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A invenção das massas: a psicologia entre o controle e a resistência

No século XVIII emerge o Estado Moderno constituído pelo capitalismo


liberal, onde todos os indivíduos deveriam ser vistos como iguais e com
direito ás expressões individuais.

Com esse modo de viver que individualiza, a experiência subjetiva da e na


modernidade instaura condições de constituição de um modo padrão de
experimentar as relações no mundo, o modo-indivíduo.

É toda uma tecnologia que toma o corpo desse indivíduo para cuidá-lo, criando
uma estrutura de vigilância contínua e anônima, regulando as ações de cada
um.

Com o objetivo de conter as agitações sociais que tiveram início no século XIX,
surge a medicina social, que passa a organizar e regular a população afetada
pelos problemas conseqüentes do aumento populacional.

Para Foucault (1979-80) a medicina seria uma estratégia biopolítica para


administrar e controlar a população, tanto no âmbito da população quanto no
individual.

Surge também uma nova maneira de gerir os homens, aumentando sua


utilidade e enquadramento em um sistema invisível de ordenação subjetiva. Os
espaços públicos passam a ter uma nova configuração.

Segundo Perrot (1991), foi durante o século XVIII, na Europa, que ocorreu a
distinção entre os âmbitos público e privado, quando aquele passou a ser
objeto do Estado e a vida privada foi revalorizada, tendo se tornado em espaço
para a realização das relações íntimas e pessoais e, igualmente, avaliada
como sinônimo de felicidade.

Público e privado configuravam-se como esferas espaciais e morais que,


embora complementares, exigiam comportamentos diferentes, fazendo com
que as populações dos grandes centros urbanos europeus tivessem que
aprender que, no espaço público, os modos de funcionamento deveriam
respeitar determinados padrões de civilidade definidos, enquanto no espaço
privado, o que prevalecia era a expressão do que se considerava ser a
transparência das relações pessoais e familiares.

Porém, com as mudanças urbanas, a relação entre esses dois âmbitos sofre
uma transformação. Essa relação que até então apresentava-se contornada e
definida foi quebrada por uma nova forma social.

Nasce assim, a sociedade intimista, regulada pela erosão entre o público e o


privado: o público passando a ser regulado pelos valores íntimos e familiares
do espaço privado, se tornando desqualificado, por não atender aos desejos e
valores da privacidade de transparência e de naturalidade de comportamentos.
A sociedade incide, assim, no vigiar permanente das expressões de cada um,
desestimulando comportamentos em público que pudessem revelar o que se
passava na interioridade da pessoa.

Para explicar o movimento das massas utilizou-se muitas teorias como a da


hipnose, da sugestão, do contágio, da medicina social, etc.
Gabriel Tarde, sociólogo e criminologista francês, escreveu vários artigos sobre
o comportamento das massas.

Tarde analisou a noção de delito como algo necessariamente influenciado pelo


meio social, no qual o eu individual teria necessidade de misturar-se ao exterior
para ver a si mesmo.

Para ele a multidão se origina graças às semelhanças de origem social, onde


as pessoas se agrupam conforme a exigência da situação e a partir de um
centro (líder, chefe).

Distinguiu também multidão e corporação. Na primeira prevalece um líder


organizador; são mais tradicionais e os bons chefes, mesmo após a morte são
usados como exemplo. Já na multidão, há um grau menor de inteligência e
moralidade; só há obediência a líderes vivos, podendo ser irrompidas a
qualquer momento.

Tarde se diferenciou das idéias sobre multidão de Le Bon, considerando o


século XIX como o século do público e não das multidões como afirmava Le
Bon. Entre 1831 e 1848 vários movimentos operários ocorreram na Europa,
como a “Comuna de Paris”.

Desse modo, o século XIX esteve marcado especialmente por movimentos de


massa, mantendo-se dominante o modo de subjetivação individual. Portanto,
as massas serão tomadas como um conjunto de indivíduos que, quando
reunidos, apresentam certas características peculiares.

Le Bon, em sua obra “Psicologia da multidão”, define multidão como o


agrupamento de um grande número de pessoas interatuantes que exercem
influência mútua, composta por elementos heterogêneos que se ligam e, por
esta reunião, formam um outro corpo, tal como as células se organizam e
geram um corpo vivo com características diferentes de cada uma delas.

Para ele, o indivíduo imerso na multidão perde seu autocontrole, atuando de


modo irracional, impulsivo e bestial. Forma-se uma “mente coletiva” que se
apossa de cada um, produzindo a incapacidade para raciocinar. Enfatiza
também a “natureza feminina” das massas, onde impera as emoções não
elaboradas, extremas, súbitas, intensas e instáveis.

Freud iniciou suas análises sobre as massas a partir das propostas de Le Bon.
Em 1921 escreveu o livro “Psicologia de las massas”, onde analisa as idéias de
Le Bon.
Inicia seu texto afirmando que a psicologia individual tradicional é, ao mesmo
tempo e, desde sempre, uma psicologia social, pelo fato de que, se a primeira
busca investigar os caminhos pelos quais os homens tentam alcançar a
satisfação de suas pulsões, é somente em circunstâncias muito especiais que
eles abrem mão de conviver com seus semelhantes.

Essa psicologia social, denominada de psicologia coletiva, deveria explicar o


motivo de os homens se comportarem de forma totalmente diferente quando
estão no meio de uma multidão.

Freud argumenta que se os indivíduos em na massa se encontram difundidos


em uma unidade, deve haver alguma coisa que os une, e essa coisa seria
precisamente aquilo que caracteriza as massas.

Ele traz o conceito de libido para a compreensão da psicologia coletiva, sendo


uma energia que possibilita a relação de tudo o que é suscetível de ser
compreendido sob o conceito de amor. As relações libidinais se efetuam por
meio da identificação.

E é a partir desse conceito que Freud explica o funcionamento das multidões


como aquilo que liga seus componentes entre si e faz com que elas sejam,
exatamente, multidões: cada indivíduo projeta sobre os outros e sobre o líder a
idealização do que cada ego individual estruturou para si próprio.

Um outro psicanalista, Reich, também se dedicou a elaborar uma teoria sobre o


comportamento das massas.

Em 1933, instigado pela ascensão do nazi-fascismo, ele publica o livro


“Psicologia das massas do fascismo” onde lança a tese de que as massas não
foram iludidas, elas não se enganaram e não foi por desconhecimento que
aceitaram o fascismo.

Acredita que naquele momento as massas desejaram o fascismo, pois ele foi
uma forma de reproduzir a moral repressora da família patriarcal, autoritária e
nacional.

Porém em 1983 um outro autor, Elias Canetti, traz uma outra perspectiva sobre
as massas. Em seu livro “Massa e poder”, ele afirma que o homem se insere
na massa para escapar do medo diante do estranho. A massa seria então um
dispositivo de descarga, onde todos se sentem iguais.

O autor destaca quatro características da massa que sempre estariam


presentes: ela sempre quer crescer; no seu interior reina a igualdade; ela ama
a densidade; e ela necessita de uma direção.

As massas podem ser classificadas como abertas ou fechadas, visíveis ou


invisíveis, rítmicas ou estancadas ou de acordo com seu conteúdo afetivo (de
fuga, perseguição, etc).
Até aqui, os autores citados que estudaram sobre as massas, a tomaram no
sentido usual que lhe é atribuído, seu sentido molar (representação que define
grandes conjuntos), que difere da visão de Deleuze e Guattari.

Para esses autores, tanto a sociedade quanto o indivíduo são atravessados, ao


mesmo tempo, por duas ordens de organização do socius: uma molar e outra
molecular.

Ou seja, tudo é, ao mesmo tempo, macro e micropolítica. Essa leitura permite


indicar que o que se temia era o processo de desterritorialização provocado
pelas massas, já que em seu plano molecular elas são fluxos que se deslocam
sem cessar, desmanchando formas instituídas e levando á constituição de
outros modos de subjetivação.

Se na Europa, no final do século XIX e início do XX, houve a preocupação de


tematizar e explicar a questão das multidões, no Brasil, nesse período a
preocupação com o tema ganhou outra expressão. No início do século XX, o
Brasil republicano estava prestes a industrialização e urbanização.

No Rio de Janeiro, a questão das massas, compostas em sua maioria por


desempregados ou subempregados, também eram vistas como algo a ser
resolvido.

Essa massa era vista como inconveniente e responsável pelo desemprego, na


medida em que “entupiam” a cidade e em nada contribuíam para a ordem
social, pois eram perigosos e indesejáveis.

Assim, os saberes médicos da época procuraram organizar a população


segundo uma forma racial, acreditando que as misturas raciais indesejáveis
seriam causa das enfermidades. Essa teoria racial serviu para justificar duras
hierarquias sociais.

A polícia republicana, juntamente com os saberes médicos tornou-se um


aparelho poderoso para impedir qualquer ajuntamento popular, reprimindo
qualquer movimento social.

Os saberes “psi’, encarnados na figura dos psiquiatras, tornaram-se aliados em


torno das estratégias para controlar e chamar á ordem a massa pobre e
miscigenada, separando o normal do desviante.
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