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Braga et al.

Estácio Saúde, volume 10, número 01, 2021

REVISTA ELETRÔNICA ESTÁCIO SAÚDE


ISSN1983-1617 (online)

http://revistaadmmade.estacio.br/index.php/saudesantacatarina

ASSISTÊNCIA AOS PACIENTES VÍTIMAS DE TCE EM


UMA UNIDADE DE TERAPIA INTENSIVA NO HOSPITAL
DE EMERGÊNCIAS DE MACAPÁ/AP

ASSISTANCE TO PATIENT VICTIMS OF TBI IN AN INTENSIVE CARE UNIT AT THE EMERGENCY


HOSPITAL OF MACAPÁ/AP
ASSISTENCIA A PACIENTES VÍCTIMAS DE TCE EN UNIDAD DE CUIDADOS INTENSIVOS DEL
HOSPITAL DE URGENCIAS DE MACAPÁ/AP

Tatiana de Lima Braga1 José Israel Sanches Robles2


1
Enfermeira. Mestre em Terapia Intensiva pela Instituto Brasileiro de Terapia Intensiva. Enfermeira do Governo do estado do
Amapá. Macapá-AP, Brasil.
2
Médico. Mestre em Gerontologia Social pela Universidade Miguel de Cervantes/Espanha. Médico da Santa Casa de
Misericórdia de Anápolis. Anápolis-GO, Brasil.

Resumo

O Traumatismo Cranioencefálico (TCE) é uma das causas mais frequentes de morbidade e mortalidade, tendo
impacto importante na qualidade de vida, da pessoa acometida, além de seus familiares e a sociedade. A
pesquisa teve como questão central a intervenção do profissional no atendimento das pessoas com TCE,
analisando a assistência prestada aos pacientes em uma Unidade de Terapia Intensiva comparando com o que a
literatura trata sobre o assunto. Pesquisa foi de caráter epidemiológico, descritivo, retrospectivo-documental e
quantitativo, tendo como fonte de dados os registros de atendimentos da UTI 2 do Hospital de Emergências em
Macapá/AP no período de seis meses. A coleta de dados foi realizada através de check-list, com diversas
variáveis, como: idade, sexo, causas, assistência prestada e evolução. Constatou-se com a pesquisa que a
assistência prestada ao paciente vítima de TCE no setor estudado, condiz com dados abordados pelos autores
discutidos, apesar da dificuldade de infraestrutura, quanto as variáveis analisadas. Conclui-se que este estudo
consegue comparar a assistência realizada no traumatismo crânio encefálico relatado nas literaturas com a
assistência prestada no setor do serviço analisado.

Palavras-chave: Traumatismo crânioencefálico, Cuidado intensivo, Assistência.

Abstract

Cranioencephalic Trauma (TBI) is one of the most frequent causes of morbidity and mortality, having an important
impact on the quality of life of the affected person, as well as their family members and society.The study had as
a central question the intervention of the professional in the care of people with TBI, analyzing the care provided
to the patients in an Intensive Care Unit,comparing with what the literature deals with the subject. The research
was epidemiological, descriptive, retrospective-documentary and quantitative, having as a data source the
records of ICU 2 care at the Emergency Hospital in Macapá / PA in the six-month period. The data collection was
performed through checklist, with several variables, such as: age, sex, causes, assistance provided and
evolution. It was verified with the research that the assistance provided to the patient victims of TBI in the studied
sector, agrees with data discussed by the authors, despite the difficulty of infrastructure, regarding the variables
analyzed. It is concluded that this study can compare the assistance performed in traumatic brain injury reported
in the literature with the assistance provided in the service sector analyzed.

Autor para correspondência: Tatiana de Lima Braga


E-mail: tatianalibra@bol.com.br

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Braga et al. Estácio Saúde, volume 10, número 01, 2021

Keywords: Traumatic brain injury, Intensive Care, Care.

Resumen

El Traumatismo Craneoencefálico (TCE) es una de las causas más frecuentes de morbilidad y mortalidad,
teniendo un impacto importante en la calidad de vida de la persona afectada, así como de sus familiares y la
sociedad. La investigación tuvo como interrogante central la intervención del profesional en el cuidado de
personas con TCE, analizando la asistencia brindada a los pacientes en una Unidad de Cuidados Intensivos
comparándola con lo que trata la literatura sobre el tema. La investigación fue de carácter epidemiológico,
descriptivo, retrospectivo-documental y cuantitativo, utilizando los registros de asistencia a la UCI 2 del Hospital
de Emergencias de Macapá / AP durante un período de seis meses. La recogida de datos se realizó a través de
un check-list, con varias variables como: edad, sexo, causas, asistencia prestada y evolución. Se encontró con
una investigación que la asistencia brindada al paciente víctima de TCE en el sector estudiado, es consistente
con los datos internos de los autores discutidos, a pesar de la dificultad de infraestructura, respecto a las
variables analizadas. Se concluye que este estudio es capaz de comparar la asistencia brindada en el
traumatismo craneoencefálico core reportado en la literatura con la asistencia brindada en el sector del servicio
analizado.

Palavras clave: Lesión cerebral traumática, cuidados intensivos, cuidados.

Introdução

Mundialmente o Traumatismo Cranioencefálico (TCE) é uma das causas mais frequentes de


morbidade e mortalidade, tendo impacto importante na qualidade de vida, embora ocorra em questão
de segundos, seus efeitos perduram por longos períodos sobre a pessoa acometida, além de seus
familiares e a sociedade(1).

O Traumatismo Crânio Encefálico (TCE) é um grave problema de saúde pública na atualidade,


devido e a recuperação dos sobreviventes ser marcada por sequelas neurológicas graves e por uma
qualidade de vida muito prejudicada. É importante causa de morte e de deficiência física e mental,
ficando atrás apenas do Acidente Vascular Cerebral, como doença com forte impacto na qualidade de
vida do homem(2).

O TCE define-se como lesões que envolvem o couro cabeludo, o crânio e o encéfalo e é um
processo que pode durar dias a semanas, mas começa no momento do impacto, sendo uma
combinação de dano neural, insuficiência vascular e efeitos inflamatórios. Esse tipo de trauma ocorre
após lesões fechadas ou penetrantes às estruturas encefálicas e abrange fraturas cranianas e dano
ao tecido encefálico. Os tipos de lesões cranioencefálicas incluem concussão, contusão, fraturas de
crânio, hematoma epidural ou subdural, hemorragia subaracnóide e herniação (3).

Os momentos iniciais após o impacto, tanto no local do trauma quanto no hospital representa uma
fase crítica na fisiopatologia da lesão cerebral. Agir de maneira apropriada em um tempo adequado
pode melhorar o prognóstico neurológico significantemente, portanto atraso ou falha na instituição
dessas medidas pode levar danos cerebrais secundários com graves consequências na recuperação
tardia das funções neurológicas(4).

Nessa assistência direta, o profissional participa da previsão de necessidades da vítima; definindo


prioridades; iniciando intervenções necessárias, fazendo a estabilização, reavaliando o estado geral e
realizando o transporte da vítima para o tratamento definitivo.

O objetivo primário da pesquisa foi analisar a assistência prestada aos pacientes acometidos por
traumatismo crânio encefálico em uma Unidade de Terapia Intensiva do Hospital de Emergências de
Macapá/AP, comparando com o que a literatura trata sobre o assunto. O presente trabalho teve como
questão central a intervenção do profissional no atendimento das pessoas com TCE.

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Levando-se em consideração a complexidade do seu atendimento e a sua relevância


epidemiológica, é de fundamental importância que os profissionais envolvidos no atendimento a
pacientes vítimas de traumatismo crânio encefálico sejam capacitados a prestarem essa assistência.
Pretendeu-se com este estudo agrupar conhecimentos atuais e relevantes relacionados ao tema, de
forma a melhorar o tratamento destes pacientes, fazendo um comparativo com os resultados
analisados, minimizando sua mortalidade e possibilidade de sequelas, a partir de uma assistência de
qualidade, dessa feita, justifica-se a realização do mesmo.

Materiais e métodos

A pesquisa foi do tipo quali-quantitativo, de caráter epidemiológico, descritivo, tendo como fonte de
dados os registros de atendimentos da Sala de Graves do Hospital Público de Emergência da cidade
de Macapá (principal referência para o atendimento de alta complexidade em urgência e emergência
da capital, realizando atendimentos relacionados à traumas e clínica médica) no período de 6 meses
(de Abril a Setembro de 2017). A coleta de dados foi realizada através de check-list, com as
principais variáveis a serem estudadas: idade, sexo, causas, assistência prestada e evolução.

A pesquisa analisou a assistência prestada aos pacientes vítimas de TCE no Hospital de


Emergências de Macapá/AP, em um período de 6 meses, desde sua internação, cuidados prestados
e evolução.

A coleta de dados foi realizada nos registros de atendimento de todos os pacientes internados com
diagnósticos de TCE no período supracitado, que foi um total de 14 (quatorze) indivíduos. Com
objetivo de traçar o perfil epidemiológico de TCE e assistência prestada, comparando com o que a
literatura trata sobre o assunto.

Os dados coletados foram organizados e tabulados com auxílio de um software, por meio de uma
planilha do Excel® da Microsoft®. Posteriormente ocorreu a análise estatística e descritiva dos dados,
através das distribuições absoluta e relativa. A pesquisa foi aprovada pelo Comitê de Ética em
Pesquisa envolvendo Seres Humanos do Hospital de emergência (HE).

Resultados e discussão

No período entre Abril a Setembro de 2017 foram atendidas 14 (catorze) vítimas de traumatismo
crânio encefálico no setor de estudo, na Sala de Graves do Hospital de Emergências Osvaldo Cruz
(HEOC), sendo esses 14 (100%) do sexo masculino, como pode-se ver na Figura 1.

As lesões crânio encefálicas encontram-se entre os tipos de trauma mais frequentemente vistos
nos serviços de emergência. Muitos doentes com lesões cerebrais graves morrem antes de chegar
ao hospital, e quase 90% das mortes pré-hospitalares relacionadas ao trauma envolvem lesão
cerebral(5).

No Brasil, a epidemiologia do trauma cranioencefálico é estimada em meio milhão de


hospitalizações anualmente(6).

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Figura 1 – Gênero predominante dos pacientes atendidos com TCE na UTI2-HE/AP de Abril a setembro de
2017.

O TCE é considerado como causa comum de morte e incapacidades, particularmente na primeira


metade da vida, sendo mais frequentes entre os dois e 42 anos de idade, predominando no sexo
masculino. Sua ocorrência torna-se ainda mais preocupante considerando que cerca dos 50% dos
politraumatizados agravam seu diagnóstico pela vulnerabilidade e capacidade de recuperação
limitada do Sistema Nervoso Central (SNC)(7).

Referente a faixa etária mais afetada, esta ocorreu entre indivíduos de 18 a 60 anos (56%) (Figura
2), enfatizando-se com esse resultado o que é afirmado por alguns autores como vê-se a seguir:

Figura 2 – Idade dos pacientes atendidos com TCE na UTI2-HE/AP de Abril a setembro de 2017.

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Durante o ano de 2014 no Brasil aproximadamente 106 mil pessoas foram internadas nos hospitais
do Sistema Único de Saúde vítimas de TCE e que a grande maioria destes casos se encontravam
presentes em jovens sendo o gênero masculino o de maior prevalência dentre os casos
levantados(8).

O número de casos de TCE vem aumentando em duas importantes fases da vida do ser humano,
uma a mais jovem facilmente representada pela força e vigor da juventude, onde há uma maior
probabilidade de exposições e vulnerabilidades que ocasionem risco para a vida. Em contrapartida a
outra fase retrata a senilidade onde também há uma maior predisposição a situações de risco, que
posteriormente podem levar ao adoecimento deste público(9).

A principal causa de morte, são as lesões traumáticas de pessoas entre 5 e 44 anos no mundo, e
correspondem a 10% do total de mortes. Por causa da faixa etária acometida, os danos
socioeconômicos para a sociedade são enormes. Anualmente, nos Estados Unidos estima-se que
ocorra 1,7 milhão de casos de TCE, dos quais 52 mil resultarão em mortes, 275 mil em
hospitalizações e 1.365.000 receberão atendimento hospitalar de urgência e emergência, com
posterior liberação. Além de ser responsável por 75% a 97% das mortes por trauma em crianças. Já
no Brasil, os dados não são diferentes e as ocorrências aumentam a cada ano, sendo responsável
por altas taxas de mortalidade, tendo uma maior prevalente em jovens do sexo masculino (1).

Quanto ao mecanismo do trauma, a Figura 3 mostra que a maioria das lesões ocorreram. Quanto
às causa externas do TCE, têm-se entre os registros feitos, a maioria com agressão Física (FAB) –
31% e os acidentes motociclísticos (23%), seguidos pelas quedas (13%) e Atropelamentos (13%).

Figura 3 – Principais causas do TCE nos pacientes atendidos na UTI2-HE/AP de Abril a setembro de 2017.

O trauma é a principal causa de óbito nas primeiras quatro décadas de vida e representa um
enorme e crescente desafio ao País em termos sociais e econômicos. Os acidentes e as violências
no Brasil configuram um problema de saúde pública de grande magnitude e transcendência, que tem
provocado forte impacto na morbidade e na mortalidade da população(10).

As causas de TCE estão relacionadas dentro do grupo de patologias ocorridas por causas
externas, sendo as principais: 1. Acidentes automobilísticos (50%), neste grupo, a principal faixa
etária é de adolescentes e adultos jovens. Dos 15 aos 24 anos, os acidentes de trânsito são

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responsáveis por mais mortes que todas as outras causas juntas; 2. Quedas (30%), neste grupo há
um grande número de idosos. Entretanto, no Brasil são muito frequentes as quedas de lajes, que são
ignoradas pelas estatísticas internacionais. 3. Causas Violentas (20%), com ferimentos por projétil de
arma de fogo e armas brancas(11).

Embora a causa principal de TCE varie entre diferentes localidades, os acidentes automobilísticos,
as agressões físicas e as quedas estão entre suas causas mais frequentes. Segundo as estatísticas
brasileiras, as causas externas estão entre os quatro mais frequentes agentes de mortalidade no país
e, se fossem excluídas as mortes por causas mal definidas, passariam, então, a ocupar o segundo ou
terceiro lugar. Conforme dados do DATASUS, em 2010 no Brasil foram registrados 143.256 óbitos
por causas externas, do grupo CID10, abrangendo todas as faixas etárias. Entre estes, 43.908
(30,7%) foram decorrentes de acidentes de trânsito, ocupando a segunda posição entre as causas de
mortes. Na faixa etária entre cinco e 39 anos, os acidentes de trânsito totalizaram 29.940 óbitos
(68,2%), ampliando-se para 41.538 (94,6%) se considerada até 59 anos(3).

Ao admitir o paciente, vítima de TCE na unidade de emergência, o profissional tem a função de


obter sua história; abordar as vias aéreas com imobilização da coluna cervical; realizar aspiração
orotraqueal para manter boa oxigenação, caso haja lesões faciais não aspirar narinas; proporcionar
ao paciente uma ventilação adequada, utilizando cânula de guedel se mordedura ou queda da base
da língua retirando assim que possível. Manter cabeça alinhada e decúbito elevado a 30°C. Observar
a circulação como: verificação de pulso, coloração, temperatura e umidade da pele. Manter acesso
venoso calibroso ou cateter venoso central para quantificação da volemia, realizando balanço hídrico
a cada hora. Realizar exame neurológico(12).

De acordo com as literaturas estudadas, frente aos procedimentos realizados durante a assistência
esperadas aos pacientes com TCE, têm-se na amostra pesquisada os resultados descritos na Tabela
1.

Tabela 1 – Procedimentos realizados no tratamento dos pacientes atendidos com TCE na UTI2-HE/AP de Abril a
setembro de 2017 (n=14)

Tratamento e Procedimentos Realizados nº *f%p


Monitorização de SSVV 14 100%
Sedação (Pós Trauma Imediato) 12 85%
Intubação Orotraqueal/ Ventilação Mecânica 13 93%
Sondagem Orogástica 9 65%
Sondagem Nasogástica 5 35%
Sondagem Vesical de Demora 13 93%
Exame de Imagem (Tomografia) 14 100%
Avaliação Neurocirúrgica 14 100%
Procedimento Neurocirúrgico 3 22%
Tratamento Conservador 11 78%
Monitorização da PIC (Pressão Intracraniana) 0 0%

*f%p= frequência percentual

Os dados indicados na Tabela 1 sobre a assistência prestada no serviço analisado demonstram


que as intervenções realizadas estão em sua maioria condizentes com o que que se encontra na
literatura sobre o assunto. Observa-se primeiramente que em 100% dos casos foi realizado a
monitorização dos sinais vitais. O que se revela de maior importância, pois como indica um dos
autores pesquisados deve ocorrer monitorização constante dos sinais vitais, avaliando assim, o
estado intracraniano. Os sinais de PIC envolvem bradicardia, pressão arterial sistólica crescente e
alargamento da pressão de pulso. Em caso de compressão cerebral, pode ocorrer hipotensão arterial,
pulso lento e respirações rápidas. Já a taquicardia associada à hipotensão indica hemorragia
interna(13).

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Quanto á sedação (pós-trauma imediato), os dados indicam que 85% do grupo analisado sofreu
esta intervenção, muito provavelmente pela evolução do quadro clínico, que dependendo do tipo de
TCE, pode evoluir para piora do prognóstico a partir de 24h(14).

Afirma-se que a sedação adequada diminui a dor, ansiedade e agitação, reduzindo o metabolismo
cerebral, diminuindo o consumo de oxigênio e facilitando a ventilação mecânica. Isso pode ser
conseguido por meio do uso de fármacos sedativos e opioides(15).

Sobre a intubação orotraqueal em conjunto com a Ventilação Mecânica, 93% dos pacientes
internados sofreram essa intervenção, principalmente pela característica da lesão, com grande
probabilidade de serem pacientes num quadro de TCE grave, apesar do estudo não ter dado ênfase
a essa variável.

A importância desta intervenção é enfatizada pelo autor, que afirma que a ventilação mecânica
constitui um dispositivo terapêutico imprescindível em pacientes com TCE grave, uma vez que visa a
proteção da via aérea, pela intubação endotraqueal, e permite a sedação, inclusive curarização,
evitando assim os danos causados pela hipoxemia e hipercapnia(16).

Quanto à realização de sondagem orogástrica (65%) e sondagem nasogástrica (35%) indicada no


grupo estudado, deve-se referenciar a indicação para cada um dos procedimentos frente ao quadro
do paciente. Como pode ser visto em estudo de Viana (2011) inferindo que a nutrição enteral deve
ser iniciada após 48 horas de admissão na UTI, deve-se estar atento à presença de ruído hidroaéreos
(RHA) e distensão abdominal. Nos pacientes que apresentarem fraturas de base de crânio, a
sondagem nasogástrica ou enteral deve ser feita por via oral e não via nasal, pois podem provocar
infecções do tipo meningite e lesões secundárias, para as aspirações deve ser usado o mesmo
critério, não realizar aspirações nasal nestes pacientes.

A sondagem vesical, procedimento muito importante para aferição de perdas e função renal dentro
do balanço hídrico, foi observado em 93% dos casos. O autor afirma que o papel principal do
procedimento de sondagem vesical ao paciente vítima de TCE é sobre o balanço hídrico rigoroso,
principalmente nas primeiras 48h após o trauma(17).

Outra intervenção importante na assistência e tratamento da vítima de TCE é os exames de


imagem (Tomografias) que auxiliam no diagnóstico dos tipos de lesão e sua evolução, que foram
realizadas em 100% dos casos e a avaliação médica neurocirúrgica que igualmente foi realizada em
100% dos casos do grupo estudado. Todos os autores pesquisados reforçam a importância deste
procedimento, assim como pode ser observado na afirmação a seguir.

Deve ser realizada a tomografia computadorizada de crânio-encéfalo (TCC) de urgência, tão logo
seja possível, após a normalização hemodinâmica. Deve ser repetida sempre que houver mudança
no estado clínico do doente e rotineiramente 12 e 24 horas após o trauma, quando há contusão ou
hematoma, identificado a tomografia computadorizada inicial(18).

Ainda sobre os procedimentos realizados, dá-se destaque a intervenções cirúrgicas, como a


craniotomia, que ocorreram em 22% dos casos. As indicações de tratamento cirúrgico relacionadas
ao TCE são as fraturas cranianas com afundamentos e hematomas extradural, subdural e
intraparenquimatoso. Hematomas subdurais crônicos geralmente ocorrem em idosos e a maioria
destes em uso de antiplaquetários. O hematoma subdural crônico é de evolução lenta e o tratamento
consiste na drenagem através de trepanação. Atualmente, a maioria destes procedimentos é
realizada com anestesia local e sedação(19).

Já sobre o Tratamento conservador, foi observado no restante da população estudada, com 78%
dos casos. Este grupo não sofreu intervenção cirúrgica, deduzindo-se pela falta de necessidade no
quadro clínico, ou pela gravidade clínica com a evolução do quadro para óbito em pouco tempo.
Refere-se que a conduta conservadora em determinados pacientes depende da existência de
infraestrutura que permita observação constante, acesso rápido a TC, centro cirúrgico e equipe
neurocirúrgica. A piora neurológica de modo geral sugere que a lesão deva ser tratada
cirurgicamente(20).

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A última intervenção analisada numericamente na Tabela 1, trata da falta da realização (0%) da


monitorização da Pressão Intracraniana (PIC) demonstrada pelo déficit na infraestrutura do setor para
tal. Apesar da primordial importância deste procedimento para os pacientes vítimas de TCE.

O manejo dos pacientes com edema cerebral e elevação da Pressão Intracraniana (PIC) após
trauma ainda constitui um grande desafio para a neurocirurgia. A PIC deve ser mantida abaixo de 20
mmHg por meio de sedação, hiperventilação leve e uso de manitol. Em pacientes refratários a estas
medidas, pode ser tentada craniotomia. É demonstrado que a craniotomia descompressiva pode
melhorar a hemodinâmica cerebral em pacientes com aumento da PIC associada ao edema cerebral,
sua eficácia no que se refere ao desfecho clínico do paciente não foi bem estabelecida. Além disso,
indicações claras para a realização deste procedimento não estão bem determinadas(1).

A última variável analisada tratou da evolução clínica da população estudada, onde observou-se
que da amostra em estudo 50% dos pacientes evoluíram para alta hospitalar ou transferência para
outros setores hospitalares para continuidade do tratamento e os outros 50% evoluíram ao óbito,
como observado no gráfico 4, abaixo.

Figura 4 – Evolução Clínica de pacientes com TCE atendidos na UTI2-HE/AP de Abril a setembro de 2017

Quanto aos dados encontrados, sobre esta variável é ressaltado pelo autor que a idade é um fator
forte que influencia a morbidade e a mortalidade. A despeito de algumas contradições, a maioria das
literaturas demonstra que crianças com TCE grave evoluem melhor que adultos. A significante
influência da idade no prognóstico não é explicada pelo aumento de complicações sistêmicas ou
hematomas cerebrais do idoso. A idade crescente é um fator forte e independente no aumento do
prognóstico ruim acima de 60 anos(19).

O pior prognóstico em vítimas de TCE está relacionado a indivíduos pertencentes ao gênero


masculino, pontuação ≤ 8 na ECG na admissão hospitalar, faixa etária da vítima acima de 60 anos,
achados tomográficos evidenciando lesão axonal difusa ou edema cerebral, pupilas com reflexo
fotomotor abolido, hipotensão verificada na admissão hospitalar e febre (21).

O predomínio de homens entre as vítimas de traumatismo cranioencefálico, no caso do estudo,


observado em sua totalidade (100%), especialmente por lesões decorrentes da violência e de
acidentes de trânsito, ilustra muito bem o efeito dos padrões socioculturais, cristalizados na noção de
gênero sobre este perfil, pois, em princípio, parece não haver fator biológico que explique a maior
predisposição masculina em morrer por esse tipo de lesão. Este achado é semelhante aos trabalhos
científicos estudados que apontam a predominância do sexo masculino.

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Este achado é semelhante aos trabalhos científicos estudados que apontam a predominância do
sexo masculino. Em relação a faixa etária afetada observou-se a prevalência de pacientes adultos.
Este dado é preocupante, pois se enquadra uma parcela da população em plena atividade produtiva.
Há grandes gastos hospitalares tanto na fase aguda quanto na fase crônica. Ocorre ainda a perda de
anos laborais que representa, provavelmente, a maior repercussão socioeconômica deste trauma.

Os mecanismos de trauma que levam ao TCE estão muito relacionados à idade. Como observado
neste estudo, com predominância entre a faixa etária de 18-60 anos (56%). Indicando sobre as
influências socioeconômicas deste quadro, principalmente por ocorrer na faixa da população
economicamente ativa.

O TCE desde o grau leve até o grave é uma das principais causas de procura por atendimento
médico de urgência não somente em serviços de pronto atendimento hospitalares, mas também em
postos de saúde, consultórios e clínicas particulares. O esclarecimento dos dados epidemiológicos é
um passo essencial para o planejamento de ações preventivas e para a melhoria do atendimento.

Neste estudo, observou-se que a violência e agressões teve a predominância dos casos (31%),
onde são causas crescentes de trauma mecânico em grandes metrópoles, apesar da cidade do
estudo em questão não ser considerada uma grande metrópole, mas acompanha os dados
estatísticos do restante do país. Provavelmente as agressões ocorrem devido ao processo de
urbanização que acaba acentuando as desigualdades econômicas e predispondo a violência.

Os acidentes com veículos automotores, incluindo motocicletas, automóveis e atropelamentos


também merecem destaque no estudo, por ocupar prevalência logo após os casos relacionados á
violência. Os acidentes de trânsito são a segunda causa externa de mortalidade no país, estando
entre os mais elevados no mundo, e a maioria que vão a óbito são os pedestres, e estes respondem
por cerca de 50% do total das hospitalizações por lesões causadas por esses acidentes. O alto índice
de motorização reflete-se no perfil de morbimortalidade, pois, além de serem responsáveis por
importante parcela de mortes, os acidentes de trânsito são também os segundos maiores
responsáveis pela perda de anos potenciais de vida, sendo superados, atualmente, apenas pelos
homicídios. No caso do estudo, ocorrendo em 23% dos casos.

A assistência às pacientes vítimas TCE pela equipe multiprofissional demonstra que esta
desempenha papel fundamental na implementação de ações de suporte básico e avançado de vida a
estes pacientes. O planejamento das ações aos pacientes acometidos por TCE consiste na previsão
das necessidades e complicações e início da reabilitação. Os resultados esperados incluem que o
paciente: mantenha a ventilação e oxigenação cerebral, atingindo os valores gasométricos arteriais;
alcance equilíbrio hidroeletrolítico satisfatório; atinja estado nutricional normal; evite a lesão;
demonstre integridade cutânea intacta, não obtenha úlceras de decúbito; demonstre ausência de
complicações, exiba PIC, sinais vitais normais, orientação crescente no tempo.

Os resultados da pesquisa demonstraram que a maioria das intervenções apontadas pela


literatura ao paciente vítima de TCE em uma unidade de terapia intensiva foram realizados no grupo
estudado, com exceção da monitorização da PIC. Algo que poderá a levar a uma possível
implementação desta intervenção a partir deste estudo, dada a importância desta intervenção.

Sendo assim, todos os profissionais que atuam no atendimento à vítima de TCE devem ter
treinamento específico e aperfeiçoamento técnico-científico na prática aprimorando suas habilidades
e se atualizando quanto a protocolos específicos da área. Tanto no atendimento pré-hospitalar quanto
no ambiente hospitalar, enfatizando aqui os que prestam assistência em Unidade de Terapia
Intensiva. O raciocínio clínico para a tomada de decisão e habilidade para executar as intervenções
prontamente, são competências ímpares para o exercício da prática intensiva.

Conclusão

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O TCE é uma situação comum no cotidiano médico, responsável por altas taxas de mortalidade e
morbidade em todo o mundo. Apresenta-se de formas variadas, que devem ser reconhecidas
precocemente ainda no atendimento primário com o exame clínico e neurológico, assim como deve
ser precoce o início dos procedimentos avançados de suporte a vida e condutas específicas que tem
como objetivo diminuir a incidência de lesões neuronais secundárias ao trauma. As condutas nos
pacientes com TCE, principalmente em casos graves, são complexas e exigem atenção da equipe
multiprofissional durante o tratamento do paciente. Apesar do objetivo central do tratamento do TCE
ser evitar lesões secundárias através do controle rigoroso da hipotensão e da hipóxia cerebral com
monitoramento da PIC e do fluxo sanguíneo cerebral (FSC), devem ser considerar outras condutas,
que apresentam altos índices de recomendação por inúmeros estudos e protocolos para o paciente
traumatizado, com a finalidade de reduzir ao máximo as sequelas do trauma craniano, melhorando a
sobrevida e a qualidade de vida dos pacientes. Evidencia-se a necessidade de realização de novos
estudos sobre o tema.

O levantamento das características clínicas e epidemiológicas da população atingida por um


determinado agravo, a caracterização do seu comportamento ao longo do tempo e o conhecimento
dos grupos mais expostos possibilitam a criação e implantação de estratégias de prevenção que
podem diminuir os riscos e suas consequências. Acredita-se que este estudo conseguiu traçar o perfil
das vítimas estudadas, fornecendo informações importantes sobre os grupos de risco para
Traumatismo cranioencefálico, que podem oferecer subsídios para ações preventivas e de controle,
em relação tanto à morbidade quanto à mortalidade dessas vítimas.

Constatou-se com a pesquisa que a assistência prestada ao paciente vítima de TCE no setor
estudado, condiz com dados abordados pelos autores discutidos, apesar da dificuldade de
infraestrutura, quanto as variáveis analisadas. Conclui-se que este estudo consegue comparar a
assistência realizada no traumatismo crânio encefálico relatado nas literaturas com a assistência
prestada no setor analisado. Partindo disto a possibilidade de um quadro de melhorias para o serviço.

Referências
[1]
BRASIL. Diretrizes de Atenção à Reabilitação da Pessoa com traumatismo Cranioencefálico. Secretaria de Atenção à Saúde.
Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. Brasília – DF. 2013
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TCE. Brasília: 2012. Acesso: Novembro de 2016.
[3]
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Pelotas/Rio Grande do Sul, Brasil: Rev Min Enferm;2013 out/dez; 17(4)
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