Universidade da Beira Interior Departamento de Ciências Sociais e Humanas 2º Ciclo: Sociologia: Exclusões e Políticas Sociais Estado-Providência e Políticas

Sociais

Estado-Providência e Políticas Sociais: Saúde e Exclusão Social

Docente: Prf. Dr. Nuno Augusto Discente: Sandra Matos (m3453)

Segundo Beck (2000:2). Políticas sociais. ou seja.Introdução Em resposta à sociedade do risco. Conceitos Chave: Sociedade do Risco. Uma das principais características desta nova sociedade é o facto de que a individualidade de cada um. sem as âncoras. irá analisar-se o conceito de exclusão social e o modo como este está patente no acesso aos serviços de saúde. políticas de saúde. e tem implicações nas condições de saúde. que o auxiliavam na sociedade industrial. vem ao de cima. à cada vez maior desigualdade entre sectores da sociedade e às elevadas situações de exclusão social. exclusão social 1 A saúde no quadro da Sociedade do Risco Viveu-se a transformação ou transição de um tipo de sociedade para outro. Individualização. deixamos de possuir os modelos estandardizados que nos encaminhavam na sociedade industrial e procuramos fazer as nossas próprias escolhas tendo em conta os riscos que a elas vem associadas. Estado-providência. hoje vive-se numa sociedade ambivalente e recheada de riscos. a sociedade industrial entrou num processo de “(auto)destruição” o que deixou os indivíduos sem as certezas absolutas. esta transição é o resultado de uma “modernização reflexiva”. se antes se tinha uma sociedade de certezas. Num segundo momento. Assim no seguinte trabalho tem-se como principais objectivos caracterizar as políticas de saúde primeiramente no âmbito da sociedade do risco e posteriormente e de modo mais amplo no quadro do Estado-providência português. pois não . o Estado-providência surgiu como suposta resposta a estas conjunturas.

não é estável. encenar e montar eles próprios as suas biografias” (Beck. onde se acentua a condição de mulher e de baixo nível de escolaridade. 4) pluriactividades do emprego.sabemos ainda em que sociedade estamos a entrar. como a família e a classe social. Baudrillard). Sociedade do Consumo (J. habitação e vestuário. e daí. Bauman). in Mitjavila. fazendo assim por “produzir. nos quais têm a necessidade de se exporem e adaptarem a novas situações e relações permanentemente. pós-modernidade. a existência dos recibos verdes que não garantem as condições de trabalho como os subsídios. 1 2 Sociedade do Risco (Beck). ter trabalho significava estabilidade laboral e a garantia de acesso à não-exclusão. Para além da importante questão da (construção da) identidade. saberes e identificações” (Paiva e Calheiros. dos padrões da sociedade industrial. apresentando assim um paradoxo. os indivíduos deixam de ter uma profissão para passarem a ter várias que vão gerindo. modernidade tardia. existem três áreas onde a noção de risco se evidencia. que na linguagem de Giddens se designa pela criação de uma “biografia reflexiva” (in Mitjavila. mas não menos importante 5) o elevado nível de endividamento. e de seguida ocorre uma “recontextualização” aos novos modelos da sociedade em que vivem. Segundo Pedro Hespanha (2002: 29-36) e outros autores. trata-se apenas “do surgimento de uma nova forma de conduzir e organizar a vida. os indivíduos têm assim espaço para escolher o seu percurso identitário. 2004: 73). Modernidade Líquida (Z. . e por último. já não respondem às suas necessidades. da política e da sociedade de providência. ainda a dificuldade em designa-la1. por exemplo. visto serem as mulheres quem possui mais habilitações. já não mais obrigatória e vinculada a modelos tradicionais” (Beck. 2004: 73)2. 1) o desemprego. hoje apenas é apresentado como um dos contextos onde a vulnerabilidade é acentuada. 2001:143). a questão do trabalho. que surge para satisfazer necessidades básicas como a alimentação. devido às diversas situações os indivíduos sujeitam-se aos chamados “biscates”. Para Beck. esta individualização é um processo. flexível e temporário. 2000: 13). primeiro de “descontextualização” em que os indivíduos começam por se libertar das bases sociais. 3) baixos rendimentos. 2) a precariedade do emprego. se na sociedade Industrial. pois percebem que os modelos padronizados. mas não no vazio. evidenciadas em Hespanha et al (2002) O trabalho é cada vez mais precário. o trabalho é marcado por cinco dimensões importantes. segunda modernidade… 2 A vida dos indivíduos é comparada a uma “colcha de retalhos” em que os indivíduos sobre a identidade que possuem cozem “novas crenças.

escola. 1986: 20). A regulação Estatal tem vindo a perder força e não só a nível da saúde. velhice. contudo estas são também geradoras de desigualdades. a saúde e a doença estavam ligadas ao sagrado. desporto. como o trabalho. o que antes também era impensável. abordada anteriormente. mais enraizadas no âmbito do discurso científico. Com a modernização a saúde e a doença passaram para um período secular. “a história social das doenças nas sociedades europeias tem revelado que. A saúde que antes era considerada algo do âmbito familiar. da sociedade industrial. antes eram consideradas como situações normais. o âmbito específico deste trabalho. etc” (Carapinheiro. sem lhes ser atribuído qualquer tipo de indícios de doença. estão cada vez mais diversificadas e mais especializadas. já para não referir que existem políticas que respondem às necessidades da anterior realidade. 2002: 37). a individualização. 1986:10). esta é posta em casa de devido às características da nova sociedade. privado passou para as agendas políticas e tornou-se um assunto público. Neste âmbito existem também novos agentes a quem cabe também as decisões e o controle. esta modificação tem consequências na maneira como é entendida e vivida a saúde. e a redução de confiança nas relações interpessoais. situação que se veio a alterar. “a ausência de respostas adequadas às necessidades torna-se num factor activo de risco social para esses agregados” (Hespanha. acções e interpretações dos membros de uma sociedade. e tal. 2002:46) nomeadamente em situações de exclusão e/ou pobreza. 3 Referindo mais especificamente a área da saúde. sexualidade.O Estado responde a este contexto com políticas sociais. o exemplo claro disto é a doença da “obesidade” e da “hiperactividade”. através de forças divinas. com a globalização muitas das decisões estatais ultrapassam os próprios estados. ou seja não são compatíveis com as necessidades actuais. Logo se houve uma alteração no tipo de sociedade. esta é uma construção social. “foi penetrando em domínios não tradicionais. o que significa que as características importantes da saúde e da doença são criadas e influenciadas pelas atitudes. uma doença «domina a realidade da experiencia e a estrutura das representações» ” (Herzlich e Pierret in Carapinheiro. Por último a Sociedade Providência. contudo ainda são estas “relações de entreajuda baseadas em relações de parentesco e de vizinhança que assumem a cobertura do risco social” (Hespanha e tal. Contudo é . em asa época. revelando-se inadequadas e insuficientes.

o mercado e a família”. s/d:2) isto ocorre devido aos vincos que a medicina deixa na sociedade. entre Estado.S. Portugal viveu sobre um regime ditatorial até aos inícios da década de 70 e o facto de Portugal ser altamente rural. sem o terceiro sector e sem urbanização (Portugal. através das “ novas competências e técnicas adaptadas à especificidade da actuação médica (…) maior clarificação das funções sociais da medicina (…) inauguração de estratégias de apropriação de novas posições de poder nunca experimentadas anteriormente” (Carapinheiro.16) existem três modelos de Estado-providência construídos tendo em conta o modo como “repartem as responsabilidades sociais entre o estado. O Estado-providência é o resultado de “ um compromisso. sem industrialização. o modelo . através das políticas sociais (Santos. ou de um certo pacto teorizado no plano económico por Keynes. Mas relembre-se que em primeiro lugar acredita-se no poder da medicina e dos médicos” (Carvalho. o capital e o trabalho. nos termos do qual os capitalistas renunciam a parte da sua autonomia e dos seus lucros e os trabalhadores a parte das suas reivindicações” com o objectivo de obter paz social e a acumulação de capital para a posterior distribuição em direitos sociais. 4 Estado-Providência e as Políticas Sociais – o caso das políticas de Saúde Estado-Providência em Portugal Já os outros países se encontravam com o seu Estado-providência em crise quando Portugal constrói o seu “tardiamente e de forma problemática”. assim tem-se o modelo Anglo-saxónico. 1986: 20). “os indivíduos experimentam formas alternativas de curar se uma eventualidade surgir. 1990:194) Segundo Esping-Andersen (1998: 15. isto porque. como de seguida vão aos “curandeiros” ou ao “endireita”. 2005:1-2). os indivíduos tanto se dirigem ao hospital. Os indivíduos fazem escolhas e ponderam os riscos a elas associadas.visível que ainda hoje estas duas lógicas coexistem. B.

a tentativa de interdependência entre acumulação e legitimação também não ocorreu. 2002: 186). B. entre os quais Boaventura Sousa Santos. 1998:15-17) . ou mais amplamente. S. tendo em conta as características comparativas que levaram há existência deste nos outros países. O modelo da Europa continental combina características dos anteriores. o papel do Estado é valorizado em detrimento do mercado. e Ferreira. a articulação entre democracia e capitalismo e a concertação entre capital e trabalho. que coloca em causa a existência de um Estado Providência em Portugal. entre acumulação e legitimação.. legitimou-se o modelo político.. O modelo Escandinavo serve a totalidade dos indivíduos. um Estado-providência “assenta na ideia de compatibilidade (e até complementaridade) entre crescimento económico e políticas sociais. a intervenção do Estado é mínima. aposta numa lógica de colectivização do dos direitos sociais. depende do trabalho (masculinizado) sobre o qual recai uma protecção excessiva o que leva a uma quebra das taxas de natalidade e de fecundidade (Santos. o emprego feminino. leva também há existência de discordâncias entre os vários teóricos. concebidas dentro de um mesmo conceito. e Ferreira. a existência de um SNS que procura o carácter de universalista. é universalista. ocorreram “já num contexto de “crise” internacional do Estado-providência” (Santos. 2005:3. uma vez que dirige a acção social para os mais desfavorecidos. que para além de Portugal inserem também Itália. Espanha e Grécia. Este tem como principais características. Sílvia. o crescimento demográfico. o de Estado-Providência. B. Esping-Andersen. e Ferreira. antes da revolução de 1974 era permitida a acumulação mas não existia legitimação democrática. como Maurizio Ferrera que devido às especificidades do caso português.S. 2005:3). constituindo assim o “modelo social do sul” (in Portugal. a combinação ente público e privado sem intervenção por parte do Estado e ainda a visão assistencialista do Estado (Ferrera in Portugal. e afirmando o contrário encontram-se os teóricos Juan Mozzicafreddo e António Barreto. 5 Devido às divergências entre as várias realidades. 2002:192).S. entre capitalismo e democracia” (1990: 196). Contudo existem outros autores. mas em 3 O modelo anglo-saxónico é considerado o mais excludente. Portugal não possui um Estado-providência. procura a universalidade mas ao mesmo tempo combina privado – público. contudo Portugal não “obedece” a estes pontos. no qual Portugal se insere segundo o mesmo autor. S. Segundo Boaventura Sousa Santos. De acordo com o mesmo autor. consideram a existência de um quarto modelo de “welfare state”. G. após esta. aposta numa privatização da segurança social e dos direitos sociais não os universalizando.Escandinavo e o modelo da Europa continental3. Ferrera in Santos.. um sistema “fragmentado e corporativista” o que leva a uma protecção social desigual. 2002:179-181. S. apoiando a fecundidade e a maternidade. B.

não permitia. e Ferreira. B. 6 A crise do Estado-providência poderá se chamar de tripla crise. que apesar de fraco e incipiente é indiscutível a existência de um Estado-providência em Portugal. também. 1997:32).contrapartida a acumulação económica era fraca o que. a “intervenção do Estado no mercado através da regulação económica e de políticas macroeconómicas”. 1990). o rápido desenvolvimento de “políticas sociais e de compensação”.S. “de uma internalização. Do lado discordante. e ainda a tentativa de “diminuição das desigualdades sociais através da consertação entre parceiros sociais e económicos” (Mozzicafreddo. isto é. uma vez que os factores para tal se situam em três elementos importantes. 1997:31). por parte da burocracia estatal. analítica e política. a crise financeira. faz com que ocorra a crise de legitimação e por último. das despesas e serviços sociais como direito dos cidadãos”. sendo eles “o impacto da internacionalização . isto é “o Estado tende a fazer despesas acima dos seus recursos”. Na base das suas teorias estão argumentos como a “existência política e administrativa do Estado-providência”. isto é. de manter em quantidade e qualidade os direitos sociais (Santos. S. o que faz com que se veja os direitos sociais não como tal mas sim como uma “benevolência estatal”. neste ponto “Portugal está ainda longe o modelo europeu de burocracia social. Também é de referir que em Portugal o Estado-providência não resultou de processos democráticos e conquista social. das características do Estadoprovidência em Portugal não indica necessariamente a não existência desta forma política e social do Estado de direito” (Mozzicafreddo. indica outros três factores para a crise do Estado-providência. em algumas áreas” (Santos. o facto de a questão das desigualdades continuar a existir de forma marcante e os privilégios serem dirigidos apenas para alguns sectores da população. por sua vez. encontram-se Juan Mozzicafreddo e António Barreto que afirmam. 2002: 190). A Crise financeira diz respeito à descontinuidade existente entre o crescimento económico e as despesas sociais. Por outro lado Esping-Andersen.. os elevados gastos em capital social. mais recentemente. O nível de desenvolvimento destas questões tem que ser analisado tendo em conta o contexto político e social português. a crise de eficiência em que o Estado não consegue efectuar o papel que lhe compete de regulador do pacto social. a “menor visibilidade. a crise de legitimidade e a crise de eficiência.

os cuidados médicos de clínica geral e de especialidades. foi implementado em Portugal. de modo a assegurar a sua progressiva implantação e realização” (Carreira. Mozzicafreddo. 7 Como já referido em cima no trabalho. G. trabalho e Estado. isto porque o Estado começou com a política de racionalização da saúde. os medicamentos e produtos medicamentosos” (Carreira. e por sua vez cabe a este a “incumbência de mobilizar os recursos financeiros indispensáveis ao SNS. o Sistema Nacional de Saúde (SNS) que tem como principais objectivos fornecer cuidados de saúde a toda a população e gratuitamente. de desigualdade social. os cuidados de enfermagem. é assim. consideram-se políticas as que forem “desenvolvidas pelo Estado em vista da realização das prestações materiais e individuais a que os cidadãos tenham direito” (Carreira. 1996:125). O SNS é extremamente vasto. A saúde foi uma das áreas onde o Estado-providência trouxe grandes alterações. com a entrada em vigor da Constituição (1976). depois da revolução de 1974. Carapinheiro. 1987:75. tal como foi definida anteriormente. 2005:6.. as políticas sociais visam atender a situações de risco. Foi a partir da década de 80 que a saúde deixou de ter algumas das características anteriores. além do Estado. tem sobre a sua alçada os “cuidados de promoção e vigilância da saúde e de prevenção da doença. a gratuitidade. 83. Incumbe. como por exemplo. 1996:125). 1997:53) . et al. geral e gratuito (Carreira. nomeadamente. 1999:1). «tendo em 4 Ver também (Portugal. M. o suposto papel do Estado-providência é o de regulador do pacto entre capitalismo. Assim. e Pinto. “o financiamento passa a ser também da responsabilidade de outras entidades. e deste modo traduzir os direitos sociais (Rodrigues. os meios complementares de diagnóstico e terapêuticos. um sistema universal. aos beneficiários. com a implementação das taxas moderadoras em 1981. o internamento hospitalar. 1996:37). G. 1996:124)4.económica… as mudanças demográficas… as mudanças a nível da família [incluindo] o novo papel económico das mulheres” (1998:13-14) As Políticas Sociais – o caso específico da Saúde Devido à vivência numa sociedade do risco.

2009:21). onde] tanto prestadores públicos como privados competem por contratos.conta as suas condições económicas e sociais…» ” (Carreira. a nível político a existência de um lobbie forte com interesses imperativos (a Ordem dos Médios) (Cabral e Silva. e ao aparecer o privado. entre os quais a ADSE. onde o público não estivesse. não conseguindo “dar conta” de todas as áreas. SNS. acaba por ser um sistema misto. A transferência do público para o privado tem vindo a aumentar como resultado de acordos e contratos entre os dois sectores. o modo como se concebe os cuidados de saúde. este foi completamente esvaziado da sua concepção inicial. contudo o privado foi alargando a sua influência. Coexistem com este regime oficial. (…) [as respostas que o Estado tem dado baseiam-se na criação de] barreiras/preço junto dos utentes” (Carapinheiro e Pinto. e no caso da saúde não é excepção. deixou que este servisse de suplemento em algumas áreas. Tal como refere Correia de Campos o sistema politico português nem é publico nem privado. o Estado. pois uma “política social coerente (…) tem de ser definida com ponderada consideração de um conjunto de variáveis entre as quais assumem especial relevância. sendo estes 8 . as de natureza económico-financeira” (Carapinheiro e Pinto. (Ferreira. outros subsistemas. esta. 1997:59). 1987:86) aspecto crucial na altura em Portugal. devendo ser. onde se tem em conta o bem-estar de todos (público) e o lucro (privado) (1986:617) Apesar de o SNS continuar a ser o elemento principal. Com toda esta situação o SNS entra também ele em crise. devido a alguns factores que são em parte consequência da melhoria das condições de saúde como a inversão da pirâmide etária: aumento da esperança média de vida e diminuição da natalidade a nível demográfico. sobretudo nos meios complementares de diagnóstico (Mozzicafreddo. 2004:315) a organização burocrática e centralizada da saúde. 1987: 94). menos capital. passando de suplemento para substituto. contudo o primeiro ainda serve cerca de 86% da população (Carapinheiro e Pinto. a existência de um “mercado misto [de saúde. no âmbito dos processos de contratualização descentralizada”. e por conseguinte o recuo do Estado. o que reflecte a “incapacidade do sector Estatal para responder às solicitações da população. 1987:90) O papel do Estado tem vindo a diminuir. o privilégio dos hospitais em detrimentos dos centros de saúde. 1996:127). uma situação temporária.

e Simões Mª J. 2009:21). profissionais. De modo mais completo e eficaz existe a chamada teoria de síntese que combina os factores individuais com os sociais. 2000:175). a exclusão decorre de factores sociais. afirmam que a exclusão se deve a “factores sociais”. económicos. contudo é importante de ter em conta que existe na teoria quem refira a exclusão como uma “causa individual”. Muitas outras definições existem. afirmando assim que a “exclusão social deve-se a um conjunto imbricado de factores sociais e individuais que importa em cada contexto ou caso concreto identificar”. processo que pode assumir duas formas principais: por um lado.. educacionais. 2007:8). e cabe ao governo implementar medidas para os indivíduos voltarem a estar integrados e inseridos na sociedade (Augusto A. políticos. requer-se uma participação activa do indivíduo no seu processo de inserção social. e neste caso a culpa é atribuída à sociedade e às estruturas sociais. (Augusto A. de dificuldades ou de handicaps. Exclusão social e acesso à Saúde Antes de se iniciar a análise de exclusão social no acesso à saúde é de extrema importância conceptualizar o conceito de exclusão. visto este ser um tanto ou quanto complexo. através de trajectórias de vida que reforçam diferentes tipos de rupturas e perdas ou privações…” (in Rodrigues. Pelo contrário outros. a ruptura pela ausência de um conjunto de recursos básicos (…) por outro.últimos descapitalizados de status e de poderes na dimensão médico-cientifica (Cabral e Silva. isto é. a ruptura como consequência de estigmatização que afectam grupos sociais específicos…” (Rodrigues. De acordo com a primeira parte deste trabalho e segundo Peter Townsend os excluídos “são indivíduos que acumulam um conjunto de riscos.. os excluídos estão nessa situação por culpa própria e só a eles cabe a efectuar o processo contrário. Exclusão social diz assim respeito a um “processo de ruptura com a sociedade. Neste sentido para além de ser necessário a intervenção do Estado. 2007:8) 9 . e Simões Mª J. 2000:174).

. limitados de acordo com os seus rendimentos. o que conduz a um “problema de acessibilidade por parte dos indivíduos aos serviços de saúde”. principalmente nas cidades de Lisboa. passam a ficar. Outro aspecto diz respeito ao sector privado. reportando-se aos profissionais de saúde. quem não possui fica à margem. 1987:97. 2006:32-33) ou noutra terminologia como refere Thompson “os que se chamam de desvantajosos. 2) desqualificação social é o “descrédito a que estão sujeitos aqueles que não participam na vida económica e social” e 3) desafiliação implica a junção de “dois vectores: um eixo de integração (…) e um eixo de inserção” que quando não ocorrem originam a quebra dos laços sociais nos 4 pilares fundamentais. algumas. ou não. (…) os marginalizados ou inseguros (…) [e por fim] os privilegiados” (2000:2). se não mesmo a maioria. A exclusão ou vulnerabilidade à exclusão é analisada recorrendo a três dimensões explicitadas resumidamente da seguinte forma: 1) privação diz respeito “ao acesso a recursos materiais (…) para manter condições de vida aceitáveis”. neste âmbito a condição laboral tem grande influência no acesso à saúde. “observa-se uma . existem “assimetrias regionais” na distribuição e oferta destes serviços. e existem vários elementos e/ou factores que estão implicados na concretização desta integração. Família e Comunidade (ISS. 99). encontram-se apenas neste. Porto e Coimbra (Carapinheiro e Pinto. O parque hospitalar é constituído pela seguinte hierarquia de organizações de saúde: centros de saúde – Hospitais distritais – Hospitais centrais – Entidades privadas. assim como no que diz respeito a recursos humanos. Trabalho. e mais uma vez a questão de capital. Estes meios estão assim. não só a nível de quantidade mas também de qualidade e desenvolvimento (especialização) na faixa litoral de Portugal. contudo este parque não é equilibrado a nível regional. isto é. maioritariamente disponíveis. 2007:10-11) 10 A saúde é um elemento importante no processo de integração dos indivíduos.Devido á grande diversidade de situações em que o indivíduo se pode encontrar nos diferentes domínios da vida social há autores que definem “zonas” em que os indivíduos se podem inserir tal como o próprio nome indica: “zona de integração … zona de vulnerabilidade …[e] zona de exclusão” (Díez. e Simões Mª J. Isto coloca um entrave ao acesso à saúde. das áreas mais especializadas. quem o possui tem acesso. Estado. para os indivíduos que vivem no interior do país. Tipificação das Situações de Exclusão em Portugal Continental in Augusto A.

maior propensão à escolha de consulta privada. independentes das regiões.17) Outros elementos. Contudo estes dois pontos de análise e muitas outras situações ficarão para um próximo trabalho. s/d: 16. acedem com mais frequência aos serviços de saúde. por exemplo existe uma clara discriminação entre os hospitais e os centros de saúde. 11 . mais individuais. que é tanto maior quanto mais elevado é o escalão de rendimento em que o agregado familiar se situa” (Barros. É de referir também que a exclusão e as desigualdades não ocorrem só no acesso por parte dos doentes. É visível que as mulheres. s/d:13). mas também dentro da própria organização. idade. escolaridade. rácio peso/altura” (Barros. dizem respeito ao “sexo. e quem possui mais habilitações.

e também o que existe que sustente esta área de intervenção social. cultural. Muitos outros elementos se poderiam ter em conta inclusive os de cariz mais individual. 12 . este é incapaz de dar todas as respostas necessárias para se ultrapassarem estas questões que são demasiado complexas e que requerem ainda muita investigação.Conclusão A entrada num novo tipo de sociedade. pois muito do que é feito não tem em conta a verdadeira realidade. trouxe várias alterações a nível dos vários sistemas: económico. que apesar de se viver sobre um Estado-providência. e importante de referir. do nível de desenvolvimento dos mesmos e a relação entre público/privado através das escolhas que são feitas tenho em conta a classe de rendimentos dos indivíduos. Em relação à exclusão no acesso à saúde. social. no sentido de perceber as alterações que a própria noção de saúde sofreu. como as desigualdades sociais e a exclusão social. Contudo também existem aspectos que não mudam. A questão específica da saúde. foi aqui analisada. mesmo com a aplicação de políticas e programas específicos. é de referir que foram analisados apenas as assimetrias regionais a nível de serviços disponibilizados. que tem como um dos princípios básicos a igualdade. que ficarão para um próximo trabalho. na vida de cada indivíduo. político.

Medina (1996) As política Sociais em Portugal. pp. Esther R. Politica. (2006) Indicadores de exclusión social – una aproximatión al estúdio aplicado de la exclusión. Oeiras.22 CARREIRA. rumo a uma teoria da modernização reflexiva”. G. Ulrich. Pedro (2009) O Estado da Saúde em Portugal. A. Ed. pp 73. Amélia e SIMÕES. Mª João (coords. Os saberes familiares. Universidad del País Vasco 13 . 1-51. nº1.) (2007) Inserções – Diagnóstico Social em Concelhos da Beira Interior BARROS. Pedro Pita (s/d) As políticas de Saúde em Portugal nos Últimos 25 anos: evolução da prestação na década 1987-1996 BECK. nº 18/19/20 CARAPINHEIRO. ICS CAMPOS. H. Modernização Reflexiva. tradicionais e medicinais acerca da saúde e da doença” in Actas dos ateliers do Vº Congresso Português de Sociologia DÍEZ.Bibliografia AUGUSTO. CABRAL. Tradição e Estética no Mundo Moderno. Lisboa. (1986) “Um Serviço Nacional de Saúde em Portugal: Aparência e Realidade”.109 CARAPINHEIRO. Lisboa. Celta. M. Gradiva CARVALHO. Anthony e LASH.C. Margarida (1987) “Políticas de saúde num país em mudança: Portugal nos anos 70 e 80” in Sociologia nº3. Villaverde e SILVA. Dina (s/d) “Cuidar e prevenir. e PINTO. in Revista Crítica de Ciências Sociais. pp 9. Scott (2000). GIDDENS. Ulrich (2000) “A Reinvenção da Politica. Graça (1986) “A Sociologia no Contexto da Saúde” in Sociologia Problemas e Praticas. in BECK.

G. 13. pp 39-67 SANTOS. et al (1999) “Políticas Sociais e Exclusão Social” in Sociologia Problemas e Práticas. XXI” in Sociedade e Trabalho – edição especial Segurança Social. Eduardo Vítor (2000).1. pp 193-212 . Juan (1997) “ Políticas Sociais – Estratégias Contraditórias” in Estado-Providência e Cidadania em Portugal.º 10. nº 171 MITJAVILA. RODRIGUES. e CARAPINHEIRO. "O Estado-Providência e os processos de Exclusão Social: considerações teóricas e estatísticas em torno do caso português". Porto. modernidade e individualização social” in Katálysis. Eduardo. FLUP.69-79 MOZZICAFREDDO. Salvador. Porto. pp 29-70 PAIVA. Ana S. Myriam (2004). Lisboa pp. CALHEIROS. Vanilda. Celta. “ Globalização. pp. Gosta (1998) “Conferência: “A sustentabilidade dos EstadosProvidência no séc. a Sociedade e as Políticas Sociais: o Caso das Políticas de Saúde” in O Estado e a Sociedade em Portugal (1974-1988). Florianópolis. P. pp. Universidade de Coimbra 14 RODRIGUES. n. pp 25-54 FERREIRA. Pedro e tal (2002) “Globalização insidiosa e excludente. Da incapacidade de organizar respostas à escala global” in HESPANHA. 141-174 PORTUGAL. in Análise Social. Porto.21 HESPANHA. Sílvia (2005) “Quem tem amigos tem saúde”: O papel das redes sociais no acesso aos cuidados de saúde. (2004) “De que falamos quando falamos de regulação de saúde?”. Afrontamento. nº 31. Vera (2001) “Nova Era Capitalista e Percursos Identitários Alternativos” in Caderno CRH. vol. Afrontamento. Oeiras.7 n. Boaventura Sousa (1990) “O Estado. nº34.ESPIG-ANDERSEN. in Sociologia. (2002) Risco Social e Incerteza – Pode o Estado Recuar Mais?.

Porto. e CARAPINHEIRO.Pode o Estado Social Recuar Mais?. Boaventura Sousa e FERREIRA. P. pp 177-225 THOMPSON. (2002) Risco Social e Incerteza . G. Sílvia (2002) “A reforma do EstadoProvidência entre globalizações conflituantes” in HESPANHA. Jane (2000) Social Exclusion. Afrontamento. NIACE 15 .SANTOS.

Sign up to vote on this title
UsefulNot useful