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cia asin aaall

Para Gerardo e Lucia Zampaglione,


meus pequenos heréis particulares

ithaca
Titulo original:
Philosophy in a timeof terror
rida)
(Dialogues with Jiirgen Habermas and Jacques Der

Copyright © 2003, The University of Chicago Press


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Capa: Sérgio Campante

CIP - Brasil. Catalogagao-na-fonte


Sindicato Nacional dos Editores de Livros, RJ.

Habermas,Jiirgen, 1929- .
H119f Filosofia em tempo de terror : didlogos com Jiirgen Habermas e Jacques Derrida /
aa Borradori ; tradug3o Roberto Muggiati. — Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed.,

Tradugao de: Philosophy in a timeofterror: (dialogues with Jiirgen Habermas and


Jacques Derrida)
ISBN 85-7110-799-8
1. Habermas, Jiirgen, 1929- — Entrevistas. 2. Derrida, Jacques, 1930-
— ao
3. Atentado terrorista de 11 de setembro de 2001. 4.
Terrorismo — Filosofia. * Io.
politica — Filosofia. 1. Derrida, Jacques, 1930-. II. Borradori, Giovanna. Il. Titu’o.
CDD303.625
04-1371 C U 316.485.26
D
SUMARIO |

PREFACIO

Filosofia em tempo de terror 7

INTRODUGAO
‘Terrorismoe 0 legado do Iluminismo,
Habermas Derrida 3

PARTE 1

Fundamentalismoe terror —
Um didlogo com Jiirgen Habermas 37

Reconstruindo o terrorismo — Habermas 57

PARTE 2
Auto-imunidade: suicidios reais e simbolicos —
Um didlogo com Jacques Derrida 95
4 *
Sur

147
Desconstruindo terrorismo — Derrida

Notas 181

Agradecimentos 203

Indice remissivo 205


PREFACIO

Filosofia em tempo de terror

Oslivros de filosofia raramente sdo concebidos em um ponto preciso do tempo ;


ou em algumlugar especifico. Kant ruminouA critica da razao pura durante 11
anos: ele chamou-osde “a décadasilenciosa”. Spinoza trabalhou a maiorparte da|
sua vida na Etica, que foi publicada postumamente. Sécrates jamais escreveu
uma tnica linha. O caso deste livro é diferente, pois a idéia inicial foi concebida
no breve espaco de algumashoras, na cidade de Nova York, durante a manha de
11 de setembro de 2001.
Vivi de perto a data de 11 de setembro: estava separada de meusfilhos, que
ficaram presosnassuas escolas, em extremos opostos da cidade, e de meu mari-
do, que é reporter e correu parasalvar a vida enquanto cobria o ataque as Torres
Gémeas. Da minhaperspectiva, o impensdvel irrompeu em umagloriosa manha
juízo final
de final do ver4o, transformando-a inexplicavelmente em algo préximo do apo- e sentido
de "crítica"
calipse. Toda comunicagao foi cortada subitamente: telefone e Internet foram
desligados, nao havia transporte publico disponivel, os aeroportos se fecharam,
e também as estacoes ferrovidrias e pontes. Tal como0 resto do mundo, acom-
panhei a tragédia se desdobrando pela televiséo; ao contrario do resto do
mundo, eu sabia que a uns 50 quarteirdes da minhacasa intimeras pessoas
jogavam-se do alto de 90 andares para a morte, algumas de mAos dadas, a
sozinhas. Enquanto o World Trade Center se esfacelava, a escalada de aconteci-
mentos parecia estar completamente em aberto: o Pentagono encontrava-se em
4

Prefacio

chamas,o presidente deslocando-se noar, 9 vice-presidente escondido em local


secreto, a Casa Branca evacuada, e noticias de uma explosio no Capitélio
haviam desencadeado umacorreria de senadorese congressistas. Até a confir-
macdo de que o quarto avido seqiiestmida catia na Pensilvania, eu, como muj-
tos, achava-me convencida de que o pior aindaestava para acontecer.
Embora o grau de envolvimento pessoal varie de caso a caso, virtualmente
todo nova-iorquino lembra-se em detalhe do queestava fazendo quando soube
que dois avides comerciais cheios de passageiros e de combustivel haviam coli-
dido com os edificios mais altos de Manhattan. Advogados de Wall Street e
motoristas de taxi, lojistas e atores da Broadway, porteiros e académicos — todos
tém umahistoria a contar. Até as criancas possuem suashistérias especiais, geral-
mentecoloridas por descrenca, medoe solidao.
A minhahistéria é a de umafilésofa em tempode terror, e como qual-
quer outra, esta de modosingular entrelagada a vida de sua narradora. Assim,
inevitavelmente, minha histéria tem a ver com a Europae a tradicao filosdfi-
ca européia, da qual Jiirgen Habermase Jacques Derrida sao indiscutivelmen-
te as duas maiores vozes vivas. Ensurdecida pela miriade de sirenes correndo
para o sul da cidade e sozinha no meu apartamento do East Side, recordo-me
de tentar focalizar a realidade da minha vida para além do momento imedia-
to. Entre muitos outros pensamentos que de forma caética se amontoavam
em minhacabega, lembrei que tanto Habermas como Derrida eram espera-
dos em Nova York — cadaqual por seu lado e vindos por canais diferentes —
dentro de apenas poucas semanas. Comecei a pensar: sera que ainda conse-
guirdo vir? O que pensardo da tragédia? Chegarei a ter uma oportunidade de
perguntar isso a eles?
Habermas e Derrida acabaram chegando a Nova York de acordo com os
Planosoriginais, e tive o Privilégio de comparar suas reag6es diante do mais
devastador ataqueterrorista da histdria: elas so 0 foco de Filosofia em tempo de
terror. Apesar das muitas referéncias aos acontecimentosatuais, 0 fio condutor
desses didlogos consiste em submeter a andlise filosdfica as quest6es mais urgen-
tes em rela¢ao ao terror e ao terrorismo. Teria a lei internacional classica se tor-
nadoobsoleta diante das novas ameagas subnacionais e transnacionais?
Quem ¢
soberanosobre quem? E oportunoavaliar a globalizacdo por meio das nogoes de
cosmopolitismoe de cidadania mundial? Serd a nocopolitica e filoséfica de dia-
logo, Gn crucial para toda estratégia diplomatica, uma ferramenta universal
de
comunicac4o? Ou ser4 o diélogo umapratica cultural especifica, que 4s ve7s
Filosofia em tempo deterror
?

poderia simplesmente se mostrar inadequada?E,afinal, sob que condis6es 0 dia-


logo é uma op¢ao vidvel?
A idenlogin explicita dos terroristas responsaveis pelos ataques de 11 de
setembro rejeita a modernidade e a secularizacéo. Comoestes conceitos foram
articulados da primeira vez pelosfilésofos do Iluminismo,a filosofia é chamada
a ago, pois € evidente que pode oferecer uma contribuicdo tinica nessa delicada
injung4o geopolitica. Em meu ensaio introdutério, “Terrorismo e 0 legado do
Iluminismo: Habermase Derrida’, defendoesta tese a partir do angulo descorti-
nadopelasleituras marcadamentedistintas do Iuminismofeitas pelos dois filé-
sofos. Discuto tambéma relacio entrefilosofia e historia, e identifico diferentes
modelos de engajamento politico. Isso permitiré aoleitor situar as intervencdes
de Habermas e Derrida em um contexto mais amplo.
Os didlogos aqui publicados nao expressam s6 0sestilos de pensamento
singulares de Habermas e Derrida, mas trazem a campo o proprio cerne de
suas teorias filoséficas. Cada didlogo é acompanhadopor um ensaiocritico no
qual meu propésito é realgar as principais argumentagées sobreterror e terro-
rismo que Habermase Derrida constroem na ocasiao, mas também mostrar
comoelas se encaixam no contexto mais amplo de seus respectivos arcabou-
¢0s tedricos.
Este livro registra a primeira ocasiao em que Habermase Derrida concorda-
ram em aparecerladoa lado,respondendo a umaseqiiéncia similar de perguntas,
isso
de modoparalelo. Admiro imensamentea disposi¢ao que tiveram para fazer
em relacao ao tema de 11 de setembro e da ameaga do terrorismo global.
no
Em 11 de setembro de 2001 Habermasestava em sua casa, em Stamberg,
em Xangai,
sul da Alemanha, ondevive ha muitos anos. Derrida encontrava-se
na China, para umasérie de palestras. A noticia chegou quandoestava sentado
Nos dois
em um café co. m um amigo. O livro conta também ashistérias deles.
para
didlogos que mantiveram comigo, os filésofos relataram o que significou
durante 0 periodo imediata-
eles estar em Nova York, cidade que ambos amam,
afetados pelo
mente aposo dia 11 de setembro. Os dois foram profundamente
emocional que se podia
panico geradopelos ataques a antraz ¢ pela devastacao
deles, porém, ¢ também a
sentir simplesmente caminhando narua. A histéria
expor a estrutteana do
historia daquilo que lhes foi exigido, como filésofos, para
a avaliagao de um acontectmen-
seu pensamento a mais dura de todasas tarefas:
-
tér ico ini co. Em raz 4o da eno rme autoconfianga e do risco que tal exposi
to his
téria muito pessoal para se contar.
¢&o acarreta, para um fildsofo, esta é umahis
6 Prefacio

O encontro com aquele quetalvez tenhasido o dia mais destrutivo de suas


vidas de adultos produziu em Habermas e em Derrida reacdes muito auténticas.
reacdes no sentido de reflexo do modo extremamenteoriginal comocada um
deles modela, combinae cria idéias.
O didlogo com Habermasé denso, muito compacto e elegantementetraqj-
cional. O uso um tanto espartano da linguagem permite que seu pensamento
progrida de conceito em conceito, com o ritmo regular e lucido quetantodistin.
guiu a filosofia classica alema.
Em contraste, o didlogo com Derrida leva o leitor por uma estrada mais
longa e tortuosa, que se abre imprevistamente para amplas paisagens e canyons
estreitos, alguns tao profundos queo leito permanece longe davista. A extrema
sensibilidade para osfatos sutis da linguagem torna o pensamento de Derrida
virtualmente inseparavel das palavras com que ele se expressa. A magia desse
didlogo é apresentar de uma maneira acessivel e concentrada sua capacidade
incompardvel de combinar inventividade e rigor, circunl6quio e firmeza. Outro
grandefilésofo francés, Blaise Pascal, falou desses pares comoosdoisregistros da
filosofia: esprit definesse e esprit de géométrie.
Apesar das diferencas marcantes das duas abordagens, tanto Habermas
quanto Derrida defendem que o terrorismo é um conceito fugaz que expée a
arena politica global a perigos iminentes e a desafios futuros. Nao esta claro, por
exemplo, em quebase terrorismo pode reivindicar para si um conteddo poli-
tico e assim se separar da atividade criminosa comum. Trata-se também de uma
questao aberta saber se pode existir terrorismo de Estado, se o terrorismo pode
ser claramentedistinguido daguerrae, finalmente, se um Estado, ou uma coali-
zao de estados, pode declarar guerra a algo que nao seja umaentidade politica.
Essa fugacidade € com muita freqiiéncia ignorada pela midia ocidental e pelo
Departamento de Estado norte-americano, que usam a palavra terrorismo como
um conceito auto-evidente.
Habermas reconstroi o contetido politico do terrorismo em fungao dorea-
lismo de suas metas, de modo queo terrorismo adquire contetido politico ape-
nas retrospectivamente. Em movimentos nacionais de libertacdo, é muito
comum que aqueles considerados como tal — e possivelmente até condenados
comoterroristas — se tornem, em umastibita virada dos acontecimentos,05
novoslideres politicos. Uma vez queo tipo de terrorismotrazido A luz por11 de
setembro naoparece possuir metas politicamenterealistas, Habermas desquali-
fica seu contetido politico. Nesse sentido, ele se mostra bastante alarmadopela
Filosofia em tempo deterror u

decisdo de declarar guerra ao terrorismo, o que viria a conferir a ele legitimida-


de politica. Também se preocupa com a perda potencial de legitimidade por
parte dos governosliberais democraticos, que vé sistematicamente
expostos ao
perigo de reagir de modo exagerado contra um inimigo desconhecido.
Esta é
uma preocupa¢ao considerével, tanto do ponto devista doméstico
— plano no
qual a militarizagao da vida comum poderia minar o funcionamento do
Estado
constitucional e restringir as possibilidades de participagéo democratica —
como do internacional — em que lancgar mao de recursos militares pode se
demonstrar umaatitude desproporcional ou ineficaz.
Derrida alega que a desconstrucao da nocao deterrorismo é a unica
forma
de ac4opoliticamente responsavel, porque o uso ptblico dessa nogao como
se
ela fosse evidente em si mesma ajuda perversamentea causa terrorista. Tal des-
construgao do que é considerado uma no¢ado auto-evidente consiste em mostra
r
queas séries de distingdes dentro das quais entendemos o significado do termo
terrorismo estao crivadas de problemas. No pensamento de Derrida, a guerra
acarreta a intimidacao doscivis e, assim, envolve aspectos de terrorismo; tam-
bém nao se pode fazer qualquer separacdo rigorosa entre diferentes tipos de ter-
rorismo, como © nacional e 0 internacional, 0 local e o global. Ao rejeitar a pos-
sibilidade de agregar algum predicado a suposta substancia do terrorismo,
obviamente negamosque ele tenha qualquersignificado, programa e contetido
politico estaveis.
Além disso, Derrida exorta-nos a vigilancia quanto a relacdo entreterroris-
moe sistema de comunicagao globalizado. E verdade que desde 11 de setembro
a midia vem bombardeando o mundo com imagense reportagens sobreo ter-
rorismo. Derrida acha que isso exige umareflex4ocritica. Ao se apegarem a lem-
branga trauméatica, as vitimas tipicamente tentam afiancar-se de que sao capazes
de suportar o impacto daquilo que poderse repetir. Desde 11 de setembro
todos nos vimos forgados a fazer um exercicio de tranqiiilizacao, e o resultado
disso é que o terror parece menos um acontecimento passado do que uma pos-
sibilidade futura. Derrida de fato esta chocado com 0 modopelo qual a midia
tao ingenuamente contribuiu para multiplicara forca dessa experiéncia trauma-
tica. Mas ao mesmo tempofica desconcertado ao ver como real a ameaca
de que o terrorismo possaexploraras redes de tecnologia e informacio. Apesar de
todo o horror que testemunhamos, disse-me ele, nado é invidvel que um dia
tenhamos de nos lembrar de 11 de setembro comoo ultimoelo entre terror e
territério, comoa tiltima erupcao de um teatro da violéncia arcaico, destinado a
al
12 Prefacio

chocar a imaginacao. Pois os ataques futuros — comoseria o caso de ar


Mas qui.
micas e bioldgicas, ou simplesmente de importantes disrupcées da comunicacsg
digital — poderaoser silenciosos, invisiveis e em ultima andlise iNimaginayeis
Diante desses perigos devastadores, tanto Habermas como Derrida
fazer
apelo para umareacao planetdria envolvendo a mudang¢a da legislacdo interna.
cional cldssica, ainda ancorada no modelo de Estado-nacdo do século XIX, rum
a umanova ordem cosmopolita, em queos principais atores Politicos serj
aM ins-
tituigdes multilaterais e aliancas continentais.
Essa transigao pode demandar, do ponto devista
pratico, a cria¢ao de noyas
instituicdes. Sem dtivida algumao primeiro passo fortalecer
as instituicdes ja
existentes, implementar seu alcance diplomatico e resp
eitar suas deliberacées,
No campoteGrico, o fortalecimento dos atores
internacionais requer uma reaya-
liagdo critica do significado da soberania. A esse
respeito, tanto Habermas como
Derrida afirmam o valor dos ideais do Iluminismo
com respeito 4 cidadania
mundial e ao direito cosmopolitano. Como Kant defi
niu, este € 0 Estado de uma
comunidade universal em que todos os membrose
stiio habilitados a “se apresen-
tar diante da sociedade dos outros, porque tém
direito 4 posse comunal da
superficie da terra.”! Quando essa comunidadeesti
ver formada, uma violacao de
direitos em umaparcela do mundoseria sentida
por toda parte. Somente sob
essa condi¢do seremoscapazes, escreveu Kant
, de nos vangloriar da certeza “de
que estamos continuamente avancando na
direcaéo de umapaz perpétua”2
INTRODUGAO

TERRORISMO E
© LEGADO Do ILUMINISMO

Habermas e Derrida

Poderiamos nos perguntar se a discussdo sobre 11 de setembro e o terrorismo


global precisa ir buscar tao longe umaavaliacaocritica dos ideais politicos do
Iluminismo. Mas o queprecisa disso é a tese deste livro. Tanto os ataques de 11
de setembro comoa extensdo das reagées diplomaticas e militares que eles pro-
vocaram exigem umareavaliagao do projeto e dos ideais do Iluminismo.
Habermase Derrida concordam que 0 sistemajuridico e politico que estru-
tura a legislacao internacional e as instituigdes multilaterais existentes cresceu a
partir da herangafilosdfica ocidental baseada no Iluminismo, entendido como
umaorientacdo intelectual geral ancorada em um certo numerodetextos-chave.
Se isso é verdade, quem mais, a nao ser um fildsofo, tem as ferramentas para exa-
minarcriticamente a adequacao daestrutura atual aos precedentes histéricos?
Eu acrescentaria que a batalha contra 0 terrorismo e o terror também nao é uma
partida de xadrez. Nao existem regras preestabelecidas: em principio naoha dis-
tingdo alguma entre lances legitimos ¢ ilegitimos, nem qualquer base para
e 0 tabu-
conhecer que lance pode ser decisivo. Nao existem pegas identificaveis,
como a
leiro nao é independente, porque coincide com o que Kant definiu
a filosofia
“posse comunal da superficie da terra”. Desde o seu alvorecer grego,
de com-
tem sido lar de labirintos conceituais desse tipo. Definindo seu campo
peténcia A medida que segue em frente, a filosofia deveria saber melhor do que
de referéncia
qualquer outra disciplina como se reorientar, ainda que os pontos
13
14 Introducao

familiares parecam ter-se pulverizado.Este é 0 caso tanto do conce


ito fugaz de is
terrorismo como da experiéncia de terror que deleirradia,
Nestes didlogos,
BOS, Habermase Derridadelineiam clarameNte Os riscos
: acarre.
ente evita encarar a ¢o 3
tados pela abordagem pragmatica, que propositadam m-
plexidade conceitual subjacente 4 nocdo deterrorismo. Apresentarei as raz,
queeles formulam paratal adverténcia na ultimaparte deste ensaio. No oie
to, acredito que o leitor s6 podera apreciar plenamente os argumentos de
Habermase Derrida a partir de umaperspectiva tracada a respeito da POsicao
impar da filosofia diante de um acontecimento histérico unico de significado
mundial. Depois de explorar brevemente essa questao nase¢do seguinte, facoa
a
descricdo de dois modelos alternativos de engajamentopolitico, que tragarao um 4
i]
contexto para as intervengdes de Habermase Derrida.Isso ira enquadrar a dis- 4

cussao de comoos enfoques dosdois paraa filosofia foram moldadospelostrau-


mas da histéria do século XX, incluindo colonialismo, totalitarismo e
Holocausto. Minha sugestao é que,se o terrorismo global é 0 traumaqueabre o
novo milénio,a filosofia poderia ainda nao ter consciéncia da extensio de seu
envolvimento com ele.

A filosofia tem algo a dizer sobre a histéria?

Aristoteles declarava que, comoa filosofia estuda principios universais, e a histé-


ria se dedica aos acontecimentossingulares,“até a poesia é maisfilosdfica do que
a histéria”! A tese esta vinculada ao género poético da tragédia. Da Orestiada a
Antigona, qualquer das tragédias gregas exibe em suaJeitura a aspiragao funda-
mentalmente racional de entender, e possivelmenteaté de explicar, os sentimen-
tos e conflitos internos dos protagonistas. Tentando extrair um sentido racional e
universal do feixe de emogdes que impulsiona a existéncia humana,a tragédia
segue um caminhoparalelo ao dafilosofia. Em contraste, comoa histdria no s¢
move em torno de principios universais, ela permanece opaca 4 andlise filoséfica.
Seguindo o argumento deAristételes, como nao ha qualquerprincipio universal
dbvio a luz do qual Napoledotivesse de mandar 500 mil soldados para conquis-
tar a Russia em 1812, causandoassim a morte de 470 mil deles,a filosofia nao te™
muito a dizer a esse respeito. Assim comoela nao pode contribuir para 0 enten-
dimento da campanharussa de Napoledo, pode-se argumentar que a filosofia
Terrorismo e o legado do Iluminismo u

nada tem deinteressante a acrescentar sobre 11 de setembro — que, segundoessa


interpreta¢ao,teria o status de um acontecimento contingente,isolado.
Depois de Aristoteles, a indiferenca dafilosofia com relacao a historia domi-
nou a tradicdo ocidental até metade do século XVIII,2 quando a Revolugao
Francesa e Guerra de Independéncia norte-americana revelaram que o presente
podeabrigar a possibilidade de uma rupturaradical com o passado.S6 entao a
filosofia comegoua avaliar se a raz4o poderia ter uma responsabilidade moral e
social intrinseca,e se, com base nisso,a filosofia deveria desenvolver umarelagao
mais ativa com a histéria. Apesar de sua disposicdo conservadora, Kant admira-
va o espirito revoluciondrio, por ter dado aos individuos um sentido de sua
propria independénciadiante da autoridade, incluindoa autoridade do passa-
do. Para Kant e outrosfilésofos do Iluminismo, tornou-se claro que a auto-
afirmacao da razao tem um impactohistérico, pois s6 a razao é capaz de indi-
car como transformar o presente em um futuro melhor. A razéo permanecia
paraeles, contudo, umafaculdade mental de que cada individuo é dotado sim-
plesmente por pertencer a espécie humanae cuja forga depende inteiramente
das contingéncias dahistoria.
Apenas umageracao depois de Kant, Hegel deu o passofinal para diminuir
a distancia entre historia e filosofia, quando declarou que a razao em siesta liga-
da 4 histéria. A razdo para ele nao é uma faculdade mental abstrata com a qual
todos os seres humanos esto equipados e que se pode afirmar em territérios
autOnomos;na verdade,ela cresce a partir do modo como um individuo perce-
be a si mesmo comoparte de uma comunidade. Se a capacidade de pensar é
indelevelmente transformada pelo tempoe pela cultura, apenas o estudo dahis-
toria pode revelar nossa natureza e nosso lugar no mundo. Naperspectiva de
Hegel, como a razao depende da histéria, a maximaaristotélica encontra-se
invertida: além dafilosofia, nado ha nada mais filosdfico do quea histéria.
A relacdo entre histdria € filosofia tem um impacto direto sobre o significa-
do de responsabilidade e liberdade. Se a raz4o € concebida como precedendo a
histéria, existe espaco para que o agente racional experimente a si mesmo como
uma unidade auténoma,cujas escolhas resultam somente de sua vontade e de
suas necessidades singulares. Em meados do século XIX, a tradic&oliberalista
desenvolveu esse sentido de autonomia individual em uma nogao deliberdade
negativa, segundo a qual eu soulivre quando me deixam em paz, sem interferén-
cias e capaz de escolher a vontade.? A resposta de Hegel a essa posicao — bem
comoa resposta daqueles que os seguiram,incluindo Marx e Freud — foi de que
16 Introdugao

esta 6 uma concep¢doiluséria, pois nao mergulha abaixo dasuperficie, nem per.
gunta por queos individuos fazem as escolhas que fazem. Comoessas OP¢Ges
sig
limitadas pelo acesso que temos a todosos tipos de recursos — €condmicos,cyl.
turais, educacionais, psicoldgicos, religiosos, tecnolégicos —, a idéia de queas
pessoas podem ser deixadas em paz para fazer suas préprias escolhas, sem q
interferéncia de outras, nao as tornalivres; ao contrario, deixa-as a mercé das
forcgas dominantes de sua época.
Acreditar que nada ha de mais filoséfico do que a histéria implica pensar que
a liberdadereal comeca com a percep¢ao de queas escolhas individuaissao forma-
!
das em permanente negociacdo com forgas externas. A liberdade é assim medida
pelo grau em que nos tornamosaptos a adquirir controle sobre essas forcas, que
de outro modo noscontrolariam. Dessa perspectiva,a filosofia tem naos6 a per-
missdo, masa responsabilidade de contribuir para a discussao publica sobreo sig-
nificado de 11 de setembro, que surge assim como um acontecimento que produz
um impacto sobre o nosso entendimento do mundoe de nés mesmos.

Dois modelos de participagao publica: ativismopolitico e critica social

Noséculo XX,a avaliagdo do laco entrea filosofia e o presente teve um impacto


crucial na maneira comoosfildsofos tém interpretado sua responsabilidade face
a sociedade e A politica. Eu gostaria de distinguir dois modelos diferentes de
engajamento social e politico, aproximadamentealinhados ao enfoqueliberal e
a linhagem hegeliana:irei chama-los deativismo politico e critica social. O filéso-
fo inglés Bertrand Russell e a fildsofa alema4 Hannah Arendt — queimigrou para
os Estados Unidos — incorporaram, cada qual, um desses principios, respecti-
vamente. Os dois engajaram-se napolitica a ponto de se tornarem intelectuais
publicos. Sugiro, todavia, que cada um deles entendeu relacao entre filosofia e
politica de pontos de vista opostos. Enquanto Russell encarou 0 envolvimento
politico como umaquestao de escolha pessoal, sob a alega¢ao de que a filosofia
esta comprometida com a busca da verdade atemporal, para Arendt a filoso-
fia sempre esteve historicamente envolvida, de modo que qualquer engajamen”
to filosdfico tem uma implicac4o politica. A distincdo entre ativismo politico ¢
critica social queirei sistematizar a seguir esclarece 0 alcance intelectual das con-
tribuigdes de Habermas e Derrida para o entendimento de 11 de setembro e do
terrorismo global.*
Terrorismo eo legado do Muminismo 17

Figura filosofica monumental nos camposdalégica,filosofia da matemiati-


cae metafisica, Russell foi também um dosmais visiveis ativistas politicos a agir
no eenenio internacional em todos os tempos.A histéria de seu engajamento
politico cobre toda a extensao do século XX, da Primeira Guerra Mundial até os
liltimos estagios da GuerraFria. Pacifista engajado, passou seis meses na priséo
em 1918. Durante os anos20 e 30, escreveulivros que levantaram controvérsias,
sobrea libertacao sexual, a obsolescéncia dainstituicdo do casamento e os mode-
los progressistas de educacao. Depois de receber o Prémio Nobelde Literatura
em 1950, tornou-se membro convicto da campanha pelo desarmamento
nuclear. Foi responsavel pela criacdo da Atlantic Peace Foundation, consagrada a
pesquisas sobre a paz, e da Bertrand Russell Peace Foundation,dedicada ao estudo
do desarmamento e a defesa dos povos oprimidos. Em 1966, os esforcos de
Russell levaram a criacdo da primeira corte internacional para crimes de guerra.
Intitulado em sua homenagem, o Tribunal Russell indiciou os Estados Unidos
por genocidio na guerra do Vietna. Russell morreu aos 92 anos, em 1970.
O perfil publico de Russell era o do ativista politico, porque entendia seu
envolvimento publico como contribuicao pessoal para assuntos urgentes especi-
ficos. O ativista politico, no sentido que estou tentando demarcar aqui, pode
escolher livremente envolver-se do ponto devista politico, o que o leva a inter-
vir e combater a favor oucontra. Pressupora disponibilidade de todasessas esco-
lhas é endossara concep¢oliberalista “viva-e-deixe-viver” da liberdade, na qual
além de qual-
se concede ao sujeito o poder auténomo de agir e deliberar para
quer coacao social.
conceda a
Umacondicao do ativismo politico de Russell é que a historia
ao cidadaoindivi-
filosofia a mesmaliberdade negativa que a sociedade concede
empirismo parecia-lhe a
dual. Vinculando o conhecimento & experiéncia, 0
das pressées histéri-
Gnica orientagao a assegurar 4 filosofia sua independéncia
tedrica 4 democracia em sua
cas. “A tinica filosofia que fornece umajustificagao
parcialmente porque democra-
disposicéo mental é 0 empirismo”” “Isso ocorre
nao exigem uma distor-
cia e empirismo (que estao intimamente interligados)
a controvérsia entre 0 sistema
cao de fatos no interesse da teoria”® Tomemos
de Copérnico. Por meio da observa-
geocéntrico de Ptolomeu € 0 heliocéntrico estava
estava errado e Copérnico
640 simplesmente sabemos que Ptolomeu
Russell, “tal como praticada
certo. A responsabilidade da filosofia, argumentava
é, pelo menos em intengao,
nas universidades do mundo democratico ocidental,
o mesmotipo de distanciamento
parte da busca de conhecimento, objetivando
18 Introdugéo

quese procurater na ciéncia, e nao aquele tipo exigido pelas autor


idades Par
chegar a conclusdes que séo convenientes para 0 governo”” ‘
Para um ativista politico do modelorusselliano,a especificidade da contri.
buicdo de um filésofo reside em compartilhar com o publico suas ferramentas
analiticas, ajudando-o a pensar lucidamente sobre questdes confusas e multifa.
cetadas, separando os argumentos bons dos maus, apoiando os primeiros e com-
batendo os ultimos. Em anos mais recentes, o engajamento publico de Noam
Chomsky, que inclui um pequenolivro sobre 11 de setembro,$ continua natra-
dicdo russelliana de ativismopolitico.
Em contrapartida, a vida e o comprometimentopolitico de Hannah Arendt
oferecem umadefinicdo diferente do perfil publico de um filésofo. Uma das mais
notaveis pensadoras politicas do século XX, Arendt experimentou ao vivo a
ascenséo do nazismo na Alemanha, do qual escapou para os Estados Unidos,
para nunca mais voltar comoresidente. Filha inica de umafamilia judiasecular,
aos 23 anosja tinha sua dissertacao de doutorado pronta para impress4o.Depois
do incéndio do Reichstag em Berlim, em 1933, foi detida junto com a mae,presa
e interrogada pela policia durante mais de uma semana. Solta, escapou via
Tchecoslovaquia e Suica, para finalmente chegar a Paris, onde passousete anos
trabalhando para organizacgées judaicas que facilitavam o encaminhamento de
criangas para a Palestina. Em 1940 casou-se com o segundo marido, um esquer-
dista alemao que acabara deser libertado de uma detencao de dois meses em um
campode internagao. Antes de terminar 0 ano,no entanto, a propria Arendtfoi
recolhida com a mae em um campo para mulheres “estrangeiras inimigas’, do
qual acabaria escapando. Reunida ao marido, embarcou por navio em Lisboa
rumo a NovaYork. Nos Estados Unidos, tornou-secritica do papel central que ©
movimento sionista atribufa 4 Palestina, e ndo 4 Europa: uma das causas que
apoiou era a formacao de um exército judeu para lutar ao lado dos Aliados. De
1933 até 1951, quando finalmente obteve a cidadania nos Estados Unidos, fala-
va de si mesma como uma“pessoa sem Estado”. Morreu aos 69 anos de idade,
tendo lecionado em varias universidades norte-americanas e colaborado na
imprensa,na condi¢ao de intelectual publica.
Se, para a filosofia de Russell, o primeiro compromisso é a busca do conhe-
cimento acima e além do impacto do tempo, para Arendt, o primeiro compto-
misso da filosofia € com asleis e instituigdes humanas, que por defini¢4o evo"
i
luem com o tempo.Tais leis, segundoela, designam nao sé as fronteiras entre
interesse publico e privado, mas também a descricao das relagdes entre cidadaos. a3
4
Terrorismo e o legado do Muminismo 9

Eo seus doislivros principais, A condig&o humana (1958) e As origens dototali-


tarismo (1951 ), dent sublinha a necessidade quea filosofia tem de reconhecer
a extrema fragilidadedasleis e instituigdes humanas,fragilidade quea filésofa vé
dr:ammaBEaMIEMe ampliada pelo surgimento da modernidade, tomada como um
paradigmacultural ¢ histrico. Nesse sentido, Arendt entendia sua responsabili-
dadefilos6fica em termos de umacritica A modernidade — umaavaliagdo dos
-
desafios peculiares apresentados ao pensamento pela histéria européia moder
na, na qual o conceito detotalitarismo representa o desafio maximo.
Ao contrario datirania, que promovea falta de lei, os dois regimestotalita-
iam lei. Ambos
rios de meados do século XX,estalinismo e nazismo, nao possu
fomentavam leis inexordveis, apresentadas comoleis da natureza (leis biolégicas
classes). Na
da superioridaderacial) ou da histéria (leis econdmicas da luta de
no
leitura de Arendt, totalitarismo é um perigopolitico peculiarmente moder
ideologia secu-
que combina umacoergao serializada sem precedentes com uma
inio e nos gulags
lar totalizante.? O “terror total”praticado nos campos de exterm
Por sua vez, a esséncia do
nio é o meio, mas“a esséncia do governo totalitario”!°
percebido comodiferen-
terror nao é a eliminacdo fisica de quem quer queseja
sobretudo sua individualidade e
te, mas a erradicagao da diferenga nas pessoas,
do poder cobigado pelos regimes
capacidade de acao autonoma. O monopélio
o somente em um mundo de
totalitarios “pode ser alcancado e salvaguardad
sem 0 menor traco de espontaneidade.
reflexos condicionados, de marionetes domi-
amente porqu e seus recurs os sio tao grandes, o homem s6 pode ser
Precis
plena mente quando se torna um exemplar de homem da espécie animal”!
nado
ficaga o que Arendt vé como o cerne definidor do totalitarismo nao
A objeti
u as vi ti ma s do 5 assassi natos em massa nos campos de concentra¢ao
se restringi acres. Em
s dos mass
no s gul ags , ma s ta mb ém foi exigida na punicao dos autore
e agi-
Yo rk er pe di u a Ar en dt qu e cobrisse 0 julgamento do for
1961, a revista New o
ol f Ei ch ma nn , ca pt ur ad o na Argentina pelo Mossad,
do criminoso nazista Ad por
en se , e le va do a ju lg am en to em Jerusalém, onde acabou
servigo secreto israel rompeu 0 longo silén-
cia de Arendt de Jerusalém
ser executado. A correspondén “q ue st ao judaica’, que datava do
si me sm a so br e a
cio queela havia imposto a dos esforcos de Judah Magn
es
de Isr ael e do fra cas so
estabelecimento do Estado aci ona l na Palestina. Revisada
gao dem ocr ati ca bin
em estabelecer uma federa Arendt centrava-se na descri
cao
lic ada em liv ro, )2 a reportagem de
dep ois e pub
di vi du o ob tu so , em de sc om passo com a época, € que
de Eichmann como um in su as ac es criminosas. Em sua
iticam en te qu al qu er de
se recusava a examinar cr
iiMi cine
20 Introdugao

al d
trivialidadeirrefletida —a fala cheia declichés, a auséncia aparente de édio fang
tico pelos judeus e o orgulho de ser um cidadaorespeitador da lei —, Bichmany,
mal”.
pareceu-lhe uma encarnagao da “banalidade do

Aali im a ae Nes=a,ie aaa i ilea


Sem dtivida a crenca de Arendt de quea filosofia se move em torno do cule

7
— forjadoa partir da partic.
tivo e da protecao de um espa¢o politico saudavel
pacdo popular, da diversidade humanae da igualdade — refletia a urgéncia de
sua propria reacdo ao terror total: uma reacdo que vinhado trauma,do deslo-
camento, da perdae doexilio. Isso é também, contudo, a marca de umaantiga
orientacdo que Arendt herdou dos gregos. Desde Sécrates, a filosofia envolvey
temporalidade
a insolucionavel mas produtiva tensao entre acao ¢ especulacao,
e atemporalidade, vita activa e vita contemplativa.

A filosofia e os traumas dahistoria do século XX

e Derrida
Apesar de suas concepgées totalmente distintas de filosofia, Habermas

cl ll ile
ario de
parecem seguir o modelo de Hannah Arendt. Comoela, e ao contr
nto a par-
Russell, eles nao encaram o engajamentopolitico como um compleme
uaté
ticipacao nafilosofia, como uma op¢ao que pode ser assumida,adiadao

i
con-
mesmototalmente recusada. Ambos encontraram e adotaram a filosofia no
o
texto dos traumas dahistéria européia do século XX: colonialismo, totalitarism
e Holocausto. Suas contribuicdes ao tema de 11 de setembroe do terrorismo glo-
bal seguem 0 mesmoveio.
Habermase Derrida nasceram com apenas um anodediferenga, em 1929¢
1930, respectivamente, e eram adolescentes durante a Segunda Guerra Mundial.
Habermasviveu na Alemanhasob 0 jugo ameagadordo Terceiro Reich, enquat
to Derrida vivia na Argélia, na época uma colonia francesa.
Habermas lembra o profundo estado de choque em queele e seus amigos
i a ah leNS li la, lies

ficaram ao tomar conhecimento — porintermédio de umasérie de documen-


atroci-
tarios realizados durante os julgamentos de Nuremberg e depois — das
dades nazistas. “Acreditavamos queera indispensdvele inevitdével uma renova¢a0
espiritual e moral”.!4 O desafio de produzir uma renova¢do moral em um pais
com um “passado indémito”!> tem sido a luta de toda a vida de Habermas, ele
conduziu essa batalha com excepcional lealdade e paixao, como filésofo e tam-
bém comointelectual publico. A tarefa foi tio monumental, que nao podemos
tantas veres
evitar de pensar como um homem com o seu enorme talento, que
Terrorismoe o legado do Iluminismo
aL

recebeu ofertas académicas de toda parte do mundo, nao resolveu deixar a


Alemanhae remover a “questao alema” do centro do palco de sua vida e de seu
pensamento. Afinal, isso teria feito todo sentido do pontodevista de suas cren-
gas cosmopolitas. O fato de que nunca tenha deixado a Alemanha é para mim
causa de grande admiracao. O papel crucial que desempenhou durante o Debate
dos Historiadores (Historikerstreit) representa provairrefutavel da profundidade
do engajamento puiblico de Habermas,
Em meadosdos anos 1980 inumeroshistoriadores alemaes comesaram a
questionar a “singularidade” dos crimes nazistas, abrindo assim o caminhopara
umaleitura revisionista destinada a igualaresses crimes a outras tragédias poli-
ticas do século XX. Habermasficou particularmente ultrajado quando 0 famoso
historiador berlinense Ernst Nolte sugeriu que: “umalimitacdo evidente dalite-
ratura sobre 0 nacional-socialismo é desconhecer — ou nao querer admitir —
em que medidatudo o quefoifeito mais tarde pelos nazistas, com a nica exce-
cao do procedimento técnico de exterminio por gas, ja fora descrito em uma
extensa literatura que datava do inicio dos anos 1920.”!© Nolte alega que o
Holocausto ocorreu fundamentalmente no mesmonivel dos expurgos estalinis-
tas e até mesmodolevante bolchevique, exceto pelo “procedimento técnico de
exterminio por gas”.
Naquela ocasido, Habermasrepresentou a voz mais eloqiiente contra a nor-
malizacao do passado alemao e em defesa da necessidade absoluta de lidar com
o lado obscuro desse passado. Observou que uma “recusa traumiatica” de enca-
do Terceiro
rar a realidade do nazismo entrara em a¢ao no pais desde a queda
a perspectiva de
Reich. Salientou também o perigo dessa recusa. Descrevendo
no
sua propria geracao, observou: “J4 estado crescendo os netos daqueles que,
experimentar qual-
final da Segunda Guerra Mundial, eram jovens demais para
mododistanciada’,
quer culpa pessoal. A meméria, porém, nao esta do mesmo
etiva de cada um, o ponto de par-
pois, independentemente da perspectiva subj q em
i permanece 0 mesmo — “as “as imag
i ens da rampa de desembarque
tida
Auschwitz”.!” -
dual, e a responsabilidade nao vem ape
A culpa nao é simples mente indivi
pessoais. Este é um ponto que tanto Habermas como Derrida
nas das escolhas
, eles sao fildsofos do pés-Ho locausto.
compartilham, porque, como Arendt pregnam-se mutua-
° :
Habermas analisa como a culpa € a responsabilidade im
nstein, ele
co de no ss a in te ra ¢a o riaa. Citando Ludwig Wittge
ari
did
mente no nt ex to
a “forma de vida”.
chamaesse contexto de um
22 Introdugao |

Existe o simples fato de que as gera¢Ges subseqiientes também cresceram a


Party |
de uma formade vida em que aquilo era possivel. Nossa prépria vida est
ligada
ao contexto de vida em que Auschwitz foi possivel, nao sé por circunstancias ton. J
tingentes, masintrinsecamente. Nossa formadevidaesté ligada aquela de Bnei |
pais e avés por meio de uma trama de tradi¢oes familiares, locais, politicas e inte.
lectuais queé dificil desenredar, isto é, por meio de um ambientehistérico que fer
de nés quem somos. Nenhum de nés pode escapar a esse ambiente, Porquenos.
sas identidades como individuos e como aleméesestao inextricavelmenteentre.
cadasa ele.'8

Nao deveriamos porém presumir que, uma vez que Habermas Privilegia 0
papel constitutivo da historia, ele minimize a importancia daparticipagaoindi-
vidual na arena politica ou acredite que a identidade politica é fornecida de —
modo automatico por umatradicao historicamente estabelecida. Ao contrario, |
em particular no contexto da identidade nacional alema, Habermas defende
uma nocdo depatriotismo constitucional. Somentetal patriotismo,baseado na |
livre adesao a constituicdo por parte de cada cidadaoindividual, pode forjar uma
alianca nacional progressiva. Para Habermas,é essencial que os alemaesenten-
dam a si mesmos como umanac&o, baseados unicamente na sua lealdade a cons-
tituicao republicana, sem se agarrar ao que ele chama de “muletas pré-politicas
da nacionalidade e comunidadede destino”.!?
Derrida experimentouessas muletas em primeira mao quando,em outubro
de 1942, foi expulso de sua escola, o Lycée de Ben Aknoun,e viu-se alojado em
um antigo mosteiro localizado perto de El-Biar, na Argélia, onde viveuaté os 19
anosde idade. O motivo da expulsdo nao foi comportamento desordeiro, mas
a aplicagao das leis raciais na Franca e em suas possessdes coloniais, incluindoa
Argélia. A identidade emergiu para Derrida como um feixe de fronteiras insté-
veis. Comorelembra dolorosamente, o menino que foi expulso em 1942 era “um
moreninhoe judeu drabe demais, que nada entendia daquilo, a quem ninguém
nunca ofereceu a menorexplicacao, nem seuspais, nem seus amigos”.”” Osante-
cedentes de Derrida destacam o desafio de existir nas fronteiras de multiplos tr
ritérios: judaismoe cristianismo, judaismoe islamismo, Europa € Africa, Frans
continental e suas colénias, o mar e o deserto. Este € o mesmo desafio qué ele
apresenta filosofia.
e

A linguagem que Derridase lembra deter sido usada na €poca da sua expu-
/ sao da escola enfatiza a polifonia dessas vozes:
Terrorismoe o legado do Iluminismo 33

“circunscis4o’,
SeeeeotnenBe ES, angslindé, taramaente diziamos
, mas “comunhao”, com as conseqtiéncias de
abrandamento, de anula¢io — por meio de umaaculturagao medrosa,a qual sem-
eis, sen-
pre sofri mais ou menos conscientemente — de acontecimentosinadmissiv
,cir-
tidos comotais, nao-“catdlico”, violento, barbaro, duro, “arabe”, circuncidado
cuncisao,interiorizado, acusacao secretamente assumida de assassinato ritual.?!

cada palavra se ramifica em |


Para Derrida, entio, e pelo resto de sua vida,
politicas freqiien-
umarede de conex6eshistéricas e textuais. Suas interven¢oes
tes escondidos. Enquanto usar- !
temente buscam langar luz sobre esses continen
eti dam ent e a lin gua gem , per man ece remos completamente alheios a
mosirr efl
ada ignorancia é que reiteramos um
esses continentes; o problemadessa abengo
quais nado temos sequer consciéncia,
nimero de pressuposic6es normativas das
simplesmente ao dependerdelas.
oria das p essoas suporia que
Tomemoso ser humano como exemplo. A mai
ro da
si mesma: um ser humano é um me mb
esta é uma designacao evidente em termos
e hu ma na . O pr ob le ma é que ta nto “humana” como “espécie” sao
esp éci
em lab iri nto s his tor ica men te construidos, que se desdobram ¢€
que se ramifi cam
ame nte 0 esp ect ro sem ant ico da palavr a. Por outrolado, a
complicam indefinid histéria
ma na , co mo ac on tec e co m todasas espécies, est4 inscrita na
espécie hu pio
es ta o de qu an do no s to rnamos humanos depende do princi
da evolus4o: a qu eria ser diferente do que
os — ¢ qué em teo ria pod
de classificaco que adotam om pa nh a a no¢ao de um ‘ser
um an o’ , qu e ac
622 Por outro lado, o adj et
iv o “h
espécie, nos coloca fa ce a questao do que significa
individual ou de toda a ? Co mo demarcamos 0 compor-
co mo u m se r hu ma no
“humano”, Significa agir se pr ob lema sem nos referir
s sequ er ab or da r es
tamento humano? Nao podemo manidade.
za hum ana , su a humanidade ou desu
a nocao de nature de De rr id a aos acontecimentos de
par a a re ac ao
Essa questao foi crucial pr ee ns ao daquela época de gran-
que ele deu par a a © om
1968.23 A contribuicao foi inte rrogar que concepgao de
se r
tum ult o poli tico
de conflito ideolégico e s con sid era ¢oe s comecavam com 0 ques-
e em jog
dad o. Sua
humanoestava na ver na in telectual france-
.
ce
que ele viu dominara
* :

do “antropologismo
»

tionamento ideal grego do an-


5

ni st a as so ci ad a ao
ranga huma
sa, tomando com o certa a he , o humanismo perm
aneceu leal
Da Ren asc en ga it al iana a0 Tluminismo iéncias
thropos.
ad e do ho me m’ . Nao poderia haver “c
de “a unid
ao que Derrida chamou
24 Introdugao

humanas” sem umacrenca no empenhosingular e distintamente “humano”gu,


mantém o “homem”coeso, como conceito.
Nas trevas da Segunda Guerra Mundial, os filésofos existencialistas com,
Jean-Paul Sartre esperavam langar uma nova versao ds humanismo Classico,
Sartre propunharedefinir o homem em termos de ~nealidade humana”susten.
tando assim queo sujeito humano naopoderia ser entendido separadamentede
seu. mundo.” Essa interdependéncia entre sujeito € mundoforneceua Sartre um
propria
caminhoparabasear firmemente a responsabilidade moral e politica na
constituicéo do sujeito. Ancorar a realidade humana naresponsabilidade com
relacdo ao nosso mundo parecia ser um antidoto necessdrio para a desumanida-
de dototalitarismo.
Derrida no entanto argumentava que, emboraos existencialistas fossem os
primeiros a levantar a questo dosignificado do homem, eles nao haviam con-
seguido superara idéia cldssica da unidade do homem.?> “Apesar de 0 tema da
histéria estar bastante presente no discurso do periodo,ainda é pequenaa prati-
ca da histéria dos conceitos. A histéria do conceito do homem, por exemplo,
nunca é examinada. E como se o signo ‘homen? n§otivesse origem alguma,
qualquerlimite histérico, cultural ou lingiiistico.”*° Derrida defende aqui que,
umavez que 0 conceito de homemseja dotado de fronteiras histdricas, culturais
e lingiiisticas, sera muito mais dificil recorrer a qualquer argumentoessencialis-
ta. A propria multiplicidade de narrativas histéricas impedira qualquertentativa
de construir um conceito em termos de pares irredutiveis — homem versus
mulher, humanoversus inumano, humanoversus animal, racionalidade versus
instinto, cultura versus natureza — que, na opinido de Derrida, produzem peti-
gosas simplificag6es.
Para umageracao em particular, que tinha de extrair algum sentido do fra-
casso do ideal humanista de proteger a Europado totalitarismo e do genocidio,
o Angulo adotado por Derrida acrescenta uma dimensio completamente nova
“ ao conceito de critica social. Assim como para Habermas, para Derridaa culpa &
a responsabilidadepelos horrores do século XX nao podem ser limitadas aque-
| les que estietam diretamente envolvidos. Na mesma linha, para ambos, 0 com-
} Prometimentopolitico da filosofia nao é uma questo de escolha pessoal. Ao nos
engajarmosnafilosofia, nos engajamos automaticamenteno esforco de levar ¢M
ser crítico social
é levar em conta conta 0 nosso tempo:nesse sentido, nenhum dos dois é um ativista politico:
o contexto
histórico enquanto ambos,ainda que de maneiras muito diferentes, sejam criticos socials.
Para Habermas, Derrida e Arendt, o primeiro compromisso dafilosofia é co™
Terrorismo e o legado do Iluminismno 25

relacdo as leis e institui¢des humanas 4 medida que elas evoluem no tempo.Essa


crenca marca-os comofilésofos do pés-Holocausto. Seu desafio comum tem
sido, necessariamente: como dar umavirada positiva na depressdo intelectual
em que a geracao dos seus professores havia caido depois da experiéncia de exi-
lio pessoal e dos horrores dosanos30 e 40.
Por um lado, Habermas admite o valor das instituigdes republicanas e da
participagao democratica comocoisa certa, transmitida a nds pela tradicéo do
[luminismo. Falando contra a normalizacao do passado alemdo,ele escreveu:
“Depois de Auschwitz, nossa consciéncia nacional s6 pode derivar das melhores
tradicdes de nossahistéria, umahistéria que nao é abandonada sem exame, mas
criticamente apropriada.”2” O problema paraele nao é que o Iluminismo falhou
comoprojeto intelectual, mas que a atitude critica original do Iluminismo em
! relacao a historia perdeu-se, abrindo caminho para o barbarismo politico. Por
outro lado, Derrida acredita que as instituigées republicanas e a participacao
democratica se esforgam por alcangar o universalismo em sua busca infinita de
justica. Essa procura sé se efetivara se estivermos abertos para considerar as
nogées de republicanismo e democracia, instituigéo e participacao, nado como
¢
valores absolutos, mas como construg6es cuja validade evolui com o tempo
que, portanto, necessitam de umaconstante revisao.

ado
O legado do Muminismo em um mundo globaliz

as Torres Gémeas e 0
A ideologia explicita dos terroristas que atacaram
rnidade e secula-
Pentdégono em 11 de setembro é umarejeicao do tipo de mode
nismo. Em
rizacdo que, na tradicaofilos6fica,esta associada ao conceito de Humi
specifico, que coincide his-
filosofia, o Iluminismo descreve nao s6 um periodoe
cracia e a
toricamente com o século XVIII, mas também a afirmacao da demo
ituiram o cen-
separacdo entre poder politico e crenga religiosa, valores que const
a norte-americana.
tro da Revolucdo Francesa e da Guerra de Independénci
inismo é a emergéncia do
Kant escreveu, admiravelmente, que “go Ylum
a incapa-
homem com relagdo a sua jmaturidade auto-induzida. Imaturidade é
tagao de
cidade de lancar mao de nosso préprio entendimento sem a orien
crengas, o Iluminismo marca
outro”28 Menos do que um conjunto coerente de
somente com base na
uma ruptura com o passado, que se torna disponivel
idade. E precisamente essa inde-
independéncia do individuo diante da autor
26 Introdugao

. « 4
pendéncia a marca da modernidade. Quandonos perguntamos se, no Presen
te, vivemos em umaera iluminada,a resposta €: nao, mas vivemos em uma ety
de iluminagao.””?
Em 14 de fevereiro de 1989, mais de 200 anos depois da Publicacio das ’
palavras de Kant, foi lembrado ao mundo que 0 fildsofo estava certo: na Verda.
mas em uma
\% nunca podemosconfiar que vivernos em uma era iluminada,

dias dels dali Oa al Oeie


jera na qual a iluminagao é um processo que tem a necessidade constante deser
cultivado. Naquele dia exato, o lider absoluto da Republica Islamica doIg, 9
aiatola Khomeini, lancou umafatwa, ou sentenca de morte, contra o €Scritor
nascido na India, Salman Rushdie, com 0 seguinte comunicado pelaradio
publica: “Informo ao orgulhoso povo muculmano do mundoque0 autor de 0s
versos satanicos, que é contra 0 Isla, o Profeta e o Cordo, e todos aqueles envol-

sal
vidos na sua publicagao e que tinham conhecimento do seu contetido estaosen-
\tenciados a morte.”?° Durante nove anos Rushdie teve de viver escondido,pesa-
delo do qual foi formalmente liberado em 1998, quando representantes dos
| governosbritanico eiraniano fecharam um acordo nas Na¢Ges Unidaspara pér
fim a ameaca de morte.*}
: Em quelugaro filésofo se situa face a heranca do Iuminismo — esta 6,por-
tanto, ndo apenas umaquestdo tedrica, mas que também envolve delicadas rami-
ficagdes politicas. Como muitos filésofos que chegaram a maioridade nos anos
1980, cresci convencida de que Habermase Derrida expressavam opiniGes acen-
tuadamente opostas em relas4o ao Iluminismo: Habermas defendia-o, e Derrida
rejeitava-o. Mais tarde vim a perceber que essa era umavisio distorcida, da qual
a obsessaointelectual daquela década — a querelle entre o modernismoe 0 p6s-
modernismo — é principal culpada. Se a identificagao de Habermas com 0 mo-
dernismo ¢ osvalores politicos do Iluminismo indiscutivel, a alegacao predo-
minante de que Derrida é um pensadorantiiluminista revela-se simplesmente
errénea.*”
Habermas segue natradi¢ao da teoria critica,>> que atribui a filosofia um@
fungdo de diagnose em relacdo aos males da sociedade moderna e também 20
discurso intelectual que fundamenta sua insurreicao e justifica seus objetivos ¢
motiva¢Ges. E exatamente 0 que acontece na pratica da clinica médica, pois |
diagnéstico da teoria critica nao é uma empreitada especulativa, mas uma ava
conceito de
4
crítica liagdo orientada para a possibilidade de cura. Essa avaliacao confere a filosofia °
fardo e o privilégio da responsabilidadepolitica. A interdependéncia entre teria 4
€ pratica €é um dos axiomasdateoria critica. Seu fulcro é a emancipacao, encal® /
{
Terrorismo e 0 legado do Il
uminismo
27
da como “emand poe melh
oria da situacggo humana pres
ente. Habermas
chama essa demanda de “projeto inac
abado de modernidade”. Iniciado por Kant
e outros pensadores do Iluminismo, 0 Projeto requer a cren
ca em principios cuja
validade € universal, exatamente porqueeles se sustentam por meio deespecifi-
cidadeshist6ricas e culturais.
Em contrapartida,
. ; © suporte intelectual da desconstrugao de Derrida deve
muito a linhagem dosséculos XIX e XX, constituida porNietzsche, Heidegger e
Freud. Para Derrida, muitos dos principios aos quais a tradicao ocidental atri-
buiu validade universal nao comportam o que todos nés partilhamos ou até
esperamos. Em lugar disso, impd6em um conjunto de padrdes que beneficiam
alguns e trazem desvantagem para outros, dependendo do contexto. Para ele,
demarcaras fronteiras histéricase culturais desses principios é uma precondi¢ao
para esposar a demanda doIluminismoporjustica e liberdade para todos. No
entanto, a abordagem de Derrida com relagaoa ética e a politica tem umaoutra
dimensao: ele chama-a de responsabilidade diante da alteridade e da diferenga,
aquilo que esta além dasfronteirasda descricdo,do excluido e do silencioso. Para
ele, esse senso de responsabilidade expressa a demanda por universalismo que
esta associada ao Iluminismo.
A luz dos didlogos coligidos neste livro, nao podemosdeixar de nos persua-
dir de que Habermas e Derrida compartilham um compromisso com o
Tluminismo. A diferenca em suas abordagens nao é apenas deinteresse histérico
(porque langa umanovaluzsobrea relacao entre os dois), mas uma ilustra¢ado
oferecer 4
da riqueza e da variedade que a filosofia é singularmente capaz de
interpretacdo do momento presente. A questo datolerancia, um conceito-chave
ocidentais, é
tanto do Iluminismo como daauto-representacao das democracias
um tema em pauta.*4
crista da nogao de tolerancia, o
Derrida enfatiza a matriz marcadamente
que pretende ser. A
que a torna um conceito politico ¢ ético menos neutro do
dela o remancsca de
origem religiosa e 0 foco da nocdo de tolerancia fazem
mas
paternalista em que o outro nao é aceito entne um parceiro er ".
um gesto
interpretado em saat eren-
subordinado, talvez assimilado e certamente mal
certo a asncia
tolerancia é
€ antes de mais nada uma forma de caridade. Uma
ca. Por pudessem aparente-
z oe ‘nda que judeus e muculmanos_. _ e
caridadecrista, portanto, ainda que )
... Em adi¢&o ao significado
ambém. reli
iar dessa linguagem t ae yes
onar
mencirs as conot
T o e
a¢oes it a
bioldg i-
se apropriat . s tambéma
gioso [da tolerancia], ... deveriamo
mente
lim
ici tas. Na Franga a
éti cas ou organicis
Cas, genéti
2 Introducao

usada para descrever o limiar além do qual n4o é mais decente pedir a Uma
comunidadenacional que acolha outros estrangeiros,trabalhadores imigrante‘
e gente parecida.
A nocaode tolerancia é, para Derrida, de uso inadequadonapolitica secy.
lar. Sua implicagaoreligiosa, com raizes profundas na concep¢aocrista da cari.
’ dade, derruba qualquer pretensao de universalismo.*° Atento a todos08fatos dg
déncia o fato de que a toleran.
linguagem, Derridasalienta que nao é umacoinci
cia tenhasido apropriadapelo discurso bioldgi co para indicar a linha ténueentre
plantes de 6rgaose no con-
integracdoe rejeicao. Assim como acontece nos trans
ia com o 0 limite extremo
trole da dor, o limiar da tolerancia designa a toleranc
do colapso.
da luta do organismo para se manter em equilibrio antes
A tolerancia é, assim, 0 oposto da hospitalidade, termo que Derr
ida sugere

comoalternativa ao primeiro. A distincdo entre tolerancia e hospitalidadena
te
claramente umasutileza semantica, mas aponta para o que € mais importan no
enfoque de Derrida com relacao a ética e a politica: a obrigag4o unica que cada
um de nés tem com o outro.

A hospitalidade pura ou incondicionai nao consiste nesse convite ( “Eu convido-o,


eu dou-lhe as boas-vindas ao meu lar, sob a condicgéo de que vocé se adapteasleis
e normas do meuterritério, de acordo com minha lingnagem,tradi¢ao, meméria
etc.”). A hospitalidade pura e incondicional, a hospitalidade em si, abre-se ou esta
aberta previamente para alguém que nao é esperado nem convidado, para quem
quer que chegue como um visitante absolutamente estranho, como um recém-
chegado, naoidentificavel e imprevisivel, em suma, totalmente outro.

O endosso de Derrida a hospitalidade, em lugar da tolerancia, é umareela-


boragao sofisticada de um texto-chave de um filésofo-chave do Iluminismo,
Kant, que levantou pela primeira vez a questao da hospitalidade no contexto das
relacdes internacionais.°6
Aqueles que interpretam Derrida como um certo tipo de pds-modernista
— um filésofo antilluminista com uma quedapara relativismo
— poderiam
langar mos dessa desconstrucdo do alcance universal da tolerancia
como apoio
a seus argumentos.*” Mas é bem aocontrario, porque Derrida,
ao demarcar 0S
lianas Tastérivas e culturais de conceitos aparentemente
neutros da tradicao do

ideclonawtecae oeP
to dos desafios especificamente globais
Terrorismo eo legado do Ilumin
ismo
29

da nossa €poca, a critica social ea tesponsabilidade ética impéem a desconstru-


¢40 de ideais falsamente neutros e potencialmente hegeménicos. Longe deres-
tringir a demandaporjustica e liberdade universais, a desconstrucado renova-as
ao infinito.
Em contraste, Habermas adota a tolerancia tanto no cam
po ético quanto
legal. Sua defesa da tolerancia emerge de sua concep¢ao de democracia cons
titu-
cional comoa unica situacdo politica capaz de abrigar comunicagio livre e sem
coacao e forma¢ao de um consensoracional. £ verdade,diz ele, que o termo tem
umaorigem religiosa e que s6 posteriormentefoi apropriadopela politica secu
-
lar. Além disso, € verdade quea toleranciaé intrinsecamente unilateral: “é dbvio
que 0 limite de tolerancia, que separa o que é ainda ‘aceitavel’ do que no é, sera
estabelecido arbitrariamentepela autoridade existente.” No entanto,na visdo de
Habermas, a unilateralidade datolerancia é neutralizadase a tolerancia for pra-
ticada no contexto de um sistemapolitico participante tal como aquele ofereci-
do pela democracia parlamentar. Em resposta direta a Derrida, durante nosso
didlogo, Habermasesclareceu esse ponto: democracia constitucional necessariamente
está ligada ao estado nacional...

Entretanto, a partir desse exemplo, podemos também aprender que a desconstru-


¢4o pura e simples do conceito de tolerancia cai em umaarmadilha, umavez que 0
Estado constitucional contradiz precisamente a premissa da qual deriva o sentido
paternalista do conceito tradicional de “tolerancia”. Nointerior de uma comunida-
de democratica, cujos cidadaos concedem reciprocamentedireitos iguais uns aos
outros, nao sobra espaso para que umaautoridade determine unilateralmente as
fronteiras do que deve ser tolerado. Na base dosdireitos iguais dos cidadaos e do
respeito reciproco de um pelo outro, ninguém possui o privilégio de estabelecer as
fronteiras da tolerancia do ponto de vista de suas proprias preferéncias e orienta-
gdes segundovalores.

no¢ao
A objecado que Habermas dirige a Derrida e 4 sua desconstrugao da
de tolerancia aplica-se a umasitua¢ao politica muito especifica: uma democra-
cada como a
cia funcional participante. Nela, a tolerancia nao pode ser prati
razao dos maisfortes. .
Observo no entanto que a globalizacao parece ter transformadoas condi-
e.
g6es e o significado da participacao, tanto econémica como politicament
de participagao global
Quem participa do qué? Se é verdade que novos rumos
, ir, em
parece regred neespecial por
estao se abrindo, por que o limite de tolerancia
parte daqueles que supostamente a
cabaram de entrar no forum publico na con-
30 Introdugao

dicdo de participantes? Deveriamos admitir que a globalizacao prop


aga mais , ‘ 4

ilusdo do que a realidade da participacao universal? Sera 0 opulento Primer, |


mog
Mundo honesto ao se apresentar e promover como tolerante? O que deve

ie ls Ni
fazer do conceito de tolerancia?
Habermasvolta-se para a modernidadea fim de fazer face a esses desafigg
aa ’
O paradigma daintolerancia religiosa — e ele a
sua encarnacao — aparece-lhe com:o um fenémeno exclusivamen
té moderno, i
i
a na atifude
Como Kant, Habermas entende que a modernidade é uma mudang
ngas. Umaatitude de crenca
de crenca, mais do que um corpo coerente de cre
mos,
indica 0 modo como acreditamos, mais do que aquilo em que acredita
Assim, o fundamentalismo tem menos a ver com qualquer texto especifico ou
ga. Quer discutamos
dogmareligioso, e mais a ver com a moralidade da cren
s sempre falando
crencas fundamentalistas islamicas, cristas ou hindus, estamo
de reac6es violentas contra a maneira moderna de entendere praticar a religiao,
o pré-
Nessa perspectiva, o fundamentalismonao € 0 simples retorno a um mod
rnida-
moderno dese relacionar com religiao: é uma reagdo de panico a mode
de, percebida mais como ameaga do que como oportunidade.
Habermas admite que toda doutrinareligiosa se baseia em um cerne dogmé-
tico de crenca; de outro modo,nao acarretaria a fé. No entanto, com 0 advento da
modernidade,as religides tiveram de “abrir mao do carater de envolvimento uni-
versal e aceitacao politica da sua doutrina’, a fim de coexistir em uma sociedade
pluralista. A transigdo da atitude de crenga pré-moderna para a moderna foi um
desafio monumental para asreligides mundiais. Estas so religides cuja reivindi-
cacao exclusiva da verdadefoi apoiada e confirmadaporsituagGes politicas “cujas
periferias pareciam se tornar indistintas além de suas fronteiras”. A modernidade
traz a cena tal pluralidade de nacdes e tamanho crescimento em complexidade
social e politica, que a exclusividade dereivindicac6es absolutas torna-se simples-
mente insustentavel. “Na Europa,o cisma confessional e a secularizacao da socie-
dade compeliram a crengareligiosaa refletir sobre seu prdprio lugar nao-exclusi-
vo dentro de um discurso universal partilhado com outras religidese limitado pot
um conhecimento do mundogeradocientificamente.”
A globalizacao acelerou a reagao defensiva que acompanha o medodo qué
Habermasdefine como0 “violento desenraizamento dos modostradicionais 4¢
vida”algo de que a modernizagao é geralmente acusada. Nao podemosnega, diz
e
Habermas,quea globalizacio dividiu a sociedade mundial em vencedores, ben
ficidrios e perdedores. Nesse sentido, “o Ocidente como um todoserve de bode
Terrorismo e o legado do Iuminismo
31

om pata as expeciinnciay muito efetivas de perda vivenciadas pelo mundo


arabe . Em um nivel psicolégico, tal experiéncia cria umasituacdo favordvel a
uma vis2o de mundo altamente polarizada, em quevarias fontes espirituais bus-
cam aad a forge secularizadora dainfluéncia ocidental. Para afastar essa peri-
gosa polarizagio entre a amoralidade do Ocidente e a suposta espiritualidade do
fundamentalismoreligioso, Habermas apela para um rigoroso auto-exame por
parte da cultura ocidental. Porque, se a mensagem normativa que as democra-
cias liberais do Ocidente exportam for a do consumismo, o fundamentalismo
permanecera incontestado.
A relacao entre o fundamentalismoe 0 terrorismo é mediada pela violén-
cia, que Habermasentende como umapatologia comunicativa. “A espiral de vio-
léncia comega como umaespiral de comunicacao distorcida que leva, por meio
da incontrolavel espiral de desconfianca reciproca, 4 ruptura da comunica¢ao.”
No entanto,a diferenga entre a violéncia existente nas sociedades ocidentais —
que sdo certamente assoladas por desigualdadesocial, discriminagao e margina-
lizacéo — e a violéncia transcultural é que, nesta, aqueles “que poderiam se tor-
nar alienados uns dos outros somente pela comunicacdo sistematicamente dis-
torcida” ndo reconhecem unsaos outros como membros participantes de uma
sen-
comunidade. A estrutura legal dasrelages internacionais nao faz muito no
mentalida-
tido de abrir novos canais. E necessdria, portanto, uma mudanga de
por um alivio
de, que “acontece sobretudo pela melhoria das condic6es de vida,
capaz de se desen-
sensivel da opressdo e do medo. A confianca também deve ser
um esclarecimento efe-
volver nas praticas comunicativas do cotidiano. S6 entao
E deve fazé-lo afetando as
tivo podera se estender a midia, as escolas e aos lares.
premissas da propria cultura politica”
de comunicagao que levam a
O remédio contra as distorgGes sistematicas
fundamental de confianga entre as
violéncia transcultural é reconstruir um elo
e o medo dominarem. Esse
pessoas, o que nao podeocorrer enquanto a opressao
como da cultura politi-
elo depende tanto da melhoria das condicdes materiais
na
intera¢4o uns com os outros, pols,
ca em queos individuosse encont ram em
ia de um desses dois fatores, to rna
-se impossivel a adogdo de qualquer
ausénc
perspectiva mutua.
ilidade de
to, par a Hab erm as, a razao, ente ndida como umapossib
Enq uan
nsp are nte e na o ma ni pu la do ra , pode curar os males da moder-
comunicacdo tra
am en ta li sm o ¢ ter ror ism o, para Derridaessas forcas des-
nizacao,entre eles fund ou
m ser det ect ada s e nom ead as, ma s nao totalmente controladas
trutivas pode
32 Introdugao j

conquistadas.Se, para Habermas,os agentes patoldgicossao fruto da reociade


com a qual a modernizacio se impése da reacdo defensiva queela provocoy Por
parte dos modostradicionais de vida, para Derrida a reacao defensiva yey, iat
propria modernidade. O terrorismo é, para ele, o sintoma de uma desordem 5
auto-imune que ameaca a vida da democracia participativa, o sistemalegal que 4
a embasae a possibilidade de umaseparacao nitida entre as dimensées religiosa ‘y
e secular. As condigdes auto-imunes implicam o suicidio espontaneo do meca. 5
nismo que deveria proteger o organismo da agressao externa. Partindo dessa |
andlise sombria, a exortaco de Derrida é no sentido de que se procedalenta ¢
Ppacientemente a busca de umacura.
4
A tese que Derrida defende, no didlogo, é de que o tipo de terrorismo glo. 1
bal subjacente aos ataques de 11 de setembro nao é 0 primeiro sintomadacrise ;
i
auto-imune, mas apenas sua manifesta¢do mais recente. Durante a GuerraFria,
i
as democracias liberais do Ocidente armaram e treinaram seus futurosinimigos |
{
de uma maneira quase suicida. A exibigdo simétrica do poder na Guerra Friafoi |
i
minadapela disseminagao doarsenal nuclear, bem como de armasbacterioldgi-
i
cas e quimicas. Agora nos defrontamos com realidade de um conflito assimé-
trico que, comotal, representa um est4gio mais avangado dacrise auto-imune.
Naera do terror nao ha equilfbrio possivel: desde que forgas incalculaveis, mais
i
do queestados soberanos, representam a verdadeira ameaga, 0 proprio conceito 1
de responsabilidade torna-se potencialmente incalculdvel. Quem é responsavel
i
1
pelo qué, em que estagio de planejamento,diante de que corpo juridico?
Comoa GuerraFria, o espectro do terrorismo global persegue o nosso sen-
tido do futuro, porque assassina a promessa da qual depende umarelacao posi- i
tiva com o nosso presente. Em todo o seu horror, 11 de setembro deixou-nos d
esperando pelo pior. A violéncia dos ataques contra as Torres Gémeas ¢ 0
Pentagono revelou um abismo deterror que ira perseguir nossa existéncia € 4
4
nosso pensamento pelos anos e talvez pelas décadas vindouras. A escolha da
data, 11 de setembro, para dar nome aos ataques tem 0 objetivo de atribuir-lhes
monumentalidade histérica, o que interessa tanto A midia ocidental como 40S ‘
terroristas.
Para Habermas, bem como para Derrida,a globalizacao desempenha um
papel importante face ao terrorismo. Enquanto para o primeiro o que est4 eM _
jogo é um aumentodadesigualdade produzida pela modernizacao acelerada°
segundo faz umaleitura diferenciada da questdo de acordo com o contexto. A
globalizacao, paraele, possibilitou o processo rapido e relativamente suave de '
Terrorismoe o legado do Muminismo
33

democratizagao da maioria das nagées da Europa Oriental que anteriormente


constituiam a Unido Soviética. Derrida acredita que, nessas nagoes, esse proces-
so foi positivo. “Movimentosrecentes para a democratizacao ... devemgrande
parte, quase tudo, talvez, a televisao, a comunicacao de modelos, normas, ima-
gens, produtos de informatica e assim por diante.” Em contraste, ele mostra-se
extremamente preocupado com efeito da globalizacao sobre a dinamica do
conflito e da guerra. “Entre os dois supostoslideres da guerra, as duas metoni-
mias ‘bin Laden’ e ‘Bush’, a guerra de imagense de discursos prossegue em um
ritmo cada vez mais acelerado pelas ondasdo radio e da TV, dissimulando e des-
viando cada vez mais rapidamentea verdade querevela.” Em outroscasos,ainda,
a globalizacado nada mais é do que um artificio retérico destinado a dissimular a
injustica. E isso, na opiniado de Derrida, o que esta acontecendo dentro das cul-
turas islamicas, nas quais apenasse acredita que a globalizacdo esteja ocorrendo,
mas narealidade nao esta. Aqui Derrida chega mais proximo de Habermas, ndo
s6 por entendera globalizacdo sob a rubrica da desigualdade, mas também por
relaciond-la ao problema da modernidade edo Iluminismo.

Nocurso dos ultimos poucos séculos, cuja histéria teria de ser cuidadosamente
is-
reexaminada (a auséncia de umaera do Iluminismo,da colonizac4o, do imperial
moe assim por diante), varios fatores contribuiram para a situacao geopolitica
uma mar-
cujos efeitos estamos sentindo atualmente, a comegar pelo paradoxo de
ento
ginalizacao e de um empobrecimento cujo ritmo é€ proporcional ao crescim
chamamos
demografico. Essas popula¢des estao nao s6 privadas de acesso ao que
brevemente), mas des-
de democracia (por causa da histéria que relembrei apenas
“riquezas”naturais sao de
pojadasaté das chamadas riquezas naturais daterra. ... As
s que hoje restam.
fato os tinicos bens nao-virtualizaveis e ndo-desterritorializ4vei

um lado, ele
A posicao do mun do islamico é tinica sob dois aspectos: por
tessencialmente moderna
carece historicamente de exp osicao a experiéncia quin
a necessdria para que
da democracia que Derrida, como Habermas, consider
cultura encare positivamente a moderniz
acao.Por outro lado, muitas cul-
uma
rsos naturais tais como o
turas islamicas floresceram em solo ri co de recu
curso “ndo-virtualizavel e nao-
petréleo, que Derrida define como 0 ultimore
o islamico mais vulneravel a
desterritorializavel”. Essa situagao torna © bloc
lizados e dominada
modernizagao selvagem produzida pelos me rcados globa
es internacionais.
por um pequeno ntimero de estados e corpora¢o'
34 Introdugao

Enquanto para Habermaso terrorismo é 0 efeito do trauma da moderniza.


Gao que se espalhou pelo mundo em umavelocidadepatoldgica, para Derrida 9
terrorismo é 0 sintoma de um elemento trauméatico intrinseco a experiéncig
moderna, cujo foco est4 sempre no futuro, de certo modo entendido patologica-

eaialis era
mente como promessa, esperanca e auto-afirmagéo. Ambassao reflexdes som.
brias sobre o legado do Iluminismo,e a busca incansavel de umaperspectivacri-
tica que deve comegar pelo auto-exame.