Funções do Direito Penal e Processo Penal
Funções do Direito Penal e Processo Penal
INTRODUÇÃO
1. Considerações gerais
Ao Direito Penal cabe a função de proteger os bens, os valores
fundamentais da comunidade, através:
- Da prevenção de lesões que sejam de recear no futuro – a chamada
função preventiva;
- A punição daquelas lesões, daquelas infracções que já tiveram
lugar – função punitiva.
Esta função de protecção de bens e valores que são fundamentais da
comunidade e centralizada (dotada de um poder central).
O Estado chama a si o exercício desta função, da protecção da ordem
social, e pelo exercício da mesma, toda a tarefa de investigar e de
esclarecer, de prosseguir, sentenciar e punir os crimes cometidos dentro da
chamada área da sua jurisdição, isto é, dentro do território em que ele
exerce a sua autoridade político-judiciária.
O estado vai administrar a justiça virado para os próprios particulares,
na medida em que ele consagra o princípio da “nulla pena sine
processum”, isto é, ninguém poderá ser sentenciado sem que
primeiramente haja um processo, ou sem que seja através de um processo.
Este princípio garante que a aplicação das penas e medidas de
segurança1[1] só pode ser feita em conformidade com as disposições do
Código de Processo Penal.
A aplicação do princípio nulla pena sine processum (art. 29º/1, 32º
CRP, 2º CPP):
a) Garante desde logo todos os direitos que são concedidos ao arguido,
na medida em que se respeita a dignidade humana do indivíduo,
portanto, do infractor;
b) E por outro lado, constitui um limite à função punitiva do Estado,
na medida em que perante o cometimento de um crime, de uma
infracção de natureza criminal, o Estado não pode de qualquer
maneira, de uma forma cega e brutal, punir essa pessoa; mas antes
terá que o fazer através de um processo penal, segundo uma forma
legal que ele próprio, através do que o órgão legislativo estipulou.
Portanto:
- É uma garantia para o cidadão, na medida em que lhe são
garantidos determinados direitos que ele poderá exercer ou não;
- Traduz-se num limite ao próprio Estado, na medida em que
impõe que o sentenciamento das infracções seja feito através de
processo (s) regulado (s) por normas processuais.
1[1]
De natureza criminal
O Direito Processual Penal, é um direito que vem fixar que vem definir
as condições existentes e necessárias para averiguar se o agente praticou
um certo facto, qual a reacção que lhe deve corresponder e qual a forma a
aplicar.
O processo penal, é um conjunto de actos que tendem a investigar e a
esclarecer a prática de um crime, encontrar o seu agente, a responsabilidade
que lhe cabe e determinar a legislação que pune esse acto.
O Direito Processual Penal é o conjunto de normas que vão regular os
actos de processo.
Cabe ao Direito Processual Penal e ao Direito Penal regulamentar as
condições, os termos necessários para averiguar se um determinado agente
praticou um crime.
Entre Direito Processual Penal e o Direito Penal, existe não uma relação
de subordinação, mas uma complementaridade funcional.
No Direito Penal, para que haja aplicação de uma pena, isto é, para que
o Direito Penal reaja, exige-se que haja o cometimento de um crime. O
Direito Penal só exerce a sua função punitiva aquando do conhecimento
exacto de quem cometeu o crime.
Para o Processo Penal, não interessa quem cometeu o crime, basta a
notícia, basta que alguém chegue ao Ministério Público e diga: “está um
homem morto no Parque Eduardo VII”.
Há notícia de um crime, quem foi não interessa, isto basta para
desencadear o processo penal. Imediatamente se fazem as diligências
necessárias com vista à investigação.
2. O fim do Processo Penal
A finalidade do processo penal é a descoberta da verdade e a realização
da justiça.
Visa-se a comprovação, a realização, a definição e a declaração do
direito ao caso concreto. Comprovar que uma pessoa pratica um
determinado crime; definir e declarar qual a norma objecto do direito pelo
qual deve ser punido.
Mais do que a chamada segurança jurídica, a finalidade do processo
penal é alcançar a própria justiça.
3. Objecto do processo penal
É um conjunto de factos humanos, devidamente situados no tempo e no
espaço, que integram os pressupostos de que depende a aplicação ao seu
autor de uma pena ou de uma medida de segurança:
a) Conjunto de factos humanos, mas não de qualquer facto, factos
que são crime;
b) Situados no tempo, se ainda é ou não é possível de sanção penal;
saber também o “quando”, nomeadamente por uma questão de prova:
o momento, a que horas, inclusivamente para a própria qualificação
do crime;
c) Situados no espaço, para se saber qual o Tribunal que vai apreciar;
interessa saber o local onde o crime foi cometido.
Este conjunto de factos tem de integrar outros pressupostos, de que
dependem a aplicação de uma determinada pessoa, de uma pena ou de uma
medida de segurança.
A averiguação destes factos é feita durante o inquérito ou,
eventualmente, também na chamada instrução.
Nesta fase investigatória vai trazer-se para o processo tudo quanto possa
incriminar ou não um determinado indivíduo. E portanto, nesta fase vão-se
coligir os factos, tudo aquilo que interessa imputar ao arguido, porque há
determinadas situações circunstanciais que não interessam.
Terminado o inquérito, o Ministério Público recolhe os elementos de
facto e vai inseri-los na acusação.
O Tribunal só pode conhecer e só pode sentenciar os factos que constam
da acusação, no processo que lhe é levado.
Dir-se-á que o objecto do processo penal é a própria acusação.
4. Âmbito do Processo Penal
O processo penal abrange o conjunto das normas que disciplinam, quer
a intervenção da existência de um crime e a aplicação ao agente que
praticou esse crime de uma pena ou de uma medida de segurança, mas
também, numa fase posterior, o controlo da execução das reacções
criminais.
O Processo Penal:
- Abrange não só a investigação, esclarecimento e punição do
crime;
- Mas também o controlo da execução das reacções criminais.
5. Localização Direito Processual Penal no sistema jurídico
Ele faz parte do Direito Processual em geral.
O direito processual civil: um direito mais completo, que tem a ver com
as relações entre as pessoas; o processo penal também tem a ver com as
relações entre as pessoas e também entre as pessoas e o Estado.
Uma das formas de integrar lacunas em processo penal, será através do
recurso às normas de processo civil, primeiramente normas de processo
penal, depois normas de processo civil que se harmonizem com o processo
penal.
Fazendo a comparação entre dos dois ramos de direito.
a) Direito Processual Civil:
Tem como causa uma relação de natureza privatistica, de direito
privado. Pertence aos sujeitos dessa mesma relação, é dirigido por eles e
dirige-se contra pessoas singulares ou colectivas.
Não implica necessariamente uma decisão judicial. As partes podem pôr
fim ao litígio, ou podem nem sequer exercê-lo, podem nem sequer recorrer
aos Tribunais. A investigação é levada a cabo pelas próprias partes: é ao
autor que antes de fazer a petição inicial faz a investigação.
Se o réu não contestar, deverá ser condenado liminarmente. Em
qualquer altura as partes podem vir ao processo para transigir. É uma
relação de natureza privatistica.
b) Direito Processual Penal:
Tem-se uma relação de natureza pública, que inclusivamente só pode ser
exercida contra pessoas singulares.
Tem de haver uma decisão, ou do Ministério Público para arquivar, por
ex., o processo; ou do juiz de sentenciar ou absolver o arguido. O
Ministério Público uma vez feita a acusação, já não pode desistir, não pode
fazer acordos, não pode transigir.
Se há notícias de um crime público, o processo tem de ser desencadeado
imediatamente, tem de haver investigação.
A submissão de um criminoso, de um arguido, a reacções criminosas, só
pode dar-se dentro do Estado e pela via do processo2[2].
O processo penal é praticamente indisponível.
Há os chamados crimes particulares, é como que uma declaração
apenas entre dois sujeitos – entre o ofendido e o ofensor. Ele pode desistir
do processo (não o Ministério Público, mas o assistente), é uma excepção.
O crimes semi-públicos, em que se o ofendido desistir da queixa o
processo é arquivado.
Em processo penal à existência de uma fase de inquérito, uma fase
secreta. É uma fase de investigação que é levada a cabo por uma entidade
isenta – o Ministério Público. Não vigora o princípio da auto-
responsabilidade probatória das partes. Isto é, se o arguido não contestar,
não se consideram provados ou não se têm como provados os factos que
lhe são imputados. Há a impossibilidade de qualquer transacção ou
renúncia ao objecto do processo, não vigora o princípio do dispositivo.
Encontra-se uma quase total discricionariedade do juiz na investigação
dos factos que constem da acusação o Tribunal tem inteira legitimidade e
tem inteira discricionariedade para os investigar.
É um direito de natureza pública, porque nele intervém o Estado no
exercício da sua função jurisdicional: ao Estado e só ao Estado compete a
perseguição e condenação dos criminosos.
2[2]
Princípio da nulla pena sine processum – ninguém será sentenciado sem que contra ele seja elaborado um
processo.
3[3]
Hoje procura-se a verdade material, saber como é que realmente os factos se passaram.
4[4]
Não a que resulta da realidade de como os factos se passaram.
Tem-se também outro princípio, o princípio da total inocência do
acusado até à condenação, todo o indivíduo se considera inocente até ser
condenado.
A acusação e a prisão só são possíveis dentro das formas e dos casos
previstos na lei. É a consagração do “nullum crimen sine legem”. Ninguém
pode ser sentenciado por um crime que não está legalmente previsto, nem
pode ser aplicada nenhuma pena que igualmente não esteja prevista.
9. Processo reformado ou misto
Misto porque tem-se aqui inserida uma fase investigatória que não se
confunde com o processo inquisitório, mas que é levada a cabo por uma
entidade distinta.
Consagra-se os princípios da contrariedade, da publicidade e da
oralidade do julgamento e da livre convicção probatória.
Aparece a figura do júri, ao lado da criação do Ministério Público com o
órgão judicial de acusação.
10. Processo mitigado
Criado em Portugal durante a vigência do Estado Novo.
Cria-se o Ministério Público, mas subordina-se a sua actividade ao juiz.
A competência da instrução preparatória era do juiz: finda esta, ele ordena
ao Ministério Público que acusasse. E se não concordasse com a acusação
do Ministério Público, ele poderia ordenar que fizesse nova acusação,
depois ia julgar.
Cria-se a figura do defensor, aparece como colaborador da realização
dos interesses da administração da justiça. O defensor é a pessoa que vai
assistir tecnicamente o arguido.
11. Sistema processual penal actual
Concebe o processo penal como parte da ordenação comunitária. Ele
está ao serviço da comunidade e não ao serviço do Estado.
Caracteriza-se desde logo pela existência de um princípio não
inquisitório, mas um princípio de investigação, integrado numa fase secreta
que é chamado inquérito e que tem como finalidade esclarecer e instituir
autoritariamente o facto que deve ser sujeito a julgamento.
É vedado ao Ministério Público, transigir, fazer qualquer acordo com o
arguido ou com o defensor, no sentido de deixar de deduzir aquela
acusação.
Caracteriza-se ainda pela existência de certas limitações à liberdade do
arguido.
O Ministério Público actuará em todo o processo segundo princípios de
estrita objectividade (art. 53º/1 CPP) e vinculado ao princípio da
legalidade.
12. Direito Processual Penal como direito constitucional aplicado
Com o processo penal põem-se em causa direitos, liberdades e garantias
do cidadão. Assim sendo, tem-se que admitir desde logo que ele tem de
estar em concreta conformação com a Constituição.
O art. 29º CRP, vem dizer que “ninguém pode ser sentenciado
criminalmente”, este “sentenciado” refere-se a toda a elaboração de um
processo com vista ao provimento de uma decisão sobre o mérito ou dos
méritos da actuação do arguido.
Há todo um princípio constitucional que está a regular e a atribuir aos
Tribunais a administração da justiça e a forma como ela deve ser
administrada (arts. 29º e 32º CRP).
Só a lei é que estabelece em que condições é se que podem ser restritas
ou limitadas as liberdades dos cidadãos.
13. Fontes de Direito Processual Penal Português
a) A Lei:
- Lei internacional;
- Lei nacional.
Dentro da lei internacional, pode-se fazer uma referência a:
- Declaração Universal dos Direitos do Homem e do Cidadão;
- Convenção europeia sobre os Direitos do Homem;
- Convenção europeia para a Repressão do Terrorismo; entre outras.
Dentro da lei nacional, tem-se:
- A Constituição da República Portuguesa;
- Código de Processual Penal;
- Lei Orgânica dos Tribunais;
- Lei Orgânica do Ministério Público.
b) A Jurisprudência
O art. 205º CRP, ao admitir que os Tribunais são órgãos de soberania
com competência para administrar a justiça em nome do povo, faz com que
não nos restem dúvidas de que as decisões dos Tribunais que administram a
justiça em nome do povo constituem uma fonte material de Direito
Processual Penal.
Dentro da jurisprudência, tem-se a jurisprudência judicial, a
interpretação jurídica – como fonte material de direito – na medida em que
tal interpretação se faz através de exigências juridicamente concretas, no
caso concreto.
Os Tribunais, ao interpretarem a lei, estão exercer aqui uma função
criadora; e fazem-no no caso concreto.
A lei é geral e abstracta. Cabe precisamente aos Tribunais aplicar a lei
ao caso concreto e fazer a sua interpretação, isso é a função criadora da
jurisprudência.
Tem-se depois a chamada jurisprudência obrigatória, como fonte
formal de direito, a qual é estabelecida na sequência de recurso
extraordinário, previsto no art. 437º CPP.
c) A Doutrina
A Doutrina é também uma fonte material de Direito Processual Penal,
na medida em que lhe compete a construção dogmática jurídico-processual.
Tal como na jurisprudência, também através da Doutrina se pretendem
encontram soluções justas e adequadas para concretos problemas da vida
comunitária.
14. Interpretação da lei processual penal
Em toda e qualquer interpretação de uma norma processual penal têm
que estar sempre presentes as normas da Constituição, esta tem que estar
sempre subjacente a qualquer interpretação da lei processual penal, na
medida em que esta tem de estar sempre em conformidade com a
Constituição e com o próprio fim do processo penal.
15. Integração da lei processual penal
Nos casos omissos aplica-se, primeiramente os preceitos da legislação
processual, terá o intérprete que se socorrer de preceitos do processo civil
que se harmonizem com os princípios do processo penal. Só na falta de
preceito em qualquer destes dois ramos que possa ser aplicado, deverá o
intérprete socorrer-se dos princípios gerais do processo penal (art. 4º CPP).
16. Aplicação pessoal, no tempo e no espaço
a) Aplicação no espaço (art. 6º CPP)
Coincide com os limites do Estado português, sendo extensivo ao
território português, nos termos e com os limites que são definidos em
tratados (ex. as embaixadas).
b) Aplicação pessoal
Abrange todas as pessoas a quem é aplicado o direito penal. Tem
restrições e limites, desde logo, as derivadas do próprio Direito Penal
substantivo, etc.
c) Aplicação temporal (art. 5º CPP)
Em princípio rege a regra geral, que é a aplicação imediata da nova lei
processual penal, princípio “tempus regis actum”, formulado no art. 5º/1
CPP, conduz a que os actos do processo criminal sejam regulados pela lei
em vigor no momento da respectiva prática.
Deriva desde logo uma não retroactividade da nova lei processual
penal, na medida em que os actos praticados na vigência da lei processual
penal revogada mantêm a sua validade.
Sintetizando:
Regra geral – “tempus regis actum” – aplicação imediata da lei
processual penal:
- Tem como corolário, a não retroactividade da lei processual penal;
- As excepções derivam das alíneas a) e b) do n.º 2 do art. 5º CPP e
são:
· Agravamento sensível e evitável (tem de ser uma situação
potencial) da situação processual do arguido;
· Quebra de harmonia e da unidade dos actos processuais.
6[6]
É um momento posterior à queixa
Se o caso se trata de um crime público, basta que alguém dê a notícia ao
Ministério Público, basta o conhecimento por parte do Ministério Público
para que ele desenvolva a acção penal.
O princípio da legalidade, traduz-se, desde logo em processo penal, na
obrigatoriedade de o Ministério Público proceder, dar ou deduzir a
acusação e sustentá-la efectivamente (art. 53º CPP), por todas as infracções
de cujos os pressupostos tenha tido conhecimento e que tenha logrado
recolher no Inquérito indícios suficientes.
O princípio da legalidade não é apenas aplicado ao Ministério Público.
Os juízes e os órgãos de polícia criminal também estão sujeitos a este
princípio.
Se quanto ao impulso inicial basta a notícia do crime, já para o impulso
processual sucessivo, imediato, que será a dedução da acusação, torna-se
necessário que durante o inquérito tenham sido recolhidos indícios
suficientes de se ter verificado o crime e quem foi o seu agente.
Após dedução de acusação, não acabou ainda a obrigação do Ministério
Público respeitar a legalidade. Durante a fase de julgamento ele deve não
só manter essa acusação, como sustentá-la efectivamente (art. 53º/2-c
CPP).
Esta expressão “sustentar efectivamente”, quer dizer que o Ministério
Público, perante a prova que está a ser produzida em audiência de
julgamento, não pode pura e simplesmente desistir.
Terminada aquela fase de julgamento em que se faz a prova dos factos,
então já o Ministério Público fica liberto da obediência ao princípio da
legalidade.
Nos crimes particulares, o princípio da legalidade não existe, o
Ministério Público, não é obrigado a deduzir acusação; apenas está
obrigado a fazer o inquérito: a partir do momento em que há queixa,
declaração de constituição de assistente, então o Ministério Público é
obrigado a fazer inquérito. Mas uma vez findo, não está obrigado a deduzir
acusação porque isso é um direito que compete em exclusivo ao particular.
Nos crimes semi-públicos, pode acontecer que ao Ministério Público
seja retirada a legitimidade para continuar. Mas aqui não se tem nenhuma
ofensa ao princípio da legalidade, o que acontece é que o ofendido, até à
sentença pode desistir da queixa, da instância.
18. Princípio da oportunidade
Consiste este princípio numa certa margem de discricionariedade
concedida ao Ministério Público para que ele desde logo resolva
determinados casos, os arquive, não lhes dê seguimento (arts. 277º segs.
CPP). Estas situações:
- Ou é desde logo afastada, porque se trata daquelas bagatelas
penais, e por conseguinte, nem há lugar à promoção do processo.
- Ou então há indícios da prática do crime, houve toda uma
investigação, mas não se determinam os agentes, ou determinam-se os
agentes mas eles são irresponsáveis ou inimputáveis, ou estão isentos
de aplicação de pena – no final do inquérito o processo é arquivado.
Concede-se ao Ministério Público a faculdade de dispor do processo:
concede-se portanto um certo poder discricionário para resolver desde logo
o processo. É o chamado princípio da oportunidade, concedido ao
Ministério Público e que certa forma constitui uma limitação ao princípio
da legalidade. Este princípio é aceite em casos muito restritos no Código de
Processo Penal – arts. 277º e 280º.
Uma outra situação em que se verifica o princípio da oportunidade é no
art. 281º CPP – suspensão provisória do processo. Aí também, desde que se
verifiquem todos os requisitos, isto é, desde que haja indícios suficientes da
prática do crime, desde que seja conhecido o agente e determinada a sua
responsabilidade, se o crime não for punível em abstracto com pena
superior a 5 anos, se o arguido for primário, se for diminuta a culpa na sua
actuação, se houver a concordância do assistente e do próprio arguido e
também do Juiz de Instrução Criminal, o Ministério Público numa situação
destas, pode decidir-se não pelo arquivamento, mas pela “suspensão
provisória do processo”. Isto é, o processo fica latente, fica suspenso:
aplica-se ao arguido certas injunções e normas de conduta. Esta situação
mantém-se durante um certo prazo (até 2 anos); se ele cumprir, no fim do
prazo o processo é arquivado; se não cumprir, volta tudo ao princípio e,
porque há indícios suficientes, é deduzida acusação.
Mas, se o legislador está a conceder ao Ministério Público a
possibilidade de, em certas situações, não deduzir acusação, não obedecer
ao princípio da legalidade, então há que controlar a própria legalidade do
Ministério Público; ou seja, controlar a sua actuação sempre que o
Ministério Público não obedece à lei.
Uma das formas de controlar a sua actuação é através da chamada
intervenção hierárquica: quer isto dizer que o processo é levado ao
conhecimento de um superior (art. 278º CPP).
A instrução é uma fase facultativa, em que se requer a intervenção do
Juiz de Instrução Criminal. O assistente é a pessoa ofendida, vítima do
crime (...) que requereu ao juiz a sua intervenção como tal, e por tanto quer
também colaborar no processo, ao lado do Ministério Público.
O assistente pode requerer ao Juiz de Instrução Criminal que venha
fazer uma reapreciação do processo, é nisto que consiste o requerimento de
abertura do processo o assistente chama ao juiz de instrução, através de um
requerimento em que expõe as razões porque discorda da actuação do
Ministério Público, eventualmente pode requerer que ele faça certas
diligências e requerer que ele aprecie a conduta do arguido no sentido de o
submeter a julgamento através de um despacho de pronúncia, tem-se aqui,
também, uma forma de controlo da actividade do Ministério Público.
As formas de controlo do Ministério Público são:
- Pelo superior hierárquico (art. 278º CPP);
- Pelo assistente (art. 287º/1-b CPP).
19. Princípio da acusação ou do acusatório
Com a adopção deste princípio, pretende-se assegurar o carácter isento,
objectivo, imparcial e independente da decisão judicial.
Com o processo penal pretende-se atingir uma determinada finalidade, e
essa finalidade será atingida com objectividade, com imparcialidade e
mediante um órgão independente7[7].
Para que isto seja assim, torna-se necessário que a entidade julgadora
não possa ter também funções de investigação e da acusação da infracção,
por conseguinte:
- O Ministério Público investiga e acusa;
- O juiz julga, aprecia a conduta do arguido.
Ao lado desta distinção entre entidade julgadora e entidade acusadora há
que estipular e postular um princípio de igualdade de “armas” entre a
acusação e defesa. Ambos devem ter mesmos direitos e os mesmos
poderes.
Mas o Ministério Público tem mais poderes, tem uma máquina
investigatória ao seu dispor. Esta igualdade de direitos só será relevante nas
fases seguintes ao Inquérito, na fase de Instrução (quando houver) e na fase
de julgamento. Nesta fase o Ministério Público e o arguido têm os mesmos
direitos, está assegurado pelo princípio do acusatório.
Se ambos têm os mesmos direitos e os mesmos poderes, então ambos
participam na realização do direito, na administração da justiça. É uma
chamada participação constitutiva dos sujeitos processuais afectados na
decisão do caso em apreço, ambos contribuem na definição do direito ao
caso:
- O Ministério Público acusando, imputando ao arguido à prática de
determinados factos;
- O arguido defendendo-se, se o quiser fazer, impugnando,
contestando, trazendo justificações para a sua prática.
20. Princípios relativos à prossecução processual
Qual a estrutura do processo penal português?
- Tem-se uma entidade acusadora distinta da entidade julgadora;
- Há o reconhecimento da participação constitutiva dos sujeitos
processuais na definição do direito ao caso;
7[7]
Pretende-se que haja independência na sua decisão, independência no sentido da imparcialidade e isenção.
- Existe por outro lado uma igualdade de poderes, nomeadamente
na fase da instrução e de julgamento;
- Ao juiz é permitido investigar os factos que são submetidos à sua
apreciação em julgamento.
O processo penal português será de estrutura basicamente
acusatória8[8], mas integrado por um princípio da investigação.
Com este princípio da investigação permite-se ao juiz recolher provas
sobre os factos já constantes da acusação e da pronúncia.
Trata-se ainda, numa fase de inquérito, na possibilidade que é dada ao
Ministério Público de investigar autonomamente a prática do crime, após a
denúncia, após o conhecimento ou após a notícia do crime, ele vai proceder
à investigação.
Alteração substancial dos factos (art. 359º/1 CPP).
Pode acontecer que o juiz, conhecendo desses factos, impute ao arguido
a prática de um crime diverso daquele que vem descrito na acusação.
A alteração substancial dos factos descritos na acusação implica sempre
que se apurem novos factos ou que seja uma modificação dos que estão
descritos na acusação, de tal maneira que essa modificação se venha a
traduzir num agravamento dos limites máximos das sanções aplicáveis ao
arguido.
O Tribunal é livre de fazer qualificação jurídica diferente daquela que é
feita pelo Ministério Público.
Não há alteração dos factos, se o arguido vier acusado pela prática de
determinados factos e em julgamento não se provarem todos esses factos de
que vem acusado, mas apenas parte deles; e com base naqueles foram
provados ele será condenado por um determinado tipo de crime.
O essencial a tomar em conta é a alteração substancial dos factos. Esta
determinação e este conceito de alteração substancial dos factos insere-se
no princípio da acusação, nos poderes que são dados ao juiz para que este,
dentro do “thema probandum”9[9], possa investigar exaustivamente e
oficiosamente todos esses factos; e se durante essa investigação ele se
aperceber que há outros factos, terá de os comunicar ao Ministério Público.
O princípio da economia processual, em processo penal não vinga,
porque o arguido tem o direito de se defender. Pode até não o fazer, pode
concordar em ser julgado por esses factos e prepara a sua defesa; e depois
até pode nem apresentar contestação. Mas isso não impede que tenha que
haver um novo processo.
21. Implicações do princípio da acusação
8[8]
Enquanto ele se processa serão sempre respeitados os direitos e reconhecida a personalidade ética do arguido.
9[9]
Tema que lhe é dado a apreciar.
Desde logo a inadmissibilidade de investigação inicial por parte do
Tribunal, a investigação pertence a uma entidade própria.
O Tribunal não pode por sua iniciativa começar uma investigação com o
objectivo de esclarecer a existência de um crime, de determinar os seus
agentes e a responsabilidade deles. Isso compete quase exclusivamente ao
Ministério Público.
Ainda como implicação deste princípio da acusação ou acusatório,
impõe-se, para que haja a dedução de acusação contra alguém, que se
verifique forte suspeita da prática de um crime, e que seja de tal maneira
forte que a comunidade se sinta obrigada a chamar o agente à razão, através
de julgamento.
Portanto, quando se deduz acusação contra alguém tem que se ter
sempre presente se há ou não há, fortes indícios da prática do crime, não
basta haver meras suspeitas.
Torna-se necessária uma forte suspeita da prática de um crime para que
a comunidade possa chamar aquele indivíduo à responsabilidade.
Outra implicação do princípio da acusação, é a imputação dos factos ao
arguido, constitui, define e fixa perante o Tribunal o objecto do processo.
É o mesmo que dizer-se que o objecto10[10] do processo penal é a
acusação.
22. A pronúncia
O despacho de pronúncia, é a imputação ao arguido da prática de
determinados factos, só que agora não pelo Ministério Público, mas por
uma entidade judicial que é o Juiz de Instrução Criminal.
Em termos práticos é muito mais gravoso para o arguido ir para
julgamento com o despacho de pronúncia do que com uma acusação,
porque:
- Enquanto a acusação se baseava em indícios recolhidos por uma
entidade não judicial, o Ministério Público;
- No despacho de pronúncia, houve já uma comprovação desses
mesmos factos.
A pronúncia comprova os factos deduzidos na acusação.
A estes efeitos, ou a estas consequências, chama-se em direito, a
vinculação temática do Tribunal, o Tribunal está vinculado a um tema,
que é a acusação11[11].
Analisando esta vinculação temática, encontra-se ainda três princípios:
1) Princípio da identidade: o objecto do processo deve manter-se o
mesmo desde a acusação até ao trânsito em julgado da sentença;
10[10]
No sentido daquilo que vai ser submetido a julgamento, submetido à apreciação do Tribunal.
11[11]
Factos que constam da acusação.
2) Princípio da unidade ou indivisibilidade: o objecto do processo
deve ser conhecido e julgado pelo Tribunal na sua totalidade, é
indivisível;
3) Princípio da consunção: o objecto do processo deve considerar-se
irrepetivelmente decidido na sua totalidade.
O Tribunal não conheceu, mas devia ter conhecido, porque os factos
constam da acusação; se não conheceu, transitou em julgado a sentença. O
objecto do processo deve considerar-se irrepetivelmente julgado, decidido
na sua totalidade12[12].
O objectivo que se pretende com a adopção do princípio da acusação é,
desde logo, uma protecção do arguido contra alargamentos arbitrários da
actividade cognitiva e decisória do Tribunal.
Pretende-se atingir a garantia do respeito pelo direito de contrariedade e
de audiência. Isto é, o arguido tem o poder de se fazer ouvir, o arguido tem
o poder de contraditar, de impugnar, de contestar os factos de que é
acusado.
Este princípio da acusação é a garantia da estrutura acusatória do
processo, na medida em que não há processo tipo acusatório sem princípio
de acusação.
23. Princípio do contraditório e da audiência
O juiz penal, no desenvolvimento da sua actividade, por tanto na
prossecução processual deve ouvir quer a acusação, quer a defesa. E mais:
deve fazer ressaltar e sobressair, quer as razões da acusação, quer as razões
de defesa.
Incumbe ao Tribunal, ao juiz penal, fazer sobressair as razões, quer de
acusação, quer da defesa.
Nenhum arguido poderá ser condenado sem que lhe tenha sido dada a
possibilidade de se fazer ouvir, de se defender.
Daí que a última pessoa a ser ouvida, a pronunciar-se num julgamento e
após as alegações finais é o arguido. Resultando, que o juiz só pode proferir
a sua decisão depois de dar ao arguido a possibilidade de contestar, de
contrariar as razões ou os factos que lhe são imputados.
Este princípio do contraditório está directamente relacionado com o
princípio da audiência.
A oportunidade que é conferida a todo o participante no processo de
influir através da sua audição na decisão do caso concreto.
Através do princípio da audiência tem-se o reconhecimento da
dignidade pessoal do homem, impedindo que ele se torne num objecto do
processo. O arguido, como qualquer outro sujeito processual, é um sujeito
activo, é um sujeito participativo em todo o processo. Por conseguinte,
12[12]
Ainda que o não tenha sido.
deve ser ouvido porque através das suas declarações ele contribui para a
decisão do caso concreto.
24. Princípio da suficiência
No processo penal vão-se resolver todas as questões que interessam à
decisão daquela causa (art. 7º CPP).
Atribui-se ao juiz penal a competência para conhecer de todas as
questões. Mas por vezes os juízes deparam-se com determinadas questões
no processo penal que, ou porque têm um objecto diferente, ou porque têm
uma natureza distinta da questão principal a resolver no processo penal, ou
ainda porque se revelam de uma complexidade extrema, a sua resolução
terá de ser decidida noutro Tribunal.
Estas questões que condicionam e por vezes, limitam o conhecimento do
juiz penal são aquilo a que se chama: questões prejudiciais em processo
penal.
Questões de natureza civil, duas teses:
a) Tese do conhecimento obrigatório: o juiz penal é obrigado a
conhecer todas as questões; bem ou mal, o juiz penal tem delas
conhecer. Em processo penal, o juiz deve conhecer de tudo.
b) Tese da devolução obrigatória: sempre que aparece uma questão
prejudicial, há que devolvê-la para o Tribunal competente.
c) Tese ecléctica ou intermediária ou tese da devolução facultativa:
Há questões que pelo seu relevo, pela sua complexidade ou pela
especialidade de que se revestem, impõem que a sua decisão seja tomada
por um Tribunal mais qualificado para o seu conhecimento
Concede-se um certo poder discricionário quanto à devolução ou não
devolução da questão prejudicial para outro Tribunal.
É a tese da devolução facultativa, que é uma tese intermediária: o juiz
analisa a questão e se entender que não se sente à vontade para a resolver
em conformidade, devolve-a para o Tribunal que considere competente
para a resolver (art. 7º/2 CPP).
25. Requisitos para a devolução de uma questão prejudicial surgida em
processo penal
a) Requisitos de natureza substancial
Que esta questão seja de resolução necessária para se conhecer da
infracção penal. Isto é torna-se necessário conhecer da questão prejudicial
para se prosseguir a acção penal – necessidade.
Entende-se pois que a questão de natureza não penal seja importante
para a decisão da causa em processo penal, isto é, que a questão prejudicial
implique o conhecimento de um elemento constitutivo da infracção. Mas
não um elemento qualquer: tem que ser um elemento de tal modo relevante
que possa decidir sobre a absolvição ou a condenação do arguido, não basta
uma mera circunstância atenuante.
Outro requisito – conveniência da sua resolução em processo penal – é
que essa questão possa ser resolvida convenientemente no processo penal.
Isto é, o Tribunal penal só deverá deixar de ordenar a devolução quando no
processo penal tiver prova segura de todos os elementos da infracção.
Por conseguinte, conjugando com o primeiro requisito (da necessidade),
ou decide pela absolvição ou pela condenação, isto é, o Tribunal já tem
elementos estão dependentes do conhecimento da questão prejudicial e ela
pode resolver-se convenientemente no processo penal. Então, deve ser
devolvida.
b) Requisitos de natureza formal
A questão só pode resolvida após o termo do inquérito. O Ministério
Público conhece a infracção, para determinar quem foram os seus agentes e
outros meios de prova.
Legitimidade para a suspensão do processo (art. 7º/3 CPP).
A legitimidade para a suspensão é oficiosa13[13] ou pode ser requerida
pelo Ministério Público, pelo assistente ou até pelo próprio arguido. São
estes os sujeitos processuais com legitimidade para se pronunciarem sobre
a suspensão ou, eventualmente, a requerem, o regime está previsto no art.
7º/4 CPP.
26. Limites ao conhecimento de questão de natureza civil
a) Caso julgado
O Tribunal penal não pode decidir uma questão prejudicial se esta já
está definitivamente resolvida, se já há um caso julgado sobre a questão.
b) Litispendência
Se a questão está a ser resolvida noutro Tribunal, se já está uma acção
pendente não vai agora o Tribunal Penal pedir a outro que a resolva.
Aguarda, em princípio que seja decidida a questão no Tribunal competente.
São estas as questões que se levantam à chamada suficiência do
processo penal. Ao falarmos da suficiência do processo penal diz-se que o
processo se suspende14[14].
· Princípio da concentração, tudo se deve resolver em processo
penal;
· Princípio da imediação, o juiz penal toma conhecimento directo
com o facto na própria audiência.
27. Princípio da investigação ou da verdade material
13[13]
Pertence ao Tribunal.
14[14]
Suspende-se para resolver esta questão prejudicial.
Pretende-se saber, após a iniciativa promocional de qualquer espécie de
processo penal e com vista à sua prossecução normal, a quem compete
dispor do processo. Isto é, se o processo contínua na disponibilidade das
partes ou se se deixa ao Tribunal a tarefa de investigar, embora sem
desprezar o contributo das partes, o facto que é sujeito a julgamento; e
assim, é o Tribunal que irá ele próprio constituir as bases para a sua
decisão.
No primeiro caso, se após iniciativa processual – a queixa se se deixa o
processo a particulares, temos um processo presidido pelo princípio da
discussão. Isto é, cada uma das partes fará valer a sua pretensão, utilizando
as mesmas armas; tem os mesmos argumentos, tem à sua disposição tudo.
O juiz terá uma posição passiva; apenas lhe cabe respeitar as normas e
presidir à audiência, manter a disciplina na audiência e proferir a decisão de
acordo com aquilo que é provado ou não provado em audiência.
No segundo caso tem-se, um processo em que vigora o princípio da
investigação.
28. Princípio da discussão
A sua característica geral é a que as partes dispõem do processo, é o
processo que é seguido nos sistemas anglo-saxónico. Consequências:
Às partes compete trazer aos autos toda a matéria factual que há-de
servir de base à decisão, sendo ao juiz proibido, investigar de “motu
próprio”, a veracidade do facto traduzido a julgamento. Vigora o princípio
da auto-responsabilidade probatória das partes, se uma das partes alega
um facto, terá o ónus de fazer a sua prova, tal como a outra parte tem o
ónus de contradizer, de impugnar os factos alegados pela outra.
Vigora o princípio da verdade formal, é a verdade que resulta dos
autos, da força probatória de cada uma das partes e não a verdade material.
Vigora o princípio do dispositivo, é lícito às partes porem fim ao
processo, quer através da desistência, quer através da confissão, quer
através da transacção, podendo ainda acordar sobre determinados aspectos.
29. Princípio da investigação ou verdade material
A missão de carrear, e o esclarecimento do material de facto para o
processo não pertence exclusivamente às partes, também o juiz o poderá
fazer. Ao juiz compete investigar, esclarecer oficiosamente o facto sujeito a
julgamento; ele próprio pode carrear para o processo as provas necessárias
para fundamentar a sua decisão. Está limitado porém, aos factos constantes
na acusação15[15].
Consequências da natureza judicial da investigação.
15[15]
Exs. arts. 164º/2, 290º/1, 294º, 40º/1 CPP
A investigação em processo penal, relativamente aos factos que constam
da acusação, tem natureza judicial, pode ser ordenada oficiosamente pelo
Tribunal.
Resulta daqui que é afastado desde logo o ónus de contradizer ou de
impugnar. Daqui decorre uma outra consequência: se o arguido não
contestar, nem por isso ele será condenado, não vigora o princípio da
auto-responsabilidade probatória das partes. O Tribunal tem o poder e o
dever de investigar oficiosamente o facto que é sujeito a julgamento.
Não há lugar ao princípio do dispositivo, isto é, os sujeitos processuais
não podem desistir, nem podem dispor do processo, nomeadamente
fazendo transacções, acordos ou confissões.
É admitida a confissão, mas limitada, com restrições. O juiz fica sempre
com a possibilidade de apreciar subjectivamente essa mesma confissão; e
se duvidar que o arguido não está a fazer de livre vontade, poderá não a
aceitar.
Se o arguido confessar, a sua confissão só é relevante se for integral,
sem reservas, livre de toda e qualquer coacção. Só assim é que ele poderá
ser relevante.
O princípio da investigação coexiste como princípio da acusação. Ao
princípio da acusação compete fixar o objecto do processo, compete fixar o
“thema decidendum”, os factos que constam da acusação; e também os
factos que vai recair a prova, o “thema probandum”.
Ao princípio da investigação compete conferir ao Tribunal o poder de
carrear para o processo toda a investigação necessária à prova dos factos
que constam da acusação, ou seja:
- O Ministério Público deduz a acusação e imputa ao arguido a
prática de determinados factos: é o objecto da acusação;
- Através desses factos o arguido vai ser submetido a julgamento;
- E a prova vai incidir única e exclusivamente sobre esses factos:
princípio da acusação;
- Agora, quanto ao alcance, quanto às diligências probatórias para
provar única e exclusivamente esses factos, o Tribunal é livre de fazer
as que entender: princípio da investigação.
30. Princípio “in dubio pro reo”
Aceita-se este princípio como princípio de ónus da prova material e não
como ónus da prova formal.
Não é um mero princípio relativo à prova; é um princípio autónomo, é
um princípio geral de direito. E isto tem consequências várias, desde logo,
a nível de recursos (por ex.).
Quando se invoca este princípio, significa que a prova foi feita; só que
não foi suficiente, o Tribunal, com os elementos de prova que consegui
recolher, não ficou convencido de que o arguido tenha praticado o crime. E
sendo assim, na dúvida favorece-se o arguido, é absolvido.
A aplicação do princípio in dubio pro reo: a sua relevância quanto à
questão de facto e à ausência de limites:
- É relevante desde logo quanto aos elementos em que se baseou e
fundamentou a acusação;
- É relevante quanto às causas de exclusão da ilicitude (ex. legítima
defesa);
- É relevante quanto às causas de exclusão de culpa (ex. estado de
necessidade);
- Ainda quanto às causas de exclusão de pena.
PRINCÍPIO RELATIVOS À FORMA
31. Princípio da publicidade
Traduz-se na publicidade das audiências dos Tribunais (art. 206º CRP,
arts. 87º, 321º CPP).
O princípio da publicidade nomeadamente a publicidade das audiências
dos Tribunais é público, mas admite algumas excepções (arts. 321º, 87º
CPP).
A razão de ser da publicidade da audiência e a sua justificação encontra-
se desde logo no facto de que com a publicidade pretende-se dissipar,
afastar, a desconfiança sobre a independência e sobre a imparcialidade da
justiça penal.
32. Princípio da oralidade
Os actos processuais são orais, atinge-se a decisão através da forma oral,
isto é, ouvindo o depoimento das testemunhas, fazendo o interrogatório ou
o contra-interrogatório e depois lendo inclusivamente a própria decisão – a
sentença. Por conseguinte, a decisão é proferida com base numa audiência
de discussão oral da matéria.
Relacionando com o princípio da oralidade encontra-se o princípio da
imediação, significa o contacto directo que o Tribunal tem com as provas
(ex. art. 355º CPP).
Uma questão se levanta, relacionada quer com o princípio da oralidade
quer com o princípio da imediação e que tem a ver com o conhecimento da
matéria de facto, nomeadamente para efeitos de recurso.
O Tribunal de 1ª Instância, onde o processo está a ser julgado pela
primeira vez, aprecia os factos com base no contacto directo com as provas.
Mas o Tribunal superior para o qual tenha sido interposto recurso, se tiver
que conhecer da matéria de facto:
- Ou se guia pela resposta que é dada pelo juiz do Tribunal de 1ª
Instância;
- Ou então, para apreciar devidamente, tem de ter um relato dos
factos.
Aqui põe-se a questão da chamada documentação da audiência (art.
363º CPP). Esta documentação vai permitir ao Tribunal superior duas
coisas:
1) Por um lado, uma melhor apreciação da prova, mais ponderada
eventualmente por parte do Tribunal de 1ª Instância que ficou com
dúvidas quanto à apreciação da matéria de facto para fundamentar a
sentença;
2) Por outro lado, o juiz vai voltar a rever o depoimento das
testemunhas ou aquilo que se passou na audiência de julgamento.
As razões que levaram o legislador a adoptar o princípio da oralidade, e
sobretudo, o princípio da imediação, desde logo permite um contacto vivo e
imediato do Tribunal com o arguido. Permite avaliar a credibilidade das
declarações dos restantes participantes processuais: as testemunhas e os
peritos envolvidos.
Permite ainda que haja plena audiência e participação dos sujeitos
processuais e dos restantes participantes processuais.
Sistema da prova livre: a apreciação da prova é deixada à livre
convicção da entidade julgadora. Significa pois que os factos são dados
como provados ou não de acordo com a convicção que a entidade decisória
forma face ao material probatório que lhe é levado.
33. Princípios relativos à prova
É através da produção de prova em julgamento que o Tribunal vai
formar a sua convicção sobre a existência ou inexistência dos factos, das
situações e das circunstâncias em que ocorreu o crime, os quais serão
relevantes para o acto decisório, ou seja, para a sentença.
A prova é carreada para o processo, ou através das partes ou,
inclusivamente, através do Tribunal. E através da sua apreciação o Tribunal
forma a sua convicção sobre a existência ou não do crime, em que
circunstâncias ele ocorreu, e em função disto vai proferir a decisão.
1) Sistema da prova legal
A apreciação da prova deve obedecer a regras gerais previamente
fixadas na lei, as quais pré-determinam o valor a atribuir às diversas
provas.
2) Sistema da livre apreciação da prova (art. 127º CPP)
Deixa-se ao Tribunal a livre apreciação da prova. Este princípio tem
alguns limites, e assim, toda e qualquer apreciação da prova por parte do
Tribunal terá que ser reduzida a critérios objectivos. Esta apreciação da
prova deverá ser susceptível de motivação e de controlo (art. 374º/2 CPP).
Se o Tribunal não fundamentar a sentença, ou não indicar os motivos de
facto ou de direito, esta sentença é susceptível de recurso, na medida em
que estará a ser violado um princípio geral de direito.
Quanto à valoração da prova, ela pode ser:
- Prova testemunhal;
- Prova pericial;
- Prova documental;
- Referência à confissão do arguido.
a) Prova testemunhal (arts. 128º segs. CPP)
É deixada à livre convicção do Tribunal face ao depoimento. O Tribunal
é livre de apreciar se o depoimento que foi lhe prestado merece ou não
merece credibilidade.
b) Prova pericial (arts. 151º segs. CPP)
O juiz não poderá pôr em causa o parecer técnico dos peritos, apenas o
pode criticar. Ele pode pôr em causa, são os factos ou os pressupostos que
serviam de base ao parecer dos peritos. Os meios utilizados podiam não ser
os mais adequados para obter aquele parecer. É subtraído à apreciação do
Tribunal o parecer técnico. Mas já é da livre apreciação do Tribunal os
dados de facto, que serviram de base à emissão desse mesmo parecer
técnico.
c) Parecer documental (arts. 164º segs. CPP)
O que se pode por em causa é a qualidade das declarações das partes
que levaram à emissão daquele documento.
Quanto às sentenças, elas apenas comprovam aquilo que cabe dentro do
âmbito do caso julgado. Tudo aquilo que nada tenha a ver com isso,
portanto a fundamentação da sentença, já poderá ser posto em causa pelo
Tribunal.
d) Declarações do arguido (arts. 344º - 140º CPP)
Os requisitos que se exigem desde logo são que a confissão seja integral,
sem reservas, livre de toda em qualquer coacção. Exige-se ainda:
- Que não haja co-arguidos;
- Que o crime não seja punível com uma pena superior a cinco anos;
- Que o Tribunal se convença da livre declaração do arguido e da
veracidade dos factos confessados pelo arguido.
A confissão equivale a uma renúncia à produção de prova, quer por
parte do arguido, quer por parte do Ministério Público ou do assistente.
A relevância traduz-se, em que é abreviado o processo penal, traduz-se
numa renúncia à produção de prova e passa-se logo às chamadas alegações
orais. No art. 344º/1 CPP encontram-se os requisitos:
- Livre vontade;
- Livre de qualquer coacção;
- Integral;
- Sem reservas.
No art. 344º/3 CPP encontram-se os condicionalismos da confissão:
- Desde que não haja co-arguidos ou, se os houver, que todos eles
façam a mesma confissão;
- Que o Tribunal na sua convicção não suspeite do carácter livre da
confissão nem tenha dúvidas sobre a imputabilidade do arguido;
- Que o crime não seja punível com pena superior a cinco anos.
34. Síntese
Não há investigação particular, não há detectives, porque a investigação
de um crime é deixada ao Ministério Público mesmo que se trate de um
crime particular. Apresentada a queixa e constituído assistente16[16], o
Ministério Público investiga.
16[16]
O ofendido.
Quer o Ministério Público, quer o próprio Tribunal, mas principalmente
o Ministério Público, tem que obedecer a determinados requisitos legais,
tem determinados preceitos a cumprir: princípio da legalidade. Se ele
durante o inquérito recolhe indícios suficientes da prática do crime, tem
que deduzir acusação; ou poderá ir para a suspensão provisória do
processo.
Em obediência ao princípio da legalidade ele tem que manter e sustentar
a acusação em julgamento.
O Tribunal está sujeito ao princípio da legalidade no sentido em que, se
lhe são apresentados factos pela prática de um determinado crime, tem que
aplicar a lei em relação a esse mesmo crime e não por qualquer outro. Se
houver alteração dos factos que impliquem que haja um novo crime, então
terá que dar disso conhecimento ao Ministério Público.
O processo penal desenrola-se tendo uma entidade acusadora distinta da
entidade julgadora. Simplesmente, não é um puro processo tipo acusatório,
na medida em que se permite que o Tribunal possa investigar autónoma e
oficiosamente o facto que lhe é sujeito à sua apreciação, sujeito portanto a
julgamento – princípio da acusação em termos gerais; e também princípio
da investigação, que é atribuído aos Tribunais.
Se o Tribunal tiver dúvidas quanto à prova que foi fornecida, deverá
absolver o réu, não por ausência de prova, mas porque não se convenceu da
sua culpabilidade na prática do crime – princípio “in dubio pro reo”.
O Tribunal adquire a sua convicção através da oralidade na produção
das provas e através da imediação do contacto imediato com essas mesmas
provas e que isto é importante inclusivamente para conhecer da
personalidade concreta do arguido.
Relativamente aos princípios relativos à prova: os critérios que existem
quanto à valoração e apreciação da prova: critério legal e a livre convicção
do Tribunal, ou livre apreciação da prova. O sistema processual português
opta pelo sistema da livre apreciação da prova.
Sempre que há questões de natureza prejudicial em processo penal (por
exemplo questões de natureza constitucional) essas questões poderão obstar
à apreciação imediata da causa por parte do Tribunal. Terá que ser relegado
o seu conhecimento para o tribunal competente (neste caso, para o Tribunal
Constitucional) embora esta questão possa depois ainda vir a ser suscitada
em sede de recurso. Mas terá de ser alegada logo no início, em 1ª Instância.
19[19]
Não foram vítimas directas.
Independência também perante a organização hierárquica judicial. Isto
é, o juiz não está obrigado a aceitar ordens ou instruções de outros juízes a
que deve obediência hierárquica. Esta hierarquia apenas é relevante em
matéria de organização judiciária, o juiz é independente, não está obrigado
a aceitar ordens ou instrução de outros juízes.
Relacionado com esta independência tem-se o carácter inamovível (art.
216º/1 CRP) dos juízes. Juntamente com a inamovibilidade, tem-se a
irresponsabilidade judicial (art. 216º/2 CRP), querendo isto dizer, que os
juízes não respondem pelos seus julgamentos, pelas suas decisões.
A lei processual penal criou um sistema de impedimentos – as chamadas
suspeições – que têm como finalidade garantir imparcialidade das decisões
judiciais e defender o próprio juiz contra a suspeita de não ser imparcial na
sua decisão.
Os impedimentos traduzem-se na impossibilidade que o próprio juiz
declara de participar num processo, alegando qualquer das situações
previstas no art. 39º CPP.
Mas também pode acontecer que o juiz nada diga. Aí o arguido, o
Ministério Público, ou o assistente podem levantar a suspeita e requerer
que aquele juiz seja retirado do processo (art. 43º CPP).
Portanto:
- Impedimento (art. 39º CPP) é o próprio juiz que declara estar
impedido de participar;
- Suspeição (art. 43º CPP), é a escusa ou a recusa que qualquer
sujeito processual tem de ter aquele juiz a participar naquele processo.
41. Princípio do juiz natural
Os cidadãos têm direito de exigirem que uma determinada causa seja
julgada pelo Tribunal previsto como competente por lei anterior ao
conhecimento da infracção, e não por um Tribunal que seja especialmente
criado para o julgar20[20].
Os Tribunais têm competência para julgar todo e qualquer tipo de crime,
com a excepção dos Tribunais militares. Todos têm direito a ser julgados
por um Tribunal que já existe no momento do cometimento da infracção,
com isto se prevê o princípio do juiz natural. Com este princípio, pretende-
se salvaguardar os direitos da pessoa.
Está directamente ligado a este princípio de Direito Penal “nullum
crimen sine legem”, nenhuma prática de determinado facto pode ser
considerado crime se não for previsto na lei como tal.
42. Consequências do princípio do juiz natural
20[20]
Proibição de criação de Tribunais de excepção – art. 209º/4 CRP.
Só a lei pode instituir o Tribunal e fixar-lhe a competência, a fixação do
Tribunal e da sua competência tem que se feita por uma lei vigente ao
tempo da prática do facto, princípio da irretroactividade.
Outra consequência é a proibição do desaforamento de qualquer causa,
isto é, um Tribunal é competente para julgar uma causa e essa causa não
lhe pode ser retirada.
Outra consequência é a proibição da suspensão discricionária de
qualquer autoridade, nenhuma autoridade poderá, proibir o Tribunal de
continuar a apreciar determinada causa.
43. Competência do Tribunal
Quanto à competência do Tribunal no exercício da sua jurisdição,
define-se a competência, como o âmbito de actuação de cada Tribunal, o
que ele abrange na sua actuação, qual a jurisdição que ele abrange. Isto é, a
actuação de cada Tribunal de forma, a que cada caso penal concreto seja
julgado, seja deferido a sua apreciação a um único Tribunal (e não a
vários).
a) Competência material: define o Tribunal que segundo a sua
espécie é competente para julgar um determinado crime, ou para
julgar determinadas pessoas (art. 10º segs. CPP);
b) Competência funcional: atende-se, em face do desenvolvimento do
processo, à fase em que ele se encontra, assim:
· Para a instrução, é competente o Tribunal de Instrução Criminal;
· Para o julgamento, é competente o Tribunal de 1ª Instância (é a
regra);
· Para a fase de recurso, será competente o Tribunal da Relação
ou o Supremo Tribunal de Justiça21[21].
c) Competência territorial: define qual o Tribunal, de entre vários da
mesma espécie, que é competente para julgar uma determinada causa,
atento o local onde foi cometido o crime – arts. 19º segs. CPP.
44. Competência territorial
O Tribunal tem uma certa área onde exerce a sua jurisdição, onde actua.
Normalmente coincide com os limites concelhios mas nem sempre é assim,
nomeadamente tratando-se de Lisboa.
A regra é no entanto coincidir com os limites concelhios. Por
conseguinte, a competência territorial define qual o Tribunal, entre os
vários da mesma espécie, que é competente para julgar um determinado
caso, atenta a sua realização no território.
O território nacional está dividido em:
a) Distritos judiciais;
21[21]
Para a Relação recorre-se das decisões do Tribunal singular e para o Supremo Tribunal de Justiça, recorre-se das
decisões do Tribunal colectivo.
b) Tribunais de Círculo;
c) Tribunais de Comarca;
O Supremo Tribunal de Justiça, tem jurisdição em todo o território,
depois tem-se os distritos judiciais, que abrangem uma série de comarcas
que se encontram definidas por lei.
Exclusivamente, cada distrito judicial tem jurisdição apenas sobre as
suas comarcas, não há interferência entre os distritos judiciais. Os conflitos
entre comarcas de distritos judiciais terão de ser resolvidas pelo Supremo
Tribunal de Justiça.
a) Método da determinação abstracta: faz-se decorrer da lei, isto é, o
próprio legislador que dá a cada Tribunal competência para o
conhecimento de determinados crimes;
b) Método da determinação concreta: tem-se que atender à pena que
se espera que concretamente venha a ser aplicada.
Antes da intervenção do Tribunal é que se vai determinar a
competência, tem que haver um órgão que vá determinar essa competência,
tem que ser feita na própria acusação. Por conseguinte, o método da
determinação concreta faz depender da própria acusação, do próprio órgão
acusador, a definição e a determinação da competência.
O método seguido pelo Direito Processual Penal português é o método
da determinação abstracta. Mas admite também o art. 16º/3 CPP, o
método da determinação concreta da competência.
A incompetência, que consiste precisamente na alegação das partes que
obstam, que impedem a apreciação do mérito da causa por parte de um
Tribunal. Tem-se pois dois Tribunais que se consideram competentes ou
incompetentes para julgar o caso. Tem-se de ver quem é que vai resolver
este conflito de competência.
Quanto à incompetência territorial (art. 32º CPP).
Quanto à competência material e na determinação da competência do
Tribunal, ela obtém-se através de dois critérios:
1) Através da natureza ou do tipo legal de crime, critério qualitativo:
neste critério deve atender-se ainda à qualidade do sujeito activo do
crime, do arguido, da pessoa, portanto, que praticou o crime. Atende-
se à natureza, ao tipo legal de crime, à pessoa que praticou o crime.
2) Através da gravidade do crime, critério quantitativo: aqui atende-
se desde logo à pena que é abstractamente aplicável.
A competência material, regra geral distribui-se pelos Tribunais de 1ª
Instância. Dentro destes temos o Tribunal de júri, o Tribunal colectivo e o
Tribunal singular.
45. Conexão
Define-se conexão como a relação que intercede entre vários processos
pendentes que se encontrem na mesma fase, ou se vão instaurar, relação
essa que poderá levar à unificação ou apensação dos vários processos, sem
que seja de atender às normas sobre a competência material ou
territorial22[22]. Nunca há conexão em relação a processos que se encontrem
em fases distintas: se um se encontra na fase de instrução e outro na fase de
inquérito, não é possível haver conexão; se um se encontra na fase de
instrução e outro em fase de julgamento, também não; se um se encontra na
fase de julgamento e outro na fase de recurso, também não. Portanto, só
não se atende à competência material ou territorial do Tribunal.
Para haver conexão (arts. 24º segs. CPP), torna-se necessário:
- Que o mesmo agente tenha cometido vários crimes;
- Que o mesmo crime tenha sido cometido por vários agentes em
comparticipação; ou
- Que vários agentes tenham cometido diversos crimes em
comparticipação;
- E destinando-se uns a continuar ou a ocultar os outros.
46. Requisitos para a existência da conexão
Tem de haver dois ou mais Tribunais competentes para julgar o caso.
Tem que haver dois ou mais processos distintos, quer sejam distintos
sobre o ponto de vista formal, quer mesmo quanto ao objecto
específico23[23].
Tem de haver derrogação da regra geral da competência do Tribunal,
isto é, um dos Tribunais tem de ceder em relação ao outro: ele é
competente porque o crime foi cometido na sua área, ou é competente
materialmente porque é o Tribunal colectivo ou porque é o Tribunal
singular que deve julgar aquele crime, mas outro é também competente. Há
uma derrogação da competência de um dos Tribunais.
Os processos têm que se encontrar todos na mesma fase – inquérito,
julgamento ou instrução. No recurso não há conexão.
47. Ministério Público
É característico de um sistema acusatório a existência de uma identidade
investigadora e acusadora e de uma entidade julgadora.
Com a criação do Ministério Público visa-se obter a estrutura acusatória
do processo penal, na medida em que se obtém (ou pretende obter-se) a
separação entre a entidade a quem compete presidir e dirigir o inquérito e
elabora a acusação.
O inquérito, tem como finalidade investigar a existência de um crime,
determinar quem foram os seus agentes e a responsabilidade que lhes cabe.
Findo o inquérito, cabe ao Ministério Público, também sempre que
22[22]
Há derrogação das normas de competência material ou territorial, mas nunca funcional.
23[23]
Tratar-se de crimes diferentes
havendo indícios suficientes da prática de um crime e determinados que
sejam os seus agentes, deduzir acusação.
Portanto, compete ao Ministério Público não só a promoção do processo
e a direcção do inquérito, como também elaborar a acusação, tem-se aqui
uma entidade investigadora e acusadora.
Entre o Ministério Público e o Tribunal há uma separação funcional e
institucional. No entanto, estão estritamente correlacionadas.
A actuação do Ministério Público no processo penal não se deixa
conduzir por critérios de discricionariedade e oportunidade, como é
característico da administração pública, mas antes segundo critérios de
objectividade e em obediência estrita ao princípio da legalidade.
O Ministério Público é um órgão autónomo da administração da justiça,
exerce as suas actividades independentemente, não está vinculado a
qualquer poder24[24], exerce a sua actividade de forma autónoma (art. 53º
CPP).
Critérios de estrita objectividade
Compete ao Ministério Público investigar e trazer para o processo tudo
o que possa demonstrar a culpabilidade do arguido, mas também lhe
compete carrear para o processo todos os indícios que possam conduzir à
minoração da pena do arguido, ou inclusivamente à prova da sua inocência.
O Ministério Público deve ser isento, imparcial na sua investigação e na
dedução da acusação. Daí que se aplique também ao Ministério Público
todo o sistema de impedimento e suspeições relativo aos juízes (arts. 39º e
43º CPP). Mas o pedido de escusa não é feito ao Tribunal, mas ao seu
superior hierárquico.
48. Estrutura (arts. 7º, 8º, 9º estatuto do Ministério Público, Lei 47/86)
A estrutura do Ministério Público constitui uma magistratura orgânica e
estruturalmente dependente, inamovível, responsável e hierarquicamente
organizada e subordinada. Os magistrados do Ministério Público são
responsáveis disciplinar e criminalmente (art. 414º CPP). Se o Ministério
Público não promover o processo a sua conduta poderá ser sancionada em
termos penais e certamente o será em termos disciplinares. Encontra-se
hierarquicamente organizado. O Ministério Público exerce funções junto
dos tribunais, sendo assim, a sua área de jurisdição está subordinada à área
de jurisdição dos Tribunais.
A propósito do inquérito, tem competência para o promover o
Ministério Público que exerce funções junto do Tribunal da área onde foi
cometido o crime. Donde pode surgir conflitos de competência, vale para
aqui o mesmo relativo aos Tribunais, nomeadamente quanto à competência
por conexão.
24[24]
Poder executivo, judicial, legislativo.
O crime é cometido num determinado local: será competente o delegado
do Ministério Público que exerce funções junto do Tribunal da área onde o
crime foi cometido.
49. Legitimidade
O art. 50º CPP, relativamente a crimes particulares, em que é
necessário haver queixa do ofendido e constituição de assistente.
Quanto aos crimes semi-públicos, o Ministério Público só promove o
processo quando há uma queixa do ofendido ou das pessoas que tenham
legitimidade para se queixar (art. 49º CPP).
Ao Ministério Público não compete definir o direito ao caso, porque é
uma actividade própria dos Tribunais. No entanto, as funções exercidas
pelo Ministério Público verifica-se que em determinados casos ele quase
que tem funções jurisdicionais.
A lei processual penal fala indiferentemente em denúncia, queixa, e em
participação. Entende-se que entre estes conceitos haverá alguma diferença.
a) A queixa
Refere-se essencialmente a crimes particulares e a crimes semi-públicos.
Têm legitimidade para a fazer os ofendidos ou as pessoas a quem a lei
confere legitimidade para tal.
A queixa refere-se ao crime pelo qual não se pode promover
oficiosamente o processo penal. É o ofendido que dá a notícia do crime ao
Ministério Público. A partir desse momento ele tem legitimidade para
promover o processo.
b) A denúncia
Entende-se que se refere aos crimes públicos (art. 24º CPP). Tem
legitimidade para a fazer obrigatoriamente os órgãos de polícia criminal e
as autoridades judiciárias e ainda qualquer pessoa que tenha a faculdade de
denunciar um crime.
c) A participação
É mais um acto administrativo, ou um acto do Governo, através do qual
se vai transmitir ao Ministério Público a notícia dum crime ocorrido no
exercício das funções ou por causa delas (art. 242º/1-b CPP).
A denúncia, a queixa e a participação podem ser feitas oralmente. Serão
depois reduzidas a escrito pelas entidades competentes, dando com isso
origem aos autos de notícia.
50. Inquérito
A seguir à recepção das queixas, denúncias e/ou participações, compete
ao Ministério Público dirigir o inquérito (art. 53º/2-b CPP).
Vem definido no art. 262º CPP, e constitui um conjunto de diligências
levadas a cabo pelo Ministério Público, ou por ele delegadas nos órgãos de
polícia criminal, que têm a finalidade investigar a prática de um crime25[25],
de determinar os seus agentes26[26] e a responsabilidade que lhes cabe para
que, apurado tudo isto, se decida se deve ou não deve submeter-se o autor
da infracção a julgamento.
Os actos de inquérito vêm regulados nos arts. 267º segs. CPP. Com o
encerramento do inquérito o Ministério Público pode tomar uma de três
posições:
- Deduz acusação;
- Arquiva o inquérito;
- Suspende provisoriamente o processo.
51. Arquivamento do Inquérito
No arquivamento do Inquérito, a que se referem os arts. 277º27[27] e 280º
CPP, pode-se falar em dois tipos de arquivamento:
1) Arquivamento por falta de indícios suficientes da prática do crime
ou pela não determinação de quem foram o (s) agente (s) (art. 277º
CPP);
2) Arquivamento porque se verifica uma situação de dispensa ou de
isenção de pena (art. 280º CPP)
Arquivando o Inquérito pode acontecer duas situações:
1) Ou a pessoa que se queixou – o ofendido – (a pessoa cujos
interesses foram violados) – se constitui assistente e requer a abertura
da instrução criminal no prazo de cinco dias após a notificação do
arquivamento, conforme se prevê no art. 287º CPP;
2) Ou não há requerimento para a abertura da instrução criminal, os
autos seguem para o superior hierárquico do Ministério Público e este
tem trinta dias para se pronunciar, podendo dizer ao seu subordinado
que prossiga as investigações, ou que deduza a acusação. A isto se
refere o art. 278º CPP.
Os casos de dispensa de pena (art. 280º CPP), são aqueles em que o
arguido confessa o crime, colabora com a justiça e a lei prevê que ele seja
dispensado de pena. E em relação a ele o processo é arquivado.
25[25]
Saber em que circunstâncias ocorreu.
26[26]
Saber quem o praticou
27[27]
Relativamente ao art. 277º CPP é possível distinguir as seguintes modalidades de arquivamento:
a) Arquivamento em sentido estrito, previsto no art. 277º/1 CPP, sempre que se verifique não ter havido crime,
o arguido não o ter praticado a qualquer título, ou ser legalmente admissível o procedimento criminal;
b) Arquivamento por falta de prova indiciária suficiente da verificação do crime ou de quem foram os seus
agentes, modalidade que se encontra prevista no n.º 2 do art. 277º CPP;
c) Arquivamento em caso de dispensa ou isenção de pena, modalidade que se encontra prevista e regulada
no art. 280º CPP. Neste caso o arquivamento depende da concordância do Juiz de Instrução Criminal.
Os casos de isenção de pena28[28] podem ser, por exemplo, a invocação
do estado de necessidade.
Também nestes casos – arquivamento por isenção de pena – exige a
concordância do Juiz de Instrução Criminal (art. 280º CPP).
No caso previsto no art. 280 CPP, há como que uma antecipação do
julgamento. Porém, se a acusação ainda não tiver sido deduzida, bastará
uma decisão de arquivamento, por parte do Ministério Público, seguida de
concordância do Juiz de Instrução Criminal, não sendo necessária qualquer
intervenção do arguido, uma vez que não chega a haver acusação.
No caso de a acusação já ter sido deduzida, a situação é algo diferente:
então será o juiz a arquivar o processo, com a concordância do Ministério
Público, e agora também a do arguido.
A falta de concordância de alguma destas entidades fará que o processo
prossiga, não se operando então o arquivamento nos termos do art. 280º
CPP.
Se a instrução já tiver encerrada ou já tiver sido deduzida acusação não
poderão funcionar as disposições do art. 280º CPP.
52. Acusação
O Ministério Público, através de indícios que o levam a convencer-se de
que a pessoa teria cometido o crime. Não precisa de ter uma certeza, basta
que haja indícios, passar-se-á eventualmente à fase seguinte ao inquérito –
a fase do julgamento – em que se produzirão provas e examinarão todas as
provas.
E então, submete o arguido a julgamento, isto é, deduz contra ele, uma
acusação.
O Ministério Público convence-se de que o arguido cometeu o crime. E
mesmo que ele tenha dúvidas quanto à prática desse crime, como aqui não
poderá funcionar por analogia o princípio “in dubio pro reo”, então ele
deve acusar. É isso que lhe é imposto pelo princípio da legalidade (art. 283º
CPP).
É esta possibilidade razoável que forma convicção do Ministério
Público quanto à suficiência dos elementos que recolheu para submeter o
arguido a julgamento.
Em conclusão, os indícios serão suficientes quando o Ministério Público
conclui que os elementos de prova já recolhidos por si ou conjuntamente
com outros que depois advenham ao processo, numa fase posterior, possam
conduzir à aplicação ao arguido de uma pena ou de uma medida de
segurança.
53. Conteúdo da acusação
28[28]
Os casos de dispensa de pena são casos de culpa muito diminuta, em que se não justifica a aplicação de
qualquer reacção criminal
Tem de haver a identificação do arguido.
Após a identificação, vem a narração dos factos que são imputados ao
arguido.
A seguir, vêm as disposições legais aplicáveis; aliás, constitui uma
nulidade a sua não inclusão.
Depois, vem a indicação da prova, remetendo então para os autos;
indica-se também a prova testemunhal.
Finalmente, coloca-se a data e assina-se.
A tomar a posição de “atendendo ao comportamento anterior do
arguido, não lhe deve ser aplicada uma pena de prisão superior a três
anos”, o Ministério Público está desde logo a determinar a competência do
tribunal, dizendo que aquele caso será julgado pelo tribunal singular e não
pelo tribunal colectivo, como aconteceria se ele nada dissesse.
A acusação é notificada ao arguido, ao assistente se já o houver e
também ao denunciante (art. 285º/3 e 273º/3 CPP), sendo como refere estes
artigos para crimes públicos e semi-públicos. Nos crimes particulares não
tem aplicação o art. 277º/3 CPP, quanto ao assistente, porque quem deduz
acusação é o próprio assistente.
A notificação que é feita ao arguido é uma notificação penal.
A lei processual penal não fala em citação: fala na notificação que
reveste no entanto as características de uma verdadeira citação:
- Ou o arguido é chamado ao tribunal e é notificado directamente da
acusação, se ainda não foi constituído como tal;
- Ou então já está constituído como arguido no processo.
Ao assistente cabe recorrer (interpor recurso), requerer a abertura de
instrução, etc. Ora, não é qualquer indivíduo que pode praticar esses actos.
Tem de estar assessorado por um advogado, por um técnico inserido nos
meios de justiça. Daí que se lhe exija que ele esteja representado por um
advogado.
A partir do momento em que se encontrem preenchidos estes requisitos,
o juiz admite-o como assistente: ele adquiriu a qualidade de sujeito
processual.
O ofendido e o assistente são a mesma pessoa, em momentos diferentes
e com qualidades diferentes.
No entanto tratando-se de crime particular, o indivíduo tem de declarar
que se vai constituir assistente. Isto faz com que a queixa siga logo para o
Ministério Público (art. 246º/4 CPP).
Uma vez constituído como assistente, o Ministério Público inicia o
inquérito. Chegando ao fim do inquérito, há que deduzir a acusação. Quem
vai acusar em primeiro lugar é o assistente (art. 285º/1 CPP).
O assistente vai dirigir a acusação ao Tribunal. Pois, não pode ser ao
Ministério Público, porque foi ele que fez o inquérito; já terminou as suas
funções, não tem competência para apreciar a acusação.
O objectivo da acusação é submeter o arguido a julgamento. Portanto, a
acusação é dirigida ao Tribunal. A acusação segue os mesmos termos que a
acusação feita pelo Ministério Público.
54. Suspensão provisória do processo
Pode acontecer que o Ministério Público tenha recolhido indícios
suficientes da prática do crime mas, atendendo a determinadas
circunstâncias, lhe seja permitido não deduzir acusação, lhe seja permitido
decidir-se por outra forma diferente da acusação.
Então:
· Se durante o inquérito tiverem sido recolhidos indícios suficientes
da prática do crime;
· Se o crime abstractamente for punível com pena não superior a 3
anos;
· Se se tratar de um delinquente primário, desde que haja uma culpa
diminuta e não haja dolo na prática do crime;
· E depois, desde que haja concordância do arguido, do assistente e
também do Juiz de Instrução Criminal.
A lei, no art. 281º CPP, permite ao Ministério Público que, em vez da
acusação, se decida pela suspensão provisória do processo, mediante a
imposição ao arguido de injunções e regras de conduta.
Se as injunções e as regras de conduta que são oponíveis ao arguido
contêm limitações aos seus direitos, então exige-se a concordância Juiz de
Instrução Criminal.
Estas regras de conduta (art. 281º/2 CPP), não se mantêm
indefinidamente. Estão condicionadas a um certo tempo, num prazo
máximo de 2 anos. Por isso, fala-se em suspensão provisória do processo: o
processo chegou ao fim do inquérito e parou, suspendeu-se, para ver se o
arguido cumpre aquilo que lhe foi imposto.
Mas, se o arguido não cumprir com as regras que lhe foram impostas
pelo art. 281º/2 CPP, então volta-se ao momento em que o processo se
suspendeu: há indícios suficientes, então necessariamente tem de se seguir
a acusação – o Ministério Público vai deduzir a acusação.
A suspensão provisória do processo, sendo uma decisão que cabe ao
Ministério Público, apenas pode ter lugar nos crimes públicos e semi-
públicos, nunca nos crimes particulares. Aí a decisão compete ao assistente,
ao particular, e ele não tem poderes para propor a suspensão provisória do
processo.
55. Instrução
A instrução, não é um novo inquérito, mas tão-só um momento
processual de comprovação.
Trata-se de uma fase dotada de uma audiência rápida e informal, mas
oral e contraditória, destinada a comprovar judicialmente a decisão do
Ministério Público de acusar ou de não acusar, e que portanto termina por
um despacho de pronúncia ou de não pronúncia.
É óbvio, por outro lado, que, tratando-se já de uma fase judicial, a sua
estrutura eminentemente acusatória deverá apresentar-se integrada pelo
princípio da investigação; não terá por isso o Juiz de Instrução Criminal de
limitar-se, em vista da pronúncia, ao material probatório que lhe seja
apresentado pela acusação e pela defesa, mas deve antes – se para tanto
achar razão – instruir autonomamente o facto em apreciação com a
colaboração dos órgãos de polícia criminal.
Tem como finalidade, comprovar judicialmente a decisão de deduzir a
acusação ou de arquivar o inquérito com o fim último de submeter ou não o
arguido a julgamento sendo a sua natureza facultativa (art. 286º/2 CPP).
56. Legitimidade
Têm legitimidade para requerer a abertura da instrução o arguido ou
assistente, nunca o Ministério Público.
a) O arguido (art. 287º/1-a CPP)
Tem legitimidade para requerer a abertura da instrução em caso de
acusação: ou de acusação formulada, pelo Ministério Público ou acusação
formulada pelo particular que se constitui assistente.
O arguido vai requerer ao juiz que examine novamente os autos do
inquérito, porque ele discorda da atitude do Ministério Público ou do
assistente. Entende que os elementos de prova que constam do processo
não são relevantes de forma a preverem que ele seja condenado, ou que lhe
possa ser aplicada uma pena ou medida de segurança.
b) O assistente (art. 287º/1-b CPP)
Pode requerer a abertura da instrução em caso de arquivamento do
inquérito nos termos do art. 277º CPP; ou por factos pelos quais o
Ministério Público não tiver deduzido acusação.
Mas, tal como o Ministério Público não pode requerer a abertura da
instrução, também, nos crimes particulares, o assistente não pode requerer
a abertura da instrução.
Portanto, uma vez requerida a abertura da instrução pelo arguido ou pelo
assistente, o juiz pratica os designados actos de instrução: vai fazer novas
diligências, vai ouvir novamente as testemunhas, eventualmente vai
requerer exames.
57. Debate instrutório
É uma audiência em que o juiz vai expor sumariamente o que é que se
pretende atingir com o requerimento para a abertura da instrução: vai expor
as diligências que fez, e depois pergunta a cada um dos sujeitos processuais
se tem mais provas para apresentar naquele acto.
Findo o debate, é dada a palavra a cada um dos sujeitos processuais,
para que tirem as suas conclusões.
A instrução termina com a decisão do juiz, proferindo um despacho de
pronúncia ou despacho de não pronúncia (art. 308º CPP).
O juiz pronúncia, o arguido, pelos factos respectivos, que são os
descritos na acusação ou no requerimento para a abertura da instrução e
através deste despacho vai-se submeter o arguido a julgamento.
Caso contrário, se houver arquivamento do processo e durante a
instrução o juiz atender que não foram trazidos aos autos elementos
suficientes para modificar a decisão do Ministério Público, então o juiz
profere um despacho de não pronúncia, isto é, mantém a não submissão
do arguido a julgamento.
Se o arguido vai ser submetido a julgamento, vai ter a possibilidade de
se defender. Como não se está a limitar nenhum direito, o despacho de
pronúncia é irrecorrível (art. 400º/1-g CPP).
Mas já é possível recurso quando seja um despacho de não pronúncia
(art. 310º CPP). Uma vez que o assistente vê desde logo afastada a
possibilidade de ver a sua posição ser apreciada por um Tribunal, então
pode recorrer do despacho.
O princípio do acusatório impede que seja o juiz a tomar a iniciativa de
alterar a acusação; por isso, se entender que se provam indiciariamente
factos que alterem substancialmente os da acusação, limitar-se-á a não
receber a que foi deduzida, proferindo despacho de não pronúncia e
comunicando ao Ministério Público os factos para que, quanto a eles, abra
inquérito.
Mas o se Juiz de Instrução Criminal vier a pronunciar o arguido por
outros crimes, ou venha agravar o crime cometido, estaria-se numa situação
de alteração substancial dos factos descritos na acusação e então essa
decisão era nula (art. 309º CPP).
58. O arguido
Sujeito processual essencial para o processo, de tal maneira que se não
houver arguido não há acusação não pode haver julgamento.
O condenado é a pessoa contra quem já foi proferida uma sentença de
condenação.
O suspeito, será toda a pessoa relativamente à qual exista um indício
(não muito forte) de que praticou um crime, ou se prepara para cometer um
crime, ou nele participou ou se prepara para participar.
O arguido, será a pessoa singular contra quem foi deduzida acusação,
contra quem foi requerida a abertura da instrução penal ou que veio a ser
constituída como tal nos autos.
Com a notificação da acusação a pessoa, ao tomar conhecimento,
assume a qualidade de arguido.
Tem-se de distinguir:
· Por um lado a assunção da qualidade de arguido;
· Por outro lado, a constituição dessa pessoa como arguido (art. 58º
CPP).
A partir do momento da comunicação (art. 58º/2 CPP), adquire-se a
qualidade de sujeito processual. Se faltar essa comunicação, oral ou escrita,
as consequências são desde logo que tudo quanto o arguido disse até esse
momento não pode ser usado contra ele. Ou seja, se ele confessou o crime,
se disse como o preparou, o que fez, etc., tudo isso é como que apagado,
não pode ser usado contra ele (art. 58º/4 CPP).
As outras formas de constituição da qualidade de arguido encontram-se
enumeradas nos arts. 57º e 59º CPP.
Quando uma pessoa formula o pedido de que se quer constituir arguido
(art. 59º/2 CPP), adquire essa qualidade a partir do momento em que lhe é
notificado o despacho que o admite como tal.
Pretende-se com a constituição de arguido, desde logo dar conhecimento
tempestivo à pessoa de existência de um processo contra ela, e possibilitar-
lhe a faculdade de ela ir em tempo útil preparando a sua defesa.
59. Estatuto jurídico do arguido
O arguido é um sujeito processual: reconhecem-se-lhe direitos e cabem-
lhe também deveres (art. 61º CPP).
A pessoa deixou de ser um mero objecto do processo e tem todos os
direitos, liberdade e garantias que a Constituição lhe prevê e assegura.
Pretende-se com isso a consagração da verdade material, na medida em
que este sujeito processual goza da protecção do direito.
Há que notar, que a aquisição – quer por assunção, quer por constituição
– da qualidade de arguido não pressupõe a intervenção do Ministério
Público.
a) Direitos do arguido:
1) Direito a todas as garantias de defesa, estabelecido no art.
32º/129[29] CRP.
2) Presunção de inocência até trânsito em julgado da decisão de
condenação (art. 32º/230[30] CRP).
3) Direito a julgamento no mais curto prazo compatível com as
garantias de defesa (art. 32º/2 CRP).
29[29]
O processo criminal assegura todas as garantias de defesa, incluindo o recurso.
30[30]
Todo o arguido se presume inocente até ao trânsito em julgado da sentença de condenação, devendo ser julgado
no mais curto prazo compatível com as garantias de defesa.
4) Direito à escolha de defensor, a ser por ele assistido em todos os
actos do processo e a comunicar, mesmo em privado, com ele (art.
32º/3 CRP e 61º/1-d); e) CPP). Porem enquanto o arguido pode
constituir defensor em qualquer altura do processo, o juiz é
obrigado a nomear-lho nos casos em que a lei determina a
obrigatoriedade de assistência do defensor (art. 64º CPP).
5) Direito de estar presente nos actos processuais que directamente
lhe disserem respeito (art. 32º/7 CRP; art. 61º/1-a CPP). Os actos
que dizem respeito ao arguido, são todos aqueles relativamente aos
quais vale em geral o princípio da contrariedade. Quer-se dar ao
arguido a mais ampla possibilidade de tomar posição, a todo o
momento, sobre o material que possa ser feito valer
processualmente contra si, ao mesmo tempo que garantir-lhe uma
relação de imediação com o juiz e com as provas.
6) Direito de audiência pelo Tribunal ou pelo Juiz de Instrução
Criminal sempre que eles devam tomar qualquer decisão que
pessoalmente o afecte (art. 61º/1-b CPP).
7) Direito de não responder a perguntas feitas relativamente a factos
que lhe são imputados (art. 61º/1-c CPP).
8) Direito de intervir no inquérito e na instrução, oferecendo provas
e requerendo diligências (art. 61º/1-f CPP).
9) Direito à informação dos direito que lhe assistem (art. 61º/1-g
CPP; vide também arts. 141º/4 e 144º CPP).
b) Deveres processuais do arguido:
1) Dever de comparência perante o juiz, o Ministério Público ou os
órgãos de polícia criminal, sempre que a lei o exija ou que tenha
sido para isso devidamente convocado por alguma dessas entidades
(art. 61º/3-a CPP, vide também arts. 116º/2; 208º; 36º; 473º CPP).
2) Deve de responder com verdade às perguntas feitas sobre a
identidade (arts. 61º/3-b; 141º/3 CPP).
3) Sujeição de diligências de prova e a medidas de coacção e de
garantia patrimonial especificadas na lei e ordenadas e efectuadas
por entidade competente (art. 61º/3-d CPP). Estas medidas de
coacção têm de ser as especificadas na lei, decorrência do princípio
da legalidade, e só devem ser utilizadas quando absolutamente
necessárias (princípio da necessidade), vide arts. 191º segs. CPP.
60. O defensor
A função do defensor será não só de carrear para os autos tudo quanto
seja favorável à posição do arguido mas também e sobretudo fazer realçar
no processo tudo o que for útil de modo a favorecer a posição do arguido.
A função do defensor é, conjuntamente com o Tribunal e com o
Ministério Público trazer provas que possam afastar a imputabilidade, ou
minorar a pena a aplicar ao arguido, como também dar realce a essas
situações.
O art. 62º CPP, indica quem tem legitimidade para ser defensor. Em
princípio deve ser advogado ou advogado estagiário.
Regra geral cabe ao Juiz de Instrução Criminal ou ao juiz de julgamento
nomear o defensor ao arguido.
Excepcionalmente essa competência poderá caber ao Ministério Público
(art. 62º/3 CPP).
A falta de nomeação de defensor constitui uma mera irregularidade, o
Tribunal não nomeou, ainda está a tempo de o fazer. A falta de assistência,
designadamente nos actos em que é obrigatória a assistência do defensor
constitui uma nulidade insanável. Essa nulidade será invocável a todo o
tempo, até ao trânsito em julgado da sentença, obrigando à repetição de
todos os actos que se praticaram a partir daí.
O Código de Processo Penal submete o arguido a três tipos de
interrogatório31[31], como ainda lhe concede uma alegação final no fim da
audiência de julgamento, quanto aos interrogatórios:
- Um interrogatório não judicial, que é feito pelo Ministério Público
e eventualmente pelos órgãos de polícia criminal a quem foram
delegadas essas funções (art. 143º CPP).
- Um interrogatório judicial, que é feito pelo Juiz de Instrução
Criminal;
- Um interrogatório judicial feito pelo juiz de julgamento.
Só o Tribunal é que pode fazer um interrogatório directo ao arguido. Os
outros sujeitos processuais farão esse interrogatório através do Tribunal, a
não ser que este consinta um interrogatório directo (arts. 141º/6; 345º/2
CPP)
61. O assistente
Para se falar em assistente é necessário distinguir:
a) Ofendido: titular de interesses que a lei especialmente quis proteger
com a incriminação, desde que maior de 16 anos (art. 68º/1-a CPP),
31[31]
Quanto aos interrogatórios, eles constituem não só um meio de prova, como são também o exercício do seu
direito de defesa.
ou seja, titular dos interesses que a lei quis especialmente proteger
quando formulou a norma penal;
b) Lesado: o titular de um interesse de natureza civil. É a pessoa
(singular ou colectiva) que sofreu danos ocasionados com a prática do
crime (art. 74º/1 CPP);
c) Partes civis: são as pessoas (singulares ou colectivas) que por
terem legitimidade para deduzirem (lesados) ou contra eles ser
deduzido, em processo penal um pedido de indemnização de natureza
cível derivado da prática de um crime, intervêm ou são chamadas a
intervir no processo, são sujeitos processuais;
d) Assistente: é a pessoa (s) (singular ou colectiva) que, por serem
ofendidas ou porque a lei lhes confere legitimidade para se
constituírem como tal (art. 68º/1 CPP), requereram ao juiz a sua
intervenção no processo penal para ai fazerem valer os seus interesses
(de natureza penal e conjuntamente de natureza cível), quer em
colaboração com o Ministério Público (crimes públicos e semi-
públicos), quer autonomamente nos casos previstos na lei (crimes
particulares), e que por despacho judicial foram admitidas como tal. É
um sujeito processual.
62. Legitimidade
Torna-se necessário que a pessoa tenha mais de 16 anos, que seja titular
de um interesse que a lei penal quis proteger (art. 68º CPP).
Se o ofendido nada fizer, tratando-se de um crime público; ou se
apresentar meramente uma queixa, tratando-se de um crime semi-público,
os seus interesses serão defendidos pelo Ministério Público. Se quiser
intervir no processo, então, tem de adquirir a qualidade de sujeito
processual. O ofendido adquire essa qualidade querendo a constituição
como assistente, isto é, vai pedir ao juiz que a admita a intervir nos autos
como sujeito processual, na qualidade de assistente. O assistente tem de ser
representado por advogado (art. 70º CPP).
O ofendido pode requerer a sua constituição como assistente desde o
início do processo até um determinado momento, que difere consoante seja
ou não requerida a abertura da instrução – requisito de tempestividade:
- Se houver Instrução, é até cinco dias antes da data marcada para o
debate instrutório;
- Não havendo instrução, passando-se logo para a fase de
julgamento, então é desde que o requeira até cinco dias antes do
início da audiência de julgamento.
a) Requisitos formais:
- É necessário que tenha legitimidade, e para isso tem de ser o
ofendido ou alguma das pessoas a que se refere o art. 68º CPP;
- Tem que fazer um requerimento ao juiz (Juiz de Instrução
Criminal, ou juiz de julgamento, dependendo da fase em que
requerer) – art. 68º/2 CPP;
- Tem que fazer esse requerimento em tempo (art. 68º/2 CPP);
- O art. 70º CPP; faz referência à representação judiciária dos
assistentes.
b) Requisitos substanciais:
Não ter havido renúncia à queixa, se houver renúncia, a pessoa não pode
depois vir a constituir-se assistente.
Também não se pode constituir assistente quem tenha comparticipado
num crime.
O requerimento é acompanhado da respectiva procuração que constitui o
mandatário e é depois levado à apreciação do juiz para proferir um
despacho de admissão ou de indeferimento.
Se faltar algum dos requisitos enunciados, então o juiz deverá proferir
um despacho de indeferimento.
63. O lesado
O lesado é aquela pessoa que não sofre directamente o crime, mas por
efeito dele sofre danos (art. 74º CPP).
Lesado deve ser considerada toda a pessoa que, segundo as normas de
Direito Civil tenha sido prejudicada em interesses seus juridicamente
protegidos, desta perspectiva se alcançando um conceito lacto ou extensivo
de ofendido, que abrangerá todas as pessoas civilmente lesadas pela
infracção penal.
Em suma, dever-se-á considerar lesado, para os efeitos do art. 74º CPP,
todo aquele que perante o Direito Processual Penal tiver legitimidade para
formular o pedido de indemnização.
O lesado, quando só é lesado, porque não é o ofendido, nunca se poderá
constituir como assistente, a lei não lhe confere legitimidade, a não ser que
se encontre previsto no art. 68º CPP.
O assistente tem que estar sempre numa relação directa com o crime; o
lesado, apenas nessa qualidade, nunca se pode constituir assistente. Quando
ofendido e lesado se fundam numa única pessoa então, nesse caso, como
ofendido, já poderá constituir-se como assistente.
16. Posição jurídico-processual do assistente
Nos crimes públicos e semi-públicos, o prosseguimento do processo
penal está assegurado pelo Ministério Público. O assistente pode também
participar mas a entidade principal é o Ministério Público, logo, o assistente
apenas intervirá no processo em colaboração com o Ministério Público,
mas será sempre uma actuação subordinada.
É uma actuação (do assistente) subordinada à actividade do Ministério
Público, de quem o assistente é um mero colaborador. Dir-se-á por
conseguinte que ele é um sujeito processual subordinado.
Há contudo uma excepção, em que se invertem os termos, em que o
assistente passa a sujeito principal e o Ministério Público passa a sujeito
subordinado e que decorre dos crimes particulares.
Neste, o procedimento criminal só tem lugar se houver queixa,
constituição de assistente e só há julgamento se o assistente acusar. O
Ministério Público poderá acusar depois de o assistente o ter feito (art. 285º
CPP).
Direitos do assistente:
- Direito de intervenção no inquérito, oferecendo provas,
requerendo diligências;
- Direito de deduzir acusação: quer o art. 69º/2 CPP, quer o art. 284º
CPP, se referem à acusação do assistente;
- Pode também interpor recurso.
O assistente pode ainda na audiência de julgamento:
- Inquirir as testemunhas, directamente;
- Inquirir o arguido, através do Tribunal (art. 345º/2 CPP);
- Tem direito de requerer a consulta dos autos (art. 89º/1 CPP).
17. Posição jurídico-processual do lesado
O lesado sofre danos indirectamente com o crime: ele não é a vítima
directa do crime.
Quando a pessoa é só lesada ou mesmo quando é assistente, a
indemnização cível só será atribuída se for requerida. E tem de ser
requerida no processo penal.
A figura do lesado está directamente relacionada com o pedido de
indemnização cível.
Mas uma vez que o ofendido é ao mesmo tempo lesado, quando o
ofendido se constitui assistente tem igualmente legitimidade para formular
um pedido de indemnização civil.
Quanto a este pedido, diz a lei que ele é deduzido obrigatoriamente no
processo penal, a não ser que a lei, em casos tipificados, permita que seja o
Tribunal civil (art. 71º CPP, excepção do art. 72º CPP).
Que razão levou o legislador a tornar obrigatória a dedução do pedido
de indemnização no processo penal (art. 71º CPP)?
Em princípio, haveria uma economia de tempo, porque o processo penal
devia ser mais rápido.
Uma outra razão é a de que o ofendido economiza dinheiro, porque o
processo penal é mais barato.
Depois, outra razão é o aproveitamento das provas carreadas para o
processo pelo Ministério Público, consagradas com elementos de prova
que são produzidos na própria audiência de julgamento, principalmente as
declarações do ofendido.
Uma razão de ordem geral é a prevenção geral da criminalidade.
O princípio da obrigatoriedade da dedução do pedido de indemnização
civil em processo penal apenas é válido em toda a sua plenitude nos crimes
públicos, embora com as limitações do art. 72º/1-a), b), c), d), e), f), h)
CPP.
Para os crimes particulares e para os crimes semi-públicos, vigora o
princípio da opção. Mas opção com estas consequências: é que se o
ofendido ou o assistente quiserem optar pelo processo civil, isso equivale a
uma renúncia ao prosseguimento do processo penal.
O pedido de indemnização é de natureza exclusivamente civil. Não há
indemnizações de ordem penal.
Vigora o princípio da necessidade, na medida em que o pedido de
indemnização é deduzido pelo lesado (art. 74º CPP). Quer isto dizer que só
haverá atribuição de uma indemnização se a mesmo for requerida.
18. Legitimidade para intervir no pedido de indemnização
Do lado passivo, tem-se duas pessoas:
- O arguido, o infractor contra quem é imputada a prática de um
crime: ele será responsável pelo pagamento da indemnização;
- Pode haver também um responsável meramente civil, que é a
pessoa singular ou colectiva que está obrigada ao ressarcimento do
dano que é ocasionado pelo crime.
O lesado, se quer intervir no processo, se quer formular um pedido de
indemnização, ou requerer ao Ministério Público que o represente ou faz-se
representar por advogado (art. 76º/1 e 2 CPP).
Quanto à legitimidade activa, essencialmente pertence ao lesado. Mas
poderá pertencer também a uma parte civil. Neste conceito cabem não só as
pessoas singulares, como também as pessoas colectivas.
A posição do lesado no processo restringe-se ao exercício dos poderes
de sustentação e da prova em matéria cível quanto ao pedido de
indemnização.
O lesado pode exercer o seu direito, a partir da sua intervenção no
processo, ou a partir do momento em que as autoridades judiciárias lhe
comuniquem esses direitos.
É-lhe comunicado esses direitos quando, num processo penal o
Ministério Público ou o juiz se aperceber que há alguém que foi afectado
pela prática do crime, isto é, que sofreu danos ocasionados pelo crime, deve
notificá-lo e informá-lo de que tem um direito a ser indemnizado pelos
prejuízos sofridos (art. 75º CPP) – dever de informação.
O arguido pode contestar o pedido de indemnização. Daqui, não decorre
nenhuma consequência, na medida em que a falta de contestação não
implica a condenação no pedido de indemnização.
19. Natureza do pedido de indemnização civil
O pedido de indemnização cível é exclusivamente civil. O que se
pretende é obter uma compensação, um ressarcimento pelos danos sofridos,
com a aplicação das normas de Direito Civil substantivo, no que respeita à
formulação e à atribuição dessa indemnização.
Também, a decisão penal que conhecer do pedido de indemnização civil
constitui caso julgado, isto é, não se pode formular o pedido de
indemnização no processo penal e depois, porque se ficou satisfeito,
formular novo pedido no Tribunal civil, forma-se caso julgado mesmo no
que diz respeito à matéria civil em processo penal.
Há legitimidade activa e passiva:
- A legitimidade activa pertence ao lesado e, eventualmente, a
terceiro;
- A legitimidade passiva, pertence ao arguido e também, se o
houver, a um responsável meramente civil:
· O arguido é chamado directamente ao processo;
· O responsável meramente civil poderá ser demandado ou poderá
ele próprio fazer a sua intervenção porque, nomeadamente se houver
um direito de regresso contra o arguido, tem interesse em discutir se
houve ou não houve causas de exclusão da sua responsabilidade.
É obrigatório a formulação do pedido de indemnização no processo
penal, quando isso não acontecer, o Tribunal não conhece desse pedido.
20. Formulação do pedido de indemnização
Rege esta matéria o art. 77º CPP. Neste artigo tem-se que ter bem
presente quem formula o pedido de indemnização: se é o Ministério
Público, se é o assistente, ou se é o lesado.
Quando formulado pelo Ministério Público o pedido de indemnização é
deduzido na acusação.
Isto quer dizer que o lesado deve fornecer ao Ministério Público os
elementos de facto que fundamentam o seu pedido antes do termo do
inquérito, isto é, antes do Ministério Público formular a acusação.
Quando formulado pelo assistente o pedido de indemnização é deduzido
na acusação ou no prazo em que esta deva ser formulada.
Esta alternativa aplica-se aos crimes públicos e semi-públicos, em que o
assistente pode não acusar, pode pura e simplesmente fazer sua a acusação
do Ministério Público, ou seja, pode aderir à acusação do Ministério
Público. Tem cinco dias após a notificação da acusação do Ministério
Público, o assistente também pode deduzir acusação (art. 284º CPP).
Nos crimes particulares o pedido deve ser formulado na acusação.
Se o assistente não deduzir acusação então deve, nesses cinco dias,
formular o pedido de indemnização, sob pena de o mesmo depois não ser
conhecido.
Se não houver acusação não há prosseguimento do processo penal nos
crimes particulares, em que é obrigatória a acusação por parte do assistente.
Portanto, quando ele deduz a acusação formula também o pedido de
indemnização, na mesma peça processual.
O art. 7º/2 CPP, refere-se ao pedido de indemnização feito pelo lesado,
que intervém no processo através de advogado.
Quando à data do despacho de pronúncia ou da data do julgamento
ainda não são conhecidos os danos, então poder-se-á deixar a formulação
do pedido para uma execução de sentença.
MEDIDAS DE COACÇÃO E DE GARANTIA PATRIMONIAL
21. Noção
São providências de natureza cautelar e processual, limitadoras da
liberdade do arguido que têm em vista assegurar que o processo penal
decorra sem incidentes.
Estas medidas de coacção inserem-se dentro de um conjunto de medidas
de natureza cautelar, que têm em vista assegurar que o processo decorra
sem incidentes.
Pela sua natureza, só excepcionalmente é que elas podem ser aplicadas
para limitar a liberdade das pessoas, estão sujeitas ao princípio da
legalidade (arts. 27º CRP e 191º CPP).
De acordo com o crime, com a infracção cometida pelo arguido, assim o
juiz irá ponderar qual a medida de coacção a aplicar ao arguido, dentro
daqueles que estão previstas na lei; depois será também proporcional à
gravidade do crime (art. 193º CPP32[32]).
22. Pressupostos
É obrigatória a prévia constituição de arguido, quanto tenha de ser
aplicada uma medida de coacção (art. 58º/1-b; 192º/1 CPP).
Só o Juiz de Instrução Criminal ou o juiz de julgamento, poderá decidir
qual a medida de coacção a ser aplicada ao arguido (art. 194º/1 CPP).
Há apenas uma, chamada termo de identidade e residência (art. 196º
CPP), que pode ser aplicada pelo Ministério Público. É a única medida de
coacção que foge à regra de aplicação por parte do juiz, pode ser aplicada
pelo Ministério Público.
Todas as restantes medidas de coacção são aplicadas mediante despacho
de juiz, porque o poder judicial é próprio do juiz e não do Ministério
Público. Apenas o juiz tem o poder de limitar os direitos do cidadão.
Por isso é que, sendo as medidas de coacção limitadoras da liberdade
das pessoas, apenas poderão ser aplicadas por despacho de juiz.
Se uma medida de coacção for aplicada (pelo juiz) durante o inquérito,
faltando o requerimento do Ministério Público, entende-se que se está
perante uma nulidade insanável, que poderá ser invocada a todo o tempo.
Conduzirá portanto à anulação de tudo quanto se processou a partir daquela
data.
32[32]
Princípio da adequação e da proporcionalidade
O juiz não está vinculado à medida de coacção solicitada pelo
Ministério Público. Isso iria limitar a actividade do juiz no processo; a
actividade judicial como que ficava subordinada a um órgão que não é
judicial e que, além do mais, é hierarquicamente dependente.
Termo de identidade e residência
É uma medida obrigatória para todos os processos que devam continuar
após o interrogatório do arguido:
- É aplicável a todos aqueles que forem constituídos arguidos;
- Sempre cumulável com outra medida de coacção;
- Implica a obrigação de o arguido indicar pessoa que receba as
notificações no caso de vir a residir fora da comarca; de comparecer
perante autoridade competente sempre que para tal seja notificado; de
não mudar de residência sem comunicar a nova residência.
- O arguido é informado de que em caso de incumprimento será
representado pelo seu defensor incluindo a audiência de julgamento
(art. 333º CPP).
A não sujeição do arguido a termo de identidade e residência, quando o
processo contínua após o primeiro interrogatório, constitui irregularidade
processual, sujeita ao regime do art. 123º CPP. Nos termos do art. 123º/2
CPP, a reparação da irregularidade deve ser ordenada mesmo
oficiosamente, logo que dela se tome conhecimento, determinando-se que o
arguido preste termo.
23. Caução (carcerária)33[33]
O arguido é obrigado a depositar uma determinada quantia que irá ser
fixada pelo juiz para que aguarde em liberdade os ulteriores termos do
processo.
Tem como consequência que se o arguido deixar de cumprir as
obrigações que lhe são impostas perde esse dinheiro que depositou.
Pode ser cumulada com outra, com excepção da prisão preventiva,
pressupostos:
- Crime punível com pena de prisão;
- Possibilidade de cumulação com outras que não seja a obrigação
de permanência na habitação e a prisão preventiva (art. 205º CPP);
- Possibilidade da sua substituição por outra ou outras em
cumulação por dificuldades (económicas) do arguido;
- Deve atender-se:
· Aos fins a que se destina;
· À gravidade do crime;
· À condição sócio-económica do arguido.
- Reforço da caução (art. 207º CPP);
33[33]
Art. 197º CPP.
- Se o arguido não prestar a caução ou não proceder ao reforço pode
ser decretado o arresto preventivo (art. 206º/4 e 228º CPP);
- Quebra da caução (art. 208º CPP).
24. Proibição de permanência, de ausência e de contactos34[34]
O arguido não poderá contactar com determinadas pessoas.
Existência de fortes indícios da prática de um crime punível com pena
de prisão de máximo superior a três anos.
Imputação a título de dolo.
25. Obrigação de permanência na habitação35[35]
O arguido não poderá sair da sua habitação.
Existência de fortes indícios de crime punível com pena de prisão de
máximo superior a três anos.
Imputação a título de dolo.
Possibilidade de utilização de meios de controlo à distância para
fiscalização.
26. Prisão preventiva36[36]
É a medida de coacção mais grave de todas (engloba todos os requisitos
das restantes), é uma medida de coacção limitadora em absoluto da
liberdade das pessoas.
Tem como sujeito passivo o arguido e tem como requisitos gerais para a
sua aplicação os previstos no art. 204º CPP.
São toda uma série de circunstâncias que se podem verificar
independentemente umas das outras, estes requisitos não são cumulativos:
basta que se verifique um, ou que haja a possibilidade de ser verificar um,
para que as mediadas de coacção possam ser aplicadas.
A prisão preventiva, para além dos requisitos gerais do art. 204º CPP,
tem também requisitos especiais previstos no art. 202º CPP.
É uma medida de natureza excepcional e tem também natureza
subsidiária, isto é, só se aplica se os fins que com ele se pretendem atingir
não poderem ser conseguidos com a aplicação de outra medida de coacção
menos gravosa (art. 28º/2 CRP; arts. 193º/2 – 204º CPP).
Excepção ao princípio da subsidiariedade da prisão preventiva, é o art.
209º CPP.
Quanto ao prazo de duração máximo, vem previsto no art. 215º CPP.
34[34]
Art. 200º CPP.
35[35]
Art. 201º CPP.
36[36]
Art. 202º CPP.
Quanto à impugnação da prisão preventiva, vêm previstos nos art. 219º
e 222º CPP.
A prisão preventiva é aplicada por despacho do juiz e sendo um
despacho judicial, susceptível de recurso. Na generalidade, a decisão é
impugnada mediante recurso para o Tribunal imediatamente superior –
Tribunal da Relação – a julgar no prazo de 30 dias.
Pode-se invocar o habeas corpus (art. 222º CPP), nas situações de
prisão ilegal.
Verificada qualquer das situações referidas no art. 222º CPP, qualquer
pessoas poderá impugnar esta situação de prisão preventiva e fazer uma
petição dirigida ao Presidente do Supremo Tribunal de Justiça em que dá
conta da situação em que se encontra e requerer que seja posto de imediato
em liberdade (ex. art. 220º CPP, ultrapassadas as 48 horas).
27. Revogação substituição e extinção da prisão preventiva
A prisão preventiva pode ser suspensa (art. 211º CPP). Mas a suspensão
apenas se verifica em situação de doença grave do arguido, ou tratando-se
de arguida, numa situação de gravidez ou de parto (puerpério).
A revogação vem prevista no art. 212º CPP. O juiz de três em três
meses, ou a solicitação do arguido, poderá revogar pura e simplesmente a
prisão preventiva.
Poderá também, a solicitação ou a requerimento do arguido ou do seu
defensor, substituir a prisão preventiva por qualquer outra medida de
coacção.
No art. 214º CPP prevêem-se os casos de extinção:
- Com o arquivamento do inquérito, se não for requerida abertura da
instrução;
- Com o trânsito em julgado do despacho de não pronúncia;
- Com o trânsito em julgado do despacho que rejeita a acusação, nos
termos do art. 311º/2-a CPP;
- Com a sentença absolutória, mesmo que dela tenha sido interposto
recurso; ou
- Com o trânsito em julgado da sentença condenatória.
28. Medidas de garantia patrimonial, finalidade
Pode acontecer que no decurso do processo penal o arguido, receoso de
vir a sofrer uma condenação (de natureza penal), pense em salvaguardar o
seu património.
Sempre que exista um receio fundado de que o arguido possa dissipar os
seus bens e depois não seja possível obter o pagamento da indemnização
civil nem das custas do processo pode o Tribunal oficiosamente ou a
requerimento impor ao arguido a prestação de uma caução económica (art.
227º/2 CPP).
Uma outra medida é o arresto preventivo (art. 228º CPP),
características:
- Ele é aplicado quando falta a caução económica, quando o arguido
não cumpre a caução económica.
- Poderá ser decretado mesmo contra comerciantes divergindo aqui
do arresto cível;
- Poderá haver uma oposição a este arresto, deduzida ou pelo
arguido ou pelo detentor dos bens; só que esta oposição, se for feita
através de recurso, este será devolutivo, nunca suspensivo, o arresto
manter-se-á sempre;
- Também se mantém o arresto quando há dúvida relativamente à
titularidade dos bens.
29. Detenção
Figura próxima das medidas de coacção, até porque também ela se vai
prender com a limitação, embora temporária da liberdade do arguido (arts.
254º segs. CPP).
A finalidade imediata da detenção é garantir que o arguido seja julgado
no prazo máximo de 48 horas. Ninguém pode estar detido mais de 48
horas, sob pena de a detenção se tornar ilegal. Tem-se que distinguir na
detenção:
Detenção em flagrante delito, qualquer autoridade judiciária, qualquer
órgão de polícia criminal, pode proceder à detenção. Exige-se uma certa
conexão temporal, uma certa decorrência natural dos factos, eles devem
estar estritamente ligados uns com os outros, de outra maneira quebrar-se-
ia o elo de ligação e poder-se-ia ir para uma detenção numa situação que já
não era considerada flagrante delito.
A detenção em flagrante delito relaciona-se estritamente com a
existência do processo sumário, pelo que não deve ser dada às autoridades
judiciárias ou policiais a discricionariedade quando à detenção, pois que
isso poderá suscitar dúvidas quanto à sua actuação e possibilitaria que
fossem essas entidades a decidir sobre a forma de processo a seguir.
O art. 255º/3 CPP, relativamente ao carácter semi-público do crime,
dispõe que, se verifiquem os pressupostos da detenção, esta é levada a
cabo, mas só se mantém se, logo em acto seguido, haver queixa por parte
de quem para isso tem legitimidade. Cumpre, para efeito, às autoridades ou
às entidades policiais às quais é o detido entregue ouvir imediatamente os
titulares do direito de queixa. Se estes o exercerem, mandam levantar o
auto, em que fique registada; se a não exercerem, soltam o detido sem
qualquer procedimento.
O art. 255º/4 CPP, é reflexo do carácter particular do crime. Aqui não
haverá, em qualquer caso, lugar a detenção, mas apenas à identificação do
infractor, sem qualquer outro procedimento, pois haverá que aguardar uma
eventual iniciativa do titular do direito de acusação.
Não sendo em flagrante delito (art. 257º CPP), a detenção só pode ser
efectuada por mandado emanado do juiz ou também do Ministério Público,
quando ao crime cometido for admissível a sua aplicação de prisão
preventiva.
Exige-se portanto que o crime tenha sido cometido com dolo e punível
com uma pena de prisão superior a três anos. Nesse caso pode também o
Ministério Público emitir um mandado de detenção.
Os órgãos de polícia criminal podem proceder à detenção fora do
flagrante delito, só que aqui terão que estar reunidos três pressupostos que
vêm previstos no art. 257º/2 CPP.
a) Se tratar de caso em que é admissível a prisão preventiva;
b) Existirem elementos que tornem fundado o receio de fuga; e
c) Não for possível, dada a situação de urgência e de perigo na
demora, esperar pela intervenção da autoridade judiciária
Tendo que se verificar estes requisitos cumulativamente, então poderá
por iniciativa própria proceder à detenção.
Também na detenção a possibilidade de reagir através do habeas
corpus. A petição é dirigida ao Juiz de Instrução Criminal, e ele deverá
deferi-la no mais curto espaço de tempo, ou seja, deve de imediato pôr a
pessoa em liberdade, ou então, ouvi-la.
30. Comparação entre detenção e prisão preventiva
a) Quanto à sua natureza
A prisão preventiva é uma medida de coacção processual mais grave.
A detenção, é uma medida de natureza cautelar, que não pressupõe tão
pouco a existência de um processo.
b) Quanto às suas finalidades
Na prisão preventiva, pretende-se evitar o perigo de fuga, ou o perigo de
perturbação do inquérito, ou o perigo da continuação da actividade
criminosa (art. 204º CPP).
Com a detenção, pretende-se assegurar apenas a presença do arguido em
acto judicial: primeiro interrogatório, ou outros interrogatórios por parte do
Ministério Público, ou ainda para ser julgado sumariamente, por exemplo.
c) Quanto à duração
A prisão preventiva poderá atingir um máximo de quatro anos.
A detenção, nunca poderá ultrapassar as 48 horas.
d) Competência para a sua aplicação
A prisão preventiva será sempre aplicada pelo Juiz de Instrução
Criminal na fase do inquérito ou da instrução, ou pelo juiz de julgamento
em qualquer outra fase, mesmo na fase de recurso.
No caso da detenção, será competente qualquer entidade judicial (juiz
ou Ministério Público), qualquer autoridade de polícia criminal e até
qualquer pessoa, em flagrante delito.
e) Sujeitos passivos
No caso da prisão preventiva, obrigatoriamente a pessoa tem que já
estar constituída como arguido, previamente deve ser constituída como
arguido a pessoa a quem a prisão preventiva deva ser aplicada.
A detenção é aplicada a qualquer suspeito ou até a um interveniente
processual.
VÍCIOS DOS ACTOS PROCESSUAIS
31. Inexistência
Traduz-se no facto de o acto não ser idóneo a produzir quaisquer efeitos
de natureza processual.
Ex. sentença proferida pelo Ministério Público. Este acto inexiste, não
pode produzir quaisquer efeitos; por conseguinte é insusceptível de ser
sanado.
A inexistência tão pouco precisa de ser declarada. Verifica-se o vício da
inexistência quando ao acto faltam elementos que são essenciais à sua
própria substância, de modo que em caso algum pode produzir efeitos
jurídicos.
32. Nulidade e irregularidades
A nulidade consiste na inobservância da disposição da lei (processual
penal).
Se a lei prevê que o acto deva ser feito de determinada maneira, e se não
é temos um vício. Esse acto, conforme as suas gravidades e as suas
consequências, será considerado nulo ou irregular.
Sabe-se que se trata de um acto nulo quando a lei expressamente o
disser. Se a lei nada disser, o acto é irregular.
Consagra-se no art. 118º CPP, o princípio da legalidade no domínio das
nulidades dos actos processuais. Assim, para que algum acto processual
relativamente ao qual tenha havido violação ou inobservância das
disposições legais do processo penal padeça do vício a nulidade é
necessário que a lei o diga expressamente; de outro modo o acto viciado
sofrerá do vício menor da irregularidade, submetido ao regime do art. 123º
CPP, mas não será nulo.
As nulidades podem ser sanáveis e insanáveis. Estas – as nulidades
insanáveis – são taxativas. Estão enumeradas no art. 119º CPP, acrescendo-
lhes as que assim são cominadas em outras disposições legais. Desde que
não cominadas como insanáveis, as nulidades consagradas na lei serão
sanáveis segundo o regime dos arts. 120º e 121º CPP.
33. Características das nulidades
As nulidades são sanadas:
- Ou pelo trânsito em julgado da sentença final;
- Ou pelo decurso do tempo.
A nulidade tem de ser declarada:
- Pode sê-lo oficiosamente;
- Ou pode ser através de arguição por parte dos interessados.
Poderá ser oficiosamente no caso das nulidades absolutas37[37].
O próprio Tribunal pode aperceber-se de que foi cometida uma nulidade
daquele género, conhece dela, e por conseguinte, anula todos os actos
praticados a partir daí.
As nulidades relativas, têm prazos para serem arguidas e só podem sê-
lo pelos próprios interessados.
- Ou pelo arguido, se se tratar de acto que ofenda os seus interesses
e os seus direitos;
- Ou pelo assistente;
- Ou eventualmente pelo Ministério Público.
a) Nulidades gerais
São aquelas que a lei prevê num determinado artigo para determinados
casos – art. 119º CPP38[38] (nulidades insanáveis).
Como consequência ou efeito das nulidades, anula os actos inválidos e
ordena a sua repetição. Abrange todos os actos que dependam deste e que
com ele estejam conexos. Portanto, o que está para trás não interessa.
O despacho que conhecer oficiosamente de uma nulidade (o caso de se
tratar de uma nulidade absoluta) deve indicar quais os actos que devem ser
declarados nulos.
b) Nulidades relativas (art. 120º CPP)39[39]
37[37]
Nulidades insanáveis
38[38]
Artigo 119º (Nulidades insanáveis)
Constituem nulidades insanáveis, que devem ser oficiosamente declaradas em qualquer fase do procedimento,
além das que como tal forem cominadas em outras disposições legais:
a) A falta do número de juízes ou de jurados que devam constituir o tribunal, ou a violação das regras legais
relativas ao modo de determinar a respectiva composição;
b) A falta de promoção do processo pelo Ministério Público, nos termos do artigo 48.º, bem como a sua ausência a
actos relativamente aos quais a lei exigir a respectiva comparência;
c) A ausência do arguido ou do seu defensor, no casos em que a lei exigir a respectiva comparência;
d) A falta de inquérito ou de instrução, nos casos em que a lei determinar a sua obrigatoriedade;
e) A violação das regras de competência do tribunal, sem prejuízo do disposto no artigo 32.º, n.º 2;
f) O emprego de forma de processo especial fora dos casos previstos na lei.
39[39]
Artigo 120.º (Nulidades dependentes de arguição)
É a própria lei que vem dizer em que circunstância é que o acto é nulo.
Diferente é também a forma de arguição. Neste caso das nulidades
relativas, rege o art. 120º/3 CPP: ou a nulidade é praticada durante o acto
em que está presente o interessado (defensor do arguido, assistente ou
Ministério Público) e portanto deve ser arguida até ao final desse acto; ou
então é praticado o acto e o interessado só toma conhecimento dele através
duma notificação.
Nas formas de processo especial (sumário e sumaríssimo) a nulidade
dever ser arguida no início da audiência de julgamento.
Quando o acto não for considerado por lei como nulo, o acto é
considerado como irregular (art. 118º/2 CPP).
A irregularidade não é tanto um, vício, mas é uma imperfeição, o acto é
menos perfeito. Daí que o seu regime também seja diferente e venha
previsto no art. 123º CPP.
- A irregularidade tem que ser arguida no próprio acto, quando os
interessados estejam presentes; ou
- Não estando presentes os interessados nos três dias seguintes ao
seu conhecimento (art. 123º/1 CPP)
A irregularidade do acto apenas afecta o acto em si e, eventualmente,
outros cuja validade possam decorrer dele. Mas, não será a anulabilidade de
tudo quanto se fez.
1- Qualquer nulidade diversa das referidas no artigo anterior deve ser arguida pelos interessados e fica sujeita à
disciplina prevista neste artigo e no artigo seguinte.
2- Constituem nulidades dependentes de arguição, além das que forem cominadas noutras disposições legais:
a) O emprego de uma forma de processo quando a lei determinar a utilização de outra, sem prejuízo do
disposto na alínea f) do artigo anterior;
b) A ausência, por falta de notificação, do assistente e das partes civis, nos casos em que a lei exigir a
respectiva comparência;
c) A falta de nomeação de intérprete, nos casos em que a lei considerar obrigatória;
d) A insuficiência do inquérito ou da instrução e a omissão posterior de diligências que pudessem reputar-se
essenciais para a descoberta da verdade.
a) Tratando-se de nulidade de acto a que o interessado assista, antes que o acto esteja terminado;
b) Tratando-se da nulidade referida na alínea b) do número anterior, até cinco dias após a notificação do
despacho que designar dia para a audiência;
c) Tratando-se de nulidade respeitante ao inquérito ou à instrução, até ao encerramento do debate instrutório
ou, não havendo lugar a instrução, até cinco dias após a notificação do despacho que tiver encerrado o
inquérito;
40[40]
Não sendo assim portanto permitida a consulta de outros elementos constantes do processo.
julgamentos, necessariamente montados sobre cenários já montados e com
prévio ensaio geral.
É fundamental não esconder a realidade das coisas. Não são
considerações de dogmática ou um certo construtivismo judiciário que
abonam a vantagem ou a fatalidade do recurso directo interposto dos
Tribunais colegiais. As razões encontram-se noutros planos. Assegurada a
efectiva colegialidade, garantido o contraditório e obtida um tanto quanto
possível imediação, o recurso do Tribunal colectivo tem características
particularmente nítidas de remédio jurídico. A previsão de um mecanismo
de reapreciação dos factos não pode – não deve – ser senão uma válvula de
segurança. É esta a economia do recurso para o Supremo Tribunal de
Justiça a que se poderia chamar, de revista alargada.
No que respeita às Relações. Trata-se, neste caso de recurso interposto
de Tribunal singular. Esta circunstância justifica a conveniência de que o
recurso seja apreciado, segundo as normas clássicas da apelação, por um
Tribunal colegial.
Se não tiver havido renúncia ao recurso, as Relações conhecem de facto
e de direito se a tiver havido, o recurso é de direito mas na modalidade de
revista alargada
41. Desistência
Confrontando o texto do art. 415º CPP, com o do art. 401º CPP, sobre a
legitimidade para recorrer, nota-se que no art. 415º CPP, quanto à
possibilidade de desistência do recurso, se omitiram as pessoas indicadas
no art. 401º-d CPP.
Crê-se, que se trata de lapso do legislador, e que portanto o art. 415º
CPP, deve sofrer interpretação extensiva. O art. 415º CPP, consagra uma
regra geral, e foi formulado mais com o propósito de deixar bem explicita a
possibilidade de desistência por parte do Ministério Público, do arguido e
do assistente e indicar até que momento se pode efectivar a desistência do
que com o propósito de aflorar uma regra geral.
42. Vista ao Ministério Público
Os recursos em processo penal são obrigatoriamente motivados no
Tribunal a quo pelo Ministério Público, quando este for recorrente. Quando
não for recorrente, também normalmente o Ministério Público responderá à
motivação do recorrente, porque se trata de um sujeito processual afectado
(art. 413º CPP).
No entanto, cumprirá ao Ministério Público no Tribunal superior apor o
seu visto ou emitir o seu parecer, no qual não está vinculado pela
motivação ou pela resposta do Ministério Público no Tribunal inferior.
No visto a que se refere o art. 416º CPP, o Ministério Público emite o
seu parecer, podendo suscitar quaisquer questões que se lhe oferecem como
cabidas para a decisão e devendo, logicamente, seguir a ordenação
estabelecida nas alíneas do art. 417º/2 CPP; em casos que se afigurem de
extrema simplicidade aporá o visto no processo.
Se o recurso não for rejeitado ou julgado em conferência e houver de
prosseguir, o Ministério Público normalmente já não terá novo visto, sendo
só convocado para a audiência
43. Rejeição do recurso
A rejeição do recurso (art. 420º CPP) é deliberada em conferência, e
pode fundamentar-se na sua manifesta improcedência ou em causa que
devia ter determinado a sua não admissão (art. 414º/2 CPP). A manifesta
improcedência do recurso pode suscitar dificuldades, pela indefinição do
que se deve entender por manifesta improcedência. Um bom critério de
orientação poderá ser dado, com as devidas adaptações, pela manifesta
inviabilidade das acções em processo civil. Recursos em que, perante o
Supremo Tribunal de Justiça, se discuta só matéria de facto, ou em que seja
visível um propósito ínvio, como o de aguardar previsíveis medidas de
clemência ou o de retardar o pagamento de indemnizações não terão
cabimento e serão penalizadas pela disposição do art. 420º/4 CPP.
44. Audiência
Conforme se preceitua no art. 423º/3 CPP, a palavra para as alegações é
dada ao Ministério Público, aos representantes dos recorrentes e dos
recorridos, pela ordem enunciada. Aqui podem suscitar-se dúvidas quando
o Ministério Público não é recorrente. O contraditório e a “igualdade de
armas”, pedras fundamentais do código, impõem que cada uma das partes
possa produzir alegações o mesmo número de vezes que a outra parte, só
sendo possível um ligeiro desvio, nos termos do art. 423º/4 CPP, para que o
defensor fale antes do encerramento da audiência, se não tiver sido o último
a intervir isso manifestamente com o propósito de não cortar o arguido de
qualquer via de defesa.
Assim, quando o Ministério Público é o recorrente, deverá alegar em
primeiro lugar, alegando seguidamente a acusação particular e depois os
arguidos (recorridos). Até aqui não se suscitam quaisquer dúvidas. Mas
qual deve ser a ordem de alegações nos casos em que o Ministério Público
não é recorrente, mas recorrido? Crê-se que a ordem é a estabelecida no
texto, e que mesmo neste caso o Ministério Público deve alegar no início,
como primeiro defensor da legalidade.
Contrariamente ao que sucede com a falta de motivação, a falta de
alegações não implica a rejeição do recurso, sendo por isso lícito a qualquer
das partes não alegar, sem que isso implique a rejeição ou o não
conhecimento do recurso. As alegações têm, função e finalidade diferentes
das da motivação, esta destina-se a manifestar porque é que o recorrente
discorda da decisão recorrida e a apontar qual o sentido em que em seu
entendimento, deve ser proferida a decisão do Tribunal superior, enquanto
que as alegações, proferidas quando o âmbito do recurso já está definido, se
destinam a expor considerações finais, já após a audiência.
RECURSOS ORDINÁRIOS
45. Recurso para a Relação
A tramitação dos recursos perante as Relações e perante o Supremo
Tribunal de Justiça, em grande parte é unitário. Há um conjunto comum de
normas de tramitação a observar em qualquer destes Tribunais, que consta
dos arts. 410º a 426º CPP. Para além deste conjunto comum de normas que
formam a tramitação unitária, há trâmites específicos dos recursos
interpostos para as Relações, constante dos arts. 427º a 431º CPP, e
trâmites específicos dos recursos interpostos para o Supremo Tribunal de
Justiça que constam dos arts. 432º a 436º CPP.
No art. 427º CPP, especificam-se os casos em que há lugar a recursos
para a Relação, que são a regra geral quanto a decisões proferidas por
Tribunais de primeira instância.
Como se deduz do art. 427º CPP, o regime regra é o da interposição para
as Relações dos recursos de decisões dos Tribunais de primeira instância.
Assim, os recursos que são interpostos directamente para o Supremo
Tribunal de Justiça nos casos taxativamente enumerados na lei (art. 432º-c),
d), e) CPP.
46. Poderes de cognição41[41]
Há que assinalar que a declaração referida no art. 364º/1 e 2 CPP ou a
falta do requerimento previsto no art. 389º/2 CPP, ou no art. 391º-E/2 CPP,
significa que as partes renunciaram ao recurso em matéria de facto,
conhecendo então as Relações somente em direito, sem prejuízo do
disposto no art. 410º CPP.
Mas há também a assinalar que, mesmo quando as Relações não
conhecem da matéria de facto, isso não prejudica a possibilidade desses
Tribunais superiores usarem da faculdade conferida pelo art. 410º/2 e 3
CPP, o que em certos aspectos de algum modo implicaria a apreciação de
matéria fáctica.
Nos casos em que as Relações detectam vícios referidos nas alíneas do
art. 410º/2 CPP procedem à renovação da prova se se afigurar que a
renovação perante elas permite evitar o envio do processo para novo
julgamento.
41[41]
Art. 428º CPP.
Quando a prova ficou documentada e não se verificar o condicionalismo
do art. 430º/1 CPP, as Relações não procedem à renovação, valendo nesse
caso o que documentado ficou.
Daqui conclui-se que bem reduzidos são os casos em que se procede à
renovação de prova; só ela se procede verificando-se cumulativamente as
condições de se verificar algum dos vícios enumerados nas alíneas do art.
410º/2 CPP, e de haver fundadas razões para crer que a renovação evita o
reenvio do processo para novo julgamento.
47. Recursos para o Supremo Tribunal de Justiça
O recurso para as Relações é o regime regra, só havendo portanto lugar
a recurso para o Supremo Tribunal de Justiça nos casos taxativamente
previstos nas alíneas do art. 432º CPP, ou em outras disposições da lei (art.
433º CPP).
De notar que os recursos das decisões interlocutórias do Tribunal de júri
e do tribunal colectivo só sobem ao Supremo Tribunal de Justiça se
deverem subir com os interpostos acórdãos finais; o reconhecimento
daqueles recursos pertencerá à Relação se tiverem subido imediatamente.
48. Poderes de cognição42[42]
Quando o Supremo Tribunal de Justiça funciona como Tribunal de
recurso compete-lhe aplicar o regime jurídico adequado perante os factos
que foram apurados pelos Tribunais de instância. Perante o Supremo
Tribunal de Justiça funcionando como Tribunal de recurso não há lugar, em
caso algum, a renovação de prova; a lei atendeu à elevada garantia de
veracidade que dá a prova apurada pelos referidos Tribunais.
Mas o Supremo Tribunal de Justiça tem agora poderes que, de algum
modo, se intrometem na apreciação de aspectos fácticos, e que são os da
apreciação da matéria referida no art. 410º/2 e 3 e no art. 434º CPP. Ainda
nestes casos porém, o Supremo Tribunal de Justiça não procede à
renovação de prova, limitando-se a apontar o vício que apurou e a
determinar o reenvio do processo para novo julgamento (arts. 426º e 434º
CPP).
Cabe aqui, acentuar ser ponto assente na jurisprudência, maxime na do
Tribunal Constitucional que o duplo grau de jurisdição em matéria de facto
pode garantir-se sem que isso implique a possibilidade de produção de
prova no Tribunal de recurso, bastando que este controle a legalidade da
produção e possa ordenar a reapreciação por outro Tribunal, de categoria
idêntica ou superior à do recorrido.
RECURSOS EXTRAORDINÁRIOS
42[42]
Art. 434º CPP.
49. Fixação de jurisprudência
O acórdãos que resolvem o conflito e fixam jurisprudência só têm
eficácia nos termos do art. 445º/1 CPP, e podem vir a ser reexaminados e
modificados pelo plenário das secções criminais (art. 447º/2 CPP). Estes
acórdãos, que têm sido designados de assentos, perderam a sua força
externa, que era inconstitucional43[43]
O recurso interposto nos termos do art. 437º CPP, é um recurso
extraordinário, a interpor num prazo de 30 dias a contar do trânsito em
julgado da decisão de que se recorre. A partir do decurso desse prazo de 30
dias pode ser interposto recurso no interesse da unidade do direito, nos
termos do art. 447º CPP. Este recurso do art. 447º CPP, só pode ser
interposto pelo Procurador-geral da Republica, enquanto que para a
interposição do recurso nos termos do art. 437º CPP, nos 30 dias
subsequentes ao trânsito, têm legitimidade o Ministério Público, o arguido,
o assistente e as partes civis. Por isso se compreende que, além da
legitimidade para a interposição outras diferenças marcantes existam entre
os dois recursos, maximé quanto à eficácia da decisão, que no caso do art.
437º CPP, se produz no processo em que o recurso foi interposto, não
obstante o trânsito que durante 30 dias é condicional, enquanto que no caso
do art. 447º CPP, a decisão é só para efeito de a jurisprudência ser fixada,
não tendo portanto qualquer reflexo no processo em que o recurso foi
interposto.
50. Recursos de decisão proferida contra jurisprudência fixada pelo
Supremo Tribunal de Justiça
O disposto no art. 446º/1 CPP, tem como fundamento a conveniência de
uniformização da jurisprudência, fazendo intervir o Supremo Tribunal de
Justiça sempre que as decisões dos Tribunais inferiores não acatem a
jurisprudência fixada por esse alto Tribunal.
Prevê-se aqui um caso de recurso obrigatório para o Ministério Público.
Tratando-se de um recurso obrigatório para o Ministério Público, pode pôr-
se a questão de saber se, neste caso é lícito ao Ministério Público desistir do
recurso que interpôs.
51. Recursos no interesse da unidade do direito
Os ns.º 1 e 2 do art. 447º CPP, têm campos de aplicação diferentes, o n.º
1 do art. 447º CPP, destina-se a permitir que o Procurador-geral da
República, interponha recurso para fixação de jurisprudência de decisão
transitada em julgado há mais de 30 dais; o n.º 2 do art. 447º CPP, destina-
se a permitir que a mesma entidade interponha recurso para alteração de
43[43]
Acórdão Tribunal Constitucional n.º 743/96, de 28 de Maio, declara a inconstitucionalidade com força obrigatória
geral, o art. 2º CC, na parte em que atribui aos Tribunais competência para fixar doutrina com força obrigatória geral,
por violação do disposto no art. 115º/5 CRP.
jurisprudência já fixada, no sentido de alterar a decisão que foi confirmada,
por se impor o seu reexame.
Em qualquer destes casos, a decisão para resolver o conflito não tem
qualquer eficácia no processo em este recurso extraordinário tiver sido
interposto (art. 447º/3 CPP), assim se distinguindo do recurso
extraordinário regulado nos arts. 437º a 445º CPP, o qual é interposto no
prazo de 30 dias a contar do trânsito em julgado e tem eficácia no processo
em que foi interposto.
A disposição do art. 447º/2 CPP, a par de limitações à obrigatoriedade
da jurisprudência uniformizada, coloca a uniformização da jurisprudência
nos moldes agora estabelecidos ao abrigo de criticas que anteriormente
foram formuladas aos assentos do Supremo Tribunal de Justiça, assacando-
os de inconstitucionais.
52. Recurso de revisão
A revisão é um recurso extraordinário, admitido no processo civil e
também, por maioria de razão em processo penal, pois que este demanda
mais vincadamente a verdade material. O princípio res judiciata pro
veritate habetur, não pode impedir um novo julgamento, quando
posteriores elementos de apreciação põem seriamente em causa a justiça do
anterior. O fundamento central do caso julgado é uma concessão prática à
necessidade de garantir a certeza e a segurança do direito.
Qualquer sentença penal com trânsito em julgado ou despacho que tenha
posto fim ao processo pode ser objecto de revisão.
Parece, no entanto, que na falta de interesse e atento ao princípio da
actualidade, que informa as medidas de segurança privativas de liberdade,
não há lugar há revisão das decisões que aplicam tais medidas, enquanto
estas forem modificáveis.
É sabido que as medidas de segurança têm como fundamento a
perigosidade do delinquente, sendo uma função desta. Por isso mesmo, só
subsistem enquanto a perigosidade subsistir, e devem acompanhá-la em
todas as suas vicissitudes. Não têm, por isso, a estabilidade das penas,
podem a todo o tempo ser modificadas, e devem de ofício, ser
periodicamente revistas.
Estas noções decorrem da natureza utilitária (de prevenção especial) das
mediadas de segurança e correspondem a ensinamentos de toda a doutrina
autorizada. Daí decore também, que na sucessão, do tempo, de leis que
prescrevem diversas medidas de segurança, se aplicará sempre a lei mais
recente, embora mais grave, já que, aplicando-se à perigosidade actual,
nunca haverá retroactividade.
Fundamentos da revisão (art. 449º/1 CPP)
a) Falsidade de meios de prova que tenham sido determinantes para a
decisão
Deve entender-se ser bastante, para fundamentar o pedido de revisão
que os meios de prova considerados falsos por sentença transitada em
julgado tenham influenciado a decisão de rever, não sendo necessária a
prova de que esses meios, só por si, tenham sido determinantes dessa
decisão.
b) Crime cometido por juiz ou jurado, relacionado com o exercício da
sua função no processo
Há aqui uma presunção iuris et iure de que o crime cometido pelo juiz
ou jurado, e relacionado com o exercício das suas funções no processo
influenciou a decisão, e de que portanto esta foi injusta, pelo que não há
mais que indagar se esse crime teve ou não influência no processo,
admitindo-se a revisão sem mais delongas.
c) Inconciliabilidade de decisões
Só permite a revisão de sentenças condenatórias.
d) Descoberta de novos factos ou meios de prova que suscitem graves
dúvidas sobre a justiça da condenação
53. Formulação do pedido44[44]
A revisão é um recurso extraordinário cujo requerimento inicial tem de
ser apresentado no Tribunal em que o arguido foi julgado e corre o
processo onde se proferiu a sentença que deve ser registada.
O recurso extraordinário de revisão comporta duas fases distintas: a fase
do juízo rescindente e a fase do juízo rescisório.
A fase do juízo rescindente abrange toda a tramitação, desde a dedução
do pedido até à decisão que concede ou denega a revisão; a fase do juízo
rescisório começa no momento em que o processo baixa e termina com o
novo julgamento.
Quando a revisão é denegada, não há fase do juízo rescisório.
Na fase do juízo rescindente, é o Supremo Tribunal de Justiça que detém
a jurisdição. Trata-se de uma questão julgada em única instância, pelo que
não é admissível recurso ordinário da decisão que concede ou denega
autorização para a revisão.
A fase do juízo rescindente é processada primeiramente no Tribunal
onde se proferiu a decisão cuja revisão se pretende e posteriormente à
informação e à remessa referidas no art. 454º CPP, no Supremo Tribunal de
Justiça.
44[44]
Art. 451º CPP.