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.

CATECISMO
DE

PBRSBVERANÇA.

lx.

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\

CATECISM()

PffiRSffiWffiRANGA
ExpostÇÃ0 fl§I0RICÀ, DoGilllTICA, tt0RA[, LITUR0IC/Ir ÂP0t0[EII0a, PIII0§0PHICÂ
E §o0nt

DA REL]GIÃo,
I}ESDE A Í)BIGEM D() MUNÍ)(} ATÉ I{OSSÍ,S DIAS

9o, fufl,. I Ç*u^u,


,IIEEOLOGIÂ, YIOABIO GIEBAL DE nBIf§'
pBorotraraElo aPOS.IOLICO, ITOUTOIB tt
üox,Il^ÜBAltl E aQUILÂ, c^Y^LLETIrO rDA ()IBIDEü IDB §. §ILYE§TBE, IIBTBI3O ID^
acatDn[tÀ oe nsLrcrÀo carlroLrca DE Boüt9 ETC'
Jesus Christus heri, hodié, iPse
et in' saecula. Hebr. XIII. 8.
Jesus Christo era hontem, e é
hoje : o mesmo tambem será Por
lodos os seculos.
Deus Charitas esú. l. Joan. IY. 8.
Deus é a caridaile.

TOMO IX.
TrBAr»IrzÍDO Da 8.. EDIÇÃO
POR

ANTONIO MOREIRA BEI.,TO.

P ORTO
I,IVRANIA DE VIUVA MORÉ.

I 868.

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CA.TICISilI()
DE

rcffiffisffi.vffiffiffi§tr@ffi

QUABTA PABTE

PRtMEtRA LtÇÃo

culÍo exÍerno, ou o chrisÍianisrno Íornado sensivel.

o arlvogado e o maúIremaúieo. rDeÍinição do ourúo lnúerno e


-
exúerno; sua origem. ceremonias, riúos,liúurgia. curúo
-
exúerno necessario ao rromem e á sociedarle. primeira -
vanÚagem do culÍo exúerno : repeúe ao§ Do§sos -senúidoE úo-
rlas as verdarles dir rleligiáo, rro úgrnpo dos BaúrlarchÍrs, da
Iei de trfoysés, e do Dvangelho.

« Então sois anjo ? então sois puro espirito ?» taes foram


as palavras
que, sem se dirigirem a mim, me resoaram aos ouvidos, quando, no mez
de setembro do anno passado, eu tomava logar n,um vehiculo publico,
caminho tla capital. Bssas palavras, que corriam de bôcca ern bôcca,
eram acompanhadas d'um sorriso escarnecedor, cujo mysterio me emba-
raçou a principio. Aventurei-me a pedir a chave do enigmá. Respon-
deu-me um dos meus n0v0s companheiros de viagem, oVistes aguelles
dois cavalheiros que acabam de apear-se na muda; o mais velbo ê um
advogado de Paris, e o outro um dos mais habeis mathematicos do nosso
tempo. A sua superiorirlade e facilidade de elocução os Íizeram senhores
da conversação: em torno d'elles, tudo estava sitencioso. a vista d,uma
egreja que enxergamos pela portinhola fez cahir a prática sobre a Reli-
giã0. «Para que servem egrejas ? perguntou o advogado; o unico templo
digno do Ente supremo não é o universo ? E depois, que signiÍica todo

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6 cATEcISMo

poclereis dispensar-vos de admittir as proposições seguintes:


- «Não é certo que cumpro tomar o homem tal qual é, composto de
corpo e alma ?
«Não é certo que a nossa alma e tam dependente dos nossos senti'
dos, que não é commovida senão pelo que os abala ?
«Não é certo que o homem deve prestar a Deus homenagem de todo
o seu ser ?
«Não é certo que r,ós revestis totlos os dias, no fôro, a voSsa elo'
quente palavra de imagens sensiaeis,' que a acompanhaes de gestos e va-
riadas inflexões, isto e, que empregaes todos os meios para fallardes aos
sentiilos dos ouvintes, a fim de os captivardes, de Os mOverdeS, e de lhes
fazerdes passar á alma as Yossas convicções ?
«Não e certo que n0 tribunal usaes de um vestuario particular, e

para que se ouÇa a voz dos magistrados, já para que as partes não este'
jam mais expostas que vós ás intemperies das estações?
«gra, ãizei-me, que é tudo isto, senão o culto externo da justiça
bumana? E porque é tutlo isto, senão porque trataes, não com anjos,
mas sim com homens, isto é, com creaturas corpgreas e que não so dei'

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DE PEnSEVERANÇA. 7
a inspirar respeito aos magistraclos e ás leis; os palacios
em gue vos abri-
gaes do calor, do frio, da saraiva, da neve e ãa
chuva; oü untus fazei
com que o homem seja anjo, e então podercis supprimir
o culto externo.
Illas em tanto que o homem fôr uma intelligen cia sertsid,a
e mui frequen-
temente at;assallacla por orgãos, querer reduzir
a Religião ab puro espi-
ri[ual, é desterral.a para o imperio r]a lua.
«Entretanto que um riso approvador acolhia
a replica do velho geo-
metra, o advogado, confuso, se deu pressa em retirai
e em transferir a
conversação para nOyo terreno. Estavamos n'esse ponto
quando a corneta
do conductor deu o signar da chegada á muda. 0s
dois ôavarheiros apea-
ram-se, e esperamos que a meza relonda fará as pâ20s.»
Com risco de perturbarmos a digestão do angelico adversario
das
nossas ceremonias, \ramos chamal-o de novo
a combate. Não é nossa in-
m a elle n€m aos quo compartem as suas preoccu-
uil-os a todos fazendo-rhes conhe*r , n.r.rsidade,
e as vantagens do culto externo da Egreja catholica.
{.o DnrruçÃo E .RrGEnr D0 curr,. E primeiramtntu, que -ce en-
-
tende por estas palavras: culto ealerno, ceremonias, riros
e titurgia?
Em todas as linguas, a paravra curto quer dizer honrA,
resyieito, tse-
neraçdo, reuerencia, seruiç0. Na lingua religiosa
chamamo s culio interno
aos sentimentos tle fé, adrniraçã0, respeito, agracrecimento,
conÍiança,
amor e submissão que devemos a Deus, po.quu n'Elle
reconhecemos
todas as perfeições. chamamos culto erternà
aos signaes sensiveis, pelos
quaes manifestamos aquelles sentimentos,
c0m0 as genuflexões, as pros-
ternações, as orações, as promessas e as offrenclas.
Ensinamos que,
quanclo estes testemunhos não são acompanhaclos
dos sentimentos do
coraçã0, não é isso culto verdacleiro e sincero, é pura
trypocrisia:, vjcio
que Nosso Senhor Jesus Christo e os Prophetas
moitas ouzes exprobraram
aos judeus.
ReconhecemOs um curto suprenn: compõe-se
dos sentimentos e tes.
timunhos que sci a Deus são devidos; um culto inferior
e suborilinado,
que rendemos a,s Anjos e a,s santos, e por
meio rio qual respeitamos e
honramos, nos Ànjos e santos que lhes fez Deus,
a dignidarle a que os exalçou, ede. Entre os ju-
deus já este culto inferior
er Disse-lhes Deus :
Respeitae o meu Anjo, p,rque n'eile o meunome
estd (r). vêmos a mu-

(1) Eaod,,XX[I,21.

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g CÀTECISMo

lher de Samaria prostrar-se diante d'Eliseu, que lhe acabava de resuscitar


o filho, para honrar n'elle a qualitlatl e de santo prophela, de homem
de

De*s, e'o poder cle operar milagres (r). Assim é que na ordem civil se

pOO.'chamãr culfo suprem, aquelle que se presta ao rei, e culto inferior


iu subord,inado o que se presta aos seus ministros.
Cumpro lembiarmg'-ngs tambem tle que na sociedade civil se em'
para testifi'
pregam frequentemente as mesmas demonstrações exteriores
ãur-r* coito inferior e para prestar urn culto suprem,; então é só a
desco'
intenção que determina a significação dos signaes. Inclinamo'-nos,
joelhos, prostramo'-nos diante dos grandes, do
brimó'-noi, pÔmo'-nos de
mesmo modo que diante rlos reis, sem nem por isso termos intenção de

lhes tributarmos honras eguaes. 0


mesmo se dá na Religião a respeito
de Deus e a respeito dos Anjos e santos: quasi toda a differença consiste
na fórma das orações. Pedimos a Deus que nOs conceda as suas graÇa§
por mesmo, e supplicamos aos Anjos e Santos que nol-as alcancem
si
pela sua intercessão : isto é mui differente'
por ultimo distinguimos um culto absoluto e ann ailto relatiao.
que tribu-
Tambem na ordem civil se admitte esta distincçã0. As honras
tamos ao rei sáo cetlto citsil absoluto, potque terminam n'elle;
o respeito
que temos á sua imagem, ao seu ministro ou embaixador, é relatiuo:
não 0s honramos pgr elles proprios, mas sim em consideração ao rei'
0 mesmo se dá na ordem religiosa'
ju'
Tambem este culto relativo era mandado e praticado entre os
deus : Adorae o escabello d,os pés do Senhor, p\rque Ó santo; adarae
o

pois os jucleus se prostravam diante da arca


setr, santo mynle (2). Quando
volviam
d'alliança, diantc do templo, diante do monte de Sião; quando se
prru uqo.lle latlo para orarem, não pretendiam prestar o seu culto ao
de ma'
monte, nem a0 templo, nem á arca, senão a Deus que Se dignava
nifestar alli a sua presenqa. Quantlo nós fazemos as mesmas coisas ante
croz, é n'estes symbolos qug
dma imagem do salvaflor ou ante a sua não
disse
termina o nosso culto, senão no proprio Jesus christo. não
Pois este

que o culto que se presta aos seus Santos se refere a elle : 0


que oos
es14,la, es16tü-me ; o q1e oos despreza, ilespreza'me ; o que aos re1ebe,
recebe-me q m,im (3) ? Como se vê, o culto interno e externo, Supremo

(1)
(2)
(3) x,40. Yeja.se Bergier, Dicc, de theologia, »t, Culto;
Jaufiret, '

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I

DE PEnSEVERANÇA. g

ou subordinado, absoluto ou relativo, é uma lei da humanidade, prati-


cada universalmente assim na ordem civil como na religiosa. Ao prescre-
vêl-0, não carece a Egreja de sabedoria nem de razá0.
Não se exerce o culüo externo sem ceremonias, Por ceremonias re-
ligiosas entende-se certas acções mysteriosas e enternas estabelecidas py,ra
acompanhar o utlto diuino e tornal-o mais a,agusto e enpressitso.
As ceremonias são acções mysteriosas, quer dizer gue encerram e
exprimem um sentido occulto. Dir-se-iam um transparente veo que 6eixa
entrever coisas puramente espirituaes. vejo um homem que se prostra,
e não preciso de lição para comprehender que tem no coração um senti-
nnento de respeito e submissão; faz-m'o vêr a saa ceremonia, Levanta os
olhos e as mãos para o ceo, e comprehendo que 0 invoca. Bate no peito,
e vejo que sente arrependimento. Não ha sentimento algum que se não
manifeste no exterior por um gesto particular, tam certo é que as cere-
monias são naturaes ao homem, e que em nós mesmos temos o senti-
mento e a intelligencia d'ellas ; assim e que a palavra ceremonia quer
dizer manifestaçd,o do coraçd,o (l).
Baseadas na natureza do homem, teem sido usaclas as ceremonias
entre todos os povos, tanto na sociedade civil como na Religiã0. São
necessarias, até me§mo por confissão dos impios, pois os signaes exter-
nos de mutua benevolencia adoçam os costumes, e as demonstrações de
respeito para com a Divindade fazem religioso ao homem.
Posto que sejam naturaes ao homem as ceremonias, não quiz Deus
que a§ do seu culto fossem entregues aos caprichos, ignorancia e paixões
dos individuos e dos povos. Graças lhe devemos dar por isso. volvei um
olhar para a historia das nações antigas e modernas, e dizei depois se
as ceremonias, já infames, já crueis, ás vezes ridiculas, e sempre super-
sticiosas, das religiões pagans e das seitas hereticas, não provam quam
necessario era que Deus regulasse as formas externas da Religião ? Alem
d'isÍ0, não é só a Deus e aos depositarios da sua auctoridatlo que pertence
o prescrever 0 modo como quer ser servido, assim como pertence aos
reis da terra o regular o ceremonial da sua côrto ?
Desde o principio, se mostrou Deus zeloso d'este direito sagrado:
quiz exercel-o em pessoa. Quando dá a sua lei a Moysés, é Elle proprio
quem regula as minimas particularidades clo culto. Mais tarde, prescreveu

(1). nerioa'se de carr lcer, coragâo, e rnoneo, adveutir, manifestar, dar. a conhe-
eer. Yeja-se Bergier, aú,'Ceràrn.

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t0 GATECISMo

seu divino Filho as principaes ceremonias da Egreja catholica, deixantlo


aos seus Apostolos e aos Successores d'estes, dirigidos pelo seu Espirito,
o cuiclado exclusivo de estabelecerem as outras. Por tanto não e certo,
cgmo repete a leviandatle mundana, que seja indifferente e facultativa a
maneira externa de honrar a Deus. Para serem agradaveis a Deus, de-
vem as ceremonias executar-se conforme as prescripçães do mesmo Deus
ou de seus ministros: d'onde vem o rito.
Chama-se rilo a um ?,s0 oV ceremonia segundo a ortle'm preswiptta,
Yem a palavra rito do latim rite ou recte, que quer dizer 0 que e bem
feito, o que é conforme á ordem. Assim os ritos catholicos são as cere-
monias religiosas como estão prescriptas pela Egreja catholica. 0 rito
romcrno, o rilo milanez, são as Ceremonias taes quaes estão prescriptas
em Roma e em l\Iilão (l).
0 culto externo, as ceremonias e osritos roferem-se directa ou in-
directamente ao acto por excellencia da Religiã0, o augusto sacrificio da
Missa; porque no Christianismo considerado interno e externantente, é
Jesus Christo o termo final em que tudo remata. D'onde o nome de li[ur-
gia dado ao complexo das ceremonias e orações que constiüuem o culto
externo da Egreja catholica.
Liturgia e palavra grega que significa obra publica, obra por encel'

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DE PEBSEVERANÇÀ. II

2.o NecessruDo D0 cur,ro. Agora que sabeis a definição e origem


-
divina do culto externo, cumpre fallar-vos do seu objecto e necessidade.
segundo o ponsamento do Apostolo s. Paulo, é o mundo visivel um es-
pelho em que se reflecte o mundo invisivel. Às maravilhas que nos ro-
dêam e que nós vemos, revelam-nos verdades que não vemos : Deus, a
sua unidade, poder, sabedoria, bondade e providencia (2).
Pois o culto externo é para as verdades e preceitos da Religião 6
que é o mundo visivel para 0 invisivel: é um espelho em quo vemos as
verdades da ordem sobrenatural, como vemos as verdades da ordem na-
tural no mundo physico. Pelo cu]to externo tornam-se sensiveis e ate
palpaveis os dogmas de fé e os preceitos da moral: a queda do homem,
a sua redempçãO, as suas esperanÇas immortae§, os seus deveres e a sua
dignidade. Que mais direi ? o culto externo e para a Religião o que é a
palavra para o pensamento : é a sua expressão verdadeira, is[o é, .alter-
nativamente dÔce, alegre ou terrivel, conforme a natureza das verdades
que exprime. N'uma palavra, o culto externo catholico é o Christianismo
apresentado aos sentidos; e eis porque, n'esta quarta parte, e este o titulo
:
geral das nossas lições 0 Christianismo tornado sensi,oel. Posto isto, cli.
zemos que o culto externo e necessario ao homem e á sociedade.
Necessario ao homem, I.o porque o homem não é um puro espi-
rito. Composto de corpo e alma, ha mister necessariamente de signaes
externos para manifestar 0s seus sentimentos e para conhecer os dos ou-
tros. E'-nos até impossivel experimentar vivos sentimentos d'amor, ale-
gria, temor, esperanÇa ou admiraçã0, sem recorrermos logo a signaes
externos proprios para os patentearmos exteriormente. Àinda mais; os
sentimentos que devemos ter para com Deus nasceriam diÍficilmente ho
coração da maior parte dos homens, e não durariam muito tempo n'el-
les se não empregassemos signaes externos para os excitar, manter e
communicar uns aos outros. 0 que não nos abala os sentidos, não faz
nunca em nós uma impressão viva e duradoura. \
Eis ahi uma das razões fundamentaes do culto externo: «Sendo o
homem tal, diz o sagrado concilio de Trento, {ü0 só difiicilmente póde,
(1) Brergier, aú, Litztgia, e o P. Le Brun, Cerem, cla Missa, p l,
(2) feja-sg
Rom.,I,20.

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I2 CATECISUO

sem o auxilio dos signaes sensiveis, elevar-se á meditação das coisas di'
vinas, estabeleceu a Egreja, como terna mãe que e, certos ritos, e 0r-
denou que certas partes da Missa se digam cm v6z baixa e outras em
voz alta. Tambem instituiu ceremonias: taes são as bençãros mysteriosas,
aS tochas, os incensos, aS vestes e muitas Outras coisas, segundo a dis-
ciplina e tratlições apostolicas (l).» Tutlo isto tem por objecto realçar a
magesta6e tlo augusto SacriÍicio e levar o espirito dos Íieis, por meio
d'eites signaos visiveis de pieclade e Religiã0, á contemplação dos pro-
fundos mysterios occultos no Christianismo.
Sobre este ponto os impios, nas suas palavras e moclo de proceder,
estão perfeitamente acordes comnosco. «A Religiã0, reduzitia a0 puro es-
piritual, diz um d'elles, em breve e desterrada para o imperio da Ina.'
ôutro accrescenta: «0s dogmas desappareceram com oS signaes exter'
nos que os attestavam.» Qttando, no Íim do seculo passado, os clisciptt-
los d-'estes homens que discorriam tam bem quizeram destruir a Reli'
gião entre nós, por onde comeÇaram? pelo culto externo. Primeiro met-
ierrm a ridiculo aS ceremonias, e depois abateram os templos, aS cruzes
e os altares.
ilIas embalde quer o homem luctar.contra a natureza. Apenas aquel-
les inexoraveis inimigos do culto externo empttnharam as rédeas do go'
verng, quando conheceram toda a necessidade dos ritos publicos e so'
Iemnes. Para converterem 0S povos á sua moral, deram-se pressa em
praticar 0 que condemnavam nos catholicos, chamando em seu auxilio o
culto externo. Unicamente lhe trocaram o objecto immortal, e o attribui-
ram inteiramente ás humanas virtudes, que não são mais que um pom'
poso nada quando se separam do seu auctor.
Escarneciam nas suas obras e nos seus lyceus do culto dos Santos,
e substituiram-lhe o dos heroes, á maneira dos pagãos, que não tribu'
tavam as honras da apotheose senão ás acções famosas e aos genios as
mais das vezes devastaclores das nações. lllettiam a ridiculo a piedarle
dos catholicos para com as preciosas reliquias do homem justo, e tribu-
taram honras quasi divinas aos seus grrndes homens. Finalmente, ha por
ventura uma só parte do culto catholico de que não hajam lanqado mão
para grangearem ás suas liÇões mais favor e credito, mais accesso o con-
fiança no animo da multidão ? 0s bymnos, os canticos, oS altares, as ta-
boas da lei, a arca da constituiçã0, 0S candelabros, o fogo sagrado, o uso

(1) ^Sess.
XXII, c. Y.

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DE PERSEVEnÀNÇA. l3
clos perfumes, os dias de festa, as figuras da Liberdade'e Egualtlade, os
genios tutelares e os outros emblemas da revolnção não nos offereceram
uma serie de ceremonias religiosas tam extensas como as dos outros cul-
tos ?

2. O culto externo c necessario ao homem, porque este, composto


de duas substancias, deve a Deus a homenagem de todo o seu ser, isto
é, rlo corpo e da alma. A alma honra a Deus pelo culto interno, e 0 corpo
honra-o a seu modo pelo culto externo. Não e sómente o corpo o que o
homem submette e offerece a Deus quando se ajoelha ou prostra ante
Elle, é o mundo material todo, do qual é mysterioso compendio 0 corpo
humano; do fórma o,ue, pelo culto interno e externo, a creação toda
se volve a Deus puriÍicada, ennobrecida, santificada, e em certo modo
divinisada: Deus goza por meio do homem da plenitude das suas
obras.
3. 0
culto externo é necessario ao homem para manter o culto in-
terno ; que um não póde existir sem o outro. Deus, ao associar a mate-
ria ao espirito, associou-a á Religião d'um modo tam admiravel, que,
quando a alma não tem liberdade para satisfazer o seu zêlo servindo-so
da palavra, das mãos e das prosternações, sente-se como que privada de
parte do culto que quizera tributar e d'aquella mesma que lhe causaria
mais consolaçã0.
Se porém é livre, e se o gue experimenta no interior a move forte-
mente e a penetra, então os olhos voltados para o ceo, as mãos estendi-
das, os canticos, as prosternações, as adorações diversificadas de cem
maneiras, e as lagrimas que tanto a penitencia como o amor fazem cor-
rer, lhe alliviam o coração supprindo-llre a impotencia. Parece eNão que
é menos a alma que associa o corpo á sua piedad.e e religiã0, do que o
mesmo corpo que se apressa a correr em seu auxilio e a supprir o que o
espirito não póde fazer.' de sorte que na acçã0, não só mais espiritual,
senão tambem mais divina, a Communháo, é.o corpo que faz o oÍflcio de
ministro publico e sacerdote, assim como no martyrio é o c0rp0 a'testi-
munha visivel e o defensor da verdade contra tudo o que a ataca (l).
Demais, não nos ensina a experiencia de todos os dias que a negli-
gencia do culto externo traz comsigo a ruina tlo culto interno ? Qual é-
rogo-vos que m'o digaes, se o sabeis o culto interno tributado a Deus
-
por todos esses homens indiÍIerentes ao nosso culto externo ? A que so

(1) Encgcl,opeil,ia, aú, Religi,ã,o,

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M cargcrsMo

reduz a sua religião ? se se ha de julgar pelo seu modo de proceder, é


evidente que se reduz a l,ero.
Em summa, o culto externo e necessario ao homem para manifes-
tar, completar e manter o culto interno. D'onde este raciocinio: não ha
Deus sem religião; não ha religião sem culto interno; não ha culto in-
terno sem culto externo: logo, sendo o homem 0 que é, composto de
duas naturezas, não ha religiã0, nem ha Deus sem culto externo. A ne-
cessidade do cullo externo funda-se por tanto na natureza do homem e
na de Deus.
Accrescentamos nós que o culto externo é necessario á sociedade.
Foi Deus quem creou os p0v0s e as sociedades, como creou os indivi-
duos: tem pois direito ás suas homenagens. Pessoas moraes, pessoas
publicas, não podem ellas pagar a Deus 0 seu tribdto senão por meio de
adorações publicas. Um povo sem culto publico fôra um poyo atheu; e
como nunca existiu povo algum atheu, d'ahi vem, desde o principio do
mundo, um culto publico. Ajuntae que 0 culto publico, em todos os po-
vos, é todo em vantagem das nações. Estas teem precisão d'elle para vi-
verem ; um simples raciocinio basta para o provar. Nãq ha sociedade sem
religião: não ha religião sem culto interno; não ha culto interno sem culto
externo : no dizer dos proprios impios, a Religiã0, reduzida a0 puro es-
piritual, breve é desterrada para o imperio da lua: logo, sem culto ex-
terno, não ha sociedade. A sociedade e tanto mais illustrada, prospera,
tranquilla e forte, quanto mais perfeito e mais bem observado e 0 seu
culto externo.
3.' Yrrnr.LcpNs Do curro. - Da necessidade do culto euterno, qtet
para o hometrn, quer para a sociedade, passemos ás suas vantagens.
Primeira vantagem : o culto externo
culto catholico
- e fallamos exclusivamente do
e delermina todas as oerdades, base dos cos-
-recorda
tumes e defensa da sociedade. Sigamol-o rapidamente desde o seu prin-
cipio até aos nossos dias. Sob os Patriarchas, na primeira edade do mun-
do, quando a idolatria so estendia por todas as partes, tinha por objecto
o culto externo inculcar aos homens o dogma essencial d'um só Deus,
creador e conservador do universo, senhor absoluto da natureza, supremo
distribuidor dos bens e clos males, protector das familias, vingatlor do
crime e remunerador da virtude; fazer-lhes lembrar-se de qile 0 homem
é peccador e tem necessidade de perdã0. Todas as ceremonias, até mesmo
as na apparencia ntais pequenas, tendiam a estreitar entre elles os vincu-
los da amisade fraternal. Facil seria o mostral-o considerando-as individual-

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DE PERSEVERANÇA. I5
mente. O culto externo preservou os primeiros homens da idolatria e de
todos os crimes que d'ella se seguiram. Visto gue ao homem são neces-
sarios ritos externos, não póde ser preservado das ceremonias supersti-
ciosas senão por meio de práticas santas e racionaes.
sob a lei do Illoyses, quando os homens, sahindo do estado do mes-
tico, passavam ao nacional, eram destinados os ritos religiosos a recor-
dar aos judeus que Deus é não só o unico senhor da natureza, senão tam-
bem o supremo legislador, o fundador e pae da sociedade civil, e o ar-
bitro das nações, que dispõe da sorte d'ellas c0m0 lhe apraz, as re00m-
pensa com a prosperidade e as pune com desgraças. A maior parte das
ceremonias judaicas eram outros tantos monumentos dos factos milagrosos
quo provavam a missão de Moyses, a protecção especial de Deus ao seu
p0v0, e a certeza da§ promessas que Deus Ihe havia feito. Deviam por
tanto ter os judeus de sobre-aviso contta 0 erro gera[ dos outros povos,
contra os deuses locaes, indigenas e nacionaes, aos quaes oÍIereciam os
gentios o seu incenso. 0 mesmo Deus manifesta pelos seus Prophetas que
não prescreveu aos judeus aquello numero de ceremonias senão para re.
primir a propensão d'elles á idolatria (l).
E se não vêde : em tanto que 0s philisteus, os chaldeus, os persas,
0s gregos, os egypeios, os carthaginezes, 0s gaulezes e os romanos, t0-
dos esses povos tão exaltados estavam prostrados ante divintlades infa.
mes e cruois cujas fêstas celebravam com sacriÍicios humanos e ceremo-
nias abominaris, só o povo judaico não adorava senão um unico Deus,
graças em grande parte a0 seu culto externo, que estabelecia entre elle
e as nações pagãs uma barreira insuperavel.
sob o christianismo, quando todos os povos são chamados a formar
uma só familia, unida pelo duplo vinculo da mesma fe e da mesma caridade,
teem as ceremonias um objecto ainda mais augusto, e um sentido mais
sublime. Poem-nos continuamente diante dos olhos um Deus santifica-
dor dos homens, que, por meio de Jesus clrristo seu Filho, nos resgatou
do peccado e da condemnação; que, com gra.ças contÍnuas, provê a todas
as necessidades da nossa alma ; que estabeleceu entre todos os homens,
de qualquer nação' que seJam, uma sociedade religiosa universal, a que
nÓs chamamos a, clmnx?tnhdo dos Santos (2).
D'est'arte, assim sob o christianismo c0m0 sob a Lei e sob os pa-

(1) lzecQt XXII,_5 ; Jerem., YII, 22,


(2) Bergier, art, Ceremonias,

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Irl

16 0ATECISMo

triarchas, isto é, desde o principio do mundo até os nossos dias, ê o


culto externo:
l.oUma pretlica não interrompitla e uma profissão solemne dos
dogmas mais essenciaes ao homem e á sociedade : a creaçã0, a unidacle
de Deus, a sua providencia, a quéda original, a vinda do Redemptor, a
espiritualidade, liberdade e immortalidade da alma, a resurreição e a vida
futura. E' necessaria esta préclica; porque todo o povo que não foi Íiel
à prática do ceremonial tal qual o prescrevêra Deus, não tardou a des-
conhecer aquellas mesmas verdacles.
0
2.o culto externo é uma lição de moral inteltigivel tanto para os
ignorantes como para os sabios, que lhes recorda contínuamente os seus
deveres para com Deus, para Com oS seus similhantes e para com elles
mesmos, deveres que promfinam naturalmente dos dogmas de que aca-
bamos de fallar. 0 ceremonial dos Sacramentos, por exemplo, é um qua-
dro das obrigações do christão em todas as circumstancias da vida. 0s
verdadeiros Íieis comprehendem estas mysteriosas lições; linguagem Íi-
gurativa que lhes produz nos corações as mais suaves, aS mais vivas e
as mais saudaveis impressões, Desgraçados d'aquelles que teem olbos
para não vêrem, e ouvidos para não ouvirem I EsJa insensibilidade, que
os assimilha ás bestas estupitlas e aos idolos de pedra e de pau, é o
primeiro castigo da sua incredulidade.

oRAÇÁ0.

O' meu Deus que sois todo amor I graças vos dou por haverdes es-
tabelecido o culto externo para conservardes a Religião; concedei'nos a
graça de nos fazerdes comprehender bem o sentido das ceremonias da
Egreja.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas aS cousas, e ao pro.
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e em testimunho d'este
amor, eslaillarei com rnuito cutdado esta quarta parle do Catecismo.

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DT' PENSEVERÀNCA. 17

SEGUNDA UÇÃO

0 chrisÍiauismo Íornado sensivel.

íüegunda vanúogem do eurúo exúenno : rleúermina úodas ag


verdades da Beligião.-llerceira vanúagem: é o prineiro
vinculo social. euarúa vanúagem : influe arlmiravel-
- origem rlas
menúe nas arúe§.- ceremonlag. variedade
-
das oeremonias. BespeiÍo lrue se llres deve.
esúudal-ag. - - DêI.o en.

Segunda vantagem do culto. Não só o culto externo repete inces-


santemente ao entendimento, ao coração e aos sentidos, os dogmas da
fé e 0s preceitos da moral; mas tambem [em a inestimaael aantagem
de os determinar.
As nossas ceremonias e as nossas orações são outras tantas testi-
munhas incorruptiveis da crenÇa dos antigos tempos. Dir-se-iam uma ex-
tensa galeria de quadros que comeÇa n0 principio do mundo, continúa
no tempo de l\{oysés, e se prolonga ate os umbraes da eternidacle. Todos
estes quadros, já terriveis, já graciosos, sempre cheios de verdade, e
pintados em epocas tão distantes umas das outras e por tão differentes
mãos, nos mostram a Religião sempre a mesma, posto que clesegual.
mente desenvoh,ida, e sempre proporcionada ás luzes, irs nccessidades e
ao estado social do genero humano, para o qual foi feita.
Toda esta cadêa de ceremonias, todo este culto externo tão magni.
fico no seu conjuncto, tão variado nas suas partes, dá á Religião um tes-
timunho authentico, vivo e perpetu0, a0 mesmo tempo que a determina,
como os monumentos de bronze ou marmore determinam e perpetuam
a memoria dos acontecimentos humanos. Por elle é posta a nossa Reli-
gião a salvo dos caprichos dos innovadores e das interpre[ações arbitra-

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\

t8 cÀrECIsMo

rias da heresia. Em toclos os tempos se serviram 0s christãos do culto


Se-
externo para mgstrarem aos herejes a verdatleira doutlina de Nosso
nhor e áos Àpostolos, e para esclarecerem em casg necessario o sentido

das palavtat da Escriptura sagrada, ácerca das quaes se disputava'


Aos arianos, oppozeram os Padres dos seculos quarto e quinto os
canticos da primitiva- Egreja, que attribuia a Jesus Christo a
divindade ;
o
aos pelagianos, as orações com que a Egreja irnplorou contÍnuamente
o lnes-
auxiúo da graça divina. Nos tempos modernos, tem'se empregado
Das antigas liturgias, cgnservatlas pelas
mo meig contra os protestantes.
seitas orientaes sefaradas da unidacle catholica desde o quar[o seculo,

se tirOu a prova inl:encivel da presença real, cla conÍissão auricular,


da
quo replicar a
0raçã0 pelos mortgs, etc. Não tendo cgisa alguma sólida
este argumento, que Íizeram os innovadores ? supprimiram entre
elles

todo o apparato do culto externo que 0s condemnava: isto é mais expe-

dito (l).
À terceira vantagem do culto externo é, ser um ainculo soctal' Diz'
os primei-
nos a historia que 0s primeiros pontos de reunião das nações,
r0S m0numentos dos povos, os primeiros asyios das rirtudes sociaes, fo-

ram logares ,onrugrrdos á Divinclade, altares ou tumulos' 0


patriarcha'
filhos
viajadoi do deserto, .erne em torno do altar de peclra e relva seus
para o sacrificio ao Senhor, fallar-lhes dos seus mila-
e netos offerecer
gres e rôcordar-lhe as SuaS prgmessas. Tres vezes por anno, as gt'andes
pentecostes e dos Tabernaculos chamam a
iolemniclades da paschoa, clo
Jerusalem todas as tribus d'Israel. Oram, adoram, cantam, chOram,
cO-

mem, regosijam.se juntos : eis ahi todos os vinculos de caridade restabe'


lecidos ou estreitados.
Nas Catacumbas é quo 0s christãos, espavoridos e dispersos pela
perseguiçã0, vão aprender a viver c0m0 santos e a morrer como hcroes'
ÀlU, rimenta-se n0 seu generoso sangue a sociedade motlerna. Mais tar-
de, foram rra Europa 0s m6steiros e as egrejas matrizes 0S primeiros lo-
gares de reuniã0. Lá é que se dirigiam os habitantes de vastos territo-
,ior, prru assistirem ao officio clivino. Para dar de comer á multidão dos
piedoios peregrinos que iam ouvir a I\Iissa, se estabeleceram hospedarias
,o pe d; aniiga egieja. À's Sospedarias juntaram-se em breve lojas,
onrle se vendiam objectos de primeira necessidade'
D'onde o nome de ntissa, que, na lingua allemã, ainda significa feira

(1) Yeja'se a Perpetwiilail,ed,a,FC, Arnaud, Renaudot, Le Btun'

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-.

t9
ou mercado. Diz-se a missa de Strasburgo, a missa de Fraricfort, para
significar as feiras que se fazem n'estãs duas cidades. Àté muitas vezes
a humilde cella do solitario deu principio a villas e cidades. De redor da
cruz de madeira plantada pelo missionario é que tiveram começo as gran-
des cidades do Novo-[Iundo. Ainda hoje, o verdadeiro ponto de reunião
é. a egreja parochial. Se a destruirdes, os habitadores dos campos, isto
é, as tres quartas partes dos homens, viverão eternamente sós, á maneira
das tribus selvagens da America.
A, municipalidade, direis, os reunirá. Dou-o de barato; porém não
os civilisará. Para civilisar os homens, não basta ajuntal-os, é mister
melhoral-os. Ora unicamente 0 culto catholico tem esta vantagem : as
nossas egrejas' são verdadeiras escholas de moral. Alli, todos os habi-
tantes d'uma comarca, reunidos na casa de seu Pae commum, ouvem a
palavra eternamente social, porque é toda caridade. Alli, ouvem a voz
do seu pastor, ou do seu Bispo, e comprehendem que estão em relação
de fraternidade com 0s habitantes d'uma vasta provincia. Àlli, ouvem
nomear com respeito o summo PontiÍice, oram por elle, e comprehendem
que são filhos d'essa grande sociedade, espalhada por todos os pontos do
globo. Para elles, não ha já montes nem mares, gregos nem barbaros.
Yêem irmãos e amigos em todos os catholicos. Sabem que, ao orarem,
oram com elles; que, n0 momento em que estão reunidos ao pé dos al-
tares, mil vozes se erguem do oriente e occidente, quc se unem á sua,
e, todas júntas, levam aos pés do throno de Deus os votos, as homena-
gens, os corações da grande familia humana.
E depois, quantas recordações proprias para melhorar os homens I
A egreja em que se foi baptisado e casado, onde se ha de ser apresen-
tado pela clerradeira vez depois da morte ; e o velho pastor de cabellos
brancos que instruiu a infancia e fez celebrar a primeira communhão; e
flnalmente o cemiterio onde dormem os avôs, o cemiterio que é preciso
atravessar para entrar na egreja : todas estas recordações, g ainda muil,as
outras, contribuem muito mais do que se pensa para tornar os homens
mais desapegados da terra, menos egoistas, mais moraes, n'uma palavra
mais sociaes. Se duvidaes d'isto, vêde 0 que são os habitantes das cida-
des e aldêas que não frequentam a egreja.
Alli tambem, n'aquellas reuniões, são os homens chamados á egual-
dade necessaria ao bem da sociedade, porque abate o orgulho d'uns, e
levanta o animo d'outros. Na egreja, não se conhecem titulos nem digni-
dades, porquo o sacerdote não vê senão filhos e irmãos. Ao proclamar os

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20 cÀurcrsuo

futuros matrimonios, a0 chamar os esposos, ou os padrinhos e madri-


nhas, ao fazer a sua prática, não diz elle: Meus senhores, minhas se-
nhoras, mas sim: meus irmãos, minhas irmãs. Alli flnalmente, á meza
sagrada, á meza de Deus, pae commum dos reis e dos subditos, todos
se ajoelham indistincüamente : é ella a unica meza no mundo em que não
ha primeiro logar.
E' pois a parochia o verdadeiro typo da civilisagã0, e não a muni-
cipalidade; a egreja e não a casa da camara. Na parochia, falla-se de
Deus, da caridade mutua, do ceo e das virtudes que a elle levam. Na
municipalidade, falla-se de interesses, de vendas, de compras, de con-
tractos, de cadastro, de campos, de vinhas e de gados. Na parochia, vejo
um sacerdote que ensina em nome de Deus, que consola, que alcnta,
que chama ao caminho do dever, que torna a paz á alma, e que recon-
cilia os inimigos. Na municipalidade, vejo o presidente que lê ordens do
prefeito, o guarda rural que fez relatorios, 0 perceptor que exige impos-
[os, quando muito o juiz de paz que impõe multas, e soldados de poli-
cia que levam gente para a cadêa. Que vos parece isto ? qual das duas, a
paroclria ou a municipalidade, e mais propria para melhorar os homens ?
Se é a parochia, agradecei-o ao culto catholico, sem o qual não existira a
paroclria.
N[ostrarnos, a0 fallarmos dos sacramentos, como estes dão ao homem
uma alta idea da sua clignidade, como lhe consagram todas as êpocas
solemnes da vicla, e c0m0 lhe subntinistram todos os meios de viver san-
tamente, isto é, de ser na terra um cidadão util á sociedade temporal,
e depois da morte um glorioso habitador da Jerusalem celeste. Verêmos
logo quanta consolação e utilidade offerecem as festas catholicas ao ho-
mem e á sociedade. Digamos algumas palavras da influencia do culto
catholico nas artes, 0 gue será, se quizerdes, a quarta vantagem.
Ás artes são Íilhas da Reiigiã0. 0 artista que não crê na outra vida,
que não vê por cima da cabeça um mundo mais perfeito que o n0ss0,
aonde vão buscar modêlos e beber inspirações a imaginação e a alma,
esse artista está morto já n'esta vida. Para elle não ha poesia, nem fu-
turo, nen gloria : que no altar da fe e que se accende o facho do genio.
Artes e artistas, cahi de joelhos ante o culto catholico, pois a elle é que
deveis a vossa gloria. Às Yirgens do beato Angelico, as cathedraes g0-
thicas, o canto do Prefacio, o Te-Deum, o Stabat, o Lauda Sion, o Dies
iru, lodas estas obras primas e mil outras são filhas do culto catholico. E'
por tanto mui bello, mui magestoso, mui divino, o culto que inspirou

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DE PERSEVEBÀNÇA. 2t
,, a'r.t. : só a elle pertence esta nova
as de poesia, architectura, pintura
o
elo mahornetismo, por todas as
-?
Ao culto catholico ainda e que devemos
os mais bellos iistrumentos
de musica, o orgão e o sino : o orgã0,
reunião de todos os instrumentos
o ongã0, que, pela variedacle dos sons, ;
agita toclas as Íibras da alma, falla
todas as linguas, faz ouvir todas as
vozes ; voz da dôr, voz do pavor,
da esperanÇa e da alegria , yoz da voz
morte, uo, ao Ceo ; o sino, que enche
as nossas cidades e aldêas de ineflavel
harmonia; o sino, que n,um in.
stante leva ao longe o mesm, sentimento
a mir corações diversos.
em indubitavelmente o sino uma
bel-
e os artistas chamam o granite.
O
só pela sua grandeza: o mesmo se
os volcões, das cataractas, da voz de
um p0v0 inteiro. pythagoras, gue appricava
o ouvido ao marho do ferreiro,
com gue pfazer não escutaria o som los nossos sinos na vespera d,uma
so-
t
Iemnidade da Egreja póde a arma
ser enternecida peras harmonias
d'uma lyra, porem não Íicará arreb
a desperta o trovão clos combates o
na região das nuvens os triumphos d
Perpetuar as verdades da Religi
ques da impiedade e da heresia, ser
um vincuro social, elevar o homem
e co uzir inimitaveis obras pri-
mas,
catholico. São necessarias
mais Oh I nós, os catholicos,
deve 1
é origem fecunda de tan-
tas bellezas, e principio de tantas vlrtudes.
cunruoxrÀs.- Agora falremos da origem das ceremonias
que o con-
stituem, do respeit, que se rhes deve tribõtar,
dos fructos gue produzem
e da necessidade de conhecêl-as. Deus e quem ireu ao t or.,n
são de manifestar por signaes exteriores oJ sentinrentos
, p.eci
que lhe nascem
na alma : por conseguinte e Elle o primeiro auct
Fez .
Deus sentir a necessidade d,ellas; inspirou os pri
Elle mesmo regulo-u entre os judeus a manifesta
io;;;
hrde,
seu proprio Filho, havenclo descido á habitação
d u cer-
(1) Genio d,o Chri*tianisrno,Iy parte, c. f.
e

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22 cÀrECtsMO

ceremonias esgenciaes, e investiu


a sua Egreja do poder de regular
tas
o culto que os homens devem prestar a Deus'
ceremonias ecclesias'
Tal é, como iá tlissemos, a nobre origem clas
as haja instituido por via de
ticas. Veem de Deus, quer Elle proprio
os Àpostolos ou 0s
i*, christo seu Filho, quer as tenham estabelecido
do seu espirito e revestiu da
success6res d'estes, a qüem Elle encheu
sua auctoridade (l).
D'ondevemquehaceremoniascleinstituiçãodivina'deinstituiQão
apostotica e de instituição ecclesiasti
pessoalmente Nosso Senhor, como
iormula dos sacramentos; são as se
tolos, quaes o uso de orarem os ho
do officio divino ; e Íinal-
rados para o Orien[e, bem como certas orações
no correr dos tempos :
mente são as terceiras as que instituiu a Egreja
orações' de procissões'
grande nu[lero de bençãoq A. genuflexões, de
etc.
da Egreja em es'
Attenta a sua natureza, divitlem-se as ceremenias
pertencem as primeiras á propria essencia do sa'
senciaes e accessorias.
não podem s9r mudadas:
crificio e dos sacramen[os; e por esta razão
Eucharistia e da fórma dos sa-
taes são as palavras da consagração da
cramentos. As rugooArt, Qre ãi'e*'ttn:tpuiff::illlJ:Tfl#:
a
pos e as circums[ancias; Porque
oder cle as instrulr e modificar para
S.
em totlos os temPos. Com effeito, a

successão dos seculos, os usos dos paizes, e


os costumes dos povos exi'
que uma auctoridade sabia e
g0B, nas fórmas accidentaes, modificaÇões
benevOla tem sempre direito de operar
(2). Eis ahi porque achamos' por

fizessem novas leis, e


tambem estas são abol
variagões na disciPlina

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DE PERSEVEnANÇA. 23
exemplo, tão grande diÍIerença entre os ritos grego e latino. sem
em-
bargo o grego e 0 romano catholico professam a mesma Religiã0,
teem a
mesma fé, e observam os mesmos preceitos.
Por conseguinte esta diversidade de ritos em nada prejudica
a uni-
dade da Egreja. Que digo t faz sobresahir brilhantemrniu
á sua arreba-
tadora formosura. «A unidade da fe, diz s. Agostinho,
QU. é a mesma
para toda a Egreja, é o que constitue a formosura
do ,órp, da esposa
de Jesus christo, segundo estas palavras do propheta: rõaa
a formo-
sLcra da filha da rei estri no interior. Se, no
culto produzido por esta
uni'dade de Íe, se encontram práticas difierentes,
não e essa diversiclado
de ceremonias mais qüe a varieclade da veste da celestial
esposa, confor-
me se diz no mesmo ponto : A esposa estd ailornaila
de uma t)esüe cvm
bordado d'luro, recamado d,e d,iaeisas côres (l).
' Pretenderam os philosophos e os protestantes que
as nossas cere-
monias eram imitadas clos pagãos : não sei de e*probrrção
mais inepta.
certo é que todos os p0v0s tiveram ceremonia, .uiigiorur.
N,esse acervo
de práticas religiosas, res[avam, assim c,mo Das crenças e na
moral, al_
guns fragmentos d'uma reveração primiüiva.
Que fez a Egreja ? univer-
sal herdeira de todas as verdad es, fez, rrpr,.rção do verdadeiro
e do
falso, do bom e do mau. Adoptando o que ,ônoo bom
e verdadeiro, ex-
pulsou 0s usurpadores e disse-lhes :
uEu estou antes de vós, sou a pri-
meira, remonto aos primeiros dias do mundo, recebi a verdade
em de-
posito e herança, e reassumo o. que me pertence;
tudo quanto vós ten-
des conservado bom, verdadeiro e Iouvau.i, é meu.,
Depàis purificou e
santiÍicou esses usos, como santificou os templos dos
idolos e os fez ser-
vir para gloria du verdadeiro Senhor d,elles.
Tal é o sentido da resposta de S. Àgostinho a Fausto o manicheu
(2)' «0 emprego das ceremonias no culto do verdadeiro Deus, diz Ber-
gier, não é um empres[imo, e sim a restituição d,um roubo
feito pelos
pagãos. A Religião verdadeira é mais antiga que
;
as falsas por isso
tem direito a reivindicar uns ritos que as suis rivaes prorrnr.am.
Ha-
vemos de abster-nos de orar a Deus porque os pagãos
oraram a Ju_
piter ? de deixar de ajoelhar-nos porque elús
so prostraram diante tlos
idolos ?»

(1) Epist. XXXVI.


(2) Contr. Fau.et,r liv. XX, c. Iyr 2l,

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-_/

zll CÀTECIS\Í0

para não repetirmos 0 que já dissemos da nece§sidade do culto ex'


terng, fallemos em poucas palavras da utilitlade das ceremonias' Umas
são uma proÍissão da nossa fê: por exemplo, quando acompanhamos 0
SS. Sacramentg, 0u veneramgs aS imagens e reliquias dos Santos, mani'
festamos claramente que somos christãos e catholicos. Outras nos tornam
sensiveis os effeitos invisiveis da graÇa: por exemplo, a effusão da
agua

sobre a cabeça da creança no baptismo. Dstas advertem-nos dos nossos

deveres: taes são a tgnsura, que recorda aos ecclesiasticos a renuncia ás


;
vaiclacles do mundo a sua veste preta e a dos religiosos ou religiosas,
que é um prégador continuo do espirito de sacrificio. Aquellas inspiram'
nos profurrto-.rrpeito ás cousas sagradas: taes são os cantos da Egreja,
o Som dos sinos, u po*pu das ves[es sacertlotaes, e a ordem dos minis-
tros que servem no altar. Finalmente, quasi todas, praticadas como cum'
pre, produzem graÇas espirituaes : oS sacramentos, 0S sacramentaes, os
exorcismos e muitas outras.
E agora, que coisa mais propria para inspirar profuntlo respeito ás
nossas ceremouias que a sua nobre origem, antiguidade, belleza
e utili-
;
dade ? Desceram do ceo atravessaram os seculos ; poem a Religião a

salvo das novidades; ajutlam-n6s a elevar'nos ate ás coisas mais espiri'


tuaes; captivam-nos 0s ientitlos ; alegram-ngs o coração; rodéam o culto
de tan[a grandeza e dignidade, quo 0 mesmo impio não póde, sem tor-
uns
nar-se criminoso aos olhos da sciencia e da razáo, deixar de venerar
ritos tam cheios de sabecloria e que produziram tam felizes resultados
para o homem e para a socieclade. Assim e que Santa Thereza, alma tam
pequena
ãmante e tam bem inspirada, dizia: «Eu dera a cabeça pela mais
ceremonia da Egreja.»
cerem0'
Quereis outros motivos para a vossa veneração ás nossas
que lhes
nias sagraflas ? Encontral-os-eis assim na extrema importancia
dá a Egreja, como nas deploraveis consequencias que draz comsigo o
que
desprezo a que se votam. A Egreja recommenda aos seus mirristros
e que se conformem cuida-
as conbeçam, que estudem o espirito d'ellas
dosamente corn ellas. Não poderia um sacerdote sem ser criminoso,
e

sem prejudicar a integridade do sacrificio e a validade dos sacramentos,


omittir qualquer das ceremonias essenciaes. Se descurasse, por levian-
dade ou ignôrancia, as ceremonias não essenciaes, peccaria d'um motlo
mais ou menos grave, ConfOrme fosse mais ou menos impOrtante A §ua
omissão voluntaria.
Só no caso de extrema necessidade é que se podem omittir âs c0'

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.- r! t\

DE PEnSEVERANÇA. 2ü

remonias que não são essenciaes á integridade do sacrificio e á validade


dos sacramentos, por exemplo quando o padre que celebra a Missa é
ameaçado com a morte pela ruina do edificio ou pela approximação dos
inimigos da Religião, que o querem matar. Em perigo imminente de mor-
te, supprimem-se as ceremonias do baptismo, com obrigação porêm de
as supprir se a creança sobreviver.
vae ainda mais longe a Egreja; manda aos seus ministros que ex-
pliquem as ceremonias aos Íieis ({) : por tanto é para estes dever o estu-
dal-as. sem diÍflculdade o comprehendereis; por quanto as ceremonias
foram estabelecidas para nos ediÍicar, instruir e desper[ar a ngssa atten-
ção; estão unidas a ellas graÇas particulares; e são um livro, uma serie
de quadros que nos apresentam a Religião sob imagens sensiveis. porém
este livro, por mais bello que seja, será para nós um livro fechaclo, não
dirá nada á nossa fé, se não soubcrmos a lingua em que está escripto.
Por mais expressivos que 0s supponhaes, aquelles quadros serão para
nós vãs imagens, se não soubermos o assurnpto, o sentido e a razáo
d'elles.
Então nos será todo o culto externo quasi que inutil. 0 espectaculo
das nossas santas ceremonias, em vez de reanimar em nós a fé, só nos
inspirará desgosto e enfado, e por ventura desprezo ; pois é proprio rlos
ignorantes o escarnecer do que não comprehenclem. Esses ignorantes en-
contram-se hoje por todas as partes. Não seria uma vergonha para os
christãos não poderem defender o seu culto, e tomarem parte em cere-
monias que não podem explicar ?
sem embargo, quantos fieis assistem ha muito á Missa, teem ido á
egreja como padrinhos ou madrinhas, e teem visto administrar a Confir-
maçã0, a Extrema-Uncçã0, e todos os sacramentos, sem comprehenderem
t
coisa alguma do que se passa dianto dos seus olhos como I pois hoje
que se põe extraordinario empenho em descobrir o sentido occulto dos
antigos escriptos, das inscripções gravadas nas columnas e nos tumulos
profanos, não teremos que envergonhar-nos, nós os christãos, de empre-
garmos menos zêlo para comprehendermos o sentido das nossas ceremo.
nias, mil vezes mais instructivas que totlos os monumentos da antiguida-
de pagã?

(1) Concil. Trid,, Sess. XXII, c. YIII.

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26 CÀTECI§MO

0RAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor ! graças vos dou por haverdes
tornado sensiveis a meus olhos as verdades da Religião; e peço-vos per-
dão por não ter tido bastante respeito ás ceremonias da Egreja.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo c0m0 a mim mesmo por amor de Dcus; e, em testimunho d'este
amor, esüudarei com muito cuidado as ctenxlnias d,a Bgreia.

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_\

DE }ERSEVEftÀNÇÀ 9,7

TERCETRA LrÇÃO

0 christianismo [ornado sensivel.

IDgfeJas ; §ua neeecsldade.-Neeessldode dc suo rlesoragâo.-


verúldo3 Gorlvenlenúes e decenúes para os dias fesúlvot.-
rDesorlpções. das anÚigas eSreJas.-AE rro§§a§ aeúuaes egre-
jas otrelas de reoorúacões das Gaúâcumbas.
ÂIúar. * Balausúrarla. - orypúa. -

Pois vamos explicar for miudo o culto catholico, natural é como-


çarmos pela egreja onde elle se realisa.
l.o são necessarias egrejas, posto que Deus esteja em toda a parte,
e posto que o universo seja um magnifico templo. Tem havido em todos
os tempos e em todos ós povos logares especialmente consagrados a hon-
rar a Divindade. 0 cume dos montes, a profundeza das floresüas, eram
essolhidos com preferencia: estas, porque favoreciam mais o recolhi-
mento (l); aquelle, porgue parecia approximar o homem mais do ceo.
Estes logares converteram-se entre os pagãos em theatros de uimes. O
culto dos astros que se avistavam melhor do topo dos montes, foi a pri,
meira idolatria. E' muito provavel que uma das razões por que Deus
quiz que se construisse o tabernaculo, fosse convencer o povo judaico do
que não era necessario ir ao pincaro dos montes para se approximar mais
de Deus, e que elle proprio se dignava de approximar-se do seu povot
tornando sensivel a sua presença no templo portatil erecto em sua honra.
Foi portanto o tabqrnaculo um preservativo contra a idolatria (2).
Foi tambem um meio de sustentar a pieda
randoJhes mais respeito e temor ao Senhor, e da
preencherem mais commodamente o culüo divino.
estava collocado no meio do acampamenü0. N'eile se viam, reunidos n,um

(1) Num,, XXII, 4l;LVIérn, de l,'Áco,il., p. GA.


(2) Bergier, *t, Egreja.

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--t----\

28 cArEcrsuc

estreito espaço, os symbolos da presenpa de Deus e os signaes da sua


Omnipotencia. A arca da alliança, as taboas da Lei, os dois cherubins de
azas estendidas, o vaso cheio de manná, 0 â vara d'Aarão lhes repetiam
elbquentemente' assim os beneÍicios coúo o poder do Deus senhor dos
elementos, supremo legislador, monarcha dos anjos, vingador do crime,
pae de seus fllhos, unico santo, unico digno de respei[o, amor, louvor o
adoraqã0.
Todas estas coisas, e outras ainda mais admiraveis, repete aos chris-
tãos a mais pobre egreja de aldêa. Não e por tanto verdade, como pre-
tendem cer[os impios, que não seja necessario outro templo mais que
o universo. Nã0, não e sufflciente o universo. Às tres quartas par[es
dos homens, acostumados ao espectaculo do uniterso, vêem-n'o sem
commoção; em tanto que Íicam cheios de admiragão á vista d'um tem'
plo rica e decentemente adornado. Como se entrará nas nossas graves
cathedraes sem se Íicar penetraclo de religioso respeito ? Demais o uni-
verso, com toda a sua magnificencia, não diz ao coração quanto diz a
modesta egreja da aldêa. No topo das collinas, á face do ceo, não encon-
traes a craz, nem 0 a[[ar, nem o tabernaculo, nem a meza sagrada, nem
o tribunal da misericordia, nem a pia baptismal, nem os tumulos dos
avôs, nem nenhum d'esses symbolos tão cheios de recordações e tam po'
tentes sobro o coração e sobre os sentidos.
E depois, a egreja é um logar social. Yêde se reunis homens, mu'
lheres, velhos e crianças a0 ar livre, sobre as collinas, á face do ceo,
quando está coberta de neve e de gêlo a terra, ou qrrando cahe a chuva
a torrentest Destruir as egrejas é por tanto destruir o culto externo ;
destruir o culto externo e destruir o culto interno, e destruir a Religiã0,
é destruir a sociedade. Ah! em vez de destruirdes as egrejas otl de di'
minuirdes o seu numero, e necessario construirdes outras novas: quantas
mais levantardes, menos prisões ediftcareis.
Não merecem pois ser escutados esses estranhos censores que se
rebellam contra aquillo que a todos os homens dicta o commum senso.
Que vão adorar a Deus á face do ceo, na altura dos montes, depois de o
haverem adoraclo no templo: quem lh'o impede'l Porem elles não o ado'
ram de maneira nenhuma, e quizeram supprimir todo e qualquer exer-
cicio publico da Religiã0, pois bem sahem que, sem o culto externo, ella
deixaria de existir.
2.' E' necessario que as egrejas sejam dignamente decoradas. 0s
impios tambem dizem: De que serve tanto luxo nas egrejas? Acaso não

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\
DE PEn§EVEnANÇA. 29

nasceu Jesus Christo n'um presepio? acaso não instituiu a Eucharistia


n'uma camara ?
De que serue tanto luro nas egrejas? Na opinião d'elles, perde-se
turlo quanto se faz para honrar a Deus. Não é nova esta linguagem: e a
de Judas, murmurando contra Magdalena que derrarnava um precioso
perfume nos pés do Salvador. Ern verdade, os modernos Judas teem
graÇa, queixando-se da magniÍicencia do culto catholico. Ora vejam: di-
zem-se amigos do povo, e acham bem que as riquezas d'este sejam dis-
sipadas com as mulheres publicas, com 0s theatros que corrompenc os
costumes, e com os divertimentos de todas as especies; e deploram"as
despezas que se fazem com 0s espectaculos de Religiã0, porgue instruem
os homens, 0s excitam á virtude, e os consolam com a esperança d'uma
felicidade futura. Simulam compaixão da miseria do p0v0, e não só não
quereriam privar-se de coisa alguma para o soccorrerem, mas ate querem
tirar ao p0v0 o unico meio que lhe resta de consolar-se e de alentar-se
nos templos do Senhor com motivos de religiã0.
De certo vale mais, segundo a opinião d'elles, que 0 povo se vá dis-
trahir nas casas de alcouce e nas escholas do vicio; e assim e que se
teem multiplicado para sua commodidade. Mas aonde irão os) que temem
a infecção d'esses logares empestados e que se não querem perverter?
Deixemos pois disparatar os loucos, e consultemos a simplos luz natural
e a experiencia de todas as nações
Sim, convem que haja certo Iuxo nas nossas egrejas, porque ó ne-
cessario dar aos homens uma alta ideia da Xlagestade divina, e tornar
respeitavel o seu culto, Ora, não so conseguirá isso sem 0 auxilio de
pompa exterior. 0 homem só por meio dos sentidos póde ser impressio-
nado: eis o principio de que cumpre partir. Não se logrará captivar-lhe
a imaginaçã0, se não se lhe pozerem diante dos olhos objectos a que
elle dê grande apreÇo.
A não ser que o povo encontre na Roligião a mesrna magnificencia
que descobre nas ceremonias civis, a não ser que veja prestar a Deus
homenagens tam pomposas como as que se prestam aos potentados da
terra, que ideia fará da grandeza do Senhor a quem adora ? tal e a refle-
xão de S. Thomaz. 0s protestantes sentem hoje os funestos resultados
da nudez a que reduziram o culto divino. Ate um incredulo conveio em
que a suppressão do culto divino, na Inglaterra, baniu d'ella a piedade e
fez hrotar o atheismo e a irreligiã0. Assim é que 0s nossos irmãos sepa-
ratlos restabelecem p0uc0 a pouco, nos seus templos, os antigos symbolos

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30 cÀTEclsuo

gue seus paes haviam desterrado, queimado e profanado com tanto furor
e tanta cegueira (l).
Se pois decoramos as egrejas, não e porque Deus precise d'essa
;
magnificencia nós é que precisamos d'ella para nos elevarmos a Elle.
Precisamos rle oflerecer-lhe o nosso ouro, as nossas riquezas e os primo-
res das artes, porque e um dever o prestarmos homenagem de todas
estas coisas áquelle de quem veem o 0ur0, as riquezas e os talentos.
Este tributo de agradecimento e adoração é um titulo para se conseguirem
novos beneÍicios, a0 passo que a ingratid?io é vento abrazador que secca
o manancial clas graças. Sob este D0v0 prrt][o de vista, é ainda a pompa
do culto completamente do nosso interesso.
E' certo que Nosso Senhor nasceu n'ctmt presepio, e instituiu a sagratla
Eucharistia n'etma camara. Com esta simplicidade e pobreza, qaiz mos.
trar-nos 0 seu immenso amor, que não e:rige, para manifestar.se, nem a
riqueza dos edificios, nem a pompa das ceremonias. Pobres de todas as
gerações, Deus quiz ensinar-vos que vós tambem poderieis tomar parte
nos seus mysterios de amor, e que Elle se dignaria de habitar sob a vossa
egreja coberta de colmo. Quiz tambem ensinar aos christãos que o ver-
dadeiro culto era o do espirito e do coraç?[0, e por esse modo preservar-
nos das illusões do povo carnal, demasiado propenso a suppôr que 0 ap-
parato das ceremonias o o grande numero das victimas eram quanto o
Senhor d'elle exigia.
Não quiz porém prohibir a magnifir:encia do culto externo áliás:
teria abandonado ao espirito de mentira tr Egreja sua esposa ; teria des-
conhecido a natureza humana; teria querido o aniquilamento da Religiã0.
Ora, Deus sabia melhor que os nossos ptrilosophos que o homem só por
meio dos sentidos póde ser impressionado, e que urna religião reduzida
ao puro espiritual em breve seria desten'ada para o imperio da lua.
3.0 A pompa exterior deve passar do templo material ao templo
vivo, is[o é, ao homem. f)eve-se andar cc)nvenientemente vestido nos dias
festivos, a fim de demonstrar o respeito (true se tem a Deus, reconhecer
que todos os bens proveem d'elle, e que tudo deve ser consagrado ao seu
serviç0. E' tam natural este sentimento, rlue existe no coração de todos
os homens. 0 mesmo pobre c o habitador dos campos 0 comprehendem
tambem, quo, para assistirem ás assembleas religiosas nos dias festivos,
se vestem o mais asseadamente que lhes e possivel.

(1) Bergier, afi, Cul,to,

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DE PENSEVERANÇA 3{
. E assim deve ser, para que esse apparato exterior o faça lembrar-se
da pureza da alma que lá deve levar, para que os grandes que desdenham
aquellas assembleas, tenham menos repugnancia em juntar-se com o povo,
e para que a enorme desproporção que estabelecem as riquezas entre
uns e ou[ros, desappareça um tanto,. ante o supremo senhor, aos olhos
do qual são eguaes todos os homens. Já era o mesmo na antiga Lei. Jacob,
prestes a oÍIerecer um sacrificio á frente da sua casa, manda aos seus
que se lavem e mudem de vesl,idos (t). Deus ordenou a mesma coisa aos
hebreus guando lhes quiz dar a sua lei no monte sinai (2). Este signal
exterior de respeito encontra-se em todas as nações: todas, sem excepçã0,
empregam nas homenagen§ que prestam á Divindade a maior pompa que
Ihes e possivel (3).
Não cuideis que este apparato exterior, este ar de festa não tenha
influencia sobre o espirito e coraçã0. 0h r tem ; pois indic a e faz nascer
as disposições interiores com que se deve ir á egreja ; e sobretudo des,
perta o sentimento que então deve dominar todos os mais, o sentimento
da alegria. com effeito, vêr a egreja é vêr a casa de nosso pae, a casa
em que elle nos espera, com 0s braços abertos, com o coração abrasado
de amor, para nos receber e abraçar, para nos alimentar do seu pão ce-
leste e nos saciar do seu vinho delicioso.
Yêr a egreja e vêr a casa em que nascemos, em que experimentamos
as primeiras alegrias, em que 0 nosso espirito se abriu á verdade e o
nosso coração á innocencia; em que os nossos passos se roboraram na§

Pae : san[0, san[O, santo é o senhor Deus rros exercitos, dos anjos e dos
homens.
Yêr a egreja ao pé da quar está o cemiterio, é vêr a sepultura de
nossa mãe, de nossa irmã, de nosso irmã0, sobre a quat noi será per-

(1) Gez., XXXV, 2.


12) Daod,., XIX, 10.
(3) Bergier, aú, Cul,to,

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32 cÀrEclsMo

mittido, ao passarmos, depÔr uma lagrima, uma oração e uma flÔr. Yêr a
egreja e vêr o logar aonde se vae dizer aos ricos que dêem esmolas aos
póbrur, aot grandes que sejam protectores dos pequenos e dos fracos,
ãor ,*ot que tratem com hrandura seus creados, e a nós todos gue ngs
amemos, que nos ajudemos, 9ü0 nos perdoemos como irmãoS e que não
formemos todos juntos mais que um coração e uma alma. Como não se
experimentará o estremecimento de jubilo dos israelitas convidados a di-
rigirem-se ao templo de Jerusalem: Regosiiamo"nls clm a noua de que
iriamos em breue d casa do Senhor (t) ? Cheios d'esta disposiçã0, vamos
para a egreja. A Íim de a respeitarmos e amarmos ainda mais, aprenda'
mos a conhecêl'a bem; eis a sua historia e descripçã0.
Destle o principio, tiveram nossos paes logares consagrados ás as-
semblêas da Religião e ao offerecimento dos sagrados mysterios (2). Mas
nas Catacumbas e que se devem procurar o modelo e o elementos pri-
mitivos das nossas egrejas (3). Tudo n'es[as lraz á lembrança aquelles lo'
gares para sempre seneraveis, como faremos notar ao fallarmos de cada
parte da egreja. Quando lhes foi licito celebrarem 0 seu culto á face do
iol, apressaram-se os christãos a edificar egrejas e a dispol'as do modo
mais acommodado ao cumprimento das ceremonias usadas n'aquelles dias
de santa memoria. Eram divididas em sete partes (4), como se pÔde vêr
na descriPção seguinte :
,t. 0portico ou aestibulo erterior (5). Era um espaÇoso oblongo
que havia á entrada da egreja ; era coberto e sustentado por columnas
situadas de distancia em distancia. 0s imperadores ambicionavam a
honra de serem sepultados sob o vestibulo das egrejas : 0 que faz dizet a
S. Chrysostomo que os imperadores são na casa dos pescadores, isto é,
ngs templos declicados aos Apostolos, o mesmo que são os porteiros na
casa dos imPeradores.

a,, Eyti,st, ail, Magnes., n. 7; Clem. Alex.,


Bottari. oue as capellinhas das Catacum-
rejas e'bdsiticas qüe ao depois-se edifica-
o:" r;;
i : \i,{: ;íT:"#!: ;lí::L :,;!:',
rsenpçao crrcumstaneiada tlas egrejaq sqp-
terraneas, e mostramos que ellas foram o typo'tlas nossas egrejas, e nâó as basili-
t"t r,X!âtiomamos
por guias os a ualquer outro me-
,..tÀ'elles
----ii,t confisnçã, cõmo todos t' I'
É.te vãsiibhlo chamava-se nq, por causa da sua
fórma alongada.

t-
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DE PERSEVEBANÇÀ. 33

2. 0 claustro ({). Do vestibulo entrava-se no claustro. Era um cor-


retlor sustentado por columnas e que cercava a terceira parte da egreja
chamada o atrio. Era alli que flcavam os penitentes da primeira classe,
chamados llentes ou choradores, porque choravam 0s seus peccados e
imploravam a compaixão dos fleis que entravam na egreja.
3. 0 atrio (2). 0 atrio era um pateo quadrado. Não tinha outra co-
bertura senão o ceo, nem outras luzes senão os astros e os raios do sol,
para que todos os que entravam podessem contemplar á vontade as bel-
lezas do ceo, e preparar-se, pela adoração do Deus da natureza, para a
adoração do Deus da RedempÇão. No meio do atrio brotava uma fon[e,
;
symbolo da puriÍicação n'ella lavavam as mãos e a cara antes de pas-
sarem adiante. Na taça da fonte estavam gravadas estas palavras: «La-
vae os vossos peccados e não só o vosso rosto.»
Esta fonte era benzida pelo sacerdote, na vespera ou no dia da Epiphania.
Supprimida com o andar dos tompos, foi substituida pelas pias d'agua ben-
0
ta. uso de puriÍicar-se com agua antes de apparecsr diante de Deus
é tão antigo como o mundo. Praticavam-n'o os patriarchas e os judeus
(3). Encontra-se entre os pagãos, posto que depositarios infieis da reve-
laçã0. D'est'arte, ao primeiro passo que damos na egreja, encontramos
uma recordação da mais veneranda an[iguidade. Oxalá que nós, a0 ser-
virmo'-nos da agua benta, estejamos animados dos mesmos sentimentos
de respeito e compuncÇão que os nossos virtuosos antepassados Para I
isso, lembremo'-nos de que a agua benta, tomada com respeito e com-
puncçã0, lava os peccados veniaes (4).
L. 0 oestibulo interior (5). Proseguindo passava-se do atrio ao ves-
tibulo interior. Nas egrejas grandes, este vestibulo interior estava sepa-
rado da nave por uma parede. Alli se punham 0s cathecumenos, os
energumenos, e os penitentes chama dos audientes, ouvintes, porque lhes
era permittido escutar os hymnos e psalmos gue se cantavam na egreja,
assim como a palavra de Deus. Permaneciam alli até ao momento em que
o diacono, levantando a vol.,, dizia: «Frira os owsintes e infieis.» A en-
trada do vestibulo interior era tambem permittida aos pagãos, judeus,
herejes e scismaticos, para que podessem ouvir as instrucções dos minis-

(1) Claustrum.
(2) Atrium.
(3) Gen.,, XXXY.
(4) ü Thomaz, 3.o p,, quest. 65, art. 1.
(5) Nartex intêriorl '

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3tL CÀTECISMO

tros do Evangelho, e conyerter-se se Deus se dignasse de tocar-lhes o co-


raçã0.
5. á na,De (l). Algumas grandes portas communicavam do vestibulo
interior á nave. Esta par[e principal da egreja chamava-se c0m0 hoje na.
v0, d'uma palavra latina, nauis, que quer dizer nau. l'oi-lhe dado este
nome por duas razões: primeira, porque é muito mais comprida que
larga ;segunda, pârâ recordar aos christãos que a Egreja é uma nau.
Nada mais commum nos Santos Padres que a comparação da Egreja
com um navio ou uma barca. Nosso Senhor é o piloto invisivel d'ella;
S. Pedro, o piloto visivel; os ministros sagrados, os marinheiros ; 0s Íieis,
os felizes passageiros. Sempre açoitada pelas vagas, nunca a Egreja é
absorvida pelas ondas, nem se despedaça de encontro aos escolhos. E'
mister estar no seu seio para atravessar o mar do mundo, escapar a0 di-
luvio de iniquidades que inunda a terra, e aportar são e salvo ás celes-
tes praias. Que adrniravel sentido n'esta simples palavra da nossa lingua
religiosa I
e toda a historia do homem n'este mundo: tinhamos acaso
pensado n'isso ?
A'
entrada da nave, junto da parede que a separava do vestibulo in-
terior, estava a terceira classe de penitentes, que se chamavam prostrati,
ou prostrados. Depois de [erem assim passado tres annos sob o claustro
a chorar 0s seus peccados, e ou[ros tres sob o vestibulo interior a escu-
tar a palavra de Deus, restavam-lhes ainda seis de penitencia antes de
serem admittidos á communhão publica. Estavam prostrados á entrada
da na\re, a fim de receberem a imposição das mãos do Bispo quando
passava.
Caminhando um p0uc0 pela nave, encontrava-se o ambom ou a tri-
buna,, de cima da qual se lia a0 povo a Escriptura Sagrada e se annun-
ciava a palavra de Deus. Collocada no meio 0u a um dos lados da nave,
tinha o tamanho sufÍiciente parr conter varios leitores. 0s Bispos préga-
vam ordinariamente nos degraus do altar; porem S. Chrysostomo pre-
feriu o ambom. Acima do ambom estava a qtrarta classe de penitentes,
chamados consístentes, porque se conservavam em pé, otJ clmpetentes,
porque se assimilhavam a creanÇas, diz S. Àgostinho, Qü0 comprimem
as entranhas da mãe para nascerem á luz.
D'este ponto em diante, estava a nave dividida a0 comprido em duas
partes por dois repartimentos que impediam que se vissem os homens e as

(1) Navis.

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i

t)E PDESEVERÀNÇÀ. 35

mulheres. Entre os dois repartimentos havia um largo corredor para o mo.


vimen[o dos ministros sagrados : os homens estavam á esquerda e as mu-
, lheres á dereita. Consideranclo Nosso Senhor assentado no [abernaculo vol-
tado para os Íieis, os homens achavam-se realmente á sua direita. Este lo-
gar conveniente á sua dignidade existe ainda hoje em grande numero
d'egrejas (,1).
Todos, homens e mulheres, estavam de pé, ou de joelhos, ou assen-
tados sobre as pernas encruzadas, á maneira dos orientaes; não havia
para 0s fieis bancos nem cadeiras. lllais tarde, 0s religiosos que passa.
vam grande parte do dia na egreja se encostaram aos bordões, e depois
a assentos pegados ás paredes. E' o que representam as cadeiras oa tni-
sericordias dos conegos que não estão assentados nem de pé, mas sim-
plesmente encostados. D'ahi não houve mais que um passo par.a intro-
duzir nas egrejas bancos e cadeiras em favor dos fieis. Comtudo a Hes-
panha conservou o uso primitivo (2) : não tem cadeiras nas egrejas.
0
6. côro (3). Esta parte da egreja tem este nome porque era re-
servada aos ministros sagrados, directores do canto e da oraçã0. Estava
separada da nave por uma grade semi-circular. Em redor havia assentos
mais ou menos elevados, conforme a dignidade dos ecclesiasticos; o mais
elevado era para o Bispo, para que porlésse advertir, vigiar e guarclar o
rebanho.
7. O santuario 0 santuario estava separado do côro por uma
(tt).
grade ou balaustrada enr que havia tres portas; a do meio, *ãis lrrga
que as ou[ras, chamava-se a Porra santa. Como o santuario terminava
em semi-circulo, esta parte da egreja chamava-se abside, isto é, corta-
dura. 0 panno cerrado á entrada tirava a vista do altar e impedia que se
vissem os sagrados mysterios na occasião da consagração; não se abria
senão depois. Era o que fazia dizer a S. Chrysostomo : «Quanclo se está
ao Sacrificio, quando se offerece Jesus Christo, o Cordeiro de Deus, guan-
do ouvis dar o signal, reuni-vos para orar. Quando vêdes descerrar o
panno, pensae em que o ceo se abre e em que os anjos descem (5).,
No santuario estava o altar; ao lado do altar-mór havia outro mais

(1) §er. l-a celebraçâo clo casamento, se inverte esta ordem, é para que o es.
poso esteja á direita da esposa de quem é óhefe.
(2) E' ainda geral ná Italia.
(3) Chorus.
(4) Bema vel santuarium.
(5) Eomíl.Ill in Ephe*

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36 CÀTECISMO

pequeno sobre que se punham o pão e o vinho offerecidos pelos fleis


para o santo Sacrificio. Este altar e substituido nas nossas egrejas pelas
credencias ; é alli que se poem ainda hoje as galhetas. SÓ os clerigos po'
diam entrar no santuario: d'onde vem o chamar-se a este logar inacces'
sioel e sagrado.
0 altar estava ordinariamente a0 oriente (l). Nossos paes na fé,
considerando Nosso Senhor cgmo o verdadeiro sol do mundo, como o
oriente do ceo, collocavam os seus altares e se voltavam para orarem
para o lado do oriente, a fim de mostrarem a sua esperança e fé.
Por baixo clo altar havia uma gruta subterranea chamada crypta (2)'
na qual repousaya o corpo d'um ou de varios martyres; sobre o altar [o-
chas accêsas; aos lados da egreja, pinturas muraes, paineis, e capellas;
finalmente a parte da egreja que flcava por traz do altar, terminava em
redondo, de maneira que a fórma das nossas egrejas é a d'um nicho:
outras tantas recordações das catacumbas; recordações sagradas como
as que mais o sã0. Todos os dias as temos ainda diante dos olhos, e tal'
yez nunca nos dissessem nada ao coraçã0, Não continue a ser assim I a
ignorancia, ao menos, não nos servirá mais de desculpa. Uma palavra
sobre cada uma tl'estas tam venerandas recordações.
Começemos pela crypta. Em grande numero de egrejas antigas,
aintla se vê por baixo do altar principal uma crypta ou capella subterra-
nea : é uma recordação das Catacumbas. Com effeito, nas grutas subter-
raneas d'estes amplos cemiterios e que nossos paes na fe offereciam os
santos mysterios. Quando lhes foi permittido ediÍicarem egrejas, conser-
varam quanto poderam as recordações d'aquelles tempos de provações e
virtudes. Para mostrarmos o que as nossas soberbas basilicas tomaram das

(1) .Nunca a Egreja, diz o snr. abbatle Pascal (carta ao snr'. Diclron), prescre-
veu com severidade se dirigissem os templos para o oriente... S. Paulino, que vi'
via no quarto seculo, reconheceu que o uso mais orclinario é o de dirigir as egrejas
para o oriente; mas está tam longe de vêr n'este costume uma l'egra liturgica, que
manda ao mesmo tempo construir em Tyro urn templo christão, que vilajustamente

Seria pois falsificar o espirito da Egreja o fazer considerar como regra constante e
absoluta o que NUNcÀ foi senâo de pura converriencia e facultativo.o Isto é verdadel
porém o celebrante que diz Missa no altar papal está virado para o oriente.
(2) Crgpta, caverua, cova, subterraneo.

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DE PERSEVEnANÇA. 37

Catacumbas, volvamos um rapido lance d'olhos para essa quantidade de


egreginhas, hoje encravadas nas entranhas de Roma. Cavadas no tufo, são
em geral mais compridas que largas; n0 fundo, terminado em forma cir-
cular e sobropujado d'uma abobada em forma d'arco (l), está o tumulo
d'um martyr.
chamava-se a este tumulo altar, porque sobre a prancha de mar-
more ou de pedra que o cobria e que fazia saliencia, e que se offerecia o
santo SacriÍicio. Chamava-se tambem confissdo porgue o martyr, ao mor-
rer, havia confessado a sua fé; os seus 0ss0s estavam alli para a confes.
sarem ainda e lhe renderem testimunho (2). Em algumas d'essas egregi-
nhas, aincla se acha n0 seu si[io, diante do tumulo do martyr, uma la[i-
de de marmore vasada, e posta coulo uma especie de gracle: primeiro
modelo das balaustradas collocatlas nos ternplos chrislãos diante do altar
principal, e cuja intenção prirnitila se torna evirlente pela observação
das catacumlras. E' claro, com eÍIeito, que teve por otrjeclo pôr os restos
sagratlos, encerrados no turItttlo, fóra clo alcance d'um zelo ninriamente
ardente 0u irreflectido, e inspirar mars veneração ao lugar ontle elles
repousaÍn.
Ern Rtlm:1, foram as egrejas ediÍioadas sohre aquellas subterraneas : o
altar tla grttta corresponde ao pont0 centt'aJ rla intersccção tla nave e do cru-
zeiro: a entratla do sutlterraneo onde elle está collo,:arlo e ao quat se desce
por degraus, e fecltada por trmaqrade.Por cirna fl'este subterrane6 e ao ni-
vel do pavintenl,o da egreja é que está cullocado seguntlo altar, que serve
para a celebraçío cla lllissa. Recorda pela sua fórma e pela sua mesma
pusiçã0, directarnente por cima do altar subterrêne0 ou 6o tumulo, a sua
origem seputcral e o seu primitivo destino, c0m0 g carneiro a que cor-
responde testiÍica o Iogar d'oncle salriu. Quasi todas as antigas üasilicas
de Roma, ainda que reconstruidas nos tempos moderno, co, mais ou
menos brilho e magniÍicencia, offerecem esta feição essencial dos pgD':
mentos do culto primitivo.
I\ão citaremos aqui mais que um exemplo. Entre as egrejas da
mais
antiga epocha, uma das mais notaveis a todos os respeitos-e á egreja
de-

(1) Monumentum arcuatnm.


?;1?
*:J
uae.
B

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38 cÀTECISMo

dicada a S. Prisca, filha d'um senador romano, baptisada por S. Pedro


em pessoa. Havendo sido morta pela fé, foi deposto o seu corpo n'um
sepulcro que tem a fórma d'um altar antigo. Este tumulo de Prisca foi
collocado no centro do seu proprio quarto, no palacio de seu pae, do qual
ainda hoje se vêem restos no monte Aventino. Esse quarto, com o tumulo
que'encerrava, tornou-se d'este modo uma especie de templosinho fune'
bre ; e quando rnais tarde se construiu por cima a egreja que ainda existe,
formou a confissão subterranea tl'ella (l).
Assim, este interessante edificio apresenta hoje tudo 0 que se acha-
va nas Catacumbas : um tumulo servindo de altar, uma ca'pella subter-
ranea, e finalmente uma egreia superior; monumentos nascidos uns dos
outros, e em que 0 culto dos mortos prende, por uma relação intima,
com o cla Divindade, clo mesmo modo que 0 christianismo se une alli ma-
terialmente á antiguidade, pela mesma construcção d'aquella egreja erguida
sobre os alicerces d'um palacio romano (2).
À Religião tem tan[o respeito aos usos dos seus dias nascentes, que
tottos oS seus altares são em fórma de tumulo, e que nos altares ha uma
ou varias cavidades chamadas tu,mulos, onde estão encerradas as reliquias
d'algum Santo; não ha altar sem reliquias. 0rdinariamente o tumulo está
collocaclo no meio do altar; é n'esse ponto que repousa, depois da con-
sagraçã0, Jesus Christo immolado á gloria de seu Pae.
Assim n0 espaÇo d'um pé quadrado, reune a Egreja, nosso mãe, tudo
quanto ha mais potente para mover 0 coração de Deus Nosso Senhor I
e os martyres immolados para gloria sua. Assimilha-Se a uma viuva que,
para alcançar uma graÇa, fosse ter com o principe, e, apresentando-lhe
cgm uma das mãos os ossos de seus fi[hos, com a outra 0 corpo de sett es'
posg, morto em serviço do estado, lhe dissesse: «Eis aqui os meus ti'
tulos aos vossos favores t» Haveria algum principe no universo gue re-
cusasse a esta viuva o objecto da sua supplica? Portanto seria Deus me'
ngs que um homem se não escutasse a Egreja quando lhe apresenta nos
nossos santos mysterios o Sangue de seu Esposo e 0S ossos de seus fi'
lhos.

(1) Veja-se a descripção d'esta egreja nas Tres Ronas.


(2) Raút Rochette, Qwdro do,e Calanumbas.

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D[ PERSEVEMNqA. 39

oRAÇÃ0.

Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-


ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e em testemunho d,esto
amor, tomarei, agua benüa com muito respeilo.

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40 CÀTECISMO

QUARTA LlÇÃ0.

0 christianismo [ornado sensivel.

Gonúinuaçõo do descripcão das nossas egreja§. - lftochaS' -


Gapetlas laterael. - PinÚuraB. - IDecoraçõee. - Sino: §etl
trapl,ismo. - Porque §e Úoca nas Úrovoarlas.- Earmonia rloS
rinos com o§ no§§os senÚlnrenÚos.

Continuemos a explicar as recordações das Catacumbas ainda vivas


nas nossas egrejas. Não as comprehender seria a um tempo uma des-

saltadgs d'um estremecimento religioso a0 transpormos 0s umbraes sa-


grados, entrariamos nas nossas egrejas c0m0 n'um ediÍicio ordinario.
Uma vergonha; sim, vergonha para o Íilho que não compreltende
neÍn as partes, nem a disposição da casa paterna; que nem pÓde jtrstificar
a sabedoria cle seus avôs na distribuição do ediÍicio que ella lhe legou,
nem dar cgnta clos usos que estabeleceu e que elle prt-rprio pratÍca sem
saber porquet Que digot não os praticará por muito tempo. Quando um
livro está escripto n'uma lingua desconhecida, deixa'se a outros, ou então
lança-se para um canto escurg, entregue ao pÓ e a6s vermes. Não é esta
uma das razões por que se tornaram desertas as nossas egrejas, e aS
ngssas ceremonias um espectaculo mudo, insipido, e talvez ridiculo aos
olhos de muitos?
Qra, clepois de termos fallailo na precedente lição da crypta, do
altar e da balaustrada, resta-nos dar razão das tochas, das capellas late-

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I

DE PERSEVERÀNÇÀ. Ll
raes e das pinturas que decoram as nossas egrejas, e são novas recorda-
ções das Catacumbas.
{.o ,4s tochas. Obrigados a fugir á luz do sol, a suppriam nossos
paos, nos subterraneos que por tanto tempo lhes servirarn de asylo e de
templo, por lampadas e tochas. Estas Iampadas encontram-se aos milha-
res nas Catacumbas. Acham-se alli collocadas de duas maneiras diiferen-
tes, que certamente se referem tambem a duas intençoes distinctas. As
primeiras estão mettidas em nichosinhos ou Íixas em especies de cachor-
ros de pedra salientes ao longo dos corredores, ou tambem suspensas
por uma corrente á abobada das paredes das capellas. Tudo prova que
serviam para guiar os passos dos fieis e para allumiar as ceremonias re-
ligiosas que n'aquelles subterraneos se praticavam.
Às segundas estão seguras fóra dos [umulos sobre que se celebravam
os santos mysterios, e ate ás vezes postas no interior das sepulturas como
symbolo d'immortalidade. Esta intenção não póde pôr-se em duvida, pois
que se deriva do uso seguido nos funeraes christãos (l). Este uso das
lampadas conservou-se entre nós sob outra fórma, por meio das tochas
accêsas na ceremonia das exequias.
As lampadas da primeira e segunda classe sã0, pela maior parte, de
barro cozido. e algumas de bronze; acharam-se tambem algumas de prata
ou ainda de ambar. Teem geralmente a fórma de barca, porque entre
nossos paes era um dos symbolos mais populares da Egreja. Não citare-
mos como exemplo senão uma bella lampada achada ha pouco nas Ca-
tacumbas. E' em fórma de barca e tem dois personagens, S. Pedro as-
sentado ao leme, e S. Paulo em pé, á prôa, pregando o Evangelho. 0
maior numero d'estas lampadas são ornadas de figuras symbolicas: pal-
mas, corôas, cordeiros, pombas, peixes e candelabros. As mais das ve.
zes, teem a cifra de Nosso Senhor. D'onde veio o uso de gravar nos pés
dos nossos cas[içaes d'altar os attributos, a cifra ou a figura de Nosso Se-
nhor e da SS. Trindade.
A vista dos nossos cirios nos leva pois dezoito seculos atraz, ao tem-
p0 das perseguições, a0 mesmo berço do Cbristianismo. Não dirá nada
esta vista a0 noss0 coração? Leva-nos ate muito atraz, porgue o uso das
tochas e dos candelabros, como parte do culto divino, remonta ao tempo
da lei mosaica. Herdeira de todas as ceremonias immortaes da Synago-

(1) Este uso ó attestado por S. Jeronymo: Curn alii cereos l,arrynd,uque, alii,
Bottari, t. III, p. 67 e 68.
choros psall,entüum d,ucerent, Vide

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ga, bom como do dogma e da moral revelados desde o principio do mun-


do, tem conservado a Egreja cal,holica a todas as gerações a historia sem-
pre prêsente do passado (l).
As lampadas eram empregadas não só para dissipar as trevas, senão
tambem para manifestar a alegria e o reconhecimento dos beneÍicios de
Deus. Eram tambem, como flgura de Nosso Senhor, a verdadeira luz do
mundo. «Nós nunca celebramos os santos mysterios, diz um antigo, sem
empregarmos as tochas. Não e para dissipar as trevas da noite, pois que
dizemos Missa á laz do dia, mas sim para flgurar Aquelle que é a luz
increada, sem a qual andamos ás apalpadellas á luz do meio dia (2).»
2! Capellas lateraes. Eis outra recordação das Catacumbas. Já vi-
mos que no fundo ou quasi no fundo d'aquelles subterraneos estava um
tumulo de martyr que servia de altar para o santo Sacrificio. As paredes
lateraes das grutas estão cheias de nichosinhos (3) que conteem o corpo
d'um ou de varios martyres. Ta[ e a origem certa e a fórma primitiva
das capellas lateraes das nossas egrejas christãs: são como outros tan-
tos nichosinhos com a abobada arqueada e as reliquias do seu martyr.
Com effeito, é constante que a distribuição d'estas capellas estranha ao
plano dos templos antigos não pôde ser imitatla senão das Catacumbas,
quaudo a Egreja, segura já da victoria, transportava para os seus tem-
plos os monumentos das suas perseguições, e os collocava alli do ma-
neira que despertasse, com a fórma e disposição primitiva d'esses monu-
mentos, as recordações sempre tam poderosas sobre a piedade d'aquelles
tempos de provações e miserias em que os cemiterios serviam d'egrejas,
em que os tumulos serviam d'al[ares, e em que o sangue dos martyres,
segundo a expressão feliz e consagrada de Tertulliano, era a semente de
novos christãos (&).

(1) A'cerca das lampadas, pinturas, etc., vide a nosss Histori,a das Cata-
cumbas.

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DE PERSEVERÀNÇÀ. &3

Pela mesma razáo tambem é gue são pouco allumiadas aS egreia§


antigas. Ao mesmo tempo que a sua luz sombria favorece o recolhimen-
to, recorda a mysteriosa obscuridade das Catacumbas. E agora, quando
estivermos nas nossas egrejas, não nos dirão nada ao coração todo aquello
recinto de tumulos, todos aquelles martyres que nos rodêam ? Poderá
ainda a egreja não ser para nós mais que um lugar profano, indifferente
e mudo ?

3." ás pinturas. 0s paineis e as imagens são eloquentes livros.


Tudo quanto vêmos com os nossos olhos faz em nós mais viva impres-
são que as palavras. Tal é a expressão de todos os seculos e de todos os
paizes. Assim que 0s primeiros christãos se apressaram a pintar os aS-
sumptos apropriados á sua penosa si[uaçã0. 0 Antigo e o Novo Testa-
mento, os combates de seus irmãos mortos pela fé, foram mina fe'
cunda de que tiraram toda a vantagem que se podia esperar d'homens
pobres e sepultados em escuros subterraneos. Illas quando se pensa na
mão que os traçou, nos Iogares e nas circumstancias em que foram
executados, quam veneraveis são esses primeiros esboços da arte chris-
tál
Eis aqui os principaes assumptos que ainda se encontram nas pa-
redes das nossas egrejas subterraneas. No Antigo Testamento, é a histo-
ria de Jonathas; Moyses tocando com a vara a rocha d'Oreb ; o mesmo
Legislador recebendo as Taboas da Lei ; Noe na Arca; o sacrificio de
Abrahã,0; Add,o e Eua; os tres Meninos na fornalha; Daniel, na cova dos
leões ;
Elias arrebatado para 0 ceo; Dauid, com a funda na mão ; Job
assentado no chã0, e Tobias com 0 peixe. De todos estes assumptos, é
o d,e lonatltas o mais frequentemente repeti{0. E' pois aquelle gue pa-
rece ter tido para nossos paes mais interesse, de certo porque apre-
sentava a imagem sensivel tla resurreição sob uma fórma em que se
achava o sêllo do maravilhoso no mais alto grau.
No Novo Testamento: o Salaador no regaço da santissima Virgem;
recebendo os presentes dos tres Magos; assentctdo no meio dos doutores,
ou n0 meio dos seus discipulos, ou com os doze Apostolos, ou entre
S. Pedro e S. Paulo; multiplicando os pães; curando o paralytico; dando

indepentlentes no seio do monumento principal, e, se assim se pótle dizer, outras


tantas basilicas construidas dentro das basilicas. D'ahi resultou nos planos, assim
como nas elevaçôes, uma intelrupgão frequeute d'essas linhas rectas, quc nâo só-
meute sào o plincipal merecimento das obras da architectura, senâo tambem o prin-
cipal elemento das impressões cle grancleza que produzem. Qu,ad,ro d,as Catacumbas,
p,97,

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&b carEcrsMo

vista ao cego; resusciúando Lazaro; e como Bom ltastor, 0s assumptos


d'estas pinturas dão motivo a uma consequencia certamente mui nota-
vel.
As Catacumbas, destinadas a servir de sepultura aos primeiros chris-
tãos, povoadas por muito tempo de martyres, adornadas em epochas de
perseguições, e sob 0 imperio de ideas tristes e deveres penosos, não
oÍIerecem todavia por todas as partes senão factos heroicos, em tudo
quanto constitue a parle historica d'estas pinturas. 0s patriarchas e os
prophetas, Abrahã0, Moysés, Jonathas e David, são os heroes d'ellas, ao
mesmo tempo que as suas imagens servem de exernplo aos martyres e
de consolação aos opprimidos. De sorte que nenhunt facto, nenhum per-
sonagem, tirados do dominio da triste realidade e do tempo presente,
vinha distralrir os Íieis do comprimento dos seus deveres piedosos ; e
que assim na vespera como ao seguinte dia de perseguições de continuo
renascentes, não se animavam a perseverar na fé senão á vista de Daniel
erpttsto aos leões, ou dos l,res Xleninls na fornalha, e não ao aspecto
dos christãos entregues como elles aos fogos da pyra 0r aos animaes do
. circo. ,

Não é menos notavel em tudo quanto a constitu e a parle decoratiaa


d'es[as pinturas. Nada se vê que não seja assumptos amaveis e gracio-
sos, imagens do Bom Pastor, representação de uindimas, scenas pasío-
ris, agapes, Íiguras de christã,os em,oraçã,0, palmas, corôas, cordeiros,
tsearlos, pomhas, n'uma palavra, nada que não seja motivos d'alegria,
innucencia e cltaritlado (l).
Taes são as pintut'as das Catacumbas, pinturas em geral tam puras,
tam amaveis n0 seu objecl,o e na sua intençã0, em qtte parece que o
Evangelho nunca deveria encontrar inimigos e adversarios, quando se
mostra tam indulgente e tam humano, em que o marlyrio não se reco-
nhece senão pela oraçã0, Íinalmente em que 0 Clrristianismo não se re-
vela senão por symbolos de paz, innocencia e ctraridade.
Nas edades seguintes, quantlo os martyres pertenceram á historia,
foram os seus combates e triurnplros o assumpto ordinario das nossas
pinturas sagradas. Succedeu o mesmo com as acções memoravcis de to-
dos esses martyres da paz, isto é, de toclos esses santos cuja vida, con-
sagrada á penitencia, ao bem de seus irmãos e á propagação do Evao-
gelho, foi uma longa uucificação da carne e das suss concupiscencias.

(1) Quailro ilas Catacuntbas, p. 185.

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Taes são oJ morlêlos que a Egreja expõe hoje ao respeito e á imitação


de seus filhos; este uso remonta á mais remota antiguidado (l).
Se admiramos o genio do Christianismo nas pinturas das Catacum-
bas, as das nossas egrejas nos offerecem mais outro motivo tle o admi-
rarmos. Collocando no recinto sagrado os paineis dos Santos, recorda a
Egreja catholica a seus filhos a communhão que existe entre elles e os
bemaventurados habitadores da Jerusalem celeste ; mostra-nos os Santos
como presentes ás orações da terra; estabelece-os os primeiros protecto-
res dos povos a quem ediÍicaram com suas virtudes; e considera-os como
interessados sempre n0 augmento da justiça e da paz entre os homens.
Àte ao Evangelho, cada povo reservára as suas homenagens para os
heroes da patria. No culto catholico, o verdadeiro justo e a0 mesmo tempo
honrado por todas as nações; nos nossos altares, não tem a-virtude mais
gue uma só patria ; e independente das leis; usos e costumes ; esque-
cem-se todas as distincções de naçã0, de fortuna, de nascimento e de ta-
Ientos. 0 anachoreta da Thebaida, o Pontifice romano, o imperador e o
slmples pastor, o velho de cem annos e a joven virgem apenas adoles-
cente acham-se na mesma situação ; todas as edacles, todos os paizes e
todas as condições estão alli representados ; e, n'aquella galeria de fami-
lia, e a virtude o que deve ssr, patrimonio do univel'so, e o exomplo do
justo é proveitoso a todo o genero hurnano.
Não e unicamente pela reunião de todos estes Santos que nos diz a
Egreja : Eu sou calholica, a mim pertencem as verdarleiras virtudes de
todos os seculos, pois fui eu que as inspirei ; e tambem pelo complexo
dos ornatos que emprega na decoração dos seus templos.
Eu sou catholir:a : eis o que ella nos diz por meio de todas as crea-
turas inanimadas : as cepas, as ftrlhas de vide, as espigas de trigo, os
fructos, as arvores, e as flôres de todas as especies, que adornam as pa-
redes tlo templo sagrado. Todas as partes da creação se reuniram alli
para louvarem a Deus a seu modo, b foi a poderosa mão da Egreja ca-
tholica que as reuniu.
Bu sou catholica : eis o que a Egreja continúa a dizer-nos por meio
d'essa variedade de Íiguras estranhas que colloca na construcção das nos-
sas antigas basilicas. Por todas as partes apparecem os demonios como
venoidos. Aqui susten[am, sobre os hombros acurvados, pesadas moles;

(1) 9r.g. Nyss., Orot. de Laud,ib. Theoilor., e Paulin. Nol., Natal, I de Or-
nafi, eccl,.; Greg., l,ib, IX, epist, IX, e Greg. Naz,, epi,st, XLIX,

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alli, sob a fórma cle hediondos animaes, serYem de conductos à chuvâ.


0s mesmos vicios teem alli seu logar, e, com o seu aspecto horrivel, ex'
citam o riso 0u 0 desgosto dos espectadores. Aqui mostra-se o Christia'
nismO qual vencedor que arrasta ao Seu carro os inimigos vencidos, e gue
perpetua de geração em geração a memoria do seu triumpho. Depois de
ierrrn inunclado a terra de sangue christã0, haviant levantado Diocleciano
e Maximiano, ha mil e quinhentos annos, duas colttmnas de marmore
para immor[alisarem a supposta victoria do paganismo sobre o Christia-
oismo. Diocleciano e Maximiano passaram; as suas columnas cahiram : e
o Cbristianismo está em pe; servem-lhe de escabello os deuses pagãos,
e oS seus templos, monumentos da sua victoria, já teem mais duração
que o imperio dos Cesares.
Eu sou catbolica, sou immortal; a mim pertence o imperio dos se'
culos, e o monopolio das verdadeiras virtudes; a mim a I'ictoria sohre o
paganismo: eis 0 que nos diz a Egreja por meio das pinturas e dos ador-
nos dos seus templos. Estas coisas admiraveis, ás quaes cumpre juntar
todas essas pedras tam delicaclamente lavradas, todos esses rendilhados
de marmOre, todos esses finos recortes, todas eSSaS vidraçaS em que a
perfeição da arte rivalisa com a variedade dos assumptos, com a riqueza,
óom a solide.z o com o avelludado das côres; todas essas graciosas co-
lumnatas, todas eSSaS agulhas que se alçam para 0 ceg, e todas essas in'
numeraveis obras primas em que a fé, a adoraÇã0, a supplica e o amor,
parecem dizer a Deus : Eu ft,2 tttdo quantl pude para oos honrar; se
mais nd,o fi2, a cul1ta nd,o é minha. Todas estas coisas, dizei'me, não
potlerão insuflar-vos no entendimento um pensamento de fé, e n0 cora'
ção um sentimento d'amor e admiração ? Ah t se assim
é, nada mais te'
nhO que dizer-vos, e contento'me em lastimar-vos, em lastimar-vOs cOmO

so lastima um cego, um surdo, um paralytico ou um morto.


Deixemos a egreja só por um instante, pois em breve augustas ce'
remonias nos vão tle novo chamar á ella, e fallemos do sino.
L.o Os sinos. E' mui antigo na Egreja o uso dos sinos, pois re-
monta de certo para lá do oitavo seculo. Quem foi o inventor dos sinos ?
Muitos pretendem que foi o Papa Sabiniano, successor de S. Gregorio
Magno (l). Crê-se que os primeiros sinos foram fundidos na Campania,
provincia d'Italia: d'onde 0 nome de campana que lhes foi dado para

(1) Polyb., Yirg., l,i,b, d,e Inuentorib, rerunx.Id. onupht,, Epí,st, surnm,, Pontif,

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DE PEnSEVERANÇÀ. &7

distinguir estes grandes sinos das sinetas havia muito conhecidas (l).
Durante os tres primeiros seculos, obrigados os Christãos a escon-
der-se para fugirem á perseguiçã0, não tinham signal algum publico para
se chamarem aos san[os oÍficios. E' provavel que se avisassem mutuamente
em segredo, ou q e se annunciasse publicamen[e nas assemblêas o dia
e a hora da reunião seguinte. Quando foi dada a paz á Egreja, no impe-
rio de Constantino, e se construiram vastas basilicas, houve sem duvifla
algum signal publ co para convocar os Íieis. Crê-se que era o tinitlo de
laminas mui delgadas batidas com malhos, ou enormes matracas de pau,
mais fortes do qne aquellas de que ainda hoje nos servimos, nos tres ul-
timos dias da Semana Santa.
Em certos mosteiros serviam-se de trombetas; em outros cantando
a Alleluia era que se convidavam para 0 ofÍicio (2) ; flnalmenüe, tornou-
se geral 0 uso dos sinos no Occiden[e, .d'onde passou insensivelmente á
Egreja oriental. Logo que foram inventados os sinos, foi necessario edifl-
car-lhes elevadas [orres, para que fosse ouvido o som de mais longe. Col-
locou-se sobre a maior parte d'estas torres uma pyramide terminada por
um globo, em cima do qual se arvorou a cruz ; sobre a üoz pôz-se um gallo,
emblema popular que indica 0 uso dos sinos na Bgreja. Aos Pastores lembra
a vigilancia ; aos fieis, o zêlo na oraçã0, ê 0 ardor no trabalho (B) ; bem
como a Üuz, collocada sobre o globo da pyramide, annuncia ao ceo e á
terra a victoria de Jesus Christo sobre o mundo.
assim c0m0 tudo quanto servô nD seu culto, abençôa a Egreja o sino:
esta benção chama'se baptismo. Não é porque creia susceptivel o sino de
virtude interior e de verdadeira santidade ; mas e sua intenção separal-o
da ordem das coisas communs, e an unciar quo, uma vez consagrado ao

(1) As-sinetas nào serviaT.nala chamar o povo á oragão. A este respeito, conta
q grLvg cardeal Bona, segundo Sirabo, uma en§raçada anãcdota. Chego'u-oà to""-
clor d'alaúde a uma.ilha da Grecia pala alli moitrár o seu talento. ÀÍo"iu-.e toao
9.nov9 á roda do_artista ambulante-e_prepdra-se para escutal-o ; mas áil;;. extra-
hiu alguns sols do instrumento. quandõ sê ouve o'toque d'uma Jiofiárãíãultidâ,o
começâ a fugir a toclo correr. {o.pgbre musico nâo ficou mais que uú ouviote cuSo
lImparo era um pouco duro. «Felicito-vos e agradego-vos, lhe^disse o artista, por
haverdes ficado só para escutar-me i -.or, na võsstr tórra, po.qou ióg.. q"roaô'oo-
l-em.o -toque, d'uma.sineta ? - Pois a srrneta tocou ? repliôoil oiurrlo.-- Sim.
tào tenho a honra de vos.saudar» ;-e deitou a correr com toda a força gritarao - En-ao
musico d nE' o rnercaclo do pei-xe.» (4çr.ritu,rg,,I. r, c. xxlr, pl i-gt)
(2) Ritib. Eccl,. Cathol.,l.I, c. XXt.
(3) íturg,,l. I, c. XXII.
E revo cer r,"i,iltl i JXl??\ s,ii,Tj'"T,
ár.crerus, i,n Embl,Cmq,t e.
.""

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48 cATEcrsMo

serviço do Senhor, não póde ser empregatlo em outros usos sem uma es-
pecie de profanaçã0. Quer tambem tornar mysteriosos e santos o instru-
mento e o som que devem convocar os Christãos para quanÍo ha mais
santo debaixo do ceo, a palavra de Deus, os oÍlicios, a assistencia o par-
ticipação nos nossos augustos mysl,erios.
E' o sino a trombeta da Egreja militante ({); deve soar em todas as
circumstancias notaveis da vida. D'onde a variedade de orações e cere-
monias com que se abençôa. Deve soar n0 baptismo, e assim purifica-se com
agua benta. Deve soar 0s combates da nossa vida desde o dia em que entra-
mos na sagrada liça pela Confirmaçã0, ate áquelle em que expirarmos no
leito mortal : eis ahi porque se lhe fazem repetidas uncções com o santo
chrisma e o oleo dos enfermos. Deve soar o augusto Sacrificio, e eis por-
que se perfuma de incenso. Deve lembrar-nos incessantemen[e a Jesus
cruciÍicado, aucl,or e consummador da nossa fê: eis porque se repete tan-
tas vezes, durante a ceremonia, o sagrado signal da cruz. Dá-se ao sino
o nome d'um Santo ou d'uma Santa.' esta itlêa e cheia d'encantos. Nos-
sos paes crêram que a piedade seria mais ac[iva, mais alegre, mais Íiel,
e se suppozesse que um Santo ou uma Santa e quem nos chama á egre-
ia (2).
Depois que é abençoado o sino, o Presbytero ou Bispo, o padrinho
e a madrinha o tocam brandamente por tres vezes, c0m0 para lbe darem
a sua missã0. Cobre-se o sino com um panno branco ate se subir ao
campanario, por causa do respeito que se deve ao santo chrisma; e o of-
ficiante, havendo feito sobre e[[e o signal da wuz, se relira para a sa-
cristia.
N'uma das orações da bençã0, diz o Sacerdote: «0' Deus, gue, por
Moyses, v0ss0 servo, mandastes fazer trombetas de prata, para que, pela
doçura do seu som, frtsse avisado o povo para ir ao sacriÍicio e prepa-
rar-se para vos orar, fazei com que este vaso que se destina á vossa
Dgreja, seja santificado pelo vosso Espirito Santo, para que, sendo ferido
e soltando um som melodioso e agradavel ao ouvido dos vossos povos,
augmentem de dia para dia a sua fe e o seu fervor; para quo os embus-
tes dos seus inimigos, o ru,itlo das saraiuas, as troaoadas, os redomoinhos
e a aiolencia das tentpestades se dissipem; para, que se afastem os lerri-
veis effeitos do lroud,o; detende com a vossa omnipolente mão os inimigos

(1) Concil. Colon., c. XlV.


(2) Bona, Eer.l,i,twrgr l. f, c. XX[.

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DE PERSEVERÀNÇA. 49

da nossa saltaçã0, e fazei com que, ouvindo este sino, tremam á vista da
cruz de Jesus Christo, a cujo nome todo o joelho se dobra no ceo, na
terra e nos infernos (l).,
0s nossos sabios e espirituosos philosophos teem escarnecido muito
da simplicidade de nossos avôs, que tocavam 0s sinos para afastarem as
trovoadas. Tocar o sino, dizem doutamente, é abalar a columna d'ar, é
attrahir o raio. Sim, discorreis tcílaez justamente (2), vós gue não vêdes
n0 som do sino mais que um som material; porem, se visseis n'elle o gue
viam nossos paes, o gue vê tambem a Egreja catholica, que sabe mais
que vós, uma 0raÇã0, um grito de rebate, uma instante supplica dirigida
ao Sentror do trovão, [0rnar-vos-ieis talvez mais reservados. Ora, o som
do sino era uma oração vocal: a supracitada benção da Bgreja vol-o in-
dica. Se escarneceis d'isto, escarnecereis [ambem do proprio Deus? Não
.diz Elte em termos claros que 0 toque dos instrumentos, o som das gran-
des vozes, o clangor das trombetas, excitam a sua misericordia? Tocareis
l,rombeta, erqu,ereis grandes gritos, e a Dlssa lembrança ird d presença
do Senhor, Dossl Deus, e sereis libertados das md,os dos aossos inimigos (3).
Se o progresso das sciencias vos permitte desviar o raio seln recor-
rerdes á oraçã0, gloriÍicae, por esse facto, o Deus das sciencias, que vos
fez recobrar parte do imperio do primeiro homern sobre as creaturas;
mas não escarneçaes de vossos avôs, que recorriam á oração para al-
cançarem o mesmo Íim.
Que diremos de todas as impressões que produz o som do sino no
homem e no Chris[ão? Tem este som qnantidacle de relações secretas com-
n0sc0. Quantas vezes, no meio da quietação da noite, as badaladas d'unra
agonia, similhantes ás lentas pulsações d'um coração expirante, não atter-
raram o criminoso que velava para perpetrar o crime I Mais gratos senti-
mentos se unem tambem ao som dos sinos. Quando, antes do r:anto da
cotovia, se 0uvem, a0 roÍnper da aurora, os repiqtresinhos das nossas al-
deias, dir-se-ia que o anjo das messes, para despertar os lavradores, sus-
pira em algum instrumento dos hebreus a historia de Sephora ou cle
Noemi. 0s sons dos sinos, no meio das nossas festas, parecem âugÍDerr-

(1) Pontif. Rom.


- .-
(2) reduziu a uacla as pretenções da
philosop Provou com numeros que'o sino
que cah zes nâs planicies como nãs alturas
d,o raio,
(3) l. I, c. XXII, n.4.

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tar a alegria publica; nas calamidades, pelo contrario, esses mesmos to-
ques são terriveis. Arripiam-se ainda os cabellos na cabeça ao recorda-
rem-se os dias de morte e de fogo, em que resoaram os clamores do
rebate.
Todos os sentimentos que origina o repique dos nossos templos são
tanto mais bellos, quanto é certo que se junta a elles uma lembrança do
ceo, uma lembrança de charidade e religiã0. Desde a campainha que um
homent agitava nes ruas das nossas cidades durante a noite que precedia
as nOssas festas, repetindo estas palavras: «Acorilae, ó aós que d,ormis,
e \rae pelos ntortos,» ate ao sino da aldeia solitaria, que Íoca a recolher
para avisar o viandante perdido nas montanhas e florestas d'emtorno, e
ao sino grande que se toca de noite em certos portos de mar para diri-
gir o piloto atravez dos escolhos, casam-se todos os sinos com a nossa
situação presente, e levam-nos alternativarnente á alma a tristeza, a ale-
gria, a esperanÇa e o [error religioso. D'onde provém este mysterio ?
E' que os sinos s.ao essencialmente reli,giosos. se fossem empregados em
qualquer outro monumento que não fosse as nossas egrejas, perderiam
a sua sympathia moral com 0s nossos corações (l).

0RAÇÃ0.

0' meu Deus, que sois todo amor t graças vos dou por terdes con-
servado nas nossas egrejas tantas recordações tão proprias para em nós
excitarem a piedade firmando-nos na fé. Concedei-nos que nunca mais
sejamos surclos a todas essas vozes que prêgam a virtude e o vosso
amor.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as cousas, e ao pro-
ximo c0m0 a minr mesmo por amor cle Deus; e, em prova d'este amor,
hei de enl,rq,r na egreja corn o mais profunilo respe;rü0.

(1) Yide Genio do Çhrústianismor lY parte,

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DE PBRSEVERÀNÇA. õt

QUTNTA LrÇÃ0.

o
0 christianisno Íornado sensivel.

Das bencãos em geral. - Prinoiptos ern llue ellas desoan.


çem.- Licáo llue nos dão. - Sua anúlguidade. - Seus ef-
feiúos. Os llue úeem o poder de alrençoar. - CemiÍerio.
-
CemiÍerios ao pé das egrejas I senúimenúos qrre inspi-
-ram. Denção do oemiúerio.
-

Visto que acabamos de relatar a benção do sino, e vamos breve ex-


plicar a do cemiterio, e este o logar proprio de fallarmos das bençãos
em geral.
Para se comprehender alguma coisa das bençãos da Egreja, é mis-
ter recordar algumas verdades certas. 'l.o As creaturas, como obra d'um
Deus bom, sahiram boas das suas mãos; isto e, perfeitamente apropria-
das aos dois objectos da sua existencia, a gloria de Deus e o bem phy-
sico e moral do homem. 2,o As creaturas foram viciadas pelo demonio,
quando, manchando o homem, manchou totlas as cousas que d'elle de-
pendiam: e por conseguinte, sob a influencia do espirito maligno, já não
servem as creaturas, c0m0 antes, para a gloria de Deus e bem do ho-
mem; todas se tornaram instrumentos de peccado e de morte. Gemem
n'esta dura escravidã0, n'esta injusta tyrannia que detém as suas home-
nagens e impede que cumpram a sua vocaÇáo: por isso, como nos diz o
apostolo S. Paulo. suspiram pelo seu lioramento ([).
3.o Deus não abarrdonou o homem nem a creatura sob o imperio
do demonio: desde o dia da queda, tendem todos os seus pensamentos

(l) Rom., YIÍI, 22.

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52 cATEcrsMo

a libertar a creaçã0. Se perguntamos a seu divino Filho para que veio á


terra, revela-nos elle o pensamento de seu Pae e 0 seu dizendo-nos: Vim
para, pôr fóra o principe d,'este mu,nilo, para destruir as suas obras e
tirar o peccado ou o mal (l).
&.o Deus póde effectivamente expulsar o demonio, subtrahir as
suas creaturas á maligna influencia d'elle, e pôde conÍiar este poder aos
seus enviados,
N'estes grandes principios, reconhecidos de todos os povos, se ba-
sêam o poder e uso das bençãos na Egreja catholica. Para restituir o
homem e a creatura á sua santidade prinritiva é pois que ella os aben-
çôa. Esta bengão vae liberlando gradualmente a creação ate ao momento
supremo em que, sendo inteiramente expulso o principe d'este mundo e
aniquilada a sua influencia, de novo se tornar Deus tudo ent todas as coi,-
sa.s (2). Então será o homem transformatlo n'um novo ser; então haverá
novos ceos e nova [erra; en[ão cantarão tot'las as creaturas, pí)rque serio
dignas d'isso, o cantico immortal dos Anjos: Santo, santo, santo é o Deus
dos exercitos, e tudo está cheio da sua gloria.
Como rêdes, n'uma simples bençã0, nos narra a Bgreja toda a lris-
toria do mundo, a querla e a redempÇã0, o paraizo lerrestre e o Calva-
rio, o tempo e a eterniclade. Temos acaso reflectido n'isto ?
As bençãos da Egreja catlrotica recordam-nos tambem uma verdade
cujo esquecimento e uma fecunda origem de iniquidades e baixezas : é
a grandeza e santidade do hornem. Não nos estimamos bastante ; não sa-
bemos suÍlicientemente o que valemos. Irnagens cle Deus, que e a prbpria
santidade, s0m0s creaclos para sermos san[os, isto e, para sermos c0n-
sagrados a Deus, desprendtdos do mal, libertados da escravidão do Mal-
tado. 0 nosso espirito, o nosso coraçã0, a nossa imaginação e os nossos
sentidos, são ou[ros tantos vasos sagrados que não devem receber senão
coisas santas, pensamentos, affeições, imagens santas; vasos sagrados que
não devem [ocar tampouco senão em coisas santas.
Não ha nem uma das suas bençãos, em que a Egreja não recorde
ao homem esta nobre idea, e lhe não diga: «Meu Íilho, a terra é dema-
srado pequena para o teu coraçã0. Tu és santo, consagrado por Deus,
creado por Deus, aspira unicamente ao só bem que póde satisfazer-te.
Tu és santo, olha : eu abençôo os elementos que estão ás tuas ordens, a

(1) Joan., XII, 31 ; id, ,T,29,


(2) I Pctr,III,12.

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DE PERSEVERANÇÀ. 53
agua, o fogo e a tema; abençôo os teus alimentos, os teus campos
e as
tuas vinhas; abençôo os animaes que te servem, porque devem approxi-
mar-se de ti, estar em contacto comtigo; abençôo a tua derradeira
m0.
rada, que digo t consagro-a peras mãos d,um pontifice, porque
essa terra
deve tocar no teu pó. santo, deves, depois da. morte, reporsai
n,uma coisa
santa, assim como nasceste, como cresceste e como viveste,
no meio das
coisas santas. » Isto posto, facil vos é comprehender o gue
são na Egreja
catholica as bençãos.
Na lingua da Egreja , abençoar uma coisa significa tiral-a
do seu es-
tado natural, separal-a dos usos communs e ordinarios, tornal-a
santa de
profana que era, dedical-a a Deus e ás ceremonias
da Religião; n,uma
palavra, determinal-a e apprical-a a usos piedosos
e sagrados.
Dissemos acima que, depois cle ter creado o univeiso, Deus
o aben.
Ç00u. Àssim, são boas todas as creaturas, e foram applicadas á gloria de
Deus ou santificadas por uma benção e approvação geraes. Deus,áiz
a sa-
grada Escriptura, olhou todas as coisas que haaia
feito, e achou-as opti,-
mas (.1). 0 peccado porém, entrando no mundo, estragou viciou
e todas
as creaturas (2). D'onde a indispensavel necessidade
dJ purifical-a s pela
palaura de Deus e pela oraçã0, a flm de afugentar
o demonio e paraly-
sar a sua funesta influencia (3). Tal é a razáoprofundamente philosophióa
das bençãos.
Por isso as vêmos usadas desde o principio do mundo. No
Antigo
Testamerrto, torna Moyses, por meio d'uma benção que
lhe revela o ceo,
dôces as aguas de Mara (a). Purifica Eliseu as fontes-de
Jerichó lançando-
:
Ihes sal em tanto que pronunciava estas palavras Eis que
o iliz o senhor :
Eu tornei salubres estas agu,as, que nd,o mais proiluzirão a morte (ü).
Abençôa Tobias, por meio da oração, a camara nupcial e expulsa
d,ella
os demonios (6). sabe-se a benção solemne e cheia de mysteiios que
se
lançava, todos os annos, ao feixe de [rigo e aos fructos novos. Antes
do
sacrificio impunham-se as mãos ás viciimas, e orava-se sobre
o azeite,
pão, etc., para santifical-os e fazêl-os dignos de
Deus (z).

(1)
(2)
(3)
(4)
(5)
(6)
(7)
4

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§tL CÀTECISIIO

Nosso Senhor confirm6u Com o Seu exemplo o que se fazia na an.


tiga lei. Abençôa os cinco pães e os dois peixes com que alimentou um
poyo numeroso (l); inrpõe as mãos aos enfermos para cural-os; abençôa
as creancinhas ; abençôa e offerece a seu Pae, anles da Ceia, o pão e o
vinho que vae converter no seu c0rp0 e n0 seu sangue.
Herdeira da doutrina e do poder de Jesus Christo, fez a Egreja uso
constante das bençãos. Na epocha em que appareceu, reinava o dernonio
como principe no mundo, cujo imperio usurpara: infectava todas as par-
tes d'elle. D'onde aquella crênça dos pagãos, desgraçadamente tão verda-
fleira, posto que mal comprehendida, de que todas as partes da natureza
eram animadas por espiritos ou genios. Convinha dizer que eram man-
chadas e tyrannisadas pelos tlemonios. 0 que é mais triste, é que os
flemonios, considerados como os senhores de cada creatura, recebiam por
isso homenagens quo só a Detts eram devidas. 0s proprios philosophos
asseveravam que os alimentos e aS demais cousas usuaes eram um pre'
sente d'esses genios ou demonios. I\lais tarde, pretenderam 0s Marcionitas
e os Manicheus que todos os corpos haviam sido formados por um mau
principio inimigo de Deus.
Para combater todos esses erros e expulsar o demonio do seu impe'
rio, se apressou a Itrgreja a fazer uso das bençãos. D'onde, entre os pri'
meiros Christãos, as orações e 0 signal da cruz repetidos a cada instante,
antes de fazerem uso de creatura alguma ; d'onrle todas essas admiraveis
formulas tle bençãos redigidas pela Egreja, e que remontam até ao seu
berço. A maior parte d'aquellas de que nos servimos ainda hoje, acham'
Se no Sawamentario üo Papa S. Gelasio, que vivia no seculo quinto ; e
este Papa não foi o primeiro auctor d'ellas. São usadas entre as differen-
tes seitas de Christãos orientaes, separadas da Egreja romana desde os
primeiros tempos do Christianismo. 0 mesmo S. Paulo falla das bençãos
quando dlz: Tocla acreatura de Deus e boa; é santificada pela palaara
de Deus e pela oraçdo (2). Ora, as bençãos são orações destinadas a san-
tiÍicar, e por tanto aqui está um uso apostolico.
Como se vê, enviada a Egreja para santificar o mundo e expulsar
d'elle o demonio, tem por tanto o poder de abençoar, pois que pela ben-
qão ê que é santiÍicado o mundo e restituido a0 seu uso primitivo. Aben-
çoanrlo, dá uma prova da sua profunda sciencia, a0 mesmo tempo
que
continúa um uso tão antigo c0m0 a queda do homem.
(1) Math., XIV.
(2) I Tim, 1Y.

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-r--
-a1

DE PEnSEVERÀNÇA. 55
0s effeitos inherentes ás suas bengãos são geraes ou particulares.
0s geraes são: l.o subtrahir o objecto bento ao imperio do demonio,
e
livral-o da sua maligna influencia ; z.o separal-o das coisas communs
e
profanas; e 3.o communicar-lhe a virtude de excitar
sentimentos de fé,
amor de Deus e Religiã0, e por esse modo obter a remissão
dos pecca-
dos veniaes.
ondem ás intençoes da Egreja, e sã.0
diffe a consagra e o objecto que se propõe.
,ra as tentações e os ataques do inimigo
da salvaçã,, .ra para premunir o corpo e pol-o a salvo
das incommodi-
dades que lhe possam sobrevir. Ella abençou o fogo, para que
não faça
damno ao homem, mas sim venha a ser para elle
o emblema da chari-
dade e da verdade. Àbençôa os templos, os altares
e os vasos do Sacrifi-
cio, porque nada e assaz santo para o culto do senhor. Abençôa
a mora-
da do homem e os alimentos, a fim de gue elle possa
rep,usar em pã2,
e tomar com reconltecimento e sem temor o sustento necessario
a0 corpo.
Abençôa o gado, os praclos e os campos, a flm de preserval-os
das doen-
Ças e dos flagellos que possam fazêl-os morrer ou tornal-os estereis,
e privar o pobre lavrador do fructo dos seus trabalhos.
Nas grandes cidados, onde se desembaraçam quanto podem
do ex-
terior da Religiã0, oncle tacham de ileuoçõrr-populorrr rí práticas
mais
louvaveis, perderam-se 0s tocantes usos de qró riurr,s,
e, com effeito,
que precisão tem das bençãos de Deus o ,iro
usurario ou devasso que
talvez não creia n,Elle ? Mas 0 povo das aldêas, que
se sente mais imme-
diatamente sob a mão do Deus, que vê muitas oârm
a sua fazenda e as
suas esperanças destruidas por um flagello, que
comprehende que coisa
alguma póde prosperar se Deus não lhe poe i mã0, recorre mais vezes
ás orações da Egreia, e ajunta-lhes boas ôbrrr,
esmoras, e argum serviço
prestado aos pobres. 0 desejo de tornar maii
eÍlicazes as bãnçãos que
pede, conserva d'este modo e alimenta n'elle os
sentimentos de humani.
dade. Ântes de escarnecerem d'eile, deveriam os herejes
e os impios pro-
var em que são oppostas estas bençãos á verdadeira philosopbia,
á verda-
deira piedade, á conÍiança em Deus, ao reconhecimento,
á obediencia, á
palavra de Deus, e á crença universar do genero
humano (r).
Quanto aos gue teem o poder de abençoar, são os Bispos e os pres-
byteros. Revestidos da plenitude do sacerdoció, pocrem
os Birpo, .oo.

(1) Bergier., aú. Bençdo


+

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- ,/
----

56 CÀTECISMo

jurisdicçã0.
sagrar e abençoar todos os objectos que teem debaixo rie sua
A elles sÓs pertencem as bençãos que são acompanhadas de uncções,
como a consagração das egreias, dos altares, do calix e da patena, a sa'
gração dos reis e das rainhas, e a benção dos santos oleos, dos abbades,
ãas abbadessas e dos cavalleiros. Ha outras bençãos que lhes estão re-
servadas, as das roupas d'altar, dos ornamentos, dos sinOs, dos cemiteriOs,
etc., mas das quaes se podem encarregar simples Presbyteros'
Às bençãos que são da competencia dos Presbytero§, são as dos ca'
samentos, dos fructos da terra, da agua misturada com sal,
das cinzas,
dos ramos, das tochas, etc.
0 effeito tla benção não depende das disposições d'aquelle que a

ilá; pois não obra em seu proprio nome, senão em nome de Jesus Christo'
a elle
clo qual não é mais que lnstrumento. Todavia, para lembrarJhe
func-
mesmo a santidade de que convém que esteja ornaclo n'esta augusta
emblema da innocencia, e da es'
çã0, deve estar revestirJó da sobrepelliz,
iola, symbolo do seu poder. Um joven acolito, imagem d'um anjo, deve

acompãnhal-0, tendo n-'uma das mãos uma vela accêSa, flgura da charidade
e da fe, e na outra a caldeira da agua benta'
Ào recitar a formula cle bençã0, tem o ministro sagrado as mãos
juntas ou elevadas para o Ceo, para exprimir o fervor da oraÇão e 0 ar-
com a mão o sig'
clente desejo que tem de ser attendido. Faz varias vezes
nal da cruz sobre o objecto que abençÔa, para recordar
que totla a graça,
Senhor é
vem da cruz, e que si em oittode dos merecimentos de Nosso
d'agua benta, para
que temos parte nas suas misericorclias. Asperge-o
pro'
significar que, pela oração da Egreja, elle sahiu da classe
das coisas

fanas, e oútere toda a pureza de que é suscep[ivel' A


agua benta' espar-

gida sobre o objecto, e tambem o signal exterior de que lhe é applicada


o incenso, e para pedir a
a bençã0. se em alguma benção se emprega
agradavel e se
Deus que a oração qr. t. ltre dirige, lhe seja d'um cheiro
eleve até ao seu throno.
Àgora que conhecemos a tazáo, a origem e o sentido
das bençãos,
mais que um passo a dar; pois' na
passemos ao cemiterio. Não temos
intenção da Religião catholica, o cemiterio toca c6m a egreja'
qué,
A palavra Jemiterio significa dcrmitorio. Foi o Christianismo
primeirà, deu este nome ao logar ontle repgusam os defunctos
isto (l):
At postquam cbristus
Ante christi aclventum mors mortis nomen habebat' môrs, setl somnus et
(1)
venit, et pro -ooãi"oit* ,r*tu- ..,úru, aqplig-s vocatur
áãrriti". bhryr.,
'Serrn,
ile Parasceu', t' V,"o"
P' 182' ediç' Bened'

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DE PERSEVERÀNgÀ. 57

é inteiramente philosophico. Aos olhos da Egreja catholica, não é a morte


senão um somno, pois que 0 logar onde repousam os que já viveram, é
um dormitorio. 0ra, o somno suppõe necessariamente o despertar. E'
desd'agora impossivel pronunciar 0 nome de cemiterio, e quem não o
pronuncÍa algumas vezes ? sem exprimir o dogma mais consolador para
os bons e mais formidavel para 0s maus, o dogma da resurreiçã0.
Desde o principio, manifestou a Egreja o maior respeito aos despojos
mortaes de seus Íilhos. Este respeito aos mortos é uma lição que ensina
aos vivos a respeitarem-se a si mesmos; mas, sempre sabia, evitou a
Egreja 0 duplo excesso em gue cahiam os pagãos. 0s egypcios embal.
samavam os mortos, encerravam-nos em sarcophagos, e os conservavam
em sua casa como um precioso deposito. a Egreja não quiz adoptar este
excessivo requinte, esta supersticiosa curiosidade. 0s romanos, pelo con-
trario, queimavam 0s corpos dos mortos e conservavam unicamente as
cinzas. Este modo de aniquilar os restos d'um homem, ouja memoria
deve conser\/ar-se, tem algum tanto de deshumano. Àinda assim, os r0-
manos não obravam d'esta fórma senão a respeito de seus parentes e
amigos. Quanto a0 povo de escravos que os rodeava, tratavam-n'o depois
da morte com a mesma brutalidade que durante a vida: 0s corpos dos
escravos eram arrojados confusamente em vastos subterraneos (l) ou
abandonados ás aves de rapina.
Ainda não e, tudo. 0 costume geral entre os antigos, excepto os
egypcios, era collocar os tumulos no campo á margem das estradas reaes,
em cavernas solitarias e nos jardins. A Egreja catholica adoptou usos
muito mais conformes á razáo e muito mais proprios para manter uma
terna lembrança dos defunctos. E primeiramente aboliu o costume de
queimar os mortos. E' muito melhor enterral-os c verificar assim a pre-
dicção que Deus fez ao homem peccador: Tu és pó, e oohard,s ao pó ilo
qual, foste l,irado (2).
Depois quiz que os mortos estivessem reunidos no mesmo sitio, vi-
sinho do templo, a Íim de poder velar pelas gerações extinctas, c0m0
uma mãe vela pelo berço de seu fllho adormecido.
Que digo I os primeiros templos da Egreja catholica foram cemite-
rios: não eram outra coisa as Catacumbas. No meio dos mortos é que
se reuniam os vivos para orarem e offerecerem os sagrados mysterios.
Mais tarde, quando foi dada a paz, e foi licito edificar templos christãos,
(1) Puticuli.
(2) Gen., III.

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58 caTocrsuo

apressou-se a Egreja a consagrar um logar para sepultura de seus filhos.


Quiz que este logar estivesse proximo do seu templo, para conservar a
memoria do seu berço, e ensinar aos homens que uma mãe não esquece
seus filhos, nem mesmo quando já não vivem. Este antigo e santo uso,
que quer que o cemiterio seja inseparavel da egreja, tem-se conservado
até aos nossos dias em quasi todas as parochias do mundo catholico, mas
talvoz em parte alguma com mais fidelidade que na Suissa allemã.
Nunca esqueceremos 0 espectaculo commovente que, ühora a hora,
se nos offerecia á vista ao atravessarmos os cantões de Soleura, Lucerna
o Schwytz. A' entracla da aldeia, algumas vezes tam elegante, sempre
tam limpa, vêdes a egroja, cuja belleza, brancura e esbelta torre admi-
raes, antes de terdes podido repousar a vista nas ricas decorações do
interior. 0 cemiterio cinge a egreja c0m0 uma ferradura: a entrada prin-
cipal corresponde á porta da frente da egreja. Depois de terdes aberto a
grade dourada que a fecha, subis alguns degraus de pedra. A' vossa
direita e esquerda estão duas grandes pias d'agua benta; n'uma e outra
ha um hyssope para deitar á entrada agua benta aos mortos.
Todas as sepul[uras, cobertas de relva, formam differentes linhas,
perfeitamente regulares, separadas por um caminho ensaibrado, a flm tte
tornar mais accessivel a cada um a sepultura que encerra o que tem mais
querido. Nem um d'aquelles modestos tumulos deixa de ser sobrepujado
d'uma cruz de ferro d'uns dois pes d'altura. As tres extremidades visi-
veis da cruz são de cobre doirado; no centro está pregada una placa Co
mesmo metal, em que estão inscriptos os nomes do defuncto, a data do
nascimento, a da morte, e uma oração ou sentença da Escriptura Sagrada.
Quando aos derradeiros raios do sol divisaes de longe aquelle campo
de Dets, brilhando com tam elegante simplicidado, de egual altura todas
as suas cruzes, symetricamente dispostas, e cuja cÔr preta e amarella se
destaca tam bem na verde relva da sepultura, não sei que dÔce melan-
colia se vos apodera do coração; veem-vos aos olhos lagrinnas de ternu-
ra, o aos labios orações. As lembranÇas da antiguidade atropellam-se na
memoria.
Crêdes-vos transportado dezoito seculos atraz, ás Catacumbas de Ro-
ma; pois ante vós está a imagem completa cl'ellas. Aqui, como na Roma
subterranea, vêdes no meio o altar do martyr principal, que é a egreja;
ante o altar, christãos ajoelhados, preparando-se para o combate pela re'
cepção do pão dos fortes; em torno dos vivos, uE circulo de mortos,
que, de seus tumulos, os alentam fallando-lhes de desprêso, de corÔas, de

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DE PERSEVERÀNÇÀ. 59

repouso e d'immortalidads. Alegraes-vos de encontrar a Egreja catholica


sempre a mesma. c deploraes que o entibiamento da fe, muito mais que
o in[eresse da salubridade publica, haja separado entre nós o cemiterio
do templo, e afastado 0s mortos da vista dos vivos.
Dizem que o costume de enterrar nas egrejas ou ao pe das egrejas
se tornou perigoso para as grandes cidades. Esta supposição e perfeita-
mente gratuita. Atê que seja provada, terão por bem perrniitir-nos que
a bajamos por duvidosa. Estamos tanto mais auctorisados a isso, quanto
ella tende a contlemnar a Egreja catholica, e provém de pessoas cuja le-
viandade, para não clizer mais, está para nós cabalmente demonsürada.
Terão egualmente por bem permittir-nos que lembremos que em Roma
se enterra nas egrejas (t), e que, não obsl,ante o calor do clima, não se
vê que d'ahi resulte inconveniente algum.
Perguntaremos depois se se poderia cil,ar na historia uma só epide-
mia, produzida pelo costume de enterrar nas cidades. Finalmente, diro-
mos que e muito bom desviar das cidades todos os principios de conta-
gio; mas, para serem consequentes, não deveriam deixar n'ellas subsis-
tir, construir e dotar logares de dissoluçã0, cem vezes mais mortiferos
que a sepul[ura dos mor[os. Bntre aquelles que isolam hoje os cemite-
rios e censuram com [anto azedumo o anligo costume da Egreja catho-
lica, quantos ha, talvez, que não procuram desviar todas as idéas fune-
bres senão para gozarem 0s prazeres sem mixto d'amargura e sem re-
morsos, e que querem palliar esse epicurismo com pretextos de bem pu-
blico !
Como quer que seja nas cidades, sustentamos que nas aldêas, oude
corre o ar livremente, e onde não ha perigo algum, nada se deve mudar
ao costume estabelecido. E' mui conveniente que antes d'entrarem no
templo do Senhor tenham os Íieis ante os olhos um obiecto capaz de
despertar-lhes a idea da brevidade da vida, a esperanÇa d'um futuro mais
venturoso, e uma terna recordação de seus parentes e amigos (2).
Separar o cemiterio da egreja, e romper uma das mais formosas
harmonias que podera estabelecer a Religiã0. Esta harmonia bem merece
ser tida em alguma conta, porque a sociedade ganha com ella mais do
que sc imagina. N'um pequeno espaço se acham reunidas as tres Egre-

. (-1) Até á occupagâ,o í,*anceza enterlava-se n'ollas totla a gente ; descle entâo
só n'ellas se sepulta pãrtô da populaçâo.
(2) Bergier, ait, Cemiteri,ô,

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60 cÀrEcrsuo

jas, a Egreja do ceo, a Egreja da terra e a Egreja do purgatorio; não


é esta uma grande lição de fraÍernidade? A Egreja clo ceo, cômposta dos
Anjos e dos bemaventurados, cujas victorias e presença invisivel iecordam
os quadros suspensos nas paredes do templo, acha-se reunida em redor
d'aquelle altar, tumulo d'um martyr ou d'um santo, sobre o qual se im-
mola o Deus que ella contempla face a face, e que nós adoramos sob os
véos eucharisticos. A Egreja da terra apparece alli a nossos olhos, com-
posta rl'aquelle povo de crean0as, mulheres, mancebos e anciãos que
oram juntos. A Egreja do Purgatorio occupa tambem seu logar, composta
dos nossos amigos e parentes, cuja voz parece sahir de baixo d,aquellas
:
campas sobre que oramos, para dizer.nos com Job Tende compairdo
ile nÓs, tende compaind,o de nós, ao tnenos uós que fostes nossos ami-
gos (l).
Acreditae-me, n'este seculo de frio egoismo, de glacial indifferença,
é bom deixar ao christianismo o meio de despertar em seus fllhos a po-
derosa recordação do seu berç0. E' bom que o logar da oração seja uma
Catacu,mba. A oração feita no meio dos tumulos é mais recolhida. A
mesma approximação entre os mysterios da Religião e os da campa, o
contacto em certo modo immediato do tempo com a eternidade, da cinza
dos avôs e do homem ajoelharlo, em frente do Deus immortal dos secu
los, sobre os restos das gerações que já lá vã0, tudo isto infunde sau-
daveis pensamentos, faz nascer mais d'um nobre sentimento, e inspira
mais d'uma resolução virtuosa.
Todos os cemiterios são abençoados. Este costume remota ao mes-
mo nascimento do Christianismo. A Religião que tantas vezes abençôa o
homem; que lhe abençôa os campos, os prados, os alimentos, o mesmo
gado e a casa, para ensinar-lhe que é santo, pois que tudo o gue 0 r0-
dêa deve ser santo, para poder estar em contacto com elle; a Religião
abençôa tambem e consagra o logar da sua sepultura, a Íim de recordar-
lhe que a rnorte não o despoja da santidade, e gue elle continua a ser
respeitavel ate na cinza do sepulcro.
Esta benção da nossa derradeira morada é uma fonte de lições uteis
aos vivos: eis a individuação d'ellas. E primeiramentê, para tornar mais
venerando o cemiterio, está reservada a benção d'elle ao Bispo: sómente
póde fazer-se substituir por um Presbytero. Quanto mais despresivel se
torna em certo modo o homem, quanto mais se approxima do nada e do

(1) Job, XIX,21.

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DE PERSEVERÀNÇÀ 6I
pó, tanto mais o cerca de respeito a Religiã0. Na vespera da ceremonia,
plantam-se cinco cruzes de pau da altura d'um homem. A primeira, mais
elevada que.às outras, no meio ; as outras adiante e atraz, á direita e es-
querda, nas extremidades do cemiterio. Diante de cada cruz eleva-se uma
estaca de pau da altura de dois pés, que tem na extremidade tres pontas
do pau proprias para segurar cirios.
Que quer dizer esta ceremonia na apparencia tam extravaganto?
Longe dos vossos labios o impio sorriso do desprezo. Tudo é grande na Re-
ligião; tudo é cheio de mysterios. Aquellas cruzes de pau collocadas aos
quatro pontos cardeaes representam 0 Salvador do munclo, aguelle que é
a, resurreiçd,o e a tida de todo o genero humano (l). Àquelles postes de
côr brancacenta, que se tomariam por tibias (2) descarnadas, são a ima-
gem do homem, a quem a morte torna similhante a um pau sêcco e inutil.
A noite que segue a plantação da cruz recorda as trevas do sepulcro,
assim como a ceremonia do dia seguinte e a viva imagem da resurreiçã0.
Aquella cruz em pe diante d'aquelles postes annuncia altamente que Jesus
Christo protege n0 mesmo sepulcro os despojos do homem, que 0s con-
serva sob a sua mã0, e que saberá devolver-lhes a vida no dia marcado.
No seguinte dia, havendo-se o Bispo revestido de sobrepelliz, estola
e capa branca, dirige-se ao cemiterio. E' empregada a côr branca porque
vae effectuar-se uma alegre ceremonia, vae proclamar-se um mysterio
consolador. Precedido do clero, vae o Bispo collocar-se diante da cruz
do centro. Àccendem-se quinze cirios, tres em cada um dos postes col-
locados diante das cruzes.
Collocados sobre aquelle pau privado de seiva e de vida, fidelissima
imagem do homem no sepulcro, aquelles cirios accêsos annunciam a re-
surreiçã0. 0 seu numero indica e proclama aos quatro extremos do mun-
do a Santissima Trindade, em nome e pelo poder da qual se deve operar
a resurreiçã0. A oração que 0 Bispo logo recita, nos revela o espirito
d'estas bellas ceremonias. Eil-a: «0' Deus omnipotente e cheio de mise-
ricordia, vós que sois o guarda das almas, a ancora da salvação e a es-
perança dos Íieis, escutae com favor a nossa humilde oraçã0, e dignae-vos,
pela vossa benção inteiramente celeste, de purificar este lugar e tornal-o
santo, para que 0s corpos que aqui repousem, depois do curso d'esta

(1) Joan., XI,25.


(2) Assim se chama, em termo d'anatomiâ, o osso principal da perna.

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62 carncrsuo

rida, mereçam, no grande dia do juizo, a bemaventurada immortalidade,


e parte da felicidade etcrna com as almas justas. Por Jesus Christo, etc.»
Depois d'esta sublime oraçã0, poem-se de joelhos o clero o os Íieis
ante a crüz e supplicam a todos 0s nossos irmãos do ceo que juntem as
suas supplicas ás nossas, a Íim de ob[erem a graça que sollicitamos: can-
tam-se as ladainhas dos santos. Quando acabam estas, dá o celebrante
uma volta em torno do cemiterio, que asperge de agua benta, pronun-
ciando estas palavras : Aspergi-me, Senhlr, com o hyssope, e serei purl.
Durante esta ceremonia canta o côro o psalmo lllisercre. E' um longo
gemido que toma do logar e da circumstancia alguma coisa solemne e
lugubre, capaz de enternecer 0 coração de Deus.
Volta o Bispo ante a muz: alli, com effeito, é que convém orar. Di-
rige ao Deus da verdade e da morte a oração seguinte: «0'Deus que sois
o creador do universo, o redemptor do genero humano e a providencia
de todas as creaturas visiveis e invisiveis, nós vos pedimos com voz sup-
plicante e coração dedicado que vos digneis de purificar, abençoar e santi-
ficar este cemiterio em que, depois d'es[a vida, devem repousar 0s corpos
dos vossos fleis. 0'vós, que, pela vossa infinita misericordia, perdoastes
todos os peccados áquelles que haviam posto em vós toda a sua confian-
Çâ, concedei com bondade a consolação eterna aos seus corpos que re-
pousam aqui, esperando o som da trombeta do vosso archanjo. Por Je-
sus Christo Nosso Senhor, etc. »
Es[as ultimas palavrAs, com que proclama o Bispo a resurreição fu-
tura, são tambem seguidas d'uma ceremonia que é a viva imagem d'ella.
Tira do poste os cirios accêsos e os colloca sobre as tres pontas da cruz,
começando pela do centro. Esta acção diz ao homem: «À esperança da
resurreiçã0, que desce comüigo á sepultura, será realisada por Jesus
Christo. Tu és membro seu, e Elle é a tua cabeça, e resuscitou. Olha,
o seu c0rp0 já brilha com immortalidade.» Tira-se depois o poste; p0-
rém a wo?. fica em pê. ,Está alli para dizen a todas as gerações «Re- :
suscitareis o yosso Redemptor está vivo ; vela por vÓs ; arvora o es.
;
tandarte da sua victoria n0 mesmo sitio onde vos venceu a morte.» 0
Bispo, não vendo na cruz senão o Deus que ella representa, sauda-a com
respeito, e incensa-a tres vezes ; depois do que se retira ({).
0' homens ! não temaos agora a morte; não sereis por muito tempo

(1) Toclas estas cer.emonias sào acompanhadas de magnificas orações, e de


poeticos prefacios que se podem vêr uo Pontifical.

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DE PERSEYEnÂNÇÀ. 63

prêsa sua: vêde 0 emblema da resurreição e da immortalidade que Yo§

espera no mesmo sitio da vossa sepultura t Se similhantes usos se achas-


sem entre alguns p0v0s da antiguidade, não teriam 0s nossos sabios mo-
dernos basl,ante eloquencia para os louvarem : têl-os-iamos repetido desde
a juventude em verso e em prosa. Porque é pois a sua indiÍferença ?
Porque a ignorancia em que nos deixam a respeito d'estes usos tão cheios
de instrucção e poesia ? Porque pertencem á Egreja catholica, são acaso
menos veneraveis ? 0' homens I até quando tereis dois pêsos e duas me-
didas ?

ORAÇÃO.

0' meu Deus, que sois todo amor I graças vos dou por haverdes
tido tanto cuidado em me santificar e em santiÍicar a todas as creaturas;
concedei-me o comprehendor bem as saudaveis lições gue me daes com
todas as vossas bençãos.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
-rimo c0m0 a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
lerei grande respeito a mí,m rnesmo,

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64 CÀTECI§MO

sExrA LtÇÃo.

0 chris[ianismo Íornado sensivel.

IDennicáo e divisõo do úempo. - tr'esúas.-Seu obJeoúo no úem-


po dos Paúriarclras, de l[oysés e do Dvangellro. - tr'esúâs
rlos marúyres e dos §anúos. - §uperioridade daa Íerúas
olrrisúãe.
ciaes.
- §ua Delleza, srlas lrarmonias e vanúagens ão-
§enúlÍicacáo dar fesúas.
-

Conhecemos a egreja e o cemi[erio, duas moradas onde se reali-


sam todos os mysterios da vida e da morte. Que faz a Religião nos tern-
plos ? que festas se celebram n'elles ? eis as perguntas a que é necessa-
rio agora responder. Mas, para ser comprehendida, demanda a resposta
a estas perguntas algumas explicaçoes prévias. O lempo, sua diuisd,o, e
este mesrno nome de fesl,a precisam de ser conheciclos. .
E primeiramente, que é tempo ? Se quizessemos definir o tempo
em si mesmo, diriamos com um cêlebre poeta, que 0 tempo ê a imagem
mobil da immobil eternidade ({); tal não é porem 0 n0ss0 objecto. En-
caramos sim o tempo no que é com relação ao homem clecahido.
Ora, depois do peccado original, podia Deus tratar o homem como
havia tratado os anjos : podia tirar-lhe o tempo e precipital-o, com a ra-
pidez do ralampago, na eternidade da desgraÇa. Mas graças lhe sejam
dadas, não obrou d'essa fórma. Dignou-se conceder ao homem o tempo,
e para que ? Para fazer penitencia. Se a não fizer o homem, se.rá tratado
como os anjos rebeldes, e quando houver findado o [empo, ouvirá da
propria bôcca do supremo Juiz esta irrevogavel sentença : Retirae-aos ile

(1) J. B. Bousseau.

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DD PERSEVERÀNÇÀ. 65

mim, maldictos, ide para o fogo eterno que foi preparado para o de'
, monio e para 0s seils anjos (l). A' vista d'isto, que é o tempo aos olhos
cla fe, isto é, da verdade ? E' o tempo 0 praso concedido pela justiça
divina á raça humana para fazer penitencia. Sim, assim e: o tempo, a
vida, é uma penitencia perpetua: o oraculo infallivel 0 proclama, em
harmonia com a ruzáo (2).
Quantos erros dissipados, quantos systemas derribados, quantas
ideas rectificadas, quantos arrependimentos talvez e quantos remorsos
I
excitados em mais d'uma alma só por esta definição Quantos anciãos
encanecidos aprendem aqui que se póde morrer de cem annos sem ter
t
vivido um só dia Quando a gente reflecte n'esta definição e lança um
oltrar para a face clo mundo, quando vê o uso que do tempo fazem reis
e povgs, sabios e ignorantes, ricos e pObres, moçOS e velhos, ha motivo
para escontler o rosto entre as mãos e assentar-§e, como Jeremias, para
chorar as ruinas da intelligencia. Homem t fllho d'um criminoso e cri-
minoso tambem, tu não tens mais que um dia para lavares a macula
que te inquina a alma, e esse dia emprégal-o em correr apÓs fantasmas I
Escravo clo demonio, não tens mais que um dia para despedaçares o ju-
g0, 0 esse dia empregal-o em fortalecer os grilhões I Eis gue vem a noi'
[e, a noite negra, profunda e immobil da eternidade, onde já ninguem po'
derá obrar I e tu nem pensas n'isso !
Para chamar incessantemente o homem a si mesmo, dividiu a Egreja
o tempo. Como tudo quanto vem da Egreja catholica, apresenta esta
divisão do tempo um grande cunho de sabedoria e utilidade. Com effei-
t0, divide-se 0 anno ecclesiastico em tres partes: a primeira, que com-
prehende o tempo do Àdvento ao Natal, nos memora os quatro mil an'
nos de preparação, e 0s suspiros e esperanças do mundo antigo, até ao
mornento em que os ceos entre-abertos deixaram descer o Justo, o De-
sejado das nações; a segunda, que se estende desde o Natal ate á Ascen'
sã0, encerra toda a vida mortal do Redemptor: o Íinalmente a terceira,
que começa no Pentecostes e termina no dia de Todos os Santos, recorda
a vida da Egreja.
Assim esta divisão do tempo, que nos memora toda a historia do

inre de penitentia ad-


: quod uon modo peni-
esse debet, coDSUrnmâ-

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66 cÀrncrsuo

mundo e toda a do Christianismo, passada, presente e futura, termina


pela festa do Ceo. De facto, tudo là conduz: o Ceo e o remate de todas
as coisas.
Esta divisã0, que passou ás idéas e até á linguagem, inspira ao ho.
mem, sem que elle o perceba, santos pensamentos, dá-lhe a intelligencia
de si proprio e da vida, e exerce sobre os costumes dos povos uma in-
fluencia muito mais salutar do que se pensa. Se duvidaes d'isto, não
duvidavam os impios do seculo passado, mais intelligentes que vós. Na
sua furia de abolirem o Christianismo, vêde com que afan trabalharam
por supprimirem esta divisão do anno, a Íim de extinguirem as recorda-
ções que se unem a ella, e para lhe substituirem a sua divisão e o seu
calendario republicano. 0 tempo e a razão breve aniquilaram esta louca
tentativa. Não se apagam n'um só dia ideas de dezoito seculos, especial-
mente quando estas idéas recordam acontecimentos que abrangem toda
a historia do genero humano. Estão de tal fórma ligados o homem e o
Christianismo, que para abolir o segundo, fôra mister aniquilar, e depois
tornar a crear o primeiro.
Bntre os acontecimentos de que se compõe a nossa historia, ha-os
gloriosos, ha-os tristes e ha-os consoladores : de todos consagra a Egreja
a memoria. Mas, coisa admiravel ! nos mais tristes acontecimentos que
offerece a Religião á nossa meditaçã0, ha sempre logar para a esperan-
Çâ, e portanto para a alegria. Eis abi porque chama festas aos dias em
que celebra o anniversario d'elles.
A palavra festa quiz dizer dia feliz, dia agradavel (l) e tambem dia
de assembléa solemne. Entre todos os povos houve dias de festas ou de
assembléas, quer civis, quer religiosas. Como eram, e são geralmente
ainda hoje, seguidas d'uma comida commum, d'ahi veio o nome de /es-
lim, que significa banquete, comida de festa e de ceremonia. No pro-
prio Christianismo, foram de opinião os mais santos personagens que
não devem ter logar nos dias de festa o jejum e as mortiÍicações ; que
convem pelo contrario fazer tm festim, isto é, uma comida melhor gue
de costume. Esta opinião e confirmada pelo mesmo exemplo dos ana-
choretas da Thebaida.
Entendemos aqui por festas os dias em que nos reunimos para Iou-
varmos a Deus. N'este sentido, são as festas Íam necessarias como as
assembléas religiosas. Nunca povo algum teve cul[o publico sem que fi-

(1) Iestus, Testi,aus, Yide Ducange.

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DE PERSEVERÀNCÀ. 67

zessem parte tl'elle as festas: assim é que as encontramos estabelecidas


desde o principio do mundo.
Tinham suas festas os Patriarchas. Reunem a sua familia, ora na
eminencia, á sombra do cedro ou da palmeira, ora ante a pedra do de-
serto (l); lavam-se, mudam de vestes, puriÍicam-se, e offerecem sa-
crificios por mo[ivo dos beneficios que receberam de Deus. Noé salvo
do diluvio, Abrahão cheio das bençã0s e promessas de Deus, Isaac certo
da mesma protecçã0, e Jacob de volta da Mesopotamia e salvo da ira de
seu irmã o, festejarn estes felizes acontecimentos erigindo altares e offe-
recendo sacrificios. Convertida em naçã0, teve tambem a familia dos Pa-
triarchas suas Í'estas, cujo objecto, numero e apparato se dignou de re.
gular o proprio Deus.
0 Christiani.sm0 continúa, desenvolvendo-a, esta prolongada cadêa
de tradições sagradas ; tambem tem suas festas. Breve fallaremos d'ellas
ci rcumstancia damente.
0 objecto principal
das festas variou segundo os tempos. No tempo
dos Patriarchas, na Religião primitiva, era o principal objecto das festas
inculcar aos homens a idea d'um só Deus, creador e governador do mun-
do, pae e bemfeitor das suas creaturas. Na Religião judaica, eram des-
tinadas a despertar a recordação d'um só Deus, legislador, soberano se-
ntror e protector especial do seu povo. No Christianismo, nos mostram
um Deus, salvador e santiflcador dos homens, cujos designios todos ten-
dem á nossa salvaqão eterna. D'est'arte, nada serve melhor que as festas
para manifes[ar-nos o objecto directo do culto religioso nas tres epochas
successivas da revelaçã0. Dir-se-iam magnificos pharoes collocados na es-
trada dos seculos, para mostrarem ás gerações que seguem o ponto
exacto em que se acl-rava o desenvolvimento da verdade nas gerações que
precedem.
0utro objecto das festas é fixar, recordando-os todos os annos, os
acontecimentos memoraveis da Religiã0. E que acontecimentos os gue
eram recordados aos judeus pelas festas da Paschoa, do Pentecostes e
dos Tabernaculost Que acontecimentos não memoram aos Christãos aquel-
les mesmos dias, e a Ascensã0, e a Assumpçã0, e o Natal, e tantas ou-
tras I Toda a historia do genero hurnano está como que escripta a gran-
des traços nas festas religiosas. Perpetuavam tambem os judeus com fes-
tas acontecimentos menos importantes; 0 livramento de Bethulia por Ju-

(t) Gera., XXXV.

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68 carEorsuo

dith, e o livramento dos judeus por Esther foram entre elles objecto de
festas perpetuas.
0 mesmo succedeu no Christianismo. Desde o principio, celebrou-
se a Íesta dos Martyres. Segundo o modo de pensar de nossos paes na
fé, era a morte d'um martyr para elle uma victoria, para seus irmãos
um modêlo, e para a Religião um triumpho. 0 sangue d'esta testimunha
cimentava o edificio da Egreja. Solemnisava-se o dia da sua morte, reu-
niam-se no seu sepulcro, e alli celebravam 0s santos mysterios; e os fieis
reanimavam a sua fé e coragem com o exemplo d'elle. Desde o começo
do segundo seculo, apparece este costume nos actos do martyrio de S.
Ignacio e de S. Polycarpo, e não podemos duvidar de que fosse seguido
em Roma, irnmediatamente depois do martyrio de S. Pedro e S. Paulo.
0 testimunho dos Apostolos e dos seus discipulos, sellado com 0
seu sangue, era tam precioso que não podia deixar-se de pôl-o continua-
mente ante os olhos dos Íieis. 0s mesmos motivos que flzeram estabele-
cer as festas dos marl,yres, deram origem ás dos confessores; isto e, dos
Santos que, sem haverem soffrido a morte, edificaram a Egreja com o
heroismo das suas virtudes. E' a sua vida um glorioso testimunho á san-
tidade do Christianismo e uma prova de que a moral evangelica não é
impraticavel para ninguem. Que lição mais util para consagrar-se com
uma festa perpetua I
0 que precede faz-nos comprehender a superioridade das festas
christãs ás judaicas e patriarchaes. N'estas, honravam-se sem duvida
grandes acontecimentos; mas, por maiores que fossem, não eram mais
que a sombra de acontecimentos ainda maiores. Que havemos de con-
cluir d'aqui, senão que as nossas disposições para as celebrarmos devem
ser muito mais perfeitas que as dos judeus e dos Patriarchas?
Que diremos da belleza das nossas festas, isto é, da sua harmonia
com as estações em que se celebram, com os mysterios que recordam, e
com as necessidades do nosso coração ? E' mui digno de lastima aquelle
que é insensivel á admiravel successão das nossas solemnidades Sup-I
primi as nossas festas, e vêde que monotonia existe no decurso do annol
como se torna tudo enfadonho e insipido na successão dos dias e das
estaçõesI Tentae inverter a ordem em que se celebram, e vereis que
profunda sabedoria determinou a epocha d'ellas.
Citemos alguns exemplos: collocae a fes[a da Paschoa ou da Resur-
reição no outono, quando tudo na natureza apresenta a imagem da morte,
e os dias que diminuem, e as arvores que se despem, e as folhas sêccas

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DE PEnSEVERANÇA. 69
que rolam arrebatadas pelo aquilão como o pó dos sepulcros, 0 0 hori-
sonte que se carrega de nuvens e qrie se obümbra: que vos parece?
Não ha ahi um contraste desagradavel e extrema difficuldade de entrar
' no espirito da solemnidade ? Da mesmo fórma tambem, celebrae o Corpo
de Deus n0 mez de janeiro, e dizei-me se sentis nascer nos corações
aquelles sentimentos de jubilo que deve inspirar o triumpho do Homem.
Deus ?

Pelo contrario, supponde que em vez de celebrar-se no inverno, se


celebra a festa do Natal nos bellos dias clo verão: não sentireis logo en-
tibiar-se aquella piedacle compassita para com 0 recem-nascido de Bethlem?
Que difficuldade a do excitar nos nossos corações, no meio dos calores
ardentes, aquelles sentimentos tam vivos para com aquelle menino tran-
I
sido de frio collocae de novo o Natal em p5 de dezembro, e experi-
rnentareis como que a pezff vosso uma terna compaixão pelo Infante
di-
vino que nasce n0 meio d'uma longa noite d'inverno, e n,uma humida
gruta, aberta por todas as partes ao gelido sopro do aguilã0.
Não vos
admireis d'isto: na primeira supposiçã0, ha desiccôrdo entre a festa
ea
estação; na segunda, existe a harmonia, restabelece-se a ordem, desap-
parecem os obstaculos, e sem custo experimenta o
coração tudo quanto
deve experimentar ({).
Descei ainda mais fundo n'estas mysteriosas harmonias, vereis
e que,
no decurso d'um anno, não ha nem uma necessidade do nosso coração
que não sejá satisfeita pela successão rlas nossas festas.
Assim é o cora-
ção do homem: não póde, nem quer experimentar sempre o mesmo sen-
timento. Fal-o viver a variedade, máta-o a monotonia. Dir-se-ia
um
alaúde que não sÔa bem senão quando são hahilúente
tocadas todas as
cordas d'elle. Com effeito é'nos necessario successivamente
o sentimento
da esperanÇa, da fé, da santa tristeza, da alegria, do jubilo e do amor,
alguns sorrisos e muitas lagrimas. E'-nos necessaria, sobre
tudo, grando
variedade de motivos que excitem em nós o amor e a-prática
das diffe-
rentes virtudes.
Ora, estudae bem o encadoamento das tres partes do
anno eccle_

.(1)
moDta e
do sol.
perfeita
Iaçôes.
s

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70 cÀrEclsMo

siastico, a Successão das noSSaS festas, e dizei se ha na Religião uma só


virtude que, n'um anno, não seja proposta á nossa imitação com seu m0'
tivo proprio ? uma só Íibra n0 nosso coração que não seja vibrada ? Des-
graçados, desgraçados d'aquelles que não distinguem as estações senão
pelas sensações do calor e do frio, e para 0s quaes todas as nossaS har-
monias religiosas são como se não existissem! Esta insensibilidade moral,
esta paralysia espirituat é mais que uma desgraça, é um castigo: o castigo
dos QUe, havendo-se tornado similhantes aos animaes pelos appetites,
mereceram não conhecerem a vida senão por sensações grosseiras (l).
Ainda teem outras vantagens as nossas festas christãs. Interessam
no mais alto grau ao bem-estar material do homem e à paz da sociedade.
Tão certo é, ate mesmo por confissão dos impios, que a Religiã0, que
parece não ter por objecto senão a felicidade da outra vida, é tambem o
melhor meio para tornar-nos felizes já n'esta !
«Que se deve pensar, pergunta Jean-Jacques-Rousseau, d'aquelles
que guerem tirar a0 povo as suas festas, c0m0 outras tantas distracções
que o desviam do trabalho'l E' barbara e falsa esta maxima. Mau é se o
poro àão tem tempo senão para ganhar pão; e-lhe tambem necessario
para comêl-o com alegria : sem o que não o ganhará por longo espaÇg.
Ésse Deus justo e benefico que quer que elle se occupe, tambem quer
que descance. Impõe-lhe a natureza assim o exercicio como 0 repouso,
tanto o prazer como a tristeza. 0 desgosto do trabalho mais acabrunha os
infelizes que o proprio trabalho. Quereis fazet activo e laborioso um
povo ? dae-lhe festas... Àtguns dias assim perdidos farão valer mais a
outros. »

Ao povo são pois uecessarias festas, e, por p0v0, entendo eu gran-


des e pequenos, ricos e pobres, sabios e ignorantes, reis e subditos, pois
torlos são homens, compostos tle duas naturezas e dominados pelos sen'
tidos. llas que festas haveis de dar ao povo para o fazerdes mais activo e
laborioso? festas civis? mas essas não são nem podem ser senão para os
habitantes das grandes cidades. 0s dispendios gue trazem comsigo, e os
preparativos que demandam, as tornam impossiveis nas aldêas. Sé não
iendes mais que festas civis, condemnaes a nunca terem festas aquelles a
quem as torna mais necessarias a continuação do trabalho e das privações.

(1) Homo cum in honore esset, non irrtellexit: comparatus est jumentis iusi-
pientibus et similis factus est iUis. Psal,rn,, LVIII.

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I
DE PEnSEYBnANÇA. 7l
Festas civis I mas hde, divididos como estamos por odios poNiticos, ixr
festas civis offendem e humilham parte das populações: que o triumpho
dos vencedores exaspena os vencidos.
Deixareis ao povo o cuidado de arranjar festas ? mas o p0v0, e por
povo, repito, entendo tanto os ricos como os pobres, assim os que habi-
tam em palacios como os que dormem sob o colmo, o povo irá pedil-as
á devassidã0. Haveis de vêr uns, passando alternativamente da mesa ao
theatro, arruinar-se em loucas prodigalidades; haveis de vêr outros so-
pultar-se nas tabernas, aviltar-se, embrutecer.se, e, devorando em algu-
mas horas a substancia da familia durante uma semana inteira, condem-
nar os filhos e as mulheres á fome e ás lagrimas.
Uma vez estabelecido este movimento desregrado, cada dir fanl no.
vos progresso§. Multiplicar-se-ão as salas de espectaculo, os botiquins,
as eseolas do vicio e os logares de devassidão de todas as especies. Uma
falsa politica, um sordido interesse e um fundo de inreligião persuadirão
que se Jornaram necessarios esses estabelecimentos pestilenciaes. Os bons
cidadãos e os artisÍ,as honrados se queixarão d'elles, porque não poderão
deter nas officinas os aprendizes nem os officiaes: pãréiir inutoÉ gemi-
dos I ao poyo são necessarias festas.
Tirastes-lhe as que lhe convinham, porqu€ so ellas o podiam fazer
mais activo e laborioso, e por conseguinte mais mgral. Metiestelo a ri-
diculo quando a ellas assistia, e desgostastel-o d'ellas: procurou outras.
Àgora, es§e povo immoral e descontente vos inquiet, o romno e perturba
os g0z0s' em tanto que vos não paga com o roubo e eom a violencia
as
vossas lições de impiedade: tanüo peor para vós ! . .
E quaes eram essas festas uuicas que oonvinham ao povo, porque
convinham á sociedade toda ? Eram as fes[as religiosas. Etrt primeiro 10.
gar, todos podem tomar parte n'ellas. Não são mais
excluidos d'ellas os
' habitantes das aldêas, que os das cidades. Não são onerosas
ao rico, nem
ao pobre; mui[as vezes se gloriam e comprazem elles em contribuir vo-
Iuntariamente para a magnificencia d'ellai. Aqui ninguem é offendido.
Nem o triumpho, nem a derrota dos outros é o que íõ
celebra; nos nos-
sos templos não se conhecem partitltrr; os filhos não teom
odio quando
estão juntos nô negaço da mãe: se ha lagrimas, são lagrimas
d,alegria ou
d'arrependimentO. Os concerto_s profanos, as voluptuosás danças dos
thea-
tros, as vocifera@es da lubricidado, os arrcbatamentos do furor, e
as d-
ras da devassidã0, são substituidos por santos canticos, e maflrificas
e
patheticas ceremonias. callam-se as páixoes, r.cobra
a alna o ,ão ,úãr;

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CÀTECI§MO

e o homem, felizmente distrahido, torna-se mais activo e mais disposto


para o trabalho, porque se torna melhor.
Sim, tornar o homem melhor, isto é, mais moral, tat é a grande van'
tagem, a vanüagem exclusiva das festas religiosas. Reunem os homens aos
pés tlo Senhor commum, cimentam entre elles a pa7, e fraternidade, e des-
pertam a recordação dos factos em que se basêa a Religiã0, e que são ou'
tros tantos beneflcios de Deus. Levam-n'os á virtude, propondo-lhes gran-
des modelos, Santos de todas as edades, de todas as condições e tle todas
as proflssões, que, tendo sido o que nós s0m0s, fracos e sujeitos á ten-
taçã0, nos dizem do alto do Ceo que não depende senão de nós o sermos
um dia o que elles sã0. Não digaes gue estas bellas lições dadas no meio
do espectaculo, alternativamonte magestoso, gracioso ou terrivel das nos-
sas ceremonias, são completamente inuteis, pois para isso seria mister
perder todas as esperanÇas na humanidade. Se assim é, em que ficam as
rossas pomposas maximas e 0s vossos gueridos sonhos de perfectibilidade
indefinida da esPecie humana ?
Ao instituir festas, procurou pois a Egreja assim o bem da socie-
da6e como o dos particulares. N'um estado civilisado, não são menos
necessarios a Religiãg, os bons costumes e as virtudes sociaes que a sub'
sistencia, o dinheiro, o trabalho e o commercio; porque são precisos ho-
mens e não brutos ou automatos. Ora, sabeis de melhor meio para obter
homens e citladãos que a Religião ? e em que circttmstancias tem a Re-
ligião mais imperio que nas nossas solemnidades ?
N'outro tempo queixavam-se clo grande numero clas festas, e eis
'que as supprimiram quasi toclas, pelo meno§ em França. Que lucramos
í
ôm isso 0 operario, o lavrador trabalhou mais alguns dias, mas ficou
pelo
sendo pgr esse facto mais feliz ? Ai t não ; nada lucrgu, nem ainda
qru reipeita ao trabalho. Passa hoje em devassidões mais dias do que
purrrnu na egreja, quando existiam toclas as festas. Até mesmo uma dif'
iur.ogr é em desvantagem sua: os nossos dias de festa nada lhe custa'
vam, ao pa§so que os dias de libertinagem lhe custam o dinheiro o a

saude.
Havia-se pois mostrado a Egreja mui sabia e mui maternal ao mul-
tiplicar as suàs solemnidades. Nunca fez do seu poder uso mais util;
feiizes de nós ao menos se soubermos aproveitar-nos das festas que ti-
veram por bem deixar-nos t Para isso é mister santifical-as, e para san'
tifical.as é necessario entrar no espirito d'ttma solemnidade. Mas o que é
o espirito d'uma solemuidacle ? E' a intenção que se propÔz a Egreja ao

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I
DE PERSEVERANÇa. 73

instituil-a; é preciso conhecêl-a, a fim de a preenchermos, e de penetrar-


mos a alma das disposições analogas. Ora e uma virtnde que se nos orde-
na ; ora é um sentimento que cumpre reanimar; sempre ha alguma coisa
qae crêr e alguma qle i,nútar.
Deixemo'-nos levar pelas impressõcs da graça, e o Espirito Santo nos
dirá tudo o que devemos fazer para celebrarmos as nossas festas, de ma-
neira que sejam o penhor da festa eterna de que são tenue imagem. Uma
novena preparatoria e a sagrada communhã0, taes são os verdadeiros meios
de aproveitar as graÇas que Deus n'estes santos dias dispensa com mais
abundancia. Oxalá que assim succeda com todos aquelles que lêrem es-
tas linhas (t) I

0RAÇÃ0.

O' meu Deus, que sois todo amor I graças vos dou por terdes esta-
belecido festas para me recordarem 0s vossos beneficios e me levarem
mais eflicazmente á virtude.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
me prepqrarei para as festas com ufixa, nloena,

sarius I Duranti, primeiro puesidente do parlamento de Tolosa, sua excellente obra

tuos, etc. etc.

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7ü, CÀIECI§UO

SET|MA LtÇÂo.

0 chrisÍianisno [ornado sensivel.

IDomlngo.
- Sua lrlslorla. - §eu obJeoúo. - Domlngo enúre o!
prlmelros Glrrlsúãos. Oração ern Gommum, Officlo. Orl-
- -
Eem do Oflolo dlvino. - IDiíferenúes lroras do Ofllclo. -Sua
Irarmonla oom lDeut, Gom o homem e oorn o mundo.

À primeira do üodas as festas christiis e o Domingo: eis aqui a sua


historia. Havondo Deus creado o muudo em seis dias, descançou no sep-
timo. §antificou-o e mandou aos homens que o santificassem tambem.
«I,embrae-vosp lhes disse, de santificaro dia do Sabbado. Não fareis n'es-
se dia trabalho algum, nem vós, nem vossos fllhos, nem vossos creados,
nem vossas creadas, nem o vosso gado, nem o estranho que se ache en-
tre vós, para que descancem do mesmo morlo que vós. Lembrae-vos de
que vós proprios servistes no Egypto, o de que Deus vos tirou d'alli pelo
seu poder: é por isso que vos ordena o dia do descanço (l).»
D'est'arte, o descanço do Sabbado no septimo dia foi ordenado aos
judeus não só por motivo de religiã0, senão tambem por principio de
bumanidade: estes dois motivos subsistem na instituição do Domingo. Q
descanço da alma e do corpo, o bem do homem todo, tal é o objecto da
instituição do dia ilo Senlwr, que póde coin justa razáo chamar-se tam.
bom o itia ito homem. Illostrou-se cruelmen[e absurda a impiedad'e quan-
do, supprimindo o Domingo, quiz calcular as forças dos operarios como
as das bestas de carga. Por mais robusto gue seja o homem, precisa de

(1) Deú., V' 14.

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I}E PER§EVEBAN.OA. 75

descanço; todos os povos o conheceram, e todos estabeleceram certos dias


para satisfazerem esta necessidade (l): o septimo é o mais conveniente.
«Sabe-se agora por experiencia que o quinto é um dia demasiado
proximo, e o decimo um dia demasiado remoto para o descanç0. 0 ter-
ror, que potlia tudo em França, nunca pôde obrigar o aldeão a cumprir
a decada, porque ha impossibilidade nas forças humanas, e até, como se
tem observado, na força dos animaes. Não póde o boi lavrar nove dias
seguidos; ao cabo do sexto, os seus mugidos parecem pedir as horas
marcadas pelo Creador para o descanço geral da natureza. 0s alcleãos di-
ziam: 0s Dossos bois conhecem o Domingo, e não querem trabalhar
n'esse dia (2).»
Já dissemos que o descanço do septimo dia recordava a existencia
de .Deus, creador do mundo. Ora, depois da extincção do paganismo e
da idolatria, deixou de ser necessario continuar a celebrar o Sabbado ou
o descanço do septimo rlia em memoria da creaçã0. A crença d'um só
Deus creador já não podia perder-se; mas foi importantissimo consagrar
com um monumento eterno a recordação do grande milagre quo servo de
fundamento ao Christianismo, a resurreição de Nosso Senhor.
0 estabelecimento do Domingo torna incontestavel e sempre vivo este
faclo aos olhos das gerações. As proprias testimunhas do acontecimento
foram as que estabeleceram a festa destinada a perpetuar a recordagão e
a epocha d'elle; as que a fazem celebrar, n0 proprio sitio onde se reali-
sou, por milhares de homens que poderam verificar pessoalmente a ver-
dade ou falsidade do facto, e tomar a respeito d'elle todas as informações
possiveis. À não ser que fossem todos atacados da mais incomprehensi-
vel demencia, poderiam resoh,er-se a dar testimunho, por meio d'uma
ceremonia publica, repetida de oito em oito dias, d'um facto imaginario
0u do que não estivessem bem convencidos ? Accrescentae a isto que,
para assistir a esta ceremonia e para a praticar, foi necessario por espaÇo
de tresentos annos expôr-se aos tormentos e á morte.

tecimento dos artistas e operarios I 8.o a destruigâo da vicla de familia; e 9.0 a au-
sencia do vinculo moral entre o mestre e o operario.
(2) Genio d,o Christ.,IY parte.

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76 cATEcrsMo

E' pois o Domingo uma prova sempre viva da resurreição de Nosso


Senhor (t). Eis. de que maneira celebravam este grande dia nossos paes
na fé. Transportemo-'nos em pensamento dezoito seculos atraz, e entre-
mos n'uma d'aquellas Catacumbas illuminadas por multidão de lampada-
sinhas, suspensas da abobada ou fixas nas paredes. Em torno d'aquelles
sepulcros de martyr, gue imos vêr ? que imos ouvir ? attendamos. S.
Justino vae explicar-nos todas as ceremonias do Domingo primitivo.
«No dia do sol, isto é, no Domingo (2), se reunem n0 mesmo sitio
todos os gue assistem na cidade 0u na aldêa. Começa-se lendo os escrip-
tos dos Apostolos ou dos Prophetas, guanto o permitte o tempo. Con-
cluida a leitura, o gue preside faz um discurso á assembleia para in-
struil-a e exhortal-a a pôr em práticq as maximas sublimes de virtude e
religião que acaba de ouvir. Depois leoantamo'-nos (3) todos para fazer-
mos a nossa oração em commum. Oramos por nós proprios, e pelos que
são então baptisados, e por todos os homens, de qualquer nação que se-
jam, a fim de que cheguem ao conhecimento da verdade, levem uma vida
santa, cheia de boas obras, observem os mandamentos do Senhor e al-
cancem emfim a gloria oterna. Terminadas as orações, nos saudamos com
o osculo do paz.
uDepois apresenta-se ao que preside pão e uma taça de vinho e agua.
Pegando n'elles, tributa gloria ao Pae pelo nome do Filho e do Espirito
Santo, e rende-lhe longa acção de graças por aquelles mesmos dons que
se dignou de conceder-nos. Terminadas as oraçoes e a acção de graças,
:
todo o povo assistente diz em voz alta Amen, palavra hebrarca que si-
gnifica: Assim seja. Então aquelles a quem chamamos Diaconos distribuem
a cada um dos assistentes o pã0, o vinho e a agua consagrados pela ac-
ção de graças, e levam tambem aos ausentes.
«Chamamos a este alimento Eucharistia, e não ê permittido a nin-
guem participar d'ella, se não crê na verdade da nossa doutrina, se não
foi puriÍicado pela remissão dos peccados e pela nova vida, e se não vivo

_ (l) Veja-se, ua segunda parte d'esta obra, o que dizemos do Domiugo, LIX
ligão.

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DE PERSE\|ERANqA. 77

conforme os preceitos de Jesus Christo. Pois nós não a tomamos como


um pão commum e como uma bebida ordinaria, mas sim como a carne
e o sangue do nosso Salvador. Aprendemos que, pela eÍflcacia da oração
eucharistica, que contém a propria palavra do Salvador, se convertem
aquelle pão e aquelle vinho na carne e n0 sangue do mesmo Jesus que
se fez carne pela nossa salvaçã0. Com effeito, os Apostolos nos ensina-
ram, nas memorias que nos deixaram e que se charnam Eoangelho§, que
Jesus Christo lhes mandára que assim flzessem quando, pegando no pão e
dando graças, disse : Fazei isto em memoria de rnim : isto é o meu c0rp0;
e pegando egualmente na taça e dando graças, disse :
Isto é o meu sa,ngue.
«Depois trazemos estas coisas á memoria uns dos outros. Aquelles
que teem cabedaes, soccorrem todos os pobres, e estamos sempre do co-
ração uns com os outros. Em todas estas offrendas, bemdizemos o Crea-
tlor de todas as coisas, por seu filho Jesus Christo e pelo Espirito Santo.
As esmolas, que faz cada um com a maior liberdade, sã0 depositadas nas
mãos d'aquelle que preside e que está encarregarlo de amparar as viuvas, os
orphãos, os estrangeiros, os enfermos, e n'uma palavra todos aquelles que
soffrem e choram por qualquer causa que seja ({).
«costuTamos reunir-nos no dia do sor, porque é o dia em que Deus
começou a crear o mundo; e porque e o mesmo dia em que resuscitou
Jesus christo nosso Salvador, e em gue appareceu aos seus Apostolos e
lhes ensinou o que acabamos de pôr-vos ante os olhos (2).»
E' a historia do Domingo no segundo seculo do Christianismo a que
acabamos de ouvir, ou a historia do Domingo tal qual o vêmos ainda no
decimo-nono seculo ? E' o quadro d'uma catacumba ou d'um templo ca-
tholico o que acaba de passar-nos diante dos olhos? E' uma e outra coisa.
Admirae, filhos da santa Egreja romana, com que vigor imprime vossa
mãe o sello da immortalidade a tudo quan[o toca t 0 que faziam vossos
pães, não o fazeis vós ainda hoje tambem ? Não se conservam entre nós
todas as recordações do Domingo primitivo ?

(1) .Oitenta annos depois de S. Justino, dizia ainda Tertulliano.. «Presidem el-
guns anciâ,os recommendaieis : cada um de'nós
anciâos recommendaveis dã'nós leva eaila
eada mezmez o seu modico tributo.
tributo,
-
qlrqpdqIo_ quer
quer_ee como quer,
quer-, em proporçâo dos seus meios ,. "porque uinguem a il;-é
sàuí*àiór,;tporqrL isso é
"i"ãil;;-
obrigado, tuclo é voluntario. E' a-quillo como que um dópãsitó de pie?ade que nâo
se consome em ^- L--^.-^3^- --^--- --- i ,
banquetes nem em. êstereis dissi^pagôes ; emprega-se
eô tro sustento dos
lncllgentes,
'ntligentes, nos gastos
gastôs d_o
do seu_enterro,
seu enter e na manutengào o dos pobres orphâos, dos crea-
dos exhalstos_pela edad_e, e dos naufragos. Ilavendó Chr.istàos condômoudor ás mi-
,thlistâ,os condemnados
longe da patria ou deiidos nas prisôes unicamente pela causa de
desterrados-longe
nas, desterradôs
s, prove-se {gga
Deusr^provê-se â sua subsistencia,»
subsrstencia,» Apol,oqet,
Altologet,
(2) Apol,. Vide Mamacbi, t. I, p-. 28?.

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78 cÀrucrsuo

quantos velhos costumes o santos usos ella recorda. Coisa admiravel t não
ha em toda a christandado aldêa e logarejo, Qü0 não possa offerecer de
oito em oito dias, aos sabios e eruditos, reminiscencias da antiguidade, re-
cordações dos Cesares, do Circo, das catacumbas e dos martyres (l).
ls orações com,nums de nossos paes na fé dão-nos margem a fallar-
mos aqui do officio dirsino, isto é, da verdad eira oraçd,o em commum do
christianismo. Posto que os fleis já não digam o oflicio, comtudo assis-
tem a elle ao menos uma vez cada Domingo. Ate recitam parte d'elle,
Vesperas, por exemplo, e ás vezes Completas. A sua fé, piedade, e res-
peito ás oraçães e usos da Egreja, não podem deixar de lucrar muito em
conhecerem o sentido e a ruzáo do officio no seu conjuncto.
0rigem do ofi,cio dioino. Todos os homens oraram, e oraram em com-
mum. Os primeiros Christãos especialmente gostavam de reunir-se para
offerecerem a Deus o sacriÍicio de seus labios. Aos seus ouvidos resoayam
ainda estas palavras do divino Mestre: 0nde esl,ão reunidos dois ou tres
em rneu nlme, eslou eu,no meio d'elles (2). Perseguidos, acossados como
innocentes ovelhas por lobos crueis, buscavam a força e constancia que
lhes eram necessarias pondo seus corações, votos e orações em commum
com seus irmãos, assim como repartiam com elles a fazenda e os perigos.
Assiú de noite como de dia, havia horas marcadas para a oraçã0. As
Constiluições aposlolicas ordenam aos fieis orem pela manhã, á [erceira
hora, á sexta, á nona, a tarde e á meia noite (3). S. Jeronymo, escreven-
do a uma grande dama acerca da educação de sua filha, diz-lhe: «Ponde
junto d'ella uma virgem d'etlade madura, modelo de fé e pudor, que lhe
ensine e a habitue com o exemplo a levantar-se de noil,e para orar e can-
tar os psalmos sagrados ; pela rnanhd,, os hymnos sagrados; d Terça,
Seuta e Nôa a continuar o combate, como heroina de Jesus Christo ; e
ao pôr do sol, a accender a sua lampada, como virgem sabia, e offerecer

(1) ri,stits, Pelo visconcle Walsh'


(2\
i_a h-ory5-sexta,-non8, et vespere, atqueatlgalli
iai I.III, c. XI, P. 733'
eantriú. do,

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DE PER§EIEAÀNÇA. 79

o sacrificio da tarde (l).» O mesmo Santo nos aÍfrma, nas sua§ Cartas,
que o ceifador christão acompanhava 0s seus trabalhos do canto tlos psal-
mos, e que o vinhateiro podando a vinha repetia os canticos de David (2).
0s monges do Egypto e da Thebaida, os solitarios do Oriente, da
Palestina e da Mesopotamia, em cada mosteiro, reuniam-se varias vezes
ao dia para recitarem psalmos e cantarem hymnos á gloria tlo Senhor.
Não eram só os religiosos os que oravam assim ás differentes horas clo
dia e da noite, pois o commum dos fieis seguia este santo uso. S. Agos-
tinho, diriginrlo-.ce ao seu povo, diz-lhe : «Meus queridos irmãos, rogo-vos
que vos levanteis mais cêdo para assistirdes ás vesperas. Yinde primeiro
que tudo ao officio de Terça, Seata e Nôa. Ninguem se exima d'esta
obra santa, a não ser que seja impedido por alguma enfermidade, por
algum serviço que preste ao publico, 0u por uma grande necessidade (3).»
A reunião de todas estas orações chama-se officio diuino, porquo é
um deaor que se tributa a Deus para o adorar e aplacar, e para lhe dar
graças e pedir-lhe os seus favores. Pelo que precede se vê que o officio,
tal pouco mais ou menos quat hoje existe, remonta á mais remota anti-
guidade. Herdeira das tradições antigas, cstabeleceu-o a Egreja para per-
petuar aquelles canticos sagrados que resoaram no templo de Jerusalem,
nos eccos do Sinai, e nas praias do mar Yermelho: tambem quiz facilitar
aos christãos o exercicio da oraçã0.
Differentes horas do offi,cio.-Tambem aqui ha uma tradição de tres
mil annos. David dizia ao Senhor: Eu canl,o 0s oossos louuores sele oe-
zes ao tlia @); e o oflicio divino divide-se em sete partes, que se chamam
Horas, porque se recitam a sete horas differentes da noite e do dia. Eis
o nome d'estas differentes horas: Maüinas, Prima, Terça, Seuta, Nóa,
Vesperas e Complelas. E' da mais remota antiguidade esta divisão (5).

(l) Ad Lmtam, epist.YIÍ. d,e Istit. filice.


- (2\ Ad Marcell.
(3; Serm. f, Ferie quartre;. LYI, ileTerrytore. --Yeja-se tambem S. Basilio,
Homil,'in martyr. Julittam; S. Ag., epi,st. 109, etc.
Basil.,
III, ile

ã?3,,*:
is;

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80 carEcrsuo

ls Laude§, que se contam ás vezes por oitava hora, fazem parte das Ma-
tinas ou do officio da noite. Por tanto sobre a veneravel auctoridado
d'uma tradição de tros mil annos é que está estabelecida a divisão do
officio em sete horas adoptada pela Egreja. Mas em que descança esta
mesma tradição ? Nas admiraveis harmonias do numero sete com Deus,
comohomemecomomundo.
l..o 0 numero sete é o dos dons do Espirito santo. «A antiga ser-
pente, diz a este respeito S. Jeronymo, expulsa do coração humano, volta
com sete demonios mais maus que ella; e e-nos impossivel resistir-lhe,
se não somos fortificados pelos sete dons do Espirito Santo. para os
obtermos é que oramos sete vezes ao dia ({).» zP o numero sete é o
dos sete peccados mortaes. Para os evitarmos, ou para nos erguermos
se 0s commettemos, é que oramos sete vezes ao dia. 3.0 Todas as ne-
cessidades espirituaes e temporaes do gerero humano são sete em nu-
mero, encerradas na§ seto petições do Pater. para alcançarmos o objecto
de cada uma d'estas petições é que oramos sete vezes ao dia. 4.o 0 nu-
mero sete é o dos dias da creação e do descanço de Deus. para nos
lembrarmos d'essa grande semana que viu sahir do nada o mundo, e nos
excitarmos a dar graças a Deus por cada parto da creaçã0, a flm de que
fazendo bom uso das creaturas cheguemos ao santo deseanço da eterni-
dade, e que oramos sete vezes ao dia. As razões d'esta divisão septe-
naria da oração já existiam ha tres mil annos. Eis ahi o fundamento
d'esta veneranda tradiçã0, e a prova da profunda sabedoria da Egreja.
São sonhos tudo isso, dirão acaso os homens levianos, desacostu-
mados a reflectir. Pois sejam sonhos quanüo vos aprouver : que nós pre-
ferimos sonhar com s. Jeronymo, s. Basilio, s. Agostinho e yarrã0, a
raciocinar comvosco (2).
Belleza do olficio. Para fazerdes uma idea da excellencia do ofli-
-
cio divino, basta-vos saber de que se compõe. E' um resu,mo (B) de tudo
quanto ha mais bello n0 mais bello de todos os livros, o Àntigo e o
Novo Testamento; de tudo quanto nos offerece a historia dos Santos
mais pathetico e mais sublime; de todas as orações sahidas do.coração
abrazado dos mais bellos genios, e ao mesmo tempo dos maiores santos

monias do numero sete, S. Basilio, Horni,l.


'ín sanct, Pentecost., e S. Agost ., de Ciuit.
I contr, Manich.,r l. I ; Yarro r l. I, Eorum
rio.

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DE PEASEVERANÇA. gl
que o mundo tem conhecido; e de toclos os canticos sagrados que a fé
inspirou á piedade christã. Encerra inteiros esses cantos inimitaveis, es-
sas poesias immortaes do real propheta, em que o coraçã0, o espirito e
a imaginação encontram um como oceano cle bellezas sem eguàes, de
pensamentos sublimes, e de sentimentos divinos. Houve nunca mais bello
breviario de coisas mais bellas ? houve nunca oração mais poclerosa ?
Quer um monarcha encher de favores sua esposa querida ; mas
quer que sua esposa lh'os peÇa. E eis que elle proprio lhe traça a sup-
plica, lhe indica todos os termos de que ella derie servir-se, e depols
Ih'a põe na§ mãos fazenclo-lhe juramenlo pelo coração de conceder-lhe
tudo quanto lhe prometteu, Iogo que se apresentar com a supplica na
mã0, nos labios e no coração : eis ahi Deus, eis ahi a Egreja, eis ahi o
breviario.
I
0h que poder não devem úer sobre o coração de Deus esses tre-
zentos ou quatrocentos mil sacerdotes catholicos, que cacla dia se apresentam
sete vezes ante o throno do Esposo da Egreja, pedindo-lhe c0m0 quer os
favores que Elle mesmo prometteu e de que tem precisão esta esposa
querida I
E quando se pensa gue a cada hora do dia e da noite hi mi-
Ihares de sacerdotes occupados n'esta sublime funcçã0, que ora o 6riente
quando repousa o 0ccidente, de sorte que nunca se interrompe a voz 6a
oraçã0, não vos parece estar na Jerusalem celeste, onde os bemaventu-
rados repetem sem fim o cantico da eternidade: santo, sa,nt1, sa,nty, o
Senhor Deus dos euercitos (l) ? Que rio de bençãos não tleve fazer cor-
rer sobre a terra esta potente supplica ? Mundo criminoso I a ella é que
tu a conservaçã0, e esquecel-o t
deves
Oue mais hei tle dizer ? Todos os seculos, todos os paizes, todas as
linguas, cantam comnosco quando cantamos os psalmos de Davicl. Em
quanto os fazemos resoar nas abobadas de nossas egrejas, repetem-se es-
ses immor[aes canticos em Roma, ern Jerusalem, em pekin, ert Mexico,
em Petersburgo, n0 Cairo, em constantinopla, em paris e em Londres.
0 templo de salomã0, as planicies de Babylonia e de Memphis, as mar-,
gens do Jordã0, os desertos da Thebaida, as catacumbas de Roma, e as
Basilicas de Nicêa, Corintho e Antiochia os ouviram.
t
Por quantas bÔccas mais puras que a minlra teem passado Tobias
no Ieito de dôres, Judith n0 campo de Holophernes, Esther na côrte
d'Assuero, e Judas Machabeu á frente dos guerreiros d'Israel, os repeti-

(1) Apol,,,IV, 8.

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82 cÀrEcI§Mo

ram. Antão o§ suspirava no deserto, Cbrysostomo em Àntiochia, Atha-


nasio em Alexandria, Agostinho em Hippona, Gregorio em Nazianzo, Ber-
nardo em Claravalle, e Xavier no Japão; e após tantos seculos, depois de
haverem exprimido tantos sentimentos diversos, são estes immortaes can-
tiCos tam novos como no dia em que, pela primeira vez, os ensaiou David
na harpa. E não vos diz isto nada ao coração? e não vos engrandece isto
as ideias ? e não vos faz isto comprehender toda a magia d'este nome in'
communicavel da Egreja vossa mãe.. . catholicos?
Matinas.-A primeira hora do oÍficio chama-se matinas, aelas, noc-
lurnos, OU horas da manhd,, porque Outr'Ora Se recitava de noi[e, COmO
ainda fazemos no Natal, e porque nos cabidos se diz hoje de manhã cêdo.
Nos dias de domingo e de festa, são divididas as matinas em tres noc-
turnos 0u partes compostas de tres psalmos ({), tres antifonas e tres li-
ções, precedidas d'uma benção e seguidas d'um responsorio. As primeiras
lições são tiradas da Escriptura Sagrada, as segundas das obras dos San-
tos Padres ou das lendas dos Santos cujas festas se celebram, e as tercei-
ras cgmmentam o Evangelho do dia, do qual se citam alguns versiculos.
Em primeiro logar as matinas do dorningo dividem-se em tres noc-
turnos. À palavra nocüurno quer dizer oflicio da noite. 0s antigos divi-
tliam a noite em quatro partes, cada uma de tres horas: a primeira, destle
as seis hOras ate ás nove; a segunda, desde as nove horas ate á meia
noite; a [erceira r]esdo a meia noite até'ás tres horas; e a quarta, desde
as tres horas ate ás seis da manhã. Cada parte se chamava vela ou quar-
to; dizia-se a primeira vela, a segunda vela, etc. E' tomada esta deno-
minação da lingua militar. 0s soldados aelaaam oü faziam quarto cada
um por espaço de tres horas (2).
Como os exercitos dos Cesares, o exercito de Jesus Christo, a Egreja
sempre em campo, ordena aos ecclesiasticos que velem alternativamente
pela guarda do acampamento, principalmente durante a noite; pois e o
tempo mau, dizem os Santos Padres, O tempo em que vem o tentador, o
tempo do peccado (3).
Assim que, nos primeiros seculos, os nocturnos se recitavam sepa-
radamente: o primeiro durante a primeira vela, o segundo durante a se-

(1) Excepto o Domingo, em que o primeiro noct-urno se compõe.dc tres vezes


quatio'psalmois, I fi- de i'eóordaf um numero sagrado que seria mui longo erpli-
câf aqur.
t2l Yesetius. lib. Dercmilitari, c. YIII.
(gi HiÉr., 'i,n Paal,, CXYII; Ambros,l l. VII, in' Irucam,

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DE PERSEVERÀNqA 83

gunda, o terceiro durante a terceira, e Laudes durante a quarta. 0s fieis


assistiam a elles; porem, depois de cada noc[urno, podiam ir descançar
até ao nocturno seguinte. Àte mesmo as pessoas mais delicadas não fal-
tavam. Já vimos que s. Jeronymo, escrevendo á filha de paulo Emilio e
dos Scipiões, lhe diz se conforrne com o uso e se levante de noite duas
ou tres vezes para cantar os hymnos e psalmos (l).
No correr dos tempos, attendendo a Egreja á fraqueza humana, per-
mittiu se recitassem os tres nocturnos com as Laudes na mesma vela,
porém não mudaram as suas intenções. Quer, com cada hora do oÍlicio,
honrar os principaes mysterios da paixão do salvador, dar-nos a cada
instante do dia e da noite as mais uteis lições, e proporcionar-nos as gra-
ças apropriadas a cada uma das nossas necessidades. Desenvolveremos
todas estas coisas á proporção que explicarmos cada hora em parti-
cular.
Póde-se perguntar porque comeÇam de tarde as Matinas, que são a
primeira parte do oÍlicio. E' porque o dia ecclesiastico principia de tarde:
uso venerando que nos recorda a antiguidade, pois entre os jutteup tam-
bem o dia principiava de tarde. Herdeira cla Synagoga, continuou a Egreja
catholica este uso, aliás cheio de mysterios. com efleito, as Matinas re-
citam-se durante a noite: l.o porque durante a noite é que foram mortos,
pelo anjo exterminador, 0s primogenitos dos egypcios: acontecimento
eternamente memorando que deu em resurtado o livramento da nação
d'Israel, antiga figura da Egreja; 2.o porque durante a noite é que nasceu
o Libertador do mundo; e B.o que preencheu parte dos mysterios da sua
dolorosa Paixão.
Em memoria tl'estes acontecimentos, os maiores que teem assigna-
lado os annaes do mundo, em acção de graças por aquelles beneficios e
tambem em expiação dos crimes dos judeus e de tantos outros que se
perpetram durante a noite, quiz a Egreja que os presbyl,eros e os reli-
giosos, todos os anjos da oração, estivessem em adoração e pagassem a
divida do universo. Não ê esta, que vos parece? uma mui bella ideia?
Logo que o sino retinira nos ares, como era bello vêr aquelles Pres-
byteros, aquelles religiosos, aquelles anciãos encanecidos dirigirem-se á
egreja I dir-se-ia um exercito gue corre ás armas ao primeiro som da trom-
beta. «chegados á egreja, diz um d'esses antigos soldados de Jesus
christo, nos prostramos ante o altar, saudamos o nosso general, e pro-

(1) Noctibus, bis terque surgendum, Ád Eustaeh, epi,st, XXI[,

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--'-.--

84. cA.TEcrsMo

testamos-lhe a nossa obediencia, reconhecendo a0 mesmo tempo que nã0


podemos vencer sem Elle ({).
começa o officio, mas de que maneira ? como deve começar toda a
obra sobrenatural, pela conÍissão da nossa impotencia. 0 Presbytero faz
0 signal da cruz sobre os labios, dizendo: senhor, abri os meus labios,
parI' {lue a minha bôcca plssa canlar 0s ?rossos louaores. Mas em tanto
que o Prosby[ero pede a Deus a graga e permissão de cantar os seus
louvores, augmenta o demonio os esforços para tornar inutit a sua ora-
ção; por isso e que, obtida a permissã0, o presbytero accrescenta logo
armando-se do omniptente signal da cruz: 0' Deusl uinde em nxeu auni-
lio. Todo o côro, tambem compenetrado da sua propria fraqueza, res-
ponde em \oz alta: Senhor, apressqe-Q)os a soccnruer-me, Immediata-
mente diz o Presbytero: Gloria ao Pae, ao Filho e ao Espirito Santo,
e o cÔro responde: Conto era no principio, c0m0 é agora e c0m0 ha de
ser nls seculos dos seculos: isto e, gloria eterna ao Deus da eternidade.
Porque vem este hymno de gloria e de reconhecimento logo depois
do g{ito da afflicção ? Eis aqui a razão: o senhor disse: Ainita, nd,o aca-
baste de inuocar-me e eis-me aqui (Z). Cheia de confiança na promessa
de seu divino Esposo, se apressa a Egreja, comprehentlentlo que é escu-
tada, a tributar gloria á ss. Trindade. a, Gtoria patri foi composta por
s. Jeronymo, que a enviou ao Papa Damaso. A rogos do santo anacho-
reta de Bethlem, estabeleceu o Summo PontiÍice que esta doxologia se
cantasse no Íim dos psalmos (3).
Depois da alleluia vem o irusitatorio'oa conaite. 0 Presbytero não
se contenta em louvar a Deus elle só. Propheta da Lei nova, embaixador
do Altissimo, convida todos 0s seus irmãos a louvarem-n'o com elle. 0
invitatorio é uma phrase que contém em poucas palavras a razão parüi-
cular que temos de louvar a Deus na festa que se celebra. Essa oração
é seguida d'estas palavras: vinde, adoremos, gue o côro repete até seis
ou sete vezes; porque, depois de ter dado a seus irmãos o motivo parti-
cular que teem de louvar a Deus na festa do dia, lhes dá o oÍficiante as
razóes geraes e immutaveis contidas no psalmo Venite, ersuhemus; diz:
«Vinde, louvemos ao Senhor; Elle é a nossa salvaçã0.»
CÔro : «Yinde, adoremos. »

(1) Durando, l. V.
(?'l Adhuc te loqueute ecce adsum. Isaias, LV[I, 9.
... (q) _Alguns auctores dâo á Gl,oria origem mais autiga,
cilio de Nisêa.
atiribuindo-a ao con-

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DE PERSEVEnÀNÇÀ. gB

0fficiante: «E' o Deus dos deoses, o senhor do universo,


e, apezar
da sua.grandeza, não cresdenha as orações
de seus filhos.»
Côro :«Vinde, acloremos. »
OÍficiante :
«0 mar lhe pertence, a terra é obra das
suas mãos;
creou-nos a nós mesm0s, e não tememos
oflenclêl-0. caiamos aos §eus
pés, e derramemos ante Eile ragrimas
de am,r e arrependimenÍo; somos
o seu p0v0 e a ovelha querida que come na
sua mã0. »
Côro : «Vincle, adoremos.»
0fficiante : «A isso nos convida; não sejamos
surdos á sua voz, não
seja gue n,s succeda como aos israeritas
do deserto.»
CÔro : «Vinde, adoremos.»
OÍficiante: «Estiveram, p,r espaÇ, de quarenta
annos, na soridão e
condemnados a não vêrem a terra promettida.»
Côro : «Yinde, adoremos. »
Pegae em toclos os poetas antigos e modern,s,
pr,c,rae, procurae
mais, e dizei se encontraes coisa tão beila,
tão subrime, tão tocante como
este magnifico dialogo ! Este poetico coloquio,
taà proprio para infundir
n0 coração o espirito da oraçã0, termina p,r
um imputso ã,r*0, á ss.
I'rindade : Gloria palri, etc.

oRAÇÃ0.

0' meu Deus, que sois todo amor t graças vos dou por haverdes insti-
tuido o santo dia do Domingo; é muito *ri, por
causa de mim qo. fo,
causa dg vós que este dia cleve ser
consagradã á oração ; concedei-me a
mercê de bem o santiÍicar.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas
as coisas, e ao pro-
ximo c'mo a mirn mesmo por amor de Deus;
e, em prova d,este amor-
me applicarei a comprehender bem as cerem,nias
ila-Egreja.

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86 CÀTECISMO

otTAVA LlÇÃ0.

0 christianismo tornado sensivel.

ilaúlnas (conúlnuaqão), - Eymlro. - ÀnÚlfono. - Psalmo. -


Versiculos. - Berrçãos. - «lle'I)@tl '».- Versloulo sacerdo-
úaI. - Iraudes. - capiÚula. -f,ymno§r - versioulo. - Gan-
úlco.

I.Hyuxo.
- Depois da Gloria Patri, d'esse impulso d'amor, d'esse
brarlo d'alegria erguidg para a SS. Trindatle; depois da repetiçã6 do
in'
vitatorio, canto d'alegria ou de tristeza conforme o mysterio que se ce-
'hymno, o hymno destinado a louvar a Deus, a elevar a0
lebra, vem o
ceo os pensamentos e aS affeições, e a formar ou fortificar em nós oS
sentimentos e as virtudes gue deve inspirar a festa do dia. Assim é
que

todos os assistentes estão em pe, toclos os corações Se animam, e todas


as
o
vozes se reunem para cantarem hymno'
«Tres c6isas, ãi, S. Agostinho, constituem oS nossos hymnos : l 'o o lou.
vor ; 2.0 0 lgur,6r de Deus; e 3.0 o canto (l). » 0 uso d'elles remonta ao berço
do cbristianismo. Nossos paes na fé cantavam hymnos nos seus cenaculos
(2). s.
e nas catacumbas; seguiam n'isto o conselho clo proprio s. Pattlo
que hymnos
chrysostomo foi o primeiro que estabeleceu se cantassem

duránte o oflicio da noite : eis por que motivo. Durante a noite,


corriam
os Arianos as ruas de constantinopla, cantando hymnos em que respira-
vam as suas impias doutrinas. ao sahirem do officio, encontravam 0s
pro-
christãos aquellei herejes e se achavam expostos a ouvil'os. Para

ili tVi,?l {üi,,YÃil$:-'aTr; "e{lHnÍ,u,:,r.


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-I

DE PERSEVENÀNÇÀ. 87

longar os 0fficios até que os Arianos houvessem voltado a suas casas, e


tambem para fortalecer a fe dos Íieis com cantos orthodoxos, ajuntou o
santo Patriarcha hymnos a Matinas e Laudes (l).
Em Matinas, o hymno precede os psarmos; segue-os em Laudes,
Yesperas e completas. Precede-os em Matinas, porque a manhã pertence
aos justos quc teem a alegria d'uma boa consciencia, em tanto que a tarde
é para 0s penitentes cuja consciencia sente o aguilhão do remorso. A
alegria leva 0s primeiros a0 trabalho, figuraclo pelos psalmos, como
adiante diremos. Por meio do trabalho e que os segundos devem che-
gar á alegria. cantam-se os hymnos em pé, para mostrar, pela attitude
do corpo, que 0s nossos corações devem es[ar elevados a Deus em qurnto
a nossa bÔcca annuncia 0s seus louvores. Assim, tuclo no culto externo
nos recorda a necessidade clo culto interno. Tudo parece repetir-nos es-
tas palavras do divino Nlestre : O Pae quer ador"adores em espiri,to e Der-
tlade (2).
II. ANrrrox,q,.-Findo o hymno, entôa o ofliciante a antifona. Oue é uma
antifona ? E' a antifona um can[o alternativo, um canto executado por dois
córos que correspondem. Significa a antifona 0 amor de Deus, e o psalmo o
trabalho das boas obras. 0 oÍficiante entôa a primeira palavra da an[ifo-
na, a flm de animar o psalmo, isto é, o trabalho, pelo espirito de caridade,
sem 0 qual de nada serve o trabalho. cantado o psalmo, todo o côro
prosegue a antifona, a fim de juntar constantemente a caridade á fé, cu-
ias obras não são eÍlicazes senão pela caridade. f)'est'arte, estas duas
grandes virtudes do Christianismo são aqui como duas irmãs, occupadas
na mesma obra, que se dão a mão e ajudarn mutuamente. 0 presbytero
só que entôa a antifona vos recorda a Jesus christo, do qual só veio a
caridade. Todo o côro, que a canta no Íim do psalmo, vos denota a effu-
são da caridade de Jesus christo em todos os seus membros.
Remonta o canto das antifonas á mais remota antiguidade o vem
d'uma origem infinitamente respeitavel. s. Ignacio, martyr, gloria do
Oriente e heroe do segundo seculo, tendo ouvido os espiritos bemaven-
turados cantar em cÔro antifonas na Jerusalem celeste, fez conhecer a
sua revelação; e estabeleceu-se o uso de cantar antifonas na Jerusalem
terrestre (3).

(1) Socraú., l. VI.


(2) Joan., IY, 23,
(3) Durando, l. Y.

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88 cÀrEclsMo

dos pSalmos : assim


o
III.
estabeleceu
- Depois cla antifona vem o canto
Ps.lr,uos.
o Papa Gelasio. Estes divinos canlicos recordam os soffri-
mentos, os trabalhos e oS combates d'um rei perseguido, e a alegria e Íeli-
cidade que sen[e com a protecção do Ceo, a0 mesmo tempo que exprimem
com enthusiasmo os sentimentos da mais viva gralidã0. Cantos propheticos,
narram as afflicções, o trabalho e os combates, o triumpho e a gloria do
verdadeiro Davicl, da Egreja, sua esposa, e da alma Íiel, sua filha querida,
Sua viva imagem. D'este modo, ha quatro vozes nos psalmos: voz de
David, voz de Jesus christo, r,oz da Egreja, e \oz do christã0.
E' pois evidente que os psalmos representam o trabalho da vida, o
lavor das boas obras. A palavra psalmo quer dizer canto que se executa
no psalterio. 0 psalterio era um instrumento de musica Cantarei os :
ooss6s louuores, Senhor, no meu, psall,erio de dez cordas ({). Palavras
mysteriosas que indicam que devemos l6qvat a Deus cumprindo 0s seus
dez mandamentos: pois só louva dignamente ao Senhor aquelle que ob'
serva a sua lei.
0 papa Damaso ordenou que os psalmos se cantassem a dois córos:
admiravel instituição I Não vos parece vêr os Santos da terra excitarem'se
mutuamente ao trabalho das boas obras, communicando a§ suas alegrias
e esperanças, aS suas lagrimas e suspiros, a Sua gratidão e amor ; repe'
tindo incessantemente uns aos outros as palavras inflammadas que diri-
gem ao Deus protector do fraco, amparo do orphã0, pae do pobre, con-
iolarlor tlo afflicto e remunerador do justo ? Não vos parece tambem vêr

Santo é o Senhor Deus ilos euercitos; a terra esttí cheia do respland,or


d,a sua gloria (3)?
Cada psalmo ê seguido da Gloria Patri: {.o para tributar gloria a
Deus pelo bem que acaba de operar; 2.0 para recordar ao homem a au'
gusta Trindacle, da qual tudo vem e á qual tudo deve voltar; 3.' para
lhe repetir que a fé na SS. Trindade é o fundamento da vida christá,; e
&.o para testiflcar que em todas as circums[ancias, tanto na alegria como

(1)
(2)
(3)

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DE PERSEVEBANÇA. 89

na tristeza, assim no trabalho como no descango, queremoS bemdizer e


louvar ao Senhor.
IV. Vsnsrculos. Depois de cada nocturno veem tres lições: as
-
mesmas lições são precedidas de uersiculos e bençd,os que cumpre oxpli-
car primeiro. 0 versiculo é Uma breve maxima, um dito vivo, uma ad-
vertencia feita para despertar a attençã0. Póde succeder, com effeito, que
durante a recitação ou o canto dos psalmos, que dura ás vezes muito
tempo, nos deixemos cahir na distracção e languidez. 0 versiculo é pois
cantado por uma só voz, a flm de desper[ar com mais cer[eza por meio
d'esta variedade todos os assistentes e conserval-os at[entos ao que vae
seguir. Que vos parece ? Não conhecia bem a fraqueza humana a Egreja
vossa mãe que estabeleceu esta bella obra ? Encontrarieis melhor meio
para sustentar a attenção do espirito o a devoção do coração ?
Ao versiculo cantado por voz infantil succede o Pater entoado pela
voz grave do officiante: diz-se o Pater, porque a lição vae seguir. Com
effeito, não deve o homem, qlue precisa de sabedoria e intelligencia para
comprehender e saborear as verdades santas, pedil-as A'quelle que as dá
cOm abundancia e Sem macula ? Diz-se o Pater em voz baixa, para exci-
tar o recolhimen[o e mostrar que fallamos só por só com Deus, e final-
mente que Elle ouve, Sem o auxilio da palavra, a prece do nosso coraçã0.
Chegado a estas palavras : Et ne nos inilucas: E não nos deiueis cahir
em tentaçã0, o Presbytero eleva a Yoz, a fim de indicar a todos porque
se recita o Pater, e impedir que 0 leitor e o ouvinte succumbam ás ten-
tações do inimigo durante a leitura : tentação de vaidade para um, e de
negligencia para o outro.
Y. Boxçlos. E' seguido o Pater d'uma breve oração que se cha'
ma Bençdo. Tem
-
por objecto alcançar 0 que se acaba de pedir pela Ora-
ção dominical; n'esta nova oraçã0, dirige-se a gente successivamente a cada
uma das pessoas da augusta Trindade.
Não se trac[a já agora senão de saber quem será digno de lêr a pa-
lavra de Deus. Levanta-se um dos assistentes, e, virando-so para o offi-
:
ciante, representante de Jesus Christo, diz-lhe em voz alta Jube, Domne,
benedicere: Mandae, Senhor, abençoar,'isto é, mandae que se annUnCie
a vossa palavra de benção ('l).
Esta pequena particularidade encerra uma lição de suprema impor-

(1) A palavra Domne é contracaão da palavru Domi,nel remonta ao nono ou


decimo seculo.

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90 GÀTEcrsuo

tancia: ensina-nos quo, na Egreja, ninguem deve exercer ministerio algum


menos que não seja a olle chamado pela auctoridade legitima" Não é só
para o estado ecclesiastíco que são neeessarias as vocações o missões di-
vinas: são-n'o tambem, posto que em grau differento, para os diversos
estados da sociedade. D'onde procedem em grande parte os males que
nos aüormentam, senão de que quasi ningüem está no seu logar ou quer
n'elle ficar ? Mas voltemos á materia.
a este pedido de benção que se repete antes de cada iiçã0, respon-
tle o oÍflciante com orações proprias para interessar toda a Jerusalem ce-
leste no bom exito da leitura santa. Ora.pede que o Senhor se cligne de
abrir-nos o coração á sua lei, para que a palavra san[a que vamos ouvir
não seja como semente que levam as aves do ceo, ou que os espinhos
abafam, ou que os transeuntes pisam aos pés. Ora pede que sejamos ad-
mittidos á folicidade dos Santos, cujas virtudes imos lêr. 0 Presbytêro de-
seja-nos todas estas coisas em nome de Deus, por onde mostra que não
é a ello, homem peccador, que pertence abenÇoar, mas Áquelle quo e o
unico bom, isto é, perteito e auctor de todo o bem.
VI. Ltçõus.-Attentos os espiriüos, obtida a bençã0, sollicitadas as gra-
gas de satredoria, começam as lições. Compoem-se, já do Anti-
intelligencia e
go, já do Novo Testamento, já dos commentarios dos Santos Padres e Douto.
res, já da vida do santo cuja festa se celebra. À Escriptura sagrada é a lei;
os escriptos dos Santos Padres, a explicação ; e a vida do santo, a applica-
çã0. Que mais completa instrucção ? Para meihor a escutar, assenta-se a
gente e guarda profundo silencio. Acaso ha no mundo palavra que me-
reça melhor esta attitude de recolhimento o respeito ? As lições terminam
por estas palavras : Tu autem, Domine, miserere nostri: E tsós, Senhor,
tende misericordia cle raos. Tocante conÍissão da nossa miseria t «Sim, rneu
Deus, diz o leitor, perdoae-nos as culpas gue podem ter acompanhaclo
esta leitura; a mim, os sentimentos do vaidade ou a negligencia de que
me tornei culpado; a meus irmãos, as distracções e o pouco fervDr com
que talvez escutassem 0s vossos divinos oraculos.»
Todos os assisténtes respondem: Deo qratiqs: Graças ao senhor.
Estas palavras referem-se á liçã0. Eis aqui o sentido d'ellas : «se e um
dever para o homem o dar graças a Deus pelo sustento corporal que
cada dia lhe envia, quanto mais sagrada não e a obrigação de render-lhe
graças pelo manná da sua palavra com que nos alimenta a alma Filhos t
de Deus, dêmos graças ao nosso Pae celeste pelo sustento espiritual que
acaba de conceder-nos. ))

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DE PERSEVEnANÇÀ. 9t
Eis-nos instruirlos, o até reconhecidos, pela doutrina que acabamos
de receber. Ora, que meio de testificarmos 0 nosso reconhecimento, se-
não pondo em prática a palavra santa, e imitando os bellos exemplos quo
nos acabam de pôr ante os olhos ? A isto é que se obrigam todos os as-
sistentes pelos responslrios que se recitam logo depois da liçã0, e alter-
nativamente pelos dois córos. 0s responsorios da terceira lição terminam
pela Gloria Patri, a fim de recordar-nos quo todas as nossas orações e
obras devem referir-se a0 supremo flm de todas as coisas, á SS. Trin-
dade.
Assim se recita ou se canta o primeiro nocturno, isto e, a primeira
parte das Matinas. Durante os primeiros seculos, dizia-se pelas nove ho-
ras da noite, no momento em que os homens costumam ir descançar. Em
diversas egrejas, era sem invitatorio, porque os ministros sagrados o recita-
vam sós sem que fosse convocado o povo. Este primeiro nocturno chama-
va-se propriamente vela ou vigilia, em memoria dos pastores que velavam
pelos seus rebanhos nos arredores de Bethlem, quando nasceu o Salvador
do mundo. Quantos mysterios nos l'ecorda esta hora sagra.da I a véla dos
pastores, as ternas despedidas do §alvador aos Apostolos, 0 â sua agonia
n0 jartlim de Gethsemani. Se temos fé, que effusões de coraçã0, que
fervorosas orações se juntarã0, clurante o primeiro nocturno, aos penho-
res d'amor e a0 sangue da grande Victima I
Nas egrejas onde o povo não assistia ao principio do oÍflcio, co-
meçava o segundo nocturno pelo inuilatorio, porgue todos os fieis,
homens e mulheres, eram para elle convocados, Aqui ha tambem uma
bella tradiçã0, uma tocante harmonia. Anjos da terra, convidavam os
ecclesiasticos á adoração do Salvador 0s Íieis confiados á sua vigilancia,
c0m0 0s Anjos haviam convidado os pastores de Bethlem. 0 segundo
nocturno cantava-se á meia noite. Quantos mysterios nos recorda tambem
esfa hora sagrada ! o nascimento do Salvador, o chamamento dos Anjos
e a adoração dos pastores, e os soffrimentos do Jesus perante os tribu-
naes de Annás e Caiphás.
O terceiro nocturno recitava-se pelas tres horas da madrugada. Isto
por tres grandes razões: primeira, a flm de honrar o Salvador nas igno-
minias d'aquella noite horrivel que passou á mercê dos creados s solda-
dos; segunda, para pedir perdão da sentença de morte proferida contra
elle áquella hora por Caiphás; e terceira, para expiar a negação de S.
Pedro.
« Eis aqui, dizem nossos paes, a razão d'esta mysteriosa distribuição

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92 carucrsuo

das nossas Matinas solemnes. 0s tres nocturnos recordam as tres grandes


opochas da humanidade: a epocha patriarchal, a epoe,ha mosaica e
a epocha cbristã. Cada uma d'estas tres epochas se divide em tres pe-
riodos. D'onde, em cada nocturno, tres psalmos, tros antifonas, e tres
lições: dir-se-ia um poema dividido em nove cantos.
«A epocha patriarchal tem o seu primeiro periodo destle Adão ate
Noé; o segundo, desde Noé ate abrahão; e o terceiro, d'Abrahão a llloy-
sés.
«A epocha mosaica offerece-nos tambem suas tres épocas : primeira,
de Moysés a David; segunda, de David ao captiveiro de Babylonia; o ter-
ceira, do captiveiro de Babylonia ao Messias.
«Finalmente, a época christã divide.se egualmente em tres perio.
dos: primeiro, que comprehende a fundação da Egreja por Nosso senhor,
eo seu estabelecimento pelos Apostolos: e o periodo dos Martyres; se-
gundo, que coruprehende o tempo das grandes heresias e das grandes
luzes do Oriente e Occidente: é o periodo dos padres da Egreja ; e ter-
ceiro, que comprehende o tempo de paz que seguiu a extincção das
grandes heresias: é o periodo da Egreja reinante ({).,
0 numero tres, tantas vezes repetido, é um hymno eloquente ás
tres adoraveis pessoas da Trindado, como 0s nove psalmos são uma re-
cordação dos nove córos dos Anjos e de todas as harmonias da Jerusa-
Iem celeste, aos canticos da qual sua joven irmã, a Jerusalem terrestre,
convida todos os seus fllhos a juntarem as suas vozes. D'este modo, nos
nossos dias solemnes, da voz do ceo e da voz da terra não se fórma se-
não uma grande voz dizendo: qsanto, santo, santo é o Deus dos exerci-
tos ; os ceos e a terra estão cheios do brilho da sua magestade. » Que
fon[e de pensamentos santos o patheticos para os fieis instruidos e pie-
dosos I que fonte de inspirações sublimos para o poeta christão t
VII. To-»nuu. 0 terceiro nocturno termina pelo Te-Deum. Hym-
-
D0, oração e poema epico, é o Te-Deum lludo o que se quer, e quanto
ha mais bello em todas as linguas. Honra immortal a vós, Ambrosio e
Àgostinho, sublimes genios, santos illustres, que soubestes exprimir os
pensamentos do vosso espirito e as aüeições do vosso coraçã0, c0m0 os
seraphins exprimiriam os seus se os seraphins fallassem a lingua dos
mortaes. E' tão bello o Te-Deum, que os protestantes, tão frios nas suas

(1) Dwendo, l. V.

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DE PERSEVERANçA, 9S

oraÇões, tão gelidos uo seu culto, tão inimigos da Egroja romana, o teem
oonservado cuidadosamente.
Mas porque se diz elle no fim do terceiro nocturno ? Eis a resposta
a esta pergunta. Todos os filhos de Deus, sacerdotes e fieis, acabam de
louvar o Senhor, e de se excitarem mutuamente á charidade e ao fervor.
Àcabam de ouvir a leitura da lei que dilata o coraçã0, 0 â historia de
seus irmãos já glorificados no seio do Pae commum. Yiram palmas e
corôas, uma recompensa immortal por um trabalho de breve duragã0.
Como quereis que todos juntos, cheios d'estes pensamentos, não rom-
pam em acções de graças ? Não vos admireis de que cantem o Te-Deum.
0 som dos sinos, que outr'ora so juntava á voz d'elles, era uma nova
expressão da alegria e ardor universaes, uma solemne convocação que
faziam a todos 0s seus irmãos e a todas as creaturas, de louvarem com
elles um Pae tão magnifico e tão bom.
VIII. LauDEs. _. 0s tres nocturnos formam as tres primeiras partes
das Matinas, e as Laudes, a quarta. Estabeleceu-se esta divisã0, como
já indicamos, para santiÍicar as quatro velas da noite. As Laudes recita-
vam-se antigamen[e, e deveriam, regularmente fallaudo, recitar-se ainda
ao romper do dia. Eis aqui as razões: l.u foi a0 romper do dia que
Nosso senhor saNu victorioso do sepulcro; e 2." foi ao romper do dia
que caminhou pelas ondas e fez caminhar a S. Pedro.
A palavra Laudes quer dizer louvores. com effeito, n'esta parte do
oÍlicio da noi[e, é que celebramos particularmente os louvores de Deus,
e quo Ihe damos graQas : 'l.o pela resurreição do Salvador, milagre fun.
damental do christianismo, operado n'aquella occasião; 2.o pelas mercês
que nos concede o senhor para andarmos, como s. Pedro, durante a
noite d'esta vida sobre o mar tempestuoso do mundo; B.o pela creação do
universo, cuja imagem nos pinta 0 apparecimento da luz; e r*.o finalmen-
t0, pelo cuidado paternal com que Deus velou por nós durante a noite,
e pela bondade com que nos dá um novo dia.
Da mesma fórma que os nocturnos, comeÇam as Laudes pela invo.
cação Deus in adjutoriunt, acompanhada do signal da cruz, e seguida da
Gloria Patri, da .Alleluia e da imposição da antifona. No fim de cada
psalmo repete-se a Gluia Patri. o agradecimento exige que assim seja.
Não vimos que os psalmos exprimem 0s boas obras, o trabalho christão?
Ora, que coisa mais justa que dar graças a Deus, de quem vem toda a
boa obra, e que merece por conseguinte §e louve e se lhe agradeça como
no principio, quando creou o ceo e a terra ; a ügordo QUe conserva o

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94 cAructsuo

mundo material e espiritual; e sempre, porque a creação nunca subsis.


tirá senão por meio d'Elle ; e nls seculos dos seculos, quando houver no-
vos ceos e nova terra, e Deus fôr tudo em todas as coisas ?
Em Laudes dizem-se cinco psalmos, ou antes quatro psalmos e um
cantico (l). A renovação tlos nossos cinco sen[idos, isto é, a reparação de
todo o nosso ser pelo Christianismo, cujos principaes mysterios se aca-
bam de celebrar durante a noite, tal e a razáo mysteriosa d,este numero
cinco, e a importante lição que nos dá a Egreja no começo clo novo dia.
Depois dos tres primeiros psalmos, canta-se o cantico ilos tres me-
ninos na fornalha. A Egreja quiz recorda.r-nos assim as tribulaçoes dos
justos de todos os tempos, e a sua alegria no meio das provaÇões, como
a Providencia que vela por nós. Parece dizer-nos a sua voz: «No começo
d'este dia lembrae-vos de que fostes regenerados em Jesus Christo; vivei
pois santamente, velae pelos vossos sentidos, e livrae-vos de profanal-os.
Rudes combates vos esperam, mas nada temaes, que elles redundarão
em gloria vossa. o senhor, QU€ libertou vossos paes, velará por vós: o
cantico que recitaes vol-o pr0vâ. »
0 cantico e seguido do quinto psalmo. Eis o sentitlo dleste psalmo
e a razáo do logar que occupa: 0s fithos da Egreja respondem ás pro-
messas de victoria que ella acaba de dar-lhes. «Bem o sabemos, lhe di-
zem, seremos vencedores, e por isso bemdizemos e convidamos todas as
creaturas do ceo e da terra a bemdizerem comnosco 0 senhor., por isso e
que o quinto psalmo das Laudes comeÇa sempre por estas palavras :
Lauda oa Laudate: Louua oa Louuae ; e este conviÍe de louvar a Deus
dirige-se alternativamente aos Ànjos e aos Santos, a todas as creaturas
inanimadas, á Egreja, ás nações, e aos homens de todas as tribus e de
todas as linguas. 0 homem reconhecido quer que tudo quanto existe se
una a elle para bemdizer o bemfeitor universal.
0 cantico dos tres meninos na fornalha não é seguido da Gloria,,
porque as augustas possoas da ss. Trindade são n'elle louvadas d'um ex-
tremo ao ouüro (2).
IX. C.tprrur,A. Depois da ultima antifona vem a capitula. A pala-
-
vra capitula quer dizer pequenl capitu,lo, pequena liçíto. Compõe-se d'al-
guns versiculos da Escriptura Sagrada analogos a0 officio do.clia. Se esta
lição e mais breve nos officios do dia que nos da noite, e porque as oc-

(1) seguem o cantico, nâo fazem mais que um.


(2) tinham oito psalmos as Laudes clo Domingo. Seria
mui longo ôes d'esta differeuga. Yide Durando, l. V, c. IV.

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DE PEnSEVERANÇÀ. Q 9ô

cupaqões do dia requerem o nosso tempo o presenÇa. Como a capitula


ordinariamente é recitada pelo oÍflciante, não éprecedida do Jube, Domne,
ou da peti@o da bençã0. Além tla instrucção que nos dá, tem por objecto
a capitula reanimar o fervor na alma dos assistentes. A Egreja quer d'este
modo preserval-os do castigo dos judeus, que, enfastiados do manná, fo-
ram expostos ás mordeduras das serpentos.
Em Laucles, particularmente, é a capitula admiravelmente propria
para inflammar-nos o animo, quer para praticarmos o bem, quer para
combatermos o demonio. Umas vezes nos exhor[am n'ella a permanecer
flrmes na fé, outras a voar ás obras de misericordia, e outras a reves-
tir-nos, quaes guerreiros, das armas de luz. Então o côro, similhante a
um exercito a quem acaba de electrisar a prática do seu general, se
apressa a responder com voz unanime: <<Deo grütias I Graças a Deus,
taes são as nossas disposições.» E qual exercito de bravos que não póde
senão marchar para 0 inirnigo, en{ôa o hymno; o hymno, expressão do
scu ardor, do seu reconhecimen[o e da sua conÍiança illimitada no Deus
que 0 não chama a0 combate senão para o conduzir á victoria.
Findo o hymno, vem o versiculo; e c0m0 um estribilho destinado
a levar o enthusiasmo do soldado christão ao mais alto ponto. E' can-
tado por uma só voz, á qual responclem todas as outras. Faz-se assim
tanto para chamar mais a attençã0, c0m0 para mostrar a unanimidade de
sentimento que existe em todos os corações.
Ào versiculo succede a antifona; oh ! que bem collocada está esta
expressão d'amor depois do hymno, erlt que acabarnos de cantar não só
a victoria alcançada pelos Santos, nossos irmãos mais velhos, senão tam-
I
bem a que esperamos para nós proprios 0 amor, que faz a uniã0, faz
[ambem a força.
x. clNuco. IlIas é tam propenso á desconfiança o homem fragil,
-
que a Egreja quer ainda tranquillisal=o: assim e que põe aqui o cantico
Beneddctus, Remdito seja o Deus cl'Israer, contem este cantico 0 cum-
primento litteral de todas as promessas que Deus fez aos patriarchas e
Prophetas. «Homens de pouca fé, parece dizer-nos a Egreja fazendo-nos
cantar este cantico, porque duvidaes ? 0 senhor, por quem ides comba-
ter durante o dia, acaso faltou a uma só clas suas promessas ? Interroga
os seculos; não o vês, sempre 0 mesmo, com uma das mãos soccorrendo
os seus soldados, e com a outra coroando os vencedores ?»
Cantado o Benedictu,s, consolidada em Deus a esperança tlo Chris-
tã0, como a ancora cravada .na praia que segura o navio no meio das

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96 cÀrgcrsuo

:
tempestades, dão-se graças á SS. Trindade dizendo Gloria Pawi. Pro-
testamos-lhe do noyo o nosso illimitado amor com a'repetição da antifo-
na. Finalmente pedimos-lhe o cumprimento de todas as suas promessas
pela oração que termina o officio.
Ide agora, soldados de Jesus Christo, casa de Deus, campo d'Israel;
ide ao combate: nada vos falta para colherdes louros. Oh ! se nós reci-
tassemos es[as admiraveis orações do officio com intelligencia e no espi-
rito de fe que as dispoz, não seriamos, ao sahirmos d'alli, segundo o dito
de S. João Chrysostomo, como leões que respiram fogo, e cujo só aspecto
faz tremer as legiões infernaes ? E porque não hade ser assim ? de que
depende isso ? De nós, e só de nós.

oRAÇÃ0.

O' meu Deus, que sois todo amor I graças vos dou por haverdes es-
tabelecitlo tantas bellas orações, por meio das quaes estamos certos de
obter todas as mercês de que precisamo§; e peço'vos perdão pela pouca
fé õom que tenho orado até agora.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre totlas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova deste amor,
direi muitas vezes como os Apostolos: Senhor, ensinae-me ü orar.

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DE PERSEVERÀNCÀ. 97

NONA LtçÃo.

0 chris[ianismo [ornado sensivel.

OÍllolo do dla. - Primo, - llerea. - Sexúa.


- Nô4.
- Vespers!.

A's noites criminosas dp mundo acaba a Egreja de oppôr santas vi-


gilias. 0s seus anjos estiveram em adoração diante de Deus; pediram
misericordia para os mundanos; e afastaram do rebanho adormecido os
leões rugidores, mais temiveis no meio das trevas que durante o dia.
Passou a noite. Bis a aurora que doura com seus clarões nascentes
o erguido cimo ôos moutes; eis os passarinhos que celebram com seus
alegres cantos a chegada do sol; eis as flôres que, abrindo o calis, exha-
lam delicioso perfume gue a brisa matutina leva para o Ceo: dir-se-iam
milhares de thuribulos d'oiro e de perolas accesos diante do Senhor. A
natureza é um templo: eis ahi os musicos, eis ahi o incenso do Sacrificio:
tudo se agita, tudo parece renascer. Mais uma vez, que vão fazer os fi-
lhos de Deus, os anjos da oração ? A' voz da natureza vão unir a sua :
começa o officio do dia. Prima, Terça, Sexta, Nôa, Vesperas e Comple-
tas, são as partes gue o compoem.
Do mesmo modo que as da noite, assignalou o Salvador do mundo
todas as horas do dia com beneficios; cumpre bemdizel-o por isso. Como
as da noite, trazem ao homem as horas do dia novos doveres; cumpro

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98 cÀrEcrsuo

sollicitar a graça para as cumprir. Tal e, em geral, o objecto do oÍlicio do


dia ; c'a sua existencia e divisão remontam á mais remota antiguidade ({).
Entremos na indivirluaçã0.
I. Pnrml.-Prima e a primeira hora do oÍlicio do dia. Tem o nome
d,e Prima, porque se recitava na primeira hora do dia, isto é, pelas seis
horas da manhã, segundo o modo de contar dos antigos. Foi estabele-
cida esta hora : {.0 para honrar a Nosso senhor coberto d'opprobrios pe-
los judeus e levado perante Pilatos ; 2.o o seu apparecimento aos disci-
pulos na borda do mar, depois da resurreiÇão ; e 3.0 para oflerecer a
Deus as primicias do dia, como os judeus lhe offereciam as primicias da
ceifa e dos fructos, a Íim de lh'os consagrar inteiramente.
Prirna compõe-se da invocação Deus, in, adjutorimt, da Gloria Pa-
Íri, seguida da Allelu,ia, d'um h,ymno, tres psaln?os, uma antifona, :uma
capitula, um re,rponsorio e algumas outras orações. 0 lrymno que can-
tamos em Prirna, e que já se cantava no seculo decimo-terceiro (2), expri-
me optimamente os sentimentos que a fé deve despertar n'um coração
christão a0 nascer do dia. À.' vis[a do sol material que vem allumiar o
mundo physico, supplicamos a0 sol de justiça e verdade que nasÇa para
nós, a Íim de que, caminhando á sua luz, evitemos as trevas do erro e
as ciladas do demonio. Rogamos a esse divino Sol que seja elle mesmo
nosso guia.
«Vêdes essas ovelhas, diz um de nossos paes (3) na fé, que, du-
rante a noite, abrigadas no redil, pedem para sahir pela manhã para os
vastos campos ? Requerem um pastor que as leve ao pasto e as proteja
contra os ataques dos lobos. Nós tambem, quanclo vem'a aurora chamar-
nos para o santo trabalho, nos apressamos a pedir um rnestre qrle nos
instrua e um protector que n0s defenda. E'-nos necessario um e outro,
sem o que o lobo infernal virá dispersar o rebanlto por logares desco-
nbecidos e despedaÇar as ovelhas.»
Para escaparrnos aos tiros do demonio, recorda-nos a Egreja admi-
ravelmente, nos psalmos de Prima e n0 symbolo de S. Athanasio, que
cumpre revestirmo'-nos da mesma armadura que usaram todos os heroes
christãos: o escudcr da fé, o capacete da esperanÇa e a espada da cari-
dade. A Íim de nos excitar a isso mais fortemente é que aquella mãe
attenta nos colloca diante dos olhos os combates e triumphos dos Santos.

(1) Durando, Iib. II, c. VII.


(2) Ibid,, t. v, c. v.
(8) Amalas. Fortunat., l. IV, cl,e Dccl,, ofic,, c,IL,

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DE PERSEVEnÀNÇA. gg
Em Prima, lê-se o lVlartyrologio: ê a historia cruenta mas gloriosa
de nossos
irmãos, guO, Outr'ora soldados como nós, descançam noie no
ceo sobre
os seus immarcessiveis louros.
Depois da leitura do Martyrologio, diz o oÍliciante : E, preciosa pe-
rante Deus! A mot"te dos seus santos, responde o côro; e, em nome de
-
todos os seus irmãos, erprime o officiante este voto tam
christão
ss. virgem e todos os santos nos ajudem com as suas orações junto do
«a :
§enhor, para que mereçamos ser por Elle protegidos e santiÉcados.»
D_epois d'esta oraçã0, repete o ofliciante tres urr.r,
senhor, oinil,e em melt
dürilio, e o côro accrescen ta: senhor, apresscte-t)os a soccyryet -me. Estas
tres repetições são destinadas a obter protecção contra os nossos tres
inimigos, mundo, diabo e carne. sao segúiclas ãa 0bria patri,
a Íirn de
darmos graÇas, em nome de todos 0s nossos irmãos, á
augusta Trindade,
de quem veio a preciosa morte dos santos e de quem virá a nossa.
Mas, ai I são para temer quedas; e tam graode a fraqueza humana t
D'antemão pedimos misericordia, e tres vezes dizemo.s: Kyrie eleison
oa
christe eleison: senhor, christo, tenile compaird,o ile nós. A fim de ob-
termos com mais certeza esta misericordia, recitamos a Oração do
Senhor.
Terminamol-a supplicando ao Pae celeste dirija seus filhos, e seus filhos
somos nós; e nos ajude a dirigir 0s nossos, e 0s nossos filhos
são os nos-
sos pensamentos e obras.
r. Trnç.1. Terça é a seguncla hora do oÍlicio do ttia. Dá-se-lhe
-
este nome porque se recitava á terceira hora do dia, segundo o modo
de contar dos antigos; para nós, Terça corresponde ás nove horas da
manhã. Prima e Terça compoem-se das mesmas partes, á excepção das
orações flnaes. a Egreja, gue, por meio dos seus sacramentos, imprime
em cer[o modo a santidade em todos 0s nossos sentidos, escreve tambem
bs seus augustos mysterios em cada hora do clia. 0 seu oÍflcio os recorda
successivamente á nossa adoração e amor. 0 salvador, perseguido pelos
sanguinarios clamores dos judeus, prêso á columna por orclem de pilatos,
e cruelmente flagellado; o Espirito Santo descendo sobre os Apostolos e
dando origem á Egreja: taes são 0s memoraveis acontecimentoi que
ce-
lebramos com as orações de Terça. Como as outras horas, remonta esta
aos tempos apostolicos (l).
Em memoria da Lei nova, escripta em letras de fogo no coração dos
Apostolos, canta-se nas pequenas horas o psalmo em que David celebra

(1) fguat., Epi,st, ad, Tral,l,

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100 cÀrncrsuo

com tanta magnificencia a doçula, a perfeição d'esta lei de graça e d'amor.


0 hymno recorda tambem a descida do Espirito Santo, ao qual se sup-
plica renove em nosso favor as maravilhas do Cenaculo.
III. Soxre .-
Senta é a terceira hora do oÍlicio do dia: corresponde
ao meio dia. Tem a mesma composição, a mesma antiguidade que a pre-
cedente (l). N'ella se nos suscitam grandes recordações, pois grandes
acontecimentos consagram esta memoravel hora. Em Terça, nos levára a
Egreja ao pretorio, e, em frente d'aquella columna ensanguentada, nos
abrira os labios á oraçã0. Em Sexta, pegando-nos pela mã0, nos leva ao
Calvario, e alli nos faz parar ante um instrumento de supplicio. Jesus
crucificado, eis o primeiro objecto tlas nossas orações e meditações á hora
de Seuta.
Aqui se revela uma harmonia magnifica gue não escapou á sagaci-
tlade de nossos paes na fé. Instruidos pela tradiçã0, ensinam que á sexta
hora do dia foi que Àdão se tornou criminoso e pereceu por via do fructo
da anore. Para fazer coincidir a reparação com a quetla, quiz Jesus ser
levantado á mesma hora na arvore salutifera (2). E' ainda objecto da
nossa gratidão outro acontecimento. À' hora de Sexta é que Pedro teve
a revelação clara tla vocação dos gentios, e recebeu ordem de levar o
Evangelho ás nações: inapreciavel beneficio do qual eu e vós sentimos
ainda hoje a influencia. D'est'arte, o Filho de Deus, pregado na cruz, e
Pedro levando o Evangelho ás nações: é preciso mais alguma coisa para
excitar em nós o fervor e o reconhecimento durante esta nova hora?
IV. Nô.r. Nda, que vem continuar estas admiraveis recordações,
-
é a quarta hora do oÍficio tlo dia. E' para nós tres horas da tarde, e para
os antigos era a nona do dia: d'onde lhe vem o nome. Comprehende as
mesmas partes que as precedentes, e offerece-nos a mesma antiguidade (3).
Aincla nos retem a Egreja no grandq theatro das dÔres. 0 sol ob'
scurecido, a terra abalada, o veo do templo rasgado, o Homem'Deus ex'
pirante, o lado do novo Adão aberto pela lança do soldado, e dando ori'
gem á nova Eva, a Egreja catholica, nossa terna mãe: taes são os aconte'

(1)
(2)
Catech,,
Eis rnais
in crucem ascendit, sexto clie sreculi, in s
domadis et sexta'hora sexti dieir, etc
Heçaem,
(3) Basil,, dn Regul,, i,ntet'rog, XXXIV.

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DE PERSEVERANÇÀ. t0t
cimentos gue nos repete esta hora. acaso os houve mais proprios para
nos fazerem derramar diante de Deus orações e lagrimas?
0s psalmos das pequenas horas do domingo offerecem-nos uma har-
monia tam bella, QUe não podemos resistir ao prazer de vol-a signalar.
'Mostrará
que tudo, até um jota, está disposto, nos officios tla Egreja, com
uma sabedoria e profundeza de vistas que nunca se poderá admirar suffi-
cientemente. Todas as pequenas horas d'este dia se compoem de dois
psalmos, o segundo dos quaes se divide em Prima, Terça, sexta e Nôa.
Cada divisão d'este psalmo contém dezeseis versiculos. Porque sómente
estes dois psalmos ? Porque estes dezeseis versiculos ? 0s dois psalmos
recordam as duas allianças de Deus com os homens, a antiga e a nova.
0s dezeseis versiculos significam os interpretes d'estas duas allianças.
Para a antiga os doze pequenos Prophetas e os quatro grandes; para a
nova, os doze Àpostolos e os quatro Evangelistas ({).
0s psalmos e hymnos das pequenas horas estão tambem em harmo-
nia com as differen[es horas do dia a que os recitamos. Ao nascer do sol
o começo, a Terça a continuaçã0, a sexta a perfeiçã0, a Nôa o fim da
charidade e da vida; pois, ai I a vida não é mais que um dia.
v. vospnnes. são as vesperas a quinta hora do officio do dia. a
- i
sua antiguitlade é a mesma que oa ngrõja (z). Oht como foi com justa
causa que a Egreja consagrou esta hora á oração !
Quantas recordações
ella nos suscita t Em primeiro logar é o sacrificio da tarde offerecido to.
dos os dias no templo de Jerusalem; depois a insti[uição cla sagrada Eu-
charistia; e finalmente a descida da Cruz e o enterro de Nosso Senhor.
Taes são as razões por que deseja a Egreja tam vivamente que nós este-
jamos em oração clurante esta hora memoranda.
Conhecem o valor da oração esses Christãos de todas as edades e
condições que desdenham assistir ás Yesperas, e sabe-lhes o coração pal-
pitar de reconhecimento? As Vesperas, dizem na sua impia leviandade,
as Yesperas são para os Padres; Então não foi para vós que se instituiu
a sagrada Eucharistia ?
Não deveis nada a Deus por este beneficio ? Não
foi por amor de vós que'se immolou Jesus Christo? Não vos diz nada a
hora a que foram operados estes grandes milagres? E que fazeis vós d'esta
hora sagrada em que deveriam lagrimas ardentes correr.vos dos olhos e

(1) Durandus, l. V, c. V.
(2) Constit, apost.,l. VIII, c. XL. '7

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t02 cArEcIsMo

juntar-se a orações ainda mais ardentes ? Se quero sabêl-0, interrogo as


praÇas publicas, os passeios, as casas de jogo e de prazeres profanos,
que ellas me responderã0.
Pois que ! nunca vos envergonhareis de offender assim o decoro
christão ? 0' nossos paes na fél que pensarieis se vos dissessem que vos-
sos filhos haviam de profanar uma hora tam santa, uma hora cheia de
tantos beneficios ? Yergonha áquelles para quem o reconhecimento é um
I
pêso difficil tle supportar Seus corações ingratos nunca foram bons co-
rações. Assimilham-se a esses fructos que o sol não póde amadurecer e
que não teem sabor nem perfume. Vergonha aos corações servis que não
vão á egreja pela manhã senão por temor, pois que á tarde, quando não
ha anathema e ameaÇa de peccado mortal, se tlispensam d'issol
Quanto a nós, Christãos doceis, quanto mais abandonadas são as
Vesperas, mais havemos de ter por deter o assistir a ellas: que aS nossas
obrigações parecem crescer em proporção da indifferença do maior nu'
rnero. Vamos aos pés dos altares orar, gemer, adorar, agradecer pOr
nossos irmãos ingratos, considerando-nos mui felizes se podermos indern-
nisar o seu e nosso Salvador I
A formosura do officio da tarde bastára por si só para nos tornar as-
siduos a elle. Compoem-se as Vesperas de cinco psalmos, cinco anlifonas,
tma capitula, umhEmno, da Magnificat e d'uma so oraçã0, se não se com-
memoram algumas festas. Foi estabelecido este numero cinco para hon-
rar as cinco chagas de Nosso Senhor e para expiar os peccados que ha-
vemos commettido durante o dia pelos nossos cinco sentidos.
Resoou tres vezes a trombeta da Egreja militante, o sino: a primei-
ra, para annunciar o oÍlicio; a segunda, para nos dizer que e tempo de
irmos; e a terceira, para indicar que começa o oÍlicio. Chegados á egreja,
recolhem.se um instante o clero e os Íieis; preparam a alma para a ora-
Ção recitando o Pater e a Aae Maria; estas duas orações resam-se de
joelhos e em silencio. Começa-se pelo signal da cruz, para invocar o au-
xilio da SS. Trindade e confessar os mysterios da Incarnação e Redemp-
çã0. A mão que, fazendo-0, se leva aos quatro lados, vos rediz que o
I'ilho de Deus veio chamar os seus escolhidos dispersos pelos quatro ven-
tos. Quando pois vêdes o celebrante, do alto do seu assento elevado,
fazer o signal adoravel, represente-se-vos Jesus Christo na cruz no topo
do Calvario, com os braços estendidos para abraçar os filhos d'Adão tor-
nados seus filhos, e chamando-os a todos a0 seu coração com estas inef-
faveis palavras d'amor : Sitio: Tenho séde, séile de oós.

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DE PERSEVEhÀNCA. 103

Ào fazer o signal da cruz, diz o Sacerdote, voltado para o altar:


I)eus, in adjulorium meuffi intende: 0' Deus t oinde em meu auuilio, Os
fieis, tambem em pê e voltados para o altar, para exprimirem que toda
a sua confiança está nos merecimentos de Jesus Christo, respondem pres-
surosos : Domine, adjuuandum me festina: Senhor, apressae-oos & slcczr-
rer-me. Depois, para manifestarem d'antemão a gratidão que lhes inspira
esta gloriosa protecção, cantam com um impulso d'amor a Gloria Patri,
etc. : Gloria ao Pae, etc. A sua alegria e o seu ardor em publicarem os
louvores de seu Pae que está nos ceos, exprimem-se por estas palavras :
Alleluia, alegria, felicidade. Durante a quaresma, tempo de jejum e pe-
nilencia, a Alleluia e substituida por estas palavras, que teem o mesmo
sentido : Laus tibi, Domine, reu eterne glorie: Louoor a oós, Sonhor,
rei d'eterna gloria.
Depois da imposição da antifona destinada a inflammar a nossa cha-
ridade ({), entôa um corista o primeiro psalmo: Diait Dominus Domino
meoi «Disse o Senhor, Pae eterno, Deus omnipotente, a Jesus Christo,
seu Fi,lho e rneu Senhor, No Dra DA sua GloRrosa ASCBNsÃo ; Assenta-te d
mi,nha direita,» N'este magnifico psalmo canta a Egreja a geração eterna
do Filho de Deus, o seu sacerdocio egualmen[e eterno, bem como o seu
imperio eterno o absoluto sobre o mundo, tornado conquista da cruz.
Mas que I não são destinadas as Yesperas a honrar os funeraes de Jesus
Christo ? como é pois que a Egreja, lerna esposa, ajoelhada, por assim
dizer, sobre a sepultura de seu divino Esposo, náo faz ouvir senão can-
tos d'alegria e hymnos de triumpho e immor[alidade ? Ah t é porque vê
sabir a vida do seio da morte, e a victoria dos soffrimentos : grande li-
ção para mim e para vós I
0 segundo psalmo das Vesperas do domingo é o Confitebor Eu :
aos loutsarei, Senhor. E' como que a continuação do primeiro. Pela bôcca
de David, conta a Egreja os beneficios do reinado de seu divino Esposo;
celebra particularmente a instituição do banquete divino, para o qual são
convidadas todas as gerações que veem a este mundo.
Que res[a agora, senão descrever a felicidade d'aquelles que se sub-
mettem ao imperio de Jesus Christo ? E' o que faz a Egreja no psalmo :
Beatus air qui timet Dominum: Feliz o homem que teme o Senhor. lrc
latlo da descripção simples e tocante da felicidade do homem justo que
teme a Deus e observa 0s seus mandamentos, põe a Egreja o quadro do

(1) Erplicagâo das matinas na liçfl0 precedente.

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t04 carECIsMo

peccador. Durante a vida é triste e desgraçado; no momento da morte


range com os dentes e Secca de terror; e depois da morle entra n0 lO-
gar dos supplicios, a cuja porta deixa a esperanÇa : a esperanÇa de sahir
d'alli algum dia.
A Egreja acaba de recordar aos justos que 0 Senhor os torna felizes
se levam o seu amavel jugo : que coisa mais natural que exhortal-os agora
a cantar a sua felicidatle ? E eis que, n0 terceiro psalmo, esta intelligente
mãe, tomando a voz do Rei-Propheta, os exltorta a louvar e bemdizer a
grandeza, o poder, e sobretudo a admiravel bondacle do Pae celeste.
Laudal,e, pueri,, Dominum, laudate nlmen Domini: Meus fi'lhos, lotusae o
Senhor,, louuae 0 nlme do Senlrcr. Este convite provoca um impulso d'a-
mor, e todas as bôccas e todos os corações se unem para responderem:
Sim, bemdito seja o nome do Senhor, desde aglra e ate aos seculos dos
seculos: Sit nomen Domini benedictu,tn, en hoc n?,tnc et usque in secu-
lane. Na continuação d'este admiravel psalmo, cada qual proclama á por'
fia as razões particulares que tem de bemdizer o Deus bom, o Deus que
véla pelo pobre e pelo fraco como pelas nneninas dos seus olhos.
Dos motivos pessoaes que levam cacla um de nós e todos os homens
em geral a bemdizer a Deus e a amal-o, passa a Egreja ás razões espe-
ciaes á grande familia catholica. A não ser que tenhamos coração de bronze,
são taes estes beneficiosr Qrr0 devemos desfazer-nos em amor recordando-os.
Tal é o objecto do quinto psalmo : In, eritu, Israel de ,frgypto, domus Ja'
cob do populo barbaro : Quando Israel sahiu do Egyptl, a casa de Jacob
d'entre um p0D0 barbaro. Aqui a Egreja, levando-nos para lá de tres
mil e quinhentos annos, ás praias do mar Vernrelho e ao deserto do Si-
nai, desenrola-nos á vista o quadro magniÍico das maravilhas que Deus
obrou para tirar Israel do Egypto e fazêl-o entrar na Terra promettida.
Sob estes milagres do Egypto, do mar Vermelho, do deserto e do
Sinai, nos faz ella cntrever ou[,ros mais gloriosos e conso]adores obrados
em nosso favor: a nossa emancipação do demonio, do peccado, da morte
e do inferno pelo Baptismo ; a fé, que nos conduz atravez do deserto da
vida, como a columna conduzia a Israel ; a lei de graça descendo do Cal-
vario, como a lei antiga descia do Sinai ; o pão dos anjos alimentando'
nos a alma, c0m0 o manná alimentava os hebreus ; e os milagres da lei
nova apresen[ados tambem como um penhor de milagres ainda maiores,
por meio dos quacs quer o Senhor conduzir-nos do deserto da vida it
Jerusalem celeste: taes são os beneficios que nos recorda a Egreja.
Depois, como David, comparando o Deus omnipotente e forto com

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DE PERSEVERANCÀ. t05

os idolos fracos e impotentes das nações, nos instiga esta terna mãe, em
toda a extensão da sua charidade, a abjurar o culto dos deuses estranhos,
para ngs unirmos irrevogavelmen[e ao Senhor, que nos deu tão estrOn'
dosas demonstrações da sua grandeza, poder e bondade.

p
lidade, contém ás santas palavras que elle o
que
que tem aos membros de Jesus Christo e

com reconhecimento esta breve exhortaç :

Damos gra,ças a Deus.


Eniôa-se então o ltymno: o hymno, expressão d'amOr, ardor e ani'
m0, para Cumprir o que se acaba d'ouvir: O 0 canto d'um exercitO que
marcúa para o combate. 0 hymno varia conforme a festa, a fim de expri'
mir circumstancia.
flcios do Senhor; viu no Passado
asu estabelecimento na terra, e os in-
numeros favores de que tem sido objecto; viu no f,uturo o Ceo entre-
aberto para a reeeber e consummar a sua felicidade, immortalisando'a.
Como exprimirá toda a sua gratidão ? Succumbe sob o pêso, e busca um
interprete dos sentimentos gue experimenta : encontrou-0.
Em logar da sua, çrgue-se uma voz a cujo som devem ficar silen'
;
ciosos o Ceo e a terra voz tam suave, tam pura, tam melodiosa, e aO
mesmo tempo tão potente, que regosija infallivelmente o coração de Deus :
esta voz e a da augus[a Maria. Eis pois a dÔee Yirgem de Judá, a Mãe
de Deus, a Yirgem por excellencia, a Rainha do Ceo que vae suspirar a
gratidão da virgem da terra, casta esposa do Homem'Deus, a Egreja
catholica. Entôa-se a Magnificat, canto sublime, impulso d'ineffavel amor,
poema em dez cantos, magnifica prophecia que valeu a Maria o glorioso
titulo de Rainha dos Prophehasz Minha alma glorifica o Senhor.
,Conserva-se a gente em pé durante a Magnificat, en signal de res-
'peito ás palavras de Maria, e porque esta nobre attitude patentêa a ale-
gria e 0 contentamonto d'um coração cheio de graças e disposto a em'
prehender tudo, para testimunhar ao seu bemfeitor os sentimentos da sua
gratidã0. Na occasião da Magnificat, sahe o celebrante do seu logar e vee

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t00 caruorsuo

revestir-se da capa. Bem depressa, precedido d'um acolyto que leva o


thuribulo, sobe ao al[ar, pega no vaso que contém o incenso e deita al-
gum no lume, e diz: Ab illo beneilicarisin cujus honore a'emaberas; sC
abençoad,o por Aquelle em honra do qual üaes ser consumiclo. Ao pronun-
ciar estas palavras, faz o signal da cruz para recordar que só pelos me-
recimentos de Jesus Christo o que toda a bonção se derrama sobre a terra;
depois toma o thuribulo das mãos do acolyto, incensa tres vezes a cruz
posta sobre o tabernaculo, primeiro á direiüa, depois á esquerda, e final-
mente de cada lado, como para rodear o altar, figura de Jesus Christo,
tlo perfume do incenso, symbolo da fé dos fieis e do fervor de suas ora-
ções.
Acabada esta ceremonia, o acolyto incensa o celebrante e lhe presta
d'este modo honra como ao representante de Jesus Christo. Depois do
incensamento, canta o Presbytero: Dominus oobiscum: O Senhor seja
comüosco. 0s fieis respondem: Et cum spiritu üuo: E .csteja com o teu
espirito. Yem dopois a oração da Missa chamada collecla; porque reco-
lho em certo modo as orações e os votos dos assistentes para os dirigir a
Deus. 0 Presbytero diz de novo: Dominus oobiscum, e depois d'este de-
sejo de paz e charidade, os acolytos convidam 0s fieis a louvar e bemdizer
o Senhor por estas palavras: Benedicamus domirn: Bemdigamos o Senhor.
Todos os assistsntes respondem: Deo gratias: Damos graças a Deus, Ãs-
sim termina esta parte do officio da tarde. Conheceis alguma coisa mais
bella, mais completa, mais bem ordenada ?

0RAÇ40.

O' msu Dêus, que sois todo amor I graças vos dou por me haverdes
instruido nas santas ceremonias do vosso culto; fazei com que ellas rea-
nimem em mim o espiriüo da fé o da oraçã0.
Tomo a resolução de amar a Dous sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Dous; e, em prova d'esto amor,
aasisti,rei rcgularmenlc ds Vosperas.

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I

DE PERSEVERANCÀ. t07

DECTMA LtçÃo.

0 chrisÍianismo [ornado sensivel.

Oompleúa§.
- Uso do lingua laúlna na liúurgia. - Sabedorla,
da DgreJa. - Canúo, su& rozrlo, §ua origem e belleza. -
Dxemplo de §. Agorúinlro, do Joõo Jacques.Eousseau.

I. Couplnrls. 0 homem cheio de beneficios acaba de exprimir a


-
Deus a sua gratidã0. Está animado das melhores disposições; a terra pa-
receJhe triste; a vida pesada; suspira pelo Ceo, porem 0 seu desterro
não está acabado, e mais d'uma provação lhe resta que soÍfrer. Já o dia
na sua declinaqão annuncia a proximidade da noite; da noite, tempo mau
a todos os respeitos. 0 homem, soldado fatigado, vae dormir, porém o
demonio não dormirá; pelo contrario, multiplicará as ciladas. Leão rugi-
dor, vae gyrar com mais furia, a fim de arrebatar e despedaçar algumas
ovelhas: tal e a posição do homem ao cahir da tarde. se viesse pergun-
tar-vos o quo deve fazer para evitar os embustes do inimigo, e conser-
var-se flel a Deus até á volta da luz, que conselhos lhe darieis ? Espe-
rando a vossa resposta, vou explicar-vos os que lhe dá a Egreja, e depois
me direis se conheceis alguma coisa melhor.
«Meu Íilho, lhe diz, lançae-r,os nos braços de vosso Pae celeste; sêde
sobrio e vigilante; rogae a0 anjo que vos guarda e aos santos que vos
amam, que vos protejam; rogae sobretudo a Maria que vele por vós como
véla uma mãe por seu fllho adormecido, a fim de alcançardes o descanço

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t08 CATECISMO

tranquillo da noite e o deseango perfeito da eternidade. Sob a sua pode-


rosa protecção dormi em paz : que o demonio não vos poderá fazet dam-
no., E para for[alecer no Christão estes vivos sentimentos d'uma con-
fiança infantil, lhe faz a Egreja recitar as Completas (l). A prova do que
acabamos de dizer acha-se na mesma explicação d'esta ultima hora do oÍfl-
cio; escutae :
Às Completas começam pela confissão dos peccados do dia. A hu-
milde declaração «las nossas culpas junta com as supplicas de nossos ir- ,

mãos é o verdadeiro meio de nos entregarmos com segurança ao descanço


da noite. Desgraçado do crimiooso quê dorme sem arrependimento !
Se morre, vae acordar no inferno. Feita a confissã0, estes sentimentos
de arrependimento e confiança brilham nos psalmos de Completas, pre-
cedidos da invo0açáo: Cohoerüei-nos, ó Deus que sois 0 nlsso Salaailorl
e desaiae de nós a oossa ira, À só coisa que póde afastar a Deus de
nós e impetlir que tome do nosso descanço o paternal cuidado que soli-
citamos, é o peccado. Eis porque começamos por supplicar-lhe que nos
purifique d'elle convertendo-nos de todo o Dosso coraçã0, e lhe damos o
mais poileroso motivo lembrando'lhe que é o nosso Salvador.
0 primeiro psalmo. recorda-nos o Rei-Propheta testimunhando ao
§enhor o seu reconhecimento pelas mostras de protecção quo d'elle re-
cebêra, e implorando o seu auxilio contra os seus inimigos. À sua con-
fiança está em Deus, e descança absolutamente no seu seio patornal. Que
cantico podia ser mais bem posto na bôcea do Christão, est'otttro rei-
-inimigos e terminadb
prophe[a QUe, tendo combatido os seus o seu dia
com a ajuda de DeuS, vae, n'um desCanço necessariO, cobrar novas for-
ças e novo vigor para combater o inimigo da sua salvação ? Tat é o sen-
tido do psalmo z Qtm.inaocarem: Quando o inooquei, esse Deus, auctor
da minha jwtiça, rne escutou,
oMeus fllhos, invocae pois o Senhor, diz a Egreja n'este primeiro
cantico; a vossa esperança 'não será frustrada.» Cheio de confiança na
palavra infallivel de sua mãe, responde o Christão cantando o segundo
psalmO : In te, Domine, speraai,: Em oÓs, Senhor, esperei: nunca serei
confundido. Quereis saber de que maneira protege Deus o homem que
espera n'Elle ? o terceiro psalmo vol'o vae dizer. Bffectivamente mos-
tra-nos aquelle que habita sob a guarda do Altissimo descançando com
segurança sob a protecção do Deus do Ceo. Mostra'nos o demonio e os

(1) Completas quer dizer comgtlunenüo, porque esta hora compleúa o ofrcio.

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DE PEBSEVERANÇÀ. [09

seus embustes, os maus e as suas maclrinações afastados da morada do


justo : Qui habitat in ad,iutorio Altissimi, in protectilne Dei Culi com'
:
inorabitur Aquelle que se apoia no braço do 1mnipotente, permanecerd
em paz sob a protecçdo do Deus do Ceo.
'

:
Que resta agora ? dar-nos um conselho mui saudavel é o de estar-
mOs nós proprios precatados, e, Se acordarmOs durante a noil,e, volver'
mos logo o coração para Deus. Tal e o objecto do terceiro psalmo : Ecce
nunc benedicite Dominum: E agora bemdizei o Senhor. Se assim faz,
:
cOnclue a Egreja Do alto dq montanha de Sid,o, o Deus que cre1u o Ceo

e a lerratsos abençoara. Todos os corações e todas as Yozes sc reunem


para cantar a antifona, isto é, para asseverar que serão fieis a estas sa'
Liur rrco*mendações. 0 hymno que vem depois é um longo suspiro di-
rigido ao Pae celes[e, supplicando-lhe que seja o guarda de seus Íilhos e
o protector da sua alma e c0rp0, durante o mau tempo da noite.
Pela sua parte, O celebrante resume tOdos estes votos, e, reCitando
a capitula, insiste junto de Deus para obter d'Elle o favor tão ardente'
mente sollÍcitado : Yós estaes c0mn0sc0, Senhor , e 0 üossl nlme foi inao'
cado sobre nós: não nos abandoneis.0s fieis cheios de confiança dão gra-
ças a0 Pae e bemdizem o Senhor com estas palavras : Deo gral,ias: Da'
mos graças a Deus.
Âqui começa, entre totlos estes f,lhos da mesma familia, ora reuni-
dos aos pes de seu Pae commum, e breve dispersos por suas proprias
casas, um colloquio, uma especie de despedida, de boa-noite christã, cuja
ternura e tocante simplicidade não pÓde a lingua exprimir: ao coração
pertence sentil'a.
Urn meniuo de cÔro canta com sua voz pura como a d'um anio: In
tna,nlcs tua,s, Domine, comntendo spiritum meum: Senh,or, nas olssas mãos
entrego a minha alma.
Respondem 0s Íieis: In manus luas, Domine, commendo spiritmn
meu,m: Senhor, nas üossas md,os entrego a minha alma.
I\lenino do côro : Redimist'í me, Domine, Deus oe,ritatis : Vós me re-
m,istes, Senhor, Deus deaerdade.0 anjo da terra dá a Deus os mais po-
derosos motivos para nos proteger; pertencemos-lhe, Elle remiu-nos por
all,o preço, 0 0 o Deus de verdade, o Deus fiel ás suas promessas : ora,
Elle prometteu proteger'nos.
Fieis ; Commendo spiritunx meum: Entrego a minha alma.
Menino do côro : Gloria Patri, et Filio, et Spiritui Sancto: Gloria
ao Pae, ao Filho e ao Espirito Santo.'

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il0 CATECISMO

Fieis : In manus luas, Domine, commenilo spiritwn meum: genhor,


nas oassas mãos enlrego a minha alma.
0
pensamento do desterro e a approximação dos]-perigos da noite
Iançam sobre este responsorio uma melancolia que não deixa acabar a
Gloria Patri: Como era no principio, e a,gora, e nos seculos dos seculos.
Estas palavras estão reservadas para a patria : a Egreja da terra só as faz
ouvir na occasião das suas grandes alegrias. .. \
Menino do côro : custoili me, Domine, ut pupillamroculi: Guarilae-
met Senhor, como a menina do olho.
Fieis : sub umbra alarum tuarum protege me : lprotegei-me com a
sombra das oossas azas.
Dizei-me, conheceis coisa mais bella que este colloquio ? coisa que
pinte melhor a candura d'um filhinho nos braços de seu pae.l Este filho
querido, certo de quelo Deus que reina no ceo o ama com a mais viva
ternura, não tem mais que um desejo, que o deixar esta terra de exilio,
este valle de lagrimas, e ir descançar em paz no seio do senhor. E eis
sua mãe, a Egreja catholica, sempre tão bem inspirada, que lhe põe na
bôcca as palavras do velho Simeã0, que, depoissde ter visto a salvação
d'Israel, não pedia outra coisa senão morrer : Nunc ilimitis, e[c. : Deiuae
agora, ó meu Deus I ir-se'o t)osso serao em paz. segue uma oração que
resume admiravelmonte as petições dirigidas a Deus nas Completas.
Eis pois que vae separar-se a familia christã. Mas aqueite qre é na
terra chefe e pae d'ella, não póde deixar seus filhos sem desejar-lhes as
mais copiosas bençãos. o §acerdote não se contenta com a saudação or-
dinaria : Dominus oobiscum: O Senhor seja clmaoscl; são-lhe necessarias
expressões mais tocantes e que traduzam melhor o affecto que lhes tem e
o desejo que nutre de os vêr felizes. Diz: o senhor toilo-poderoso, pae
e Filho e Espirito santo, nos abençôe e nos guarde. Oxalá assim seja t
Antes de se separarem, todos juntos saudam pela ultima vez sua
terna Mãe que está no Ceo, supplicando-lhe baixe sobre seus filhos os olhos
da sua misericordia e lhes abra seus maternaes braços. Com effei[0, por
ventura ha asylo mais seguro que o seio de uma mãe ? Então ouvis re-
soarem as abobadas do templo successivamente com a Saloe Regina, com
a Inuiolata, com a Atse Regina celorum, que os Ànjos escutam com fe-
licidade, e vão repetir nas suas harpas d'ouro na Jerusalom celeste, aos
pés da Virgern cheia de graça, nossa Mãe e sua Rainha.
Ide agora, fllhos muito amados; dormi em paz, que o remorso não
vos perüurbará o somno. «D'este modo, passou o domingo docemente

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DE PERSEVERÀNÇA. trt
para aquelles que sabem santifical-o verdadeiramente. A oraçã0, a chari-
ãade, alegrias innocentes, reuniões tle familia, ocios pacificos o enche'
ram; e quando é findo esse dia, quando, com todos os ouüros dias, vae
cahir no abysmo do passado, vae radiante das boas obras que fez prati-
car e perfumado do incenso queimado ante os altares (l).,
Terminemos 0 que diz respeito ás Completas, accrescentando que esta
derradeira hora do officio do dia se acha indicada nos antigos Padres da
Egreja (2). O uso de orar an[es de ir descançar parece estabelecido pela
propria na[uroza. Â Egreja consagrou-0. Mandando-nos dar graças a Deus
no fim do dia, propõe á nossa adoração o Salvador encerrado no sepulcro:
de fórma que, no seu officio quotitliano, honra o seu divino Esposo des'
de o nascimento ato á sepultura. Que bello assumpto tle meditação para
seus filhos t que admiravel meio de os tOrnar taes quaes devem sor, 0u-
tros Jesus Christo (3) I
II. Uso Do LÀrrlu. Todas as horas do seu officio, offerece-as a Egreja
-
a Deus n'uma lingua hoje desconhecida á maioria dos fieis ; e dirige'lh'as
cantando. E' iusto que vos faça admirar n'estes dois usos a profunda sa-
bedoria de vossa mãe. E primeiramente, porquo se usa da lingua latina
nas orações publicas ?
l.o E' para conservar a unidaile da fé. Ao nascer o Christianismo,
fez-se o serviço divino em lingua vulgar na maioria das egrejas. Mas, como
todas as coisas humanas, estão as linguas sujeitas á mudança. À lingua
franceza, por exemplo, já não é a mesma que era ha dueentos annos; bom
numero de termos envelheceram, e outros mudaram de significaçã0. O
torneio das phrases differe tanto quanto differem as nossas maneiras das
de nossos avôs. Todavia uma coisa tleve permanec,er immutavel, que é a
fé. Para pôt-a a salvo d'essa instabilidade perpetua das linguas vivas, em-
prega a Egreja catholica uma lingua fixa, uma lingua que, não sendo já
fallada, já não está sujeita á mudança.
A experiencia prova que a Egreja foi dirigitla, n'isto como em todas
as coisas, por uma sabedoria divina. Yêde o quo succede entre os protes-
tantes. Quizeram empregar nas suas liüurgias as linguas vivas, e eis que
incessanl,emente se vêem obrigados a renovar as formulas, e a retocar as
versões da Biblia : d'onde altorações infinrlas. Se a Egreja houvosse feito

(1) ristüs, p. 33.


e) 7; Clem,-Aleraurl., l.IÍ;Pailag., c. IYi Isid.,
r. r, tíx
(3)

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Lt2 CÀTECISMO

o mesmo, teria sido necessario de cincoenta em cincoenta annos reunir


concilios geraes para redigir novas formulas na administração dos sacra.
mentos.
2.o E' para cOnservar a catholícidaite da fé. E' necessaria a uni-
dade de linguagem para manter mais estreita ligação e mais facil com-
municação de doutrina entre as differentes Egrejas do mundo, e para as
tornar mais facilmente addictas ao centro da unidade catholica. Supprimi
a lingua latina, e eis que 0 sacertlote italiano que viaja por França, 0u
o Sacerdote francez que viaja por Italia, não póde celebrar os santos mys-
terios nem administrar os sacramentos. E' o que succede ao protestante.
Fóra do seu paiz, não póde tomar parte no cul[o publico: o Catholico
não está desterrad0 em nenhuma das regiões da Egreja latina.
Honra pois aos Summos PontiÍices que nada teem descurado para
introduzirem em todas as partes a liturgia romana. 0 homem impaiciat
encontra aqui uma nova prova do seu illustrado zêlo pela catholicidade,
caracter augusto da verdadeira Egreja. Ài r se os gregos e os latinos não
houvessem tido senão uma mesma lingua, não teria sitlo tam facil a pho-
cio e aos seus adherentes arrastar toda a Egreja grega ao scisma, attri-
buindo á Egreja romana erros e abusos cle que ella nunca foi culpacla !
3.' E' para conservar á Religião a magesr,ade qoe lhe convem.
Uma Iingua douta que não é entendida senão pelos homens instruidos,
inspira mais respeito que a algaravia popular. 0s mais santos mysterios
não pareceriam ridiculos, se fossem expressos em linguagem demasiada-
mente familiar ? Todos 0 comprehendem. 0s mesmos protestantes, ini-
migos jurados da Egreja romana, o conheceram como os outros; porém
a renunciarem ás suas preoccupações anti-catholicas, preferiram ser in-
consequentes comsigo proprios. Fizeram traduzir o oÍlicio divino em fran-
cez: muito bem ; mas os da Baixa-Bretanha, da picardia, do Auvergne e
da Gasconha não tinham tanto direito a Íazer o oÍIicio divino na sua ge-
rigonça, como tinham os calvinistas de Paris de o fazerem em francez ?
0s reformaclores, tam zelosos da instrucaão do povo baixo, porque não
traduziram a liturgia e a Escriptura Sagrada em todas essas algaravias ?
Não contribuiria isto muito para tornar respeitavel a Religião (l) ?
Pelo contrario, a lingua grega no 0riente, e a latina no Occidente,
conservam alguma coisa da magestade romana, que convém o mais pos-
sivel á magestade muiüo maior da Egreja catholica. A uma Religião se-

(1) Bergier, aú, Lingua.

I
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DE PERSEVERÀNÇA. il3
nhora do mundo quadra a lingua dos dominadores do mundo, como a
uma doutrina immortal quadra uma lingua immutavel. Se a Religião e a
raz"ao devem acções de graças á Egreja catholica por ter adoptrdo as lin-
guas grega e latina, não lhe devem menos reconhecimento as sciencias.
Immortalisando a sua lingua, immor[alisou a Egreja a litteratura dos gre-
gos e romanos, do mesmo modo que 0s Papas salvaram, santificando'os,
0s monumentos dos Cesares. Se não fosse a cruz que a domina, ha muito
que estaria em terra a columna Trajana.
De resto, não e certo que, pelo ttso d'uma lingua morta, se achem
os Íieis privados do conhecimento do que se contem na liturgia. Longe de
vedar-lhes este conhecimento, recommenda a Bgreja aos seus ministros
expliquem a0 povo as differentes partes do santo Sacrificio e o sentido das
orações publicas (l). Muito mais, não prohibiu absolutamente as traduc-
ções das orações da liturgia, pelas quaes póde vêr o p0v0 na sua lingua o
que dizem os Sacerdotes no altar (2). Não e pois verdade, como lhe ar-
guem os protestantes, que ella quizesse occultar 0s seus mysterios; nã0,
só quiz pôl-os a salvo das alterações, inevitavel consequencia das mudan-
ças de ljnguagem (3),
m. Uso D0 cANro. Da lingua da Egreja catholica passemos ao
-
canto; digamos a sua origem, o seu uso e a sua belleza. 0 canto ê na-
tural ao homem ; encontra-se entre todos os povos. 0 canto é essencial-
:
mente religioso no principio vê-se por todas as partes empregado no
culto divino. Este acôrdo universal prova que 0 canto e agradavel ao
Senhor, e que é o meio legitimo de lhe rendermos parte do culto que
lhe devemos. Mas que é o canto ? 0 canto, responde um antigo e pio
auctor, é a lingua dos anjos (&) ; tah,ez fosse a lingua que o homem fal-
lava antes da queda.
N'esta hypothese, a nossa palavra actual não seria mais que uma
ruina da palavra primitiva (5). Havendo sido aviltado o homern todo pelo
crime original, comprehende-se que devesse a sua palaora soffrer um
aviltamento correspondente. Ao menos parece que 0 canto ha-de ser a
lingua do Ceo ou do homem completamente regenerado, pois não se
falla senão de cantos e harmonias entre os felizes habitadores da Jeru-

(1) Conc. Trid., Sess. XXII, c. VIII.


Ql Excepto o canon ou o ordinario da Missa, cuja traducaâo é coutraria
intençôes da Egreja.
ás

(3) Vide o_Card_eel Bq4g, Rerumliturg.r l. f, c. V, p.33,


(4) Durando, l. V, c. XI.
(á) Anna,, de phil,. christ., an. 1830.

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ll,tt CÀTECISMO

salem celeste. seja o que fôr d'esias conjecturas, o canto é a expressão


viva e medida dos sentimentos da alma; e o seu poder e magico: ê este
outro mysterio.
Para ensinar de novo ao homem a sua lingua primitiva, ou para o
instruir n'aquella que deve fallar no ceo, consagrou a Egreja o uso do
canto nos seus divinos exercicios. Não quer que os homens se reunam
ao pé dos altares sem fallarem a lingua dos Ànjos ou a da innocencia. Des-
terrado, nos nossos templos e que o homem encontra o idioma e 0 ca-
minlto da patria; rei decahido, alli tambem ê que lhe e dado balbuciar
a lingua que fallou no dia da felicidade. Conheceis lição mais util, pen-
samento mais admiravel ?
0 canto ainda proporciona outras vantagens. Move o coração e le-
va-o á devoção (l) expulsa a tibieza e dá-nos uma santa alegria para
;
acabarmos animosamente o oÍlicio divino, que d'outro modo parecêra
longo e produzira enfado (2). E' uma profissão solemne de fé e d,amor,
pela qual declaramos que nos gloriamos de invocar Nosso Senhor e de
celebrar os seus louvores, mau grado os sarcasmos e as blasphemias da
impiedade (3). Finalmente dissipa as suggestões do demonio, gunha as
boas graças de Deus, e attrahe o Espirito santo, como vêmos na Escrip-
tura sagrada (a). canta pois o homem, e a Egreja canta com elle. N'isto
se mostra Íiel herdeira de tudo quanto ha verdadeiro, bello e bom nas
tradições do universo; porque t0d0s 0s p0v0s cantaram.
Não fallaremos dos pagãos; estes haviam pervertido o uso do canto:
em vez de celebrarem o Deus da natureza, cantavam 0s crimes e as es-
candalosas aventuras das suas falsas divindades.
Tam depressa os hebreus se reuniram em corpo tle naçã0, quando
souberam realçar com os accentos da voz os louvores do Senhor. Quem
não conhece o§ sublimes canticos de Moysés, de Debora, de David, cle
I
Judith e dos Prophetas David não se limitou a compôr psalmos, esta-
beleceu córos de cantores e de musicos para louvarem a Deus no taber-
naculo. Salomão fez observar o mesmo uso no templo. Esdras restabe-
Ieceu-o depois do captiveiro de Babylonia.
Desde o principio tlo Christianismo, foi admittido o canto no officio
divino, principalmente quando a Egreja atlquiriu a liberdade de dar ao

(1) S. Âgost.
(?) S. Bnsil., ,_1. VI, e. XXI;S. Chrys,ri,n psal.Xltl.
(?) §r1ÍI, -Ei Y, XXXVII;' Theodoreio, I. fII, c. I.
(4) lY Reg", 1 Dan.,III.

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DE PInSEVERANÇA. ttB
seu culto o brilho e a pompa conveniente: foi auctorisada a isso pelas
lições de Jesus Christo e dos Apostolos. 0 nascimento d'este divino Sal-
vador fôra annunciado aos pastores de Bethlem pelos canticos dos Anjos.
São conhecidos os de Zacharias, da SS. Yirgem, e do velho Simeã0. Du'
rante a sua pregaçã0, achou conveniente o proprio Salvador que as mul'
tidões do povo vindas ao seu encontro o acompanhassem na entrada em
: !
Jerusalem cantando Hosanna bemdito seia aquelle que oern em nome
do Senhor, saude e prosperidade ao ft,lho de Daoid, e continuassem assirn
até ao templo (l). S. Paulo exhorta os fieis a excitarem-se mutuamente á
piedade por meio de hymnos e canticos espirituaes (2); elle proprio com
Silas cantava á meia noite na prisã0.
Nossos paes na fe pozeram em prática as lições do grande Apostolo.
Interrogando-os Plinio o moço para saber o que se passava nas suas
assemblêas, disseram-lhe que se reuniam ao Domingo para cantarem hym-
nos a Jesus Christo como a um Deus (3). Aconteceu o mesmo em todo
o correr dos seculos. 0s maiores homens que tem produzido a Egreja e
que tem admirado a terra, ligavam ao canto tal importancia, que não des-
denhavam de o regularem em pessoa e de o ensinarem aos outros: tes-
timunha S. Athanasio, S. Chrysostomo, S. Agostinho, S. Ambrosio e
S. Gregorio Papa.
A exemplo de David, Pepino, rei de França, nnas principalmente
Carlos lVlagno, seu Íilho, dedicaram grande cuidado ao canto religioso.
Havendo notado que 0 canto gallicano era menos agradavel que o de
Roma, enviaram a esta capital do mundo christão clerigos intelligentes
para estudarem e aprenderem o canto de S. Gregorio, e breve o intro-
duziram nas Gallias. Todavia nem todas as Egrejas de França o adopta-
ram uniformemente; algumas não tomaram senão parte d'elle, e o junta-
ram com o que estava precedentemente em uso. Tal é a causa da diffe-
renÇa que se nota entre o canto de diversas dioceses (4).
IY. Brr,r,nzÀ Do cÀNro. Comtudo este canto, tal qual existe hoje,
-
e posto que soffresse grandes perdas passando pelas mãos dos barbaros
modernos, ainda tem bellezas de primeira ordem, e permanece,'pelo uso
a que se applica, muito acima da musica. 0fferece aos entendedores não

(1) Math.,'iXXI, 9.
(2) Ephee., V, 19.
(3) Epi.st., XCVII; vicle tambem os concilios cle Laodicêa, c. XY; de Car-
thago, IY, can. 10; d'Agda, e.2l; d'Aix, c. 732,133, etc.
(4) Lebeut Trataclo hist, ilo eante, c. III.

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It6 CATECISIÍO

pl'eoccupados um caracter incontestavel de grandeza, uma melodia cheia


de nobreza e uma fecunda variedade de inflexões.
Acaso ha coisa mais sublime, por exemplo, que o canto solemne do
Prefacio e do Te-Deum? Que coisa mais commovedora que as lamentações
de Jeremias, e mais alegre que os hymnos da Paschoa ?0nde encontrar
coisa mais magestosa que o Lau,da sion, e mais pungente que 0 Di,es ire?
0 officio dos defunctos é uma obra prima; crê-se estar ouvindo os surdos
eccos do sepulcro. No officio da Semana Santa nota-se a Paiuã,0 de
S. Matheus: o recitativo do historiador, 0s brados da plebe judaica, e a
nobreza das respostas de Jesus, formam um drama pathetico.
Pergoleso os[entou no Stabat Mater a riqueza da sua arte; porém
excedeu o simples canto da Egreja ? Yariou a musica em cada estrophe,
e comtudo o caracter essencial da tristeza consiste na repetição do mes-
mo sentimento, e, por assim dizer, na monotonia da dôr. Diaersas razões
podem fazer correr lagrimas, porém as lagrimas tecm sempre uma amar-
gura similhante; alem d'isso é raro que se chore ao mesmo tempo por
grande numero de males, e quando são multiplicadas as feridas, sempre
ha uma mais pungente que as outras, a qual a Íinal absorve as menores
dôres. Esse canto egual que se repete a cada copla sobre letra variada,
imita perfeitamente a natureza. 0
homem que soffre transporia d'este
modo os pensamentos por differentes imagens, 0m tanto que a essencia
de suas mágoas permanece a mesma.
Desconheceu pois Pergoleso esta verdade, que pertence á theoria
das paixões, quando quiz que nem um suspiro da alma se parecesse
com o suspiro guo o precedêra. Em toda a parte onde ha variedade, ha
distracçã0, e ern toda a parte onde ha distracçã0, não ha tristeza (l).
Que diremos dos psalmos ? À maior parte são sublimes de gravida-
de, particularmente o Dirit Dominus Domino meo, o Confr,tebor tibi e o
Laudate pueri. O In erilu offerece um mixto indefinivel de alegria e tris-
teza, de melancolia e esperança ; o Kyrie eleison, o Gloria in ercelsis e
o Credo das grandes fcstas elevam a alma, e o Veni Creator exprime
bem as ardentes supplicas d'um coração que quer ser attendido.
Depois d'isto, e de admirar que 0 n0ss0 canto sagrado faça tão vivâ
impressão nos homens que teem ouvido e coração ? «Eu não podia afas-
tar-me, ó meu Deus t exclama S. Agostinho, de considerar a profundeza
dos vossos conselhos n0 que flzestes pela salvação dos homens, e a vista

(1) Genio do Clrri,stianismo, t. II, c. XI.

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DE PERSEVEnANÇÀ. ll7
d'essas maravilhas me enchia o coração de incrivel suavidade. Quantas
lagrimas me fazia derramar o canto dos hymnos e dos psalmos gue se
cantavam na Yossa Egreja, e quão vivamente me comrnovia ao ouvir re-
soarem os vossos louvores na. bôcca dos fleis t porque á proporção que
aquellas palavras inteiramente divinas me feriam os ouvidos, as verdades
que exprimiam se me insinuavam no coração, e 0 ardor dos sentimentos
de piedade que lá excitavam, me fazia correr dos olhos grande ab.undan-
cia de lagrimas, porém lagrimas deliciosas, e que eram então o maior
prazer da minha vida (l).»
E para citarmos um homem mui differente, rliremos que ainda lem-
bra ter'se visto mais d'uma vez João Jacques Rousseau assistir ás yespe-
ras de S. Sulpicio, para experimentar aquelle divino enthusiasmo de que
não póde eximir-se uma alma sensivel, quando tomar parte com algum
recolhimento nas sublimes melodias que, juntas ao accôrtlo d'um povo
immenso e á decencia dos ritos sagrados, assumiam n'aquella vasta egreja
um grau de interesse capaz de elevar a piedade ate aos ceos, e de en-
ternecer o proprio coração d'um sceptico. 0 simples recitativo das nossas
orações fazia n'aquelle homem tal impressã0, que não podia ouvil.o sem
commover-se até derramar lagrimas.
«Um dia, diz Bernardim de Saint-Pierre, indo passear com Rous-
seau a0 Monte Yaleriano, quando chegamos ao topo da montanha, fize-
mos o projecto de pedir de jantar aos ermitas que fizeram cl'elle mora-
da sua. chegamos a casa d'elles um p0uc0 antes de se pôrem à mesa e
quando estavam na egreja ; J. J. Rousseau propôz-me entrarmos n'ella e
fazermos oraçã0. 0s ermitas recitavam então as Laclainhas da Providen-
cia, que são mui bellas. Depois de fazermos oração n'uma capellinha o
de se encaminharem os ermitas para o refeitorio; me disse João Jacques
:
com enternecimento «Agora experimento o que se diz no Evangeltro:
Quando alguns de vós es[iverem reunidos em meu nome, eu me achare
no meio cl'elles. Ha aqui um sentimen[o de paz, e felicidade que penetra
a alma (2). »
Tal é o canto da Egreja com os effeitos que prorJuz. chamamos as-
sim ao canto-chão e não a essa supposta musica religiosa que ha bastante
tempo faz irrupção nas nossas egrejas. Musica mundana, profana, sen-
sualista até, que não traduz pensamento algum christã0, que enfada o

(1) Conf.r l. IX, c. VI.


(2) Esúud,os ila Naturera, b, TIl, p. 506.
8

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a

ü8 CATECISMO

povo quo a não comprehende, e cuio objecto é muito menos cantar as


bondailes e grandezas de Deus, que fazer admirar o homem e o seu ta-
Iento em vencer. diÍficuldades de convenção e em fazw exercicios gym-
nasticos do garganta. Oxalâ Nosso Senhor volte á terra e expulse o§ can-
toros do Templo t

ORAÇÃO.

0' meu Deus, que sois todo amor ! graças vos dou por haverdes es-
tabelecido tantos meios de me fallardes ao coração ; não permittaes que
eu seja insensivet á vossa voz.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
cantarei tanto de coraçdo coml de bôcca os loutsores de Deus.

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DE PEBSEYERÀNCA. tr9

UNDEC|MA UçÃ0.

0 chrisÍianismo Íornado sensiyel.

Naúureza do sacrlficio. sua neeessidade.


úlgor. sacrüficio do- carvario. - saerlfleios an-
- -- sacrifioio oruenÍo. -
Reune compreúando-og úodo§ os sacrificios amúigos. a
-
tr[issa é ,m *erdadr:iro seer.lficio, o rnesmo que o do cal-
var.io. Á' trlissa é neceÊsaria.
-

Se era util explicar o omcio canonico do qual os fieis não recitam


senão parte e só uma vez por semana, ó neceJsario expôr circumstan-
ciadarnente 0 acto sublime que se consumma todos os dias nos
nossos
altares, e ao'qual são rigorosamente obrigados a assistir todos os
Chris.
tãos aos Domingos e dias de festa : este acto divino é a
Missa, é o Sacri-
ficio catholico.
Que e sacrificio em geral? E' o sacriÍicio indispensavel na Religião?
E' a Missa um verdadeiro sacriÍicio ? E' a Missa necessaria ? Taes são as
perguntas prévias a que temos que responder.
E primeiramente, que é sacrificio ? «Sacrificio e a offrenda feita a
Deus d'uma coisa que se destroe em sua honra para recgnhecer o seu
supremo dominio sobre todas as creaturas (l). » O sacrificio é mais que
uma simples offrenda. o que o constitue essencialmente, e
a mudança ou
destruição d'uma coisa offerecida ; condição indispensavel que so encpn-
tra até no sacrificio incruento, como logo verêmor.

. .. (1) oblatio fa.cta.Deg per immutationem alicujus rei, in sisnum supremi do-
iltt+.
ex lesitima instirurioie, S. t-.,ig,, Thra;i,-,;;.'í;'dr;il;.;.;ií.íJ. Í,
t
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-
120 cÀrEclsuo

Àclefinição tlo sacrificio responde á nossa segunda pergunta, a sa'


ber: sacrificio é indispensavel na Religião? Logo que admittis um
0
Deus creador, conservador de todas as coisas, principio de todos os
bens naturaes e sabrenaturaes de que goza a Creatura, estaes obrigado
a atlmit[ir que a creatura lhe deve a homenagem de tudo o que é e
de tudo 0 que tem. Muito mais, 0 proprio Deus não póde dispen'
Sara creatura d'este dever, porque não pÓde dispensar'Se a si mes-
mo de fazer tudo para gloria sua, sendo o Íim de todas as suas obras
assim como é o principio. Pretender o contrario, fôra admittir que Deus
póde obrar pará outro que não para si, isto é, para um Íim indigno
de si. Fôra tirarJhe a ribtdo.ia, fÔra destruir a noção do seu ser, fÔra
negal-0.
E agora, o unico verdadeiro meio de reconbecer e honrar 0 supremO
dominio de Detts, não só sobre a vida e morte, senão sobre o mesmo
ente, é o sacrificio. Com effeito, só Deus é auctor de todo o ser
: para
honrar o seu supremo dominio sobre 0 ser creado, ê necessaria a con'
sumpção e destruição inteira d'esse ser. se no sacrificio nem
tudo ê des-
victimas, vem isso da
truido e consumido pela morte das hostias e das
que não póde
imperfeição do culto humano e da impotencia do homem
faier mais. .À morte não é pois alti para fallar com propriedade
senão

uma representação d'essa inteira destruição do ser, que deveria


realisar-

se no iacrificio, em homenagem ao Ser divin. e ao seu dominio sobre

todos os seres'creados.
mas não
Segue-se d'ahi que todo o sacriflcio demanda a destruiqã0,
por
a morte da victimr, oão sendo a morte mais que uma das maneiras
quo potlem ser destruidas as coisas, ou que representam a destruição
das coisas; porque a destruição das coisas offerecidas
a Deus em sacrifi-
cio sob a lei de Moysés se effectuava de differentes maneiras. Por
exem'
plo, os pães de proposição eram destruidos pela manducação e consumi-
pela morte;
ãos petó fogo natural do estomago; o cortleiro paschal era'o
e outras victimas Pelo fogo.
E, pois o sacrificio o acto essencial e indispensavel da Religião. E'
tam impôssivel comprehender uma religião sem sacrificio, comg cgmpre-
hender a Deus sem dominio sobre as suas creaturas, e as creaturas §em
obrigação de renderem homenagem a Deus. No estado de innocencia
consãrvada, teria havitlo sacrificios, pois que teria havido uma religião;
mas não teria havido sauificios cruentos, pois que a morte não entrou
no

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DE PERSEVERANÇÀ. l?l
mundo senão pelo peccado, conforme a linguagem do apostolo S. Paulo (l).
Desde o peccado, tornou-se o sacriÍicio cruento, e devia sêl-0. A
Iembrança da culpa original Íicou profundamente gravada na memoria do
homem; este sentiu que tinha necessidade de expiaçã0. «0s deuses são
bons, e recebemos d'elles totlos os bens de que gozamos; devemos-lhes
louvor e acção de graças; mas os deuses são justos e nós somos culpados:
é preciso aplacal-os; é preciso expiarmos os nossos crimes, e, para o con-
seguirmos, o meio mais poderoso é o sacrificio. »
Tal foi a crença antiga, e tal é ainda, sob differentes fórrnas, a de
todo o universo. 0s homens primitivos de quem recebeu o genero huma-
n0 0s seus conhecimentos fundamentaes, julgaram-se criminosos: as in-
stituiçoes geraes fundaram-se todas n'este dogma; de fórma que todos os
homens de todos os seculos não cessaram de confessar a degradação pri-
mitiva e universal, e de dizer c0m0 nós, posto que d'um modo menos
explicito: Nossas mães conceberam-nls no crime; pois não ha dogma al-
gum christão que não tenha origem na natureza intima do homem e n'uma
tradição tam antiga c0m0 o genero humano.
Persuadido de que era criminoso, de que merecêra a morte e lhe era
necessaria uma expiaçã0, o homem degollou vietimas. 0 proprio Deus lhe
ensinára o merecimento dos sacrificios cruentos. Com effeito, como poderia
imaginar o homem que um animal immolado em seu logar o exemptava da
morte, e que Deus acceitava esta substituição ? Se não fosse revelada,
seria esta ideia a mais estranha e ate a mais absurda que se póde conceber.
Mas ao ensinar ao homem o sacrificio cruento, disse-lhe Deus: «Tu es cri-
minoso, e mereces a mor[e; quero que o reconheças. Immolarás pois vic-
timas, e confessarás por esse modo quo tu é que deverias ser immolado.
Em logar do teu sangue, acceitarei o d'ellas, te exemptarei da morte que
mereces e te perdoarei os crimes que te fizeram digno d'ella.»
Para que o homem não esquecesse que elle é que deveria ser a vic-
tima, quiz Deus que se escolhessem para 0 sacrifrcio os animaes mais
preciosos pela sua utilidade, mais mansos, mais innocentes, e mais em
relação com o homem pelo seu instincto e pelos seus habitos. Não se
podendo em fim immolar o homem para salvar o homem, escolhiam-se na
especie animal as victimas mais humanas, se e licito exprimir-me assim,
e sempre a victima era queimada no todo ou em parte, para attestar que

(1) Yide, sobre todas estas noçôes, a excellente obra do P. de Conclren, Id,eia
Sacrifinio d,e Jesws Christo, p. 48.
d,o Saceriloci,o e d,o
Yide tambem S. Thomaz, p. Ir gu, 45, art. Y.

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122 catgclsilÍo

a pena natural do crime é o fogo, e que a carne substituidcü era queima-


da enr logar da carne wiminosa (l).
0s pagãos não ficaram aqui: coneluiram que quanto mais importante
fosse a victima, mais eÍficaz seria o sacrificio. Esta crenÇa, justa nas suas
bases, mas corrompida pelo demonio, gerou por todas as partes a hor-
rivol superstição de sacrificios humanos. Chegaram a ponto de crêrem
que não se podia supytlicar plr uma, cabeça senão com o preço d'outra
cabeça (2). Eis ahi o que acontecia universalmen[e no antigo paganismo.
Quando nós chegamos á America no fim do decimo-quinto seculo, lá en-
contramos esta mesma crenÇa, mas muito mais feroz. Era necessario lo-
yar aos sacerdo[es mexicanos atê vinte mil victimas por anno; e para a§
obter era necessario declarar guerra a algum povo; mas em caso de ne-
cessidado sacriÍicavam os mexicanos a seus proprios Íilhos. 0 sacriftcaclor
abria o seio das victimas e se apressava a arrancar-lhes o coração ainda
palpitante. 0 gran-sacerdote ltre espremia o sangue, qu0 fazia correr pela
bôcca do iclolo, e todos os sacerdotes comiam a carns das victimas (3).
Longe de serem agradaveis a Deus, oram estes sacrificios pagãos
horriveis attentados que provocavaril a sua justa ira. 0s sacriÍicios dos
judeus eram innocen[es, é certo, mas eram por si mesmos absolu[amente
ineÍficazes. E que proporção havia, pergunto, entre um Deus irritado e o
sangue d'um bode? Uma injuria que se dirige ao Ser inÍinitamente per'
feito, é por isso mesmo inÍinita. E' necessaria, para egualar a reparação
á oÍfensa, uma expiação de valor inÍinito. 0ra, em balcle buscarieis essa
expiação nos sacrificios antigos. Se Deus se dignava de acceital-os, não
era em razáo do seu valor intrinseco, mas sim como imagens d'um sacri-
ficio digno d'Elle, isto é, doum merecimento e valor infinitos. Mas um sa-
crificio d'um merecimento inÍinlto suppõe uma victima d'um valor infinito.
Só Deus e infinito ; logo a unica victima digna de Deus, capaz de propor-
cionar o sacrificio á offensa, é o mesmo Deus.
Sim, um f)eus, victima d'um Deus, immolaclo por amor do homem,
tal ê o grande, o profundo mysterio que a razão humana suspeitava, cujo
cumprimento desejava e cuja eÍlicacia omnipotente figurava por grande
numero de sacrificios impotentes. Não deixou Deus ignorar ao genero hu-
mano que todos aquelles numerosos sacrificios não podiam satisfazor a sua
jtrstiça, e que um dia seriam substituidos por urn sacrificio unico e unica-

(l) sobre-os_sauíf., por M. de Maistre, p, 396.


(2\ tur.,I, 7.
(ts) p. 413.

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DE PEnSEYEnANÇÀ. r23

mente digno d'Elle. Eis o que dizia aos judeus pela bôcea de Malachias,
quinhentos annos antes da immolação da grande Victima: Eu ndo quero
ile oós, nem receberei mais offrenil,a alguma da oossa mdo. Eis que d,esde
o nascer do sol até ao poenle é granile o tnew nlme entre as nações; em
toilos os logares é offereoida e sacrificada üma tsictima para gloria ila
meu nome, porque o meu nome é grande enlre as nações (l)-
Sem embargo o Senhor quiz dissimular e esperar por espaço tle gua-
renta seculos; mas alfim soou a hora da grantle expiação no relogio da
eternidade. Na plenitude dos tempos, desceu á terra o Cordeiro de Deus,
a augusta e santa Victima, esperada corn tanta impaciencia. Immmolações,
hostias pacificas, holocaustos, sacriflcios de todas as especie§, van§ som'
bras, desapparecei: eis que chega a realidade. 0 genero humano já não
precisa de vós: um sacrificio unico vae substituir-vos; por si só satisfará
todas as exigencias do Creador, e [odas as necessidades'da creatura.
Ouvi o Filho de Deus, o Sacerdote catholico do Pae (2), que, a0 en-
trar no mundo, annunCia o fim do vosso reinado: «0' meu Pael disse, vóS
não quizestes hostias nom oblações, mas formastes'me um corpo: não
acceitastes os holocaustos nem os sacrificios pelo peccado, e então eu vo§
disse: Eis que eu venho para cumprir a vossa vontade; quero'o' o a vossa
vontade é uma lei escripta no principio do livro da minha vida e gravatla
no meio do meu coração (3).»
E a santa Yictima foi immolada, e nós conhecemos o lugar, o dia, a
hora e a eÍlicacia do seu sacrificio. 0 altar foi em Jerusalem, mas o lan'
gue ila Victima banhou o unioerso (lL). A' vista d'este sangue, Deus e o
hgmem, o Ceo e a terra, os Anjos e todaS aS creaturas estremegeram em
oerto modo de dôr e alegria. Este sangue foi util a todos. A Deus devol-
veu a gloria, ao homem a paz; porque (aprouve a Deus reconciliar tOdas
as coisas por meio d'Àquelle que ó o principio da vida e o primogenito
dos mor[os, tendo pacificado com O §angue que derramou na uuz tanto
o que está na terra como o gue esÍá no Ceo (5).»
Pelas palavras que o Filho de Deus dirige a §eu Pae, é claro que o
saorificio do Salvador foi substituido a todos os sacrificios antigos, e quo
encerra todas as propriedades d'elles. Estes sacrificios eram de quatro

(1) Malaeh., il, 11.


(2) Saeerdos Patris catholicus. Tertul'|,,
(3) Eebr.rX,5,
(4) Orig., Homi,l,.l in Lwit., n. 3.
(5) C ol,"oís,, I, 20 ; Eçthes,, I,' 100; Hebr,, IX t 23,

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l2tL CÀTECISMO

especies : {.0 O holocausro, no qual se gueimava a victima toda : o flm


principal d'este sacrificio era honrar a Deus na sua sanl,idade infinita, no
seu supremo dominio o na plenitude de todas as suas perfeições. 2.0 0
sacrificio pacifico: era offerecido a Deus em acção de graças pelos seus
beneficios e para lhe render homenagem de seus dons. B.o 0 satifi,cio
ile propiciaçdo: era offerecido para dar á justiça de Deus a satisfação
que se lhe deve, pol causa dos nossos peccados, e para o tornarmos pro.
picio a nós. 4.o 0 sauificio impetratorio: offerecia-se a Deus para obter
da sua liberalidade as graças e bens necessarios á vida espiritual e cor-
poral, temporal e eterna. Posto que este sacrificio pareça dizer respeito
simplesmente ao interesse da creatura, é comtudo uma homenagem que
rendemos a Deus, uma confissão da nossa dependencia e da indigencia
em que estamos do seu soccorro, reconhecendo-o como a origem e causa
de todos os bens.
Não se deve esquecer que, em todos estes sacriÍicios, os sacerdotes
e o povo deuiam participar da victima comendo parte d'ella. Era tão es-
sencial esta manducaçã0, que do holocaustor 0D que era consumida a
victima inteira, não deixava 0 p0v0 de participar em cer[o modo comen-
do d'outra hostia que so offerecia com o holocausto. Tal era a grande lei
e a indispensavel condição do sacriflcio, lei revelada desde o principio dos
tempos, condição imposta pelo proprio Deus, pois que, coisa mui nota-
vel, es[a participação na victima existia entre todos 0s povos.
«Por toda a terra, diz Pelisson, se comia a carne das victimas. Em
todas as nações, era considerado o sacriÍicio que terminava por aquillo
como um festim solemne do homem com Deus: d'onde vem que se en-
contre tan[as vezes nos antigos poetas pagãos o festim de Jupiter, o as
viandas de Neptuno, para signiÍicar as vic[imas de que comiam depois de
as terem immolatlo áquellas falsas divindades; e se havia entre os judeus
holocaustos, isto e, sacrificios em que a victima era inteiramente queimada
em honra de Deus, os acompanhavam da offrenda d'um bolo, a Íim de que
n'aquelles mesmos sacrificios houvesse que comer para o homem (l).,
Communicar-ee clm a Diaindade plr intermedio das substancias que
lhe são immoladas: tal foi a lei do mundo inteiro an[es do nascimento do
salvador. Repetimos, a communhão fazia parte do sacrificio, do qual era
complemento e vinculo da unidatle re[igiosa. Esta ider universal era
verdadeira e propheüica. Yerdadeira, virrha d'uma revelação primitiva;

(1) Tratailo ila Euchar., p. 182. Par.is, 1694.

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DE PEnSEVEnAN§À. t2õ
prophetica, annunciava óutra communhã0, como os sacriÍicios antigos an.
nunciavam outro sacriÍicio.
Este sacrificio é o do calvario. E' tempo de mostrarmos que corres-
ponde perfeitamente aos sacriÍicios antigos e que os completa a todos. l.o
0 sacriÍicio do Calvario e holocaustico ou latreutico, porque e todo con.
sagrado e offerecido a Deus, para quem a victima é immolada toda z.o
;
é, pacifr,co ou d'acção de graças, pois que e offerecido para agradecer a
Deus os seus beneficios, e para lhe render homenagem dos seus dons ;
3.0 é propiciatorio, pois que foi ofÍerecido para expiar os peccados do
mundo e para satisfazer a justiça divina ; I*.o e impetratorio, pois que foi
offerecido para merecer e obter a todos os homens as graças e os bens
necessarios á vida do corpo e da alma, do tempo e da eternidade. Com-
pleta e substitue todos os sacriÍicios antigos, pois que é d'um valor infi-
nito: tal é a doutrina da Egreja Catholica ({).
Como todos os sacrificios antigos, deve o sacrificio cla nova alliança
ser acompanhado cl'uma communhão na Victima santa. Sendo este sacri-
flcio o de todos os tempos, de todos os paizes até ao Íim clo mundo, é
mister que a communhão na Victima que e n'elle offerecida seja possivel
a todas as gerações que vierem á terra até á consummação dos seculos.
E eis que entrou nos incomprehensiveis designios do amor [odo.poderoso
o perpetuar até ao Íim do mundo, e por meios muito superiores á nossa
fraca intelligencia, es[e mesmo sacrificio do Calvario, materialmente offe-
recido uma só vez pela salvagão do genero humano. por uma bãndade
immensa, atacando uma immensa degradaçã0, a carne divinisada e perpe-
tuamente immolada da Yictima do calvario se apresenta ao homem sob
a fórma exterior do seu alimento privilegia d,o; e aquelle que recusar c1nxer
d'ella não aitserd, (2).
Assim como a palavra, que não e na ordem material senão uma se-
rie de ondulaçoes circulares excitadas n0 ar, similbantes ás que vemgs
na superÍicie da agua tocada n'um ponto ; assim c0rn0 esta palavra, digo,
cbega todavia na sua rtrysteriosa integridade a torlo o ouvido tocado em todo
o ponto do fluido agitado, assim tambem a essencia corporea d,aquelle que
se chama palavra, radiando do centro da omnipotencia, que está em toda
a par[e, entra inteira em cada bôcca,e se multiplica ate ao infinito sem
se dividir.
Mais rapido que o relampago, mais activo que o raio, o sangue
(1) Çon. T1!d.,Sess. XXIf, c, I[ e III.
(2) Joan., YI, 54,

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-/

t26 CÀTECISUO

lheandrico penetra as enlranhas wiminlsas para'lhés devorar as maculas


({). Por uma verdadeira affinidade divina, apodera-se dos elementos tlo
homem, o transforma-os sem os destruir (2). Assim é {u0, desde a
vinda do Redemptor, o homem communga em Deus, não d'um modo fi-
gurativo, mas sim d'um modo real e substancial. 0 mesmo será em quanto
houver homens que santificar.
0ra, a continuação do Sacrificio da Cruz, que põe o homem 0ü 0s:
tatlo de participar pela manducação da grande \rictima do Calvario, é o
Sacrificio do altar. D'onde sahe per si mesma a resposta á nossa terceira
pergunta : é a NIissa um verdadeiro sacriÍicio ?
Sim, a lllissa é um verdadeiro sacrificio. Com eflei[0, a Missa, ou o
Sacrificio do altar é o mesmo que o da Cruz. No altar e no Calvario, vejo
a mesma Victima, o mesmo Sacerdote, 0s mesmos fieis; a unica differen-
ça está na maneira como é offerecido o sacrificio: cruenta no Calvario, e
incruenta no altar (3) ; alli criminosa, aqui innocente; alli os algozes,
aqui o Sacerrlote.
Primeiramente, no altar como no Calvario, a mesma victima, Nosso
Senhor Jesus Christo, se offorece e immola sob as especies do pão e do
vinho.
E' o rnesmo o Sacerdote. No Calvario, Nosso Senhor se immola a si
prOprio : Eu m,esmo é que dou a minha oida, nos diZ Elle, ndo é outro
que tn'a tira a pezar meui slu eu que a Sacrifico por minha plena tson'
tacte (tt); da mesma fórma no altar. 0 Sacerdote mortal não e mais que
o ministro clo Sacerdote eterno. 0bra só por sua ordem e por delegaçã0,
conforme estas palavras : Fazei isto em memoria de mim. Para mosl,rar
aincla melhor que o Sacerdote não obra senão em nome de Jesus Christo,
não tliz : Isto é o corpo de lesus Chrislo, mas sim : Isto é o tneu c0rp0.
0 Sacertlote secundario desapparece para deixar o Sacerdote principal
o
cgflÍerter a substancia do pão e vinho na substancia do seu corpo sangue.
No altar e no Calvario, é o m,esmo o oblecto do Samificio. Deus é o
unico a quem é offerecido. Para gloria de Deus, pára reconhecer perfei'
tamcnte o seu supremo dominio, apresentando'lhe uma Victima egual a

in me non remaneat scelerum macula. 'Lri'

i,os,
idem nunc ofrerens sacerdotis ministerio,
offerendi ratione diversa. Conc' Trid', §ess'

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DE PER§EVERÀNÇA. I27

Elle, é que se realisou o Sacrificio do Calvario: succede 0 mesmo no Sa-


crificio do altar. Nunca a Egreja catholica offerece a l\lissa a um Santo, a
um Anjo, nem ainda á augttsta Maria. Sendo o Sacrificio o acto supremo
do cul[0, não póde sem idolatria oÍIerecer-se a creatura alguma. 0s he-
rejes, que accusam a Egreja de fazêl-0, calumniam-n'a.
Ha mil e quinhentos annos que lhes respondeu s. Agostinho : «Nós
não edificamos templos, não ordenamos Sacerdotes, nem instituimos sa-
criflcios para 0s martyres ; porque elles não são os nossos deuses ; o seu
Deus é quo é o nosso Deus. E' certo que honramos os seus sepulcros
como os de bons servos de Deus que combateram pela verdade ate á
morte, e derramaram o seu sangue para propagarem a verdadeira Reli-
gião e vencerem o erro; mas quem jámais ouviu um Sacerdote catholico,
em pé ante o altar consagrado a Deus sobre 0 corpo d'um martyr, dizer
nas suas orações: Pedro, Paulo ou cypriano,. eu te offereço oste sacrifi-
cio ?

. cQuando se oÍIerece este sobre os seus monumentos, offerece-se a


Deus, que os fez homens e martyres, e que os associou aos seus Anjos.
Se estas solemnidades foram instituidas sobre os seus sepulcros, foi para
dar graças ao verdadeiro Deus pela victoria que elles alcançaram, e para
que isto nos excite a tornarmo'-nos dignos, imitando 0 seu valor, de ter
parto nas suas corôas e recompensas. Todos os ac[os de religião e pie-
dade que se praticam nos tumulos dos santos nnartyres, são portanto
honras que se prestam á sua memoria, e não sacrificios que se lhes offo-
recem c0m0 a deuses. Ivuma palavra, todo aquelle que conhece o unico
SacriÍicio dos christãos, que se offerece a Deus sobre aquelles tumulos,
tambem sabe que não se sacrifica aos martyres (,1).»
0 sacrificio do altar é offerecido para 0s nxesmls fins qae o do Cal-
vario, isto e, para adorar a Deus, para lhe agradecer, para lhe pedir as
suas graÇas e para expiar 0s nossos peccados: tal é ainda a fe da Egreja
universal; tal é tambem a palavra de Nosso Senhor: Fazei isto em memr-
ria de mim, isto é, oflerecei, como eu acabo de offerecer, a mesma Vic-
tima ao mesmo Deus e para 0s mesmos fins (2). 0 sacrificio da Missa
é pois o mesmo que o do calvario: só e differente a maneira de o offe-
reúer (3). Que digo I no sacrificio da Missa renova o Salvador não só os

(l) Qld,ad,Qry Deys,I. YfII, c. XXV[.


(2) Conc. Trid., §esa. XXII, c. f. etc.
(3) Conc. Trid., Sess. XXII.

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128 CATECI§MO

mysterios da sua morte, senão tambem os da sua rosurreição o vida glo-


riosa.
{.0 Renova n'elle os mysterios da sua morte. convertendo o pão
n0 seu c0rpo, offerece Nosso Senhor este corpo adoravel como o offere-
ceu na crüa, A Eucharistia encerra a sua Paixão (,1). Não annunciamos a
sua morte comendo-0, segundo a expressão de S. Paulo, senão porque
Elle offerece nos nossos altares a sua preciosa morle (2); e é verdade o
dizer, com S. Cypriano, gue o sacriÍicio que nós offerecemos e a mesma
Paixão do Salvador (3). Todo o apparato exterior do Calvario que falta
ao altar nada tinha de commum com o sacriÍicador; o essencial do Sacri-
ficio da cruz consistia na oblação que fez Nosso Senhor do seu corpo: a
mesma coisa acontece no altar.
o2.o Renova 0s mysterios da sua resurreição e vida gloriosa. No
altar, oflerece-se o Salvador como na resurreiçã0, pois que offerece o
seu corpo immortal e glorioso. Offerece-se como na ascensã0, pois que
sobe tambem do altar da terra ao sublime altar do Ceo, conforme as
palavras do canon, para ir alli residir e interceder em nosso favor, offe-
recendo assim sempre a mesma hostia. Por isso é que dizemos na Missa
quo offerecemos este SacriÍicio para renovarmos a memoria da Paixã0, re-
surreição e ascensão de Nosso Senhor Jesus Christo. Eis ahi pois na Missa
a reunião de todos os mysterios que foram as diversas partes, ou a conti-
nuaçã0, ou 0 fructo do sacrificio do Salvador, e o comprimento litteral
d'esta prophecia de David: «Dando o seu alimento aos quo o temem, re-
novou a memoria de todas as suas maravilhas (4).»
Estas explicações respondem d'antemão á nossa quarta pergunta : é
necessaria a Missa ?

Sim, é necessaria a Missa no plano christão da nossa santificaçã0. E'


certo que o SacriÍicio do Calvario satisfez plenamente a Deus por todos os
nossos peccados, e pagou plenamente iodas as nossas dividas, porque e
d'um valor infinito. E' suÍficiente, e mais que suÍfciente, pâtâ santificar
mil mundos, em que fossem mil vezes mais criminosos que o nosso. Tudo
isto é certo, e todavia é necessaria a Missa; porque é preciso que o Sa-
crificio do Calvario se consumme em nós, é preciso que nos seja applica-
do, identificados pela communhão na grande Yictima.

(1) Ccenam suam aledit, Passionem suam tlediü. Agost., in Psal,. XXI.
(2) Cor., XI, 26.
(3) Passío esi enim Domini sacrifisium quotl ofrerimus. Epist. LXIII ail Cacil,,
(4) PsaL, CX.

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DE PERSEVERÀNÇÀ. 129

Ora, esta divina Yictima não podia ser comida pelos fieis no Calva-
rio. Eis o que faltava ao altar tla cruz, e no altar da Egreja é que se
effectua essa manducação por meio da communhã0. A mesma Victima se
offerece n0 Calvario e nos nossos altares ; mas no Calvario não é mais
que offerecida, 'aqui e offerecida e distribuida, conforme a expressão de
S. Agostinho ({). «No al[ar, accrescenta S. Agostinho, é que se realisa a
perfeição do Sacrificio da cruz, porque Jesus Christo nos alimenta real-
mente todos os dias do sacramento da sua Paixão (2).
D'este modo, com 0 SacriÍicio da cruz, pagou Nosso Senhor o preço
do nosso resgate, e com o do altar applica-nos o fructo d'este pagamen-
to. D'onde se segue que o sacrificio da grande Victima, começado no
Calvario, não terminou entã0, mas comeÇou para durar pelos seculos
dos seculos (3). E' preciso que todas as gerações que venham a este
mundo achem preparado o divino banquete, e que possam santificar-se,
divinisar-se, christianisar-se, se me ê permittido dizêl-0, incorporando
em si o sangue e a carne de Christo, victima unica, eterna, catholica,
do ceo e da terra. A ilIissa e pois absolutamente necessaria no plano
christão da nossa santiflcacã0.

' oRAÇÃ0.

0' meu Deus, que sois todo amor I graças vos dou por terdes in-
stituido o Sacrificio dos nossos altares para perpetuar o Sacrificio do Cal-
vario e applicar-nos o fructo d'elle ; concedei-me que assista sempre á
santa Missa com as disposições necessarias para me aproveitar.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
assistirei ao Sacrificio do altar coml teria assistido ao Sawificio do Cal-
tsario,

(1) Conf.,l. IX, c. XII e XIII.


(2) Significans passionem Domini Jesu, cujus quotidie vescimur sacramento
In Psal, '
(3) S. Lig., Selua, t. II, p. 197.

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t30 CATECISMO

DU0DECIMA LtÇÃ0.

0 chrislianismo Íornado sensivel.

Drcerlencia do saerificio de Misga. lrlsúorleo.-o


§acerdoúe. serns preparaí,ivos. -f,.aeúo
suas vecles.
-
Alva. Cingulo. ilfianipulo. - DsÍole. Casuta.- Ârnlcúo.
_ Ds_
-úola - -
rlo diacono. IDalmaliea. -lIoniea do- sub-rtiaoono.-
§olrreBelliz.-Gapa- d'aspcrges.-Blqueza
-
dos ornarnenúo..

I.
ExcelleNclÀ D0 sÀNTo sacRlrrcro DÀ [nssa. Ajuntae os rnereci-
mentos da augusta
-
llaria, as adoraÇões dos Ànjos, os trabalhos flos Apos-
tolos, os soffrimentos tlos martyres, as austeridades dos anachgretas, a
pureza das virgens, as vir[udes dos confessores, n'uma palavra, as boas
obras de todos os Santos que existiram, existem e hão de existir desde
o principio do mundo até á consummação clos seculos ; accrescentae-lhes
pelo pensamento os merecimentos dos Santos de mil mundos mais per-
:
feitos que o n0ss0 e de fé que não tereis o valor d'uma só Missa. a
razáo d'isto e facil de comprehender. Todas as honras que as creaturas
podem tributar a Deus são honras finitas, em tanto que honra que re-
verte a Deus do Sacrificio dos nossos altares, sendo.lhe tributada por
uma pessoa divina, e uma honra infinita (l). Tal é pois a excellencia do
augusto sacriflcio dos nossos altares considerado em si mesmo.
Não é menos grande se 0 considerardes nos seus effoitos: é a con-
(1) Couc. Trid,, §eeo. XX[.

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DE PERSEVERÀNÇÀ. l3l
sequencia do que acabamos de dizer. De todas as obras, nenhuma ha
mais querida a Deus que a santa Missa, nenhuma que possa tão eÍflcaz-
mente desarmar a sua ira; que descarregue tão terrivel golpe nas po'
tencias do inferno; que proporcione tão grande abundancia de graÇa§ ao
homem viajante; que obtenha tão grandes allivios ás almas do Purgato'
rio.
D'oncle essas magnificas, mas justas expressões dos Padres da Egreja
e dos santos Doutores. À Missa, diz S. Odon, abbade do Cluni, é a obra
a que está ligada a salvação do mundo (l)., «A' missa, aiunta Timotheo
de Jerusalem, é que a terra deve a sua conservação; se não fosse ella,
ha muito que a teriam aniquilado os peccados dos homens (2) «Cada ,
vez que Se immola sobre o altar, continúa S. Boaventura, não faz Nosso
Senhor a0 genero humano menor favor que o que lhe concedeu fazendo-
se homem (3)., «Não sendo o Sacrificio do altar, diz S. Thomaz, senão
a applicaçã0. e renovaÇão do Sacrificio da cruz, uma missa ê para o bem
e salvação dos homens tão efficaz c0m0 o Sacrificio do Calvario (4).»
D'onde esta magniflca consequencia tirada por S. Chrysostomo: «Uma
Missa rale tanto como o Sacriflcio da cruz (5).»
Supponhamos agora que um selvagem, sahido do fundo dos deser-
tos, chega de subito a uma das nossas cidades christãs, e que lhe dizem:
Ha entre fos um sacrificio em que, á voz d'um Sacerdote, se abre o Ceo,
o Filho do grande Espirito desce a um altar, immola-se nas mãos do sa-
criÍicador, ,e nos dá a sua carne a comer e 0 seu sangue a beber, a fim
de fazer-nos viver a sua vida e fazer de nós deuses. Quaes crêdes que
seriam os pensamentos d'este pobre selvagern ? o seu respeito a tam au-
gusto sacrificio ? o seu desejo de tomar parte n'elle ? a sua preparaçã0,
0 seu terror religioso antes de participar d'elle ? a sua ternura partici-
pando ? o seu reconhecimento e jubilo depois de ter participado ?
Ora, todos estes sentimentos devemos nós sim, rlevemos nós experi-
mentar. Que digo? devem ser em nós tanto mais perfeitos, quanto mais ricos

(1) OPusc.II, c. XXYIIL


(2) Proph.
iaÍ od qíotidie dignatur-descen-
dere àupe ris âssumpsit.-De Islit,, p. I,
c. XI.
(4) issa invenitur omnis fructus quem Christ_us-operatus est
in srücís. effectus dominice passionis, ôst effectus hujus sacrificii.
In cap.YÍ
^(5) celebratio Misse quautum valet mors Chriati in ctuce.
Apud. Des

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t

132 cÀrccrsuo

somos em luzes e graças. Todavia, metta cada um de nós aqui a mão na cons-
ciencia, e diga se não deve invejar a fé e as disposições do selvagem ignorante
de quem acabamos de fallar. apressemo'-nos a mudar. Aliás, que des-
culpas teremos que apresentar a0 supremo Juiz ? que resposta a esta ar-
;
guição bem merecida Desgraçada ile ti, Bethsaitla, clesgraçada de ti,
Corozain, pois se os milagt'es que eu l,enho operado d,íante clos teus olhos
hou,uessem sido feitos em fatsor de Sodoma e Gomorrha, isto é, dos povos
mais selvagens e corruptos , teriam feito ,penitencia na cinza e no ctli-
cio (l)t
Para desviarmos de nós este anathema, temos dois deveres gue cum-
prir. Consiste o primeiro em assistir Íielmente á NIissa, lembrando-nos
d'es[e proverbio mil vezes confirmado pela experiencia: A Míssa nd,o ilemora
mais do que empobrece a esmola. A este respeito lêmos na vida de S. João
Esmoler a historia seguinte: Dois oÍliciaes do mesmo oÍlicio habitavam
a mesma cidade. Um estava carregado de numerosa familia ; o outro era
sÓ com sua mulher. 0 primeiro tinha c0m0 dever o assistir todas as ma.
nhãs á Missa em que recommendava com fervor as suas necessidades es-
pirituaes e temporaes. 0 outro, pelo contrario, para não perder um só
instante de trabalho, nunca apparecia na egreja durante a semana : até
ás vezes faltava á Missa ao domingo, sob pretexto do que a obra o não
deixava. .
Entretanto o primeiro prosperava, em tanto que o segundo perma-
necia na indigencia. D'oncle yem, disse um dia este ao cor3panheiro,
que tu te sahes bem em tudo, e que quanto mais eu trabalho, menos
adianto ? não tens mais que vir comigo, e eu te levarei ao
-a'manhã
logar onde encontro tanto que ganhar. De manhã cêdo estava elle á
porta clo visinho dizendo Eis-me aqui.: Bem t partamos. E o visinho
-
o levou á egreja, e, depois de ter ouvido i\Iissa, lhe disse que f6sse tra-
balhar. No dia seguinte fez o mesmo. Emfim no terceiro dia o homem
:
disse a0 seu piedoso visinho E' inutil levar-me de novo á egreja, pois
já sei o caminho; o que te peç0, e que me mostres o sitio onde encon-
tras tanto que ganhar, para .que eu possa aproveitar-me das tuas indica-
ções.
Meu amigo, esse sitio é a egreja; não sei d'outro melhor para ga-
nhar thesouros espirituaes e temporaes. Não sou eu que o digo, e o
proprio Jesus Christo. Não conheces estas palavras do Evangelho: pro.

(1) Luc., X, 13.

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DE PEnSEVEnÀNça. 133

curae primeiro o reino de Deus e a sua justiça, e tudo o mais vos será
dado por acrescimo; e não é na .missa que Nosso senhor, que é dono
de tudo, abre os seus thesouros ? Ao ouvir estas palavras ficou todo es-
pantado o pobre artista; entretanto, despertando-se-lhe a fé no coração,
seguiu o exeüplo do amigo. Todas as manhãs ia á missa, e depois de ter
exposto as suas necessidades ao Pae celeste, ia para o trabalho : Deus o
abençoou e breve viu prosperarem-lhe os negocios alêm das suas espe-
raDças.
0 segundo dever que temos que cumprir, é Ievar d'ora em diante
ao augusto Sacrificio as disposições que pedem o Sacerdote que oflerece,
e a Yictima gue é offerecida e na qual devemos participar (t). Com este
intuito, recolhamos cuidadosamente as preciosas instrulções'e os piedo-
sos sentimentos do que a Egreja nos offelece tam abundante manancial
em tudo quanto precede 0u acompanha a celebração dos nossos augustos
mysterios.
II. Pnun.l,nlçÃo oo slcnnnorn- attentae primeiro no saenrdote
que é ministro d'elles, e vêde com-que cuidado se prepara para este
emprego inteiramente divino. Considerae este homem tornado superior
em poder aos proprios Anjos.. À Egreja tirou-o da massa commum para
o elevar a funcções que fazem tremer os espiritos celestes. Separou-0,
experimentou-o longo tempo, fêl-o passar por muitos graus antes que po-
desse chegar ao santuario. Foi preciso formar-lhe o coraçã0, ornar-lhe o
espirito, certificar-se de que 0s seus labios seriam fieis depositarios da
sciencia, e o seu procedero modêlo do rebanho. 0 Pontifice da'nova al-
Iiança, depois de ter consultado o Ceo e a terra, depois de jejuns e rei-
teradas supplicas, fez correr sobre elle a uncção divina, o oleo flo sacer-
docio real. A palavra de Jesus Christo está alli empenhada; a sua pro-
messa é formal ; o Espirito santo desceu sobre aquelle homem, e
communicou-lhe os seus mais excellontes dons e poderes sobre-huma-
n0§.
Tantos preparativos não são ainda sufficientes. O ministro sagrado
levanta-se antes do romper da aurora para se entregar a longas orações.
Quando alfim o sino, trombeta da Egreja militante, sôa a hora do Sacri-
ficio, recolhido, penetratlo, tremulo á vista das suas augustas funcções,
caminha o Sacerdote para offerecer a Yictima quo reconcilia a creatura

ácerea rio notlo de ouvir Misaa ra regunda parre do


cut.of?0,Iiff",*i;*a:ssc.o'

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13,4 cÀrnclsuo

com o Seu Deus. Silencio n0 Ceo, silencio na terra I que elle vae nego'
ciar os maiores interesses do genero humano.
Chegado á sacristia, lava o Sacerdote as mãos dizendo: «Senhor,
purificae as minhas mãos, para que eu possa, sem macula d'alma e de
corpo, cumprir 0 vosso santo ministerio.» 0 costume de lavar as mãos
antes da oração remonta aos seculos apostollcos, e os primeiros Christãos
nunca faltavam a elle. Assim e que nas suas mais pequenas prátisas tem
conservado a Bgreja venerandas tradições.
ilI. OnNauuNros D0 Sr\cERDoro.-Detenhamo'-nos agora a examinar
as vestes sagradas de que vae revestir-se o Sacerdote. São como um li-
vro cheio de instrucção c piedade, Qü0 muitas vezes talvez tenha sido
aberto á nossa vista, e do qual nós nada tenhamos comprehendido. As
vestes do Sacerdote que celebra os santos mysterios são : {.o o amicto,
2! a alva, 3.o o cingulo, 4.o a manipuia, 5.o a estola, e 6." a casula. Se
o celebrante e Bispo, ajunta ainda outras que mais adiante explicaremos.
Na antiga lei, quizera Deus que 0s Sacerdotes e 0s levitas tivessem
vestes particulares e consagradas, quando immolavam as victimas. Herdeira
tlas tradições antigas, quiz a Egreja que 0s seus ministros estivessem tam-
bem revestidos de vestes particulares e sagradas no exercicio de suas au-
gustas funcções. 0 respeito devido ás coisas santas, assim pelos Sacer-
dotes como pelos Íieis, o impõe como dever. Além d'isso não precisam
sempre os homens de signaes externos e sensiveis cJue os chamem inte-
riormen[e á grandeza invisivel dos mysterios ? Assim e que o uso das
vestes sacerdotaes remonta aos Apostolos ('l).
«Às vestes ecclesiasticas de que se servem os Sacerdotes e 0s ou-
tros ministros para offerecerem a Deus o culto divino com todo 0 res-
peito que merece, devem ser asseadas e consagradas, e, c0m0 taes, nin-
guem deve fazer uso d'ellas senão os Sacerdotes e os que se dedicam ao
santo ministerio (2).» Acabaes de ottvir as palavras de S. Estevã0, Papa
e martyr, que vivia em 2õ0. «À religião divina, accrescenta S. Jerony-
[0, tem um trajo para 0 ministerio do altar, e outro para o uso com-
IIIUII1. »

No tempo das perseguições, eram necessariamente menos ricas as

(1)
(Zl
IIr.
tambem Tertull., d'e Monogamía, c. XII; Orig.,
Homii.,'X eron., l. XIII, comrnent. in cap. XLIY Dzeclr.;B3;
na, l. Í, c armenüe, sobr-e o urcsmo assumpto, S. Thomaz, III
p. suppl.,

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DE PERSEVDBÀNçA. I3S
vest€s sagradas; mas quando a Egreja esteve em paz, e contou entre os
seus filhos os potentados do seculo, não temeu celebran o seu culto com
magnificencia. Tudo quanto ha grande Do mundo vem de Deus e deve
ser con§agrado á sua gloria. 0 ouro e a prata peraencem-me, disse o se-
nhor (l). E que mais nobre uso se póde fazw d'elles, que empregal.os
no' cul[o d'aqtrelle que os cróou e que nos faz presente d'elles?-
Desde o principio, se teve o maior respeito ás vestes sagradas. Iyão
era licito ás mulheres tocar-lhes; guardavarn-se com religioso cuiflado em
logares consagrados. 0 sacerdote Rogaciano dava tanto valor á tunica de
que estaYa revestido ao offerecer o santo Saeriflcio,
Que a deixou em teç
tamento a s. Jeronymo, por quem tinha particularissima veneração (z).
Estudemos agora a origem d'estes diversos ornamentos, as mudanças que
os seculos teenr n'elles introduzido, as intenções da Egreja fazendo-os
usar aos seus ministros, e a razão por que são de diversas côres, segundo
as festas.
' l.o Amcro (3). o amicto é um véo braneo que o sacerdote põe
primeiro na cabeça, e desce depois ao pescogo e aos hombros. prende.o
com dois cordões que se cruzam sobre o peito. A palavra amicto vem
d'um verbo latino que significa cobrir (4). Esta veste foi introduzida,ha
mais de mil annos para cobrir o pescoço que os ecclesiasticos e os leigos
traziam nú até entã0.
A extensão dos officios, e a continuidade do canto nas frias e vastas
basilicas da edade media, exigiam esta precauçã0, 0 seu natural destino

gue o Bispo, ao dar o amicto ao moço ordenando, o adverte de gue é


um
signal do comedimento e da modestia da voz.
Os Íieis que assistem á Missa são por assim dizer co-sacrificadores
com o sacerdote, e obrigados até certo ponto a levarem as mesmas dis-
posições que elle. Devem pois tomar para si aquella advertencia, e
lem-
brar-se de que, uma vez em presença dos santos altares, lhes e vedada
qualquer conversação ou palavra com a terra.

(1) agg., rx.


(2) Hieron., Epiet.
L ad, Eeliod, Egüatrth, Rogat,
(8) Amictuá.
(4) Amicire,

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t36 cÀtEclsMo

Como tudo no Sacerdote deve recordar Jesus Christo, supremo Sa'


crificador, figura o amicto o Filho de Deus, que, baixado do ceo para
salvar o mundo, occulta a sua divindade com o mysterioso véo da huma-
nitlade (l). E' tambem o signal d'aquelle véo de ignominia com que co-
briram a sua adoravel face, quando uma multidão desenfreada, insultando
a sua qualidade de propheta, vendou aquelles olhos que viam nas trevas
e dizia: «Adivinha, Cbristo, quem foi que te deu (2). »
,Posto sobre a cabeça, Íigura o amicto o capacete do guerreiro, o re'
corda ao Sacerdote que é soldado. Com effeito, o Sacerdote que se tlispõe
para offerecer 0s santos mysterios, vae ferir um grande combate. Esta
ultima significação do amicto é expressa na oração que reciÍa o Sacerdote
ao pegar n'elle: «Senltor, ponde-me na cabeça o capacete do soldado,
para que eu possa resistir aos golpes do demonio. »
2.0 A. ÀLvÀ (3), assim chamada por causa da sua brancura, remonta
á maior a.ntiguitlade. 0 gran-saceldote da lei revestia-se d'ella para o sa-
crificio. 0s mesmos pagãos faziam uso d'esta veste quando immolavam
ags seus rleuses: era um roubo feito á verdadeira religiã0. Em toda a
parte se comprehendeu que, para approxirnar-se uma pcssoa da Divinda-
cle, eram necessarias vestes differentes d'aquelles vestidos de pelle de ani'
mal de que Deus cobriu o homem criminoso.
E' notavel que os Sacerdol,es, não só entre os Christãos, senão [am'
bem entre os judeus e os pagãos, empregaram senpre as tunicas de linho
nas funcções religiosas : é facto universal (4). Qual será a ruzáo d'isto ?
«E, responde um ptrilosoptro pagã0, porque as vestes feitas dos despojos
dos animaes não são bastante puras (5). »
0 que Pythagoras entrevia, nol-o dizem claramente os nossos aucto-
res christãos. 0 homem [eve semilre a consoiencia da sua queda, e soube
que aS vestes feitas da substancia dos animaes eram um opprobrio, um

(1) l. II, c. IX.


(2)
(3)
(li otogi,a; o mesmo, Eahulas rnàlesí.asrl,ÍL Ovidio,
ftllando
fiei.i quirt possit ad rsim
dnJ,:rl,:,seram
E n'outra parte:
scheffer
(ó)
u',, §.1l""T3,"tiffiil3'
Apollonio, intertogado ácerca
.. xrv.
nx qua'rn e tnor'
ticinis'ytlerique ferunt non-puram esse ustue eet, Apurl
Philost., 1. YIII.

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DIr PEBSEVEnÀNÇA. r37

castigo, uma libré de degradaçã0. Deixou-as para se approximar de Deus,


e testimunhou, tomando outras vestes, o desejo que tinha do recobrar a
pureza ooltando a Deus. Com effeito, poderia servir-se de vestes de Iõ
branca para as suas funcções religiosas, se não quizesse mostrar senão a
sua disposição de pureza : mas não; havia n'isso uma recordação da ma-
cula primitiva, e elle tomou vestes de linho (l). Eslas novas vestes eram
pois o emblema da nova vida de innocencia e santidade que se ia pro-
curar nos sacrificios (2).
Era tambem a alva uma veste particular á nobreza romana. E'
aquella toga ou tunica roçagante respectiva á classe distincta, por onde se
julgava da condição das pessoas. Como não ha na terra dignidade alguma
que eguale a do sacerdocio, era justo que se lhe consagrasse a veste a
que o uso unia as mais nobres ideias. Pelo seu comprimento e brancura,
recorda a alva ao Sacerdote a perseveranÇa nas boas obras, a gravidade
que deve acompanhar as suas funcções, e sobretudo a grande pureza que
deve levar para a celebração dos divinos mysterios. À oração que recita
ao pegar n'ella não lhe permitte duvidar da intenção da Egreja a este
respeito. «Senhor, diz, Iavae-me, purificae o meu c0raçã0, para que, la-
vado no sangue do Cordeiro, eu goze eternamente a alegria promettida
áquelles que houverem preenchido dignamente as suas funcções. »
Adornarlos das suas alvas, assimilham-se os ministros dos altares
áquello bando de servos Íieis que nos mostra S. Joã0, no Apocalypse,
vestidos de tunicas brancas, continuamente de pé ante o altar do Cordeiro,
occupados em servil-o no seu templo que e o Ceo. Aqui temos o mesmo
altar, a mesma Yictima, o mesmo Sacrificio: porque não haviam de ter os
sacrificadores do Cordeiro tunicas lavadas no seu sangue ? Não é pois
unicamente a mais bella antiguidade, é tambem a divina imagem da Je-
rusalem celeste o que a alva nos põe ante os olhos.
A' vista d'esta vestidura do Sacerdote lembrem-se os Íieis da santi-
dade do sacrificio a que assistem, e das disposições de innocencia ou ao
menos de compuncção e penitencia que devem levar. No decurso da sua
Paixã0, Nosso Senhor, o Filho de Deus, foi tambem revestido, por or-

ime distat a tunicis pelliceis, qum de


titus est post peccatum, et novitatem
"i:'1,'btJ'),il';ff,lY$ftlfflTJ:lti;
(2) Duranto, l. II, c. IX.

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138 GATEoI§Mo

clem de Herodes, d'uma tunica branca figurada pela alva, que d'esta sorte
yem a ser a memoria d'essa circumstancia das ignominias do Salvador.
3.0 Crxcur,o (l). Depois de ter vestido a alva, cinge-se o Sacerdote
como um guerreiro prestes para o combate. 0 cingulo e a alva sío da mes-
ma antiguidade. 0s povos antigos, que se serviam de vestidos compridos e
largos, tomaram sempre um cinto para andarem e obrarem mais commoda-
mente. Hoje o cingulo serve para o mesmo, uso : é destinado a segurar a
alva, que se não fosse isto se tornaria incommoda. Alem d'isso, adverte
o Sacerdote de que deve a sua virtude ser forte e energica, o seu animo
sem fraqueza, e deque, parasubir ao altar do Cordeiro sem macula, para
beber o seu sangue, deve desterrar ate o minimo sentimento da vida sen-
sual e mundana. À Egreja quer que, cingindo-se assim, elle peça a Deus
«qü0 lhe ponha em volta dos rins um cinto de innocencia e pureza, a Íim
de conservar a mais amavel das virüudes. »
O cingulo, Que é uma especie de corda, póde servir para nos recor-
dar os laços com que o Salvador esteve preso no jardim das Oliveiras, pe-
rante os seus juizes, á columna, e ao subir ao Calvario. Ào irem para a
Missa, devem tambem os fieis cingir-se com 0s laços do Salvador, isto é,
desterrar toda a molleza, toda a superfluidade perigosa, depôr toda a vaida-
de, e encerrar-se nos limi[es da mor[ificação christã, a Íim de não se verem
embaraçados ao caminhar atraz do divino Mestre e combater com elte (2).
4.' 0 rÍÀNrpuro (3) que o Sacerdote leva no braço esquerdo era ou-
tr'ora uma especie de lenço destinado a limpar o rosto durante os san-
tos oÍlicios. Debaixo d'este ponto de vista, é o manipulo da mais remota
antiguidade. Pelo decimo seculo, ornou-se aquelle lenç0, e guarneceu-se
de franjas e dourados, de sor[e que veio a ser um ornamento cuja mys-
teriosa significação é ao mesmo tempo a historia das nossas miserias e a
consolação das nossas magoas (4).
Servia primeiramente para limpar as lagrimas e 0 suor. Este antigo
uso do manipulo nos recorda que aqui estamos condemnados ao trabalho;
que o Ceo soffre violencia; que é necessario ganharmos com o suor do
rosto o pão da vida eterna; gue temos mil motivos de chorar tlurante a
noite do nosso desterro, mas que breve virá o dia da eterniilade em que

(1) Cingulum.
(2) Raban. Maur., l,I, Instit, cleric., c. XIII l Bernardo, l,ib. Sentent:;Beda,
l,ib. Coll,ectaneü i Bona, Ber.litwrg., l. I, c. XXY[.
(3) Manipulum.
(4) Bona, ibiil,.

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DE PEnSEVEnANÇA. u39

o Senhor limpará as nossas lagrimas ;


dia feliz em que, caminhando com
alegria, nos havemos de apresentar ao Pae de familia como ceifadores la-
boriosos, levando na mão as pavêas colhidas no meio dos trabalhos e das
lagrimas.
Tat é o sentido da oração qtle o Sacerdote dirige a Deus ao pendura'r
o manipulo no braço: «Senhor, permitti que eu mereça traz* o manipulo
das lagrimas e da dôr, a fim de receber na alegria a recompensa pro-
mettida ao trabalho.» 0 Salvador mitigou este trabalho, juntando ao seu
as varas e os açoites de que é figura o manipulo, e que nos põe ante os
olhos durante o santo Sacrificio.
0 tsispo não toma o manipulo senão quando está no altar, depois
de ter recitailo o Confr,teor. Quereis saber a ruzáo d'isto ? Outr'ora a ca-
sula, de fórma redonda, envolvia todo o c0rp0, e o manipulo, que ser-
via de lenç0, não se punha senão em ultimo logar no braço que ficava
livre: este uso, então commum a todos os Sacerdotes, não tem lugar se-
não para os Bispos. 0 Sub-diacono lhe põe o manipulo tlepois da conÍis-
são, porque, na anÍigttidade, era costume levantar a casula n'aquella oc-
casiã0, para que não embaraçasse o Sacerdote ao subir ao altar (,1).
5." A EsrolÀ (2), que rodêa o pescoço do Sacertlote e lhe desce so-
bre os joelhos, é, ornamen[o de dignidade e auctoridade. Faz-se uso
d'ella na administração dos sacramentos, e todas as vezes que se desem.
penha uma funcção que tem por objecto immetliato o adoravel corpo de
Nosso Senhor, 0u (truo se exercem certos outros ministerios para que ê
prescripto
rli ! bem sabeis que a prevaricação de nosso primeiro pae nos des-
pojou a todos da nossa grandeza e da nossa vestidura de immortalidade,
da qual é imagom esta. Ao vêrmos a estola, §acerdotes e fieis, devemos,
reis decahidos, chorar as nossas perdas, dar graças a Nosso Senhor que
as reparou, e elevar 0s nossos espiritos e coraqões para a immortal mo-
rada onde, participando todos das funcções sacerdotaes ante o altar eterno
da augusta Yictima, estaremos revestidos da estola da gloria e dos bri-
lhantes ornamentos d'uma realeza inteiramente divina.
Mas para o conseguirmos, é necessario antes levarmos a ignominia
de Jesus Christo, e carregarmo'-nos dos grilhões com que Elle clespeda-
ç0u os nossos. Eis o que préga á nossa fe a estola das nossas ceremo-

(1) É0r", Rer, liturg.,l. I, c. XXYII.


(2) Stola.

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lJ

t{0 CATECISMO

nias. Àssim é que, ao pegar n'ella, tem o Sacerdote cuidado de dizer a


Deus: «Toroae-me, Senhor, a vestô da immortalidade que perdi pela pre-
varicação de meu primeiro pao, e posto que eu me approxime, sem d'isso
ser digno, dos vossos sagrados mysterios, fazei com quo chegue todavia
á felicidade eterna.»
A estola, chamada ao principío orarium, porque servia para eru(u-
gar o rosto, era um panno de linho mui limpo e mui fino, que as pes-
soas de distincção traziam em volta do pescoço: remonta aos primeiros
seculos da Egreja. 0 Concilio de Laodicêa, reservando esta veste d'honra
para os Bispos, Presby[eros e Diaconos, prohibiu aos outros ministros o
trazêl-a (l).
6.o À cÀsura (2) é o ultimo ornamento do Sacerdote que vae celebrar.
Era outr'ora um manto redondo e mui largo, sem abertura aos lados. Era
commum aos Ieigos e aos ecclesiasticos; mas aquelles deixaram-n'0, e a
Egreja, que sabe santiÍicar as coisas mais communs, conservou-o e deu-o
exclusivamente aos Sacerdotes para offerecerem o san[o Sacrificio, ha mil
e cem annos. 0s glegos conservaram a casula sem mudança alguma. 0s
latinos cortaram-lhe pouco a pouco, ha cerca de tres. seculos, tudo o que
impedia ter os braços livres. Quando tinha a fórma primitiva, era neces-
sario levantal-a em quanto o Sacerdote incensava ou elevava o calix e a
santa hostia. Não obstante a sua nova fórma, conservou-se o uso de levan-
tar a casula n'estas circumstancias como uma recordação dos tempos an-
tigos, À fidelidade em manter as suas menores ceremonias é um serviço
que a Egreja presta ás sciencias. Quantos factos e costumes, reveladores
dos tempos passados, se perderiam se a Egreja nã0. os houvesse immor-
talisado, atloptando-os t
A mesma razÁo conserva outro uso cuja origem e significação pou-
(1) Conc. uso da estola, no sentido que acabamos de
tlizer, já era co sos paes nâo inventaram uma nova moda. A
estola era ador seu comprimento as distinguia dae pessoa§
mal conceituadas ou de condigâo inferior. Para conquistar o favor do povo, Aure-
liano foi o primeiro que Ihe deu o orarium, para que na passagem do imperarlor po-
desse o povo agitar no ar este orariurn e manifestar a sua alegtia. Yerrsc. in Awre-
lian.
(2) Cawl,a vel pl,aneta. Casulq diminutivo de easc, siguifica casinha. A ca-
sula êia outr'orâ redonda e tiio ampla que envolvia todo o corpo; era como uma ca-
sinha em que habitava o homem. D'onde veDl o seu nome. Isid., Origán.,l. XIX, c.
xxIv.
Planeta, A casula, que nâo tinha senão uma abertura para metter a cabeça, e
que nada tinhr que I se§urasse, podia g_yrar fracilmente em volta do pescogo : era
pois uma veste eirante, e por isso muito bem cbamada pl,aneta. Gernrpa ani,nerl.\
c. CCY[.

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DU PER§EVERÀNÇÀ. t&t
cas pessoas conhecem. Duraqte a Quaresma e n0§ outros dias de jejum,
o Diacono e Sub:Diacono acolyüam sem dalmatica.. Como na primitiva
Egreja as suas funcções eram mais multiplicadas nos dias de jejum e tle
Quaresma por causa da affluencia dos fieis, doixavam os seus ornamen-
tos ou os levantavam mais para estarem mais livres. Diaconi leoant pla-
netas in scapulas, diz a Oidem romana. Hoje íiram a ilalmatica por um
resto do antigo uso.
0 Bispo, ao dar a casula ao Sacerdote na ordenaçã0, o adverte de
gue ella é o signal da cbaridade que nos deve revestir inteiramente ;
d'essa eharidade que deve diffundir-se em totlas as nossas obras e ser a
gloria das outras nossas virtudes, do mesmo modo'que esta vestidura co-
bre todas as outras; d'essa charidade que deve fazer-nos compadecer das
miserias d'outrem e ensinar-nos a cobril-as com um manto de misericor-
dia que as occulte aos olhos dos homens, e d'um manto de perdão quo
as apague aos olhos de Deus.
À casula é tambem a figura do jugo de Nosso Senhor, que os Sa-
cerdotes e fieis devem levar totlos os dias ; d'osse jugo suat e e amavel
quo é a nossa gtoria e felicidade. Uma graÍrde cruz esiá marcada na ca-
sula; outras, mais pequenas, nas tlifferentes coisas que servem no Sacri-
ficio. E' para que tenhamos incessantemente diante dos olhos a obrigação
de levarmos a cruz affaz do Salvador, e para fazer-nos lembrar de que
nada podemos senão pela cruz ; que esta é toda a nossa experança; que
o altar é um verdadeiro Calvario onde se renova e perpetúa o Sacrificio da
ü:u7, e onde nós mesmos devemos immolat-nos na cruz ds Jesus Christo.
IV. OnulMENros oo DrlcoNo E Sus-»llcoNo. Dos ornamentos do
-
Presbytero passemos aos do Diacono e Sub-Diacono que o acolytam. Àlém
do amicto, da alva, do cinto e do manipulo, trazem os Diaconos a dalma-
tica e uma estola que lhes é propria. O vestido particular ao Sub-Diacono
é à tunica.
A estola do Diacono põe-se no hombro esquerdo: este uso é iml-
tado dos romanos. Nas festas solemnes do povo-rei, os principaes minis-
tros das mezas punham um guardanapo d'honra sobre o hombro esquer-
do. A Egreja deu este signal de distincção aos que serviam no banquete
divino e nas mezas em que se reuniam os fieis para celebrarem as suas
innocentes agapes. Mas este panno branco, prêso no hombro esquerdo
dos Diaconos, voava quando elles iam e vinham na egreja para cumpri-
rem 0 seu ministerio. Como podia embaraçal-os, sobretudo quando to-
mou uma fórma muito alongada, fizeram passar as duas extromidades

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{&2 CATECISMO

para o lado direito e as prenderam : a mesma coisa se observa ainda hoje.


Qualquer gue seja o nosso estado, todos somos diaconos, isto é,
seryos de Jesus christo. Tenhamos cuidado de cortar tudo o que possa
embaraçar os nossos pes na via dos mandamentos, ou deter-noi as mãos
na prática das boas obras. Taes são as ins[rucções que nos dá o Diacono
ornado da sua estola.
A dalmatica (l) é assim chamada porque era o vestido distinctivo
dos habitantes da Dalmacia. 0 papa s. silvestre ordenou que os Diaco-
nos se servissem d'ella na egreja: antes usayam da tunica (2). À dal-
matica, na sua primitiva fórma, tinha mangas curtas e largas, mui com-
modas para aquelles que eram obrigados a mover-se muito; e tornou-se
commum aos Bispos e aos Diaconos. A dalmatica era de sêda branca,
ornada de ouro, e de duas faxas de purpura. por isso é que veio a ser
uma vestidura de solemnidade que deve inspirar santa alegria, assim ao
Diacono que a ffaz, como aos fieis que a vêem. Tal e o sentido da ora-
ção que o Bispo dirige ao Diacono quando com ella o reveste na ordena-
çã0, e que o mesmo Diacono recita tomando-a para acolytar (B).
0 ornamento particular do Sub-Diacono e a tunica. Nos primeiros
seculos da Egreja, acolytavam 0s Sub-Diaconos revestidos sómente d,uma
alva; mais tarde deu-se-lhes a tunica, que é tambem uma veste de honra
e alegria (tn). A [unica era entre os romanos a vestidura ordinaria dos
simples creados; agora é, como a dalmatica, um ornamento ordinaria.
mente rico, feito do mesmo estofo que a casula dos presbyteros, com
mangas largas e curtas que não estorvam os que so servem cl'ella.
0s ministros inferiores trazem a sobrepelliz (5). Esta veste era ou-
tr'ora mais comprida; mas a côr Íicou sendo a mesma. No tempo de
S. Jeronymo, já era ordenado aos ecclesiasticos que não assistissem aos san-
tos officios senão de vestes branoas: tocante prescripção pela gual quiz
a Egreja recordar a seus filhos a innocencia que exigem os augustos
mysterios, como as botlas do Cordeiro a que assistem os Santos com ves-
tes cuja deslumbrante brancura é a imagem da pureza (6).
A capa d'asperges (7) é outra veste sagrada commum ás differentes

(l) Dalmatica.
(2)
(3) c. XXII l Bona, l. f, c. XXIY.
(4) nime,l. I, c. CCXXIX.
(5)
(6) pona, l. I, c. XXIY.
(7) Pluviale.

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DE PEBSEVDnANÇA. t&3

ordens de ministros. Era outr'ora uma larga capa, similhante ás que se


usam hoje, com a differença que em logar da gola havia um capuz que
se lançava sobre a cabeça quando chovia : d'onde o nome de plutsial dado
á capa d'asperges. Já se usaya nas ceremonias da Egreja antes do oitavo
seculo (l). A sua riqueza e as suas brilhantes cÔres figuram aquella veste
de gloria e immortalidade de que havemos de estar revestidos depois da
resurreição (2).
Como vêdes, as vestiduras sacerdotaes são um livro mysterioso em
que póde lêr o simples fiet grandes lições de virtude, pureza e charidade,
e o proprio sabio os usos e costumes da nais veneranda antiguidade.
De Cada um d'estes ornamentos, assim c0m0 de cada uma das bençãos e
ceremonias do culto catholico, sahe, por assim dizer, uma voz que dizaos
homens quer chrislãos quer não : Do fundo de todas estas coisas, quinze,
dezoito, trinta e algumas vezes sessenta seculos vos contemplam. Todas
as gerações humanas revivem aos vossos olhos, representadas por algum
dos seus ritos, por algum memoravel acontecimento da sua historia. E'
possivel ter sciencia e fé sem ser penetrado, ao vêl'as, de profundo res'
peito, d'uma veneração verdadeiramente religiosa ? Aquelle para quem
tutlo isto não é mais que um espectaculo mudo, doixa duvidar que con'
serve alguma coisa do ser intelligente (3).
Y. RrQuBzÀ Dos oRNAMENros.-Sem-duvida vestiduras tecidas a ouro
e realçatlas com bordados nada ajuntam ao valcr do Sacrifrcio. 0 Senhor
prefere costumes puros aos mais magnificos ornamentos. XIas não é do
dever do homem prestar a Deus a maior honra que lhe e possivel, e fa-
l,er servir para a magestade do sett culto 0 que ha mais bello e rico na
terra ? 0s ministros dos reis nunca apparecem na sua presença sem es-
tarem revostidos de preciosas vestiduras. Fariam uma injuria a seu amo
e julgariam faltar ao respeito á sua magestade se apparecessem junto
d'elle sem os ornamentos symbolicos dos poderes que lhes estão confia-
dos. A Egreja quer que os Sacerdotes de Jesus Christo obrem do mesmo
modo. Para dar mais gloria a seu Esposo e inspirar a seus filhos mais
piedatle e respeito, exige que 0s ornamentos dos seus clerigos sejam
não só decentes e limpos, mas tambem sempre em relação pela sua ri-
queza com a condição e cabedaes dos fieis (4).

(1) Orclem romana.


(2) Dulando, l. III, c. I.
(3) Quas aures habet, aut quid in hoc homini similo sit, nescio. Cic,
(4) M. Thirat, Espirito d,aí cerem,, p, 272.

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t&4 CATECISMO

oRAÇÃ0.

0' meu Deus, que sois todo amor I graças vos dou por terdes mul-
tiplicado as vestes sagradas dos vossos ministros; fazei com que eu me
instrua d'or'avante ao vêl-as, e gue me excite a praticar as virtudes que
ellas representam.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, o ao pro.
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em proya d'este amor,
estuilarei com cuidado as ceremonias da Egreja.

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DE PERSEVERÀNÇA. l,l*ô

DECTMA-TEBCEtBA LtÇÃ0.

0 chrislianisno Íornado sensivel.

Vc;úes dos Biepos. - Or panúufor e as melas. - À anún pel-


pellueno úunlca e o dalmaÍlca. - ÂE luvag. -
úoral.
- Á.
O annel.-A mlúra.- O baoulo. palllo.-O gremiat. -
- O do alúar.
Oôres dos ornamenúol. ParamenÍoa
-

I. 0nx.lunNros Dos Brspos. 0s ornamentos de que fallamos na li-


-
ção precedente, são cornmuns a todos os Sacerdotes. Ha outros reser-
vados aos Bispos, que com elles se revestem quando devem oÍliciar so-
lemnemente: taes são os pantufos, as meias, a cruz peitoral, a pequena
tunica, a dalmatica, as luvas, o annel,a mitrae o baculo, eopallio,se
é Arcebispo, e finalmente o gremial. Como os outros, são estes orna-
mentos cheios de recordações cla mais remota antiguidade, e dão ao Íiel
illustrado as mais bellas lições de santidade e sabedoria christãs.
l.' Plxruros E lrcras ({). 0 calçado dos antigos, principalmente
dos romanos, consistia n'uma sola prêsa por duas corrêas cruzadas sobre
o pé e passadas em volta da perna. No tempo dos imperadores, foi este
calçado substituido, para as pessoas de distincçã0, particularmente para
os principês e senadores. por outro mais rico cbamado compagia, or-
nado d'ouro e de purpura e que cobria melhor o pé (2).
À fim de manifestar por todos os meios possiveis a sua veneração
ás coisas santas, apressou-se a Egreja a dar aos seus Pontifices o cal-
çado senatorial, o mais distincto que era então conhecido, para que os
augustos mysterios fossem offerecidos com uma magnificencia exterior

(l) Calige, sandalia.


Yide Trebellius Pollio. Julius Ca ital. , e Hist. ilaAcail. das
mr*fr).,f.ff."*t".

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l&6 cÀrncrsuo

capaz de incutir respeito e excitar nos coraÇões sentimentos de piedade.


Em qualquer parte que não fosse nas suas funcções, traziam os Bis-
pos o calçado ordinario. Eis ahi porque, ainda hoje, chegado o Bispo á
egreja e subido a0 seu throno, deixa os sapatos e veste o calçado antigo,
e o descalça depois do santo sacrificio. A oração que 0 Bispo recita ao
pegar n'esta nobre vestidura, lembra que é o successor dos Apostolos,
enviado c0m0 elles para annunciar o Evangelho: «Dae, Senhor, calçado
aos meus pes, para que eu vá annunciar o Evangelho da paz, e protegei-
me á sombra das vossas âzâs. »
À prohibição feita pela Egreja a todqs 0s seus ministros, presbyte-
ros, Diaconos e sub-Diaconos, de se approximarem ao altar sem terem os
pes cobertos, subsistiu em quanto subsistiu o calçado romano, que deixa.
va o pé quasi nu. Assirn que toilos traziam especies de compaga'c ou cal-
çatlo coberto, mas differentes das dos Bispos (t).
2.' cnuz pErroRAL. Nos primeiros seculos da Egreja, os Íieis, homens
e mulheres, tinharn uma pequena cruz pendente ao pescoço ; uso vene-
rando cuja cessação não se póde deplorar de mais. Para o perpetuar quanto
está em seu poder, qtiz a Egreja que 0s seus Pontifices trouxessem uma
cruz a0 peito, sobretudo quanto celebram os santos mysterios. Esta ulur,,
posta ante os olhos do Bispo, lhe recorda Deus que morreu por elle e
os martyres que assignaram com o seu sangue a fé quo elle professa;
porque esta cruz peitoral está cheia de reliquias de martyres, como in-
dica a oração que o Bispo recita ao tomal-a.
3.0 A pEQUENA ruNlca e a DALrrAuca (2), que são o ornamento do Dia-
c0n0 e Sub-Diacono, nos recordam que o Bispo está revestido da pleni-
tude do sacerdocio, assiin como lhe dizem que deve .ter n'um grau su-
perior todas as virtudes.
&.0 L,uvls (3). Antes do oitavo secuio, já as luvas faziam parte da
veste. episcopal (&) ; recordam um facto celebre na historia dos Pal,riar-
chas, e dão ao Bispo uma grande lição de santidade. Jacob, querendo
obter a benção de seu pae Isaac, se apresentou diante d'elle com as mãos
cobertas d'uma pelle de cabrito ; esta astucia, que induziu o santo velho
a um mysterioso erro, valeu a Jacob as mais copiosas bençãos. como

(1) _Omnis-p_resbyter-m_!!§?B.'celebret ordine romano cum sandaliia, Cagi,tul.


Carol. trLagn., lib. 5, c. CCXIX.'
(2) Tunieella, dalnratica.
(3) Chirothece.
(4) Ordem romana.

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DE PERSEVERÀNÇA. Lh7

Jacob, o PontiÍice vae pedir a Deus-Padre os bens verdadeiros. À Íim de


obtêl.os procura confundir-se com seu irmão mais velho Nosso Senhor
Jesus Christo, como Jacob se occultou sob a veste d'Esau a fim de obter
a benção paterna.
Tal e o sentido da oração que faz o Bispo quando pega nas luvas.
«senhor, diz, cercae as minhas mãos da pureza do novo homem que
desceu do ceo, para que, a exemplo de Jacob, vosso querido, que, ten-
do coberto as mãos da pelle d'um cabrito, obteve a benção de seu pae,
depois de lhe ter offerecido uma carue e uma bebida excellente, eu ob-
tenha, em consideração da saudavel Victima offerecida pelas minhas mãos,
a benção da vossa graça.» Não que Deus possa ser enganado; porêm
quer, quando nos apresentamos para obter 0s seus favores, que sejamos
outros Jacobs, isto e, outros Jesus-Christos.
5.o 0 ANNBL (l) é o signal da alliança espiritual que existe entre o
Bispo e a sua Egreja, é como o sêllo do seu contracto. Tanto entre os
antigos como entre os modernos, põe-se um sêllo nos contractos, a flm
de confirmal-os e tornal-os authenticos. D'onde 0 uso ainda existento de
dar um annel á esposa na celebração do casamento. 0 annel episcopal
não é só o signal da alliança do Bispo com a sua Egreja, é tambem uma
prova da auctoridade do Espirito santo, em yirtude da qual o Bispo tem
direito de distribuir as funcções na Egreja. Tral-o no seguntlo dêdo tla
mão direita, conforme 0 costume dos hebreus, porque este dêdo e o in-
dicador do silencio ; o que recorda ao Bispc 0 inviolavel segredo dos
mysteriosr 0 â perteita discrição com que deve annuncial-os, com receio
de deitar perolas a porcos (2).
Todas estas lições, tam uteis aos Sacerdotes .e aos fieis como aos Pon-
tiÍices, se conteern nas palavras dirigidas ao Bispo, quando o Pontifice
consagrante lhe entrega o annel, symbolo de discrição e cligniclade, signal
de Íidelidade, para que «saiba callar o que deve ser callado, manifestar o
que deve ser manifestado, ligar o que deve ser Iigado e desligar o que
deve ser desligado (3).»
6.0 A Nrra.q. (4) nos leva á mais remota antiguidade. Ornava a ca-
beça do gran-sacerdote e dos sacriÍicadores da lei mosaica (5). A historia

(1) Annulus.
.(?) Jerem., c, XXII; Trebell. Poll., in M,9eqttim.r.Dur.auti, lib. II, c. fX,
n." 37 e seg.
(3) Ordem romana.
(4) Mitr.a, cidaris.
(5) Honor., Gemma animer l. f, c. CCXIV.

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{48 cÀrgcrsMo

da Egreja faz menção da mitra de S. João Evangelista e do apostolo S.


Thiago (l). E' certo que a mitra, qual a usam hoje os Bispos, differe da
antiga pela materia de que é feita e pelos ornatos que lhe realçam o brilho;
porérn é a mesma quanto ao essencial.
Veste de gloria e dignidade, recorda a mitra ao Bispo o seu supremo
sacerdocio, a codsagração de todos 0s seus sentidos, e o perfeito conheci-
mento que deve ter do Antigo e do Novo Testamento, figurados pelas
duas bandas que cahem sobre os hombros (2). Penetrado d'este peosa-
mento, pede o Bispo a Deus, ao tomal-a, que lhe dê a força e discrição
necessarias para evitar todas as ciladas que póde armar-lhe o demonio.
7.o 0 nlcuro (3) é o emblema do poder pastoral, é o cajado do
pastor; tocante figura que nos mostra a Egreja como um redil, do qual
são os fieis as ovelhas, e o.q Bispos os pastores. Não é a força cega e bruta
a que governa, mas sim a charidade, a sollicitude illustrada e sustentada
pela fe. Ao dar o baculo ao Bispo no dia da ordenaçã0, dirigem-se-lhe
estas palavras: «Recebei o bordã0, signal do vosso governo sagrado, e
lembrae-vos de fortalecer os fracos, Íirmar aquelles que vacillam, corrigir
os maus, e dirigir os bons pelo caminho da salvação eterna; recebei tam-
bem o poder de elevar aquelles que são dignos, abater aquelles que são
indignos,'com o auxilio de Jesus Christo Nosso Senhor.»
D'este modo, o que é o sceptro paia.o rei, é o baculo para o Bispo.
0 uso d'elle vem dos plimeiros seculos do Christianismo (4). Quando
sobe ao altar, deira o Bispo a mitra e o baculo; porque o seu poder des-
apparece diante do de Jesus Ctrristo. Pela razão contraria, de ncvo toma
as insignias d'elle quando se vira para o povo (5).
8.0 P^Lruo (6). Se o PontiÍice e Arcebispo ou Patriarcha, depois
de se ter revestido de todos 0s seus ornamentos, toma o pallio. E' o pallio
um ornamento que se põe sobre os hombros. E' formado de duas fitas

(1) Eusebio, l. V, c. XXIV.


(2) Innoc. III, c. LX; Antonin., 3 pd,rs. Sumrn., tit. XX, c. II; Steph.
Eduens. episc. , lib . d,e Sacram. altar ., c. XI.

Gr.oss., d,e Saor, Unct, C. Uníc.


(6) Pallium.

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DE PERSEVEnÂNÇÀ. r49
de lã branca, da Iargura de dois dêdos, que pendem sobre o peito e sobre
as cOstas, e que são semeadas de cl'uzes pretas. 0s metropoliüanos o
usam como signal de jurisdicção sobre as egrejas da sua provincia. E'
considerado tambem c0m0 o emblema da humildade, innocencia e cha-
ridade. serve para recordar ao Prelaclo a quem adorna que deve, a exem-
plo de Jesus christo, principe dos pastores, procurar a ovelha desgarra-
da, e reconduzil-a ao redil sobre os hombros. A propria materia do pal-
Iio indica sensivelmente esta tocante significação.
E' feito da lã de cordeiros completamente brancos. Em dia do
s. Ignez, e na egreja do seu nome, edificada em Roma na via Nomentana,
ahençoam'se todos 0s annos alguns cordeiros brancos, cuja lã deve servir
para fazer o pallio. Guardam-se depois em alguma communidade de reli-
giosas até ser chegado o tempo de tosquial-os. 0s pallios feitos da sua
lã depoem-se sobre o sepulcro de s. Pedro, e alli ficam totla a noite que
precede a festa d'este Apostolo. No dia seguinte são abençoaclos no altar
da egreja que lhe é consagrada, e enviados aos Prelados que teem di-
reito de 0s usar. Este direito está restringido a certos dias, e não se es.
tende além da egreja. Pelo contrario, o summo pontiflce traz sempre e
em toda a parte o pallio, por isso que está investido do supremo poder
e da jurisdicção universal sobre todas as Egrejas (l).
0 pallio e da mais remota antiguidade. s. Isidoro de pellus a (z),
que viveu no meado do quinto seculo, e s. Gregorio Magno fallam do
pallio e explicam as suas differentes signiÍicações (3). Àttribue-se a ori-
gem d'elle a s. Lino, segundo successor de s. pedro (4). Lembra o
ephod do gran-sacerdote dos judeus.

Taes são 0s ornamentos particulares aos Bispos. Se reflectirmos em


todo este mysterioso apparato de que a Religião cerca 0s seus ministros
quando devem offerecer a Victima santa, eis o pensamento que natural-

{0

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150 cÀrEcrsMo

mente se apresentará ao nosso espirito: é pois mui augusta essa Victima;


é pois mui santo o Sacrificio catholico; são pois mui formidaveis as func-
!
ções do sacerdocio NÓs mesmos, que assistimos a estes
graves myste-
rios, devemos ser mui puros E étesse justamente um dos flns que se
propôz a Egreja ao estabelecer as suas numerosas ceremonias e ao dar
aos seus Sacerdotes tantas vestes duplicadamente veneraveis pela sua an-
tiguidade e significaçã0.
il. CÔnes Dos oRNArÍENros. - A diversidade das suas côres não é
tampouco sem instrucçã0. 0 branco, Íigura da innocencia tlo Cordeiro
cle Deus, e o vermelho, figura do seu sangue derramado por nós, re-
montam aos tempos apostolicos. As outras cÔres são tambem de remota
antiguidatle (l). À Egreja, divina esposa de Jesus Christo, apresenta-se
diante de seu Bsposo revestida d'uma agradavel e mysteriosa variedade.
A sua gloria e belleza essoncial estão no interior.sem duvida;mas este
apparato exterior é a expressão cl'ellas. Conforme as circumstancias em
q* t, acha, cleixa apparecer aS SuaS disposições no exterior, a Íim de
advertir a seus Íilhos que as tragam similhantes.
Usa-se do branco, symbolo da pureza e santidade, nas festas de
Nosso Senhor e da SS. Virgem, nas dos Anjos, dos Pontifices e não Pon'
tiÍices, dos Confessgres, das Virgens, n'uma palavra dos justos que não
rlerramaram o Seu sangue pela fé. A vista do branco, recordando-nos o
Cordeiro de Deus, nos diz: Amae a pureza, que aS coisas santas são para
os Santos. Qfferecei a Deus uma alma sem macula e digna de ser rece-
bida um dia na Jerusalem celeste, onde nunca entrará coisa alguma man-
chada.
0 vermelho, que apresenta logo a ideia do sangue e do fogo, gffi-
prega-se para celebrar as festas clos Martyres. Como a gualidade propria
ão Espir'tto Santo e allumiar as almas e abrasar os coraçõss, como elle
flesceu sobre os r\postolos em fórma rle linguas de fogo, usa-se do ver-
melho para honral-0. Poderia succeder que esta imagem tlo sangue e do
fogo nos deixasse frios e sem valor? A recordação dos amphitheatros, a
recordação do cenaculo não rros dirá coisa alguma? não recebemos nós o
mesmo Espirito Santo, e não S6m0S filhos dos martyres? não corre o seu
sangue nas nossas veias? poderiamos qtteixar-nos dos fracos sacrificios
que se nos pedem, contemplando essa nuvem de testimunhas que vence'
ram immolando-se?

(1) Durando, Rational,r l' f[I, c, XYLII, n' ó.

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t' DE PDRSEVERÀNCA. t5t
Emprega-se o verde para os domingos ordinarios e para as ferias.
com effeito, não é justo consagrar, por meio d'um uso mais frequente,
esta cÔr que temos continuamente diante dos olhos? Não é conveniente
que o habitante dos campos, que vae na manhã de cada dia receber a
benção do Pae de familia antes de ir para a sua herdade, ou que vae ao
domingo descançar ante o Senhor dos trabalhos da semana, encontre nos
nossos templos o seu prado, a sua arvore, a sua parra ? Não é esta uma
bella e tocante harmonia? E depois, vós todos que gostaes de contemplar
as maravilhas da natureza, não sois felizes encontrando a[é ao pê dos al-
tares uma memoria dos beneficios do Creador, e um novo motivo de bem-
dizerdes Aquelle que espalha a verdura nas nossas aldeias e a fecundidade
nos nossos campos, QUe veste o lyrio do valle, que sustenta o passarinho,
musico das choupanas, e que prepara alimentos a tudo quan[o respira ?
0 roxo, cuja côr ê meio escura, meio brilhante, recorda juntamente
os trabalhos e as vantagens da penitencia. Emprega-se nos tempos e nas
circurnstancias em que a dôr e a esperança, que nasce d'essa mesma dôr,
são a essencia do culto divino. assim, durante o Á,dvento, geme-se, sus-
pira-se, mas geme-se sómente pela demora. suspira-se, mis osses sus-
piros chamam o Justo e o fazem descer: emprega-se pois o roxo. Na
Quaresma choramos as nossas culpas, mas vêmos o pãrdão no fim da
santa quarentena. Choramos os soffrimentos de Jesus Christo, mas vêmos
apparecer o dia glorioso da sua resurreiçã0. Choramos nas calamidades,
nas aflicções publicas ou particulares, mas esperamos o fim das mesmas
lagrimas gue derramamos. Este ineffavel mixto de tristeza e consolaçã0,
dôr e esperança, é expresso pelo roxo.
Na morto dos reis, como o poder não morre (l), e como o mesmo
golpe que faz cahir a corôa da cabeça d'um a põe na d,outro, usa-se o
roxo. Esta cÔr deve pois aniquilar-nos e confundir-nos sempre na nossa
miseria, mas reanimar o vosso valor com a consideração das misericordias
infinitas do senhor. Deve rlizer-nos sempre que devemos cbegar á gloria
pelas tribulações; que a nossa unica esperãnça está na ,roi,e
a nossa
unica felicidade n'este mundo na esperança, porque não ha na terra
senão
alegrias soÍIredoras.
Mas quando a Egreja chora seus filhos, que morreram inteiramente
para a vida presente, entã0, não encaraodo senao as penas
do purgatorio,
d'onde é mister tiral-os, não ouvindo senão as suas lãmentosas su[pucas,

(1) Coúece-ge o velho adagio: Rei norto, rei po$o.


r

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tü2 CATECISTÍO ,
para a
não rcndo senão com terror aquella passagem terrivel do tempo
eternidade, sentindo sempre a desgraçada ferida que introduziu a morte
d'aquelle
no mundo, e sempre incerta ácerca das derracleiras disposições
por quem ora; então essa terna mãe, toda entregue á sua dôr, Se veste
áe preto, e assim se apresenta ante o seu divino Esposo.
Por meio d'esta lugubre côr lhe diz eloquentemente quam grande é
a sua afflicçã0, guantaõ ideias tristes desperta n'ella aquelle castigo do
peccado que se eiecuta sobre o genero humano ha seis mil annos.
Não

iei Se me engano, mas parece'me que, Sem flizer coisa alguma, o SaCer'

clote revestido d'ornamentos pretos é um pregadbr mui eloquente'


Pa-

rece-me que d'aquella casula cóberta de lagrimas sahe uma voz


que diz:
olembra-te, ó hômemt que és pó, e que ao pó voltarás; não sabes o dia
nem a hora; está prompto. L teú irmã0, hontem; a ti áman5ã,
hoje talvez.»
mysterios
Em conclusã0, oi n.it que assistem aos nosso§ augustos
devem lembrar-se que a elles, muito mais ainda que aos israelitas,
é que
oirso, um1' raça
se dirigem estas palavrast Irds sois os Sacerdotes do Deus
real, i* poro ile Santos ({), e que as preparações que Deus prescreve
d'elles'
ao sacrificador da nova ,ilirnçt, th'as pede para se approximar
Assim como n'outr'ora enviou Moysés a0 povo para o santificar durante
dois dias, e ltre ordenar que lavasse as vestes, porque devia
ser testimu'
presença do Senhor sobre a montanha; assim tambem quer que 0s
nha da
da montanha
seus Sacerdotes advirtam aos iieis que nunca se approximem
santa do verdarleiro sinai, sem aquelle conjuncto de
virtudes interiores o
clisposições exteriores figuradas pelas vestes sacerdotaes.
m. P.Lne1tpNros D0 ÀLraR. Eis 0§ paramentos do altar e os vas6s
-
sagrados que vão continuar a mosma advertencia:
abramos os nossos espi'
ri[os e corações para a recebermos'
O altar reprãseota um sepulcro, já sabemos
porque: os sepulcros dos
Tal é ainda a ra'
martyres foram os prime,ros ãlhtes do Christianismo.
n.s llossos altares'
zão por que se .orrrr.* reliquias de Santos e martyres
Oes6-e oiprimeiros seculos foram os altares de madeira, pedra ou mar-
por pés e colum-
more, indifferentemente; eran massiços ou sustentados
o santo Sacriflcio, d'uma grande toalha
DaS. Cobriam-se, para offerecer
de palla, Já no tempo tlo
de linho ou de ,oor, á qual se dava o nome
S. Agostinho eram os altares ornados de flÔres (2)' À's vezes até decora'

tll';,'t;,ffii.nx, r, c. Yrrr.
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DE PENSEVENAN.CÀ. t53

vam as paretles das egrejas grinaldas de lyrios e rosas (l). Hoie tres toa-
lhas se poem sobre o altar, e a que está por cima é adornada de rendas
e bordados. Prescreveu a Egreja o uso d'estas tres toalhas de linho e fa-
ceis de lavar, para occorrer ao grave inconveniente que podera resultar
do cahir o calix. 0 altar deve ser consagrado pelo Bispo. Antes d'esta
consagração, gue remonta á mais remota antiguidade, não é licito celobrar
n'elles os santos mysterios (2).
Sobre o altar, vêdes tres quadros chama dos canonas, porque servem
para dirigir o Sacerdo[e, pondo-lhe diante dos olhos orações que se veria
obrigado a lêr com embaraço no missal. O maior põe-se no meio tliante
-0
tlo tabernaculo, o segundo á esquerda, e o terceiro á direita. altar, se-
gundo o antigo costume, está collocado ao oriente, para gue os fieis em
oração olhem o sol nascente, imagem d'Àquelle que é o verdadeiro Sol,
e cuja luz, depois de ter dissipado as trevas do paganismo, allumia totlo
o homem que vem a este mundo (3).
No meio do altar está o tabernaculo, onde se conserva a sagrada Eu-
charistia. Ao fallarmos da Communhã0, na segunda parte do Catecismo,
explicamos a fórma dos'antigos tabernaculos. 0 uso de conservar o SS.
Sacramento n'um tabernaculo collocado no centro do altar, debaixo tlo pé
da cruz, é de bastante remota antiguidade (4). Notaes todas as bellas tra-
dições que recorda esla palavra tabernaculo? 0 deserto do Sinai, o manná,
Aarão e os' seus levitas, todas as maravilhas realisadas a favor da antiga
Egreja, ha mais de tres mil annos, estão reunidas n'esta só palavra. Hoje,
esta mesma palavra vos recorda outras maravilhas ainda maiores: a Ceia,
o Calvario, a passagem do Redemptor pela terra, e a sua presença per-
petua no meio dos filhos dos homens. Dizei-me, conheceis palavra mais
rica que esta ?
0 tabernaculo é sobrepujado d'uma grande wlz. Mqitos seculos já
alli a toem visto, muiÍ,as gerações a teem alli adorado. Está alli para re-
cordar que o Sacrificio dos nossos al[ares é a continuação do Sacriflcio do
Calvario, e para ensinar que só a Deus é que se refere este acto supremo
de religiã0, e não aos Santos nem aos Martyres. Tres cirios, ou pelo me-
nos um de cada lado, ardem durante a Missa para honrar o signal da Re-

, (1) Hier., Epüaph, Nepot,; Grcg. Turon., de Gl,orí,a eonfr. e. L; Paulino, Nat.
IIII, §. Iel,ici,s,
(2) Ilincmarus §em-en1q iry ÇapituLl Beda, l.Y, Hdet., c. XIl Athan., Apol,
aitr C'oíwnnti,um; E,:useb., l. IV, de Viia Coistantihi,
(3) Tertull,, ailu. Valenú., q. III.
(4) YÍde Burchard, l,I, Decret, c. IX.

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tô{. CAÍECTSMO

dempção'e recordar as Catacumbas. À Religiã0, a historia e a antigui-


dade, tudo quanto ha mais proprio para elevar a alma, para mover o
coração e para dominar os sentidos, se acha reunido sobro um altar ca-
tholico. Se para o indifferente estupido não é o altar mais que uma pedra,
para o sabio, e principalmente para o Christã0, é o mais eloquente de
todos os livros; volumes de commentarios mal bastariam para explical-0.
0' filhos dos homensl até quando tereis olhos para não vêrdes ?

0RaÇÃ0.

0'meu Deus, que sois todo amorl graças vos dou por haverdes tido
tanto cuidado em inslruir-me multiplicando os ornamentos e os signaes
sagrados da Religião; abri-me o espirito e o coração a estas sanüas lições.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao proxi-
mo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
ilarei graças a Deus por ter eslabeleciil,o as auguslas ceremonias ila Re-
ligiã0.

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DE PERSEVERÀNÇA. l5ü

DEcTMA.QUARTA I-tçÃ0.

0 chris[ianisno Íornado sensivel.

Vasos sagrados. - Galix. - PaÚena, - Clborlo. - CulÚodla. *


Bengào da agua lrenÍa anÚes da trllssa do rlomlngo. - Âc-
persão da agua lrenÚa.

I. Ylsos sAGRADos. -Se os ornamentos dos ministros e os para-


mentos do altar estão cheios de memorias e instrucções, nã0 oÍferecem os
vasos sagrados menor interesse á pia curiosidade do sabio e do fiel" E
primeiramente, a sua consagração, 0 seu brilho e a sua riqueza, nos re-
cordam a nossa consagração ao Senhor e a santidade que Elle exige do
nós; porque nós tambem somos vasos sagrados. À nós incumbe o dever
de sermos muito mais santos e puros que os vasos destinados ao altar,
pois que o l)eus tres vezes santo, cujo adoravel corpo toca simplesmente
os calices e os ciborios, se incorpora em nós. 0s principaes vasos sagra-
dos são: o calix, a patena, o ciborio e a custodia.
0 calix e tam antigo como o Christianismo. N'uma copa é que Nosso
Senhor consagrou o seu divino sangue e o deu a beber aos Apostolos.
0 calix era um vaso de que se serviam os judeus nas comidas. Todos
bebiam na mesma copa, que transmittiam de mão em mão como mostra
d'amisade. O mesmo uso, signal de fraternidade, existe ainda entre varios
povos do antigo e noYo mundo.
Nos primeiros seculos, quando nossos paes não eram ricos senão da
sua pobreza e das suas virüudes, eram os calices ás vezes de vidro, de cobre,
ou de qualquer outro metal menos preoioso; porém logo que o permitti-
ram 0s recursos, foram d'ouro e de prata o calix e os outros vasos sagrados.
0 Papa Zepherino, {u0 foi eleito em 203, probibiu que se Íizessem d'ahi
em dianto d'outro metal (l). A Egreja exige hoje gue os calices sejam de

(1) Duranto, l. I, c. VII. Esta data é mui preciosa para firar a edade des
copas eucharisticas de vidro eucoutradas nas Catacumba§, Vide a uossâ flistori,a
il,as Catacwmbas. -

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t56 CATECISMO

prata, pelo menos a copa, cujo interior deve ser dourado. Em respeito ao
corpo e sangue de Nosso Senhor, consagram-se 0s vasos que servem n0
altar: esta consagração é da nais remota antiguidade (,l).
Quando todo o p0v0 commungava sob a especie do vinho, eram os
calices muito maiores que hoje. Cita-se um, enlre outros, dado por Carlos
lllagno á egreja de Aquisgram, do pêso de dezoito libras. Estes calices
tinham ordinariamente duas azas para poderem transportar-se facilmen[e.
Parece todavia que não era n0 calix principal que 0 p0v0 tomava o pre-
cioso Sangue, mas sim em calices mais pequenos, em que se deitava parte
do sangue do Salvador, consagrado no altar no calix principal (2).
Era tambem em calices particulares que 0 povo offerecia o vinlro e
a agua que deviam ser consagrados (3) : foram substituidos pelas galhe-
tas. Por mais santos que fossem todos estes vasos destinados ao altar, os
Bispos mais piedosos e illustrados, c0m0 S. Ambrosio em Milã0, S. Agos-
tinho em Hippona, e Deo Gral,ias em Carthago, não hesitavam em ven-
dêl-os para soccorrer os pobres ou remir os captivos: davam 0 menos
pelo mais (4).
A patena é um pratinho d'ouro ou de prata dourada em que dos-
cança o pão que deve ser consagrado. Quando, durante os bellos dias da
Egreja, todos aquelles que assistiam á itylissa tinham a felicidade de re-
ceber a sagrada Eucharistia, cada fiel apresentava por offrenda o pão que
devia ser conver[ido no c0rp0 de Nosso Senhor. Estas offrendas eram
collocadas sobre a patena o postas sobre o altar. ltrntão as patenas eram
muito maiores; nem é duvidoso que houvesse varias. 0 Sacerdote ser-
via-se d'ellas tambem para partir o pão e distrihuil-o mais commoda-
mente. Hoje a patena não é util senão ao Sacerdote, para depositar a
hostia que deve consagrar no santo Sacrificio. 0 uso da offrenda está
abolido. 0 numero dos que commungam e infelizmente menos conside-
ravel; e empregam-se, para distribuir a Bucharistia, os ciborios onde se
conservam as especies consagradas.
0 ciborio, feito enr fórma de calix coberto, deve ser de prata, e o
in[erior da copa dourado. Guardava-se n'outro tempo este precioso vaso
n'uma torre ou n'uma pomba de prata suspensa por cima do altar: hoje

(1) Ordem romana.


(2) Estes calices chamavam -se cal,ices rni,nist eri,ales.
(3) Amu,la oa ltama.
(4) Álguns auctores pretendem que os vâsos vendiclos pelos santos Bispos nâo
eram ciborios nem calices, mas sim outros vasos peltenseutes á Egreja. Nâo sei em
que descance similhaute opiniâo.

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DE PEASEVERANCA. r57

colloca-se no tabernaculo. 0 ciborio recorda naturalmente a arca d'al-


liança do povo d'Israel, onde estava encerrado o manná, figura da Eucha-
ristia. NIas quanto a realidade sobrepuja a figula, tanto a arca d'alliança
da nova lei sobrepuja a antiga. Basta isto para dizer qual deve ser o
nosso respeito para com ella. Em frente do tabernaculo, está suspensa
uma lampada accêsa de noite e de dia. Está alli para nos dizer que Je-
sus Christo, luz eterna do mundo, está presente nos nossos altares, que
espera as nossas aclorações, e que a nossa vida deve brilhar ante Elle
como um cirio pela santidade das nossas obras.
No tabernaculo colloca-se tambem a custodia. A custodia, fabricada
em fórma de gloria ou de sol, nos recorda pela sua fórma o verdadeiro
Sol cuja gloria allumiou o mundo, Quando, prostrados ao pe dos altares,
vêmos apparecer a custodia, que sentimentos devem aggrupar-se-nos na
alma ao lembrarmo'-nos dos povos sobre 0s quaes ainda não brilhou este
divino Sol, e do mundo inteiro antes que 0 Sol houvesse nascido sobre
-
elle I

A custodia não é tam antiga como os outros vasos sagrados; a sua


origem remonta ao tempo em que a impiedade e o erro atacaram o dog-
ma fundamental da presença real. Sempre attenta ás necessidades de
seus filhos, protestou a Egreja contra a blasphemia e a heresia. Estabe-
lecendo a festa solemne do SS. Sacramento, subministrou ás almas chris-
tãs occasião de manifestarem a sua fé, e de tributarem a0 seu divino Bs-
p0s0, prisioneiro do seu amor nos nossos tabernaculos, a adoração e ho-
menagem gue$merece.
Antes, contentavam-se, á Missa, depois do canon, de elevar um
pouco á vis[a dos fieis o corpo e sângue de Nosso Senhor, dizendo : 0m-
nis honor el, gloria: Toda a honra e gloria lhe pertencem. Desde a he-
resia de Béranger, fez-se solemnemente a elevação das sagradas especies
logo depois das palavras da consagraÇã0. No interior da egreja, prostra-
vam-se 0s assistentes para adorar, e'o sino annunciava, c0m0 annuncia
ainda hoje, aos que não tinham podido assistir ao sacriÍicio, que o Fi-
lho de Deus acabava de baixar sobre o altar, e que tinham que offere-
cer-lhe os seus respeitos e votos.
Pelo mesmo tempo, Íizeram-se exteriormente procissões em que se
levava com pompa 0 augusto sacramento, Na egreja, e em estações pre-
paradas fóra, abençoava-se 0 p0v0 com a santa hostia. Levava-se a prin.
cipio encerrada n'uma bolsa, como fazemos ainda na administração dos
enfermos distantes da egreja. Brevemente, para expôr o Salvador com

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tS8 GArEcIsMo

mais decencia e pompa ás adorações dos fieis, fizeram-se tabernaculos


portateis que se chamavam melchiseclechs, e que nós chamamos custo-
dias.
Viram-se de todas as fórmas e tamanhos; muitas representavam
uma torrinha vasada. Este emblema é rico de ideas christãs e de vene-
randas recordações, como explicamos ao fallarmos da communhã0. As
custodias eram d'ouro ou de prata dourada, ás veze§ adornatlas de pe-
dras preciosas. Hoje, a gloria pelo menos dove ser de prata, e o cres'
cente ou circulo que sustenta e encerra a santa hostia devo ser doura-
do (l).
II. BaNçÃo DÀ aGUA. r\cabamos de explicar todos os preparativos
-
do Sacriflcio formidavel : o Sacerdote com os seus ornamentos, o altar
com os seus paramentos e vasos sagrados são-nos conhecidos. Se Íosse
um dia ordinario, acompanhariamos immediatamente o santo ministro ao
altar, mas cumpre não esquecer que estamos explicando as ceremonias
tlo domingo. Ora, a Missa d'este primeiro dos dias e precedida da ben-
ção da agua benta e da procissã0. À benção da agua entra nas bençãos
geraes da Egreja, e foi a mesma razáo que a estabeleceu. Como as 0u'
tras, encerra toda a historia do genero humano. Diz-nos a creação do
homem e do mundo n'um estado de perfeiçã0, a degradação do homem,
a victoria do demonio sobre elle e sobre todas as creaturas que encheu
das suas malignas influencias, e a rehahilitação ou santificação de todas
as coisas por Nosso Senhor.
A benção da agua remonta, c0m0 as outras, aos tempos apostoli-
cos (2). S. Paulo deu o preceito d'ella n'estas palavras absolutas : E' pre-
ciso, diz, que toda a creaturü seia purifi,cada e santificada pela pala-
ara de Deus e pela oração (3). Fallando da agua em partieular: «E'
preciso, diz S. Cypriano, que a agua seja purificada e santificada pelo
Sacertlote (4). » 0 uso de abenE)ar a agua todos os domingos antes da
Missa é da mais remota antiguidade; prende evidentemente com o c6s-
tume em quo estavam os primeiros christãos de lavarem as mãos e a
cara com agua benta, a f,m de se purificarem ao entrarem na egreja (5).

í1) Thiers, l. II, c. I, sub fine; Hietori,a d,os


Sanrameúos, t. X P. 244.
(2\ Basil..
igi OmniÉ erbum Dei et orationem, Í Tim.,
IV.' 4.5.
'(4\ EPisL LXX.
(5) Miuol,og., c. XLI.

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rrE PERSEVEAANçA. tsg
Que quer pois a Egreja abençoando a agua e derramandea sobre
os fieis ? Mãe terna e cheia do sollicitude, quer recordar aos filhos a sua
queda e redempção; quer purifical-os e dar-lhes toda a santidade D0c0s.
saria para assistirem dignamente aos mysterios formidaveis; quer final-
mente preserval-os de tudo quanto podesse manchal-os e prejudical-os.
Com este intuito, junta ás suas orações os signaes mais convenientes
para mostrar o fim que se propõe.
A qualidade propria da agua é lavar; o sal preserva da corrupçã0,
e a agua e o sal misturados são um symbolo de purezâ e innocencia:
taes são as duas materias da agua benta. Revestida do mesmo poder de
seu divino Esposo a quem foi dada 4 omnipotencia no Ceo e na terra,
ordena a Egreja aos seus ministros que sub[raiam estas duas creaturas,
a agua o o sal, ao poder do demonio, e as tornem uteis ao homem, cha-
mando-as, pela santificação, ao seu primitivo destino: e o Sacerdote exor-
cisaaaguaoosal.
Exorcisar quer dizer conjurar e mandar : é termo que não convém
senão aos que fallam com suprema auctoridade. Na lingua da Egreja,
exorcisar signiÍica conjurar o demonio, expulsal-0, prohibir.lhe que faça
damno. Exorcisar a agua e o sal quer dizer que o sacerdote manda ao
demonio, da parte de Deus e pelos merecimentos da cruz de Jesus Chris-
t0, que deixe livres aquellas duas creaturas, o que deixe de servir-se
d'ellas para fazer mal aos homens, de sorte que sejam d'ahi em diante
uteis á nossa salvaçã0. Tat é o sentido dos exorcismos que so fazem so-
bre todas as creaturas inanimadas.
Dirige-so a gente a ellas, mas a0 demonio e que vão os mandados;
do mesmp modo que sobre o demonio é quo recahiu o anathema divino
depois da quéda de nossos primeiros paes, posto que Deus não fallasse
senão á serpenüe. Que as creaturas estejam viciadas, que o demonio
exerça sobre ellas grando imperio, que tenham necessidade de ser santi-
ficadas, é uma verdade de fe catholica, cujas provas démos ao fallarmos
das bençãos em geral.
ao domingo, pois, antes da llliss'a, o sacerdote, representanto d'À-
quelle quo creou os elementos, gue durante a sua vida mortal mandou
ás creaturas inanimadas, ao mar, aos ventos e ás tempestadeb, e que tan-
tas vezes expulsou os demonios dos possessos; o Sacerdote reveste-se
d'uma sobrepelliz e d'uma estola; e, precetlitlo de dois acolytos, um dos
quaes leva um cirio accêso, e o outro um pouco de sal e um hyssopê,
se dirigo á pia da agua benta.

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160 CÀTECISMO

Immediatamente pede o Sacerdote a Deus o seu àuxilio, dizendo:


Ajutorium noslrum: Todo o nlsso auailio estd no notne do Senhor. Os
fieis, representados pelo acolyto, respondem z Qui fecit, etc. : Que creou
o ceo e a terra. Pórle a confiança da Egreja ser mais bem collocada ?
Depois, estendendo a mão sobre o sal, em signal de mando, e para mos-
trar que obra em nome clo Omnipotente, continúa assim o Sacendote:
«Sal, creatura de Deus, eu te exorciso em nome do Deus vivo f, do
Deus verdadeiro f,
do Deus Santo t, do Deus que pelo propheta Eliseu
te fez deitar nas aguas para as tornar salubres. Eu te exorciso para que
fiques sendo para 0s fleis urna fonte de salvação, e proporciones áquelles
que te gostarem a saude da alma e do corpo. Fuja o espirito immundo;
desappareçam a sua malicia e as suas astucias do todos os logares onde
tu fôres espalhado, e isto em noúe d'Aquelle que ha de vir a iulgar os vi-
vos e os mortos e o seculo pelo fogo. »
Livre o sal das malignas influencias do demonio, que resta'ao Sa'
cerdote, senão supplicar ao Senhor que venha tomar posse da sua crea.
tura, a abençoe de novo e a.torne util ao genero hurnano? Convida todos
Os fleis a reunirem-se a elle para Obterem esta graça: 0remos, diz, e con-
tinüa assim: «Deus eterno e omnipotente, nós imploramos humildemente
a vossa sôberana clemencia : dignae-vos de na vossa misericordia aben-
çoar f f
este sal que creastes para uso do genero humano; sirva
e santificar
a todos aquelles que o tomarem para salvação da alma e do corpo, e tudo
o que fôr tocado ou a§per§ido com elle seja preservado do toda a impu'
,
rei^ de todo o ataque dos espiriüos malignos. Por Jesus Christo Nosso
Senhor, que vive e reina comvosco em união com o Espirito Santo, por
todos os seculos dos seculos.» Todos os fleis, pela bÔcca do acolyto,
respondem: Assim seja: Amen.
Eis purificado o sal, sim, purificatlo, isto é, restituitlo ao seu desti-
no primitivo, que era ser util ao homem, e, proporcionando a vantagem
d'este, proporcionar a gloria do Creador. Sim, diga o que disser a im-
piedade ou a levianclade mundana, é assim. Se o duvida, que responda ás
seguintes perguntas : E' certo que as meaturas estão viciadas e sujeitas ao
demonio, que se serve d ellas para fazer damno ao homem e tental'o ? E'
certo que Deus pódo purifical-as e subtrahil-as á influencia do demonio ?
E' cer[o que EIle o quer ? E' certo que póde e quer communicar o seu
poder a homens escolhidos ? E' certo que lh'o communicou ? Disse.o Elle ?
Responder aÍlirmativamente a estas perguntas, é ser catholico. Res'
pontler-lhes negativamente, é abjurar o senso commum, é condemnar o

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J
DE PERSEVERÀN.CA. 16I

genero humano. E quem sois vós para yos arrogardes similhante direito
e para dizerdes: Só eu sou sabio, só eu sou illustrado entre os mortaes ?
0 Sacerdote, pois, tendo santificado o sal, toma de novo a attitude
do mando. Estende a mã0, e dirigindo-se á agua, diz : «Agua, creatura
de Deus, eu te exorciso em nome de Deus f , Pae todo-poderoso, em nome
de Jesus Christo j-, seu Filho, Nosso Senhor, e pela virtude do Espirito
Santo f,
para que sejas uma agua pura e santa, capaz de destruir o po'
der do n0ss0 inimigo e de o abater a elle mesmo com 0S seus anjos apos-
tatas. Por Nosso Senhor Jesus Christo que ha de vir a julgar os vivos e
os mortos e o seculo pelo fogo. »
E o Sacerdote convida os fieis a pedirem com elle que Deus queira
operar o que pede. Orentos, diz, e continúa assim : «0'Detts ! que, em fa'
vor do genero humano, déstes á agua immensas propriedades, escutae
favoravelmente as nossas orações e derramae a virtude da vossa benção
f sobre este elernento que se prepara para diversas purificações. Fazei
cgm que, servindo para 0s vossos myterios, receba o effeito da vossa graÇa
;
tlivina para expulsar os demonios e curar os enfermos com que tudo
quanto fôr espargido com esta agua, nas casas e nos outros logares onde
se acharem os Íieis, seja preservado de toda a impureza e de todos os
males. Esta agua afaste d'elles todo o sopro pestilencial e corrompido;
clesvie as ciladas do inimigo occulto, e tudo quanto possa haver prejudi-
cial á saude 0u a0 descanço d'aquelles que 0s habitam, e Íinalmettte esta
saude, que pedimos pela intercessão dO vosso santo nome, seja-nos con-
servada contra todas as especies tl'ataques. Por Jesus Christo Nosso Se-
nhor, etc. »

Durante estes exorcismos e estas orações, faz o Sacerdote varios sig-


naes da crül, para lembrar que pelos merecimentos de Nosso Sonhor e
que o demonio perdeu o seu poder e que as creaturas cessam de nos ser
nocivas.
0 Sacerdote
toma depois o sal com a mão direita e o lança na agua
em fórma de cruz pronunciando estas palavras: uFaça-se a mis[,ura do
sal com a agua em nome do Padre, e do Filtro, e do Espirito Santo.»
Então os fieis, pela bôcca do acolyÍ,0, respondem : «Assim seja : Amen.»
Yem depois uma magniÍica e tocante oração pela qual supplica o Sacer-
dote ao Senhor, em nome da Egreja, que dê á agua benta todas as vir-
tudes expressas nas orações precedentes.
Diz: «O Deus t auctor d'um poder invisivel, e rei d'um imperio ina'
balavel, quo triumphaes sempre gloriosamente, que reprimis os esforços

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,

t62 CATECISUO

de todo o dominio contrario, que abateis a furia do inimigo rugitlor e que


domaes poderosamente a malicia dos vossos inimigos, nós vos supplica-
mos mui humildemente, Senhor, que olheis com olhos favoraveis esta crea-
tura de sal e agua, que realceis a sua virtude e a santifiqueis pelo orva-
lho da vossa graça, para que, pela invocação do vosso santo nome, toda
a corrupção do espirito impuro seja banida dos logares que forem asper-
gidos com ella; que seja afastado d'elles o temor da serpente venenosa,
e que implorando a vossa misericordia nós sejamos em todos os logares
assistidos pela presença do Espirito Santo. Por Nosso Senhor Jesus Chris-
to, etc. »

Estas orações ensinam-nos que temos motivo de esperar cinco effeitos


da agua benta : {.o expulsar o demonio clos logares que pôde infestar, e
fazer cessar os males que causoo; z! afastal-o de nós, dos logares que
habitamos, e de ttrdo o que serve para 0s nossos usos B.o servir para a
;
cura das enfermidades ; 4.0 attrahir-nos em todas as occasiões a presenÇa
e o auxilio do Espirito santo, para bem da nossa alma e corpo; e 5.0 apa-
gar os peccados veniaes.
E todos estes effeitos são realmente procluzidos pela agua bentá.
Para pÔl'os em duvida, e mister negar a historia ecclesiastica desde a pri-
meira até á ultima pagina. E' precisc, como os protestantes, accusar
de superstição e en'o a Egreja. E' preciso considerar impostores ou im.
becis os homens mais virtuosos e os mais grandes genios que teem ainda
brilhado na terra : Tertulliano, 0rigenes, s. Agostinho, s. Chrysosto-
rno, s. Epiphanio, s. Jeronymo, s. Gregorio, s. Bernardo e muitos ou-
tros (,1).
Isto é bastante para justificar a Egreja, qae faz uso da agua benta
nos homens, nas creaturas, nos mesmos defunclos, a Íim de excitar em
nós, quando a derramamos sobre os finados, sentimentos fle contriÇã0,
charidade e devoção proprias para lhes alliviar a alma; que asperge com
ella todos os domingos 0s fieis e o templo aonde vão assistir aos santos
oÍficios, e que a conserva sempre á porta da casa do Senhor. Isto é bas-
tante para iustificar os Íieis que, seguindo os conselhos tla Egreja, não
devem contentar-se em [omar agua benta na egreja, mas tambem leval-a
para suas casas, conserval-a 00m cuidado, tomal-a ao deitar, ao levantar,
e em diversas outras occasiões do dia, para afastar d'elles o espirito das

(1) Vide og seus respeitaveis testimunhos em Duranti, l.l c. Xl[.

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DE PERSEYERANÇÀ. {63

trevas e attrahir o auxilio de Deus em mil perigos imprevistos do corpo


e da alma (l).
III. AsppnsÃo tlÀGUÀ BENTA. Estando benta a agua, o Sacer-
-
dote, revestido da alva e estola, faz a aspersão com ella. A Egreja quer
purificar os fieis, para qqo possam assistir ao santo Sacrificio com mais
attençã0, innocencia e piedade. E' preciso mais nada para nos fazet tomar
a resolução eflicaz de não faltarmos á aspersão ? Se durante a Missa es-
tamos distrahidos, tibios e preguiçosos, a quem devemos accusar ? Adop'
tamos o meio estabelecido pela Egreja para evitar estes defeitos ?
Chegado ao pé do altar, o Sacerdote entôa este versiculo do Ps. L :
Ásperges me: Vós me aspergireis, Senhor; e 0 côro continua: Com o
hyssope, e serei purificado; e me laaareis, e ficarei mais branco que &
neue. A Egreja escolheu este versiculo, porque exprime perfeitamente os
effeitos da agua benta.
Mas porque disse o real Propheta: Yós me aspergireis com o hus-
slpe, e não com qualquer outra coisa ? Por tres razÕes : primeira, por-
que o hyssope é um arbustosinho cujas folhas, juntas e espêssas, são
mui proprias para reter as gôtas d'agua para a aspersão; segunda, por'
que a propriedade medica do hyssope é puriÍicar e seccar os maus hu-
mores, o que o torna um signal mui adequado da purificação da alma e
do corpo pela agua benta ; terceira, porque a aspersão do sangue do
cordeiro paschal ás portas das casas, 0 â aspersão da agua que puriflcava
da lepra, se faziam com um ramo de hyssope.
Estas aspersões eram figuras das do sangue de Jesus Christo. Ora,
convinha que a realidade se consummasse pelo mesmo meio que a sombra
e a Íigura. Durante a aspersã0, pois, devemos considerar-nos como o
p0\'0 d'Israel, cujas tribus, passando diante de ilIoyses na fralda do Sinai,
eram aspergidas com 0 sangue das victimas, e pedir sobre nós a asper-
são do sangue de Nosso Senhor, a grande Victima, isto e, a applicação
dos merecimentos do seu precioso sangue, o qual é o unico que póde
apagar os peccados e livrar-nos de toclo o mal.
' No tempo paschal, is[o é, rlesde a Paschoa até á Trindade, canta-se :
Vidi aquam: Vi sah'ir a,gua pelo lado direito do templo, etc. Toda occu-
pada com o Baptismo que se administrava na vespera de Paschoa, esco-
lheu a Egreja estas palavras para despertar a recordação d'elle a seus

(1) Os factos espi.rítualisúar. que dào hoje volta ao mundo, tornado nouarnente
pagã,o, sào a jusLificagâo brilbante da Egreja nas suas presuipgões aDti-demoniacas,

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16ll cÀrEorsilo

filhos. Aquelle templo sagrado, aberto do lado direito, é o Salvador cujo


lado entre-aber[o deixou correr sangue e agua, emblema do sacramento
da regeneraqã0. Entremos pois nas vistas d'esta boa mãe e sollicitemos
com ardor a conservação e recobro da nossa innocencia baptismal.
Depois de ter entoado o Asperges me, recita o Sacerdote em voz
baixa o psalmo Miserere. Se queremos obter a puriÍicação da nossa alma,
esforcemo'-nos por entrar nos sentimentos expressos por este cantico do
Rei penitente. De joelhos no primeiro degrau, asperge o sacerdote o al-
tar deitando por tres vezes agua benta, no meio, ao lado do Evangelho e
ao da Epistola. Asperge depois o santuario, que rodêa. A Egreja pro-
põe-se com isto afastar d'aquelle logar santo e formidavel o espirito das
trevas, que, n0 sentir dos Santos Padres, faz totlos os esforços para per-
turbar 0s sacerdotes e ministros durante as suas santas e formidaveis
funcções. 0 Saccrdote levanta-se e dá agua benta a si mesmo, levando o
aspersorio á testa ; depois asperge todo o p0v0 percorrendo a nave. Vol-
tando ao altar, invoca o Senhor e ltre roga conceda á assembiêa santa os
effeitos inherentes á agua benta. Eis a sua oração: «Escutae-nos, Senhor
santo, Pae omnipotente, Deus eterno, e dignae-vos de enviar dos ceos o
v0ss0 santo anjo, que conserve, mantenha, proteja, visite e defenda todos
0s que estão n'este logar. Por No-qso Senhor Jesus Christo.p
E esta oraçã0, que tem atravessado muitos seculos ({), que tem
passado pelos labios de tantos santos Sacerdotes e Pontifices, que tem
resoado aos ouviclos de tantos Santos, nossos paes e amigos ; esta ora-
çã0, que nos recorda o poder dos anjos protectores, 0s seus milagres de
charidatle, a partir d'Abrahão e Tobias, e o auxilio d'aquelle que vela
pela nossa guarda; esta oraçã0, digo, tem tudo quanto é necessario para
encher-nos c coração de conÍiança, jubilo e piedade. 0xalá produza sem-
pre em nós estas santas disposições I

(1) Sacram. Gelas., 238.

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I

DE I'ERSEVERANCA.
a t65

ORAÇÃ0.

0' meu Deus, que sois todo amor I graças vos dou por terdes es-
tabelecido bençãos para santiÍicar todas as creaturas ; concedei-me que
nunca me sirva d'ellas senão para gloria vossa.
Tomo a resolugão de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
farei todos os esforços plr assistir tÍ aspersão da agua benta antes da
Missa.

il
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t66 CÀTECISMO

DECIMA-QUINTA LlÇÃ0.

0 chrisÍianismo tornado sensivel.

Proclrcões em geral. - Facúo lrisúorioo. - Procissão do Do'


mingo anúes da üissa. - IDivisão rta ilissa. - Signifieação
d'erúa palavra.-PrimeÍra parúe rla ilflirsa ; preparação no
fundo do alÍar. - Belações enÚre as cerelnonias da prl-
nelra Barúe da Uissa o I Paixão. - §enÚimenÍos que de-
Yern dominar no noʧo ooração,

I. Pnoctssõn5 EÀI GERAL.


-Terminada
a aspersão, começa a prgcis-
são: antes de nos dirigirmos a ella, saibamos o que vamos fazer. E' a

procissão um prestito religioso e solemne d0 clero e povo. Eis mais um


rlos ritos da Egreja catholica cuja existencia nos põe ante os olhos a mais
remota antiguidade. Entre todos os p0v0s tem havido procissões. 0s
hebreus faziam-n'as muitas vezes. E' conhecida aquella que fez Salomão
com magnificencia digna d'elle, para transportar a arca d'alliança para o
templo de Jerusalem ('l) ; a do povo judaico quando sahiu ao encontro
do Salvador, levando na mã0 ramos d'oliveira, e cantando Hosanna, glo-
ria ao Filho ile DauiiL são conhecidas as dos proprios pagãos na aber-
tura dos jogos do circo, e particularnlente a que fazia a cidade d'Autun
em honra de Cybele. Esta tornou-se famosa pelo mar[yrio de S. Sym-
phoriano, do qual foi causa (2).
Esta antiguidade e universalidade das procissões não provam que
este rito sagrado e rle instituição divina, e vem d'uma revelação primi-
tiva ? Ontle colheria o homem a idea de que um prestito solemne podia

(1) Eaoil., c. XV; Jud,ith, c. XV e XYI l Esther, c. IV; Joel, c.I7; Josué,
c. VI.
(Z) Ácerca das procissões dos pagâos, vicle Brisson, 1. VII, de ?ormuits 1 e
aa Trà Rotnas, t. III, Descripção ilo granile circo,

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DE PERSEYERANCÀ. r67

honrar a Divindacle ? Herdeira de todos os usos e de todas as tradições


santas e immortaos, a Egreja, ao adoptar as procissões, tomou o gue era
seu onde o encontrou, assim entre os judeus como entre os pagãos.
Desde o principio, praticou acto de posse. As suas primeiras procissões
foram nas Catacumbas, esperando podêl-as fazw á face do sol (t).
Quaes eram o recolhimento e o fervor d'aquellas procissões dos
Christãos, pela maior parte destinados ao martyrio, caminhando á luz
dos cirios, pelas galerias subterraneas, pelo meio dos tumulos de seus
irmãos immolados pela fé, e sob a direcção d'um Bispo, ainda mais ve-
neravel pelas virtudes que pelos cabellos brancos? E' facil fazermos uma
idéa d'elles. Oxalá esta saudavel idéa nos acompanhe tambem quando
seguirmos as pisadas de nossos paes I
Pois que t a procissão do domingo no interior da egreja não se faz
n'uma Catacumba á luz dos cirios, entre tumulos de Martyres cujos sa-
grados ossos descançam, á nossa direita e esquerda, nas capellas late-
raes da basilica ? E nós proprios não somos, não devemos ser martyres
da paz, como diz s. cypriano (2), sempre promptos a immolar-nos e im-
molando sempre as nossas concupiscencias ao Deus, pelo qual derrama-
ram o seu sangue noss0s avÔs ? Que digo t não é a nossa fé, segundo a
expressão de Tertulliano, uma obrigação para o martyrio de sangue (3)?
Mas porque se fazem procissões ? qual é a razáo, qual o sentido
d'este faeto tam antigo e universal? d'onde yem que a Egreja o conserve
tam roligiosamente ? porque ordena ella, tanto nos seus dias de jubilo
00mo nos tempos de tristeza, procissões a seus fllhos ?
Penetremos o mysterio. A procissão é um acto solemne de religião
e uma grande instrucçã0. E' um ac[o solemne de religiã0, porque é uma
prece publica. Oue diz a Deus todo esse povo que, levando em trium-
pho a adorada imágem da Divindade ou d'algum santo, percorre oran-
do, cantando ou chorando, as ruas das suas cidades ou os eaminhos das
suas aldêas, senão que está penetrado de confiança em Deus; que lhe
dá graças com amor €omo á fonte de todos os bens, ou que espera abran.
dal-o, porque Elle é o vingador do crirne, e o temivel senhor do raio,
da guerra, da peste e de todos os flagellos ? Quer que esta homenagem
prestada a todas as perfeições de Deus seja publioa e que todas as cre&-
turas se unam aos seus sentirnentos.

(1) Boldetti, Oeseru. sopra i, cirni,teri.


(?) Habet et pax martyres suos.
(3) Debitricem ortyrii âdea.

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r68 CÀTECISilO

Conheceis acto religioso mais significativo e eÍflcaz ? D'ahi vem que


desde o principio do Christianismo se flzeram procissões, já para obter
favores, já para afastar calamidades (l). Não citaremos senão um unico
exemplo, porem muito memoravel. No meado do terceiro seculo, pelo
anno 27 t*, a egreja de Charras na Mesopotamia, antiga Haran, onde as-
sistira Abrabã0, tinha por Bispo um santo e sabio Pontifice chamado Ar-
chelau. Este Bispo tinha por amigo um christão chamado Marcello, illus-
[re por nascimento, riqueza e piedade. Cltarras estava nas fronteiras do
imperio romano e clo dos persas, e por isso mesmo mui exposta ás des-
graÇas da guerra.
Um dia, a guarnição romana da cidade e provincia conduziu perante
o Bispo sete mil e setecentos prisioneiros. Estava resolvida a vendêl-os
ou matal-os. Como pedia uma grande quantia de dinheiro, Archelau, in-
quieto, vae ter Com 0 seu amigo Marcello, que abre logo os seus thesou-
ros, e, sem contar, começa a distribuir aos soldados ainda mais do que
elles pediam. 0s soldados ficam maravilhados d'esta charidatle : uns não
querem receber senão a quarta parte do preço que primeiro pediram;
outros não acceitam senão as despezas de jornada; e até muitos deixam
o serviço para se fazerem Christãos.
Entretanto Marcello sabe d'um dos captivos 0 motivo da sua tles-
graça : todos eram Christãos. Acompanhados de suas mulheres e filhos,
se haviam dirigido a um lugar de peregrinaçã0, segundo o costume dos
seus pa,ssados, para alcançarem chuva n'uma occasião de sêcca.. Como
alli passassem a noite na vigilia e no jejum, opprimiu-os o sgmno. O
exercito romaüo, enoontrando-os n'esta situaqã0, os tomou por inimigOs
emboscados, matou mil e trezentos e feriu quinhentos durante a noite, e
levou os outros, no meio dos mais maus tratos, até Charras, que estava a
distancia de tres dias de caminho.
Marcello derramou copiosas lagrimas ao ouvir esta narraçã0. Ào
mesmo tempo mandava pôr setecentas mezas, onde os servia em pessoa
como outr'ora Abrahã0. Assim os sustentou por espaÇo de quinze dias,
tlepois do que pediram para voltar a suas casas. Marcello não reteve se-
não os feridos ate estarem curaCos ; depois do que os despediu egual-
mente, subministrando-lhes em abundancia tudo quanto era necessario

i:k::!?rT,II*,3ÍT*I

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..e
DE PERSEVENANÇÀ. r69

para a viagem. A estes actos de charidade havia ajuntado outro: era o


de ir, com grande numero de pessoas, enterrar os que tinham sido m6r-
tos no sitio da peregrinação ott que tinham morrido tro caminho (t).
A procissão é tambem uma grande instrucção: é a imagem da vida,
é toda a historia do genero humano passada, presente e futura. Com
offeito, que é a vida do homem senão um andar para o Ceo ? sahido de
Deus, deve voltar a Deus. Mas quem o ha de dirigir no caminho, senão
Àquelle que é luz e guia de todo o homem que vem a este mundo ? E
eis que nas nossas procissões parte a cruz d'ao pé do altar : é Jesus
Cbristo gue sahe do seio de seu Pae para descer entre os homens.
Caminha a cruz acompanhada tle luzes; os fieis vão atraz d'ella : é
Jesus Christo apparecendo no meio de nós, cliffundindo a luz da sua dou-
trina, e recolhendo na passagem os escolhidos de Deus, dispersos pelos
quatro ventos (l). À cruz precede o prestito: é Jesus Christo conductor
do homem no caminho do Ceo. Logo á cruz so reunem as bandeiras;
n'uma está a imagem de Maria, e nas ou[ras as imagens dos Santos.
Yeem ainda relicarios, especies de carros de triumpho onde descançam
os sagrados corpos dos gloriosos vencedores do mundo e do demonio;
todos estão alli para dirigirem os nossos passos e animarem a nossa co-
ragem. Segue o p0v0 orando, e cantando alternativamente as suas espe-
ranças e dôres.
Àh I é aqui principalmente que está a imagem da vida, da vida chris-
tá. I§ão é no meio das orações, das lagrimas e dos suspiros, que o exi-
lado realisa a sua peregrinação ate ás raias da patria ? Não é seguindo
as pisadas de Jesus Christo e sob a protecção de Maria e dos Santos,
que devemos caminhar para o Ceo ? Não é esta uma das mais impor-
tantes lições de que tem precisão o homem ?
Àpenas se põe em movimento a procissã0, quando se faz ouvir o
som dos sinos : são as trombetas da Egreja militante que annunciam a pas-
sagem do grande Rei e do seu exercito; passagem acompanhada de com-
bates sem cessar renascentes contra as legiões infernaes, contra as seduc-
ções do mundo e as paixões rebelladas. A procissão descreve differentes
linhas, percorre differentes caminhos: é Jesus Christo percorrendo o

Mort,fratrds; Chrys,, Homi,l,, LXX, ad, Pap,

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--
t70 e,â,TECISM0

muodo, ôhamando a si todos os homens do 0riente e Occidente. Final-


mente a procissão volta á egreja: é Jesus Christo vohando ao Ceo, le-
vando alraz de si os escolhidos salvos pelo seu saogue e allumiados pelas
suas palavras. À cruz ,vae descaoçar ao pé do altar, no mesmo sitio
d'onde partira: é Jesus Cbristo descançando no seu throno á direita de
seu Pae, depois de lbe ter conquistado um povo inteiro de adoradores.
Os Íieis, voltando ao sitio d'onde tinham partido, são o homem, filho do
Ceo, de regresso ao Ceo; são o desterrado tornando á patria. Está aca-
bada a procissão; está terminada a vida: o eis uma grande, uma tocante
Iição dada ao homem; lição mais significativa, mais eloquente e mais com-
pleta que todos os discursos dos philosophos (l).
II. PnocrssÃo Do DoMINGo. Tal e a significação geral das procis-
-
sÕes. Pola maior parte relacionam-se tambem com acontecimentos me-
moraveis cuja recordação €ouservam de geração em geraçã0. A do do-
mingo antes da Missa cantada foi estabelecida para recordar uma circum-
stancia da resurreição de Nosso Senbor.
Está escripto que os Anjos, dirigindo-se ás santas mulheres chegadas
para visitar o sepulcro, lhes disseram: «Ide, e dizei aos discipulos e a
Pedro: O Senhor vos precederá em Galitêa.» E o proprio Senhor, encon-
trando-as quando sahiam do sepulcro, lhes disse, depois de o terem ado-
rado e lhe haverem abraçado os sagrados joelhos: qlde, e dae aviso a
meus irmãos que vão a Galilêa: lá me verã0.» A Egreja, tomando para
si estas palavras, se põo em movimento todos os domingos antes do au-
gusto §acrificio, e vae, como as santas mulheres, annunciar por todas as
partes a seus filhos que seu Esposo resuscitou. E'no mesmo dia e quasi
á mesma hora om que foi dada aquella ordem no Calvario ás santas mu-
lheres de Jerusalem que a Egreja a cumpre, ha mil e oitocentos annos,
em todog os pontos do globo (2).
Eis como as nossas mais pequenas ceremonias aütestam a todas as
gerações os grandes acontecimentos em que descança a historia do ge-
nero humano. N'esta procissão asperge a Egreja a seus filhos com agua
benta em memoria do Baptismo, porque totlos os domingos do anno são
cono uma continuação do domingo de Paschoa e do Pentecostes, dias so-
lemnes em que se dava o Baptismo nos primeiros seculos: porque a noite
que precedia estas grandes festas fazia parte das mesmas festas. Crê-se

(1) À respeito de tudo- i!to, vide os iuteressantes pormeaores dados por Du-
randà,'.Rcríon.-ilia. ofu.t l. IV, c. IV.
(2) 'Fallamos alo uso antigo.

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DE PDR§EVDNANÇA. l'll
coilrmunulente que foi o Papa Agapeto que estabeleceu a prucissão dO
tlomingo (l).
dizêl-o ? : As procissões com as oeremoülas e oraçoes
E; nàcessario
viajantes
de que são acompanhadas, devem fazer'nos pensar qqe §omos
na terra, que 0 Ceoé a nossa patria, e que temos precisão de Nosso Se-
verdade e
nhor para-tendermo§ e chegarmos a ella. Elte é o caminho, a
a vida: o caminho por onde se vae, a verdade a que Se tood6, o a viila
em qus se permanece eternamente (2)'
III.MrrsA, pRrMEtRÀ pÀRrE. Eis-nos de volta da procissão reco-:
-
agora, que vae começar o augusto sacrificio. Dividiremos a
lhamo,-nos
Missa em seis -fazpartós (3). À primeira comprehende a preparação do Sa-
crificio, que se no fundo do altar; a segunila, desde o Inhoito até ao
Qffertorio ; a úerceira, desde o Offertorio átg ao Canon ; a quarta, detde
o Canon até ao Pater; a quinta, desde a oração Libera mos a[é á Com'
munhão; e a seaüa, desde a Comrnunhão até ao fim da Missa (4).
À palavra missa quor clizer despeiliia. Nos primeiros seculos da
Egroja, iravia tluas despetlitlas dos assistentes. A primeira era depois do
evangelho e da instrucção, quanilo o Diac.ono avisava os cathecumenos, os
iúeii, os penitentes e todos o§ que não deviam tomar parte nos santos
mysterios, para sahirem da Egreja: esta despedida chamava-se a rrmi§§4

o1 a ilespedida dos catlrccumenos. A segunda era quando depois tla cele-


bração do santo Sacrificio o mesmo Diacono dizia aos fleis: «Sahi, é che-
gada a occasião (5). » E esta segunda despedida chamava'se a missa ou a
ilespeiliila dos fieis (6).
Grandes doutores, entre outros S. Thomaz, Hugo de S. Yictor, In-
nocencio III, S. Boaventura e Bellarmino dão á palavra Missa uma signi-
ficação mais alta. Segundo elles, Missa vem do verbo latino MiÜto, qrut
significa enoi,ar. Com effeito no santo sacrificio tla Missa nos envia o Pa-
dre eterno a seu Filho unioo, como victirna para lhe offerecermos. A
o, l. IV, c. VI; id.,l. X.I, c. X; Meu4ier
ess. Ecclesia.

fertorio; a seg"unda para ailorar, desde


pedir, tleede a Consagtaçâo á Commuuh
muúão até ao fim.
(5) fte, Missa est.
(6) Boua, l. I, c. I. j

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172 cArEcrsuo

Egreja' que o recebe n'este estado, o immola pelas mãos 6o Sacer6oüe


e
o reenvia ao Padre eterno.
«0 sacrificio do artar, diz s. Thomaz, chama.se Missa,porque Jesus
Christo nos é enviad-o por Deus para lhe ser offerecido como trostia pura
e agradavel a seus olhos. D'onde vem que no flm da Missa o diacono vol-
tando-se para o povo o despede dizendo-lhe: Ide, ella (a Hostia)
é missa,
isto é, a Hostia é enviada a Deus, para que lhe seja agraoavet (l;.,
Segundo estes illustres doutores, a palavra Missa-significa a missã0,
o enviamento por excellencia e unico digno d'este nome, o da granrle vic-
tima ao genero humano, pelo padre eterno, e o da mesma victima ao
Padre eterno pelo genero humano. Assim é que na Missa as orações do
cTon_durante.o qual se effectua o augusto sacrificio, se chamam a acçd,0,
a âcção propriamente dita, ante a qual empallidecem todas as outras.
Nova prova da profunda philosophia da linguagem christã.
o nome de Missa, dado aos santos mysterios, parece nascido com a
Egreja; encontra-se destle o principio do christianismo. pelo anno 166,
escrevendo o Papa S. Pio a Justo, Bispo de yienna, lhe disse: «Nossa
irmã Euprepia, como estaes lembrado, deu a sua casa aos pobres. N,ella
assistimos agora e celebramos ilíassa (z),» Em z54., escrevendo o papa
s. cornelio a Lupicino, Bispo da mesma Egreja de vienna, lhe disse :
«Não é licito agora aos Christãos celebrar publicamente Missa,nem mesmo
nas catacumbas mais conhecidas, por causa da violencia da persegui-
ção (3).»
L primeiro parte da Missa é a preparação que se faz no fundo do
altar. 0 Sacerdote, encarregado do ministerio mais augusto e formidavel,
sahe da sacristia ataviado dos seus ornamentos, e caminha com mo-
destia e gravidade para consummar a grande acção que deve reconciliar o
ceo com a terra. Mais um instante, e fará chover sobre o mundo as ben-
çãos mais copiosas, ou antes fará chover o Justo, anctor de toda a graÇa.
chegado ao pe do altar, que saúda profundaments, não ousa transpôr-lhe
os degraus, ou, se os sobe para alguns preparativos necessarios, os torna
logo a descer como repellido pela magestade do Deus que vae apparecer.
Prostra-se de novo e cliz: ht, nom,ine patris, etc. para sacrificar uma
victima, é preciso ter direito sobre a sua vida. Ora, só Deus tem direito

(t) S. Thomaz, III pag. 9, 83, art, 4, atl. 9.


(2). Soro.r nostt'a Euprepia, sicut bene recordaris, titulum domus sua Ipauperi-
-bus assignavit, ubi nunc commorautes missas agimus.' Baronio, an. 166.
(3) Bona, c. III, p. 13.

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DE PEBSEVEBANÇA. t73

sobre a vitla do Verbo incarnado, victima do Sacrificio do altar. À fim,


pois, de poder offerecer Jesus Christo a Deus seu Pae, precisa o Sacer-
àote da aúctoridatle do mesmo Deus. Esta auctoridade lhe foi promettida,
e inherente ao seu sacerdocio, e elle invoca-a dizendo: Em nome do Pae.
Em nome do Pae, unico que tem direito tle sacriÍicar seu Filho, por-
só EIle tem direito sobre a sua vicla; em nome do Pae, pela auctoridade,
-pela escolha e pela vocação tlo qual eu sou Sacerdote'
8
Em nome d,o Filho, isto é, na Sua pessoa e no Seu lOgar, ComO fa-
zendo parte d'este Sacerdote unico e eterno, corno associado a0 seu sacer-
tlocio e revestido do seu potler, para que faça na terra, pelo meu minis'
terio, 0 que Elle proprio fez na cruz, e 0 que ainda faz no Ceo.
Em nome d,o Espi,rito Sanl,o, isto e, no seu poder; porque por elle
e que a victima d'este Sacrifieio foi formada no seio da augusta Maria;
por elte e que eu poss0 ter a santidade necessaria ás minhas formidaveis
iuncções. Tal é pois a significação tlo signal da cruz que o Sacerdole faz
em si no princiPio da }Iissa.
Em nome do Pae, de quem sou Sacerdote;
Em nome do Filho, em quem sou Sacerdote;
Em nome do Espirito Santo, por quem sou Sacerdote;
Em nome do Pae, a quem offereço o Sacrificio;
Em nome do Filho, que offereço em sacriÍicio;
Em nome do Espirito Santo, por quem o offereço em sacriÍicio.
0 Sacertlote precisa de trazer á memoria todas estas recordações para
que 6use emprehentler a immolação da grande'Victima. Co-sacriÍicadores
io*o o Sacerrlote, tambem 0s fieis clevem trazêl-as á memoria. Para isso,
devem fazer com particular respeito e attenção o signal cla cruz, que co-
meÇa a Missa. Espantado do que vae fazer, exclama o Sacerdote: Como !
irei a montanha santa,, subirei ao altar do Deus oiuo! Introibo ad altare
Deil A,qui começa entre elle e o povo reuniclo, representado pelo acolyto
gue responde á missa, um d'aquelles inimitaveis dialogos que se não en'
contram em lingua alguma humana
Temenclo que o mêtlo detenha o Sacerdote, o acolyto parece animal'o
em ngme tle todo 0 p0v0, a quem reune o desejo de colher os fructos do
Sacrificio: Sirn, llte diz, ireis ao Deus bom e clemente tlue alegrü d n\ssa,
jutsentu,ile: Ad, Dewn, etc. Estas palavras ainda o não tranquillisam. En-
tã0, fallando directamente a Deus, lhe pede que entre em iuizo com elle,
antes que transponha o Iimite sagrado. Rcrga-lhe que não dê a[tenção ás
suas culpas, mas se lembre só de que é da naÇão santa, e que deseja ser

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ne CÀTECI§UO

inteiramente separado da meotira e iniguidade. Supplica-lhe gue lhe en-


vie do alto a sua divina lruz, aquelle ospirito de verdade e fé que póde
conduzil.o com segurança á montanha da salvaçã0, ao tabernãculo augusto
onde reside a magestade do Todo-Poderoso.
Em quauto assim se occupa com o senhor, sempÍe Íemeroso da sua
indignidade, o povo, representado pelo acolyto, assustado com aquella
indecisão e aquellas dilações, o interrompe por varias vezes para o exci-
tar. Recorda-lhe que o Senhor é a nossa força 6 o nosso sustentaculo; r
que sabe curar as nossas feridas e tornar á nossa alma a sua formosüra.
Sim, lhe diz de novo, ireis ao altar do Deus que alegrü a nossa juoen-
tude. Cedendo ás suas reiteradas instancias, exclama o Sacerdote: Sim,
meu Deus, canta,rei os tsossos l,ouaores d face da üerra; e üu, mirúta alma,
porque estds triste e rne conturbas d,'este m,oiln ? 0 povo continúa: Espe-
rae no Senhor; nós o bemdiremos cornuosco. E' o nosso Salaador e o nl§so
Deus. Gloria lhe seja dada: Glori,a Paüri, etc.; responde o Sacerdote.
E o povo, unindo a sua voz a d'elle, acaba o louvor da augusta Trindade:
Sicut ero,t, elc.
Mas, como se se arrependesse da promessa que acaba de fazer, o
t
Sacerdote se espanta de novo : Como subirei, ao altar de l)eus t Certa-
mente, lhe responde o povo, o Deus de misericordia vos chama. Ainda
uma vez, é o Deus bom, o Deus quealegraanosso iuoentuih. Pois bem,
está deoidido, diz o Sacerdol,e, ponho a rninha força e confiançq, no nome
ilo Senhor: Adjutorium noslru,m, etc. E' bem collacada, respondeu o povo :
foi Elle que fez o Ceo e tücrra: Qui fecit, etc Bntã0, inclinando-se pro-
fundamento e batendo no peito como o publicano quo não se atrevia a le-
vantar os olhos, o SacerdoÍe se declara culpado á face do Ceo e da terra.
Collocado entro a Jerusalem celeste e a Jerusalem Íerrestre, chama estas
duas cidades a ouvirem a rolação das suas culpas, e lhes supplica solti-
citem o perdão d'ellas : Confileor, otc.
O povo da terra, unindo a voz á do povo do Ceo, responde: «0 Se-
nhor Deus omnipotente tenha misericordia de vós, e depois de vos ter
pordoado os peccados vos conduza á vida eterna : Misereatur, etc,» Em
quauto üoda a Egreja pede graça e perdão para o seu ministro, perma-
nece este profundamente inclinado na attitude d'um supplicante. Antes de
erguer-se, exprime o unico voto que tem no coração: Amen: «Àssim
seja, diz ao povo; o Senhor escute as vossas preces e purifique a minha
alma. »

Movido por esta hunildade do Sacerdo[e, comprehende o povo que

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DE PEn§E3EBÂNÇA. 17Ü

tambem tem necessidade de perdão e de misericordia. E do facto, não


ofrerece elle oom o Sacerdoto ? Não deve ser santo como elle ? Verá o
Senhor com complacencia a offrenda do seu ministro, se o povo por
quem estp ora nada faz para purificar-se a si proprio ? Tomando por sua
yez a attitude do penitente, confessa o povo humildemente as suas eulpas,
bate no peito e petle ao Sacerdote, a quem chama seu pae, que rogue
por elle ao Deus todo-poderoso. 0 Sacerdote responde : q0 Senhor om-
nipotente tenlra misericordia de vós, e depois de vos ter perdoado os pec-
câdos vos conduza á vida eterna.» Depois, unindo a sua causa á do povo,
accrescenta: «0 Senhor omnipotente e misericordioso z0§ Gonceda a in-
dulgencia, absolvição e remissão dos mossos peccados.» Dizendo esta ora-
çáo,faz o signal da crua a fim de restabelecer em si e no povo a imagem
de Jesus Christo crucificado, imagem de innocencia e santidade perfeita.
Com que olhos pensaes que deva a Egneja do Ceo, irmã mais velha
da Egreja da terra, vêr a sua joven irmã humilhando-se assim e arrepen-
tlendo-se ante o Pae commum ? As ovelhas rogam pelo pastor, e o pas-
tor pelas ovelhas. Acaso ha espectaeulo mais enternecedor e mais proprio
para fazer descer á terra um rio de misericordia ?
Cheio de confiança, dirigindo-se o Sacerdote ao Senhor, lhe diz:
Agora, Senhor, tsos tsirareis para nls e nos olhareis com olhos propicios;
e esse olhar nos il,ardaida: Deus, tu conaer,§fi§, etc. Ao que o povo ajunta
estas tocantes palavras : E o uosso pot)o se alegrard, em ods. 0 vosso povo,
este povo que tendes amado [anto, por amor do gual haveis operado tan-
tos prodigios; este povo que yos é charo como as'meninas dos olhos;
este povo se alegrará em vós, e a alegria dos fllhos fará a felicitlade e
gloria do pae : Bt plebs üua, etc.
Estas orações mu[uas, este commercio pathetico de charidade, esta
humilhação perante Deus, restituiram ao coração a confiança e alegria.
0 Sacerdote e o povo acabam o seu admiravel dialogo, rogando ao Se-
nhor deixe subir até aos ouvidos do seu coração o brado do amor d'elles.
Dissemos que este dialogo é admiravel. Se quizessemos examinal-o
com os olhos profanos da critica litteraria, não seria diflicil mostrar que
a Egreja, quo o põe na bôcca de seus filhos no momento da acção mais
tremenda e mais santa, conheceu perfeitamente a theoria das paiaões.
Com effeito, um sentimento vivo, profundo, qualquer que seja, dôr, amor,
odio, tristeza, indignidade, revolve-se incessantemente sobre si mesmo.
Podeis variar os termos para o exprimirdes, mas elle volta sempre ao
mesmo ponto. 0ra, vêde como o sentimento tle indignidade, de miseria,

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t76 cÀrEcrsuo

de humildade que penetra o sacerdote 0 o poyo em face do altar do


Deus tres vezes santo, se repete contínuamente e se exprime em cada
palavra !

o Inüroibo e o psalmo ludica. estão em uso na Egreja romana ha


mais de setecentos annos (t). Antes do nono seculo, dava-se aos Bispos
e sacerdotes a Iiberdade de fazerem esta preparaçã0, conforme a sua de-
voçã0, qrer sós e em silencio, quer com os ministros. se os summos
Pontifices mndaram depois este cos[ume, abstende-vos de pensar que se
julgaram mais illustrados e mais sabios que 0s seus predecessores ou os
Apostolos ; nã0, o tempo e as circumstancias e que o exigiram.
Nas Missas dos defunctos e no tempo da Paixã0, supprime-se este psat-
[t0, por causa d'estas palavras: o' minha alma!porque esl,tÍs triste?
Quare trislis es ? etc. Estas palavras devem desterrar toda a tristeza, ao
passo gue as lugubres ceremonias do oÍficio dos defunctos e do tempo
da Paixão a inspiram. Todavia, n'essas mesmas'Missas, a Egreja não tira
a0 Sacerdote a consolação interior que espera encontrar no altar. Por
isso diz sempre : Entrarei até ao alüar do Deus que alegra a minha ju-
oentude (2).
antes de separar-se do povo para subir á montanha santa, lhe diz
0 Sacerdote : 0 Senhor seja comulscl: Dominus tsobiscum; e o povo
responde : E tambem com 0 ülsso espirilo: Et, cum spiritu tato. Estas
palat'ras, tiradas da Escriptura Sagrada, são desde remota antiguidade
empregadas pela Egreja para exprimir a saudação mutua do Sacerdote
e do povo : encerrain um grande sentirlo. Âcostumados a ouvil-as sahir
da bôcca do sacerdote, e talvez a responder-lhe por habito, havemos
alguma vez meditado o que elle nos promette da parte de Deus, e o quo
nós do nosso lado lhe desejamos ?
0 senhor seja comvosco ! ah t que melhol coisa póde desejar-nos o
Sacerdote ? Na occasião do Sacrificio é que elle dirige aos fieis estas pala-
vras, cujo sentido e este: «Durante a augusta acção em que vae o Ceo
abrir-se, em que Deus vae descer, em que eu vou trac[ar dos vossos
maiores interesses, o Espirito tle Deus descance sobre vós. Forme em r,ós
o espirito d'oraçã0, e dê-vos as santas tiisposições de arrependimento e
fervor necessarias ao bom exito das vossas petições. 0 Senhor seja com-
v0sc0 n'este momento em que Elle proprio deseja com tanto ardor unir-se

(1) Innocencio III, l. Xl, d,e Myst. Misse, c. XIII.


(2) Lcbrun, p. 113.

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DE PERsEvERÀNÇÀ. l-t7

a vós.» Por ventura ha desejo mais tocante e mais amplo? Não lbe po-
nhamos obstaculos, e elle se cumprirá em nosso fat'or.
A resposta que o povo dá ao Sacerdote encerra os mesmos votos:
E com o Dossl espirito. 0 povo não diz: E comvosco, mas sim: Com o
vosso espirito; ( porque, diz um auctor do nono secttlo, tudo é myste-
rioso. e espiritual nas funcções quç elle vae desempenhar, e porque o seu
coração não póde ser penetrado da grandeza do seu ministerio senão em
quanto o seu espirito se applica a reflectil nas grandes verdades contidas
nas orações que deve recitar. » N'uma palavra, o povo não considera o
Sacerdote c0m0 um homem, mas sim como um pur0 espirito, c0m0 um
anjo de Deus que vae penetrar por elle no tremendo santuario, e desem-
penhar a funcção mais angelica com que póde ser honrada uma creatura.
D'este modo, o Sacerdote deseja aos fieis que Nosso Senhor esteja no
meio d'elles, e 0 p0v0 faz a mesma supplica pelo Sacerdote, para que
Nosso Senhor seja tudo em todos; para que Elle só ore, ame, adore em
todos os coraç,ões, e para que todos os corações reunidos não formem se-
não um só coração em Jesus Christo. A Íim de conservar e renovar esta
união, repete-se a bella oração que a exprime ate oito vezet durante a
Missa: oxalá não o esqueçamos I
Ha uma longa serie de seculos (t) que a piedade catholica gosta de
vêr, nas ceremonias do augusto Sacrificio dos nossos altares, as diversas
circumstancias do Sacrificio da uoz. Gosta de seguir passo a passo a
grande Victima caminhantlo lentamente para o altar sangrento, desde o
jardim de Gethsemani até ao topo do Calvario. N'esta via dolorosa expe-
rimenta uma tocante variedade de sentimentos de compuncÇã0, reconhe-
cimento, humildade, confiança e amor. Sem darmos a estas approxima-
ções exaggerada importancia, expol-as-emos successivamente. S. Francisco
de Sales será o n0ss0 guia; convir-se-á em que não podiamos escolher
outro melhor (2).
Celebra-se a santa Missa em memoria da Paixão de Nosso Senhor,
como Elle mandou aos seus Apostolos dizendo-lhes: Fazei isto em me-
moria de mim. Como se quizesse dizer: Quando offerecerdes o augusto
Sacrificio, lembrae-vos da ninha Paixão e morle. Entremos no desejo do
Salvador, e, durante a primeira parte da Missa, vejamos, no Sacerdote
entrando no altar, Jesus enlrando no jardim; no Sacerdote recitando as

(1) Durand., Rational. d,iu. Off,,I. IV, e. YII.


(2) T. XIV. Opusc,, p. 26? e seg.

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r78 CÀTECI§ilo

primeiras orações da Missa, lesus ern oração no jarilim; no sacerdote re-


citando a confissã o, Jesus prosürado com o rosro por le'ra; no sacerdote
beijando o altar, lesus recebenilo o osculo ile Juilas; e no Sacerdote indo
para o lado da Epistola, Jesus leoado prêso (l).
seja o gue fôr d'estas approximações, é certo que a compuncção e
a humildade são os dois sentimentos que devem dominar no nósso cora-
ção duranto esta primeira parte da Missa: as orações e ceremonias que a
compoem, o indicam claramente.

0RAÇÃ0.

0' meu Deus, que sois todo amor graÇas vos dou por haverdes
t
estabelecido o santo sacrificio da Missa, em que me applicaes os mereci-
mentos da vossa morte e Paixão; concedei-me que assista a elle com mais
piedade do que tenho feito até agora.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas e ao proximo
como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor, reci-
tarei o Confiteor no principio da Missa com muita piedade.

(1) _As mesmas approximaçôes se encontram tanbem com algumas varianteg:


1.o em Bellarmino, Dotly. Crist.;2r" e!__Qtlhomaz, lrf.a p.r q. LXXY, art.6; e
3.o em Turlot, Catec,r IY.. parte, lig. XYIIr p, 6ffi,

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DE PERSEYERÀNÇÀ. t79

DECTMA.SEXTA LtçÃo.

0 christianisno Íornado sensivol.

o InÚrolÚo
rncensamenúog.
- Segunda lDarúe da ilissa, desde
até ao Offerúorio, - Inúroiúo. - «Kyrie eleison». - nGloria
ln exoelgis.»

Eis o Sacerdote e os fieis que acabam de desejar mutuamente a ver-


dadeira disposição para bem se aproveitarem do augusto Sacrificio. 0 Se-
nhor seja com 0 seu povo e com 0 seu ministro; ore, ame, adore n'elles e
com elles, e as mais copiosas bençãos lhes estão seguras. Depois de ter
recommendado aos Íieis que orem sempre, 0remus, lremos, parte o Sa-
cerdote e caminha lentamente para o altar, multiplicando as suas instan-
cias para obter o entrar sem macula no Santo dos santos. Novo Moysés,
não esquece, ao subir ao Sinai, o povo querido que deixou na planicie.
Tanto pelos fieis como por si proprio, faz esta oração: «Nós vos suppli-
camos, Senhor, que tireis de nós as nossas iniquidades, para que possa-
mos entrar n0 vosso santuario com coração puro. Por Jesus Christo Nosso
Salvador. Amen.»
Chegado ante o tabernaculo, inclina-se profundamente e beija o al-
tar para exprimir 0 seu respeito para com Jesus Christo, que vae em
breve descer a elle, e a sua veneração pelos santos martyres cujas reli-
quias estão alli encerradas. Acompanha esta ceremonia da oração se-
guinte: «Nós vos rogamos, Senhor, pelos merecimentos dos vossos San-
tos cujas reliquias estão aqui, e de todos os Santos, que vos apraza per-
doar-me todos os meus peccados. Amen.»
Collocando por baixo da meza do altar as reliquias dos martyres,
quiz a Egreja da terra imitar o que S. João observára no Ceo. Vi, diz
elle, por baiao do altar do Cordeiro as almas il'aquelles que morreram

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-
I80 CÀTECISMO

pelo nlme d,e Jesus (l). E' com mzáo que se encommenda o Sacerdote
aos Santos em geral e aos martyres em particular. As orações d'uns e o
sangue dos oul,ros, unidos aos merecimentos e a0 sangue de Nosso Se-
nhor, são d'um valor inflnito, e a Sua poderosa intercessão é mui capaz
de lhe alcançar de Deus a remissão de toclas aS suas culpas. 0 Sacerdote
faz em vgz baixa estas duas orações, porque lhe dizem respeito pessoal'
mente: são mui antigas na Egreja (2).
I. IxcnNsaMsNros. -- Nas lVlissas solemnes, depois que o Sacerdote
diz as orações precedentes e beija o altar, o Diacono lhe pede que aben'
çôe o incenso tlizendo-lhe: «Abençoae, meu reverendo Padre.»
A pala-
vra Padre e mui tocante pela veneranda antiguidade que recorda. B' o
ngme qqe davam os primeiros christãos aos Sacerdotes e Bispos, do mes-
'mo
modo que aos auctores dos seus dias. Nada mais justo: não são os
Sacerdotes e Bispos 0s paes das nossas almas ? 0 uso d'este appellido
conservou-se intacto nas communidades religiosas, onde se refugiaram
com o verdadeiro espirito do Evangelho as santas tradições da Egreja
primitiva. 0 celebrante deita incenso no thuribulo, dizendo: «Bemdito
sejas por Aquelle em honra do qual has-de ser queimado,» e o abençÔa
fazentlo o signal da cruz. Recebe o thuribulo das mãos do Diacono, in-
censa a cruz, o fundo do altar, a frente e os dois lados.
D'onde vem 0 uso dos incensamentos e qual é a sua significação ?
Eis mais uma d'essas perguntas cuja solução está impaciente por obter
a vossa curiosidade. Para se chegar á origem do incenso no culto divi-
no, é necessario transpôr tres mil e quinhentos annos, transportar-se ao
deserto do Sinai e escutar o proprio Deus prescrevendo a Moysés a ma'
neira de compôr o perftrme que devia ser queimado no tabernaculo (3).
Quando um uso estriba em similhante antiguidade e vem d'uma ori-
gem tam respeitavel, póde-se certamente pratical-o sem córar. Uma das
funcções principaes dos Sacerdotes da antiga lei, era queimar incenso
no altar dos perfumes. 0s pagãos, herdeiros infieis da tradição primiti-
va, conservaram o uso do incenso nas SuaS ceremonias (A). Ao adoptal'o
para as suas, não foi a Egreja catholica imitadora dos pagãos, não fez
mais que praticar sob o Evangelho o que se ordenava sob a Lei.
0 proprio Sah,ador Ihe ensinou, com o seu exemplo, que a offrenda
do incenso continuaria a ser agradavel a Deus. Entre os presentes que
(1) Ápoc,, XI, 9.
(2) Bona, l. II, c. XXII.
(3) Eooil,., XXX, 34.
(4) Tertull., A1tol,,, c, XXX I Arnob.l l. I[.

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DE PERSEVERANÇA. l8t
inspira aos Magos para deporem a seus pés, designa-se o incenso em
termos expressos. Mais tarde, convidado o Filho do Homem para jantar
em casa d'um phariseu, se queixa de que lhe não perfumaram a cabeça,
como faziam ás pessoas a quem queriam honrar (l). Maria, irmã de La-
zaro, não faltou a isso n'uma occasião similhante (2). Desde os primei-
ros seculos, fez uso a Egreja dos incensamentos (B) ; e vêmos constan-
tino, apenas subiu ao throno dos cesares, apressar-se a fazer presenl,e
ás egrejas de thuribulos d'ouro para lhes servirem durante a celebração
dos augustos mysterios (4).
III. sroNmlclçÃo Do rNcENso.-Qual é agora a razáo d,este uso tam
constante, antigo e universal ? {.0 0 incenso que se queima durante os
santos mysterios, é como urn holocausto offerecido a Deus. TestiÍica-se
d'este modo que todas as creaturas devem ser empregarlas e consumidas
n0 seu serviço e para gloria sua. A liturgia oriental exprime claramente
esta intençã0, pois que faz acompanhar o incensamento d'esta oração:
«Gloria á santissima, consubstancial e viviÍicante Trindade, agora, sem-
pre e por todos os seculos dos seculos (5).,
2! 0 incenso que se queima no al[ar d'onde se espalha o perfume
pela egreja, e uma Íigura do bom cheiro de Jesus christo qor ie espa-
lha do altar sobre a alma dos fieis. Toda a antiguidade christã é acorde
em reconhecer-lhes esta bella e mysteriosa significação (6). 0s Santos
Padres nos dizem que o thuribulo representa a humanidade de Jesus
christo, o fogo a sua divindade, e o vapor rlo perfume a sua graça. q0
thuribulo, diz s. Agostinbo, é como o corpo do senhor, e o incenso co-
mo este mesmo corpo offerecido em sacriticio peta salvação do muoclo e
recebido como um dôce perfume pelo pae celeste (7).»
Penetrados d'estas idéas mysteriosas e sublimes, tinham os primei-
ros christãos em tanta veneração o incenso que se queimava na egreja,
que buscavam respirar o seu cheiro dizendo o que diz o Sacerdote ainda
hoje: «o senhor accenda em nós o fogo do seu amor e a chamma da
eterna charidade (8) l»

(1) fzücas, VII,46.


S. Thiago, etc,
in Vita S. Nicolai.
III e IY ; SimEo Thessal., ile TemStlo;
..

t2

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{82 cÀrEcISMo

3.0 Foi sempre tomado o incenso por uma viva expressão das suppli-
cas que dirigimos a Deus e do ardente desgjo que temos de que se elevem a
Elle como se eleva ao Ceo aquelle suave perfume. A oração que acompanhava
os incensamentos nas antigas liturgias e que ainda hoje os acompanha, não
deixa duvidâ alguma a tal respeito. «0' Jesus Christo, diz a Egreja orien'
tal, que sois Deus, nóS vos offerecemos este incenso como um perfume
espiritual, para que vos digncis de recebêl'o no vosso santo e sublime
altar, d'onde esperamos os effeitos da vgssa misericordia ('l)...»
«À minha oraçã0, Senhor, diz a Egrcja occitlental, eleve-se a Vós
c0m0 este incenso. » Certamente para conformar-se com o espirito da Egreja
é que n0 anno de 526, em Cesarea da Palestina, o santo Sacerdote Zozimas,
tlesfazendo-se em lagrimas no momento em que foi abysmada a cidade
d'Antiochia, mandou levar o thuribulo para o cÔro, accendeu incenso, pros'
trou-se por terra e juntou ao fumo d'aquelle incenso as suas lagrimas,
suspiros e orações, forcejando por aplacar a ira do Senhor (2).
E' pois cer[o que o incenso foi considerado sempre Como um sym-
bolo das nossas preces. Podia-se enconlrar outro mais expressivo ? 0 in'
censo não se ergue a0 ceo senão pela actividade que lhe dá o fogo : e as
nossas orações, que realrnente nã0 são senão os desejos do nosso coração,
não podem chegar a Deus se não forem animadas pelo fogo do amor di-
0
vino. que se eleva do incenso ê o bom clreiro: tocante lição que nos
diz que preparemos o nosso coração de tat sorte, que d'elle nada se ele'
ve que não seja agradavel a Deus. Todo o incenso é consumido, não res-
tando parte alguma que Se não eleve em vapor; do mesmo modo todos
os desejos do nosso coração devem tender para Deus Sem que nenhum
d'elles se prenda á terra.
4.o Se o incenso representa aS orações dos Santos da tepa, com
maior razão representa as dos Santos do Ceo. Eis porque nos diz o apos-
tOlo S. João: 0s ancid,os estar;am prostrados ante o Cordeiro, tmdo to'
ilos taças d,'ouro cheias cle perfumes, çlu,e sã,0 as orações dos Santos G).
pois que o incenso é o emblema da oraçã0, o primeiro incensamento não
porlia ser mais bem collocado que clepois da oração )ramus /e, na qual
iogrmo, a Deus que al,l,enda ás supplicas dos Santos para ter de nÓs mi'
sericordia (&).

(1)
(z) .Eggl., p.52.
l. rY, c, YIr.
(3)
(4)

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ô

DE PERSEVERANÇÂ. r83

N'outro tempo incensava-se em volta do altar. Hoje, não o permit-


tindo a disposiç.ão dos logare§, contentamo'-nos em incensar o fundo, a
parte superior e os tres lados que se vêem. Depois de ter incensado o
altar, o celebrante entrega o thuribulo nas mãos do Diacono : este incensa
o Presbytero; é necessario dar a razáo d'isto. Entrê todos os povos, e
principalmente no Oriente, foi o incensamento uma demonstração de hon-
ra. Para honrar uma pessoa, perfumavam a camara em que a recebiam
(l); derramavam-lhe oleo odorifero na cabeça; e perfumavam os vestidos
de ceremonia (2). Entre os presentes que Jacob enviou ao Egypto para
José, mandou metter perfumes, 0 â rainha de sabá fez homenagem a Sa-
lomão de quantidade de perfumes dos mais deliciosos (B).
Em conformidade com este uso, incensa-se o altar porque é a figura
de Nosso Senhor Jesus christo ; o santo Evangelho, porque encerra a sua
palavra ; os Sacerdotes e levitas, porque são os ministros de Jesus Christo;
os coristas, isto é, os que cantam os louvores de Deus, porgue são em certo
modo os orgãos de que se serve a Egreja para prestar ao Eterno, por meio
de Jequs Christo, a homenagem da oração ; os principes e superiores na or-
dem tehporal, porque, vindo de Deus toda a auctoridade, o honramos
n'aquelles que são na terra as imagens vivas do Rei dos reis, Senhor dos
senhores. E' preciso pois não nos enganarmos : todas estas honras são
relativas e remontam ao unico gue merece a bonra, imperio e gloria (4).
ilI. secuxorr pARrE DA MrssA. Aqui comeÇa a segunda parte da
-
Missa, que comprehende o Intrnito, o Kyrie, a Gloria in ercelsis, a col-
lecta, a Epistola, o Gradunl ou Tracto, o Eaangelho e o credo. A Egreja
junta a instrucção, o louvor de Deus e a oraçã0, porque é necessario en-
cher de santos pensamentos e de santos rnovimentos o espirito e coração
dos fieis, para os dispôr para a celebração dos tremendos mysterios. Esta
prática, cheia de sabedoria, vem-nos dos primeiros seculos. Unicamente
então tinham cuidado de nada me[terem n'esta parte da Missa que tivesse
relação mui patente com o sacrificio da Eucharistia, com receio de r€vo,
larem os mysterios aos cathecumenos, que podiam assistir a estas orações
e Ieituras até á oblação (5).
'{,ogo pois que o Presbytero é incensado, vae para o lado da Epistola e

(1)
(2)
(3)
(4)
(5)

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\'--l

| 8& cÀrEclsuo

começa o Introíto. A palavra introito quer dizeÍ entrüdo, porque se canta


n0 momento em que o Presbytero vae pàra o altar. Àlguns crêem que
so cantava em quanto os fieis entravam na egreja: tal é a razão por que
se compunha d'um psalmo inteiro e ás vezes de varios (l). Ào Papa Ce-
lestino se deve o estabelecimento do Introito. Antes d'elle, começava a
Missa por uma lição da Escriptura.sagrada, como ainda se pratica nas
vigilias da Paschoa e do Pentecostes (2).
0 Introito, QUe se compunha primitivamente d'um psalmo inteiro,
foi reduzido a alguns versiculos; mas deixou-se a Gloria Patri, porque
no oÍficio cada psalmo é seguido d'es[a oraçã0. Alem d'isto, podia a Missa
começar meltror que pelo louvor cla SS. Trindade, a quem deve ser offe-
recido o santo Sacrificio ?
Porque escolheu a Bgreja de preferencia os cantos do Rei-Propheta
para compôr o Introito ? Um antigo auctor responde n'estes termos : «A
entrada do Presbytero no altar figura a prirneira vinda do Filho de Deus
á terra, e o Inlroito é o brado com que o mundo antigo chamava o De-
sejado das nações. Empregam-se para se exprimir as palavras de David,
porque elle foi tlo numero d'aquelles reis e prophetas que de§eiürl,nx
tAm, ard,etttemente aér o qUe nÓs tsêmos e OU,air o que nÓs ottttitteos (3).
Mais felizes que toclos aquelles sanlos personagens, 0s Íilhos da Egreja
catbolica dilatam o coraçã0, e exprimem o jubilo saudando a vinda do
Redemptor. Possuem Aquelle que os Patriarchas, Prophetas, Reis, Sa-
cerdotes, todos os antigos justos chamavam com estas palavras inflam-
madaS : Enuiae, Senlmr, o Cord,eiro domi,nador do mundo; ai,nde, Se-
nhor, e nd,o tardeis (h).
Durante o Introito, ao qual devemos ter como dever o assistir, una-
mgs 0s ngssos coraçÕes e desejos aos dos antigos justos, e entremos nas
suas disposições. Um ardente desejo é condição indispensavel para bem
n6s aproveitarmos do augusto Sacrificio. 0h ! quaes teriam sido as dis-
posiçõLs d'Abrahã0, Isaac e David, se houvessem tido como nós a felici-
dade de assistir á Missa, á immolação d'aquelle Cordeiro de Deus que
elles chamavam com tanto ardor !
0 Presbytero diz 0 Introito clo lado da Epistola, e permanece alli
muito tempo durante a Missa. Eis a raz.ao d'isto: nas antigas egrejas

(1) d,e Coron,


Q) Lí,b. Pontif., c. XL[.
(3)
(4) l,iturg,

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DE PEBSEVERÀNÇA. 18õ

bem orientadas, a sacristia está ao sul, á direita dos que entram, e o


Presbytero, posto d'aquelle lado, acha-se mais ao alcance de totlos os
ministros que vão e veem da sacristia para o altar. E' pela mesma razão
que so colloca d'aquelle lado a cadeira do Bispo ou do celebrante nas
Missas solemnes.
0 altar, que e o logar proprio do Sacrificio, não é o sitio necessa-
rio do Introito, nem de tudo o que precede a oblaçã0. Ha já mais de
mit annos que o Summo Pontifice, depois de ter beijado o altar, ia as-
sentar-se na sua cadeira, e não voltava ao altar senão para o 0fiertorio :
os Bispos àinda fazem o mesmo nas Missas solemnes. Ha outra razáo
d'este uso, e é que a longura do que se lê ou canta até ao 0ffertorio,
pedia que se pozessem fóra do altar, para poderem assentar-se (l), tanto
mais quanto nas grandes festas repetia-se, como ainda se repete, o In-
troito duas vezes, para mais solemnidade.
Depois do Introito, tendo o Presbytero as mãos juntas, em signal de
humildade e aniquilamento ante a magestade de Deus, vae para o meio
do altar para dizer alternativamente com 0 povo, representado pelo aco-
lyto, tres vezes Kyrie eleison, ffes Christe elei,son, e outras tres Kyrie
eleison. Kyrie eleison são duas palavras gregas que significam : Senhor,
üenile eom,pai,ndn O uso d'esta oraçã0, começado na Egreja grega, e da
mais remota an[iguidade na Egreja latina. «Considerando, diz um antigo
concilio, que na Egreja de Roma, bem como em todas as provincias do
0riente e d'Italia, es[abeleceu-se o santo e mui saudavel costume de
repetir muitas vezes com grande sentimento de fervor e compuncção
Kyrie eleison, queremos que em todas as nossas egrejas, a Matinas, á
Missa e a Vesperas se introduza com o auxilio de Deus este santo uso
(2).,
Como havia elle começado na mesma Egreja grega ? Nada mais to-
cante que a sua origem. Nos primeiros seculos, assistiam os cathecu-
menos e peni[entes á Missa até ao 0ffertorio. Movidos pelos desejos dos
primeiros e pelas lagrimas dos segundos, tinham cuidado os fleis de os
encommendar ao Senhor. 0s cathecumenos e penitentes punham-se de
joelhos, e o Diacono dizia: Cathecu,menls, orde. Depois, dirigindo-se
aos fleis : 0rem por elles os fieis, e principtalmente a,s weünças (3). 0h t

(1) nii.
(2) Con
. (3) As centam: .«O.
povo, a cada nma das
coisas__que o_ ison, e principalmente as creangas.D
L. V[I, c. Y

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b"
186 cATEcI§Mo '
sim, as creanças, os anjos da terra cujo coração puro e mãos innocentes,
erguidos para o Ceo, são omnipotentes sobre o coração de Deus. E o
Diacono fazia ern voz alta diversos pedidos a favor rlos cathecumenos.
Dizia : «Oremos todos pelos catltecumenos,
para que o Senhor, cheio de
bondade e misericordia, ouça as suas orações e lhes conceda as potições
do seu coraçã0.» 0s fieis, e principalmente as creanças, respondiam: Ky-
rie, eleisoz: «Senhor, tende compaixã0.»
Diacono: «Para que lhes descubra o Evangelho de Jesus Christo.»
:
Fieis, e 'principalmente as crecünças «Kyrie eleison: Senhor, tende
compaixã0.»
Diacono: «Para que os allumie e lhes ensine o§ seus mandamen-
tos. r
Fiei,s,{e Ttrinci'ltalntente as crean"ld,s : «Senhor, tende compaixã0.»
Diacono: «Para que lhes inspire um temor casto e saudavel; paÍa
que lhes abra os ouvidos do coraçã0, a Íim de que se occupem da sua
lei dia e noite. D '
Fieis, e principalmente (ts crea,nçüsi «Senhor, tende compaixã0.»
Diacono: «Para que 0s una e ponha no numero âe suas ovelhas, tor-
nando-os dignos da regeneração e da vesto da immortalidade.»
Fieis, e princilta,lmente as creünçüs: «Senhor, tende compaixã0.»
Diacono: Para que os purifique de toda a macula de corpo e espi-
rito, habite n'elles com o seu Christo, abençôe a sua entrada e sahida, e
faça que tenham bom exito todos os seus projectos.»
Fieis, e Ttrincipalmente as cfeanças: «Senhor, tende compaixã0.»
Diacono: nPara que recebam a remissão dos peccatlos pelo Baptis-
m0, a Íim de que se tornem dignos dos santos mysterios e da mansão dos
Santos. »

Fieis, e principalmente as creünçasi «Senhor, tende Compaixã0.»


Depois d'estas invocações a favor dOs cathecumenos, c0meçava O
DiaCOno outras pelos penitentes. 0s fieis, eprinciptalmente a,s crea,nça,s,
lhes respondiam como ás primeirus: Senhor, tende compaird,o. O nu-
nero d'es[as invocações não estava rigorosamente determinado. D'onde
veio que, no principio, quando a Egreja applicou eslas orações a todos
oS Íieis, se recilava o fryrie eleison mais ou menos veze§, conforme as
circumstancias. Hoie, um piedoso costume approvado pela Egreia faz
dizer nove vezes Kyrie ou Christe eleison, para imitar o canto dos An'
ios, que comprehende nove cÓros. Diz-se tres vezes Kyri,e em honra do
Pae, tres vezes Christe em honra do Filho, e tres vezes Kyrie em honra

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.-
DE PER§EVENANÇÀ. r87

do Espirito Santo, para adorar e invocar egualmente as tres pesSoas da


SS. Trindade.
A Egreja latina conservou as palavras gregâs, para mostrar gug â

e forcejemos por o repetir com os mesmos sentimentos, e principalmento


com a mesma innocencia que a§ creanças d'aquelles felizes seculos; ou
então tambem, digamol-o como o cego de Jericbó, que não empregou
outras supplicas para alcançar do Filho de David a cura que sollicitava.
Ah ! esta supplica não nos convém meno§ que a elle. Oxatá ella seja no
nosso coração o que era no de tantos Santos que a disseram antes de nóst
Depois do Kyrie eleison, o Presbyfero, sempre no meio do al[ar, es-
tentle os braços em signal d'oraçã0, e, levantando'os até á altura dos hom-

Ànjos entoaram este canto d'amor sobre o presepio do menino de Bethlem,


e a Egreja o continuou: tal é a origem da Gloria in excelsis. No tempo
de S. Athanasio, reci[avam-n'o os fieis na oração da manhã, e aS simples
mulheres o sabiam de cór (2). Ha mais de mil e trezen[os annos pelo
meDos gue está em u§o dizêt-o á Missa (3). Durante o Advento o a Qua'
resma, naS MisSaS dos defunotOS, e em cerl,os Outros dias, nãO se canta a
Gloria. 0 officio então recorda a penitencia ou a tristeza, e ningüem se
atreve a alegrar-se e a cantar a gloria celeste, em quantO Chora a §ua pro'
pria miseria e os soffrimentos das almas do Purgatorio.
Caútico de louvor e .amor, está a Gloria admiravelmenÍe collocada
rlepois do Kyrie eleison. À Egreja acaba de pedir misericordia ao seu di'
vino Esposo. Cheia de confiança de que e attendida, entôa o hymno da
sua gratidão, e, adoptando aS mesmas palavras dos Anjos, canta o grande
mysterio da incarnação, que é a sua felicidade, esperança e gloria. Bem-
diz o Senhor, e sollicita assim a sua omnipotente protecçã0.
0 Presbytero, que o entÔa só, e ao qual responde todo o povo, re'
(1) M.
iZi fii; Corctü, dgtost.,l. VII, c. XLYII.
(3) es.

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lE-
tg8 cArEcr§Mo

corda bem a maneira como foi cantado peros Ànjos. um d,estes espiritos
celestes apparece aos pastores, e lhes annuncia a grande nova. Ainàa não
acabou de fallar, quando multidão d'Anjos, unindo as suas vozes á d,elle,
cantam com elle: Gloria a Deus nas alturas dns Ceos, e na, terr(r, püz
q,os homens deboa uontade (l).
0 Introito exprime os votos dos Patriarchas, a Gloria in ercelsis an-
nuncia o cumprimento d'elles. Duas grandes épocas do genero humano,
a época anterior ao Messias e a época que lhe é posterior, se reunem
d'este modo na segunda parte do SacriÍicio catholico. Não é este pensa-
mento tam elevatlo que nos diga alguma coisa? será incapaz de nos es-
clarecer o entendimento, de nos Íixar a imaginação e de nos inflammar o
coração ?

oRAÇÃ0.

0'meu Deus, que sois todo amorl graças vos trou por terdes perpe-
tuado o SacriÍicio do Calvario; concedei-me que entre nos sentimentos de
compuncÇã0, reconhecimento e alegria que inspiram as primeiras orações
da Missa.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao proxi-
mo c0m0 a mim mesmo pOr amor de Deus; e, em prova d'este amor,
me esforçarei em recitar o Kyrie eleison coml os prim,eiros Christd,os,

(l) Luc., II, 14.

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DE PEnSEVEnÀNÇÀ. t89

DEC|MA.SETtMA LtÇÃo.

0 chrisúianismo tornado sensivel.

segunda parúe da tr[issa (conúlnuação).-oracão:-Dpicúola._


Gradual. AIIeIuia._prora.
-llracúo,

Ào terminar a Gloria in ercelsis, faz o Presbytero o signal da cruz.


Este uso nos leva dezoito seculos atraz. Colloca-nos de novo á vista os
primeiros christãos, que, como sabemos, nunca deixavam de fazer o sig-
nal da cruz no principio e fim das suas principaes orações. podiam elles,
e podemos nós mesmos recorrer demasiadas vezes a este signal omnipo-
tente, e lembrar-nos de que toda a benção nos veio da cruz ? cuidadosa
em con§ervar a§ práticas das primeiras.edades, quiz a Egreja
Qu0, durante
os augustos mysterios, se fizesse'o signal da cruz no fim da Gloria in en-
celsis, antes do Evangolho, depois do creilo, cla OraÇão dominical, do
Sanctus (l), etc.
Acaba de resoar o cantico dos Anjos; foi annunciada a paz trazida ao
mundo por Jesus Christo; que coisa mais natural que desejal-a aos fieis o
sacerdote, anjo da terra? Mas de que maneira o vae fazeit Beija o altar
para ir buscar aquella paz ao proprio seio do salvador. Beija-o no meio,
porque está alli a pedra sagrada, tumulo dos xlartyres e figura da pedra
angular da Egreja, Jesus christo. Junta as mãos, e, virando,se para 0
p01i0 com 0s olhos baixos, abre as mãos para denotar a sua charidade, e
diz: 0 senhor seja comalsco. No Oriente, em logar de dizereÍn os pres-
byteros: Dominus oobiscatm; O Senhor seja clrnr)osc1, disseram sempre:
Paa aobis: A paz seja comcosco.
Com estas dôces palavras é que o Salvador, depois da sua resurrei-
çã0, saudava os Apostolos: os Bispos do 0ccidente conservaram este uso.
Depois de terem recitado a Gloria in ercelsil dizem: par oobi,s; A paz
seja coma,sc,, desejando aos fleis aquella paz que acabam de annunciar.

(1) Durando, Rational,,r I. V, n. 15.

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t90 CÀTECISMO

Como guasi em todas as partes só os Bispos, até ao undecimo seculo, dis-


seram a Gloria in eacelsis á Missa, disseram tambem sós: á paz seia
clrnülsco, por causa da relação d'estas palavras com o hymno angelico.
0 povo responde: Seja tambem com o alsso espirito. Cheios de reconhe-
cimento pelo desejo tam vantajoso que o Sacerdote acaba de manifostar-
lhes, os Íieis lhe retribuem a saudação orando por elle ({).
Rico com as bençãos de seus irmãos, volta-se o Presbytero para o
latlo da Epistola e diz: 0remo* E' a segunda vez desde o principio da
Missa que dá a si proprio e ao povo este aviso essencial. Oremos, 0s Dos-
sos corações acabam de unir-se pelo desejo d'uma charidade mutua; o
Senhor está comnosco, está tambem com o meu espirito; ora em vós, e
ora em mim. Tenhamos confiança: o l'ilho de Deus, que reina nos nossos
corações, não é sempre escutado por oausa do respeito que se lhe deve?
E p Presbytero tem as mãos abertas e erguidas: recordações de tres
mil annos, tradigão de dezoito seculos. Recordações de tres mil annos:
era com as mãos erguidas para o templo de Jerusalem que oravam os
israelitas (2). Tradição de dezoito seculos: era com as mãos estendidas,
para imitar Jesus Ctrristo na cruz, gue oravam nossos paes, exprimindo
com esta at[itude a sua disposição.para o martyrio, para o sacrificio in-
teiro dos seus bens, da sua familia, da sua propria vida, de preferencia
a renunciarem á fé (3); uso tocante, se ainda os houve, e que a Egreja
teve cuidado de conservar. D'or'avante, quando virmos um Sacerdote nO
altar, na montanha do Sacrificio, com os braços estendidos, poderemos
esquecer Nosso Senhor na cruz, e nossos paes nas Catacumbas dispon-
do-se para o martyrio ? Poderemos esquecer que s0m0§ filhos de Jesus
Christo e dos Martyres, e que devemos ser§empre §eu§ imitadores, ao
monos pela disposição do coração ? Se não elevamos mais os braços du'
rante â oração, elevamos ao menos a§ no§sas affeições e pensamentOs.
Depois de ter adverl,ido todo. o povo para orar com elle, comeqa o
PreSbytero a Qração (,tL). Esta prece Chama-se oraçdn,0 que ó a mesma
(1) Remig. Autissiod. , Eapos. rniss.

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.J
DE PERSEVEnANÇA. l$l
coisa qoo prece i bençd,0, porgue é destinada a attrahir sobre a Egreja a
benção de Deus ; collecta, por duas razões : primeira, porque se faz so-
bre o povo reunido, e a palavra collecta quer dizer assemblêa; segunda,
porque é um compendio de tudo o que o Sacerdote deve pedir a Deus,
quer para si, quer para os fieis.
A maior parto das collectas que estão ainda em uso, foram redigi-
tlas pelos Summos Pontifices S. Gregorio e Gelasio, mas a essencia é de
tradição apostolioa ('l). Nada é mais veneravel, e podemos acmescentar
que nada ê mais completo: as collectas da missa formam uma collecção
unica. Por mais variaclas que sejam as nossas necessidades, votos e sof-
frimentos, não ha nem um só que nãO encontre sua expressão n'estas
admiraveis orações. Accrescentae que ha n'estas collectas uma simplici-
dade e uncção que em balde se buscariam em outra parte. SÓ á Egreja
catholica pertencia o compol-as. Só a esposa verdadeira conhece a ma-
neira de fallar a Seu esposo e o caminho que vae ter ao seu coraçã0.
Quanto vence as seitas pela verdade do seu ensino, tanto lhes e supe-
rior pela belleza das suas orações.
Commummente, nos dias de penitencia, diz o Sacerdote varias. Nas
grandes solemnidades, restringe-as a uma só, para Íixar os fieis no mys-
terio do dia, unico objecto que os deve occupar nas festas importantes.
A Egreja quer que nós comprehendamos que é pedir tudo a Deus o pe-
dir-lhe a applicagão do mysterio gue ella celebra.
Nas festas dos Santos, são as collectas unra petição relativa ás prin-
cipaes virtudes que dis[inguiram es[es amigos de Deus, e para nós um
incentivo á imitação dos seus exemplos. Mas a Egreja tem muito cuidado
do fazer-nos perceber a diflerença essencial que a fe lhe faz estabelecer
entre o Santo a quem honra e o Deus a quem invoca. Aqui, o Santo é
designado pelo nome de Seroo, e Deus é invocado sob 0 nome de Se'
nhor e Amo.
As collectas dirigem-se ordinariamente a Deus Padre, porque a elle
:
é que se offerece o Sacrificio. Acabam por es[a conclusão Per Domi'
num nlstrum f esu,m Christum; Por Jesus Christo .Nosso Senhor. Quer
isto dizer que e em Jesus Christo e por Jesus Christo que se faz toda a
oração; pois não ha outro mediador entre Deus e o homem que o Sal-
vador Jesus. Quer isto dizer ainda que Jesus Christo, que está carregado
tle todas as nossas dividas, se encarrega tambem de apresentar todas as

(t) Bona, I. Il, c. V.

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192 carocrsuo

nos§as supplicas e todos os nossos votos. Finalmente quer isto dizer que
toda a graÇa nos é dada em virtude dos merecimentos de Jesus Chris-
to. Como este divino intercessor se immola sobre o altar, e nós o da-
mos a seu Pae em troca dos benefir:ios que esperamos, nada ha mais
proprio que esta formula para reanimar a nossa con0ança. Pedindo por
Jesus Christo, temos direito a obter tudo. Oxalá estejamos bem conven-
cidos d'isso ao recitarmos a collecta t
No fim da collecta, respondem os assis[entes: Amenl Esta palavra
é uma acclamação breve, mas energica, que quer dizer aqui «Assim :
seja, 0s votos que acabaes de apresentar ao Senhon sejam attentlitlos.
Desejamol-0, e unimo'-nos a vós para o pedirmos; e promettemos não
lhe pôr obstaculo algum, nem por actos, nem por vontades contrarias. »
À significação d'esta palavra varia conforme as circumstancias. Dita de-
pois da expressão das verdades da fé, depois do canto do Symbolo, por
exemplo, significa: Isso é certo, creio-0. Depois da petição d'um favor
ou da exposição d'um dever, am,en signi0ca: Consinto n'isso, dese-
jo'0.
Ámnn I eis ainda uma d'aquellas palavras que não devemos pronun-
ciar sem o mais profundo respeito. E como não ha-de ser assim, se nos
lembrarmos de que tem passado de seculo em seculo, repetido pelos la-
bios angelicos do tantos santos Pontifices, de tantas virgens, de tantos
solitarios, de tantos Christãos, nossos paes na fe e nossos modêlos na
virtude ? Foi pronunciada pelos llartyres nas Catacumbas, nas prisões o
até mesmo nos cadafalsos ; parece ainda coberta do seu sangue e perfu-
mada do incenso da sua charidade (l).
Que será se pensarmos que este Ámez, pronunciado pelos Anjos e
pelos Santos, resôa perpetuamente e ha-de resoar pelos seculos dos se-
culos sob as abobadas da Jerusalem celeste ? 0h t reanimemos a nossa
fé, e a Egreja da terra nos representará d'um motlo sensivel a Egreja do
Ceo, se, can[anclo o mesmo cantico, o cantarmos no mesmo espirito. Se
não sabemos dizer senão Amen, esforcemo'-nos ao menos por o dizer-
mos como os Anjos, os escolhidos e os Santos. Tenhamos cuidado: re-
petindo esta bella palavra, nunca mentimos ? Dizemos Amen a tudo o
que a Egreja pede e promette em nosso nome, etalvez não deixemos de
seguir a perversidade das nossas vontades e desejos t 0' meu Deus t que
é o amen do hypocrita, o úmen do avaro, o üruen do ambicioso, o a,nren

(l) S. Justino, Apol,,lI.

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DE PERSEVERÀNÇÀ. {93

tlo vingatit'o, o anT n dos voluptuosos, senão uma ultrajante ironia? Des-
graçado d'aquelle que se torna reo d'ella I
,
Depois rla oração liz o celebrante com voz intelligivel a Epistola,
porque e uma instrucção para o povo. Nas lllissas cantadas, é o Sub-Dia-
cono que â canta. Nos primeiros seculos, pertencia esta funcção ao lei-
tor : a Epistola não se cantava, lia-se (l). 0 uso de lêr a Escriptura Sa-
grada nas assemblêas de religião remonta á mais remota antiguidade. 0s
judeus comeÇavam as suas oraÇões nas Synagogas pela leitura de l\loysés
e dos Prophetas (2). 0s primeiros Christãos imitaram este uso nas suas
reuniões do Domingo. «Reunimo'-nos, diz Tertulliano, para lêr as divi-
nas Escripturas, e vêr 0 que convém aos diversos tempos (3).» A'lei-
tura do Antigo Testamento juntava-se a do Novo: olêem-Se na assem-
blêa, diz S. Jus[ino, 0s escriptos dos Prophetas e Apostolos (&).» À
Egreja conservou religiosamente esta prática.
Não só se liam na primitiva Egreja os livros da Escriptura Sagrada,
mas tambem 0s actos dos Martyres (5), assim c0m0 as cartas dos Sum-
mos Pontif,ces e dos outros Bispos, gue se chamavam cartas de paz ou
de COmmunhã0. Por meio d'este commercio de cartas, se conservavam a
paz e unidade entre o PontiÍice de Roma, chefe supremo da Egreja, e 0s
Bispos de todas as Egrejas do munclo. Estas cartas faziam tambem dis-
tinguir os Catholicos dos herejes. Enviavam-n'as d'uma Egreja a outra,
para que os Íieis conhecessem quem eram aquelles com quem deviam
communicar (6).
Esta leitura chama-se Epistolo porque e ordinariamente tirada das
Epistolas dos Apostolos, e principalmente de S. Paulo. Devedores aos
gregos e aos barbaros, missionarios do mundo inteiro, não podiam 0s
Apostolos assistir longo tempo em Egrejas que haviam fundado. Para sus-
tentarem na fe os fllhos que acabavam de gerar a Jesus Christo, lhes es-
creviam, n0 meio das suas excursões e trabalhos, cartas cheias d'uteis
conselhos. Nunca familia alguma ternamente unida sentiu tanta alegria
ao receber novas de um pae querido, como aquelles fervorosos Christãos
á chegada das cartas de seus paes na fe. trIonumentos tla sollicitude e

(1) D'onde o nome d.e l,u,tri,n,lectrínr letren,l,ectrtcium, l,ectoriun, l,egeoliutn,


dado á estante em que se lia.
(2)
(3)
(4)
(5)
(6) Õ

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19tL CÀTECISMO

charidade apostolicas, eram conservaclas estas epistolas com extremo cui.


:
dado liam-n'as nas assamblêas santas. 0s Bispos désenvolviam o sen-
tido d'ellas aos fieis: uso precioso que nos grangeou tantas bellas obras
dos Padres da Egreja.
Assenta'se a gente durante a Epistola ; os primeiros Christãos tam-
bem o faziam, a fim de escutarem a leitura com mais recolhimento e at-
tençã0. Escutemol-a nós mesmos, como escutariamos s. petlro, s. paulo
ou s. Joã0, se elles apparecessem no meio de nós. E'a sua propria pala.
vra que resôa aos nossos ouvidos, c0m0 resoava aos ouvidos de nossos
paes. Oxalá faça sobre nós a mesma impressão que fazia sobre elles t
Somos devedores da distribuição das Epistolas e dos Evangelhos por to-
dos os domingos e principaes festas do anno, a s. Jeronymo que enviou
0 seu [rabalho ao Papa Damaso. A Egreja romana adoptou-0, e d'esta
Egreja, mãe e mestra de todas as outras, é que nos vem a ordem que
seguimos ainda hoje ({).
E agora, porque se lê a Epistola antes do Evangelho ? Não é sem
uma razão profunda. No Introito, ouvimos a voz dos prophetas; na Epis-
tola, ouvimos a dos Àpos[olos, r,oz de homens inspirados que nos prepa-
ram para ouvir a voz do lllestre. Não vos parece assistir ao cumprimento
d'estas palavras de S. Paulo escreventlo aos hebreus : Deus fallou, ans
homens ltor muitas tozes e de muitas ntatteiras, e finalmen,te plr seu
Filho (2) ? Não parece vêr-se o mesmo Senhor renovando na lllissa o que
fazia durante a sua vida mortal, quando enviava s. João Baptista 0u 0s
seus Apostolos dois a dois diante de si para lhe prepararem os caminhos?
Não parece vêrem-se as dôces claridades da alva e 0s aureos raios tla au-
rora preparando-nos os olhos para os fogos scintillantes do sol ? Que de
recordações na ordem das nossas santas leituras (B) !
Acaba de cahir a palavra de vida, por meio da leitura da Epistola,
sobre os corações, c0m0 um orvalho saudavel, para os vilificar e fazer-lhes
produzir fructos dignos da recompensa e[erna. Cheios de reconhecimento,
respondem os fieis que estão dispostos a fazer o que lhes foi ensinado. A

(2) Hebr,I,7.
(3) Duranto, l. II, c. XYI[; Alcuino, De Celebr, Mísscp,

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DE PEnSEVERÀNÇÀ, 195

resposta d'elles é expressa pelo gradual ov resplnsorio, pelo tracto, pela


Alleluia e pela prlsa. 0 responsorio ou a resposta dos Íieis chama-se
GRÀDUÀI, porque os coristas encarregados de a proclamar se punham nos
degraus inferiores do ambom ou da tribuna: 0 mesmo se observa ainda
hoje. Vêmos nas grandes festas aquelles que devem cantar o responsorio
ou a Alleluia irem pôr-se ao lads dos coristas, á estante, que representa
o ambom ({).
0s responsorios, estabelecidos ou antes coordenados por S. Grego.
rio, são sempre analogos ás verdades e ás exhortações contidas na Epis-
tola (2). N'elles protestam os Íieis a sua boa vontade e as suas sans dispo-
sições a conformarem-se inteiramente com os preceitos apostolicos. Nos
dias de tristeza e jejum, como durante a Quaresma, a resposta do povo
0u o respons0rio chama-se rRÀcro, p0rque se canÍ,a lentamente e com
tom lugubre: é o gemido do desterro (B). pelo contrario, quando a Egreja
está alegre, c0m0 no tempo paschal e nos domingos consagrados á me-
moria da resurreigão de seu Esposo, e menos grave o canto do respon-
sorio; é atê precedido e seguido da alleluia.
é uma palavra hebraica gue quer dizer lorruae a Deus,mas
ALLnLuLq.
gue exprime ao mesmo tempo um movimento, um transporte d'alegria,
que se não julgou poder traduzir por nenhuma palavra grega ou latina,
o que a fez conservar em toda a parte na sua lingua original. Cumpre
dizêl-0, Arrerurl e uma palavra da ringua do ceo, gue a Jerusalem bem-
aventurada deixou cahir na terra e que a Egreja viajante se apressou a
acolher. E' para ella o canto das suas grandes solemnidades, dias felizes
em que se esforça por participar d'antemão das alegrias de sua irmã pri-
mogenita, balbuciando o seu eterno cantico. s. João, diz o cardeal Bona.
ouviu no Ceo o côro dos Anjos que cantavam alleluia nas suas harpas
d'ouro, para que nós saibamos que esta palavra inefÍavel desceu dcl Ceo
á Egreja (4).»
Este costume de cantar a alleluia é louvado por S. Agostinho como

(1) De In.stit. cleri,c.


(2) ue, como taima d a pedido do Papa
-,
Llamâso, lhos e epistolas n tâo] Os papas s.
Gregorio respox versiculos. s. Am-
rescentaram as oraçôes,
brosio-lhes^aiun-tou 01 gr:tqgaes,.os tractos e a áttetàto. Fêl-o pr,,
dade dos catholicos de l\{ilão, obrigados a verar nas suas ugr.;"r puú -rnt".-; pi.-
entrada d'ellas aos arlanos.
v.drr.. ,
.(3) Hug. a S. Vict., Specul, eccl,,, c. yII; Alcuino, De d,iuitt, Ofrr,, cap, ile
Septuagesima.
(4) Lib. \I. c. Yf, p. 368.

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t96 cÀrocrsmo

uma tradição da mais remota antiguidade. «Não dizemos a alleluia antes


tla Paschoa, diz este grande Bispo, porque o tempo da Paixão de Jesus
Christo indica o tempo das aÍllicções d'esta vida, e a sua resurreição de-
signa a beatitude de que havemos de gozar um dia. N'essa vida bem-
aventurada e que havemos de louvar incessantemente a Deus ; mas, para o
louvarmos eternamente, ( necessario começarmos a louval-o n'este mundo.
Por isso cantamos varias vezes alleluia, excitando-nos assim uns aos ou-
tros a louvar a Deus; mas fazei com que tudo o que existe em vós o lou-
ve, a vossa lingua, a v ssa voz, a vossa consciencia, a vossa vida e as
vossas acções (l) I

«!, alleluia está pois reservacla para os tempos d'alegria. Mas que I

não devemos louvar a Deus em todo o tempo ? De certo. Assim, quando


a Egreja nos faz deixar a a,lleluia na Septuagesima, nos faz dizer : Laus
t'ibi, Domine, ren uterne gloriu: Louuor a, aós, Senhor, rei de eternü
gloria. Estas palavras encerram o sentido principal da alleluia, mas não
o transporte ou a effusão d'alegria que elle inspira ou exprime ; [rans-
porte d'alegria que nunca hade cessar no Ceo, mas que é muitas vezes,
ai I interrompido no valle das lagrimas (2) » A Egreja prolonga quanto
póde o canto da alleluia; quizera que já lhe fosse permittido não mais
o interromper. D'onde o grande numero de notas de que está carregado.
«Temos cos[ume, diz S. Boaventura, de multiplicar as notas na ultima
letra da alleluia, porque a alegria dos Santos no Ceo é indisivel e inter-
minavel (3). » Esta longa serie de notas chama-se neunta.
A patavra neunxa signiÍica sopro, Sáo, como acabamos de dizer, no-
tas numerosas, separadas de qualquer palavra, que se cantam depois da
u,llelu,ia. Cantam.se tatnbem, em certas egrejas, depois da ultima antifona
do oÍíicio da tarde, nos dias das grandes solemnidades. Por esta longa
serie de sons inarticulados, rnostra a Egreja que lhe faltam palavras para
exprimir o arroubarnento cla sua admiração e os languores do seu amor,
quando pensa nas magniÍicencias e delicias da Jerusalem celes[e. Com ef-
feito, que palavra humana poderia dizer o que os olhos do homem não
viram, 0 que os SeuS ouvidos não ouviram, e que o Seu proprio coraçã0,
vasto como e, não poderia conceber I ,

Ào ouvirdes a Egreja cantar aS SuaS neumas, não vos parece vêr a


rainha de Sabá, arrebatada com o espec[acuto das glorias de Salomã0,

(1) In. Psal. CXLYIII'e CXYII,


(2) Durantus, l. II, c. XX.
(3) De EaposiL Mdese, c. II.

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DE PERSEVEnANÇÀ. ,,9'l

não achar palavras para exprimir o que sentia ({) ? E comtudo aquellas
riquezas não lhe pertenciam, aquelle palacio não era para ella. Filhos do
verdadeiro Salomão, herdeiros do seu throno, futuros companheiros da
sua felicidade, ah t esforcemo'-nos por excitar em nós, á vista do Ceo que
nos está destinado, alguns dos sentimentos da rainha estrangeira I
As neumas deram logar ás prosas: eis de que maneira. Sob aquella
longa serie de notas, se pozeram algumas palavras, e depois alguns ver-
siculos, que exprimiam a alegria e eram como uma continuação da alleluia.
Pouco a pouco se augmentou o numero d'ellas, e finalmente fizeram-so
hymnos, isto é, cantos d'alegria, analogos á festa: esta mudança effe-
ctuou-se pelo nono seculo. D'onde vem l.o que a Egreja romana, sempre
Íiel aos antigos usos, não tem senão um pequenino numero de prosas;
d'onde vem 2.o que as prosas foram e são ainda chamadas sequencia, que
quer tlizer continuaçd,o; com effeito, são a continuação ou prolongamento
da alleluia; d'onde vem 3.0 que não se dizem as prosas senão nas Mis-
sas em que se canta a alleluia.
Cumpre exceptuar a Missa solemne pelos defunctos, ertr que se diz
a prosa Dies irm. Posto quo, segundo a opinião comrnum, ella seja obra
do Cardeal Malabranca, que morreu em | 294, nÁo se disse á Missa senão
no principio do seculo decimo-septimo. Era isso em respeito ao antigo
uso, que não permittia se dissessem prosas quando não havia alleluia.
Ao depois deixou-se de attender ás razões da instituição das prosas, para
não vêr n'ellas mais que uma mostra de solemnidade. Por consequencia,
não se quer tiral-a ás missas cantadas de defunctos, em que se acha mui-
tas vezes uma numerosa assemblêa.
A palavra prosa significa discurso liure, que não é embaraçado pela
medida metrica como a poesia pagan. A fim de ser mais cantante e mais
facilmente retida, a prosa e ordinariamente rimada. D'onde veio a poesia
dos povos modernos. Ha além d'isso na isenção do metro pagão uma li-
berdade que convém muito á oraçã0. Aqui, como em tudo, vê-se aquella
familiaridade tocante, e por vezes ingenua, da esposa quando falla ao seu
divino Esposo. Não sei, mas a medida dos versos, a obrigação de encerrar
o pensament0 n'um numero determinado de syllabas, invariavelmente lon-
gas ou breves, estorva as expansões do coraçã0, comprime os seus im-
pulsos e esfria o seu ardor. Para dizer tudo n'uma palavra, parece.mo
que as prosas, principalmente as antigas, oro,nt, e que os nossos hymnos

(1) Non habebat ultra spiritum. III Reg,, X, 5.


l3

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198 cÀrncrsMo

modernos náo oram nada ou quasi nada. Crê-se commummente que o


primeiro auctor das prosas foi um moDge de saint-Gall, chamado Notker,
que vivia pe.lo anno 880 ({).
E' pois certo que, quaesguer que sejam as suas cerernonias, orações e
cantos, nos apparece a Egreja catholica sempre a mesma, sempre attenta
em traçar-nos no seu culto externo as virtudes que devemos praticar, e os
sentimentos que nos devem animar para nos tornarmos agradaveis a Deus.
0 homem carnal que não vê senão a superÍicie das cerennonias sagradas,
que não ouve senão essa harmonia exterior que fere os ouvidos do cor-
po, acha algumas vezes 0s nossos cantos e as nossas solemnidades frias
e insipidas. Que digo ? ousa intlemnisar-se com sacrilegas zombarias do
enfado que experimentou no templo de Deus. Não vos admireis d'isso:
falta-lhe um sentido, o sentido da fe: é um cego que quer julgar das côres.
Mas o christão que vive do espirito, attento a tudo na casa do se-
nhor, penetra o flm de todas as nossas ceremonias. Não se diz uma só
palavra, nem dão os ministros um só passo n'ellas, sem que elle descubra
o motivo, penetre o sentido e applique a si o fructo de tudo.

0RAÇÃ0.

0' meu Deus, que sois todo amor t graças vos dou por haverdes jun-
tado as instrucções com as orações durante a segunda parte da Missa, a
fim de me preparar dignamente para os santos mysterios; concedei-me
que attenda ao sentido de todos os canticos e de todas as ceremonias.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
hei ile esautar a Epistolü clnx grande desejo de aproae,itar.

- c.(U_
2,
Radulf. Tungrensis t prop, 23 ; Cornel. Schultingus, Bibl,ioth, c@1, t. f, p.
VI e YII.

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DE PERSEVERÀNÇA. {99

DECTMA-o|TAVA UÇÃ0.

0 chris[ianisno Íornado sensivel.

§egunda parúe da ilrisga (eonúinuação). Dvaugerho.


do'. - -«cre-
-Âpproximação nnúre as cerernonlag d'egúa segunda
parúe da ilissa e as oireumsúancias da paix6o. senúl-
-
menlo ![ue deve dominar no notgo eoracão. rleroelra
-
parúe da trlicsa. offerúorio nos prlmelrog ceeurot,
-

I. sneuNnl pARrE DA rlírssa (continuação). Respondendo á Epis-


- se mostrou toda a
tola com o gradual ot o tracto, a alleluia e a prosa,
assemblêa disposta a pôr em prática as santas ligões, que lbe são dadas.
a voz dos Prophetas e dos Àpostolos acaba de a preparar para ouvir ou-
tra \oz ainda mais santa, a do Filho de Deus, senhor dos prophetas e
dos Apostolos: mais um pouco e elle fallará, que se vae lêr o Evange-
lho" Recolhamo'-nos para o ouvirmos, 0u antes estudemos as ceremonias
que acompanham a leitura d'elle; são suÍlicientes para nos infundirem
as disposições que a fe exige de nós.
o sacerdote vem a0 meio do altar, e ergue os olhos ao ceo; de-
pois, inclinando-se profundamente, pede a Deus a pureza do coração e
dos labios a fim de poder annunciar dignamente o santo Evangelho. Du-
rante esse tempo os fieis tambem devem pedir a Deus que os seus co.
rações se tornem n'aquella boa terra, onde a semente sagrada fructifica
e produz o centuplo.
0 uso de lêr o Evangelho á llissa remonta ào proprio momento
em que foi escripto este divino livro. (l). Não é justo-quó aquelles que

(1) Bona, l, fI, c. YII.


tl

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200 cÀrDCIsMo

assistem ao Sacrificio de Jesus Christo conheçam os seus preceitos e


acções, e mostrem publicamente que os respeitam e amam ? 0 Evange-
lho é o prégador da cruz, que não triumphou senão por meio d'ella. Eis
a razão por que o Sacerdo[e, antes de o lêr, 0 marca primeiro com este
signal adoravel, que faz depois na testa, nos labios e n0 coração: todos
os assistentes o imitam.
Fazemos O signal da cruz na teSta, para mostrar que CrêmOs aS ver-
dades contidas n0 Evangelho, Qoê são a nossa gloria e gue nunca nos
envergonharemos d'ellas (l); nos labios, para mostrar que estamos promp-
toS a prOfessal-as altamente ante o mundo, ou, como noSSoS paes, até
em face dos tyrannos, Se fosse necessario; no coraçã0, para mostrar que
n'elle estão gravadas, que as amamos e que serão sempre a regra dos
nossos pensamenlos e affeições. À' leitura do Evangelho, todos os fieis
se conservam em pé, como pessoas promptas para o combate e dispos-
tas a caminhar animosamente após Jesus Christo por toda a parte aonde
as cbamar: este costume é da mais remota antiguidade (2).
Acabando a leitura, 0 Sacerdote beija o Evangelho, em signal de
amor e respeito. Todo o povo, representado pelo acolyto, responde :
Louuor a aós, ó Christo. Nunca louvor algum foi mais bem merecido t
Que somos nós ? Somos captivos do demonio. desterrados do Ceo, via-
jantes que atravessam os desertos da vida, o valle das lagrimas. Que é o
Evangelho? E' a boa nova. Para os captivos é a nova da sua liberdade;
para os desterrados, a nova cle que lhes são aberlas as portas da patria;
para os viajantes, a nova de que desceu do Ceo um guia charitativo e
seguro para os proteger e conduzir até ao termo. 0h ! se sentirmos o
que s0m0s depois do Evangelho, 0 que fomos antes do Evangelho, e o
que ainda seriamos Sem o Evangelho, com que profundo sentimento
:
de graticlão diremos Gloria a uÓs, Ó Christo; Chris[0, Salvador do
mundo I

Nas Missas cantadas, é acompanhada a leitura do Evangelho de ce'


remonias cheias de mysterios, todas proprias para alimentar a piedade e
o profundo respeito que devemos á palavra de Deus. O Diacono leva o
livro dos Evangelhos para o altar. 0 uso de pÔr e [omar o livro dos Evan-
gelhos sobre o altar vem' tle que outr'ora o levavam ceremonialmente para
o altar no cgmeço da Illissa. Queria a Egreja que á gente §e representasse

(l) Aog., in. Psol. CXIII.


(4 Ordem roma,na.

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DE PEBSEVERANÇA. 201

o mgsmo Jesus Christo, ao vêr o livro que continha as suas divinas pala-
vras (l).
A honra de cantar o Evangelho está reservada ao Diacono. 0 res-
peito devido a es[e livro divino e a magestade das ceremonias que acom-
panham a leitura d'elle, exigiam que este oflicio fosse desempenhaclo pelo
ministro sagrado gue mais se approxima da dignidade sacerdotal (2).
Outr'ora, na Egreja d'Alexandria, es[a nobre funcção era só desempenhada
pelo Arcediago. Em outras partes estava reservada a Presbyteros e até
a Bispos nas grandes festas, como em Constantinopla no dia de Paschoa
(3). Diremos de passagem que em Roma, quando o Summo Pontifico ce-
lebra Missa solemne, a Epistola e o Evangelho se cantam em grego e la-
tim: é um Cardeal que canta o Evangeltto. A divina palavra annunciada
n'estas duas linguas recorda a antiga união do Or'iente com o 0ccidente:
oxalá a divina Providencia a restabeleça um dia I
0 Diacono sobe ao altar, põe-se de joelhos e recita a oração que
acima referimos Deus todo-poderlsl, purif,cae, etc. N'este Diacono que
sobe ao altar não yos parece r'êr Moysés chamado pela voz do Eterno ao
monte Sinai, no meio dos raios e relampagos, para receber a Lei e trans-
mi,ttil-a a0 povo d'Israel? 0 Diacono prostra-se ao pé do altar e á vista do
livro tla Lei, porque sabe que não pertence ao homem ser orgão das ver-
darles eternas. Levanta-se e toma sobre o altar o livro que contém essas
adoraveis verdades, o que significa que as recebe da propria bôcca de
Jesus Christo, gue o altar representa, para que os fleis não ignorem que
são as verdades do Ceo as que lhe vão ser manifestadas.
0 Diacono [orna-se a ajoelhar, pede a benção ao Presbyüero ou ao
Bispo, e lhe beija a mão. 0 Diacono havia pedido a Deus o poder annun-
ciar dignamente o Evangelho, e petle agora ao Presbytero ou ao Bispo
licença de o annunciar; pois, na Egreja, ninguem deve exercer ministerio
algum se não e a elle chamado. Respondendo á sua petiçã0, lhe diz o
celebrante: «0 Senhor esteja no vosso coração e nos vosso§ labios, para
que annuncieis clignamente e como cumpre o Evangelho.» Conn Curnpre,
isto e, com piedade e modestia, para que seja util a vós mesmo, e para
que todos aquelles que a ouvirem fiquem edificados. Recebendo a bengão
do celebrante, o Diasono ltre beiia a mão para mostrar-lhe o seu respeito
e reconhecimento.
(t) Amalar,, De offic. eccl., l. III, c. Y.
iZ) Bona, l. II, c. YII.
(3) Sozom., Hisú\ l. VII.

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202 carEcr§Mo

o estandarte do Salvador recorda eloquentemente que Elle proprio vae


fallar no- seu Evangelho,
e que vão ser proclamadas maximas de cruciÍi-
caçãO. Quer que 0s seus ministros tenham ante os olhos a irnagem d'ellas,
para que se acostumem a levar o sentimento ao coragã0.
A' vis[a do livro sagrado todos os que estão no côro se levantam em
signal do respeito; penetrado do mesmo sen[imento, o clero se conserva
tambem em pé sem se encos[ar de maneira alguma aos assentos (2).
Por uma razáo cheia de mysterio, vira-se o Diacono, para cantar o

Apenas o Diacono ergueu a voz para dizer ao povo: Dominus aobis-

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DE PDn§EVERANÇA. 203

curn: O Senhor seja comülscl, e tem mais precisão d'isso que nunca
n'aquelle momento solemne, quando todo o povo se levanta respondendo:
Et cum spiritu ttto: E clnx o Dlsso espirito. Nos seculos passados, terieis
visto todos os fieis, depondo respeitosamente oS seus bordões, e os ca-
valleiros das differentes ordens militares e a nobreza polaca tirar a espada
da bainha e têl-a elevada durante toda a leitura do Evangelho, testificando
assim a sua disposição a seguirem a santa Lei do Senhor, a combaterem
valorosamente e a derramarem o Seu sangue em defensa da Religiã0.
Está ahi a historia, brilhante com os feitos immortaes d'elles, para attes-
tar que não era aquella uma vã ceremonia ([).
O Diacono, fazendo o signal da cruz sobre o livro sagrado, e depois
Da testa, labios e coraçã0, annuncia logo aquelle dos Evangelistas que
nos transmittiu a verdade que a Egreja vae propÔr á nossa meditaçã0.
Posto que Nosso Senhor conÍiasse a quatro dos seus discipulos o cuidado
de nos transmittirem 0s seus preceitos e acções, reina entre elles tal con-
certo, tam perfeito accÔrtlo, que é Sempre a clnüinuaçu,o do Eaangelho
de Jesus Christo: sequentia sancti Eaangelii. Assim e que respondemos:
/
Gloria a, aós, o meu, Deu,s Posto o livro dos Evangelhos n'uma estan-
t0, 0u seguro pelo Sub-Diacono, o incensa o Diacono tres vezes : uma
aO meio, ou[ra á direita, e a terceira á esquerda, c0m0 para mostrar quo
é aquella a origem do perfume da divina palavra que se deve diffundir
nos nossos espiritos.
Depois que o Diacono canta o Evangelho, o Sub-Diacono leva o
livro aberto ao celebrante, que 0 beija, e ê incensado como o principal
rninistro, rlue deoe, segundo a expressão do S. Paulo, espalhar em todos
os logares o bom cheiro do conheci,mento de Jesus Christo (2). De todo
este apparato que a Egreja emprega na leitura do Evangelho, do todas
as orações que a precedem, de todas a§ ceremonias que a acompanham
e seguem, que havemos de concluir, a não ser que nunca devemos assistir
a ellas senão com coraÇão puro, ou ao menos com Coração penitente, e
que o temor, a veneração, a docilidade, a confiança e a f,delidade são ou-
tras tantas disposições relativas a esta ceremonia ?
Aos domingos e dias santi0cados e a leltura do Evangelho seguida
da instrusção. Este uso á tam antigo como o Christianismo: vêmol-o pra-
ticaclo tlesde os tempos apostolicos (3); nada mais natural. 0 Evangelho

(1) Bona, l. II, c. VII.


(2\ ÍlCor., X'I, L4.
(3) Just,, Apol., ÍÍ.

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20e carEcrsuo

é como o manná que cahia no deserto e que precisava de preparação para


vir a ser o sustenlo dos israelitas. À fim de ser 0 alimento da nossa vida
espiritual, tambem o Evangelho precisa rJe preparação: e um pão que e
necessario partir aos pequenos, isto e, aos fleis. Tal e a importante func-
ção que vae deseurpenhar o Presbytero.
sabeis que a instrucção da llissa cantada se chama estaçd,o; mas
talvez ignoreis a significação d'esta palavra, que muitas vezes vos tem fe-
rido os ouvidos. Estaçd,o quer dizet ünnuncio (l). com effei[o, 0 pres-
bytero annuncia as fostas da semana, 0s futuros casamentos, e Íinalmente
a palavra de Deus, que não ê senão o commentario do Evangelho. Em
grande numero de dioceses, todas estas coisas são precetlidas por admi-
raveis orações, chamadas arações da estaçd,0. À familia catholica, reu-
nida ao pe do a[Íar, roga pelos seus superiores espirituaos e temporaes,
pelos vivos o mortos, uso que nos diz a todos que a charidade e catho-
lica como a fé, e que, para participarmos do mesmo sacrificio, devemos, co-
mo nossos paes, não ter senão um coração e uma alma. Por onde se vê quam
importante e assistir á Missa parochial.
Haveis alguma vez reflectido em tudo o que ha de social n'esta in-
s[rucção evangelica do domingo ? Nada achaes similhante entre os povos
mais celebres de antiguidade. Graças a Nosso Senhor por nos haver pre-
parado na sua Egreja um curso de instrucção ignorado ate Elle cle todos
os sabios da terra ! E, n'esta instrucçã0, vêde que moral ! a humildade,
cujo nome não tem synonymo em nenhum philosoptro pagã0, posta no
logar do orgulho, uma das molestias mais incuraveis da nossa natureza ;
o amor do Deus e dos homens pregado como o fim e o summario da lei;
todas as virtudes recommendadas, todos os vicios proscriptos, todas as
inclinações do homem para o bem excitadas e sustentadas por dignos
motivos; tal e a instrucção evangelica, da qual a santa egualdade dos Chris-
tãos faz uma das mais [ocantes maximas.
A philosophia reconhecia ainda livres e escrayos, patricios e ple-
bous; chamava aos imperadores deuses, quando já a Egreja dava a todos
os homens 0 nome de irmãos, de charissimos, de Íilhos de Deus, e d.e
herdeiros da sua gloria; quando estabelecia na terra a imagem da socie.
dade do ceo, e ltres ensinava, como faz ainda hoje, a consagrar o septimo
dia pela communhão das mesmas orações e dos mesmos ritos (2).

(1) Praeonium.
(2) Yide Jauftet, Do culto grubl,ico, pag,244.

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DII PERSEVERaNÇÀ. 20s

Apenas o Presbytero desce do pulpito, torna a apparecer n0 altar,


d'onde entoa o Creilo, E' uma solenne protestação de que se crêem to-
tlas as verdades das quaes Se acaba de ouvir explicaçã0, e de que se

depois de nós.
Se o mesmo milagre tle que fallamos chamasse á vida todos os he-
rejes, todos os protestantes dos diversos seculos e paizes, e se pedisse a
catla um d'elles a sua profissão de fé, que ouviriamos ? uma confusão de

eis uma interessante


e doutor os Pormeno'
Xâj

toilo-poil,eroso,
-«Matheus
disse: D'onileha'il'e ai't' a -iulqar os aiuos e os mortos'
«Thiago, filho d'Alpheu, disse z Creío íro Esgti,rí,to Santo, na santa Egteia ca-
tholi,ca.
asimâo disse: Na communhà,o ilos Santos, na rerníssào il,os peccad,os'
oJudas disse : Na reswrreiçd'o d,a carne.
rMathias terminou dizendo : Na uid,a eterna,» Aog., Serrn. Domini'ín Ram,
palffi.

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206 CATECI§MO

vozes, verdadeira imagem do inferno ou da torre de Babel;


tantos sym-
bolos quantas seitas, quanüos individuos em cada seita: symbolos
oppgs-
tos uns aos outros, variaveis segundo os tempos e 0s paizes. se ver-
a
dade e uma, dizei cle que lado se acha: entrõ os Catholicos
ou en[re os
protestantes ?
Ate ao quinto seculo não se recitava o Symbolo durante
a Missa; só-
monte em sexta feira santa o dizia o Bispo em voz alta durante
a in_
strucção qtte dirigia aos cathecumenos. Fazendo porem alguns
prggressgs
os erros dos macedonios, Timotheo, Bispo de cónstantinopla, -o
mandou
cantar c,mo um protesto contra a heresia (,1): foi isto em 510.
Este uso
passou em breve ao 0ccidente (z). sem embargo
ainda se não dizia em
Roma no principio do unclecimo seculo. Eis a este respeito
as nota-
veis palavras d'um antigo auctor (s), testimunha oculai
do facto que
conta :

«Em '1016, tendo ido a Roma o imperador s. Henrique,


ficou muito
admirado de vêr que se não canta va o crecro na Missa. Éerguntou
a ra-
záo d'isso aos clerigos, que rhe responderam na minha
[resença
Egreja romaoa não canta o credo p,rque nunca foi manciacla por
:a
al-
guma heresia, mas, seguindo a doutrina cle pedro, permanece
immutavel
na integridade da fé catholica. Portanto não precisa cle o cantar
cgmo as
Egrejas que poderam cahir n0 erro.» Todavia o santo imperarlor
instou
com o summo Pontifice para que se cantasse o symburlo em Roma
como
no resto da christanrlade. o pipa Bento VIII acclcleu aos seus r0g0s,
e
cantou-se o syrnbolo, o qual tem continuado até hoje (4).
Quando cantando o credo se chega a estas paravras Et homo : fuc-
tus esü: E se fez homem, prostra-se ou inclina-se u gente para honrar
os
abatimen[os do verbo incarnaclo. «por humilhaçã a, cliz s. Agostinho,
é
que cumpre approximar-se d'um Deus humilile; humilhação, não
clos
n0s§0s corpos, mas sim do nosso coraçã0, que deve penetrar-se dos
sen-
timentos d'um Deus feito escravo para nos restitoir a liberdade; feito
homem, homem pobre, elle que manda á natureza tocla; homem desco-
nhecido, elle que descendia dos reis rie Judá, e que tinha sido estabele-
cido rei das nações; homem mortal, elre que não merecêra a morte pelo
peccado. Abaüa-se pois toda a creatura á recordação cl,um mysterio em

(1) Collectqtteorum.
(2) r.
(q) bws qd Miss, pertin., c. II.
(4)

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DE PERSEVERANÇA. 207

que um Deus, do alto da sua gloria, desceu ao profundo abysmo das


humilhações o indignidades para salvar o mundo criminoso. »
Diz-se 0 Symbolo em certos tlias por tres razões principaes : pri-
meira, a fim de proclamar de geragão em geração os triumphos que a
Egreja alcançou das antigas heresias ; segunda, a fim de o lembrar ao
pgvo: d'onde vem que se diz totlos os domingos, dias da reunião dos
Christãos; terceira, pot' causa da relação do Symbolo com a festa que se
celebra : assim, diz-se nas festas de Nosso Senhor, porque se falla d'elle
no Symbolo ; nas festas dos Apostolos, que nos annunciaram a fé, e nas
dos doutores, que a pregaram e defenderam. Yimos que nos primeiros
seculos da Egreja não se cantava o Credo. Quando se devia dizer, fa-
ziam-se sahir os cathecumenos : então comeÇava a l\lissa dos Íieis. Tudo
o que precede desde o principio até depois da ins[rucçã0, compunha a
dos cattrecumenos.
E' este o logar de collocarmos as approximações que se podem en-
contrar entre as differentes ceremonias d'esta segunda parte da Missa e
as coremonias da Paixã0. No Sacerdote dizendo o Inl,roito, vê a piedade
Jesus entrando en't, co,sa de Annas e Caiphas, onde é esbofeteado; no Sa-
cerdote recitando o Kyrie, Jesu,s negado por S. Pedro; no Sacerdote vi-
rando-se para o povo para dizer: Dornintts uobiscum, Jents olhando para
S. Ped,ro e clnuertendo-o; no Sacerdote indo dizer a Epistola , Jesorc leaaclo
a casü de Pilatos; n0 Sacerdote indo ao meio do altar dizer o Mu,nda, cor
n1,eu,n1, Jesu,s leuado a, cüs(t d'Herodes; no Sacerdote indo lêt o Evangelho,
Jesus esaat"necido e recottdtr,zido ü cüso, de Pils,tos.
Quanto ao sentimento que dove dominar na nossa alma durante esta
segunda parte da Missa, as orações de que'se compõe o indicam suÍfi-
cientemente: é a fé. Quanto deve ser viva e forte a nossa fé, quando vi-
mos a pensar que alli, diante da nossa vista, sobre aquelle altar, entre as
mãos do Sacerdote, por amor de nós vae descer clo Ceo e immolar-se
aquelle Desejado das nações, objecto dos votos e suspiros dos quarenta
seculos antigos, termo de todos os acontecimentos do mundo antes e de-
pois da sua vinda; Aquelle que adoram os anjos e 0s seraphins; Aquelle
em guem crêram essas legiões de }lartyres e Santos que nos precedem;
Àquelle que mudou a face do universo, que o ha de julgar, e que ha de
glorificar comsigo, por toda a eternidade, os fieis imitadores dos seus di-
vinos exemplos! Que profunda sensação deve conservar-nos a alma attenta
á ineffavel maraviltra que vae realisar-se !
II. TnncBrRÀ pÀRrE oe Mrssl. Comprehende o principio do Sacri-
-

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-
208 carncrsuo

ficio ou o offertorio e as orações que o seguem até ao prefacio. Nos pri-


meiros seculos, quando estavam acabadas todas as orações, todas as ce-
remonias, todas as instrucções de que acabamos de fallar, e que forma-
vam a preparação para o tremendo SacriÍicio, dava o Diacono ordem aos
cathecumenos, penitentes, judeus e herejes, de se retirarem. Eram admit-
tidos a ficar só aquelles que haviam recebido a graÇa do baptismo,.e que
se julgava terem-n'a conservado intacta ou recobratlo por meio da peni-
tencia.
Este antigo uso nos mostra o profttndo respeito da Egreja aos divi-
nos mysterios; e por conseguinüe a perpetuidade da sua fé na presença
real de Nosso Senhor na Eucharislia. Diz-nos tambem que santidade de-
vemos levar para a Missa. Se os peccadores já não são excluidos d'ella
c0m0 outr'0ra, quer a Egreja ao menos que não assistam a ella senão com
um desejo, um comeÇo de conversão, com aquelles gemidos que, partin-
do d'um coração contric[o e humilhado, chamam a misericorc]ia do Senlror.
Àntes do offertorio, o Presbytero sauda de novo os fleis da maneira
costumada: Dominus aobiscunt 0 povo, da sua parte, vendo approxi-
mar-se o momen[o terrivel e sentindo mais vivamente que nunca quanto
lhe importa que o seu sacrificador esteja revestido da virtude do alto,
responde desejando-lhe tambem a assistencia do Senhor: Et cum spirikr,
tuo. Logo que de novo está voltaclo para o altar, diz o presbytero: ore-
mu,s: 0remos; exhortando a assemblêa a cqnservar-se cada vez mais unida
a Deus, á medida que tudo se dispõe mais proximamente para a grancle
acçã0. Incontinente recita a oração chamada 1lfertorio, porque era clu-
ranfe esse tempo que, na primitiva Egreja, offereciam os fleis o pão e
vinho destinados ao Sacrificio (t).
Eis de que maneira se effectuava esta offrenda: cada Íiel levava o pão
e vinho que queria apresentar no altar. 0s hornens primeiro e depois as
mulheres depunlram as suas offrendas em cima de toalhas lavadas. 0
Bispo recebia estas oblações, que eram postas por um sub.Diacono n'uma
toalha segura por dois acolytos. 0 Arcediago recebia os pequenos calices
ou galhetas (2) que cada fiel lhe apresentava e d'ellas deitava vinho n'um
grande calix sustentado por um Sub-Diacono. o Arcediago punha em
cima do altar tantos donativos offerecidos (3) quantos eram precisos para
a communhão do povo, ou os apresentava ao Bispo, que era o que 0s
(1) Bona, l. II, c. VI[.
(2) Amulas.
(3) Oblata.

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DE PER§EVERÀNÇÀ. 209

collocava alli; depois deitava atravez d'um coador o vinho no calix onde
primeiro
se devia fazer a c0nsagragão; um sub-Diacono ia receber do
que deitava d'ellano
cantor a galheta d'agua (l) e a levava ao Arcediago,
no altar diante do PontiÍice, á direita das
calix, Aeplis do quà a coliocava
oblações (2).
0s Presbyteros e os outros ministros da Egreja faziam as suas of'
da ba-
frendas no altar, a0 passo que os fieis as faziam fóra do cÔro ou
(3). Era alli que o Bispo ou o
laustrada que separru, o clero do povo
á dignidade soberana de
Presbytero oÍflciante os ia receber. Dm respeito
regra geral para
que estava revestido, era exceptuado o imperador d'esta
pão que
ós leigos. EIle mesmo levava a sua offrenda ao altar, a saber: o
tinha preparado por suas proprias mãos. Por motivo d'este uso teve lo-
gr, ,à dos factõs mais notaveis da nossa santa antiguidaile' E' assim
relatado por S. Gregorio de Nazianzo:
Estando em Cãsarea o imperador Valente, foi á egreja no clia da
juntou-se, pro forma,
Epiphania, cercado cle todos o§ seus guardas, e
,ô poro catholico, pois era ariano. Quando ouviu 0 canto dos psalmos'
e víu aquelle povo immenso e a ortlem que havia no santuario e nas vi-
que a homens,
sinhanças, os ministros sagraclos, mais similhantes a anjos
S. Basilio dianüe do altar, com o c0rp0 immovel, o olbar Íixo, 0 d'espi'
rito unido a Deus, cgmo se não houvesse succedido nada extraordinario,
e os que o rodeavam cheios de temor e respeito ; quando, digo, Valente
viu tudo isto, foi para elle um espectaculo tam n6vo, que a cabeça lhe
a princi-
andou á roda . , uirtu se lhe escureceu. Ninguem o percebeu
a que tinha
pio; mas, quando foi necessario letsar ao altar offrenda

/ei,to por suas md,os, vendo que ningugrn a recebia, segundo o costume,

anüigos Âeis.

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\-,-

210 CATECISilO

porque não sabiam se S. Basilio a quereria acceitar, vacillou


de tal s'rte,
que, se um dos ministros do altar lhe não houvesse estendido
a mão
para 0 suster, teria cahido vergonhosamente ({).
Duranto todo o tempo da oblação cantavam psalmos.
Este costume
estava já em todo o vigor no quarto securo (2);
mas a sua origem re-
monta muito mais atraz. Transportemo'-nos ao tempro
de Jerusarem, e
verêmos o povo judaico offerecendo 0s
seus holocaustos e as suas primi.
cias a0 canto dos cantic,s, a0 som das trombetas e
dos cymbales, a fim
de patentear a alegria com que apresentava
ao senhor o, áon, que tinha
recebido da sua muniflcencia. Não menos
reconhecidos qou o, judeus,
tambem n,ss,s paes acompanharam a sua
offrenda do cãnto oos nym-
n,s sagrados. Nós herdamos 0 seu uso; herdariamos
tambem a stra pie-
dade para com Deus ? 0 offertorio, que ainda
cantamos, e por tanto uma
lição mui preciosa e uma recordação mui veneravel.
Canta-se lentamente,
a fim de dar a0 presbytero tempo de fazer a oflrenrla
ao pao e vinho,
assim c0m0 as orações que a acompanbam.
Quando a offrenda do po'o estava terminada, ia o Bispo
assentar-se
na sua cadeira, lavava as mãos e voltava ao altar: preparemo,-nos
para
o seguirmos.

0RaÇÃ0.

0' meu Deus, gue sois todo amor r graças vos dou por haverdes
cercado o santo sacriÍicio de tantas orações e
ceremonias tam proprias
para reanimar a minha fé e piedade; concedei-me
que penetre bem d,el-
las o espirito.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre tocras
as coisas, e a0 pro-
ximo com. a mim mesmo p.r amor de Deus; e, em pr.va
d,este amor,
hei ite escutar a leitura do-Et:angellto como teria
esculailo /fosso Senhor
em pess0a.

(l) Fleur^y, t. IV. o.2M


(2) Aag.r- hetract.r'l.If, c. If.

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\

DE PERSEYERÀNÇÀ. 2M

DECTMA-NONA LtçÃO.

0 christianismo Íornado sensivel.

lleroeiro pario da trlirca (oontinuagão). - Offerúorlo nos


úompos actu&es.

Já sabeis de que modo se fazia o offertorio até ao nono seculo: va-


mos dizer-vos c0m0 se faz hoje. 0 Presby[ero descobre o calix: o uso
de cobrir o calix com um veo já existia nas primeiras edades do Cbris-
tianismo (l). Attesta o respeito que a Egreja teve sempre aos vasos des-
tinados ao altar. Estende o corporal, isto é, o panno sobre que deve des-
canÇar o corpo de Jesus Christo. 0 corporal deve ser de linho, porque
era de linho a mortalha que envolveu Nosso Senhor: ha mil e quatro-
centos annos que S. Jeronymo assim o dizia. A Egreja estabeleceu o uso
do corporal para maior lirnpeza e para evitar os inconvenientes que
podéssem occoruer se viesse a calrir sobre o altar uma gôta do precioso
sangue.
O corporal era outr'ora tão comprido e tão largo como a superÍicie
do al[ar, e era tão amplo, Qü0 se dobrava sobre o calix para o cobrir (2).
Mas, como isto era incomtnodo, principalmente depois que se introduziu
a elevação do calix, que alguns queriam ter coberto ate mesmo elevando-0,
flzeram-se dois corporaes mais pequenos: um que se estende sobre o al'
tar, e o outro dobrado d'um modo proprio para cobrir o calix. Em alguns
paizes, en[re as duas telas d'este ul[imo, se metteu um cartã0, pâra que

(1) Canon. apostol., LXXII I Bone, I. f, c. XXV.


(2) Greg. Turon., EIist,r l, VIf, c, XII.

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2L.,2 CÀTECISMO

fosse mais firme e se pegasse n'elle mais commodamente. Sempre se lhe


deixou o nome de palla, que quer dizer capa 0u coberta (l).
Descoborto o calix, pega o Presbytero nil patena, sobre a qual está
collocado o pãosinho redondo e delgado a que chamamos hos[ia, isto é,
victima, porgue dete converter-se na victima santa. Sustentando a patena
com ambas as mãos na altura rJo peito, o ministro sagrado ergue os olhos
para 0 Ceo, e depois abaixa-os. Por esta posição e por este gesto, expri-
me que oflerece a Deus, que restá no Ceo, aquella hostia tão san[a e pura,
posto que não seja mais que um indigno peccador.
0 Presbytero acaba a offrenda fazendo o signal da cruz, como para
collocar já a victima na cruz onde deve ser immolada (2). põe depois a
patena metade de,baixo do corporal, e cobre a outra metade com 0 puri-
Íicatorio, a fim de a conservar com mais limpeza até ter precisão d'ella
para partir a hostia ; e puriÍica o calix com um panninho chamado por isso
purificatorio. Deita-lhe vinho, e depois agua, mas em pequena quanti-
dade, porque a materia do Sacrificio, aquella cle que se serviu o Salvador,
é o vinho e não outro liquido qualquer. Esta mistura da agua com o vi-
nho é tão antiga como a instituição da sagrada Eucharistia. A tradição nos
diz que o salvador deitou agua na copa de vinho que consagrou (3). N'isto
se conformava com o rito dos judeus, segundo o qual devia haver na copa
pascal vinho misturado com agua.
Esta mistura é cheia de mysterios; eis o mais instructivo para nós :
a agua representa 0 povo ; esta idea e-nos dada pelo proprio S. João (4)
e por alguns santos Padres (5). Não devemos formar senão um só corpo
com nosso Senhor, e por conseguÍnte devemos ser consagrados com Elle;
fez-se similhante a nós tomando a nossa natureza; porem quer que a união
seja perfeita e que lhe sejamos similhantes revestindo-nos da sua divin-
dade. ora, esta mistura cl'agua e vinho e uma imagem da união adoravel
de Deus e do homem que se effectuou na incarnação; cla união do ho-
mem com Jesus Christc, que se eÍIectua na communhão; e da consum-.
mação do homem em Deus, que se ha-de effectuar pela gloria (6).

(1)
- L Na Italia nâo eriste o cartâ,o, o quo torna
muito m
(2) 5.
. Í3L_
Apol^,.'!Í
o, S. Basilio, e S. Chr.rsostomo; S. Justiuo,
. etc. I Bouaj l. II, c. ÍX,
(4)
(5)
(6)

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DE PEnSEVERÀNÇÀ. 2t3

Taes são as grandes idéas expressas pela oração que faz o Presby'
tero ao abençoar aquella agua que representa o povo fiel, aquella agua
que não vae fazer mais que um com o vinho do Sacrificio, aquelle povo
que, pela transsubstanciaçã0, não vae fazer mais que um com o Filho de
Deus.
Nas Missas de defunctos, o Presbytero não abençôa a agua com o sig-
nal da cruz: é uma consequencia da mysteriosa significação da agua.
Não se emprega este signal externo para abençoar a agua, que significa
o povo, porque se está todo occupado cgm as almas do Purgatorio, que
não estão no caso de serem abençoadas pelo Presbytero. Não se deita no
calix senão uma pequena quantidade d'agua, «pârâ, diz um concilio, que
a magestade do sangue de Jesus Christo seja mais abundante que a fra-
gilidade do povo representado pela agoa (l).»
Nas Missas solemnes, e o Sub-Diacono quem deita a agua no calix.
0 Diacono apresenta o pão e o vinho, para que saibamos bem que o Pres'
bytero não offerece só, que não sacrifica por si só, e que não desempenha
um ministerio estranho ao resto dos Íieis. 0 Diacono e o Sub'Diacono, que
occupam como que o meio termo entre o leigo e o Presbytero, represen-
tam aqui o povo inteiro. Pondo nas mãos do Presbytero as subs[ancias quO
devem Ser consagradas, offerecem em certO mOdo em nome dO pOvO, pe-
Ias mãos do Presbytero. Que ligão para nós t
Que outra lição nos elementos que escolheu o Salvador para o seu
Sacrificio t 0 pã0, que se compõe de muitos grãos de trigo, e o vinho,
que se faz de muitos grãos de uva, não representam admiravelmente a
EgreJa, composta do muitos membros, que são tirados da massa corrom-
pida, para serem convertidos em Jesus Christo e se tornarem no seu cor-
po mystico, como aquelle pão e vinho se convertem realmente no seu c0rp0
natural e n0 seu verdadeiro sangue? Que elcquente ensino d'esta verdade,
base de todas as sociedades, principío de todas as virtudes e de todos os
sacrificios generosos : Vós todos nao deuets formar senã,0 um coracãa e

u,ma alma !
0 pão e o vinbo fazem pois as vezes d'aquelles que os offerecem, e
;
n'elles de toda a Egreja porque sendo o pão e o vinho o alimento, a
substancia e c0m0 que a.vida dos homens, quando esl,es os offerecem no
altar, offerecem em certo modo a sua vida e o mundo inteiro que foi feito
para elles. Offerecem-se a si mesmos a Deus, a Íim de serem sacriÍicados

(1) Concilio de Tribur, can. XIX, celebrado por 895.


,,lL

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%e CATECISMO

á sua gloria com Jesus Christo seu chefe. Tal é, com effeito, a verdadeira
disposição em que se deve estar para fazer a oblação do pão e vinho com
o Presbytero. Quando esta,es assentados d meza do Principe, diz a Es-
criptura, considerae o que se Dls serue; ponde uma faca &0 pesclçl, e
sabei que o Principe esperü qu,e lhe pagu,eis na mesma moeda (l).
Que meza é esta, pergunta S. Agostinho, senão aquella onde rece'
bemos o corpo e sangue de Jesus Christo ? e que signiÍicam es[as pala-
vras: Sabei que é preciso quo pagueis na mesma moeda, senão o que
disse S. João : Como Jesus Christo deu a uida por nós, é preciso do mes'
mo modo que nós dêmos a aida plr nlssls irmaos (2) ? Assim, assistir
á missa com espirito de victima, de victima irnmolatla com Jesus Christo,
e para 0s mesmos fins que Jesus Christo, isto é, para gloria de Deus e
bem de nossos irmãos, tal é a grande disposição com que devemos ir ao
Sacrificio augusto. Esta disposição comprehende todas as outras.
Preparado assim o calix, volta o Presbytero ao meio do altar, e o
offerece como offereceu o pã0, com a differença de que não falla só, mas
em nCIme de toda a assemblêa, que eleva por assim dizer ao Ceo n'a-
quella agua misturada com o vinho do oalix: ceremonia sublime, que,
com a oração de que é acompanhada, mostra claramen[e que Jesus Christo,
como diz Tertulliano, é o Sacerdote catholico do Pae, purificando com o
Seu sangue a terra e o Ceo ; pois é a aíctima de propiciaçd,o pelos 710§§0s
peccados, e nd,o só pelos ??0ss0s, send,o pelos de todo o uniaerso (3).
0 Presbylero taz com 0 calix o signal da cntz sobre o altar, para
mostrar que põe a oblação sobre a cruz de Jesus Christo. Mas, ai I tgmos
mo[ivo para temer que a nossa indignidade junte á offr"enda algun:a coisa
que seja rlesagradavel a Deus. Àssim é que o Presbytero se inclina, com
as mãos juntas sobre o al[ar, em signal de snpplica, e diz ern nome de
todos os assis[entes o que diziam os jovens hehreus, captivos em Babylo-
nia, no momento em qrre se offereoiam animosamente em ltoloeausto para
serem lançados na fornalha: «Recebei-nos, Senltor, a nós qtle nos apre-
sentamos ante vós corn espirito humilhado e coragão contricto, e fazei
que hoje 0 n0ss0 sacriÍicio se consumme em vossa presença, d'um modo
que vol-o torne agradavel. »

(1) Prou., XXI[, l, 2. Eccli,., XXXI; 12. Yide a este respeito os magnificos
commentatios dos Santos Paclres em Cornel. a Lapid., in Proaerb. XXI[, L, 21e
Dccli., XXXI, 12.
(2\ Aue.. Serm. XXXI.
(gÍ r Jóa'n., rr, 2.

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-,
DE PENSEVERÀNCÀ. 2l$
Então o Presbytero ergue os olhos e as mãos ao Ceo para cbamar o
Espirito Santo, esse espirito de fogo, esse espiriüo santificador, que con-
sumia ás vezes visivelmente os holocaustos antigos, e que todos os dias
consome, mudando-os d'um modo tão admiravel, os dons que offerece-
mos. Ao mesmo tempo faz o signal da cruz sobre o calix e sobre a hos-
tia, para indicar que só pela virtude da cruz é que espera do Espirito
Santo a santificação dos dons, que devem ser convertidos no corpo e san-
gue do Salvador.
Este momento ê o mais precioso para nos offerecermos a nós mes-
mos. Que motivo de confiança I Não somos apresentados sós a Deus; ai I
guem quizera a nossa indignidade ? mas, apresentados com Jesus Christo,
não fazemos mais que um com elle. A nossa miseria, a nossa imperfeição
está occulta e c0m0 que absorvida na dignidade inÍinita da pessoa de
Nosso Senhor a quem Deus seu Pae nunca recusa coisa alguma.
Entrernos bem nos sentimentos de oblação a que a circumstancia
nos convida, offereÇemos o bem que existe em nós, para que, unido aos
merecimentos do Salvador, seja purificado das imperfeições com que o
juntamos, e se torne digno de Deus; offereçamos o mal que existe em
nós, para que seja escondido e consumido pela grande charidado da vic.
tima; offereçamos o nosso corpo e todos os seus sentidos, a nossa alma
e todas as suas faculdades: Jesus Christo, nosso primogenito, não reserva
nada. Desde que imos a0 seu Sacrificio, cessamos de pertencer a nós;
consentimos em ser victimas com elle; consentimos em entregar tudo a
Deus, de quem [udo recebemos, e a quem tudo pertence.
Quando acabam as orações e ceremonias do offertorio, o Diacono,
nas Missas cantadas, apresen[a a naveta ao celebrante, que abençôa o in-
censo, o incensa primeiro o pão e o vinlto. Como já dissemos, o incenso
é um symbolo das nossas orações e da oblação de nós mesmos. 0 Pres-
bytero incensa o pão e o vinho, para mos[rar mais sensivelmente que
juntamos a estas oblações os nossos vo[os, pessoas e bens. E' o que ex-
primem mui claramente as orações que o Presbytero recita durante o in-
eensamento das oblações e do altar.
Em certas egrejas, depois do incensamento é que tem logar a of-
frenda do pão bento, assim como as differentes esmolas. E' importante
reanimar a nossa fe sobre estes dois usos tres vezes yeneraveis, pela sua
antiguidatle, pelas tocantes recordações que suscitam, e pelas lições que
nos dã0.
Conhecer-se.d, que sots meus discipulos, dizia o Salvador, se oos arnar-
*

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2'16 cÀrncrsuo

des uns aos outros (l). Fieis a este mandamento, nossos paes na fé
não formavarn senão um coração e uma alma (2). À Egreja não era se-
não uma grande familia espalhada por todas as partes do mundo. Porém
todos aquelles irmãos que se amavam sem nunca se terem visto, quize-
ram dar um signal sensivel da charidade que os unia. Escolheram o mais
energico de todos, o pã0. Como o pão se compõe de muitos grãos de
trigo de tal modo unidos que não formam senão um só e mesmo todo,
exprimiarn, enviando-o uns aos outros, quc erarn zm entre si ; um em
certo modo c0m0 as pessoas divinas s.ao otm, entre si. Deu-se a este pão
0 nome de eulogia, porque antes de o enviarem 0 abençoavam : estc uso
remonta aos tempos apos[olicos (3). Àinda mais, enviavam uns aos outros
tambem a Eucharistia. Alguns Diaconos a levavam ás egrejrs mais afas-
tadas (a), Tal é a veneravel origem do pão bento.
Primeiramente, pois, fez-se uso d'elle para rnostrar e manter a união
entre os Christãos afastados uns dos outros. Depois usou-se para ser um
signal d'união entre todos aquelles que se acham juntos á mesma Missa.
0 signal d'união por excellencia é a sagrada Eucharistia ; mas, ai ! nem
toda a gente já communga. Instituiu pois a Egreja outro signal que re-
corda a recepção do corpo e sangue do Salvador, para que os Christãos
d'hoje possam dizer ainda, posto que n'um sentido clifferente, o que di-
ziam os Christãos dos primeiros dias : Todos participam,os do mesmo pd,o
(5). Dizei se e possivel achar meio rnais proprio para inculcar aos homens
esta verdadê, eminentemente religiosa e social : que são todos irmãos, to-
dos eguaes perante Deus., pois comem todos 0 mesmo pão ; que devem
amar-se todos uns aos outros e,não fazer senão uma grande familia? 0'
meu Deus t porque ha de ser tão p0uco comprehendicla e tão mal obser-
vada a vossa santa Religião (6) ?

0
que prececle nos faz comprehender c0m que sentimentos de res-
peito, alegria, charidade e confiança, é necessario estar para receber o
pão bento. l.o Devemos respeital-o ; os Fadres da Egreja advertem aos
Íieis que tenham o maior respeito a estes dons, porque receberam a

(l) Joan,, XIII, 35.


(2) Act., lY, 32.
(3) Paulino, Dpist. XLI ad, Aug.
(4) Ibid., e Euseb., l. Y, c. XXIV.
(5) Í Cor., X, 17.
(6) Na diocese de Besançon, uâo se disiribue
pâo bento no dia de Paschoa, por-
que, n'esse dia, julgaudo.se que toda a gente participa da realidade, se torna iuu-
til a figura.

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DE PEnSEVEnÀNÇ4. 2t7

benção dos Sacerdotes, e que nãtl permittam que a minima particula


d'elles seja pisada aos pes, nem ainda por um descuido involuntario. 2.o
Devemos recebêl-o com sentimentos d'alegria e charidade. Não e mui
grato para irmãos o acharem-se juntos à meza de seu Pae commum, co'
merem 0 mesmo Pã0, Sem distincção de ricos ou pobres, sabios ou
ignorantes ? pensar que milhões de corações pulsam em consonancia com
o Seu, e que aquello pão de fraternidade que comem n'aquelle momen-
t0, outrOs irmãos 0 comem tambem na Asia, America, China, e até nas
ilhas ha pouco solvagens da Oceania ? Esta grande lição de charidade foi
nunoa mais neCessaria que n'um seCulo em que o egoismo tcnde a des'
seccar todas as almas e em que o luxo estabeleceu enorme desproporgão
entre os homens ?

3.0Devemos comêl-o com santa confiança, pgrque este pã0, aben-


çoado para nós, póde afastar dos nossoS corpos, e ainda mais dos nossos
corações, pela remissão do peccado venial, tudo o que podera pertur-
bar-lhes a harmonia.
Com o pão bento se offerece um cirio e uma moeda. Este uso nos
transporta á mais remota antiguidade, em que os proprios fieis oÍIere-
ciam tudo o que era necessario para o SacriÍicio e para a subsistencia
dos ministros sagrados : pã0, luz e esmolas.
Em muitas egrejas, e seguida a distribuição do pão bento do pedi'
torio. Nada nos parece mais natural e mais [ocante que este uso. Com
effeito, as doutrinas e as cerentonías da Egreja devem lraduzir-se em
boas obras, porquo a charidade e essencialmente activa. 0s filhos da
grande farlilia aoabam de comer o pão da fraternidatle. Que,r a Egreja
que elles dêem mostras reaes, eÍlicazes, d'essa charidade que 0s ure.
Apresenta-se pois a elles, imploranC0 a stla compaixão para aquelles de
seus irmãos que estão em necessidade.
São orphãos que e necessario sustentar, pobres envergonhados que
é necessario nranter e alvergar; velhos enfermos a quem é necessario sub-
ministrar os soccorros que requerem a sua edade e soffrimentos; doentes
e moribundos, a quem são necessarios auxilios corporaes ou espirituaes;
e até defunctos, porque os defunctos tambem são nossos irmãos. Final-
mente, é Nosso Senhor em pessoa que pede para o seu altar, que não está
decorado com toda a deeencia conveniente ; para o seu templo, cuja nu-
dez e pobreza excitam a compaixão dos mesmos pobres.
Estes motivos dos nossos peditorios já existiam ha dezoito seculos.
0 mundo viu o grande Apostolo percorrendo as provincias da Grecia e

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2t8 CÀTECI§MO

da Asia, fazendo nas assemblêas dos fieis peditorios para os seus pobres
irmãos de Jerusalem. Estabeleceu, diz s. Chrysostomo, que elles se fa-
riam ao domingo (l). Por consequencia, no dia do sol, isto e, no domin-
90, cada um de nós, dizem Tertulliano e s. Justino, leva á assemblêa a
sua modica offrenda, conforme os seus meios: ninguem é tributado; é
como um thesouro pio que nós empregamos no soccorro dos pobres,
dos eníermos, dos orphãos, dos desterrados, d'aqueltes que es[ão con-
demnados ás minas por causa da fé (2).
Perguntareis porquo estabeleceu s, Paulo que os peditorios e as os-
molas se fizessem principalmente ao Domingo ? Yae responder-r,os s.
Chrysostomo :
«E' porquo o domingo é o dia em que foi vencido o in-
ferno, destruido o peccado, os homens reconcitiados com Deus, e a nossa
raça restitulda á sua antiga gloria; que digo ? a uma gtoria maior, em
que 0 sol allumia o e.spantoso milagre do homem tornado de subito im-
mortal. Paulo, guerendo mover o nosso coraçã0, escolheu este dla para
excitar a nossa charidade, dizendo-nos: Lembra-te, ó homem, de que
males foste livrado, e de que bens fos[e enchido n'este dia t Se pois ce-
lebramos o anniversario do nosso nascimento com banquetes e presentes
que damos aos nossos amigos, quanto mais devemos honrar com nossas
liberalidades esto dia, que sem receio se póde chamar o dia do renasci-
mento de todo o genero humano (3)» ?
0 mesmo Santo Padre oxhorta depois os fieis a darem alguma coisa
todos os domingos para os pobres; pois s. paulo não exceptua ninguem
quando diz que cada qual , unusquisque, ponha de parte alguma esmola.
Não são exceptuados os pobres, pois que não são tam pobres como a
viuva do Evangelho, {ü0 não tinha senão as duas mais pequenas moe-
das, e as deu.
0 eloquente Patriarcha desenvoh,e depoisa ruzáo por que permitte
a Egreja que os pobres mendiguem á porta dos seus templos: «E', diz
olle, para que qualquer possa, antes d'alli entrar, purificar as mãos e a
consciencia pela esmola. Sem duvida é santo 0 uso que estabeleceu fon-
tes diante das portas das egrejas e dos oratorios, para que a gente possa
lavar as mãos antes de entrar e orar; porem mais santo ainda e neces-

(l) Serm., XXII.


(2) Ápol,., c. XXXIX.
_ (B) §i- nos-natalitia celebrtmus, etc,, quanto magis nobis clies iste observan-
d-u-s, _quem si quis natalitium totius natura huuiaue appellet, non errabit ! Serm,
XXII:

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DE PER§EVEnÀNÇA. 2t9

sario é o uso que colloca os pobres á porta dos nossos templos, para
lavarmos as nodoas e maculas da nossa alma antes de nos apresentarmos
ante a magestade do Deus [res vezes santo. Ora, nossos paes estabele-
ceram os pobres á porta das nossas egrejas, como fontes de purificação;
porque a esmola e muito mais poderosa para purificar as nossas almas
que a mesma agua para puriÍicar as nossas mãos (l),,
Abstende-vos pois de abolir os pedi[orios das nossas Missas canta-
das, que apagarieis um dos mais preciosos vestigios da nossa santa anti-
guidado. Que os protestantes, quo nío teem apego a nada do passado, e
cujas doutrinas dlvidem em logar de unirem, hajam supprimido os pedi-
;
torios nos seus templos, comprehende-se porém a Egreja catholica
ha de conserval-os em quanto fôr a Íiel herdeira do passado, em quanto
tiver no coração amor de mãe, em quanto souber que por obras e não
por vãs palavras é que deve paten[oar-se a charidade. E depois, que me-
lhor preparação para o SacriÍicio o para a sagrada Communhão que essa
esmola fei[a pelo amor do Deus quo vae dar-se a nós, e á vista dos fieis
para os edificar ?
Yoltemos agora ao altar. Eis o Presbytero que torna para 0 lado da
Epistola e lava os dêdos. Esta ceremonia, da mais remota an[iguidade,
basêa-se em duas razões, uma natural e outra mysleriosa. A razão na-
tural e que as duas ceremonias gue precedem, a saber : a recepção das
offrendas dos fieis, como se praticqva nos seculos passados, e o incensa-
mento, que ainda hoje se pratica, podem exigir que ello lave as mãos,
por uma razão natural o de deceocia. A razão mysteriosa é ensinar aos
Sacerdotes e aos fieis que devem, para offerecer o sacrificio, purificar-
so das mais peguenas maculas.
«Já vistes, diz S. Cyrillo de Jerusalem, que um Diacono,dá agua para
lavar as mãos ao Sacerdote que oÍflcia e aos outros sacerdotes que estão
em volta do altar. Pensaes que seja para limpar o corpo ? ile modo ne-
uhum. Não temos costume, quando entramos na egreja, de ir em tal es-
tado que precisemos de lavar-nos para ficarmos limpos. Esta lavagem de
mãos nos recorda que devemos estar puros de todos os nossos peccados,
porque as nossas mãos signiÍicam as acções; lavar as mãos não é outra
coisa que purificar as nossas obras (2). »
Em conformidade com este pensamento, não prescreve a rubrica aos

(1) Serrn. XXV.


(2) Catpc. Myst., Y.

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---'----/

220 cÀrgclsuo
'a
Sacerdotes senão ablução da extremidade dos dêdos. rEsta abluçã0,
diz S. Dionysio, não se Íaz para apagar as immundicias do corpo, que já
foram lavadas, mas sim para denotar que a alma deve purificar-se das
mais pequenas maculas; ê por este motivo que o Sacerdote lava unica-
mente a extremidade dos dêdos e não as mãos.» Ao lavar as mãos, diz
o Sacerdote o psalm o Larsabo. Convém tam perfeitamente a esta acçã0,
que, desde os primeiros seculos, já se reci[ava na mesma occasião (l).
Este espectaculo não diria nada aos fieis ? Não devem elles tambem
estar puros para assistirem aos tremendos mysterios ? Repitam, pois, en:
tão eom toda a sinceridade dos seus corações: Lavae-me, Senhor, cada
ver, mais de todas as minhas ioiquidades, purificae os rpensamentos do
meu espirito e os desejos do meu coraçã0, para que eu possa unir'me ás
disposições do Sacerdote e participar dos fructos do SauiÍicio.

0RAÇÃO.

O'meu Deus, quo sois todo amort graças vos dou por me recordar-
des, com a offrenda do pão benio, que somos todos irmãos; concedei-nos
que nos amemos uns aos outros como os filhos da mesma familia.
Tomo a resolução do amar a Deus sobre totlas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amorr
darei ao peditot'io do domingo lodas a,s oezes que podér,

(l) Dionys,, de Dcal,, Eier,, c, LI[; Liturg. rie §. Cbrya,, fiwhol,, Grac,, p. 60.

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DE PEBSEVERANÇÀ. 22r

VEGESTMA LrÇAO.

0 chrisÍianismo [ornado,se[siyel.

l[eroelra parúe da tr[lma (oonÚlnuagão).- «Oraúe, fraúret». -


Quarúa parúe da trfllssa. * PreÍaelo. - sancúur. -.
Conon.-IDlpúyoos.

I. TsncplnA panrr DÀ MrssA (conrnulÇÃo).- Em nome da Egreja


fer, o Presbytero a offrenda do pão e vinho, e os fieis se oflereceram com
elle como victimas. Depois de se ter purificailo das mais pequenas macu-
Ias lavando as mãos, volta ao meio do altar, inclina-se um pouco, e apre-
sonta á Santissima Trindade aquella oblaçã0, em memoria dos mysterios
do Jesus Christo o em honra dos Santos, isto e, para dar graças a Deus
pelos favores de que os encheu e para merecer a sua protecção.
Esta antiga oração ({) abrange todas as pessoas que teem direito ao
SacriÍicio, posto que d'um modo mut differente: Deus a guem ê offere-
cido o Sacrificio; Jesus Christo que é a victima d'elle, não simplesmente
offerecida a Deus, senão tambem offerecida em memoria da sua propria
Paixã0, Resurreição e Ascensão, e por conseguinte como elevada ante o
throno de Deus para estar sempre presente ante a sua face e advogar a
nossa causa; a Egreja do Ceo e a da terra, que se ünem para participar
d'este Sacrificio catholico. A Egreja militante communga n'slle sacramen-
talmente e recebe novos fructos de vida; a Egreja triumphanl,e commungâ
tambem, mas d'un modo invisivel, e por esta communhão continua é que
a gloriosa vida de Nosso Senhor se communica aos Santos no Ceo (2).
Ào recitar esta oração, tem o Presbytero as mãos juntas sobre o altan

(1) Bona,l. II, o. XI.


(2) O P. ile Condrou, Iüq ilo Soaerilocdo, ctn.

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=\__

222 cargcrsuo

e a cabeça inclinada. Exprime d'e.sse modo que se reconhece inttigno de


offerecer o grande Sacrificio á Magestade suprema, e quanto é preciso
estar innocente para se apresentar an[e Deus da parte do genero humano.
Finalmente beija o altar, figura de Jesus christo, para alli tomar as san-
tas disposições cuja necessidade cada vez mais sente. A fim de communi-
cal-as aos fieis, vira-se para, elles e diz-lhes abrindo os braços da sua
charidade; «Orae, me s irmãos, para que 0 meu sacriÍicio, que o ê
tambem vosso, seja recebido propiciamente por Deus padre todo.porle-
f0S0. »

0 Presbytero diz com tom um pouco elevado : hrae, meus irmãos,


a fim de ser ouvido pelo menos d'aquertes que estão em roda do altar,
pois que o seu convite se dirige aos assisten[es. 0 mais antigo motivo
d'esta exhortação veio da oÍIrenda do puvo, que durava muito tempo o
podia causar distracções (l); mas o principal rno[ivo e que quanto mais
so approxima a Oc0asião do SacriÍicio, mais necessarios são tambem a
oração e o recolhimento.
0 Presbytero, até es[e momento confunclido com o povo, em certo
modo conversou com elle pelos differentes desejos qoe iormou em seu
favor, pelas diversas instrucções que lhe deu, e peús mesmas orações
que foz em seu nome. Eis que vao deixar os fieis para se entranhar no
secreto do santuario; novo Moysés, vae subir á formidavel montanha para
praticar com Deus. Porém não esquece, antes do dar aquelle grande
passo, que leva as fraquezas inseparaveis da humanidado, e que precisa,
n'esta occasião tremenda, do ser ajudado pelas orações do povo, e diz :
0r0,er,tneu,s irmd,os: Ürate, fratres. hrae por mim, como cliziam os sa-
cerdotes ha mais de oitocentcs annos (2), n'esta circumstancia da Missa.
0rae por mim, pobre peccador, como dizem ainda os cartuxos, que con-
servaram este antigo uso (B).
Por esta oração, despede-se o sacerdote do povo, que não tornará
a vêr até ter consummado o Sacrificio. Durante todo esse tempo, não se
:
tornará a virar para elle, nem ainda quando disser Domínus rsobiscum,
bem que esta seja uma saudação que se faz sempre olhando para as pes-
soas gue se saudam. unicamente occupado do grande mysterio que vae
oporar-se e dovotamente voltado para o altar, como se estivesso eneerrado
no Santo dos santos, mui afastado do povo, não terminará as suas ora-
(1) §lpph._Edqens. episc., ile §acr, altar,, c. XII.
(21 Miss. Illyric.
(3) Ordin, Cartusian., c, XXVI, t 2L,

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DE PERSEVEnÀNÇÀ. . 228

ções secretas senão hradando mui alto para exhortar os fieis a terem a

alma elevada Para Deus.


lo 1rate, fral,r'es, virando-se o Presbytero para os fieis, lhes diz :

Meus irmd,os, Esta tocantê expressão data do dezoito seculos; resoou nas
Catacumbas foi pronunciada por povos de Santos : era o nomo que da'
;
vam uns aos outros nossos paes na fé. E quando os pagãos espantados
lhes perguntavam : «Como e que sois todos irmãos ?» respondiam : «Por'
que todos nascemos do mesmo pae, que e Jesus Christo, e da mesma
mãe, que é a Egreja (l).,
Quam tocante ê este nome na occasião da
Missa em que o pronuncia o Presbytero I Meus irmãos, diz, unidos pelos
vinculos do sangue, sejamol-o pelos vinculos da charidade. Não nos se'
paremos agora que se trata da nossa Causa commum. Yamos todos as'
sentar-nos á mesma meza, parlir 0 mesmo pão ; e este pão manterá em
nós a mesma vida. O mesmo sangue divino correrá nas nossas veias, o
será para nós o penhor da mesma herança: Meus irmaos !!
Diz o mett, sacrificio que o é tambem D0ss0. E' meu, eu sou o mi-
nistro rJ'elle. E'offerecido por mim, e a vic[ima pertence'me. E' tambem
vosso, vós mesmos o oÍIereceis pelas vossas mãos : a victima e vossa.
Accrescenta: Para clue seja propiciantente recebido. [Ias que t póde ser
rejeitada essa oblação do sangue d'um Deus, do Filho unico do Pae ?
Não; mas tenho ou[ra victima que offerecer com eSSa, sois vós, sou eu ;
e o Deus tres vezes santo póde achar maoulas n'esta segunda victima ;
póde vêr nas nossas mãos injustiças, nos nossos corações desejos crimi-
nosos, e nas nossas consciencias immundicias. Para vos levar a novos
sentimentos de dÔr e pranto pelos nossos peccados communs, e que eu
vos renovo a adver[encia para orardes: Orate, fratres.
A um convite tam justo e tam util, respondo o poro: «Sio, orare-
mos para que o Senhor receba das vossas mãos o Sacrificio para honra
e gloria do seu nome, e para nossa utilidade e de toda a Egreja.» Que
bella lição de charidade é esta oração I Recorda-nos que s0m0s todos fi-
Ihos da mesma familia; pois a Deus, nosso Pae commum, é que vae ser
apresentado o Sacrificio; Jesus Christo, nosso irmã0, é quem vae offere-
cer-se ; pelas mãos d'um ministro oscolhido tl'entre nós é que vae ser
offerecido; para santificação de todos é que se consummou o grande mys-
terio que yae renovar-se á nossa vista. Se gueremos gue as no§sa§ ora-

(l) Unde estis omnee fratres? De uno patre, Christold.e una madre, Eecle-
sia, Aiáob., in Psal,. CXXXIU.

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22& cargcrsilo

ções sejam acolhidas, abstenhamo'-nos de pôr aos nossos voÍos restricção


ou reserva. 0 Presbytero responde: Am,en: Àssim seja I E recita a ora-
ção chamada secretü; Jem este nome porque se diz om voz baixa.
Eis pois o Sacerdote entrado no secre[o do santuario para alli tractar
só por só com peus. E que faz o novo }Ioysés n'aquelle mysterioso col-
loguio ? Pede ao Senhor que as oblações dos fieis lhe sojarn agradaveis e
lhes alcancem todas as graças que a sua infinita sabetloria coohece serem-
lhes necessarias. Para se unirem ao sacerdote n'este momento, devem os
assistentes rogar a Deus que se digne de purifical-os e santifical-os, para
que sejam dignos de lhe serem apresentados como hostia santa, viva
e de
agradavel cheiro. E' tanto mais importante esta disposiçã0, por isso que
se approxima o instante da consagraçã0. vae começar a quarüa parte da
Missa, que se es[ende desde o prefacio até ao pater. antes de a ãxpücar-
m0§, de[enhamo''nos um instante a estudar as relações da terceira parte
da Missa com as circumstancias do SacriÍicio da wuz.
Aos olhos da piedade, o Sacerdote descobrindo o calix, é Jesus des-
pido; o sacerdoüe fazendo o OÍIerüorio, é Jesus flageltaito; o Saeerdoto
cobrindo de novo o calix, é Jesus coroado ite espinhos; o Sacerdote lavan-
do as mãos, é Pilatos laoando as md,os; o sacerdote dizendo: orate,
fra-
tres, é Pilatos dizendo aos judeus ao m,ostrar-lhes a lesus: Aqui estd o
homem. E agora, para sabermos que sentimento deve dominaina nossa
alma durante a terceira parte do augusto Sacrificio, lembremo'-nos que
n'esüe momenüo é que o Yerbo incarnado se offerece a seu pae. Adora-
çã0, aniquilamento, eis o que nos brada o exemplo da grande yictima.
Adoraçã0, aniquilamento, oh t sim, offereça-se o nosso ser todo inüeiro,
immole-se e desappareça de alguma sor[e para honrar o supremo domi.
nio do Deus da vida e da morte. offereçamos, consagremos sem reservar
com a grande Yictima, o nosso corpo, a nossa alma, 0s nossos bens; a
gloria, a felicidade está n'este holocausto obrigado que nos deve transfor-
mar em Jesus Christo. D'est'ar[e cumpriremos em nós o primeiro fim do
Sacrificio que se offerece para reconhecer o supnemo dominio de Deus
sobre tudo o que existe.
II. Qumtl pÀnrp ol Mrssn. 0 prefacio comeÇa a quarta parte da
Missa.
-
À palavra prefacio quer dizet prelud;io, introilucçd,0, acçã,o ou dis-
curso que precede. com effeito, para preceder o canon e preparar pam
elle é que a Egreja manda dizer o Prefacio immediaüamente antos de co.
megarem as oraçÕes que o compoem. Pondo um prefacio antes da acção
por excellencia, quiz ella imitar a Nosso senhor, gue começa por dar

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DE PERSEVERÀNÇÀ. 225

graças a seu Pae antes de resuscitar a Lazaro, e antes de converter o pão


e vinho no seu sangue.
0 Prefacio é um canto de triumpho e de gloria; é um convite a elevar
o coração a Deus e a unir-se ás jerarchias dos Anjos para o louvar e bem-
dizer. E' de toda a antiguidade na Egreja, e vem provavelmente dos
Àpostolos ({). S. Cypriano exprime claramente o motivo que o fez insti-
tuir: «0 Sacerdote, antes de começar a oração (o Canon é a oração por
excellencia), prepara 0 espirito dos irmãos com este prefa cio, Sursum
corda: Erguei os corações, para que 0 povo seja advertido pela sua pro'
pria resposta: Habemus ail Dominum: Temol-os eleaados parü o Senlwr,
da obrigação em que está de não se occupar senão de Deus (2).»
A Egreja romana conta onze prefacios que remontam a mais ou me'
nos remota antiguidade: o prefacio commum para todos os dias que o não
teem proprio; os do Natal, da Epiphania, da Quaresma, da Paschoa, da
Ascensã0, do Pentecostes, da Trindade, dos Apostolos, da Cruz e da SS.
Virgem (3).
0Sacerdote deixou o povo; despediu-se d'elle dizendo-lhe solemnes
adeuses e enoommendandO-se ás suas oraçÕes. Para mostrar d'um modo
sensivel esta mysteriosa separaçã0, fechavam outr'ora, antes do Prefacio,
as cortinas e portas que separavam o santuario do res[o da egreja (4).
Não as tornavam a abrir senão na occasião da contmunlrã0.
Do fundo d'essa solidão tremenda é que o Sacerdote, depois de ter
chamado a benção de Deus sobre as offrendas dos fieis, ergue de repente
a voz para entoar o hymno da eternidade: Per om,nia sacula seculorum:
Por todos os seculos dos seculos, Como se dissesse: 0 Senhor acceila os
voSSoS dons, recebe 0 Sacrificio, o Sacrificio que vae ser para vós um
manancial de bençãos; como me havia Elle de recusar? roguei-lhe em
nome de seu adoravel Fitho a quem escuta sempre, e que vive e reina
com Blle Ttor todos os seatlos dos secu,los, 0 povo, compartindo a alegria
dO Sacerdote, apressa-Se a responder: Amen: Assim seial ConsentimoS
na oblação que acabaes de apresentar, e cujas victimas S0m0s nós; somos
felizes por se dignar o Senhor de recebêl-a: Am,en: Ássim seial As abo-
badas do templo resoam com este solemne protesto, e 0s eccos da Jeru-

(1)
(2)
(gj ram outros, de data menos antiga
(Conà.,
' t. a Santa Sé.
(4) S. Chrysostomo.

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226 cArEcrsMo

salem do alto o repetem aos Anjos enternecidos. Aqui comeÇa entre o


Sacerdote e os fieis um dialogo cuja belleza e ainda aúgmeotrda pelo ini-
mitavel canto que o acampanha ({ ).
0 senh,or seja comulsco, diz o sacerdote do funclo do santuario;
preparae-vos, que vão realisar-se grandes coisas.
E seja tamhe'm cym o oosso espirito, respontle o povo, mais que
nunca vos é necessario o seu auxilio.
Erguei os corações, diz o sacerdote. 0' Deusl quando se pensa que
este admiravel convite sahiu mil vezes da bôcca dos Chrysostomos, Àm.
brosios, Basilios e Agostinhos, e que resoou aos ouvidos de milhões de
santos e Martyres; quando se pensa nas impressões que produziu n,aquella
multidão de corações, coÍn que profundo respeito não devemos escutal-0,
com gue fervor não devemos responder t
Temol'os erguidos pürü o Senhor. Isto é sempre verdade? os nossos
corações estão realmente desprendidos das affeições terrestres? N'aquelle
momento solemne havemos esquecido os nossos prazeres, os ngssgs ne-
gocios, e as bagatellas que nos entreteem? 0 ceo que vae abrir-se, a
Yictima que vae descer, são tudo para nós? Ail que digo, são alguma
coisa para nós? À Egreja deseja-0, o sacerdote compraz-se em crêl-0, e
por isso accrescenta:
Dêmns grüças ao senhor nlsso Deu,s, por esta feliz disposiçã0, pelos
beneÍicios de que nos tem enchido ate agora, e pelos assignalados favores
que se prepara para. conceder-nos ainda. 0s Íieis, n'um transporte de re-
conhecimento e amor, respondem por acclarnação: E justo e rctzoacel.
Certo das disposições dos assistentes, cujos votos acatra em certo
modo cle receber, se acha o Sacerdote encarregaclo de todos os desejos ;
torna-se o interprete de todas as orações ; e, repetinclo a resposta do povo,
a leva a0 pe do throno de Deus. Aos rnotivos de justiça gue nos levam a
dar graças a Deus, accrescenta motivos de interesse: Dar graças ao se-
nhor, diz, é coisa aerdadeirümente digna e justa, razoaael e salutar gm
todos os tempos e logares. Para o provar recorda o Sacerdote a santidade,
o poder e a bondade infinita de Deus: Pater 7mnipotens, @terne Deus.
Em cada festa, signala alguns clos seus beneficios analogos á circumstan-
cia, e depois ajrrnta a eterna e sublime conclusão de todas as orações ca-
tholicas. Per Jesum Christu,m, todas estas acções de graça, as damos por
Jesus Christo. Medianeiro entre a Jerusalem terrestre e a Jerusalem ce.

(1) Concilior. t. IY.

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DE PERSEVERANÇÀ. 227

leste, Deus por natureza, homem por obediencia, Rei do Ceo, e Senhor
do genero humano, Dominu,m nostrwn, foi Elte quem desatou a nossa
Iingua para a pôr em estado de louvar a Deus; é Elle quem associa a
nossa voz á voz dos espiritos bemaventurados,. e e por Elle que toda a
milicia celeste rende a Deus as homenagens proporcionadas á cathegoria
que lhe marcou o Eterno : Per quenx magestatem tuam. Entã0, ó mo-
mento solemne I dos canticos dos anjos e dos canticos dos homens se fór-
ma um só cantico, url só voz que repete e ha-de repetir eternamente:
Santo, Santo, Santo é o Senhor Deus dos erercitos: Sanctus, Sanctus, elc.
0 Sanctus e um hymno que a terra deve ao Ceo. Isaias, arrebatado
em espirito, ouviu-o cantar alternativamente pelos Seraphins, e S. João
diz que os San[os o farão resoar eternamente na Jerusalem celeste (l).
O Sanctus e pois um d'aquelles cantos sublimes que a Egreja triumphante
enviott a sua irmã, a Egreja militante, para que aprenda a balbucial-o tto
desterro, e balbuciando-o se console com a esperança de o cantar um
dia. 0 Sanctus acha-se nas mais antigas liturgias (2).
Ao dizer o Sanctus, o Sacerdote abaixa a voz, assim porque esta
variedade allivia o que recita, como porque desperta a attençã0. Pronun-
cia-o comtudo com voz intelligivel, porque o povo foi sempre convidado
a dizer este cantico (3) : d'onde vem que nas Xlissas cantadas ainda é re-
petido pelo côro. Para mostrar mais profundo respeito ao recitar o Sanc-
Ízs, junta 0 Sacerdote as mãos e conserva-se inclinado. Toca-se uma
campainha para advertir os assistentes de gue 0 Sacerdote vae entrar na
grande oração do Canon que deve operar a consagração do corpo de Nosso
Senhor e renovar o mysterio da Incarnaçã0. O Sanctus termina por estas
palavras : Hosanna in ercelsis Saltsa,e-nls, elt, nls.r0g0, rsós que habitaes
as alturas dos ceos. Hosannü, brado d'alegria, acclamação cheia de ener-
gia, é palavra hebraica como a,nlen e allelu,ia, QUe a Egreja conservou
por trarluzir. Ao dizer estas ultimas palavras, o Sacerdote se indireita e
faz em si o signal da cruz, porque pela virtude da cruz ê que nós temos
parte nas bcnçãos que Jesus Christo veio derramar sobre a terra. Segue
immedratamente o Canon.
A palavra ca,non quer dizer regra. Foi dado este nome á oração da
Missa que começa por estas palavras ; Te igitu,r, e que se estende atê ao
Pater, porque encerra todas as orações prescriptas pela Egreja para of-

(1) Apoc.,I\r, 8.
(2\ Liturg, de S. Thiago; S. Cyril., Catec. tnyst., Y.
(3) Greg.-Nyss., Orat.-de not?, cliff. Baptisrn,, p. 302.

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228 carpcrsuo

ferecer o santo Sacrificio, e que nunca se devem mudar: As orações do


Canon são de toda a antiguidade (,1), e com razáo diz oconcilio deTrento
que se conxpoem das mestn&s palarsras de Nosso Senhor, das tradições
d,os Apostolos e das piedosas instituições dos santos Papas ("2). 0s San-
tos Padres chamam tambem ao Canon a oraçd,0, jsto é, a acção por ex-
cellencia, porque n'esta parte da llissa é que se realisa a mais sublime
acção que se póde conceber (3). A acção por excellencia é o Sacrificio.
Por isso, nas linguas antigas, obrar e saui,ficar, acçd,o e sauificio, se
exprimem pela mesma palavra.
0 Canon é, no corpo das orações catlrolicas, o que ha mais excel-
lente e mais antigo: não se póde citar tempo algum na Egreja em que
o santo Sacrificio se offerecesse com outras orações. Por tanto que venera-
Ção não exigern umas palavras que nossos paes na fé pronunciaram an-
tes de nós I orações de que faziam a sua unica consolaçã0, e que, du-
rante as perseguições, attrahiam a elles a força e o valor necessarios para
resistirem aos tyrannos, soffrerem as torturas e derramarem o seu sangue
pela Religião I
Quando pois o Sacerdote acaba o Sanctus, ergue os olhos o as mãos
para o Ceo. E' para imitar o Salvador, que, antes de operar os seus mi-
lagres, se dirigia ao Pae que reina nos ceos. Mas breve baixa os olhos,
junta as mãos, e se inclina para tomar a posição do supplicante. Depois
beija o altar, que representa Jesus Christo, para lhe exprimir o seu amor
e respeito, e lhe pedir que dê á sua oração 0 ser poderosa sobre o co-
ração de Deus. E como não bavia de ser attendido? pois offerece ao Pae
clementissimo 0s merecimentos infinitos de Nosso Senhor, seu Filho, a
favor da santa Egreja cal,holica, e de todos os seus Íilhos.
Durante esta oração, faz o Sacerdote tres vezes o signal da cruz so-
bre 0 calix e sobre a hostia, para mostrar que pelos merecimentos da
cruz de Jesus Christo e que elle pecle a Deus que abençôe o pão e vintro
e os converta no corpo e sangue do Salvador, como dons qoe veem d'Elle,
como presentes que lhe offerecemos, c0nr0 a materia do Sacrificio puro
e serru macula que lhe vae ser feito. 0 Sacerdote tem os braços estendi-
dos na altura dos hombros. Não vos parece vêr Moyses sobre a mon-
tanha, Jesus Christo na cruz, e nossos paes nas Catacumbas ? assim é

ait prufect' Bracar'; cvp''' ite orot' dom'; rnnocen'


.io t !,Hpx[.':l ;âl*.Epist'
(2) Sess. XXII, c. XYIII e c. IY.
(3) §trab., d,e Reb, eccl., c, xxrl.

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DE PERSEVERANÇÀ. 229

que elles oravam. Este espectaculo tam rico em recordações não dirá
nada ao nosso coração ?

0 Sacerdote orou por toda a Egreja. Pediu a paz e união entre seus
fllhos; a conservação do SLrmmo PontiÍice, centro da unidado catholica e
representante de Jesus Christo na terra; a do Bispo do logar, porque está
estabelecido para pastorear parte do rebanho; a do rei, que e o Bispo do
exterior; e flnalmente a graça para todos aquelles que professam a fé
catholica e orthodoxa.
Em segunda oração encommenda a Deus todos os assistentes, e em
particular aquelles por quem vae offerecer a santa Yictima.
Reconheçamos aqui o maternal coração da Egreja. Saude da alma
e do corpo, paz, uniã0, charidade, salvação eterna para todos os seus fi-
lhos : eis o que pede a0 seu divino Esposo ; eis o que quer que nós pe-
çamos uns para os outros. Mas isto não é sufiiciente para a sua [ernura.
Depois de ter reunido todos os seus flthos que ainda viajam com ella por
esta terra, depois de lhes ter dito que não formem todos entre si mais
que um coração e uma alma, depois de os ter coberto em certo modo
com as suas azas, c0m0 a gallinha cobre os pintainhos, esta terna mãe
nos adverte gue ergamos os olhos com ella; que contemplemos Dossos
irmãos que reinam nos ceos, que nos estendem os braços, e os Ànjos
que se preparam para pÔr as nossas orações nos seus thuribulos d'ouro
para as apresentarem a0 Senhor, como perfume de agradavel cheiro.
Resorda-nos pois odogma consolador da conrmunhão dos Santos que
não faz dos Christãos da terra e dos Christãos do Ceo, senão uma só fa-
milia cujos interesses são communs. Meus queridos, nos diz, vós a quem
eu gero agora em Jesus Christo, tende conflança; estaes em communhão
com vossos irmãos mais velhos: as suas orações apoiarão as vossas: o
vosso sacrificio e o d'elles. E eil-a que começa a recitar-nos o nome d'al-
guns d'estes illustres habitantes dos ceos : o de Nlaria nossa mãe, e mãe
de Jesus Chrísto nosso irmão ; o dos Apostolos e d'alguns dos nossos
mais gloriosos martyres. Durante esta oraçã0, tem o Sacerdote as mãos
erguidas, e faz uma inclinaçã0, em signal de respeito, ao noúes de Je-
sus e Maria.
Parece que bastava, sem nomear tam grande numero de bemaven-
:
turados, dizer trIonrando a memoria dos uo,ssos Santos, a cujos mere-
cirnentos e orações dignae-uos de conceder, etc., etc.; porém a Egreja
quiz perpetuar a recordação d'um uso precioso da sua veneravel antigul-
dade. Havia ou[r'ora nas egrejas tres cathalogos ou diptacos qJe se con-
l5

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230 cÀrucrsrío

servavam com muito cuidado: a palavra diptyco quer dizer taboas dobra-
das em dois.
No primeiro diplyco escrevia-se o nome da SantissimaYirgem, dos San-
tos, dos Apostolos e sobretudo dos Martyres; mais tarde tambem se inseriu
n'ello o nome dos Bispos mortos com cheiro de santidade. Quando se que-
ria declarar santo um homem, punha-se o seu nome no diptyco dos San-
tos. D'onde veio a palavra canonisar, porque se recitava durante o Canon.
No segundo punha-se o nome dos fieis que ainda viviam e que eram
recommendaveis pela sua dignidade, ou pelos serviços que tinham pres-
taclo á Egreja. Este cathalogo encerraya os nomes do Papa, do Patriar-
cha, do Bispo, do clero da diocese, dos reis, dos principes, dos magis-
trados, etc.
No terceiro inscreviam-se os nomes dos fieis mortos na communhão
da Egroja. Estes tres cathalogos eram recitados publicamente na egreja,
rlurante o santo sacrificio da Missa, pelo Sacertlote, ou por um Diacono,
ou por um Sub-Diacono.
D'este antigo uso conservamos nós vestigios. No principio do Canon
recitamos os nomes do Papa, do Bispo, do rei, etc.; no primeiro Memento,
os nomes dos vivos; no segundo, os nomes dos mortos; e an[es e depois
da consagraçã0, os nomes dos principaes Santos da Egreja. Na estação
enoontram-se ainda restos da mesma tradiçã0. 0ra-se pelos vivos e mor-
tos, e nomeam-se uns e outros. Na nossa opiniã0, nada e mais tooante e
charitativo (l). Yêde como na nossa liturgia ttdo respira a grande vir-
tude do Christianismo, a virtude que civitisou o mundo, a virtude que
ainda é a força dos Estados, a felicidade das familias e o encanto da vida:
a charidade I

ORAÇÃO.

O' meu Deus, que sois todo amor ! graças vos dou pelas grandes li-
ções de fervor e charidade que me apresentaes nas orações do santo Sa-
crificio; ajudae-me a comprehendêl-as bem e a recital'as como os primei-
ros Christãos.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e a0 pro'
ximO como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amqr,
hei de assistir tÍ Missa com espirito de oictimn.

(1) Vitle M. Thirat, p. 3331 Lebruu, p. 410.

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DE PERSEVERÀNÇA. 23t

VEGEStMA.PRtMEtBA LtÇÂ0.

0 chrisÍianismo Íornado sensiyel.

Quarúa parúe da tr[issa (conÍinrnacão).- consagração._Ere-


vacão.-o*acões que & §eguem.-Eeraeões enúre a quarúa
parúe rla tr[issa e a paixão.-§enúimenúo
true deve domi_
nar no nosso coracão.

cOm gue sentimentos, sacerdotes e fieis, não devemos unir-nos


n'esta
oração! que santo temor nos cleve dominar, quando vêmos
esta tremenda
ceremonia, quando pensamos que alli, sob as mãos do sacerdote,
es[amos
tambem collocados como victimas com Nosso senhor t
O Sacerdote pede a Deus que se digne cle acceitar esta offrenda da
nossa seraidd,o e de toda a nlssa familia. Estas palavras
significam os
sacerdotes, que são mais que os fieis a servidão ou os
servos do Deus (l).

(1) Lebrun, p, 441,

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232 cÀrECIsMo

A paz n'este mundo, a isenção do peccado, a salvação eterna, eis as


vantagens que esperamos do Sacrificio e que exprimimos n'esta oraçã0.
Peçamol-as cgm conÍiança, que 0 sapgue do segundo Ahel é bastante
po-

deroso para nol-as alcançar.


0 ministro sagrado tomou posse da vic[ima; retira as mãos, e jun-
ta-as em signal tle humitdade, pois vae sollicitar o maior dos milagres.
Até agora náo ha sobre o altar senão pão e vinho, elementos do Sacrifi'
cio. fracta-se de obter a sua transsubstanciação no córpo e sangue do
Homem-Deus. 0
Sacerdote pois, recolhendo os pensamentos da sua fé,
ao Creador
arma-se do poder sublime de que foi revestido. Dirigindo-se
rlos munrtos, lhe diaque pronuncie, segundo a sua promessa, sobre o
pão e o vinho, para 0S converter n0 c0rp0 e Sangue de seu Filho, o fi'at
ômnipotente que fez brotar a luz e que creou o universo.
-Pelo
ministerio do sacerdote, pedimos que esta oblação seia bem'
d,ita em toilas as coisas, isto e, inteira, perfeitamente bemdita ;
por ou'
tras palavras, cgnvertitla no c0rp0 e Sangue do Salvador, o que é a ben-

çao por excellencia; e que d'este modo a divina victima, a victima es-
iencialmente bemclita nos communique todas as suas bençãos. A Egreja
do altar
encerra em geral tutlo quanto pócle desejar tocante á oblação
pedindo rlue íep, bemd,ita ent, toilas as coisas; mas, para melhor denotar
palavras seguin-
ãrs, grrnãe graça que espera, individualisa pelas quatro
tes tudo o gue espera de Deus.
Aitmittiita,, qoe Elle a acceite, que a receba, e que a oblação que
fazemos de nós *àroros não seja tambem rejeitada,
mas admittida com a
de Jesus Christo.
Ratifi,cad,a: que Se torne uma victima permanente, que não ntude
e que a nos§a
c0m0 os antigos sacrificios clos animaes que foram abolidos,
a des-
oblação seja tambem irrevogavel, de sorte que nunca tenhamos
graÇa de nos separarmos de Deus.
Racional: aqui, ; adora em silencio Aquelle
raz.ao humana, calla-te
que com uma palavra creou o universo, e que póde fallando operar prg-
0 teu pensamento' Pedimos
digio, mais facilmente do que tu expressas
qu; a victima que está sobre o altar se torne uma victima humana, ra-
a unica
cional, e até a unica dotada de razã0, a razd'o por excellencia,
digna de nos reconciliar com Deus (l) ; pois todas as victimas cujo
san'
antigo por e§paço de quarenta secu-
gue correu nos altares clo mundo

(1) Lebrun, supra, O P' Condrcn, Id'êa d'o Sacrificio'

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DE PERSEVERANÇA. 23S

los não eram raciona,es, e nem eram dignas do homem nem de Deus.
Ágrad,atsel: quer dizer que a oblação do altar se torne o corpo e
sangue do Filho muito amado, em guem o Senhor pÔz todas as suas
complacencias. Não pedimos unicamente que esta oblação seja tudo isso,
mas até que 0 seja por amor do nós, para nosso bem.
E estes procligios de porler e bondado, vêdes c0m que simplicidade
de palavras os sollicita a Egreja t Com tanta simplicidade como a Escrip-
tura Sagrada exprime o maior dos milagres na ordem da natureza, a
creação : Faça-se a luz; e o maior na ordem religiosa, a incarnação :
Faça-se segunilo ü t)ossa palaura; pede a Egreja o prodigio que encerra
todos os outros, o grande milagre da transformação do pão e vinho no
C6rpo e sangue de Jesus Clrristo ; para nós o c0rp0
Torne-se esta oblaçã,0
e sangue de oosso rluerido Filho,.Nosso Senhor Jesus Christo 1...
E' isto sublime? Encontrae alguma coisa comparalel nos auctores pro'
fanost E' pois verdade, Religião santa, que tu reunes todos os litulos ao
amor do Christão e á admiração do homem illustrado. Em cada pagina
da tua liturgia, como em cada um dos teus dogmas e preceitos, brilha o
sêllo da tua celeste origem. Ao pronunciar as palavras que acabamos do
explicar, faz o Sacerdote varios signaes de cruz, para mostrar que n0 0m'
nipotente nome de Jesus Christo e que pedo o milagre.
Finalmente, eis-nos no momento em que 0 Filho de Deus, o Eterno,
o Forte, o 0mnipotente, o Creador dós mundos, vae tornar's'e obediente
á voz d'um mortal. 0 Sacerclote limpa a0 corporal o pollegar e o segundo
dêdo de cada mã0, a Íim de lhes tirar a humidade ou o pó, e de pol-os
mais em estado de tocarem decentemente n0 corpo do Senhor. Com os
dêdos que purificou, e que foram consagrados pela ordenação' pega na
hostia e com um tom simples e singelo, como fazia o Salvador cujo logar
oc6upa, quanrlo operava milagres, pronuncia as palavras omnipotentes cla
consagraçã0.
Está consummado o milagre t 0 Sacerdote cahe de joelhos; os assis-
tentes prostram-se; e o sino, trombeta da Egreia militante, adverte ao
longe os Íieis para atlorarem. Yiam-se n'outro tempo, a0 Som do bronze
sagiado, pôrem-se de joelhos nas casas, nas ruas, n0§ Campgs, e recita'
re, u oração do Senhor. Entretanto o Sacerdote eleva o corpo adoravel
do Fitho de Deus, que acaba de se encarnar nas suas mãos, e n'esse mO'
men[o da elevaçã0, aS antigas basilicas se commoviam: abriam-se as
portas Santas, descerravam-se as cortinas que haviam occultado o san-
iuario, e S. Chrysoslomo clizia ao seu povo: « Olhae o interior do san'

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234 carEcrsuo

tuario como o interior do Ceo, para verdes com os olhos da fe a Jesus


Christo e ao côro dos Ânjos prostrados em torno do Cordeiro ({). Conten-
plae a mesa do Rei ; os anjos são os creados; alli se acha o Rei em
pessoa. se os vossos ves[idos estão puros, adorae e commungae (2). »
Depois de ter deposto sobre o corporal o corpo do senhor, o sacer-
dote consagra o calix do seu sangue, a que chama o mysteri,o d,a
fé (l).
Depois termina repetindo as palavras do divino Mestre: « Todas as vezes
que fizerdes estas coisas, fazei-as em memoria de mim. »
Estas ultimas palavras são o titulo do poder do Sacerdote e a prova
eterna do mysterio que acaba de consummar. 0 Todo-poderoso, isto é,
:
Aquelle que opéra o que quer fallando, lhe disse « Fareis o que ea fiz;
convertereis o pão no meu corpo e 0 vinho n0 meu sangue. » E o Sacer-
dote o faz. E nem o impio, nem 0 incredulo, nem o hereje, porão limi-
tes ao poder do Todo-poderoso. E' pois de fé que, depois das palavras
da consagraçã0, não resta pão nem vinho, mas sómente apparencias, para
mostrar o ponto que occupa o Deus invisivel, e para dizer aos ngssgs sen-
tidos: Elle está alli.
A propria razáo não nos leva a confessar que devia ser assim ? com
effeito, depois da abolição dos grosseiros sacrificios da antiga lei, a con-
servação do culto externo exigia um signal, symbolo da victima moral.
Nosso Senhor, antes de deixar a terra, attendeu á grosseria dos ngssos
sentidos, que não podem passar sem signal material: instituiu a Eucha-
ristia, na qual, sob as especies sensiveis do pão ê vinho, occultou a of-
frenda invisivel do seu sangue e dos nossos corações.
Entretanto o sacerdote Íaz de novo a elevação clo calix; em seguida
pousa-o sobre o altar depois de o [er adorado. A elevação e adoração da
Eucharistia nem sempre se fizeram como agora; até ao principio do duo-
tlecimo seculo, os Sacerdotes elevavam ao mesmo tempo o calix e a hos-
tia com estas palavras: Omnis honor: Toda a ltonra e glori,a pelos seculos
dos seculos. observa-se ainda esta pequena elevação; mas a Egreja, para
plotestar contra o erro dos herejes que ousaram atacar o dogma da Eu-
charistia, e para dar aos fieis occasião de manifestarem solemnemente a

(1) Homil^ UI in Epist. ail Ephes.


-da (2)
eommunbâ'o'
rr97til,. Lxr ad, pop, Antioch, Então a elevaçâo nâo tinha Iogar senâo antes

ã3ir""""'::::?tti:'liily'1tl?3";f i'ür;
de fé para todos os seculos pos-
myst-eri_o
,
a razào humanf o possa compreheudei.

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DE PERSEVEaÀNÇA. 23ô

sua fé, estabeleoeu o uso de elevar, depois da consagraçã0, 0 C0rp0 e


sangue de Nosso Senhor, e de offerecêl'o á adoração dos Christãos.
A elevaçã0, tal qual a praticamos hoje, remonta pois ao começo do
duodecimo seculo, e o heretico Beranger dá causa a isso com as suas
blasphemias contra a presença real de Jesus Christo no sacramento do seu
amor. Mais tarde, fez-se ainda com mais razáo, quando Luthero e Calvi-
no, desenvulvendo a heresia do Arcediago d'Àngers, atacaram com impla'
cavel furia o dogma da sagrada Eucharistia. Não se contentaram os fieis
com tocar o sino para advertir a todos que se prostrassem; accenderam
tambem tochas para tornar mais solemne aquelle momento (t):
esta ul'
tima ceremonia ainda se pratica com pompa nas nossas Missas solemnes.
Terminadas a consagração e elevaçã0, o Sacerdote estende os braços
e continua a grande acçã0. Docil ao mandado expresso do Salvador, que
disse aos seus Àpostolos e aos Successores d'elles : Todas as Dezes que
fizerdes estas coisas, fazei-as em rnem,oria de m'im (2), diz o Sacerdote
quo em memoria da felicissima Paixão de Jesus Christo Nosso Senhor, e
da sua resurreição dos infernos, e da sua gloriosa ascensão ao Ceo, offe-
rece á incomparavel magestade de Deus a hostia pura, Santa, sem macula,
o pão da vida eterna e o calix da salvação perpetua.
0h I quam propria é esta oração para elevar a alma e penetral-a de
religião t Posto que 0 sacrificio da l\Iissa seja especialmente destinado a
recordar-nos a memoria da Paixão de Nosso Senhor, a Egreja, conforrne
a ordem cle seu divino Esposo, faz tambem menção dos mysterios da
resurreição e ascensã0, porque teem com a Paixão uma relação essencial.
Assim, no sacriflcio, do altar, communicamos com Jesus Christo morto,
que, morrenclo, destruiu o imperio da morte, isto é, destruiu a mOrte da
alma e fez da morte do corpo a pa§sagem para uma vida que não terá Íim.
Communicamos com Jesus Christo resuscitado, cuja resurreição e o prin-
cipio e modêlo da nossa. Communicamos com Jesus Christo subindo aos
ceos, e d'esse modo lá subimos em certo sentido com elle; de sorte que
podemos considerar-nos desde já como cidadãos da bemaventurada Jeru-
salem. E' possivel lembrar-se a gente dos differentes fructos de todos
estes grandes mysterios, e conservar tam pertinazmente o amor das coisas
sensiveis ?

Ao dizer aquella oraçã0, f.az o Sacerdote cinco vezes o signal da cruz

(1) Lebruu, p.471.


(2) I Cor., Xl,2ó,

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236 cArucrsuo

sobre o corpo e sangue do salvador. 0ra, convém saber que ha grande


differença entre os signaes da cruz que se fazem depois da consagração e
os que a precedem ou acompanham. 0s primeiros teem por objecto at-
trahir graÇas ou denotar que se esperam pelos merecimentos da cruz do
Redemptor, e estão juntos a palavras que expressam o favor que se de-
seja, a benção que se sollicita. 0s segundos foram instituidos para mos-
trar que os dons collocados sobre o altar são o corpo e sangue reaes ds
Nosso senhor, e que o sacrificio da Missa é o mesmo que o da Cruz.
Assim que desde a consagração não ha palavra alguma que convide Deus
a abençoar.
Na oração que explicamos, Íaz o sacerdote cinco signaes de cruz:
tres sobre a hostia e o calix ao mesmo tempo, um sobre a hostia só, e
outro sobre o calix. Que eloquencia ha n'esta repetição multipticada do
signal adoravelt A Egreja quer penetrar-nos do grande pensamento de
que a victima do altar é a victima do Calvario. E eis quo se fatiga em
certo modo a redizer esta verdade aos nossos olhos, aos nossos ouvidos,
a todos os nossos sentidos, a Íim de fazêl-a descer até ao nosso coraçã0.
Pelos cinco signaes de cruz de que fallamos, parece pois dizer o sa-
cerdoto :
0fferecemos á vossa suprema Magestade a hostia sa,nta que se
offereceu sobre a, wuz; a hoslia pura que foi pregada na cruz; a hostia
sem macula que foi immolada na cruz; o pd,o sagrado, isto é, Jesus
Cbristo, pão vivo, eterno, descido do Ceo, que morrea na, cruz para nos
dar a vida; finalmente o calia da saloaçd,0, o sangue de Jesus christo,
mediador da nova alliança; sangue que foi derramado na, cruz para re-
dempção dos nossos peccados.
Repetimos que a Egreja quer que, n'aquelles momentos a um tempo
tam preciosos e tam formidaveis, o sacerdote e os Íieis se occupem do
Salvador immolado sobre o altar. Dizei-me se ella podia empregar meio
mais proprio para lhes despertar a recordação d'elle, que estes signaes
de cruz tantas vezes multiplicados? Podia manifestar-lhes melhor a sua fé
na miraculosa mudança que se acaba de operar? Finalmente, podia dizer-
lhes melhor: Estae ao pé do altar como estarieis ao pé da cruz (l) ?
Um Deus está sobre o altar. Victima de valor infinito, offerecida a
um Deus, como não havia de ser agradavel'l Porque se diz, pois, a ora-
Ção seguinte, pela qual se roga ao Senhor que receba favoravelmente a
hostia que lhe apresentamos ? Ah ! é porque a augusta victima é oflere.

(1) Lebrun, p. 4881 Bona, l. II, c. XI[.

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DE PERSEVERANÇÀ. 237

cida pelas mãos d'um mortal; ó porque á hostia sem macula se juntam
outras hostias infinitamente menos puras, os corações dos Íieis. Assim
que a Egreja, lembrando ao Padre Eterno que o sacriftcio de seu Filho
é o sacrificio catholico, o sacriÍicio de que os antigos não eram mais que
sombras, roga a0 Senhor que dê a seus filhos as santas disposições que
animavam os antigos sacriÍicadores, quando immolar:am as victimas figu-
rativas: a innocencia d'Àbel, a fé d'Abrahã0, e a santidade de lVlelchise-
dech.
Entremos aqui em nós mesmos: temos a innocencia e generosidade
d'Abel, que offerecia os mais preciostls dos seus cordeiros ? Temos a fê
e o animo d'Abrahã0, que já empunhava a espada para immolar Isaac ?
Temos a santidade de Melchisedech, que nos apparece sem pae, sem mãe,
sem genealogia, isto é, desprendido de todas as affeições humanas ? Sc não
temos eSSaS disposições, peçamol-as com ardor durante aquella oraçã0.
Se nos faltam inteiramente, como aproveitar o Sacrificio, como tomarparte
na communhão que se aPProxima ?
A oração seguinte deve inspirar-nos outros sentimentos. Yejo o Sa-
cerdote que toma de ropente a posição d'um supplicante, baixa os olhos,
se inclina profundamente, junta as mãos como um homem vassallo, e a§
pousa sobre Porque e tudo isto ? E' porque vae pedir a Deus
o altar.
que a victima que acaba de immolar seja levada, pelas mãos do Anjo que
é a mesma santidade, ao altar strblime do Ceo.
Como fazer comprehender o profundo sentido d'esta magnifica ora-
ção ? Na precedente, rogou o Sacerdote ao Senhor que l,ivesse
por agra'
davel a hostia que lhe offerecia. De repente, como penetrado d'uma in-
spiração do alto, acha um meio iofallivel de fazer receber esta Yictima, e
os nossos votos e corações que a acompanham. Dirigindo-se a Deus, lhe
supplica ordene que a victima lhe seja letada a0 pe do seu throno pela
mesma Yictima. Em respeito a Nosso Senhor, não se atreve o Sacerdote
a nomeal-o a Deus Padre ; contenta-se em designal-o por estas palavras :
0 tsosso Anjo. Sim, por excellencia, esse Anjo do grande con-
esse Anjo
selho, esse Anjo mediador da alliança ({), que, egual a Deus, está certo
de fazer acceitar o seu sacrificio e o nosso, e de attrahir sobre as nos-
sas cabeças um orvalho de todas as especies de bençãos.
0s signaes de muz com que o Sacerdote acompanha a sua oração
indican a presença real d'aquella victima santa, d'aquella victima celes-

(1) Corufi apost.,l. VIIL c. XII.

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2S8 carncrsuo

te, sobre o altar da terra. uma profunda humildade, um desejo ardente


da santidade, para que nada no nosso coração se opponha ao favoravel aco-
lhimento dos nossos votos, taes devem ser as nossas principaes disposi-
ções durante esta oraçã0.
Eis-nos, nós que vivemos na terra e assistimos ao Sacrificio, eis-nos
bem encommendados ao senhor; acabam-se de chamar sobre as trgssas
cabeças todas as suas bençãos. N'este precioso momento em que póde
obter tudo, esquecerá a Egrefa os outros seus filhos, seus fllhos que já
não vivem ? Ah I não saberieis o que é uma mãe. No seu coração estão
todos os Íilhos ; os mais pobres, os mais necessitados oocupam alli o mais
amplo logar. Eis pois a Egreja catholica que ora por seus filhos defunc-
[os. A sua mesma oração e uma lição para os vivos : ora por aqu,elles
que n\s precederam c|m 0 signal da fé e que d,ormem o s0mn0 da ltaz;
por tanto nós os seguiremos (l).

- (1) rl-tt uteis.aos Sacerdotes que ceiebram Missa pelos de-


functos,assim desejam ganhar indu[gencias.
A Congr em lloma, acaba de dár a sua decisão sobre diffe-
gencias. Eis o t_exto e respostas :
Ultrum sacerdos s ationicelebrandi Llissam pro
ritum ferire vel cuj ti etiamsi non sit semiduplex

nQuaritur 4.o Ultrum acl lucrandam indulgentiam plenariam Orationi O


-
bone et d'ulcissime Jesu,.. concessam necesse sit aliam orationem addere pro inten,
tione Summi Pontificis ?
nQuaritur ã.o Ultrum atl indulgentias applicabiles crucibus, rosariis, etc.,
alius ritus sit necessarius preterquamiigoum ciücis a sacerdote qui hanc faóulta-
-
tem anccepit factum ?

snum
absque
:il:,f;i?llTfll?;,ll;
preposita ad superiora
bia sic
.Ad primum. Affirmative.
.Ad secundum.- Negative.
.Ad tertium. -Ut in secundo.
.ad -
.Ad
.Ad
olq quor-um fidem, etc. Daúum^Romrc ex secretaria ejusdem sacr* congrege-
tionis indulgentiarum die 11 aprilis 1840.
nloco
f sigiui :fi^Sffi;,tô:ffiil^,1ft,lrrerectus'

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DE PERSEVERANÇÀ. 239

* A estas palavras, o Sacerdotejunta as mãos sobre o peito, tem os


olhos affectuosamente dirigidos para a santa hostia e ora (l) em silencio
pelos defunctos que tem tenção de encommendar a Deus. Durante esta
oraçã0, devemos nós tambem encommendar os nossos mortos e reani-
mar a nossa fé nos grandes motivos que temos para orar por elles : a
gloria de Deus, a charidade, a justiça e o nosso proprio interesse.
À Egreja volta agora a nós, que estamos na terra. Durante a of-
frenda do augusto sacrificio, vêmos esta terna mãe, n'uma agitação cheia
de sollicitude, subir ao Ceo, descer ao Purgatorio, e voltar ao valle das
lagrimas, reunindo todos os votos, todas as necessidades, sollicitando üo-
das as orações, todas aS recommendações, a flm de aproveitar plena-
mente o rico thesouro que lhe está aberto nos merecimentos da victima.
D'este modo, antes da consagraçã0, commemorou a communhão
dos Santos, na qual era necessario offerecer o Sacrificio catholico do Ceo
e da terra; acaba de sollicitar para as almas do Purga[orio a entrada da
Jerusalem celeste, e eil-a que sollicita a mosma graça para seus filhos

Eis novas resoluçôes:


-nDubium I. Per Decretum S. Congregationis indulgentiarum datum tlie 12

sent.
nQuaritur 2.0 An confessio octavo die ante festivitatem peracta vi hujus in-
dulgenti suffragetur tantum ad unam indulgentiam lucrandam, an-vero per hanc con-
fess-ionem alia etiam lucrifieri possint indulgentie qua infra pradietum tempus oc-
current, et ad quas lucrand.as sacramentalis confessio cateroquin requireretur.
nDubium If. Quaritur an, cum in Bulla vel Brevi quo conceditur indulgen-
tia, confessio tanquam conditio si,ne qua non pta,scribitur, necesse sit ut sâcramoD-
talis absolutio penitentibus detur et indulgeutiam lucrandam.
nSacra congregatio indulgentiis sacrisque reliquiis prmposita respondeudum
egse censuit.
oAd dubium primum:
oAd primum.-Afrrmative quoad primam partem I negative quoed secundam.
oAd secundum. primam I affirmative quoatl secundam.
- Negative quoad
.Ad dubium secundum: .
nRespondetur : Negative.
ofn quorum fidem, etc. Datum Roma ex Secret, ojusclem sacre Congregatio-
nis Indulgentialum die 15 decembris 1841,

«C. Can». Cesrnecexu, praf.»

(1) Esta oraçâo encontra-§e nas mais antigas liturgias. Bona, l. II, c. XIY;
Durando, l. II, c. XLI[.

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2&0 cArncrsuo

viajantes. 0 sacerdote, pois, pede instantemente para si e para os fiois


a felicidade celeste.
Tocado da sua indignidade, bate no peito, confessando-se pec,cador,
como o publicano do Evangelho. Para que os assistentes possam ouvil-0,
unir-se a elle, humilhar-se e implorar todos juntos a divina misericordia,
invoca levantando um pouco a voz os principaes mar[yres, na companhia
dos quaes roga a Deus que nos receba, não considerando os nossos me-
recimentos, mas fazendo-nos graça e misericordia. Por Jesus Christo
Nosso Senhor.
Nomeam-se n'esta oração os Santos que são honrados com um culto
particular pela Egreja de Roma, mãe e mestra de todas as Egrejas. São
todos martyres e pertencem aos differentes estados: Prophetas, Aposto-
los, Papas, Bispos, Sacerdotes, clerigos, mulheres e virgens. D'onde vem
uma consoladora Iição para nós : podemos, pois, salvar-nos em todas as
condições, e os santos que estão no Ceo offerecem aos justos que sofÍrem
uma garantia da sua felicidade eterna.
O Sacerdote acaba de sollicitar a en[rada do Ceo para os mortos e
para os vivos por Jesus Christo. Yae mostrar, ao terminar o Canon, a
ruzáo por que faz todas as suas petições por este divino Medianeiro.
Diz:
Por {ruem aós creaes, etc. Com effeito, por Nosso Senhor é que
Deus Padre creou todas estas coisas, o pão e o vinho, convertidos no
corpo e sangue de seu Filho, não só tirando-os do nada nos primeiros
dias do mundo, senão tambem renovando-os por um milagre contÍnuo
que faz produzir, todos 0s annos, á terra, n0v0s cereaes e novas uvas.
Por qwm os santift,caes. Por Nosso Senhor é que estes dons ofÍerecidos
no altar são separados de todo o qualquer uso commum e se tornam uma
origem de santiÍicaçã0. Por cluem os oiaift,caes. Por Nosso Senhor e que
Deus os vivifica, mudando-os n0 corpo e sangue precioso, que são o ver-
dadeiro alimento e a vida do mundo. Vós os abençoaes e nol-os ciaes.
Por Jesus Chri,sto, como o verdadeiro Mediador; com Jesus Chrisü0, como
Deus egual a Deus:' em Jesus Christo, como consubstancial a seu Pae, é
quo toda a honra' e gloria se tributa a Deus Padre todo-poderoso. E'
isto hastan[e para merecermos que Deus nos escute quando pedimos por
Jesus Christo ?
0 Sacerdo[e, ao recitar estas palavras, faz varios signaes de cruz:
;
tres primeiros sobre a hostia e o calix, com estas palavras Santificae,
aitsificae, abençoae; para mostrar que pelos merecimentos da cruz de Je-

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Dri PERSEVERÀNÇÀ. 2t*l

sUs Christo é que nós temos a Eucharistia, I que por conseguinte o pão
e o vinho são santiÍicados, vitificados e abençoados. Não faz signal algum
:
de cruz ao dizer Vós creaes, porque todas as coisas foram creadas por
Jesus Ctrristo como sabedoria do Pae, Yerbo eterno, e não com0 incar-
nado e immolado na 61loz. 0s outros signaes de cruz que acompanham
esta oração exprimem que a hostia e o calix conteem invisivelmen[e a
Jesus Christo morto na cruz, e que pelo seu sacrificio são dignamente
honrados o Pao e o Espirito Santo.
E nós tambem tenhamos cuidatlo de nos unirmos á santa Yictima
para honrarmos o Pae e o Espirito Santo, para os louvarmos e comeÇar'
mos na terra o hymno que devemos cantar n0 ceo. Não sei se me enga-
D0, mas parece-me que, dttrante esta oraçã0, nos importa Sobretudo ter
os corações em harmonia com os labios, para que estas bellas palavras
não sejam desmenticlas pelo nosso apego ás creaturas. Ao pronunciarmos
esta sublime oraçã0, as nossas vozes se unem ás dos Anjos e Santos.
Illas se, de volta a nossas casas, os nossos pensamentos são tam terres-
tres, os nossgs clesejos tam carnaes, as nossas inclinações tam desregra-
das como antes de sahirrnos, então cahimos em certo modo do ceo á ter'
ra; deixamos a mansão da immortalitlade para nos divertirmos na do des-
terro, e, como loucos, preferimos a linguagem dos homens á dos amigOS
de Deus : oxalá nunca assim seja !
Que dizer agora das tocantes relações que a piedade soube desco-
brir entre as ceremonias d'esta quarta parte cla Nlissa e as circumstancias
da Paixão ? 0 Sacerdote recita o Prefacio , Jesus é condemnado d morte.
0 Sacerdote diz o MemenÍo dos vivos e leva aos pes de Deus as necessi-
clarlesfla terra, Jesus leua a sl,ta, crlcz. 0 Sacerdote continua o Canon
durante o qual se realisa a consagraçã0, lesus continúa a caminhar parú
o Calcari,o, e u,nta, santa mulher lhe limpa clnt uttt panno a face adora'
ael. O Sacerrlote abençôa as offrendas com o signal da cruz varias vezes
repetido, Jesors é pregado na cru,z. O Sacerdo[e eleva a hostia, lesus é
eleuad,o n0, cruz. 0 Sacerdote eleva o calix, o sangue de Jesus corue-lhe das
chagas. 0 Sacerd ote faz o Memenüo dos finados, Jesus ora plr todos os
homens e princi,palmente pelos seus algozes. O Sacerdote, batendo no peito,
ora por todos os peccadores, Jesus conaerte o bom ladrã0.
A flm de excitardes em vós o sentimento adaptado a esta quarta parte
da Missa, lembrae-vos que ella se realisa no Calvario. Todo banhailo do
sangue do vosso Deus, c0m0 não haveis de experimentar um ineffavel
sentimento do amor? Corre o Sangue, corre pOr mim, corre Sobre mim,

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gLq
CÀTECISMO

corre por causa de mim; sangue expiador dos meus peccaclos e dos pec-
cados do mundo inteiro, lava-me, purifica-me a alma e o corpo. Horror
profundo ao mal, a toda a especie de mal, e amor immenso á santa e
dôce Yictima: tal é o duplo sentimento que deve occupar-nos o coração
ao pé do altar durante a consagraçã0, como o houvera occupado ao pe da
cruz durante a crucificagã0.

oRAÇÃ0.

0' meu Deus, que sois todo amor ! graças vos dou por terdes insti-
tuido o augusto Sacrificio dos nossos altares; concedei-me que assista a
elle como houvera assistido ao do Calvario.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e a0 pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus,. e, em prova d'este amor,
estarei profundamente recolhido du,rante q clnsa,graçã0.

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DE PERSEVERANCA. 2&3

vEGESTMA-SEGU N DA UÇÃO.

0 chrislianismo [ornado sensivel.

QuinÍa parúe da trIlssa.-oPaúer,.-Orações e Geremonlas que


o seguem.-f,'raccão da lrogúia.-O osculo de paz.-«Â'gnug
I)eir. Oracõei anúeo da communlrão.
- - Gommunlrão.

O Sacerdote, encerrado no secreto do santuario, acaba, durante o


canon, de tractar cara a cara com Deus dos interesses do povo. Ao ter-
minar esta serie d'orações, dá graças por Jesus Christo e levanta a voz
dizendo : Por todos os seculos dos seailos. 0 povo apressa-se a subscrever
tudo quanto o Sacerdote acaba de fazer e pedir para elle, e diz : Amen,
assim seja. Esta palavra termina 0 canon e a quarta parte da lllissa.
A guinta e uma preparação para a communhã0. 0ra, que é um povo
que communga ? Haveis já feito esta pergunta a vós mesmos ? Um pot'o
que communga, e uma grande familia que vae assentar-se a uma mesa
levantada nos confins do tempo e da eternidade, em que os habitantes da
terra consummam o acto mais augusto, mais delicioso, mais social que é
possivel a simples mortaes, e onde se acham em relação de santidade e
de presenÇa com os habitantes da Jerusalem do alto ; á propria mesa do
Pae commum dos anjos e dos homens, para comerem o pão e beberem
o vinho que lhes preparou a sua terna sollicitude. E que pã0, grande
Deus ! e que vinho vão ser servidos no banquete sagrado !
Para recordar esta pathetica idêa d'uma familia que se assenta á
mesma meza, quer a Bgreja que seus filtros saudem a Deus com o dôce
nome de Pae, e logo lhes põe nos labios a Oração dominical. Mas esta
oração e tão santa, eleva-nos a uma dignidade tão alta, permittindo-nos
chamar a Deus nosso Pae, que a Egreja julgou dever, n'um breve prefa-
cio, expôr que só segundo a ordem do mesmo Jesus Christo é que seus
filhos ousam recital-a.

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24& cÀrnclsmo

Em quanto o Sacertlote a pronuncia, tenhamos grande cuidado de


excitar no nosso coração um vivo sentimento de humiltlade e reconheoi-
mento ; pois, instruidos plr preceitos saudaoeis e formados por unta in'
stituiçdo dioina, lusamls dizer: Padre Nosso, Pater Noster, etc. Que con'
solação a de recitarmos a Oração dominical n'um momento em que o Fi-
lho de Deus, que é o auctor d'ella, e immolado no altar para nos alcançar
de seu Pae todas as petições que ella contem I 0 uso de recitar o Pater
para preparar para a communhão e de toda a antiguidatle. Oxalá passe
pelos nossos labios c0m0 [em passado, lia dezoito seculos, pelos labios do
Homem-Deus, e pelos dos Apostotos, dos Martyres e de tantos Santos,
nossos paes e modêlos !
Na Egreja oriental, e dito o Pater por todo o povo, e na Egreja la-
tina só pelo Sacerdote ({). A Egreja latina quer que o Sacerdote pronun-
cie só, em voz intelligivel, a Oração dominical, para gue toda a gente a
ouça mais distinctamente. Comtudo, para que o povo tome parte n'ella,
se lhe faz recitar a ultima petiçã0, que deve dizer como recapitulação de
todas as outras. Assim, ao pronuncia.rem estas palavras Litsrae-nos do:
mal, dizem os Íieis: Livrae-nos do mal, para que sejaes sempre glorifi'
cado em nós, e para que em nós reineis só; para que nós façamos a
vossa vontade, para que obtenhamos da vossa bondade os bens espirituaes
e temporaes, para que mereÇamos o perdão dos nossos peccados pelo
amor sincero a nossos irmãos, e para que a nossa fraqueza não esteja
exposta ás tentações. 0 Sacerdote responde: Assim seia, Amen: Que
sejaes livres do mal.
Explica esta peti'ção do povo nomeando os males de que desejamos
livrar-nos, e os intercessores por cuja mediação o esperamos, a beata o
gloriosa Maria, mãe de Deus, sempre virgem, os bemaventurados Apos-
tolos Pedro, Paulo e André, e todos os Santos.
Àntes d'esl,a oração e para o fim do Pater,limpa o Diacono a pa'
tena, para que esteja mais asseada; o'Sacerdote pega n'ella e a tem encos-
tada ao altar, a Íim de estar mais em modo de servir-se d'ella para fazer
o signal da cruz. A estas palavras ; Dae-nos a, paz, faz em si o signal da
cruz com a patena, e a beija com respeito, como o instrumento da paz,, o
vaso sempre sagrado em que deve bem depressa descançar o adoravel
corpo de Nosso Senhor. Serve-se d'ella ao mesmo tempo para fazer o si-
gnal da crDZ,, porque pela cruz e que o Salvador destruiu tudo o que §e

(1) Greg., Semn. LYII, ôn Math, \Í, de Orat. ilom,, c. X.

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DE PERSEYERÀNÇÀ. 24Ü

oppunha á nossa paz (l). Põe a patena debairo da hostia, a fim de po-
der pegar n'es[a mais facilmen[e. Descobre depois o calix, faz uma genu-
flexão para o adorar; e, pegando na hostia, parte-a em [res por cima do
precioso sangue, para que as par[es que possam desprender-se d'ella caiam
no mesmo calix.
Porque ê esta fracção da hostia ? E' para suscitar uma das mais ve-
nerandas recordações da Religiã0. Antes de o distribuir aos seus Apos-
:
tolos, pegou o Salvador no pão e o partiu dizendo Tomae e comei. E'
pois certo que na mais pequena das nossas ccremonias está um thesouro
de recordações e de piedade. Esta divisão da hostia tem logar em todas
as Egrejas do Oriente e Occidente (2). Uma das partes e deitada n0 ca-
lix; a segunda era n'outro tempo distribuida ao povo, e o Sacerdote com-
munga com a [erceira. Na antiguidade, a hostia consagrada pelo Sacerdote
era maior e mais grossa, sendo possivel daf parte d'ella aos Íieis. tloje,
sendo mais pequena, consome-a toda o Sacerdote; e as hostias pequenas
servem para a communhão do povo.
o sacerdote, tendo entre o pollegar e o index da mão direita a par-
ticula da hostia que vae juntar ao precioso sangue, faz tres signaes de
cruz sobre o calix d'uma borda á oul,ra, dizendo : A paz d,o Senhor seja
:
sempre clmuoscl, e o povo responde E com o Dossl espirito. 0 Sa-
cerdote faz o signal da cruz sobre o sangue do Salvador, pois por este
sangue dirino é que toclas as coisas foram paciÍicadas (3) ; fal-o [res ve-
zes, ern honra das tres pessoas da SS. Trinrlade.
Drrrante os seis primeiros seculos, este desejo do Sacerdote : A paz
do Senhor seja sempre clmülsco, era o signal rla paz qlle os Clrristãos de-
tiam dar uns aos outros abraçando-se. Tivereis visto todos aquelles Íilhos
da mesma familia, chamados á mesa do Pae commurn, Dcus de charidade,
ahraçar-se ternamente, para mostrarern que não havia no seu coração aze-
dume, nern al'ersâo, nem frieza, mas sim a mais franca e viva charidade.
Tivereis outitlo os pagãos exclamar : Vêtle como elles se amam, e como
I
estão promptos a morre r uns pelos outros Aquella sociedade nascente
encontrou na sua cltaridadc o principio da sua rir:[oria sobre o paganismo,
porque a ttnião faz a força. 0s homens davam aos homens o san[o osculo,
as mulheres ás mulheres ; e todo aquelle povo d'irmãos se approximava

(1) D'onde vem que, em muitas egrejas, se dá a beijar a patena nas offren-
das dizendo : Poa oobis : A p*, seirr eomvosco.
(2) Errchol. gr@c\ p.81, ad,horn. Amalar.,l. UI, p.6351Bona, l. II, c. XY.
(3) Colots.,I,20.
l6

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246 cÀrrcrsuo

depois da mesa do Cordeiro, á qual, segundo a linguagem dos santos dou-


tores, só os pacificos teem direito de assentar-se (l).
Se a Egreja, na sua profunda sabedoria, mudou este pathetico uso,
conservou os vestigios d'elle. Nas l\[issas cantadas, vemos ainda o Diacono
dar a0 Sub-Diacono a paz que acaba de rcceber do Presbytero; pois o
Presbytero, antes de dar a paz, beija o altar, Íigura de Jesus Christo, e
outr'ora beijava a santa hostia, para mostrar que n0 mesmo coração do
Salvador é que buscava a paz,. Do Sub-Diacono se communica depois esla
paz a todos os ecclesiasticos que estão presentes. Assim não mudou 0 es-
pilito da Egreja, e os Íieis que assistem á Missa devem n'esse momento
pedir a Deus a paz, e fazer um acto de charidade para com o proximo,
lembrando.se d'estas palavras do divino Mestre : Quando opresenlardes a
Dossa offrenda no altar, se Dls lembrardes de que a0ss0 irmdo tem alguma
coisa clntra, oós, deirae a offrend.a diante clo altar, ide reconciliar-oos e
depois tsíreis offerecer o D0ss0 presente (2).
I\'Ias que paz é essa que o Sacerdr.rte deseja aos fieis, e que os fieis
devem pedir? A paz do Serrhor, Par Damini; apal., unica herança tem-
poral que do alto da cruz legou o Homem-Deus a seus Íilhos; a paz in-
terior da alma que 0 mundo não póde dar, porque é o fructo da victoria
alcançada sobre aS noSSaS paixões ; a paz com Deus e corn nossos irmãos;
a paz do mundo, pela submissão ao Evangelho, 0 â paz da Egreja, pela
cessação das perseguições. A primcira é a disnosição para a communhã0,
a segunda o fructo d'ella. Para dar uma viva imagem d'esta paz divina,
o Sacerclote, em quanto o povo responde : E com o D0ss0 espirito, deixa
cahir no calix a porção da hostia que tem na mão direita.
Qutr'ora sellavam-sc as allianÇas com o sa0guo das victima§, ou com
O Sangue das par[es contractantes; cada um tirava um pouco de sangue que
Se juntava, e Com este sangue se assignava o contracto. E aqui é no san-
gue divino, no saugue da alliança eterna, que 0 Sacerdote sella a uniã0,
a paz dos Íieis entre si e com Deus. Assim, uma paz perpetua e universal,
eis o que pede a Egreja por esta oração como effeito do augusto Sacri-
Íicio, oÍIerecrdo pela consagração e consttmmado pela communhã0.
A mistura que se faz no cahx das especies do pão e do vinho mos-
tra: 1.o a união de Deus e do homem que Se effectuou na incarnaçã0,
chamada por S. Agostinho mistura tle Deus e do homem (3); 2." a mis-

(1) Hier, in Epist, ad huc uerba.' Salutate ilvicem in osculo sancto.


(2) Math.. Yr 24.
(3) Mixtura Dei et hominis.

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DE pEnSEVERÀNÇÀ. *ltT

tura de Deus e do homem que se effectua pela communhão da te+ra; 3.'a


que se ha-de eÍIectuar pela communhão eterna do Ceo, communbão perfeita,
na qual, tirados todos os veos, serão os Santos consummados na paz e uni.
dade de Deus.
Mas como chegar a esta paz táo desejavel, a esta unidade divina, se
não tivermos uma victima gue nos reconcilie com Deus carregando com
os nossos peccados ? Ai ! em quanto subsistir o muro de divisão levantado
pelo-peccado, e impossivel toda a união entre Deus e o homem. Bem o
sabe a Egreja. Eis ahi porque, dirigindo-se a Jesus Christo, o invoca na
qualidade de Cordeiro e de victima de Deus ; Cordeiro de Deus, Ihe diz
até tres vezes, que apagaes os peccados do mundo, tende misericorüa de
nós, dae-nos a, paz. Invoca-o tres vezes, pârâ mos[rar com es[a insüante
supplica e com este numero mysterioso a necessidade inÍinita que tem da
sua graÇa e misericordia para se reconciliar com Deus n'este mundo, e
unir-se perfeitamente a Elle na paz do Ceo. Ao dizer aquellas palavras,
bate o Sacerdote no peito, e os fieis devem imi[al-0, para denotar que alli,
no coraçã0, é que se acha o unico obstaculo á paz, o peccado, e para sup.
plicar ao Cordeiro divino que venha tiral-o.
Nas Míssas de defunctos, diz-se : Corileiro de Deus que apogaes os
peccados do mundo, dae-lhes o descanç0. Toda occupada de seus filltos de-
functos, sollicita a Egreja para elles o unico bem desejavel, o descanço do
Ceo. e o Sacerdote não bate no peito; porgne não Ô para elle, mas sim
para seus irmãos fallecirlos, que sollicila a paz.
Para virmos a ser pela communfrão um mesmo corpo e um m€smo
espirito com Nosso Senhor, é necessario qrro nio sejamos totlos entre nós
senão um coração e uma alma pela ehaririade. E.qta disposição tão ne-
cessaria pede-a a Egreja com novo fervor. Com este objecto, tendo-se o
Sacerdote inclinarlo, com as mãos jrrnl,as sobre o altar. e os olhos modes-
tamente fitos no Deus de paz que descança diante d'elle, faz primeira
oraçã0, que remonta ao nono ou decimo seculo (l).
Esta bella oração não se recita nas lilissas de defltrnctos, porque e
paz que pedimos para a Egreja militante não convém á Egreja paciente.
Receanrlo que os seus proprios peccados lhe sejam obstaculo, pede-a o
Sacerdote pela fe da Egreja. Que coisa mais justa ? E' a fê que ora, e
sendo só a Egreja a casa da fé, só ella tambem ê a casa da oraçã0. Com
exclusão de todas as seitas. só a Egreja catholica recebeu o espirito da

(1) Ordem romana. Miuolog., Missa d'Illyri,at etc.

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248 cÀrrclsuo

oraçã0. Não ha senão esta casta pomba que gema, e cuios ineffaveis ge-
midos sejam escutados pelo Seuhor, porgue só esses são formaclos pelo
seu Espirito.
Nos primeiros seculos, não pozera aqui a Egreja oração alguma, por-
que todas as oraqões que precederam a communhão podem considerar-se
como preparação suÍficiente. Mâs muitos santos Sacerdotes, não podendo
vêr o momento da recepção do precioso sangue do Salvador sem serem
.tomados d'um santo temor, pediam com mais instancia a remissão dos
seus peccados e a graça de participarem dignamente da sagrada Eucha-
ristia. Esta disposição frzera introduzir varias orações cheias dos mais
ternos sentimentos. A Egreja escolheu duas d'ellas que, ha seiscentos ou
setecentos annos, faz recitar todos os dias (l).
Uma tem de admiravel o recordar-nos que unicamente pela morte
de Jesus Christo e que foi vivificado o mundo. Ora, nós tomamos parte
na morte e no Sacrificio de Jesus Christo pela communhã0, do mesmo
modo que os judeus não tinham parte nos sacriÍicios da Lei senão co-
mendo a carne das hostias, e commungando assim com Deus por meio
das hostias que lhe erarn offerecidas. A commuolrão eucharistica, isto é,
sensitsel, n0 corpo de Nosso Senhor, não foi instituida senão como meio
para commungar interior e invisivelmente na graça e no espirito de todos
os mysterios do Homem-Deus (2).
Na ultima oraÇã0, reanima o Sacerdote os seus sentimentos de hu-
mildade e compuncçã0, e pede a Nosso Senhor que 0 seu corpo adora-
vel lhe seja preserva[ivo contra os peccados mortaes, e saudavel remedio
para os pcccados veniaes.
Depois d'estas orações, o Sacerdote, a ponto de consummar o Sacri'

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DE PERSEVEnANÇA. 2&9

ficio, faz uma genuflexão para adorar o Deus iquilado. Levantando.se,


pega na santa hostia e diz: cTomarei o pão e invocarei o nome
do Senhor.» 0nde achar palavras que melhor venham a uma alma pe-
netrada d'amor ao Salvador, e do desejo de o ? 0 Sacerdote qui-
zera unir-se a Deus: no seu coração está o sentimento que fazia
dizer a Jesus fallando da sua paixão Desejei : comer eslo
Paschoa comüosco (l); mas este sentimento d,a não está só, acompa-
nha-o o da sua indignidade.
Qae faz o Sacerdote? Aniquila-se, humilha ante o Deus tres vezes
santo; e, com a mesma conÍiança que o centuri cujas palavras adop[a,
sollici[a um milagre, um milagre que, puri0ca o-o das suas maculas, o
torne digno de receber o seu Deus. Bate no ito repetindo tres vezes:
«Senhor, eu não sou digno de que rós entreis m minha
casa; mas dizei
só á vossa palavra, e a minha alma será sâ0.» m, dizei á vossa palavra;
mensageira da vossa vontade omnipoten[e, ella irá e virá sarar as mÍ-
nhas feridas.
Eotretanto, do fundo da sua humildade, I -so o Sacerdote d'este
mandamento do Salvador : Em tsertlade, em t:ol-o digo: Se ndo
comerd,es a carne do Filho do homem, e se beberdes o seu sangue,
não üereis a oid.a em oós (p). Esüá rlecidido, a fiançaeoamorvencem,
e o Sacerdote, fazendo o signal da cruz com a ta hoslia, loma o corpo
adoravel do §alvador.
Esla oração nos faz conhecer que o corpo
{o yerbo incarnado nos ó
dado como urn penhor de groria ào ceo, .àrd as arrhas da vida bema.
venturada, como um vialico para nos ajudar ,
forsrr do desterro á pa-
tria. 0 sangue e a carne do Hômem-neus tornad-se em nós como um sol

mor :
na sua caroe repousa o penhor da resurreição fu[ura.
Depois de ter tomado a santa hostia, emprega o Sacerdote o instante
de que tem precisão para a engulir, em exprimir vivamente ao Salvador
o §eu amor e reconhecimento. Logo que se vê em estado de fallar, dá
graças ao senhor. E que sentimento póde oxistir n'um coração onde ro-

(1) Luc., XXlf, 15.


(2) Joan., YI, 54.

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2ü0 cÀrEclsuo

side Jesus em pessoa, senão um sentirnento de reconhecimento


e admi'
santiÍicar, senão um can'
ração ? que palavras nos latrios que Elle acaba de
tico de louvores? 0 Sacertlote descobre seguidamente o calix, adora-o fa-
as parcellas da
zendo a genuflcxã0, depois ajunta com respeitoso cuidado
santa troiria que pgssam ter Íicado üo corpgral, para as déitar no calix,
e bebe a copa sagrada.
explicamos,'
N'esta occasiáo é que se realisa a communhão dos íieis. Já
pri-
na segunda parte do catecismo, de que maneira commu0gavam os
meiros Chflstãos (,1); só nos resta dizer uma palavra sobre as ceremonias
povo.
o orações que acompanham hoje a communhão do
Pela bÔcca do aeotyto e do Diacono, fazem os commungantes, ajoe-
geral dos
l5a6os nos degraus do sanl,uario ou nos do altar, a conÍissáo
seus peccaclos Confiteor. Este uso remonta para lá de quinltenlos anoos.
:
0 saceflJote volve-ta prtu elles ,o petle em seu favor o pertlão e a vida
eterna. Pela bÔr:ca do miuistro respondem todos: Assim seja:
Ampnl o
sacerrl,te pedo de novo para 0s cgmmunganr,cs a alvura da
innosencia.

Os seus coia6es respontlem : Assim seja : Amen. Pegantlo então 0a san[a


diz o Sacerdote: Eis aqui
hostia, que cooservi elevarla sobre o ciborio,
o,Cordeiro de Deus, eis aquelle quo apaga os peocados do
muntlo' E ac-

crescenta tres vezes : Senltor, eu não sou digno de


que vÓs ent'rcis em
minha casa, rnas dizei sÓmen[e uma palavra, e a minha alma será curada.
0 sacerdote approxima-se, e dá a sagrada communttão fazendo o signal
da cruz, qoe ,óorpanha d'estas palavras: 0 corpo de Nosso Senlror
Je-

sus christo guaiclc a vo§sa alma para a vida eterna.


Em alguuras Egrejas respondem o§ Íieis: Assim seja: Amen' Mas se
mais in-
em todas as partes não o exprimem tle bÔcca, devem dizêl-o do
timo do coraçã0. Que voto mais formoso, mais util, poderiam fazer ? Na
Àllemantre e em varias partes da Ctrristandade, apresenta-se aos fieis que
acabam de commuogar vinho e agua para purificarem a bÔcca. Este uso
antigo ainda subsiste nas ordenações, e' em muitos pontos, no dia da
primeira communhão geral (2).
Em signat de respeito ao Salvador, purifica o Sacerdote a bÔcca e 0s
dêdos, a Íim de que nacla reste n'elles das santas especies.' I'eneranda
prática que remonta ao duodecimo seculo. Antes contentavam-se, depois
ã, ro**unhão, em lavar as mãos e deitar a agua na piscina ou laval,orio,

í1) Vicle tambem a ests respeito os interessantes pormeuores clados por Du-
II, LV. '
rantil í.
".
(2) fiebrun, P. 636.

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DE PEBSEVERàNÇÀ. PÜI

logar decente e consagrado a este uso. Desde aquella epocba, faz o Sa-
cerdote duas abluções, uma com vinho puro, e outra com vinho e agua
que lhe deitam nos dêdos o acolyto e o Sub-Diacono. Mas, em quanto
está occupado n'estes cuidados exteriores, a sua alma, unida ao seu Deus,
mantêm com Elle um santo commercio. Pede-lhe, o quê ? Âh I que póde,
que deve pedir uma alma viajante, desterrada, quc estil unidà ao seu
Deus, a seu Pae, ao seu fim, senão que se digne de immortalisar essa
união ? Tal é o sentido das orações que acompanham as abluções.
Que mais bellos sentimentos poderiam os fieis, que tiveram a feli-
eidade do commungar, exprimir em acção de graças ? Mas quer hajam
commungado real quer espiritualmente, devem os assistentes, n'esses in-
stantes tão preciosos e tão breves. praticar com o divino Mes[re, adoral-0,
agradecer-lho, e pedir-lhe com confiança tudo o que póde ser-lhes Deces-
sario para o corpo e a alma. «0 momento que segue a communhã0, diz
S. Thereza, é o tempo mais precioso da vida.»
Aqui tambem, conforme o nosso cosl,ume, digamos as relaçõer ioe
uma engenhosa e [erna piedade se compraz em vêr entre as ceremonias da
quinta parte do Sacrificio do al[ar e as circums[ancias do Sacrificio da
cruz: não esqueçamos que 0 nosso guia e sempro o amavel e santo Bis-
po de Genebra. 0 Sacerdote diz o Pater composto de sete petições, Jesus,
iln alto dn sun cru,z, pronuncia as sete m,ernoraüeis palatsras que formom
o seu, üesüomuúo. 0 Sacerdote parte a hostia, Jesu,s eapira. 0 Sacerdote
deita uma parcella da hos[ia no calix, a alma ile Jesus d,esce aos infertns.
0 Sacerdote oommunga, Jesus é sepultado.
Interroguernos agora a nossa fé ; e ella nos dirá que sentimento deve
dominar na nossa alma durante a quinta par[e da Missa. E' pois certo
que alli, sobre o allar, es[á o mesmo Jesus que nos amou a ponto de
dar o seu sangue por nós; o mesmo que disse e diz ainda: Que quereis
que eu faça por vós ? as minhas delicias são estar com os filhos dos
homens. Yinde a mim, vós todos que estaes na aflicoã0, e eu vos alli-
viarei. Confiança, confiança iltimitada, infantil, eis o que deve existir no
no§so coraçã0, e por conseguinte nos no§§o§ labios. Peçamos para nós,
para nossos parentes, para no§sos amigos, para todos os nossos irmãos
sem excepçã0. Que póde recusar-Dos Aquelle que se dá a si proprio ?
o' meu Deus t como é possivel que não sejamos todos ricos de bens es-
piri[uaes, nós a quem todos os dias é aberta a fonte d'elles com tão surpre-
hendente bondade? Ah I a culpa não é senão nossa ; mas está decidido, d'ora
em diante não teremos que arguir-nos de desconfiauça nom do tibieza.

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2ô2 CATECISMO

oBAÇÃ0.

0'meu Deus, quo sois torlo amor t graqas vos dou por me haverdes
permittido o assislir tantas vezes ao vosso adoravel Sacrificio ; e peço'vO§
perdao de toclas as irreverencias de que me tenho tornado ré0.
Tomo a re-qolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
XimO como a mitn mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este am6r,
commungarei sacramental ou espiritualmenle todas as oezes que ouoir
IlIissa.

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DE PER§EVENANÇA. 2õ3

VEGEStMA.TEBCEtRA LtÇÃ0.

0 chris[ianismo Íornado sensivel.

§erúa parúe rla tlsro. - Gomnunhâo. pof,úconnunlo.


-
rJler lllssa etú., Benqão. Evangelho rte S. João. BeIa-
- - -
çõer enlro esía parle da lllsra e a Palxão.-Senúlmenúo
que deve domlnat na noÊ.a alma. Gomo Gutnpre ralrlr
-
da ülcra.

A sexta e ultima parte da Missa é a acção de graças. Entre os ho-


mens ó o reconhecimento um dever sagrado: vorgonha águelle que ousa
isentar-se d'elle I está pervertido. A maior injuria que se póde dirigir a
alguem, e dizer-lhe : E's um ingrato t o reconhecimento é tarubem um de-
ver mandado pela Religiã0. Não condemna Nosso Sonhor al[amente aquelles
leprosos que, depois de curados, não lhe agradeceram ? Na Missa, tlignou-
se Elte de conceder-nos a maior de todas as graças. 0h I não era de reoear
que a Egreja, esilosa tão terna, deixasse de dar-lhe solemnes acções de
graças; fêl-o em todos os seculos. «Depois que se tomou parte n'este
graodo sacramento, diz s. Agostinbo, tudo termina pela acção de graças
(l)., 0 que se praticava então pratica-se ainda hoje, e oxalá o nosso ro-
conhecimento egualo o de nossos paes t
/tultima parüe da llissa con]ém a Àntifona ild communhão, a ota-
ção chamada Postcommunio, o lte, Missa est, a Bençdo o o EvaDgelho de
S. João In principio, etc.
Nos bellos dias da Egreja primitiva, quando commungava todo o
povo, cantavam-se, durante a distribuição da Eucharis[ia, psalmos gue

(t) Epist. CXLIX.

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2ô& cÀrEcI§Mo

tinham relação com esta santa acçã0. No 0riente, era o bello cantico
que começa por estas palavras : Com,o o r:eado serluioso suspira pela fonte
iXagua aioo, assim a minha alma suspira por aÓs, Ó meu Deus (l)l
No Occidente, era o psalmo trinta e tres : Bemdirei o Senhor ern todo o
üempo: 0 seu loursor estara sentpre nos meus labios (2).
Nós imitamos este pio uso quando nas nossas grandes solemnidades
se cantam psalmos ou canticos durante a commu0lrã0. Que coisa mais bella?
0s festins dos reis e dos grandes da terra são acompanhados de cantos
e musica. Não convinba que melodiosos can[os resoassem duran[e o fes-
tim sagrado a que o proprio Dous, hospedeiro, alimento e conviva, con-
vida seus filhos ? Em quanto as abobadas dos nossos templos retumbam
COm os canlos do noSso amor, os anjos, presenles aO divino banquele,
repetem nas SuaS harpas d'ouro a bOndade de Deus e a t'entura do homem.
Quando a commuohão tocava no seu [ermo, fazia o Bispo signal ao
chefe rlo côro, e cantava-se a Gloria Patri para terminar o hymno do
fesl,im. Havendo infelizmente diminuido o fervor dos fieis, reduziram-se
Os psalmoS a um versiculo que se Chama an[iíona, porque era canl,adO
alüeroativamente pelos dois cÓros: tal é a oração da Missa a que cltama-
mos communlrã0.
0 Sacerdote recita-a do lado da Epistola; porque, em quanto elle
cobriu o calix, o acolyto mudou o Missal para aquelle lado. E'o logar
que melhOr convém ao livro, porque e do lado do assento do Bispo ou
Sacerdote. Alli se deixaria sempre s0 uma razáo mysteriosa não bou-
vesse determinado a lêr o Evangelho do lado do aquilã0, e se, desde o
oflertorio, não fosse necessario desembaraçar o lado do alÍar onde se
apresen[am as abluções e as galhetas, onde se prepara o calix, etc.; por-
que a sacris[ia, d'onde se leva tudo quanto é necessario, está.ordinaria-
mente do mosmo lado.
Recitada a communhão, vae o Sacerdote ao meio do al[ar, e beija'o
por amor e respeito; e depois, voltando-se para o povo, convida-o á ora'
Qão e ao reconhecimento com estas palavras : 0 Senhor seja comüo$co.
O povo responde : E com o l)osso espirito. 0 Sacerdote torna ao Missal,
e om nome de totlos diz : 0remus: 0remos; e recita em voz alta a Post.
communio, QUe é uma oração d'acção de graças. Ah I se nós conhecer-
nos o dom do Deus e o favor que acaba de fazer-no§, com que profundo

í1) Pml,. XLL


izi Paal. XXXIfI I Bona, l. II, c. XV[.

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DE PERSEVERANÇÀ. 2Ü5

sentim€nto de amor não diremos no Íim d'esta ora$o: Amen, assim seja,
amor, acção de graças, reconttecimento eterno t
0 numero das postcornmunios e o mesmo que o das collec[as e se-
cretas antes do prefacio. Com eÍIcito, é justo egualar o numero dos nos-
sos agradecimen[os ao das nossas petições. A's postcommunios ajunta-
s0, na Quaresma, uma oração que se chama oração pelo povo. E' pre-
cerlida d'este convite feito pelo.Diatnno: Humiliate capita aestra Deo:
«Humilhae as vossas cabeças diante de Deus.» Qualquer que seja o mo-
tivo que haja feito insl,ituir esta oração, quer se haja di[o pelos Íieis que
não haviam commungado quer pelos peccadores que cumpnam a sua pe-
nitencia, os assis[entes, em quanto se recita, devem humiltrar os corações
e pedir a Deus que 0s mude e santifique.
Depois da postcommunio, o Sacerdote, vol[ando ao meio do altar,
que beija com amor, se vira para o povo e ltre drrige 0s scus ultimos
votos: 0 Senhm sejo clm,üoscl. 0h I sim, comvosco, pios Ctrristãos, que
viestes ao romper da aurora, 0orl0 os tieis israeliÍ,as, apanlrar o manná
cabido do ceo. Alimentae-vos do pão sagra.tlo no decurso d'eo'te dia que
começa; viajantes da eternidade, n elle eor:ontrareis força para contiauar-
des o vosso camirrho para a Patria. 0 Senhor seja comvosco para allumiar-
vos, proteger-vos, consolar-vos, conservar-vos o fructo do Sacrificio, e
recordar-vos 0 que vis[es esta manhã e o que Íizcstes. Penetrado d'um
resonhecimento mais vivo que nunca para com o Sacerdote que foi mi-
nistro do grande Sacrificio, responde o p0v0: E com o Dlsso espirito. Eis
ahi, pois, os desejos que o pastor e o rebanho, o pae e os Íiltros se diri-
gem no momento de se separarem. Conheceis outros mais felzes e mais
commovedores ?

Finalmente o Sacerdote dá o signal da partida dizendo : Ite, Illissa


est. Estas palavras signiÍicam lil,teralmente: «Ide, é a despedidap; quer
dizer, é perrnit,t,ido sahirdes, podeis ir-vos embora. Na Missa cantada, e
o Diacono quem canta estas palavras; fal-o em nome do sacerdote ou do
Bispo, de quem e o principal ministro. Nos primeiros seculos, adl'ertia
os calhecumenos e os peccatlores para sabirem da egreja antes da oÍIrenda
e da acção do Sacrificio; pertencia-lhe por tanto no fim da Missa despedir
os fieis.
0utr'ora dizia-se : Ite, Irlissa, esü, quando depois da Missa não havia
outro oÍlicio; então 0 povo poclia retirar-se. Mas, se se deviam recitar
outras orações ou fazer alguma ceremonia, o Sacerdote ou o Diacono, em
logar do lte, lwisscr, est, dizia; Benedicanuts Domino: «Bemdigamo§ 0

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-
2ü6 cÀTgctsilo

senbor»; e Das Missas dos defunctos: Requiescant in pace: «Descancem


em pazD. D'este modo, em vez de advertir aos fieis quo a oração estava
terminada, se convidavam a ficar para bemdizerem o senhor ou para po-
direm a Deus, em favor dos defunctos, descanço e paz elerna.
Hoio diz-se o lte, Mi,ssa asr, todas as vezes que se recitou na Missa
a Gloria in eacelsis. considera-se, por consequencia, como um signal de
alegria e jubilo. Tal é de cerüo a razáo que 0 fez suppr.imir nas íerias e
sobret,udo durante o Advento e a Quaresma. N'esses dias diz-s e: Beneili-
cürn?rs Domino, para convidar os assistentes a orarem mais e a sanliÍica-
rem-se pela oração, pelo jejum e pela penitencia. Nas Missas de defunc-
tos, diz-se: Requiescant in pace: «Descancem em pàz», pgrque a Egreja
e§tá toda occupada em proporcionar a seus Íithos defunctos o allivio de
que precisam.
0s Íieis respondem ao lte, M,issa est e ao Beneilica,truts Domírw, Deo
gratias: «Dêmr.rs graças a Deus.» Siur, dizem, relirauro'-1os com alegria,
e bcrutlizctttos, cheios de reuonlrecirnento, o Deus que ngs encheu do be-
ne0cios fazendo-nos tomar parte nos santos lltysterios. Imitam os Apos-
tolos, que, depois de terem sido abençoados pelo rJivino Mestre que su-
bia ao ceo, vol[aram cheios de jubito, groriÍicando e danclo graças ao se-
nhor. Depois do Requiesca,nt in pace, responcle o povo Amen,isto é, seja
como desejaes, o senhor satisfaça os vossos votos e dê a paz eteroa ás
almas que soÍfrem no purgatolio (l) !
A Missa está acabada; porém custa ao Sacerdote deixar o altar santo,
e custa-llte separar-se do seu povo Íiel. E eis que ha mais de setecentos
annos a devoção do Sacerdote e a do povo Íizeram tluas adtlições aucüo-
risadas depois pela Egreja (2).
A primeira é a oração seguinte, que o sacerdote diz por si e pelo
povo; recita-a em voz baixa, com as mãos juntas sobre o altar, e com os
olhos baixos: «Recebei favoravelmente, ó SS. Trindade! a homenagem da
minha perfeita dependencia, e dignae-vos de accei[ar o Sacrificio que offe-
reci á vossa divina Magestade, posto que fosse indigno d'isso- Fazei, pela
vossa misericordia, com que elle me seja propiciatorio e a todos aquelles
por quem o oflereci. Por Nosso Senlror Jesus Christo. Assim seja.»
Acabada esta oração, o Sacerdote beija o altar, e ergue as mãos e
os olhos para o ceo; depois virando-se para o povo e estendendo a mã0,

(1) Lebrun, p. 642 e seg.; Durando, l, VI, e. LY, LYII; Duranto, l. II, c.
LYI; Bona, l. II, c. XX; Espirito ilas C rem,, p, 377,
(2) Mi,uolog., c. XXII.

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DE PERSEVERÀNCA. 2ô7
o abençôa fazendo o signal da cruz e dizendo: «0 Deus omnipotente vos
abençoe; em nome do padre, e do Filho, e do Espirito santo.» 0 povo
responde com a acclamação ordinaria: Ámen, Deus queira escutar o voto
que por nós fazeis. Nas Missas de defunctos omitte-se
a benção: não pótle
servir-lhes, pois não é senão para os assistentes.
como são formosas as ceremonias com que o Sacerdote acompanha
esta derradeira benção! Elle mesmo toma a benção de Jesus Christo bei-
jando o altar que o represen[a. Ergue os olhos
e as mãos para o ceo,
para mostrar que a esse Pontiíice eterno, que está assentado
á direita do
Altissimo, c0m0 o verdadeiro Melchisedech, pertence abençoar o povo fiel
e os Íilhos do verdadeiro Abrahão; abençoal-os para o ceo e para a eter-
nidade, pelos merecimentos dos seus mysterios e da sua cruz.
0 Bvangelho de S. João é a segunda addição feita á Missa pela devo-
ção reunida dos sacerclotes e fieis. Desde o principio da Egreja, tinham
os Christãos pelas sublimes palavras do Disr:ipulo muito amatlo a mais
profunda veneraçã0. s. Agostinho não desapprouaua o uso, já estabelecido
n0 seu [empo, de pôr este santo Evangelho sobre a cabeça dos enfermos
para 0s curar, e o Papa Paulo V mandou que, indo visital-os, se reciüasse
o Evangellro de s. João com a imposição das mãos. 0s proprios pagãos,
movidos da profrrndeza e subiimidade do mesmo Evangelho, diziam que
se deveria escrevêl-o em lettras d'ouro em todos os logares d'ajuntamento,
para qlle toda a gente o podesse lêr.
0s fieis desejaram com tanto ardor que fosse recitado no fim da
Missa,que o pediam expressamente nas doações que faziam ás Egrejas (l).
Ern breve se tornott inrrtil es[a petiçã0. Trlr-los os Sacerdotes recihtram o
E|angellro antes de deixarem o artar, e o papa s. pio v converteu em lei
essa prátir:a. Diz-se todos os dias, a não ser que haja oflicio duplo por
causa d'alguma festa. N'esse caso, recita-se o Evangelho da Missa que se
não pôde dizer; por exemplo, quando a Assumpção da sS. Virgem cahe
ao domingo, celebra-se o oÍlicio d'esta festa solemne; mas o ultimo Evan-
gelho é o do domingo cujo oÍlicio se supprime.
A recitação do Evangelho de s. João e acompanhada das mesmas ce.
remonias que a do Evangelho ordinario. No começ0, o Sacerdote desperta
a attenção dos fieis dizendo-lhes: 0 Senhor seja comaosco; e o povo res-
ponde; E com 0 t0ss0 espirito. 0 Sacerdote faz com o pollegar o signal
da cruz sobre o quadro onde está escripto o Evangelho, e depois fal-o na

(1) Lebrun, p. 6?3.

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258 cÀrgcrsuo

testa, nos labios e n0 c0raçã0, para protestar o seu amor e a sua fé. Ao
mesmo tempo dizl. Principio do Etsangelho segunila S. Jodo; a0 que o
povo responde: Gloria a uos, Senhor.
0 Sacerdote prosegue:
«No principio era o Verbo, e o Yerbo estava em Deus, e o Yerbo
era Deus,» etc. A estas palavras: E o Verbo se fez carne, faz o Sacerdote
uma genuflexão para honrar o profundo abatimento do Verbo divino, que,
para nos remir, teve por bem aniquilar-se a ponto de tomar a fórma d'es-
cravo, isto é, do homem escravo do demonio e do peccado.
0 pensamento de terminar as orações do santo Sacrificio pelo Evan-
gelho de S. João é cheio de sabedoria e piedade. Com eÍfeito, as palavras
que elle comprelrentle re.sumem tudo quanto o Verbo fez por nós na eler-
nidade e no tempo. I\lostram-n'o no seio de seu Pae, Deus c0m0 elle, por
quem tudo foi feito, e que e a vida e a luz do mundo. lIostram'n'o des-
cido á terra, verdadeiro, sol de justiça que brilhou nas trevas, e que al-
lumia aquelles que es[avam assentados na sombra da morte. Recordam-
nos que por elle é que nós somos Íilhos de Deus, pois se fez r.rrne e ha'
bitou entre nós, para nos remir da escravidão do peccado e nos livrar da
COndemnação eterna. Vimos a sua gloria n0 presepio, n0 Thabor, no Cal'
vario e n0 sepulcro. Vêmol-o todos os dias na sagrada Eucharistia, e lou.
vamol-o e bemdizemol-o porque é cheio de graça e de verdade (l).
No fim do Evangelho de S, João, todo o povo, pela bôcca do acolyto,
responde : Deo gratias: Datnos graÇa a Deus. Es[a breve oração é tiao
santa, tão perfeita e tão digna de Deus, que Se não podia terminar o
maior dos myterios por uma phrase mais mysteriosa e divina. «Que po'
deriamos pensar, pergunta S. Agostinho, Qtle poderiamos dizer, que p0'
deriamos escrever melhor que esta phrase : Deo gratias: Graças a Deus?
Nã0, não se póde dizer nada mais breve, ouvir nada mais agradavel, con-
ceber nada mais granile, e fazer nada mais util e de maior fructo que
esta oraçáo: Deo gratias: Graças a Detts (2).'
Oh t sim, graças a Deus, o Ceo está reconciliado com a terra : a au-
gusta Yictirna, esperada por espaÇo de quarenta seculos, acaba de immo'
lar-se; foi recebida por Deus por meio do Sacrificio, e pelos homens por
meio da communhã0. Graças ao Pae, que nos deu seu Filho; graças a0
Filho, que se revestiu da nossa natureza ; graças ao Espirito Santo, que

(1) Espirtto ilas cerem., p. 3841 Lebrun, p. 6?6; o P. de conclren, p. 410.


(2) Epiet. LXXYI.

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DE PEN§EVERANçÀ. !59
nos santificou em Jesus christo; graÇas á augusta Trindade por todos os
seus dons, por todas as suas inÍinitas misericordias, cujo compendio é o
sacri0cio catholico.
Terminemos esta ultima parte da Missa, como as precedentes, por
algumas approximações piedosas entre esta parte do Sacrificio rlo altar e
as circumstancias do Sacrifioio da cÍol.0 Sacerdote toma abluções, Jesus
é embalsamado. 0 sacerdote, depois da communhã0, vae para o lado da
Epistola, lesus resuscita. 0 Sacerdote volta-se para os fieis para dizer
Dominus aobiscum, Jesu,s clnt)ersü tsarias Dezes com os seus Discipulos.
0 Saeerdote diz o ultimo Dominus oobiscum, Jesu,s iliz aileus a1s seys
Ápostolos e sobe ao Ceo. O Sacerdote abençôa o povo, Jesus erusiao Esyti-
rito Santo. 0 Sacerdote diz o Evangelho de S. Joã0, Jesus coroail,o de gto-
ria reina triu,mphante nos Ceos e rsela pela sua Egreja.
E' inulil dizer qne o reconhecimento e o sentimento que deve do-
minar no nosso coração durante a ultima parte da Missa. Qúeremos tor-
nar mais vivo este sentimento? Reanimemos a nossa fé sobre as questões
seguintes: Quem é aqnelle que acaba de immolar-se ? por quem se im-
molou ? Por gue se immolou ? Irnmolando-se, que me deu ? [Íeditemos, e,
se podermds, eximamo'-nos de dizer coru s. paulo : se alguem nd,o ama
o Saloador Jesr.ts, seja dnathematisaito (l).
E agora, como devernos sahir da Missa ? como sahiam d,ella nossos
paes na fe ? Que santirlarle deve reinar nos nossos pensamentos, nos nos-
sos desej0s, ncs nossas palavras, nos n0ss0s olhares, em todas as nossas
relações com Deus e com o proximo? Não o esqueÇamos; o Ceo, a terra,
o proprio inferno, teem os olhos Íitos em nós; o ceo, para se alegrar
cOm a nossa felicidade; a terra, para se erliÍicar com a nossa santirjade; e o
inferno, para nos roubar o Íruc[o do Sacrificio. Que vigilancia da nossa parte t
Abstenhamo'-nos de alegrar o inferno, de contristar o Ceo e de fazer
blasphemar o norne de Christão entre os homens. Vivamos como teria-
mos vivido no dia da crucificação do Homem-Deus, ss houvessemos assis-
tido á sua immolação no Calvario. Ao sahirmos da Missa, flescemos da
mesma montanha, vimos de assis[ir ao mesmo SacriÍicio. Seremos como
os judeus que desceram do calvario, mais endurecirlos e cegos, ou como
o centurião que publicava em voz alta a gloria do Filho de Deus, ou como
Maria e João, cujo amor ao salvador augrnentára em proporção das dô-
res de que acabavam de ser tertimunhas ? Escolhamos.

(1) I Cor., I^YI,22.

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260 CATECI§MO

oRAÇÃ0.

0'meu Deus, que sois [odo amor t graças vou dou por vos terdes im'
molatlo por mim no Calvario e renovardes todos os dias 0 vosso Sacrif,cio
oo, oorios al[ares. Supplico-vos que ponltaes no meu coração as disposi'
ções do vosso quando morres[es na cruz.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e a0 prg'
ximO c0m0 a mim mesmo por amor de Derts: e, em prova d'este amor,
hei d,e sahir da Missa com profundo recolhimento.

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DE PER§IIVERANCÀ. 26t

vEGESTMA-QUARTA LrÇAO.

0 christianismo tornado sensivel.

IDias da Êemana considerados solD o ponúo de visúa da fé.


-
§ão rtlas rte fesúa.-.[ sirta o a vigilia «ta eúernirlade.-Gomo
se lra de eelelrrar esúa fesúa conÍinua.-Nonres pagãos dos
elias da semaÍra.-ilionres clrrisúãos.-Profunrla sabeeloria
da Egreja.-E)evocões inlrerenúes a cada dia cla senran&.-
Calendario côúIrolico, cua, belleza e uíitirlade.

I. Dns na sE[rANA No p0Nr0 DE vtsrA DA Fl,i. 0 domingo é a pri-


-
meira festa do Clrristianism0. Acabatnos de explicar por meud0 o oÍlicio
divino e o augusto SacriÍicio com que a Egreja quen qrle seja santiÍicado.
Em certo sentido, 0s outros dias da semana são tambern festas. 0 uni-
verso e um tenrplo ; o homern é um sacerdote; a sua vida deve ser uma
festa continua: tal e o pensamerrto dos Padre.s da Egreja.
«Dizei-me, llergrrrrtava Origerres aos Christãos do seu temp0, vós
qtte não vindes á r,grr,ja senão nos dias srilemnes, os otrlrns di:rs não são
tambem dias rle festa ? não são dias do Senhor, rlorringos ? E' proprio
dos jrrrleus o dis[ingrrir os dias. Por isso o Senhor llres declarou que ti-
nha aversão ás suas calenrlas e aos sens dias de desurnç0. 0s Christãos,
pelo contrario, consideraffi todos os dias como dias do Senhor, e como
o mesm() dia de Paschoa, porque todos os dias o Corrleiro celeste se im-
mola por elles e todos os dias o comem. Se o SacriÍicio se fazia, segundo
a lei de llloysés, ao pôr do sol, é porque a vida presente é como um dia na
sua declinação, urna noite que deve ser seguirla do dia do sol de justiça,
a0 nascer do qual havemos de entrar n'um oceano d'alegria e n'uma festa
eterna ({).,
Duas coisas resultam d'estas magniÍicas palavras: l.o que a Religião
completada por Nosso Senhor desenvolveu toda a lei antiga, de tal sorüe

(l) Homil^ X in Gen.


t7

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262 carnclsuo

gue, se os judeus tinham certos dias da festa, era uma sombra do que
deria succeder sob o Evangelho, quando todos os dias não formassem
mais que uma festa, em que os homens se abstivessem de tudo o que
póde oÍIender a Deus; 2.0 que as festas e a mesma vida inteira não são
mais que um tirocinio da festa do'Ceo; que o tempo e a vigilia da eter-
nidade, pois que não é senão em vista da eternidade que é dada a vida
ao hoúem, o tempo a0 genero humano, e que podemos sempre alimen-
[ar-nos da carne ou da palavra do Yerbo incarnado, da qual a gente se
alimenta tambem no Ceo.
Insistindo n'esta bella idêa de que a vida não é mais gue uma longa
festa em que devemos ser santos o piedosos como nas solemnidades par-
ticulares, continúa Origenes n'estes termos: «0 Cbristã0, diz, que tem
intelligencia da sua Religiã0, está persuadido de que cada dia é para elle
um dia de domingo, um dia do Senhor ao qual unicamente liga o cora-
ção e os pensamentos ; de que cada dia e para elle uma scxta feira, e
a[ê uma sexta feira santa, porque doma as suas paixões e recebe râ süâ 1
carne as impressões da cruz de Jesus Christo ; de que cada dia é para
elle um dia de Paschoa, porque continua incessantemen[e a separar-se
d'este mundo de corrupção e a passar ao mundo invisivel e incorruptivel,
alimentando-se da palavra e da carne do Yerbo humanado ; finalmente,
" de que cada dia é para elle um dia de Pentecostes, porquo resuscitou
em espirito com Jesus Christo, elevou-se com elle até ao Ceo, ate ao
throno do Pae, onde está assentado com Jesus Christo e em Jesus Christo,
pelo qual recebe a pleniturle do Espirito Santo (l).»
Todos os dias- do anno sã0, pois, dias santos, dias de festa. «Mas,
accrescenta o mesmo Padre, como ha muitos christãos que não querem
ou não podem resolver-se a passar toda a vida como um só dia de festa,
foi preciso, para acommodar-se á sua fraqueza, determinar festas parli-
culares. Na sua maternal sollir:itude, as estabeleceu a Egreja para que
os mais dissipados e os mais languidos podessem adquirir n'ellas novo
vigor, desembaraçando-se, ao menos por um pouco de tempo, dos ne-
gocios d'este munclo. Todavia não são essas, segundo a expressão de
S. Paulo, senão partes d'um dia de festa, d'essa festa contínua que os jus-
tos celebram toda a sua vida e que os bemaveuturatlos hão de celebrar
na eternidade (2). »
Tal é a sublime idêa que o Christianismo, pela bôcca dos seus dou-
(l) Contr. Cels., L VIII.
@) fd.,l. VIII ; Hierou., in Epist. ad, Galat,, c. IY.

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DE PEnSEVERÀNÇÀ. 263

tores, nos dá do mundo e do tempo. 0 mundo é um templo, a vida é


uma festa, màs uma festa em que o lrornem decahido procura rehabili-
tar-se. Para caracterisarem a vida do Christão sob o Evangelho, accres-
centam : uE' uma verdade egualmente importante e incontestavel que o
culto religioso da Divindade teve mais extensão e liberdade, e se deixou
limitar menos a tempos, a annos, a semanas, a dias, a logares, a templos
e a altares particulares no estado de innocencia e nos seculos que o se-
guiram de perto que 00s subsequentes. Sabo-se por quantas leis e pres-
cripções era embaraçado sob a lei mosaica. A Egreja occupa o meio termo
entre a synagoga e o ceo ou o estado d'innocencia.
«sob o Evangelho estamos, pois, como n'um estado intermediario,
em que se recobra a primitiva innocencia, mas em que não se recobra
inteiramente. Ainda mais, esperamos na vida futura urna Iiberrjade mui
outra que a do primitivo estado, porque n'ella será Deus por si só o
nosso templo, e nós o seremos seu. Entraremos na sua alegria e no seu
descanço, dos quaes não terão sido senão sombras todas as festas do es-
tado d'innocencia, da synanoga e da propria Egreja. Nas festas d'este
mundo, traça Deus em nós, pela justiÍicaçã0, a imagem da nossa primi-
tiva pureza, bem c0m0 da liberclade e felicidade em que creára o ho-
mem. D'esse modo põe em nós alguns traços da santidade e liberdade
perfeitas que nos prepara no ceo. 0s justos, pois, participam agora do
primeiro e ultimo estado da santa liberdade dos filhos de Deus (l).,
illas como ltavemos de fazer da nossa vida terrestre uma festa con-
tinua ? como celebral-a dignamente ? E' preciso, segundo o pensamento
dos santos Padres, lembrar-nos de que toda a duração dos seculos não é
mais que um dia de festa cujos momen[os são todos consagrados a Deus;
de que, vindo tutlo d'Elle, tudo lhe pertence, tudo deve volüar a Elle;
de Qü0, em qualquer parte que estejamos, estamos no seu templo, ca-
minhamos na sua presença, e vivemos n'Elle e d'Elle; de que, quer be-
bamos, quer comamos, quer façamos outra acçáo, devemos referir-lh'a e
fazer-lhe o sacrificio d'ella; de que o amor da verdade e da justiça, que
é o amor do mesmo Deus, deve morar na nossa ahna assim na alegria
corno na tris[eza, assim na felicidarle como na nudez ; e de que esta di-
vina chamma deve arder continuamente n0 nosso coraçã0, como n'um
altar mais puro e mais precioso que os altares mais santos e mais ma.
gniÍicos da l,erra.

(1) Clem. Alerand., Strom.r I. VII, n. 512.

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-

26IL CÀTECISMO

A' celebragão d'esta festa perpetua que compõe a vida dos justos, e
que devêra compôr a de todos os homens, nã0 se oppoem nem o traba-
lho manual, nem 0s empregos mais baixos, nem as obras servis; pois o
justo animado da ctraridacle é livre, livre pela Iiberdade dos Íilhos de Deus;
e nenhuma das suas obras é servil. Quer pode a Sua vinha, quer cttl[ive
os seus campos ou navegue no mar, não cessa de celebrar essa festa con-
tinua dos justos, pois que nã0 ce.qsa, entre essas occupações, dq amar
seu Pae celeste e de cantar 0s seus louvores ('l). Se todas essas coisas
são vedadas nos dias de festa particulares, é para que os cuidados tem-
poraes não sejam obs[aculo á meditação das coisas divinas e á oraçá0.
À vida do homem n'este mundo e pois uma festa, porém uma festa
que elle deve celebrar c0m0 o guerreiro nc meio dos combates, alcan-
çando contiouas victorias; com0 o tlesterrado, caminhando continuamente
para a patria; como um rei cahido do throno, procurando com contínuos
esftrrços [ornar a subir a elle. Para o Christã0, isto é, para o tromem que
comprehende o seu destino, e pois a festa da vida, se e licito dizêl-0, uma
festa paciente e laboriosa. Mas animo, ó homem! guerreiro desterrado, rei
decahido, animo! para [i virão a seu tempo as palmas, a patria e a Ôorôa.
lI. Nonros p.lcÃos Dos DIAS DA sEMANA. Que alta philosophia n'esta
-
irjêa que a Religião nos dá da nossa existencia temporal I como orien[a
OS nSSSoS pensamenlos, aS noSSaS affeições, aS noSSaS emprezas ! ComO
nos ennobrece t Como nos anima á virl,nde I 0ra, esta preciosa noçã0, ai t
havia-a o lromem esquecirlo, e fizera da sna vida a festa dos demonios,
e a sua exis[encia temporal não era senão um caminbar para a horrivel
festa do inferno. Na sua cegueiro, distinguira cada um dos dias com o
noÍne d'uma creatura 00 d'urna divindatle infame a cujo culto o bavia
consagrado. 0 primeiro dos dias da semana havia-o dedicado a0 sol, o
segund,o á lua, oterceÍro a Marte, Oquarto a MerCurio,o quinÍo aJupi-
ter, O serto a Ventts, e O septimo a SaturnO. TodOS esteS nomes, Carrega-
dos de vergonhosas recordações e manchatlos por sacriÍicios borriveis ou
a.cções indignas, faziam succeder os crimes aos crimes, e afastavam cada
vez mais o homem criminoso do seu Íim derladeiro.
m. Nours cuatstÃos.
- Reparadora ttniversal. apressou-se a Egreja
ca[holica a destruir os deuses rl r dtrsterrar' 0s seus nomes da linguagem.
Designou todos os dias da semana por uma só palavra, a de feria (feira),
patar,ra c[eia do sentido profunrlo, pois quer dizer festa ou descanço: fesla,

(l) Clem. Alexand,, Sl.ror,t,, I' VlI, u 5L2.

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DE PEnsEvEnANÇA. 265

já sabemos porquê ; descanç0, porque todos dias da vida devem ser a

ãessaçao ,lo traUittro de peccatlo, do trabalho de ruioa e desordem, a


que Se entregava o genero ltumarto, c6mo um furioso, desde a sua queda
Job a escravitJão de Satanás. Na linguagem da Egreja , o Ttrimeiro dia da
semana foi chamado o dia flo Senhor ou prim eira feira; o segundo, se-
gunila feira O terceiro, quarto, quinto, SextO, terça, quarta, qtt'inta,
;
e serta feiras. O septimo rJia conser\'gu 0 nome dc sabbatl6, que quer
tlizer descanço e recorda as tradições judaicas, e 0 descanço do Senhor
depois da creaçã0.
Desde en[ão a vida c os dias que a distinguem repetiram ao homem,
com o Seu n0v0 nome, o objecto do tempo e 0 emprego a que deve ser
consagraclo. Â Egreja nada poupou para desterrar da linguagem civiI os
nomes profanos darjos aos dias, tanto conhece o poder das palavras, tanto
i
tinha peito rehabilitar a sociedade, tirando ao paganismo ate o derra-
deiro meio de .exercer a sua Íunestissirna influencia.
0 genio penetrante de S. Agostinho compreltendêra bem o pensa-
mento da Egreja catholica. «Praza a Deus, exclamava, que os Cltristãos
sejam c[ristãos na sua linguagem, e que cessem de desigoar 0s dias da
semana petos nOmes pagãos ! Fallemos a lingua que nos e propria, nã0
profanemos a ngssa bôcca com nomes que cheiram a idolatria ; pelos seus
mesmos nomes sejamos arlvertidos tle que todos os nossos dias são outros
tantos dias de descanço e de festa, e que a nossa vida inteira Ó uma festa
consagracla ao Deus de toda a santirJade (l).»
Porque não seguiu a Europa 0 conselho do grande doutor (2) I Não
se teria lornado pagã; e não estariamos em \cspera de catastrophes
desconheciclas, mui justo castigo da apost,asia tlas nações
(3) I
lV. Davoçõus IxuoRENTES A CaDA DIA DA sultlANA. - lNão era baS'
tante para a Egrcja o ter desterrado a linguagem da idolatria; mãe terna
e illustratla, conhece bem a fraqueza de seus Íiltros. Para ter o fervor
d'estes constantemente em acção por n0v0s molivos, piedosas e an[igas
tradições uniram a cada feira urna devoção particular. 0 Domingo, ou
primeira feira, foi em todo o tempo consagrado ao Senhor.

(1) 7n Psal. XCIII.


(Z\ lVlercê d.-ili.", Portugal n'este ponto ainda se conserva catholico: os llo-
qrã-à..;À"Ão. ár diasia semânâ, sà-o os estabelecidos pela Eqreja i o que
-., ii.."à"
"à-^ .* fi..pauba, França, Italia, iuglaterra, etc., qne usam dos nomes pa'
"âã
oàos' (Nota do l.ratluctor'\ - e seus ef-
'---' i5l yidc srbre o y'agarrisrno mo4e,ro, nqrrsqqsua propagação
c,!nê causas,
^.1^,.,,^ suas
feitos,'a noss& oJila da lle'-oluçdot 12 vol. in'8.o

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266 cArEcrsuo

No principio da edarle media. a segunda feira era consagrada eo


culto especial do Filh,l de Deus, Sabetloria eterna. Ilais tartle se dedi_
cou ao Espirito Santo, para irnplorar o seu auxilio no principio 4os tra-
balhos da semana. Finalmente troje consagra-se ao altivio dos Íinados; mas
é uma devoção livre e voluntaria gue a Egrrja approva sem a prescrever.
a terça feira e geralmente consagratla ao curto dos santõs Anjos, e
especialmen[e dos Anjos da guarcra. vêrles c0m0 é engenhosa a piedade
em manter no homem tocanles recordações, nobres iclêas de si mesmo
e vivos seotiinentos de gratidão ? Ora, acreditae-me, tornando-se o ho-
mem agradecido, torna-se bom (l).
A quarta feira é o dia escolhido pela piedade para honrar a S. Jose
e obter a graça d'uma boa morte. Desde os tempos apostolicos foi a
quarta feira objecto de particular devoção na Egreja do Oriente e na do
Occidente (2). Era um dia de estaçã0, isto e, de jejum e reunião nos
logares d'oração ou nos sepulcros dos Martyres. Dirigiam-se alli de ma-
nhã cêdo, e não sahiam sonão depois da hora de nôa, isto é, ás tres ho-
ras da terra, a que [erminayam a Missa e o pequeno jejum quo n'aquelle
dia se observava. Chamavam-lhe pequenl jejum, porque era tres horas
mais breve que o jejum da Quaresma, rlas Temporas, das Vesperas das
grandes fes[as, e não era de obrigação tão stricta, pelo menos no Occi-
dente (3).
0s mesmos exercicios de piedade e penitencia se faziam na sexta
feira. Quereis saber porquo consagrára a Egreja estes dois dias a reani-
mar a piedade de seus Íilhos por meio do jejum e da oração ? Era em
memoria do que succedêra a Nosso senhor na ante-vespera e no dia da
sua Paixã0. Na quarta feira, recordava ella a seus Íilbos o conselho dos
judeus em que se tomára a resolução cle fazer morrer Jesus Christo na
;
sexta feira, mostrava-lbes a execução do projecto deicida. Julgou pois a
Egreja
- e quem a póde censurar ? que os crimes dos homens, ver-
-
dadeira causa da morte do Filho de Deus, deviam ser para seus filhos
um moüivo de tristeza e penitencia n'estes dois dias da semana, assim
como a sua resurreição era para elles um motivo de consolação e rego-
sijo no dia do Domingo ({.).
(l) Diuí.n. Ofr".r l. IV, c. XIII.
(2) 4malar'.,
Epipb., H@res.,llI, n. 22. '
tima
quls
lfrill,t'l *í,'Jlj;n',,11::13,Y:?,'."-ü
ni cogitavit, et serta fer.ia crucifirue est
salv
;;*Jot; Bar.on,, an. 84, n. 168.

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DE PEnSEVEn^UgA. 2fr7

A Egreja grega, não obstante todas as suas tribulações o as diver-


sas revoluções que tem soffrido, tem conservado até ao presente o cfil-
tume de jejuar todas as quartas e sextas feiras do anno, com algumas
excepções. Na Egreja latina, o iejum d'estes dois dias, tendo permangcido
livre- a[é ao nono seculo, se con\'erteu depois em simples abstinencia. A
da sexta feira foi pouco depois considerada d'obrigaçã0, e passou como
lei. A abstinencia da quarla feira e do sabbado Íicou livre'até ao deci-
mo-quarto seculo. Tendo-se porém abolido pouco a pouco a abstinencia
da quarta feira, fortaleceu-se de lal sorte a do sabbado, que se tOrnou
tam indispensavel como a da sexta feira (l).
A' quinta feira liga-se, como sabeis, uma recordação tam consola-
dora, que os fieis honraram este dia com particular fervor. Na quiota
feira foi que o Filho de Deus instituiu o sacramento da Eucharistia, no
qual lega perpetuamente ao genero humano a sua carne para comer e o
seu sangue para beber: sacramento augusto que faz do Salvador, trium-
phante no Ceo; companlteiro da nossa peregrinação e prisioneiro do seu
amor nos nossos tabernaculos. Principakuente desde a iostiluição do Corpo
de Deus, as quinlas feiras do anno parecem ter sido destiuadas a reno-
var esta fes[a, tanto por officios puttlicos como por devoções particula-
res; de sorte que acontece pouco mais ou menos com tCrdas as guintas
feiras do anno, com relagão ao Corpo de Deus, 0 mesmo que com todos
os domingos a respeito da festa da Pascboa, isto é, aquellas não são se-
não uma oitava contÍnua do mysterio da Eucharistia, como es[as da re-
surreiçã0.
À sexta feira e consagrada á Paixã0. Em parte da christandade, fe-
chavam-so os tribunaes n'esse dia (2); porque n'elle se observou o jejum
tanto no Oriente como no Occidente a[é ao nono seculo. N'esta epocha
mudou-se em simples absüinencia, mas de que a Egreja fez uma lei tam
rigorosa, que d'ella não dispensa senão na fesla de Natal, quando cahe
á sexta feira (3). A' abstinencia costumam os fieis juntar, n'e§se dia, pe-
las tres horas da tarde, a recitação de cinco Padre-Àbssos e cinco Atse-
Marias, em honra das cinco chagas de Nosso Senhor.
0 sabbado foi, por espaço do muitos seculos, festejado como o Do-
mingq e isso por varias razões: primeiro, para honrar o descanço do
Senhor depois da creação, e recordar ao homem que elle tambem, ima-

(t) Thomass., Doe jejurar p&rt. II, c. XV, n. 3, 4 e 5.


(2\ Sozom., l. I, c. VIII.
igí Tomaaá,, Dos ieiume, parh II, c. XIY e XY'

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268 cArEcrstrro

gem de Deus, cria em certo modo durante esta vida, e que ha de entrar
um dia no sabbado, ou no descanço eterno, figurado pelo septimo dia;
depois, lembrou que o Salvador escolhêra muitas vezes o dia do sabbado
para operar curas e milagres, e para ir prégar nas synagogas. Esta ul-
tima consideração foi que determinou o imperador Constantino a pro-
mulgar a sua lei para Íazer honrar publicamente o sabbado (l).
Na Egreja de Roma, era este dra consagrado ao jejum. 0 mesmo
acontecia em Alexantlria do Egypto. Estas duas Egrejas, fundadas uma
por S. Pedro, e outra por S. Marcos seu discipulo, praticando 0 mesmo
uso, são uma nova prova do facto a que se refere a origem d'elle. 0s an-
tigos romanos diziam que S. Pedro, na sua primcira viagem a Roma,
aonde o acompantrára S. Marccls, devendo combater a Simão o Mago um
dia de domingo, jejuou no sabbado, e mandou a todos os Íieis que o imi-
tassem. Em memoria do triumpho que alcançou o Apostolo sobre o agente
do demonio, proseguiu-se o uso de jcrjuar a0 sabbado (2); e conservou-se
por espaço de mrritos seculos.
Mas, se o jejum era par[icular á Egreja de Roma. não succedeu o
mesmo com a abstinencia. No undecinro scculo, em 1078, o Papa S. Gre-
gorio VII, n'um concilio de Roma, a constituiu como lei geral para torla
a Egreja (3). Esta lei todavia não foi recebida em todas as partes. Yarias
provincias da christandade conservaram o habito de comer carne. No de-
cimo-quinto seculo, S. Antonino, Arcebispo de Florença, faltecido em
1,459, examinando a obrigação d'esta abstinencia do sabbado, dá a se-
guinte resposta: «Ha peccado em comer carne n'este dia nos paizes onde
está geralmente estabelecido o costume de a não comer; mas, quem vive
nos logares onde subsiste o costume contrario, coulo na Cal,alunha e em
varios outros paizes, póde-se conformar sern escrupulo com 0s usos d'estes
reinos (4). »
Alguns annos depois da morte de S. Antonino, toda a Egreja de
França recebeu a lei da abstinencia do sabbado. Contentou-se em excep-
tuar os d'entre o Natal e a Purificaçã0. Até aos nossos dias varias dioee-

(1) Euseb., Vit. Const., l. IV, c. XVIII, p. ó24.


(2) Cassian., I:nstit.,l. III, c. IX e X.
(3) Grat., Decr.deconsecr.,L V, c. XXXI; Lrp., t,Y, Comm., p. 167e168.
(4) In Italia in sabbato abstinetur ab usu carnium, et qui tali die sine causa
rationabili, puta infirmitatis, comederet carnes, peecnret mortaliter, quia faceret
contra consuetudinem talis patrire. Extr Italiam in multis partibus, uu ig Catha-
lonia, non est talis consuetudo abstinendi in illa die a carnibus, unde comedentes ibi
carnes non peccant, Swmm. Theol,, p. I, tit. XVII, c,unic,, § 4, etlig. Yenez.rl682,

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DE PEnSEVERANÇA. 269

ses nem seguer esses isentavam. Esta lei não se estabeleeeu em Hespa'
nha. N'este reino, não se frzeram até agora outras modificações á liber-
tlade de comer carne, senão a de contentar-se com 0s intestinos e com os
meudos 0u extremidades dos animaes nos dias de sabbarlo ({). Ainda
que menos geral que a da sexta feira, não deve a abstinencia do sabbado
.ser menos religiosarnente obsefvada. A auctorirlade que presmeve uma
e outra é a mesma: e a auctorirlade da Egreja nossa mãe, esposa de Jesus
:
Christo, da qual disse o proprio Salvador Se alguem nã,0 obedecer d
Egreja, seja para aós como u,m pagao e ?crn publicano (2).
Como vêdes. o sabbado foi desde o principio da Egreja mui vene-
rado entre os Íieis (3). Pelo Íim do trndecimo seculo, em 1095, o Papa
Urbano II, para attrahir aos Cruzados as bençãos do Ceo pela intercessão
de l\Iaria, dedicou o sabbado á SS. \rirgem, e ordenou que se fizesse o
seu oÍlicio n'esse clia (A). Desde essa epocha, teem os Íieis por dever o
cônsagrar o sabbaclo em honra de Maria, e teslimunhar a esta divina Mãe
a sua ternura e reconhecimento, já pelo jejum, já pela assistencia ao santo
sacriÍicio da Missa, já por qualquer oul,ro exercicio de pietlade: nada mais
tocante e mais util (5).
Assim cada dia da semana traz ao Christão um novo motivo de fer-
\'0r e santidacle. Crêrles que esta maneira de distinguir os dias não seja
tam lnoral como a tlas pessoas do mundo, que não distinguem os Seus
senão pela variedade dos seus negocio,s ou prazeres?
V. Berruzl E urrLrDADn D0 calendario catholico.-0 que fez a Egreja
para cada dia da semana, fêl-o para os mezes e annos. Parti do principio
tle gue 0 homem fraco e inconstante prccisa incessantornente tle novos
motivos para se excitar á virtude; que tendo todos os estados seus deve'
res e trabalhos particulares, sã0 necessarios aos hornens de todos 0s es-
tados modêlos de santidade; e Íinalmente, que a vida do ltomem e uma
alternativa continua de adversidade e prospericlades, em que se acham
algumas alegrias e muitas lagrimas; e não podereis oximir-vos de admirar
o calendario catholico. Que alta lição tle virtude, que manancial inexhau-

(1) Marian., Hist. Hisp., l. Y,e. VI, e l. XI, c. XXIV.


(2) Math., XVI[, 17.
(3) Àmalar., Dío*in. Ofr".,1. IV, c. XVII.
(4) Moreti, zú. Oficio.
(51 Com estas piedosas intengões, póde-se ainda hoje, para penetrar mais na
intençâ,o da Egreja, e coadjuvar a obra tam providencial da propagagâ,o da fé, con-
sagrâr o domingo a orar pelu corruersdo d,a Europa, a segunda fcira pela Oceania,
a terça feira pela Africa, a qualtr feira pela Asia, a quinta feira pcla Ingl,atema e
Russia, a sexta feira pela America, e o sábbado pela Franga,

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270 cÀrgcrsuo

rivel de eonsolações, que variedade


'- aos bomens de,todas ai edades, de todos
de motivos e modêlos elle aprosenia
os estados, o em todas as posi-
ções da rida I
A impiedade pagã do seculo passado comprebendêra toda a iofluen-
cia d'elle, quando no seu odio cego ao christianismo (l) proscreveu o
calendario, e quiz subsl,iÍuir as nossas festas chris[ãs por festas como as
da deusa Razão; os nossos modêlos catholicos, por planüas ou instrumen-
tos aratorios e creaturas inanimadas, e supprir os nomes dos nossos San-
tos por tromes taes como o de Mara[ (2). o [empo, e um tempo mui
breve, fez justiça a esse abjecto pensamento. ahl se amaes o homem, se
o compreheodeis, a elle e ao seu destino, e ás suas fraquezas, e aos seus
combates, e ás suas dôres, deixae, deixae-o procurar exemplos, estimulos
e consolações onde os póde achar; e confessae que depois do culto do
Eterno é tambem o dos Santos uma das mais bellas instituições que deve
ao catbolicismo a maral, ilo ciiladão.
Onde encontrareis uma successão de virtudes mais variada e fecunda
que na Vitla ilos sonüos? Yir[udes simples e populares, quo estão ao
alcance de todos, que teem por objecto a felicidade de todos, que con-
veeg egualmente a todas as condições e edades, quo offerecem assim aos
pobres como aos ricos, aos felizes e aos desgraçados, exemplos que se-
guir, obras que imitar, a mesma recompensa que esperar, e que teem
em si um aülractivo tam divino que exci[a a alma a seguil-o, a cultival.o
e a fazer esforços para a[tingir o fim d'elle a um tempo tam social e tam
christã0.
Grdças ao caleodario catholico, não ha dia no anno em que o pere-
grino da eternidade, o desterrado do Ceo, o antagonista do mal, seja
abandonado a si mesmo. Não ha dia. em que não receba, em cerüo modo,
a visita d'um homem justo que vem offerecer-lhe como em tributo todo
o bem que fez. D'est'arte não se passa o anno religioso sem que hajam

(1) A prova e-vidente- de quo o otlio á Religiâo frzem, substituir o cale.ndario


repubiióano aã catholico está esciipta com todas as lettros nos dois documentos se-
guintes:: um gerurinal anno
decreto de 13 g_er1,inal
um decreto_de VI (3 d'abril de
annoYI q. li98)
1?98) diz eSpressamente
espressamente
calenãafio francea é uma das instituiçôes maio proptiaspara
õoe o* observancia do calenrlafio-francea proptil.lP_ara
flzer--esquecSl^o regiuren sacerdotal., Ump mensagem de lS.germinel anno VII (8
d'obril d; 1799) acõresceuta; oQue este calendario tem por objecto arrancar-do co-
ra$o do povo a supe-rstiçâq generalisando em todas as óommunas as festas decada-
rias., Vide a nossrobra a Reaolução.
(21 Damoe aqui o calendario da republica ütnq, e i,niliuisí,ael'. E' um monu-
mento'já mui raro e'o mais curioso possivei do absurdo dos suppostos reformsdores.
reformadores.
Eir po"is os rnodêloe e assurnptos áe melitaçüo que elles propirnham aos cidadôos
freniezes. Nào voe engano, lêde:
frenCezes.

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DE PEnSRVEnANçÀ. 271

sido postas so alcance do hnmem todas as virtudes de que é capaz, e sem


que lhe tenha sido ensinada sob todos os aspectos a mais perfeita mo-
ral.
Familias christãs, alr t talvez tenhaes esquecido demasiado o fructo
immenso que potleis tirar de similtraníe culto para a felicidade de vossos
t
filhos Como a leilura diaria da Yida d,os Santos lhes seria excellente
lição de egualdade, sobriedade, obediencia, charidade e modestial Quanüo
mais util lhes seria esta moral em acção que a dos heroes de romances,
ou ainda que a dos personagens da historia profana, taotas vezes desna-
I
turados pela imperfeição das suaS obras Quam poderosamente seriam
animados a fazr.r o bem que vissem praticar, pois não sei que secreta

YINDEMARIO BRUMARIO FRIMARIO


1.0 urz. 2.o uez. 3.o wr,z,

1 Uva. 1 IIagã. 1 Raponcio.


2 Açafrâo. 2 Aipo. 2 Nabo-grosso.
o
3 Castanha. 3 Pêra. o Chicorea.
4 Colchico. 4 Beterraba. L Nespera.
á Ceverr,o. 5 Gauso. 5 Ponco.
6 Balsamina. 6 Ileliotropio. 6 Alface-de-cordeiro.
7 0enoura. I Figo. 7 Couve-flôr.
8 Aruaranto. I Flscorcioneira. 8 -Mel.
I Chirivia. I Lodào. I Zimbrq.
10 CU-BA. 10 CHARRUA. 10 ALVIAO.
1l Batat*. 11 Barba-de-bode. 11 Cêra.
t2 Perpetua. t2 Casta»ha-d'agua. t2 Rabão.
13 Abobora-menina. 13 Tupinambor. 13 Cedro.
IL Ileseda. L4 Almeirâ,o. t4 Piuheiro.
r5 Bunao. 15 Penú-. 15 Cesnrto.
16 Boas-noitee. 16 Alcorovia. t6 Tojo.
17 Abobora. L7 Agriôes. 17 Cypreate.
18 Trigo-mouriseo. 18 Dentilaria. ,8 Hera.
L9 Gyrasol. l9 Româ,. 19 Sabina.
20 LAGAIT. 20 GRADE. 20 ENXADA.
2L Canhamo. 2L Bachante. 2t Boldo-d'assucar.
22 ['êcego. 22 Azerola. 22 Urze.
23 Nabo. 23 Granza. 23 Carrna.
24 Amaryllis. 24 Laranja. 24 Azeda.
25 Bor. 2D Fersi.o" 2ô Gnrrro.
26 l3eringella. 26 Pistache. 26 Pinhào.
27 Pimento. 27 Macjone. 27 Sobreiro.
28 Tomnte. 28 Marmello. 28 'frufa.
29 . Cevadrr. 29 Sorveira. 29 Azeitona.
30 TONEL. 30 CYLINDBO. 30 PA"

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--\=â\__.<

272 cÀrcctsuo

graça e que voz do Ceo acompanham a singela narração das obras do


justo t

E'
impossivel, especialmente na primeira edade, não se entregar ao
desejo de assimillrar-se-lhes. Como duvidar que este desejo, confiado á
prudencia materna, possa vir a ser um dia, para os fllhos, germen da
mais pura virtude, e para os paes origem das mais abundantes consola-
ções? E'necessario citar o exemplo de S. Agostinlto, de S. Ignacio, de
S. Thereza, e de tantos out,ros que deveram só á leitura da Vida dos San-
tos a sua volta á Religiã0, e os milagres de suntidade qug hão de fazer
d'elles a admiração eterna dos seculos ?
E depois, vêde que grande lição de eguidade na Vida ilos Santos.

NIYOSE PLUYIOSE YEI{TOSE


4.o wnz. 5.o *rru2, 6,o mnz.

1 Turfa. I Trolisco. 1 Tussilagem.


2 Carvào-de-pedra. 2 Musgo. 2 Pilriteiro.
3 llitume. 3 Gilbarbeira. 3 Goiveiro.
4 Errxofre. 4 Galantina. 4 Alfeneiro.
5 Ci.o. 6 Touno. 5 Bope.
6 Lava. 6 Louro-tomilbo. 6 Asaro.
7 Terra vegetal. 7 Agarico. 7 Sanguinho.
8 Esterco. 8 Mezereão. 8 Yioleta.
I Salitre. 9 Choupo. I Salgueiro.
10 IVIANGOAL. r0 MACIIÀDO. 10 SAí]HOLA.
11 Granito. 11 Elleboro. 11 Narciso.
L2 Argilla. t2 Brocolos. t2 Olmo.
13 Ardosia. 13 Loureiro. 13 pumaria.
L4 Lioz. 14 Aveleira. t4 Rinchão.
15 Corr,uo. 15 Vlcce. 15 CEnu.
16 Silica. 16 Buxo. l6 Espinafres.
17 Marga. L7 Lichen. 17 Doronico.
18 Pedla-calearea. 18 Teixo. 18 Morriào.
19 Iflarmore. 19 Pulmonaria. 19 Ccrefolio.
20 JOEIRA. 20 PODOA. 20 CORDEL.
2l Gêsso. 2L Bolsa-de-pastor . 2t Maudragora.
22 Sal, 22 Espirradeira. 22 §,rlsa.
23 Ferro. 23 Glama. 23 Cochlearia.
24 Cobre. 24 Sempre-noiva. 24 Margarita.
25 Gero. 25 LBsnp. 26 Arun.
26 Estanho. 26 Pastel. 26 Dente-deleào.
27 Chumbo. 27 Àveleira. 27 Sylvia.
28 Zineo. 28 Cyclamen. 28 r\r-enca.
29 [(ercurio. 29 Celidonia. 29 .ú'reixo.
30 ORIYO. 30 TRENEI,. 30 PLANTADOIi.

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DE PERSEVERÀNÇÀ. 273

O calendario catholico é como uma revelação do juizo de Deus; todas as


virtudes alti são honradas. Nos nossos Santos, não vêdes só solitarios,
pontiÍiccs e martyres ; r,êdes tambem creados e amos, ricos e pobres, ho-
mens da solitlão e homens do mundo, magistrados e guerreiros, virgens
e esposos, sabios e ignorantes, gregos e barbaros. Todas as condições,
todos 0s paizes, todas as edades alli são representadas. Cada virtude,
quer venha do Oriente quer do Occiden[e, dos seculos passados ou dos
tempos modernos, QUer haja sido praticada sob o colmo quer nos pala-
cios, ê alli egualmente arlmittida.
0 favor do povo ou o dos grandes exerceu jámais aqui alguma in-
Íluencia ? A riqueza deu nunca uma posição mais distinc[a, e a espada

GERMINAL FLOREAL PRADIAL


7.o vtnz. 8.0 unz. 9.0 urz.

1 Primavera. 1 Rosa. 1 Luzerna.


2 Platano. 2 Carvalho. 2 Lytio-silvestre.
3 Espargo. 3 Feto. 3 Tret'o.
4 Tulipa. 4 Espinheiro. 4 Angelica.
5 G.lr,r,rNst. 5 Rouxrxor,. 5 Pero.
6 Celga. 6 Aquilegia. 6 Herr a-cidreira.
7 Betula. 7 Lyrio-dos-valles. 7 Falso-frumento.
8 Junquilho. 8 Tortulho. 8 M altagào.
9 Amieiro. 9 Jacinto. I Ser1,ào.
10 CHOCADOURO. 10 ANCINHO. 10 FOUCE.
ll Pervinea. 11 Rheubarbo. 1t ilIorango.
t2 C*rpea. t2 Sanfeno. t2 Betnnica.
l3 Cogumelo. 13 Goivo-amarello. l3 Elvilha.
l4 Faia. t4 Madresilva-biflôr. t4 Acacia.
15 .A,srLnÂ. 15 Brcuo DÀ sEDA. 15 Cooonnrz.
16 Alface. l6 Consolida. l6 Cravo.
r7 Larix. 77 Pimpinell'a. 77 Sabugueiro.
18 Cicuta. 18 Alysso. 18 l apoula.
19 Rabanete. l9 Armolas. l9 Tilia.
20 CORTICO. 20 SACI1O. 20 FOIICAT)O.
2L Olaia. ' 2L Cravo de Paris. 2t Escovinha.
22 Romana. 22 Fritillaria. 22 Iüacella.
23 Castanheiro. 23 Bolragem. 23 Iladresilva.
24 Urga. 24 Valeriana. 24 G alio.
25 Ponno. 25 Cenrl. 25
.I'ENCÀ.
26 Lilaz. 26 Zaragatoa. 26 Jasrnim.
27 Anemona. 27 Chalotinha. 27 \''erbena.
28 Amor-perfeito. 28 I3uglossa . 28 Tomilho.
29 Atando. 29 Mc,.tardeira. 29 Peonia.
30 ENXERTADEIRA. 30 CAJADO. 30 CARRO.

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27 e cArncrsuo

dos despotas fez nunca inserir os seus nomes ? A pastora de Nanterre, a


humilde Genoveva, não está assentada acima da geração das nossas rainhas?
E se Luiz IX e honrado nos nossos altares, foi a sua realeza que o collo-
cou n'elles ? Foi o amparo dos fracos e o defensor dos opprimidos, trouxe
os pobres no coração, amou a Deus e aos homens, e foi justo; foi por

MESSIDOR THER}IIDOR X'RUCTIDOR


10.0 urz. 11.0 unz. l2.o runz.

1 Centeio. 1 Espeita. 1 Ameixa.


2 Aveia. 2 Yerbasco-branco. 2 Milho-meudo.
3 Cebola. 3 Melâo. 3 Lycopodio.
4 Yeronica. 4 Joio. 4 Cevada.
5 Mncso. ó Canlrrrno. D Slr,rtri,o.
6 Rosmaninho. (t Cavallinha. 6 Tul.rerosa.
7 Pepino. 7 Altemisa. 7 Melâo-assucarado.
8 Echalotas. 8 Açafrôa. 8 Apacyno.
I A bsintho. I Amoras. I Aleaçuz.
10 FOUCTNHA. 10 REGADOR. 10 ESCADA.
l1 C,rentro. 11 Panico. 11 Melancia.
t2 Alcachofra. L2 Soda. t2 Herva-dôce.
13 Goialva. l3 Damasco. 13 Berberis.
t4 Alfazema. 74 Mangericâo. t4 Noz.
15 Cruunç1. 15 Ovslsn. 15 Tnure.
r6 Tahaco. r6 Malvaisco. l6 Limào.
t7 Glozelha. 77 Linho. t7 Cardo.
r8 0izirào. 18 Amendoa. 18 Abrunheiro.
19 Oereja. 19 Gerrciana. 19 Cravo da India.
20 TAPADA. 20 COTIPOBTA. 20 CES'TA.
2r Hortelô. 2L Callina. 2t Roseira-blava.
22 Cuminhos. 22 Alcaparreira. 22 Ávelâ,.
23 Feijões. 23 Lentilha. 23 Lupulo.
24 §oasem. 2t Ennla-camDana. 24 Sc,rgo.
,25 Prrreo.e.. 25 LT,NTR^. ^
2ó ClnrNcupuo.
26 Salva. 26 IIyrto. 26 Laranja-ueda.
27 Alho. 27 Colza. o7 Virga-aurea.
28 Ervilhaca. 28 1'remoço. 28 Milho.
29 Trigo. 29 Aleodâ,o. 29 Câstanba.
30 GAITA DE FOLI,E 30 ItoI \HO. 30 CESTO.

SANS.CULOTTIDÀS.
F'E§TAS.
1 Da Virtude.
2 Do Genio.
3 Do Tlabalho.
4 Da Opirriâ,o.
õ Das Recompensao.

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DE PEnSnVERÀNÇA. "271

isso que a Religião o coroou segunda vez. Àssim o heroe desapparece ante
o Christã0, e não lhe sobrevivem de todas as suas virtudes senão aquellas
que merecem sobreviver-lhe e servir de exemplo á virtude de todos os
mortaes (l).
0 calendario catholico é por tanto uma eschola de todas as virtudes,
um itinerario da terra ao Ceo, um guia collocado no caminho da vida,
que diz a todo o homem, a toda a hora e em todos os tons: Eis os ves-
tigios que vos deixaram os Santos ao vol[arem á patria, segui-os; á direita
e esquerda estão abysmos (2).

ORAÇÃ0.

0' meu Deus, que sois todo amor I graças vos dou por me haverdes
dado na vida dos Santos e em cada dia da semana novos exemplos e mo-
tivos de me santiÍicar : concedei-me que os aproveite para gloria vossa e
felicidade de meus irmãos.
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e a0 pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
hei-de lér todos os dias a aida dos Santos.

(1) Vide Godescard, Prefacio da Vida d,os Santoa, o Dspectaclor francez no


decimo-rrcno seculo, e Jauffr'et, d,o Culto publico.
(2) Hec sunt vestigia que Sarrcti quique revertentes in patriam nobis reli-
querunt- Yen. Bed., Serm, XVIII de Sanct.

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27$ CÀTECISMO

vEcEstMA-QUtNTA LtçÃO.

0 chrislianisno [ornado sensivel.

Ârlvenío.
- saberlorla rta Egreja.-anúiguirlarto do Árlvenúo.
-Práúicas rle «levocão r: perriúeneia.-Liíungio rlo adven-
10.
- Primeiro dominso, - segunrlo rlomiugo. l[erceiro
e quarúo. tr'esúa «!a Dxpecúaoão. ll,ntifouaã -O,.
- -

A vitla do homem deve ser uma festa contÍnua. Toclos os dias, to-
das as horas que a compoem tlevem ser santificatlas, de sorte que não
hala nem um momenlo da nossa exislencia que não seja um.trymno á
gloria d'Aquelle que creou o homem e o tempo. Mas tal e a nussa [ra-
goeza, tal a preoccupaçÍo dos negocios, tal a violencia das nossas pai-
xões, que a Egreja, na sua sollicitude, determinou dias e [empos particu-
lares espeoialtuente des[inados a purificannos o coração por meitr da ora-
çáo, da penitencia c da meditação das verdades eternas. Eis ahi 0 quc
vimos no catecisnro precedente.
I. InÊ.1 no AovENro. - Na primeira classe tl'estas epochas saudaveis
cumpre collocar o tempo do Arivento. Com effeito, o Àdverrto é um tcmpo
de oração e penitencia que a Egreja estabeleceu prtra prepârar seus [i-
Ihos para o nascimento do Salvarlor. 0 que são as vigilias para as festas
ordioarias, o que e a Quaresma para a Paschoa, o (.llre forarn os qua[ro
mil annos do antigo mundo pilra a vinda do llessias, é-o o Àdvenlo para
a festa do Natal. Qualro semanas de preparação não vos parecerão de-
masiado longas, se considerardes .r excellencia do myslerio que as segue.
Se o povo d'Israel deveu preparar-se com tanto cuidado para receber a
lei promulgada n0 cumc clo Sinai, pat'a passai as aguas do Jorclão e pe-
netrar na Terra promettida, para participar das suas viclimas impotentes,
ou para celebrar as'suas festas figurativas: quaes pensaes que deyam ser

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DE PERSEVBRÀNÇÀ. 277
os preparativos dos christãos para receberem o Deus do ceo, o verbo
eterno, o legislador supremo, a victima sem mac,ula, o typo eterno de
todas as festas e de todos os sacrificios ?
II. Axrrcurnloe oo Ánveuro. penetrada d,estes grandes pensa-
-
mentos, instituiu a Egreja o Advento para aplanar ao l\[essias o caminho
dos nossos corações. A instituição do Adven[o parece tam antiga
comg a
da festa do Natal, posto que a disciplina da Égreja a tal res[eito nem
sempre haja sido a mesma. por espaço d'alguns seculos, foi ó A4vento
de quarenta dias como a Quaresma : começava no s. Martinho. Fiel
aos
seus antigos usos, conservou a Egreja de Milão as seis semanas do
Ad-
vento primitivo, que haviam sido adoptadas pelas Egrejas d'Hespanba.
cêdo o reduziu a Egreja de Roma a quatro semanas, isto é, a quatro do-
mingos com a parte da semana que resta atê ao Natal: todo o occidente
seguiu este exemplo.
0utr'ora jejuava'se durante o Advento. Em certos paizes era este
jejum de preceito para toda a gente, em outras partes
de simptes devo-
çã0. A obrigação do jejum attribue-se a s. Gregório l\Iagno, que todavia
nunca teve tenção de fazer d'ella uma lei geral. No meado do quinto
se-
culo, n0 anno de L6z, s. perpetuo, Bispo de Tours, ordenou, para a
sua diocese, tres dias de jejum por semana, desde a festa de s. Illarti-
nho até ao Natal. Este regulamento se tornou geral na Egrdja de
l.rança
no septimo seculo, depois da celebração do concilio da Mâcón, em 5gl.
Esta santa assemblêa prescreveu que para o commurn dos
Íieió os jejuns
fossem ás segundas, qttar[as e sextas feiras de cada semana,
r]esde a feria
ou festa de s. Nlartinho até á do nascimento cle Nosso senhor; que
e os
oÍlicios, particularmente o Sacrificio da Missa, se celebrassem como na
Quaresma. Prohibiu tambem o uso da carne todos os dias durante o
tempo do Advento.
A mesma abstinencia se observava nas outras regiões catholicas ;
uma doação pia d'aquella epocha nos dá a prova d'isso. Em z5B, üendo
Astolpho, rei dos lombardos, em Italia, concetlido as aguas de Nonantula
á abbadia d'este nome, conservára para si quarenta lucios para uso da
sua tneza durante a Quaresma do s. Illartinho. D'onde ,. pooe inferir
que, no oitavo seculo, os lombarclos observavam o jejum durinte os qua-
renta dias gue precedem a festa do Natal, ou que praticavam ao menos
a abs[inencia das carnes (l).

(1) llartenío, d,e Antiq. Eccl, iliscipí,, c. X, n. 5.


t8
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278 cArECl§Mo

de penitensi2' «En'
Ao jejum uniam-se a oração e outros exercicios
até á do Na-
tre nós, diz um antigo auctor, rlesde a festa de s. Martinho
todos os fllhos
tal, e mandada a abitinencia de totla e qualquer carne a
ai]pr0ximarem dos sacramen'
da Egreja, como meio indispensavel de se
tos no dia clo nascimento tlo Salvador. » 0 Papa Bonifacio VII, na bulla
de Carlos
de canonisação de S. Luiz, declara quo este digno successgr
Magno passava os dias do Advento em jejum e orações (l). Tal era o
proceder dos simPles fleis. ,\
Quanto aos,tligioror, jejuavam comordurante a Quaresma; a malor
ate hoje' Accrescen-
parte d'elles teem cónservaclo este piedoso cos[ume
dias todos são uma
taremos que succede sempre assim. Aquelle cujos
e que conserva as strictas
continua preparação para as coisas eternas,
jejurn; aqtrelle que não está na batalba, é
observancias de preprrrçao e
; é uma distracção'
que guarda a aima6ura e aquelle cuja vida inteira
rlt sarma-se e não vela para defender-
uma cadêa de prazeres e perigos,
se do inimigo (2).
Iil.Ltrunct..t.noAovnnTo._EntretantoaEgrejanãopoupamelo
fert'or de seus paes' Não é
algum de despertar em seus Íilhos o antigo
e menos amavel' menos
isso corn justa razáo? 0 l\[enin0 quc esperamos
outr'ora? Deixou de
santo, menos digno de toclo o nor, ) amor
hoje que
a sua vinda ás nos-
ser amigo 6os ãorações puros ? c nrenos necessaria
todos os irlolos que Elle viera
sas almas? Aht tal'ez lá t,erhanoos erguido
avisados' enlretnos nas
derribar ha dezoito seculos. sejamos pois mais
nrãe trlttlIilrlica a -sollicitude
vistasda Egreja, e vejatnos coflr0 êstâ l,eI0il
e ctraridads' necessariag
para fr.lrmar em n,is as disposições tle pcnitcncia
à Uo, recepção do illenino de Betlrlent'
d'alegria' e toma o
Niis seus oÍficios cleixa ella os sells ornamentos
roxo em signal cle compuncçr'ro. A' Gloria
in encelsis e omi[tida na Missa;
ela esperança. Eis ahi porque, ao do'
uia. Supprime-a nas ferias para nos
istãos d'hoje: Para vossos paes todos
bstinencia e jeium; sejam ao menos
para vós dias de arrependimen"o e oração'
Paraexcitarerntooasasalmasestesdoissentimentosdeesperança
(1) Rainaldo, an' de. 1287,^ ãHi:
per tôtüm Adventum, -Per totam W t. Y,
íá6aot. Insuper in solemnitatibus,
o,448.
---(z)
"' Jfesúas chriat', P'46'

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DE PER§E!'ERÀNÇÀ. 279
e c0mpuncÇãO, eis successivamente a voz de Paulo, a voz d'Isaias, a voz
de João nas margens do Jordã0, a voz do proprio Messias que se junta
aos accentos dos pregadores e aos hymnos da Dgreja. «E' tempo de
acordarmos, a hora da nossa redempção approxima-ser a noite
caminha,
o dia vae briltrar: apressemo'-nos pois a deixar as obras de trevas, e re-
vistamo"nos das armas de luz. Caminhenos com clecencia e honestidade,
cOmo convém durante o dia; não vos deixeis levar pelos vicios, mas
re-
vesti'vos de Nosso Senhor Jesus Christo ({).» Taes são as advertencias
que nos dá o apostolo s. paulo na Epistota do primeiro domingo do
Àdvento.
Para tornar mais instante esta liçã0, nos recorda a Egreja, no Evan-
gelho, o juizo Íinal e a segunda vinda do Filho de Deui,
ão*o se nos
dissesse: se quereis vêr chegar sem temor o Deus que vos annuncio,
quando descer c0m0 juiz supremo dos vivos e clos mortos, preparae-vos
para o receberdes agora gue vem c0m0 salvador. Felizes se
fôrdes doceis
I
aOs meus conselhos pois vêde quam formidavel será a sua segunda vinda.
«Haverá signaes no sOl, na lua e nas estrellas; as nações
da terra
estarão consternadas; os homens seccarão de temor na espectativa
do que
deve acontecer ao universo, e as columnas dos ceos serão abatadas.
En-
tão se verá rir o Filho do Homem
n'uma nuvem com grande poder e
grande magestade. Qrranto a vós, quando virdes succefler estal
coisas,
abri os olhos e levantae a cabeça, porque está proxima a vossa redempçã0.
Julgae d'ella pela comparação da Íigueira e das outras arvores.
Quando
as vêdes rebentar, dizeis: Reconhecei que o ver5o vae clregar. Da nresma
fórma, quanrlo virries o que vos annuncio, sabei que 0 reino de Deus
está
proximo. Bm verdade vol-o digo, esta geração não acabará sem que isto
se realise; o ceo e a terra passarã0, mas as minhas palavras não 1ão de
pâSSâr. »

Podia a Egreja achar uma verdade mais capaz de levar o terror ás


almas e forçar os christãos a entrarern em si? porem quer que ás lagri-
mas da penitencia e aos terrores do juizo se juntem os suspiros e as
con.
solações da esperança. E eis que n0 oÍlicio da tarde os faz rgmper
n,este
hymno, creator alme sideru,m, cujas notas e palavras exprimem uma
dôce mas profunda melancolia.
«Poderoso Creador dos astros, luz eterna dos crentes, Jesus
Redemp-
tor de todos, ouvi os votos dos vossos servos;

(l) Rom., XIII,11.


,t

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280 cÀrBCISnlo

(vós que, para impedir que o mundo perecesse pela malicia de


yosso amor, o remedio do genero
Satanaz, ,or nrrites, impellido pelo
humano enfermo.
victima
«Para expiar 0 crime commum a totla a raça humana, sahis,
Sem macula, do santuario d'uma Yirgem, para irdes para a cruz'
«Ào vosso nome, nome cle pOder e de gtoria, os cegg e os infernos
tremulos dobram o joelho.
aco'
«Juiz §upremo, no ultimo dos dias, supplicamos-vos que n6s
dos nossos ini'
berteis com a armadura tla graça rlo alto contra as setas
migos.
gom o Filho e O Espirito
rPotler; honra, l6utor, gloria a Deus Pactre,
Santo consolador nos seculos eternos'»
valle cle
Todo o povo, que pela manhã tremia com a lembrança do
Josaphat, e*oit, á taicle tle deliciosa esperança entrevendo
o presepio de
Prova
Bethlem, e mil ingenuOs cantos exprimem 0s seus sentimentos.
o velho gostam de repetir á noite
esse cantico populá. que a creança e
dias desgraça-
ao canto do lari Wrraõ, cliaino Xlessias, rnrtd,ae 0§
?20§s0s

ilos; ainde, fonte de aida, oinde, ai'nde, ainde, eíc'


instruc'
No segunclo domingo do Advento continua a Egreja as suas
vez mais precisas á proporção que'se appro-
ções, que se tornam cada viva á
*i*á o grande acontecimento: é a lui que se torna ca6a vez mais
taz ainda
proporção que se approxima o sol do horisonte. Na Epistola,
ouvir a sua v,z 0 gianae Apostolo. Annuncia que o Nlessias
é enviado
r.rrirr. toou, as Íigttras e reunir os iudeus e os gentios n'um só
;;;
redil.
pessoa de Jesus
0 Evangelho apresenta-nos o Precursor mostrando na
Christo Redempiur esperatlo havia quarenta seculos. Etle conhecia
0
os seus discipulos' Para
aquelle cordeiro de Deus; mas não o conheciam
esta pergunta
instruil-os, enviou dois a Jesus, com ordem de lhe fazerem
e esperarem pela resposta: «sois aqtrelle que deve t'ir, ou
devemos espe'
pelos
rar outro?» Jesus, tenoo operado na presença cl'elles varios milagres
quaes, segundo Isaias, se reconheceria o Ctrristo, lhes respondeu
: «Ide
dizer a João o que vistes : 0S cegos vêem, os cÔxos andam, os leprosos

estão curados, os surdos ouvem, e oS mgrtos resuscitam;


o Evangelho é
annunciado aos pobres: e bemaventurado aquelle que se não
escandalisar

a meu resPeito !»
em que 0 lÍessias
Quanto mais se approxima o mgmento solemne
exhortações'
deve entrar n0 mundo, tanto mais multiplica a Egreja aS suas

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DE EEnSEYEnANÇÀ. . 281

No terceiro domingo falla-nos ainda S. Paulo na Epistola e nos convida


á alegria: a aurora da nossa liberdade brilha no horisonte. À'alegria quer
que juntemos a oraçã0, isto é, o desejo ardente que attrahe Deus a nós e
que chamará o Messias aos nossos corações. No Evangelho, S. João Bap-
tista, mais que propheta, não annuncia o Messias, diz que já esuá no
mundo. Coú effeito, já es[ava entre os judeus; e nós o adoramos no seio
de sua Mãe quando ouvimos este Evangelho. 0 Precursor ajunta uma
phrase que infelizmente ainda hoje se verifica: Estti no meio d,e oós, enda
o conheceis.
Depois, tomando a voz d'Isaias, faz resoar as abobadas dos Dossos
templos, como outr'ora os eccos do Jortlã0, com esl,as poderosas palavras:
«Yoz d'aquelle gue clama no deserto: Endireitae as vias do Senhor; abatei
as collinas, enchei os valles, isto ê, preparae o espirito, o coração o 0s
sentidos para a recepção do libertador. Eil-o que vem, e eu não sou
digno de desatar-lhe os cordões dos sapatos.» E aquelle que usa d'esta
linguagem é o maior dos Íilhos dos homensl Ohl quam santo e respeitavel
é Nosso Senhor I Com que zêlo devemos preparar-nos para o receber !
Finalmente, no quarto domingo, quando o divino Infante está proximo
a entrar no mundo, quando este amavel Esposo já bate á porta dos nossos
corações, termina a Egreja todas as suas instrucções dizendo: Toda a, cürnn
oerd o Sahsail,or erusiado por Deus. Esta phrase arrebatadora nos brada:
Estae promptos, QUe os tempos estão completos, 0 0 Sol de justiça e de
verdade vae brilhar no horisonte. A sua Iuz vae derramar-se sobro todos
os homens sem distincção de ricos e pobres, sabios e ignorantes: ainda
uma vez, es[ae promptos. Assim, não nos contontemos em admirar a sa-
bedoria com que a Egreja gradua as suas instrucções durantc o Advento;
entremos n0 seu espirito; augmentemos em fervor e recolhimento á pro-
porção que nos approximamos do nascimento do Desejado das nações,
gue deve ser tambem o Desejado clo nosso coraçã0.
IV. Axrmox.r,s O'. Para tornar os nossos suspiros ardentes como
-
os dos Patriarchas, o flxar todos os nossos ponsamentos no grande suc-
cesso que deve realisar-se, nos faz cantar a Egreja as grandes antifonas
ou an[ifonas 0', e celebrar a festa da Erpectaçd,o ou da espera do divino
parto. Estas duas preparaçõós começam a 17 de dezembro e continuam
até á vespera de Natal. As vesperas cantam-se, antes o depois da Magnü
f,cat, as antifonas solemnes, vulgarmente chamadas as antifonas 0', por-
gue começam todas poi esta exclamagã0.
No seguinte dia áquelle em gue começaram, is[o é, a 18 de dezem,

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282 . cÀTuctrsto

bro, é a festa da Expectaçã0. Tutlo quanto as Escripturas do Antigo e do


NovorTestamento disseram mais.glorioso e ao mesmo tempo mais gracioso
á SS. Virgem, turlo quanto ha mais proprio para vos inspirar confiança
e ternura Íitiaes para com a augusta e dÔce Mãe do Dosejado das nações'
se acha reunido no admiravel'officio d'esta festa.
Pela sua parte, as grandes antifonas dirigem os nossos pensamentos
e suspiros para o divino Menino gue a Virgem de Judá deve dar ao mundo.
Pela sua variedade, exprimem esÍas an[ifonas as diÍIerentes qualidades
do Messias e as differentes necessidades do genero humano.
Desde a sua qfiO, e o homem um loúco quasi sem conbecimento
nem gosto dos vertladeiros bens. O seu proceder cau§a pavor e compai-
xão : precisa de sabedoria. A Egreja a pede para elle na primeira anti'
fona: 0 sapientia: o0' sabedoria que sahiste da bÔeca do Altissimol
que atiinges o teu Íim com força o que dispÕes todas as coisas com bran'
dura, vem ensinar-nos o caminho da prudencia.r
Desde a sua queda é o homem escravo do demonio: precisa d'um
potleroso liber[arJor. A Egreja o petle para elle na segunda anlifona : O
Ailnrui.. (0' Deus poderoso, e guia da casa d'Israel I que vos mostrastes
a Moysés na sarça arJente, e que lhe destes a lei no Sioai, vinde remir-
nos pelo poder do vosso braç0.»
Desde a sua queda está o homem vendido á iniquidade, e precisa
d'um Redemptor. A Egreja o petle para elle na terceira antifona : O Ra'
üa Jesse: estaes exposta como um estandarte aos
c0' Raiz de Jessê t que
Olhos das nações, ante quem os reis guardarão silencio, a quem o§ gen-
tiOs offerecerão as suas orações; vinde remir-nos, nã0 tardeis.»
Desde a Sua queda é o homem um prisioneiro, encerrado na prisão
tenebrosa do erro e da morte : precisa d'uma chave para de lá sahir. A
Egreja a pede para elle na quar[a antifona : 0 Clauis Daotd: .0' Chave
dó David e sceptro da casa d'Israel ! que abris e ninguem fecha, que fe-
Chaes e ninguem abre; vinde e tirae o preso da prisã0, o desgraçado
que

está assen[ado nas trevas sombra


á da morte.»
Desde a Sua queda é o homem um cégo: precisa d'um sol que o
allumie. À Egreja o pede para elle na quinta antifona : O Oriens: «O'
grientet esplendor da luz eterna e sol de justiçal vinde e allumiae aquel-
les quo estão assentados nas Jrevas e na sombra da morte.»
Desde a sua queda é o homem, uma grande ruina: precisa d'Um
restaurador. À Egreja o pede para elle na sep[ima antifona: 0 Re31 gm-
li6rn: rO' Rei das nações, Deus e Salvador d'Israel, pedra angular que

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DE PEnSEVEnANÇA. 283

unis n'um só edificio os judeus e os gentios ! vinds e salvae o hOmem


que formastes do limo da [erra,»
Desde a sua queda curvou o homem a cabeça sob o jugo de todas
as tyrannias: precisa d'um legislador justo. A Egreja o pede para elle
;
na oitava antifona 0 Emmanu,el: «0' Manuel, n0ss0 Rei e Legislador,
eslerança das nações, objec[o dos seus desejos! vindo salvar-nos, Senhor
nosso Deus ! (l).»
Conheceis alguma coisa mais tccante, mais completa que estas ma-
gnificas invocações ? Quanto a nós, parece-nos que uma das melhores
preparações para a festa clo Natal e repetir muitas vezes estas bellas an-
tiíonas, deixando-nos penetrar dos sentimentos que ellas exprimem. Ohl
sim, so queremos passar santamente o tempo do Advento, unamos os
nossos suspiros aos ria Egreja, dos Patriarchas, dos Proplre[,as e dos Jus-
tos da antiga Lei. Àdoptemos alguura das suas briltrantes plrrases. Seja
ella a nossa oração jaculatoria de cada dia, e, se [Ôr possive[, r.le cada hora
do dia, para que Deus possa dizer dc nós: Eis alli omt homem Aedesejo,
e nos escute. Se preferirmos, escolhamos entre as orações seguintes.
São egualmente proprias para íormar em nós as disposições que a Egreja
:
pede Eu oos supplico, Senhor, rpte enuieis aquelle rlue deueis enaiar.
Vinile, Senhor Jesus, e nd,o tarcleis, Ceos, abri-aos, deiuae descer o D0ss0
orualho. Diuino in,fante Jesus, r;inde nascer n0 meu coraçd,o para des-
terrardes d'elle o peccado e collocardes n'elle a,s CIossas oirtudes.
A' oração juntemos um recolhimento maior, uma vigilancia mais
continua. Desçamos mais vezes a0 nosso coraçã0, a Íim de o purifical'mos
e afornrosearmos pensando que deve ser o herço do Infante divino. Illas
a grande preparação é a renuncia ao peccaclo, a0 peccado mortal sobre-
tudo. Que póde haver de commun entre o Filho de lÍaria e um coração
manchado de iniquidades ?
Escutemos S. Carlos exhortando a seu povo a santificar o Advento,
:
e tomemos para nós as palavras ri'este grande Arcebispo «Durante o
Àdvento, devcmos preparar-nos.para receber o Filho de Deus deixando o
seio do seu Pae, para se fazer homem e conversar comnosco. E' preciso
todos os dias roubarmos um pouco de tempo ás nossas occupações para
:
meditarmos em silencio sobre as perguntas seguintes Quem e aquelle
que vem ? f)'onde vem ? Como vem ? Por quern r:em ? Quaes são os mo-
tÍvos e qual deve ser o fructo da sua vinda ? Chamemol-o com todos os

(1) Yido Dulando, l. VI, c. XI.

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284 carncrsuo

nossos votos com os Justos e Prophetas do Àntigo Testamento que tanto


0 esperaram; e, para lhe abrirmos o caminho do nosso coraçã0, purifique-
mo'-nos pela confissão, peto jejum e pela communhã0.
«Não esqueÇamos que n'outro tempo jejuavam todo o Advento, co-
mo sendo a vespera do Natai. Tinham razá0, pois a grandeza e santidado
d'esta festa exigem tam longa vigilia e tam grande preparação; ao me-
nos cada qual dcve ainda jejuar um dia por semana, 0u mais, á sua de-
voçã0. E' necessario derramarmos as mais abundantes esmolas no seio
dos pobres n'este tempo em que o Padre eterno nos deu e dá ainda,to-
dos os annos seu proprio Filho como uma grande esmola, e um thesouro
de graças e miseriuordias. E' necessario applicarmo'-nos mais que Dunca
ás boas obras e á leitura dos livros piedosos. Finalmente, é necessario
dispôrmo'-nos para es[a primeira vinda t]o Filtro de Deus, de maneira
que possamos esperar a sua segunda vinda, não só sem temor, senão
tambem com essa conÍiança e alegria que acompanham sempre uma boa
consciencia (l). »

Poderosos motivos nos estimulam a seguir os conselhos d'este grande


Apostolo dos tempos modernos e a santificar o Advento.
l.o A obediencia a0 preceito da Egreja. «Eu sou a voz d'aquelle que
clama no deser[o: Preparae as vias do Senhor, endireitae os seus cami-
nhcs: o machado esiá já na raiz da arvore.» Este convite que 0 santo
Precursor dirigia aos judeus, respeita egualmente aos homens de todos
os seculos. Jesus Christo vem a0 mundo para todos: e pois um dever
indispensavel para todos o receberem-n'o. Com receio que nós despre-
zemos um ponto tão essencial, a Egreja, sempre occupada da felicidade
espiritual de seus Íilhos e Íiel interprete dos oraculos divinos, cujo cle-
posito lhe está confiado, proclama da maneira mais instante e solemne
o convite do santo Precursor durante todo o tempo do Advento. A Judêa
gommoveu-se com os accentos d'aquella voz propltetica que resoava nas
margens do Jordão; os sacerdotes, os levitas, os soldados, os publica-
nos, 0s peccadores de todas as classes e"de todos os estados corriam em
tropel pedindo o baptismo da peni[encia.
A mesma voz resoa nos nossos templos. Temos menos necessidade
de conversão e penitencia ? Temos menos que temer d'esse grande Deus,
que vem agora como Salvador e que ha de vir um dia como juiz ? Dei-
xaremos a Egreja fatigar-se em vão e repetir-nos: Preparae os vossos

(1) Acta Eccl,, Meiliol,, p. 1012.

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DE PEB§EVERANÇA. 28õ

corações: eis que toda a carne verá breve o Saivador enviado por Deus?»
2.0 0 reconhecimento para com o Salvador. Que era o homem an'
tes da incarnação do Salvador'l que S0m0s nós sem elle ? Pobres, cégos,
escravos, victimas do demonio, do peccado e do inferno, quanto lhe não
devemos t E allumiar-nos, liber[ar-nos, reunir-nos e devolver-nos 0s nos-
sos direitos pertlidos, quantcÍ não custou ao Filtto de Deus I Um Deus
que Se reveste da fórma d'escravo, que Se vota a todas as miserias da
miseravel humanidade; um Deus pobre; um Deus menino : não dirá isto
nada ao nosso coração ? Nós que temos reconhecimento para 0s mais pe-
quenos beneÍicios, nã0 o teremos para um Deus que se dá em pesslü a nós !
3.o 0 n0ss0 interesse espiritual. A fonte das graças não secca em
tempo algum; mas as grandes festas são dias mais propicios, dias em que
essas graÇas são diffundidas com mais abundancia. Toda a Egreja, ani-
mada então do mesmo espirito, oÍIerece a Deus uma homenagem mais
solemne, lhe dirige orações mais ferventes e o yence com mais sinceras
lagrimas. Jesus Christo nasceu para nossa salvaçãn ; porem não derrama
as suas graÇas senão sobre aquelles que se apresentam com coração pre-
parado para as receber. As disposiçoes que encontra em nós são a me-
dida dos seus favores. Não temos nada ou pouca coisa que pedir-lhe ?
Desçamos ao fundo do nosso coraçã0, interroguemos a nossa vida passa-
da, 0 n0ss0 estado presente, o o n0ss0 porvir : o abysmo das nossas mi-
serias lesponderá (l).

ORAÇÃO.

0' meu Deus, gue sois todo amor ! graças vos dou por tercles esta-
belecido o santo tempo do Àdvento para me preparar para a festa do
Natal concedei-me que a passe santamente.
;
Tomo a resolução de amar a Deus sobre todas as coisas, e ao pro-
ximo como a mim mesmo por amor de Deus; e, em prova d'este amor,
hei de repetir todos üas, durante o Adaento, esta oração: Düsino Menino
Jesus, ainde nascer no meu cora,cdo,

(1) Yide Thomass., Celeb. das festas; Gocl,, $duent,

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286 CATECISMO

vEGEStMA.SEXTA LtÇÃ0.

0 chris[ianisno Íornado sensivel.

rnmacurada coneelção rla ss. r'trgem. nogmo de Íé.-rris-


-
úoria rla fesúa. - saberloria dir EgneJa. rDefinição rto rlog-
-
ma rla rmmacularla conceiceio.-opporúuuirtade rl'esúa rte-
ftntçõo. - rnoueneia d'esúa fi:súa. oÍIlcio. üaneira rle
- -
celelrrar a fesla da Immaculada, Conceicõo.

I. Imulcurorh coxcerçÃ0. - a 8 do mez de dezembro, cetebra a


Egreja catholica a festa da Immaculada Conceição da ss. Virgem. pela
Immaculada conceição da ss. Yirgem entendemos que a SS. virgem, no
mesmo instante em que a sua alma se uniu ao corpo, foi preservàda do
peccado original e exempta de toda a macula ({). Um anathema divino,
justo castigo d'um grande crime, pesa lra seis mil annos sobre toda a
raça humana, e a macula do peccado acompanha a conceição e o nasci-
mento de todos os filhos do primeiro dos culpados. 0 peccado original
é uma triste herança que se transmitte de geração em geração, e que se
ha de transmittir em quanto houver, nas veias do genero humano, uma
gôta do sangue d'Adã0.
lei terrivel, universal, incontestavel, gue nos conderltDâ â Írâs.
Esta
cermos filhos de cólera, foi uma vez suspensa, e foi em favor de Maria.
Nunca, desde o primeiro instante da sua existencia, foi empanada com a
mais pequena macula a Virgern de Judá, mãe futura do Homem-Deus.
(1) Per
pore debite or
pori ornnibus
536. Beata
- fuit et
punda

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DE PEn§EVERÀNça, 287

Tal é o milagre cuja memoria celebra a Egreja, tal ó o beneficio por que
clá graças a Deus na festa da Immaculada Conceiçã0.
il.
DannlçÁo Do DoGuA. Maria foi concebida sem peccado : antes
-
de ser dogma de fé, era certa esta verdade. A Egreja náo faz novos dog-
0
mas. que crê hoje, creu-o sempre. Só torna a sua crença mais clara,
mais explicita e obrigatoria, fixando-a por meio d'uma definição solemne,
conforme as necessidades dos tempos.
Pelo que respeita á Immaculada Conceiçã0, foram consultados os
Bispos de todas as partes do mundo. Prestaram testimunho da c,rença
dos seus povos. 0 Summo Prln[iÍice ouviu este testimunho, e veriÍicou a
universalidade d'elle; e por sua auctoridade suprema deÍiniu que a Con-
ceição Immaculada da SS. Virgern e um dogma de fe catholica, que se
não póde pôr em duvida sem calrir na heresia.
A deÍiniÇão infallivel do Yigario de Jesus Christo não estriba uni-
camen[e na universalidado actual dos testimunhos, senão tambem na sua
antiguidade. Em todos os seculos se encontra a crença mais ou menos
explicita na Immaculada Conceiçã0. Era necessario que fosse mui geral
e mui acreditada entre os Christãos, llara que 0s proprios mahometanos
consagrassem a recordação d'ella. Quem o acreditaria ? o Alcorão e um
dos primeiros monumentos em que se acha consignada (l). Com eÍIeito,
no segundo seculo, Origenes a insinira, e n0 quarto o mais brilhante lu-
minar da Egreja, S. Agostinho, nunca deixa de exceptuar a Maria quando
falla do peccado original. «E', diz elle, com respeito a l\Iaria e á honra
que se deve a seu Filho que não fallamos d'ella todas as vezes que se
trata clo peccado original (2). »
0 concilio de Trento, resumindo a tradição de todas as edades cbris-
tãs, expressa-se assim no seu cclebre decreto relativo ao peccado origi-
nal :
«0 santo concilio declara que não e sLta intenção comprehender no
decreto em que se trata do peccado original a beata e immaculada Yir-
gem Maria, mãe de Deus ; porem manda seguir n'este ponto as consti-
tuições do Papa Xisto IV, sob as penas comminadas n'estas constitui-
çoes (3).»
Ora, em 1,479, havia xisto IV concedido inclulgencias aos que as-
sistissem ao oÍlicio e á Missa da festa da Conceiçã0. Quatro annos depois,
deu uma consüituição em que prohibiu o censurar esta festa ou condem-

(r) Bergier, Mahomet,


(2) Lib. ile Nat, et Grat,, c, XXXYI, n, 42.
(3) Sesg. Y.

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288 caruclsuo

nar a opinião d'aquelles que criam na Immaculada Concoiçã0. Em 1622,


prohibiu a Santa Sé, por bôcca do Papa Gregorio XV, o sustentar, ainda
.mesmo nas disputas particulares, que Maria não foi concebida sem peccado.
À' tradição e á auctoridade, junta-se aqui a razão. Por que motivo,
pergunto, uão havia Deus de operar este milagre em favor de sua Mãe?
poüa-0, isso conainha, logo fêl-o (l). Assim discorria um celebre theo.
Iogo da edade media, e todos os filhos de Maria applaudiram o racioci.
nio do grande doutor.
l.o Isso convinha ao Padro eterno. Destinada a ser a Mãe de Je-
sus, foi sempro Maria, em virtude da adopção divina, considerada pelo
Pae como sua filha querida. Convinha pois, para honra do Filho, que o
Pae preservasse a Illaria de toda a macula. Demais, o Pae hauia esco-
lbido esta filha mui[o amada para esmagar a cabeça da serpente infernal :
como poderia permittir que Maria fosse desde logo escrava d'ella ? Final-
mente, Maria estava destinada para ser a advogada dos peecadores: con-
vinha pois que fosse exemp[a de todo o pecoado, para que podesse apre-
sentar-se sempre anto Deus pura de toda a macula. «Para aplacar um
juiz, diz S. Gregorio, não se lhe envia aquclle que e ou foi seu inimigo:
similhante mensageiro não faria mais que augmentar a sua ira.»
2.o Isso convinha ao Filho. Como crêr gue o Filho de Deus, a pro-
pria santidade, que podia ter uma Mãe immaculada e sempre amiga de
Deus, havia de querer têl-a maculada e inimiga de Deus em algum tem-
po ? «Demais, diz S. Àgostinho, a carne de Josus Christo é a carne de
Maria.» 0 Fitho de DguJ hria hQrror àe bmar corpo no seio de S. lgnez,
S. Gerlrudes ou S. Thecla, porque estas virgens, tão puras como eram,
haviam sido ao nascerem maculadas pelo peccado.
Se Íivesse succedido assim a Maria, não estaria o demonio no direito
de langar em rosto a Nosso Senhor, que aquella mesma carne de que eslava
revestido fôra manchada pelo seu veneno, e que aquella Mãe de que elle se
gloriava fôra em principio sua escrava? À Mãe do Deus escrava do demo-
niol... ohl ha n'isso não sei quê tão desagradavel, tão ofrensivo para ou-
vidos piedosos, que é impossivel escuÍal-o. Finalmente, S. Thomaz diz
que Maria foi preservada de todo o peccado actual, ainda mesmo venial,
porque se não fosse isso não teria sido digna de Deus. Mas quam menos
digna seria se'houvesse sido maculada pelo peccado original, que faz do
homem um objecto de ira aos olhos de Deus !

(l) Potuit, clecuit, ergo fecit. Scotto, fallecitlo em 1308.

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DE PIIRSEVERÀNÇA. 289

B.o Isso convinha ao Espirito Santo. Nlaria é a Esposa do Espirito


Santo. Se um habil pintor fosse chamado para escolher uma esposa for-
mosa ou disforme, segundo o retrato que elle mesmo houvesse feito, que
cuidado não poria em reunir n0 seu quadro todas as especies de bellezas I
Quem ousaria dizer que o Espirito Santo podesse obrar d'outro modo
com llaria, e que sendo senhor absoluto de formar sua esposa á sua von-
tade, não a arlornasse de toda a formosura que lhe podia dar e que lhe
COnvinha ter ? Nã0, nã0, o SenhOr n.ao fez assim, corno o provam os n0-
mes que dá a Maria.
Depois de a haver formado, contempla com infinita complacencia esta
obra-prima da sua graÇa, e lhe diz: qTu es toda bella, ó minha muito
amatla t e não ha ntacula em ti: as donzellas são innumeras, porêm a

minha ponoba é a unica bella, a unica prlra, a unica perfeita entre as filhas
de sua mãe (,t).» Isto quer rlizer que todas as almas justas são Íilhas da
divina graÇa ; mas ha uma entre ellas que mereceu o nome de pomba,
porque e sem macula; e flnalmente de ttni,ca, porque ella só foi conce'
bida na graça (2).
Taes são algumas das auctoridades e das altas conveniencias que,
antes da deÍinição solemne da Egreja, faziam admittir no mundo catho'
Iico a crença na Immaculada Conceição de 1\[aria. Não eram, pois, espi-
ritos fracos todos esses Paclres da Bgreja, todos esses theologos, luz do
seu seculo e admiração cla posteridade, que sttstentavam c0m tanta elo-
quencia, que criam com tanta sinceridade n'esta augusta prerogativa de
Illaria. Não eram tampouco espiritos fracos todos esses doutores das uni-
versidades de França, Inglaterra, Hespanha e ltalia, todos esses cava['
leiros das ordens militares, que faziam proÍissão de crêr na Immaculada
Conceição da Mãe de Deus, e que se obrigavam por juramento a defen'
t
der esta crenÇa Finalmente, não era espirito fraco o Bispo de Meaux,
quando dizia: «A crença na Immaculada Conceição tem não sei que força
que persuade as almas piedosas. Depois dos artigos de fé, não conheço
coisa mais segura. Por isso não me aclmira que a eschola de theologos
de Paris obrigue todos 0s seus fllhos a defender esta doutrina...... Ouanto
a mim, estou encantado por seguir hoje as suas intenções. Depois de ter

(1) Cant., VII.


iZi yide'Glorias de Mari,a, por S. Ligorio. Àhi _se-eneoutra glalqe numero
de pà.ôagens dos Patlrcs da Egrejã sobre a fmmaculad.a Conceiçâ9. T. II, p, 1.-
Vicie tambem soble este dogma a-s oiiras dos Padres Perrone e Passaglia, onde se acham
reunidos todos os mouumentos da tradigâo. i

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290 cÀrEcrsMo

sido alimentado com o seu leite, submetto-me de boa vontarle ás suas or-
dens, tanto mais quanto é essa tambem, parece.me, a vontade da Egreja.
« Esta tem urna opinião muito honrosa da conceição de
Maria;
não nos obriga a crêl-a immaculada, mas dá-nos a entender que esta
crença lhe e agradavel. Ha coisas que ella mancla em gue nós damos a
conhecer a nossa obediencia ; ha outras que insinua em que podemos
testificar a nossa affeiçã0. tsstá da nossa piedacle, se somos verdadeiros
filhos da Egreja, nã0 só obedecer aos mandamentos, senão tambem cur-
var-nos a0s menores signaes da vontade de tam boa e terna mãe ({)».
Espiritos fratos são todos esses grandes genios que correm as ruas,
e que censuram e rejeitam o qus não sabem, unicamente porque isso não
convém á sua fraca razáo nem ao seu coraÇão tlepravado, ou porque a
Egreja catholica o adrnitte.
m. Fosr.t DA IilMrcuLnn.q. coNcurçÃ0. A festa da Immaculada
-
Conceição justiÍica as palat'ras de Bossue[, o maniÍesta bem o sentimento
da Egreja sobre este ponto. No Oriente a fesÍa de Illaria immaculada era
iá antiga no septimo seculo (2). No 0ccidente, remonta além do rluode-
cimo. Celebrada a principio por algumas Egrejas particulares, foi forte-
mente sustentada e propagada por s. Anselmo, Arcebispo de cantuaria,
fallecido em 1,I09. Duzentos an00s tlepois, um concilio de Londres a tor-
n0u obrigatoria (3). Da Gran-Bretanlra passou esta fesía para 0 conti-
nente, e se espalhou rapidamente por França, Hespanha, Italia e pelas
outras partes da christandade. Finalrnente n0 decimo-quinto seculo, o
concilio de Basilea e prinr;ipalmente o papa xisto IV lhe deram ainda
maior curso e consistencia pelas indulgencias que llre foram unirlas (ú.).
a inslituição, ao parecer tam tardia, d'uma festa em gr]e se honra o
r[ais glorioso privilegio drl Maria, clá margem a uma refleiao que se ap-
plica com a mesma jrrsteza ao estabelecimento tlas outras festas. Assim
c0m0 a ltrgreja não decidiu d'urna só vez, e logo na sua origem, todas as
questões cle dogma e de moral, assim tambem não es[abeleceu d,uma vez
so as di[Ierentes práticas do seu culto. seguiu os tempos.e proporcionou-
se ás necessidades dos fleis : e esta uma nova prova da sua profunda

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DE PER§EVERÀNÇÀ. 2gI,

sabedoria. Definindo hoje verdades de fé que são atacadas e que o não


eram hontem, nem por isso se julgou a Egreja mais sabia . Fez o que teriam
feito os concilios anteriores, se se vissem collocados nas mesmas eircum-
stancias. Acontece o mesmo com o augmento de festas, confrarias, devo-
ções e práticas santas. Não veem d'urna presumpção van e insustentavel,
como se pretenCessemos saber mais que os antigos. Outros tempos, outros
costumes, outras necessidades. A Egreja conhece-as e tem cuidado de sa-
tisfazêl-as: ninguem sabe melhor que uma mãe o que convém a seus Íilhos.
Com effeito, cumpre julgar da Egreja, d'es[a divina esposa do Ho-
mem-Deus, d'es[a incarnaçãl permanente de Jesu,s Christo (t), como do
proprio Jesus Christo. A' proporçd,o que adiuntaaa em edadL nos diz a
Sagrada Bscriptura, Jesus crescia tantbe.m em sabedoria e enx graça pe-
rante Deus e os homens (2). Não que a sabedoria e[erna, bem que reves-
tida da nossa carne, podesse augmentar em sciencia e santidade ; mas o
Filho de Deus, proporcionando-se ás leis da nossa natureza, fazia brilhar de
dia para dia mais sabedoria e piedade, conforme o progresso da edade,
posto que desde o primeiro instan[e houvesse sido a sabedoria e santidade
consummadas,
«Póde-se dizer, aecrescenta o celebre Thomassino, que o mesmo
acontece com a Egreja. [sta divina esposa esclarece, ostentando de tem-
pOs a tempos 0s tlresouros da tradiçã0, pontos de doutrina e usos de
piedade, que ainda não tinlram apparecido, porque não era chegada a
occasião de fater apparecer nem de desenvolver as tradições d'elles. A
plenit,ude do Espirito Santo reside, tem resitlido desde o principio no co.
raçio da Egreja. N'ella e com ella tem estado, está e estará sempre a
Sabedoria eterna (3) ; porent não a mostra nem a derrama no exterior se-
não segttndo os conselhos da Providencia divina. Esta Proviclencia ma-
ternal attinge infallivelrnente 0 seu tim, dispondo os meios com suavida.
de. conduz 0 genero lrumano c0m0 um só homem, e cada lromem como
todo o genero humano, pelos graus clas differentes edades e por pro-
gressos proporcionados a essas edades diversas (e).,
N. OpponruNIDADc DA DEFTNTçÃo D0 DoGIÍÀ na, InnrlculADÀ Concut-
ÇÃ0.- Havia muito que o mundo catholico desejava rêr pôr entre os dog-
mas da sua fé a crença, tam chara ao seu coração e tam gloriosa para sua

(1) Expressâo do celebre theologo Mehler, na sua Symbolica, t,II.


(2) Lueas, I, 80.
(3) Math., XXV[.
(4) Vide Thomassiuo, ilas Festas, p, 217.

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2gZ cÀrgcrsuo

Mãe, da Conceição Immaculada. A Egreja conhecia os votos de seus fi-


lhos. Mas o Espirito Santo que a dirige lhe fazia differir o cumprimento
d'elles até ao dia marcado nos decretos eternos. Este dia para sempre
bemdito chegou.
A 8 de dezembro de 1854, o Summo Pontifice, Pio IX; na presen-
ça de duzentos Bispos, que acudiram de todas as partes tlo mundo, pro-
clamou solemnemente, na basilica de S. Pedro, o dogma da Immaculada
Conceição de Maria, e o mundo catholico exultou de incognita alegria; e
o mundo satanico estnemeceu de raiva egualmente sem exemplo. Porque
tanto jubilo d'um lado, e tanto furor do outro ? Este dogma que põe o
remate á gloria da SS. Virgem, porque e definido na nossa epocha e não
nos seculos passados 0u nos seculos futuros'l Entre este acontecimento
providencial e as necessidades do nosso tempo, que relação ha ?
Deus nunca anda ás apalpadellas ; e não ha effeito sern causa. Ora, um
cancro horrendo corroe hoje o mundo : o satanismo ou o paganismo. 0s dois
grantles symptomas d'este mal são o racionalismo e o sensualismo, o orgulho
e a volupia; mas racionalismo e sensualismo taes como o mundo não viu
desde o estabelecimento do Christianismo. Para dizer tudo n'uma palavra,
o mal visivel a todos os olhos, o mal caracteristico da nossa epocha, é a
dupla adoração da razão e da carne, em proporções até agora desconhe-
eidas.
N'esta situaçã0, qual é a opportunidade prorirlencial da proclamação
do dogma da Immaculada Conceição ? Do mesmo golpe este dogma es-
maga o racionalismo e o sensnalismo. Desde a Renascença, o racionalismo
bate em brecha, umas após outras, todas as verdacles da fé; de negação
em negaÇão, ctregou a negar tuCo, até mesnro a existencia de Deus.
Que faz o dogma da Immaculada Conceição ?
À essa negação radical oppõe uma afÍirmação radical. A existencia de
Deus, a queda do homem, a transmissão do peccado original, a necessi-
dede d'um Redemptor, e a diçindade d'es[e Redemptor. Filho tle Maria:
todos estes artigos de fe e os que d'elles derivam, isto e, o Catholicismo
todo no seu magestoso conjuncto, ê aÍfirmado pelo só dogma da Imma-
culada Conceição da SS. Virgem.
Se o racionalismo moderno torna a soltar no mundo o grito de guerra
do antigo paganism o : I{ão creias em naclade tttdo quanto te ensina o
Ch,ri,stianismo, o dogma da Immaculada Conceição responde com o grito
licto:"ioso clos rnarlyres: Crê em tudo rluanto te ensina o Christianismo.
Assim, lÍaria immaculada esmaga a primeira cabeça da serpente infernal.

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DE PERSEVERÀNÇÀ. 293

Resta a segunda, o sensualismo. Adora ü tua carno' sa'tisfaz todas


as tuas concupiscencias; repelle cornl um mal, abomece clrno uma de-
grad,ante estupídez, a mortificaçd,0, a penitencia, as praticas e preceitos
ila Egreja, que teem por objecto reduzir os teus sentidos tÍ subjeiçal e o
teu corpo d, escrauidao. Nado recuses ds'tuas propensões: é esta atua
unica lei, a tua u,nica religiã0, a tua unica fe,licidade. Eis ahi o que pré'
ga, com0 nunca o fez, o sensualismo pagão da nossa epocba.
A esta predica embrutecedora oppõe o dogma da Immaculada Con-
ceição uma aflirmação diametralmente contraria, Fazendo resplender o typo
mais elevado, mais perfeito da santidade n'uma creatura, nossa irmã e nOssa
mãe, brarla ao homem : Eis ahi o teu modelo. Sé perfeito coml Maria é
perfeita; santo clmo etta é santa, sem nlacttla, sem laheo, sem sombra
de macula nent, ile labeo. Se nã,0 pódes attingir a similhanço perfeita, é
teu ileuer aspirar a ella. E' esta a lei do teu ser, a tua religiã0, a tua
felicidade.
Como se vê, á dupla negação de Satanás, fltie vol[ou triumphante
ao mundo, oppõe o dogma da Immaculada Conceição duas aÍlirmações
claras, absolutas e solemnes. Uaravilhoso poder d'este dogma I Basta
d'aqui em diante á creancinha catholica dizer: Creio em Illaria concebida
sem peCCad,o, para fazer tlesabar, a0 Sopro da Sua bÔCca, tOdO O a0ervO
de mentiras e seducções, erguiclo com tanto trabalho, ha quatro seculos,
por Satarrás e seus adeptos. llonve nunca remedio mais apropriado ao
mal, ou aplrlicado mais a proPosito ?
V. Vl,lrlenxs D'rs'I.{ r.asrl.-0 flia que reCorda o dOgma da Im'
maculada ConceiçÍo leln necessariamente granrle influencia sobre a moral.
Catla anno recorda ao rnrrndo inteiro a vertlarle cnja impttrtancia mostra-
mgs. Para não enlrarmos em outras partic,rrlaritlades, 0 pensamento de
que Itlaria é uma rosa qne nunca foi ernpanarla, urn espeltlo que nunca
o miuirno sopro escureceu, sanliÍica a imaginuçiio apreserrtanclo-lhe as
mais graciosas, Suaves e puras imagens. Nada é, pois, para a perfeiçÍrO
da hrtmanidade, o ler substituido urn typo tam puro da mullter ao typo
infame que apresentara o paganismo, Maria a Venus ? Entre estas duas
idêas ha o intinito. No dia da Conceição da Virgem, não pergunta a ra'
zão a si mesma : Porque este milagre espantoso que suspende em favor
de Maria a lei que condemna todos os Íilhos e todas as [ilhas d'Adão a
nascerem na iniquidade ? Porque esta perfeita santidade ?
E a razã0, allumiada pelo facho da historia, descobre aqui um con'
selho profundo da Providencia para a rehabilitação do genero humano.
r9

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"--

29L carEcrsrro

Hoje, responde, começa a historia aa virgem de Judá, da mãe de Manoel,


da nova Eva, d'essa creatura á parte, n'uma palavra de lllaria, typo su-
blime da mulher n0 mundo tornado christã0.
Maria será Íilba d'Adã0, porém não o será como nós: nós somos
maculados desde o primeiro instante cla nossa existencia, e lllaria será pura
e sem macula na sua Conceiçã0.
Nascerá n'este mundo de trevas e miserias, porém não nascerá como
nós : nós nascemos Íilhos de cólera, e Maria nascerá filha tte benção e
de
ineffavel amor da parte da augusta Trinclade.

no meio das dôres e angustias; Maria recebêl-a-á como o homem cançado


recebe o somno, o cégo a luz, e o prêso a liberclade.
Maria morrerá não só no amor de Deus: esta morte é guinhão dos
verdadeiros christãos; não sómente pgr am,r a Deus: esta morte é qui-
nhão dos martyres; pore.m morrerá por um esforço de amor de Deus :
esta morte é quinhão exclusivo da Mãe de Deus.

Eis alri o typo divino que nos apresenta hoje a religião em Maria.
Era preciso nada menos gue um motlêlo tam perfeito para tornar a mu-
Iher respeitavel a seus olhos e aos olhos do bomem, tam envilecida es-
tava no mundo antigo, tanto o está ainda em tocla a parte onde não é co-
nhecida a nova Eva. No dia para sempre bemdito di Immaculada Concei-

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DE PENSEYERANÇÀ. 295
Tal ér a saudavel inÍluencia que a razáo reconhece no mysterio de
Maria concebida sem peccado. Ainda isto não é tudo; a fé, vindo em au-
xilio da razã0, sua filha e pupilla, lhe descobre outra vantagem d,este
mysterio. Era preciso, lhe diz, que Maria fosse sem macula, porque devia
ser um dia a Mãe de Deus; o seu casto seio devia ser o tabernaculo do
Yerbo eterno. Se a arca d'alliança devia ser santa e revestida do ouro
mais puro por dentro e por fóra, porque devia encerrar as taboas da lei,
quanto mais santa e pura não era necessario que fosse Maria para trazer
nas suas entranhas o Mestre da lei!
A esta lição de fe exclama o homem: comprehendo, Maria devia ser
sem macula. Mas que I não me está reservada a honra de receber em mim
o meu Deus em pessoa? na communhã0, não estou associado em certo
modo á maternidade divina ? e não estou obrigado a fazu esta commu-
nhã0, sob pena de morte? não está escripto: Sa nd,o comeriles a carne ilo
Filho do Homenr, e se não beberdes o seu sangue, ndo tereis a tsiila em
aós (l) ? sim, é preciso que eu commungue. Mas que é a minha santida-
de, comparada com a de Maria? A este pensamento, profundos sentimen-
tos d'humildade, saudaveis remorsos, e generosas resoluções se formam
na alma. 0teor de vidamodifica-se, e avigilancia, e adoçura, eaterna
piedade, e a obediencia, que sei eu ? e todas as virtudes gue são o en-
canto da vida, a felicidade das familias e a força da sociedade, brotam,
como por milagre, á recordação de ll[aria conce