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EDUCAÇÃO:

PRESSUPOSTOS ANTROPOLÓGICOS DE UM HUMANISMO ABERTO

“O ser humano é para o ser humano algo sagrado”


(Séneca, 4 a.C.- 65 d.C.)

Humanismo e educação

Falar de Humanismo e de Educação é quase redundante.


A primeira vez que a palavra Humanismo aparece impressa sob letra de forma é
em 1808, no célebre livro de Niethammer A Luta entre o Filantropismo e o Humanismo.
Nesta obra de referência, o autor reporta-se ao sistema tradicional de educação que visa
à formação da personalidade total, através do estudo das humanidades clássicas, em
oposição às escolas pedagógicas então ditas modernas.
Com efeito, as denominadas humanidades clássicas têm como ideais inspiradores
a Paideia grega e a conhecida Humanitas latina tão eloquentemente teorizada por Cícero
como sinónimo de cultura universal ao serviço do Homem. Retorna-se, assim, ao velho
lema sofista de Protágoras que elege o homem como medida de todas as coisas que,
mais de 150 anos depois, inspira a filosofia estoica cosmopolita da unidade do Homem
como reflexo da mesma e unívoca razão universal: o logos.
Hominem humaniorem reddere é o lema motor do Renascimento cujo sonho é
efectivamente tornar o Homem plenamente Homem. Assim, na história do pensamento
ocidental, o Humanismo acaba por ser a designação atribuída ao movimento de retorno
às fontes da cultura clássica, impulsionado, entre outros, por Petrarca (século XIV) e
Erasmo de Roterdão (séculos XV-XVI).
Mas uma educação baseada no património civilizacional europeu e no ideal
humanista está longe de se esgotar no domínio de um humanismo exclusivo ou
estritamente secular. Na verdade, a ramada mais fértil da árvore do pensamento
humanista é a que engrandece o ideal greco-latino - e o antropocentrismo solitário dele
derivado - com a novidade judeo-cristã, a qual é portadora de conteúdo eminentemente
soteriológico.
Dois mundos, dois hemisférios, de origens filosóficas díspares e longínquas – a
civilização de raiz semítica e a civilização de fundamento indo-europeu - enxertam-se
reciprocamente na génese do que pode ser considerado um verdadeiro Big Bang na
história da humanidade; tem lugar uma "nova aliança civilizacional" que haveria de
perdurar profeticamente até aos nossos dias.
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O humanismo cristão resultante desta espantosa síntese de cultura e de revelação
formula então o princípio mais universal sobre que se sustenta o património civilizacional
europeu que nos é legado: a inviolável e superlativa dignidade da pessoa humana.
O processo educativo, entendido na sua riqueza interpessoal e comunicacional, é
o cerne deste humanismo personalista que centra a sua esperança concreta na
perfectibilidade permanente do Homem - mecanismo de realização do desígnio superior
para que foi criado - ao invés de um humanismo abstracto que se vê prisioneiro de uma
simples utopia transpersonalista.
Esta radicalidade humanista que elege o mistério da pessoa, infinitamente diversa
mas una na sua essência dignitária, encontra na pedagogia o campo da sua filosofia de
acção ou o terreno propício de afirmação de um certo positivismo espiritualista
(Ravaisson), em contraposição a um mero panlogismo hegeliano.
O humanismo cristão proclama, pois, em todas as sedes e instâncias de
desenvolvimento da acção educativa - família, escola, vizinhança - o primado da pessoa
total, corpo e espírito, matéria e consciência, história e projecto, individualidade e
comunidade. Neste prisma de horizonte alargado, a educação toma por fundamento
sólido o desenvolvimento omnímodo da pessoa humana. Prevalece, então, uma
espécie de monismo pedagógico desenvolvido em torno da integridade indestrutível do
Homem, conceito que se firma em contraposição a um dualismo de inspiração platónica.
Entendida desta forma, uma educação inspirada no ideal humanista não se
reconduz a uma unicidade de políticas educativas nem tão pouco a um enunciado
taxonómico de medidas pedagógicas. Antes, o humanismo personalista e cristão acolhe
na sua ideia generosa e matricial uma pluralidade natural de políticas. A essência do que
está em jogo não é a de um qualquer normativo pedagógico; pelo contrário, o
humanismo assim formulado contém em si um princípio de vida e um propósito de
inacabada renovação.
Sem querer cometer a estultícia de pretender esgotar o tema, arriscaremos
algumas consequências no plano geral da educação resultantes da doutrina
genericamente explanada.

A educação humanista
A formação contínua da pessoa total não é compatível com a sua arbitrária
segmentação - cognitiva ou afectiva, intelectual ou manual, corporal ou espiritual e nem
sequer com uma categorização reducionista traduzida na condição de aluno. O aluno é
acima de tudo pessoa, titular de direitos e deveres, em busca de uma educação
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pessoal e social, assente na liberdade e na solidariedade, e susceptível de a ajudar a
encontrar um sentido para a vida. Quer isto dizer que o projecto educativo integral
tributário de um Humanismo Integral - assenta a formação pessoal e social numa
Educação para os Valores que não se mostra "neutra" nem hipocritamente indiferente
entre a liberdade e o totalitarismo; a tolerância e o holocausto, a solidariedade e o
egoísmo, a justiça e a injustiça, a partilha e a apropriação. A compreensão e a livre
adesão ao que são as grandes causas humanas e de humanidade são elementos
constitutivos de uma sólida formação do carácter, seja num sentido filosófico ocidental ou
até numa acepção filosófica oriental de aquisição do Jen (virtude fundamental
confuciana) ou da Tao (verdade eterna).
O processo educativo propende, assim, a um humanismo cósmico que não
sossega enquanto não confere sentido ao todo; pela busca incessante do logos, a
"verdade mutilada" é liminarmente afastada por intolerável; abre-se caminho à
descoberta da compreensão, da interpretação e, no limite, da formação do "perfeito
juízo" que caracteriza a personalidade amadurecida e capaz de tomar opções
fundamentadas.
Numa educação humanística corajosamente orientada aos valores universais, a
abertura ao transcendente e ao mistério constitui componente indissociável do próprio
exercício da liberdade pessoal. Neste quadro, a assimilação das maravilhas da ciência e
do conhecimento positivo é prosseguida ao mais elevado nível teórico e empírico, sem
que tal signifique o resvalar para uma gnose alimentada no cientismo absolutista. Ao
contrário, a construção de uma gnose de inspiração humanista e cristã valoriza o terreno
próprio da metafisica e concilia equilibradamente educação corporal e formação estética,
desenvolvimento intelectual e habilidade manual, conhecimento e eticidade.
A doutrina humanista da educação é, por excelência, anti-massificante. Cada
pessoa tem direito irrenunciável a definir o seu projecto educativo e a escolher o itinerário
que melhor aprouver à realização desse projecto. Neste sentido, rejeitam-se liminarmente
quaisquer fórmulas burocráticas ou totalitárias de imposição de um modelo oficial/único de
educação. A liberdade de oferta de modelos educativos, numa sã coabitação de ensino
público e particular, faz parte integrante desse ideário de pluralismo cultural, o qual
pressupõe mutatis mutandis a realização da concomitante liberdade de escolha, sem que
o exercício dessa fundamental liberdade humana acarrete qualquer ónus económico,
social ou cultural que transportaria, na sua raiz última, uma intolerável discriminação.
Efectivamente, a noção mais completa de desenvolvimento moderno é aquela que
assegura ao cidadão uma escolha livre de modelo de vida sem coacção nem imposição.
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Numa ordem educativa impulsionada pelos valores do humanismo personalista
destaca-se a prioridade para os mais fracos e vulneráveis. Em nenhuma circunstância,
desfavores de origem social, cultural, étnica ou económica podem justificar percursos
educativos de segunda. A detecção precoce de dificuldades de aprendizagem ou o
conhecimento científico das determinantes do insucesso educativo constituem
instrumentos preciosos para o desenvolvimento de acções preventivas que serão sempre
mais eficazes que o simples desencadeamento de medidas remediais. Em especial, são
intoleráveis sistemas de educação onde a exclusão - manifeste-se ela sob a forma de
abandono da escolaridade, repetência múltipla ou condenação pedagógica - seja um
resultado sistemático, relegando largos contingentes de concidadãos ao insucesso
humano mais vasto. Ao relativo êxito dos nossos sistemas educativos ocidentais em
assegurar um acesso à educação para todos terá agora de se contrapor um efectivo
progresso na reversão de um contexto em que cerca de 25% dos alunos da escolaridade
básica sofrem uma qualquer forma de insucesso ou de exclusão. A acumulação
indispensável de capital humano vai de par com mecanismos de formação de capital
social isto é, de consolidação de uma vontade inabalável de alterar quadros
intergeracionais sucessivamente constrangedores de uma saída estrutural do círculo de
ferro da pobreza persistente ou extrema.
Três últimas notas se nos oferecem quanto ao desenho de uma educação
humanística. Em primeiro lugar, a ideia de que o humanismo verdadeiro abraça o
universal e a diversidade humana, logo a educação é necessariamente intercultural no
seu ordenamento mais profundo. Educar é abrir o espírito e as mentes ao diálogo
inesgotável de culturas e de povos, é libertar de preconceito. A discriminação gerada
pelo preconceito, que conhece manifestações extremas e repugnantes nos tempos
actuais sob a fórmula propalada da limpeza étnica, merece ser combatida por todos os
meios pedagógicos mobilizáveis pela comunidade escolar. Os novos holocaustos
perpetrados diariamente perante a cúmplice indiferença da comunidade internacional
continuam a tomar por premissa fundamental o crime de ser diferente e a liminar
rejeição do outro. Neste quadro, a educação e a reconstrução do humanismo cristão
emergem como uma prioridade altíssima de edificação de uma paz duradoura no mundo
sustentada numa visão ecuménica da humanidade e numa convivialidade universal
baseada no respeito mútuo e na fraternidade.
Em segundo lugar, e como consequência natural do enunciado anterior, uma
educação completa compreende a apreensão profunda dos valores da Criação e da sua
ratio, que pressupõem, por seu turno, uma hierarquia viva de espécies convocadas a
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uma cooperação permanente e inteligente, ordenada à preservação e ao progresso
dessa mesma Criação. Aperfeiçoar continuamente, sem destruir inapelavelmente, surge
hoje como verdadeiro imperativo ético do Homem em contacto com a Natureza. Um
humanismo egoisticamente antropocêntrico leva a uma ignorância autista da inteligência
do universo que tem nele inscritos o valor inviolável da vida e os seus mistérios
irrenunciáveis desde o momento zero da formação da primeira partícula elementar
(princípio antrópico).
Por último, um humanismo verdadeiramente assumido como fermento do mundo
assenta em comunidades educativas fortes, capazes de definir projectos pedagógicos
autónomos e livres. Assim, aos centros educativos devem ser concedidas condições de
efectiva autonomia de projecto, na perspectiva de uma salutar devolução da educação
às instâncias representativas da sociedade civil, reunidas em comunidade educativa. O
projecto de cada comunidade é o ponto de partida para as estratégias educativas que
têm como destinatários todos os elementos integrantes da comunidade, numa aliança
produtiva que passa por um pacto de confiança e de propósito e onde todos -
professores, alunos, pais, administradores, autarcas, empresários, agentes culturais - se
vinculam a uma exigência de formação continuada. Comunidades educativas fortes,
típicas do ideário humanista, apenas podem ser protagonizadas por agentes educativos
que internalizam pessoalmente o desafio da educação ao longo de toda a vida e se
assenhoreiam dos seus destinos próprios.
O processo de humanização do homem é intrínseco à dramaticidade da sua
caminhada para o Omega.
Uma mudança dirigida ao pleno exercício da liberdade responsável e inspirada no
grande Thesaurus da Humanidade é motor mais potente dessa caminhada infatigável.

Roberto Carneiro, Fundamentos da Educação e da Aprendizagem


– 21 ensaios para o século 21. Págs. 147-150.
Vila Nova de Gaia: Fundação Manuel Leão, 2001