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E sta é uma obra singular, rara e inesperada no panorama editorial do nosso país e, inclusi-

vamente, a nível internacional. (...) O Dicionário dos Antis constitui-se como uma espécie
Direção de
José Eduardo
Direção de

José Eduardo Franco


de história da cultura portuguesa, olhada do ângulo dos dinamismos de oposição e de contra- Franco
dição, que permite compreender-nos a partir de uma perspetiva inabitual, abrindo caminhos

dicionário
de perceção da “diferença”, de uma forma inovadora, mais abrangente e mais complexa.
Duarte Azinheira, da Apresentação
dicionário
d0s
A originalidade do dicionário que o leitor tem entre mãos consiste em observar as práticas
sociais de hoje e as suas representações em comportamentos e argumentações muito
mais antigos. E porque não desde a aurora da humanidade? (...) Ao longo das suas muitas
d0s
páginas, este dicionário manifesta a extraordinária conexão de Portugal com a história do
mundo. (...) Não há dúvida, por outro lado, de que o Dicionário dos Antis vai suscitar um vasto
debate internacional. (...) Não estamos em altura de denunciar este ou aquele grupo, mas de
entrar no laboratório do pensamento dialético, que é uma maneira de estimular o espírito
Volume 2
crítico quando o falso, o virtual e o verdadeiro se misturam; que é pôr em causa os erros cons- dicionário: AL – AX
pirativos e as certezas abusivas deste mundo dividido entre manipulação e informação que se El u c i d á r i o
tornou o nosso.
Fabrice d’Almeida, do Prefácio
A c u ltu ra portu gu esa em neg ati vo
Coordenação de
Volume 2
A
Adelino Cardoso
2.ª
presentamos ao leitor uma obra inesperada, sem dúvida inusitada, mas que não deixa,
Aida Sampaio Lemos
por isso, de ser fascinante. Propomos um olhar diferente, um olhar sobre o avesso da
o
Ediçã
António Castro Henriques
cultura portuguesa, em articulação com os dinamismos construtivos e disruptivos das suas
Carlos Fiolhais
congéneres internacionais. (...) Este dicionário, em contrapartida, propõe uma visão simétri- Helena Mateus Jerónimo
ca: uma viagem pelas correntes, as etnias, as religiões as instituições, as figuras, mas a partir João Relvão Caetano
do olhar do adversário, de quem discordou, de quem atacou, de quem pensou o contrário. Joaquim Pintassilgo
(...) É como se entrássemos numa casa, a casa da cultura portuguesa, e deparássemos com José Carlos Lopes de Miranda
um cenário inquietante, com os móveis de pernas para o ar, os armários virados do avesso, Luís Machado de Abreu
Luiz Eduardo Oliveira
as partes menos arrumadas e sujas à vista de todos; ou como se acordássemos de manhã e
Manuel Curado
víssemos no espelho as imagens que têm de nós os que menos nos querem e apreciam; ou
Manuel Silvério Marques Coordenação de
ainda, como se recebêssemos a nossa biografia negativa, uma narrativa produzida por aqueles Micaela Ramon
que nos detestam. Parece uma obra estranha. É verdade. Todavia, o negativo também faz Pedro Barbas Homem Adelino Cardoso z Aida Sampaio Lemos
história, também faz cultura, e não podemos desconhecê-lo nem desconsiderá-lo, pois ele é Ricardo Ventura António Castro Henriques z Carlos Fiolhais
Helena Mateus Jerónimo z João Relvão Caetano
um elemento constitutivo do processo de construção da nossa identidade, quando não parte
Joaquim Pintassilgo z José Carlos Lopes de Miranda
integrante da mesma.
Luís Machado de Abreu z Luiz Eduardo Oliveira
Da Introdução Manuel Curado z Manuel Silvério Marques z Micaela Ramon
Pedro Barbas Homem z Ricardo Ventura
dicionário
dos

antis

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Direção de

José Eduardo Franco

dicionário
dos

antis
A Cultura Portuguesa em Negativo

Volume 2
dicionário: Al –Ax
Elucidário

2.ª edição

Coordenação de

Adelino Cardoso z Aida Sampaio Lemos


António Castro Henriques z Carlos Fiolhais
Helena Mateus Jerónimo z João Relvão Caetano
Joaquim Pintassilgo z José Carlos Lopes de Miranda
Luís Machado de Abreu z Luiz Eduardo Oliveira
Manuel Curado z Manuel Silvério Marques z Micaela Ramon
Pedro Barbas Homem z Ricardo Ventura

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Imprensa Nacional
é a marca editorial da
Imprensa Nacional-Casa da Moeda, S.A.
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© Instituto Europeu de Ciências da Cultura P. Manuel Antunes (IECCPMA)


e Imprensa Nacional-Casa da Moeda

Título
Dicionário dos Antis: A Cultura Portuguesa em Negativo – Volume 2
Direção
José Eduardo Franco
Coordenação
Adelino Cardoso, Aida Sampaio Lemos,
António Castro Henriques, Carlos Fiolhais,
Helena Mateus Jerónimo, João Relvão Caetano,
Joaquim Pintassilgo, José Carlos Lopes de Miranda,
Luís Machado de Abreu, Luiz Eduardo Oliveira,
Manuel Curado, Manuel Silvério Marques, Micaela Ramon,
Pedro Barbas Homem, Ricardo Ventura
Design, Capa e Paginação
António Rochinha Diogo | ARD-Cor
Edição e Revisão
Maria José Figueiredo (coord.),
Álvaro Almeida, Milene Alves, Vanda Figueiredo
Impressão e Acabamentos
Imprensa Nacional-Casa da Moeda
2.ª edição
Abril de 2019
isbn
978-972-27-2716-7
Depósito Legal
443944-18
Edição
1020391

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 v

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AL – AX

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Antilatinismo De qualquer modo, entre os sécs. x e


xiii, alguns vernáculos começaram a su-
plantar o latim e a adquirir influência
na linguagem escrita. Em determinados
países, como Portugal, tal transição acon-
teceu por imposição da lei (em 1279,
D.  Dinis estabeleceu definitivamente o

O termo “latinismo” refere-se a uma


forma de expressão fundamentada
na antiga língua latina, que foi utiliza-
português como a língua oficial do seu
reino – seguindo o exemplo de seu avô,
D. Afonso X de Leão e Castela, que ti-
da como o idioma de comunicação in- nha instituído o vernáculo castelhano
ternacional e como a base do ensino na como a linguagem oficial dos seus do-
Europa até cerca do séc. xviii, período mínios  –,  embora já na chancelaria de
em que começou a ser definitivamente D. Afonso  III, a partir de 1255, se tives-
superada pelos vernáculos. De facto, o se começado a usar a língua portuguesa
latim representa mais de 2000 anos de em conjunto com o latim nos diplomas
cultura. Desde o tempo dos Romanos, oficiais); em outras regiões, como nas da
esta língua assumiu uma considerável Itália, os vernáculos encontraram uma
importância nos desenvolvimentos da posição de relevo através de vários poe-
religião, da filosofia, da arte, da ciência, tas e escritores proeminentes (tais como
etc. Ao longo da maior parte da história Giacomo da Lentini e Dante Alighieri)
europeia, uma educação clássica foi con- que os utilizaram por sua própria inicia-
siderada crucial para a formação de uma tiva. Além do mais, na ciência, durante a
elite cultural. Idade Média e até ao início do Renasci-
A partir do séc. v, durante o fenóme- mento, o latim ainda não era o meio de
no da fragmentação do Império Romano expressão dominante; na verdade, estava
e a quebra das suas anteriores redes de subordinado às línguas grega e árabe.
comunicação, o latim vulgar começou a No Renascimento, o latim persistiu
evoluir de forma independente em cada na diplomacia internacional e na gover-
espaço da Europa, divergindo e origi- nação, de que são exemplo os domínios
nando, com o passar do tempo, várias poliglotas da antiga República das Duas
expressões linguísticas distintas. Por con- Nações e dos da casa de Habsburgo. Por
seguinte, durante a Idade Média, o latim outro lado, embora em tal época se tenha
propriamente dito deixou de ser apren- destacado a recuperação e a revaloriza-
dido como uma língua viva e nativa. No ção da cultura da Antiguidade clássica e a
entanto, inúmeros indivíduos das elites influência desta na nova literatura emer-
aristocráticas e aqueles que ingressavam gente, existia já alguma resistência, da
numa carreira relacionada com a Igreja parte de determinados homens doutos,
estudavam, de forma escrita e oral, o idio- à utilização do idioma latino na escrita e
ma latino, que continuou a ser frequen- à ação exercida por aquele no desenvol-
temente utilizado na documentação da vimento das respetivas línguas nacionais.
época. A influência e o poder da institui- A título de exemplo, releva-se a oposição
ção da Igreja durante tais tempos foram de John Cheke, estadista e tutor do Rei
fatores consideráveis na persistência da Eduardo VI da Inglaterra, que, embora
língua latina como uma forma de comu- tenha sido um erudito fluente nas línguas
nicação privilegiada. clássicas, defendia o uso do inglês sem o

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John Cheke (1514-1557). Charles Perrault (1628-1703).

recurso a palavras de origem latina ou dos em francês (tal aconteceu principal-


grega e estimulava a tradução generaliza- mente entre 1530 e 1597; porém, desde
da dos textos antigos. este último ano até cerca de 1685, o latim
Neste período, o latim também se tor- seria também a linguagem mais utilizada
nou o mais importante meio de trans- na comunicação de tais trabalhos).
missão dos conhecimentos científicos, Além disso, perto do final do séc. xvii,
unindo estudiosos de várias nacionalida- surgiu naquela nação a famosa querelle
des; no entanto, inúmeros países da Eu- des anciens et des modernes, um debate da
ropa ocidental começaram cada vez mais Academia Francesa que agitou o mundo
a utilizar os seus idiomas vernáculos nos académico e artístico. Esta contenda co-
assuntos oficiais. Em França, uma das locou em confronto duas posições: uma
nações que mais culturalmente influen- defendia a autoridade e o valor dos escri-
ciou o continente europeu, o decreto de tos antigos, e a outra, as inovações e os
Villers-Cotterêts, em 1539, impôs o em- desenvolvimentos na literatura moderna
prego do francês nos atos administrativos da época. A obra Parallèle des Anciens et
e judiciais. Também neste país e nesta des Modernes en Ce Qui Concerne les Arts et
época, começaram-se a difundir, em con- les Sciences, de 1693, composta por Char-
siderável quantidade, os primeiros léxicos les Perrault, escritor, advogado e supe-
latim-francês e as primeiras traduções em rintendente do Rei Luís XIV de França,
vernáculo das grandes obras antigas. Nas representou a mais importante oposição
universidades da França continuou-se a formal às antigas perspetivas.
ensinar exclusivamente em latim, mas, Iniciava-se, então, o desenvolvimento
em escolas de província, destacava-se o de um novo rumo cultural: no séc. xviii,
fenómeno de os estudos médicos, que co- o fenómeno do iluminismo despontou, a
meçavam a desenvolver-se, serem realiza- França destacou-se como o centro deste

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movimento, e o idioma francês acabou à formação de crianças pobres, também


por adquirir uma considerável influên- tinha iniciado, em França, a criação de
cia na Europa. Os intelectuais europeus programas e de escolas de ensino sem o
começaram a exercitar consistentemente idioma latino. Tal movimento encontrou
a língua francesa, assim como a fazer e a um pleno desenvolvimento sob a Revo-
ler, de outras línguas, traduções de textos lução Francesa. Então, nas grandes e nas
em francês (ou, na sua falta, traduções do pequenas escolas, o ensino começou a ser
francês para o latim). transmitido principalmente em francês e
O Tratado de Rastatt, um acordo de para um maior número de estudantes,
paz, realizado a 7 de março 1714, entre tendo sido progressivamente diminuído
a França e a Áustria, representou o mo- o número de anos e de horas dedicado
mento inicial da consagração da língua ao latim (embora Napoleão Bonaparte,
francesa como o principal meio de comu- pelo decreto de 1802, tivesse determina-
nicação na diplomacia internacional. Em do a utilização dos exames das disciplinas
1763, o Tratado de Hubertusburg, que de Latim e de Matemática como os meios
marcou o fim da Guerra dos Sete Anos, para selecionar a elite escolar).
evidenciou definitivamente a priorida- Vários fatores, na verdade, contribuíram
de do uso do francês sobre o do latim. para rebaixar o lugar atribuído à língua la-
O francês começou a ser utilizado, inclu- tina, principalmente a partir do séc. xviii.
sive, entre os principados alemães do Sa- Na esfera política, refira-se o progressivo
cro Império Romano-Germânico. declínio do poder da Igreja, por um lado, e
Ademais, no início do séc. xviii, Jean­ o aumento da influência da França (sobre-
‑Baptiste de La Salle, sacerdote e educa- tudo, durante o crescimento do Império
dor inovador que consagrou a sua vida Napoleónico), por outro, juntamente com

O Juramento do Jogo da Pela, de Jacques-Louis David (1748-1825).

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minente). Também deve ser considerada a


evolução dos planos das educações nacio-
nais que, menos influenciados pela Igreja
e pela religião, começaram cada vez mais a
formar novos métodos de ensino com base
nos vernáculos, tentando responder ao
crescimento dos novos saberes e aos desa-
fios das sociedades comerciais e industriais
emergentes. Adicionem-se igualmente as
perspetivas do espírito racional e iluminis-
ta, que expressaram a crença na superio-
ridade dos tempos modernos em relação
ao passado, e, finalmente, os desenvolvi-
mentos da imprensa, que não só propor-
cionaram, desde o séc. xvi, as condições
para o florescimento de diversas línguas
na escrita, mas também originaram, sem
o recurso aos escribas especializados da
Galileu Galilei (1564-1642). Igreja, uma proliferação de publicações
destinada a um conjunto de leitores que
poderia dispor de pouca ou de nenhuma
a elevação do idioma francês, como referi- formação clássica.
do. Também se reconhecia que era difícil Em todo o caso, apesar do enfraqueci-
adaptar a língua latina às mudanças e às mento do seu papel, o latim continuou
características dos novos conhecimentos a manter uma considerável importân-
que se desenvolviam (as dificuldades eram cia para a formação de letrados até ao
consideráveis, e.g., em disciplinas como a séc.  xx, época em que os programas de
Física e a Química). Além disso, começou ensino instituídos lhe assestaram os maio-
a ser progressivamente mais fácil aos estu- res golpes (tal ocorreu, e.g., na Dinamar-
diosos a aquisição de apoios e de clientes ca, no princípio desse século, em Itália,
próximos de si próprios mediante a com- na déc. de 1920, com a reforma Gentile,
posição de trabalhos na sua língua nativa: em Inglaterra, nos anos 50, e na França,
esta foi uma das motivações de cientistas nos finais de 1960).
como Galileu Galilei, quando começou a Neste período, os defensores do la-
utilizar o idioma italiano em detrimento tim insistiram em vários argumentos a
do latim, e de Isaac Newton, quando es- favor do ensino e do uso de tal língua,
creveu a sua obra Opticks em 1704. Neste tentando renovar a sua antiga importân-
século, o desenvolvimento do mundo cien- cia. Defenderam que a aprendizagem
tífico teve, de facto, um papel na diminui- do latim poderia, e.g., facilitar a apren-
ção do uso do latim; o reinado deste como dizagem das línguas vivas, desenvolver a
a língua universal da comunicação cien- clareza e a precisão na expressão escrita,
tífica na Europa não foi muito longo (na favorecer o desenvolvimento do pensa-
verdade, o triunvirato das línguas france- mento lógico, e criar as condições para
sa, inglesa e alemã acabaria por se impor o aluno compreender os fundamentos
em tais meios até cerca do séc. xx, período e o património cultural da civilização
que elevaria o inglês a uma posição proe- ocidental.

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Em Portugal, como acima menciona-


do, D. Dinis instituiu o português como
a língua oficial no seu tempo (além de
ter estimulado a tradução de várias obras
para português e contribuído para a poe-
sia trovadoresca portuguesa), determi-
nando definitivamente a sua utilização
nos documentos oficiais.
O latim, no entanto, continuou a ser a
base do ensino no país. A educação en-
contrava-se, na sua maior parte, influen-
ciada pela Igreja, tendo estado, desde
o séc. xvi, principalmente nas mãos da
Companhia de Jesus até à reforma pom-
balina do séc. xviii. Nesta centúria, o Es-
tado tomou o comando dos programas
de ensino nacionais. Através do alvará
régio de 28 de junho de 1759, o marquês
Rei D. Dinis (1261-1325). de Pombal, ao mesmo tempo que expul-
sou os Jesuítas de Portugal e suprimiu os
colégios jesuíticos, estabeleceu métodos
de ensino que serviam, sobretudo, os in-
Os seus opositores, por seu lado, além teresses seculares, económicos e políticos
de considerarem exageradas as afirmações da nação. Esta reforma simplificou os mé-
apresentadas em cima, referem como con- todos de aprendizagem da língua latina,
tra-argumentos: a pouca utilização real e abreviando o seu tempo de instrução,
concreta do latim nos meios científicos atendeu ao objetivo de criar nos educan-
modernos; o excessivo número de anos dos as competências para determinados
necessário para a aquisição de um grau estudos, mais amplos e adequados aos
razoável de fluência; as dificuldades na desenvolvimentos sociais, científicos e
aprendizagem da gramática latina e em culturais europeus, e também enfatizou a
encontrar termos latinos para expressar importância da língua, da gramática e da
inúmeras realidades atuais; o próprio mé- ortografia portuguesas, aspetos que deve-
todo de ensino do latim, que, influencia- riam, então, ser aprendidos diretamente
do excessivamente pela filologia, reduz e não por intermédio do latim, através do
tal língua a meros exercícios gramaticais qual as matérias, em geral, eram anterior-
e dificulta o desenvolvimento da interio- mente estudadas.
rização das estruturas linguísticas; o facto Luís António Verney, um dos maiores
de a formação clássica se encontrar afas- representantes do Iluminismo no país e o
tada dos assuntos dominantes na Moder- autor da famosa obra intitulada Verdadeiro
nidade e de apenas servir os objetivos de Método de Estudar, também criticou forte-
estudiosos com uma especialização espe- mente o modo anterior de educar, inclu-
cífica; e a existência atual de um grande sive o método de ensinar latim de Manuel
número de traduções das antigas obras Álvares, autor do séc. xvi que escreveu
romanas, que podem ser apreciadas sem uma gramática latina que adquiriu uma
o conhecimento do idioma latino. considerável reputação internacional.

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1132 Antilatinismo

Tal gramática encontrava-se totalmente cular: uma, em 1918 (dec. n.º 4799, de se-
escrita na língua latina com o fim de os tembro), no Governo de Sidónio Pais, por
seus leitores aprenderem o latim por si influência do secretário de Estado da Ins-
mesmo, contendo por isso um excesso de trução Pública, José Alfredo de Magalhães;
regras, que dificultava a aprendizagem e outra, em 1926 (dec. n.º 12425, Diário do
a tornava morosa. Verney, por seu lado, Governo de 2 de outubro), já no período da
propôs o uso de um método de latim chamada ditadura militar, pelo ministro
mais prático e baseado em manuais com- da Instrução Pública, Artur Ricardo Jorge;
postos com a língua portuguesa. Além do e outra, em 1927 (dec. n.º 13056, de 20 ja-
mais, este escritor, apesar de reconhecer neiro; Diário do Governo de 22 de janeiro),
a importância do latim para a educação e pelo mesmo ministro.
para a formação dos jovens, afirmou que Nos princípios de maio de 1926, numa
o idioma latino não era crucial para o de- conferência feita em Lisboa, no salão da
senvolvimento completo de um homem União Intelectual Portuguesa, intitulada
douto, tendo comentado também, como “O clássico na educação e o problema
pensamento geral relativamente ao ensi- do latim”, António Sérgio, educador e
no, que “é loucura ensinar em latim uma político português, também atacou for-
coisa que, pela maior parte, se há de exe- temente o papel do latim no ensino se-
cutar em vulgar” (VERNEY, 1746, I, 155), cundário: “É ilusório esse latim; e, além
i.e., por meio da linguagem vernácula. disso, é maçador; ora, o tédio intoxica o
Embora a reforma pombalina tenha cérebro; o tédio, que dais à criança como
instituído várias mudanças nos métodos e coisa inócua, deprime, ensandece, mata.
nos planos de ensino, tendo valorizado o Uma vez, diante de Heine, falava-se com
português e diminuído o papel do latim, espanto da antiga Atenas, da superiorida-
não se revelou como uma reestruturação de mental dos velhos gregos sobre todas
verdadeiramente antilatinista. Também as nações do nosso tempo. ‘Isso’ – opi-
em Portugal, a língua latina continuou a nou o poeta  –  ‘não é inato no homem
fazer parte de uma formação elevada até moderno; vem da educação que se dá aos
ao séc. xx, época em que as suas funções jovens; vem de que os gregos foram o úni-
na instrução nacional sofreram, de facto, co povo... que não foi obrigado a estudar
os maiores ataques. latim...’” (SÉRGIO, 1971, 119).
Em 1905, ainda na vigência da monar- Em 1930, Gustavo Cordeiro Ramos,
quia, durante o Governo de José Luciano como ministro da Instrução Pública, por
de Castro, aconteceu uma reforma do meio da sua reforma do ensino liceal
ensino secundário (por decreto de 29 de (dec. n.º 18779, de 16 de agosto), au-
agosto, assinado pelo ministro e secre- mentou consideravelmente o número de
tário de Estado dos Negócios do Reino, horas escolares da cadeira de Latim no
Eduardo José Coelho) que transformou a curso geral das escolas secundárias, ten-
disciplina de Latim, anteriormente ainda tando restabelecer o equilíbrio entre o
uma das bases na educação, numa aula ensino das ciências e o das humanidades.
de três horas semanais para o 4.º e o 5.º Porém, em 1936, pelo dec.-lei n.º 27084,
anos do curso geral, e noutra de cinco de 14 outubro, o ministro António Faria
horas semanais para o 6.º e o 7.º anos dos Carneiro Pacheco (que, no mesmo ano,
cursos complementares de Letras. modificou a designação do Ministério
Posteriormente, ocorreram pequenas da Instrução Pública para Ministério da
mudanças sem qualquer relevância parti- Educação Nacional), contradizendo as

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Antilatinismo 1133

mudanças anteriores, diminuiu as horas Todavia, nas décadas seguintes, a dege-


letivas atribuídas à língua latina e incor- nerescência em relação ao papel do idio-
porou o ensino daquela na disciplina de ma latino no ensino continuaria. Em 1996,
Português. cerca de 13.000 alunos realizaram o exame
Em 1947, Fernando Andrade Pires de de Latim; em 2014 (sendo a disciplina op-
Lima acabou definitivamente com a pos- cional de Latim oferecida apenas aos alu-
sibilidade de todos os alunos aprenderem nos dos cursos da área de Humanidades, a
latim, permanecendo a oferta do ensino partir do 10.º ano de escolaridade), somen-
daquele somente nos cursos complemen- te 114 se apresentaram àquela prova.
tares de Letras (com a exceção do de Ciên- Em 2010, a UNESCO recomendava aos
cias Geográficas) e nos de Direito, com países com línguas de origem latina um
cinco horas semanais nos 6.º e 7.º anos. maior desenvolvimento relativamente ao
Em 1972, o ministro da Educação Na- ensino do latim nas escolas; no entanto, em
cional do Governo de Marcelo Caetano, Portugal, no princípio do séc. xxi, os pro-
José Veiga Simão, reformulou novamen- gressos são ténues, vislumbrando-se como
te, por simples despacho, a estrutura dos longínqua a possibilidade de o latim se
cursos complementares dos liceus, tendo aproximar da sua importância de outrora.
reduzido o Latim à situação de cadeira
opcional em quase todos os cursos de
Letras (a língua latina manteve-se como
obrigatória apenas para o curso de Filo-
logia Clássica).
Na sequência desta última legislação,
Francisco de Sá Carneiro, na secção “Vis-
to” do jornal Expresso de 31 de março de
1973, publicou um texto intitulado “Pro- Bibliog.: CARNEIRO, Francisco de Sá, “Pro-
gredir em latim”, retomando os argu- gredir em latim”, in CARNEIRO, Francisco
mentos contra o ensino do idioma latino. de Sá, Textos, vol. ii, Lisboa, Alêtheia, 2010,
A partir de 1974, atingiu-se, em várias pp. 45-48; CARNEIRO, Manuel Cerejeira,
universidades, a situação de se conferir o “Como renovar o ensino do Latim. Algumas
sugestões”, in As Línguas Clássicas: Investigação e
grau de licenciatura em Estudos Portu-
Ensino – Actas, Coimbra, Instituto de Estudos
gueses sem a exigência da disciplina de
Clássicos, 1993, pp. 157-165; COUTURAT,
Latim nos respetivos currículos, originan- L., e LEAU, L., Histoire de la Langue Universelle,
do uma considerável diminuição da sua Paris, Hachette, 1903; Estatutos da Universidade
frequência no ensino secundário. de Coimbra (1772), Coimbra, Universidade de
Esta situação foi considerada imprópria Coimbra, 1972; GORDIN, Michael, Scientific
pelas Faculdades de Letras das Universi- Babel, Chicago, University of Chicago Press,
dades de Coimbra e de Lisboa, que tenta- 2015; LENNIE, Claude, e CELLARD, Jacques,
“A querela do latim”, Clássica, vol. vi, 1980,
ram retomar o requisito de, pelo menos,
pp. 47­‑50; NASCIMENTO, Aires, “As línguas
uma cadeira anual de Latim nos currícu- clássicas para uma formação cultural de
los de licenciatura de todas as variantes re- hoje”, Clássica, vol. xviii, 1992, pp. 9-24; SÉR-
lacionadas com os estudos portugueses, e GIO, António, Ensaios, vol. ii, Lisboa, Sá da
também a frequência de dois anos de lín- Costa, 1971; VERNEY, Luís António, Verdadei­
gua latina nos liceus para a obtenção do ro Método de Estudar, 2 t., Valensa, Oficina de
acesso a todos os cursos de Letras (com a António Balle, 1746.
exceção do de Ciências Geográficas). Mário Lopes da Silva

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1134 Antilegitimismo

Antilegitimismo mento político-filosófico que rejeitou as


suas posições fundamentais e que se de-
signou por antilegitimista. Procuraremos
ainda contextualizar a situação portugue-
sa relativamente ao pensamento político
europeu e reconduzir as ideias em con-
fronto às teorias então desenvolvidas.

E ntende-se por antilegitimismo a opo-


sição aos movimentos políticos histó-
ricos concretos que mereceram a designa-
O termo “legitimismo” designa uma
reação à progressiva afirmação de ideias
políticas que punham em causa a legiti-
ção de legitimistas, bem como a rejeição midade do poder real tal como este era
dos postulados teóricos sobre a origem e concebido até aí. Referimo-nos aos ideais
os fundamentos do poder político asso- liberais defensores de uma monarquia
ciados a movimentos desta natureza. constitucional, na qual o poder do rei
Em sentido literal, todo o pensamento passaria a estar institucionalmente limi-
político que se pronuncia sobre o pro- tado por uma constituição escrita, além
blema essencial de saber o que torna e de submetido a leis das quais não seria já
conserva legítimo um poder instituído o principal autor, pertencendo o poder
poderia dizer-se legitimista, na medida legislativo à assembleia, representativa
em que postula uma fonte de legitimi- da nação. Ao monarca estaria reservada a
dade do poder. Historicamente, porém, chefia do poder executivo, no quadro de
o termo “legitimismo” fixou-se como de- uma separação de poderes descentraliza-
signação: a)  da movimentação política a dora. Tais ideias, a cuja formulação e di-
favor de um determinado candidato ao fusão estão associados exemplarmente os
trono, considerado legítimo face a ou- nomes de Locke, Voltaire, Montesquieu e
tro, de acordo com os princípios de uma Rousseau, começaram por se desenvolver
monarquia hereditária, numa situação de a partir da verificação do despotismo para
conflito ou crise dinástica; b) da doutrina o qual o absolutismo monárquico pro-
sobre os fundamentos do poder legítimo gressivamente resvalava em muitos países
que subjaz a um regime monárquico tra- europeus desde os alvores do séc.  xvi,
dicional. Atendendo ao primeiro signifi- suportado pela doutrina do direito divi-
cado, temos como principal objeto desta no dos reis. Segundo esta doutrina, que
entrada a oposição ao movimento legiti- tinha por objeto precisamente a origem
mista que se formou em Portugal a favor da legitimidade do poder real, este deri-
da ocupação do trono por D. Miguel, fi- vava diretamente de Deus (a sua natureza
lho segundo de D. João VI, depois de o ir- era a mesma da do poder eclesiástico), de
mão mais velho (e em princípio sucessor onde se seguia que, sem prejuízo da res-
legítimo) ter declarado a independência ponsabilidade do rei, decorrente da sua
do Brasil, proclamando-se Imperador sujeição à lei natural e à lei divina, não
do novo Estado, e perdendo assim, de era admissível qualquer controlo da sua
acordo com os seus adversários legitimis- ação e do seu governo, fosse ele jurídico
tas – ou miguelistas –, o direito ao trono ou político, por uma instância humana.
de Portugal. Tendo em conta a doutrina No plano das ideias, é em relação a esta
política abrangente defendida pelos le- teoria que se pode falar de antilegiti-
gitimistas portugueses, procuraremos, mismo, na medida em que a rejeição da
concomitantemente, dar conta do pensa- justificação tradicional da legitimidade

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Antilegitimismo 1135

do poder do rei, acompanhada da críti- mente, neste seu alvor, o pensamento


ca da degeneração da monarquia em ti- político liberal não coincidiu totalmente
rania, é um elemento típico das doutri- com o mais tardio republicanismo, visto
nas políticas modernas. Embora não do que não recusou legitimidade ao poder
mesmo modo em todos os autores, este do rei. Porém, há que reconhecer que
antilegitimismo foi acompanhado de procedeu a uma reconfiguração e redu-
um anticlericalismo, do qual o exemplo ção substancial dos poderes do soberano,
mais expressivo e radical foi Voltaire. Este como marca típica do liberalismo euro-
autor afirmou-se contra a pretensão das peu continental, e, nesse sentido, cons-
religiões, em particular do catolicismo, tituiu uma aproximação ao pensamento
a uma representação formal e institu- republicano.
cional, admitindo apenas uma religião Impõe-se perguntar como justificou o
natural. O elo de ligação entre estes dois liberalismo antilegitimista a legitimidade
elementos negativos estava na rejeição do monarca como instância de represen-
da influência política e social do clero, tação não eletiva. Qual era a legitimidade
vista como uma forma de contaminação do poder do rei na monarquia constitu-
da natureza autónoma do poder civil. No cional que o liberalismo estabeleceu e
entanto, o anticlericalismo associado às aprofundou ao longo dos tempos? A co­
doutrinas políticas liberais antilegitimis- existência da legitimidade hereditária
tas só se entende cabalmente se tivermos do rei com a legitimidade da soberania
em conta a colisão entre os fundamentos popular foi explicada com fundamento
racionalistas destas últimas – a sua implí- na relevância da dimensão simbólica da
cita afirmação da autonomia completa de figura do monarca para a consciência
uma moral racional e universal em rela- da identidade histórica coletiva e para a
ção à religião cristã – e os ensinamentos unidade da nação, embora fosse eviden-
da Igreja Católica. te a dificuldade de conjugação entre o
O pensamento liberal antilegitimis- liberalismo político, por referência à ra-
ta está vinculado ao racionalismo, que dicalidade dos seus fundamentos, e um
prescreve que o poder político legítimo princípio hereditário de legitimidade,
obedece somente à razão natural, sendo não sendo outra, no plano de fundamen-
pois uma decorrência dos seus ditames. tação, a genealogia do republicanismo.
É no contrato social, definido por Rous- É importante sublinhar que, embora
seau como uma autolimitação voluntária se tenham manifestado particular e mais
das liberdades por parte dos indivíduos imediatamente antagonistas da doutrina
com vista a tornar possível a felicidade do direito divino dos reis, as doutrinas
de todos, que reside a origem legítima liberais não se opuseram apenas a esta
(racional) do poder. Nesta teoria de jus- justificação da legitimidade do poder
tificação do poder de feição racionalista real. De facto, o discurso filosófico-po-
reconhecemos o primado e a soberania lítico que assumiu em Portugal a de-
do indivíduo, e o voluntarismo que lhe signação “legitimista”, sendo também,
está inerente, pois, em última análise, a como começámos por dizer, uma reação
fonte de legitimidade do poder e das leis às conceções modernas do poder, coin-
é a vontade do indivíduo racionalmente cidiu amplamente com o ideal expres-
orientada, expressa na vontade geral rous­ samente antidespótico da monarquia
seauniana (que não se confunde com uma tradicional, cujas regras impediam o rei
vontade comum partilhada). Consabida- de governar tiranicamente, movido pelo

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1136 Antilegitimismo

seu capricho ou interesse, em detrimen- em Deus o seu fundamento último. Se-


to do bem comum. Ainda segundo a gundo esta teoria, o poder político é
perspetiva legitimista, essas regras con- humano no modo de existência, mas de
duziriam à participação dos súbditos no concessão divina na essência. Os limites
governo do reino. O reconhecimento da do poder assim concebido e as condi-
autoridade do rei por parte do povo era ções da sua legitimidade derivam da sua
também, de acordo com esta perspetiva, origem e finalidade: o poder exercido
uma condição da sua própria legitimida- despoticamente perde legitimidade por-
de, pelo que o monarca estaria obrigado que se desliga da sua fonte, que exige
a auscultar as necessidades e o sentir dos um exercício de acordo com a verdade e
súbditos por meio de representantes e a o bem que essa mesma fonte é. Desliga-
respeitar as leis do reino que assegura- do da finalidade do bem comum, para a
vam os seus direitos. Ainda segundo esta qual foi estabelecido, o poder despótico
perspetiva, no caso de se tornar um tira- perde, pois, legitimidade, não podendo
no, o rei perdia legitimidade e poderia ser visto como um verdadeiro poder.
ser licitamente deposto, se necessário A  monarquia é apresentada como o re-
por meio de violência, sendo esta uma gime ideal, no quadro desta cosmovisão
diferença prática fundamental entre as integrada, porque se a natureza (que de-
perspetivas legitimistas tradicionais e as riva de Deus) encontra a perfeição num
perspetivas de carácter absolutista sus- princípio de unidade, também na arte
tentadas no direito divino dos reis. (no que é realização política humana)
Àquelas teorias subjaz uma conceção o domínio de um princípio de unidade
política escolástica, que colhe o essen- sobre a multiplicidade de vontades será
cial dos ensinamentos de S. Tomás de a via da perfeição.
Aquino em matéria de origem e orga- É verdade, porém, que nem todos os
nização do poder político. Ora, para aspetos deste legitimismo antidespóti-
S.  Tomás, cujo pensamento sustenta co português refletiram o equilíbrio e
uma (certa) autonomia da natureza em realismo desta fundamentação tomista.
relação ao fim sobrenatural do Homem, De facto, enquanto para S. Tomás, de
e das verdades acessíveis à razão em rela- acordo com o exposto, uma monarquia
ção às verdades da fé, a esfera do poder poderia ser eletiva, essa hipótese dificil-
temporal é uma esfera diferenciada da mente seria conciliável com a importân-
esfera do poder espiritual. Consequen- cia dada pelos legitimistas portugueses
temente, os reis não são representantes de Oitocentos e do princípio de Nove-
de Deus, e a origem imediata do poder centos à hereditariedade do poder real.
político está no povo, seu destinatário, Do mesmo modo, alguns discursos legi-
por quem deve ser instituído. Para S. To- timistas, como o de José Pestana da Sil-
más, o soberano deve ser escolhido pelos va em Doutrina Legitimista da Restauração
súbditos. O reconhecimento desta dife- Política Cristã de Portugal (1915), mesmo
renciação não implica nenhum parale- sem invocarem a doutrina do direito
lismo, ou qualquer cisão, no exercício divino dos reis, pareceram afastar-se do
do poder, pois não se perde de vista que postulado da autonomia do poder tem-
é o próprio Deus, o autor da natureza, poral, defendendo antes uma visão que,
o único que detém a autoridade em si a partir da afirmação da realeza de Cristo
mesmo, pelo que o poder político está e da visão deste como o único detentor
submetido às leis natural e divina, e tem do poder legítimo, concebia o monarca

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Antilegitimismo 1137

como um seu vigário na esfera temporal ao poder legislativo do Parlamento. Não


e lhe atribuía expressamente a missão da se questionava porém a preponderância
propagação da fé e do estabelecimento do poder legislativo da câmara represen-
do reino. Justifica-se, no entanto, man- tativa, nem a submissão do rei às leis do
ter que foram estes os alicerces funda- reino. Esse era um dado adquirido no
mentais do discurso legitimista que, no movimento legitimista. De resto, insistia­
séc. xix, se digladiou em Portugal com ‑se na obrigatoriedade da convocação
as doutrinas modernas da justificação do das Cortes representativas para a apro-
poder aceites pelos liberais. Foram suas vação da legislação e para o estabeleci-
linhas orientadoras: a oposição aos pos- mento da direção política do reino em
tulados voluntaristas que, reconduzindo assuntos politicamente relevantes. Esta
a legitimidade do poder e das leis uni- obrigatoriedade remete, por sua vez,
camente à decisão da maioria popular, para um aspeto fundamental da doutri-
os tornavam alheios ao seu fundamento na legitimista, que é o valor da história e
último transcendente, fundando a razão da tradição, e dos usos ancestrais do povo
em si própria, muito para além da ne- português, como fonte de legitimidade
cessária afirmação da sua autonomia; e a das instituições políticas, assumindo-se
defesa de uma forma humana de gover- como verdadeira constituição não escri-
no constituída por imitação da nature- ta. Tomou, assim, grande relevância no
za, i.e., do poder em si mesmo (o poder discurso miguelista a referência às Cor-
divino). tes de Lamego, nas quais teria sido esco-
lhido e aclamado Rei, pelos representan-
tes do povo, D. Afonso Henriques, e nas
O antilegitimismo em Portugal: quais teriam sido elaboradas em conse-
o antimiguelismo lho as leis fundamentais da monarquia.
No contexto das lutas liberais em Por- Segundo os miguelistas, a intervenção
tugal, o termo “legitimismo” cruza dois do povo governado teria sido essencial
significados: a defesa de um candidato na instituição e consolidação da mo-
particular ao trono (D. Miguel) e a de- narquia em Portugal. Foi precisamente
fesa da instituição monárquica. O legi- com base nessas leis fundamentais que
timismo dos partidários de D. Miguel, a legitimidade de D. Pedro IV como Rei
pelo menos na sua parte mais significa- foi contestada pelos legitimistas: por um
tiva, não se inspirou, pelas razões já re- lado, porque D. Pedro advogava uma or-
feridas, no absolutismo monárquico ou dem constitucional estranha à tradição
na doutrina do direito divino dos reis, portuguesa; por outro lado, porque, ao
antes consistiu na defesa dos princípios proclamar-se Imperador do Brasil como
de uma monarquia tradicional. A retó- país independente, D. Pedro tornara-se
rica usada apoiou-se claramente na fun- estrangeiro. Ora, diziam os miguelistas,
damentação escolástica que referimos, de acordo com a doutrina das Cortes
ao sublinhar os limites (finalidades) na- fundadoras, o trono português deveria
turais e jurídicos do poder real. E daí o ser ocupado somente por Portugueses.
seu cuidado na utilização da expressão Os antilegitimistas, por sua vez, eram
“poder absoluto” do rei. Este poder ab- os partidários de D. Pedro IV, cujo di-
soluto não seria mais do que a liberdade reito ao trono defendiam, assim como
de legislação e de governo do monarca, o texto da Carta Constitucional por ele
por oposição à ideia de submissão deste outorgada em 1826. O seu ideário era

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1138 Antilegitimismo

liberal, constitucionalista, monárquico


e antiabsolutista. Se o movimento legi-
timista favorável a D. Miguel tinha uma
visão política alicerçada na defesa de um
regime monárquico hereditário puro,
o partido favorável a D. Pedro fez eco
de um ideário liberal promotor de um
governo constitucional e parlamentar.
Convém ainda dizer que os opositores
de D. Miguel não formavam uma só fa-
ção homogénea. Prova das suas diferen-
ças é o facto de se terem dividido entre
defensores da Carta Constitucional (li-
berais cartistas) e defensores de uma
nova constituição que recuperasse o es-
pírito da Constituição de 1822 (liberais
setembristas). Enquanto os primeiros
conservaram no seu ideário alguns ele-
mentos do legitimismo, os segundos de- Rei D. Pedro IV (1798-1834).
fenderam uma rutura com os seus prin-
cípios básicos.
Para os antilegitimistas, D. Pedro IV formadora da fação oposta, associada à
era o Rei que vinha libertar o povo do po- identificação da oposição política com
der despótico dos reis absolutos, poder uma posição de conciliação impossível
esse cujo exercício se tornara arbitrário, e mesmo inaceitável aos critérios da ra-
alheio ao interesse e à felicidade comuns zão. No entanto eram os alvores de um
do reino, assim como um instrumento tempo novo, feito das contradições, que
para alcançar o interesse próprio daque- o sistema político parlamentar garantia.
les que o detinham. Esse poder deixara E nesse plano não havia volta atrás.
de estar submetido aos ditames da jus- À evocação das leis fundamentais da
tiça e do direito. D. Miguel era visto e monarquia por parte dos legitimistas,
caracterizado como o Rei tirano e déspo- respondeu o discurso antilegitimista ridi-
ta, que encarnava a resistência de uma cularizando tal ideia. Por um lado, os an-
antiga ordem em que o povo era oprimi- tilegitimistas denunciaram a exiguidade
do e o poder exercido sem a limitação das fontes históricas que atestavam a fac-
e orientação do direito. Mesmificando o tualidade dessas Cortes fundadoras. Por
diferente, como era próprio de um dis- outro lado, argumentaram que esse pri-
curso de que dependia a conservação de meiro pacto, a ter sido real, não exprimi-
um regime e que se constituiu, de facto, ria senão as vontades dos indivíduos que
como um discurso anti, a propaganda o realizaram, não as vontades dos mem-
liberal antimiguelista não deu grande bros da sociedade do seu tempo. A  sua
atenção ao facto de os seus opositores argumentação evidenciou um critério de
se declararem partidários da restauração legitimidade voluntarista, assim como a
das instituições tradicionais do reino e prevalência da razão humana e do indiví-
se afirmarem adversários do despotismo. duo sobre os valores da história, da tradi-
Antes promoveu uma simplificação de- ção e da identidade comunitária do povo

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Antilegitimismo 1139

português. Afirmaram ainda os antilegiti- para que a Igreja continuasse a exercer


mistas que, não tendo as Cortes de Lame- um domínio ilegítimo na esfera civil.
go mais legitimidade do que quaisquer De acordo com os princípios enuncia-
outras, uma vez que em todas as cortes dos, para os antilegitimistas liberais, o
os representantes das ordens do reino clero deveria ser nomeado pelo rei, não
foram legisladores de pleno direito, não por um bispo ou pelo papa. Já para os
faltava às que aclamaram D. Pedro como legitimistas, as bulas, encíclicas e decre-
Rei legitimidade para revogar ou modi- tos pontifícios deveriam ter aplicação
ficar os preceitos anteriores que obstas- imediata em Portugal, por se dirigirem
sem a tal aclamação. De facto, segundo à universalidade católica, sem frontei-
a perspetiva liberal dos antilegitimistas, ras nacionais. Para os seus adversários,
as cortes, enquanto órgão representativo porém, tais documentos poderiam ser
do povo, no qual residia a soberania, se- aplicáveis apenas mediante sanção régia,
riam detentoras de um poder originário, gozando o monarca da prerrogativa le-
ao qual não estaria, portanto, vedada a gítima de aceitar ou não a vontade do
instituição e modificação de quaisquer papa. Por aqui se reconhece que não era
leis, desde que fosse expressiva da vonta- tanto a independência das esferas civil e
de geral do povo. religiosa que os liberais ambicionavam,
A rejeição da possibilidade de modifi- mas antes o estabelecimento de igrejas
cação das leis de carácter fundamental, nacionais, concedendo, em última aná-
afirmada pelos legitimistas, num qua- lise, ao rei a presidência em matéria de
dro de preponderância da identidade religião. Por causa da defesa de posições
do povo e da tradição sobre os indiví- como esta, assim como da declarada
duos decisores, valeu-lhes a caracterização oposição ao art. 6.º da Carta Constitucio-
como inimigos do progresso, opositores nal (que estabelecia o catolicismo como
à mudança e cegos face à necessidade de religião de Estado, embora consagrando
adaptação às circunstâncias dos tempos. a liberdade de culto público das outras
Questão decisiva para os legitimistas religiões), os legitimistas foram muitas
era a relação entre os poderes espiritual vezes caracterizados, pelos seus adversá-
e temporal, entre os quais, em sua opi- rios, como um grupo intolerante, favorá-
nião, deveria existir uma aliança que não vel à perseguição religiosa e ao barbaris-
permitisse a confusão das esferas, mas mo da Inquisição.
exigisse uma certa submissão do poder Na fase final da democracia constitu-
temporal ao espiritual, nas matérias em cional, persistiu no debate político por-
que este fosse naturalmente implicado. tuguês a questão essencial do relaciona-
No fundo, advogava-se uma relação sem mento das Igrejas, particularmente da
confusão, mas não sem hierarquia, en- Igreja Católica, com o Estado. O poder
tre poderes. Tal submissão seria condi- republicano prosseguiria em grande par-
ção necessária para que a construção do te a lógica liberal de nacionalização do
corpo social se alicerçasse nos princípios fenómeno religioso, mas curiosamente
do cristianismo, sem os quais não pode- esse tipo de posições perdeu força. Sem
ria constituir-se saudável. Aos olhos dos que a política e a sociedade portuguesas
antilegitimistas, ou antes, na sua retórica tenham recuperado qualquer resíduo
política, tal princípio não passava de um de legitimismo, até porque o regime
pretexto dos miguelistas para que o cle- republicano se consolidou, aprofundou­
ro pudesse manter os seus privilégios e ‑se uma relação de separação entre as

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1140 Antileninismo

esferas temporal e espiritual, sem sub-


missão de uma à outra, independente-
Antileninismo
mente da natureza das questões. Subsis-
te porém – como ressonância do debate
oitocentista – o papel dos fundamentos
e valores religiosos na orientação da so-
ciedade política.

O antileninismo pode ser entendido


em dois sentidos: como hostilidade
em relação ao homem e em relação às
ideias de Lenine. A Revolução Russa de
1917, ocorrendo no contexto da guerra
que dilacerava a Europa, com repercus-
Bibliog.: CALDER, Livreiro, Chatecismo do Por­ sões noutras partes do mundo, foi segui-
tuguês Legitimista: Oferecido aos Amigos da Pátria, da, nas suas diversas fases, com interes-
Porto, Typ. Comercial, 1854; FALCÃO, José se, preocupação, esperança e, acima de
Anastácio, Provas Incontestáveis da Legitimidade e tudo, rodeada de enorme confusão. Em
do Indispensável Direito Que Tem à Coroa de Portu­
especial depois da tomada do poder pe-
gal o Senhor D. Pedro IV, Rei destes Reinos, Impera­
dor, Deffensor Perpetuo do Brazil, Lisboa, Typ. Sil- los bolcheviques, começou a sobressair o
viana, 1826; A Legitimidade do Senhor Dom Pedro nome do seu mais destacado dirigente,
IVº, Rey de Portugal, contra as Invectivas Apostólico­ Lenine, que já era conhecido pelas po-
‑Jesuítas, Lisboa, s.n., 1827; MATTOSO, José, sições que tomara acerca da Guerra que
“O liberalismo”, in MATTOSO, José (coord.), nesse momento grassava na Europa. Inte-
História de Portugal, vol. v, Lisboa, Estampa, grara, juntamente com Paul Axelrod e M.
1988, pp. 68-120; Partido Legitimista Português:
Bobrov a delegação russa à Conferência
Programma Elaborado pelo Conselho Superior do
de Zimmerwald, em setembro de 1915,
Mesmo Partido, s.l., s.n., 1880; PASSOS, Car-
los, D. Pedro IV e D. Miguel I, 1826-1834, Porto, sendo um dos subscritores do manifes-
Livraria Simões, 1936; Relação dos Festejos Que to ali aprovado. Também participou na
Tiverão Lugar em Lisboa nos Memoráveis Dias 31 de Conferência de Kienthal, no cantão suíço
Julho, 1, 2, etc. de Agosto de 1826, por occasião do de Berna, em abril de 1916, que deu se-
Juramento Prestado à Carta Constitucional Decreta­ quência à reunião anterior, na qual esteve
da e Dada á Nação Portugueza pelo Seu Legítimo acompanhado por Zinoviev. Era, pois, co-
Rei o Senhor D. Pedro IV Imperador do Brasil, Lis-
nhecido pela sua oposição à Guerra, que
boa, Typ. de J. F. M. de Campos, 1826; SER-
RA, António Truyol y, História da Filosofia do considerava um fenómeno de cariz impe-
Direito e do Estado, vol. 2, Lisboa, Instituto de rialista e alheio aos interesses dos traba-
Novas Profissões, 1990; SILVA, José Joaquim lhadores, contrapondo-lhe a necessidade
Guimarães Pestana da, Doutrina Legitimista da da revolução.
Restauração Política Cristã de Portugal, Porto, Es- Exilado em Zurique, Lenine regres-
cola Tipográfica da Oficina de São José, 1915; sou à Rússia após a queda da monarquia
SOTOMAIOR, Miguel, A Realeza de D. Miguel:
czarista. Mas esse episódio causou algu-
Resposta a Um Livro do Senhor Tomaz Ribeiro por
Um Legitimista, Porto, Livraria Portuense de
ma perplexidade. As autoridades alemãs
Clavel, 1822; TOUCHARD, Jean (dir.), História autorizaram a viagem, num comboio se-
das Ideias Políticas, vols. 1 e 2, Lisboa, Europa­ lado que fez um longo trajeto, passando
‑América, 1970. por território por eles controlado, sendo
João Relvão Caetano acompanhado por uma trintena de par-
Beatriz Miranda tidários. Chegou a 16 de abril à estação

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Antileninismo 1141

Finlândia, desembarcando em Petrogra- José do Vale, antigo carbonário e sindi-


do, onde foi recebido por uma multidão calista-revolucionário, classificava-o, nas
de apoiantes. E não tardou a expor o seu páginas de O Mundo de 19 e 27 de no-
programa, defendendo a saída da Rússia vembro de 1917, de “tresloucado”, “mi-
da Guerra e a fórmula: “todo o poder serável” e “traidor”, considerando que os
aos sovietes”. Externamente, nos países chefes bolcheviques eram pseudorrevolu-
aliados, a ida de Lenine para a Rússia foi cionários ao serviço dos Alemães. Em 29
vista como um ato de cumplicidade com de novembro de 1917, o diário A Capital
os Alemães, interessados na retirada uni- rotulava Lenine e Trotsky de “assalariados
lateral da Rússia da Guerra. De facto, a as- pela Alemanha”; e, a 17 do mesmo mês,
sinatura da paz de Brest-Litovsk, em 3 de o jornal República retratava Lenine como
março de 1918, na qual os Russos cede- “o  fanático agitador”: de “pera sedosa,
ram em toda a linha às imposições germâ- cuidada, que lhe dá um ar de mosquetei-
nicas, permitiu ao Kaiser retirar as tropas ro ou de cabeleiro parisiense é um faná-
que tinha na frente leste e recolocá-las tico. A sua razão ignora a realidade”. Por
a Ocidente, o que poderia ter provoca- sua vez, o Diário de Notícias de 24 de janei-
do uma inversão dramática no rumo da ro de 1918 não hesitava em o classificar
Guerra se os Estados Unidos não tivessem de “czar Lenine I”, enquanto O Primeiro
entrado no conflito, desequilibrando ir- de Janeiro de 16 do mês seguinte se refere
remediavelmente o balanço das forças. a “Lenine e demais energúmenos do ma-
Lenine foi acusado de ser um agente ale- ximalismo”. Os exemplos são infindáveis.
mão, e começou uma campanha interna- Na literatura anticomunista, que sur-
cional contra ele que foi ampliada quan- giu logo em 1917 e nos anos seguintes,
do se converteu no dirigente máximo da a tónica era sempre a mesma. Homem
revolução soviética. Era ele o rosto visível Cristo sublinhava, em 1919, que “Leni-
da nova política russa. ne foi sempre coerente consigo mesmo.
A imprensa portuguesa não diferiu, no O seu único fim, aquele para o qual sem-
essencial, dos comentários e das apre- pre se inclinou, tem ido o estabelecimen-
ciações que surgiam a seu respeito na to do comunismo não só na Rússia mas
imprensa internacional. Os jornais ope- também na Europa inteira pela revolu-
rários, mesmo de cariz anarquista, mos- ção bolchevista internacional” (CRISTO,
travam simpatia para com a Revolução 1919). Nesse mesmo ano, surgiu o livro
e o seu dirigente máximo, fazendo eco, A Rússia Vermelha, de Gabriel Domergue,
naturalmente, de numerosas notícias fan­ publicado em França no ano anterior.
tásticas e imprecisas. Mas a imprensa dita Nesta obra profundamente antibolche-
burguesa traçava um retrato profunda- vista, o autor atacava Lenine com grande
mente negativo do dirigente bolchevi- violência: “É um fanático repelente, sem
que, que era considerado um bárbaro, entusiasmo nenhum. Ninguém o ima-
um novo huno, apreciação que os traços gine como um César Bórgia! Diz-se até
da sua fisionomia confirmavam; com que Sua Majestade teve sempre uma vida
efeito, sua avó paterna, Anna Alexeevna modesta e regular de um bom burguês
Smirnova, era originária da Calmúquia, e de um bom pai de família. Lenine é a
junto à Mongólia e à China. combinação do Wagner de Fausto e do
Em Portugal, Lenine foi alvo dos mais Smerdiakov russo [herói de Os Irmãos Ka-
diversos ataques por parte da imprensa ramazov, de Dostoievski]. É o pedantismo
republicana e conservadora. O jornalista obtuso, cego e surdo, acrescentado com

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1142 Antiliberalismo

o niilismo, e a ausência de critério moral


que caracteriza Smerdiakov. Pouco se lhe
Antiliberalismo
dá que o alambique destile a vergonha
e a ruína da pátria, que o resultado seja
a hegemonia desbragada da Alemanha:
Lenine continua sempre com as suas ex-
periências para fabricar com o mujique
o seu boneco socialista)” (DOMERGUE,
1919, 162).
À crítica de Lenine, como homem, as-
O s contextos históricos da Revolução
Francesa (finais do séc. xviii) e das
unificações italiana e alemã (meados do
sociava-se a condenação das suas ideias e séc. xix) são considerados, nas perspeti-
da sua prática à frente da Rússia soviéti- vas da historiografia, da ciência política
ca. Assim irá continuar mesmo depois da ou da sociologia política, por um lado,
morte do dirigente soviético, embora as momentos genéticos da tensão entre libe-
características do homem se fossem per- ralismo e antiliberalismo e da fundação
dendo, e por isso deixassem de ser efica- do moderno conceito de nacionalismo,
zes os ataques pessoais a alguém que já e, por outro lado, marcadores de mudan-
não fazia parte do mundo dos vivos. No ça em relação ao conteúdo semântico de
início da déc. de 30 do séc. xx, surge a conceitos como pátria, nação, povo, co-
primeira biografia de Lenine traduzida munidade e Estado. No mundo dos novos
para português, da autoria de Jean Jaco- ou renovados conceitos, que a linguagem
by, publicado em 1933 em França. Come- política, social e cultural utilizará sistema-
ça com as origens familiares e termina ticamente, passaram a figurar os de revo-
com a morte e a colocação do político lução, povo, cidadão, nação, pátria, cons-
russo no mausoléu, augurando autor que tituição, contrato social, opinião pública,
o corpo “desagrega-se, cai em podridão partido, vontade geral, carácter nacional
como a própria obra de Lenine” (JACO- e alma nacional. Quanto à ideia contem-
BY, 1934, 121). No entanto, embora o ho- porânea de nação, fundamento de pode-
mem tivesse morrido, a lenda já se apode- res políticos e de poderes simbólicos,  a
rara do seu nome. Fazia sentido, por isso, literatura crítica segue habitualmente
prosseguir o combate contra a imagem a  distinção feita por Friedrich Meinecke,
que ele projetara, e que continuava a ser- na obra Cosmopolitismo e Estado Nacional
vir de referência e de bandeira para mui- (1908), entre os conceitos de staatsnation
tos, dentro e fora das fronteiras russas. e de kulturnation, sem que isso signifique
o estabelecimento de fronteiras incomu-
nicáveis, claramente desmentidas pelas vá-
rias dinâmicas nacionais e transnacionais.
Por um lado, estava uma tradição de ma-
triz inglesa e francesa de nação cívico-po-
Bibliog.: CRISTO, Homem, O Bolchevismo na
Rússia, Aveiro, Tipografia Nacional, 1919; lítica/nação-contrato, alicerçada em defi-
DOMERGUE, Gabriel, A Rússia Vermelha, Por- nições de John Locke, Emmanuel Siéyès,
to, Companhia Portuguesa, 1919; JACOBY, J., John Stuart Mill e Ernest Renan. Por outro
Lenine, Porto, Livraria Lello, 1934; OLIVEIRA, lado, havia uma tradição de matriz italiana
César, A Revolução Russa na Imprensa Portuguesa e alemã de nação etno-cultural/nação-gé-
da Época, Lisboa, Diabril, 1976. nio, firmada em pontos de vista de Giam-
António Ventura battista Vico, Johann Herder e Johann

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Antiliberalismo 1143

Fichte. A primeira perspetiva coadunava­ ao modelo do absolutismo de soberania


‑se com os processos de construção libe- dinástica (trono) e sacralização religiosa
ral do Estado-nação, enquanto a segunda (altar), os revolucionários franceses con-
servia de justificação aos processos de for- trapuseram o modelo do liberalismo de
mação ou refundação da nação-Estado. soberania popular (cidadão) e regula-
A apropriação de ambas as categorias para mentação jurídica (lei). Daí Tocqueville
formulações políticas, históricas ou lite- considerar que a Revolução Francesa de
rárias far-se-á dentro do liberalismo e do 1789 tenha sido essencialmente uma re-
antiliberalismo e a utilização dessas duas volução política anunciadora de uma es-
ideias de nação permite observar melhor pécie de religião nova, que inundou toda
as múltiplas faces do discurso ideológico­ a Terra com os seus soldados, apóstolos e
‑político e suas interdependências, dentro mártires para criar um homem novo.
do vasto campo do nacionalismo portu- Essa promessa do homem novo num
guês – liberal e antiliberal, monárquico e mundo novo não é exclusiva, a nível
republicano, católico e laico. político, do liberalismo revolucionário
Charles Alexis de Tocqueville viu o francês, visto surpreender-se também
ano francês de 1789, na sua obra O Anti- no republicanismo, no antiliberalismo
go Regime e a Revolução (1856), como um comunista e no antiliberalismo fascista.
“tempo de imortal memória”, assinalado Contudo, se olharmos para a Revolu-
pela dupla paixão da igualdade e da li- ção Inglesa de 1688 ou para a Revolu-
berdade e formador de uma “nova pátria ção Americana de 1776, percecionamos
espiritual” (TOCQUEVILLE, 1989, 27 e críticas a esse paradigma utopista, que
178-179). O  que esse pensador político conduziu, por vezes, ao despotismo, ao
liberal pretendia afirmar era a mudança totalitarismo e à morte da pessoa huma-
dos princípios de representação e de legi- na, e encontramos a proposta de uma
timação nos novos Estados-nação liberais: pacífica “Constituição da liberdade”, de

Emmanuel-Joseph Sieyès (1748-1836). Johann Gottfried Herder (1744-1803).

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1144 Antiliberalismo

que falou Ralf Dahrendorf, nas Reflexões histórica. A perspetiva de análise críti-
sobre a Revolução na Europa (1990), para ca que agora se faz segue um ponto de
impedir a ocorrência da catástrofe revo- vista a partir da história, entrelaçando a
lucionária e caminhar de forma reformis- história das ideias com a história política
ta para um mundo melhor e mais justo. em diversos contextos relevantes dentro
O princípio da nação seria reinventado do poliedro antiliberal, influenciado do-
política e culturalmente através da expe- minantemente em Portugal pelos pensa-
riência história ao longo dos tempos. A vi- dores e pelos grupos políticos franceses.
são agregadora que dá continuidade às A  argumentação antiliberal questionou
representações das identidades nacionais as lógicas individualistas, utilitaristas e
entretece-se de elementos das duas ideias relativistas dos liberalismos. No universo
de nação apresentadas, daí a importância do antiliberalismo português revelou-se a
da análise de Fichte, nos Discursos à Nação atitude mental dominante do nacionalis-
Alemã (1807-08), onde se compatibilizam mo tradicionalista, de matriz monárquica
elementos da ideia de nação etno-cultu- ou republicana, apesar de coexistir com
ral/nação-génio (tradição, língua) com outras variantes de nacionalismo revolu-
elementos da ideia de nação cívico-políti- cionário de menor receção. Esse tradicio-
ca/nação-contrato (liberdade, vontade), nalismo pode definir-se através do modo
refutando-se obviamente as justificações interpretativo que a argúcia de Fernan-
exclusivistas (raça, língua, religião ou do Pessoa estabeleceu: “o nacionalismo
geografia). De igual modo, Renan, na tradicionalista, que é o que faz consistir
conferência O Que É Uma Nação? (1882), a substância da nacionalidade em qual-
caracteriza o “princípio da nação” como quer ponto do seu passado, e a vitalidade
“uma alma, um princípio espiritual”, nacional na continuidade histórica com
“uma consciência moral”, mas uma cons- esse ponto do passado. Diversos são os cri-
ciência de duplo enraizamento: no passa- térios com que se pode buscar esse ponto
do, através das lembranças transmitidas do passado, mas, seja qual for o critério
e ritualizadas (culto dos antepassados); que se empregue, a essência do processus
no presente, por intermédio do consen- é a mesma” (PESSOA, 1979, 223).
timento, do desejo de viver em comum, A gramática ideológica, cultural e polí-
do “plebiscito de todos os dias” (RENAN, tica do antiliberalismo português percor-
1996, 240-242), recusando a ideia de eter- reu, entre finais do séc. xviii e meados
nidade e de essencialidade das nações. do séc. xx – período que está em obser-
A leitura fraturada desse pensamento de vação crítica neste texto –, o interior do
Renan conduziu a apropriações ideológi- monarquismo, do republicanismo, do so-
cas distintas, quer pelo republicanismo cialismo, do anarquismo, do comunismo
da Terceira República Francesa, quer e do autoritarismo fascista ou fascizante.
pelo antiliberalismo monárquico contrar- Se atendermos à configuração prolonga-
revolucionário de Charles Maurras e da da do antiliberalismo institucional, enrai-
Action Française. zado numa mundividência organicista do
A genealogia do pensamento e da ação Estado e da sociedade, que foi compati-
do antiliberalismo português incorporou bilizada com características do tradicio-
uma diversidade de pensadores, corren- nalismo republicano autoritário conser-
tes de opinião ideológicas e grupos polí- vador, o momento paradigmático será a
ticos, o que exige, inevitavelmente, uma ditadura do Estado Novo de António de
escolha, fragmentando essa totalidade Oliveira Salazar e de Marcelo Caetano

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Antiliberalismo 1145

(1933-1974), em virtude de o reinado di- sidência dentro da matriz tradicionalista


tatorial de D. Miguel (1828-1834), molda- antiliberal monárquica e construíram su-
do num antiliberalismo tradicionalista le- cessivamente a corrente integralista sindi-
gitimista e contrarrevolucionário, ter sido calista (jornal A Revolução, Lisboa, 1922­
de durabilidade muito menor e dilace­ ‑23) de Francisco Rolão Preto, dentro do
rado por uma Guerra Civil (1832­‑1834). Integralismo Lusitano de António Sardi-
A resposta política à denominada “crise nha; a Ação Realista Portuguesa (ARP)
do Estado moderno” (Estado liberal), de (1923­‑1926) de Alfredo Pimenta; e o
que falou Oliveira Salazar num discurso Movimento Nacional-Sindicalista (MNS)
feito em Lisboa a 30 de julho de 1930, (1932-1935) de Francisco Rolão Preto.
sintetizaria um ideário antiliberal e anti- Em 1926, a segunda geração monárquica
democrático, autoritário e conservador, integralista lançou-se no aprofundamento
nacionalista e colonial, elaborado funda- da mobilização política e doutrinária da
mentalmente a partir de conceitos e de juventude académica contra o demolibe-
práticas ideológicas das matrizes católica ralismo republicano e publicou a revista
social (democracia cristã), republicana Ordem Nova, em Lisboa, sob a direção de
autoritária conservadora, tradicionalista Albano Dias de Magalhães e Marcelo Cae-
monárquica e fascista italiana. Consti- tano, onde esse tipo de antiliberalismo
tuiu um modelo doutrinário sincrético monárquico radical encontrava expressão
de antiliberalismo tradicionalista repu- de relevo no seu programático subtítulo:
blicano e autoritário, que incluiu a vio- “Revista antimoderna, antiliberal, anti-
lência política e social como instrumen- democrática, antiburguesa e antibolche-
to de domínio e articulou elementos de vista. Contrarrevolucionária; reacionária;
várias matrizes ideológico-políticas para católica, apostólica e romana; monárqui-
justificar a razão instrumental da com- ca; intolerante e intransigente; insolidária
petência governativa (mito dos governos com escritores, jornalistas e quaisquer
técnicos), da autoridade política (mito profissionais das letras, das artes e da
do chefe/Estado), da harmonia social imprensa”. Após a conversão política ao
(mito do corporativismo), do equilíbrio antiliberalismo autoritário e conservador
financeiro e da modernização económica da ditadura do Estado Novo, por parte
(mito da regeneração/do progresso), e de várias personalidades do grupo mo-
do culto da pátria e dos heróis nacionais nárquico integralista Ordem Nova, da ARP
(mito da nação). Ecoou, no sincretismo e do MNS, a radicalidade dessas áreas
pragmático salazarista, a tradição católica ideológicas dissolveu-se no “levar os por-
(neo)tomista da democracia cristã con- tugueses a viver habitualmente”, para o
servadora e a teorização organicista com- que “Vamos devagarinho, passo a passo”,
tiana da conciliação positiva da ordem e como afirmaria Oliveira Salazar, “salari-
do progresso e da ditadura sociocrática. zando”, dirá, por sua vez, António Ferro
A afirmação hegemónica desse pen- (FERRO, 2003, 99, 172, 207). Assim se
samento nacionalista sincrético teve de inculcaria nos costumes políticos do novo
submeter politicamente as pulsões de an- regime político ditatorial o “nacionalismo
tiliberalismo monárquico radical, por via português”, síntese abrangente divulgada
da adesão aos princípios do sindicalismo por Quirino Avelino de Jesus, em 1932,
contrarrevolucionário (Georges Valois) numa obra com esse mesmo nome, e por
e do revolucionarismo violentista (Geor- ele considerado o “mais desenvolvido sis-
ges Sorel), que tinham entrado em dis- tema que se podia formar neste momento

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1146 Antiliberalismo

para se garantir em Portugal a marcha da Federativo e da Necessidade de Reconstruir o


civilização romana-cristã, assaltada pela Partido da Revolução (1863). As fórmulas
Revolução” (JESUS, 1932, 62). O tópico políticas, económicas e sociais aí expos-
da revolução recordava, por um lado, tas propunham uma superação do mode-
duas origens políticas fundamentais do lo clássico de Estado liberal, nacionalista
antiliberalismo europeu – a Revolução e unitário, pela construção de um Estado
Francesa de 1789 e a Revolução Russa de republicano federal ou confederal, plu-
1917 – e, por outro lado, dois momentos ralista e autonomista. Uma convergência
portugueses essenciais para o desenvolvi- significativa, dentro destas áreas ideoló-
mento teórico-político do antiliberalismo gicas, foi a valorização da dimensão so-
– a Revolução Liberal de 1820 e a Revolu- cietária do indivíduo, a recusa de pro-
ção Republicana de 1910. Fundado como postas estatistas e coletivistas e o combate
reação (contrarrevolução) à primeira à visão liberal espontânea da harmonia
conjuntura revolucionária liberal conti- social. Daí a importância das propostas
nental e devedor dos doutrinadores con- solidaristas, descentralistas, mutualistas,
trarrevolucionários franceses – dentro da assistenciais, educativas e municipalistas
tradição antiliberal europeia, destaque-se para uma cidadania ativa e um espírito
o pioneirismo da obra de Joseph de Mais- livre e responsável. Nos anos 20, o nos-
tre, Considerações sobre a França (1797) –, o so mundo antiliberal incorporou o co-
antiliberalismo político e cultural portu- munismo, com a fundação do Partido
guês, não só o de matriz tradicionalista, foi Comunista Português (PCP), em 1921, e
reinventado na reação às outras três con- o fascismo, com a criação do Centro do
junturas fundamentais, umas vezes limi- Nacionalismo Lusitano (CNL), em 1922.
tando-se à ação doutrinária e panfletária, Acompanhando a reação antiliberal,
outras vezes ganhando audiência pública tradicionalista e contrarrevolucionária
assinalável através de ação política mobili- francesa, após o terror de Robespierre,
zadora. Evocaram um novo Nuno Álvares surgiram em Portugal pensadores conver-
ou um novo D. Sebastião, para a reden- gentes com essa crítica ideológico-políti-
ção nacional, manifestando-se o mito do co. Pode considerar-se o marquês de Pe-
salvador (chefe-Estado), tendo acoplado nalva, Fernando Teles da Silva Caminha e
o mito da unidade (sociedade-nação), Meneses, com a obra Dissertação a favor da
particularmente evidente em momentos Monarquia (1799), o primeiro doutrina-
de desregulação do sistema político e de dor do discurso antiliberal, tradicionalis-
crise económico-financeira profunda. ta e contrarrevolucionário português. Aí
O antiliberalismo português percorreu se formalizava a necessidade da unidade
também as áreas ideológicas do republi- do poder, em que o rei detinha uma su-
canismo, do socialismo e do anarquis- prema capacidade arbitral, o que sugeria
mo, as quais, entre meados do séc. xix e um poder real de carácter absoluto, mas
princípios do séc. xx, evidenciaram per- não despótico, visto ser condicionado
sonalidades, periódicos e formas orga- pela religião (moral católica) e pelo direi-
nizativas que conviveram proximamen- to, e se desenvolvia a crítica ao conceito
te e partilharam utopias redentoristas liberal de soberania nacional, que condu-
comuns, em parte devido à importante zia, segundo ele, à criação de uma classe
receção do federalismo regionalista e política dependente do sufrágio eleito-
descentralizador de Pierre-Joseph Prou- ral, anulando as liberdades tradicionais
dhon, divulgado na sua obra Do Princípio dos povos. A argumentação antiliberal

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Antiliberalismo 1147

foi desenvolvida pelo jurista-economista dos poderes e apresentou a necessidade


José Acúrsio das Neves, nas Cartas de Um de repor o princípio do rei absoluto, a
Português aos Seus Concidadãos, sobre Dife- fundamentação superior da religião ca-
rentes Objectos de Utilidade Geral e Individual tólica e a sociedade de cortes gerais para
(1822) e na Continuação das Cartas aos Por- a representação orgânica dos corpos so-
tugueses (1823), onde encontramos quer ciais, regressando assim a antiga monar-
a justificação das intenções reformistas quia portuguesa baseada numa ordem
da regência nas vésperas da Revolução legitimada por valores eclesiástico-nobi-
Liberal de 1820, em particular a política liárquicos. Após a derrota político-militar
económica por ele delineada, quer consi- do miguelismo institucional em 1834 e o
derações sobre a não preparação do povo esgotamento da corrente sediciosa, im-
para a liberdade. Quanto a este último pulsionada por António Ribeiro Saraiva,
aspeto, o argumento contrarrevolucioná- em 1847, com o final da Guerra Civil da
rio e antiliberal será recorrente em vários Patuleia, o miguelismo político-ideoló-
períodos da vida portuguesa: a liberdade gico desenvolveu, ao longo da segunda
individualista do cidadão esmagava as li- metade do séc. xix, a lenta e complexa
berdades tradicionais e orgânicas dos po- definição de uma estrutura de tipo parti-
vos; a falta de instrução e cultura do povo dário (Partido Legitimista), dispondo do
impedia a livre e consciente determina- periódico oficial A Nação (criado em se-
ção na escolha dos seus representantes. tembro de 1847) para ativar uma rede de
A contrarresposta liberal será dada por núcleos locais e distritais, vindo a ingres-
Almeida Garrett, em Portugal na Balança sar os legitimistas no sistema parlamentar
da Europa (1830), e a pendência liberalis- com cinco deputados, após as eleições de
mo/antiliberalismo firmou argumentos novembro de 1856. A partir da déc. de
críticos ao longo do séc. xix português, 1870, os legitimistas vão combater prio-
que serão evocados recorrentemente no ritariamente o liberalismo monárquico
séc. xx. No campo antiliberal, tradiciona- católico e o catolicismo liberal, identifi-
lista e contrarrevolucionário, encontra- cado na divisa “Deus e Pátria”, que tinha
mos variantes ideológicas sobre a origem criado a Sociedade Católica (1843-1853)
do poder e a constituição da sociedade, como sua primeira organização e procu-
incorporando ora o providencialismo rava desvincular-se da chamada questão
(António Joaquim de Gouveia Pinto), ora dinástica. Os legitimistas envolveram-se
o contratualismo (António Ribeiro Sarai- no debate acerca da criação de um parti-
va), ora o voluntarismo (José da Gama e do católico, polémica que foi em grande
Castro), ora perspetivas mitigadas (mar- parte desenvolvida nas páginas do jornal
quês de Penalva e José Acúrsio das Ne- A Palavra, do Porto, que aceitava as estru-
ves), sendo que este último, conhecedor turas do poder liberal vigente, mas refu-
da economia política liberal, apesar de tava a ideologia que as legitimava, e do
defender a solução política absolutista, jornal A Nação, de Lisboa, órgão do tradi-
perfilhava um lugar destacado para a in- cionalismo monárquico antiliberal. Nos
dústria num plano de desenvolvimento finais do séc. xix, as manifestações de ra-
nacional, seguindo as posições industria- dicalismo anticlerical liberal monárquico
listas de Jean-Baptiste Say. e republicano propiciaram a construção
O miguelismo, sob a divisa “Deus, Pátria de um catolicismo integral (ultramon-
e Rei”, insistiu na denúncia dos equívocos tano e devocional), complexificando as
do princípio representativo e da divisão opções dentro do campo católico, onde

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1148 Antiliberalismo

existia o catolicismo liberal (constitu- tatutos), conseguida através da ação revo-


cional e concordatário) e o catolicismo lucionária e da ditadura do proletariado.
intransigente (legitimista e antiliberal), Ao mito político da greve geral revolucio-
vindo o Centro Católico Português (1917­ nária dos sindicalistas revolucionários, os
‑1932) a representar mais uma tentativa primeiros comunistas opunham o mito
mal sucedida de unificação das várias cor- político da revolução, criticando a buro-
rentes católicas, para intervir nos terre- cratização da Confederação Geral do Tra-
nos político, social e religioso. balho e a autossuficiência sindical. Para
Um lastro comum entre sectores socia- eles, o sindicato servia para a luta econó-
listas, republicanos e anarquistas portu- mica, enquanto o partido devia ser o ins-
gueses era devido à mentalidade federal, trumento da luta política.
ao associativismo e ao municipalismo au- A mais importante proposta ideológica,
tónomo, filiado no pensamento de Prou- cultural e política, de matriz antiliberal,
dhon, que se fundava na anarquia positi- contrarrevolucionária e tradicionalista
va e rompia com a modernidade liberal, monárquica, constituiu-se no Integralis-
propiciando a expressão de posições mo Lusitano (1914), animado por An-
ideológico-políticas de cunho antiliberal tónio Sardinha, Hipólito Raposo, Luís
e organicista. Um dos problemas teóricos de Almeida Braga, Alberto Monsaraz,
debatidos no interior do republicanismo, Francisco Rolão Preto e José Pequito
a mais importante corrente doutrinária Rebelo, e dispôs da revista de filosofia
de entre essas três na crítica à monar- política Nação Portuguesa (subintitulada,
quia liberal, foi a compatibilização dos depois, “Revista de cultura nacionalista”)
direitos naturais com os direitos sociais, e do diário A Monarquia, editados em Lis-
sem cair no liberalismo individualista boa. A orientação essencial estabelecia a
nem no coletivismo estatista. A criação propaganda da monarquia orgânica tra-
do PCP representou mais um polo no di- dicionalista antiparlamentar, com uma
versificado mundo ideológico-político do tendência concentradora (nacionalismo
antiliberalismo. A matriz genética anar- e poder pessoal do rei) e uma tendência
quista, anarcossindicalista e sindicalista descentralizadora (municipalismo e cor-
revolucionária dos seus principais funda- porativismo). Este sistema filosófico-polí-
dores, alguns deles vindos da Federação tico destinava-se a restaurar a nação pela
Maximalista Portuguesa (1919-1920), autoridade do rei e pela intervenção dos
configurará nos primeiros anos um par- corpos administrativos e profissionais;
tido assente em princípios descentrali- daí a formulação de base do Integralismo
zadores e federalistas (base 1.ª dos esta- Lusitano ser nacionalista por princípio,
tutos), permitindo certas convergências sindicalista e corporativista por meio e
com o republicanismo radical (Partido monárquica por conclusão. A geração
Republicano Radical), o republicanismo política integralista questionará o de-
esquerdista (Partido Republicano da Es- moliberalismo republicano, no que ele
querda Democrática) e o anarcossindica- manifestava de crise de autoridade do
lismo (Confederação Geral do Trabalho). Estado, de conflitualidade religiosa e so-
O  objetivo supremo dos comunistas era cial ou de racionalismo cultural e positi-
a socialização integral dos meios de pro- vismo científico, propondo a reinvenção
dução, circulação e consumo, i.e., a trans- dos modelos monárquicos medievais a
formação radical da sociedade capitalista partir dos valores da raça, da terra e da
em sociedade comunista (base 3.ª dos es- tradição, dotados de um estatuto messiâ-

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Antiliberalismo 1149

união entre a Igreja Católica e o Estado


monárquico. Se é certa a filiação genea-
lógica no discurso antiliberal e contrarre-
volucionário português do séc. xix, em
particular de José Agostinho de Macedo,
José da Gama e Castro e José Acúrcio das
Neves, não se deve ignorar a importante
projeção político-ideológica das obras de
Charles Maurras, Enquête sur la Monar-
chie (1900), e de Léon Daudet, Le Stupide
XIXe. Siècle (1922).
O exemplo da Action Française proje-
tou-se de forma relevante no antilibera-
lismo monárquico da ARP, dirigida por
Alfredo Pimenta, que juntou integralistas
que reconheciam D. Manuel II, o que
não tinha acontecido com tanta densi-
dade no Integralismo Lusitano, sendo
defendido claramente o primado do polí-
tico, o sindicalismo profissional e a orga-
Símbolo do Integralismo Lusitano. nização milicial do corpo de voluntários
da ARP, à semelhança da maurrasiana
Fédération Nationale des Camelots du
nico para a sonhada restauração monár- Roi, criada em 1908, por Maurice Pujo.
quica. Este romantismo político-cultural O ideário político-social organicista con-
era devedor do gosto nostálgico por um sagrava um modelo de estruturação social
passado representado numa idealizada cujas células primárias eram a família, o
e mitificada medievalidade dos forais município e o sindicato profissional; um
(monarquia contratual), dos concelhos modelo de representação política através
(predileção localista) e das cortes gerais da constituição de cortes gerais represen-
(representação dos corpos sociais), para tativas dos interesses da Igreja, da terra,
a qual, em Portugal, Alexandre Hercula- da inteligência e da produção; e uma che-
no muito contribuíra, mas inserido den- fia do Estado com um rei que governasse
tro de uma proposta regeneradora libe- e escolhesse livremente os seus minis-
ral. Porém, essa leitura esteve disponível, tros, politicamente responsáveis perante
com algumas diferenças, em Chateau- ele. A ARP extinguir-se-ia entre finais de
briand, Barrès, Bonald ou Maistre, donde 1926 e princípios de 1927, dentro de um
os integralistas portugueses receberam processo falhado de reorganização dos
várias influências. A  campanha pública vários segmentos monárquicos integralis-
integralista promovia uma forte contes- tas, que passaria pelo desejo episódico de
tação do liberalismo, do democratismo, uma Liga de Ação Integralista, animada
do parlamentarismo e do revolucionaris- por António Rodrigues Cavalheiro.
mo da Primeira República, apresentando De existência efémera, deve referir-se
três aspirações restauracionistas: regime o CNL, grupo político antiliberal e fascis-
político monárquico, regime administra- ta, liderado por João de Castro Osório e
tivo municipalista e regime jurídico de apoiado, e.g., pelo Cor. João de Almeida e

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1150 Antiliberalismo

por António de Cértima e Raul de Carva-


lho. O ideário político está identificado no
opúsculo A Revolução Nacionalista (1922),
da autoria de João de Castro Osório, po-
dendo observar-se aí a projeção do fascis-
mo italiano envolto numa releitura anti-
liberal da ditadura da “República Nova”,
aparecendo Sidónio Pais como “o  mes-
sias e não o político realizador”, pois a
sua “mentalidade sofria ainda de precon-
ceitos liberais e republicanos” (CASTRO
[OSÓRIO], 1924, 30-31). Entre as prin-
cipais propostas sugeridas, estava a ne-
cessidade do ditador, da ditadura nacio-
nal antiliberal, do governo meramente
executivo, do parlamento com exclusiva
representação profissional e municipal,
das milícias voluntárias e do catolicismo
como religião oficial do Estado. O surgi-
mento em outubro de 1923, em Lisboa,
do semanário A Ditadura, “periódico do
fascismo português”, dirigido por Raul de Capa da revista Crusada Nacional (1922).
Carvalho, potenciará a divulgação públi-
ca, mas tal não se revestiu de importância carismática (chefe de Estado responsável
significativa. A sua matriz revolucionária perante a nação e interveniente no go-
irredentista era demasiado herética den- verno), partido/movimento definidor da
tro do ambiente conservador e institu- direção política, representação política
cionalista dominante na elite autoritária orgânica (assembleia nacional com câma-
e antiliberal portuguesa, que, cada vez ra dos municípios e senado corporativo),
mais, acreditava na intervenção organi- mobilização milicial de massas e sistema
zada das forças armadas para solucionar corporativo integral.
a crise de autoridade do Estado liberal. As diversas formulações doutrinárias e
O regresso político-ideológico do mo- organizativas antiliberais, vindas do pen-
narquismo sindicalista antiliberal, que samento monárquico, republicano e ca-
Rolão Preto e Alberto de Monsaraz esbo- tólico, manifestaram-se com vigor durante
çaram nos inícios da déc. de 1920, far-se­‑á a Primeira República, mas não devemos
com a organização do MNS e do seu jor- ignorar os processos de convergência éti-
nal Revolução, tentativa esta que visava, co-políticos e ideológico-culturais entre
dentro da emergente ditadura do Estado antiliberais e liberais, com bastante rele-
Novo, impor uma via da revolução políti- vância após 1915, o que propiciou a cria-
ca com caudilhismo civil milicial e mobi- ção de espaços cívicos de encontro, como
lização de massas. O modelo alternativo conferências, congressos, campanhas cí-
de nacionalismo revolucionário antilibe- vicas, revistas e ligas, dentro de uma críti-
ral questionava o nacionalismo conser- ca comum ao diagnosticado revoluciona-
vador antiliberal vigente e propunha um rismo republicano. O debate promovido
Estado corporativo e sindical, com chefia entre os seus protagonistas permitiu a

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Antiliberalismo 1151

identificação de um conjunto de tópicos Bibliog.: CAMPOS, Fernando, O Pensamen­


essenciais para um programa nacionalista to Contra-Revolucionário em Portugal (Século XIX),
de amplo compromisso, em grande parte 2 vols., Lisboa, Edição de José Fernandes Jú-
recolhido, até à Revolução de 28 de maio nior, 1931­‑32; CASTRO [OSÓRIO], João de,
“Sidónio Pais e o messianismo ditatorial”, in
de 1926, na Liga Nacional, na Cruzada
CARVALHO, Feliciano de (org.), Um Ano de Di­
Nacional D. Nuno Álvares Pereira e no tadura: Discursos e Alocuções de Sidónio Pais, Lisboa,
Centro Católico Português, convergindo, Lusitânia, 1924, pp. 7-34; CRUZ, Manuel Braga
depois de 1926, no ideário sincrético da da, As Origens da Democracia Cristã e o Salazarismo,
ditadura do Estado Novo, bem expresso Lisboa, Presença, 1980; CUNHA, Norberto
no lema “Deus, Pátria, Autoridade, Famí- Ferreira da, “O tradicionalismo integralista”, in
lia, Trabalho” – reduzido à divisa mínima Poiética do Mundo: Homenagem a Joaquim Cerqueira
“Deus, Pátria, Família” –, que Oliveira Sa- Gonçalves, Lisboa, Colibri/Departamento de Fi-
losofia e Centro de Filosofia da Faculdade de Le-
lazar enunciou em “As grandes certezas
tras da Universidade de Lisboa, 2001, pp. 375­
da revolução nacional” (Braga, discurso ‑399; FERRO, António, Entrevistas de António Ferro
de 26 de maio de 1936). Não obstante a Salazar, pref. Fernando Rosas, Lisboa, Parceria
a controvérsia ideológica sobre o lugar A. M. Pereira, 2003; JESUS, Quirino Avelino de,
da prioridade a atribuir ao primado da Nacionalismo Português, Porto, Empresa Industrial
moral (laica), ao primado do religioso Gráfica do Porto, Lda., 1932; LEAL, Ernesto
(católico) e ao primado do político (po- Castro, António Ferro: Espaço Político e Imaginário
der), gerou-se, no primeiro pós-guerra, Social (1918-1932), Lisboa, Cosmos, 1994; Id.,
Nação e Nacionalismos: a Cruzada Nacional D. Nuno
uma área consensual de opinião entre
Álvares Pereira e as Origens do Estado Novo (1918­
destacados elementos das elites naciona-
‑1938), Lisboa, Cosmos, 1999; Id., “Tópicos
listas antiliberais (incluindo republicanos sobre os nacionalismos críticos do demolibera-
conservadores) à volta de algumas ideias lismo republicano: moral, religião e política”, in
essenciais: moral cristã, ética da respon- CALAFATE, Pedro (dir.), História do Pensamento
sabilidade, patriotismo cívico, Estado Filosófico Português, vol. v, t. 2, Lisboa, Caminho,
unitário, nação imperial, regime repu- 2000, pp. 135-160; Id., “Antiliberalismo: vias de
blicano presidencialista, governo consti- pensamento e de acção”, in MARUJO, António,
tuído com forte componente de técnicos e FRANCO, José Eduardo (coords.), Dança dos
Demónios. Intolerância em Portugal, Lisboa, Círculo
(ministério nacional das competências),
de Leitores, 2009, pp. 484­‑533; Id., “Naciona-
regime de separação leal entre o Estado lismo e antiliberalismo em Portugal: uma visão
e as Igrejas (com crescente audiência histórico-política (1820-1940)”, Historia Crítica,
do concordatismo de separação jurídica n.º 56, 2015, pp.  113­‑135; PEREIRA, José Es-
com a Igreja católica), corporativismo teves, “Pensamento político em Portugal no
(representação institucional de corpos século xix”, in CARVALHO, José Maurício de
sociais intermédios) e projeto de desen- (org.), Atas do VII Colóquio Antero de Quental, São
volvimento económico-social com inter- João del-Rei, Universidade Federal de São João
del-Rei/Instituto de Filosofia Luso-Brasileiro,
venção estadual.
2007, pp. 54-84; PESSOA, Fernando, Da Repú­
blica (1910-1935), ed. lit. Maria Isabel Rocheta,
Maria Paula Morão e Joel Serrão, Lisboa, Ática,
1979; RENAN, Ernest, Qu’Est-Ce Qu’Une Nation?
Et Autres Écrits Politiques, Paris, Imprimerie Natio-
nale Éditions, 1996; TOCQUEVILLE, Alexis de,
O Antigo Regime e a Revolução, Lisboa, Fragmen-
tos, 1989.
Ernesto Castro Leal

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1152 Antilibertinismo

Antilibertinismo liberdade adquirida e os maus usos que


se fazem dessa liberdade, na medida em
que se considera que a submissão às pai-
xões individuais é nociva ao indivíduo e
à sua comunidade, será um dos estigmas
predominantes das múltiplas manifesta-
ções do que se encara como reivindica-

O termo “libertino” constitui um dos


mais prolíferos e constantes epíte-
tos utilizados na designação de toda uma
ção indevida: a liberdade de consciência,
antes de mais, que terá particular expres-
são no domínio do religioso; a liberdade
galeria de perspetivas intelectuais e com- de pensamento, que será típica de uma
portamentais consideradas perniciosas, vertente filosoficamente erudita de liber-
excessivas, contrárias a um determinado tinos no séc. xvii; a liberdade de costu-
ideal de ordem constituída. Para se com- mes, típica daquele que é provavelmente
preender devidamente o alcance deste o mais recorrente sentido que se associa
conceito, será necessário que atentemos, nos nossos dias ao termo “libertino”; a
antes de mais, em três aspetos: no percur- liberdade política, que permitirá que os
so que lhe permitiu adquirir, em contex- libertinos sejam encarados sucessivamen-
tos históricos e culturais muito distintos, te tanto como uma peça indispensável no
uma pluralidade de significados negati- desenvolvimento da razão de Estado pro-
vos, designando quase sempre o nome movida por Richelieu e na génese do ca-
de um determinado grupo condenado, pitalismo europeu, como enquanto raiz
marginalizado e tomado como inimigo essencial do pensamento crítico iluminis-
a segregar; na sua dispersão geográfica, ta e do ceticismo que lhe está associado,
que permite que seja interpretado ora e que conduziria à Revolução Francesa,
como um fenómeno europeu, ora como bem como, posteriormente, como núcleo
um determinado âmbito de expressões das expressões heterodoxas que questio-
heterodoxas comum às mais distantes nam a própria supremacia da razão que
culturas; e, finalmente, no mecanismo as Luzes trouxeram consigo, acompa-
especular que permite que os libertinos nhando os sucessivos movimentos con-
sejam simultaneamente, quase desde a traculturais que fazem face aos valores da
sua origem, o produto abstrato dos te- sociedade burguesa; e mesmo uma liber-
mores, das desconfianças e dos repúdios dade relativa ao domínio do artístico, que
dos sucessivos poderes dominantes, e o aponta para a irregularidade nos planos
núcleo produtor de uma imagem, igual- estético e estilístico e para a transgressão
mente negativa, dos valores tomados dos conceitos tradicionais dos géneros
como universais. literários – Agostinho de Campos, e.g.,
Etimologicamente, não será estranha refere-se, nos seus Estudos sobre o Soneto,
ao percurso do conceito a base essencial aos “inconvenientes do soneto irregular
da sua origem latina no termo “liberti- ou libertino, que sempre se há de sujei-
nus”, designação de um escravo que ob- tar ao menosprezo da crítica, forte no seu
tivera a sua liberdade e que nessa medida direito de dizer que tal soneto não é so-
se distinguia tanto dos cidadãos origina- neto” (CAMPOS, 1936, 39). A oposição
riamente livres como dos escravos pro- ao libertino convive permanentemente
priamente ditos. De facto, como observa com essa indiferenciação que o apresenta
Jean-Pierre Cavaillé, a associação entre a como designação de uma diversidade de

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Antilibertinismo 1153

radicalismos e de heterodoxias que não


possuem relação entre si e que, no olhar
de severos denunciadores como o Jesuíta
François Garasse, formam um corpo arti-
ficial no qual se conjugam uma série de
contravalores. É o próprio Garasse que
considera que “pela palavra libertino não
entendo nem um huguenote, nem um
ateu, nem um católico, nem um heréti-
co, nem um político, mas um composto
particular de todas estas qualidades” (GA-
RASSE, 1622, 681). De facto, desde pelo
menos 1690, nas páginas do Dictionnaire
Universel de Antoine Furetière, o termo
era utilizado para designar a quase to-
talidade das sugestões de desordem, de- François Garasse (1585-1631).
sobediência ou desregramento, mesmo
em domínios da trivialidade quotidiana, doutrinas imorais e antissociais” (VER-
como o do estudante que não cumpre de- NET, 1920, 801). O primeiro sentido de
vidamente com os seus deveres escolares evidente oposição a um grupo concreto
ou o da rapariga que não acata as deter- encontra-se contudo em Calvino, que,
minações maternas. em 1545, escreve o panfleto Contre la Sec-
De acordo com Didier Foucault, pode- te Phantastique et Furieuse des Libertins Qui
remos encontrar as origens remotas do se Nomment Spirituels para denunciar os
recurso consciente ao termo “libertinos” seus opositores genoveses e o excessivo
para designar uma atitude de transgressão desregramento de costumes em que vi-
face aos padrões instituídos no contexto viam. Como refere François Laplanche,
dos clérigos goliardos, que, nos sécs.  xii o contexto da Reforma dará a conhecer
e xiii, desenvolveram poeticamente uma outros relevantes sentidos do conceito
arte de viver satírica e hedonista, e que, – “os teólogos cristãos chamam aos seus
influenciados pela raiz latina ainda bem adversários [...] ‘ateus’, ‘deistas’, ‘liberti-
presente, se referiam a si próprios como nos’, ‘profanos’, ‘acrístico’. O termo que
“libertini” ou “affranchis” (FOUCAULT, emergirá dessas águas misturadas é o de
2010, 37-38). “Libertinos” era também a ‘libertinos’” (LAPLANCHE, 1992, 1094­
designação de uma heresia medieval que ‑1095)  –, desenvolvendo-se no séc. xvii
teria prolongamentos até ao séc.  xvi e para expressar uma radicalização do eras-
que Félix Vernet identifica com a tradi- mismo e depois o sistemático colocar em
ção dos Irmãos do Livre Espírito, descri- causa da Revelação, ao mesmo tempo que
ta pela tradição dos heresiólogos como vai designando também a busca desregra-
“uma seita única que se propagou ao da de satisfações eróticas por parte de nú-
longo dos séculos, transmitindo de uma cleos de descrentes, nomeadamente no
geração para a outra um credo substan- seio da aristocracia francesa. É também
cialmente idêntico, cujo fundo seria, do nesse contexto que o ceticismo religio-
ponto de vista metafísico, o panteísmo e, so se manifestará no pensamento de um
na prática, uma ‘liberdade do espírito’, conjunto de jovens eruditos que seguem
que resulta, pelo menos no conjunto, em de perto a herança de alguns filósofos

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1154 Antilibertinismo

do Renascimento italiano que tinham principais pontes para o seu emergir no


sido também designados como libertinos, âmbito das vanguardas históricas, sobre-
como Vanini, Pomponazzi e Giordano tudo no contexto do surrealismo, que
Bruno. Em Inglaterra, pelo menos desde fará uma recuperação da figura de Sade
1611, no French English Dictionnaire de Cot- e, como observa Annette Tamuly, vai con-
grave, o termo foi identificado com o epi- ferir à libertinagem “um novo vigor ao
curismo e a licenciosidade, quadro que retomar o seu sentido original de liber-
encontra eco nos usos literários conhe- tação face a todas as forças de coerção”
cidos, e.g., em Hamlet (I, 3), de William (TAMULY, 1988, 38). Será nesta sequên-
Shakespeare, ou em The Poetaster, de Ben cia que as obras de autores como Geor-
Johnson. Jean-Pierre Cavaillé, um dos ges Bataille, Henry Miller, Anaïs Nin,
mais prolíferos investigadores do fenó- Roger Vailland ou Jean Genet marcarão
meno libertino europeu, evidenciou, em a continuidade do percurso da tradição
“Libertine and libertinism: polemic uses libertina no séc. xx.
of the terms in sixteenth and seventeenth Atentemos agora nos outros dois aspe-
century english and scottish literature”, tos inicialmente apontados: a dimensão
que ao longo deste período o termo foi europeia do conceito e o modo como
utilizado recorrentemente em importan- por ele se instaura uma especular bipo-
tes tratados de heresiografia ao mesmo laridade arquetípica. Na sua importante
tempo que designou uma vertente em obra Dall’Europa Libertina all’Europa Illu-
que a crítica religiosa se conjugava com o minista, de 1997, Sérgio Zoli salientou
âmbito da imoralidade no plano dos cos- as duas vias pelas quais a libertinagem
tumes. Alguns grupos, como os Ranters, conhece uma abrangência cultural im-
terão adotado inclusive o termo como epí- portantíssima para o percurso da cultura
teto provocatório, em textos como Divinity europeia desde a Modernidade, que se
Anatomized, de Joseph Salmon (1649-50). expressa não só geograficamente, por via
A partir do séc. xviii, o termo ficou ligado do vasto movimento de ideias que, ema-
sobretudo aos domínios do erotismo e da nando de França, chegaram aos diversos
transgressão sexual, passando os liberti- Estados europeus ao longo dos sécs. xvii
nos eruditos a definir-se como livre-pensa- e xviii, no decorrer das viagens e da
dores. O distanciamento dos dois sentidos correspondência de intelectuais, mas
percebe-se, e.g., na Encyclopédie, em que também na circulação crescente de uma
Diderot se refere ao comportamento ou literatura clandestina que transgredia os
atitude de um indivíduo libertino como mais severos mecanismos de repressão,
“o hábito de ceder ao instinto que nos como na península Ibérica; mas também
leva aos prazeres dos sentidos”, típico de na capacidade de infiltração da cultura
quem “não respeita os costumes, mas não libertina, que durante algum tempo es-
procura afrontá-los; é alguém desprovido tivera confinada às elites, num espaço
de delicadeza, e apenas justifica as suas es- popular que abraça os rudimentos fun-
colhas pela sua inconstância, está a meio damentais dos textos heterodoxos e a
caminho entre a volúpia e o deboche” atitude propiciadora de uma valorização
(DIDEROT, 1751, 476). do indivíduo e da sua subjetividade face
A associação do termo à controversa ao impulso congregador das doutrinas
obra do marquês de Sade, em muitos as- tradicionais. Não é estranha a este con-
petos denunciadora dos limites do ideal flito a fratura inevitável resultante de um
iluminista, permanece como uma das conceito tão recorrentemente utilizado

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Antilibertinismo 1155

para designar uma ideia de inimigo. líferos, embora o próprio Teófilo Braga
Jean­‑Pierre Cavaillé defende que “‘o per- nunca recorra a ele. No edital da Real
fil libertino’ é uma qualidade extrínseca Mesa Censória de 24 de setembro de
aos sujeitos que estuda, uma qualificação 1770, e.g., o peso nuclear da libertinagem
externa à referida polémica, produzida é perfeitamente identificado na sua múl-
no discurso contemporâneo. O libertino tipla ameaça à religião, aos costumes e à
apenas é libertino num contexto cultu- tão denunciada interligação entre a Igre-
ral que o designa como tal” (CAVAILLÉ, ja e o poder político, ao mesmo tempo
2010, 24). Estamos, portanto, perante que se percebe que a circulação de livros
uma das mais salientes construções so- proibidos era um dos veículos por exce-
ciais de uma alteridade negativa, por lência da suposta contaminação de que
via da qual se impõe inversamente uma Portugal era vítima: “E porquanto me
forma igualmente artificial de identida- constou que muitos dos referidos Escri-
de positiva. Num trabalho posterior, o tos, abomináveis produções da incredulidade
mesmo ensaísta falará de “uma cultura e da libertinagem de homens temerários
de oposição” que, reagindo a essa ima- e soberbos, que se denominam Espíritos
gem negativa ao mesmo tempo que de- Fortes e se atribuem o especioso título de
senvolve a denúncia da cultura religiosa Filósofos, depois de terem soçobrado os
dominante e da sua associação à impos- países mais próximos ao seu nascimento,
tura política, se enquadra perfeitamente haviam chegado a penetrar neste Reino
num ideal maniqueísta do mundo, que, por caminhos indiretos e ocultos; haven-
“de acordo com essa representação, está do mandado proceder com a mais exata
cindida em dois: de um lado, as vítimas diligência no exame deles, constou pe-
da farsa, que constituem a imensa maio- las Censuras conterem doutrina Ímpia,
ria dos homens, e, do outro, os que não ofensiva da paz e sossego público, e só
são joguetes ou que pelo menos cultivam própria a estabelecer os grosseiros e de-
as dúvidas mais persistentes, quer contri- ploráveis erros do Ateísmo, Deísmo e do
buam ou não positivamente para manter Materialismo, a introduzir a relaxação
a farsa” (Id., 2011, 7). dos costumes, a tolerar o vício e a fazer
Em Portugal, são conhecidos a exten- perder toda a ideia da virtude, as Obras
são cultural e o impacto do controlo das seguintes” (BRAGA, 1898, 59-60). Os
ideias consideradas subversivas desde a trabalhos de Maria Teresa Esteves Payan
sequência do Concílio de Trento até à Martins expõem amplamente a conjuntu-
definitiva implantação do liberalismo. ra em que uma série de instituições, das
Na História da Universidade de Coimbra, quais sobressaíam a Inquisição e a Real
Teófilo Braga dedica bastante atenção Mesa Censória, procuraram conter a fra-
ao desenvolvimento das ideias euro- tura das ideias em que os pontos de vista
peias desde a renascença ao apogeu da libertinos tiveram um papel decisivo. No
fase crítica do enciclopedismo, expon- Dicionário de História Religiosa de Portugal,
do um amplo conjunto de documentos Luís de Oliveira Ramos observa a respei-
pertencentes à Real Mesa Censória que to do Iluminismo que “a presença de tan-
exibem a denúncia das obras de pensa- tos nomes [...] no rol dos livros proibidos
dores como Descartes, Thomas Hobbes, em Portugal e de um ou outro tópico
Montaigne, Voltaire, Rousseau, Diderot análogo aos seus na obra de escritores e
e Helvetius. Nesses documentos, o termo poetas portugueses e sobretudo em pro-
“libertinos” surge como um dos mais pro- cessos inquisitoriais contra mações e, em

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1156 Antilibertinismo

especial, contra heréticos de filosofia, matrimónio, denunciando os males a que


no século xviii, obriga-nos a reafirmar o desregramento sexual pode conduzir e
o influxo que exerceram em minorias questionando a via ateísta. Em Recreação
nacionais particularmente contunden- Periódica, e.g., afirmará: “Hoje, estou em
tes” (RAMOS, 2000, 418), nas quais in- considerar criminosa toda a afeição que
tegra os nomes de filósofos, educadores, não seja pautada pelos termos da minha.
poetas e escritores tão relevantes como Os libertinos arguirão o contrário sob o
Verney, Francisco Xavier de Oliveira, Ri- falso argumento de que sendo o amor
beiro Sanches, José Anastácio da Cunha, uma paixão natural não carece do es-
Filinto Elísio, Bocage e D. Leonor de tado de matrimónio para se coonestar.
Almeida, a que se poderiam juntar os A minha opinião, universalmente aceite
nomes menos conhecidos de poetas an- e benquista de todos os homens honra-
tologiados em vários volumes dedicados dos, não precisa de defesa” (CAvalei-
à poesia satírica e erótica em Portugal. ro de OLIVEIRA, 1922, 47).
A diversidade destes nomes implica que Por outro lado, a atitude de um pan-
se perceba, como defende Daniel Pires fletário como José Agostinho de Mace-
na introdução ao sétimo volume da Obra do, um dos mais constantes defensores
Completa de Bocage, que dominava em Por- dos ideais absolutistas, permite perceber
tugal “uma sociedade fortemente tutela- que em Portugal também se verificou o
da, extremamente hierarquizada, erigida ataque indiferenciado a uma série de ati-
em função da nobreza” e que “necessitou tudes filosóficas e comportamentais dis-
de construir um aparelho de Estado sóli- tintas, conjugando termos como “liberti-
do que lhe permitisse anular quaisquer nos”, “enciclopedistas” ou “iluminados”,
veleidades que colidissem com os seus “pedreiros livres”, “jacobinos”, “maçons”,
interesses, designadamente as reivindica- “deístas”, “ateus” e “infiéis” nas mesmas
ções da burguesia ascendente” (PIRES, obras. Em Refutação dos Principios Metha-
2004, 9). Só assim se compreende que o fysicos e Moraes dos Pedreiros Livres Illumi-
processo de denúncia de José Anastácio nados, de 1816, procurava associar os
da Cunha, e.g., conjugue alguns supostos ideais dos enciclopedistas à tradição do
incumprimentos religiosos com o conví- epicurismo, vendo-os como criminosos
vio próximo mantido com estrangeiros que, proclamando-se livres-pensadores,
alegadamente ligados a igrejas protestan- apenas pretendiam colocar em causa os
tes e à maçonaria, e com supostos com- princípios do trono e da religião. A habi-
portamentos ilícitos, nomeadamente tual associação entre os ideais filosóficos
o alcoolismo e a vivência extraconjugal modernos e a dissolução dos comporta-
de uma experiência amorosa que a sua mentos é também estabelecida com vee-
poesia largamente documenta. E que mência: “Deixaste em fim cair a máscara,
Cavaleiro de Oliveira, um dos mais ex- e o prazer que propões e tanto exaltas
pressivos exemplos de protestantismo condescende com o prazer do vício, e
em Portugal e acérrimo defensor de uma em quanto os outros Filósofos fazem to-
atitude cultural cosmopolita e voltada dos os esforços para promover os bons
para o contacto com diferentes nacio- costumes, tu és o Filósofo que promove
nalidades e culturas, acabe por tecer nas a imoralidade. Dissolutos, pois, efemi-
suas obras algumas considerações bastan- nados, desonestos, viciosos de todas as
te negativas a respeito de alguns tópicos maneiras, vinde, achou-se uma Filosofia
associados aos libertinos, defendendo o que é toda vossa, e até dos brutos pois

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Antilibertinismo 1157

parece ensinada por eles” (MACEDO, sexuais um dos mais prolíferos domínios
1816, 178). para o seu retrato purificador da socie-
Um ataque semelhante será dirigido a dade burguesa. Em 1865, António Fer-
Almeida Garrett quando, na sequência nandes Ferrer Farol apresentava o seu
das deliberações quanto à liberdade de estudo A Libertinagem perante a História, a
imprensa de 1821, publicou O Retrato de Philosofia e a Pathologia, em que conside-
Vénus, dando origem a uma polémica que ra que “A libertinagem, olhada à luz da
se prolonga de janeiro a março de 1822 medicina, é o flagelo que mais corrompe
e na qual diversos colunistas o acusaram a humanidade. Paixão violenta, seduto-
de se aproveitar de um século em que os ra aos olhos da mocidade inexperiente,
valores estavam moribundos para publi- essencialmente devastadora, é a liberti-
car obscenidades emanadas do espírito nagem a causa próxima de horrorosos
corruptor da Revolução Francesa. Na estados mórbidos, que aniquilam a vita-
introdução a O Roubo das Sabinas. Poemas lidade mais resistente” (FAROL, 1865,
Libertinos, de Garrett, Augusto da Costa 10). Colocando-se do lado da tradição
Dias defende a respeito desse momento filosófica da Igreja Católica, que também
inaugural que “O moço poeta percorre denunciava o estado existencial abjeto
todas as fases de labor ideológico a par- resultante da libertinagem e a renúncia
tir do padrão prestigioso do classicismo. à transcendência que esta pressupõe, o
Mas nesse trabalho conjugam-se o liberti- autor encara, contudo, o fenómeno do
nismo-filosófico do século xvii e a sua su- ponto de vista clínico, procurando com
peração iluminista. O fenómeno traduz, o seu trabalho “a regeneração social”
com clareza, o nosso atraso sociocultu- (Id., Ibid., 11) na análise rigorosa dos
ral.  [...] ao seguir a via de um novo hu- vários desvios que ajudam a gerar “estes
manismo, Garrett palmilhará as suas pri- tipos execrandos, frios, melancólicos e
meiras expressões europeias dos tempos solitários” que são nocivos a qualquer
modernos: Renascimento e libertinismo sociedade (Id., Ibid., 44). Esta perspetiva
(o francês e o nacional, ainda hoje quase sobre os autómatos do vício não andará
por completo desconhecido!), o último muito longe da que um romancista como
dos quais vem entroncar na mais pro- Abel Botelho desenvolve no conjunto de
gressista ideologia do século xviii. Gar- obras que constituem o ciclo Patologia
rett está, porém, no século xix!” (DIAS, Social. Em O Livro de Alda, e.g., podem
1968, 62). ler-se as seguintes palavras do protago-
Ao longo do séc. xx, as críticas ao li- nista Mário, cujo percurso o conduz de
bertinismo em Portugal acompanharão um futuro socialmente promissor e con-
alguns dos desenvolvimentos europeus, cordante com o perfil da hipocrisia da
nomeadamente aquele que o associa já sociedade burguesa a um estado de ab-
não a um desvio de ordem religiosa ou soluta abjeção física e moral que quase
política, mas a um contexto de patolo- se precipita no suicídio: “O prazer dilui
gia e de degenerescência, típico quer do o carácter. Um vício extremo, radical,
desenvolvimento de um discurso ligado vale mais do que uma medíocre virtude.
à medicina (que Michel Foucault tem Requer sua ponta de abjeção a verdadei-
estudado com especial profundidade), ra felicidade. – Tanto que, nesta minha
quer de alguns dos ideais dominantes epicúria e ardente obstinação, na minha
da corrente naturalista, que encontram inestancável sede de amor, eu chegava a
na diversidade do leque das perversões desgostar-me de ser como sou… queria

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1158 Antilibertinismo

ver por completo varridas ao sopro cá-


lido da paixão algumas boas qualidades
que ainda me restam, para poder então,
franca e desapoderadamente, afrontan-
do a sociedade, atropelando o dever,
cavalgando o mundo, chafurdar bem
de vontade e de instinto no complicado
atasqueiro de todos os deboches que a
imaginação libertina dos torturados pelo
desespero inventou…” (BOTELHO,
1982, 241-242). E não esqueçamos que
alguns dos mais célebres romances com
que Eça de Queirós pretende documen-
tar os mais salientes quadros do atraso e
da decadência da sociedade portuguesa
apontam para diferentes tipos de vícios
libertinos, da derrisão dos valores religio-

D.R.
sos em virtude do triunfo do sensualismo
José Cardoso Pires (1925-1998).
em O Crime do Padre Amaro ao adultério
de Primo Basílio e à atitude promíscua e
donjuanesca do Carlos de Os Maias, im- libertinos. Este tipo de abordagem de
possível de redimir pelo amor na medi- Cardoso Pires, que dá à figura dos liberti-
da em que este conduz à transgressão nos um contexto mais racionalista e poli-
consciente do mais abjeto dos tabus. Sem ticamente interventivo ao mesmo tempo
grande diferença, vai ser este o quadro que realça a sua vertente cosmopolita e
do escândalo lisboeta que se seguirá à mundana, bem como o papel da sedução
publicação de Canções, de António Boto, no encontro amoroso entre os dois sexos,
em 1922. aproxima-se das considerações do francês
A libertinagem conheceria na déc. de Roger Vailland, cujo livro Le Regard Froid
60 do séc. xx um interessante momento (1963) recolhia textos como “Esquisse
de recuperação polémica, sendo determi- pour un portrait du vrai libertin” (1946)
nante na estrutura conceptual do ensaio e “Les quatre figures du libertinage”
Cartilha do Marialva (1960), de Cardo- (1950), importantes no quadro da recu-
so Pires, que definiu a atitude marialva peração do conceito pelas vanguardas
como um antilibertinismo tipicamente históricas. Em 1966, na polémica edição
português e, partindo desse pressuposto, de A Filosofia na Alcova, do marquês de
estabeleceu uma cisão entre duas formas Sade, Luís Pacheco aproveitaria os para-
de compreender o país, uma adequada digmas do livro de Cardoso Pires para,
à manutenção dos velhos valores ecle- assinalando o carácter permanentemente
siásticos e dos privilégios tradicionais polémico dos libertinos, definir a mun-
dos senhores da terra, outra que aponta dividência existencialmente inconfundí-
para uma mais racional, calculada e cos- vel propiciada pela conjugação das suas
mopolita abertura de Portugal ao diálogo vertentes religiosa, intelectual e amorosa:
com as outras nações europeias, e que te- “O libertino não é apenas o homem da
ria entre os seus representantes os mais vida amorosa, intensa ou desordeira, mas
avançados espíritos da nossa cultura, os algo mais [...]. É o ateu irredutível, é o

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Antilibertinismo 1159

que faz da sua vida amorosa um espetácu- cristãos foi muitas vezes agitada por es-
lo – por atitudes, palavras ou escritos; é o tas ondas – lançada de um extremo ao
que gosta dela, em suma, por isso o pro- outro: do marxismo ao liberalismo, até à
clama. É o que transforma essa experiên- libertinagem, ao coletivismo radical; do
cia muito acima do prazer animal num ateísmo a um vago misticismo religioso;
jogo calculado, numa técnica da sedução, do agnosticismo ao sincretismo e por aí
numa aposta vital” (PACHECO, 1966, adiante. Cada dia surgem novas seitas
18). Em seguida, exalta também a sua re- e realiza-se quanto diz São Paulo acer-
lação com a liberdade: “É um tipo livre e, ca do engano dos homens, da astúcia
como tal, porque a liberdade apela pela que tende a levar ao erro (cf. Ef 4, 14)”
liberdade, um tipo que quer (queria ver, (RATZINGER, 18 abr. 2005).
gostava, precisava de lidar com) gente li-
vre com ele, como ele, à sua volta. Logo Bibliog.: BOTELHO, Abel,  O Livro de Alda,
trata-se duma mentalidade progressiva. Porto, Lello Editores, 1982; BRAGA, Teófi-
Isso o leva, o obriga, lhe exige estar con- lo,  História da Universidade de Coimbra, Lisboa,
tra todas as tiranias” (Id., Ibid., 19). Tam- Tip. da Academia Real das Ciências, 1898;
bém em 1966, as Edições Afrodite deram CAMPOS, Augusto de,  Estudos sobre o Soneto:
à estampa a Antologia de Poesia Portuguesa Três Conferências, Coimbra, Coimbra Editora,
1936; CAVAILLÉ, Jean-Pierre, “Le libertinisme
Erótica e Satírica, na qual a organizadora,
et philosophie: catégorie historiographique
Natália Correia, deu particular atenção a
et usage des termes dans les sources”, Liberti­
autores tipicamente classificados como li- nage et Philosophie au XVIIe Siècle, n.º 12, 2010,
bertinos, exprimindo desde logo no títu- pp.  11­‑32; Id.,  Postures Libertines, Toulouse,
lo a irredutível conjugação libertina entre Anacharsis, 2011; Id.,  “Libertine and liberti-
o conflito crítico pressuposto pela prática nism: polemic uses of the terms in sixteenth
da sátira e o exercício livre do erotismo. and seventeenth century english and scottish
Parece-nos de salientar, em conclu- literature”, Journal for Early Modern Cultural Stu­
dies, vol. 12, n.º 2, 2012, pp. 12-36; CAVALEI-
são, o texto “La polémique anti-liber-
RO DE OLIVEIRA, Recreação Periódica, Lisboa,
tine et anti-libertaire contemporaine: Biblioteca Nacional, 1922; CORREIA, Natália
catholiques, libéraux, libertariens”, de (org.),  Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e
Jean-Pierre Cavaillé, no qual o autor evi- Satírica, Lisboa, Afrodite, 1999; COTGRAVE,
dencia a persistência da denúncia dos Randle,  A French and English Dictionary, Lon-
comportamentos tidos por libertinos don, Anthony Dolle, 1611; DIAS, Augusto
no discurso de filósofos como o italiano da Costa, “O jovem Garrett”, in GARRETT,
Almeida,  O Roubo das Sabinas. Poemas Liberti­
Augusto del Noce, que considera o pen-
nos, Lisboa, Portugália, 1968, pp. 7-100; DI-
samento libertino a vertente negativa da DEROT, Denis, “Libertinage”, in  Encyclopédie
liberdade desde o final do Renascimen- ou Dictionnaire Raisonné des Sciences, des Arts et
to até ao que designa como libertina- des Métiers, vol. 9, Paris,  chez Briasson, 1751,
gem de massas do séc. xx, e de Joseph p.  476; FAROL,  António Fernandes Ferrer,
Ratzinger, que, num discurso de 18 de A Libertinagem perante a História, a Philosofia
abril de 2005, relaciona a libertinagem e a Pathologia, Porto, Tip. José Pereira da Sil-
com outras correntes de pensamento va, 1865; FOUCAULT, Didier,  Histoire du Li­
bertinage, Paris, Perrin, 2010; FOUCAULT,
contemporâneas: “Quantos ventos de
Michel,  História da Sexualidade, vol. 1, Lisboa,
doutrina conhecemos nestes últimos Relógio d’Água, 1994; FUERTES, Juan Ve-
decénios, quantas correntes ideológicas, larde, El Libertino y el Nacimiento del Capitalismo,
quantas modas do pensamento... A pe- Madrid, Pirámide, 1981; FURETIÈRE, Antoi-
quena barca do pensamento de muitos ne, Dictionnaire Universel Contenant généralement

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1160 Antiliteralismo

Tous les Mots François tant Vieux Que Modernes,


Roterdão, Arnout & Reinier Leers, 1690; GA-
Antiliteralismo
RASSE, Pierre, Recherche des Recherches, Paris,
Sébastien Cappelet, 1622; GONÇALVES, Ze-
tho da Cunha (org.), Notícia do Maior Escândalo
Erótico-Sexual do Século XX em Portugal, Lisboa,
Letra Livre, 2014; LAPLANCHE, François, “Le
mouvement intellectuel et les Églises”, in VE-
NARD, Marc, Histoire du Christianisme, des Ori­
gines à Nos Jours, Paris, Declée/Fayard, 1992,
pp. 1061-1120; LISTA, Giovanni, Dada Libertin
C ontra a letra em seus limites deno-
tativos, e um significado primário e
simples, o antiliteralismo é um mecanis-
& Libertaire, Paris, L’Insolite, 2005; MACE- mo ou processo interpretativo, sobretudo
DO, José Agostinho de, Refutação dos Principios
na hermenêutica bíblica, na análise literá-
Methafysicos e Moraes dos Pedreiros Livres Illumi­
nados, Lisboa, Impressão Régia, 1816; MAR- ria e no exercício da tradução. Pressupõe
TINS,  Maria Teresa Esteves Payan,  A Censura o influxo do espírito, seja no Íon platóni-
Literária em Portugal nos Séculos XVII e XVIII, Lis- co ou no fogo pentescostal, em que a lava
boa, FCG, 2005; Id.,  Livros Clandestinos e Con­ da inspiração vai para lá do que é dito e
trafacções em Portugal no Século XVIII,  Lisboa, de quem enuncia, mais do que mediador
Colibri, 2012; PACHECO, Luís, “O Sade aqui ou mero canal, com que se denega a ir-
entre nós”, in  SADE, Marquês de, A Filosofia
responsabilidade do sujeito emissor. Para-
na Alcova, Lisboa, Afrodite, 1966, pp. 11-25;
PIRES, Daniel, “Introdução”, in BOCAGE,
digmática é a segunda epístola de S. Pau-
Obra Completa, vol. vii, Porto, Caixotim, 2004, lo aos Coríntios (3, 6), segundo a qual a
pp. 9-55; PIRES, José Cardoso,  A Cartilha do letra mata, mas o espírito vivifica: “littera
Marialva, Lisboa, Dom Quixote/Círculo de Lei- enim occidit, Spiritus autem vivificat”.
tores, 1989; RAMOS, Luís António, “Iluminis- Se, no imediato, esse capítulo visa os
mo”, in AZEVEDO, Carlos Moreira (dir.), Di­ fariseus na prisão da letra – diligência
cionário de História Religiosa de Portugal, Lisboa, comum nas proposições rabínicas e no
Círculo de Leitores, 2000, pp. 414-419; RAT-
mesmo Cristo (desde logo, nas remissões
ZINGER, Joseph, “Homilia”, 18 abr. 2005;
SALGADO, Maria Antonieta (org.), A Polémica para o Antigo Testamento, na metalin-
sobre o Retrato de Vénus, Lisboa, INCM,  1983; guística operada nas Escrituras) –, urge,
TAMULY, Annette, “Amour, humour. Une na configuração ortodoxa, combater
passerelle naturelle et surnaturelle jetée sur la heresias, qual o pelagianismo do séc.  v,
vie”, Mélusine, n.º 10, 1988, pp. 35-41; VAIL- quando S.to Agostinho lança um título fe-
LAND, Roger, Esboço de Um Retrato do Verdadeiro liz, De Spiritu et Littera (412), aproveitado
Libertino, Lisboa, & etc, 1976; VERNET, Félix,
pela moderna crítica literária e pela juris-
“Frères du libre esprit”, in Dictionnaire de Théo­
logie Catholique, Paris,  Letouzey et Ané, 1920, prudência, embora também deparemos
pp. 801-810; ZOLI, Sergio, Europa Libertina tra com um provocador Sentido Literal (sub-
Contrariforma e Illuminismo, Florença, Nardine título: Ensaios de Literatura Portuguesa, por
Editore, 1997. Maria João Reynaud, 2004), olhando, to-
Rui Sousa davia, à littera como embrião da literatura
ou das belas-letras (no séc. xvii, antecipa-
da pela formação letradura).
Na tradição alegórica (o que crer), sa-
lientara-se Fílon de Alexandria (c. 25 a.C.-
­‑40), autorizando algo muito comum na
exegese tipológica, que se reencontra
no P.e António Vieira: prefigurar Cristo

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Antiliteralismo 1161

no Antigo Testamento. Clemente de


Alexandria (c. 145-c. 215) e Orígenes
(c. 185­‑253) convergem na ideia de Re-
velação, de um fundamento originário
do mundo; este, alegorista-mor (sem
desprezo do sentido moral: o que fazer),
interessa saudá-lo como preocupado pelo
texto do Antigo Testamento, que dispõe
em seis colunas: em hebraico, na trans-
crição grega do hebraico, e nas traduções
gregas dos Setenta, de Áquila, de Símaco
e de Teodocião. Discurso do Céu, a Escri-
tura não pode ser indigna do seu autor,
donde evitar absurdos no corpo da letra e
sentidos transtornados – que muitos, em-
bora inspirados, mas possuídos pelo mal,
alimentam.
Orígenes (c. 185-253).
A agostiniana teoria da graça reves-
te-se de um quarto sentido, anagógico
(o  que esperar, se iluminados por Deus:
a graça perdoa, regenera, predestina), não será não literal – preferível ao inade-
mas, na resposta a Pelágio (c. 350/360- quado “antiliteral” –, fundada no sobera-
-c. 425/435) – contra o livre-arbítrio tam- no contextualismo.
bém defendido por Orígenes, assumindo O contexto de uso funda a lingua-
o pecado de Adão como hereditário, atri- gem – melhor, cada ato de enunciação – na
buindo importância ao batismo, dizendo base de pressuposições não forçosamente
Cristo salvador, para lá de exemplo éti- declaradas, mas variáveis, sem reivindicar
co –, Agostinho lê a passagem de S. Paulo uma verdade definida (que, porém, se
atrás referida jogando com a literalidade persegue, dentro de um grau de satisfa-
e sobreposição das Escrituras, para con- ção relativa), permitindo que qualquer
cluir da salvífica aliança com o Espírito proposição diga coisa diversa em contexto
divino. diferente. A ambiguidade semântica pode
Literais, antes de teólogos, procuraram reduzir-se a efeito colateral.
ser os principais tradutores da Bíblia, O antiliteralismo será outro império,
não raro, refundadores de línguas verná- em que desagua abundância de tropos e
culas. Algumas buscaram caução por ou- figuras de pensamento; não vemos que
tra via: maior proximidade ao hebraico tal exista em “pernas da cadeira”, estando
alegadamente adâmico através do grego em causa metáfora, e, mesmo, em “per-
e do latim, indiferentes às retóricas de- nas torneadas da cadeira”. Tudo muda,
siguais. Mas essa gramaticalidade não se disser “pernas hollywoodescas da ca-
sobreviveria, não passaria de letra morta, deira” – não, quiçá, para tribo amazóni-
se novos tempos não lessem contra ela. ca alheia aos nossos quadros mentais, e
Assim, fixada uma literalidade (uso lite- cujos mitos pedem um esforçado antilite-
ral de matéria que novos editores podem ralismo da nossa parte. Do uso vamos ao
questionar; estado da língua em forma sentido e, nestes dois últimos exemplos,
de letra), dificilmente a interpretação em vez de “anti-”, pudéramos optar por

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1162 Antiliteralismo

“não-”. Se necessário, e possível, com al- pacto institucional acolhe e se debruça


gum “espírito”. sobre os frutos à vista. Posto isso, vejamos
As dificuldades de tradução do Livro outros degraus antiliterais.
dos Livros e da Antiguidade profana, a A letra recreia-se, recria-se, organizan-
par do espólio medievo-ocidental, não do-se, conforme os tempos, em escalas
demoveram os nossos quatrocentistas, valorativas, cuja última instância deveria
vazando excertos e vertendo as primei- ser a impressão de naturalidade. A rees-
ras obras. Por respeito, em eras de imita- crita (ou rescrita) é uma curiosa escalada,
ção, desejam-se exatos, palavra a palavra sem, desejavelmente, perda da ideia ori-
(metáfrase); mas a ordem da natureza ginária, a acompanhar os nossos passos:
– muito confusa, a natureza humana, na no caso, a adaptação é um salto – ora fica-
refrega contrarreformista – e o espírito mos privados de cenas e personagens, ora
de uma tarefa particular, qual penitência de descrições inócuas para o propósito da
pós-babélica, cedo exigem outras formas versão, ora se propõe um análogo enten-
de estar, em que se não seja escravo, nem dível à chegada sob forma de condensa-
obscura figura ancilar, mas mediador (al- ção –, tal como é um desvio a recriação
guns serão plagiadores); em que se não linguística. Esta pode dar-se, inclusive,
perca a essência pressentida, ainda que a no perímetro de um idioma: assim, tan-
expensas de ruturas formais ou da inevi- to se procura um discurso medieval mais
tável paráfrase. Natureza variada não es- ou menos bem forjado para original ou
quivou excessivos adornos, mas é próprio mundividência medievais, como se atua-
do não literal um efeito de compensação. liza, não raro corrigindo alegadas falhas
Este quadro, à partida sobre textos bí- (e não se pensa, aqui, em crítica genéti-
blicos e greco-latinos (ainda pouco sobre ca), obra-prima ancestral. Vai-se do loca-
línguas nacionais), deve ser entendido lismo ao pitoresco, do borrão talvez po-
nos seus porquês: um ato de fé ou um bre ao kitsch ambiental, defendendo, uns,
exercício filológico são diferentes de uma que o efeito sobre os leitores, agora, de-
transferência de conhecimento ou de cul- veria ser semelhante ao sentido pelos pri-
turas; o vezo pedagógico ou moral, recor- meiros leitores ou ao que sentiria quem
tado em tantas censuras, abstrai de pre­ lesse o original. É uma ilusão conhecer o
ocupações estéticas. Se o significado está efeito sobre quem primeiro leu Virgílio, e
debaixo das vestes linguísticas, é possível querer imitá-lo, como julgar da constân-
o decalque – às vezes, são longas vestes, o cia das leituras contemporâneas. Se assim
que dá larga sintaxe frouxa ou multipli- fosse, não tínhamos versões diferentes de
cação de vocábulos –, mesmo geminação, um discurso no espaço de horas. Isto tan-
i.e., construir proposições identicamente to serve para a tradução como para um
lidas em latim e português. Mas o esforço estudo analítico-interpretativo.
tem as suas limitações, quando não com- A equivalência estilístico-formal torna­
porta riscos e soluções risíveis entre vizi- ‑se desafiadora (daí Os Lusíadas transla-
nhos, afinal, ciosamente senhores da sua dados em prosa) e, nos idiomas sintéticos
linguagem. O contágio entre falsos ami- ou aglutinantes, rebarbativa, se obedecer-
gos, ou duvidosos irmãos neolatinos, re- mos, e.g., à anacolutia: o génio das línguas
dunda em tragédia: o “mórbido” italiano põe à prova o engenho de quem, se for
não é “mórbido”, antes “macio”. Enfim, é sério, gostaria de ser fiel. Traduzir, tam-
pouco operativo demorarmo-nos no con- bém como labor interpretativo, é deba-
ceito de intraduzibilidade, quando um ter-se com a letra, ser-se transliteral por

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Antiliteralismo 1163

dever de ofício, inclusive nos registos pu- oral e o seu suporte escrito há naturais
ramente técnicos, onde urge inventar ou lacunas. Compendiados alguns universais
adaptar fórmulas, contrair empréstimos, ditos substanciais, como é o erotismo nas
fazer cedências, se necessário, na insufi- antigas civilizações, fácil se torna conciliá­
ciência referencial do ponto de chegada. ‑los, a milénios de distância, com o nosso
Se se procura que um autor cronoló- presente.
gica, espacial e linguisticamente distante Fator de comunicação, desejavelmente
seja lido como se escrevesse no tempo e expressiva, a traduzibilidade impregna a
lugar da língua de chegada, maior orgu- letra, que liberta da cristalização, embora
lho sentimos quando este discurso é con- nem sempre do ridículo, como ver Fe-
siderado melhor por quem domina os renc/Franz Liszt vertido em Francisco Fa-
dois registos; mais ainda, quando o mes- rinha (“liszt”, em húngaro). As inevitáveis
mo autor se reconhece, e aos seus particu- quebras prosódicas, o conveniente des-
larismos, no feito, no conseguimento de respeito por regras e formas fixas, outros
outra matéria verbal. Há conglomerados, obstáculos, tudo isso ajuda ao conflito de
ou unidades de tradução, que uma sábia interpretações que transcendem a letra.
transposição resolve, sem grandes perdas No mínimo, ficamos com as belles infidèles.
semânticas. Converge a modulação em Já antes do apóstolo Paulo, um aviso
escala reduzida, e o recurso à analogia seco de Horácio na Arte Poética recomen-
linguística: do not enter, entrada proibida. dava ao scriptor: “nec verbum verbo cura-
Na interpretação de viva voz, e des- bis reddere fidus/interpres” (vv. 133-134).
contada a consecutiva – com texto pre- A dificuldade não está em que “procura-
viamente escrito, em que se integra a le- rás (curarás de) traduzir não (tão-pouco)
gendagem bastas vezes problemática dos palavra a/por palavra”; o busílis da ques-
media visuais –, percebemos, na simultâ- tão é “fidus intrepes”, dividido na cena,
nea (se não for demasiado sussurrada), em que o nome, “intérprete” ou “tradu-
quanto se perde, e se deriva, como essa tor”, conta menos do que o adjetivo. Este
tradução se reduz ao osso. É a demonstra- vê-se “(como) servil”, “bom/verdadeiro”,
ção maior (legítima, mesmo que depure “fiel”, em colorações tais, que, ao sabor
um discurso perifrástico?) da vitória anti- da tradição – só agora referida, enquanto
literalista, que ainda sorri aos desastres da pertinente nesta abordagem –, preferi-
tradução automática, desacompanhada mos “fiel intérprete” – literalmente.
de informações linguísticas específicas e
de uma gramática cultural.
Entra aqui a solução da transferência Bibliog.: HORÁCIO, Arte Poética; MAZZARE-
de um universo cultural – já não hipótese ZE, Tecla, “Interpretazione letterale: giuristi
linguística ou discursiva, como na trans- e linguisti a confronto”, in VELLUZZI, Vito
posição –, ainda que exija continuados (ed.),  Significato Letterale e Interpretazione del
comentários e explicações. Universos di- Diritto, Torino, Giappichelli, 2000, pp. 95­
ferentes, alguns só acessíveis a antropó- ‑136; MESCHONNIC, Henri,  Poétique du Tra­
duire,  Paris, Verdier, 1999; RECANATI, Fran-
logos e estudiosos da longa duração, po-
çois,  “Literalismo y contextualismo: algunas
dem conhecer razoáveis contrapartidas, variedades”,  Revista de Investigación Lingüística,
mesmo se parciais, sem que isto signifi- n.º 10, 2007, pp. 193-224; Id., Le Sens Littéral:
que resistência da letra: não temos velei- Langage, Contexte, Contenu, Paris, Éditions de
dades de ter lido tudo ao olharmos para l’ Éclat, 2007.
a frase mais singela; entre uma tradição Ernesto Rodrigues

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1164 Antilivre-cambismo

Antilivre-cambismo mo admitindo que o livre-câmbio univer-


sal seria a melhor opção global, replicam
os seus opositores: será isso argumento
suficiente, quando se sabe que nem to-
dos adotaram ou adotarão tal conduta?
E  mesmo que ele promova uma melhor
afetação geral dos recursos produtivos:

T ratar uma expressão cultural em ne-


gativo constitui uma forma de de-
tetar manifestações discursivas social e
não é entretanto inegável que produz e
produzirá desemprego e miséria, pelo
menos, no curto prazo?
culturalmente subalternas, veiculando A viabilidade dos argumentos prote-
pretensões que um determinado contex- cionistas, todavia, é quase sempre fra-
to hegemónico reconhece, mas que man- camente articulada, ou dotada apenas
tém precisamente sob uma forma larvar, de duvidoso direito de cidadania acadé-
escassamente articuladas, emergindo mico, o que, não raro, leva um discurso
apenas enquanto oposição a algo ou potencialmente pela positiva a travestir­
como neurose coletiva, indicando uma ‑se de algo apresentado pela negativa. As
dificuldade global de saber bem o que diferenças entre os efeitos de curto pra-
se pretende, mas ainda assim sabendo zo e os de longo prazo, ou entre o ponto
ou julgando saber bem que “não vou por de vista da mera estática comparada e o
aí” – para usar a expressão consagrada dos efeitos dinâmicos, com os processos
pelos famosíssimos versos de José Régio. industrializadores a poderem produzir
Em boa medida, o discurso antilivre­ externalidades positivas e economias de
‑cambista de Oitocentos pode ser inte- aglomeração, e.g., constituíram linhas ar-
grado nesta categorização geral. Recor- gumentativas expostas por mais do que
demos que este é, primeiro, o século do um autor de Oitocentos, mas em geral
imperialismo do livre-câmbio promovido de forma apenas parcialmente cons-
pelo Reino Unido, para pouco a pouco se ciente. O mesmo é válido para a ideia
transformar no século da obsessão pelo de que um comércio externo desregula-
comércio justo, i.e., pela proteção, antes mentado poderia propiciar o surgimen-
de mais a proteção pautal, a qual acaba to ou a ampliação de crises económicas,
por fazer refluir a maré livre-cambista, acrescentando a estas últimas uma com-
vindo finalmente a contestá-la com su- ponente estritamente especulativa e/ou
cesso considerável até mesmo em terras predatória. Analogamente para a noção
britânicas. Todavia, deve acrescentar-se, de que o livre-câmbio universal é algo a
chega-se frequentemente a esse resulta- ser cuidadosamente distinguido do es-
do mais em virtude dum mero realismo tabelecimento de tratados comerciais.
político do que em função da adoção de Adam Smith e David Ricardo, Jean-Bap-
teorias ou doutrinas perfeitamente ela- tiste Say, Friedrich List e Michel Cheva-
boradas – e isso expressa antes de mais lier, entre tantos outros – todos eles se
o facto de o protecionismo pautal oito- confrontaram com o problema de que o
centista ser sobretudo uma corrente de ideário de globalismo ou mundialismo
oposição ao livre-cambismo dominante, implícito na noção de livre-câmbio podia
ao qual contrapõe, de forma muitas vezes conflituar com as dinâmicas regionalistas
tateante, a realidade factual e as dificul- tendencialmente associadas à instituição
dades das opções políticas práticas. Mes- de tratados comerciais, sendo as rivalida-

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Antilivre-cambismo 1165

des nacionais não suprimidas por estes, Adam Smith, pelo seu lado, opina, algo
mas apenas transferidas, aliás mesmo po- provocatoriamente, que pelo Tratado de
tencialmente ampliadas. A distinção dos Methuen só Portugal foi beneficiado,
conceitos de criação e desvio de comér- tendo Inglaterra sofrido com o desvio de
cio, em meados do séc. xx oficialmente comércio de vinhos de outros países que
consagrada através da obra de Jacob Vi- aquele teria induzido (SMITH, 1981, II,
ner, parece em momentos diversos emer- 76). Estas opiniões, entretanto, são em
gir nas obras daqueles economistas de geral refutadas, mesmo por autores que
Setecentos e Oitocentos, sem que todavia no fundamental se reclamam do legado
esse distinguo analítico seja claramente smithiano. Jean-Baptiste Say, e.g., defen-
formulado. Finalmente, a própria corre- dendo o livre-câmbio universal e pro-
lação do grau de abertura das economias nunciando-se com desconfiança quanto
com os ritmos de crescimento económi- aos tratados (nos quais teme sobretudo a
co das mesmas é, nalguns casos, objeto promoção de rivalidades com terceiros),
de disputa, com os malefícios consisten- acrescenta ainda que Methuen configu-
tes da abertura a serem destacados por rou um caso de vantagens iníquas, ler
mais de um autor. “tributos coloridos” (SAY, 1972, 183), ob-
Mais interessante ainda, para os propó- tidas abusivamente por Inglaterra à custa
sitos deste texto, é o lugar ocupado por de Portugal. Já David Ricardo, como é sa-
Portugal no imaginário da teoria econó- bido, utilizou precisamente o modelo das
mica. As consequências do Tratado de relações luso-britânicas para, a respeito
Methuen são, pode dizer-se, um tema do comércio de vinhos e de tecidos, ex-
inescapável. Mas não apenas elas. Já em por as suas famosíssimas noções das van-
meados do séc. xviii, e.g., um autor como tagens absolutas e comparativas suposta-
Richard Cantillon, ao defender as vanta- mente associadas a tratados comerciais:
gens duma balança comercial favorável, de acordo com o modelo das primeiras,
distinguia as dinâmicas sociais correspon- Portugal disporia de condições mais van-
dentes aos casos em que esse saldo posi- tajosas para a produção de vinhos e a Grã­
tivo é conseguido através da promoção ‑Bretanha para a produção de tecidos,
das manufaturas e da navegação daquele pelo que o tratado seria uma boa ideia.
outro, resultante da mera descoberta de Seguindo a lógica das vantagens compa-
minas de metais preciosos. Quando é do rativas, embora Portugal tivesse vantagem
primeiro caso que se trata, afirma, apesar em ambos os sectores, sendo a desvanta-
das tendências para a subida dos preços gem britânica menor nos tecidos, o tra-
resultantes do próprio excedente da ba- tado e a especialização produtiva subse-
lança comercial, o balanço global de pro- quente continuariam a ser uma boa coisa.
gresso e retrocesso é favorável à riqueza Relativamente a Friedrich List, deve
das nações e dos soberanos. Quando de- desde logo sublinhar-se que a sua obra
paramos com o segundo modelo, porém, pôde ser invocada entre nós quer a favor
i.e., se “a nobreza portuguesa e outras” da proteção pautal, quer contra ela. De
(CANTILLON, 1952, 44) se convertem facto, para além de ter considerado absur-
por ânsia de ostentação ao consumo ir- das e abusivas tanto as opiniões de Smith
restrito de bens luxuosos importados, o como as de Say relativas a comércio in-
efeito de imitação assim induzido no con- ternacional, List argumentou em termos
junto do corpo social leva a que o saldo gerais a favor das vantagens dos tratados,
global de fluxo e refluxo seja nocivo. acrescentando que as exceções admitidas

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1166 Antilivre-cambismo

quer por Smith quer por Say à regra da cadência portuguesa, na qual teriam sido
liberdade de comércio eram geralmente goradas as expectativas da Coroa e da no-
tão absurdas quanto a própria regra. Por breza na melhoria, em virtude do suposto
outro lado, a proteção pautal deveria ser aumento das quantidades transaciona-
considerada uma “educação industrial”, das, dos rendimentos alfandegários e das
sendo por isso legítima apenas a relativa rendas da terra. A própria possibilidade
às manufaturas, não à agricultura (LIST, de mudanças bruscas na orientação e nas
1944, 164, 170, 192-193). Também não preferências do poder régio ilustraria
poderia ultrapassar um nível inicial de 40­ bem o alcance limitado de qualquer ten-
‑60 % de direitos, e passando rapidamente tativa industrializadora empreendida por
para 20-30 %, no máximo. O principal co- um Estado absolutista, tornando eviden-
mércio internacional deveria, aliás, vir a te a necessidade de adoção dum regime
ser um comércio assente no livre-câmbio, constitucional, com garantia de estabili-
estabelecendo-se entre os países climaté- dade na estrutura jurídica, respeito pelos
rica, cultural e politicamente inclinados interesses dos manufatores, etc. Ao mes-
para as manufaturas (a generalidade da mo tempo, porém, Portugal é etiquetado
Europa Ocidental e da América do Nor- como país de dimensão demasiado redu-
te) e os países por aqueles mesmos con- zida e escassas condições culturais, para o
dicionalismos destinados à agricultura qual a proteção pautal seria inconvenien-
e outras atividades extrativas. Esta espe- te e tendo mais a ganhar com o livre-câm-
cialização produtiva seria supostamente bio. Bem vistas as coisas, se a escola desis-
vantajosa para todos os intervenientes, ao tisse de propagandear a mera liberdade
contrário do que sucedia com as nações genérica do comércio, aprendendo a re-
potencialmente industriais, mas às quais conhecer as especificidades das situações,
a ausência de proteção tivesse lesado na os seus pontos de vista seriam muito mais
caminhada industrializadora. A proteção facilmente aceites naquilo que têm de
é portanto, para List, algo de recomendá- genuinamente válido: “A teoria da liber-
vel para países situados numa zona inter- dade de comércio encontrará então bom
média de progresso económico, apenas acolhimento na Espanha, em Portugal,
para esses e estritamente adentro dos li- em Nápoles, na Turquia, no Egito e em
mites antes referidos. todos os países mais ou menos bárbaros e
Em que posição, neste contexto, ma- em todos os climas cálidos. Já não se con-
pear Portugal? List, deve reconhecer-se, ceberá nestes países, no seu grau de civili-
não prima exatamente pela coerência. zação atual, a ideia extravagante de criar
Obviamente, refere várias vezes o Tratado uma indústria manufatureira mediante o
de Methuen enquanto exemplo das con- sistema protetor” (Id., Ibid., 154).
sequências negativas da especialização, à Se considerarmos agora os autores
escala internacional, na produção agríco- portugueses de Oitocentos, período
la; refere também as desvantagens, para em que a questão do protecionismo e
as potências agrícolas e mais pequenas, do livre-cambismo foi discutida com
da celebração de tratados com potências particular veemência, deve ser desta-
industriais e maiores. Inclui mesmo nes- cado antes de mais o caso de Oliveira
tes argumentos uma referência explícita Marreca enquanto representativo duma
ao esforço industrializador empreendido evolução que, partindo de um argumen-
pelo conde de Ericeira, ao qual se teria tário basicamente inspirado em Say, vai
seguido, com o tratado, uma fase de de- percorrendo um longo caminho que o

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Antilivre-cambismo 1167

aproxima de muitos dos raciocínios e


das conclusões práticas de List, o qual
todavia praticamente não cita. São re-
levantes, entre outras: a noção de que
os interesses da nação, concebida como
totalidade orgânica, devem ser antepos-
tos aos dos grupos parciais; a ideia de
primazia da consideração dos agentes
económicos enquanto produtores relati-
vamente ao que os mesmos representam
enquanto consumidores; a ênfase nas
possibilidades civilizadoras da indústria
manufatora e das cidades, por compa-
ração com a agricultura e os campos;
enfim, a persuasão de que promover
deliberadamente a indústria não desvia José Frederico Laranjo (1846-1910).
recursos da agricultura nem lhe retira
mercados. Bem pelo contrário: sem ela
os recursos permaneceriam inutilizados, É igualmente merecedora de destaque
e nenhum mercado exterior para produ- a intervenção de José Frederico Laran-
tos agrícolas se perde por se apostar na jo no âmbito destas discussões. Antes de
promoção da manufaturas, muito mais mais, deve sublinhar-se a tendência des-
fiáveis no desempenho dessa função. te autor para uma invenção de tradição
Mais tarde, ocupando-se da obra de portuguesa de pensamento económico
Marreca, o também republicano Rodri- protecionista, sendo Acúrsio das Neves
gues de Freitas destaca o relativismo das e sobretudo Solano Constâncio assinala-
argumentações, seja a favor da proteção dos por ele como precursores lusos da
pautal ou do livre-câmbio, da indústria economia nacional de List. Enquanto
manufatora ou da agricultura, bem como lente de economia política na Facul-
a estreita ligação das discussões relativas à dade de Direito da Univ. de Coimbra,
vida económica com aspetos mais imedia- deve dizer-se, Laranjo apresenta todo
tamente políticos na existência das socie- um sofisticado programa de investiga-
dades. O protecionismo parece-lhe, neste ções, e também de doutrinação, que o
contexto, pouco mais do que um expe- aproxima muito conscientemente quer
diente parcial, sugerindo mesmo a maior de List, quer do “socialismo de cátedra”.
coerência de projetos de intervenção Entre outros aspetos, merece destaque
económica estatal, como os vulgarmen- a consciência evidenciada quanto ao
te associados ao “socialismo de cátedra” que considera o carácter globalmente
(FREITAS, 1906, 38-39). Apelando ao protecionista da generalidade das pau-
socialismo neste contexto, Freitas pare- tas portuguesas, da extrema-esquerda
ce em boa verdade assumir a paixão pela à extrema-direita do espectro político,
questão social enquanto possível sucedâ- segundo Laranjo geralmente em resulta-
neo parcial das tendências para a aposta do de meras considerações de realismo
no protecionismo pautal – mas também político, as quais teriam levado muito ra-
como seu complemento lógico, o que zoavelmente os governantes a conciliar
não deixa de ser interessante. com os interesses, reconhecidos como

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1168 Antilivre-cambismo

intrinsecamente legítimos, dos vários gam essa direção, auxílio e hospedagem,


grupos sociais. tornando-nos odiosos perante os africa-
O protecionismo de Laranjo é, em nos, desacreditando-nos perante a Euro-
suma, demasiado sofisticado para ser re- pa, como aconteceu com Livingstone; a
duzido a um mero antilivre-cambismo. Inglaterra apontada nas cortes portugue-
Enquanto deputado progressista, porém, sas por um ministro de Portugal como
defrontava a necessidade de explanar os uma nação de que não temos nada que
seus raciocínios de forma concisa, cap- recear para as nossas colónias de África!”
tando as atenções do potencial auditório (LARANJO, 1879, 23-25).
pelo menos tanto pela via da componen- Que o antilivre-cambismo de Laranjo
te emocional como através do recurso à correspondia a convicções firmemente
pura lógica. O seu discurso remete assim, meditadas é algo fora de questão, como
obviamente, ao contexto antibritânico o é também a articulação estreita daquele
do debate, constituindo a partilha dos com um consciente antibritanismo. Ainda
despojos coloniais pelos parceiros/rivais assim, deve repetir-se que esta exposição
europeus, e sobretudo a condição das de pontos de vista ocorria no contexto
colónias portuguesas assuntos trazidos à das suas atividades enquanto parlamentar
colação, e sendo o livre-câmbio explicita- do partido progressista, e que no âmbi-
mente colocado, neste âmbito, em para- to até mesmo desta formação partidária
lelo com as guerras do ópio e em geral (predominantemente de leal oposição
com os holocaustos vitorianos: monárquica a governos regeneradores),
“A Inglaterra, a nação que pelas suas o discurso português mainstream aponta,
circunstâncias naturais, reforçadas por mesmo nestes anos, não apenas para o li-
meios artificiais centralizou em si a in- vre-câmbio universal, mas também para a
dústria e se fez oficina do mundo, vê-se livre circulação mundial dos capitais, um
hoje a braços com uma crise prevista há e outro facto apontados como correlatos
muito pelos homens da ciência. É claro da livre circulação das ideias, apresentan-
que à proporção que as diversas nações do-se portanto tais tendências enquanto
que serviam de mercado à Inglaterra, inevitabilidades e mesmo inevitabilidades
forem progredindo industrialmente, o vantajosas, de maneira aliás muito análo-
poder da Inglaterra há-de ir diminuin- ga à forma mentis caraterística do ideário
do. Vão-se fechando já hoje uma gran- globalista dos começos do séc. xxi. A tí-
de parte dos mercados da Inglaterra, e tulo de exemplo, João Crisóstomo, do
a ativa nação vê que só a África a pode mesmo partido que Laranjo e bem mais
salvar. […] A Inglaterra, a nação que na influente politicamente do que ele, argu-
Oceânia faz desaparecer diante de si as menta de forma convicta pela inevitabili-
raças indígenas; que na Ásia oprime a dade da queda das “muralhas da China”
Índia com armas e mercadorias e enve- em todo o lado: “No fim do século XIX
nena a China com ópio; que na Europa não há muralhas da China, nem para a
empresta dinheiro a nações tontas para própria China, e os capitais e a ciência
lhes recolher a herança, como fazem os não têm pátria; é sempre boa política
usurários aos filhos famílias; que inven- convidá-los a concorrer para o progresso
tou para a Europa o ópio do livre-câmbio do país” (SOUSA, 1893, 23).
para lhe destruir a indústria; a Inglaterra, O ambiente de finais de séc. xix e prin-
cujos missionários dirigidos, auxiliados e cípios do séc. xx, porém, correspondeu
hospedados pelos portugueses, nos pa- em quase toda a Europa a uma queda em

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Antilivre-cambismo 1169

desgraça do livre-cambismo do período cada”, isto é, impedir quem vem depois


anterior, não raro depreciativamente de- de utilizar os mesmos expedientes a que
signado agora como manchesterianismo. nós recorremos primeiro, o que exprime
Neste contexto, faz sentido considerar o fundamental das ideias listianas sobre
emblemáticas as guinadas de posição do o imperialismo britânico do livre-câmbio.
famoso polígrafo Oliveira Martins, sem
dúvida mais duradouramente influente
em períodos posteriores da história das
Bibliog.: impressa: CANTILLON, Richard, Es­
ideias em Portugal do que qualquer ou-
sai sur la Nature du Commerce en général, Paris,
tro autor antes considerado. Partindo Institut National d’Études Démographiques,
duma liminar rejeição da proteção pau- 1952; CHANG, Ha-Joon, Kicking away the La­
tal em 1873 em Portugal e o Socialismo, já dder: Development Strategy in Historical Perspecti­
em 1885, porém, em Política e Economia ve, London/New York, Anthem Press, 2002;
Nacional, se manifesta claramente a favor FREITAS, Rodrigues de, “Um economista
da dita proteção, e mesmo de uma pro- português (António de Oliveira Marreca)”, in
FREITAS, Rodrigues de, Páginas Avulsas, Porto,
teção que pode ser considerada como
Livraria Chardron, 1906, pp. 1-76; LARAN-
sobretudo industrialista. O ideal de pro-
JO, José Frederico, As Concessões na Zambézia,
teger tudo, de forma mais ou menos in- Lisboa, Imprensa Nacional, 1879; LIST, Frie-
diferenciada, obtém entretanto plena drich, Sistema Nacional de Economia Politica,
consagração em 1890, na obra Fomento Madrid, M. Aguilar Editor, 1944; MARRECA,
Rural e Emigração, ao passo que a preten- António de Oliveira, Obra Económica, 2 vols.,
samente inevitável tendência geral para Lisboa, Instituto Português de Ensino à Dis-
a autarcia económica e para o imperia- tância, 1983; MARTINS, Joaquim Pedro de
Oliveira, A Inglaterra de hoje: Cartas de Um Via­
lismo, enquanto consequências da satu-
jante, Lisboa, Guimarães Editores, 1951; Id.,
ração dos mercados, são ideias afincada- Portugal e o Socialismo, Lisboa, Guimarães Edi-
mente defendidas por ele em A Inglaterra tores, 1990; Id., Política e Economia Nacional, Lis-
de hoje: Cartas de Um Viajante, grupo de boa, Guimarães Editores, 1992; Id., Fomento
textos de 1893. Rural e Emigração, Lisboa, Guimarães Editores,
Com todos estes ziguezagues e hesita- 1994; RICARDO, David, Princípios de Economia
ções, deve enfim sublinhar-se, os autores Política e de Tributação, Lisboa, FCG, 1975; SAY,
Jean-Baptiste, Traité d’Économie Politique, Paris,
de Oitocentos todavia transmitiram à pos-
Calmann-Lévy, 1972; SMITH, Adam, Riqueza
teridade uma formulação dos prós e con- das Nações, 2 vols., Lisboa, FCG, 1981; SOU-
tras da protecção e do livre-câmbio que SA, João Crisóstomo de Abreu e, Uma Carta
permaneceu basicamente intacta duran- do General João Crisóstomo Abreu e Sousa, Lis-
te o séc. xx e na verdade chegou, ainda boa, Tipografia do Jornal de Comércio, 1893;
em boa medida válida, até aos começos VINER, Jacob, The Customs Union Issue, New
do séc. xxi – a pontos de um famoso eco- York, Carnegie Endowment for World Peace,
nomista desse período, autor de obras 1950; digital: GRAÇA, João Carlos, “José Fre-
derico Laranjo”, in MATOS, Sérgio Campos
celebradas com furor editorial e apre-
(coord.), Dicionário de Historiadores em Portu­
sentadas enquanto dernier cri da teoria do gal: da Fundação da Academia Real das Ciências
crescimento económico, Ha-Joon Chang, aos Finais do Estado Novo (1779-1974), Lisboa,
dar àquele que é talvez o mais célebre dos Centro de História da Universidade de Lisboa:
seus livros um título manifestamente ins- http://dichp.bnportugal.pt/historiadores/
pirado não apenas nas ideias de List, mas historiadores_laranjo.htm (acedido a 10 out.
até mesmo numa sua expressão: Kicking 2013).
away the Ladder, “dar um pontapé na es- João Carlos Graça

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1170 Antilobotomismo

Antilobotomismo riscos elevados, a indeterminação dos al-


vos cirúrgicos e as degradantes alterações
da personalidade que começavam a ser
geralmente admitidas.
A adoção dos primeiros neurolépticos
(fármacos que somam à função sedativa
efeitos antipsicóticos positivos sobre alu-

E xpressão que designa a oposição à


prática da lobotomia, ou leucotomia,
e demais práticas cirúrgicas ablativas ou
cinações e delírios) na medicação psi-
quiátrica, por volta de 1952, coincidiu
com a redução acentuada do recurso à
lesionais do encéfalo com fins psiquiátri- psicocirurgia, sem no entanto extinguir
cos. “Lobotomismo” implica uma aceção a sua prática nem a controvérsia que a
pejorativa do conceito, correspondendo envolveu. A realização da 2.ª Conferên-
à crítica da excessiva importância dos lo- cia Internacional de Psicocirurgia, em
bos frontais para a compreensão das fun- Copenhaga, em 1970 – 22 anos após
ções psíquicas, normais e patológicas. a 1.ª –, deu nota de um recurso mais mo-
Com a realização das primeiras lobo- derado à psicocirurgia, estabelecendo cri-
tomias nos Estados Unidos da América, térios mais apertados na indicação, maior
em 1936, a expressão “lobotomista” foi ponderação ética e rejeição consensual
aplicada a Walter Freeman, como refere do método primitivo, procurando maior
Jack El-Hai na obra The Lobotomist, inten- rigor com a introdução e desenvolvimen-
sificando-se em seguida, tendo atingido o to da estereotaxia (método minimamen-
auge no final dos anos 40 do séc. xx, com te invasivo de intervenção cirúrgica que
a atribuição, em 1949, do Prémio Nobel usa um sistema tridimensional de coor-
da Fisiologia ou Medicina ao precursor denadas para localizar pequenos alvos no
do método, Egas Moniz (1874-1955), interior do cérebro) no arsenal tecnoló-
pelo valor terapêutico da leucotomia no gico da neurocirurgia.
tratamento de certas psicoses. A convicção de que os lobos frontais
O antilobotomismo assumiu também, distinguiam os primatas das outras espé-
no plano mediático, a forma de campa- cies, na medida do seu maior desenvolvi-
nhas internacionais pela desnobelização mento, alicerçou as principais conjeturas
de Egas Moniz, designadamente a con- evolucionistas a este respeito. O estudo
duzida por Christine Johnson na última das lesões acidentais nos lobos frontais
década do séc. xx. pôs em evidência, em muitos casos, a não
Discordando da validade das conclu- afetação das funções vitais e motoras. Por
sões que os praticantes da leucotomia isso, até ao início do séc. xx era chama-
pré-frontal, lobotomia frontal e deriva- da a zona silenciosa ou muda do cérebro.
das apresentaram, nomeadamente na A  singularidade evolutiva (maior de-
1.ª Conferência Internacional de Psicoci- senvolvimento nos primatas do que nas
rurgia, realizada em Lisboa em 1948, os outras espécies) e a singularidade fun-
antilobotomistas (críticos da psicocirur- cional (zona silenciosa) levaram a que
gia) apontaram as limitações do entendi- fosse adiantada a hipótese de que, por
mento que valorizava exageradamente o exclusão de partes, fosse aquela a zona de
papel dos lobos frontais na dinâmica psí- integração das funções psíquicas relacio-
quica, e denunciaram os efeitos colaterais nadas com a consciência, a coordenação
danosos daquele método, sublinhando os superior e o enquadramento comporta-

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Antilobotomismo 1171

mental. A concentração da atenção nesta


área do cérebro prolongou uma moda-
lidade de localizacionismo mitigado. As
convicções a este respeito foram ao pon-
to de alguns, como Miller e Cummings,
terem preconizado que o séc. xx seria o
século do lobo frontal.
Os defensores da eficácia terapêutica
da leucotomia pré-frontal, lobotomia
frontal e similares teorizadas no âmbito
da psicocirurgia – Egas Moniz, Walter
Freeman e seguidores – sustentavam o lo-
botomismo, enquanto aqueles que se lhe
opunham, embora com diferentes moti- D.R.
Walter Freeman (1895-1972).
vações, assumiam posições assimiláveis ao
antilobotomismo.
Na sua expressão mais simples, o antilo- cação, merece menção especial a relativa
botomismo rejeitava o valor terapêutico demarcação de Almeida Lima (neuroci-
das operações praticadas no âmbito da rurgião da equipa de Egas Moniz) e de
psicocirurgia desde 1935-1936, assinalan- Barahona Fernandes (psiquiatra da mes-
do que os efeitos colaterais indesejáveis ma equipa).
apagavam as parcas vantagens sintomáti- Para além das objeções levantadas por
cas que em muitos casos se obtinham. Na Sobral Cid e, mais tarde, por Diogo Fur-
segunda metade do séc. xx, os movimen- tado, Almeida Lima, um dos principais
tos identificados com a antipsiquiatria colaboradores de Egas Moniz, discordou
(&Antipsiquiatrismo) reforçaram a críti- quer de alguns aspetos da conceptualiza-
ca à psicocirurgia e a outros métodos de ção e da designação, quer da continui-
choque então em uso. No plano teórico, dade da aplicação do procedimento pri-
contestava-se o reducionismo experimen- mitivo por si implementado, juntamente
talista, que confundia eliminação de sin- com o inventor do método. Por outro
tomas com etiologia patológica. lado, Barahona Fernandes remeteu o mé-
Da bibliografia que acumulou as vá- todo – inicialmente apresentado como
rias fases das controvérsias que confron- curativo – para a categoria de mero tra-
taram lobotomistas e antilobotomistas, tamento de choque, menos eficaz do que
destacam-se logo na primeira fase (1935­ a insulinoterapia ou a eletroterapia en-
‑1950), pelo lado dos lobotomistas, a tão em uso. As críticas de Almeida Lima
descrição das primeiras leucotomias pré­ orientavam-se para o quesito de rigor no
‑frontais em Portugal, por parte de Egas plano neurocirúrgico, considerando in-
Moniz, e nos EUA, com Freeman e Watts, compatível a indeterminação dos alvos a
suscitando um intenso debate marcado lesionar e a imprecisão do procedimento,
por casos de imediata e frontal oposição estendendo a recém-formulada condena-
na Europa, como aconteceu com Sobral ção ao método standard modificado de
Cid e Henri Baruk, mas também, tempos Freeman e Watts, bem como à lobotomia
depois, nos EUA, com Peter Breggin e transorbital do psiquiatra Fiamberti, tam-
Elliot Valenstein. Entre o abandono do bém adotada por Freeman. Quanto a Ba-
método primitivo e a sua defesa e justifi- rahona Fernandes, estamos perante uma

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1172 Antilobotomismo

reavaliação do método elaborada após A Maverick Medical Genius Tragic Quest to Rid
teorização justificativa dos efeitos dete- the World of Mental Illness, New Jersey, Wiley &
rioradores da personalidade, chamando Sons, 2005; FERNANDES, Henrique Baraho-
na et al., “A clinical and psychological study
“regressão sintónica” ao efeito colateral
on leucotomy”, in Psychosurgery. 1st International
(FERNANDES, 1983, 88) e contestando
Conference, Lisboa, Livraria Luso-Espanhola,
as hipóteses iniciais avançadas por Egas 1949, pp. 147-156; FERNANDES, Henrique
Moniz. Em ambos os casos, a atribuição Barahona, Egas Moniz Pioneiro de Descobrimen­
do Prémio Nobel da Fisiologia ou Medi- tos Médicos, Lisboa, Instituto de Cultura e Lín-
cina, em 1949, contribuiu muito para a gua Portuguesa, 1983; FREEMAN, Walter, e
relativização das notas críticas e da des- WATTS, James, Psychosurgery in the Treatment of
valorização das linhas de argumentação Mental Disorders and Intractable Pain, Springfield,
Charles C. Thomas, 1942; FURTADO, Diogo,
contra o método, mesmo se oriundas
“Réflexions sur la lobotomie”, Jornal do Médi­
do núcleo de colaboradores próximos de co, vol. xiv, n.º 351, 1949, sep.; LIMA, Almei-
Egas Moniz. da, “A técnica cirúrgica da leucotomia cere-
A controvérsia acompanhou o desenvol- bral (1)”, A Medicina Contemporânea, ano  lxvii,
vimento da neurocirurgia e da psicofar- n.º 7, jul. 1949, pp. 267-271; Id., “Platão
macologia e avivou a tensão entre neuro- – Bacon – Egas Moniz. A propósito do tra-
logia e psiquiatria, colocando uma série de tamento das doenças mentais”, O Médico,
vol.  lviii, n.º 1142, 1973, sep.; MILLER, Bru-
questões que continuam a suscitar respos-
ce  L., e CUMMINGS, Jeffrey L. (orgs.), The
tas complexas de perfil interdisciplinar: Human Frontal Lobe. Functions and Disorders,
experimentação em humanos, interação New York, The Guilford Press, 2007; MONIZ,
cérebro-mente, etiologia das perturba- Egas, Tentatives Opératoires dans le Traitement de
ções mentais e neurológicas, superação Certaines Psychoses, Paris, Masson, 1936; VA-
das fronteiras disciplinares (psiquiatria/ LENSTEIN, Elliot, Brain Control. A Critical Exa­
neurologia). Lobotomismo e antilobo- mination of Brain Stimulation and Psychosurgery,
tomismo acabaram por se diluir noutras New York, Wiley, 1973.
controvérsias que emergiram com as re- Manuel Correia
formulações operadas pelas neurociên-
cias e pelos sucedâneos da neurocirurgia
funcional.
Sem embargo das numerosas alusões
ao tema nos media, em geral, a principal
inscrição do antilobotomismo no cinema
continua associada ao filme de Milos For-
man, Voando sobre Um Ninho de Cucos, pro-
duzido nos EUA, em 1975.

Bibliog.: BARUK, Henri, La Désorganisation de


la Personnalité, Paris, PUF, 1952; BREGGIN,
Peter, “Lobotomies: an alert”, American Journal
of Psychiatry, n.º 129, 1972, pp. 98-99; CID, J.
M. Sobral, Obras, vol. i, Lisboa, FCG, 1983;
CORREIA, Manuel, Egas Moniz e o Prémio No­
bel, Coimbra, Imprensa da Universidade de
Coimbra, 2006; EL-HAI, Jack, The Lobotomist.

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Antilusitanismo 1173

Antilusitanismo em “lyssa”, “fúria”  das bacantes (“Varro


pervenisse hiberos et persas et phoenicas
celtasque et poenos tradit. lusum enim li-
beri patris aut lyssam cum eo bacchantium
nomen dedisse lusitaniae et pana praefec-
tum eius universae. at quae de hercule ac
pyrene vel saturno traduntur fabulosa in

O vocábulo “lusitanismo” tem por base


o adjetivo “lusitano”, do latim lusi-
tanus, o qual é apontado, tradicionalmen-
primis arbitror”, Id., Ibid.). Como prevê o
próprio André de Resende, em Antiguida-
des da Lusitânia, rejeitando a tradução de
te e de modo pouco científico, como pro- “lusus” por “jogo”, não seria possível que
veniente do nome próprio de Lusos, filho o termo, designando uma geografia polí-
de Líber, antigo deus itálico do vinho. Te- tica anterior à romanização, proviesse do
ria sido esta figura mitológica a dar nome latim. André de Resende, não alcançan-
à Lusitânia, pois teria povoado a parte oci- do porém a extensão última da sua afir-
dental da península Ibérica. Esta etimolo- mação, mantém que “lusus” equivale a
gia encontra-se já na primeira gramática “Luso”, filho de Baco, alegando que assim
do português, de Fernão de Oliveira. No é este território designado desde o tempo
entanto, apesar de os dicionários do come- do deus romano.
ço do séc. xxi manterem esta etimologia A forja de etimologias maravilhosas
forjada com base no dimensionamento para Lusitânia teve outras continuidades.
maravilhoso de Portugal, a mesma deverá No Vocabulario de Bluteau, na entrada
ter sido mais mundana, permanecendo a “Lusitano”, menciona-se que Manuel de
origem do termo ainda incerta. O nome Faria, no seu comentário ao canto primei-
Lusitania encontra-se já abonado nas His- ro de Os Lusíadas, afirma que a raiz “luso”
tórias de Políbio, que cobre o período de está três vezes presente no nome dos lusi-
264 a.C. a 146 d.C., designando a provín- tanos, a saber: “A primeira pelo amor que
cia romana. A Lusitânia apenas surge com lhes teve o rei Luso, em retorno da estima-
a presença romana em espaço peninsular, ção com que os portugueses o veneraram.
num estratégico processo político e admi- Luso era filho de Sicceleo, rei da Espanha
nistrativo nem sempre coincidente com a por 1500 a.C. A segunda, porque alguns
expressão territorial de interesses e afini- anos adiante, saindo Baco a Espanha, lhes
dades culturais e étnicas autóctones, mas deu por particular rei a seu filho, ou com-
assinalando uma expressiva passagem de panheiro Luso, ou Lysias [...]. A terceira
etnónimo a topónimo. O valor do tema re- porque a terra de Portugal jaz ao longo
vela-se logo pelas sofisticadas construções do mar e em língua Vascoense, Lusa sig-
eruditas que rapidamente fazem esque- nifica longitude ou comprimento”; Blu-
cer o caminho do epónimo, pois supõe­ teau acrescenta ainda, na mesma entrada,
‑se que é com base numa tradução errada uma outra etimologia, de carácter místi-
das palavras “lusum enim Liberi patris”, co: “como da Lusitania é tão próprio o
de Plínio, o Velho, na História Natural (III, culto da igreja católica, parece que não
8), que se sustenta que “Lusitânia” deriva sem mistério lhe coube um dos nomes de
da figura mitológica Luso. No entanto, o Jerusalém, em que se representa a igreja
texto de Plínio, que cita Varrão, informa militante, pois um deles é Lusa, como se
que o termo “Lusitânia” terá tido origem vê num versos que Abraão Ortelio traz na
em “lusus”, “jogos” do pai Baco, ou então sua Sinonímia geográfica”.

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1174 Antilusitanismo

Estas etimologias alheadas do méto- paradoxalmente, a sua oposta, da resis-


do científico interessam mais para com- tência, que acaba por aglutinar, sincreti-
preendermos a construção do lusita- camente, todos os fatores (geográficos,
nismo do que a verdadeira etimologia, políticos, étnicos, económicos, mentais)
para cuja delineação não existem dados em seu favor, cristalizada em figuras he-
suficientes. Nota-se que, em todas elas, roicas como Viriato – que foi digerido
está presente o carácter maravilhoso e desde Teófilo Braga (1843-1924) a João
até providencial em que se quis assen- Aguiar (1943-2010).
tar a edificação da ideia de Lusitânia, O próprio termo assume uma dimen-
nutriente do lusitanismo. Na realidade, são de profundo significado identitário
a sua evolução e o seu conteúdo expres- que se revela, por si só, portador de um
sivo em contexto histórico conformam a sentido anti – por oposição ao outro
existência de uma representação da uni- castelhano (particularmente durante a
dade nacional, remetendo para o proces- monarquia dual e a Restauração) –, mas
so de construção erudita das identidades também étnico (quase recuperando o
geográficas e espaciais nas mais variadas seu sentido original de etnónimo), no
escalas. Desde a conceção herdada, as- caso de outras culturas do mundo: negro,
sente na recuperação da visão clássica, índio/Brasil, asiático. Daí, igualmente, a
ela própria digerida pela medievalidade sua força como elemento congregador e
(da analística dos sécs. viii e ix às cróni- matriz no discurso diplomático interna-
cas tardo-medievais), assumindo papel cional (de que são exemplo as Orações
protagonista nas conceções e interpreta- de Obediência dos reis portugueses aos
ções renascentistas e humanistas (de que sucessivos chefes da Igreja). O lusitanis-
são exemplo Damião de Góis, Hispania, mo é, em essência, uma afirmação da
1542; Luís de Camões na sua obra maior, identidade e esta, no seio da afirmação
Os Lusíadas; e o texto de Fr. Bernardo de nacional, vive do confronto com o outro.
Brito, A Monarchia Lusytana, 1596-1607), Daí também a iconografia vinculada na
para depois se colocar, paulatina mas de- figura da Lusitânia na edição de 1677 da
cisivamente, a tónica numa Nova Lusitâ- Epítome de las Historias Portuguesas de Fa-
nia, título da obra de Francisco de Brito ria e Sousa, que, ladeada pela Fé e pela
Freire, publicada em 1675 no Brasil. As- Fortaleza, revela o seu estatuto planetá-
sim, percebemos que o tema encerra po- rio através de alusões militares e políticas
tencialidades de análise que ultrapassam (nas armas, na couraça, no capacete ao
a dimensão meramente política e ideoló- estilo romano clássico, no cetro), sempre
gica, assumindo-se como estruturante na secundada pela proteção da cruz divina,
definição genérica de um perfil identitá- assentando nos quatro continentes, eles
rio e emocional de grande abrangência; próprios figurados como reis montados
argumentos que diminuíram a força da em animais de reconhecida força e gran-
evidência da impossibilidade factual de de porte e todos carregando a figura ale-
fazer coincidir a geografia da Lusitânia górica cimeira.
(província romana) com a de Portugal Mas um novo caminho se desenha com
(passado, contemporâneo ou mesmo os sécs. xvii e xviii: a afirmação da Nova
futuro, nas palavras de António Vieira), Lusitânia. Sinal evidente de uma nova
até porque a Lusitânia que a transdiscur- apropriação do termo que não represen-
sividade origina, perpetua e legitima não ta agora apenas o território tradicional da
é, na verdade, a entidade romana, mas, nação, mas cujo espírito étnico, indelével

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Antilusitanismo 1175

cipação política” (MENDES, 2009, 57),


curiosamente consentâneo com a neces-
sidade de consolidar a construção, afir-
mação e legitimação de uma nacionali-
dade, metonímia do anterior processo da
metrópole que empresta, nesta ocasião, a
figura, o motivo e o objeto da oposição.
Os múltiplos episódios de antilusitanismo
que percorrem todo o séc. xix, alimen-
tando-se do imaginário pós-colonial, e se
prolongam pelo séc. xx, com uma car-
ga política progressivamente mais dimi-
nuída, mas sobrevivendo no anedotário
humorístico popular, revelam a força e
a maleabilidade transdiscursiva e mental
do imaginário da identidade portuguesa.
O lusitanismo e a sua antítese corres-
pondem, enfim, à análise de uma so-
brevivência, sem fundamento histórico
concreto que não o da sua construção
identificável, que renasce como conceito
historiográfico pelas mãos de uma elite
Folha de rosto de Monarchia Lusytana,
de Fr. Bernardo de Brito (1569-1617). religiosa e política e que assume uma pro-
jeção ímpar, pulverizando-se no uso e di-
e perene pode ser transposto, estrategica- versificando-se na forma; e não há outra
mente em proposta assinalável, para um que tenha concorrido até hoje com tanta
novo espaço político, numa reconfigura- persistência e tão carregada de harmóni-
ção da geografia dos poderes, qual Fénix cos paradoxos. Ela permite aquilatar da
renascida. Trata-se de um programa ex- complexidade e profundidade dos subs-
tenso no espaço e no tempo, com diversas tratos em que se situam estas problemáti-
e justapostas configurações. cas, pois os mecanismos de identidade e
Não será, pois, por acaso que é do ou- da memória, no recurso ao passado, são
tro lado do Atlântico que vem a maior altamente significativos na nossa configu-
manifestação daquilo a que poderemos ração enquanto comunidade.
chamar antilusitanismo, um termo em-
pregado pelos próprios autores e atores
da época. Não tendo sido concretizado o Bibliog.: Bluteau, Rafael, Vocabulario Portu­
sonho profético de transpor a Lusitânia guez e Latino, 8 vols. e 2 sups., Coimbra, Colle-
em tempo útil, exulta-se com a própria gio das Artes da Companhia de Jesu, 1712­
individualidade e identidade, expulsan- ‑28; GAMA, Orlando Miguel P. G. M. da,
do e saneando a entidade geradora. Des- “Imagens cartográficas do Brasil na historio-
grafia setecentista”, in GARCIA, João Carlos,
te modo, o Brasil nasce de parto difícil e
A Nova Lusitânia. Imagens Cartográficas do Brasil
com naturais sintomas de rejeição do ber- nas Colecções da Biblioteca Nacional (1700-1822),
ço estafado da clássica figura alegórica. Lisboa, Comissão Nacional para as Come-
Processo longo com “trajetória particular morações dos Descobrimentos Portugueses,
e extensa, iniciada bem antes da eman- 2001, pp. 81-106; GUERRA, Amílcar, Plínio­

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1176 Antilusofonismo

‑o­‑Velho e a Lusitânia, Lisboa, Colibri, 1995;


Houaiss, Antônio et al., Dicionário Houaiss da
Antilusofonismo
Língua Portuguesa, Lisboa, Círculo de Leitores,
2001; LLORIS, Francisco Beltrán, “De etnia
a provincia: identidades colectivas en la Lusi-
tania antigua”, in OLIVEIRA, Francisco et al.,
Espaços e Paisagens: Antiguidade Clássica e Heran­
ças Contemporâneas, vol. 3, Coimbra, Associa-
ção Portuguesa de Estudos Clássicos, 2010,
pp.  33­‑51; MENDES, José Sachetta Ramos,
“Lei e etnicidade no Brasil: entre a lusofobia
M ovimento linguístico, sociológico
e político que se posiciona contra
o conceito de lusofonia enquanto união
e o favorecimento jurídico dos Portugueses”, cultural e linguística da Comunidade dos
Revista de Ciência e Cultura, vol. 61, n.º 2, 2009,
Países de Língua Portuguesa (CPLP) – An-
pp. 56-59; Oliveira, Fernão de, Grammati­
ca da Lingoagem Portuguesa, Lisboa, Biblioteca gola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau,
Nacional, 1981; Plínio o velho, Naturalis Moçambique, Portugal, São Tomé e Prín-
Historia; Políbio, Historiae; Resende, André cipe e Timor-Leste (a que se juntou, em
de, As Antiguidades da Lusitânia, Coimbra, Im- 2014, a Guiné Equatorial) –, o antilusofo-
prensa da Universidade de Coimbra, 2009; nismo está presente na maioria dos países
RIBEIRO, Gladys Sabina, “Por que você veio referidos, embora surja com maior inci-
encher o pandulho aqui? Os Portugueses, o
dência e mais visivelmente naqueles que
antilusitanismo e a exploração das moradias
populares no Rio de Janeiro da República
foram colonizados por Portugal durante
Velha”, Análise Social, vol. xxix, n.º 127, 1994, a expansão marítima portuguesa. Con-
pp. 631-654; ROWLAND, Robert, “Manuéis quanto proveniente de vários contextos,
e Joaquins: a cultura brasileira e os Portugue- a argumentação usada pelos linguistas, es-
ses”, Etnográfica, vol. v, n.º 1, 2001, pp. 157­ critores, pensadores, políticos e cidadãos
‑172; Sousa, Manoel de Faria e, Lusiadas, de que se opõem à lusofonia nas primeiras
Luis de Camoens, Principe de los Poetas de España, duas décs. do séc. xxi prende-se maiorita-
Comentadas, Madrid, Juan Sanches, 1639; Id.,
riamente com duas questões: a identifica-
Epitome de las Historias Portuguesas, Divididas en
Quatro Partes, Brusselas, Francisco Poppens, ção de lusofonia com neocolonialismo, e
1677; SOUZA, Ricardo Luiz de, “O antilusita- as motivações meramente económicas da
nismo e a afirmação da nacionalidade”, Poli­ criação de uma comunidade lusófona.
teia, vol. 5, n.º 1, 2005, pp. 133-151; VILATE- A partir do séc. xv, o português e a cul-
LA, L. Perez, “De la Lusitania independiente a tura portuguesa começaram a ser dissemi-
la creacion de la provincia”, in GORGES, G., e nados pelos territórios que os Portugueses
NOGALES, T., Sociedad y Cultura en la Lusitania
conquistaram e estabelecidos onde os co-
Romana, Merida, Editora Regional de Extre-
madura, 2000, pp. 73-84. lonos portugueses se fixaram (frequente-
mente pela força, seja através da educação
Orlando Miguel Gama primária dos nativos em português, da le-
Alexandra Soares Rodrigues
gislação régia que torna obrigatório o uso
do português, ou ainda da assimilação das
línguas autóctones, pré-coloniais, pelo por-
tuguês, que assim as elimina). No entanto,
é no séc. xix, quando a incapacidade de
Portugal competir com as novas potências
industrializadas se torna evidente, aquan-
do da realização do “mapa cor-de-rosa”,
que, a fim de reunir recursos económi-

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Antilusofonismo 1177

cos inexistentes no território europeu do


Império Português, esta antiga potência,
agora empobrecida, tenta criar um projeto
político lusófono que una o Atlântico ao
Índico e Angola a Moçambique.
Todavia, foi durante a ditadura de An-
tónio Oliveira Salazar, entre as décs. de 30
e 60 do séc. xx, que a ideia de lusofonia
se afirmou como a génese identitária de
Portugal. Este feito foi orquestrado pelo
regime ditatorial com o intuito de unir
os Portugueses na concordância com o
Governo no que dizia respeito à Guerra
Colonial (tornando-se, deste modo, a lu-
sofonia um argumento pró-colonialista),
e conseguido através da apropriação po-
lítica da tese lusotropicalista do sociólogo
brasileiro Gilberto Freyre, presente em
O Luso e o Trópico. Salazar, servindo-se des- “Mapa cor-de-rosa”.
ta teoria sociológica, de Mensagem (poe-
ma-épico-místico de Fernando Pessoa, cia das ex-colónias, o que se compreende
concebido à luz de uma fraternidade uni- enquanto resultado do trauma sofrido
versalizante e de um império espiritual aquando da perda destes países e do con-
movido pela língua portuguesa) e da fra- sequente fim do Império Português, no
se “A minha pátria é a língua portuguesa” pós-25 de Abril. Este luto foi feito relativi-
(posteriormente, tornada bandeira de zando a violência dos Portugueses, com-
colonialistas, lusofonistas e europeístas), parativamente com outros colonizadores,
também de Fernando Pessoa (numa li- sobre os povos colonizados, apagando-se
gação que este poeta modernista, entre- a memória de massacres executados pe-
tanto morto, decerto renegaria, dado los primeiros, como é o caso do massacre
o seu manifesto desprezo pelo ditador, de Wiriyamu e do massacre de Mihinjo, e
caracterizado no poema “António de Oli- perpetuando-se o mito de uma coloniza-
veira Salazar” como um “tiraninho” “fei- ção suave.
to de sal e azar” [PESSOA, 1979, 349]), Na déc. de 90 do séc. xx, começou a sur-
promoveu a lusofonia como base de um gir em Portugal uma primeira reflexão so-
império construído sobre uma afetivida- bre o assunto, especialmente nas ciências
de multiétnica entre o país colonizador sociais e humanas (pelas vozes de Cláudia
e os países colonizados (concretamente, Castelo, Eduardo Lourenço e Miguel Vale
Angola e Moçambique, os últimos a se- de Almeida), permitindo que se começas-
rem descolonizados), que negaria qual- se a refletir sobre a confusão entre língua
quer sinal de tensão ou agressão entre e cultura a que o conceito de lusofonia
as partes envolvidas. Funcionando como pode conduzir, e sobre as relações entre
argumento serenador durante o Estado lusofonia e colonialismo / imperialismo
Novo, a lusofonia tem-se mantido em ou neocolonialismo / neoimperialismo.
Portugal como algo quase inquestionável, Apesar dos trabalhos de António Tomás e
apesar da descolonização e independên- Victor Barros, em Angola; Eliso Macamo

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1178 Antilusofonismo

e Mia Couto, em Moçambique; e Cláudia poder a quem fala a língua oficial e re-
Castelo e Joaquim Valente, em Portugal, tirando poder a quem não a fala, e que
verifica-se, em 2017, um exíguo número perde, assim, socialmente, a sua voz.
de estudos questionando a lusofonia. Este Desta dinâmica de assimilação/destrui-
facto aponta para alguma incapacidade ção linguística, é paradigma a situação
de um Portugal pós-colonial percecionar da “língua geral” brasileira ou nheen-
respeitosamente as identidades dos países gatu. Mistura entre português e tupi, o
colonizados que estão a ser reconstruí- nheengatu era uma língua ensinada pe-
das desde as respetivas independências, los missionários jesuítas (que a adotaram
e para alguma dependência, consciente como sua, numa lógica de vasos culturais
ou inconsciente, das ex-colónias em rela- comunicantes, havendo mesmo registo
ção ao país colonizador, dependência que de poesia luso-brasileira escrita por estes
pode ser vista como incapacidade de criar em nheengatu) até, no séc. xviii, esta
identidades linguísticas e culturais não lu- língua híbrida, que unia duas culturas,
sófonas. ter sido proibida aquando da oficializa-
A partir do final do séc. xx, o antilu- ção do português por decreto do mar-
sofonismo apresenta a lusofonia como a quês de Pombal (sendo que, a partir de
marca de um império que acabou, defen- tal momento, falar e escrever em portu-
dida por fações políticas conservadoras, guês passou a simbolizar ser civilizado,
posicionadas tanto à esquerda quanto à pretendendo esta estratégia colonialista
direita, e mantida porque, alimentando a conquistar súbditos para a Coroa portu-
ilusão de a CPLP ser uma pátria de lín- guesa). Esta situação demonstra algumas
gua comum, se suaviza o trauma do fim consequências culturais da imposição
do Império Português. Esta caracteriza- da língua a um povo – primeiramente,
ção argumenta que a lusofonia, símbolo causa a destruição de línguas autóctones
da negação de uma morte, dificulta criar (o tupi), que são assimiladas pela língua
pensamento crítico sobre o Portugal colo- do país colonizador (o português); pos-
nialista e as novas identidades dos países teriormente, destrói uma nova língua
que têm o português como língua oficial, (o nheengatu), que fundia, de forma
e questionar por que motivo(s) o princi- mais harmoniosa que o português, duas
pal interessado na lusofonia no séc.  xxi culturas diferentes; finalmente, estratifi-
é Portugal, e não Angola ou Moçambi- ca diferentes culturas e línguas, caracteri-
que, países com uma elevada taxa de zando negativamente a cultura e a língua
cidadãos antilusofonistas (VALENTIM, autóctones, em prol da língua coloniza-
2004). Para este movimento, a lusofonia dora, que civiliza.
constitui uma “amnésia sobre o passado Esta intromissão do Estado na criação
pré-colonial” (RIBEIRO, Público, 18 jan. da língua está em clara oposição ao que
2013) que sustenta erros como a ideia Eduardo Lourenço, autor crucial para o
de os povos autóctones colonizados te- pensamento pós-colonialista em Portu-
rem sido descobertos pelos Portugueses, gal, inspirado pela conceção chomskyana
promovendo a ignorância sobre as suas de língua como uma construção feita por
identidades pré-coloniais. Argumenta-se, um povo e nunca imposta, estabelece:
também, que a oficialização do português a lusofonia enquanto “a existência de
nestes territórios conduziu à assimilação várias línguas portuguesas” que resultou
(e, portanto, destruição nalguns casos) da “transformação do reino português
das línguas aí então faladas, conferindo em império” (LOURENÇO, 2004, 112).

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Antilusofonismo 1179

Assim, e porque os povos autóctones, medida em que os que estão desprovidos


apesar de colonizados, não passaram a de conhecimentos linguísticos relativos à
ver o mundo como portugueses (por não língua oficial não têm acesso ao poder.
o serem), o antilusofonismo frisa que, a Com efeito e consequentemente, a inves-
par do português, na CPLP, se mantêm vi- tigação que os estudos pós-coloniais têm
vas muitas línguas não oficiais: em Ango- vindo a desenvolver e a criação do Acordo
la, fala-se kikongo, kimbundo, tchokue, Ortográfico de 1990 (AO 90) entre os paí-
umbundo, mbunda, kwanyama, nhaneca, ses da CPLP no fim do séc. xx e no início
fiote, nganguela; no Brasil, 305 etnias in- do séc. xxi conduziram a um aumento da
dígenas falam 274 línguas diferentes, para tendência antilusofonista em Angola, no
além do alemão e do italiano, línguas Brasil e em Portugal, verificando-se uma
cooficiais nalguns territórios nacionais; clivagem entre os posicionamentos luso-
em Cabo Verde, fala-se cabo-verdiano ou fonistas dos representantes dos Estados
crioulo; na Guiné-Bissau, fala-se crioulo, envolvidos e a atitude antilusofonista de
mandjaco, mandinga; em Moçambique, alguns cidadãos dos mesmos países, ainda
fala-se cicopi, cinyanja, cinyungwe, ci- que esta última seja vivida de forma dife-
senga, cishona, ciyao, echuwabo, ekoti, rente. No caso de Angola, como salienta
elomwe, gitonga, maconde, kimwani, ma- José Eduardo Agualusa, o português en-
cua, memane, suaíli, suazi, xichanga, xi- raizou-se muito mais nas populações au-
ronga, xitswa, zulu; em São Tomé e Prín- tóctones depois da independência do que
cipe, fala-se forro, angolar, tonga, monco; durante o colonialismo, o que, à partida,
e, em Timor-Leste, fala-se tétum, atauren- não seria a tendência mais lógica num país
se, baiqueno, becais, búnaque, canaimi- que esteja a fazer a sua descolonização e a
na, fataluco, galóli, habo, idalaca, lovaia, reconstruir a sua identidade. No entanto,
macalero, macassai, mambai, quémaque, é possível compreender esta inversão do
tocolede. Esta apreciação leva-o a acusar senso comum percebendo o conceito de
a lusofonia de, ao padronizar linguisti- comunidade lusófona enquanto comuni-
camente e agir neoimperialmente num dade de partilha de interesses políticos e
mundo pós-colonial, pôr em causa estas económicos, com vista ao usufruto de ter-
línguas e o poder dos seus falantes, consi- ritórios (à imagem do que acontece em
derando que seria preferível que os povos comunidades e alianças como a comuni-
das ex-colónias comunicassem oralmente dade francófona, a Commonwealth, o G8
nas línguas nativas referidas. A propósito, ou o G20). Poderá ler-se, então, a esta luz a
António Filipe Augusto, expresso antilu- defesa da lusofonia por José Eduardo dos
sofonista, caracteriza a África lusófona Santos, presidente de Angola, criticado
como tendo uma “identidade prótese”, por antilusofonistas do norte do país que
que assimilou identidades pré-coloniais, defendem uma identidade angolana mais
eliminando-as, permitindo uma recolo- centrada nas culturas pré-coloniais, e que
nização do português, apesar da inde- o apelidam de “falso africano” (AGUALU-
pendência ganha com a descolonização, SA, Público, 24 set. 2006).
e uma manutenção do imperialismo lin- No Brasil, e apesar de, desde a instaura-
guístico e cultural dos cinco séculos de ção da independência, salvo um momento
ocupação portuguesa. Acrescenta ainda inicial em que se fizeram sentir tendências
que esta eliminação de identidades frag- nacionalistas e antilusófonas, a língua ofi-
menta socialmente os cidadãos africanos cial portuguesa ser um facto que não sus-
que resistem a este neocolonialismo, na cita discussão maior, verificou­‑se, durante

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1180 Antilusofonismo

os anos de discussão do AO 90, alguma Paradoxalmente, é em português que o


indiferença relativamente à questão lu- antilusofonismo ataca a lusofonia. É tam-
sófona e à opinião dos outros países da bém em português que esta discussão
CPLP sobre a lusofonia. Por fim, e con- acontece – simultaneamente, permitindo
trariamente ao que sucedeu no Brasil, a reconstrução identitária dos países colo-
em Portugal, verificou-se, desde a déc. nizados, mas recolonizando-os ainda.
de 90 do séc. xx, uma grande discussão
pública sobre o assunto (&Antiacordis-
Bibliog.: impressa: CASTELO, Cláudia, “O Modo
mo). À imagem do que alguns linguistas
Português de Estar no Mundo”: o Luso-Tropicalismo
angolanos, como Amélia Mingas, de- e a Ideologia Colonial Portuguesa, Porto, Afronta-
clararam – que o objetivo maior do AO mento, 1998; FREYRE, Gilberto, O Luso e o Tró­
90 era ser uma legitimação da variante pico, Lisboa, Comissão Executiva do V Cente-
do português falado no Brasil –,  várias nário da Morte do Infante D. Henrique, 1960;
vozes da sociedade e da academia por- JUNIOR, Jair de Almeida, “Antilusofonismo”,
tuguesas, e, com especial destaque, a Revista de Estudos de Cultura, n.º 1, jan.-abr.
2015, pp. 62-68; LOURENÇO, Eduardo,
do escritor, ensaísta e tradutor Vasco
A Nau de Ícaro Seguido de Imagem e Miragem da Lu­
Graça Moura, levantaram-se contra o
sofonia, Lisboa, Gradiva, 2004; PESSOA, Fer-
AO 90, revelando-se antilusófonas (se a nando, Da República (1910-1935), Lisboa, Áti-
lusofonia implicasse aceitar as regras do ca, 1979; VALENTIM, Joaquim Manuel Pires,
acordo em causa). A argumentação utili- Identidade e Lusofonia nas Representações Sociais de
zada para justificar este posicionamento Portugueses e de Africanos, Dissertação de Dou-
anti de grande parte da opinião pública toramento em Psicologia Social apresentada
portuguesa centrou-se, por um lado, na à Universidade de Coimbra, Coimbra, texto
policopiado, 2004; digital: AGUALUSA, José
crença de que o AO 90, ao homogenei-
Eduardo, “Fronteiras perdidas”, Público, 24
zar graficamente as variantes da língua set. 2006: http://macua.blogs.com/moam-
oficial da CPLP, desfigurava a grafia do bique_para_todos/2006/09/lngua_e_poder.
português europeu, considerado a va- html (acedido a 11 set. 2017); AUGUSTO,
riante pura e correta, donde as outras António Filipe, “África lusófona: uma iden-
decorriam e às quais este não se deve- tidade prótese”, O  País: http://opais.co.ao/
ria vergar; e, por outro lado, na acusa- africa-lusofona-uma-identidade-protese-ou-
mentes-colonizadas-i (acedido a 2 ago. 2017);
ção de que o acordo servia interesses
CASTELO, Cláudia, “O lusotropicalismo e o
empresariais (editoriais) e geopolíticos colonialismo português tardio”, Buala, 5 mar.
brasileiros (especialmente, em relação 2013: http://www.buala.org/pt/a-ler/o-luso-
aos países africanos lusófonos). Deste tropicalismo-e-o-colonialismo-portugues-tar-
modo, o AO 90, ao invés do seu propó- dio (acedido a 2 ago. 2017); GARCIA, Elisa
sito de união diplomática e unificação Frühauf, “O projeto pombalino de imposição
linguística e cultural, desvelou xenofo- da língua portuguesa aos índios e a sua apli-
bia e racismo da parte de alguns países cação na América Meridional”, Tempo, n.º 23,
jul. 2007: http://www.historia.uff.br/tempo/
lusófonos envolvidos na discussão, moti-
artigos_dossie/v12n23a03.pdf (acedido a 2
vados pelo sentimento de pertença e de ago. 2017); RIBEIRO, António Pinto, “Para
maior direito de legislar a língua, como acabar de vez com a lusofonia”, Público, 18
foi o caso de Portugal, e por interesses jan. 2013: https://www.publico.pt/opiniao--
económicos rivais, demonstrando algu- -politica-cultural/jornal/para-acabar-de-vez-
ma fragmentação no projeto cultural, com-a-lusofonia-25877639 (acedido a 11
linguístico e político em que consiste o set. 2017).
mundo lusófono. Joana Lima

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Antilusotropicalismo 1181

Antilusotropicalismo descolonizar, o Estado Novo manipulou


o lusotropicalismo para caucionar cien-
tificamente as políticas e as pretensões
do Governo português, de forma a con-
vencer a comunidade internacional da
excecionalidade do colonialismo luso e
a preservar o império colonial. A convi-

L ogo no próprio título, Casa-Grande


e Senzala (1933), estudo de Gilberto
Freyre sobre a formação da família bra-
te do ministro das Colónias, Sarmento
Rodrigues, Gilberto Freyre viaja por Por-
tugal e quase todos os seus territórios ul-
sileira sob o regime da economia patriar- tramarinos em 1951, tornando visível a
cal, anuncia a hibridez como elemento conivência entre o intelectual e o poder.
característico da sociedade brasileira. A apropriação nacionalista do lusotropi-
Para o autor, “a sociedade brasileira é de calismo fez tábua rasa da natureza “supra-
todas da América a que se constituiu mais nacional” que Freyre atribuía ao mundo
harmoniosamente quanto às relações de criado pelo Português, “federação quan-
raça”. Este “ambiente de quase reciproci- do não política, cultural” (Id., s.d.a, 46),
dade cultural” (FREYRE, 2002, 119) seria que não era incompatível com a indepen-
impensável sem a “aptidão para a vida dência das colónias.
nos trópicos” (Id., Ibid., 33) revelada pe- Embora o lusotropicalismo tenha con-
los Portugueses na criação de sociedades tribuído para a autoimagem dos Por-
compósitas, mas unificadas, permitindo tugueses como povo tolerante e não ra-
ao povo luso triunfar em contextos onde cista, particularmente capacitado para
outros colonizadores falharam, sem dei- mediar o diálogo com o hemisfério sul,
xar de ser europeu. É nesta particularida- do mesmo modo que muitas das formu-
de lusíada que Freyre radica o lusotropi- lações freyrianas ajudaram a configurar a
calismo, teoria que completará sobretudo identidade brasileira, a teoria lusotropi-
em O Mundo Que o Português Criou (1941), calista nunca foi consensual. O carácter
obra em que estende aos diferentes ter- pouco científico da “sociologia de cor-
ritórios então sob administração portu- da grossa” (LOURENÇO, 2014, 56) de
guesa a natureza simbiótica inicialmente Freyre, baseada em intuições pessoais,
atribuída à cultura brasileira, e em Um
Brasileiro em Terras Portuguesas (1953), em Gilberto Freyre (1900-1987).
cujas páginas designa como lusotropical
a civilização a que o Português deu ori-
gem nas suas andanças pelo mundo. Se-
gundo o sociólogo pernambucano, este
empreendimento cultural reflete a des-
valorização da componente rácica pelo
Português, ele próprio fruto do cruza-
mento de várias raças, a sua natureza mais
cristocêntrica do que etnocêntrica, o seu
lirismo religioso e a plasticidade do seu
carácter.
Após a Segunda Guerra Mundial, quan-
do Portugal sofreu pressões externas para
D.R.

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1182 Antilusotropicalismo

generalizações abusivas e preconceitos sentados por Mondlane, que poemas de


de descendente de senhor de engenho, Noémia de Sousa, de Craveirinha e do
foi o principal aliado dos seus detratores. angolano António Jacinto evocam litera-
Em Portugal, nos anos 30-40 do séc. xx, a riamente, não diferem dos resultados da
conceção fraterna da colonização portu- análise que, no início dos anos 60, Char-
guesa colidia com o discurso oficial e as les Boxer fez das relações do colonizador
práticas racistas, como faz notar Cláudia português com o seu colonizado entre os
Castelo. Na mesma época, António Sér- sécs. xv e xix. Contrariamente ao que
gio sugere que o sucesso da colonização supunha Freyre, não era por imitar colo-
do Brasil se deveu às particulares condi- nialismos estrangeiros que o colono por-
ções físicas da colónia americana e não tuguês tinha comportamentos indignos
às qualidades intrínsecas do povo portu- da sua natureza cristocêntrica. A este res-
guês. Maria Archer, por sua vez, questio- peito, delimitações temporais e espaciais
na implicitamente a natureza lusotropi- como as sugeridas por Gabriel Mariano
cal das colónias portuguesas em África, impediriam conceções essencialistas dos
nas quais “se atrofiavam os elementos Portugueses e uma visão da coloniza-
que se expandiam no Brasil” (CASTELO, ção em abstrato. Também a assimilação,
2011, 74). pressupondo a superioridade da cultura
Na segunda metade do séc. xx, o con- portuguesa, era, segundo Mondlane, cla-
sentido aproveitamento ideológico do ramente racista. Mário Pinto de Andrade,
lusotropicalismo pelo Estado Novo ele- no seu inaugural texto antilusotropicalis-
vou o nível da contestação à teoria do ta de 1955, que assina com o pseudónimo
escritor brasileiro, sobretudo no campo Buanga Fele, considera-a mesmo uma
político. Até então pouco audíveis, são prática segregacionista que contraria
principalmente vozes africanas, quase o convívio fraternal de culturas, o qual,
sempre ligadas aos movimentos de liber- afirma, nunca existiu nas colónias por-
tação das colónias, que vão contrapor, na tuguesas, onde a cultura do colonizador
arena internacional, o seu testemunho à se sobrepôs à do colonizado. Segundo o
propagandística versão oficial do colonia- mesmo autor, a mestiçagem é outra mira-
lismo português, a qual é também refu- gem freyriana, pois não resultou de uma
tada por autores europeus pertencentes política consciente, mas da debilidade do
ao campo cultural. Que os Portugueses Português como colonizador e da falta de
eram racistas comprova-o, como demons- mulheres brancas nas colónias, facto este
tra Mondlane, não só a legislação relativa igualmente apontado por Mondlane e
ao trabalho e à cidadania dos nativos afri- Eduardo Lourenço. Para este último, “é o
canos, mas também a ineficácia de novas colonizador o fruto dela [miscigenação]”
leis resultantes da pressão internacional. (LOURENÇO, 2014, 152), salientando
Uma sociedade rigidamente hierarquiza- ao mesmo tempo a relação de domínio
da e dominada por uma minoria branca, que lhe subjaz e retirando ao Português
a existência de trabalho forçado e de con- o exclusivo da sua prática. Sublinha ain-
tratados, a discriminação salarial entre da a “bem restrita vigência” (Id., Ibid.,
negros e brancos, assim como a depen- 56) dessa conduta e os interesses políti-
dência político-económica dos primei- cos que a sua exaltação encobre. A “im-
ros em relação aos segundos contrariam postura velada” (FELE, 1955, 35) do lu-
igualmente a “teoria mística” (MONDLA- sotropicalismo negligencia, sobretudo,
NE, 2011, 310) freyriana. Os factos apre- o colonialismo como “uma empresa de

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Antiluteranismo (Época Moderna) 1183

exploração económica dirigida por um


poder político ” (Id., Ibid., 27). Enfim, a
Antiluteranismo
(Época moderna)
publicação de O Luso e o Trópico (1961) no
ano do início da guerra colonial faz des-
ta obra o  derradeiro capítulo da “ficção
monstruosa” (LOURENÇO, 2014, 60)
que Freyre construiu em torno do colo-
nialismo português.

Bibliog.: CASTELO, Cláudia, “O Modo Por­


tuguês de Estar no Mundo”: O Luso-Tropicalismo
A grande divisão religiosa ocorrida na Eu-
ropa cristã no dealbar da Modernidade
cavou uma fratura e originou um movimento
e a Ideologia Colonial Portuguesa (1933-1961),
imenso e multifacetado que toma a designação
2.ª  ed., Lisboa, Afrontamento, 2011; FELE,
Buala, “Qu’est-ce que le ‘luso tropicalismo’?”, generalista de protestantismo. Contudo, Marti-
Présence Africaine, nova sér., n.º 4, out.-nov. nho Lutero foi o maior protagonista deste movi-
1955, pp. 24-35; FREYRE, Gilberto, Um Bra­ mento e que mais se evidenciou de entre muitas
sileiro em Terras Portuguesas, Lisboa, Livros do tentativas de afrontamento, protesto  e crítica
Brasil, s.d.; Id., O Mundo Que o Português Criou em relação a alguns aspetos da vida e da dou-
& Uma Cultura Ameaçada: a Luso­‑Brasileira, trina da Igreja, que, a partir de então, passou
2.ª  ed., Lisboa, Livros do Brasil, s.d.a; Id.,
a salientar mais os adjetivos “católica” e “ro-
O  Luso e o Trópico, Lisboa, Comissão Executi-
va das Comemorações do V Centenário da mana”, por diferenciação das outras confissões
Morte do Infante D. Henrique, 1961; Id., cristãs que dela se autonomizaram, formando
Casa-Grande & Senzala, ed. crítica Guillermo Igrejas separadas. A cisão operada por Mar-
Giucci et al., Madrid/Barcelona/La Habana, tinho Lutero e o pletórico movimento denomi-
ALLCA XX, 2002; LOURENÇO, Eduardo, Do nado Reforma Protestante, que teve outros par-
Colonialismo como Nosso Impensado, Lisboa, Gra- ticipantes de relevo, suscitou um movimento
diva, 2014; MARIANO, Gabriel, “Do funco ao
contrário chamado Contrarreforma, ou, mais
sobrado ou o mundo que o mulato criou”,
in MARIANO, Gabriel, Cultura Caboverdeana,
Lisboa, Veja, 1991, pp. 39-63; MONDLANE, Martinho Lutero (1483-1546).
Eduardo, “A estrutura social – mitos e factos”,
in SANCHES, Manuela Ribeiro, Malhas Que
os Impérios Tecem, Lisboa, Edições 70, 2011,
pp. 309-332.
Ana Ribeiro

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1184 Antiluteranismo (Época moderna)

hodiernamente, Reforma Católica, dado que a ministerial, a via ritualista de união com
vontade e o apelo à renovação da Igreja foram Deus, o cumprimento da moral evangéli-
assumidos por muitos que procuraram reformá­ ca e a espiritualidade do laicado. O huma-
‑la por dentro, sem optar pela separação. nismo renascentista trifonte – lefebriano,
A par do espírito de reforma, com os líderes renaniano e erasmiano – não disfarçava o
reformistas a optarem, apoiados por líderes po- toque anticlericalista nem a contestação à
líticos, pelo confronto e a separação, gerou-se autoridade papal. No entanto, não havia
uma verdadeira corrente de combate de ambos unanimidade nos aspetos controvertidos,
os lados, que criou uma cultura negativa, ali- que iam da aceitação de uma tópica ge-
mentando uma imensa história de ideias an- nérica à negação do número e da teolo-
ticatólicas, de um lado, e antiprotestantes, do gia dos sacramentos, do ritual litúrgico,
outro. do valor das preces orais mecânicas, da
Em Portugal, conhece-se importante herança vida consagrada conventual, do celibato
cultural documentada desta cultura de comba- eclesiástico, do culto dos santos e das re-
te, que numa primeira fase corresponde, gros- líquias, da necessidade de sufrágios pelos
so modo, à época moderna, e que teve uma defuntos, da doutrina da justificação pelo
feição fundamentalmente antiluterana, visan- mérito das boas obras, da possibilidade
do a figura, o pensamento e a ação de Lutero de se chegar à verdade religiosa fora da
e o tremendo impacto que provocou a divisão Igreja.
da velha cristandade medieval. Recuperamos e Até à Dieta de Worms, e mesmo ao
reorganizamos aqui o valioso trabalho, muito Concílio de Trento (1545-1563), os altos
detalhado e cuidado, sobre o antiprotestantis- responsáveis católicos e luteranos acre-
mo em Portugal do historiador João Francisco ditavam na eficácia conciliadora de um
Marques, de saudosa memória, que no-lo tinha irenismo dialogante. Consumaram-se,
legado em bruto para esta obra dicionarial. todavia, o desentendimento e a irreversí-
Destacámos a primeira parte do seu trabalho, vel separação. Seguiram-se a rigidez das
que configura mais um claro antiluteranismo, costas voltadas, a surdez e o anátema re-
depois continuada numa segunda parte, que cíprocos, remetendo-se o catolicismo ao
se expressa mais multifocalmente no ataque ao afã de reforçar a unidade do rebanho fiel
movimento da Reforma, podendo-se denomi- e o protestantismo a fracionar-se cada vez
nar com mais propriedade antiprotestantismo mais em ramos de acentuadas diferenças.
(&Antiprotestantismo) O caminho estava aberto a fanatismos
atuantes, despoletando as estratégias de-

A corrente evangelista, que corria, de


modo crescente, pela Europa cristã
dos finais da Idade Média ao primeiro
fensivas das cidadelas assediadas. Foi esta
a origem desses conhecidos antifunda-
mentalismos militantes, que passaram a
quartel da era quinhentista, era polimor- caracterizar a dolorosa rutura da cristan-
fa e tinha raiz popular. Este movimento dade ocidental, ainda hoje a gotejar.
de largo espectro sofria o impulso de
dinâmicas várias, que provinham de re-
ligiosos da vida comum a mendicantes
Início do combate
da observância, de Savonarola a Erasmo, Os grandes defensores da ortodoxia cató-
de Lutero a Melanchton, contestando a lica, na península Ibérica, foram Carlos V
doutrina e a prática da hierarquia ecle- e D. João III, que cortaram nos seus Es-
siástico-romana. Assumiam-se denúncias tados, após iniciais momentos de expec-
e combates, que atacavam o sacerdócio tante tolerância, todos os caminhos que

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Antiluteranismo (Época moderna) 1185

levassem infiltração da heresia protes-


tante. O bispo D. Miguel da Silva, em-
baixador português em Roma, escrevia,
em 1521, a D. Manuel mal acabara de
publicar-se o Édito de Worms, referindo
a bula de Leão X contra o rebelde fra-
de saxónico, da qual este escarnecera,
e o pedido generalizado da cristandade
por concílio e reformação. Por sua vez, o
Pontífice, que endereçara ao Rei portu-
guês uma outra, datada de 23 de março,
dava-lhe conta de quanto temia ver os es-
critos de Lutero espalhar-se em Espanha
e que dali passassem a Portugal, e exor- Martinho Lutero na Dieta de Worms (1877),
tava a que o evitasse. O Soberano apres- de Anton von Werner.
sou-se a atender o pedido do Papa: em
agosto, este agradecia o que D. Manuel
havia feito nesse sentido, animando-o a docente à altura. Do esforço bem-suce-
não afrouxar no seu zelo. Na era de 1530 dido do debate na magna aula conciliar
do reinado de D. João III, o superior da podia seguir-se a reconciliação pretendi-
província franciscana teria executado a da, e talvez até a reunificação das fações
vontade do geral, que mandava fazerem­ em conflito. Cardeais da Cúria, religio-
‑se preces nos conventos dos frades meno- sos proeminentes e leigos, intelectuais e
res, para que os erros do luteranismo não políticos empenharam-se afincadamente
infestassem a Igreja de Deus. Ao Monarca nessa meta. O destaque maior vai para o
piedoso, que, segundo o historiador Silva humanista Damião de Góis, rotinado nas
Dias, “não via o problema luterano como andanças europeias, teólogo e prático em
o simples caso de um heresiarca bem-su- idiomas correntes, domínios importantes
cedido”, agradava, realmente, e como se para o convívio, a controvérsia e a episto-
vê pela instrução de 1532 a D. Martinho lografia, embora o latim continuasse a ser
de Portugal, “que houvesse concílio, se a língua culta.
nele se houvesse de tratar das cousas que O antigo feitor na Flandres tratava, de
tocam às heresias […] e assim em muitas resto, com notórios protestantes. Ouvira
outras em que deve ser muito provido” a pregação de Lutero em Wittemberg,
(DIAS, 1960, 423). A constante insistên- e correspondera-se com este e com Me-
cia na convocação de uma assembleia lanchthon, e deles recebeu cartas levadas
ecuménica, enquanto espaço dialogan- por Jerónimo Pavia, o Capucho, cunhado
te e legislativo, como meio mais indica- do gramático João de Barros, que ousou
do para dar resposta à crescente crise contrariar as teses do heresiarca alemão
religiosa do século, revela a sintonia de ao ponto de irritá-lo; e, se não tinha a me-
D. João III com a mentalidade irenista e o nor intenção de cortar com o catolicismo,
ideário erasmiano. Ambos, aliás, estão pa- menos ainda queria ser um militante an-
tentes na transferência da Universidade tiprotestante. Erasmo, que Góis tinha por
para Coimbra, com particular escolha do mestre, procurava suster-lhe os avanços
corpo docente, bem como na criação do entusiastas, recomendando quanto era
Colégio das Artes, dotado de um suporte “altamente aconselhável” não falar “nem

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1186 Antiluteranismo (Época moderna)

bem nem mal das seitas”. Pode afirmar­ Azambuja e Fr. Gaspar dos Reis; os teólo-
‑se, no entanto, que colaborou com sin- gos Fr. Jorge de Santiago e Diogo Gouveia
ceridade no movimento conciliador da Sénior; o leigo Jorge da Silva. Na alma ma-
déc. de 1530, a que Hubert Jedin chamou ter conimbricense, as principais cátedras
“o sonho do entendimento”, que grassava de Teologia passaram para a docência
por toda a Europa, não deixando sem en- de Paio Rodrigues de Vilarinho e Álvaro
volvimento nação alguma. Deste modo, Fonseca, e isso refletiu-se no antiprotes-
durante o pontificado de Paulo III (1534­ tantismo dos discentes. O Colégio das
‑1541), intensificaram-se os esforços para Artes, entregue aos Jesuítas em 1555, e o
conseguir a reunião de católicos e protes- processo inquisitorial levantado aos mes-
tantes, pressionando-os na cedência em tres bordaleses Diogo de Teive e João da
questões dogmáticas. Sadoleto e Bem- Costa, que foram condenados, atestam o
bo, cardeais italianos, e o inglês Reginal endurecimento da política contrarrefor-
Pole, arcebispo de Cantuária, auxiliaram mista. A Univ. de Évora (1559), confiada
o movimento e Damião de Góis animou­ à Companhia de Jesus e orientada sobre-
‑se a pedir ao “doce Melanchthon” que se tudo para a preparação pastoral do clero
reconciliasse com a Igreja Romana. Nada alentejano, torna-se um baluarte ofensivo
de positivo se obteve. O odium theologicum da ortodoxia católica tridentina. Por sua
de papistas e luteranos radicais foi mais vez, o Santo Ofício, em exercício desde
forte, silenciando as vozes irenistas con- 1537, exerce a vigilância e constitui-se
ciliatórias e ostracizando a linha modera- como instrumento repressor de qualquer
dora de Erasmo de Roterdão, mentor da manifestação de evangelismo reformista,
docta pietas e corifeu da philosophia Christi, quer através da censura literária, quer no
de prestígio ímpar no espaço humanista julgamento das denúncias de naturais e
europeu, e que reforçara a autoridade da colónia estrangeira, mais ousada e fa-
ao resistir a Lutero, na sua desesperada nática, a entrar por mar e terra, sujeita a
tentativa de arrebanhamento. A partir contínua inquirição. Na armada de gente
da primeira interrupção de Trento, tudo francesa que, em 1561, partira para o Bra-
se precipitou terminantemente, pois as sil, levando consigo missionários calvinis-
tendências foram clivadas, sem margem tas, seguia Jean Cointat, senhor de Bou-
para conciliações. As sensibilidades ire- lés, convertido à doutrina do heresiarca
nistas e erasmianas esfumaram-se. Junto de Genebra, que, preso no Rio de Janeiro
de D. João III, a princípio moderado, mas e deportado para Lisboa, acabou por ser
sempre férreo opositor do luteranismo, condenado pela Inquisição e metido no
representantes qualificados do conserva- cárcere. O embaixador da mesma nação,
dorismo ideológico-religioso ganharam em maio do dito ano, comunicou a Paris
poderosa ascendência. Nas fileiras mais “que tinham sido processados no Santo
combativas, encontravam-se prelados, Ofício mais três ou quatro franceses após
sacerdotes e fidalgos influentes, e.g., os a sua chegada a Portugal”; e, em dezem-
bispos D. Agostinho Ribeiro e D. Fr. Ber- bro, ao deixar o país, informava que dei-
nardo da Cruz, conselheiros do cardeal xava presos 33 compatriotas (Id., Ibid., II,
D. Henrique, D. António Pinheiro, a quem 535-536).
foi confiada a educação do príncipe her- Ligado à terra brasílica refira-se, a pro-
deiro D. João, retirada esta a Damião de pósito, o caso do P.e Manuel de Morais,
Góis, e D. Jerónimo Osório, familiar da paulista e escritor, falecido em 1651, que
corte; os inquisidores Fr. Jerónimo de vestiu a roupeta da Companhia de Jesus

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Antiluteranismo (Época moderna) 1187

e que veio a ser expulso por conduta período pós Restauração, os quais per-
escandalosa. Tendo embarcado rumo à mitiam alguma liberdade religiosa, quer
Europa, entrou nas Províncias Unidas, com as fases de baixa repressão do Santo
converteu-se ao calvinismo e casou-se Ofício” (BRAGA, 2002). Os eclesiásticos
com uma Holandesa, pelo que o Tribu- que se deslocavam ao estrangeiro con-
nal da Inquisição o condenou a sair, no traíam, por vezes, contágios a sufocar,
auto de fé de abril de 1642, relaxado em como aconteceu com Fr. Valentim da Luz
estátua. Ao tentar regressar ao Brasil, foi (1524-1562), Agostinho, e com Manuel
encarcerado em Lisboa por ordem do Travassos, bacharel em Cânones e o pri-
Santo Ofício, que o libertou depois de meiro luterano português sentenciado no
obrigado, no auto de fé de 1647, a abju- auto de fé de 11 de março de 1571, estan-
rar a heresia. Nos dois primeiros séculos do convencido das verdades e doutrinas
de repressão, os números conhecidos do reformador saxónico. Isto pode ver-se
relativos a sentenciados evidenciam, po- em processos da Inquisição relativos a sa-
rém, uma patente exiguidade de réus. cerdotes e leigos que, segundo Silva Dias,
A  estudiosa Elvira Mea cifra em apenas punham a descoberto “infiltrações lutera-
0,3 % os casos apreciados pelo Tribunal no-calvinistas”, envolvendo “a hostilidade
de Coimbra durante o período quinhen- ao clero, ao monacato e ao papado, a des-
tista (MEA, 1997, 280). Face às estatísticas crença do purgatório e das indulgências,
apresentadas por Isabel Drumond Braga, a repugnância pela Missa, pela Confissão
as pessoas acusadas de protestantes nas e pela veneração das imagens, e, enfim, o
Inquisições de Lisboa, Évora e Coimbra, desapego do mistério eucarístico, de que
240 do sexo masculino e 8 do feminino, ora uns, ora outros se mostram persuadi-
repartem-se do seguinte modo: 180 no dos” (DIAS, 1960, I, 216). Na altura, tam-
séc. xvi e 68 no seguinte, entre as quais bém não escaparam à suspeição do Tribu-
Ana Gorgin, missionária quaker que dese- nal Nicolau Chanterene, escultor, Diogo
java pregar nos reinos ibéricos. A maioria de Dembes, Dominicano flamengo, Fer-
corresponde a Franceses (92), Flamengos nando de Oliveira, gramático, que não
e Holandeses  (66), Ingleses  (37), segui- disfarçava a simpatia pelo anglicanismo.
dos de Alemães  (29), Irlandeses  (11), Isabel Drumond Braga adverte, todavia,
Espanhóis (5), Italianos (3) e outros (3), que se tenha “em conta que a Inquisição
sendo a média de idades dos 121 indiví- nunca distinguiu claramente os diversos
duos identificados de 20 a 35 anos, dis- tipos de protestantismo (luteranismo,
tribuídos por solteiros (59), casados (54), calvinismo e anglicanismo), designando
alguns com Portuguesas, e viúvos  (8). genericamente o delito como ‘luteranis-
Quanto a ligações profissionais, há mer- mo’” (BRAGA, 2002, 238).
cadores  (26), bufarinheiros  (6), carpin- Ainda em Trento, o arcebispo D. Fr. Bar-
teiros (4), cirurgiões (5), soldados de vá- tolomeu dos Mártires, numa carta a
rias especialidades  (9), marinheiros  (9), Fr. João de Leiria, dominicano e seu subs-
pilotos (3), mestres de urcas (2), i.e., gen- tituto em Braga, não poupa críticas ao
te de passagem, entrada pelo mar. A  in- luteranismo que alastrava pela França,
vestigadora conclui que o abaixamento muito temendo ver saltar “alguma faísca”
de casos, na centúria seiscentista, “deve em Portugal, e afirmava sem ambiguida-
ser relacionado, quer com os tratados des: “Porque de quanto tenho lido e por
de paz estabelecidos entre Portugal e os cá visto, estou resoluto que todo o cristão
diversos reinos protestantes europeus no que vive carnalmente, esquecido da sua

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1188 Antiluteranismo (Época moderna)

salvação, está isca mui seca ou pólvora Angliae Reginam [Carta à Rainha de Ingla-
para se lhe pegar esta peçonhenta seita, terra] foi o primeiro sinal feroz contra o
porque toda ela está fundada em liber- reformismo evangelista, com violenta ab-
dade, luxúria e gula. Por esta via, os pre- jurgatória à pessoa de Lutero; escrita por
gadores desta seita trazem muitos para sugestão do cardeal D. Henrique, é da
si, porque pregam que todo o cristão, autoria do humanista D. Jerónimo Osó-
de qualquer estado que seja, tenha mu- rio, figura de proa do clero e da cultura
lher, nem cuidam de obedecer aos pre- portuguesa que passou pelas Universida-
ceitos que mandam confessar, jejuar, não des de Salamanca, Paris e Bolonha, admi-
comer carne” (DIAS, 1960, I, 81). Nesta rador de Petrarca e Erasmo, sólido pilar
altura, contudo, o prelado não afasta- da ortodoxia católica. A intervenção do
va do horizonte a reconciliação com os régio purpurado português visava con-
protestantes, a fim de se evitar a cisão da vencer Isabel I, sucessora de Maria Tudor
Igreja. Para Pina Martins, historiador do no trono britânico, a voltar ao grémio ca-
Renascimento português, a substância tólico. Animava-o a atitude benevolente
polémica da “diatribe antiluterana” do da Soberana, mais aparente que sincera,
humanista André de Resende increpa para com os súbditos que permaneciam
Martinho Lutero, “não bispo, mas frade fiéis ao papado.
desprezador da religião e apóstata da fé, e A obra, publicada em 1562, teve rápida
a outra turba de heréticos que dele ema- repercussão, beneficiando do seu mode-
naram, sem madura idade, sem dignida- lar latim ciceroniano. Em finais de Seis-
de episcopal, e o que pior é, sem espírito centos, somava 23 edições, traduzida para
de temor de Deus”, aos quais nenhuma francês e inglês. De assumido recorte po-
autoridade assiste para “condenar o que lémico-apologético, visava denunciar as
fixo e firme estava […] e interpretar a es- consequências funestas dos erros doutri-
critura a seu danado apetite, contra inter- nários do luteranismo, desacreditar a in-
pretação dos sagrados doutores”, tendo- teireza moral do heresiarca e convencer
se recusado a assistir ao Sagrado Concílio a herdeira de Henrique VIII a retratar-se,
em Trento reunido, “que eles antes com para bem da sua alma e da unidade da Co-
tanta instância pediam”. No processo in- roa britânica. Esta espécie de carta aber-
quisitorial de mestre Marcial de Gouveia, ta, no estilo dos escritos trocados entre os
refere-se haver composto “um tratado humanistas do Renascimento, reveste-se
contra Lutero, que deu ao Abade de Ti- de um nítido tom catequético, gerando,
bães”, mosteiro beneditino do aro braca- no debate e no intercâmbio literário sus-
rense (MARTINS, 1973, 123-125). tentados, correntes de opinião antagóni-
cas e conciliatórias. No início do libelo, o
bispo de Silves imputa à “importunidade
A crítica pós-tridentina e ousadia” do heresiarca a rutura da Igre-
Finda a assembleia tridentina, publicados ja de Cristo, bem como aos “turbulentos
e postos em prática os decretos concilia- discursos” e aos “livros contaminados”
res, a onda antiprotestante, dentro do de- de “certos homens” ver-se “de repente
sígnio da denominada Reforma Católica, extinguir-se o pudor, destruir-se a hones-
tentava extirpar réstias de proveniência tidade, calcarem­‑se aos pés os direitos
erasmiana e erradicava zelosamente os fo- divino e humano, profanarem-se as coi-
cos de heresia luterana ou afim. A Epistola sas sagradas, ridicularizar-se a santidade,
Hieronymi Osorii ad Serenissimam Elisabetam correr impune a audácia por todo o lado,

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Antiluteranismo (Época moderna) 1189

as reuniões clandestinas em que eles


tramam a morte e a destruição dos reis
e maquinam, com infando crime, o assas-
sínio daqueles por cuja salvação deviam
venerar e dirigir preces a Deus”. Carrega
ainda mais as cores, ao imputar ao pro-
grama desta “seita demagógica” o intento
de “maquinar, pela fraude e pelo crime, a
morte daqueles príncipes que não estive-
rem dispostos a abandonar a religião em
que foram santa e sabiamente educados,
para seguirem a loucura da demagogia
popular”. Semelhante seita, insiste, “que
invadiu muitas partes da Cristandade”,
pretende “a destruição da República, a
ruína dos costumes, a devastação do Rei-
no, o derrube do esplendor régio”. Com
pedagógico acento, D. Jerónimo Osório
enumera, entre os malefícios: a abolição
da vida consagrada; a eliminação das
“imagens dos santos, todos os símbolos
da Cruz, todos os quadros pintados em
Página de rosto de Da Vida e Feitos…, de D. Jeróni- que fora reproduzido algo que represen-
mo Osório, dedicada ao cardeal D. Henrique. tasse a memória da clemência divina ou
de alguma egrégia virtude” e do sacrifício
corroborar-se a impudência, semearem-se da missa, das cerimónias e dos sacramen-
as opiniões desvairadas e profundamente tos, bem como do temor de Deus, pois
desvairadas entre si, romper-se de todo se a força da fé for grande e estiver “es-
a união cristã pela ímpia variedade das tabelecida na maior firmeza, ainda que
seitas e, em todo o lugar por onde desa- o homem seja ímpio e pecador, pode
bava esta loucura dos homens, estimular­ considerar garantida para si a graça de
‑se a chama e o incêndio da mais sinistra Cristo e a imortalidade da vida bem-aven-
discórdia”. O requisitório de entonado turada” (OSÓRIO, 1981, 189-191). Acres-
retoricismo prossegue com o desdobra- centa que as sistematizações teológicas
mento dos malefícios: “foi daqui que sur- do protestantismo conduzem a “coisas”
giram ódios acerbos, tumultos frequentes de deixar “os homens mais depressa pe-
e contendas mortíferas. Daqui nasceram trificados”, a saber: “Amordaçam a razão
guerras horrendas e mortais. E daqui apa- humana, roubam a liberdade de opinião,
receram depois, por toda a parte, muitas agrilhoam a vontade com cadeias eternas
mortandades, muitas devastações e os ha- e privam de tal forma o homem todo de
veres de muita gente destruídos a ferro e julgamento e de sensibilidade, e deixam­
fogo”. Acrescem “a isto os males políticos: ‑no de tal maneira espoliado de qualquer
a ruína das leis, o desprezo da autorida- arbítrio próprio, que não há ponta de
de, o ódio à majestade régia, e as cruéis diferença entre ele e uma pedra”, pas-
insídias que esses, ímpia e sacrilegamen- sando a atribuir “à autoria de Deus todas
te, armam contra os príncipes. Juntem-se as coisas que os homens desenham no

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1190 Antiluteranismo (Época moderna)

espírito, empreendem e executam, quer “no culto da mais santa religião”, consi-
boas quer más, restringindo-as a um fatal derando “que nada há mais pernicioso
e eterno determinismo” (Id., Ibid., 201). à República do que uma religião e san-
Desautorizar o heresiarca como líder reli- tidade inventadas pela mentira”. O evan-
gioso – “autor e maioral” deste plano satâ- gelismo deve rejeitar-se, porque, prome-
nico, “arquiteto de tão preclara obra” – e tendo “reconduzir os costumes corruptos
seus sequazes é outro objetivo do libelo à severidade do Evangelho e restaurar
acusatório de D. Jerónimo Osório, que aquela antiga pureza da Igreja”, não ape-
denuncia a devassidão do heresiarca, vi- nas se mostrou incapaz de manter “sã a
sível numa “vida infamada de escândalo”. Cristandade”, como pôs “toda a sua de-
Interroga, enfaticamente: “E quem foi terminação em sufocar tudo quanto exis-
esse Lutero? Um homem (para usar das tia de são e em inquinar tudo com males
palavras mais brandas), com toda a certe- pestíferos”. Para conduzir a Soberana à
za, turbulento e de todos o mais extrema- consciência das suas responsabilidades,
mente demagogo. E quem foram os que, diz-lhe estar em suas mãos a “salvação” ou
depois, profluíram da fonte, por assim di- a “ruína” da sua pátria, aconselhando-a à
zer, da sua doutrina? Homens verdadeira- retratação: “Na verdade, se assumirdes a
mente audaciosos, presunçosos, soberbos tarefa de expiar a religião ultrajada e vos
e (para não dizer coisa mais dura) não agregardes ao consenso da Igreja inteira e
exornados de tamanhas virtudes, que nos prestardes o devido culto aos antigos cos-
sintamos movidos pela sua autoridade e tumes e ofícios e, expulsando os homens
devamos abandonar a forma daquela re- ímpios, chamardes a vós os homens bons
ligião em que fomos educados” (Id., Ibid., e santos, fortalecida pela ajuda e auxílio
181). Em vez de darem continuidade à de Cristo, haveis de organizar de maneira
missão de Cristo, a de unir na “mútua be- perfeita a República e restituir a todos os
nevolência e amor”, esses homens evan- seres a salvação e a vida”. E apela, por fim,
gélicos fomentam a “missão do Diabo”, a que esconjure do reino “o ódio da Cruz
que é “dispersar e dissolver toda a socie- que esses autores da pestífera novidade
dade santamente constituída”, concitar abertamente sustentam” e siga “as pisadas
tumultos, semear a discórdia, dividir uma dos santos” e não as daqueles que, “ob-
só em infinitas seitas, atiçar “o ódio de cecados pelo seu amor-próprio, escora-
uma contra as outras”. Tal empresa, vinca dos na sua imaginação, precipitados pela
o prelado, é demagógica, pois, “acenan- sua audácia, recobertos de escândalos e
do com a visão de uma excessiva liberda- arrancados à união da Igreja, apregoam
de, arma o povo contra as leis, contra os [outro] como sendo o caminho que se
ministros das leis e contra a majestade e deve seguir” (Id., Ibid., 235-236).
o poder dos príncipes, e encoraja o furor A outra intervenção de D. Jerónimo
da turbamulta com uma falsa liberdade Osório, que é uma importante referên-
da religião”. A argumentação debruça-se, cia nesta linha polémica antiprotestante,
assim, sobre as incidências teológicas e, surge em 1564, no De Iustitia, Tratado de
em paralelo, aborda as políticas, refleti- Justiça redigido em latim e impresso em
das na ameaça da desordem social e na Veneza, que conheceu cinco reedições
destruição do sustentáculo da autorida- na era quinhentista. Contudo, a obra já
de régia. Por isso, recomenda à Rainha se encontrava terminada há três anos,
que com “mais força” organize “a defesa” ou mesmo antes, pois Diogo de Paiva de
do reino, cujo êxito estaria em colocá-lo Andrade, padre conciliar de quem fora

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Antiluteranismo (Época moderna) 1191

amigo e arguente de mestrado em Artes, de crítico e reformador do cristianismo


concluído em 1549, por mercê dessas vivido sob a égide do papado. Como se
andanças, empregou a sua eficiente me- dissesse, na hipótese de Lutero poder
diação no acolhimento dado pelo editor lê-lo e responder-lhe: tens coragem de
veneziano, Agostinho Valério, alavanca prosseguir, “havendo tu traído, com núp-
útil para uma difusão a nível europeu. cias impuras, a fé publicamente jurada
O tema era muito oportuno, se se atentar a Cristo; tendo tu seduzido impudente-
em que as ideias-força da teologia lutera- mente, para fazê-la aceder à desenfreada
na, formalmente contrárias à doutrina ca- sensualidade, uma virgem consagrada a
tólica, defendiam que “todo o mérito das Deus; tu que foste a peste da tua pátria e
obras, toda a justiça inerente”, se devia ao a perturbação e tempestade da religião”
sacrifício de Cristo, e não à “liberdade do (Id., 1999, 35)? Durante séculos, foram
arbítrio”. Nesse sentido, também de um aliás também estas acusações ferinas que
português, D. Fr. Gaspar do Casal, bispo a vulgata católica antiprotestante repe-
de Leiria, teólogo e eremita agostiniano tiu até à saciedade contra o heresiarca
presente em Trento, saiu dos prelos ve- germânico.
nezianos de Iordanus Ziletus, em 1563, o Os livros oitavo e nono de Tratado da
Quadripertita Iustitia, grosso tomo de 413 Justiça debatem os temas teológicos mais
fólios a duas colunas, de feição polémica apaixonantes para a consciência cristã:
e de ataque aos heréticos mentores do a liberdade humana e a predestinação, o
cristianismo evangélico, patente na afir- livre-arbítrio e a presciência divina. Lu-
mação do valor das obras humanas para tero e Calvino equacionaram-nos até às
alcançar a união com Deus, que nisso últimas consequências. Por conseguinte,
consiste a justiça. Definida esta virtude, D. Jerónimo Osório não lhes poupa o
que permite ao cristão ser portador da peso da sua virulência polémica, chaman-
vida divina, precisado o significado do do-lhes “raça maldita de sequazes de Sa-
vocábulo “fides” (fé) e estabelecido o tanás”, e apelida as suas falsas doutrinas
duplo entendimento que engloba o ter- de “maquinações diabólicas”. O bispo de
mo “Igreja”, corpo místico de Cristo e Silves acusa Lutero de blasfémia, quan-
comunidade dos fiéis que participam dos do atribui a miséria humana “ao próprio
mesmos sacramentos, instituídos para sua santíssimo e ótimo Pai de todas as coisas”.
santificação, D. Jerónimo Osório procu- E acrescenta que propagou isto, “não de
ra, no livro segundo do Tratado, refutar modo confuso, como muitos o fizeram,
o conceito de fé de Lutero, não sem dei- nem com dano mitigado, como os pro-
xar de provocá-lo com ironia: cuida este fessores: mas com audácia desenfreada
insigne homem “que o género humano e com impudência, às escâncaras e aber-
viveu no engano até hoje, e que ele, sem tamente, através de escritos e sermões,
margem para dúvidas, nasceu por graça infetando com a mortífera peçonha um
de Deus a fim de libertar os entendimen- incontável número de homens”. Se Cal-
tos dos homens de erros sem conta”, e vino distingue entre “necessidade” e “co­
julga “que a justiça, a salvação e a imorta- ação”, não deixa de reiterar a interpreta-
lidade se alcançam unicamente por meio ção luterana que, sem dúvida, minimiza
desta fé singular e desacompanhada de a infinita riqueza da divina misericórdia.
obras”. Em direta invetiva, denuncia o ca- Motivo suficiente para dirigir ao teólogo
rácter escandaloso da sua vida moral, de alemão mais um truculento ataque ad ho-
modo a minar a sua pretensa autoridade minem, nos seguintes termos: “Não causa

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1192 Antiluteranismo (Época moderna)

estranheza alguma aquilo que ouvimos Prince. Trata-se de um opúsculo originaria-


dizer: que tu antes de morreres, foste mente escrito em latim, mas de que não
também atormentado e inquietado várias resta nenhum exemplar, e foi impresso,
vezes pelo assédio de um pestífero De- de forma clandestina, no ano de 1564, em
mónio e que amiúde te viste atribulado Paris, na oficina de Robert Estienne, por
por visões medonhas. Pois não é possível diligências do embaixador britânico que
que a um tão grande crime não se siga, espalhou alguns livrinhos na comunidade
imediatamente, uma vesânia desumana e de católicos ingleses refugiados em Lovai-
o acerbo suplício da consciência acabru- na, enviando outros para a corte londrina.
nhada” (Id., Ibid., 44-45). Nesta frente de Seguindo a síntese estrutural de Gui-
combate deve inscrever-se também a obra marães Pinto, extraída das obras em
do Jesuíta P.e Manuel da Veiga, De Vita, causa dos autores intervenientes na po-
Miraculis Lutheri, Calvini et Bezae (1586), lémica, fica-se ciente dos vetores que as
cujo título ressuma acintosa ironia. consubstanciam. Após reconhecer a mes-
Estava assim lançada a controvérsia re- tria retórica de Osório, “grande embla-
ligiosa luso-anglicana que António Gui- dor de palavras e frases”, Haddon justifica
marães Pinto, erudito latinista, exaustiva o facto de se adiantar em responder por
e proficientemente estudou. O sucesso ser “inglês, criatura da rainha e conhece-
obtido pela difusão da Carta apologéti- dor das instituições públicas da pátria”,
ca de D. Jerónimo Osório ao nível euro- que o Português ignora, não recuando
peu – com edições em Veneza, Lovaina e além disso em atribuir à Inglaterra “uma
Paris, no ano de 1565, em que saiu uma impiedosa e odiosa inovação no domínio
tradução francesa, e, em 1565, com duas religioso”. Por outro lado, Osório é acusa-
edições, publicadas em Antuérpia, de do de afrontar as leis inglesas cuja legi-
uma versão inglesa – levou a corte britâni- timidade provém de serem “votadas no
ca a diligenciar pronta e enérgica réplica parlamento pelo povo, confirmadas pelos
que “fosse também uma espécie de ma- nobres e pelos representantes da Igreja
nifesto da diferente situação político-reli- e sancionadas pelo príncipe” (Id., Ibid.,
giosa instaurada” sob a égide da nova So- 161). Intima-o, assim, a indicar “os fac-
berana (PINTO, 2006, I, 146). A Walter tos e monstruosidades que alegara como
Haddon (1516-1572), mestre em Artes, consequências dessa religião imaginária”,
doutor em Leis, professor de Direito Civil que desdenhosamente chama religião
e vice-chanceler da Univ. de Cambridge, anglicana (Id., Ibid., 163). Os reforma-
prosélito zeloso da Igreja Anglicana, lati- dores que cobre de injúrias “são mestres
nista ciceroniano de reconhecida quali- do Evangelho enviados por Deus numa
dade, político e parlamentar, diplomata época de decadência”, motivo pelo qual
e autor de escritos antipapistas, coube a foram procurados pela Rainha Isabel e
tarefa de contraditar o argumentário de amparados pelos Ingleses. E, porquanto
D.  Jerónimo Osório, considerado inverí- ensinam “o mesmo corpo” doutrinário
dico e ofensivo, num texto que saiu, em que os antigos, “são dignos de relevância”
1565, da tipografia londrina de William (Id., Ibid., 169-172), e é insultuoso cha-
Seres, sob o título: A Sight of the Portugall mar louco a Lutero, se foi elogiado por
Pearle, That is, the Aunswere of D. Haddon Erasmo, e demagogo, a não ser que tal
Maister of the Requests unto Our Souveraigne seja sinónimo de “o amigo e salvador do
Lady Elizabeth, against the Epistle Hieronymus povo” cristão. Se os reformadores defen-
Osorius a Portugall, Entitled a Pearle for a dem que se deve seguir “exclusivamente

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Antiluteranismo (Época moderna) 1193

as Escrituras”, nada mais fazem do que “o caminho que através das bulas, condu-
“seguir os exemplos de Cristo, dos após- zia à perversão de costumes”. Quanto à
tolos e dos primeiros padres da Igreja” “autoridade única”, têm-na na pessoa da
(Id., Ibid., 172). Insiste, orgulhoso, haver Rainha, que “exerce senhorio sobre os
sido uma melhoria introduzida na disci- seus súbditos e, nas matérias religiosas,
plina religiosa anglicana a extinção da delega a sua autoridade nos bispos”, dan-
vida conventual, masculina e feminina, do “por decreto real força de lei às suas
com os seus “covis de crimes para onde os decisões” (Id., Ibid., 192-193) – i.e., regina
jovens de ambos os sexos eram arrastados locuta est, causa finita est. Critica o estilo
com grave detrimento da moral”, em que venenoso de Jerónimo Osório e acusa-o
as orações se faziam “numa língua des- de truncar a doutrina dos reformadores,
conhecida” e cujos edifícios “passaram que não se desviam do pensamento pau-
a albergar escolas, universidades, hospi- lino ao afirmarem “que o homem é justi-
tais” (Id., Ibid., 176). Também valoriza e ficado pela fé”, mas sem excluir que “a fé
encarece a supressão de todos os vestígios obra por caridade” (Id., Ibid., 206). Cen-
de idolatria: imagens, painéis e crucifi- sura também os católicos por se deixarem
xos. O que importa é adorar a Deus, e adormentar: “embalados pelas promessas
“as representações, se o espírito se acha de um perdão fácil concedido ao pecado,
presente, não fazem falta; na ausência através da confissão auricular e mediante
deste, carecem de préstimo” (Id., Ibid., a compra de bulas; embrutecidos pelas
180). Haddon indigna-se com o imenso pregações vãs e soporíferas dos frades e
exagero de Jerónimo Osório, que acusa pela assistência passiva a cerimónias litúr-
os reformadores protestantes de elimina- gicas, que não passam de um espetáculo
rem os sacramentos e os rituais e assegura para os sentidos, interpretado numa lín-
práticas religiosas bem diversas, pois, en- gua ininteligível”. E contrapõe o que se
tre os anglicanos: “enviam-se pregadores observa na vida de piedade da Igreja An-
a todas as partes para instruírem sobre a glicana: “assiduidade da pregação evan-
piedade e ensinarem o verdadeiro culto gélica (de frequência obrigatória por lei);
a Deus; servem-se de um formulário pú- serviços religiosos, que incluíam o cânti-
blico de orações, aprovado pelo parla- co dos salmos, hinos e extratos bíblicos,
mento e em relação ao qual não admitem aos quais se seguia a Ceia do Senhor, que
quaisquer desvios”. Calunia, pois, quem se serve nos dias santos” (Id., Ibid., 213).
afirma que a Igreja reformada não tem No que à interpretação bíblica diz respei-
“culto, sacramentos e cerimónias”, dado to, os protestantes “esquadrinham e estu-
estes continuarem a ser “ministrados em dam diretamente” as Escrituras, “e não
conformidade com as Escrituras e segun- interposição dos intérpretes e glosadores,
do o exemplo da Igreja dos primeiros como fazem os católicos” (Id., Ibid., 216).
tempos”, sendo que “tudo quanto tange Aconteceu que, em 1565, se encontrava
à religião se realiza usando da língua ver- na Flandres o português D. Manuel de Al-
nácula, de acordo aliás com a doutrina de mada, membro credenciado da comitiva
São Paulo e o exemplo das antigas igre- de 1000 pessoas, que, a 12 de agosto, par-
jas” (Id., Ibid., 184). Haddon sustenta: se tira de Lisboa para acompanhar, a Bruxe-
os anglicanos “sacudiram o jugo do bispo las, D. Maria, a filha de D. Duarte, duque
de Roma”, é porque o único “Sumo Pon- de Bragança, a fim de se unir ao seu noi-
tífice que reconhecem é Cristo”, e não se vo, Alexandre Farnésio, duque de Parma,
veja nisso “sedição”, mas antes o fechar aí presente, junto de sua mãe Margarida

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1194 Antiluteranismo (Época moderna)

de Áustria, governadora dos Países Bai- do texto haddoniano, que diz “tresandar
xos. D. Manuel de Almada (c. 1500-1580) a arte retórica” (Id., Ibid., 155-156). Os
era natural de Lisboa e licenciado em pontos discutidos são os da sobeja insis-
Cânones, deputado da Inquisição, bispo tência: a interpretação livre das Sagradas
titular de Angra, desde 1562, sem que, no Escrituras, o livre-arbítrio, a vida moral
entanto, residisse na Diocese, mas tendo dos reformadores protestantes, as ordens
feito aplicar nas ilhas açorianas os decre- religiosas, a autoridade papal e o pri-
tos tridentinos. Em contacto com Tho- mado do colégio dos bispos, o culto das
mas Harding, sacerdote católico inglês, imagens, o divisionismo das Igrejas refor-
que, por certo, o incitaria a responder, madas. Tudo exposto com dispersão, ao
teria recebido um exemplar do escrito de sabor da sequência dos tópicos que se lhe
Walter Haddon, na altura já na 2.ª edição, deparam. Conforme a informação que ia
publicada em Antuérpia, de réplica à Car- colhendo, D. Manuel de Almada contesta
ta apologética de D. Jerónimo Osório, de Haddon, afirmando que “grande parte
quem era amigo, dirigida à Rainha Isabel da população inglesa continua católica”
de Inglaterra, no prelo flamengo de Gui- e só “esconde a fé, não por medo, mas
lherme Silvius, onde também se impri- para apoiar ocultamente e não deixar
miu, em 1566, o livro de D. Manuel de fraquejar os que são torturados pela fé”
Almada, com o título: Epistula Reverendi (Id., Ibid., 161). Considera que os refor-
Patris Domini Emanuelis Dalmada Episcopi madores protestantes não passam de “tra-
Angrensis […] adversus Epistulam Gualteri tantes” e só por “perversos intentos” po-
Haddoni. dem equiparar-se aos venerandos Padres
As duas razões imperiosas da “exorta- da Igreja, a Atanásio, Jerónimo e Basílio,
ção epistolar” de D. Manuel de Almada, em sua “santidade e doutrina” (Id., Ibid.,
escrita nas vésperas da partida para a pá- 169). As “seitas nascidas de Lutero” não
tria, de réplica à Carta de Haddon, são: podem alinhar com as ordens religiosas
o desagravo à honra vilipendiada do católicas de S. Francisco, S. Domingos,
amigo ilustre D. Jerónimo Osório e o S. Basílio, S. Bento, S. Bernardo, S. Bru-
desejo de defender a religião católica na no, os Carmelitas, Premonstratenses,
confrontação com a heresia protestante. Trinitários, Lóios e Jesuítas; e, se foram
A conjuntura que se vivia nos Países Bai- suprimidas na Inglaterra, embora reco-
xos era incendiária: crescia o vendaval nhecendo os “costumes indignos” de al-
iconoclasta dos calvinistas e aproximava­ guns dos seus membros, a razão esteve na
‑se a duríssima repressão dos Tércios do “cobiça dos pseudorreformadores” pelos
duque de Alba, a extremar ainda mais os “bens materiais que estes possuíam” (Id.,
dois campos em conflito. No combate às Ibid., 170). Os votos de castidade volun-
heterodoxias, D. Manuel de Almada tinha tária da vida consagrada de religiosos e
já larga folha de serviços na militância do religiosas são legítimos e juridicamente
Santo Ofício, pois entrara nos processos vinculativos, defende o bispo de Angra; e,
inquisitoriais dos lentes coimbrãos João na esteira de S. Paulo, evoca “o paralelo
da Costa, Diogo de Teive, D. Lopo de Al- entre os grandes cuidados e fadigas pró-
meida e do Agostiniano Fr. Valentim da prios do matrimónio e a quietação de es-
Luz, que sofreram condenações e, o últi- pírito de que gozam quantos se entregam
mo, a condenação à morte na fogueira do à contemplação de Deus” (Id., Ibid., 176).
auto de fé. Canonista de formação, recor- Quanto ao culto dos santos, verbera a
re a dialéticas jurídicas e a largas citações “impiedade de Haddon”, aconselhando-o

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Antiluteranismo (Época moderna) 1195

sagrados”. A interpretação individual das


Escrituras e a sua tradução nos idiomas
vernáculos tiveram, como nefastas con-
sequências “por todas as regiões onde
predominam as doutrinas protestantes”,
uma “dissensão generalizada e multidão
de seitas guerreando-se mútua e inces-
santemente” (Id., Ibid., 184-185). A defe-
sa veemente da primazia da sé católica,
apostólica, romana, negada por Haddon,
leva o bispo de Angra a tratá-lo “como
blasfemo, perturbador, sacrílego, traidor,
perjuro, supressor das tradições eclesiás-
ticas, ladrão da jurisdição e faculdade de
redigir decretos que Cristo dera à Igreja
D. Manuel de Almada (c. 1500-1580).
a título de doação”. Os maus ministros
que esta teve não lhe permitem querer
“destruir toda a hierarquia eclesiástica”,
a consultar os “teólogos católicos sobre por muito que seja “amante da acefalia”
as diferenças que a Igreja estatuiu entre (Id., Ibid., 193-195). Repetindo, sopori-
hiperdulia, dulia e latria”, sendo inexato feramente, ataques antes feitos, insiste,
que a antiga Igreja não aceitasse as ima- até ao termo da sua réplica a Haddon, na
gens dos santos, como as determinações unidade de fé e na concórdia, bem como
do Concílio de Niceia o patenteiam (Id., na obediência dos primeiros cristãos, que
Ibid., 180-181). Ponderando uma soma de foram dilacerados pelos hereges protes-
questões, D. Manuel de Almada respon- tantes de modo calamitoso, em virtude
de: os que nomearam “os atuais bispos de soberba e falta de caridade, acusando­
anglicanos que substituíram à força os ‑os de usarem “na eucaristia” pão e vinho
que haviam sido canonicamente eleitos” que julgam consagrados, mas não o são
não possuíam jurisdição eclesiástica para porque os seus sacerdotes não receberam
a necessária validade, pelo que “não pas- legítima ordenação (Id., Ibid., 214-215).
sam de salteadores e hereges”. O braço No início do verão de 1566, vindo da
secular não faz mais do que “uma meta- Flandres, D. Manuel de Almada pisou no-
morfose e aberração inaudita”, transfor- vamente o solo pátrio, mas teriam decor-
mando “algo que é braço em cabeça da rido cerca de 14 meses até que o opúscu-
igreja inglesa”, ao sagrá-los chefes reli- lo de Walter Haddon chegasse às mãos de
giosos. Cristo escolheu o apóstolo Pedro D. Jerónimo Osório, enviado pelo amigo,
para seu “vigário geral”, pelo que só ao o prelado da diocese açoriana, com votos
papado cabe a definição e a transmissão de pronta réplica, acompanhado do de
da doutrina, dos ritos e dos dogmas – não sua autoria. Liberto de algum trabalho
aos Parlamentos das nações particulares. pastoral urgente, o bispo do Algarve dis-
O uso do latim e não do vernáculo é di- pôs-se a retorquir à Carta do anglicano,
tado pela universalidade, e “serve para entregando o escrito latino aos prelos
assinalar a unidade e evitar equívocos na lisbonenses de Francisco Correia, que
interpretação das cerimónias” e “a  ba- terminou a sua impressão, a 7 de outu-
nalização e vulgarização dos mistérios bro de 1567, com o título Amplissimi atque

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1196 Antiluteranismo (Época moderna)

Doctissimi Virii D. Hieronymi Osorii, Episcopi de Osório a Haddon é o da vocação con-


Sylvensis, in Gualterum Haddonum Magis- sagrada no seio da vida conventual. Com
trum Libellorum Supplicum […] Libri Tres, insistência, o bispo de Silves arremessa
conhecido como Contra Haddon entre o aos reformados a causa decisiva que os
público académico. Livros destes, “corrup- levou, na Inglaterra, à destruição dos ce-
tores da sã ortodoxia”, confessa o antístite nóbios masculinos e femininos: o “ódio à
de Silves, desejaria bem ignorá-los, por fo- castidade, ao qual se juntou a cobiça dos
mentarem “o contágio de uma peste tão bens com que os religiosos se sustenta-
funesta” como a heresia protestante. Só vam”. A linha do argumentário segue a
toma a pena com o objetivo de “defender exaltação da vida no claustro na Igreja
a religião ultrajada e também para praticar Católica, em que há “uma luta contínua
uma obra de caridade”, levando Haddon contra a carne e uma meditação de temas
a reconhecer a sua “ligeireza” e néscia vai- divinos”. Em reforço, alega “a má vontade
dade. Ao escrever a Carta à Rainha, fê-lo do rei [Henrique VIII] contra o papa por
por se encontrar longe dela, de contrá- negar-se a conceder-lhe o divórcio, a ga-
rio “aconselhá-la-ia de viva voz a evitar o nância dos bens monásticos, a adulação
trato com os perversos” (Id., Ibid., 157). dos perversos que influíam na vontade do
A unidade da Igreja de Cristo, assen- soberano, a paixão revolucionária, o ódio
te no poder supremo dos sucessores do da castidade”. Para ele, foi em torno desta
apóstolo Pedro, obsta a que as seitas pos- matéria que se “estabeleceu o fundamento
sam crescer livremente, como decorre da ‘peste’ luterana”: a sua conduta, neste
da fé luterana, que, atacando o papado, particular, ditada de “acordo com a sua
concorre para a destruição do catolicis- natureza sensual” – de resto, “nenhum
mo. A imagem que se retira dos “costu- dos reformadores foi casto”. Permite-se,
mes dos protestantes ingleses” acaba por a pretexto, adiantar a questão: quem é
ser uma consequência lógica da doutrina mais livre – a mulher casada ou a reli-
professada (Id., Ibid., 167). É doloso e de- giosa? Categórico, afirma “que o espírito
magógico, sustenta D. Jerónimo Osório, só goza de liberdade quando a sua parte
o caminho seguido por Lutero ao “lison- racional (mens) detém o senhorio sobre
jear os apetites da plebe”, a coberto da todo ele” (Id., Ibid., 176-179). Mereceu
ambição de alguns príncipes, e ao deixar ainda a atenção de D. Jerónimo Osório
escravizar-se por “seus caprichos treslou- o culto das imagens e a doutrina sobre os
cados”. Não podendo segurar os sequazes sacramentos, em particular, a penitência
que acabaram por se rebelar contra a sua e a eucaristia.
autoridade, arrastou para a morte “mi- Em defesa do primeiro, lembra: a lei
lhares de europeus”. O ataque ao here- antiga não o proíbe, mas apenas os “si-
siarca alemão redobra de contundência mulacros” pagãos; os crentes que não so-
ao retratá-lo como estando “dominado bem às alturas da vida espiritual precisam
pela sensualidade, pela agressividade e do estímulo que as imagens representam
pelo orgulho” e como apologista da su- para serem alentados na piedade; a con-
pressão do livre-arbítrio, tornando Deus denação, pelos concílios, dos iconoclas-
óbvio “autor dos pecados dos homens”, o tas. Adverte, por fim, que as imagens de
que faz não serem, entre os protestantes, Cristo, da Virgem e dos santos eram “ex-
considerados pecados “a luxúria, a sedi- postas à veneração dos homens para que
ção e toda a sorte de desmandos” (Id., tivessem presente a lembrança da miseri-
Ibid., 173-175). Ponto crucial na réplica córdia divina” (Id., Ibid., 181-182). Por sua

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vez, a eficácia dos sacramentos procede A equiparação dos poderes pontifício e


dos méritos de Cristo, e, para a salvação, régio na sua extensão e nos seus limites,
os da penitência e da eucaristia são da sobretudo a supremacia da autoridade
maior importância. A acentuação sobre régia no governo dos súbditos, em que o
“os grandes benefícios sociais e morais monarca não pode ser tirano, mas deve
que resultam da confissão” espelha-se no ser zelador da prosperidade daqueles, ar-
incitamento ao “espírito de moderação” rasta D. Jerónimo Osório, na resposta a
e à “prática do dever”, tornando o peni- Haddon, a “inflamada objurgatória con-
tente “mais puro, mais íntegro, melhor”. tra os lisonjeiros que, com a sua adulação
A  forma como os protestantes “zombam aos reis, desencadeiam a perdição sobre
da satisfação” pelos pecados e a obstina- as sociedades”. Foi o caso, como refere,
ção com que defendem “a confissão di- de Henrique VIII, que condenou à morte
reta a Deus” levam a cada um ser juiz em Thomas More e Fisher, com o consequen-
causa própria. E, se a Igreja prescreve a te cisma anglicano (Id., Ibid., 195-197).
confissão anual, fá-lo “a fim de evitar que O problema da salvação pela fé em Cristo
fosse votado ao desprezo um sacramento sem o emparelhamento das obras, pomo
de tão grande utilidade”. Ao deter-se na basilar da controvérsia teológica católico­
defesa da doutrina católica da eucaris- ‑luterana, a partir do pensamento pauli-
tia, aviva o diferendo quando impugna no, é dominante no argumentário dialé-
a interpretação teológica luterana que tico Osório-Haddon. A este e a Lutero
a considera “mero recordatório e sím- não reconhece o bispo de Silves o enten-
bolo da morte de Cristo”. Alude Osório dimento das Escrituras, recomendando a
à distinção obsessiva entre a pureza das leitura do seu Tratado da Justiça, onde se
almas santas e a imoralidade dos pecado- encontra a luz precisa para haver certeza
res carnais, quando aponta o irredutível de que “as obras por si ocasionam salva-
contraste: “os santos castos que desde a ção ou perdição” – por isso, a fé precisa
origem da Igreja ensinam esta doutrina de obras, aquelas que Cristo ordena (Id.,
ortodoxa sobre a eucaristia [verdadeiro Ibid., 203). Outro ponto controvertido da
sacrifício], e, por outro, ‘os loucos da sen- teologia católica é o livre-arbítrio. Se Lu-
sualidade’ que recentemente fraguaram tero afirma que “o homem não passa de
essa interpretação herética”, aniquilando uma ferramenta nas mãos de Deus usada
assim “aquele que é o máximo benefício para o bem e para o mal”, não lhe é lícito
da misericórdia divina”. Por sua vez, em punir os pecados dos quais “é Ele afinal o
convergência com D. Manuel de Almada, autor”. Inaudita “monstruosidade” e, ao
intenta a impugnação a outros dois deba- mesmo tempo, “loucura abominável com
tidos pilares do protestantismo: o uso da funestas consequências para toda a vida
língua vulgar na liturgia e a livre interpre- moral e social”, afirma. Deus concede ao
tação da Sagrada Escritura, recusando o homem a graça suficiente para que se não
acesso “indiscriminado de todos” à Bíblia, perca eternamente: “em suma, os que são
que segue a sua tradução em vernáculo, salvos, são-no graças à imensa misericór-
e a “necessidade de abandonar o latim dia de Deus, os que são condenados, são­
como língua litúrgica, pois, se a comu- ‑no pelo Seu justo juízo”, o qual tem raiz
nidade de língua une os espíritos, nada na deliberação providente, na equidade
há de mais ajustado à regra cristã do que e na razão (Id., Ibid., 206-209). Osório
louvar a Deus numa só língua” (Id., Ibid., reduz a refinada perversidade a reforma
184-189). anglicana, porquanto, no que se viu, só

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se encontram resultados funestos: “em giada em “insultos” e obstinações, “amiú-


vez do santo ócio, um negócio infame; de com a petulância de linguagem do in-
em lugar do zelo da pureza, mancebias glês”, torna-se estéril (Id., Ibid., 225-226).
sacrílegas; em troca da ortodoxia doutri- No entanto, a agressividade verbal, regis-
nal, ironias de homem desvairado” (Id., te-se, não deixava de ser mútua.
Ibid., 210). Assegura, no entanto, não ter Ao regressar a Inglaterra, nos começos
pretendido atacar a Inglaterra, em que de novembro de 1567, Thomas Wilson,
ainda “vivem muitos homens piedosos”, embaixador da Rainha Isabel em Lis-
enquanto outros foram “obrigados a er- boa, trazia consigo exemplares da obra
rar exilados para não contemplarem um de D.  Jerónimo Osório, não sendo difí-
espetáculo tão doloroso como o que se cil ima­ginar a reação de Haddon e dos
desenrola na sua pátria”. Não pode, po- cortesãos londrinos, a partir de Cecil, o
rém, considerar, como parece sugerir secretário da Soberana, a qual o bispo
Haddon, “inócuos pecadilhos o estendal português reputava de generosa. Jean
de misérias e crimes atrozes que acabara Matal, velho correspondente de D. Je-
de desdobrar” (Id., Ibid., 211-213). Além rónimo Osório, escreveu-lhe, na altura,
disso, lastima não conseguir ver, “nos ser- a dizer que Haddon “afiava a pena” para
viços religiosos” dos reformados, as me- a réplica que deixou, porém, inacabada.
lhorias que o Inglês exalta, no confronto Falecendo em janeiro de 1572, a resposta
com o culto católico, pelo que se vê obri- manuscrita não ia além de livro e meio, do
gado a concluir “que tais reformadores total de três dirigidos ao Contra Haddon do
são falsos profetas e merecem a condena- prelado algarvio (Id., Ibid., 151-153). Com-
ção eterna” (Id., Ibid., 216-217). pletou-a, todavia, John Foxe (1516-1587),
Não termina a contestação de D. Je- mestre em Artes, graduado pela Univ. de
rónimo Osório às inovações teológicas Oxford, anglicano radical e sacerdote,
introduzidas pelo protestantismo sem tra- conhecido escritor de Christus Triumphans
tar da existência do Purgatório, que lem- (1556), “drama latino de tema apocalíp-
bra haver Lutero primeiro aceite para, tico”, e de Acts and Monuments, obra de
posteriormente, negá-lo. As Escrituras e fôlego acerca do martirológio protestan-
a tradição testemunham-no como verda- te, logo colocada “em todas as sés cate-
de a crer. Aproveita o ensejo para realçar drais e nas residências dos arcebispos,
a renovação sentida na Igreja Católica, bispos, diáconos e subdiáconos” ingleses.
enquanto nas fileiras protestantes, tan- O Contra Osório, dado à luz em 1577, sob
to no âmbito secular como no religioso, o título Contra Hiron. Osorium, eiusque
“combatem-se mutuamente, ressuscitam Odiosas Insectationes pro Evangelicae Veritatis
heresias esquecidas, abrem caminho à Necessaria Defensione, Responsio Apologetica.
negação de Deus”. Na política europeia, Per Clarissimum Virum Gualt. Haddonum
também os efeitos não foram melhores: Inchoata: Deinde Suscepta et Continuata per
“na Alemanha, na França, na Inglaterra e Ioan. Foxum, foi impresso em Londres
na Escócia, os povos levantaram-se contra por John Day, no ano de 1577. Autor e
os seus legítimos senhores”. Termina pro- continuador, Haddon e Foxe, perfilhan-
metendo que só voltará a este diálogo re- do a toada polémica própria da literatura
ligioso se tiver “alguma esperança de cura afim, persistem no arremesso de acutilan-
relativamente a Haddon ou seus confra- tes diatribes insultuosas, numa exaltação
des”, pois a disputa sem “razões, provas proselítica do anglicanismo, que conside-
e exemplos” convincentes e apenas refu- ram difamatoriamente deturpado pelo

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teólogo português, cujos textos compa- proporcionavam pertinentes ensejos a


ram a “frioleiras de fanfarrão” (Id., Ibid., comentários polémicos e explanações
205). Esta polémica acintosa, esgrimida apologéticas. Assim, na missa do segundo
com armas de aço latino, naturais para domingo do Advento, a 11 de dezembro
eruditos renascentistas mas distantes do de 1552, a que D. João III assistia com a
púlpito vulgar, morreria aqui, até mesmo família real, um mercador inglês, chega-
porque D. Jerónimo Osório ficou a des- do a Lisboa, acercou-se do sacerdote no
conhecer essa última réplica de Haddon­ momento da elevação e, arrancando-lhe
‑Foxe, cuja versão inglesa, Against Jerome a hóstia consagrada, atirou-a ao chão.
Osoryus Byshopp of Silvane in Portingall and Foi preso e sentenciado à fogueira, sen-
against His Slaunderous Inuectives […] now do executado no dia seguinte. No dia 13,
Englished by Iames Bell, veio a lume, em terça-feira, houve uma procissão eucarís-
1581, pela mão do referido impressor tica de desagravo pelo sacrilégio, com a
londrino. No entanto, John Foxe regres- participação de mais de 60.000 pessoas,
sará ao terreno com o avantajado volume do Monarca e da corte. Houve, no final,
in-octavo intitulado De Christo Gratis Ius- uma pregação em louvor do Santíssi-
tificante. Contra Osorianam Iustitiam, caete- mo Sacramento por António Pinheiro,
rosque eiusdem Inhaerentis Iustitae Patronos, teólogo e mestre do príncipe herdeiro,
Stan. Hosium, Andrad., Canisium, Vegam, que era apropriada à ocorrência, sendo
Tiletanum, Lorichium, contram Uniuersam esse um momento de muitas lágrimas e
denique Turbam Tridentinam e Iesuiticam, devoção. Aconteceu também que, após
Amica et Modesta Defensio, de 436 páginas, conhecer-se em Lisboa a matança do dia
impresso em 1583 na oficina de Thomas de S. Bartolomeu, 24 de agosto de 1572,
Purfoot (Id., Ibid., 117). O ataque dirige­ em que foram massacrados na cidade de
‑se agora contra a doutrina católica da Paris cerca de 3000 huguenotes e talvez
justificação pela graça divina, exposta por para cima de 14.000 protestantes por
D. Jerónimo Osório em Tratado da Justiça, toda a França, o Dominicano Fr. Luís de
tal como os mais credenciados teólogos Granada (1504-1588), a 8 de setembro,
ibéricos a defendem, entre os quais os proferiu em S. Domingos um sermão de
Portugueses Diogo de Paiva de Andrade “engrandecimento” pela vitória que ao
e Pedro de Vega. Emudeceu, em seguida, Rei gaulês Deus concedera. Por sua vez, o
esta histórica controvérsia religiosa luso­ teólogo tridentino e orador sacro Diogo
‑anglicana, não sem reforçar o peso dos de Paiva de Andrade (1528-1575), irmão
anti no contexto da progressiva rutura da de Fr. Tomé de Jesus e assíduo frequen-
Europa cristã. tador do círculo espiritual dominicano,
embora não gozasse da inteira confiança
da ala conservadora da ortodoxia católi-
A parenética ca, refutava no púlpito, convictamente, a
e a censura inquisitorial heresia luterana e as opiniões da mesma
Em tempos de fortíssimo analfabetismo fonte derivadas. Algo análogo se poderia
e de enorme afluência aos templos, a ora- dizer, com respeito a problemas contro-
tória sacra era um poderoso meio para a vertidos da Reforma protestante, de es-
mentalização antiprotestante, tanto mais critos e sermões do P.e Sebastião Barradas
eficaz quanto a autoridade dos pregado- (1543-1615), insigne biblista e mestre je-
res fosse abonada pelo saber e pela vir- suíta, considerado ao tempo pregador de
tude. Factos ocorrentes de afim relação nomeada.

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Matança do Dia de S. Bartolomeu, de François Dubois (1529-1584).

A atmosfera vivida em Lisboa face aos gunda parte aparecido seis anos depois,
ataques de forças fiéis e aliadas ao preten- sem que lhe minguasse fundamentação
dente à Coroa, D. António, prior do Cra- para, de sobejo, alimentar a ênfase dada
to, vencido em Alcântara pelo exército ao ataque antiprotestante. José Adriano
invasor de Filipe II, em 1580, e a frustra- de Carvalho, revelador da parénese do
ção provocada pelo aniquilamento da In- P.e Inácio Martins, acentua que nessa tare-
vencível Armada, que integrou uma par- fa era ideologicamente explorada “a  co-
ticipação naval portuguesa, motivaram notação dos ingleses como opressores e
vários sermões do Jesuíta Inácio Martins, hereges, desobedientes ao Papa […], ne-
sacerdote culto e ativo mestre catequista, gadores dos sacramentos católicos […],
que percorria as ruas e praças da capital profanadores de imagens e objetos de
do reino acompanhado de numerosos culto […], desafiadores do Rei Católi-
grupos de meninos. Nos inícios de maio co” (CARVALHO, 2004, 258). Contudo,
de 1588, na cruzada de pregações e ora- o desastre da Invencível Armada viera
ções para implorar a Deus o êxito daquela agravar as ameaças às costas e aos mares
ofensiva bélica, pronunciou o sacerdote portugueses e semear o pânico entre as
inaciano um Sermão na Guerra Justa contra populações, para além dos ataques às fro-
os Engreses Hereges na igreja de Santos-o­ tas que sulcavam o Atlântico. São de 1596
‑Velho, com violentas invetivas dirigidas outros cinco sermões manuscritos, respe-
à nação anglicana, inimiga declarada da tivamente pregados: na casa professa de
fé católica. Aliás, nesse mesmo ano, saiu S. Roque, aos padres e irmãos; na igreja
de prelos lisbonenses, em versão castelha- de S.ta Catarina, quando Drake, o corsário
na, a primeira parte da Historia Eclesiastica inglês, assolou as cidades de Cádis e Faro,
del Scisma del Reyno de Inglaterra, da auto- receando-se que avançasse sobre Lisboa;
ria de Pedro de Ribadeneira, tendo a se- o terceiro, quarto e quinto, sem templo

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certo, foram também pronunciados no excomunhão e que eram de obrigatória


decurso dessas dramáticas circunstâncias denúncia ao Tribunal inquisitório. Com
históricas. Ao apontar o Inglês, naquele esta aturada vigilância, procurava-se man-
medonho tempo, como herege, o qual ter o país, de certo modo, defendido do
“é a Deus injurioso, é em si todo perdi- contágio protestante. De facto, a longa
do, é à igreja contagioso”, atribui-lhe as Guerra da Restauração, de quase três dé-
malfeitorias criminosas cometidas na al- cadas, levou o poder político a permitir,
tura. Assim se expressou, e.g., no sermão em 1641, a existência de uma Igreja ho-
a S. Bartolomeu, um daqueles cinco: “ou- landesa reformada, embora apenas para
viste-me dizer que inventara Deus três o culto de naturais das Províncias Uni-
cousas, igrejas, ornamentos, imagens sa- das, e, no tratado luso-britânico firma-
gradas e que todas três eram proveitosíssi- do nesse ano, a reconhecer a liberdade
mas às almas. E todas essas três cousas nos de consciência aos súbditos ingleses de
pretendeu tirar o demónio (com?) ferro confissão evangélica residentes no país,
pelos ingleses este ano de 1596. E se não desde que exercessem as celebrações em
vede o que fizera em Calix [Cadiz] e em privado, não obstante saber-se que o Papa
Faro. O de Calix deixo. Em Faro derriba- Clemente VIII entendia ser tal direito
ram três igrejas, espedaçaram as imagens, “o pior do mundo”. Tenha-se em atenção
profanaram os ornamentos e das estolas o edital do Santo Ofício de 20 de março
e manípulos fizeram ligas das calças. Que de 1746, aliás idêntico ao que, anualmen-
haveis de fazer os católicos como todos te era afixado nos templos por ocasião
sois? Haveis de vingar esta injúria” (Id., do quarto domingo da Quaresma, em
Ibid., 262-263). O P.e Inácio Martins não que se mandava delatar, sob pena de ex-
apontava outra resposta que não fosse o comunhão maior in ipso facto incurrenda,
confronto armado. quaisquer pessoas eclesiásticas, seculares
A censura literária, confiada ao braço e regulares sem exceção, e todo o cristão
eclesiástico, cedo se fez sentir, ao obstar a que tivesse por boa a seita de Lutero e
entrada em Portugal da literatura protes- Calvino, bem como qualquer heresiarca,
tante vinda de além-fronteiras. Em 1540, dos antigos e modernos, condenado pela
por ordem do arcebispo de Lisboa, o car- Sé Apostólica.
deal infante D. Afonso, foram os livreiros A vigilância antiprotestante, exercida
da cidade intimados a entregarem ao sob a égide da Inquisição, prosseguiu ao
doutor sorbónico Álvaro Gomes uma lista longo do séc. xviii, sendo o exame dos
dos livros para venda, a fim de os volumes livros postos à venda feito, por vezes, com
suspeitos serem todos vistos, em especial aturada minúcia. Na visita a que, por or-
os que tinham origem na Alemanha, para dem do Santo Ofício, Fr. Nicolau da As-
evitar que chegassem às mãos dos católi- sunção procedeu em Lisboa, a 26 de abril
cos, sendo depois submetidos ao exame de 1759, nos inícios do consulado pom-
dos censores. Por essa altura, apareceram balino, à loja de um importador de livros
os catálogos de índices de livros proibi- italianos, o Dominicano encontrou um
dos (1547, 1551, 1559, 1561), seguindo­ exemplar da Minerva de Francisco San-
‑se os do Dominicano Francisco Foreiro cho, impressa sete anos antes em Ames-
(1564), do metropolita de Lisboa D. Jor- terdão, e anotada por Jacob Perizonio,
ge de Almeida (1581) e do Jesuíta Bal- um reconhecido herege. O deputado do
tazar Álvares (1561-1630), com as obras Tribunal da Fé encontrou uma passagem
que se vedavam aos católicos sob pena de em que se punha em causa a doutrina

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reafirmada em Trento logo no prefácio, humanística, Francisco Xavier entrou na


tendo-se apressado a minutar fundar-se vida profissional pelo funcionalismo pú-
aquela num erro de Calvino que “nega a blico. A turbulência amorosa marcou-lhe
infalibilidade das definições dos Pontífi- a adolescência e a juventude, havendo
ces Romanos e dos Concílios”, expressan- contraído em Portugal e no estrangeiro
do que, no seu parecer, se devia “mandar sucessivos casamentos. Agraciado com o
riscar como herético”. O desanuviar tra- grau de Cavaleiro da Ordem de Cristo,
zido pelos ventos iluministas, mesmo no o talento e as relações sociais abriram­
Portugal ortodoxo setecentista, permitiu ‑lhe uma carreira diplomática acidentada,
aflorações deístas, jansenistas, ateístas, com permanentes dificuldades financei-
voltairianas, bem como reafirmações lute- ras que o lançaram nos braços da here-
ranas e calvinistas, que, todavia, acabaram sia protestante, assumida em pleno por
sendo alvo de condenatórias oposições. volta de 1741 no meio anglicano inglês.
De referir o Triumpho da Religião. Poema O iluminismo francês enciclopedista e
Epico Polemico (1756), dedicado ao Papa cético reflete-se já na versão escrita das
Bento XIV, do intelectual ortodoxo, em- Cartas Familiares, Históricas, Políticas e Crí-
bora controverso e instável vate, Francisco ticas, obra enviada a exame censório do
de Pina e de Melo, denominado “corvo Santo Ofício onde, segundo o seu melhor
do Mondego” na voz de Correia Garção, biógrafo, Gonçalves Rodrigues, é feita
defensor dos Jesuítas e suspeito para Pom- “a apologia da Razão como fonte do co-
bal, que o mandou prender. A obra, escri- nhecimento”, da “liberdade de discor-
ta com o intuito de combater, entre vários rer”, das “leis sagradas e invioláveis da
sistemas heréticos ao tempo em voga, o lu- consciência” (RODRIGUES, 1950, 147);
teranismo e o calvinismo, deu azo a acesa indigna-se, sobretudo, com a imoralidade
crítica e contestação, que circulavam em do clero. Em 1738, mantém claras dúvi-
folhas impressas e manuscritas. das sobre o dogma da transubstanciação
eucarística e, no ano seguinte, exprime a
sua descrença no Purgatório, pois consi-
A condenação do Cavaleiro de Oliveira, dera vãs as “cerimónias praticadas mal a
o “protestante lusitano” propósito com os cadáveres insensíveis”.
Deve referir-se o caso dominante no Por- O deputado do Santo Ofício que lhe cen-
tugal setecentista: o de Francisco Xavier surou as Cartas não lhe perdoa a menção
de Oliveira, o Cavaleiro de Oliveira, o sobre o celibato eclesiástico e “o valor
“protestante lusitano”, cujos escritos ti- relativo da virgindade e do matrimónio”.
veram larga difusão e cuja impenitente Mas a ofensiva antirromana do Cavaleiro
conduta recebeu da Inquisição letal ba- de Oliveira parte da análise crítica aos
nimento. O pai, funcionário nas missões problemas teológicos e políticos susci-
diplomáticas de Utrecht e Viena, no tem- tados no diferendo entre o papado e a
po do marquês de Alegrete e do conde corte inglesa, que conduziram à organi-
de Tarouca, contava frades e freiras entre zação da Anglicana Ecclesia (Church of
os filhos e parentes, a ponto de, com ver- England), regida doutrinariamente pelos
dade, ser exato que este filho fora edu- conhecidos 39 artigos de fé. Casado em
cado em ambiente conventual de orto- Inglaterra com uma senhora de filiação
doxia tridentina e sensibilidade barroca. huguenote, será pelos panfletos da velhi-
Nascido a 21 de novembro de 1702 em ce que se constata como o protestantismo
Lisboa, onde recebeu cuidada instrução que perfilhava, ainda conforme Gonçalves

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Rodrigues, se distingue “mais pela oposi- setembro de 1761 – deveu-se à publica-


ção intransigente ao catolicismo do que ção do Discours Pathètique, que, em 1756,
pelo espírito de inovação e independên- teve edições em francês e inglês. Tratava­
cia”, animado sempre pelo vivíssimo de- ‑se de uma interpretação providencialista
sígnio de evangelizar a sua pátria, ainda do terramoto de Lisboa de 1755, que foi
que por motivos mais políticos do que atribuído à adoração das imagens religio-
espirituais (Id., Ibid., 165-166). Para ele, sas, ato mais criminoso do que a idolatria
o celibato, a abstinência e os jejuns não do gentilismo, à proibição da leitura da
passam de exterioridade, e o culto das Bíblia em vernáculo, à perseguição aos
relíquias de mera superstição; e nenhum judeus, impedindo-os de praticar o seu
acolhimento concede ao mérito das boas culto. Para o seu citado biógrafo, o autor
obras para a justificação, dádiva gratuita pretendia com esta obra “estimular a cria-
que apenas pela fé se recebe. Estes os ção, de uma Igreja Lusitana submetida ao
pontos doutrinários de inteiro cerne lute- gládio político, à imagem e semelhança
rano que o Cavaleiro de Oliveira tornara da igreja anglicana que o aceitara como
patentes, entre outros escritos, no Tratado membro” (Id., Ibid., 254). A versão de um
das Conformidades entre o Paganismo e o Pa- credo protestante de medula nacional
pismo, corpo estruturante do Amusement, recebe, assim, inequívoca preferência,
obra considerada fulcral para o rastreio quer ao rejeitar a jurisdição do papa em
do seu ideário protestante. Não admira, território português, cujo domínio abso-
pois, ser decretada pelo Santo Ofício a luto pertencia a seu rei natural, quer ao
proibição de todos os seus escritos, que, preconizar pertencer a este o direito de
de resto, passaram a rarear em extremo “convocar uma assembleia de homens
no país, numa medida repressiva ditada doutos, especialmente de França e Ale-
pela ortodoxia tridentina, protegida e manha, para discutir os problemas religio-
fomentada pelo Estado português, com sos, de Bíblia na mão, fielmente vertida
agrado do povo avesso aos cristãos-novos. em vernáculo”. Cada vez mais doente, o
Por sua vez, a Europa anglo-saxónica e Cavaleiro de Oliveira chegou, octogená-
iluminista manifestava acintosa fobia ao rio, ao fim de prolongada velhice: a 18 de
catolicismo obscurantista que, no fundo, outubro de 1783, no ano a seguir à morte
representava outra forma de conduta do marquês de Pombal, faleceu em seu
inquisitorial e de intolerância também desterro londrino, sem nunca ter voltado
persecutória. à pátria desde que partira. As suas ideias
A Inquisição apercebia-se, contudo, de heterodoxas, que foram anatematizadas
que o combate sem tréguas de Oliveira, pelos anti-iluministas, tanto eclesiásticos
para sua completa extinção, era de to- como leigos, acabaram, no entanto, por
mar a sério, porquanto ele provocato- encontrar eco na geração liberal por-
riamente afirmava esperar o advento de tuguesa que se abriria à tolerância para
um Calvino português capaz de levar a com o credo protestante e as confissões
nação a converter-se ao protestantismo. acatólicas.
O fundamento, porém, da condenação
do herege pelo Santo Tribunal – que o
Bibliog.: ANDRADE, António Alberto Banha
sentenciou a ser queimado em efígie, por
de, Verney e a Cultura do Seu Tempo, Coimbra,
“ausente e morador em Londres, con- Acta Universitatis Conimbrigensis, 1966; AU-
victo, negativo e contumaz”, como o foi, BIN, Jean, “Damião de Góis dans une Europe
simulado em “espantalho de lã”, a 20 de évangélique”, Humanitas, n.os 31-32, 1979-80,

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1204 Antiluteranismo (Época moderna)

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terária inquisitorial”, Boletim da Segunda Classe, (1570-1571)”, Anais da Academia Portuguesa de
vol. 12, n.º 2, 1918, pp. 473-560; BRAGA, História, 2.ª sér., vol. 36, 1998, pp. 155-173;
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ros e a Inquisição Portuguesa (Séculos XVI-XVII), em Portugal no Século XVIII. António Ribeiro dos
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A Inquisição e os Professores do Colégio das Artes, nio Guimarães, Humanismo e Controvérsia Re­
Coimbra, Acta Universitatis Conimbrigensis, ligiosa. Lusitanos e Anglicanos, 3 vols., Lisboa,
1948; BRASÃO, Eduardo, Relações Diplomáticas INCM, 2006; PRESTAGE, Edgar, As Relações
de Portugal de 1640 a 1668, Lisboa, Bertrand, Diplomáticas de Portugal com a França, Inglaterra
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Martins, sj – seis sermões contra os Ingleses nio Gonçalves, O  Protestante Lusitano. Estudo
(1588-1596) e cinco cartas da viagem por Eu- Biográfico e Crítico sobre o Cavaleiro de Oliveira
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Francisco de Carvalho, “A introdução da Fac­‑Simile, Lisboa, INCM, 1983; TAVARES, Pe-
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para a história religiosa do Nordeste”, Estu­ teranismo ibérico do séc. xvi: breves reflexões
dos Transmontanos, n.º 2, 1984, pp. 119-142; sobre alguns pressupostos, equívocos e encru-
DIAS, José Sebastião da Silva, Correntes de Sen­ zilhadas”, Humanística e Teologia, t. 15, n.os 1-2,
timento Religioso em Portugal (Séculos XVI a XVIII), 1994, pp. 205-223; Id., “Por ‘erros de Lutero e
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de Góis, Lisboa, FCG, 1987; MARTINS, José V.
de Pina, Humanismo e Erasmismo na Cultura Por­
tuguesa do Século XVI, Paris, FCG/Centro Cultu- Esta entrada recupera, em versão adaptada,
parte do texto “Antiprotestantismo. A oposição
ral Português, 1973; MEA, Elvira de Azevedo, crítica ao protestantismo pelo catolicismo em
A Inquisição de Coimbra no Século XVI. A Institui­ Portugal”, publicado anteriormente em MARU-
ção, os Homens e a Sociedade, Porto, Fundação JO, António, e FRANCO, Eduardo  (coords.),
Eng.º António de Almeida, 1997; OSÓRIO, Dança dos Demónios. Intolerância em Portugal,
Jerónimo, Carta à Rainha de Inglaterra, Lisboa, Lisboa, Círculo de Leitores/Temas e Debates,
2009, pp. 203-264.
Biblioteca Nacional de Portugal, 1981; Id.,
Tratado de Justiça, Lisboa, INCM, 1999; PEREI-
RA, Isaías da Rosa, “O processo de Damião
de Góis na Inquisição de Lisboa (4 de abril
de 1571-16 de dezembro de 1572)”, Anais da
Academia Portuguesa de História, 2.ª sér., vol. 23,
t. i, 1975, pp. 117-156; Id., “O primeiro lutera-
no português penitenciado pela Inquisição”,
in Inquisição. Comunicações do 1.º Congresso Luso­
‑Brasileiro, vol. i, Lisboa, Sociedade Portuguesa
de Estudos sobre o Século XVIII/Universitária
Editora, 1989, pp. 259-261; Id., “O processo

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Antimaçonismo 1205

Antimaçonismo momento, e a qual atingiu a Maçonaria


apenas por tabela” (RAMOS, 2009, 322).
A disseminação de lojas maçónicas, de
há quase 300 anos a esta parte, provocou
uma forte corrente de condenação, de
crítica e de perseguição a esta novíssima
forma de associativismo, para promover

O antimaçonismo configura a corren-


te que incorpora na longa duração
histórica as iniciativas, as posições, as
ideias novas e criar grupos coesos, assen-
tes em vínculos de fraternidade ritual-
mente selados.
ações e a aparelhagem argumentativa de Embora o debate sobre as origens da
combate à emergência, expansão, con- maçonaria tenha persistido, campo em
solidação e influência da Maçonaria nas que também prepondera uma história do
suas diferentes expressões e instituições. imaginário muito rica e digna de estudo
O romance O Cemitério de Praga (2011), crítico, os estudiosos mais credenciados
de Umberto Eco, e o complementar li- situam em 1717 a fundação de um tronco
vro de ensaios do mesmo autor, Construir organizativo, que se estenderá como uma
o Inimigo (2011), relevam o sucesso e a árvore frondosa com inúmeros ramos.
proliferação de uma cultura de comba- A  criação da Grande Loja de Londres e
te e dos seus discursos, que fundam as a designação dos membros pelo nome
teorias de complô na história moderna de free mason (pedreiro-livre) marcaram
e contemporânea. A queda e a ascen- o arranque da estruturação do associa-
são de regimes, a sucessão de correntes tivismo franco-maçom ou da chamada
culturais e ideológicas, o nascimento de maçonaria especulativa, que se considera
novas instituições, em concorrência com herdeira simbólica da maçonaria operati-
organizações seculares, a hegemonia de va dos pedreiros e arquitetos medievais,
umas confissões religiosas e étnicas sobre construtores de catedrais e templos, dis-
outras suscitaram poderosos discursos de seminadores da grande arte e do melhor
construção do inimigo como estratégia património edificado na Europa.
de afirmação, de diferenciação identitá- Criando e recriando rituais iniciáticos e
ria, de legitimação e de conquista de es- revestindo-se de paramentos simbólicos,
paço social, político e simbólico. a maçonaria nasceu entre a história e a
A maçonaria é um desses territórios do
imaginário, que tem sido muito fértil na Pormenor do interior da Grande Loja de Londres.
construção de uma cultura em negativo:
o inimigo a combater é o campo cercado
da razão explicativa para muitas derivas
das sociedades tardo-modernas e con-
temporâneas. O historiador Rui Ramos
alerta para a devida cautela metodoló-
gica na definição do termo “antimaço-
nismo”, distinguindo a sua aplicação em
cada momento histórico, como “rejeição
doutrinal da maçonaria e uma política de
recessão de certas organizações e formas
de sociabilidade suspeitas ao poder do

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1206 Antimaçonismo

memória. O seu texto fundador, publica- as Letras. No entanto, a tentativa fracas-


do em Londres, em 1723, procurou criar sou porque o cardeal Fleury respondeu
uma identidade e uma legitimidade para a que essas assembleias não agradavam ao
organização. Na introdução das Constitui- Rei. Ramsay retirou-se da maçonaria de-
ções, o seu editor, Désaguliers, um exilado finitivamente, procurando um simulacro
protestante francês, na altura grão­‑mestre de repressão, completo pela publicação
da Loja de Londres e Westminster, asse- de opúsculos destinados a desacreditá-la.
gurou entregar aos leitores “uma relação Apesar do seu fracasso, Ramsay deixou
fiel e exata da Maçonaria desde o começo uma marca forte no imaginário coletivo,
do mundo” (DÉSAGULIERS, 1723, II). com inesperados efeitos, popularizando
Através de um relato lendário, a novíssima a ideia de que a maçonaria não era uma
maçonaria apresentou-se como herdeira fraternidade civil, mas sim uma ordem de
de uma tradição imemorial. Este passa- cavalaria. Este relato alimentou o imagi-
do reinventado ancorou as suas raízes na nário da maçonaria francesa espalhan-
criação do mundo. No séc. xviii prolife- do-se pelos países que tinham relações
rou a tese das origens medievais. O rela- com as lojas francesas, como a Alemanha,
to medieval foi confecionado, de facto, a Itália, a Suécia e a Rússia. As variantes
a 26 de dezembro de 1736. O seu autor, deste discurso proliferaram, fragmentan-
um católico escocês emigrado em França, do-se em microcosmos imaginários.
de nome Andrew Michael Ramsay, publi- As Constituições de Anderson, elaboradas
cara novelas sobre viagens iniciáticas e entre 1714 e 1723, tornaram-se a refe-
religiões enigmáticas. Se as Constituições rência estruturante da consolidação das
de 1723 tinham impulsionado o mito da práticas rituais, dos conteúdos doutrinais
origem antiga, Ramsay substituiu-o pelo e das orgânicas institucionais das lojas
mito da origem medieval cavaleiresca, maçónicas de tradição britânica. Estas
evocando os cruzados. Adequava-se assim incorporaram a simbologia herdada das
ao gosto literário do séc. xvii e do início corporações de pedreiros e arquitetos e
do séc. xviii, respondendo à paixão que os elementos das correntes herméticas,
pequenos círculos tinham pelas novelas alquímicas e cabalísticas, que ganharam
de cavalaria. Muito de acordo com este força com o dealbar da época moderna.
gosto, adaptou o relato das origens e in- As Constituições instituíram a maçonaria
cluiu lendas sobre os monges-soldados como ordem iniciática, consistindo em
cruzados do séc. xii. Ramsay seguiu uma rituais praticados nas lojas, depois fede-
corrente cristã-mística, o quietismo, mui- radas em obediências ou grandes lojas.
to difundido nos sécs. xvii e xviii, conde- O  iniciado era sujeito a uma ascese e a
nada como herética pela Igreja Católica, um ensino através de ritos e símbolos, de
em 1687. Levou esta ideia ao cardeal de forma a atingir, através de vários estádios,
Fleury, principal ministro do Rei Luís XV um modo de ser superior àquele que ex-
e homem forte do Estado francês. perimentava na sua vida social profana. Os
As lojas começaram a desenvolver-se em graus eram indicativos da sua progressão.
França, onde o poder político começou a Os iniciados consideravam-se irmãos entre
manifestar desconfiança, proibindo estas si, mas, devido ao carácter secreto da sua
assembleias a 17 de março de 1737. Ram- iniciação, não lhes era permitido revelar a
say solicitou a Sua Majestade tolerância e sua identidade, a qual, no entanto, podia
proteção para a confraria que, segundo ser mutuamente atestada, através de sinais
ele, deveria servir a religião, o Estado e discretos de reconhecimento.

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Antimaçonismo 1207

Folha de rosto de The Constitutions of the Free-Masons (1723), de James Anderson.

A fraternidade era estruturante do ponsáveis do Estado, diferentemente do


ideário das lojas, onde se acolhiam e to- que viria a acontecer nos países europeus
leravam diferentes modos de pensar, de continentais.
acreditar e de idealizar novos modelos Desde finais do séc. xvii, Londres, se-
de sociedade. Embora se aconselhasse a guida de Paris e Amesterdão, tinha-se
fé monoteísta e o respeito pelos poderes convertido no epicentro europeu de uma
instituídos, as lojas eram apresentadas verdadeira explosão associativa. Multipli-
como um espaço de debate livre e como cavam-se os círculos literários, os salões,
laboratórios de pensamento novo. os cenáculos, as sociedades socráticas, as
A Inglaterra incarnava, em finais do publicações e os periódicos. Estes grupos
séc. xvii, um modelo único na Europa mesclavam indivíduos com diversos hori-
e no mundo. O Estado estava dotado de zontes, aristocratas e burgueses dotados
novos enclaves geopolíticos, institucio- de capital cultural.
nais, económicos e sociais. Depois de ter No primeiro século do surgimento das
dirimido as tentativas urdidas a partir de lojas maçónicas, no contexto do Ilumi-
França para uma restauração católica e nismo e das correntes de crítica ao mo-
absolutista, a nova monarquia tinha-se delo social e político do Antigo Regime,
reequilibrado. A unificação da Inglaterra a Igreja, sendo um dos pilares essenciais
e da Escócia, pela lei da União de 1706­ de um sistema social fundado na coope-
‑1707, tinha selado o reino da Grã-Bre- ração estreita entre o poder temporal e
tanha, privando a França católica da sua o poder espiritual, não poderia acatar
aliança tradicional com a Escócia. A disse- com serenidade um movimento de pen-
minação das organizações maçónicas no samento livre que sonhava com uma so-
país-ilha que era a Grã-Bretanha foi bem ciedade diferente e que fugia, pelo méto-
recebida e até apoiada pelos altos res- do do segredo, ao controlo eclesiástico,

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1208 Antimaçonismo

procurando atingir o domínio íntimo das Cedo começaram a ser publicados do-
consciências. Por outro lado, a origem da cumentos oficiais condenatórios e pre-
maçonaria em universo protestante e a ventivos da parte das instituições tutelares
estruturação esotérica de rituais iniciáti- das esferas política e religiosa, em parti-
cos que implicavam compromissos, jura- cular da Igreja Católica, das Igrejas pro-
mentos, fidelidades e obediências parale- testantes e dos governos dos Estados eu-
los e/ou em concorrência com processos ropeus do Antigo Regime. Em sociedades
de vinculação semelhantes da Igreja Ca- fechadas, onde o direito de associação
tólica e de outras confissões protestantes era muito restrito e, em múltiplos casos,
suscitavam grandes suspeitas, dúvidas e inexistente, o aparecimento das formas
receios da parte dos guardiões da ortodo- de associação maçónicas, estruturadas
xia religiosa, à luz de um modelo social sob a denominação de lojas, com ritua-
de cristandade defendido por instâncias lidades próprias, identidades secretas e
judiciais de vigilância como a Inquisição juramentos ocultos, suscitou as mais fan-
e outros sistemas de censura análogos. tasmáticas suspeitas.
Convém notar, como escreve Rui Ra- A corrente de oposição à maçonaria en-
mos, que “o antimaçonismo viveu também grossou e acirrou-se ao longo do séc. xix,
da ideia de uma subversão da própria or- criando doutrinas explicativas da sua
dem maçónica, supostamente desviada identidade, das suas origens, das suas prá-
dos seus desígnios originais por infiltração ticas e dos seus fins. Como notaram Graça
de grupos de indivíduos apostados em Dias e José S. Silva Dias, em Os Primórdios
manipular a Maçonaria para fazê-la ser- da Maçonaria em Portugal, a imagerie este-
vir os seus fins particulares. Já em 1738, a reotipada, que alimentou a formação de
diligência antimaçónica de Clemente XII um mito negro das obediências maçóni-
resultara da pressão de Jaime III, filhos cas, fundava-se num conhecimento im-
de Jaime II, que se apoiava nas Lojas es- perfeito, frágil e, muitas vezes, baseado
cocesas, maioritariamente simpáticas aos apenas em suspeitas pouco fundamenta-
Stuarts e ao catolicismo, e mais tarde ditas das, mas que suscitavam receios e juízos
‘antigas’, contra as Lojas inglesas, ‘moder- terríveis. A obra apontou ainda o parco
nas’, apoiantes da nova dinastia de Hano- conhecimento que havia da parte dos po-
ver e do Protestantismo. As Lojas escocesas deres tutelares da sociedade do séc. xviii
adotam o rito antigo e aceite, autorizado relativamente à organização maçónica,
pelo rei Jaime I da Escócia. A Europa Con- os quais tomaram medidas persecutórias
tinental tornou-se um campo de batalha e proibitivas fundadas mais em boatos e
das influências escocesa e inglesa. As Lo- opiniões difusas do que em informações
jas francesas acabaram por se separar e consistentes (DIAS e DIAS, 1980, 27).
por criar uma identidade própria, à volta Com efeito, a iliteracia do outro, cons-
de uma relação mais problemática com tituído como inimigo, esteve na base da
a religião reveladas, fazendo da tolerân- construção do mito negativo da maçona-
cia religiosa uma forma de relativização ria, como aconteceu com outros mitos as-
à beira da rejeição. Algumas glorificavam sentes na doutrina do complô, como é o
a ciência moderna, onde procuravam en- caso congénere dos mitos que recaem so-
troncar uma alternativa de espiritualidade bre os judeus, os Jesuítas e os comunistas.
racionalista às religiões reveladas; outras Perseguidos durante séculos pela sombra
dedicavam-se a experiências místicas fora da intolerância, os próprios maçons ti-
do cristianismo” (RAMOS, 2009, 347). nham esquecido as suas origens. Desde a

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Antimaçonismo 1209

Revolução Francesa, e mesmo no início


do séc. xx, a maçonaria pelejava, nova-
mente, entre a luz e a sombra. Conforme
notou Roland Barthes, o mito vale como
o tipo de discurso eleito, historicamente,
com função deformadora, uma vez que
escolhe de forma parcial os seus elemen-
tos formativos, trabalhando com a ajuda
de imagens pobres, incompletas, que ar-
ticulam diversos elementos para criar um
sistema que pretende ser natural (BAR-
THES, 1970, 207, 215).
Embora a Igreja Católica tenha fica-
do marcada, no imaginário antimaçom,
como a arqui-inimiga da maçonaria, os
primeiros motins violentos contra uma
loja maçónica registaram-se em território
protestante. Passada pouco mais de uma
década da criação da maçonaria, o anti-
maçonismo foi inaugurado de forma vio- Papa Clemente XII (1652-1740).
lenta, com um motim popular que atacou
uma loja maçónica em Amesterdão, em assentava em argumentos que serão, em
1735. Esta convulsão social forçou o Go- grande medida, replicados e aprofunda-
verno dos Países Baixos a proibir o fun- dos por outros documentos papais anti-
cionamento destas organizações secretas. maçónicos, publicados com frequência
Dois anos depois, a monarquia católica desde então: o acolhimento, em sede ma-
francesa ordenou uma ação policial para çónica, de homens de todas as religiões;
deter, interrogar e investigar a atividade os juramentos rituais praticados; a recusa
dos pedreiros-livres, que começavam a de alguns maçons em aceitar a autorida-
proliferar na capital francesa, com ramifi- de clerical e o segredo total como prática
cações noutras cidades. A origem inglesa maçónica de proteção e de velamento,
desta organização, o segredo, o clima de mesmo perante os poderes eclesiástico
liberdade de pensamento e de opinião e político. O Pontífice Romano, no pri-
não controlada pelas autoridades come- meiro documento antimaçónico emitido
çaram a suscitar fortes desconfianças e pela Santa Sé, constata a proliferação das
uma corrente de boatos e de estereótipos lojas maçónicas com a sua característica
em cadeia. secreta, para depois considerá-las crimi-
Depois das primeiras iniciativas de re- nosas e proibi-las: “Inteirámo-nos de que
pressão da parte política, a Igreja Católica se estão difundindo por todas as partes e
começou a sua ofensiva doutrinal contra cada vez mais se consolidam algumas so-
a maçonaria, a 28 de abril de 1738, com ciedades, associações, círculos, uniões ou
a publicação, pelo Papa Clemente XII, conventículos comummente chamados
da carta apostólica In Eminenti Apostolatus ‘liberi Muratori’ ou ‘Franco Mações’, ou
Specula. A dificuldade do alto magistério designados com algum outro nome em
eclesiástico em aceitar as novas formas função da variedade das línguas. Homens
de associação das obediências maçónicas de qualquer religião ou seita participam

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1210 Antimaçonismo

nestes, desde que manifestem aparente Nos (1882), Humanum Genus (1884), Inimi-
de honestidade natural, associam-se uns ca Vis (1892), Custodi di quella Fede (1892),
aos outros com um pacto estreito e im- Praeclara (1894) e Annum Ingressi (1902),
penetrável segundo leis e estatutos esta- de Leão XIII.
belecidos por eles, e ao mesmo tempo se Por seu lado, os dados históricos mos-
obrigam, sob juramento rigoroso presta- tram uma participação não irrelevante
do sobre a Sagrada Bíblia e sob ameaças do clero e dos fiéis católicos, tal como das
de penas severas, a dissimular com um Igrejas protestantes, na maçonaria, com
silêncio inviolável o que fazem em segre- uma expansão das redes de lojas maçóni-
do” (DENZINGUER e HUNERMANN, cas, desde a sua fundação. Houve, com
2006, 649). efeito, um significativo distanciamento
Através desta carta apostólica, o Papa entre as orientações do magistério ecle-
Clemente XII proibiu os católicos de siástico e o parecer de alguns católicos no
aderirem à maçonaria e instruiu os in- que a este assunto proibitivo diz respeito.
quisidores de depravação herética para Deste modo, verifica-se que as proibições
tomarem medidas contra os católicos que e os alertas fortes da Santa Sé se afirma-
se tornassem maçons ou que ajudassem a vam em linha contrária ao que era prática
maçonaria de qualquer forma, ordenan- efetiva dos católicos, que não compreen-
do a excomunhão como punição para diam a incompatibilidade entre as duas
aqueles que desafiavam a sua proibição. formas de pertença.
Seguiu-se um longo historial de conde- A Santa Sé, ou, como se lê muitas ve-
nações editadas contra a maçonaria. Em zes na documentação da época, a Corte
1751, um novo documento papal, Provi- de Roma, não foi a primeira nem a única
das Romanorum, publicado a 18 de maio a condenar e a proibir a maçonaria, no
pelo Papa Bento  XIV, confirmou a con- séc. xviii. Alguns exemplos dão-nos a
denação da maçonaria determinada por ideia do receio que este tipo de associa-
Clemente  XII, ampliando as razões para ção suscitava. Destacam-se algumas das
que fosse novamente proibida. Entre esses mais emblemáticas proibições em nome
motivos, destaquem-se os rituais iniciáti- da segurança do Estado, na linha do que
cos, o juramento maçónico e o carácter ensina o direito romano, fonte do direito
secreto da instituição, que era entendido jurídico ocidental, em relação às associa-
como um mecanismo para encobrir práti- ções não autorizadas pelo Estado. As lojas
cas criminosas. As reuniões contrariavam maçónicas foram proibidas, em 1735, pe-
as leis civis e eclesiásticas, uma vez que los Estados Gerais da Holanda; em 1736,
aconteciam sem a permissão das autori- pelo Conselho da República e Cantão de
dades constituídas. As sociedades secretas, Genebra; em 1737, pelo Governo de Luís
como a maçonaria, ganharam desde então XV de França e pelo príncipe eleitor de
feição altamente demonizada entre os ca- Manheim, no Palatinado; em 1738, pe-
tólicos. Os documentos papais críticos da los magistrados da cidade hanseática
maçonaria continuaram, assim, a surgir, de Hamburgo e pelo Rei Frederico I da
ao longo dos sécs. xix e xx, entre os quais Suécia; em 1743, pela Imperatriz Maria
se destacam Ecclesiam (1821), de Pio  VII, Teresa de Áustria; em 1744, pelas autori-
Quo Graviora (1825), de Leão XII, Traditi dades de Avinhão, Paris e Genebra; em
(1829), de Pio VIII, Mirari Vos (1832), de 1745, pelo Conselho de Cantão de Berna,
Gregório  XVI, Multiplices Inter (1865) e pelo Consistório da cidade de Hannover
Apostolicae Sedis (1869), de Pio  IX, e Etsi e pelo chefe da polícia de Paris; em 1748,

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Antimaçonismo 1211

pelo grande sultão de Constantinopla; expressamente os católicos romanos de


em 1751, pelo Rei Carlos VII de Nápo- participarem em qualquer grupo ma-
les (futuro Carlos III de Espanha) e pelo çónico. Apesar destas condenações, um
seu irmão Fernando VI de Espanha; em dos maiores defensores da maçonaria da
1763, pelos magistrados de Dantzig; em altura, Karl Joseph Michaeler, ex-jesuíta
1770, pelo governador da ilha da Madei- e maçom, reitor da Univ. de Innsbruck
ra e pelo Governo de Berna e Genebra; e professor de História Universal, referia
em 1784, pelo príncipe do Mónaco e pelo que, na loja maçónica à qual pertencia,
eleitor da Baviera, Carlos Teodoro; em Saint-Jean de La Vraie Concorde, havia
1785, pelo grande duque de Baden e pelo outros eclesiásticos católicos.
Imperador da Áustria, José II; em 1794, Do outro lado da barricada, importa
pelo Imperador da Alemanha, Francis- notar que, a partir da segunda meta-
co II, pelo Rei de Sardenha, Victor Ama- de do séc. xviii, a maçonaria acentuou
deu, e pelo Imperador russo, Paulo I; e, também a sua campanha anticlerical,
em 1798, por Guilherme III da Prússia, sobretudo contra os Jesuítas. Tornou-se
entre outros casos. emergente um discurso propagandístico,
Na realidade, foi um país protestante o de mobilização coletiva, “explorando o
primeiro a proibir a maçonaria nos seus sentimento de medo resultante da fan-
territórios, um dado que convém ter em tasmagórica figuração demonizada do
conta quando se avaliam certas motiva- inimigo” (FRANCO, 2007, 101). Aliando­
ções alegadas, no séc. xviii, pelos países ‑se a formas de republicanismo, de socia-
católicos para justificar decisões seme- lismo e de livre-pensamento, a maçona-
lhantes. Assim, os documentos antima- ria produziu um discurso caracterizado
çónicos do magistério da Igreja Católica pela retórica da agressividade, típica do
não constituíram exceção nas insistentes discurso de complô.
acusações à maçonaria. Tanto Clemen- Se, historicamente, a forte reemergên-
te XII quanto Bento XIV alegaram moti- cia do anticlericalismo moderno se pode
vos de segurança de Estado, mas também situar no séc. xviii, o séc. xix veio acen-
a suspeita de heresia pelo facto de a ma- tuar o binómio clericalismo-anticlerica-
çonaria admitir nas suas lojas indivíduos lismo. Estes são substantivos que fazem
de diversas religiões, o que no séc. xviii a sua aparição depois de 1850. O termo
tinha uma valoração e um peso muito dis- “clericalismo”, mais adiante, vai opor-se a
tintos dos que adquiriu posteriormente. “laicismo”, termo que perde o seu sentido
Aos governos europeus, bem como à San- original, pois laico era aquele que não era
ta Sé, desagradava, acima de tudo, a atitu- sacerdote secular nem regular, assumin-
de de clandestinidade da maçonaria, que do o significado de pessoa que se opõe
os impedia de estar ao corrente do que ao clero, na sua pretensão de controlar os
se tratava nas reuniões secretas. A já refe- assuntos de ordem temporal. É justamen-
rida constituição de Bento XIV, Providas, te nesta extensão de sentido que reside
de 18 de maio de 1751, tinha confirma- toda a ambiguidade: para o crente, o anti-
do a constituição apostólica In Eminenti e clerical ou laico transforma-se no inimigo
condenado a maçonaria em razão da sua que, pretendendo limitar o papel político
defesa do naturalismo e da sua exigência da Igreja, aspirará, finalmente, à luz de
de juramentos, sigilo e indiferença reli- um ideário secularista, à sua destruição.
giosa, representando uma possível amea- No século seguinte, outro importan-
ça à Igreja e ao Estado, tendo proibido te documento papal, a constituição de

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Pio  VII Ecclesiam a Jesu Christo, de 13 de católicos para que “erradicassem aquelas
setembro de 1821, reafirmava a excomu- sociedades secretas de homens facciosos
nhão para os que fossem maçons e dava que, completamente opostos a Deus e aos
como razão para a censura o segredo vin- príncipes, estão inteiramente dedicados
culado ao juramento feito nas sociedades a derrubar a Igreja, a destruir os reinos,
secretas e as suas conspirações contra a e à desordem no mundo inteiro” (DEN-
Igreja e o Estado. O documento ligava ZINGUER e HUNERMANN, 2006, 756).
ainda a maçonaria à carbonária, que na A carta apostólica Litteris Altero, de 25 de
época estava ativa na Itália e era conside- março de 1830, reiterou as condenações
rada um grupo revolucionário. Estávamos papais anteriores da maçonaria, especifi-
num contexto de acendimento e multi- camente a sua influência na educação.
plicação de focos de revolta e contestação A encíclica de Gregório XVI Mirari Vos,
ao sistema político do Antigo Regime. de 15 de agosto de 1832, incidiu na ques-
A Igreja e a monarquia viam cada vez mais tão política do liberalismo e na indiferen-
perigar as suas posições de sustentáculo ça religiosa, definida como “a fraude dos
da velha cristandade, fundada nos pode- ímpios que afirmam ser possível obter a
res absolutos do trono e do altar, numa salvação eterna da alma pela profissão
sociedade em processo de secularização, de qualquer tipo de religião, desde que
que reivindicava autonomia e liberdade. seja mantida a moralidade” (GREGÓRIO
Sobre as lojas secretas incidiam suspeitas XVI, 1832, 778). Esta encíclica não men-
agravadas por participações recentes em ciona a maçonaria, mas a indiferença re-
revoluções liberais que estavam a derru- ligiosa é uma das acusações que lhe são
bar o Antigo Regime em alguns países. dirigidas frequentemente em pronuncia-
A Igreja Católica, ainda muito compro- mentos papais. Algumas autoridades ca-
metida com o sistema político secular tólicas identificam esse pronunciamento
monárquico, tinha dificuldade em en- como antimaçónico. Sabe-se, no entan-
tender uma sociedade fora deste mode- to, que muitos religiosos não escondiam
lo, e também não estava preparada para a sua simpatia pelos ideais de igualdade
aceitar e acreditar na sobrevivência da e de liberdade da Revolução Francesa,
própria Igreja no quadro de um ordena- grande parte deles preparando as vias do
mento político garantido por outro regi- liberalismo.
me que não o de base legitimista. A encíclica de Pio IX Qui Pluribus, de
A constituição de Leão XII Quo Gravioria 9 de novembro de 1846, instigava os católi-
Mala, de 13 de março de 1825, reafirmou cos romanos a lutar contra a heresia, con-
a oposição da Igreja Católica Romana à denando aqueles que colocassem a razão
maçonaria como uma sociedade secreta, humana acima da fé e que acreditassem
com sigilo ligado a juramentos vinculati- no progresso humano. Estranhamente,
vos, que conspirava contra a Igreja e o Es- também atacava as “seitas” secretas e as so-
tado. Também a encíclica do breve pon- ciedades da Bíblia “astutas” que “forçam
tificado de Pio VIII Traditi Humilitati, de trechos da bíblia a pessoas de todos os ti-
24 de maio de 1829, foi considerada por pos, mesmo os ignorantes”. Esta encíclica
algumas autoridades católicas como um classificava como “perversa” a indiferença
documento antimaçónico. Advertindo religiosa. Ao reiterar as condenações dos
contra uma sociedade secreta cujo princi- seus antecessores, fazendo especial refe-
pal objetivo, a seu ver, seria levar os inicia- rência a Gregório XVI, Pio IX colocou
dos pelos caminhos do mal, apelava aos no mesmo patamar e julgou do mesmo

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Antimaçonismo 1213

modo as restantes sociedades secretas, Perusa, o cardeal Pecci, futuro Leão XIII,
condenando o indiferentismo religioso e havia consagrado a este tema uma exten-
quaisquer ataques ao celibato sacerdotal, sa carta pastoral intitulada A Igreja e a Ci-
bem como todo aquele que, de um modo vilização. O Poder Temporal dos Papas. Com
geral, supunha dissidência ideológica-re- efeito, a unificação italiana, com Roma
ligiosa, mesmo sem pertencer a nenhum como capital, aparecia, à vista de uns e de
grupo específico. outros, como sinónimo mais ou menos
A encíclica Quanta Cura, emitida sob o vago do fim da Igreja, como 15 séculos
mesmo pontificado, a 8 de dezembro de antes muitos não tinham podido conce-
1864, não só condenava o carácter clan- ber uma ordem cristã que sobrevivesse ao
destino das sociedades secretas, como naufrágio da ordem romana e da unida-
também reiterava que estas serviam de de imperial do mundo. Os Papas Pio IX
arma por parte do Governo de Itália e Leão XIII estavam convencidos de que
contra o Estado pontifício. O Syllabus, do a Igreja dificilmente poderia ter poder
mesmo ano, atribuiu à maçonaria a defe- espiritual se não contasse também com
sa da corrente naturalista. É também rele- poder temporal.
vante o pronunciamento Multiplices Inter, A encíclica papal de Leão XIII Etsi Nos,
de 25 de setembro de 1865, feito pelo de 15 de fevereiro de 1882, referia as con-
Papa Pio IX, condenando a maçonaria e dições então vigentes na Itália, mencio-
outras sociedades secretas. Neste pronun- nando uma “seita perniciosa” em guerra
ciamento, o Papa acusava as associações com Jesus Cristo, seita essa que o Papa
maçónicas de conspirarem contra a Igre- responsabilizava pelos conflitos civis no
ja, Deus e a sociedade civil, atribuindo país. Algumas autoridades católicas iden-
revoluções e levantes às suas atividades e tificaram essa seita como uma referência
denunciando juramentos secretos, reu- à maçonaria ( Id., Ibid., 759ss.).
niões clandestinas e sanções maçónicas A encíclica Humanum Genus, de 20 de
(Id., Ibid., 759ss.). abril de 1884, do Papa Leão XIII, foi consi-
A constituição Apostolicae Sedis Mode- derada, de entre todos os pronunciamen-
ratoni, de 12 de outubro de 1869, sobre tos papais, um dos ataques mais cruéis à
questões de direito canónico, esclarece maçonaria. Afirmando que “uma árvore
o processo relativo às censuras, mudan- boa não pode produzir mau fruto, nem
do alguns cânones e estabelecendo uma árvore má dar bons fruto, a seita maçóni-
nova lista de censuras. Alguns especialis- ca produz frutos que são perniciosos e do
tas afirmam que este documento diz res- mais amargo sabor”, prossegue dizendo
peito à maçonaria. Três anos mais tarde, que o objetivo da maçonaria era a des-
na encíclica Etsi Multa, datada de 21 de truição da Igreja Católica Romana, sendo
novembro de 1873, o mesmo Papa Pio IX ambas adversárias. O Papa Leão XIII afir-
condenou a maçonaria, afirmando que mou que muitos maçons desconheciam
os grupos maçons integravam as “seitas” os objetivos finais da maçonaria e que
entre as quais “a sinagoga de Satanás é não deveriam ser considerados parceiros
construída” (DENZIGUER e HUNER- em atos criminosos por ela perpetrados.
MANN, 2006, 799ss.). De igual modo, condenou o naturalis-
A questão do poder temporal dos pa- mo da maçonaria,o qual entendia ser a
pas, cuja origem data da época carolín- crença de que “a natureza humana e a
gia, foi considerada por muitos católicos razão humana devem, em todas as coisas,
e eclesiásticos algo vital. O arcebispo de ser senhora e guia… eles não permitem

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qualquer dogma de religião ou verdade O conjunto de documentos pontifícios


que não possa ser entendido pela inteli- teve eco no orbe católico, materializando­
gência humana, nem qualquer mestre ‑se através de sucessivas e violentas cam-
que deva ser acreditado devido à sua panhas antimaçónicas. A partir de 1884,
autoridade.” É interessante notar que o proliferaram associações, revistas, livros,
Ir. Albert Pike afirmou que esta encíclica panfletos e até mesmo congressos inter-
era uma “declaração de guerra, e o sinal nacionais antimaçónicos, o que contri-
para uma cruzada contra os direitos do buiu para criar um clima de histeria geral
homem” (BENIMELI, 1996, 129). Segun- contra a maçonaria. Em particular, a encí-
do Leão XIII, a maçonaria era criminosa, clica Humanum Genus foi sucessivamente
ímpia, imoral, subversiva, revolucionária traduzida e comentada, do mesmo modo
e monstruosa em hipocrisia, disseminan- que foram escritas diversas pastorais dedi-
do mentiras. cadas ao tema e artigos e comentários na
Outras encíclicas se seguiram, num lon- imprensa especificamente católica, com
go historial de desconfianças e acusações secções e páginas completas. Este conjun-
por parte da Igreja em relação à maçona- to de documentos formou um autêntico
ria. A carta encíclica Officio Sanctissimo, de mundo impresso dedicado à cruzada an-
22 de dezembro de 1887, incluía um alerta timaçónica. Outro dado curioso foi a or-
contra a organização. A carta afirmava que ganização de um congresso antimaçónico
a maçonaria era um “contágio”, uma “seita em Trento, em 1896, onde se reuniram
das trevas”. A encíclica Dall’Alto dell’Aposto- pelo menos 36 bispos, 50 delegados epis-
lico Seggio, de 15 de outubro de 1890, tam- copais e outros 700 delegados, a maioria
bém conhecida como Ab Apostolici, tratava dos quais eram eclesiásticos. Entre estas
da maçonaria na Itália, considerando o delegações destacavam-se as de França e
curso dos assuntos públicos no país como da Áustria, com mais de 50 pessoas cada
a realização do “programa maçónico”. uma, mas também as de Espanha, Hun-
Este alegado programa era regido por um gria, Alemanha e Estados Unidos. O co-
“ódio mortal à Igreja”, a abolição do ensi- mité antimaçónico tridentino proporcio-
no religioso nas escolas e a absoluta inde- nou alojamento a todos os congressistas
pendência da sociedade civil da influência vindos de fora. O protagonista foi Léo Ta-
clerical. A carta encíclica Inimica Vis, de 18 xil (de nome verdadeiro Gabriel Jogang
de dezembro de 1892, escrita aos bispos da Pagés), um dos principais patrocinadores
Itália, reiterava a necessidade urgente de da campanha antimaçónica, que tinha
combater os objetivos da maçonaria e su- lançado uma série de livros antimaçóni-
plicava aos bispos que trabalhassem para cos, entre os quais Os Irmãos Três Pontos.
converter as “vítimas” da organização. Revelações Completas sobre a Maçonaria; As
Afirmava ainda que alguns membros do Irmãs Maçonas; A Francomaçonaria Revela-
clero católico romano estavam a colaborar da e Explicada; Os Assassinatos Maçónicos;
com a maçonaria. A carta encíclica Custodi A Lenda de Pio IX Maçom.
di Qualla Fede, de 18 de dezembro de 1892, Apesar dos ataques cada vez mais in-
referia o trabalho que se deveria empreen- sistentes da Igreja, através de pronun-
der contra a maçonaria, protegendo os ciamentos papais e outros instrumentos
lares católicos contra a infiltração dessa de condenação, a maçonaria não parou
ideologia, criando escolas católicas e socie- de progredir. Os pronunciamentos to-
dades de ajuda mútua, e instituindo uma maram a forma de constituições, encí-
imprensa católica. clicas e epístolas apostólicas. A título de

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Antimaçonismo 1215

informação, note-se ainda que, no séc. a um desejável diálogo entre as partes em


xviii, as condenações dos papas à maço- conflito (Id., Ibid., 88).
naria não foram promulgadas nos Esta- Em Portugal, segundo Alexandre Man-
dos Unidos. Numa carta datada de 1794, sur Barata, pode afirmar-se que o proces-
John Carroll referia-se à questão dizen- so de inserção da sociabilidade maçóni-
do: “Não tenho a pretensão de que esses ca coincidiu com a primeira condenação
decretos [contra a maçonaria] sejam re- formal da maçonaria pela Igreja Católi-
cebidos em geral pela Igreja, ou tenham ca, após a publicação da já referida cons-
total autoridade nessas dioceses” (OLI- tituição apostólica In Eminenti, do Papa
VEIRA, 2013, 87). Clemente XII. A maçonaria começou
Os católicos britânicos tinham uma ati- por se desenvolver nas cidades maríti-
tude semelhante em relação à autoridade mas, em especial no Funchal e em Lis-
da Igreja. Havia grão-mestres católicos na boa, com protagonismo de membros
maçonaria inglesa durante o séc. xviii, das comunidades britânicas e de outros
incluindo Thomas, o duque de Norfolk, países do centro e do Norte da Europa,
que foi grão-mestre da primeira gran- que ali tinham residência e atividade
de loja da Inglaterra, em 1730. Robert profissional. Pouco depois das condena-
Edward, o 9.º lord Petre, tornou-se grão­ ções papais, o Tribunal do Santo Ofício
‑mestre da primeira grande loja em 1772 iniciou as suas atividades de vigilância e
(Id., Ibid., 88). Algumas lojas maçónicas controlo da maçonaria, com a identifica-
adotaram o nome de “grande heráldico” ção e detenção dos seus membros para
a partir de 1730, na sequência do costu- interrogatório, a 18 de julho de 1738.
me feudal do “grande porta espadas”, O padre dominicano Charles O’Kelly
em que o dignitáro do Estado transpor- foi chamado a prestar declarações à
tava uma espada do Estado como insígnia Inquisição, em Lisboa. Segundo ele, a
(MACKEY, 2009, I, 51). maçonaria juntava um grupo de escoce-
O Código do Direito Canónico, pro- ses, irlandeses e ingleses, tanto católicos
mulgado por Bento XV a 27 de maio de como protestantes, que se reuniam num
1917, consagrou a doutrina então em vi- restaurante. Entre eles estavam médicos,
gor, em especial a de Pio IX e Leão XIII. capitães de navios, militares, arquitetos,
Com o advento deste Código, a Igreja in- negociantes e vários padres. O’Kelly no-
corporou a doutrina das encíclicas ante- tou que, nas reuniões mensais, não tra-
riores, em particular no cân. 2335, onde tavam de nada contrário à fé cristã, até
declara que “aqueles que se juntam a porque era confessor de alguns dos par-
uma seita maçónica ou outras sociedades ticipantes. A maçonaria foi ouvida pelos
do mesmo tipo que conspiram contra a inquisidores, na voz do grão-mestre da
Igreja ou contra as autoridades civis legí- Casa Real dos Pedreiros-Livres da Lusitâ-
timas estão sujeitos à excomunhão” (OLI- nia, fundada quatro ou cinco anos antes,
VEIRA, 2013, 88). Esta lei da Igreja man- pelo Cor. de Infantaria Hugh O’Kelly.
teve-se. Na opinião de alguns estudiosos, Os maçons interrogados descreveram à
com o Concílio Vaticano II, começou a Inquisição as cerimónias, os graus e os
abertura de algumas questões para rever níveis da organização. Na ocasião, a ma-
a condenação da maçonaria pela Igre- çonaria não foi considerada uma amea-
ja. O espírito de diálogo que se cultivou ça ou um atentado à fé católica.
desde então aconselharia o estudo e o co- Cinco anos depois, esta atitude de
nhecimento mútuos, para abrir caminho aparente benevolência acabaria por se

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alterar. A 14 de março de 1743, Jean Depois das perseguições da déc. de


Coustos, um Suíço acusado de ser chefe 1740, a maçonaria só voltou a ter alguma
dos franco-maçons ou pedreiros-livres, atividade em Portugal durante a segunda
foi detido, após uma denúncia feita no metade da vigência do Governo pom-
ano anterior. Coustos não fazia segredo balino. O estabelecimento do conde de
da sua condição de maçom, tendo expli- Lippe em Portugal, a convite de Pombal,
cado a várias pessoas que a congregação para reorganizar os exércitos, bem como
não era prejudicial à religião ou ao Esta- a presença de grandes comunidades de
do. Em fevereiro de 1743, nenhuma das comerciantes ingleses e franceses foram
testemunhas ouvidas pela Inquisição no vistas como as razões que explicam esse
inquérito preliminar conseguiu elucidar ressurgimento, que não contou com uma
os inquisidores sobre o que se fazia nas oposição ostensiva por parte do Governo
reuniões. Algumas referiram que eram pombalino.
levados instrumentos de pedreiros, pares Registou-se um incremento da ma-
de luvas e aventais de couro, e que havia çonaria em Portugal a partir de 1762 e,
sinais de reconhecimento mútuo. A 4 de durante o chamado consulado pombali-
março, depois de ouvidas várias testemu- no, que durou 27 anos, os membros da
nhas, os inquisidores concluíram final- maçonaria não foram muito incomoda-
mente que se tratava da mesma institui- dos. Tendo em conta o conhecido perfil
ção reprovada pelo documento pontifício repressivo da ação política pombalina em
In Eminenti, de Clemente XII. Nesta carta relação a tudo o que escapava ao contro-
apostólica recomendava-se que os inquisi- lo do Estado, alguns historiadores, como
dores punissem semelhantes sociedades, A. H. de Oliveira Marques, procuraram
ainda que estas atuassem com o pretexto compreender esta tolerância pombalina
da bondade, da utilidade ou de outro fim em relação à maçonaria através da tese
semelhante. Coustos explicou os princí- de que o secretário de Estado de D. José I,
pios da maçonaria, indicando como obra Sebastião de Carvalho e Melo, teria sido
reguladora as Constituicões de Maçons. Na iniciado na maçonaria em Londres ou
sua argumentação, referiu que julgava em Viena de Áustria, onde foi embai-
que as condenações papais só se aplica- xador. No entanto, não se descobriram
vam aos católicos portugueses, insistindo provas documentais concludentes desta
que a maçonaria tinha como objetivo a pertença de Pombal à maçonaria regular,
entreajuda entre os seus elementos. como concluiu António Ventura, na sua
Coustos foi condenado a trabalhos for- recente e monumental História da Maço-
çados durante quatro anos. Acabou por naria em Portugal: “falta provas de que tal
ser libertado, em outubro de 1744, graças tenha sucedido” (VENTURA, 2013, 33).
à intervenção diplomática de Inglaterra. Um dos casos emblemáticos de não
Desta experiência resultou uma obra de atendimento pelo Governo pombalino a
sua autoria denunciando a perseguição denúncias de atividade maçónica acon-
antimaçónica, cujo título original era The teceu precisamente numa das regiões de
Sufferings of John Coustos for Free Masonry and emergência desta nova dinâmica associa-
for His Refusing to Turn Roman Catholic in the tiva: a Madeira. O governador apresentou
Inquisition at Lisbon where He Was Sentenced queixas à Corte contra indivíduos que
during Four Years to the Galley, and afterwards estariam a organizar lojas de pedreiros-li-
Released from thence by the Gracious Interposi- vres no Funchal. O processo foi arquiva-
tion of His Present Majesty King George II. do e ficou sem resposta.

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Antimaçonismo 1217

No reinado de D. Maria, observou-se derruir a velha ordem política absolutis-


um recrudescimento das perseguições à ta, levando consigo na mesma avalanche
atividade maçónica, através das institui- demolidora a Igreja Católica.
ções de controlo religioso e político, em Conforme observou a historiadora Ma-
que se destacaram alguns membros do ria Helena Carvalho dos Santos, nos últi-
episcopado, a Inquisição e o intendente­ mos anos do séc. xviii, a maçonaria era
‑geral da Polícia, Pina Manique. uma instituição organizada, mas ainda
Acentuaram-se, a partir das duas últi- assim perseguida (SANTOS, 2007, 1090).
mas décadas do séc. xviii, as denúncias Na viragem do séc. xviii para o séc. xix,
que apontavam para a constituição de desenvolveu-se um poderoso imaginá-
uma rede maçónica em Portugal, tendo rio antimaçónico, da responsabilidade
como epicentro principal a cidade do da propaganda legitimista associada aos
Funchal, que era um porto estratégico sectores sociais e religiosos descontentes
de passagem de viajantes franceses e in- e preocupados com o processo de der-
gleses. As denúncias e devassas incluídas rocada da velha ordem, configurada no
no edital da Inquisição mandado ler em Antigo Regime monárquico e absolutista.
todas as igrejas do arquipélago madei- O sismo social, ideológico e político que
rense permitem ter uma ideia da grande a Revolução Francesa de 1789 começou
implantação da maçonaria no local, cujos a provocar foi visto como consequência
membros, que atingiam já cerca de duas de uma grande conspiração, onde as or-
centenas, eram recrutados entre a aristo- ganizações secretas teriam tido um papel
cracia local, a burguesia endinheirada, determinante.
os políticos, os militares e os clérigos. Um emblemático representante da
O aperto da vigilância inquisitorial, com produção de ideografia antimaçónica
identificações de membros, interrogató- foi o P.e José Agostinho Macedo, que re-
rios e prisões, levou à fuga de vários ma- plicou, em Portugal, as teses do célebre
çons para o estrangeiro, à autodenúncia autor francês antimaçom Abade Barruel,
e ao abandono das lojas. Note-se que ti- através da obra O Segredo Revelado, ou a
nha sido precisamente na Madeira que Manifestação do Sistema dos Pedreiros-Li-
nascera a primeira reunião maçónica vres, e Iluminados e a Sua Influência na Fa-
portuguesa, ou seja, como escreve Antó- tal Revolução Francesa. Macedo tornou-se
nio Loja, “a primeira Loja maçónica ge- um dos mais corrosivos propagandistas
nuinamente portuguesa com cidadãos antimaçónicos da sua época, alinhando,
portugueses aceites como irmãos” (LOJA, no reinado neoabsolutista e antimaçom
1986, 247). Também foi na Madeira que de D. Miguel, entre 1829 e 1834, com a
se registaram as mais violentas devassas corrente tradicionalista que fez da ma-
contra membros da maçonaria. çonaria sua arqui-inimiga. Em diversos
Os ideais da fraternidade humana eram libelos, entre os quais se destacou o pe-
acolhidos por um novo tempo histórico, riódico A  Besta Esfolada, o P.e José Mace-
no quadro da luta empreendida contra o do acusava os membros das sociedades
despotismo régio e contra a autoridade secretas de serem perversos e perigosos
secular da Igreja. Acrescia a tudo isto o conspiradores contra a ordem moral e
facto de muitos membros da maçonaria política estabelecida. Pelo mesmo diapa-
estarem envolvidos ou, em alguns casos, são afinavam autores como Fr. Fortunato
na dianteira e liderança revolucionária de São Boaventura, com libelos emble-
de movimentos responsáveis por fazer máticos como O Maço Férreo Antimaçónico.

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1218 Antimaçonismo

Nesta propaganda, o antimaçonismo ra- tituições para se organizarem” (RAMOS,


dical caracterizava as lojas dos pedreiros­ 2009, 349).
‑livres como antros de conspiração onde O engrossar da corrente do anticleri-
conluiavam ateus, livres-pensadores, ju- calismo foi inevitável. No decurso deste
deus e protestantes, com vista à ruína da processo revolucionário, que se desenvol-
Igreja Católica e da monarquia. Daí que veu da Revolução Francesa até à instaura-
no antimaçonismo se misturem e se con- ção dos regimes republicanos na Europa,
fundam outras correntes anti muito pro- num movimento que influenciou o resto
dutivas de explicações conspirativas da do mundo, a Igreja foi também frontal-
dinâmica social, como o antissemitismo, mente atacada. Os sécs. xviii e xix foram
o antiprotestantismo e o antifilosofismo. profícuos em perseguições à Igreja e às
Em linha com os ideólogos legitimistas e suas organizações de perfil mais interna-
tradicionalistas, o neoabsolutismo migue- cionalista, que se vieram a apelidar de
lista tomou medidas eficazes de proibição ultramontanas, culminando na expulsão
das sociedades secretas, considerando-as das ordens religiosas pelo dec. de 28 de
o motor do liberalismo e da derrocada maio de 1834, ao qual se seguiram vários
da ordem social legitimista. O movimen- outros projetos legislativos para impedir
to contrarrevolucionário e filolegitimista a implantação dos institutos religiosos
adotou, em Portugal, a hermenêutica do que tinham voltado a entrar em Portugal
padre e escritor francês Augustin Barruel a partir da segunda metade do séc. xix,
(1741-1820), consignada na sua obra de como é o caso do empenho em dissolver
referência, História do Clero perante a Revo- a Congregação das Irmãs da Caridade
lução Francesa, publicada em 1797, e nou- (dec. de 22 de junho de 1861). Segun-
tras que se lhe seguiram. Os opositores do Zuzarte de Mendonça, “pouco faltou
do projeto liberal tenderam a observar para se pedir a cabeça dos católicos e dos
uma grande conspiração maçónica na padres”. O autor considerava os progra-
expulsão dos Jesuítas, na abolição da In- mas apresentados pelo Governo portu-
quisição e na ruína dos pilares fundamen- guês como “maçónicos”, com a maçona-
tais que sustentavam a ordem social do ria a ser acusada de “descristianizar” as
Antigo Regime, assente na aliança entre famílias. Zuzarte de Mendonça concluía
o trono e o altar. Aliás, Barruel, noutras ainda: “A Maçonaria odeia-nos de morte.
obras, como Memórias para a História do É preciso dar-lhe combate e estar sempre
Jacobinismo, chegou mesmo a denunciar a preparado para a luta” (MENDONÇA,
existência de uma conspiração contra o s.d., 89). Também o combate ao clerica-
cristianismo no seu todo, embora consi- lismo se acentuou, bem como a laicização
derasse que nem todos os maçons e nem das escolas, daí decorrendo uma vasta li-
todas as obediências maçónicas estariam teratura de feição anticlerical.
a intentar este escopo, mas sim determi- Em razão deste afrontamento, a maço-
nados sectores ímpios, designados por naria passou a ser demonizada pela Igreja
seita dos Iluminados. e vista como um grande inimigo a temer.
De facto, a maçonaria passou a ser cada Num jogo de espelhos marcado pelo co-
vez mais identificada com uma “sociabi- mércio propagandístico dos estereótipos,
lidade de contestação, e entre os irmãos Igreja e maçonaria emergiram, na histó-
passaram a fazer parte muitos radicais e ria, como inimigas em rota de colisão,
republicanos, os quais começaram a usar produzindo uma dança de demónios,
a Maçonaria ou a inspirar-se nas suas ins- em que cada lado tentou representar o

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Antimaçonismo 1219

adversário com as cores mais terríveis.


A figura do dissemelhante construiu-se,
assim, como um desvio em face do que se
vê aquém, combinando de formas insóli-
tas a visão do outro. A maçonaria foi mui-
tas vezes olhada com desconfiança e vista
como um atentado aos valores da Igreja,
ripostando, a partir das suas fações mais
radicais, numa longa campanha contra a
Igreja Católica.
O século de Oitocentos foi o século da
ascensão da maçonaria e da sua plurirra-
mificação, marcando a agenda política e
social. Foi o século das grandes mudanças
sociais. As guerras liberais e a instabilida-
de política, com a ascensão e a queda de
regimes e de atores políticos, tiveram o Pedro de Sousa Holstein,
envolvimento de elementos das lojas ma- 1.º duque de Palmela (1781-1850).
çónicas, nem sempre em paz entre elas, a
fermentar este século de estruturais trans- acompanhado do subtítulo “Não há ma-
formações históricas. Desde a Revolução çonaria em Portugal”, afirmava que o país
Liberal ao Cabralismo, passando pela Re- não podia tolerar uma associação secreta,
generação, a maçonaria teve a participa- uma vez que era ilícita, segundo o Códi-
ção de protagonistas relevantes alistados go Penal, e que as reuniões maçónicas se
nas suas fileiras, como D. Pedro Mou- limitavam a encontros e a jantares que
zinho da Silveira, Costa Cabral e o du- nada tinham de secreto e que se realiza-
que de Saldanha, só para referir os mais vam abertamente no Grémio Lusitano.
emblemáticos. Diversas páginas de jornal compiladas
Algumas das acusações que se torna- por Cunha Dias mostram uma campanha
ram recorrentes eram o espírito clien- a favor da maçonaria, na tentativa de apa-
telar e os jogos de interesses que pre- gar a imagem de uma sociedade secreta,
ponderavam na maçonaria, de que é com poderes ocultos.
emblemática esta invetiva do duque de Apesar do abismo de incompreensão e
Palmela, proferida num discurso peran- da proibição de relações entre a Igreja e
te a Câmara dos Deputados: “a filiação a maçonaria, o historiador António Reis
nesta corporação era reputada atual- explica que esse fenómeno não se redu-
mente como um meio de obter prote- ziu à verificação de admissões em conjun-
ções profícuas, ou empregos, e substi- turas da vida europeia, perturbadas por
tuía em parte uma lei de habilitações” convulsões (como foi o caso da Revolu-
(PALMELA, 1846, 112). ção Francesa) ou angústias existenciais
Uma análise de jornais e panfletos do que predispunham as almas à tentação
período republicano mostra uma tenta- de experimentar o oculto; segundo ele,
tiva de desmistificar a imagem negra da “a explicação há de encontrar-se na con-
maçonaria e com isso dissolver os rumo- vergência de elementos de compreensão
res antimaçónicos que se faziam sentir (a começar pelo fio cronológico) – uma
na sociedade portuguesa. O jornal A Voz, forma de realização de sociabilidade e uma

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1220 Antimaçonismo

plataforma alargada de crença religiosa e por periódicos. O poeta Fernando Pes-


que a Maçonaria tinha para oferecer aos soa é um dos intelectuais que mais ataca
seus membros que, logo por isso, não se os antimaçons, referindo-se a eles como
reviam nos destinatários do anátema pon- completamente ignorantes nos assuntos
tifício; e menos ainda temiam o ditame que dizem respeito à maçonaria, num ar-
quando ele vinha de quem acumulava ain- tigo publicado no Diário de Lisboa, a 4 de
da o poder temporal” (REIS, 2001, 164). fevereiro de 1935 (Id., Ibid., 235-236).
A emergência, nos anos 20 e 30 do As décs. de 60 e 70, em Portugal, vão
séc.  xx, do fascismo e do comunismo constituir uma época de atenuação do
criou um ambiente desfavorável à existên- clima de combate contra a maçonaria,
cia de sociedades secretas com liberdade quer por parte da Igreja, quer por parte
de pensamento e ação fora da alçada dos do Estado. O Concílio Vaticano II, con-
Estados fundados nestas ideologias políti- cluído em 1965, e a Revolução de 25 de
cas. A maçonaria foi olhada com descon- abril de 1974 vão simbolizar esses pontos
fiança e foi objeto de proibição, quer sob de desanuviamento.
os novos regimes comunistas, quer sob os O Concílio Vaticano II, acontecimen-
regimes fascistas. Portugal não foi exce- to que marcou uma viragem por parte
ção. O Governo de Salazar proibiu, com da Igreja em relação à sua atitude face
a lei de 21 de maio de 1935, as socieda- às realidades temporais, inaugurou uma
des secretas no Estado Novo e ordenou etapa de maior abertura, diálogo e com-
o encerramento do Grande Oriente Lu- preensão, tanto mais que a própria Igreja
sitano, através da port. de 21 de janeiro transformou o seu olhar frente ao mundo
de 1937. Convencido de que a sua obra contemporâneo e evoluiu no sentido de
de restauração nacional estava ameaça- incorporar a defesa de valores preconiza-
da pelas lojas, pediu a Abel de Andrade, dos séculos antes pela maçonaria, como a
professor de Direito da Univ. de Lisboa, e tolerância e o ecumenismo. O Código de
ao deputado José Cabral que lhe envias- Direito Canónico (CDC) de 1983 omite
sem um relatório, que, apresentado na qualquer referência à maçonaria, adap-
Câmara, se converteria em projeto de lei tando o cân. 2335 do CDC anterior, que
de defesa contra as sociedades secretas, excomungava ipso facto os inscritos em
que acabaria por ser aprovado e promul- “seita maçónica”, na nova redação patente
gado oficialmente pela portaria supraci- no cân. 1734: “Aquele que entra para uma
tada. A  lei em questão, com o n.º 1901, associação que conspira contra a Igreja
tornou-se pública pelo ministro da Justiça deve ser punido com justa pena; aquele
e por decreto da Assembleia Nacional. As que promove ou dirige tal associação, no
sociedades secretas eram novamente pos- entanto, deve ser punido com interdito”.
tas em questão na Europa, por meio de A “crescente ambivalência” (OLIVEI-
uma lei que tinha muito em comum com RA, 2013, 89) da posição da Igreja sobre
a lei fascista italiana, promulgada 10 anos a maçonaria conheceu outro momento
antes (BENIMELI, s.d., 231-232). A lei de em 1974, quando o cardeal Franjo Seper,
21 de maio de 1935 teve ampla difusão e prefeito da Congregação para a Doutrina
repercussão nas revistas antimaçónicas da da Fé e autor do documento Mysterium Ec-
época, em especial na Revue Internationale clesiae, enviou uma carta ao cardeal John
des Sociétés Secrètes, publicada em Paris, a Krol, de Filadélfia, e a outros sobre a for-
1 de novembro de 1935. A lei é duramente ça e o significado do cân. 2335 do CDC
criticada por alguns circuitos intelectuais de 1917. Nessa missiva, o cardeal Seper

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Antimaçonismo 1221

afirmava que o cânone permanecia em que estão sujeitos os membros regulares


vigor, mas que, uma vez que as leis penais sem cargos de promoção da maçonaria
eram sujeitas a interpretação estrita, a ex- (OLIVEIRA, 2013, 90)
comunhão só seria aplicável aos católicos Como consequência do novo CDC e da
que aderissem a organizações que cons- referida carta do cardeal Seper, a Igreja
pirassem ativamente contra a Igreja Cató- foi confrontada com a necessidade de
lica. A carta foi interpretada por muitos responder à possibilidade de adesão de
como assinalando que as antigas restri- católicos à maçonaria quando não ocor-
ções contra a filiação de católicos roma- re conspiração contra a Igreja Católica.
nos na Maçonaria haviam sido removidas Influenciada pelas declarações da Con-
(Id., Ibid., 2013, 89). gregação para a Doutrina da Fé e pela
Em 1978, foi eleito o Papa João Paulo II e reversão da tendência de curta duração
as posições mais conservadoras da Igreja para o ecumenismo, em 1985, os bispos
em relação à maçonaria voltaram a ga- americanos publicaram um relatório inti-
nhar preponderância. A 2 de março de tulado “maçonaria e religião naturalista”,
1981, sete anos após a carta do cardeal onde declaram que, apesar de não se ser
Seper, a Congregação para a Doutrina da excomungado por se ser maçom, é peca-
Fé repensou a questão da tolerância para do pertencer a organizações maçónicas.
com as instituições maçónicas. Este órgão O raciocínio dos bispos dos EUA é que os
da cúria romana emitiu a Declaração sobre princípios da Maçonaria são irreconciliá-
a Participação de Católicos em Associações veis ​​com os da Igreja. O relatório cita um
Maçónicas, na qual se indicava que a carta estudo aprofundado realizado pelos bis-
de 1974 – que era, aliás, uma carta “reser- pos da Alemanha e o estudo sobre a ma-
vada” – dera “margem a interpretações çonaria norte-americana realizado por
erróneas e tendenciosas”, e que se confir- William Whalen, bem como fontes que
mava que as regras antigas relacionadas afirmam que os princípios e rituais bási-
com a maçonaria estavam em pleno vigor cos da maçonaria encarnam uma religião
(SAGRADA CONGREGAÇÃO PARA A naturalista, sendo a participação nesta
DOUTRINA DA FÉ, 17 fev. 1981, 2). incompatível com a fé e a prática cristãs.
O CDC de 1983 parece diferenciar a Aqueles que conscientemente abraçam
simples adesão a uma loja, para a qual a esses princípios estão, pois, a cometer um
punição é uma pena justa, da promoção pecado grave.
ou detenção de cargos em tal sociedade, A impossibilidade de qualquer aproxi-
para a qual o castigo é um interdito. Um mação entre a Igreja Católica e a maço-
interdito é uma pena através da qual os naria ficou definitivamente estabelecida
fiéis católicos, permanecendo em comu- pela já mencionada Declaração sobre a
nhão com a Igreja, estão proibidos de Maçonaria, publicada em 26 de novem-
receber os sacramentos e de participar bro de 1983 no jornal oficial do Vatica-
em determinados atos sagrados, nomea- no, L’Osservatore Romano, e assinada pelo
damente de celebrar ou assistir a ofícios cardeal Joseph Ratzinger: “Os fiéis que
divinos e de receber enterro eclesiástico. pertencem às associações maçónicas
Assim, onde os grupos maçónicos estão estão em estado de pecado grave e não
determinados a conspirar contra a Igreja, podem receber a sagrada comunhão”.
os católicos com responsabilidade de li- A  Declaração fora aprovada pelo Sumo
derança em tais lojas estão sujeitos a uma Pontífice João Paulo II, que ordenara a
penalidade mais severa do que aquela a sua publicação.

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1222 Antimaçonismo

Na sua edição de 11 de março de 1985, ceu, continuando a estimular as imagina-


L’Osservatore Romano (em língua inglesa) ções na imprensa e na literatura popular.
publicou um artigo esclarecendo que a A atenção que é dada à provável filiação
maçonaria tem uma conceção relativista maçónica de personagens públicas, sobre-
da moral, que é inaceitável para o cato- tudo quando envolvidas em ‘escândalos’,
licismo. O mesmo foi reafirmado pelo revela uma perene suspeita em relação a
cardeal Poupard, em 2001, embora con- uma organização secreta. Foi o que se viu
cedendo que poderia ser aceitável um em Portugal, em 1999, com um caso judi-
diálogo e uma colaboração, a certos ní- cial envolvendo a direção de uma institui-
veis, com a maçonaria, desde que tal não ção do ensino superior do sector privado
implicasse a procura de entendimento (a Universidade Moderna). A imprensa
em questões doutrinais, mas apenas em enfatizou a filiação dos principais argui-
tarefas relacionadas com o bem comum dos numa Loja maçónica e a acusação
da humanidade. Esta posição foi renova- pública, em tribunal, atribuiu-lhes o fim
da em documentos posteriores. de ‘tomar o poder’ – um curioso eco da
É difícil encontrar um tema sobre o teoria dos planos de dominação universal
qual as autoridades da Igreja Católica se geralmente assacados às sociedades secre-
tenham pronunciado tão reiteradamente tas” (RAMOS, 2009, 413).
como no caso da maçonaria: de 1738 a No começo do séc. xxi, vieram a lume
1980, conservam-se nada menos de 371 com abundância em Portugal notícias,
documentos, aos quais se devem acrescen- reportagens e livros de toda a ordem,
tar abundantes intervenções dos dicasté- apontando pessoas e explicando desta
rios da cúria romana e, sobretudo a par- maneira a queda e a ascensão de figuras
tir do Concílio Vaticano II, as não menos públicas; foi o que aconteceu com as po-
numerosas declarações das conferências lémicas em torno dos casos do Serviço de
episcopais e dos bispos de todo o mundo. Informações de Segurança, da Univ. Lu-
Tudo isto indica que nos encontramos pe- sófona e de outras instituições.
rante uma questão vivamente debatida, Em suma, a maçonaria foi, desde o
fortemente sentida e cuja discussão não se início, objeto de suspeita, entendível no
pode considerar fechada (GIL, 1996). âmbito do seu aparecimento e do seu
Por seu lado, ao longo das primeiras modelo de organização e quadro de va-
quatro décadas de democracia em Por- lores, que entraram em choque com o
tugal, não houve perseguições institu- status quo religioso e político instituído.
cionais à maçonaria, mas surgiram fre- Descontando as questões teo-dogmáticas,
quentemente livros e artigos de imprensa os formalismos rituais e as fidelidades ju-
com polémicas e denúncias associadas à ramentais, há um território de valores
presença conspiradora de organizações comuns que pode favorecer um diálogo
secretas por detrás de lutas de poder e entre instituições que estiveram de costas
de decisões governamentais. A apetência voltadas e em guerra propagandística fre-
regular da comunicação social por estas quente ao longo da história; com efeito,
notícias, que dão azo a muitas especula- os valores da tolerância, do ecumenismo,
ções, é bem reveladora da permanência do respeito pela diferença, do pluralis-
do imaginário da conspiração, que liga mo, da fraternidade, da liberdade de
a maçonaria ao poder e à gestão dos consciência, do amor à humanidade no
seus meandros. Como refere Rui Ramos, seu todo, da defesa da dignidade huma-
“o  velho antimaçonismo não desapare- na tornaram-se consensuais, permitindo

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Antimaçonismo 1223

constituir um campo de diálogo que ul- Definitionum et Declarationum de Rebus Fidei et


trapasse as velhas querelas e o clima de Morum, Barcelona, Herder, 2006; DÉSAGU-
suspeita que vigorou durante séculos, em- LIERS, John T., “Dedication to his grace, the
duke of Montagu”, in ANDERSON, James, e
bora as posições de incompatibilidade e
DÉSAGULIERS, John T. (orgs.), The Constitu-
de alguma desconfiança se mantenham. tions of the Free-Masons, Containing the History,
Esta desconfiança é favorável à promoção Charges, Regulations of that Most Ancient and Right
de especulações várias. A questão do se- Worshipful Fraternity, London, William Hunter,
gredo ou a prática de uma existência dis- 1723; DIAS, Cunha, A Maçonaria em Portugal,
creta, tanto na maçonaria como noutras Lisboa, Celta, 1930; DIAS, Graça, e DIAS,
instituições, acabam por constituir a cor- José S. Silva, Os Primórdios da Maçonaria em Por-
tugal, vol. i, t. i, Lisboa, Instituto Nacional de
tina de fumo e de mistério que dá lugar
Investigação Científica, 1980; ECO, Umberto,
a todo o tipo de imaginação. A maçona- O Cemitério de Praga, Lisboa, Gradiva, 2011; Id.,
ria e a sua influência transformadora das Construir o Inimigo e Outros Escritos Ocasionais, Lis-
sociedades e culturas nos sécs. xix e xx boa, Gradiva, 2011; FRANCO, José Eduardo,
foram atacadas quer pela capacidade de e PEREIRA, Zélia, “A construção do mito jesuí-
atração de membros ilustres, quer pela ta no discurso maçónico em Portugal (1869­
sua ação discreta, suscitadora de um ima- ‑1910)”, in BENIMELI, José A. Ferrer (coord.),
La Masonería Española en el 2000. Una Revisión
ginário constituído em torno de si, pinta-
Histórica, vol. ii, Zaragoza, Centro de Estudios
do com cores terríveis por parte dos seus
Históricos de la Masonería Española, 2001,
detratores, e com cores luminosas por pp. 573-591; FRANCO, José Eduardo, e RITA,
parte dos seus defensores. Annabela, O Mito do Marquês de Pombal. A Mi-
tificação do Primeiro-Ministro de D. José I pela Ma-
çonaria, Lisboa, Prefácio, 2004; FRANCO, José
Bibliog.: ABREU, Luís Machado de, “O trono Eduardo, O Mito dos Jesuítas. Em Portugal, no Bra-
e o altar no discurso anticlerical português”, sil e no Oriente (Séculos XVI a XX), vol. ii, Lisboa,
in RAMOS, Luís A. de Oliveira et al. (orgs.), Gradiva, 2007; GIL, Federico R. Aznar, “La
Estudos em Homenagem a João Francisco Marques, Iglesia Católica y la masonería: incompatibi-
vol.  i, Porto, Faculdade de Letras da Universi- lidad teológica?”, in BENIMELI, José Antonio
dade do Porto, 2001, pp. 33-46; “Acta apos- Ferrer, Masonería y Religión: Convergencias, Oposi-
tolicae sedis 73 [1981]”, L’Osservatore Romano, ción, Incompatibilidad?, Madrid, Editorial Com-
9 mar. 1981, pp. 240-241; BARATA, Alexandre plutense, 1996, pp. 187-229; GREGÓRIO XVI,
Mansur, Maçonaria, Sociabilidade Ilustrada e Inde- Mirari Vos, 1832; IBÁÑEZ, Amparo Fonseca,
pendência do Brasil (1790-1822), São Paulo/Juiz “La obediencia, fuente de poder. Masones y
de Fora, Annablume/Editora da Universidade Jesuitas del siglo xix”, in ENCISO, José Eduardo
Federal de Juiz de Fora, 2006; BARTHES, Ro- Rueca, Los Imaginarios y la Cultura Popular, Bo-
land, Mythologies, Paris, Seuil, 1970; BENIME- gotá, Cerec, 1993, pp. 66-87; LOJA, António
LI, José A. Ferrer, El Conturbenio Judeo-Masónico­ Egídio Fernandes, A Luta do Poder contra a Maço-
‑Comunista, Madrid, Istmo, s.d.; Id., Masoneria naria. Quatro Perseguições no Século XVIII, Lisboa,
despues del Concilio, Barcelona, Editorial AHR, INCM, 1986; MACEDO, José Agostinho, Cen-
1968; Id. (coord.), La Masoneria en la España del suras a Diversas Obras, Lisboa, Academia Real
Siglo XIX, Léon, Junta de Castilla y Leon, 1987; das Ciências, 1901; MACKEY, Albert Galla-
Id., La Masonería Española, Cadiz, Istmo, 1996; tin, Os Princípios das Leis Maçônicas, 2 vols., São
Id., La Masonería, Madrid, Alianza Editorial, Paulo, Universo dos Livros, 2009; MARQUES,
2001; COUSTOS, John, The Sufferings of John A. H. de Oliveira, História da Maçonaria em Portu-
Coustos for Free Masonry and for His Refusing to gal, vols. i-iii, Lisboa, Presença, 1990­‑97; MEN-
Turn Roman Catholic in the Inquisition at Lisbon, DONÇA, Zuzarte de, A  Maçonaria. O  Seu Pro-
Whitefish, Kessinger Publishing, 2004; DEN- grama e a Sua Acção, Póvoa do Varzim, Livraria
ZINGUER, Heinrich, e HUNERMANN, Peter, Povoense, s.d.; MOLLÈS, Dévrig, La Invención de
El Magisterio de la Iglesia. Enchiridion, Symbolorum, la Masonería. Revolución Cultural: Religión, Ciencia y

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1224 Antimaniqueísmo

Exilios, Buenos Aires, Editorial de la Universidad


de La Plata, 2015; OLIVEIRA, Adilson Luiz Pe-
Antimaniqueísmo
reira de, Decodificando a Maçonaria: Ecumenismo,
Intolerância e Diálogo, Joinville, Clube de Auto-
res, 2013; PALMELA, Duque de, “Discurso na
Câmara dos Pares”, Diário do Governo, 21 fev.
1846; RAMOS, Rui, “Antimaçonismo. O mito
das forças secretas da história”, in MARUJO,
António, e FRANCO, José Eduardo (coords.),
Dança dos Demónios. Intolerância em Portugal,
Lisboa, Temas e Debates/Círculo de Leitores,
N ão parecem caber no âmbito de um
dicionário os infinitos usos analó-
gicos constantes daquele lugar-comum,
2009, pp. 317-417; RATZINGER, Joseph, “De- corrente desde a crítica literária até ao
claração sobre a maçonaria”, 26 nov. 1983; jornalismo desportivo, que consiste em
REIS, António do Carmo, “Maçonaria”, in
apodar de maniqueísta a atitude de ver
AZEVEDO, Carlos Moreira (dir.), Dicionário
de História Religiosa de Portugal, Lisboa, Círculo o bem e o mal, puros e separados, em
de Leitores, 2001, pp. 163-168; Revue Interna- duas partes contendentes. Independen-
tionale des Sociétés Secrètes, n.º 19, 1 nov. 1935; temente da justeza de tal lugar-comum,
RUIZ, Juan José Morales, El Discurso Antimasóni- na aceção mais estrita, aqui relevante, en-
co em la Guerra Civil Española (1936-1939), Zara- tende-se por maniqueísmo a doutrina do
goza, Gobierno de Aragón, 2001; SAGRADA persa Mani (Manes ou Manichaios, em
CONGREGAÇÃO PARA A DOUTRINA DA FÉ, grego), que cruza sincreticamente o maz­
Mysterium Ecclesiae, 24 jun. 1973; Id., “Declara-
deísmo de Zoroastro, substrato religioso
ção sobre a participação de católicos em as-
tradicional da Pérsia, com o pessimismo
sociações maçónicas”, 17 fev. 1981; SANTOS,
Fernanda, “La idea del sacerdote católico en cosmológico das religiões orientais e os
los textos masónicos en el período del libera- gnosticismos judeo-cristãos muito difun-
lismo português (1820-1910)”, in BENIMELI, didos nos sécs. ii e iii. O traço mais ca-
José A. Ferrer (coord.), La Masonería Española racterístico é o seu dualismo metafísico
en la Época de Sagasta. XI Symposium Internacional e cosmológico, i.e., a explicação do ser
de Historia de la Masonería Española, vol. ii, Za- e do mundo a partir de dois princípios
ragoza, Cometa S.A., 2007, pp. 1117-1127;
subsistentes em si mesmos, o Bem, ou
Id., e FRANCO, José Eduardo, “A insustentável
princípio da Luz – que se confunde com
leveza das fronteiras. Clero católico na maço-
naria e a questão do anticlericalismo e anti- a unidade e simplicidade do espírito – e
maçonismo em Portugal”, Revista de Estudios o Mal, ou princípio das Trevas – que se
Historicos de la Masonería Latina e Caribeña, vol. ii, identifica com a multiplicidade da ma-
n.º 2, dez. 2010-abr. 2011, pp. 53-65; SAN- téria. De ambos decorrem emanações
TOS, Maria Helena Carvalho dos, “Maçonaria que, no mundo, se misturam em perene
e Portugal entre os séculos. 1743-1820, 1871­ combate. No ser humano, esse combate é
‑1910, 1974-2016”, in BENIMELI, José A. Fer- travado entre uma alma noética ou “lumi-
rer (coord.), La Masonería Española en la Época de
nosa” e a alma corpórea ou “tenebrosa”,
Sagasta. XI Symposium Internacional de Historia de
la Masonería Española, vol. ii, Zaragoza, Cometa puros episódios fenoménicos do combate
S.A., 2007, pp. 1089-1098; SERRÃO, Joaquim cósmico e, portanto, personagens meno-
Veríssimo, História de Portugal, vol. vi, Lisboa, res – e, no fundo, irresponsáveis – desse
Verbo, 1981; VENTURA, António, Uma História drama. A soteriologia aponta para o con-
da Maçonaria em Portugal (1727-1986), Lisboa, finamento do Mal, i.e., para a reposição
Círculo de Leitores, 2013. da separação primordial entre os dois
José Eduardo Franco princípios e as suas emanações, o da Luz,
Fernanda Santos a norte, chefiado pelo Pai da Luz, e o das

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Antimaniqueísmo 1225

Trevas, a sul, chefiado pelo Príncipe das em cuja vastidão a hierarquia maniqueia
Trevas. Entretanto, porém, em estado de persistiu abertamente até ao séc. x d.C.
interpenetração e de luta, sucedem-se e, mimetizada (em grupos ascéticos taois-
várias emanações, ou aiona (saecula, em tas), até ao séc. xiii. Até ao séc. xx, por-
latim), do Pai da Luz, entre as quais Jesus tanto, o maniqueísmo só indiretamente
e o próprio Mani, vindos ao mundo mate- foi conhecido, por via de referências por
rial para despertar Adão, que fora criado parte de filósofos neoplatónicos – como
por malícia para aprisionar mais luz na Amónio Sacas, mestre de Orígenes, e Ale-
sua veste de carne, mas podia salvar-se, xandre de Licópolis, autor de um Contra
acolhendo o conhecimento por eles re- Manichaei Opiniones (transmitido, aliás,
velado. No ser humano, esta soteriologia à sombra da condição episcopal do seu
cósmica implica uma ascese do noético autor) – e por intermédio do antimani-
sobre o corpóreo (traduzida, para os elei- queísmo dos Padres da Igreja. Tal como
tos, em práticas como a abstinência de se verificou em fenómenos análogos,
carne e a rejeição da propriedade e do como o acesso indireto a heresiarcas e a
matrimónio), em ordem a uma progres- fontes anticristãs, como Celso ou Frontão
siva libertação do primeiro relativamente de Cirta, pesem embora a fragmentarie-
à prisão do segundo. Aos eleitos cabia a dade e a parcialidade inerentes ao proce-
iluminação dos auditores, em ordem ao dimento de exposição e de refutação, as
conhecimento da verdade (gnosis); a estes descobertas desses textos atestaram, mais
auditores, posto que incapazes de renun- uma vez, a fidedignidade dos géneros
ciar à perpetuação da maligna mistura polémicos antigos no que concerne ao
entre carne e espírito (pelo matrimónio), debate de ideias, o que nos deve refrear
caberia a prática da oração, do jejum e da a prontidão em reduzir o antimaniqueís-
esmola – entendida sobretudo como ofer- mo à atitude caricaturista da cultura em
ta de alimentos aos eleitos, de quem cons- negativo.
tituiriam a base de recrutamento –, bem Poderia considerar-se que a própria
como a perpetuação do conhecimento Paixão de Mani, nome litúrgico que de-
recebido. signava a queda em desgraça política do
Só no séc. xx foi possível aos eruditos, fundador e o seu suplício em 274, sob
e a muito poucos, o acesso direto a do- Bahram I (segundo sucessor do grande
cumentação maniqueia e, portanto, ao Sapor, seu mecenas), foi o início do anti-
conhecimento da doutrina e da organiza- maniqueísmo. Todavia, apesar de consti-
ção conhecidas por maniqueísmo. Datam tuir inequivocamente o ponto de partida
de 1904 os achados de Turfan, na rota da de uma persistente perseguição políti-
seda (China), e de 1930 os da biblioteca ca  – que, com exceção do Turquestão,
de Medinet Madi (Egito). Os mais anti- em que foi religião de Estado no séc. ix,
gos textos maniqueus, entre os quais al- levará à completa extinção da organiza-
guns atribuíveis ao próprio Mani (como o ção maniqueia nos vários impérios do
Shabuhragan, o Livro de Sapor, imperador primeiro milénio –, não podemos deixar
dedicatário do resumo doutrinal, e a Epis- de considerar que não se trata de uma
tola Fundamenti, refutada por S.to Agosti- perseguição especificamente antimani-
nho em Contra Epistolam Manichaei Quam queia, mas sim de uma geral proscrição
Vocant Fundamenti), foram sendo desco- do estrangeiro no Extremo Oriente, e de
bertos em línguas como o persa, o parto, toda a alternativa gnóstico-dualista no
o copta, o turco e em línguas da China, mundo cristão, primeiro, e muçulmano,

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1226 Antimaniqueísmo

depois. É, portanto, àquele corpus lite- tes contra o maniqueísmo encontram­


rário, tecido, por um lado, em torno da ‑se ainda, nos dois séculos seguintes, em
exposição e da refutação da metafísica e Teodoreto de Ciro e Severo de Antio-
ética maniqueias e, por outro, da apologia quia (além de no já mencionado Cirilo
da Igreja Católica e da sua autoridade face de Jerusalém). Mas foi no mundo latino,
à hierarquia dos sequazes de Mani, que se ainda nos fins do séc. iv, sobretudo com
deve propriamente a designação de anti- S.to Agostinho, que se estruturou a defi-
maniqueísmo. Pouco mais será possível, nitiva confutação capaz de guiar, a longo
no presente contexto, do que elencá-lo e prazo, as condenações do maniqueísmo
formular a refutação fundamental, a sa- no mundo cristão. Especificamente anti-
ber, a da substancialização do mal. maniqueias são uma fase e uma parte sig-
Texto fundante e inspirador do anti- nificativa da sua obra, quer em matéria
maniqueísmo subsequente são os Acta exegética (De Genesi adversus Manichaeos,
Archelai, de 348 (limite post quem, cons- l. ii), quer ética (De Libero Arbitrio, De Mo-
tituído pela mais antiga referência, na ribus Ecclesiae Catholicae et De Moribus Ma-
VI Catequese de S. Cirilo de Jerusalém), nichaeorum, contra Faustum Manichaeum,
assim designados por ser em latim a l. xxxiii), quer metafísica e antropoló-
versão integral que chegou até nós, de gica (De Duabus Animabus, o já referido
provável versão grega a partir de um ori- Contra Epistolam Manichaei Quam Vocant
ginal siríaco, segundo S. Jerónimo (De Fundamenti, De Natura Boni). É, porém,
Viris Illustris, 72). Além de uma série de nas Confissões, ao narrar a atormentada
debates de Arquelau, bispo de Cárcara, indagação que, pelo amor da verdade, o
na Mesopotâmia, contra Mani, o escri- levara a ser auditor, e daí à plenitude da
to inclui uma narração considerada de fé católica, com a descoberta da bonda-
carácter puramente ficcional, que na de da matéria, que se encontra o melhor
realidade não visa mais do que aplicar resumo dessa confutação: “Tornou-se
a Mani o topos apologético da genealogia para mim claro que as coisas corruptíveis
errorum, remontando invariavelmente a são boas. Se não fossem boas, quer o fos-
Simão Mago. Para além do retrato gro- sem absolutamente, quer não o fossem,
tesco e caricatural do heresiarca (que não poderiam ser corruptíveis”; i.e., só se
não prescinde de outro topos da histo- perde o que se tem. Sendo a corrupção
riografia greco-romana antiga, qual o uma privação de um bem, os seres múl-
de persa maldito, encarnação do outro, tiplos são corruptíveis precisamente na
irredutível e perene inimigo), é ele que mesma medida em que possuem algum
oferece aos sucessivos polemistas a fonte bem. “Concluí assim que tudo o que
das mais antigas citações de Mani e da existe é bom e que esse mal cuja origem
sua exegese. Com os Acta Archelai rivali- tanto me interrogava não é uma substân-
zam de perto os dois primeiros dos qua- cia […], pelo que compreendi com toda
tro livros Contra Manicheos, do bispo Tito a evidência que tudo o que Vós criastes
de Bostra, na Arábia (m. 375), tratado é bom e não há substância alguma que
completamente acessível numa versão não tenha em Vós a sua origem” [tradu-
integral siríaca. Claramente inscrito na ção do autor da entrada] (AGOSTINHO
tradição exegética antioquena, encontra DE HIPONA, Confessiones, liv. vii, 12,
a sua melhor inspiração antimaniqueia 18). E será ainda sobre esta base antima-
na defesa do sentido literal da Escritura. niqueísta que o seu pensamento terá de
No mundo grego, referências frequen- alargar-se depois, no contexto do antipe-

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Antimaniqueísmo 1227

substancialização do mal, ou, pelo menos,


para a sua incompatibilidade com a bon-
dade divina. Fez-lhe eco, em meados do
séc. xviii, a polémica antimaniqueia entre
o sobredito Francesco Piro e, entre outros,
o seu confrade Gerardo de Angelis. Ao
tratado Della Origine del Male contra Bayle,
Nuovo Sistema Antimanicheo (Nápoles,
1749), seguiram-se, no mesmo ano, a Ri-
sposta del P. Francesco Piro de’Minimi all’Op-
ponimento che Fece il P. Gherardo degli Angioli
al Suo Libro Intitolato L’Antimanicheismo
e L’Antimanicheismo del P. Francesco Antonio
Piro de’ Minimi in miglior Forma Compendia-
to, Dichiarato e Difeso colla Nuova Aggiunta di
Una Lettera Apologetica ed Una Dissertazione
del Congruismo Universale (1770).
Na Modernidade portuguesa (ou na
S. Cirilo de Jerusalém (313-386). contemporaneidade, segundo a cansa-
da designação), podem ser encontrados
lagianismo, à integração do mal moral traços de um certo neomaniqueísmo em
na providência divina. Guerra Junqueiro, Sampaio Bruno (com
Na continuidade com este antimani- referências explícitas à raiz iraniana do
queísmo fundamental, podemos encon- messianismo) e Basílio Teles; pouco fal-
trar duas avultadas teodiceias do pensa- tando em Junqueiro para explicitar a
mento medieval em S. Boaventura e em assonância maniqueia da sua substan-
de S. Tomás de Aquino. No pano de fun- cialização do mal na natureza (com a
do, estariam as recentes convulsões que redenção gnóstica pela evolução, rein-
haviam incendiado a Europa a partir, pre- tegradora da unidade), que o leva à fla-
cisamente, de traços comuns que permi- grante designação de “Satanás-Universo”
tem associar valdenses, cátaros e albigen- (JUNQUEIRO, 1978, 51). Todavia, a apo-
ses à antiga mundividência maniqueia. logética portuguesa ignorou a possível
Na Modernidade, é possível identifi- vertente maniqueia daqueles filósofos.
car um neomaniqueísmo e um antima- O mesmo se pode dizer dos sobreditos
niqueísmo explícitos na Ilustração de movimentos libertários da Baixa Idade
Setecentos. É particularmente significa- Média (valdenses, cátaros, albigenses),
tiva, neste sentido, a obra do napolitano que tiveram pouca expressão entre nós e
Francesco Piro, da Ordem dos Mínimos não suscitaram, por isso, reação em ter-
de S.  Francisco de Paula, com o fito de mos de teodiceia nos filósofos/teólogos
refutar a antiteodiceia do Dictionnaire His- do tempo, S.to António e Pedro Hispano,
torique et Critique de Pierre Bayle (1647­ mais interessados, grosso modo, em ques-
‑1706), justamente percebida como neo- tões de gnosiologia, nem em Álvaro Pais,
maniqueísmo. Num diálogo fictício entre bispo de Silves, de cujo Colírio da Fé contra
um filósofo cristão e Zoroastro (alter ego as Heresias seria, embora, de esperar terre-
do autor), Bayle, apesar de formalmente no mais propício. Exceção significativa a
o negar, faz pender o debate para uma um carente antimaniqueísmo doméstico

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1228 Antimaoismo

será talvez a de Fr. Sueiro Gomes, cofun-


dador da Ordem Dominicana. Sem po-
Antimaoismo
der identificar nos seus Decretos Laicais um
destinatário especificamente maniqueís-
ta, não deixa de ser certo, se o quisermos
ver como antimaniqueísta prático, que o
que o moveu até terras da Occitânia foi a
paixão de combater cátaros e albigenses,
indiscutíveis epígonos medievais do ma-
niqueísmo.
F enómeno político e ideológico de
reação negativa à doutrina político-fi-
losófica de Mao Zedong, também conhe-
cida como marxismo-leninismo-maoismo
Bibliog.: ADDANTE, P., Il Movimento Anti- ou pensamento de Mao, assim como aos
bayliano nel Mezzogiorno d’Italia dal Piro al Ge- seus adeptos e aos movimentos políticos
novesi, Bari, Levante, 1982; AGOSTINHO DE
que se disseminaram na esquerda inter-
HIPONA, Confessiones; CAEIRO, G., “Sobre
heresias medievais: em torno dos decretos nacional inspirados no novo modelo co-
de Soeiro Gomes”, Boletim da Faculdade de Di- munista chinês, particularmente a partir
reito de Coimbra, vol. lviii, 1982, pp. 433-446; dos anos 60 do séc. xx.
CALIGIURI, W., Francesco Antonio Piro e la Fi- No XX Congresso do Partido Comu-
losofia di Leibniz. Principio di Ragion Sufficiente e nista da União Soviética, em fevereiro
il Problema del Male, Cosenza, Luigi Pellegrini de 1956, Khrushchov denuncia Estali-
Editore, 2004; HANSEN, G. C., “Zu den Evan-
ne e apresenta as suas polémicas teses,
gelienzitaten in den ‘Acta Archelai’”, Texte und
entre as quais a defesa da coexistência
Untersuchungen, vol.  92, 1966, pp. 473-485;
JUNQUEIRO, Guerra, Prosas Dispersas, Porto, pacífica entre o bloco soviético e o blo-
Lello e Irmão, 1978; LÁZARO, M., “Dios per- co capitalista, encabeçado pelos Estados
mite el mal para el bien. Dos aproximaciones Unidos da América. O Partido Comunista
diferentes desde la metafísica del ser y del bien Chinês  (PCC), então liderado por Mao,
en Santo Tomás y San Buenaventura”, Revista opõe-se vigorosamente tanto às acusações
Española de Filosofía Medieval, n.º 21, 2014, feitas a Estaline (que encara como um
pp. 95­‑103; ROCHA, A., A Filosofia da Religião
duro golpe no movimento revolucioná-
em Portugal (1850­‑1910), Porto, Universidade
Católica Editora, 2013; SILEO, L., “Tempo- rio internacional) como à tese da coexis-
ralia bona a tenebrarum principe creata. Tra tência pacífica com os EUA, atitude que
metafisica e etica: il male e l’antimanicheismo considerou ser revisionista e contrarre­
bonaventuriano del De Regno Dei”, Doctor Se- volucionária. Não reconhecendo auto-
raphicus, vol.  38, 1991, pp. 57-96; TARDIEU, ridade aos novos dirigentes da URSS, os
M., Le Manichéisme, Paris, PUF, 1981; VECCHI, líderes do PCC aclamaram Mao como
A., “L’antimanicheismo nelle Confessioni di
o único digno sucessor de Estaline no
S. Agostino”, Giornale di Metafisica, t. 20, 1965,
pp. 91­‑121.
comando do movimento internacional
comu­nista e a República Popular da Chi-
José Carlos Lopes de Miranda na como modelo ideal e político alterna-
tivo ao modelo soviético, pejorativamen-
te caracterizado por Mao Zedong como
social imperialismo. Neste período, e
em consequência da cisão sino-soviética,
surgem vários movimentos maoistas nos
países desenvolvidos europeus, sobretu-
do em França, mas também nos EUA, no

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Antimaoismo 1229

Canadá, na Austrália e no Japão, que fo-


ram geralmente liderados por dissidentes
dos partidos comunistas.
Do ponto de vista doutrinário, o maois-
mo distingue-se das restantes interpreta-
ções marxistas pelo papel preponderante
que atribui à estrutura social e à interven-
ção prática das classes na transformação
da estrutura económica. Neste sentido,
o maoismo atribui maior relevância ao
cultivo alargado e ao fortalecimento da
consciência da classe operária, de modo
a promover a adesão espontânea à revolu-
ção socialista na China. Baseando-se nas
condições sociais e económicas chinesas,
decorrentes de um modelo semifeudal e Mao Zedong (1893-1976).
sustentado pela agricultura, o pensamen-
to político de Mao distingue-se pela re- Em 1972, durante um encontro de estu-
levância e o carácter revolucionário que dantes na Faculdade de Ciências Econó-
atribui à classe camponesa, reconhecen- micas e Financeiras de Lisboa, a PIDE,
do-lhe capacidade de se organizar espon- polícia política, assassinaria Ribeiro San-
tânea e autonomamente, sem necessida- tos, um militante ativo da Federação dos
de da liderança de outrem. Estudantes Marxistas-Leninistas, movi-
Em Portugal, no final dos anos 60, for- mento juvenil do MRPP. O clima repressi-
mam-se vários movimentos políticos de vo imposto por esta polícia no meio aca-
influência maoista, cuja base, tal como démico, procurando limitar as ações e os
ocorreu noutros grupos maoistas euro- direitos dos estudantes nas universidades,
peus, é frequentemente constituída por polos de reunião e debate político privi-
militantes dissidentes do Partido Comu- legiado, foi controlando e suprimindo a
nista. Em 1964, é fundada a Frente de expressão política destes grupos clandes-
Ação Popular, que se extinguiria no ano tinos, que, até então, não eram mais do
seguinte após repressão policial e o apri- que grupos associativos informais de pro-
sionamento de vários dos seus membros; testo contra o regime fascista, a guerra co-
em 1966, surge a Liga Unitária de Ação lonial e a política opressiva e financeira-
Revolucionária. Porém, a forte repressão mente austera que o Governo de Marcelo
policial limitou bastante a intervenção Caetano implantava nas universidades
dos grupos maoistas no cenário político portuguesas.
e sindical. Um dos principais partidos Somente após a queda do regime mar-
maoistas portugueses, o Movimento de celista, e a consequente democratização
Reorganização do Partido do Proletaria- do espaço político português, entrariam
do  (MRPP), que adota mais tarde a de- em cena novos partidos de orientação
signação de Partido Comunista dos Tra- maoista, agora com maior expressão po-
balhadores Portugueses, foi fundado em pular e simpatia junto dos trabalhado-
1970 por Arnaldo Matos e José Rosas e res. Um dos principais partidos maoistas
viria a atuar no meio universitário portu- portugueses, a União Democrática Popu-
guês como campo político privilegiado. lar (UDP), tem como membro fundador

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1230 Antimaoismo

e principal figura Francisco Martins Ro- do proletariado português, agudizou


drigues, ex-militante do Partido Comu- uma forte concorrência política, por
nista Português (PCP). Fundada a 16 de vezes violenta, entre aqueles partidos e
dezembro de 1974, a UDP nasce da fusão outros movimentos do espectro marxista
de três grupos marxistas-leninistas de e anarcossindicalista português.
orientação maoista: o Comité de Apoio No período conhecido como “verão
à Reconstrução do Partido Marxista-Le- quente” de 1975, assistiu-se a um dos
ninista, os Comités Comunistas Revolu- principais episódios de anticomunismo
cionários Marxistas-Leninistas e a Uni- em Portugal e, por consequência, tam-
dade Revolucionária Marxista-Leninista, bém de antimaoismo. Organizações de
distinguindo-se esta última das restantes direita e extrema-direita, algumas com
por assumir uma posição ideológica mais ligações a sectores militares próximos
próxima do trotskismo. Ainda que gozan- de Spínola e da Igreja Católica, como o
do de menor influência política e dimen- Movimento Democrático pela Liberta-
são partidária que o MRPP e a UDP, é ção de Portugal (MDLP), o Movimen-
ainda de referência o Partido Comunista to Independente para a Reconstrução
Português Marxista-Leninista (PCP-ML), Nacional e o Exército de Libertação de
fundado em 1970, em Paris, sob a direção Portugal, foram protagonistas de ações
do Gen. Heduíno Gomes Vilar. Em 1975, violentas contra partidos de esquerda,
várias cisões políticas no interior do PCP­ especialmente no Norte do país. Ata-
‑ML dariam origem a novos partidos po- ques bombistas, assassinato de militantes
líticos: o Partido da União Popular, o Co- de esquerda e destruição de sedes de
mité Marxista-Leninista Português – que partidos foram alguns dos acontecimen-
mais tarde se fundiu com o Partido Co- tos que caracterizaram a oposição de di-
munista Português Reconstruído – e o reita à influência dos partidos nacionais
Partido Comunista (Marxista-Leninista) mais à esquerda nos órgãos de poder e
Português, formado em 1978. na comunicação social, visando particu-
Todos estes novos partidos da esquer- larmente o PCP e a UDP. No seguimen-
da portuguesa, muitas vezes autodesig- to do rapto e da tortura de um militar
nada por esquerda radical ou mesmo que estaria ligado ao MDLP, em maio do
extrema-esquerda, assumem como prin- mesmo ano, o Comando Operacional do
cipal concorrente político, e adversário Continente (COPCON) deteve centenas
ideológico, o Partido Comunista Portu- de militantes do MRPP, que viria a ser
guês, que mantinha até então relações mesmo impedido de participar nas elei-
próximas com a União Soviética, motivo ções para a Assembleia Constituinte.
pelo qual haveria de ser apelidado de re- A repressão policial exercida sobre os
visionista e social-fascista pelos maoistas militantes do MRPP granjeou ao 5.º Go-
portugueses. Todavia, o facto de assumi- verno provisório, chefiado por Vasco
rem um inimigo comum e de partilha- Gonçalves, fortes críticas por parte da
rem posições políticas muito próximas oposição socialista, comandada por
não tornou os diversos grupos maoistas Mário Soares, bem como do Partido
mais solidários entre si; pelo contrário, a Popular Democrático, e ainda de toda
atitude sectária e antiunitária do MRPP, a esquerda radical, que consideraram
da UDP e do PCP-ML, cada um dos quais que tal ato era politicamente motivado
reclamava para si o título de verdadeiro e antidemocrático. Ainda que não se
partido marxista-leninista e vanguarda tratasse de uma atuação com nítida mo-

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Antimaoismo 1231

tivação política  – uma vez que o MRPP radical da espontaneidade e a sua depre-
assumia efetivamente uma apologia da ciação da organização partidária indicam
luta armada das massas populares con- nitidamente, para os comunistas Cunhal
tra o Movimento das Forças Armadas e e Jara, tanto a impotência daqueles gru-
a instauração de uma guerra civil –, mui- pos para se organizarem como partidos
tos interpretaram a ação do COPCON de massas, como a sua perspetiva subjeti-
como uma tentativa de aniquilamento vista e idealista pequeno­‑burguesa.
do MRPP por parte do PCP, nomeada-
mente através da influência que este
partido teria sobre o Governo de Vasco
Gonçalves.
Da ala esquerda da política portugue-
sa, o partido que mais ativamente criti-
cou a ideologia maoista foi o PCP, o prin-
cipal inimigo assumido pelos partidos Bibliog.: impressa: ALEXANDER, Robert J.,
da frente maoista. Na produção escrita Maoism in the Developed World, New York, Prae-
ger Publishers, 2001; Cadernos Viva o Maoísmo,
nacional, destaca-se a obra de Álvaro
n.º 1, 1978; CARDINA, Miguel, Margem de Cer-
Cunhal Radicalismo Pequeno-Burguês de ta Maneira: o Maoísmo em Portugal 1964-1974,
Fachada Socialista, assim como A Farsa dos Lisboa, Tinta da China, 2011; CUNHAL, Álva-
Pseudo-Radicais em Portugal e Maoísmo em ro, O Radicalismo Pequeno-Burguês de Fachada So-
Portugal da autoria de José Manuel Jara. cialista, Lisboa, Avante, 1974; FIELDS, A. Bel-
Estes escritos apresentam uma crítica den, Trotskyism and Maoism, New York, Praeger
sistemática dos princípios teóricos e do Publishers, 1988; Id., “A Revolução de abril 20
anos depois”, Vértice, n.º 59, mar.-abr. 1994,
que consideram serem os desvios doutri-
pp. 5-20; GLASER, Daryl, e WALKER, David
nários apresentados e defendidos pelos M. (coords.), Twentieth Century Marxism, Lon-
partidos da nova esquerda radical. As don/New York, Routledge, 2007; JARA, José
direções dos partidos maoistas, fazendo Manuel, A Farsa dos Pseudo-Radicais em Portugal.
a distinção dos apoiantes que se teriam Estudo Político e Teórico sobre os Grupos Maoístas e
deixado iludir pela “verborreia” maoista, Trotskistas perante a Revolução, Lisboa, Edições
são apresentados como grupos de radi- Sociais, 1974; Id., Maoísmo em Portugal. Ideo-
logia Anarquista Contra-Revolucionária e Paródia
cais pequeno-burgueses, desligados das
Burguesa do Marxismo, Lisboa, Edições Sociais,
massas operárias, constituindo uma pe- 1975; KNIGHT, Nick, Mao Zedong on Dialecti-
quena elite intelectual com a pretensão cal Materialism, New York, M. E. Sharp, Inc.,
de ser a vanguarda do proletariado por- 1990; Id., Marxist Philosophy in China, Dordre-
tuguês. Acusados de branquear e ignorar cht, Springer, 2005; MEISNER, Maurice J.,
o passado histórico das lutas operárias e Marxism, Maoism and Utopism, Winsconsin, The
o papel do PCP nestas, para Cunhal, os University of Winsconsin Press, 1982; digital:
partidos maoistas assumem nitidamente CUNHAL, Álvaro, “Situação política e as ta-
refas do partido”, Marxists Internet Archive, 20
a bandeira política do anticomunismo
out. 1974: https://www.marxists.org/portu-
e do antissindicalismo. Assim, Cunhal gues/cunhal/1974/10/20.htm (acedido a 19
encontra nestes partidos, não obstante set. 2016); Id., “Discurso no comício do PCP
o emprego das palavras de ordem e dos (Campo Pequeno – Lisboa)”, Marxists Internet
chavões marxistas-leninistas, um discur- Archive, 7 dez. 1975: https://www.marxists.
so político muito próximo do anarquis- org/portugues/cunhal/1975/12/07.htm (ace-
mo individualista e do oportunismo eco- dido a 19 set. 2016).
nómico. A apologia feita pela esquerda Sara Totta

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1232 Antimaquiavelismo

Antimaquiavelismo qual a aparência fosse mais importante


do que a substância, sendo que muitas
vezes, para as suas finalidades, deveria ir
“contra a humanidade, contra a caridade,
contra a religião” (MAQUIAVEL, O Prín-
cipe, cap. xviii).
Apesar do grande fascínio que O Prín-

N ão são muitos os autores cujos escri-


tos tenham sido objeto de tantas crí-
ticas, polémicas e distorções como suce-
cipe exerceu entre os leitores ainda antes
de ser publicado, devido também ao es-
tilo seco e incisivo da sua prosa, foram
deu com Nicolau Maquiavel (1469-1527). expressões deste tipo que levaram pron-
Secretário e legado diplomático durante tamente várias vozes a acusar Maquiavel
a efémera experiência da República Flo- de ser um autor ímpio e imoral. Contu-
rentina (1494-1512), mas também histo- do, quando a Igreja romana incluiu os
riador, poeta e dramaturgo, Maquiavel foi seus escritos no Índice dos livros proibidos
sem dúvida o mais importante pensador (1559), as obras de Maquiavel já circula-
político do Renascimento. Confirma­‑o a vam em milhares de exemplares impres-
fama universal da sua obra-prima, O Prín- sos e, sobretudo, tinham já inspirado a
cipe, cuja data de composição convencio- produção de muitos pensadores políticos.
nal é o ano de 1513, apesar de ter sido Assim, a luta contra a leitura dos escritos
publicada somente duas décadas depois, de Maquiavel, na Europa católica como
em 1532. Este breve tratado sobre os mo- naquela protestante, foi acompanhada
dos para alcançar e conservar o poder, re- por um clima de suspeita relativamente
digido na época convulsa das guerras de a passos de obras que pareciam retomar
Itália (1494-1529), mas também de gran- à letra, ou ecoar, as ideias do secretário
des transformações, devidas, entre outros florentino. Paralelamente, difundiam-se
fatores, ao conflito entre a Espanha e a cada vez mais imagens e estereótipos ne-
França e à expansão mediterrânica do gativos acerca de Maquiavel e do seu pen-
império otomano, inovou profundamen- samento, apresentados como perigosos e
te a literatura dos conselhos e preceitos diabólicos. Foram desenvolvidos através
políticos, que tinha formado, durante a de uma literatura de controvérsia, não
Idade Média, o género dos espelhos de desprovida de ambiguidade, a qual deu
príncipes. De facto, com respeito a esta uma contribuição decisiva para a forma-
tradição, O Príncipe abandonava a insis- ção de uma corrente robusta e duradou-
tência no primado da conduta ética em ra, mas de modo nenhum homogénea:
favor de um realismo lúcido, que levasse o antimaquiavelismo.
os atores políticos a operar conforme as A influência da representação em nega-
circunstâncias, aproveitando a fortuna, tivo atingiu também os estudiosos moder-
alternando engenho e força, e, no caso nos, como demonstra de maneira eviden-
de um soberano, sendo capaz de suscitar te a historiografia sobre a circulação de
o amor e o temor no povo, segundo as Maquiavel em Portugal, marcada durante
exigências. Para além disto, Maquiavel muito tempo pelas interpretações avança-
esboçava o perfil de um príncipe que, tal das em vários trabalhos, realizados entre
como o Papa Alexandre VI Borja (pontífi- os anos 60 e 70 do século passado, por
ce entre 1492 e 1503), soubesse ser “gran- Martim de Albuquerque. Se a importân-
de simulador e dissimulador”, e para o cia do seu levantamento das ocorrências

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Antimaquiavelismo 1233

relativas a Maquiavel na cultura portu-


guesa entre os sécs. xvi e xix é incontor-
nável, o sabor nitidamente antimaquiavé-
lico da análise de Albuquerque invalida
largamente as conclusões que apresentou
acerca do impacto do autor de O Príncipe.
De facto, quase prolongando a sensibili-
dade dos polemistas da idade moderna,
talvez num esforço de fornecer uma ima-
gem agradecida ao regime salazarista ain-
da vigente, Albuquerque procurou nos
seus escritos confutar sistematicamente
qualquer rasto de interesse para as ideias
de Maquiavel. A tese fundamental é a de
uma incompatibilidade radical entre este
último, associado a Martinho Lutero, e
a inclinação intrínseca dos Portugueses
para o catolicismo e os seus valores mo-
Nicolau Maquiavel (1469-1527).
rais, o que motivaria, “pelo menos no pla-
no doutrinal, contestação generalizada”
(ALBUQUERQUE, 2007, 81) contra o se- reelaboraram as ideias provocadoras do
cretário florentino. Ao retomar a imagem autor de O Príncipe e as integraram em
de um Maquiavel “herege”, Albuquerque seus escritos.
alinhava com os juízos dos autores que No texto manuscrito de um panegírico
examinava, como o jurista Pedro Barbosa de D. João III, que o humanista João de
Homem, autor, em 1626, de um tratado Barros teria declamado na presença da
contra as “monstruosidades de Maquia- corte, em Évora, em 1533, encontra-se
vel [...] dignas de Lutero” (Id., Ibid., 63). um dos primeiros exemplos de inclusão
Um resquício de antimaquiavelismo, de trechos inteiros tirados de Maquiavel,
portanto, dificultou uma correta com- traduzidos para português e reinterpre-
preensão das dinâmicas de receção e tados à luz de uma harmonização entre
rejeição de Maquiavel, das suas obras os antigos gentios e os modernos cristãos,
e  das suas ideias em Portugal, até aos i.e., entre o valor militar dos romanos e o
tempos recentes, que têm inaugurado dos Portugueses. A questão não fora le-
uma nova e vivaz fase de investigação, a vantada em O Príncipe, mas nos Discursos
qual está a mudar em vasta escala a per- sobre a Primeira Década de Tito Lívio, um co-
ceção da sua substancial ausência na his- mentário da secção inicial da obra histo-
tória intelectual portuguesa. A remoção riográfica latina, publicado pela primeira
de Maquiavel do panorama dos autores vez em 1531, onde Maquiavel meditava
de referência na cultura portuguesa dos sobre a Roma antiga, as evoluções do seu
séculos passados é ainda mais paradoxal sistema político e as razões da ascensão
se considerarmos que pesquisas recentes e do declínio do seu poder, recorrendo
demonstraram não só as ambivalências e também a comparações frequentes com
oscilações do antimaquiavelismo oficial, o tempo presente. Entre os alvos polémi-
mas também a excecional precocidade cos de Maquiavel estava a Igreja de Roma,
com que alguns humanistas portugueses acusada de oferecer um espetáculo

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1234 Antimaquiavelismo

quotidiano de corrupção e irreligiosida- Coroas ibéricas, exaltadora da construção


de, para além de ser a responsável princi- dos impérios ultramarinos como triunfo
pal da ruína e desunião política de Itália, de armas cristãs. Assim, foi a partir de
sendo que o papa era suficientemente uma defesa orgulhosa da nobreza cristã e
forte para impedir que outro príncipe do acordo pleno entre a intensidade da fé
se tornasse senhor de toda a península, e o valor militar que, durante a sua esta-
mas débil demais para realizar aquele re- dia em Bolonha, nos anos 30 do séc. xvi,
sultado. Contudo, a crítica contida nos na companhia do humanista espanhol
Discursos era ainda mais radical e atingia Juan Ginés de Sepúlveda (também autor
o cristianismo em si, descrito como fé de um escrito contra Maquiavel, publica-
contemplativa e ultramundana, que, re- do em 1535), o teólogo português Jeróni-
futando “a honra do mundo”, enfraquece mo Osório elaborou uma resposta contra
os ânimos e produz “a velhacaria dos ho- o secretário florentino, finalmente cha-
mens, que interpretaram a nossa religião mado pelo nome, na qual a violência do
conforme o ócio, e não conforme a vir- ataque escondia alguma ambiguidade. De
tude”, ao contrário da “religião antiga”, Nobilitate Civili et Christiana foi publicado
a dos romanos, que, com os seus rituais em Lisboa, em 1542. Enquanto atribuía
civis e juramentos, e pese embora priva- pensamentos alheios a Maquiavel, Osório
da de verdade, “não beatificava senão os criticava-o, apoderando-se de argumen-
homens cheios de glória mundana, como tos tirados dos próprios Discursos. Assim,
era o caso de capitães de exércitos e prín- se acusava Maquiavel de ter explicado a
cipes de repúblicas” (MAQUIAVEL, Dis- queda do Império Romano a partir dos
cursos..., liv. ii, cap. ii). efeitos nefastos do advento do cristianis-
Entre as asserções de Maquiavel, a mo, Osório replicava, com S.to Agosti-
que inicialmente atraiu o maior interes- nho, que as causas e os efeitos do declí-
se, como era de esperar no contexto do nio haviam precedido em muitos anos
humanismo renascentista, foi a ideia de o nascimento de Cristo; e prosseguia,
que a grandeza extraordinária da Roma convocando a teoria da decadência natu-
antiga derivava de um vínculo entre os ral dos impérios, os inveterados conflitos
seus cidadãos, favorecido por uma falsa civis que laceravam Roma e a progressiva
religião que os tornava leais entre si e perda de virtude e disciplina por parte
corajosos em guerra. João de Barros não do povo romano, ou seja, exatamente os
resistiu à tentação de recuperar este ar- factores que Maquiavel tinha apontado
gumento de Maquiavel, dissolvendo o seu como as verdadeiras causas da crise impe-
potencial corrosivo através de uma repre- rial. A demonstração da inferioridade da
sentação do cristianismo, na hierarquia religião dos antigos fundamentava-se, em
do valor civil e militar, como evolução da Osório, na descrição desta última como
religião dos romanos: “Se a religião dos superstição originada do medo da mor-
gentios, reprovada e falsa, tinha poder, te, aquele medo que os soldados cristãos
pelo apartamento dos vícios e limpeza não podiam ter, conscientes de que a vida
do espírito, de causar tanta perfeição eterna os esperava.
a quem a seguia, quanto mais se deve Abriu-se assim um debate subterrâneo
isto esperar da verdadeira fé de Cristo?” acerca da possibilidade de Deus ter pre-
(BNP, cód. 3060, fl. 36v.). miado as virtudes motivadas por uma
A posição expressa nos Discursos cons- religião falsa, em que se aludia às posi-
tituía uma ameaça à retórica oficial das ções de Maquiavel através de referências

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Antimaquiavelismo 1235

a S.to  Agostinho. A polémica tornou-se guesa, é mais correto falarmos de um an-


particularmente vivaz nos anos sucessivos timaquiavelismo ibérico, profundamente
à publicação do De Nobilitate de Osório, marcado pela tratadística jesuíta, a qual,
quando, contra as sugestões dos Discur- mais do que criticar Maquiavel, de cujo
sos, evidentes no Libro Primero del Espejo pensamento havia por vezes apenas um
del Príncipe Cristiano (1544) de Francisco conhecimento indireto, e.g. através do
de Monzón, se levantou a voz, explícita Discours contre Machiavel (1576) do hu-
e agressiva, do Agostinho Martín de Az- guenote Innocent Gentillet, procurava
pilcueta, mais conhecido como “doutor contrastar o maquiavelismo, i.e., uma va-
navarro”, o principal professor de direito riegada corrente baseada na licitude sis-
canónico da Univ. de Coimbra. temática de mentir, quebrar a fé pública
As incertezas do antimaquiavelismo e enganar para o poder, cuja origem se
na cultura portuguesa continuaram no imputava ao secretário florentino, apesar
De Gloria (1549) de Osório, e ainda mais de se não achar rasto dos seus conteúdos
no De Regis Institutione (1571-1572), onde nos escritos dele.
o mesmo autor, então bispo do Algarve, O objetivo do esforço polémico dos
completava o seu itinerário intelectual da autores jesuítas, onde abundavam carica-
“crítica aparente” à “velada aprovação” de turas e desvirtuamentos das ideias de Ma-
Maquiavel (ANGLO, 2005, 156 e 163), ao quiavel, associadas cada vez mais sistema-
retomar quase à letra as palavras com que ticamente aos hereges, era o de esboçar
Barros tinha tentado compatibilizar as os contornos do príncipe cristão, recon-
ideias do secretário florentino sobre a re- ciliando a teoria política com os valores
ligião dos romanos e o cristianismo. Esta de uma ética cristã tornada mais maleável
operação era ainda mais arriscada por- pela casuística, de que os próprios discí-
que, diferentemente do que aconteceria pulos de Inácio de Loiola eram mestres.
em Espanha, onde as obras de Maquiavel Assim, entre os sécs. xvi e xvii, ao lado
foram proibidas somente em 1583-1584 e de importantes padres italianos, como
circulavam traduções dos Discursos dedi- Antonio Possevino, Tommaso Bozio e Ro-
cadas a D. Filipe II, em Portugal a inter- berto Bellarmino, entre os protagonistas
dição dos escritos do autor de O Príncipe de um ataque europeu aos maquiavelista
remontava a 1559. não faltaram importantes Jesuítas espa-
Foi somente com a crise dinástica de nhóis, como Pedro de Ribadeneira, que
1580-1581, e a inauguração de uma fase aliás voltou a criticar também a ideia da
de reorientação da cultura portuguesa superioridade da religião dos romanos
em forte entrelaçamento com a espanho- sobre o cristianismo, ou Juan de Mariana,
la, que se verificou uma alteração decisiva teórico do tiranicídio (com referência so-
na evolução do antimaquiavelismo em bretudo à situação francesa), ambos com
Portugal, o qual, seguindo o interesse largo eco em Portugal, ou entre os auto-
crescente dos leitores por O Príncipe, ela- res portugueses ativos em Espanha.
borou novos argumentos retóricos, ago- A linha indicada pelos Jesuítas definiu
ra relativos ao cinismo de Maquiavel, o o horizonte do antimaquiavelismo oficial,
danado autor, ateu e satânico, à lição do que procurava subordinar a política aos
qual se atribuíam os episódios mais trági- preceitos da religião e da moral católica,
cos das guerras de religião em França. De permeando também a maioria dos au-
facto, relativamente a esta época, devido tores portugueses, como Fernando Al-
também ao bilinguismo da cultura portu- via de Castro, Luís Torres de Lima, Luís

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1236 Antimaquiavelismo

Marinho de Azevedo ou, mais tarde, Fran- paz e de uma política justa e équa, pró-
cisco Manuel de Melo, os quais, pelas suas xima da linha do despotismo iluminado.
inquietudes intelectuais e ambiguidades, Foi demonstração célebre disto o Anti­
já foram inscritos entre os representantes ‑Machiavel, escrito pelo Rei Frederico  II
da chamada razão de Estado, ou tacitis- da Prússia e publicado por Voltaire, em
mo. De resto, os exemplares de O Príncipe 1740. Neste apogeu de um antimaquiave-
circulavam, “o próprio Maquiavel ocupa- lismo secularizado, podia-se relacionar o
va um lugar fundamental na curiosidade nome do secretário florentino com qual-
bibliográfica e no interesse” (TORGAL, quer inclinação ou comportamento ne-
1981, I, 205) das elites cultas e mais in- gativo. De forma exemplar, no Verdadeiro
ternacionalizadas, contribuindo inclu- Método de Estudar (1747) do estrangeirado
sive para a reflexão sobre as passagens Luís António Verney, um dos textos que
mais dramáticas da Restauração (1640). marcaram a viragem iluminista na cultu-
Isto não impedia que, mesmo aqueles ra portuguesa, contribuindo para a ultra-
possuindo uma tradução em português passagem da tradicional pedagogia esco-
da obra, caso de Manuel Fernandes Vila lástica dos Jesuítas, referia-se a ética de
Real, pudessem afastar-se abertamente do Maquiavel, lado a lado com as de Baruch
ensino de Maquiavel, como é possível co- de Espinosa e Thomas Hobbes (também
lher no tratado daquele sobre o cardeal autores proibidos em Portugal), como a
Richelieu, intitulado El Politico Cristianís- primeira entre as ímpias e que “facilmen-
simo (1642). Outros podiam ironizar so- te inspira o veneno dos seus princípios,
bre a distância entre o pensamento de apadrinhado pelo uso comum” (ALBU-
Maquiavel e a conduta prática dos minis- QUERQUE, 2007, 107).
tros portugueses, como fazia, em 1646, Portanto, não surpreenderá que, na
Vicente Nogueira, ao comentar a sua re- segunda metade do séc. xviii, fase com-
cente aquisição de uma edição italiana de plexa que se seguiu à ascensão ao poder
O Príncipe. Assim, era raro que, mesmo de de Sebastião José de Carvalho e Melo, de-
forma dissimulada, Maquiavel se tornasse pois marquês de Pombal, o choque com
objeto de um debate real, sendo a cena a Companhia de Jesus, que remontava,
pública ainda dominada por um duro entre outras razões, aos contrastes acer-
antimaquiavelismo, como o que exprimia ca da autonomia das missões dos padres
o fidalgo, jurista e diplomata António de no Pará e Maranhão e das interpretações
Sousa de Macedo no tratado Armonia Po- das causas do terramoto de 1755, tenha
litica dos Documentos Divinos com as Conve- chegado a dirigir as acusações de maquia-
niencias do Estado (1651). velismo contra os Jesuítas. Em fevereiro
Se a circulação de Maquiavel conti- de 1758, e.g., o ministro D. Luís da Cunha
nuou em toda Europa durante a segun- Manuel classificava as desordens provo-
da metade do séc. xvii e ao longo do cadas na América pelos Jesuítas como
séc. xviii, em Portugal, com a chegada “maquiavélicos enganos” e, lembrando a
de novas sensibilidades ligadas às Luzes, explicação, dada por Gabriele Malagrida
ao tradicional antimaquiavelismo de ma- e outros padres, do terramoto como casti-
triz católica somou-se uma nova corren- go divino, comentava que “não inventou
te, que partilhava a crítica racionalista a fertilíssima malícia de Nicolau Machia-
às presumidas astúcias e opacidades do velo diabrura política, que eles não pu-
pensamento do secretário florentino, em sessem por obra” (Id., Ibid., 92). Idênti-
nome da defesa do direito natural, da co juízo se encontrava na carta que, em

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Antimaquiavelismo 1237

janeiro de 1759, uma semana depois das seus textos, de um lado, e, de outro lado,
execuções capitais de que foram vítimas as estratificações dos multíplices estereó-
os culpados do atentado dos meses ante- tipos negativos que, durante um caminho
riores contra D. José I, o Rei enviou aos plurissecular, o antimaquiavelismo conse-
prelados do reino, acusando os Jesuítas guiu associar ao adjetivo “maquiavélico”,
de serem os autores morais e coautores o qual ainda hoje, na língua portugue-
do delito, por terem semeado “o mesmo sa, tal como em muitas outras, tem um
pestilencial veneno dos maquiavúlicos significado pejorativo, que remete para
enganos e das ante-evangelicas doutri- a esfera da astúcia, da má-fé, do oportu-
nas” (Id., Ibid., 95). nismo contrário aos interesses do bem
O paradoxal encontro entre antijesui- comum e da sociedade.
tismo e antimaquiavelismo, revelador da
extraordinária plasticidade do arsenal Bibliog.: manuscrita: Biblioteca Nacional de
retórico deste último, acompanhou a Portugal, reservados, cód. 3060, Ao mui Alto
expulsão dos padres da Companhia dos e muito Poderosõ Rey de Portugal D. João 3°. deste
Nome Panegirico de João de Barros; impressa: AL-
territórios da coroa, que se verificou dali
BUQUERQUE, Martim de, Maquiavel e Portu-
a pouco tempo. Nos anos seguintes, saí- gal. Estudos de História das Ideias Políticas, Lisboa,
ram obras como Anti-Machiavelismo ou Alêtheia, 2007; ANGLO, Sydney, Machiavelli,
Nova Sciencia e Arte (1760) de António Fé- the First Century: Studies in Enthusiasm, Hostility
lix Mendes (pseudónimo de João Pedro and Irrelevance, Oxford, Oxford University Press,
do Vale), e o fidalgo Francisco Bernardo 2005; BAGNO, Sandra, e MONTEIRO, Rodri-
Holbeche, autorizado a ler livros defesos, go Bentes (orgs.), Maquiavel no Brasil. Dos Des-
cobrimentos ao Século XXI, Rio de Janeiro, Fun-
iniciou uma tradução de O Príncipe, limi-
dação Getúlio Vargas, 2015; MAQUIAVEL,
tada aos primeiros três capítulos, com Nicolau, O Príncipe; Id., Discursos sobre a Primei-
anotações, mas expurgada dos passos ra Década de Tito Lívio; MARCOCCI, Giuseppe,
mais comprometidos do ponto de vista “Machiavelli, la religione dei romani e l’impero
moral e religioso. Ainda mais, os novos portoghese”, Storica, n.os 41-42, 2008, pp. 35­
estatutos da Univ. de Coimbra (1772) ‑68; MONTEIRO, Rodrigo Bentes, “Traduções
prescreveram aos professores evitarem de Maquiavel: da Índia portuguesa ao Brasil­
‑apresentação”, Tempo, n.° 20, 2014, pp. 1-5;
detestáveis doutrinas como as do sistema
PROCACCI, Giuliano, Machiavelli nella Cultura
do maquiavelismo, enquanto a Real Mesa
Europea dell’Età Moderna, Roma/Bari, Laterza,
Censória assumia a proibição dos escritos 1995; PUIGDOMÈNECH, Helena, Maquiave-
de Maquiavel nos índices eclesiásticos, lo en España. Presencia de Sus Obras en los Siglos
condenando edições em circulação das XVI y XVII, Madrid, Fundación Universitaria
suas obras em língua francesa. Española, 1988; TORGAL, Luís Reis, Ideologia
Finalmente, nas décadas iniciais do Política e Teoria do Estado na Restauração, 2 vols.,
séc. xix abriu-se uma fase de reabilitação Coimbra, Biblioteca Geral da Universidade de
Coimbra, 1981-82.
de Maquiavel no discurso público por
parte dos liberais, que denunciaram a Giuseppe Marcocci
lenda negra elaborada em torno do autor
de O Príncipe, no qual não faltava quem
visse um teórico do republicanismo. To-
davia, como mostravam claramente as
posições de vários tradicionalistas, já não
era possível recompor a distância entre a
figura histórica de Maquiavel e a letra dos

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1238 Antimarialvismo

Antimarialvismo rista e conquistador de mulheres, com


uma vida extravagante, ociosa e disso-
luta, que gosta ou se ocupa de cavalos,
touros e touradas. É também um “fadista
que pertence a família distinta, ou que o
aparenta” (MACHADO, 1991, 40).
No ensaio Cartilha do Marialva ou das

A ntónimo de “marialvismo”, cuja ori-


gem reside no antropónimo “Ma-
rialva”, pertencente à família do 4.º mar-
Negações Libertinas (1960), José Cardoso
Pires define a essência do seu espírito e
representa-o em algumas personagens
quês de Marialva, D. Pedro de Alcântara dos seus contos: “Ritual dos pequenos
de Menezes Coutinho (1713-1799), tam- vampiros” e “Dom Quixote, as velhas viú-
bém 6.º conde de Cantanhede, general vas e a rapariga dos fósforos”, em Jogos de
de cavalaria, estribeiro-mor de D. José I, Azar (1963); e romances: O Anjo Ancora-
conselheiro de guerra e claveiro da or- do (1958), O Delfim (1968) e Balada da
dem militar de S. Tiago, que, como des- Praia dos Cães (1982). Segundo este escri-
tro cavaleiro português e conhecedor tor, o termo “marialva” surge como cate-
da equitação académica à francesa, ins- goria social em Os Marialvas (1876), de
tituiu as regras de montar à gineta e de Braz Fogaça, e a sua filosofia de vida é já
forma elegante. Esta herança equestre e antes legitimada, didática e moralmente,
tauromáquica é descrita pelo mestre de pela Carta de Guia de Casados (1651), de
picaria Manuel Carlos de Andrade que, D. Francisco Manuel de Melo, que con-
num tratado de equitação intitulado sagra a mulher portuguesa ao lar. É um
Luz da Liberal, e Nobre Arte da Cavallaria arquétipo da aristocracia medieval, fidal-
(1790), conhecido por Tratado ou Arte go boémio e estoura-vergas, influente
de Marialva, faz perdurar este nome de provinciano adverso ao citadino, com va-
família, que é simultaneamente substan- lores conservadores, autoritários e pater-
tivo e adjetivo. A expressão “(à) marial- nalistas. As relações de poder que exerce
va” refere-se ao chapéu “alto, com aba não são apenas no feminino, mas tam-
direita” (NASCENTES, 1966, 121), mas bém, como fidalgo ou proprietário, com
também à atitude senhorial e altiva, bem o camponês ou o empregado. Se, social-
como ao traje dos cavaleiros tauromá- mente, é “um indivíduo interessado em
quicos portugueses à Luís XV, com os certo tipo de economia e em certa fisio-
arreios das montadas à séc. xviii. Para nomia política assente no irracionalis-
homenagear esta figura setecentista, foi mo”, intelectualmente é avesso ao poder
dado, e.g., o seu nome, marquês de Ma- da inteligência, à coragem responsável e
rialva, a uma sala (ao lado do bar) no a “leituras e viagens, meios de adquirir
Palácio de Seteais, construído também experiência, [porque] são os malefícios
no séc. xviii, bem como, em Lisboa, ao da civilização a que o marialva atribui
jardim do Campo Pequeno. os desarranjos sociais” (PIRES, 1970,
Até ao séc. xxi, o substantivo e o ad- 9 e 75). O seu exibicionismo de garanhão
jetivo “marialva” adquirem vários signi- “constrói uma mitologia própria onde
ficados e são associados ao género mas- agita os seus galhardetes de vitória” (Id.,
culino. De forma valorativa, o vocábulo Ibid., 80) através de uma gíria que torna
significa um exímio e elegante cavaleiro, ainda mais depreciativa a sua imagem.
mas, pejorativamente, refere-se a um far- Neste âmbito, até à primeira metade do

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Antimarialvismo 1239

O marialvismo está igualmente asso-


ciado ao universo militar pela defesa de
uma cultura de bravos cujo lema é: “Mas,
Nós, os fortes, iremos além!” (TEIXEI-
RA, 2013, 98) O poder político também
não lhe é alheio e D. Miguel I é consi-
derado o seu primeiro aliado, porque
restaurou as hierarquias sociais, o sebas-
tianismo e combateu as ideias liberais.
Ficcionalmente, é uma presença na lite-
ratura, no teatro, na revista à portugue-
sa, nas novelas e nos filmes.
O antimarialvismo rejeita este modelo
de masculinidade, onde o machismo, a
retórica e exibição viris, e a obediência
à tradição patriarcal são uma constan-
te. Com legitimidade histórico-cultural,
diz-se que este género masculino se move
mais nas áreas de Lisboa, do Ribatejo e
do Sul de Portugal. A ética marialva, que
tem na figura do cavaleiro a sua perso-
nificação, reflete uma imagem de nacio-
nalidade e de atuação que, tradicional
Folha de rosto de Carta de Guia de Casados e popularmente, se considera o modo
(1678), de D. Francisco Manuel de Melo. de ser português: fado, cavalos, caça e
touradas. Por isso, a temática do antima-
séc. xx, o fado tem um papel preponde- rialvismo foi associada a um manifesto
rante na construção da sua identidade. contra a caça e a corrida à portuguesa.
Títulos como “Fado do Marialva”, cuja No entanto, Manuel Alegre afirma que
letra, “Portugal desde menino/Foi ca- “há muita gente profundamente anti-
valeiro e campino…”, “explica o varão marialva que gosta de touros e […]  de
português como um duro a cheirar a ca- caça. De resto, eu acho que tudo nasceu
valo” (TEIXEIRA, 2013, 98-99), e “Fado da caça. Tudo. A começar pela poesia”
do 31”, assim como a história da Severa, (MARQUES, 2010, 36).
em peça teatral, por Júlio Dantas, e em O antimarialvismo combate atitudes e
filme, por Leitão de Barros, são modelos comportamentos arreigados a uma igno-
para se esculpir um imaginário social fa- rância consentida, autoritária e medío-
miliar e de boémia pautado pela margi- cre, fossilizada numa tradição portugue-
nalidade e a transgressão, uma realidade sa sem valores de igualdade de direitos
que, na época, é rejeitada, em parte, pe- e deveres, gerando o atraso de uma so-
los intelectuais portugueses, porque os ciedade, de um país. Na literatura portu-
“três artigos de fé do regulamento ma- guesa, Maria Teresa Horta, Maria Velho
rialva no capítulo, obsessivo para ele, da da Costa e Maria Isabel Barreno, em No-
sua condição e privilégio de macho” são vas Cartas Portuguesas (obra editada por
“desigualdade na parceria sentimental, Natália Correia, em 1972), são reconhe-
desvario e facilidade” (PIRES, 1970, 85). cidas pela sua luta durante os últimos

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1240 Antimarxismo

anos da ditadura do Estado Novo. Neste


universo, consiste numa desmistificação
Antimarxismo
da realidade feminina portuguesa, que
está associada à representação de uma
imagem política, social e cultural dos gé-
neros, ou seja, na defesa da igualdade de
género.

Bibliog.: ALMEIDA, Miguel Vale de, “Marial-


vismo. Fado, touros e saudade como discursos
F enómeno político e cultural de re­
ação negativa ao pensamento político­
‑filosófico de Karl Marx e Friedrich En-
de masculinidade, da hierarquia social e da gels. A doutrina comummente designada
identidade nacional”, Trabalhos de Antropologia
por marxismo é uma conceção filosófica
e Etnologia, vol. 37, fascs. 1-2, 1997, pp. 41­
‑66; MACHADO, José Pedro, Grande Dicionário que os seus fundadores denominaram
da Língua Portuguesa, vol. 4, Lisboa, Alfa, 1991; originalmente de materialismo dialético,
MAGALHAENS, António Xavier de Carvalho e apresenta-se como uma alternativa ao
Pereira de, Epitafio Latino e Portuguez Dedicado á materialismo vulgar, designação pela qual
Memoria do Senhor Dom Pedro de Alcantara de Me- Marx se refere às teorias materialistas na-
nezes Coutinho, IV. Marquez de Marialva, VI. Con- turalistas. A dialética idealista de Hegel
de de Cantanhede, &c. &c. &c. Offerecido aos Ill.
forneceu a Marx e Engels o instrumento
mos, e Ex.mos Descendentes da Antiquíssima, e Real
Família dos Menezes, Lisboa, Officina de Lino conceptual para pensar a complexidade
da Silva Godinho, 1799; MARQUES, Carlos e a dinâmica das transformações sociais
Vaz, “Entrevista a Manuel Alegre”, Revista Ler, e políticas.
n.º  90, abr. 2010, pp. 29-36; NASCENTES, Dedicando-se intensamente ao estudo
Antenor, Dicionário de Língua Portuguêsa, vol. 3, da história e da economia do seu tempo,
Rio de Janeiro, Departamento de Imprensa Marx deu os primeiros passos no sentido
Nacional, 1966; PIRES, José Cardoso, Cartilha da elaboração da sua teoria de classes e da
do Marialva ou das Negações Libertinas, 4.ª ed.,
compreensão do papel fundamental da
Lisboa, Moraes Editores, 1970; TEIXEIRA, Rui
de Azevedo, Homem de Guerra e Boémio. Jaime configuração económica da sociedade,
Neves por Rui de Azevedo Teixeira, 2.ª ed., Lisboa, não só no estabelecimento das relações
Bertrand, 2013. sociais, mas também na organização po-
Helena Isabel Jorge
lítica: seja qual for a época histórica, veri-
fica-se sempre a necessidade de o homem
produzir os seus meios de subsistência
(naturalmente, o que produz e o modo
como produz terá um impacto decisivo
na vida das comunidades).
Esta conceção socioeconómica é con-
sequência dos princípios ontológicos e
metodológicos que orientam uma deter-
minada interpretação da dialética, po-
dendo ser resumida nos seguintes princí-
pios: a  realidade encarada do ponto de
vista da totalidade, ou seja, como uma
unidade complexa de entes e entidades
materiais, que, não só pelas suas qualida-
des naturais, mas também pelas relações

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Antimarxismo 1241

que estabelecem entre si, devido à sua


natureza, se encontram interligadas por
relações de causalidade mútua; a essência
processual da realidade, que, em cons-
tante mudança, não só nega ser eterna
e absoluta, como justifica uma conceção
historicista do ser, concebido como uni-
dade determinada pelas relações mútuas
entre história humana e história natural;
finalmente, a teoria dialética dos opostos,
de acordo com a qual toda a realidade é
permeada por tensões, donde o seu ca-
rácter intrinsecamente dinâmico – assim,
a história resulta, para os fundadores do
materialismo dialético, da luta constante
D.R.

entre classes dominantes e classes domi- Karl Marx (1818-1883)


nadas na tentativa de chegar ao poder. e Friedrich Engels (1820-1895).
Testemunhando no séc. xix a forma-
ção dos primeiros movimentos sindicais e
o aumento significativo do descontenta- As convicções religiosas – a religião foi
mento das classes trabalhadoras (devido caracterizada por Marx como o “ópio do
à exploração do seu trabalho por parte povo” (MARX e ENGELS, 1975, 175) – fo-
da classe capitalista), que começavam mentaram as primeiras reações negativas
a organizar-se como força política, Karl ao materialismo dialético (como, de res-
Marx encontrou no proletariado a nova to, a qualquer forma de materialismo).
classe revolucionária. As condições de ex- Negando a existência de entidades espi-
trema adversidade em que esta vivia não rituais, tais como Deus e a alma, o mar-
poderiam senão conduzi-la à tentativa xismo não colheu admiradores no seio
de transformar completamente as rela- da Igreja Católica. Uma das primeiras
ções económicas e sociais vigentes: deste condenações explícitas do comunismo
modo, o projeto da sociedade comunista por parte da Igreja encontra-se na encí-
a realizar envolvia o fim do Estado (como clica Qui Pluribus (1846), do Papa Pio IX,
mecanismo político de domínio de uma que condena o comunismo como a teo-
classe sobre as restantes) e a abolição da ria mais adversa ao direito natural, cuja
propriedade privada (e, com isso, a elimi- aplicação levaria à destruição completa
nação da diferenciação entre classes). das leis, do governo e da propriedade – e,
O radicalismo que representavam, na por conseguinte, de toda a sociedade hu-
altura, as ideias de Marx e Engels fez que mana. Em 1891, oito anos volvidos sobre
rapidamente surgissem adversários delas o falecimento de Marx, o Papa Leão XIII
nos mais diversos países e em várias áreas publica uma carta encíclica intitulada
do saber, (algo que foi posteriormente Rerum Novarum, visando as condições de
reforçado pelas experiências políticas so- vida dos operários, e considerada por
cialistas na União Soviética e em outros muitos como o documento que viria a
países que procuraram implementar re- inspirar a doutrina social da Igreja. Nes-
gimes políticos baseados nos princípios ta encíclica, encontra-se uma exposição
comunistas). mais sistemática das posições da Igreja

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1242 Antimarxismo

Católica face às teses socialistas e comu- contexto do movimento socialista inter-


nistas que tomavam o materialismo his- nacional; Marx combateu a variante prou-
tórico de Marx e Engels como modelo. dhoniana do socialismo, que apelidou de
A  condenação do sindicalismo em favor “socialismo utópico”, designação pela
de um modelo corporativista e a defesa qual ficou conhecida. Influenciado pela
da propriedade privada como fundamen- filosofia de Hegel, Proudhon serve­‑se do
to da liberdade individual e como direito modelo dialético para analisar a oposição
inalienável do Homem são os principais entre os interesses do trabalhador explo-
argumentos contra as teorias socialistas. rado e os dos detentores do capital (os
Outras encíclicas papais foram reforçan- quais recolhem o valor acrescentado de
do as posições tomadas pelo Papa Pio IX, um trabalho que lhes é alheio, procuran-
nomeadamente a encíclica Quadragesimo do sempre retirar o máximo de lucro pos-
Anno, em 1931 (assinalando os 40 anos sível da força de trabalho que é vendida
da Rerum Novarum), e a encíclica Divini pelo operário por um salário  –  quantia
Redemptoris, em 1937, ambas publicadas necessária para a subsistência deste du-
durante o pontificado de Pio XI. A resis- rante o tempo de produção –, o qual nun-
tência da Igreja Católica às ideias marxis- ca equivale ao valor económico produzi-
tas – especialmente quando alguns mem- do por aquela força). Contudo, ao invés
bros do clero começavam a aproximar o de defender uma solução revolucionária
socialismo da doutrina da Igreja, assim de destruição do capital, a teoria prou­
como a participar ativamente em orga- d­honiana defende a conservação “har-
nizações socialistas – deu origem à mais moniosa” do antagonismo entre os inte-
abrangente ordem de excomunhão da resses dos detentores do capital e os dos
história da Igreja Católica, com o Decreto trabalhadores explorados, preferindo-a à
contra o Comunismo. Entre 1949 e 1955 resolução do conflito. Pelo contrário, as
foram emitidas, sob supervisão do Papa perspetivas em contradição (a do traba-
Pio  XII, várias condenações que resulta- lho e a do capital, no plano económico, e
ram na excomunhão de todos aqueles a da comunidade e a da propriedade, no
que defendessem ideias comunistas ou plano político) devem complementar-se
tivessem qualquer ligação a atividades e corrigir-se mutuamente, já que são uni-
comunistas. Este decreto viria a ser con- laterais e, consideradas isoladamente, são
siderado inválido com a promulgação do mesmo contrárias à sociabilidade natural
Código de Direito Canónico de 1983, pelo do homem. Para Proudhon, a comunida-
Papa João Paulo II. de – ou o comunismo, num sentido mais
O combate aos princípios do marxismo alargado – é tão injusta quanto a socie-
está presente inclusivamente na obra de dade capitalista baseada na propriedade:
pensadores liberais e anarquistas. Por sua com o objetivo de suprimir a proprieda-
vez, alguns destes pensadores – Max Stir- de, o comunismo centraliza-a no poder
ner, Pierre-Joseph Proudhon e Mikhail do Estado, tornando-se assim a comuni-
Bakunin –, contemporâneos de Marx e dade o proprietário exclusivo; além disso,
Engels, foram objeto de crítica sistemáti- a coletivização dos meios de produção e
ca por parte destes. a organização social do trabalho por par-
Dada a notoriedade e influência de te do Estado restringe o livre-arbítrio e
Proudhon no meio operário francês e in- o direito dos indivíduos a disporem das
ternacional, este foi mesmo considerado suas próprias faculdades e da sua força de
por Marx como o seu rival ideológico no trabalho.

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Antimarxismo 1243

concebia como o verdadeiro proletaria-


do (já que os camponeses e o lumpem-
proletariado constituíam as classes mais
populosas), ao contrário dos proletários
industriais das cidades (para o filósofo
anarquista, mais próximos da pequena
burguesia). O confronto constante entre
os dois filósofos na Associação Interna-
cional de Trabalhadores, comummente
conhecida como Primeira Internacional,
marcou a sua época e os primeiros passos
da história do movimento internacional
operário; Bakunin, sustentando uma in-
terpretação distorcida do pensamento de
Marx, e com um conceito de liberdade
identificado com a espontaneidade, ou
a impulsividade, apenas reconheceu no
projeto do socialista alemão uma nova
Mikhail Bakunin (1814-1876). forma de autoritarismo.
Um dos pilares fundamentais da teo-
Mikhail Bakunin, anarquista e discípu- ria económica de Marx é a sua definição
lo de Proudhon, celebrizou-se como um da lei do valor, um problema muito rele-
dos grandes adversários políticos do mar- vante na economia política desde Adam
xismo. De acordo com Bakunin, a “dita- Smith. Para o economista inglês, a fonte
dura do proletariado”, defendida pelos do valor de qualquer mercadoria é o tra-
marxistas como fase preparatória neces- balho nela investido; noutros termos, só o
sária para a supressão do Estado e para o trabalho gera valor. Ainda que Smith não
fim da sociedade de classes, apenas pode- tivesse retirado da sua tese qualquer con-
ria resultar em mais uma forma opressora sequência política, os teóricos socialistas
de governo, na qual os proletários assu- haveriam de se basear nela para a defesa
miriam o lugar de burgueses na explo- do direito do trabalhador ao produto in-
ração da classe operária. O anarquismo tegral do seu trabalho e, no quadro capi-
bakuniniano visava como fim último, tal talista de produção, desenvolver as mais
como o marxismo, a adoção de um mo- diversas teorias sobre a exploração do tra-
delo económico socialista e o estabeleci- balho. A  polémica lei do valor de Marx,
mento de uma sociedade sem distinção baseada no princípio de que o valor das
de classes – e, por conseguinte, sem pro- mercadorias era substantivado pelo tra-
priedade privada; ademais, assumia como balho social nelas incorporado – por
condição necessária para a realização des- conseguinte, as relações de troca eram
se projeto a imediata eliminação do Es- possíveis segundo um princípio de equi-
tado. Do mesmo modo, a secundarização valência de valores –, alimentou as críticas
do papel revolucionário dos camponeses dos principais opositores do marxismo na
e do lumpemproletariado (composto ciência económica, a saber, os liberalistas.
por desempregados, criminosos vulgares, Reagindo à ameaça que as ideias mar-
etc.), na teoria da revolução marxista, xistas constituiriam para a liberdade dos
foi muito criticada por Bakunin, que os mercados, a conhecida Escola Austríaca

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1244 Antimarxismo

produziu os mais notáveis opositores das em 1878, as leis antissocialistas, proibin-


teorias socialistas de Marx e Engels, entre do a promoção de ideias sociais-democra-
os quais Carl Menger, Friedrich Wieser, tas e socialistas sob todas as suas formas.
Ludwig Böhm-Bawerk e Friedrich Hayek. O seu objetivo era enfraquecer o cada vez
Böhm-Bawerk terá mesmo sido o primei- mais influente Partido Social-Democra-
ro economista a dedicar os seus escritos ta Alemão (SPD), fundado por Wilhelm
ao escrutínio dos princípios económicos Liebknecht e August Bebel sob influên-
presentes em O Capital, à sua argumen- cia de Marx e Engels (viria a ser o maior
tação teórica e à identificação das suas partido alemão e, desde 1910 a 1933, o
contradições. Na sua obra Karl Marx e a mais representado no Reichstag). A parti-
Conclusão do Seu Sistema, Böhm-Bawerk de- cipação da Alemanha na Primeira Guerra
nuncia a contradição entre a lei do valor Mundial, e, em especial, a aprovação dos
elaborada no primeiro volume de O  Ca- créditos de guerra, causaria uma cisão no
pital e a lei do valor utilizada no terceiro seio do SPD. Os comunistas, mantendo
volume da mesma obra: a primeira for- uma posição antibelicista, abandonaram
mulação da lei, de carácter mais abstrato o partido e formaram a Liga Espartaquis-
e ambíguo, presume que só o tempo de ta, sob a liderança de Rosa Luxemburgo
trabalho incorporado é critério de valor, e Karl Liebknecht (que haveria de ser
enquanto a segunda conta já com a varia- preso em virtude da sua posição antibe-
ção dos preços introduzida pela relação licista); provenientes da ala revisionis-
entre oferta e procura, bem como pela ta do partido, Hugo Haase, Bernstein e
concorrência de capitais privados. Par- Kautsky abandoná-lo-iam, formando o
tindo de uma conceção subjetiva do valor Partido Independente Social-Democrata
fundada na teoria marginalista, que torna Alemão (USPD). Inspirados pela Revo-
o valor dependente das necessidades de lução Bolchevique de 1917, soldados e
cada consumidor e das condições exis- trabalhadores – entre os quais membros
tentes para a sua satisfação, Böhm-Bawerk do USPD e delegados sindicais – uniram­
coloca-se em oposição direta à teoria eco- ‑se em conselhos revolucionários e, em
nómica marxista, que parte de uma con- várias cidades alemãs, assumiram o con-
ceção objetiva do valor, o qual resulta do trolo de postos militares e policiais, for-
tempo médio necessário à produção. çando a monarquia alemã a renunciar.
As agitações sociais que haveriam de Iniciava-se, então, a Revolução Alemã de
marcar o séc. xix europeu, entre as quais 1918-1919. Em novembro de 1918, em
se destacam as Revoluções de 1848, a Munique, os comunistas chegaram ao po-
Comuna de Paris, em 1871, e o cresci- der e, liderados por Kurt Eisner, procla-
mento do movimento sindical (com o maram a República Soviética da Baviera.
subsequente aumento da capacidade Friedrich Ebert, líder do SPD na altura,
reivindicativa e de mobilização de traba- desejando manter o sistema político par-
lhadores cada vez mais insatisfeitos com lamentar, que então liderava como chan-
a dureza das condições em que viviam), celer, recusou-se a entregar o poder aos
levaram os Estados a adotar medidas cada conselhos militares e operários que ha-
vez mais repressivas para com as organi- viam assumido o controlo de várias cida-
zações socialistas e as suas principais fi- des, como Leipzig, Hamburgo, Bremen e
guras. Na Alemanha, onde o movimento Düsseldorf. Ebert encontrou na extrema­
socialista ganhava cada vez mais apoio das ‑direita, no apoio do Comando Supremo
classes operárias, Otto Bismarck aprova, das Forças Armadas, o seu braço armado.

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Antimarxismo 1245

Os Freikorps, milícias paramilitares, auxi- período ficou conhecido como First Red
liados pelas tropas alemãs, reprimiram o Scare [Primeiro Terror Vermelho]. Em
movimento operário alemão, assassinan- 1919, um suposto plano bombista, desco-
do as suas principais figuras, como Rosa berto pelo Governo e atribuído a radicais
Luxemburgo, Liebknecht, Landauer, Lé- anarquistas, desencadeou uma violenta
vine, Eisner. O chamado “terror branco”, perseguição contra membros de grupos
de 1919, consistiu na execução de mi- sociais-democratas, anarquistas e comu-
lhares de Alemães pelo Exército alemão nistas, conhecida como Palmer Raids
e pelos Freikorps. A adoção de leis anti- [Raides de Palmer]. Entre 1947 e 1957,
marxistas e antissocialistas, bem como a o Governo norte-americano promoveu
repressão violenta dos partidos de inspi- uma nova vaga de perseguições e violên-
ração marxista e socialista, verificou-se cia antimarxista, conhecida como Second
em vários países europeus, onde cresceu Red Scare [Segundo Terror Vermelho]
simultaneamente a influência da extre- ou macarthismo. A divisão geopolítica
ma-direita (Áustria, Hungria, Polónia, polarizada pelas duas superpotências,
Itália, Espanha e Portugal). EUA e URSS, resultante do desfecho da
Em Portugal, o Partido Comunista Por- Segunda Guerra Mundial, e a corrida ao
tuguês (PCP) foi ilegalizado em 1926, armamento por ambas as partes caracte-
com o golpe de 28 de maio, um processo rizaram um período de grande confronto
que o obrigou a realizar as suas ações na ideológico promovido pelos dois lados; a
clandestinidade e levou ao seu desmem- Guerra Fria promoveu os mais fervoro-
bramento. Com a subida de Salazar ao sos ataques ideológicos aos princípios do
poder, a repressão sobre os comunistas marxismo e ao modelo socialista pratica-
portugueses aumentou exponencialmen- do na URSS.
te, levando à quase extinção da organi-
zação marxista. Durante o Estado Novo,
a prisão e a tortura física e psicológica
eram o método preferencial da Polícia Bibliog.: BAKUNIN, Mikhail, Marxism, Free-
Internacional e de Defesa do Estado dom and the State, London, Freedom Press,
(e, posteriormente, da Direção-Geral de 1950; BÖHM-BAWERK, Eugen von, Karl Marx
and the Close of His System, New York, Augus-
Segurança). Em outubro de 1936, foi
tus M. Kelly, 1949; Código de Direito Canónico,
inaugurado o Tarrafal, um campo de con- 1983; EVANS, Richard J., Rereading German
centração situado na ilha de Santiago, em History. From Unification to Reunification. 1800­
Cabo Verde, destinado aos presos políti- ‑1996, London/New York, Routledge, 1997;
cos do regime salazarista; entre os primei- LEÃO XIII, Rerum Novarum, 1891; MARX, Karl,
ros prisioneiros aí recebidos encontrava­ e ENGELS, Friedrich, Collected Works, vol. 3,
‑se Bento Gonçalves, então líder do PCP, Moscow, Progress Publishers, 1975; PIO IX,
que lá haveria de falecer, como muitos Qui Pluribus, 1846; PIO XI, Quadragesimo Anno,
1931; Id., Divinis Redemptoris, 1937; PROU-
outros marxistas, vítimas das condições
DHON, Pierre-Joseph, O Que É a Propriedade?,
precárias e da violência física impostas Lisboa, Estampa, 1997; SANTA SÉ, Decretum
aos prisioneiros. contra Communismum, 1949; SCHMIDT, Regin,
Nos EUA, a Revolução Russa causou Red Scare. FBI and the Origins of Anticommunism
pânico na sociedade, alimentado por um in the United States, 1919-1943, Copenhagen,
clima de alarmismo na imprensa, que Museum Tusculanum Press/University of Co-
imputava planos de subversão comunis- penhagen, 2000.
ta a manifestações sindicais legais; este Sara Totta

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1246 Antimaterialismo

Antimaterialismo mas patenteia também um sentido de


moderação e equilíbrio, valor fundamen-
tal do Iluminismo português. A paróquia
definia para as populações europeias um
quadro elementar de vida, que Georges
Gustorf denominou de um cristianismo
“encarnado” (Id., 2002d, 405), com es-

O materialismo em sentido estrito é


uma doutrina que apresenta toda
a realidade como material. Trata-se de
pecial atenção ao utilitário e ao tecno-
crático. Foi a pensar na vida na paróquia
que Cenáculo prosseguiu e defendeu
um conceito dos primórdios da ciência um conhecimento científico ao serviço
que, nos começos do séc. xxi, tem pou- da promoção da vida humana, uma pro-
cos adeptos. Pensadores como Charles moção com a marca franciscana, no elo-
Darwin, Karl Marx e Sigmund Freud gio da mão como símbolo do trabalho, a
representaram os seres humanos não mão que importa estender ao outro para
como entidades morais e espirituais, mas alimento do corpo e da alma. Há no seu
como máquinas que habitam um univer- pensamento uma relação dinâmica en-
so regido apenas por forças impessoais, tre ação e contemplação, numa dialética
num quadro materialista. Num sentido ascendente que vai da matéria ao espíri-
amplo, entenderemos o materialismo to, com respeito pela perfeição de cada
como a doutrina que permite à ciência nível na sua especificidade. Para Cená-
admitir que é possível encontrar cau- culo “tudo na natureza satisfaz um fim
sas e consequências dos fenómenos no que se revela útil ao homem”, prova da
mundo físico, e que os objetos da ciência Providência divina (Id., Ibid., 407). A físi-
são testáveis, i.e., que é possível avançar ca newtoniana e a geometria euclidiana
hipóteses, que serão ou não comprova- constituem o alfabeto definitivo da razão
das pela experiência. Neste contexto, o na leitura e interpretação da natureza e
materialismo tem uma relação estreita dos seus mecanismos. A “bela física uni-
com o empirismo e com a rejeição da da à matemática” (Id., 2002c, 149), eis o
metafísica, dado que as proposições des- paradigma que destronaria não só o edi-
ta última não são testáveis. fício da escolástica, mas também o racio-
No Portugal de Setecentos, Fr. Manuel nalismo metafísico cartesiano. O cálculo
do Cenáculo (1724-1814), numa linha diferencial e integral, a “parte mais su-
de franciscanismo potenciado pelo in- blime da física”, e mais a metafísica, que
fluxo antoniano, apresentou uma pers- já lhe não vem a partir do domínio expe-
petiva antimaterialista tendo como base rimental, mas sim pela via da matemáti-
cultural de uma força ativa, que, sendo ca, permitia atar entre si os fenómenos
proveniente de Deus, se destinava ao “com rodeios tão numerosos e variados”
homem, o que confere um sentido à sua (Id., Ibid., 145)
antropologia. A sua linguagem patenteia O Iluminismo português empenhou­
“a necessidade de ‘espiritualizar a ma- ‑se na conciliação entre a ciência experi-
terialidade dos objetos’” (CALAFATE, mental e a teologia natural, na perceção
2002, 347), que não traduz uma evasão do sentido divino das realidades visíveis.
do mundo mas uma condição de reali- Assim, os filósofos portugueses distancia-
zação do homem, um reflexo do esforço ram-se de Descartes, cuja filosofia é mar-
humano para se apoderar do Universo; cadamente contra uma “interpretação

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Antimaterialismo 1247

simbólica da natureza” (Id., 2002b, 310).


O Deus de Descartes não fala através do
“espetáculo da Natureza”, mas tão somen-
te através do homem (Id., Ibid., 311).
Entre nós, no séc. xviii, a leitura da
natureza revestiu-se de um carácter sim-
bólico, como abertura do finito ao infi-
nito. O homem, como ser finito, é capaz
de se abrir ao infinito, de o procurar e
de ser por ele questionado. Prevalece
um princípio de causalidade e de con-
tingência dos seres criados, e o Deus-re-
lojoeiro entende-se quer na ordem do
criar, quer na ordem do fazer. As provas
físicas dos teóricos setecentistas nacio-
nais são, de facto, provas físico-metafí-
sicas. Uma oposição entre razão e reli-
gião não faz sentido para Luís António
Verney (1713-1792), Fr. Cenáculo ou
Teodoro de Almeida (1722-1804), que
veem o poder de Deus na formação do Fr. Manuel do Cenáculo (1724-1814).
Universo, na sua conservação, movimen-
to e governo e em fazê-lo obedecer às
suas leis. Ao abrir o “livro do mundo”, referenciada à luz da metáfora do livro,
o físico não encontrará um simples de- mas com um significado religioso mais
terminismo, mas a sabedoria da ordem esbatido. Vandelli defende que o conhe-
natural, pelo que Fr. Cenáculo procurou cimento da natureza não deve ficar no
um compromisso tanto do lado da ciên- plano da instrução, mas ser completado
cia como do lado da teologia, estimulan- pelo plano da elevação, unindo a ciência
do uma filosofia religiosa denominada natural com a religião. Brotero assumiu
iluminismo católico. Entre nós, poucos uma posição mais moderada, que não o
autores se opõem a uma física teológica, levou a especular sobre a ordem natu-
sendo os mais críticos Verney e Almeida. ral; o significado religioso do Universo
Por seu lado, naturalistas como Domeni- confina-se para ele à persuasão clara da
co Vandelli (1735-1816) ou José Mayne existência de Deus. A síntese newtoniana
(m. 1792) afirmam a solidariedade entre apressou a morte de Deus na epistemo-
a ciência e a religião. logia e na metafísica.
Na história natural, marcou o panora- O percurso histórico da doutrina ma-
ma europeu a obra de Buffon, na visão terialista, marcado pela reação ao ter-
da natureza como “trône extérieur de la ramoto de Lisboa de 1755, que impres-
magnificence divine [trono exterior da sionou vivamente toda a Europa, e pela
magnificência divina]” (Id., 2002a, 360). mecânica celeste de Pierre-Simon Lapla-
Nesta linha encontramos autores como ce (1749-1827), que retirou Deus da ex-
Domingos Vandelli, Felix de Avelar Bro- plicação dos fenómenos naturais  –  por
tero, entre outros. Nos Estatutos da Uni- tudo explicar, mas nada permitir pre-
versidade de Coimbra de 1772, a natureza é ver  –, culminou em Auguste Comte

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1248 Antimaterialismo

(1798­‑1857). O alicerce fundamental da e aberta, para a qual a ciência poderia


sua teoria é a lei dos três estados – teo- ser o ponto de partida. Para Antero, a
lógico, metafísico, positivo –, que erige a conceção mecânica do Universo não
ciência positiva em modelo de raciona- está errada, mas é incompleta; constitui
lidade e relega a teologia e a metafísica tão-só a “região média do conhecimen-
para estádios mais atrasados de civiliza- to, entre o senso comum, de um lado,
ção e de inteligência. e o conhecimento metafísico do outro”
No panorama nacional desta corrente e só a filosofia aporta essa “compreensão
destacam-se os nomes de Teófilo Braga total” (PIMENTEL, 2004, 101).
(1843-1924) e de Júlio de Matos (1856­ As controvérsias suscitadas pela publi-
‑1922), que a perseguiram como pro- cação de A Origem das Espécies (1859) por
grama de regeneração do meio cultural Darwin também atravessaram Portugal.
português, ainda muito dominado pela Júlio de Matos é um dos nomes que mais
teologia e pela especulação filosófica. As se destacam na assunção da validade da
ciências foram consideradas estranhas à explicação evolucionista. Na sua His-
filosofia, que para alguns mais não pare- tória Natural Ilustrada, em seis volumes
cia ser do que uma especulação estéril. (sendo o vol. 1 de 1880), tomou partido
Como realçou o físico Henrique Teixei- a favor de ideias tão centrais como a da
ra Bastos (1861-1943), “o materialismo, luta pela sobrevivência, a seleção natural
bem longe de ser um estado filosófico e a hereditariedade dos caracteres ad-
mais avançado do que o positivismo, é o quiridos. Oliveira Martins (1845-1894),
último grau do estado metafísico, o grau em Elementos de Antropologia (1880), re-
da positividade incompleta”. E, “apoian- conheceu que ciência e religião são ra-
do‑se em Littré, […] reconhece uma afi- dicalmente heterogéneas, mas tal não
nidade entre o positivismo e o materialis- implica que a racionalidade científica
mo” (LUZ, 2004, 252). O objetivo deste exija a negação da religiosidade. Mito,
estado seria expurgar das explicações religião, poesia e metafísica respondem,
científicas a intervenção de entidades em seu entender, a interesses fundamen-
teológicas e religiosas que lhes poderiam tais do homem; o evolucionismo é válido
trazer questões destituídas de sentido e no plano dos factos, mas não é filosofi-
inacessíveis a qualquer investigação. camente satisfatório. O médico Miguel
O estilo da oposição dos teólogos da Bombarda (1851-1910) defendeu um
Univ. de Coimbra ao positivismo produ- Iluminismo materialista na forma de um
ziu um efeito contrário ao que preten- combate apostólico pelo progresso. Para
diam, acabando por preparar um ter- ele, a relação com a verdade não deve
reno fértil para a difusão em Portugal ser contemplativa, mas sim de militân-
do mesmo positivismo. “A dissolução cia ativa, revelando-se particularmente
teológica fora apressada pela educação intransigente a favor da redução dos fe-
metafísica e científica da universidade, nómenos psíquicos aos físicos. O estatu-
das politécnicas e das escolas de medici- to de exceção que o homem se atribui a
na” (Id., Ibid., 261). Mas há vozes discor- si mesmo, ao julgar-se detentor de uma
dantes deste positivismo, entre as quais alma que participa da essência de Deus,
sobressai a de Antero de Quental (1842­ é por este autor considerado fantasioso
‑1891), que marca claramente os limites e ilegítimo. Bombarda visava instaurar
da ciência no terreno dos factos, haven- uma ciência baseada em factos compro-
do que procurar uma síntese mais ampla vados objetivamente, mas numa linha de

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Antimaterialismo 1249

extrema simplificação, considerando despertar a metafísica e o antimaterialis-


que não há vestígios de vida psíquica mo. O filósofo Leonardo Coimbra (1883­
no sentido tomado usualmente, porque ‑1936) surgiu na época como o pensador
tudo se reduz a simples fenómenos físicos português com a obra mais significativa
e químicos. Trata-se de um materialismo no campo da filosofia das ciências, sendo,
redutor, fundamento de inteligibilidade. contudo, um antipositivista, uma vez que
No panorama português, foi Bombarda afirmou que a ciência “tem conteúdo real
quem mais longe levou o pensamento e é de ordem ideal” (FITAS et al., 2003,
do determinismo e do materialismo. 437) e “trata de noções e não de cousas”.
Antero demarcou-se fortemente deste Escarmentou-nos contra “o semiceticis-
determinismo de necessidade absoluta, mo dos pragmatistas” e o “universalismo
prestando tributo a um ideal de razão absolutista dos metafísicos cientistas” (Id.,
moral, em que leis naturais e sociais se Ibid., 443), estes últimos na sua constru-
transfiguram em leis finais do espírito. ção de um universo de matéria. Por isso
Antes do séc. xx, perpassaram na física partilhou com o filósofo francês Pierre
duas grandes sínteses, a do newtonianis- Duhem uma posição não mecanicista.
mo e a do eletromagnetismo. A primeira A génese do criacionismo de Leo-
assentava num espaço e num tempo ab- nardo Coimbra remonta a 1908-1909.
solutos, enquanto a segunda, ao renegar A sua criação refere-se a uma filosofia,
a interação instantânea à distância entre uma explicação integral do ser e do
os corpos, não pôde aceitar um espaço saber, e a um método de pensar, com
e tempo absolutos e desembocou na base em conceitos científicos e símbo-
Teoria da Relatividade. Paralelamente, los artísticos que, sem esgotarem o real,
a conceção mecanicista da natureza veio sempre o organizam sob as mais altas
a ser complementada pelo conceito de aspirações do espírito. A sua conceção
energia, uma ideia unificadora na física, reivindica­‑se de um cristianismo puro,
que foi axiomatizada no primeiro princí- de que o catolicismo é uma face dogmá-
pio da termodinâmica, a que se seguiu, tica e degradada. No pensamento leo-
alicerçado pela mecânica estatística, o nardino, nada na religião é ideal, mas
segundo princípio, que aportou o con- real. Para ele, a criação incorpora “um
ceito de entropia, ligado de perto à no- conceito de produção eficiente, criadora
ção de irreversibilidade, desconhecida ou inventiva, e uma conceção de ativi-
da conceção mecanicista. O químico-fí- dade como a própria nascente que dá
sico alemão Wilhelm Ostwald defendeu o ser às naturezas criadas e as sustenta”
que a única entidade real da natureza (PIMENTEL, 2003, 64). “O verdadeiro
era a energia e manifestou-se contra a problema de Deus ‘é o problema do
teoria da estrutura atómica da matéria. significado humano ou super-humano
O positivismo, no seu combate a conce- mas finito e do significado absoluto da
ções idealistas e espiritualistas, configu- moral’” (Id., Ibid., 70). A “razão experi-
rou-se como antimetafísico. mental” (Id., Ibid., 64 e 65) que constrói a
Concomitantemente com a Implanta- ciência, não é apenas a razão científica,
ção da República em Portugal, assistiu-se nem a razão pura ou a razão prática, nem
à implantação do positivismo no ensino mesmo a razão positiva de Auguste Com-
universitário e a um ataque ao espírito te, mas abrange a mais sublime das ex-
teológico do ensino do século anterior, periências humanas – a metafísica – que
positivismo esse que, como reação, veio lhe confere uma unidade intrínseca.

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1250 Antimaterialismo

Salazar (1889-1946), posição que par-


tilhou com o matemático Bento de Je-
sus Caraça (1901-1948). Abel Salazar
lutou pela necessidade urgente de um
novo modo de a filosofia portuguesa
combater a retórica oca. O neopositi-
vismo procurou superar duas linhas
filosóficas tidas como profundamente
divergentes: a dos racionalistas, com o
primado do conceito e do a priori sinté-
tico sobre a realidade sensível, e a dos
empiristas, com a absoluta proeminên-
cia da experiência na construção racio-
nal; procurava igualmente responder às
críticas a que vinham sendo sujeitos o
positivismo e o materialismo e comba-
ter a forma como o positivismo se tinha
deixado contaminar por elementos
Leonardo Coimbra, de Eduardo Malta (1919). metafísicos.
Na linha de um materialismo dialético
Ao criacionismo, Leonardo opõe o coi- figura Egídio Namorado (1920­‑1977),
sismo, que é a tendência para o imo- que sujeitou algumas teses do neopositi-
bilismo, para a queda nos momentos vismo a uma crítica, designadamente na
inferiores da dialética. No vício coisista dependência do conhecimento em rela-
teimaram as inúmeras formas de mate- ção ao ambiente social, económico e téc-
rialismo (como o energicismo, o sensis- nico. O princípio da verificação da Escola
mo e o naturalismo), o positivismo de de Viena permitia distinguir proposições
Comte e seus seguidores, o criticismo com sentido de proposições sem sentido.
de Kant, o idealismo de Fichte e Hegel, Namorado contra-argumentou dizendo
o vitalismo de Bergson e outros movi- que há proposições com sentido e que
mentos filosóficos. O criacionismo par- não são verificáveis, pelo que o critério
te da “descoberta da irredutível síntese não é geral. Mais: recusou-se a aceitar que
de pensamento, em toda a realidade o pensamento científico tivesse um carác-
implicada” (Id., Ibid., 82), defende o ter tautológico.
enraizamento carnal do cogito e toda a Vitorino Magalhães Godinho (1918­
reabilitação do sensível, gnosiológica e ‑2011) também elaborou uma tese con-
ontológica daí decorrente. O seu pen- tendo críticas ao positivismo. Para este
samento filosófico está contra a filoso- autor, a razão não é algo “que se asseme-
fia minimalista da época, de uma razão lhe a uma ‘entidade transcendente ou
estática, ao procurar apelar ao sentido uma ficção lógica’”, mas um “percurso
maior da filosofia, mediante o pensar a racional que tem a ver com a evolução
totalidade do universo humano, de que da experiência concreta da sociedade hu-
a ciência é parte, mas sem descurar pen- mana” (FITAS et al., 2003, 469). Pugnou
sar a existência, o ser e o Deus. por uma iluminação de conexão entre
Outro eminente intelectual materialis- ciência, filosofia e história da ciência: de
ta e antimetafísico foi o médico Abel uma filosofia que não fosse escolástica,

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Antimaterialismo 1251

estéril ou retórica desordenada, de uma qualquer mecanicismo, pois a célula no


história que visse ideias e não datas e seu autocaminhar para o mais instável e
de uma ciência viva e profundamente complexo, ao contrário de um fenóme-
humana. José Luís Rodrigues Martins no físico, e.g. um decaimento radioativo,
(1914-1994) veio defender o papel da requer “um princípio formal imanente e
história da ciência e da filosofia da ciên- superior que lhes dê explicação suficien-
cia no ensino universitário, para forne- te” (Id., Ibid., 521).
cer “uma segura perspectiva de conjunto Raul Proença (1884-1941) defendeu
dos conhecimentos adquiridos, transfor- que a filosofia positivista não se esgota
mando-os em mais do que um triste caos na sua dimensão estritamente intelectua-
de factos e leis” (Id., Ibid., 490), no que lista, antes deve procurar “harmonizar a
foi pioneiro em Portugal. Assumiu uma vida pensante com a vida sentimental e
posição crítica em relação ao neoposi- a vida ativa, traduzindo-se numa conduta
tivismo e à menorização do papel dos definida com intuito social” (REIS, 2003,
métodos indutivos no progresso da ciên- 132). O vitalismo é a doutrina segundo a
cia, aproximando-se do pensamento do qual os seres vivos manifestam uma força
francês Gaston Bachelard ao perspetivar particular, que é irredutível à físico-quími-
a ciência como um acontecimento es- ca e que dá origem aos fenómenos vitais.
sencialmente histórico que avança por O pensamento filosófico de Proença per-
ruturas epistemológicas sucessivas. Ro- corre uma ética vitalista para superar um
drigues Martins obstou a qualquer envie- positivismo demasiado intelectualizante
samento da física moderna em prol de do dever e dos valores morais, procuran-
projeções espirituais ou místicas, situa- do “pôr de acordo a Vida com a Razão”
das bem para lá do mundo físico. (Id., Ibid., 135). Ao demarcar-se de cor-
O sacerdote jesuíta Manuel Antunes rentes filosóficas irracionalistas, demar-
(1918-1985) reconheceu, no panora- ca-se também do puro racionalismo, da
ma intelectual da primeira metade do razão positivista e científica, conseguindo
séc. xx, a existência de um duplo im- superar o estreito materialismo positivista
perialismo, o da filosofia que se quer por uma via ética, que equilibra as fun-
manter e o da ciência que pretende ções intelectiva, afetiva e volitiva do ho-
impor-se. E outro Jesuíta, Luís Archer mem. Alcança um vitalismo espiritualista
(1926-2011), bioquímico especialista em e mesmo religioso, mas acima das crenças
genética, afirmou que, “na realidade, o dogmáticas. Proença assumiu a suprema-
espírito humano é uno, e é inútil querer cia ontológica do espírito sobre a maté-
separar em absoluto a ciência no fieri da ria, indo ao ponto de afirmar: “Sentimos
sua informação e aspiração metafísica”, religiosa toda a ação que se destina a um
pelo que, na linha de Bachelard, defen- fim que nos ultrapassa e que nos obriga a
deu um humanismo científico, no qual a ultrapassar-nos a nós mesmos” (Id., Ibid.,
filosofia se configura com a “última sín- 136). Não obstante defender uma ontolo-
tese” do pensamento humano de que a gia espiritualista, a sua posição metafísica
ciência é “aspeto parcelar”. Para ele, o é frontalmente ateísta, “porque a ausên-
conhecimento científico em biologia, cia da fé é o que exige ainda a maior fé
ao arrancar do esforço imaginativo e ar- no valor incomensurável da espiritualida-
rojado das hipóteses de trabalho, com de” (Id., Ibid., 142). É no combate doutri-
toda a sua subjetividade, não obriga a nário contra o Integralismo Lusitano de
que as suas explicações se reduzam a um António Sardinha e dos seus discípulos

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que Proença melhor fundamenta a su- tou uma reação à eliminação da metafí-
perioridade do ideal democrático e dos sica. Nesta vertente de pensamento, mas
valores da liberdade e igualdade em que numa linha que vai para além da raiz gre-
aquele assenta. O Integralismo Lusitano ga da filosofia para mergulhar na mun-
era um movimento anti-iluminista, anti- dividência cristã da Europa, os trabalhos
democrático, antiliberal, antirracionalis- do sacerdote jesuíta Júlio Moreira Fraga-
ta e antimaterialista (&Anti-iluminismo, ta consideram o ente na sua existência e
&Antidemocratismo, &Antiliberalismo, transcendência, e não apenas reduzido
&Antirracionalismo), com um primado ao fenómeno puro da consciência. Na
político. finitude humana, o aparecimento do fe-
Nos tempos de António Sérgio (1883­ nómeno da consciência exige um sujeito
‑1969), o positivismo revelava-se já pou- cognoscente na sua existência natural.
co sedutor, e novas vias se abriam com Na obra de Júlio Fragata (1920-1985) e
o saudosismo, o criacionismo, o integra- de outros filósofos, como Gustavo Fraga
lismo ou o humanismo de feição repu- (1922-2003) e Alexandre Morujão (1922­
blicana. O racionalismo de Sérgio tinha ‑2009), a fenomenologia foi levada ao
uma limpidez cartesiana, pois ia ao en- ponto culminante de um debate sobre o
contro de Platão na visão de que só será presente, sobre os fundamentos e desti-
filósofo quem for geómetra. Em defesa no da humanidade europeia e da cultura
do seu intelectualismo, Sérgio rejeitou ocidental.
o positivismo e o anti-intelectualismo,
mas também o dilema do seu tempo
entre o catolicismo mais ortodoxo e o Bibliog.: impressa: Alves, Pedro M. S., “A fe-
marxismo, encarados ambos como ex- nomenologia em Portugal”, in CALAFATE,
pressão do dogmatismo. Nele, o percur- Pedro (dir.), História do Pensamento Filosófico
so histórico da ciência era a progressiva Português, vol. v, t. 1, Lisboa, Círculo de Lei-
tores, 2003, pp. 345-390; Calafate, Pedro,
passagem do imediato da perceção para
“A aliança entre a física experimental e a teo-
o fundo do pensamento. O seu modelo logia natural”, in CALAFATE, Pedro (dir.), His-
de racionalidade assentava nos proces- tória do Pensamento Filosófico Português, vol.  iii,
sos de relacionação matemática, o que Lisboa, Círculo de Leitores, 2002, pp.  317­
lhe determinou o afastamento tanto do ‑358; Id., “A aliança entre a história natural e a
intelectualismo como do primado da in- teologia natural”, in CALAFATE, Pedro (dir.),
tuição sensível. O seu pensamento confi- História do Pensamento Filosófico Português, vol. iii,
Lisboa, Círculo de Leitores, 2002a, pp.  359­
gurava-se como um pensamento de cria-
‑368; Id., “Ciência e religião”, in CALAFATE,
ção, de um intelecto ativo, e não como Pedro  (dir.), História do Pensamento Filosófico
um pensamento de síntese. O que sem- Português, vol. iii, Lisboa, Círculo de Leitores,
pre recusou foi o apelo a uma singulari- 2002b, pp. 305-316; Id., “O conceito de filo-
dade portuguesa que impedia o diálogo sofia: o triunfo da física e a crítica ao ‘espí-
com o racionalismo luminoso. rito de sistema’”, in CALAFATE, Pedro (dir.),
A fenomenologia husserliana é a cor- História do Pensamento Filosófico Português, vol. iii,
rente filosófica que se propõe, através Lisboa, Círculo de Leitores, 2002c, pp.  139­
‑157; Id., “A  inserção do Homem na natu-
da descrição das vivências da consciência
reza”, in CALAFATE, Pedro (dir.), História do
pura, fora de qualquer construção con- Pensamento Filosófico Português, vol. iii, Lisboa,
ceptual, descobrir as estruturas transcen- Círculo de Leitores, 2002d, pp. 401-422; Id.,
dentes da consciência, a sua génese e a “O idealismo racionalista e crítico de António
sua essência. A fenomenologia represen- Sérgio”, in CALAFATE, Pedro (dir.), História

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Antimecanicismo 1253

do Pensamento Filosófico Português, vol. v, t. 1,


Lisboa, Círculo de Leitores, 2003, pp.  103­
Antimecanicismo
‑130; Cardoso, Adelino, “Filosofia e his-
tória das ciências: a inteligibilidade científica
no Portugal oitocentista”, in CALAFATE, Pe-
dro  (dir.), História do Pensamento Filosófico Por-
tuguês, vol. iv, t. 2, Lisboa, Círculo de Leitores,
2004, pp.  13-41; Fitas, Augusto J. S. et al.,
“A filosofia da ciência no Portugal do século
xx”, in CALAFATE, Pedro (dir.), História do
Pensamento Filosófico Português, vol. v, t. 2, Lis-
D ois modos de explicação científica
vêm dos gregos – uma civilização
fundamentalmente intelectual. Um, do
boa, Círculo de Leitores, 2003, pp. 421-582; domínio da astronomia, é a explicação
Luz, José Luís Brandão da, “A propagação do
geométrica; o outro, da analogia com um
positivismo em Portugal”, in CALAFATE, Pe-
dro  (dir.), História do Pensamento Filosófico Por- organismo vivo, é a explicação biológica.
tuguês, vol. iv, t. 1, Lisboa, Círculo de Leitores, Enquanto a bússola parecia funcionar por
2004, pp. 239-261; Pimentel, Manuel Cân- algum poder misterioso e uma harmonia
dido, “A  filosofia criacionista de Leonardo oculta com a Terra, a maquinaria, tal como
Coimbra”, in CALAFATE, Pedro (dir.), História um arado, um relógio ou uma prensa de
do Pensamento Filosófico Português, vol. v, t. 1, caracteres móveis, via-se que funcionava
Lisboa, Círculo de Leitores, 2003, pp. 55-102;
através de puxões e empurrões. Durante
Id., “O idealismo espiritualista de Antero de
Quental”, in CALAFATE, Pedro (dir.), História
os sécs. xvi e xvii este modo de explica-
do Pensamento Filosófico Português, vol. iv, t. 1, ção mecânica passou a ser considerado o
Lisboa, Círculo de Leitores, 2004, pp. 93­‑129; modo ideal de explicação científica, ao
Reis, António, “Raul Proença: uma ética vi- ser potenciado pela geometria analítica
talista e espiritualista de liberdade”, in CA- de Descartes, que constituiu o início da
LAFATE, Pedro (dir.), História do Pensamento matemática moderna. Para compreender
Filosófico Português, vol. v, t. 1, Lisboa, Círculo o funcionamento de um maquinismo, tí-
de Leitores, 2003, pp. 131-152; digital: CAR-
nhamos de o dividir nas suas partes – aná-
VALHO, Paulo Archer de, “Da nação portu-
guesa (1914-1938) ao Integralismo Lusitano lise –, voltar a juntá-las – síntese –, e pôr de
(1932-34): a insurreição dos intelectuais”, novo a máquina a funcionar.
s.d.: http://docplayer.com.br/14518550-Da- O mecanicismo é uma doutrina filosó-
nacao-portuguesa-1914-1938-ao-1ntegral1s- fica nascida no séc. xvii que afirma como
mo-lusitano-1932-34-a-insurreicao-dos-inte- única forma de causalidade a influência
lectuais.html (acedido a 3 jul. 2016). física entre as entidades que constituem
Sebastião Formosinho o mundo material. As interações mecâ-
nicas seriam condição necessária e sufi-
ciente para explicar o funcionamento
dos fenómenos do mundo. A ontologia
mecanicista cartesiana vê o mundo como
uma estrutura comparável à de uma má-
quina. O  relógio foi, nessa época e du-
rante bastante tempo, o protótipo desse
mecanismo. Uma explicação mecânica
pretende alcançar uma certa completude
e simplicidade. Esta explicação diz, e.g.,
como funciona um relógio e as coisas em
geral, mas nada diz sobre quem o fez nem

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1254 Antimecanicismo

sobre como foi desenhado. Decorre que a interiorização de metodologias alicer-


este tipo de explicação mecânica não é çadas na experiência e a aquisição de há-
compatível com explicações teleológicas, bitos de precisão, a intolerância político­
relativas a uma finalidade. ‑religiosa dos tempos levou a uma perda
No contexto de uma cultura escolástica, intelectual. Mesmo o filósofo Pedro Mar-
segundo a qual os corpos são constituídos galho (1474­‑1556), apesar de convencido
por matéria e forma, as reações antime- da prioridade do saber da física para es-
canicistas podem revelar-se de diferentes clarecer toda a realidade criada e as ma-
modos: no combate pela legitimidade das nifestações de Deus, movia-se no paradig-
formas substanciais ou de outras entida- ma tradicional de um mundo de formas
des não materiais; na oposição à visão de qualitativas, se bem que a geometria e a
que um organismo se explica com base matemática já entrassem na análise do seu
na ideia de uma máquina e de que a ex- mapa mundi, mas mais como instrumento
plicação científica tem como base apenas de medida do que como paradigma da
as leis físicas do movimento; na oposição interpretação da realidade. O médico e
à ideia de que o tempo cronológico é úni- filósofo Francisco Sanches (1550-1622),
co e linear, contrastando-a com a ideia do que foi coevo de Francis Bacon e que
tempo duração, do tempo de “criação com ele apresenta diversas relações nos
contínua e de um brotar ininterrupto terrenos da filosofia, entende a natureza
de novidades” (CARVALHO, 2012, 103), de um modo equívoco, umas vezes num
como fez o filósofo francês Henri Berg- sentido físico, outras num sentido meta-
son. Mas, no contexto da filosofia dos físico, como aliás acontecia nas escolas do
sécs.  xviii e xix em Portugal, inserida seu tempo. Neste contexto, no nosso país
num ambiente cultural profundamente não se poderia afirmar o conceito de me-
católico, o antimecanicismo é muitas ve- canicismo, não podendo por isso ocorrer
zes um antideísmo (&Antideísmo) e um quaisquer reações de antimecanicismo.
antimaterialismo (&Antimaterialismo). O Iluminismo em Portugal não teve iní-
O mecanicismo como doutrina filosófi- cio com o marquês de Pombal, pois já o
ca caracterizou a física como a mais impor- Rei D. João V soubera criar condições bási-
tante disciplina científica no panorama cas para uma mudança, que o pombalismo
das Luzes. Tal como os vários iluminismos assumiria em plenitude, culminando com
europeus, também o português procurou a reforma da Univ. de Coimbra, em 1772.
ter um carácter omnicompreensivo e mul- A déc. de 40 do séc. xviii, ainda no pe-
tidisciplinar, tentando conciliar as filoso- ríodo joanino, ficará assinalada por um
fias de René Descartes e de John Locke, dos textos mais significativos do Iluminis-
mas contrapondo sistematicamente a luz mo em Portugal, o Verdadeiro Método de
e as trevas perante o “tribunal da razão” Estudar (1746), de Luís António Verney,
(CALAFATE, 2002d, 12). Luís Cabral “uma obra intencionalmente polémica,
Moncada caracteriza este panorama na- onde o autor passa em revista os princi-
cional como iluminismo católico, oposto pais ‘defeitos’ e ‘enfermidades’ da cultura
ao deísmo e ao materialismo. portuguesa, propondo uma abertura que
Apesar de nos sécs. xvi e xvii se ter a seu ver a filosofia escolástica imperante
assistido em Portugal a uma atividade fi- não estaria em condições de levar a cabo”
losófica de considerável amplitude, e de (Id., Ibid.). Esta obra, atribuída na época
os Descobrimentos terem aberto janelas a um anónimo religioso barbadinho de
para a modernidade vindoura, mediante uma congregação italiana (era, de facto,

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Antimecanicismo 1255

um pseudónimo de Verney), assume clara- dia Voltaire, toda a variedade da criação


mente uma posição antiescolástica (&An- se considera em plano idêntico, pelo que
tiescolasticismo); mas também recusa o para Deus não existe diferença entre um
racionalismo científico metafísico, em es- homem e uma formiga. António Ribeiro
pecial o cartesiano, não obstante a grande dos Santos (1745-1818) é outro crítico do
veneração que demonstra pelo filósofo deísmo voltairiano ao afirmar que “Deus
que derrubou o aristotelismo escolástico não existe em eterna solidão” (Id., Ibid.,
no seio da física. Contudo, na linha de Lo- 356); para este autor, o mundo é uma má-
cke, assume uma posição contrária a Des- quina que, para se conservar, necessita do
cartes no que concerne às ideias inatas, à cuidado permanente do seu autor.
despromoção do sensível e ao papel mar- No panorama português, outro eminen-
ginal atribuído à experiência, perante o te crítico do sistema cartesiano foi Antó-
primado da dedução. Ergue-se igualmen- nio Soares Barbosa (1734-1801) que, sem
te contra o anseio filosófico de encerrar deixar de elogiar a Descartes o contributo
a verdade no interior do sistema que Des- na destruição do aristotelismo, lhe aponta
cartes e outros filósofos idealizaram: “Este o defeito de querer explicar toda a natu-
é o sistema moderno: não ter sistema, e reza. Soares Barbosa escreveu: “O univer-
só assim é que se tem descoberto alguma so é um enigma no qual só percebemos
verdade” (Id., 2002b, 140). Na Carta Déci- algumas sílabas que ainda não fazem
ma, dedicada à física, Verney, num espírito sentido”. Aponta ainda a este eminente
de estrangeirado, critica o atraso nacional filósofo francês, “a falsa desconfiança dos
por o país seguir ainda uma física aristoté- sentidos” e ter começado por explicar o
lica, qualitativa e livresca, não apoiada no universo pelas causas em vez de o fazer
estudo da natureza. Para o mecanicismo pelos efeitos, bem como ter começado pe-
de Verney, todos os fenómenos naturais las ideias abstratas em vez de o fazer pelas
se explicam pelo jogo de forças dos cor- ideias simples; em suma, tinha começado
pos e respetivo movimento, mas trata-se por explicar o universo a partir de cima,
de um mecanicismo mitigado, pois para de um ponto arquimediano, diríamos, em
ele, tal como para os autores dos Estatutos vez de começar a partir de baixo, a partir
da Universidade de Coimbra, de 1772, o do alicerce da física, como fez Newton (Id.,
combate ao deísmo e ao materialismo é 2002b, 144). Numa clara adesão ao sensis-
uma peça fundamental da apologética do mo de Locke, Soares Barbosa ergueu-se
cristianismo. Em Verney encontramos a igualmente contra o “calar dos sentidos”
posição extrema dos pensadores nacionais em Descartes, pois são os sentidos que per-
da época a favor do mecanicismo. mitem a comunicação do homem com o
O Oratoriano Teodoro de Almeida universo, e a sua ausência num qualquer
(1722-1804) também trava combate contra maquinismo.
o deísmo de um Deus criador mas sem cul- Contra os exageros mecanicistas se er-
to nem dogma, mediante uma visão estéti- gueram António Nunes Ribeiro Sanches
ca do sensível e do inteligível em ordem a (1699-1783) e, como foi referido, Teodo-
uma valorização da dignidade do homem e ro de Almeida, que procuraram um prin-
de um apelo estético “no intuito de elevar o cípio imaterial e espiritual para explicar
homem até à fonte pura e imaterial de toda a vida e os fenómenos dos organismos,
a beleza” (Id., 2002, 340). No deísmo de na esteira do médico holandês Herman
um mecanicismo extremado, para o qual Boerhaave. Entre nós, o primeiro a er-
tudo é matéria e movimento, como defen- guer a pena contra o mecanicismo foi José

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1256 Antimecanicismo

Rodrigues de Abreu (1682-1752?), fazen-


do-o na esteira da teoria vitalista do quími-
co alemão Georg Ernst Stahl, no que foi
secundado por Martinho de Mendonça
no prefácio que escreveu para Historiolo-
gia Médica (1733), obra de Rodrigues de
Abreu. Este conjunto de autores recusava­
‑se a confundir os movimentos mecânicos
com movimentos vitais: “o corpo vivo e a
máquina são contrários”. “Para Rodrigues
de Abreu, os mecanicistas ‘apeam a alma
do título de governadora do corpo [...] e
semelham todas as operações humanas às
de um relógio ou um moinho’, aspeto que
lhe merece repúdio por se lhe afigurar
insuficiente. Pelo contrário, é a alma ra-
cional, tal como em Stahl, que é causa das
ações do corpo” (Id., 2002c, 162). Havia,
pois, que procurar um princípio vivifican-
te, distinto da matéria e do movimento,
que é a ”alma racional”.
Também Bento José de Sousa Farinha Capa de Historiologia Medica (1739),
(1740-1820), em obra manuscrita conser- de José Rodrigues de Abreu.

vada na Biblioteca do Palácio da Ajuda,


nega a suficiência da explicação puramen- to e harmonia ao universo. Para este autor,
te mecânica da natureza e o determinismo uma criatura corporal não se reduz à sua
físico sem uma “causa infinitamente sábia concretude corporal, antes deve ser enten-
e poderosa” que confira ordem, movimen- dida como expressão de um Deus criador.
Já nos começos do séc. xx, o saudosis-
António Ribeiro Sanches (1699-1783). mo foi uma corrente de pensamento ini-
ciada por Teixeira de Pascoaes. A saudade
é entendida como “o sangue espiritual da
raça”, um “sentimento-ideia”, uma “emoção
refletida”. “Ligado a ideia de saudade ao
autonomismo quinhentista e ao processo
de resistência sebastianista, o movimento,
que defendia uma democracia religiosa
e rural, foi injustamente acusado de pas-
sadista, quando era um ativismo vitalis-
ta, anti-intelectualista e antimecanicista,
conforme assinala Pinharanda Gomes”
(MALTEZ, Respublica, s.d.). Entre os inte-
lectuais desta corrente figuram Leonardo
Coimbra, Jaime Cortesão e Afonso Lopes
Vieira. Mas as ideias fertilizam-se mutua-
mente e vão-se diluindo em doutrinas

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Antimedievalismo 1257

mais abrangentes. Assim se verificou


com o mecanicismo, que foi imergindo
Antimedievalismo
noutros sistemas de doutrinas filosóficas.
Outros pensadores portugueses, entre os
sécs. xviii e a primeira metade do xx, des-
de Fr. Manuel do Cenáculo a Abel Salazar,
assumiram igualmente posições antime-
canicistas mas, num sentido mais abran-
gente, essencialmente de antimaterialis-
mo (&Antimaterialismo).
O conceito remete-nos para o conjun-
to das perceções negativas acerca
da Idade Média, referentes aos mais di-
versos domínios da vida humana duran-
te esse tempo, isoladamente ou no seu
conjunto: a política, a religião, o direito,
o pensamento filosófico, a arte, o quoti-
Bibliog.: impressa: Calafate, Pedro, “A alian-
ça entre a física experimental e a teologia na- diano, a técnica, entre outros.
tural”, in CALAFATE, Pedro (dir.), História do A ideia de uma Idade Média está, à par-
Pensamento Filosófico Português, vol. iii, Lisboa, tida, investida de uma conotação negati-
Círculo de Leitores, 2002, pp. 317-358; Id., va: é um tempo intermédio, entre a Anti-
“O conceito de filosofia: o recuo da metafí- guidade e o Renascimento ou o começo
sica”, in CALAFATE, Pedro (dir.), História do da Modernidade, i.e., um tempo que não
Pensamento Filosófico Português, vol. iii, Lisboa, é o antigo nem o novo. Ele abrange cer-
Círculo de Leitores, 2002a, pp. 125-137; Id.,
ca de 10 séculos, que vão da queda do
“O conceito de filosofia: o triunfo da física e
a crítica ao ‘espírito de sistema’”, in CALAFA- Império Romano (476) ao começo da
TE, Pedro (dir.), História do Pensamento Filosófico Modernidade, situada em diferentes da-
Português, vol. iii, Lisboa, Círculo de Leitores, tas, consoante os autores e os contextos
2002b, pp. 139-157; Id., “Filosofia e medi- geográficos e históricos em questão: em
cina: iatromecanicismo, vitalismo e animis- 1453, com a tomada de Constantinopla
mo”, in CALAFATE, Pedro (dir.), História do pelo Império Otomano; em 1492, com a
Pensamento Filosófico Português, vol. iii, Lisboa, chegada de Colombo à América ou com
Círculo de Leitores, 2002c, pp. 159-167; Id.,
a conquista de Granada pelos Reis Católi-
“Introdução”, in CALAFATE, Pedro (dir.), His-
tória do Pensamento Filosófico Português, vol.  iii,
cos; em 1517, com a divulgação, por Lute-
Lisboa, Círculo de Leitores, 2002d, pp. 11­ ro, das 95 teses de Wittenberg.
‑20; CARVALHO, Magda Costa, “A intuição A conceção deste tempo intermédio,
bergsoniana de duração”, Kairos, n.º 4, 2012, no contexto de uma divisão tripartida da
pp.  87­‑104; Gonçalves, Joaquim Cerquei- história (Antiguidade, Idade Média, Mo-
ra, “A física em Pedro Margalho”, in CALAFA- dernidade) regista-se, pela primeira vez,
TE, Pedro (dir.), História do Pensamento Filosófico na Historia Florentini Populi [História do
Português, vol. ii, Lisboa, Círculo de Leitores,
Povo Florentino], de Leonardo Bruni, con-
2002, pp. 387-398; Silva, Lúcio Craveiro
cluída em 1442. Com efeito, o desenvolvi-
da, “Francisco Sanches”, in CALAFATE, Pe-
dro (dir.), História do Pensamento Filosófico Portu- mento da cidade italiana nos começos do
guês, vol. ii, Lisboa, Círculo de Leitores, 2002, séc. xiv levara o cronista à afirmação de
pp. 429-452; digital: Maltez, José Adelino, que vivia num novo tempo.
“Saudosismo”, Respublica, s.d.: http://maltez. Esta conceção tripartida seria, depois,
info/respublica/topicos/aaletras/saudosis- popularizada por autores dos sécs. xvii e
mo.htm (acedido a 28 nov. 2013). xviii, nomeadamente por Christoph Ce-
Sebastião Formosinho llarius, na sua Historia Universalis (1702),

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1258 Antimedievalismo

na sequência de um conjunto de refle-


xões que, em certa medida, já atribuíam
um estatuto negativo ao chamado tempo
médio.
O uso da expressão “idade das trevas”,
para designar o período medieval, re-
montará a Petrarca, que, em dois passos
principalmente, se refere aos obscuros
tempos passados e à claridade dos tem-
pos que viriam. Porém, a primeira alusão
ao período intermédio, ou Idade Média,
enquanto idade das trevas regista-se num
trecho dos Annales Ecclesiastici (1602) de
César Barónio, onde o cronista se refere
a um tempo particularmente conturbado
da história eclesiástica, entre os sécs. x
e xi. Até então, a ideia da Idade Média
como uma idade obscura ocorria em di-
versos autores, que se referiam a fases de-
terminadas do tempo medieval sobre as
quais escasseavam as fontes históricas ou
em que se registara intensa pluviosidade. Francesco Petrarca (1304-1374).
O caminho percorrido entre estas per-
ceções circunstanciais, que atribuem um
carácter negativo a períodos circunscritos constituído ao longo de toda a Moderni-
dentro da hoje chamada Idade Média, e dade nos meios eruditos, com particular
a extrapolação ou a extensão desta nega- intensidade e intenção entre os autores
tividade aos 10 séculos de história que ela do Iluminismo. Na segunda metade do
abrange é longo. Em termos muito bre- séc. xix e começos do séc. xx, com o
ves, os seus passos acompanham os suces- impulso de ideais como o jacobinismo,
sivos projetos da Modernidade e as narra- o anticlericalismo e o positivismo, estas
tivas que neles foram sendo construídas narrativas não só terão sido compiladas
acerca do progresso ou desenvolvimento, sob a forma de tese ou doutrina historio-
da ilustração ou iluminação, e da pacifi- gráfica, como se terão disseminado poste-
cação e melhoria das condições de vida riormente pelos manuais escolares, pela
da humanidade. literatura e, mais tarde, pelo cinema – em
Diferentes autores que, ao longo do suma, por todos os dispositivos de divul-
séc. xx, procuraram desconstruir esta gação histórica.
imagem negativa dos tempos e dos mo- Os eruditos da Modernidade tardia
dos de vida medievais denunciaram a sua teriam, pois, identificado na conjuntura
vigência tanto no meio académico como medieval a vigência de um conjunto de fa-
no público em geral (Umberto Eco, Idade tores negativos dos quais ainda existiriam
Média; Régine Pernoud, Luz sobre a Idade resíduos na Modernidade e que deveriam
Média; Edward Grant, God and Reason). ser superados. Entre ele constam: o siste-
De acordo com esta perspetiva, as narrati- ma político-administrativo feudal, que
vas e os tópicos antimedievalistas ter-se-ão implicava uma quase ausência do Estado

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Antimedievalismo 1259

em relação aos cidadãos; a adulteração a ser desempenhada pela Idade Média e


do direito romano por um direito arbi- pelos espaços rurais.
trário, estabelecido segundo os interes- Com efeito, só na segunda metade do
ses dos mais poderosos; a hegemonia da séc. xix terá havido condições para a
religião e o obscurantismo, que travavam tese antimedievalista se consolidar plena-
o avanço técnico-científico e qualquer mente em Portugal, associada à discussão
compromisso da religião com o progres- política entre posições progressistas e
so material; a escolástica e a submissão conservadoras, com particular incidên-
da filosofia à teologia; um quotidiano cia sobre a questão relativa ao peso que a
violento e escassas noções de civilidade, Igreja Católica deveria ou não exercer na
que distanciavam o humano medieval do vida do país.
cosmopolita moderno. O volume A Idade Média na História da
Nessa medida, as narrativas antimedie- Civilização, ainda que só tenha vindo a ser
valistas talvez nos digam mais sobre os publicado em 1925, constitui um impor-
problemas e os projetos da Modernidade tante testemunho acerca da forma como
(e até mesmo da chamada pós-Moderni- o tempo medieval era perspetivado por
dade), sobre as suas esperanças e as suas alguma intelectualidade progressista por-
frustrações, do que sobre a Idade Média. tuguesa de Oitocentos. Nele se reúnem
Com efeito, nos diferentes contextos as peças de uma polémica suscitada por
europeus, a crítica depreciadora da Ida- considerações tecidas por Oliveira Mar-
de Média parece ter sido proporcional tins na sua Teoria do Socialismo, de acordo
à exigência e ao inconformismo que os com as quais a Idade Média constituía
intelectuais da Modernidade demonstra- um momento de “retrocesso geral e atro-
ram relativamente à cultura (científica, fia dos elementos evolutivos da civiliza-
religiosa, artística, etc.) e às condições de ção” (MARTINS et al., 2006, 20). A tese
vida do seu tempo. de Oliveira Martins contemplava diversos
Porém, a associação de elementos ne- domínios da vida humana durante o pe-
gativos à Idade Média implicava não só ríodo medieval. Segundo o autor, a conta-
uma completa interiorização dos ideais minação bárbara da civilização europeia
iluministas de civilização e de progresso, estaria na origem de um amplo movimen-
como também da conceção tripartida da to de deturpação do legado da Antigui-
história. Por esse motivo, quando inte- dade e do cristianismo: o autoritarismo
lectuais do iluminismo português, como feudal sobrepusera-se ao municipalismo
Teodoro de Almeida e Ribeiro Sanches, romano; o direito romano fora deturpa-
denunciam o atraso filosófico, científico do; a teologia sobrepusera-se à filosofia;
e cultural do reino, mesmo que tenham a Igreja associara-se ao império e a místi-
em vista ideais de inovação e de progres- ca substituíra o espírito comunitário das
so, as suas críticas dirigem-se, ainda e comunidades cristãs primitivas. Por fim,
expressamente, a práticas e instituições Oliveira Martins aponta ainda dois fato-
do seu tempo, e à diferença que estas re- res negativos introduzidos na civilização
presentavam relativamente àquelas que europeia pelo elemento bárbaro: a exal-
vigoravam noutros reinos da Europa. As- tação do papel da mulher na sociedade
sim, é provável que, para os iluministas e a primazia dada à contemplação sobre
portugueses, a situação do reino tenha o trabalho.
desempenhado a função discursiva que, Antero de Quental participa desta po-
noutras paragens da Europa, começava lémica enquanto elemento moderado.

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1260 Antimedievalismo

O legado de Herculano, que tantas e tão lítico. De alguma forma, a contenda en-
profícuas reflexões deixara em prol de tre Martins e Vilhena dizia respeito não
uma revalorização da Idade Média por- só ao valor que deveria ser atribuído ao
tuguesa, bem como o balanço extrema- papel da Igreja Católica nos rumos da ci-
mente negativo que Quental demonstrou vilização, mas também à forma como se
fazer, noutros textos, do Antigo Regime dariam as transformações ao longo desse
português, terão contribuído certamente processo: em transições lentas, que obser-
para este seu posicionamento. Inspiran- vassem uma linha tradicional de conhe-
do-se no que conhecia de Hegel e das cimentos, onde a Igreja desempenharia,
teorias evolucionistas de Darwin e Hae- certamente, um lugar preponderante; ou
ckel, Quental afirma que a Idade Média em revoluções ou quebras abruptas relati-
devia, pois, ser vista como um momento vamente a paradigmas que atrasavam esta
de “crise orgânica” (Id., Ibid., 22) ou de longa caminhada.
estacionamento, após um período de rá- Ao longo do séc. xx, a crítica às narra-
pido desenvolvimento e de solidariedade tivas antimedievalistas perdeu boa parte
das forças do espírito, como teria sido a do seu peso ideológico. Diversos histo-
Antiguidade. Assim, elementos medievais riadores – dos quais se destacam, entre
negativos, e.g., o misticismo, teriam sido outros excelentes exemplos, Georges
males necessários, para que a civilização Duby, Jacques Le Goff e, em Portugal,
se recompusesse e recuperasse forças José Mattoso  – contrariaram estas nar-
para levar a cabo todas as transformações rativas e colocaram em evidência o seu
posteriores. carácter generalizador e impreciso, atra-
Por seu turno, em confronto direto vés de contributos que promovem uma
com a posição de Oliveira Martins, Jú- melhor compreensão da vida na Idade
lio de Vilhena apresenta a Idade Média Média e assinalam inúmeros elementos
como uma “época de elaboração” (Id., de continuidade entre a época média e
Ibid., 42) que prepara o mundo moder- as épocas que a delimitam. A sua crítica
no, sublinhando elementos de continui- ao antimedievalismo é assim, de certo
dade entre a Antiguidade, o tempo me- modo, indireta e tem um alcance sobre-
dieval e a Modernidade. Afirmando-se tudo metodológico.
simultaneamente católico e progressista, Todavia, outros autores do séc. xx, ain-
Vilhena sustenta a sua tese em avanços da que muito tenham beneficiado com
alcançados pela filosofia católica do pe- estes avanços da historiografia, não se fur-
ríodo medieval, dos quais seriam exem- taram a explorar as extensões ideológicas
plo as conceções da origem popular do do debate acerca da Idade Média. Destes
poder do soberano e o direito dos povos referiremos dois casos particularmente
à resistência contra a tirania, tal como se apelativos: Régine Pernoud e Umberto
encontrariam formulados em Agostinho Eco.
e em Tomás de Aquino. O ponto de partida das reflexões de
Travada entre intelectuais da esquer- Régine Pernoud parece ser, precisamen-
da portuguesa da segunda metade do te, o da inversão e contestação histórica
séc. xix, esta polémica permite-nos com- e ideológica das narrativas antimedieva-
preender que, longe de ser perspetivada listas. Sugerindo um movimento de es-
como um tópico estritamente historio- clarecimento e de aprofundamento do
gráfico ou filosófico, a questão da Idade saber em torno das práticas e dos modos
Média tinha um alcance sobretudo po- de vida medievais, esta abordagem não

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Antimedievalismo 1261

deixa, porém, de ficar refém das narrati- religiosa. Mais do que indícios ou frontei-
vas que combate, ao devolver uma espé- ras de transição entre tempo medieval e
cie de imagem invertida do antimedieva- moderno, estas significariam, antes, que
lismo. Assim se compreende que também na Baixa Idade Média haveria muito de
ela generalize e mitifique casos históricos moderno, assim como na Modernidade
que melhor possam contradizer tais nar- muito houve de medieval.
rativas. Ao não hesitar em adicionar às Esta ideia, de acento dialético, estava já
suas reflexões historiográficas uma clara presente no seu romance O Nome da Rosa,
apologia conservadora – em certa medi- em que acompanhamos a tensão entre
da antimoderna e anti-iluminista – o po- Jorge de Burgos, o medieval típico, e Gui-
sicionamento de Régine Pernoud tem, lherme de Baskerville, o medieval moder-
porém, a virtude de colocar em evidência no. Entre os dois, hesitante, encontramos
que a discussão acerca da Idade Média o jovem Adso de Melk. Sugerindo, artifi-
continuava, em pleno séc. xx, a ter con- ciosamente, na entrada do livro, uma re-
tornos ideológicos claros, à semelhança lação entre a trama do romance e as con-
do que acontecera no século anterior. tendas políticas da Guerra Fria, Umberto
Por seu turno, Umberto Eco demons- Eco como que nos segreda que talvez a
tra, em diversos passos da sua obra, uma contemporaneidade possa também ser
clara consciência das extensões ideológi- vista, de alguma maneira, como uma ida-
cas desta oposição entre modernidade e de média. Afinal, à semelhança do tempo
medievalidade, mas parece recusar-se a de Adso, nela há espaço para a certeza
integrar um dos polos da contenda, op- e para a curiosidade, para o ortodoxo e
tando por desconstruir esta dualidade. para o heterodoxo, para o horror e para
Talvez por isso, mas também sublinhando a esperança de que as trevas e as dificul-
o carácter insatisfatório do termo “Idade dades venham a ser superadas.
Média” em si, Umberto Eco apresenta, na
sua introdução a Idade Média, volume de Bibliog.: BROCKMANN, Stephen, Umberto
estudos por ele organizado, uma bastante Eco and the Meaning of the Middle Ages, Madison,
esclarecedora definição em negativo, por University of Wisconsin-Madison, 1988; ECO,
Umberto, Idade Média, vol. i, Lisboa, Dom Qui-
pontos, em que explica o que esta idade
xote, 2011; GRANT, Edward, God and Reason
não é ou não foi. Aqui, para além de reba- in the Middle Ages, Cambridge, Cambridge Uni-
ter diversas narrativas antimedievais e de versity Press, 2001; MARTINS, Oliveira et al.,
lhes contrapor diversos casos, nem sempre A Idade Média na História da Civilização, Lisboa,
excecionais, assinala ainda o eurocentris- Esfera do Caos, 2006; MOMMSEN, Theodore,
mo que costuma acompanhar as grandes “Petrarch’s conception of the ‘dark ages’, Spe-
periodizações históricas e a considerável culum, vol. 17, n.º 2, abr. 1942, pp. 226­‑242;
PERNOUD, Régine, Luz sobre a Idade Média,
abrangência temporal do termo “Idade
Mem Martins, Europa-América, 1997.
Média”, que torna impraticável qualquer
abordagem genérica. Mas, para além dis- Ricardo Ventura
so, realiza uma operação mais subtil, que
é a de assinalar a presença, neste período,
sobretudo a partir do séc. xi, de corren-
tes, ideias e práticas que normalmente se
identificam como sendo modernas, como
são os casos do experimentalismo cien-
tífico, do secularismo e da contestação

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1262 Antimercantilismo

Antimercantilismo tações de manufaturas que marcou o


mercantilismo português. O argumento
do desembargador Almeida Carvalho é
curiosamente liberal: se tantas leis prag-
máticas foram emitidas com tão pou-
co êxito, é porque a limitação ao luxo
é daninha e, ao mesmo tempo, inútil.

O mercantilismo designa um conjun-


to de práticas de economia política
que proliferou sobretudo nos sécs. xvii
Serviam a multiplicidade das leis e a in-
certeza do direito; não o interesse dos
consumidores e produtores. O luxo era
e xviii, e que, apesar dos matizes consi- à partida um estímulo para a economia
deráveis, se caracteriza em última análi- nacional e não um sumidouro de meios
se por subordinar a atividade económica financeiros. Ao invés de combater o luxo
privada a diretrizes emanadas pelo sobe- sob o pretexto de que o seu consumo
rano com vista ao interesse comum (da desvia a riqueza dos potenciais investido-
república, dos povos, nacional, da Coroa, res, o desembargador defende a redução
do Estado, do reino, etc.). Os seus ele- dos tributos. No final do séc. xviii, este
mentos típicos são a defesa da proteção compacto de ideias a que se chama mer-
alfandegária, uma visão estática da econo- cantilismo apresenta ainda mais brechas.
mia mundial (entendida com um jogo de A literatura económica portuguesa de fi-
soma nula, em que não há crescimento, nais do séc. xviii critica as instituições
mas apenas disputa de um conjunto fini- e regras que afetam o comércio exter-
to de recursos), o desenvolvimento das no, ainda que as posições mercantilistas
manufaturas ou da produção dos bens continuassem a reinar mesmo entre os
necessários, a defesa de uma balança co- mercadores. No entanto, autores como
mercial favorável e a retenção dos metais Manuel J. Rebelo atacavam regimes de
preciosos. Como tal, pode entender-se contratos exclusivos e outros privilégios
por antimercantilista um discurso que de carácter monopolista praticados nos
não apenas se distancie de um destes as- territórios ultramarinos.
petos, mas do mercantilismo no seu todo. A crítica consistente ao mercantilismo
Um certo distanciamento do discurso emerge após a saída de cena do marquês
mercantilista encontra-se já no séc. xviii. de Pombal e a ascensão do pensamento
Um autor conhecido como cardeal da fisiocrático liderado pela Academia das
Mota aceita que o estabelecimento de Ciências de Lisboa. Segundo Jorge M. Pe-
fábricas em Portugal é uma evidência dreira (1988), uma das marcas dos textos
que não carece de fundamentação, mas saídos desta Academia era a hostilidade
pondera uma objeção importante a esta para com o entendimento de que a rique-
causa central do mercantilismo, designa- za das nações residia no seu comércio e
damente a perda de receita fiscal que a nas suas fábricas. Assim, o pensamento
diminuição de importações implicaria. que se pode rotular como antimercanti-
No entanto, o cardeal não explora até ao lista assume a forma do agrarismo. Para
fim as consequências desta objeção. Tal estes autores, a indústria tinha um efeito
como mostra Luís F. de Carvalho Dias empobrecedor na agricultura (e, ergo, no
(1955-1956), o padre e desembargador país como um todo) ao roubar braços à
Almeida Carvalho é um dos primeiros lavoura. No entanto, muitos dos pensado-
a romper com a fixação com as impor- res ligados ao agrarismo acabam por trair

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Antimercantilismo 1263

a sua matriz fisiocrática ao exigir prote-


ção alfandegária contra a concorrência
estrangeira. O principal expoente desta
corrente crítica do mercantilismo foi a
obra Memórias Políticas sobre as Verdadeiras
Bases da Grandeza das Nações, de J. J. Ro-
drigues de Brito, professor de Direito na
Univ. de Coimbra. Brito faz uma crítica
clara e explícita ao “sistema mercantil” ou
“das manufaturas e comércio” (BRITO,
1805, 59, 62, 73), por abafarem a nature-
za humana e a ordem da sociedade. Para
este autor, tal como o descrevem Almo-
dovar e Cardoso, os “fenómenos e meca-
nismos económicos estão subordinados a
leis naturais próprias que nenhum siste-
ma legal ou político poderia alguma vez
mudar” (ALMODOVAR e CARDOSO,
1998, 46). Ora, os direitos de proprieda-
de enquadram-se nessa ordem natural
que nem as inclinações e parcialidades
dos governos conseguem alterar. O seu
contemporâneo José da Silva Lisboa cri- Folha de rosto de Memorias Politicas sobre as
tica igualmente as limitações estatais ao Verdadeiras Bases da Grandeza das Nações (1803),
de J. J. Rodrigues de Brito.
comércio internacional para fins de pro-
teção industrial, os riscos de uma carga
fiscal excessiva e a defesa da liberdade de
ocupação e investimento. cismo” (&Antieconomicismo). É sob este
Apesar do protecionismo dominante pano de fundo que podemos entender
na classe política portuguesa de Oito- um texto provocatório intitulado Néo-Mer-
centos, a verdade é que o termo “mer- cantilismo e datado de vésperas da Gran-
cantilismo” acabou por concitar as mais de Depressão. O seu autor é um singular
ferozes críticas à intervenção do Estado. economista português (Moses Bensabat
Nas atas oitocentistas das duas câmaras Amzalak), que se insurge contra o fecha-
(a dos Pares e a dos Deputados), o mer- mento das economias mundiais que suce-
cantilismo era tipicamente apodado de deu à Primeira Guerra Mundial. O texto
“abjeto”, “depravado”, “sórdido”, “avaro”, é interessante porque Amzalak, longe
“nocivo”, “desenfreado” e “desaforado”. de diabolizar as posições das principais
Esta carga negativa transitou para a lin- economias capitalistas, compreende as
guagem comum, onde permaneceu até motivações do mercantilismo, embora
aos nossos dias. Com efeito, no séc.  xx, não deixe de considerar os seus efeitos
o termo “mercantilismo” assumiu outro permanentes como nocivos para as di-
sentido – muito diferente e até contra- ferentes economias. Sintomaticamente,
ditório relativamente ao sentido origi- o autor faz equivaler a questão do mer-
nal  –,  o de preocupação excessiva com cantilismo a uma luta entre o sentimento
as realidades económicas, e.g., “economi- (nacional) e a razão (económica).

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1264 Antimiguelismo

Bibliog.: ALMODOVAR, António, “Introdu-


ção a José da Silva Lisboa”, in LISBOA, José
Antimiguelismo
da Silva, Escritos Económicos Escolhidos (1804­
‑1820), ed. lit. António Almodovar, vol. 1,
Lisboa, Banco de Portugal, 1993, pp. i-xxxii;
Id., e CARDOSO, José Luís, A History of Por-
tuguese Economic Thought, London, Routldege,
1998; ALMODOVAR, António, “José da Silva
Lisboa”, in CARDOSO, José Luís (coord.),
Dicionário Histórico de Economistas Portugueses,
Lisboa, Temas e Debates, 2001, pp. 174-177;
O infante D. Miguel foi a cabeça visível
da contrarrevolução que se manifes-
tou na Vila‑Francada e na Abrilada (1823
AMZALAK, Moses Bensabat, O Néo-Mercan- e 1824), sendo que, logo após o primeiro
tilismo, Lisboa, Museu Comercial de Lisboa,
destes golpes, “nascia o miguelismo e ini-
1929; BRITO, Joaquim José Rodrigues de,
Memórias Políticas sobre as Verdadeiras Bases da ciava-se o processo de mitificação de D. Mi-
Grandeza das Nações, Lisboa, Imprensa Ré- guel” (LOUSADA e FERREIRA, 2006, 53).
gia, 1805; DIAS, Luís F. Carvalho, “Luxo e Desta ideologia e deste mito, bem como
pragmáticas no pensamento económico do do miguelismo como “fenómeno multípli-
século  xviii”, Boletim de Ciências Económicas da ce”, abordado por uma vasta literatura
Faculdade de Direito de Coimbra, vol. 4, n.os 2-3, desde então até ao presente, trata Arman-
1995, pp.  103­‑146; vol. 5, n.os 1-3, 1956,
do Malheiro da Silva em diversos estudos.
pp. 1­‑82; MACEDO, Jorge Borges, “O pensa-
mento económico do cardeal Mota”, Revista
O tradicionalismo contrarrevolucionário
da Faculdade de Letras de Lisboa, iii sér., n.º 4, derramou-se por numerosos periódicos de
1960, pp. 79­‑97; Id., “Mercantilismo”, in SER- características diversas (os primeiros mar-
RÃO, Joel (dir.), Dicionário de História de Portu- cadamente virulentos, destacando-se en-
gal, vol. iii, Lisboa, Iniciativas Editoriais, 1971, tre os posteriores A Nação, 1847-1928), fo-
pp. 35­‑39; PEDREIRA, Jorge M., “Agrarismo, lhetos e livros, pela pena de vários autores,
industrialismo, liberalismo. Algumas notas ao longo do séc. xix (Agostinho de Ma-
sobre o pensamento económico português
cedo, Acúrsio das Neves, Gama e Castro,
(1780-1820)”, in CARDOSO, José Luís (org.),
Contribuições para a História do Pensamento Econó- Ribeiro Saraiva, Visconde de Santarém,
mico em Portugal, Lisboa, Dom Quixote, 1988, Miguel Sottomayor, etc.), sendo renovado
pp. 64-83; Id., Os Homens de Negócio da Praça de nos inícios do séc. xx pelo movimento in-
Lisboa de Pombal ao Vintismo (1755-1822): Dife- tegrista que promoveu a revalorização do
renciação, Reprodução e Identificação de Um Grupo Desejado e a consequente estigmatização
Social, Dissertação de Doutoramento em So- do liberalismo constitucional, numa linha
ciologia apresentada à Universidade Nova de
que se projetou e afirmou na historiogra-
Lisboa, Lisboa, texto policopiado, 1995; SAN-
TOS, Luís Aguiar, Comércio e Política na Crise do fia estadonovista.
Liberalismo: a Associação Comercial de Lisboa e o Em meados do séc. xx, Joel Serrão, no
Reajustamento do Regime Proteccionista Português, verbete “D. Miguel” do clássico Dicionário
1885-1894, Lisboa, Colibri, 2004. da História de Portugal, reclamava mais es-
António Castro Henriques tudos historiográficos para a compreensão
do fenómeno histórico do miguelismo, ins-
pirado na asserção de Oliveira Martins de
que ele era “um efeito e não uma causa”
(SERRÃO, 1981, 293), discordando todavia
da tese martiniana (na esteira de António
Sérgio) da unanimidade da nação em tor-
no do miguelismo, sem negligenciar, mas

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Antimiguelismo 1265

problematizando, o apoio que o filho dileto


de Carlota Joaquina tinha das massas popu-
lares e de boa parte da nobreza e do clero.
Outra obra da nossa historiografia detém­
‑se no marco interpretativo que constituiu
a obra Portugal Contemporâneo, de Oliveira
Martins, e a sua “antítese entre o Portugal
velho, encarnado na sebástica figura de
D. Miguel, e com forte enraizamento popu-
lar, e o Portugal novo, com os seus ideais
de valores de rutura, estranhos à tradição
e consubstanciados na personalidade de
D. Pedro IV” (TORGAL et al., 1996, 151).
Tal movimento desenrolou-se num qua-
dro político, ideológico, jurídico e inter-
nacional complexo, em que D. Miguel
personificou o combate ao vintismo e ao li-
beralismo constitucional, conotados com a Rei D. Miguel (1802-1866).
irreligião e a maçonaria, pelo que, após ser
proclamado Rei absoluto em Cortes pelos
três estados em julho de 1828, iniciou um guelista expressou-se em diferentes línguas
reinado que ficou marcado pela repressão. e proveio maioritariamente do exílio: “So-
Andréa Gonçalves, num estudo sobre qua- bretudo a partir de 1828, a prática jornalísti-
se um milhar e meio de processos políticos ca intensificar-se-ia e, para além dos jornais
de Lisboa, apurou mais de uma centena de propriamente ditos, multiplicavam-se os fo-
envolvidos estrangeiros, entre os quais pelo lhetos, veículo mais maleável […], de maior
menos 11 brasileiros, o que a levou a utilizar garantia de anonimato” (SANTOS, 1988,
a forte expressão “internacional antimigue- 112). E assim, nesse mesmo ano, o emigra-
lista” (GONÇALVES, 2013, 217). Além do do liberal Paulo Midosi publicou anonima-
sequestro de bens a cerca de 80.000 famí- mente, em Londres, e primeiramente em
lias, de milhares de encarcerados e desterra- inglês, um opúsculo fundacional nesta ma-
dos e de largas dezenas de execuções sumá- téria intitulado Quem É o Legitimo Rei de Por-
rias, o terror miguelino provocou uma vaga tugal? Questão Portugueza Submettida ao Juízo
de emigração política sem precedentes no dos Homens Imparciaes, que teve aliás ime-
país. Foi, pois, no desterro que se constituiu diata confutação de Agostinho de Macedo,
o antimiguelismo de feição diplomática, mi- encomendada pelo Governo para atenuar o
litar, propagandística e ideológica. efeito causado. Midosi, que colaborou em
Esta literatura combativa teve o seu epi- jornais no exílio, como O Chaveco Liberal
centro entre 1828 e 1833 e, para além do ata- (editado apenas em 1829) com Garrett e
que à pessoa de D. Miguel, assentou em três Ferreira Borges, escreveu posteriormente
grandes linhas: crítica político-doutrinária outros folhetos que tinham os realistas em
do absolutismo; condenação da usurpação mira, como Primeira Sessão dos Diplomatas
do trono por meios tirânicos e repressivos, Miguelistas (1834) e Os  Miguelistas Chama-
contrapondo-lhe a legitimidade de D.  Pe- dos á Autoria (1848). Também de 1828 foi o
dro; intenção de recolocar Portugal nos texto de Ferreira Borges Duas Palavras sobre
trilhos do liberalismo. A imprensa antimi- o Assento dos Tres Estados do Reino, Juntos em

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1266 Antimiguelismo

Côrtes na Cidade de Lisboa, Feito a 11 de Julho Se Achavam no Castello de Extremoz no Infausto


de 1828, que, nesse ano ainda, também saiu Dia 27 de Julho de 1833; de Joaquim Soares,
em francês, publicado em Paris. Da auto- o poema História da Usurpação e do Usurpador
ria de Rocha Loureiro, apresentam-se dois D. Miguel (1836); de índole memorialista,
exemplos de 1829, publicados em Londres: portanto mais tardiamente, as Memorias de
Dithyrambo por o Sancto Dia 9 de Novembro de Um Preso Emigrado pela Usurpação de D. Mi-
1829, quando Aconteceu a Fatal Catástrofe ao guel, ou ainda Tragicos Sucessos de Portugal
Rei de Teatro Miguel I (de carácter satírico) e pela Usurpação de D. Miguel, Relativos á Praça
Apostillas á Enormíssima Sentença Condemnato- de Almeida, memória atribuída a Manuel da
ria, Que sobre o Suposto Crime de Rebelião e Mo- Costa de Vasconcelos Delgado, publicada
tim Foi Proferida em Lisboa aos 26 de Fevereiro de postumamente no Jornal Litterario de Coim-
1829, e ahi Executada em 6 de Março Seguinte bra, em 1869. No âmbito das publicações
(de denúncia do terror miguelista). De Luís periódicas, além das já citadas, destaque-se
António de Abreu e Lima (visconde de Car- o semanário Paquete de Portugal (Londres,
reira em 1834) foi publicado, em Bruxelas, 1829-31), em cuja redação participaram
La Légitimité et le Portugal; Rêveries d’Un Por- Rodrigo da Fonseca Magalhães, Marcos Vaz
tugais. O jurista António Luís de Seabra, du- Preto e José Liberato F. de Carvalho, que de-
rante a sua emigração política (1828-1833), nunciou as atrocidades do Governo migue-
deu à estampa vários opúsculos e panfletos lino e atacou o monarca usurpador e tirano,
sem nome do autor, dos quais se notabili- conotado com a imoralidade, a cobardia, a
zou Exposição Apologetica dos Portuguezes Emi- traição e a torpeza, sendo recorrentemente
grados na Belgica, Que Recusaram Fazer Prestar comparado a Nero (SILVA, 2005, 45). Após
o Juramento d’Elles Exigido no Dia 26 de Agosto a morte de D. Miguel (1866), a reclamação
de 1830. José Vitorino Barreto Feio, emigra- dos direitos de seu filho suscitou repúdio,
do em Inglaterra, no Brasil e em Hambur- como demonstra o texto de Teotónio de
go, traduziu para francês, juntamente com Ornelas Bruges Aqui não: Resposta ao Folheto
Mesnard, a obra do barão de Eschwege pu- Intitulado D. Miguel II.
blicada naquela cidade germânica, que saiu É consabida a hegemonia da visão anti-
com o título Dom Miguel: Ses Aventures Scan- miguelista da história após a vitória liberal
daleuses, Ses Crimes et Son Usurpation par Un de 1834, numa vastidão de obras aqui im-
Portugais de Distinction e que foi publicada possível de referir. Mas esse caminho ence-
em Paris, em 1833, tendo ainda nesse ano tou-se anos antes, quando tudo estava por
segunda edição. Entre os textos publicados decidir. Publicados em 1830, um em França
no Brasil, podem referir-se dois escritos de e o outro em Inglaterra, foram textos “per-
João Pereira Baptista Vieira Soares (aí exi- cursores da historiografia liberal”, ambos
lado em 1828-1834): D. Miguel Chorando a na lógica “liberdade/progresso versus des-
Sua Desgraça em Quatro Visões, para Servir de potismo/reacção” (SILVA, 1993a, 540), o
Espelho aos Miguelistas e A Saudosa Despedida Ensaio Historico-Politico sobre a Constituição e
dos Escravos Miguelistas, ou o Ultimo Adeus a Governo do Reino de Portugal, de José Libe-
Seu Senhor D. Miguel. Como exemplos desta rato Freire de Carvalho, republicado em
literatura publicada em Portugal, necessa- Portugal em 1843, e o célebre Portugal na
riamente a partir dos finais da Guerra Ci- Balança da Europa, de Almeida Garrett, fru-
vil, veja-se, de Ribeiro Soares, A Descida de to de vários artigos que o autor vinha escre-
D. Miguel aos Infernos a Pedir Auxílio: Poema vendo desde 1825. Na abertura, Garrett ex-
Heróico-Comico em Dois Cantos; Horrorosa Mor- plicava que “um tirano cruel e sanguinário”
tandade Feita em Todos os Presos Politicos Que era o remédio para curar um país do seu

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Antimilitarismo 1267

estado de podridão e agonia: “Esse benefí-


cio da Providência foi para ti não duvides, ó
Antimilitarismo
Nação Portuguesa, o flagelo da ira de Deus
que há dois anos te consome: foi D. Miguel
que te veio castigar da tua criminosa indi-
ferença e cedo te restituirá ao estado de vi-
gor e energia que só pode comportar o ali-
mento são, sólido e nutriente da liberdade”
(GARRETT, s.d., 19). A identificação de um movimento
antimilitarista implica a verificação
dos vários fenómenos que constituíram
a reação à militarização das sociedades
enquanto comunidades políticas e cultu-
rais. O militarismo tanto pode traduzir-se
na tutela militar de um sistema político,
Bibliog.: COSTA, Fernando Marques da et al. como na prevalência da instituição mi-
(orgs.), Do Antigo Regime ao Liberalismo (1750­
litar e dos seus métodos em diferentes
‑1850), Lisboa, Veja, 1989; GARRETT, Almei-
da, Portugal na Balança da Europa: do Que Tem âmbitos da organização social e política,
Sido e do Que Ora Lhe Convém Ser na Nova Ordem bem como das relações internacionais.
de Coisas do Mundo Civilizado, Lisboa, Livros Esta posição implica a autonomização e
Horizonte, s.d.; GONÇALVES, Andréa Lisly, implantação das forças militares enquan-
“A luta de Brasileiros contra o miguelismo em to centros de poder, bem como do seu
Portugal (1828-1834): o caso do Homem Preto ethos próprio, enquanto paradigma de
Luciano Augusto”, Revista Brasileira de História,
organização social, pelo que a constitui-
vol. 33, n.º 65, 2013, pp. 211-223; LOUSA-
DA, Maria Alexandre, e FERREIRA, Maria da
ção dos exércitos nacionais permanentes
Fátima Sá e Melo, D. Miguel, Lisboa, Círculo constitui, no plano histórico, um fenóme-
de Leitores, 2006; SANTOS, Maria de Lourdes no da maior relevância para a análise do
Costa dos, Intelectuais Portugueses na Primeira militarismo e da sua negação.
Metade de Oitocentos, Lisboa, Presença, 1988; Embora a guerra moderna, nas suas ver-
SERRÃO, Joel, “Miguel, D. (1802-1866)”, in tentes ideológica, organizativa, tecnológi-
SERRÃO, Joel (dir.), Dicionário de História de ca, estratégica e tática, tenha emergido
Portugal, vol. iv, Porto, Figueirinhas, 1981, pp.
de um conjunto de profundas alterações
291-294; SILVA, Armando B. Malheiro da,
Miguelismo: Ideologia e Mito, Coimbra, Minerva verificadas na Europa entre os sécs. xvi e
Histórica, 1993; Id., “O miguelismo na histó- xviii – o que tem sido divergentemente
ria contemporânea de Portugal: retrospectiva interpretado como uma verdadeira re-
e subsídios bibliográficos”, Itinerarium, vol. 39, volução militar ou, pelo contrário, como
1993a, pp. 537-647; SILVA, Innocencio Fran- um lento processo – é no séc. xix que a
cisco da, Diccionario Bibliographico Portuguez, instituição militar assume uma função
Lisboa, Imprensa Nacional, 1872; SILVA, Jor-
política e social inédita, bem visível não
ge Bastos da Silva, Shakespeare no Romantismo
Português: Factos, Problemas, Interpretações, Por- apenas na relevância direta que assume
to, Campo das Letras, 2005; TORGAL, Luís como instituição integrante da estrutu-
Reis, e ROQUE, João Lourenço (coords.), ra do Estado, mas também no lugar que
História de Portugal, vol. v, Lisboa, Círculo de ocupa na retórica política, como objeto
Leitores, 1993; TORGAL, Luís Reis et al., Histó- de relação com as opiniões públicas, e
ria da História em Portugal (Sécs. XIX-XX), Lisboa, como recurso nos imaginários nacionais
Círculo de Leitores, 1996. enquanto fonte de soluções em momen-
Conceição Meireles Pereira tos de crise.

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1268 Antimilitarismo

A manifestação de fenómenos antimi- a nobreza tinha no recrutamento e no co-


litaristas em Portugal ocorreu no contex- mando militar. A substituição destes exér-
to da “revolução militar” que, a partir do citos de feição ainda medieval por exérci-
séc. xvi, alterou a organização dos exérci- tos profissionais afirmava o poder régio,
tos e abalou a hierarquização social que ne- ao mesmo tempo que arredava a nobreza
les se projetava. Esta é, aliás, uma das cau- de uma função que fora em grande me-
sas mais diretas da emergência da primeira dida identitária daquele grupo. Não será
manifestação antimilitarista em Portugal. portanto de estranhar que a reação à
A manutenção de exércitos permanen- orientação da reforma então introduzida
tes e profissionalizados foi vista com des- tenha assentado num particular enten-
confiança pelos que ainda olhavam para dimento moral e social da natureza da
o exercício da guerra como um dever de guerra e das virtudes do combatente. As-
honra e uma inerência de estatuto, de- sim, a Lei das Ordenanças de D. João III
signadamente as funções de chefia em sobre os cavalos e sobre as armas (1549),
combate. É neste contexto que se pode que foi ampliada pela lei de D. Sebastião
enquadrar a resistência às Ordenanças de de 9 de dezembro de 1569, marca uma
D. João III, o monarca que introduziu as clara intenção de militarização da socie-
primeiras medidas tendentes à criação de dade, impondo a generalização da posse
um exército moderno. D. João III preten- de cavalos e de armas, ou só de armas,
dia levar a termo uma reforma que as difi- consoante o património, introduzindo
culdades militares sentidas pelo reino em uma importante alteração no estatuto
África e na Índia vinham a demonstrar pessoal daqueles que tivessem cavalo, ao
necessária – e que fora anteriormente im- estender a estes a escusa de pena vil, tra-
possibilitada em grande parte pela falta dicional privilégio da nobreza. Trata-se
de organização do reino e pela prepon- de um bom exemplo da forma como a
derância que D. Manuel fizera questão militarização da sociedade implicou uma
de continuar a reconhecer à nobreza. Se, erosão de velhas hierarquias; a genera-
perante as tentativas de mudar as formas lização das funções militares e a adoção
de recrutamento, os impasses se deveram de um critério puramente patrimonial na
sobretudo à inércia e à falta de organiza- organização das armas traduziu-se numa
ção administrativa, as reformas impostas desqualificação da nobreza.
pela legislação de D. João III e de D. Se- À crítica da profissionalização da arte
bastião, que visavam já a adaptação mili- militar e do abandono da honra pela
tar do país às inovações implementadas técnica – do cavaleiro pelo mercená-
pelas principais potências europeias, con- rio –, que dificilmente passava de uma in-
correntes de Portugal em vários cenários, tenção, contrapunha-se o desenvolvimen-
bem como às dificuldades militares que o to de uma tendência social e cultural de
reino experimentava, especialmente nas sentido diferente, mas igualmente eficaz
praças do Norte de África, suscitaram ou- na desconstrução do tradicional modelo
tro tipo de resistência. moral, social e cultural do combatente.
A construção dos Estados modernos Paralelamente às intenções políticas de
também passou pela criação de exércitos profissionalização, as necessidades prá-
profissionais, correspondendo à tendên- ticas impostas pelo desenvolvimento do
cia de centralização do poder em detri- império e da respetiva administração
mento dos poderes intermédios – que no num reino parco em homens haviam sus-
plano militar se mantinham no papel que citado o aparecimento de um novo tipo

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Antimilitarismo 1269

de combatente, forjado em cenários de progressivamente absolutista a partir do


combate ultramarinos, em tudo distantes séc. xviii, com a perspetiva iluminista da
das práticas da guerra formalizada euro- guerra, mais técnica e menos épica, con-
peia, adaptando o mais das vezes táticas tribuíram para que se acentuasse a espe-
de combate locais, informais, pragmáti- cificidade da organização militar e para
cas, alheias às convenções de moral e de que esta se definisse politicamente, auto-
honra tradicionais. nomizando-se o seu papel enquanto ins-
Correspondendo aos intentos da legis- trumento dos interesses do Estado. Ates-
lação quinhentista e a atestar a preponde- ta-o, especificamente, a legislação militar
rância política que a nova perspetiva da pombalina. No entanto, importa registar
guerra ganhou, assistiu-se ao desenvolvi- a tendência de perceção social e reação
mento de uma literatura militar de cariz contra um dos aspetos da modernização
técnico, de que são exemplo o Quarto Li- militar em Portugal durante os sécs. xvii
vro de Isidoro de Almeida das Instruções Mi- e xviii – a da resistência ao recrutamen-
litares (1573) Arte Militar (1612), de Luís to. Fosse pela necessidade de homens no
Mendes de Vasconcelos; Abecedário Militar espaço do império, sobretudo na Índia, a
(1631), de João Brito de Lemos; e Regi- que o modelo de recrutamento voluntá-
mento Militar (1644), de António Galo. rio do séc. xvi já não conseguia respon-
Também obras de cariz político fazem der, fosse por força da inserção do reino
eco, tanto no contexto da consolidação no espaço geopolítico da casa de Áustria,
do império e como no da Restauração, que estava sob o domínio filipino, sobre-
da dimensão estratégica de uma renova- tudo a partir do ano de 1639, e depois no
ção da ciência e da técnica militares: “Do contexto da Restauração, o sentido do
muito que importará para a conservação recrutamento foi alterado, deixando de
e aumento da monarquia de Espanha, as- corresponder a uma mobilização pontual
sistir Sua Majestade com sua corte em Lis- para uma ação militar concreta, material
boa” (1624), e “Discurso sobre a Ordem e temporalmente definida, e adquirindo
da Milícia que antigamente havia em Por- um carácter indeterminado, ao mesmo
tugal e das forças militares que hoje tem tempo que passou a reforçar a tendência
para se conservar e ficar superior a seus de progressiva universalização do servi-
contrários”, publicado em Notícias de Por- ço militar. Além disto, a falta de homens
tugal (1655), ambos de Manuel Severim obrigava a recrutar crianças desde os 12
de Faria; Política Militar (1638), e Historia anos. A disrupção da vida familiar, social
de los Movimientos y Separación de Cataluña e económica que um recrutamento deste
(1645), ambos de D.  Francisco Manuel tipo implicava provocou uma generaliza-
de Melo. da fuga ao mesmo, desde logo através dos
O período da Restauração não acolheu, “recebimentos”, que alguns comissários
naturalmente, movimentos culturais anti- e outros agentes envolvidos no processo
militaristas, e a posterior pacificação as- aceitavam para “livrar” homens, autênti-
segurada pela consolidação do estatuto cos resgates que várias famílias pagavam
político e diplomático de Portugal no repetidamente para salvar os filhos. Esta
contexto europeu, após a paz de Utrecht, situação manteve-se ao longo do séc. xviii
reforçou essa tendência. e nem o recrudescimento da punição da
O desenvolvimento da teoria da razão fuga e do auxílio a fugitivos, determinada
de Estado desde o final do séc. xvi e o es- na legislação pombalina (alvará de 6 de
tabelecimento de um regime de pendor setembro de 1765), conseguiu inverter a

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1270 Antimilitarismo

benevolência com que o fenómeno era


tratado – e que se traduzia em perdões
gerais periódicos, retomados no final do
reinado de D. José, no dec. de 3 de outu-
bro de 1776.
Outro foco de reação às reformas mi-
litares do conde de Lippe partiu dos
próprios oficiais portugueses. Além do
desconforto com a presença de oficiais
estrangeiros – que não se limitavam a um
grupo restrito de especialistas no coman-
do supremo, mas eram um vasto número
de oficiais, que se esperava viesse influen-
ciar o comportamento dos portugue-
ses – foi também, nas palavras do próprio
conde de Lippe, a rejeição da disciplina e
do treino diários, a “chère paresse”, que
suscitou a aversão que Dores Costa qua-
lificou como manifestação da verdadeira
“aculturação” que a tentativa de profissio-
nalização das forças militares portuguesas
no séc. xviii representou, e que não terá
sequência (COSTA, 2004, 348-350).
A autonomização da instituição militar, Folha de rosto de Regulamento para o Exercicio
associada à consolidação do Estado mo- e Disciplina (1763), feito por ordem do conde
de Lippe.
derno, fez-se de uma progressiva tecni-
cidade e das mutações sociais e culturais
que ela implicava, e traduziu-se, no plano de dezembro de 1643 e Regimento dos
jurídico, na definição de uma jurisdição Governadores de Armas de 1 de junho de
própria. 1678). Paralelamente, alargou-se o privi-
Apesar de anteriormente o direito légio de foro, que não implicava a aplica-
português ter conhecido a solução for- ção de um direito especial).
mulada pelo direito romano de isentar Passo fundamental na sedimentação da
os militares do foro comum, mesmo no jurisdição militar é a reforma setecentista
âmbito da reforma introduzida pela pro- introduzida pelos regulamentos do con-
visão de D. Sebastião, de 15 de maio de de de Lippe (alvará de 18 de fevereiro
1574, só reservava à competência dos de 1763), nos quais pela primeira vez se
oficiais superiores algumas matérias de procedeu a uma compilação de direito
carácter essencialmente disciplinar inter- penal e processual militar. Após a nomea-
no, recaindo as restantes sob a jurisdição ção de uma junta para a elaboração de
civil. Só no contexto da Guerra da Res- um Código Penal Militar, a 21 de março
tauração, a partir de 1643, é que foi cria- de 1802, e de um Código Penal da Ma-
da uma jurisdição especial para matérias rinha, a 23 de março de 1804, viria a ser
militares, que admitia recurso aos tribu- finalmente aprovado em 7 de agosto de
nais superiores militares, encimados pelo 1820 o Código Penal Militar, que foi o pri-
Conselho de Guerra (Regimento de 22 meiro código contemporâneo português.

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Antimilitarismo 1271

As reformas militares de 1806 e de 1834, A crítica ao militarismo será retomada


que visavam reforçar o Exército regular e no contexto da reação política de secto-
reduzir os variados corpos milicianos, de- res republicanos ao golpe de 28 de maio
monstram uma continuidade no modelo de 1926. Em O Militarismo, publicado em
organizativo, que, portanto, não sofreu 1927, Bernardino Machado estabelece o
alterações com a mudança de regime. sentido do conceito como “a pior de to-
“Não existe um modelo de Exército ou de das a fações” que não deve ser confundi-
Marinha do absolutismo contra um mo- da com o “exército inteiro” (MACHADO,
delo do liberalismo. O que assistimos foi 1927, 107). Antes, retrata o controlo e a
a organizações, reorganizações, extinções instrumentalização das forças militares
e, na sua maioria, intenções de reestru- com fins políticos: “os chefes militaristas
turações fundamentalmente ditadas ou mantaram a máquina política dentro da
por necessidades operacionais ou, espe- força pública. Após os conclaves à porta
cialmente entre 1820 até 1834, por ne- fechada no Ministério da Guerra, trans-
cessidades de filiação e lealdade” (PIRES, mitem as deliberações tomadas aos qua-
2009, 258). Por outro lado, a conflituosi- dros das divisões. Chama-se a isto serviço
dade da primeira metade do séc. xix não de ligação. Mas é escandalosamente a ga-
se traduziu na dissociação das elites mili- lopinagem nos quartéis” (Id., Ibid.); um
tar e civil, verificando-se uma intervenção controlo que assenta, antes de mais, na
conjunta e recíproca entre ambas: “Se sua própria submissão humilhante, como
por um lado o exército se politiza, por ou- teria ficado demonstrado na célebre or-
tro, a política militariza-se” (MARQUES, dem “unidos e calados” dada em nota
1999, 190). oficiosa aos comandantes de algumas
O séc. xix não foi marcado por fenó- regiões militares descontentes com o go-
menos antimilitaristas, pelo contrário, vernador militar de Lisboa: “Os motivos
verificou-se uma renovada apologia do de descontentamento […] dizem respei-
espírito bélico, em face das necessida- to a assuntos sobre os quais aos oficiais é
des de defesa contra o invasor francês e extremamente difícil emitir opinião fun-
depois na violenta oposição entre fações damentada, porque são complexos e de-
que marcou a primeira metade do século, mandam aturado estudo. É de presumir
até à Regeneração. que, não podendo os oficiais, salvo raras
A crítica ao militarismo só voltará, pois, exceções, ter estudado cuidadosamente
a desenvolver-se expressivamente no séc. esses problemas, a sua opinião será for-
xx, e em grande medida contra o espírito mada pelo que ouvem dizer aos inimigos
herdado do século anterior. Além da he- da situação. […] Os oficiais devem, pois,
rança da Guerra Civil que marca até tar- fechar os ouvidos às intrigas, conservan-
diamente as dificuldades de pacificação do-se calados e unidos”. E observa, uma
do reino, a contestação internacional dos vez mais demarcando o que considera
direitos históricos de Portugal em África ser o vício do militarismo da nobreza da
inflamou a retórica interna, que respon- instituição, que o novo regime pretende
dia à necessidade de uma política de afir- transformar “a força pública em institui-
mação da pátria no final de Oitocentos, ção política […] discutindo secretamente
também no plano militar, de que foram os assuntos da governação” opinando que
exemplo as campanhas conduzidas em isso “é ferir de morte […] os princípios
África entre 1894 e 1895 por Mouzinho estruturais da própria sociedade militar,
de Albuquerque. que devemos fazer tudo por identificar

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1272 Antimilitarismo

com o espírito da nossa democracia, mas lítica volátil que levou alguns sectores da
nunca anarquizar despoticamente” (Id., sociedade civil a voltar a questionar o pa-
Ibid., 108). pel das forças militares na vida política.
Não pode deixar de se notar que o mili- Assim, interroga-se Raúl Rêgo, em 1981,
tarismo do novo regime, que Bernardino “Vamos mergulhar no militarismo?”, en-
Machado aponta, recordando os sucessi- quanto “disfarce de ditadura” (RÊGO,
vos episódios de aviltamento da institui- 1981, 11), perante as dificuldades que a
ção, foi marcado pelo controlo político iniciativa revolucionária e a tutela mili-
sobre as forças militares e não o inverso, tar do regime colocavam a uma socieda-
como seria provável esperar de um re- de pouco instruída e sem preparação po-
gime instaurado por um golpe militar. lítica, de que o Programa do Movimento
É também esse o sentido da identificação das Forças Armadas era um inevitável
do “exército republicano” (numa apro- exemplo.
priação também ela tipicamente republica- A opção constitucional da revisão de
na…) com a democracia, atraiçoado pelo 1982, que eliminou a tutela revolucioná-
militarismo e vítima irredutivelmente ria militar consubstanciada no Conselho
separada dos ditadores pelas injúrias, in- da Revolução foi um claro sinal de nor-
dignidades e traições cometidas aos que, malização da vida política em Portugal e
como Mendes Cabeçadas e Gomes de marca, de certa forma, um corte com a
Costa, haviam liderado o golpe para se- tradição de interferência militar na vida
rem rapidamente afastados do poder real. política do país que caracterizou o séc.
A denúncia do militarismo do regime xix e as primeiras décadas do séc.  xx
de 1926, reforçado a partir de 1928, e em Portugal. A desmilitarização, que
depois do Estado Novo, não é tanto a de não se esgotou no momento pós-revolu-
um regime sob tutela militar, mas da ins- cionário, correspondeu à consolidação
trumentalização política das forças milita- democrática de uma tendência política
res. Veja-se, paradigmaticamente, o papel introduzida pelo Estado Novo, e foi uma
apagado do presidente da República, in- condição necessária ao processo de inte-
variavelmente oriundo da carreira militar. gração do país na comunidade europeia.
A permanência dos altos comandantes Mais recentemente, esta tendência ma-
militares como chefes de Estado cumpria nifestou-se em Portugal no movimento
o propósito de tranquilizar a vida social e de contestação ao serviço militar obriga-
política, depois da instabilidade violenta tório, que era liderado pelas juventudes
da Primeira República caracterizada tam- partidárias, embora tivesse recolhido um
bém pelo envolvimento das forças arma- relativo consenso na sociedade civil (o re-
das. A retirada de protagonismo político gime de conscrição foi eliminado pelo
aos militares no séc. xx é visível na refor- dec.-lei n.º 289/2000, de 14 de novem-
ma da administração ultramarina, no- bro). Igualmente demonstrativa daquela
meadamente na progressiva substituição tendência é a mais complexa questão da
das administrações militares pelas civis. desmilitarização das forças de segurança.
O espoletar da guerra em África trou- A complexidade prende-se, desde logo,
xe às forças armadas um novo momento com a opção, vigente desde a déc. de 20
de proeminência na vida política e na so- do séc. xx, por um corpo de forças de se-
ciedade portuguesas e, com a queda do gurança de natureza dual, militar (Guar-
regime, em 1974, por força de um novo da Nacional Republicana) e civil (Polícia
golpe militar, seguiu-se uma situação po- de Segurança Pública), a que se juntou

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Antimilitarismo 1273

também uma força militarizada (Polícia Abecedario Militar do Que o Soldado Deve Fazer Se
Militar). A tendência internacional para a Chegar a Ser Capitaõ, Lisboa, Pedro Craesbeeck
desmilitarização das forças de segurança, Impressor del Rey, 1631; MACHADO, Bernar-
dino, O Militarismo, s.l., Editorial Lar, 1927;
a pressão interna de sectores alinhados à
MARQUES, Fernando Pereira, Exército, Mu-
esquerda ideológica, e o reconhecimento dança e Modernização na Primeira Metade do Sé-
de que as ameaças internas de natureza culo XIX, Lisboa, Cosmos, 1999; MATOS, Gas-
similar tendem a dissipar-se com a nor- tão de Melo, “Sobre o ‘Regimento de Guerra’
malização democrática têm vindo a ser quinhentista”, Anais da Academia Portuguesa de
apontados como argumentos para a pro- História, vol. 4, 1953, pp. 141-156; MELO,
gressiva unificação das forças de seguran- Francisco Manuel de, Política Militar, Madrid,
ça como forças puramente civis. en la Imprenta de Francisco Martinez, 1638;
Id., Historia de los Movimientos y Separación de
Cataluña, Lisboa, Pablo Craesbeeck Impressor
Bibliog.: ALMEIDA, Isidoro, Quarto Livro de de las Ordenes Militares, 1645; MORAIS, A.
Isidoro de Almeida das Instruções Militares, Évora, Faria de, “Arte militar quinhentista”, Boletim
André de Burgos, 1573; BEBIANO, Rui, “A do Arquivo Histórico Militar, vol. 23, 1953, sep.;
guerra: o seu imaginário e a sua deontologia”, MOURA, Vasco Graça, “A guerra na literatura
in BARATA, Manuel Themudo, e TEIXEIRA, portuguesa”, in BARATA, Manuel Themudo,
Nuno Severiano, Nova História Militar de Portu- e TEIXEIRA, Nuno Severiano, Nova História
gal, vol. 2, Lisboa, Círculo de Leitores, 2004, Militar de Portugal, vol. 5, Lisboa, Círculo de
pp. 36-67; COSTA, Fernando Dores, “A guer- Leitores, 2004, pp. 248-267; OLIVEIRA, Fer-
ra no tempo de Lippe e de Pombal”, in BA- nando, A Arte da Guerra do Mar, Lisboa, Edi-
RATA, Manuel Themudo, e TEIXEIRA, Nuno ções 70, 2008; PARKER, Geoffrey, The Military
Severiano, Nova História Militar de Portugal, Revolution. Military Innovation and the Rise of the
vol. 2, Lisboa, Círculo de Leitores, 2004, pp. West, 1500-1800, Cambridge, Cambridge Uni-
331-358; Id., “Milícia e sociedade”, in BARA- versity Press, 1988; PIRES, Nuno Lemos, “Das
TA, Manuel Themudo, e TEIXEIRA, Nuno Se- reformas militares de 1806 ao modelo de or-
veriano, Nova História Militar de Portugal, vol. 2, ganização de 1834”, in IV Congresso Histórico de
Lisboa, Círculo de Leitores, 2004a, pp.  68­ Guimarães – do Absolutismo ao Liberalismo, vol. iii,
‑111; COUTO, Diogo do, O Soldado Prático, Guimarães, Câmara Municipal de Guimarães,
Lisboa, Sá da Costa, 1954; ESPÍRITO SAN- 2009, pp. 229-264; RÊGO, Raúl, Militares,
TO, Gabriel Augusto do, “As resistências em Clérigos e Paisanos ou o Militarismo e Outras For-
Portugal à revolução militar quinhentista”, ças de Violência na Sociedade Portuguesa, Lisboa,
Revista Militar, n.os 2537-2538, jun.-jul. 2013, Perspectivas & Realidades, 1981; ROBERTS,
pp. 599­‑644; FARIA, Manuel Severim de, No- Michael, The Military Revolution, 1560-1660:
tícias de Portugal, 2.ª ed., Lisboa, Officina de An Inaugural Lecture Delivered before the Queen’s
António Isidoro da Fonseca, 1740; GALO, University of Belfast, Belfast, M. Boyd, 1956;
António, Regimento Militar, Que Trata de como los VASCONCELOS, Luís Mendes de, Arte Militar,
Soldados Se Hande Governar, Obedecer, y Guardar Alenquer, Vicente Alvarez, 1612; VICENTE,
las Ordenes, y como los Oficialos los Han de Gover- Gil, Obras Completas de Gil Vicente, vol. iv, Lis-
nar, Lisboa, Pablo Craesbeeck Impressor, & Li- boa, Sá de Costa, 1943.
vreiro de las Ordenes Militares, 1644; HALE,
Ana Caldeira Fouto
J. R., War and Society in Renaissance Europe, 1450­
‑1620, Baltimore, The John Hopkins Universi-
ty Press, 1985; HESPANHA, António Manuel,
“Introdução”, in BARATA, Manuel Themudo,
e TEIXEIRA, Nuno Severiano, Nova História
Militar de Portugal, vol. 2, Lisboa, Círculo de
Leitores, 2004, pp. 9-33; HOWARD, Michael,
A Guerra na História da Europa, Lisboa, Euro-
pa-América, 1977; LEMOS, João Brito de,

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1274 Antimiscigenacionismo

Antimiscigenacionismo ficação em períodos anteriores, também


porque o tema da miscigenação, ou mes-
tiçagem, se caracteriza por poder ser en-
tendido como partindo precisamente do
princípio anti, uma vez que, como constata
Laplantine e Nouss, “a mestiçagem sempre
tenha existido sobre o pano de fundo da

A ntimiscigenacionismo é a expressão
ideológica que se coloca em oposição
à miscigenação (do lat. “miscere”, misturar,
antimestiçagem (como a viagem e a desco-
berta do múltiplo sobre o pano de fundo
do sedentarismo e da avaliação a partir do
e “genus”, raça), i.e., à convivência, união e mesmo), ou seja, de um pensamento que
geração entre indivíduos de características privilegia a ordem e a origem” (LAPLAN-
fenotípicas diversas, e de que concomitan- TINE e NOUSS, 2002, 9). Neste sentido,
temente se relevam estruturantes questões também já Alexandre Magno, pela sua pa-
políticas, religiosas, sociais e culturais. radigmática união com Roxane, terá con-
Como alternativa a este termo, encontram­ citado as atenções coevas sobre as relações
‑se com frequência as designações de anti- interétnicas.
miscigenação e antimestiçagem. Fruto do encontro de culturas, em espe-
Protagonista da cena em que se perfi- cial a partir do quadro da primeira globa-
lam, em pano de fundo, os contornos do lização que caracteriza a época dos Desco-
antimiscigenacionismo, o movimento mis- brimentos (não escamoteando, porém, os
cigenacionista tem sido caracterizado es- permanentes encontros e o comércio de
pecialmente em três fases: a primeira diz povos e costumes durante a Antiguidade
respeito à época de expansão marítima, e em época de cruzadas), a miscigenação
através dos encontros dos povos europeus é uma prática frequente e continuada,
com o resto do mundo e da promoção de habitualmente caracterizada pelo cruza-
uniões entre colonos e colonizados por mento interétnico (também denominado
meio de casamentos mistos, muitas vezes inter-racial), de que resulta a geração de
com fins estratégico-políticos; a segunda indivíduos mestiços. Estes cruzamentos,
fase identifica-se com o amplo movimento no imediato proporcionados pelas circuns-
de refutação categórica da miscigenação, tâncias de aproximação dos povos e das
assente em pressupostos científicos, espe- gentes (que dão igualmente lugar a parti-
cialmente a partir dos finais do séc. xix, lhas e misturas sociais e culturais), foram
com a ascensão das teorias racistas, e ao também muitas vezes promovidos por via
longo das primeiras décadas do séc. xx; institucional, por meio de políticas de in-
a terceira fase diz respeito ao movimento centivo aos casamentos mistos entre colo-
ostensivo de reprovação das teorias racistas nizadores e colonizados.
(&Antirracismo), em particular protago- Designados por caboclos, mestiços, híbri-
nizado pela UNESCO que, por extensão dos, mulatos, mamelucos, cafuzos, bóeres­
e em complemento, contestou e rejeitou ‑hotentotes, cape coloured, anglo-polinésios,
todas as expressões antimiscigenacionis- entre outros, os descendentes das uniões
tas. Identifica-se, portanto, uma incidência ditas mistas foram, ao longo da história,
antimiscigenacionista mais pronunciada alvo de depreciações, que desembocaram
no quadro da segunda fase apontada. Não por diversas vezes em atitudes e políticas
obstante, para uma arqueologia deste mo- discriminatórias, e mesmo em políticas
vimento, os seus indícios merecem identi- proibitivas de miscigenação, expressão juri-

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Antimiscigenacionismo 1275

dicamente firmada do antimiscigenacionis- co, que pretendeu aferir, através de testes


mo (e.g. leis antimiscigenacionistas nos Es- de laboratório, que os seres humanos pro-
tados Unidos, na Alemanha nazi e na África cedentes de uniões mistas eram inferiores,
do Sul durante o apartheid). Ao mestiço uma vez que davam muitas vezes lugar a
(bem como a índios e a negros) eram fre- seres humanos degenerados. De notar que
quentemente atribuídas características que a designação naturalista de híbridos, tam-
tinham em vista denegrir o seu lugar na bém utilizada para estes filhos, colhe o seu
sociedade, colocando em causa a sua pre- primeiro sentido na raiz etimológica dada
sença dentro de um quadro de civilização pela palavra grega “hybris”, insolência.
e progresso: ingenuidade, brandura, indo- Em contraponto, por vezes assistiu-se
lência, selvajaria, propensão para o alcoolis- também a processos direcionados de in-
mo, zoomorfismo, etc. A palavra “mulato” centivo à miscigenação: na prática, avança-
constitui mesmo um exemplo linguístico va-se com uma política miscigenacionista
de cultivo desse manto depreciativo que co- como combate e sobreposição aos resul-
bre o tema miscigenacionista: tem por raiz tados da miscigenação. E.g., em território
“mulet” (mula), sendo por isso, desde logo, brasileiro, entre o final do séc. xix e o
formada com sentido pejorativo para desig- início do séc. xx, verificou-se a promoção
nar o filho de negro e branco. de uma política migratória que reforçasse
A disposição antimiscigenacionista irá a presença de europeus brancos (depois
destacar-se em especial a partir da segunda também asiáticos), a fim de que estes pu-
metade do séc. xix, sustentada em parti- dessem conceber descendência no país,
cular nas teorias evolucionistas, sob o pris- tornando a população cada vez mais bran-
ma das suas modulações sociais e culturais ca – o chamado processo de branqueamen-
(darwinismo social, a partir das teorias de to. Defendia-se uma gradual renovação da
Herbert Spencer e seus seguidores), bem população, com o progressivo caldeamen-
como nas teorias da superioridade rácica, to de indivíduos de tez negra e mestiça
de que a obra de Arthur Gobineau Essai sur com indivíduos brancos. Gizar-se-ia assim,
l’Inegalité des Races Humaines (1853-55) viria em simultâneo, uma identidade cultural,
a ser pedra de toque, entre outras, levan- social e política brasileira, no sentido de
do a uma diabolização dos descendentes uma cada vez maior afirmação nacional,
mestiços e a uma sistemática rejeição dos por meio da uniformização dos habitantes
mesmos, bem como, por extensão, destas e costumes. O elemento mestiço, fruto das
uniões. Biologicamente, o mestiço era o re- uniões entre índios, negros e brancos que
sultado do encontro entre raças ditas puras ali ocorriam desde a época dos Descobri-
e raças consideradas inferiores; o seu lugar mentos, era encarado como o “diferente
resultava, portanto, numa posição inter- nefasto”, i.e., “como lugar explicativo dos
média (in-between) entre um progenitor su- males da vida pública e privada” (MARUJO
perior e outro dito inferior. O mestiço se- e FRANCO, 2009, 19), entrando, portanto,
ria ainda um indivíduo intermédio numa para a lista de causas do atraso do Brasil;
leitura entre o eu e o outro, entre o coloni- era pois necessário eliminá-lo, como bode
zador e o colonizado, entre a civilização e a expiatório. Acreditava-se que, com o pro-
barbárie, não se enquadrando plenamente gressivo branqueamento da sociedade, o
na disposição político-social patenteada à país se aproximaria cada vez mais de um
época. Consequentemente, as correntes panorama de excelência, de progresso e
antimiscigenacionistas encontrariam su- de avanço civilizacional nunca antes visto.
porte fundamental no racialismo científi- Assim se desenvolveu, não uma tentativa

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1276 Antimiscigenacionismo

generalizada de marginalização dos mes- Em contexto português, tem-se verifi-


tiços, e de todos aqueles que não fossem cado com frequência, a par de análises
encarados como de raça branca, mas uma divergentes (&Antilusotropicalismo), a
política que visava a total eliminação da predisposição dos Portugueses para a mis-
presença mestiça no território brasilei- cigenação, proporcionada também pelo
ro  –  em suma, um “desejo de absorver e contacto constante com diferentes povos
apagar a cultura do outro” (Id., Ibid., 22). no território ibérico, bem como além-fron-
O antimiscigenacionismo representa teiras, durante e após a época dos Desco-
uma das vias para o racismo, ao condenar brimentos, sendo mesmo Portugal aponta-
a união entre as mulheres e os homens do como o país europeu em que mais se
de diferentes proveniências e a sua gera- verificaram encontros e misturas culturais.
ção. Asua refutação viria a ser consagrada Em especial no quadro ultramarino, a
internacionalmente pela UNESCO, num miscigenação concretizou-se através da
conjunto de estudos e documentos direcio- promoção de casamentos interétnicos,
nados em exclusivo para o combate ao pre- mormente com fins políticos, religiosos e
conceito rácico. Em particular, o documen- sociais. E.g., com as reformas pombalinas,
to The Race Question (1950) visará o tema o alvará de lei de 4 de abril de 1755 incen-
no seu ponto 13, destacando que, com rela- tivou a união entre os Portugueses e as ín-
ção à miscigenação, esta ocorre desde sem- dias, proibindo concomitantemente o uso
pre, não existindo factos que comprovem do termo “cabouclos”, com que se identifi-
que estes cruzamentos provocam degene- cavam as pessoas nascidas destes casamen-
rescências, não sendo, portanto, justificada tos. Semelhante política miscigenacionis-
biologicamente a proibição de casamentos ta, em confronto com o sistema de castas,
entre grupos étnicos diferenciados: “With também já tinha sido promovida por Afon-
respect to race mixture, the evidence points so de Albuquerque na Índia, aquando da
unequivocally to the fact that this has been conquista de Goa, em 1510.
going on from the earliest times. [...] State- Não obstante, o sentimento antimisci-
ments that human hybrids frequently show genacionista pode ser entrevisto quer no
undesirable traits, both physically and men- espaço social e cultural do Império e da
tally, physical disharmonies and mental de- metrópole (destaque-se o sentido de se-
generacies, are not supported by the facts. gregação e antimiscigenação que acarreta
There is, therefore, no biological justifi- a expressão da “pureza de sangue” ligada
cation for prohibiting intermarriage bet­ à questão do antissemitismo (&Antissemi-
ween persons of different ethnic groups. tismo), quer também nas suas expressões
[No que diz respeito à mistura de raças, literárias e científicas. No campo literário,
a prova aponta inequivocamente para o e.g., Gonçalves Crespo (1846-1883), poeta
facto de que isto se tem passado desde luso-brasileiro, reflete sobre a oposição
os tempos primevos. […] Afirmações de entre luz e sombra como incompatibili-
que os híbridos humanos mostram fre- dade de cruzamento: “Não pode a bruma
quentemente braços indesejáveis, quer espessa/Casar-se à luz do dia:/Unir-se a ti
física quer mentalmente, desarmonias fí- podia/A minha sorte avessa?” (CRESPO,
sicas e degenerescências mentais, não são 1942, 88); Hipólito Raposo (1885-1953)
suportadas pelos factos. Não existe, por patenteia também esta impossibilidade:
isso, nenhuma justificação biológica para “O mestiço é assim um ser imprevisto no
proibir o intercasamento entre pessoas de plano do mundo, uma experiência infe-
diferentes grupos étnicos]”. liz dos Portugueses, só para mostrar ao

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Antimiscigenacionismo 1277

mundo, por maravilha, que também as de um inquérito que, entre outras ques-
pretas são mulheres, filhas de Eva. [...] tões, coloca a da “conveniência ou inconve-
Contra os dois cúmplices deste consórcio niência, no ponto de vista dos altos interes-
proibido, nas feições dos filhos e netos, em ses nacionais e do progresso, de favorecer
suas almas confusas, assim é sempre casti- a mestiçagem”. Destaque-se o seguinte ex-
gada a rebelião contra a ordem estabele- certo: “‘O  maior perigo que se apresenta
cida no mundo” (RAPOSO, 1926, 55-56). à nacionalidade – escrevia um dos nossos
No campo científico, acompanhando amáveis correspondentes  – é (valha-nos
os avanços internacionais da antropologia Deus) a amulatação’. Outros dão a mesti-
física, nomeadamente desde a déc. de 80 çagem como ‘o melhor modo de coloniza-
do séc. xix, em Portugal desenvolver-se-á ção’. Dos adversários dos cruzamentos ra-
também trabalho na denominada área da ciais, alguns reclamam ‘humanidade’ para
antropobiologia, em especial durante as os mestiços existentes, outros reconhecem
primeiras décadas do séc. xx, com vocação que os mestiços ‘são aproveitáveis onde não
particular para os estudos complementares é possível a colonização europeia’” (Traba-
à questão colonial. No âmbito do I Con- lhos do 1.º Congresso..., 1934, I, 336-337).
gresso Nacional de Antropologia Colonial, Estado de direito fundado constitucio-
realizado no Porto, em 1934, comunica- nalmente no respeito pela dignidade da
ções como a de Eusébio Tamagnini, em pessoa humana, à luz dos princípios do
sessão plenária, intitulada “Os problemas direito internacional e da Declaração Uni-
da mestiçagem”, davam a conhecer os re- versal dos Direitos Humanos, Portugal de-
sultados da investigação de diversos antro- fine-se atualmente pelos valores da integra-
pobiólogos portugueses. Uma das questões ção, da multiculturalidade e da tolerância.
abordadas foi, consequentemente, a das O combate a toda e qualquer discrimina-
uniões mistas e dos seus resultados, bem ção, com base na nacionalidade, na cor ou
como a da sua perceção contemporânea na origem étnica, tem estado patente na
e matizes antimiscigenacionistas. Note-se legislação e nas políticas nacionais, de que
que, à oposição generalizada e categórica faz prova a instituição da Comissão para a
ao cruzamento étnico, se contrapõem de- Igualdade e Contra a Discriminação Racial
terminados requisitos para a miscigenação: (lei n.º 134/99, de 28 de agosto).
defende-se a miscigenação condicionada Não obstante, apesar de o sentimento
em alternativa a um antimiscigenacionis- antimiscigenacionista ser liminarmente
mo arrogado, apontando que as teorias refutado pela voz oficial das sociedades
que assumem os mestiços como seres infe- democráticas de tradição ocidental, fac-
riores, porque degenerados, estão assentes to é que nas mesmas “há movimentos e
em estudos particulares, não possibilitando atitudes culturais que subsistem, fazem a
a generalização e confirmação destes indi- construção de uma história de que não se
cativos, logo, não podendo ser confiáveis, fala, permanecem como atavismos que só
posição assumida, e.g., por Alberto C. Ger- a consciência democrática e culturalmen-
mano da Silva Correia, em comunicação te fundada poderá vencer. E que ignoram
intitulada “Os eurafricanos de Angola”. que a humanidade se construiu e conti-
Ainda no mesmo Congresso, o antropo- nuará a construir precisamente na base
biólogo Mendes Corrêa, em “Os mestiços de intersecções sucessivas” (MARUJO e
nas colónias”, disserta sobre as vantagens e FRANCO, 2009, 25)
desvantagens bio­psíquicas de certos cruza- Os discursos atuais com vista ao acolhi-
mentos étnicos. Revela ainda os resultados mento pleno de toda a humanidade no

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1278 Antimisticismo

seio das mais diversas sociedades e entre as


mais diversas culturas continuam, portan-
Antimisticismo
to, a convocar a reflexão e o debate pro-
fundo, crítico e construtivo no contexto
do presente quadro global: “Hoje em dia
um discurso antirracista, favorável à ideia
de mestiçagem e à de multiculturalismo
co­existe com movimentos de afirmação
identitária e de defesa de direitos de cida-
dania que acentuam a separação, na base
O termo “mística” comporta consigo
uma complexidade e ambivalência
grandes. Ao longo dos tempos, este vocá-
de uma análise crítica do processo racial bulo foi assumindo significações variadas,
na história e no presente. Neste ambiente, nos mais diversos campos culturais e re-
miscigenação, mestiçagem e hibridismo ligiosos, tornando-se não raras vezes alvo
continuam a ser nós discursivos que conta- de abusos de utilização. Hoje, tanto se
minam de ambiguidade – mas também de fala de mística no âmbito religioso como
abertura de sentido – as práticas emancipa- de mística empresarial, mística do fute-
tórias” (ALMEIDA, 2000, 200). bol, mística da natureza, etc.
A fenomenologia da religião tem sido
grandemente responsável pela realização
Bibliog.: ALMEIDA, Miguel Vale de, Um Mar da de um estudo sério sobre esta temática,
Cor da Terra: Raça, Cultura e Política da Identidade, devolvendo quer ao termo quer à nature-
Oeiras, Celta, 2000; BARATA, Óscar, “Misci- za das experiências místicas o valor fun-
genação”, in Enciclopédia Verbo Luso-Brasileira dante da sua verdadeira significação. Esta
de Cultura: Edição Século XXI, vol. 20, Lisboa/
investigação tem trazido a público os tra-
São Paulo, Verbo, 1999, cols. 6-7; BETHEN-
COURT, Francisco, Racismos: das Cruzadas ao ços característicos da mística nas grandes
Século XX, Lisboa, Temas e Debates/Círculo de religiões orientais, nas grandes religiões
Leitores, 2015; CASTELO, Cláudia, “O Modo proféticas e nas diferentes formas não
Português de Estar no Mundo”: O Luso-Tropicalis- religiosas. Discute-se ainda, neste âm-
mo e a Ideologia Colonial Portuguesa (1933-1961), bito, se é legítimo falar de semelhanças
Porto, Afrontamento, 1998; CRESPO, Gon- entre diferentes experiências místicas; se
çalves, Obras Completas de Gonçalves Crespo, Rio
podemos ou não considerar existir uma
de Janeiro, Livros de Portugal, 1942; LAPLAN-
mesma linguagem mística, independen-
TINE, François, e NOUSS, Alexis, Métissages:
de Arcimboldo à Zombi, Paris, Éditions Pauvert, temente da crença que lhe está subjacen-
2001; Id., A Mestiçagem, Lisboa, Instituto Pia- te; se às ditas experiências cume, de sen-
get, 2002; LUCIANI, José Antonio Kelly, Sobre timento oceânico, de estados alterados
a Antimestiçagem, Desterro, Cultura e Barbárie, da consciência, de consciência cósmica,
2016; MARUJO, António, e FRANCO, José etc., se poderá chamar experiência mís-
Eduardo (coords.), A Dança dos Demónios. Into- tica. Estas são, na realidade, algumas das
lerância em Portugal, Lisboa, Círculo de Leitores/
questões que ilustram a complexidade do
Temas e Debates, 2009; RAPOSO, Hipólito,
Ana a Kalunga, Lisboa, s.n., 1926; SCHMIDT, universo da mística.
Nelly, Histoire du Métissage, Paris, Éditions de Uma certa leitura contemporânea, não
la Martinière, 2003; Trabalhos do 1.º Congresso tão interessada no aprofundamento desta
Nacional de Antropologia Colonial, 2 vols., Porto, questão, oferece uma interpretação pejo-
Edições da 1.ª Exposição Colonial Portuguesa, rativa do misticismo. As narrações desta
1934. categoria de experiências são assumi-
Susana Alves-Jesus das, na quase totalidade dos casos, como

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Antimisticismo 1279

estranhas, fantasiosas, oligofrénicas, se- envolve por inteiro, vivendo arreigado na


cretas, mágicas, etc. A consequência é sociedade e na cultura onde se insere.
clara: tais experiências são desacreditadas Torna-se “forjador de história” (GONZÁ-
e as pessoas que as protagonizam, tidas LEZ, 2004, 30). Assim, a mística não é de
como místicas, são alvo de ostracização todo uma experiência solipsista ou aliena-
social. Há, contudo, a visão contrária, que da do mundo, mas antes uma experiência
considera que as mulheres e os homens de alteridade e de construção criativa do
místicos são seres pertencentes a uma es- mundo. A relação amorosa e de cumplici-
fera especial que os distingue do huma- dade com o divino a quem ama, a intensi-
no comum, seres acima da realidade e dade desta experiência, determina todo o
superiores ao mundo que são objeto de trabalho interior que o místico empreen-
fenómenos extraordinários (visões, êx- derá no conhecimento de si, no desen-
tases, estigmas, etc.), sendo convertidos, volvimento da sua personalidade  –  pro-
por isso, em seres venerados pela ordem cesso em que estão implicados todos os
superior que representam. níveis neurológicos, todas as estruturas
Ora, o termo “místico” procede do psicofísicas –, operando mudanças de
termo grego “mystikos”, que significa o consciência que escapam à perceção dos
que é relativo aos mistérios religiosos (“ta demais. A sua linguagem mística revela,
mystika”), e do verbo “myo”, que exprime nas dimensões humanas que lhe são ine-
a ação de fechar a boca, fechar os olhos. rentes, toda esta experiência, assim como
Esta significação orienta-nos para a noção os movimentos amorosos que o divino e o
de realidades misteriosas, ocultas, secre- humano realizam nesta relação de amor.
tas. Durante bastante tempo, utilizou-se Logo, a linguagem mística é linguagem
o termo “misticismo”. Porém, este termo de experiência e, como tal, é convite à ex-
remetia facilmente para as ideias mais ne- periência. Sendo linguagem experiencial
gativas associadas a esta realidade. Hoje, de amor, ela expressa, de forma simbólica
usa-se o termo “mística” sempre que nos e metafórica, a vocação mais sublime do
referimos a estas experiências humanas humano: a vocação ao amor, no Amor.
de relação íntima com o divino. No âmbi- Um quadro de oposição ao misticismo
to do cristianismo, a mística é uma expe- conduz-nos em direção a duas frentes dis-
riência humana de totalidade, de relação tintas, porém indissociáveis: a da pessoa
consciente, amorosa, com o divino. Místi- do místico e a da mística na sua ampli-
ca é relação de amor, portanto, na qual o tude. A oposição à pessoa que é sujeito
todo do humano está envolvido e busca a de experiência mística é aqui tomada
união com o divino, estado último de co- pela designação de antimístico(a). Esta
munhão. O divino revela-se no centro da posição negativa situa-se na oposição à
alma, tomando assim a iniciativa da rela- personalidade da pessoa, à sua ação ou à
ção amorosa. O humano toma consciên- sua obra discursiva. Neste âmbito, os ca-
cia desta presença no mais íntimo de si sos multiplicam-se no panorama europeu
mesmo e a ela responde, amando este tu cristão. Contra Mestre Eckhart (1260­
divino que se lhe comunica. O místico é ‑1328), místico alemão, é movido um pro-
sempre o humano após esta experiência cesso inquisitório, sendo alguns dos seus
de presença relacional. É a partir desta artigos considerados heréticos, nomeada-
relação, portanto, que o místico delineia mente por João XXII, que, na sua bula
toda a sua presença no mundo. Longe de In Agro Dominico, condena 28 proposições
se alhear do tempo em que vive, nele se do místico. Marguerite Porrette (c. 1250­

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1280 Antimisticismo

‑1310) deixou um texto místico, Le Miroir quisidor Fernando de Valdés. Tanto Iná-
des Âmes Simples et Anéanties, condenado cio de Loiola (1491-1556), como os seus
em 1306 (chegando a ser queimado nes- companheiros, ainda estudantes de Teo-
te ano) e, novamente, em 1309. Porrette logia, experimentaram durante 42 dias
é condenada por heresia pela Inquisição a prisão, resultante da perseguição em-
em maio de 1309, acabando queimada na preendida pela Inquisição de Toledo. Em
fogueira no ano seguinte. Nos territórios causa estava o ensinamento de conteúdos
franceses, são ainda elucidativos outros da fé por pessoas sem formação completa
casos. Madame Guyon (1648­‑1717), figu- em Teologia. Teresa de Ávila é também
ra indissociável da questão do quietismo um bom exemplo desta intervenção anti-
em França, não compreendida nem acei- mística. O alvo é tanto a pessoa de Teresa
te no que se refere à sua personalidade e como os seus escritos, muito em especial
aos seus escritos, facto para o qual tam- o Livro da Vida. Esta mulher abulense não
bém terá concorrido a proximidade a Mo- mostrava qualquer receio face ao poder
linos, é condenada e presa durante meses de então. Alertada para os “tempos difí-
pelo Rei Luís XIV, após a escuta das con- ceis” que se viviam e para o perigo que
clusões do exame a que o bispo Bossuet corria de ser acusada junto da Inquisição,
a tinha submetido. No contexto ainda do a resposta de Teresa não tardou: “Disse,
quietismo, estão também os famosos pro- pois, que disso não temessem; muito mau
cessos de Molinos e de Fénelon. O místico seria para a minha alma se nela houvesse
espanhol Miguel de Molinos (1628-1696) coisa que fosse de mole a eu temer a In-
foi exposto a um processo complexo de quisição. Se pensasse que havia de quê,
acusação das suas ideias quietistas. A 20 de eu mesma a iria buscar, mas, se fosse in-
novembro de 1687, o Papa Inocêncio XI ventado, o Senhor me livraria e ficaria eu
condena as suas doutrinas, através da bula com o lucro” (TERESA DE JESUS, 2000,
Caelestis Pastor. Com François de Salignac 134). Esta sua obra chegou mesmo a ser
de la Mothe Fénelon (1651-1715) o pro- sequestrada pela Inquisição. O próprio
cesso não foi diferente, tendo este teólogo Francisco de Osuna, embora aconselhas-
francês visto 23 das suas proposições con- se os fiéis a não caírem nas práticas dos
denadas como quietistas pelo Papa Ino- alumbrados, acabou por ser acusado de
cêncio XII, na sua bula Cum Alias (12 de ser um deles.
março de 1699). Não longe desta realidade estão as mu-
Em terras espanholas, no período do lheres e os homens místicos do nosso
chamado “século de ouro”, a vida dos país. Alvos de acusações de heresia, bru-
místicos não foi igualmente fácil. O Santo xaria, quietismo, profecias, etc., das místi-
Ofício sempre seguiu bem de perto mís- cas e dos místicos portugueses se ocupam
ticos como S. João de Ávila (1499-1569), também as acusações inquisitórias. Ve-
S.ta Teresa de Ávila (1515-1582), Fr. Luís jam-se os autos de fé de Coimbra, Lisboa
de Granada (1504-1588), Fr. Luís de e Évora no séc. xviii e o número elevado
Leão (1528-1591), S. João da Cruz (1542­ de casos condenados de molinosismo.
‑1591). Apesar de notáveis escritores e in- O quietismo foi um dos alvos claros da
tervenientes na sociedade do seu tempo, Inquisição em Portugal. Recordemos as
todos eles tiveram de enfrentar quer o condenações de Manuel da Silva Sant’Ia-
controlo inquisitorial, quer as acusações go, Teresa Maria de S. José, Fr. João de
de heresia. O famoso Libro de Oración de S.ta Teresa, Josefa do Sacramento e do
Luís de Granada consta do Index do in- P.e António da Fonseca. Fr. Francisco da

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Antimisticismo 1281

Anunciação, Afonso dos Prazeres e An-


tónio de S. Boaventura são, nesta altura,
figuras de destaque na luta contra o quie-
tismo. Na obra O Auto dos Místicos (2016),
António Vitor Ribeiro faz um percurso
pelo universo dos alumbrados, das profe-
cias, das aparições e dos inquisidores dos
sécs. xvi a xviii, a partir dos arquivos do
Tribunal do Santo Ofício. Esta obra leva
ao questionamento da complexidade que
envolve os sujeitos e as comunidades no
que toca à forma como se relacionam
com o divino, e como confluem na pes-
soa e na comunidade elementos diversos,
que vão desde as influências de corren-
S.ta Teresa de Ávila (1515-1582).
tes místicas vindas de fora das fronteiras,
passando pela própria elaboração mental
da pessoa, da sua crença, até aos horizon- à mística é o medo motivado pelo dife-
tes da cultura popular. Também o nosso rente; a intranquilidade face a tudo o
Gaspar de Leão vê o seu Desengano de que tem traços de mistério e se afigura
Perdidos (1573) entre os títulos proibidos distinto das fontes conhecidas leva a que
pelo Índice Expurgatório de 1581. Entre os isso seja apelidado de heresia, magia ou
espirituais portugueses, não é muito di- feitiçaria;
verso: o P.e António Vieira é alvo de um b) combate em nome da razão: o misti-
processo inquisitorial que se delonga por cismo apresentava-se, aos olhos dos seus
quatro anos; o P.e Manuel Bernardes, de opositores, como matéria do domínio do
insuspeita ortodoxia, não deixa de trans- subjetivo, não cabendo no domínio da ra-
parecer no início da Doutrina VII de Luz cionalidade, i.e., do que é próprio da com-
e Calor I (1696) o ambiente vivido à épo- preensão, da teologização do mistério da
ca quando diz que sujeita a sua obra “em fé, da racionalização investigativa-teológi-
tudo à censura e correção não só dos Su- ca, de um cristianismo teologizado, que
periores, a que toca, mas ainda de todos se sobrepõe a uma saudade da origem.
os que melhor sentirem” (BERNARDES, O próprio ensino da Teologia o denuncia
1991, 183). quando os planos dos cursos salvaguar-
A oposição aos místicos e às suas obras dam as disciplinas referentes ao crer, ao
levam-nos à interrogação sobre as mo- conhecer e ao celebrar, e quando a dog-
tivações que a fundam e aos traços que mática, a história e a liturgia são convoca-
ela denota. Com efeito, os fenómenos de das e a mística é ignorada. No contexto
marginalização da mística ou de oposição da Igreja Católica, que aqui nos ocupa,
à mesma, tendo em vista a sua supressão, é assinalável o facto de, após o Concílio
pretendem dela transmitir sinais de ar- Vaticano II, a teologia mística ter deixado
caísmo, de menoridade, de heterodoxia, de estar presente nos seminários católicos
etc., que, em nosso entender, se apoiam e nos departamentos de Teologia;
nos seguintes fatores: c) combate em nome do poder insti-
a) combate assente no medo: uma das tuído antirreformista: a tensão heresia/
razões mais imediatas para a oposição ortodoxia dos tempos medievais traduz

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1282 Antimisticismo

tam de impor uma ordem por via da au-


toridade instituída e da força, sendo disso
um claro exemplo, entre outros, a autori-
dade inquisitorial;
d) combate ao misticismo enquanto
domínio de interioridade ou de subjeti-
vidade: o combate ao misticismo assenta,
muitas vezes, na evolução ocorrida na es-
piritualidade de um fundo especulativo
para um sentido mais afetivo. Este movi-
mento conduz o misticismo para um uni-
verso mais alargado de pessoas, menos re-
servado e elitista. No entanto, este desvio
de rota para uma prática mais interior e
pessoal recebe uma leitura de oposição,
que afirma tratar-se de uma via de su-
blimação sexual: por um mecanismo de
repressão, o místico prescindiria do de-
senvolvimento normal da sua sexualida-
de, atingindo uma “realização fantástica
da energia erótica”; o encontro místico
seria uma “transposição do êxtase sexual
P.e Manuel Bernardes (1644-1710).
na linha do infinito”; os místicos seriam
“amantes frustrados”, “equivocados”, que
“por inibição, impotência ou por loucu-
a reação contra o feudalismo eclesiástico ra passam para o nível imaginário o que
e civil; o movimento humanista de tantas não conseguem realizar ao nível concre-
ordens, designadamente dos monges da to” (PIKAZA, 2007, 473). Esta identifi-
Cartuxa de Colónia, visa a reforma da cação do misticismo com as oscilações
Igreja, no campo eclesiástico e monacal, violentas dos humores e a dimensão pa-
em oposição a um modo de vida exterior tológica do religioso denota uma natural
e intelectualizado. Contra as fraquezas visão crítica de tal fenómeno, entendido,
e os desvios do mundo eclesiástico – “si- na formulação da ciência psicanalítica,
monia, corrupção do clero, relaxamento como subjetivo e estranho, estado de in-
dos frades menores, absentismo episco- fantilismo psíquico (Freud), estado de
pal, temporalidade da Cúria Pontifícia” regressão ao serviço do ego (Ross), pro-
(DIAS, 1960, 8) –, os reformadores apre- cura de uma completude narcísica con-
sentam propostas que visam uma vida in- cretizada através da ligação fusional com
terior e uma vida ativa orantes, fundadas Deus (Tesone), estado patológico ou de
no amor evangélico, i.e., puro, desinteres- sexualidade distorcida (Reich), produ-
sado e gratuito. Em rigor, cria-se um am- to do cérebro (Persinger). Em Portugal,
biente de antimisticismo, porque a místi- é obrigatória a referência a Sílvio Lima,
ca representa a consciência moral da vida que, no séc. xx, luta contra a crítica re-
cristã e, por isso, da Igreja. Ao invés dos ducionista do fenómeno religioso feita
movimentos reformistas e no combate a por certa abordagem filosófica e cientí-
eles, os movimentos absolutistas necessi- fica, em particular no contexto de uma

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Antimisticismo 1283

leitura psicanalítica. Em “O amor místico porque só parece interessar-lhe a sua


(noção e valor da experiência religiosa)”, humanização. Como vimos, o incómodo
o autor critica a perspetiva da psicanálise provocado pelo misticismo decorreu, ao
do amor místico, “teoria erotogénica do longo dos tempos, de motivos diversos,
misticismo” (LIMA, 2002, 555), em que que têm, no entanto, como ponto co-
se reduz o amor místico ao amor sexual. mum a fidelidade às raízes evangélicas.
Lima é claro: “o fenómeno religioso não Tal fundação implica uma forte dimen-
se reduz ao fenómeno sexual” (Id., Ibid., são de verdade por parte da mulher e do
905). Esta sua obra – uma tese apresenta- homem místicos em relação ao Deus em
da para o concurso de professor extraor- quem creem e à Igreja na qual vivem; ser
dinário – constituiu um ensaio inovador reformista não é, necessariamente, criar
no seu tempo, inquietante e ousado, no fora; é, antes, recriar dentro, qual analo-
entender de muitos dos intelectuais da gia do movimento interior da alma, que
altura, mas não teve a melhor aceitação, não busca fora, mas dentro, o conheci-
tendo sido, na expressão do seu próprio mento de Deus e de si. A mística repre-
autor “exilado das livrarias, vendido clan- sentou ao longo dos tempos, sem dúvida,
destinamente como matéria inflamável” uma metaconsciência pessoal e eclesial.
(FERNANDES, 1979, 8); Hoje, é-o de igual modo. O humano que
e) combate em nome da recusa duma eliminou o divino da sua dimensão pes-
visão próxima de Deus e do sagrado: in- soal, relacional e universal é o humano
questionavelmente, a mística transporta que dá sinais claros de uma procura dessa
o divino e o humano para uma esfera de união, abraço incessantemente procura-
intimidade; ao contrário, os seus oposi- do e ainda não realizado. Para o huma-
tores insistem em colocar o sagrado na no de hoje, que procura o seu próprio
etérea esfera do distante. Fazem-no em contento e o seu próprio prazer, a mística
nome de um Deus com o qual o homem continua a ser o convite ao movimento
não é relacionável de forma direta, por- inverso: a entrega a Deus e aos outros na
que temem que tal relação prescinda sua totalidade. A oposição do humano
da estrutura mediadora da organização de hoje, crente ou não crente, ao movi-
da Igreja. Fazem-no pela ameaça duma mento místico pode traduzir-se, direta
prática de proximidade, mais íntima e ou indiretamente, consciente ou incons-
pessoal, que combatem com uma liturgia cientemente, no simples arredamento de
externa e uma arquitetura de distância. tal movimento. Na própria Igreja, ainda
O antimisticismo é, em suma, uma hoje se esquece que a vocação do cristão
reação de recusa daquilo que a mística, é uma vocação mística. A maior oposição
como uma das mais importantes expe- da sociedade laica e da Igreja à mística,
riências da vida do humano, traz à pessoa ao misticismo, não é hoje, porventura, a
e à sociedade, ou de defesa perante tal ação contrária, persecutória e opositora
experiência. A mística é o rosto do que de outrora, mas apenas o seu silêncio.
a sociedade atual, sem prejuízo doutras,
não entende, nem pretende: a lição do
Bibliog.: BERNARDES, Manuel, Luz e Calor,
despojamento, do não saber, do nada ter,
vol. i, Porto, Lello e Irmãos, 1991; BETHEN-
para se encontrar a si, encontrar tudo, COURT, Francisco, “Campo religioso e In-
encontrar o todo. O humano de hoje pa- quisição em Portugal no século xvi”, Studium
rece não ter ouvidos para o tema central Generale, n.º 6, 1984, pp. 43-60; DIAS, José
da mística, a “divinização do homem”, Sebastião da Silva, Correntes de Sentimento

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1284 Antimodernismo católico

Religioso em Portugal (Séculos XVI a XVIII),


Coimbra, Universidade de Coimbra, 1960;
Antimodernismo
FERNANDES, Barahona, “Revivendo um en- católico
saio de Sílvio Lima decapitado pela censura:
O Amor Místico”, Biblos, vol. 55, 1979, pp. 7­‑33;
GONZÁLEZ, Luis Jorge, “Mística del desar-
rollo humano”, in FERMÍN, Francisco Sancho
(coord.), Mística de la Plenitud Humana, Ávila,
Centro Internacional Teresiano-Sanjuanista,
2004, pp. 13-52; JUNIOR, Ario Borges Nu-
nes, Êxtase e Clausura. Sujeito Místico, Psicanálise e
Estética, São Paulo, Annablume, 2005; LIMA,
A questão modernista eclodiu no
seio da Igreja Católica em finais do
séc.  xix. Foi o coroar de um longo pro-
Sílvio, “O amor místico (noção e valor da ex-
cesso em que, no decorrer desse século,
periência religiosa)”, in LIMA, Sílvio, Obras
Completas, vol. i, Lisboa, FCG, 2002, pp. 553­
se foram manifestando múltiplas tomadas
‑921; PAIVA, José Pedro, “Revisitar o processo de consciência da necessidade imperiosa
inquisitorial do padre António Vieira”, Lusita- de abrir a cultura teológica e as estruturas
nia Sacra, 2.ª sér., t. 23, 2011, pp. 151-168; Id., eclesiásticas a novas ideias e a valores tra-
e MARCOCCI, Giuseppe, História da Inquisição zidos pelo mundo moderno, em acelera-
Portuguesa 1536-1821, Lisboa, A Esfera dos Li- da mudança. Essa imperatividade renova-
vros, 2013; PIKAZA, Xabier, Palabras de Amor: dora que anima o modernismo traduz, de
Guía del Amor Humano y Cristianismo, Bilbao,
maneira objetiva, a recusa do imobilismo
Desclée de Brouwer, 2007; RIBEIRO, António
Vitor, “Quando os santos recolhem ao leito: teológico e da estagnação doutrinal do
mística, santidade e modernidade em Portu- pensamento católico; significa também a
gal entre os séculos xvii e xx”, Lusitania Sacra, urgência de repensar saberes assentes na
2.ª sér., t. 28, 2013, pp. 119‑152; Id., O Auto autoridade de verdades dogmáticas, con-
dos Místicos. Alumbrados, Profecias, Aparições e trapondo-lhes o conhecimento construí-
Inquisidores (Séculos XVI-XVIII), Lisboa, Chiado do conforme o método histórico-crítico.
Editora, 2016; TAVARES, Pedro Vilas Boas,
Contudo, as iniciativas de abertura aos
Beatas, Inquisidores e Teólogos: Reação Portuguesa
a Miguel de Molinos, Dissertação de Doutora- apelos de renovação depararam frequen-
mento em Cultura Portuguesa apresentada temente com um muro de desconfiança
à Universidade do Porto, Porto, texto polico- e de rejeição, a que se juntavam pesadas
piado, 2002; TERESA DE JESUS, Obras Com- sanções eclesiásticas.
pletas, Paço d’Arcos, Carmelo, 2000; VELAS- É verdade que, em 1883, na encíclica
CO, Juan Martín, La Experiencia Mística: Estudio Saepe Numero, Leão XIII “recusava ali-
Interdisciplinar, Madrid, Trotta, 2004. nhar pelas teses dos tradicionalistas, para
Eugénia Magalhães quem a história contemporânea teria
dado origem à elaboração de uma vasta
conspiração contra a verdade” (RUSSO,
2008, 93). O mesmo Papa deu sinais po-
sitivos de inovação no relacionamento
com os regimes políticos e no apoio ao
catolicismo social e à formação da demo-
cracia cristã. Não terá estado, no entanto,
igualmente disponível para proceder à
renovação do pensamento teológico e da
correspondente linguagem. Ao promo-
ver na encíclica Aeterni Patris, em 1879,

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Antimodernismo católico 1285

o revigoramento e difusão da filosofia to- o anátema sobre quem afirmasse que


mista, Leão XIII colocava sob o signo do “o Pontífice Romano pode e deve re-
legado escolástico medieval o indispensá- conciliar-se e transigir com o progresso,
vel diálogo com o pensamento contem- o liberalismo e a civilização moderna”
porâneo. Por isso, tanto a vontade de mo- (PIO IX, 1861, LXXX).
dernização da linguagem teológica como Aos olhos da generalidade dos fiéis, os
o aparecimento e a divulgação do moder- esforços da hierarquia tendentes a resti-
nismo doutrinal foram, desde o primeiro tuir a doutrina e moral católicas ao mais
momento, denunciados em claras toma- estrito respeito pela tradição da Igreja e
das de posição contrárias à modernização à sintonia rigorosa com o depósito da fé
e ao modernismo. pareciam ser a posição certa e esperada.
Para ser corretamente interpretado, Assim o reclamavam figuras respeitáveis
o antimodernismo católico exige que se do integrismo católico oitocentista, en-
tome em consideração o lugar a partir do tre as quais D. Prosper Guéranger (1805­
qual ele se enuncia. Ocupa esse lugar a ‑1875), restaurador da ordem beneditina
Igreja da Contrarreforma, com os varia- em França. Aos olhos de outros católicos
dos campos em que interveio, depois de sinceros, tais medidas deixavam a Igreja
terem sido definidas pelo Concílio de mais distante da sensibilidade, da lin-
Trento (1545-1563) as prioridades de guagem e das aspirações do homem mo-
intervenção e reafirmados os pontos fun- derno. Tanto no meio clerical como no
damentais da doutrina católica. Verifica- laical, alguns espíritos mais atentos aos
mos que, em paralelo com iniciativas de progressos do saber histórico e filológi-
renovação eclesial tridentina nos âmbitos co, insatisfeitos com o tradicionalismo
doutrinal e pastoral, se desenvolveu um rotineiro da teologia e da apologética,
processo de distanciamento e incompati- enveredaram com audácia pela exegese
bilidade com os caminhos da revolução bíblica e pela história das origens cristãs,
cultural da Modernidade. Assim se foi aplicando-lhes os novos métodos e proce-
desenhando a figura do antimodernismo dimentos introduzidos noutros campos
católico, no seu sentido mais amplo. Con- de saber. Pretendiam responder por essa
figuraram-na todas aquelas fases em que via aos apelos vindos do novo foro cultu-
as iniciativas empenhadas em responder ral a que se mostravam particularmente
aos novos contextos culturais com rece- atentos. À reputação pouco satisfatória da
tividade e diálogo depararam com obstá- qualidade do ensino eclesiástico, procu-
culos dissuasores e com efetivas desapro- rou responder a investigação e o ensino
vações e censuras por parte da hierarquia teológico de nível universitário nos insti-
eclesiástica. Lembremos, a este respeito, tutos católicos fundados, a partir de 1875,
dois episódios relevantes. Com a encíclica em algumas cidades francesas, a começar
Mirari Vos, de 1832, o Papa Gregório XVI por Paris. Também a ciência das religiões
pôs termo ao movimento de aproximação tinha começado a desenvolver-se, por ini-
à cultura liberal animado por Lamennais ciativa de estudiosos sem filiação confes-
e pelo grupo de jovens católicos reunidos sional, como os orientalistas Eugène Bur-
à volta do jornal L’Avenir. Em dezembro nouf (1801-1852) e Friedrich Max Müller
de 1864, foi a vez de o Papa Pio IX pu- (1823-1900), e o especialista em crítica
blicar o catálogo de 80 erros modernos, bíblica Ernest Renan (1823-1892); e o
compendiados nas 80 proposições do Syl- protestantismo liberal, apoiado na erudi-
labus. A última dessas proposições lançava ção de filósofos, historiadores e exegetas

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1286 Antimodernismo católico

alemães, tinha assimilado tendências e in- comportou-se sempre como defensor do


terpretações que o tornavam mais próxi- pluralismo teológico e da recetividade
mo da mentalidade do tempo. Face a este da Igreja aos desafios do mundo moder-
contexto tão dinâmico culturalmente, no, tendo sido chamado, com justiça, o
seria estranho que o universo eclesiástico “Erasmo do modernismo”. Referindo-se,
permanecesse impermeável. mais tarde, à visita que von Hügel fez, em
De vários modos, foram surgindo ma- 22 de novembro de 1893, a Mons.  Mig-
nifestações corajosas de homens da Igre- not, Loisy qualificaria esse dia como “me-
ja empenhados em assumir as exigências morável na história do modernismo cató-
dos mais recentes saberes e assim reagir lico”. E acrescenta que essa bem poderia
com responsabilidade aos desafios da ser “uma das datas que marcaram o seu
ciência e dos novos horizontes sociais e começo” (GOICHOT, 2002, 36).
culturais. No Instituto Católico de Pa- O que visava afinal Loisy na linha de
ris, Louis Duchesne (1843-1922) asse- investigação sobre os fundamentos escri-
gurava com grande notoriedade acadé- turísticos do cristianismo? Propunha-se
mica o ensino da história da Igreja e a abandonar o ponto de vista dogmático
investigação sobre as origens históricas da teologia tradicional para passar a estu-
do cristianismo. O jovem Alfred Loisy dá-la a partir da história, a começar pela
(1857­‑1940), enviado a Paris em 1878, a história bíblica, de modo racional e críti-
fim de aí completar estudos de teologia, co. Os livros e artigos que foi publicando
conheceu Duchesne. A doença, porém, em revistas, como a Revue d’Histoire et de
obrigou-o a interromper os estudos. Vol- Littérature Religieuses, por ele fundada em
tou em 1881, contando, desde então, 1896, suscitaram ondas de suspeição, de
com a estima e apoio do mestre. Na Es- tal modo que se foi apertando o cerco à
cola de Altos Estudos, Loisy prosseguiu sua volta, cerco extensivo a amigos e cor-
a sua formação, especializando-se em respondentes. A publicação, em 1902, de
línguas orientais, história e crítica dos L’Évangile et l’Église marcou o irreversível
textos bíblicos. Depressa se convenceu, começo de uma sequência de proibições
em nome do espírito crítico, de que não e censuras. O cardeal Richard, arcebispo
era possível aceitar a conceção tradicio- de Paris, condenou a obra e proibiu a sua
nal sobre a verdade bíblica. Tal como leitura aos padres e leigos da Diocese, de-
acontecera com Duchesne, cujos escritos cisão logo seguida por outros bispos. Em
e cujo ensino o tinham tornado suspei- 1904, a obra passava a figurar no Index
to de ousadias contrárias à apresentação dos livros proibidos. O caminho revelou­
tradicional da história das origens cristãs, ‑se sem retorno, e de Roma emanaram
também Loisy vai sofrer as consequên- dois documentos, o decreto Lamentabili
cias de ter enveredado na Igreja Católica e a encíclica Pascendi, que tornaram for-
pelo estudo crítico da Bíblia e dos fun- mal, solene e universal a condenação do
damentos da fé. Sendo muitas as reser- modernismo.
vas e grande a hostilidade que suscitava, O Santo Ofício, pelo decreto Lamen-
não faltavam também demonstrações de tabili Sane Exitu, de 3 de julho de 1907,
interesse e simpatia vindas de amigos. compendiava em 65 proposições os erros
A esse número pertenciam, com alguns modernistas. Aí estavam alinhados erros
outros, Friedrich von Hügel (1852-1925) sobre matérias nucleares da doutrina ca-
e Mons. Eudoxe Mignot (1842-1918), tólica, como a autoridade das decisões
bispo de Fréjus e depois de Albi. Este doutrinais da Igreja, a inspiração bíblica

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Antimodernismo católico 1287

Para impedir inovações perigosas, o motu


proprio Sacrorum Antistitum, de 1 de se-
tembro de 1910, instituiu o juramento
antimodernista, a que ficava obrigado o
clero, em particular os professores de fi-
losofia e de teologia de seminários e uni-
versidades católicas.
Ainda que menos frequente, houve
também um antimodernismo professado
por modernistas dececionados. Ilustra
este tipo de antimodernismo a figura de
Albert Houtin (1867-1926), que, tendo
alinhado e participado ativamente no
movimento, veio depois acusar o mo-
dernismo de ser “empresa tão vã quanto
quimérica”, que, ao esforçar-se por forne-
cer novas interpretações do cristianismo,
participava afinal do “mesmo sistema de
mistificação” (Id., Ibid., 114). As reações
antimodernistas do tradicionalismo reli-
gioso e da hierarquia católica acabaram
Capa da Revue d’Histoire
por envolver o termo “modernismo” e a
et de Littérature Religieuses, n.º 1.
qualificação de modernista atribuída a
um autor ou a uma obra numa atmosfera
e a exegese, a revelação e o dogma, a cris- repulsiva de depreciação e injúria.
tologia, os sacramentos, a eclesiologia, o E em Portugal, que expressão teve o
evolucionismo religioso. A encíclica Pas- antimodernismo católico? Em Portugal,
cendi Dominici Gregis, de 8 de setembro de o antimodernismo confunde-se com a
1907, ao mesmo tempo que fazia o levan- defesa intransigente e combativa da dou-
tamento pormenorizado dos erros conti- trina católica tradicional e do magisté-
dos no programa modernista, preparava rio pontifício. Havendo o modernismo
os meios destinados a reprimir a propa- tocado a Igreja portuguesa só de modo
gação dessas doutrinas. Ao modernismo, muito superficial e confinado, também o
a que a encíclica se opunha intransigen- antimodernismo teológico foi pouco rele-
temente, era atribuída a natureza de sis- vante. Um e outro estiveram polarizados
tema organicamente estruturado, síntese em torno dos seus afloramentos sociais e
de todas as heresias e etapa de uma cami- político-partidários, sempre muito longe
nhada de destruição crescente da fé cató- do núcleo teológico-dogmático que ocu-
lica em que os protestantes haviam dado pou o centro da questão modernista e do
o primeiro passo, os modernistas o segun- antimodernismo condenado na encíclica
do, e se avançava a passo acelerado para o Pascendi, de Pio X. Embora o apelo à mo-
mais radical ateísmo. O anátema lançado dernização da vida católica no país tivesse
sobre os erros atentatórios dos dogmas surgido a partir de raros inconformistas,
era acompanhado por grande preocu- nunca essa preocupação encontrou apoios
pação quanto ao alastrar desses desvios de vulto na Igreja portuguesa. Parece irre-
e à proliferação de novidades doutrinais. futável que tanto o modernismo católico

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1288 Antimodernismo católico

como o antimodernismo passaram quase congregam tanto “os vários ramos das
desapercebidos, tendo sido aplicados obe- ciências e das letras, como da religião”,
dientemente os procedimentos e as regras manifestações acoimadas de “modernís-
antimodernistas ditados pela suprema au- ticas”. Amalgamava-se, deste modo, a fi-
toridade eclesiástica. gura do modernismo teológico com a do
As parcas manifestações modernistas modernismo estético e científico. Como
passaram por revistas como Voz de Santo o peso do anátema deixava antever, a co-
António, publicada em Braga a partir de notação do termo apresenta-se irremedia-
janeiro de 1895, e Estudos Sociais, publi- velmente pejorativa e minada de radical
cada em Coimbra, e por figuras como anarquia. Adianta-se mesmo uma “defi-
Manuel Abúndio da Silva (1874-1914), e nição” para não restarem dúvidas quanto
os Franciscanos Agostinho Mota (1875­ ao perigo que o modernismo augura à es-
‑1938) e Manuel Alves Correia (1881­ tabilidade da ordem social: “Sistema que,
‑1948). No entanto, neste modernismo desprezando todas as regras, estabelece
o que esteve sempre em primeiro plano como única a sua supremacia e indepen-
foi a questão política e partidária em tor- dência” (PORTUGAL, 1915, 239), assim
no do Partido Nacionalista, fundado em define Ribeiro Coelho o modernismo.
1903, e da obrigação ou não de, em cons- No mesmo Inquérito Literário, Manuel
ciência, os católicos votarem no partido António de Almeida, oficial do Exército,
católico. Manuel Abúndio da Silva e a Voz apressou-se a ensaiar uma clarificação,
de Santo António defendiam os princípios por considerar o juízo de Ribeiro Coelho
da doutrina católica e a sua aplicação à excessivo, no âmbito da sua aplicação.
organização da sociedade, mas opunham­ Entendia Manuel António de Almeida
‑se à confessionalização da vida partidária que a Igreja Católica não condenara o
e da participação política. Não consta, no modernismo em toda a sua extensão.
entanto, que tenha estado em causa em O anátema incidira apenas sobre a aspi-
Portugal, como núcleo central do moder- ração, definida como “um anelo para al-
nismo e do antimodernismo, a questão guma coisa de superior e vago” (Id., Ibid.,
bíblica ou a validade e evolução das ver- 229), “quando seja considerada como
dades de fé. origem ou forma de conhecimento, em
Um dos momentos culturalmente fe- especial do conhecimento das coisas su-
cundos em torno da crise modernista en- persensíveis” (Id., Ibid., 253-254). Reabi-
contra-se no Inquérito Literário de Boavida litava-se deste modo o modernismo esté-
Portugal. No contexto de um inquérito tico, que devia ser visto como efeito ou
literário promovido no diário República, produto da aspiração enquanto forma de
durante o outono de 1912, deparamos sensibilidade. Quanto à aspiração que é
com uma abordagem convergente, inédi- forma gnosiológica, sobre essa, sim, caíra
ta entre nós, dos modernismos religioso o labéu da condenação papal. Há nesta
e artístico. Em carta a Boavida Portugal, avaliação de Manuel António de Almei-
José Constantino Ribeiro Coelho, tipó- da uma ponderação certeira, ao atribuir
grafo católico e legitimista, denuncia o valor positivo ao modernismo em arte e
modernismo e o que designa por “siste- remeter para o domínio da aspiração ao
ma modernista” da Renascença Portu- conhecimento uma das características do
guesa. Regista o anátema lançado pelo modernismo teológico, sobre o qual in-
Papa Pio  X na encíclica Pascendi sobre cidiu o anátema do antimodernismo do
o complexo do modernismo em que se Papa Pio X.

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Antimodernismo literário 1289

Para fechar esta breve exposição, pare-


cem oportuníssimas as considerações de
Antimodernismo
Émile Poulat: “O modernismo histórico literário
morreu, mas não morreu sozinho. De-
sapareceu também do nosso horizonte
o meio cultural que se lhe opôs e o re-
jeitou. Nada o fará ressuscitar. Mas não
desapareceram nem foram resolvidos os
problemas que o dilaceravam” (POULAT,
1982, 222). Que não desapareceram os
problemas mostrou-o dramaticamente a
E ntre o final do séc. xix e o início do
séc. xx, surgiram, nos meios cultu-
rais, tendências de contestação da tradi-
inabilidade para respeitar a perenidade ção e dos seus velhos modelos estéticos,
do depósito da fé sem iludir a sua inser- em nome do que se pretendia inovação
ção na história dos homens, em casos e modernidade: foi o que se designa por
tão diversamente paradigmáticos como modernismo(s), englobando, na verda-
foram o de Teilhard de Chardin (1881­ de, uma diversidade de perspetivas, até
‑1955) e o da encíclica Humanae Vitae na sucessão temporal (primeiro moder-
(1968), entre outros. nismo e segundo modernismo), ultrapas-
sado o seu advento, sinais da renovação
que, afinal, periodicamente se verifica na
Bibliog.: BLONDEL, Maurice, Lettre sur les vida cultural. Ponderemos a moldura que
Exigences de la Pensée Contemporaine en Matière enquadra e esclarece os modernismos e
d’Apologétique (1896). Histoire et Dogme, Paris, os movimentos que os contestam.
PUF, 1956; COLIN, Pierre, L’Audace et le Soup- Desde meados do séc. xix, o fascínio
çon. La Crise du Modernisme dans le Catholicisme
com a ciência e as artes conduziu ao fascí-
Français, Paris, Desclée de Brouwer, 1997;
GOICHOT, Émile, Alfred Loisy et Ses Amis, Pa-
nio pelas suas mostras: as exposições uni-
ris, Cerf, 2002; LOISY, Alfred, Simples Réflexions versais corresponderam a esse desejo de
sur le Décret du Saint-Office Lamentabili Sane reunir, antologiar e catalogar, sistemica-
Exitu et sur l’Encyclique Pascendi Dominici Gre- mente, as cristalizações do progresso, do
gis, 2.ª ed., Ceffonds, ed. do Autor, 1908; “admirável mundo novo” em que todos se
PIO IX, Quanta Cura et Syllabus, 1861; PORTU- sentiam a participar. Essas exposições dei-
GAL, Boavida, Inquérito Literário, Lisboa, Livra- xaram pavilhões ou outros vestígios, in-
ria Clássica, 1915; POULAT, Émile, Histoire,
cluindo museus que recolheram muitos
Dogme et Critique dans la Crise Moderniste, s.l.,
Casterman, 1962; Id., Modernistica, Horizons, dos seus materiais e prolongaram o seu
Physionomies, Débats, Paris, Nouvelles Éditions gesto. Nesse itinerário de exposições – a
Latines, 1982; RUSSO, Daniel, “Les lectures lista é impressionante, de quase centena
de l’art sacré en France et en Europe au tour- e meia –, os impérios coloniais procura-
nant des années 1880-1920. Autour du ‘mé- ram destacar-se, numa guerra pela supre-
diévalisme’”, in Chaubet, François (dir.), Ca- macia da visibilidade, impondo a sua rea-
tholicisme et Monde Moderne aux XIXe et XXe Siècles
lidade e as suas representações, exibindo
autour du “Modernisme”, Dijon, Éditions Uni-
versitaires de Dijon, 2008, pp. 91-102; SOU- as insígnias da heterogeneidade que os
SA, João António de, O Conceito de Revelação constituía e tentando familiarizar as me-
na Controvérsia Modernista (1898-1910), Lisboa, trópoles e os outros países com ela, en-
Livraria Sampedro, 1972; TRESMONTANT, carada e feita encarar como prova da sua
Claude, La Crise Moderniste, Paris, Seuil, 1979. superioridade humana, cultural, política
Luís Machado de Abreu e militar. Foram as sucessivas Exposições

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1290 Antimodernismo literário

Coloniais, muitas delas com as exibições Unidas, em 1945). Após a Primeira Guer-
etnológicas, depois designadas por zoos ra Mundial, desapareceram três impérios
humanos. europeus (alemão, austro-húngaro e rus-
Portugal, além de participar em expo- so) e o turco-otomano, e começou a Gran-
sições no estrangeiro (Paris, Bulawayo, de Depressão (de 1929 até à Segunda
etc.), organizou as suas para exibir ao Guerra). Na Europa, o século vive uma
mundo o seu império, legitimando-o e profunda transformação. Alguns sinais:
reivindicando, também através desse ges- Interpretação dos Sonhos (1900), de Freud,
to, o respeito pelos direitos conquistados o Parque Güell (Gaudi), em Barcelona,
no terreno desde que, no séc. xv, Pêro da o Die Brücke (1905), em Dresden, a Teo-
Covilhã  encontrou o Preste João (de que ria da Relatividade (1905), de Einstein,
Francisco Álvares dará notícia em A  Ver- As Meninas de Avignon (1907), de Picasso,
dadeira Informação das Terras do Preste João, Ornamento e Delito (1908), de Adolf Loos,
de 1540) e foram pintados os  Painéis de Do Espiritual na Arte (1912), de Kandinsky,
S. Vicente de Fora (1470-80), de Nuno Gon- Quadrado Negro sobre Fundo Branco (1913),
çalves, descobertos no final do séc.  xix de Malevich, a revista De Stijl e os poemas
e reconduzidos ao providencialismo da sonoros dadá (1917). Entretanto, os ma-
propaganda do Estado Novo. nifestos do futurismo (1909), de Mari-
O séc. xx fragmentava-se entre guer- netti, do dadaísmo, de Hugo Ball (1916)
ras mundiais (1914-1918 e 1939-1945), e de Aragon (1920), do surrealismo
a Guerra Fria (1945-1991) e a tentação (1924), de Breton, a Exposição Surrealis-
conciliatória (Organização das Nações ta (1936); a bomba atómica, a Revolução

Exposição Universal de 1900, Paris.

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Antimodernismo literário 1291

Russa (1917). O questionamento, a vee-


mência, a irreverência, a inovação, a re-
volução e a tragédia eram os ingredientes
dessa profunda mudança de mentalida-
des, de uma humanidade que começa a
viver ao ritmo e em função da televisão,
do rádio, do telefone, dos aviões, dos apa-
relhos portáteis, do computador.
Entretanto, a arte deslumbra-se com a
ideia de si própria, de transformação e de
movimento, entre ecos de manifestos e
de experiências (Maiakovski, Eisenstein),
com transformações de regime em fundo
(em Portugal, o regicídio e a Primeira
República).
Na déc. de 30, a importância da expo-
sição, da visibilidade, emerge com uma
força e premência inquestionáveis: as
representações conquistam a cena e le-
gitimam-se como provas, demonstrações,
ilustrações de poder e de existência, prin-
cípio de realidade sobrepondo-se ao ver- Capa de Orpheu, n.º 1.
dadeiro real. É o tempo da propaganda
moderna dos regimes e dos Estados.
Emergindo dessa panorâmica, dese- de 1927, a revista presença (assim mesmo,
nham-se expressões estéticas que recla- com assumida minúscula) persiste até
mam a mudança cultural. Em 1915, a 1940, com mudanças na direção (Adolfo
publicação da revista  Orpheu, influencia- Casais Monteiro também a marcou) e de
da pelas grandes correntes estéticas eu- formato (a nova série de 1939-40), prota-
ropeias, reúne  Fernando Pessoa,  Mário gonizando e centralizando mais de uma
de Sá-Carneiro e  Almada Negreiros, en- década de debate e de influência crítica e
tre outros, congregando os que desejam estética no panorama cultural português.
contestar e inovar, promovendo, pela Designada Folha de Arte e Crítica, a revista
via estética, a mudança cultural. Mais tem ação marcante, e figuras como José
tarde, acalmada esta onda de irreverên- Régio (1901-1969) e João Gaspar Simões
cia estética e cultural, que também bebe (1903-1987) representam bem essa in-
nas raízes da cultura ocidental (são disso fluência caldeada em diversificada pro-
emblemáticas obras como “Começar”, de dução artística e ensaística: do romance à
Almada Negreiros) e que se prolonga e novela e ao conto, da poesia ao teatro, da
metamorfoseia por outras publicações, autobiografia ao memorialismo, da críti-
toma forma o presencismo, marcado pelo ca à historiografia, do desenho à pintura
psicologismo, movimento que crismou e ao cinema nascente, da reflexão entre
numa revista a sua vontade de marcar as relações da arte consigo mesma e com
isso mesmo: presença. Lançada por Bran- a vida à que versava as contingências da
quinho da Fonseca, João Gaspar Simões época, nada pareceu escapar a essa folha
e José Régio em Coimbra, a 10 de março durante 13 anos.

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1292 Antimodernismo literário

As revistas foram, pois, órgãos em tor- mero da presença, “Literatura viva”, texto
no dos quais os sucessivos grupos e mo- programático de Régio, enuncia opções
vimentos tentaram sintonizar-se com as e valores que retoma depois em “Lite-
vanguardas europeias (com destaque ratura livresca e literatura viva”: mani-
para o futurismo), no modo como pro- festo que defende o sentido da ação de
moviam o diálogo das artes e um ser mo- grupo, à margem de interesses sociais e
derno que, no primeiro modernismo, de academismos formais, uma arte sem
se exprimia desde os comportamentos e academismo, anelante de inovação pro-
modos de vestir até ao grafismo editorial, fissional, elegendo a humanidade como
com destaque para a plasticização do ver- matéria e raiz da emoção estética e o
bo e a verbalização do plástico, qualquer primado da arte (sublinhado por títulos
um deles informado de ritmo. como “Li‑te‑ra‑tu‑ra”, de Régio, “A arte
O primeiro modernismo de grupo ti- é, não serve”, de Casais Monteiro, ambos
nha tido uma ação que visava abalar a de 1935) e da humanidade, com a valori-
doxa e inovar, não hesitando em chocar zação da inspiração por contraposição à
a sociedade, (auto)marginalizado por pessoana estética do fingimento.
isso. O sentimento niilista e trágico gera- As clivagens e os contrastes geracionais
do no drama mundial e no nacional vem e de ideários são patentes, quer entre os
acalmar o entusiasmo da arte intelectua- dois modernismos, quer entre grupos que
lizada por intelectuais, consagrando-a e os compõem. Ao lado, compondo a paisa-
dando-lhe visibilidade. Herdeira dessa gem editorial, outras intervenções de pe-
atmosfera, a presença surgia em moldura riódicos vinham, à boca de cena, assinalar
de retratística mais alargada e de mais a continuidade de forte caudal modernis-
lata compreensibilidade na sociedade da ta, apesar da diferença de registos, dos
época: a imprevisibilidade da arte desen- contrastes tonais, estéticos e ideológicos:
raizada do real inteligibiliza-se quando Bysancio (1923-24) e Tríptico (1924-25),
ladeada pelo comentário ou pela inda- com Alexandre de Aragão, Fausto José
gação da vida e do homem, atenta aos (assina ainda Fausto dos Santos), José Ré-
labirintos da sua psicologia e das suas gio, Vitorino Nemésio, António de Sousa,
motivações; o génio oitocentista roman- Edmundo de Bettencourt, etc.; mais pró-
ticamente beirando o abismo, bebendo ximas da tradição simbolista e decadente,
na vivência agónica finissecular simbo- a Icaro (1915-20) ou a Nova Phenix Renas-
licamente cristalizada no expressionista cida (1921), com Teixeira de Pascoaes,
O Grito (1893, da série O Friso da Vida), Eugénio de Castro, Afonso Lopes Vieira,
de Edvard Munch, cede ao homem nove- Cabral do Nascimento, Américo Cortez
centista fragilizado, debatendo‑se entre Pinto, Albino de Menezes, Alfredo Bro-
o quotidiano e os seus valores, todos eles chado, etc.; A Águia (1910­‑32); Dyonisos
instáveis, mas condicionantes, hesitante, (1912-28), continuada por Museu (1934)
já não entre dicotomizações simplifica- e Prisma (1936-41), Contemporânea (1922­
doras, mas entre complexidades elabora- ‑26), Athena (1924-25) e Sudoeste (1935);
das (dever, desejo, poder, querer, fazer, mais próximas da presença, Sinal (1930),
sentir, pensar…) que põem em causa as Manifesto (1936-38) e a Revista de Portugal
antigas equações e que agudizam o sen- (1937-40).
timento de desorientação, sentimento Com a península entre a ditadura do
questionado, confessado, memorializa- Estado Novo (1933-1974) e a Guerra Civil
do. Desde a abertura do primeiro nú- de Espanha (1936-1939), e, além Pirinéus,

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Antimodernismo literário 1293

uma Europa entre guerras dividida entre de quem desce com a generosidade supe-
o fascismo italiano, o nazismo alemão e o rior do organizador duma festa de bene-
estalinismo soviético, vinca-se a oposição ficência” (Id., Ibid.).
de princípios na arte: a exigência social e Cada lado se entrincheira e radicaliza os
a estética psicologista desenvolvem, pro- seus princípios nos seus órgãos editoriais:
gressivamente, um abismo entre si, ca- a presença confronta-se com a Seara Nova
vando o fosso entre o indivíduo, face ao (1921-78; 1985-2008), O Diabo (1934-40)
destino e às suas contingências, e o que e o Sol Nascente (1937‑40), num enfrenta-
a ordem económica tipifica sócio-profis- mento de titãs que chega a afirmações de
sionalmente. A (missão da) arte é pers- “perfeita incultura” e de “absurda confu-
petivada entre o olhar para dentro do são entre política e literatura”, expressões
indivíduo e para fora dele, para as suas da polémica revisitada por Joana Marques
circunstâncias económico-sociais. A exis- Macedo (MACEDO, 2010).
tência escavava um abismo na fronteira Duas figuras se evidenciam, dentre ou-
entre ambos os olhares e a palavra carto- tras, com perfil hoje simbolicamente ex-
grafava-o diversamente, de costas volta- pressivo dessas visões em confronto: José
das, mas em confronto especular. Régio e Álvaro Cunhal. A discordância
Em A Arte e a Vida Social, Plekhanov sobe de tom, até que Cunhal chega mes-
(1856-1918) declarará o mandamento mo a afirmar que, “enquanto a obsessão
que fará escola desde 1930, reiterado em destes [neorrealistas] é o próprio umbi-
conferência por Vasco Magalhães-Vilhe- go, a daqueles é a sorte da humanidade”
na em 1935 e por Redol em 1936: a arte e que “a poesia de José Régio exalta uma
deve ser instrumental, denunciando de- posição (e até uma atitude) condenável,
sequilíbrios e injustiças e promovendo o fracassada e decadente”, devendo, por
progresso e a justiça social. isso, “ser combatida” (CUNHAL, 1939),
O ano de 1935 assistirá ao antagonismo obrigando Régio a “definir posições”
entre perspetivas inconciliáveis no que (com que intitulará, na primeira pessoa,
constituía o seu núcleo duro: o psicolo- a resposta). António Sérgio e João Gaspar
gismo presencista e a ideologia política Simões também debatem, significativa-
marxista neorrealista (designação que mente, “O mistério da poesia” (com que
dissimulava, para a censura, o “realismo o segundo intitulou uma obra de 1971).
socialista” defendido por Andrei Jdanov). A agressividade acaba por conduzir o de-
O conflito exprime-se na acusação mú- sacordo ao ataque pessoal, numa mútua
tua: os primeiros consideram os segun- recriminação que vai subindo de tom e
dos empenhados na ação política e so- que se desenvolve também a nível inter-
cial, e não na arte, e de terem no “povo no dos grupos ideologicamente compro-
infeliz  […]  um eterno pretexto, a misé- metidos com a esquerda (partido, revis-
ria alheia, no fim de contas, um eterno tas, neorrealistas): a estética neorrealista
degrau, a mediocridade da maioria uma apresenta diversidade e clivagens que de-
eterna consolação” (RÉGIO, 1939, 61), rivam das divergências ideológicas, além
enquanto estes os acusam de alheamen­ de registar uma evolução no sentido da
to egoísta através da arte, de “umbi- posterior heterodoxia do simbólico e do
guismo”, nas palavras de Álvaro Cunhal esteticizado. A clandestinidade, o exílio e
(CUNHAL, 1939a, 154), e de “mandari- a emigração, os estrangeirados e os con-
nato”, segundo Manuel Filipe, conside- formados fazem-se presentes e atuantes,
rando que desenvolviam o “pensamento no jogo de ausência e de presença, de

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1294 Antimodernismo literário

verbo e de silêncio, de proximidade e de mostrada, demonstrada, analisada nas


afastamento, de isolamento e de comuni- suas realidades e razões.
dade, fantasmagorizando todos os con- O tempo verá outras figuras tomarem o
tornos da vida social, que uns perscrutam facho aos que pensaram a Europa a par-
nas dobras dos sentimentos e que outros tir de Portugal e este a partir daquela ou,
querem denunciar e moldar. pelo menos, convocarem-nos na continui-
O percurso estético de autores como dade de certos tópicos e posições, recar-
Carlos de Oliveira é de um compromisso tografando a geopolítica até ao Portugal
ideológico expresso no mais óbvio (Alca- “novo” (Magalhães Godinho), de “hoje”
teia, de 1944, obra que, por isso, rejeitará e com “medo de existir” (José Gil), com
depois) para uma subtilização dessa pers- “duas razões” (Eduardo Lourenço), mas
petiva ideológica na elaboração ficcio- assumida e proclamadamente europeu e
nal esteticizante, marcada pela atenção lusófono (Fernando Cristóvão), entre o
ao trabalho de escrita e ao seu diverso mito imperial, a marginalidade política e
simbolismo. a dependência económica, finisterra em
Vergílio Ferreira protagoniza uma ou- ânsia e medo de ser, entre continente, pe-
tra tendência de distanciamento: a senda nínsula, memória mediterrânica e atlân-
existencialista. O humanismo que lhe in- tica, mas também do telúrico contrastivo
forma a escrita condu-lo para o confronto de aquém e além-mar.
íntimo e com a natureza humana, pers- Em 1939, na abertura da segunda série,
crutados nas situações-limite. a presença reitera a rejeição programática
A Europa é também palco e protago- da arte comprometida, social e politica-
nista da crise que se alimenta destas que mente empenhada, radicalizando o inte-
a polémica vocaliza: A Crise da Europa resse pelas criações de arte, as pesquisas
(1942), de Abel Salazar, encontra respos- ou conclusões da crítica. Em contraste,
ta em O Problema da Europa (1945), de Sil- observa-se a reiteração intolerante, do
va Dias; as divisões e as guerras convivem outro lado, do primado social, do “rea-
com os projetos de unificação, entre uto- lismo socialista”, seguindo as diretivas do
pia e possibilidade. Portugal repensa-se I Congresso dos Escritores Soviéticos (1934),
na sua relação com a Europa: hesitando da arte-“antídoto contra a decadência
entre a mitificação do passado, a perife- da literatura burguesa” (VIÇOSO, 2011,
ria e o isolamento do presente e o senti- 23), a arte-reflexo do real no contexto da
mento de ocidentalidade, entre o canto dialética revolucionária, desenvolvendo
e o contracanto que sempre lhe atraves- o conceito de herói positivo, monolítico,
saram a cultura. Ensaio sobre a Essência do de marcada ideologia. Na Seara Nova, em
Ensaio (1944), de Sílvio Lima, Repensar a 1947, Júlio Pomar defenderá que “tanto
Europa e a Globalização (2006, publicação os interesses imediatos, como os objetivos
póstuma), do P.e Manuel Antunes, Hetero- gerais dos artistas agrupados em torno
doxia (1949), de Eduardo Lourenço, sem do novo realismo, visam a mais ampla e
esquecermos o inquérito à vida cultural socialmente proveitosa utilização da arte
nacional realizado por este último para a pelas massas” (POMAR, 1947). Ou seja:
revista Bicórnio, em 1952, a pedido de Jo- a arte neorrealista tende a tornar-se uma
sé-Augusto França. Fazem-se ouvir Casais arte “do povo, pelo povo e para o povo”,
Monteiro, António Sérgio, Delfim Santos, como diz Garrett na “Memória ao Con-
Joel Serrão: as fraturas do nacional e en- servatório Real”, conferência proferida
tre este e a Europa são matéria debatida, em 6 de maio de 1843. Em suma, uma

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Antimodernismo literário 1295

arte que tivesse, como Gorki defende- Bibliog.: impressa: CRISTÓVÃO, Fernan-
ra no Congresso, “o trabalho” como sua do (coord.), Cadernos para Estudos, n.º 3. Do
matéria fundamental e como objetivo Romance Nordestino Brasileiro de 30 ao Neorrea-
lismo Português, Coimbra, Almedina, 2013;
uma “engenharia da alma” (Estaline) do
CUNHAL, Álvaro, “Numa encruzilhada dos
homem novo, sucedendo ao “mundo ve-
homens. A propósito das Cartas Intemporais de
lho”. Uma arte de catecismo marxista. José Régio publicadas na Seara Nova, n.os 608 e
Orfismo, presencismo, neorrealismo 609”, Seara Nova, n.º 615, 27 maio 1939,
e surrealismo são, pois, designações que pp.  285­‑287; Id., “Ainda na encruzilhada”,
tendem a uniformizar o diverso e a dis- Seara Nova, n.º 626, 12 ago. 1939a, pp. 151­
tinguir o afim. Em qualquer deles vibra- ‑154; DIONÍSIO, Eduarda et al. (orgs.), Situa-
vam emoções geradas nos desconcertos ção da Arte. Inquérito junto de Artistas e Intelectuais
Portugueses, Mem Martins, Europa-América,
do mundo, da vida, da sociedade e da
1968; GUIMARÃES, Fernando, “Revistas lite-
arte, todos (con)viviam (n)o sentimen- rárias dos anos 20 e 30”, Sema, n.º 3, outono
to de cultura intervalar de humanidade, 1979; MADEIRA, João, Os Engenheiros de Almas.
sociedade e cultura a (re)conhecerem­ O Partido Comunista e os Intelectuais, Lisboa, Es-
‑se e a (re)construírem-se em tempo de tampa, 1996; PIRES, Daniel, Dicionário das Re-
transformação, inquietação, inconfor- vistas Literárias Portuguesas do Século XX, Lisboa,
mismo, anseio de modernidade, de ino- Contexto, 1986; POMAR, Júlio, “O pintor e
o presente”, Seara Nova, n.º 1015, jan. 1947,
vação, de revolução cultural. Contudo,
pp. 19-20; RÉGIO, José, “Literatura viva”,
as referências e os pensamentos estéticos presença, sér. i, n.º 1, 10 mar. 1927, pp. 1-2;
têm perfis e concretizações diferentes e Id., “Literatura livresca e literatura viva”, pre-
conflituantes entre si: medeiam abismos sença, sér. i, n.º 9, 9 fev. 1928; Id., “Divagação
entre a esteticização e despersonalização mais ou menos pessoal sobre uma ‘blague’ do
da arte (primeiro modernismo), a análise Sr. Álvaro Cunhal, uma citação do Dom Cas-
introspetiva, psicologista (presencismo), murro, uma opinião de José Bacelar, o anexim
o compromisso ideológico com o social ‘preso por ter cão, preso por não ter’ e outras
miudezas que o leitor verá”, presença, sér. ii,
(neorrealismo) e entre estes e, depois, a
n.º 1, nov. 1939, pp. 59-61; VIÇOSO, Vítor,
mimetização criativa dos processos men- A Narrativa no Movimento Neo-Realista, Lisboa,
tais (surrealismo). Entre a arte, o homem Colibri, 2011; digital: CRISTALDO, Janer, En-
e a sociedade, o olhar estético vai elegen- genheiros de Almas (1886). O Stalinismo na Litera-
do os seus lugares, que reconfigura em tura de Jorge Amado e Graciliano Ramos: http://
recusa de outros, em choque com eles, www.ebooksbrasil.org/eLibris/engenheiros-
antiteticamente. dealmas.html (acedido a 29 dez. 2016); MA-
CEDO, Joana Marques, “Os movimentos mo-
Observar o percurso da primeira me-
dernista e neo-realista e o debate sobre a arte
tade do séc. xx, vetoriado pelos dois mo- pela arte e a arte social”, SAPIENS, n.os 3-4,
dernismos e pelos seus antis, na sua auto e 2010, pp. 125-151 [publicação online sem en-
heteroconfiguração, é ver renovar-se na li- dereço disponível].
nha do tempo cultural, periodicamente, o
Annabela Rita
velho choque entre antigos e modernos, a
colisão geracional, o gesto de autoprocla-
mação: na alternância pendular das ideias
e dos movimentos, cada identidade se vai
esboçando por oposição e negação da que
a precede, retomando muitas vezes outras
anterioridades, renovando-as/se com no-
vas constelações conceptuais.

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1296 Antimonarquismo

ta não hereditário, o ditador soberano,


Antimonarquismo que governa em nome próprio, nem ao
ditador comissário, o dictator romano,
que age em nome da República e é tem-
porário, legítimo, ocorrendo em estados
de exceção; apesar de ambos integrarem
aquela definição etimológica. Tal como,

A ntimonarquismo é a oposição ao
regime político cujo poder é detido
por um só indivíduo. Esta definição ra-
na sua definição greco-romana clássica, a
monarquia, termo mais corrente do que
monarquismo, é um regime legítimo, ao
dica na etimologia da palavra. Em gre- passo que a autocracia é ilegítima.
go, “mono” significa um, único, “archê” Ora, as monarquias europeias foram
poder. O antimonarquismo foi uma pai- instituídas na sequência das invasões ger-
xão oitocentista, que a Segunda Guerra mânicas, por isso designadas por neogo-
Mundial arrefeceu. Com efeito, na Euro- das, que deram termo violento ao Impé-
pa permanecem monarquias em Estados rio Romano do Ocidente. Assim, foram
relevantes (Reino Unido, Países Baixos, formas de governo em concreto antes de
Escandinávia) que coexistem com repú- serem uma forma de Estado em abstrato.
blicas; nem estas nem aquelas fomentam As ambiguidades do conceito derivam
restaurações ou temem antagonismos. aliás de ele assentar na designação do
Continua ainda a haver monarquias na chefe de Estado monárquico por uma
Comunidade Britânica (Canadá, Nova palavra culta, “monarca”, e não pelo ter-
Zelândia, Austrália e mais 12 realms), no mo “rei”, o mais corrente na linguagem
Japão e na Tailândia, além das tradicio- comum e na jurídica. “Monarquismo”
nais contemporâneas, onde se destacam sugere que o monarca derivou da mo-
as árabes que sobreviveram ao nacionalis- narquia, quando na realidade histórica
mo árabe. foram a monarquia e o monarquismo
que derivaram do monarca, ou melhor,
do rei. Aliás, já o sábio sevilhano ensinava
Definição de monarquia; “Regnum a regibus dictum”, i.e., o reino
variedade do conceito deriva do rei (ISIDORO DE SEVILHA,
O aparente irrealismo social da definição 2004, 754). “Monarca” corresponde ao ti-
etimológica de monarquismo choca mais tular do poder na definição grega de um
do que o antimonarquismo. Nas organi- dado regime justo, precisamente aquele
zações políticas contemporâneas, caracte- em que o poder é exercido por um só,
rizadas por uma profunda divisão social mas não correspondia, mesmo na Grécia
do trabalho, é inconcebível que o poder, clássica, ao titular em concreto desses re-
ou a soberania, seja exercido por um úni- gimes, o basileús – ao passo que a palavra
co indivíduo. Devemos ultrapassar essa “república” designa ao mesmo tempo o
defininição. Começaremos pela noção conceito abstrato e cada regime em con-
de monarquia que identifica as formas creto. A  palavra “monarca” sugere um
de Estado(-nação) instituídas nas Idades sistema, a palavra “rei” sugere um regime
Média e Moderna europeias, cujo chefe determinado.
é um rei hereditário, quando não desig- Num certo sentido, a própria evidên-
na esse mesmo rei. O termo “monarca” cia é que a monarquia são Monarquias:
não é, com efeito, aplicado ao autocra- a britânica do séc. xx é um Estado

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Antimonarquismo 1297

democrático de direito, a espanhola du- de poderes importantes, se não tiverem


rante a regência autocrática do genera- valor, causam grandes prejuízos, como
líssimo Francisco Franco e a Monarquia já sucedeu em Esparta” (Política, 1272b).
da Arábia Saudita coexistiram no tempo No Renascimento francês, Jean Bodin
e pouco terão de comum. É tal a diversi- começava por demonstrar a prioridade
dade das monarquias que, para muitos, da monarquia sem mencionar a heredi-
existe rei e não regime monárquico. tariedade, e só de raspão a defendia no
Entre nós, António de Oliveira Salazar, penúltimo capítulo de Les Six Livres de la
professor de Direito e o mais conhecido République; referia as posições aristotélicas
autocrata d