A GEOGRAFIA TEORÉTICO – QUANTITATIVA: Vitor Vieira Vasconcelos Doutorando em Geologia – Universidade Federal de Ouro Preto Consultor Legislativo de Meio

Ambiente e Recursos Naturais – Assembleia Legislativa de Minas Gerais Setembro de 2009 Resumo: Este artigo tem como objetivo percorrer a história de formação da Geografia Teorético-Quantitativa, ou “Escola Espacialista” da Geografia. Especial atenção será dada aos debates epistemológicos que se deram ao longo dessa história. Também serão enfocadas as contribuições dessa corrente da Geografia para os estudos contemporâneos que envolvem o espaço, com auxílio dos Sistemas de Informações Geográficas. Palavras Chave: Geografia, Cartografia, Geoestatística, História.

1. História da Escola Espacialista Americana

A fundação da AAG (Associação Americana de Geógrafos), em 1904, abriu as portas para a chamada “Nova Geografia”. O contexto era de uma crítica às escolas clássicas da Geografia, que não estariam conseguindo atender ao dinamismo demandado pelas duas guerras mundiais (GOMES, 1996). Os governos procuravam por uma Geografia aplicada, que respondesse de maneira ágil e confiável às novas necessidades de planejamento (NARDY & AMORIM FILHO, 2003). Essa demanda foi intensificada com a premência da reconstrução das cidades européias no pós-guerra. A posteriori, pode-se analisar que os países em que essa premência de uma geografia aplicada foi mais marcante foram os Estados Unidos, a Inglaterra e a Suécia. Contudo, ainda era uma tarefa árdua, pois não havia metodologia e tecnologia para potencializar esse desenvolvimento pretendido. Não obstante, houve avanços importantes, com modelos de Economia Regional e da Geografia Urbana. Tais avanços foram possíveis pela formação das Escolas de Chicago, de Washington e, também, de alguns grupos europeus. A Escola de Chicago contava com nomes importantes como Carl Sauer, Ellen Semple, Paul Goode, Wallace Atwood, Harlan Barrows e Walter Towers. Esse grupo também estava em constante diálogo com sociólogos urbanos de sua universidade, como Robert Park, Ernest Burgess e R. Mackenzie. Seus principais focos de estudo eram os Estudos Urbanos e a Geografia Econômica. Seus pressupostos eram de que a

especialização funcional, a divisão do trabalho, os enclaves sociais e familiares, a mobilidade social e espacial, bem como aspectos culturais poderiam explicar a espacialização de fenômenos urbanos e econômicos. Os primeiros estudos buscaram inspiração tanto em modelos ecológicos territoriais, quanto em teorias como as de áreas concêntricas e de lugares centrais. Seguindo suas linhas de pesquisa, os primeiros modelos abarcavam as relações espaciais relacionadas à Economia Regional e à Geografia Urbana. A Economia oferecia um apelo interessante à Geografia, pois aquela já demonstrava, há algum tempo, um rol de lei e princípios com relativa estabilidade. O diálogo entre Geografia e Economia trouxe benefícios para as duas áreas de saber. Pois, se em um primeiro momento a Geografia baseou-se em modelos econômicos, depois da Revolução Teorético-Quantitativa foi possível que a Economia Regional começasse a utilizar-se das novas técnicas de análise espacial geográficas. O grupo da Escola de Washington, também chamada de Cadetes Espaciais foi liderado por William Garrison, com atuações importantes também de Torsten Hargestrand e Gunnar Olsson. Na Escola de Washington passaram grandes nomes, que terão papel importante na Revolução Teorético-Quantitativa. Entre eles, destacam-se Waldo Tobler, Ulmann, Nystuen, Berry, Bunge, Dacey, Getis, e muitos outros. Posteriormente, também se reuniram grupos importantes em Iowa, Ohio e Michigan. Esses grupos pioneiros lançaram as bases para o que posteriormente seria a Revolução Teorético-Quantitativa. Seus estudos estavam orientados ao

desenvolvimento da cartografia analítica e de métodos quantitativos, incorporando princípios, leis e metodologias do que havia de mais moderno nas ciências desse período histórico. Dentro de alguns anos, a partir de um salto no desenvolvimento das técnicas de análise espacial, houve uma verdadeira revolução acadêmica dentro da Geografia, que foi chamada de Revolução Teorético-Quantitativa. Em uma análise ampla, a Geografia Quantitativa pode ser considerada um esforço de transformar a Geografia, de fato, em uma ciência moderna, nos moldes das demais ciências de ponta. Esse objetivo, em parte, veio em decorrência de numerosas discussões anteriores sobre se a Geografia seria mesmo uma ciência, ou se seria uma arte, ou mesmo um modo de ver o mundo (GOMES, 1996). William Bunge considera Schaefer como responsável por uma importante ruptura epistemológica na Geografia desse período. Schaefer criticava a pouca ênfase

dada pelas escolas francesas na busca de leis gerais que governem as distribuições espaciais (SCHAEFER, 1953. NARDY & AMORIM FILHO, 2003). Para ele, os geógrafos regionalistas estariam empenhando muito esforço na descrição, em detrimento da explicação. Como contraposição, Schaefer apontava a importância de se utilizarem modelos com maior rigor metodológico, os quais pudessem comprovar hipóteses nos moldes das modernas ciências exatas e biológicas (CORRÊA, 1990). Schaefer envolveu-se em um clássico debate com Hartshorne. Hartshorne era o principal representante da Geografia Clássica Americana e que, segundo Schaefer, defendia que a Geografia seria uma ciência única, com uma metodologia única, para estudar lugares únicos (CORRÊA, 1995) - o que tornaria também o geógrafo um pesquisador com habilidades únicas. Schaefer critica esse excepcionalismo da Geografia, pois uma ciência verdadeira deveria se preocupar em descobrir os padrões gerais, e não se render às aparentes singularidades (GOMES, 1996) 1. Afinal, essas singularidades seriam apenas fenômenos ainda não explicados pela capacidade teórica atual das ciências (GOMES, 1996). Ao se atentar para o que havia de único nos lugares, os regionalistas estariam se aproximando mais da arte do que da ciência. Hartshorne esforçou-se por responder as críticas de Schaefer (NARDY & AMORIM FILHO, 2003), mas isso não impediu o deslanche da corrente quantitativa. Contudo, Schaefer morreu antes de ver os efeitos de suas críticas. Também houve críticas, por parte da corrente teorético-quantitativa, que os estudos regionais não utilizariam as técnicas quantitativas e, por isso, não seriam adequados à comprovação pelo método científico. Esse é o Princípio da Refutabilidade, proposto por Karl Popper como modelo para todas as ciências (SILVEIRA, 1996, p. 204). Essa possibilidade de verificação empírica das hipóteses tornaria a Geografia mais confiável, mudando o foco de valorização de uma teoria para o rigor de seu discurso e de sua verificação, e dando menos importância à prática arraigada de vincular o valor de um discurso apenas à autoridade do pesquisador e de sua biografia. Para Ian Burton e William Bunge, a ciência geográfica, para ser equiparada as outras ciências, precisaria se esforçar por construir modelos que fossem preditivos, além de serem validados firmemente por dados empíricos 2. Não bastava descrever, e mesmo
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BURTON, 1963: “Num mundo sem teoria não há exceções; tudo é único.” (p. 74) BURTON, 1963. p. 75. - “O cerne do método científico é a organização dos fatos em teorias e a experimentação e aperfeiçoamento da teoria por meio de sua aplicação à previsão de fatos desconhecidos. A previsão não é só um valioso subproduto da construção teórica, como também um teste pelo qual a validade da teoria pode ser demonstrada.”

apenas explicar o passado. Pois se uma lei fosse realmente correta, ela precisaria funcionar para dados passados, presentes e futuros (CAMARGO & REIS JÚNIOR, 2007, p. 98). A base para a Escola Espacialista é a apreensão do espaço por abstrações. O espaço passa a ser compreendido por meio de matrizes, polígonos, linhas, pontos, vetores e topologias, muitas vezes de forma intercambiável ao mudarmos de escala. Por exemplo, fenômenos que ocupam áreas (polígonos) em uma escala de análise, ao distanciarem-se para outra escala podem ser abordados como linhas e pontos.

Figura 11 – Abstrações de fenômenos reais utilizadas pela escola espacialista. Fonte: Wayson (2008)

O mais relevante é que, por tratar-se sempre de entidades geométricas, torna-se possível utilizar um sem número de análises matemáticas e estatísticas (FERREIRA, 2007, p. 112-117, 119). A abstração simplifica e, em parte, iguala os entes. Assim, não se estuda a realidade em si, diretamente, e sim um modelo abstrato. Nesse mesmo aspecto, passa-se de um espaço absoluto (real) para um espaço relativo (abstrato). Essa abstração é, a priori, necessária para que possam ser trabalhados matematicamente, como, por exemplo, a álgebra cartesiana, a teoria de grafos, entre outras. Alguns geógrafos quantitativos partiam do pressuposto das planícies anisotrópicas, as quais seriam uma abstração que pressupunha que o espaço fosse homogêneo, sem diferenças de uma região para outra. Na planície isotrópica supunha uma distribuição igual sobre o espaço para diversas variáveis, tais como recursos naturais, atrito da distância, liberdade de movimento, densidade populacional, dentre outros, a depender do modelo. Pressupostos como esse simplificam a realidade, o que permitiu o desenvolvimento matemático, mas, por outro lado, excluía outros fatores muito importantes para as análises geográficas (CORRÊA, 1995; GOMES, 1996). Por isso, os modelos nunca fornecem respostas com eficácia total 3. Sob esse aspecto, a simplificação ocasionada pela abstração dos modelos foi fortemente criticada por parte dos geógrafos das correntes mais tradicionais, que consideravam importante para a Geografia estudar o que há de único (idiográfico) em cada lugar. Todavia, essa crítica era respondida basicamente pelo questionamento de Schaefer (1953), de que a ciência apenas evolui pelo que é abstraído de forma a tornarse comparável (nomotético). Como um saldo positivo para a evolução do pensamento geográfico, a Revolução Quantitativa trouxe a Análise Espacial, e também a quantificação, que entraram de forma permanente para a Geografia 4. A quantificação aumentou bastante as possibilidades instrumentais da Geografia (NARDY & AMORIM FILHO, 2003). Um desses avanços foi, sem sombra de dúvida, a evolução da capacidade de mensurar
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SANTOS, 2002 – “Eliot Hurst (1973, p. 46) afirma que na paisagem a maior parte daquilo que é objeto de nossa experiência não é susceptível de análise quantitativa.” 4 WRIGLEY, 1965 p.17. - “O uso de técnicas estatísticas, se corretamente utilizadas, permite uma maior precisão (...) os problemas práticos e metodológicos da geografia são de tal natureza que a utilização das técnicas estatísticas é adequada para exercer uma forte atração”,

certos dados físicos e sociais, estruturando-os em grandes bancos de dados. Porém não foi apenas isso, pois a matematização, a estatística, o sensoriamento remoto e os SIG's trouxeram novas capacidades de análise dessas estruturas de dados. No primeiro auge dos modelos espaciais dessa corrente, criticou-se que alguns trabalhos eram muito sofisticados do ponto de vista quantitativo, mas erravam visivelmente quando seus resultados eram comparados aos dados verificados em campo
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. Um exemplo recorrente seria a situação em que se atribui, a certas variáveis, valores

ponderados equivocados para a constituição de um resultado quantitativo. Como um meio de responder a tais constatações e críticas, procurou-se uma maior valorização da Epistemologia na Geografia Quantitativa (NARDY & AMORIM FILHO, 2003). Essa foi a razão para que essa corrente de pensamento passasse a receber a denominação de Teorético-Quantitativa, o que não foi apenas uma mudança de nome, mas sim uma evolução no seu valor como ciência. Firmou-se como importante fazer a quantificação geográfica com uma boa base epistemológica, seja para obter o máximo de alcance de análise espacial, seja para garantir a acurácia dos resultados. O embasamento epistemológico também é proveitoso para garantir que não haja uma manipulação ideológica dos dados ou do próprio pesquisador. Inobstante, ainda se pode fazer uma Geografia estritamente tecnocrática, com o enfoque exclusivo no produto cartográfico a ser apresentado, porém cada vez mais se estima o trabalho geográfico bem fundamentado em teorias epistemológicas e filosóficas. Esse retorno da valorização da Epistemologia para a análise espacial contribui para um maior relacionamento entre a Geografia e a Filosofia. A ligação entre esses dois campos de saber já era considerada essencial para os gregos antigos, mas foi “eclipsada” durante o período subseqüente da história da humanidade. Como um

benefício disso, a preocupação com epistemologia e metodologia dos trabalhos geográficos permitiu à Geografia um diálogo mais proveitoso com as demais ciências modernas, por intermédio da Filosofia da Ciência.

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CHRISTOFOLETTI, 1985 – “Numa primeira fase, portanto, houve a ‘magia do número’, supondo que a quantificação por si só resolvia as questões. Evidentemente, acontecia que através da análise quantificada os problemas eram mais facilmente colocados e definidos, redundando em soluções mais rápidas e mais bem documentadas. Pouco a pouco, entretanto, foi-se percebendo que a quantificação levantava inúmeros problemas; era um meio e não um fim em si mesma. O mais importante era a noção e o conceito que se possuía dos fenômenos – era a perspectiva teórica. O uso indiscriminado e abusivo das técnicas estatísticas gerou insatisfação, o que levou Brian Berry a denominá-la de ‘geografia estatística tradicional’ (Berry, 1972, p.3).”

Burton (1963) apresenta uma análise importante sobre a fase madura da corrente teorético quantitativa. O autor define os críticos da geografia quantitativo-teorética em 5 grupos 6:

I - O dos geógrafos que logo de saída recusam a Revolução Quantitativa e a consideram como capaz de levar a geografia por maus caminhos, por ser epistemologicamente equivocada. Contudo, esse grupo foi perdendo sua força, no decorrer do tempo.

II - O dos geógrafos que consideravam que a corrente quantitativa estaria enfocando demasiadamente os instrumentos de pesquisa, e enfocando pouco os trabalhos aplicados de campo. Para esses, a cartografia e os métodos tradicionais já seriam o suficiente para exprimir as correlações que caracterizam a organização do espaço. Burton afirma que, pouco a pouco, esses geógrafos estariam ficando ultrapassados em suas maneiras de explicar os fenômenos espaciais.

III - O dos Geógrafos opositores que afirmam que as técnicas estatísticas são adequadas para alguns temas geográficos, mas não para toda a Geografia. Os estudos teorético-quantitativos seriam incompletos, nesse aspecto, por não abarcarem aspectos importantes da realidade humana e da Natureza. Trata-se de um grupo forte, que apesar de não negar o valor da corrente quantitativa, ainda procura defender outras metodologias complementares de pesquisa na Geografia.

IV - O dos geógrafos mais abrandados que afirmam que as técnicas quantitativas são desejáveis, mas frequentemente incorrem em erros grosseiros, devido a

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SANTOS, 2002 – “Ian Burton (1963, pp.151,162) classifica os adversários da geografia quantitativa em cinco grupos: O primeiro é o dos geógrafos que logo de saída recusam a “revolução quantitativa” e a consideram como capaz de levar a geografia por maus caminhos. O segundo grupo é constituído pelos geógrafos que consideram a carta suficiente para exprimir as correlações que caracterizam a organização do espaço. Um terceiro grupo de opositores afirma que “as técnicas estatísticas são adequadas para alguns temas geográficos, mas não para toda a geografia”. Uma outra ordem de objeções é mais abrandada: as técnicas quantitativas são desejáveis, mas os numerosos erros de aplicação deveriam desaconselhar o seu uso. Um último grupo prefere levantar críticas de natureza mais pessoal: para estes a quantificação seria uma boa coisa mas os geógrafos quantitativos não seriam tão bons...”

aplicações inadequadas. Essa crítica não deixaria de ter um certo embasamento. Contudo, Burton considera que os erros e críticas são essenciais para o caminho de desenvolvimento de uma ciência.

V - O dos geógrafos que preferem levantar críticas de natureza mais pessoal, argumentando que a quantificação seria uma boa coisa, mas os geógrafos quantitativos seriam muito arrogantes, desmedidamente ambiciosos e sem noção de limites. Burton acredita que, com o arrefecer dos ânimos que foram aviltados no auge da revolução quantitativa, tornar-se á possível um diálogo mais ameno entre as diversas correntes da Geografia.

Burton ressalta que uma das principais contribuições da revolução quantitativa foi a possibilidade de matematização e de modelagem científica dos estudos geográficos. Métodos de regressão, correlação, variação e co-variação seriam ferramentas a mais para o geógrafo, no estudo dos fenômenos espaciais. Isso traria um rigor maior à Geografia, pois além de passar pelo crivo dos métodos tradicionais, as hipóteses também poderiam passar pelo crivo dos métodos quantitativos. Respondendo às críticas de que a geografia teorética seria mecanicista e determinista, Burton apresenta os recentes desenvolvimentos de modelos estatísticos probabilísticos, que trazem a possibilidade de captar e lidar com fenômenos naturais e sociais complexos. O autor ressalta que a corrente teorético-quantitativa não deve ser interpretada pela dicotomia de enfoque quantitativo-qualitativo. Afinal, uma ciência pode ter qualidade e ainda sim apoiar-se em dados empíricos. Portanto, não bastariam apenas os modelos matemáticos, mas também seria necessário, sempre, um bom embasamento epistemológico, bem como uma noção correta das causalidades existentes entre os fenômenos naturais e sociais.

3.3. Waldo Tobler e a Modelagem Espacial

Waldo Tobler é conhecido por ter feito o primeiro mapa por meio de um computador. Durante sua trajetória acadêmica, Tobler desenvolveu várias teorias e técnicas de análise espacial. Grande parte dos programas de SIG atuais utiliza de

algoritmos desenvolvidos inicialmente por Tobler. Destaca-se sua proposição da a “Primeira lei da Geografia”, a qual se remeteria às relações de distância (MILLER, 2004). Segundo essa lei, todos os fatos geográfico estão relacionados entre si, mas os fatos mais próximos possuem uma relação mais forte7. A assim denominada “Primeira Lei da Geografia” possui um valor epistemológico fundamental para os modelos da escola espacialista. Com efeito, esses modelos espaciais davam um grande peso à variável de distância espacial, a qual seria o fator fundamental. Há de se observar que todos os modelos baseados em distância partem da premissa de que a distribuição e o comportamento dos fenômenos estudados guarda pode ser explicada pelas relações de distância entre os elementos representados. Teses contemporâneas sobre o fim da distância, que serão analisadas no tópico 5.6, são um grande desafio para a persistência desses modelos espaciais. A Primeira Lei da Geografia foi uma quebra paradigmática na maneira de interpretar dados espacializados. Até essa época, para os estudos estatísticos, era considerado que retirar amostras muito próximas umas às outras levaria a resultados tendenciosos. Segundo essa metodologia tradicional, as amostras de dados deveriam guardar um distanciamento padronizado entre si. Entretanto, Tobler propôs uma abordagem antagônica ao método estatístico clássico. Afinal, para o Geógrafo é muito interessante mapear qual é o impacto de uma célula espacial nas células vizinhas. Sua proposta era amostrar dados de localizações bem próximas, para avaliar o quanto essas amostras estariam relacionadas entre si. Dessa maneira, tornava-se possível calcular e mapear a correlação espacial entre as amostras. Esse processo se dá por uma fórmula matemática relativamente simples, denominada de índice de auto-correlação. Essa foi a base para diversos modelos espaciais da corrente espacialista.

Figura 13 – Índice de Auto-correlação espacial. (GOODSCHILD, 2001).
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THRALL, 1995. "[E]verything is related to everything else, but near things are more related than distant things."

Figura 14 – Casos Clássicos de Correlação espacial. (MEADEN e CHI, 1996).

Tobler contribuiu para a transição da forma de pensar da cartografia clássica, centrada na elaboração manual de mapas, para a cartografia computadorizada. Em seu modelo de automação em cartografia, havia uma entrada de dados no computador, um algoritmo de tratamento e uma saída de dados, que resultava em um mapa. Tobler denominava esse modelo de MiMo (Map In, Map Out) (CLARKE, 1997, p. 8). A partir da Cartografia Digital, foi possível incorporar e executar com mais eficiência e agilidade técnicas de análise, armazenamento, verificação de consistência, manipulação, análise, representação e comunicação de informações geográficas. Esse avanço foi tecnológico e epistemológico evidenciou como a informação geográfica tornou-se uma representação abstrata da realidade geográfica, podendo ser manipulada e representada de forma gráfica ou virtual, analógica ou digital. Tobler desenvolveu um modelo de fluxos, que permite visualizar

cartograficamente a direção e a intensidade de fluxos entre determinados pontos. Esse modelo pode ser utilizado para estudar migrações, comércio, turismo, dentre vários outros fenômenos.

Figura 15 - Migração entre Bairros de Londres, de 1965 a 1966. Fonte: Tobler FlowMapper Tutorial. www.csiss.org, em novembro de 2008. Tobler também se dedicou aos programas de visualização em linhas de contorno. De modo geral, as operações de contorno envolvem modelos de interpolação e de filtragem de dados. A interpolação é um meio de generalizar informações, quando faltam dados. Se há excesso de dados, utiliza-se a filtragem. A cada iteração (aplicação) dessas técnicas, a continuidade da matriz de dados torna-se mais suavizada.

Figura 16 – Interpolação e delimitação de linhas de contorno a partir de pontos de amostragem. Fonte: Departamento de Ciências e Engenharia do Ambiente da Universidade Nova de Lisboa. http://air.dcea.fct.unl.pt/aulas/eatig/, acesso em novembro de 2008. Existem vários métodos de interpolação, e cada um deles produz resultados de contorno bastante diferentes um dos outros (Figuras 17 a 27). Por isso, é necessário um sólido conhecimento sobre cada técnica de interpolação, bem como o uso de algoritmos consistentes. Desta maneira, a depender da forma de disposição dos dados, da natureza do fenômeno, e do objetivo da análise espacial, será escolhido o método mais adequado.

Figuras 17 a 22 – Diferentes resultados de Interpolação para a mesma base de dados, a partir de técnicas diferenciadas. (CHILDS, 2004).

Figura 23 (esquerda)- Dados referentes à precipitação no Oeste da África. Figura 24 (direita) - Análise de tendências ajustada com polinômio de grau 3. Fonte: Marteleira, Brás e Ribeiro (2007).

Figura 25 (esquerda) - Inverso da distância pesada com expoente 2. Figura 26 (direira) Polígonos de Thiessen (esta imagem foi gerada através da sobreposição da imagem raster de chuva com os polígonos de Thiessen) Fonte: Marteleira, Brás e Ribeiro (2007).

Figura 27 – Kriging. Fonte: Marteleira, Brás e Ribeiro (2007). Tobler desenvolveu os modelos de vento, que mostravam tendências direcionais de certos fenômenos espaciais. Um exemplo deste modelo foi a tese de João Francisco de Abreu, que mostra a tendência da migração e do capital brasileiro de concentrar-se na região Sudeste (ABREU, 1982).

Figura 28 – Mapa com vetores de força a partir de linhas de contorno. (CAMPOS e CHONG, 1999). Tobler também trabalhou com o desenvolvimento de cartogramas. Cartogramas são uma transformação em mapas, que permite certa flexibilidade em relação à escala e localização dos elementos mapeados, de forma a ressaltar certos atributos e relações. A transformação muda o sistema de coordenadas e, com isso, o padrão gráfico do desenho; contudo, tentam manter as relações de contigüidade entre os elementos do mapa, para que o leitor consiga comparar o cartograma ao espaço mapeado real.

Figura 29 – Cartograma de População. Fonte: Universidades de Sheffield (United Kingdom) e Michigan (o EUA), publicado no jornal Daily Mail. (http://www.worldpress.com, acesso em novembro de 2008).

Figura 32. Cartograma de Emissões de CO2 para a atmosfera (2000) Fonte: Projeto WorldMapper. Universidade de Sheffield. Reino Unido. Em: www.worldmapper.org/atozindex.html, em novembro de 2008. Outra área de destaque em que Tobler atuou foi a dos espaços relativos. Enquanto os espaços reais trabalham com uma malha de latitude (Y) e longitude (X), os espaços relativos utilizam quaisquer sistemas de variáveis bi ou tridimensionais. Dessa maneira, podem-se aplicar os modelos de análise espacial para diversos fenômenos que não necessariamente estejam relacionados à distribuição no espaço real.

3.4. Reflexões finais: A Segunda “Revolução Quantitativa”: os Sistemas de Informação Geográfica

O surgimento dos SIG - Sistemas de Informação Geográfica (GIS, em Inglês) marcou o que se chama de segunda “Revolução Quantitativa” da Geografia. Incorporando os avanços da computação à análise espacial e tomada de decisão, os SIG se tornaram um instrumento quase indispensável ao Geógrafo moderno. Mais do que apenas sistemas de informação, a letra “S”, de GIS passou a ser considerada de “System” para “Science” (FERREIRA, 2007, p. 121). Portanto, deixa de ser um instrumento e adquire um status de ciência, com contribuições interdisciplinares e intradisciplinares da Geografia, Ciência da Informação, Ciência da Computação, entre outros.

O advento das novas tecnologias de computação, sensoriamento remoto e análise espacial, que tem se acelerado nos últimos vinte anos, permite hoje realizar trabalhos de mapeamento e análise espacial muito mais consistentes, detalhados e complexos (e a custos bem mais viáveis) do que permitia a cartografia tradicional. Hoje há bancos de dados mais completos e bem arquitetados, além de técnicas mais refinadas e sistemas mais eficientes para realizar os trabalhos. A disponibilidade cada vez maior de “layers” (camadas) de informação sobre cada local implica em uma progressão exponecial das possibilidade de análise. Além disso, incremento na potência e popularização da

internet permite que as informações a serem geradas por sistemas de informação geográfica tornem-se acessíveis a um número de pessoas nunca antes imaginado (BRASIL, 2001, p. 18; FERREIRA, 2007, p. 101-102).

Figura XX - Exemplo de Estrutura de Informações por Sistemas de Informações Geográficas. Fonte: EPA (EUA), http://www.epa.gov/region5fields/htm/methods/gis/, em novembro de 2008. Houve uma época em que se dividiam os geógrafos em quantitativos e nãoquantitativos. Hoje já podemos dizer que a prática quantitativa já se incorporou ao fazer geográfico 8. Ao contrário da primeira revolução quantitativa, que empreendeu um forte
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CHRISTOFOLETTI, 1985 - “As técnicas quantitativas possuem a função de serem fundamentais na coleta e na análise dos dados, orientando a mensuração, a amostragem, a descrição e apresentação, a testagem das hipóteses e das inferências, a classificação e a análise multivariada das

embate com as demais correntes da Geografia, a segunda revolução quantitativa apresenta-se madura, embasada epistemologicamente, e por isso consegue estender-se em uma perspectiva de diálogo e desenvolvimento conjunto em relação às demais abordagens geográficas (GOMES, 1996; NARDY & AMORIM FILHO, 2003). Trata-se de uma percepção mais assisada do contexto acadêmico e que se funda, pois, não tanto no positivismo clássico, mas sim no Neo-Positivismo (CAMARGO & REIS JÚNIOR, 2007). Foi de grande efeito a afirmação de BURTON (1963) segunda a qual a Primeira Revolução Quantitiva-Teorética já estava terminada. Ao declarar tal posição, o autor queria, ao invés de afirmar o declínio da corrente teorética, expressar que o valor de suas contribuições já haveria sido aceito pela comunidade acadêmica geográfica. Portanto, agora tratar-se-ia mais de desenvolver as possibilidades de análise espacial quantitativa, do que gastar esforços em querelar com outras correntes acadêmicas. Com o tempo, os modelos espaciais também se tornaram mais complexos e consistentes, evoluindo para o conceito de análise de sistemas (GOMES, 1996; NARDY & AMORIM FILHO, 2003). Com sua metodologia de pesquisa, a Geografia Quantitativa passa a ser considerada útil para as outras correntes da Geografia, porque sabe tratar os dados com uma metodologia moderna, epistemologicamente consistente e de eficácia comprovada por testes recursivos. Enfim, demonstra-se que a quantificação por si só não é boa nem má, e sim depende apenas de como será utilizada. Pode-se dizer que o diferencial de um Geógrafo, na comunidade acadêmica, tradicionalmente baliza-se por duas características que se inter-relacionam: (1) habilidade de dialogar entre as diversas ciências e (2) habilidade em analisar os dados espacialmente. O domínio dos Sistemas de Informação Geográfica permite que essas duas características sejam potencializadas, por meio da integração de informações multidisciplinares georreferenciadas em bancos de dados e pelos algoritmos de análise espacial.

Bibliografia:

ABREU, J. F. Migration and Money Flows in Brazil - A Spatial Analysis. Tese de Doutorado, University of Michigan, Ann Arbor, 1982.
relações e das tendências das distribuições espaciais. Em suma, são peças básicas do arsenal técnico na formação do geógrafo.”

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