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Só após avaliação caso a caso

por TELES DE ARAÚJO*Hoje Comentar

Estão postos em confronto direitos individuais e colectivos que, em certa medida,


parecem inquestionáveis. Dum lado, a liberdade individual que deve ser garantida a
todos, doentes e sãos. Deste modo, o doente deve ter a liberdade de optar se quer ou não
ser tratado, desde que esteja devidamente informado das consequências da sua decisão e
desde que mantenha as suas capacidades cognitivas.

Por outro lado, a sociedade, no seu colectivo e em relação a cada indivíduo, tem o
direito de defender a sua saúde, por todos os meios ao seu alcance.

Ora, as doenças contagiosas são, por definição, transmissíveis, e, portanto, os infectados


podem contagiar os sãos. Esta transmissão é particularmente fácil nas doenças como a
tuberculose ou a gripe, que se transmitem por via aérea através das gotículas expelidas
com a tosse ou o espirro dos infectados, ou nas sexualmente transmissíveis. Acontece
que nestas é necessário um contacto directo com o infectado, ao passo que nas
transmitidas por via aérea o contacto pode ser apenas fortuito, de vizinhança. O
contágio pode dar-se num autocarro, no escritório, num cinema, por exemplo.

Ser contagiado e poder adoecer já não é agradável, mas a situação pode tornar-se
dramática se se é infectado por uma bactéria multirresistente, isto é, contra a qual os
antibióticos perderam a sua capacidade de actuação. É o que acontece na tuberculose
multirresistente. Felizmente, é uma situação ainda rara mas que a OMS considera como
uma verdadeira ameaça à escala global, uma vez que existem formas contra as quais não
há, literalmente, nenhum tratamento.

O problema da multirresistência aos antibióticos não é só uma situação que surge na


tuberculose. É uma preocupação crescente em todo o mundo, sendo, aliás, o objecto de
reflexão do Dia Mundial da Saúde de 2011, tal a sua crescente importância. Para este
problema muito contribuem erros terapêuticos no uso dos antibióticos, não só na
prescrição como, sobretudo, no uso inadequado deles, feito pelos utilizadores
(abandonos terapêuticos, não cumprimento integral das prescrições, etc.).

Felizmente que as infecções são tratáveis na maioria dos casos, mesmo a tuberculose,
sem necessidade de internamento e que os eventuais contagiados também se curam com
relativa facilidade. Restará um pequeno número de casos, sobretudo se houver evidência
de infecção por bactéria resistente aos antibióticos, em que, em minha opinião, o direito
colectivo se deve sobrepor ao individual.

No caso da tuberculose multirresistente, o doente terá de ser internado em condições de


isolamento (quartos com pressão negativa em relação ao exterior), que são infra-
estruturas hospitalares extremamente dispendiosas e para longos internamentos. Logo, é
justo que a sociedade imponha que esse doente seja tratado e não apenas subtraído do
contacto com a restante população.

Assim, considero que deve haver alteração legislativa que preveja o internamento e o
tratamento compulsivos dos doentes com formas de tuberculose multirresistente que
recusem tratamento voluntário, ou com outras situações infecciosas que façam perigar a
saúde pública, por recusa de tratamento e cumprimento doutras medidas adequadas de
protecção dos que com eles contactam. Serão sempre situações excepcionais, as quais
deverão ser analisadas caso a caso.

* PRESIDENTE DA FUNDAÇÃO PORTUGUESA DO PULMÃO

Em defesa da saúde pública


por MÁRIO DURVAL*Hoje Comentar

A Constituição prevê várias excepções ao direito à liberdade e segurança, uma das quais
se refere ao "Internamento de portador de anomalia psíquica em estabelecimento
terapêutico adequado, decretado ou confirmado por autoridade judicial competente"
(artigo 27º, n.º 3, al. h).

A Lei de Saúde Mental regula este preceito constitucional de modo a garantir que não
possam existir internamentos que não tenham por base problemas psiquiátricos
relevantes. Da minha experiência de muitos anos, não tenho conhecimento de casos em
que se mantenham indevidamente internados cidadãos que não necessitem desta medida
de privação de liberdade. O processo de garantias, apesar de excessivamente pesado na
minha opinião, garante, pelos múltiplos intervenientes, uma isenção de análise e a
correcção rápida de eventuais erros.

Estes preceitos legais têm-se mostrado úteis à defesa "de bens jurídicos de valor
relevante, próprios ou alheios, de natureza pessoal ou patrimonial" (artigo 12.º) que os
portadores de anomalia psíquica põem em perigo, mostrando-se, por isso, o preceito
constitucional útil à harmonia das comunidades. Não me consta que tenha, até agora,
sido posto em causa por alguém como excessivo.

Por outro lado, as autoridades de saúde debatem-se frequentemente com outro tipo de
problemas para os quais dificilmente encontram soluções, pois na sua tarefa de defesa
da saúde das comunidades se deparam com dificuldades imensas para conseguirem
colocar uma barreira entre um perigo eminente e a população. Naturalmente que a
defesa da liberdade dos cidadãos não pode ser posta em causa, mas um cidadão que
recusa tratar-se e aceitar medidas de isolamento e que, pelo tipo de doença de que é
portador, pode causar danos na saúde e na segurança dos outros, muitas vezes
irreversíveis, não pode continuar sem que a comunidade tome medidas de defesa.

Neste sentido, vem o acórdão da Relação do Porto, cujo sumário transcrevemos:


"Impõe-se o internamento compulsivo, da competência do juiz e não da autoridade
administrativa, do doente que sofre de tuberculose pulmonar e se recusa a tratar-se,
havendo perigo de contagiar terceiros, conviventes directos, e risco iminente para a
saúde pública. Trata-se de uma situação de perigosidade decorrente não de um facto
objectivamente criminoso mas da própria natureza da doença que, pela sua reconhecida
gravidade e sendo altamente contagiosa, justifica, por si só, a aplicação de medidas de
defesa da sociedade (e também do próprio doente)."

Não parece oferecer grande dúvida jurídica a necessidade de privação de liberdade em


situações de doenças contagiosas de grande letalidade ou de difícil tratamento e com
efeitos graves na comunidade. Terá, no entanto, em situações de urgência, de se
encontrar uma solução que possa dar resposta rápida através da autoridade
administrativa competente, neste caso os delegados de saúde, e de acordo com
respectiva legislação, que lhes confere a competência de "desencadear, de acordo com a
Constituição e com a lei, o internamento ou a prestação compulsiva de cuidados de
saúde a indivíduos em situação de prejudicarem a saúde pública".

Parece que a medida mais acertada será legislar para as doenças infecto-contagiosas de
acordo com a experiência da Lei de Saúde Mental, que permite a condução de urgência
por iniciativa da Autoridade de Saúde, com posterior confirmação de juiz.

Resumindo, parece ser incontornável a necessidade de se adaptar a legislação ao que já


se pratica, para agilizar os procedimentos e defender mais eficazmente a saúde pública.
Desde logo, colocar na Constituição esta excepção, para além das situações de saúde
mental, e harmonizar a legislação subsequente no sentido de prever casos de urgência
grave em que as autoridades de saúde determinem o internamento imediato, com
posterior confirmação do juiz. Garantiremos, assim, que não passaremos por dois tipos
de situações indesejáveis: ou perdidos num mar de papelada deixarmos andar alguém a
causar graves danos à saúde pública, ou vermo-nos forçados a tomar medidas de
excepção por falta de clareza da lei.

* PRESIDENTE DA ASS. GERAL DA ASSOCIAÇÃO DOS MÉDICOS DE SAÚDE


PÚBLICA

In DN, 14.2.2011