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Introdução

1. Ana Maria Machado, Introdução (Literatura Infantil II. In: Cadernos da


PUC/RJ (série Letras -09/81) Rio de Janeiro, nº 34, 1980, p, 1 -3 )

A gramática ensina que os adjetivos podem ser explicativos ou restritivos. No primeiro


caso, referem-se a uma qualidade essencial do ser. No segundo, a uma qualidade acidental.
No entanto, se considerarmos o sintagma literatura infantil, essa classificação cai por terra.
Evidentemente, não se trata de uma qualidade essencial da literatura, há toda uma literatura
que não é infantil. E, apesar disso, paradoxalmente, não se pode dizer que nesse caso o
adjetivo tem papel restritivo. A rigor, ele não restringe o sentido do substantivo. Ao
contrário, o amplia. Literatura infantil não é aquela que se destina exclusivamente a ser lida
pelas crianças, mas sim aquela que pode ser lida também pelas crianças. Mas que, e isso nos
parece óbvio, antes de mais nada deve ser literatura (caso contrário, teríamos o estranho
fenômeno de uma adjetivação do nada) e, como tal, capaz de ser fruída e apreciada pelos
leitores em geral. E, logicamente, estudada nas universidades e examinada pela crítica lado
a lado com a literatura sem adjetivos ( no fundo, área mais restrita do que a literatura
infantil, porque só pode ser lida pelos adultos, enquanto a outra está ao alcance de todos).

No entanto, não é isso que acontece (...)

É que, com frequência, quando se focaliza literatura para crianças, é costume afastar a
luz do texto e fazê-la incidir sobre o receptor. Ninguém sonha em fazer isso quando focaliza
literatura para adultos. A não ser dentro de uma ótica que pretenda coerentemente ir a fundo
nessa abordagem, elaborando uma estética da percepção. No entanto, para crianças é a
regra. Confunde-se ética com estética, literatura com educação e acaba não se fazendo nem
uma coisa nem outra. E é mais que tempo de se desfazer de dentro esse equívoco. Essa
confusão não deve ser feita, mas não é porque seja moderno que as histórias não tenham
moral nem fiquem dando aulinhas. Não. Nada disso. Não é de hoje. Não é porque
antigamente era assim e hoje é assado. Nada disso. Simplesmente, rasteiramente (...) porque
literatura e educação são incompatíveis... Caminham em sentidos exatamente opostos. E
isso acontece, por mais que a tradição administrativa brasileira insista em juntar educação e
cultura. Não adianta. Nos moldes em que a educação é entendida entre nós, ela é o oposto
da cultura. E literatura é criação, cultura. Se não, vejamos: a educação é obrigação do
Estado ( e interesse dele), de cima para baixo, para transformar todos os cidadãos, parecidos
uns com os outros, o mais parecido possível, irradiando-se em núcleos centrais (ministérios,
secretarias, leis, portarias, currículos, diplomas, registros, toda uma parafernália de
centralização e uniformidade). Cultura, não. É uma expressão, ex-pressão, uma coisa que
faz força de dentro para fora, de baixo para cima, afirmando o que cada um tem de bem
diferente e específico (e que, por uma espécie de milagre humano, acaba encontrando e
ecoando o diferente no outro e estabelecendo uma ponte de afinidade), antiinstitucional. A
educação é uma força conservadora. A cultura, uma manifestação inconformista,
revolucionária. Não dá para querer transformar uma em outra, usar uma para chegar à outra
– a não ser que a Educação fosse alguma coisa bem diferente do que conhecemos em nossa
História. Mas isso, por enquanto, é utopia. E utopia fica no espaço literário. Com muita
frequência, justamente naquele lugar do espaço literário onde Gulliver andou viajando,
Robinson Crusoé andou naufragando e tantos outros heróis com estes, para adultos,
andaram se perdendo de seus caminhos e virando literatura infantil, ao lado de Peter Pan e
Alice, criados especialmente para serem heróis de crianças, mas capazes de revelar encantos
sempre renovados a qualquer adulto que saia com eles por aí. Como qualquer obra de
literatura digna desse nome.