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JULIO CESAR SILVEIRA GOMES PINTO

A SAÚDE MENTAL NA ATENÇÃO BÁSICA

MACAÉ 2004

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JULIO CESAR SILVEIRA GOMES PINTO

A SAÚDE MENTAL NA ATENÇÃO BÁSICA

Monografia apresentada à Universidade Estácio de Sá, no Curso de Pós Graduação em Saúde Pública (Macaé).

Aprovada em

Banca Examinadora:

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Dedico esta monografia às Agentes Comunitárias de Saúde

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AGRADECIMENTOS

A todos que, através do diálogo, do trabalho e da amizade, colaboraram para a minha atual compreensão do campo da Saúde Mental. À Equipe do Programa de Saúde Mental de Macaé, em especial às Coordenadoras de Equipes Josemarlen Gonçalves Carvalho Silva, Maria Luiza Vaccari Quaresma, Naly Soares de Almeida e Telma Auxiliadora Alves Ferreira Lobo, e a Paulo de Tarso de Castro Peixoto. À Equipe do Programa de Saúde da Família de Macaé, em especial a sua Coordenadora, Miriam Cristina Ribeiro Benjamin Franco Pacheco, a Cristina Albuquerque Cadinelli, Elizabeth Silveira Ferolla, Raquel Miguel Rodrigues, e ao médico de família Henrique Pazzini. Ao Dr Pedro Reis, Secretário de Saúde de Macaé durante a aproximação entre a Saúde Mental e o Programa de Saúde da Família. A Hugo Fagundes, Coordenador do Programa de Saúde Mental do Município do Rio de Janeiro. À Equipe da Assessoria de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde do Estado do Rio de Janeiro, a suas ex-coordenadoras Paula Cerqueira e Cristina Loyola, a Leila Vianna e Carlos Eduardo Honorato. A Mauricio Schneider. A Sandra Fortes. A Domingos Sávio. Aos Professores do curso, em especial a Ann Mary Machado Tinoco Feitosa Rosas, André Luis Toríbio Dantas, Gloria Michele e Jairo Luís Jacques da Matta. Aos colegas do curso, especialmente à colega e secretária do curso, Christiane Oliveira dos Santos. Um agradecimento especial às Agentes Comunitárias de Saúde, que trazem as formas mais criativas de lidar com os problemas da Saúde Mental. A Taísa Alves Torres, por sua ajuda na formatação do texto. A Norberto Bacelar Correia, pela ajuda na formatação e pelas cópias. À Professora Celita Aguiar Ribeiro, pela revisão. A Analúcia, Luisa e Clarice, pela paciência.

contamos também histórias os poetas. Mesmo o simples pensar e o simples falar quotidianos são já uma história. contamos histórias os dramaturgos.” José Saramago . Contamos histórias os romancistas. contam-nas igualmente aqueles que não são. poetas. e não virão a ser nunca. dramaturgos ou romancistas.5 “Que fazemos. os que escrevemos? Nada mais que contar histórias.

na adoção. com as respectivas origens e diretrizes atuais. Saúde Mental. Foi utilizada a metodologia de pesquisa qualitativa. em particular o dos Profissionais de Saúde Mental e dos Agentes Comunitários de Saúde. no questionamento da exclusão da loucura. a participação da população na organização das ações de saúde. Têm destaque os conceitos de rede. Aspectos de financiamento das ações. A monografia percorreu a história das mudanças de paradigma na abordagem ao sofrimento mental. Foi ressaltado o papel fundamental do Agente Comunitário de Saúde para as práticas da Saúde Mental na Atenção Básica. na possibilidade de romper a dicotomia mente/corpo. com as ações de Saúde Mental na Atenção Básica. as ações das Equipes de Saúde Mental na Atenção Básica. as orientações da Organização Mundial da Saúde. e em especial no Estado do Rio de Janeiro. com exemplos práticos e atuais. trabalhos de autores com prática na área e os conceitos que formam a base do trabalho da Saúde Mental na Atenção Básica.6 RESUMO A presente monografia pesquisou como está acontecendo a entrada das ações de Saúde Mental nos Programas de Atenção Básica (Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e Programa de Saúde da Família (PSF)). Pretende-se que. criação de indicadores e Capacitação em larga escala foram analisados . Foi dada atenção especial para: a tensão entre controle/transformação. Foi evidenciada a necessidade de capacitação em dois planos: para que os profissionais de Saúde Mental conheçam as bases dos Programas de Atenção Básica e sua importância para a Saúde Mental e para que os profissionais da Atenção Básica incorporem conceitos e ações de Saúde Mental. junto ao PSF e ao PACS. na ajuda às Equipes da Atenção Básica para trabalhar seus problemas institucionais e seus sentimentos despertados pelo contato com a realidade das pessoas e comunidades. e também alguns possíveis entraves para a entrada das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. É problematizado o papel dos profissionais de Saúde. para inserir ações de cunho comunitário e participativo nas práticas diárias. de práticas individuais e grupais que dêem resposta à demanda motivada por sofrimento mental. na área. Reforma Psiquiátrica. Para a compreensão do tema central da monografia. Foram examinadas algumas possibilidades de Capacitação. as diretrizes e documentos oficiais. portarias. Palavras chave: Atenção Básica. pelas Equipes na Atenção Básica. A importância das ações de Saúde Mental na Atenção Básica foi evidenciada: na descoberta de grande faixa de desassistência. que aparece na Atenção Básica em número elevado. fora do conhecimento dos dispositivos de Saúde Mental. A experiência do autor da monografia. foi mencionada. com referências bibliográficas nacionais e estrangeiras. relatórios de Conferências Nacionais. com os possíveis modos de articulação e capacitação. foram estudados os conceitos e práticas da Reforma Psiquiátrica e dos Programas de Atenção Básica. saindo da exclusão para tomar o caminho da inclusão. tendo como resultantes as ações em conjunto. território e responsabilidade. . Foram estudadas a mudança do Modelo Assistencial em Saúde Mental e a estratégia de mudança do Modelo Assistencial que o PSF representa. as práticas da Reforma Psiquiátrica sejam potencializadas e campo de capacitação seja aberto para profissionais e população. no Brasil.

Key Words: Primary Care. out of the knowledge of the Mental Health departments. laws. The role of health professionals is problematized. the actions of the Mental Health Teams in Primary Care. leaving the exclusion aside so as to take the road of inclusion. to insert community-related and participation actions in the daily practices. The methodology of qualitative research has been used. in the inquiry of madness exclusion. It is intended though. Special attention was given to: the tension between control/transformation. for the Teams in Primary Care. with the actions of Mental Health in Primary Care. in the adoption. with national and foreign bibliographical references. is taking place. National Conferences reports. territory and responsibility have been highlighted. of individual and group practices that throw light to the demand motivated by mental suffering. and also some possible hindrances for the input of Mental Health actions in Primary Care were examined. together with PSF and PACS. The monography has gone through the history of the paradigm changes in the approach to mental suffering. The training need was evidenced in two scopes: so that the professionals of Mental Health get to know the bases of the Primary Care Programs and their importance to the Mental Health as well as the professionals of the Primary Care incorporate concepts and actions of Mental Health. the concepts and practices of the Psychiatric Reform and Primary Care Programs have been studied. Psychiatric Reform. Network concepts. with the respective origins and current guidelines. For the understanding of the core theme of this monography. with special regards in the State of Rio de Janeiro. with possible articulation modes and training. The monography author's experience. works of authors with practice in the area and the concepts that form the work base of the Mental Health in Primary Care. Mental Health. that the practices of the Psychiatric Reform are boosted together with the opening of training fields for professionals and population. within the possibility to break the mind/body dichotomy. in particular the Mental Health Professionals and Health Community Agents. Aspects of financing of the actions. The importance of the actions of Mental Health in Primary Care was evidenced: in the discovery of a large rate of lack of assistance. Some possibilities of Training. The Community Health Agent's fundamental role has been pointed out for the practices of the Mental Health in the Primary Care. the guidelines and official documents. which appears in Primary Care at high figures. the orientations of the World Health Organization. with practical and upto-date examples. in the field. creation of indicators and Training in wide scale have been analyzed. having group-action as a result. . has been mentioned. the participation of the population in the organization of the health actions. The change of the Assistance Model in Mental Health and the change strategy of Assistance Model that PSF represents have been studied.7 ABSTRACT The present monography reports the research of how the input of Mental Health Action within the Primary Care Programs (Program of Health Community Agents (PACS in Brazil)) and Family Health Program (PSF in Brazil)). within the help to Primary Care Teams to work out their institutional problems and their feelings wakened up by the contact with the people and communities’ reality.

8 LISTA DE SIGLAS ABP: Associação Brasileira de Psiquiatria ACS: Agente Comunitário de Saúde AIH: Autorização de Internação Hospitalar CAPS: Centro de Atenção Psicossocial CONASP: Conselho Consultivo da Administração de Saúde Previdenciária ESF: Equipe de Saúde da Família MS: Ministério da Saúde MTSM: Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental NAPS: Núcleo de Atenção Psicossocial OMS: Organização Mundial da Saúde OPAS: Organização Pan-americana da Saúde PACS: Programa de Agentes Comunitários de Saúde PSF: Programa de Saúde da Família SES-RJ: Secretaria de Estado de Saúde do Estado do Rio de Janeiro SIAB: Sistema de Informação da Atenção Básica SUS: Sistema Único de Saúde .

....92 5...1................................................................. 1 ................77 Cap............................................16 3..Os Programas de Atenção Básica no Brasil ..........A Reforma Psiquiátrica ...............1 5.......................1 Os antecedentes históricos ........92 Precursores brasileiros ............33 3................204 .......................................................................................................... 6 .............3 5...A Saúde Mental na Atenção Básica ... 5 ........................................2 5....4 Precursores estrangeiros e críticas ...............................15 3.........................2 Antecedentes históricos brasileiros ...............................................................................................13 Cap...........109 Trabalhos atuais ................Considerações Finais ......................................................137 Cap..........9 SUMÁRIO Cap......15 3....................... 4 .........Metodologia .......118 O ano de 2001: mudanças e diretrizes ...Considerações Iniciais ...........1............................................................................................................ 3 .......2 A Reforma Psiquiátrica Brasileira...... 2 ..............................................................................10 Cap....188 Referências Bibliográficas ........................................................................1 Antecedentes históricos estrangeiros ......................................36 Cap.......

tive a percepção da premência das mudanças. que serão explicitados ao longo do texto. por momentos. Para os profissionais de Saúde em geral e para os profissionais de Saúde Mental. vamos estudar as duas vertentes que estão se encontrando nas ações da Saúde Mental na Atenção Básica: a Reforma Psiquiátrica. com especial atenção para o Estado do Rio de Janeiro. como está acontecendo a entrada das ações de Saúde Mental na Atenção Básica.10 CAPÍTULO 1 CONSIDERAÇÕES INICIAIS A presente monografia tem como objetivo pesquisar. que serão estudados. através de levantamento bibliográfico. A compreensão deverá evoluir para um enfoque global. tradicional. promoção das condições de vida e de saúde e maior organização das comunidades. universitário. A escolha do tema desta monografia está ligada à minha experiência na Saúde Mental. naquela época. A inserção de ações de Saúde Mental na Atenção Básica traz consigo potencialidades. investigaremos a seqüência de textos e acontecimentos que estão levando às comunidades as ações de Saúde Mental. Por artes do acaso e da necessidade. do isolamento do Hospital e . no Brasil. em relação a esse fenômeno humano. com incidência em profissionais de Saúde Mental. Considerando que tanto a Reforma Psiquiátrica como os Programas de Saúde da Família e de Agentes Comunitários de Saúde têm diversos pontos em comum. uma equipe da qual fiz parte saiu. Logo após. críticas e problemas. Atenção especial deve ser dada para o aspecto de campo de capacitação e pesquisa que o trabalho de Saúde Mental na Atenção Básica abre. de um lado. podemos supor que a articulação desses dois modos de compreender o campo da Saúde pode ter como resultados avanços na assistência. com inclusão também dos aspectos sociais na determinação dos problemas de saúde e nas suas soluções. e os Programas de Saúde da Família e de Agentes Comunitários de Saúde. Na ocasião. Comecei a prática na área num Hospital Psiquiátrico Público. o resultado da entrada da Saúde Mental na Atenção Básica poderá ser a quebra da dicotomia mente/corpo na abordagem do ser humano. A inclusão dos campos psíquico e social no trabalho diário da Atenção à Saúde deverá fazer parte do questionamento da exclusão da loucura e da possível mudança de atitude da sociedade. Para atingir o que pretendemos e situar corretamente a questão. redução dos custos para o Sistema de Saúde. de outro. profissionais de Saúde em geral e comunidade.

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realizou uma Visita Domiciliar. O efeito da visão da realidade concreta da vida da pessoa assistida provocou em mim a compreensão de que apenas incidindo na família e na comunidade, poderíamos ter uma prática efetivamente transformadora. Anos depois pude começar a agir além dos muros dos Hospícios e das salas dos ambulatórios, entrando na vida concreta das famílias e comunidades. Portanto, esta monografia traz, a partir de certo ponto, relatos e trabalhos relativos à minha atuação na área, que dura até hoje. Para a história da Reforma Psiquiátrica, partiremos dos autores estrangeiros que a influenciaram com textos e ações, sempre com atenção ao que deixaram de pistas para as práticas com as comunidades. Os movimentos questionadores da internação psiquiátrica enquanto instrumento de exclusão e encobrimento da realidade social e psíquica, ou mesmo como uma forma pouco cientifica de tratamento, serão revisados e comentados. Foi dada especial atenção aos textos de Michel Foucault e aos textos e práticas da Antipsiquiatria inglesa e da Psiquiatria Democrática italiana. Foucault nos fornece as bases para a compreensão da crise dos saberes articulados em estratégias de poder. Ronald Laing e David Cooper, na Inglaterra, radicalizaram a aproximação com a loucura, deixando elementos para importantes e atuais reflexões. A influência de Franco Basaglia e de outros italianos, decisiva para a Reforma Psiquiátrica Brasileira, será registrada tanto com observações a respeito de seus trabalhos na Itália, como nas intervenções no Brasil. Em Gilles Deleuze e Felix Guattari vamos encontrar o estímulo para a procura de ações que, ao questionar as centralizações, percorram caminhos potencializadores da singularidade e da coletividade. Pretendi observar algo a respeito da gênese do pensamento crítico que, no Brasil, após o aparecimento de um movimento contestador, organizado por profissionais de Saúde Mental, chegou à Reforma Psiquiátrica. Vamos, então, lembrar Ulysses Pernambucano, Luiz da Rocha Cerqueira e Nise da Silveira, com suas propostas de uma psiquiatria sem segregação. A crise do Modelo Assistencial baseado no complexo hospitalar, correspondente à crise de financiamento do Setor Saúde, ao lado do processo de abertura política, favoreceu a entrada do movimento de renovação em Saúde Mental no aparelho do Estado. Essa etapa será observada, no texto, com detalhes e com citação de autores que a pesquisaram. Serão abordados e detalhados alguns conceitos que norteiam as ações da Reforma Psiquiátrica no Brasil, como, por exemplo, desinstitucionalização, rede, território, responsabilidade.

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A progressiva adoção, pelos órgãos Federais, Estaduais e Municipais, das propostas e práticas da Reforma Psiquiátrica será acompanhada, com destaque para as resoluções de Encontros e Conferências e para acontecimentos que determinaram avanços. Em todo relato, o foco estará voltado para a evolução das propostas de inserção das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. Para um estudo a respeito de como surgiu a estratégia dos Programas de Saúde da Família e de Agentes Comunitários de Saúde, serão pesquisados documentos internacionais que orientam a mudança do Modelo Assistencial, textos de autores nacionais e documentos oficiais norteadores do processo que será descrito. Para chegar a compreender o que hoje está sendo praticado como Saúde Mental na Atenção Básica, também recorreremos às origens internacionais, passaremos pelas propostas e críticas iniciais ao trabalho nas comunidades, chegando aos dias de hoje com citação de conclusões de Fóruns e Conferências, documentos oficiais, trabalhos atuais e resumo da minha experiência. Será dada atenção aos resultados que já têm sido relatados em termos de assistência e de mudanças na atitude das Equipes de Saúde Mental e dos Programas da Atenção Básica, em relação ao trabalho com Saúde Mental nas comunidades. Será dado particular destaque para o repertório de ações de Saúde Mental que estão sendo praticadas na Atenção Básica, em diversos trabalhos em andamento no Brasil, com o interesse centrado nas atribuições das Equipes de Saúde Mental, do Programa de Saúde da Família e de Agentes Comunitários de Saúde e suas necessidades de Capacitação. O conflito entre controle e transformação está presente nas ações de Saúde Mental na comunidade e é objeto de interesse na presente monografia. É mantida a postura de análise crítica em relação aos textos e documentos pesquisados, com atenção especial para os aspectos controladores das intervenções estatais em Saúde. Por outro lado, a potencialidade mobilizadora das ações de Saúde, em particular as da Saúde Mental, terá tratamento constante no texto. Serão registradas as dificuldades que podem estar causando obstáculo ao mais rápido desenvolvimento da entrada das ações de Saúde Mental na Atenção Básica, e avaliadas as ações que a estimulam.

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CAPÍTULO 2

METODOLOGIA

A Metodologia utilizada para a realização desta monografia foi a da “Pesquisa Qualitativa”. (Cf. MINAYO, 2003). Segundo esta autora, o campo da Saúde está inserido em outro maior, o das Ciências Sociais. (Cf. MINAYO, 1992). Justificando a sua afirmação, a autora citada diz que “[...] a saúde não institui nem uma disciplina nem um campo separado das outras instâncias da realidade social” (MINAYO, 1992, p. 13). Como uma das conseqüências, a metodologia para a pesquisa em Saúde estará “[...] submetida às mesmas vicissitudes, avanços, recuos, interrogações e perspectivas da totalidade sociológica da qual faz parte” (MINAYO, 1992, p. 13). Minayo (Cf. MINAYO, 1992) interroga-se e decide por não fugir ao desafio, se é possível “[...] tratarmos de uma realidade da qual nós próprios, enquanto seres humanos, somos agentes” (MINAYO, 2003, p. 11). Tomando o princípio de que “O objeto das Ciências Sociais é histórico” (MINAYO, 2003, p. 13, grifo da autora), a autora afirma que “O nível de consciência histórica das Ciências Sociais está referenciado ao nível de consciência histórica social” (MINAYO, 2003, p. 14). Sendo o pesquisador parte integrante do campo pesquisado, não há a intenção de fazer ciência neutra. A autora diz mesmo que “Na investigação social, a relação entre o pesquisador e seu campo de estudo se estabelecem definitivamente” (MINAYO, 2003, p. 14). A autora cita Lévi-Strauss para ilustrar a sua argumentação: “Numa ciência, onde o observador é da mesma natureza que o objeto, o observador, ele mesmo, é uma parte de sua observação” (MINAYO, 2003, p. 14). A Pesquisa Qualitativa, segundo Minayo,

[...] se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis” (MINAYO, 2003, p. 21).

Para a autora que vem sendo citada, não há oposição entre dados quantitativos e qualitativos, mas complementariedade. (Cf. MINAYO, 2003). Enquanto as pesquisas que

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[...] trabalham com estatísticas apreendem dos fenômenos apenas a região ‘visível, ecológica, morfológica e concreta’, a abordagem qualitativa aprofunda-se no mundo dos significados das ações e relações humanas, um lado não perceptível e não captável em equações, médias e estatísticas (MINAYO, 2003, p. 22).

Para a realização da presente monografia, foram utilizados 42 livros; 4 textos “mimeografados”; 3 trabalhos publicados em anais de Simpósios, Encontros, Congressos; 5 Relatórios de Conferências, Encontros, Simpósios; 21 documentos oficiais do Ministério da Saúde; 32 trabalhos publicados em livros; 30 textos obtidos na Internet; um trabalho incluído em publicação do Ministério da Saúde; 3 trabalhos publicados em Revistas Científicas; 2 teses de doutorado; uma dissertação de mestrado; uma publicação de programa institucional de saúde; 2 documentos oficiais de instâncias oficiais de Saúde do Estado do Rio de Janeiro; um texto cedido diretamente pelo autor; 2 palestras e um trabalho apresentado em congresso.

chegamos à organização dos Hospitais Psiquiátricos. Com isso afirmava. O Estado. 1995.] meras reformas do modelo psiquiátrico [. radical ameaça à Razão..]” (Laing e Cooper. com a intenção de tornar terapêutico esse ambiente. Das sucessivas crises desse sistema surgiram. segundo o texto citado. ao contrário das tentativas anteriores de “[. no Brasil. sem a participação efetiva de outros saberes e sem a crítica política que pudesse observar as implicações sociais dessas práticas. ainda. Inglaterra) e a “[.15 CAPÍTULO 3 A REFORMA PSIQUIÁTRICA NO BRASIL 3. Itália).] a antipsiquiatria [. Amarante (1995. que se deu. também isolou aqueles que a ciência ou o senso comum assim o determinava. AMARANTE. Durante séculos.]”. segundo os autores citados por Amarante (Cf. as tentativas de mudança de um aparelho destruidor que se propunha terapêutico.]” (Franco Basaglia.. numa tentativa de modernização da psiquiatria... sem questionar seus princípios segregadores. passando pela depositação comum com delinqüentes e rejeitados de todo tipo.. desde o Império. 21). FOUCAULT.. “[. Importante para nós é a critica da entrada inicial da saúde mental na comunidade. foi a exclusão. Trata-se de matéria da maior importância determinar os parâmetros dessa ruptura e suas conseqüências práticas no . quando a psiquiatria tentou a renovação. são as Comunidades Terapêuticas. citando Joel Birman e Jurandir Freire Costa. Prevenir e promover a saúde mental. p... mas ainda mantendo-se como preponderante. na Inglaterra e Estados Unidos e a Psicoterapia Institucional Francesa. conforme acima. a forma de lidar com a loucura. Do barco que vagava pelo Mediterrâneo lotado de seres humanos indesejáveis (Cf.1 Os antecedentes históricos.. Segundo Amarante (1995. foram as intenções da Psiquiatria de Setor na Franca e da Psiquiatria Comunitária e Preventiva nos EUA. 22). existiram dois momentos importantes. no século XX. chama a atenção para o fato de que. p. O segundo momento foi quando a psiquiatria pretendeu ampliar seus domínios. a internação psiquiátrica como terapêutica e o Hospital Psiquiátrico como o lugar de práticas curativas.. saindo do Hospício para a comunidade. dentro dos marcos da adaptação social. caminham no sentido de uma ruptura.. 1978). 22).] psiquiatria na tradição basagliana [. p. O primeiro tinha a pretensão de melhorar o funcionamento organizacional do Hospício.. Os exemplos dessas tentativas.

com sua aguda observação a respeito dos Poderes e suas artimanhas. técnicos e internados) participando de uma estrutura coletiva de desvendamento do mal que as relações institucionais. ao mesmo tempo.1 Antecedentes históricos estrangeiros. Editora Vozes. D. Nesse resumo estão tanto aqueles movimentos que. isto é. mantinha a internação psiquiátrica como um instrumento válido. devido às condições que encontrou no hospício em meio à guerra e. O trabalho de Tosquelles revestiu-se de tons dramáticos. para designar o trabalho iniciado por François Tosquelles. segundo o texto de Paulo Amarante. Dessa forma. R. Veremos a seguir. Por outro lado. Levaram à prática seus questionamentos e deixaram importantes e emocionados relatos sobre o que fizeram. Também faremos referência a Foucault. como aqueles que foram mais longe (Antipsiquiatrias e a Psiquiatria Democrática Italiana de Franco Basaglia e seus colegas). : “Psiquiatria y Antipsiquiatria”. resistir ao nazismo. A Psicoterapia Institucional supunha que um Hospital Psiquiátrico “tratado”. com todos os seus habitantes (direção. o movimento que se formou por inspiração da Psicoterapia Institucional aponta para a necessidade da constante transformação institucional na área da Saúde Mental como condição básica para o funcionamento de dispositivos que estejam a serviço das pessoas atendidas. Segundo Amarante (1995. 3. avaliar e praticar as ações de saúde mental nas comunidades. 1974 e Laing. p. tentaram mudar a realidade da assistência psiquiátrica sem que o principal fosse tocado (Comunidades Terapêuticas e Psicoterapia Institucional). No texto de apresentação do livro “Los Crímenes de la Paz” (BASAGLIA & BASAGLIA.: “A Política da Família”. estamos querendo observar. então. interpessoais e intergrupais podem causar. funcionários. (Cf. Buenos Aires. alguma das mais importantes raízes históricas. 1973). Franco e Franca Basaglia resumem muito claramente a diferença e a .16 momento em que. D. Cooper. criticandoos como instrumentos de alienação e dominação. hoje. 1977 b) . São Paulo e “O Eu Dividido”. de autores estrangeiros. que fundamentaram a Reforma Psiquiátrica Brasileira. visto que tinha que salvar pacientes da morte. durante a II Grande Guerra Mundial. poderia se tornar um ambiente terapêutico. Martins Fontes.1. no Hospital Saint-Albain. 32) o termo “psicoterapia institucional” foi uma denominação dada posteriormente. Laing e Cooper pretenderam questionar o saber psiquiátrico e psicológico. Editorial Paidos. Petrópolis.

este defende sua posição de não mais trabalhar dentro de instituições estatais. sem que houvesse ali uma relação tradicional . em Londres. acolha. por Laing. com todo o desafio humano que representa. “trate” e a questione como produção psíquica e também traga toda a complexidade social e política envolvida. no livro “Los Crímenes de la Paz”. então. 1977 b. si bien manteniendo presentes los otros planos del discurso. 68). a investigue. com mobilização dos diversos atores da cena. tomou. Por isso. O tempo passou e já quase trinta anos nos separam do texto citado. base organizacional que mantinha casas onde estudantes e profissionais de saúde mental e de outras áreas moravam com pessoas diagnosticadas de esquizofrenia. sem conseguir. p. atrelado que ficaria ao movimento político e suas contingências. que é o fenômeno humano de base. Laing e seus amigos fundaram. é a burocratização dos trabalhos. O texto citado é exemplar.17 pretendida complementariedade dos trabalhos que desenvolviam. Podemos. não só a prática basagliana. após dez anos de tentativas de mudanças institucionais. Já é hora. A tendência. poderá ser deixada de lado a pesquisa e a clínica da loucura. Caso o privilégio recaia sobre o subjetivo. así como nosotros tendemos a privilegiar. nesse caso. na medida em que define com precisão. Abordagem que ao mesmo tempo se aproxime da loucura. a queda na exaltação da loucura e sua romantização são um caminho no qual a alienação passa a ser compartilhada entre “terapeutas” e “pacientes”. de uma prática que não estabeleça privilégios na abordagem à loucura. aqui. percebeu que levaria a vida toda tentando. mas marcando bem qual a atenção principal que tinham os dois grupos. a Philadelphia Association. iludindo o social e o político. portanto. Um dos desafios colocados para nós é abordar com uma prática integradora os chamados “transtornos mentais graves”. Partiu. fazer uma leitura do texto que nos permite ver uma advertência quanto a tomar como “principal” um dos lados da questão: o social/político ou o subjetivo. para seus projetos de convivência direta com os ditos “pacientes”. os autores apontam para uma necessária não exclusão dos dois planos em jogo. na época. também. Tomando como principal o social/político e sua transformação. No diálogo entre Basaglia e Laing. Dizem eles que La práctica y la teoría de Laing tienden a enfocar y a privilegiar – si bien manteniendo presentes los otros planos del discurso – el momento de la trasformación subjetiva. Mesmo advertido por Basaglia de que não existe um “fora do sistema”. mas também o caminho que o ramo das chamadas antipsiquiatrias (Laing rejeitava o termo) representada. Laing relata que. em relação ao que fazia Ronald Laing. el de la trasformación social (BASAGLIA & BASAGLIA. denominação atual para a loucura.

nos Lares Abrigados e até mesmo nos ambulatórios e atendimentos particulares. p. na Atenção Básica. deu pistas para a teoria e prática do Acompanhante Terapêutico. Como podemos ver. 1993. hoje. nas famílias de esquizofrênicos. Marx e Sartre). 1974). como o “[. Essa estratégia visava a fugir do ataque das leis. organizando em conjunto novas formas de viver. (FOUCAULT. Dizem os autores que Laing replantea [. do qual apresento um resumo. 1993.. um padrão constante de “estranhamento” nas relações.. de tutela de quien vive una experiencia “diferente”. enquanto modo de lidar com os Poderes do campo das práticas da psiquiatria. Encontramos essa defesa de um “direito de asilo” também nos italianos. nas Oficinas Terapêuticas. enquanto produtoras de alienação.. se observarmos que sua prática direta com pessoas diagnosticadas..77). Mais ainda veremos essa atualidade. No texto que se segue ao debate com Laing. Cooper — Explicitou a semelhança de origem e de métodos entre a violência da família. As pessoas diagnosticadas faziam seus tratamentos com outros profissionais que não os que moravam na casa. que seriam manipuladas por aqueles a quem a experiência certamente incomodou. p. descobriu. . a qual Laing tentou.] estabelecimento de um local privilegiado onde eles devam ser suspensos ou rechaçados no caso de se reconstituírem” (FOUCAULT. Un lugar donde el diferente pueda expresarse sin limitaciones y donde se aprenda a convivir con él (BASAGLIA & BASAGLIA. COOPER. MARQUES PINTO). esses são. Um dos livros de maior importância de Cooper é “Psiquiatria e Antipsiquiatria” (Cf. de protección. Franco e Franca Basaglia apontam um detalhe de importância para as nossas atuais discussões.. o trabalho de David Cooper se propôs. no interior de uma instituição de tipo clássico”. ajudar financeiramente os doentes mentais e promover a formação daqueles que se interessavam pela nova concepção de doença mental” (Cf. partes importantes dos objetivos dos nossos novos dispositivos de saúde mental. 127). O objetivo desse instrumento foi “investigar as causas da doença mental. De acordo com Foucault.. Foucault (1993) define esta forma de lidar com os Poderes. p. Nessa obra. bem como sua prevenção. potente instrumento de atuação em Saúde Mental que está presente nos Centros de Atenção Psicossocial. que leva à eclosão de psicose em um dos seus membros. a “[.18 terapeuta/paciente.] balizá-los um por um e destruí-los progressivamente. 127). 1977 b.] la formación de un ‘asilo’que responda – fuera de cualquier burocracia organizativa e institucional – a la necesidad de reparación. da escola e da psiquiatria. mostrando a atualidade do trabalho de Laing. — Utilizando o conceito de Alienação (Hegel.

ao que chamou de psico-tecnologia que. naquele momento. doença. das fantasias e preconceitos a respeito da loucura. a “Vila 21”. — Preferiu atividades que desmistificassem os papéis envolvidos na atribuição de esquizofrenia a uma pessoa. na década de 60. propôs a criação de unidades pequenas. a mídia. mas como um ‘ conjunto de pautas de interação pessoal’. enfermeiro. 24). fora do contexto institucional psiquiátrico. tratar. consiste num problema mais amplo que o da repressão das instituições psiquiátricas. Dentro dessa psicotecnologia Cooper enquadrava. Cooper também partiu. — Treinou pessoas para a função que denominou de terapeutas sociais. — Atacou as bases pouco críticas das Comunidades Terapêuticas. — Iniciou a experiência dos lares protegidos. (Laing também compreendia assim). — Postulou que a esquizofrenia seria um dos aspectos da nossa necessidade de fragmentação e posterior unificação. de uma base filosófica Humanista – Existencial para mover suas críticas à psiquiatria. como Laing. terapeuta ocupacional. trata-se só de que você está doente”. p. — Criticou a tendência. onde as relações interpessoais eram analisadas e não repetiam os modos alienados da família e da sociedade. a psicanálise. tenta encontrar uma causa comum para a sua suposta “doença mental”. são os hoje chamados Acompanhantes Terapêuticos (PINTO. não como uma entidade nosológica. Estendeu a crítica à psiquiatria. 1998. têm sofrimentos diversos e singulares. durante a internação. como forma de atender psicóticos. no seu modo de ver. Esta mesma crítica deve-se fazer hoje. a psicologia. quando estes freqüentavam grupos.19 — Observou a melhora no padrão de relacionamento de esquizofrênicos. de colocar enfermarias psiquiátricas em Hospitais Gerais. a favor do “status quo”. Sua função é manter a ordem . dizendo que este fato incrementaria a noção de doença mental. — Estabeleceu que o ponto central da organização do trabalho alternativo de atendimento a psicóticos deve ser a elaboração. como se disséssemos às pessoas: “Você não pode estar realmente sentindo isso. em relação às buscas por um gen que seria a “causa” da esquizofrenia ou de outros distúrbios. desvinculadas da realidade dos pacientes. o militarismo. Entre nós. tendo o Marxismo como fundamento. A visão crítica e política de Cooper tornou-se acentuada. as prisões. A prática inicial de Cooper foi dentro de um hospital psiquiátrico. — Após explorar os “limites de mudança possível dentro do hospital psiquiátrico”. as terapias alternativas. igualando as pessoas que. além da psiquiatria. a grupos terapêuticos interpretativos. pela equipe. — Criticou radicalmente a psiquiatria clássica organicista enquanto teoria que. médico. pelo contrário. os tribunais. — Abordou a esquizofrenia. Os marcos institucionais da época suportaram durante pouco tempo a contestação resultante da tomada da palavra pelos pacientes. inclusive pacientes. onde estabeleceu uma pequena comunidade. e a experiência foi interrompida. levando a um progressivo questionamento de todos os papéis estereotipados na instituição: paciente. — Criticou as Terapias Ocupacionais alienantes.

chamou a atenção para a necessidade da psiquiatria de setor.] produzir na comunidade um contexto em que as pessoas pudessem viver situações críticas das suas vidas sem que o processo de mudança fosse impedido pela habitual invalidação psiquiátrica [. No capítulo “A Invenção da não-psiquiatria”. EUA. fez uma reunião no Brasil. 128). Bélgica. como parte de uma subversão mais total do espírito burguês” (COOPER. como “comunidades fora do sistema hospitalar”. com o objetivo de “[. já que ele e seus colegas estavam “isolados nos contextos nacionais de trabalho” (COOPER. mistificando de acordo com local e necessidade. Relata o aparecimento da “Rede Internacional Alternativas para a Psiquiatria”.. distraindo.. O relato de Cooper. 1979. 127). 124). sujeito que foi a muitas distorções.20 estabelecida iludindo. Fala de trabalhos na França. que conduzem à recuperação-ganho social da loucura como parte da cultura do povo.. semelhante ao que acima está citado de Laing. no momento em que escreveu o texto que está sendo citado por último. em Belo Horizonte. sentiu que havia um limite para a sua atuação transformadora dentro das instituições. Portugal. nos CAPS. Lares Abrigados. em 1982.. p. mas apontando para a necessidade de uma revolução social. é acompanhar a seqüência de acontecimentos que Cooper descreve na sua trajetória. de movimentos e grupamentos em luta contra a psiquiatria oficial e em busca de alternativas. Espanha. Cooper define “não-psiquiatria” como o desenvolvimento de ações “contra e para além do poder médico. além de trabalhar com a transformação de hospitais psiquiátricos. Cooper fez sua definição política no sentido do marxismo. Itália. e partiu para “dentro da comunidade”. Suíça. 1979). define “antipsiquiatria” como “[. prendendo. é importante para que tenhamos a dimensão do que estava . então nascente. do Livro “A Linguagem da Loucura”.. publicado na Inglaterra em 1978 e acrescido de material de um artigo que saiu na Itália em 1975. Cooper. mais do que a política. até mesmo de forma bastante dogmática. (Cf. além da própria Inglaterra. e que. Cooper faz um importante apanhado do que havia. 141). Alemanha Ocidental. Interessante para nós. na época. que depois. além dos ensinamentos históricos. COOPER. Na fase institucional. 1979. 1979. 1979.. Oficinas Terapêuticas e comunidades.. entre nós. hoje.]” (COOPER.] havia consciência coletiva da necessidade de envolvimento político”. p. Cooper diz que foi infeliz ao criar o termo “antipsiquiatria”. 1978.. não “[.] uma ação sistemática contra a repressão psiquiátrica dentro da estrutura estatal da psiquiatria. Cita experiências que se assemelham ao que hoje tem sido tentado. como campo de mudanças no qual a loucura poderia ser questionada e ter seu destino mudado de alienação para libertação. p. Deste modo. e cujas vítimas são predominantemente da classe operária” (COOPER. p. Porém.

1979. no sentido de “sensibilizar a comunidade para a possibilidade de usar os seus próprios recursos naturais humanos. procurando resumir o que estava pensando na época. em comparação ao que acontecia no Brasil na época. 1979. Depois surge outro problema e forma-se outra rede. 1979. p. com o lema “crear condiciones para permitir aflorar las necessidades reales de los usuarios del servicio [. deixamos a seguinte citação: A loucura é uma propriedade social comum que nos foi roubada. Exemplo dessa posição é o seguinte trecho: O problema pessoal é visto no contexto das contradições políticas que ele encarna. foi a marca histórica do trabalho de Basaglia. Concluindo esse esboço da obra de Cooper. e depois noutros bairros da cidade (COOPER. modelo Francês. A ênfase em todos os trabalhos citados por Cooper é o da criação de redes sociais que escapem à captura pelo sistema tradicional de transcrição de acontecimentos de determinação política em fatos psicopatológicos. 12). e dá-se uma sobreposição de redes que são mantidas como focos autogestores de educação política nesse bairro. loucos e profissionais. p. por maior que sejam as eternas boas intenções. 149). 140). p.21 ocorrendo no mundo. mas não sem a importante advertência de que o Setor poderia criar os “asilos familiares por meio da injeção neuroléptica de ação prolongada” (COOPER. Cooper. 1979. como a realidade dos sonhos e das nossas mortes: temos que recuperar politicamente estas coisas. 149). nos seus mínimos detalhes. Aqui... a fim de procederem a uma autogestão desprofissionalizada não-médica da sua loucura e ‘problema afetivos’” (COOPER. com a clareza que lhe era própria. a atualidade do que dizia Cooper. mais uma vez. ao lado de explicitar em nome de que estavam organizados: da repressão às classes dominadas. Cooper falava do trabalho no Setor. p. de modo que se tornem criatividade e espontaneidade numa sociedade transformada (COOPER. todo e qualquer dispositivo de Saúde Mental.]” (BASAGLIA & BASAGLIA 1977 b). Note-se. sem a crítica política constante. diz que um dos trabalhos viáveis naquele momento seria uma ação com os “dissidentes”. demonstrar o absurdo dos hospitais psiquiátricos. Franco Basaglia tem uma participação fundamental na história da Reforma Psiquiátrica Brasileira. A colocação em debate do ambiente hospitalar. cairá na lógica da disciplina ou do controle. . está apontado o rumo e os perigos dos trabalhos com a comunidade. Com suas visitas ao Brasil pôde. Ao mesmo tempo podemos ler nas suas palavras algo muito semelhante a Basaglia. isto é.

F. até então. sem o qual o risco permanente de estarmos a serviço das forças da alienação não pode ser criticado. México.: "A Instituição Negada . Pretendeu revelar que o campo da saúde mental é eminentemente político. 1977 a. 9). Basaglia colocou os direitos da cidadania como pedra fundamental para as práticas em Saúde Mental. No prólogo do livro “Qué es la Psiquiatria?” (Cf. Aqui.: “Qué es la Psiquiatria?”. Diz ele que La ocupación del Hospital Psiquiátrico Provincial por parte de los estudiantes de la Facultad de Medicina. 1977). Basaglia. 10). tornar explícita a dimensão política envolvida em cada ação e instituição de saúde. não deixa de estar presente e produzindo efeitos.1982. 1985. Mario Tommasini mostra a direção política do trabalho italiano em Saúde Mental. é ainda o autor do prólogo que ressalta que las unidades locales de los servicios sanitarios y sociales tienen que ser nuevos órganos de gestión democrática y de lucha. Recortando um aspecto do homem . Apontando o caminho que a mudança no modo de organizar os sistemas de saúde deveriam tomar. Basaglia. Isto é. Esse desvelamento tornou-se fator básico para os avanços. BASAGLIA. Editorial Labor. já que. & Basaglia. No livro citado.1977. Mario Tommasini adianta o percurso que tomou Basaglia no sentido de politizar a discussão em Saúde em geral e em Saúde Mental em particular. São Paulo. Basaglia. Madrid. Basaglia. mesmo quando esse aspecto não está claro e sendo discutido.Relato de um hospital Psiquiátrico". Ed. 1977 a). só havia proposto soluções negativas para o problema do sofrimento mental. de los enfermeros y de los trabajadores en febrero de 1969 tenía el objetivo de denunciar la realidad del manicomio. 1977 a. F. que a psiquiatria sempre esteve a serviço dos poderes dominantes. (org. Brasil Debates. F. p. F. (Cf. Edições Graal. para convertirse también en instrumentos de liberación del hombre oprimido (BASAGLIA. F. en Parma como en todo nuestro país.22 Franco Basaglia mostrou. de afirmar la necesidad de que las instituciones democráticas se responsabilizaran de una transformación radical en las estructuras asistenciales y de incidir en la conciencia y en la cultura de la población de nuestra provincia (BASAGLIA. Basaglia mostra que a psiquiatra. p. com sua articulação entre as práticas de Saúde Mental e a política. Siglo Veintiuno Editores. ao descrever o início das contestações do asilo psiquiátrico.): “Los Crímenes de la Paz”. o Otimismo da Prática”.: “A Psiquiatria Alternativa: Contra o Pessimismo da Razão. Rio de Janeiro. O.

reduzindo toda a complexidade da vida a dados psicopatológicos. mas sim mudanças nas práticas que levam. Basaglia adverte para um perigo: o de cairmos num humanitarismo que também estaria impedindo as transformações. atingindo a discussão da forma como se organiza toda a sociedade. afastados da vida concreta das pessoas. enquanto na Itália havia muita dificuldade. Transportando para os nossos dias. p. p. 21). diz Basaglia: Por el contrario. o sofrimento. 1977 a. se siente la exigencia de una psiquiatría que quiera constantemente verificar su validez en la realidad y que encuentre en la realidad los elementos de discusión para discutirse a si misma (BASAGLIA. a lançar a discussão e as ações na direção da vida concreta das pessoas envolvidas. rechazando tanto la estéril “literatura” psiquiátrica como la estéril relación puramente humanitaria. que desenvolveu um esboço de comunidade terapêutica. Ao propor as mudanças. na Inglaterra. que a sociedade seja provocada a se colocar a mesma questão: o que é o sofrimento mental? Quem são as pessoas que sofrem? Quais as condições sociais que favorecem a saúde mental e as que a prejudicam? Curioso e instrutivo é acompanhar a evolução do trabalho de Basaglia. ao assinalar . Basaglia diz que sólo teniendo presente la extrema ambigüedad de la situación que estamos viviendo. E. a psiquiatria tornou-se parte do aparelho de exclusão. a miséria. Adverte. Nos seus escritos iniciais. (Cf. Pretendendo chamar a atenção para o fato de que o problema da Saúde Mental é muito mais amplo do que a mera criação de novos “serviços”. grifo do autor). 1977 a. BASAGLIA. Basaglia. 1977 a. podremos evitar la edificación de una nueva ideología: la del hospital abierto. 27) Cita. como em “La liberdad comunitaria como alternativa a la regresión institucional” (em “Qui es la psiquiatria”). também. a psiquiatria se incumbia de escamotear as contradições sociais que produzem as injustiças. cada vez mais. também. propuestas como solución al problema del enfermo mental. como exemplo de que a liberdade como base do tratamento não é nenhuma novidade. em 1838. Ao ter essa função. o trabalho de Conolly. o que Basaglia diz é que não há “soluções” definitivas em Saúde Mental. que o trabalho deve ter os dois aspectos: o científico e o político. de las comunidades terapéuticas. Chamando de “literatura” a tendência da psiquiatria de apenas descrever os fenômenos psicopatológicos.23 que sofre. lamentava que na França e na Inglaterra já existiam experiências consolidadas de transformação do tratamento psiquiátrico. p 20. (BASAGLIA.

segundo ele.24 que Maxwell Jones descobriu a Comunidade Terapêutica em 1952. Basaglia dizia que as contradições são uma base definitiva do trabalho. em todas as suas formas de apresentação e entre todos os envolvidos: pacientes. demais funcionários. de las exigencias del enfermo y desde ellas intentar adaptar a su alrededor el espacio vital que necesita para extender y actuar aquello que es la cuestión primera de la comunidade terapéutica: la potencia terapéutica que cada uno de los miembros de la comunidad emana hacia el otro (BASAGLIA. 1977 a. p 29). o que se mantém até os dias de hoje. é o eixo ao redor do qual gira a vida institucional. atribuídos pela sociedade e mantidos pela psiquiatria. A organização de uma estrutura de reuniões comunitárias. Passaram. diz que a base do trabalho de transformação institucional é a forma de trabalhar que tem como princípio o de “uma comunidad organizada de forma que pueda permitir el movimiento de dinámicas interpersonales entre los grupos que la constituyen y que presenta las características de cualquiera otra comunidad de hombres libres” (BASAGLIA. Note-se que a crítica de Basaglia ao movimento da Comunidade Terapêutica é ao seu apoliticismo e à sua tentativa de dar como resolvida a questão da psiquiatria com essa prática. p. as contradições são reveladas e a possibilidade de mudança se . Contrariando um ideal romântico que pode surgir da idéia de Comunidade Terapêutica. em que todos os que freqüentam a instituição devem participar. mesmo. a serem referências para o trabalho na área e campo importante de capacitação no início das ações da Reforma Psiquiátrica. Com entrada em atividade da estrutura de decisão e funcionamento tipo Comunidade Terapêutica. 29). Para Basaglia a Comunidade Terapêutica é instrumento e não fim. por lo tanto. Aos enfermeiros. Como fundamento assinala: Tiene que partir. 1977 a. funcionários de nível superior. é requerida mais claramente a função de vigilância. Também instrutivo para a situação atual que vivemos. Basaglia chama a atenção para a reunião comunitária diária que. as instituições que adotaram a forma de Comunidade Terapêutica. cria uma referência psicológica protetora ao redor da qual os internados podem sair de seus papéis rígidos. vemos Basaglia mostrar muito claramente que a sociedade dá ao psiquiatra dois papéis que se opõem: o de tratar e o de excluir. Basaglia destaca a colocação em questão do papel do médico e do enfermeiro na Comunidade Terapêutica. etc. Note-se que esse preceito para uma transformação da realidade institucional dos hospícios foi intensamente desenvolvido no Brasil e agora norteia o funcionamento dos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) e de muitos outros serviços de Saúde Mental.

96). à ‘solução ideológica’ dos conflitos sociais” (BASAGLIA. Hoje. [.] "não vão além de promover o aperfeiçoamento da assistência psiquiátrica. 1977 b. Franca Basaglia afirma que as propostas da Comunidade Terapêutica inglesa e a de Gorizia são diferentes na medida em que aquela. vemos.. lemos em “Los Crimenes de la Paz”. p. p. Ao lado de tornar claro que Basaglia adotava a estrutura da Comunidade Terapêutica como estratégia. p. Para esclarecer mais uma vez a posição crítica de Basaglia a respeito das Comunidades Terapêuticas. p. tendendo.. Ainda em “A Instituição Negada”. uma advertência de Basaglia que temos que levar sempre em consideração. o de decidir em que medida sua atitude de negação pode se voltar para o mundo externo. visto que o objetivo. (BASAGLIA.25 estabelece. e que é da maior importância para a Reforma Psiquiátrica Brasileira e suas práticas. 41). 97). . então. com as diversas categorias profissionais reagindo a seu modo quanto a questionar posturas tradicionais. De modo algum Basaglia pretende que a abertura do Hospital Psiquiátrico de Gorizia limite-se a uma mudança apenas de alcance institucional. a crítica à Psiquiatria de Setor da França. no máximo. sem que nos paralise: Las consignas más actuales y modernas son ahora la medicina preventiva. está bem resumido na seguinte passagem: O problema de Gorizia será. de passagem. desta vez. que ele considerava a Comunidade Terapêutica de Maxwell Jones e o XIII Arrondissement (França) “aparadores psiquiátricos en los cuales exponer el nuevo producto listo para el consumo” (BASAGLIA. 1977 b. el mantenimiento de la salud. 1985. Encontramos. mais adiante. é a estrutura social e não mais uma instituição particular. e que sua proposta não se resumia a mais uma modificação técnica. Passa a haver história viva onde existia apenas a apatia e a rotina mortificadora. O desafio que se colocava. 57). a exemplo das “reformas de tipo setorial”. 1985. apenas útiles para cubrir la realidad que continúa inalterada a sus espaldas: porque se conservan inalteradas la estructura y el modelo de las delegaciones del poder sobre las cuales se fundamenta (BASAGLIA. la lucha en la comunidad que frecuentemente se reducen en la práctica a coartadas. recomenda-se que essa discussão se dê em todos os locais de trabalho em Saúde Mental. Essa crítica ao Setor pode ser um dos motivos para as propostas atuais de entrada da Saúde Mental na Atenção Básica não estarem se desenvolvendo no ritmo que seus resultados sugeririam.

nas casas. en la relación con nuestra estructura social (BASAGLIA. Por que essa diferença? Matéria para pesquisa de campo. A influência de Basaglia demonstra-se no fato de que as tentativas de transformação democrática dos Hospitais Psiquiátricos públicos foram. apesar de serem muito mais intensos e exigentes que os ambulatórios. depois dos avanços iniciais da Reforma Psiquiátrica. BASAGLIA. nas praças e nas ruas. p. Já estabelecidos nos ambulatórios. quando lhes é apresentada a proposta de trabalhos com a comunidade. da ameaça de perda da identidade conquistada nos anos de formação tradicional e nos anos de prática repetitiva nos ambulatórios de especialidades. 1977 b. A demora em se aproximar dessas ações e a adotar essas práticas pode vir. no Brasil. não sabendo mais quem ele é” (BASAGLIA. 1982. 1982). 41). ele perde sua identidade e entra numa situação anômala. a que gerou a maior parte das discussões. disse o seguinte: “O problema é que quando se fala em destruição do manicômio. partiendo de la psiquiatría y del manicomio como situaciones emblemáticas. como diz Basaglia. uma visão muito distante do que seja trabalhar diretamente nos Postos de Saúde. No momento em que vivemos.26 Basaglia resume muito bem a sua orientação política aliada à técnica nas seguintes linhas: La experiencia de Gorizia. e serviu como instrumento privilegiado para a formação de pessoal questionador. que traz algumas conferências de Basaglia no Brasil. a terra treme sob os pés do profissional. numa de suas estadas no Brasil em 1979. Em “Psiquiatria Alternativa: contra o pessimismo da razão. para tentar captar o que se passa com muitos dos profissionais de Saúde Mental. Notemos que os CAPS são muito mais rapidamente aceitos pelos profissionais que os trabalhos na comunidade. podemos ter como hipótese. nas décadas de 70 e 80. há um resumo . podemos transpor a fala de Basaglia. o otimismo da prática” (Cf. a maior e mais importante frente de luta pelas mudanças na Saúde Mental. proponía una problemática política y social que no deseaba limitarse a la trasformación humanitaria del hospital – aunque la efectuara – sino que consideraba ésta como una ocasión para poner práticamente en discusión la finalidad de la existencia del manicomio y de las modalidades de su existencia. 36). que a ausência das paredes institucionais e o confronto com a realidade social gerariam o mesmo fenômeno que Basaglia detectou na ameaça da perda dos marcos históricos dos hospícios. os profissionais têm. em geral. Basaglia. p.

durante o V Congresso Brasileiro de Psiquiatria. Partindo de um Hospital de 1101 leitos. manifestando-se em nome do “movimento dos profissionais do Rio” (BASAGLIA. aparece a fala de um participante da platéia. O livro citado (BASAGLIA. o trabalho em Gorizia chega ao impasse e a partir de 1971 Basaglia e equipe dirigem o Hospital Psiquiátrico Regional de Trieste. 1982) transcreve as conferências de Basaglia no Brasil. Essas conferências resumem muito bem a importância de Franco Basaglia para a Reforma Psiquiátrica Brasileira e há um registro que mostra claramente o clima de efervescência política que existia naquele momento. desta forma. Basaglia foi dirigir o Hospital Psiquiátrico de Gorizia. no ano de 1979. que. tomavam força as articulações para dotar o país de uma Política de Saúde voltada para os interesses da população. A base de seu trabalho foi dar voz aos pacientes.27 de seu percurso na abertura dos hospitais psiquiátricos. em 29 de julho de 1979. que foram a criação de um banco de dados a respeito dos acontecimentos na área. Como conseqüência dessa atuação. Estavam sendo dados. . na área de Saúde. já tendo conhecimento da Comunidade Terapêutica de Maxwell Jones. traça o quadro em que se encontrava a luta naquele momento e anuncia os seus próximos passos. organizou um local de atendimento com quarenta vagas para quadros agudos. hospitalocêntrico. p. em São Paulo. Na transcrição do debate que se seguiu à palestra de Basaglia no Hospital das Clínicas da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. com o trabalho voltado para a comunidade. e a realização do Encontro Nacional de Profissionais de Saúde Mental. Relata a realização. em Camboriú. o número de internados diminui e. numa organização de reuniões que confrontavam os diversos grupos da instituição. 121). Denuncia o modelo assistencial cronificador. A sociedade brasileira tentava acordar de anos de regime de exceção e. com o apoio de forças políticas e culturais. alguns passos do movimento que teria fundamental importância para a Saúde Mental no Brasil. não identificado. Finalizando. organiza Centros de Saúde Mental para o acolhimento das pessoas anteriormente internadas. com as pessoas sendo depois atendidas nos Centros de Saúde Mental. quando houve uma virada na história do movimento pela transformação das condições de atendimento à Saúde Mental no país. onde foram condenadas as péssimas condições de trabalho e também o modelo assistencial. cita as decisões de caráter organizativo que saíram de Camboriú. Em 1968. em 1961. que no seu modo de ver reproduzia a violência institucionalizada da psiquiatria. de uma Assembléia de Profissionais de Saúde Mental do Brasil. 1982. Após abandonar a carreira universitária. Eram realizadas internações curtas (duas semanas).

Trata-se de uma norma historicamente importante. Estão em crise. 23). para a crítica à psiquiatria reducionista e suas práticas de exclusão. A obra de Michel Foucault é uma influência determinante. Nele. Em “A Casa dos Loucos” (Cf. p. de poder-saber que funcionam e se efetivam no nível da infra-estrutura” e que dão lugar à “relação de conhecimento sujeitoobjeto como nome do saber” (FOUCAULT. FOUCAULT. 1995. Essa crise coloca em questão o conhecimento. de 13 de maio de 1978. De interesse maior para nós é o livro “História da Loucura na Idade Clássica” (Cf. Articularam-se. no nosso tempo. a forma de conhecimento. p. 1978). segundo Foucault. 1993. ao historiar como se deu a constituição dos saberes e sua dominação sobre os objetos a serem conhecidos. quando se instituiu o conceito de doença mental. não em seus conteúdos falsos . a norma sujeito-objeto. 117). 1993. FOUCAULT. Os procedimentos devem ser comunicados à autoridade jurídica em 48 horas. depois de descrever “as condições que possibilitaram a constituição do saber sobre a loucura. p. crime. os ramos do saber encarregados do que foi definido negativamente: a medicina. expansão das relações mercantis à escala do globo. Foucault. Em 1975 Foucault esteve no Brasil para uma série de conferências e “influencia até hoje os rumos da implementação das novas formas de cuidar em psiquiatria” (SÁVIO.. porque vai tentar ser aplicada a tudo na sociedade mercantilista e sob o poder estatal.]” (AMARANTE. Trata-se da Lei 180. a justiça penal e a criminologia. p. então. A lei determina que o tratamento em Saúde Mental será feito prioritariamente em ambiente extra-hospitalar. no Brasil. que ficou conhecida como “Lei Basaglia”. “formas de poder-e-de-saber. 1993). numa coroação do processo histórico de controle social dos desviantes. sua submissão à razão [. 4). que na Itália recebe o nome de “tratamento sanitário obrigatório”. Interroga as relações entre as estruturas econômicas e políticas de nossa sociedade e o conhecimento. p. estabelecimento das grandes técnicas de produção (FOUCAULT. O que escapa é definido como “doença. chega ao século XVIII. Para Foucault. 117). a grande transformação dos procedimentos de saber acompanha as mutações essenciais das sociedades ocidentais: emergência de um poder político sob a forma do Estado. tornou-se de grande importância para a Reforma Psiquiátrica. O texto da lei estabelece critérios para a internação involuntária.. 1993. 2003. segundo Foucault. a psiquiatria. 118). Por isso.28 O trabalho de Basaglia e a mobilização que provocou fez surgir uma lei que passou a orientar o trabalho em Saúde Mental na Itália. loucura” (FOUCAULT. Foucault descreve o percurso da submissão da loucura ao conhecimento.

29 ou verdadeiros. 1993. à semelhança dos médicos que Pasteur apontou como “transmissores das doenças que deviam curar” (FOUCAULT. ser compreendida e talvez tratada. Tentando perceber o que a antipsiquiatria trouxe de questionamento ao poder médicopsiquiátrico. Crise por conseqüência histórico política (FOUCAULT. 1993. são tentativas de deslocar a relação. 127): -Szasz: escapar a eles segundo a forma de um contrato dual. p. a função 'produção da verdade' se hipertrofia. essa função do Hospital decaiu. Foucault diz que a função científica nascente. o ponto principal das crises da psiquiatria está no questionamento do poder do psiquiatra: “Todas as grandes reformas. do Hospital. O médico produtor de verdade desaparece numa estrutura de conhecimento. mas em suas funções de poder-saber. aqui. Depois que Pasteur descobriu a contaminação levada pelas mãos dos médicos. 122). Especificando mais ainda o seu estudo a respeito das teorias e práticas que tiveram como objetivo mudar radicalmente o panorama em vigor da psiquiatria no século XX. se exalta em torno do personagem médico. A hipótese de Foucault é que a crise da Psiquiatria começou quando ficou demonstrado que Charcot “provocava” as crises histéricas que descrevia. se situam em torno desta relação de poder. também a crise nos modelos teóricos antes hegemônicos. Para Foucault. p. eliminá-la e anulá-la” (FOUCAULT. Foucault subdivide o que chama de “diferentes formas da antipsiquiatria segundo sua estratégia em relação a estes jogos do poder institucional” (FOUCAULT. . livremente consentido por ambas as partes. a função 'produzir a verdade da doença' não parou de se atenuar. p. p. 1993. então. uma indicação de por onde as propostas da Reforma Psiquiátrica encontraram substrato socioeconômico para evoluir. Além da crise de financiamento do setor saúde. mascará-la. De forma inversa. Mas não nos Hospitais Psiquiátricos: no Hospital de Pasteur. 1993. primordial. inviabilizando a assistência em bases hospitalares dispendiosas. 124). forma de distribuição e mecanismo destas relações de poder. Vemos. 123). que a antipsiquiatria ataca” (FOUCAULT. 1993. E isso num jogo onde o que está em questão é o sobrepoder do médico (FOUCAULT. não só da prática psiquiátrica mas do pensamento psiquiátrico. 126). foi a de um lugar onde a doença podia e devia se manifestar de modo livre e claro para. 1993. p 118). no hospital de Esquirol ou de Charcot. Foucault estabelece que “é precisamente a instituição como lugar. p.

Mas... p. bem como do .30 -Kingsley Hall: estabelecimento de um local privilegiado onde eles devam ser suspensos ou rechaçados no caso de se reconstituírem. do exterior do asilo já puderam determinar a segregação de um indivíduo como doente mental. e a crítica diária é a tarefa básica. controle. estando abertos para o devir-louco (Deleuze). p. Balizamento de poderes. no interior de uma instituição de tipo clássico. 128). os CAPS e a Saúde Mental na Atenção Básica. no pavilhão 21: balizá-los um por um e destruí-los progressivamente. exclusão) está sempre sendo requisitada ao aparelho de atendimento em Saúde Mental. 1993. as antipsiquiatrias tomaram para si: Sua loucura. -Basaglia. para depois lançar um desafio que. para evitar a repetição de velhas submissões ou a criação de novas. Esta classificação de Foucault é bastante instrutiva quando podemos pensá-la. mas necessária. -Cooper. em Gorizia: ligá-los a outras relações de poder que. em termos do que está sendo feito na Rede de Atenção Psicossocial que tecemos. O desafio é: “[. Foucault descreve com clareza o jogo de poder estabelecido na relação ciência/loucura. a discussão do poder da psiquiatria e a queda da sua hegemonia são temas do nosso cotidiano. que a subdivisão de Foucault contempla.] é possível que a produção da verdade da loucura possa efetuar-se em formas que não são aquelas da relação de conhecimento?” (FOUCAULT. Tarefa desafiadora. E qualquer profissional de saúde pode exercer o papel repressor. Para que possamos ter uma avaliação clara do alcance e pretensão do que está colocado como metas e diretrizes atuais da Reforma Psiquiátrica no Brasil. nossa ciência permite que a chamemos doença e daí em diante. 1993. quando Foucault diz que a relação de poder é o dado primordial na prática psiquiátrica. A relação de poder (disciplina. Uma interpretação possível para essas palavras de Foucault é que devemos procurar uma abordagem da loucura sem os preconceitos de qualquer conhecimento prévio. hoje. para perceber que essa relação não se desfaz apenas com a entrada em ação das diversas categorias profissionais da Saúde Mental. sua colocação em questão de modo permanente. devemos estar atentos. Desde o questionamento dos Hospícios. segundo ele. podemos perceber a influência. passando pelos Ambulatórios. nas nossas práticas. 127). nós médicos estamos qualificados para intervir e diagnosticar uma loucura que lhe impede de ser um doente como os outros: você será então um doente mental (FOUCAULT.

suporte de ideologia. Desde a crítica da teoria de Édipo como organizador do psiquismo humano. DELEUZE. é preciso. e muito mais. a dura crítica ao familialismo da psicanálise e das técnicas de terapia familiar acomodadoras. Portanto. rede de biopoderes e disciplinas que conformam o controle social do louco (AMARANTE. estão em questão todas as formações sociais que se orientam pela referência identitária. Estamos. querendo devolver a experiência da loucura para o campo do trágico. aquele que submeteu a experiência radicalmente singular do enlouquecer a classificações e terapêuticas ditas científicas: submissão da singularidade à norma da razão e da verdade do olhar psiquiátrico. mas lançado no sentido do fenômeno social inerente e só invisível para quem está com a visão encoberta por teorias reducionistas. A instigação é para a procura de “linhas de fuga” coletivas a partir de cada acontecimento-sintoma. tudo isso. p. além de apontar a vivência de horror que desperta nos menos habituados. estamos tentando transgredir a lógica das relações de poder que imperam na área da Saúde. A abordagem da esquizofrenia como um limite alcançado nos capitalismos. partir da acirrada crítica que esses autores desenvolveram a todo tipo de centralização. através de uma consciência crítica. 24). (Cf. Deleuze . Esta obra aponta para uma desnaturalização e desconstrução do caminho aprisionador da modernidade sobre a loucura. no sentido de motivá-los às práticas inovadoras. vejamos o texto de Paulo Amarante a respeito de Foucault: O objeto de estudo de Foucault em História da Loucura é precisamente a rede de relações entre práticas. Com isso. também. O texto mostra o que está sendo tocado com as práticas de desinstitucionalização e as ações comunitárias de Saúde Mental: estamos mexendo no imaginário a respeito do louco. Jamais o sintoma reduzido à sanha explicatória individualizante. cujo conceito Nietzsche tão bem definiu. a compreensão do delírio como social-histórico e não pessoal-familiar. edipianizante. saberes e discursos que vêm fundar a psiquiatria. Os dispositivos disciplinares da prática médica psiquiátrica permitem um mascaramento da experiência trágica e cósmica da loucura. sobretudo. & GUATTARI. qual seja. 1995. De saída.31 ponto de questionamento que alcançam as práticas comunitárias. 1976). podemos compreender as resistências que as práticas citadas despertam e a potencialidade de transformação social que representam. compõe um quadro teórico-prático estimulante. com séculos de duração. Para uma aproximação a respeito de como e em que medida Gilles Deleuze e Felix Guattari influenciaram os profissionais de Saúde Mental no Brasil.

Guattari diz que: não são mais apenas os muros do asilo que se tenta destruir. mas estimular a singularização e a problematização cada vez mais ampla do emergente: família. ou receberam seus relatos ou lá fizeram estágio. Apenas que é exigido. nos vilarejos. as rádios livres na França. um exemplo de ação molecular transformadora. dentre outros. sempre. Nele. Referindo-se ao trabalho que Jervis desenvolvia em Reggio Emilia. 127). inspirou. Mas a ação molecular não exclui o trabalho no campo molar. mas igualmente os muros do profissionalismo: a medicina mental aqui é feita diretamente com os membros do gueto. 1976. teve importante influência em profissionais de Saúde Mental que. como práticas mais conseqüentes. serviços de saúde.campo da singularidade. ainda existente. . (Cf. nos movimentos horizontalizantes. CARRILHO. A clínica “La Borde”. Investiu. disparadores de ações contagiantes. Com isso. Guattari também colaborou com a Rede Alternativas à Psiquiatria. p. ”Instaurar ligações laterais”. sem controle central. por Guattari. GUATTARI. criativos. A prática da Clínica Ampliada tem nas concepções de Deleuze e Guattari uma de suas bases. Trata-se de um lugar de experimentação de práticas terapêuticas e institucionais que durante muito tempo foram supervisionadas por Guattari. Giovanni Jervis e outros. (Cf. visto que enraizadas no movimento popular.32 e Guattari abriram caminho para as ações de caráter coletivo onde. na mesma situações. segundo Deleuze. mas apenas repetem as estruturas que dizem combater. Não mais aceitar a captura por modelos teóricos adaptadores. a contradição exposta em acontecimento gerador de transformação. Por isso. com os trabalhadores das fábricas. a fenda. existiam práticas apaziguadoras e sem alcance social. nos arredores de Paris. dos movimentos do desejo e da diferença – opõe-se ao molar. antes.invenção de possibilidades. das formações hierarquizadas. com Basaglia. fundada. Adverte que as inovações técnicas “despolitizadas” levam a novas formas de controle. Muitos profissionais de Saúde Mental tiveram suas possibilidades de prática com as pessoas com diagnóstico psiquiátrico de psicose expandidas pelos textos de Deleuze e Guattari. da qual dá sua visão num artigo do livro “A Revolução Molecular” (Cf. o olhar que procura a fratura. por exemplo. das instituições. a proposta da Rede foi de que os profissionais de Saúde Mental se colocassem como estimuladores e assessores dos movimentos populares de busca de novos caminhos na área. 1986. 1981). reafirma o caráter político e não apenas técnico das mudanças realmente necessárias no campo da Saúde Mental. GUATTARI & ROLNICK. 21). p. Guattari cita o exemplo da Itália. A crítica aos centralismos levou Guattari a renegar os movimentos que se pretendem revolucionários. redes de vizinhança. O molecular . movimentos sociais . então.

pistas para os trabalhos com Agentes Comunitários de Saúde e com voluntários. com a crítica ao modelo psiquiátrico tradicional.33 apoiando-se sobre “paraprofissionais” formados na prática (GUATTARI. (Cf. familiares. institucionais. RESENDE. GUATTARI. quebrando a ordem feudal. a evolução do capitalismo. aqui. portanto. 127). No Brasil. 1981. ao lado dos quais trabalham certas equipes de ‘saúde mental’ no sentido de reconhecer o poder potencial da população. p. que hoje estão sendo desenvolvidos no Brasil. das relações interpessoais. Colocada no campo da Saúde Mental. para agir num incitamento às ações afirmativas e alegres no dia de hoje. para instalar máquinas de mudança. portanto necessitando de providências repressivas. O conceito de Micropolítica (Cf. Deixou. juntamente com seus continuadores que vieram para o Brasil. (Cf. cujo caráter provisório as aspas anunciam: “Os paraprofissionais são membros da comunidade. Não há que esperar condições favoráveis. p 49). Em Enrique Pichon-Rivière temos uma criativa tentativa de articulação entre a psicanálise e o marxismo e uma união entre teoria e prática de trabalhos com grupos. nem sonhar com uma grande mudança que cada vez mais é adiada. Na Europa. do adiamento ou da espera por dias melhores. p. todos esses são.2 Antecedentes históricos brasileiros. mais uma vez. 1986) desenvolvido por Guattari. a tradutora do texto esclarece o termo “paraprofissionais”. 1981. p. CARRILHO.1. deu-se de modo diferente na Europa e no Brasil. modos de isolar os indesejáveis já estavam sendo articulados. de acordo com a época. existe a possibilidade de atuação transformadora. para autogerir a resolução de seus problemas” (GUATTARI. locais de ação. tem a grande utilidade de nos mostrar que. & ROLNICK. 1976. trouxe a necessidade de segregar as pessoas que não se enquadravam no ideal daquele modo de produção. 1987. Se o Poder se instala e opera em cada desvão da sociedade. 125). Mesmo estando além das possibilidades de aprofundamento. 29). em cada ponto em que estejamos situados. Temos. De acordo com Heitor Resende. Em nota. . uma grande colaboração para a prática institucional em Saúde Mental. é importante assinalar a influência que tiveram entre nós os trabalhos de Erving Goffman. O termo “Esquizoanálise” indica o trabalho de procurar de que modo funciona o nível molar. o aparecimento do louco enquanto problema de desordem. 3. essa concepção ajuda a retirar o profissional da inércia. que especifica os mecanismos de invalidação e mortificação das Instituições Totais e de Thomas Szasz. mesmo numa sociedade ainda rural.

Também surgiram as Colônias. o Juqueri. o primeiro hospício do Brasil. 1987. na época. quando as vagas eram 1. (RESENDE. levou à grande onda de internações. o “diagnóstico” de “degenerado atípico” constava em 90% das descrições dos internados. recebendo ajuda eventual da caridade pública. era a de origem francesa. com a ciência emergente tomando para si a tarefa de segregar. Propostas de “[. como por exemplo. toda ela marcada pelo organicismo. Socialmente ignorada por quase trezentos anos. surgiu um contingente de desempregados aos quais o olhar do controle administrativo associou os loucos e os delinqüentes. a força policial era o remédio. situação semelhante que. ambulatórios. Depois da abolição da escravatura. p 54). p. Posteriormente a denominação “Hospício de Pedro II” ficou com a instituição do Engenho de Dentro. em 1944. 1987. à mendicância. seguindo a tendência de que a natureza por si só faria bem às pessoas internadas. o Imperador D. a Internação Psiquiátrica no Brasil produziu seus efeitos: no fim da década de 50. na década de 30. A psiquiatria dominante. p. Encontrou como . Para esses. à ociosidade (RESENDE.. 1987. os Hospícios estão com lotação muito acima da sua capacidade.. a psiquiatra Nise da Silveira. p. 54). hospitais abertos e atenção aos egressos [. Foi no quadro descrito acima que. 44). 1987. Estava criada. em São Paulo. Ao mesmo tempo.34 após um longo período no qual os loucos podiam vagar a esmo. Portanto. e será arrastada na rede comum da repressão à desordem.] organização assistencial abrangente. foi trabalhar no então chamado Centro Psiquiátrico Nacional do Rio de Janeiro. no Engenho de Dentro e outra para homens. com 3. ou o São Pedro. (RESENDE. Nos cem anos que se seguiram à fundação do primeiro hospício no Brasil. em Porto Alegre. Pedro II inaugurou.200 internos. uma para mulheres. a base da exclusão estava dada e se materializou com a criação dos Hospícios. no Brasil. além do trabalho agrícola. nota-se a proliferação de muitos outros. e vem engrossar as levas de vadios e desordeiros nas cidades. Útil para o recolhimento de indesejáveis. como a de Ulysses Pernambucano. nada mais que hospícios situados em áreas rurais. No Rio de Janeiro foram construídas duas Colônias. serviam para escoar os inúmeros pacientes “crônicos” excedentes dos hospícios..]” (RESENDE. no Rio de Janeiro. desde que não violentos. predominantemente nas capitais dos estados. que tomou seu nome: Hospício de Pedro II. Em 1852. na Europa.700. a loucura acorda. 35). Com a sua história brevemente resumida acima. eram isoladas e não aceitas. com forte acento na interpretação dos problemas mentais como decorrentes de degenerações.. em Jacarepaguá. indisfarçavelmente notória. com quase 15 mil pessoas. séculos antes.

pelas publicações e pela organização do Museu de Imagens do Inconsciente. ação no sentido de mudanças amplas na organização da Assistência à Saúde Mental. que teve sua formação médica e psiquiátrica no Recife. em 1946. no seu tempo de atuação. com repercussão internacional. MUSEU DE IMAGENS DO INCONSCIENTE. já um verdadeiro movimento. continuou com seu trabalho. Mas. Utilizando técnicas de pintura. que os métodos tradicionais da psiquiatria caracterizavam uma violência aniquiladora.35 práticas dominantes o eletrochoque. (Cf. A época estava ainda longe disso. na década de 30 (Cf. 1984). o Serviço de Terapêutica Ocupacional no referido Hospício. São dela as palavras: Sem a pintura seria pouco provável descobrir-se que no íntimo daquele homem de aspecto humilde e face à primeira vista impassível permanecessem guardadas secretas ambições nem que no seu mundo interno tivesse raízes uma árvore de intensas emoções (SILVEIRA. com diversos colaboradores. internet 1). caso se queira prestar atenção. O psiquiatra alagoano Luiz da Rocha Cerqueira. é. Viu surgir. Em meio à incompreensão e falta de recursos. produziu textos que abriram caminho para o atual pensamento a respeito da Saúde Mental. artistas cujas obras estão entre as mais importantes do século XX no Brasil. Internet 2). com seu trabalho que indica a aproximação pessoal e artística com as pessoas com diagnósticos de psicose. dentre os internados. revolucionou. pelo exemplo. Nise da Silveira não teve. o antigo “Hospício de Pedro II” tem o nome de “Instituto Municipal de Assistência à Saúde Nise da Silveira”. Inconformado com o que via lutando em períodos de grande dificuldade política. Ao mesmo tempo em que criticava o mercantilismo na área da . CERQUEIRA. Hoje. Nise da Silveira conhecia a obra de Carl Gustav Jung. modelagem e xilogravura. Mostrou. Nise organizou. um capítulo à parte na história da Reforma Psiquiátrica Brasileira. a face da Saúde Mental no Brasil. tendo como base as obras que os pacientes criavam. como as de Fernando Diniz e Carlos Pertuis. o coma insulínico e a lobotomia. o que proporcionou que levantasse questões incômodas para a época e ainda para os dias em que vivemos: os sintomas e as produções do inconsciente das pessoas com diagnósticos de psicose fazem sentido. De posse dessa compreensão e de um profundo interesse pela pessoa a ser tratada. suas determinações sociais e sua assistência. Nise proporcionou aos internos um oásis de humanidade e criatividade em meio à destruição do ambiente hospitalar. pela sua obra e tenacidade.

dentre muitos outros temas. Este quadro facilitou a implantação da chamada “indústria da loucura”. O autoritarismo político se transferia para todas as instituições. as prioridades do atendimento. 3. ao lado de propor mudanças no trabalho diário. os dados relativos a gastos com internações psiquiátricas. “[.36 Saúde. Do mesmo modo. Foram inúmeras as demissões e perseguições de profissionais que não compactuavam com o que estava estabelecido. É importante assinalar que o ambiente político era de ditadura militar. hospitais psiquiátricos particulares conveniados com o poder público que atuavam praticamente sem barreiras. No seu modo de ver. com o auxílio doença.. Os autores consultados para a composição da cena em que se deu o início da Reforma Psiquiátrica coincidem em localizar. portanto. mostrava. os Hospitais Psiquiátricos Federais eram dirigidos por indicação superior.] o movimento da reforma psiquiátrica brasileira tem como estopim o episódio que fica conhecido como a 'Crise da DINSAM'” (Divisão . a psiquiatria no Hospital Geral. os Hospitais Psiquiátricos Estaduais mantinham-se com suas direções distantes da discussão política. Voltaremos ao trabalho de Luiz Cerqueira quando falarmos dos primórdios da Saúde Mental Coletiva no Brasil. com textos políticos. temos que destacar a importância de todos os profissionais de Saúde Mental que. Nas Universidades. o quadro era semelhante: autoritarismo e resistência. ofereceram sua dedicação e esforços no sentido de resistir ao autoritarismo político e institucional. as Emergências Psiquiátricas. Pensou a formação de profissionais de saúde mental. por exemplo. o período em que os acontecimentos de precipitaram. Paulo Amarante situa o “Início do movimento da reforma psiquiátrica” entre os anos de 1978 e 1980. com as liberdades democráticas não garantidas. Mas a insatisfação fermentava na sociedade e nas Instituições de Saúde.. Além das figuras públicas aqui nomeadas como precursores do movimento que resultou na Reforma Psiquiátrica Brasileira. no final da década de 70 e início da de 80. a Terapia Ocupacional. durante os tempos mais difíceis. Sem eleições diretas para Governadores dos Estados. A participação política. 2 A Reforma Psiquiátrica Brasileira. sem a participação das bases. era restrita ou impedida. com o sistema ambulatorial. com minuciosas pesquisas. O somatório desses pontos de não aceitação e proposição formou a massa crítica para o que veio a ser o movimento pela mudança nos rumos da Assistência à Saúde Mental no país e a forma de conceber o que é Saúde Mental. com dificuldade ou impossibilidade de debate.

que deu sustentação legal ao trabalho da Psiquiatria Democrática Italiana. falta de garantias trabalhistas. . de 1973 (O.S. um episódio de denúncia de falta de condições humanas e de trabalho. (Cf. que a chamada “Lei Basaglia”. resultou em apoios políticos e notícias na imprensa. foi aprovada em maio de 1978. mas a pauta ainda é atual. também. então. em abril de 1978. formação de recursos humanos. Realizado pela conservadora Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).3/73). Em abril de 1978. p. modelo médicoassistencial e condições de atendimento.. 53). Paulo Amarante resume os principais pontos de reivindicação e denúncias nos diversos documentos elaborados pelo MTSM durante o ano de 1978: salariais. confluíram para o V Congresso Brasileiro de Psiquiatria. As condições (ou a falta de) da assistência à Saúde Mental eram semelhantes em todo o país. Como um precedente oficial. p. agressões.37 Nacional de Saúde Mental). na época. a greve foi um estímulo e logo estariam acontecendo reuniões em diversos serviços e entidades de classe. Com essa mobilização surgiu o Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental (MTSM). Os principais pontos de denúncia e reivindicação eram: péssimas condições de trabalho. 1995. associações de classe. e na demissão de estagiários e profissionais. 51).. e a situação culminou numa greve. Assembléias reuniam profissionais de diversas categorias e representantes das entidades da área de saúde. Com a mobilização no Rio de Janeiro. entidades de classe. relações entre instituição.] que aglutina informações. organiza encontros. do antigo INPS. 1995). os movimentos que já estavam em andamento em diversos estados. 1995. universidades. 304. o velho hospício do Engenho de Dentro. 1987) se refere ao “Manual de Serviço para Assistência Psiquiátrica”. trabalho escravo. um inédito estímulo à organização dos profissionais de Saúde Mental no país. 1995. o Congresso teve seu desenvolvimento politizado pela presença dos militantes do MTSM que. estupros. bem como entidades e setores mais amplos da sociedade (AMARANTE. crítico às internações psiquiátricas. com a função de ser: um espaço de luta não institucional [. 52). (Cf. Note-se que as condições eram dramáticas no que diz respeito a todos os pontos. (AMARANTE. no então já denominado Centro Psiquiátrico Pedro II. com repercussão nos serviços. clientela e profissionais. Pedro Gabriel Delgado (Cf. em outubro de 1978. Assinalemos. O movimento associativo na área médica estava renascendo. reúne trabalhadores em saúde. AMARANTE. AMARANTE. Aconteceu. DELGADO. Ao invés de enfraquecer o movimento. ameaças a profissionais e pacientes. em Camboriú. p.

realizado em Belo Horizonte. a Associação Psiquiátrica da Bahia. conseguiram marcar posição na plenária final e aprovar resoluções que foram tiradas nas reuniões paralelas ao evento. A privatização na área da saúde é denunciada. 1995. em geral. o I Congresso Brasileiro de Psicanálise de Grupos e Instituições. o que estava sendo colocado pelo MTSM. -O movimento faz parte dos setores da sociedade que lutam pelas liberdades democráticas. AMARANTE. bem como a ausência de discussão pública a respeito dos rumos da assistência à saúde. (Cf. em resumo. A universidade é criticada pela sua adesão à lógica do mercado. Logo a seguir. ainda em outubro de 1978 realizouse. p. (Cf. Revestido de uma aura de grande produção. Nele estiveram presentes Basaglia. Guattari. Durante o evento. o Congresso movimentou ainda mais o ambiente. 1995. em janeiro de 1979. No campo político amplo. 55). a grande imprensa mantinha-se. 55). 55). O Congresso foi organizado pela Associação Mineira de Psiquiatria. a plenária também se manifestou. aprofundando suas discussões. acontece em São Paulo o I Encontro Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental. 54). terapia de grupo e analistas institucionais. Robert Castel. A censura à imprensa permanecia em vigor e era difícil vencer a barreira do silêncio. sobre os quais recaíam denúncias assustadoras de maus tratos. em novembro de 1979. era: -A crítica ao modelo asilar em psiquiatria. entre os profissionais de Saúde Mental. Nessa altura dos acontecimentos. Grupos e Instituições (IBRAPSI). É o movimento tomando corpo. que já se colocava em adesão ao MTSM. inclusive a respeito de venda de cadáveres de .38 através da federada baiana da ABP. o Instituto Brasileiro de Psicanálise. distante do que havia por detrás dos muros dos hospícios. Goffman e outros nomes representantes do pensamento crítico da área. pela livre organização de trabalhadores e estudantes (AMARANTE. A prática psiquiátrica em vigor é apontada como instrumento “de controle e reprodução das desigualdades sociais” (AMARANTE. Geral e Irrestrita. no Rio de Janeiro. Este quadro mudou durante e após o III Congresso Mineiro de Psiquiatria. 1995. p. p. 1995. Numa demonstração da fertilidade do momento. -Pressão por solução política para a questão da orientação da assistência à saúde mental. Apesar da grande repercussão. AMARANTE. do que estava acontecendo com a mobilização em torno no MTSM. pela Anistia. p. com a bandeira de luta pela Anistia Ampla. organizando-se de modo autônomo. Basaglia foi visitar o grande hospício de Barbacena. que lançava a instituição de formação em psicanálise.

com as postulações do MTSM. AMARANTE. atuar na ocupação do espaço que se apresenta nas instituições públicas [. Voltaremos ao assunto. para romper o bloqueio e expor o que estava escondido pelos muros dos hospícios. no período que relatamos aqui. pela censura e pela conivência. mas. mas também em entidades fora da área médica. a bandeira de luta era tida como radical. diz que a forma de organização que tomou dispensava a institucionalização. p. Porém..]” (AMARANTE. que se dará no momento em que a comunidade souber lidar com os emergentes que até aqui foram excluídos. evitava-se a burocratização e mantinha-se a autonomia. Em 1980. ao especificar as características do Movimento dos Profissionais em Saúde Mental. paralelo ao VI Congresso Brasileiro de Psiquiatria. a perspectiva da abolição dos hospitais psiquiátricos. Com o avanço da Abertura Democrática. (AMARANTE. 1995. o II Encontro Nacional dos Trabalhadores em Saúde Mental. A fragilidade da aproximação entre a ABP e o MTSM. p. 1995). cronificador e estigmatizante”. como por exemplo. À época.] o Estado passa a incorporar os setores críticos da saúde mental [. Posteriormente.]” e “os movimentos de trabalhadores de saúde mental decidem. no horizonte. porém coloca. no início da década de 80... Foi preciso um visitante estrangeiro. 1995. Teve adesão. nos Hospitais Gerais. O relato emocionado de Basaglia. fica exposta nesse momento em que as propostas do MTSM excedem em muito a posição mais que moderada da ABP. ocorrida em Camboriú. impulsionador importante da Reforma Psiquiátrica. (Cf. mas hoje já está nas metas do Ministério da Saúde. central em toda a discussão. abolir os Hospitais Psiquiátricos não significa acabar com o procedimento Internação Psiquiátrica. 56). 58). Paulo Amarante.. “[. temos que ter o fim da Internação Psiquiátrica. um importante conceito do movimento. repercutiu na imprensa e durante muitos dias foi para os grandes jornais do país a situação dos hospitais psiquiátricos. em Salvador. Esta postura foi coerente com a proposta de desinstitucionalização da assistência. expandindo-se através das entidades das categorias profissionais envolvidas.. surge o Movimento da Luta Antimanicomial. O MTSM cresceu. que pode sobreviver de outras formas. Devemos estar atentos para essa possibilidade de trabalhar com a perspectiva de abolição total dos hospitais psiquiátricos. com as propostas de criação de . em palestra do Congresso. mais claramente. estrategicamente. com ênfase na crítica ao “modelo assistencial como ineficiente. Desse modo. por outro lado.39 pacientes para faculdades de medicina. de usuários do sistema se saúde e seus familiares. Continuam em discussão no movimento os temas presentes nos encontros anteriores. realiza-se..

como tática de mudança 'por dentro'. e postos de direção foram preenchidos por integrantes do início do movimento ou que receberam suas influências. p. (Cf. para pagar serviços prestados pelo setor privado. Note-se que estamos nos primórdios da construção do Sistema Único de Saúde. de dentro do aparelho estatal. o modelo acabou por levar os cofres públicos à penúria. AMARANTE. pagando por procedimento realizado com dinheiro público. Desta forma. não apenas financeira. era curativista e privatizante. eis a questão. No início da década de 80 surge. e passa a atender de forma universalizada. e onde a fiscalização era ineficiente. Com a Co-gestão. Mantinha-se a perspectiva de abolir os hospícios e a crítica ao lucro extraído das ações de saúde. 1995. o pagamento por produção.40 dispositivos de saúde mental extra-hospitalares. planejamento e avaliação das unidades hospitalares do Ministério da Saúde. O modelo de assistência implantado no Brasil. na qual o Ministério da Previdência e Assistência Social (MPAS) passa a participar com custeio. embora projetos como os da Colônia Juliano Moreira ou do Centro Psiquiátrico Pedro II tenham procurado equilibrar a direção e a militância das bases (AMARANTE. então. Equilibrar direção com militância nas bases. Paulo Amarante define bem a situação: A questão da estratégia de ocupação de cargos em órgãos estatais. 1995). mas ética e de modelo de saúde. há redirecionamento de recursos públicos que estavam sendo usados. A Co-gestão foi uma oportunidade para a implantação de “uma política de saúde que tem como bases o sistema público de prestação de serviços. A ocupação de cargos e funções no aparelho do Estado sempre foi um dilema para os movimentos sociais e seus integrantes. a realidade da Assistência à Saúde Mental no Brasil. p. que será um dos princípios do SUS. a “Co-gestão”. E não por algum mau funcionamento do sistema. a partir do advento da 'co-gestão'. chega a dividir o movimento em duas facções. . para tentar aplacar a crise no setor. 58). Nas décadas de 80 e 90 surgiram as oportunidades de tentar mudar. ou indicador de cooptação das lideranças e do projeto de MTSM pelo Estado. a cooperação interinstitucional. Organizado pelos setores que se beneficiavam do regime de exceção. o MPAS deixa de comprar serviços ao Ministério da Saúde. propostas defendidas pelos movimentos das reformas sanitária e psiquiátrica” (AMARANTE. gestão democrática e trabalho em equipes multidisciplinares. 58). a descentralização e a regionalização. Deu-se a chamada “Crise da Previdência”. 1995. mas pelas próprias características de um modelo que comprava serviços de particulares.

. Com isso. é criado o Conselho Consultivo da Administração de Saúde Previdenciária (CONASP). citado por Paulo Amarante. por exemplo (VIANA. O chamado “Plano do CONASP” tem como função reverter o modelo médico assistencial privatizante da Previdência e tem uma parte dedicada à assistência psiquiátrica. Vemos numa nota do trabalho “Estudo sobre o processo de reforma em saúde no Brasil”: As reformas dos sistemas de saúde decorrem de uma conjuntura que produz custos crescentes [. que será o “primeiro plano de assistência médico-hospitalar a ser discutido mais amplamente” (AMARANTE. no setor saúde. 65). naquele momento. quando a articulação entre os Ministérios da Saúde e da Previdência e Assistência Social se efetivou em ações de gerenciamento e reorganização dos hospitais psiquiátricos situados no Rio. 6). colocaram-se contra as novas diretrizes. p. técnicos que participavam do MTSM. O que estava acontecendo. Por isso. 1995. 66). a crise da DINSAM e a Co-gestão tiveram uma enorme incidência nesse contexto. realizadas em municípios e que seguiam os “princípios de integração. diz que o debate FBH versus Co-gestão traduz uma disputa de modelos de assistência: é a substituição de um modelo essencialmente privativista. pautado na relação atendimento/produção/lucro. ligado ao MPAS. p. preocupados com a perda de receita que viria da evolução do que estava proposto na Co-gestão. ou que recebiam sua influência. além do primeiro hospício do Brasil. outras unidades psiquiátricas que vieram a fazer parte do Ministério da Saúde. como a doença. por um modelo assistencial público eficiente (AMARANTE.] frente a uma redução da capacidade financeira dos estados nacionais e a quebra das bases de solidariedade criadas para a cobertura dos riscos clássicos. o “Programa de Reorientação da Assistência Psiquiátrica no âmbito da Previdência Social” (MPAS/CONASP). Maurício Lougon.41 Os empresários da área de saúde. condizia com a tendência global de reforma dos sistemas nacionais de saúde. puderam participar desse momento de colocação em prática do que estava sendo proposto pelo movimento. representados pela Federação Brasileira de Hospitais (FBH). 1998 p. .. Nessa altura dos acontecimentos. de 1982. O município do Rio de Janeiro tem a característica de ter herdado. em 1981. influenciaram as resoluções do CONASP a experiência da Co-gestão e algumas outras. no Brasil. A crise financeira do Estado e da Previdência se agrava e. 1995.

. afirma o procedimento. Existe uma ênfase na atuação da Saúde Mental nos serviços básicos de saúde. por demais estatizantes para seu gosto. 1995. ou ainda reformista. a ABP. ou tecnicista. Pedro Gabriel mostra que desse texto constam as seguintes diretrizes para um novo modelo assistencial: a. pensão e oficina protegidas.restringir a internação aos casos estritamente necessários. na administração pública. o relatório do CONASP ainda mantém um lugar para a internação psiquiátrica. Também se colocavam críticos os setores organicistas da psiquiatria.deve incluir-se numa estratégia de atenção primaria de saúde. nessa altura dos fatos. 65). 2. acima apontado. Politicamente. Mas está colocada a diretriz: “incluir-se numa estratégia de atenção primária de saúde”...ser regionalizada.] intermediários entre o ambulatório e a internação integral’. o MTSM “[. ainda no registro restrito da psiquiatria. a FBH continuava articulando contra as mudanças. como hospital-dia. ou seja: 1. d. 3. b. De acordo com Paulo Amarante. Podemos observar que nesses seis itens está contida grande parte das orientações que norteiam a Reforma Psiquiátrica até hoje..promover ações de prevenção e promoção de saúde mental. que ao dizer que se deve “restringir a internação aos casos estritamente necessários”. p.] acaba por assumir um papel que se pode definir como não mais que modernizante.] disciplinar os mecanismos de encaminhamento. mais uma vez. por exemplo). Citando o “Programa de Reorientação da Assistência Psiquiátrica no âmbito da Previdência Social”.42 hierarquização. p.. a título de revisão histórica. A entrada de profissionais. e. 182). de 1982.integrar-se a rede de serviços básicos de saúde da área programática. 5. setores universitários e os grupos com posturas psicologizantes.promover a implantação progressiva de pequenas unidades psiquiátricas em hospitais gerais (DELGADO 1987. continuou criando polêmica. em uma estratégia global que se pode definir como a de evitar que o caos ou problemas sociais sejam erroneamente rotulados e tratados como doenças mentais’.integrar ao sistema ‘[.] recursos não estritamente psiquiátricos’ (generalistas treinados.ser predominantemente extra-hospitalar. regionalização e descentralização do sistema de saúde” (AMARANTE. pré-internação.. hospital-noite. Curioso notar..utilizar recursos ‘[. isto é. f.ser exercida por equipe multidisciplinar. 4.‘[.. c. principalmente nas funções de direção. apenas sendo necessário que se note. no sentido . ligados ou influenciados pelo MTSM.

naquele momento o que estava posto era: hospitaldia. hospital-noite. 71). Permanecer no movimento ou entrar para as instituições oficiais? Gostaria de ver essa discussão com suas vertentes de necessidade de sobrevivência (política e pessoal) e de vaidades claramente colocadas. o “I Encontro de Coordenadores de Saúde Mental da Região Sudeste”. núcleos autogestionários. 1995. Já na condição de participantes do poder público. mas com a reafirmação do que havia antes sido colocado pelo movimento: as internações psiquiátricas em hospitais privados consomem a maior parte do dinheiro público gasto na área. 1995. na eterna e ainda não resolvida questão da unidade das forças que lutam por mudanças. Trata-se do velho problema.43 de operar reformas sem objetivar mudanças estruturais” (AMARANTE. É interessante o resumo que Paulo Amarante faz das divergências que se clarificaram na época. 1995. antes conduzidas por representantes do conservadorismo. com base em detalhes secundários. (AMARANTE. 1995. p. com a sua substituição por dispositivos extrahospitalares. muitos postos de direção em instituições. Devemos aprender com a História que. já então discutindo as estratégias para “o desenvolvimento e fortalecimento das ações no campo da saúde mental” (AMARANTE. p. Estamos. 68). a carência de recursos humanos capacitados é patente. pré-internações. estando de acordo com os rumos principais. 1995. A volta das eleições para Governadores dos estados foi mais um fator propiciante para que. já apontado: equilibrar direção com militância nas bases. estivessem ocupados por militantes ligados ao MTSM. Propunha-se. 65). a internação em Hospitais Gerais. Outra. as suas próprias bandeiras e projetos de origem” (AMARANTE. no Espírito Santo. . perdendo a especificidade do campo. Uma “linha”. 71). Já a linha sindical “também perde os objetivos de uma real transformação da natureza da instituição psiquiátrica” (AMARANTE. p. jamais podemos repetir divisões.. o movimento coloca em primeiro plano a redução do número de leitos psiquiátricos (meta que continua hoje). aqui. em setembro de 1985. organizam. no meio da década de 80. pretende proceder às reformas propostas pelo movimento através da participação na administração pública. Paulo Amarante opina que a opção institucional “acaba por confundir-se com o próprio Estado” [. lares abrigados.] “comprometendo.. a desarticulação dos atores institucionais leva à ineficiência e gastos sem controle. a chamada “institucional”. Como estratégia. assim. também. p 68). Quanto a esses dispositivos. por passar a ver a luta dentro delas apenas como parte da luta mais geral pela democratização do país. É traçado um diagnóstico mais claro a respeito das condições da assistência à saúde mental. atua nas organizações dos trabalhadores. que só nos enfraquecem. a “sindical”. em Vitória. p.

hoje. equânime.. 72).44 Notemos que cada um desses recursos está. usuários e familiares. a diretoria do Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro toma a iniciativa de organizar o I Encontro de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro. universal. e aí estão os Centros de Atenção Psicossocial. as associações profissionais. por sua identidade com a instituição a ser desmontada. descentralizado e com controle da sociedade.] de controle. E como “núcleos autogestionários” podemos entender as diversas criações conjuntas de profissionais. as associações de usuários e familiares. 1995. “[. com nomes mudados e concepção mais articulada. mas como um dos atores na participação social na condução das políticas públicas de saúde.]”. as igrejas.. organizam as pré-internações. na formulação e avaliação das políticas de saúde. a realização de conferências específicas. Os lares abrigados estão funcionando com o nome de Serviço Residencial Terapêutico. associações de moradores e de usuários. de participação comunitária. Dando partida para a efetivação de uma das decisões da Oitava Conferência Nacional de Saúde. Assim. Além de reafirmar os princípios para um sistema de saúde público. 1995. com portaria e financiamento do Ministério da Saúde.. os clubes.] os mecanismos de integração. Os hospitais psiquiátricos públicos adotam as enfermarias abertas. Os hospitais psiquiátricos interessados em diminuir o tempo de permanência (número de dias de internação). p 70). (AMARANTE. que são as cooperativas sociais. em atividade. a sociedade organizada. É o antigo hospital-noite. Em março de 1986. de descentralização [. dentre as quais a de Saúde Mental. dos movimentos populares. A I Conferência Estadual de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro ocorreu em março de 1987. avaliação e informação” (AMARANTE. que se realiza em outubro de 1986. para o “fortalecimento efetivo do setor” são: “[. que entram não como local de possíveis ações de Saúde Mental. o passo decisivo para as mudanças na área da Saúde no país. p. a sua organização trouxe para a cena a discussão e decisão institucional sobre a necessidade de participação. no “I Encontro de Coordenadores de Saúde Mental da Região Sudeste”. uma espécie de pré-conferência estadual. acontece a Oitava Conferência Nacional de Saúde. A convocação dessa conferência deu-se sem o aval do Ministério da Saúde. O hospital-dia perdeu esse nome. que adiava a decisão de realizar a Conferência Nacional de Saúde Mental temendo o avanço da . Chama a atenção o fato de estar fora das estratégias daquele momento o trabalho nas comunidades. já com a participação de delegações do movimento social e de entidades de profissionais. os fatores considerados básicos. de unificação interinstitucional. que abrigam as pessoas que lá viveram longos períodos e não têm para onde ir. e muitas outras.... sindicatos. enfim.

etc. transporte. a necessidade de participação da comunidade e da sociedade organizada na elaboração e controle das políticas públicas. a hierarquização da rede assistencial e a expansão da rede ambulatorial. 74). Propõe-se ainda. ao serem resolvidas a exclusão e a marginalização. assim. assim. politizando a questão.. e acesso a serviços de saúde. Quanto ao modelo assistencial. apontando para o direito do cidadão ao acesso irrestrito a todos os recursos para tratamento disponíveis. reafirma o duvidoso conceito de “doença mental” e pode sugerir que. Na área mais ampla. p. a redução progressiva dos leitos manicomiais públicos e o não credenciamento de leitos privados.] considera-se que a saúde é resultante das condições de alimentação. Mas as conclusões que a Conferência tira do tema são pertinentes e atuais. hospital-noite. lares protegidos. 73).. Reforça-se a necessidade de inserção. das condições de trabalho para as equipes. essa afirmação é positiva por um lado. (AMARANTE. 1995. objetivando. p. como a necessidade do “resgate da cidadania”. 73). . Polêmica em todos os sentidos. de repercussão nacional. 1995. p. a tal “doença mental” desapareceria. meio ambiente. acesso e posse da terra. O tema central da I Conferência Estadual de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro foi “a política nacional de saúde mental na reforma sanitária” (AMARANTE. préinternações. Novamente o movimento insere os temas das equipes multidisciplinares. liberdade. um poder de resolutividade mais eficiente (AMARANTE. o que estava em pauta após a Oitava Conferência Nacional de Saúde. por meio de atendimentos alternativos em saúde mental. inclusive Conferências Estaduais e Municipais. As conclusões da I Conferência Estadual de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro reconhecem que “[. Por outro lado. emprego. pretende-se a reversão da tendência hospitalocêntrica. 1995. as conclusões são as seguintes: [. Nota-se uma luta de posições. da Política Nacional de Saúde Mental. pois aponta para as determinações sociais do sofrimento mental. trabalho não alienado. com alguns sendo eleitos como delegados à Conferência Nacional de Saúde Mental. descentralizando e melhor capacitando tecnicamente. Houve grande participação de usuários e familiares. com o movimento pressionando agora com eventos amplos. lazer. (Cf. de medidas que visem a promoção da saúde em geral.] a doença mental é fruto do processo de marginalização e exclusão social”. 1995. no setor. nos programas informativopedagógicos.45 renovação que julgava radical. AMARANTE. hospital-dia. 74).. habitação. A Conferência segue em suas conclusões. educação. tais como leitos psiquiátricos em hospitais gerais.. repercutindo. p. o que hoje está como uma das prioridades da orientação na área. renda.

visto que este a pretendia um encontro meramente técnico.. Já aparece. uma referência a trabalhos ou ações de saúde mental na comunidade. em Barbacena.. tendo estado em atrito devido à referida diferença de posição quanto ao modo de encaminhar as mudanças.] a necessidade de participação da população. [. pois a Divisão Nacional de Saúde Mental. democratizando instituições e unidades de saúde. órgão do Ministério da Saúde encarregado da Política de Saúde Mental e a Associação Brasileira de Psiquiatria . Após a avaliação regional e nacional do movimento ter sido realizada em abril de 1987.. [. Nesse momento. na I Conferência Nacional de Saúde Mental. (Cf. AMARANTE. já então com responsabilidades de organização dos serviços.46 O documento mostra a continuidade do movimento de mudanças na Saúde Mental e a crescente ampliação do leque de propostas. em junho de 1987. A I Conferência Nacional de Saúde Mental realiza-se em clima de aberto conflito político. 1995. com a participação de 176 delegados eleitos nas pré-conferências estaduais.] o Estado reconheça os espaços não profissionais criados pelas comunidades visando à . 1995. Notamos que ainda não aparece nada em relação aos trabalhos que inserem ações de saúde mental na comunidade. 75). quanto no nível decisório das políticas de saúde mental. são as seguintes as principais recomendações da I Conferência Nacional de Saúde Mental: [. p. É interessante acompanhar o aumento do número de delegados nas próximas Conferências. tanto na elaboração e implementação. 80). 1995. (AMARANTE... mas também de combater a psiquiatrização do social. p.organizadoras do evento. Segundo Paulo Amarante.suposta representante dos psiquiatras . acontece a I Conferência Nacional de Saúde Mental. principalmente no que tange à ocupação do Aparelho de Estado. Minas Gerais.] a priorização de investimentos nos serviços extra-hospitalates e multiprofissionais como oposição à tendência hospitalocêntrica (AMARANTE. p. com a recomendação de que “[. as correntes em disputa dentro do movimento de transformação da Saúde Mental unem-se. com o intuito não só de redirecionar as suas práticas (de lutar por melhores condições institucionais).] a orientação de que os trabalhadores de saúde mental realizem esforços em conjunto com a sociedade civil. e que o Estado reconheça os espaços não profissionais criados pelas comunidades visando a promoção da saúde mental.. então. 75)... no II Encontro de Coordenadores de Saúde Mental da Região Sudeste. indicativo da crescente representatividade. ameaçam abandoná-lo ao verem rejeitada pela plenária inicial o regulamento da Conferência.

p. 1995. citado por Paulo Amarante como “II Congresso Nacional do MTSM”. Quanto aos fatos políticos do movimento. 1995. 1995. 1995. 80).] construir opinião pública favorável à luta antimanicomial” (AMARANTE. Domingos Sávio.. buscando formas independentes de organização e voltando-se [. 81). ao listar os “[. Paulo Amarante descreve como histórico esse momento. Alcança.47 promoção da saúde mental” (AMARANTE. 80). -O início de um processo de distanciamento entre o Movimento e o Estado. que aponta para a comunidade como sede de transformações. com as novas decisões. Assim. p. ao colocar no horizonte possível uma “utopia que pode demarcar um campo para a crítica das propostas assistenciais em voga” (AMARANTE. a limitação da crítica à psiquiatria. também. a Reforma Psiquiátrica Brasileira toma. 1995.. -A aproximação do MTSM com as entidades de usuários e familiares (AMARANTE. 75). como os dois primeiros. com grande participação de técnicos. 1995. p. a aliança com o Estado. 1).] marcos iniciais paradigmáticos da Reforma Psiquiátrica no Brasil”. 80). o rumo da desinstitucionalização. p. p. e . O II Congresso Nacional do MTSM aconteceu em Bauru. usuários e familiares.. Estado de São Paulo. um patamar mais amplo com as mudanças operadas nos campos técnico-assistencial. o MTSM avalia. ressalte-se que algo já surge em uma reunião importante. Para além do fato de ser contraditório pedir que o Estado reconheça espaços que se pretendem autônomos. aponta. com a “desinstitucionalização em sua dimensão mais propriamente antimanicomial” (AMARANTE. Dentro da discussão acima. já com a tarefa de “[. afirma-se a posição do movimento de que este deve ultrapassar as propostas de transformação institucional. A influência basagliana torna-se predominante agora. p. 2003. além da aliança entre novos e antigos militantes: -A renovação teórica e política do MTSM. em dezembro de 1987. a “I Conferência Nacional de Saúde Mental” e o “Encontro Nacional do Movimento de Trabalhadores de Saúde Mental” (SÁVIO. No modo de ver de Paulo Amarante. 76 e 79).. devido a três fatores. político-jurídico. p. que é preciso ter como estratégia principal “o desatrelamento do aparelho do Estado..] para a intervenção na sociedade” (AMARANTE. teóricoconceitual e sociocultural.. de caráter nacional e de formulação de Políticas de Saúde Mental. durante a I Conferência Nacional de Saúde Mental. Nele. o lema “Por uma Sociedade sem Manicômios” aponta para uma intervenção/provocação no âmbito sócio-cultural.

Caso fosse necessário. não integrado à comunidade. abrindo a perspectiva de ações conjuntas e multiplicando o questionamento a respeito dos métodos criticados e das alternativas. haveria o encaminhamento para os Ambulatórios especializados de Saúde Mental. Esse CAPS leva o nome de “Centro de Atenção Psicossocial Professor Luiz da Rocha Cerqueira”. 1996.48 partir para expandir para a sociedade a discussão da loucura. Começa a surgir. o conceito de desinstitucionalização passa a primeiro plano. uma modalidade de atendimento intensivo. enquanto instrumento de tratamento. as pessoas que precisavam de atendimento em Saúde Mental procuravam o que então se considerava o mais simples. Mesmo reconhecendo os avanços conseguidos. p. Constatada a falência do Hospital Psiquiátrico. um sistema que não rompe com a “figura cronificada de 'paciente'” (GOLDBERG. Jairo Goldberg vê. ainda centrado no modelo médico. é um momento marcante na história da transformação da assistência à Saúde Mental no Brasil. e às resistências a lidar com a questão. que já contavam com o ingresso de diversas categorias profissionais além da psiquiatria (Psicologia. A percepção da necessidade de um espaço próprio para a abordagem da psicose fez . Isto é. os Centros de Saúde. com a eleição direta para Governador de Estado. praticado no espaço físico do ambulatório ou Centro de Saúde. no que foi implantado. lembrando o já conhecido hospital-dia. aumentam em número e em qualidade os dispositivos alternativos à internação psiquiátrica. Outro fator da maior importância no momento descrito é a entrada em cena das associações de familiares e usuários. da exclusão. burocrático. 1996. Serviço Social. (Cf. Em São Paulo. as atenções voltaram-se para o ambulatório de Saúde Mental. o que depois veio a ser chamado de ambulatório ampliado com oficinas terapêuticas. Rotineiro. A instalação do primeiro Centro de Atenção Psicossocial (CAPS) do país.GOLDBERG. em São Paulo. na sua maioria psicoses. e com a proposta de substituir internações por outros procedimentos. não questionador da exclusão. o ambulatório não dava respostas à enorme tarefa de substituir a internação psiquiátrica. em 1987. que logo mostraram sua pouca eficácia quanto à abordagem dos quadros graves. Com essa compreensão. das condições de vida. Com o movimento em franca expansão e com pessoas ligadas a ele ocupando postos de direção em diversas instâncias governamentais. grupal. dada a não efetividade das consultas especializadas no atendimento à psicose. Terapia Ocupacional). pouco interdisciplinar. 105). multidisciplinar. 103). surgiu a oportunidade de implantar um Programa de Saúde Mental de acordo com o que havia de avançado na época. p. Com a regionalização da assistência. repetidor.

(Cf. . Mesmo não sendo modelo para repetições mecânicas. complementando o trabalho de transformação feito dentro do hospício. às denúncias de maus tratos e aos desdobramentos em termos de articulação de um Programa de Saúde Mental que se propunha totalmente substitutivo ao modelo manicomial. O Projeto tomou corpo com a instalação. por oferecer atendimento nas 24 horas. 2003. 8). que se propõe a “lidar com a psicose e suas determinações de marginalização e cronificação nas vertentes de assistência. em Santos. diversas associações de usuários e familiares e leis estaduais com o mesmo sentido do Projeto federal. SÁVIO. p. 113). 1996. de um dispositivo que acolhia de modo diferenciado. a Casa de Saúde Anchieta.49 surgir o documento “O Centro de Atenção Psicossocial Professor Luiz da Rocha Cerqueira – Projeto Docente-Assistencial Multicêntrico”. de expressão verbal e não-verbal” (GOLDBERG. São Paulo. 1995. do preconceito. dos métodos de tratamento e suas alternativas. (Cf. chegando a 295 em 2001. Apesar do longo tempo que levou para ser aprovado. numa casa. por exemplo. aos confrontos jurídicos. mas que ainda está aquém do necessário para dar conta da demanda. 111). Fez surgir. o fato teve demorada repercussão nacional. foram os instrumentos de substituição das internações. com estímulo às relações interpessoais e grupais e com “instâncias de escuta. à vontade política implicada. Os NAPS têm uma estrutura diferenciada dos CAPS. p. AMARANTE. Os NAPS. Outro momento expressivo da Reforma Psiquiátrica no Brasil foi a intervenção da Secretaria de Saúde do Município de Santos. que estabelecia os direitos dos pacientes psiquiátricos e postulava a extinção progressiva dos hospitais psiquiátricos. Assemelha-se mais ao que foi implantado na Itália. investigação e formação de recursos humanos para a rede de prestadores de serviços de saúde” (GOLDBERG. numa instituição privada conveniada. Devido ao inédito da ação. no que foi o disparador de um processo de multiplicação dessa modalidade de atendimento num ritmo que mostra a adesão de profissionais e instâncias de governo. O ano de 1989 também foi marcado pelo início da tramitação no Congresso Nacional do Projeto de Lei do Deputado Federal por Minas Gerais. 84). O CAPS Luiz Cerqueira iniciou seu funcionamento em junho de 1987. ou até mesmo por isso. Em 1997 já havia 176 CAPS e Núcleos de Atenção Psicossocial (NAPS) no Brasil. o Projeto motivou uma discussão inédita a respeito da loucura. a intervenção em Santos mostrou-se como exemplo de determinação política e de resultados. p. 1996. Paulo Delgado. p. em maio de 1989. também.

Numa afirmação decisiva para a área da Saúde Mental. a respeito de como deveriam ser conduzidas as Ações de Saúde Mental. que O Atendimento Primário de Saúde é a estratégia adotada pela Organização Mundial de Saúde e pela Organização Pan-Americana de Saúde e referendada pelos países membros para alcançar a meta de Saúde para Todos. a "Conferência Regional para a Reestruturação da Atenção Psiquiátrica dentro dos Sistemas Locais de Saúde". 2003. nas considerações. No preâmbulo. no Brasil. A parte do documento reservada às recomendações finais. MINISTÉRIO DA SAÚDE. participativa e preventiva". 11). lembra. p.50 Domingos Sávio destaca como fatos importantes para a Reforma Psiquiátrica Brasileira. na Venezuela. os dois fatos em 89... e a Declaração de Caracas. Essa reunião produziu um documento que resume o que era o entendimento.] melhores condições para desenvolver programas baseados nas necessidades da população de forma descentralizada. p.. em novembro de 1990. que veio a ser conhecido como "Declaração de Caracas". MINISTÉRIO DA SAÚDE. MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2002. em 1990. 1). p. permite a promoção de modelos alternativos. no Ano 2000 (BRASIL. na área da Saúde Mental. e a apresentação do Projeto do Deputado Paulo Delgado. a intervenção na Casa de Saúde Anchieta. centrados na comunidade e dentro de suas redes sociais (BRASIL. acontece em Caracas. Trata-se de um documento com a chancela da Organização Mundial da Saúde e da Organização Panamericana da Saúde. a Declaração recomenda que “[. Ressaltando que os Sistemas Locais de Saúde são os instrumentos para a efetivação da meta de oferecer "[. p.] os Programas de Saúde Mental e Psiquiatria devem adaptar-se aos princípios e orientações que fundamentam essas estratégias e os modelos de organização de assistência à saúde" (BRASIL. . 2002. critica a internação psiquiátrica e a assistência psiquiátrica convencional. 2002. além de propor a quebra da hegemonia do hospital psiquiátrico como recurso preferencial e de chamar a atenção para a necessidade de garantir os direitos humanos das pessoas assistidas tem como seu primeiro ponto a recomendação de que a reestruturação da atenção psiquiátrica ligada ao Atendimento Primário de Saúde e no quadro dos Sistemas Locais de Saúde. 12). (SÁVIO. naquele momento. na época que estamos percorrendo. sob a forma de declaração. em Santos. o texto final aprovado na Conferência. fim da década de 80 e início da de 90. Após os avanços políticos e de organização conseguidos na década de 80.. 11).

Porém. no seu início. do Secretário Nacional de Assistência à Saúde do Ministério da Saúde. p. é um documento que aponta com clareza o trabalho nas comunidades e nos sistemas locais de saúde como o campo onde as ações preferenciais de Saúde Mental devem ser executadas. durante anos. presente na Coordenação de Saúde . Depois. 55). apesar da recomendação explícita da OPAS e da OMS na Declaração de Caracas. define o financiamento para ações de Saúde Mental que já estavam sendo praticadas sem esse incentivo. MINISTÉRIO DA SAÚDE. clubes e associações autônomas).51 A Declaração de Caracas. Visita Domiciliar e Psicodiagnóstico. bem como seus resultados. de 19 de novembro de 1991. “Política pública de faz conhecer quando se define o seu financiamento” (BRASIL. Nas diretrizes contidas no preâmbulo da histórica Portaria 224. o trabalho nas comunidades permaneceu. afastado do centro das discussões. Outros dispositivos. foram incorporados ao cotidiano de profissionais. Estas portarias foram elaboradas já com a participação de pessoas ligadas ao movimento de transformação da Saúde Mental. A importância desta e das outras portarias está no fato de alterar o financiamento em Saúde Mental. emergências psiquiátricas em hospital geral. A Portaria 189. alguns já praticados de modo não sistemático. oficinas terapêuticas em ambulatórios ampliados. de 29 de janeiro de 1992. ao lado de representar um avanço da OMS. nota-se a orientação do movimento de mudanças. tentando perceber o que facilita e o que dificulta a sua compreensão e execução. pelo Ministério da Saúde. Faz parte dos objetivos dessa monografia. como vimos acima. Conforme o próprio comentário da publicação do Ministério da Saúde onde está a Portaria 189. centrado na transformação dos hospícios e na implantação de equipes multidisciplinares ambulatoriais. Além de alterar a normatização da Autorização de Internação Hospitalar. levantar a seqüência das práticas de Saúde Mental ligadas à Atenção Básica. 2002. no Brasil. atendimento em Oficinas Terapêuticas. usuários e familiares (lares abrigados. oficialmente. inclui no Sistema de Informações Ambulatoriais (SIA/SUS) os seguintes procedimentos: atendimento em grupo. Em 1991. começaram a ser editadas. de forma a adequá-lo à realidade da transformação em andamento. portarias que concretizavam. A substituição do Modelo Assistencial em Saúde Mental estava. a introdução dos NAPS e CAPS representou um passo decisivo na concepção e prática da atenção intensiva. no que diz respeito às práticas do dia a dia. que nessa altura estavam em postos no Ministério da Saúde. as mudanças que estavam em andamento nos serviços de Saúde Mental. atendimento em CAPS e NAPS em um e dois turnos.

52 Mental do Departamento de Programas de Saúde da Secretaria Nacional de Assistência à Saúde do Ministério da Saúde: organização de serviços baseada nos princípios de universalidade. no seu início. usuários e familiares que postulavam e praticavam novas concepções a respeito do que se entende por “sofrimento mental” e sua abordagem terapêutica. hierarquização. Tentou. Cada linha teórica. o conjunto de profissionais. Foram cerca de 20 mil pessoas envolvidas nas diversas etapas. em linhas gerais. MINISTÉRIO DA SAÚDE. definição dos órgãos gestores locais como responsáveis pela complementação da presente portaria normativa e pelo controle e avaliação dos serviços prestados (BRASIL.] ter sido aprovada pelo conjunto dos coordenadores/assessores de saúde mental dos estados... multiprofissionalidade na prestação de serviços. p. 64). MINISTÉRIO DA SAÚDE. conselhos da área de saúde.] associações de usuários e familiares. p. já é um conjunto complexo com várias tendências políticas e linhas teóricas.. ênfase na participação social desde a formulação das políticas de saúde mental até o controle de sua execução. Em 1991. O comentário à portaria chama a atenção para o fato político que ela representou. 56). 2002. traçar normas para os Hospitais Psiquiátricos. isto é.. 2002. governos e entidades da sociedade civil” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. É importante assinalar que o que foi chamado de Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental. no fim da década de 70. 1994. o que de fato nunca foi. p.] regulamenta o funcionamento de todos os serviços de saúde mental” (BRASIL. Um dos méritos desse movimento foi encontrar a unidade na prática. de 1 a 4 de dezembro de 1992. ao “[. o movimento. após mobilização que contou com 150 conferências municipais ou regionais e 24 Conferências Estaduais. diversidade de métodos e técnicas terapêuticas nos vários níveis de complexidade assistencial. A Conferência teve na sua Comissão Organizadora. p. 64). prestadores de serviço. encontra meios de participar do movimento em razão dos objetivos comuns. seja das diversas formas de compreender e trabalhar o social e o político. MINISTÉRIO DA SAÚDE. regionalização e integralidade das ações. no fim da década de 80 e início da de 90. A II Conferência Nacional de Saúde Mental acontece em Brasília. visto como homogêneo. também. entendida como 'regra mínima'. as ações dos CAPS e NAPS. representantes das “[. para que. seja do campo da psicologia.. 2002. pudesse ser cumprida em todas as regiões do País” (BRASIL. e proibir práticas restritivas típicas desses locais. O amplo debate . já não pode mais ser. da psicanálise. sempre de difícil fiscalização. A Portaria 224 “[. 7). e teve a grande importância de definir. Nem era essa a pretensão.

9). apontada como sendo uma “[. A Conferência. afirma a necessidade da “[. quais os pontos aprovados que têm relação com o trabalho da Saúde Mental na Atenção Básica. Aponta para a “[. 11). mesmo tendo. traçando rumos ou marcando omissões. emergência psiquiátrica em pronto-socorro geral. Define-se “Atenção Integral” como a concepção de atenção à saúde dentro dos princípios da 8a.. Como poderemos perceber. Ao citar os dispositivos da rede de atenção que substituirá o modelo hospitalocêntrico. dispositivos sanitários e socioculturais. Conferência Nacional de Saúde. 1994.. 1994. com a participação de usuários em todas as atividades.] referência fundamental para o processo de transformação do modelo de atenção à saúde mental que se desenvolve no país” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. é esparsa e mínima a alusão à entrada da Saúde Mental na Atenção Básica e nas comunidades.] como “[. uma marcada citação da Declaração de Caracas. Segundo o Relatório Final. lares abrigados.. deixando pistas.. (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. 1994. eqüidade. p. 1994. dentro da sua posição política.] democratização do Estado com controle da sociedade civil” [.] fundamento do direito à cidadania e da transformação da legislação de saúde mental” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. dentro de um resumo das conclusões da Conferência. serviços territoriais que funcionem 24 horas. pensões protegidas. e alguns conceitos básicos que aparecem no texto do Relatório Final.. p. da Declaração de Caracas e da I Conferência Nacional de Saúde Mental: visão integrada da complexidade da vida social. na sua Apresentação. durante a Conferência. Veremos. O termo “Atenção Básica” não aparece no relatório. integralidade. A Conferência reafirma todos os postulados do movimento de transformação da Saúde Mental dos últimos anos e traça diretrizes para a sua efetivação na prática. Nos “Marcos Conceituais”. universalidade. centros de atenção psicossocial. 13). descentralização e participação. a seguir.. 1994. centros de convivência. relaciona: unidades de saúde mental em hospital geral..] inserção da saúde mental nas ações gerais de saúde” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. .. 7). a Conferência teve como temas centrais a Rede de Atenção em Saúde Mental. p. unidades de atenção intensiva em saúde mental em regime de hospital-dia.53 prévio materializou-se. p. 13). cooperativas de trabalho e outros serviços que tenham como princípio a integralidade do cidadão (MINISTÉRIO DA SAÚDE. a transformação e cumprimento das leis e o direito à atenção e à cidadania. estão indicados os conceitos que nortearam a Conferência: Atenção Integral e Cidadania. p.

Ao não entrar na discussão teórica de etiologia dos transtornos mentais. Rotelli pretende trazer para a discussão e para a prática toda a complexidade. . p. que tende a transformar as relações de poder entre os pacientes e as instituições. 19). p. nem com um “programa de racionalização financeira e administrativa. p. Então. de saída. Um conceito que tem forte presença no Relatório Final é o de “desinstitucionalização”. sempre referido ao conceito de doença. mas como um conjunto complexo. antes ocultada..54 Note-se que não há menção de trabalhos diretos com as comunidades. a solução é o tratamento segregador.. p. 18). Franco Rotelli e outros esboçam a definição de desinstitucionalização como: o processo social complexo que tende a mobilizar como atores os sujeitos sociais envolvidos.] simbolizava a perspectiva de abolição de todas as instituições de controle social” (ROTELLI. apenas retira as pessoas de dentro dos Hospitais Psiquiátricos. Rotelli diz que esta não se limita à desospitalização nem ao “intento de renovar a capacidade terapêutica da Psiquiatria. 2001. Rotelli adverte para a distinção entre desinstitucionalização e desospitalização. 19). liberando-a das suas funções arcaicas de controle social... 2001. 2001. 2001. coação e segregação” (ROTELLI. Igualmente não se destina ao que “[. a terapia não é mais entendida como a perseguição da solução-cura.. 29).. p.. Rotelli afirma que a psiquiatria tradicional parte de uma concepção que a leva a encarar o seu campo. 19). Esta. e também cotidiano e elementar. Para situar precisamente o que seu grupo italiano pratica como desinstitucionalização. 2001. quer.] (ROTELLI. “[. 29). dentro do esquema simplificador problema-solução. Em artigo publicado em 1986. 2001. sinônimo de redução de leitos hospitalares e uma das primeiras operações conseqüentes da crise fiscal” (ROTELLI. que tende a produzir estruturas de Saúde Mental que substituam inteiramente a internação no Hospital Psiquiátrico [. O problema é a doença mental..] para os grupos de técnicos e políticos radicais [.] desmontar a solução institucional existente para desmontar (e remontar) o problema” (ROTELLI. p. de estratégias indiretas e mediatas que enfrentam o problema em questão através de um percurso crítico sobre os modos de ser do próprio tratamento (ROTELLI. sem proporcionar uma rede de atenção que os substitua e sem criar uma alteração na forma da sociedade lidar com o “problema mental”.

Esta postura do técnico é muito diferente da criticada no artigo. Rotelli mostra que estes “[. No bojo dessa intenção. p. vê hospitais e ambulatórios como referência (Cf.]” (ROTELLI. a Conferência se posiciona. sobretudo se isolados e codificados. Rotelli diz que: se o objeto ao invés de ser 'a doença' torna-se 'a existência sofrimento dos pacientes'.. e sua relação com o corpo social. 2001. os interesses. p. Ressaltando o papel do técnico em Saúde Mental no processo de desinstitucionalização. Mais adiante. 2001). 46). tanto na sua determinação quanto na articulação da rede de atenção. 2001). os poderes. enquanto protagonistas dos avanços que se pretende na abordagem à questão do sofrimento mental. então desinstitucionalização será o processo crítico-prático para a reorientação de todos os elementos constitutivos da instituição para este objeto bastante diferente do anterior (ROTELLI. como veremos mais adiante. as demandas sociais etc [. 31). psicoterapêutica. Rotelli constrói uma articulação estreita entre teoria e prática da maior importância para nós. ROTELLI.. social. politicamente. 2001. Ao mudar o paradigma para a desinstitucionalização. assinalando que: . Nota-se. que tem como ponto central a “doença”.] ativam toda a rede de relações que estruturam o sistema de ação institucional e dinamizam as competências. etc. é marcante a importância que é dada aos movimentos sociais. desta vez com inserção no movimento social. em que Rotelli diz que: os diversos tipos codificados de 'terapia' (médica. No Relatório Final da II Conferência.55 Marcando mais ainda sua posição a respeito de uma outra forma de encarar o fenômeno do sofrimento mental. no texto de Rotelli.. Rotelli diz que a abordagem. Por isso trata-se de demolir a compartimentalização entre estas tipologias de intervenção (ROTELLI. a relação passa a ser como território. p. mas redutivos e parciais. psicofarmacológica. psicológica. outro conceito que aparece no texto do Relatório Final na II Conferência Nacional de Saúde Mental. (ROTELLI.. 30).) são considerados como momentos também importantes. uma preocupação constante em conseguir um novo estatuto para a psiquiatria.(Cf.. MINISTÉRIO DA SAÚDE). mais uma vez. Em “Da Cidadania”.. 2001. e assumindo integralmente sua função política.

usuários e familiares (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 1994. MINISTÉRIO DA SAÚDE). 1994. unindo os profissionais. as conclusões apontam para trabalho nas comunidades: O trabalho de saúde mental na comunidade deve ser voltado para o envolvimento das pessoas. onde serão debatidos os problemas de saúde mental e encaminhadas as propostas aos conselhos municipais de saúde” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. O que ainda não aparece é a comunidade como local de intervenção em Saúde Mental. (Cf. no trecho acima. há a indicação de “Adotar os conceitos de território e responsabilidade. numa nota de seu artigo sobre os “Serviços Residenciais Terapêuticos”. O item citado a seguir é um exemplo dessa postura: “Estimular a organização dos cidadãos em associações comunitárias. ou assim consideradas. envolvendo todas as instituições sociais. Notamos. O conceito de responsabilidade vem da tradução do italiano presa in carico. André Luis Duval Milagres.. 22). num processo de organização crescente. não há diretriz que a defina como local de intervenção direta.]” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. p. 19). Ao lado de mostrar a importância da participação da comunidade.. por vezes também traduzida por “tomar encargo”. que há uma preocupação da Conferência com a participação da comunidade. como forma de dar à distritalização em saúde mental um caráter de ruptura com o modelo hospitalocêntrico [. quanto pelo aspecto de controle do Sistema de Saúde e definição de seus rumos. não deve estar desvinculada do conjunto de esforços desenvolvidos pelo povo brasileiro na luta por sua cidadania. 1994. mas o conjunto de referências sócio-culturais e econômicas que desenham a moldura de seu cotidiano. No mesmo capítulo. p.. cada vez mais. Os conceitos de território e de responsabilidade são importantes para os dispositivos que a Reforma Psiquiátrica está implantando e podem mesmo ser parâmetros de aferição da propriedade ou impropriedade das ações. 1994. de sua inserção no mundo”. que trata das “Recomendações Gerais” a respeito da “Atenção à Saúde Mental e Municipalização”. influir diretamente nas questões que lhes digam respeito (MINISTÉRIO DA SAÚDE.56 a luta pela cidadania das pessoas com transtornos mentais.] território não é o bairro de domicílio do sujeito. 19). 19). tanto no que se refere a estimular a participação e luta pela cidadania. (MILAGRES. p. de seu projeto de vida. de modo a que possam. Na Segunda Parte do relatório. 122). 2003. o qual diz que “[. p. segundo a nota da tradutora do artigo de Franco . contrastando com a proposta de desinstitucionalização.. cita Pedro Gabriel. p.

1994.. está recomendado . Ao relacionar os componentes desta rede. A Reforma Psiquiátrica Italiana no Contexto da Europa Ocidental e dos Países Avançados”. Dar prioridade à capacitação do médico generalista para atenção em saúde mental. nas áreas urbana e rural..57 Rotelli “Desinstitucionalização. Esta parece ser a indicação mais clara de um caminho para o trabalho junto às comunidades. Na parte dedicada aos “Direitos dos Usuários”.. Formar e contratar agentes comunitários em saúde [. p.] c) desenvolver programas de pós-graduação em saúde mental na perspectiva da saúde coletiva [. 37 e 38). introduzindo temas de saúde mental sob a ótica de saúde coletiva [. da Organização do Trabalho e da Pesquisa”.. aparece uma referência à “saúde mental na rede geral de saúde pública. p. aparece uma indicação de “Constituir equipes itinerantes que atuem na comunidade.. 1994. 2001. No capítulo “Gerenciamento”. 32). p. surgem algumas indicações para o investimento em capacitação para as ações nas comunidades. 28). Assim. uma outra via.]” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. No capítulo “Financiamento”. para as equipes de saúde dos sistemas locais. centros de convivência. principalmente em regiões onde a ampliação da equipe não seja viável a curto prazo.] (MINISTÉRIO DA SAÚDE. Recomendar à Universidade e demais órgãos formadores: a) processar profundas mudanças nas agências formadoras de trabalhadores de saúde. destacam-se os itens: Enfatizar temas de saúde e trabalho e de atenção em saúde da criança. p.. oficinas terapêuticas e cooperativas [. a impossibilidade de delegar a uma outra estrutura a assistência à população da região de referência (ROTELLI. como alternativa para a organização de serviços municipais”... (MINISTÉRIO DA SAÚDE. dentre os outros dispositivos que vêm sendo citados. 1994. No capítulo que trata “Dos Trabalhadores de Saúde. que esclarece: cabe ressaltar que esta expressão se constitui numa premissa fundamental na organização dos serviços territoriais e significa 'fazer-se responsável'.] d) criar projetos de extensão que possibilitem a formação de agentes comunitários urbanos e rurais. já aparece a preocupação de redirecionar recursos das internações psiquiátricas para a rede extra-hospitalar. 34). com a característica de não localização e de organização. isto é. com unidades básicas de saúde/centros de saúde.

a tendência à repetição do modelo que se quer substituir está sempre presente. talvez.58 Formar conselhos comunitários. de milhares de profissionais de Saúde Mental que adotaram o ideário da Reforma Psiquiátrica. também. divulgado os conceitos e levado. dificuldades nas políticas públicas necessariamente parceiras da Saúde Mental e. Mas. 55). com adesão consciente ou não ao modelo manicomial. com isso. A criatividade nos serviços tem produzido diversificação e multiplicação das ações em Saúde Mental. estadual e municipal. a política e uma grande diversidade de aspectos singulares. fizeram surgir e se firmar os Programas de Saúde Mental. as portarias contemplaram a eterna e difícil tarefa de regulamentar e fiscalizar os . As conclusões da II Conferência Nacional de Saúde Mental tornaram-se as diretrizes que passaram a nortear a luta pelas efetivas mudanças na área da Saúde Mental. No plano da legislação. falta de compreensão das administrações para a questão da Saúde Mental. para a prática. Quando fazemos um apanhado histórico. em lenta tramitação. passaram a inserir temas da Reforma Psiquiátrica. tendo servido. no dia a dia. que terão por função principal assistir. baixa capacitação dos novos gestores. durante a década de 90. começado a afetar a formação. como aqui. adiantando-se à legislação nacional. de modo a garantir a integração social e familiar dos usuários (MINISTÉRIO DA SAÚDE. nos níveis federal. principalmente. choque com interesses políticos locais. usuários e familiares. profissionais ao menos informados a respeito do que se pretende de avanço na área. tendo. auxiliar e orientar as famílias. Uma mostra da atração que tem exercido a Reforma Psiquiátrica é a importante produção acadêmica sobre o tema. Os concursos públicos. aos poucos. No Ministério da Saúde. inércia administrativo-burocrática. as tentativas de mudança esbarram com problemas que tornam lentas as modificações. como um documento de persuasão nos municípios para que assumissem suas responsabilidades. os problemas ligados ao financiamento do Sistema Único de Saúde. Os profissionais. 1994. com a cooperação do Ministério Público. não só de textos sobre a Reforma em si. mas muitos abordando a clínica. p. com alguns serviços burocratizando-se e perdendo a potencialidade transformadora. vemos que a evolução dos acontecimentos é favorável. Por outro lado. Os entraves são de diversas ordens: falta de politização e de capacitação de profissionais. A Reforma Psiquiátrica começou como um movimento e pretende continuar a sê-lo. A década de 90 foi marcada pela atuação institucional. nos estados e municípios. alguns estados editaram suas leis da Reforma Psiquiátrica.

p. Quanto ao trabalho com a Atenção Básica. O diagnóstico da situação encontrada. o trabalho citado acima lista os [. que. 18). ações de apoio social e promoção de direitos (DELGADO & GOMES. 2000). a “Rede Básica de Saúde – PSF”. A eleição dos CAPS como prioridade é válida mas. este último já no ano 2000. a assistência farmacêutica. de Pedro Gabriel Godinho Delgado e Maria Paula Cerqueira Gomes. Hospital-Dia. das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. ao lado dos Coordenadores Municipais de Saúde Mental.. instalação. 2000). entre os dispositivos citados acima. 2000. 18). Núcleos de Atenção Psicossocial – NAPS. antes que a remuneração comece. não há necessidade de construção. deram um impulso até então inédito na organização da Assistência à Saúde Mental no estado. já contava com alguns trabalhos em andamento no país. como se só com a sua colocação em funcionamento. pessoal. O gráfico tem o “Serviço-Dia” como centro. 2000. Em abril de 1999. Desta forma.. teria início um bom trabalho em Saúde Mental. nessa lista. HD). o financiamento do Serviço Residencial Terapêutico. Pedro Gabriel Delgado assumiu a Assessoria de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde do Estado do Rio de Janeiro. traz um problema: a necessidade de convencimento dos gestores municipais de que devem investir em uma casa. na época.. mas sem prioridade estratégica. (Cf. (Cf.] reorientação do modelo assistencial hospitalocêntrico. as prioridades e o início das ações da nova Assessoria estão no trabalho “A política de saúde mental do estado do Rio de Janeiro: uma descrição preliminar”. programas de lazer. aluguel. p. criando uma rede de serviços de pequena e média complexidade para atendimento psicossocial com base territorial” (DELGADO & GOMES.] dispositivos estratégicos para a Reforma Psiquiátrica [. as ações de Saúde Mental na Atenção Básica são listadas como possibilidade. aí sim. aparece. Unidades Psiquiátricas em Hospital Geral (UPHG). ambulatórios. com os objetivos podendo ser alcançados através de diversos caminhos. Chama a atenção a falta.. DELGADO & GOMES.59 Hospitais Psiquiátricos. Temos visto municípios esperando o CAPS. Além da Equipe de . material para colocá-la em funcionamento... Definindo a Política Estadual de Saúde Mental como de “[. DELGADO & GOMES. na página 22 do trabalho citado de Pedro Gabriel e Paula Cerqueira. junto com uma Equipe que. se outros caminhos não são apontados com firmeza. Prioridade é decisão política.] Serviços de Atenção Diária (Centro de Atenção Psicossocial – CAPS. trabalho protegido. Num gráfico a respeito da “Saúde Mental no Território”. serviços residenciais terapêuticos.

o Conselho Federal de Psicologia organizou. Foi também tomada a decisão. novos militantes. sendo 15 na Região Metropolitana e 10 no Interior. em Brasília. foram eleitas: Padronização de informações. O diagnóstico da situação encontrada. as ações de atenção diária onde e como for possível.] dispositivo estratégico. Reunindo uma significativa representação de profissionais ligados desde o início à Reforma Psiquiátrica. 20). 19).] há praticamente três anos. 2000.... Implantação dos Serviços Residenciais Terapêuticos.60 Saúde Mental. enquanto não se torna realidade. Naquele momento existiam 25 CAPS no estado. Programa de Saúde Mental para crianças a adolescentes. pela Secretaria de Estado de Saúde e pela Comissão Intergestores Bipartite. 21). O trabalho coloca o CAPS. representou um balanço importante e um momento para rearticulações. Política de Medicamentos. Um consenso entre os participantes do Fórum foi o de que a Reforma Psiquiátrica passava por um período de dificuldades quanto à velocidade das ações. Em maio de 2000. o Fórum Nacional “Como Anda a Reforma Psiquiátrica Brasileira? Avaliação. 2000. p. capaz de funcionar como centro articulador.] a assistência psiquiátrica pública no Estado do Rio de Janeiro ainda tem como característica a hegemonia do dispositivo hospitalar e das longas internações” (DELGADO & GOMES. Programa de atenção à população em situação de rua. (CIB 54).. Como ações estratégicas de trabalho. a base de que precisamos para o trabalho já está alocada: a equipe do Programa de Saúde da Família e do Programa de Agentes Comunitários de Saúde. em uma lógica de rede. Como linhas de ação. 2000. VÁRIOS AUTORES.]” (DELGADO & GOMES. que se reúne mensalmente para troca de informações e discussão geral. está em que ele só pode exercer tal função caso exista.... O CAPS é realmente estratégico. O problema dessa definição do CAPS como pólo articulador. Constatou-se a falta de acompanhamento dos egressos de internações e falhas na rede ambulatorial e na atenção diária. não conseguimos descer do patamar dos sessenta mil leitos . a Assessoria implantou o Colegiado de Coordenadores Municipais de Saúde Mental. o que é visto graficamente com a presença desse dispositivo no centro dos recursos da rede de atenção psicossocial. Programa de Educação Continuada para atendimento psicossocial. (Cf. Perspectivas e Prioridades”. constatou que “[. p. Foi assinalado que “[. familiares e usuários dos serviços. então. Implantação dos CAPS.. relatada no trabalho que está sendo citado. 2000). Política intersetorial para atendimento do usuário de drogas. como “[. praticando. p. das instâncias de cuidados básicos em saúde [. DELGADO & GOMES. de reorientação dos recursos das AIHs para o sistema ambulatorial. mas também o é prescindir dele. repetimos. (Cf.

p. p. que só viria em 7/11/2000. que já existe em andamento proposta de introdução da Saúde Mental no Programa de Saúde da Família e no Programa de Agentes Comunitários de Saúde. As respostas a essas críticas mostravam que cabe aos Municípios partir para as ações práticas em Saúde Mental. do Ministério da Saúde. temos que pensar a mudança de estratégia e de modelo assistencial que é o chamado Programa de Saúde da Família.... dentre outras análises. organizados na Federação Brasileira de Hospitais e as “[. Isso está avançando aceleradamente . 2000. de 11/2/2000.]” (VÁRIOS AUTORES. Como fatores que impedem um ritmo maior de queda dos leitos psiquiátricos. 15). David também sugere que os profissionais de Saúde Mental tenham menos timidez em abrir a discussão com a sociedade e diz: [. 2000. Tem que haver conflito” (VÁRIOS AUTORES. aponta “[. Alfredo Schechtman. mais ou menos trinta milhões de pessoas no país.. 24). 94)..] “uma incompreensão ou uma idéia de não entender a reforma psiquiátrica como uma parte da reforma sanitária” (VÁRIOS AUTORES. destacou-se a ação do “sindicato de empresários”.]” e “[.. após assinalar a fertilidade da primeira metade da década de 90.] problemas do nosso lado” [. Mas.. mas são abandonados por elas. na minha opinião. MINISTÉRIO DA SAÚDE.]” (VÁRIOS AUTORES. Essas sete mil equipes se responsabilizam por cerca de sete milhões de famílias. 2000.] e “[..... biologicista. ou seja.. p.. Não podem. Segundo David. a todo custo.. citando a sua experiência: “solidez dos apoios” [.. 23). As críticas eram a respeito da não inclusão de pessoas que têm família. Hoje em dia há mais de sete mil equipes de saúde da família no país. sem esperar pelo Ministério da Saúde. que instituía o Serviço Residencial Terapêutico. Querem. p. há “dois grandes inimigos” da Reforma Psiquiátrica: “[.61 psiquiátricos no Brasil” (VÁRIOS AUTORES. ser algodão entre cristais. (BRASIL. 15). 2000. por parte do Ministério.] forças corporativas e profissionais reativas e reacionárias a um projeto de horizontalização das relações entre os assistidos e os que assistem” (VÁRIOS AUTORES.] um pensamento acadêmico.] amplitude das alianças [. David Capistrano Filho define a base da ação política em Saúde. e pela demora da regulamentação da Portaria... evitam o conflito. reducionista [. p.. 24).] o sindicato dos donos de hospitais [.... 27). 2000. 2002. sem que com isso deixe de ter claro que é necessário o conflito: “Quando falo de falta de audácia de certos gestores progressistas é porque eles.. quando a área de Saúde Mental do Ministério da Saúde era coordenada por Domingos Sávio. p.] quando mergulhamos a reforma psiquiátrica no caldo da reforma sanitária. 2000. lembra. O Fórum estava sob o impacto da edição da Portaria 106. p.

a serem implantados até dezembro de 2001. reconheceu que “[. 2000). por município e por custo) (COMISSÃO INTERGESTORES BIPARTITE. no Estado do Rio de Janeiro. ainda Assessor de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde do Estado do Rio de Janeiro. de 14/03/2000. Temos que introduzir os elementos de construção dos sistemas alternativos nos Programas de Saúde da Família (VÁRIOS AUTORES. 2000.. de 29 de janeiro de 1992. 37). naquele momento.] o movimento da reforma psiquiátrica no Brasil vive um período de estagnação [. Pedro Gabriel informa que. Trata-se da Deliberação CIB-RJ N. A deliberação citada inaugura. p. 2000). (VÁRIOS AUTORES. [. 37). dos pacientes que tiverem alta para encaminhamento aos Serviços Residenciais definidos nos termos da Portaria MS/GM nº 106.] avanços localizados em alguns lugares. retrocessos extraordinários em lugares que haviam avançado e existe uma desarticulação muito grande”. antes de coordenar a Saúde Mental do Ministério da Saúde. sejam integralmente utilizados nos Serviços Residenciais Terapêuticos do município onde se localize o Hospital Psiquiátrico em que o paciente está internado.62 e chegando às regiões metropolitanas.. além de fechar os leitos que se comprovarem ociosos. de 11 de fevereiro de 2000. º 54. O Deputado Paulo Delgado diz que a Reforma Psiquiátrica não parou... 2000. ou nos municípios de domicílio original do paciente de longa permanência.. VÁRIOS AUTORES. até dezembro de 2000). com “[. . segundo os limites financeiros e o cronograma de implantação e funcionamento discriminados no ANEXO II (Serviços Psiquiátricos Extrahospitalares de Implantação e/ou Consolidação Prioritárias... 2000.]” (VÁRIOS AUTORES. e no ANEXO III (Serviços Integrantes da Rede Pública de Atendimento Psicossocial do Estado do Rio de Janeiro. apenas está mais lenta. foi aprovada pela Comissão Integestores Bipartite uma resolução que redireciona recursos das Interações Psiquiátricas para a rede extra-hospitalar..] Aprovar a utilização dos recursos dos tetos financeiros de Internação em Hospital Psiquiátrico para custear a implantação e funcionamento de Centros de Atenção Psicossocial e Oficinas Terapêuticas. (Cf. na prática. que resolve: Determinar que os recursos financeiros correspondentes à AIH tipo 5. p. Diversos participantes mostraram a necessidade de maior participação dos militantes da Reforma Psiquiátrica nos Conselhos Municipais e Estaduais de Saúde e na fiscalização dos hospitais psiquiátricos. e que levaria a reivindicação de maior ação ao então Ministro da Saúde José Serra. Pedro Gabriel Delgado. definidos pela Portaria MS nº 224. 26). o redirecionamento do dinheiro gasto com internações psiquiátricas para a rede de atenção psicossocial. p.

39). mandou um texto onde informa que essa Associação promove a “[. p. (Cf. Pedro Gabriel conclui sua fala dizendo que “[. como os Programas de Saúde da Família e de Agentes Comunitários de Saúde” (VÁRIOS AUTORES. 2000.63 Pedro Gabriel adverte que. visitados e acompanhados.. hoje.]” (VÁRIOS AUTORES. 2000. o Ministério da Saúde propõe a saúde da família como um eixo estruturante para a reformulação do modelo e que na proposta da saúde da família todos os moradores de uma região são cadastrados. 2000. p. 2000. Outras intervenções apontaram para o trabalho na Atenção Básica. Muitos participantes se manifestaram para afirmar a necessidade de estados e.] a unidade básica de saúde. para que se intitular um dispositivo substitutivo às internações psiquiátricas. “o dinheiro segue o paciente”. VÁRIOS AUTORES). que opina que Se consideramos que.. os municípios. 2000. p. Através desse serviço de atenção diária. Isabel Cristina Lopes. carece ser recuperada como espaço privilegiado para se fazer saúde mental” (VÁRIOS AUTORES. e essas equipes se responsabilizam por esse território. p. pergunta: . como a de Fernando da Cunha Ramos. p 68) e no qual afirma que “[. Acho que essa é uma questão teórica que temos que enfrentar. com base no território: Tem que ser um serviço de atenção diária ancorado no território. a evitar o abandono do tratamento (VÁRIOS AUTORES.] formação popular de agentes comunitários de saúde mental” (VÁRIOS AUTORES. assumirem as suas responsabilidades com as ações da Reforma Psiquiátrica. 45) e a de Gisele Bahia.. a tratar dessas pessoas e. Citando a máxima de Benedetto Saraceno. também. da Associação SOS Saúde Mental.. recursos previstos e disponíveis no SUS. mais do que isso. a uma forma que me parece pouco eficaz do movimento social que sustenta a reforma [. um serviço ou ação de Saúde Mental deve proporcionar atenção diária. p. que é o financiamento das ações em Saúde Mental.. 2000. principalmente. Fernanda Nicácio toca num aspecto básico.. que disse da “[.] importância de se utilizar. a impedir novas internações. 40). como preconizada pela VIII Conferência Nacional de Saúde. 67). p.. 53).... são articuladas propostas interessantes – é fundamental que entrem na agenda do movimento – relativas ao PSF – Programa de Saúde da Família (VÁRIOS AUTORES. 39) e que “[... parece-me que a integração de saúde mental com o projeto de saúde da família pode nos ajudar a conhecer a clientela.] a relativa paralisia da reforma devese. 2000.] talvez nós tenhamos que modificar a nossa estratégia de lidar com o Estado” (VÁRIOS AUTORES. entre outras coisas.

passe para a mão dos usuários?” (VÁRIOS AUTORES. hoje. banho coletivo. p. Iniciativa da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados. não estávamos atentos para isso. Promotores de Justiça. 2000.474 pacientes. (Cf. em oito estados. efetivamente. Coordenadores Municipais de Saúde Mental. celas fortes. antes. que. em Paracambi. superlotação. falta de Programa de Saúde Mental estadual e de rede de atenção psicossocial. A Primeira Caravana Nacional dos Direitos Humanos foi composta por Deputados Federais. de 01 a 05 anos . mais de 10 . uso generalizado de eletrochoque. que é processar criminalmente os que submetem outros a sofrimento mental” (VÁRIOS AUTORES.. De fato. se faziam acompanhar. profissionais de Saúde Mental. 81). 2000. é fazer economia dos custos do setor. representantes da OAB. ONGs. Deputados Estaduais. de 05 a 10 anos . nas visitas. de 15 a 25 do mês seguinte ao Fórum. estará sendo realizada a Primeira Caravana de Direitos Humanos. representantes do Movimento da Luta Antimanicomial.. Estado do Rio de Janeiro. agora não é mais possível perder essa fonte de financiamento. p. O Deputado defende a idéia de “[.. Fóruns regionais de Saúde Mental.64 “[.. depositação de pacientes neurológicos. um número grande de pacientes cronificados. PRIMEIRA CARAVANA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS).. há anos. nos estados. A Caravana pretende “[. detectou o seguinte quadro de tempo de internação: “até cinco meses . Foram encontrados casos de clínicas que realizam psicocirurgia regularmente. de acordo com a ocasião. a Caravana teve como resultado apresentar uma amostra do que ainda acontece nos hospitais psiquiátricos no país.. usuários do sistema. abandono.]” (VÁRIOS AUTORES. criar o fato político e apresentar recomendações ao Ministério da Saúde. A visita à Casa de Saúde Dr. portanto quinze dias depois deste. com ida aos Hospitais Psiquiátricos com mais denúncias. relatos de violência.. na área psiquiátrica [. o que foi feito do dinheiro que pagava mensalmente. Eiras. 77). contenção mecânica fora das recomendações técnicas. 2000.] abrir denúncias e acusações por tortura mental em alguns manicômios e instituições psiquiátricas para se abrir uma nova disputa.. Uma das críticas que se faz às Reformas na Saúde adverte que o principal. membros dos Conselhos Municipais de Saúde.203 pacientes. 81). por representantes de Conselhos e Sindicatos das categorias profissionais da área de saúde.] que haja retomada do debate público a respeito das condições de privação de liberdade no Brasil. enfrentar a questão de como uma parte dos recursos destinados à AIH. O Deputado Marcos Rolim anuncia que. p. Associações de usuários.257 pacientes.] como podemos. de 06 a 1 ano 83 pacientes. Vereadores. os trinta mil leitos que foram fechados? Se. para elas.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. A Casa de Saúde Dr. O ano de 2001 trouxe avanços políticos significativos para a Reforma Psiquiátrica Brasileira e também na cena mundial da Saúde Mental. com seus pacientes sendo encaminhados aos municípios pelo trabalho feito pela Assessoria de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro. em maio de 2001. que seja restringido o uso do eletrochoque e abolida a psicocirurgia. pelo Presidente da República. que seja acelerada a dinâmica da Reforma Psiquiátrica. seria dedicado à Saúde Mental. a respeito da Lei. sim aos cuidados”. na sua definição. está descredenciada do SUS. sob o ângulo “[. A OMS levou à sua Assembléia Mundial da Saúde. dos problemas específicos de cada sexo e dos direitos humanos” (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE..485 pacientes” (PRIMEIRA CARAVANA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS).. foi a aprovação pelo Congresso Nacional e a sanção. 2001). a chamada “Lei Paulo Delgado”. dentre outras medidas. (Cf. 18).] reflete o consenso possível sobre uma lei nacional para a reforma psiquiátrica no Brasil” (BRASIL. MINISTÉRIO DA SAÚDE. que alguns hospitais sejam descredenciados.. Este consenso foi . hoje. que 50% do valor que é pago nas Autorizações de Internação Hospitalar seja repassado aos pacientes e famílias quando da alta. que seja enfrentada a situação dos manicômios judiciários. a Caravana propõe. PRIMEIRA CARAVANA NACIONAL DE DIREITOS HUMANOS). um dia antes do Dia Mundial da Saúde da OMS. Este é o retrato dos resultados da psiquiatria organicista e do modelo manicomial. em 2001. determinou que o Dia Mundial da Saúde. da lei 10. Nas recomendações ao Ministério da Saúde.216. A Organização Mundial da Saúde decidiu chamar a atenção para as condições de Saúde Mental e sua assistência durante o ano 2001: ao mesmo tempo em que lançava o lema “Não à exclusão. 2002. a Lei foi sancionada pelo Presidente em 6 de abril.65 anos . naquele ano.. p. A lei. É o nosso objetivo e o atingiremos nos próximos anos” (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. que seja convocada a III Conferência Nacional de Saúde Mental. Fato político marcante. Mostrando a importância da pressão internacional. “Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental” (BRASIL. p. quem está na direção do Programa de Saúde Mental da OMS é Benedetto Saraceno. 15). esta “[. dedicado à Saúde Mental. 2001). com investimento da rede substitutiva à internação. É nossa responsabilidade insistir pelas mudanças de política e de atitude. que diz: “Nós sabemos o que não vai bem e temos as soluções.] da pobreza. 2002. Eiras de Paracambi. Nesse momento. da discriminação. Como bem assinala o “Comentário” do Ministério da Saúde. o problema da Saúde Mental.

p. BRASIL. muito mais.216 proíbe a internação em lugares de características asilares.. excluir. de 11 a 15 de dezembro de 2001. Para as internações involuntárias. O material de divulgação da III Conferência Nacional de Saúde Mental traz um pequeno texto definidor cuja primeira parte. A Conferência teve.). MINISTÉRIO DA SAÚDE. 15). “Saúde Mental na Atenção Básica”. 15). MINISTÉRIO DA SAÚDE. em todos os 27 estados da federação. o texto resume os propósitos atuais da Política de Saúde Mental do Ministério da Saúde: “Efetivando a Reforma Psiquiátrica com acesso. depreende-se que o Poder Público está instado a dotar o SUS de meios para que a Lei se cumpra: as pessoas têm o direito de terem tratamento em serviços comunitários e não em internações psiquiátricas. dentre eles o de “[. (Cf. a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica é citada em várias passagens e num . Ao longo desse percurso. como tema de um de seus Painéis. preferencialmente. involuntárias e compulsórias. 2001 b. o projeto passou por mudanças e. A III Conferência Nacional de Saúde Mental. 173 Micro-regionais e Regionais. os sub-temas da Conferência foram: financiamento. no artigo 4. se reflete o momento em que vivemos. sim. 2002). realizada em Brasília. A Lei 10. de Minas Gerais. “Cuidar. mostra que avançamos muito e que precisamos avançar mais. 2002. Como. a Lei exige que. aconteceu após intensa mobilização. no prazo de setenta e duas horas. BRASIL. controle social e acessibilidade. A Lei 10. com cerca de 30 mil pessoas envolvidas. a Lei indica que “A internação. determina que deve ser desenvolvido programa de alta e reabilitação psicossocial para as pessoas há longo tempo internadas.. 2002. Com essa orientação. MINISTÉRIO DA SAÚDE. recursos humanos. p. a mesma seja comunicada ao Ministério Público Estadual. Na segunda parte. bem como as altas. que fez realizar 163 Conferências Municipais. 2002. em qualquer de suas modalidades. humanização e controle social”. é o lema da Organização Mundial da Saúde para o ano 2001. Um avanço seria essa interpretação ser colocada de modo absolutamente explícito. qualidade. 16). não”. (Cf. No “Caderno de Textos” da Conferência (Cf.66 conseguido após 12 anos de tramitação do Projeto de Lei do Deputado Paulo Delgado.216 define uma série de diretos das pessoas portadoras de transtorno mental. em serviços comunitários de saúde mental” (BRASIL.] ser tratada. direitos e cidadania. só será indicada quando os recursos extra-hospitalares se mostrarem insuficientes” (BRASIL. SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. revelando a maior importância que o assunto estava adquirindo. p. MINISTÉRIO DA SAÚDE. define e diferencia internações voluntárias.

Os números referemse à seqüência em que aparecem no Relatório Final. No capítulo III faremos referência a esses textos.] . Entendemos. p.. prevenção e reabilitação psicossocial mediante o desenvolvimento da atenção básica associada ao Programa de Saúde da Família. A III Conferência Nacional de Saúde Mental progride significativamente. a Conferência reafirma os princípios do SUS e recomenda que “[.. quanto ao conteúdo das propostas que focalizam a Atenção Básica. assim. com relatos de trabalhos em andamento. 2002.Garantir espaços de promoção de saúde mental.. 2002. 12. no Relatório Final da III Conferência Nacional de Saúde Mental.... 23). mas também com a internação e a exclusão em todas as suas formas...]” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE.. governos estaduais e municipais incluam a saúde mental na NOAS como prioridade na atenção básica [. como vimos em Foucault. Sob o título de “Reorientação do Modelo Assistencial em Saúde Mental”. indica que “[. promoção.Articular as ações de assistência. os poderes têm artes sutis com efeitos violentos.. p. estimulando a criação de grupos de convivência e oficinas terapêuticas na comunidade. 19). A definição oficial mostra o avanço que foi obtido e uma posição definida. da extinção dos hospitais psiquiátricos.] 27.] os municípios desenvolvam [. Estamos no ambiente da cultura e do imaginário social.Exigir que o Ministério da Saúde. 24). campos importantes de enfrentamento da questão. os “Princípios e Diretrizes” de cada subtema e citaremos os itens aprovados que têm relação com as ações de Saúde Mental na Atenção Básica. 84.] políticas de saúde mental mediante a implementação de uma rede de serviços substitutivos ao hospital psiquiátrico. Assinale-se com ênfase. Esta é uma definição que não deixa margem a dúvidas: estamos no caminho.. Dos itens aprovados no título “Reorientação do Modelo Assistencial em Saúde Mental” que tratam da Atenção Básica temos os que citaremos a seguir. está colocado que a Conferência elaborou “[. 2002..] propostas e estratégias para efetivar e consolidar um modelo de atenção em saúde mental totalmente substitutivo ao manicomial” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. Para isso. agora fazendo parte do discurso oficial. que não basta acabar com a organização hospital psiquiátrico... em relação à II..] as políticas de saúde mental devem ter como pressupostos básicos a inclusão social e a habilitação da sociedade para conviver com a diferença” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. p. implementando uma rede de serviços territoriais de saúde mental..67 item específico. territorializados e integrados à rede de saúde [. [. que na “Apresentação” do Relatório Final. Percorreremos. Mas.

126. p. preferencialmente por meio da estratégia do Programa de Saúde da Família (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. “[. nas agendas municipais de saúde. 138. há um item específico para ela. 2002. Podemos destacar os seguintes itens aprovados: 128.Garantir maior resolubilidade e capacidade da Rede Básica de Atenção. tais como: visita domiciliar. potencialização de recursos comunitários.Incluir. atendimentos em grupo e individuais. com capacitação em saúde mental das equipes mínimas do PSF. quando. 137.Garantir que cada município conte com atendimento e integração da assistência à saúde mental na rede básica (PACS/PSF/Centros de Saúde comunitários).Desenvolver a prática de cuidado domiciliar. incorporar as ações de saúde mental no Programa de Saúde da Família” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. 136. para que os municípios sejam habilitados ao nível de gestão PAB Ampliado.] que indica a responsabilidade da unidade básica por 80% das necessidades de saúde da população. Ainda dentro do título “Reorientação do Modelo Assistencial em Saúde Mental”. garantindo a integralidade da atenção.. em sua recente Assembléia Mundial.. “Atenção Básica”.Defender a inclusão das ações de saúde mental no nível básico da atenção à saúde.68 89. 2002. 48). incluindo atenção em saúde mental” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. Dentro dessa ótica. 2002. ou aquelas dos serviços de saúde mental especializados já existentes.Promover a prevenção em saúde mental por meio da oferta de atividades para este fim (por exemplo: esportes comunitários. reafirma as recomendações da Oitava Conferência Nacional de Saúde “[. dimensionando equipes especializadas de referência (para atendimento e assessoria) que podem ser específicas. no elenco de Ações e Programas exigidos pela NOAS/2001.Introduzir o atendimento domiciliar na Rede de Assistência Básica.As equipes multiprofissionais de saúde mental que trabalham junto ao PSF atenderão prioritariamente aos casos graves e observarão a seguinte proporção para sua constituição: um profissional de saúde mental para cada duas equipes de Saúde da Família. definindo elementos para compor o pacto de criação de indicadores da atenção básica. em articulação com os profissionais de saúde mental. 134.] é necessário incluir a atenção aos portadores de sofrimento psíquico nas ações básicas de saúde e. de modo que sejam cumpridas as metas da OMS.Garantir a incorporação das ações de saúde mental no Programa de Saúde da Família.. para atender ao Princípio da Integralidade. deliberou pela ampliação dos cuidados em saúde mental na Atenção Básica à Saúde. mediante oferta de ações mais locais por parte dos profissionais de Saúde da Família. em substituição ao cuidado hospitalar. 135. 48). p.Estabelecer como porta de entrada da rede de saúde mental as Unidades Básicas de Saúde. p. em maio de 2001. 139. 132. mostrando a importância que a Atenção Básica assumiu na III Conferência. grupos de . O texto introdutório desse item.. 48). a atenção à saúde mental. como estratégia de enfrentamento das situações de crise dos portadores de sofrimento psíquico e seus familiares. também.

Criar a ficha “B” de Saúde Mental no Sistema de Informação da Atenção Básica – SIAB. a III Conferência determina a qualificação continuada. PACS. a remuneração justa. 67). 2002. p. que aconteceu em Brasília. 2002. 141. por meio da maior valorização da experiência de familiares e usuários... Importante definição é a que se segue. 2002. 142.] democratização das relações e das discussões em todos os níveis de gestão.69 mães.. p. PSF e comunidade. Saúde. 68). 143. E o grupo “Atenção à Saúde Mental” do sistema de informações ambulatoriais do SUS na designação “atendimento a grupos específicos” da tabela de procedimentos (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. No título “Recursos Humanos”. lazer e outros). monitorar e avaliar os usuários portadores de transtornos mentais atendidos pela Equipe de Saúde da Família. garantindo desta forma a integração e o diálogo com os saberes populares (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. colocar suas sugestões em discussão e aprová-las como orientações para o âmbito nacional. muitos pontos que apareceram como proposições na III Conferência. 51). que funcionem como referência às equipes do PSF e das Unidades Básicas de Saúde.Implantar serviços de atendimento/internação domiciliar em saúde mental realizados por equipes itinerantes ou equipes do PACS/PSF. Os itens mostram a diversidade de modos de compreender a Saúde Mental na Atenção Básica e a fertilidade do momento.] a política de recursos humanos deve estimular a dissolução do “manicômio mental” implícito no saber científico convencional. 2002. O conteúdo das propostas será comentado adiante. que tem incidência direta nas ações da Atenção Básica: [. em março de 2001. capacitadas nos princípios da Reforma Psiquiátrica. a “[. desenvolvidas preferencialmente por recursos comunitários. implantação e avaliação” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE.. oficinas de arte e de ofícios. como forma de coletar dados para acompanhar.. com detalhes. também.Garantir supervisão continuada no desenvolvimento do trabalho conjunto das equipes PACS/ PSF e Saúde Mental e. que discutiu. para a “[. contemplando os momentos de planejamento. avaliar as ações de saúde mental executadas pelas equipes de Saúde da Família visto que o Programa é recente. a garantia de condições de trabalho. p. quando tratarmos da "Oficina de Inclusão de Ações de Saúde Mental no Programa Saúde da Família”. Os itens aprovados e citados acima revelam que diversos participantes da III Conferência compareceram com o propósito de apresentar as ações de Saúde Mental na Atenção Básica em andamento. que discrimina o saber popular.Criar equipes volantes de saúde mental. As orientações no sentido de rompimento com os “especialismos” são explícitas. . p. de acordo com a necessidade epidemiológica de cada localidade ou para cada grupo de cinco equipes. 140.] construção de um novo trabalhador em saúde mental” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. 68).. grupos de apoio.

assistência e reabilitação social). 2002. O título “Financiamento” reafirma um princípio que. para o uso de medicamentos essenciais nas patologias de maior prevalência (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. Quando não houver competência das equipes do PACS/PCF. em parceria das universidades com os órgãos do SUS. Capacitar os médicos generalistas que atuam na atenção básica. p. por meio de protocolos assistenciais. 85. 241. Assim. quanto aqueles relacionados à mudança de concepção da comunidade acerca do sofrimento psíquico. 76). atendimento e supervisão das equipes dos referidos programas. Grifo do autor). capacitação.70 Dentro do título “Recursos Humanos” há uma subdivisão que trata da “Capacitação em saúde mental para a rede básica de saúde (PACS e PSF)” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. Normatizar e realizar programas de capacitação em saúde mental para todas as equipes do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS) e do Programa de Saúde da Família (PSF). de forma a garantir o desenvolvimento de uma prática de saúde com integralidade e a incorporação destas equipes à rede de saúde mental. nos próximos anos e décadas deveremos ter como básico e orientador para a luta diária: A lógica fundamental da estrutura de financiamento exigida é de que os recursos financeiros devem acompanhar o usuário nos diferentes espaços de reprodução social e ser viabilizadores de processos emancipatórios. Esta capacitação deverá contemplar tanto aspectos técnicos (relativos à promoção da saúde. p. O subtítulo “Financiamento das ações de saúde mental na Atenção Básica” tem o seguinte preâmbulo: Uma política de saúde mental baseada no princípio da integralidade requer a garantia de financiamento para as ações básicas de saúde mental desenvolvidas em Unidades Básicas de Saúde (UBS). garantindo o papel da equipe multidisciplinar de saúde mental na condição de assessoria. 2002. pp 76 e 77). Programa de Saúde de . 2002. 240. A Saúde Mental na Atenção Básica surge como um dos alvos do redirecionamento financeiro. os recursos devem ser centrados nas pessoas e não nos serviços (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. Também foi enfatizada a necessidade de reorientar os recursos das AIHs para a rede de atenção psicossocial. e relativos à humanização das práticas. Foram aprovados os itens: 239. os casos deverão ser referenciados para serviços mais complexos. Integração do programa municipal de saúde mental com o PACS/PCF. consultoria.

PSF. Exigir que o Ministério da Saúde crie incentivo mensal para equipes do Programa de Saúde da Família . 2002. 97). No subtítulo “Implementação e regulamentação do financiamento de novas iniciativas. 95). tanto na parte fixa como na variável. com especial ênfase às ações no âmbito da atenção básica. Dentro deste princípio. nesse subtítulo. 2002. PACS e viabilizar recursos financeiros para a contratação de profissionais de saúde mental. foi aprovada. incluídas e incentivadas no PAB. com financiamento pelo Piso de Atenção Básica (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. os seguintes itens: 325. . Incluir a atenção básica em saúde mental como ação prioritária e critério para cadastramento dos municípios no PAB ampliado. Tais proposições incluem a ampliação das modalidades de serviços residenciais. Financiar ações de saúde mental desenvolvidas em unidades básicas de saúde. Criar dispositivo de financiamento destinado às ações de atendimento e/ou acompanhamento e/ou internação domiciliar/comunitária aos usuários de todos os programas da rede de atenção em saúde mental. Esse repasse será realizado sem prejuízo dos outros recursos federais destinados à saúde mental. 2002. 97).como acontece na saúde bucal do PSF para os municípios que desenvolvem programas de saúde mental. p. com garantia de contratação de recursos humanos. ações e procedimentos em saúde mental”. a implementação de novas modalidades de assistência domiciliar. Foram aprovados. pp 85 e 86). Reajustar a tabela PAB (Piso de Atenção Básica). revendo os valores defasados destinados para os municípios (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. 328. 327. p. 2002. a proposta que levamos. 329. que inclua aquisição e manutenção de veículo utilizado para a realização das visitas e/ou transporte de usuários (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. com algumas modificações. com garantia de financiamento pelo Ministério da Saúde. 326. que determina: 335. Garantir o financiamento de ações substitutivas no campo da Saúde Mental. p. o desenvolvimento de formas de apoio financeiro aos usuários. familiares e cuidadores e o financiamento de programas de geração de renda e cooperativas de trabalho (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. representando o Estado do Rio de Janeiro. está dito que: O aprofundamento da Reforma Psiquiátrica requer a implementação de novos mecanismos para viabilizar o financiamento de ações inovadoras visando à ampliação do campo de possibilidades das práticas desenvolvidas pela rede de serviços substitutivos.71 Família (PSF) e Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS).

finanças e portarias do SUS e acesso ao prontuário. O título “Direitos e Cidadania” abre com uma importante definição: . profissionalização. 2002. Que os governos federal. 2002. p 39). Afirma que é necessário ampliar a rede de CAPS e de ambulatórios e: [.] trabalho. saneamento básico” (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. 340. destacam-se os itens: 339. totalmente com recursos comunitários e familiares. Garantir que uma porcentagem do valor das AIHs referentes aos leitos psiquiátricos desativados seja destinada à criação de bolsa de auxílio aos familiares ou aos usuários ex-moradores de hospitais psiquiátricos (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. o tema é desenvolvido. O título “Acessibilidade” reafirma um dos princípios do SUS. 2002). que deve ser garantido ao usuário. educação. creches.. p. No “Caderno Informativo”. (Cf. Trata. O texto do “Relatório Final” refere-se à “Acessibilidade” também em termos de acesso a bens e serviços da sociedade: “[. lazer.] garantir a implantação de serviços comunitários de saúde mental integrados aos programas de atenção básica e à rede geral de serviços. Ainda no mesmo subtítulo. da garantia de acesso às informações a respeito dos dados. moradia decente com um mínimo de privacidade.. utilizando-se das estratégias mais adequadas a cada região/território no intuito de superar o modelo tradicional (CONFERÊNCIA NACIONAL DE SAÚDE MENTAL. a incrementar a abertura de possibilidades de prestar atendimento às crises. sob responsabilidade e acompanhamento do serviço territorial de referência e controle dos conselhos de saúde. segurança pública. de garantir eqüidade de acesso a todos os serviços para as pessoas que dele necessitem. Garantir que as instâncias federal. 107)..72 Destina-se. estadual e municipal desenvolvam iniciativas visando destinar recursos financeiros ao cuidador (familiar ou membro da comunidade) responsável pela desospitalização de usuário morador em hospital psiquiátrico e responsabilizem o serviço de saúde mental de referência pelo acompanhamento contínuo desse processo.. ainda. 341. 98). transporte. lançado na III Conferência pelo Ministério da Saúde. estadual e municipal aprovem e destinem recursos para a criação de bolsa incentivo aos programas de desinstitucionalização às famílias ou diretamente aos usuários. essa proposição. escolas. SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. cujo texto já circulava antes da Conferência. para promover a reinserção familiar ou a autonomia da pessoa nos serviços residenciais. p. atualmente ainda denominadas de modo reducionista de “emergências psiquiátricas”. 2001. articulados à rede de atenção psicossocial com ênfase nas ações de Saúde Mental na Atenção Básica.

no âmbito da assistência em saúde mental.. sindicatos. com o usuário podendo recorrer judicialmente quanto às últimas. (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. “Controle Social”: A ação da sociedade civil e dos movimentos sociais é ressaltada. instituições religiosas. visando a garantir que os programas municipais de saúde mental não sofram descontinuidade por ocasião de mudanças de gestão administrativa e/ou política. de políticas que fomentem a autonomia dos portadores de transtornos mentais. 2002. 2002. a organização da sociedade civil e dos movimentos sociais. destaca-se a que repudia a utilização do eletrochoque: Moção de repúdio à utilização da Eletroconvulsoterapia (ECT): Determinar a abolição em definitivo do uso do eletrochoque no cuidado em Saúde Mental.73 Foi ressaltada a priorização. da educação.] garantir a continuidade da política de substituição do modelo hospitalocêntrico. urge criar estratégias para viabilização de maior envolvimento dos diferentes atores sociais com as questões de saúde mental: usuários. etc. p. No título “Controle Social”.216/01) e a regulamentação das internações voluntárias e involuntárias. setor informal. na fiscalização das práticas de saúde mental. grandes e pequenos empresários. no lugar de iniciativas tutelares (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. Deve-se propiciar a participação dos usuários. p. movimentos sociais e outros (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. ONGs. independente das mudanças do poder executivo. p. 121). Aqui.. 2002. 141). dentro do mesmo item. Nas “Moções” da Conferência. os Conselhos) e outros que se façam necessários: as Comissões de Saúde Mental. da cultura. 161). Também neste sentido. familiares. . são incentivadas as ações de geração de renda e de inclusão dos portadores de transtornos mentais no mundo do trabalho. Importante definição é a que se segue. familiares e trabalhadores de saúde mental na elaboração das políticas públicas de saúde e no acompanhamento das ações de saúde mental. do lazer. através de mecanismos de controle social já existentes (por exemplo. poder público. incentivando deste modo o exercício de cidadania plena. assim como exigir a retirada do Projeto de Lei (hoje em tramitação) que regulamenta o seu uso (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. a Conferência propõe: [. Propõe-se incentivar e apoiar as ações dos núcleos estaduais da luta antimanicomial. p. Exige-se a imediata colocação em ação dos princípios dispostos na lei Paulo Delgado (Lei 10. 2002. as Conferências. 142). o espaço legislativo.

o debate sobre os rumos das transformações que queremos. como conseqüência direta do Movimento da Reforma Psiquiátrica. temos a “Moção de repúdio ao Governo Federal e ao Ministério da Saúde”. Nova Esperança”. o tema surge com uma força que não existiu nas Conferências anteriores e vimos o lançamento do “Relatório Sobre a Saúde no Mundo 2001. p.. Saúde Mental: Nova Concepção. associados a usuários e familiares na luta diária da Reforma Psiquiátrica e não foi reinvestido no sistema. 2002. de 19/02/2002.000 leitos psiquiátricos nos últimos anos.74 Como uma advertência para o que temos pela frente em termos de financiamento. de 31/01/2002. que sugere que a Saúde Mental deve ser abordada preferencialmente na rede primária.. mas fica a dívida que a Moção cobra. 2002. Que estes recursos retornem como investimento na Rede de Serviços Substitutivos. da Organização Mundial da Saúde. a retirada desses leitos economizam um total de 21 milhões de reais por mês. em todo o país. Com os instrumentos de redirecionamento hoje existentes tal distorção começa a ser corrigida. em dinheiro e valores de hoje. Para uma avaliação da importância do que consta dessa Moção. MINISTÉRIO DA SAÚDE. propondo avanços. . para a rede CAPS” (BRASIL.] substituição progressiva dos macro-hospitais” (BRASIL. A Portaria 251. ou 252 milhões de reais por ano..] mecanismo de financiamento próprio. 120). Voltaremos a essa publicação no Capítulo IV. 105). e por ter proporcionado.. para além dos tetos financeiros municipais. o Ministério da Saúde editou Portarias que redefinem alguns procedimentos. definindo normas e diretrizes para os CAPS de adultos. p. resgatando a dívida social com as vítimas do modelo manicomial (SISTEMA ÚNICO DE SAÚDE. de 1992. 161). A Portaria 336 também tem o mérito de criar “[. 2002. Esse montante deixou de ser gasto pelo Ministério da Saúde por obra dos profissionais de Saúde Mental. estabelece normas para a assistência em hospitais psiquiátricos. MINISTÉRIO DA SAÚDE. infantil e para o problema do álcool e outras drogas. A Portaria 336. No aspecto específico da Saúde Mental na Atenção Básica. A III Conferência Nacional de Saúde Mental tem grande importância por reafirmar os princípios da Reforma Psiquiátrica. p. Depois da III Conferência. estimulando a “[. além de ser uma cobrança. que diz: Repúdio às atitudes de falta de transparência do Governo Federal e do Ministério da Saúde que não explicaram o destino dos recursos financeiros que “desapareceram” com a extinção de mais de 30. atualiza a Portaria 224.

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Domingos Sávio, em palestra, em novembro de 2003, no lançamento do “Fórum InterInstitucional da Rede de Atenção Psicossocial Extra-Hospitalar do Estado do Rio de Janeiro”, representando o Coordenador de Saúde Mental do Ministério da Saúde, Pedro Gabriel Godinho Delgado, dá como diagnóstico e diretrizes do Ministério da Saúde, a respeito da área de Saúde Mental, os seguintes pontos:
-Grupo de transtornos de alta e crescente prevalência e baixa cobertura assistencial. -Modelo Assistencial em transição do hospitalar para o comunitário, ainda refletindo as graves distorções do modelo asilar. -Política pública necessariamente intersetorial, com interfaces fundamentais com áreas de assistência social, direitos humanos, justiça, trabalho, habitação, etc. (SÁVIO, 2003).

De modo bastante instrutivo, Domingos adverte para o fato de que a Reforma Psiquiátrica, no momento, tem hegemonia da política e não hegemonia da assistência. Isso significa que os principais postos de Poder na área de Saúde Mental e a organização e prática da assistência estão a cargo do movimento pela transformação da área, mas que o modelo que ainda vigora é o manicomial. Domingos lista as diretrizes do Ministério da Saúde para 2003 e 2004, na Saúde Mental:
-Redução progressiva dos leitos psiquiátricos (desinstitucionalização). -Expansão dos CAPS. -Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica. -Implantação do Programa 'De volta pra casa'. -Expansão das Residências Terapêuticas. -Formação e qualificação de Recursos Humanos. -Promoção de direitos dos usuários e familiares e incentivo à participação no cuidado. -Reorientação dos Manicômios Judiciários. -Qualificação do atendimento hospitalar e ambulatorial. (SÁVIO, 2003).

Em 20 de janeiro de 2004, O Ministério da Saúde editou uma Portaria que define o "Programa Anual de Reestruturação da Assistência Psiquiátrica Hospitalar no SUS – 2004". A Portaria 52, acrescida da Portaria 53, da mesma data, estabelece uma progressão no valor das diárias pagas aos Hospitais Psiquiátricos que diminuírem a quantidade de leitos. Com a Portaria, os Hospitais Psiquiátricos têm um incentivo para a redução das suas vagas e os Estados e Municípios estão, mais ainda, desafiados a aumentar as suas capacidades de ampliação da Rede de Atenção Psicossocial. Deve ser destacado o “Anexo” da Portaria 52, que contém definições para o momento em que vivemos. Dele consta que “O processo de mudança do modelo assistencial deve ser

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conduzido de modo a garantir uma transição segura, onde a redução dos leitos hospitalares possa ser planificada e acompanhada da construção concomitante de alternativas de atenção no modelo comunitário”. (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004, c.). Numa afirmação da política de Saúde Mental do Ministério da Saúde, nos últimos anos, diz a Portaria 52:

Este Programa Anual - 2004 é parte integrante da política de saúde mental do SUS, cujo objetivo é a consolidação do processo de reforma psiquiátrica. Ele trata do componente hospitalar especializado, de sua reestruturação, das mudanças de seu financiamento, do redirecionamento dos recursos financeiros para atenção extra-hospitalar, da construção de planos municipais, micro-regionais estaduais de desinstitucionalização e de implantação de rede de atenção comunitária. O Programa articula-se com outras áreas da reforma psiquiátrica, especialmente: atenção em saúde mental no hospital geral, saúde mental na atenção básica, urgência e emergência em saúde mental, consolidação da rede de CAPS I, II, III, i e AD, programa De Volta para Casa, expansão das residências terapêuticas e outros, que são objeto de normas e documentos específicos. (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004, c.).

Em 16 de setembro de 2004, o Ministério da Saúde editou uma Portaria que representa uma mudança na forma de financiar ações de Saúde Mental (Cf. MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2004, f). Pela Portaria, os CAPS passam a receber o incentivo financeiro, inicial, logo após o Gestor Municipal se comprometer a colocá-lo em funcionamento em três meses. Antes, este incentivo só era recebido após o longo processo de credenciamento. Agora, o Governo Federal adianta-se e, desta forma, estimula, com dinheiro novo, a expansão da rede de assistência extra-hospitalar, o que foi uma reivindicação da III Conferência Nacional de Saúde Mental. Escrever sobre a Reforma Psiquiátrica é um trabalho interessante em muitos aspectos, dentre eles o fato de ser um processo vivo. Pretendemos que, com os avanços, o próprio termo “Reforma Psiquiátrica” já mostre o seu caráter provisório, visto que não se trata apenas de uma mudança na psiquiatria. E é preciso algo mais do que “Reforma”. Deixo o relato nesse ponto, aguardando e provocando novos acontecimentos.

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CAPÍTULO 4

OS PROGRAMAS DE ATENÇÃO BÁSICA NO BRASIL

Neste capítulo veremos algo a respeito das origens das orientações para o trabalho na Atenção Básica, os Programas que surgiram no Brasil e algumas críticas às Reformas na área de Saúde. A Declaração de Alma-Ata, de 1978, resultado da “Conferência Internacional sobre Cuidados Primários de Saúde”, teve por objetivo expressar a
[...] necessidade de ação urgente de todos os governos, de todos os que trabalham nos campos da saúde e do desenvolvimento e da comunidade mundial para promover a saúde de todos os povos do mundo [...] (DECLARAÇÃO DE ALMA-ATA).

A Declaração de Alma-Ata tornou-se uma referência central para todos os que pensam a saúde coletiva, e seus princípios estão presentes nos projetos de saúde que trabalham com o coletivo. Num de seus primeiros itens, a Declaração diz: “É direito e dever dos povos participar individual e coletivamente no planejamento e na execução de seus cuidados de saúde” (DECLARAÇÃO DE ALMA-ATA). Trata-se de uma definição simples e de profunda significação. Hoje existe uma tentativa de incorpora-la no modo de agir dos que planejam e executam as ações de saúde, mas ainda foi alcançada a sua plena potência. A Declaração dá total ênfase ao que chama de “cuidados primários em saúde” e muitos dos seus principais itens são voltados para esse conceito, assinalando que esses cuidados seriam a chave, para que a meta de saúde para todos no ano 2000 fosse atingida. A Declaração define:
Os cuidados primários de saúde são cuidados essenciais de saúde baseados em métodos e tecnologias práticas, cientificamente bem fundamentados e socialmente aceitáveis, colocadas ao alcance universal de indivíduos e famílias da comunidade, mediante sua plena participação e a um custo que a comunidade e o país possam manter em cada fase de seu desenvolvimento, no espírito de autoconfiança e automedicação. Fazem parte integrante tanto do sistema de saúde do país, do qual constituem a função central e o foco principal, quanto do desenvolvimento social e econômico global da comunidade. Representam o primeiro nível de contato dos indivíduos, da

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família e da comunidade com o sistema nacional de saúde, pelo qual os cuidados de saúde são levados o mais proximamente possível aos lugares onde as pessoas vivem e trabalham, e constituem o primeiro elemento de um continuado processo de assistência à saúde (DECLARAÇÃO DE ALMAATA).

Como poderemos ver, o que consta dessa citação estará presente nas práticas do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS), do Programa de Saúde da Família e nas ações da Saúde Mental na Atenção Básica. A Declaração trata de esmiuçar a definição e o alcance dos cuidados primários de saúde. Num dos pontos, diz que os cuidados primários de saúde: “Têm em vista os principais problemas de saúde da comunidade, proporcionando serviços de proteção, cura e reabilitação, conforme as necessidades” (DECLARAÇÃO DE ALMA-ATA). Coerente com a visão ampla a respeito do que é saúde, a Declaração recomenda a educação para a saúde, o controle do meio ambiente e da água, o saneamento básico. Aponta para a política intersetorial, principalmente no aspecto de produção de alimentos, habitação, educação e comunicação. Uma definição preciosa para os propósitos da Saúde Mental nas comunidades diz que os cuidados primários de saúde:

Requerem e promovem a máxima autoconfiança e participação comunitária e individual no planejamento, organização, operação e controle dos cuidados primários de saúde, fazendo o mais pleno uso possível de recursos disponíveis, locais, nacionais e outros, e para esse fim desenvolvem, através da educação apropriada, a capacidade de participação das comunidades (DECLARAÇÃO DE ALMA-ATA).

Possui grande implicação para as práticas atuais um dos itens que define os cuidados básicos em saúde:

Baseiam-se, nos níveis locais e de encaminhamento, nos que trabalham no campo da saúde, inclusive médicos, enfermeiros, parteiras, auxiliares e agentes comunitários, conforme seja aplicável, assim como em praticantes tradicionais, conforme seja necessário, convenientemente treinados para trabalhar, social e tecnicamente, ao lado da equipe de saúde e responder às necessidades expressas de saúde da comunidade (DECLARAÇÃO DE ALMA-ATA).

Concluindo, a Declaração “[...] concita à ação internacional e nacional urgente e eficaz, para que os cuidados primários de saúde sejam desenvolvidos e aplicados em todo o

. p. A democratização do conhecimento do processo saúde/doença.79 mundo e.. 1996. 11).. A eleição da família e de seu espaço social como núcleo básico de abordagem no atendimento à saúde. seria “[. p. de caráter essencialmente curativo. Hesio afirma que As crises cíclicas do Estado brasileiro. no ambulatório e no hospital. p. 1996. principalmente.] a mudança do modelo assistencial esboçada nos projetos de criação dos distritos sanitários ou dos sistemas locais de saúde” (CORDEIRO. As orientações internacionais. Hesio defende que a mudança do modelo assistencial tem no Programa de Saúde da Família a sua principal estratégia no campo das ações de saúde. da organização dos serviços e da produção da saúde. normas e.] estratégia para a mudança do modelo assistencial do SUS” (CORDEIRO. A intervenção sobre os fatores de risco aos quais a população está exposta. caro. 1996. orçamentos que viabilizassem o pleno desenvolvimento da reforma sanitária (CORDEIRO. . particularmente... 10). Hesio critica “[. 10). 1996.] a lógica da incorporação das inovações nas práticas de saúde” (CORDEIRO. Hesio Cordeiro situa o PSF como uma “[. A humanização das práticas de saúde e a busca da satisfação do usuário através do estreito relacionamento da equipe de saúde da comunidade. segundo Hesio. Em afirmações que nos permitem fazer imediata correspondência com o que ocorre no sub setor da Saúde Mental. no domicilio. A tarefa de então. que não incorporaram práticas que “[. 10). CORDEIRO. nos países em desenvolvimento [.. contínua e de boa qualidade nas especialidades básicas de saúde à população adscrita. p..] assegurem a continuidade da relação médico-paciente ou da equipe de saúde com as famílias” (CORDEIRO. 1996. as políticas de ajuste econômico e o déficit público contribuíram para dificultar que os princípios da Constituição-Cidadã saíssem do papel para que inspirassem leis. 1996) e dá como princípios do mesmo os seguintes pontos: O reconhecimento da saúde como um direito de cidadania e que expressa a qualidade de vida.. p..] o chamado ‘modelo hospitalocêntrico’.. Num artigo muito citado na literatura a respeito do Programa de Saúde da Família. p. Para iniciar sua argumentação... A prestação de atenção integral. e controlado pelo setor privado” (CORDEIRO. 10) e também a não resolubilidade dos ambulatórios.]” (DECLARAÇÃO DE ALMA-ATA). (Cf. mas com atenção para “[. 1996. adotadas criticamente ou não. influenciaram textos e trabalhos no Brasil. 10).

. O trabalho define a Vigilância da Saúde como um Modelo Assistencial que tem como “Sujeito a Equipe de Saúde e a População (cidadãos)” (TEIXEIRA. o problema da mudança do Modelo Assistencial. hoje. inspiradas em Alma-Ata.] o sistema de saúde brasileiro é. O estabelecimento de parcerias buscando desenvolver ações intersetoriais (CORDEIRO. no caso. Hesio recorre à crítica à divisão do trabalho. 8). na área da saúde. 1996. Podemos compreender. p..] um apelo às tecnologias simplificadas.. portanto. p.. com base nas relações sociais que predominam na sociedade. p. para dizer que o complexo médico-empresarial. Segundo TEIXEIRA (1998. ao lado dos esforços de construção de ‘modelos’ alternativos (TEIXEIRA. riscos. de planejamento e programação local . p. 1998. histórica. Hesio chama a atenção para o fato de que o modelo proposto se propõe a algo muito maior do que “[. visando apenas à redução de custos e. 18). está nas origens do aparecimento de profissionais exclusivamente preparados para tratar dos corpos e de outros que se dedicam apenas às mentes. p.. [.. 1996.. p. p. necessidades e determinantes dos modos de vida e saúde (condições de vida e trabalho)” (TEIXEIRA. 1996. 9).] meios de trabalho as tecnologias de comunicação social. como “Objeto os danos. com base nas linhas acima. ou seja. 1998. De acordo com o trabalho citado.. 1998. representando uma proposta de ‘medicina pobre para pobres’” (CORDEIRO. a “Vigilância da Saúde” pode ser “[.. coloca-se.80 O estímulo à organização da comunidade para o efetivo exercício do controle social.. 8): [.] parcialização e fragmentação do cuidado médico entre diversos profissionais que exercem trabalhos múltiplos sobre múltiplos ‘objetos’ de trabalho – o corpo do usuário subdividido pelo olhar das várias especialidades médicas” (CORDEIRO. 1998. 12). muito menos. com a tendência de reprodução conflitiva dos modelos hegemônicos. p. numa seqüência de empobrecimento da compreensão global do ser humano que ainda dará muito trabalho para reverter. dominante.. como “[. 12). o modelo médico-assistencial privatista (ênfase na assistência médico-hospitalar e nos serviços de apoio diagnóstico e terapêutico) e o modelo assistencial sanitarista (campanhas.] palco de disputa entre modelos assistenciais diversos.] entendida como eixo de um processo de reorientação do(s) modelo(s) assistencial(ais) do SUS” (TEIXEIRA. programas especiais e ações de vigilância epidemiológica e sanitária). 18).. que a divisão mente/corpo. impõe a fragmentação em especialidades valorizadas e a “[. 11). Dentro do contexto das declarações internacionais e da necessidade de avanços na área de saúde no Brasil.

p. isto é. saúde e acesso às ações e serviços de saúde (TEIXEIRA. prevenção. Com a evolução da crise na área da Saúde. Discorrendo a respeito das Reformas na área da Saúde. Exemplificando o modo como a reforma incremental se deu e quais as suas estratégias. do processo de reforma incremental do sistema público de saúde” (VIANA & POZ 1998. 1998. Viana & Poz destacam a importância do Programa de Agentes Comunitários de Saúde e o Programa de Saúde da Família.81 situacional e tecnologias médico-sanitárias” (TEIXEIRA. na medida em que os autores dizem que O ponto de partida para o desencadeamento do processo de planejamento da vigilância à saúde é a Territorialização do sistema municipal de saúde. deu-se início ao que os autores chamam de “reforma da reforma da saúde no Brasil. com definição de porta de entrada (VIANA & POZ 1998. de demanda e de oferta (Cf VIANA & POZ 1998. Qual a origem das Reformas na Saúde? Necessidade da população expressa através da suas organizações em conjunto com os profissionais de saúde? Necessidades de ajuste das finanças públicas? Orientações internacionais com interesses diversos? Vejamos algo a respeito dessa discussão. 18) e como “Forma de organização as Políticas públicas saudáveis. p. as intervenções específicas (promoção. 4). 1998. inscrito na própria Constituição brasileira de 1988. VIANA & POZ (1998. 1998. O tema do Território aparece no trabalho citado de forma incisiva. p. p. o início da reforma brasileira. p 5).. 5). Desta forma.] são as que introduzem modificações expressivas e significativas no funcionamento do sistema de saúde. definiu o princípio do universalismo para as ações de saúde. p. Assim foi. ou. As do primeiro tipo “[. 18). recuperação) e as operações sobre problemas e grupos populacionais” (TEIXEIRA. da regionalização e da hierarquização. as ações intersetoriais. o reconhecimento e o esquadrinhamento do território do município segundo a lógica das relações entre condições de vida. segundo os autores. com a criação do SUS: Esse novo modelo. 18). a descentralização municipalizante e um novo formato organizativo (para os serviços) sob a lógica da integralidade. 4) dizem que elas podem ser de dois tipos: big bang e incremental. 4). p. p. de forma rápida (em curto espaço de tempo) e pontual” (VIANA & POZ 1998.. destacam: .

a prevenção de agravos. por conta de dois novos programas (Programa de Agentes Comunitários de Saúde . 1999. experiências de mudança do modelo assistencial a partir da Atenção Básica. Nos “Indicadores para avaliação da Atenção Básica nos Municípios Habilitados conforme a NOB-SUS 01/96”. p. 37). . 1999. p. considera-se que as mudanças no modelo assistencial que vêm se operando dentro do SUS. o PSF se constitui em uma estratégia de reforma incremental do sistema de saúde no Brasil. que não faremos aqui. Dando conseqüência às conclusões da Oitava Conferência Nacional de Saúde. de 1999. Na publicação citada. situadas no primeiro nível de atenção dos sistemas de saúde. do Ministério da Saúde.] A ampliação desse conceito se torna necessária para avançar na direção de um sistema de saúde centrado na qualidade de vida das pessoas e de seu meio ambiente (MINISTÉRIO DA SAÚDE. “atenção primária” e “atenção básica”.. vemos que o Ministério da Saúde define Atenção Básica como: [. de modo organizado. algo a respeito de Saúde Mental aparece apenas numa das “Ações de Atenção Básica Dirigidas a Grupos Específicos da População”: “Incentivo aos grupos de auto-ajuda. 1999. voltadas para a promoção da saúde.] um conjunto de ações. passamos a especificar com mais detalhes os conceitos ligados à Atenção Básica.PACS e Programa de Saúde da Família .. 7). [.82 No caso brasileiro. começaram a surgir (ou ressurgir?). MINISTÉRIO DA SAÚDE. visando à “Redução das internações por depressão” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. Definidas algumas origens das orientações para a mudança do modelo assistencial e características da Reforma da Saúde no Brasil. no Brasil. 9). p 23). estão provocando alterações tanto no padrão de financiamento da política. (Cf. nas práticas assistenciais e no processo mesmo de descentralização (VIANA & POZ 1998. Podemos perceber que a definição do Ministério da Saúde é muito semelhante ao que consta da Declaração de Alma-Ata. ao que consta na Constituição do país. quanto na forma de organização dos serviços. p. prioritariamente na população maior de 60 anos”.. tendo em vista que o programa aponta para mudanças importantes na forma de financiamento do sistema de saúde (superação da exclusividade do pagamento por procedimentos). Toda a luta para a valorização da Atenção Básica é parte da mudança do Modelo Assistencial. de caráter individual ou coletivo.. não há referência à Saúde Mental. o tratamento e a reabilitação.PSF). nas Leis do Sistema Único de Saúde e nas recomendações internacionais sobre Atenção Básica. Dessa forma. Ressalvadas as discussões a respeito das possíveis diferenças conceituais entre “cuidados primários de saúde”.

Como princípios básicos do PSF. historiando os inícios dos Programas de Atenção Básica... Dentro do aspecto do cadastramento.. 2004 a). incorporando e ampliando a atuação dos agentes comunitários (cada equipe do PSF tem de quatro a seis ACS. Aparece. com dificuldades de exercer as atividades comunitárias. a discussão desse número terá a importância de determinar a população que uma Equipe pode trabalhar de modo a efetivamente mudar o Modelo Assistencial. influências e propósitos que aparecem e que estamos balizando. o Ministério da Saúde define: A estratégia do PSF incorpora e reafirma os princípios básicos do Sistema Único de Saúde (SUS) . entre a Atenção Básica e a Saúde Mental.poderão ser incorporados às equipes ou formar equipes de apoio.universalização.] uma equipe (de PSF) seja responsável por. de acordo com as necessidades e possibilidades locais (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2004 a).500 pessoas” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.a exemplo de dentistas.e está estruturada a partir da Unidade Básica de Saúde da Família. este número varia de acordo com o tamanho do grupo sob a responsabilidade da equipe. as Equipes ficam “presas” ao Posto. . numa proporção média de um agente para 575 pessoas acompanhadas) (MINISTÉRIO DA SAÚDE. com a implantação do Programa de Agentes Comunitários de Saúde (PACS). um enfermeiro.. na definição acima. Em janeiro de 1994. diz que A estratégia do PSF foi iniciada em junho de 1991. em relação ao trabalho das Equipes de Saúde Mental na Atenção Básica.]. está estabelecido que: Cada equipe do PSF é composta. com esse número.]. no mínimo. A prática mostra que.. descentralização. integralidade e participação da comunidade . no máximo. foram formadas as primeiras equipes de Saúde da Família. No aspecto da composição da Equipe do PSF. Territorialização e cadastramento da clientela [. por um médico. assistentes sociais e psicólogos . hoje. 4. 2004 a). 2004 a). O texto do Ministério da Saúde recomenda que “[. aqui. um auxiliar de enfermagem e de quatro a seis agentes comunitários de saúde (ACS). (MINISTÉRIO DA SAÚDE. o conceito de “Territorialização”. Equipe multiprofissional. citado no Capítulo II como um dos pilares da Reforma Psiquiátrica. que trabalha com base nos seguintes princípios: Integralidade e hierarquização [. São as semelhanças de origem. Para a Saúde Mental. Outros profissionais . temos um ponto sensível e que envolverá discussões ainda não resolvidas: o quantitativo de população que uma Equipe de PSF pode atender de modo efetivo. também.83 O Ministério da Saúde. O debate a respeito desse número ideal está sendo travado..

. com a participação da comunidade.84 Essa definição já abre a possibilidade da entrada da Saúde Mental nas Equipes do PSF. no domicílio e no acompanhamento ao atendimento nos serviços de referência ambulatorial ou hospitalar. organizada ou espontânea. respondendo de forma contínua e racionalizada à demanda. na comunidade. -prestar assistência integral. e dá outras providências” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. coloca o Agente Comunitário numa posição peculiar e de grande potencial para a prática transformadora que pretendemos. 2004 a). 2004 b). na Unidade de Saúde da Família. A expressão “faz a ligação entre as famílias e o serviço de saúde”. realiza o mapeamento de cada área. da Presidência da Republica que “Fixa diretrizes para o exercício da atividade de Agente Comunitário de Saúde (ACS). mas em especial para as pretensões da Saúde Mental: Faz a ligação entre as famílias e o serviço de saúde. dentre outras atividades específicas. pela importância que tem. ou como “equipes de apoio”. 2004 a). -desenvolver ações educativas e intersetoriais para enfrentar os problemas de saúde identificados (MINISTÉRIO DA SAÚDE. há um decreto. o cadastramento das famílias e estimula a comunidade (MINISTÉRIO DA SAÚDE. um plano local para enfrentar os determinantes do processo saúde/doença. por meio de cadastramento e diagnóstico de suas características sociais. de 1999. estímulo à participação na formulação das políticas públicas. não só para o trabalho em geral. destacamos as do Agente Comunitário de Saúde. Na definição das atribuições de cada membro da Equipe do PSF. Nesse decreto está determinado que o Agente Comunitário de Saúde deve residir na comunidade e desenvolver atividades de educação para a saúde. Mostrando a importância que esse profissional tem alcançado. demográficas e epidemiológicas. junto com a obrigação de ser pessoa moradora na área de atuação da Equipe. -elaborar. visitando cada domicílio pelo menos uma vez por mês. ou sob a forma de profissionais incorporados às Equipes de PSF. -identificar os principais problemas de saúde e situações de risco aos quais a população que ela atende está exposta. O Ministério da Saúde define que as Equipes do PSF devem estar capacitadas a: -conhecer a realidade das famílias pelas quais é responsável.

o Ministério da Saúde define como sua responsabilidade: “[.. com detalhes operativos. um plano local.. 150 famílias ou 750 pessoas. 2004.14.. famílias e comunidade.] da estratégia de saúde da família [. traça as normas e diretrizes para o Programa de Agentes Comunitários de Saúde e para o Programa de Saúde da Família. Nas atribuições do ACS.]” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. Observaremos como vão evoluir as atribuições do PACS e PSF em relação à Saúde Mental. leva-nos a uma instigante tarefa: discutir com a população o que a faz sofrer psiquicamente e o que fazer para mudar a situação. Um importante instrumento de gestão é o “Pacto de Indicadores da Atenção Básica”.] identificação dos portadores de deficiência psicofísica com orientação aos familiares para o apoio necessário no próprio domicílio” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.] contribuir para a reorientação do modelo assistencial através do estímulo à adoção da estratégia de agentes comunitários de saúde pelos serviços municipais de saúde [.]” e “[.. c). c).. . 2004. de 1997. com a participação da comunidade. que [. a Portaria indica muito pouco em relação ao trabalho em Saúde Mental..] constitui-se em um instrumento formal de negociação entre gestores das três instâncias de governo (municipal. O item “elaborar. Na Portaria. bem como prestar assistência. para enfrentar os determinantes do processo saúde/doença”.. consoante as formações das diversas categorias profissionais. capacitadas a reconhecer. 2003). há uma preocupação do legislador em apontar o domicílio como local de intervenção terapêutica/reabilitadora. no máximo. em geral. não se encontram.. estadual e federal) tomando como objeto de negociação as metas a serem alcançadas em relação a indicadores de saúde previamente acordados (PACTO DE INDICADORES DA ATENÇÃO BÁSICA. que continua com a indicação de “incentivo à comunidade na aceitação e inserção social dos portadores de deficiência psicofísica” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. adiantamos que as Equipes de PACS e de PSF. O item 8. 2004. No que diz respeito à Saúde Mental.. referido à Saúde Mental. os problemas de Saúde Mental das pessoas.27 dá como atribuição do ACS a “[. Salvo pela indefinida “deficiência psicofísica”.85 O texto acima pretende estabelecer as atribuições de um trabalho que realize os objetivos da Atenção Básica.. c). Está definido.. Uma Portaria do Ministério da Saúde. que o ACS deve trabalhar com. na Portaria citada.

um choque de povo. em Brasília. o estímulo ao autocuidado. 2004 d). O assessor citado. 2001) O Programa de Agentes Comunitários de Saúde teve início no estado da Paraíba. No texto citado acima existem algumas características que serão preciosas para o trabalho com a Saúde Mental: o compromisso social..805 pessoas para os ACS e 62. em que os ACS exerceriam o papel de interlocutor privilegiado entre as famílias/comunidade e os serviços de saúde locais (SOUSA.] o compromisso social assumido pelo PACS sem nenhuma discriminação era: melhorar. no Brasil e 19. a educação mútua. já havia movimentação.065 para as Equipes de Saúde da Família.665. no dia 27 de junho de 1991 (SOUSA. 85). p. para transformar as ações dos ACS num Programa nacional.] seria instrumento tático para contribuir para enriquecer os debates em torno de questões cruciais no processo de organização dos serviços locais de saúde. no estímulo aos cuidados com a saúde e no incremento da participação ativa do cidadão na discussão a respeito dos condicionantes da saúde e das doenças. em janeiro de 2004 existiam 184. Antes disso. 2001. quanto dos profissionais de saúde. De acordo com Maria Fátima de Sousa (SOUSA. (Cf SOUSA. 2001. segundo Maria de Fátima.. Tratase de um expressivo contingente populacional coberto. a interlocução entre comunidade e serviços de saúde.. p.] verificou-se estrategicamente que a inserção dos Agentes Comunitários de Saúde nos municípios [. ou seja.685. 55). Segundo a autora citada: [. Com a evolução dos acontecimentos.934 Agentes Comunitários de Saúde. em um processo de educação mútua.86 Existem os Indicadores Principais e os Complementares. Maria de Fátima assinala: [. deverá se impor.182 Equipes de Saúde da Família. o indicador “Taxa de internação por transtornos mentais”. Os ACS podem ter influência na mudança da mentalidade tanto da população.. A cobertura alcançada com essas Equipes chega aos números de 94.. segundo a mesma autora. De acordo com o Ministério da Saúde (MINISTÉRIO DA SAÚDE. através dos Agentes Comunitários de Saúde a capacidade da população de cuidar da sua saúde.. com a visita do assessor técnico do Fundo das Nações Unidas para a Infância – UNICEF da região Nordeste. sendo que em nenhum deles constam indicadores ligados à Saúde Mental. na . 2001). Com a entrada das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. apresentou estudo que mostrava os bons resultados do trabalho de 4 mil Agentes Comunitários de Saúde no Ceará. o impacto em números e qualidade de vida deverá ser expressivo. ou semelhante.

a integralidade. institucionais e ou conjunturais.. em que a vigilância à saúde... sobre a situação das famílias acompanhadas. p. a multicausalidade. diz: [. p.. No aspecto da capacitação dos ACS. existem as atribuições de cada componente da Equipe de Saúde da Família (ESF).. em que a população de fato estivesse presente (SOUSA. adiante. setoriais. cujo interlocutor poderia ser um deles: o Agente Comunitário de Saúde (SOUSA. SOUSA (2001). Tentando esboçar uma análise em termos de que tipo de proposta política está contida nas mudanças praticadas na área de Saúde.] – estar sempre bem informado. 120).. na lida diária.] – realizar.] (BRASIL.. particularmente aquelas em situações de risco. quando comparado à formação de qualquer outro profissional” (SOUSA. [. 56). ao tema da capacitação dos ACS. colabora para a assistência e promoção da saúde): [. dentro e além do detalhe da economia de recursos. o coletivo e a participação popular fossem entendidos pelos profissionais locais e outras forças sociais em constante construção e reconstrução. potencialidade e limites. p. Voltaremos. [. do Ministério da Saúde. a autora que vem sendo citada diz que o decorrer dos acontecimentos nas últimas décadas fez com que os representantes do movimento sanitário entendessem que [. necessidade de orientar nossas ações e forjar ferramentas operativas. p.. p.] – identificar indivíduos e famílias expostos a situações de risco. e o PACS é um exemplo. Mais uma vez reforçando o papel do ACS. 144).] – traduzir para a ESF a dinâmica social da comunidade. 2001. muitas vezes. 2001. 2001. e informar aos demais membros da equipe. a intersetorialidade. acompanhamento mensal de todas as famílias sob sua responsabilidade. 78). No “Guia Prático do Programa de Saúde da Família”.. temos.87 construção de uma nova agenda positiva para a saúde. [. na sua harmonia. Dentre as atribuições do Agente Comunitário de Saúde destacam-se algumas que são da maior importância para o trabalho em Saúde Mental (ressalvando-se que todas elas formam um conjunto que. [..] transformações ocorreriam por meio de reformas parciais.] o custo de um agente bem treinado é insignificante.. desde que se criassem condições para uma efetiva transformação global (SOUSA. suas necessidades. 2001. 2001.. . 144). 2001.... Mesmo ainda na expectativa de uma transformação global. Maria de Fátima assinala que “[.] o norte desses instrumentos encontrava-se: no exercício progressivo do poder local onde o responsável pela saúde tivesse nome e endereço.. no reorientar das práticas sanitárias. por meio da visita domiciliar.

as tradições políticas e institucionais. a história. trazendo o conceito de “Atenção Primária à Saúde”. p. Deste modo.. por exemplo. a descrição do tradicional Ambulatório de Especialidades em Saúde Mental. de caráter focal.. p. no entanto. integralidade e universalidade. Citando Vuori. em tese de Doutorado de 2002. visto acima como “cuidados primários em saúde”. A “Atenção Primária à Saúde” seria “a base do sistema de saúde e um enfoque que determinaria o modo de atuar dos níveis restantes do sistema” (GOULART. poderia ser entendido como uma intervenção coerente com os princípios de equidade. mais uma política racionalizadora. Goulart diz que a “Atenção Primária à Saúde” vem praticar a: [. Ao mesmo tempo. Ao tentar historiar as práticas de saúde da família. sendo. a capacidade formuladora e crítica de seus atores. p. argumenta que o Programa de Saúde da Família.. Assim: [.88 Flávio Goulart. conforme as disposições da Constituição Federal brasileira de 1988 (GOULART. atualmente questionado quando comparado com as . 25). 2002.. 50). 2002. O autor da tese. pode ser alvo de análises contraditórias. finalmente. p. 90). com predomínio técnicoprofissional nos cuidados de saúde (GOULART. 2002. na sua complexidade. nos moldes preconizados pelos organismos internacionais financiadores de programas sociais no terceiro mundo. 2002. A crítica que a citação traz coincide em tudo com a necessidade de mudança do Modelo Assistencial em Saúde Mental. sugere que O que pode transformá-lo nisso ou naquilo é o modo como está sendo implementado. a força da ação política e das tradições comunitárias (GOULART. mesmo. Goulart recorre à Declaração de Alma-Ata. a responsabilidade centrada de forma restrita no próprio setor saúde. 50). o conteúdo baseado em terapias e atenção episódica referente a problemas específicos.] poderia ser considerado. as circunstâncias que o rodeiam. ancorado em objetivos como: a cura de doenças. prefere fugir dos maniqueísmos e avaliar o que de positivo o Programa de Saúde da Família traz para a mudança da abordagem aos problemas de saúde no Brasil e para a promoção de melhores condições de vida.] mudança no sistema tradicional. a organização baseada em médicos e especialistas envolvidos com o trabalho individual e.

que . Os modos de pensar e de praticar os cuidados à saúde baseados na ampliação e superação dos conceitos tradicionais antinômicos entre individual e coletivo. Citando a publicação do Ministério da Saúde “Saúde da Família: Uma estratégia para a organização da atenção básica”. biológico e social. 2002. gênero. O desenvolvimento de vínculos entre clientela e os prestadores de serviços. são pontos de união entre os conceitos de Atenção Primária à Saúde e Saúde da Família: As práticas de saúde como objeto da intervenção do Estado. prevenção e cura. 2002.. Para uma compreensão histórica dos sistemas de saúde. (e) prestar assistência integral.. como por exemplo: (a) ser a porta de entrada de um sistema regionalizado e hierarquizado de saúde. comunidades). a aproximação entre os conceitos de Atenção Primária à Saúde e Saúde da Família de modo esclarecedor e fértil para as intenções da Saúde Mental na Atenção Básica. 51). grupos. 52). inserida em seu meio social. humano e ambiental. ou mesmo de tipos de doenças. (h) estimular a organização das comunidades para exercer o efetivo controle social das ações e serviços de saúde. (d) intervir sobre os fatores de risco aos quais a comunidade está exposta. (f) realizar atividades de educação e de promoção da saúde.89 práticas que compreendem as ações de saúde como necessariamente interdisciplinares e comunitárias. (b) ter um território definido com uma população delimitada sob sua responsabilidade. p. (g) estabelecer vínculos de compromisso e de co-responsabilidade entre o serviço de saúde e a população. de 2001. Goulart sintetiza. (c) ter como centro de atenção a família. A proteção voltada não apenas para indivíduos-singulares. o que as caracterizaria como partes de um corpo de políticas sociais. oficial e não-oficial. fora do caráter especializado que recorta e separa o objeto das práticas em saúde em faixas de idade. permanente e de qualidade. no seguinte trecho. (i) utilizar os sistemas de informação para o monitoramento das ações e para a tomada de decisões (GOULART. geográfica. Segundo o autor. Goulart diz que [. citando Rosen. ou seja. cultural ou mesmo ética (GOULART.] podem ser encontradas várias das categorias-chave que contribuem para a definição ora procurada. de natureza administrativa. p. O processo de trabalho tendo como resultado a intervenção do médico e de outros profissionais dentro de um âmbito generalista. sistemas e órgãos. mas para coletivos (famílias. o autor citado adverte. resultando em um novo tipo de práticas sociais de saúde.

na Inglaterra. Diz ele que. foram criadas as workhouses.] mediante seus componentes de saber. 52). Estamos exercitando meios efetivos que tentam mudar a forma da sociedade resolver os problemas da Saúde Mental? A história novamente nos traz ensinamentos e nos abre os olhos para as origens e as intenções iniciais do que estamos praticando hoje. GOULART. 2002. Posteriormente. uma relação com a vida em comunidade e. (Cf. 2002. O autor chama a atenção. no século XVIII. 92). p. p. através de uma luta contra-hegemônica e [.] em toda a história das sociedades humanas. embora com ênfases diferentes. com toda a conotação de suas possíveis intenções controladoras e apaziguadoras. GOULART.. 61). em sua origem. o autor cita os conceitos de “[.] campo da saúde de origem canadense.] estão vinculadas tanto à crise do capitalismo como ao impacto dos resultados da implementação dos welfare states na Europa ou ainda à formação do National Health System no Reino Unido. p. importado na década de 60. 2002.. capazes de conferir novos sentidos para as questões formuladas pelo movimento sanitário em décadas passadas” (GOULART. conseqüência também da Declaração de Alma Ata.. Até há pouco predominou a exclusão. teria ocorrido o deslocamento de uma ênfase centrada meramente nos serviços para as condições de saúde e seus determinantes. Valiosa para os nossos tempos. seria o .. com raízes que [. os problemas de saúde enfrentados tiveram. com as variadas maneiras com que tais sociedades procuraram resolvê-los (GOULART. 93). entre outras (GOULART.. da promoção da saúde (OPAS/OMS) e da vigilância à saúde. 2002. 2002.90 [. os cuidados a domicílio também apareceram na Inglaterra. Já no século XVII. ideologia e ação política. a citação nos permite refletir a respeito de que modo a atual sociedade procura resolver os problemas de Saúde Mental.. p. políticas e ideológicas (GOULART. instituições descentralizadas que tentavam recuperar pelo trabalho. 2002. com atendimento a crianças e em obstetrícia. p.. 92).. p. A Medicina Comunitária. Insistindo no polêmico tema da importação de propostas para a área de saúde. O autor situa a década de 60 como o tempo em que os acontecimentos e as idéias colaboraram para o aparecimento do Programa de Saúde da Família no Brasil. 60). nesse contexto de absorção de idéias estrangeiras. para o paradigma da Medicina Comunitária. com práticas de saúde imbuídas de caráter social e dimensões simultaneamente técnicas. (Cf.

” (GOULART. também conhecida como Aliança para o Progresso.. 2002. 93)..] com extensão de cobertura. mas diminuíram de intensidade na década de 90. etc.] da [. voltada para os países pobres da América Latina.. 2002.. político e ideológico [. até certo ponto.. Com a evolução dos fatos. bem como na dinâmica do processo de trabalho em saúde e. vistas como eram sob uma ótica fortemente ideológica e. Toma força. que difundiu nos paísesalvo sua proposta de saúde. integração docente assistencial. passaria a orientar as propostas democratizadoras e de reforma do sistema vigentes na década de 80 (GOULART... na década de 80 começam a surgir as experiências do Programa de Agentes Comunitários de Saúde. 100). 95). Havia simplesmente novos atores no jogo. “[. 97). de acordo com Goulart. 2002.. 2002. nem mesmo os órgãos centrais dos governos federal e estaduais. p.91 [. conspiratória (GOULART.] política externa norteamericana dos anos 60. no Nordeste. 97). com a redemocratização do país e a possibilidade de ação política [. de que estes teriam a intenção de mero controle das camadas pobres da população.] e no Estado de São Paulo” (GOULART..] concepções fundamentais relativas à determinação social do processo saúde-doença.] destacam-se as experiências pioneiras realizadas em Porto Alegre (Vila de São José do Murialdo) [. O autor sugere que. nesse movimento de suavização da crítica. O autor também cita Niterói.. p. eram fortes na década de 70... p. .. Campinas e Londrina como exemplo de municípios que tiveram experiências pioneiras de reorientação do modelo assistencial “[. Ainda na década de 70.. O autor comenta que as críticas à importação de modelos de saúde.. 94). então. dessa forma.. 2002. p. os quais passaram também a formular e colocar em prática novas propostas no cenário – os municípios – como de resto o fizeram em relação a todo um conjunto de políticas públicas a partir dos anos 90 (GOULART. não mais apenas em demolir as propostas colocadas em campo. participação social. a importância das [.] as citadas energias intelectuais vão se concentrar em encontrar soluções.] substrato teórico... com o detalhe: [.] quem agora estava com a palavra e a vez não eram apenas as academias. nem os organismos internacionais. p. com o apoio das agências internacionais (GOULART. 2002. p.

] una enfermedad del lazo que une los hombres entre si” (HOCHMANN. Comecemos. Como exemplo de mudança. alguns precursores.] que rompan de manera radical con los antiguos marcos de referencia” (HOCHMANN. com seu livro “Hacia uma psiquiatria comunitária”. bairro. para introduzir a questão do seu livro. p.. Criticando a filosofia dualista. 17). chegaremos aos textos e trabalhos atuais e ao que está sendo colocado nos textos oficiais. percorreremos.. que chama de “[. que provocou tanta discussão e ainda permanece em debate. 1972). Spinoza. Bion. Marcuse. Foucault. família.. (Cf. entre outros. Szasz. Hochmann define “o setor” e explica. Marx e Engels.92 CAPÍTULO 5 A SAÚDE MENTAL NA ATENÇÃO BÁSICA 5.1 Precursores estrangeiros e críticas. que é o tratamento dos conjuntos humanos: instituição. numa nota instrutiva: Se designa con este nombre una nueva corriente de la psiquiatría. Para chegar ao que hoje está sendo praticado como Saúde Mental na Atenção Básica. Cooper. a psicoterapia institucional. Goffman. HOCHMANN. A todo o momento Hochmann aponta para a necessidade de desenvolver novos conceitos. Hochmann ataca violentamente a nosografia. Este sector será su zona de reclutamiento de los enfermos de ambos os sexos. Saussure. Sartre. francesa. preconizada por la circular ministerial del 15 de marzo de 1960... 1972. Jones. uma categorización de los enfermos. Esta circular prevé que todos los servicios de psiquiatría pública deberán relacionarse con un sector geográfico determinado. Balint. Um exemplo típico dessa corrente é Jacques Hochmann. enquanto “[. p. Hochmann retoma a discussão a respeito do “tratamento” do hospital psiquiátrico. então. 15) e vai propor o conceito de “sociopatia”. p 24). com a chamada “Psiquiatria de Setor”.. inicialmente. y en él deberán . Bastide. Forçoso é partir de algum momento e autor. Freud. para “[. é necessário observar a lista de autores em que Hochmann se baseia: Bachelard. Depois. 1972.] coraza ideológica. Antes mesmo de qualquer tentativa de crítica a esse livro (ou ao “setor”). que poco a poco se organizó como un catálogo de enfermidades mentales […]” (HOCHMANN. escrito entre 1965 e 1968. que influencia a psiquiatria na sua divisão estanque entre social e individual. 1972.

1972. 1972. refere-se às pessoas a serem abordadas como “enfermos”. el lugar ideal para realizar el tratamiento ya no es más la institución especializada. No seguinte trecho.] (HOCHMANN. único beneficiado de la intervención terapéutica. sino que engloba a su medio y a la comunidad toda. no PACS/PSF: um setor geográfico restrito para o trabalho de cada equipe. desaparece la localización exclusiva de la enfermedad en el individuo. Defendendo a sua proposta diante das resistências. por el mismo equipo médico-social y de enfermería [. ao valorizar os trabalhadores sociais da comunidade. naquela época. El mal se ubica en un sistema en el que se articulan el enfermo. citando outras categorias. considerada ‘enferma’ de sus locos y objeto nuevo de un tratamiento original. os sinais de avanço e o que. los demás trabajadores de la salud mental (enfermeros psiquiátricos. 18). asistentes sociales. considerado durante mucho tiempo el agente terapéutico específico. agora. sus parientes. El sistema completo soporta la patología y se transforma en objeto del tratamiento (HOCHMANN. el proceso patológico ya no impregna solo al enfermo. . para permitir que los enfermos sean atendidos. su lugar de trabajo. e compreendendo-as. 19). mas ainda sob a forma de instituições. médicos clínicos. p.93 desarrollarse instituciones extrahospitalarias de cuidado y prevención. os avanços ainda eram “uma nova corrente da psiquiatria”. p. hoje. depois de criticar a nosografia. la terapia comunitaria (HOCHMANN. su casa. parentes e amigos. Sobre todo. Hochmann. Hochmann oferece a sua visão a respeito da mudança de foco no trabalho em Saúde Mental. 1972. y también los trabajadores sociales de la comunidad. su familia. Podemos observar. podemos notar como repetição sob nova roupagem: Hochmann já fala em serviços extra-hospitalares. Hochmann aponta o caminho das redes de atenção psicossocial que hoje estamos tecendo. su barrio. la estructura social subyacente y el conjunto de quienes pretenden curarlos. todos que se vinculan con el enfermo. no texto citado. saindo do indivíduo em direção ao coletivo: Una vez que se rompe con la localización arquitectónica del paciente en el interior del asilo. en particular su familia y amigos. los médicos clínicos y. como podemos notar. que vigila al loco y previene el contagio. ao negar o privilégio terapêutico ao psiquiatra. durante toda su evolución intra y extrahospitalaria. 18). Ao usar o termo “trabalhadores da saúde mental”. no seguinte trecho. p. Mas traz o que praticamos. Se asocian al psiquiatra. al dejar de estar aislado en el asilo... é bastante avançado para a época: Por primera vez desde la edad clásica. sino el medio de vida del enfermo. por último. psicólogos o educadores especializados).

94 Os méritos do texto acima são: situar aqueles que tratam no mesmo sistema ao qual pertencem as pessoas a serem tratadas e apontar que a estrutura social precisa estar em questão. Hochmann utiliza. no texto acima. nos encaminamos hacia una civilización en la que ella no desaparecerá. alienante y destructor de uma cultura (de toda cultura). (Cf.] contribuir a que en el interior de este sistema. conseqüentemente. descreve as ações do “[. Mas aponta muito claramente que a mudança radical dar-se-á na forma como a sociedade poderá se organizar e. 1972. Villeurbanne e Vaulx-en-Velin. sino que será atendida en todo momento y encarada en forma constructiva. 193). o autor diz que: “El centro del interés del profesional lo constituye uma red de interacciones evolutivas en la que él se compromete personalmente” (HOCHMANN. p. a respeito do que acontece com as pessoas que estão sendo tratadas. trabalhando com a consciência de que opera num sistema do qual faz parte é: “[. Trabalharam com ele médicos. por un grupo social que considere al cambio como ley (HOCHMANN. 25). 1972. Hochmann entra na discussão do possível desaparecimento dos desviantes em sociedades futuras negando essa possibilidade. psicólogos. na França. Ao negar os enfoques que colocam os profissionais com o saber. HOCHMANN. lidar com seus “diferentes”: Creo. simplesmente. A mi juicio. 1972) Hochmann. 25). a função atual do terapeuta. p. ao descrever o que então conceituava como “atenção extrahospitalar”. HOCHMANN... conselho ou remédio (Cf.. nas cidades de Bron. 1972. que então durava quatro anos. assistentes sociais. a experiência. p. 1972. para os capítulos do seu livro que tratam da prática da psiquiatria comunitária. enfermeiras e uma socióloga. Podemos ver. 23). esta negación. uma seta apontada para um futuro em que a exclusão terá sido elaborada pela Humanidade.] dispensário de higiene mental” (Hochmann. continuamente ‘autoterapéutica’. visto também ser parte do “mal”. p. . Estimo que se ha querido acallar esta voz. se libere el discurso reprimido” (HOCHMANN. 1972). as manifestações hoje abordadas com métodos reducionistas compreendidas no conjunto social e a função terapêutica espalhada pelos membros das comunidades? Para chegar a uma sociedade que integre suas diferenças de modo radical. que em todo momento el desviado expressa lo más opressivo.. al que pertence. Hochmann discute o papel do profissional de Saúde Mental com bastante avanço para a época em que escreveu. seja interpretação.

p. en un club. não carcerária.. desarticular la ansiedad y animosidad que aumentan y.] em una especie de foro. por último. então. 197). Isso. facilitava uma mudança na relação dos pacientes com seus problemas. Criticando as práticas profissionais isoladas. Hochmann reforça a necessidade de intervenção de uma Equipe e diz: Por lo tanto.95 semelhante aos nossos Ambulatórios. freqüentemente eram os mesmos que o faziam nos dispensários.. 1972.] consulta grupal” (HOCHMANN. ainda freqüentes entre nós. como o primeiro. nos Ambulatórios Ampliados. que utilizou a “[. pero com clara orientación terapêutica” (HOCHMANN. p. El del dispensario puede venir a hablar con el enfermo. se encerró en su casa desde hace ocho días. transformando-se “[. HOCHMANN. Hochmann relata um caso que é instrutivo para seguirmos os passos da Saúde Mental nas comunidades: X. con los vecinos. en un clima coercitivo que se adapta mal a las reglas de la práctica liberal. Exemplificando o tipo de abordagem que praticava. En este caso el psiquiatra privado podría desempeñar su papel con gran dificultad. El dispensario es una herramienta de inestimable valor para permitir la intervención de muchos ( HOCHMANN. ao citar o psiquiatra Sassolas. atualmente. 1972). esse grupo recebeu pacientes que nunca estiveram internados e outros profissionais. Este psiquiatra se colocava à disposição de um grupo de pacientes por um período de três horas semanais. p. hacerle aceptar la visita de una enfermera psiquiátrica a domicilio y emprender un tratamiento (HOCHMANN. segundo o autor. p. 1972. Note-se a semelhança do que está descrito com o que praticamos. com freqüência livre e possibilidade de consulta individual. el tratamiento siempre se emprende bajo una determinada presión social. 1972. Já. (Cf. afirmando que psicóticos e alcoólatras necessitam de atendimento de Equipes e não se beneficiam de abordagens com apenas um profissional. agora. É interessante o registro histórico que faz Hochmann. 196). la asistente social y el médico del barrio. inclusive com pacientes assumindo papéis de cuidadores. 1972. 188).. rechaza a todos y se deja morir de hambre lentamente. Hochmann relata que os dispensários de higiene mental se encarregavam dos egressos das internações e que os médicos e a Equipe que atendiam os pacientes nos hospitais psiquiátricos. mas com algumas diferenças no sentido da ação na comunidade. ao poderem conviver com os membros dos hospitais num outro tipo de relação.. 195). . ver el enfermo. Aos poucos. no contexto francês.

1972. enfermaria psiquiátrica de bairro. entram em contato com a vida real das comunidades e procedem ao trabalho de desalienação. que o paciente só é visto após muitas outras ações da Equipe. no exemplo citado acima. 1972). p. el enfermo puede encontrar una tarea adecuada a él y un grupo de sostén en sus compañeros” (HOCHMANN. Hochmann. Hochmann já mostra. Com o exposto.. p. que. en la que. 1972.] el mejor taller protegido no es la fábrica. en cuanto sale del asilo.. 200). Hochmann diz que os equipamentos já existentes na comunidade são os lugares a serem ocupados e onde a exclusão será questionada e. HOCHMANN. oficina terapêutica. É interessante notar. 1972. afinar seus conceitos e perceber o contexto social em que atua. 1972). 1972. 199). ao questionar se “[. con la ayuda del equipo de higiene mental y el médico laboral. p. Desta forma. toda a série de dispositivos então em uso e que não diferem muito dos que utilizamos hoje: hospital-dia. p.. el psiquiatra tiende a reconstituir. Hochmann diz que “[. Es el virus antijerárquico y antiinstitucional más poderoso que conocemos (HOCHMANN. con a complicidad del cuerpo social. 198).96 Mesmo ainda estabelecendo a prática muito centrada no psiquiatra. una fortaleza. revertida.. 202). 1972. questionam as hierarquias. Sempre reforçando a necessidade básica de a Equipe questionar seus métodos. una baronía. há vários anos. p. na descrição de seu trabalho prático. hospital-noite.] hospitalización a domicilio” (HOCHMANN. Dentro da sua linha de aproveitar os recursos das comunidades e de desinstitucionalizar a abordagem.] el dispensario es un lugar de desalienación para el equipo de higiene mental” (HOCHMANN. claramente. pois. onde “El enfermo recibe cuidados de um equipo de enfermeras y médicos que van a verlo a su casa todos os dias” (HOCHMANN. (Cf. é claro. Hochmann traz uma mensagem muito atual para nós: Por desgracia. talvez. pareciera que. ao saírem do asilo. Hochmann diz que na França ela estava pouco desenvolvida. o trabalho em Equipe. La visita a domicilio es un elemento indispensable para la higiene mental de los propios asistentes. em rede e associado à Saúde em geral. “[. mas que já estava em uso nos Estados Unidos e Canadá (Cf. Hochmann cria uma regra que vai aparecer nos trabalhos .] el asilo se reconstruye rapidamente” (HOCHMANN. Os membros da equipe. 1972. A respeito da assistência a domicilio.. lar de pós-cura. Hochmann avança muito em relação ao que praticamos. 197). oficina protegida.... 199). Hochmann fala mesmo da “[. Hochmann percorre. não termina nunca. Le es necesaria una vigilancia particular para evitar un nuevo encierro en algún Centro de Salud. p. que já são terapêuticas para o conjunto.

entre nós. como. en resumen. por exemplo. 1972). Como exemplo dela. HOCHMANN. que utiliza o termo “sociopatia”. de un nuevo espacio especializado. HOCHMANN. conforme vimos acima. as associações de pacientes mentais (Cf. 1972. 1972. os abrigos para jovens. onde professores. . os Centros Médicos e Sociais. para resolver os problemas de modo coletivo (Cf. 206). De alguma forma o trabalho político-administrativo deve ser organizado. 1972. Hochmann diz que El objetivo de estas discusiones es aumentar la tolerancia a la enfermedad mental. no debe crearse ninguna institución especializada antes que hayan sido investigadas y utilizadas todas las posibilidades terapéuticas de la comunidad” (HOCHMANN. (Cf. p. e ainda coloca o trabalho que faz como uma modificação da psiquiatria. 204) a prática que desenvolveu. en el que personas especiales (los psiquiatras) curen a otras personas especiales (los locos) (HOCHMANN. Mais adiante vamos ver esse conceito surgir. contatos com as instâncias policiais e políticas e o grande público. p. Hochmann enfatiza a necessidade de que a Equipe se integre verdadeiramente à comunidade.. com o termo “recursos ocultos da comunidade”. es decir. p. desmitificando la locura y a los que la atienden. a Escola. Dentro de sua conceituação. assistente social e psicólogo educacional funcionam juntos. Hochmann diz que se Impide una fácil reconstitución del asilo fuera de sus limites.] acción sociopsiquiátrica” (HOCHMANN. 204). num trabalho conjunto. percibido de inmediato como hostil y rápidamente excluido. Hochmann chama de “[. Seguindo a regra citada acima. p. 1972). a valorização dos espaços e recursos comunitários e tenta frear os impulsos de abordagens especializadas dos profissionais da Saúde Mental. que Hochmann exemplifica com a Escola. de dinero (HOCHMANN. 1972. psiquiatra do setor. Hochmann afirma o caráter desinstitucionalizador do seu trabalho. os grupos de ex-alcoólatras. 1972). mantendo contato e trabalhando junto com as estruturas políticas e administrativas. campanhas de esclarecimento.97 atuais de Saúde Mental na Atenção Básica e que requer muita atenção: “En la llamada psiquiatría de ‘setor’. 204). Hochmann cita as ações junto às instituições que existem na comunidade.. también llamar la atención hacia los problemas de equipamiento y reclutamiento de personal. com assembléias. HOCHMANN. A “Equipe Psiquiátrica” estabelece colaboração com as Equipes das instituições.

de controlar os indesejáveis. (Cf. não importando a que instituição pertençam ou. 1972. campo de capacitação. centradas na discussão e encaminhamento da abordagem de um paciente ou família. até mesmo. 210). p. 210).] la creación de uma opción ‘clínica’. tratava de trabalhar em conjunto com os médicos clínicos. 1972). que discutiremos adiante. chamamos de referência e contra-referência. da troca de experiências a respeito do que está sendo vivido. 1972) na medida em que visitavam os domicílios. atendiam os pacientes clínicos. que são membros da comunidade que já eram importantes na vida das pessoas e famílias atendidas e que podem se transformar em importantes formadores de opinião e ajudantes terapêuticos. chamados por ele de “polivalentes” (Cf..] solo se unen en razón del caso tratado (y no por una organización jerárquica o la pertenencia a determinado servicio). 1972. daí a ter podido fazer suas propostas para que a medicina pudesse ter uma visão melhor da população. é corriqueiro: o paciente perdido entre diversos especialistas e sem que seja ouvido em sua integralidade (Cf. essas equipes. Hochmann valorizava de modo especial o trabalho dos Assistentes Sociais. HOCHMANN. os setores dos serviços de saúde. Era o profissional que tinha mais conhecimento e contato com a comunidade.. faziam a ligação entre as famílias. HOCHMANN. entre nós. Hochmann se dispõe a discutir as críticas que já então surgiam a respeito da psiquiatria de setor. están mejor protegidos contra los peligros de la esclerosis institucional (HOCHMANN. se pertencem a alguma. Desta forma. Hochmann trabalhava na lógica que. segundo Hochmann: [. Hochmann diz que “La psiquiatría que hagamos (sea hospitalaria . Dessas discussões participam todos os envolvidos na situação.. HOCHMANN.. 1972. De um modo um tanto conformista. Hochmann aponta que essas reunioes de equipe devem servir para o desenvolvimento do que chamou de “[. Momento de organização do atendimento. p. com “[. entre nós. 208). con formación psicológica y sociológica profundizada em el programa de los estúdios de medicina [. as diversas instituições da comunidade e da cidade.] sustitutos terapéuticos” (HOCHMANN. na região. 1972)..]” (HOCHMANN... Criticando a especialização excessiva na medicina.. p. estrutura distinta daquelas que. com alguns pontos de contato com o que vemos hoje no Brasil. se organizan y desaparecen según la demanda y. assinala o que. de esta manera. que se realizan entre servicios y son interdisciplinarios. que seria uma forma especializada. Hochmann trabalhava nos “dispensários de higiene mental”. Sempre atento às ameaças do reaparecimento dos vícios institucionais paralisantes. mais “leve”.98 Hochmann discute o papel do médico clínico na psiquiatria de setor. Hochmann ressalta a importância das reuniões de pequenas equipes.

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o extrahospitalaria), será a imagen y semejanza de la sociedad y del lugar que esta reserve a la locura” (HOCHMANN, 1972, p. 222). Desta forma, foge da crítica ao postular que o que faz, de qualquer modo, é produto da sociedade. Bem como a crítica, poderia completar. Assim, isenta-se de afirmar que propõe mudanças na sociedade e de valorizar o caráter transformador que sua própria prática contém, postura esta que não coincide com sua crítica social e com a até violenta crítica à psiquiatria organicista e à nosografia. Concluindo sua resposta a possíveis questionamentos, Hochmann diz que

De hecho, el ‘sector’ es, ante todo, un instrumento, y no un fin. La psiquiatría comunitaria representa una etapa técnica en la evolución de la psiquiatría (etapa que quizá sea franqueada con rapidez y que puede desembocar en una decadencia de la propia psiquiatría). Si se evita convertir al ‘sector’ o a la ‘comunidad’ en objeto ideal, especie de dios al que conviene ofrecer sacrificios, si se lo considera, con más modestia, un medio entre otros para asistir a los enfermos mentales - o a algunos -, entonces pierden su razón de ser muchas críticas. Solo se puede cuestionar teóricamente a la ideología comunitaria; la práctica de sector, en cambio, debe ser juzgada por sus resultados (HOCHMANN, 1972, p. 225).

Vemos, no trecho citado, diversos detalhes que ao longo do presente capítulo serão retomados, pois fazem parte da atual discussão a respeito da Saúde Mental na Atenção Básica. Hochmann se refere ao setor como um instrumento e não como um fim. Perguntamos: para que fim? Hochmann responde, de modo novamente contraditório com o seu próprio discurso crítico, que o fim é assistir enfermos mentais. Ao negar-se a dar conseqüência social e política à sua prática, repleta delas, Hochmann recai na razão nosográfica, que tanto abomina. Mais uma vez, também, Hochmann mostra que vê o seu trabalho como uma evolução da psiquiatria e não, como agora podemos colocar, como resultante das mudanças sociais, políticas e econômicas, que levaram a psiquiatria a ser apenas mais uma dentre várias formas de compreender e agir em relação aos denominados “problemas mentais”. E a quais resultados Hochmann se refere? Assistir enfermos mentais de modo avançado, é um resultado necessário, mas acanhado em face dos muitos outros possíveis resultados que o próprio Hochmann aponta: mudar a forma da sociedade encarar a loucura, questionar a exclusão, fazer a sociedade criticar e mudar as suas formas doentias de relacionamento e produção, tornar a comunidade mais autônoma em relação aos poderes estabelecidos.

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Nas conclusões do seu livro, Hochmann volta a dar conseqüência social e política às suas proposições e ações. O título do capítulo já é significativo: “Hacia uma política de salud mental” (HOCHMANN, 1972, p. 226). Nele, Hochmann diz

En efecto, si no se esbozaran profundos cambios en las relaciones entre enfermo mental y sociedad (y, por lo tanto, en la misión que asigna al psiquiatra y sus colaboradores), si las instancias sociales no evolucionaran en este sentido, el hecho de afirmar que el psiquiatra desea tratar a conjuntos y considerar al enfermo como testimonio de una patología más global, y de invocar su condena de una nosografia objetivante, a fin de predisponerlo a nuevas perspectivas y cambios institucionales, solo tendría interés anecdótico. Hay que redefinir la misión de la psiquiatría con ayuda de instrumentos de trabajo radicalmente nuevos (HOCHMANN, 1972, p. 226).

Hochmann, nas suas conclusões, também aponta as dificuldades que o financiamento do Setor Saúde impõe à prática integrada em Saúde Mental, que englobe, ou faça perder seus limites, a assistência e a promoção da Saúde Mental (Hochmann fala em prevenção). Mantendo a sua atualidade, para nós, já que estamos vivendo o problema, Hochmann propõe um ganho, por Equipe, constante, e não o pagamento por “[...] precio diario” (HOCHMANN, 1972, p. 231). De acordo com Hochmann,
[...] la noción de precio diario surge directamente de la remuneración inmediata que es común en las profesiones liberales. Esta forma de financiación nos transforma en una empresa de producción de un servicio individualizado y nos obliga a reforzar cada vez más nuestro poder de especialistas, los únicos capaces de curar. (HOCHMANN, 1972, p. 231).

Em termos de organização dos serviços, Hochmann propõe:

[...] pequeñas unidades asistenciales polivalentes, diseminadas em la comunidad, que puedan funcionar como lugar de cura, hogar, hospital diurno y enfermaria psiquiátrica barrial. Estas pequeñas estructuras podrían ser independientes o adscribirse a un hospital general cercano. Formarían parte del dispositivo sectorial, y no tendrían en él carácter central alguno, ya que representarían solo a uno de los elementos, sin ninguna función de control por sobre los demás (HOCHMANN, 1972, p. 237).

Com essa proposta, Hochmann pretendia tornar unificadas as ações de assistência, prevenção e organização/administração do sistema. (Cf. HOCHMANN, 1972). Quanto à administração do sistema citado, Hochmann, coerente com sua postura de distribuir pela

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comunidade as funções que tradicionalmente são precípuas dos aparelhos governamentais, afirma que

Toda la orientación de nuestro trabajo conduce naturalmente a afirmar que, bajo el control de los organismos presupuestarios públicos, los usuarios del servicio, los asistentes, los pacientes, los habitantes de la comunidad, son los únicos habilitados para orientar y dirigir con eficacia la política de salud mental (HOCHMANN, 1972, p. 238).

Hochmann valoriza as Associações comunitárias, que, no caso francês, seriam sem fins lucrativos e com captação de fundos públicos (Cf. HOCHMANN, 1972). Sugerindo o tipo de composição e de funcionamento dessas Associações, Hochmann diz:

La representación de funcionarios municipales, miembros de asociaciones barriales, familias de enfermos, de estos mismos enfermos y de quienes están a cargo de la asistencia o prevención de sus problemas, la transforma en una verdadera comunidad terapéutica (HOCHMANN, 1972, p. 238).

Ao longo de todo o livro citado, Hochmann propõe a discussão coletiva a respeito do que acontece com aqueles que são apontados como pacientes mentais, nas relações com suas famílias e sua comunidade. Conseqüente com sua orientação teórica, sugere a diluição e potencialização, nas comunidades, da função terapêutica e de cuidados, com aprendizado conjunto. Nas últimas páginas do seu capítulo de conclusão, deixa assinalada uma advertência que estamos, agora, vivenciando e que voltaremos a comentar:
Pero esta inmersión en la corriente comunitaria, esta difusión del trabajo y la pérdida de la protección que representa una identidad profesional, señalada por la pertenencia a un cuerpo rígido (el espíritu de cuerpo), puede provocar angustia; por lo tanto, es importante que el equipo de higiene mental se transforme en un grupo de sostén enriquecedor y reparador (HOCHMANN, 1972, p. 238).

Em 1979, Paulo Rocha, psiquiatra do Rio Grande do Norte, apresentou uma Dissertação de Mestrado, no Instituto de Psiquiatria da Universidade Federal do Rio de Janeiro, que teve como propósito, discutir os programas de psiquiatria comunitária na América Latina. (Cf. ROCHA, 1979). O autor justifica a delimitação da pesquisa à América Latina, devido à necessidade de observar trabalhos próximos de nós e com a característica de

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países subdesenvolvidos, chamando a atenção para o perigo da importação de modelos. (Cf. ROCHA, 1979). Apesar do título da dissertação fazer referência, ainda, apenas à psiquiatria, a proposta do autor é “[...] contribuir a uma discussão que aperfeiçoe a direção orgânica do movimento em torno da saúde mental” (ROCHA, 1979, p. 5). Paulo Rocha situa as práticas do trabalho comunitário em Saúde dentro do “modelo desenvolvimentista”, sob orientação de organismos internacionais, como a Organização das Nações Unidas e o Banco Interamericano de Desenvolvimento, e que teve, nos Estados Unidos, na década de 60, um impulso com os Programas de Ação Comunitária. (Cf. ROCHA, 1979). A intenção desses programas era que, através da participação popular e de oportunidades sociais, “[...] os problemas sociais, com suas lutas e tensões, seriam minorados e superados” (ROCHA, 1979, p. 7). Tentando situar politicamente as práticas comunitárias em Saúde, Paulo Rocha, fazendo referência a trabalho de Donnangelo, diz:
[...] a alternativa da medicina comunitária surge [...] como uma tentativa de preencher os ‘vazios’ na estrutura de produção dos serviços médicos, com extensão do consumo desse produto, simplificação de recursos (barateamento de custos) e, ao mesmo tempo, fundamentalmente, com ampliação de suas funções ideológicas e políticas, hegemonicamente, no processo de ‘medicalização’ da sociedade (ROCHA, 1979, p 8).

O autor da dissertação, ao procurar definir as determinações que fizeram emergir a “alternativa comunitária” em psiquiatria, situa importantes influências da “[...] série de transformações sócio-econômicas-políticas, a partir da 2a. Guerra mundial, que repercutiram diretamente nas formas organizacionais da Medicina [...]” (ROCHA, 1979, p. 9). Na Inglaterra, em 1959, e nos Estados Unidos, em 1963, são editadas leis que mudaram a forma de tratar em psiquiatria. As preocupações, nos dois casos, eram a precariedade da assistência e a necessidade de cortar gastos. (Cf. ROCHA, 1979). Nos Estados Unidos ganha força a proposta de

[...] aplicação dos princípios preventivistas em Psiquiatria com atuação na comunidade, através dos centros comunitários de saúde mental. Estavam lançadas as bases oficiais para a ampla extensão dessa política de saúde mental, nos EUA e, conseqüentemente, a importação desse modelo, pela dependência econômico-social, para a América Latina ao final da década passada (ROCHA, 1979, p. 10).

] (ROCHA. conflitivamente. no qual este autor dá como características da psiquiatria brasileira.. a “[. 21).. com os problemas decorrentes da importação de modelos de Saúde. 12). de 1978. 1979. O autor da dissertação cita um trabalho de Lucena. p. então.103 De acordo com o autor que vem sendo citado. dentro dessa visão funcionalista. o trabalho dos profissionais na área.. a que colocaria mais em xeque. (Cf...]” (ROCHA. Surgem as propostas de atacar os focos de problemas. o autor da dissertação cita Lubchansky. com as questões estruturais da sociedade – modelo econômico/político vigente [.] essas práticas de saúde. 1979. acesso à assistência médica. não teria sua resolução com base nas origens da desigualdade. com grande ajuda dos organismos internacionais – OMS/OPAS” (ROCHA. p. como. Estamos vendo.. acesso a habitações. com incidência na forma de lidar com os “[. A América Latina absorve. 1979. com abordagem dos mesmos. 11). segundo Paulo Rocha. Talvez tentando encontrar trabalhos que fugissem da lógica de repetição de modelos. predominava. 1979).] a partir de 1960.. ao destacar os autores brasileiros que fundaram a psiquiatria social lembra de Ulysses Pernambucano como o precursor.] concepção funcionalista que entende os problemas sociais. p. ao considerar a saúde como uma variável dependente. 11). A pobreza.. acesso a centros comunitários para melhoria da saúde mental [.] é a prevenção primária.] conflitos e tensões sociais resultantes de determinantes mais profundos e estruturais na sua formação social” (ROCHA.. ROCHA. estável. p. o nosso recorrente tema do aspecto de controle que tem as ações de Saúde Mental na comunidade e as possibilidades de escapar desse destino. 1979. na época das propostas descritas acima.. que desenvolveu um trabalho comunitário a respeito do qual saiu uma publicação em 1972. como conseqüência da dependência. 1979. segundo Paulo Rocha. [. mas “[. mesmo enquanto agentes ligados ao serviço público. a sociedade americana passava por uma crise.. pois o situa face a face.. na dissertação de Paulo Rocha. a pobreza. dentro do esquema proposto de evitar/controlar os fatores causais.. na época: . dizia que [.] dando ‘oportunidade’ de participação social: acesso a escolas. p... Lubchansky.. 11).]” (ROCHA. como resultantes de um ‘desvio’ ou ‘desajuste’ de uma pressuposta e dada sociedade equilibrada... Característico da forma de os Estados Unidos lidarem com seus problemas. por exemplo. Paulo Rocha. “[. argentino. funcionando harmonicamente [.

1979. p. A participação é.demonstração da miséria da assistência ao doente mental no Brasil. 21). manipuladores. 1979). no terceiro capítulo da sua dissertação. 29).] forma de pseudoparticipação. social e preventiva (se forem seguidas) no âmbito da assistência psiquiátrica da Previdência Social. O primeiro modo de ver a marginalidade. As diferentes formas de conceber a marginalidade resultará em diferentes modos de propor e praticar a participação. Para isso. Sempre situando o problema da assistência psiquiátrica no campo político. . 1979). 26). 1979). aberto a mudanças não previstas. Paulo Rocha depreende. de acordo com a pesquisa bibliográfica que realizou. Segundo Paulo Rocha. (Cf. .] trabalho psiquiátrico como agente de transformação social [. A participação será instrumento de modernização conservadora ou será a base mesmo do trabalho comunitário.. 1979.. discorre a respeito da organização de programas de psiquiatria comunitária e de seus embasamentos teóricos. que a compreende como uma disfunção que se resolverá pela integração dos marginalizados ao sistema social colocado como modelo a ser incorporado. Por outro lado. (Cf. que será questionada.. ROCHA. 1979. é o funcionalista.. dizia da importância do “[. tema básico para as propostas de saúde comunitária. que o autor descreve. há o que Paulo Rocha descreve como “[. uma “[. com alguns esforços para que transitem para o enfoque estrutural. ROCHA. histórica. 47). em 1972. citando Ulloa. Paulo Rocha.]” (ROCHA. da sua análise dos programas comunitários de Saúde Mental na América Latina. 1979.. Paulo Rocha cita Leme Lopes que. . .] uma visão estrutural. ao nível das relações sociais de produção” (ROCHA.. organização da pobreza no sentido adaptativo de diminuir as tensões sociais” (ROCHA.. os trabalhos de saúde comunitária são em geral funcionalistas. que a participação popular neles tem aspectos mistificadores. então. p. analisa alguns Programas de Psiquiatria Comunitária e de Saúde Mental em alguns países da América Latina. (ROCHA.difusão nacional do importante esforço de mudança do estilo do hospital psiquiátrico (de custodial para terapêutico).reconhecimento da significação das ciências sociais como uma das bases das ações da ação do psiquiatra. ROCHA. ideológicos.104 . de dar conta da questão da marginalidade. (Cf. que busca apreender o fenômeno da marginalidade como decorrente de formas de inserção num sistema produtivo.. O autor da dissertação situa a importação dos modelos de saúde comunitária dentro da necessidade.diretrizes de orientação comunitária. p. p.

.] em nossos programas partimos dos recursos existentes na área e não dos que deveriam existir. revolução tecnocrática ou revolução cultural?” (ROCHA.. p. Além desses princípios. o diálogo criativo comunidade-técnico é o motor central das mudanças [. diz que ele é talvez o melhor exemplo da visão funcionalista na análise da realidade social latino-americana e.. 1979. se seria necessária uma etapa intermediária entre o mundo feudal do asilo e a “[. porém. assinalava como princípios gerais para “[. O autor que Paulo Rocha cita deixa uma interrogação muito atual: “Vivemos uma revolução em saúde mental. 54) que “[. a troca de informações e saberes com a comunidade é ponto prioritário.. Ao chegar. e que “[. segundo Paulo Rocha. reforçando a .] o ponto de partida segue sendo a cultura popular. o autor da dissertação reafirma a influência decisiva do momento histórico do país na determinação dos rumos dos programas de Saúde. p... 67) como representante direta das “[.] constituiu-se basicamente num plano hospitalarpsiquiátrico. Mesmo com um discurso onde aparece a intenção de desenvolver a “psiquiatria preventiva”. 1979. (Cf...105 Ao citar as transformações na Saúde Mental no Chile. a Campanha Nacional de Saúde Mental “[. p.]” (ROCHA. p. trazendo como conseqüência dessa orientação. intracomunitária. 52). ROCHA.]” (ROCHA. 1979. numa discussão muito atual.] Campanha Nacional de Saúde Mental esboçada a partir de 1964” (ROCHA.] projetos de programas integrais em saúde mental [. na sua pesquisa e análise.. 1979. Paulo Rocha.. ao Brasil. 67).. ênfase no treinamento de técnicos-profissionais especializados. (ROCHA. no Congresso em 1963).] solução nacional.. p. etc. para iniciar a ação [. concepção e propostas de programas de psiquiatria comunitária de caráter eminentemente profissional-burocrático. 52). p.]”. 1979. bem como da nossa situação políticoeconômica vigente pela implementação do novo governo militar” (ROCHA.. especificamente. p...]” (ROCHA..] proposições norte-americanas sobre assistência aos doentes mentais (Kennedy. 54).. etc..[. 1979.. na Colômbia. maciça. em trabalho de 1973. Da etapa intermediária constariam os serviços de psiquiatria nos hospitais gerais e as unidades de saúde mental. mas através de melhor assistência pela racionalização de recursos. 63). buscando solução. 1979. ROCHA. 1979)... Paulo Rocha começa por situar a “[. Ainda o mesmo autor.. (Cf.. 1979).. Ao criticar o Programa de Saúde Mental implantado em Cáli. privilegiando as instituições hospitalares no sentido de internações. Paulo Rocha cita Marconi. Marconi. que se interroga. não pela participação ativa e decisória da comunidade. na área de saúde mental.

que privilegiava as internações.] colocado dentro de um prisma dos mais criticados ultimamente: a adaptação” (ROCHA. 1979). Busnello recai em repetições de modelo e em reforço do conceito de doença mental mesmo com as boas intenções que demonstra ao criticar o modelo assistencial dominante na época. p. Paulo Rocha diz que “Chama nitidamente a atenção nesses fundamentos a ausência da comunidade como agente principal nesse trabalho. (Cf. o fez.. p. seguindo “[. ROCHA. mais uma vez mostrando o que parece ser um dos focos principais de atenção da dissertação. lançavam-se bases concretas de programas comunitários em Psiquiatria.106 velha prática assistencial asilar” (ROCHA. sempre com a atenção voltada para os conceitos que embasam os trabalhos no que eles têm de ruptura com as formas alienantes de tratamento ou sua repetição. 73). o grau de participação da comunidade nos Programas de Saúde Mental que se propõem comunitários. Cáli. ROCHA. Em contraposição ao estabelecido. Paulo Rocha percebe que Busnello. “[. Paulo Rocha. na década de 60. 68). 1979. A dissertação de Paulo Rocha. 1979. fazendo da tese.. estudando possibilidades de adaptação dos mesmos ao nosso contexto sócio-cultural” (ROCHA. Paulo Rocha considera que foi com a “[. nos moldes dos programas anteriormente descritos do México. 1979. p. cita a tese de Ellis Busnello. 71). p. 1979. o ponto central de seu estudo. Paulo Rocha cita os trabalhos de Luiz Cerqueira.] os princípios gerais de implantação dos centros comunitários de saúde mental conforme desenvolvidos nos EUA. 76). ROCHA.. 1979).. 1979. como vimos páginas acima.. (Cf. detecta que Busnello ainda estava utilizando o antiquado binômio saúde/doença e. desde o início das suas observações. nos arredores de Porto Alegre [.. p. no sentido de participação ativa e decisória em todos os níveis” (ROCHA. “Integração da Saúde Mental num Sistema de Saúde Comunitária” como de grande importância para a compreensão dos inícios da Saúde Mental Comunitária. (Cf. talvez. . de unidades de saúde mental integradas em serviços de saúde pública (ROCHA.. entre outros. 1979) uma voz ativa em um período especialmente difícil. 1979. 71). ao iniciar as ações de psiquiatria na comunidade. é bastante crítica em relação ao trabalho de Busnello. Observando as bases conceituais de Busnello e sua prática e. 77).] elaboração de um projeto de serviço de saúde mental comunitária no Centro Médico São José do Murialdo. que. p.. a exemplo de Luiz Cerqueira.]” (ROCHA. além disso. Por exemplo. no Brasil.

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Apesar de já haver uma preocupação, no trabalho de Busnello, em treinar líderes comunitários, segundo Paulo Rocha é ao ambulatório que cabe, nele, a função principal. O acento, portanto, é na equipe, e no trabalho prioritário na esfera mental. (Cf. ROCHA, 1979). Paulo Rocha, em diversas passagens de seu texto, critica a ênfase exclusiva que Programas de Saúde Comunitária dão ao campo psicológico, enquanto entraves e soluções para os problemas. Desta forma, Paulo diz que a colocação da solução dos problemas na mudança psicológica, seja da população, seja dos profissionais, deixa de levar em conta as “[...] preocupações com a análise e articulação de estudos dessas situações com as estruturas sociais e políticas e seus determinantes econômicos vigentes” (ROCHA, 1979, p. 82). Para concluir sua observação a respeito do trabalho no Sistema Comunitário de Saúde da Unidade Sanitária Murialdo, Paulo Rocha diz que “[...] o papel das comunidades nesse modelo de programa nos parece passivo e receptivo” (ROCHA, 1979, p. 82). Paulo Rocha define como o “objetivo maior” de sua dissertação, “[...] traçar coordenadas gerais, críticas, a partir dos estudos mais pormenorizados de cada programa modelo, sobre as formas organizacionais desses programas na América Latina” (ROCHA, 1979, p. 84). Para dar conseqüência a essa proposta, Paulo cita Marconi, que diz que “[...] existem três modelos teóricos básicos: asilo-hospital psiquiátrico, unidade de saúde mental e programa integral de saúde mental” (ROCHA, 1979, p. 84). Esses modelos acompanhariam a “[...] estrutura sócio econômica de uma sociedade determinada” (ROCHA, 1979, p. 84). A cada um desses modelos corresponde uma concepção do Homem, da sociedade e da participação da comunidade nos serviços de Saúde. Apenas o último modelo define que a comunidade deve gerir o serviço de Saúde, que é seu. (Cf. ROCHA, 1979). É freqüente que convivam os três modelos em situações de transição. Paulo Rocha cita mais uma vez Marconi, que opinava, já em 1976, que ao invés de instalar “[...] unidades de saúde mental, com recursos institucionais tecnificados e em mãos de profissionais de saúde mental” (ROCHA, 1979, p. 87), deveria ser desenvolvido “[...] programa de baixo custo, de acelerada difusão, de dinâmica interna alta, que utilize recursos locais” (ROCHA, 1979, p. 88). As discussões que despertam as últimas citações estão no nosso cotidiano: instalar como prioridade estruturas pesadas e que requerem alto investimento ou aproveitar, também, o que já existe na Atenção Básica, potencializando-a para o trabalho em Saúde Mental? Paulo Rocha traça, já nos seus Comentários Finais, um interessante paralelo entre as ações da Saúde Pública e as táticas de guerra, mais uma vez com a intenção de verificar o quanto de dominação está sendo estabelecido pelos serviços de Saúde. Desta forma, entre

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1930 e 1950 “[...] emerge o conceito de controle [...]” (ROCHA, 1979, p. 97) e entre as décadas de 50 e 70 “[...] surge marcadamente o novo conceito: vigilância” (ROCHA, 1979, p. 98). Esta forma de situar o problema das ações de Saúde serve de base para que o autor da dissertação entre no estudo das implicações político-ideológicas das práticas de psiquiatria comunitária. O primeiro autor que Paulo Rocha estuda é Caplan, de quem retira como bases para o trabalho em prevenção primária, a psicologia do Eu e estudos de adaptação realizados no exército americano, ambas conduzindo ao controle dos desvios. (Cf. ROCHA, 1979). A prevenção para Caplan, segundo Paulo Rocha, é evitar o aparecimento de casos novos. Para esse fim, inclusive, deveriam ser utilizadas técnicas de eugenia. Caplan, de acordo com Paulo Rocha, coloca a situação sócio-econômica das pessoas ao lado de características como sexo, idade e raça, portanto sem possibilidade de mudança. Para concluir o que percebe em Caplan, Paulo Rocha diz:

É marcante a concepção funcionalista, ao colocar a Psiquiatria como realizadora do ‘equilíbrio social’ que encontra-se desajustado, ‘desviado’, por comportamentos ‘inadaptados’ dos indivíduos numa sociedade (ROCHA, 1979, p. 103).

Paulo Rocha, ao estudar o que Blaya publicou, na década de 70, destaca que esse autor fez uma comparação entre a psiquiatria que queria ver comunitária com a psiquiatria que foi praticada na Segunda Guerra Mundial, já com os ensinamentos obtidos durante a Primeira Guerra Mundial. (Cf. ROCHA, 1979). Também adaptativa, a psiquiatria comunitária que Blaya sustentava não esconde a sua condição de mantenedora da ordem. Paulo Rocha cita palavras muito significativas de Blaya: “[...] os princípios de organização são os mesmos experimentados na guerra, com uma adaptação às condições sociais que desejamos servir” (ROCHA, 1979, p. 104). Paulo Rocha, apresentando o que percebeu em Hochmann, critica-o por observar que, ao situar nas relações interpessoais o problema da saúde mental e suas dificuldades, poderia estar isolando essas relações da dinâmica da sociedade e reduzindo “[...] a problemática da loucura nesse nível de ‘interpessoalidade’ com um caráter de nítida psicologização, escamoteando, evidentemente, outros determinantes” (ROCHA, 1979, p. 107). Os serviços psiquiátricos organizados com base nessa concepção de Hochmann seriam, então, mais do que qualquer outra coisa, uma “[...] rede ideológica” (ROCHA, 1979, p. 107).

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Paulo Rocha recorre a Basaglia para continuar a situar o problema do desvio e seu controle no campo econômico. As instituições psiquiátricas seriam, para Basaglia, segundo Paulo, correlatas ao tipo de desenvolvimento do capitalismo, a cada momento dado. (Cf. ROCHA, 1979). Na linha de pensamento de Basaglia, ao descrever como as ações comunitárias lidam com o “social”, Paulo Rocha afirma:

Se nos limitarmos a considerá-lo como um simples conjunto de interações psicológicas manipuláveis segundo uma técnica particular e não como um conjunto das relações sociais de produção, se acaba por esquecer o jogo em cujo interior continuaremos seguindo: a nova técnica psiquiátrico-social surgida em oposição à rígida gestão institucional de enfermidade mental, se converte na realidade em uma nova forma de manipulação que encobre, sob a máscara da técnica, seu profundo significado de controle social (ROCHA, 1979, p. 112).

Ao concluir sua monografia, Paulo Rocha não fecha completamente as possibilidades de que os programas da então chamada Psiquiatria Comunitária possam trazer mudanças que sejam de interesse das populações. Apesar de suas pertinentes críticas às suas bases ideológicas controladoras da Psiquiatria Comunitária, Paulo afirma que “[...] esses programas de psiquiatria comunitária trazem necessariamente, no seu bojo, questões novas como a participação e organização da população em torno de suas questões de saúde, abrindo possíveis canais de reivindicação popular [...]” (ROCHA, 1979, p. 118). O autor da monografia também reconhece que a Psiquiatria Comunitária traz avanços em relação ao asilo e à organização da assistência como meio de lucro. (Cf. ROCHA, 1979). Da sua extensa pesquisa, Paulo Rocha conclui que, na América Latina, naquele momento, os programas estavam “[...] longe ainda de perspectivas ditas intracomunitárias, integrativas, com real organização e participação da população” (ROCHA, 1979, p. 119). Com essas palavras, Paulo mostra a sua expectativa e indica as características que devem ter as ações de Saúde Mental praticadas em benefício das populações assistidas: “[...] intracomunitárias, integrativas, com real organização e participação da população” (ROCHA, 1979, p. 119).

5.2 Precursores Brasileiros.

Com as origens das propostas de aproximação da Saúde Mental com as comunidades esboçadas, passemos às práticas e idéias brasileiras.

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Podemos destacar, no Brasil, o psiquiatra Luiz Cerqueira como um dos primeiros profissionais de Saúde Mental que conceituou, propôs e tentou colocar em prática algo diverso da psiquiatria organicista: uma prática social em Saúde Mental. No seu artigo “Raízes e Tendências da Psiquiatria Social no Brasil”, de 1978, republicado no seu livro de coletânea “Psiquiatria Social – Problemas Brasileiros de Saúde Mental”, de 1984, Cerqueira cita seu mestre Ulysses Pernambucano, que, segundo ele, foi o precursor, no Brasil, das proposições de uma psiquiatria social. Como ilustração, nesse artigo, Cerqueira cita as palavras do mestre:
O que desejam os neuro-higienistas é que os homens de governo se capacitem de que a política de internar doentes, augmentar hospitais, desenvolver colonias sem cuidar de prevenir doenças mentaes, de combater as causas de psycopatias é tão errônea quanto o seria a que construisse hospitaes para doenças contagiosas e não tratasse de evitá-las (CERQUEIRA, 1984, p. 24).

Notam-se, no texto, a crítica à internação e o chamamento para que a psiquiatria se interesse pelo mundo que rodeia o chamado doente mental. Ressalvas podem ser feitas ao texto, mas o que ficou, segundo Cerqueira, foi o exemplo de Ulysses Pernambucano como “[...] um psiquiatra com alma de sanitarista, descompromissado com o modelo médicoprivado-curativo exclusivo” (CERQUEIRA, 1984, p. 25). Ao fazer o elogio de seu professor, Cerqueira o vê como profético, mas também o é, quando diz:

Vemos também nestas palavras algo de profético em que serão reduzidas, um dia, todas as tendências da psiquiatra social, integrando saúde mental em saúde pública, através dos centros comunitários de saúde mental ou coisa que o valham, como, por exemplo, trabalhadores psiquiátricos em todos os centros de saúde (CERQUEIRA, 1984, p. 25).

Apesar de ainda oscilar para a designação “trabalhadores psiquiátricos”, Cerqueira vê a Saúde Mental integrada à Saúde Pública. O valor dessas palavras também está na sua abertura, ao não fechar sua visão privilegiada numa só proposta, quando diz “através dos centros comunitários de saúde mental ou coisa que os valha”. Com esse “ou coisa que os valha”, Cerqueira mostra que olhava para o horizonte, sabia que lá existiriam novas ações em Saúde Mental, mas não sabia exatamente quais seriam, nem se arvorava a isso. Deixava o caminho aberto para as invenções, a criatividade e a surpresa. Como raízes da psiquiatria social, Cerqueira lista a Sociedade de Higiene Mental de Connecticut, EEUU, a psicobiologia, a fenomenologia, a psicologia não comprometida com

uma forma de evitar a internação psiquiátrica. a maioria dos profissionais da rede pública ainda foi formada apenas para a clínica. um dos seus determinantes. que retirava os direitos civis das pessoas . 28). Ulysses Pernambucano implantou. Novamente.atitude corajosa . a visão de futuro em aberto e que traria mudanças profundas. em 1931. enquanto ideal dos psiquiatras sociais: “A assistência psiquiátrica absorvendo e identificando-se tanto com os aspectos sociais. em casas como as que eles construíam em sua terra. Ajuriaguerra).111 condicionamentos para controles sociais. A diluição potencializadora. cultivando suas roças.. p. viu em Barreiros. p 27). na Saúde Mental. Interessante observar o que pensava Cerqueira. pescando no rio. No modo de ver de Luiz Cerqueira. dos inícios da saúde pública. Cerqueira diz que em 1939. (Cf. e o seu mérito também é o de . o Serviço Aberto . Cerqueira aponta a psiquiatria de setor (Lebovicci. organizados pelo mestre alguns pacientes se auto dirigindo como parte do programa da Colônia: na periferia da fazenda. na Saúde Mental na Atenção Básica. a psiquiatria democrática (Basaglia).abriu o primeiro Ambulatório de Psiquiatria do Brasil e organizou a primeira equipe multiprofissional e uma “[. Salvo o fato de estar nos terrenos de uma Colônia.prever a transformação da sua própria identidade profissional. Por exemplo. CERQUEIRA. está claro para nós. 26). visitados pelo médico. terapêutica e reabilitação. principalmente as suas contribuições para o trabalho com grupos. que não mais seria possível falar em psiquiatria social” (CERQUEIRA. 1984. Como tendências da psiquiatria social. está em andamento. p. a sociologia e a psicanálise. embora de forma menos intensa. prevista por Cerqueira. 1984. secundária e terciária” (CERQUEIRA. bem como não são ações praticadas exclusivamente pelos profissionais de Saúde Mental. mas ainda não vislumbradas. Até hoje essa divisão está presente. a psiquiatria aproximou-se da Saúde Pública depois que “[. a respeito do futuro da psiquiatra comunitária. Paumelle. cozinhando os próprios mantimentos e os que iam buscar na sede (CERQUEIRA. p. não é psiquiatria comunitária. 1984). a psiquiatria . o que está colocado acima é o que hoje estamos organizando sob o nome de “Serviço Residencial Terapêutico”.. 1984.] ação comunitária extra-hospitalar” (CERQUEIRA. 29).] os sanitaristas reformularam seus conceitos estanques de profilaxia. Cerqueira especula a respeito da demora da integração psiquiatria/saúde pública e vê na dicotomia clínica/higiene. Pernambuco.. aqui. Continuando a prestar homenagem a Ulysses Pernambucano. integrando-os dinamicamente em prevenção primária. O que fazemos hoje.. 1984.

já que “[.. numa visão psicodinâmica. que produziu a tese “A Integração da Saúde Mental num sistema de saúde comunitário”. p. enfim.. organicamente aceitam centralização normativa e descentralização executiva.. 29). o mais importante autor. Luiz Cerqueira apresentou..] ideologicamente. 32). levaria os cofres públicos à insolvência e à destruição de muitas vidas: “Não mais de 10 anos e a empresa de saúde terá comido a galinha dos ovos de ouro. “[. todas concebem etiologias e terapêuticas biopsicossociais.. p. de toda parte. Cerqueira percebe que. secundário e terciário – preocupando-se..112 preventiva (Kaplan). . ensejando uma série de racionalizações. Nele. Em termos de análise do que estava ocorrendo na organização da assistência à Saúde Mental no país (lembremos. o que chamou de “indústria da loucura”.] já podíamos ter um funcionamento harmonioso. em 1971. sem se preocuparem com definições acadêmicas” (CERQUEIRA. com cobertura da demanda não satisfeita. consagram a equipe multiprofissional. em 1976. enriquecendo-o com uma consciência social (CERQUEIRA.]”. CERQUEIRA. (Cf. tentam nova abordagem da comunidade. O colapso virá” (CERQUEIRA. sem onipotências. todo um sistema hospitalar conjugado com um extra-hospitalar” (CERQUEIRA. Cerqueira aponta o que existe de comum nas correntes citadas. para nós. Cerqueira cita Ellis Busnelo. com o que já se gasta com internações psiquiátricas.. em decorrência dos princípios de regionalização. 1984. 1984). o texto é de 1978). Do Brasil. 1984). num resumo atual e até mesmo um guia de estudo: [. a psiquiatria administrativa (Clark).. 1984. no V Congresso Mundial de Psiquiatria. é Maxwell Jones.] as resistências às práticas comunitárias [.] de muitos. um artigo que consta de seu livro de 1984. que é a Previdência Social. no México. normal ou patológica. na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. (CERQUEIRA. 106). adotam da psicanálise a teoria do inconsciente com os mecanismos de defesa da personalidade para a compreensão da conduta. 1984. realizam tanto atendimentos individuais como grupais. Trata-se de “Resistências às Práticas Comunitárias”. coordenação e integração. sem reducionismos. p. 30). p. 1984. baseada na experiência de Murialdo. para postergar o advento das socioterapias” (CERQUEIRA. Para Cerqueira. p. advogam prevenção. que recusava definições para a psiquiatria social. 32). 1984. com vistas aos fins e não aos meios. rasgam o modelo médico-clínico-excusivo – na verdade. Cerqueira aponta o que os poderes dominantes ainda tentavam esconder: a privatização da assistência. em moldes de vasos comunicantes.. Cerqueira vai buscar em Hipócrates “[. porém. amarrada nos 3 níveis – primário.. como os sanitaristas. a psiquiatria compreensiva e a psiquiatria comunitária “[... isto é.] o caráter individualista da profissão médica ainda hoje é ensinado aos psiquiatras.

. que procura ser abrangente fazendo prevenção. na Universidade Federal do Rio de Janeiro. 1984). Nele. “[. evitando doenças. CERQUEIRA.] todos os problemas de saúde do grupo [.. publicado no livro que está sendo citado.] necessidade [. que começou em 1966. de modo geral. Busnello inicia sua palestra diferenciando medicina tradicional. à prevenção primária” (CERQUEIRA. aquela das práticas populares.. tratando os doentes e reabilitando-os. Rio Grande do Sul. principalmente. p. p.. Continuando a marcar a diferença entre o atendimento por demanda e a saúde comunitária. e da saúde comunitária.] a mais grave das resistências [..] uma prática de uma psiquiatria setorizada. (BUSNELLO. que aconteceu em junho de 1975. Cerqueira dá notícia do que estava sendo desenvolvido em São Paulo: uma integração docente-assistencial.. 1984. p.] a tradicional postura de um profissional com um paciente .. 1984.. p. que é um relatório que apresentou ao “Simpósio de Psiquiatria Comunitária”. Busnello define “[...]” como “[. “[..113 Luiz Cerqueira diz que os obstáculos colocados pelos interesses da indústria da loucura já não são novidade. Ellis Busnello. 1982). mas a necessidade total.. Não só a demanda é atendida. da medicina convencional.]” e “[.. 1982. em palestra com debates no I Simpósio de Alternativas no Espaço Psi. p 371).. pré-requisito para o centro comunitário [. esmagados com as endemias. a se recusarem. 1982. dita científica. 374).] o total de serviços de saúde que a população precisa” (BUSNELLO. que aconteceu em Porto Alegre. que atende por demanda.. 1982. p. 258). e que integrou a Saúde Mental na saúde comunitária.. em 1981 (Cf. Acentuando o conceito de população definida para as ações da saúde comunitária.. envolvendo Universidade e Coordenadoria Estadual de Saúde Mental. (Cf. 107) e.]” e “A possibilidade de aplicação de técnicas de saúde pública com vistas.. I SIMPÓSIO DE ALTERNATIVAS NO ESPAÇO PSI. Os três níveis de prevenção clássicos da saúde pública são atendidos dentro da comunidade. Luiz Cerqueira tem um artigo. preferindo analisar outras resistências.. 374)... Busnello coloca-se como “psiquiatra de comunidade” e diz que “Eu vim falar sobre saúde comunitária e sobre a integração da saúde mental em serviços comunitários de saúde” (BUSNELLO. a admitir saúde mental em suas preocupações” (CERQUEIRA.] como a de certos sanitaristas. apresenta a sua participação na experiência pioneira de Murialdo. 1984.] a generalizada dificuldade dos psiquiatras em considerar saúde mental como um problema de saúde pública” (CERQUEIRA. 107).. com a criação de “[. Busnello diz que “[.

1982. de forma integral. para a urgente saída da postura tradicional das profissões do espaço psi.. 1982. Desta forma. para o Programa de Saúde da Família e para o Programa de Agentes Comunitários de Saúde.000 pessoas. dentro deles mesmos e através de visitação domiciliar.. para a viabilidade da capacitação do pessoal médico e leigo para o trabalho na comunidade e para as possibilidades que se abrem com o trabalho em conjunto com os curandeiros. 1982). 377). personalizada e participativa” (BUSNELLO. 375). ainda. p. (Cf.. ou 1. 376)...114 deve ser substituída por um ou vários profissionais para alguns milhares de pacientes. hoje. p. com técnicas grupais e com auxílio e participação dos doentes e das comunidades” (BUSNELLO. 378). 375).] é aquela que atende uma população definida. Esta percentagem varia de país para país. que adiantavam o que hoje se constatou: “[. Recomendava que “[. p. 1982. de cerca de 20% a quase 50%” (BUSNELLO. na medida em que retoma o mote em relação às propostas de mudança na Assistência à Saúde Mental: transformação ou conservação? Senão vejamos: . então em andamento no Brasil e em outros países. A explanação de Birman nos interessa muito. p. 377). para a necessidade de atendimento às famílias das pessoas com diagnósticos mentais. Busnello diz que “[. grupos de cerca de 5. 1982. Busnello chama a atenção. argumenta com as estatísticas que mostram o grande número de pessoas necessitando de atendimento e com o fato de que. semelhança que se estende ao quantitativo populacional para cada posto de saúde. Joel Birman apresentou um trabalho em que pretendeu equacionar e analisar o que estava sendo colocado como mais uma reforma da psiquiatria. continuada. p..] um percentual muito grande de pessoas que vão à consulta em Postos de Saúde tem definido problema de saúde mental. para isso. 1982.] deve-se atender. na saúde comunitária. para atender populações e não apenas indivíduos” (BUSNELLO. Busnello advoga que A organização sistêmica de um serviço de saúde comunitário inclui a organização de postos de saúde que atendem. Chama a atenção para a semelhança com o que está estabelecido. os profissionais de saúde não reconhecem os problemas ligados à Saúde Mental. BUSNELLO. 1982. No mesmo Simpósio em que Busnello proferiu a palestra citada acima. Busnello cita pesquisas.000 famílias (BUSNELLO. Busnello diz que o trabalho em Saúde Mental deve ser uma prioridade e. muitas vezes. BUSNELLO. p. (Cf. Novamente tentando definir saúde comunitária.

1982. após uma linha de pesquisa e ação que não questionava a psiquiatria enquanto instituição. pois isso seria continuar no mesmo campo ideológico tradicional que identificou-a com a doença mental. p. p.. na medida em que atuando diretamente no espaço social no conjunto de relações inter-humanas que o estruturam. a constituição da psiquiatria preventiva e comunitária foi saudada como sendo a terceira revolução psiquiátrica. 1982... nascida revolucionária. [..] ficou reduzida a uma experiência reformista de melhorias das condições hospitalares” (BIRMAN. que questiona o conceito de doença mental. Consoante com seu rigor conceitual. a partir dos meados dos sessenta [. apenas acrescentando etiologias sociais ao que deveria ter resposta pela psiquiatria estabelecida.] estas pensam a saída do hospital psiquiátrico meramente como um problema técnico. 158).. que teria se seguido à liberação mítica dos loucos por Pinel na virada do século XVIII para o século XIX e à revolução freudiana na aurora do século XX [. surge “[. p. 160).. Birman diz que.] sobretudo as implicações da psiquiatria como prática social até então inquestionável” (BIRMAN... 1982.. Birman alude a que a psicoterapia institucional francesa.. Birman. já que constituem elementos fundamentais de controle da marginalidade social e de suas implicações políticas (BIRMAN.] (BIRMAN.. p. assim. quais são as suas pretensões? E centrada em que forma de sociedade se coloca tudo isso?” (BIRMAN. a organização futura de enfermidades mentais.] um novo limiar na reflexão das relações da psiquiatria com a sociedade..] não cabe apenas pensar a relação com a loucura em termos de cura. 1982.. 166). 163)...] A emergência da psiquiatria social como saber e como prática técnica. Birman diz que [. Assim. pretende responder a algumas indagações que considera da maior importância: “[. com o objetivo de promover a saúde mental e impedir. foi inclusive assinalada como uma nova era na história da sociedade ocidental nas suas formas de lidar com a problemática da doença mental. ao contrário da prática de Franco Basaglia. para a análise mais aproximada da questão que está colocada pela psiquiatria preventiva e comunitária.] de que psiquiatria se fala nisso tudo. Remontado ao trabalho de transformação dos Hospitais Psiquiátricos.115 A psiquiatria preventiva e comunitária pretende ser a ruptura com o hospital psiquiátrico. 166). sem colocar em questão o conjunto de . 1982. Ao se referir ao trabalho de Basaglia.. “[. Birman faz essa crítica histórica. mas procurar transformar a relação da sociedade ocidental com a loucura que está cristalizada no asilo e na exclusão social. p. para dizer que o mesmo rigor deve recair sobre as práticas da psiquiatria preventiva e comunitária no que “[.

.116 contradições sociais cristalizadas na solução asilar” (BIRMAN. enquanto encarregada de manter a ordem nas populações marginalizadas. se Sartre é uma referência comum tanto para Laing e Cooper. 168. Para chegar ao cerne de suas observações. BIRMAN. Se “[.] interrogação sobre a dimensão histórica da instituição psiquiátrica [. 1982).. também deve servir para a possibilidade de controle social através da psiquiatria preventiva e comunitária.. BIRMAN. que tendem a serem produtoras de demanda psiquiátrica e a constituir um sistema que tende a reduzir ao psicológico e ao psicopatológico o conjunto dos comportamentos desviantes e socialmente anômalos (BIRMAN. . por sua vez.. p.. articula-se “[. 1982. 1982. (Cf. de meados do século XVIII ao início do século XIX (Cf. 1982.. porque com ela “[. 1982. [. p.. poderá acontecer [. Birman vai resgatar a compreensão de que [. 168).] a história da psiquiatria é um momento contemporâneo da história da loucura. 1982. com as novas intervenções preventivistas. que a idéia de prevenção se organizou em psiquiatria (BIRMAN. seja para discipliná-lo e retirar seu capital explosivo. 1982). Birman refere-se às “antipsiquiatrias” e esclarece que.] o asilamento do espaço social.. grifo do autor). se a crítica serve para o asilo. [.. Conseqüência necessária deste enfoque metodológico é que a doença mental é um momento determinado na história da loucura. 1982. p. p. isto é. p. caso não existissem medidas corretivas adequadas.] que seriam enlouquecidas com mais facilidade. seja para controlá-los. econômica e social (BIRMAN. 167).] ao pensamento marxista na sua tradição italiana... De Foucault. 1982. 168).. produto da própria sociedade capitalista na sua primeira Revolução Industrial. p.. 169).. A advertência de Birman é que se não estivermos atentos para a crítica que aponta. Birman vai ponderar que.]”. O que pretende Birman é afirmar a necessidade da “[. na interpretação realizada por Gramsci e na maneira pela qual pensou especificamente o fenômeno político” (BIRMAN.] Foi em relação a esses bolsões de miséria urbana. 167).. p.] se atinge um novo limiar para a reflexão das relações entre psiquiatria e sociedade” (BIRMAN.. 1982. baseada num conjunto de razões de ordem política. 172). (BIRMAN. e que se positivou como tal num momento preciso da história ocidental. quanto para Basaglia. Birman afirma que a psiquiatria já nasceu com ares preventivistas. este. 168). p.] instituição e saber são dimensões do mesmo problema” (BIRMAN. Remontando às origens da medicina moderna...

abrindo possíveis inocentes olhos para a importância ideológica.] uma mudança social. No texto de Birman. de todos os modos absolutamente necessário. na disciplina de populações marginais que possam apresentar algum caráter explosivo e que devem se conformar com a miséria humana e social. para dizer que “É na procura das razões políticas e ideológicas. desde 1978. partindo para uma . social e política das práticas em Saúde Mental. realizava um trabalho comunitário numa região periférica de Viamão. O discurso preventivista da psiquiatria brasileira vem desde duas origens. que devemos entender o que é prevenção em saúde mental” (BIRMAN. Não pode haver. que Não há movimento na sociedade que Foucault analisa: muda de uma fotografia fixa a outra. uma apresentação de um grupo de voluntários. John Holloway adverte. 1982. mas não há movimento. define-se como um trabalho que busca “[. p. Desta forma. que adverte para as estratégias do poder e do controle. de 1981. mais típica de alguns ditos foucaultianos do que propriamente de Foucault. convencida da validade de sua miséria humana e social. após ressaltar a validade das análises de Foucault a respeito das relações de poder. e qualquer tentativa de mudança pode ser vista como nova roupagem do controle.. com uma função de amortecer os problemas gerados pelo desemprego. segundo Birman. De uma certa leitura de Foucault nada escapa. o mesmo aconteceu com a psiquiatria. 2003. de cuja publicação citei os últimos dois trabalhos. ao mesmo tempo. existe. para que não ameaçasse a ordem recente” (BIRMAN. certamente não incluído aí Birman. 172). também. disciplinada enfim. o GUSP – Grupo Unido de Saúde Pública que. Birman utiliza a sua argumentação foucaultiana. Voltaremos. p. a esse aspecto dos efeitos limitadores da crítica inicial às tentativas de ações de Saúde Mental nas comunidades. se existe a crítica pertinente. 66). O trabalho apresentado pelo grupo faz contraponto. RS. p 172). Mostrando a riqueza do I Simpósio de Alternativas no Espaço Psi. 1982. com as críticas de Birman e com a prática de Murialdo. a menos que o foco esteja no fazer e na sua existência antagônica (HOLLOWAY. também existe o que pode ser interpretado como uma crítica paralisante. Sem meias palavras. mais adiante. Diz Birman: “Essa massa tinha que ser mantida no seu lugar.117 No Brasil.. ocupando o papel de controle daqueles que os poderes dominantes precisavam manter inofensivos. A respeito desse perigo de uma crítica paralisante.

1982. uma outra série de símbolos e de relacionamentos que diferem da nossa.] um novo enfoque de atuar em saúde. referindo-se a “[. 1982). escrito entre 1987 e 1988. no seu meio ambiente. 340). em 1978” (GUSP..” (GUSP. 346). 342).3 Trabalhos atuais. atuando em uma área pobre. p. 346). 342).. quer dizer. Se nós temos uma tecnologia que se poderia chamar de imprópria àquela comunidade. os transtornos mentais (Prevenção Primária). Iniciando a aproximação com textos e práticas mais atuais. O grupo definia que “Dentro da área de saúde mental. numa reposta específica quanto às diferenças de enfoque. p. a resposta que o representante do GUSP deu foi: O trabalho de Murialdo partiu de um modelo norte-americano que utiliza basicamente a medicina simplificada. em que ele se propõe a “[. Portanto. o que a gente tem como prioridade é a promoção da saúde mental. que. O grupo citado define sua concepção de promoção de saúde mental: “[.. 1989. 1982. p. Lancetti cita Gerald Caplan. 1982. como instrumento para elaborar a relação dominador/dominado dentro da Equipe e com a comunidade (Cf. p.] problematizar a prevenção que incide e insiste nas nossas práticas psicoafins” (LANCETTI. 5.. Em relação à experiência de Murialdo. porque lá tem uma outra cultura. 1982. GUSP. 76). num nível de prevenção primária de saúde” (GUSP. então nós buscamos criar uma tecnologia apropriada à nossa vida e à Vila (GUSP. define a psiquiatria preventiva como caracterizada por: 1-Programas para reduzir (não curar). O nosso modelo parte de uma busca de alternativas apropriadas.] seria um estímulo à crença da pessoa na sua capacidade de trabalhar pelas suas coisas. temos um esclarecedor artigo de Antonio Lancetti. no seu livro “Princípios de Psiquiatria Preventiva”. . p. p. E isso tudo num momento difícil da vida nacional. fazendo a crítica constante do próprio trabalho e percebendo a dimensão política do mesmo. Uma de suas referências era Paulo Freire. lançado pela Organização Mundial de Saúde. para tornar este meio mais favorável à sua evolução” (GUSP. temos um grupo politizado. atualizado em relação aos documentos internacionais. Para iniciar sua argumentação. 1982. dentro de si. numa comunidade... é a medicalização das doenças. mais justa.118 sociedade mais democrática.

Para fazer incidir com mais nitidez sua crítica. Tornando positivo o que está negado no trecho acima. Deste modo. 1989. Surge. estabelecer dispositivos de produção de sujeitos potentes. estimular a politização dos movimentos comunitários e autogestivos. 84). número de suicídios. do que temos o seguinte exemplo: A promiscuidade conceitual do preventivismo gera um objeto primordial que visa à neutralização do conceito de classe social. ácida crítica ao preventivismo.. sua intencionalidade e eficácia consiste na captura dos movimentos autogestivos e a produção de sujeitos carenciados (LANCETTI.. no texto. Mas. que ignora qualquer determinação do sofrimento mental que possa questionar as estruturas sociais. 78). p. 77).119 2-Programas para reduzir a duração dos transtornos mentais (Prevenção Secundária). tantas propostas de trabalho em Saúde Mental. ao mesmo tempo. mas que devem nortear nosso trabalho diário: quais são os parâmetros que nos informam a respeito de se estamos ou não controlando a comunidade? Quais os indicadores que evidenciam que as nossas ações estão colaborando para a emancipação da comunidade? Indicadores existem diversos: número de internações. Lancetti desenvolve.. afirmar diferenças. como avaliar se estamos sufocando os protestos inconscientes ou levando-os a produzir mudanças? . p.. 1989. Lancetti também considera a Declaração de Alma Ata na mesma linha. p. Caplan se insere na linha da psiquiatria tradicional. que supõe a “[. Ficaríamos com: reconhecer o conceito de classe social. 1989. podemos traçar algumas diretrizes para nossas ações de Saúde Mental na comunidade. Lancetti tenta perceber qual o conceito de transtorno mental com que trabalha Caplan e cita o autor norte americano: “[. temos que fazer perguntas que de certo não terão respostas imediatas. 3-Programas para reduzir a deterioração que resulta dos transtornos mentais (Prevenção terciária) (LANCETTI. p. prevalências e incidências várias. a despolitização dos movimentos comunitários. portanto.] inadaptação ou desajustes aos princípios sociais e aos valores da cultura” (LANCETTI. respeitar as culturas locais. o preventivismo como o fantasma teórico do qual temos que nos afastar. 77). caso a opção seja por uma prática que pretenda gerar movimentos autônomos nas comunidades.] comunidade harmônica” (LANCETTI. eximindo-nos de conduzi-los. ocorrências de violência. Por último. Diante de tantas críticas e. 1989.

1998). Estado do Rio de Janeiro. Os estudantes faziam o atendimento à população da região serrana de Resende. na região rural de Resende. Em 1977. Porém. Das intenções do Internato Rural da UERJ constavam “[. 1994).. é consubstanciada pelo uso intensivo da visita domiciliar às famílias das comunidades da área abrangida. 1994). (Cf. 1994. discutimos a entrada de profissionais de Saúde Mental nos Postos de Saúde. principalmente Psicólogos. De 1991 a 1994. Pinto.. na condição de Preceptor de Medicina. Da proposta prática do Internato Rural constava o contato estreito dos estudantes e preceptores com a comunidade. A Equipe do Internato Rural articulava-se com a Secretaria Municipal de Saúde de Resende para um trabalho integrado. procurando o binômio teoria/prática.. com vínculo externo à Universidade. p. devido à inserção dos estudantes na vida comunitária. formou-se um grupo de estudos para elaborar o primeiro Programa de Saúde Mental de Niterói. Na “Justificativa” do Internato Rural encontramos a intenção de “[.] uma política universitária cada vez mais comprometida com a demanda social e com a realidade histórica [. O Programa. Tal prática foi em muito potencializada.. Na ocasião. por um pequeno número de estudantes e residentes da Universidade Federal Fluminense. trabalhei com a Equipe do Internato Rural da Universidade do Estado do Rio de Janeiro.]” (INTERNATO RURAL DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. 12). estimulando a existência de uma sociedade mais democrática e igualitária” (INTERNATO RURAL DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO..] a integração real entre Universidade e comunidade.. INTERNATO RURAL DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. através da moradia e da participação interativa de ambas as . de dentro do Hospital Psiquiátrico onde trabalhávamos. no entanto. supervisionados pelos preceptores.120 Algumas visitas domiciliares realizadas. (Cf. do qual fiz parte. não conseguíamos nem a mínima visão a respeito do que estava acontecendo com os pacientes. depois. com destaque para as visitas domiciliares: A humanização do atendimento a que nos referimos nos objetivos do presente documento. também os de nutrição e enfermagem. se desenvolveu por outros caminhos. Trabalhávamos numa das enfermarias que eram base para o ensino na Universidade e ficamos todos marcados pela experiência que mostrou que. levada à prática com o trabalho interdisciplinar. impressionou a todos. na área de Saúde Mental. Até 1992 o Internato recebia estudantes do último ano de medicina e. em 1976. a equipe não pôde dar conseqüência ao que percebeu.

. Do programa do Internato Rural constam as “Atividades com Abordagem Interdisciplinar”.. p. eram levantados pela comunidade como suas prioridades.. extrapolando para o campo filosófico e sócio-politico” (INTERNATO RURAL DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. 1994. desde 1986.] Dar condições aos alunos de exercerem uma atuação social mais ampla. grifo do texto original). 12. o “Estudo e supervisão da relação profissional de saúde/paciente”.121 partes (INTERNATO RURAL DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. dentre muitas outras. surgiu a prática da Saúde Mental. à abordagem familiar e coletiva do alcoolismo e do uso de benzodiazepínicos e que o estudo desses temas “[. p. Das metas do Internato Rural constavam. 1994. 1994. clínicos e de saúde comunitária) (INTERNATO RURAL DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. (Cf. . a “Abordagem multidisciplinar do alcoolismo” e a abordagem à “Dependência de benzodiazepínicos”. e “Realizar projeto de pesquisa sobre alcoolismo e uso de benzodiazepínicos” (INTERNATO RURAL DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. destacamos os seguintes: Garantir aos estudantes o contato e a possibilidade de integração com as diversas formações das comunidades atendidas. as de “Criar cursos de Agentes de Saúde”. 27). 1994. INTERNATO RURAL DA UNIVERSIDADE DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Depois que me integrei à Equipe. alcoolismo e uso abusivo de benzodiazepínicos. Os temas referidos acima. a fim de que lhes sejam dados a conhecer os determinantes sociais do processo saúde/doença. p.. à “desmedicalização”. na parte dedicada à Saúde Mental há referência à “desospitalização”. através do cumprimento de projetos de pesquisa do Internato Rural (históricos. A respeito da integração do Internato Rural com os Programas do Município de Resende. como um verdadeiro precursor do que mais tarde veio a se constituir como o Programa de Saúde da Família..] Oferecer aos educandos as condições para a realização de ações de saúde de cunho biológico. desde o início com a tentativa de questionamento da divisão mente/corpo e seus especialistas. onde inseri o “Estudo e Prática do Trabalho com Grupos”. A prática do Internato Rural desenvolvia-se. 14). 1994. individual e coletivo. Dentre os “Objetivos” do Internato Rural. 13). [. [. p. 14).. epistemológicos. p.] tem propiciado com os internos importantes reflexões que transcendem em muito os limites convencionais da terapêutica.

então. as teorias psicanalíticas de grupo (principalmente Pichon-Riviére e os argentinos). Observando o que seria possível fazer na área da Saúde Mental. logo surgiu o estudo. os estudantes puderam abrir suas percepções para a vida afetiva e social das pessoas atendidas. como Laing e Cooper. Partindo da modificação da relação profissional de saúde/paciente. um companheiro de trabalho com quem pude dialogar e produzir com grande prazer e criatividade. um campo de trabalho muito fértil em relação às possibilidades de praticar uma assistência à saúde com estreito vínculo com a comunidade e com a colocação em discussão. quanto do lado dos estudantes. em 1994. Com a prática constante da visita domiciliar. Alguns desses autores. em todas as localidades onde os estudantes atuavam. (Cf. que teve sua função e modos de realizar bastante discutidos. dos quais participei. com sua recomendação para a atuação no nível primário. a realização de grupos de discussão sobre saúde. fóruns comunitários de saúde. com repercussões tanto do lado da população. passando a observar esses componentes na determinação dos problemas de saúde. No Internato Rural encontrei. bem como para a atuação num grupo para a criação de um Programa Municipal de Saúde Mental (Niterói). dentre outros. PINTO. nos Postos. com a população. 1998). (Cf. Estava criado. 1998). . com as mudanças ocorridas ao longo da experiência. No trabalho que apresentei no Seminário “Subjetividade e Serviço Público”. supervisão e modificação da relação profissional de saúde/paciente. também. “Uma crítica à Formação na Área de Saúde. no sentido de uma crítica ao modelo médico curativo estrito. a bagagem teórica que trazia era a psicanálise. 1998) e um estudo de Filosofia que chegou em Deleuze e Guattari. relato o modo de atuar do conjunto preceptores/alunos. no seu Coordenador em Resende. Goffman (Cf. e visitas às lideranças comunitárias. uma experiência de ensino no Internato Rural da UERJ”. Maurício Schneider. Maurício vinha de lutas da categoria médica e pretendia levar à prática uma assistência efetivamente enraizada na comunidade e discutir conceitos e visões de mundo com os estudantes a respeito da transformação social. na Faculdade de Psicologia da Universidade Federal Fluminense. Foucault. sempre unida às ações gerais de saúde (as supervisões dos dois preceptores de medicina eram feitas em conjunto). com a rígida divisão mente/corpo. dos temas ligados às suas condições de saúde e de vida. o Dr. PINTO.122 Ao dar início a essa etapa da minha vida profissional. PINTO. possibilitaram referências para tentativas de transformação dos hospícios e de modificação do trabalho ambulatorial. conhecimento da Declaração de Caracas. Basaglia. Tinha. após pouco tempo surgiram.

Neste aspecto do trabalho. de circulação de relações e de encontros (Singularização). possa também abrir espaços de criatividade. compreendida como parte integrante das ações gerais de saúde. PINTO. desta vez já com influência de Deleuze e Guattari. com ênfase para os Agentes Comunitários de Saúde. e aprofundar a visão da importância do trabalho comunitário. municipal. em 1992. como forma de colocar em discussão o que estávamos fazendo. que se deu em 1991. Em relação ao alcoolismo. 1998. em Niterói. o que potencializava a sua possibilidade de visão do conjunto. 1998). Ao mesmo tempo em que desenvolvia o trabalho no Internato Rural. foi desenvolvido um trabalho de articulação que envolveu os estudantes. auxiliares de enfermagem. p. na época. Em janeiro de 1995 decidimos capacitar. Estado do Rio de Janeiro. famílias e comunidade. tratando das pessoas e colocando o assunto em discussão. os estudantes alternavam os papéis de profissionais que atendem nos Postos com o de visitadores domiciliares. 136). Partindo de um pedido da comunidade. Trabalhando no Internato Rural da UERJ. interrogo: Como instalar um dispositivo que. onde se desenvolvia a implantação do “Programa de Saúde Familiar”. PINTO. passei a trabalhar no município de Quissamã. (Cf. A partir de dezembro de 1994. apresentei um trabalho. o que tornava o momento bastante instrutivo. Quissamã. as Equipes do Pronto Socorro e as Equipes dos Postos de Saúde. Todos os momentos da capacitação tiveram como base os casos concretos da vivência . tinha cerca de 12 mil habitantes. tive a oportunidade de levar à prática uma articulação entre a teoria e a prática da Saúde Mental. pudemos articular os atores da cena social e familiar envolvidos com o alcoolismo. Com a proposta acima. e que possa tornar-se independente de quem o disparou? Esta é a tarefa teórica e prática (Cf.123 No caso do alcoolismo. Tratava-se de um modelo similar ao Programa de Saúde da Família. evitando internações. que também contavam com Auxiliares de Enfermagem e Agentes Comunitários de Saúde. para que algo fosse feito em relação ao alcoolismo. pude acompanhar algumas discussões. do ponto de vista da prática e da teoria. bem como em outros. cujas linhas gerais estavam colocadas no texto “O modelo de saúde familiar de Quissamã”. a respeito da implantação do Programa Médico de Família. prioridade para a comunidade. em Saúde Mental. Da proposta constava a lotação de médicos e enfermeiros com 40 horas nos Postos de Saúde. para a Equipe do Internato Rural. ao lado de promover o tratamento individual e dar resolutividade aos casos.

mudam suas atitudes e passam a criar e a trazer questões da maior importância para a vida das pessoas atendidas. Um fato logo chamou a minha atenção. os vizinhos e o sistema de saúde. os Agentes de Saúde... pela equipe. esta capacitação se deu devido à “[.. 166). . depois. o alcoolismo e até alguns casos agudos. Partindo da elaboração. 1997). as fantasias da comunidade em relação às pessoas psiquiatrizadas. através de discussões e de visitas domiciliares com a minha presença. quatro enfermeiros e 12 Agentes Comunitários de Saúde. p. com reuniões de duas horas e meia de duração. e que não mais se internou após a abordagem realizada. Um exemplo significativo da afirmação acima. mas todo ele era percorrido com base em situações do trabalho de cada profissional ou equipe. a possibilidade de uma nova inserção dos pacientes na vida comunitária. discutidos. Estabeleci. PINTO. num processo de reinserção social que envolveu a família. o uso de benzodiazepínicos. uma capacitação para todo o pessoal que atuava na Atenção Básica: cinco médicos.124 diária dos profissionais. A freqüência da capacitação com os Agentes Comunitários de Saúde era quinzenal. das famílias e das comunidades. Todas essas situações eram objeto de constante discussão com as Equipes.] necessidade de melhorar o atendimento ambulatorial em psiquiatria.] transformação do modo de ver o sofrimento psíquico de importantes formadores de opinião. fato que se repetiu. da aura de perigo que cerca o paciente psiquiátrico.. De acordo com a minha compreensão. como as queixas vagas. A possibilidade de contar com Visitas Domiciliares e futuros Acompanhantes Terapêuticos são outros fatores importantes (PINTO. p. Com o desenvolvimento do trabalho. (Cf. 1997. 1997. Os assuntos e casos eram trazidos pelos membros da Equipe. na época. O que estava colocado como intenção era a [. relacionados com o conteúdo do programa e as novas intervenções eram decididas em conjunto. foi a mudança de atitude da comunidade em relação a uma pessoa que era constantemente internada em Hospitais Psiquiátricos. Existia um programa para a capacitação. que encontrei ao iniciar o atendimento no Centro de Saúde” (PINTO. em outros municípios: a rapidez com que os Agentes Comunitários de Saúde aprendem o conteúdo da capacitação. As Equipes passaram a reconhecer melhor e a tratar as situações ligadas à Saúde Mental. então. foram aparecendo as situações que eram desconhecidas do ambulatório: pessoas presas em casa. os Agentes Comunitários de Saúde passaram a sair pelas ruas com a paciente. 166).

iniciei atendimento ambulatorial no município de Carapebus. 1998). 169). CADERNOS GESTÃO PÚBLICA E CIDADANIA. Como uma das conclusões do trabalho. da sua exclusão e dos modos de reincorporá-lo à vida das comunidades (PINTO. é estabelecida uma discussão. 1997. está a afirmação de que O modelo adotado aqui proporciona um campo de ações no qual. Atuação junto às Escolas e familiares. com a comunidade. a respeito do sofrimento psíquico. que faziam parte do PACS.125 Como avaliação. Participação nas discussões. 1997. 169). que tende a se ampliar. que ajudei a organizar. Recurso Comunitário nas crises. [. nos casos de distúrbios de aprendizagem e de comportamento em crianças (PROGRAMA DE SAÚDE MENTAL DE CARAPEBUS. a respeito do sofrimento psíquico. (Cf. O trabalho desenvolvido em Quissamã foi um dos semifinalistas do Ciclo de Premiação 1998. que criem alternativas às Internações Psiquiátricas (PINTO. .. naquele momento.] Inserese também esse trabalho na criação de recursos assistenciais e comunitários. 1998). p.. com economia de recursos. Em 1998. as internações psiquiátricas diminuíram muito após o início do trabalho. Membros da comunidade com conhecimento dos recursos da Rede de Assistência. mas com participação de toda a Equipe do Programa Municipal de Saúde Mental. vizinho a Quissamã. onde terão como tarefas: Visitas Domiciliares. indiquei que O presente trabalho mostra como. Logo dei início ao trabalho com os Agentes Comunitários de Saúde. e a forma como a comunidade via os pacientes psiquiátricos começou a mudar. ao mesmo tempo em que são aperfeiçoados os atendimentos. é possível potencializar a capacidade de resolução da Rede de Assistência e ao mesmo tempo levantar temas importantes a respeito da Saúde Coletiva. então com pouco mais de 14 mil habitantes. p. Acompanhamento Terapêutico. Deste consta. em relação aos Agentes de Saúde: Treinamento com o objetivo de capacitar os Agentes de Saúde a atuarem no Programa. suas origens e soluções. De fato. na parte de “Treinamento”. da Fundação Getúlio Vargas. O trabalho seguia os moldes do realizado em Quissamã.

na condição de Gerente do Programa de Saúde Mental de Macaé. resultando em mudanças nas suas inserções familiares e sociais. enviei à Assessoria de Saúde Mental do Estado do Rio de Janeiro um fax avaliando o encontro e sugerindo que. com a atuação da nova gestão da Assessoria de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde do Estado do Rio de Janeiro. dentro da sua área.. o trabalho que estava sendo realizado com os Agentes Comunitários de Saúde nos municípios citados. fossem também motivos de muita atenção a melhoria das Emergências Psiquiátricas e o investimento no trabalho com os Agentes Comunitários de Saúde. os Fóruns Regionais de Saúde Mental. Com a divisão dos ACS pelas suas microáreas de atuação. chamando atenção para a potencialidade das ações. semanalmente. com um depoimento emocionado de umas das Agentes de Saúde de Quissamã a respeito do trabalho que estava desenvolvendo na Saúde Mental. Nesta ocasião. geralmente perto de suas residências. pelas pessoas com diagnósticos de transtornos mentais graves.. e os ACS passaram a ser referência de Saúde Mental nas suas localidades.126 Após umas poucas semanas de trabalho com os Agentes Comunitários. ao lado da prioridade para os CAPS. colaborando para a mudança de atitude dos plantões em relação a essas pessoas atendidas. Esses pacientes eram acompanhados de perto. a grande velocidade de mudança na compreensão e nas ações dos Agentes de Saúde e a rapidez dos resultados. reconhecimento da população. estabeleci contato com o nível central do Programa de Saúde da Família do município. formação de multiplicadores de opinião. etc.” Nessa mesma época apresentei. controle de altas hospitalares. Depois de abril de 1999. passaram a ser realizados. em conjunto com os Municípios. o qual “[. Também os casos de alcoolismo eram abordados. no que diz respeito ao melhor atendimento de casos graves. numa reunião mensal dos Coordenadores Municipais de Saúde Mental da Assessoria de Saúde Mental do RJ. com a . principalmente. pelo menos.] produz resultados rápidos. foi destacada a atuação dos Agentes Comunitários de Saúde na Saúde Mental dos municípios de Quissamã e Carapebus. sendo que o primeiro foi realizado em Carapebus. juntamente com suas famílias. Após esse Fórum. cada ACS ficou responsável. tanto em Quissamã quanto em Carapebus. Os resultados e limitações das experiências de Quissamã e Carapebus serão comentados mais adiante. além de acompanhar pacientes em crises no Pronto Socorro. cada um desses profissionais passou a ter sob sua responsabilidade cerca de quatro “pacientes graves”. No ano de 2000.

de aproximação. Depois de descrever os princípios básicos do PSF. No artigo que abre o livro. 2000 . Foi uma espécie de ponto de encontro de experiências que se desenvolviam. junto ao Secretário Municipal de Saúde. os ACS estavam sendo capacitados na prática. Como primeiras atividades junto às Equipes de PSF. que escreve o artigo inicial. Com isso. sem que tivessem uma organização ampla e até sem conhecimento maior umas das outras. mas sem continuidade e acompanhamento constante. a partir de 1998. Lancetti diz que “Logo percebemos que essa trama tecida pela organização sanitária era a esteira fundamental de onde deveria emanar um processo que viesse a produzir saúde mental” (LANCETTI. Na época. então. coordenei reuniões de capacitação. para as Equipes de nível superior dos módulos. na época. de um lado. profissionais de nível superior. que tiveram como objetivo informar a respeito do Programa de Saúde Mental e da rede de assistência. do Governo do Estado de São Paulo. Tudo o que era decidido era comunicado. Também iniciei. então num total de 12 módulos. os debates a respeito das ações conjuntas Atenção Básica/Saúde Mental. estando todos atarefados nos ambulatórios. abaixo. entre todos os presentes. Saúde Mental e Saúde da Família”. por ficha de contra-referência. para receber a demanda de pacientes graves do PSF. ainda precária. num dos ambulatórios. abri um horário de atendimento grupal. No ano 2000. de outro. feita a regularização da medicação e estudada as possibilidades de mobilização do posto de PSF e comunidade para atuar em cada situação. Vamos. é lançado o livro “SaúdeLoucura 7. Posteriormente. Lancetti expõe os inícios da aproximação da Saúde Mental da Atenção Básica. Mas algo já poderia ser feito. que promoveu no Projeto Qualis/PSF. para. não existiam profissionais de Saúde Mental disponíveis para o trabalho na Atenção Básica. ocasião em que era estabelecida uma discussão. O livro citado teve um papel muito importante na caminhada para o novo papel da Saúde Mental.127 intenção de estabelecer a aproximação dos dois Programas. organizado por Antonio Lancetti. percorrer o artigo de abertura e alguns outros trabalhos. que é a sua inserção na Atenção Básica. esclarecer os modos de encaminhamento e a discussão de alguns assuntos de Saúde Mental de escolha das equipes. tentando suprir a dificuldade de encaminhamento e de comunicação dos PSF com os ambulatórios. Agentes Comunitários de Saúde e. a respeito das situações de cada família e membro identificado como “paciente”. e algumas situações foram discutidas nas suas reuniões de capacitação. Esta era uma forma inicial. nesse mesmo ano. mas que foi formando a base do trabalho que se deu a seguir. Recebíamos essa clientela juntamente com os ACS e familiares. junto com a Assistente Social Maria Luiza Vaccari Quaresma.

Num primeiro encontro de capacitação era feito um sociodrama. A idéia era cortar pela raiz o processo de geração de demanda. que.. Esta opção tinha o intuito de evitar. 2000 b. Lancetti diz que não faria visitas domiciliares.. (Cf.]” e para “[. LANCETTI. Mais adiante. p. 2000 b... p. Posteriormente. 2000 b. 2000 b) . A responsabilidade pelo andamento do processo terapêutico recairia em ambas as equipes. Com essa compreensão... Note-se que Lancetti havia sido convidado para “[. Havia a intenção de capacitar os ACS como “[. 21). “[. como consulta psiquiátrica. Como estratégia. após notar as suas características. acima. segundo Lancetti o “[. com correlação com o texto e. 2000 b.] inventar um Programa de Saúde Mental para o Projeto Qualis/PSF” (LANCETTI.. tendo optado pela aproximação com o PSF. que são os profissionais que moram na comunidade e a conhecem.. mas que as primeiras ações no território seriam praticadas pelos ACS. referia-se a que a Equipe de Saúde Mental não lançaria mão desse instrumento como uma ação só sua.. escolhíamos quais seriam as primeiras nas quais iríamos intervir” (LANCETTI. 2000 b).. de raiz. 2000 b. 20).] conceito [. o processo de tratamento da demanda que acaba na cronificação dos pacientes e dos próprios dispositivos de atenção..] os agentes apresentavam as famílias que consideravam mais problemáticas. (LANCETTI. que começa na consulta e termina no hospício.. pela necessidade de “[. 2000 b.] equipes volantes de saúde mental” (LANCETTI.. p. psicológica ou visita domiciliar.] criar um dispositivo articulado à rede tecida pela organização de saúde [. p.] que deu origem à profissão de acompanhante terapêutico” (LANCETTI... utilizou as “[. com o desenvolvimento da capacitação e o inicio do conhecimento da comunidade. Note-se a estratégia de entrar na Atenção Básica através dos Agentes de Saúde. No segundo encontro eram revisadas as cenas do primeiro. Começamos propositalmente sem psiquiatra. no terceiro. a equipe de Lancetti começou a capacitação pelos Agentes Comunitários de Saúde e a realizar intervenções nas famílias através destes profissionais.. 19).] não iríamos utilizar nenhum dos dispositivos conhecidos. p.] radicalizar na desinstitucionalização” (LANCETTI. 11). LANCETI. 20). p.] amigos qualificados” (LANCETTI. Lancetti e seu grupo decidiram que [. as Visitas Domiciliares foram realizadas (Cf. 19). 18). Começaríamos capacitando as equipes de saúde mental e de saúde da família intervindo nas famílias em maior dificuldade. p.128 b. 2000 b. com distribuição de um guia de saúde mental. p... 21). quando... Ressalte-se também.

2000 b.. [.. mas.] tratar o grupo familiar para que este possa lidar de maneira mais salutar com seu membro mais doente. une as equipes. p. Especificando mais o seu trabalho e teorizando sobre ele... mesmo nos casos de emergência (LANCETTI. 2000 b.129 Consta do “Guia de Saúde Mental do Agente Comunitário de Saúde” as seguintes diretrizes: -[. estimulando a integração.] -[. diminuem a responsabilização.] -[.. que a Saúde Mental está integrada aos demais cuidados em saúde.] as famílias serão atendidas preferencialmente na hora em que todos ou a maioria dos familiares estejam em casa. merece destaque: A equipe de saúde mental é volante.. o autor citado. 22). Esse fato potencializa a capacitação.] clínica cartográfica” (LANCETTI. fica logo claro para todos que não mais se repetirão os encaminhamentos que. por outro lado.. [. Lancetti situa todo o grupo familiar como o paciente do Programa de Saúde Mental e que escutá-lo era “[.] quando a equipe de saúde mental intervém... torna o trabalho verdadeiramente de equipe.. p. onde “Era premente produzir agenciamentos que conectassem as pessoas com as redes . que pela sua importância.. 36). também. Como instrumento de ação. na linha de Deleuze e Guattari. não está locada em nenhuma das unidades do Projeto Qualis e sempre atua em parceira com as equipes de Saúde da família.] a responsabilidade pelo cuidado pelo cuidado dessas famílias é da equipe de saúde da família e da equipe de saúde mental.. de fato. Em muitas oportunidades vamos ao encontro de surpresa. Mostra para a comunidade. grifo do autor)...] -[. que já foi aludido..] conhecer a estrutura ou sistema que organiza a vida desses grupos antropológicos e os seus interlocutores invisíveis” (LANCETTI. Não está prevista consulta psiquiátrica nem consulta psicológica (LANCETTI. elabora um programa para cada família. 2000 b. quebrando os especialismos. que a atuação com as pessoas e a comunidade é de responsabilidade conjunta.. 37). [. enfim. impede jogos de empurra.. Destaque-se uma estratégia e um modo de operar.. p. 2000 b. 22. Desta forma. A estratégia de aproximação será sempre decidida previamente pelas equipes de saúde da família e de saúde mental.] -[.. Este programa é monitorado [.... marcando. Considero que essa é uma decisão fundamental para a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica. propõe uma “[.] será dada prioridade às famílias que se encontram em maior dificuldade. p.

] a redução de internações psiquiátricas.] coloca-se como instrumento para uma possibilidade de mudança. p. após discussão da situação com a Equipe de Saúde Mental. Lancetti propõe que. confronta o poder médico estabelecido. surgem.. em um artigo do livro organizado por Lancetti. (PEREIRA. LANCETTI.. Walter ressalta a mudança que ocorre. relata. de violência familiar e comunitária e do uso abusivo de drogas” (LANCETTI. sem as referências tranqüilizadoras e limitadoras das instituições conhecidas. a loucura e as ações não são restritas a espaços físicos predeterminados. p. também não ocupamos espaços físicos delimitados. Dessa forma.130 trançadas pela organização sanitária. como membro. deve existir um técnico de saúde mental. novas perspectivas. em que ela posa existir e se manifestar. que vivia isolado da família e da comunidade. e com o que Benedetto Saraceno chama de recursos escondidos da comunidade” (LANCETTI. Solange Mattos. um homem de 57 anos. 97). MATTOS. para que o trabalho que organizou seja desenvolvido a contento (Cf. propicia diversidade. [. a saúde. 96). para refletir a respeito da nova posição do psiquiatra na Equipe de Saúde Mental e também introduz o tema do trabalho em Saúde. a sua marcante experiência com uma pessoa. implode os cofres da loucura e da imposição de lugares. de suicídios. 51). 2000). transformação (PEREIRA. A descrição dos acontecimentos é importante. como pelo exemplo de mudança nas relações dos profissionais de saúde com a população que o trabalho com a Saúde Mental pode proporcionar. para cada duas equipes de saúde da família. p. Partindo de uma situação em que não sabia muito o que fazer. a equipe e eu. movimento. Lancetti sugere que. 37). No final de seu artigo.. 2000). Voltaremos ao assunto. Walter Augusto Bahia Pereira... Quanto ao importante tema dos indicadores. tanto em termos do relato em si.. para ajudar o paciente. mas desde já adiantamos que chegamos a números diferentes. para a avaliação do Programa de Saúde Mental sejam levados em consideração “[. 2000 b. 2000. onde o papel da Agente Comunitária de Saúde é determinante. uma Agente Comunitária de Saúde. que apontam para a necessidade de mais profissionais de Saúde Mental por Equipe de Saúde da Família. traz uma definição importante a respeito do trabalho no Projeto Qualis: Do modo como o Projeto foi concebido. Esta é a introdução que Walter faz. 2000. 2000 b. com a nova situação do profissional: [. em vários níveis. Somos ‘volantes’. (Cf. p. .] rompe os muros e as paredes institucionais. no início de seu artigo no livro que vem sendo citado. psiquiatra.

Walter resume num trecho uma decisiva discussão a respeito da psiquiatria. por características deste. . p.] contava com uma equipe mais bem estruturada quantitativa e qualitativamente. passando pela discussão em Equipe e com a intervenção sendo aí decidida (Cf. entre os moradores e as atividades que falam e intensificam a vida.).. justiça. a experiência de aproximação da Saúde Mental com o Programa de Saúde da Família realizada no município pernambucano de Camaragibe. parcial. Walter diz que o novo psiquiatra [.]. que a autora descreve: -[. seu papel nas Equipes de Saúde Mental e na sociedade: “O psiquiatra.. igreja. p. aos quais um sujeito poderia ser remetido ou mesmo estar submetido. portanto. PEREIRA. tem também a possibilidade de existir e intervir de uma outra forma” (PEREIRA. de funcionar como potencializador e fertilizador de agentes e de pessoas na promoção da saúde e da vida (PEREIRA. O psiquiatra descreve o caminho que segue a abordagem aos emergentes tidos como problemas de Saúde Mental: quase sempre a partir de situações conhecidas pelos Agentes Comunitários de Saúde. p. Operação encobridora em vários sentidos. Frágil. do pessoal ao ideológico. O que há em comum entras duas expectativas e o que poderá se transformar em trocas?” (PEREIRA.. neste projeto. Vânia Casé descreve. é exposta por Walter de modo muito claro. Trata-se.. 2000. 2000. ao rever sua função. tem de suportar a fragilidade da psiquiatria neste contexto e. 101). PEREIRA. mas que é disfarçado nos diversos mecanismos de defesa que o instituído permite. a psiquiatria revestiu-se de corpo todo poderoso de saberes. 2000. A partir de demandas da comunidade por consultas psiquiátricas e psicológicas. 101). para que possa tentar uma nova concepção e uma nova prática. num artigo do livro organizado por Lancetti. entre os membros e os moradores atendidos. etc. a equipe de Saúde Mental decidiu-se pela aproximação com o Programa de Saúde da Família. educação. das suas famílias e das suas comunidades. entre os diversos níveis institucionais (outras instâncias da saúde. 100). cara a Deleuze e Guattari. em 1995. mas para isso precisou ignorar a realidade das vidas das pessoas atendidas.131 A impotência. (Cf. sentimento que assola os profissionais de saúde. Falando em uma “clínica cartográfica”. 2000).] tecerá pontes entre os profissionais [... 2000). tem desfeito seu véu. O autor citado fala do encontro entre as expectativas de profissionais de saúde e moradores como a base do trabalho que está sendo criado: “É um encontro entre as duas expectativas.

de sua família e de sua comunidade (CASÉ. então. ventilar e elaborar os conflitos pessoais e grupais.. A decisão foi. sem discussão das implicações do que estará sendo feito. quando da necessidade de estruturar um Programa de Saúde Mental.. 2000). p. para deixar claro que a estratégia de entrada da Atenção Básica precedeu os outros dispositivos de Saúde Mental.. p. em geral. p. Ao invés de organizar dispositivos já consagrados em Saúde Mental. com a prática de discussão constante dos aspectos institucionais e emocionais. de “[. reúnem-se para discutir as tarefas sem atenção para os aspectos institucionais e emocionais das mesmas. a Equipe de Saúde Mental se reuniu com todas as Equipes de Saúde da Família. Com a entrada da Saúde Mental. a autora e sua Equipe foram para a Atenção Básica.] apoio às equipes do PSF. 125). 125). Num ponto do seu relato. Aparentemente. a autora diz que . 2000. 2000). Vânia se refere a um pedido. muitas vezes. durante 1996 e 1997. 123). as Equipes de Saúde Mental são vistas como uma chance de abrir o diálogo. a Equipe de Vânia não cumpriu esse papel.] discutir uma proposta de saúde mental para o município” (CASÉ. É importante assinalar a procura por ligação com o PSF. como um “cumpra-se”. -dirigia a atenção à saúde. Explicando essa orientação. no cuidado com sua saúde. CASÉ. isto é. 2000. (Cf. (Cf.132 -trabalhava com responsabilidade por um território definido envolvendo ações básicas de saúde. não só à cura e à prevenção de doenças mas. Porém. com a intenção de capacitação e de “[. o que percebemos é que as Equipes de Saúde da Família. 2000). 2000. (Cf. A autora encontrou o que se repete em todas as experiências de trabalho da Saúde Mental na Atenção Básica: um número muito maior do que o imaginado de problemas de Saúde Mental e pessoal sem preparo para reconhecê-los e abordá-los. CASÉ. sempre encontrado nas aproximações da Saúde Mental com o PSF.. não têm um espaço próprio para a elaboração do que é mobilizado em cada um e no grupo a partir das condições que enfrentam. para promover a qualidade de vida e a valorização do papel dos indivíduos. Com a evolução do trabalho. tendo em vista o nível de conflitos vividos na comunidade e a angústia em lidar com eles” (CASÉ. pelos motivos citados. Freqüentemente. que se deu sob a forma de Oficinas e que se estenderam para os demais funcionários. As capacitações são vistas. dos quais os dois últimos são um resumo do porquê da potencialidade dessa articulação. começar a capacitação com os Agentes Comunitários de Saúde. O trabalho em Camaragibe desenvolveu-se com as Oficinas de Capacitação e. CASÉ. note-se que o NAPS e o Ambulatório de Psiquiatria foram inaugurados bem depois. estruturam-se como equipes clássicas de saúde. sobretudo.

que [. Ambulatório de Psiquiatria e Emergência quando... A reação à capacitação assinalada acima é freqüente.. al. O Programa de Saúde Mental do Cabo de Santo Agostinho já contava com NAPS.. com a capacitação das 23 equipes do Programa Saúde em Casa. antes de investir na criação de serviços especializados como NAPS. p. p. mediante uma combinação de técnicas de apoio individual com outras mais sócio-culturais (CABRAL et. mediante a criação e mobilização dos diversos espaços coletivos no seio da comunidade” (CABRAL et. das postulações da Reforma Psiquiátrica. al. p. As reações a essa capacitação foram muito características: “[. 2000. que passa a comprometerse em construir diversas estratégias possibilitadoras de autonomia das pessoas. 133).133 A estratégia de iniciar as ações de saúde mental no Programa de Saúde da Família.. 2000.. 2000.. p.. 2000. nome local do PSF. Pernambuco. p. reverte uma lógica. al. 139).. Bárbara Cabral e suas colegas do Cabo de Santo Agostinho. Uma reflexão sobre esse ponto é necessária.] resigna-se o objetivo da proposta terapêutica. al. CAPS ou Lares Abrigados. a Equipe do Programa de Saúde Mental iniciou as ações junto ao PSF. integrando-se ao Programa de Saúde da Família (PSF)” (CABRAL et.] apresentaram um discurso marcado pela lógica do especialista. para argumentar a favor da “[. 139).. [.] reconhece a doença mental também como fruto do processo de marginalização e exclusão social.. 2000. do que os profissionais de nível superior. e [.. 145) e “Os médicos e enfermeiros [. p. 140). o trabalho em Saúde Mental ganha outra dimensão. as autoras vêem a perspectiva de mudança nas práticas de saúde e definem que “O ato de cuidar exige dos profissionais uma postura técnico-política constante. partem..] bem como indicaram a necessidade de prestar apoio às famílias” (CABRAL et. mostrando-se resistentes a assumir esse cuidado como mais uma atribuição”. 2000. al. em 1998. 2000. fundamentando sua luta política e prática clínica na construção da cidadania do sujeito em sofrimento psíquico e na promoção da saúde mental (CABRAL et. para que enganos e injustiças não sejam .Situado o campo desta forma. destacando-se o medo de lidar com essa situação.. 139). .] estratégia de trabalhar a saúde mental na atenção básica.] os agentes comunitários de saúde demonstraram preocupação com a abordagem da pessoa em crise. (CABRAL et.. Os ACS assumem com muito mais rapidez os conceitos da Saúde Mental e as suas ações. al. O foco da atuação de saúde mental em Camaragibe prioriza o lugar e o momento em que surgem as primeiras dificuldades e necessidade de cuidados: a comunidade e a família (CASÉ... 145). Com a associação ao PSF. p.

. Já os profissionais de nível superior estão mais contaminados pela “ciência oficial”. Não podemos. deduzido o número de Equipes de PSF supervisionadas. portanto. 2000. ficando a proporção de um técnico de Saúde Mental para cada quatro Equipes de PSF. A Equipe de Saúde Mental percebeu a importância de um estreitamento dos laços políticos com a coordenação do PSF. As Equipes decidiram.. 2000. de articulações com os recursos de saúde. Foi. al. em ver as pessoas.134 cometidos. Além desses aspectos. Mil famílias representam uma quantidade de problemas de assistência. tem um contingente populacional sob suas responsabilidades acima das suas capacidades. que acabam por dificultar alguma dessas tarefas. 147). freqüentam casas com pacientes identificados e seu medo é mais histórico do que teórico.. e sim da satisfação de entrar em outra compreensão e atuação em Saúde e em Saúde Mental. para dar maior “[. p. Os ACS já vivem perto dos problemas de Saúde Mental da comunidade. Não é possível iludir esse fato: estamos levando mais trabalho para Equipes de Saúde da Família que. há o fato de verem a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica.. chamar a ambulância e mandar uma pessoa para a Emergência e daí para o distante Hospício dá muito pouco trabalho. mais as capacitações e relatórios.. famílias e comunidades atendidas e tendo sua cidadania desenvolvida. p. por exemplo. como mais trabalho que irá se somar ao seu dia já atribulado. já que. Esta é uma opção encontrada também em outros municípios e será objeto de discussão mais adiante. o que não estava sendo possível devido à pequena Equipe de Saúde Mental para uma grande quantidade de Equipes de PSF. “[. de promoção de saúde. que lhes forneceram uma idéia já ultrapassada do campo da Saúde Mental. 147).. 2000. Um tema da maior importância. al. al. p. p.]” (CABRAL et. As autoras encerram o trabalho com a afirmação da nova forma de trabalhar em Saúde Mental e dizem: “A força deste novo paradigma está no encontro com as pessoas que fazem o . levantado pelo trabalho que está sendo citado é o da precariedade de indicadores de Saúde Mental na Atenção Básica. 2000. a Equipe de Saúde Mental do Cabo de Santo Agostinho promoveu “[. então. A diferença não virá de menos ou mais trabalho. de atividades comunitárias.. entrar na ilusão de dizer para as Equipes de PSF que elas terão menos trabalho. 145).. Depois da capacitação inicial. em geral. com freqüência mensal de supervisão.] encontros sistemáticos com cada uma das equipes (de PSF)” (CABRAL et.] construir um instrumento de notificação de saúde mental que permitisse delinear o perfil epidemiológico diagnóstico de cada área [. com a proposta de regularidade mensal. Foi percebida a necessidade de maior número de reuniões de capacitação.. al. 149)... (CABRAL et.] legitimidade para as ações desenvolvidas” (CABRAL et. veiculada nas faculdades. para suprir essa carência..

2000. em 1995. p 152). sob a responsabilidade de um clínico. o poema chinês que fecha o texto: Vá ao povo Viva com ele Ame-o Comece com o que ele sabe Construa com o que ele tem. al. descartando o aspecto eminentemente curativo” (SILVA et al. (Cf. definem o artigo final do livro SaúdeLoucura número 7: “Os elementos postos em ralação no presente texto são o PSF .. entre as demandas sociais. a saúde preventiva. que visa a procurar a melhor forma de conduzir o tratamento” (SILVA et al. Também foi criada uma “moradia assistida”. . Esta forma de atuar enquadra-se na articulação entre os dois programas. p. criado um serviço de Saúde Mental que “[. 2000. 152). a fim de construir algo por meio de um dialogo verdadeiro” (CABRAL et. Depois da plena instalação do PSF.. a saúde passou a ser compreendida como questão coletiva. 2000).. (Cf.500 habitantes. Foram visitadas as famílias com membros identificados como portadores de sofrimento mental. então. do Ceará. p. incumbidas de mudar a orientação do atendimento à Saúde Mental.. Citamos.] intercâmbio entre o profissional especializado em saúde mental e a equipe do PSF.135 lugar. Comentaremos adiante os avanços e entraves dessa abordagem.. 2000). com o aumento da capacidade de tratamento. 2000. 165). 158). Foi. p. No meio da seca e da miséria. tornou-se sede administrativa de um Consórcio Intermunicipal de Saúde. Saúde Mental e PSF. SILVA et al.. o trabalho continuou na forma de “[.. p. retirando das ruas pessoas sem tratamento nem abrigo.. com a abrangência de 105. José Jackson Sampaio e Carlos Magno Barroso. As autoras do trabalho. mantendo os encaminhamentos e as especialidades. organizado a partir do Consórcio Intermunicipal e um NAPS. 2000. inicia a argumentação das autoras do trabalho: “Depois da promulgação da Constituição Federal de 1988 e com a criação do SUS. 2000).] priorizava. 159). também. MG. Este consórcio iniciou um Programa de Saúde Mental (Cf.. SILVA et al... O que ficou estabelecido foi um trabalho de Atenção Básica. encontraram-no organizado apenas com atendimento ambulatorial-medicamentoso. SILVA et al. (CABRAL. e por isso mesmo repleta de significado.. Uma definição simples. Araçuaí é um município de 36 mil habitantes. de natureza social e política” (SILVA et al. 2000. no Vale do Jequitinhonha.

no final de 2000. 2000. 173). logística e sustentabilidade com a expansão do PSF. lazeres. operacionalidade. 173). bem entrosado com as 42 equipes de PSF já instaladas (SAMPAIO & BARROSO. município de 150 mil habitantes Que teve fechado seu hospital psiquiátrico clássico. um hospital-dia. 168). estariam em funcionamento 16 CAPS. 168). portanto.136 e os CAPS. O PSF já aparecia como parceiro privilegiado do trabalho do CAPS. p. Os autores vão situar o trabalho na experiência de Sobral. de matéria da maior importância. O primeiro CAPS do Ceará foi inaugurado em 1991. Desta forma. Os autores argumentam que. tudo pode e deve ser feito na comunidade (SAMPAIO & BARROSO. trabalhos. com base numa perspectiva de uma política municipal de saúde mental e das estratégias de atenção primária” (SAMPAIO & BARROSO. . (Cf. p. Os autores definem de modo muito determinado o que pensam a respeito da relação CAPS/PSF: “Os CAPS. agora. e um CAPS para cobertura municipal. condições de existência. papéis. os CAPS têm. Trata-se. dizem que “As ações precisam estar onde as pessoas estão experimentando seus estilos de vida e suas escolhas. padrão cultural ou escolha capaz de afirmar autonomia. um pequeno ambulatório de pronto-atendimento para referência aos municípios que ainda não têm políticas de saúde mental. Desta forma apontam que Na Saúde Mental. funções. necessariamente. seja o diagnóstico diferencial entre sintoma negativo. interpotenciam-se e interdependem-se” (SAMPAIO & BARROSO. 2000). ajudando a acabar a era do confinamento. crenças” (SAMPAIO & BARROSO. sintoma positivo. 2000. p. p. 2000. baseada na construção de uma rede composta por emergência e internação psiquiátrica em hospital geral. que já foi tocada ao longo do texto desta monografia e que voltará mais adiante. instrumentos práticos da reforma psiquiátrica. que promover os encontros na cidade e não apenas dentro das suas paredes. 2000. num processo que evoluiu para mais oito em 1999 e estava previsto que. de 25 anos de idade. na trama das possibilidades. adquirem impulso. duas residências terapêuticas. seja a contenção de uma crise psicótica aguda. as mais complexas atividades. A todo tempo os autores lembram que é no campo comunitário que a Saúde Mental. precisa ser pensada e praticada. p. CAPS e PSF interdeterminam-se. e monta uma reforma psiquiátrica complexa. SAMPAIO & BARROSO. 2000. 171).

mas sem pertenceram aos CAPS. (Cf. em 1994: Formulou-se uma diretriz inicial: os problemas de sofrimento psíquico e doença mental na Área Descentralizada de Saúde – ADS adstrita a cada equipe. Como um dos resultados. no número de pessoas enviadas para hospitais psiquiátricos. Já vimos o Projeto Qualis. assessoria e consultoria. em relação ao PSF e ao PACS: . 175). pelo reforço dos vínculos diretamente com a sociedade organizada. (Cf.] o CAPS de Quixadá tem optado. 2000. intitulada “Oficina de Trabalho para Discussão do Plano Nacional de Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. em Brasília. a partir do inicio dos trabalhos do PSF.137 Consoante com a prática de virar “para fora” as ações. p. já que as internações passaram a ser feitas no Hospital Geral.4 O ano de 2001: mudanças e diretrizes. já vimos os especialistas atuarem como supervisores das Equipes de PSF. vanguarda e centro de treinamento. como as associações e federações de bairro” (SAMPAIO & BARROSO. retaguarda.. nesse último trabalho. 2000). 173). Neste. desta vez com o CAPS. Trata-se de mais uma forma de a Saúde Mental atuar na Atenção Básica. Plano de Inclusão de Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. A diretriz traduz um princípio: não é necessário dispor de um especialista para que o conhecimento sobre saúde mental seja introjetado na atenção básica (SAMPAIO & BARROSO. Outro dado significativo foi a queda de oito por semana. p. para desfazer as especialidades. Como documento base para o encontro. 5.] seriam de inteira responsabilidade das equipes. O documento citado diz. temos a definição acima. SAMPAIO & BARROSO. os autores dizem que “[. Em março de 2001.. onde os especialistas freqüentam a comunidade. a circulação de visitas e agentes de saúde colaboraram para mudar a forma da população encarar as crises.. mantendo-se. como retaguarda e fonte de supervisão. a Área Técnica de Saúde Mental e o Departamento de Atenção Básica lançaram o documento “Proposta Preliminar. [. SAMPAIO & BARROSO. estrategicamente. como os outros problemas sanitários. Os autores dizem que. os autores citam a enorme queda na quantidade de benzodiazepínicos receitadas. principalmente. para seis por ano. a Área Técnica de Saúde Mental do Ministério da Saúde convocou uma reunião. e que o município ofereceria o CAPS como referência.. 2000). 2000. até porque na maioria dos municípios não há CAPS e.

2001. indivíduos.138 Um novo modelo de atenção centrado na lógica da vigilância à saúde e qualidade de vida. Como forma e meio de chegar ao objetivo de inserir a Saúde Mental no PSF. naquele momento.. O texto aponta para a necessidade de identificar recursos na comunidade. ou seja.] riquezas culturais comunitárias” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. “Experiências de inserção de ações de saúde mental nos PSF têm acontecido em diversas regiões com resultados importantes. 4). de forma democrática e participativa com a presença dos profissionais que já vêm agindo no âmbito das comunidades (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. O “Objetivo Geral”. é “Oferecer às equipes de saúde da família condições para cuidar de cidadãos portadores de transtornos mentais no seu contexto familiar . o texto diz que [. p. com a entrada da Saúde Mental.] o Ministério da Saúde... o texto começa a delinear ações de capacitação: A ampliação do conhecimento sobre as ações de saúde mental para as equipes que assistem as famílias [. p. já aludida acima. responsável por induzir políticas públicas e sustentá-las com financiamento. O texto refere-se à situação. 5). 2001. que inclui desde a proteção e promoção à saúde até o diagnóstico e tratamento das doenças. Com base na constatação de que é necessário ampliar as ações do PSF e do PACS. começa a ser gerado (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. 2001. 2001. famílias e redes sociais” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. Esta é uma declaração da maior importância. p. 2001. p. através da Secretarias de Políticas e da Área Técnica de Saúde Mental..] invisíveis e conseqüentemente imobilizados [. o documento diz que com ele se estará “[. Nas “Justificativas” do Plano. p 6). para o documento.]” e a incluir nesses recursos as “[. 2001. de que.] rompendo com o clássico modelo voltado para o indivíduo doente e iniciando um novo olhar aos grupos humanos.. visto partir do Ministério da Saúde.] a realização de um conjunto de ações que se encarregue de construir as pistas necessárias à transferência dos conhecimentos do campo da saúde mental.. 4). até então “[. 5). dirigido à família e à comunidade. porém de forma isolada e assistemática” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. decide pela elaboração e implantação de um Plano Nacional de Intervenção para incorporação de ações de Saúde Mental no conjunto de ações que compõem o cuidado integral à saúde (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. p. 5)..

para iniciar a implantação da Saúde Mental no PSF. -Regulamentação da equipe de Saúde Mental que vai se integrar ao PSF para suporte especializado (MINISTÉRIO DA SAÚDE. o documento deixou as indicações do que deveria ser feito e. balizando o caráter participativo da proposta. capacitação dos recursos humanos dos PSF pelas equipes de Saúde Mental para implementação das ações. da forma como está colocado. como já vimos em algumas experiências relatadas. não foram cumpridas integralmente.139 e comunitário” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. Para o ano 2001. Constavam das metas: definir 40 municípios. Desta forma. p. 7). criação e capacitação de Equipes de Saúde Mental para apoio as equipes dos PSF. em sua maioria. Inclusão dos cuidados de Saúde Mental nos módulos básicos de treinamento para novas equipes de saúde da família e oficinas regionais de acompanhamento e avaliação da implantação do Plano Nacional. (MINISTÉRIO DA SAÚDE. grupos de auto ajuda. (Cf. 7). como já foi ressaltado. entre outros. que. 2001). as demais metas ficaram por conta das iniciativas municipais. 2001. o que é uma definição política. o desenvolvimento de capacitação para as Equipes de PSF. 7). MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2001. -Construir coletivamente mecanismos públicos de participação. conselho tutelar. está apontado o caminho para a avaliação pública das ações de Saúde Mental e sua inserção nas Redes Sociais. incluindoa no Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB). a atenção a grupos familiares de risco. além da realização da “Oficina de Trabalho para Discussão do Plano Nacional de Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. apesar da dependência de financiamento federal. as iniciativas cabem aos municípios. Mesmo não tendo sido possível realizar todas as metas. ONGs. O documento coloca “Metas” para 2001 e para 2002. associação de bairro. Também nos objetivos específicos estão os seguintes pontos muito importantes: -Desenvolver uma base de dados específica para a Saúde Mental. . o Objetivo Geral limita-se à capacitação. pelas informações que tenho. Dos “Objetivos Específicos” consta a construção regional de planejamento e metas para a implantação das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. sem incentivo federal. 2001. avaliação e controle para as ações que estejam sendo implantadas no território. Note-se que. p. proporcionando uma maior articulação das Redes Sociais com a mobilização de recursos governamentais. p. o enfrentamento dos problemas de uso de álcool e drogas. não apontando para ações que envolvam diretamente profissionais de Saúde Mental na comunidade.

(MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2001. isolados com pouca mobilidade de articulação tanto em relação aos PSF. até esse momento. 9). da maior importância. está sugerido “Elaborar o plano municipal de inclusão da Saúde Mental no PSF. p. 9).. para operar a mudança do quadro criticado. propostas para serem todas realizadas pelas equipes de PSF/PACS: -realização de diagnóstico da comunidade buscando identificar os principais problemas de saúde mental e os recursos institucionais e comunitários existentes com potencialidade de mobilização -planejamento e programação de ações com base no diagnóstico e na mobilização dos diversos setores envolvidos -implantação de um sistema de informação que deverá compor o SIAB -acompanhamento e avaliação das ações. com o profissional de Saúde Mental na comunidade... No capítulo “Equipe de Saúde Mental e Atenção Básica”.] encontram-se. 2001. p. ao descrever as ações de Saúde Mental no PSF. foi objeto de debates na “Oficina” e sofreu mudanças de enfoque. [. “[.000 habitantes” e “Oficinas de acompanhamento e avaliação para as equipes com programas em andamento” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. com novas propostas. na sua maioria. na descrição das atividades dos “[.. as ações no território estão.] é necessário consolidar um Modelo de Atenção. p.140 Para 2002. o documento fala em capacitação das Equipes de PSF e não de atuação conjunta. 2001. p. quanto aos serviços de maior complexidade como os NAPS/CAPS. 10). 8). Este detalhe.. o documento critica o estado atual dos Ambulatórios de Saúde Mental: “[. p. 9). Na parte inicial do documento reservada às “Etapas para Incorporação da Saúde Mental na Atenção Básica”. o texto recomenda que.] profissionais do PSF/PACS com supervisão da equipe de Saúde Mental” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. Note-se que. p. hospitais gerais e especializados” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. o texto propunha a “Implantação de ações de Saúde Mental nos municípios de mais de 100. 2001. Como será notado abaixo. baseado na integralidade e territorialização das ações com serviços . Como definição de princípios e reforçando importante diretriz.] definir o fluxo de referência e contra-referência” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. 9). inclusive em documentos posteriores do Ministério. 2001. o documento sugere “Apresentar o Plano de Inclusão da Saúde Mental ao Conselho Municipal de Saúde” e “Pactuar na Comissão Intergestores Bipartite (CIB) a adesão da saúde mental à estratégia do PSF” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. Também o tema da referência e contra-referência foi objeto de acalorados debates na “Oficina”. 2001. No aspecto institucional..

2001. Além disso. O Vínculo e o Diálogo . aparece um dos preceitos do SUS: a integralidade. egressos dos NAPS e de outros recursos ambulatoriais especializados -Construções de intervenções terapêuticas de forma individualizada. 2001. sendo uma referência para auxiliar no diagnóstico e planejamento das ações. como também na capacitação. os dois conceitos que vêm aparecendo como pilares do trabalho da Saúde Mental nos dias de hoje.. Assinale-se a clara orientação pela mobilização social como base do trabalho proposto. entre outras organizações populares -Promoção de palestras. Para efetuar a proposta.] a criação de uma equipe de saúde mental que se vincule diretamente como suporte técnico especializado para atenção básica. Lembremos que as ações. listadas a seguir. Percebem-se. p.141 diversificados. conselho tutelar. violência urbana entre outros -Acompanhamento de usuários egressos de internações psiquiátricas. p. no trecho citado. tempos de desinstitucionalização e mobilização social: rede e território. saúde da mulher. debates. 11). p. articulados dentro da rede geral de saúde e voltado para a atenção integral” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. diabete. 10). idoso. treinamento e avaliação dos resultados com supervisão técnica continuada (MINISTÉRIO DA SAÚDE. (MINISTÉRIO DA SAÚDE. Os profissionais que vão integrar as equipes de saúde mental devem assumir o acompanhamento do PSF. Chegamos às “Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. Será de grande interesse comparar a lista de ações acima com as que resultaram da “Oficina” e da que consta do documento “Saúde Mental e Atenção Básica. os autores do documento do Ministério da Saúde recomendam [. a procura por recursos já existentes na comunidade e o estímulo à criação de outros. item 6 do documento que vem sendo examinado. atividades artísticas e de grupos de uma maneira geral com temáticas específicas de acordo com a realidade de cada comunidade -Buscar construir novos espaços de reabilitação psicossocial dentro da comunidade como oficinas comunitárias e outros que venham a ser criados pela mobilização social. alcoolismo e outras drogas. 10). respeitando a realidade específica local e voltada para a inclusão social -Mobilização de recursos comunitários estabelecendo articulações com grupos de auto ajuda. associações de bairros. 2001. estavam pensadas para serem integralmente executadas pelos profissionais das Equipes de PSF. São elas: -Sensibilização para a escuta e compreensão da dinâmica familiar e das relações sociais envolvidas -Sensibilização para a compreensão e identificação dos pontos de vulnerabilidade que possam provocar uma quebra ou uma má qualidade dos vínculos familiares e sociais -Incorporar a saúde mental nas ações voltadas para: hipertensão.. criança e adolescente.

Salvo melhor juízo. a ênfase está colocada em fornecer capacitação. -Supervisionar o trabalho dos profissionais das equipes de Saúde Mental. MINISTÉRIO DA SAÚDE. -Incorporar no treinamento do ACS os conteúdos de Saúde Mental. de 2004. tendo como responsáveis Leila Vianna e Carlos Eduardo de Moraes Honorato. a implantação de capacitação e supervisão técnica no tema. Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. O documento propõe-se a definir as “Responsabilidades Institucionais”. Formação e Educação Permanente e outras instituições de ensino. -Garantir a infra-estrutura de funcionamento da unidade de saúde para o trabalho. 2004). -Assegurar o acesso progressivo de todas as famílias beneficiadas com o PSF às ações de promoção da Saúde Mental e prevenção de seus agravos. elaboração de material didático. nenhuma delas foi executada até o momento. -Disponibilizar meios para capacitação técnica e educação permanente dos profissionais de Saúde Mental. Quanto às “Responsabilidades das Secretarias Estaduais de Saúde”. As “Responsabilidades das Secretarias Municipais de Saúde” são aquelas que efetivamente aproximam os Programas Municipais de Saúde Mental da Atenção Básica. criar de indicadores para avaliação das ações e trabalhar os dados existentes no SIAB. em conjunto com a SES. . juntamente com a SES. um núcleo para encaminhar as propostas de aproximação Saúde Mental/PSF. (Cf. (Cf. o que faremos adiante. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Faziam parte desse rol a facilitação regional de planejamento para a inserção das ações de Saúde Mental na Atenção Básica.142 Necessários. -Sensibilizar para a necessária prioridade de direcionar as ações para os grupos familiares mais vulneráveis e estabelecer os mecanismos adequados para acompanhamento e avaliação dos resultados esperados. São as seguintes: -Elaboração do plano municipal para inclusão das ações de Saúde Mental na Atenção Básica com objetivos e metas definidas. 2001). começando por aquelas definidas para o Ministério da Saúde. em parcerias com as Secretarias Municipais de Saúde. a avaliação com os estados a respeito do que estaria sendo praticado e a inclusão de base de dados no Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB). em articulação com a SES por intermédio dos Pólos de Capacitação. na Assessoria de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde. -Participar de avaliação do trabalho das equipes de saúde da família. foi criado. No Estado do Rio de Janeiro. -Elaboração de material didático para as atividades de educação continuada. no segundo semestre de 2001. a elaboração de material didático.

Apesar de estar em contradição com um dos itens da lista de “Responsabilidades das Secretarias Municipais de Saúde”. a discussão acerca da inclusão de ações de saúde mental no Saúde da Família. Trata-se de capacitar recursos humanos e organizar o sistema.Identificar estratégias específicas para o enfrentamento da concentração de leitos psiquiátricos e problemas decorrentes do uso do álcool e outras drogas e outros transtornos mentais de maior prevalência. da Saúde Mental. para subsidiar a conclusão do Plano Nacional de Inclusão da Saúde Mental no Saúde da Família.. p. . O . 1). bem como os indicadores de eficácia e efetividade” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2001 b.Aproveitar as experiências vivenciadas pelos participantes da Oficina. o valor das orientações acima permanece. O texto chama a atenção para a “Avaliação” das ações de saúde que estão sendo implantadas e. enquanto um roteiro para a inserção das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. 2001. Este último “[.. . que já temos detalhado nessas páginas. em Brasília. em março de 2001. (MINISTÉRIO DA SAÚDE.] abordará o desenvolvimento da integração das ações de saúde mental ao PSF. 2001. 14). o texto da “Proposta Preliminar” aponta como “Objetivos” da Oficina: . diz que “Em relação à Saúde Mental não há necessidade de acrescentar nada à estrutura pré-existente na unidade de saúde” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2001. a “Oficina de Trabalho para Discussão do Plano Nacional de Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. p. 13). (MINISTÉRIO DA SAÚDE. p. 2) Realizou-se. Como não se efetivaram integralmente as Responsabilidades nos níveis Federal e Estadual. 14). aqui está uma das características que torna a entrada da Saúde Mental no PSF uma estratégia plenamente exeqüível em curto prazo: não há o que construir.. 2001 b. Porém. então.. acima. adequar. no item “Avaliação da estrutura”. a iniciativa ficou quase apenas na dependência das ações municipais. p. O documento aponta a necessidade da avaliação quanto ao processo e quanto aos resultados.143 -Alimentar o SIAB com os dados necessários para avaliação das ações desenvolvidas . p. Depois de historiar os pontos de identificação entre o PSF e o “[. com vistas a obter subsídios para conclusão do Plano Nacional de Inclusão das Ações de Saúde Mental no PSF. entre os participantes da oficina.Aprofundar. alugar.] novo modelo de atenção descentralizado e de base comunitária” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.

etc. p.. 10). O que será citado. 7). daqui por diante. colocados aqui sem ordem de importância ou estatística: alcoolismo e outras dependências (com suas conseqüências: violência doméstica e no trânsito. pronto atendimento. em níveis amplos. NAPS. a articulação e a implementação de ações de saúde mental no PSF (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. residências terapêuticas. p. Quixadá/CE. Sobral/CE.. os “[. Os relatórios advertem.144 encontro representou a retomada. doença clínica grave. São os seguintes os problemas e situações de risco e vulnerabilidade. segundo suas experiências e orientados pela coordenação do evento. psicoses e demais transtornos mentais graves.. tentativas de suicídio). e as situações de risco e vulnerabilidade que mais freqüentemente ameaçam e comprometem os vínculos familiares e sociais” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. delitos. 2001 b. que apresentaram as suas conclusões na Discussão Ampliada. da discussão da atuação da Saúde Mental nas comunidades. As mesas redondas e a mesa inicial serviram de subsídios e aquecimento para os trabalhos em grupo. prostituição infantil. p. crianças e adolescentes .] problemas de saúde mental. 15). a levantar. referido ao documento que saiu da Oficina. também. Comparecei na qualidade de “Especialista convidado” e fui relator de um dos Grupos de Trabalho. idoso abandonado. CAPS.] ações só terão eficiência e eficácia se estiverem inseridas e articuladas com uma rede de cuidados e ações de saúde mental (emergência. população em situação de rua. Camaragibe/PE. Em termos gerais. Foram apresentadas as experiências desenvolvidas nos municípios de Curitiba/PR. não chegam aos dispositivos já consagrados em Saúde Mental.) (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2001 b. 2001 b. momento final da Oficina. exclusão social (pacientes cronificados em hospitais psiquiátricos. prisão domiciliar. Cabo de Santo Agostinho/PE. é o que foi aprovado na Discussão Ampliada final. que as [. hospital geral. Natal/RN. para iniciar a discussão prática. Resultou dessa discussão uma extensa lista de problemas que. os relatórios dos grupos reconhecem a semelhança de propósitos que unem os Programas em questão e dizem que As diretrizes do PSF e as diretrizes da reforma psiquiátrica constituem hoje um conjunto de princípios que são fundamentais para o diálogo. Recife/PE. Araçuaí/MG. Os grupos de trabalho dedicaram-se. Aracaju/SE e no Projeto Qualis da Secretaria Estadual de Saúde de São Paulo. muitas vezes.

à sobrecarga de trabalho das Equipes de PACS e PSF e à necessidade de agilizar as mudanças. Exemplificando o que foi aprovado nos relatórios.. também. tanto que consta de todos os relatórios dos grupos. praticado em alguns municípios.]. Criação de Oficinas Terapêuticas na comunidade” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. então. para que as Equipes de PSF e PACS assumam sozinhas a função de “tratar” e receber encaminhamentos (a Equipe de Saúde Mental). A alternativa à entrada direta dos profissionais de Saúde Mental nas comunidades. a inserção de profissionais de Saúde Mental diretamente no campo. é preferível a presença de profissionais de Saúde Mental junto às Equipes de PACS e PSF. 21). p 9). transtornos do humor e retardo mental (Cf. planejamento local. a pensar “Que ações devem ser desenvolvidas pela equipe de saúde mental em articulação com o PSF? Qual sua composição e a quantas equipes de saúde da família deverá dar suporte?” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. numa repetição do modelo dos ambulatórios. fornecer capacitação.. organiza-se melhor a rede de assistência à Saúde Mental. na comunidade. que as Equipes de PACS e PSF atuem em situações de Saúde Mental sem a presença dos profissionais de Saúde Mental. intervenção conjunta. ao intricado de temas de capacitação. “Atuar junto ao PSF para capacitação e educação continuada. com esclarecimentos a respeito de encaminhamentos.145 em situações de risco). de um dos temas centrais da discussão a respeito da Saúde Mental na Atenção Básica: as ações e as equipes.]” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. violência (domiciliar. 7). devido à magnitude dos problemas da Saúde Mental. Os participantes dedicaram-se. 2001 b. antes de ver o que deve ser feito. p. MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2001 b. a trocar experiências e. p. 2001 b). Este deve ser um tema de debate constante: o que deve fazer o profissional de Saúde Mental na comunidade? Durante a Oficina foi destacado que. responsabilidade territorial [. Consideramos que. então. foi a posição que predominou amplamente na Oficina. temos: “Intervenção conjunta em consultas e visitas domiciliares. há uma pequena e importante lista do que não é para ser feito: atuar como especialista (pelo contrário.]” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. . no tema acima.. Foco de muita polêmica.. Tenta-se. junto às Equipes de PACS e PSF é a opção por manter um trabalho de supervisão. abuso de benzodiazepínicos. mobilização e integração com recursos existentes nas comunidades [. 2001 b. Trata-se. p. discussão de casos e capacitação em temas específicos. como instrumento de capacitação [. 12). a partir delas. suicídios e suas tentativas. discussão de caso. atuando junto com os membros das Equipes de PSF e PACS. a tarefa é inverter o discurso das especialidades). comunitária). “Intervenções familiares comunitárias conjuntas (PSF + ESM).. 2001 b. Deste modo.

a partir do contato com as Equipes de Saúde Mental. (Cf. noções de dinâmicas de grupo. em média. Se o Ministério da Saúde reconhece que 3% da população necessita de cuidados contínuos. 2001 b). Considerando que cada Equipe de Saúde da Família atende até mil famílias.146 conforme recomendou a Oficina. (Cf. mas estendeu amplamente o campo de conhecimento que as Equipes da Atenção Básica podem adquirir. 2004. . A pergunta inicial da Oficina. de Reforma Psiquiátrica. sendo esta composta. MINISTÉRIO DA SAÚDE. sempre a partir das realidades locais. Esta proporção não condiz com a prática. por quatro profissionais.] a quantas equipes de saúde da família deverá dar suporte?” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. Os relatórios dos grupos de trabalho indicam entre 8 e 10 Equipes de PSF para cada Equipe de Saúde Mental. Voltaremos ao tema mais adiante. por apresentar transtornos mentais severos e persistentes (MINISTÉRIO DA SAÚDE. com a recomendação de que deve ser continuada e mútua. isto é. (Cf. Em conseqüência da metodologia de educação continuada. Foram citados desde conhecimentos de psicofarmacologia e psicopatologia até a história das abordagens ao desvio e à loucura. As ações citadas acima são a base para muitas outras. a mobilização de recursos comunitários. p. num total de cerca de quatro mil pessoas. é o da relação quantitativa entre Equipes de Saúde Mental e Equipes de PSF. em relação às funções das Equipes de Saúde Mental foi: “[. A capacitação é uma das ações que se tornaram consenso. 2001 b).. as Equipes trocam experiências e saberes. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Um tema polêmico e importante. no meu modo de ver e com base na observação da prática que tenho realizado. 2001 b. a atenção ao idoso e ao adolescente.. oito Equipes de PSF atendem uma população de quase trinta e duas mil pessoas. por mais que saibamos que terá atuação conjunta com as Equipes locais de PACS e PSF e o movimento comunitário disparado potencializará as ações. a Oficina não se limitou a traçar um programa mínimo de capacitação. 2). é tarefa extensa demais para uma só Equipe de Saúde Mental. o enfrentamento da questão da violência urbana e doméstica. como o estímulo à organização de redes sociais. com funções de capacitação. organização conjunta do trabalho e para a condução conjunta das situações que se apresentam. p. só neste contingente estão cerca de novecentas e sessenta pessoas. Articular assistência e promoção de cidadania para essas pessoas. 7). de Programas de Saúde Mental. além de todas as demais ações recomendadas pela Oficina. 2001 b). a incorporação da Saúde Mental na atenção aos problemas de saúde em geral. pois decisivo para o suporte das ações. ao discutir a implantação efetiva das ações de Saúde Mental na Atenção Básica em Macaé. MINISTÉRIO DA SAÚDE.

O Vínculo e o Diálogo Necessários.. Também foi discutida. progressivamente. a abordagem efetiva da Saúde Mental na Atenção Básica. trabalho verdadeiramente conjunto. 14). O tema “Financiamento” não esteve na relação de perguntas oferecidas pelo Ministério da Saúde. com organização do fluxo de referência e contra-referência. depois de implantadas as ações. Foi. dentro das diretrizes propostas pelo Plano Nacional de Inclusão. p. a sobrecarga de trabalho das Equipes do PSF. ao lado de tentar abordar os problemas da Saúde Mental na comunidade.147 Um item da maior importância é o que uma das perguntas da equipe de coordenação do evento colocou: “Em que casos a pessoa com problemas de saúde mental deve ser referenciada e qual o fluxo de referência e contra-referência ?” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. mesmo que. Com a entrada da Saúde Mental. Um dos grupos de trabalho respondeu à pergunta acima com: “Mudança da denominação conceitual de referência/contrareferência para co-responsabilidade e trabalho em rede de complementaridade” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. que produziram propostas. por parte do Ministério da Saúde. passa a ser encarada como parte de uma rede de complementaridade. 2001 b. se a opção for por tentar. Mas. que muitas vezes perde a pessoa encaminhada de vista. mais trabalho é acrescentado. num trabalho de co-responsabilidade entre Equipes de Saúde Mental e PSF. é estabelecido um melhor relacionamento entre o PSF e a rede de assistência à Saúde Mental. o que é muito útil. então.] a plenária recomendou que seja destinado um incentivo por parte do Ministério da Saúde para os municípios que incluírem ações de saúde mental nos programas de saúde da família. Isso significa que. as referências vão perdendo em volume e importância. ventilada a possibilidade de diminuir a quantidade de famílias a serem atendidas pelas Equipes de PSF que tenham ações de Saúde Mental. Inclusão das . integrado e em que todos os envolvidos continuam responsáveis e em contato com as pessoas atendidas. Está estabelecida uma definição de investimento em capacitação. 7). 2001 b. Escrevo no segundo semestre de 2004 e até então nenhum incentivo de financiamento à entrada da Saúde Mental na Atenção Básica foi regulamentado.. mas preocupou e ocupou os participantes da Oficina. Quando a opção de trabalho é apenas pela supervisão das Equipes de PSF. a tradicional referência e contra-referência. Um dos grupos sugeriu e [. como consta no texto “Saúde Mental e Atenção Básica. p. 23). mas não consta do Relatório Final. p. os problemas não resolvidos possam diminuir. 2001 b. A manutenção ou suspensão deste incentivo serão balizadas pelos indicadores de avaliação também propostos no Plano (MINISTÉRIO DA SAÚDE.

sugestão de ações. que seja compatível com os conhecimentos atuais. tienen enormes costos económicos y sociales. ocorreram quatro mesas redondas de Ministros da Saúde dos países membros. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Informe de la secretaria”. O indicador mais presente nas sugestões foi o número de internações psiquiátricas. a Oficina de 2001 produziu um relatório que é um roteiro para a implantação da Saúde Mental na Atenção Básica com diretrizes. Em resumo. La evolución reciente indica con claridad que es posible hallar soluciones eficientes en todos los contextos (ORGANIZACIÓN MUNDIAL DE LA SALUD. p. que diz que existem possibilidades de financiar a Formação Profissional através do Programa Permanente de Formação para a Reforma Psiquiátrica. Nele está contida a afirmação: Todos los ministros coincidieron en que los problemas de salud mental representan un componente importante de la carga de morbilidad a nivel mundial.148 Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. 2). p. (Cf. iniciando com o chamamento para o combate à estigmatização. em articulação com os Pólos de Educação Permanente em Saúde e com os gestores estaduais de municipais (Cf.. 2001.] indicadores que identifiquem a ampliação de trabalhos comunitários e territoriais” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. conteúdo conceitual e de capacitação. y provocan sufrimiento humano. 1). da Coordenação de Saúde Mental do Ministério da Saúde. Foram discutidos e sugeridos indicadores para a avaliação das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. Assembléia Mundial da Saúde. p. realizada em maio de 2001. ORGANIZACIÓN MUNDIAL DE LA SALUD. 2001 b. 19). MINISTÉRIO DA SAÚDE. Apontando para a necessidade de financiamento do setor de Saúde Mental. 2003 b). Redução da violência na comunidade também foi um dos indicadores mais citados (Cf. da Organização Mundial da Saúde. que resultaram no relatório “Mesas redondas: salud mental. 2001. dada a sua importância epidemiológica e social.. na área. que deveria fazer parte do SIAB. El hecho de que los países deban abordar otros problemas sanitarios y que sus presupuestos de salud sean limitados ya no puede aducirse como justificación para no adoptar medidas. A Assembléia reconhece a importância dos fatores sociais para os problemas de Saúde Mental e assinala que . a OMS indica os meios para se chegar a uma assistência e promoção. Um dos grupos sugeriu “[. Durante a 54a. 2001 b). indicadores e financiamento.

foi um resumo. Com o objetivo de dar a sua orientação atual para a Saúde Mental no mundo. as famílias e os usuários. 2-Garantir acesso aos medicamentos psicotrópicos. no capítulo “Mejora de las Políticas y los Servicios de Salud Mental”. Ao observar o teor das recomendações. la inseguridad personal y la desigualdad de ingresos (ORGANIZACIÓN MUNDIAL DE LA SALUD. 4-Educação em saúde para a população. 13). Benedetto Saraceno. da publicação. 5-Envolver as comunidades. Já no campo das ações de saúde. esta evolución trae aparejadas unas tasas alarmantes de desempleo. . Nova Esperança”. la desintegración de la familia. e deve ser universalmente encarada sob uma nova luz (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. e chegou a dez recomendações gerais. 3). aconselha a “Adopción de la atención basada en la comunidad e integración de la salud mental en los sistemas nacionales de atención primaria de salud” (ORGANIZACIÓN MUNDIAL DE LA SALUD. Cidadania e Direito do Cidadão”. com referências ao Brasil. o texto. 2001. a globalização geradora de mais desigualdade. 2001. vemos que a primeira delas situa na Atenção Básica as ações preferenciais da Saúde Mental. intitulada “Saúde Mental. No dia 11 de dezembro de 2001. São os seguintes os títulos das recomendações: 1-Proporcionar tratamento na atenção primária. que então estava sendo lançada. a OMS utilizou centros de pesquisa em dezenas de países. En gran parte del mundo se asiste a una aceleración de las reformas económicas y los cambios sociales. 1). p. puesto que en ella inciden factores que varían en los diferentes países. em todos os continentes. Resta saber a que transição econômica se refere o texto. p. Inicialmente. o “Relatório Sobre a Saúde no Mundo 2001. 2001. A palestra. proferiu a Conferência de Abertura da III Conferência Nacional de Saúde Mental. o documento lançado chama a atenção para a dimensão dos problemas de Saúde Mental dizendo: A OMS está fazendo uma declaração muito simples: a saúde mental – negligenciada por demasiado tempo – é essencial para o bem-estar das pessoas. isto é.149 Los ministros destacaron la importancia de situar el tema de la salud mental en el contexto social pertinente. que chama de “evolução” um processo que leva ao caos social. 3-Garantir atenção na comunidade. Saúde Mental: Nova Concepção. incluida la transición económica. Coordenador do Departamento de Saúde Mental e Abuso de Drogas da Organização Mundial da Saúde (OMS). das sociedades e dos países. p.

a Dra Gro encerra o seu texto com as seguintes palavras: Como a principal instituição mundial de saúde pública. negligência. 2001. na mensagem que abre o documento. 14). incúria. O Dicionário Aurélio Eletrônico dá os seguintes significados de “desídia” : preguiça. inércia. com clareza. a OMS afirma: . Naquele momento. 7-Formar recursos humanos. com o tratamento menos restritivo ou intrusivo (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 2001. Assim fica mais claro. em relação às medidas tomadas para a assistência à Saúde Mental: “Os governos têm-se mostrado desidiosos. 2001). No item 3. Diz o texto: “O manejo e tratamento de transtornos mentais no contexto da atenção primária é um passo fundamental que possibilita ao maior número possível de pessoas ter acesso mais fácil e mais rápido aos serviços [. lembra três princípios adotados pela Organização das Nações Unidas há uma década: O primeiro desses princípios é o de que não deverá existir discriminação em virtude de doenças mentais. lemos logo no primeiro: “Proporcionar tratamento na Atenção Primária”. p. de 2001. p. Na particularização do que está exposto nas recomendações do documento que apontam para a Atenção Básica. 9-Monitorizar a Saúde Mental na comunidade. 2001.150 6-Estabelecer políticas. que mostra. Notemos que o que consta dessa declaração também está na Lei 10. 8-Criar vínculos com outros setores. a OMS tem uma e apenas uma opção: assegurar que a nossa geração seja a última a permitir que a vergonha e o estigma tomem a frente da ciência e da razão (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 10-Dar mais apoio à pesquisa.. p. certamente. “Garantir Atenção na Comunidade”. 2001. desleixo.216. na medida do possível. p. (Cf.]” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 13). indolência. uma mudança significativa nos rumos das práticas em Saúde Mental. a Organização Mundial da Saúde apontava um caminho. RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. deve-se conceder a todo paciente o direito de ser tratado e atendido na sua própria comunidade. 14). a Lei Paulo Delgado. tanto como a comunidade da saúde pública” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. Num tom de exortação.. Outro é o que. descaso. 15). A Dra Gro faz uma séria acusação. programas e legislação nacionais. E o terceiro é o de que todo paciente deverá ter o direito de ser tratado num ambiente o menos restritivo. Cabe forçar as limitações desse “na medida do possível”. A Diretora Geral da OMS. Gro Brudtland.

p. (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. Isso deve resultar num dimensionamento melhor dos serviços às necessidades da população e na sua melhor utilização. juntamente com a provisão de apoio em face de crises e proteção na moradia e no emprego (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. Assim. mas vai evoluindo até propor intervenções precoces e apoio em crises. a atenção aos problemas graves de Saúde Mental passa a ser integral. 2001. a fim de atender às necessidades das pessoas com transtornos mentais e suas famílias. O item quatro contempla uma das prioridades. 2001.151 A atenção baseada na comunidade tem melhor efeito sobre o resultado e a qualidade da vida das pessoas com transtornos mentais crônicos do que o tratamento institucional. fazendo uso de todos os recursos disponíveis. Deste modo sugere que. Com o título de “Envolver as comunidades. as intervenções devem levar em conta a idade. p. ao lado de divulgar as opções de tratamento. a cultura e as condições sociais. os serviços de saúde mental devem ser prestados na comunidade. 2001. Os serviços de base comunitária podem levar a intervenções precoces e limitar o estigma associado com o tratamento. que nunca é demais repetir e ver colocado em palavras claras e por uma entidade da importância da OMS. ampliando as ações que o início do texto poderia sugerir como restritas. O item cinco é uma tomada de posição quanto ao controle social das ações de Saúde Mental. “Uma bem planejada campanha de sensibilização e educação do público pode reduzir a estigmatização e a discriminação. Desta forma. o sexo. 16). programas e serviços. Ademais. diz que As comunidades. Os grandes hospitais psiquiátricos de tipo carcerário devem ser substituídos por serviços de atenção na comunidade. O item “Formar recursos humanos” traz detalhes importantes. apoiados por leitos psiquiátricos em hospitais gerais e atenção domiciliar que atenda a todas as necessidades dos doentes que eram de responsabilidade daqueles hospitais. segundo a OMS: a luta contra o estigma e o preconceito. fomentar o uso dos serviços de saúde mental e lograr uma aproximação maior entre saúde mental e saúde física” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 16). Essa mudança para a atenção comunitária requer a disponibilidade de trabalhadores em saúde e serviços de reabilitação no nível da comunidade. A transferência de pacientes dos hospitais psiquiátricos para a comunidade é também efetiva em relação ao custo e respeita os direitos humanos. 16). as famílias e os usuários devem ser incluídos na formulação e na tomada de decisões sobre políticas. p. Notemos que o item começa focalizando o paciente crônico. as famílias e os usuários”. Diz ele . no seu planejamento e execução.

Destacamos.] atenção e [. então. tais como catástrofes. mais uma vez. Citando um estudo transcultural de Üstün e . Deste modo.. O Relatório da OMS traz um estudo a respeito da prevalência dos transtornos mentais no contingente populacional que procura a atenção básica. 2001. que podem trabalhar juntos com vistas à atenção e à integração total dos pacientes na comunidade (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO.152 que “A maioria dos países em desenvolvimento precisa aumentar e aprimorar a formação de profissionais para a saúde mental.] os diagnósticos mais comuns são depressão. como algumas medidas mais gerais de saúde mental das comunidades. o que parece indicar a tentativa de tentar não referir o paciente e sua família para outros serviços. p.. 2001. no mesmo item. está colocada mais uma vez a definição da OMS: Embora a atenção primária ofereça o contexto mais vantajoso para a atenção inicial. p. tanto o número de indivíduos com transtornos mentais e a qualidade da atenção que recebem. à definição de que as pessoas devem ser tratadas com os recursos comunitários sempre que isso for possível. p 17). enfermeiros psiquiátricos. Em condições ideais. Essa monitorização ajuda a determinar tendências e detectará mudanças na saúde mental em resultado de eventos externos. 16). psicólogos clínicos. 17).. Os indicadores devem incluir. São necessários novos indicadores para a saúde mental das comunidades (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. há necessidade de especialistas para prover toda uma série de serviços.. se isso for possível. de outros recursos. 2001. no texto a expressão “[. O item “Monitorizar a Saúde Mental na comunidade” reforça o que entre nós já vem sendo repetido e proposto: a inclusão de indicadores de Saúde Mental no sistema de informação da Atenção Básica. que darão atenção especializada e apoiarão programas de atenção primária em saúde” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. e fortalece. tais como psiquiatras. 17). Voltamos. ansiedade e transtorno por uso de substâncias” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO.. os argumentos em favor da provisão de mais recursos. porém. A monitorização é necessária para verificar a efetividade dos programas de prevenção e tratamento de saúde mental. 2001. 2001. Mais adiante. indicando que “[. não prescindindo.. p 51).] integração total dos pacientes na comunidade” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. assistentes sociais psiquiátricos e terapeutas ocupacionais. O texto diz: A saúde mental das comunidades deve ser monitorizada mediante a inclusão de indicadores de saúde mental nos sistemas de informação e notificação sobre saúde. ademais. a OMS define que a Atenção Básica é o nível privilegiado para a abordagem à Saúde Mental. as equipes especializadas em atenção em saúde mental deveriam incluir profissionais médicos e não médicos. p.

quando acoplada aos outros dois avanços. na definição de saúde. Podemos comentar que esse trio de avanços custa a chegar às comunidades. 51). Constituía-se principalmente de Transtornos Depressivos e Ansiosos. está ao sabor das vontades políticas cambiantes e das pressões pela manutenção do encobrimento das mazelas sociais. mental e social.6% para ansiedade generalizada e 4. (Cf. como por exemplo a psicofarmacologia que. aponta números que. famílias e comunidades. 2001. A definição da OMS. movimento. pela própria OMS..153 Sartorius 1995 e de Goldberg e Lecrubier 1995.RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 2001). se é positiva. RJ: Detectou-se uma prevalência média de 56% de Transtornos Mentais Comuns nos pacientes atendidos. pelo menos.] uma em quatro famílias tem. Como “[. A afirmação do Relatório é importante como mais uma convocação à coerência entre os conceitos estabelecidos na teoria e a prática. é grande o número de lares onde ocorrem perdas econômicas. Com esses números significativos.8% para depressão atual. que diz que saúde é o bem estar físico. como a própria denominação indica. a OMS chama a atenção para o impacto causado pelos transtornos mentais nas pessoas. o movimento em favor dos direitos humanos e a incorporação. pesquisando em unidades do Programa de Saúde da Família em Petrópolis. além dos gastos com o tratamento e do sofrimento geral causado pelo estigma e discriminação. destacando-se também os Transtornos Somatoformes e Dissociativos (FORTES. 22.. O movimento em favor dos direitos humanos. p. Sandra Fortes. necessidade de deslocar pessoas da atividade produtiva para o cuidado com os membros afetados. 5). também não tem amplo alcance. quando utilizada como único instrumento ou ao fornecer base para teorias reducionistas de explicação do sofrimento mental. aos modos eficazes de tratamento. sendo que 33% eram de quadros graves. RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 2001). 2004. p. é feita apenas em bases biológicas. em grande maioria. isto é. (Cf. Confirmando a alta prevalência de transtornos mentais na população. A OMS considera que três fatores contribuíram para a mudança de paradigma da atenção à saúde mental: os avanços da psicofarmacologia. dos aspectos sociais e mentais. O Capítulo 3 do Relatório é dedicado à abordagem da Resolução de Problemas de Saúde Mental. em tese de doutorado de 2004. . chegou aos seguintes números. um membro que sofre atualmente um transtorno mental ou comportamental” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. para o Rio de Janeiro são: 15.1% para dependência do álcool. é meio de controle. a começar pela formação dos profissionais de saúde que. ou mesmo contribuem para o seu controle.

-uma ampla gama de serviços que atendam às necessidades das pessoas com transtornos mentais e comportamentais. resultando em violações dos direitos humanos e em cronicidade” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 2001. concluindo que “[. -serviços mais ambulatoriais do que fixos. deveria ficar à vista em todos os nossos estabelecimentos de Saúde Mental: “Fechar hospitais mentais sem alternativas comunitárias é tão perigoso como criar alternativas comunitárias sem fechar hospitais psiquiátricos” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. p. p. em 2003. 2001. o Relatório chega ao tema da desinstitucionalização e lança importantes advertências. de forma drástica.. -serviços que são coordenados entre profissionais de saúde mental e organismos da comunidade. -tratamento e atenção específicos para o diagnóstico e as necessidades de cada pessoa.. Interessante observar que a OMS define que a atenção comunitária à Saúde Mental tem como função.] as condições de vida em todos os hospitais psiquiátricos do mundo são deficientes. Uma frase. 80). em toda a sua grandiosidade e importância.154 O Capítulo 3 resume. 80). -parceria com os provedores de atenção e atendimento das suas necessidades. 80). Está apontada a tarefa. dentre outras. 16). 2001. a crítica aos hospitais psiquiátricos. p. Como detalhes da atenção à Saúde Mental na comunidade... Fechar hospitais psiquiátricos sem alternativas comunitárias é a . Com o que está estabelecido acima. incluindo o hospital geral para admissão de casos agudos e dependências residenciais de longo prazo na comunidade. deste ponto da argumentação. inclusive os que podem oferecer tratamento em casa. 2003). Esta orientação faz lembrar o que disse Domingos Sávio numa palestra (SÁVIO. -legislação em apoio dos aspectos da atenção mencionados. Este é um dos pontos da argumentação para justificar a atenção à Saúde Mental na comunidade. “[. 2001. elementos que as propostas de transformação da assistência à Saúde Mental não pode negligenciar. -intervenções relacionadas tanto com as incapacidades como com os sintomas. p. já citada no capítulo III: que o hospital psiquiátrico fornece casa e comida. o Relatório define: -serviços que estão próximos ao lar.] garantir que certas funções protetoras dos asilos sejam proporcionadas integralmente na comunidade e que os aspectos negativos das instituições não sejam perpetuados” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO.

Paquistão. na África do Sul. Filipinas. 81). o Relatório indica: -Prevenção de admissões errôneas em hospitais psiquiátricos mediante a provisão de serviços comunitários. são a falta de preparo dos funcionários para a mudança de seus papéis e a manutenção do estigma que recai sobre as pessoas que passam por transtornos mentais. o Relatório aponta que A desinstitucionalização não tem constituído um êxito sem reservas. no momento atual. China. p. Entre as razões da falta de melhores resultados estão o fato de que os governos não consignaram à atenção na comunidade os recursos poupados com o fechamento de hospitais (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. Lembremos os 30 mil leitos de Hospitais Psiquiátricos fechados no Brasil de 1990 até hoje. também. com o dinheiro economizado tendo tomado outras vias que não a da Saúde Mental e. numa mensagem de que ela ainda é um caminho viável e aceito. Como componentes do processo de desinstitucionalização. -Estabelecimento e manutenção de sistemas de apoio na comunidade para pacientes não institucionalizados. 2001. (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. Comentando o lento desenvolvimento das ações de Saúde Mental na atenção primária. 2001. 81). o Relatório adverte: Mesmo em paises onde foi demonstrado em programas piloto o valor da integração da atenção em saúde mental na atenção primária (por exemplo. As linhas a seguir se encaixam perfeitamente ao caso do Brasil e devem servir de base para preocupação e organização de profissionais e usuários do sistema de saúde. 84). Senegal e Sudão). Índia. República Islâmica do Irã. (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 2001. p 81). p. Nelas. Ambos devem ser alvo do trabalho diário dos Programas Municipais de Saúde Mental. Os outros fatores para a demora de resultados da desinstitucionalização que o Relatório aponta. a dificuldade que é extrair dos cofres públicos o que está estabelecido em legislação como direitos dos usuários do sistema. e criar alternativas comunitárias sem fechar hospitais psiquiátricos é manter o caminho da exclusão aberto. . p.155 desassistência. -Alta para a comunidade de pacientes internados há longo tempo em instituições e que tenham recebido preparação adequada. esse enfoque não foi ampliado para cobrir todo o país (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. e a atenção comunitária ainda enfrenta muitos problemas operacionais. Brasil. 2001. Colômbia.

está uma das razões para a citada falta de velocidade na expansão das ações de Saúde Mental nas bases da sociedade: O enfoque baseado na utilização de todos os recursos disponíveis na comunidade tem o atrativo de emancipar o indivíduo. e a terceira. p. 86). vocacional e . desenvolver serviços comunitários. substitutivos para as folgas de familiares e cuidadores.. antes do trecho citado acima. e não na dos profissionais (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. centros comunitários. lares residenciais. provisão para admissão de casos agudos em hospitais gerais. 85). mas de uma mudança de direção definida. participação do usuário. Dentro desse importante Capítulo 3. O Capítulo 4 do Relatório é dedicado a analisar a situação mundial dos investimentos em Saúde Mental e as possibilidades de ação. a segunda. p. Uma definição logo de início chama a atenção. os serviços deveriam abranger nutrição. o Relatório apresenta os “Princípios da Atenção”. 84). onde discorre a respeito do que a pesquisa em todo o mundo qualificou como útil e exeqüível. aponta também para “princípios orientadores básicos” para a atenção em Saúde Mental: “[. 2001. Grande parte do capítulo é voltada para as mudanças no tratamento dos chamados “transtornos mentais graves”. mostrando a importância das diretrizes da OMS em relação ao assunto: “A idéia de atenção em saúde mental baseada na comunidade constitui mais um enfoque global do que uma solução organizacional” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. a família e a comunidade para incluir a saúde mental na agenda do público. 121).156 Em algumas linhas. serviços periféricos. Podemos compreender que não se trata apenas de uma forma a mais de administrar Programas de Saúde Mental. atenção ambulatorial. chamando a atenção para a organização e utilização dos “recursos ocultos” que existem na comunidade.] diagnóstico.. p. para que a transferência das pessoas internadas para as comunidades seja realizada com sucesso: Em condições ideais. p. integrar os serviços de saúde mental na atenção de saúde geral” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. parceria com a família. intervenção precoce. O Relatório. 2001. a OMS aponta: “A primeira é retirar a atenção dos hospitais psiquiátricos. 2001. envolvimento da comunidade local e integração na atenção primária de saúde” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. apoio ocupacional. 2001. O Relatório indica quais os itens que devem ser desenvolvidos. mesmo em situações de dificuldade financeira. Como orientações.

para os Serviços Residenciais Terapêuticos. “A segunda é usar financiamento transitório para investimento inicial em novos serviços. e necessidades básicas tais como abrigo e vestuário (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO.] manter financiamento paralelo para continuar a cobertura financeira de certo nível de atenção institucional depois de estabelecidos os serviços baseados na comunidade” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. então.157 de reabilitação. A lista de itens acima citada pode ser comparada com o que estamos realizando no Brasil. 2001. o que muitas vezes atrasa o desenvolvimento dos Programas Municipais de Saúde Mental. em Brasília. 2001. . A remuneração dos procedimentos e serviços só começa a ser recebida após o pleno funcionamento e cadastramento. p. p. 123). que requerem instalações físicas e gastos iniciais. que transfere recursos das Internações Psiquiátricas que estão deixando de serem feitas. É grave o problema do financiamento inicial de dispositivos de Saúde Mental entre nós. a qual ainda não se efetivou. 2001. o Relatório traz a terceira: “[. Concluindo as recomendações. p.. a Deliberação 54 da Comissão Integestores Bipartite da Secretaria de Estado de Saúde do Estado do Rio de Janeiro. 123). três recomendações para o financiamento das ações de Saúde Mental na sua nova fase e paradigma: “A primeira é liberar recursos para o desenvolvimento de serviços comunitários mediante o fechamento parcial de hospitais” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. Todos os pontos estão sendo praticados. 123). Os serviços. e com a recomendação da OMS. aprovada na “Oficina” de 2001. para que a avaliação da sua importância seja mais bem considerada. Para que não haja risco para pacientes. Residências Terapêuticas. 2001. A OMS faz. Instrumento útil. com bons resultados. O que estamos tocando são as condições para que a desinstitucionalização funcione. em diversos lugares. no capítulo II desta monografia. CAPS e Oficinas Terapêuticas. 123). mesmo após os avanços conseguidos. Já foi mencionada. Este item revela claramente a preocupação com a possível desassistência que poderá ocorrer em determinados momentos. p. como CAPS. Mas é interessante vê-los reunidos. a fim de facilitar a passagem dos hospitais para a comunidade” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. mas que não contempla a Atenção Básica. devem ser bancados inicialmente pelos municípios. comunidade e para as propostas da Reforma Psiquiátrica. Emergências Psiquiátricas. O incentivo financeiro para municípios que tenham a Saúde Mental na Atenção Básica é uma medida adequada.. famílias.

. p. A Internet é citada como um recurso de vasta utilidade. 2001. existe a advertência: “O ponto de partida mais apropriado para a promoção da saúde mental dependerá tanto das necessidades como do contexto social e cultural” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. São traçados três cenários que descrevem as situações que ocorrem nos países: recursos escassos. mesmo assim. onde não há nem profissionais de saúde em número mínimo. O lembrete do texto. social. 134). onde o exemplo é a faixa populacional acima de 60 anos.] meio de informar pacientes. em diferentes passagens. 2001). 2001.] podem melhorar substancialmente o desenvolvimento emocional. 2001. é que os três níveis podem conviver numa mesma conjuntura. 134). 133). e para proporcionar atenção clínica (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 135). O Relatório da OMS chega ao fim com um interessante estudo a respeito de “Como utilizar bem os recursos disponíveis” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. Dito isso. para promover encontros de ajuda mútua e grupos de discussão. No item “Intervenções orientadas para determinados contextos” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. p. para o problema do estigma e da discriminação que recaem sobre as pessoas que precisam de tratamento para problemas mentais. p. é ressaltado o papel das Escolas para o desenvolvimento da saúde mental individual e coletiva. nas comunidades. 150). há três recomendações. nível médio de recursos e alto nível de recursos. com um chamamento para a ação nessa área. A primeira se intitula “Intervenções orientadas para os fatores que determinam ou mantém a saúde debilitada” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 2001. grupos de usuários. Mas. .. 134). Sob esse título estão as ações capazes de fortalecer e qualificar as relações que “[. A segunda recomendação trata de “Intervenções orientadas para grupos de população” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. o panorama de um país pobre. (Cf. estudantes. 2001. cujo conteúdo nos transporta para o que podemos observar no Brasil.. p. profissionais de saúde. 134). O Relatório da OMS chama a atenção.158 O sempre controvertido tema da “Promoção da Saúde Mental” é enfrentado no Relatório com sugestões simples e que já se mostraram eficazes em outros paises. 2001. RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. Deste modo. organizações não-governamentais e a população em geral sobre saúde mental. para tentar quebrar o preconceito. no Estado do Rio de Janeiro e até mesmo dentro dos municípios. A orientação é ocupar os meios de comunicação de massa e agir de todas as maneiras possíveis. 2001. p. podendo ser utilizada como [. p. cognitivo e físico das crianças” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. p..

. p.] Proporcionar treinamento de atualização a médicos da atenção primária (100% de cobertura em 5 anos)” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. organizando. 153).. uma psiquiatra. p. temos: “Melhorar a eficiência no manejo de transtornos na atenção primária de saúde e [. em outras áreas. uma para formar o embrião do futuro CAPS. uma Assistente Social e uma Psiquiatra. O planejamento do Programa de Saúde Mental aguardava o Concurso Público para levar à prática o que foi implantado. o trabalho com os Programas de Atenção Básica foi apontado como um caminho a ser seguido. na IV Conferência Municipal de Saúde. o atendimento sob a forma de Oficinas Terapêuticas e. refletindo a falta de profissionais da psiquiatria. Contou com uma Psicóloga. Além desses profissionais. Na ocasião.159 nem remédios sempre disponíveis. Foi formada.. portanto. 2001. Quando passamos para o cenário de nível médio de recursos. foi realizado. para concretizar a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica em novos termos. Esta última.. No final do ano de 2001. em 2000. uma Equipe para atuar na Atenção Básica. num dos ambulatórios.. naquela altura. Naly Soares de .] Proporcionar treinamento de atualização a médicos da atenção primária (pelo menos 50% de cobertura em 5 anos) (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. com apoio da Secretaria Municipal de Saúde: além da entrada de profissionais de Saúde Mental nos ambulatórios e emergência psiquiátrica. nem CAPS nem um trabalho de Saúde Mental efetivamente na comunidade. Note-se que. 2001. 153). dividia seu tempo entre as Oficinas Terapêuticas e a Atenção Básica. No nível alto de recursos.] Melhorar os padrões de encaminhamento” (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. outra. Para cada cenário há uma lista de recomendações. então. em Macaé. Para a Atenção Primária. um concurso público que possibilitou a entrada de vários profissionais no Programa de Saúde Mental. duas equipes foram criadas. 153). para a Atenção Primária é recomendado “Elaborar material de treinamento com relevância local e [. já havíamos aprovado a mudança do Modelo Assistencial em Saúde Mental. as recomendações para o cenário de recursos escassos são: Reconhecer a saúde mental como componente da atenção primária de saúde [.. acontece num país que tem. Não existiam.. p. cuja consulta pode trazer avanços. no município. uma Terapeuta Ocupacional. em abril de 2002. 2001. níveis médios ou até altos de recursos..] Incluir o reconhecimento e tratamento de transtornos mentais comuns nos currículos de formação de todo o pessoal de saúde e [.

para que cada passo pudesse ser examinado. foi lotar a Equipe em apenas um Módulo de PSF. um início lento. para que a expansão do trabalho para outros Módulos de PSF fosse feita de modo cuidadoso e discutido. A forma de entrar na comunidade. Foram estudados os textos recentes a respeito de Saúde Mental na Atenção Básica. os textos prévios à III Conferência Nacional de Saúde Mental. estabelecer discussões iniciais a respeito do que iria surgir de demanda. avaliando. o que foi alvo de debates na Oficina de Brasília em 2001. noções de rede e território. É essa prática que vai realizar a capacitação permanente e mútua. a Reforma Psiquiátrica. que se chamou “A Mudança do Modelo Assistencial em Saúde Mental”. o Relatório da OMS de 2001. para que pudéssemos determinar qual seria o limite para uma Equipe de Saúde Mental trabalhar na Atenção Básica. que teve como temas a história da exclusão da loucura. de estudo e discussão a respeito do que estava planejado para ter início. A escolha do Módulo foi feita pela Coordenação do PSF. na prática. sendo a minha função. Sempre deveria estar pelo menos um membro do PSF. sobre Saúde Mental. Essa entrada em apenas um Módulo teve os propósitos de continuar a capacitação inicial da Equipe de Saúde Mental (reconhecendo que nenhum de seus membros tinha experiência prática na área). o Secretário de Saúde e a Coordenação do PSF. que se deu no momento que está sendo descrito. capacitar a Equipe na prática do trabalho do PSF. é o que define que nenhuma ação seria praticada. a de capacitar todos esses profissionais para o início do trabalho e. dentro de toda a discussão. apenas por membros da Equipe de Saúde Mental. Um ponto de importância fundamental. depois. desde o início. fornecida pelo nível central do PSF.160 Almeida. a respeito do trabalho na Atenção Básica e continuou essa capacitação em visitas ao Módulo que foi escolhido para o início do trabalho. incorporou-se ao trabalho na condição de Supervisora. Destaquei. a minha orientação. que vai responder. tive reuniões com a Equipe de Saúde Mental. de preferência com a presença do Agente Comunitário. que estava indo para a Atenção Básica. à demanda da Equipe de PSF e da comunidade por atuação de especialistas. Acreditamos que essa é a pedra de toque de todo trabalho na Atenção Básica. que defendi e que a Equipe aceitou. A Equipe de Saúde Mental na Atenção Básica freqüentou o mesmo curso que foi oferecido aos novos profissionais. bem como as Coordenações dos outros serviços de Saúde Mental. que tinha formação sistêmica e visão comunitária. examiná-la e decidir o inicio das ações. Em resumo. que vai ajudar a introduzir a Equipe de Saúde Mental na comunidade. Depois desse curso. com o tempo e a insistência. na comunidade. a de Consultor. que a Equipe de Saúde Mental . Esta Equipe de Saúde Mental recebeu capacitação teórica.

. Seguimos. visto que a cada recusa cria-se campo de capacitação e ação conjunta. Em agosto de 2003 foi realizada uma avaliação. Também foi realizado um grupo para acolher pessoas com “sofrimento mental grave” e seus familiares. A capacitação dos ACS está descrita da seguinte forma: . 2001 b). As primeiras ações com a participação dos profissionais de Saúde Mental foram: “[. 2001. foi estabelecida uma rotina de reunioes regulares com a Equipe completa do Módulo. a pedido do nível central do PSF municipal. p. para discussão dos casos e das situações familiares e comunitárias. A Equipe de Saúde Mental na Atenção Básica reconheceu que a capacitação que recebeu provocou mudanças. MINISTÉRIO DA SAÚDE. que foi o início das Oficinas Terapêuticas que estão em atividade. para efeitos de justificativa de financiamento junto ao Ministério da Saúde (o Projeto de Apoio à Expansão do Programa de Saúde da Família (PROESF)).. 2003.] com plena integração dos profissionais nas ações na comunidade e na formulação de propostas” (PINTO et al. mas de modo a tornar a situação produtiva. Ocorrem também as reuniões de pequenas equipes. (Cf. p. 5). para apresentações pessoais. de modo a provocar movimentos de mudança nas famílias e na comunidade. estudo dos textos que foram trabalhados pela Equipe de Saúde Mental na sua capacitação inicial e princípio dos debates a respeito das ações a serem praticadas. as conclusões da “Oficina de Trabalho para Discussão do Plano Nacional de Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. discussão a respeito das propostas. São praticadas as interconsultas. É com a atuação conjunta que a abordagem do sofrimento individual poderá ser potencializado. 2003. “[. Visitas Domiciliares.. encontro com os ACS e participação nos grupos já existentes” (PINTO et al. e dele também utilizo as seguintes.161 recusará. com as possíveis intervenções conjuntas. acima. que se formam para intervir em situações que aparecem e que não podem esperar por reuniões regulares.. Em relação à capacitação das Equipes de PSF. Foram realizadas reuniões com a Equipe completa do Módulo de PSF. então. examinando a maior parte das informações possíveis. Deste documento tirei a última citação. de Brasília. pela Equipe de Saúde Mental na Atenção Básica. com o médico do módulo e outros profissionais da base trocando idéias com a Equipe de Saúde Mental a respeito de uma situação clínica.] grupos de sala de espera. 5).

Terapia Comunitária e a discussão de casos como base (PINTO et al. A avaliação dos resultados dessa capacitação foi a seguinte: O resultado da Capacitação dos ACS foi o aparecimento de um novo olhar a respeito da saúde mental. Foi criado. pela Equipe de Saúde Mental. usando as Visitas Domiciliares. p. com postura ativa em relação a todas as atividades da saúde mental. um espaço para a discussão dos problemas ligados ao trabalho em geral e para a capacitação técnica. Com isso. Mas. após alguns meses. Grupos de Diabéticos e Hipertensos. p. . Houve mudança na relação profissional de saúde/paciente. 2003. então. Oficinas Terapêuticas. Em relação à capacitação geral. Com o esquema de capacitação organizado.162 Os ACS da comunidade foram capacitados logo de inicio. Grupos de Hipertensos e Diabéticos. por exemplo. a Saúde Mental na Atenção Básica tornou-se campo de estágio. em reuniões semanais das duas Equipes (PSF E SM) e capacitação em serviço.] mudou o olhar dos profissionais a respeito dos problemas da saúde mental. quando da avaliação que está sendo citada: Oficina terapêutica para adultos. com o resultado de que [. p. o assunto foi trabalhado e a presença desses profissionais tornou-se freqüente. Visitas Domiciliares. com maior resolutividade na abordagem à hipertensão. com desmistificação da loucura e do sofrimento mental. 6). 2003. As justificativas eram sempre ligadas à pressão do trabalho diário. com participação em todas as atividades da saúde mental e atenção em relação aos problemas na comunidade (PINTO et al. nas reuniões de capacitação. 5). com a capacitação técnica dos profissionais de nível superior de todos os Módulos (PINTO et al. foi decidido e passou a ser realizada uma reunião mensal com todos os profissionais de nível superior do PSF do Município. 2003. Havia dificuldade em relação à participação. Oficina de Geração de Renda. Eram as seguintes as ações de Saúde Mental realizadas em agosto de 2003. 5). 6). 2003. Terapia Comunitária. Houve adesão dos profissionais de nível superior ao trabalho com grupos (PINTO et al. a entrada da Saúde Mental no PSF está se dando em dois níveis: um. com as ações nos Módulos e outro.. a avaliação de 2003 relata que Durante o desenvolvimento do trabalho. p. Houve integração total ao trabalho.. dos profissionais de nível superior do módulo onde as ações foram inicialmente implantadas.

A prática de reuniões de equipe e decisões em conjunto. para todas as Equipes de PSF (no momento são 24 Equipes de PSF). melhor conhecimento dos capacitadores a respeito da realidade do PSF e da demanda de assistência e promoção em Saúde Mental. melhor estruturação de encaminhamentos. e também devido à própria demanda. São diversos os ganhos com essa capacitação: esclarecimento a respeito do funcionamento na rede de atendimento em Saúde Mental e do Programa de Saúde Mental. difundidas amplamente na Saúde Mental. na base. Notamos. Todas essas ações são praticadas sempre em conjunto com a Equipe do PSF. em Macaé. em relação aos psi. para discussão de aspectos emocionais que surgem no trabalho (também um espaço para discutir os conflitos naturais de equipe e problemas de organização enquanto profissionais). preparação para a chegada das Equipes de Saúde Mental nos Módulos. Da forma como está descrito acima. o trabalho do Programa de Saúde Mental junto ao PSF está se dando. ou estavam bloqueadas. Com a percepção de que a Equipe de Saúde Mental funciona de modo que os assuntos são discutidos constantemente. não é corrente na Saúde em geral. que nos tornamos facilitadores de discussões que antes não se davam. de acordo com o planejamento dos dois Programas (Saúde Mental e Saúde da Família). e capacitação para os profissionais de nível superior. criação de espaço para os profissionais do PSF.163 Reuniões das Equipes com a comunidade. muito importante. ou elas são sugeridas pela Equipe de Saúde Mental como instrumento de trabalho. estudo de assuntos específicos de Saúde Mental e Psiquiatria. a exemplo de outras experiências de entrada da Saúde Mental no PSF. para “resolver problemas”. da forma descrita acima. entre os membros das Equipes dos Módulos. estamos cumprindo parte das diretrizes da Oficina de Brasília 2001 e da OMS. em dois planos: uma Equipe de Saúde Mental atuando junto a Equipes de Módulos de PSF. mas não estamos diretamente na comunidade. onde possam ser expostos as angústias e o sofrimento por que passam as Equipes de PSF . Os profissionais de Saúde Mental são também solicitados a suprir a falta de espaço. começam a aparecer os pedidos para ajuda em reuniões das Equipes de PSF. E. O programa desta capacitação é elaborado num acordo resultante das necessidades das Equipes de PSF e das sugestões dos responsáveis pela capacitação. o que provoca todos os efeitos de uma instituição/organização que não se discute e onde não há espaço para ventilar e trabalhar os conflitos. Ao capacitar todas as Equipes de PSF. que é de colocar a Saúde Mental em todos os Módulos. mensal. Grupo de Adolescentes. com Reuniões de Equipe semanais. Eventos de Saúde na praça. com a conseqüência de fazer aparecer os problemas latentes.

um importante campo para pesquisa a respeito da efetividade das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. 2003. Devemos examinar os indicadores de Saúde Mental numa comunidade. resolução de alguns casos de transtorno mental grave e reunioes das Equipes com a comunidade (PINTO et al. dificuldades do Sistema de Saúde. Abre-se. Logo após o início do trabalho da Equipe de Saúde Mental na Atenção Básica. a Equipe decidiu entrar em mais dois Módulos com as seguintes ações: “Reuniões de Equipe. a cargo da Supervisora. Oficina Terapêutica e Interconsulta” (PINTO et al. Terapia Comunitária. nesse ponto.. 8). À época. integração entre a equipe do Modulo e a Supervisora. um ano e dois anos depois. Grupo de Sala de Espera. 2003. o número de internações psiquiátricas e de idas ao Pronto Socorro de pessoas com diagnósticos de transtornos mentais graves diminuiu sensivelmente. eram vinte e três as pessoas com diagnósticos de transtornos mentais graves em acompanhamento na comunidade. Diz a avaliação que está sendo citada: [. o Sana. por exemplo. Após um ano de trabalho no primeiro Módulo de PSF. remuneração não condizente com as responsabilidades. miséria. para que esses assuntos sejam abordados e encaminhados de modo produtivo. com freqüência irregular aos Ambulatórios de Saúde Mental e. antes da entrada das ações de Saúde Mental e compará-los com os obtidos. Visita Domiciliar.164 diante da enorme carga de trabalho. começou a ser trabalhada com a chegada da Equipe de Saúde Mental. e que pode servir de método de trabalho para os muitos Municípios do país que não possuem mão de obra de Saúde Mental disponível com facilidade.] foi iniciado um trabalho em um Módulo do PSF (localidade do Sana). de um lado. A situação de uma pessoa com quatorze anos de internação psiquiátrica. seis meses. p. Para uma dessas localidades. de outro. Visitas Domiciliares e da capacitação de Equipe. . Os resultados são: grande freqüência na Terapia Comunitária. com Terapia Comunitária. Trata-se de uma decorrência da organização inicial da assistência a pacientes que estavam. da violência nas comunidades. Esta é uma tentativa de expansão do trabalho utilizando poucos recursos humanos. das cobranças de produção e relatórios.. p. com poucos recursos humanos. O Município de Macaé tem uma região serrana. distante da sede. mesmo que sejam ainda precários. quase contínua. foi pensado um tipo de entrada da Saúde Mental. Acreditamos que podemos cumprir a tarefa de abrir espaços coletivos. 8). Capacitação de toda a Equipe dos Postos. sem serem vistos adequadamente pelo Módulo do PSF.

Uma das ações de Saúde Mental que aparecem acima. p. pelo contrário. . BARRETO. segundo seu criador. a Antropologia Cultural e a Resiliência. Adalberto Barreto apresenta uma definição que também pode ser uma das intenções da Terapia Comunitária: Não buscamos identificar as fraquezas e as carências. está articulada em torno da Teoria Geral dos Sistemas. o Terapeuta Comunitário deve ser escolhido pela comunidade. (Cf. Estão sendo realizadas reunioes em parceria com o “AA” e Oficinas com o tema “A Bebida e a Família” (PINTO et al. fato instigante. A Terapia Comunitária foi introduzida em Macaé pela Dra Naly Soares de Almeida e está sendo praticada nas comunidades e também em reuniões com os profissionais do PSF.] resistência ao choque”. Trata-se de uma prática grupal-comunitária que rompe com os conceitos de terapia. Iniciaram-se reunioes da comunidade com as duas Equipes (Saude Mental e PSF). por ser um problema altamente prevalente. Adalberto Barreto. não tentamos diagnosticar os problemas. é a Terapia Comunitária. 2003. O último termo citado. agora constante. p. para que.] propriedade pela qual a energia armazenada em um corpo deformado é devolvida. das famílias e das comunidades. 2003. p. 2003. ficou decidido que seria trabalhado o assunto “Alcoolismo”. enquanto tratamento individual. quando cessa a tensão causadora de uma deformação elástica” ou “[. (Cf. 2000). Um dos desdobramentos da prática da Terapia Comunitária foi o surgimento de uma reunião. 6). nem os meios de compensa-los. a Teoria da Comunicação. a falta de espaço para armazenamento de materiais de trabalho...165 Como dificuldades encontradas para o trabalho que vem sendo realizado. 17). através desses recursos. dentre outras características e. a dificuldade de encontrar psiquiatras para o trabalho e a violência nas comunidades. a avaliação de 2003 detectou: a falta de transporte. Segundo Adalberto Barreto. para tentar alcançar o coletivo e a promoção ou a criação de redes de solidariedade e de ação social. A base teórica da Terapia Comunitária. segundo o Dicionário Aurélio Eletrônico é a “[. 2003).. Diz a avaliação de 2003: Como resultado do grupo da Terapia Comunitaria surgiu a necessidade de incluir a comunidade nas iniciativas da promocao da saude e da assistencia. na descrição da situação em Macaé. 12). a meta fundamental da terapia comunitária é identificar e suscitar as forças e as capacidades dos indivíduos. “Não é exigida nenhuma capacitação anterior” (Cf. estar engajado em trabalhos comunitários. Para uma explicação do termo. PINTO et al. das Equipes com a Comunidade. possam encontrar as suas próprias soluções e superar as dificuldades impostas pelo meio e pela sociedade (BARRETO. BARRETO. Na primeira reunião..

Foi.] estabilidade temporária será sempre fruto de algum pacto ou negociação coletiva” (PITTA. Para uma aproximação ao conceito de Rede.. uma iniciativa do Pólo de Capacitação em Saúde da Família do Estado do Rio de Janeiro. com a intenção de estimular as ações de Saúde Mental na Atenção Básica. a “I Oficina de Capacitação de Supervisores em Saúde Mental para o Programa de Saúde da Família”. A Oficina serviu para a troca de idéias e de experiências e como estímulo para que os Coordenadores Municipais de Saúde Mental tentassem se aproximar da Atenção Básica. dando como suas características a metamorfose. profissionais ligados à Atenção Básica. a vizinhança e a multicentralidade. p.. RJ. A metamorfose faz da Rede um instrumento em constante mutação. 2001). 20). a fractalidade. a heterogeneidade.] percursos ou atalhos regidos pela topologia e conhecimento ora de usuários.. uma oportunidade para aproximar as duas importantes instâncias para o desenvolvimento da Saúde Mental no PSF: o Pólo de Capacitação do PSF e a Assessoria de Saúde Mental da SES-RJ. e. temos uma interessante incursão de Ana Pitta. com a coordenação de Sandra Fortes e a colaboração da Assessoria de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde do Estado do Rio de Janeiro (SES-RJ). A multicentralidade indica que os . A heterogeneidade zela pelas conexões múltiplas. p. que faz uma correlação entre Rede e teia. na ocasião. com suas raízes e influências observa-se que um tecido rizomático os organiza (PITTA. 20). adaptando-se às tarefas e onde a “[. resumidos acima. O objetivo do encontro foi reunir pessoas que já tinham alguma prática de Saúde Mental na Atenção Básica com Coordenadores Municipais de Saúde Mental. 2001. PITTA. examinando ainda seus atores constitutivos. plurais. realizou-se em Itaipava. 2001. Na ocasião.. ora de vizinhos” (PITTA. profissionais e professores que pensam a rede de assistência e um convidado estrangeiro. está dito que não podemos trabalhar com os conceitos rígidos de hierarquia de serviços e sim com o acompanhamento dos acontecimentos ditados por “[. Foram. A fractalidade responde pela característica de que Cada conexão da teia/rede se vista de perto reproduz uma nova rede em si. na sua palestra. Paula Cerqueira. também. 2001. p. reforçadas todas as diretrizes dos últimos textos e documentos nacionais e de orientação da OMS. (Cf.166 Em 15 e 16 de abril de 2002. reafirmou que os conceitos de território e rede são capitais para o trabalho da Saúde Mental na Atenção Básica. 20). Em “vizinhanças”. ora de profissionais. a Coordenadora Estadual de Saúde Mental.

na Oficina de Itaipava.] o capitalismo manteve como constante a extrema miséria de três quartos da humanidade. não desenvolvermos ações que estimulem a cidadania e a participação. p. em troca desse controle. para a sociedade de controle. 2001. o tema “Transtornos mentais na atenção básica”. (PINTO. Podemos. suas determinações e soluções. pobres demais para a dívida. e que [. com os conhecimentos próprios das comunidades a respeito do sofrimento mental. em que examina a passagem da sociedade disciplinar. de espraiar os tentáculos do Hospício por toda parte. atual. a setorização. 2). p. 2002. PINTO.167 centros organizadores das ações são provisórios. p. para o imenso mecanismo de controle que estamos levando aos capilares da sociedade.] na crise do hospital como meio de confinamento. mas também a explosão do gueto e favelas (DELEUZE. como uma espécie de declaração de princípios. p. estaremos apenas cumprindo o triste destino apontado por Deleuze. por outro lado.. trocar os conhecimentos que temos. para Deleuze. o atendimento a domicílio puderam marcar de início novas liberdades. 224). 20). de 1990.. Devemos estar atentos. Nele. mobilizados “[. onde o domínio era exercido por instituições fechadas (prisões. onde o domínio é desempenhado pela mídia. A advertência que encerra a citação acima refere-se ao que Gilles Deleuze diz em seu artigo “Post-Scriptum sobre as sociedades de controle”. Mas. 1992. Diz ele: [. 1992. para chegar ao que então estava sendo iniciado em . numerosos demais para o confinamento: o controle não só terá que enfrentar a dissipação das fronteiras. não há motivos para recuar. mas também passaram a integrar mecanismos de controle que rivalizam com os mais duros confinamentos. Não cabe temer ou esperar. 2002). o que motivou a redação do trabalho “A Abordagem aos Transtornos Mentais na Atenção Básica” (Cf. digo que As ações de saúde mental na atenção básica podem representar uma mudança qualitativa no modo como tratamos os atualmente chamados transtornos mentais graves e como a comunidade vê o que está enclausurado no conceito de doença mental.. 224). os hospitais-dia. 1992. Deleuze diz que “O marketing é agora o instrumento de controle social” (DELEUZE. Se.. principalmente. hospícios). efetivamente. mas buscar novas armas (DELEUZE..] na dependência da importância que cada qual assuma na resolução de um problema” (PITTA. p. numa mesa redonda. No trabalho que apresentei em Itaipava.. 224). A Assessoria de Saúde Mental da SES-RJ me convidou para apresentar. faço uma avaliação das experiências que tive nos municípios de Quissamã e Carapebus. questionando-os.

mas também na incidência das ações na mudança do modelo assistencial. que não quer ver questionado seu papel profissional e sua formação? E quando achamos que não há possibilidades de entrar mais determinadamente na Atenção Básica. 2). chamei a atenção para as limitações que tem o tipo de trabalho de supervisão com manutenção da referência para o ambulatório. mas sim melhorando o modelo existente. dando um novo aspecto à presença dos pacientes no Hospital Geral. no caso. (Cf. 2001) e das compreensões e discussões que se deram nesses últimos dois anos. que necessitavam de idas ao Pronto Socorro. em parte devido à pressão da demanda ambulatorial tradicional. as Equipes de PSF passaram a ajudar nos tratamentos e as situações de crises. em decorrência de avaliação posterior à Oficina de Brasília de 2001. Em primeiro lugar. (PINTO. em parte fruto da manutenção interna do papel profissional. de ambulatório de especialidades. O número de internações psiquiátricas caiu a quase zero. discutir algo a respeito das dificuldades para a entrada mais rápida da Saúde Mental na Atenção Básica e sugeri que O passo para o trabalho direto nas comunidades ainda não havia sido dado. teve grande avanço a abordagem aos transtornos mentais graves depois da capacitação constante e em serviço dos ACS e das Equipes de PSF. agora. no caminho de uma efetiva mudança do modelo assistencial. Destaco dois aspectos na avaliação das experiências de Carapebus e de Quissamã. A ênfase foi na abordagem aos transtornos mentais graves. Mas.168 Macaé. Não estaríamos. p. quando estamos em vias de avançar na introdução das ações de saúde mental na atenção básica. Esses dois fatores. apoiado por um trabalho na Atenção Básica. da publicação da OMS de 2001 (RELATÓRIO SOBRE A SAÚDE NO MUNDO. 2002. PINTO. os pacientes passaram a ter outra inserção na comunidade. o tema da loucura e a forma de a sociedade vê-la passou a ser discutido. 2002). Mas os questionamentos são necessários: será que o problema não está no próprio profissional. no trabalho. 2002). PINTO. anunciando o que estava sendo . (Cf. eram acompanhadas pelos ACS. devem ser objeto de aprofundada elaboração. Tentei. estamos nos referindo a limitações externas ou à falta de clareza e de vontade política nossa mesmo? Para uma efetiva entrada da Saúde Mental na Atenção Básica. dessa forma. saindo do isolamento. com demanda crescente e que não permitem ao profissional mudar de prática. pressão da demanda ambulatorial tradicional e manutenção de papéis profissionais. o trabalho apresentado resume as recomendações da Oficina de Brasília 2001. Por “demanda ambulatorial tradicional” compreenda-se ambulatórios cheios.

g. REFLEXÃO PEDAGÓGICA. as famílias e a comunidade.Intervenções familiares. de produzir uma proposta. alguns membros do nível central do PSF do Estado e de dois membros da Assessoria de Saúde Mental da SES-RJ que se dedicavam ao tema: Leila Vianna e Carlos Eduardo Honorato. 2000). b. para promover a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica nos municípios do Estado do Rio de Janeiro. de diversos municípios do Estado do Rio de Janeiro. indiquei. sempre em dupla e utilizando a Pedagogia da Problematização. com a finalidade inicial de dar aulas em cursos de Pós Graduação em Saúde da Família e. e. o Cadu. p. No final de 2002. i.Agentes Comunitários de Saúde como elementos de ligação entre as equipes de Saúde Mental. em que o Grupo discutiu como os seus membros estavam praticando e compreendendo a Saúde Mental na Atenção Básica. para a qual o Grupo teve capacitação. sob a coordenação de Sandra Fortes. fomos dar as aulas.Oficinas Terapêuticas Comunitárias. que já tinham alguma forma de trabalho de Saúde Mental na Atenção Básica. PINTO. 2002.Articulação com os CAPS e os Serviços Residenciais Terapêuticos. A experiência de dar as aulas foi interessante. do PSF. naquele momento: a. h. 7).Ações contra a discriminação. (Cf. Atuação como Acompanhantes Terapêuticos. formou-se o Grupo de Trabalho de Saúde Mental do Pólo de Capacitação/Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro. d.169 implantado em Macaé: uma equipe de Saúde Mental exclusiva para a Atenção Básica. 2002). depois. f. (PINTO.Contato estreito com o Pronto Socorro. Confirmamos o quadro que já percebíamos em outras observações: os profissionais dos PSF não possuem quase nenhuma informação a respeito de Programas de Saúde Mental. Depois de algumas reuniões. Como instrumentos para uma atenção aos transtornos mentais graves na Atenção Básica. O Grupo contou com a participação de profissionais de nove municípios. professor da UERJ. na medida em que foi possível observar as vivências e expectativas de um grande número de profissionais de PSF.Ações de promoção da saúde e de apoio social. para o atendimento das situações de crise. e com a instituição de internação (hospital psiquiátrico ou hospital geral). as cadeiras específicas nos cursos de formação . (Cf. além de Sandra Fortes e Luiz Fernando Chazam.Suporte constante entre Equipe de Saúde Mental e Equipe do PSF.Atendimento nas crises. c.

representando essa opinião o fato de que. percebemos que as Equipes não têm condições. . formadas no modo organicista e participantes do imaginário geral da sociedade. na sua quase totalidade. Se lembrarmos o que foi dito na Oficina de Brasília 2001. representam mais trabalho sem muita discussão. bem como com a função do cuidado já tendo sido espalhada pelas Equipes e comunidade. das ações de Saúde Mental implantadas. a verdade precisa ser dita: é mais trabalho. Até agora essa proposta não foi efetivada. do ponto de vista das intenções de introduzir a Saúde Mental na Atenção Básica. Podemos compreender que não dá maior trabalho chamar uma ambulância e mandar uma pessoa para o Pronto Socorro e daí para os hospícios. nas capacitações. Depois do final da tarefa de dar as aulas. depois da capacitação adiantada. não saber onde está internada Repetir receitas de benzodiazepínicos dá muito menos trabalho. conduzido pelo Grupo de Trabalho. bem como a má disposição em relação às capacitações que. do que questionar o porquê do uso. Notamos a sensação de esgotamento das Equipes.170 foram. dos resultados aparecendo. abrindo perspectivas que não se sabe em que resultarão. de reverter os dispositivos de exclusão. excludente. existe o medo de que a entrada da Saúde Mental represente mais um fardo no cansativo dia a dia do trabalho. Perder essa pessoa de vista. Os municípios enviariam os Coordenadores de PSF e de Saúde Mental. o Grupo de Trabalho produziu uma proposta de capacitação de Coordenadores Municipais de PSF e de Saúde Mental. das novas formas de trabalho em Equipe surgindo. Foi sugerida a divisão do Estado em três grupos de municípios. para um trabalho de capacitação. Esses dados reforçam a nossa conduta em relação às capacitações em Saúde Mental na Atenção Básica de que temos participado: não há como negar que a entrada da Saúde Mental representa mais trabalho para as Equipes. que se desdobraria em outras reuniões. de modo a estimular a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica. a carga de trabalho se amenize pelos efeitos que a correção dos procedimentos produz. após alguns meses. uma espécie de “cumpra-se”. com um total de cerca de 30 municípios por grupo (o Estado do Rio de Janeiro tem 92 municípios). por si mesmas. talvez o detalhe mais importante. dadas no modelo organicista. É possível que. as ações de Saúde Mental são revestidas de uma aura de mistério para esses profissionais e. no seu trabalho diário. que “o PSF convive com o modelo manicomial”. em geral. para avaliação do que estivesse sendo realizado nas práticas que surgissem. O que podemos e devemos fazer é abrir espaço para discutir a carga de trabalho e as angústias decorrentes e apontar para a satisfação profissional que virá da nova prática. Portanto.

reforçam as conclusões da Oficina de Brasília de 2001 e as orientações da OMS.. Os participantes da Oficina reafirmaram as diretrizes de todos os textos até aqui citados em relação à atuação da Saúde Mental na Atenção Básica. 2003. p. também de 2001. em Brasília. Um exemplo é o seguinte trecho: É fundamental a possibilidade de que a atenção básica exerça ação resolutiva no âmbito de suas ações que envolvem a saúde mental. que contou com a participação de 63 pessoas de vários Estados. p. Esperava-se do encontro. no que diz respeito à confluência de modos de ver a Assistência e a Promoção da Saúde. p.171 Em agosto de 2003. pois a ..] questão do modelo de funcionamento da integração da área de saúde mental com o PSF. O evento foi organizado pelo Departamento de Ações Programáticas Estratégicas e pela Coordenação Geral de Saúde Mental. promovido pelas áreas federais de Saúde Mental e de Atenção Básica. 2). 2003. modelo organizacional e clínico e ações específicas sobre saúde mental na atenção básica” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. cujos dirigentes apresentaram uma fala inicial. 2). Desse modo. situando as questões do momento. na assunção de responsabilidades entre a atenção básica. no “Pré-congresso” do VII Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva – ABRASCO. na sua ligação estreita com o território. do Ministério da Saúde. desafios na integração das ações de saúde mental na atenção básica” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2003. desafios da formação de pessoal para o atendimento comunitário em saúde mental. 2). O Objetivo da Oficina foi “Promover a discussão de questões que representam hoje. com ênfase na [.. bem como na relação saúde mental e violência urbana [. 2).. 2003.] (MINISTÉRIO DA SAÚDE. Foi solicitado a cada grupo de trabalho que se dedicassem a três questões: Qual o papel da atenção básica na atenção em saúde mental? Qual o desenho organizacional que possibilita a execução das ações/atividades de atenção à saúde mental na atenção básica de forma integrada? Qual as ações/atividades que devem ser desenvolvidas e as prioridades de atendimento. p. caps/rede ambulatorial? (MINISTÉRIO DA SAÚDE. A Oficina em questão representa mais um avanço na integração. a “Consolidação de consenso sobre diretrizes. realizou-se a “Oficina de Saúde Mental: Desafios da Integração com a Rede Básica”. em Brasília.

Multiplicado por nove. p. A questão é: o que se quer e o que se planeja para as ações das Equipes de Saúde Mental? Se for para retornar à proposta de apenas supervisão.172 lógica da referência para o nível de maior complexidade não responde muitas vezes ao melhor cuidado.. .Visando a discutir e compartilhar casos. ou como apoio matricial. MINISTÉRIO DA SAÚDE. 3). Consideremos: uma Equipe de PSF é responsável por uma população entre 600 e 1. 4) é fundamental para o sucesso das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. 6). pode ser que a relação proposta pela Oficina. p. de família e seus espaços de trocas sociais..000 pessoas. o que dá um total entre 2.600 e 36. serem abordados.. potencializados e olhados como o lugar e a esfera da realização do cuidado. p. 2003. 2003. estes. Voltamos. estar compondo ações de supervisão as equipes do PSF na área de saúde mental. O texto faz interessante paralelo entre os cuidados prestados nos dispositivos substitutivos da Saúde Mental e os proporcionados na Atenção Básica. Mais uma vez aparece o chamamento para a definição de indicadores de Saúde Mental na Atenção Básica. também mais uma vez. Foi advertido.000 pessoas. 3). temos entre 21. que está sendo citada. à questão da relação entre o número de Equipes de Saúde Mental dedicadas à Atenção Básica e o de Equipes de PSF e também a ligação que essas Equipes de Saúde Mental têm com os serviços de referência da rede de Saúde Mental. há pertinência dos problemas apresentados com o campo da comunidade.000 famílias.. 2003). (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. mas não há especificação de quais seriam. elaborar junto com a equipe planejamento coletivo das ações em saúde mental local. 2003. portanto.400 e 4. do PSF para cada 9 equipes do PSF (de forma que esta esteja referenciada em um serviço Caps ou de referência de saúde mental). que a “[. elaborar projetos de cuidado e intervenção social.] foco no território e no vínculo” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. que devem ter as mesmas características de “[. A parte do relatório dedicada aos “Princípios e Ações de Saúde Mental no PSF” inicia com a recomendação de constituição [. Que podem sim. já que em diversos aspectos. 2003. Sabemos que a tendência é de os números de famílias adscritas nos Módulos de PSF serem próximos do limite superior e não do inferior.] de uma equipe de Saúde mental de referência. p. seja viável..] efetiva implantação da rede de atenção” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. apoio técnico caracterizado como capacitação continuada (MINISTÉRIO DA SAÚDE. (Cf. Podendo ainda alguns técnicos destes serviços ambulatoriais de referência e dos Caps.

080 pessoas. diminuição . E. 3% da população necessitam de cuidados constantes e prolongados em Saúde Mental. O que pode ser destacado dessa discussão é que o que importa é o CAPS como conceito. depois. Apenas esse número representa um total entre 648 e 1. de acordo com o que observo na prática. Dos relatórios apresentados pelos Grupos de Trabalho. diretamente. na sua “Consolidação dos Trabalhos de Grupo”.”. Tarefa difícil de ser realizada apenas pelas Equipes de PSF. Estão nesses números apenas as pessoas chamadas de “pacientes graves”. 2003. a meu ver.173 mas se for para a Equipe de Saúde Mental atuar nas comunidades. CAPS ou outro dispositivo. como sempre assinala Domingos Sávio. considerando que muitas outras ações estão previstas e propostas.] diminuição de prescrição de medicamentos. que indicam a presença na base. egressos dos NAPS e outros recursos ambulatoriais especializados” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. vejamos. continuidade de atenção. a proporção inviabiliza a proposta.. relaciona todas as ações já propostas na Oficina de Brasília 2001. parece-me que a forma mais correta de situa-la é no Programa de Saúde Mental. articulação de condições de vida. O Relatório que está sendo citado. este sim. Senão. com o destaque para a utilização de indicadores que já podem ser incorporados no trabalho diário: “[. Do contrário. inserção e articulação familiar e comunitária. Pelos cálculos da OMS e do Ministério da Saúde. p. em “Acompanhamento/Acolhimento de usuários egressos de internações psiquiátricas. condiciona-se a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica e até mesmo a melhor organização da rede de assistência à existência de CAPS. com ações de inserção social. o número é excessivo. CAPS enquanto conceito que envolve integralidade. Para apenas uma Equipe de Saúde Mental. A criação de indicadores de Saúde Mental na Atenção Básica foi mais uma vez lembrada nesse encontro. geração de renda. e não apenas como estrutura física ou serviço. que teriam que receber o tipo de assistência qualificada proposta.. cidadania. A articulação deve ser entre todos os serviços. não deixa explícita a opção pela presença dos profissionais de Saúde Mental diretamente na comunidade. organizador do sistema e não o NAPS. grifos meus). clínica ampliada. 6. Quanto à ligação que essas Equipes de Saúde Mental têm com os serviços de referência da rede de Saúde Mental. citarei apenas os itens que não repetem o que foi descrito a respeito da Oficina de Brasília 2001 e aqueles que são mais prioritários. organizada no Programa de Saúde Mental. mas fala em “Atuação e sensibilização para a escuta e compreensão da dinâmica familiar e das relações sociais envolvidas.

] apoio matricial as equipes de PSF (discutir e compartilhar casos. com 19%. que responderam.174 de internação psiquiátrica. e foi assinalado que deve ser sob a forma de “Suporte ‘in locus’ do especialista – ‘fazer junto’” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.]” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. têm as seguintes ações: discussão de casos clínicos. Dos 72% de municípios que responderam ao questionário. Dez municípios têm reuniões regulares entre o Programa de Saúde Mental e o PSF. o trabalho “Integração entre os Programas de Saúde Mental e de Saúde da Família no Estado do Rio de Janeiro” (Cf. 8) e “[. 2003. p. p. A questão do nível de participação dos profissionais de Saúde Mental na Atenção Básica foi discutida. VIANNA & HONORATO. sem nenhuma ênfase no social e no emocional: um enfoque curativo e sem incidência de promoção de cidadania. para quantificar as ações de Saúde Mental na Atenção Básica em curso. mas requer a participação junto à comunidade. Uma preocupante advertência. Podemos entender que essas “novas tecnologias”. ir junto no domicílio etc)” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. reforçada a idéia de que a inserção do profissional de Saúde Mental na Atenção Básica não se esgota em Supervisões.. os autores mostram os resultados de pesquisa feita com os 92 municípios do Estado. Leila Vianna e Carlos Eduardo Honorato apresentaram.. 10). 8). diminuição de suicídios e homicídios [. porque muito real.. articulação em rede e identificação de casos de transtornos mentais pelas equipes do PACS/PSF. Com essas afirmativas está. mas em apenas em 46% deles as ações são regulares (cerca de 24 municípios). de acordo com informação . Notese que não são os mesmos municípios que têm as mesmas ações. 10). No trabalho. com 16% e o acompanhamento medicamentoso pelo PSF. Com mais freqüência temos as visitas domiciliares em conjunto e as capacitações. E por “equipe de PSF sem perfil ou qualificação mínimas”. 80% declaram que têm alguma articulação com o PSF. no XXI Congresso Brasileiro de Psiquiatria. enfrentam-se 2 problemas que devem ser lembrados: equipe de CAPS não sensibilizada para novas tecnologias e equipe de PSF sem perfil ou qualificação mínimas” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. p. Em agosto de 2003. elaborar projetos. 2003. 2003).. supervisões regulares. que as aludidas equipes dos CAPS não incorporam. 2003. compreendemos o que resulta das formações da área de Saúde voltadas para o corpo. mais uma vez. em Goiânia. é a que fez um dos Grupos de Trabalho: “Hoje. p. são as que indicam o trabalho em rede e a assistência enquanto disparadora de movimentos sociais. 2003. caindo num movimento voltado apenas para as pessoas identificadas como pacientes e para dentro dos limites institucionais. e cerca de 12% dos municípios.

p. O texto tem início com a lembrança das “[. conseqüentemente. sendo as duas últimas em Macaé.. de desassistência. aparece um significativo aumento durante o ano de 2000.] a proposta de estruturação de uma ação conjunta do Programa de Saúde Mental e do Programa de Saúde da Família mostra-se estratégica para ambos os Programas” (SES-RJ. diz o texto: “[. 2003. O texto lembra que de 80 a 85% da demanda de saúde de uma comunidade podem ter resolubilidade na Atenção Básica. citando o Ministério da Saúde. O texto afirma que o Programa de Saúde Mental Defende igualmente que aqueles que são chamados a cuidar devam preencher as redes e relações produzindo atos de saúde que multipliquem a vida e. muitas vezes.175 dos autores. Oficinas Terapêuticas e Terapia Comunitária aparecem em 1% dos municípios. Partindo de cerca de dois antes de 1999. 2). p. Ressaltando a importância do acesso à atenção à Saúde Mental. 2). foi lançada a “Carta de Princípios das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”.] o trabalho efetivo com as famílias em seu local de residência permite identificar diversas formas de sofrimento. 2003. p.] rede de serviços territoriais de atenção psicossocial” (SES-RJ.. O texto. da mesma Secretaria.. a Carta de Princípios ressalta que [. 2003. Durante os anos de 2001 e 2002 a curva acentua o crescimento. lembra a diretriz de “[.. Portanto. sendo de Saúde Mental grande parte dessa demanda. No final do ano de 2003. o acesso aos equipamentos sociais distribuídos. já que continuam a linha de pesquisa. 2003. dificultada muitas vezes por falta de percepção do problema pelo meio ou por falta de informação e recursos para procurar tratamento fora da comunidade... Os autores prometem para breve mais dados.. Pesquisa. p.. que se dará com a construção da “[.] semelhanças de diretrizes na condução dos dois programas” (SES-RJ. É interessante observar a curva que mostra a época de início das ações de Saúde Mental na Atenção Básica nos municípios pesquisados. de responsabilidade da Assessoria de Saúde Mental da Secretaria de Estado de Saúde do Estado do Rio de Janeiro e da Coordenação Estadual do Programa Saúde da Família e Agentes Comunitários de Saúde. 2003. três em 1999. de processos que podem transformar as diferenças em desigualdade e exclusão (SES-RJ. 2003. a Organização Pan-americana da Saúde (OPAS) e a OMS. 1) e a afirmação dos conceitos de base para o tema: território e rede. de forma não equânime nos territórios (SES-RJ.] mudança do modelo assistencial em saúde mental” (SES-RJ. p. quando quinze municípios tomaram a iniciativa.. p. . subindo um pouco menos pronunciadamente do meio de 2002 até o meio de 2003. 2).. 1). 2).

] possibilitando a criação de indicadores de acesso e impacto bem como o acompanhamento e monitoramento das ações em curso” (SES-RJ. 2003. afirmando o papel da SESRJ na “[. SES-RJ. A Carta sugere a ampliação dos “[. 2003). 2).. (Cf... etc.. Mais uma vez é sugerido. (Cf. que o Sistema de Informação em Saúde Mental se articule com o Sistema de Informação da Atenção Básica (SIAB).176 O texto da Carta destaca que.. a ação da Saúde Mental para além da remissão dos sintomas. “[. a Carta reafirma a orientação de mudança do modelo hospitalocêntrico. 2). 3). o domicílio. na forma de mútuo aprendizado. existem as diversas formas de sofrimento mental que têm na Atenção Básica seu primeiro recurso de atendimento: as ansiedades. (Cf.. além dos transtornos mentais mais graves. p. Um importante pronunciamento é o que diz que “É fundamental que o(s) profissional(is) de Saúde Mental que atua(m) no PSF esteja(m) ligado(s) ao Programa Municipal de Saúde Mental” (SES-RJ. o bairro. 3).. a violência. (Cf. p. a inclusão da Saúde Mental no Treinamento Introdutório das Equipes de PSF e a realização de “[. a reversão dos especialismos. dos encaminhamentos. Como estratégias. 2003). a Carta recomenda a capacitação das Equipes de Saúde da Família. 3).] espaços tradicionalmente reconhecidos como lugares de atendimento: além do consultório e sala de procedimentos.. a rua. 3). a escola..] oficinas regionais de acompanhamento e avaliação da integração dos Programas de Saúde Mental e Saúde da Família” (SES-RJ.. 2003. os “distúrbios nurovegetativos”. p. 2003. Dentro dos Objetivos Específicos.. SES-RJ. a definição do fluxo de pacientes. SES-RJ. dentro dos Objetivos Específicos. 2003. a Carta indica a capacitação das Equipes de PSF na atenção à Saúde Mental. as tentativas de suicídio. para “[. p.]” (SES-RJ. SES-RJ. A Carta não entra na questão da inserção de Equipes de Saúde Mental na comunidade. 2003. . 2003). o estabelecimento de contato entre os Programas.” (SES-RJ. 2003. Esta integração deve se dar com o conhecimento mútuo. 2003. 3). A Carta tem como objetivos “Estabelecer o conjunto de princípios e diretrizes [.] integração das políticas de Saúde Mental e de Saúde da Família no âmbito do Estado do Rio de Janeiro” (SES-RJ.. Como meio de chegar a esses Objetivos. p.] o desenho das ações de saúde mental na atenção básica dos 92 municípios do Estado do Rio de Janeiro” (SES-RJ. p. limitando-se a sugerir a integração entre os Programas Municipais de Saúde Mental e de Saúde da Família. 2003). p.

p. os clubes de lazer. visto que diagnosticados de portadores de transtornos mentais graves. p 3).).] a atenção em saúde mental deve ser feita dentro de uma rede de cuidados. MINISTÉRIO DA SAÚDE.] todo problema de saúde é também – e sempre – mental. grifo do texto original). O documento define que “[. Ao lado de lembrar que 3% da população necessitam de cuidados contínuos em saude mental. O Vínculo e o Diálogo Necessários. p. (Cf. através da Coordenação de Gestão da Atenção Básica e da agora chamada Coordenação Geral de Saúde Mental. 2003 b. p. mas com a observação de que “Deve ser um serviço que resgate as potencialidades dos recursos comunitários à sua volta. 2003 b. 2. Estão incluídos nesta rede: a atenção básica. dentro da atual política de saúde mental do MS. Argumentado com a complexidade que representa “[. Diríamos que falta capacitação às Equipes de PSF para a melhor compreensão da Saúde Mental e falta capacitação às Equipes de Saúde Mental para melhor compreensão do que é a Atenção Básica e sua potencialidade em relação à Saúde Mental. são considerados dispositivos estratégicos para a organização da rede de atenção em saúde mental” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. 3). e que toda saúde mental é também – e sempre – produção de saúde” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. O documento reafirma que “Os CAPS. 2003 b. entre outros”.177 Em novembro de 2003. . concluindo que “Por sua proximidade com famílias e comunidades. 2003 b. (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2003 b. O texto começa por situar a estratégia Saúde da Família e os novos dispositivos substitutivos em Saúde Mental como avanços na política do SUS nos últimos anos.. p. 2). drogas e diversas formas de sofrimento psíquico” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2003 b. Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”.. MINISTÉRIO DA SAÚDE.. as residências terapêuticas. 2003 b. 2). 2003 b.. as equipes da atenção básica são um recurso estratégico para o enfrentamento de agravos vinculados ao uso abusivo de álcool. o Ministério da Saúde. p. pois todos esses recursos devem ser incluídos nos cuidados em saúde mental” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. 2003 b. lançou o texto “Saúde Mental e Atenção Básica.). (Cf. os centros de convivência. 3). Outro motivo que o texto apresenta para a articulação da Saúde Mental com a Atenção Básica é o fato de que “[. os ambulatórios.] atender pessoas com problemas de saúde mental” (MINISTÉRIO DA SAÚDE... o texto diz que muitas situações de transtornos mentais menos graves já estão sendo atendidos na atenção básica. p 3).] a falta de recursos de pessoal e a falta de capacitação acabam por prejudicar o desenvolvimento de uma ação integral pelas equipes” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. o texto diz que “[.

a equipe por ele responsável. realizado por parceria entre o Ministério da Saúde. e a “Oficina de Saúde Mental no VII Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva”. p. a Universidade Federal do Rio de Janeiro e a Universidade de Harvard. que reforça os documentos já produzidos: “[.] devem estar fundamentadas nos princípios de SUS e nos princípios da Reforma Psiquiátrica” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. que pode se efetivar através de discussões conjuntas de caso. Ressaltando que as ações de Saúde Mental na Atenção Básica “[. já que vinda do Ministério da Saúde. 2003 b. (Cf. 4). p. o “Seminário Internacional sobre Saúde Mental na Atenção Básica”. 4). dentro da nossa questão a respeito da inserção do profissional de Saúde Mental na comunidade..178 O texto traz uma declaração importante. Aqui. o que ajuda a fornecer uma base para a capacitação das Equipes: Noção de território Organização da atenção à saúde mental em rede Intersetorialidade Reabilitação psicossocial Multiprofissionalidade/interdisciplinaridade Desinstitucionalização Promoção da cidadania dos usuários Construção da autonomia possível de usuários e familiares. 2003 b. 3). Esse compartilhamento se produz em forma de co-reponsabilização pelos casos. as equipes da atenção básica responsáveis pelas famílias de um dado território). p 3). p. aparece uma importante definição do Ministério da Saúde: os profissionais . 2003 b. intervenções conjuntas junto às famílias e comunidade ou em atendimentos conjuntos (MINISTÉRIO DA SAÚDE. diretrizes que incluam a dimensão subjetiva dos usuários e os problemas mais graves de saúde mental” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. compartilha alguns casos com a equipe de saúde local (no caso.] urge estimular ativamente. formulação e avaliação da atenção básica.. nas políticas de expansão. a OPAS. Para produzir as suas diretrizes.. 2003 b. p. (MINISTÉRIO DA SAÚDE. o documento sintetiza esses princípios fundamentais. 3).. o documento toma por base a Oficina de Brasília de 2001. em 2002. 2003 b. Nesse arranjo. MINISTÉRIO DA SAÚDE. O documento tem início com a definição do “Apoio Matricial da Saúde Mental às Equipes da Atenção Básica”: O apoio matricial constitui um arranjo organizacional que visa a outorgar suporte técnico em áreas específicas às equipes responsáveis pelo desenvolvimento de ações básicas de saúde para a população.

com os princípios do SUS e da Reforma Psiquiátrica e com a tentativa de dotar a área de Saúde de ações que integrem os aspectos biológicos. com uma importante orientação vinda do MS. O texto aponta possibilidade de. pois visa a aumentar a capacidade resolutiva de problemas de saúde pela equipe local. base mesmo para o Apoio Matricial.179 responsáveis pela capacitação e supervisão. A orientação do MS é interessante. 2003 b. muitas vezes deixando de realizar ações comunitárias devido à sobrecarga de trabalho. o texto recomenda: . Trata-se de Equipes em geral esgotadas na sua capacidade de atendimento. aos poucos. a Equipe de Saúde Mental para o Apoio Matricial. definida como Apoio Matricial. desta vez. Imaginemos uma Equipe de PSF sem capacitação em Saúde Mental e trabalhando na lógica manicomial. isto é. emocionais e sociais. talvez só com mudanças ainda não vislumbradas na estrutura do PSF poderá a Equipe de Saúde Mental sair do território. No item “Como Organizar as Ações de Apoio Matricial”. em número crescente. mas. p. A ampliação da clínica significa o resgate e a valorização de outras dimensões. Não há abordagem especial a transtornos mentais graves. demonstração. Equipe que estará presente no território. na análise singular de cada caso. essa presença ir tornando-se desnecessária: A responsabilização compartilhada dos casos exclui a lógica do encaminhamento. 4). Mas. estão criados a base e o caminho para a mudança do Modelo Assistencial. então. Assim. Assim. na própria comunidade. presença essa que serve de exemplo. Com o número de famílias a serem atendidas. não há prioridade a respeito das pessoas em risco psicossocial e as situações de maior gravidade são atendidas pelo que está estabelecido tradicionalmente no município. Orientação coerente com a mudança do modelo assistencial. que não somente a biológica e a dos sintomas. Esta é a realidade que temos constatado. Chega. não vejo como viável a absorção de todas as ações de Saúde Mental pela Equipe de PSF. Excluindo a lógica dos encaminhamentos e apontando para a resolução das situações de Saúde Mental. riscos como os sociais e outros se incorporam à avaliação clínica (MINISTÉRIO DA SAÚDE. Mas a questão da inserção do profissional de Saúde Mental persiste. ao longo do tempo e gradativamente. fica a orientação do MS como um indicativo do caminho a seguir. estão presentes nas Equipes e nas ações na comunidade. no momento. até que a Equipe local de PSF absorva todas as ações necessárias à atenção em Saúde Mental. responsabilização compartilhada. também estimula a interdisciplinaridade e a ampliação da clínica na equipe. às cobranças de números ou à deficiência na supervisão.

por um médico psiquiatra (ou generalista com capacitação em saúde mental). o número de inscritos nos Concursos Públicos nos mostra a quantidade de profissionais à espera de trabalho. mas está aquém da urgência que se apresenta. dois técnicos de nível superior (psicólogo. teríamos Equipes de Saúde Mental sobrecarregadas. etc. em grande número no país. Para suprir a aparente escassez de recursos humanos. Essas Equipes devem estar estreitamente ligadas aos CAPS. enfermeiro. inclusive os intersetoriais. precisamos estar organizados. Pela orientação do MS. E a quantidade de pessoas desassistidas.180 Onde houver Caps. é imenso. de carência absoluta de mão de obra de profissionais de Saúde Mental. é importante sinalizar para os municípios que é necessário investir em Saúde Mental. terapeuta ocupacional. e formas de contato para demandas inesperadas e intercorrências (MINISTÉRIO DA SAÚDE. 2003 b. Para estes.) e auxiliares de enfermagem. para que se obtenha o que está na proposta da Coordenação de Saúde Mental do MS. sendo o investimento principal o de recursos humanos. que a orientação acima deixa transparecer. para 2004. de acordo com o que consta da página da Internet do MS. capacitando e supervisionando Equipes de PSF igualmente sobrecarregadas. 4). p. a orientação é trabalhar na . 2003 b. para no mínimo 6 e no máximo 9 equipes de PSF ou para grupos populacionais entre 15 a 10 mil habitantes (MINISTÉRIO DA SAÚDE. assistente social. programando sua carga horária para encontros semanais. Sabemos que as Equipes dos CAPS estão sobrecarregadas. Também aqui. Para locais onde não existem serviços de Saúde Mental em número suficiente para fornecer o Apoio Matricial. por exemplo. a 336. A Coordenação de Saúde Mental do MS não recomenda CAPS para municípios de menos de 20 habitantes. 4). Pelo contrario. O que propomos é a constituição de Equipes de Saúde Mental exclusivas para a atuação na Atenção Básica. no mínimo. E não estamos num daqueles cenários descritos pela OMS. Além disso. como um dos “desafios”: “Aumentar recursos do orçamento anual do SUS para a Saúde Mental” (MINISTÉRIO DA SAÚDE e). à Saúde em geral e a todos os recursos da comunidade. o texto propõe a Criação de equipes de apoio matricial compostas. p. que só com o trabalho comunitário podem ser descobertas. bem como a toda a rede de assistência à Saúde Mental. a orientação do MS é coerente quanto aos princípios e diretrizes da Reforma Psiquiátrica e das Portarias. Oficinas e/ou outros equipamentos de Saúde Mental: os diversos membros dessas equipes de saúde mental farão o apoio matricial às diferentes equipes da atenção básica.

No capítulo “Responsabilidades Compartilhadas entre as Equipes Matriciais de Saúde Mental e da Atenção Básica”. 5). 2003 b. quando da exposição da Oficina de Brasília 2001 e da Oficina de Saúde Mental no VII Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva. de forma desarticulada. tentativas de suicídio e vítimas de violência doméstica. atendimento em conjunto e atendimento específico. p. Trabalhar o vínculo com as famílias e articular redes de apoio. Núcleos esses que “[. já vinham desenvolvendo capacitações específicas em suas áreas. porém. discutindo propostas conjuntas (MINISTÉRIO DA SAÚDE. O documento reconhece que Os pólos de Saúde da Família. p. 2003 b. haverá. o Ministério da Saúde traz recomendações para a formação de pessoal. (Cf. unidades acadêmicas envolvidas. Segundo o texto. 2003 b. alem de participar das iniciativas de capacitação” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. p. porém. etc. 2003 b).] estão se constituindo com representantes de SMS. Mobilização de recursos comunitários. MINISTÉRIO DA SAÚDE. 5). Além das ações acima. de uso abusivo de álcool e outras drogas. resumidamente: ações conjuntas priorizando casos de transtornos mentais graves. SES. Desenvolver práticas grupais e coletivas. o que é “atendimento específico”. 5). a implantação de “[. No penúltimo capítulo do texto. p. 2003 b. vemos uma declaração de princípios que resume o que já foi dito: “As equipes de saúde mental de apoio à atenção básica incorporam ações de supervisão. A lista de ações dá a dimensão da enorme tarefa que as Equipes tem diante de si. com o título “Formação como Estratégia Prioritária para a Inclusão da Saúde Mental na Atenção Básica” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. pacientes de CAPS. De acordo . Discussão de casos que envolvam o aspecto emocional. da parte da Coordenação de Saúde Mental (do MS).. bem como os pólos de saúde mental.. Reverter a medicalização. Na atual gestão. MINISTÉRIO DA SAÚDE. 6).181 lógica de Apoio Matricial descrita na última citação. 2003 b. Ações contra o preconceito e a segregação da loucura.” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. Não fica claro.] Núcleos Regionais de Capacitação e Produção de Conhecimento no interior dos Pólos de Educação Permanente em Saúde” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. egressos de hospitais psiquiátricos. 6). esses pólos deverão se adequar às novas diretrizes da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde. 2003 b).. (Cf. São elas. Desenvolver estratégia de redução de danos no consumo de álcool e outras drogas.. o documento reafirma as ações a serem desenvolvidas em conjunto pelas Equipes e que já foram descritas anteriormente. p. por meio dos Pólos de Educação Permanente em Saúde.

. p. de indicadores de monitoramento baseados no conceito de território. a estratégia de capacitação a ser desenvolvida pelos núcleos se entrelaça com a da implantação das equipes de apoio matricial. uma importante observação: Visando ao estímulo para a formação permanente e não somente para capacitações pontuais.] recursos do Projeto de Apoio à Expansão do Programa de Saúde da Família (PROESF). 2003 b. p. A Formação que o MS se propõe a proporcionar consta de cursos a serem oferecidos ao pessoal da rede básica. portanto.]” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. existe a proposta de financiamento da capacitação.] instrumentos de apoio/cooperação para os municípios que estiverem realizando ações de saúde mental na atenção básica no sentido de qualificar a rede e o cuidado. desta vez. O documento diz que o financiamento da Formação/Capacitação proposta terá as seguintes fontes: [. e “[. esses são “[.182 com o texto. no SIAB. 6). 2003 b. de recursos específicos da Coordenação Geral de Saúde Mental. mais uma vez.. problema e responsabilidade sanitária [. 6). 2003 b. O que dá maior importância ao texto citado é que. 6). p. 6).. Quanto à incorporação de indicadores da Saúde Mental nos Sistemas de Informação da Atenção Básica. 2003 b. e de repensar as estratégias de formação” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. com divisão de tarefas entre as três instâncias de gestão do SUS. anunciando que “Está em discussão a introdução... p. 2003 b. 6). 2003 b. de recursos da Secretaria de Gestão do Trabalho e de Educação na Saúde (SEGTES) para os Pólos de Educação Permanente em Saúde. pois essas podem trabalhar na linha da formação continuada e em serviço. que está sendo descrita. Estão lançadas.. discutindo casos e textos junto às equipes da atenção básica (MINISTÉRIO DA SAÚDE. O último capítulo do texto trata da “Inclusão da Saúde Mental no Sistema de Informações da Atenção Básica” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. e das parcerias entre gestores locais e estaduais (MINISTÉRIO DA SAÚDE. p. Para concluir o capítulo sobre Formação.] suporte e orientação técnica aos núcleos em formação e aos gestores locais” (MINISTÉRIO DA SAÚDE.. também englobe os municípios que querem investir na Saúde Mental na Atenção Básica e mesmo uma divulgação ampla do que já é possível realizar. o texto indica que estão propostos indicadores que retratam percentuais de pessoas acompanhadas pela rede básica que tenham problemas com álcool e .. as diretrizes em nível nacional para a Saúde Mental na Atenção Básica. p 6). Devemos supor que a determinação de apoio para a Formação.

nos seus momentos finais. uma apresentação do já citado trabalho de Leila Vianna e Carlos Eduardo Honorato (Cf. Abordagem de pessoas com diagnósticos de transtornos mentais graves. 2003). na referida Assessoria.. Em abril de 2004. Nos debates. toma o aspecto de uma reportagem. percentual de pessoas egressas de internações psiquiátricas e prevalência das epilepsias. com uma introdução teórica. Em julho de 2004. Psiquiatra. Oficinas Terapêuticas na Atenção Básica e no CAPS (discussão com a presença de um Terapeuta Ocupacional do CAPS). 2003 b). ainda. A redação desta monografia. 2003 b. prossigamos. numa das suas reuniões bimensais com os Coordenadores Municipais de Saúde Mental. Os temas foram: Infraestrutura e realidade no trabalho dos profissionais de Saúde Mental na Atenção Básica.. com a saída de Leila Vianna da Assessoria de Saúde Mental da SES-RJ. sugeridos indicadores que revelem o “Número de pessoas que utilizam benzodiazepínicos atendidas pela rede básica [. fui convidado para colaborar. coube-me expor o que está sendo praticado em Macaé. Estão. número de pessoas com transtornos mentais graves. a respeito da “Integração entre os Programas de Saúde Mental e de Saúde da Família no Estado do Rio de Janeiro”. Mas uma reportagem onde o repórter está em ação no campo reportado. Supervisora. a mudança do tipo de prática que o profissional de Saúde Mental está sendo instigado a fazer. detalhes das capacitações. a Assessoria de Saúde Mental da SES-RJ promoveu. Débora Oliveira B. a diversidade de práticas da Equipe. Em julho de 2004. Assim sendo. MINISTÉRIO DA SAÚDE. (Cf.183 outras drogas. Expansão e Capacitação de novos profissionais. foram explorados os temas de integração Saúde Mental na Atenção Básica com os CAPS. tendo em vista a dinâmica dos acontecimentos. a Equipe de Saúde Mental na Atenção Básica de Macaé realizou seu Primeiro Fórum Interno de Saúde Mental na Atenção Básica. Visita Domiciliar e Interconsulta: quando fazer?. e um exemplo de ação da Equipe em torno de uma pessoa com diagnóstico de transtorno mental grave. VIANNA & HONORATO. junto a Carlos Eduardo Honorato. nas tarefas de continuar a estruturar a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica nos Municípios do Estado do Rio de Janeiro. p 6). Logo após a esta apresentação.]” e o “Percentual de pessoas com tentativa de suicídio acompanhadas pela rede básica” (MINISTÉRIO DA SAÚDE. Jeovani e Maria do . como forma de estimular a que os Coordenadores Municipais insiram ações de Saúde Mental na Atenção Básica. Neste momento a Equipe de Saúde Mental na Atenção Básica estava composta por: Naly Soares de Almeida. a rapidez dos resultados das ações implantadas.

começou a trabalhar na localidade a Terapeuta Ocupacional . Mas. despertado pelas formas diversas com que são recebidos. a essa altura. mesmo que momentaneamente. mas entrou no assunto da infraestrutura pessoal necessária para o trabalho com as comunidades. variando de uma atitude de negação da presença dos profissionais de Saúde Mental. As reações das Equipes da Atenção Básica. podendo. às vezes. No Fórum. O CAPS seria mais atrativo. com a ajuda da Equipe. mais fáceis de atender. foi o de solidão. em certo sentido. ou em casos em que a rede de apoio social ainda não foi possível de ser tecida. Assistente Social e Stephan Malta Oliveira. foram estabelecidas comparações entre as Oficinas Terapêuticas realizadas no CAPS e na Atenção Básica. afastada do centro. Psiquiatra. A paciência foi a principal virtude apontada para a compreensão das necessidades das Equipes da Atenção Básica. que são duas as demandas que as Equipes de Saúde Mental na Atenção Básica tem que atender: as da população e as das Equipes de PACS e PSF. Regina Helena Monerat. Terapeutas Ocupacionais. até o outro extremo. com a advertência de que as Oficinas Terapêuticas nas comunidades devem ser estabelecidas dentro da evolução do trabalho geral da Saúde Mental. com uma Supervisão de Equipe semanal e uma Terapia Comunitária quinzenal. onde a entrada da Saúde Mental se deu.184 Carmo Húbner Stróglio. e não antes. visto que são mais claras e o pedido de ajuda mais evidente. situação em que parece que não há nada a ser realizado em termos de Saúde Mental. nessa discussão. Rosemary Gonçalves de Souza. citadas acima. O diálogo entre CAPS Básica prosseguirá. inicialmente. a cargo da Supervisora da Equipe de Saúde Mental. ajuda a que cada membro não se deixe identificar com o papel de excluído. Desta última podem beneficiar-se pessoas cujo comprometimento mental é grave e que a rede de suporte social e familiar não é suficiente nem para conduzi-lo ao CAPS. Psicóloga. As demandas da população são. onde toda a tarefa da assistência à Saúde Mental tende a ser “empurrada” para a Equipe de Saúde Mental. de modo mais ou menos sutil. O sentimento dos profissionais de Saúde Mental. e como tal deve ser trabalhado. foram compreendidas como resultantes do fenômeno da exclusão. Foi avaliado o andamento do trabalho numa região de serra do município (Sana). que foi detectado no Fórum. Elaborar esse sentimento. nas suas reuniões. A discussão do tema “Infraestrutura” não se prendeu apenas a detalhes do registro dos procedimentos da necessidade de transporte e de material de consumo. com a criação de mecanismos de integração. trabalhar a situação junto às Equipes da Atenção Básica. para situações de carência de um suporte institucional mais estabelecido. Está claro para todos os membros da Equipe. então. Recentemente. os pedidos das Equipes são mais complexos. Ficamos.

que iniciou sua atuação oferecendo-se para Visitas Domiciliares. que surgiu do trabalho do Módulo do PSF com a Saúde Mental. Depois das primeiras Visitas. cria-se um campo mais efetivo de capacitação e de conclusões para as ações. . mais importante. Nesta localidade.. muitas vezes sendo realizada apenas visando os sintomas. A discussão a respeito de Visitas Domiciliares e Interconsulta levou a algumas conclusões: a Visita Domiciliar é pouco discutida no PSF. O tema já foi assunto de capacitação da Saúde Mental e deve voltar a ser mais discutido. As abordagens seguem a forma de trabalhar já descrita. de individualização do atendimento (cada caso é um caso. A Interconsulta ainda não está completamente absorvida no dia a dia do profissional dos módulos. a Supervisora. Foi decidida uma reunião que terá como participantes os médicos de áreas onde já esteja em atuação a Equipe de Saúde Mental. isto é. a comunidade mobilizou-se e surgiram solicitações para atendimento de pessoas graves. estudo de textos. para que a Equipe de Saúde Mental atuasse com mais determinação. depois da Visita. familiar e social. decide-se que passarão por observação do trabalho que está sendo realizado. Quanto à Capacitação dos novos profissionais de nível superior que estão para serem integrados à Equipe de Saúde Mental na Atenção Básica. na medida em que discute-se previamente com mais intensidade os seus motivos e a história do que está sendo abordado e. do alcance das ações. que partem da Escola. notando-se alguns bons resultados e. Em todas as situações estudadas. também. situações de adiamentos e impedimentos. as pessoas não estavam em tratamento regular e tinham histórias de longo curso do problema e/ou de diversas internações psiquiátricas. que fosse mais adiante.. outros com diagnóstico de psicose. para situações de pedido de intervenção à Saúde. através de Concurso Público. no Fórum. com as ações de Capacitação. na ajuda às Equipes dos Módulos de PSF na resolução de seus conflitos internos e na ajuda para que essas Equipes realizem trabalhos comunitários. Foi decidido tornar a Visita Domiciliar mais “precisa”. Foram discutidos. inicialmente. alguns acamados. Um fato que considero como um dos resultados mais positivos do trabalho implantado em Macaé foi a solicitação.) e máxima expansão. feita pela Coordenadora do PSF. casos de abordagem a pessoas com transtornos mentais graves. Visita Domiciliar e Interconsulta. Uma Equipe completa entrará em dois Módulos de PSF. portanto.185 Maria do Carmo. o Psiquiatra e o autor dessa monografia. isto é. alguns confinados em casa. junto com ACS. está em atuação regular uma Reunião de Saúde Comunitária. sem tratamento.

a Odontologia. no Rio de Janeiro. uma iniciativa da Coordenação Estadual do Programa Saúde da Família e Agentes Comunitários de Saúde. À tarde. Maria do Socorro Matos. Note-se que não há aceno de financiamento para as ações. A representante do Ministério da Saúde informou. da pesquisa realizada por Leila Vianna e Carlos Honorato. Na ocasião. reafirmou a necessidade estratégica das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. já citada nesta monografia. que terão a presença de supervisores das diversas áreas da Saúde que estão atuando no PSF. Maria do Socorro informou. houve a apresentação de experiências de Saúde Mental na Atenção Básica de três municípios do Estado do Rio de Janeiro: Petrópolis. foram reafirmadas as necessidades de integração entre a Saúde Mental e os Programas de Atenção Básica. e sim para Supervisão. a Fisioterapia e a Saúde Mental. depois de questionada a respeito da demora do estímulo de financiamento para as ações de Saúde Mental na Atenção Básica. com apoio da Assessoria de Saúde Mental da SES-RJ. A Coordenadora de Saúde Mental da SES-RJ. Sandra Fortes e Marta Zappa. Em 16 de setembro de 2004. tivemos uma mesa redonda com a participação de Maria do Socorro Matos. O Encontro foi dividido em duas partes: durante a manhã. Niterói e Macaé. ressaltou que. o que ensejará a introdução de indicadores próprios da Saúde Mental. apesar da intenção de os Coordenadores Municipais de Saúde Mental .186 Em 18 de agosto de 2004. Coordenadora de Gestão da Atenção Básica do Ministério da Saúde. também. consultora de Saúde Mental do Departamento de Atenção Básica do MS. foi um ponto marcante nos debates. que está em fase final de aprovação a criação de “Núcleos de Saúde Integral”. no Rio de Janeiro. O evento teve a coordenação de Mário Barreira Campos. aconteceu. o Centro de Estudos do Instituto Municipal Philippe Pinel. o “I Encontro Estadual de Integração das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. que atuarão junto às Coordenações Municipais de PSF. que está em estudo a reformulação global do SIAB. na sua fala. Cristina Loyola. e de Maria Amélia Alves. como por exemplo. tanto a violência doméstica quanto a urbana. O tema da violência nas comunidades. haverá estímulo financeiro. depreende-se que. A representante do Ministério da Saúde. com os palestrantes ressaltando a afinidade de conceitos entre as estratégias do PSF e da Reforma Psiquiátrica. sob a denominação de “Integração dos Programas de Saúde Mental e Saúde da Família no Estado do Rio de Janeiro”. promoveu um dia de debates a respeito da Saúde Mental na Atenção Básica. Para esses Núcleos. ressaltando a importância das ações coletivas para a abordagem dos problemas de Saúde Mental.

é pequeno o número de municípios que as têm realizado de modo efetivo. realizar Supervisão de Saúde Mental na Atenção Básica integrada e por Regiões de Saúde. até o momento. Esta solicitação. deveu-se à intenção dos organizadores do Encontro de que um debate. específicos para a realização da tarefa. No debate final foram aprovados os seguintes itens: continuar a discussão a respeito da inclusão de ações de Saúde Mental na Atenção Básica. Foi sugerido que os apresentadores ressaltassem as ações que estão produzindo bons resultados. antes e depois de capacitação em Saúde Mental na Atenção Básica. ao final do mesmo. a articulação entre Serviços Residenciais Terapêuticos. O Encontro renovou. portanto. para debater a respeito dos Núcleos de Saúde Integral. em Seminário. discutir. tomando como estimuladores as experiências apresentadas. aos apresentadores. também. em algum município a ser escolhido. com atenção para cada município. PSF. no Encontro. discutir. nos Fóruns Regionais de Coordenadores de Saúde Mental. regionalmente. Ficou destacada a necessidade de incrementar a aproximação entre a Saúde Mental e a Atenção Básica. realizar pesquisa. aprovasse meios de estimular as ações de Saúde Mental na Atenção Básica. realizar um Fórum de Agentes Comunitários de Saúde.187 promoverem ações junto à Atenção Básica. utilizando os espaços de discussão já existentes. pelos municípios. as diretrizes e as intenções dos textos e eventos da área. . diferentes e unidos pelas diretrizes dos últimos textos e encontros a respeito do tema. as ações de Saúde Mental na Atenção Básica. mas com a sinalização de que será preciso criar novos campos. os pontos de impasse e as possíveis modalidades de capacitação que podem ser úteis. que se revelaram singulares. em que eles mostrem o que têm para ensinar e as suas experiências. Coube-me coordenar a mesa de apresentação dos trabalhos dos municípios. Utilizar os Fóruns. desospitalização e o “Programa de Volta pra Casa”. - divulgar amplamente as conclusões do Encontro.

pudemos perceber que as histórias da Reforma Psiquiátrica e dos Programas de Atenção Básica são marcadas pela luta constante entre controle e transformação social. têm diferenças consideráveis de tratamento. não se incluem na maioria. sob a forma dos hospícios. colaboraram para o questionamento do que estava sendo feito com seres humanos nos hospícios. execração. para chegar ao seu objetivo principal . sob a justificativa de tratá-los. A visão do horror dos campos de concentração nazistas e a perda das ilusões a respeito da excelência da sociedade ocidental. idolatria. termo geral que contém o conceito questionável de “doença mental”. a Grande Exclusão. a entrada das ações da Saúde Mental na Atenção Básica . e da tentativa de expulsão do trágico da existência.percorreu a história da exclusão praticada pela ciência oficial em nome do encobrimento e do controle de emergentes sociais indesejáveis. hoje. nos mostra uma imensa variedade de enfoques. as diferenças de classe e a miséria. com seus modos de produção e de exclusão. Depois de dois séculos do isolamento que tentava proteger a sociedade de suas próprias contradições. Os emergentes pessoais. Exaltação. A ciência médica em ascensão organizou. torturas.188 CAPÍTULO 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS A presente monografia. Podemos dizer que os conteúdos da exclusão são o inconsciente. em conformidade com as determinações políticas e econômicas. A história da abordagem ao que chamamos hoje de sofrimento psíquico. a ciência oficial entra em crise. quando variam os lugares. por seu comportamento ou modo de pensar. . curiosidade científica e fonte de lucro são alguns dos destinos daqueles que. épocas e culturas. alvo de caridade.observar como está acontecendo. assassinato. que denotam algum funcionamento fora dos padrões da normalidade eventual. Ao pesquisar como alguns autores e programas lidaram com tentativas de reverter o quadro de práticas de exclusão. com mais desenvoltura no século XVIII.

Inicialmente trabalhando na democratização das instituições asilares. Com o avanço do questionamento do Poder Médico. o movimento de renovação na Saúde Mental mostrou que a individualização dos problemas de sofrimento mental encobria realidades familiares e sociais que precisavam ser explicitadas. excludente. também tiveram um impulso inicial na Europa e nos Estados Unidos. inclusive da psicanálise. A dúvida que permanece é a que traz o constante questionamento: estamos praticando meras reformas que mantém o conteúdo controlador das ações de Saúde ou estamos colaborando para mudanças efetivas? As tentativas de abordar o sofrimento mental diretamente nas comunidades. mas têm precursores. as ações de Saúde Mental na comunidade mostraram que podem ter efeitos transformadores para pessoas. que. . a percepção da determinação e da solução dos problemas. A contestação política dos anos 60 e 70. aprofunda a sua crise com o avanço da psicofarmacologia. não sendo coincidência a contemporaneidade das práticas alternativas da Saúde Mental com os movimentos de questionamento dos poderes daquela altura do século XX. correspondem críticas. o movimento de transformação na Saúde Mental criou dispositivos extra-hospitalares para a abordagem ao sofrimento mental. portanto sua implantação não levava em conta as reais necessidades dos “assistidos”. produziu não apenas propostas teóricas. que podem ter funções estimulantes ou paralisantes. nas suas épocas. a partir da década de 50 do século XX. Nota-se que a cada tentativa de mudança.189 A ciência oficial psiquiátrica. Politizado. famílias e população. apontam para a falta de participação da população na discussão e organização em todas as fases do processo de mudanças que os profissionais pretendem implantar. para além do indivíduo. Os textos e trabalhos práticos de contestação da instituição psiquiátrica de segregação apareceram mais acentuadamente na Europa. Os programas de Saúde Mental comunitária surgiram em meio a tentativas de controlar populações que ameaçavam sair do domínio do poder estabelecido. ruas e famílias. em contato com os bairros. mas ações efetivas de desinstitucionalização no trato com o diferente. não tiveram maior repercussão. no modo de abordar o sofrimento mental. outras profissões da área entraram em campo. o que possibilitou o aumento do número de altas dos Hospitais Psiquiátricos. já atacada por novos conhecimentos. nas comunidades. nas décadas de 60 e 70. segregadora. De início repetindo o objetivo controlador. formando os múltiplos olhares a respeito do sujeito a ser tratado e ajudando a lançar. As críticas que são feitas às tentativas iniciais de inserção de ações de Saúde Mental.

existem dois graves fatores de limitação das possibilidades de efetiva mudança na forma de atuar dos serviços de Saúde. possui diversos pontos de semelhança com o que tem sido proposto pela Reforma Psiquiátrica. responsabilidade e de integralidade. a percepção das diferentes formas com que a loucura é encarada ao longo da história. sem que as condições de vida e de saúde sejam discutidas e transformadas. principalmente nos últimos anos. que tem no PACS e no PSF as suas bases. De forma semelhante às críticas que recebem as tentativas de mudança na área da Saúde Mental. a Declaração de Alma-Ata ainda é um dos marcos de orientação para que as políticas públicas de Saúde definam-se pelas ações comunitárias e incluam a população na condução dos programas. a discussão a respeito das condições de vida e o estímulo à organização das comunidades são partes inerentes do trabalho. ao dilema controle/transformação. em termos sociais. e a falta de capacitação de muitos profissionais para o trabalho de mobilização das comunidades. A prática de cada Equipe responderá. ficaram: as propostas de integração entre as Equipes Clínicas e de Saúde Mental. ou não. rede. A proposta do PSF como estratégia para a mudança do Modelo Assistencial tem recebido atenção especial de Profissionais de Saúde. A mudança do Modelo Assistencial em Saúde. população. O que se pretende é ultrapassar as definições de Alma-Ata. bem como o farão os resultados. Os Programas de Atenção Básica. que seriam meras formas renovadas de controle. para a tarefa proposta. tiveram influência de orientações internacionais. Mesmo criticada por alguns autores. Porém. com o Programa de Saúde da Família como estratégia para a mudança do Modelo Assistencial. pelas comunidades. Desta forma. através do PSF: a definição de um quantitativo populacional excessivo. tanto nos trabalhos nacionais como nos estrangeiros. a correlação entre sofrimento mental e organização da sociedade. o risco é a proposta de mudança resumir-se a uma expansão de ambulatórios. são comuns à Reforma Psiquiátrica e ao PSF/PACS. assim como a orientação geral de que o trabalho de promoção da Saúde. também os Programas de Atenção Básica são alvos de questionamento. gestores da área da Saúde e autores ligados. melhorados. a entrada em campo de diversas categorias profissionais. à Universidade. o questionamento da divisão entre profissionais do corpo/profissionais da mente. no Brasil. . para cada Módulo de PSF.190 Das tentativas iniciais de abordar a Saúde Mental na comunidade. Os conceitos de território. a perspectiva de mudar a forma da sociedade lidar com o diferente. a necessidade de trocar conhecimentos com a população. a noção de população adscrita.

na área. nesses fóruns. aprofundaram a discussão sobre a necessidade de mudança do Modelo Assistencial em Saúde Mental. da escassez de recursos humanos e do gasto de quase todo o orçamento da Saúde Mental com a exclusão. de início com a multiplicação dos Ambulatórios de Saúde Mental. ao lado do Poder Médico. formando o pessoal e a consciência crítica que ocupou os cargos no Aparelho do Estado. refletindo as suas origens principalmente basaglianas.191 No Brasil. surgem os CAPS. Ultrapassando o Ambulatório em acolhimento e em efetividade no cuidado das pessoas com grave comprometimento mental. no campo maior da Reforma Sanitária e da Política. Os Encontros de Profissionais de Saúde Mental. Desde o início. com grande força. as indicações de que a comunidade é um dos caminhos para as mudanças em Saúde Mental. da direção autoritária das instituições. como as Conferências Estaduais e a I Conferência Nacional de Saúde Mental. a partir do fim da década de 70 e início da de 80. no Brasil. cada vez mais. orientações no sentido de incluir a Saúde Mental nos cuidados básicos de saúde. em documentos oficiais. O Movimento dos Trabalhadores em Saúde Mental teve papel decisivo na fase de contestação e. com a presença de usuários do Sistema Único de Saúde e seus familiares. Os dispositivos extra-hospitalares surgiram. a Reforma Psiquiátrica teve o grande impulso na transformação dos Hospícios. então. mas já se fazem notar. para que a prática tivesse correspondência com o que estava proposto. já com Equipes Multidisciplinares. com a participação da população. de fins da década de 70 e em toda a década de 80. inserindo o que estava sendo pensado e praticado como mudanças. que tentava sustentar um Modelo Assistencial curativo fadado à falência. os encontros do movimento de transformação da Saúde Mental já acontecem com caráter oficial. o movimento pela transformação do campo da Saúde Mental teve forte cunho político. O Hospital Psiquiátrico e a Internação Psiquiátrica eram o alvo preferencial das críticas. É ainda tímida. A Reforma Psiquiátrica ganhou força. na de propostas e reorientação da condução da Política de Saúde Mental no Brasil. No final da década de 80. da falta de condições de trabalho. revelando-se de grande . Alguns anos teriam que se passar. esses eventos passam a ter o caráter de organização do que estava sendo praticado na assistência e a contar. no bojo da crise de financiamento do Setor Saúde. Além da reafirmação dos princípios da Reforma Psiquiátrica. O primeiro Centro de Atenção Psicossocial foi inaugurado em 1987. depois. em São Paulo. Mesmo no início das formulações das mudanças na assistência à Saúde Mental já aparecem.

Caso sejam bem conduzidos. de 1990. a provocar olhares e aproximações de diversas categorias profissionais. fazer-se visível. no seu Relatório Final. à proliferação de CAPS e NAPS e ao desenvolvimento de diversos dispositivos criativos de assistência. já traz conceitos que serão base para a aproximação da Saúde Mental da comunidade. CAPS e NAPS. A década de 90 assistiu à progressiva diminuição do número de leitos psiquiátricos. como a desinstitucionalização e a reafirmação dos princípios da 8.192 utilidade para reduzir o número de internações psiquiátricas e proporcionar melhores condições de vida para pessoas em risco de serem internadas. devia-se à crítica ao preventivismo ter ficado muito marcada. transformando-os em Comunidades Terapêuticas. eqüidade. pouco avança em relação a apontar a necessidade de práticas de Saúde Mental diretamente na comunidade. os ambulatórios de consultas e os CAPS e NAPS. a loucura passa a freqüentar as ruas. os CAPS promovem o questionamento da cultura da exclusão. como uma diretriz a ser seguida. A II Conferência Nacional de Saúde Mental. permanecer nas casas. Podemos supor que a relutância em tomar o caminho dos trabalhos com as comunidades. que deram a base de organização dos CAPS e NAPS. mesmo citando a Declaração de Caracas. Ao praticar uma assistência em Saúde Mental que não mais isolava as pessoas a serem tratadas. por outro lado. coloca os Sistemas Locais de Saúde como campo privilegiado de ação da assistência da área mental. Não mais isolada no gueto da Psiquiatria Organicista. o fato de que as principais influências estrangeiras da Reforma Psiquiátrica Brasileira não terem sido ligadas a trabalhos diretamente nas comunidades. Aparecem também. A II Conferência Nacional de Saúde Mental. incipientes. desde então já definidos em Portarias no Ministério da Saúde. onde já estavam membros do movimento de renovação da Saúde Mental. As ações de Saúde Mental na comunidade eram. integralidade. tornando as práticas comunitárias mais suspeitas de controle do que aquelas dos Ambulatórios. realizada em 1992. a forçar a Medicina a mudar seu discurso excludente. Trabalhava-se com a comunidade fechada dos Hospícios. até esse ponto da Reforma Psiquiátrica. então. a Reforma Psiquiátrica assume a tarefa de tentar mudar os conteúdos imaginários seculares de rejeição da loucura. A Declaração de Caracas. isoladas. descentralização e participação. sem definição de financiamento e não atraíam a atenção dos profissionais da área.a Conferência Nacional de Saúde: universalidade. Uma espécie de “caminho natural” dos profissionais era o Hospital Psiquiátrico em transformação. de 1992. Pode ter contribuído para essa relutância. . numa afirmação que ficou como importante orientação para os anos que se seguiram.

a afirmação do direito das populações de participar do planejamento e controle das ações de saúde. principalmente pelos ACS. então. ao mesmo tempo. o ACS é. são alguns dos muitos pontos em comum entre a Reforma Psiquiátrica e a estratégia do PACS/PSF. O ACS tem. primeiro o PACS. ao lado de assistir pessoas e famílias. Na década de 90 surgiram e se desenvolveram os Programas de Atenção Básica no Brasil. a possibilidade de promover mudanças que realmente sejam duradouras. devido à sua inserção. a necessidade da participação popular para a transformação do campo da Saúde. mas com aspectos novos. Mesmo criticada por alguns autores. A compreensão da Saúde como um direito de cidadania. como por exemplo. o princípio da integralidade. sendo as maiores delas o enorme gasto com internações psiquiátricas e o próprio financiamento do SUS. em parte reciclando experiências já estabelecidas no país e no exterior. que. surgem. os conceitos de território e responsabilidade. Os Programas de Atenção Básica. surge. estimular a participação da população na reflexão a respeito de suas condições de saúde. então. e depois o PSF. na figura do Agente Comunitário de Saúde. ações de Saúde Mental ligadas ao PACS/PSF. o reconhecimento da determinação social dos problemas de saúde. mesmo contra toda as dificuldades. uma possibilidade de ação comunitária inédita em Saúde Mental. Enraizado na comunidade. na década de 90. Com a implantação do PACS. A implantação dos Programas de Atenção Básica torna-se. tiveram influência de diretrizes internacionais. . em diversos estados do país. então. As postulações dessa estratégia e dessa mudança de Modelo Assistencial coincidem com os fundamentos e as práticas da Reforma Psiquiátrica. que avançou no período. o membro do Sistema de Saúde mais próximo da realidade dos fatos da saúde da população. em Alma-Ata estão indicadas importantes orientações para o trabalho na Atenção Básica. sendo um exemplo marcante a Declaração de AlmaAta. visto que ambas têm suas bases em conceitos comuns: a visão da Saúde como um campo eminentemente político e os princípios da Reforma Sanitária e do SUS. fundamentos das ações de Saúde Mental na Atenção Básica e indicações para a constituição de “Equipes Itinerantes” e para a capacitação de Agentes Comunitários de Saúde.193 com importância. Ao conhecer de perto a realidade das vidas das comunidades e ao poder articular redes de apoio e inserção social. visto que nela morador. Trabalhos consultados revelam a rapidez de resultados e a potencialidade para a adoção de práticas de Saúde Mental pela Atenção Básica. A década de 90 caracterizou-se pela expansão dos dispositivos propostos pela Reforma Psiquiátrica. de 1978. uma estratégia para a mudança do Modelo Assistencial. Constatamos. os profissionais envolvidos podem.

emergências e hospícios. sem entrar. a possibilidade de a inserção da Saúde Mental nas comunidades sair das meras tentativas de modificação da assistência psiquiátrica. isoladas em partes das casas ou terrenos onde moram as famílias ou mesmo perambulando a esmo pelas comunidades. Em diversas situações são os ACS que fornecem as soluções para os problemas enfrentados. que estão. constata-se uma realidade que. apenas tocando no aspecto dos “transtornos mentais graves”. com a confluência entre a Reforma Psiquiátrica e os Programa de Atenção Básica. Estas situações em geral não são abordadas pelos Programas de Atenção Básica. permanecem os Profissionais de Saúde Mental sem contato com pessoas que circulam entre casa. Conceitos comuns e intenções comuns poderão fazer da articulação entre os CAPS e a Atenção Básica. ainda. trancadas em cômodos. não chega nem aos ambulatórios nem aos CAPS: uma imensa faixa de desassistência. freqüentemente.194 O trabalho do ACS. bem como entre toda a rede de assistência. as propostas de inclusão. é um dos fatores de maior importância e de estímulo. com suas bases teóricas. Um ponto comum entre Equipes de Saúde Mental. a sustentação dos avanços num novo patamar. Com a sensibilidade vinda do contato constante com a população e do conhecimento da cultura local e da dinâmica das famílias e da comunidade. Um fato da maior importância para as práticas da Reforma Psiquiátrica é que. Nas capacitações que são fornecidas pelas Equipes de Saúde Mental. ligado ao PACS/PSF. na área mais geral da integração entre o que ficou dividido entre saúde física e saúde mental. São pessoas em cárcere privado. por um lado. Criou-se. é a categoria profissional que mais rapidamente sai da lógica da exclusão e que compreende. porém. conceitos e práticas. Por outro lado. na articulação entre Saúde Mental e Atenção Básica. temos os Profissionais da Atenção Básica que não possuem habilidades para perceber e reverter o quadro de exclusão em que vivem pessoas com problemas de Saúde Mental da sua população. como aparecia no preventivismo e em trabalhos nacionais e estrangeiros. que trabalharam nas comunidades durante a década de 90 e no início do novo século. passam a ter o papel de referência para as situações que envolvem a Saúde Mental. de modo criativo e inovador. por mais que os seus conceitos de base indiquem a responsabilidade integral pela saúde da população. ou que ficam nas comunidades. muitas vezes. A definição dos CAPS como prioridade estratégica deve ser . é o que coloca nos conceitos de território e rede a base para as ações. mas com péssima qualidade de vida. na lógica da exclusão. Estamos. Percebemos que. e a definição do CAPS como centro organizador da Rede de Atenção Psicossocial. quando é iniciado um trabalho de Saúde Mental nas comunidades.

eliminamos a referência entre os Programas (fonte de possível perda da responsabilização e manutenção da exclusão) e investimos num trabalho realmente de Equipe. junto aos Programas de Atenção Básica. organizado por Antonio Lancetti. sempre. o assunto financiamento passa a ter lugar de destaque. A publicação do livro “Saúdeloucura 7”. tornamos as ações campo permanente de capacitação mútua. com múltiplas visões e colaborações. em 2000. Plano de Inclusão de Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. iniciando uma longa discussão ainda longe do consenso. mostrou a criatividade e os resultados de muitos trabalhos de introdução da Saúde Mental nas comunidades. no ano 2000. produzindo resultados. o tema da Saúde Mental na Atenção Básica teve decisivo impulso. No livro. o Ministério da Saúde lançou um documento intitulado “Proposta Preliminar. nas ações praticadas. que se realizou. Nas avaliações da Reforma Psiquiátrica. Foram feitas solicitações. Em artigo de abertura do livro. em março de 2001. em Brasília.195 acompanhada de uma atenção especial para as possibilidades imediatas de ações de Saúde Mental ligadas aos Programas de Atenção Básica. Na nossa experiência. Da . No início de 2001. o tema da urgência da entrada da Saúde Mental na Atenção Básica já estava colocado com ênfase. Nos anos de 2000 e de 2001. além de um membro da Equipe de Saúde Mental. e os apelos por estímulos de financiamento já se faziam ouvir. Continuando a estabelecer as bases conceituais para a atuação da Saúde Mental. Com diversos trabalhos de Saúde Mental na Atenção Básica já em andamento. ainda não atendidas. preparatório para a “Oficina de Trabalho para Discussão do Plano Nacional de Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. Com essa prática estimulamos o princípio da integralidade. com a participação de pelo menos um membro de cada Equipe: Saúde Mental e PACS/PSF. Lancetti sugere que para cada duas Equipes de PSF seja destinado um profissional de Saúde Mental. já está colocado o conceito que define que as ações de Saúde Mental na Atenção Básica devem ser praticadas. deve estar sempre presente pelo menos um membro da Equipe de Saúde da Família ou do PACS. essa quantidade de profissionais de Saúde Mental é insuficiente em relação à quantidade de ações a serem desenvolvidas. de estímulo de financiamento para a introdução da Saúde Mental na Atenção Básica. consideramos que uma diretriz é determinante para os rumos dos trabalhos: a que postula que. o Ministério da Saúde já percebia a necessidade de estimular essa inserção.

base de discussão para a “Oficina de Trabalho . De acordo com os itens aprovados.196 Oficina saíram diretrizes básicas para a condução dos trabalhos da Saúde Mental na Atenção Básica. A III Conferência. A Lei. a Saúde Mental na Atenção Básica é citada. recomenda que a implantação da rede de serviços em Saúde Mental substitua totalmente o Hospital Psiquiátrico. A III Conferência reforça a exigência de repasse financeiro para a Saúde Mental. a III Conferência Nacional de Saúde Mental. mostrando que foi grande. numa Conferência Nacional de Saúde Mental. em Brasília. é sugerido que Municípios que tenham a Saúde Mental na Atenção Básica recebam incentivo mensal. dedicado. a atenção ao sofrimento mental nas ações básicas de saúde garante o princípio da Integralidade. os documentos e os encontros citados. Plano de Inclusão de Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. numa afirmação inédita para textos oficiais. A III Conferência reforça o conceito de uma rede de assistência em Saúde Mental com base territorial e ligada à rede geral de Saúde. “Proposta Preliminar. ainda em 2001. sim aos cuidados”. Por exemplo. redirecionando a verba alocada nas Internações Psiquiátricas para as ações que a substituem. Nova Esperança”. Além dessa definição. é a articulação da Saúde Mental com o PSF. com destaque. como uma das modalidades de trabalho a serem contempladas com o financiamento. pelo Congresso Nacional. O documento do Ministério da Saúde. que teve uma das suas mesas dedicadas à Saúde Mental na Atenção Básica. repleta de itens aprovados que indicam a importância estratégica das ações de Saúde Mental na comunidade. sem redução de outras dotações da Saúde Mental. em 2001. é exigido que o poder público organize modos comunitários de tratamento dos pacientes com transtornos mentais e coloca a internação psiquiátrica como exceção. a OMS lança o documento “Relatório Sobre a Saúde no Mundo 2001. Na Lei. significativo estímulo para as ações comunitárias em Saúde Mental. A Organização Mundial da Saúde elege o tema “Não à exclusão. à Saúde Mental. de profissionais e usuários. para alcançar esse fim. e a estratégia. Pela primeira vez. a Plenária Final da III Conferência aprovou diversos itens que reforçam a necessidade das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. Saúde Mental: Nova Concepção. a atenção para o tema. Durante a III Conferência. Foi aprovada. em dezembro de 2001. para o Dia Mundial da Saúde. a lei 10. convergem para a definição da mudança do Modelo Assistencial em Saúde Mental. Foi realizada.216. que “Dispõe sobre a proteção e os direitos das pessoas portadoras de transtornos mentais e redireciona o modelo assistencial em saúde mental”. no evento.

ao longo do tempo. as ações do Ministério da Saúde e das Secretarias Estaduais de Saúde são fundamentais e urgentes. para induzir práticas de saúde que apresentam resultados rápidos. responsabilidade mútua. com impacto nos indicadores. Dentre elas . mais de uma vez. Não apenas supervisão. por exemplo. mudando significativamente o teor das tarefas a serem desenvolvidas. um conjunto de indicadores numa região onde já exista o PSF. rede e integralidade como pilares da mudança. Portanto. No trabalho conjunto Saúde Mental/PACS-PSF. Na nossa experiência. A questão dos resultados das ações de Saúde Mental na Atenção Básica abre um interessante campo de pesquisa. Nas discussões e conclusões da “Oficina” esta diretriz foi ampliada. é uma importante declaração de intenções da esfera Federal do SUS. A opção pela mudança do Modelo Assistencial é reforçada. mas trabalho conjunto. As etapas que faziam parte do cronograma firmado na “Proposta Preliminar” não foram totalmente concretizadas. estando presentes os conceitos de território. do Ambulatório de Saúde Mental. trazendo definições básicas. para que os profissionais da base executem melhor as tarefas. comunitário. Tal fato causa dificuldades e atrasos. mas que ainda não tenha ações de Saúde Mental da forma que estamos desenvolvendo. nem é um posto avançado. com comparação para efeitos de avaliar os resultados. ficando a iniciativa da inserção da Saúde Mental na Atenção Básica por conta do empreendimento dos municípios. Na prática. o trabalho conjunto deve ser a meta a ser alcançada logo que possível. de preferência já há algum tempo. levando-se em consideração o ineditismo da proposta para a maioria dos profissionais de Saúde Mental e a falta de informação dos Coordenadores Municipais de Saúde Mental e de PACS/PSF a respeito do assunto. a coleta dos dados deverá ser repetida. com as ações sendo praticadas pelos dois grupos de profissionais. A “Oficina de Trabalho para Discussão do Plano Nacional de Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica” chegou a conclusões em relação à prática das ações da Saúde Mental na Atenção Básica que passaram à condição de diretrizes.197 para Discussão do Plano Nacional de Inclusão das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica”. Poderá ser pesquisado. O texto da “Proposta Preliminar” define como função da Equipe de Saúde Mental na Atenção Básica fornecer supervisão às Equipes de PACS e PSF. Esta é uma fértil conclusão da “Oficina”: o trabalho deve ser conjunto. Depois da implantação das ações de Saúde Mental. fica estabelecido que a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica nem é uma prática de supervisão. o que temos visto são trabalhos que optam por uma ou outra forma de agir e outros que associam as duas possibilidades.

Até o momento. as políticas públicas se materializam de acordo com a decisão governamental de destinação de financiamento. que em geral encaminham situações para a Saúde Mental. Em 2003. Na nossa experiência. na prática. . a quebra dos especialismos. Não se trata apenas de capacitar as Equipes de PSF. a mobilização da comunidade para a discussão dos problemas de Saúde Mental e seu enfrentamento. a mobilização de recursos da comunidade até então não ativados pelos serviços de saúde. Os resultados seriam acompanhados por indicadores. Trata-se de mudar toda uma visão a respeito do lugar do “mental”. a abordagem ao adolescente e ao idoso. acompanhar as pessoas com transtornos mentais graves.198 destacamos: a necessidade do trabalho conjunto entre as Equipes de Saúde Mental e de PACS/PSF. que condicionariam os incentivos. Na nossa experiência. não devem passar de cinco os Módulos de PSF que uma Equipe de Saúde Mental de quatro membros pode assumir. para que “ajudem” o Programa de Saúde Mental a cumprir as suas funções. ao alocar em apenas um Módulo toda uma Equipe de Saúde Mental e procedendo a uma lenta e estudada expansão. promovendo os seus direitos e cidadania. podendo comprometer os resultados que pretendemos alcançar. atuar em Escolas e outras instituições da comunidade. apoiar as Equipes de Saúde da Família e PACS nas suas dificuldades institucionais e relacionais. Chegamos a esse número. essas proporções são excessivas. o Ministério da Saúde já abaixou essa proporção para de 6 a 9 Equipes de PSF para cada Equipe de Saúde Mental. A Oficina dedicou-se ao controvertido tema da proporção entre o número de profissionais de Saúde Mental e Equipes da Atenção Básica. a área federal da Saúde não destinou verba própria para a Saúde Mental na Atenção Básica. com substituição da referência/contra-referência por co-responsabilidade e trabalho em rede. A Oficina de Brasília entrou no tema do Financiamento e sugeriu que fosse destinado um incentivo aos municípios que tivessem ações de Saúde Mental na Atenção Básica. Como o próprio Ministério da Saúde define. a necessidade de aproximação e possível intervenção no problema da violência urbana e doméstica. mudar o Modelo Assistencial em Saúde Mental. a necessidade de inserir o trabalho da Saúde Mental na Atenção Básica em toda a rede articulada de cuidados em Saúde e em Saúde Mental. a capacitação mútua como base do trabalho. trabalhe com um número entre 8 e 10 Equipes de PSF. fomentar a discussão e a articulação comunitária a respeito do sofrimento mental. na medida em que o território e as ações estavam sendo conhecidos e compreendidos e que crescia a habilidade da Equipe de Saúde Mental para o trabalho. composta de quatro profissionais. Os Grupos de Trabalho recomendaram que cada Equipe de Saúde Mental.

são alguns dos dados que devem ser trabalhados para servir de base para a criação de indicadores da Saúde Mental na Atenção Básica. validam as expectativas positivas. o número de ocorrências de violência. é estratégia essencial no momento. então. Assim sendo. embasados por um conjunto de conceitos e diretrizes que postos em prática. para essas práticas. Nota-se. As conclusões dos Encontros a respeito do tema poderiam ser mais divulgadas. Nova Esperança”. o número de tentativas de suicídio. A OMS recomenda que incentivos de financiamento sejam dirigidos para estimular o surgimento de ações de Saúde Mental nas comunidades e que. É necessário. em 2001. que é a de criar indicadores que informem a respeito da criação e manutenção de trabalhos comunitários. maior divulgação do assunto entre os próprios Profissionais de Saúde Mental e de PSF. Saúde Mental: Nova Concepção. justificativas epidemiológicas para a . colocam-se na dependência de verbas federais para novos serviços. o número de pessoas usuárias de álcool e outras drogas. que reuniões de esclarecimento e capacitação que sensibilizem e instrumentem Coordenadores Municipais de Saúde Mental e de PSF/PACS.199 conforme está proposto em documentos oficiais e do que consta de decisões de Conferências. do exposto. A OMS aponta. mesmo depois que essas ações estejam produzindo resultados. a falta de repasse. O número de internações psiquiátricas. apresentou. na atual conjuntura. Todos os encontros de profissionais de Saúde Mental que têm por objetivo discutir e decidir a respeito das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. uma situação na qual ações de Saúde Mental com grande potencial de resolubilidade e impacto sobre os indicadores. Oficinas e Encontros. Concluímos. são unânimes em apontar a urgência de definir um conjunto de indicadores que sirvam de pesquisa e balizamento para os nossos novos tempos. no seu “Relatório Sobre a Saúde no Mundo 2001. visto que o campo de atuação na Atenção Básica é novidade para a maioria dos profissionais de Saúde Mental e os profissionais do PSF não estão formados para a atuação nessa área. A OMS. a preocupação em investir “dinheiro novo” nos Programas de Saúde Mental e com a possível desassistência em determinados momentos. territoriais. não sejam retirados todos os investimentos em trabalhos institucionalizados. Temos. Torna-se fundamental incentivo financeiro mais efetivo. Da Oficina de Brasília surgiu uma interessante proposição. como uma das causas da lentidão no avanço dos trabalhos de Saúde Mental nas comunidades. bem como textos oficiais e outros escritos. a quantidade de pessoas em uso de benzodiazepínicos. também. do que está sendo economizado com o fechamento de leitos psiquiátricos. a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica tem ficado por conta da iniciativa dos municípios que. a respeito do trabalho da Saúde Mental na Atenção Básica. com essa orientação.

seus familiares e população em geral. resultando em nova visão dos profissionais a respeito do sofrimento mental. Como o controle é uma das funções precípuas do Estado. então. o que pode ser feito com o trabalho de inserção na vida das comunidades das pessoas que apresentam essas necessidades. É uma grave afirmação. apresentam alguma forma diagnosticável de transtorno mental. nas comunidades. .200 atenção especial que a questão da Saúde Mental deve ter. A OMS dá destaque especial à luta contra o preconceito e o estigma em relação às pessoas que necessitam de tratamentos mentais. ou são encaminhadas a ambulatórios de Saúde Mental abarrotados e onde. recentes. em geral. A OMS afirma a necessidade de participação das pessoas assistidas. devido à falta de capacitação do pessoal que as atende. cujo enfoque inicial teve aspecto eminentemente controlador. Estudos internacionais e também nacionais. Podemos. adverte que essas práticas colocam a Saúde Mental na agenda da população e não mais. Esse grande número de pessoas freqüentemente não tem seu problema reconhecido. devemos sempre ter presente o questionamento a respeito do que predomina nas nossas ações: o controle ou a mobilização das comunidades? O Relatório da OMS. onde deverão ser feitos o atendimento às crises. ao longo da nossa pesquisa. não vão ter as dimensões familiares e sociais do sofrimento abordadas. apenas. A OMS. são a maioria nos atendimentos na Atenção Básica e constituem-se em importante campo para capacitação e interconsulta. demonstram que cerca de 50% das pessoas que são atendidas em unidades de Saúde. define que os problemas de Saúde Mental devem ser abordados. listar alguns dos motivos que fomos encontrando. na dos profissionais de Saúde Mental. preferencialmente. Para cada um deles deve haver uma forma de solução. que podem explicar o adiamento que vem sendo observado na efetiva entrada da Saúde Mental na Atenção Básica. que faça adiantar o processo de mudanças. a capacitação é citada como estratégia fundamental. visto que a população pode ser chamada a participar de forma ativa ou passiva. Trata-se de importante manifestação de intenções e uma diretriz. o acompanhamento dos tratamentos e a reabilitação. na publicação indicada acima. Mas apenas a prática dirá de que forma essa participação é estimulada. O fator “participação popular” é um tema constante de trabalhos que se dedicam a avaliar as ações de Saúde Mental na Atenção Básica. Para esse fim. nas comunidades. em todas as etapas da organização dos Programas de Saúde Mental na comunidade. ao levantar as possíveis causas da demora de os países adotarem as ações de Saúde Mental nos cuidados primários de Saúde. Os problemas de Saúde Mental que não os considerados mais graves.

em si mesma justificável. 3. 5. ainda apenas no campo da psiquiatria. 2. encobriu a visão de que práticas mais simples e de mais rápida implantação. os impede de ver os trabalhos comunitários como transformadores e como campo de trabalho.A falta de definição de financiamento a partir do Ministério da Saúde. voltadas para a modificação individual. podem trazer rápido impacto na assistência e na mobilização social. 6. Os diversos relatos de experiências de introdução de ações de Saúde Mental na Atenção Básica têm alguns pontos em comum. acolher.A prioridade para os CAPS.Dificuldades no investimento próprio. dos Municípios.201 1.A falta de um movimento social forte e organizado. auxiliar nas dificuldades no relacionamento com a comunidade e na criação de espaços de discussão com os níveis . com intervenções simples podemos obter respostas favoráveis. economia. em Saúde. sem a necessidade de investimentos em imóveis. Depois de superada. discutir e tentar resolver dificuldades em relação à mobilização emocional que surge com o contato com a dura realidade da população. sociologia. 9.Dificuldade dos profissionais de Saúde Mental para o trabalho em ambiente sem a proteção institucional. 8. Ocorre. uma percepção de que os profissionais de Saúde Mental podem ajudar a: resolver conflitos das Equipes. a adesão e o interesse aumentam.A formação dos profissionais de Saúde Mental para terapias individuais ou. 11.A falta de programas de Atenção Básica enraizados adiou a entrada da Saúde Mental nas comunidades. antropologia. nos inícios da Reforma Psiquiátrica.A formação dos quadros iniciais da reforma psiquiátrica se deu na transformação dos hospícios. mobiliário e material de consumo. no máximo grupais.Falhas nas formações dos Profissionais de Saúde Mental em política. pelos profissionais da Atenção Básica. 7. principalmente por parte dos ACS.O preventivismo foi a primeira proposta de prática coletiva de Saúde Mental no Brasil. Com o desenrolar das ações conjuntas e a percepção de que. há uma progressiva adesão. que coincidem com a nossa prática. 4. a primeira fase de preocupação com a perspectiva de mais trabalho.Dificuldade dos profissionais de Saúde Mental em encarar a miséria e as difíceis situações de vida da população. 10. sendo os CAPS a sua seqüência lógica e não a comunidade. também.

O que está proposto é a mudança do Modelo Assistencial em Saúde e em Saúde Mental. mente e mundo social. O momento nos exige união de esforços. mas me parecem etapas preparatórias para a efetiva entrada das ações conjuntas. temos os Coordenadores dos Programas de Atenção Básica que. com a adesão das Equipes de PACS/PSF às ações de Saúde Mental (com repercussões na assistência. suas práticas e suas propostas atuais. ficamos com a tarefa urgente de pensar e executar a capacitação em larga escala. conseqüentemente. não estamos tratando de capacitar Equipes da Atenção Básica para “ajudar” a assistência à Saúde Mental. em muito. Coordenadores Municipais de Saúde Mental que. Encontramos. Dentro dessa concepção. Trata-se de mudar a forma de lidar com o que historicamente foi abordado de modo dividido: corpo. Por outro lado. de um lado. Temos. Essa desinformação permanece nas bases. e de acordo com diversos argumentos ao longo desta monografia. constante e fornecida por Equipe responsável pela atuação conjunta na base. Desde que esses temas sejam trabalhados e bem elaborados pela Equipe de Saúde Mental. algumas variações na forma de praticar a capacitação em larga escala e. estas ações podem ser de utilidade numa parceria constante. Textos recentes do Ministério da Saúde estimulam a formação de Equipes de Saúde Mental para capacitação e ação conjunta com as Equipes de PACS/PSF. Com as repostas à capacitação das Equipes de Saúde Mental para atuar na Atenção Básica apresentando bons resultados. o avanço das ações da Saúde Mental na Atenção Básica e a integração com seus Programas. nos profissionais dos dois lados que pretendemos aproximar. ainda não despertaram para a potencialidade das ações de Saúde Mental na Atenção Básica e não conhecem com detalhes a filosofia do PACS e do PSF. A pretensão é muito mais ambiciosa. a forma de capacitação que pode produzir resultados mais consistentes é aquela que tem as características de ser em serviço. Uma forma de potencializar a entrada das Ações de Saúde Mental na Atenção Básica é a proposta. As capacitações que são praticadas sem essas características ajudam. na prática. Trata-se. e que cada forma de praticar as capacitações e ações possa dialogar com as outras. em grande parte. também. feita do início de 2003. De acordo com esse texto. de uma aproximação com a loucura e outros fenômenos humanos ditos “mentais” radicalmente oposta à exclusão. na sua maioria. o estímulo às . pelo Grupo de Trabalho de Saúde Mental do Pólo de Capacitação/Secretaria de Saúde do Rio de Janeiro.202 superiores do PSF. não tem suficientes esclarecimentos a respeito da Reforma Psiquiátrica. Portanto. mobilização comunitária e relacionamento de Equipes). a introdução das ações de Saúde Mental na Atenção Básica.

sairão os consensos necessários às urgentes tarefas com que nos deparamos na atual situação da Saúde no país. ao longo desta monografia. Percorremos. Partindo de trabalhos dispersos. daria continuidade ao trabalho. Enquanto definição oficial. para além da assistência. suas origens. chegamos a um conjunto de conceitos. Do diálogo entre as várias formas de trabalhar. que pesquisamos ao longo da monografia. onde os Coordenadores e Supervisores desenvolveriam as tarefas necessárias para a entrada da Saúde Mental na Atenção Básica. em terceiro lugar.203 ações começaria pela reunião. com a Equipe de Capacitação. em alguns Estados. O que foi encontrado na pesquisa reforça as bases para ações de Saúde Mental que. seus conceitos. Os desdobramentos desse primeiro momento seriam reuniões periódicas de avaliação das ações desenvolvidas nos municípios. experiências recentes de introdução da Saúde Mental na Atenção Básica. principalmente. . com a Equipe de Capacitação ficando disponível para consultas. A comunicação por correio eletrônico. textos oficiais. diretrizes e experiências bem sucedidas que formam uma base para as capacitações e ações da Saúde Mental na Atenção Básica. todas frutíferas. Trata-se se importante manifestação de prioridade. divididos por regiões do Estado. de Coordenadores Municipais de Saúde Mental e de PACS/PSF (e seus supervisores). na lista de diretrizes do Ministério da Saúde para 2004. nos intervalos entre os encontros. sejam práticas de mobilização social. temos a inclusão das ações de Saúde Mental na Atenção Básica. resultados e questionamentos. logo a seguir da redução do número de leitos psiquiátricos e a expansão dos CAPS.

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