Você está na página 1de 123

Psicopatologia

Brasília-DF.
Elaboração

Aline Freire Bezerra Vilela

Produção

Equipe Técnica de Avaliação, Revisão Linguística e Editoração


Sumário

APRESENTAÇÃO.................................................................................................................................. 5

ORGANIZAÇÃO DO CADERNO DE ESTUDOS E PESQUISA..................................................................... 6

INTRODUÇÃO.................................................................................................................................... 8

UNIDADE I
PSICOPATOLOGIA – O QUE É?.............................................................................................................. 11

CAPÍTULO 1
CONHECENDO A HISTÓRIA DA PSICOPATOLOGIA.................................................................... 11

CAPÍTULO 2
CONCEITUANDO E COMPREENDENDO O TERMO................................................................... 16

CAPÍTULO 3
O NORMAL E O PATOLÓGICO................................................................................................. 20

UNIDADE II
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL........................................................................... 24

CAPÍTULO 1
DIAGNÓSTICO PARA QUÊ?...................................................................................................... 26

CAPÍTULO 2
DIAGNÓSTICO PSICOPATOLÓGICO E PSICODIAGNÓSTICO..................................................... 36

CAPÍTULO 3
AVALIAÇÃO PSICODINÂMICA DO PACIENTE............................................................................ 40

UNIDADE III
FUNÇÕES PSÍQUICAS ALTERADAS.......................................................................................................... 58

CAPÍTULO 1
AS FUNÇÕES PSÍQUICAS NO EEM............................................................................................ 59

CAPÍTULO 2
SEMIOLOGIA MÉDICA E ESTUDO DOS SINTOMAS E SINAIS NAS SÍNDROMES.............................. 64

CAPÍTULO 3
TRANSTORNOS PSIQUIÁTRICOS................................................................................................ 68

UNIDADE IV
CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO..................................................................................................... 74
CAPÍTULO 1
COMPREENDENDO A CRISE E O SUICÍDIO NOS TRANSTORNOS MENTAIS.................................. 74

CAPÍTULO 2
FALANDO DE LUTO E MORTE................................................................................................... 91

CAPÍTULO 3
ALGUMAS ALTERAÇÕES MENTAIS DE URGÊNCIAS E EMERGÊNCIAS NA CRISE........................... 97

PARA (NÃO) FINALIZAR.................................................................................................................... 102

REFERÊNCIAS................................................................................................................................. 103

ANEXOS......................................................................................................................................... 110

ANEXO I......................................................................................................................................... 111

ANEXO II........................................................................................................................................ 119


Apresentação

Caro aluno

A proposta editorial deste Caderno de Estudos e Pesquisa reúne elementos que se


entendem necessários para o desenvolvimento do estudo com segurança e qualidade.
Caracteriza-se pela atualidade, dinâmica e pertinência de seu conteúdo, bem como pela
interatividade e modernidade de sua estrutura formal, adequadas à metodologia da
Educação a Distância – EaD.

Pretende-se, com este material, levá-lo à reflexão e à compreensão da pluralidade


dos conhecimentos a serem oferecidos, possibilitando-lhe ampliar conceitos
específicos da área e atuar de forma competente e conscienciosa, como convém
ao profissional que busca a formação continuada para vencer os desafios que a
evolução científico-tecnológica impõe ao mundo contemporâneo.

Elaborou-se a presente publicação com a intenção de torná-la subsídio valioso, de modo


a facilitar sua caminhada na trajetória a ser percorrida tanto na vida pessoal quanto na
profissional. Utilize-a como instrumento para seu sucesso na carreira.

Conselho Editorial

5
Organização do Caderno
de Estudos e Pesquisa

Para facilitar seu estudo, os conteúdos são organizados em unidades, subdivididas em


capítulos, de forma didática, objetiva e coerente. Eles serão abordados por meio de textos
básicos, com questões para reflexão, entre outros recursos editoriais que visam tornar
sua leitura mais agradável. Ao final, serão indicadas, também, fontes de consulta para
aprofundar seus estudos com leituras e pesquisas complementares.

A seguir, apresentamos uma breve descrição dos ícones utilizados na organização dos
Cadernos de Estudos e Pesquisa.

Provocação

Textos que buscam instigar o aluno a refletir sobre determinado assunto antes
mesmo de iniciar sua leitura ou após algum trecho pertinente para o autor
conteudista.

Para refletir

Questões inseridas no decorrer do estudo a fim de que o aluno faça uma pausa e reflita
sobre o conteúdo estudado ou temas que o ajudem em seu raciocínio. É importante
que ele verifique seus conhecimentos, suas experiências e seus sentimentos. As
reflexões são o ponto de partida para a construção de suas conclusões.

Sugestão de estudo complementar

Sugestões de leituras adicionais, filmes e sites para aprofundamento do estudo,


discussões em fóruns ou encontros presenciais quando for o caso.

Atenção

Chamadas para alertar detalhes/tópicos importantes que contribuam para a


síntese/conclusão do assunto abordado.

6
Saiba mais

Informações complementares para elucidar a construção das sínteses/conclusões


sobre o assunto abordado.

Sintetizando

Trecho que busca resumir informações relevantes do conteúdo, facilitando o


entendimento pelo aluno sobre trechos mais complexos.

Para (não) finalizar

Texto integrador, ao final do módulo, que motiva o aluno a continuar a aprendizagem


ou estimula ponderações complementares sobre o módulo estudado.

7
Introdução
Esta disciplina foi desenvolvida com o objetivo de oferecer recursos para uma melhor
capacitação no âmbito profissional dentro do curso de Saúde Mental, bem como
enriquecer seus conhecimentos sobre o presente tema.

Cada unidade pretende abordar aspectos relevantes à Psicopatologia, adentrando no


mundo da Psicologia Clínica e permeando o imaginário acerca do uso das práticas
psicodiagnósticas e suas ferramentas.

Com base nisso, a disciplina visa estabelecer a compreensão da Psicopatologia,


apresentar as técnicas e as ferramentas de avaliação do sujeito fundamentadas no
psicodiagnóstico psicodinâmico, no julgamento clínico e no conceito de transtorno
mental e suas nuances, conforme o Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos
Mentais – DSM-5.

Salientamos, porém, que a apostila com os textos e sugestões de leitura serve


meramente para colaborar no processo de aprendizagem, não tendo por objetivo
suprimir a vasta extensão de conceitos e literaturas pertinentes ao tema. Destarte, o
nosso objetivo está na pretensão de despertar no aluno o interesse pelo aprofundamento
dos seus conhecimentos relativos às questões aqui apresentadas, juntamente com um
ajustamento do seu lado crítico para implantação ou discussão do assunto na práxis.

É a partir do desejo de fornecer ferramentas para o seu crescimento profissional e


desenvolvimento da sua carreira que elaboramos esta disciplina, que transcorre desde
a importância da compreensão da psicopatologia até a sua aplicação na área da saúde
mental e os resultados que podem ser influenciados a partir dos recursos, técnicas e
ferramentas que colaboram, no sentido de criar condições, para uma maior compreensão
do ser humano e sua doença.

Objetivos
» Definir psicopatologia demarcando os termos relevantes para sua
compreensão.

» Problematizar atitudes relativas ao normal e ao patológico.

8
» Proporcionar ao aluno o conhecimento de elementos teóricos necessários
para o reconhecimento, aproximações e exames diagnósticos dos
principais problemas psiquiátricos.

» Apresentar técnicas e procedimentos que contribuem para o


psicodiagnóstico.

» Capacitá-los a identificar e avaliar criticamente os sinais.

» Reconhecer a relação entre psicopatologia, sintoma e psicodiagnóstico.

» Verificar a importância da prevenção em casos de crise e risco de suicídio.

» Preparar o processo de intervenção em casos de crise, luto e risco de


suicídio.

9
10
PSICOPATOLOGIA – O UNIDADE I
QUE É?

CAPÍTULO 1
Conhecendo a História da
Psicopatologia

Figura 1. Psicopatologia. O que é?

Fonte: https://image.shutterstock.com/image-illustration/psychopathology-digital-technology-medical-concept-
260nw-627129026.jpg. Acesso em: 24/08/2020.

O termo psicopatologia, antes de sua total definição, nos remete – considerando


o profissional da área da saúde – a diversas reflexões, que vão além da etimologia e
vagueiam para o significado individual do que ele produz em nós, do seu sentido social,
do que pensamos e em que posição nos colocamos quando pretendemos nos situar
nesse contexto que permeia a diferenciação entre o normal e o patológico.

Conforme mostra Ceccarelli (2005, p. 471):

a palavra ‘Psicopatologia’ é composta de três palavras gregas: psychê,


que produziu ‘psique’, ‘psiquismo’, ‘psíquico’, ‘alma’; pathos, que
resultou em ‘paixão’, ‘excesso’, ‘passagem’, ‘passividade’, ‘sofrimento’,

11
UNIDADE I │ PSICOPATOLOGIA – O QUE É?

‘assujeitamento’, ‘patológico’; e logos, que resultou em ‘lógica’,


‘discurso’, ‘narrativa’, ‘conhecimento’. Conforme pudemos perceber,
Psicopatologia seria, então, um discurso, um saber (logos) sobre a
paixão, o sofrimento (pathos) da mente, da alma (psiquê). Ou seja,
um discurso representativo a respeito do pathos psíquico; um discurso
sobre o sofrimento psíquico; sobre o padecer psíquico.

Assim, verificamos que houve uma evolução no modo como a própria Psicopatologia
vem sendo percebida.

É possível desmembrar o termo e estudá-lo desde os apanhados filosóficos em sua


origem1; perpassando no contexto social de uma época marcada pelo misticismo
referente a tudo o que não se concebia explicação; até o apanhado médico com as teorias
advindas da racionalidade e do pensamento lógico do homem. Tendo em vista que os
precursores da Psicopatologia se destacam pela origem do pensamento filosófico grego
e romano, bem como com pelo desenvolvimento da Medicina e do desdobramento
da relevância dada à vida emocional do homem, Gauer (s/d, apud GOMES; GAUER;
SOUZA, 2007) afirma que o encontro entre Psicologia e Medicina se deu a partir do
século XIX por meio de três vertentes de pensamentos que incluíam a psiquiatria, sendo:
uma tendência a humanizar os tratamentos; uma forma de pensar doença mental por
causas orgânicas e outra por causas funcionais ou dinâmicas.

Portanto, se pensarmos a partir de um viés psicológico, o termo ‘Psicopatologia’ pode ser


compreendido conforme vertente dinâmica advinda da Psicologia Clínica, que pretende
enfatizar a relação do sujeito que sofre com o que lhe causa o sofrimento, ou seja, visa
valorizar a experiência vivida pelo sujeito que sofre, tratando-o a partir de sua própria
percepção e interpretação do sofrimento, e dos sintomas, bem como, utilizando-se de
ferramentas como o DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais),
um manual útil que:

Propõe-se a servir como um guia prático, funcional e flexível para


organizar informações que podem auxiliar o diagnóstico preciso e o
tratamento de transtornos mentais. Trata-se de uma ferramenta para
clínicos, o recurso essencial para formação de estudantes e profissionais
e uma referência para pesquisadores da área. (APA, 2014, p. XLI)

É possível perceber a partir da literatura que várias áreas do conhecimento se utilizam


do termo ‘psicopatologia’ para tentar definir um conjunto de comportamentos, falas e
estilos de personalidade, a fim de uma melhor compreensão daquilo que se pretende

1 Conforme diversos autores, dentre eles Berlinck (1997), Fédida (1988), Platão (apud FÉDIDA, 1988), que vislumbraram o
termo à luz da filosofia, conforme veremos.

12
PSICOPATOLOGIA – O QUE É? │ UNIDADE I

verificar, atestar e diferenciar dos aspectos considerados normais e patológicos


(doentes) no ser humano.

A Filosofia, a Sociologia, a História, a Medicina e a Psicologia abordaram a temática


em prismas divergentes dentro do paradigma reflexivo-dedutivo, convergindo a um
mesmo ponto, o de considerar a psicopatologia como a confluência de características
pessoais internas e externas que levam o homem a apresentar sintomas característicos
de um estado mental alterado.

Conforme aponta Pozo (1988, p. 43) em História da loucura, e Nascimento da clínica,


Foucault reconheceu que ao longo do tempo conseguiu verificar que por meio de
diferentes estudos – a partir das ciências humanas e das análises da psicopatologia –
ocorreram transformações e ascendeu um novo tipo de olhar médico, que coadunou
com a emergência dos discursos científicos sobre Psicologia, Sociologia e análise
dos mitos. Portanto, no que diz respeito à trajetória da Psicopatologia, surgiram os
estudos dos processos mentais, vistos a partir da realidade de uma mente derivada da
desrazão2, contextualizando ou separando épocas a partir do olhar social e científico
dado à loucura. O que se pretende dizer é que a constituição da doença mental antecede
a própria Psiquiatria e a Psicopatologia em geral, ainda, tanto a Psiquiatria quanto a
Psicopatologia surgiram porque historicamente o louco já havia sido concebido como
um ser individualizado e cindido da sociedade (NALLI, 2006, p. 120).

Sem deixar de, em momento algum, manter-nos radicalmente


tributários de uma tradição, pensamos que, para observação
psicopatológica, vigora o mesmo princípio que rege a psicopatologia
nos pacientes. Nestes, o indivíduo surge como síntese e arranjo únicos
das possibilidades contidas na espécie biológica e na coletividade
social. Nada indica que uma ciência da mente possa prescindir das
concepções individuais. O indivíduo, retomando a tradição em que se
insere, renova-a, dando vazão à inviolável condição de transformação
e expansão contínuas que singulariza o existir humano. (CALDERÓN,
apud MESSAS, 2004. p. 13)

Messas (2004) nos traz uma excelente reflexão sobre aspectos de extrema importância
quando pensamos nas psicopatologias, por exemplo, sobre sua pluralidade versus a
tentativa incessante que temos de emoldurar as doenças mentais em busca de uma
classificação perfeita. No entanto, assim como podemos ver no DSM-5, as informações
reunidas em um manual são úteis para todos os profissionais ligados aos diversos
aspectos dos cuidados com a saúde mental, dentre eles os psiquiatras, médicos,

2 Desrazão: termo utilizado pelo autor para situar a loucura na Idade Clássica como estando “no amálgama semântico da
desrazão”. A loucura, pois, era a expressão mais inumana que havia no humano”. (NALLI; Marcos, 2006. p. 119)

13
UNIDADE I │ PSICOPATOLOGIA – O QUE É?

psicólogos, assistentes sociais, enfermeiros, consultores, especialistas da área forense


e legal, terapeutas ocupacionais e de reabilitação, pesquisadores e outros profissionais
da área da saúde. São úteis, não porque engessam a doença mental em um conceito ou
classificação sem fundamentos, mas porque apresentam critérios concisos e claros a fim
de facilitar uma avaliação objetiva das apresentações de sintomas em diversos contextos
clínicos (internação, ambulatório, hospital dia, consultoria/interconsulta, clínica,
consultório particular e atenção primária) e, ainda, levantar estudos epidemiológicos
de base comunitária sobre os transtornos mentais.

No decorrer de nossas leituras poderemos nos perguntar sobre a necessidade de buscar


uma psicopatologia “verdadeira”, portanto, abordaremos até mesmo a necessidade
que encontraremos, por vezes, de posicioná-la sobre o olhar reflexivo fenomenológico.
Decerto que trabalharemos versando sobre os paradigmas da estabilidade versus o da
transformação, esse último, cujo pensamento de que uma psicopatologia “verdadeira”
não pode ser vista com exatidão uma vez que tanto o pensamento como a própria forma
de processar as informações, por meio do pensamento, não são imutáveis e não se
bastam, dentro de um contexto de finitude.

Conforme Jasper (1963), em seu aforismo sobre psicopatologia geral, dentro das
psicopatologias, os delírios são distinções clínicas fundamentais nos sujeitos. Pois,
as ideias delirantes verdadeiras são aquelas que trazem em sua base uma vivência
delirante primária (sic), ou seja, aspectos incompreensíveis do pensamento que
só se encontram nos processos psíquicos ou psicoses – revelados a partir das falas
delirantes. O autor revela que as vivências delirantes primárias são uma forma de
vivência completamente estranha para nós, pois consistem na irrupção de inexplicáveis
significações no psiquismo do paciente. A exemplo dessa revelação, poderíamos citar
falas desconexas aos ouvidos de fora da realidade delirante do paciente.

Numa destas noites, se impôs a mim de repente e de modo muito


natural e evidente que a senhorita L é a causa provável destas coisas
simplesmente horríveis que tive de sofrer nos últimos anos, como a
influência telepática… (LOBOSQUE, 2001. p. 48)

Indo em busca de uma contextualização no tempo sobre o pensamento da Psicopatologia


e o seu desenvolvimento, citaremos o artigo de Schleder e Holanda (2015) que traz, a
partir de um levantamento bibliográfico, um olhar fenomenológico sobre a Psiquiatria
até chegar ao pensamento contemporâneo sobre psicopatologias em Nise da Silveira.
Os autores trazem aspectos dessa visão psicopatológica a partir de Mello, o principal
estudioso das obras de Nise da Silveira no Brasil. Para Melo (2010 apud SCHLEDER;
HOLANDA, 2015), Nise da Silveira contrapôs a psiquiatria clássica valorizando o
conteúdo mental do paciente em oposição ao resultado do conteúdo expresso na
14
PSICOPATOLOGIA – O QUE É? │ UNIDADE I

composição artística de seus pacientes, dessa forma ela mantinha uma visão do que
eles experienciavam por meio da arte.

“Mas eu não examinava as pinturas dos doentes que frequentavam


nosso atelier sentada no meu gabinete. Eu os via pintar. Via suas faces
crispadas, via o ímpeto que movia suas mãos” (Nise da Silveira, citada
por Melo, 2010a, p. 639). Foi nesta direção que a psiquiatra propunha
as atividades do museu, como um “museu vivo”. (MELO, 2001B;
FRAYZE-PEREIRA, 2003 apud SCHLEDER; HOLANDA, 2015. p. 51)

Contudo, as sensações, pensamentos, emoções e todo tipo de turbilhão interno,


representados nas expressões artísticas, eram vistos como uma tentativa do paciente de
reorganizar seu mundo interno em relação ao mundo externo. Sendo assim, podemos
concluir que Nise da Silveira percebia as psicopatologias como modos diferentes
de expressão da existência dos sujeitos, ou seja, suas expressões artísticas, falas e
comportamentos traduziam a forma como eles poderiam estar no mundo. Então, como
os outros frequentadores desse mundo externo, a pessoa que está esquizofrênica merece
a mesma dignidade e afeto que dirigimos aos outros pacientes.

Para a psiquiatra, a meta do tratamento psiquiátrico não deveria


ser a remoção de sintomas, mas a recuperação do indivíduo para a
comunidade e, desse modo, a terapêutica ocupacional seria reconhecida
como método terapêutico legítimo, não mais como uma prática auxiliar.
(SILVEIRA, 1966, apud SCHLEDER; HOLANDA, 2015. p. 54)

Figura 2. Nise da Silveira.

Fonte: https://blogdaboitempo.com.br/2016/03/02/desencontro-com-nise-da-silveira/. Acesso em: 24/08/2020.

15
CAPÍTULO 2
Conceituando e compreendendo o
termo

A Psicopatologia está enraizada na Medicina e daí vem a base, proporcionada por


observações e tratamento de uma gama de doentes nos últimos dois séculos. Estando,
pois, respaldada na tradição humanística de vertentes filosóficas, sociais, artísticas,
literárias e psicológicas.

A Psicopatologia se rebelou a partir do sofrimento, do pathos humano, e, portanto,


do que fora considerado sofrimento mental. Conforme Campbell (1986 apud
DALGALARRONDO, 2008, p. 27), a Psicopatologia pode ser vista como “o ramo da
ciência que trata da natureza essencial da doença mental – suas causas, as mudanças
estruturais e funcionais associadas a ela e suas formas de manifestação”.

Entretanto, para uma compreensão mais clara, a Psicopatologia pode ser compreendida
como um conjunto de conhecimentos referentes ao adoecimento mental do ser humano,
cujo objeto de estudo é o homem em sua totalidade, o homem que não deve ser reduzido
por e pela sua doença.

Miranda-Sá Jr. (2001, p.11) propõe que a psicopatologia seja vista como uma disciplina
baseada em métodos científicos que visam ao estudo das alterações mórbidas, ou seja, dos
aspectos concernentes a doença ou transtornos mentais que afetam o comportamento.

Para Jarne e Talarn (2009, p. 34), Psicopatologia sugere o estudo de influências de


variáveis psicológicas sobre a doença. Ainda, segundo outro autor, o termo Psicopatologia
vem de psic(o)- + patologia, como patologia das doenças mentais ou como o estudo das
causas e natureza das doenças mentais. Psic(o)- vem do grego psyché e significa alento,
sopro de vida, alma. Patologia, afecção, dor, que também provém do grego pathos
significa doença, paixão, sentimento (CUNHA, 1997, apud MOREIRA 2004, p. 449).

O pensamento clássico e mais conhecido pelos psicopatólogos acerca do termo


fora levantado por Karl Jasper (1963) que abordava a psicopatologia a partir dos
fenômenos psíquicos anormais, exatamente como se apresentam à experiência, ou
seja, aqui podemos verificar que a psicopatologia está voltada para aquilo que constitui
a experiência vivenciada por quem sofre, aquele que apresenta em sua vivência
comportamentos e expressões verbais diferenciadas e perceptíveis que conduzem a
investigação à percepção do pathos.

16
PSICOPATOLOGIA – O QUE É? │ UNIDADE I

A Psicopatologia Fundamental é um discurso (logos) sobre o pathos


psíquico, que leva em consideração a subjetividade. Como tal, ela se
distingue da Psicopatologia Geral, escrita em 1913 por Carl Jaspers
(1987), que leva em consideração as manifestações psicopatológicas
conscientes. (BERLINCK, M. T., 2010, p. 551)

Figura 3. Sofrimento mental.

Fonte: https://image.freepik.com/free-photo/portrait-young-woman-who-with-horror-fear-is-trying-escape-from-many-hands-
pulling-her-back-tearing-her-apart-concept-loneliness-loss-fear-scary-terrible-portrait_116124-673.jpg. Acesso em: 24/08/2020.

A Psicopatologia, portanto, deve ser vista como uma ciência autônoma e não como
um prolongamento da Neurologia ou da Psicologia, diz Dalgalarrondo (2008, p. 28).
Destarte, “a ciência psicopatológica é tida como uma das abordagens possíveis do
homem mentalmente doente, mas não a única” (Idem). Isso posto, cabe ao profissional
utilizar as medidas diagnósticas de observação, análise, interpretação e ferramentas
diagnósticas, deixando fora o julgamento moral e substituindo-o pelo julgamento
clínico, respaldado pelas referências da observação e dos sinais e sintomas revelados,
para então, identificar e compreender os inúmeros e possíveis elementos presentes e
constituintes da doença mental.

O método fenomenológico é atualmente amplamente utilizado no


âmbito da pesquisa qualitativa em psicologia e psicopatologia […] a
metodologia fenomenológica de pesquisa em psicologia e psicopatologia
também sofre variações, segundo o pensamento filosófico que a sustenta
[...]. (DALGALARRONDO, 2008, p. 28).

A Psicopatologia é um campo da área do conhecimento que requer debates por


apresentar vertentes que divergem em vários aspectos, chamadas correntes ideológicas,

17
UNIDADE I │ PSICOPATOLOGIA – O QUE É?

que vis-à-vis nos levam ao aprofundamento e esclarecimento daquilo que formulam


como múltiplas abordagens.

A psicopatologia clínica difundida é uma espécie de enfant terrible


da sua mãe, a medicina. Encantadora e infernizadora de que dela se
aproxima. Ela provoca um encantamento por ser ainda uma criança:
sua complexidade e constante rebeldia em obedecer aos ditames
lógicos adotados pela mãe garantem sua importância e alteridade.
Infernizadora por provocar agressividade: ‘com a morte e a violência
não se pode fazer jogos intelectuais, minha filha!’, diria a medicina [...]
(MARTINS, 2003, p. 12)

No Brasil o primeiro Laboratório do Programa de Estudos Pós-Graduados em


Psicologia Clínica da PUC de São Paulo foi criado em 1997 por Manuel Berlink, que
fora inspirado pela criação do Laboratório de Psicopatologia Fundamental que surgiu
na Universidade Paris VII, criado por Pierre Fédida. Desse modo, com a busca de
profissionais interessados da área, ele criou a Rede Universitária de Pesquisa em
Psicopatologia Fundamental, de modo a expandir a Psicopatologia e seus estudos por
todo o Brasil (FERREIRA, 2002, p. 24).

Em se tratando de fenomenologia e subjetividade podemos avançar até a teoria


cognitivo-comportamental que propõe um conceito de psicopatologia como sendo o
resultado de pensamentos negativos distorcidos. Embora esses pensamentos façam
parte do ciclo vicioso da doença mental, eles não são os únicos dentro de um grau de
importância. Pois, além dos pensamentos distorcidos, os desequilíbrios bioquímicos,
as relações interpessoais e os eventos de vida contribuem como elementos que agem
conjuntamente, desenvolvendo o transtorno psicopatológico. A partir do início dos
transtornos, a terapia cognitivo-comportamental começa a atuar, utilizando dos
processos cognitivos que têm um papel importante e exercem influência no que concerne
a intervenção (KNAPP et al., 2007, p. 37).

Como sabemos a Psicopatologia é vista de modo diferente dentro das áreas da Psicologia,
portanto, em se tratando da Psicologia Dinâmica veremos que os conteúdos internos
que movimentam os afetos, desejos e medos, dentro da experiência de vida individual
e não necessariamente dentro de uma classificação predefinida, resultam em uma
combinação equilibrada de uma abordagem descritiva, diagnóstica e objetiva com uma
abordagem dinâmica, pessoal e subjetiva do sujeito e sua doença.

Já na Psicopatologia Existencial o homem é visto como ser individual cuja doença


mental não é vista como disfunção biológica ou psicológica, mas como modo particular
de existência, uma forma do homem existir no mundo. Na Psicopatologia Psicanalítica

18
PSICOPATOLOGIA – O QUE É? │ UNIDADE I

o homem é visto como ser determinado por forças, desejos e conflitos inconscientes.
Para ela os afetos dominam o psiquismo e o homem racional autocontrolado e dono
dos seus desejos não é levado em consideração, pois são dominados por conflitos
predominantemente inconscientes de desejos que não são revelados e temores em
sua grande parte inacessíveis. Na psicanálise, a psicopatologia é o resultado de
forças, conflitos e forças inconscientes que se identificam por meio dos sintomas
(DALGALARRONDO, 2008, pp. 35-37).

Leiam os seguintes artigos e façam resumos concisos e coerentes sobre as


principais correntes da psicopatologia. Vale levantar mais pesquisas e citar
outros artigos e autores.

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1414-98931997000200003&script=sci_
arttext.

http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0102-79722004000300016&script=sci_
arttext.

19
CAPÍTULO 3
O normal e o patológico

Figura 4. Normal e patológico.

Fonte: https://gerentesinteligentesyemocionales.wordpress.com/category/opinion/. Acesso em: 24/08/2020.

Considerar a diferença entre o normal e o patológico é algo que se faz presente quando
tratamos de aspectos relacionados à saúde mental e, quando abordamos os transtornos,
pensamos na prática clínica e na necessidade de diagnósticos para nortear o tipo de
tratamento. Portanto, embora seja um assunto polêmico e que gera bastante controvérsia
entre os pesquisadores, justamente por não se conseguir esgotar em uma única definição
o que é normal do que é patológico, podemos nos validar da contribuição da cuidadosa
observação clínica do comportamento, bem como das ferramentas investigativas que
nos conduzem a um direcionamento, tais como as avaliações psicológicas, a anamnese,
o exame do estado mental, dentre tantas outras.

Alguns autores se arriscam a delimitar o tema a partir de referenciais que pretendem


fazer essa distinção. Para Coon (2006, p. 487) o parâmetro de normalidade é passível
de verificação por meio do comportamento social, assim sendo, os comportamentos
atípicos, chamados inadequados, irão distinguir os normais dos patológicos. Nesse
caso, o comportamento inadequado é aquele que se refere à típica indisciplina em
conformidade com os padrões aceitáveis de conduta social. É notório que os padrões
de normalidade, mesmo se vistos pelo prisma social, não parecem ser bem definidos,
devido à relatividade e influência cultural.

Coon (2006, p. 487), Stein e Cutler (2002, p. 8) afirmam que o relativismo cultural
sugere que é inapropriado aplicar o conceito de normalidade a todas as pessoas e em
qualquer momento ou situação. Nesse caso, o que parece consenso entre os autores

20
PSICOPATOLOGIA – O QUE É? │ UNIDADE I

é que as culturas classificam as pessoas conforme sua capacidade de comunicar-se e


atitudes previsíveis.

Para Muchinsky (2006, pp. 349-350), as pessoas consideradas normais aparentam


sentir-se bem consigo mesmas, com a vida que levam, despertam prazer na convivência,
são bem-sucedidas, se relacionam de modo fluído e constante, adaptam-se às mudanças,
têm bons empregos, demonstram autonomia e se sentem capazes para escolher seus
próprios caminhos, expressam suas opiniões, se arriscam, possuem aspirações próprias.
Enfim, são pessoas que se comportam de maneira socialmente aceitável e funcionam de
modo integrado.

Conceituar o normal e o patológico em psicopatologia nos parece fundamental


e, portanto, para termos algum direcionamento, podemos nos valer de algumas
contribuições na área da saúde mental:

» Se pensarmos na área do planejamento em saúde mental e políticas


de saúde veremos que seria preciso estabelecer critérios para definir a
normalidade, principalmente no que concerne às demandas assistenciais
de determinado grupo populacional, as necessidades de serviço etc.

» Na prática clínica a capacidade de discernir entre o normal e o


patológico será imprescindível no processo de avaliação e intervenção
clínica, para um diagnóstico diretivo e tratamento assertivo.

» Implicação social do termo para distinção de atos legislativos e para


uso de alusão legal, criminal e ética.

» Para orientação profissional na definição das capacidades e


habilidades a fim de verificar a adequação do profissional em seus cargos
e ambientes de trabalho.

Conforme Dalgalarrondo (2008, p. 32) existem alguns critérios de normalidade


utilizados em psicopatologia, dos quais iremos destacar quatro:

» Normalidade como ausência de doença: a partir da visão de saúde


como “ausência de sintomas, de sinais ou de doenças”, o sujeito que não
apresenta características de sintomas que configurem transtorno mental
é tido como normal.

» Normalidade como bem-estar: esse critério está respaldado na


definição de saúde da OMS, “saúde é o completo bem-estar físico, mental
e social, e não somente ausência de doença”.

21
UNIDADE I │ PSICOPATOLOGIA – O QUE É?

» Normalidade como processo: esse critério sugere a normalidade


dentro da visão dinâmica do desenvolvimento humano, ou seja, há
diversas fases da vida em que haverá complicações, crises, referentes à
mudança, aos momentos vividos, portanto, se o critério para normalidade
estiver respaldado em algum aspecto do desenvolvimento humano, o
sujeito é considerado normal.

» Normalidade subjetiva: o critério permeia a subjetividade do


indivíduo, ou seja, ele é o termômetro do seu estado de saúde.

Para uma melhor avaliação, é salutar que o profissional envolvido com a psicopatologia
esteja constantemente atualizado com seus conhecimentos e também se mantenha
sempre habilitado para conduzir o processo, bem como para manter a mente
voltada para o pensamento crítico e reflexivo. A psicopatologia alinhada com o pensador
analítico poderá permitir uma maior precisão nas interpretações e nas fundamentações
conceituais.

Ainda, é conveniente salientar que as definições de normalidade de aspectos patológicos


podem ser relacionadas às próprias percepções sociais do profissional, por isso,
desenvolver o pensamento crítico é fundamental para a lisura processual.

Definições dos aspectos patológicos devem estar dissociados de conceitos de normalidade


tradicionais.  Para Canguillem (2002), todo indivíduo possui sua especificidade, por
isso, deve ser analisado de maneira única e segundo normas específicas e especiais,
que possam ressaltar o processo de adoecimento do paciente.  O autor salienta que o
indivíduo deve ser analisado como um processo sistêmico – ou seja, com sua relação
com o ambiente em que ele vive e está exposto – pois isso será essencial para uma
correta avaliação do comportamento patológico. 

Conforme Coon (2006), a definição de normalidade em um tratamento  pode ser


dificultada por se tratarem de percepções do observador, mas que também pode ser
contornado esse problema com a observação de sinais comportamentais durante o
diagnóstico.    

Como citado anteriormente, o comportamento de normalidade em uma sociedade


representa poder de atração social para as outras pessoas dessa mesma sociedade, pois
facilita os relacionamentos interpessoais.  Esses indivíduos são mais seguros, confiantes
e possuem maior capacidade de obterem sucesso em suas áreas de atuação, assim como
contribuem para a produção de redes sociais estabilizadas. Para Muchinsky (2006, p.
350), as pessoas conceituadas como normais apresentam um sistema funcional mental
e psicológico estruturado e coerente.

22
PSICOPATOLOGIA – O QUE É? │ UNIDADE I

Entretanto, Berger (1997,  apud  STEIN; CUTLER, 2002) destaca que mesmo os
indivíduos considerados saudáveis estão suscetíveis a comportamentos imperfeitos e
passiveis de erros, podendo, ainda, vivenciar conflitos que afetarão seu comportamento
e suas atitudes fora da faixa da normalidade.  Em detrimento dessa classificação, Coon
(2006) salienta que os critérios estabelecidos para conceituar normalidade social e a
própria fuga dessa linha balizadora de comportamento tido como normal pode ser de
difícil percepção e também serem diferentes para cada cultura.

Por tudo isso mencionado, os conceitos e as interpretações não se esgotam, devendo ser
acrescidos de análises comportamentais, culturais e sociais, como forma de aumentar a
compreensão dos processos mentais que compõem o cenário da psicopatologia.

Para aprofundar seu conhecimento e aumentar a sua visão sobre o assunto,


seguem sugestões:

CANGUILHEM, Georges. O normal e o patológico. 6a ed. Rio de Janeiro: Forense


Universitária, 2009. Disponível em: <http://pt.slideshare.net/jonathanfao/
canguilhem-georges-o-normal-e-o-patolgico-6-ed-dig>. Acesso em 18 jul.
2016.

Bergeret, Jean. A Personalidade Normal e Patológica. 3a ed. São Paulo: Artmed,


2006.

Filmes:

“Um estranho no ninho”.

“Bicho de 7 cabeças”.

23
DIAGNÓSTICOS
PSICOPATOLÓGICOS UNIDADE II
– VISÃO GERAL
Figura 5. Funcionamento da Mente.

Fonte: https://www.elconfidencial.com/alma-corazon-vida/2008-08-30/medicamentos-antipsicoticos-cuando-el-remedio-es-
peor-que-la-enfermedad_304849/. Acesso em: 24/08/2020.

Diagnóstico
Palavra originada do grego original (διαγvοσις, cujo prefixo δια [dia = através] e γvοσις
[gnosis = conhecimento]); a palavra grega diagnõstikós, que significa discernimento,
faculdade de conhecer, de ver através de; na atualidade, é utilizada como estudo
aprofundado, realizado com objetivo de conhecer determinado fenômeno ou realidade
a partir do conjunto de procedimentos teóricos, técnicos ou metodológicos. Ou ainda,
é visto como um substantivo referente à discriminação do conhecimento de forma
racional, lúcida, elaborada, realizando tarefa de discernimento (ARAÚJO, 2007;
MARTINS, 2003).

Diagnóstico também pode ser entendido, conforme a APA (2014), que nos situa em
termos de diagnóstico principal e diagnóstico provisório, como:

» Diagnóstico principal: é a condição responsável pela primeira


consulta, quando o motivo da consulta do paciente está relacionado a uma
condição principal, que o faz ir em busca do serviço médico ambulatorial.
O diagnóstico é o motivo pelo qual o paciente busca consulta, ou seja, o

24
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL │ UNIDADE II

foco de atenção ou tratamento. Está relacionado a um grupo de sintomas


e sinais que são descritos e observados durante a consulta.

» Diagnóstico provisório: é utilizado na psiquiatria e psicologia quando


existir forte suspeita de que todos os critérios serão satisfeitos para um
transtorno, mas não houver informações suficientes disponíveis para
estabelecer um diagnóstico definitivo. Outro uso do termo “provisório”
é para sugerir situações em que o diagnóstico diferencial depende
exclusivamente da duração da doença.

» Diagnóstico diferencial: o termo diagnóstico diferencial determina


os diagnósticos diferentes daqueles pensados inicialmente devido
aos sintomas diversos apresentados pelo paciente. Esse combina os
conhecimentos teóricos e práticos alcançados ao longo dos estudos da
vida do profissional, do exame clínico, sintomas do paciente e os exames
complementares, biológicos ou radiográficos. O médico analisa esses
diferentes elementos reunidos para determinar a patologia e aplicar um
tratamento.

Etimologicamente, o termo diagnóstico tem origem no adjetivo grego


diagnóstikós, que significa capaz de distinguir, de discernir (HOUAISS,
2001, verbete diagnóstico). Substantivo na locução grega hédiagnóstikê
tékhné arte de distinguir (doenças) (Oxford Advanced Learners
Compass, 2005, verbete diagnostic, tradução nossa). Sinônimo de
diagnose, do grego diágnósis discernimento, ação e faculdade de
discernir (HOUAISS, 2001, verbete diagnose). Derivado do verbo grego
diagignôskó, distinguir, formado de diá- através e gignôskó conhecer
(Dicionário Etimológico, verbete diagnóstico). (ABEL, 2013, p. 18)

25
CAPÍTULO 1
Diagnóstico para quê?

Tanto a Medicina quanto a Psicologia se utilizam do termo psicopatologia, pois ambas,


em suas práticas clínicas, reconhecem a psicopatologia como um constructo, uma
ciência que auxilia na análise do homem. Tanto a Medicina Psiquiátrica quanto a
Psicologia trabalham com diagnósticos clínicos, que nada mais são do que um processo
de conhecimento pelo qual irá se investigar alguém de modo médico ou psicológico.

Diagnóstico em Psiquiatria, conforme Dalgalarrondo (2008), é visto sob dois prismas


opostos: um define o diagnóstico como modo de rotular as pessoas diferentes, excêntricas,
permitindo e legitimando um controle social e poder médico sobre o indivíduo; o outro
como elemento principal da prática psiquiátrica. O autor, por sua vez, corrobora com
a importância do diagnóstico psicopatológico em termo de considerar os aspectos
pessoais e individuais do sujeito como forma de se compreender o paciente e o seu
sofrimento a partir de técnicas e estratégias adequadas a cada paciente.

Recursos básicos utilizados para o diagnóstico

Figura 6. Rapport.

Fonte: https://www.gleauty.com/ES/Alcobendas/306968863549028/Audimed-Farma. Acesso em: 24/08/2020.

A técnica de psicopatologia mais conhecida de avaliação, seja ela médica ou psicológica,


é a entrevista. Juntamente com uma minuciosa observação do paciente é possível
conhecer a dinâmica e a vivência do seu sofrimento e se chegar até a patologia a fim de
se obter um planejamento terapêutico mais apropriado à situação decorrente.

26
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL │ UNIDADE II

A entrevista psicopatológica, assim como é chamada, permite a realização de duas


práticas da avaliação: a anamnese e o exame psíquico. Na anamnese há uma investigação
acerca do histórico do paciente de doenças e principalmente de sintomas e sinais, assim
como seus antecedentes pessoais, familiares e detalhes relevantes relacionados ao(s)
episódio(s) de doença(s).

Já o exame psíquico, também chamado de Exame do Estado Mental (EEM), conforme


Kaplan, Sadock e Grebb (1997, p. 267), é a “descrição da aparência, fala, ações e
pensamentos do paciente durante a entrevista” Nesses dois casos, tanto psiquiatras
quanto psicólogos podem se utilizar desse instrumento de avaliação.

Entrevista clínica com o paciente

Harry, Stack e Sullivan (1983, apud DALGALARRONDO 2008, p. 66) comentam que
o domínio da técnica de entrevista é o grande diferencial e se faz de modo mais eficaz
com um profissional treinado e capacitado, para tal, ele sugere para o exercício dessa
função o próprio psiquiatra, o psicólogo ou o enfermeiro em saúde mental que tenham
habilidade para exercer relações interpessoais com perícia. Para o autor, é imprescindível
que o profissional seja um expert em realizar entrevistas que estejam focadas a fornecer
importantes informações acerca da condição do paciente, assim como tenha igualmente
habilidade para acolher o paciente em sua angústia, sensibilidade para ouvir e calar
no momento certo, paciência, respeito e habilidade para manter os limites necessários
a certo tipo de paciente, como os invasivos e agressivos, assegurando o contexto da
entrevista.

Figura 7. Entrevista Clínica

Fonte: <https://franciscagonzalezr.wixsite.com/franciscagonzalezr/single-post/2015/08/08/La-labor-del-Psic%C3%B3logo/>.
Acesso em: 24/08/2020.

Em psicologia, a entrevista clínica é um conjunto de técnicas de


investigação, de tempo delimitado, dirigido por um entrevistador

27
UNIDADE II │ DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL

treinado, que utiliza conhecimentos psicológicos, em uma relação


profissional, com o objetivo de descrever e avaliar aspectos pessoais,
relacionais ou sistêmicos (indivíduo, casal, família, rede social), em um
processo que visa fazer recomendações, encaminhamentos ou propor
algum tipo de intervenção em benefício das pessoas entrevistadas.
(TAVARES apud CUNHA et al., 2003, p. 45)

As técnicas de entrevistas são muitas e são destacadas por diversos autores. Ainda
conforme Dalgalarrondo (ibidem), a entrevista poderá exigir do profissional habilidade
para medir sua própria postura, se mais ativa ou passiva, mais acolhedora ou
incentivadora, enfim, isso dependerá muito:

» do paciente – suas características pessoais, como ele chega até o


entrevistador, sua estrutura de personalidade, seu estado mental, suas
condições físicas, capacidades cognitivas;

» do objetivo da entrevista – se é de uma entrevista informal com objetivo


apenas de triagem para encaminhamento do paciente, se pretende um
diagnóstico clínico, estabelecimento de vínculo terapêutico, entrevista
psicopatológica, tratamento farmacológico, orientação familiar, conjugal,
pesquisa, forense, trabalhista;

» do contexto institucional e do ambiente – o próprio ambiente e as


características da entrevista previstas pela instituição, se a mesma está
sendo realizada num pronto-socorro, enfermaria, ambulatório, centro
de saúde, CAPS, consultório, numa sala especial, num ambiente mais
favorável ao paciente;

» da personalidade do entrevistador – a flexibilidade do entrevistador


para atuar conforme as situações forem se apresentando sem perder
sua eficácia no ato da entrevista, isso porque pacientes introvertidos
muitas vezes precisarão de maior atenção, respeito e acolhimento, além
de serem estimulados a falar; outros serão mais verborrágicos (falantes)
e necessitados de direcionamento, e ou apenas de alguma escuta mais
paciente e idônea.

Como foi visto, entrevistar o paciente é uma tarefa que não ruma a um objetivo único,
porém o objetivo preestabelecido é essencial para que se realize adequadamente a
entrevista. No entanto, sabemos que dentro das áreas médicas o uso da entrevista
pode ter prismas diferentes, como abordam Bertoldi, Braga e Mendes (2003, apud
NETO; GAUER; FURTADO, 2003) que definem a entrevista médica como um

28
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL │ UNIDADE II

encontro combinado para obtenção de esclarecimentos, sendo o ponto de partida da


relação médico-paciente e que visa ao entendimento dos males do paciente, a base do
diagnóstico clínico, do encaminhamento a exames ou investigações mais elaboradas.
Já a entrevista clínica, para os psicólogos, segundo Tavares (apud CUNHA, 2003) é
um compilado de técnicas que agem de modo objetivo em tempo determinado como
técnica de investigação, dirigida por um entrevistador treinado e utilizando-se de
conhecimentos psicológicos para descrever e avaliar aspectos pessoais, relacionais ou
sistêmicos para então nortear o encaminhamento e proposição de intervenções para o
paciente.

Tabela 1. Técnicas comuns de entrevista.

1. Estabeleça rapport tão logo seja possível, na entrevista.


2. Determine a queixa principal do paciente.
3. Use a queixa principal para desenvolver um diagnóstico diferencial provisório.
4. Selecione as várias possibilidades diagnósticas mediante perguntas focalizadas e detalhadas.
5. Seja persistente o bastante nas respostas vagas ou obscuras, até determinar corretamente a resposta ao que perguntou.
6. Deixe que o paciente fale livremente, o suficiente para observar o grau de conexão dos seus pensamentos.
7. Use uma mistura de perguntas fechadas e abertas.
8. Não tema indagar sobre tópicos que você ou o paciente possam considerar difíceis ou constrangedores.
9. Pergunte sobre pensamentos suicidas.
10. Dê ao paciente uma chance para fazer perguntas ao final da entrevista.
11. Conclua a entrevista inicial transmitindo um senso de confiança e, se possível, de esperança.

Fonte: Kaplan; Sadock; Grebb,1997, p. 259.

Consideremos os seguintes aspectos relacionados aos procedimentos da entrevista ao


psicodiagnóstico, adaptando alguns aspectos trazidos por Kaplan, Sadock e Grebb (1997)
para os procedimentos com pacientes psiquiátricos e dando vazão aos procedimentos
psicológicos e que podem ser adaptados às diversas outras áreas, conforme cada critério
apresentado se adeque à função do profissional.

Manejo clínico do tempo

A consulta inicial deve durar entre 30 minutos e uma hora, dependendo das
circunstâncias em que o paciente se apresenta no local do atendimento. As seguintes
consultas e complemento da entrevista terapêutica também variam em relação ao tempo.
É importante que o profissional esteja bastante atento, uma vez que a relação com o
tempo também revela traços importantes da personalidade do paciente, como se ele se
apresenta ansioso, chega atrasado, chega cedo demais, chama a atenção do profissional
para o término do seu horário, dentre outras. A regulação do tempo na relação clínica
entre profissional e paciente é sempre de muita relevância para o tratamento, uma
vez que o descuido do tempo em relação ao profissional pode transmitir uma ideia

29
UNIDADE II │ DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL

inconsciente ao paciente de relaxamento, incapacidade, desorganização, e liberdade


por parte do profissional para com o paciente, induzindo inclusive o paciente a ser
descompromissado igualmente com o horário de suas consultas.

Considerações quanto à disposição das cadeiras

Tanto as cadeiras quanto a sala devem estar preparadas para receber o paciente. As
cadeiras devem estar organizadas conforme o tipo de dinâmica a ser realizada ou o
tipo de perspectiva psicológica com a qual o profissional trabalha. Caso o setting
estabelecido para a entrevista disponha de vários ambientes para sentar-se como
cadeiras, almofadas, sofás e tapetes, o profissional escolhe o seu lugar para se sentar e
oferece ao paciente a oportunidade de escolher o lugar onde ele se sinta mais cômodo.

A decoração do ambiente

Assim como a aparência do profissional pode dizer muito dele, a aparência do ambiente
em que trabalha o psicólogo também pode induzir o paciente a recorrentes pensamentos
sobre a personalidade do psicólogo ou profissional da saúde que o atende. Todos os
aspectos ditos pessoais do profissional, tais como livros, fotografias e diplomas nas
paredes, revelam algo sobre o profissional e podem comunicar-se com o inconsciente
do paciente. Não estamos aqui discutindo sobre a impossibilidade de ter esses objetos,
mas alertando os profissionais para que fiquem atentos caso esses objetos revelem muito
de sua vida pessoal ao paciente. Caso ainda estejam trabalhando com pacientes de alta
periculosidade, ou ainda, se os objetos remetem algo ao paciente e há uma percepção
por parte do profissional, é preciso trabalhar em sessão.

Anotações

As anotações são requisições da profissão uma vez que servem como registro, e se
tornam uma obrigação moral e legal, adequadas para que se converse sobre diagnóstico,
prognóstico, tratamento, de cada paciente. Além de auxiliar o profissional, as anotações
podem resguardar não só a memória do profissional, mas também servir como proteção
em casos burocráticos, como processos.

Entrevista subsequente

Essa entrevista, que ocorre após a primeira entrevista, pode ser iniciada com o
profissional oferecendo espaço ao entrevistado ou paciente para falar sobre o que
ocorreu durante a sessão anterior, assim como, serve para retirar dúvidas da primeira
entrevista. Algo interessante que pode ser dito: geralmente as pessoas ao sair da primeira

30
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL │ UNIDADE II

entrevista ficam pensando em coisas que gostariam de ter dito e não disseram, ou ficam
pensando no que foi dito. O que você pensou a esse respeito? Esse procedimento ainda
é importante para manutenção do rapport, fazendo o paciente ficar mais à vontade e
sentir que há um espaço no profissional para preocupar-se com ele e seus sentimentos/
pensamentos.

Condução das entrevistas

O modo como a entrevista é conduzida, assim como o tipo de técnicas utilizadas dentro
de um consultório, são dependentes da formação do profissional, da linha psicológica a
qual o profissional segue. O profissional deve se preocupar com a finalidade da entrevista
e o setting. Por setting compreendemos o local onde a entrevista está sendo realizada,
que pode ser num ambiente clínico particular, ambulatorial, hospital público, hospital
privado, sala de um presídio, dentre tantas outras possibilidades.

O paciente deprimido e potencialmente suicida

É importante que o profissional seja capacitado e treinado para atuar junto a esse
tipo de paciente. O paciente deprimido geralmente apresenta letargia, fala pouco, tem
dificuldade para responder, apresenta-se desesperançoso e até com retardo psicomotor.
É importante que o profissional observe o paciente desde os aspectos corporais, até o
ponto de saber conduzir a entrevista de modo a mobilizar o paciente à resposta. No caso
de pacientes deprimidos, o profissional deve manter-se cuidadoso a fim de não criar
expectativas em relação à melhora, no entanto, é de grande importância nesses casos
que o psiquiatra esteja disposto a falar sobre a sintomatologia assim como a cura. Uma
vez que o profissional lida com sinceridade com o paciente, transmitindo a esperança
da cura de modo honesto e verdadeiro, o paciente com transtorno depressivo muitas
vezes se sente aliviado, por pensar que os seus sentimentos de desesperança e vazio
podem sumir.

Nesse momento, é importante que o profissional ainda estabeleça um contrato com


o paciente, um contrato informal, explicando que a cura depende também do esforço
do paciente na trajetória terapêutica, ou seja, explicando ao paciente a importância
da constância no processo terapêutico, da não desistência e da manutenção da
esperança a cada consulta realizada. Em relação ao risco de suicídio, é imperativo
que o profissional não se abstenha de indagar de forma estruturada e até certo ponto
detalhada sobre a existência de pensamentos suicidas. Caso haja risco de vida, histórico
familiar de suicídio, comportamento anterior suicida por parte do paciente, evidências
de impulsividade, ou pessimismo generalizado sobre o futuro, o profissional terá de
decidir entre a hospitalização ou não, como forma de proteção ao paciente.

31
UNIDADE II │ DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL

A internação, muitas vezes, irá depender do fato de o paciente ter uma rede de apoio
bem estruturada, geralmente a família, ou cuidadores; assim como uma rede de
profissionais que o apoiem no tratamento. Em caso de tentativas, planejamento, ou
impulsividade, o paciente só poderá retornar a casa caso decida assegurar ao médico a
sua disponibilidade em manter-se vivo e telefonar em qualquer momento, caso surja a
pressão para o suicídio, assim como tentar informar aos pais/cuidadores.

Os pais ou cuidadores também devem responsabilizar-se por acompanhar o paciente


em nível de atenção, observando os sinais que podem demonstrar piora ao paciente,
assim como, estar com o controle da medicação e do meio em que se encontra o
paciente (retirada de objetos cortantes, armamentos, ou qualquer objeto que apresente
risco ao paciente). O profissional deve resguardar-se com um documento que certifique
de que tanto o paciente quanto os familiares estão de acordo com o tratamento e
cientes de suas funções e obrigações, destacadas no documento, e com assinatura dos
envolvidos (contrato de vida3). Nesses casos, o profissional tem que estar disponível
para o paciente, uma vez que às suas mãos chegou a responsabilidade de trabalhar com
pessoas em crise ou algum tipo de transtorno mental. Em casos de profissionais não
preparados para lidar com esse tipo de paciente, o encaminhamento deve ser realizado.
O encaminhamento nesse caso deverá ser responsivo.

O paciente violento

Esse tipo de paciente deve ser abordado com algumas técnicas e atitudes usadas com
os pacientes suicidas. É importante sinalizar ao paciente a sua capacidade para lidar
com os sentimentos violentos do paciente, e resguardar sua integridade evitando que
ele realize algum ato que possa vir a prejudicar a ele ou a terceiros. O paciente não pode
sentir que profissional não está preparado, ou que se sente desconfortável na presença
dele. Porém, parte do trabalho do profissional é ajudar o paciente a compreender que
está no controle dos seus sentimentos agressivos, garantindo a segurança dele e da outra
pessoa, demonstrando a possibilidade desse fato, mantendo também a sua integridade
mental, e não apenas física. A remoção das contenções físicas do paciente só poderá
ocorrer caso o teste de realidade do paciente não esteja comprometido, sobre isso, o
entrevistador pode abordar diretamente o paciente, expressando preocupação por sua
segurança e de outras pessoas na área.

Paciente com delírio

Não se pode pensar que, porque o paciente é delirante, não se pode acessá-lo. Devemos
pensar nos delírios como estratégia de defesa e autoproteção do paciente. Embora esses

3 Ver anexo “Contrato de vida” baseado no modelo de Fremouw, 1990.

32
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL │ UNIDADE II

mecanismos sejam respostas mal adaptadas contra a ansiedade esmagadora, baixa


autoestima e confusão mental do paciente, é algo que gera angústia e sofrimento, assim
como ansiedade; e que pretendem ser eliminados. O enfoque mais útil para lidar com
esse tipo de paciente é que o entrevistador compreenda e faça o paciente perceber que é
compreendido, que tem a sua crença da realidade do delírio igualmente compreendidas,
mas que não compactua com a mesma crença do delírio. É importante que o paciente
se sinta respeitado, compreendido e escutado pelo entrevistador, assim, terá maior
probabilidade de falar sobre si mesmo e menos sobre o delírio. No entanto, é preciso
que o profissional incentive o paciente a falar sobre os seus temores, sentimentos e
esperanças, a fim de compreender melhor que função determinada o delírio preenche
para o paciente.

Entrevista com familiares

Embora sejam úteis, esse tipo de entrevista pode apresentar algumas dificuldades, por
exemplo, em relação ao cônjuge, ele pode se sentir intimidado, pode se sentir identificado
com o paciente, ou pode se sentir sem força e sem esperança. Os membros da família
podem não perceber que certos tipos de informação são melhor oferecidos por um
observador do que pelo próprio paciente. Os familiares podem ser importantes porque
são mais capazes de descrever as atividades sociais do paciente, mas apenas esse pode
descrever o que está pensando ou sentindo. A entrevista com suas milhares de nuances
deve ser apropriadamente manejada pelo entrevistador, uma vez que uma entrevista
desestruturada, mal planejada ou mal realizada pode ameaçar o relacionamento entre
o paciente e o entrevistador ou profissional. Um dos aspectos mais importantes da
entrevista com a família tem a ver com o sigilo, ou seja, o paciente deve estar seguro de
que os membros da família não irão ser informados sobre qualquer tipo de comentários
discutidos nas entrevistas, a não ser questões que envolvam risco de vida a ele mesmo e
a terceiros. O mesmo deverá ser mantido com os membros da família, que irão destacar
os pontos que não devem ser revelados.

O EEM (Exame do Estado Mental)

O exame do estado mental nem sempre é utilizado pelos profissionais, mas é bastante
discutido e de suma importância, desde que a Constituição Federal, em seu artigo 5o,
inciso V (BRASIL, 1988) e o artigo 14 do Código de Defesa do Consumidor (BRASIL,
1997), promulgou como prudente ao profissional liberal, ter provas documentais e
registros clínicos do estado de saúde, segundo critérios avaliativos, das pessoas que
buscam assistência profissional na área de saúde. No entanto, segundo Erné (apud
CUNHA, 2003, p. 67), “o ato de fazer ou não fazer um exame acurado poderá ter

33
UNIDADE II │ DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL

consequências inimagináveis para a vida econômica e a imagem social do profissional


liberal”. Ainda segundo o autor,

além desses aspectos legais que passaram a vigorar no Brasil [...] é


impossível cientificidade sem apreensão e fixação de alguns conceitos
que disciplinem e organizem as nossas observações. Para os que
endossarem essa tese, o exame detalhado do estado do examinando,
ou do paciente, será sempre importante, independentemente dos riscos
jurídicos.

Kaplan, Sadock e Grebb (1997, p. 267) revelam que o EEM é:

a parte da avaliação clínica que descreve a soma total das observações


do examinador e suas impressões sobre o paciente psiquiátrico no
momento da entrevista. Enquanto a história do paciente permanece
estável, seu estado mental pode mudar de um dia para o outro, ou de
uma hora para outra. O EEM é a descrição da aparência, fala, ações e
pensamentos do paciente durante a entrevista.

Tabela 2. Esboço do Exame do Estado Mental.

I - Descrição geral
a - aparência;
b - comportamento e atividade psicomotora;
c - atitude acerca do examinador.
II - Humor e Afeto
a - humor;
b - afeto;
c - adequação.
III - Fala
IV - Perturbações da percepção
V - Pensamento
a - processo ou forma do pensamento;
b - conteúdo do pensamento.
VI - Sensório e cognição
a - alerta e nível da consciência;
b - orientação;
c - memória;
d - concentração;
e - pensamento abstrato;
f - fundo de informações e inteligência.
VII - Controle dos impulsos
VIII - Julgamento e insight
IX - Confiabilidade

Fonte: Kaplan; Sadoc; Grebb, 1997, p. 267.

34
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL │ UNIDADE II

Após o EEM, os autores apresentam o “Registro Psiquiátrico” (p. 270) para que sejam
redigidos todos os tópicos do roteiro da entrevista.

Diversas abordagens psicológicas trabalham de acordo com as suas técnicas de


diagnóstico psicológico, isso pode ser visto e pesquisado por você.

LOPES, Ederaldo José; LOPES, Renata Ferrarez Fernandes; LOBATO, Gledson


Régis. Algumas considerações sobre o uso do diagnóstico classificatório nas
abordagens comportamental, cognitiva e sistêmica. Psicol. estud., Maringá, v.
11, n. 1, abr. 2006. Disponível em: http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_
arttext&pid=S1413-73722006000100006&lng=pt&nrm=iso. Acesso em: 30 de
outubro de 2012.

35
CAPÍTULO 2
Diagnóstico psicopatológico e
psicodiagnóstico

Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar


uma alma humana, seja apenas outra alma humana.
Carl Jung

Figura 8. Diagnóstico Psicológico.

Fonte: https://easyhealthoptions.com/surest-way-nimble-brain/. Acesso em: 24/08/2020.

Diagnóstico psicopatológico
Trata-se de um modo de diagnosticar, a partir de sintomas e sinais, as possibilidades
patológicas de ordem mental de um sujeito. Portanto, não podemos nos esquecer dos
exames complementares, igualmente importantes para auxiliar um diagnóstico, sendo
os exames laboratoriais, neurológicos, de avaliação física e de neuroimagem.

Duero e Shapoff (2013) relatam que em Medicina o diagnóstico de qualquer patologia


depende da avaliação/exame das funções biológicas e sua comparação com aspectos da
normalidade, baseados na noção de homeostase orgânica. No entanto, o autor acredita
que a especificidade do discurso psicopatológico difere desse outro, uma vez que o
diagnóstico psicopatológico é um tipo de fenômeno com características intrínsecas e
peculiares que merecem atenção e estudo aprofundado. Em psiquiatria, por exemplo,
um conjunto de sintomas permitiria estabelecer um diagnóstico e, portanto, prever um
prognóstico juntamente a um tratamento efetivo, com a introdução de medicamentos e
técnicas que ajudem na reorganização do sistema nervoso.

36
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL │ UNIDADE II

Em contrapartida, quando lidamos com os transtornos mentais, devemos resolver as


questões referentes ao normal e patológico que se sobrepõem aos casos em formas
de nível cultural, regional etc., uma vez que o paciente não é um ser provido apenas
de funções orgânicas, mas um sujeito individual composto de características de
personalidade, com um sistema de significados únicos e disposições globais que o
diferencia em nível de interpretação e sentido de suas ações.

Canguilhem (1979), Duero e Shapoff (2009) ressaltam que a pretensão da universalidade


dos sintomas e transtornos psiquiátricos são resultados menores do que presumem
escritos médicos, visto que o olhar médico imposto ao doente mental distancia o
paciente da sua realidade, que é de ordem social e não biológica tão somente.

Como vimos, em Psicopatologia, para que cheguemos a um diagnóstico, é preciso


alocarmos em pauta, além das observações, o uso de ferramentas diagnósticas de
observação, identificação e transcrição dos sintomas e sinais revelados pelo paciente.
Mas o que são sintomas e sinais?

Para definir o sintoma podemos destacar como: a forma pela qual a doença se apresenta,
é a realidade aparente de uma determinada enfermidade. É a experiência sentida e
vivida pelo paciente que anuncia a ele o quanto o seu corpo está mudado, portanto,
podemos dizer que o sintoma é aquilo pertencente ao paciente a partir da percepção
e observação do seu próprio funcionamento. Ainda, segundo Martins (2003, p. 22) o
sintoma “é um acontecimento doloroso e/ou perturbador, conforme a etimologia da
palavra em grego original já apontava: acidente que cai, ocorre com (alguém)”.

Enquanto o sinal, ainda segundo Martins (2003), é aquilo que pode ser apontado pelo
outro, via de regra o clínico. A distinção entre sintoma e sinal pode então ser estabelecida
em termos daquele que aprecia e evidencia o signo clínico: o paciente, no caso do
sintoma, e o médico, no caso do sinal. A Medicina, portanto, tornou-se especialista em
identificar sinais para facilitar o diagnóstico.

Para a Psicologia não seria diferente. Os sintomas seriam, portanto, aquilo que faz
parte da vivência subjetiva relatada pelo paciente, suas queixas, narrativa, aquilo que
ele experimenta e comunica a alguém de algum modo. Já os sinais seriam verificáveis
pela observação direta do paciente, seriam os “dados elementares das doenças que são
provocados (ativamente evocados) pelo examinador” (DALGALARRONDO, 2008, p.
24).

Ainda conforme Dalgalarrondo (2008, p. 41), do ponto de vista clínico e específico da


psicopatologia, embora o processo de diagnóstico em psiquiatria siga os princípios

37
UNIDADE II │ DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL

gerais das ciências médicas, há certamente alguns aspectos particulares que devem ser
aqui apresentados:

» O diagnóstico de um transtorno psiquiátrico é quase sempre baseado


preponderantemente nos dados clínicos.

» O diagnóstico psicopatológico com exceção dos quadros psicorgânicos


(delirium, demências, síndromes focais etc.) não é, de modo geral, baseado
em possíveis mecanismos etiológicos supostos pelo entrevistador, ou seja,
baseia-se principalmente no perfil de sinais e sintomas apresentados pelo
paciente na história da doença e no momento da entrevista.

» Não existem sinais ou sintomas psicopatológicos totalmente específicos


de determinado transtorno mental.

» O diagnóstico psicopatológico é, em inúmeros casos, apenas possível com


a observação do curso da doença.

» O diagnóstico psiquiátrico deve ser sempre pluridimensional, ou seja,


conter várias dimensões clínicas e psicossociais para uma formulação
diagnóstica completa.

» Confiabilidade e validade do diagnóstico em psiquiatria dizem respeito


a esse procedimento produzir, em pacientes de um mesmo grupo
diagnóstico, um mesmo padrão diagnóstico (DALGALARRONDO, 2008,
pp. 41-42).

Psicodiagnóstico

O psicodiagnóstico é uma atividade que veio se aperfeiçoando dentro da Psicologia e se


utiliza do conceito psicopatológico para realizar uma prática diagnóstica no contexto da
Psicologia. Embora os profissionais da área tenham a opção de se utilizar de técnicas
mais amplas como de entrevistas e exames do estado mental, é ainda disponibilizada
ao profissional psicólogo outra gama de ferramentas que o ajudam no diagnóstico,
tais como os testes psicológicos. O psicodiagnóstico geralmente é conduzido de modo
tradicional e estruturado em etapas que são previamente estabelecidas a fim de um
objetivo que é “conhecer, investigar e compreender o paciente por meio de técnicas de
entrevistas, observações dirigidas e aplicações de testes” (ANCONA-LOPEZ, 2002, p.
9).

Ocampo e Garcia Arzeno (apud ANCONA-LOPEZ, 2002, p. 9) consideram o


psicodiagnóstico como uma prática bem delimitada, cujo objetivo é “obter uma
38
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL │ UNIDADE II

descrição e compreensão o mais profunda e completa possível da personalidade total


do paciente ou do grupo familiar”.

Já Dalgalarrondo (2008, p. 64) diz que “a área desenvolvida pela Psicologia Clínica,
denominada ‘psicodiagnóstico’, representa, de fato, um importante meio de auxílio ao
diagnóstico psicopatológico”. Para contribuir ainda com a compreensão desta distinção
diagnóstica destacamos Cunha (2003, p. 23) que explica:

psicodiagnóstico é uma avaliação psicológica, feita com propósitos


clínicos, portanto, não abrange todos os modelos de avaliação psicológica
de diferenças individuais. É um processo que visa identificar forças e
fraquezas no funcionamento psicológico, com foco na existência ou não
de psicopatologia.

Ainda em se tratando de psicodiagnóstico, é relevante citar que há uma diferença entre


um psicodiagnóstico informal – quando esse não tem uma finalidade maior, não visa
um objetivo, e tende a triar o paciente – do psicodiagnóstico formal que tem por objetivo
avaliar, além das condições psicológicas do paciente, a sua capacidade de encarar algum
tipo de processo psicoterapêutico.

Cunha (2003) aponta que geralmente um paciente passa por esse processo devido a
um encaminhamento, que pretende averiguar alguma característica em destaque e que
pressupõe que o paciente apresenta algum tipo de problema psicológico, a exemplo
de uma professora que indica o aluno para esse tipo de avaliação com o seguinte
questionamento: “será que meu aluno não aprende por algum tipo de problema
psicológico?”.

A partir dessa questão o psicólogo deverá trabalhar primeiro no desdobramento da


pergunta que será fundamentada com base no encaminhamento e na observação do
paciente e de seu histórico de vida; em seguida, no estabelecimento de um plano de
avaliação. O plano de avaliação nada mais é do que “um processo pelo qual se procura
identificar recursos que permitam estabelecer uma relação entre as perguntas iniciais e
suas possíveis respostas” (CUNHA, 2003, p. 107).

Para esse tipo de diagnóstico, o psicólogo poderá fazer uso das técnicas que achar
necessárias, de acordo com o objetivo do que pretende ser examinado e nesse momento
indicar o número de sessões previstas para o diagnóstico e comunicação clínica, que
nada mais é do que a devolutiva do processo realizado com comunicação verbal para
o paciente e encaminhamento de laudo ou parecer psicológico a quem encaminhou o
paciente (instituição, justiça, professor, médico etc.).

39
CAPÍTULO 3
Avaliação psicodinâmica do paciente

Figura 9. Avaliação Psicodinâmica.

Fonte: <http://hijodelaluna-mphisto.blogspot.com/2016/>. Acesso em: 24/08/2020.

Segundo Gabbard (1998), a abordagem psicodinâmica tem por objetivo abordar as


questões relacionadas ao diagnóstico e ao tratamento a partir das relações dinâmicas
entre médico e paciente e o estabelecimento do rapport (técnica de abordagem para
com o paciente), visando um entendimento do modo como essa relação afeta o paciente
em seu comportamento e o quanto influencia em sua personalidade e relações.

Para tanto, o autor é enfático ao relatar que a tarefa primordial do entrevistador é


transmitir ao paciente a sua própria aceitabilidade e valor individual, bem como os seus
conflitos. Ainda segundo ele, a postura psicodinâmica de empatia privilegia a relação
pelo modo como o paciente pode se sentir participativo e desse modo vir a colaborar
no processo da entrevista. Gabbard (1998, p. 60) transcorre dizendo que “a avaliação
psicodinâmica pode ser considerada como uma extensão significativa da avaliação
médico-psiquiátrica descritiva”.

40
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL │ UNIDADE II

Tabela 3. Tabela de Avaliação Psicodinâmica.

1. Dados históricos:
a - doença atual com atenção às ligações associativas e com os estressores do eixo IV;
b - história pregressa com ênfase sobre como o passado vem se repetindo no presente (história do desenvolvimento – evolutiva, história familiar,
formação cultural/religiosa);
2. Exame do Estado Mental:
a - orientação e percepção, cognição, afeto, ação etc.
3. Testes psicológicos projetivos;
4. Exame físico e neurológico;
5. O diagnóstico psicodinâmico:
a - diagnóstico descritivo pelo DSM-IV, interações entre os eixos I-IV, características do ego (pontos fortes e fraquezas, mecanismos de defesa e
conflitos, relação com o superego);
b - qualidade das relações objetais (relacionamentos familiares, padrões transferenciais-contratransferenciais, inferência acerca das relações objetais
internas);
c - características do self (autoestima e coesão do self, continuidade do self, fronteiras do self, relação mente/corpo);
d - formulação explicativa utilizando os dados anteriores.
6. Recursos Básicos para o Diagnóstico:
a - Entrevista Clínica;
b - História do paciente;
c - Exame do estado mental do paciente.

Fonte: Adaptada de Gabbard, 1998, p. 72.

Sugere-se que o profissional de saúde mental deve evitar relações engessadas em que o
paciente é mero coadjuvante e se conforme em apenas responder às perguntas médicas,
pois para essa teoria o paciente deve ser um colaborador envolvido em seu processo.

Essa visão pretende minimizar o distanciamento da relação médico/paciente, de modo a


permitir que venham à tona as questões relevantes que estejam na base do pensamento,
afeto e percepção. Ou seja,

a abordagem dinâmica significa um novo sentido para o diagnóstico,


não a mera aplicação de um rótulo [...]. É o diagnóstico no sentido
da compreensão de como o paciente adoeceu e de quão enfermo se
encontra e de como a doença lhe serve. (GABBARD, 1998, p. 68)

Por fim podemos destacar que, dentro dessa visão, o paciente é humanizado, visto como
singular, detentor de sua própria história e sujeito do seu próprio processo de cura.

Processos da avaliação psicodinâmica


O processo psicodiagnóstico depende inicialmente de formulações de perguntas básicas
ou estruturação de hipóteses para que o profissional psicólogo possa trabalhar. Sendo
assim, falaremos do encaminhamento que é um processo pelo qual um profissional

41
UNIDADE II │ DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL

sugere ao paciente, cliente, colaborador, réu, aluno etc., a necessidade de uma avaliação
psicológica.

O encaminhamento deve vir com alguma pergunta formulada em termos psicológicos,


com isso, queremos dizer que o objetivo do processo psicodiagnóstico é chegar a
alternativas de algum tipo de resposta que justifiquem as perguntas iniciais. Além das
perguntas, o psicólogo necessita de dados, para que as questões iniciais sejam mais
precisas e que ele mesmo possa formular hipóteses.

É responsabilidade do psicólogo esclarecer e organizar as questões pressupostas do


encaminhamento. Cunha (2003, p. 106) levanta perguntas que podem auxiliar o
profissional no processo de construção de hipóteses. Usando seu exemplo veremos:

O médico, por exemplo, pode telefonar, dizendo que tem uma paciente
com patologia de coluna e que suspeita que os sintomas sejam, pelo
menos parcialmente, de fundo psicológico. Poderia ser indicada uma
intervenção cirúrgica, para alívio da dor e da restrição da motilidade,
mas lhe é de importância fundamental saber como a paciente reagiria
à cirurgia. Aqui por certo, temos algumas questões: Há fatores
psicológicos associados à condição médica? Como a paciente reagiria à
situação cirúrgica e à longa recuperação? Qual é o prognóstico do caso?
Delineiam-se, portanto, três objetivos para o exame. Por outro lado, as
questões colocadas pelo médico já começam a ser traduzidas em termos
psicológicos.

Contrato de trabalho avaliativo

O psicodiagnóstico é um processo que requer tempo. De certa forma é preciso que as


questões iniciais sejam desenvolvidas, as hipóteses definidas, e os objetivos do processo
sejam esclarecidos. A partir daí o psicólogo começa a traçar um planejamento que inclui
o tipo de exame adequado, as condições de aplicação e tempo para tal.

Deve ficar claro para o paciente que o psicodiagnóstico é um processo que leva tempo,
inclusive para comunicação do resultado. Nesse ínterim o contrato de trabalho é
apresentado. Esse informa qual é o papel do profissional quanto à realização dos exames
e procedimentos de devolutiva; fala sobre o número de sessões, a duração prevista, o
horário estabelecido para o encontro, assim como sobre a previsão ou dia exato da
devolutiva.

Sobre as horas de trabalho, o psicólogo deve considerar a duração do processo de


relato, que geralmente leva 2 horas para laudos mais simples, ou mais tempo quando

42
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL │ UNIDADE II

os relatórios são mais complexos e a confecção dos laudos mais elaborada. Estipular
um prazo maior que condiga com o tempo de trabalho do profissional é algo que pode
parecer difícil aos iniciantes.

É relevante a informação de que o contrato deve manter-se flexível, uma vez que alguns
imprevistos possam acontecer. Caso no contrato haja uma nota sobre a necessidade de
se aplicar testes extras, no decorrer do processo, o psicólogo necessita apenas informar
ao paciente; no entanto, caso na fase de levantamento de dados ele veja que é necessário
administrar mais um instrumento e não apareça no contrato, o contrato não precisa ser
refeito, apenas o profissional informa ao paciente sobre a necessidade dele submeter-se
a mais um teste, sem qualquer ônus.

Ainda, veremos que o paciente também tem a sua responsabilidade dentro do contrato,
uma delas é comparecer nos horários e dias previstos e colaborar para que o plano
de avaliação seja realizado sem problema. Nesse momento o avaliador deve abrir
espaço para que o paciente possa retirar suas dúvidas acerca do processo. Nessa fase é
importante levantar a possibilidade de que o paciente venha não apenas com dúvidas,
mas com expectativas, fantasias e temores acerca do psicodiagnóstico, portanto, cabe
ao profissional trabalhar essas questões que poderão, ainda, ajudá-lo no processo.

Plano de avaliação

O plano de avaliação deve ser traçado com o encaminhamento e o tipo de dados que
são enviados por meio dele, tendo em vista o objetivo do psicodiagnóstico. Ainda, o
profissional deve delimitar as técnicas que serão utilizadas, estabelecendo todas as
questões voltadas para aplicação dessas. Uma vez selecionadas as técnicas e os testes
psicológicos adequados e relacionados a cada caso, deve-se contar com o tempo de
administração e com as características específicas do paciente; como se pode supor, o
plano de avaliação nada mais é do que um plano que envolve a organização da bateria
de testes elegidos.

Bateria de testes

A bateria de testes nada mais é do que o conjunto de testes ou técnicas envolvidas no


processo psicodiagnóstico a fim de oferecer subsídios suficientes para corroborar ou
refutar as hipóteses iniciais, focando sempre no objetivo da avaliação.

Geralmente, mais de um teste é aplicado no processo psicodiagnóstico, possibilitando


a compreensão do sujeito e seus aspectos globais. Além do que, o conjunto de técnicas

43
UNIDADE II │ DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL

valida os dados obtidos e faz com que a avaliação se torne mais eficaz, com menos
margem de erro e menos inferência clínica. Podemos nos assegurar nas técnicas
projetivas ou técnicas psicométricas.

As técnicas projetivas são aconselháveis, mas no caso de crianças são escassos os


números de estudos, no entanto, são utilizados, uma vez que há o uso de outros testes
e técnicas. As técnicas projetivas em crianças não devem ser aplicadas no primeiro
contato, uma vez que podem induzir a criança a querer realizar apenas testes lúdicos.

As técnicas psicométricas baseadas em normas brasileiras são igualmente utilizadas


nas baterias de testes, que podem ser padronizados ou não padronizados. Uma bateria
padronizada é aquela baseada em pesquisas, a priori, que foram realizadas com tipos
de pacientes e recomendada para exames bem específicos. Contudo, o psicólogo tem a
liberdade de acrescentar testes para se adequar à especificidade do caso individual.

Frequentemente, a bateria de testes inclui testes psicométricos e técnicas projetivas.


Nas técnicas projetivas temos vários tipos de testes como os gráficos, HTP, MMPI, ou
técnicas projetivas perceptivas como o Rorschach, TAT, CAT. Questões importantes que
devem ser observadas na realização da aplicação dos testes são os fatores ansiogênicos
por parte do paciente.

De um modo geral, os testes não devem ser interrompidos, por isso, é importante pensar
no tempo da aplicação dos testes. Alguns testes devem ser aplicados em sua íntegra,
outros podem ser divididos por sessões, porém, cada caso deve ser avaliado, inclusive
relacionando com os fatores ansiogênicos. A sugestão é que o avaliador no momento do
planejamento opte por intercalar testes projetivos com os psicométricos. A importância
do tempo no plano da avaliação para aplicação dos testes remete à organização da
escolha da bateria de testes, modo de aplicação e organização do profissional, uma vez
que esses fatores, se mal planejados, podem comprometer o trabalho. Ao profissional
aconselha-se que estude o material e revise os detalhes tanto para o manejo clínico na
aplicação do teste quanto para as regras de aplicação.

44
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL │ UNIDADE II

Avaliação psicológica

Figura 10. Avaliação.

Fonte: https://grupo4marketingcliente.blogspot.com/2019/03/el-cliente-el-cliente-es-la-persona-que.html. Acesso em:


24/08/2020.

Avaliação psicológica é uma área de atuação específica dos psicólogos. Durante a


última década, vem ganhando grande destaque no Brasil com a criação de diversos
cursos de pós-graduação lato e stricto senso sobre avaliação psicológica, revela CFP
(BARROSO, 2010). A avaliação psicológica visa responder questões específicas sobre
o funcionamento psíquico de um sujeito durante o período de tempo em que esse
se encontra com funcionamento mal adaptado, no entanto, pode ser usada ainda
para avaliar funções psicológicas a fim de orientar, conhecer, sugerir e sustentar
processos de decisão em contextos específicos, ou melhor, obter informações acerca
do funcionamento psicológico do indivíduo avaliado. (NORONHA; ALCHIERI, 2004,
apud BARROSO, 2010).

A avaliação psicológica é entendida como o processo técnico-científico de coleta de


dados, estudos e interpretação de informações a respeito dos fenômenos psicológicos,
que são resultantes da relação do indivíduo com a sociedade, utilizando-se, para tanto,
de estratégias psicológicas – métodos, técnicas e instrumentos. Os resultados das
avaliações devem considerar e analisar os condicionantes históricos e sociais e seus
efeitos no psiquismo, com a finalidade de servirem como instrumentos para atuar não
somente sobre o indivíduo, mas na modificação desses condicionantes que operam
desde a formulação da demanda até a conclusão do processo de avaliação psicológica
(CFP, 2003).

Conforme a Resolução do Conselho Federal de Psicologia no 6/2019 que institui o


Manual de Elaboração de Documentos Escritos produzidos pelo psicólogo decorrentes
de avaliação psicológica, no uso de suas atribuições legais e regimentais, que lhe são
conferidas pela Lei no 5.766, de 20 de dezembro de 1971; o psicólogo, no seu exercício

45
UNIDADE II │ DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL

profissional, tem sido solicitado a apresentar informações documentais com objetivos


diversos. O Conselho retrata, ainda, a necessidade de referências para subsidiar o
psicólogo na produção qualificada de documentos escritos decorrentes de avaliação
psicológica; a frequência com que representações éticas são desencadeadas a partir de
queixas que colocam em questão a qualidade dos documentos escritos, decorrentes de
avaliação psicológica, produzidos pelos psicólogos; os princípios éticos fundamentais
que norteiam a atividade profissional do psicólogo e os dispositivos sobre avaliação
psicológica contidos no Código de Ética Profissional do Psicólogo; e as implicações
sociais decorrentes da finalidade do uso dos documentos escritos pelos psicólogos,
favoreceram para a elaboração do Manual de Elaboração de Documentos produzidos
pelos psicólogos, esse manual contém (CFP, 2019):

I. Princípios norteadores.

II. Modalidades de documentos

III. Conceito/finalidade/estrutura.

IV. Validade dos documentos.

V. Guarda dos documentos.

O presente Manual tem como objetivos orientar o profissional psicólogo na confecção


de documentos decorrentes das avaliações psicológicas e fornecer os subsídios éticos e
técnicos necessários para a elaboração qualificada da comunicação escrita. Sobre esse
Manual temos as seguintes considerações:

Princípios norteadores
O psicólogo, na elaboração de seus documentos, deverá adotar como princípios
norteadores as técnicas da linguagem escrita e os princípios éticos, técnicos e científicos
da profissão.

Princípios técnicos da linguagem escrita

O documento deve, na linguagem escrita, apresentar uma redação bem estruturada


e definida, expressando o que se quer comunicar. Deve ter uma ordenação que
possibilite a compreensão por quem o lê, o que é fornecido pela estrutura, composição
de parágrafos ou frases, além da correção gramatical. O emprego de frases e termos
deve ser compatível com as expressões próprias da linguagem profissional, garantindo
a precisão da comunicação, evitando a diversidade de significações da linguagem

46
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL │ UNIDADE II

popular, considerando a quem o documento será destinado. A comunicação deve


ainda apresentar como qualidades: a clareza, a concisão e a harmonia. A clareza se
traduz, na estrutura frasal, pela sequência ou ordenamento adequado dos conteúdos,
pela explicitação da natureza e função de cada parte na construção do todo. A concisão
se verifica no emprego da linguagem adequada, da palavra exata e necessária. Essa
“economia verbal” requer do psicólogo a atenção para o equilíbrio que evite uma redação
lacônica ou o exagero de uma redação prolixa. Finalmente, a harmonia se traduz na
correlação adequada das frases, no aspecto sonoro e na ausência de cacofonias.

Princípios éticos e técnicos

Princípios éticos na elaboração de documento

O psicólogo baseará suas informações na observância dos princípios e dispositivos do


Código de Ética Profissional do Psicólogo. Enfatizamos aqui os cuidados em relação aos
deveres do psicólogo nas suas relações com a pessoa atendida, ao sigilo profissional,
às relações com a justiça e ao alcance das informações – identificando riscos e
compromissos em relação à utilização das informações presentes nos documentos em
sua dimensão de relações de poder. Torna-se imperativo a recusa, sob toda e qualquer
condição, do uso dos instrumentos, técnicas psicológicas e da experiência profissional
da Psicologia na sustentação de modelos institucionais e ideológicos de perpetuação da
segregação aos diferentes modos de subjetivação. Sempre que o trabalho exigir, sugere-
se uma intervenção sobre a própria demanda e a construção de um projeto de trabalho
que aponte para a reformulação dos condicionantes que provoquem o sofrimento
psíquico, a violação dos direitos humanos e a manutenção das estruturas de poder que
sustentam condições de dominação e segregação. Deve-se realizar uma prestação de
serviço responsável pela execução de um trabalho de qualidade cujos princípios éticos
sustentam o compromisso social da Psicologia. Dessa forma, a demanda, tal como é
formulada, deve ser compreendida como efeito de uma situação de grande complexidade.

Princípios Técnicos

O processo de avaliação psicológica deve considerar que os objetos desse procedimento


(as questões de ordem psicológica) têm determinações históricas, sociais, econômicas e
políticas, sendo elas elementos constitutivos no processo de subjetivação.

O documento, portanto, deve considerar a natureza dinâmica, não definitiva e não


cristalizada do seu objeto de estudo. Os psicólogos, ao produzirem documentos escritos,
devem basear-se exclusivamente nos instrumentais técnicos (entrevistas, testes,
observações, dinâmicas de grupo, escuta, intervenções verbais) que se configuram como
47
UNIDADE II │ DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL

métodos e técnicas psicológicas para a coleta de dados, estudos e interpretações de


informações a respeito da pessoa ou grupo atendidos, bem como sobre outros materiais
e grupos atendidos e sobre outros materiais e documentos produzidos anteriormente
e pertinentes à matéria em questão. Esses instrumentais técnicos devem obedecer às
condições mínimas requeridas de qualidade e de uso, devendo ser adequados ao que
se propõem investigar. A linguagem nos documentos deve ser precisa, clara, inteligível
e concisa, ou seja, deve-se restringir pontualmente às informações que se fizerem
necessárias, recusando qualquer tipo de consideração que não tenha relação com a
finalidade do documento específico. As laudas devem ser rubricadas, desde a primeira
até a penúltima, considerando que a última estará assinada, em toda e qualquer
modalidade de documento.

Modalidades de documentos

1. Declaração.

2. Atestado psicológico.

3. Relatório psicológico.

4. Laudo psicológico

5. Parecer psicológico.

A Declaração e o Parecer psicológico não são documentos decorrentes da avaliação


psicológica, embora muitas vezes apareçam dessa forma. Por isso consideramos
importante constarem desse manual a fim de que sejam diferenciados.

Conceito/Finalidade/Estrutura

Declaração

É um documento que visa informar a ocorrência de fatos ou situações objetivas


relacionadas ao atendimento psicológico, com a finalidade de declarar:

» comparecimentos do atendido e/ou do seu acompanhante, quando


necessário;

» acompanhamento psicológico do atendido;

» informações sobre as condições do atendimento (tempo de


acompanhamento, dias ou horários).

48
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL │ UNIDADE II

Nesse documento não deve ser feito o registro de sintomas, situações ou estados
psicológicos.

» Estrutura da declaração: deve ser emitida em papel timbrado ou


apresentar na subscrição do documento o carimbo, em que conste nome
e sobrenome do psicólogo, acrescido de sua inscrição profissional (nome
do psicólogo/no da inscrição).

» A declaração deve expor:

› registro do nome e sobrenome do solicitante;

› finalidade do documento (por exemplo, para fins de comprovação);

› registro de informações solicitadas em relação ao atendimento (por


exemplo: se faz acompanhamento psicológico, em quais dias, qual
horário);

› registro do local e data da expedição da declaração;

› registro do nome completo do psicólogo, sua inscrição no CRP e/ou


carimbo com as mesmas informações;

› assinatura do psicólogo acima de sua identificação ou do carimbo.

Atestado psicológico

É um documento expedido pelo psicólogo que certifica uma determinada situação ou


estado psicológico, tendo como finalidade afirmar sobre as condições psicológicas de
quem, por requerimento, o solicita, com fins de:

» justificar faltas e/ou impedimentos do solicitante;

» justificar estar apto ou não para atividades específicas, após realização de


um processo de avaliação psicológica, dentro do rigor técnico e ético que
subscreve essa Resolução;

» solicitar afastamento e/ou dispensa do solicitante, subsidiado na


afirmação atestada do fato, em acordo com o disposto na Resolução CFP
no 04/2019.

49
UNIDADE II │ DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL

A formulação do atestado deve restringir-se à informação solicitada pelo requerente,


contendo expressamente o fato constatado. Embora seja um documento simples, deve
cumprir algumas formalidades:

» ser emitido em papel timbrado ou apresentar na subscrição do documento


o carimbo, em que conste o nome e sobrenome do psicólogo, acrescido de
sua inscrição profissional (“Nome do psicólogo / No da inscrição”);

» o atestado deve expor:

› registro do nome e sobrenome do cliente;

› finalidade do documento;

› registro da informação do sintoma, situação ou condições psicológicas


que justifiquem o atendimento, afastamento ou falta – podendo ser
registrado sob o indicativo do código da Classificação Internacional de
Doenças em vigor;

› registro do local e data da expedição do atestado;

› registro do nome completo do psicólogo, sua inscrição no CRP e/ou


carimbo com as mesmas informações;

› assinatura do psicólogo acima de sua identificação ou do carimbo.

Os registros deverão estar transcritos de forma corrida, ou seja, separados apenas pela
pontuação, sem parágrafos, evitando, com isso, riscos de adulterações. No caso em que
seja necessária a utilização de parágrafos, o psicólogo deverá preencher esses espaços
com traços. O atestado emitido com a finalidade expressa no item 2.1, alínea b, deverá
guardar relatório correspondente ao processo de avaliação psicológica realizado, nos
arquivos profissionais do psicólogo, pelo prazo estipulado nesta resolução, item V.

Relatório Psicológico e Relatório Psicológico


Multiprofissional

O relatório psicológico é uma apresentação descritiva acerca de situações e/ou


condições históricas, sociais, políticas e culturais, ou ainda da instituição atendida que
tenha um caráter informativo.

Este documento não deve ter as sessões psicológicas descritas, salvo uma necessidade
específica; mas sim conter descrições técnicas do profissional; deve explicitar a

50
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL │ UNIDADE II

demanda, os procedimentos e o raciocínio técnico-científico do profissional, bem como


suas conclusões e/ou recomendações.

Este tipo de relatório é uma peça técnico-científica que deve ter uma linguagem
acessível e compreensível ao destinatário, respeitando os preceitos do Código de Ética
Profissional do Psicólogo.

Já o relatório psicológico multiprofissional é um documento resultante da atuação


do psicólogo em contexto multiprofissional, podendo ser produzido em conjunto com
profissionais de outras áreas, preservando-se a autonomia e a ética profissional dos
envolvidos.

Este documento preserva as mesmas características do relatório psicológico, no entanto,


deve apresentar informações da estrutura detalhada do relatório psicológico, em forma
de itens ou texto corrido.

A conclusão do relatório multiprofissional pode ser realizada em conjunto,


principalmente nos casos em que se trate de um processo de trabalho interdisciplinar.

» Estrutura: o relatório psicológico é uma peça de natureza e valor


científicos, devendo conter narrativa detalhada e didática, com clareza,
precisão e harmonia, tornando-se acessível e compreensível ao
destinatário. Os termos técnicos devem, portanto, estar acompanhados
das explicações e/ou conceituações retiradas dos fundamentos teórico-
filosóficos que os sustentam. O relatório psicológico deve conter 5 (cinco)
itens: identificação, descrição da demanda, procedimento, análise e
conclusão.

› Identificação: é a parte superior do primeiro tópico do documento


com a finalidade de identificar:

· o autor/relator – quem elabora;

· o interessado – quem solicita;

· o assunto/finalidade – qual a razão/finalidade.

› No identificador autor/relator, deverá ser colocado o(s) nome(s) do(s)


psicólogo(s) que realizará(ão) a avaliação, com a(s) respectiva(s)
inscrição(ões) no Conselho Regional. No identificador interessado,
o psicólogo indicará o nome do autor do pedido (se a solicitação
foi da Justiça, se foi de empresas, entidades ou do cliente). No
identificador assunto, o psicólogo indicará a razão, o motivo do

51
UNIDADE II │ DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL

pedido (se para acompanhamento psicológico, prorrogação de prazo


para acompanhamento ou outras razões pertinentes a uma avaliação
psicológica).

› Descrição da demanda: esta parte é destinada à narração das


informações referentes à problemática apresentada e dos motivos,
razões e expectativas que produziram o pedido do documento. Nessa
parte, deve-se apresentar a análise que se faz da demanda de forma a
justificar o procedimento adotado.

› Procedimento: a descrição do procedimento apresentará os recursos


e instrumentos técnicos utilizados para coletar as informações (número
de encontros, pessoas ouvidas etc.) à luz do referencial teórico-
filosófico que os embasa. O procedimento adotado deve ser pertinente
para avaliar a complexidade do que está sendo demandado.

› Análise: somente deve ser relatado o que for necessário para o


esclarecimento do encaminhamento, como disposto no Código de
Ética Profissional do Psicólogo. O psicólogo, ainda nessa parte, não
deve fazer afirmações sem sustentação em fatos e/ou teorias, devendo
ter linguagem precisa, especialmente quando se referir aos dados de
natureza subjetiva, expressando-se de maneira clara e exata.

› Conclusão: na conclusão do documento, o psicólogo vai expor o


resultado e/ou considerações a respeito de sua investigação a partir
das referências que subsidiaram o trabalho. As considerações geradas
pelo processo de avaliação psicológica devem transmitir ao solicitante
a análise da demanda em sua complexidade e do processo de avaliação
psicológica como um todo. Vale ressaltar a importância de sugestões
e projetos de trabalho que contemplem a complexidade das variáveis
envolvidas durante todo o processo. Após a narração conclusiva, o
documento é encerrado apresentando um encaminhamento. Com
indicação do local, data de emissão, assinatura do psicólogo e o seu
número de inscrição no CRP.

Laudo psicológico

A Resolução CFP Nº 06/2019 (CFP, 2019) define o laudo como um documento, derivado
da avaliação psicológica, que descreve um estado emocional e/ ou uma conjuntura
psicológica, considerando as condições culturais, sociais, históricas e políticas de um
indivíduo ou grupo de pessoas.

52
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL │ UNIDADE II

Essa resolução ressalta que a elaboração do laudo deve estar pautada em informações
adquiridas e analisadas por meio de métodos, procedimentos e técnicas consagradas na
psicologia, assim como todo documento produzido pelo psicólogo.

A resolução também explicita que o relatório psicológico tem a finalidade de descrever


os procedimentos utilizados na realização do processo avaliativo, assim como as
análises e sínteses conclusivas advindas destas, devendo também relatar e propor
recomendações sobre conclusões diagnósticas e prognósticas, projetos interventivos
e psicoterapêuticos e encaminhamentos, além de poder apontar a necessidade de
atendimentos psicológicos, solicitando que se tomem essas providências.

É importante ressaltar novamente que, como todo documento psicológico, para a


elaboração do laudo, o psicólogo deve se restringir a fornecer apenas informações
estritamente essenciais para responder à demanda e alcançar os objetivos da avaliação
solicitada.

É dado ao profissional o direito de ressaltar ao final do laudo que o mesmo não poderá
ser utilizado para fins diferentes dos destacados no item identificação, que o mesmo é
de caráter sigiloso, e que se trata de documento extrajudicial, uma vez que não será de
responsabilidade do profissional psicólogo o uso dado ao laudo após a sua entrega em
entrevista devolutiva.

Na elaboração de laudos, é obrigatória a informação das fontes científicas ou referências


bibliográficas utilizadas, em nota de rodapé, preferencialmente.

» Estrutura: em relação à linguagem escrita, utilizada para sua elaboração,


a resolução esclarece que, sendo o laudo um documento essencialmente
científico, sua narrativa deve ser objetiva, clara, concisa, coesa e de fácil
compreensão para o destinatário. Nesse sentido, caso seja necessário
utilizar um termo técnico, este deverá ser conceituado e explicado. O
parecer é composto de 5 (cinco) itens: identificação, exposição de motivos,
análise e conclusão.

› Identificação: consiste em identificar o nome do parecerista e sua


titulação, o nome do autor da solicitação e sua titulação.

› Descrição da Demanda: destina-se à transcrição do objetivo da


consulta e dos quesitos ou à apresentação das dúvidas levantadas pelo
solicitante. Deve-se apresentar a questão em tese, sendo necessária,
portanto, a descrição detalhada dos procedimentos, como os dados
colhidos ou o nome dos envolvidos.

53
UNIDADE II │ DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL

› Procedimento: Apresentação dos procedimentos, tais como testes


psicológicos aplicados em detalhes (dia, hora, local, número de
encontros)

› Análise: a discussão do laudo psicológico se constitui na análise


minuciosa da questão explanada e argumentada dos instrumentos
utilizados, fazendo relação com a demanda e os dados fornecidos.

› Conclusão: na parte final, o psicólogo apresentará seu posicionamento,


respondendo à questão levantada acima e expondo claramente o
resultado acerca da investigação avaliativa, sempre utilizando como
base os referenciais utilizados no processo avaliativo.

Parecer psicológico

O parecer psicológico é um documento fundamentado e resumido sobre uma questão


focal do campo psicológico cujo resultado pode ser indicativo ou conclusivo. O parecer
tem como finalidade apresentar resposta esclarecedora, no campo do conhecimento
psicológico, por meio de uma avaliação especializada, de uma “questão-problema”,
visando dirimir dúvidas que estão interferindo na decisão, sendo, portanto, uma
resposta a uma consulta, que exige de quem responde competência no assunto.

» Estrutura: o psicólogo parecerista deve fazer a análise do problema


apresentado, destacando os aspectos relevantes e opinar a respeito,
considerando os quesitos apontados e com fundamento em referencial
teórico-científico. Havendo quesitos, o psicólogo deve respondê-
los de forma sintética e convincente, não deixando nenhum quesito
sem resposta. Quando não houver dados para a resposta ou quando o
psicólogo não puder ser categórico, deve-se utilizar a expressão “sem
elementos de convicção”. Se o quesito estiver mal formulado, pode-se
afirmar “prejudicado”, “sem elementos” ou “aguarda evolução”. O parecer
é composto de 4 (quatro) itens: identificação, exposição de motivos,
análise e conclusão.

› Identificação: consiste em identificar o nome do parecerista e sua


titulação, o nome do autor da solicitação e sua titulação.

› Exposição de motivos: destina-se à transcrição do objetivo da


consulta e dos quesitos ou à apresentação das dúvidas levantadas
pelo solicitante. Deve-se apresentar a questão em tese, não sendo

54
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL │ UNIDADE II

necessária, portanto, a descrição detalhada dos procedimentos, como


os dados colhidos ou o nome dos envolvidos.

› Análise: a discussão do parecer psicológico se constitui na análise


minuciosa da questão explanada e argumentada com base nos
fundamentos necessários existentes, seja na ética, na técnica ou no
corpo conceitual da ciência psicológica. Essa parte deve respeitar as
normas de referências de trabalhos científicos para suas citações e
informações.

› Conclusão: na parte final, o psicólogo apresentará seu posicionamento,


respondendo à questão levantada. Em seguida, informa o local e data
em que foi elaborado e assina o documento.

Validade dos conteúdos dos documentos

O prazo de validade do conteúdo dos documentos escritos, decorrentes das avaliações


psicológicas, deverá considerar a legislação vigente nos casos já definidos. Não havendo
definição legal, o psicólogo, onde for possível, indicará o prazo de validade do conteúdo
emitido no documento em função das características avaliadas, das informações
obtidas e dos objetivos da avaliação. Ao definir o prazo, o psicólogo deve dispor dos
fundamentos para a indicação, devendo apresentá-los sempre que solicitado.

Guarda dos documentos e condições de guarda

Os documentos escritos decorrentes de avaliação psicológica, bem como todo o


material que os fundamentou, deverão ser guardados pelo prazo mínimo de 5 anos,
observando-se a responsabilidade por eles, tanto do psicólogo quanto da instituição em
que ocorreu a avaliação psicológica. Esse prazo poderá ser ampliado nos casos previstos
em lei, por determinação judicial, ou ainda em casos específicos em que seja necessária
a manutenção da guarda por maior tempo. Em caso de extinção de serviço psicológico,
o destino dos documentos deverá seguir as orientações definidas no Código de Ética do
Psicólogo.

Avaliação psicológica, como trabalhar?

Existe no meio eletrônico virtual um site, o SATEPSI4, que nos orienta quanto às
avaliações psicológicas válidas na atualidade. O SATEPSI é o sistema de avaliação

4 Fonte: http://satepsi.cfp.org.br/ Acesso em: 21 jul. 2016.

55
UNIDADE II │ DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL

de testes psicológicos, desenvolvido pelo Conselho Federal de Psicologia (CFP), para


divulgar informações sobre os testes psicológicos à comunidade e às(aos) psicólogas(os).

O psicólogo dispõe de um conjunto de ferramentas para sua prática profissional.

A Lei no 4119/1962, Art. 13, § 1o caracteriza que o psicólogo poderá utilizar métodos e
técnicas psicológicas com os seguintes objetivos: diagnóstico psicológico, orientação e
seleção profissional, orientação psicopedagógica e solução de problemas de ajustamento.

A Resolução CFP no 2/2003, em seu Art. 3o, definiu os requisitos mínimos que os
instrumentos devem possuir para serem reconhecidos como testes psicológicos.

No site do SATEPSI são apresentados, em duas abas, os testes psicológicos e instrumentos


validados. Pode-se obter informações sobre os testes psicológicos com parecer favorável
e desfavorável verificando a possibilidade de uso do teste na avaliação psicológica, bem
como da identificação de instrumentos privativos e não privativos do psicólogo.

De acordo com o Conselho Federal de Psicologia, a avaliação psicológica pode ser


usada na prática a partir das demandas de encaminhamento. Essas podem ocorrer por
meio de diferentes tipos de profissionais, inclusive de outros psicólogos. Hoje em dia a
demanda oferece ao psicólogo não apenas avaliação psicológica, mas ainda pode chegar
ao profissional o pedido de diagnóstico diferencial. Tavares (2003) fala sobre a validade
clínica explicando que, embora a bateria de testes obtenha resultados diferenciados, ela
é capaz de direcionar o profissional na interpretação e tornar o procedimento válido. No
entanto, é preciso que o profissional esteja apto a utilizar as técnicas e testes psicológicos.
Desse modo é possível qualificar a avaliação psicológica de maneira efetiva, estando o
profissional dentro dos padrões necessários para o exercício de sua profissão, no que
concerne às repercussões levantadas a partir do resultado de uma avaliação psicológica.

O profissional pode ainda utilizar-se dessa prática no âmbito escolar, também,


contando com auxílio de instrumentos que irão compreender algumas características
vinculadas ao processo de aprendizagem. Os instrumentos adequados irão guiá-lo
para o encontro das respostas desejadas por uma demanda específica. Nesse caso, de
uma demanda escolar, por exemplo, a demanda vem repleta de questões relacionadas
à atenção, inteligência, habilidades motoras, habilidades sociais, motivação, processo
de aprendizagem, capacidade de leitura e de escrita, funções executivas, memória,
sintomas de estresse, investigação vocacional, depressão, hiperatividade, dentre tantas
outras situações que ocorrem no contexto escolar. Nesse sentido é importante lembrar
que devemos manter o objetivo da avaliação com hipóteses bem definidas a fim de
facilitar no desenvolvimento do processo. Ainda em se tratando do contexto escolar,
a demanda pode vir direcionada tanto para o psicólogo escolar que esteja em parceria

56
DIAGNÓSTICOS PSICOPATOLÓGICOS – VISÃO GERAL │ UNIDADE II

com a escola, ou sendo contratado da própria escola, beneficiando e promovendo a


saúde dos integrantes desse ambiente; quanto pode ser encaminhada para psicólogos
de outras localidades.

A avaliação psicológica pode ser demandada, ainda, para o porte de arma de fogo,
elaboração de documentos psicológicos ou retirada de carteira de motorista que se
trataria de uma avaliação psicológica no trânsito. Todas essas técnicas são individuais,
uma vez que dependem da singularidade de cada caso para a organização da bateria de
testes envolvidos.

57
FUNÇÕES
PSÍQUICAS UNIDADE III
ALTERADAS
Figura 11. Mentes alteradas.

Fonte: http://ipsy-isabellaflores.blogspot.com/2015/04/sobre-ser-sao-em-lugares-insanos.html. Acesso em: 24/08/2020.

É imprescindível que estejamos alertas para a forma didática deste conteúdo. Aqui
apresentaremos as funções psíquicas isoladamente, mas como vimos, o sujeito que
sofre alterações mentais deverá sempre ser visto como uma pessoa em sua totalidade,
ou seja, além dos transtornos apresentados.

Adverte Dalgalarrondo (2008, p. 85):

apesar de ser absolutamente necessário o estudo analítico das funções


psíquicas isoladas e de suas alterações, nunca é demais ressaltar que a
separação da vida e da atividade mental em distintas áreas ou funções
psíquicas é um procedimento essencialmente artificial [...], pois pode
suscitar enganos e simplificações inadequadas.

58
CAPÍTULO 1
As funções psíquicas no EEM

As funções alteradas, ou tidas como perturbadas, podem fazer com que transtornos
subjacentes sejam observados. Esses podem ser ligados à personalidade por completo ou
atingir parte de sua estrutura, de modo a comprometer o sujeito e o seu comportamento
ou forma de existir.

Quando lidamos com transtornos psiquiátricos, não devemos focar apenas nos
sintomas, mas no significado que eles dão ao fenômeno psíquico que se apresenta,
ou seja, os sintomas que compõem o transtorno se apresentam ligados de modo
estrutural, revelando uma síndrome. Síndrome, conforme APA (2003), é um padrão
comportamental ou psicológico clinicamente importante, que ocorre num indivíduo
e está associado com o sofrimento (sintoma doloroso) ou incapacitação (prejuízo de
uma ou mais áreas importantes do funcionamento) ou com um risco significativamente
aumentado de sofrimento, morte, dor, deficiência ou perda importante da liberdade.

Devemos destacar a diferenciação da psicopatologia sindrômica, da qual falamos, da


psicopatologia sintomática, que pretende o estudo das patologias de modo isolado e que
geralmente são objeto de estudo da neurologia, neuropsicologia ou da neurofisiologia, e
não da psicopatologia. (DALGALARRONDO, 2008)

Tabela 4. Funções afetadas nos transtornos.

Funções mais afetadas nos transtornos psicorgânicos


Nível de consciência
Atenção5
Orientação
Memória
Inteligência
Linguagem6
Funções mais afetadas nos transtornos afetivos, neuróticos e da personalidade
Afetividade
Vontade
Psicomotricidade
Personalidade
Funções mais afetadas nos transtornos psicóticos
Sensopercepção
Pensamento
Juízo da realidade
Vivência do EU

Fonte: Dalgalarrondo, 2008, p. 86.

5 Também nos quadros afetivos (mania, principalmente).


6 Também nas psicoses.

59
UNIDADE III │ FUNÇÕES PSÍQUICAS ALTERADAS

Abaixo iremos verificar um quadro que visa colaborar na compreensão do Exame do


Estado Mental do paciente no que concerne a cada função psíquica.

Tabela 5. Exame do Estado Mental.

I – Descrição geral
Apresentação e comportamento
Cuidados pessoais, higiene, postura, mímica, atitude (atitude em relação ao entrevistador).
II – Humor e Afeto
Humor
Definido como uma emoção abrangente e constante, que colore a percepção que a pessoa tem do mundo.
Verificar se o paciente fala voluntariamente sobre seus sentimentos ou se é necessário indagar como se sente.
Pode ser: deprimido, desesperançado, irritável, ansioso, irado, orgulhoso, culpado, expansivo, eufórico, vazio, culpado, perplexo, fútil, autodenegridor,
amedrontado e atordoado.
Afeto
Definido como a expressão externa da resposta emocional do paciente, é o que o examinador observa como expressão fácil do paciente, incluindo a
quantidade e amplitude do comportamento expressivo.
Pode ser: normal, constrito, embotado ou plano.
» normal: variação na expressão facial, tom de voz, uso das mãos e movimentos corporais;
» constrito: clara redução na variação e intensidade de expressões;
» embotado: a expressão emocional é ainda mais reduzida;
» plano: não se encontra qualquer expressão afetiva, a voz é monótona e o rosto apresenta-se imóvel.
Adequação
A adequação das respostas emocionais do paciente pode ser considerada no contexto do assunto que está sendo discutido. Por exemplo: os pacientes
esquizofrênicos que descrevem um delírio de perseguição devem estar zangados ou amedrontados com as experiências que acreditam vivenciar. Ou
seja, não há presença de “afeto inadequado” nesse contexto de delírio.
III – Fala
Descrição das características físicas da fala em termos de sua quantidade, velocidade de produção e qualidade.
O paciente pode ser descrito como: tagarela, volúvel, taciturno, contido, normalmente responsivo.
A fala pode ser: rápida, lenta, pressionada, hesitante, emotiva, dramática, monótona, alta, sussurrada, arrastada ou confusa.
Gagueira ou ritmos incomuns (chamados de disprosódia) e qualquer tipo de sotaque devem ser notados.
IV – Perturbações da percepção
São definidas como alucinações ou ilusões, podem ser experimentadas com relação a si mesmo ou ao ambiente. O sistema sensorial envolvido
(auditivo, olfatório, visual, tátil) e o conteúdo da experiência alucinatória devem ser descritos.
Verificar se ocorrem em situações estressoras.
V – Pensamento
É dividido em processo (ou forma) e conteúdo.
Os elementos que constituem o pensamento são: os conceitos, o juízo e o raciocínio.
O processo de pensar tem como aspectos o curso do pensamento (modo como o pensamento flui, velocidade e ritmo), forma do pensamento
(estrutura, arquitetura) e conteúdo (temas, assunto).
O pensamento lógico segue os princípios filosóficos da lógica:
1 - Princípio da identidade: se A é A; e B é B: logo, A não pode ser B.
2 - Princípio da causalidade: se A é cauda de B, portanto A não pode ser ao mesmo tempo efeito de B.
3 - Princípio da relação da parte e do todo: se A é parte de B, então B não pode ser parte de A.
Alteração de tipos de pensamento
Pensamento mágico; pensamento concreto; pensamento inibido; pensamento vago; ideias prevalentes; pensamento prolixo; tangencialidade;
circunstancialidade; pensamento deficitário; pensamento desagregado; pensamento obsessivo; bloqueio de pensamento; roubo de pensamento.

60
FUNÇÕES PSÍQUICAS ALTERADAS │ UNIDADE III

Alteração do curso do pensamento


Aceleração; lentificação; bloqueio ou interceptação.

Alteração da forma do pensamento


Fuga de ideias; desagregação.

Alteração do conteúdo do pensamento


Depressivo (culpa, ruína, doença, morte); grandeza (capacidade, riqueza); místico; religioso; persecutório.
Delírio: juízo patologicamente falso, que possui como característica, convicção extraordinária, não é susceptível à influência, conteúdo impossível.
(JASPERS)
Delírio primário: não deriva de nenhuma outra manifestação patológica. É incompreensível. Está relacionado a uma transformação da personalidade,
sendo a expressão de um processo, surgimento de algo novo, duradouro e irreversível na vida mental. Exclusivo da esquizofrenia.
Delírio secundário/ideia deliroide: origina-se de forma compreensível psicologicamente de outra manifestação psíquica patológica.
Processo ou forma do pensamento
Processo refere-se ao modo como uma pessoa reúne ideias e associações, a forma como pensa.
Processo: pode ser coerente, lógico ou completamente ilógico e incompreensível.
O paciente pode ter pobreza ou superabundância de ideias.
Pode ter pensamento rápido que se elevado é chamado de “fuga de ideias”.
Pode exibir pensamento lento ou hesitante.

Conteúdo do pensamento
Conteúdo: refere-se ao que uma pessoa está realmente pensando, suas ideias, crenças, preocupações e obsessões.
As perturbações no conteúdo incluem delírios, preocupações (que podem envolver a doença do paciente), obsessões, compulsões, fobias, planos,
intenções, ideias recorrentes sobre suicídio ou homicídio, sintomas hipocondríacos, anseios antissociais específicos.
Em caso de ideação suicida o profissional deve sempre fazer perguntas, tais como: “tem pensamentos de causar danos a si ou a outros?”, “existe um
plano?”.
VI – Sensório e Cognição
Tem como objetivo avaliar as funções cerebrais e a inteligência do paciente, a capacidade para o pensamento abstrato e o nível de insight e julgamento.
O MEEM (Mini Exame do Estado Mental) é um instrumento que visa avaliar, grosso modo, o funcionamento cognitivo. Avalia memória, orientação,
cálculos, leitura, capacidade escrita, habilidade viso-espacial e linguagem.
Alerta e nível de consciência
As perturbações de consciência geralmente indicam dano cerebral orgânico.
Lucidez de consciência é a iluminação dos conteúdos mentais. Os processos psíquicos são experimentados com suficiente intensidade, estímulos são
adequadamente apreendidos, conteúdos mentais tem nitidez. Campo de consciência é a quantidade de conteúdos abrangidos.
» Alteração, obnubilação ou turvação da consciência: é a redução de todas as funções psíquicas. Letargia, sonolência, diminuição global da atenção,
confusão (instabilidade, desorientação, alteração da sensopercepção).
» Estupor: paciente só desperta por estímulo.
» Coma: ausência de reação a estímulos.

Orientação
É a capacidade de se situar em relação a si mesmo e ao ambiente. É resultado de diversas funções psíquicas (percepção, atenção, memória,
pensamento, inteligência, afeto).
» Orientação autopsíquica (consciência de eu): nome, idade, nacionalidade, profissão.
» Orientação alopsíquica: tempo e espaço (referente ao mundo externo), tais como, hora, manhã, tarde, dia, mês, ano, estação, local, cidade, país.
Alteração quantitativa
» Desorientação confusional: relacionada ao rebaixamento de consciência.
» Desorientação amnésica: relacionada a prejuízo da memória.
» Desorientação apática: relacionada a prejuízo do afeto e vontade.
» Desorientação delirante: síndrome de Capgras (não reconhece familiar ou amigo, acredita ter sido trocado por um sósia).

61
UNIDADE III │ FUNÇÕES PSÍQUICAS ALTERADAS

» Desorientação por déficit intelectivo.


» Desorientação por estreitamento do campo da consciência.

Alteração qualitativa
» Falsa-orientação confuso-oniroide: delirium.
» Falsa-orientação paramnésica: fabulação.
» Falsa-orientação delirante: identifica incorretamente familiar como um estranho, reconhecendo que é fisicamente diferente.
» Falsa-orientação por estreitamento de consciência.

Memória
É a capacidade de registrar (fixação), manter (retenção) e evocar fatos já ocorridos. A capacidade de memorizar relaciona-se com o nível de
consciência, com a atenção e o interesse afetivo.
» Memória imediata: capacidade de reter o material imediatamente após percebido.
» Memória de curto prazo ou recente: capacidade de reter a informação por um curto período de tempo.
» Memória de longo prazo ou remota: capacidade evocação de informações e acontecimentos ocorridos no passado.
» Memória explícita ou declarante: memória consciente e voluntária referente a pessoas e eventos autobiográficos e a conhecimentos factuais (lobo
temporal/hipocampo).
» Memória implícita ou de procedimento: memória automática ou reflexa de ações motoras ou desempenho de atividades.
» Memória de trabalho ou executiva: capacidade de reter, mantendo ativas as informações durante um curto período de tempo e poder manipular tais
informações a fim de realizar uma tarefa.
» Memória episódica: eventos.
» Memória semântica: palavras e seu significado.

Concentração e atenção
A concentração pode estar prejudicada por várias razões, como: doença cerebral orgânica, ansiedade, depressão e estímulos internos (alucinação
auditiva).
É o processo por meio do qual a consciência é direcionada para determinado estímulo. Influenciada pelo interesse (vontade, afeto) e depende da
lucidez.
» Tenacidade ou atenção voluntária: é a capacidade de concentração, de fixar-se em certos temas.
» Vigilância ou atenção espontânea: é a mobilidade, a capacidade de mudar o foco de atenção de um tema para outro.
Alterações:
» Hipoprosexia: diminuição global da atenção.
» Hipertenacidade e hipomodulação.
» Hipotenacidade e hipermodulação (distratibilidade, labilidade de atenção).

VII – Controle dos Impulsos


O paciente é capaz de controlar seus impulsos sexuais agressivos e outros?
Essa avaliação determina a consciência do paciente em relação ao seu comportamento socialmente adequado.
VIII – Julgamento e Insight
O examinador deve verificar durante a entrevista a capacidade do paciente para o julgamento social.
O insight refere-se ao grau de conscientização e compreensão do paciente de que está doente.
IX – Confiabilidade
É um parecer sobre a confiabilidade do paciente para relatar acuradamente sua situação. Isso inclui uma estimativa por parte do examinador sobre a
honestidade ou veracidade do paciente. Por exemplo, se o paciente demonstra franqueza quanto ao abuso ativo de substâncias ou sobre circunstâncias
que provavelmente causem má impressão.

Fonte: Adaptação feita pela autora a partir do esboço do EEM (KAPLAN, 1997); do quadro da Dra. Carla F. Zambaldi, postado
em: <http://pt.scribd.com/doc/47867973/Exame-psiquico> e do DMV-IV (APA, 2003).

62
FUNÇÕES PSÍQUICAS ALTERADAS │ UNIDADE III

Precisamos, contudo, estar treinados para avaliação, dominar as técnicas de observação


e desenvolver habilidades para reconhecer a linguagem que aponta e define os sinais e
sintomas comportamentais e emocionais. Conforme Kaplan (1997) os sinais são achados
objetivos observados pelo examinador, como o afeto rígido e retardo psicomotor; já os
sintomas são experiências subjetivas descritas pelo paciente, como humor deprimido e
perda de energia. Portanto, o conjunto de sintomas e sinais que ocorrem juntos como
uma condição capaz de ser reconhecida é chamado de síndrome. “Os sinais e sintomas
apresentados na tabela acima têm suas raízes em um comportamento essencialmente
normal e representam graus variados no espectro do comportamento, do normal ao
patológico” (KAPLAN, 1997, p. 289).

63
CAPÍTULO 2
Semiologia médica e estudo dos
sintomas e sinais nas síndromes

Primeiro devemos compreender o termo ‘semiologia’ que tem raízes iniciais na


palavra grega sema, ‘sinal’, ‘signo’. Desde os primórdios do século XVII as variações
do termo ‘semiologia’ correspondem a uma alternativa terminológica para o conceito
de semiótica, que na sua forma neo-grega denomina-se: semeiotiké – portanto, ainda
não era considerada a teoria geral dos signos. Na medicina dos séculos XVII e XVIII, a
forma grega semeiotica se encontrava ao lado da forma latina semiótica (desde 1490).
Em 1617, após o surgimento de um tratado latino, Timpler passa a utilizar o ensino dos
signos fisionômicos do corpo humano a partir da denominação do termo semiologica
ou, também, semiologia, uma vez que a origem inicial da palavra sema significa ‘sinal’,
‘signo’, assim como, a palavra grega semeîon, significa ‘signo’. (MARTINS, 2003;
NÖTH, 1985; BARTHES, 2006).

O primeiro a aplicar a terminologia da medicina diagnóstica dentro


do campo da semiótica geral, foi J. Schultetus. Em sua Semeiologia
metaphysike de 1659, o autor postulou uma teoria geral dos signos
para designar o ensino dos signos, que, na filosofia da Idade Média, era
estudado como doctrina ou scientia de signis. (NÖTH, 1985, pp.15-16)

Partindo para o século XX, o conceito de semiologia de Ferdinand Saussure se relaciona


com uma forma nova e futurística de ciência geral da comunicação humana, em que se
estuda “a vida dos signos como parte da vida social”. (Id Ibdem). Barthes (2006) nos
explica que em seus primórdios (por volta de 1956) o modelo de semiologia discutido
na França tinha duplo significado, por um lado discutiu-se uma teoria geral da pesquisa
semiológica, e de outro elaborou-se a semiótica a partir das particularidades aplicadas
a objetos e a domínios circunscritos (vestuário, alimentação, cidade, narrativa etc.).

Foi nos anos 1960 que o novo pensamento semiológico de percepção da linguística no
contexto de uma linguagem verbal para comunicação não verbal, cultural e textual se
expandiu da França para o resto da Europa e América Latina, chamada semiologia da
significação para o estudo de signos e sinais não intencionais na natureza e na cultura.
Surgiu extrapolando o pensamento inicial de Saussure de que a linguística trabalhava
somente com uma semiologia no campo de pesquisa relacionada aos códigos de signos
arbitrários, como os códigos de marinha, jogos de carta, sinais de trânsito. Já no século

64
FUNÇÕES PSÍQUICAS ALTERADAS │ UNIDADE III

XXI surgem as distinções necessárias para a compreensão tão confusamente atribuída


à semiótica e à semiologia (NÖTH, 1985).

Martins (2003) nos traz uma elucidação bastante interessante sobre semiologia médica,
ele diz que uma febre, por exemplo, quando vista como fenômeno físico, é investigada
pela semiologia médica com um sentido não necessariamente convencionado por um
grupo social. Porém, o autor lembra que não podemos observar os fenômenos como
sendo de um único sentido. Por exemplo, a febre em si não deveria ser vista como o
signo anormal, e isso na semiologia médica costuma ocorrer. Quando pensamos na
palavra “febre” podemos obter dela o sentido que produz o fenômeno de significação
entre aquele que fala sobre a sensação provocada (pela febre) e aquele que escuta a
febre como um signo provocador de algum tipo de enfermidade.

Ao conceituar signos como sendo normais ou anormais, desviantes ou


não, o Dr. não está fazendo algo mais do que simplesmente constatar um
fenômeno? Ele já não está introduzindo sua experiência e conhecimento
na atribuição que é feita com relação ao signo? (MARTINS, 2003, p. 18)

O dinamismo, hoje, que deveria ocorrer na semiologia médica, nos faz enxergar a
importância de não simplificarmos o entendimento dos signos na área da saúde, uma
vez que a comunicação dos sintomas e sinais deve ser vista como uma atividade. Essa
atividade que não é apenas semiótica ou semiológica, mas também, hermenêutica,
relaciona-se ao sujeito enquanto ser global, parte de um processo dicotômico entre
natureza e cultura que deve ser compreendido.

Esse duplo que vemos reflete a experiência sentida do paciente, que não pode ser
substituída por um discurso que desconsidera a realidade do seu sofrimento e da
existência das doenças; assim como, o fato de que a ciência e o saber médico se fazem
por meio da linguagem, e por isso, não é possível que permitamos a existência de uma
observação pura e naturalista, separadas da evidência de que o observador/médico é
um ser humano e, igualmente, portador de sentido linguagem e desejos.

Destarte, evidenciamos que a dicotomia existente entre o natural e o humano deve ser
relativizada, uma vez que a semiologia médica merece ser mais do que repertórios de
sinais, sintomas e síndromes. “Em um sentido estrito, os signos da semiologia médica
clássica, tal como eles foram concebidos, são signos naturais, pertencendo, enquanto
face não elaborada pelo espírito, à ordem dos fenômenos”. (Id Ibdem, p. 18)

Para descrever o caráter específico dos diversos tipos de loucos [...],


serviu-me de guia o método que se segue em todos os ramos da história
natural, e somente utilizei dos sinais exteriores e das alterações físicas

65
UNIDADE III │ FUNÇÕES PSÍQUICAS ALTERADAS

que puderam corresponder às lesões das funções intelectuais e afetivas.


(PINEL, 1804, apud MARTINS, 2003, p. 21)

Após sabermos que os sintomas e sinais são os fatores formadores dos processos
patológicos, iremos verificar que os aspectos da manifestação de uma doença derivam
diretamente de um processo que os autores chamam de base, ou seja, eles têm um
fundo, um estímulo ou um aporte que os revelam em determinados momentos da
vida do sujeito. Para esclarecer esse assunto, o psicopatólogo alemão Karl Birnbaum
(1878-1950, apud DALGALARRONDO, 2008, p. 295) propõe que as manifestações das
doenças mentais se dão a partir de três fatores:

1. O fator patogenético: relacionado à manifestação dos sintomas


diretamente produzidos pelo transtorno mental de base; assim, há o
humor triste, o desânimo e a inapetência relacionados à depressão, ou às
alucinações auditivas e à percepção delirante relacionados à esquizofrenia.

2. O fator patoplástico: inclui manifestações relacionadas à personalidade


pré-mórbida do doente, à história de vida específica do sujeito que adoece
e aos padrões comportamentais relacionados à cultura de origem do
paciente, que lhe eram particulares desde antes de adoecer e que intervêm
de forma marcante na constituição dos sintomas e na exteriorização do
quadro clínico.

3. O fator psicoplástico: relacionado aos eventos e às reações do indivíduo


e do meio psicossocial posteriores ao adoecer. São as reações aos conflitos
familiares, à desmoralização, às perdas sociais e ocupacionais associadas
aos episódios e ao curso da doença.

Contudo, deve-se mencionar que as distintas relações entre história de vida, eventos
vitais, projeto existencial, fatores predisponentes e precipitantes estão relacionados
com o surgimento dos transtornos mentais e se articulam ao longo da vida juntamente
com o conjunto de fatores biológicos, psicológicos e sociais.

Como vimos anteriormente, conforme APA (2003, p. 28), síndrome:

[é um padrão comportamental ou psicológico] clinicamente importante,


que ocorre num indivíduo e está associado com o sofrimento (sintoma
doloroso) ou incapacitação (prejuízo de uma ou mais áreas importantes
do funcionamento) ou com um risco significativamente aumentado de
sofrimento, morte, dor, deficiência, ou perda importante da liberdade.

66
FUNÇÕES PSÍQUICAS ALTERADAS │ UNIDADE III

Sabendo que, quando tratamos de transtorno mental, estamos lidando com um conjunto
de fatores denominados transtorno ou distúrbio de ordem médica e que podem estar
no quadro das doenças mentais, psíquicas ou psiquiátricas. Os transtornos fazem parte
de uma classificação utilizada para descrever anormalidades de toda ordem, sofrimento
ou comprometimento de ordem psicológica e/ou mental. Esse campo do conhecimento
é utilizado por diversas áreas para descrever os comportamentos tidos como anormais
do homem. E, portanto, as classificações diagnósticas mais conhecidas no trabalho da
saúde mental e no serviço de saúde são: o DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de
Transtornos Mentais) e o CID-10 (Classificação Internacional de Doenças).

Segundo Dalgalarrondo (2008, p. 296), a concepção psicopatológica baseada na


patologia geral e na escola jasperiana – de Karl Jasper – percebe os cursos crônicos dos
transtornos mentais como processuais e desenvolvimentais. Os de processo:

[referem-se a] uma transformação lenta e insidiosa da personalidade,


decorrente de alterações psicologicamente incompreensíveis, de
natureza endógena. O processo irreversível, supostamente de natureza
corporal (neurobiológica), rompe a continuidade do sentido normal do
desenvolvimento biográfico de uma pessoa. Utiliza-se o termo processo,
por exemplo, para caracterizar a natureza de uma esquizofrenia de
evolução insidiosa, que lenta e radicalmente transforma a personalidade
do sujeito acometido.

Já os transtornos de desenvolvimento se referem à evolução psicologicamente


compreensível de uma personalidade. Essa evolução pode ser normal, configurando os
distintos traços de caráter do indivíduo, ou anormal determinando os transtornos da
personalidade e as neuroses. Nesse caos, há uma conexão de sentido, uma trajetória
compreensível ao longo da vida do sujeito. Fala-se, então, em ‘desenvolvimento
paranoide’, ‘desenvolvimento histriônico’, ‘desenvolvimento hipocondríaco’ etc.

67
CAPÍTULO 3
Transtornos psiquiátricos

Trabalharemos a seguir com as classificações estabelecidas pelo DSM-5 que descreve os


transtornos mentais de forma clara, utilizando uma abordagem sindrômica. Para tanto,
devemos lembrar que a síndrome é um conjunto de sinais e grupos estáveis de sintomas
que foram observados na prática clínica até serem colocados de modo classificatório
num padrão determinante de síndromes.

Síndrome é um termo puramente usado para definir descritivamente o conjunto


momentâneo e recorrente de sinais e sintomas. Já o transtorno mental, de acordo com a
definição do DSM-5 (APA, 2014, p. 20), é uma síndrome caracterizada por perturbação
clinicamente significativa na cognição, na regulação emocional ou no comportamento
de um indivíduo que reflete uma disfunção nos processos psicológicos, biológicos ou de
desenvolvimento subjacentes ao funcionamento mental. No estágio de um transtorno
mental, há uma associação do sofrimento e incapacidade que afeta as atividades sociais
e profissionais do indivíduo que sofre.

Os transtornos mentais não podem ser confundidos com situações conflituosas ou


crises pelas quais passa o homem, no entanto, a durabilidade dos sintomas e a forma
como afeta o indivíduo é que dará o tom do diagnóstico, além de diversos outros fatores
comentados anteriormente – que podem facilitar essa jornada. Dalgalarrondo (2008)
caracteriza crise como fenômeno que surge e termina abruptamente, dura segundos
ou minutos, raramente horas. Para ele, os termos crise e ataque são sinônimos e
representam fenômenos, tais como: crises epiléticas, crises ou ataques de pânico,
crises histéricas, crises de agitação psicomotora etc. Já o episódio, para o mesmo autor,
tem geralmente a duração de dias e até semanas. Porém, nenhum desses termos está
associado a um fenômeno mórbido.

No entanto, na clínica dos transtornos mentais devemos avaliar também outro conceito
de crise, que se refere a um “período de inconsistência nos padrões de comportamento
é mais extenso que o usual e, quando um equilíbrio é finalmente conseguido, o novo
padrão pode diferir significativamente do anterior.” (CAPLAN, 1964. p. 52). Os
pacientes psiquiátricos podem apresentar durante alguns períodos comportamentos
desajustados que podem levá-los a progredir em termos da doença mental. Ou seja,
é após a crise que a doença mental pode aparecer ou seguir com mais força. Menos
comum, mas existente, a trajetória da crise pode descender com a experiência bem-

68
FUNÇÕES PSÍQUICAS ALTERADAS │ UNIDADE III

sucedida de ajustamento no momento da crise. A crise, pois, seria o momento decisivo


de aproximação ou afastamento do distúrbio mental.

Os transtornos mentais se apresentam dentro de um sistema de classificação que


aborda e divide, a partir de grupos de critérios, características definidas. Esse modelo de
classificação faz uso de uma nomenclatura padrão, que então determina os transtornos
mentais e fornece instruções codificadas na intenção de facilitar o diagnóstico e o
tratamento dos transtornos.

A classificação dos transtornos mentais no DSM-5 está harmonizada com a Classificação


Internacional de Doenças (CID), da Organização Mundial da Saúde, de forma que os
critérios do DSM definem transtornos identificados pela denominação diagnóstica e
pela codificação alfanumérica da CID. No DMS-5, as codificações da CID-9 e da CID-10
estão vinculadas aos transtornos relevantes na classificação. (APA, 2014, p. XLI)

Por relevância clínica o manual entende que alguns critérios que definem gravidade dos
transtornos não podem ser especificados, por isso, outros fatores devem ser levados em
conta no diagnóstico. A relevância se encontra após vários fatores terem sido avaliados
pelo profissional, o mesmo compreende que o sofrimento causa “perturbação ou
sofrimento clinicamente significativo uma vez que causa prejuízo ao paciente, tanto no
funcionamento social quanto no profissional”. (Ibdem, p. 21)

Trataremos, abaixo, dos transtornos disponíveis em critérios diagnósticos e códigos


diferentes, os que mais estão relacionados com os transtornos psiquiátricos de modo
generalizado, em cada transtorno mental os critérios diagnósticos são seguidos por um
texto descritivo no manual, a fim de auxiliar na tomada de decisão diagnóstica.

Diferentemente do DSM-IV que dividia os transtornos em diferentes eixos ou grupos


de categorias, o DSM-5 estabeleceu apenas um critério para todos os transtornos. A
diferença entre ambos poderá ser vista, grosso modo, logo abaixo.

69
UNIDADE III │ FUNÇÕES PSÍQUICAS ALTERADAS

Tabela 6. Diferença entre o DSM-IV e o DSM-5.

DSM-IV-TR DSM-5
» Transtornos Geralmente Diagnosticados pela Primeira Vez na Infância ou » Transtorno do Neurodesenvolvimento.
Adolescência.
» Espectro da Esquizofrenia e Outros Transtornos Psicóticos.
» Delirium, Demência, Transtorno Amnéstico e outros Transtornos Cognitivos.
» Transtorno Bipolar e Outros transtornos Relacionados.
» Transtornos Mentais Causados por uma Condição Médica Geral Não
» Transtornos Depressivos.
Classificados em Outro Local.
» Transtornos de Ansiedade.
» Transtornos Relacionados a Substâncias.
» Transtorno Obsessivo-Compulsivo e Outros Transtornos Relacionados.
» Esquizofrenia e Outros Transtornos Psicóticos.
» Trauma e Transtornos Relacionados ao Estresse.
» Transtornos de Humor.
» Transtornos Dissociativos.
» Transtornos de Ansiedade.
» Sintomas Somáticos e Outros Transtornos Relacionados.
» Transtornos Somatoformes.
» Alimentação e Transtornos Alimentares.
» Transtornos Factícios.
» Transtornos da Excreção.
» Transtornos Dissociativos.
» Transtorno do Sono-Vigília.
» Transtornos Sexuais e da Identidade de Gênero.
» Disfunções Sexuais.
» Transtornos da Alimentação.
» Disforia do Gênero.
» Transtornos do Sono.
» Transtornos Disruptivo, Controle dos Impulsos e Conduta.
» Transtorno do Controle dos Impulsos Não Classificados em Outro Local.
» Transtornos Relacionados a Substância e Adição.
» Transtorno de Adaptação.
» Transtornos Neurocognitivos.
» Transtorno da Personalidade.
» Transtornos de Personalidade.
» Outras Condições que Podem ser Foco de Atenção Clínica.
» Transtornos Parafílicos.
» Outros Transtornos Mentais.
» Transtornos do Movimento Induzidos por Medicamentos.
» Outros Efeitos Adversos de Medicamentos.
» Outras Condições que podem ser Foco de Atenção Clínica.

Fonte: Vilela, 2016. Traduzido e adaptado do quadro de Ruiloba, 2015.

Alguns tipos de transtornos segundo APA (2003)

Transtornos do Neurodesenvolvimento

Esse tipo de transtorno tem seu início no período do desenvolvimento. É um transtorno


que geralmente aparece na infância ou adolescência e que tem sido tratado pela
psiquiatria infantil e adolescente, ainda que possa ter sua continuidade no período da
idade adulta. Na classificação do DSM-5 os transtornos vão desde limitações específicas
da aprendizagem, até alterações muito globais.

Muitos conceitos foram mudados nessa nova estruturação do DSM-5, por exemplo,
o déficit intelectual substitui o termo anteriormente utilizado de retardo mental; os
transtornos da comunicação se caracterizam por deficiências da fala, da linguagem
ou da comunicação. Uma nova categoria do Transtorno do Espectro Autista divide as

70
FUNÇÕES PSÍQUICAS ALTERADAS │ UNIDADE III

características como déficit na interação social e padrões repetitivos restringidos de


conduta. Outras categorias diagnósticas são do Transtorno de Déficit de Atenção/
Hiperatividade; o Transtorno Específico de Aprendizagem; os Transtornos Motores
que incluem os Transtornos do Desenvolvimento da Coordenação, Transtorno do
Movimento Estereotipado e os Transtornos de Tiques; e outros Transtornos do
Neurodesenvolvimento.

Espectro da Esquizofrenia e outros Transtornos Psicóticos 

Inclui-se no Transtorno Psicótico os seguintes sintomas, conhecidos como alteração


do juízo crítico e da realidade, sendo esses: delírios, alucinações, pensamento
desorganizado, conduta desorganizada e condutas negativas. Os principais transtornos
incluídos neste grupo são: Esquizofrenia, Transtorno Esquizofreniforme, Transtorno da
Personalidade Esquizotípica, Transtorno Psicótico Breve, Transtorno Esquizoafetivo,
Catatonia e Transtorno Psicótico Devido alguma enfermidade médica induzida por
substâncias, Transtorno Psicótico Devido a outra Condição Médica.

Transtorno Bipolar e Transtornos Relacionados 

São os transtornos que apresentam alterações do estado de ânimo em forma de episódios


maníacos e depressivos. Agrupam os transtornos relacionados como: o Transtorno
Bipolar I (com episódios maníacos, e hipomaníaco, misto ou depressivo), o Transtorno
Bipolar II, o Transtorno Ciclotímico e o Transtorno Bipolar não especificado.

Transtornos Depressivos

A característica fundamental é a alteração do estado de ânimo em forma de tristeza,


vazio ou irritabilidade, junto com sintomas somáticos e cognitivos. Dentro do
Transtorno Depressivo podemos ter o Transtorno Disruptivo da Desregulação do
Humor, Transtorno Depressivo Maior (com episódio único ou recorrente), Transtorno
Depressivo Persistente (ou Distimia), Transtorno Disfórico Pré-menstrual, transtorno
depressivo induzido por substância ou medicamento, transtorno depressivo devido a
outra condição médica.

Transtornos de Ansiedade

Neste transtorno a ansiedade ou o medo excessivo é o tipo de alteração predominante.


O DSM-5 compreende para esses tipos de transtornos os: Transtorno de Ansiedade de
Separação, Agorafobia, Fobia Específica, o Transtorno de Ansiedade Social (ou Fobia
Social), o Transtorno de Pânico, Especificador de Ataque de Pânico, Transtorno de

71
UNIDADE III │ FUNÇÕES PSÍQUICAS ALTERADAS

Ansiedade Generalizada, o Mutismo Seletivo, Transtorno de Ansiedade Especificado,


Transtorno de Ansiedade Não Especificado, Transtornos de ansiedade devido a
condições médicas e Transtornos de Ansiedade induzidos por substâncias.

Transtorno Obsessivo-Compulsivo e Transtornos


Relacionados 

Os pensamentos, preocupações ou comportamentos reiterativos e excessivos são típicos


desse grupo de transtorno. Inclui o Transtorno Obsessivo-compulsivo, Transtorno
Dismórfico Corporal, Transtorno de Acumulação, Tricotilomania (transtorno de
arrancar o cabelo), Transtorno de Escoriação, Transtorno Obsessivo-compulsivo e
Transtorno Relacionado Induzido por substância/medicamento, Transtorno Obsessivo-
compulsivo e Transtorno Relacionado Devido a Outra Condição Médica .

Transtornos Relacionados a Traumas e Outros Estressores

Aqui também temos novidade no agrupamento de alguns transtornos que antes


estavam nos transtornos de ansiedade, cuja característica típica é a presença de fatores
ambientais traumáticos ou estressantes como desencadeantes dos sintomas. Estão
relacionados Transtorno de Apego Reativo, Transtorno de Interação Social Desinibida,
Transtorno de Estresse Agudo, Transtorno de Estresse Pós-traumático (inclui
transtorno de estresse pós-traumático em crianças de seis anos ou menos) e Transtorno
de Adaptação.

Transtornos Dissociativos

A característica fundamental consiste em uma alteração (seja repentina ou gradual,


transitória ou crônica) das funções integradoras da consciência, da identidade,
da memória e a percepção do entorno. Os transtornos incluídos são: Transtorno
Dissociativo de Identidade (conhecido como transtorno da personalidade múltipla),
Amnésia Dissociativa, Transtorno de Despersonalização ou Desrealização, Outro
Transtorno Dissociativo Especificado, Transtorno Dissociativo Não Especificado.

Transtornos de Sintomas Somáticos e Transtornos


Relacionados 

Esses transtornos se caracterizam pela presença de sintomas físicos e somáticos


proeminentes, que ocasionam mal-estar psicológico e que sugerem uma enfermidade
médica que não pode explicar-se completamente pela presença desta (nem está um
pouco pelos efeitos diretos de uma substância ou por transtorno mental). Inclui os
seguintes transtornos: Transtorno de Sintomas Somáticos, Transtorno de Ansiedade de

72
FUNÇÕES PSÍQUICAS ALTERADAS │ UNIDADE III

Doença (hipocondria), Transtorno Conversivo (Transtorno de Sintomas Neurológicos


Funcionais), Fatores Psicológicos que afetam a outras condições médicas, Transtorno
Factício.

Transtornos Alimentares e da Ingestão de Alimentos 

A presença de alterações graves na conduta alimentar ou na ingestão de alimentos é o que


caracteriza esse transtorno. Inclui os transtornos: Anorexia Nervosa, Bulimia Nervosa,
Pica, Transtorno de Ruminação, Transtorno de Compulsão Alimentar, Transtorno
Alimentar Restritivo ou Evitativo de Ingestão de Alimento, Outro Transtorno Alimentar
Especificado, Outro Transtorno Alimentar Não Especificado.

Transtornos da Personalidade

Um transtorno da personalidade se refere a um padrão permanente e inflexível da


experiência interna e comportamento que separa marcadamente o que se espera
da cultura do sujeito. Tem início na adolescência ou princípio da idade adulta, e se
estabelece ao longo do tempo causando mal-estar ou prejuízo para o sujeito que sofre.
O transtorno da personalidade se divide em três grupos A, B e C no novo manual de
classificação DSM-5. Os transtornos apresentados são: transtornos da personalidade
do grupo A – transtorno da personalidade Paranoide, transtorno da personalidade
esquizoide, transtorno da personalidade esquizotípica. Grupo B – transtorno da
personalidade antissocial, transtorno da personalidade Borderline, transtorno da
personalidade histriônica, transtorno da personalidade narcisista. Grupo C – transtorno
da personalidade evitativa, transtorno da personalidade dependente, transtorno da
personalidade obsessivo-compulsiva. Outros transtornos da personalidade – mudança
de personalidade devido a outra condição médica, outro transtorno da personalidade
especificado, transtorno da personalidade não especificado.

Tendo em vista que pudemos relembrar boa parte dos transtornos psicológicos,
podemos nos situar em um tema mais profundo e complexo e que exigirá uma certa
dinâmica para um diagnóstico inicial.

73
CRISE, MORTE POR UNIDADE IV
SUICÍDIO E LUTO

CAPÍTULO 1
Compreendendo a Crise e o Suicídio
nos Transtornos Mentais

Figura 12. Crise.

Fonte: <https://br.pinterest.com/pin/638526053401521695/>. Acesso em: 24/08/2020.

Crise e transtornos mentais


Quando falamos em crise, podemos pensar em várias situações que nos remetem à ideia
de dificuldade, momentos que nos fazem desorganizar ou não ter a resposta adequada
no momento. No caso da crise psicológica, veremos que muitos autores retratam essa
vivência de modo diferenciado. Alguns as veem como etapa de processos, outros como
momentos subjetivos que não necessariamente alcançam a todos os seres humanos.

No entanto, para nenhum modelo diríamos certo ou errado. Isso posto, no que tange à
psicopatologia, vamos especificar modelos claros que nos permitam trabalhar em um
sentido humanístico e resolutivo, ou seja, um modelo que nos permita atitude proativa.

74
CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO │ UNIDADE IV

Erickson (1976), psicanalista e estudioso dos processos de crise no desenvolvimento da


vida humana e muito estudado na área da Psicologia, conceitua crise como um ponto
decisivo e crucial, necessário ao homem quando em fase de desenvolvimento; fase
em que ele tem que escolher uma ou outra direção, escolher um ou outro caminho,
mobilizando recursos de crescimento, recuperação e diferenciação, a fim de superar os
estágios de crise ao qual é submetido em nome da maturação.

Um conceito que não está mal e nos ajuda a identificar, em alguns de nossos pacientes
com psicopatologias, aspectos correlacionais aos aqui levantados. Mas na clínica dos
transtornos mentais graves poderíamos atentar também ao conceito trazido por Tavares
(2004, p. 2), que conceitua crise no sentido psicológico. Para ele a crise:

[é um processo subjetivo] de vivência ou experimentação de situações


de vida nas quais condições internas e externas demandam uma
reestruturação na forma de responder a situação para a qual o sujeito
ainda não domina, não desenvolveu ou perdeu capacidade, repertório
ou recursos capazes de dar solução à complexidade da tarefa em questão.

É muito comum na prática clínica, quando lidamos com pacientes de alta gravidade,
com transtornos depressivos graves, pacientes com transtornos de personalidade –
enfim, pacientes sem recursos atuais para lidar com a forte pressão que as demandas
decorrentes dos conflitos internos o fazem sofrer – nos depararmos com esse modelo de
crise. Em que o paciente chega sem nenhum tipo de resolução de conflitos, chega sem
recursos internos e exaurido pelas fortes pressões, as quais tem suportado em nome de
sua integridade.

No entanto, a integridade pode chegar despedaçada, deteriorada, necessitada de um


suporte ou espaço em que possa recolher os pedaços, compreender o sentido de tudo, e
iniciar o longo processo de ajustamento. Aí estamos falando de pacientes potencialmente
marcados por conflitos que os levam a estados limítrofes de ação, ou falta de ação.

O termo crise, ainda, pode nos remeter “ao estado de reação de um indivíduo que se
encontra em uma situação de perigo”. Segundo Davanloo (1986), as palavras crise e
stress normalmente são usadas indistintamente, talvez porque se pensarmos em stress
como uma situação mobilizadora, possamos lembrar de um caminho que leva à crise.

Lindemann no seu clássico trabalho: “Sintomatologia e Administração de Sofrimento


Agudo”, que foi publicado no American Journal of Psychiatry em 1944, observou
o termo ‘situação de perigo’ e conceituou a partir daí uma teoria e terapia da crise.
Essas observações, partidas do estudo de sobreviventes foram o primeiro estímulo ao

75
UNIDADE IV │ CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO

desenvolvimento do conceito de crise emocional, que mais tarde foi desenvolvido por
Caplan, Sifneos, e muitos outros.

Sifneos (apud DAVANLOO, 1986) define crise emocional como “a intensificação de um


estado de dor que tem o potencial de se tornar o ponto de transição para melhor ou
para pior”. O autor afirma que o estado de crise emocional ocorre em seguida a um
acontecimento de perigo, o qual, em algumas pessoas que têm sido emocionalmente
saudáveis, estabelece as condições para a crise emocional.

Mas um fator muito importante a ser destacado é que nem todas as pessoas que
enfrentam a mesma situação de perigo entrarão em um estado de crise. Existem,
portanto, acontecimentos comuns de perigo, como perda por morte e as sequelas
causadas pela dor e desolação, que vão induzir praticamente todas as pessoas a um
estado de crise, bem ou mal adaptadas.

Diante da universalidade desse fenômeno, o autor (ibidem) dá ênfase à avaliação da


crise e à intervenção como medidas essenciais, uma vez que se trata de um indivíduo
que está enfrentando uma perda por morte, por exemplo. Aqui iremos compreender
o termo intervenção e tratamento como sendo um recurso que deve ser utilizado pelo
profissional no momento da crise.

Conforme Ancona-Lopez (2002, p. 26) “INTERVIR (do latim intervenire): é o ato de


meter-se de permeio, ser ou estar presente, assistir, interpor os seus bons ofícios”.
Nesse caso de intervenção na crise psicológica ou psicopatológica, o sujeito que sofre já
está com um nível de sofrimento considerável, passando por algum tipo de síndrome
ou apresentando, devido às respostas mal adaptadas da crise, algum tipo de transtorno
psicológico. E é aí que entra a intervenção, que se dá pela atuação de um profissional
“cujo significado será dado pelo campo relacional que se estabelece entre as partes e
que é exclusivo e peculiar àquele momento e àquela relação” (ibidem, p. 29).

Observamos que vários autores consideram o momento de crise de maneiras diferentes,


e por isso podemos fazer uma crítica, por exemplo, ao pensamento que elucida uma
vivência de crise como um aspecto meramente ou primordialmente cognitivo na
resolução dos conflitos.

No entendimento do homem como ser de múltiplos aspectos, e regido por um modelo


biopsicossocial, observamos que a demanda ocasionada pelo “novo”, em se tratando de
experiências humanas, não pode ser ensinada, não pode ser entendida como aspecto
puramente do processo cognitivo. Uma vez que os conflitos estão no âmbito das emoções,
devemos aludir a aprendizagem à resolução de um problema objetivo, porém, o ensino

76
CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO │ UNIDADE IV

da resolução de aspectos do âmbito da emoção é uma questão mais de processo criativo


do que de ensinamento.

É nesse entendimento que Simon (1989, p. 59) trata como ponto central da crise o
momento em que o paciente se vê em frente a uma situação nova e transformadora, que
exige uma estruturação dinâmica de aspectos que concernem às emoções e ao modo
como ele poderá conduzir seu processo criativo. Nesse sentido a “habilidade eficaz
para resolver problemas” não se justifica com ensino-aprendizagem, mas com uma
concepção que justifica a experiência humana sentida, vivenciada unicamente pelo
sujeito que sofre ou experimenta a vivência da crise, no âmbito afetivo.

É aí que damos atenção à subjetividade do sujeito compreendendo que as experiências


emocionais vivenciadas no período de crise devem ser (res)significadas, ou
melhor, a resolução da crise deve-se ao (res)significado emocional, a partir de um
autoconhecimento (que não se transmite pedagogicamente) da experiência humana
emocional vivida, geralmente encontrados no âmbito da intervenção em crise.

A avaliação do estresse na teoria da crise tem sido estudada para que pudéssemos
observar o desenvolvimento que repercute no campo da prevenção da saúde mental.
Parkers (1998), observando e acompanhando o trabalho de Caplan em Havard, passou
a utilizar o termo crise na tentativa de compreender diferenciação das situações
importantes de estresse corriqueiras na vida de um ser humano e no luto. Para ele,
embora as crises no luto fossem limitadas, poderiam por algum motivo colocar em risco
a saúde mental do sujeito.

A crise, ou episódio momentâneo pelo qual passa o sujeito, pode alterar o modo
comportamental da pessoa envolvida ao ponto da necessidade de um planejamento
de tratamento psicológico engajado e que requeira tempo e comprometimento. O
lado positivo da crise seria o fato de promover mudança estrutural no sujeito, a fim
de orientá-lo a abandonar velhas concepções construídas durante a vida e reconstruir
novas modelagens que irão formular uma nova estruturação psíquica.

Para uma concepção de crise nos aspectos psicodinâmicos, poderíamos aproveitar a


teoria de Melanie Klein (apud SIMON, 1989) que busca a resolução da crise no fator do
universo pessoal, do ato criativo, em que o sujeito/paciente vive pressões internas ou
externas extremas, de intensa angústia e que acabam por provocar a crise insuportável.

Desse modo, o sujeito se encontra no campo da falta de resolução do problema para


as questões que se apresentam como novas, mais ainda, por conta da projeção e
identificação do novo, juntamente com as ameaças fantasiosas provocadas pelas figuras

77
UNIDADE IV │ CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO

aterrorizantes das vívidas camadas inconscientes que emergem nessa vivência de


extrema tensão emocional.

Nesse modelo psicodinâmico, as relações entre o sujeito, os objetos de identificação, as


relações e as crenças desenvolvem as vivências de angústia diante do novo e por meio
dos sentimentos predominantes nas situações geradoras de crise, sejam elas por perdas
ou aquisição. Klein diferencia as crises por perda como momentos que podem levar à
autoagressão ou projeção da culpa; já na crise por aquisição podem levar à fuga. Os
sentimentos predominantes na crise por aquisição são os de insegurança, inferioridade
e inadequação.

O objetivo principal da prevenção das crises por perda seria ajudar o sujeito a aceitá-las,
resignar-se à frustração, lidar com a depressão e a culpa, além de estimulá-lo a retomar o
interesse pelo universo pessoal. Já nas crises por aquisição, ajudar o indivíduo a aceitar
o ganho, controlar a voracidade moderando a ambição, ampliar o universo pessoal
tanto quanto possível, de acordo com a sua capacidade, condições ambientais e ainda
se o aumento do universo pessoal provocar crise por aquisição de responsabilidade,
acima da capacidade real do sujeito em assumir a demanda.

É importante mostrar o caminho da renúncia, do ganho por meio da ajuda, no sentido


de fazê-lo descobrir as armadilhas dos sentimentos narcísicos e vorazes nos projetos
pretensiosos. Em suma, a função da crise deveria ser aumentar o repertório de respostas
do sujeito e de suas competências, ou seja, aumentar a sua capacidade ou força egoica,
dessa forma, a intervenção entraria como forma de dar suporte e ajudar o sujeito a
ressignificar sua angústia e transformá-la em força vital.

Portanto, entendemos que as intervenções se dão a partir da utilização de diversas


técnicas já estudadas, como entrevista, psicodiagnóstico, aplicação de técnicas
(acolhimento, rapport etc.). Seus objetivos podem ser terapêuticos, a fim de
identificar, confrontar e resolver a crise, de recuperar o equilíbrio anterior e de apoiar
o desenvolvimento ou retorno de respostas adaptativas apropriadas; ou preventivos,
visando redução dos sintomas e restauração do equilíbrio como prevenção da
desorganização regredida e mal adaptada.

Devemos entender, a partir da conceituação exposta por esses autores, que a crise deve
ser percebida como um processo pelo qual passa o ser humano em alguma etapa de sua
vida. Essa pode ser bem adaptada ou mal adaptada, ou seja, o modo como essa crise
irá encerrar-se pode ser positivo ou negativo, levando o sujeito ao desenvolvimento e
amadurecimento ou a um período de vulnerabilidade e adoecimento.

78
CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO │ UNIDADE IV

No entanto, ela se encerra quando há a criação de novos recursos e respostas satisfatórias


ao problema. Quando a crise leva ao adoecimento grave ou crônico, poderá levar o
sujeito à ruptura ou estagnação, tendo como resultado o comprometimento estrutural
(em termos comportamentais e de personalidade) do sujeito que pode deixar sequelas
na autoimagem, autoestima e outros (TAVARES, 2004).

Versando uma visão psicopatológica da crise, Moffatt (apud ANCONA-LOPEZ, 2002, p.


11) considera que “a crise se manifesta pela invasão de uma experiência de paralisação
da continuidade do processo de vida”. Ou seja, é quando esse fato novo, inesperado
e desconhecido se aproxima que o sujeito irá reagir de modo a dar continuidade com
uma intervenção própria que requer modificação de recursos e reestruturação de
comportamentos ou de modo a paralisar e necessitar de uma intervenção efetivamente
externa e processual.

Nossa própria morte não nos pode ser representada, e quanto mais
tentarmos representá-la, mais observaremos que, na realidade,
continuaremos apenas como espectadores. (FREUD, 1915)

Figura 13. Solidão.

Fonte: ippsyunb.blogspot.com/. Acesso em: 24/08/2020.

E então, podemos pensar que as crises psicopatológicas levam ao suicídio? A resposta


é sim e não. Sim, porque deveras as crises psicopatológicas graves ou intermitentes
podem levar ao risco de suicídio ou ao suicídio propriamente dito. E, não, porque estar
em uma situação de crise psicopatológica não é condição sine qua non para o suicídio.

No contexto da crise, adentrar na morte por suicídio pode ser sentido como um
pensamento aterrorizador, pois esse tipo de morte, além de não estar dentro dos
padrões sociais, de não fazer parte de uma morte natural, é um momento sentido, em
sua grande maioria, como um final dramático e perturbador. Perder uma avó por morte
natural, por exemplo, pode causar um impacto totalmente diferente do que perder
alguém próximo por suicídio.

79
UNIDADE IV │ CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO

A dor de perder alguém por suicídio é uma dor que pode ser considerada intolerável no
primeiro momento, uma dor que vem sobrecarregada de muito sofrimento e fantasias,
além de nos colocar diante da nossa própria fragilidade. A tomada da consciência da
nossa própria fragilidade nos assola como seres humanos em vários momentos da vida,
seja ela num momento de perda trágica ou não, seja na perda de um padrão de vida
idealizado, na perda do emprego, na perda da pessoa amada, na perda de uma fase da
vida.

Tabela 8. Evolução do quadro psiquiátrico.

Psicologicamente compreensível Não compreensível psicologicamente


(conexão de sentido) (ruptura na linha vital)
Crônico Desenvolvimento Processo
Agudo Reação vivencial Fase (não deixa sequela)
Surto (deixa sequela)

Fonte: Jasper; Schneider, 2008 7.

Falar sobre emergência psiquiátrica infantil é um assunto que não vemos com
muita constância. Normalmente são os pais quem deliberam a situação de
crise ou de vivência de crise dos seus filhos, e a partir daí procuram ajuda. As
alterações psicológicas encontradas em crianças se apresentam paulatinamente
no transcurso do desenvolvimento da vida dessa criança.

Geralmente, é possível observar que o evento de crise atual, ou um período


agudo dos sintomas, são precedidos por curtos períodos com apresentação
de uma síndrome, ou melhor dizendo, curtos períodos com algum tipo de
desajustamento comportamental, ou algum comprometimento percebido na
criança.

Em sua grande maioria, a criança que apresenta um comportamento disruptivo,


por exemplo, está cercada por um funcionamento familiar disfuncional, cuja
visão fantasiosa ou distorcida da realidade permeia os relacionamentos afetivos
dentro do ambiente. Por comportamento disruptivo, entendemos a presença
de uma falta de controle dos impulsos e da conduta que incluem condições que
envolvem problemas de autocontrole, de emoções e de comportamentos.

Segundo DSM-5 (APA, 2014), os transtornos disruptivos, do controle de impulsos


e da conduta incluem problemas que se manifestam em comportamentos que
violam o direito dos outros ou colocam o indivíduo em conflitos significativos
com as normas sociais ou figuras de autoridade. Ainda, segundo o manual, as
causas sobre o aparecimento dos problemas de autocontrole das emoções

80
CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO │ UNIDADE IV

e do comportamento podem variar amplamente entre esses transtornos


apresentados e indivíduos pertencentes a determinada categoria diagnóstica.

A tabela apresentada no site MedicinaNET oferece um guia para a avaliação de


crianças e adolescentes no contexto de emergência psiquiátrica quando levadas
com crises de grande euforia ou por algum fator de risco.

Tabela 9. Avaliação de Crianças e Adolescentes.

AVALIAÇÃO COM OS PAIS


1. Impacto do problema na família.
2. Sumário do desenvolvimento da criança e contexto de surgimento do problema atual.
3. Perfil de funcionamento da família e aspectos socioculturais.
4. História familiar de doenças psiquiátricas e outras doenças em geral.
FOCOS DE AVALIAÇÃO
1. Funcionamento escolar e cognitivo.
2. Vínculos afetivos e sociais.
3. Desenvolvimento físico e história médica.
4. Desenvolvimento emocional: personalidade e temperamento, adaptação a situações de estresse, controle de impulsos.
5. Valores culturais e religiosos.
6. Gostos, interesses, vocação.

Fonte: http://www.medicinanet.com.br/m/conteudos/revisoes/5743/emergencias_psiquiatricas_em_criancas_e_adolescentes.
htm. Acesso em: 24/08/2020.

Morte por Suicídio e Transtorno Mental

Levy (1978 apud KOVÁCS, 1992, p. 172) surgiu com a etimologia da palavra suicídio,
que vem do prefixo sui [de si mesmo] e caedes [ação de matar]. Foi em 1778 que a
palavra suicídio, significando matar a si mesmo, foi incluída no dicionário da língua
francesa. Embora a palavra tenha um significado claro, os aspectos que rodeiam as
variáveis sociais e motivacionais não fazem do termo algo simples de ser discutido.

Veremos, então, várias possibilidades acerca da terminologia e tentaremos as melhores


compreensões sobre o que são, suas causas, o manejo e a prevenção do suicídio. Conforme
o autor, suicídio pode significar autoeliminação consciente, voluntária e intencional. No
sentido mais amplo, o suicídio inclui processos autodestrutivos inconscientes, lentos e
crônicos.

Muitos confundem o suicídio com tentativa de suicídio, ambos os termos se


diferenciam já que as tentativas de suicídio são atos deliberados de autoagressão
que manifestam uma intenção autodestrutiva com vaga consciência ou incerteza da
sobrevivência. A perspectiva sociológica do suicídio, em 1897, foi trazida por Émile
Durkheim, que em sua publicação “Suicídio: um estudo sociológico” tentou explorar

81
UNIDADE IV │ CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO

a questão do suicídio como o caso de morte que resulte direta ou indiretamente de um


ato positivo ou negativo, e que seja praticado pela própria vítima.

Diferentemente da tentativa que seria o ato assim definido, mas interrompido antes de
resultar em morte (NUNES apud WERLANG, BOTEGA et al., 2004). No entanto, essa
última característica da tentativa de suicídio seria chamada de comportamento suicida
na atualidade.

O comportamento suicida abrange os comportamentos que vão desde gestos,


tentativas e o próprio suicídio consumado. Planos e ações suicidas que têm pouca
possibilidade de culminar em morte são chamados pelos estudiosos de gestos suicidas.
As ações suicidas em que a intenção de morte está presente, mas por algum fator
não chega à consumação, são chamadas de tentativas de suicídio. O comportamento
autodestrutivo ou suicida se divide em: diretos e indiretos.

» Comportamentos suicidas diretos: estão relacionados a gestos,


tentativas e ações suicidas consumadas. Por exemplo: pular de pontes,
atirar contra si em partes vitais, enforcamento etc.

» Comportamentos suicidas indiretos: estão relacionados a ações


rotineiras e repetidas que colocam a vida do sujeito em risco. São atividades
perigosas nas quais participam o sujeito, mas que não apresentam
intenção consciente de morrer. Direção perigosa, consumos de drogas e
outras substâncias, uso abusivo de tabaco e descontroles na alimentação,
com a própria saúde, comportamento criminoso, dentre outros.

Não é tão comum que pessoas na tentativa de se suicidarem sejam salvas por terceiros,
e por fim, acabam por deparar-se com a contradição dos seus sentimentos. Uma vez
que o fato de querer acabar com a angústia predominantemente devastadora é o que
leva à tentativa. Perceber-se em situação de controle, quando medicada e atendida por
uma equipe multidisciplinar de atenção, além de outros fatores, pode reduzir a pressão
para o desejo de morte.

Do ponto de vista psicológico, o comportamento suicida é um fenômeno que tem


estimulado várias pesquisas e estudos a fim da sua compreensão universal e cultural.
As estatísticas confirmam que, no Brasil, o índice de suicídios na faixa dos 15 aos 29
anos se aproxima a 6,9 casos para cada 100 mil habitantes, o que remete a uma taxa
relativamente baixa quando comparada aos países líderes neste ranking, tais como:
Índia, Zimbábue e Cazaquistão, por exemplo, que têm mais de 30 casos para cada 100
mil habitantes. O Brasil está no 12o lugar da lista dos países latino-americanos com
mais mortes nesse segmento.

82
CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO │ UNIDADE IV

“Para a faixa etária de 15 aos 29 anos, apenas acidentes de trânsito matam mais. E se
você analisar as diferenças de gênero, o suicídio é a causa primária de mortes para
mulheres nesse grupo”, diz Alexandra Fleischmann, especialista da OMS, à BBC (apud
WERLANG; BOTEGA et al., 2004, p. 67).

Segundo Bertolote e Fleishmann (apud WERLANG, BOTEGA et al., 2004), o risco de


suicídio é evidentemente destacado a partir da presença de um transtorno mental, visto
que mais de 90% das pessoas que se suicidam têm algum tipo de transtorno mental,
segundo as pesquisas levantadas. Portanto, em termos de prevenção, o tratamento do
transtorno mental é um elemento de fundamental importância.

Alguns transtornos mentais têm o pensamento suicida como características de sintomas


associados, tais como depressão, ansiedade, delírios, uso de substâncias psicoativas
(álcool), esquizofrenia, além de outros fatores como componentes do ambiente físico
e social, conforme levantamento da OMS, bem como doenças como AIDS, doença de
Parkinson, esclerose múltipla etc.

Ainda segundo os autores, para trabalhar com prevenção do suicídio dentro dessa
perspectiva, é preciso:

» controle da disponibilidade e do acesso a substâncias tóxicas (incluindo


medicamentos);

» eliminação da toxicidade do gás de rua e de gases de escapamento de


motores a explosão;

» redução do acesso a armas de fogo;

» apresentação apropriada de notícias e informações sobre suicídio pela


mídia;

» colocação de barreiras que impedem o acesso a locais elevados (pontes,


edifícios etc).

Na visão psicanalista, Freud identificou os aspectos relacionados ao suicídio, verificados


em seus pacientes clínicos, como fantasias suicidas, manifestações delirantes,
tentativas de dar vazão ao impulso proibido e, também, na forma patológica do luto,
uma ambivalência narcisista. Conforme Werlang, Botega et al. (2004), as formulações
de Freud vinculadas ao conceito de pulsão de morte, a agressividade e a autodestruição,
foram recebidas com muito questionamento pela comunidade científica, em função
das dificuldades de uma confirmação fiel da sua existência. Contudo, Freud acabou

83
UNIDADE IV │ CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO

afirmando a inata inclinação humana para a agressividade, para a destrutividade e para


a crueldade não erótica no artigo “O mal-estar na civilização”.

Ainda, o suicida, identificado como objeto perdido, deseja desaparecer da vida – da


mesma forma que desapareceu seu objeto libidinoso. O suicídio é, então, uma agressão
ao exterior e, secundariamente, à revolta completa. É um procedimento para satisfazer
a agressão que o ambiente ocasiona, assim como meio de recuperar o objeto libidinoso
perdido, matando a si consegue anular psicologicamente a perda do objeto e vingar-se
do ambiente que originou o seu desespero (WERLANG, BOTEGA et al., 2004).

O apontamento trazido por Menninger (1970, p. 36, apud CUNHA, 2003, p. 324)
também justifica o pensamento freudiano sobre o suicídio como uma tentativa do
ego em se ajustar às exigências do superego e aplacar a severidade: “quem alimenta
desejos homicidas sente também, pelo menos inconscientemente, a necessidade de
uma punição da espécie correspondente”. Nesse comentário, Freud pretende dizer que
“muitos dos suicídios são homicídios disfarçados, não apenas devido à introdução, mas
também porque só o homicídio justifica no inconsciente a pena de morte, mesmo que
quando ambos são aplicados ao eu”. Já Shneidman (1975, p. 1774 apud OLIVEIRA,
2006) elucida que explicações corroboram com as teorias do suicídio e permanecem
desde a época de Freud até Menninger nos anos 1970.

A respeito do quantum da consciência que está sobre os atos suicidas, Shneidman afirma
que, embora não se saiba por que seres humanos tiram a sua própria vida, é possível que
mesmo uma pessoa que atenta contra si não reconhece a fundo os complexos motivos
que a levaram à autodestruição.

Ainda, considera o suicídio como “ato humano de cessação auto-inflingida, intencional”


que pode ser melhor compreendido como “Fenômeno multidimensional, num
indivíduo carente, que define uma questão para a qual o suicídio é percebido como
melhor solução” (ibidem, p. 69). O referido autor classifica a morte como intencional,
subintencional e não intencional a fim de entender a intenção colocada no ato suicida.
Para a morte intencional temos uma morte na qual a pessoa representa um papel
direto e consciente para realizá-la. Para a morte subintencional a pessoa desempenha
um papel parcial, coberto ou inconsciente a fim de apressar o momento da morte; já a
morte não intencional seja qual for a sua causa, fracasso biológico, trauma físico, mas
que independe do exterior e do interior psicológico.

84
CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO │ UNIDADE IV

Tabela 10. As 10 generalidades do suicídio.

Generalidades Especificações da tentativa


Busca de solução O propósito
Cessação da consciência O alvo
Dor insuportável O estímulo
Necessidades psicológicas frustradas O estressor
Desamparo/desesperança A emoção
Ambivalência O estado afetivo
Rigidez O estado perceptivo
Fugir/escapar A ação
Comunicação da intenção O ato interpessoal
Padrões de enfrentamento existencial A consistência

Fonte: Shneidman, 1992 apud Werlang, 2006, p. 84.

Podemos ver que o suicídio não é um ato que acontece sem algum tipo de premeditação,
sem intencionalidade, ao contrário, é um fenômeno vivenciado como a resposta
encontrada pelo indivíduo que sofre na intenção de escapar da dor psicológica
devastadora.

Estado que se encontra no íntimo do sujeito e vem carregado de estados emocionais


negativos e seguido de ideias de morte, e servem como estímulo para colocar um fim
nas emoções intoleráveis. No entanto, internamente, encontra-se um sentimento
ambivalente, o que faz com que o indivíduo, ao mesmo tempo que queira a morte, pensa
em uma intervenção de socorro, mesmo que inconscientemente, sendo esse o último
recurso utilizado para tentar livrar-se da dor.

Foi a partir do estudo desse fenômeno que se percebeu que o suicídio sempre vem
antecedido por sinais verbais ou comportamentais que indicam um sentimento de
desesperança e desejo de morte. Estudiosos descobriram que não apenas o sujeito que
sofre se apresenta enredado numa complexa dinâmica de sofrimento, mas também
toda a família. Parece que o sofrimento mental não só atinge, como também pode
mobilizar, ou partir das relações familiares disfuncionais. Dessa forma, a fuga dos
intensos momentos de dor e sofrimento psicológicos de grande intensidade resulta em
suicido, homicídio ou psicose (SHNEIDMAN, 1992, apud WERLANG, BOTEGA et al.,
2004, pp. 84-85).

Quando lidamos com pacientes que tentaram o suicídio, devemos nos preocupar com o
tipo de avaliação que iremos realizar e no modo como iremos lidar com esse sujeito que
padece de grande sofrimento.

A tentativa de suicídio é um pedido de ajuda, um sinal de alerta. Nomeia o comportamento


que merece diagnóstico e por isso o profissional que se depara com esse paciente deve

85
UNIDADE IV │ CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO

investigar as situações, causas, motivos e revisar as atitudes e os comportamentos


autoinflingidos em relação ao comportamento suicida.

Estabelecer vínculos terapêuticos é um ponto importante para aceitação, adesão, e


diminuição dos sentimentos conflitantes que o paciente apresenta nesse momento,
além da manutenção do respeito à condição emocional do paciente, ao contexto de vida
e a motivação à tentativa de suicídio; além do que, uma atitude de acolhimento sem
julgamento moral é primordial nesses casos.

Os mitos que rondam as tentativas ou comportamentos suicidas não devem ser


levados em consideração no momento da avaliação e manejo do paciente, pensar que
a tentativa de suicídio foi o modo que o paciente encontrou para manipular os de seu
convívio pode nos levar a condutas clínicas estereotipadas, além de marcar o paciente
já em conflito e colocá-lo em uma situação de vergonha ou raiva por não ter conseguido
autodestruir-se e permanecer sendo maltratado.

Embora o comportamento suicida exerça grande impacto emocional sobre a equipe


de saúde, podendo provocar sentimentos de hostilização ou pena, levando a equipe a
tratar esse fenômeno com grande descaso, precisamos estar atentos e entender que a
trajetória da pessoa “acidentada” deve ser respeitada. O apoio adequado é importante,
uma vez que tende a mobilizar o paciente a encontrar forças para uma mudança de vida
(WERLANG; BOTEGA et al., 2004).

O aspecto que não serve ao propósito de autodestruição é uma


contaminação do comportamento apropriado para tais atos, na maioria
deles, uma tendência à busca de contato e tendências preservadoras da
vida. (STENGEL, 1968, p. 174)

Na avaliação psicológica desse tipo de paciente podemos averiguar as circunstâncias


que indicam a alta intencionalidade suicida. Para destacarmos intencionalidade e
letalidade, entenderemos esse processo a partir dos estudos sobre suicidologia que os
diferencia como: intencionalidade seria a intensidade do desejo do indivíduo em acabar
com a sua própria vida; já letalidade se refere às consequências do ato em termos de
gravidade médica, da conotação clínica para o ato.

A letalidade pode ainda se diferenciar em termos de:

» comunicação – se o paciente deu algum aviso verbal; se havia ideia ou


planejamento suicida;

» ameaça suicida;

86
CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO │ UNIDADE IV

» gesto suicida – atos em que o propósito manipulativo e comunicativo


parece proeminente e a intenção suicida praticamente inexiste;

» tentativa de suicídio ambivalente (planejamento que consciente não


levaria à morte);

» tentativa de suicídio deliberadamente (impulsiva);

» utilização de ferramentas – como armas de fogo;

» o suicídio propriamente dito, realizado de modo exitoso.

Tabela 11. Tabela de Intencionalidade.

Circunstâncias sugerindo alta intencionalidade suicida


Comunicação prévia de que iria se matar.
Mensagem ou carta de adeus.
Providências finais (por exemplo, conta bancária) antes do ato.
Planejamento detalhado.
Precauções para que o ato não fosse descoberto.
Ausência de pessoas por perto que pudessem socorrer.
Não procurou ajuda logo após a tentativa de suicídio.
Método violento ou uso de drogas mais perigosas.
Crença de que o ato seria irreversível e letal.
Afirmação clara de que queria morrer.
Arrependimento por ter sobrevivido

Fonte: Beck; Resnik; Lettieri, 1974, apud Werlang; Botega et al., 2004, p. 125.

Tabela 12. Tabela de tentativa ou risco de suicídio.

Perguntas que orientam a avaliação do paciente com tentativa ou risco de suicídio


1. Quais as motivações e intenções do paciente para o suicídio?
2. Quais as circunstâncias em que a tentativa de suicídio ocorreu?
3. A um transtorno psiquiátrico que mereça tratamento específico?
4. Houve atores estressantes que desencadearam a tentativa de suicídio?
5. Qual o risco de o paciente tentar (novamente) o suicídio?
6. Quais os recursos do paciente para enfrentar seus problemas?
7. O paciente pode contar com apoio social vindo de parentes e amigos?
8. Há alguém próximo ao paciente com quem possa entrar em contato?
9. Quais as medidas a serem tomadas de imediato?
10. Qual o melhor tratamento para esse paciente?

Fonte: Werlang; Botega et al., 2004, p. 126.

87
UNIDADE IV │ CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO

Tabela 13. Tabela de ideação suicida.

Perguntando sobre a ideação suicida


Tem obtido prazer nas coisas que tem realizado?
Sente-se útil na vida que está levando?
Sente que a vida perdeu sentido?
Tem esperança de que as coisas vão melhorar?
Pensou que seria melhor morrer?
Tem pensamentos de pôr fim a própria vida?
São ideias passageiras ou persistentes?
Pensou em como se mataria?
Já tentou ou chegou a fazer algum preparativo?
Tem conseguido resistir a esses pensamentos?
É capaz de se proteger e retornar para próxima consulta?
Tem esperança de ser ajudado?

Fonte: Werlang; Botega et al., 2004, p. 127.

Voltando um pouco mais ao momento em que nos deparamos com o paciente com
tentativa suicida no ato da entrevista – fase inicial da avaliação – devemos nos voltar
ao paciente com atenção, ouvindo e estando atentos aos pormenores, sem demonstrar
piedade, nem tampouco rispidez ou fazer julgamentos, mas manter uma postura
profissional que lhe permita fazer as perguntas de forma adequada. Esse processo
requer treino do profissional, pois não é um papel fácil. Por isso, capacitar-se no trabalho
com pacientes em crise e com risco de suicídio é fundamental na área da saúde para a
manutenção do paciente em busca de tratamento.

O entrevistador desempenha um papel muito ativo na introdução de interrogações, não


para mostrar que é inteligente ou cético, mas literalmente para ter certeza de que ele
sabe o que está sendo dito. Quase toda vez que pergunta, “bem, você quer dizer aço ou
assado?” o paciente é um pouco mais claro sobre o que ele quer dizer. (Ibdem, p. 129)

Terminaremos este assunto mostrando a importância da abordagem direta ao paciente


em casos de tentativa de suicídio. Quando o paciente chega à clínica, geralmente trazido
pela polícia, ambulância ou algum membro da família, atacado de diversos lados por
perguntas cheias de sentimentos de raiva, intolerância e tudo o que faz o paciente
sentir-se ainda mais tenso; é aí que a equipe de saúde deve agir.

Primeiramente, dando o atendimento médico necessário para salvar-lhe a vida, em


seguida, dando suporte e acolhimento. A postura do profissional para o começo da
avaliação está imbuída com a responsabilidade de lhe fazer perguntas importantes
e necessárias. É um erro quando o profissional pensa que falar sobre o assunto irá
provocar ainda mais desejo de morte no paciente. Ao contrário, é falando sobre seus

88
CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO │ UNIDADE IV

conflitos e suas dores, com preocupação e atos de acolhimento que farão o paciente
sentir-se cuidado e protegido, mesmo que seja de seus próprios impulsos.

Prevenção do suicídio

Iremos nos basear no Manual da Organização Mundial da Saúde (2000)


elaborado para profissionais da saúde em atenção primária a fim de
tocarmos na prevenção do suicídio. Profissionais da atenção primária são importantes
como medida de promoção e prevenção da saúde uma vez que estão em contato com a
comunidade, têm o seu apoio, e geralmente são o primeiro contato da população local
quando se trata de atendimento à saúde.

A equipe da atenção primária é, portanto, um elo entre a comunidade e o sistema de


saúde, e frequentemente esse profissional é o primeiro recurso do paciente quando em
estado de crise ou acometimento de crise por doenças graves ou tentativas de suicídio.
Importantes fatores relacionados ao suicídio estão ligados aos grupos diagnósticos como
a depressão, transtorno de personalidade, alcoolismo ou abuso de drogas, esquizofrenia
e transtorno mental orgânico.

O manual pretende preparar o profissional da saúde para a prática da prevenção e


do atendimento que visa à identificação do paciente com risco de suicídio. O manual
aborda aspectos sobre o modo de comunicação com o paciente, assim como revela
as características reais e todas aquelas que viraram mito na sociedade em relação ao
suicídio, como vimos anteriormente.

Alguns identificadores de uma pessoa sob risco de suicídio:

» comportamento retraído, inabilidade para se relacionar com a família e


amigos;

» doença psiquiátrica;

» alcoolismo;

» ansiedade ou pânico;

» mudança na personalidade, irritabilidade, pessimismo, depressão ou


apatia;

» mudança no hábito alimentar e do sono;

» tentativa de suicídio anterior;

89
UNIDADE IV │ CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO

» odiar a si mesmo, sentimento de culpa, de se sentir sem valor ou com


vergonha;

» perda recente importante – morte, divórcio, separação etc.;

» histórico familiar de suicídio;

» desejo súbito de concluir os afazeres pessoais, organizar documentos,


escrever um testamento etc.;

» sentimento de solidão, impotência, desesperança;

» carta de despedida;

» doença física;

» menção repetida de morte ou suicídio.

A partir daí, o manual desenvolve vários outros aspectos importantes para o


profissional a fim de lidar com os pacientes de alto risco em suicídio. Portanto,
aspectos como esses cuidados apresentados revelam a importância de os profissionais
da saúde lidarem com a prevenção e a promoção da saúde, que são pontos muito
discutidos na Organização Mundial da Saúde, e que pretendem a remissão de
quadros com altos índices a partir de trabalhos em redes de apoios assistenciais.

90
CAPÍTULO 2
Falando de luto e morte

Embora saibamos que depois de uma perda dessas o estado agudo do


luto abrandará, sabemos também que continuaremos inconsoláveis
e não encontraremos nunca um substituto. Não importa o que venha
a preencher a lacuna, e, mesmo que esta seja totalmente preenchida,
ainda assim alguma coisa permanecerá. E, na verdade, assim deve
ser. É a única maneira de perpetuar aquele amor que não desejamos
abandonar.
(FREUD8, apud BOWLBY, p. 21)

Como profissionais da saúde, precisamos lidar constantemente com a morte, no ouvir


falar, no sentir e no vivenciar. Visto isso, é importante que nos preparemos para lidar
de modo saudável com esse assunto.

Quando nos deparamos com a situação de uma morte por suicídio começamos a nos
questionar, ficamos a buscar a razão, e nos sentimos tocados na nossa impotência,
na nossa incapacidade de perceber a dor alheia, de acolher a dor que poderia ter sido
amenizada. É quando vem a culpa. O pesar pelas mortes trágicas invade e não sabemos
o quê. Toca-nos a alma? Mexe com o nosso próprio desejo de viver? É a morte que
nos invade? É o que penso sobre a dor do outro que me atormenta? É uma espécie de
introjeção ou identificação dos sentimentos ou pensamentos alheios que me invade?

A morte é um fenômeno conhecido por nós desde a infância. Aprendemos mais sobre a
morte a partir da morte simbólica de objetos perdidos (inconscientemente), ou ainda,
com a morte de pequenos objetos – situações que vão ocorrendo no desenvolvimento.
Uma criança, por exemplo, pode ter aprendido sobre a morte quando percebeu que seu
único peixe do aquário já não mais nadava; recebendo a partir daí algum significativo
conceito de morte. Alguns autores deliberam que bebês podem sentir a morte quando
no processo de separação da mãe, no entanto, essa morte não é reconhecida mais
adiante. Uma criança em série escolar pode perguntar aos pais o que é morrer, uma vez
que a professora da sala ao lado morreu no dia anterior.

Falar sobre morte sempre foi algo que demandou muito do ser humano, pois requer um
significativo número de palavras utilizadas para expressar o inexprimível. Klüber-Ross
(2005) aborda os aspectos da morte desde o início da civilização humana e lembra que
a morte era muito mais evidente nos tempos passados, com as devastadoras epidemias,
moléstias infecciosas, com medicina arcaica, e em seu estado inicial, com as causas de

91
UNIDADE IV │ CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO

guerras e tantos outros fatores que faziam com que nos deparássemos com a morte a
todo tempo.

Na atualidade, a evolução da humanidade tem diminuído o encontro do sujeito jovem


com a morte, por um lado, e aumentado por outro. O autor ainda relata que do ponto
de vista psiquiátrico a morte sempre causa estranheza quando relacionada à morte do
nosso próprio eu. O inconsciente não compreende a finitude da vida, a finitude dos
projetos delineados e a finitude das relações dificultosamente construídas, e por isso,
tende a evitá-la.

O conhecimento da morte passa por várias etapas: quando crianças a etapa do medo, de
ter desejado a morte de um ente querido pode suplantar a superação e desencadear uma
crise duradoura ou não; quando crescemos e percebemos que a nossa finitude é algo
real e palpável paramos de sentir culpa diante do desejo e nos apegamos à realidade de
uma morte natural que respeite os projetos de vida e a nossa velhice.

Sobre a morte podemos agregar então o que é cultural, o que depende da sociedade que
estamos. A morte pode ser vista como tabu, ou como realidade. Como tabu a morte é
algo do aspecto natural e que não deve ser comentada; pode ser vista também como
fenômeno decrescente, uma vez que é possível de ser evitada com o crescimento dos
recursos tecnológicos e medicinais; ou ainda pelo lado oposto que atenta à realidade,
pois a morte está à espreita, uma vez que o número da população cresceu, assim como
o número dos perigos provenientes dela. (Ibidem, 2005).

Não existe amor sem perda. E não existe a superação da perda sem
alguma experiência de luto. Não ser capaz de vivenciá-la é ser incapaz
de entrar no grande ciclo de vida humano de morte e renascimento –
ser incapaz, isto é, de viver novamente. (LIFTON, 1975 p. 7)

Vejamos agora no ano de 2020, com a pandemia mundial (COVID-19) que aflige a
vida de todos nós seres humanos, cada um sendo afetado pelo medo, confundido pelo
instinto de proteção, de sobrevivência e de alguma forma sendo tocado pelo pensamento
de morte. Werlang, Botega et al. (2004) comentam que a morte é um evento que
encerra o processo de vida de uma pessoa, mas que não é a morte propriamente dita
que amedronta o ser humano, mas sim a sua caracterização, o modo de morte. A causa
de morte também é um ponto que preocupa o homem, pois a causa pode ser fruto
tanto das ações humanas provocadas intencionalmente ou não, como causas externas –
acidentes, guerras processos naturais e doença –, que de um modo evitável ou inevitável,
desprevenido, desavisado, levam do sujeito toda uma vida.

92
CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO │ UNIDADE IV

Como vimos, a reação à morte depende da cultura e do contexto, uma vez que ela pode
ser considerada como oportuna ou inoportuna. A morte oportuna se refere àquela morte
em que o tempo de vida foi realmente longo e já se esperava, pois a pessoa estava no
final da vida, houve a completude do ciclo de vida vital. Já a morte inoportuna refere-
se à morte prematura: a morte de um jovem, a morte súbita ou inesperada, a morte
acidental, catastrófica, violenta, ou vista como absurda. Do ponto de vista psicológico a
morte tem múltiplos significados que não nos cabe tratar aqui, mas que são importantes
no estudo da Tanatologia.

É preciso atentarmos para os sentimentos causados pela perspectiva da morte ainda em


vida, quando nos deparamos com o sofrimento de ter cerceada a liberdade por causas
que não controlamos (no caso das patologias, das pandemias), vivências de perda, ou
então quando nos deparamos com o sofrimento intolerável vivenciado em momentos
de crise, capazes de levar ao pensamento de suicídio ou ao ato consumado.

Lindermann (1945, apud PARKES, 1998) pesquisava acerca dos efeitos que o luto teria
sobre a saúde, uma vez que algumas doenças físicas e mentais estavam sendo atribuídas à
experiência de perda. Dessa forma era extremamente importante distinguir os sintomas
físicos e psicológicos que sustentassem a hipótese de que os sintomas apresentados
estavam relacionados aos pacientes enlutados.

Nos Estados Unidos algumas pesquisas em relação aos efeitos psicossomáticos, a


partir da perda, como o desamparo e a desesperança corroboraram com a ideia de que
doenças físicas poderiam vir com o luto. Embora para esse tipo de estudo houvesse
muitos vieses e críticas relacionadas, o luto na doença mental sempre foi um tema
estudado. O próprio autor questiona: o luto pode causar doenças mentais? Como o
estudo do luto tem sido trabalhado por muitos anos? Pesquisadores concluíram que
pacientes enlutados recebiam cuidados psiquiátricos pela primeira vez na vida após a
perda recente de alguém próximo. Além do que, descobriram que não menos do que
77% dos distúrbios psiquiátricos crônicos eram provocados pela morte de um parente
próximo. Os estudos encontraram casos de depressão reativa, neurose, distúrbio de
ansiedade e síndrome do pânico durante o primeiro tempo do luto.

Ninguém me havia dito que o luto se parecia com medo. Eu não estou
com medo, mas é como se estivesse. A mesma agitação no estômago, a
mesma inquietação, o bocejo. Estou sempre engolindo. (LEWIS, 1961)

Falaremos brevemente sobre os estágios de luto, Klüber-Ross (2005) apresenta a


negação e o isolamento como primeiro estágio do luto9 tido como normal. A negação

9 Para que não nos vejamos confusos, vamos falar dos estágios do luto para os pacientes que vivenciam estados de sofrimento
com a iminência da morte, e àqueles cuja perda de um familiar próximo está causando sofrimento.

93
UNIDADE IV │ CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO

inicial se dá no começo do anúncio da doença de pessoas cuja saúde era palpável, ou


cuja morte não se esperava.

Negação pode vir ainda de forma ansiosa quando um diagnóstico abrupto ou


prematuro invade a realidade do sujeito. São esses que na fase inicial do recebimento
da notícia em sua grande maioria apresentam essa defesa temporária. A negação não
permanece durante muito tempo, na maioria dos pacientes, uma vez que a realidade
se sobrepõe ao estado inicial da doença e a pessoa demonstra incapacidade ou
impossibilidade de sustentar a defesa diante dos fatos realísticos e desvia para um
outro tipo de defesa que pode ser o isolamento.

O isolamento pode se dar não só na fase da descoberta de um diagnóstico como também


na fase de um luto inicial, uma vez que o estado de estupor, letargia, retraimento
extremo, e até o uso de medicação, estado de confusão e desilusão podem acometer
o paciente nesse período. Por isso o acompanhamento se torna tão necessário, uma
vez que na negação ou isolamento a pessoa é ignorada e desconsiderada dentro de um
ambiente hospitalar, não recebe visitas ou vive em um refúgio fantasioso, podendo
passar por um processo ainda maior dentro do seu estupor, identificando-se com a
situação pela qual está passando e na fantasia inconsciente ela se sentirá cada vez mais
identificada com o sofrimento. Ficando mais tempo nessa fantasia, nesse estágio do
luto, a pessoa pode desenvolver características patológicas, agregando ainda outros
elementos, tais como a raiva, que corrobora com a sua fantasia identificatória de que é
uma pessoa não grata, cujos membros esperam apenas a morte; assim como a própria
pessoa que se foi, no caso do luto por perda.

A patologização da raiva no processo de luto se torna um complicador uma vez que


os sentimentos de negação substituídos pela raiva, revolta, inveja e ressentimento
afastam ainda mais as pessoas que tentam ajudar. Como lidar com a raiva que é
projetada em todos os ambientes? Essa é uma situação difícil para os que estão em volta
e principalmente para os parentes.

A pessoa adoentada ou a pessoa embotada se põe numa redoma cada vez mais densa, e
essa atitude pode ser sustentada pelos familiares que se negam a problematizar ainda
mais o momento de vida, e se afastam. Desse modo, a raiva parece fazer sentido dentro
da fantasia do paciente e só tende a crescer.

O familiar ainda pode imbuir-se de culpa ou se sentir humilhado e aos poucos ir desistindo
do paciente em vivência de luto. Nesse caso, é possível perceber que o paciente, quando
compreendido e respeitado, cujas atenções são dispensadas ao logo do tempo a ele,
sem cobrança ou ataque, se sentirá mais apto a controlar suas emoções, sabendo que os
sentimentos liberados não irão resolver os seus problemas, não farão com que a fantasia

94
CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO │ UNIDADE IV

de que ele não é tão amado se concretize, nem tampouco irão resolver a situação do seu
luto. É por isso que valorizar o humano que existe nele a partir da visita, e do cuidado
do outro, faz com que ele atue em níveis mais baixos de explosões temperamentais.

Nesse contexto é interessante que, uma vez que não analisemos o motivo da raiva do
paciente, nós possamos assumi-la em termos reais. A origem de raiva tem fundamento
e não deve ser reivindicada, pois, reagindo a essa raiva, tanto a família, quanto os
cuidadores ou equipe de saúde pode retroalimentar o comportamento hostil do paciente,
dificultando a remissão do sintoma.

O terceiro estágio, geralmente encontrado após o momento da raiva e geralmente


relacionado a uma certa religiosidade de quem sofre, é a barganha. Ele tenta fazer um
acordo com Deus. O doente em fase terminal pode pedir a cura, em contrapartida decide
doar parte de sua vida à serviço de Deus. Já no luto por perda, geralmente a barganha é
para que seja levado para junto com o falecido, já que não teria funcionalidade vivendo
isolado, sem a pessoa querida; geralmente isso acontece com as viúvas(os). Ao perceber
essa atitude, ou ao ouvir essa atitude, geralmente o médico ou capelão não devem
incentivar as ideias do paciente, mas tentar investigar, ou buscar ajuda adequada, a fim
de descobrir se o paciente está sentindo alguma culpa, ou se existem desejos, mesmo
que inconscientes, que acelerem tais culpas e levem ao desejo de morte. Sendo assim,
podemos juntos, como equipe multidisciplinar, trabalhar os sentimentos em relação à
perda e despertar o paciente para o sentido da vida.

O quarto estágio, o da depressão, não é difícil de compreender, uma vez que várias
situações como embotamento do sujeito, isolamento, dormir mais, falar menos,
e outros comportamentos diferentes que parecem estar levando o paciente a um
comprometimento em termos de comportamento e sensações que remetem à depressão.
Se falarmos na depressão de um paciente adoentado com morte iminente, devemos
compreender sua incapacidade diante das situações que ele deveria resolver antes de
sua morte. Em casos como esse, ajudar o paciente a descobrir pessoas ou até mesmo
utilizar a equipe para ajudá-lo a elaborar um plano ou realizar as questões práticas de
sua vida como, por exemplo, reorganizar o seu lar, entrar em contato com as pessoas
possíveis, acionar uma rede de apoio, tudo isso pode fazer com que o estado depressivo
diminua. No entanto, quando a depressão é o momento em que o sujeito se depara com
a sua própria inexistência, com uma perda de todos os seus objetos amados, trabalhar
com aspectos de encorajamento e confiança não é muito válido, pois nesse momento
o paciente necessita exteriorizar o seu pesar e compreender a sua própria situação e
impotência diante da morte.

95
UNIDADE IV │ CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO

O quinto estágio fala sobre aceitação e não deve ser confundido com estágio da
felicidade. Nesse momento os sentimentos, ainda confusos, permeiam mais para a
fuga, e ao cansaço, o cessar de uma batalha esgotante, que faz com que o paciente em
algum momento de repouso em si mesmo se entregue ao fato de encarar o processo
em que vive. Esse é um momento muito importante para os familiares e profissionais.
Estando os familiares já instruídos a não negar mais nada ao familiar que convalesce
e apenas aproveitar os momentos finais com amor, isso tranquilizará o paciente,
encaminhando-o a um estado de tranquilidade para viver os seus momentos finais,
inclusive estando aptos, todos, a decidir se o paciente permanecerá hospitalizado ou em
casa (em casos que essa opção seja possível).

Os cuidados paliativos nesse momento dão dignidade ao momento final de vida do


paciente, assim como a liberdade para expressar suas angústias, seus dramas, suas dores
e fantasias dão ao enlutado alívio e sentido de apropriar-se a uma vida nova e própria.
Pesquisas revelam que encarar as discussões sobre a morte não são contraindicadas
e que desmistificam uma situação que traria desconforto caso não fosse discutido. É
como se retirando a máscara do proibido o paciente se sentisse livre para morrer sem
segredos e fantasias fugazes, ou absorver a vivência do luto.

96
CAPÍTULO 3
Algumas Alterações Mentais de
Urgências e Emergências na Crise

Figura 14. Crise Psicológica.

Fonte: https://www.shutterstock.com/pt/image-illustration/psychological-trouble-mental-health-adversity-crisis-488449075.
Acesso em: 24/08/2020.

Começaremos por entender que a emergência psiquiátrica se dá pela alteração no


pensamento, sentimento ou comportamento manifestando-se como uma crise, que
necessita de intervenção imediata, uma vez que representa risco para o paciente ou os do
seu convívio. A urgência e emergência psiquiátrica se definem como qualquer alteração
psiquiátrica em que ocorra modificação do estado mental e resulte em risco atual e
significativo de morte ou risco grave para o paciente ou para terceiros, necessitando de
intervenção terapêutica imediata. (QUEVEDO; SCHMITT; KAPCZINSKI, 2008 apud
VEDANA, 2016).

O sofrimento emocional e físico dos pacientes que se apresentam em crise são visíveis
e influenciam as respostas do paciente ao tratamento, para isso, é necessário que ao
receber um paciente em crise emergencial possa ser oferecido um ambiente de segurança
e proteção – lugar em que ocorra comunicação fluida, clara, de conversa franca e
verdadeira. Ainda, pode ser preciso conter imediatamente a crise com uma equipe bem
treinada capaz de promover avaliação e intervenção com métodos não coercivos – que
impeçam a progressão da violência. Afinal a relação interpessoal terapêutica que sirva
de elo de vinculação no assistir o paciente deve existir.

97
UNIDADE IV │ CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO

MANEJO - Contenção do paciente

A violência é sempre um fator que pode existir na chegada ou presença de um paciente


transtornado ou que apresente alguma síndrome no estado agudo, porém, quando o
grupo de profissionais estiver pronto e puder demonstrar ao paciente que tem potencial
para auxiliá-lo, para conter sua destrutividade e manter a segurança, é possível começar
uma intervenção. (ROCCA et al., 2013 apud VEDANA, 2016).

As contenções são medidas tomadas tanto física quanto farmacologicamente para


impedir comportamentos destrutivos. No Brasil as contenções químicas são prescritas
por médicos.

Conduta suicida

Como já vimos o suicídio é uma conduta comportamental humana que representa a


única saída a um problema existencial da pessoa diante da impossibilidade de encontrar
outros meios de ajuda eficazes.

O profissional deve estar preparado para o manejo e a entrevista deste tipo de paciente,
assim como, estar preparado com todos os tipos de condutas suicidas e alterações
psicopatológicas para realizar um bom atendimento de emergência.

Fatores motivacionais para o suicídio

Sendo ele um fenômeno complexo e multicausal – resultado da interação de fatores de


ordem psicológica, biológica e social – são considerados fatores de risco devido a doença
física, transtornos mentais, sintomas psiquiátricos específicos, história psiquiátrica
prévia, depressão, tentativas prévias de suicídio.

Os motivos são diversos e podem apresentar o desejo pela própria morte, evitação do
sofrimento ou situação intolerável, mudanças de comportamento, testar os sentimentos
das pessoas do seu convívio, buscar ajuda, entre outros. Não importa qual é a real intenção
do paciente acerca da letalidade do método, ou o quê da sua tentativa provocou no
socorrista/médico/enfermeiro/psicólogo ou qualquer profissional que o recebeu, o que
importa é a existência de uma expressão de sofrimento ou comportamento disfuncional
associado a autoagressão, e é disso que se trata.

Diante da complexidade do assunto, a prevenção do suicídio e as ações em saúde


coletiva exigem esforços que devem estar pautados no conhecimento dos fatores de
risco e devem ser conhecidas pelo profissional da saúde.

98
CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO │ UNIDADE IV

Assim como a avaliação do risco de suicídio que deve identificar os principais


sentimentos daquele paciente que pensa em se matar, Brasil (2006) fala sobre os “4D”
que são a representação dos sintomas da depressão, da desesperança, do desamparo
e do desespero. Esses sintomas são importantes para destacar que o paciente está em
risco e que é preciso estar atento aos outros indícios que são o desinteresse pelo próprio
bem-estar, alteração no padrão comportamental, comportamento de risco e tentativa
de colocar os seus assuntos de interesse pessoal em dia. E ainda, o profissional deve
estar atento para identificar frases que são ditas pelo paciente que possam traduzir o
risco de suicídio, tais como: “não aguento mais essa vida“, “minha família ficará melhor
sem mim”.

É quando o profissional se dispõe a atender pacientes com comportamento suicida e


realizar um atendimento com acolhimento e escuta afetiva e efetiva que as chances
de perceber os sinais de risco no paciente se apresentarão. Uma vez que a equipe
estará disposta e preparada ao atendimento diferenciado que exige recursos da rede
de atendimento – sendo estes inclusive, capazes de interromper condutas suicidas.
Avaliação do risco de suicídio é importante e é necessária e não deve ser temida uma
vez que perguntar à pessoa sobre suicídio não vai levá-la a cometer suicídio, isso é um
engodo.

Algumas Alterações Mentais na Crise Psiquiátrica


de Emergência

O atendimento de emergência requer uma dose de cuidado, por isso é necessário


reconhecer quando o quadro é orgânico ou psiquiátrico/psicológico. Saber diferenciar
as alterações orgânicas pode fazer grande diferença no atendimento de urgência e
emergência uma vez que se a causa da doença que provoca os sintomas for fisiológica
há risco de tratamentos inadequados.

Portanto, é necessário ter atenção para os sintomas apresentados, verificar se as


alterações orgânicas apresentadas pelo cliente tiveram seu início em idade avançada, se
são por conta do abuso de substâncias psicoativas, se apresentam alucinações que sejam
não auditivas ou estejam relacionadas aos outros sentidos tais como táteis, visuais,
gustativas, olfativas; se há alterações cognitivas ou alterações da fala, dos movimentos
e da marcha, descartando uma possível crise de quadro psicológico e encaminhando
para o atendimento especializado.

99
UNIDADE IV │ CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO

Transtornos por Uso de Substâncias

Na Unidade de Pronto Atendimento (UPA) na sala de emergência, por exemplo, local


recente e vigente graças às políticas de atenção à saúde mental, o aparecimento de pessoas
com o uso de substâncias como o álcool prevalece e também aparece nas pesquisas com
quase 70% dos homicídios estando relacionado a outras doenças tais como hepatite,
hipertensão, estomatites, dentre outras (AMARAL, MALBERGIER, ANDRADE, 2010).
Esse tipo de paciente apresenta uma agitação psicomotora alterada, juntamente com
aumento da excitabilidade psíquica, podendo utilizar-se da agressividade no momento
do manejo, que  deve ser planejado e executado pela equipe de saúde. 

Delirium

É outro tipo de sintoma que pode ou não estar associado a um tipo de transtorno e
que prevalece nas salas de urgência e emergência psiquiátricas ou de salas de serviços
de atenção à população para um primeiro atendimento. O delirium é uma alteração
multifatorial presente nas taxas de mortalidade, nos índices de institucionalização, e
no maior tempo de internação. Se apresenta no paciente como inquietação cognitiva
aguda estado confusional, distúrbio da consciência, do comportamento, da memória,
do pensamento, da orientação, da atenção e da percepção (LÔBO et al, 2010).

Depressão

No serviço de emergência pronto-socorro ou Pronto Atendimento, a equipe de saúde


atenderá uma grande demanda de pacientes deprimidos, seja devido a própria
doença ou seja devido a doenças associadas que acometem aos sintomas da depressão
(RODRIGUES, 2000).

Já os autores Sá, Werlang e Paranhos (2008) relatam que pesquisas apontam 75% das
pessoas em situação traumática necessitam de uma boa avaliação para ver se consta a
possibilidade de distúrbios psíquicos com a presença de comorbidades como o abuso
de drogas e álcool, fobia, depressão e ansiedade.

Síndrome do Pânico

É marcada por sintomas intensos como sentimentos de catástrofe iminente, crises


de desespero, perda de controle, medo intenso, desrealização, despersonalização,
sensação de morte, e alguns outros sintomas que caracterizam uma crise de ansiedade
potencializada (MIGUEL; GENTIL; GATTAZ, 2011).

100
CRISE, MORTE POR SUICÍDIO E LUTO │ UNIDADE IV

A síndrome do pânico ocorre mais em mulheres devido à sua composição hormonal. A


primeira crise ocorre geralmente na adolescência ou início da idade adulta, mas pode
ocorrer em qualquer idade.

Psicoses

Estado psíquico dito como a incapacidade de diferenciar a experiência subjetiva


da realidade externa, trazendo alucinações e delírios nos períodos mais intensos de
crise. A psicose pode ser definida como estado agudo ou de crise chamado por surto
psicótico em que os sintomas associados são de pensamento desse desorganizado, a
insônia severa, tendência suicida, memória confusa, sentimento de extrema ansiedade,
agitação, nervosismo e comportamentos bizarros.

A psicose pode ser do tipo funcional como a esquizofrenia; ou orgânica como causa de
uma demência ou intoxicação. Esse tipo de paciente requer um bom acolhimento por
profissionais capacitados da área da saúde, uma vez que ignorar, tratar com hostilidade
ou de forma leiga pode piorar ou apresentar consequências no quadro desse estado
mental tão delicado.

É importante que diante dos conhecidos fatores de risco seja realizada a prevenção da
saúde mental e junto com a identificação dos sintomas tenhamos reunidos uma gama
de fatores protetivos que ofereçam maiores possibilidades no âmbito da saúde mental
e física.

Contudo, é possível que haja diminuição dos quadros de gravidade em emergências


psiquiátricas quando dada atenção adequada à saúde mental. Para tanto, foi visto
neste material que os pilares para promoção da saúde mental se dão pelo correto
diagnóstico, pelo suporte emocional, pelo profissional preparado e pela terapia eficaz.

101
Para (não) Finalizar

Figura 15. Dois caminhos.

Fonte: <http://thormay.net/koreadiary/doityourway.htm>. Acesso em: 24/08/2020.

Sua lógica, amigo, é perfeita

Sua moral, verdade atroz

Porém o som da terra no caixão dela,

É o que ouço, e não sua voz. 10


James Russel Lowell

https://www.youtube.com/watch?v=ep354ZXKBEs.

https://www.youtube.com/watch?v=oCBqHqQEeCQ. Entrevista com Cristina


Moura sobre o luto.

https://www.youtube.com/watch?v=K4lcr8ea9DI. Daniella de Faria aponta


como falar sobre a morte com crianças.

102
Referências

ABEL, Marcos Chedid. Diagnostic in Freud and Lacan: Objectives, Methods and
Criteria. Psicologia, Lisboa, v. 27, no 2, pp. 17-32, 2013 . Disponível em <http://www.
scielo.mec.pt/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0874-20492013000200001&lng=
pt&nrm=iso>. Acesso em: 19 de julho 2016.

AMARAL, Ricardo Abrantes do; MALBERGIER, André; ANDRADE, Arthur Guerra de.
Manejo do paciente com transtornos relacionados ao uso de substância psicoativa na
emergência psiquiátrica. Rev. Bras. Psiquiatr.,  São Paulo ,  v. 32, supl. 2, pp.104-
111,  Out.  2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_
arttext&pid=S1516-44462010000600007&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: on  16  June 
2020.  http://dx.doi.org/10.1590/S1516-44462010000600007.

ANCONA-LOPEZ, M. Psicodiagnóstico: processo de intervenção. São Paulo: Cortez


Editora, 2002.

ARAÚJO, Maria de Fátima. Estratégias de diagnóstico e avaliação psicológica. Psicol.


teor. prat., São Paulo, v. 9, no 2, pp. 126-141, dez. 2007. Disponível em <http://pepsic.
bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-36872007000200008&lng=pt
&nrm=iso>. Acesso em: 19 jul. 2016.

APA (American Psychiatric Association). DSM-IV-TR: Manual diagnóstico e estatístico


de transtornos mentais. Trad. Cláudia Dornelles; 4a ed. rev. Porto Alegre: Artmed, 2003.

APA (American Psychiatric Association). DSM-5: Manual diagnóstico e estatístico


de transtornos mentais. Trad. Cláudia Dornelles; 5a ed. rev. Porto Alegre: Artmed,
2014.

BARTHES, Roland. Elementos de Semiologia. 16a ed. São Paulo: Cultrix, 2006.
Disponível em: <https://books.google.com.br/books?hl=pt-BR&lr=&id=dIpHnKKXP
DkC&oi=fnd&pg=PA7&dq=semiologia&ots=znFPYtX-4W&sig=uNB9qY1Sx1uKZwtuA
r9LTYRfOPw#v=onepage&q=semiologia&f=false>. Acesso em: 20 jul. 2016.

BARROSO, Sabrina Martins. Avaliação Psicológica: análise das publicações disponíveis


na Scielo e BVS-Psi. Fractal: Revista de Psicologia, v. 22, no 1, pp. 141-154, 2010.

BERGAMINI, C. W. TASSINARI, R. Psicopatologia do comportamento


organizacional. São Paulo: Cengage Learning, 2008.

103
REFERÊNCIAS

BERLINCK, Manoel Tosta. A noção de subjetividade na Psicopatologia Fundamental.


Rev. latinoam. psicopatol. fundam., São Paulo, v. 13, no 4, pp. 551-557, Dec. 2010
. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-
47142010000400001&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 18 jul. 2016.

BERTOLDI, S. G., BRAGA F. A. MENDES, H. A. Entrevista médica. In: NETO,


A. C.; GAUER G. J. C.; FURTADO N. R. Psiquiatria para estudantes de medicina.
Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil: promulgada em 5 de


outubro de 1988. São Paulo: Saraiva, 1988.

BRASIL. Ministério da Saúde. Prevenção do suicídio: manual dirigido a profissionais


das equipes de saúde mental. Brasília, 2006.

CANGUILHEM, G. O normal e o patológico. 5a ed. rev. Rio de Janeiro: Forense


Universitária, 2002.

CECCARELLI, P. O sofrimento psíquico na perspectiva da psicopatologia fundamental.


Psicologia em Estudo, Maringá, v. 10, no 3, pp. 471-477, set./dez. 2005. Disponível
em: <http://www.scielo.br/pdf/pe/v10n3/v10n3a14.pdf> Acesso em: 20 maio de 2013.

CFP - CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA. Resolução CFP no 7/2003.


Brasília: 2003. Disponível em: <http://site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2003/06/
resolucao2003_7.pdf> Acesso em: 20 jul. 2016.

______. Cartilha Avaliação Psicológica. Brasília: 2013. Disponível em: <http://


site.cfp.org.br/wp-content/uploads/2013/12/Avaliac%CC%A7aopsicologicaCartilha1.
pdf> Acesso em: 21 julho de 2016.

COON, D. Introdução à Psicologia: uma jornada. São Paulo: Thomson Learning,


2006.

CUNHA, J.A. et al. Psicodiagnóstico – V. 5a ed. Revisada e ampliada. Porto Alegre:


Artmed, 2003.

DALGALARRONDO, P. Psicopatologia e semiologia dos transtornos mentais.


2a ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.

DAVANLOO, H. Short-term dynamic psychotherapy. Jason Aronson: New Jersey,


1986.

104
REFERÊNCIAS

DUERO, Dante. G. El Diagnóstico Psicopatológico: Características y Supuestos


Epistemológicos en los que se Sustenta. Revista Colombiana de Psicología, v.
22, no 1. Bogotá: Colômbia, 2013. Disponível em: <http://www.redalyc.org/articulo.
oa?id=80428081007>. Acesso em: 19 julho de 2016.

ERICKSON, E. H. Identidade: juventude e crise (2a ed.). Rio de Janeiro: Zahar, 1976.
(Texto original publicado em 1968).

FERREIRA, Ademir P. O ensino da psicopatologia: do modelo asilar à clínica da


interação. Rev. Latinoam. Psicopat. Fund., v. 4, pp. 11-29, 2002. Disponível em:
<http://www.fundamentalpsychopathology.org/uploads/files/revistas/volume05/
n4/o_ensino_da_psicopatologia.pdf> Acesso em: 20 jul. 2016.

FREMOUW, W.; PERCZEL, M.; ELLIS, T. Suicide risk: assessment and response
guidelines. Elmford, NY: Pergamon Press, 1990.

FREUD, S. Algumas considerações para um estudo comparativo das


paralisias motoras orgânicas e histéricas. Edição Standard Brasileira das Obras
Psicológicas Completas, v. I, 2. ed., pp. 175-91. Rio de Janeiro: Imago, 1987.

FREUD, S. Novas Conferências Introdutórias. Edição Standard Brasileira das


Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XXII, pp. 13-220. Rio de Janeiro:
Imago, 1976.

GABBARD, G. O. Psiquiatria psicodinâmica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1998.

GAUER, G. Psicologia e medicina. In: História da Psicologia. 2007. Disponível em:


<http://www.fafich.ufmg.br/cogvila/dischistoria/hip_medpsic.pdf> Acesso em: 23
maio de 2012.

GOMES, W. B., GAUER, G.; SOUZA, M. L. História da Psicologia. Debates


Epistemológicos entre empiristas e racionalistas. Porto Alegre: Universidade
Federal do Rio Grande do Sul, 2007.

JARNE A.; TLARNE, A. Manual de psicopatología clínica: temas de salud mental.


Paidós: Fundación Vidal i Barraquer, 2009.

JASPER, K. General psychopathology. Chicago: University of Chicago Press, 1963.

KAPLAN H. I.; SADOCK, B. J.; GREBB J. A. Compêndio de psiquiatria. 7a ed. Porto


Alegre: Artmed, 1997.

105
REFERÊNCIAS

KNAPP, Paulo. et al. Terapia Cognitivo-Comportamental na Prática


Psicopatológica. Porto Alegre: Artmed, 2007.

KOVÁCS, Maria Júlia. Morte e Desenvolvimento Humano. São Paulo: Caso do


Psicólogo, 1992.

KÜBLER-ROSS, Elisabeth. Sobre a morte e o morrer. São Paulo: Martins Fontes,


2005.

LEWIS, C.S. A Grief observed (1961). In: TÓIBIN, C. A Literatura do Luto. 2015.
Disponível em: http://historico.blogdacompanhia.com.br/2015/06/a-literatura-do-
luto/. Acesso em 26/08/2020.

LÔBO R, SILVA FILHO S, LIMA N, FERRIOLLI E, MORIGUTI J. Delirium. Medicina


(Ribeirao Preto Online) [Internet]. 30set.2010 [citado 16jun.2020]; v. 43, n. 3, pp. 249-
57. Disponível em: <http://www.revistas.usp.br/rmrp/article/view/182>.

LOBOSQUE, Ana Maria. Experiências da loucura. Rio de Janeiro: Garamond, 2001.

MARTINS, Francisco. Psicopathologia II - Semiologia Clínica. Brasília:


Laboratório de Psicopatologia e Psicanálise/ABRAFIPP, 2003.

MESSAS, G. P. Psicopatologia e transformação: um esboço fenômeno-estrutural.


São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.

MIGUEL, E.C.; GENTIL, V.; GATTAZ, W.F. Clínica psiquiátrica, Barueri, SP:
Manole, 2011.

MIRANDA-SÁ Jr. L. S. Psicopatologia & semiologia psiquiátrica. Porto Alegre:


Artmed, 2001.

MOREIRA, Virginia. O método fenomenológico de Merleau-Ponty como ferramenta


crítica na pesquisa em psicopatologia. Psicol. Reflex. Crit. Porto Alegre, v. 17, no
3, pp. 447-456, 2004 . Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_
arttext&pid=S0102-79722004000300016&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 18 jul. 2016.

MUCHINSKY, P. M. Psychology applied to work: an introduction to industrial and


organizational psychology. Belmont: Thomson Wodsworth, 2006.

NALLI, Marcos Alexandre. Foucault e a fenomenologia. São Paulo: Loyola, 2006.

NETO, C. A.; GAUER, G. J. C; FURTADO, N. R (Orgs.) Psiquiatria para estudantes


de medicina. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2003.

106
REFERÊNCIAS

OLIVEIRA, M. S.; WERLANG, B. S. G. (Orgs). Temas em Psicologia Clínica. São


Paulo: Casa do Psicólogo, 2006.

PARKES, Colins Murray. Luto – estudos sobre a perda na vida adulta. São Paulo:
Summus, 1998.

POZO, Rosário García. Michael Foucault: un arqueólogo del humanismo. Sevilla:


Universidad de Sevilla, 1988.

RODRÍGUES, J. M. Guias Práticos de Enfermagem: Emergências. Rio de


Janeiro: McGraw-Hill, 2000.

RUILOBA, J. V. Introducción a la psicopatología y la psiquiatría. 8ª ed.


Barcelona: Masson, 2015.

SÁ, S. D; WERLANG, B. S. G; PARANHOS, M. E. Intervenção em Crise. Revista


brasileira de terapias cognitivas, 2008, volume 4, número 1.

SCHLEDER, Karoline Stoltz; HOLANDA, Adriano Furtado. Nise da Silveira e o enfoque


fenomenológico. Rev. abordagem gestalt. Goiânia, v. 21, no 1, pp. 49-61, jun. 2015.
Disponível em <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1809-
68672015000100006&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em: 18 julho de 2016.

SIMON, R. Psicologia clínica preventiva: novos fundamentos. São Paulo: EPU,


1989.

STEIN, F.; CUTLER, S. K. Psychosocial occupational therapy: a holistic approach.


Delmar: Thomson Learning, 2002.

TAVARES, Marcelo. A entrevista clínica. In: CUNHA, J. A. et al. Psicodiagnóstico –


V. 5a ed. Revisada e ampliada. Porto Alegre: Artmed, 2003. pp. 45-56.

TAVARES, Marcelo. Validade Clínica. PSICO-USF, v. 8, no 2, pp. 125-136, 2003.

TAVARES, Marcelo. O conceito de crise e seus efeitos na prevenção e na


intervenção em crise. Brasília: Laboratório de Psicoterapia e Psicodiagnóstico,
Universidade de Brasília, 2004.

TODOROV, J. C. A psicologia como o estudo de interações. Rev. Psicologia: teoria e


pesquisa, v. 23 no especial, pp. 57-61. Brasília: UNB, 2007. Disponível em: http://www.
scielo.br/pdf/ptp/v23nspe/10.pdf Acesso em: 1 julho, 2016.

VEDANA, K. G. G Urgências e emergências psiquiátricas. EERP – USP, 2016.

107
REFERÊNCIAS

WERLANG, B. G.; BOTEGA, N. J. Comportamento Suicida. Porto Alegre: Artmed,


2004.

Sites
1. https://image.shutterstock.com/image-illustration/psychopathology-digital-technology-
medical-concept-260nw-627129026.jpg.

2. https://blogdaboitempo.com.br/2016/03/02/desencontro-com-nise-da-silveira/.

3.https://image.freepik.com/free-photo/portrait-young-woman-who-with-horror-
fear-is-trying-escape-from-many-hands-pulling-her-back-tearing-her-apart-concept-
loneliness-loss-fear-scary-terrible-portrait_116124-673.jpg.

4. https://gerentesinteligentesyemocionales.wordpress.com/category/opinion/.

5.https://www.elconfidencial.com/alma-corazon-vida/2008-08-30/medicamentos-
antipsicoticos-cuando-el-remedio-es-peor-que-la-enfermedad_304849/.

6. https://www.gleauty.com/ES/Alcobendas/306968863549028/Audimed-Farma.

7.https://franciscagonzalezr.wixsite.com/franciscagonzalezr/single-
post/2015/08/08/La-labor-del-Psic%C3%B3logo/.

8. https://easyhealthoptions.com/surest-way-nimble-brain/.

9. http://hijodelaluna-mphisto.blogspot.com/2016/.

10. https://grupo4marketingcliente.blogspot.com/2019/03/el-cliente-el-cliente-es-la-
persona-que.html.

11.http://ipsy-isabellaflores.blogspot.com/2015/04/sobre-ser-sao-em-lugares-
insanos.html.

12.https://proyectopcne.wordpress.com/category/%E2%82%AA-analisis-pcne-
%E2%82%AA/.

13 https://br.pinterest.com/pin/638526053401521695/.

14. https://ippsyunb.blogspot.com/.

15. http://www.bbc.com/portuguese/noticias/2015/09/150922_suicidio_jovens_fd

108
REFERÊNCIAS

16. https://www.shutterstock.com/pt/image-illustration/psychological-trouble-mental-
health-adversity-crisis-488449075.

17. http://thormay.net/koreadiary/doityourway.htm.

Outras Referências:
http://pt.scribd.com/doc/47867973/Exame-psiquico

http://www.medicinanet.com.br/m/conteudos/revisoes/5743/emergencias_
psiquiatricas_em_criancas_e_adolescentes.htm

109
Anexos

Quadro 1. Contrato de Vida.

CONTRATO DE VIDA
Como parte do programa de minha terapia, eu _________________ (nome), concordo com os seguintes termos:
1. Concordo que um de meus maiores ganhos terapêuticos é viver uma vida longa com mais prazer e menos infelicidade do que eu tenho agora.
2. Entendo que me torno suicida quando me deprimo ou não acredito mais neste ganho, mas, no entanto, gostaria de diminuir esta tendência. Eu
concordo em usar a minha terapia para aprender a lidar melhor com os meios de reduzir meu mal-estar emocional.
3. Partindo do conhecimento de que isso demandará algum tempo, concordo neste período em recusar o ato de me machucar ou me matar entre
os dias:____ a _____ (data).
4. Se, em algum momento, eu me sentir incapaz de resistir aos impulsos suicidas, eu concordo em telefonar para (nome do terapeuta)
_____________________, número ___________ ou ______________ (nome do coterapeuta), número ______________. Se
estes estiverem impossibilitados de atender naquele momento, eu concordo em ir diretamente ao ______________ (hospital ou clínica) em
____________ (endereço).
5. Meu(s) terapeuta(s), ______________ e ___________ concorda(m) em trabalhar comigo nas sessões marcadas para ajudar-me a aprender
alternativas para me proteger e avaliar situações tão racionalmente quanto possível, durante os períodos de ____________ (data).
6. Eu concordo em cumprir este contrato até que ele expire ou renegociá-lo com meu(s) terapeuta(s). Eu compreendo que este seja renovável até
ou próximo de ______________ (data).
__________________________________ ______________
Assinatura data

__________________________________ ______________
Assinatura do Terapeuta data

__________________________________ ______________
Assinatura do Terapeuta data

Fonte: Elaboração pela a autora.

110
Anexo I

Comportamento suicida
O comportamento suicida abrange os gestos suicidas, as tentativas de suicídio e o
suicídio consumado. Os planos de suicídio e as ações que têm poucas possibilidades de
levar à morte são chamados gestos suicidas. As ações suicidas com intenção de morte,
mas que não atingem o seu propósito, chamam-se tentativas de suicídio. Algumas
pessoas que tentam suicidar-se são descobertas a tempo e salvas. Outras pessoas que
tentam suicidar-se têm sentimentos contraditórios acerca da morte e a tentativa pode
falhar, porque é, na realidade, um pedido de ajuda combinado com um forte desejo
de viver. Finalmente, um suicídio consumado tem como resultado a morte. Todos os
pensamentos e os comportamentos suicidas, quer se trate de gestos, quer de tentativas,
devem ser tomados a sério.

O comportamento autodestrutivo pode ser direto ou indireto. Os gestos suicidas,


as tentativas de suicídio e o suicídio consumado são exemplos de comportamento
autodestrutivo direto. O comportamento autodestrutivo indireto implica a participação,
geralmente de modo repetido, em atividades perigosas sem que exista uma intenção
consciente de morrer. Exemplos de comportamento autodestrutivo indireto incluem o
abuso do álcool e das drogas, o abuso do tabaco, o comer em excesso, o descuido com
a própria saúde, a automutilação, a condução de um veículo de modo temerário e o
comportamento criminoso. Das pessoas com comportamento autodestrutivo indireto
diz-se que têm um “desejo de morte”, mas geralmente existem muitas razões para este
comportamento.

Epidemiologia

Como as estatísticas de suicídio se baseiam principalmente nas certidões de óbito e


nas pesquisas judiciais, existe certamente uma subestimação da verdadeira incidência.
Mesmo assim, o suicídio encontra-se entre as primeiras 10 causas de morte. O suicídio
é a causa de 30% das mortes entre os estudantes universitários e 10% das mortes em
pessoas entre 25 e 34 anos. É a segunda causa de morte entre os adolescentes. No
entanto, mais de 70% das pessoas que se suicidam têm mais de 40 anos e a frequência
aumenta dramaticamente nos maiores de 60 anos, sobretudo nos homens. As taxas de
suicídio são maiores nas áreas urbanas do que nas rurais.

111
ANEXOS

Em contraste, as tentativas de suicídio são mais frequentes antes de chegar à meia-idade.


As tentativas de suicídio são particularmente frequentes entre as adolescentes solteiras
e entre os solteiros com cerca de 30 anos. Embora as mulheres tentem suicidar-se com
uma frequência três vezes superior à dos homens, estes consumam o suicídio numa
proporção quatro vezes superior à delas.

As pessoas casadas têm menos probabilidades de tentar ou de levar a cabo um suicídio


do que as pessoas separadas, divorciadas ou viúvas que vivem sozinhas. Os suicídios
são mais frequentes entre os familiares de quem já fez uma tentativa ou já se suicidou.

Muitos suicídios ocorrem nas prisões, particularmente entre os homens jovens que
não cometeram crimes violentos. Estas pessoas enforcam-se, geralmente, durante a
primeira semana de prisão. Os suicídios em grupo, quer impliquem um grande número
de pessoas, quer só duas (como um casal de namorados ou de cônjuges), representam
uma forma extrema de identificação com a outra pessoa. Os suicídios de grandes grupos
tendem a ocorrer em situações com uma grande carga emocional ou nos fanatismos
religiosos que ultrapassam o forte instinto de sobrevivência.

As taxas de suicídio entre advogados, cientistas, médicos (especialmente do sexo


feminino) e pessoal militar são mais altas do que na população geral. A intoxicação
com medicamentos é uma forma frequente de suicídio entre os médicos, possivelmente
porque podem obter os fármacos com facilidade e sabem qual é a dose letal.

O suicídio acontece com menor frequência entre os membros praticantes de grupos


religiosos (particularmente os católicos), que geralmente se apoiam nas suas crenças,
têm laços sociais próximos que os protegem da autodestruição e estão também
proibidos de cometer tal ato devido às suas crenças. No entanto, a filiação religiosa e
as crenças profundas não impedem necessariamente a realização de atos suicidas por
motivos de frustração, ira e desespero, especialmente quando são acompanhados de
um sentimento de culpabilidade ou de indignidade.

Uma de cada seis pessoas que se suicida deixa uma nota escrita. As notas fazem muitas
vezes referência a relações pessoais ou a acontecimentos que devem acontecer depois
de a pessoa ter morrido. As notas escritas pelas pessoas de idade avançada exprimem
preocupações pelos que deixam para trás, enquanto as notas escritas pelos jovens
podem ser de agastamento ou de reivindicação. Uma nota deixada por alguém que
tenta suicidar-se, mas não o consegue, indica que a tentativa foi premeditada; o risco
de voltar a tentar é, portanto, elevado.

112
ANEXOS

Causas

O comportamento suicida resulta geralmente da interação de vários fatores:

» Perturbações mentais: fundamentalmente depressão e abuso de


substâncias.

» Fatores sociais: desilusão, perda e ausência de apoio social.

» Perturbações da personalidade: impulsividade e agressão.

» Uma doença orgânica incurável.

Mais da metade das pessoas que se suicidam estão deprimidas. Os problemas


matrimoniais, uma relação amorosa acabada ou problemática ou uma perda pessoal
recente (particularmente entre as pessoas de idade avançada) podem precipitar a
depressão. Muitas vezes, um fator como a ruptura de uma relação pessoal é considerado
o estopim para pensamentos e atitudes onde havia pensamentos recorrentes. A
depressão combinada com uma doença orgânica pode levar a tentativa de suicídio. Uma
deficiência física, especialmente se for crônica ou dolorosa, tem maior probabi