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PONTO DE MUTAÇÃO

Rita de Cássia Brígido Feitoza – Ano 2003

No filme Ponto de Mutação, uma incomum tríade ‘política-ciência-poesia’ adota a forma


de personagens em crise: a física Sonia Hoffmann, decepcionada com o direcionamento
dado às suas descobertas científicas, desestimulada com a política e envolta em relação
conflituosa com a filha; o político Jack Edwards, emaranhado em uma teia de
questionamentos sobre os rumos de sua carreira, sobretudo após os resultados
insatisfatórios de sua candidatura à presidência dos EUA; e, por fim, o poeta Thomas
Harrimann, em conflito com todos os rótulos com os quais ele próprio se define: “o marido
fracassado, o poeta faminto e o mau professor”, acrescendo-se, a tudo isso, o fato da não-
convivência com seu filho.

Tais personagens não surgem assim por acaso. Suas crises é que ensejarão as
mudanças necessárias em suas existências. A crise é o sêmen da mudança. São, pois, os
três, retratados no exato instante em que suas vidas estão às voltas com as aflições que
antecedem seus peculiares processos de mutação. No entanto, esses dramas pessoais
prestam-se apenas de pano de fundo à manifestação da personagem central da película,
progressivamente revelada em seus diálogos: o mundo em crise e igualmente arquejante
por mudanças. Mas o mundo não se altera, se não se altera a visão de mundo. Neste
ponto é que o filme torna-se um convite – um convite a uma nova percepção, a partir das
descobertas revolucionárias da Física Moderna.

A produção cinematográfica em foco permite-nos as mais diversificadas abordagens,


tamanha a fecundidade de temas que nos proporciona. Há, contudo, um assunto
constantemente discutido na película e que merece atenção especial do espectador: trata-
se do destino da Mãe Natureza. Essa é uma questão a preocupar o físico Fritjof Capra1,
antes mesmo de ele haver publicado o livro O Ponto de Mutação – em que se baseou o filme
homônimo. Em entrevista concedida a Renée Weber2, na qual o cientista comentava
aspectos de sua obra Tao da Física, já alertava que não é somente a sobrevivência do
indivíduo ou da espécie que está ameaçada, mas a sobrevivência do próprio planeta3.

No filme, interagimos com Capra, através da personagem Sonia, idealizada justamente


para ser a porta-voz das teorias do físico. Somos, inicialmente, transportados ao século XVII,
a fim de refletirmos sobre os valores patriarcais de Francis Bacon que ditavam o domínio do
homem sobre a natureza. Essa mesma reflexão também é sugerida no simpósio intitulado
“A Arte, a Ciência e a Espiritualidade numa Economia em Mutação”4, realizado no
Stedelijk Museum, em Amsterdã, em setembro de 1990. Capra, um dos expoentes
convidados para o evento, lembra que a Ciência, anteriormente ao século XVII, objetivava a
compreensão da natureza, pretendendo, com isso, promover a harmonização entre a
humanidade e seu meio ambiente. A natureza era, então, vista como um ser vivo. Para
entendê-la, o método ideal não consistia na exploração, mas na comunicação. Somente a

1
Fritjof Capra - PhD em Física Quântica. Teórico do ambientalismo do Terceiro Milênio.
2
Renée Weber: Prof. de Filosofia Oriental. PhD pela Universidade de Colúmbia. Editora do Revision Journal.
3
WILBER, Ken. O Paradigma Holográfico e Outros Paradoxos: uma investigação nas fronteiras da Ciência. São Paulo:
Cultrix, 1995.
4
Simpósio veiculado no Brasil pela Rede Cultura-cinco episódios. Mystic Fire Vídeo 1992 - Viodeteca TVC.
partir do século XVII, quando o mundo passou a ser encarado como máquina, os recursos
naturais tornaram-se vítimas da exploração obsessiva do homem. Infelizmente, as idéias de
Bacon continuam prevalecendo até hoje, assim como a Teoria Cartesiana de Newton e o
Dualismo e Reducionismo de Descartes. Assomam às faces de Sonia, no filme O Ponto de
Mutação, e de Capra, na conferência em Amsterdã, expressões de profunda decepção
diante da postura anti-ecológica da maioria da comunidade científica.

Sonia Hoffmann conduz Jack Edwards - personagem que é inspirado em Al Gore - à


reflexão sobre a insanidade do desmatamento da Floresta Amazônica, com fins de criação
de gado. Já no aludido simpósio, o biólogo Rupert Sheldrake clama por um novo tipo de
economia que se harmonize com o propósito da preservação das milhares de espécies
existentes na Amazônia Tropical. Protesta contra a estupidez do desflorestamento - a
destruição de milhões de anos de evolução, simplesmente para que os “barões do gado”
possam garantir seus lucros a curto prazo. Sonia, no filme, reverencia a sabedoria dos
índios americanos que tomavam todas as decisões pensando na sétima geração. Rupert, no
simpósio, propõe que a Ciência, a Economia e a Política, ao buscarem o desenvolvimento
mundial, levem em conta não apenas os três ou os cinco próximos anos, mas cem, duzentos
anos adiante. Para ele, as questões ecológicas e ambientais não devem estar a reboque das
mudanças de visão científica do mundo, mas, sim, ocupar a posição de liderança. Como se
vê, o filme Ponto de Mutação não reflete ansiedades isoladas de Capra, mas também as
preocupações de outros renomados cientistas e pensadores5.

O filme Ponto de Mutação evidencia que, para atuarem em sintonia com a natureza,
políticos e economistas precisam mudar sua percepção da realidade, incorporando as
noções de crescimento sustentável - aquele que permite ao homem suprir suas
necessidades, sem o remorso de extinguir as oportunidades das gerações vindouras. Capra,
no simpósio, ante os olhares perplexos de célebres economistas, concede-lhes a fórmula: é
tudo uma questão de deslocamento de ênfase – “da quantidade para a qualidade, do
crescimento para a sustentação, da dominação para a parceria”. Assevera, o físico, que a
economia fracassa na solução dos problemas por falta de contexto ecológico. Já em O
Ponto de Mutação – o livro -, no capítulo intitulado A Passagem para a Idade Solar, Capra
deixa claro que a economia não pode mais permanecer unicamente nas mãos dos
economistas, devendo buscar contribuições em outras disciplinas, destacando-se, dentre
elas, a ecologia6.

A dificuldade em aceitar a visão profundamente ecológica da Física Moderna é


decorrência da aplicação da perspectiva mecanicista de mundo, a qual faz os homens,
sobretudo políticos e economistas, verem a natureza como máquina destinada a atender
suas obsessões monetárias. A idéia veementemente defendida no filme é a da mudança
dessa percepção, visando à mudança do próprio mundo. No simpósio, porém, o biólogo
Rupert Sheldrake observa que uma alteração na visão do mundo não modificaria de
imediato o que está ocorrendo nele. A seu ver, as grandes instituições comerciais e
bancárias não reagiriam instantaneamente a uma visão de mundo em mudança. Infere que
outras pontes deveriam ser lançadas, mas, no decorrer de sua reflexão, não as sugere.

O certo é que a visão fragmentada do Universo faz padecer a natureza e,


conseqüentemente, o homem. Se, como salienta Sonia Hoffmann, a Física Atômica nos leva

5
Além do biólogo Rupert Sheldrake, o físico Peter Russell, o teólogo brasileiro Leonard Boff, o Prêmio Nobel de Química
Ilya Prigogine, o filósofo francês Edgar Morin, o ex-astronauta Edgar Mitchell, o guru da Administração de Empresas Peter
Drucker, a indiana ecofeminista Vandana Shiva, dentre outros.
6
CAPRA, F. O Ponto de Mutação: A Ciência, a Sociedade e a Cultura emergente. São Paulo: Cultrix, 1982.
a perceber que uma partícula é um conjunto de relações que se estendem, com o propósito
de se conectarem a outras coisas, então, só nos resta aceitar que tudo no Universo está
conectado, principalmente o homem e a natureza. Essa conexão é inevitável. Ainda que o
homem se torne um eremita, recorda o físico David Bohn - um dos representantes da
Ciência no simpósio mencionado - ainda restará, a ele, o contato com a natureza. No filme,
podemos perceber bem essa relação na figura da personagem Sonia. Ela não é
propriamente uma eremita, mas uma reclusa na ilha de La Mont Saint Michel. Mesmo que,
temporariamente e por opção, ela se prive da vida em sociedade, o contato com a natureza
permanece constante. Caminha diariamente por toda a ilha, para ouvir o que esta tem a lhe
dizer. Conectada com o fluxo da natureza, Sonia pratica justamente o que o poeta Thomas
Harrimann, em dado momento da película, recita: “As pedras falam, eu estou calado”.

O cenário do filme reforça, portanto, a concepção de que todo isolamento é apenas


aparente, já que, na sua essência, há sempre algum fator a favorecer a integração. E não
promove esta idéia apenas por servir de palco para a relação ser humano-natureza, mas por
ser, ele, próprio, exemplo adequado à visão holística - La Mont Saint Michel é um fragmento
do planeta Terra. Trata-se de uma parte do todo e, portanto, há de manter, com esse todo,
uma conexão. E mantém: para que o vilarejo, em momentos de maré alta, não fosse
completamente isolado do continente, construiu-se um acesso entre a ilha e a França.
Assim, em uma perspectiva simbólica, podemos dizer que La Mont Saint Michel é um
cenário holístico, pois suas peculiaridades geográficas fortalecem a idéia de que não há
nada no Universo que possa sobreviver em absoluta desconexão com o resto do mundo.
Como lembra, no filme, o poeta Thomas Harrimann, “nenhum santo sustenta-se sozinho”,
“nenhum homem é uma ilha”. E o físico David Bohn vai mais além, ao afirmar que “não só
todos dependem de todos”, mas, em uma dimensão profunda, “todos são todos”. A isso,
Dalai Lama7, líder do budismo tibetano, denomina “globalidade interdependente”.

Sonia Hoffmann surpreende Jack Edwards ao afirmar que, no nível subatômico, dois
seres humanos não são tomados como corpos separados, e, sim, como realidades conexas
que estabelecem trocas de energia entre si. Com inspiração nesta descoberta da Física,
vale indagar: se tudo que há no Universo se inter-relaciona, como pode o homem alimentar
a arrogância de desconsiderar a relação de interdependência existente entre ele e a
natureza e colocar-se na postura errônea de seu dominador? Se “todos são todos”,
então, o mal que causamos à natureza é a nós mesmos que causamos.

O pensamento ecológico é acima de tudo holista, como oportunamente recorda Ana


Maria Xavier Herculano8, importando salientar que Capra, em seu livro A Teia da Vida, faz
alusão a uma ligeira diferença entre “holístico” e “ecológico”, elegendo o último termo como
qualificativo mais adequado à defesa de suas teorias. Ainda, na mesma obra, o físico
remete-nos a uma outra distinção, desta feita, entre ecologia rasa e ecologia profunda.9 A
primeira situa o homem acima ou fora da natureza, enquanto a segunda não separa os
seres humanos, nem quaisquer outros elementos, do meio ambiente natural. É, pois, a
ecologia profunda que, no filme, move o pensamento de Sonia Hoffmann.

7
Dalai Lama, um dos representantes da Espiritualidade no simpósio referido à nota 3.
8
HERCULANO, Ana Maria Xavier. “Métodos e Representações: da Física Clássica à Física Moderna”. In: Temas
Pedagógicos 3: O Problema da Fundamentação dos Conhecimentos e das Ciências Humanas. Fortaleza: Universidade de
Fortaleza, 1999. (*Mestra em Sociologia pela UFC e prof. da UNIFOR/ Uece).
9
Os conceitos de ecologia rasa e ecologia profunda são oriundos da escola filosófica fundada por Arne Naess, no início da
década de 70 – Fonte: CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida: uma nova compreensão científica dos sistemas vivos. São
Paulo:Cultrix, 2003.
Se é possível sintetizar em uma palavra o que a versão cinematográfica do livro de
Fritjof Capra nos suscita, um termo apropriado poderia ser “embate”. São cento e dez
minutos de embate entre nossa visão newtoniana/cartesiana da realidade e a visão
holística/ecológica proposta no filme. A pergunta que fervilha, à medida em que as
argumentações de Capra se sucedem na tela é: conseguirá, ele, persuadir o espectador a
modificar sua percepção de mundo? A resposta, talvez, não seja instantânea, porquanto a
proposta do físico, mesmo que atraente, exige coragem para se romper com os medos
básicos, inerentes a todo processo de mudança – o medo à perda (ansiedade pelo
abandono do vínculo anterior) e o medo ao ataque (vulnerabilidade diante de uma nova
situação)10. O filme nos coloca face a face com a necessidade de mudança e com nosso
medo de mudar. Mas essa resistência é um sentimento a atingir o mundo inteiro. A ONU, por
exemplo, no ano de 2002, em conferência realizada em Joanesburgo, estava, ainda, a
discutir a viabilidade da aplicação das idéias levantadas vinte anos atrás por Capra na obra
O Ponto de Mutação. O físico se diz atônito pelo fato de encontramo-nos hoje nas mesmas
condições do final dos anos 80.

Em entrevista ao jornal O Pasquim11, Capra demonstrou, também, ter seus medos:


receia que os danos causados pelo aquecimento global, pelas alterações climáticas sejam
irreversíveis, mas, mesmo assim, decidiu não se deixar paralisar. Tem trabalhado com eco-
alfabetização, assessorou a Petrobrás na geração de energia eólica associada a células de
hidrogênio, criou uma rede de especialistas – psicólogos, biólogos, economistas, cientistas
políticos, designers ecológicos, engenheiros – voltados para a nova maneira sistêmica de
pensar o mundo. Sua atuação desafia o nocivo capitalismo global. O livro e filme O Ponto de
Mutação, bem como as demais obras de Capra, suas palestras e, sobretudo, suas ações
nos fazem repensar nossa postura na vida, nossa contribuição para o planeta.

Um fato é notório: ninguém, ao final desta produção cinematográfica, sentir-se-á o


mesmo. O espectador perceberá que, nos cento e dez minutos de projeção, ele, também, foi
ator. Suas convicções, o tempo inteiro, ou entraram em choque com os argumentos do
físico, ou estabeleceram, com ele, uma concordância. Nunca, porém, permaneceram em
estado de neutralidade. E há quem possa ficar imune à imagem sistêmica da natureza
descrita por Sonia nos momentos finais de Ponto de Mutação? A “gigantesca respiração que
a Terra realiza com suas florestas. O sopro da vida, ligando a Terra ao céu e nós, ao
Universo”. Após essa descrição poética, verdadeira melodia para nossos ouvidos, como não
sentirmos que o destino da humanidade está intrinsecamente integrado ao destino da Mãe
Natureza? Sejamos, pois, na vida, atores capazes de construir uma nova percepção da
realidade, e não meros espectadores, apáticos diante do “crescimento” patológico que
contamina o mundo. Ponto de Mutação está aí para nos lembrar que, com a natureza,
estabelecemos uma ligação profunda, um elo verdadeiramente espiritual.

10
Enrique Pichon-Rivière, psicanalista, formulador da teoria dos grupos operativos, buscou, com base na teoria
psicanalítica e nos aportes kleinianos, entender a inércia relativa às mudanças. Concluiu que, à frente de toda mudança, há
dois medos básicos: o medo à perda e o medo ao ataque. – Fonte: OSORIO, Luiz Carlos. Psicologia Grupal: uma nova
disciplina para o advento de uma era. Porto Alegre: Artmed, 2003.
11
Fonte: Rede Brasileira de Educação Ambiental (www.rebea.org.br). O site não informa a data da entrevista.