levariam para suas
organizações questionamentos e isso teria impacto em muitas delas. A relação dessas
militantes com suas respectivas organizações e com o movimento feminista era
frequentemente conflituosa pois elas permaneceriam “divididas entre lógicas contraditórias de
um Movimento reivindicando sua autonomia e uma organização postulando sua direção”.145
Essa posição gerava uma difícil contradição pois elas seriam acusadas de defender o partido
dentro do movimento e, por outro lado, dentro das suas próprias organizações eram olhadas
com suspeição por privilegiar as mulheres.146

Por fim, cabe analisar brevemente a configuração da tendência “Psicanálise e


Política”. Segundo Picq, o grupo, cujas primeiras reuniões ocorrem ainda durante o maio de
1968, é formado inicialmente por militantes maoístas da Vive la Revolucion (VLR) e da
Gauche Prolétarienne (GP). O objetivo principal do grupo seria, segundo Guadilla, “articular

139
CORINE. Je suis une effreuse renégate...Les temps des femmes n.12, été 1981.
140
Ver também: 10 ans de luttes des femmes. Cahiers du féminisme, n.3, março 1978.
141
CERCLE DIMITRIÈV. Brève histoire du MLF. Pour un féminisme autogestionnaire. Paris: Savelli, 1976,
p.5.
142
CERCLE DIMITRIÈV. Brève ... Op. cit, p.63.
143
GUADILLA, Naty. Libérations des femmes le M.L.F. Paris: PUF, 1981, pp.48-49.
144
PICQ, Françoise. Libération des femmes. Op. cit., p. 287.
145
Ibidem, p. 288.
146
Ibidem, p. 288.
105

a psicanálise e o discurso político do materialismo histórico”.147 Preferindo a reflexão e


trabalho teórico ao ativismo e às ações consideradas espetaculares148, este seria responsável
pela criação da editora Des femmes em 1973. Essa editora publicaria o jornal Le Quotidien
des Femmes, uma revista mensal Des femmes en mouvements e dezenas de livros feministas
ou sobre a mulher escritos na França ou traduzidos. Entretanto, poucos são os traços escritos,
sobretudo nos primeiros anos do movimento, dessa “tendência”/grupo. As primeiras
divergências com as chamadas feministas revolucionárias eram sobretudo em relação à
possibilidade de estruturar um movimento com mulheres pertencentes a diversos extratos
sociais e a possibilidade de postular uma opressão comum para o conjunto dessas mulheres.
Posteriormente seria fundamentalmente a questão da “diferença sexual” que emergiria como
tema de polarização. Elas propunham uma revalorização do feminino “persuadidas que este
existe, em si, mas que ele é negado, censurado”.149. Nas palavras de Kandel, o grupo
Psicanálise e Política seria o “polo do diferencialismo militante”.150

O grupo insiste nas diferenças profundas que separam homens e mulheres,


situando tal diferença na biologia: “O que faz a força, a satisfação das mulheres: produzir a
vida”151; “A usina aos operários, os úteros às mulheres; a produção do vivente nos
pertence”.152 O feminismo seria um freio, um impasse diante da busca e valorização dessas
diferenças. Por isso não só não reivindicavam o feminismo153 como o consideravam “a última
forma histórica do patriarcado”154. Definiam-se como “mulheres em movimento”, “mulheres
em luta”. No livro sobre história do feminismo publicado pela editora ligada ao grupo, elas
explicam o porquê da não inclusão do grupo nessa obra. O feminismo é considerado como a
“contra-face do velho, do humanismo, e é recusado”155 e representaria uma busca por mais

147
GUADILLA, Naty. Libérations des femmes le M.L.F. Paris: PUF, 1981, p. 50
148
PICQ, Françoise. Libération des femmes. Les années-mouvement. Paris: Seuil, 1993. p.125.
149
PICQ, Françoise. Un homme sur deux est une femme. Les feministes entre égalité et parité (1970-1996). Les
Temps modernes. n.597, abril-maio 1997, p.222.
150
KANDEL, Liliane. Sur la différence des sexes et celle des féminismes. Les Temps modernes, n.609 (junho-
julho-agosto 2000).
151
Des femmes en mouvements –hebdo n.1, 9/11/1979, p.23 apud KANDEL, Liliane. Sur la difference des sexes
et celle des féminismes. In: Les Temps modernes, n.609 (junho-julho-agosto 2000).
152
Des femmes en mouvement apud KANDEL, Liliane. Sur la difference… Op. cit.
153
“Nós as mulheres do MLF que não nos definimos como feministas”. Le Torchon Brûle n. 4 apud
GUADILLA, N. Libérations des femmes… Op. cit., p. 38.
154
Le Quotidienn des Femmes, n.2 apud GUADILLA, Naty. Libérations des femmes… Op. cit., p. 38.
155
“D’un geste politique délibéré nous avons voulu ne pas figurer dans cette Histoire du Féminisme ; necessaire
et cependant utilile la publication de ce passif.
Histoire du Féminisme qui ainsi, ici, se détermine à remarquer en son envers l’autre-contre face du vieu,
l’Humanisme, celle qui du discours du fils (la fils) nascissique ne prend effet d’écriture qu’á dénier, refouler,
censurer pour l’exploiter, le lieu forclos, désormais incontournable, du corps de la mère.
106

espaço na sociedade existente, mais participação no poder masculino, o que por elas era
recusado em nome de um poder que não seria nem simétrico, nem inverso ao poder
masculino:
O poder das mulheres não é um poder legal, patriarcal, sádico, pederasta, de
representação, de chefe, de nome, de estupro, de repressão, de ódio, (...) de
ideias abstratas. É um (não) poder matricial, de engendramento, de expensas
de caos, de diferenças, de liberdades coletivas, de abertura, de corpos
(plural), de reconhecimentos, de anulação de censuras, de prazeres, de fora
156
da lei, um poder-agir-pensar-fazer-para/por todas, todos.

Mas, a oposição a essa tendência não era somente de ordem teórica. A forma
como o grupo “Psicanálise et Politique” se estruturava, a relação de suas militantes com
Antoinette Fouque era também alvo de críticas.

Deve-se ressaltar que a ideia de um movimento compartimentado em tendências


foi recusada por amplos setores do MLF e os riscos de simplificação ressaltados em diversos
trabalhos, entre eles por Françoise Picq e Dominique Fougeyrollas-Schwebel 157. Para Picq
“acentuar as tendências em detrimento dos grupos, projetos, formas de luta, temas de reflexão,
é enclausurar o movimento em esquemas que este justamente escapou. É dividir aquilo que se
mistura”. 158 Para Fougeyrollas-Schwebel159 a historiografia teria dado demasiada importância
à polarização entre Psicanálise e Política e feminismo radical (uma outra forma de denominar
o feminismo revolucionário), deixando de lado uma série de discussões e oposições.

Além disso, o que define essas correntes variou historicamente. A posição de


todas essas “tendências” sofreu alterações ao longo dessa intensa década de debates e lutas.
Com essas observações, gostaríamos de ressaltar as dificuldades em utilizar categorias que
foram forjadas em momentos precisos e no seio de combates políticos particulares. O sentido
atribuído a essa tendências varia historicamente e em consonância com o locutor e
interlocutor. Fixar um pensamento em movimento em categorias a-históricas leva a um
apagamento dessas nuances. Para nuançar algumas dessas categorizações, trabalharemos com
dois temas que provocaram grandes divergências: sobre uma identidade “mulheres” e sobre as
formas de organização adotadas pelo movimento.

Nous pratiques dans ce mouvement, sociales-politiques, théoriques na viendront jamais au même (quoique tant
veuillent s’y méprendre et coûte que coûte ces malentendus). Motif questionnant d’analyse, notre lieu,
imprenable » ALBISTUR Histoire du féminisme… Op. cit., p.477.
156
D’une tendance. Le torchon Brûle, n.3, s.d., p.18. [Torchon brûle n.3, s.d., p.5 [data aproximada: final de
1971 ou início de 1972].
157
Fougeyrollas-Schwebel, Dominique. Controverses et anathèmes au sein du féminisme français des années
1970. Cahier du genre, n.39, 2005; PICQ, Françoise. Libération des femmes...Op.cit.
158
PICQ, Françoise. Libération des femmes...Op.cit., p. 239.
159
Fougeyrollas-Schwebel, Dominique. Controverses et anathèmes... Op. cit.
107

Um “nós mulheres”?

“As mulheres formam, através das classes e das camadas sociais, um grupo
suficientemente homogêneo para poder falar de ‘reivindicações específicas’, de ‘movimentos
autônomos’?”, perguntava um grupo de esquerda num panfleto de 1970.160 Evelyne Le
Garrec, no mesmo sentido, se pergunta: “As mulheres formam realmente uma fronte unida e
homogênea? A opressão específica que pesa sobre uma grande burguesa, uma mulher de um
presidente de empresa e uma operária é a mesma? 161 Muitas seriam aquelas a questionarem a
possibilidade de conceber esse “nós”.

A construção de um “nós mulheres” não foi, assim, um processo óbvio e


desprovido de críticas e questionamentos. Não eram as diferenças de “raça” que eram
consideradas como um fator de divisão no contexto em questão mas o fator classe. Desde o
início do movimento podemos encontrar registros de divergências em relação a essa questão.
Christine Delphy rememora, em 1981, como as primeiras reuniões do movimento foram
marcadas por polêmicas em relação a essa questão:
Depois da aparição de um artigo em L’idiot international (1970), três grupos
isolados se encontraram. A clivagem se estabeleceu de imediato em torno da
questão de saber se as mulheres formam uma classe social. A posição
esquerdista (o pertencimento de classe se impõe em relação ao
pertencimento de sexo) era representada na época por um grupo em torno de
Antoinette Fouque. Nosso grupo se formalizou em meados de 1970 se
nomeando Feministas revolucionárias. Nós reivindicávamos o termo
‘feminista’ ao contrário de Antoinette. Posicionávamo-nos na extrema
esquerda mas contestando sua desconsideração do feminismo e seu modo de
funcionamento leninista.162

Para Anne Zelensky, essa questão deu origem a uma clivagem entre dois grupos:
os partidários da tese “FMA-Christine” e um outro em torno da figura de Antoinette
Fouque.163 Nas páginas da primeira publicação coletiva do movimento, o número especial de
Partisans, encontramos também esse tipo de divergência. De um lado, algumas militantes
afirmam: “As mulheres, sejam elas mulheres de burgueses, mulheres de operários ou
mulheres de negros, estão submetidas a uma opressão comum e específica, a opressão das

160
[Panfleto] Cercle Jeune Garde. La libération des femmes et la révolution. sem data. Fundo Anne Zelensky,
BMD.
161
Evelyne Le Garrec. Luttes de femmes luttes de classe. Politique Hebdo n.28, 11 mai 72.
162
CHRISTINE. Je ne vois pas porquoi un mouvement s’arreterait de grandir. Les temps des femmes, n.12, 1981,
p. 19.
163
PISAN, Annie de ; TRISTAN, Anne. Histoires du MLF, Op. Cit., p.52-53.
108

mulheres”.164 Outras se questionam sobre a possibilidade dessa união: “O que há de comum


entre a operária que da fábrica à casa é desprovida do seu tempo, e a burguesa que faz
compras em lojas de moda?”.165

Como vimos no item anterior, as chamadas “feministas revolucionárias” tinham


como eixo central a defesa dessa união. Feminismo, para essa corrente, queria dizer “para as
mulheres e com todas as mulheres”, isto é, que havia algo em comum a partir do qual partir
para construir um movimento que não excluísse nenhuma mulher, embora essa ideia não
implicasse uma adesão à definição de “classe das mulheres”, tal como defendido por Christine
Delphy no seu texto L’ennemi principal.

Mas, a constituição de um “nós”, para além das diferenças de classe, foi também
objeto de polêmica no seio do chamado “feminismo luta de classes”. Num documento
fundador dessa corrente, “Sortir de l’ombre”, lançado pelo Cercle Dimitriev, há a defesa de
um movimento unificado de mulheres pertencentes a diferentes classes sociais, sem negar
essas diferenças. Outros grupos combatem essa ideia, como, por exemplo, o Cercle Flora
Tristan, que lança “Sortir de l’ombre du féminisme bourgeois ” (Sair da sombra do feminismo
burguês), em novembro de 1973. A ideia de uma solidariedade de todas as mulheres é
considerada uma “ilusão”: “Deve-se combater a ideia de unidade de todas as mulheres que
conduz à redução do movimento aos objetivos mínimos que só podem satisfazer as mais
privilegiadas”.166

Les Pétroleuses se insurgem também contra a ideia de uma opressão que seria
comum à mulher burguesa e operária: “as vantagens que essa última retira do sistema
contribui para afastá-la do combate por sua libertação que passa pela Revolução socialista”.167
Um dos exemplos usados pelo jornal, mas que aparecem em outros textos, é a mobilização de
mulheres chilenas a favor do golpe de estado de setembro de 1973: “Não são nossas ‘irmãs’,
são nossas inimigas”168, afirmam.

Esses são somente alguns exemplos de divergências sobre a questão. Com isso, o
objetivo era mostrar que diferentemente de algumas leituras que consideram esse “nós” como

164
QUELQUES MILITANTS. Présentations. Partisans (Libération des femmes. Année zero), n.54-55, julho-
outubro de 1970, p. 3.
165
UN GROUPE DE FEMMES. La femme en morceaux. Partisans (Libération des femmes. Année zero), n.54-
55, julho-outubro de 1970, p. 97.
166
1°. Contribution du cercle “Flore Tristan ” 1973.
167
PETROLEUSES, sans titre, Pétroleuses, n° 0, s.d., p. 2. [data aproximada: 1974].
168
PETROLEUSES, sans titre, Pétroleuses, n° 0, s.d., p. 12.
109

um ponto de partida unânime no seio do feminismo, este foi, na verdade, uma construção,
forjada no bojo de intensos debates.

Formas de organização do movimento

Outra questão que provocou polêmicas e divisões foi sobre a forma de organizar o
movimento. O movimento deveria se basear na espontaneidade e na busca de novas formas de
organização ou seriam necessários estruturar um movimento a partir de bases consideradas
pelas primeiras como mais “convencionais”? Num primeiro momento, como procuramos
apresentar no item sobre o MLF, predomina no movimento a idéia de que este não deveria ser
uma organização mas um movimento com contornos pouco rígidos, baseado na
espontaneidade e sem estruturas. Mas, essa forma de se organizar gerou polêmica. Num
boletim mimeografado, sem data, mas que certamente foi publicado no primeiro ano de vida
do movimento, encontramos algumas dessas críticas. Para Hélène, o que deveria ser um
“movimento” não consegue se constituir enquanto tal e torna-se um lugar de passagem no
qual à parte alguns “núcleos estáveis” passa-se pelo mesmo sem ser incitada a permanecer.
Para a militante, a falta de estruturas dava uma posição privilegiada a alguns grupos no lugar
de incluir todas as mulheres e levaria a formação de vanguardas. Na falta de outras soluções:

serão os pequenos grupos daquelas que: 1º. Tem tempo para se encarregar de
tudo (na verdade, elas são de que classe social?), e 2º. Tem uma estrutura de
base que se recusa ao conjunto do movimento, que constituiria um núcleo
dirigente tomando as decisões.169

Nesse mesmo boletim, encontramos outras críticas nesse sentido, afirmando a


necessidade do movimento tornar-se “efetivamente um movimento de massa e sair do gueto
intelectual”, propor outros instrumentos de organização que não fossem as “assembleias
informais” e superar a atomização em pequenos grupos sem informação entre eles.170

As críticas vinham sobretudo de setores ligados às organizações de esquerda.


Num boletim de maio de 1971, menos de um ano após as primeiras mobilizações públicas, o
Cercle Dimitriev anuncia sua existência e afirma que sua criação partiu de um
descontentamento com a forma de organizar o movimento:

169
Hélène. Le Mouvement. Libération des femmes. Bulletin n.2, s.d.[1970].
170
QUELQUES MILITANTES. Quelques propositions . Libération des femmes. Bulletin n.2 s.d.[1970].
110

O M.L.F, tal como funciona atualmente, não pode tornar-se um verdadeiro


movimento de massa. Na verdade, as poucas informações que circulam não
levam em conta o trabalho das comissões e de diversos grupos do M.L.F, a
falta de coordenação nos faz frequentemente perder tempo (...) Nós só
fizemos até o momento (com exceção da campanha sobre o aborto)
intervenções espetaculares que poderiam ter dado origem a ações mais
duráveis caso tivessem sido acompanhadas de explicações e informações
sobre o MLF em geral.171

Este trecho resume duas importantes críticas ao movimento: a crítica à falta de


uma forma de organização mais estruturada e a necessidade de ampliação da base do MLF.
Para resolver ambos os problemas, que são considerados frequentemente como interligados,
encontramos algumas propostas. O Cercle Dimitriev propõe, por exemplo, a criação de uma
coordenação de comités e uma comissão de coordenação de relação com o interior, a
publicação de um “verdadeiro boletim de informações” e de um jornal, a elaboração de um
programa de reivindicações, cotizações, etc. 172

Algumas organizações de esquerda posicionaram-se desde um primeiro momento


pela auto-organização das mulheres, como a Alliance Marxiste Révolutionnaire (AMR), para
a qual “os revolucionários devem desenvolver as condições de auto-organização de todo meio
específico tendo interesse objetivamente na transformação radical, revolucionária dessa
sociedade a partir de problemas específicos e na perspectiva do socialismo”.173
Especificamente em relação ao feminismo, afirma-se a necessidade das mulheres “de se
organizar, de forma autônoma, a partir dos seus próprios problemas” compreendendo que eles
se integram à análise marxista e contribuem para o processo revolucionário.174 Mas, ao
mesmo tempo, consideravam que para atingir tal objetivo seria necessário expandir a base do
movimento. O MLF, afirmavam em 1971, deve “ter por dever tornar-se um movimento de
massa (o que implicaria uma estruturação um pouco mais rigorosa)”, e, para isso não poderia
continuar a ser uma “vanguarda de intelectuais que ele é atualmente” mas, deveria
“sensibilizar, mobilizar e integrar no seu seio mulheres trabalhadoras ou mulheres de
trabalhadores”.175 Para superar esse problema, o grupo sugere uma série de medidas bastante
concretas como a transformação de uma “assembleia geral na qual ninguém representa
ninguém” transforme-se em “reunião de delegados responsáveis e revogáveis a qualquer

171
Texte du Cercle Elizabeth Dimtrive: Qu’est-ce qUE le Cercle Elizabeth Dimitriev. Mouvement de libération
des femmes. Bulletin d’informations, maio de 1971.
172
Idem.
173
De la revolte des femmes à la Revolution. Suppelement. L’internationale, n.11, junho 1971, p.10.
174
Idem.
175
E.B.Avec le mouvement de libération des femmes. L’international, n.7, jan. 1971 p.9.
111

momento pelo seu comitê” ou ainda que “uma plataforma de orientação comum seja
elaborada” assim como “que uma coordenação internacional regular dos movimentos
feministas seja colocada em prática com o objetivo de dar uma nova dimensão à luta das
mulheres”.176

É essa agremiação que lançaria a plataforma “Sortir de l’ombre” assinada pelo


Cercle Dimitriev. Nesta plataforma, algumas das ideias desenvolvidas acima são sintetizadas
sob a forma de manifesto procurando que oferecer uma alternativa ao feminismo hegemônico.
Afirma-se a especificidade da opressão feminina e a necessidade de um movimento
autônomo. Mas, afirmam igualmente a vinculação entre socialismo e fim da opressão
feminina, ideia sintetizada na palavra de ordem “Pas de libération des femmes sans
révolution, pas de révolution socialiste sans libération des femmes”. A forma de se estruturar
o movimento proposta pelas “feministas revolucionárias” é criticada duramente.

Podemos encontrar esse tipo de crítica em diferentes momentos. As propostas de


coordenação do movimento, encontros nacionais aparecem por toda a década. Mas, para uma
parte do movimento, tratava-se de uma forma de instrumentalizar o movimento. No jornal
Torchon brûle, uma parte do MLF reage às diversas reações às tentativas de organização. No
texto Aux sœurs des organistions principalement trotkystes et maoistes (Às irmãs das
organizações principalmente trotskistas e maoístas)177, afirma-se o desejo de militar a partir de
uma opressão comum e “libertar nós mesmas” ao contrário das “irmãs” das organizações que
chegaram depois e “a partir de ordens de organizações dirigidas por caras (mecs)”. Em outro
“Nous avons quelque chose en moins”, o real sentido de organização é definido como
“tomada em mãos dos seus problemas por mim(nós) (...) Organização é um disfarce hipócrita
da palavra ‘poder’”.
O termo organização pertence estritamente à panóplia burguesa, sociedade
de classes, sociedade de dominação, sociedade de concorrência. Onde ela é
introduzida, traz com ela estruturas dessa sociedade, e as implantará
finalmente se tolerada
(...) A organização não organiza nada além dela mesma. É uma máquina que
funciona no vácuo, simplesmente pela masturbação daqueles que a
constituem, ao passo que os outros ficam cada vez mais mergulhados na
passividade.178

176
Idem.
177
Aux sœurs des organistions principalement trotkystes et maoistes. Torchon brûle n.2.
178
Nous avons quelque chose en moins. Torchon brûle n.2, s.d.
112

Em Sommes-nous des brebis édentées? (Somos nós ovelhas desdentadas ?),


algumas militantes satirizam com o modelo de organização que algumas organizações de
esquerda desejariam para o movimento.
Preciso me apressar para colocar essa questão antes que as camaradas
competentes tenham acabado de elaborar a linha teórica do Movimento.
Tenho a impressão que em pouco tempo seremos dotadas de estruturas, de
linha política, comitê central, siglas, hinos de encontro, enfim, uma panóplia
do verdadeiro Movimento histórico, os certificados de existência, pois.179

Essa exigência de uma linha teórica clara por parte de alguns setores de esquerda
será melhor analisada no próximo capítulo. Esse debate percorreu toda a década de 1970 e
acirrou ainda mais as polarizações de ordem puramente teóricas.

É necessário ressaltar que as organizações de esquerda reagiram de forma bastante


diversa à emergência do MLF. Longe de formar um bloco homogêneo, o que podemos
chamar genericamente de “esquerda” era composto por grupos e partidos que exprimiam
diferentes visões sobre o processo revolucionário, sobre o papel das “organizações de massa”,
questões de ordem tática e estratégica. No contexto francês, pode-se notar, a partir da
imprensa de algumas das organizações de esquerda nos anos 1970, que alguns dos grupos da
chamada “extrema esquerda” tiveram uma reação favorável já nos primeiros momentos do
movimento. Nessa categoria podemos citar a organização maoísta “espontaneísta” Vive la
Révolution (VLR), assim como a organização trotskista Alliance Marxiste Révolutionnaire
(AMR). Outras, por exemplo, as organizações trotskistas Révolution! e Ligue Communiste
(LC), que se transformaria depois em Ligue Communiste Révolutionnaire (LCR), teriam
também uma participação importante no movimento mas tomaram posições após os primeiros
anos de mobilizações. Cabe destacar também que outras organizações permaneceram
refratárias ao feminismo durante todos os anos 1970: Lutte ouvrière, grupos maoístas como
L’humanité rouge ou o Parti communiste révolutionnaire (PCR)180. O PCF, que tem uma
posição contrária ao feminismo e a uma luta autônoma no início dos anos 1970, a partir de
pressões tanto internas como externas, vai alterar sua posição ao longo dessa década.

179
Sommes-nous des brebis édentées?. Torchon brûle, n.2, s.d. [data aproximada:1971]
180
Segundo REMY, Monique. De l’utopie à l’intégration... Op. cit., p. 48.
113

Capítulo 3

TEORIZANDO A OPRESSÃO

1- Quem é o inimigo?
2-Onde ele se localiza?
3- Tem suporte exterior? –tropas? (...)
4- Onde estão reunidas suas forças? (…)
Que armas empregam?1

Ti-Grace Atkinson, feminista estadunidense, formula essas questões (com


linguagem militar) em 1969, procurando responder um comentário que lhe foi endereçado: “O
movimento de mulheres é o primeiro na história com uma guerra em curso, mas, sem
inimigos”.2 Qual seria o inimigo? – pergunta. A “sociedade”, “as instituições”? A autora
questiona se tais respostas não seriam meros dispositivos para escamotear a verdadeira
resposta, “os homens”. Ao abordar a questão, ela constata uma “ausência de análise
feminista”, identificando, como um dos grandes desafios do movimento emergente, uma
análise política de classe.3

A ideia dessa ausência compõe uma narrativa bastante difundida no movimento


que ganha corpo a partir de meados dos anos 1960, exprimindo quer o desconhecimento dos
movimentos anteriores, quer uma tentativa de demarcação em face dos mesmos. As tentativas
de demarcação em relação ao movimento feminista anterior são recorrentes. “Naquele
tempo”, satiriza a feminista inglesa Germaine Greer, “gentis senhoras da classe-média
clamavam por reforma. Agora mulheres pouco gentis da classe média reclamam revolução”.4
Na França, Anne e Jacqueline contrapunham a falta, no feminismo precedente, de uma
“ideologia radical” que atacasse os nós do problema: a sexualidade e a família”5 ao um “novo
feminismo” (francês), que combate os problemas “específicos da opressão feminina”.6

1
ATKINSON, Ti Grace. Le féminisme radical. Déclaration de Guerre [avril 1969]. In: Odyssée d’une amazone.
Paris: Des femmes, 1974, p.66.
2
Ibidem, p. 63.
3
Ibidem, p. 64.
4
GREER, Germaine. A mulher eununco. Rio de Janeiro: Artenova, 1971, p.13.
5
Anne e Jacqueline. D’um groupe à l’autre. Partisans n.54-55, juillet-octobre 1970, p.201.
6
Ibidem, p. 203.
114

Essa lógica de ruptura/demarcação explica a ideia do “ano zero” da libertação das


mulheres entre as francesas. Independentemente da polêmica gerada por essa ideia7, o fato é
que podemos encontrar, em diversos textos, a perspectiva de que o movimento estava criando
algo absolutamente novo, que implicava não somente uma nova forma de fazer movimento,
mas também novos conceitos, novas teorias, um novo prisma.

Teorizar uma questão pressupõe a existência de um problema. A dominação das


mulheres foi, durante muito tempo, uma não questão: “Não há um problema da mulher”
repete-se insistentemente. A isso, muitas feministas responderam, expondo o sujeito dessa
enunciação: “Exato: para os opressores não há nunca o problema do oprimido”.8 As queixas
do oprimido são neutralizadas, na mesma medida em que seu objeto é naturalizado na vida
cotidiana e nas análises teóricas: “Para o opressor, não há opressão, claramente, mas um fato
da natureza”.9 Desnaturalizar esse “fato natural”, possibilitar que ele assuma o estatuto de
problema, convertendo-o em uma questão política, constituiu um elemento fundamental do
feminismo que emerge naquele momento.

Considerando que as teorias existentes eram incapazes de verbalizar as questões


relacionadas à opressão das mulheres, diversas foram as tentativas de formular, nomear e
teorizar, de exprimir, por meio de novas palavras e novos conceitos, o que na linguagem dos
dominantes era inexprimível. Esse movimento de subversão conceitual constituiria parte
fundamental da ação: “Nomear é revelar e revelar já é agir”10, afirmam. Teoria e prática não
eram concebidas como duas questões desvinculadas, mas como reciprocamente implicadas: a
primeira deveria servir ao movimento, dar respostas às questões que emergiam, pensar a
revolução.

Mas o ato de teorizar por parte dos oprimidos não era um processo evidente. Para
aquelas/es tradicionalmente desprovidas/es do verbo, a “teoria” aparece, muitas vezes, como
um privilégio daqueles que dominam, “verborragia sacerdotal daquelas que são dominantes”,
aquilo que “sai da cabeça e da boca daqueles que dispõem da força (instrumentos, armas

7
A ideia de um ano zero da libertação das mulheres foi frequentemente criticada por indicar um
desconhecimento das mobilizações anteriores. Entretanto, esses movimentos não era absolutamente
desconhecidos. O texto de Anne e Jacqueline “D’un groupe à l’autre” publicado justamente nesse número de
Partisans que reivindicava o ano zero menciona diversos nomes e ideias de feministas que as antecederam. Esta
ideia parece indicar muito mais uma tentativa de demarcação que desconhecimento do passado.
8
L’Idiot International, juillet-aout 1970.
99
ROCHEFORT, Christiane. Définition de l’opprimé . In: SOLANAS, Valerie. SCUM. Le premier manifeste de
la libération des femmes. Paris: Nouvelle société Olympia, 1971, p.7.
10
Ibidem, p.53.
115

concretas, polícia, exercito) e da comida (salários, terras, bens)”11 e que constitui um


instrumento de opressão. Para aquelas/es tradicionalmente providos do verbo, as elaborações
dos oprimidos são frequentemente desqualificadas como pouco teóricas, excessivamente
políticas, panfletárias. Elas não são vistas como “linguagem”, mas como “barulho”12, como
afirma Guillaumin. O saber produzido pelo movimento feminista foi, frequentemente,
desvalorizado como pouco elaborado, não teórico, descritivo ou pouco consistente.
Desacreditado no campo acadêmico, esse saber foi também, muitas vezes, considerado não-
legítimo e marginalizado no campo militante da esquerda.

Essas teorizações implicavam uma crítica dos saberes estabelecidos e do seu


pretenso caráter neutro. “Que algumas análises possam se passar por neutras e puramente
objetivas é um efeito da dominação”13, afirma Guillaumin. A pretensa neutralidade da ciência
e seu “viés” masculino foram denunciados desde o princípio pelo movimento. Nesse sentido,
a questão do uso de teorias já existentes se impõe. Seria possível usar contra a opressão das
mulheres um conhecimento que a pressupõe? Delphy destaca também que uma interpretação
feminista da história deve conduzir a “considerar as produções intelectuais como produtos de
relações sociais e considerar estes últimos como relações de dominação”.14 Essas posições
seriam o ponto de partida para uma crítica feminista da ciência elaborada de maneira mais
ampla anos depois.

A entrada dos “minoritários”, dos “oprimidos”, ou, para usar uma linguagem mais
corrente nos dias atuais, dos “subalternos” na teoria provocou não somente uma
diversificação, uma multiplicação de questões, mas uma subversão de perspectiva. “Ruptura
epistemológica”, “ano zero” da liberação das mulheres, “revolução do conhecimento”15
diversas foram as tentativas empreendidas pelo movimento para nomear a subversão
provocada pelo feminismo no campo teórico.

Para Delphy, por exemplo, o “feminismo-ponto de vista teórico” deveria visar


uma “revolução do conhecimento”16 cujo fundamento seria a crítica a um pensamento em
termos de essência. Guillaumin considera que a contestação radical da ideia de essência

11
GUILLAUMIN, Colette. Femmes et théories de la société: Remarques sur les effets théoriques de la colère des
opprimées. [1981]. In: GUILLAUMIN, Colette. Sexe, race et pratique du pouvoiri. Paris: Côté-femmes, 1992, p.
219.
12
Ibidem.
13
Ibidem, p.222.
14
DELPHY, Christine. Pour un féminisme matérialiste [1982]. In: DELPHY, Christine. L’ennemi principal 1.
Op. cit., p. 262.
15
DELPHY, Christine. Pour un féminisme matérialiste. Op. cit., p.269.
16
Ibidem, p.269.
116

promovida por grupos oprimidos teria provocado uma transformação de uma concepção de
mundo “teológica”. 17 Desses grupos surge a ideia de que tudo é histórico e por isso não é
eterno e é passível de mudança. A afirmação do caráter histórico e, portanto, mutável da
opressão foi um passo fundamental para diferentes grupos oprimidos e foi a base da reflexão
de diferentes vertentes do pensamento feminista.

Para Wittig a “consciência da opressão” não se limitaria a uma reação contra a


opressão mas implicaria uma “total reavaliação conceitual do mundo social, sua total
reorganização conceitual a partir de novos conceitos elaborados do ponto de vista da
opressão”, que ela chama de “ciência da opressão, a ciência feita pelos oprimidos”.18 Esse tipo
de crítica epistemológica foi um elemento fundamental na reflexão das “feministas
materialistas”.

Por fim, vale recordar que o próprio sentido dado à “teoria” seria objeto de
reformulações. Para diferentes setores do movimento feminista, particularmente para autoras
que compõem o núcleo central deste trabalho, a teoria passa a ser concebida como algo a ser
elaborado pelos próprios oprimidos, rompendo com a separação entre um grupo que
“fabricaria” a teoria e outro a quem caberia “escutar e colocar em prática”. Essa divisão, para
Christine Delphy, seria antifeminista19, uma negação de um princípio básico do “novo
feminismo” segundo o qual qualquer mulher tem tanto a dizer sobre sua situação de mulher
quanto qualquer outra.20

Apesar de todas as barreiras para seu desenvolvimento, esse movimento de


subversão teórica foi bem-sucedido em provocar transformações radicais na forma de
conceber alguns dos problemas. Em pouco mais de dez anos, “entre o panfleto e a descrição
sistemática, entre a análise e o projeto político”, os textos produzidos pelo movimento
“modificaram a percepção do que chamamos de sexo”, fazendo surgir um “debate teórico
naquilo que era um deserto”21, como afirmaria Guillaumin em 1981. É essa produção,
particularmente dos primeiros anos do movimento, que constitui o centro deste capítulo.

17
GUILLAUMIN, Colette. Femmes et théories de la société [1981]. Op. cit., p. 238.
18
WITTIG, Monique. On ne naît pas femme[1980]. In: WITTIG, Monique. La pensée straight. Paris: Éditions
Amsterdam, 2007, p. 51.
19
DELPHY, Christine. Pour un féminisme matérialiste. L'Arc, n.61, 1975, p. 54.
20
Ibidem, p. 55.
21
GUILLAUMIN, Colette. Femmes et théories de la société [1981]. Op. cit., p.225.
117

Teoria feminista

Desde os primeiros textos do movimento, pode-se perceber uma preocupação não


somente com a ideia de teorizar a opressão, mas também com o significado de teoria e as
condições de sua produção na perspectiva de sua relação com um movimento prático de luta
contra a opressão. O que é teoria? Esta deveria partir da experiência? A teoria deve preceder a
prática militante ou deve ser um resultado da mesma? Seria possível usar os instrumentos do
“senhor” para destruir sua própria casa22? Essas são algumas questões que aparecem em
panfletos, introduções de textos e publicações do nascente movimento.

“Cada oprimido deve tomar consciência da sua opressão e tomar em mãos sua
própria luta. É a primeira condição da revolução. E a teoria emergirá da prática”, lemos na
introdução de Partisans (Libération des femmes. Année zero).23 A ideia de que só o oprimido
poderia teorizar sua própria opressão é recorrente nos textos do movimento. Ela não somente
atribuía um privilégio epistemológico àquelas diretamente concernidas, como implicava que
“fazer teoria” não constituía uma atividade altamente especializada, reservada a um grupo
específico, as intelectuais.

Esse processo deveria partir da própria experiência da opressão e não de


teorizações já existentes, como afirmam amplos setores do movimento. Em “Pour les
féministes révolutionnaires” lemos: “Como todos os oprimidos, partimos de nossa opressão e
não de teorias existentes”.24 As feministas revolucionárias afirmam não procurar referências
“inicialmente nos textos mas nos fatos. Nossa referência é experiencial”25. Encontramos em
diversos textos a recusa a “aceitar análises já prontas” ou a continuar a ser um “post-scriptum”
de teorias marxistas, um apêndice das teorias já elaboradas. Para algumas, a novidade em
gestação do movimento feminista deveria desdobrar-se em um processo de elaboração teórica
completamente original:
Não podemos aceitar análises prontas. Tomemos o direito de colocar tudo
em questão a partir de uma ótica nova: a nossa (...) Eu gosto do movimento
de libertação das mulheres porque este ainda está por ser criado.26

22
Audre Lorde. Apud DORLIN, Elsa. Sexe, genre et sexualités: introduction à la théorie féministe. Paris: PUF,
2008, p. 79.
23
QUELQUES MILITANTS. Présentations. In: Partisans (Libération des femmes. Année zero), n.54-55, julho-
outubro de 1970, p.3.
24
[Panfleto] Pour les féministes revolutionnaires BMD.
25
[Panfleto] Pour les feministes revolutionnaires BMD.
26
J’aime le mouvement de libération des femmes . Torchon Brûle, n.1, s.d. (maio de 1971 segundo Françoise
Picq. Libération des femmes... Op. cit., p.144).
118

A elaboração teórica deveria orientar-se para aquilo que, na experiência das


coisas, se torna visível para “uma ótica nova”, “a nossa”. A possibilidade de “erros teóricos”,
que acompanha qualquer atividade cognitiva, é considerada menos “grave” do que o
impedimento dessa emergência incisiva do novo:
Cometeremos ‘erros teóricos’, não tem problema, o que importa é colocar o
dedo na ferida porque a luta de classes e tutti quanti, nós a encontraremos de
27
uma maneira ou de outra se esta tem a ver com a realidade, não?

Considera-se que a teoria não deve ter seu fundamento em si mesma, mas nesse
fundo “experiencial” que decorre da própria agência em seu confronto com a realidade: “Se as
teorias estão nas coisas, nos as encontraremos necessariamente”28. As categorias teóricas
devem ser validadas a partir do real, que neste caso, remete à experiência de opressão vivida
pelas mulheres.

Mais do que em teorias pré-existentes é, portanto, a partir de uma opressão vivida


que uma nova teoria deveria ser formulada. Nesse sentido, cabem aqui alguns comentários
sobre a “criação de consciência” e a possibilidade de teorização.

Dentre as atividades usadas para essa “tomada de consciência” destaca-se a


formação de grupos de autoconsciência, como procuramos mostrar no capítulo anterior. Esse
tipo de atividade seria um modo, para muitas feministas, de “tomar consciência política da
nossa opressão, quebrar as barreiras culturais que nos separam”. A “tomada de consciência”
seria “a pedra angular do Movimento de Libertação das Mulheres”.29 Num sentido similar,
Juliet Mitchell descreve um “processo de transformação dos temores secretos individuais da
mulher até alcançar um grau de consciência que torne possível compartilhar seu significado
como problema social”, numa transformação do doloroso em político.30 As vivências
individuais poderiam ser percebidas como parte de uma condição social e histórica comum.

O objetivo dessas atividades, para Sarachild, autora de um dos textos fundadores


dessa prática, seria “despertar em nós mesmas e nas outas mulheres, numa escala de massa,
uma consciência de ‘classe’”31. Num texto traduzido pelas feministas revolucionárias para dar
subsídios a esse tipo de atividade, esse processo é descrito da seguinte maneira:

27
A nous la parole. Le torchon brûle – L’idiot international, décembre 1970, p.4.
28
[Panfleto] Pour les feministes revolutionnaires. BMD
29
Féministes Révolutionaires. Torchon brûle n.5, s.d., p.10 [data aproximada: primeiros meses de 1973].
30
MITCHELL, Juliet. La Liberación de la Mujer Barcelona: Editorial Anagrama, 1977, p.65.
31
SARACHILD, Kathie. Un programme pour ‘l’éveil d’une conscience féministe . In: Partisans n.54-55, julho-
agosto de 1970, p. 6.
119

Quando cada mulher traz o seu depoimento, o grupo faz generalizações.


Ainda que cada uma das nossas experiências seja individual, a opressão
toma formas similares. A generalização ajuda a descobrir essas constantes na
experiência das mulheres. Rapidamente num grupo de mulheres, começa-se
a ter uma ideia clara dos mecanismos da opressão.32

Esse tipo de experiência poderia ocorre no seio desses grupos de autoconsciência,


mas também nas atividades cotidianas de militância. O objetivo era “analisar sua própria
experiência de mulher e confrontá-la com a de outras mulheres”, o que seria “uma das
atividades mais frutuosas que podemos ter no momento”33, afirmavam algumas militantes em
1970.

Tratava-se, portanto, de um tipo de atividade fundamental para a politização do


privado. Diferentemente do feminismo majoritário da chamada “primeira onda”, que tinha
como pauta principal consignas específicas, restritas à esfera pública, tal como o direito ao
voto e acesso à educação, a “política” ganhou um sentido mais amplo para diversos setores do
movimento que se estrutura no período em questão. A política feminista não poderia se limitar
à crítica a algumas instituições e leis discriminatórias, mas deveria culminar numa crítica
radical de todo um sistema e suas manifestações mais cotidianas. Beauvoir expressa essa ideia
do seguinte modo:
A luta antisexista não é somente dirigida como a luta anticapitalista contras
as estruturas da sociedade, tomadas no seu conjunto: ela se lança a cada uma
de nós, naquilo que nos é mais íntimo e que nos parece mais certo. Sua
contestação chega até aos nossos desejos, até às formas de nosso prazer. Não
recuemos diante dessa contestação; além do rompimento que ela provocará
em nós, ela destruirá alguns de nossos entraves, ela nos abrirá a novas
verdades.34

A politização do privado não era, como afirma Hartman, feminista estadunidense,


uma forma de proporcionar bem-estar às mulheres, não era uma “lamentação neurótica de
mal-ajustadas”, mas uma forma usada por setores do feminismo radical de explicitar uma
“realidade social e política na qual as mulheres são sistematicamente dominadas, exploradas e
oprimidas”.35

Essas atividades, ao permitir uma “tomada de consciência”, constituía também um


momento de formulação teórica, como afirma Sarachild: “Nossos sentimentos nos conduzirão

32
Féministes Révolutionaires. Torchon brûle n.5, s.d., p.10 [data aproximada: primeiros meses de 1973].
33
JK Les militantes ... In: Partisans Partisans (Libération des femmes. Année zero), n.54-55, julho-outubro de
1970, p. 150.
34
BEAUVOIR, Simone de. Preface. In: Les femmes s’entêtent. Paris: Gallimard, 1975, p.13
35
HARTMANN, Heidi. The unhappy marriage of marxism and feminism. In: SARGENT, Lydia.(org.) Woman
and Revolution: the unhappy marriage of Marxism and feminism. Boston: South and Press, 1981, p. 13.
120

à nossa teoria, nossa teoria a nossa ação, nossos sentimentos para essa ação a uma nova teoria
e, em seguida, a uma nova ação”.36 É partindo da própria experiência pessoal e confrontando-
a com a de outras mulheres que poderia emergir uma teorização sobre essa opressão. A
“experiência” é, concebida, assim, como momento central do empreendimento teórico.37 Não
se trata, portanto, da ideia de uma consciência imposta do exterior, por um grupo que deteria
os elementos dessa conscientização mas de um processo que se construía a partir de trocas de
experiências entre indivíduos que compartilhavam uma opressão.

Sarachild considerava que toda teorização prévia sobre as mulheres seria


inadequada e somente as próprias mulheres poderiam ser especialistas genuínas na questão38.
Essa ideia constituiria um ponto de ruptura em relação às teorizações anteriores, num
processo similar à passagem da escolástica à ciência “’estudar a natureza, não os livros’ e
colocar todas as teorias à prova da prática viva e da ação”.39

Essa questão suscitou muitos debates. Como afirmam algumas daquelas que
participaram dessas discussões, havia, de um lado, a ideia de que “devemos olhar para nossa
própria experiência e criticar todas as outras ideologias anteriores” e, por outro lado, a ideia
que devemos de que devemos “olhar para a história” e “aprender o que as outras pessoas”.40

Nos primeiros anos do MLF, pelo menos no que explicitam os textos a que
tivemos acesso, predomina essa visão de um primado experiencial na produção do
conhecimento. Esse primado, desde que questiona a soberania das teorias existentes, está em
estreita relação com a crítica total que uma parcela do feminismo pretende promover.
Assumir a experiência da opressão como ponto de partida para a teoria implicava subverter o
que antes era concebido em termos de essência, de condição, de “problema” e romper com a
separação entre um aspecto “prático” e outro “teórico”.
Não aceitamos rejeitar o aspecto prático em benefício somente do aspecto
teórico. Estas são categorias artificiais criadas pela sociedade do macho
[mâle] e que não têm nenhum sentido para as mulheres dado que não nos é
nunca permitido pairar muito tempo nas ‘alturas’ da teoria ou dos grandes
sentimentos, é do nosso corpo que se trata aqui.41

36
SARACHILD, Kathie. Un programme pour l’éveil d’une conscience’ féministe. Partisans (Libération des
femmes. Année zero), n.54-55, julho-outubro de 1970, p. 66.
37
Mas essa centralidade não é uma característica somente do feminismo. Bronner evoca, de forma crítica, uma
visão, que permearia a nova esquerda estadunidense, segundo a qual a prática seria o critério de verdade.
BRONNER, Stephen. La nouvelle gauche: une expérience socio-culturelle . L’homme et la société, n.93, 1989.
38
ECHOLS, Alice. Daring to be bad ... Op. cit., p. 84.
39
Ibidem, p.84.
40
Idem.
41
COLLECTIF. Maternité esclave. Paris: Union Générale d’éditions. Paris, 1975, p. 6.
121

Os slogans do movimento deveriam também partir de questões que afetavam


diretamente a vida cotidiana das mulheres. A crítica ao sistema seria um resultado de uma
reflexão e de um trabalho político e não o ponto de partida:
Nós evitamos começar por slogans do gênero: “Abaixo o capitalismo podre”.
Esse tipo de reflexão deve ser o resultado de uma tomada de consciência que
se faz não a partir de fórmulas inicialmente vazias mas a partir de problemas
diretamente vividos. “Abaixo o capitalismo podre” deve ser uma conclusão e
não uma introdução. Além disso, esse tipo de agressividade é, geralmente,
42
inútil.

Já na primeira publicação coletiva, o número de Partisans, há uma crítica ao


projeto de formular rapidamente uma teoria “livresca”, emprestada de outros. Neste momento
da luta, afirmam algumas militantes, um dos maiores riscos seria “sob o pretexto de esclarecer
ideias confusas de racionalizar de forma forçada o que é, por ora, relativamente
inapreensível”. O movimento não teria interesse em elaborar ortodoxias:
Nós não varreremos os obstáculos que nos encobrem o espírito colocando
desde o princípio um quadro teórico, livresco e tomado de empréstimo de
outros (...) Não me interesse, por ora, elaborar uma teoria marxista ortodoxa
da libertação ‘da mulher’ porque nós estamos no nível zero da nossa luta.43

No número especial de Partisans, questionamentos sobre a teoria atravessam a


introdução do volume. Já nas primeiras linhas, ressaltam-se a “dificuldade de promover uma
análise política justa” e os “limites de toda análise realizada com os meios que dispomos
atualmente”.44 Ao recusar uma grande parte das teorias e conceitos existentes, as feministas
tinham que forjar novos instrumentos teóricos. Mas, ao mesmo tempo, a urgência da luta
impedia, para algumas, esperar a formulação de uma teoria bem elaborada para levar a cabo o
combate feminista:
Esperando encontrar quais são as ‘posições justas’, a história, a opressão, a
luta continuam. Os opressores têm menos pressa que os oprimidos. Os
privilegiados de classe, de raça, de sexo, eles podem aprimorar a análise
teórica antes de adotar uma prática.45

O tempo para uma elaboração teórica mais consistente seria um privilégio do qual
os oprimidos estariam excluídos, em razão da urgência da luta, que deveria ser conduzida

42
Dans les quartiers: du 18ème . Torchon brûle n.3, s.d., p.5 [data aproximada: final de 1971 ou início de 1972].
43
J.K. Les militantes... Partisans (Libération des femmes. Année zero), n.54-55, julho-outubro de 1970, p. 145.
44
QUELQUES MILITANTS. Présentations. Partisans (Libération des femmes. Année zero), n.54-55, julho-
outubro de 1970, p.3.
45
Ibidem, p.3.
122

mesmo que os instrumentos teóricos fossem ainda insuficientes. A partir dos documentos,
podemos captar a presença de algumas ideias que só seriam desenvolvidas teoricamente anos
depois. Como afirma Adriana Pisciteli, o movimento tinha que lidar, na prática, com algumas
questões que demoraram para ser elaboradas conceitualmente.

Embora algumas militantes, como Delphy, considerassem que uma teoria coerente
era fundamental para dar subsídios a uma prática adequada46, predomina nos escritos que
analisamos aqui a ideia de que deveria se partir da prática e pouco a pouco o movimento
formularia seus próprios conceitos e ideias. Para compreender esses debates, é preciso
também situá-los em relação a uma crítica direcionada ao movimento que o acusava de ser
pouco teórico e de fornecer uma justificação teórica consistente para sua existência.

Logo após a publicação de um número especial da revista Partisans, um outro


número da mesma revista, bem menos conhecido, com um dossiê de textos sobre a libertação
das mulheres foi publicado47. Esse número, segundo Jean-François Godchau, militante da
Ligue Communiste, único homem que participou da confecção do número anterior, teria
surgido de uma reação diante da “improvável confusão que reina nas nossas fileiras quanto
aos problemas políticos e organizacionais colocados pela libertação das mulheres”.48 Diversos
textos publicados nesse dossiê teriam esse mesmo tipo de crítica. Mas podemos encontrar essa
posição em diversas outras publicações de esquerda, particularmente nos comentários de
livros publicados pelo movimento.

Sylviane Mercier, em Foire à la libération (1971), critica o movimento pela sua


“incapacidade em fixar uma perspectiva clara de campanha ideológica, política e de se dotar
de armas teóricas elementares que lhe permita assumir”.49 Gabriel Glazoumov, no jornal
Politique Hebdo (1972), evoca um “vácuo teórico surpreendente”50 em relação ao Livre de
l’oppression des femmes publicado naquele mesmo ano. Numa das raras resenhas de livros
feministas publicadas nesse período numa revista acadêmica importante, a Revue Française
de Sociologie, Yvon Bourdet ressalta já nas primeiras linhas a falta de “elaborações teóricas
explícitas” no mesmo livro supracitado e considera que “a análise sociológica dos
condicionamentos é excessivamente negligenciada”.51 O MLF, continua, não deveria “se

46
Ver DUPONT, Christine. L’ennemi principal Op. cit., p. 158.
47
Partisans n.57, jan.-fev. 1971.
48
GODCHAUD, J.F. Introduction: de noveau sur la libération des femmes . Partisans n.57, jan.-fev. 1971, p. 64.
49
MERCIER, Sylviane. La foire à la libération . Partisans n.57, jan.-fev. 1971, p.39.
50
GLAZOUNOV, Gabriel. “ Des oprimées oppressantes ». Politique Hebdo n.29, 18 de maio de 1972, p.20.
51
BOURDET, Yvon. Le livre de l’oppression des femmes . Revue française de sociologie, n.13-4, 1972, p.581.
123

contentar com explosões de revolta”, “ele deve pensar uma revolução ”.52 Claude Alzon, num
livro inteiramente dedicado ao movimento feminista, afirma que esperava um “esforço
particular” de teorização por parte do movimento, mas que, ao contrário, este privilegiaria a
propaganda a “analisar honestamente a situação das mulheres”.53 Ainda nesse linha,
Godchaud pergunta: “Qual linha, qual estratégia, quais táticas, qual reflexão, quais objetivos
persegue, define, utiliza o MLF?”.54

Era como se o movimento tivesse que, primeiro, justificar teoricamente a


necessidade da sua existência para, posteriormente, elaborar uma prática adequada para só
então agir. Mas, essa crítica à falta de “teoria” escondia na verdade uma outra questão, uma
crítica de fundo à própria existência do movimento feminista. Para diversos setores de
esquerda, não haveria justificativa teórica para a existência de um movimento autônomo de
mulheres. Se o fim da opressão feminina estava diretamente vinculado ao fim de uma
sociedade de classes, não haveria razão para separar essas duas lutas: “Sejamos simplista
porque é necessário: Porque a luta pela ‘emancipação’ da mulher? É imaginável separá-la da
luta pela emancipação do conjunto do proletariado?” questiona Mercier.55 Para Yvon Bourdet
a “revolta das mulheres” deveria aparecer não como “guerra de sexos” mas, como um
elemento da “guerra de classes”.56 “Em nenhum caso, a contradição antagônica não se situa,
no momento atual, entre homens e mulheres mas entre exploradores e explorados no quadro
do capital”.57 Para Michèle Douérin, “a luta de classes é a melhor propedêutica para a luta das
mulheres”.58 Essa dissolução da opressão feminina nas relações de classe é recorrente em
diversas vertentes da esquerda e seria alvo de duras críticas por parte do movimento feminista.
As tentativas de dar “lições ao movimento” seriam igualmente criticadas.

Em Partisans (Libération des femmes), algumas já se posicionavam contra esses


“revolucionários” que olhavam para o movimento se perguntando “se o movimento de
libertação das mulheres tem por base posições justas antes de ser contra ou a favor”. Trata-se
de um “falso revolucionário”59, afirmam. Para Delphy, as tentativas de dar “lições” ao
movimento por parte dos homens são numerosas. A autora escreve um texto sobre esses
52
Ibidem, p.582.
53
ALZON, Claude. La femme potiche et la femme bonniche. Pouvoir bourgeois et pouvoir mâle. Paris: Maspero,
1973, p.15.
54
GODCHAUD, J.F. Introduction: de noveau sur la libération des femmes . Op. cit., p.65.
55
MERCIER, Sylviane. La foire à la libération . Op. cit., p. 41.
56
BOURDET, Yvon. Le livre de l’oppression des femmes . Op. cit., p.582.
57
ROLLE, Christiane; ZAGNOLI, Nello. Partisans. Libération des femmes 1970 [resenha]. L’homme et la
société, vol. 19, n° 1, 1971, p.221.
58
DOUERIN, Michèle. Madame Bovary, la ménagère, le M.L.F. Partisans, n.68, nov.-dez. 1972, p. 24.
59
QUELQUES MILITANTS. Présentations. Partisans (Libération des femmes. Année zero), n.54-55, julho-
outubro de 1970, p. 3.
124

“nossos amigos”, “partidários masculinos da libertação das mulheres” que entre outras coisas
pretendem substituir as mulheres e impor “sua concepção da libertação”.60 Esse mesmo tipo
de postura, de “aconselhamento”, afirmam, seria inaceitável se fosse feito em relação a
negros, populações do Terceiro Mundo, palestinos: “Eles não ousariam jamais subentender
que esses oprimidos são ‘ao mesmo tempo juízes e réus’, enquanto os opressores seriam
apenas ‘juízes’”.61

Como nomear a opressão?

Você diz que não existem palavras para descrever nosso


tempo, você diz que elas não existem. Mas lembre-se.
Faça um esforço para se lembrar ou, na ausência de delas,
invente.62

“Condição feminina”, “problema feminino”, “questão das mulheres”,


“melhoramento feminino”, “emancipação” constituem parte do vocabulário utilizado até o
final dos anos 1960 para caracterizar uma situação de subordinação vivida pelas mulheres ou
uma reação a esse estado de coisas. O MLF provocaria uma reviravolta, abandonando um
léxico considerado como pouco apropriado para teorizar, em novos termos, a libertação das
mulheres.

Nas publicações dos primeiros anos do movimento, é possível acompanhar essas


“experiências” e tentativas de formular um novo glossário feminista. Algumas delas
ganhariam posteridade, outras seriam rapidamente abandonadas. Partiu-se muitas vezes de
termos já existentes, como, por exemplo, patriarcado, expandidos ou ressignificados para
abrigar uma carga semântica nova, ou de teorias consolidadas, que foram, por sua vez,
modificadas ou subvertidas para explicar outras realidades. O uso de analogias foi abundante,
embora sempre entremeada de dúvidas e ressalvas. As mulheres seriam como os “servos”,
“escravos”, colonizados ou sua situação seria mais próxima da classe operária? Seriam um
“terceiro mundo no mundo ocidental”63? Elas formariam uma classe, uma casta, um grupo

60
DELPHY, Christine. Nos amis et nous. Les fondements chachés de quelques discours pseudo-féministes
[1977]. DELPHY, Christine. L’ennemi principal 1. Op. cit., p. 160.
61
Ibidem, p. 162.
62
“Tu dis qu'il n'y a pas de mots pour décrire ce temps, tu dis qu'il n'existe pas. Mais souviens-toi. Fais un effort
pour te souvenir. Ou, à défaut, invente”. WITTIG, Monique. Les Guérillères. Paris: Les éditions de Minuit,
1969, p.127.
63
Pourquoi je suis dans la lutte des femmes. Le torchon brûle – L’idiot international, décembre 1970, p.16.
125

oprimido? Estariam submetidas a uma forma de “alienação”, a uma “opressão”, a uma


“exploração”?

Todos esses experimentos conceituais desenham apostas e caminhos teóricos


perseguidos pelo movimento em algum momento e por alguns de seus sujeitos. Neste item,
gostaríamos de esboçar algumas considerações acerca dos caminhos teóricos trilhados pelo
movimento, particularmente nos seus primeiros anos, ressaltando as mudanças, hesitações e
reformulações que marcaram esse processo.

O conceito de “alienação” é fundamental nos anos 1960 e aparece com frequência


nos materiais do FMA. Para Noiriel, “alienação” seria o conceito-chave dos anos 1968. Como
afirma Bronner, em relação aos EUA, a noção era “abstrata e mal definida” no conjunto da
nova esquerda. Para a maior parte, a alienação seria um “incômodo geral” com a ordem
existente.64 Entre usos mais cautelosos à vulgarização do termo, há uma distância enorme.
Mas todos eles confluem para a noção de uma “despossessão”, como afirma Haber65.

Como exemplo da força dessa ideia em tal contexto, podemos citar o posfácio
do livro de Memmi L’homme domine. Ele escreve este texto logo após os eventos de maio-
junho de 1968 e analisa brevemente suas implicações as de novas formulações teóricas que
emergiam para suas próprias análises:
O fenômeno que chama hoje nossa atenção pode parecer totalmente inédito e
temos o prazer em insistir sobre essa novidade absoluta. Não se trataria mais
da dominação de um grupo de homens sobre outro grupo de homens mas da
alienação do homem moderno em geral, do homem da civilização industrial,
em breve acompanhado por toda humanidade, dado que parece ser este o
destino geral. 66

Mas, para Memmi, essa concepção não poderia conduzir a um “velamento dessas
diferentes opressões” pois “mesmo no seio da civilização industrial, a questão permanece:
quem é realmente oprimido e em benefício de quem?”67. Não se trataria, conclui Memmi, de
um debate puramente teórico, mas, de uma questão com “consequências práticas
consideráveis”.68

O termo pode ser encontrado em alguns textos do FMA como sinônimo de


“opressão”. Podemos encontrá-lo também em alguns textos iniciais do o MLF, mas, este

64
BRONNER, Stephen. La nouvelle gauche: une expérience socio-culturelle . L’homme et la société, n.93, 1989,
p.55.
65
HABER, Stéphane. L'aliénation: vie sociale et expérience de la dépossession. Paris: PUF, 2007.
66
Posface. In: MEMMI, Albert. L’homme dominée... Op. cit. p. 219.
67
Ibidem, p. 220-221.
68
Ibidem, p.221.
126

desaparece pouco a pouco de seu léxico. Nicole-Claude Mathieu apresenta um dos seus textos
num congresso sobre o conceito de alienação69, numa mesa sobre alienação feminina na qual
o termo é usado praticamente como sinônimo de “opressão feminina”. A categoria “opressão”
assume esse lugar.

O termo “opressão” já está presente no FMA mas tornar-se-ia central no MLF. Foi
um recurso usado não somente pelo movimento feminista, mas, por um conjunto de outros
grupos que emergem na cena política nesse contexto para caracterizar formas de dominação
que não se resumiam à exploração econômica, assim como “minoritários” e “dominados”.
Esses termos foram usados como um grande guarda-chuva sob o qual se reuniam múltiplas
formas de desigualdades. Nesse quadro, os negros e outros racializados, as mulheres, os
colonizados foram considerados oprimidos.

Albert Memmi, no final dos anos 1960, faz um exercício importante nesse
sentido. Em L’homme dominé procura traçar um perfil dos oprimidos, que, apesar das
diferenças, teriam traços comuns:
Sabíamos que todos os oprimidos se assemelhavam, o colonizado, o judeu, o
pobre, a mulher, para além dos seus aspectos individuais e de suas histórias
específicas, eles têm semelhanças: todos eles estão submetidos ao jugo, que
deixa traços análogos nas suas almas e imprime um esquerdizamento similar
nas suas condutas. O mesmo sofrimento pede frequentemente os mesmos
gestos, as mesmas crispações interiores ou os mesmos trejeitos, as mesmas
angústias ou as mesmas revoltas.70

O autor já havia tematizado a situação de judeus e colonizados, mas inova ao


incluir um capítulo sobre negros, assim como sobre as mulheres e as “domésticas”. Em
relação ao colonizado, o autor afirma que o “aspecto econômico” da colonização é
fundamental, mas, “não determinante”. Essa caracterização parece servir para o conjunto dos
oprimidos. Não era possível explicar a opressão de negros, mulheres e colonizados somente a
partir da relação capital-trabalho. Mas, como uma reunião de artigos publicados ao longo dos
anos 1960, o livro, embora lance a ideia de um retrato dos oprimidos, não a aprofunda
teoricamente.

O conceito teria um papel fundamental no MLF. Christine Delphy, num texto de


1975, considerava essa noção como a base de toda reflexão do movimento. Para a autora, a
renovação do feminismo coincide com o uso da categoria “opressão”. Diferentemente do

69
Para os anais do congresso, ver: GABEL, Joseph; ROUSSET, Bernanrd et. al. L’alienation aujourd’hui. Paris:
Éditions Anthropos, 1974.
70
MEMMI, Albert. L’homme dominée... Op. cit., p.24.
127

termo “condição feminina”, preso a uma explicação naturalista, a uma realidade física e não
modificável, o termo opressão “remete a um arbitrário, a uma explicação e a uma situação
política”.71 Essa categoria implica uma ideia de dominação estrutural. Essa dominação não se
confunde com a estrutura econômica. Ela perpassa a sociedade como um todo. Nesse sentido,
o conceito de “opressão das mulheres” implica uma expansão do conceito de “política” e uma
ruptura com a dicotomia privado-público. Esse termo, conclui Delphy, “é a base, o ponto de
partida de todo estudo e toda perspectiva feminista”.72 Partir da “opressão das mulheres”
constituiria uma “revolução epistemológica”.73

Mas, a insuficiência explicativa do conceito parece ter sido alvo de algumas


críticas. Numa resenha de 1972 na Revue Française de Sociologie, Yvon Bourdet argumenta
que o conceito é mais descritivo do que analítico, desenvolvendo uma abordagem mais
concentrada nos efeitos do que nas causas do fenômeno e, por isso, atribuindo ao movimento
de liberação uma fundamentação moral:
Ao utilizar o termo ‘opressão’, entende-se que se trata de um fenômeno
histórico injusto que deveria e poderia não existir. Descreve-se
‘consequências’ certamente inadmissíveis, mas quais são as causas? (...) O
movimento de libertação das mulheres parece ter notadamente por
fundamento os valores morais de justiça e igualdade. Ele se vincula mais à
Kant que à Marx.74

Esse tipo de crítica explicita o quanto a articulação de uma teoria materialista da


opressão era considerada uma necessidade para certos setores de esquerda naquele contexto. É
em parte em resposta a esse tipo de crítica que se desenvolveram algumas tentativas de
explicar em termos econômicos a opressão feminina que serão abordadas no capítulo 5.

O uso do conceito de opressão seria acompanhado por uma série de outros,


orientados para captar a “especificidade” da opressão das mulheres. Nos primeiros panfletos e
textos curtos publicados, os termos “patriarcado”, “racismo” e “chauvinismo macho”
(chauvinisme mâle) fazem suas primeiras aparições. Analogias com a servidão e a escravidão
são abundantes nesse momento.75

Em “Combat pour la libération de la femme”, a opressão é pensada em termos de


servidão, exploração, colonização. O texto começa com uma epígrafe que reproduz os

71
DELPHY, Christine. Pour un féminisme matérialiste [1975]. L’ennemi principal… Op. cit, p. 272.
72
Ibidem, p. 272.
73
Ibidem, p. 277.
74
BOURDET, Yvon. Le livre de l’oppression des femmes .Op. cit., p. 581.
75
Ver: panfletos “ Solidarité avec les femmes em greve aux USA les 26 et 27 aout » e o texto Contre le
terrorisme male L’idiot international , juillet-aout 1970.
128

verbetes “servo” e “servidão” do Dictionnaire Robert. Mas, já no primeiro parágrafo, outra


analogia é evocada: “Nós, desde tempos imemoriais, vivemos como um povo colonizado
dentro do povo”.76 Pouco depois, as mulheres aparecem como “os verdadeiros servos da
História”, para, em seguida, figurar como uma “classe oprimida”: “Somos a mais velha classe
oprimida”. Todas essas analogias nos remetem a uma situação de subordinação representada
no último degrau de uma escala: as mulheres seriam os servos dos servos, os colonizados, os
proletários dos proletários. Tais termos são usados mais como símiles (na forma do “como
se”) do que como conceitos, sendo manejados alternadamente para referir-se a um território
semântico compartilhado por eles.

Em “Contre le terrorisme mâle” (Contra o terrorismo macho), com data de julho-


agosto de 1970, evoca-se o termo “racismo” para referir-se a um “sistema opressor”: “Nosso
sexo é oprimido e é submetido a um racismo, nossa luta é, portanto, política”. Os homens são
apresentados como “os produtos e os instrumentos do sistema capitalista e patriarcal”. Evoca-
se também a luta “contra o chauvinismo macho”.77

Em agosto de 1970, num panfleto distribuído naquela que é considerada a


primeira aparição pública do movimento, a deposição de uma coroa de flores no monumento
do Arco do Triunfo, em solidariedade à greve das mulheres nos EUA, fala-se de “escravidão
pelo sistema patriarcal (submissão ao pai e ao marido), suporte fundamental da exploração
capitalista”.78 A explicação logo após o uso do termo “patriarcado” mostra que não se tratava
de um conceito evidente.

Como se vê, as analogias são frequentes nos textos iniciais do movimento e


procuravam chamar a atenção e denunciar uma opressão que não era considerada como tal.
Estes mostram também a falta de termos para nomear e conceituar uma série de questões que
o movimento fazia vir à tona. Elas eram, sobretudo, um instrumento de denúncia e não
constituíam necessariamente conceitos elaborados e com definições precisas. Em muitos
contextos são usadas como sinônimos, sem a necessidade de especificar as diferenças que
recobrem os diversos tipos de “opressão” ou ‘exploração”:
Elas são um terceiro mundo no mundo ocidental. Como os negros nos EUA
elas são em servidão (...) como eles estão contaminados pela imagem que o
senhor fez delas mesmas, para seu benefício. Enquanto mulher, sinto-me
obrigada (não obrigo ninguém) a se engajar numa luta anti-imperialista
(anticolonialista).79

76
Wittig, Monique et. al. Combat pour la libération de la femme . Op. cit, p.16.
77
Contre le terrorisme mâle. L’idiot internationale, julho-agosto 1970.
78
[Panfleto] Solidarité avec les femmes en grève aux USA les 26 et 27 août. BMD.
79
Porquoi je suis dans la lutte des femmes . Le Torchon brûle, décembre 1970, p. 16.
129

Trata-se também de uma estratégia de legitimação diante de uma esquerda que


insistia em desconsiderar essa questão. A esquerda é acusada de considerar o sexismo como
um problema menor em relação à luta anti-imperialista e antiracista. Em diferentes contextos,
o movimento denunciaria essa hierarquização:
Quando as mulheres se reúnem para analisar sua própria experiência é
porque elas são doentes – quando são camponeses chineses ou guerrilheiros
80
guatemaltecos, eles são revolucionários.

Anne e Jacqueline consideram o movimento feminista como “um movimento de


libertação”, e desta forma, teriam o “direito ao mesmo respeito que os outros movimentos de
libertação”.81 Encontramos esse tipo de crítica em diferentes momentos ao longo dos anos
1970. A recusa a considerar a luta das mulheres como legítima e o sexismo como um
problema real aparece explicitamente em alguns discursos.

Voltando às analogias, cabe se referir àquela que se expressa pela


autodenominação de movimento de libertação, a qual alinha o movimento feminista com os
movimentos de descolonização e com o movimento negro. O uso desse nome indica a
intenção de identificar-se de algum modo com esses movimentos. Em alguns textos, o
pertencimento a esse conjunto mais amplo de “movimentos de liberação” é explicitamente
reivindicado, ao lado do reconhecimento da influência desses movimentos para a construção
do “problema da nossa opressão”:
É o desenvolvimento das lutas anti-imperialistas, aquelas dos povos de cor
contra o domínio do homem branco ocidental que nos permite colocar o
problema da nossa opressão em nível ideológico (...) Nossa luta é parte
integrante de todos os movimentos de libertação.82

Para Christine Delphy, as lutas de libertação nacional foram o “paradigma mais


importante” e foi fundamental para essa geração.83 O movimento seria parte de um conjunto
de outras lutas contra a opressão e a exploração, uma luta pela libertação dos “povos”. Liliane
Kandel, no mesmo sentido, afirma:
O MLF carregou muito tempo a marca desses modelos – e às vezes ainda o
carrega nos dias atuais, mesmo se as relações de dominação colonial não
tenham relação com a dominação masculina. Mas, à época, dizer que as

80
La Révolution fera le ménage. L’idiot international , juilllet-aout 1970.
81
Anne e Jacqueline. D’un groupe à l’autre. Partisans. Op. cit., p.200.
82
Torchon Brûle, n.1, s.d. [maio de 1971 segundo Françoise Picq. Libération des femmes... Op. cit., p.144].
83
Delphy , p. 198.
130

mulheres eram “o povo dentro do povo”, um “povo oprimido’, era bastante


comum.84

Opressão seria o termo mais consensual, mas, para algumas, tratar-se-ia de uma
forma de “exploração”, no sentido marxista do termo. O termo “exploração” foi muito
utilizado para caracterizar a extorsão do trabalho doméstico no seio da família, considerada
por algumas como a base da opressão feminina. Outras considerariam que analogias com
outras formas de dominação anteriores ao sistema capitalista seriam mais apropriadas. Fala-se
de escravidão, servidão. Guillaumin propôs o conceito de “sexagem”, um termo em francês
em estreita relação com servidão (servage) e escravidão (esclavage). A analogia com a ideia
de “povo” como afirma Kandel85, foi também bastante utilizada.

Essas analogias já eram empregadas muito antes do surgimento do movimento,


mas com uma finalidade diferente. Engels considera as mulheres como proletários dos
proletários. Lenin fala em escravidão doméstica. Beauvoir, dentre outras feministas,
comparava a situação vivida pelas mulheres à dos negros e judeus.

A ideia de que as mulheres estariam submetidas a um sistema de “escravidão” é


corrente no movimento. No hino do MLF, cantado até os dias atuais nas manifestações
feministas francesas, as “mulheres escravas” são conclamadas a se rebelarem contra esse
estado de coisas:
De pé mulheres escravizadas
Rompamos nossos grilhões
De pé! De pé!

Além do paralelo com a escravidão, o racismo servia de modelo para pensar e


nomear o que as mulheres sofriam. As mulheres, assim como os negros, teriam um “substrato
físico” com referência ao qual se constituiu uma relação de opressão. Essa analogia foi
particularmente utilizada no contexto estadunidense, por razões históricas. Para Dunbar, “a
escravidão dos africanos no sul antes da guerra de Secessão é a analogia mais evidente que
podemos estabelecer com os estatuto de casta das mulheres”.86 Diversas outras autoras
apontariam para tal semelhança, que se refere a um processo de “biologização” de grupos.

84
KANDEL, Liliane. Genération MLF (entrevista feita por Margaret Maruani e Nicole Mosconi). Travail,
genre et sociétés, n.24, 2010/2, p.12
85
KANDEL, Liliane. Les femmes sont-elles un peuple ? In: HOOCK-DEMARLE, Marie-Claire (org.). Femmes,
Nations, Europe: Nationalismes et internationalismes dans les mouvements de femmes en Europe, Paris,
Publications de l'Université Paris 7-Denis Diderot, collection CEDREF- Colloques et Travaux, 1995 .
86
Ibidem, p. 51.
131

De modo similar, em Partisans, afirma-se: “Na verdade, existe entre o negro e a


mulher uma congregação da opressão: tanto um como o outro não podem escapar a uma
identificação física imediata e não existe possibilidade de mudar sua condição de negro ou de
mulher”.87 Colette Guillaumin, como veremos no capítulo 5, mostra como a naturalização da
diferença seria um elemento comum da opressão das mulheres e outros grupos racializados.
Em ambos os casos, uma “marca biológica” é usada para justificar uma opressão, ou, para
usar termos da reflexão posterior de Guillaumin, uma relação social de dominação, de força,
de exploração, aquela que dá origem à ideia de “natureza”, é considerada (em uma inversão)
como produto do objeto que sofre essa dominação.88

O racismo foi duramente criticado no pós-guerra, após o Holocausto, e pensar a


situação das mulheres em analogia com os negros permitia imaginar a diferença biológica
como algo que não deveria implicar consequências sociais, tornando possível pensar a
mudança social e a construção social dessa diferença. Em diversos textos iniciais do
movimento, encontramos uma posição antinaturalista e analogias com o racismo. As latino-
americanas que publicavam Nosotras fazem, por exemplo, uma clara vinculação entre os dois:
SEXISTA é a palavra equivalente à racista, que atribui a um indivíduo (por
causa de suas características específicas, raciais ou sexuais) um
comportamento pré-estabelecido e irreversível. Assim, o negro “é violento”,
o judeu é “avaro”, o homem é “racional”, a mulher é “intuitiva e
89
emocional”.

Constata-se que as militantes recusam a atribuição aos indivíduos, a partir de


características físicas, sexuais ou raciais, um comportamento inato. O essencialismo biológico
é considerado um apanágio do sexismo e do racismo e, por isso, rejeitado. O objetivo de uma
parte do movimento seria justamente superar essa ideia de mulher baseada na biologia.

No início do movimento, o próprio termo “racismo” foi empregado para


caracterizar a situação vivida pelas mulheres: “Nosso sexo é oprimido e sofre um racismo,
nossa luta é, portanto, política”90, afirmava um desses textos precursores. No primeiro número
do jornal Le torchon brûle, encontramos igualmente o uso do termo: “Eu constatei um

87
QUELQUES MILITANTS. Présentations. Partisans (Libération des femmes. Année zero), n.54-55, julho-
outubro de 1970, p.4.
88
GUILLAUMIN, Colette. Race et nature... Op. cit.
89
Danda e Mariza. Feminismo. Nosotras,n.5, maio de 1974.
90
L’idiot International, juillet-aout 1970.
132

racismo dos homens a meu respeito”.91 Mas, o termo “sexismo”, concebido como um
“racismo contra as mulheres” foi rapidamente substituindo o uso do termo “racismo”.

Em “Combat pour la libération”, o termo sexismo aparece como uma invenção


das feministas estadunidenses: “As americanas, que começavam sua luta de libertação,
chamam ‘sexismo’ a segregação na qual somos mantidas. Como o racismo, o sexismo é bem
implantado na ideologia da classe dominante que somente uma tomada de poder radical
poderá destruí-lo”.92 O termo surge, segundo Shapiro, no final dos anos 1960 nos EUA e sua
criação é atribuída a Vanauken, como afirma um jornal do movimento No More Fun and
Games:
Vanauken suggests... that we use the word ‘sexism’ rather than male
chauvinism or male supremacy. A sexist, then, is a person who promotes
sexism. We thank Vanauken for giving our movement this important word
which so clearly expresses the syndrome we are fighting.93

Nos EUA, esse termo vinha frequentemente acompanhado do termo racismo em


títulos como “Sexism is no lesse vil than racism or capitalismo”, de Ellen Willis, dentre
outros. O termo era usado como sinônimo de “chauvinismo masculino” mas dava a este um
sentido mais sistêmico, estrutural.94

Na França, o termo ganharia rápida difusão. Após algumas primeiras utilizações,


os termos “racismo” e “chauvinismo masculino” praticamente desaparecem do vocabulário
feminista francês, cedendo lugar à ideia de “sexismo” e de “patriarcado”. O termo
“machisme” e “machiste” era pouco empregado. Naty Guadilla, num texto de 197495 explica
até mesmo a tradução de “machismo” por “machisme” e propõe uma definição, um indício do
emprego marginal do termo.

Um elemento fundamental na divulgação da categoria sexismo, sobretudo para


um público mais amplo, foi a seção de crônicas publicada na revista Les temps modernes a
partir de dezembro de 1973, intitulada “Le sexisme ordinaire”. Na introdução da primeira
crônica, Simone de Beauvoir destaca a necessidade de dar nome a algo cuja naturalização não
havia permitido que, até então, fosse nomeado:

91
Porquoi je suis dans la lutte des femmes . Le Torchon brûle. L’idiot liberte, décembre 1970, p. 16.
92
WITTIG, Monique et. al. Combat pour la libération de la femme Op. cit. , p. 18.
93
SHAPIRO, Fred. Historical Notes on the Vocabulary of the Women's Movement. American Speech, vol. 60,
No. 1, 1985, p. 7.
94
MITCHELL, Juliet. La Liberación de la Mujer Barcelona: Editorial Anagrama, 1977, p.68-69.
95
Guadilla usa o termo machisme para caracterizar uma ideologia sexual de repressão que afetaria
especialmente os países latinos e que seria particularmente enraizada na América Latina. GUADILLA, Naty
Garcia. Realité et utopia d’um mouvement de liberation des femmes en Amériqueu Latine . Les temps modernes,
n.337-338, août-sept. 1974, p. 2727.
133

Um individuo que diante de testemunhas trata outro de ‘negro sujo’ (sale


nègre) ou que veicula opiniões insultantes acerca de judeus ou árabes pode
ser processado nos tribunais que o condenarão por ‘injúrias raciais’. Mas se
um homem chama uma mulher de ‘puta’ publicamente, ou se em seus
escritos acusa A Mulher de estupidez, de instabilidade, de debilidade mental,
de condutas histéricas, ele não corre nenhum risco. A noção de ‘injúrias
racistas’ não existe. Um certo número de mulheres, entre as quais eu me
incluo, promoveram a criação de uma LIGA DOS DIREITOS DAS
MULHERES. Essa associação propõe a si própria muitos objetivos, dentre
os quais, o de se opor a todas discriminações contra as mulheres presentes
em cartazes, escritos, falas públicas. Exigimos que as ‘injúrias sexistas’
sejam consideradas como uma infração.96

Deve-se recordar que houve tentativas de utilizar o termo em sentido diverso,


empregando-o para caracterizar investimentos teóricos e políticos que supostamente isolavam
a questão das mulheres da luta anticapitalista. Algumas organizações de esquerda
mobilizaram o termo “sexismo” com essa finalidade. No Brasil, encontramos esse uso do
termo.

Outro conceito de importância capital foi o de patriarcado. Esse conceito não


foi primeiramente formulado pelas feministas da “segunda onda”, mas seriam elas que lhe
dariam um novo significado. Grosso modo, “patriarcado” passou a designar uma formação
social na qual os homens detêm o poder. Seria quase um sinônimo para “dominação
masculina” ou “opressão às mulheres”, mas, patriarcado ressaltaria a ideia de que se trata de
de algo sistémico, estrutural e não relações individuais.97 Transferia-se, assim, o problema do
nível individual para o coletivo. Além disso, ressalvava-se a especificidade da opressão à
mulher e a necessidade de uma luta autônoma especificamente feminista. A primeira
formulação nessa acepção é atribuída a Kate Millet, em Política Sexual, publicado em 1970.
Essa categoria foi rapidamente apropriada por uma parte do movimento, designando, de uma
forma geral, um “sistema” a ser combatido. No contexto francês, Christine Delphy é a
primeira a conceituá-lo nesse sentido, no texto L’ennemi principal. A conceituação
desenvolvida por Delphy constituiu uma referência importante para os debates na cena
francesa. Como veremos posteriormente, a definição de patriarcado proposta por Delphy
partia do trabalho doméstico para analisar a posição específica das mulheres em relação aos
meios de produção. O conceito está presente, num primeiro momento, sobretudo nos textos

96
BEAUVOIR, Simone. Le sexisme ordinaire. Les temps modernes, n.329, décembre 1973, p.1092.
97
DELPHY, Christine. Patriarcat. In: HIRATA, Helena. et. al. Dictionnaire critique du féminisme. Paris: PUF,
2000.
134

oriundos das feministas revolucionárias, mas algumas feministas ligadas a setores “luta de
classes” também adotam o termo.

O sentido atribuído a esse e outros conceitos variou muito em consonância com a


orientação política das feministas e grupos que os formularam. Patriarcado, por exemplo, foi
usado para caracterizar um sistema ideológico, um modo de produção ou, simplesmente, um
“sistema”, algo que estruturava a opressão feminina. Dada a importância desse conceito, este
será abordado no próximo capítulo.

A maior parte das categorias apresentadas neste item diz respeito a conceitos que
exprimem uma opressão/dominação comum ao conjunto das mulheres. No próximo item,
gostaríamos de explorar uma questão que foi bastante discutida posteriormente, a saber, as
outras hierarquias/desigualdades que atravessam a categoria “mulheres”. Ao analisar o
contexto do movimento feminista francês dos anos 1970, algumas pesquisas mais recentes
têm explicitado criticamente a ausência de uma tematização mais profunda da questão das
múltiplas opressões ou até mesmo de conivência com o racismo. Essa crítica envolve até
mesmo o uso de analogias com a raça, amplamente usadas pelo movimento como procuramos
mostrar. Para Éwamke-Épée e Magliani-Balkacem, no polêmico livro Les féministes blanches
et l’empire98, essas analogias constituíram uma forma de evacuar a “especificidade do estatuto
das mulheres não brancas em relação ao resto do movimento”.99

Unidade de classe ou múltiplas opressões?

Neste tópico, procuraremos analisar como o feminismo francês analisou a questão


das múltiplas dominações. Partiremos de uma categorização das teorias para explicar a
dominação proposta por Sirma Bilge.100

Bilge identifica uma primeira forma de explicar a dominação como uma


“perspectiva monista”. Esta considera a existência de uma dominação fundamental da qual
decorreriam todas as outras dominações, consideradas “periféricas”. Para as correntes
feministas monistas, a dominação principal seria o patriarcado ou a diferença principal, o

98
Para uma resposta ao livro, ver o texto de Josette Trat, que foi militante da tendência luta de classes: Les
féministes blanches et l’empire , ou le récit d’un complot féministe fantasmé. Contremps. Revue de critique
communiste. https://www.contretemps.eu/les-feministes-blanches-et-lempire-ou-le-recit-dun-complot-feministe-
fantasme/. Consultado em 10 de março de 2015.
99
Éwamke-Épée; Magliani-Balkacem. Les féministes blanches et l’empire. Paris: La Fabrique, 2012, p. 51.
100
BILGE, Sirma. De l'analogie à l'articulation: théoriser la différenciation sociale et l'inégalité complexe.
L'Homme et la société, 2010/2.
135

sexo, do mesmo modo que, para certo marxismo, seria o sistema capitalista. Apesar das
diferenças, esse feminismo e esse marxismo compartilham uma mesma lógica de apreensão
da dominação e das relações entre dominação principal, que deve ser combatida, e
dominações secundárias, que desapareceriam ou sairiam comprometidas a partir da destruição
da primeira.101

Quando o objetivo é interconectar diferentes relações de dominação, um


raciocínio analógico é bastante comum. Duas formas principais são identificadas: a analogia
por assimilação e uma analogia por recomposição. No primeiro caso, “um torna-se outro”,
uma relação (secundária) é pensada como extensão de outra relação (principal), e, em
consequência, apresentada como solúvel no contexto da segunda (da relação principal). Mas,
como ressalva a autora, nem todo uso de analogia caminha nesse mesmo sentido. Um
exemplo desse tipo de posição monista no campo do feminismo é a posição do grupo
feminista estadunidense Redstocking:
Male suppremacy is the oldest, most basic form of domination. All other
forms of exploitation and oppression (racism, capitalism, imperialism, etc.)
are extensions of male supremacy: men dominate women, a few men
dominate the rest.102

Uma outra perspectiva é definida como “pluralista”, que concebe a dominação


como “aglomeração, uma adição de dominações separadas uma das outras, cujo número pode
se estender infinitamente”. Esta perspectiva surge a partir da crítica às teorizações em termos
monistas: “Criticadas pelo seu ‘esquecimento’ da classe e da raça nas suas análises de gênero,
elas decidem então ‘acrescentar’”.103

Dentro dessa perspectiva, dois principais modelos podem ser identificados: um


modelo aditivo (gênero + raça + classe) e um modelo multiplicativo, que compreende os
efeitos da interação entre diferentes “eixos” de dominação. Em ambos, a despeito das
diferenças significativas de abordagem, as opressões são pensadas como separáveis, como
dominações constituídas de forma independente, ainda que, como no modelo multiplicativo,
possam interagir entre si.

Uma terceira perspectiva, identificada como “holista”, busca apreender a


diferenciação social como um “sistema complexo possuindo características ligadas a sua

101
Ibidem, p.52.
102
REDSTOCKINGS. Redstockings Manifesto. Notes from second year… Op.cit., p.113.
103
BILGE, Sirma. De l'analogie à l'articulation... Op. cit., p. 56.
136

totalidade, e propriedades não dedutíveis àquelas de seus elementos”.104 A questão aqui é


pensar a “co-formação” e a “co-construção” das categorias de gênero, raça e classe (ou
outras): “Nessa perspectiva holística da dominação, o raciocínio se desenvolve mais em
termos de relação constitutiva que em termos de relação analógica ou aritmética”.105 A análise
em termos de “intersecção” é uma das formas de abordagem que surgem dentro dessa
perspectiva, procurando oferecer uma análise que não tem por base “categorias preexistentes
que se influenciam mutuamente”, mas processos de co-construção.106 Mas, o vocabulário
usado para dar significado a essa “arquitetura dinâmica e complexa” é bastante variado. Bilge
apresenta alguns de forma cronológica: “interconectividade de opressões de raça e classe”
(interconnectivité des oppression de sexe, de race et de classe) em Bell Hooks; “nexus” em
Deborah King; “interseccionalidade ” em Crenshaw, e “sistemas de dominação interligados”
(systèmes d’oppression imbriques) e “matriz da dominação” (la matricede la domination) em
Patricia H. Collins. Nos EUA, as críticas a uma perspectiva monista provêm, em grande
medida, do feminismo negro, a partir da denúncia da marginalização das mulheres negras.

Frequentemente essas diferentes perspectivas são apresentadas de forma


cronológica. O feminismo dos anos 1970 seria monista, o dos anos 1980 começaria a
tematizar a questão da diferença e, finalmente nos anos 1990, emergiriam perspectivas
procurando interconectar essas formas de dominação. Mas, procuraremos complexificar um
pouco mais essa narrativa a partir de diferentes tipos de fontes. A análise de documentos
produzidos pelo movimento, como panfletos e textos de revistas militantes, possibilita
construir uma visão mais nuançada da questão, ressaltando as tentativas de formular
teoricamente a existência de outras formas de opressão.

Uma análise dos primeiros materiais produzidos pelo movimento mostra que um
elemento fundamental para sua constituição foi a crítica a um certo modelo marxista
“monista”. Esse modelo subsumia a “questão feminina” nas relações de classe, considerando
o primeiro como parte do segundo. A crítica a essa posição deu origem a diversos outros
approaches mais ou menos desenvolvidos e a tentativas de formular a questão a partir de
novas bases.

Nos textos das feministas revolucionárias, podemos encontrar tentativas de


romper com a ideia de “contradição principal e secundária” e com a ideia de que existiria
somente uma opressão. O trecho abaixo é bastante elucidativo neste ponto:

104
Ibidem, p. 59.
105
Ibidem, p. 59.
106
Ibidem, p.61.
137

Não acreditamos em frontes principais e secundárias, nem em contradições


principais e secundárias. Mas há opressão – não – opressões, múltiplas,
combinadas, todo mundo simultaneamente opressor e oprimido.107

Mas, essa ideia coexiste com uma concepção, que aparece em alguns desses
textos, de que a opressão feminina seria a opressão “principal e primordial”.108 Anne e
Jacqueline afirmam também nesse mesmo sentido que: “Se queremos definir, a qualquer
preço, uma opressão primeira, senão principal, é aquela de um sexo sobre o outro. Ela é duas
vezes a primeira: primeira na História da humanidade e primeira para cada indivíduo”.109

As feministas revolucionárias, num texto intitulado “Pour un groupe feministe


revolutionnaire”, que provavelmente constituiu uma chamada para a constituição dessa
tendência, identifica-se, de forma esquemática segundo elas próprias, a existência de dois
polos no movimento. Um afirmaria que “a luta das mulheres é um aspecto marginal da luta de
classes considerada como principal” e uma outra que a luta das mulheres colocaria em
questão “todos os aspectos da sociedade global (na qual se insere a exploração de classe),
assim como o caráter privilegiado da luta anticapitalista. Dois sistemas de exploração co-
existem sendo que o mais antigo determina o outro”.110

À subsunção teórica e prática da opressão feminina nas relações de classe,


contrapõe-se a ideia de dois sistemas de opressão em que um, o mais antigo, o patriarcado,
determinaria o segundo. Estamos aqui nessa discussão que orbita o modelo “monista”. De um
lado, o feminismo revolucionário/radical, com a perspectiva de uma opressão principal e
primordial, o patriarcado, e, do outro, alguns setores de esquerda que atribuem à opressão
capitalista esse lugar primacial.

O postulado de uma opressão primordial e principal seria a base da crítica de


diversos setores de esquerda ao feminismo revolucionário/radical. Este é acusado de
desconsiderar as relações de classe ao propor que “a opressão das mulheres não tem nada a
ver com a luta de classes. Todas as mulheres são concernidas”.111 Além disso, a conceituação
de patriarcado é considerada a-histórica. Este sistema deveria ser pensado em relação ao

107
Féministes Révolutionaires. Torchon brûle n.5, s.d., p.8 [data aproximada: primeiros meses de 1973].
108
[Panfleto] Pour um groupe feministe revolutionnaire. BMD
109
ANNIE e ANNE. Luttes des femmes et révolution. In : COLLECTIF. Les femmes s’entêtent. Paris :
Gallimard : Maspero, 1975, p. 279.
110
[Panfleto] Pour un groupe feministe revolutionnaire. s.d. BMD.
111
Projets pour la plataforme des groups de quartiers. Bilan: les FEMINISTES REVOLUTIONNAIRES. BMD.
138

sistema capitalista, ao contrário de outras tendências que não fazem “nenhuma referência à
natureza do sistema social” e, nesse sentido, propõem análises “a-históricas”.112

Além disso, a crítica à noção da autonomia do patriarcado é acompanhada por


uma crítica à hierarquização dessas formas de dominação. O Cahiers pour le comunisme
considera que as tendências do movimento “feministas revolucionárias” e “psicanálise e
política” promoviam essa ideia:
Essas duas correntes são muito próximas: elas consideram que a luta de
classes é secundária e que é a luta entre os sexos que determina toda a
sociedade: o capitalismo seria uma das formas pelas quais reveste o
patriarcado: o inimigo é, portanto, o Homem e não o capitalismo.113

Para Delphy, a relação entre patriarcado e capitalismo (ou entre sexo e classe)
figurava mais como uma vontade teórica que algo realmente elaborado e desenvolvido. Uma
articulação com a raça não constituía um debate nesse momento. Entretanto, as referências às
lutas anti-imperialistas e anticoloniais podem ser apreendidas como uma forma de fazer
referência a esse fator. Entre as feministas radicais, encontramos a ideia de uma imbricação
entre “capitalismo, patriarcado e imperialismo”, que pode ser interpretado como o
“antepassado” da tríade “classe, gênero e raça”:
Patriarcado, Capitalismo, Imperialismo, são um só deus em três pessoas
como a Santa Trindade. Seu objetivo é o mesmo: exploração da energia
humana e natural com objetivo de lucro.114

A metáfora da Santa Trindade é usada como uma forma de mostrar a


intersecção dessas três formas de subordinação. É interessante notar que, embora a questão da
raça não seja diretamente tematizada, está presente, de modo subjacente, na discussão do
imperialismo.

A estratégia de superação do patriarcado é pensada em relação com outros


movimentos existentes. Imaginando um momento avançado da luta, após consolidação das
mulheres como uma força política, elas concluem que não cabe nem imaginar pois as
condições terão se alterado tanto que seriam necessárias novas análises:
Quando chegarmos lá, as condições objetivas terão sem dúvida mudado
drasticamente (lutas das crianças, operários, terceiro-mundo, tomada de
consciência dos homens...) e será necessário rever tudo.115

112
Femmes. Exploitées, orpimées. Osons lutter. Cahiers pour le communisme. N.9 brochura, p.73.
113
Ibidem
114
[Panfleto] Pour les féministes révolutionnaires. Amorce de schéma de travail . Fundo Anne Zelensky. BMD
115
[Panfleto] Pour les feministes revolutionnaires . Idem.
139

Nesse mesmo texto, reflete-se que, se essas opressões se articulam, devem ser
combatidas de forma igualmente unificada. As lutas, que devem respeitar a especificidade de
cada forma de opressão, devem ser, ao mesmo tempo, “objetivamente solidárias” e
“convergentes”: “Seu objetivo comum é derrubar o ‘deus’ sob suas três formas e de
estabelecer relações de não-opressão. Todas essas lutas são a luta de classes”.116

Podemos considerar essa uma primeira tentativa de sair do modelo “monista” e


um embrião da ideia de “consubstancialidade” (termo que tem igualmente uma origem
religiosa). Mas a crítica a essa visão não as conduz a um modelo aditivo. Vê-se que, embora
tentem elaborar a ideia de múltiplas formas de opressão, todas parecem estar subsumidas à
opressão de classe. Consideramos, apesar disso, uma primeira tentativa de articular diferentes
formas de dominação.

Num outro texto de 1977, “Les féministes radicales face aux élections”117,
assinado por diferentes grupos que se reivindicam dentro dessa denominação, podemos
perceber uma série de tentativas, num único e curto texto, de formular a questão.

Afirma-se que “a classe das mulheres se situa na verdade na intersecção de todos


as redes de poder: mulheres operárias, mulheres imigrantes, crianças-mulheres, mulheres
doentes, escolarizadas, prisioneiras, psiquiatrizadas... sofrendo todas a opressão patriarcal sob
múltiplas formas”. Algumas mulheres, para além da opressão patriarcal, estariam submetidas,
além disso, às opressões “capitalista, racial, parental e medical...”.118 O lugar das mulheres
teria um papel de “multiplicador” das opressões. Assim, a mulher operária seria mais
oprimida que o operário etc. Num mesmo texto, encontramos algumas referências que
poderiam indicar um modelo aditivo, mas também multiplicador.

Na prática o movimento teve que se deparar com a questão, particularmente a


relação entre patriarcado e capitalismo. A falta de instrumentos teóricos também não
constituiu, contudo, um empecilho a ações de apoio e de solidariedade a mulheres de outras
nacionalidades e racializadas. Mas, essa solidariedade se fundamentava, sobretudo, na noção
de uma “comunalidade” das “mulheres” do que na exploração do espaço que as separava.

As tomadas de posição em relação a essa questão devem ser compreendidas,


portanto, no contexto no qual foram elaboradas. É, em primeiro lugar, em resposta a uma
absolutização do sistema de classe como única relação social pertinente e à posição de uma

116
Idem.
117
Les féministes radicales face aux élections. Texto reproduzido em diferentes periódicos. Citaremos aqui
aquele publicado em Le Temps des Femmes, n.1, 1978.
118
Idem.
140

grande parte da esquerda que insistia em tudo subordinar à questão de classe que essa posição
deve ser compreendida. Nos EUA, como afirma Echols119, a tendência do “feminismo
radical” em subordinar classe e raça ao gênero e de falar hiperbolicamente sobre um
“sisterhood” universal, foi, em larga medida, àquelas posições presentes na esquerda. Na
França, para Lepinard, a necessidade do movimento feminista de emancipar-se de uma
extrema esquerda desejosa de colocá-lo sob sua tutela explicaria, em grande medida, por que
a categoria “mulheres” adquiriu centralidade estratégica, sendo mobilizada, muitas vezes, sem
uma problematização mais profunda de seu significado para a teoria e a ação feministas.120 As
editoras da revista Nouvelles questions féministes faziam, em 1980, uma autocrítica em
relação a essa postura: “ocupadas em resistir ao chapeamento (placage) das análises de classe
(...) nós privilegiamos os pontos comuns entre as mulheres”.121

De qualquer modo, é inegável que a ideia de uma categoria “mulheres” produzida


por um sistema de dominação autônomo foi fundamental para a autonomização do
movimento feminista122. Da afirmação da impossibilidade de conceber um “nós” mulheres,
por Beauvoir em 1949, à formação de um movimento baseado nessa identidade, muitas foram
as reflexões e debates empreendidos e sua importância não pode ser apagada.

119
ECHOLS, Alice. Daring to be bad: radical feminism in América 1967-1975.Minneapolis/Londres: University
of Minnesota Press, 1993, p.10.
120
LEPINARD, Éléonore. Malaise dans le concept. Différence, identité et théorie féministe. Cahier du genre,
n.39, 2005, p.114.
121
NOUVELLES QUESTIONS FEMINISTES. Editorial. Nouvelles Questions Féministes n.1, março de 1981,
p.12.
122
BILGE, Sirma. De l'analogie à l'articulation... Op. cit.
141

Capítulo 4

Questões feministas em revista: desafios e problemas da produção


e publicação de ideias feministas

A forma de se produzir e divulgar ideias é um aspecto que não pode ser


desconsiderado quando se procura retraçar uma história das ideias feministas. Quem escreve,
como se publica, onde e de que forma, devem constituir questões num trabalho desse tipo.
Procuraremos, num primeiro momento, apresentar alguns elementos sobre as condições de
produção e divulgação dessas reflexões nos anos 1970. A segunda parte do capítulo é
dedicada a uma publicação específica, Questions féministes, que foi um importante meio de
divulgação da reflexão materialista.

Condições materiais de produção de saberes feministas nos anos 1970

Os textos produzidos pelo movimento feminista foram veiculados sob diferentes


formas: panfletos, brochuras, textos curtos de intervenção – publicados na imprensa de
esquerda e na imprensa do próprio movimento –, manifestos e livros. O movimento buscava,
assim, divulgar suas ações, o seu ideário, seus novos conceitos. Havia também cartazes1,
músicas, pichações e slogans2, que conseguiam sintetizar em poucas palavras algumas de suas
ideias centrais.

As primeiras reflexões do movimento foram veiculadas em instrumentos de


caráter efêmero como panfletos e palavras de ordem. Ambos não demandam investimentos
financeiros e militantes de maior porte como os necessários para a publicação de uma revista
ou livro, não necessitam de um planejamento de longo prazo e podem ter um efeito imediato.
Não passam também pelo crivo de uma editora.

Os panfletos foram usados para chamar ações do movimento, reuniões, divulgar


ideias, posicionar-se em relação a um tema específico. Foram distribuídos em feiras, fábricas
ou eram voltados para um público próximo do MLF. A partir de alguns deles, podemos
comparar diferentes posições sobre um mesmo evento. Como exemplo, podemos citar três

1
Para alguns cartazes produzidos pelo movimento ver: PAVARD, Bibia; ZANCARINI-FOURNEL, Michelle.
Luttes de femmes. 100 ans d’affiches féministes. Paris: Les Echappées, 2013.
2
CORINNE, App ; FAURE-FRAISSE, Anne-Marie ; FRAENKEL, Béatrice ; RAUZIER, Lydie Quarante ans
de slogans féministes. 1970/2010. Paris: Éditions iXe, 2011.
142

panfletos divulgados durante uma manifestação homossexual e lésbica, realizada em 1977,


considerada a primeira desse tipo na França, nos quais estão expressos três diferentes pontos
de vista sobre um mesmo evento.3 Pode-se também ter acesso a posições minoritárias ou
efêmeras que se exprimiam no seio de um movimento mas que não chegaram a ser publicadas
sob a forma de textos de revistas ou outros tipos de materiais impressos. Os poucos registros
deixados, por exemplo, pelo Gouines rouges, considerado o primeiro grupo lésbico na França,
foram panfletos.

A partir desse tipo de documentos podemos recuperar também momentos da


reflexão, os ensaios e tentativas de formular teoricamente uma questão e acompanhar um
processo de produção teórico e não só o “resultado” final. Nos primeiros panfletos do
movimento podemos acompanhar o processo de criação de alguns conceitos, suas primeiras
utilizações e definições assim como, em alguns casos, sua desaparição do vocabulário de um
certo momento. Analisar esse processo nos dá maior densidade histórica e uma visão menos
teleológica dessa produção, tal qual procuramos fazer no capítulo anterior.

O problema desse tipo de material é que ele se encontra disperso. Podemos


encontrá-los em arquivos pessoais e em dossiês temáticos. A parte da BnF reservada às
“feilles volantes” constitui uma fonte privilegiada para este tipo de pesquisa, embora o acervo
seja bastante limitado, dadas as circunstâncias de coleta4. Esses textos foram arquivados na
categoria “recueils” como: “Mouvement pour la liberté de l’avortement et de la
contraception”, “Mouvement pour la libération de l’avortement” e “Mouvement français pour
le planning familial” e, sobretudo “Mouvement de libération des femmes” e “Mouvement de
libération des femmes – non déposé”. Essas duas categorias nos remetem à divisão que se
instaurou no movimento, após algumas integrantes do grupo “Psicanálise e Política” terem
registrado o nome “MLF”, e foram conservadas dessa forma pela biblioteca.

Outra forma de divulgar ideias foram os slogans ou palavras de ordem. Como


afirma Christine Delphy, há mais teoria num só slogan espontâneo do movimento que em
muitos artigos teóricos.5 Sintetizando em poucas palavras ideias-chaves, estes permitiam uma

3
Um era assinado por “feministas, que como você deve ser adivinhado, são chamadas homossexuais
(homossexuelles); um outro assinado por “Mulheres do Movimento de Libertação das Mulheres que chamamos
de ‘heterossexuais’!” e um terceiro assinado por “Mulheres que vivem de outra forma”. Ver Bulletin Archives,
recherches et cultures lesbiennes, n.6, dez. 1987.
4
Todos as publicações francesas devem destinar um exemplar à Bibliotheque National de France. Para maiores
informações sobre o depósito legal, consultar o site da Bibliothèque National de France.
http://www.bnf.fr/fr/professionnels/depot_legal.html. Materiais como panfletos dependem frequentemente de
doações. Sobre a questão ver ZANCARINI-FOURNEL, Michelle. Tracts, presse et publications féministes.. .
Op. Cit.
5
DELPHY, Christine. Un féminisme matérialiste est possible. Nouvelles Questions féministes, n.4, 1982, p. 55.
143

circulação rápida e barata de ideias. Proferidos em manifestações, escritos em faixas e


cartazes do movimento, em títulos de revistas, eles marcam a história dessas mobilizações.
Como exemplo podemos citar “Nosso ventre nos pertence”, “Crianças desejadas, crianças
amadas. Nada de crianças na linha de montagem, nada de linha para as crianças. Nós teremos
as crianças que nós queremos” para reivindicar a legalização do aborto; “Quando uma mulher
diz não, é não” na luta contra o estupro e a violência sexual. Outros buscavam marcar uma
posição clara em relação a um evento ou ideia “Festejadas um dia do ano, exploradas todos os
outros do ano” (tradução livre de “Fêtées une journée, exploitées toute l’année”) em reação ao
dia das mulheres; “Sua liberação sexual não é a nossa” contra algumas apropriações machistas
da ideia de “revolução sexual”. Muitos tinham suscitar a crítica a partir do riso: “Mulheres e
cães: mesmo combate: não ouvir mais assobios na rua” (“Femmes et chiens même combat: ne
plus être sifllées dans la rue”); “Não é o pinto que nos incomoda, é o cara que vem entorno”
(“Ce n’est pas la bite que nous dérange, c’est le mec qu’il a autor”). Como afirma Liliane
Kandel, provocar o riso tinha um papel fundamental no seio do movimento.6 Alguns desses
slogans circulariam por vários países, em versões traduzidas ou não como “uma mulher sem
um homem é como um peixe sem uma bicicleta” ou “sisterhood is powerful”. Pode-se contar
um pouco da história do movimento feminista da segunda onda a partir desse simples
instrumento.

Já nos momentos iniciais do movimento textos foram redigidos, individualmente


ou coletivamente, e divulgados, num primeiro momento, na imprensa de esquerda, que abriu
suas colunas para a nascente mobilização e, num segundo momento, numa imprensa criada
por integrantes do próprio movimento. Para o primeiro tipo, cabe destacar dois periódicos nos
quais foram publicados dois textos “fundadores” do MLF: o jornal L’Idiot International e a
revista Partisans.

O jornal L’Idiot International foi uma dentre as muitas publicações de esquerda


que floresceram no pós-68 na França. O texto “Combat pour la libération de la femme”7 foi
publicado em maio de 1970. Esse jornal publicaria também “La Révolution fera ménage” e o
que ficou conhecido como o número 0 do jornal do movimento Le Torchon Brûle, publicado
como suplemento do jornal L’idiot liberté, em novembro de 1970. Beauvoir estava na direção
do jornal no período em que os dois primeiros textos foram publicados.

6
KANDEL, Liliane. Liliane Kandel, Génération MLF. (entrevista realizada por Maruani Margaret e Mosconi
Nicole). Travail, genre et sociétés, n.24, 2010, p. 11.
7
ROTHENBURG, Marcia; STEPHENSON, Margaret; WITTIG, Gille; WITTIG, Monique. Combat pour la
libération de la femme. L’idiot international, n. 6, mai 1970. Republicado em: COLLECTIF, mlf//textes
premiers, Paris, Stock, 2009.
144

Partisans (1961-1972) foi uma revista publicada pela editora Maspero.8


Posicionada na “esquerda da esquerda”, tratava-se, segundo Jean-Pierre Debourdeau, da
publicação “que mais influenciou a juventude radicalizada da época”.9 Tinha como eixo
central a causa terceiro-mundista, embora estivesse aberta a outras temáticas, como o
movimento negro, sexualidade etc.10 A publicação de um número duplo do Partisans, com
250 páginas, em 1970 (n.54-55), com o tema Libération des femmes, primeira publicação
coletiva do movimento, tornar-se-ia um marco para a reflexão feminista naquele país e seria
traduzido também para outras línguas. Entre as raras traduções de textos feministas franceses
daquela época para o português (do Brasil), podemos citar a publicação de parte desse número
sob o título Liberação da mulher11. Dada a importância dessa publicação, cabem aqui alguns
comentários.

Jacqueline Feldman rememora que procurou a Maspero inicialmente com o


objetivo de encontrar uma editora que aceitasse o manuscrito de um livro escrito por ela e
Anne Zelensky, que na época faziam parte do FMA: Féminisme, sexualité et révolution.
Interessado pelo texto, Émile Copferman, diretor da editora, propõe transformá-lo para
integrar um número da revista Partisans sobre o women’s lib estadunidense. Essa proposta foi
o gatilho para um processo de produção coletiva de um número por parte do nascente
movimento francês.12

A primeira parte da publicação é composta por traduções de textos


estadunidenses. Alguns deles foram publicados originalmente em Notes from the Second
Year13. Dentre os textos escolhidos, constam alguns que se tornariam “clássicos” no período,
como Un programme pour l’éveil d’une conscience’ féministe (Um programa para despertar
8
A editora Maspero é definida por Julien Hage como um “ponto de confluência editorial da esquerda
revolucionária, fonte de inspiração e lugar de debate teórico dos movimentos de pensamento e dos grupos
emergentes para os quais constituía uma tribuna”. Editora independente, ela constituiu parte de um momento no
qual “os espíritos revolucionários de um mundo em plena transformação incitavam o sucesso do livro político”
les espoirs révolutionnaires d’un monde en plein bouleversement aiguillonnaient le succès du livre politique”.
Para maiores informações consultar: HAGE, Julien. Maspero (Éditions). In: ARTOUS, Antoine et. al. La france
des années 1968. Paris: Syllepse, 2008.
9
DEBOURDEAU, Jean-Pierre. Gauche critique avant 68. Revues, Cercles...In: ARTOUS, Antoine et. al. La
France des années 1968... Op. Cit, p. 393.
10
Outros jornais e revistas também teriam essa abertura, como Politique Hebdo, Actuel, Libération (fundado em
1974), além de publicações ligadas a organizações de esquerda.
11
DURAND, Emmanuelle et. al. Liberação da mulher. Belo Horizonte: Interlivros, 1980.
12
FELDMAN, Jacqueline. Du FMA au MLF. Op. cit., p. 202. Embora algumas tenham considerado que ainda
seria cedo para esse tipo de publicação (como algumas daquelas que compunham o grupo no qual estava
Antoinette Fouque), muitas outras se interessaram pelo projeto e produziram textos para esse número.
13
Notes from the Second Year: Radical Feminism. (cuja editora responsável era Shlamith Firestone. Anne Koedt
era editora associada. Ambas eram integrantes do grupo New York Radical Feminists. Trata-se de uma
importante publicação do Women’s liberation movement nos EUA. Para maiores informações ver ECHOLS,
Alice. Daring to be bad... Op. cit. (apêndice B “Brief Biograhies of Women’s Liberation Activists”, pp. 389-
385).
145

uma consciência feminista), de Kathie Sarachild (sobre os grupos de auto-consciência), Le


mythe de l’orgasme féminin (O mito do orgasmo feminino), de Anne Koedt e manifestos de
alguns grupos, como “Manifeste des Bas Rouges de New York”, do grupo Redstocking.
Outros escritos foram extraídos de diferentes jornais e revistas estadunidenses.

A segunda parte é composta por textos franceses. Essa parte começa com um
texto de Emmanuelle de Lesseps (que assina como Emmanuèle Durand) sobre o estupro –
provavelmente um dos primeiros relatos críticos do estupro publicado por uma mulher na
França –, que é seguido por diversos outros textos sobre aborto, frigidez feminina, um sobre
maternidade, além do artigo de Christine Dupont [Delphy] L’ennemi principal (O inimigo
principal). O texto original de Zelensky e Feldman, reduzido e transformado em artigo,
constituiria a terceira parte desse número. Por fim, uma quarta parte contém textos diversos:
sobre o trabalho doméstico Le travail invisible (O trabalho invisível), da argentina Isabel
Larguia, La révolution dans la révolution à Cuba (A revolução na revolução em Cuba),
assinado por Anne, além de dois textos assinados por Jean-François Godchaud, um militante
trotskista e único homem a figurar na publicação, por causas que desconhecemos. Para
Françoise Picq, esse número de Partisans já anunciava os grandes temas que norteariam o
feminismo nos anos 1970 na França. A segunda parte seria publicada sob a forma de livro
pela editora Maspero, em 1972.14

As dificuldades encontradas pelo movimento para publicar esse número especial


da revista são ilustrativas de algumas dificuldades enfrentadas por tais mulheres para ver seus
textos divulgados. Delphy afirma que o número teria sido “arrancado à duras penas do editor
chefe dessa revista, Émile Copferman” que preferia que “especialistas” escrevessem sobre o
assunto, fundamentalmente marxistas, o que representaria “comentários de homens sobre
livros de outros homens”, feitos por “amigos machos da libertação das mulheres”, que não
teriam nenhuma dificuldade em falar em nome das mulheres.15 Ainda segundo Delphy, numa
espécie de “retaliação” por terem decidido que tal número fosse obra das mulheres do
nascente movimento, um outro número com textos críticos ao movimento seria publicado.16

14
Partisans, n.57, jan.-fev.1971.
15
DELPHY, Christine. Nos amies et nous. Les fondements cachés de quelques discours pseudo-féministes
[1977]. In : DELPHY, Christine. L’ennemi principal 1... Op.cit., p. 166.
16
Ibidem, p.168.
146

Um artigo de Claude Alzon, La femme potiche et la femme bonniche17, igualmente crítico ao


MLF, sairia num outro número da revista.18

A ideia de produzir um jornal próprio toma corpo já nos primeiros meses do


movimento. Um boletim artesanal, mimeografado, foi produzido entre 1970 e 1971, mas seu
alcance era certamente bastante limitado. No final do ano de 1970, sairia o n.0 do jornal do
movimento Le Torchon Brûle, publicado como suplemento do jornal L’Idiot International e,
no ano seguinte, o primeiro número publicado de forma autônoma. Seis números seriam
publicados entre 1971 e 1973.

Nesse jornal, não havia distinção entre teoria, testemunho, debate, experiência,
ficção, “tudo se mistura, se catapulta”.19 Qualquer mulher podia enviar textos, participar das
reuniões, criticar. Não havia um comitê editorial que selecionasse os artigos ou uma instância
central de decisão. “O jornal não é escrito por uma equipe de redação”, afirmam no jornal de
n.2, mas por “todas aquelas que tenham desejo de escrever e que podem fazê-lo”.20 Cada
número tem sua história e sua equipe. A periodicidade era incerta, ou, como elas próprias
definiam, era “menstrual”. A tiragem, segundo o boletim de n.2, era de 35.000 exemplares,
difundidos em bancas de revistas, em feiras, escolas e outros locais. Uma grande parte do
processo de confecção e difusão era feito pelas próprias militantes.

Esse jornal é bastante representativo do movimento nos seus primeiros anos. Ele
exprime um momento de hegemonia de uma certa concepção de estruturação do movimento,
que recusava organização, ordem, separação entre teoria e prática, compartimentação. É
também um retrato de um movimento que, apesar das divergências, conseguia construir ações
em comum.

A partir de 1974, o movimento entraria numa nova fase, e sua imprensa refletiria
esse novo contexto. Há uma ruptura de uma unidade anterior e, como afirma Picq21, “sobre a
decomposição da unidade desfeita” florescem as tendências e seus diversos jornais.22
Diferentes orientações do feminismo se exprimem na plêiade de revistas e jornais que
aparecem nesse contexto: Les Nouvelles Feministes, da Ligue du droit des femmes;

17
Partisans n. 68, nov.-dez. 1972.
18
Em 1973, a Maspero publicaria esses dois artigos em um livro intitulado La femme potiche et la femme
bonniche. Pouvoir bourgeois et pouvoir mâle.
19
PICQ, Françoise. Libération des femmes...Op. cit., p.144.
20
Comment les femmes torchonne. Torchon brûle, n.2, s.d. [data aproximada:1971]
21
PICQ, Françoise. Libération des femmes...Op. cit., p.246-247.
22
Antes de 1974, poucos eram os jornais/revistas/boletins feministas publicados na França: um boletim do grupo
anglófono NOW or Never, publicado a partir de 1973; a revista Choisir, a partir de abril de 1973 pelo grupo
homônimo criado por Gisele Halimi.
147

L’Information des Femmes e Le Temps des Femmes; os jornais ligados ao grupo “Psicanálise
e Política”: Le Quotidien des Femmes, Des Femmes en Mouvements e Des Femmes en
Mouvements Hebdo; os jornais da tendência “luta de classes”, dentre eles, Les Pétroleuses,
Femmes Travailleuses en Lutte e, mais tarde, Le Cahier du Féminisme; La Revue d’en Face
que congrega antigas militantes da tendência luta de classes mas também de outras
orientações; Questions Féministes “revista teórica feminista radical”; Elles Voient Rouge,
revista de mulheres comunistas; assim como diferentes boletins de grupos, como Nosotras, do
Grupo Latino-Americano de Mulheres, Herejias, igualmente produzido por mulheres latino-
americanas, Femmes algeriennes en lutte, dentre outros.23 Em sua grande maioria, esses
periódicos tiveram uma duração efêmera, em razão de dificuldades financeiras ou da
brevidade da existência dos grupos que os promoviam, particularmente pelo primeiro fator.

Uma grande parte dessa imprensa dos anos 1970 era de tipo tradicionalmente
militante, como afirma Kandel, pelo suporte adotado – trata-se frequentemente de boletins
mimeografados com periodicidade e apresentação variadas –, pela natureza do trabalho – isto
é, as militantes se ocupam não somente da redação, mas também da fabricação e da difusão –
e pelo lugar ocupado por essa publicação, normalmente um subproduto de um grupo. Esse
tipo de publicação enfrentou dificuldades de financiamento e de funcionamento. Trata-se de
uma imprensa que vive “exclusivamente do trabalho gratuito e anônimo das mulheres que
colaboram”24, sustentado, em grande medida, por assinaturas e vendas igualmente militantes.

Mas, não havia apenas essa imprensa “militante”. No polo oposto, Kandel
identifica produções de caráter mais institucionalizado e/ou profissional. Entre esses dois
polos, surgiu uma gama de publicações de caráter híbrido. Particularmente a partir do final
dos anos 1970, algumas revistas “militantes” se aproximam desse polo mais “profissional”,
sem, entretanto, perderem algumas de suas características originais.

Na segunda metade dos anos 1970, algumas revistas, embora continuem a


trabalhar basicamente a partir de uma mão de obra militante gratuita, transferem uma parte do
trabalho para outros indivíduos ou empresas, particularmente os serviços de montagem e
impressão do jornal assim como o trabalho de difusão.

O final da década marca também a emergência de revistas que se pretendem mais


teóricas. Questions Féministes (1977-1980) e Revue d’en Face (1977-1983) são dois
exemplos dessa tendência. Diferentemente de uma imprensa de divulgação rápida de ideias,

23
PICQ, Françoise. Libération des femmes...Op. cit., 2011, p.246-248 e capítulo 22 “La galaxie féministe”.
24
KANDEL, Liliane. Des journaux et des femmes. Pénélope, n° 1, 1979.
148

algumas dessas revistas visavam suscitar uma reflexão teórica mais aprofundada no seio do
movimento e abrir espaço para a publicação de textos mais longos e densos.

Além dessas revistas, as “brochuras” foram também um instrumento do


movimento. Mais longo do que um texto de intervenção de revista, esse material permite
expor mais extensamente, de forma mais aprofundada ou detalhada, as reflexões do
movimento. Dentre as brochuras, podemos destacar: Sortir de l’ombre du féminisme
bourgeois (Sair da sombra do feminismo burguês), que nos permite revisitar as divergências
internas às organizações de esquerda e da corrente “luta de classes”; Avortement et
contraception (Aborto e contracepção), publicado pelo grupo “Psicanálise e Política” e que
constituiu um dos raros textos publicados nos primeiros anos por essa tendência. As brochuras
partidárias constituíam uma forma dos grupos políticos exprimirem seus pontos de vista sobre
o feminismo.

Algumas militantes, mais ou menos próximas ao movimento, publicaram artigos


sobre mulheres e feminismo em jornais/revistas de esquerda. No jornal Libération, uma
página “femmes”, escrita por um grupo de mulheres, foi veiculada uma vez por semana a
partir de 1974. Uma de suas jornalistas também publicou frequentemente textos sobre o tema,
Martine Storti, que reuniu suas crônicas num livro publicado em 2010, Je suis une femmes
porquoi pas vous? 1974-1979: Quand je racontais le mouvement des femmes dans
Libération25. Outros textos podem ser encontrados na revista Actuel assim como em Politique
Hebdo.

Uma revista de esquerda que foi particularmente aberta ao MLF foi a revista Les
temps modernes. Nesta foram publicados diversos artigos sobre feminismo e temáticas que
lhes eram caras. No início de 1974 todo um número especial da revista foi escrito por
feministas, intitulado Les femmes s’entêtent. Esse tipo de publicação tinha uma certa abertura
para o movimento e para sua forma de se exprimir. Sobre esse número Beauvoir afirma:
A liberdade foi princípio que presidiu a reunião destes. Não estabelecemos
nenhum plano preconcebido. As mulheres – dentre as quais algumas
permaneceram anônimas – espontaneamente escolheram falar de temas que
lhes eram caros e nós acolhemos os seus escritos.26

25
STORTI, Martine. Je suis une femme pourquoi pas vous ? 1974-1979: Quand je racontais le mouvement des
femmes dans Libération. Paris: Ed Michel de Maule, 2010.
26
BEAUVOIR, Simone de. Preface. In: Les femmes s’entêtent. Paris: Gallimard, 1975, p.1.
149

O MLF valeu-se pouco de um instrumento político largamente empregado no


contexto francês27: os grandes abaixo-assinados. Mas um, lançado em 5 de abril de 1971,
marcaria sua história: o Manifesto das 343 mulheres que declararam ter abortado, assinado
por autoras, atrizes e figuras públicas entre elas Simone de Beauvoir, Colette Audry,
Marguerite Duras e Christiane Rochefort.28
Um milhão de mulheres abortam a cada ano na França. Elas o fazem em
condições perigosas em razão da clandestinidade a qual elas são condenadas
sendo que essa operação, praticada sob controle medical é cada vez mais
simples. Faz-se silêncio diante desses milhões de mulheres. Eu declaro que
sou uma delas. Eu declaro ter abortado. Assim como reivindicamos o livre
29
acesso aos meios anticoncepcionais, reivindicamos o aborto livre.

Dentro do movimento, algumas polêmicas seriam levantadas em relação a uso de


“grandes nomes” para chamar atenção para a questão. A estratégia foi considerada também
como reformista. Annie30, em suas memórias, descreve uma assembleia dividida em relação à
questão. Mas, apesar disso, o abaixo-assinado foi publicado.

Somente uma pequena parte da produção do movimento assumiu a forma de livro.


No final de 1972, algumas militantes mencionavam a formação de grupos orientados para a
produção coletiva de livros: “Foi o caso para o Le livre de l’oppression des femmes (lançado
pela editora Belfond), e é atualmente o caso para Comment le MLF a changé ma vie”.31 Em
outros casos, a escrita coletiva foi um “prolongamento espontâneo de um grupo”:
o grupo sobre o aborto está atualmente finalizando La maternité esclave
(título provisório); outros quatro livros estão sendo escritos em grupos
dedicados sobre o corpo, o estupro, a homossexualidade (esse terá dois
exemplares; que corresponderão a duas abordagens diferentes: uma do grupo
‘Psicanálise e política’ e outra do grupo Gouines rouges).32

Um texto escrito sobre as feministas revolucionárias no Le Torchon Brûle n.5


menciona a ideia de escrever “um livro sobre a homossexualidade”.33 Na introdução do livro

27
Para a importância desses manifestos ver: SIRINELLI, J. Intellectuels et passions française. Manifestes et
pétitions au XXe siècle. Paris: Gallimard, 1996.
28
Para maiores informações sobre esse manifesto e sobre o perfil daquelas que o assinaram ver: PAVARD,
Bibia. Qui sont les 343 du manifeste de 1971? In: BARD, Christine. Les féministes de la deuxième vague.
Rennes: PUR, 2012.
29
Un appel de 343 femmes. Reproduzido em: COLLECTIF. COLLECTIF. MLF. Textes premiers. Paris: Stock,
2009, p. 176.
30
Para o relato de algumas dessas reações, ver: PISAN, Annie; TRISTAN, Anne. Histoires du MLF. Paris:
Calmann-Levy, 1977, p. 67-69.
31
LESSEPS, Emmanuelle de; HENNEQUIN, Claude. Trois ans de MLF. Actuel n. 25 (novembre 1972).
32
Ibidem.
33
Féministes Révolutionaires. Torchon brûle n.5, s.d., p.9 [data aproximada: primeiros meses de 1973].
150

Libération des femmes, que republica os textos da segunda parte do número especial da
Partisans de mesmo nome, evoca-se a ideia de criar uma coleção, e é anunciada a publicação
de um livro intitulado Révolte des femmes, para 1972. Sugere-se também o envio de
proposições e de manuscritos individuais ou coletivos para a caixa postal do movimento.
Todos esses elementos nos indicam a existência de diversos esforços para materializar, sob a
forma de livro, a reflexão que era realizada no seio do movimento. Entretanto, somente
algumas dessas tentativas foram efetivadas. De todos os livros mencionados34, além do Le
livre de l’oppression des femmes, apenas dois outros chegaram ao final do processo:
Maternité esclave35 (Maternidade escrava) e um livro de memórias, publicado em 1976,
Mémoires du MLF (Memórias do MLF)36.

Le livre de l’oppression des femmes37, publicado em 1972, foi escrito por diversas
feministas e era composto por textos, poemas e trocadilhos sobre diferentes temas. Elas
afirmam, nesse trabalho, que um livro sobre o trabalho doméstico seria lançado
posteriormente, o que não parece ter ocorrido. A ideia de publicar Maternité esclave surgiu
logo após o Manifesto das 343 mulheres que declaram ter abortado, no verão de 1971. A ideia
era escrever um livro coletivo sobre o aborto mas, durante as reuniões, surgiu a ideia de
escrever sobre a maternidade.

A maioria desses livros foi produzida de forma coletiva. Para algumas, como
aquelas que redigiram Maternité esclave, o caráter coletivo da produção de conhecimento é
uma consequência da própria organização do movimento, processo que não era desprovido de
dificuldades:
Nós nos recusámos a escrever sozinhas, nós nos encontrávamos para agir,
amar, rir, nós também queríamos escrever juntas. Escrever de forma
coletiva, em um grupo de dez pessoas não é fácil para pessoas que, como
todo mundo, aprenderam a escrever sozinhas e a ter inveja do que as pessoas
escrevem. Tínhamos reuniões regulares, nas quais discutíamos coletivamente
e, depois, aquelas que entre nós tinham vontade, escreviam um texto a partir
desses encontros e debates, outras reescreviam esse primeiro esboço, até que
o que capítulo fosse aprovado por todas.38

34
Infelizmente não encontramos traços dos manuscritos dos livros que não chegaram a ser publicados. Estes
tematizam questões chaves e poderiam contribuir de forma importante para a reconstituição das ideias desse
movimento, incluindo visões divergentes presentes no mesmo. Provavelmente alguns se perderam, mas a doação
de novos arquivos permitirá, talvez, que alguns desses textos sejam consultados posteriormente.
35
COLLECTIF. Maternité esclave, Paris, Union Générale d'Editions, 1975.
36
PISAN, Annie; TRISTAN, Anne. Histoires du MLF. Paris: Calmann-Levy, 1977.
37
COLLECTIF. Le Livre de l’oppression des femmes. Paris: Pierre Belfont, 1972.
38
Ibidem, p. 6.
151

Assim como o movimento pretendia inventar novas formas de militância, ele


objetivava reestruturar a própria forma de produzir conhecimento. No entanto, esse tipo de
proposta esbarrava com a resistência das editoras. Sem autor, sem unidade e uniformidade no
estilo e na linguagem, esse tipo de obra não se adequava aos padrões do que era considerado
um bom livro e, por essa razão, enfrentava dificuldades para ser publicado. As autoras de
Maternité esclave, por exemplo, afirmam que “a recusa foi a resposta mais frequente” das
editoras que procuraram. Essa recusa vinha não somente de editoras “reacionárias ou
comerciais”, mas também de “editoras de esquerda”. O caráter coletivo da obra e a mistura
entre “teoria” e “prática” foram os aspectos mais criticados e que motivaram a não-aceitação
do manuscrito, mas argumentos de ordem estilística também eram empregados. “Será sempre
preciso tomar como referências as normas imutáveis e determinadas pela literatura masculina?
Ainda será preciso, por muito tempo, se submeter ao discurso masculino e rejeitar a fala,
enquanto nós queremos estabelecer um diálogo entre todas as mulheres?”39

Mesmo nas coleções especificamente sobre mulheres, que começaram a surgir


desde os anos 1960, essas barreiras estavam presentes, como relatam, em um texto de 1978,
algumas militantes:
Existe uma contradição evidente entre o projeto dessas coleções, que seria de
permitir a emergência de uma expressão nova, diferente, e o fato de esquecer
que, para que essa expressão fosse publicada, ela deveria passar por um
comitê de leitura clássico, cujo papel era, sobretudo, de manter as ‘normas e
os valores culturais’40

Por essas e outras razões, houve tentativas de criar editoras vinculadas ao


movimento, como as duas tentativas surgidas nos anos 1970: Des femmes e Tierce.

Des femmes é fundada em 1974, a partir da iniciativa de mulheres ligadas ao


grupo “Psicanálise e Política”. No jornal Le Tochon Brûle n.5, anuncia-se o projeto de um
espaço de enunciação não restringido pelos valores “capitalistas, paternalistas, oportunistas”
de seus editores, um espaço para libertar a palavra das mulheres dos dispositivos de controle
que interditam as ideias e sujeitos construídos pelo movimento. Embora as reuniões do
projeto de edição fossem abertas a todas, o empreendimento ficou marcado pela vinculação
com o grupo de origem. Na conferência de imprensa, em 1974, a editora delimita-se em

39
COLLECTIF. Maternité esclave. Op. cit., p. 316.
40
Les collections de femmes: une utopie ?, Les Temps des Femmes, n.8, nov. 1978, p.14.
152

relação ao MLF: “Não se trata de uma editora ‘feminista’, não é a editora do MLF, mas a
editora das mulheres”.41

A editora Tierce42 surge em 1977, a partir da iniciativa de Françoise Pasquier.


Segundo a revista Les Temps des Femmes, o projeto da revista era criar a possibilidade de
publicação para revistas. Ela foi responsável pela publicação de Questions Féministes, Revue
d’en Face e diversos livros.

A maioria dos textos publicados nos primeiros anos do movimento não eram
assinados com os nomes verdadeiros de suas autoras, preferindo-se “mulheres”(des femmes),
“algumas militantes” (quelques militantes), “mulheres do MLF” (des femmes du MLF) ou
pseudônimos. Não há assinaturas nem no Le Torchon Brûle, nem no número especial de
Partisans (com exceção do texto Gaudchaud que não pertencia ao movimento e da escritora
Christine Rochefort, que sempre assinou seus textos).

Segundo Françoise Picq, essa recusa em revelar a autoria decorria de motivações


ideológicas e de concepções acerca da forma de organização do movimento. O anonimato
evitava o uso do sobrenome, que é sempre do pai ou do marido, e permitia também uma
discrição em relação ao meio exterior, sobretudo profissional. Outra razão para o anonimato
era evitar a formação de vedetes e líderes do movimento. Esse traço do MLF, no entanto, não
perdurou, ao contrário da disposição para a produção coletiva, como testemunham algumas
produções dos anos 1980, como Le sexe du travail, Rapports sociaux de sexe: parcours
épistemologiques43, etc.

Poucas obras de “autoras” foram publicadas, num primeiro momento, por


militantes do MLF.44 Com exceção de livros de caráter literário, como Le corps lesbien, de
Monique Wittig, raros são os livros escritos mulheres vinculadas ao MLF, de forma

41
DES FEMMES. Catalogue Des femmes, 1974-1979, p. 15.
42
Para algumas informações sobre essa editora e os títulos publicados consultar: KANDEL, Liliane. Une édition
féministe est-elle possible ? Clio. Histoire‚ femmes et sociétés. n.13, 2001.
43
COLLECTIF. Le sexe du travail. Grenoble : Presse Universitaire de Grenoble, 1984 ; BATTAGLIOLA,
Françoise ; COMBES, Danièle ; DAUNE-RICHARD, Anne-Marie, ; DEVREUX Anne-Marie ; FERRAND,
Michèle, LANGEVIN Anette. A propos des rapports sociaux de sexe. Parcours épistemologiques [1986]. Paris:
CSU, 1990.
44
Nos Estados Unidos, por razões próprias ao contexto desse país, no final dos anos 1960 e início dos anos 1970,
alguns livros seriam publicados por algumas de suas integrantes do movimento. Kate Millet publica, em 1970,
Sexual Politics, uma adaptação da sua tese de doutorado, considerado o primeiro trabalho acadêmico feminista
em crítica literária. O livro foi lido pelo movimento fundamentalmente como uma análise da opressão feminina
em termos de “patriarcado”. Firestone, no mesmo ano, publica The Dialectic of Sex. Esses livros tornaram-se
referências não somente movimento feminista estadunidense mas também circularam e foram traduzidos em
outras línguas e são frequentemente citados quando se trata de teoria feminista nos anos 1970.
153

individual, publicados. Uma produção deste tipo é composta, sobretudo, por traduções de
livros de diferentes países, particularmente uma produção anglófona.45

Temos como hipótese que esse quadro influenciou, de alguma forma, a formação
da categoria french feminism. A confusão entre “movimento feminista” e “teóricas
feministas” levou a uma identificação do primeiro com um conjunto de autoras que
publicaram livros durante os anos 1970, Julia Kristeva, Hélène Cixous e Luce Irigaray, que
não necessariamente tinham uma vinculação com o movimento. Mesmo após as inúmeras
críticas à ideia de um french feminism46, o termo continua presente em algumas obras dos
anos 2000.

A falta de “grandes autoras” que pudessem “representar” o movimento feminista,


na França, dificulta a tarefa de empreender uma síntese da teoria feminista naquele país, nos
mesmos termos daquelas existentes nos EUA. Uma história das ideias feministas, na França,
deve necessariamente ir além dos poucos livros que, por razões diversas, conseguiram
ultrapassar a barreira das editoras e usar outros tipos de materiais.

Esse panorama traçado anteriormente se altera no final dos anos 1970 e,


particularmente, a partir dos anos 1980, quando tem início um processo, ainda que tímido, de
institucionalização dos estudos de gênero sobre o qual é necessário fazer alguns comentários.

Como afirma Bard, criar um laboratório ou grupo de pesquisa especializado, uma


revista ou organizar seminários constituem, nos anos 1980-1990, novas formas de
“militância”.47 Os primeiros grupos universitários a surgir sobre a temática foram: o Centre
d’études féminines à l’Université de Provence (CEFUP), em 1976; o Groupe d’études
féminines (GEF) na Universidade Paris VII, em 1975 e o Centre lyonnais d’études féministes
(CLEF), em 1976. Uma série de outros momentos de encontro e debates se desenvolveram de
forma mais informal, mas deixaram poucos ou nenhum registro.

45
Somente nos anos 1990 alguns dos artigos dispersos em diferentes revistas e livros foram reunidos e
publicados sob a forma de antologia. Sexe, race et pratique du pouvoir. L’idée de nature, publicado em 1992,
reunia textos de Colette Guillaumin publicado desde os anos 1970; L’anatomie politique o seria em 1991, La
construction sociale de l’inégalité des sexes. Des outils et des corps de Paola Tabet, em 1998. Christine Delphy,
que já havia publicado um livro desse gênero, em 1984, em inglês, Close to home: a materialist analysis of
women, publicaria finalmente, em 1998, uma antologia em dois volumes de textos publicados desde 1970.
46
DELPHY, Christine. DELPHY, Christine. L’invention du French Feminism: une démarche essentielle. [1996]
In: DELPHY, Christine. L’ennemi principal 2. Penser le genre. Paris: Syllepse, 2009; MOSES, Claire. La
construction du ‘French Feminism’ dans le discours universitaire américain. Nouvelles Questions Feministes,
vol. 17, n.1 ; VARIKAS, Eleni. Féminisme, modernité, postmodernisme: pour un dialogue des deux côtés de
l’océan. In: Futur Anterieur 1993.
47
BARD, Christine. Jalons pour une histoire des études féministes en France (1970-2002). Nouvelles Questions
Féministes, vol.22, 2003/1, p.22.
154

Rose-Marie-Lagrave48 estabelece uma cartografia dos grupos existentes até


meados dos anos 1980, a partir de critérios como reivindicação do “feminismo”, relação com
a instituição acadêmica e com o movimento, capital científico e militante, tipo de pesquisa
realizada (pesquisa teórica ou aplicada), e estabelece dois principais “polos extremos”: um
polo de “pesquisa ortodoxa” e um “polo militante”. No primeiro estariam grupos como o
GRIEF (Groupe de recherches interdisciplinaires d’études de femmes) de Toulousse, o
Séminaire d’histoire des femmes, da École d’Hautes Études en Sciences Sociales e, em menor
medida, o Centre d’études féministes, da Universidade Paris VIII. O polo militante seria
constituído por grupos como o CLEF, o Séminaire limites-frontières, o grupo SIMONE, a
revista Nouvelles Questions Féministes, entre outros. Entre os dois polos estariam grupos
como o GEDISST e o Atelier Production-Reproduction.

A revista Questions Féministes ocupa um papel singular nesse contexto. Trata-se


de uma publicação que se apresenta como explicitamente “militante”. Mas, a revista se propõe
a ser um espaço de reflexão teórica mais aprofundada que outras revistas existentes e
congrega nomes que, independentemente da sua trajetória militante, tinham praticamente
todas, vinculação com a academia. Porém, essa publicação viveu as dificuldades de uma
publicação de tipo militante nos anos 1970, enfrentando problemas financeiros, sobrecarga e
trabalho não remunerado de militantes, dentre outros.

Questions Féministes: uma revista teórica feminista radical

As revistas e jornais publicados nos anos 1960 e 1970 constituem uma fonte
privilegiada para se compreender as movimentações políticas desse período na França.49 Para
o feminismo, tratar-se-ia também de um instrumento por excelência de divulgação de suas
ideias sob a forma escrita, microcosmos para importantes debates e trocas que marcam a
reflexão feminista deste período, constituindo um objeto fundamental para reconstituir alguns
elementos da dinâmica dessas trocas, as sociabilidades intelectuais, mas também as tensões,

48
LAGRAVE, Rose-Marie. Recherches féministes ou recherches sur les femmes ? Actes de la recherche en
sciences sociales, 1990.
49
Ver, entre outros: FOREST, Philippe Histoire de Tel Quel (1960-1982). Paris : Seuil, 1995 ;
GOTTRAUX, Philippe. Socialisme ou Barbarie. Un engagement politique et intellectuel dans la France de
l'après-guerre. Laussane: Payot, 1997; MANTONTI , Frédérique. Intellectuels communistes. Essai sur
l’obéissance politique. La Nouvelle Critique (1967-1980). Paris, La Découverte, 2005, 414 pages.
155

conflitos e rupturas. No entanto, poucos são os trabalhos que procuraram analisar essa
produção.50

A revista Questions Féministes surge no final da década, num momento de


multiplicação e diversificação da imprensa feminista francesa. Esta nasce com um propósito
específico: tornar-se um espaço de discussão teórica para o feminismo radical. Embora tenha
tido uma vida efêmera (1977-1980), foi uma publicação feminista fundamental do período.
Alguns dos textos lá publicados continuam sendo referências, até os dias atuais, para os
“estudos de gênero” na França. Os oito números dessa revista foram integralmente
republicados, em 2012, pela editora Syllepse.51 Neste item, gostaríamos de retraçar a história
da constituição dessa publicação. Procuramos apresentá-la em consonância com o movimento
feminista dentro do qual a revista emerge. O antinaturalismo e uma análise materialista da
opressão constituem dois eixos fundamentais da reflexão do grupo que se reuniu em torno da
revista e serão abordados nos próximos capítulos dedicados, especificamente, a tais eixos.

Algumas das peças que nos permitem reconstituir alguns traços da história da
revista foram forjados no momento do conflito e da controvérsia que provocou a cisão no seio
do coletivo de redação da revista, e que teve como consequência seu fim, em 1980. Esse
conflito deu origem a uma disputa jurídica em torno de uma nova publicação: Nouvelles
Questions Féministes, lançada em 1981 por três antigas integrantes da revista. As outras
integrantes de Questions Féministes consideravam que a publicação da nova versão da revista,
com formato e nome similares, constituía uma quebra do contrato firmado por suas
integrantes ao acabar com a publicação. É a partir dessa ruptura e da disputa jurídica que se
seguiu, que alguns materiais foram reunidos para serem anexados ao processo, dado que tal
processo girava em torno da nova publicação, Nouvelles Questions Féministes.52 Estas fontes
guardam, nesse sentido, marcas desse contexto e dessa disputa, que serão apresentados no
final do capítulo. Mas consultamos também outras fontes, oriundas de outros fundos de

50
No final dos anos 1970, ainda no bojo das movimentações da segunda onda, Liliane Kandel publica um
balanço da imprensa feminista francesas dos anos 1970. Após esse artigo, poucos são os trabalhos que
prosseguiram essa tarefa. O guia organizado pela BnF Des sources pour l’histoire des femmes, no item
“imprensa feminista” faz referência a três trabalhos sobre o tema, nenhum deles relativo à “segunda onda”.
Recentemente os Archives de Culture et Recherches lesbiennes produziram um guia bastante completo das
publicações feministas e lésbicas dos anos 1970 e 1980. Para um panorama da imprensa feminista neste período,
consultar: KANDEL, Liliane. Journaux en mouvement: la presse féministe aujourd’hui. Questions féministes n.
4, nov. 1978 e LAROCHE, Martine; LARROUY, Michèle. Le collectif des Archives Recherches Cultures
lesbiennes. Mouvements de presse des années 1970 à nos jours, luttes féministes et lesbiennes. Paris: éditions
ARCL, 2011.
51
Questions féministes (1977-1980). Paris: Syllepse, 2012.
52
A revista Nouvelles Questions féministes começa a ser publicada em. março de 1981.
156

arquivo, que nos forneceram elementos num quadro distinto, como os arquivos da biblioteca
da Maison des Sciences de L’homme, dentre outros.

Para compreender a formação da revista, é importante voltar a alguns


momentos de encontro e debate entre as integrantes do grupo, que antecederam a fundação
dessa publicação. Os arquivos forneceram-nos traços de alguns desses momentos de reflexão
coletiva que propiciaram a reunião de feministas com diferentes trajetórias e que viriam a
compor o coletivo de redação da revista, a partir de novembro de 1977.

Deve-se ressaltar que se trata de um momento de pouca penetração dessas


discussões nas universidades e na pesquisa em geral. A revista em questão congrega muitas
feministas que já tinham uma carreira como pesquisadoras, mas que se apresentam claramente
como militantes. Trata-se de uma publicação que se localiza, de certa forma, entre a militância
feminista e o início de algo mais acadêmico, mais universitário. Christine Delphy considera,
num texto do início dos anos 1980, que o que caracteriza os artigos publicados nessa revista,
mas também na revista Nouvelles Questions féministes, é a pertinência política desses textos
para a situação das mulheres e sua luta: uma revista “culta” (savante), com uma maioria de
textos escritos por “universitárias”, mas que “tenta evitar as dificuldades de um women’s
studies despolitizado e do feminismo cultural”.53 Apesar do perfil das suas integrantes, a
revista não se concebe como acadêmica ou universitária. Se retrospectivamente, pode-se
considerá-la como parte da “acumulação primitiva” das pesquisas feministas54, ela não se
reivindicava, ao contrário de outras revistas publicadas na mesma época como Feminist
review e Signs, como uma revista universitária.55

Encontros e debates em torno de uma proposta

A ideia de criação de Questions Féministes nasceu de diferentes encontros e


debates que datam de pelo menos dois anos antes do lançamento da publicação. Como vimos,
algumas das suas futuras integrantes participaram de outros espaços feministas ou
universitários desde o início dos anos 1970. Christine Delphy e Emanuelle de Lesseps fizeram

53
DELPHY, Christine. La revue Nouvelles Questions féministes. (texto mimeografado), s.d. , p. 3. Dossiê
Christine Delphy. Archives Recherches Cultures lesbiennes.
54
KANDEL, Liliane. Un tournant institutionnel: le colloque de Toulouse. In: BASCH, Françoise ; BRUIT,
Louise ; PICQ, Françoise ; SCHMIDT, Pauline ; ZAIDMAN, Claude. (org.). 25 ans d'études féministes:
l'expérience Jussieu, Paris, Publications de l'Université Paris 7-Denis-Diderot, 2001.
55
Feminist review, por exemplo, propunha ser não somente um espaço para debater “perpectivas políticas e
estratégicas do Movimento”, mas também ser um “fórum para trabalhos em andamento, para pesquisas atuais e
debates no seio do women’s studies”. Contracapa. Feminist Review , n.1, 1979.
157

parte do FMA. As duas, além de Monique Wittig, participariam de reuniões das feministas
revolucionárias. Mas, num contexto mais universitário, outros encontros se desenvolveram.

Algumas integrantes do coletivo56 mencionam momentos de encontro


realizados na Universidade de Vincennes e de Amiens, assim como em grupos de pesquisas
em laboratórios ou instituições como a École de Mines, a Maison des Sciences de L’Homme, o
College de France. São citados, também, cursos universitários de Nicole-Claude Mathieu na
Universidade de Vincennes e de Monique Plaza, na Universidade de Amiens. Destaca-se,
particularmente, o encontro de quatro das futuras integrantes da revista (Monique Plaza,
Christine Delphy, Nicole-Claude Mathieu e Colette Guillaumin) durante o ano escolar de
1975-1976, em Amiens, num curso dado por Monique Plaza. Encontramos alguns registros
dessas atividades.

Consta no CV de Nicole-Claude Mathieu um curso de graduação ministrado entre


fevereiro e junho de 1975, em Vincennes, intitulado “Sexes et sociétés. Sexe biologique/sexe
social”, no Departement d’Études interdiscplinaires des cultures57, além da participação em
debates trimestrais com estudantes sobre o tema “ Masculin/féminin”, na Faculté de
Philosophie et Sciences humaines d’Amiens, no departamento de Psicologia, no ano escolar
1975-1976.58 Provavelmente relacionada a esses encontros em Amiens, podemos citar a
publicação de um número do Bulletin du CERPP (Centre d’Études et de Recherches
Pluridisciplinaires em Psychologie-Amiens), datado de janeiro de 1975, no qual consta um
texto de Colette Guillaumin “Science Social et biologie” e outro de Monique Plaza “Une
problématique impossible: schizophrenie et biochimie”.59 Naquela época, Monique Plaza era
professora dessa universidade e foi provavelmente a pessoa que propiciou alguns desses
momentos de reunião e discussão.

Outro momento foi o Groupe de Sociologie de la Dominance, também


chamado de Laboratoire de Sociologie de la Dominance (LSD). Trata-se de um grupo
informal que promoveu discussões por alguns anos na década de 1970. Por essa razão, poucos
são os registros que fazem referência a tal coletivo. Segundo o CV de Mathieu, o grupo teria
realizado reuniões entre 1970 e 1976 e seria formado por oito pesquisadores do CNRS e

56
Notas esparsas sem título e autor. Fundo Nicole-Claude Mathieu.
57
Procuramos registros nos arquivos da Université Paris 8- Vincennes-Saint-Denis desse curso, mas nada
encontramos nesse sentido.
58
Mathieu já havia publicado, no ano de 1974, num periódico do Centre universitaire de recherche sociologique
de Amiens o texto “Les catégories de sexe em sociologie”.
59
Bulletin du C.E.R.P.P n. 1, janeiro de 1975. Amiens Centre d’Étude et de Recherches Pluridisciplinaires em
Psychologie. Nos comentários ao processo menciona-se um buletim do CERPP cujo umário com quatro artigos
teria sido discutido em diversas reuniões.
158

professores universitários. Colette Guillaumin e Collete Capitain Peter também mencionam,


em entrevista, esse grupo como um importante momento de trocas intelectuais. Fora dos
depoimentos, encontramos somente duas referências a esse grupo. Uma é de Colette
Guillaumin, que o define como “inteiramente centrado na análise dos sistemas hierárquicos e
da dominação” e que constituiu um local de discussão “fascinante e inventivo”.60 Jacques
Jenny, que também participou do grupo, rememora:

Há mais ou menos 30 anos, eu tive a sorte de ser sensibilizada com relação


aos problemas teóricos da dominação, no âmbito de um pequeno grupo de
trabalho informal (que nós chamávamos de L.S.D: Laboratório de Sociologia
da Dominação), do qual faziam parte colegas aos quais nós tanto devemos,
sobretudo, Colette Guillaumin, Nicole Mathieu, Josiane Boutet e outras,
menos diretamente vinculadas pelo propósito inicial.61

Outro momento de encontro foi um Seminário, ou grupo de trabalho, franco-


britânico, que ocorreu entre 1975-1977. Stevi Jackson, em Christine Delphy (1996), faz
breves menções sobre a existência de um seminário franco-britânico que teria realizado
reuniões entre 1975 e 1977, e cujos membros incluiriam, mesmo que de forma não
permanente, Diana Barker[Leonard], Leonore Davidoff, Jalna Hanmer, Jean Gardiner, Hilary
Land, Maxine Molyneux, Jane Shaw et Anne Whitehead do lado britânico62 ; Noëlle Bisseret,
C. Capitan-Peter, C. Delphy, C. Guillaumin, E. de Lesseps, N.-C. Mathieu, Monique Plaza, et
Ursula Streckeisen do lado francês. Este parece ter sido um momento importante para a
reflexão feminista materialista. Para reconstituir alguns elementos da vida desse grupo,
usaremos alguns documentos que fazem parte do arquivo da Bibliothèque de la Maison des
Sciences de L’Homme assim como uma nota publicada num boletim da MSH.63

Uma primeira reunião, unicamente francesa, foi realizada no dia 28 de abril, na


Maison des Sciences de L’Homme (MSH), em Paris. Numa carta convite, datada de 21 de
abril de 1975, constam como membros franceses do grupo de trabalho intitulado “Catégories
de sexe et catégories de classes” Noelle Bisseret, Colette Guillaumin, Nicole Claude-Mathieu,
Emmanuelle de Lesseps, Ursula Streckeisen e Christine Delphy. Os objetivos dessa primeira

60
GUILLAUMIN, Colette. Sexe, race et pratique du pouvoir. Op. cit., p. 5.
61
JENNY, Jacques. Rapports sociaux de sexe et autres rapports de dominance sociale: pour une intégration
conceptuelle des rapports sociaux fondamentaux. Cahiers du GEDISST, 1995, n° 13, p. 109.
62
Stevi Jackson cita também os nomes de Mary McIntosh mas não encontramos menção ao seu nome nos
documentos consultados. (1996, 29)
63
MSH Information. “ Catégories de sexe et catégories de classe ”, M.S.H Information. Bulletin de la Fondation
Maison des Sciences de L’homme, n.13, juin 1976 ; Documentos MSH (sobre o Groupe de travail franco-
britannique) . Paris, le 2 juin 1975. Archives de la Bibliothèque de la Maison des Sciences de l’homme.
159

reunião, ainda segundo esse documento, eram: a apresentação do conceito de modo de


produção doméstico como problemática geral; o inventário de fontes sobre o tema; a
preparação das próximas reuniões, que viriam a ser franco-inglesas, com o propósito de reunir
autores que trabalhavam sobre essas questões.64 Com exceção de Ursula Streckesen,
doutoranda à época, todas as demais participaram do comitê editorial da revista Questions
Féministes.

O grupo é apresentado, num dos documentos do grupo, como tendo surgido em


1975, a partir da iniciativa do Social Science Research Council (Londres) e dentro de um
programa de colaboração entre este e a MSH. O grupo de trabalho teria como nome
Catégories de sexe et catégories de classe/Économic Relations in Domestic Groups e seria
presidido por Diana Barker, do lado inglês, e por Christine Delphy, do lado francês, reunindo
sociólogos, economistas, etnólogos e especialistas em “social administration”, tendo por
objetivo discutir, a partir de trabalhos em curso de membros do grupo, os seguintes
problemas:
1- a articulação entre o patriarcado e o sistema capitalista; 2- ideologia
naturalista das ciências sociais nas suas análises acerca das classes sexuais;
3- o conceito de sexo social e os problemas correlatos.65

Um pequeno texto de apresentação publicado no boletim da MSH nos dá algumas


informações sobre o conteúdo de algumas reuniões do grupo. A primeira delas, realizada nos
dias 19 e 20 de junho de 1975 em Paris, era centrada no conceito de “modo de produção
doméstico”. Os textos previstos para a discussão tratavam essencialmente do trabalho
doméstico, como os três citados no documento: “Women’s domestic labour”, de J. Gardiner
(1975); “The housewife and her labour under capitalismo”, de Wally Seccombe (1974); e
“L’ennemi principal”, de C. Delphy. Uma apresentação de Maxine Molyneux66 retraçando um
histórico das posições de autores marxistas sobre as mulheres e o trabalho doméstico foi
também realizada.

Uma primeira sessão teria sido dedicada à discussão do texto de Gardiner, e à


pertinência do conceito de modo de produção. A autora recusa a ideia de um modo de
produção doméstico, mas pensa sobre a possibilidade de expansão deste conceito com o
64
Carta. Paris le 21 avril 1975. Arquivos Bibliothèque M.S.H.
65
MSH Information. “Catégories de sexe et catégories de classe”. M.S.H Information. Bulletin de la Fondation
Maison des Sciences de L’homme, n.13, juin 1976, 18.
66
Maxine Molyneux publicou, em 1979, “Beyond the Domestic Labour Debate” au sein de la New Left Review
na qual afirma, em nota, que uma primeira versão desse texto foi apresentada, em junho de 1975, no no “Anglo-
French SSRC Women’s Groupe”. MOLYNEUX, Maxine. Beyond the Domestic Labour Debate. New Left
Review, n° 116, 1979, 4.
160

objetivo de integrar relações de trabalho não assalariadas. Em relação à sua formulação


original, a própria autora faz uma autocrítica por não ter tematizado a especificidade das
relações de produção na família e de ter minimizado o fato que a maior parte das mulheres
trabalham como assalariadas em algum momento da vida. Foram debatidas, ainda, questões
como a utilidade e rentabilidade para o capital do trabalho doméstico, assim como a questão
de quem se beneficiaria desse trabalho.

Uma outra sessão é dedicada à apresentação do texto de Maxine Molyneux sobre


a pertinência do conceito de modo de produção aplicado à produção familiar. Este texto seria
posteriormente publicado na revista New Left Review, com uma nota indicando que a primeira
versão deste texto fora apresentada no “anglo-French SSRC Women’s Groupe, em junho de
1975”.67

Um segundo encontro foi realizado em Londres, na sede do Social Science


Research Council, entre 27 e 28 de outubro de 1975, e em torno do tema “categorias de sexo
como lugar privilegiado do pensamento biologizante”. Do lado francês, alguns textos são
propostos para fomentar o debate, entre eles “Rapports entre l’économique et l’idéologique
dans les processus d’orientation et de sélection” de Noëlle Bisseret, “ Révolution bourgeoise
et idéologie essentialiste” de C. Capitan-Peter, “Proto-féminisme et anti-féminisme” de C.
Delphy, “Homme-culture et femme-nature” e “Paternité biologique, maternité sociale”,
publicado em 1977 a partir de uma comunicação aparesentada três anos antes, de N.-C.
Mathieu, assim como uma versão do texto de C. Guillaumin “Pratique du pouvoir et idée de
Nature”, que seria publicado em 1978 na revista Questions féministes.

No anúncio da reunião, há também questões sobre a terminologia mais apropriada


a se utilizar, “sexo social” (sexe social) ou “relações sociais entre os sexos biológicos”
(rapports sociaux entre les sexes biologiques)? – perguntam; além de questionamentos sobre
os conteúdos dados a essas categorias:
Deve-se falar de ‘sexo social’ (mas correr o risco de deixar escapar a
especificidade das relações de sexo – na medida, por exemplo, em que as
relações de exploração do trabalho gratuito não se limitam sempre às
mulheres? (Ver C. Delphy)? (sic)
Ou seria necessário falar em relações sociais entre os sexos biológicos (mas
correr o risco de esquecer a dimensão puramente sociológica, quer dizer,
construída, da realidade dos sexos)?68

67
MOLYNEUX, Maxine. “ Beyond the Domestic Labour Debate ”, New Left Review, n° 116, 1979, p.4.
68
Documentos MSH (sobre o Groupe de travail franco-britannique).
161

Trata-se de um contexto no qual diversos conceitos entram em cena. Gênero, sexo


social, relações de sexo. Um ponto fundamental dessa reunião foi a questão da biologização
do social, que deveria ser tratada paralelamente às questões abordadas na primeira reunião. A
“redução do sexo” ao seu componente biológico seria um dos traços da ideologia da nossa
sociedade:
A atual ideologia vincula, em definitivo, à biologia, à ‘natureza’, as relações
sociais nas quais os dois sexos se encontram engajados. Na verdade, a
ideologia ‘sexualiza’ as relações de poder. Podemos ver aí a expressão de
um fenômeno mais geral: a racionalização da opressão econômica e
ideológica pela ‘biologização’ dos grupos dominados.

Muitas pesquisas em curso continham elementos dessa discussão e esse seria um


eixo fundamental da revista Questions Féministes. Cabe mencionar também que alguns dos
textos que foram objeto de discussão seriam depois publicados, como o último texto de
Mathieu mencionado69 e o texto de Colette Guillaumin.70

Uma terceira reunião teria sido realizada nos dias 12 e 13 de abril de 1976, na
MSH, com o tema “Em que medida as categorias e as práticas das instituições do Estado
estabelecem a noção de dependência econômica das mulheres casadas?”.71 A discussão teria
se apoiado em textos de Hilary Land e Jalna Hanmer.

Não temos registros de outras reuniões. Segundo uma carta de Christine Delphy à
M. Heller72, diretor à época da MSH, a última reunião teria sido realizada em março de 1977,
em Londres. Por falta de recursos financeiros da SSRC britânica, o grupo não pôde mais se
reunir, embora seus membros tenham continuado a manter contato informalmente. Trata-se de
um momento no qual os recursos destinados para pesquisas sobre a temática eram parcos.

Essas reuniões constituíram certamente um momento importante de reflexão


teórica, de socialização de ideias e de debate de textos ainda não publicados. Elas também
possibilitaram um contato maior entre dois países e tradições teóricas distintas. É a partir
dessa colaboração que alguns textos franceses seriam publicados em inglês, por exemplo, o

69
MATHIEU, Nicole-Claude. “Paternité biologique, maternité sociale ”. In: MICHEL, Andrée (org.). Femmes,
sexisme et sociétés. Paris: Presses Universitaires de France, 1977. Este texto seria republicado em MATHIEU,
L’anatomie politique... Op. Cit.
70
GUILLAUMIN, Colette. Pratique du pouvoir et idée de Nature. Questions Féministes n.2, fevereiro de 1978 e
n.3 maio de 1978. Republicado em GUILLAUMIN. Sexe, race et pratique du pouvoir. Op. Cit.
71
MSH Information. Op. cit., p. 19.
72
Christine Delphy a M. Heller. 30 novembre 1978. (Fundo Nicole-Claude Mathieu)
162

artigo de Mathieu “Ignored by some denied by others: the social category in Sociology”, em
197773, e uma brochura de textos de Christine Delphy The Main Enemy também em 1977.74

Sobre um dos encontros que parece ter propiciado a criação do grupo franco-
britânico, Stevi Jackson conta que Christine Delphy e Diane Leonard se conheceram, em
1972, na International Sociological Association. Dois anos depois, Delphy participaria da
conferência da British Sociological Association (BSA), cujo tema era “Sexual division and
Society”, que seria coordenado por Leonard e que daria origem, em 1976, a uma publicação
na qual figuraria o texto “Continuities and discontinuities in marriage and divorce” – o
primeiro texto de Delphy publicado em inglês. Delphy teria uma longa parceria com Leonard,
com a qual publicaria, em 1992, o livro Familiar exploitation: A New Analysis of Marriage in
Contemporary Western Societies.

Desses e de outros encontros, ocorridos em meados dos anos 1970 e em torno de


uma perspectiva em comum, surge a ideia de criação de uma revista. Apesar das numerosas
publicações feministas existentes no momento da publicação de Questions Féministes, elas
constituíam, na sua maioria, jornais e revistas compostos por textos curtos e tendo por
objetivo uma intervenção política mais imediata. Os textos mais longos eram enviados a
outras revistas fora do meio feminista. Essa falta de um instrumento de divulgação de ideias
foi um importante elemento propulsor para a criação da revista. Delphy rememorava esse
contexto, no início dos anos 1980:

[...] um pequeno grupo de trabalho de quatro mulheres pensava que já era o


momento de o movimento feminista francês dispor de uma revista: no
âmbito da imprensa feminista daquela época, não havia nenhum suporte para
os textos com mais de três páginas; os textos longos não poderiam ser
publicados nas revistas masculinas – e todas elas o eram – científicas,
políticas ou literárias, com exceção, ocasionalmente, da revista Les Temps
modernes, graças a presença de Simone de Beauvoir.75

A ideia era criar um espaço de debate teórico, mas um debate numa perspectiva
teórico-política precisa: o feminismo radical. Essa corrente, fundada em “questionamentos
subversivos”, após ter “impulsionado todas as grandes campanhas feministas”76, estaria
abafada. O feminismo estaria ameaçado pela presença de uma dupla direita: a “recuperação
esquerdista” e a ideologia da “neo-feminilidade”. Essas duas correntes, “cada uma a sua
73
MATHIEU, Nicole-Claude. Ignored by some denied by others: the social category. In: Sociology Women's
Research and Resources Centre Publications, 1978.
74
DELPHY, Christine. The Main Enemy. Londres: WRRCP, 1977.
75
DELPHY, Christine. La revue Nouvelles Questions Féministes. Op. cit., p. 1.
76
QUESTIONS FEMINISTES. Variations sur des thèmes communs. Questions Féministes, n. 1, nov. 1977, p.6.
163

maneira, mais ou menos disfarçada”, representariam os “interesses do patriarcado” e seriam


aquelas que teriam visibilidade na mídia.77 O feminismo radical, no qual se reconheceriam
diferentes grupos dispersos e isolados uns dos outros, teria agora um lugar de “reunião teórico
e política” para socializar suas experiências e análises: uma revista teórica feminista radical.

77
Ibidem, p.6.
164

Imagem 3 Rascunho de documento de formalização da revista


165

Variações sobre um tema comum: o projeto político da revista

Em 1977, o projeto de publicar uma revista se concretiza. O primeiro número de


Questions Féministes sai em novembro deste ano e tem como coletivo de redação Colette
Capitan Peter, Christine Delphy, Emmanuèle de Lesseps, Nicole-Claude Mathieu e Monique
Plaza e, como diretora de publicação, Simone de Beauvoir. Colette Guillaumin, Claude
Hannequin e Monique Wittig integram o coletivo posteriormente. Oito números seriam
publicados entre novembro de 1977 e maio de 1980.

A revista, que se identifica como “revista teórica feminista radical”, busca criar
um espaço para um debate teórico. A teoria, frequentemente apreendida como equivalente a
hermetismo, usada para designar textos inacessíveis e apanágio de uma classe social, ganha
uma definição “política” cujo objetivo é restituir seu verdadeiro sentido. Por teoria,
compreende-se “todo discurso, quaisquer que seja a linguagem, que tenta explicar as causas e
funcionamento da opressão das mulheres” e que “tenta tirar conclusões políticas, que propõe
uma estratégia ou uma tática ao movimento feminista”.78 A proposta é que o teórico seja um
problema de todas e que cada uma possa não somente consumir mas produzi-lo. Dentro dessa
proposta, a ideia é publicar panfletos, obras literárias, textos abstratos, que são colocados no
mesmo plano no intuito de elaborar uma “ciência feminista”.79

O editorial do primeiro número “Variations sur des thèmes communs”, escrito de


forma coletiva, pode ser considerado como uma síntese do projeto político da revista80. Sobre
este cabem alguns comentários.

A crítica à ideologia naturalista assim como ideia que todas as mulheres fazem
parte de uma mesma classe são considerados como pré-requisitos do feminismo radical. Estes
são os dois pilares do texto em questão e constituem a base de união do coletivo de redação.

Uma grande parte do editorial constitui uma crítica virulenta à ideia de uma
natureza feminina e de uma “diferença entre os sexos”. As categorias “homens” e “mulheres”
são categorias historicamente construídas e, portanto, passíveis de serem historicamente
eliminadas através da destruição do sistema de relações que as constitui. “Destruir a diferença

78
Ibidem, p.3.
79
Ibidem, p.4.
80
Para versão em inglês ver: Editors of Questions feminists. Variations on some common themes. Feminist
Issues, vol.1, n.1, summer 1980.
166

de sexo”, afirmam, é “suprimir a hierarquia que existe atualmente entre dois termos no qual
um está em referência a outro e inferiorizado nessa comparação”.81

Em diversos momentos do texto, ressalta-se que a existência social de homens e


mulheres não tem relação com a existência de “macho ou de fêmea, da forma do seu sexo
anatômico”.82 O centro da reflexão devem ser as relações sociais de dominação que
estruturam uma forma de dominação e forjam categorias pretensamente naturais. Essa crítica
ao naturalismo, central nas reflexões do coletivo, seria objeto de diversos artigos publicados
ao longo dos três anos de existência da revista, entre eles destacamos: “Pouvoir
‘phallomorphique’ et psychologie de ‘la femme’ un bouclage patriarcal”, de Moinque Plaza
(n.1), “Pratique du pouvoir et idée de nature” (n.2 e n.3), e “Questions de différence” (n.6), de
Colette Guillaumin, “Le fait féminin: et moi?”, de Emmanuelle de Lesseps (n.5), “La pensée
straight ” (n.7) e “ On ne naît pas femme ” (n.8), de Monique Wittig.

Mas o coletivo se posiciona também contra alguns setores mais próximos às


organizações de esquerda. Dentro do feminismo, essa visão seria representada pela corrente
“luta de classes”. Além de recusar a ingerência de grupos políticos no feminismo, consideram
noções como “luta principal” e “luta secundária” assim como o que chamam de “terrorismo
da explicação única pelo capitalismo” como falsas.83 Em relação à corrente “luta de classes”,
as tentativas de “articular” luta das mulheres e luta de classes a partir da teoria marxista não
teriam conseguido questionar lacunas dessa teoria de referência. Nessas tentativas, o
monopólio da classe operária e de um só sistema opressivo, o capitalismo, continuavam como
inquestionáveis.

Essas análises são consideradas como insuficientes dado que situam a crítica das
mentalidades e instituições sexistas somente no plano das mentalidades. Uma análise
materialista deveria vincular “as mentalidades, as instituições, as leis sexistas às estruturas
sócio-econômicas que as sustentam”.84 Essas estruturas formam um sistema específico em
relação ao capitalismo: o patriarcado. Não há “feminilidade”, “mulher”, “eterno feminino”,
mas um grupo social cujos encargos são bem conhecidos (dupla jornada, baixos salários,
desqualificação social, encargo do cuidado de velhos, crianças e doentes, etc). O objetivo do
feminismo é justamente denunciar esse sistema de opressão, as relações sociais que são a base

81
QUESTIONS FEMINISTES. Variations sur des thèmes communs. Op. cit, p.5.
82
Ibidem, p.5.
83
Ibidem, p.6.
84
Ibidem, p.29.
167

dessa forma de organizar a sociedade, mostrando a possibilidade de superação dessas


hierarquias:
Feministas, nós devemos mostrar o caráter histórico, social e, portanto,
arbitrário e reversível dessa hierarquia de sexos e que não há ‘mulheres”
senão em relações de força desiguais que faz da opressão e da exploração de
um grupo social a condição de poder do outro.85

A proposta é de uma subversão total desse sistema. Trata-se de “transformar agora


relações sociais, econômicas e políticas que nos conduzem a classificar hierarquicamente, em
grupos ditos ‘de sexo’, indivíduos identicamente humanos’, de analisar, para destruir, o
sistema de sexos sociais”.86

O texto em questão foi escrito de forma coletiva, mas cada parte separadamente
por uma ou duas integrantes da revista. Na versão final não constam, entretanto, os nomes das
autoras de cada parte. Mas, na versão publicada em inglês87 podemos identificar, pelas
iniciais, quem escreveu cada uma. Algumas das variações terminológicas estão ligadas a esse
processo de produção do texto. Podemos citar como exemplo o uso dos termos “sexo” ou
“gênero”. A categoria “classes sociais de gênero” (classes sociales de genre)88 é empregada
por Christine Delphy e Monique Plaza. Nicole-Claude Mathieu prefere “classes sociais de
sexo” (classes sociales de sexe)89 e “sistema de sexos sociais”.90 Para além dessas variações,
encontramos também diferentes formas de abordar alguns conceitos que serão trabalhados
posteriormente. Embora o coletivo compartilhasse uma perspectiva teórica, há, obviamente,
diferenças no seio do grupo.

Sobre a composição da revista, cabem aqui alguns comentários. Primeiro é


preciso ressaltar que, embora Simone de Beauvoir apareça como “diretora de publicação”, seu
papel não pode ser superestimado. Beauvoir, assim como Sartre, foram, no final dos anos
1960 e início dos anos 1970, diretores de alguns jornais que enfrentavam perseguição. O
objetivo era evitar processos e prisões de diretores de publicação. Simone de Beauvoir
assumiu a direção do periódico L’idiot international em setembro de 1970 a abril de 197191.

85
Ibidem, p.19.
86
Ibidem, p. 18.
87
Editors of Questions feminists. Variations on some common themes. Feminist Issues, vol.1, n.1, summer 1980.
88
QUESTIONS FEMINISTES. Variations sur des thèmes communs... Op. cit., p.6.
89
Ibidem, p.16.
90
Ibidem, p.18.
91
No jornal Le monde de 1 outubro de 1971 Beauvoir afirmava: “Assumi a direção do Idiot International do 14
de setembro ao 27 de abril de 1971 para me solidarizar com essa imprensa ‘de oposição’ e revolucionária’ cujo
papel eu considero necessário numa sociedade que restringe a liberdade de expressão e cujos jornais ordinários
camuflam ou calam a verdade”. Dossiê Simone de Beauvoir. BMD.
168

No caso de Questions féministes havia claramente uma proximidade teórica. Mas, isso não
implicou uma participação ativa no coletivo de redação. Seu nome não consta nos poucos
pareceres de artigo e, segundo membros do coletivo, ela não participava das reuniões da
revista. Não encontramos também nenhuma carta relativa à essa questão entre os anos de
1976 e 1978.92

Todos os membros que figuram no primeiro número da revista tinham alguma


vinculação com a universidade. Com exceção de Emannuelle de Lesseps, que se tornou
tradutora, Claude Hennequin, todas as outras – Collete Capitan Peter, Christine Delphy,
Nicole-Claude Mathieu e Monique Plaza – seguiram uma carreira universitária. No momento
da publicação de QF, todas elas já eram autoras de artigos ou livros nos seus respectivos
campos disciplinares. O mesmo pode ser dito de Monique Wittig e Colette Guillaumin, que
entraram depois. É importante mencionar também que Monique Wittig já residia nos Estados
Unidos quando recebeu o convite para participar da revista e o seu contato com o grupo foi,
com exceção dos momentos de viagem, feito em grande medida por meio de cartas.

As reuniões do coletivo não deixaram registros. Tratava-se de um grupo que se


reunia de forma informal, em cafés, restaurante, etc, como muitos dos grupos feministas do
período. Os raros traços dessas discussões se resumem a frases escritas a mão em alguns
textos aprovando ou reprovando a publicação de um artigo.

Recepção da revista

O feminismo radical proposto por Questions féministes estava longe de provocar


consenso. Para Storti, “Mal saiu, Questions féministes não deixa de suscitar reações
violentas”.93 Crítica tanto de Psicanálise e Política como da corrente luta de classes e das
organizações de esquerda, não é de se espantar que a recepção da publicação tenha sido
marcada por polêmicas. A revista é também acusada de dogmatismo. Storti, numa resenha
publicada no jornal Libération, chega ao ponto de afirmar que “Se o mundo de amanhã é tão
sufocante como a ‘ciência feminista’ aqui em questão, eu prefiro ainda o mundo de hoje”.94

92
Lettres- Simone de Beauvoir. BnF.
93
Storti Martine (1977). Questions à la revue Questions féministes. Libération, 24 novembre. Republicado em:
STORTI, Martine. Je suis une femme, pourquoi pas vous ? Op. cit., p 169.
94
Ibidem.
169

A partir de algumas resenhas e textos publicados após o lançamento da revista,


podemos acompanhar o teor de alguma dessas reações. Os primeiros números da revista
foram divulgados por revistas e jornais como Libération, Rouge, e, particularmente na
imprensa feminista como Histoires d’elle, Cahiers du féminisme, Choisir, Cahiers du Grif
entre outras.

Para Françoise Picq, num texto de 1983, diferentemente de outras revistas


existentes, que teriam um ponto de vista “pouco definido”, Questions féministes teria por
objetivo “elaborar um conjunto teórico de textos e análises” partindo de um ponto de vista
radical “claramente definido, que parece coerente e compartilhado por toda a equipe da
revista”.95 Haveria, nesse sentido, uma “linha política” clara em relação a qual é possível ser
contra ou a favor. Picq também ressalta os riscos em propor uma teoria naquele contexto:
“Fazer teoria no movimento de mulheres era uma decisão corajosa; era se reivindicar como
intelectuais, o que não era bem visto; era correr o risco de ser acusada de se apropriar da
palavra das mulheres, fazer carreira às custas do feminismo”.96

Para Storti, numa espécie de resenha da revista para o jornal Libération, um


dos méritos, ou talvez o único, da revista é de colocar as cartas sobre a mesa e explicitar
claramente sua análise política. Mas, para outros, seria justamente essa a origem do problema.
Para N.H em Histoires d’elles, “o que é problemático em Questions Féministes é que mais do
que fazer questões, justamente, nos são dadas todas as respostas. As boas. Não há outras: isso
se chama ‘a linha justa’”.97 A revista é acusada de dogmatismo, sectarismo, de querer impor
uma só visão de feminismo. Ao apresentar como pré-requisito de todo feminismo um
approche antinaturalista e materialista, as editoras de QF excluem da definição de feminismo
aquelas que não compartilham esses dois pontos e isso provocou incômodo no movimento.

Em resposta a esse tipo de crítica, as editoras afirmam a necessidade da crítica


interna ao movimento feminista e recusam a ideia de dogma.98 A enunciação de uma análise
política não pode ser confundida com dogmatismo, afirmam. Monique Plaza, prevendo este
tipo de crítica, escreve uma nota “À propos de la critique”, para abrir o seu artigo sobre Luce
Irigaray, afirmando a necessidade de crítica dos discursos oriundos de mulheres feministas
como algo não somente legítimo como indispensável para a radicalização do movimento
feminista. Esse tipo de crítica não significa uma falta de solidariedade, pois esta última não

95
PICQ, Françoise. Féminisme, matérialisme, radicalisme. La revue d’en face, n.13, hiver 1983, p. 41.
96
Ibidem, p. 40.
97
N.H. Questions féministes. Histoire d’elles, n.3, 1977.
98
Texto não publicado. Fundo Nicole-Claude Mathieu
170

deveria ser caracterizada como uma grande simbiose mas como “questionamentos de nossas
contradições, como revelação das modalidades dissimuladas e perniciosas da opressão no
interior da nossa luta”.99 Nesse sentido, a crítica não deve ser tomada como um ataque
pessoal, o que seria alheio às intenções da revista. Um discurso se constitui socialmente,
afirma Plaza, e o que a interessava eram os “determinantes sociais”. Por isso, não se trata de
pensar no indivíduo, mas o “envelopamento” do autor nas regras, esquemas que lhe são
exteriores. A crítica deve ser pensada não como uma afronta à unidade, mas como uma forma
de construir verdadeiramente uma prática militante:
A crítica é positiva não somente quando permite a instauração de uma forma
não moralizadora de solidariedade política, mas também na medida em que
ela procede necessariamente de uma análise plena e positiva de nossa
opressão, de uma prática militante plena e positiva contra nossa opressão.100

Cabe ressaltar que o artigo de Plaza seria particularmente atacado. Para N.H, trata-
se de uma “critica impiedosa, para não dizer sangrenta, de Luce Irigaray”.101 Acusa-se até
mesmo de desonestidade intelectual no uso de citações.

O antinaturalismo radical do grupo seria outro ponto de discórdia. Mesmo entre


aquelas próximas do feminismo revolucionário, essa questão provocou polêmicas. Algumas
integrantes de QF afirmam que, embora algumas “feministas revolucionárias” tenham
participado da fundação da revista, outras teriam “criticado violentamente” a mesma no
momento do seu lançamento na Maison des Femmes102. Christine Delphy relembra em 2011
um debate específico, ocorrido na Maison des femmes, local no qual se reuniam as “feministas
radicais” e na qual esperavam que teriam um acolhimento favorável. Mas, ao contrário:
[...] nosso editorial coletivo foi duramente criticado porque não dava
suficientemente lugar à biologia, ao corpo das mulheres (e, portanto, ao
corpo dos homens). Nós descobrimos que estávamos sem base com nossas
camaradas; estas reivindicavam a autonomia do movimento de mulheres,
recusando subordiná-la à luta de classes e recusando igualmente as teorias
psicanalíticas e a neo-feminilidade, mas eles não viam como definir o grupo
das mulheres de outra forma senão como grupo constituído por “corpos
semelhantes’, ao passo que o que define esse grupo é, aos nossos olhos, uma
comunidade de opressão.103

99
PLAZA, Monique. À propos de la critique [1977]. In : QUESTIONS FEMINISTES. Questions féministes
1977-1980. Paris : Syllepse, p.117.
100
Ibidem, p.117.
101
N.H. Questions féministes. Histoire d’elles, n.3, 1977.
102
Processo comentado- Fundo Nicole-Claude Mathieu.
103
DELPHY, Christine. Trente ans de Nouvelles Questions Féministes. Nouvelles Questions Féministes, vol. 30,
n° 2, 2011, p. 7.
171

A concordância com outras posições políticas defendidas pelo coletivo de QF não


implicava à adesão ao antinaturalismo radical proposto. Uma carta, não assinada, sobre essa
reunião, posiciona-se contra a valorização da feminilidade, mas recusa um apagamento do
corpo:
Sim, eu venho à reunião também com meus úteros, ovários ainda que hoje eu
esteja menstruada e com dores nos rins. Negar minha menstruação porque os
homens fizeram disso um tabu sexual é um fator de opressão contra as
mulheres, é negá-las duplamente e, desta forma, redobrar a opressão ao
reprimi-la. Eu não quero nem glorificar meu sangue, nem valorizar essa dor
do corpo que sangra, mas dizê-lo porque existe, dizê-lo de forma diferente
do que faz o discurso social, tê-lo em conta e não a meu cargo pois é apenas
a partir disto que ela se tornará uma simples especificidade inerente a meu
corpo de mulher e não uma tara da natureza.104

Nas resenhas de Storti e N.H., a questão da “diferença” é um dos pontos centrais.


“Voulons-nous plus de différence de tout?”, perguntava Storti. N.H, por sua vez, ressalta esse
mesmo ponto. A proposta de QF seria a indiferenciação, uma proposta quase totalitária de
eliminação de qualquer diferença: “Para nós, não há só uma espécie humana. E essa espécie
perceberá inelutavelmente um dia que não há que um só sistema de valores válido, o que
permitirá o fim das guerras, dos estupros, dos mosquitos e da luta de classes”.105

Em resposta a esse argumento, as editoras afirmam que as mulheres “como todos


os racializados’, precisam lutar “contra uma especificidade nos impediriam de conservar. mas
uma limitação material que nos OBRIGAM a sofrer, sob o pretexto de nossa Natureza de
fêmea. Nós não atacamos a especificidade das culturas globais, mas as discriminações
internas e próprias aos sistemas opressivos”.106 Para H.H. a ideia que a “cultura precede a
natureza” seria um erro. Ainda na mesma linguagem satírica afirma: “É claramente por um
acaso que em todas as épocas e em todos os países (com raras exceções que confirmam a
regra), a diferença biológica tenha provocado uma hierarquização em proveito dos a-
cliteroídeos (a-cliteroîdes)”. Aqui, vê-se que há uma divergência fundamental entre duas
propostas. Melhor do que dizer que a cultura precede a natureza, afirmam em resposta, “nós
diríamos preferivelmente que a ‘natureza’ é cultural” e repetem o editorial afirmando a
necessidade de destruir a diferença de sexos suprimindo a hierarquia que existe atualmente

104
“Après la reunion ” [texto sem data e sem assinatura]. Fundo Nicole-Claude Mathieu. ARCL.
105
N.H. Questions féministes. Histoire d’elles, n.3, 1977.
106
Idem.
172

entre ambos os termos. “Não se pode reivindicar o ‘direito à diferença, dado que isso
significa, no contexto atual, o direito à opressão”.107

Vê-se, nesse momento, como a perspectiva de Questions féministes enfrentou


resistências de diferentes setores. A ideia de politizar a anatomia, de tirá-la no terreno do puro
biológico e apreendê-la como algo que, longe de representar uma base a partir do qual as
diferenças culturais são construídas, mas constitui ela mesma um elemento cultural, não era
algo fácil a ser aceito pelo conjunto do movimento.

Outras críticas ainda são oriundas de setores do feminismo luta de classes ou de


organizações de esquerda. O jornal trotskista Rouge reage à ideia de um modo de produção
doméstico, embora considerem necessário produzir “uma análise materialista da opressão”.
Mas a revista é saudada como “preferindo visivelmente a argumentação à excomunhões
categórica”.108 Cahiers du féminisme, ligada ao grupo que publicava Rouge, aprovam a crítica
ao essencialismo, mas mostram uma discordância fundamental em relação à proposta da
revista. Uma das principais críticas é contra a ideia de uma homogeneidade da classe das
mulheres, a autonomia do patriarcado em relação ao capitalismo.109Abordaremos esse tipo de
crítica no próximo capítulo.

Temas de debate

A maioria dos artigos publicados era de autoria dos membros do coletivo de


redação. Mas, pelo menos um artigo de cada número constituía uma tradução.110 A partir do
número 2, e dentro da proposta de publicar diferentes tipos de textos, são veiculados
documentos do movimento, panfletos, abaixo-assinados, chamadas para manifestações,
moções, etc. Algumas resenhas de livros publicados em francês e inglês também figuram em
alguns números. A leitura desses documentos nos faz revisitar alguns temas chaves para o
feminismo desse período.

107
De quoi est-il question(S) ? (Réponse à l’article sur Questions féministes). Fundo Nicole-Claude Mathieu.
ARCL.
108
Questions féministes. Rouge n.527, 18 décembre 1977, p.12.
109
Questions féministes. Cahiers du féminisme, n.2, dezembro de 1977, p. 42.
110
No primeiro número, foi traduzido o artigo “Violence et controle social des femmes” da pesquisadora inglesa
Jalna Hanmer; “Antagonisme des sexes dans le Herefordshire” de Ann Whitehead, publicado originalmente num
livro organizado por Diana Barker e Sheila Allen (nota), um artigo de Sally Maintyre “Qui veut des enfants?” no
n. 3, “Capitalisme, patriarcat et ségrégation professionnelle des sexes” de Heide Gartman, no número 4
publicado originalmente na revista Signs; novamente um artgo de Jalna Hanmer , escrito em colaboração com
Pat Allen “La Science de la reproduction – solution finale?” ; “Le développement contre les femmes” da
pesquisadora estadunidense Irene Tinker e duas traduções no último número.
173

Para além das questões mais “teóricas” e de fundo, podemos destacar alguns
temas como: trabalho, estupro, lesbianismo, reprodução artificial, prostituição, entre outros.
Alguns desses temas estão diretamente ligados à dinâmica do movimento no final dos anos
1970. Destacamos também temas inovadores como virilidade, delinquência das mulheres
assim como uma tentativa de lançar um debate sobre violência e terrorismo.

O estupro, questão amplamente discutida na segunda metade dos anos 1970 na


França, é objeto central de três artigos: “Priorité aux violées” de Martine Le Péron (n.3), “Nos
dommages et leurs intérêts” de Monique Plaza (n.3), e “Viol en procès” de Marie-André
Marion (n.8). O primeiro texto foi escrito por uma advogada feminista e narra as dificuldades
ligadas ao debate sobre a penalização do estupro. O segundo artigo é uma crítica violenta às
tomadas de posição de Michel Foucault e David Cooper sobre o estupro. O terceiro artigo
constitui um depoimento de uma mulher vítima de um estupro.

O registro do nome do MLF pelo grupo Psicanálise e Política em 1979 também é


um evento que provocou a publicação de alguns artigos: “Une presse ‘antiféministe’
aujourd’hui: ‘des femmes en mouvements’”, de L.K; “Novelles du MLF. Libération des
femmes an X”, de Christine Delphy, além de alguns abaixo-assinados. O movimento estava
chocado com esse episódio e tentava compreendê-lo.

O lesbianismo torna-se uma questão importante nos dois últimos números.


Monique Wittig denuncia um “pensamento straight” e o “nódulo de natureza” que resistia à
análise: a relação heterossexual. Essa crítica, exposta em “La pensée straight”, tem
continuidade no número seguinte com o artigo “On ne naît pas femme” (n. 8). Em
“Hétérosexualité et féminisme” (n.7), Emmanuelle de Lesseps lança a questão “Peut-on être à
la fois hétérosexuelle et féministe?”.111 Como veremos, trata-se de um debate que atravessa o
movimento feminista e lésbico e não opõe, como se imagina, lésbicas e heterossexuais mas,
como afirma Claudie Lesselier, “análises opostas sobre a teoria feminista ; a interpretação da
história do Movimento, as perspectivas de ação e as estratégias”.112. Essa questão será
abordada posteriormente.

A revista publicou também uma série de documentos produzidos pelo movimento


e ligados a eventos que se desenrolavam nos finais dos anos 1970 na cena feminista francesa e

111
LESSEPS, Emmanuèle de. Héterosexualité et féminisme. In : QUESTIONS FÉMINISTES. Questions
féministes 1977-1980. Op. cit., p.838.
112
LESSELIER, Claudie. Les regroupements de lesbiennes dans le mouvement féministe parisien. Groupe
d’études féministes de l’Université Paris VII (1991) Crises de la société, féminisme et changement. Paris, Revue
d’en face/Éditions Tierce, p. 96.
174

também internacional, que constituem fragmentos da história do movimento. Destacamos


alguns dessas temáticas abordadas: debates em torno da corrente “luta de classes”, eleições
legislativas de 1978, conflitos no seio do PCF sobre a questão do feminismo, eventos ligados
à luta pela legalização do aborto assim como ações de solidariedade internacional (por
exemplo, logo após à revolução iraniana em 1979 “Femmes enfermées, homo assassinés: en
Iran, quelle révolution?”), etc.

Por fim, mencionamos um outro tipo de texto publicado na revista, de caráter


mais literário: “Mon prince viendra”, de Monique Wittig, e “La rupture épistémologique
fondamentale”, de Maliña Poquez. Como exemplo das utopias feministas que surgiram neste
contexto, cito o primeiro parágrafo do segundo texto mencionado:

O relato que se segue conta a aventura amorosa de dois indivíduos que


chamávamos na Era intermediária de ‘mulheres’, em oposição aos ‘homens’,
dado que a ‘diferença de sexos’ tinha uma importância política fundamental:
os homens foram, na sua grande maioria, combatidos e afastados porque se
recusavam a perder seus privilégios.113

Esses textos nos permitem revisitar o humor e a vitalidade de uma reflexão em


plena efervescência.

O trabalho militante

Tal como a maior parte da imprensa feminista da época, a revista funcionava com
base no trabalho militante das suas integrantes. Mas, diferentemente de jornais como Torchon
brûle, parte do processo era realizado fora do núcleo central da revista. A revista foi
publicada, desde o primeiro número por uma editora militante, a editora Tierce ainda que uma
grande parte do trabalho de publicação era realizado pelas integrantes do coletivo de redação
da revista. Outro elemento importante é que, tal como muitas publicações feministas da
época, Questions féministes enfrentou dificuldades financeiras. Os pedidos de assinatura são
constantes e alguns documentos internos do coletivo mostram que a questão do financiamento
da revista colocou em risco a continuidade da publicação.

113
PLAZA, Monique. La rupture épistémologique fondamentale. Questions féministes (1977-1980). Paris:
Syllepse, p. 401.
175

Numa carta endereçada à Maison des Sciences de L’Homme, em busca de recursos


financeiros para a publicação, Delphy afirma que a revista era editada por uma editora de
pequeno porte que só se encarregava da impressão. Desta forma, o coletivo de redação era
obrigado a realizar todas as outras tarefas como datilografia, correção dos manuscritos,
tradução e todo o trabalho de formatação e que todo esse trabalho era realizado nas horas
livres daquelas envolvidas na produção da revista. Além disso, todos os outros custos eram
pagos também pelos membros do coletivo, tirados do próprio salário, como selos, telefone,
transporte, etc.114

Segundo Kandel115, a revista tinha uma tiragem de 3.000 exemplares. Para efeito
de comparação, podemos citar a quantidade de exemplares publicadas por outras revistas:
Cahiers du féminisme, Elles voient rouge, Revue d’en face tinham essa mesma tiragem.
Outras tinham uma difusão bem maior como Histoire d’elle 30.000 e Le quotidien des
femmes, publicado pela editora Des femmes, 60.000 exemplares.

Temos poucas informações sobre o número de assinaturas. Segundo a revista Off


our backs116, seriam 200. Os outros exemplares eram vendidos em livrarias, mas também
pelas próprias militantes.

Feminist Issues

A ideia de publicar uma versão da revista em inglês parece ter tomado corpo logo
após a publicação da versão francesa. Os contatos com Mary Jo Lakeland e Susan Wolf,
ambas residentes em Berkeley, começaram no ano de 1978. Monique Wittig, ao que tudo
indica, intermediou esse contato.117 As cartas mostram um grande entusiasmo pela publicação
em inglês da revista118 mas também as dificuldades para encontrar um editor e conseguir um
financiamento para a publicação.

114
30 DE NOVEMBRO DE 1978. Carta de Delphy à M. Heller.
115
KANDEL, Liliane. Des journaux et des femmes. Pénélope, n° 1, 1979.
116
Questions féministes workhop. Off our backs, vol. 10, n.1, jan. 1980.
117
28 de junho de 1978 (Carta) Mary Jo Lakeland e Susan Wolf à Colette, Christine, Emanuelle, Nicole-Claude
e Monique.
118
Bercley, january 24 1979. Carta Mary Jo Lakeland e Susan Wolf à Colette, Christine, Mano, Nicole e
Monique.
176

Imagem 4
177

Um contrato formal foi estabelecido em 26 de setembro de 1978. A publicação


sairia, finalmente, no verão de 1980 tendo como editoras Mary Jo Lakeland e Susan Ellis
Wolf e como editor advisory Monique Wittig. A revista se apresenta como uma tradução de
Questions féministes embora não seja uma cópia/tradução dessa publicação. No primeiro
número consta além do editorial do primeiro número de QF, e os artigos de Monique Plaza e
Nicole-Claude Mathieu, dois outros artigos são acrescentados: uma entrevista de Christine
Delphy feita por Danièle Leger e o texto de Monique Wittig “The Straight Mind”.

Mas, pouco depois, o coletivo de redação se polarizaria em torno da discussão


sobre lesbianismo e feminismo que culminou no fim da versão francesa no final de 1980.
Uma outra revista, composta por algumas das integrantes do coletivo de redação de QF,
Christine Delphy, Emmanuele de Lesseps e Simone de Beauvoir, lançariam Nouvelles
Questions féministes, que existe até os dias atuais. Feminist Issues continuou a ser publicado
após o conflito mas tomou posição por uma das partes e os nomes de Colette Capitan Peter,
Colette Guillaumin, Nicole-Claude Mathieu, Monique Plaza figuram como correspondentes a
partir do número 3 da revista119 e Monique Wittig como advisory editor. O terceiro número é
publicado após a ruptura, no verão de 1981. Noelle Bisseret, Colette Capitan Peter, Nicole-
Claude Mathieu e Monique Plaza aparecem, nesse contexto, como correspondentes e
continuariam a sê-lo até o início dos anos 1990. Monique Wittig publicaria, nos anos 1980,
diversos dos seus textos neste periódico.

119
Feminist Issues, vol. 1, n.3, verão de 1981.
178

Capítulo 5
Antinaturalismos feministas

A crítica ao naturalismo foi um ponto fundamental da agenda de amplos


setores do movimento feminista da “segunda onda”. Na França, constituiu a plataforma crítica
para a reflexão de muitas feministas e aparece já nos primeiros escritos do movimento, nas
palavras de ordem, sendo frequentemente evocada nos depoimentos e escritos de ordem
memorialística. Christine Delphy considera o antinaturalismo um ponto fundamental da sua
démarche1. Emmanuelle de Lesseps afirma-se resolutamente antiessencialista. Liliane Kandel
menciona em uma “raiva antiessencialista”.2 Colette Guillaumin3 localiza a gênese do seu
pensamento, assim como de toda uma geração de feministas, no contexto da Segunda Guerra
Mundial. O horror ao genocídio, motivado pela ideia biológica de raça, parece ter sido um
ponto de partida importante para a formulação de uma perspectiva antinaturalista feminista.
Neste capítulo, pretendemos reconstituir alguns elementos dessa discussão no seio do MLF e,
mais particularmente, em algumas autoras que contribuíram de forma decisiva para esses
debates.

O MLF e a questão da diferença sexual

Findemos com a mulher, ídolo ou capacho.


Recomecemos tudo com as mulheres, gênero humano
[Panfleto MLF]4

Na França, a questão da “diferença sexual” foi um elemento fundamental para o


feminismo nos anos 1970 e provocou profundas clivagens no movimento. Llana Löwy refere-
se a um conflito “obsessivo” em torno da “diferença de sexo”, que rapidamente deu origem a
posições petrificadas e antagônicas no movimento.5 Na bibliografia francesa, podemos

1
Ver: DELPHY, Christine. Avant-Propos. In: DELPHY, Christine. L’ennemi principal 1. Paris: Syllepse, 2009.
2
KANDEL, Liliane. “Liliane Kandel, Génération MLF ” ,[Entrevista realizada por Maruani Margaret, e
Mosconi Nicole, Travail, genre et sociétés, n.24, 2010, p. 113.
3
Entrevista realizada com a autora em 2013 em Paris.
4
[Panfleto] sem data e sem título que termina com a seguinte frase “Mulheres de todas as condições, todas
irmãs, lutemos juntas por nossa libertação”. [data aproximada: primeiros anos dos anos 1970]. Fundo Anne
Zelensky. BMD
5
LÖWY, Llana; ROUCH, Hélène. Genèse et développement du genre: les sciences et les origines de la
distinction entre sexe et genre. Cahiers du Genre n. 34, 2003.
179

encontrar diferentes termos para nomear os polos dessa oposição: “igualitarismo” e


“particularismo” segundo Naty Guadilla6; “naturalismo” e “sociologismo” para Françoise
Picq7; “universalismo” e “diferencialismo” para Françoise Collin8; feminismo
“diferencialista” e feminismo “materialista” ou “igualitário” para Pfefferkorn9. Malgrado essa
variação terminológica, a oposição refere-se fundamentalmente a duas visões que podemos
apresentar, ainda que de maneira um pouco esquemática, da seguinte forma: uma de
valorização da feminilidade, frequentemente considerada como algo que existe (sendo o
recurso à “natureza” frequentemente usado para explicar essa diferença) mas é reprimido pela
sociedade patriarcal; e uma crítica a essa feminilidade, concebida como algo imposto pelo
patriarcado e que deve ser combatida.

Um elemento fundamental presente nos primeiros textos do MLF é a crítica a um


modelo de feminilidade e às tradicionais atribuições associadas ao “segundo sexo”. Diversos
elementos dessa feminilidade eram percebidos como parte da ideologia patriarcal e como
opressivos. O combate a essa ideologia se constituía, assim, como um componente da luta
antipatriarcal.

Nos panfletos produzidos já nos primeiros anos do movimento, podemos


encontrar alguns registros desse debate, particularmente tomadas de posição antinaturalistas.
Numa das primeiras ações do movimento, em dezembro de 1970, um panfleto criticava os
termos do debate proposto pela revista feminina Elle, num evento intitulado États géneraux
de la Femme:

Sua opressão fundamental permanece. O amor, o casamento, o casal, a


feminilidade, o instinto maternal, o trabalho doméstico, etc não são
colocados em questão.
Eles tentam impor a ideia de que esses conceitos pertencem à ‘natureza
eterna da mulher’, o que nós contestamos violentamente.
A mulher não existe, é uma das criações do patriarcado destinadas a
massacrar as mulheres.10

Em outros textos do movimento podemos encontrar proposições similares, como


esta: “Um movimento de libertação das mulheres não é feito para libertar as mulheres, mas

6
GUADILLA, Naty. Libération des femmes. Le MLF, PUF, 1981.
7
PICQ, Françoise. LIbération des femmes...Op. cit., p. 326.
8
COLLIN, Françoise. Diferença dos sexos (teorias da) [verbete]. In: HIRATA, Helena. LABORIE, Françoise et.
al. Dicionário Crítico do feminismo. São Paulo: Editora UNESP, 2009.
9
PFEFFERRKON, Roland. Genre et rapports sociaux de sexe. Lausanne: Éditions page deux, 2012.
10
Questionário reproduzido em Politique Hebdo n.9, 3-9 dezembro de 1970.
180

para nos libertar das mulheres – domésticas, esposas, seres humanos, do sexo que concebe,
etc.11

Em diversos textos do movimento, podemos encontrar essa crítica à ideia de


“feminilidade”. Como lemos no boletim do Grupo de Mulheres Latino-Americanas em Paris,
Nosotras, num texto de Lucia Tosi, o pressuposto da feminilidade seria a identificação com
um modelo imposto pela sociedade patriarcal:

En que consiste entonces la tan mentada especificidad femenina? Quizá


únicamente en la capacidad potencial de anidar un óvulo fecundado y
llevarlo a término. El resto pasa a ser creación social y en última instancia
creación masculina. El movimiento feminista no debe buscar la
especificidad femenina sino negarla y negar también toda otra
especificidad. Nuestra especificidad presente, que no es sin una
identificación con el estereotipo sexual es un resultado de un
condicionamiento. Debemos rechazarla y solo así nos será posible encontrar
nuestra verdadera especificidad en tanto que personas.12 (grifos meus).

Partindo de um argumento semelhante, Christine Delphy ressalta a importância da


“luta ideológica” para o feminismo. Uma das suas funções seria construir uma nova imagem
das mulheres, o que implicaria a “destruição da imagem negativa que a ideologia confere às
mulheres”.13 Essa posição parece predominar nos primeiros anos do MLF.

A feminilidade é apreendida como um produto ideológico, no sentido de “falsa


consciência”. Assim, Delphy critica a iniciativa de valorização da feminilidade, considerando-
a como uma ideologia sexista invertida como num espelho, sendo entretanto, como no reflexo
especular, idêntica.14 A feminilidade, ao contrário, precisava ser denunciada e eliminada.

Apesar da valorização da importância da “luta ideológica”, Delphy considera que


a supressão da feminilidade não poderia ser realizada somente no plano das ideias, na medida
em que tem um conjunto de relações sociais como base. Por isso, não bastaria que o conteúdo
dessa ideologia, a imagem negativa, fosse desmascarada como falsa. Era necessário que essa
fosse identificada como ideológica, isto é, “que seu falso conteúdo” fosse “reconduzido àquilo
que o produz e àquilo que o justifica: a organização social e, mais precisamente, a
organização opressiva da sociedade”.15

11
Cathy Berheim [1983] apud FOUGEYROLLAS-SCHWEBEL, Dominique. Controverses et anathèmes au sein
du féminisme français des années 1970. Cahiers du genre, n.39, 2005, p. 16.
12
TOSI, Lucia. Algunas reflexiones a proposito del articulo de Françoise Collin…. Nosotras, n.23/24,
novembro/dezembro de 1975.
13
DELPHY, Christine. Proto-féminisme et anti-féminisme. Les temps modernes, n. 376, mai 1975, p.1477.
14
Ibidem, p.1477.
15
Ibidem, 1477
181

Monique Wittig procura mostrar, tendo por base os argumentos desenvolvidos por
Colette Guillaumin sobre a raça, que a marca não preexiste à opressão, isto é, uma diferença
que é considerada como uma percepção direta e física não seria senão uma “construção
mística e sofisticada, uma ‘formação imaginária”16. Para Wittig, “a mulher” seria um “mito”
criado para “tornar as coisas mais confusas”. 17 Por isso, ela considera que uma das primeiras
tarefas do movimento era “dissociar cuidadosamente “as mulheres (a classe no interior da
qual combatemos) e ‘a mulher’ o mito. Para se constituir enquanto classe, as mulheres
deveriam “matar o mito da mulher” mesmo nos seus aspectos mais sedutores, forjar uma
consciência de classe e combater esse sistema que constrói esse sistema de classes.18

De modo análogo, Guillaumin afirma que aceitar a “diferença” equivaleria a


“aceitar a perenidade da relação de exploração”.19 A autora cita alguns exemplos,
“considerados superficiais”, que indiciam a importância de um certo modelo de feminilidade
para a manutenção do sistema. As saias “destinadas a manter as mulheres em estado de
acessibilidade sexual permanente”, o uso de saltos altos e tipos de sapatos que “impedem de
correr, torcem os tornozelos, tornam extremamente tensos os deslocamentos com bagagem ou
crianças ou os dois”, dentre outros adereços cuja função seria “lembrar às mulheres que elas
não são homens e que é necessário não confundir e, sobretudo, não o esquecer em nenhum
momento”.20

Na revista Questions féministes, a noção de natureza feminina e de “diferença


entre os sexos” é alvo de críticas virulentas, como procuramos mostrar no capítulo anterior.
“O tema da diferença, em si mesmo, qualquer que seja o conteúdo dado às diferenças, serve
ao grupo opressor”21, afirmam no editorial do primeiro número. As categorias “homem” e
“mulher”, continuam, são categorias historicamente construídas e, portanto, passíveis de
serem historicamente eliminadas através da destruição do sistema de relações que as constitui.
Para nós, afirmam “há apenas uma espécie humana, o que exclui todas as discriminações,
todas as hierarquias (de sexos, de raças, de classes...)”.22

16
WITTIG, Monique. On ne naît pas femme... OP. cit., p. 46.
17
WITTIG, Monique. On ne naît pas femme... OP. cit., p.49.
18
Idem.
19
GUILLAUMIN, Colette. Question de différence. [1979]. GUILLAUMIN, Colette. Sexe, race et pratique
...Op. cit., p. 104.
20
Ibidem, p. 86.
21
QUESTIONS FÉMINISTES. Variations sur des thèmes communs. Questions Féministes, n. 1, p. 3-19, nov.
1977, p. 9.
22
Ibidem, p. 17.
182

O fato de recusar a ideia de “mulher” imposta pela sociedade como premissa


essencialista não implicava, contudo, numa recusa a assumir essa categoria como possível
meio de articulação política de um sujeito (“mulheres”) para destruir as “relações sociais de
opressão” e a “ideologia” que a construíram como categoria “sociológica”. Questions
féministes propõe partir da marca (“anatômica”) que o opressor impôs as mulheres para travar
uma luta contra esse sistema:

Se é a partir da nossa anatomia de mulheres que nós fomos obrigadas a nos


reunir politicamente, é também para não esquecer que essa categoria
biológica é política, constituída por uma relação social de opressão e pela
ideologia do opressor. Para não esquecer, para ter a coragem de reconhecer
que se nós reunimos nossas forças de mulheres anatômicas, é para nos
destruir enquanto mulheres sociológicas e, ao mesmo tempo, destruir os
homens enquanto homens sociológicos.23

Para Kandel, “se a ideia de uma diferença irredutível entre homens e mulheres
está presente, desde o início, em certos grupos do ‘MLF’”, o próprio termo será, entretanto, de
aparição tardia.24 A autora ressalta ainda que a questão da diferença, ainda que dificilmente
nomeada ou escrita, estava “presente no ar dos tempos e do tempo feminista”.25 Uma análise
dos documentos dos primeiros anos nos mostra que essa questão não constituía um tema
importante de debate no momento da constituição do MLF. Os primeiros embates do
movimento se deram por outras razões.

As primeiras divergências entre “feministas revolucionárias” e “Psicanálise e


Política” (seja na sua forma embrionária, seja quando se configuraram como “tendência”)
giravam em torno da possibilidade da concepção de um “nós” mulheres e da articulação de
um movimento feminista interclassista, como procuramos mostrar. O momento de emergência
da polarização em relação à questão da “diferença sexual” permanece ainda uma questão em
aberto.

Uma das dificuldades em identificar esse início é que “Psicanálise e Política”


produziu poucos textos nos primeiros anos da década de 1970. Uma análise desses poucos
textos existentes nos mostra que a questão da “diferença entre os sexos” não era central nas
reflexões do grupo. Seria no debate sobre a contracepção, já por volta do ano de 1973, que
algumas posições sobre “essência” e de recusa à ideia de “igualdade” aparece de forma mais

23
Idem, p. 17.
24
KANDEL,Liliane. Sur la differénce des sexes et celle des féminismes. Les Temps modernes, n.609 (junho-
julho-agosto 2000), p. 288.
25
Idem, p. 290.
183

explícita. Um texto publicado no boletim Le Torchon brûle n.5 nos fornece alguns elementos
desse tipo de reflexão:

A contracepção que queremos não é uma igualdade da mulher com o homem


face ao risco da fecundidade. Seria, para nós, querermos ser idênticas aos
homens, recusar a ovulação, o funcionamento da matriz, isto é, recusar a
única coisa que, por ora, permite que nos localizemos, que nos
identifiquemos enquanto mulher (...) Essa tendência igualitária ameaça, de
forma pura e simples, eliminar as mulheres como mulheres da história, antes
mesmo que elas tenham conseguido fazer sua aparição. Ela evita a diferença
dos sexos e, ao eliminar um dos termos da contradição, ela suprime um
26
momento da luta.

Neste trecho, pode-se identificar como a diferença é remetida ao biológico, à


ovulação, à capacidade de procriar. A identificação “enquanto mulheres” estaria, portanto,
atrelada a uma noção de diferença física e a negação dessa diferença seria um equívoco. No
jornal Le quotidien des femmes, publicado por essa tendência a partir de 1974, essa temática
ganha espaço. Nos diferentes textos publicados nesse e em outros jornais ligados ao grupo,
surgem afirmações contra o feminismo tais como: “Em todos os casos, reformista e
progressista, o Feminismo não é radical senão como raiz do Patriarcado”27 ou ainda, como
afirmava Antoinette Fouque: “O feminismo da não-diferença – sexual, econômica, política – é
o trunfo mestre do ginocídio”.28

Essa polarização ganharia contornos mais nítidos na segunda metade dos anos
1970. Para Françoise Picq a “profundidade da oposição” à Psicanálise e Política levaria a
formação de dois polos no lugar de “três tendências” (feminismo revolucionário, feminismo
luta de classes e Psicanálise e Política)29. De um lado, diferentes grupos feministas, da
tendência luta de classes, dissidentes da tendência diferencialista e “eternas rebeldes às
etiquetas”, que afirmariam, em uníssono, uma filiação feminista em contraposição a um outro
polo “antifeminista”.30

Dois eventos parecem-nos ilustrativos dessas polarizações: um congresso


realizado em 1979 para comemorar os 30 anos de publicação de O segundo sexo, e algumas
tomadas de posição divulgadas logo após o falecimento de Simone de Beauvoir, ocorrido em
1986.

26
Avortement Contraception Sexualité . Le Torchon brûle n.5 s. d. [data aproximada: início de 1973]
27
La différence internée. Des femmes em mouvement, n.2, fevereiro de 1978.
28
Trecho original “Le féminisme de la non-différence – sexuelle, économique, politique – est l’atout maître du
gynocide” . Des femmes em mouvements Hebdo. n.28, 16-23 de maio de 1980, p. 12.
29
PICQ, Françoise. Libération des femmes. Op. cit., p. 321.
30
Ibidem.
184

O congresso “Second sex, thirty years later. A Commemorative Conference on


Feminist Theory” foi realizado em Nova York, entre 27 e 28 de setembro de 1979. Esse
evento reuniu feministas dos dois lados do Atlântico para debater a herança da obra de
Beauvoir, dentre elas: Gayle Rubin, Audre Lorde, Carol Vance, Ti-Grace Atkinson, Hélène
Cixous, assim como alguns membros do coletivo de redação de Questions féministes, como
Christine Delphy, Nicole-Claude Mathieu, Monique Wittig, Colette Guillaumin e
Emmanuelle de Lesseps, num total de 900 mulheres.31

Diferentemente do que se poderia esperar num congresso de homenagem a uma


autora feminista considerada como um dos expoentes do antinaturalismo, esse evento,
segundo Michelle Le Doeuff, teria sido organizado por feministas mais ou menos ligadas ao
movimento da “neo-feminilidade”32 e teria sido atravessado por “por uma clivagem que se
tornou praticamente uma banalidade no movimento nos últimos anos”: “Afirmação da nossa
diferença?”, “Celebração da nossa especificidade?”, “Woman is wonderful”?33 O projeto do
encontro, ainda segundo Le Doeuff, era ambíguo e expressaria um ponto de vista pouco
compatível com o antinaturalismo beauvoiriano. Mas, durante o congresso, visões distintas
sobre essa questão se confrontaram. Se, de um lado, Le Doeuff insistia no seu
descontentamento com a noção de “especificidade” feminina e afirmava que a única coisa que
haveria em comum entre mulheres e que constitui a ideia de grupo é uma opressão, Cixous,
num outro “polo”, retrucava: “É uma atitude negativa”; “nós na França não nos identificamos
como feministas porque nós abandonamos esse ponto de vista negativo”.34

Já na descrição da imprensa do grupo Psicanálise e Política, o congresso teria sido


marcado por uma repetição de velhos conceitos desinteressantes, fórmulas velhas de muitos
anos que seria um símbolo da penúria intelectual reinante. Não se poderia esperar novos
conceitos a partir das perspectivas propostas nesse congresso. Se é do encontro entre
feminismo e marxismo que se deve esperar esses novos instrumentos, “esperaremos muito
tempo” afirmam.35 Wittig é criticada por negar “totalmente o corpo, como não mais que uma
palavra vã”, concebendo a mulher como “puro produto da cultura”36 por medo de cair no

31
A referência a esse número é de Le Doeuff. LE DOEUFF, Michèle. Colloque féministe à New York: Le
Deuxième sexe trente ans après”. Questions Féministes (1977-1980) Op. cit., p.883. Para o nome das
conferencistas foi consultado: The second sex – thirty years later. A Commemorative Conference ON Feminist
Tyeory. New York University, 1979.
32
LE DOEUFF, Michèle. Colloque féministe à New York. Op. cit., p.883.
33
Ibidem, p.883.
34
Ibidem, p.885.
35
O grand-mère que vous avec de beaux concepts ! C’est pour mieux vous arrièrer, mon enfant ! Des femmes en
mouvements hebdo, n.1, 9-16 novembro de 1979, p. 12.
36
Ibidem, p.12.
185

“biologismo e essencialismo”. Elas ainda ressaltam uma pequena presença de estrangeiras


convidadas, exceção feita à presença significativa do coletivo de feministas francesas de
Questions féministes, que “se valem da autoridade de Beauvoir”.37

Nesses embates, a perspectiva defendida pelo coletivo de Questions féministes


parece ter encontrado uma boa ressonância no evento. F. Magazine fala em um “franco
sucesso” da revista na conferência.38 Temos também registros da organização, durante o
congresso, de um workshop em torno da revista Questions féministes. Os relatos do jornal Off
our backs mencionam tal workshop como o “mais interessante da Conferência
comemorativa”.39

Um outro exemplo da continuidade dessa polarização é o momento da morte de


Beauvoir. Aclamada por diferentes setores feministas, ela aparece nas palavras de algumas
daquelas pertencentes ou próximas à Psicanálise e Política como símbolo de um feminismo
ultrapassado, igualitarista. “Essa morte (...) vai talvez acelerar a entrada das mulheres no
século XXI”40, afirmava Antoinette Fouque, num texto publicado no jornal Libération pouco
tempo após a morte de Beauvoir. Para Fouque, Beauvoir personificava um feminismo
universalista, igualitário, assimilador. Seria necessário, ao contrário,

diminuir, alterar o universalismo intolerante, assimilador, odioso,


esterilizante, redutor de todo o outro [...] para abrir [nossa civilização] ao
pluralismo, às diferenças fecundas que, como cada um diz, aceitam suas
origens, informam-se, põem em funcionamento as diferenças entre os sexos:
há homens... há mulheres ... há culturas ... este é o princípio das
expectativas.41

Luce Irigaray, nesse mesmo contexto, propõe continuar fiel à obra teórica e
prática de Beauvoir de justiça social e “não fechar o horizonte de liberação que ela abriu para
muitas mulheres, e homens”. Mas, ao mesmo tempo, o texto expõe uma crítica ao que ela
chama um “feminismo igualitarista”, compreendendo que a demanda de “igualdade, enquanto
mulheres” seria uma “expressão equivocada de um problema real”:

Uma análise pouco rigorosa das pretensões à igualdade mostra o seu bem
fundado no nível de uma crítica superficial da cultura, sua utopia como meio
de libertação das mulheres. A exploração desta tem por fundamento a
diferença sexual, ela não pode se resolver senão pela diferença sexual. Certas

37
Ibidem, p. 11.
38
Sutton, Nina. Colloque Le ‘Deuxième Sexe’ a trente ans. F Magazin,1979, p. 69.
39
Questions féministes workhop. Off our backs, vol. 10, n.1, 1980, p.9.
40
RODGERS, Catherine. Elle et Elle: Antoinette Fouque et Simone de Beauvoir. MLN, vol. 115, n. 4, 2000, p.
74.
41
Ibidem, p. 74.
186

tendências de nossa época, certas feministas de nosso tempo, reivindicam


ruidosamente a neutralização do sexo. Essa neutralização, se fosse possível,
corresponderia ao fim da espécie humana.42

Ainda segundo Irigaray, o feminismo igualitarista perderia muita energia,


recusando alguns valores positivos e correndo atrás de “nada”. A igualdade entre homens e
mulheres não poderia se realizar “sem uma ideia de gênero como sexuado e uma instituição
de direitos e deveres de cada sexo, enquanto diferentes, em direitos e deveres sociais”.43

Simone de Beauvoir, ainda em vida, opunha-se ao crescimento de orientações


“essencialistas” no movimento e já indicava a tendência desta última ser a mais conhecida nos
EUA. Num texto publicado em 1984, em Sisterhood is global, a autora expõe sua visão sobre
o movimento e sobre o crescimento de Psicanálise e Política (citado de forma abreviada
abaixo):

O movimento de mulheres francês, entretanto, está vivo e bem. Mas ele está
em perigo constante devido à existência de grupos como Psych et Po que se
divulgam como o movimento de mulheres e exercem uma influência
considerável, graças à infeliz recepção calorosa que o público em geral deu a
sua ideologia – uma neo-feminilidade conveniente desenvolvida por
escritoras como Hélène Cixous, Annie Leclerc e Luce Irigaray, a maioria das
quais não é feminista, e uma parte delas é declaradamente antifeminista.
Infelizmente, este também é o aspecto do movimento de mulheres francês
mais conhecido nos EUA. (...) Por outro lado, uma das contribuições mais
interessantes para a real teoria do feminismo francês é a crítica radical-
feminista da neo-feminilidade que veio à tona, particularmente em Questions
Féministes (agora Nouvelles Questions Féministes).44

O que Beauvoir indica acima se consolidaria alguns anos depois na ideia de


“french feminim”.45 A partir da década de 1980, começa, segundo Moses46, a configurar-se,
entre acadêmicas anglófonas, a categoria “french feminism”, usada para fazer referência a
algumas elaborações influenciadas pela psicanálise lacaniana e outros autores pós-
estruturalistas, cujos principais nomes seriam Hélène Cixous, Julia Kristeva e Luce Irigaray.

42
IRIGARAY. Égales ou diferentes? [tradução não publicada de um texto originalmente publicado no jornal
alemão TAZ]. Dossiês ARCL.
43
Ibidem.
44
BEAUVOIR apud MORGAN, R. (org.) Sisterhood is global…op. cit. ., p.235.
45
Essa categoria foi criticada em diferentes textos e artigos, entre os quais destacamos: MOSES, Claire. Made in
América: ‘French feminism’ in America. Feminist Studies, vol.24, n.2, 1998; MOSES, Claire. La construction
du ‘French Feminism’ dans le discours universitaire américain. Nouvelles Questions Feministes, vol. 17, n.1 ;
VARIKAS, Eleni. “Féminisme, modernité, postmodernisme: pour un dialogue des deux côtés de l’océan” In:
Futur Anterieur 1993 ; DELPHY, Christine. DELPHY, Christine. L’invention du French Feminism: une
démarche essentielle. [1996] In: DELPHY, Christine. L’ennemi principal 2. Penser le genre. Paris: Syllepse,
2009.
46
MOSES, Claire. Made in América: ‘French feminism’ in America. Feminist Studies, vol.24, n.2, 1998.
187

Essas autoras têm, em maior ou menor medida, afinidades com as ideias do grupo
“Psicanálise e Política”. Essa categoria foi duramente criticada por diversas autoras, entre elas
por Christine Delphy, Claire Moses e Eleni Varikas, que ressaltam o seu caráter redutor. Para
Varikas

reduzir o feminismo ‘francês’ a algumas posições teóricas, não significa


somente ocultar o fato de que a maior parte das lutas feministas não foi
levada fora e, talvez, contra essas posições; não significa somente ocultar as
posições teóricas mais influentes na reflexão feminista na França; significa,
desta maneira, impedir-se de refletir sobre as condições nas quais essas
posições múltiplas emergiram, sobre sua relação com uma prática política de
mulheres, sobre o que engendra sua aceitabilidade ou inaceitabilidade social
e acadêmica, sobre sua dinâmica subversiva.47

Um aspecto fundamental dessa discussão é a questão da existência de uma


“natureza” feminina e suas consequências para a abordagem da feminilidade. Por essa razão,
no próximo item, apresentaremos algumas das formas de conceber o que poderíamos chamar
de “sexo” e “gênero”.

Debates sobre a relação entre sexo e gênero

Para Nicole-Claude Mathieu48, podemos identificar três formas de conceituar sexo


e gênero. A primeira compreende uma divisão ontológica entre os sexos, uma
“correspondência homológica” entre sexo e gênero, de modo que o gênero traduz o sexo. Esta
forma, que Nicholson chamaria de “determinismo biológico”, é adotada por uma parte das
feministas da “primeira onda” e por alguns setores do feminismo da “segunda onda”,
chamadas de “diferencialistas”. Essa foi a forma predominante de apreender a distinção entre
sexo e gênero até a emergência da crítica antinaturalista e, por isso, dispensa maiores
comentários.

Uma segunda abordagem descarta a noção de que as diferenças entre homens e


mulheres seriam uma consequência inevitável e natural da biologia, sustentando que elas
seriam construções sociais problemáticas, em razão de seu conteúdo hierárquico e obrigatório.
Para essa perspectiva, o sexo é biológico e o gênero social. Haveria, nos termos de Mathieu,

47
VARIKAS, Eleni. Féminisme et postmodernité... Op. cit.
48
Usaremos também uma análise similar promovida por Nicholson. NICHOLSON, Linda. Interpretando o
gênero. Revista Estudos Feministas, v. 8, n. 2, 2000.
188

uma “correspondência analógica entre sexo e gênero”, isto é, o gênero simboliza o sexo, ou,
nos termos utilizados por Delphy49, o sexo seria “continente” e o gênero “conteúdo”.

Essa posição foi adotada por amplos setores do movimento feminista nos anos
1960-1970. Em relação a essa perspectiva, Nicholson50 considera que, malgrado a crítica ao
determinismo biológico e às essencializações derivadas, ela não escapa do uso do biológico
para explicar o social. Segundo a autora, nesse caso, “o biológico foi assumido como a base
sobre a qual os significados culturais são constituídos. Assim, no momento mesmo em que a
influência do biológico está sendo minada, está sendo também invocada”.51 A essa
abordagem, Nicholson dá o nome de “fundacionalismo biológico”. O termo de Nicholson
parece captar o cerne da questão, desde que remete ao pressuposto da “antecedência do sexo
sobre o gênero”, que, como diz Delphy52, é um pressuposto “historicamente explicável”, mas
não “teoricamente justificável”, pois assume o sexo como invariável, natural, concebendo
apenas o gênero como histórica e socialmente construído.

Esse “paradigma” começou a ser questionado a partir do final dos anos 1970 por
feministas francesas e, posteriormente, por acadêmicas estadunidenses influenciadas pelo
“pós-modernismo”. Neste contexto, é questionada a própria naturalidade do sexo biológico.
Para Mathieu, haveria uma correspondência “sócio-lógica” entre sexo e gênero: o gênero
constrói o sexo. Nesta forma de conceber o problema, que inverte a ordem de determinação
em relação à primeira concepção, a diferença entre os sexos não é traduzida (como no modo
I) ou exprimida/simbolizada (como no modo II) através do gênero, mas é o gênero que
constrói o sexo.

Nas genealogias do conceito de gênero no Brasil, comumente apresenta-se Gayle


Rubin como a primeira a propor, numa perspectiva feminista, o uso do conceito de gênero.
Mas, na França, é Ann Oakley, uma feminista inglesa que propõe o uso do conceito em Sex,
gender and society, em 1972, que está no princípio dessa genealogia. Partindo da definição de
Robert Stoller, ela propõe usar os dois termos, sexo e gênero, para separar aspectos oriundos
da biologia de aspectos culturais53. Nos Estados Unidos, Gayle Rubin, a partir de uma
releitura de textos marxistas, psicanalíticos e antropológicos, escreve um texto que se tornaria

49
DELPHY, Christine. Penser le genre: problèmes et résistances [ 1991] In: DELPHY,C. L’ennemi principal. 2
Penser le genre. Paris: Syllepse, 2009.
50
NICHOLSON, Linda. Interpretando o gênero. Revista Estudos Feministas, v. 8, n. 2, 2000.
51
Ibidem, p.11.
52
DELPHY, Christine. Penser le genre... . Op.cit., p.241.
53
Ver cap. 6 “Sex and Gender ”. In: OAKLEY, Ann. Sex, Gender and society. Towards a new society. Lonres:
temple Smith, 1972.
189

referência: “The Traffic in Women: Notes on the ‘Political Economy’ of Sex”, publicado em
1975, no qual propõe o conceito de “sistema sexo/gênero” definido, preliminarmente afirma
Rubin, como um conjunto de arranjos através dos quais uma sociedade transforma a
sexualidade biológica em produtos da atividade humana, e na qual estas necessidades sexuais
transformadas são satisfeitas”.54

A elaboração do conceito de gênero no contexto anglófono rompe claramente com


o primeiro “paradigma”. Entretanto, pelo menos em suas primeiras teorizações, não questiona
a naturalidade do sexo biológico, sendo que a crítica à naturalização do sexo biológico, nesse
contexto, emergiu apenas em um período posterior. Grosso modo, podemos dizer que essas
primeiras teorizações sobre “gênero” desenvolvidas no contexto anglófono se enquadram na
segunda perspectiva enunciada por Mathieu, da “correspondência analógica entre sexo e
gênero”55 ou do “fundacionalismo biológico”56. Nesse contexto, a separação entre sexo, como
um dado biológico, e gênero, como um dado social, visava a confrontar a perspectiva de uma
correspondência obrigatória entre sexo e gênero. Mas essa distinção, malgrado sua “utilidade
tática”, não estava isenta de pressupostos teoricamente problemáticos, relacionados, segundo
Haraway57, às suas raízes epistemológicas funcionalistas e essencializantes. Ainda de acordo
com essa autora, nessas teorizações, o gênero seria apreendido pela função social
desempenhada na formação da identidade, de modo que o intento desnaturalizante não
alcançaria a categoria sexo, constituída, a partir da dicotomização sexo/gênero, como um
estereótipo, e aparelhada à noção funcionalista de “substrato”. Eleni Varikas, de modo
análogo, aponta para a emergência do conceito de gênero no quadro de um paradigma que, no
lugar de considerar a conflitualidade e a historicidade intrínsecas às práticas de diferenciação,
prende-se, em uma abordagem afinada com o “funcionalismo dominante nas ciências
sociais”58, ao “domínio da formação das identidades, dos comportamentos e dos papéis
sexuais”, reduzindo a “construção social” ao “condicionamento social”59, obnubilando a
dimensão política, a assimetria e a hierarquia constitutivas dessa bicategorização.

54
RUBIN, Gayle. O tráfico de mulheres: notas sobre a ‘economia política’ do sexo. Recife: SOS Corpo, 1993,
p.2.
55
MATHIEU, Nicole-Claude. Identité sexuelle/sexuée/de sexe? Trois modes de conceptualisation du rapport
entre sexe et genre [1989]. In: MATHIEU, Nicole-Claude. L’anatomie politique...Op. cit., p. 213-214.
56
NICHOLSON, Linda. Op. cit., p. 12.
57
HARAWAY, D. ‘Gênero’ para um dicionário marxista: a política sexual de uma palavra. Cadernos Pagu,
n.22, jan./junho 2004.
58
VARIKAS, Eleni. Penser le sexe et le genre. Paris: PUF, 2006, p. 56.
59
Ibidem, p.55-56.
190

O feminismo francês, e particularmente as autoras em questão, vêm de uma


tradição teórico-política distinta. As ideias de relações sociais, classes sociais etc. estão
diretamente vinculadas a uma matriz marxista, para a qual as noções de historicidade,
reciprocidade dialética, contradição e processo são fundamentais. No feminismo francês, a
terceira visão emerge já nos anos 1970. Christine Delphy esboça, em 1981, essa crítica:

Para resumir de maneira muito esquemática nosso trabalho [das feministas


materialistas], nós pensamos que o gênero – as posições sociais respectivas
de mulheres e homens – não é construído sobre a categoria (aparentemente)
natural do sexo; mas, ao contrário, o sexo tornou-se um fato pertinente e,
portanto, uma categoria da percepção, a partir da criação da categoria de
gênero, isto é, da divisão da humanidade em dois grupos antagonistas, dos
quais um oprime o outro, os homens e as mulheres.60

A crítica a uma reificação da biologia já estava presente, nos anos 1970, nos
trabalhos de Nicole-Claude Mathieu. Em 1974, ela critica o uso do conceito de “papéis
sexuais”, por pressupor uma separação entre biologia e social que constituiria um obstáculo a
uma definição sociológica do sexo. A ideia de “papéis” tem a vantagem de apresentar “os
fatos do sexo” como “sistema no qual ambas as categorias estariam envolvidas”. Entretanto,

a utilização do conceito de “papel” tende a limitar a análise a ‘modalidades


sociológicas’ que seriam elaboradas pelas sociedades sobre categorias
biológicas de sexo. Certamente trata-se de um aspecto fundamental da
pesquisa. Mas, corre-se o risco – contrariamente ao seu propósito – de
confirmar a reificação das categorias de sexo sobre o biológico, que
subentende o discurso científico habitual (como aquele da sociedade global)
e cria obstáculo para uma definição propriamente sociológica do sexo.61

Monique Plaza, num sentido similar, ao resenhar o livro de Robert Stoller


Recherche sur l’identité sexuelle, publicado em francês em 1978, elogia o esforço do autor em
suprimir a distância instaurada teoricamente entre “sexo (biológico) e “gênero (psico-social)”.
Mas, segundo Plaza, ele não conseguiu levar até as últimas consequências essa crítica, de
modo a colocar em cheque o “primado do biológico”, “a lógica opressiva da diferença entre
os sexos, sua organização heterossexual”.62 A proposta do autor, se levada às últimas
consequências, arrojaria Stoller “muito longe”, permitindo-lhe pensar que a diferença de

60
DELPHY, Christine. Le patriarcat, le féminisme et leurs intellectuelles.[1981] L’ennemi principal 2 Penser le
genre. Paris: Syllepse, 2009: p.228.
61
O texto, apresentado no Congresso Mundial de Sociologia, em 1974, seria publicado em 1977. MATHIEU,
Nicole-Claude. “Paternité biologique, maternité sociale... ”. In: MICHEL, Andrée. Femmes, sexisme et société.
PUF: 1977, p.39.
62
PLAZA, Monique. Robert Stoller, Recherches sur l’identité sexuelle, Paris, Gallimard, 1978, coll.
‘Connaissance de l’inconscient. In: QUESTIONS FÉMINISTES. Questions féministes (1977-1980). Paris:
Syllepse, 2012, p. 783.
191

sexos não somente não era fatal e necessária, mas constituiria um empobrecimento. Para não
chegar a essa conclusão, ele é obrigado a “retomar com uma mão o que ele havia abandonado
com a outra, a saber, um certo peso de evidência do biológico”.63 Trata-se somente de uma
resenha, mas que indica algumas dimensões importantes da reflexão em torno da revista
Questions féministes.

Nicole-Claude Mathieu, dentre outras autoras, considera que a distinção entre


sexo e gênero, uma vez que compreenderia uma dicotomização entre biológico e cultural,
acarretaria uma reificação do primeiro, ocultando assim seu caráter ideológico e histórico.
Essa seria uma das razões para a rejeição ao uso do conceito de gênero no contexto francês.
Cabe mencionar que a crítica de algumas autoras influenciadas pelo pós-estruturalismo seria,
nesse sentido, mal recebida por algumas dessas autoras, cujos esforços para desnaturalizar a
categoria sexo já eram empreendidas desde os anos 1970. Mathieu em relação a esse ponto
afirma:

Inspirados por uma forma de pós-modernismo e criticando os movimentos


predecessores feministas, lésbicos e gays de terem se centrado nas questões
de identidades coletivas, a perspectiva queer considera as categorias de
oposição binárias (homens/mulheres, homo/hétero) ultrapassadas, ou mesmo
‘essencialistas’ (enquanto que nós havíamos mostrado que elas são
construídas pela opressão!).64

Esse tipo de críticas a releituras desse passado recente que apaga autoras/es e
correntes nesse debate é também ressaltada por figuras importantes nesse debate como Gayle
Rubin e Jeffrey Weeks.65 Para Rubin, a ideia que Foucault teria sido o “criador da teoria da
‘construção social’ no campo da sexualidade, seria um erro que obscurece trabalhos pioneiros
como os de Mary McIntosh, Jeffrey Weeks, Kenneth Plummer dentre outros. Ela afirma:

Espanta-me o quão rapidamente as pessoas se esquecem mesmo da história


mais recente, e como elas desejam ardentemente projetar no passado atitudes
do momento, numa sequência cronológica fictícia.66

Como procuramos mostrar em diferentes momentos dessa tese, as caricaturas,


omissões e releituras muito centradas nas questões do presente fazem parte da história das

63
Ibidem, p.781.
64
MATHIEU, Nicole-Claude. Sexe et genre [2000]. In:MATHIEU Nicole-Claude, L’anatomie politique 2,
Paris, La Dispute, 2014, p. 30.
65
Ver: WEEKS, Jeffrey. Le rôle homosexuel’ rente ans plus tard: retour sur le travail de Mary McIntosh .Genre,
sexualité & société, hors de serie n.1, 2001.
66
RUBIN, Gayle; BUTLER, Judith. Tráfico sexual – uma entrevista, Cadernos Pagu, n.21, 2003., p. 184.
192

ideias feministas e cabe compreender como, porquê e em que contexto algumas dessas
genealogias foram estabelecidas.

Voltando aos debates sobre as diferentes formas de se conceber a relação entre


sexo e gênero, gostaríamos de relacioná-las com os debates sobre raça e racismo pois há
semelhanças na forma de tratamento de ambas as discussões. Num pequeno texto publicado
em 1977, “Sciences Sociales et définition du terme race”67, Guillaumin esboça um panorama
das abordagens da raça e do racismo nas ciências sociais, desde o início do século XX que nos
permite traçar esse paralelo.

Para Guillaumin, algumas das análises que surgem a partir dos anos 1920 se
concentrariam na questão das “atitudes racistas” e não na “raça” em si. São as manifestações e
as fontes dessas atitudes racistas que constituem o foco de diversas pesquisas que se
desenvolvem nesse contexto. Nesse momento, a noção de raça não é objeto de
questionamento e se situa quase como uma evidência. Essas análises, portanto, não rompem
com a ideia de raça hegemônica no pensamento do século XIX, amalgamando características
físicas, mentais e sociais.

Uma segunda perspectiva seria caracterizada pela separação natureza-cultura.


Trata-se de uma tendência que começa a se configurar a partir do final dos anos 1930 e é
marcada pela influência da antropologia social e da escola culturalista, assim como pela
ascensão do nazismo na Europa. Essas pesquisas promovem um questionamento da noção de
raça, considerada até então como uma evidência, procurando dissociar “raça”, tomada num
sentido biológico, de “processos sociais”. Não há uma remise en cause da categoria “raça”,
mas uma separação, em alguns casos radical, entre o “caráter somático, hereditário dessa
noção e as características mentais e sociais dos grupos humanos”.68 Trata-se de uma
problemática bipolar que opõe cultura e raça e que dominaria os estudos sobre as relações
raciais entre o pós-Guerra e os anos 1970. Franz Boas, Ruth Benedict e Claude Lévi-Strauss
seriam alguns dos representantes dessa perspectiva.

O problema dessa visão é que a noção de raça continuaria um não-objeto de


questionamento e ainda refém de uma definição oriunda das ciências biológicas. Haveria uma
base biológica a partir da qual se construiriam fatos culturais, como se pode ver no trecho
abaixo de Michel Leiris:
67
GUILLAUMIN, Colette. Sciences sociales et définition du terme race. In: Centre d'études de la pensée
politique contemporaine. L’idée de race dans la pensée politique française contemporaine. Paris: Éditions du
C.N.R.S., 1977.
68
Ibidem, p. 9.
193

A noção de ‘raça’... se baseia na ideia de características físicas


transmissíveis, que permitem repartir a espécie Homo Sapiens em diversos
grupos que são o equivalente daquilo que os botânicos nomeiam
‘variedades’... O preconceito de raça se baseia principalmente numa
confusão entre fatos naturais, de um lado, e fatos culturais de outro.69

Ainda que a antropologia cultural tenha procurado dissociar radicalmente o


conceito de biológico do conceito de cultura, afirma Guillaumin, não elaborou uma visão
independente das classificações da antropologia física. Isso teria contribuído para a
reprodução de um pensamento biologizante, conservando, em alguns casos, o termo “raça” ou
substituindo-o por “um conceito ambíguo [etnia] que tende a reinvestir as conotações do
termo raça”.70

Uma terceira abordagem, recente no momento da escrita do texto de Guillaumin


(1977), esboçava uma crítica a essa concepção ainda refém do biológico. O foco da
abordagem é uma definição social de raça que rompa com a dicotomia entre fato natural e
sociológico. O trabalho de Guillaumin se insere nessa perspectiva. Em Ideologie raciste, a
autora afirmava a urgência em “dar uma perspectiva sociológica ao que é habitualmente
abordado como um fenômeno biológico que tem consequências sociológicas”.71 Como
veremos, Guillaumin travaria um duro combate ao naturalismo em relação à raça e, a partir de
meados da década de 1970, em relação ao sexo.

Nos próximos itens, o objetivo será analisar como Colette Guillaumin, Nicole-
Claude Mathieu, Christine Delphy e Monique Wittig, partindo de diferentes objetos e
temáticas, contribuíram para a construção de uma reflexão antinaturalista no feminismo
francês. O objetivo não é analisar toda a produção delas, mas, fundamentalmente, mostrar
como a questão permeia o trabalho dessas autoras e quais foram os caminhos trilhados.

Colette Guillaumin – Naturalização da raça e do sexo: duas faces de uma mesma lógica

Colette Guillaumin tem como ponto de partida de suas reflexões teóricas a


questão da raça e do racismo. Embora o tema “mulheres” não seja um eixo fundamental neste
primeiro momento, ela emerge, de forma periférica, já nos seus primeiros escritos. Mulheres,
assim como diferentes grupos racializados, seriam definidos a partir de uma “marca

69
Apud GUILLAUMIN, Colette. Sciences sociales et définition du terme race. Op. cit., p. 10.
70
Ibidem.
71
GUILLAUMIN, Colette. L’idéologie raciste. Paris: Gallimard, 2002, p.10.
194

biológica”. A racialização e a generificação (um termo que não é adotado pela autora)
compartilhariam uma lógica comum. Não se trata aqui somente de analogias, mas da
demonstração de um mecanismo comum de naturalização. Para compreender esse movimento
teórico da autora, começaremos pelos seus primeiros trabalhos, que datam do final dos anos
1960.

Guillaumin defende, em 1969, uma tese doutorado intitulada Un aspect de


l’altérité sociale. Le racisme: gènese de l’idéologie raciste et langage actuel72, sob a direção
de Roger Bastide, que seria publicado em 1972 com o título L’idéologie raciste. Guillaumin,
à época da redação da tese, fazia parte do Groupe d’Ethnologie Social já evocado no capítulo
1. Sua tese surge num momento no qual poucos eram os trabalhos sobre racismo na França.
Se excetuarmos os trabalhos de Franz Fanon, Albert Memmi e aqueles centrados no
antisemitismo como os de Léon Poliakov, poucos eram os trabalhos franceses sobre o tema no
final dos anos 1960, o que atesta a bibliografia da sua tese, assim como os balanços sobre o
tema publicados no período ou depois.73

Guillaumin propõe um “ensaio de definição sociológica da raça”.74 O trabalho foi


efetuado, segundo a autora, em duas dimensões temporais: um estudo da época atual (1945-
1960) e uma busca, em períodos anteriores, pela aparição da forma atual do racismo.

Para Guillaumin, a existência de uma diferença de “natureza” entre grupos


humanos era o ponto de partida para tratar a questão do racismo, tanto no plano da opinião
pública, como no campo acadêmico. O conceito de raça é assim emprestado das ciências
biológicas para ser aplicado a manifestações sociais. O objetivo da autora é propor uma nova
abordagem e dar uma perspectiva sociológica a algo que é abordado como um fenômeno
biológico com consequências sociológicas. Guillaumin neste trabalho, e em diferentes artigos
publicados ao longo dos anos 1970 e 1980, procura analisar como a ideia de raça, longe de ser
um dado “espontâneo da percepção e do conhecimento”, é uma ideia construída.75 A ideia de
categorizar o gênero humano em “entidades anátomo-fisiológicas fechadas”76 é algo
historicamente recente, que surge num momento histórico preciso.

72
GUILLAUMIN, Colette. Un aspect de l’altérité sociale: le racisme, genèse de l’idéologie raciste et langage
actuel. Thèse 3ème cycle. Sociologie. Paris: E.P.H.E, VI section, 1969.
73
Ver dois balanços da época: MICHEL, Andrée. Tendances nouvelles de la sociologie des relations raciales.
Revue française de sociologie, vol. III, n.2, avril-juin 1962; BASTIDE, Roger. Les études et les recherches inter-
ethniques em France de 1945 à 1968. Etniques. , vol.1, 1971.
74
GUILLAUMIN, Colette. L’idéologie raciste. Paris: Gallimard, 2002 [primeira edição: 1972], p.12.
75
Idem. Je sais bien mais quand même” ou les avatars de la notion ‘race’ [1981]. In: GUILLAUMIN , Sexe, race
et pratique du pouvoir. Op. cit, p. 211.
76
Ibidem, p. 207.
195

As etapas que marcaram a reflexão em torno da sua tese, explicitados na


introdução de L’idéologie raciste, fornecem elementos importantes para compreender a
démarche da autora. Nessa introdução, ela explica que, num primeiro momento, concentrou-
se no que, na linguagem comum, se referia ao objeto “raça”, investigando referências aos
judeus, negros e outras categorias explicitamente ditas “raciais”. A pesquisa começou a
desvelar a presença de uma “identidade de tratamento verbal” entre um espectro mais amplo
de categorias, não somente as raças, no sentido corrente, mas também os sexos, as classes
sociais, sujeitos definidos por certa situação legal, como criminosos, menores etc.

Nesse momento da investigação, a autora havia conseguido apreender um único


denominador comum entre essas diferentes categorias: o fato de serem “alterizadas”, ou seja,
o fato de serem constituídas como “alteridade”, em razão de um “reflexo da distribuição de
poder na nossa sociedade”. Nessa etapa, a autora não havia identificado uma ligação mais
significativa com o racismo.77 As leituras de textos sobre a raça de outros períodos históricos
a conduziu, no entanto, a apreender a particularidade do racismo no período atual, a
biologização. A partir desse “achado”, a autora se propôs a analisar as diferentes categorias
“alterizadas” do ponto de vista de sua relação ou não com a biologização.78 Essa nova etapa
da pesquisa permitiu delimitar diversas “categorias institucionais revestidas pela marca
biológica”, ainda que seguindo esquemas diferentes:

os alienados o são via o constitucionalismo, a degeneração de diferenças


cromossômicas; as mulheres o são a partir da diferença anatomo-sexual,
somática e do potencial cromossômico; os homossexuais pela diferença
hormonal; os operários (o povo) o são, para a direita, depois da revolução e
ainda atualmente, de raça diferente.79

Para Guillaumin, o tratamento análogo de diversas “categorias alienadas e


oprimidas (em nome de um sinal biológico irreversível, portanto racializado)” mostraria uma
“identidade de estatuto na sua relação à sociedade dominante (isto é, racializante)”.80 O
racismo é, assim, reconceituado como uma categoria mais abrangente, não atada à figuração
tradicional dos grupos denominados, na linguagem comum e acadêmica, como “raças”. O
conceito proposto por Guillaumin pressupõe uma inversão em relação à conceituação

77
GUILLAUMIN, Colette. L’idéologie raciste. Op. cit., p. 12.
78
Ibidem, p. 14.
79
Ibidem, p. 13.
80
Ibidem, p. 17.
196

tradicional: ao invés de partir da generalidade do racializado e da especificidade dos racismos,


ela propõe partir da generalidade do racismo e da especificidade do racializado.81

Nesse quadro conceitual, as mulheres constituem um dos grupos racializados.


Haveria um racismo particular em relação aos negros, que não teria nome, um racismo
particular contra os judeus, o antissemitismo, um racismo particular contra as mulheres, que
ela chama de misoginia, assim como outras formas para cada grupo racializado.82

Segundo Guillaumin, a noção atual de raça teria nascido num período preciso da
história, num contexto ideológico e concreto que é próprio ao século XIX ocidental. O final
do século XVIII e o início do século XIX seriam palco de uma profunda transformação social
e intelectual que alteraria a forma de se conceber o “outro”.83

Partindo de alguns relatos de viagem do século XIV ao século XIX, Guillaumin


procura analisar como a “diferença” era percebida em diferentes momentos históricos. A
autora afirma ter encontrado uma certa unidade na forma de concebê-la até o final do século
XVIII. Até esse século, os Ocidentais percebiam o “outro”, sobretudo, a partir da ideia de
“estranhamento [étrangeté]”, mas não de “heterogeneidade”. As diferenças são apreendidas
por diversos viajantes europeus em termos de “variabilidade”. Um exemplo evidente dessa
lógica que predomina até o final do século XVII são os relatos de viagem de Marco Polo. Nos
seus livros, a diferença física está presente, mas não com o peso e o sentido que ganharia
posteriormente. 84

Mesmo no contexto do Iluminismo, a noção de raça, tal como concebida a partir


do século XIX, também está ausente. Rousseau, no Discurso sobre a origem e os fundamentos
da desigualdade entre os homens e no Contrato social apreende as desigualdades no seio das
sociedades a partir de diferenças individuais. As diferenças humanas seriam uma
“consequência desse conjunto psicossocial e não uma causa”.85 Não há, por conseguinte, lugar
para algo como um “fator racial”. Montesquieu, embora também atribuísse um lugar
importante às variações individuais, ressalta a influência do meio geográfico. Sade, que seria,

81
Ibidem, p. 18.
82
Ibidem, p. 117. No momento no qual a autora escrevia esse texto, não havia se difundido ainda as noções de
“sexismo”, “chauvinismo masculino” ou outras que o movimento feminista forjaria no final dos anos 1960.
83
Ibidem, p. 24.
84
Sobre isso a autora afirma “Ao se referir aos Tártaros ou Mongóis, ele destina oito páginas a sua vida e
costumes sem nunca mencionar uma característica física. O editor moderno deste último se considerará obrigado
a incluir uma das descrições a precisão seguinte: ‘são os Merkits da raça mongol’ (Marco Polo disse
simplesmente ‘os habitantes são chamados Mékris). O contraste resume a mudança perceptiva que intervém no
universo mental do Ocidente”. Ibidem, p.28.
85
Ibidem, p. 32.
197

nesse sentido, o “mais moderno”, considera as variações de formas sociais a partir da noção
de “origem social”, sendo um dos primeiros a considerar a sociedade como formadora das
particularidades individuais. Malgrado a diferença entre esses autores, percebe-se que nenhum
deles autoriza a concepção de que uma cultura ou ser humano “fechado num determinismo de
tipo biológico”.86

A elevação da raça à categoria intelectual e perceptiva prioritária deve ser


compreendida, segundo Guillaumin, a partir da confluência e articulação de três fatores
principais:

1- As aquisições empíricas e ideológicas da filosofia iluminista e


revolucionária: reconhecimento da diversidade de culturas, postulado da unidade da
espécie humana;
2- O desenvolvimento das ciências no século XIX; focalização na
biologia e antropologia física em torno da ideia de causalidade interna;
3- O desenvolvimento industrial, particularmente, a proletarização e a
colonização, que fundam uma sociedade completamente nova.87

A ascensão da burguesia, o nascimento da classe operária, a submissão dos


povos estrangeiros, que constituem algumas das importantes transformações sociais
desencadeadas a partir do século XVII, estariam marcados, segundo Guillaumin, por um
complexo caracterizado pelo “individualismo, a afirmação da igualdade e o nacionalismo”.
Para a autora, é em meio a esse complexo que se deve analisar a emergência da ideologia da
raça.

A burguesia, em sua ascensão, produz novos fundamentos para legitimar sua


posição, os quais permanecem até os dias atuais.

No momento no qual a morte do rei abriu uma ‘sociedade dos iguais’, no


momento em que a noite do 4 de agosto dispersa os privilegiados aos quatro
ventos, no qual católicos, judeus e protestantes não são mais que cidadãos,
no qual a escravidão será abolida, delineia-se atrás da imagem de Épinal
igualitária (exata também alhures), a silhueta enganadora de um
determinismo intransponível de um mundo fechado: o grupo não será mais
decreto divino ou boa vontade do príncipe, mas um irreversível ser da
88
natureza.

86
Ibidem, p. 33.
87
Ibidem, p. 62.
88
GUILLAUMIN, Colette. Caractères spécifiques de l’idéologie raciste. Cahiers internationaux de sociologie.
n.53, 1972, p. 273.
198

A ideia de raça permite a resolução de uma antinomia entre os valores


humanitários da revolução francesa e o desenvolvimento econômico. Ela é uma resposta à
“petição de igualdade”.89 Ela procura resolver, em certo sentido, as contradições entre a ideia
de igualdade e a permanência da estratificação social.

Um elemento importante de mudança no plano das ideias é o surgimento da ideia


de causalidade biológica. Essa ideia aparece como substituição de uma concepção teológica
do mundo. O “sentimento de uma diferença de essência” apareceria a partir do momento no
qual a questão do outro se coloca em função da “humanidade” e não mais em função da
“dependência divina”90: “a espécie humana é reconhecida em si e é em seu seio que se marca
a heterogeneidade”.91 Há uma passagem de uma causalidade externa (ao ser humano) a uma
causalidade interna:
Para o século XVII, a origem das diferenças culturais e políticas, arrancadas
da teologia, era seja geográfica ou psicológica, seja puro mecanismo social,
estranha à biologia. A aparição da causalidade biológica marca o
pensamento social e psicológico do século XIX. As sociedades são
diferentes, tinha ressaltado o século XVIII, porque elas são determinadas
92
biologicamente, responderá o XIX.

Embora a raça seja uma noção de construção recente, essa é percebida como um
fato evidente e como uma possibilidade de explicação para uma série de fenômenos sociais. A
marca biológica é assim percebida como a “causa intrínseca do lugar que ocupa um grupo
numa relação social”.93 Guillaumin procura mostrar o equívoco desse raciocínio que introduz
uma “relação errônea entre os fatos”. Nessa forma de se conceber a questão, uma relação
social de dominação que “secreta a noção de natureza” é considerada como “produto de traços
internos ao objeto”.94

Guillaumin procura mostrar como esses grupos não existem fora dessas relações
e que são as relações sociais nas quais estão envolvidos (escravidão, casamento, etc.) que a
cada momento fabricam esses grupos: “Fora dessas relações sociais, eles não existem, eles
não podem nem mesmo ser imaginados. Eles não são dados da natureza, mas, antes, dados
naturalizados de relações sociais”.95

89
GUILLAUMIN, Colette. L’idéologie raciste... Op. cit., p.60.
90
Ibidem, p. 27.
91
Ibidem, p. 27.
92
Ibidem, p. 39.
93
Ibidem, p. 183.
94
Ibidem, p. 184-185.
95
GUILLAUMIN, Colette. Race et nature: système des marques, idée de groupe naturel et rapports sociaux.
[1977] In: GUILLAUMIN, Colette. L’ideologie raciste...Op.cit., p. 353.
199

A noção de natureza é uma noção fetichista que ocultaria relações sociais


concretas, relações sociais de dominação. É somente em relações determinadas (de
dependência, de exploração) que se postula a existência de “entidades naturais heterogêneas”.

A colonização de apropriação dos homens (tráfico de escravos e, em


seguida, de mão-de-obra) e de terras (aquelas dos dois últimos séculos), a
apropriação do corpo das mulheres (e não somente da sua força de trabalho),
induziram à proclamação de uma natureza específica dos grupos que
96
estavam submetidos ou estão a essas relações.

Se, no caso dos escravos e antigos colonizados, não há mais apropriação material
direta, no caso das mulheres, a sexagem, isto é, a relação de apropriação das mulheres, é ainda
presente. As mulheres são não somente “coisas” na teoria, mas também na prática, como
resume a autora no trecho abaixo:

Dado que as mulheres são uma propriedade material concreta, desenvolve-se


sobre elas (e contra elas) um discurso da Natureza. Atribuem-lhes (como
creem alguns otimistas), acusam-nas (na verdade) de serem seres naturais,
imersos na Natureza e movidos por ela. Coisas vivas, de certo modo.
E essas coisas vivas são vistas como tal, pois, dentro de uma relação social
determinada, a sexagem, elas são coisas. Tendemos a negá-lo, a esquecê-lo,
a recusar levá-lo em conta. Ou melhor, a maquiá-lo de “realidade
metafórica”, embora essa relação seja a fonte da nossa consciência, política e
de classe.97

A relação de apropriação tem, portanto, como face ideológica discursiva, a ideia


de conceber tais apropriados como “coisas” no pensamento. O “objeto” é tomado fora das
relações sociais e inscrito numa “pura materialidade”.98 O resultado é que as características
físicas daqueles apropriados fisicamente são tomadas como causas da dominação que sofrem.

Os dominantes se distanciam da noção de natureza, assim como daquilo que a


acompanha, isto é, certa expectativa de formas “repetitivas, interiores, mecânicas”. Tal noção
seria reservada aos grupos dominados99. Os dominados pertenceriam à Natureza e estariam
submetidos a ela, ao passo que os dominantes “emergem da Natureza e a organizam”.100

Cabe ressaltar que Guillaumin recusa a perspectiva que critica o racismo baseado
na ideia de que as raças não existem materialmente. Esse argumento supõe que a existência

96
GUILLAUMIN , Colette. Race et nature... Op. cit., p. 175.
97
GUILLAUMIN, Colette. Pratique du pouvoir et idée de nature. Op. cit., p. 80. Para versão em português ver:
FERREIRA, Verônica; ÁVILA, Maria Betânia; FALQUET, Jules; ABREU, Maira (org.) O Patriarcado
Desvendado: teorias de três feministas materialistas. Colette Guillaumin, Paola Tabet e Nicole-Claude Mathieu.
Recife: Edições SOS Corpo, 2016, p. 97.
98
GUILLAUMIN, Colette. “Pratique du pouvoir et idée de nature”. Op. cit., 50.
99
Ibidem, p.71
100
Ibidem, p. 78
200

material destas últimas pudesse ser a causa de um mecanismo social, o que seria um erro. Para
Guillaumin, “não é sustentável pretender que a categoria que é a causa direta, o primeiro meio
de morte de milhões de seres humanos não existe”.101 Este raciocínio seria a base de algumas
insuficiências e inadequações da luta antirracista.

Para Guillaumin, as tentativas de naturalizar classes – a ideia de uma


particularidade natural (de uma menor inteligência, por exemplo) das classes operárias – ou
de alguns outros grupos explorados, foi recusada por amplos setores no século XX. Mas essa
censura não intervém senão quando se refere à “parte macho[mâle], branca, metropolitana da
classe explorada; toda censura ou hesitação desaparece desde que esteja em questão aa parte
fêmea [femmelle], ou a parte imigrante, ou a parte neocolonizada, nas relações de
exploração”.102

No caso das mulheres, não há “nenhuma controvérsia” a respeito da sua


naturalidade, afirmava no final dos anos 1970. As mulheres seriam particulares, teriam uma
natureza particular, seriam “naturalmente específicas” e não socialmente.103 Essa natureza,
que tomando o lugar do divino, “fixa as regras sociais e vai até o ponto de organizar
problemas genéticos especiais para aquelas que são socialmente dominados”. A explicação
para a opressão feminina a partir da natureza é, nesse sentido, uma reprodução do discurso
dominante e pressupõe que a marca antecede às relações sociais que a forjaram.

Algumas análises mantêm essa ideia de realidades anatômico-fisiológicas, sobre


as quais, existiriam “ornamentos sociais” como “papéis” e “rituais”.104 Incapazes de
considerar as mulheres como classes, consideram-nas no máximo como “categorias naturais
afetadas de adornos sócio-rituais”.105 Essa é a forma como algumas das primeiras
conceituações de “gênero” concebiam o problema. Para Guillaumin, é preciso romper também
com a ideia de realidades fisiológicas sobre as quais se erigiriam diferenças.

A luta feminista teria por papel, justamente, criticar essas evidências, pensar
aquilo que é considerado como “conhecido”, sem significação, “natural”.106 Para os
apropriados, desprovidos de instrumentos teóricos, imersos na natureza e, nesse sentido, na
ideia de imutabilidade, caberia romper o círculo, forjar uma “consciência de classe” contra a

101
GUILLAUMIN, Colette. Je sais bien mais quand même... Op.cit., p. 216.
102
GUILLAUMIN, Colette. Race et nature: système des marques, idée de groupe naturel... Op. cit., p. 338.
103
GUILLAUMIN, Colette. Pratique du pouvoir et idée de nature. Op. cit. p. 61.
104
Ibidem, p. 77.
105
Ibidem, p.77.
106
Ibidem, p.79.
201

ideia de que “somos uma espécie natural”107. Esta última é um empecilho à percepção de que
longe da ideia de “espécie”, as mulheres constituem uma classe, e que é somente em relações
sociais concretas que se fabricam homens e mulheres. O combate feminista deve ter por
centro essas relações pois somente com superação das mesmas será possível pensar numa
outra forma de organização social e isso só pode ser feito coletivamente:

A reapropriação mental individual e a ioga podem ajudar momentaneamente,


mas é importante que nos reapropriemos (e não apenas em nossa cabeça) da
posse de nossa materialidade. Retomar a propriedade de nós mesmas supõe
que toda a nossa classe retome a propriedade de si mesma, socialmente,
materialmente.108

Christine Delphy e a crítica à ideologia naturalista

A crítica ao naturalismo seria um elemento fundamental nas análises de Christine


Delphy109. Retrospectivamente, a autora afirma que a concepção de que homens e mulheres
constituem grupos sociais é um dos axiomas, senão o axioma fundamental, da sua perspectiva
teórica. “Parto do fato incontestável de que estes são socialmente diferenciados, socialmente
pertinentes e eu me pergunto sobre essa prática social: como ela foi realizada?”.110

Para a autora, uma grande parte do seu trabalho teve por objetivo denunciar a
“ideologia da diferença”.111 A diferença seria a forma usualmente empregada para justificar a
desigualdade entre grupos, não somente entre os grupos ditos “de sexo”. Num texto de 2001,
ela considera que sua argumentação “anti-diferencialista” tem por base alguns pontos:

1) As diferenças são criadas para constituir grupos, mas são apresentadas como
fatos exteriores à ação da sociedade;

2) As diferenças não são meramente diferenças mas constituem hierarquias. A


palavra diferença seria um eufemismo. O verdadeiro sentido de “diferença” implica

107
Idem, p. 82.
108
Ibidem, p. 28
109
Christine Delphy entra no CNRS, como “attaché de recherche” em 1970 no Centre d’Ethnologie Française.
Entre 1966 e 1970 ela foi colaboradora técnica no Groupe de Sociologie Rurale. Ellea se torna, em 1978, “chargé
de recherche” vinculada ao Groupe de Recherches Sociologiques (Université de Paris X- Nanterre) e, entre 1982
e 1986, no seio do Groupe d'études des rôles des sexes, de la famille et du développement humain.
110
DELPHY, Christine. Avant-Propos. In: DELPHY, Christine. L’ennemi principal. 1 Économie Politique du
Patriarcat. Paris: Syllepse, 2009, p.24.
111
DELPHY, Christine. Préface. Critique de la raison naturelle. In: DELPHY, Christine. L’ennemi principal 2.
Penser le genre. Paris: Syllepse, 2009, p.8.
202

reciprocidade (o que não é o caso para grupos racializados ou para as mulheres) e não implica
por si só uma hierarquia;

3) A hierarquia não intervém após os grupos serem postos em relação, mas, pelo
contrário, os grupos não preexistem às relações hierárquicas que os engendram.

Delphy intitula sua própria abordagem como “holista”, considerando tal


“holismo” como matriz de diferentes escolas de pensamento do século XX como o
construtivismo, o estruturalismo e o pós-estruturalismo. No entanto, ele já estaria presente na
obra de Marx que concebe que a sociedade global precederia cada classe. É um certo
funcionamento dessa sociedade que cria o princípio de divisão e, portanto, as classes. Desta
forma “as classes não podem ser consideradas independentemente umas das outras” tal como
“tribos” distintas que tomam contato acidentalmente”.112 Para Delphy, as pesquisas
contemporâneas sobre o gênero são parte desse paradigma:

Considera-se que o gênero, enquanto princípio de divisão, é a força


constitutiva da criação dos gêneros. Para exprimi-lo simplesmente, isso quer
dizer que parte-se do fato de que é impossível considerar os ‘homens’ e as
‘mulheres’ de maneira separada, assim como ‘o feminino’ e ‘o masculino’.
Essas categorias são criadas uma pela outra e simultaneamente.113

A essa perspectiva, Delphy opõe o uma “abordagem aditiva”, caracterizada pela


assunção de que as partes podem preexistir ao todo e que, como tais, independentemente do
todo, apresentam uma significação própria, uma natureza e uma essência próprias.

Isso, além do mais, implica que as partes que constituem a realidade – o


mundo físico, social ou psíquico – são sempre as mesmas, em número e
conteúdo, e que elas são eternas; e que em consequência, o que nós
percebemos é aquilo do qual a realidade é feita. Assim, se nós percebemos
dois sexos, por exemplo, é, segundo essa perspectiva, porque existem dois
sexos. A sociedade e suas instâncias – a linguagem por exemplo – não fazem
senão classificar essas realidades preexistentes.114

Para Delphy, o naturalismo seria uma teoria “espontânea” da opressão, e ainda


que seja oposta a uma perspectiva sociológica, continuaria “contaminando” esta última assim
como o pensamento feminista. Se a validade de uma explicação naturalista foi contestada
quando se referia aos operários, e quando se referia a grupos racializados, o mesmo não
ocorre em relação a homens e mulheres.

112
DELPHY, Christine. L’invention du French Feminism: une démarche essentielle. [1996] In: DELPHY,
Christine. L’ennemi principal 2. Op. cit., p. 327.
113
Ibidem, p. 328.
114
Ibidem, p. 328
203

Os caminhos teóricos trilhados para a elaboração da sua crítica ao naturalismo são


lembrados por Delphy em entrevistas e introduções de livros. A autora afirma que procurou,
desde os seus primeiro trabalhos, “fundamentar a opressão das mulheres em mecanismos
sociais (...) Muito cedo, eu me convenci de que se devia situar a sujeição no centro da análise
da situação das pessoas e categorias assujeitadas”, afirma.115 Já no FMA podemos encontrar
sinais de debates e de tomadas de posição da autora sobre o tema. Como procuramos mostrar
no capítulo 2, no debate com Albert Memmi e no seu texto sobre o serviço militar feminino,
já se visualiza o seu antinaturalismo. Numa entrevista realizada no final dos anos 1980 ela
rememora a gênese dessas teorizações e a importância das analogias com a situação de outros
grupos naturalizados:

Num primeiro momento, tive a intuição que a opressão das mulheres é


política. O que queria dizer política para mim? Neste momento, política
queria dizer arbitrário. Procurei comparar na minha cabeça a situação das
mulheres à situação dos negros e dos judeus, isto é, das opressões que a
maior parte das pessoas reconhecia que eram construções sociais e que não
deviam nada à constituição física dos indivíduos que constituem esses
grupos. Assim, eu concebi a opressão das mulheres como sendo dessa
mesma ordem.116

Delphy afirma ainda que, diante das constatações acima, procurou analisar quem
se beneficiaria dessa forma de opressão – “se havia dominação, havia um objetivo nessa
dominação”.117 A resposta a essa questão está diretamente vinculada ao contexto de
formulação das primeiras elaborações da autora. A resposta estaria na exploração econômica.
Ela afirma que estava “fortemente influenciada pelo paradigma marxista da luta de classes e
da extorsão de trabalho”.118 Essa referência marca profundamente suas primeiras reflexões,
que serão reformuladas ao longo das décadas seguintes.

A busca de uma explicação social para a opressão feminina está, portanto,


diretamente vinculada à sua teorização sobre o modo de produção doméstico. Não é na
biologia, nas funções reprodutivas ou em qualquer outro elemento ligado a uma pretensa
“natureza” feminina que a explicação deve ser buscada, mas numa forma de exploração
baseada na extração gratuita de força de trabalho no seio da família. Em “Pour um féminisme

115
Ibidem, p.26.
116
DELPHY, Christine. Le patriarcat: une oppression spécifique. (Entrevista feita por Louis Astre com a
participação de Liliane Kandel). [1988]. In: DELPHY, Christine. L’ennemi principal 2. Op. cit., p. 56.
117
Ibidem, p. 57.
118
DELPHY Christine, Fonder en théorie qu'il n'y a pas de hiérarchie des dominations et des luttes. [Entrevista
com Chirstine Delphy realizada por GIRAUD Véronique, JAMI Irène, SINTOMER Yves), Mouvements, no 35,
2004, p. 122.
204

matérialiste”, publicado em 1975, Delphy estabelece como pilar fundamental da prática e da


reflexão feminista o antinaturalismo. Para Delphy, a afirmação do caráter social da opressão
feminina seria um pressuposto do feminismo, uma vez que a crença na mudança social
pressuporia a crença na origem social da situação vivida pelas mulheres.

Não se revolta contra algo que é natural e, portanto, inevitável, ou inevitável


e, portanto, natural. A partir do momento em que há uma revolta, há
conjuntamente e, necessariamente, a noção de um processo reversível. O que
é reversível não é inevitável; o que não é inevitável poderia ser outro: é
arbitrário, portanto, social. A implicação lógica e necessária da revolta das
mulheres, como de toda revolta, é que sua situação pode mudar: senão
119
porque se revoltar?

É por essa razão que a autora considera que a ideia de “opressão” é a “base”, o
“ponto de partida de todo estudo, bem como de toda démarche feminista”.120 A renovação do
feminismo coincidiria com o uso desse conceito. Diferentemente de termos como “condição
feminina”, que remeteria a uma explicação naturalista, a uma realidade exterior e não
modificável pela ação humana121, o termo “opressão” remete ao caráter arbitrário, a uma
explicação e a uma situação que são “políticas”.

É necessário ressaltar que, nos primeiros anos do movimento, como a própria


autora ressalta, ela “não tinha nenhuma dúvida sobre a ‘realidade das categorias naturais de
sexo’”.122 Embora seu trabalho tivesse por centro a questão da dominação, não havia um
questionamento da ideia de uma divisão biológica entre homens e mulheres. Esse pressuposto
não questionado só foi criticado a partir do final dos anos 1970 e os debates no seio da revista
Questions féministes (1977-1980) certamente contribuíram para essa crítica. Num texto
publicado em 1981, “Le patriarcat, le féminisme et leurs intellectuelles” esse ponto é
abordado. A ideia de que é o sexo anatômico que cria ou, ao menos, serve de base para o
gênero, seria largamente difundida, mesmo entre as feministas. Mas, as “feministas radicais
que reivindicam uma perspectiva materialista”, após anos de reflexão, afirma Delphy,
chegaram à conclusão que era necessário rejeitar a ideologia patriarcal de uma forma radical
e, nesse sentido, recusar os seus pressupostos, mesmos aqueles aparentemente evidentes e
fruto de um “real”, como as categorias “homens” e “mulheres”. Esses questionamentos as

119
DELPHY, Christine. Pour un féminisme matérialiste [1975]. In: DELPHY, Christine. L’ennemi principal 1.
Op. cit., p.259.
120
Ibidem, p.260.
121
Ibidem, p. 260.
122
DELPHY, Christine. Préface. Critique de la raison naturelle. Op. cit., p.27.
205

conduziram a uma inversão da forma como tradicionalmente se concebia a relação entre sexo
anatômico, gênero e dominação:

Pensamos, ao contrário, que é a opressão que cria o gênero: que a hierarquia


da divisão do trabalho é anterior, de um ponto de vista lógico, à divisão
técnica do trabalho e criou esta: criou os papéis sexuais, o que chamamos de
gênero; e que o gênero, por sua vez, criou o sexo anatômico no sentido que
essa divisão hierárquica da humanidade em dois transforma em distinção
pertinente pela prática social uma diferença anatômica ela mesma desprovida
de implicações sociais; que a prática social e somente ela transforma em
categoria de pensamento um fato físico, desprovido de sentido como todos
os fatos físicos.123

Essa forma de conceber a questão seria, para Delphy, uma consequência lógica
da ideia de que a dominação masculina é um fenômeno político e da adoção de uma
“problemática de classe”. Não é o “papel” de cada grupo que é essencial, mas “a relação entre
os papéis, entre os dois grupos”, relação que seria caracterizada por uma hierarquia que
explicaria o conteúdo de cada um desses papéis e não o inverso.124 É a hierarquia que cria o
gênero e o gênero que cria o sexo, afirma Delphy. Os grupos não preexistem às relações de
dominação, mas são, na verdade, um resultado dessa relação. A distinção física não tem,
portanto, nenhum sentido fora dessas relações. Ela elabora essa perspectiva em pouco mais de
duas páginas e a apresenta como uma hipótese que demandaria um aprofundamento.

Esses argumentos seriam desenvolvidos de forma mais aprofundada no artigo


“Penser le genre”, publicado no livro Sexe et genre, dez anos depois do texto mencionado
anteriormente, a partir de uma comunicação originalmente apresentada num colóquio em
1989. Para Delphy, a maioria dos trabalhos realizados naquela época, incluindo os feministas,
têm como pressuposto não examinado a “antecedência do sexo sobre o gênero”.125 Mas seria
necessário “abandonar certezas”, mesmo que isso envolvesse incertezas e ansiedades
temporárias. A “coragem de enfrentar o desconhecido” seria uma condição para a imaginação,
e a capacidade de imaginar um outro mundo seriam elementos centrais da ciência.

Delphy começa por algumas discussões que antecederam a emergência do


conceito de gênero. É interessante sublinhar que ela é uma das poucas autoras identificadas
como materialistas a utilizar tal conceito. Para Delphy, este se desenvolve a partir da

123
DELPHY, Christine. Le patriarcat, le féminisme et leurs intellectuelles. In: DELPHY, Christine. L’ennemi
principal 2. Op. cit., p.229.
124
Ibidem, p.229.
125
DELPHY, Christine. Penser le genre: problèmes et résistances [1991]. Op. cit., p.241.
206

conceituação de “papéis sexuais”. Diversos trabalhos realizados ao longo dos anos 1950 e
1960, entre eles os de Viola Klein, Mirra Komarovsky, Alva Myrdal e Andrée Michel,
adotando uma perspectiva parsoniana, usavam o conceito de “papéis sexuais”. Essas análises,
ao trabalharem com a ideia de papéis masculinos e femininos, teriam dado um grande passo
“rumo à desnaturalização das posições e ocupações respectivas dos sexos”.126 Estas últimas
seriam um avanço em relação a análises da antropóloga Margareth Mead que, ainda segundo a
visão Delphy, naturalizava a divisão do trabalho e a hierarquia entre homens e mulheres. O
conceito de gênero seria um herdeiro direto da ideia de “papéis sexuais”. Mas, em alguns dos
primeiros trabalhos a usar a categoria “gênero”, como em Oakley, certos aspectos presentes
nas teorizações anteriores perdem sua centralidade, entre eles a noção de assimetria e
hierarquia. Para Delphy, esses elementos devem ser reintegrados a esse conceito.

A partir do momento em que diferentes trabalhos afirmavam o arbitrário dos


“papéis sexuais”, a ideia de uma independência do gênero em relação ao sexo ganhou terreno.
Mas continuava-se a pensar o gênero em termos de sexo, ou seja, “o gênero seria o conteúdo e
o sexo o que o contém”. O conteúdo pode variar mas o que o contém permanece invariável.
Ainda que a independência acima mencionada pudesse levar a uma crítica mais radical da
própria naturalidade do sexo, não foi isso que aconteceu. A questão “porque o sexo daria
origem a uma classificação” não se coloca. O sexo biológico é um dado, um pressuposto.

Para Delphy, é necessário abandonar esse pressuposto. Para isso ela propõe a
hipótese de que o gênero precede o sexo, isto é, o sexo seria “simplesmente um marcador da
divisão social; ele serve para reconhecer e identificar os dominantes dos dominados, ele é um
sinal”.127

Neste texto, Delphy propõe abolir não somente a “hierarquia” mas também a
própria distinção. Muitas das análises existentes propõem abolir os “conteúdos” mas não o
que contém. Para Delphy, “poucos parecem prontos a se contentar com uma simples diferença
sexual, nua, não assinalada por um reconhecimento ou marcadores sociais”.128 Desta forma,
parte-se da ideia que as diferenças viriam antes e a hierarquia depois. O masculino e feminino
são “criações culturais” de uma sociedade fundada, entre outras hierarquias, numa hierarquia
de gênero. A estrutura social determina o conteúdo de cada uma dessas categorias (homem e

126
Ibidem, p. 243.
127
Ibidem, p.249.
128
Ibidem, p. 252.
207

mulher) e não somente sua relação. Para “pensar o gênero”, seria necessário “imaginar o não-
gênero”, isto é, a utopia de uma sociedade sem gênero.

Nicole-Claude Mathieu e a ideia de “sexo social”

Partindo de outros objetos e questões, Nicole-Claude Mathieu insere-se


igualmente nesse esforço coletivo de crítica a pressupostos naturalistas. Desde os seus
primeiros textos, esta busca fundar uma conceituação do sexo como uma categoria social.

Ao contrário de Christine Delphy e Colette Guillaumin, Mathieu é mais próxima


da antropologia. Embora participe dos debates sociológicos, seus textos dialogam, sobretudo,
com a primeira disciplina. Como ela própria afirma (embora o faça em terceira pessoa): “A
etnologia é sua disciplina de eleição, porque somente essa é apta a revelar a diversidade, mas
também a unidade (e a perversidade) do espírito humano”.129

Entre 1960 e 1965, ela estava vinculada a um laboratório que, apesar do nome,
Groupe d’ethnologie sociale, pode ser localizado como estando fundamentalmente no campo
sociológico. Após um período como redatora da revista da Unicef Les Carnets de l’enfance e
uma passagem pelo Centre d’études sociologiques, em 1971, Mathieu finalmente entra no
Laboratoire d’anthropologie sociale, dirigido, na época, por Claude Lévi-Strauss, na função
de secretária de redação da revista L’homme.130

Em 1970, no mesmo ano de nascimento do MLF, Nicole-Claude Mathieu, num


contexto universitário, apresenta uma comunicação no VII Congresso Mundial de Sociologia,
publicada no ano seguinte na revista Epistémologie sociologique com o título “Notes pour une
définition sociologique des catégories de sexe”. Esse texto tem como foco o “problema da
possibilidade de uma definição sociológica das categorias de sexo”.131

129
MATHIEU, Nicole-Claude. Ma vie. In: MATHIEU, Nicole-Claude. L’anatomie politique 2. Usage,
déreliction et résilience des femmes. Paris : La Dispute, 2014, p.8.
130
Nicole-Claude Mathieu (1937-2014), segundo o seu C.V., trabalhou, entre 1960 e 1965, no Groupe
d’Ethnologie Sociale. Entre 1970 e 1971, foi assistente de pesquisa no Centre d’Études sociologiques e, em
março de 1971, ela entra no Laboratoire d'Anthropologie sociale como redatora chefe da revista L’homme e, em
seguida, da coleção « Les Cahiers de l'Homme ». En 1990, ela se torna professora ( Maître de conférences) na
École des Hautes Études en Sciences Sociales, à Paris (EHESS).
131
MATHIEU, Nicole-Claude. Notes pour une définition sociologique des catégories de sexe. [1971]. In:
MATHIEU, N. L’anatomie politique. Paris: Éditions ixe, 2013, p.19.
208

Partindo de “três variáveis fundamentais”: sexo, idade e categoria sócio-


profissional, frequentemente utilizadas em pesquisas empíricas da sociologia, a autora procura
mostrar como estas não se beneficiam “nem do mesmo rigor quanto aos critérios sociológicos
de definição, nem do mesmo estatuto, quanto à sistematização de sua problemática, no seio da
sociologia geral”132. Enquanto classe como categoria socioeconômica teria uma significação e
uma pertinência sociológicas estabelecidas, em relação à idade e sexo, seria perceptível um
decréscimo de rigor da definição sociológica.133

Ambas as categorias (idade e sexo) teriam a particularidade de serem


reconhecidas como “categorias biológicas reais”, ao mesmo tempo em que são utilizadas
como variáveis sociológicas. Haveria, afirma Mathieu, “uma ambiguidade entre o sociológico
e o biológico” em ambos os casos, ainda que menos intensa para a idade. Se os estudos
sociológicos sobre a idade responderiam “às regras do método definidas por Durkheim” e,
nesse sentido, tratariam o objeto na sua “existência social”134, o mesmo não ocorreria com as
categorias de sexo. Em relação a essa última, haveria uma confusão pronunciada entre
biológico e social, isto é, uma “assimilação no discurso social, entre uma realidade biológica e
modalidades sociais elaboradas por uma sociedade a partir da fórmula da lógica biológica135.
Ainda nessa comparação com a variável classe, Mathieu afirma que essa é tratada de forma
relacional – “a problemática das classes sociais não cessou depois de Marx de considerar tais
classes como partes organicamente ligadas de um mesmo fenômeno total, e não definíveis um
sem o outro”136 –, o que não aconteceria nem com as categorias de idade e, ainda menos, com
as “categorias de sexo”.

Nos trabalhos em sociologia, Mathieu constata que “a categoria homem como


categoria sociológica específica não existe”. Na verdade, o termo é invocado para falar do
geral, enquanto se fala do masculino. Quanto à categoria “mulher”, ou ela é completamente
apagada ou é tratada como um “anexo do discurso central”. Ou, ainda, as mulheres existem
como categoria, mas são tratadas de forma isolada, num tipo de trabalho realizado
normalmente por pesquisadoras mulheres. Se muitos desses trabalhos sobre “mulheres”
teriam o mérito de conceber essa categoria em termos sociológicos e de colocar em evidência
realidades obscurecidas em outros trabalhos, haveria um risco de particularização, dado que
estes correm o risco, contrariamente aos seus propósitos: “de serem reintegrados e
132
Ibidem, p. 20.
133
Ibidem, p.20.
134
Ibidem, p.22.
135
Ibidem, p.36.
136
Ibidem, p. 23.
209

reapropriados pelo sistema de pensamento da sociedade global, cujo um dos mecanismos


fundamentais é justamente essa particularização das mulheres”.137

Outro problema desse tipo de trabalho é tratar uma categoria de forma isolada da
outra, desconsiderando que, dessa maneira, essas categorias perdem sua inteligibilidade:

uma vez que em nossas sociedades as duas categorias de sexo cobrem a


totalidade do campo social, parece lógico que qualquer especificidade de
uma se defina apenas em sua relação a uma especificidade da outra, e que
tanto uma quanto a outra não possam ser estudadas de forma isolada antes
que estas tenham sido plenamente conceitualizadas como elementos de um
138
mesmo sistema estrutural.

Essas breves considerações nos permitem visualizar o pioneirismo da crítica de


Mathieu, que, já no início dos anos 1970, apontava alguns dos problemas dos estudos sobre
“mulheres” e a necessidade se tratar as categorias homens e mulheres termos relacionais.
Além disso, desde o início dos anos 1970, a autora procura formular uma “problemática
sociológica do sexo”139 tirando essa categoria do domínio do biológico.

O trabalho em tela foi apresentado no Congresso Mundial de Sociologia, num


grupo sobre epistemologia, pois não havia nenhum grupo específico destinado à essa questão.
Mas, Mathieu relata que a ideia começava a tomar corpo:

tomamos conhecimento recentemente, durante o Congresso de Varna, que


vários sociólogos reuniram-se com o objetivo de solicitar a constituição,
para o próximo congresso mundial, de um “Working Group on the study of
sex roles in society”. Se o uso do termo “papéis” nos parece ainda
insuficiente para definir uma real problemática do sexo social, reconhecemos
que o programa prevê levar em conta “the whole range of behavior in
society.140

Segundo a própria autora, em 1973, seria criado no seio da Associação


Internacional de Sociologia o Research Committee on Sex Roles in Society, o que
representaria “um início de reconhecimento” da necessidade, por parte da instituição, de
“constituir os fatos de sexo como ‘dimensão social’ específica”.141 Esse comitê organizaria
um grupo de trabalho no VIII Congresso Mundial de Sociologia, realizado em Toronto, em
agosto de 1974, cujas comunicações, entre elas uma de Christine Delphy e outra de Nicole-

137
Ibidem, p.36.
138
Ibidem, p.36-37.
139
Ibidem, p. 29.
140
Ibidem, p. 29 (nota 1).
141
MATHIEU. Nicole-Claude. Paternité biologique, maternité sociale [1977]. In: MATHIEU, Nicole-Claude.
L’anatomia politique. Op. cit., p.59.
210

Claude Mathieu, seriam publicadas, em 1977, no livro Femmes sexisme et sociétés,


organizado por Andrée Michel.142

Mathieu ressalta como uma problemática sociológica dos sexos não poderia surgir
espontaneamente. A autora considera que a problemática das classes sociais e de idade só
puderam emergir a partir da aparição e da consciência de uma realidade social. As análises de
classe de Saint-Simon e Marx tomaram corpo com o desenvolvimento da grande indústria e a
formação da classe operária. O surgimento de uma sociologia da juventude estaria ligado a
uma série de processos sociais que marcariam a emergência desse grupo, tendo como palco o
contexto do pós-guerra; a velhice, por usa vez, também só se constitui em campo de
investigação social a partir do momento em que, em algumas sociedades, uma parte da
população se retira da produção num certo momento. Em relação ao sexo, Mathieu evoca um
“fenômeno de consciência novo”, a generalização de uma consciência de “serem socialmente
determinadas como mulheres”, assim como um mal-estar entre certos homens em usar o
masculino como universal, visível particularmente no discurso de alguns homens políticos e
na imprensa. Embora ela não mencione explicitamente a importância do movimento feminista
para a emergência dessa questão neste texto de 1971, ela ressaltaria em outros textos a
ligação, aceita ou não pelos próprios autores, entre uma nova literatura científica e os
movimentos feministas de países ocidentais e não-ocidentais.143

Mathieu foi pioneira na França em promover uma crítica feminista da


antropologia, mesmo que não necessariamente utilizasse o termo para se referir ao seu próprio
trabalho, no início dos anos 1970. Marie-Élisabeth Handeman, uma de suas colegas de
trabalho na EHESS, ressalta algumas das dificuldades que Mathieu enfrentou:

Nos anos 1970 e até 1998, trabalhar sobre as relações sociais de sexo e, além
disso, ser feminista eram extremamente mal vistos na EHESS: os
pesquisadores que se enquadravam nesses critérios eram julgados menos por
seus valores científicos que por seus engajamentos militantes. Nicole-Claude
se localizava inegavelmente nessa categoria enquanto antropóloga engajada
no combate pelos direitos das mulheres e se esforçando, fora de organização
política e sindical, de lutas contra as injustiças sociais no interior como no
exterior de sua instituição.144

Em diversos textos, Mathieu procuraria criticar o viés androcêntrico da


antropologia. Em um seminário de Lévi-Strauss, Mathieu apresenta, em 1973, uma primeira

142
MICHEL, Andrée (org.). Femmes, sexisme et sociétés. Paris: PUF, 1977.
143
MATHIEU, Nicole-Claude. Critiques épistémologiques de la problématique des sexes dans le discours ethno-
anthropologique [1985]. In: MATHIEU, Nicole-Claude. L’anatomie politique. Op. cit., p.71.
144
HANDEMAN, Marie-Élisabeth. Nicole-Claude Mathieu (1937-2014). L'Homme, n.213, 2015, p. 21.
211

versão do seu texto “Homme-culture et femme-nature?”. Partindo de alguns estudos


etnográficos, ela ressalta certos problemas nas análises, particularmente a ideia de uma
“evidência biológica”.145 A autora propõe ultrapassar essa “concepção tradicional,
essencialista, do sexo”.146 em direção a uma concepção estritamente social dessa categoria.

Mathieu parte das análises de Ardener, antropólogo inglês, para criticar a


evidência do biológico nas análises antropológicas. Este último indica nas suas análises uma
falta de verbalização das mulheres e a impossibilidade de elas fornecerem modelos
convenientes para os antropólogos. Mathieu procura mostrar que essas asserções, assim como
outras sobre a maior facilidade que as etnógrafas mulheres teriam em ultrapassar esses
problemas, têm como base uma definição biológica e fixista dos sexos. A autora considera
que, assim como as categorias de sexo, etnógrafos ou etnografados não podem ser
considerados “em si”, ou seja, em sua suposta separabilidade. Ao contrário, devem ser
considerados como um complexo, em relação, de modo que etnógrafos, por serem europeus,
devem ser considerados, independentemente do sexo biológico, numa relação de dominação,
ou simplesmente de estranhamento (étrangeté), com os etnografados. Além disso, “na relação
homens-mulheres no interior de uma sociedade em que as mulheres ‘não falam’”, seria
necessário considerar a homologia entre a posição dos homens dessas sociedades e aquela dos
“etnógrafos dos dois sexos” no que concerne à “dificuldade de comunicação com as
mulheres ”.147

A partir de outros exemplos, Mathieu critica a reificação da categoria sexo em


conceituações que recusam a abordagem em termos de sistema de relações sociais. Essa
reificação conduz à concepção da “dominação política” dos homens como uma “característica
fixa de uma categoria biológica fixa”.148

Que sociedades se apoiem na diferença de sexos na ordem da reprodução,


para criar diferenças na ordem social, não deve conduzir a pensar que a
causa está na diferença biológica.149

Mathieu propõe superar esse pensamento fixista por meio de um pensamento


“dialético”, que permita analisar o masculino e feminino dentro do contexto social mais
amplo que o produz e que lhe confere sentido.
145
MATHIEU, Nicole-Claude. Homme-culture et femme-nature ? [1973] MATHIEU, Nicole-Claude.
L’anatomie politique. Op. cit., p. 48.
146
Ibidem, p. 42.
147
Ibidem, p. 46-47.
148
Ibidem, p.49.
149
Ibidem, p. 50.
212

Essas e outras reflexões críticas seriam retomadas e colocadas em relação com


outras pesquisas no relatório (intitulado originalmente) “Réflexion sur la problématique
féminine dans la recherche et l’enseignement supérieur”, preparado para a ONU e apresentado
em setembro de 1985. O relatório tem como objeto trabalhos antropológicos centrados nas
mulheres, e principalmente produzidos por mulheres, a partir dos anos 1970. Embora uma
produção anterior sobre o tema existisse, esta considerava a relação entre os sexos mais como
algo a descrever e não como “uma construção social a elucidar”.150

O início dessa renovação da problemática entre os sexos variou de país para


país. Segundo Mathieu, as primeiras publicações coletivas significativas foram publicadas, na
França, entre 1977 e 1979, e nos EUA e na parte anglófona do Canadá, entre 1971 e 1975.
Esses primeiros trabalhos seriam rapidamente criticados como excessivamente centralizados
sobre a categoria “mulheres”. Mas, para a autora, essa centralização seria plenamente
justificada num certo momento da pesquisa e seria uma consequência lógica da exclusão
histórica das mulheres pela ciência. Além disso, tornar-se objeto na teoria seria uma
“consequência necessária de tornar-se um sujeito na história”, afirma, citando Guillaumin. É
para melhor denunciar o androcentrismo de algumas análises que esses primeiros estudos se
centraram na categoria “mulheres”. Para Mathieu, esse androcentrismo se manifestaria não
somente na invisibilização das mulheres na observação etnográfica, mas também no nível da
teorização, ambas estando vinculadas.

Diferentemente de autores como Ardener, Mathieu considerava que o problema


não se localizava somente no nível da teorização, mas também da observação. Neste último
nível, haveria muitos “vazios”. Por exemplo, ela cita obras sobre o tempo de trabalho ou sobre
o dispêndio energético em algumas atividades, em que aquelas de tipo reprodutivo das
mulheres e de cuidado com as crianças não são calculados, ou o são de forma incompleta. Há
uma invisibilização do trabalho realizado pelas mulheres. Esse desinteresse por essas
atividades é baseado na suposta “naturalidade” da relação das mulheres com as crianças e da
própria categoria “mulheres”. Uma expansão do conceito de “trabalho” se impôs nesse
contexto, sob o influxo do movimento feminista, que “exportaria” essa crítica para as
discussões acadêmicas e universitárias.

150
MATHIEU, Nicole-Claude. Critiques épistémologiques de la problématique des sexes dans le discours ethno-
anthropologique [ 1985]. In: MATHIEU, Nicole-Claude. L’anatomie politique. Op. cit., p. 70
213

Outro exemplo de androcentrismo ainda mais evidente aparece nas análises de


questões como nutrição. Raros são os estudos antropológicos que ressaltam a subalimentação
(em termos de quantidade e de qualidade) das mulheres em relação aos homens.

No plano das generalizações e interpretações teóricas, o androcentrismo se


manifesta na forma da exclusão. Um exemplo claro seria o conceito antropológico “clássico”
da “troca de mulheres”. Ainda que haja registro de trocas de homens por mulheres, homens
que trocam homens, homens e mulheres que trocam homens, dentre outros casos, “troca de
mulheres” foi a expressão academicamente consagrada. A pouca atenção dada ao papel ativo
que algumas mulheres podem exercer em algumas trocas matrimoniais estaria ligada, para
Mathieu, a uma tendência dos etnógrafos a “teorizar e generalizar unicamente a partir dos
grupos socialmente dominantes”151, mesmo que, para tanto, recorra-se a uma seletividade
completamente arbitrária no manejo dos dados.

O androcentrismo se expressaria também a partir da linguagem. A referência é


predominantemente masculina. Um exemplo é a expressão “casamento com a prima cruzada
matrilateral”, que exclui, sem qualquer glosa, a possibilidade de uma grade de leitura do
fenômeno a partir da experiência feminina, ou seja, como “casamento de uma mulher com os
filhos das irmãs de seu pai”.152 Não cabe aqui citar outros exemplos, mas somente ressaltar
crítica à “utilização generalizante, totalizante (para não dizer totalitária) de termos que
impedem certos fatos concernente às minorias de aceder à teorização da sociedade”.153

A autora continuaria esse esforço de crítica feminista às ciências sociais. Nos anos
1990, sua crítica se voltaria também para algumas teorizações identificadas como “pós-
modernas” e “queers”. Para Mathieu, nessas teorizações, “os aspectos simbólicos, discursivos
e paródicos do gênero são privilegiados em detrimento da realidade material e histórica das
opressões sofridas pelas mulheres”.154 Em diferentes contextos, Mathieu procurou afirmar
que, para além de um pensamento antinaturalista, seria necessário pensar em termos de
relações sociais:

o sexismo não é somente uma questão de ‘mentalidades’ ou de ideologia.


Este é fundado numa exploração concreta, material – pelos homens – do
corpo, do espírito e das atividades das mulheres, no trabalho profissional, na
sexualidade e, não esqueçamos, no trabalho familiar/da casa/doméstico. E as
condições materiais sobre as quais eu insisto são finalmente mais tenazes

151
Ibidem, p. 84.
152
Ibidem, p. 93.
153
Ibidem, p. 94.
154
MATHIEU, Nicole-Claude. Sexe et genre [2000]. In:MATHIEU Nicole-Claude, L’anatomie politique 2,
Paris, La Dispute, 2014, p.30.
214

que as mentalidades, como o demonstra, por exemplo, o empobrecimento


contínuo das mulheres.155

Monique Wittig e o pensamento straight

Monique Wittig participou dos momentos iniciais de constituição do MLF.


Conhecida por sua produção literária, ela começa a publicar textos de caráter ensaístico e
teórico, sobretudo a partir do final dos anos 1970. A maioria deles foi publicada na revista
Questions Féministes e Feminist Issues, esta última sediada nos Estados Unidos, país no qual
estava radicada desde o final dessa década.156

Desde os seus primeiros textos, Wittig empreende uma crítica do que ela chama
de “pensamento dominante”, e, posteriormente, em uma abordagem modificada, de
“pensamento straight” (que poderíamos traduzir também como “pensamento heterossexual”).
O pensamento dominante tem como fundamento o primado da diferença sexual e a ideia de
que esta precede a sociedade. Esse pensamento pode assumir formas diversas: um approche
métaphisique, que considera que “antes de todo pensamento, antes de toda sociedade, há dois
sexos, de fato, duas categorias de indivíduos nascidos com uma diferença constitutiva, uma
diferença que tem consequências ontológicas”; um approche scientifique, que, por sua vez,
considera que, antes mesmo de qualquer pensamento, ordem social, haveria “sexos ”
biologicamente, hormonalmente, geneticamente diferentes, e que essa diferença teria
consequências sociológicas; um approche marxiste, que igualmente considera que, antes de
qualquer pensamento, ordem social, haveria uma “divisão natural do trabalho na família, uma
divisão do trabalho que não é originalmente senão a divisão do trabalho no ato sexual”.
Apesar das variações, todos essses approches têm em comum a ideia de uma ordem natural,
de algo que preexiste às relações sociais e que inviabiliza uma explicação a partir dessas
últimas.157

155
MATHIEU Nicole-Claude, « Prologue. Allocution pour un doctorat honoris cause », in MATHIEU Nicole-
Claude, L’anatomie politique 2, Op. cit., p. 10.
156
Monique Wittig (1935-2003) foi escritora, autora de diversos romances como L'Opoponax (1964) que
ganhou o Premio Médicis, Les Guérillères (1969), Le Corps lesbien (1973)dentre outros. Participou dos
momentos fundadores do MLF e também do grupo lésbico Gouines Rouges. Em 1976 Wittig se muda para os
Estados Unidos, onde escreve a maior parte dos seus escritos teóricos. Ela deu aulas em diferentes universidades
neste país.
157
WITTIG, Monique. La categorie de sexe [1982]. In: WITTIG, Monique. La pensée straight. Paris:
Amsterdam, 2007, p.38.
215

Wittig acusa a presença desse pensamento dentro do próprio movimento


feminista. Para a autora, a maioria das feministas e “lésbicas/feministas” ainda continuava a
pensar a base da opressão da mulher mais em termos biológicos que históricos. Essa
démarche é um traço constante na reflexão das feministas da “primeira onda”, mas estaria
presente também na “segunda onda”.

O feminismo do século XIX “não pôde jamais resolver suas contradições no que
concerne aos temas natureza/cultura, mulher/sociedade”.158 Essas mulheres teriam se unido
enquanto grupo e consideravam, com razão, que todas as mulheres tinham traços de opressão
comum. Mas, essa posição estava ancorada mais em características biológicas que em fatos
sociais.159 Dessa forma, elas continuavam a pensar, “como os homens”, que a causa e origem
da sua opressão residia nessa diferença. Essas “primeiras feministas” não conseguiam
enxergar a história como um “processo dinâmico que se desenvolve a partir de conflitos de
interesse”.160 Ao defenderem a ideia de “igualdade na diferença”, elas continuavam refém do
“mito da mulher”.

Mas essas concepções estariam também presentes no feminismo da chamada


“segunda onda”. A ideia de uma superioridade física masculina, a concepção de que a
violência masculina seria um fenômeno biologicamente inevitável, assim como algumas
teorizações em termos de matriarcado, repousariam na ideia de uma divisão “natural” entre
homens e mulheres e numa naturalização da história. Sobre a ideia de matriarcado, Wittig
afirma:

O matriarcado não é menos heterossexual que o patriarcado: somente o sexo


do opressor muda. Essa concepção, para além de ficar prisioneira das
categorias de sexo (mulher e homem), mantém ainda a ideia de que a única
coisa que define uma mulher é sua capacidade de fazer uma criança
(biologia).161

A ideia de um “direito maternal” ou as teorias do matriarcado seriam simétricas às


interpretações biologizantes da história alinhadas pela “classe dos homens” e revelaria um
método problemático de buscar uma explicação biológica para fatos sociais. Wittig cita
grupos estadunidenses como Redstockings e autoras como Andrea Dworkin como exemplos
dessa posição político/teórica.

158
WITTIG, Monique. On ne naît pas femme [1980]. In: WITTIG, Monique. La pensée straight. Paris:
Amsterdam, 2007,p. 48.
159
Ibidem, p.48.
160
Ibidem, p.48.
161
Ibidem, p. 44
216

A valorização dos atributos femininos seria problemática, pois retém os “melhores


traços com que o opressor nos gratificou”162 para construir a ideia de que “é-maravilhoso-ser-
mulher”. Em contraposição a essa visão, Wittig afirmaria que o sexo não tem existência a
priori, isto é, anterior à sociedade, mas, pelo contrário, é um produto da dominação, de uma
dominação social das mulheres exercida pelos homens163. Esse é um ponto central de uma
démarche materialista:

O que mostra uma análise materialista é que o que nós tomamos por causa
ou por origem da opressão não é, na verdade, senão a marca que o opressor
impõe aos oprimidos: o ‘mito da mulher’ naquilo que nos concerne, além
dos seus efeitos e suas manifestações materiais nas consciências e corpos
apropriados das mulheres. A marca não preexiste à opressão.164

Para Wittig, o feminismo significa não uma defesa do “mito da mulher” ou


uma identificação com uma definição feita pelo opressor, mas uma luta das mulheres
enquanto classe pela desaparição dessa classe: “Nosso combate visa a suprimir os homens
enquanto classe, ao curso de uma luta de classe política”165. E a primeira tarefa do movimento
é justamente dissociar “as mulheres”, “a classe no interior da qual nós combatemos”, da
construção “a mulher”, ou seja, do “mito”.166

O combate feminista visaria a “suprimir os homens como classe”, numa luta de


classe política, e não num genocídio, ressalta. A desaparição da classe dos homens significaria
o fim da classe das mulheres, pois não há escravos sem senhor:

‘Homem’ e ‘mulher’ são conceitos de oposição, conceitos políticos. E,


dialeticamente, a junção que os reúne é, ao mesmo tempo, aquela que as
abole, é a luta entre homens e mulheres que abolirá os homens e as
mulheres. E a diferença tem por função encobrir os conflitos de interesse em
todos os níveis ideologicamente envolvidos.167

Vê-se claramente aqui a proximidade teórica das análises de Wittig com


aquelas das outras autoras apresentadas anteriormente. A centralidade de uma explicação
social da diferença de sexos, a ideia de que a relação entre homens e mulheres constitui uma
relação social e que, nesse sentido, essa não pode preexistir às relações sociais que as
engendram, a saber, as relações de dominação de classe são os pilares das análises

162
Ibidem, p.47.
163
WITTIG, Monique. La catégorie de sexe. In: WITTIG, Monique. La pensée straight. Op. cit., p.38.
164
Idem. On ne naît pas femme. Op. cit., p.45
165
Ibidem, p.49.
166
Ibidem, 49.
167
WITTIG, Monique. La pensée straight [1980]. In: WITTIG, Monique. La pensée straight. Op. cit., p.59.
217

“materialistas”. Longe de ser uma autora isolada, como, às vezes, é apresentada na


bibliografia anglófona168, Wittig está inserida num debate mais amplo. Como se pode
perceber nesse momento da apresentação, Wittig compartilha claramente uma perspectiva
com outras autoras identificadas como materialistas. Por outro lado, Wittig inova ao nomear
algo que era pressuposto em algumas análises anteriores, mas que não era explicitado: a
heterossexualidade como regime político.

Para Wittig, embora a ideia de natureza tenha sido colocada em xeque em


diversos domínios, restaria ainda um “nódulo de natureza” não questionado: a
heterossexualidade. A heterossexualidade seria um regime político fundado sobre relações de
exploração, opressão e apropriação das mulheres pelos homens. Além disso, seria também
“racionalização que consiste em apresentar como um fato biológico, físico, instintivo, inerente
à natureza humana, a confiscação da reprodução das mulheres e de suas pessoas físicas como
uma diferença natural e não uma diferença cultural”.169

Para Wittig, a existência de homens e mulheres não faz sentido senão dentro de
sistemas de pensamento e econômicos heterossexuais. Por esse motivo, ela afirma que não se
pode dizer que “as lésbicas, vivem, associam-se, fazem amor com mulheres” porque, “as
lésbicas não são mulheres”170. “’Lésbica’ seria o “único conceito que estaria para além das
categorias de sexo porque o sujeito que o termo designa não seria mulher, nem
economicamente, nem politicamente e nem ideologicamente”. Para Wittig, as lésbicas
expressariam trânsfugas de sua classe:

O que define uma mulher é uma relação particular em relação a um homem,


relação que outrora nós chamávamos de servidão, relação que implica
obrigações pessoais e físicas, assim como obrigações econômicas, relação a
qual as lésbicas escapam ao se recusarem tornarem ou permanecerem
171
heterossexuais.

Essa é provavelmente a frase mais citada de Wittig e também aquela que mais
gerou polêmicas. Para Diana Fuss172, o conceito de lésbica elaborado por Wittig seria a mais
provocativa e problemática de suas categorias. Tal ideia foi alvo de diversas controvérsias

168
Dentre outras autoras, criticam a forma como Butler isola Wittig de outros trabalhos de feministas
materialistas JAMI, I. Sexe et genre: les débats des féministes dans les pays anglo-saxons (1970-1990). Cahiers
du genre, n.34, 2003, p. 143.
169
WITTIG, Monique. Paradigmas [1979]. In: WITTIG, Monique. La pensée straight. Op. cit., p. 83.
170
Idem. On ne naît pas femme. Op. cit., p 52.
171
WITTIG, Monique. La pensée straight. Op. cit., p.54.
172
FUSS, Diana. Essentially speaking. Feminism, nature & difference. New York/London: Routledge, 1989,
p.42.
218

dentro do movimento feminista. Como lembra Teresa de Lauretis173, Wittig foi acusada de
utopismo, essencialismo, dogmatismo separatista e até mesmo de ‘idealista clássica’. Mas,
essas propostas não podem ser compreendidas desvinculadas do contexto mais geral dos
debates feministas e lésbicos do final dos anos 1970, que serão abordados no capítulo 7.

***
Se o conceito de gênero, como afirma Haraway, “foi desenvolvido para contestar
a naturalização da diferença sexual em campos de luta múltiplos”, podemos identificar esse
mesmo esforço nos conceitos de “sexo social”, “classe de sexo”, “relações sociais entre os
sexos” e, posteriormente, “relações sociais de sexo” formulados no contexto francês. Quando
o conceito de “gênero” começa ser utilizado de forma mais frequente no meio feminista
(lembrando que Ann Oakley propõe o conceito em 1972, mas, o texto de Rubin que marca um
começo de popularização do conceito data de 1975), na França havia uma série de outros
conceitos existentes com objetivos similares, ligados a diferentes tradições disciplinares.

De todas as autoras apresentadas neste capítulo, a única que utilizou e utiliza


ainda o conceito de gênero é Christine Delphy. Ela o emprega pela primeira vez em 1977 no
texto “Nos amies et nous”. Mathieu utilizava outros termos como “sexo social” e nunca
incorporou o conceito de “gênero”, embora tenha sido a tradutora para o francês do texto de
Gayle Rubin, “The Traffic in Women: Notes on the Political Economy of Sex”, publicado em
1998. Wittig, na introdução da antologia de seus textos, afirma que “o termo gender utilizado
na Inglaterra e nos Estados Unidos me parece impreciso”.174 A incorporação do conceito de
gênero nos remete a debates que ocorrem há mais de uma década após o momento que
constitui o centro deste trabalho. Por essa razão, mencionaremos brevemente algumas das
objeções ao seu uso.

É a partir dos anos 1990 que um debate sobre o mesmo ganha corpo.175 Diversas
são as razões para que o conceito não tivesse uma aceitação imediata. Inicialmente podemos
mencionar as objeções de ordem linguística, que apontam para o caráter intraduzível do termo

173
DE LAURETIS, Teresa.Quand les lesbiennes n’étaient pas des femmes : sur la portée épistemologique de la
Pensée Straight et du Corps Lesbien des années 80 à nos jours. In : BOURCIER, Marie-Hélène ; ROBICHON,
Suzette. Parce que les lesbiennes ne sont psa des femmes. Autour de l’oeuvre politique, théorique et litteraire de
Monique Wittig. Paris : Éditions Gays et Lesbiennes, 2002.
174
WITTIG, Monique. Introduction [2001]. In: WITTIG, Monique. La pensée straight. Paris: Amsterdam, 2007
p. 15.
175
MÖSER, Cornelia. Féminismes en traductions. Théories voyageuses et traductions culturelles. Paris:
Éditionsdes archives contemporaines, 2013.
219

“gender” para o francês, ou mesmo para o caráter desnecessário do vocábulo176. Há inclusive


uma recomendação oficial de 2005, da Comissão Geral de Terminologia e Neologismo
(França), para o uso de termos franceses equivalentes ao termo “gender”, considerando que
não há necessidade linguística que justifique a substituição de “sexe” por “genre”.177 Embora
muitas discussões permaneçam nesse terreno na França, deve-se ressaltar, como faz
Varikas178, que a intraduzibilidade real ou presumida de uma palavra numa língua não
dispensa o debate do quadro teórico que ele designa.

Para outras autoras, a distinção entre sexo e gênero, uma vez que compreenderia
uma dicotomia entre biológico e cultural, acarretaria uma reificação da biologia, ocultando
assim seu caráter ideológico e histórico. Nicole-Claude Mathieu segue esse fio de
argumentação. Um outro motivo, vinculado ao exposto acima, é que o conceito de gênero
estaria ligado a um determinado paradigma teórico179, o “pós-modernismo” ou “pós-
estruturalismo” recusado, por exemplo, pelas feministas materialistas francesas. Por fim, vale
ainda lembrar outro argumento, relacionado à crítica anterior: o entendimento de que o
conceito de gênero eufemizaria as relações de poder, a ideia de antagonismo social
correspondente a um sistema de exploração e dominação, ideia que seria central no conceito
de relações sociais de sexo.

Apesar das críticas, o termo o termo acabou progressivamente se impondo,


particularmente por ter se tornado palavra-chave de instituições europeias para promover a
igualdade entre mulheres.180 Nos anos 2000, o termo passa a ser amplamente utilizado,
embora o conceito de rapports sociaux de sexe ainda seja empregado.

No Brasil, o conceito de gênero se estabeleceu, não sem gerar alguns debates, nos
anos 1990. Mas, como lembra Heilborn e Sorj, o termo relações sociais de sexo esteve “muito

176
“Gênero” seria um estrangeirismo desnecessário para algumas autoras chegando ao ponto de considerá-lo
como “tão somente um anglicismo irritante”. Ver por exemplo Ozouf e Sohn apud OFFEN. Le gender est-il une
invention américain? Clio n.24, 2006.
177
Para consultar o documento ver anexo do livro de Eleni Varikas Penser le sexe et le genre... Op. cit.
178
VARIKAS, Eleni. Conclusion. In: Fougeyrollas-Schwebel, Dominique. Et. al. (org). Le Genre comme
catégorie d’analyse. Sociologie, histoire, littérature. Paris: Harmmatan, 2003.
179
A ligação entre algumas discussões presentes nos estudos de gênero e o ideário “pós-estruturalista” ou
“desconstrutivista” é apontada por diversas autoras/es: “As autoras que se engajaram nas críticas aos
pressupostos presentes na distinção sexo/gênero, entre as que se contam teóricas que elaboraram re-formulações
do conceito de gênero, revelam a influência de referenciais teóricos fortemente influenciados pelo que podemos
chamar de aproximações desconstrutivistas”. PISCITELLI, Adriana. Re-criando a (categoria) mulher? Textos
Didáticos, n.48, novembro 2002, p.25.
180
LÖWY, Llana; ROUCH, Hélène. Genèse et développement du genre: les sciences et les origines de la
distinction entre sexe et genre. Cahiers du Genre, n.34, 2003.
220

presente, sobretudo na sociologia do trabalho”. Mas, progressivamente e ligado a processos


mais gerais, entre os quais citam uma certa “antropologização das ciências sociais”, esse
conceito foi abandonado e o “gênero” tornou-se uma categoria hegemônica.181

181
HEILBORN, Maria; SORJ, Bila. “Estudos de gênero no Brasil”. In: MICELI, Sérgio. O que ler na ciência
social brasileira (1970-1995). Sociologia (volume II). São Paulo: Editora Sumaré: ANPOCS; Brasílio: CAPES,
1999, p.196.
221

Capítulo 6
Materialismos feministas

Feminismo e a esquerda

O princípio guia deve ser o seguinte: nenhuma agitação especificamente feminista


senão agitação socialista entre as mulheres. Não devemos pôr em primeiro plano os
interesses mais mesquinhos do mundo da mulher: nossa tarefa é a conquista da
mulher proletária para a luta de classes. 1

As mulheres da classe operária constatam que a sociedade é atualmente dividida em


classes. Cada classe tem seus interesses próprios. A burguesia tem os seus, a classe
operária tem outros. A divisão entre homens e mulheres não tem grande
importância aos olhos das mulheres proletárias. O que une as mulheres
trabalhadoras com os trabalhadores é muito mais forte do que o que os divide. (...)
“Todos por um, um por todos!” Este “todos” inclui os membros da classe operária –
homens e mulheres na mesma condição. A “questão da mulher” para os operários e
operárias é o problema de saber como organizar as massas atrasadas de mulheres
trabalhadoras.2

A sociedade se divide em classes e as mulheres não estão fora dessas classes. Em


consequência, o destino de cada uma delas deve se unir àquele de outras mulheres e
homens que pertencem a essa classe ou categoria social. 3

Estes trechos ilustram uma concepção bastante difundida no seio das organizações
comunistas e, de uma forma mais geral, de esquerda, entre o final do século XIX e uma
grande parte do século XX. A ideia subjacente a essa concepção é a diluição da “questão
feminina” nas relações de classe (estas últimas frequentemente tomadas como relações de
propriedade), de modo a negar uma especificidade da questão e a necessidade de instrumentos
mediatórios para a superação dessa forma de dominação. Toda atividade militante, deveria,
portanto, ser canalizada para a abolição do sistema capitalista. Segundo tal concepção, o
movimento feminista é incapaz de levar até as últimas consequências o seu princípio
norteador, que não seria realizável senão numa sociedade pós-revolucionária. Ao se
concentrar nos “interesses mais mesquinhos do mundo feminino”, como afirma Zetkin, o

1
ZETKIN, Clara. La cuestion femenina y la lucha contra el reformismo. Barcelona, Anagrama, 1976, p.107.
2
KRUPSKAIA apud HEINE. De la I à la III Internationale, la question des femmes. Critique Communiste,
Paris, dezembro 1977/janeiro 1978, p.109.
3
DUMONT, Yvonne (org.). Les communistes et la condition de la femme etude de la Commission Centrale de
Travail du Parti Communiste Français Parmi les Femmes. Paris: Editions Sociales, 1970, p. 129.
222

feminismo é considerado como divisionista, em relação à unidade da classe operária, e um


elemento de dispersão diante do objetivo fundamental dos socialistas, a revolução.

Como procuramos mostrar, a produção dos anos 1950-1960 não construiu


realmente uma alternativa a essa visão. É, sobretudo, a partir do final dos anos 1960 que
começam a se esboçar alternativas. Diversos grupos feministas de inspiração de esquerda
criticariam duramente o economicismo e o reducionismo dessa posição, sem, no entanto,
abandonar uma luta anticapitalista e a ideia da necessidade de uma revolução econômica.
Múltiplas foram as tentativas de pensar a superação da opressão feminina sem diluí-la nas
relações de classe e sem abandonar um projeto de revolução socialista.

Para uma grande parcela do movimento feminista do final dos anos 1960 e início
dos anos 1970, a proposta feminista era uma radicalização das lutas de esquerda. Os exemplos
dessa concepção são vários. Para Ellis Willis, fazendo referência aos Estados Unidos:
com poucas exceções, aquelas de nós que primeiro definiram o feminismo
radical pressupuseram que radical implicava em um posicionamento
antirracista, anticapitalista e anti-imperialista. Nós nos víamos como
radicalizando a esquerda por expandir a definição de radical para incluir
feminismo.4

Embora seja um aspecto pouco mencionado, Shumamith Firestone defende um


“socialismo cibernético” como parte das transformações necessárias para uma revolução
feminista. A autora recusava as análises elaboradas pela esquerda por considerar que estas não
seriam “suficientemente radicais”.5 Kate Millet6 se refere à necessidade de uma “revolução
cultural” que, “acarretando obrigatoriamente este processo de reorganização econômica e
política implicado no termo ‘revolução’, deve, igualmente, ir mais longe que isso”.7 Rubin
ressalta que não é possível compreender plenamente este momento do feminismo sem
entender a relação estreita, embora conflituosa, com a política da new left e com o pensamento
intelectual marxista.8 Nas palavras de Delphy, desde o surgimento da segunda onda, o
marxismo teria sido para as feministas, ao mesmo tempo um obstáculo e um instrumento9, ou,
em outros termos, o inimigo principal e o interlocutor privilegiado.

4
WILLIS, Ellis. Radical feminism and feminist radicalism. In: SAYRES, S. et. al. The 60’s without apology,
Minneapolis: Univ. of Minnesota, 1988 p.93.
5
FIRESTONE, Shulamith. A dialética do sexo... Op. cit., p.51.
6
Kate Millet foi militante do New York NOW e do New York Radical Women. ECHOLS, Alice. Daring Op. cit,
p.383.
7
MILLET, Kate. La politique du mâle. Paris: Stock, 1971, p. 393.
8
RUBIN, Gayle; BUTLER, Judith. Tráfico sexual – uma entrevista. Cadernos Pagu. no.21, 2003, p. 158.
9
DELPHY, Christine. Féminisme et marxisme. In: MARUANI, M. (org.) Femmes, genre et sociétés. Paris: La
Découverte, 2005, p. 32.
223

Na França o MLF, incluindo aqui todas as tendências, é parte do que é chamado


“extrema esquerda”.10 Dominique Fougeyrollas-Schwebel11, entre outras, ressalta a relação
estreita com o marxismo que serviu de referência para diferentes setores do movimento, seja a
corrente “Psicanálise e Política”, que procurava articular materialismo histórico e psicanálise,
a corrente “luta de classes”, mais próxima das organizações de esquerda , assim como do
“feminismo revolucionário”. Fougeyrollas ressalta ainda a importância dos partidos de
esquerda para os movimentos feministas europeus (sobretudo alemães, franceses, italianos e
ingleses).12 Nesse mesmo sentido afirma Simone de Beauvoir, que considera que mesmo que
não pertencessem a grupos de esquerda, a maioria das mulheres que construíram o movimento
“felt themselves to be in an ongoing dialogue with the extreme Left, wich was both their
chosen friend and their worst enemy”.13

Amplos setores do movimento feminista da segunda onda usaram o marxismo, de


forma mais ou menos ortodoxa, para teorizar a opressão vivida pelas mulheres. Não somente
as feministas claramente identificadas ou que se declaravam marxistas ou socialistas se
voltaram para o marxismo para buscar uma explicação para a opressão feminina. Setores
claramente identificados com o feminismo radical também o fizeram.

Muitas foram as tentativas de buscar alternativas à forma como tradicionalmente a


questão era concebida. Esse esforço de reelaboração deve também ser compreendido como
parte de uma série de tentativas para reformular o marxismo que emergiram nos anos 1960 e
1970, que, em certo sentido, marcaram o fim de uma ortodoxia marxista. Inaugurado com as
críticas ao stalinismo após as denúncias do relatório de Kruschev em 1956, esse período é
também caracterizado por movimentos de libertação nacional e pela emergência de novos
sujeitos políticos. Nesse contexto, diversos fenômenos ou autores marginais dentro da
ortodoxia marxista são objeto de um novo interesse teórico.

Para muitas feministas, tratava-se de “parar de aceitar ser um posfácio de Marx ou


Mao Tsé-tung”14 e de propor novas formas de abordar a especificidade de uma opressão
vivida. Como afirmavam algumas feministas holandesas, essas novas soluções teóricas não

10
Ver Françoise Picq. LIbération des femmes. Op. cit.
11
FOUGEYROLLAS-SCHWEBEL, Dominique. Controverses et anathèmes au sein du féminisme français des
années 1970. Cahiers du genre, n.39, 2005
12
FOUGEYROLLAS-SCHWEBEL, Dominique. Le féminisme des années 1970. In: FAURÉ, Christine (org.)
Encyclopédie politique et historique des femmes. Paris: PUF, 1997, p. 735.
13
BEAUVOIR, Simone de. France: Feminism – Alive, Well, and in Constant Danger. In: MORGAN, Robin.
Sisterhood is Global. The International Women’s Movement Anthology., Nova York: Garden City, 1984
14
QUELQUES MILITANTS. Présentations. Partisans (Libération des femmes. Annee zero), n.54-55, julho-
outubro de 1970, p. 6.
224

deveriam consistir simplesmente em “utilizar velhas análises esquerdistas e colar pedaços de


feminismo com durex”.15 Era necessário um esforço militante para forjar novos instrumentos
que fornecesse não somente recursos teóricos mas práticos para a superação da opressão
feminina. Esse exercício não foi fácil e deu origem a diversas polêmicas, como procuramos
mostrar.

Muita tinta correu nos anos 1970 procurando fomentar um “casamento entre
feminismo e marxismo”. Essas tentativas, empreendidas por feministas de diferentes países e
orientações políticas, dariam origem a uma série de conceitos e perspectivas. Essas teorias
ganharam múltiplas denominações: feminismo socialista, feminismo marxista, feminismo luta
de classes, feminismo materialista, etc. Não é possível aqui retomar todas essas teorizações,
contemplando sua diversidade. No entanto, antes de nos concentrarmos na perspectiva que
nos interessa mais particularmente, cabe aqui mencionar, em linhas gerais, algumas trilhas
abertas por esses debates.

Primeiro, é preciso ressaltar que, contrariamente ao que se possa imaginar em uma


primeira abordagem, não havia uma verdadeira clivagem entre aquelas que consideravam a
subordinação das mulheres como uma consequência do capitalismo e aquelas que a
consideravam como uma consequência do patriarcado ou outra forma de dominação
sistemática. Como afirma Jackson16, havia muito mais um continuum entre feministas
socialistas ou marxistas, identificadas com a primeira proposta, e o feminismo radical,
identificado com a segunda. Entre esses dois polos, uma série de teorias foi formulada. Como
conceber essa forma de dominação, qual seria sua relação com o sistema capitalista, quem se
beneficiaria dessa opressão são outros pontos que provocariam polêmicas.

Para algumas autoras, a explicação para a subordinação das mulheres teria origem
nas relações de produção (seja nos termos de uma análise marxista mais ortodoxa, que a
atribui ao capitalismo, seja a partir da consideração de que o processo de produção gera tanto
relações capitalistas como patriarcais). Outras enfatizavam a “reprodução” (por exemplo,
Michele Barret), entendida, muitas vezes, como reprodução biológica, como em Firestone.17
Outras ainda buscavam explicar a subordinação em termos ideológicos, tal como Juliet
Mitchell, em Feminismo e psicanálise.18

15
DOCUMENTS. Résumé du texte des hollandaises féministes-socialistes. Questions féministes n° 2, fev. 1978,
p. 93.
16
JACKSON, Stevi. Marxisme et féminisme. Op. cit...
17
FIRESTONE, Shulamith. A dialética do sexo: um manifesto da revolução feminista. Rio de Janeiro: Labor do
Brasil, 1976.
18
JACKSON, Stevi. Marxisme et feminisme. Op. cit.
225

Todos esses debates, para além de suas consequências teóricas, tinham


consequências estratégicas para o movimento. Haveria um “nós” mulheres que fundamentasse
a construção de um movimento específico? A libertação das mulheres estaria vinculada com a
transformação do sistema? Se sim, quais estratégias deveriam ser colocadas em prática:
militância somente nas organizações de esquerda ou dupla militância (nas organizações de
esquerda e no movimento feminista)? A luta feminista poderia ser um elemento de destruição
do sistema capitalista? Patriarcado e capitalismo estão vinculados? De que forma? Essas são
algumas questões que remetem à relação entre teoria e prática, entre formulações teóricas e
estratégias do movimento.

Deve-se também levar em consideração a historicidade dessas tomadas de


posição. No bojo dos intensos debates feministas dos anos 1970 as posições de grupos,
autores e correntes sofreram mudanças. Não é, portanto, possível tomar essas teorizações de
forma estática e descontextualizada e, por essa razão, procuraremos mostrar o caráter
contextual e variável dessas tomadas de posições. Procuraremos expor, a seguir, as propostas
do “feminismo materialista” dentro do contexto que permitiu o seu surgimento e que dá
sentido às suas propostas.

Em busca das bases materiais da opressão feminina

Christine Delphy e o Inimigo principal

Em 1970, usando o pseudônimo Christine Dupont, Christine Delphy publica o


texto “L’ennemi principal”, no número especial da revista Partisans. Nesse texto, considerado
como um momento-chave das primeiras reflexões feministas dos anos 1970, Delphy, partindo
da discussão do trabalho doméstico, propõe fornecer ao movimento algo que ela considera
crucial: “as bases para uma análise materialista da opressão das mulheres”.19

Christine Delphy redige esse texto durante as primeiras mobilizações do MLF.


Um esboço do mesmo data da época da sua militância no FMA, cujo conteúdo já
apresentamos brevemente no capítulo 2. As ideias desse texto surgem de uma confluência de
reflexões que se deram tanto no contexto mais acadêmico, como num contexto militante,
embora a própria autora procurasse afirmar no início dos anos 1980, que conceitos como

19
DUPONT, Christine. L’ennemi principal. Partisans n. 54-55, julho-out. 1970, p.157-158.
226

patriarcado, dentre outros, não tiveram influência da academia.20 Sobre o seu percurso
acadêmico, cabem alguns comentários.

Christine Delphy começa sua carreira acadêmica em 1966 no Groupe de


Sociologie Rural, CNRS, dirigido por J. Cuisenier. Após finalizar uma graduação em
sociologia na Université de Paris em 1961, Delphy permanece alguns anos nos Estados
Unidos, como bolsista e professora assistente (teachying assistant). De retorno à França, seu
objetivo era trabalhar “sobre mulheres”, mas foi dissuadida por seu orientador na época,
Pierre Bourdieu. Seu projeto no final dos anos 1960 era sobre as “modalidades da evolução do
patrimônio na França rural contemporânea”.21 Em 1969, como resultado inicial dessa
pesquisa, seria publicado “Le patrimoine français ou la double circulation des biens dans
l’espace économique et le temps social”, na Revue Française de sociologie.22

O modo de circulação de bens que ela chama de “patrimonial” seria oposto àquele
de mercado, pois não é caracterizado pela troca, mas pela dádiva, os seus atores não são
intercambiáveis, mas têm posições definidas por regras de parentesco, e, por fim, essa
circulação não depende desses atores. Esse estudo lhe permitiu analisar um aspecto do
econômico que não era tematizado pela economia política, pois considerado como não-
econômico por definição. Retrospectivamente, Delphy considera que este trabalho forneceu
instrumentos teóricos para analisar a opressão feminina, permitindo-lhe “desmistificar” a
centralidade pressuposta do mercado para a análise das relações de produção cair na piège
classique de uma oposição entre valor de uso e valor de troca. Na sua visão, essa perspectiva
teria aprisionado algumas das autoras com preocupações similares à sua, como Benston e
Larguia, levando-as a um impasse teórico.23

“O inimigo principal” parte de uma crítica à concepção, dominante no marxismo


até então, segundo a qual a opressão das mulheres seria uma consequência secundária e
derivada da dominação do capital. Segundo a autora, em razão dessa concepção, ao analisar o
contexto das sociedades em que o capitalismo teria sido destruído, é obrigado a evocar causas

20
Delphy afirmava em 1981”Não é por um acaso que em nenhum momento falei da minha especialidade
profissional ou da universidade em relação ao conceito de patriarcado: é que a Universidade não teve nenhum
papel na criação desse conceito assim como de nenhum outro conceito político, tal como igualmente não exerceu
nenhum papel na emergência do movimento social, o feminismo, que elaborou análises e conceitos sobre os
quais falamos”. DELPHY Christine. Le patriarcat, le féminisme et leurs intellectuelles. Nouvelles Questions
féministes. n° 2, 1981,p. 66.
21
DELPHY, Christine. Expose de titres et travaux [relatório] 20 de dezembro de 2000.
22
DELPHY, Christine. Le patrimoine français ou la double circulation des biens dans l’espace économique et le
temps social. Revue française de sociologie, n.spécial sur les faits économiques, 1969.
23
DELPHY, Christine. Avant-propos. In: DELPHY, Christine. L’ennemi principal 1. Economie politique du
patriarcat. Paris: Syllepse, 2009.
227

superestruturais para explicar a persistência da opressão feminina, uma análise que a autora
considera idealista e não-marxista. Essa visão seria um freio para o movimento e não
responderia a uma “dupla exigência, teórica e política” do feminismo: encontrar razões
estruturais para a insuficiência da abolição das relações de produção para a libertação das
mulheres e constituir-se como força autônoma.

A autora propõe, para analisar a opressão feminina, partir do materialismo


histórico e de sua análise dos antagonismos sociais em termos de classe, ou seja, segundo sua
definição, do lugar ocupado no processo de produção. Nesse sentido, ela articula seu campo
de análise a partir do trabalho doméstico, assumindo que este definiria a posição das mulheres
nas relações de produção. Este trabalho, de responsabilidade exclusiva das mulheres e não
remunerado, seria a base de um sistema de exploração, o patriarcado.

No debate sobre o trabalho doméstico, enquanto algumas análises se centraram na


questão da relação entre trabalho doméstico e produção de mais-valia, Delphy considerava
que a questão central era a especificidade das relações de produção que estruturavam o
trabalho doméstico. Nesse sentido, o trabalho doméstico deveria ser analisado não em termos
de produção de valor, mas da exploração de uma forma de excedente específico, a qual estaria
na base de um modo de produção específico, o modo de produção doméstico ou patriarcal,
diferente do modo de produção capitalista. Esse modo de produção não seria alternativo ao
modo de produção capitalista, mas coexistiria com ele.

Em sua análise do modo de produção patriarcal, Delphy estabelece sua


abrangência – ele seria comum a todas as mulheres, tendo como fundamento as relações
estabelecidas pela conjugalidade –; enfatiza sua especificidade – como opressão que recai
sobre as mulheres – e, do ponto de vista da classe social definida por essa abrangência e
especificidade, sua centralidade, como “inimigo principal” – na medida em que incide sobre e
condiciona sua posição de classe mesmo no trabalho não-doméstico e remunerado.24 A partir
dessa análise, a autora articula uma perspectiva prático-política fundada na constituição de um
movimento específico e autônomo contra a opressão patriarcal, cuja base social seria o
conjunto da classe das mulheres:
A mobilização deve ser feita tendo por base a opressão patriarcal, e,
portanto, incluir todos os indivíduos oprimidos pelo patriarcado e, desta
forma, interessados pela sua destruição, isto é, todas as mulheres! O trabalho
de mobilização deve colocar a tônica na solidariedade de todos os indivíduos
oprimidos por um mesmo sistema.25

24
DUPONT, Christine. L’ennemi principal. Partisans n. 54-55, juillet-octobre 1970, p. 170.
25
Ibidem, p. 171.
228

A libertação das mulheres exigiria uma “destruição total do sistema de produção e


reprodução patriarcal”.26 Sendo esse sistema “central em todas as sociedades conhecidas”, sua
destruição implicaria uma transformação das bases da sociedade, a qual não seria possível
sem uma revolução, “isto é, a tomada do poder político”. O movimento de libertação deveria,
nesse sentido, preparar-se para uma “luta revolucionária”.27

Essa análise constituiria o preâmbulo de um estudo da relação entre capitalismo e


patriarcado. Neste texto Delphy apenas enuncia essa questão, expondo a necessidade de uma
análise prévia do patriarcado como precondição da análise da relação entre os dois sistemas e,
portanto, da fundamentação materialista da “articulação das lutas antipatriarcais e
anticapitalistas”. Esta seria essencial para deslocar a “confusão teórica”, politicamente
deletéria, de uma prática política alicerçada na hierarquização apriorística (idealista) entre os
sistemas e/ou no que ela denomina, de modo significativo, de “voluntarismo ideológico”:
É importante saber em que consiste o patriarcado para compreender em que
medida ele é teoricamente independente do capitalismo. Somente essa
compreensão permitirá entender a independência historicamente constatada
entre esses dois sistemas. Somente desta forma é possível fundar
materialmente a articulação de lutas antipatriarcais e anticapitalistas.
Enquanto essa articulação permanece fundada em postulados de hierarquia
não provados e ou sobre o voluntarismo ideológico, estamos condenados à
confusão teórica e à ineficiência política no imediato, ao fracasso histórico a
longo prazo.28

Esse texto foi um marco na reflexão feminista na França. Para Louis Astre,
“L’ennemi principal” constituiria uma “referência para a história do movimento feminista”.29
Este exprimiria uma renovação teórica e prático-estratégica do feminismo, projetando uma
nova perspectiva analítica para abordagem da opressão das mulheres e iluminando territórios
de relações marginalizados no campo da esquerda, como a família e o trabalho doméstico.

Para Françoise Picq [1983], a análise de Delphy, ao fornecer argumentos teóricos


para a luta autônoma das mulheres, teria amparado teoricamente o nascente movimento de
mulheres em seu embate contra as concepções dominantes na esquerda e favorecido
reposicionamentos das feministas vinculadas a essas concepções. Assim, o “feminismo

26
Ibidem, p. 171.
27
Ibidem, p. 171.
28
Ibidem, p.171.
29
Louis Astre ; Delphy, Christine. Le patriarcat: une oppression spécifique [1988] . In: DELPHY, Christine.
L’ennemi principal 2 Penser le genre. Paris: Syllepse, 2009, p. 55.
229

radical” teria permitido “afirmar, face ao imperialismo do marxismo e do esquerdismo, que


nossa luta não era secundária”.30

Danièle Kergoat, quarenta anos após a publicação do texto, ressalta as rupturas


que este provocou. Ao teorizar a existência de uma relação de produção irredutível ao
capitalismo, Delphy teria aberto novos horizontes para uma “critica radical do trabalho”:
rompia-se, assim, com a equação que associava “‘capitalismo’, ‘exploração’ e ‘conflitos do
trabalho’ e que , desta forma operava uma série de reduções como “trabalho = trabalho
assalariado, exploração = exploração assalariada; emancipação = superação da contradição
capital/trabalho”.31

Essas referências ao importante papel histórico desempenhado por esse texto não
devem, no entanto, ser lidas como uma análise de sua recepção. Com efeito, o texto foi alvo
de diversas críticas, oriundas tanto de setores mais próximos da esquerda, dentro e fora do
feminismo, como de outros, teórica e politicamente mais distantes do campo da esquerda.
Para Léger [1976], o artigo teria “provocado e continua a provocar muita polêmica”.32 Como
afirma Françoise Picq, “ele parecia apolítico para aquelas que, tornando-se feminista, não
queriam renegar a consciência de classe adquirida na militância; para aquelas que rompiam
com o esquerdismo ela podia parecer, ao contrário, como uma adesão desviada dos princípios
os quais cabia superar”.33 Assim, enquanto “Anne (la grande)”, em 1970, em um boletim
artesanal, distingue sua abordagem daquela da autora do “Inimigo principal” justamente por
considerar que o marxismo não pode servir de “referência teórica para a liberação”34, outras,
como Barrett e McIntosh35 pensavam que, apesar de partir de uma perspectiva marxista, esse
texto promove uma apropriação problemática do quadro conceitual marxista e que sua análise
não seria suficientemente marxista ou materialista. Essas críticas serão abordadas mais
detalhadamente mais adiante.

30
PICQ, Françoise. Féminisme, matérialisme, radicalisme... Op. cit., p. 53.
31
GALERAND, Elsa ; Kergoat, Danièle. Les apports de la sociologie du genre à la critique du travail. La
nouvelle revue du travail, n.4, 2014, p.5.
32
DELPHY Christine, LÉGER Danièle. Débat: capitalism, patriarcat et lute des femmes. Revue Premier Mai,
n.2, 1976, p.82-83.
33
PICQ Françoise. Féminisme, matérialisme, radicalisme. La revue d’en face, n.13, hiver 1983, p. 42.
34
Anne (“la grande “) A propos de la discussion sur le texte de Christine L’ennemi principal. Bulletin du
Mouvement de Libération des femmes, n.2 (10 décembre 1970).
35
BARRETT, Michèle ; McIntosh, Mary. Christine Delphy: vers un féminisme matérialiste ? [1979]. Nouvelles
Questions Féministes, n. 4, 1982.
230

Outras análises materialistas

A construção de uma análise materialista, que Delphy compreende como uma


“necessidade objetiva do movimento” 36, teria surgido simultaneamente em diferentes locais e
em diferentes países, embora não de maneira articulada e deliberada. Ela se refere a
feministas tais como a canadense Margaret Benston, a argentina Isabelle Larguia e Susie
Olah. Delphy cita também um artigo publicado no jornal L’idiot International, em maio 1970,
e “um manifesto inédito do grupo F.M.A”.37 Ao centrar a “análise da opressão das mulheres
na sua participação específica na produção (e não somente na reprodução)” e considerar o
trabalho doméstico e a criação dos filhos como “tarefas produtivas”, essas propostas
constituiriam um “embrião de uma análise feminista radical fundada em princípios
marxistas”.38.

“The Political Economy of Women Liberation”, de Margaret Benston, foi


publicado em setembro de 1969, na revista marxista estadunidense Monthly Review. Esse
texto, que foi rapidamente traduzido para várias línguas, embora seja praticamente
desconhecido hoje, teve um papel importante nas discussões feministas de esquerda no final
dos anos 1960 e na década seguinte. Para Colette Guillaumin, com um olhar retrospectivo nos
anos 1990, tal texto seria “um dos artigos fundadores da corrente de análise materialista das
estruturas sócio-sexuais” .39 Na época da sua aparição no contexto francês, na introdução do
número da revista em que foi publicado, o texto é apresentado como “uma análise marxista
em termos de exploração econômica”, que seria uma perspectiva “cada vez mais frequente
entre as feministas”.40

De acordo com o referido texto de Benston, muitas das análises existentes,


embora reconheçam o “status inferior” das mulheres, referem-se frequentemente à “psicologia
das relações entre as pessoas, ao papel do casamento enquanto instituição social”.41 Mas, para
a autora, corresponderiam a análises de “sintomas”, enquanto o que deveria ser analisado, de
maneira central, seriam as “condições materiais que, nas sociedades capitalistas (e outras),

36
DUPONT Christine. L’ennemi principal. Op. cit., p. 158.
37
A referência não aparece na versão publicada em livro. DELPHY, Christine. L’ennemi principal. In :
DELPHY, Christine. L’ennemi principal 1. Op. cit.
38
DUPONT Christine. L’ennemi principal. Partisans n. 54-55, juillet-octobre 1970, p. 158
39
GUILLAUMIN Colette, Margaret Benston’s ‘Political Economy of Women’s Liberation’. International
Impact. Canadian Woman Studies, vol.13, n.2
40
QUELQUES MILITANTS. Présentations. Partisans (Libération des femmes. Annee zero), n.54-55, julho-
outubro de 1970, p.8.
41
BENSTON, Margaret. Pour une économie politique de la libération des femmes. Partisans n. 54-55, juillet-
octobre 1970, p.23.
231

definem o grupo mulheres”.42 Nesse sentido, com o intuito de produzir uma conceituação
adequada dessa categoria social, a autora argumenta que seria necessário partir do trabalho
que lhes é atribuído, isto é, do trabalho doméstico.

Segundo Benston, as mulheres, enquanto grupo ou categoria social, teriam uma


relação bastante precisa com os meios de produção.43 O trabalho doméstico constituiria uma
massa de “produção socialmente necessária”, mas, numa sociedade baseada na produção de
mercadoria, não é considerado um trabalho real, pois se dá fora do circuito de troca e do
mercado e, consequentemente, é categorizado como “pré-capitalista”. A sua situação se
aproximaria, assim, de outros setores que estiveram ou estão fora da produção de
mercadorias, como servos e camponeses.

A relação específica do grupo mulheres com a produção seria a produção de


valores de uso simples (não de mercadorias) nas atividades ligadas à casa e a família.44 Este
trabalho estrutura um modo específico de exploração, o qual constitui o “fundamento
material” do “status da mulher”: “nós não somos somente objeto de uma discriminação, nós
somos exploradas”.45 Nesse sentido, as raízes desse “status inferior” da mulher, afirma
Benston são “econômicas”.46 A ausência de análise dessa dimensão é o que fragiliza, segundo
a autora, a análise de Juliet Mitchell (a autora se refere ao “Women: the longest revolution”47)
que passaria de forma excessivamente rápida dos “ fatores econômicos de base ” para os
“ fatores da superestrutura ”.48

A autora destaca duas condições essenciais para a libertação das mulheres: acesso
de mulheres e homens aos trabalhos fora de casa e a conversão do trabalho doméstico em
parte constitutiva da “economia pública”. Essas seriam as condições estruturais necessárias à
superação da discriminação das mulheres, suprimindo sua “base material”. Mas, o processo de
superação definitiva da discriminação seria mais longo, uma vez que a ideia da inferioridade
das mulheres está “profundamente enraizada na sociedade”.49

Essas mudanças na produção são teoricamente possíveis no sistema capitalista,


mas encontrariam algumas barreiras intransponíveis. É a existência dessas barreiras que
converteria a revolução em uma necessidade para extirpar a opressão das mulheres.

42
Ibidem, p.24.
43
Ibidem, p. 23.
44
Ibidem, p. 25.
45
Ibidem, p. 30.
46
Ibidem, p. 23.
47
MITCHELL, Juliet. Women: the longest revolution. New Left Review, n.40, 1966.
48
BENSTON, Margaret. Pour une économie politique... Op. cit., p. 26.
49
Ibidem, p. 29.
232

Isabel Larguia, uma feminista argentina, outra autora citada por Delphy, num
texto traduzido e igualmente publicado em Partisans, “Le travail invisible”, acusa a falta de
uma “teoria científica adequada à evolução atual das mulheres”50, o que teria deixado um
vazio teórico que foi ocupado por elucubrações “psicobiológicas” e liberais. Para a autora, era
fundamental deslocar a primazia explicativa dos fatores biológicos ou psicológicos e
estabelecer uma plataforma teórica orientada para a análise da “estrutura da sociedade de
classes” e, fundamentalmente, da “divisão do trabalho”.

Larguia aponta para um processo de invisibilização do trabalho das mulheres no


seio das famílias, em decorrência da centralidade atribuída à esfera mercantil. Como não
assume a forma de mercadoria, “o trabalho das mulheres parecia se evaporar magicamente, na
medida em que não resulta em um produto economicamente visível como aquele do homem
[no mercado]”.51 Não constituindo valor mercantil “jamais foi considerado como valor”.

Na França, seguindo ainda a pista lançada por Delphy, a tentativa de promover


uma “análise materialista”, sem necessariamente utilizar esse nome, era já embrionária no
grupo FMA, abordado no capítulo 2. Os arquivos desse grupo permitem depreender
referências explícitas ao marxismo, apropriado no âmbito de uma intencionalidade
antinaturalista, nas suas formulações. Encontramos já nesse manifesto a ideia de que “a
situação específica dos sexos é definida pelas relações de produção da sociedade e não por
dados ‘naturais’, tais como o papel particular desempenhado pelas mulheres no parto”52,
“dados” que seriam manejados na atribuição “naturalizadora” de certas funções sociais às
mulheres.

Monique Wittig, Gilles Wittig, Maria Rothenburg e Margaret Stephenson


publicam, em maio de 1970, no jornal L’idiot international, o texto “Combat pour la
libération de la femme ”.53 Segundo Monique Wittig, foi ela mesma que preparou a base deste
texto: “Eu reli fervorosamente ‘A origem da família’, reli Marx o quanto pude e fabrico a
minha pequena teoria feminista e marxista”. 54 O texto usa diferentes analogias para designar
as mulheres: “povo colonizado dentro do povo”, “servos da história” ou “classe mais antiga

50
LARGUIA, Isabel. Contre le travailinvisible. Partisans (Libération des femmes. Annee zero), n.54-55, julho-
outubro de 1970, p.206.
51
Ibidem, p. 210.
52
“Manifeste FMA”, sem data (provavelmente entre 1969 e início de 1970). Fonds Annne Zelensky. Biblithèque
Marguerite Durand.
53
ROTHENBURG Marcia, STEPHENSON Margaret, WITTIG Gille, WITTIG Monique, “Combat pour la
libération de la femme ”, L’idiot international, n. 6, mai 1970. Este texto foi republicado numa antologia de
textos do MLF: COLLECTIF. MLF. Textes premiers. Paris: Stock, 2009.
54
WITTIG, Monique. Monique Wittig raconte... Prochoix n.46, 2008, p. 67.
233

oprimida” e propõe analisar “nossas relações com os meios de produção e o sistema que nos
controla ”.55 A função econômica da “servidão” das mulheres no seio da família é ressaltada.
Essa função seria “ cuidadosamente dissimulada ” das mulheres e é vista como algo que faria
a força dessas últimas e como um elemento que seria uma ameaça à “ordem estabelecida”.56

Podemos encontrar outros exemplos de tentativas nesse mesmo sentido.


Emmanuelle de Lesseps e Claude Hennequin, num texto de 1972, denunciam uma “outra
exploração econômica, o trabalho doméstico gratuito, verdadeira sobrevivência da
servidão”57, afirmam que “é essa especialização (dita ‘natural’) das mulheres no trabalho
doméstico e na criação das crianças que está na base de toda a nossa opressão específica” e,
considerando que ela condiciona, inclusive, “nosso status” no campo do trabalho assalariado,
sustentam que a luta contra o patriarcado é “ nosso fronte principal”.58

Pode-se dizer que o materialismo representa, em um primeiro momento,


sobretudo, um recurso para a construção de uma análise não-naturalista da opressão, uma via
que possibilitava afirmar que não é a biologia, nem as funções reprodutivas que constituem a
base da opressão das mulheres, mas o trabalho doméstico. Este trabalho alimenta um
antagonismo que não é redutível ao antagonismo capital-trabalho.

A afirmação de que existem relações sociais que não são redutíveis às relações de
classe marca uma “virada” nas reflexões feministas. Trata-se de um elemento fundamental
que distingue essas reflexões das análises precedentes, modificando completamente a forma
de apreender o problema. Antes de tudo, permite sustentar a existência de uma “opressão” ou
“exploração” específica das mulheres, especificidade que começa a permear até mesmo as
análises que ainda localizam no capital a causa última dessa “opressão”. É somente a partir do
momento no qual a opressão específica das mulheres é separada, no plano da análise, das
relações de classe, que toda tentativa de articular relações sociais torna-se possível.

Do mesmo modo que descartavam a “biologização” dos fundamentos da opressão,


essas análises se opunham à ideia, bastante difundida, segundo a qual a opressão feminina
seria um problema de “mentalidades”. Colette Guillumin, numa entrevista informal à revista
Parti pris, critica essa visão:
Não se é somente ‘perverso’ com as mulheres, tira-se vantagens
consideráveis delas. Isso não é somente coisa da nossa cabeça, são relações
reais, concretas. Eu fico embasbacada que possamos falar de mentalidades

55
ROTHENBURG Marcia, et al. Combat pour la libération de la femme. Op.cit., p.35.
56
Ibidem, p. 32.
57
LESSEPS Emmanuelle de, Hennequin Claude. Trois ans de MLF. Actuel n. 25 (novembre 1972), p.6.
58
Ibidem.
234

numa situação onde isso salta aos olhos e na qual são tiradas vantagens
consideráveis das mulheres.59

Podemos encontrar diversas expressões dessa concepção. Uma de suas fórmulas


mais frequentes é aquela que sugere que as mulheres seriam oprimidas, mas não exploradas
(caso não façam parte da classe trabalhadora). Essa concepção, segundo Delphy, constituiu a
doxa de uma época.60

Uma resenha sobre o número de Partisans (Libération des femmes année zero) foi
publicada na revista marxista L’homme et la société61 e nos fornece alguns elementos para
compreender as interlocutoras.es dessas teorizações. Este número seria composto por dois
tipos de análise: aquele cuja ênfase recaía sobre a “situação econômica da mulher” e aquele de
artigos que abordavam a “opressão sexual” como algo a que a mulher estaria submetida por
conta do “chauvinismo masculino”. Se as análises do primeiro tipo são consideradas, em sua
maioria, como “notáveis”, aquelas do segundo tipo são criticadas como abordagens que visam
a relação homem-mulher ”destacada de seu contexto social”62, de modo que “não se percebe
mais sobre o que [a opressão] repousa”.63

Seria justamente para mostrar sobre o que essa opressão repousa que se
desenvolveu essa perspectiva. Ela deve, portanto, ser encarada, em certo sentido, como uma
resposta a um conjunto de críticas provenientes da esquerda. Liliane Kandel ressalta que,
naquela época, era fundamental provar, faceando as provocações oriundas da extrema
esquerda, que “as mulheres não eram somente acossadas e maltratadas, mas que elas eram
64
trabalhadoras, tanto quanto os proletários”. Nesse sentido, não deve surpreender que,
inicialmente, a resposta a essa doxa fosse, em geral, formulada nos termos da própria
esquerda. Assim, as primeiras tentativas de explicação a partir de uma base material da
opressão das mulheres foram vazadas frequentemente em termos econômicos. Alguns títulos
são bastante explícitos em relação à importância dada ao fator econômico: “L’interdiction de
l’avortement, exploitation économique” (A proibição do aborto, exploração econômica),
assinado por “algumas militantes” (que Delphy identifica como C. Hennequin, E. de Lesseps
e ela própria), publicado em 1970, ou ainda a dissertação de mestrado (maîtrise) Le divorce

59
GUILLAUMIN Colette. Sexes: nous avons dit classes...(entrevista). Partis pris n.8, mars 1978, p.10.
60
DELPHY, Christine. Avant-Propos. In: DELPHY, Christine. L’ennemi principal 1. Op. cit., p. 8.
61
ROLLE, Christiane; ZAGNOLI, Nello. “Revue des revues”. L’homme et la société, vol. 19, n.1, 1971.
62
Ibidem, p. 218.
63
Ibidem, p. 220.
64
DELPHY, Christine. Le patriarcat: une oppression spécifique. (Entrevista feita por Louis Astre com a
participação de Liliane Kandel). [1988]. In: DELPHY, Christine. L’ennemi principal 2. Op. cit, p.58.
235

comme révélateur et garant d’une fonction économique de la famille (1973), de Emmanuelle


de Lesseps.

Delphy afirma, numa entrevista em 2004, que estaria, na época, “sob influência de
uma versão mais economicista do paradigma marxista”.65 Tratar-se-ia, de certo modo, de uma
resposta a um marxismo economicista, orbitando, até certo ponto, seus próprios termos. Pode-
se dizer que o fundamento econômico da opressão feminina, para recuperar as palavras de
Delphy a propósito de outra teoria, tinha uma “utilidade retórica, uma força de convicção em
relação a um público preciso, em um contexto histórico e social preciso”.66

Na França, essas reflexões foram propostas pelo “feminismo revolucionário”.


Essa era a denominação sob a qual se identificavam Christine Delphy, Monique Wittig,
Emmanuelle de Lesseps, Claude Henequin, para citar aqui somente aquelas que fariam parte
da revista Questions féministes. Como procuramos mostrar, essa “corrente” tinha como
elemento unificador a ideia de que as mulheres formariam um “nós”. Mas essa ideia de um
“nós” não implicava necessariamente uma adesão à ideia de classe tal como exposta acima,
como elas próprias afirmam no jornal do movimento Le Torchon brûle: “Entre nós, algumas
pensavam que isso fazia das mulheres uma classe, outras, uma casta; e muitas se contentavam
em pensar simplesmente que todas as mulheres têm alguma coisa em comum e que era desse
comum que era necessário partir”.67 Segundo Christine Delphy, a maioria dessas feministas
considerava que as mulheres deveriam organizar-se entre elas e as concebiam em termos de
classe, num sentido amplo, mas não no sentido dada por ela mesma, isto é, como categoria
social “ fundada em uma exploração econômica”.68

Cabe ressaltar que outras tentativas de encontrar uma base material da opressão
feminina se desenvolveram em setores ligados à tendência “luta de classes”. Mas essa base
era, muitas vezes, identificada ao capitalismo. O editorial do primeiro número do jornal
Pétroleuse (1974) ilustra bem essa posição:
Nós nos separamos de outras correntes do MLF por nossa análise da
opressão das mulheres: esta, para nós, não tem raízes na ‘perversidade’ dos

65
GIRAUD, Véronique ; JAMI, Irène, SINTOMER, Yves. Fonder en théorie qu'il n'y a pas de hiérarchie des
dominations et des luttes. [Entrevista com Christine Delphy], Mouvements, n (no35), 2004, p. 123.
66
Uso aqui as palavras de Delphy em relação a teoria da mais-valia. DELPHY, Christine. Pour une théorie
générale de l’exploitation. Des différentes formes d’extorsion de travail aujourd’hui. Paris: Syllepse, 2015,
p.86.
67
Féministes Révolutionaires. Torchon brûle n.5, s.d., p.8 [data aproximada: primeiros meses de 1973].
68
GIRAUD, Véronique ; JAMI, Irène, SINTOMER, Yves. Fonder en théorie...[Entrevista com Christine
Delphy] Op. cit., p. 121.
236

machos em geral mas no sistema capitalista que cria relações de opressão e


utiliza os homens como instrumento dessa opressão.69

Aqui se recusa também a ideia de uma opressão que estaria no plano das
“mentalidades”, mas a base não é um outro modo de produção ou um sistema distinto do
capitalismo. Trata-se de um dos pontos de divergência entre o feminismo revolucionário e o
feminismo luta de classes. Se a crítica ao naturalismo e a ideia que a opressão “faz sistema”
eram objeto de consenso, o mesmo não pode ser dito em relação à origem da opressão e a
identificação dos beneficiários principais dessa opressão (para as primeiras seriam os homens
enquanto classe enquanto para as segundas seria o sistema capitalista).

Para Delphy, a extrema esquerda, sob o impulso do movimento de mulheres,


diversamente da esquerda “reformista”70, teria levado em consideração uma “exploração
específica” das mulheres, mas, essa exploração era imputada ao capital.71 Apesar dos ajustes,
não haveria, portanto, uma ruptura em relação às teses que diluíam a opressão feminina nas
relações de classe. Há um reconhecimento de uma especificidade dessa opressão,
compreendida como um contexto de relações que não pode ser explicada somente a partir das
relações de classe mas, como os privilégios desse estado de coisas é algo que beneficia
somente o capital seria praticamente o mesmo tipo de explicação para a autora.

Essa questão dos beneficiários da opressão feminina também foi alvo de


polêmicas. Reconhecer que não somente o capital se beneficiava dessa situação, mas os
homens, mesmo os proletários, colocava em risco a unidade da classe operária e fornecia
argumentos para uma união das mulheres, independentemente das classes.

Salário para o trabalho doméstico

Nesse mesmo período, começam a se esboçar algumas teorizações que


desembocaram na reivindicação de salário para o trabalho doméstico. Um texto fundador foi
As mulheres e a subversão social72, de Dalla Costa, publicado originalmente em italiano, em

69
PETROLEUSES, sem título, Pétroleuses, n° 0, s.d., p. 2.
70
Delphy se referia fundamentalmente ao PCF como esquerda reformista e a diferentes setores trotskistas,
maoístas como extrema esquerda.
71
DELPHY, Christine ; LÉGER Danièle. Débat: capitalism, patriarcat et lute des femmes. Revue Premier Mai,
n.2, 1976, p. 37.
72
DALLA COSTA, Mariarosa; JAMES, Selma. Le pouvoir des femmes et la subversion sociale. Genève:
Librairie Adversaire, 1973.
237

1971. Este texto se insere claramente num ideário marxista e entretém um diálogo constante
com a esquerda. A autora, que recusa a separação entre “luta de classe” e “luta feminista”,
tenta propor novas alternativas ao nascente movimento.

Dalla Costa parte do princípio de que todas as mulheres são “trabalhadoras


domésticas” e é a partir dessa identificação que a luta pela libertação deve ser organizada.
Nessa teorização, a casa é um elemento fundamental e a mulher, a “figura central da
subversão social”.73 Para a autora, o trabalho doméstico não produziria somente valor de uso,
mas seria um trabalho produtivo “no sentido marxista do termo, isto é, trabalho que produz
mais-valia”.74 A diferença em relação aos outros trabalhos seria qualitativa, na medida em que
o trabalho doméstico produziria uma “estranha” mercadoria, o operário.
É necessário que um ventre o carregue nove meses, é necessário alimentá-lo,
vesti-lo, educá-lo; depois, quando ele trabalha, é necessário fazer-lhe a cama,
sua faxina, preparar sua marmita e a comida deve estar rapidamente pronta
quando ele volta para casa, mesmo quando é 8 da manhã quando ele retorna
do turno da noite. É assim que a força de trabalho que se consome cada dia
nas fábricas e nos escritórios é produzida e reproduzida. Descrever essa
produção e reprodução, é descrever o trabalho da mulher.75

A família, no sistema capitalista, é concebida não somente como um centro de


consumo e um local de reserva de força de trabalho, mas, sobretudo, como um “centro de
produção”.76 A ideia de que a família não produziria para o capital – defendida por diversos
marxistas – seria, para autora, uma forma de descartar o “poder social potencial das
mulheres”77, o qual se baseia na possibilidade de “recusar trabalhar”, “recusar produzir”, no
contexto de uma produção “vital para o capitalismo”.78 Considerá-las como meras produtoras
de valor de uso significaria, para a autora, conceber as donas-de-casa como exteriores à classe
operária. É interessante observar aqui como a ideia de reconhecimento do trabalho doméstico
vinculava-se à concepção de que o mesmo seria um trabalho produtivo e produtor de mais-
valia. A ideia da casa como uma fábrica ganha aqui os seus primeiros contornos.

Nesse quadro, o “papel” desempenhado pelas mulheres deveria ser compreendido


não como uma questão de “mentalidades”, mas em termos de exploração. Por essa razão, a
autora recusa o termo “opressão”. O fundamento da “questão feminina” não é o “chauvinismo
masculino”, uma injustiça ou tratamento diferenciado, mas uma exploração:

73
Ibidem, p.12.
74
Ibidem, nota p. 64.
75
Ibidem, p.11.
76
Idem, p.9.
77
Ibidem, p.9.
78
Ibidem, p.9.
238

Pensávamos que a mulher sofria somente por conta do chauvinismo


masculino, que ela era maltratada por conta da injustiça que o capitalismo
significa em geral e que tratava-se de uma questão de pessoas irracionais e
pouco razoáveis; os raros homens que nos perceberam nos convenceram que
tratava-se de ‘opressão’ e não de exploração. Mas a palavra ‘opressão’
escondia um outro aspectos, mais endêmico, da sociedade capitalista.79

Como solução, Dalla Costa recusa a ideia de inserção das mulheres no mercado
de trabalho: “Nenhuma de nós acredita que a emancipação, a libertação se efetua pelo
trabalho, em casa ou fora dela. A autonomia salarial significa somente que se é um ‘indivíduo
livre’ para o capital, e isso não é menos válido para as mulheres do que para os homens”80. As
mulheres não precisariam passar pelo assalariamento do sistema capitalista como etapa rumo
a uma “libertação” 81, o que equivaleria, segundo a autora, a trocar a escravidão da pia da
cozinha pela escravidão da linha de montagem.82

Esse texto serviu de base para a constituição de um movimento que ficou


conhecido como “salário para o trabalho doméstico”.83 Este movimento parte de uma noção
ampla do trabalho realizado pelas mulheres no seio da família: “fala-se aqui do trabalho
multiforme, invisível e não reconhecido, indispensável e produtor de riqueza, efetuado
majoritariamente por mulheres nas famílias ou no seio das comunidades”.84 O texto do
coletivo suíço Insoumise, que constituiu um dentre muitos que se estruturou a partir dessa
reivindicação, nos oferece um exemplo:
Eles dizem que é amor, nós dizemos que é do trabalho não pago.
Eles chamam de frigidez, nós chamamos de absenteísmo.
Cada aborto espontâneo é um acidente de trabalho.
A homossexualidade, como a heterossexualidade são condições de
trabalho..., mas a homossexualidade é o controle operário da procriação, não
o fim do trabalho.
Mais sorrisos? Não, mais dinheiro. Nada nos dará mais poder que a
destruição das virtudes consoladoras de um sorriso.
Neuróticas, suicidas, ‘dessexualização’ são doenças da dona de casa.85

79
Ibidem, p. 55.
80
Ibidem, p.68.
81
A autora faz um paralelo interessante entre a situação dos países do Terceiro Mundo e das mulheres do
Primeiro Mundo:“La planification capitaliste offre au Tiers-Monde de se ‘développer’: c’est-à-dire d’ajouter au
purgatoire présent les souffrances du purgatoire de la contre-révolution industrielle. C’est la même ‘aide’ qu’on a
offerte aux femmes de la métropole. (…) Nous devons refuser le développement qu’on nous propose ”. Ibidem,
p. 95.
82
Ibidem, p.68.
83
Para maiores informações sobre esse movimento, consultar: TOUPIN Louise, Le salaire au travail ménager.
Chronique d’une lutte féministe internationale (1972-1977), Montréal, Remue-ménage, 2014.
84
Ibidem, p.14.
85
COLLECTIF L’INSOUMISE. Le foyer de l’insurrection: textes sur le travail pour le travail ménager,
Genève, Collectif l’insoumise, 1977, p. 99.
239

O reconhecimento do trabalho doméstico como um trabalho e como objeto de


uma forma de exploração foi um elemento comum a múltiplas reflexões feministas da
segunda onda. A especificidade dessa corrente, como afirma Toupin, é a ideia de “fundar a
luta das mulheres na questão específica do trabalho doméstico e encampar a reivindicação de
sua remuneração”.86 Essa corrente teve grupos ativos na Itália, Inglaterra, Estados Unidos,
Canadá, Suíça e Alemanha e teve seu período áureo nos anos 1972-1977. Esses grupos
formaram uma rede internacional Collectif féministe international (CFI), para coordenar suas
lutas.

Essa reivindicação provocou vívidos debates no seio do movimento feminista.


Considerado como uma regressão, esse movimento foi considerado como estando na
contracorrente de reivindicações como socialização do trabalho doméstico, através de
lavanderias e lavanderias coletivas, creches, maior acesso às mulheres ao trabalho
remunerado, que constituíam pontos importantes para uma grande parte do movimento
feminista naquele contexto. Cabe ressaltar que, na França, esse debate teve pouco espaço.

O domestic labour debat

Outra linha de reflexão que emerge nesse contexto ficaria conhecida como
domestic labour debate. Esse debate recobre diferentes temas, tais como o caráter produtivo
ou não do trabalho doméstico, a produção de mais-valia, a existência de diversos modos de
produção etc. Kaluzynska listava, em 1980, mais de cinquenta artigos sobre essas questões
publicados nos EUA e Inglaterra, durante os anos 1970. É importante ressaltar que esse
debate se desenvolveu, sobretudo, na imprensa de esquerda, em periódicos como New Left
Review (que publicou diferentes artigos sobre a questão), Montly review, Capital and Class,
Bulletin of the Conference of Socialist Economists e teve início no final dos anos 1960,
concentrando-se particularmente nos dois países mencionados e durou de forma mais intensa
pouco mais de dez anos.

O trabalho doméstico era pouco tematizado nos trabalhos marxistas. É a partir dos
debates feministas que se desenvolvem nesse momento que este tipo de trabalho ganha um
estatuto teórico, particularmente no campo marxista. Nesse campo, a família era
frequentemente tomada somente na sua dimensão superestrutural, tendo perdido suas funções

86
Ibidem, p. 14.
240

econômicas com o desenvolvimento do capitalismo. Com a divisão em unidades domésticas e


industriais, a dona de casa perderia qualquer relação direta como capital.

Uma parte desse debate assumiu uma expressão altamente especializada,


orientando-se para a teoria do valor e para a questão da adequação do uso de categorias como
exploração, mais-valia, trabalho produtivo, dentre outros, para analisar o trabalho doméstico.
Na impossibilidade de revisitar esse debate com todos os seus detalhes, mencionaremos aqui
somente alguns exemplos de posições assumidas nessa discussão.

Se, para Dalla Costa, como vimos, o trabalho não produz somente valor de uso,
mas seria um trabalho produtivo “no sentido marxista do termo”, isto é, um “trabalho que
produz mais-valia”87, para muitas outras, o trabalho doméstico não produz nem mercadoria,
nem mais-valia (Harrison, 1973, Seccombe, 1975). Em outras abordagens, a questão se
desloca do produto para as relações de produção. Torna-se possível, então, pensar que, mesmo
que o trabalho doméstico não seja fonte de produção de valor, ele produz, não obstante, um
excedente específico desse tipo de trabalho, o qual constitui um modo de produção à parte. As
mulheres, enquanto trabalhadoras domésticas, sofrem uma exploração que difere daquela da
classe trabalhadora88. Em um sentido amplo, pode-se dizer que todas essas teorias foram
tentativas de encontrar uma explicação “materialista” para a opressão das mulheres.

Esses textos, apesar das diferentes orientações teóricas e políticas, têm, como
ponto em comum, a centralidade do trabalho doméstico nas suas explicações. Elas procuram
também mostrar que a opressão feminina tem uma base material e tentam produzir, como
afirma Molyneux, uma “teoria da economia política das mulheres”.89 Esse debate mais teórico
tinha consequências muito claras de ordem estratégica para o movimento. Se algumas análises
procuravam aproximar o trabalho doméstico do capital para “mostrar a base material,
incitando a uma unidade estratégica de luta para a libertação das mulheres e a luta por uma
revolução proletária”90outras afirmavam, ao contrário, a autonomia de dois sistemas,
patriarcado e capitalismo, uma autonomia que justificaria a “necessidade de um movimento
autônomo”.91 Na impossibilidade de tratar todo esse complexo debate em todas as suas
nuances, apresentaremos somente um dos textos como forma de ilustrar alguns dos pontos
presentes na discussão desencadeada.
87
DALLA COSTA, Mariarosa; JAMES, Selma. Le pouvoir des femmes et la subversion sociale . Op. cit., p.64.
88
Delphy, 1970 ; Harrison 1973 ; MOLYNEUX, Maxine. 'Más allá del debate sobre el trabajo doméstico [1979].
In: RODRIGUEZ, Dinah; COOPER, Jennifer (org.). Cidade do México: UNAM, 2005.
89
Ibidem, p. 14.
90
COULSON, Margaret; MAGAS, Branka; WAINWRIGHT, Hilary. La femme au foyer et son travail dans le
système capitaliste. Critique communiste, n° 4, 1975 / 1976, p. 59
91
DUPONT, Christine. L’ennemi principal. Partisans. Op. cit., p.158.
241

“The housewife and her labour under capitalism” de Wally Seccombe foi um dos
primeiros a serem publicados dentro desse debate em 1973 na revista New Left Review.
Segundo o autor, a dificuldade da análise do trabalho doméstico reside, em primeiro lugar, em
que o produto do trabalho da dona de casa se corporifica em outra pessoa. Em segundo lugar,
embora contribua para a criação de riqueza, não tem uma relação direta com o capital, não é
“explorada” em termos marxistas, pois não produz valor excedente. Por fim, a ausência de
pagamento (assalariamento) desfavorece sua apreensão em termos econômicos (sendo
apreendido como vocação, obrigação etc.).

Seccombe, para enfrentar essas dificuldades, se apoia na ideia de uma “aplicação


coerente” da teoria do valor trabalho à reprodução da força de trabalho: quer dizer, que todo
trabalho produz valor se produz qualquer parte da mercadoria que alcance no mercado
equivalência com outras mercadorias. O trabalho doméstico seria um elemento necessário à
reprodução da força de trabalho, dado que as mercadorias compradas pelo trabalhador com o
seu salário precisariam ser modificadas pelo trabalho doméstico para serem consumidas e
reproduzir a força de trabalho. Assim, Seccombe conclui que o valor criado pela dona de casa
se realiza como parte do valor que a força de trabalho alcança quando se vende como
mercadoria.

Já a questão do caráter produtivo desse trabalho, deveria ser encaminhada de outro


modo, segundo Seccombe. Se o trabalho produtivo (do ponto de vista do capital) é definido a
partir de sua relação direta com o capital e da produção de valor excedente, o trabalho
doméstico, não satisfazendo nenhum desses critérios, deveria ser considerado como
improdutivo. Essa afirmação não seria, para o autor, contraditória com a ideia de que esse
trabalho cria valor.

Esses argumentos seriam contestados ou desenvolvidos em diversos artigos


publicados notadamente na Inglaterra. Na França, o debate sobre a produção ou não de valor
não foi objeto de um debate mais aprofundado. Alguns desses textos foram debatidos no
grupo franco-britânico no qual estavam diversas daquelas que participaram também da revista
Questions féministes.
242

Encontros em torno de uma perspectiva comum

Nessa mesma época, outras autoras que serão posteriormente identificadas


como materialistas no contexto francês, como Nicole-Claude Mathieu e Colette Guillaumin,
desenvolvem suas teorizações em outros espaços e tendo por ponto de partida outras questões
e problemáticas. Como procuramos mostrar no último capítulo, Nicole-Claude Mathieu,
desde seus primeiros textos, pretende criticar o modo como as ciências sociais abordam a
categoria “sexo”. Ela critica o caráter “trivial e fetichista” do sexo que tem por base uma
pretensa “evidência biológica ”.92

O caráter de fetiche do sexo será igualmente evocado por Colette Guillaumin.


Para a autora, a “naturalidade” das classes e grupos explorados, tida como um elemento
evidente da percepção, esconde relações sociais concretas que produziram essa marca natural.
Nesse raciocínio, como vimos no capítulo anterior, a marca natural é tomada como a causa do
lugar ocupado por esses grupos nas relações sociais. No começo dos anos 1970, seu centro de
interesse era fundamentalmente a questão da raça embora ela indicasse semelhanças entre
uma “alterização” racial e sexual. É somente na metade da década de 1970 que a autora
começa a publicar trabalhos mais centrados na “natureza específica da opressão das
mulheres”.93

A partir de meados dos anos 1970, Mathieu, Guillaumin assim como as outras
citadas na primeira parte do trabalho – Delphy, Lesseps, Hennequin – se encontrariam em
alguns espaços de discussão que serviram de base para iniciar as discussões do projeto de
lançar a revista Questions féministes. Nesses debates, como procuramos mostrar no capítulo 4,
dois eixos de reflexão emergem com força: a crítica ao naturalismo e a proposta de articular
uma análise materialista da opressão. A revista agrupa feministas com trajetórias e
engajamentos distintos. As escolhas temáticas e conceituais assim como o peso dado a
algumas questões traduzem essas diferenças. Se algumas procuram saber de que forma o
biológico é político94, outras se focam na questão da materialidade da opressão.

O feminismo radical da revista se constitui num contexto de crescimento de


tendências essencializantes de uma forma geral, como a sociobiologia mas também no interior

92
MATHIEU, Nicole-Claude. Homme-culture et femme-nature ? L'Homme, 1973, tome 13, n°3, p. 101.
93
GUILLAUMIN, Colette, Pratique du pouvoir et idée de Nature. L'appropriation des femmes. Questions
féministes, n° 2, 1978, p. 7.
94
QUESTIONS FEMINISTES. Variations sur des thèmes communs. Questions Féministes, n. 1, nov. 1977, p.
16.
243

do movimento. Podemos dizer que neste momento preciso, o antinaturalismo é um elemento


central dessa reflexão que se desenvolve em torno desse núcleo de autoras. Mas, o
antinaturalismo é insuficiente para delimitar a perspectiva do grupo. Haviam igualmente
outros setores do movimento que se posicionavam, mesmo que de forma não muito
aprofundada, dentro dessa perspectiva. É a articulação com uma perspectiva materialista que
dá especificidade a essa reflexão. Como afirmam no editorial do primeiro número da revista, a
ruptura com uma ideologia naturalista, assim como uma análise das mulheres enquanto classe,
seria o pré-requisito da luta feminista. Contestar somente no plano ideológico as instituições
sexistas “sem fundamentar essa luta sobre uma análise materialista da opressão das mulheres
é insuficiente”. Deve-se “vincular as mentalidades, as instituições, as leis sexistas, às
estruturas sócio-economicas que as sustentam”.95

Em outros momentos da revista podemos encontrar crítica às análises


identificadas como “idealistas”. Mas, não é necessariamente no caráter econômico da
opressão que essa “materialidade” é buscada. No próprio editorial, podemos notar nuances em
relação a essa questão, dependendo de quem o escreveu.

Se, num primeiro momento, é em termos de exploração econômica que a


meterialidade da opressão é pensada, essa posição não necessariamente é adotada pelo
coletivo de Questions féministes. Delphy e Plaza colocam no centro da definição de classe
social a existência de uma “dinâmica opressiva”.96 Nicole-Claude Mathieu insiste na relação
da opressão material e histórica e no fato de que essa opressão é “ideologicamente
reconduzida pelo grupo dominante a uma assim-chamada determinação biológica da classe
oprimida”.97 Emmanuelle de Lesseps sublinha a “exploração econômica comum” do conjunto
das mulheres em relações de produção que não se confundem com as relações capitalistas,
assim como o patriarcado como “sistema de produção “no interior do qual as mulheres e
homens formam “dois grupos de interesses opostos”. 98

Grosso modo, pode-se dizer que nesse momento da reflexão feminista


materialista, a ideia de uma base material da opressão não é mais tomada num sentido
necessariamente econômico como nas reflexões apresentadas na primeira parte deste capítulo.
Os conceitos de classe e relações sociais são, nesse contexto, usados de forma maia ampla.

95
QUESTIONS FEMINISTES. Variations sur des thèmes communs. Questions Féministes, n. 1, nov. 1977, p.7.
96
Ibidem, p.6.
97
Ibidem, p. 16.
98
Ibidem, p. 7-8.
244

As relações sociais não são necessariamente apreendidas em termos de relações de produção e


a noção de classe não remete necessariamente a uma posição nas relações de produção.

São as ideias de conflitualidade, de hierarquia e de reciprocidade dialética assim


como a noção de processo que são tomados do marxismo. Delphy ressalta a importância de
uma análise em termos de “dominação de grupos sociais”99, de conflito, e de “sistemas
sociais”. Adotar uma “problemática de classes” implicaria, afirma a autora, que a ênfase seja
colocada na “relação que constitui mulheres e homens como dois grupos não somente
diferentes mas primeiramente e notadamente hierarquizados”100 . Guillaumin, por sua vez,
ressalta a importância da noção de processo na definição de materialismo:
Quer seja o materialismo mecanicista, ou ainda histórico, dialético, ou
qualquer outra forma que queiramos, a característica comum é a
preocupação com os processos, isto é, as articulações entre dois fatos, o
desenvolvimento, enfim, a relação entre os elementos.101

Nesse sentido, os grupos naturalizados são constituídos pelas relações sociais e


não existem fora dessas mesmas relações. Como afirma Wittig “a marca não preexiste à
opressão”102. Na definição de materialismo de Wittig, destaca-se a ideia de não partir da
“aparência” do problema, das formas mais visíveis em que, de fato, se inscrevem os
dispositivos da opressão, que enquadram as mulheres por meio de uma “mitologia”, tanto
quanto pelos efeitos “materiais” que ela produz. Essa “marca” da opressão (mito + seus
efeitos) não pode ser confundida com a causa da opressão, na medida em que é um de seus
efeitos. São, antes, os seus dispositivos, as formas de produção dessa “aparência” ou “marca”,
que devem ser identificados na análise:
O que nos mostra uma análise feminista materialista é que o que nós
tomamos por causa ou por origem da opressão não é senão a ‘marca’ que o
opressor impõe sobre os oprimidos: o ‘mito das mulheres’, naquilo que nos
concerne, mais seus efeitos e suas manifestações materiais nas consciências
103
e nos corpos apropriados das mulheres. A marca não preexiste à opressão.

No próximo item, abordaremos um conceito alternativo ao patriarcado, proposto


por Colette Guillaumin.

99
C. D., Pour un féminisme matérialiste. L’Arc, n° 61, 1975, p. 62.
100
DELPHY, Christine. Le patriarcat, le féminisme et leurs intellectuelles. Nouvelles Questions féministes, n° 2,
1981, p. 66.
101
GUILLAUMIN, Colette. Nature et histoire. A propos d’un ‘matérialisme’. In: POLIAKOV, Léon. Le
racisme, mythes et sciences. Bruxelles: Éditions Complexe, 1981, p.56.
102
WITTIG, Monique. On ne naît pas femme. In: WITTIG, Monique. La pensée straight. Paris: Editions
Amsterdam, 2007, p. 45
103
Ibidem, p. 45.
245

Sexagem

Se Delphy utiliza como “modelo” para pensar a “classe das mulheres” as relações
de produção capitalista, Guillaumin se remete a relações de produção pré-capitalistas. A
apropriação da força de trabalho das mulheres no quadro da família não é suficiente para
explicar a opressão das mulheres, para Guillaumin. A classe das mulheres “sofre não somente
o açambarcamento da sua força de trabalho, mas uma relação de apropriação física direta”,
isto é, é o corpo , “a unidade material produtora da força de trabalho que é tomada em mãos, e
não apenas a força de trabalho.104A autora propõe chamar esse sistema de “ sexagem ”.

O conceito de sexagem foi proposto, pela primeira vez, por Colette Guillaumin
em “Pratique du pouvoir et idée de nature”, publicado em 1978, na revista Questions
féministes. Para Guillaumin, a “natureza específica da opressão das mulheres” é a
apropriação. Mas, para a autora, não é somente a força de trabalho que é apropriada, como
propõem muitas feministas. Para além disso, a unidade material produtora da força de
trabalho é inteiramente “açambarcada”. A apropriação da força de trabalho das mulheres no
quadro do casamento não seria suficiente para explicar sua opressão, na medida em que as
mulheres estão submetidas também a “uma relação de apropriação física direta”, como na
escravidão ou na servidão. Ela denomina esse processo de “sexagem” (sexage) por analogia
com a servidão (servage) e a escravidão (esclavage):

Denominadas “escravidão” e “servidão” na economia fundiária, este tipo de


relação poderia ser designado “sexagem”6 no que diz respeito à economia
doméstica moderna, quando concerne às relações de classes de sexo. 105

Em português, optamos por traduzir por “sexagem”, tal como na tradução


recentemente publicada106, por questões de ordem mais estética que de conteúdo, dado que
não encontramos nenhum termo em português que pudesse deixar explícita, como em francês,
as relações em questão.

104
GUILLAUMIN, Colette. Pratique du pouvoir et idée de nature. [1978], Op. citl, p.19. [Versão brasileira :
FERREIRA, Verônica; ÁVILA, Maria Betânia; FALQUET, Jules; ABREU, Maira (org.) O Patriarcado
Desvendado: teorias de três feministas materialistas. Colette Guillaumin, Paola Tabet e Nicole-Claude Mathieu.
Recife: Edições SOS Corpo, 2016, p. 34.
105
Ibidem.
106
FERREIRA, Verônica; ÁVILA, Maria Betânia; FALQUET, Jules; ABREU, Maira (org.) O Patriarcado
Desvendado. Op. cit.
246

A apropriação física direta não seria, portanto, uma característica somente das
relações entre os sexos. Ela seria a base da escravidão e da servidão. Um longo processo
histórico foi necessário para que somente a força de trabalho fosse apropriada e não a própria
unidade material produtora dessa força de trabalho. A venda da força de trabalho é, assim,
uma forma particular do seu uso e emerge num momento histórico preciso. Atualmente, ao
menos nas sociedades ocidentais, a servidão e escravidão fazem parte do passado, mas, a
apropriação física continua sendo a base das relações entre os sexos:

A apropriação social, o fato de os indivíduos de uma classe serem


propriedades materiais, é uma forma específica das relações sociais. Ela não
se manifesta hoje e aqui senão entre as classes de sexo e se depara com a
incredulidade contumaz com que geralmente se encaram os fatos que são
demasiado “evidentes” para não serem invisíveis (como era o trabalho
doméstico antes do feminismo). Esse tipo de relação social torna-se crível
apenas quando o assunto é “antigamente” (a escravidão ou a servidão) ou
“alhures” (os ditos “primitivos” diversos)... 107

Haveria, contudo, uma dificuldade em assumir essa apropriação física direta, em


admitir que se é algo como um “ objeto material apropriado ”, uma “ coisa ”. Esse seria “o
grade fantasma” exorcizado de “nosso cinema inconsciente”.

Nas relações de sexagem as expressões particulares dessa relação de apropriação


seriam: a) a apropriação do tempo; b) a apropriação dos produtos do corpo; c) a obrigação
sexual; d) o encargo físico dos membros inválidos do grupo, assim como dos membros
válidos do sexo masculino.

O tempo seria explicitamente apropriado no contrato de casamento. Não há, neste


caso, nenhuma medida do tempo, nenhuma limitação ao seu uso, seja sob a forma horária
seja salarial. Não existe também uma expressão sob a forma dinheiro. Mas não seriam
somente as esposas que estariam submetidas a esse tipo de apropriação mas o conjunto dos
membros do grupo das mulheres dado que “mães, irmãs, avós, filhas, tias etc., que não
assinaram nenhum contrato individual com o esposo, o “chefe de família”, que contribuem
para o sustento e a conservação dos bens, vivos ou não, deste último”108. O tempo é
apropriado sem contrapartida de um contrato, como se a esposa pertencesse completamente ao
esposo.109

107
Ibidem, p. 38. [Versão brasileira Idem, p.53-54]
108
Ibidem, p. 20. [Versão brasileira, p. 35]
109
Ibidem.
247

Em relação à apropriação dos produtos do corpo, a prova atual é que no


casamento o número de filhos não estaria submetido a um contrato. A esposa deve ter a
quantidade de filhos que seu esposo desejar. A proibição do aborto e contracepção para a
maioria das mulheres no mundo seria uma consequência dessa relação: “O corpo individual
material das mulheres pertence, tanto no que ele fabrica (os filhos) quanto nas suas partes
destacáveis (os cabelos, o leite...), a outro, como era o caso na escravidão de plantation”.110

Guillaumin considera que existem duas formas de uso físico sexual, uma que
se dá num quadro de um contrato não monetário, o casamento, e outro, diretamente
remunerado, a prostituição. A oposição aparente é relativa à intervenção ou não de um
pagamento, isto é, a uma medida desse uso físico. A venda limitaria o uso físico a um uso
somente sexual. No casamento o uso físico é estendido a todas as formam possíveis desse uso
e um uso central seria a relação sexual, que constitui uma obrigação no contrato de
casamento.

O casamento seria a superfície institucional dessa relação de sexagem, mas não se


confunde com essa relação, que “existe antes e fora dele”.111 Entretanto, o casamento entra
em contradição come essa relação. Ao restringir o uso coletivo de uma mulher, ele privaria
outros membros de sua classe dessa utilização. Uma segunda contradição se dá entre a
apropriação das mulheres, seja coletiva ou privada, e sua reapropriação por elas mesmas, sua
existência objetiva de sujeito social.

Para Guillaumin, os meios de apropriação da classe das mulheres seriam: a) o


mercado de trabalho; b) o confinamento do espaço; c) a demonstração de força; d) a coação
sexual; e) o arsenal jurídico e o direito consuetudinário.

Resumindo os pontos citados, pode-se dizer que o mercado de trabalho, ao dar


uma remuneração às mulheres inferior a dos homens praticamente obriga as mulheres a
“encontrar um emprego de esposa”, isto é, se vender para sobreviver e garantir a
sobrevivência de seus filhos. O confinamento restringiria a vida das mulheres ao espaço
“privado” da casa. A demonstração de força seria uma forma que os homens detêm para
manter as mulheres no devido caminho. Ela estaria ligada ao confinamento do espaço e à
coação sexual. Esta última (que se expressa sob a forma de estupro, “cantada” etc.) seria uma
forma de coagir e provocar medo na classe das mulheres, ao mesmo tempo em que seria uma

110
Ibidem, p. 22 [Versão brasileira, p. 37].
111
Idem, p. 36 [Versão brasileira, p.52].
248

expressão do direito dos homens de propriedade sobre a classe das mulheres. Por fim, o
arsenal jurídico fixaria as modalidades da apropriação privada das mulheres.

O fato de ser materialmente apropriada teria um efeito ideológico. O “discurso


da natureza” seria a face ideológico-discursiva dessa apropriação. Para Guillaumin, “o fato de
ser materialmente tratada como coisa” tem um efeito de ressonância no “domínio mental”112,
um efeito ideológico-discursivo, de modo que as unidades materiais apropriadas aparecem
como “coisas” no pensamento. Dessa forma, é produzida uma inversão fetichista, que se
manifesta no fato de que as características físicas daqueles que são apropriados são vistas
como causas da dominação. Essa concepção apaga a relação de classe entre os sexos e
permite que a exploração e apropriação sejam apresentadas como naturais e irreversíveis e
isso tanto mais quanto “mais a dominação tende à apropriação total, sem limites”.113

Há, portanto, uma ruptura em relação às análises que se concentravam no trabalho


doméstico. A diferença em relação ao conceito de “patriarcado” é apresentada por Guillaumin
em uma resenha do livro Droits des femmes, pouvoir des hommes, de Odile Dhavernas:

Se o patriarcado é a origem da instituição “família”, que está no centro do


livro, a sexagem, por sua vez, é a apropriação das mulheres (e não somente
das esposas). O primeiro, o patriarcado – poder dos “pais” – sistema de
apropriação acumulativo de força de trabalho, de seus produtos, da
reprodução, pode integrar na sua dominação também homens (a classe dos
homens) – e ele não se priva deles nas economias agrícolas – que mulheres
(a classe das mulheres). Enquanto que a sexagem – poder dos “homens” – se
apropria somente das mulheres (e de todas as mulheres) numa relação na
qual a anatomia sexual cumpre um papel central como característica
discriminante de classe.114

Delphy afirmou, no início dos anos 1970, que o conceito de “classe das mulheres”
poderia incluir homens, dado que não é a biologia que definiria os membros da mesma. Outra
crítica endereçada ao conceito de patriarcado e de classe das mulheres da mesma autora, é que
estes se concentrariam excessivamente na família, como veremos no próximo item. A teoria
de Guillaumin permite superar os dois problemas indicados. Mas, cabe ressalvar, o papel da
“anatomia sexual” nas teorizações de Guillaumin, não é vista a partir de um prisma
biologizante. A autora procura mostrar como é em certas relações sociais que essas

112
Ibidem, p.49.
113
Ibidem, p. 81.
114
C.G., Odile DHAVERNAS, Droit des femmes, pouvoir des femmes, Paris, Ed. Du Seuil, 1978c, 398 p. (coll.
« Libre à elles »). [resenha], Questions Féministes, n° 4, 1978c, p. 102.
249

características anatômicas são eleitas como relevantes e como fator de hierarquização. Tal
como a raça, o sexo não pode ser compreendido fora dessas relações. Negar a existência de
uma essência racial ou sexual não implica, assim, pensar que a simples crítica à biologização
é suficiente para superar o racismo e a sexagem. Não se trata de algo que se localiza somente
no plano das ideias. O materialismo aparece aqui como uma forma de superar tanto o
naturalismo como uma concepção “idealista” da opressão, que desconsidera as relações
sociais concretas sobre as quais se constroem essas relações.

Cabe ainda ressaltar que Monique Wittig também seria crítica ao conceito mas por
outras razões. Num artigo de 1981ela afirma, ela o critica por seu caráter straight:
Ele supõe pais e, portanto, mães, um poder dos pais sobre as mães (...). Ele
escamoteia a heterossexualização, a heterossexualidade como sistema de
dominação. Faz que as mulheres sejam inicialmente e antes de qualquer
coisa (e somente) definidas como mães e forçadas a sê-lo. ‘Patriarcado’
supõe uma ordem natural.115

A proposição de Wittig se insere num debate mais amplo, marcada por uma crítica
da heterossexualidade como regime político e a emergência de uma mouvance “lésbica
radical” que serão abordadas no próximo capítulo.

Debates em torno de alguns conceitos

Marxismo e marxismos

Uma grande parte desses debates ganha corpo dentro de um campo amplo que
podemos chamar de forma vaga como “esquerda” e contrapõem diferentes visões sobre a
origem da opressão, as formas de transformação social, estratégias para levar a cabo essas
mudanças etc. Trata-se frequentemente de um embate no interior do marxismo, tomado aqui
num sentido amplo.

O que seria uma teoria feminista marxista ou não era uma questão que
provocava polêmicas nos anos 1970, e algumas disputas incidiam sobre o perímetro do que
deveria ser considerado como parte dessa perspectiva. São frequentemente polêmicas em
torno de uma ideia ortodoxa do marxismo. Muitas feministas foram, nesse contexto, acusadas

115
WITTIG, Monique. Les questions féministes ne sont pas des questions lesbiennes. Amazones d'hier,
lesbiennes d'aujourd'hui, vol. 2, n° 1, 1983, p.11.
250

de usar, de forma indevida, alguns conceitos marxistas, como exploração, mais-valia,


produção, modo de produção e classe.

As autoras que constituem o corpo deste trabalho promovem uma apropriação


bastante particular do marxismo. Recusando qualquer ideia de ortodoxia, o objetivo é “usar”
uma teoria e perspectiva política para pensar uma questão que não foi tematizada, ou o foi de
forma insatisfatória.

Delphy ressalta em diversos textos a importância do marxismo nas suas


teorizações e como ela se apropriou dele. Em 2005, ela afirma haver tomado do marxismo as
análises do capitalismo, bem como a ideia da “onipresença na história humana de grupos
cujos interesses são antagônicos em decorrência da exploração de uns pelos outros, e, de outro
lado, a hipótese de que os grupos não são constituídos a priori, mas, ao contrário,
precisamente pela dominação”.116

É justamente por essa forma de utilizar o marxismo que Delphy afirma ter lançado
a fórmula “materialismo”, que vincula essas teorizações ao marxismo mas que não adere a
todas as análises e usos do marxismo:
O emprego do termo “materialista” (e não “marxista”) tem por objetivo
indicar que, se mantenho os grandes princípios gerais da análise marxista,
recuso as aplicações particulares, incluindo aquelas de Marx.117

Outras autoras, como Monique Wittig, refere-se também a importância do


marxismo, “a ciência que nos formou politicamente”.118 Mas, nem todas fazem referência
explícita a esse quadro teórico.

Mulheres como classe

“O que são as mulheres?”, questionava Beauvoir na introdução do Segundo sexo.


Diferentes respostas foram dadas pelo movimento feminista desse período. Como vimos,
muitas analogias foram empregadas. As mulheres seriam uma classe, uma casta, uma raça
oprimida. Outras insistiriam na diferença sexual para explicar os traços comuns da
feminilidade.119

116
DELPHY, Christine. Féminisme et marxisme. In : DELPHY, Christine. Un universalisme si particulier.
Feminisme et exception française (1980-2010). Paris : Syllepse, 2010, p. 84.
117
DELPHY, Christine. Avant-propos. L’ennemi principal... Op. cit., p.25.
118
WITTIG, Monique. On ne naît pas femme [1980]. Op. cit., p.49.
119
ERGAS, Yasmine. Le sujet-femme. Le féminisme des années 1960-1980. In: DUBY, George; PERROT,
Michèlle. Histoire des femmes en Occident, vol. 5. Paris: Plon, 1990, p. 509.
251

A ideia de que as mulheres seriam uma classe foi utilizada por feministas
pertencentes a diferentes tradições teóricas e adquiriu múltiplas acepções. Para exemplificar
formas distintas de uso dessa categoria, começaremos por alguns textos escritos por
feministas radicais estadunidenses, publicados em Notes from second year120 em 1969,
particularmente os manifestos de grupos, alguns deles traduzidos para o francês e publicados
no número especial de Partisans (Libération des femmes. Année zero).

No “Redstockings Manifesto”, as mulheres são definidas como uma “classe


oprimida” e todas as outras formas de “exploração e ‘opressão” – racismo, capitalismo,
imperialismo – como “extensões da supremacia masculina”. The feminists, nome de um grupo
feminista radical nova-iorquino – cujo subtítulo do manifesto é “Uma organização política
para a aniquilação dos papéis sexuais” consideram a separação de classe entre homens e
mulheres como uma “divisão política”121. “Classe” é usada praticamente como sinônimo de
“grupo”:
The political class of women consists of all those individuals assigned to the
female role – all females. The male-female role system is political because
the roles are defined by one group (men); men are the powerful class and
women the powerless class; men exert their controle by way of institutions –
the tools of the male role – which, taken together, form the system which
ossifies the female role.122

O manifesto do grupo New York Radical Feminists considera igualmente a


opressão das mulheres como uma “opressão política” na qual as mulheres seriam
categorizadas como uma “classe inferior com base em seu sexo”.123 O objetivo do feminismo
radical seria a organização política para a destruição desse “sistema de classes sexuais”.

Firestone, que fez parte do grupo supracitado, procura definir de forma mais
precisa a ideia de “classes sexuais”. Para a autora, haveria uma “desigualdade fundamental”
fundada pela natureza, entre homens e mulheres.124 “A natureza” afirma “criou essa
desigualdade fundamental – a metade dos humanos deve portar e criar os filhos do conjunto
da espécie – que mais tarde foi reforçada e institucionalizada em benefício dos homens”.125

120
Notes from the Second Year: Radical Feminism. (cuja editora responsável era Shlamith Firestone. Anne
Koedt era editora associada), 1969.
121
THE FEMINISTS. The Feminists: A Political Organization to Annihilate Sex Roles .Notes from second year.
Op. cit., p.114.
122
Ibidem, p.117.
123
A. K. Politics of the Ego: A Manifesto For N.Y. Radical Feminists. Notes from second year. Op. cit., p.124.
124
FIRESTONE, Shulamith. La dialectique… Op. cit, p.261
125
Ibidem, p. 261.
252

Ela propõe usar o “método analítico” de Marx e Engels para analisar o sistema
de classes sexuais e elaborar uma “concepção materialista da história” que teria como base a
categoria “sexo”.126 A crítica de Firestone ao marxismo aponta para a insuficiência deste para
analisar a dinâmica desse sistema, dado que suas categorias se voltariam exclusivamente para
a apreensão da realidade econômica e não chegariam às “raízes psicossexuais da noção de
classe”.127 Mas, para Firestone, não se trata de rejeitar o marxismo mas de ampliá-lo. Para
abolir todos os sistemas de classe, a autora propõe uma “revolução sexual” que inclua uma
revolução socialista, mas vá além desta. Essa revolução teria como condição básica um
controle sobre o processo reprodutivo:
Assim como para abolir as classes econômicas a revolta da classe inferior (o
proletariado) é necessária, com a apropriação dos meios de produção durante
uma ditadura temporária, a supressão das classes sexuais necessita da revolta
da classe inferior (as mulheres) e sua apropriação da reprodução.128

Ainda traçando analogias com a revolução socialista, a autora afirma que tal como
a revolução social teria como objetivo, para além da supressão dos privilégios de classe, a
abolição da distinção de classe, uma revolução feminista visaria, para além da supressão dos
“privilégios masculinos”, a eliminação da discriminação entre os sexos, o que implica que “as
diferenças genitais entre os seres perderiam sua importância social”.129 É somente em certo
momento histórico, marcado por grande evolução técnica, que essa revolução, essa liberação
das mulheres da sua biologia130, seria possível.

Ti-Grace Atkinson também conceituava as mulheres em termos de classe, mas em


um sentido distinto.131 A base do feminismo seria a ideia que as mulheres constituem uma
“classe política e oprimida”.132 Essa classe é “caracterizada por uma função sexual”.133 A
criação dessa classe política tem como base as diferenças no processo reprodutivo biológico:
É porque a metade da raça humana carrega o fardo do processo de
reprodução, porque o homem, esse animal ‘racional’, teve a inteligência de
tirar vantagem, que as reprodutoras, essas “burros de carga”, foram
colocadas numa classe política. 134

126
Ibidem, p.18.
127
Ibidem, p.23.
128
Ibidem, p.22.
129
Ibidem, p.23.
130
Ibidem, p. 263.
131
Atkinson foi inicialmente membro do NOW com o qual rompe por divergências políticas. Posteriormente
faria parte do grupo The feminists. Alguns dos seus ensaios seriam reunidos na coletânea Amazon Odyssey em
1974 e traduzido no ano seguinte para o francês como Odyssée d’une amazone. Paris: des femmes, 1975.
132
Ibidem, p. 57.
133
Ibidem, p.69.
134
Ibidem, p.70
253

Sua proposta é a eliminação dos papéis sexuais femininos e masculinos e não a


eliminação de “indivíduos” que “por azar, possuem um pênis ou uma vagina, ou os dois, ou
nenhum”135. Mesmo que a biologia tenha uma importância nas suas análises, ela procura
claramente diferenciar “biologia” e “papéis”.

Como se pode perceber, essas definições de “classe” estão longe do sentido


atribuído pelas autoras que procuramos apresentar na primeira parte. Embora muitas das
autoras citadas aqui sejam consideradas como “feministas radicais”, esse termo adquire
sentidos diferentes nos EUA e na França. O lugar da biologia nesses debates é um ponto de
clivagem entre feministas radicais desses dois contextos. Mas elas tinham acordo em relação a
conceber a opressão feminina como específica e autônoma em relação a outras formas de
opressão/dominação. O conceito de “classe”, tal como usado nos textos estadunidenses, tem
uma relação mais ou menos direta com a biologia, o que não é o caso para Delphy e outras
francesas. Delphy chega até mesmo a afirmar que dentro da sua conceitualização de “classe”
(partindo da posição nas relações de produção), homens também poderiam ser inclusos. Em
1976 ela ressalta que não trabalha com a ideia de uma “classe biológica”:
Analiso a situação das mulheres como sendo uma situação comum, uma
situação de classe. Falo de mulheres casadas, isto é, de uma classe social e
não de uma classe biológica. Pode existir homens biológicos nessa classe: os
caçulas, os velhos, as crianças, etc, constituem uma classe porque estão nas
mesmas relações de produção, isto é, a mesma forma de ganhar a vida.136

Não é, portanto, a biologia que definiria as “classes sexuais”. Essa definição


remete ao quadro teórico marxista e às noções de contradição, antagonismo, como
procuramos mostrar. De modo geral, é fundamentalmente o caráter relacional da definição de
classes que é retido da definição marxista das classes. A relação entre homens e mulheres é
caracterizada por oposição e antagonismo, como nas relações de classe analisadas numa
perspectiva marxista. Não se trata somente de “grupos” com funções diferentes, trata-se de
uma relação antagônica, hierárquica e opressiva. Além disso, o conceito de classe ressalta que
os grupos não preexistem às relações sociais mas na verdade são produtos dessas relações.

O uso desse conceito nos termos acima causou um incômodo particular em setores
ligados à extrema esquerda. Em 1979, algumas militantes afirmavam que “a noção de classes

135
Ibidem, ,p.71.
136
DELPHY, Christine; LÉGER Danièle. Débat: capitalism, patriarcat et lute des femmes. Revue Premier Mai,
n.2, 1976, p.38-39.
254

de sexos é ‘tabu’ para várias militantes que passaram pela extrema- esquerda”.137 Para
Molyneux, os marxistas em geral se oporiam “à ideia de que as mulheres formam uma classe
distinta, em parte porque nenhuma posição de classe, ao mesmo tempo específica e comum a
todas as mulheres foi convincentemente estabelecida”.138

Françoise Picq afirma nunca ter conseguido usar o conceito de “classe de


mulheres”: “a terminologia marxista aplicada às mulheres sempre me chocou; trata-se, de
minha parte, de uma ‘recusa profunda de (me) considerar no mesmo pé que os outros
oprimidos’ [citando aqui um trecho da própria Delphy] ou, antes, de eu achar os esquemas
marxistas inadequados para a questão das mulheres? ”.139 Ainda para essa autora, as mulheres
seriam uma categoria definida não somente por uma relação social, mas também “por seu
pertencimento a um grupo biológico em virtude do qual lhe atribuem um destino”140. A crítica
à desconsideração da biologia não é isolada mas foi um questionamento frequente endereçado
às feministas radicais na França.

Para Alzon, o uso do conceito de classe para caracterizar a situação das mulheres,
escamotearia o fato do sexo ser determinado pela biologia:
Ao considerar as mulheres, todas as mulheres, como exploradas, pode-se
fazer uma classe misturando duas noções, sexo e classe que não tem nada a
ver uma com a outra, porque o sexo é determinado pela biologia, e a classe
pelo lugar que ocupa no processo de produção.141.

A ideia que as mulheres seriam “exploradas” também gerou polêmicas. Para


Vinteuil, que escreve na revista trotskista Critique communiste, postular a ideia de uma
“exploração” em relação ao trabalho doméstico gratuito seria um erro pois exploração
pressupõe extração de mais-valia direta, enquanto “a especificidade dos trabalhos domésticos
é precisamente sua exclusão do circuito da troca”:
As mulheres produzem valores de uso de consumo imediato; elas permitem,
efetivamente, realizar indiretamente economias de serviço, mas essas
economias são feitas em favor do sistema capitalista e não do marido (por
quem então seriam exploradas as mulheres solteiras? Não fariam essas
faxina nem cozinham?142

137
Parti pris. mars 79.
138
MOLYNEUX, Maxine. Más allá del debate sobre el trabajo doméstico [1979]. In: RODRIGUEZ, Dinah;
COOPER, Jennifer (org.). Cidade do México: UNAM, 2005, p.29.
139
PICQ, Françoise. Féminisme, matérialisme, radicalisme. La revue d’en face, n.13, hiver 1983, p. 45.
140
Idem.
141
ALZON, Claude. La femme potiche et la femme bonniche. Pouvoir bourgeois et pouvoir mâle. Paris:
Maspero, 1973, p. 19-20.
142
VINTEUIL Frédérique, Capitalisme et patriarcat, questions de méthode , Critique Communiste, n° 4,
décembre75-janvier.76, p.37.
255

Igualmente crítica ao conceito de exploração tal como proposto por algumas


feministas, Molyneux considera que esse descontextualizaria a proposta original marxista e
atribuieia ao termo uma “definição pouco precisa, como apropriação do trabalho”143. Mas, tal
apropriação não seria suficiente para estabelecer a existência de classes: “em todas as
sociedades sempre é desempenhado algum trabalho excedente para benefício de algumas
categorias de indivíduos sem que as relações deste modo constituídas sejam necessariamente
de exploração”.144

As análises da autora são consideradas também como reducionistas e


economicistas por analisarem o problema da opressão feminina em termos meramente
econômicos.145 Para Barret, ao se centrar na estrutura de “exploração” do casamento,
Delphy “evita as dimensões históricas, sociais e psicológicas da opressão das mulheres”.146
Uma das principais críticas de Barret e McIntosh é que uma análise que não leva em
consideração a ideologia pode ser qualificada de economicista e não de materialista147 e não
seria adequada:
A análise da opressão das mulheres proposta por Delphy, se ela chama
utilmente nossa atenção para os aspectos econômicos (apesar da nossa crítica
à sua formulação), não pode, por rejeitar as dimensões ideológicas da nossa
opressão, fornecer uma base adequada à elaboração de uma teoria da
libertação das mulheres.148

Delphy se defendeu desse tipo de crítica afirmando que não tinha por intenção
elaborar um teoria que explicasse toda a opressão. Ela afirma que quando propôs uma
“analise materialista da opressão econômica das mulheres” não pretendia “explicar todos os
aspectos da opressão” mas ressaltar que outros aspectos, como a sexualidade, teriam a sua
importância mas estavam “fora do campo” da sua análise.149 Nesse mesmo sentido, ela
considera que as alusões ao fato da sua teoria não explicar tudo feitas por Barrett e McIntosh
não se sustentam porque “ eu nunca tive a ambição de tudo explicar”.150

143
MOLYNEUX, Maxine. Más allá del debate sobre el trabajo doméstico [1979]. Op. cit., p. 2.
144
Idem.
145
Ibidem, p. 19
146
BARRETT, Michèle ; McIntosh, Mary. Christine Delphy: vers un féminisme matérialiste ? [1979].
Nouvelles Questions Féministes, n. 4, 1982, p. 46.
147
Ibidem, p. 46.
148
Ibidem, p. 48.
149
DELPHY, Christine. Un féminisme matérialiste est possible [1980]. In : DELPHY, Christine. L’ennemi
principal 2. Op. cit., p. 141.
150
Ibidem.
256

A definição de classe das mulheres se baseava na extração do trabalho gratuito no


seio do casamento. Não é a natureza das atividades exercidas pelas mulheres que as definem,
mas o caráter gratuito, afirma a autora:
Ainda que todo o trabalho doméstico fosse de fato destinado às tarefas do
lar, seria falso conceitualizá-lo a partir dessas tarefas e não a partir das
características econômicas do trabalho gratuito. Pois o que é opressivo são as
relações de produção nas quais as tarefas são efetuadas e não as tarefas
propriamente. No que concerne às mulheres, a distinção importante é entre
151
trabalho assalariado e trabalho gratuito.

Esse ponto será considerado como uma grande limitação da sua teoria. Tanto nas
análises como de Benston, Seccombe e Dalla Costa haveria, segundo Coulson etl.al.,
promoviam uma quase equação entre “mulheres” e “donas de casa”. Mesmo que Delphy
tenha incluído também as mulheres em situação de divórcio sua definição está vinculada ao
casamento.

Barrett e McIntosh questionam como se poderia construir uma teorização que só


leva em conta a situação das mulheres casadas, argumento igualmente utilizado por
Molyneux:

Nem todas as mulheres são submetidas nas relações conjugais, e nem todos
os contratos e práticas de casamento são idênticos. Ao contrário, eles podem
variar significativamente entre as diferentes sociedades e trazer obrigações
de trabalho muito diferentes, tanto para mulheres como para homens.152

Essa ênfase no trabalho doméstico e na família é também considerada como uma


forma de desconsideração da dimensão do trabalho feminino renumerado exercido fora de
casa. Artous, militante da LCR, considera que uma análise que parta do trabalho doméstico
para postular uma unidade de classe esquece que, na maioria dos países capitalistas
avançados, as mulheres exercem outros tipos de trabalho, fora de casa, e não se pode analisar
a situação das mulheres no capitalismo desconsiderando essa dimensão:
Limitar-se a analisar a situação das mulheres a partir do seu lugar no
trabalho doméstico e reprodução (da espécie), é justamente passar ao largo
do que faz realmente a especificidade do seu estatuto no capitalismo: a
contradição entre o seu enclausuramento na família e sua participação na
produção social.153

151
DELPHY, Christine. Permière journée. [debate com falas de diversas feministas]. ELLES VOIENT ROUGE.
Féminisme et marxisme. Jornées ‘elles voient rouge’, 29 et 30 novembre 1980. Paris : Éditions Tierce, p. 45.
152
MOLYNEUX, Maxine. 'Más allá del debate sobre el trabajo doméstico” [1979] Op. cit., p.18.
153
ARTOUS, Antoine. Système capitaliste et oppression des femmes. Critique Communiste. Paris, décembre
1977/janvier 1978, p.73.
257

Além disso, ao privilegiar o doméstico dissociando as mulheres do trabalho


produtivo, apaga-se completamente a diferença de classe. Para Devreux: “a mão será
estendida a todas nossas irmãs (incluindo burguesas, ver Giroud), para além das diferenças
sociais e políticas, num justo combate antisexista”.154 Como vimos no capítulo 2, essa questão
da possibilidade de se conceber um “nós” mulheres para além das diferenças de classe foi
objeto de polêmicas no movimento.

Delphy, em textos mais recentes, continuaria afirmando que concebe as mulheres


como uma classe. Entretanto, “classe” com seu acento sobre a exploração econômica não
seria suficiente para apreender “todas as dimensões da divisão de gênero”, afirma em 2014155.

Patriarcado e capitalismo

A noção de “patriarcado” recebeu múltiplas definições. Nos trabalhos de Christine


Delphy, esse conceito assume um sentido particular. Não se trata somente de ressaltar algo
que “faz sistema” e que não se confunde com o capitalismo, mas de um modo de produção
baseado na extração do trabalho gratuito das mulheres no seio da família. É essa extração que
forneceria um excedente, que não se confundiria com a mais-valia, e que seria a base para um
modo de produção distinto do modo de produção capitalista. Utilizando-se do edifício
conceitual marxista, Delphy cria uma teoria original, que ressalta não somente o aspecto
sistémico dessa forma de dominação, mas também lhe fornece uma base material clara. Esta
teorização fornecia ao movimento argumentos teoricamente fundamentados para a autonomia,
em um momento no qual a esquerda lhe cobrava uma justificativa teórica para essa separação.

No seu primeiro texto, Delphy considera o patriarcado como um modo de


produção distinto do modo de produção capitalista. Picq, embora reconheça o caráter material
da opressão das mulheres e considere que o patriarcado, longe de ser “simplesmente uma
ideologia resultante do capitalismo”, constitui um sistema, considera que caracterizá-lo como
modo de produção seria redutor, economicista e excessivo156. A ênfase no aspecto econômico
é considerada como insuficiente para analisar a opressão feminina.

154
DREVEUT, Danièle. Quel travail, quel salaire ? Revue d’en face n.2, nov. 1977, p.19.
155
DELPHY, Christine. Fonder en théorie qu'il n'y a pas de hiérarchie des dominations et des luttes. Entretien
avec Christine Delphy. (entrevista realizada por Giraud Véronique, Jami Irène, Sintomer
Yves), Mouvements, no35, 2004, p. 123.
156
PICQ, Françoise. Féminisme, matérialisme, radicalisme. La revue d’en face, n.13, hiver 1983, p. 45
258

Num sentido similar, Barrett considera que o reconhecimento de que o trabalho


doméstico se insere em relações de produção distintas do trabalho salariado não implica
pensar em termos de dois modos de produção distintos.157 Tanto Barrett como Molyneux
pensam que a categoria “modo de produção” é, no trabalho de Dephy, essencialmente uma
categoria “descritiva”, baseada na observação empírica das características do trabalho
doméstico, e não uma categoria teórica. Para Barret, seria uma construção ‘pseudo-
científica”.158

Diversas outras críticas foram endereçada ao uso dessa categoria. Uma delas
considerava que o termo seria inapropriado para caracterizar o que pretendia. Rubin, dentre
outras, considera que este remete a uma conceituação já existente, centrada na figura do
pai.159 Outra crítica é que seria um conceito universal e a-histórico, que, além disso,
obscureceria hierarquias de classe e de raça. Por fim, cabe mencionar também que algumas
dessas teorizações foram acusadas de centrar-se no caráter estruturador dessa forma de
dominação, impedindo a possibilidade de vislumbrar uma saída desse sistema. Andrée Michel
localiza uma série de autoras feministas como Benston, Rowbotham, Mitchell Gardine e
Delphy como utilizando um quadro conceitual que “tende a acentuar o aspecto estático da
estrutura e a negligenciar a mudança”.160 Daune-Richard e Devreux, consideram, num sentido
similar, que essa teoria deixa pouco espaço para a mudança pois estaríamos diante de um
“sistema aparentemente fechado no qual mal se vê como poderia emergir alguma outra coisa
que não fosse o idêntico: a reprodução é vista como interna ao sistema”. Essa forma de se
conceber a questão não prevê “nenhuma forma de contradição interna como externa ao
sistema”.161

Para Théry, um estado de dominação total seria incompatível com a eclosão do


próprio feminismo: “A revolta, o movimento feminista não surge do nada! Como explicar
isso, se se admite que a ‘sexagem’, relação de fato não contraditória, nos reduz ao estado de
objetos apropriados? ”.162 Se o feminismo existe, afirma a autora, é porque há contradições
nas relações patriarcais que criam condições para a construção de um movimento de

157
BARRETT, Michèle ; McIntosh, Mary. Christine Delphy: vers un féminisme matérialiste ? [1979], p. 40.
158
Ibidem, p. 42.
159
RUBIN, Gayle. O tráfico de mulheres: notas sobre a ‘economia política’ do sexo. Recife: SOS Corpo, 1993.
160
MICHEL, Andrée. Sociologia da família... Op. cit., p. 26.
161
BATTAGLIOLA, Françoise ; COMBES, Danièle ; DAUNE-RICHARD, Anne-Marie, ; DEVREUX Anne-
Marie ; FERRAND, Michèle, LANGEVIN Anette. A propos des rapports sociaux de sexe. Parcours
épistemologiques. Paris,:CSU, 1990, p. 148.
162
THÉRY, Irene. Sexage : une théorie au-dessus de tout soupçon. Revue d’en face. La Revue d’en face, no