Leis Penais
Especiais -
Edição 2016
REVISTA DOS TRIBUNAIS
O Código de Trânsito Nacional incrementa o rigor penal ao estabelecer uma série de crimes,
como o homicídio culposo e a lesão corporal culposa na direção de veículo automotor. A proposta
político criminal foi aumentar o rigor em busca da diminuição da violência no trânsito, muito
propalada na imprensa na época.
8.1.1 Crítica
Acreditamos que houve afronta à subsidiariedade. É que o incremento do rigor penal foi
acompanhado de maior rigor administrativo, com a criação do sistema de “pontos” na carteira de
habilitação, que provocam a suspensão do direito, bem como de multas caras e sofisticação dos
meios de fiscalização, com radares fotográficos e similares. Ora, se o princípio da subsidiariedade
determina que a intervenção penal só se legitima com o exaurimento dos demais meios de
controle social, parece-nos que, em primeiro, deveriam ser testadas as medidas administrativas, e
apenas com a constatação de sua insuficiência é que seriam abertas as portas da incriminação.
Não foi o que ocorreu. As medidas incriminadoras foram desde logo adotadas e, a nosso ver,
inúteis. Não nos parece razoável imaginar que o condutor do veículo, ao pensar em ultrapassar o
limite de velocidade, pense no crime de homicídio culposo… pensa, sim, na multa administrativa.
O mesmo ao condutor embriagado, e assim por diante. O cidadão comum não conhece nem se
preocupa com as sanções penais do Código de Trânsito, mas conhece com detalhes e se apavora
com os efeitos das infrações administrativas. Não seriam estas suficientes? Eis nossa crítica.
O art. 291 do CTB disciplina a competência do JECrim nas infrações de trânsito, e destaca o
tratamento excepcional para os crimes de lesão corporal culposa no trânsito se presentes as
circunstâncias arroladas em lei. A redação do dispositivo é:
“Art. 291. Aos crimes cometidos na direção de veículos automotores, previstos neste Código,
aplicam-se as normas gerais do Código Penal e do Código de Processo Penal, se este Capítulo não
dispuser de modo diverso, bem como a Lei 9.099, de 26 de setembro de 1995, no que couber.
§ 1.º Aplica-se aos crimes de trânsito de lesão corporal culposa o disposto nos arts. 74, 76 e 88 da
Lei 9.099, de 26 de setembro de 1995, exceto se o agente estiver:
III – transitando em velocidade superior à máxima permitida para a via em 50 km/h (cinquenta
quilômetros por hora).
§ 2.º Nas hipóteses previstas no § 1.º deste artigo, deverá ser instaurado inquérito policial para
a investigação da infração penal.”
O caput reafirma a aplicação subsidiária das normas do Código Penal, do Código de Processo
Penal e da Lei dos Juizados Especiais Criminais.
Quanto ao crime de lesão corporal culposa, o § 1.º regulamenta exceção à incidência da Lei
9.099/1995. Se a lesão corporal culposa no trânsito ocorre nas circunstâncias arroladas em lei, não
são aplicáveis os seguintes dispositivos da Lei 9.099/1995: art. 74, que trata da conciliação e de seus
efeitos, art. 76 que trata da transação penal, e art. 88 que cuida da necessidade de representação
nos crimes de lesão corporal leve e lesão corporal.
Possível concluir que, presentes as circunstâncias a seguir estudadas, não haverá momento
próprio para a conciliação, e, ainda que esta ocorra, não terá o condão de extinguir a punibilidade.
Além disso, fica proibida a transação penal, e a ação penal será pública incondicionada. Por fim, a
investigação policial deverá ser formalizada em inquérito policial, e não em mero termo
circunstanciado.
A suspensão do direito de dirigir pode ser imposta, na seara penal, como sanção isolada,
alternativa ou cumulativamente com outras penas. Tem duração de dois meses a cinco anos. O
caso de aplicação cumulada com pena privativa de liberdade tem duração autônoma. Assim, no
caso de cumulação com pena privativa de liberdade no homicídio culposo, a privação de liberdade
pode ser de 2-4 anos, e a suspensão do direito de dirigir de 2 meses a 5 anos. A pena mínima seria,
no caso, dois anos de detenção e 2 meses de suspensão do direito.
Com o trânsito em julgado da sentença condenatória o réu será condenado a entregar a CNH
em 48 horas, sob pena de responder pelo crime do art. 307 do CTB.
Para que o condenado não se “aproveite” do tempo de prisão para reduzir a suspensão de
direitos, não se inicia a contagem do prazo de suspensão enquanto o condenado está recolhido em
estabelecimento prisional.
Não é adequada a propositura de habeas corpus em face da suspensão do direito de dirigir, eis
que permanece íntegra a capacidade ambulatória.
“Art. 294. Em qualquer fase da investigação ou da ação penal, havendo necessidade para a
garantia da ordem pública, poderá o juiz, como medida cautelar, de ofício, ou a requerimento do
Ministério Público ou ainda mediante representação da autoridade policial, decretar, em decisão
motivada, a suspensão da permissão ou da habilitação para dirigir veículo automotor, ou a
proibição de sua obtenção.
Para o deferimento da suspensão cautelar, não importa a gravidade do dano causado pela
infração: o que importa é o risco para a segurança no trânsito, perceptível pelas peculiares
circunstâncias do caso concreto.
Prevalece que a decisão não é impugnável por habeas corpus, eis que não atinge diretamente o
direito de liberdade (STJ HC283505).
Nos termos do parágrafo único do dispositivo em comento, a decisão que defere ou indefere a
suspensão do direito de dirigir desafia recurso em sentido estrito. Trata-se de hipótese especial,
que se soma àquelas previstas no art. 581 do CPP.
“Art. 295. A suspensão para dirigir veículo automotor ou a proibição de se obter a permissão ou
a habilitação será sempre comunicada pela autoridade judiciária ao Conselho Nacional de Trânsito
– CONTRAN, e ao órgão de trânsito do Estado em que o indiciado ou réu for domiciliado ou
residente.
Art. 296. Se o réu for reincidente na prática de crime previsto neste Código, o juiz aplicará a
penalidade de suspensão da permissão ou habilitação para dirigir veículo automotor, sem prejuízo
das demais sanções penais cabíveis. (Redação dada pela Lei 11.705, de 2008.)”
“Art. 297. A penalidade de multa reparatória consiste no pagamento, mediante depósito judicial
em favor da vítima, ou seus sucessores, de quantia calculada com base no disposto no § 1.º do art.
49 do Código Penal, sempre que houver prejuízo material resultante do crime.
§ 1.º A multa reparatória não poderá ser superior ao valor do prejuízo demonstrado no
processo.
A multa reparatória é medida que, a princípio, teve discutível natureza jurídica (civil ou
penal?), mas que ora pode ser indicada como precursora da possibilidade de fixação, pelo juiz, de
valor mínimo de indenização na condenação criminal, prevista no art. 387, IV, do CPP.
Com a nova redação do art. 387, IV, do CPP, a multa reparatória, pouco utilizada nos Tribunais,
cai em desuso, eis que aplicável a aprimorada fórmula do Código de Processo Penal.
Em tese, a multa reparatória exige prova do dano e sua execução seria de competência da
justiça cível.
O art. 297, § 2.º, do CTB prevê a incidência do disposto nos arts. 50 e 52 do CP. O art. 50 do CP
permite a possibilidade de parcelamento do valor da multa, que permitiria, assim, o parcelamento
da multa reparatória bem como seu desconto em vencimento ou salário, desde que não
comprometa recursos indispensáveis para o sustento do condenado e de sua família. O art. 52 do
CP prevê a suspensão da execução da pena de multa se sobrevier ao acusado doença mental.
8.5 AGRAVANTES ESPECÍFICAS
“Art. 298. São circunstâncias que sempre agravam as penalidades dos crimes de trânsito ter o
condutor do veículo cometido a infração:
I – com dano potencial para duas ou mais pessoas ou com grande risco de grave dano
patrimonial a terceiros;
O art. 298 do CTB prevê rol de agravantes específicas, que se somam às previstas nos arts. 61 e
62 do CP. Assim como no Código Penal, são circunstâncias que “sempre agravam a pena”, ou seja,
se reconhecidas pelo juiz, deve ser justificada sua interferência na fixação da pena.
Nos termos do caput, são agravantes que se aplicam especificamente ao condutor do veículo.
“I – com dano potencial para duas ou mais pessoas ou com grande risco de grave dano
patrimonial a terceiros;”
Para que incida a agravante é necessária existência de perigo concreto para mais de uma
pessoa ou risco de dano patrimonial de pequena monta.
Só incidirá a agravante se, no caso concreto, os dados dessas circunstâncias não configurarem
elementar de tipo autônomo, como no caso do crime do art. 309 do CTB.
O objetivo da agravante é concretizar a maior reprovação ao sujeito que, por sua atividade ou
profissão, deveria ser especialmente motivado ao cumprimento das regras de trânsito.
Prevalece o entendimento de que a agravante incide mesmo que o condutor não esteja no
exercício da função, bastando, assim, que presumidamente seja maior a reprovabilidade pela
quebra de expectativas acerca de sua perícia, como visto. Discordamos de tal entendimento, pois
no caso o agravamento fora da função maximiza a pena por quem o réu é, e não pelo que ele fez.
“VI – utilizando veículo em que tenham sido adulterados equipamentos ou características que
afetem a sua segurança ou o seu funcionamento de acordo com os limites de velocidade prescritos
nas especificações do fabricante;”
As várias inspeções realizadas antes da liberação do veículo ao tráfego comum servem para
garantir o mínimo de segurança exigível para o controle da violência viária. Se as características
do veículo são alteradas, em especial com o aumento da potência ou aceleração, o nível de
segurança é sensivelmente rebaixado.
Para que incida a agravante, as alterações devem ser abrangidas pelo dolo do sujeito, ou seja,
precisa conhecer sobre as irregulares mudanças.
A faixa de pedestres tem como objetivo incrementar a segurança dos que a utilizam e exigir
redobrada atenção do condutor ao ultrapassá-la. Por tal razão, o crime praticado sobre a faixa de
pedestres merece especial reprovação, dado o maior déficit de desatenção /desrespeito aos bens
jurídicos do pedestre.
Só incidirá a agravante se a conduta proibida ocorrer sobre a faixa de pedestres, não bastando
(na verdade, não importando) se o resultado ocorreu ou não sobre a faixa. Imagine-se o seguinte
exemplo: um sujeito, ao dirigir o seu veículo, atropela alguém longe da faixa, mas o corpo é
lançado a longa distância, e a vítima morre, rastejando no chão, exatamente sobre a faixa. Incide a
agravante? Não, pois o descuido não ocorreu sobre a faixa de pedestres.
No HC 164.467, entendeu o STJ que não basta que o crime tenha ocorrido perto da faixa de
pedestres. É necessário que ocorra precisamente sobre a faixa, pois não se aceita interpretação
extensiva contra o réu.
“Art. 301. Ao condutor de veículo, nos casos de acidentes de trânsito de que resulte vítima, não
se imporá a prisão em flagrante, nem se exigirá fiança, se prestar pronto e integral socorro
àquela.”
“Seção II
III – deixar de prestar socorro, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à vítima do acidente;
“§ 2.º Se o agente conduz veículo automotor com capacidade psicomotora alterada em razão da
influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência ou participa, em
via, de corrida, disputa ou competição automobilística ou ainda de exibição ou demonstração de
perícia em manobra de veículo automotor, não autorizada pela autoridade competente:
Não se exige que a morte tenha ocorrido em via pública. Para que incida o especial regramento
ora comentado, basta que o crime tenha sido praticado na condução de veículo automotor.
“Todo veículo a motor de propulsão que circule por seus próprios meios e que serve
normalmente para o transporte viário de pessoas ou coisas, ou para tração viária de veículos
utilizados para o transporte de pessoas e coisas. O termo compreende os veículos conectados a
uma linha elétrica e que não circulam sobre os trilhos”.
8.7.1.1 Polêmica
1.ª posição: sim. É entendimento majoritário que a grande circulação de pessoas e veículos
automotores, somada à alta estatística de morte no trânsito, impõe que o cuidado seja especial em
tal peculiar interação social. Assim, ainda que o resultado seja idêntico, deve ser avaliado o
desvalor da ação, ou seja, a intensidade do injusto pelo descuido em tal sensível situação.
2.ª posição: não. É inconstitucional a pena do art. 302 do CTB, pois viola a isonomia. Para que
seja possível discriminar situações, além de tratar os desiguais na medida da desigualdade, é
necessário que o tratamento desigual tenha uma razão jurídica de discriminação. Não há
justificativa para se impor maior reprovação ao uso descuidado de um veículo automotor do que a
pena que será imposta no uso descuidado de uma arma de fogo. O disparo acidental da arma gera
risco muito maior, e não pode ter a pena abrandada em comparação ao art. 302 do CTB.
Fixação da pena: entendeu o STJ que a fixação da pena acima do mínimo em face da velocidade
imposta pelo condutor é bis in idem, pois o núcleo da culpa não poderia ser também circunstância
judicial desfavorável (STJ HC 153549). No mesmo julgado, o STJ entendeu que o motivo do crime
pode ser circunstância judicial desfavorável, e merece especial desvalor se a imprudência é
empregada para chegar mais rápido a uma festa para levar determinada quantidade de drogas.
8.7.1.3 Competência
Conforme entendimento do STJ (Súmula 6), se o crime de trânsito é praticado por militar, ainda
que no exercício da função, contra civil, a competência é da Justiça Comum, e não militar.
Se a vítima for militar, desde que no exercício da função, entende-se que a competência é da
Justiça Militar”.
O critério para aumentar a pena “de um terço à metade” deve se referir à própria causa de
aumento, e não às circunstâncias que serviram para a fixação da pena na primeira e segunda fase
do sistema trifásico, sob pena de bis in idem. “Art. 302. (…)
(…).”
Cabe lembrar que a mera circunstância de conduzir veículo sem habilitação não permite a
condenação do condutor do veículo envolvido no acidente pelo homicídio culposo. É necessário
demonstrar sua culpa.
(…).”
A causa de aumento é muito semelhante à agravante, com o acréscimo da circunstância
“calçada”. Valem aqui, de qualquer forma, os comentários feitos à agravante, aos quais remetemos
o leitor.
Já entendeu o STJ que para incidência da causa de aumento não basta que a conduta tenha
ocorrido próxima à faixa ou à calçada, pois o direito penal não admite interpretação extensiva
contra o réu (HC 164.467).
III – deixar de prestar socorro, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à vítima do acidente;
(…).”
Na dinâmica do tipo, a omissão de socorro trata de uma ação subsequente à descuidada, e que
tem o efeito de incrementar a pena.
Por ser especial, prevalece a causa de aumento sobre o crime específico do art. 304 do CTB.
Prevalece que não importa se a vítima sofreu morte imediata (vide comentários ao crime do
art. 304 do CTB).
Ao tratar do crime do Código Penal de omissão de socorro (art. 135 do CP) é consagrada a
posição doutrinária que trata do dever solidário de socorro, ou seja, a princípio todos devem
socorrer, mas de um socorre deixa de existir o dever em relação aos demais. Não é o que prevalece
na causa ora em comento. Aqui, entende-se que mesmo que terceiros socorram, a omissão do
condutor do veículo ainda incrementa a pena.
(…).”
Por ser especial, prevalece sobre a agravante do art. 298, V. No entanto, aqui, não basta que o
condutor seja motorista profissional: é necessário que esteja conduzindo veículo de transporte de
passageiros, mas, no entender do STJ, é desnecessário que no momento do crime esteja
efetivamente transportando passageiros (REsp 1.255.562/RS ).
V – (Vetado.).”
O inc. V do art. 302 do CTB, revogado pela Lei 11.705/2008, tinha a seguinte redação: “V – estiver
sob a influência de álcool ou substância tóxica ou entorpecente de efeitos análogos”.
Vale apontar a revogação da presente causa de aumento, que incrementava a pena no caso do
condutor estar sob a influência de álcool ou substância tóxica entorpecente ou de efeitos análogos.
Em razão da revogação, alguns sustentaram que se tratava de nova lei penal benéfica, e outros que
restaria viável o concurso de crimes do crime de homicídio culposo com o crime de embriaguez ao
volante.
§ 2.º trata de influência de álcool. Possível concluir, assim, que a antiga causa de aumento foi
ora substituída pela qualificadora, inviabilizando postulação sobre o concurso de crimes.
“§ 2.º Se o agente conduz veículo automotor com capacidade psicomotora alterada em razão da influência
de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência ou participa, em via, de corrida,
disputa ou competição automobilística ou ainda de exibição ou demonstração de perícia em manobra de
veículo automotor, não autorizada pela autoridade competente:
Trata-se de peculiar qualificadora que não incrementa a quantidade da pena prevista no caput, mas
apenas substitui a pena de detenção pela de reclusão, admitindo, assim, o regime inicial fechado.
a) o agente conduz veículo automotor com capacidade psicomotora alterada em razão da influência de
álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência;
A primeira qualificadora praticamente reproduz a tipificação prevista no art. 306 CTB, permitindo
compreender que, com a vigência da lei, aquele que conduz veículo automotor em situação que, a princípio,
configuraria o crime do art. 306 do Código de Trânsito Brasileiro, se vier a matar alguém por culpa,
responderia nos termos do ora examinado art. 302, com a qualificadora do §2.º.
A presente tipificação irá, com certeza, interferir na interpretação dos tribunais nos casos em que,
embriagado, o condutor de veículo automotor causa a morte de terceiro. Há grande movimento nos
tribunais estaduais pela presunção de dolo em tais situações, e tal presunção absoluta, com a atual redação,
é descartada pela lei.
O grande problema está na segunda qualificadora, que também se aproxima da reprodução do crime do
art. 308 do Código de Trânsito, e deveria provocar solução à primeira: se o autor conduz o veículo
participando de competição não autorizada ou demonstração de perícia, desde logo poderia responder nas
penas do art. 308 do CTB. Se a conduta tem como resultado a morte de terceiro, responderia pelo art. 302
com a qualificadora do §2.º.
Aqui, no entanto, a solução não é tranquila, dada a grande incoerência interna da legislação: o art. 308
também foi alterado pela Lei 12.971/2014, com o acréscimo de qualificadoras no caso de superveniência dos
resultados lesão grave ou morte, provocados por culpa do condutor. Resta então a pergunta: aquele que
participa de racha e, por culpa, vem a provocar a morte de terceiro, responderá nas graves penas do art. 308
ou com as penas mais brandas do art. 302? Três posições podem ser desde logo encontradas:
1ª posição: deverá responder nas penas do art. 308, § 2.º, por imperativo de proporcionalidade diante da
previsão do §1º do mesmo artigo: o art. 308,
§1.º impõe penas de 3 a 6 anos se da prática de racha (ou demonstração de perícia) resultam lesões
graves. Ora, se é assim, por interpretação sistemática / proporcional a pena para aquele que provoca a morte
de terceiro nas mesmas circunstâncias não pode ser mais branda, com apenas 2 a 4 anos. Deve prevalecer
assim a pena do art. 308, § 2º, com reclusão de 5 a 10 anos.
2ª posição: deverá responder pelas penas do art. 302, § 2.º, do Código de Trânsito, em razão dos princípios
basilares de Direito Penal da legalidade e da taxatividade, em sua pouco lembrada perspectiva de lex clara. A
legalidade penal em sua função de garantia – pilar do Estado de Direito – tem a missão de permitir ao
cidadão conhecer o alcance de sua liberdade e o correspondente limite de possibilidade de atuação legítima
do Estado em sua esfera de direitos. Se o limite é confuso, ou seja, se dois limites são indicados pelo Estado,
parece-nos clara a conclusão – em um Estado de Direito – que o limite mais amplo à intervenção estatal na
esfera de direitos do cidadão deve ser reconhecido. No caso em tela, seria a apenação nos termos do art. 302,
§ 2.º. É nossa posição.
3ª posição: o art. 308, § 2º exige que a disputa não autorizada (racha) tenha ocorrido em via pública.
Assim, a previsão do art. 302, § 2º deve ser considerada subsidiária: se o racha seguido de morte culposa
ocorre em via pública, incidem as graves penas do art. 308, § 2º. Se não ocorre em via pública, resta a
aplicação subsidiária das penas mais brandas do art. 302, § 2º.
8.7.1.5 Perdão judicial
Pacífica a possibilidade de perdão judicial, pela aplicação do art. 121, § 5.º, do CP. O requisito é o
mesmo, ou seja, que as consequências do fato sejam tal graves que a pena se torne desnecessária.
Entendeu também o STJ que não deve ser concedido o perdão judicial se, ainda que o condutor
seja atingido moralmente de forma grave pelas consequências do acidente, não tinha vínculo
afetivo com a vítima nem sofreu sequelas físicas gravíssimas e permanentes (RESP 1455178).
Penas – detenção, de seis meses a dois anos e suspensão ou proibição de se obter a permissão
ou a habilitação para dirigir veículo automotor.
Parágrafo único. Aumenta-se a pena de 1/3 (um terço) à metade, se ocorrer qualquer das
hipóteses do § 1º do art. 302. (NR) ”
Assim como no homicídio, há previsão especial para a lesão corporal culposa praticada na
direção de veículo automotor, e idênticas as considerações sobre o especial desvalor em razão do
instrumento do crime.
A lesão corporal dolosa leve praticada na direção de veículo automotor não tem previsão
expressa, e por isso recebe tratamento de lesão corporal comum, prevista no art. 129 do CP, com
pena de detenção de três meses a um ano. A pena prevista ao art. 303 do CTB é de seis meses a dois
anos. Percebe-se, assim, a situação de insustentável desproporcionalidade provocada pelo
legislador: quem, com dolo, lesa levemente vítima na condução de veículo automotor tem pena
menor que aquele que gera a mesma intensidade de lesão com culpa! E a lei está em vigor desde
1997, e já foi objeto de inúmeras reformas, sem, no entanto, corrigir o vício.
Direção sem habilitação e lesão corporal: O STF decidiu que o crime de lesão corporal absorve o
crime de direção sem habilitação pela aplicação do princípio da consunção (HC 128921, julgado em
25.08.2015).
Se incidir causa de aumento a pena máxima ultrapassa dois anos, afastando a competência do
JECrim.
Parágrafo único. Aumenta-se a pena de 1/3 (um terço) à metade, se ocorrer qualquer das hipóteses do § 1º
do art. 302. (NR) ”
A alteração legislativa, aqui, busca apenas adaptar a redação do parágrafo único do art. 303 do CTB à
mudança na estrutura do art. 302 do mesmo Código, que conta na redação da Lei 12.971/2014 com dois
parágrafos. Assim, a referência ao parágrafo único do art. 302 passa a indicar §1.º.
Interessante notar, ainda, que não há qualificadora para a lesão corporal culposa que resulte da
condução de veículo automotor em estado de embriaguez, ou seja, a qualificadora no §2.º do art. 302 não
encontra equivalente no art. 303 do CTB.
“Art. 304. Deixar o condutor do veículo, na ocasião do acidente, de prestar imediato socorro à
vítima, ou, não podendo fazê-lo diretamente, por justa causa, deixar de solicitar auxílio da
autoridade pública:
Penas – detenção, de seis meses a um ano, ou multa, se o fato não constituir elemento de crime
mais grave.
Parágrafo único. Incide nas penas previstas neste artigo o condutor do veículo, ainda que a sua
omissão seja suprida por terceiros ou que se trate de vítima com morte instantânea ou com
ferimentos leves.”
Trata-se de crime omissivo próprio, especial em relação à previsão do art. 135 do CP.
Sobre o sujeito ativo, o tipo exige a especial qualidade “condutor do veículo”. Controversa a
possibilidade de coautoria no crime omissivo próprio, prevalecendo ser possível a participação
(comissiva).
Polêmica: quem pode ser sujeito ativo do crime do art. 304? A polêmica se impõe, pois, de um
lado, como já visto, a lei exige que seja o condutor do veículo e, de outro, a omissão de socorro é
causa de aumento nos crimes de homicídio culposo e lesão corporal leve culposa, e a
subsidiariedade do art. 304 do CTB é expressa. Assim, no caso de culpa o condutor já teria a pena
agravada pela omissão (art. 302, § 1.º, III e não art. 302 + art. 304, e o mesmo com o art. 303 do
CTB), inviabilizando a tipificação por crime autônomo. Diante da premissa, três posições podem
ser encontradas:
b) O condutor envolvido no acidente não condenado pelos crimes do art. 302 e do art. 303 do
CTB;
c) O condutor envolvido no acidente sem culpa, pois se tiver culpa responderá pelos crimes dos
arts. 302 e 303 do CTB. É a que prevalece.
Não importa se a vítima aceita o socorro O condutor tem o dever de, na medida do possível,
prestá-lo.
É inadmissível o argumento sobre a insignificância das lesões leves como motivo para escusar-
se ao dever de socorrer. O parágrafo único do art. 304 do CTB é expresso ao impor a pena mesmo
no caso de vítima que tenha sofrido apenas lesões corporais graves.
“Art. 305. Afastar-se o condutor do veículo do local do acidente, para fugir à responsabilidade
penal ou civil que lhe possa ser atribuída:
É crime próprio, que só pode ser praticado pelo condutor do veículo envolvido no acidente.
Há especial elemento subjetivo no tipo: o objetivo do condutor, ao se afastar, deve ser fugir à
responsabilidade penal ou civil que lhe possa ser atribuída. Se a intenção for outra qualquer, como
prestar socorro a alguém, queda excluído o crime, desde que demonstrada a intenção de admitir,
desde logo, as responsabilidades.
Prevalece que o art. 305 do CTB absorve o crime do art. 304 do CTB, eis que a omissão de
socorro seria apenas uma consequência da fuga. Possível argumentar pelo concurso de crimes,
dada a diversidade de bens jurídicos protegidos (no primeiro caso, a incolumidade da vítima e, no
segundo, além da integridade da vítima, seu patrimônio e também a administração da Justiça.
Art. 306. Conduzir veículo automotor com capacidade psicomotora alterada em razão da
influência de álcool ou de outra substância psicoativa que determine dependência: Penas – detenção,
de seis meses a três anos, multa e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação
para dirigir veículo automotor.
Prevalece que é crime de perigo abstrato, ou seja, basta a prova da embriaguez, nos termos da
lei, ou da influência de substância psicoativa, para que se configure o crime, ainda que não
colocado bem jurídico concreto em risco, sendo desnecessária, ainda, a condução anormal do
veículo.
Não mais se exige que a condução ocorra em via pública para que a conduta ganhe relevo
penal.
A pena máxima de três anos afasta a competência do JECrim. Possível a suspensão condicional
do processo.
Os sinais indicativos estão previstos, hoje, na Res. 432 do Contran. Dentre os sinais que devem
ser apreciados pela autoridade de trânsito, podem ser destacados: sonolência, olhos vermelhos,
vômito, soluços, desordem nas vestes, odor de álcool no hálito, agressividade, arrogância,
exaltação, ironia, falante, dispersão.
A pouca precisão de tais sinais e a possibilidade de arbítrio provocam intensas críticas entre os
operadores do Direito. No entanto, constatados os referidos sinais, prevalece que há prova de
embriaguez, sendo possível concluir pela prática de crime (ressalvada a contraprova, que será
comentada adiante).
Há, ainda, uma fórmula genérica que permite a prova mediante teste de alcoolemia,
toxicológico, exame clínico, perícia, vídeo, prova testemunhal ou outros meios de prova em direito
admitidos, observado o direito à contraprova. Resta, assim, reafirmado o princípio da liberdade da
prova, com importante ressalva quanto ao direito à contraprova, que merece destaque.
Constatada quantidade de álcool no sangue (ou nas vias aéreas) em quantidade inferior à
prevista em lei (0,4 dg de álcool por litro de sangue, por exemplo), a conduta perde relevância
penal? Não há resposta pacífica na doutrina ou na jurisprudência, sendo possível a defesa de suas
posições:
1 – A conduta não tem relevância penal, pois ao exigir “concentração igual ou superior a 6
decigramas de álcool por litro de sangue ou igual ou superior a 0,3 miligrama de álcool por litro de
ar alveolar” o legislador deixa implícita a irrelevância penal de quantidade inferior. É nossa
posição.
2 – A conduta pode ter relevância penal, pois o tipo não se vale de quantidade de álcool no
organismo, mas sim da expressão “capacidade psicomotora alterada”. Se por um lado as
quantidades expressas no § 1.º provocam presunção absoluta de alteração da capacidade
psicomotora, menor quantidade não afasta tal alteração, que poderá ser demonstrada por outros
meios, em cada caso concreto.
Penas – detenção, de seis meses a um ano e multa, com nova imposição adicional de idêntico
prazo de suspensão ou de proibição.
Parágrafo único. Nas mesmas penas incorre o condenado que deixa de entregar, no prazo
estabelecido no § 1.º do art. 293, a Permissão para Dirigir ou a Carteira de Habilitação.”
Sem dúvida resta configurado o crime se a suspensão violada decorre de ordem judicial.
Polêmica: e se decorre de decisão administrativa?
1.ª posição: sim, pois a lei se vale da expressão “imposta com fundamento neste código”, e o
Código de Trânsito Brasileiro contém sanções penais e administrativas. Se a lei não restringiu, não
cabe ao intérprete fazê-lo.
2.ª posição: apenas a suspensão ou proibição que deriva de decisão judicial pode provocar o
crime do art. 307 do CTB. É que a decisão administrativa, se desobedecida, gera consequências de
mesma natureza, ou seja, administrativas, suficientes e adequadas à infração.
Trata-se de infração penal especial em relação ao crime de desobediência, que afasta sua
incidência.
Consuma-se com a efetiva condução do veículo. A tentativa é teoricamente possível, mas de
difícil incidência.
Apenas a omissão injustificada configura o crime. Prevalece que não corre o prazo enquanto a
intimação pessoal não for concretizada.
Tanto a figura principal como a conduta equiparada infrações de menor potencial ofensivo, de
competência do JECrim.
“Art. 308. Participar, na direção de veículo automotor, em via pública, de corrida, disputa ou
competição automobilística não autorizada pela autoridade competente, gerando situação de risco
à incolumidade pública ou privada:
Penas – detenção, de 6 (seis) meses a 3 (três) anos, multa e suspensão ou proibição de se obter a
permissão ou a habilitação para dirigir veículo automotor.
§ 1.º Se da prática do crime previsto no caput resultar lesão corporal de natureza grave, e as
circunstâncias demonstrarem que o agente não quis o resultado nem assumiu o risco de produzi-
lo, a pena privativa de liberdade é de reclusão, de 3 (três) a 6 (seis) anos, sem prejuízo das outras
penas previstas neste artigo.
Para a adequação típica direta é necessário que a participação seja na condução do veículo.
Trata-se de crime de concurso necessário, pois para que haja corrida, competição ou disputa é
necessário o envolvimento de ao menos duas pessoas, ainda que a performance seja individual. É
possível participação.
Em razão da expressão “desde que resulte dano potencial à incolumidade pública ou privada” é
necessária conduta anormal, perigosa, ainda que pela orientação majoritária seja despicienda a
indicação de pessoas ou bens foram colocados em risco no caso concreto. Em razão da exigência
da referida conduta anormal, perigosa, prevalece a classificação de crime de “perigo concreto”.
Mais uma vez, exige-se que a competição, disputa ou corrida ocorra na via pública. Por respeito
ao princípio da legalidade, se a competição ocorre em propriedade privada rural ao lado da via
pública, não há relevância penal.
Consuma-se com a manobra anormal, sendo controversa a possibilidade de tentativa que, de
qualquer forma, seria de difícil configuração (exemplo dos veículos que são obstados assim que
acionados).
8.7.7.2 Qualificadoras
A redação ora em vigor traz duas qualificadoras nos §§ 1.º e 2.º, com a previsão dos resultados
culposos lesão grave e morte. A lei é bastante clara quanto ao preterdolo, ou seja, as qualificadoras
tratam de resultados produzidos por culpa (racha doloso + resultado culposo lesão grave ou
morte).
No resultado morte, há grande polêmica sobre a eficácia do dispositivo, pois o art. 302, § 2.º
trata da mesma conduta e do mesmo resultado culposo. Sobre o tema, vide comentários ao art.
302, § 2.º.
A tomada de posição sobre a incidência do art. 302, § 2.º é essencial para a conclusão sobre a
eficácia do art. 308, § 1.º. Para aqueles que entendem que as penas do art. 308, § 2.º devem incidir
no caso da morte culposa advinda de racha, o art. 308, § 1.º é plenamente eficaz. No entanto,
adotado entendimento que o art. 302, § 2.º incide e afasta o art. 308, § 2.º, o art. 308, § 1.º resta
ineficaz, pois seria desproporcional aplicar pena mais grave o racha seguido de lesão grave
culposa (3-6 anos) do para o homicídio culposo se o condutor participava de racha (2-4 anos).
Reconhecida a eficácia do dispositivo, acreditamos que muitos casos antes capitulados como
homicídios dolosos no trânsito, dado o reconhecimento do dolo eventual em razão da participação
não autorizada, serão ora classificados no art. 308, § 2.º do CTB. É que a pena mínima para o
“racha seguido de morte” é 5 anos de reclusão, e, assim, o regime inicial será ao menos semiaberto,
sendo alcançado o rigor buscado por vários operadores que entendiam amena demais a sanção
pelo homicídio culposo.
Não há mais controvérsia sobre eventual concurso do ora estudado crime de racha com o crime
de homicídio culposo, pois o racha será qualificadora do homicídio (art. 302, § 2.º), ou bem o
resultado morte será qualificadora no racha (art. 308, § 2.º) (sobre a correta tipificação, vide
comentários ao art. 302, § 2.º).
No caso da lesão corporal culposa advinda de racha, a discussão ganhou “novo capítulo” com a
Lei 12.971/2014. Se do racha resultam lesões graves, sem dúvida resta configurada a figura do art.
308, § 1.º, ou seja, racha qualificado. No entanto, se resultam lesões leves, é possível sustentar duas
posições:
a) persiste a relevância penal da lesão culposa como crime autônomo do art. 303 do CTB, e deve
ser punida em concurso material com o ora estudado crime de racha (art. 308, caput, do CTB).
b) A lesão culposa advinda do racha, se não capitulada como grave ou gravíssima, é irrelevante
penal. Ora, se o legislador fez previsão de qualificadora no advento de lesão corporal, mas
restringiu a especial apenação aos casos de lesão grave, é possível concluir que lesões mais amenas
são irrelevantes. É a mesma solução adotada no caso de omissão de socorro, aborto, roubo ou
estupro nos quais resultam lesões leves. É nossa posição.
“Art. 309. Dirigir veículo automotor, em via pública, sem a devida Permissão para Dirigir ou
Habilitação ou, ainda, se cassado o direito de dirigir, gerando perigo de dano:
O art. 309 do CTB derrogou a contravenção penal do art. 32 do CTB em relação à condução de
veículos em vias terrestres, como esclarece a Súmula 720 do STF:
“O art. 309 do Código de Trânsito Brasileiro, que reclama decorra do fato perigo de dano,
derrogou o art. 32 da Lei das Contravenções Penais no tocante à direção sem habilitação em vias
terrestres.”
“Enunciado 98: os crimes previstos nos arts. 309 e 310 da Lei 9.503/1997 são de perigo
concreto.”
Por ser causa de aumento de pena nos crimes de homicídio culposo (art. 302 do CTB) e lesão
corporal culposa (art. 303 do CTB) a circunstância de ser o condutor inabilitado, não há concurso
de crimes possível entre tais crimes e a infração do art. 309 do CTB, ora estudada.
Prevalece que a habilitação para outra espécie de veículo equivale à ausência de habilitação.
Se o sujeito é habilitado, mas não traz consigo o documento, há mera infração administrativa,
eis que inexistente condição necessária para o risco merecedor de relevância penal. Se já foi
aprovado no exame, mas ainda não recebeu o documento, a questão é controversa, mas prevalece,
também, a inexistência de crime.
Entende o STJ (REsp 1.188.333) que a habilitação vencida não equivale à ausência de
habilitação, configurando mero ilícito administrativo, ainda que inválido o documento há anos.
Possível argumentar, no entanto, que apenas durante 30 dias é que se considera a habilitação
vencida, por ser prazo ordinariamente outorgado para a renovação – além dos trinta dias, a
carteira não mais seria considerada “vencida”, mas sim inexistente.
A direção sem habilitação é absorvida pelo crime de lesão corporal, que é crime de ação penal
pública condicionada à representação. Se a vítima não oferece representação, volta a ser possível a
punição pelo crime de condução sem habilitação? Prevalece que não, pois, conforme orientação
pretoriana, se o crime do art. 309 do CTB é absorvido pelo crime do art. 303 do CTB, a extinção da
punibilidade do segundo pela decadência extingue, também, a punibilidade do crime “absorvido”.
Sobre o tema vale a leitura do seguinte julgado:
“HC 25084 – Em razão do princípio da consunção, a lesão corporal culposa no trânsito (art. 303
do CTB) absorve o delito de dirigir sem habilitação (art. 309 do CTB), em face da menor lesividade
do último. Assim, havendo a renúncia expressa ao direito de representação pelo crime de lesão
corporal culposa, não pode a majorante, decorrente da ausência de habilitação, persistir como
delito autônomo, devendo ser declarada extinta a punibilidade também do crime de dirigir sem
habilitação. – Precedentes desta Corte. – Ordem concedida para declarar extinta a punibilidade do
delito de dirigir sem habilitação.”
Prevalece que se o sujeito furta ou rouba o veículo, e o conduz sem habilitação de forma
perigosa, anormal, há concurso de crimes, pela diversidade dos bens jurídicos. Possível
argumentar que há crime único, por se tratar a condução do veículo de desdobramento esperado
nos crimes de furto e roubo de veículo, que poderia configurar post factum não punível.
No caso de uso de Carteira de Habilitação falsa, se o sujeito conduz o veículo de forma anormal,
há concurso material de crimes (majoritário).
8.7.8.3 Questões processuais
“Art. 310. Permitir, confiar ou entregar a direção de veículo automotor a pessoa não habilitada,
com habilitação cassada ou com o direito de dirigir suspenso, ou, ainda, a quem, por seu estado de
saúde, física ou mental, ou por embriaguez, não esteja em condições de conduzi-lo com segurança:
A lei busca incriminar, com tipo autônomo, a conduta daquele que permite, confia ou entrega a
direção de veículo automotor àquele que, no caso concreto, não tem condições de dirigir em
segurança.
Trata-se de exceção pluralista à teoria monista, pois, em regra, é aplicada a regra do art. 29 do
CP, ou seja, todo aquele que colabora para a prática de um crime responde pelas penas a ele
cominadas, ainda que na medida de sua culpabilidade. Aqui, aquele que colabora para a prática de
um crime de trânsito responderá, em regra, pelo crime autônomo ora estudado.
O tipo se vale dos verbos permitir, confiar e entregar e, a princípio, o crime se consumaria com
a efetiva permissão ou entrega, como defende ainda hoje parte da doutrina, asseverando ser crime
de perigo abstrato. No entanto, tal quadro gera incontestável desproporcionalidade, mormente em
casos como a condução por pessoa inabilitada: é que a conduta da pessoa inabilitada só ganha
relevância penal quando há manobra anormal (art. 309 do CTB), enquanto que, pela letra da lei,
aquele que lhe entregou o veículo responderia mesmo sem a referida manobra anormal, pois a
consumação se daria com a entrega. Para evitar tal desproporcionalidade é entendimento
majoritário nos tribunais que só se torna viável a responsabilidade pelo crime do art. 310 do CTB
se a conduta daquele que recebeu o veículo se reveste de colorido penal (se o não habilitado
conduz de forma anormal, se o embriagado chega a conduzir em via pública, se o mentalmente
incapaz atropela terceiro…). Seria, assim, crime de perigo concreto, como esclarece enunciado do
Fonaje:
“Enunciado 98: Os crimes previstos nos arts. 309 e 310 da Lei 9.503/1997 são de perigo
concreto.”
STJ – HC 118310/2012 – 6.ª T – Na espécie, foi imputado ao paciente o delito descrito no art. 310 do
Código de Trânsito Brasileiro – permitir, confiar ou entregar a direção de veículo automotor a pessoa
não habilitada. A denúncia, contudo, deixou de demonstrar o perigo concreto de dano decorrente de
tal conduta, circunstância esta que leva à inépcia formal da inicial acusatória e, como consequência,
ao trancamento da ação penal.
“Recurso especial processado de acordo com o regime previsto no art. 543-C, § 2.º, do CPC, c/c o
art. 3º do CPP, e na Resolução n. 8/2008 do STJ. TESE: É de perigo abstrato o crime previsto no art.
310 do Código de Trânsito Brasileiro. Assim, não é exigível, para o aperfeiçoamento do crime, a
ocorrência de lesão ou de perigo de dano concreto na conduta de quem permite, confia ou entrega a
direção de veículo automotor a pessoa não habilitada, com habilitação cassada ou com o direito de
dirigir suspenso, ou ainda a quem, por seu estado de saúde, física ou mental, ou por embriaguez, não
esteja em condições de conduzi-lo com segurança (REsp 1485830 ).”
Concurso de crimes: prevalece que o sujeito que entrega o veículo responde apenas pelo crimes
do art. 310 do CTB, ainda que de sua conduta resulte lesão grave ou morte de terceiro, dadas as
condições do condutor. Há, no entanto, posição pela subsidiariedade do art. 310 do CTB, que seria
absorvido por crime de dano mais grave, como a lesão corporal culposa ou homicídio culposo,
desde que demonstrada a culpa daquele que entregou o veículo.
“Art. 311. Trafegar em velocidade incompatível com a segurança nas proximidades de escolas,
hospitais, estações de embarque e desembarque de passageiros, logradouros estreitos, ou onde
haja grande movimentação ou concentração de pessoas, gerando perigo de dano:
O tipo especifica forma de direção perigosa, apontado para a velocidade incompatível com
locais que clamam por especial cuidado no trânsito de veículos.
O tipo arrola, a princípio, lugares bastante específicos, como escolas, hospitais, estações de
embarque e desembarque de passageiros. Após, passa a usar expressões genéricas e até mesmo
imprecisas, como logradouros estreitos e locais com grande movimentação de pessoas.
Aqui, a lei não fala em via pública, ou seja, o local com grande movimentação de pessoas pode
ser privado.
Apenas a velocidade excessiva ganha relevância no tipo ora em estudo, e, assim, a condução na
contramão de direção nos locais descritos no tipo não configura o crime, pois não há adequação
típica.
Se o local está abandonado, resta esvaziado o sentido do tipo e, assim, prevalece que não há
crime.
Prevalece que a contravenção do art. 34 da LCP persiste em vigor para outras manobras
perigosas que não a velocidade excessiva. Possível argumentar, no entanto, que o Código de
Trânsito regulamentou por completo as infrações penais de trânsito com veículos automotores,
impondo revogação tácita à lei de contravenções em todos os dispositivos pertinentes.
Parágrafo único. Aplica-se o disposto neste artigo, ainda que não iniciados, quando da
inovação, o procedimento preparatório, o inquérito ou o processo aos quais se refere.”
Trata-se de previsão especial em relação ao crime de fraude processual previsto no art. 347 do
CP, e, por isso, afasta sua incidência. Assim como o art. 347 do CP, é crime contra a Administração
da Justiça.
Não confundir com a conduta daquele que altera placa de veículo automotor, pois tal conduta
configura o crime do art. 311 do CP, como entendeu o STJ no REsp 1.035.710.
Há especial elemento subjetivo do tipo: o fim de induzir a erro policial, perito ou juiz. Se a
conduta for praticada com outro objetivo, como, por exemplo, o medo de nova colisão pela posição
dos automóveis, não há crime.
É crime formal, consumando-se com a inovação com o fim de enganar, sendo mero
exaurimento (inexigível para a consumação) que o policial, perito ou juiz realmente venha a ser
enganado. É possível tentativa se o sujeito for apanhado enquanto realiza as manobras
fraudulentas.