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Temperamento musical

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Temperamento musical é um esquema para dividir ou temperar a oitava. Ao longo dos tempos,
foram propostos mais de 100 sistemas. Desses, não mais de 20 terão sido realmente usados com
mais generalidade. Os vários sistemas ecoam os vários estilos e gostos musicais das suas épocas. E
estes, por sua vez, também influenciaram os tipos de afinações adoptado.

O problema do temperamento de uma escala


Quando um corpo está em vibração emite um som complexo cuja representação temporal pode ser
decomposta na soma de um conjunto de curvas senoidais que contêm a frequência fundamental f0
e um número variável de harmónicos com frequência n*f0, n=2,3…, que podem nem todos existir
num dado som. É a presença ou não de cada um dos harmónicos - e a sua amplitude - que dá a
cada instrumento musical o seu som peculiar - o seu timbre.

Por exemplo, quando uma corda de guitarra emite o som correspondente a um Dó (C, na notação
europeia e norte-americana), para além do som fundamental correspondente a esse Dó, ouvem-se
também, embora com menor intensidade sonora, os seus harmónicos. Os primeiros nove (n*f0,
para n=2 a 10) correspondem às notas Dó (uma oitava acima), Sol (quinta, da oitava acima), Dó
(duas oitava acima), Mi, Sol, Sib, Dó, Ré e Mi. Não são exactamente as mesmas notas que usamos
actualmente no ocidente (no chamado temperamento igual) mas são notas muito parecidas com as
da escala temperada.

A escala diatónica baseia-se exactamente nos sons harmónicos. Como os harmónicos principais
correspondem ao intervalo de oitava e de quinta, o que se pode tentar fazer é escolher as notas da
escala de tal modo que cada intervalo de quinta e oitava seja o intervalo natural que aparece
espontaneamente entre os sons harmónicos.

No entanto, verifica-se que não é possível fazer uma escala em que os


intervalos de oitava e de quinta sejam todos naturais. Isso pode ser visto
através do chamado "círculo de quintas": se começássemos numa nota
do piano e afinássemos outra por ela de modo a ficar afinada para um
intervalo de quinta e depois afinássemos uma outra por essa do mesmo
modo e por aí em diante, deveríamos verificar-se que ao fim de fazermos
isso 12 vezes chegaríamos à mesma nota inicial (por exemplo, C G D A E
B F#C#Ab Eb Bb F C). O problema é que não é isso que se verifica.
Obtemos uma série em que a última nota (que é B# e não C) dista da
Círculo de quintas.
primeira (C) da chamada «coma pitagórica». Isto tem que ver com o
facto de que 3n=2m, nunca se verifica para n e m inteiros. Ou seja,
afinando usando intervalos de quinta (que correspondem a um factor 3n ou 3n/2k entre
frequências) nunca podemos obter oitavas perfeitas (que correspondem a um factor 2m).

A história dos sistemas de temperamentos roda em volta de vários esquemas de alteração dos
intervalos de quinta de modo a que o ciclo de quintas resulte num intervalo de oitava, tentando
obter o máximo número de intervalos o mais perto dos naturais que for possível.
Evolução histórica das afinações e temperamentos
Os principais temperamentos históricos são:

Os sistemas de afinação natural - que procuram usar intervalos naturais ou justos, ou seja,
intervalos que podem ser representados por números racionais (razões de números inteiros, com
preferência pelos menores números inteiros possíveis). Usam-se razões de frequências baseados
em proporções inteiras como as encontradas na série harmónica em vez de, por exemplo, dividir a
oitava em partes exactamente iguais, e não representáveis por números racionais, como no caso do
temperamento igual. Estes sistemas de afinação conseguem assegurar «a gama justa» para uma
dada tonalidade (normalmente dó maior) mas, para notas estranhas a essa tonalidade, ocorre
sempre algum desvio que é diferente para cada tipo de afinação.

É o caso do sistema pitagórico, usado na Idade Média, em que se encurtava só uma das quintas,
a «quinta do lobo». Usava-se o ciclo de quintas de Eb até G#, ficando com as oitavas afinadas e
com todas as quintas perfeitamente afinadas excepto a última (G#-Eb), que ficava dissonante e
cujo batimento «uivava» como um lobo porque ficava demasiado curta. Eram sobretudo as quintas
e quartas que eram apresentados na sua forma idealmente pura e simples porque eram os
intervalos considerados estáveis no contexto estilístico da época. As terceiras e sextas tinham
algum batimento (menos do dobro das do temperamento igual), assim como os meios tons
diatónicos, que eram pequenos, mas tomava-se partido do seu poder expressivo que criava uma
cor harmónica nas cadências que eram usadas na época.

No século XV, começou a surgir o gosto por terceiras naturais (terças) e os músicos começaram a
experimentar usar formas modificadas da afinação pitagórica para obter terceiras (terças) mais
perto do seu valor natural. O grande teórico da Renascença, Gioseffo Zarlino (1517-1590), defendia
um sistema de entonação justa baseado nas terceiras, e não nas quintas, como no sistema
pitagórico, já que as terceiras passaram a ser usados como pontos de resolução e as terceiras
pitagóricas já não assentavam bem no contexto musical. O sistema que preconizava era o que se
chama hoje o sistema ptolomaico, um dos sistemas propostos por Ptolomeu, no século II D.C.

Os temperamentos mesotónicos - Pouco a pouco, as terceiras e sextas foram assumindo um


papel mais relevante e, no início da Renascença, os músicos já desejavam encontrar novas
afinações que tornassem um maior número delas naturais. Isso deu origem ao aparecimento dos
temperamentos mesotónicos (ou do tom médio) muito usados nos séculos XVI e XVIII.
Enquanto os sistemas de afinação natural procuravam aproximar-se dos intervalos ideais, os
sistemas de temperamento implicavam desvios deliberados, mas pequenos, desses valores.
Procurando obter terças justas, encurtavam fortemente 11 quintas, resultando uma delas
demasiado grande (Mib-Lá, também chamada a «quinta do lobo»). Este sistema não é mau para as
tonalidades mais clássicas mas gera uma gama cromática muito desigual. Não se pode tocar em
algumas tonalidades. Mas já muitos teóricos da Renascença descreviam outras alternativas em que
os intervalos não eram números racionais (razões de inteiros) e que correspondiam ao que se
chama hoje o bom temperamento e o temperamento igual.

Os temperamentos irregulares - No temperamento mesotónico, para favorecer a «beleza»,


tentou-se ter tantas terceiras puras quanto possível, mesmo comprometendo as quintas e
introduzindo alguns «lobos». No tempo de Bach, a partir do século XVIII, nos temperamentos
irregulares, chamados também «sistemas bem temperados», favorecendo a «utilidade com
variedade», optou-se por conseguir um contínuo de cores desde as terceiras puras às quintas
puras, mas de modo a que todos os intervalos fossem utilizáveis e não tivessem «lobos». Estes
temperamentos permitem tocar em todas as 24 tonalidades possíveis (12 maiores e 12 menores).
Algumas quintas são mantidas perfeitas e outras são encurtadas. Podem-se usar todas as
tonalidades, ficando, no entanto, cada uma com a sua «coloração diferente».

O temperamento igual - Favorecendo a utilidade, decidiu-se temperar cada quinta pela mesma
quantidade de modo a dispersar a coma pitagórica, deixando as terceiras ainda um tanto vibrantes
mas já capazes de suportar tríades estáveis. É o temperamento adoptado actualmente no ocidente,
em que a gama é dividida em 12 semitons exactamente iguais. As quintas, terças e quartas são
falsas, embora iguais entre si e desviando-se suficientemente pouco do ideal para serem
suportáveis; o ouvido contemporâneo já se habituou a elas. Só as oitavas são perfeitas (embora, de
facto, os afinadores de piano aumentem as oitavas nos graves e nos agudos, para terem em conta
as características da percepção auditiva humana).

Referências
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Esta página foi editada pela última vez às 10h13min de 21 de junho de 2019.

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