História Geral e Do Brasil para Concursos
História Geral e Do Brasil para Concursos
E DO BRASIL PARA
CONCURSOS
Coletânea O que cai na prova!
NV-007JL-24-HISTORIA-BRA-GER
Cód.: 7908428808921
Obra
Disciplinas
HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL PARA CONCURSOS • Diana Magalhães, Jean Talvani, Otávio Massaro,
Vinícius Bernardo, Vitor Augusto Grimaldi e Zé Soares
ISBN: 978-65-5451-379-1
Edição: Julho/2024
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Bons estudos!
SUMÁRIO
HISTÓRIA DO BRASIL..........................................................................................................9
PERÍODO COLONIAL (1500–1808)...................................................................................................... 9
MOVIMENTOS EMANCIPACIONISTAS.............................................................................................................19
IMPÉRIO (1822–1889)........................................................................................................................ 35
PRIMEIRO REINADO..........................................................................................................................................36
PERÍODO REGENCIAL........................................................................................................................................37
SEGUNDO REINADO..........................................................................................................................................40
NOVA REPÚBLICA.............................................................................................................................115
IDADE MODERNA..............................................................................................................................154
PERÍODO ENTREGUERRAS.............................................................................................................................183
DESCOLONIZAÇÃO AFRO-ASIÁTICA.............................................................................................................192
HISTÓRIA DO BRASIL
9
Fonte: Atlas Histórico Escolar. 8ª ed. Rio de Janeiro: FAE, 1991. p. 12.
10
realizadas as cerimônias religiosas, as festas e a reunião dos líderes para decidir uma
guerra ou migração. Geralmente, em torno da aldeia, era levantada uma cerca de tron-
cos — a caiçara — com a finalidade de defendê-la.
As aldeias ligadas entre si por parentesco, costumes e tradição formavam uma tri-
bo. O parentesco garantia a manutenção do modo de ser do grupo e perpetuava-se
através de uniões obrigatórias com pessoas de fora. A relação de parentesco criava a
relação de aliança grupal, na qual o casamento significava uma possibilidade de refor-
ço do poderio do grupo. A família era patriarcal e o casamento poligâmico em algumas
comunidades e monogâmico em outras.
A chefia realizava a organização interna da aldeia. Entre os tupis, a chefia era exerci-
da pelos homens mais velhos e os líderes guerreiros. Eles tomavam as decisões sobre
a guerra, a migração, as grandes caçadas e o sacrifício dos inimigos.
Para prover a sua alimentação, os povos indígenas caçavam, pescavam e coletavam
crustáceos, frutos e raízes. A divisão do trabalho nas aldeias obedecia a dois critérios:
sexo e idade. Os homens derrubavam as matas, preparavam o terreno para o plantio,
caçavam, pescavam, guerreavam e confeccionavam canoas, arcos, flechas e adornos.
As mulheres plantavam, colhiam, faziam cestaria e cerâmica. Quanto às crianças, a
divisão entre meninos e meninas ocorria a partir dos cinco anos de idade, quando as
meninas brincavam e ajudavam as mulheres em seus trabalhos e os meninos seguiam
o exemplo dos homens, buscando aprender sobre a caça e a pesca.
Quando os recursos próximos à aldeia se esgotavam, migravam para outro lugar.
O nomadismo da população indígena também ocorria pela procura de um lugar ideal
e quase utópico, chamado “terra sem mal”, onde teriam prosperidade constante. Os
indígenas procuravam lugares próximos aos rios e lagos, para ter acesso mais fácil à
caça e, eventualmente, à agricultura. A chegada em um território ocupado por outra
comunidade podia gerar guerras.
Os povos indígenas estavam muito envolvidos com a natureza e tinham uma manei-
ra peculiar de entendê-la, por meio de uma concepção mítica de mundo. A própria
natureza era tida como uma dádiva das divindades ou transformava-se na própria
divindade, como a mãe-terra. Portanto, a religião indígena pode ser classificada como
politeísta.
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COLONIZAÇÃO E CONFIGURAÇÃO TERRITORIAL DA AMÉRICA PORTUGUESA
O que foi, afinal, a “descoberta” de um Novo Mundo para a Europa, no século XV? O
que tal “descoberta” implicava, para os “descobridores” e os “descobertos”?
Esse “Novo Mundo” era assim considerado porque antes essas terras não consta-
vam nos mapas do mundo ocidental, tampouco se conhecia sua fauna, flora e, sobretu-
do, sua população, que se mostrava radicalmente diferente da humanidade conhecida
pelo ocidente. Tratava-se, afinal, de homens e mulheres que praticavam a poligamia,
não trajavam roupas, viviam em constantes guerras e, para horror dos europeus,
comiam carne humana. Muito pouco espaço se deu, na chamada descoberta, para efe-
tivo conhecimento e aproximação da população nativa das Américas. Tinha-se muita
curiosidade, exotismo e uma grande imaginação.
Em 1492, Cristóvão Colombo, comandando uma frota espanhola que procurava um
caminho alternativo para as Índias, sob ordens dos reis católicos Fernando e Isabel,
defrontou-se com o que chamariam de continente americano e seria um dos primei-
ros a usar o termo canibal para qualificar os nativos.
A Europa mantinha contato com os países do Oriente desde 1415, e os portugueses
já haviam contornado uma parte considerável da costa africana no século XV. Ao final
desse mesmo século, a questão era encontrar uma rota para as Índias que tornasse
possível continuar com o comércio de especiarias, metais preciosos, joias e sedas, uma
vez que a rota oriental estava sob o domínio turco islâmico, ou seja, interditada para
os cristãos.
Os europeus, sobretudo espanhóis e portugueses, esperavam receber algum res-
sarcimento imediato pelas suas viagens desbravadoras, e de início não perceberam
grande potencial de exploração econômica para a área “descoberta”. Continuaram as
incursões ao Novo Mundo até serem descobertas, pelos espanhóis, reservas de metais
preciosos no território que lhe cabia, deixando os portugueses ansiosos por descobrir
na sua parte da América também grande quantidade de ouro e prata.
Sabe-se que desde o século XV os portugueses já haviam se lançado em espaços afri-
canos. Esse movimento de aproximação se deu com o objetivo de expulsar os mouros
da Península Ibérica, mas a manutenção do contato com o continente africano permi-
tiu que construíssem ali feitorias, promovendo, por fim, sua colonização. Seria apenas
em 1500 que, dando sequência ao seu desbravamento marítimo, Portugal se depararia
com o Brasil, embora já em 1494 lusitanos e espanhóis tivessem assinado o chamado
Tratado de Tordesilhas que dividia o Novo Mundo entre os dois Estados.
Inicialmente, Portugal não teve interesse imediato em desbravar suas “novas” terras,
uma vez que o comércio oriental lhe era mais rentoso. Os primeiros contatos permiti-
ram a criação de um imaginário sobre o ambiente da América Portuguesa, assim como
da população que lá habitava: o lugar era um paraíso na terra, no qual residiam todo
tipo de monstros — de alguma forma, “os indígenas canibais” eram vistos, também,
como uma espécie monstruosa.
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Nos primeiros trinta anos após a chegada de Portugal à América Portuguesa, a explo-
ração econômica se deu pela exportação da madeira do pau-brasil, que era recolhido e
movimentado por trabalho indígena.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2018) “Este Brasil já é um novo Portugal”. Esta afirmação do Padre Fernão
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Conforme interpretado da fonte consultada para elaborar a questão, um trabalho do his-
toriador Evaldo Cabral de Mello, a citação do padre Fernão Cardim deve ser entendida den-
tro de um quadro de formação da identidade dos habitantes da América Portuguesa.
Segundo Evaldo Cabral de Mello, o sentimento de identidade nativista (local) não se baseava
inicialmente na noção de pertencimento a uma pátria brasileira autêntica. As crônicas revelam
um tipo de nativismo (local) que se vincula ao sentimento de orgulho de pertencer à nação portu-
guesa ou lusitana. Resposta: Letra C.
No Brasil, antes da descoberta de metais preciosos nas Minas Gerais, o modelo colo-
nial adotava a ideia de grandes propriedades agrícolas, na qual era cultivado um único
gênero destinado à exportação, sendo a mão de obra predominantemente composta
por escravizados. O conceito que sintetiza essa descrição é derivado da língua inglesa,
sendo conhecido como “plantation”1. Nesse período, tiveram destaque na economia
exportadora o açúcar e, posteriormente, o ouro, embora houvesse outros produtos
secundários, como o fumo e o algodão (Prado Junior, 2004; Fausto, 2019).
A exportação, no contexto histórico do Brasil Colônia, não pode ser equiparada à
prática contemporânea, em que os países exportam seus produtos livremente, nego-
ciando com autonomia. Na condição de colônia, o Brasil tinha como objetivo principal
atender às necessidades de Portugal, sua metrópole colonial. O sistema de “plantation”
deixou uma marca indelével na história do Brasil, com algumas de suas características,
como os extensos latifúndios, a prática da monocultura, a ênfase na exportação e a
utilização da mão de obra escravizada, persistindo mesmo após a emancipação política
do país (Fausto, 2019).
No contexto colonial, o epicentro das atividades econômicas se situava no que é
hoje o Nordeste, denominado, na época, de Região Norte. Nesse período, o Sul era
considerado uma área periférica, com pouca relevância para as práticas de exportação
(Fausto, 2019). Entre os produtos previamente mencionados, dois se destacam pela
sua importância exportadora: o açúcar e o ouro, sendo o açúcar associado à agricultura
e o ouro, à mineração.
O açúcar desempenhou um papel fundamental na ativação socioeconômica do Nor-
deste durante o período colonial. A criação do Governo Geral, em parte, teve como
objetivo revitalizar a antes negligenciada capitania da Bahia, sendo um dos principais
estímulos para essa iniciativa. O Regimento Tomé de Souza, responsável por estabele-
cer as diretrizes para a administração colonial, inclusive, concedeu isenção de impostos
por tempo determinado para o cultivo e processamento do açúcar (Fausto, 2019).
A partir do século XVI a empresa colonial giraria em torno da cana: a formação de vilas e cidades,
a defesa de territórios, a divisão de propriedades, as relações com diferentes grupos sociais e até a
escolha da capital. (Schwarcz e Starling, 2015, p. 66)
1 “Plantação” em português.
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Além da Bahia, Pernambuco se destacou como outro importante centro açucareiro
na colônia. Essa preferência se deve a uma combinação de fatores climáticos, geográfi-
cos, políticos e econômicos. A região apresentava condições climáticas e um regime de
chuvas propícios para o cultivo de cana-de-açúcar. Ambas as áreas estavam localizadas
na região costeira, facilitando o contato com a metrópole e a eficaz distribuição do pro-
duto para exportação (Fausto, 2019).
Lilia Schwarcz e Heloisa Starling (2015) destacam a possibilidade de se referir a uma
“civilização do açúcar”, pois esse produto permeava as esferas sociais, econômicas e
culturais da sociedade colonial. O termo “engenho”, inicialmente associado à estrutura
de produção açucareira, passou a abranger todo o empreendimento, incluindo as plan-
tações de cana, o maquinário para seu processamento, as edificações, os escravizados,
além de elementos como gado, pastagens, carro de transporte e a casa-grande (Fausto,
2019).
A relevância dos engenhos para a economia exportadora no Brasil perdurou até o
século XIX, e mesmo o avanço do ciclo do ouro no século XVIII não foi capaz de suprimir
a importância econômica da produção açucareira (Fausto, 2019). O açúcar foi o princi-
pal produto da economia exportadora, mas o Nordeste não foi só açúcar — observe o
apontamento de Boris Fausto (2019, p. 73):
[...] o próprio açúcar gerou uma diversificação de atividades, dentro de certos limites. A tendência à
especialização no cultivo da cana trouxe como consequência uma contínua escassez de alimentos,
incentivando a produção de gêneros alimentícios, especialmente a mandioca. A criação de gado
também estava vinculada às necessidades da economia açucareira. Houve ainda outras ativida-
des, como a extração da madeira e o cultivo do fumo.
A Exploração do Pau-Brasil
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pau-brasil, mas também do jacarandá, que possuíam valor para a fabricação de em-
barcação, móveis, além da tinta do pau-brasil para tecidos. A mão de obra empregada
foi a indígena, que trocava produtos europeus em força de trabalho e permissão no
uso da madeira; essa relação ficou conhecida como escambo.
A Era Açucareira
O açúcar não foi, nos primeiros anos de colonização, apenas um produto produzido
na colônia; ele era responsável pelo surgimento de códigos, costumes e hábitos. Foi
apenas no século XVI que se desenvolveu o hábito, na Europa, do consumo do açúcar
feito da cana, que passou de produto de requinte para um uso frequente no cotidiano
das pessoas.
Como já foi exposto, depois dos primeiros trinta anos, reconheceu-se a necessidade
de povoar, ao menos, a faixa litorânea de terra da nova colônia, para assim evitar as
invasões estrangeiras que começavam a crescer. Contudo, já não se pretendia ape-
nas povoar a colônia; passava-se, também, a uma forma de colonização que visava
outro objetivo: o ganho monetário. O projeto colonial tomava contornos de empresa
colonial, exigindo maior investimento para a produção de produtos que deveriam ser
exportados para o mercado europeu. A produção era, portanto, direcionada para fora
da colônia.
Formaram-se grandes centros produtivos, os chamados latifúndios, que se dedica-
vam à produção de apenas um produto em grande escala. Esse produto seria, de início,
a cana de açúcar. A partir de então, o empreendimento do açúcar se estabeleceria no
Nordeste da América Portuguesa.
Alguns pontos tornaram o empreendimento açucareiro mais feliz na região nordes-
te: a proximidade com a metrópole e o clima e a hidrografia eram fundamentais para o
transporte do produto internamente. Nesse momento, Portugal concentrou sua aten-
ção no Brasil e no empreendimento açucareiro, estabelecendo um monopólio. Con-
tudo, mesmo que a Coroa tenha tentado controlar todo o processo de produção e
mercantilização de açúcar, isso não ocorreu, uma vez que os holandeses eram respon-
sáveis pela comercialização, no exterior, do produto produzido na colônia portuguesa.
O tabaco também foi um produto importante para o sistema econômico colonial,
visto que era um produto importante a ser trocado por africanos a serem escravizados,
assim como a cachaça; não havia possibilidade de tal produto disputar com o monopó-
lio do açúcar.
A partir do século XVI, toda a empresa colonial seria sustentada pelo empreendi-
mento do açúcar: a formação de cidades e vilas, a divisão do território e a relação entre
os grupos sociais. Até 1763, quando a capital passou para o Rio de Janeiro, era em Sal-
vador que se desenvolviam as atividades administrativas. Ainda assim, nos primeiros
anos da colonização, o poder efetivo estava localizado na casa-grande e no engenho.
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Daí os senhores de engenhos terem se tornado o grupo social mais destacado, embo-
ra sua posição não adviesse de um arranjo hereditário, como era o caso da nobreza
europeia.
No contexto colonial, no qual a economia era sustentada pelo trabalho forçado, ser
branco e não desempenhar trabalho braçal já indicava alguma ascensão social, pelo
menos para o “povo”. Havia trabalhos que eram desempenhados apenas por cativos,
fossem eles indígenas ou africanos, por isso, nessa sociedade marcada pelo escravis-
mo, a cor se tornou logo um indicador social.
Ademais, se a díade senhores e escravizados era central nessa sociedade constituída
sob o empreendimento açucareiro, havia também, ao redor, os agregados do senhor,
pessoas que, embora não tivessem relevância econômica, eram importantes para o
desempenho político e social dos senhores de engenho. Eram, sobretudo, parentes
destituídos de terra, comerciantes e homens livres que não possuíam autonomia social
e que viviam sob a proteção do senhor e lhe davam influência política.
Ciclo do Ouro
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Com o declínio do ciclo do ouro por volta de 1770, a população se espalhou, princi-
palmente para o sul de Minas e para a Zona da Mata. Outra consequência foi a cultural,
com o florescimento das artes, em especial na arquitetura, com Aleijadinho.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FGV – 2021) Considerando a formação da sociedade brasileira no período colonial, a
respeito da escravidão indígena assinale a afirmativa correta.
a) O indígena não se adaptou ao trabalho sistemático e foi reduzido a uma vida de roubo e
contravenções.
b) A resistência indígena desapareceu quando a prática missionária disciplinou a popula-
ção autóctone.
c) A escravidão permaneceu como um modo de exploração relevante de parte da popula-
ção nativa.
d) O trabalho escravo dos indígenas foi extinto a partir da importação de africanos.
e) A lei de 1570 determinou a substituição de mão de obra indígena por africana.
Apesar do crescente aumento na “importação” de escravizados africanos, certas áreas da colônia
continuaram a empregar trabalhadores indígenas, como observado em São Paulo, São Vicente,
no Maranhão e nas capitanias do norte. Adicionalmente, os povos indígenas eram frequentemen-
te utilizados nas missões jesuíticas dispersas pelo norte e sul da colônia, onde recebiam cate-
quese e eram engajados na coleta de produtos naturais do interior e no cultivo da erva-mate,
respectivamente. Resposta: Letra C.
A colonização das Minas foi o único empreendimento colonial de cunho urbano, e foi
também aí que se desenvolveu um grupo ocupado com as produções artísticas e inte-
lectuais. Os poetas da região consideravam-se árcades, ligados à poesia bucólica que
tinha como ideal a paisagem natural ocupada por pastores. Seguiam, de modo geral, as
regras do gênero literário arcadismo, muito apreciado na Europa. Exprimiam questões
próprias da região, como o conflito cada vez mais evidente entre a empresa colonial e
a população mineira, a taxação excessiva e a censura.
Nas Minas, havia uma população miscigenada, e o ambiente urbano fazia com que
escravizados e proprietários por vezes convivessem com maior maleabilidade do que
no resto da colônia. Era ainda possível um desempenho mais autônomo para os escra-
vizados, que poderia levar, possivelmente, à sua alforria — a região tinha o maior grupo
de libertos da colônia — e à ascensão social.
Esses grupos expressaram-se também por meio do movimento Barroco, que trazia
características próprias da experiência dessa população, sustentando artisticamente a
sociedade que florescia no interior.
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É nesse contexto que surgiram artistas como Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadi-
nho, negro, mestre escultor e arquiteto, e Manuel da Costa Ataíde, pintor, decorador e
professor.
MOVIMENTOS EMANCIPACIONISTAS
Palmares
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Revolta de Beckman
A Guerra dos Emboabas está inserida dentro daquilo que os historiadores chamam
de “revoltas nativistas”, que implicam certo amor à pátria e desacordo com a metrópo-
le. No início do século XVIII, o ouro foi descoberto na região das Minas e teve-se início o
conflito entre bandeirantes paulistas e emboabas (termo que designava forasteiros),
pela administração do território aurífero.
A Guerra dos Emboabas foi, sobretudo, uma contenda entre práticas e concepções
políticas diversas: de um lado os paulistas e, de outro, os forasteiros. Não se pode
reduzir o conflito apenas aos desejos de obtenção de terra e riqueza, existindo, ainda,
questões sociais e políticas mais profundas.
Os descobridores do ouro, bandeirantes paulistas, acreditavam que mereciam tra-
tamento especial, ou as chamadas mercês, pelos serviços prestados à Coroa, como o
desbravamento do território e, consequente, a descoberta de metais preciosos; isso
não ocorreu, o que gerou ressentimento por parte dos paulistas. A guerra terminou
em 1709, após a Coroa apoiar os emboabas com o intuito de sufocar os revoltosos
paulistas.
A revolta dos Mascates data de 1710 e faz parte de um conjunto de eventos que se
caracterizam pela ruptura com a ordem colonial. O início do conflito se deu quando
os comerciantes de Recife, apelidados pejorativamente de mascates, clamaram pela
autonomia do povoado que era, até então, compreendido como porto de Olinda, cida-
de já em decadência. A elite açucareira de Olinda reagiu violentamente ao pedido de
autonomia de Recife, convocando a população pobre e criando milícias.
A revolta durou menos de um ano. O grupo, formado majoritariamente pela popu-
lação pobre e pela elite açucareira, marchou contra Recife, forçando o governador da
capitania a fugir para a Bahia, o que deu aos revoltosos controle de boa parte da região
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por um tempo. O grupo de revoltosos, mais especificamente a elite de Olinda, incorpo-
rou à sua pauta o propósito de tornar Pernambuco independente, vislumbrando um
regime republicano. Como plano alternativo, caso o plano de independência falhasse,
concebeu-se a criação de um protetorado francês, o que nunca ocorreu, posto que a
conjuntura delicada da França não tornava viável esse tipo de apoio.
Um ano depois, os comerciantes de Recife retomaram o controle da capitania após
combaterem no interior com os revoltosos e receberem reforços de Lisboa. Ao final,
os mascates saíram vitoriosos: a elite de Olinda foi derrotada, o controle da capitania
recobrado, Recife foi transformada em vila, convertendo-se em sede da capitania de
Pernambuco. Apesar do fracasso da revolta, pela primeira vez falou-se em autogover-
no ou declarou-se a preferência pela forma republicana de governo, o que constituiu
um marco importante.
A motivação para a Revolta de Vila Rica, de 1720, é encontrada nas práticas fiscais
aplicadas pela Fazenda Real. Os revoltosos intentavam obrigar a Coroa a suspender o
estabelecimento das Casas de Fundição, locais onde o ouro era transformado em bar-
ras e nos quais retirava-se a parte referente ao pagamento das taxações da Coroa. O
conflito se deu entre as autoridades metropolitanas e a elite socioeconômica da região.
Os revoltosos faziam ações de pilhagem na região, gritando frases que expressa-
vam descontentamento com a administração. O governador da capitania reagiu com
intensidade: fechou os caminhos de entrada de Vila Rica e prendeu os protagonistas
do levante, enviando-os ao Rio de Janeiro. Felipe dos Santos foi executado por conta de
sua oratória, que apoiava os revoltosos, tornando-o vítima do suplício público.
Inconfidência Mineira
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Supõe-se que a Conjuração começou a tomar forma na década de 1780, sendo que
o projeto de autonomia das Minas foi formalmente debatido em reuniões locais ape-
nas em 1788. Na metade da década de 1780, falava-se de uma “República Florente” e
evidenciava-se a capacidade de Minas de se tornar soberana.
Tiradentes foi o mais ativo propagandista das ideias da Conjuração: eloquente ora-
dor, fez ideias de autonomia circularem por redes que aglutinavam diferentes segmen-
tos sociais, e esse é um fator essencial para a compreensão da punição severa que esse
personagem sofreu.
A Conjuração teria início com um motim, que deveria ocorrer no mês de fevereiro,
em Vila Rica, no momento de imposição da derrama. Se saíssem vitoriosos, os conjura-
dos irromperiam a rebelião por toda a capitania, declarando a independência de Minas
e a implementação de uma República.
Os conjurados observavam atentamente a Revolução Americana e procuravam
aprender com a movimentação que acontecia no norte do continente, entrevendo as
possibilidades de uma República Confederada. Pretendia-se exaurir a Corte e fazê-la
negociar; contudo, Minas se viu sozinha, tanto na colônia, como no cenário internacio-
nal. A Conjuração foi denunciada por Joaquim Silvério dos Reis, ativo participante da
conjuração, que delatou a ação para receber o perdão das muitas dívidas que tinha
com a Coroa.
Feita a delação, ocorreram seis denúncias, a derrama foi suspensa, os conspiradores
foram presos e abriu-se a “devassa”, busca por provas que iriam constituir os autos do
processo da Conjuração Mineira. Ao final de três longos anos, os conjurados considera-
dos culpados foram degradados para a África, houve o sequestro de seus bens e alguns
foram condenados à forca. Quanto a Tiradentes, sua pena foi aplicada pela Coroa de
modo a ser exemplar e espetacular, ficando por muito tempo na memória dos colonos:
foi enforcado no Rio de Janeiro, seu corpo foi esquartejado e salgado e os pedaços fica-
ram em exibição em pontos estratégicos do Caminho Novo, sendo sua cabeça exposta
no centro de Vila Rica.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2022) O que quer que possa “deslustrar” os inconfidentes, seja do ponto
de vista moral, seja do ponto de vista de sua existência material e cotidiana, com fre-
quência, é colocado em segundo plano, quando não ignorado ou citado em notas abso-
lutamente secundárias. Procedimentos como esse chegam a configurar um problema
relevante quanto à explicação da trama ou dos projetos sediciosos presentes nas Minas
setecentistas?
(João Pinto Furtado, Imaginando a nação: o ensino da história da Inconfidência Mineira na perspectiva da crítica
historiográfica. Em: Lana M. de C. Siman e Thais N. de L. e Fonseca, Inaugurando a História e construindo a nação)
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João Pinto Furtado responde à própria pergunta afirmando que
Desde o início da chegada dos portugueses à América, a costa da colônia fora alvo
de inúmeras invasões estrangeiras, de povos franceses, ingleses, holandeses, entre
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Ali, tentaram instalar a França Equinocial, começando por instituir uma feitoria na
ilha de São Luís e se relacionando com as sociedades indígenas que habitavam a região.
A França Equinocial tinha apoio da Coroa francesa e se instituiu sob a autoridade de
Daniel de la Touche, fundador do povoado de Saint Louis, que seria apenas o território
inicial de uma vasta extensão ocupada pelos franceses: desde o litoral maranhense até
o espaço do que hoje é o atual Tocantins. Em 1615, os franceses foram expulsos pelas
tropas lusitanas e o território ocupado por colonos portugueses que inseriram a cultu-
ra de açúcar na região. Em 1626, os franceses tomaram o território da contemporânea
Guiana Francesa, e apenas aí tiveram êxito.
Se a França falhou na fundação de uma colônia duradoura na América Portuguesa,
a Holanda teria mais êxito em sua tentativa. A relação entre Holanda e Portugal nem
sempre foi tranquila, e quando da crise de sucessão da monarquia portuguesa, que
entregava o trono português à Coroa espanhola (ato conhecido como União Ibérica),
Portugal assumiu, consequentemente, os inimigos da Coroa Espanhola, e entre eles
estavam os holandeses. Com as duas Coroas unidas, os domínios coloniais também
foram fundidos, ficando sob o comando da Casa Real espanhola, na dinastia que ficou
conhecida como “filipina”.
Em 1604, os holandeses atacaram Salvador, imaginando que os portugueses não
conseguiriam, pelo tamanho da costa, impedir a ação. Essa primeira tentativa falhou.
Seria criada, então, a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, em 1621, formada
por capital do Estado e investidores privados, cujos objetivos eram a tomada das áreas
açucareiras e o controle do mercado de escravizados na África.
Finalmente, em 1624, a capital foi ocupada por um dia, mas retomada em seguida
em ação coordenada por Matias de Albuquerque (governador português vigente), evi-
tando, assim, que as fazendas de cana e os engenhos fossem tomados. Novo ataque
aconteceu em 1627, mas o objetivo parecia ser apenas a pilhagem e não a ocupação
da área.
Como não conseguiam ocupar a capitania da Bahia, os holandeses se voltaram para
Pernambuco, que também era importante centro produtor de açúcar. Organizados,
7280 homens, em 65 embarcações, iniciaram o ataque em 1630, e Olinda foi ocupada
pelos holandeses. Estes, por sua vez, investiram na colônia que acabavam de conquis-
tar: Maurício de Nassau foi feito governador-geral do Brasil holandês e transformou
substancialmente a área. Nassau restabeleceu os engenhos que haviam sido abando-
nados pelos colonos portugueses, recompôs o tráfico de escravizados, forneceu crédi-
to e obrigou o plantio para subsistência da capitania. Além disso, Nassau se mostrou
tolerante na questão religiosa.
A administração do Brasil holandês por Nassau trouxe bons feitos para a região,
como a criação da Cidade Maurícia, melhorando a situação da população da região,
que antes se via em péssimas habitações e sem acesso às devidas condições de higie-
ne. Foi também sob sua supervisão que se construiu as três primeiras pontes de grande
proporção no território colonial, e criou-se um espaço que recolhia espécies variadas
de fauna e flora.
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Embora Nassau tenha feito uma administração popular na região, acabou retornan-
do à Europa em 1644, por conta das sucessivas pressões dos seus compatriotas. A par-
tir daí, deu-se um declínio do chamado Brasil holandês, e as “guerras brasílicas”, que
visavam à retomada do território pelos portugueses, prolongaram-se até 1654, quando
as tropas portuguesas finalmente retomaram o espaço invadido.
Uma questão fundamental na colonização portuguesa diz respeito ao trato dos indí-
genas pelos colonos, pois enquanto estes queriam escravizar as populações nativas,
as missões jesuíticas procuravam protegê-los do trabalho forçado e encaminhá-los à
catequese. A concepção de trabalho das sociedades indígenas era um tanto diferente
da concepção europeia, já que não havia nessas sociedades interesse imediato por
excedentes e sua produção se caracterizava por uma concepção coletiva de fabrico e
consumo.
Muitos indígenas, ao terem contato com os colonizadores, foram se retirando para
o interior, procurando escapar do trabalho compulsório. Uma questão se mostrou
central nesse contexto: a necessidade cristã de catequização das populações indíge-
nas. Para a Igreja, esses indivíduos eram importantes “novos fiéis” que precisavam ser
encaminhados.
Muito embora se tenha encorpado o discurso que diz respeito à substituição do
trabalho indígena pelo trabalho, também compulsório, dos africanos, o que de fato se
percebe nas pesquisas historiográficas é que uma ação não anulou a outra, pois ambas
as populações foram utilizadas como mão de obra forçada.
Um exemplo notável do processo de escravização indígena pode ser apontado pelas
atividades dos bandeirantes, da região de São Paulo. Os bandeirantes adentravam o
interior — os sertões — procurando por indígenas e assaltando as missões jesuítas que
transportavam os indígenas, onde eram criadas vilas em que trabalhavam e eram cate-
quizados. Assim, as duas categorias, colonos e jesuítas, se viam em constante litígio.
Há que se dizer que a posição de defesa da Igreja, em relação aos indígenas, freou,
em alguma medida, as ações bandeirantes, fazendo a atenção voltar-se para o tráfico
atlântico, que causava menos incômodo moral que o trabalho compulsório indígena
A Companhia de Jesus foi criada por Inácio de Loyola em 1534, como resposta para
a Reforma Protestante que acontecia na Europa. Seu objetivo era espalhar a fé católica
pelo mundo. Os primeiros representantes chegaram ao Brasil com o padre Manuel da
Nóbrega em 1549. Após desembarcarem na Bahia, ajudaram na fundação da cidade
de Salvador.
25
Uma das estratégias adotadas por Manuel da Nóbrega na conversão dos gentios
(catequese) foi a construção de aldeias de catequização (aldeamentos), que se situa-
vam próximas das vilas e cidades portuguesas. Essas aldeias eram habitadas pelos
padres jesuítas e pelos indígenas a serem convertidos. No ano de 1553, José de Anchie-
ta chegou ao Brasil. À frente do Colégio na vila de São Paulo, fez contato intenso com
os grupos indígenas locais, o que auxiliou na elaboração de um guia de gramática e um
dicionário; criou inclusive o teatro jesuítico, entendido por especialistas como o primei-
ro empreendimento educacional da história do Brasil.
A partir da década de 1580, a missão realizava-se por meio de visitas esporádicas
aos grupos localizados nas matas, e os padres não permaneciam muito tempo entre
os grupos. Na segunda metade do século XVIII, a presença dos jesuítas no Brasil sofreu
um duro golpe. Nessa época, o influente ministro Marquês de Pombal decidiu que os
jesuítas deveriam ser expulsos do Brasil por conta da grande autonomia política e eco-
nômica que conseguiam com a catequese. A justificativa para tal ação veio da ocorrên-
cia das Guerras Guaraníticas, onde os padres das missões do sul armaram os indígenas
contra as autoridades portuguesas em uma sangrenta guerra.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FGV – 2022) Em meados do séc. XVIII, no reinado de D. José I (1750-1777), seu principal
ministro, o Marquês de Pombal, desenvolveu uma política que classificava os jesuítas
como inimigos dos interesses da coroa portuguesa.
Nesse contexto, os jesuítas eram acusados de
26
REFERÊNCIAS
27
Em Portugal, eclodiu, em 1820, a Revolução Liberal do Porto, que exigia uma nova
constituição e o retorno de D. João VI à Europa. Em meio à formação das Juntas Cons-
titucionais (nas quais o Brasil também possuía representantes), D. João deixa seu filho,
D. Pedro, como príncipe-regente, e volta para Portugal.
Durante 1822, houve diversos movimentos de oposição a Portugal, principalmente
no Grão-Pará e na Bahia. Entre diversas tendências, venceu aquela que defendeu a
construção de um Estado independente, que mantivesse a escravidão e o poder das
elites econômicas. Assim, a liderança de D. Pedro em 7 de setembro de 1822 era a
garantia mais próxima da unidade em uma imensa porção de terra marcada por regio-
nalismos e profundas diferenças sociais. As elites temiam que uma agitação social
incluísse pobres e escravizados, que eram 80% da população.
Tratados de Limites
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2022) Na Europa de então, uma vez que o Brasil havia adquirido seu status
enquanto lugar de riqueza, real ou potencial, também começou a servir de lugar de fuga
ou sede alternativa de império para monarcas europeus de grandes ambições ou espe-
ranças limitadas. Parece nítido que durante a luta pela sucessão ao trono de Portugal,
que se seguiu à morte de d. Sebastião, em 1578, d. Antônio, o Prior do Crato, chega a
considerar a ideia de se estabelecer como rei no Brasil e esperava utilizar a colônia como
base de futuras pretensões. […] Em Madri, rumores de que os holandeses estabeleceriam
um descendente de d. Antônio para justificar a invasão de Pernambuco persistiram até
a década de 1620. A sugestão de se transferir a corte de Lisboa para o Brasil, surgida
durante o século XVIII, era reiterada ocasionalmente por membros da corte e conselhei-
ros políticos.
(Stuart B. Schwartz, “Gente da terra braziliense da nasção”. Pensando o Brasil: a construção de um povo. Em: Carlos
Guilherme Mota, A experiência brasileira. Formação: histórias)
28
A partir do excerto, é correto afirmar que, para Stuart B. Schwartz,
a) as recorrentes rebeliões coloniais ao longo dos séculos XVII e XVIII, todas fortemente
reprimidas pelas autoridades metropolitanas, inibiram a consubstanciação do projeto
português de comandar o império colonial a partir de Salvador.
b) a chegada da corte portuguesa, no início do século XIX, foi não apenas um expediente
imediatista, mas a realização de um projeto acalentado desde longa data e uma atitude
que reconhecia a crescente importância do Brasil para a corte portuguesa.
c) a invasão holandesa na capitania de Pernambuco reforçou as posições políticas do gru-
po que defendia que a sede da Coroa portuguesa deveria ser na América ou em Luanda,
mas a expulsão dos invasores fez esse projeto ser abandonado.
d) a burguesia metropolitana, no intuito de ampliar os mecanismos de exploração colonial
em relação à América e à África, pressionava a Coroa no sentido de aumentar as restri-
ções mercantilistas e, para isso, era fundamental trazer o poder para o Brasil.
e) o secular projeto da Coroa portuguesa de transferir a administração do Império Colonial
para a América sofreu uma série de entraves, porque não interessava à nobreza reinol
que o poder fosse transferido para um dos espaços coloniais.
Como se nota no texto, a ideia de mudar a corte real de Lisboa para o Brasil, que emergiu no
século XVIII, era periodicamente reforçada por integrantes da realeza e assessores políticos. Isso
sugere a existência de um plano antigo para a realocação da corte para o Brasil, um plano que se
materializou no começo do século XIX com a transferência da família real portuguesa. Ademais,
a consideração do Brasil como uma opção viável para a localização da corte real sublinha a
importância crescente do Brasil no contexto da monarquia portuguesa. Resposta: Letra B.
29
Uma experiência ainda mais próxima acendeu o sinal vermelho e mostrou que os
prognósticos eram corretos: o rei espanhol, Fernando VII, foi deposto do trono por
Napoleão, em maio de 1808. A fuga da corte portuguesa foi um sucesso em curto pra-
zo; contudo, em longo prazo, ocasionou uma quebra de legitimidade do Império portu-
guês num momento em que os ares eram revolucionários.
A presença da corte no Brasil, ademais, causava incômodo em algumas parcelas da
população, sendo o exemplo mais evidente a Revolução Pernambucana, que estourou
na província de Pernambuco, em 1817. Antes da chegada da corte em 1808, essa pro-
víncia ligava seu comércio diretamente a Portugal, posto que as dificuldades logísticas
— como rotas terrestres ou fluviais — impediam o estabelecimento de relações com o
Rio de Janeiro. Somava-se ao fim desses benefícios concedidos ao comércio pernambu-
cano um período de graves secas e crises de abastecimento.
O movimento revolucionário pautava a necessidade de se combater a crise e recu-
perar os benefícios comerciais, assim como a possibilidade de se romper com a monar-
quia. Em partes, e por um curto período, os revoltosos — homens livres, escravizados,
ricos e pobres — saíram vitoriosos, uma vez que conseguiram destituir o governo de
Pernambuco e instalar brevemente uma república; contudo, foram violentamente
reprimidos, com prisões e condenações em praça pública.
Na Europa, cessada a agitação política entre portugueses e franceses, a soberania
lusa conseguiu, enfim, gozar de certa estabilidade, e um forte movimento de pressões
pôde ecoar a fim de que D. João retornasse a Portugal. A relutância do rei em retornar
causava indignação na população lusa, num momento em que a metrópole passava
por uma grave crise de produção agrícola e desvalorização do papel moeda. Essa agita-
ção culminou na chamada Revolução Liberal do Porto, também conhecida como Rege-
neração de 1820.
O prolongamento da ausência régia na metrópole evidenciou que o “exercício da
exclusiva vontade do rei” não era mais cabível. Assim, profissionais liberais, advogados,
médicos e comerciantes reuniram-se na cidade do Porto a fim de redigirem uma Cons-
tituição que, embora conservadora, propunha a limitação do poder do monarca e sua
submissão à carta constitucional. A Regeneração também inovava ao propor a trans-
ferência da soberania — antes circunscrita ao rei — às chamadas Cortes. As pressões
exercidas pelas Cortes constituídas fizeram com que D. João retornasse com sua famí-
lia a Portugal em abril de 1821, mas deixando no Brasil seu filho, D. Pedro de Alcântara.
A promulgação da Constituição proposta pela assembleia constituinte de 1820 teria
validade para todos os portugueses, o que incluía os habitantes das colônias portugue-
sas, inclusive na América. Algumas medidas, no entanto, causaram profundo descon-
forto nos grandes comerciantes do Brasil, que, por sua vez, já estavam acomodados
sob os privilégios concedidos pela presença da corte na colônia.
30
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FGV – 2023) “Entre 1776 e 1825, a Europa perdeu a maior parte de suas colônias ame-
ricanas devido a uma série de revoluções, movimentos de independência e rebeliões. Os
afro-latinos tinham desempenhado um papel preponderante na constituição dos impé-
rios ibero-hispânicos. Haviam servido não só como mão-de-obra escrava, mas também
enquanto tripulantes, exploradores, oficiais, colonos, proprietários de terra e, em certos
casos homens livres e senhores de escravos. Quando da dissolução dos impérios e
dos levantes anticoloniais ao longo do século XIX, voltamos a encontrá-los em diversos
papéis, seja como soldados, seja a encabeçar movimentos políticos. Com as estruturas
imperiais do mundo Atlântico arruinadas e substituídas pelos Estados-nações, as rela-
ções entre as colônias e a metrópole sofreram alterações. Uma classe de brancos criou-
los se implantou e consolidou sua influência. As velhas questões de heterogeneidade,
diferença e liberdade foram ressuscitadas, ao passo que as novas elites se aproveitaram
da ideologia da mestiçagem para negar e desqualificar a questão racial. A contribuição
dos afro-latinos e dos escravos negros para o desenvolvimento histórico da América do
Sul acabou sendo, se não apagada, pelo menos severamente ocultada.”
(MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: n-1 edições, 2018. p. 37)
31
Latente o conflito de interesses, os colonos que ganharam com a presença da corte
reivindicavam um governo no Brasil que, por sua vez, evoluiu à percepção da neces-
sidade de um Estado Nacional brasileiro, a grande novidade revolucionária. É nessa
configuração que entra a figura do príncipe regente, futuro D. Pedro I.
Outra determinação polêmica das Cortes era que as províncias do Brasil se trans-
formassem em províncias portuguesas, o que gerou, segundo comenta D. Pedro em
carta a seu pai, “um choque mui grande nos brasileiros”. O que o príncipe regente pre-
cisava fazer era se equilibrar num cenário instável, no qual havia a necessidade de se
cumprir os decretos das Cortes ao mesmo tempo em que tinha que corresponder aos
interesses do povo do território onde ele se encontrava. Ao passo que as Cortes foram
convocadas com a finalidade de reorganizar o Império Português dentro da dinâmica
colonial, os colonos se agrupavam cada vez mais em torno da ideia de separação.
Já em 1822, o príncipe regente também recebia pressões a fim de que retornasse a
Portugal, o que gerou um episódio bastante curioso no dia 9 de janeiro de 1822, o “Dia
do Fico”, quando D. Pedro recebeu um requerimento que continha 8 mil assinaturas
solicitando-o que ficasse no Brasil. Não sabemos ao certo quais foram as verdadeiras
palavras proferidas pelo jovem príncipe regente, contudo, consagrou-se na memória
social a perspectiva de que ele ficaria a fim de preservar os interesses da população
brasileira.
Um governo foi organizado por D. Pedro logo após esse evento, tendo figuras proe-
minentes como José Bonifácio de Andrada e Silva, um moderado que fazia campanhas
por maior autonomia da colônia, mas não reivindicava uma separação radical. Foram
convocados representantes de todas as províncias e, mais tarde, uma assembleia legis-
lativa e constituinte.
Já a politização da sociedade colonial com a chegada da corte em 1808 se deu em con-
teúdos bastante inovadores. Aspectos da recente Revolução Francesa (1779) estavam
em alta, sobretudo na crítica ao modelo estamental de sociedade, abrangendo novas
formas de se organizar a sociedade, e também na crítica aos privilégios da nobreza e
dos corpos sociais mais altos.
Depois da revolução de independência do Haiti (1804), esses conteúdos se torna-
ram inescapáveis. Era preciso apropriar-se de alguns elementos e fazer uma revolução
menos radical que a francesa e bem menos radical que a de São Domingos, segundo a
perspectiva das elites coloniais brasileiras.
A escravidão foi um elemento importante neste caso: a dimensão do escravismo
na América Portuguesa era tão grande que foi capaz de influenciar todos os outros
aspectos da vida social, como valores, formas de pensar, de comportamento, práticas
políticas. A independência, nesse sentido, muda a forma de compreender essa socieda-
de: não era mais uma sociedade estamental legitimada por Deus, embora o rico ainda
fosse rico, mas agora havia um parlamento; a escravidão tornou-se uma escravidão
nacional e não mais portuguesa.
32
A chegada da corte também dinamiza fluxos econômicos internos, dada a necessi-
dade de abastecimento. Em verdade, essa dinâmica e a diversificação da produção é
anterior à chegada da corte, mas se intensifica a partir de 1808. O Rio de Janeiro é um
epicentro que conecta São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande de São Pedro (atualmente
Rio Grande do Sul); tanto é, que foram as primeiras regiões a encamparem o projeto de
independência centrada na figura de Pedro I, justamente por esses auspícios econômi-
cos, mas também políticos.
33
O evento que formalizou o reconhecimento da independência brasileira por Por-
tugal ocorreu em 1825, com a assinatura de um tratado entre Brasil e Portugal — no
qual o Brasil se comprometeu a indenizar a antiga metrópole em 2 milhões de libras
pela perda da colônia. Esse tratado estabeleceu as bases para o primeiro empréstimo
externo do Brasil, uma transação financeira de relevância histórica, cuja concessão foi
efetuada pelos ingleses (Fausto, 2019).
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC – 2023) A Independência do Brasil foi fruto de um processo histórico permeado por
fatores externos e internos importantes. São exemplos de um fator externo e um fator
interno que impactaram na relação entre Portugal e Brasil, respectivamente,
a) as Cortes de Cádiz, que obrigaram o pronto retorno de Dom João VI a Portugal, e a circu-
lação de ideias liberais e republicanas na imprensa das principais províncias brasileiras.
b) a leva de independências ocorrida na América Hispânica, na década anterior, e as mani-
festações urbanas contra os privilégios da Coroa Portuguesa nos anos 1820, como a
Noite das Garrafadas.
c) a crise política interna de Portugal, devido à invasão de Napoleão, e a pressão popular pro-
vocada pelo assassinato de Líbero Badaró, jornalista militante da causa independentista.
d) o aumento da exploração colonial devido à situação econômica de Portugal após ações
de combate, por parte da Inglaterra, ao tráfico negreiro por meio da lei conhecida como
Bill Aberdeen, e a criação das Juntas Provisórias nas províncias.
e) a Revolução Liberal do Porto e o crescimento de mobilizações pela independência em
várias regiões da América portuguesa, que demonstravam grande descontentamento
por parte das elites locais.
Um elemento catalisador para a independência do Brasil pode ser identificado na irrupção da
Revolução Liberal do Porto em Portugal, no ano de 1820. Essa revolução visava garantir que o
reino português honrasse uma Constituição de natureza mais liberal e menos absolutista. Adi-
cionalmente, houve uma demanda por parte das Cortes para que o rei e sua família real retor-
nassem imediatamente, o que se concretizou em 1821, deixando D. Pedro como representante no
Brasil. No cenário interno, surgiram movimentos que inicialmente defendiam a criação de juntas
governativas provinciais no Brasil. Essas juntas eram favoráveis ao movimento constituciona-
lista de Portugal, contudo, com a mudança de postura política das Cortes em relação ao Brasil
— que almejava rebaixar o status do país no Império Português, eliminando seu título de reino e
reduzindo sua autonomia e relevância na monarquia — as elites políticas e econômicas brasilei-
ras viram na independência a única solução viável. Resposta: Letra E.
REFERÊNCIAS
34
IMPÉRIO (1822–1889)
35
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC – 2018) Leia os artigos 98 e 99 da Constituição do Império do Brasil, outorgada em
1824:
Art. 98. O Poder Moderador é a chave de toda a organização Politica, e é delegado priva-
tivamente ao Imperador, como Chefe Supremo da Nação, e seu Primeiro Representante,
para que incessantemente vele sobre a manutenção da Independencia, equilíbrio, e har-
monia dos mais Poderes Politicos.
Art. 99. A Pessoa do Imperador é inviolavel, e Sagrada: Elle não está sujeito a responsa-
bilidade alguma.
(Grafia original extraída de [Link]
a) equivalente aos outros Poderes políticos, embora fosse delegado ao Imperador, que
estava sujeito ao controle da Assembleia.
b) uma forma de tutela política sobre os outros poderes, exclusiva ao Imperador, que não
poderia ser submetido a nenhum controle constitucional ou jurídico.
c) superior aos Poderes Políticos mas exclusivo ao Poder Executivo, devendo ser utilizado
para resolver conflitos no seio do Império.
d) um modelo de organização política que viabilizava a Independência, considerada sagra-
da pela Constituição, e que tinha como função prática substituir o Poder Judiciário.
e) presidido pelo Imperador, que estava acima da constituição, e exercido de forma colegia-
da com os outros Poderes Políticos, visando a harmonia da organização política nacional.
Embora o léxico constitucional favorecesse expressões como zelar pela “manutenção da Indepen-
dência, equilíbrio e harmonia entre os Poderes Políticos”, a realidade era que o Poder Moderador
exercia uma supervisão sobre os outros três poderes, possuindo ampla autoridade para intervir
em questões delicadas. A Constituição isentava o Imperador de qualquer jurisdição dos outros
poderes, tornando-o, de acordo com o artigo 99, uma figura sagrada, inviolável e isenta de res-
ponsabilidade. Resposta: Letra B.
PRIMEIRO REINADO
Entre 1822 e 1831, temos a primeira fase administrativa do Império, conhecida como
Primeiro Reinado. Como dito, a Assembleia Constituinte eleita em 1823 desejava a limi-
tação dos poderes de D. Pedro I. Durante a Noite da Agonia, o imperador cassou os
deputados opositores, impugnou as proposições constitucionais e outorgou a Primeira
Constituição Brasileira, em 1824.
Em reação ao autoritarismo, eclodiu, em Pernambuco, a Confederação do Equa-
dor, exigindo uma república liberal, a abolição da escravidão e a ampliação de direi-
tos sociais. Esse movimento teve como principal líder Frei Caneca, mas acabou sendo
reprimida com sucesso.
36
O fuzilamento de Frei Caneca.
PERÍODO REGENCIAL
37
e João Bráulio Muniz.. Nesse período, ajuntamentos noturnos foram proibidos, bem
como criaram-se o Código de Processo Criminal, a Guarda Nacional, o Ato Adicional de
1834 (dando poder a assembleias regionais) e a Lei Feijó (que abolia o tráfico no papel,
mas fazia “vista grossa”, para que ele ainda existisse na prática).
A Regência Una de Feijó (1835-1838) destacou-se pelo autoritarismo contra rebe-
liões de homens livres pobres e escravizados. No entanto, foi nesse período que eclodi-
ram as principais revoltas regionais pelo Brasil. Em 1838, os conservadores assumiriam
a liderança sob a Regência Una de Araújo Lima (1838-1840), responsável por tirar a
autonomia das províncias na nomeação de cargos públicos; no entanto, sua preocupa-
ção maior, que era deter as revoltas regionais, não se concretizou, ficando a cargo da
antecipação do Golpe da Maioridade em 1840. Araújo Lima ainda foi responsável pela
fundação de duas importantes instituições, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
(IHGB) e o Colégio D. Pedro II, no Rio de Janeiro.
O período regencial foi marcado por uma grande instabilidade política, que se
acentuou com a eclosão de diversos movimentos separatistas nas províncias do país,
destacando-se:
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FGV – 2022) A respeito da Cabanagem, analise as afirmativas a seguir e assinale V para
a verdadeira e F para a falsa.
38
( ) A Cabanagem foi um levante liberal, inspirado nos ideais norte-americanos, que queria
implementar no Brasil uma república federativa de pequenos proprietários escravistas.
( ) A Cabanagem foi politicamente heterogênea: para as oligarquias o Ato Adicional abriu a
oportunidade de conquistar o poder; para os setores populares o levante era o meio para
exigir melhores condições de vida e o fim da escravidão.
a) V – V – F.
b) V – F – F.
c) F – F – V.
d) F – V – F.
e) V – V – V.
A Cabanagem representou uma insurreição popular que eclodiu no Grão-Pará, inserida nas
rebeliões provinciais do Período Regencial brasileiro (1831-1840). Inicialmente concentrado nas
áreas urbanas, o movimento se propagou para o interior e perdurou de 1835 a 1840, enfrentando
uma repressão severa por parte das autoridades centrais. Naquele momento, o Ato Adicional
de 1834 havia expandido a influência das oligarquias regionais, promovendo uma reestrutura-
ção do cenário político local. Contudo, essa mudança acarretou novas desigualdades para uma
ampla camada da população, que questionava a legitimidade do governo regencial. Em outras
palavras, o aumento do poder local era percebido por muitos como um fator adicional para o
agravamento das condições sociais. A última afirmativa demonstra bem esse cenário, enquanto
as duas primeiras estão equivocadas. Resposta: Letra C.
39
SEGUNDO REINADO
D. Pedro II em 1876.
Com o golpe da maioridade, tem início o período conhecido como Segundo Reinado,
que se estendeu até 1889. Por meio de uma manobra conhecida como “parlamentaris-
mo às avessas”, D. Pedro II exercia poder sobre a Chefia de Gabinete e sobre o Parla-
mento. Embora o legislativo fosse dividido entre o Partido Conservador (saquaremas)
e o Partido Liberal (luzias), ambos tinham posições semelhantes, como a manutenção
da escravidão e a centralização de poder pelo imperador.
O desafio inicial do imperador era debelar as revoltas regionais herdadas do período
regencial, sendo que, em 1842, eclodiu ainda a Revolta Liberal em Minas Gerais e em
São Paulo, marcando a disputa de poder entre liberais e conservadores por espaço no
poder. Liderada, em terras paulistas, por Tobias de Aguiar e Padre Feijó, eles conquis-
taram diversas cidades do interior, sendo, no entanto, derrotados pela tropa do Barão
de Caxias em Campinas. Em terras mineiras, a liderança ficou a cargo de Teófilo Otoni,
que conseguiu a adesão de algumas cidades e o bloqueio da Estrada Real entre Ouro
Preto e Rio de Janeiro, mas acabou derrotado por Caxias em Santa Luzia. Essas derro-
tas fortaleceram a moral tanto do jovem imperador quanto do Exército Brasileiro, que
passou a ver em Caxias um grande líder.
O Segundo Reinado foi marcado também por uma fase de desenvolvimento econô-
mico. O sucesso do ciclo do café (1830-1950) foi possível pelo fortalecimento da Ingla-
terra e dos Estados Unidos como mercados consumidores, além de algumas condições
internas:
40
� A abertura de caminhos que ligavam o litoral ao interior passando pelo Vale do
Paraíba;
� A disponibilidade de terras herdadas da política de vigilância na época do ouro;
� O sistema de transporte que foi modernizado com a instalação das ferrovias a partir
de 1860.
41
batalhas de Humaitá, Avaí (representada no quadro de Victor Meirelles, a seguir), Itoro-
ró, Lomas Valentinas, Angostura e a tomada de Assunção em janeiro de 1869. O Brasil
acabou indo mais além que uruguaios e argentinos, arrastando a guerra até o assas-
sinato de Lopez, em 1870. Mesmo vitorioso, o Brasil passou a enfrentar um processo
de crise, que desencadearia o início do processo de enfraquecimento da monarquia
brasileira, culminando em sua queda, em 1889.
Representação feita, em 1882, por Victor Meirelles sobre a Batalha do Riachuelo travada durante a Guerra do
Paraguai.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (CEBRASPE-CESPE – 2022) Acerca dos ciclos da borracha no Brasil, assinale a opção
correta.
42
Durante a segunda metade do século XIX, o aumento substancial na demanda global por borra-
cha provocou um significativo incremento nos preços internacionais. Esse fenômeno incentivou
fortemente a expansão da produção de borracha no Brasil, o que, por sua vez, atraiu trabalhado-
res de diversas partes do país, especialmente do Nordeste, que enfrentava um declínio econômico
desde o início do século. A situação se agravou com uma série de secas severas no final da década
de 1870, que devastaram a agropecuária e intensificaram a fome. Diante desse cenário, a Ama-
zônia emergiu como um horizonte de oportunidades, atraindo esses trabalhadores em busca de
melhores condições de vida. Resposta: Letra E.
Na Europa, a escravidão era conhecida pelo menos desde a Grécia e Roma antigas.
Contudo, a forma assumida na América Portuguesa, sobretudo no empreendimento
açucareiro, trouxe características específicas, pois solidificou-se como uma exploração
humana de caráter comercial. Em primeiro lugar, desde o início do tráfico atlântico,
no século XVI, até seu término, no século XIX, a taxa de nascimento entre os cativos
foi negativa, em razão, sobretudo, das mortes precoces e da violência do sistema. A
escravização atlântica demonstrava novos padrões e nova intensidade: os escravizados
eram destituídos de suas famílias, sociedades, comunidades, e desenraizados de tudo
o que conheciam.
De outro modo, podemos afirmar que a escravidão atlântica moderna constituiu a
base do sistema econômico colonial: era a partir do trabalho escravizado que, primei-
ro nos engenhos e depois na mineração e nas demais atividades econômicas impor-
tantes, construía-se a economia da colônia. Além disso, a comercialização dos corpos
africanos foi responsável por articular e gerar uma das principais fontes de lucro das
Metrópoles colonizadoras.
A escravidão também era uma instituição presente na África, contudo, trazia carac-
terísticas muito diversas daquelas apresentadas pela escravidão atlântica. Nesse con-
tinente, o sistema de escravidão constituía-se a partir de relações de pertencimento
e parentesco: de modo muito genérico, ser escravo significava não pertencer, estar à
margem, mas, na maioria das populações locais, esta era uma condição que poderia
mudar, pois um escravizado poderia ser absorvido pela sociedade. A escravidão atlân-
43
Mas, dentro dos porões dos Navios Negreiros, essas pessoas também criavam laços
com outros cativos, mesmo que muitas vezes fossem trazidos de partes diferentes do
continente, iniciando, ali, a resistência ao regime.
Embora já existissem rotas de comércio de escravizados controladas por muçulma-
nos na África, os portugueses criaram várias feitorias e portos no litoral do continente
para suprir a constante demanda de mão de obra escravizada no Novo Mundo, domi-
nando o comércio atlântico. Para a América Portuguesa, vieram, sobretudo, escraviza-
dos da Senegâmbia e costa ocidental da África.
Se os jesuítas “tentaram proteger”, em alguma medida, as populações indígenas do
trabalho forçado, o que é questionável, o mesmo não aconteceu com os negros escra-
vizados. A Igreja fazia coro, a exemplo de Padre Antônio Vieira, no seu famoso Sermão
XIV do Rosário, ao discurso que compreendia a imposição do trabalho forçado aos afri-
canos como uma maneira de civilizá-los e impor-lhes disciplina.
O trabalho compulsório, por si só, já dava ao cotidiano tons de violência. Contudo,
a ordem e disciplina eram mantidas pela constante ameaça de castigos, comunitários
ou não, e pela utilização de múltiplas formas de violência e tortura. Isso não significa,
contudo, que os escravizados não criaram formas de resistência, sejam estas solitárias
ou em grupo.
Além disso, é preciso desvincularmos nossa mente da ideia de que as relações entre
senhores e escravizados se davam, todas, igualmente, pois processos históricos apre-
sentam múltiplas variáveis que, infelizmente, são perdidas com o tempo. A título de
exemplo, sabe-se, atualmente, que, nos espaços urbano e rural, o trabalho exercido
pelos escravizados era visivelmente distinto e que, no primeiro, havia um nível de
mobilidade um pouco maior, pois algumas atividades exigiam que o escravizados se
afastasse do senhor.
Ademais, a resistência coletiva dos escravizados originou os chamados quilombos
(em Angola, um tipo de acampamento militarizado) ou mocambos (que significava
esconderijo). Na América Portuguesa, os quilombos surgiram como agrupamentos de
escravizados fugidos, que tentavam escapar do violento sistema. Esses escravizados se
mantinham à margem da sociedade, em lugares de acesso difícil, sem, contudo, perde-
rem as relações de proximidade com vilarejos e comunidades das proximidades.
A região mais ao norte da África, conhecida como saariana, sofreu grande influência
de povos fenícios, turcos, árabes, romanos e gregos. Nessa região, consolidou-se, ao
longo do tempo, uma intensa rede comercial, cujo epicentro era a cidade histórica de
Tombuctu.
Nessa região, devido aos processos históricos, o islamismo confirmou-se como a
principal religião, determinando um importante elo cultural entre os povos locais.
44
A imagem a seguir representa a Cidade de Tombuctu, no Mali:
Diferentemente dos Estados Unidos, no Brasil, não houve um sistema legal voltado
para a segregação racial. Por ser um país de origem escravista, o racismo persiste como
um problema social que persegue os negros. O movimento negro, como ficou conhe-
cida a luta pela igualdade étnico-racial, possui grandes nomes que lutaram contra o
sistema escravista, como Zumbi e Dandara dos Palmares e Luís Gama.
2 DOMINGUES, J. E. Reino Islâmico de Mali, na África Ocidental. Ensinar História, 2014. Disponível em: [Link]
[Link]/reino-de-mali/. Acesso em: 16 jan. 2023.
45
Ao longo do século XX, a atuação de diversas personalidades foi importante para a
tomada de espaço e conquistas pelo movimento. Nomes como Abdias do Nascimento
(político), Iyalorixá (mãe de santo), Laudelina de Campos Melo (empregada doméstica),
Milton Santos (geógrafo), Kabengele Munanga (professor), Djamila Ribeiro (socióloga) e
Marielle Franco (vereadora brutalmente assassinada) ganharam destaque.
Essas personalidades, bem como outras pessoas envolvidas no movimento negro,
procuraram evidenciar que o racismo configura uma forma de segregação social não
oficial cujas consequências são visualizadas, por exemplo, quando grande parte da
população negra permanece sem acesso aos melhores empregos ou não ocupa os
espaços universitários. Neste sentido, a atuação de movimentos como, por exemplo,
o Movimento Negro Unificado, é fundamental.
Entre as conquistas legais dos movimentos negros, podemos citar a Lei nº 12.711,
de 2012, popularmente conhecida como Lei de Cota. Ela prevê a reserva de 50% das
vagas em cursos de universidades e institutos federais para estudantes de escola públi-
ca e estudantes que se autodeclarem pretos, pardos ou indígenas.
A Lei nº 7.716, de 1989, prevê detenção de um a cinco anos para crime de dis-
criminação racial. Essa Lei veda a recusa ao acesso a estabelecimentos públicos ou
privados, o impedimento de acesso aos transportes públicos, a recusa à matrícula em
instituições de ensino, ofensas, agressões e tratamento desigual por motivação racial.
Vale o destaque, também, para a celebração do Dia da Consciência Negra, que ocor-
re no 20 de novembro, mesma data do assassinato de Zumbi dos Palmares, um dia
voltado à memória da luta dos negros no Brasil.
Uma outra luta da população negra ocorre dentro dos espaços acadêmicos, visto
que, por séculos, os estudos sobre os povos africanos partiam sempre de um mesmo
ponto: a escravidão negra. Fruto de uma historiografia eurocêntrica, ou seja, guiada
pelos valores e crenças europeias, a história do continente africano e seus povos foi
por muito tempo contada a partir da perspectiva do colonizador.
Embora seja extremamente válido conhecer os aspectos da maior migração forçada
da História, é necessário reconhecer que os povos africanos já possuíam uma história
anterior à escravidão. De sociedades tribais a reinos, de desconhecidos a personali-
dades como Nzinga, rainha de Ndongo e de Matamba, o continente africano foi pal-
co da vida humana desde sua origem, sendo espaço de rica cultura, conhecimento e
tradições.
Do mesmo modo, no Brasil e em outros países construídos à base do trabalho escra-
vizado de forças negras, buscando um olhar para além do eurocentrismo, é possível
encontrar, mesmo no período escravocrata, elementos dignos de estudo que reforçam
a individualidade dos diversos povos que compõem sua história.
Em nosso país, um dos grandes fortalecedores da ampliação das áreas de pesquisa
sobre a África é o perfil diversificado dos alunos que ingressam nas universidades fede-
rais, uma vez que são elas, atualmente, os principais espaços de produção de pesquisa
histórica no Brasil.
46
Através do sistema de cotas, ao possibilitar a diferentes grupos sociais e raciais aces-
so ao meio acadêmico, cria-se um ambiente plural em que novos olhares, movidos
por diferentes trajetórias, exploram áreas ainda não consideradas ou devidamente
aprofundadas.
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FCC – 2021) Considere o texto abaixo:
Negro da Guiné e gentio da Guiné foram as primeiras designações utilizadas para marcar
a origem dos escravos africanos chegados à Bahia no século XVI. Mais do que um regis-
tro de procedência, estas expressões queriam significar a condição mesma de escravo
na linguagem corrente da época. Seu uso se generalizara em Portugal,desde o final do
século, quando o tráfico de escravos começou a se transformar na mais potente empre-
sa comercial daquele país. A multiplicidade cultural da África passava a ser ignorada
pelos portugueses na razão direta em que o caráter de mercadoria se incorporava ao
conjunto da população.
(OLIVEIRA, Maria Inês Côrtes de. Quem eram os“Negros da Guiné”? A origem dos africanos na Bahia. Salvador,
Revista Afro/Ásia, 19/20, 1997, p. 37)
47
2. (CEBRASPE-CESPE – 2022) Considerando a abolição da escravidão no Brasil, assinale a
opção correta.
48
REFERÊNCIAS
República da Espada
Em 1889, a campanha republicana ganhou força no Brasil; nesse contexto, foi criada
a “Guarda Negra”, espécie de força paralela ao Exército composta por negros libertos,
que procurava proteger a monarquia. A situação dos libertos ainda era delicada e, na
época, acreditava-se que apenas a monarquia tornaria possível a abolição, advindo daí
a lealdade da guarda à família imperial, pois receavam que sua condição de libertos
pudesse ser revertida.
Em 15 de junho de 1889, na saída do Teatro Sant’Ana, o imperador Dom Pedro II
sofreu um atentado que, embora não tenha causado nenhuma gravidade, tornou-se
um evento notório quando lhe foram atribuídos significados maiores: apontava a fragi-
lidade do regime e a demonstração manifesta de descontentamentos. As autoridades
tentavam censurar as manifestações de insatisfação e clamados pela República, mas
era inútil dissimular normalidade. A monarquia não se sustentava mais. O Exército, por
sua vez, se manifestava exigindo maior representação política, como vimos, e era dele
que viriam os principais defensores da República.
Marechal Deodoro obrigou o visconde de Ouro Preto a se demitir — aquele que
havia formado um gabinete disposto a fazer reformas e demonstrar que a monarquia
49
Era notável que mudanças aconteciam no âmbito político e social: o romantismo
deu lugar ao materialismo e ao positivismo; passava-se a almejar o progresso e a
modernidade, que eram associados à república. Porém, apesar das ideias progressis-
tas e modernas, ainda havia dúvidas sobre o projeto republicano e seu futuro.
Até 1894, o país experimentou a tutela militar. Os dois primeiros governos foram
encabeçados pelo marechal Deodoro da Fonseca, líder do golpe de Estado de 15 de
novembro, e foram sucedidos por Floriano Peixoto.
Durante o governo de Deodoro, em 1891, eclodiu a primeira Revolta Armada, que
também ficou conhecida como Revolta da Esquadra, liderada por membros da Mari-
nha Brasileira. Seu estopim se deu por conta do autoritarismo de Deodoro, que havia,
inclusive, fechado o Congresso (em clara violação da Constituição), demonstrando sua
inabilidade em lidar com a oposição. Com a Primeira República, veio também uma cri-
se econômica e de descontentamento. Por fim, em 23 de novembro de 1891, Deodoro
renunciou, tendo em vista a possível guerra civil caso insistisse em manter-se no poder.
Floriano Peixoto, seu vice, assumiu a presidência e se manteve no cargo, embora
devesse ter convocado novas eleições. Foi no governo de Floriano que surgiu o que
ficou conhecido como “florianismo”, movimento que aconteceu entre 1893 e 1897, no
Rio de Janeiro, com expressiva participação popular. O líder conseguira, de fato, entu-
siasmar setores expressivos das camadas médias urbanas e da população em geral,
mas o autoritarismo permaneceu.
Ainda assim, a Marinha não recuou e, em setembro de 1893, um grupo de oficiais
exigiu a convocação de novas eleições presidenciais, visto que se sentiam particular-
mente negligenciados pelo poder republicano. Esse grupo estava crente de que era
preciso rebelar a Armada contra Floriano para que assim pudesse recuperar seu antigo
prestígio.
Floriano Peixoto, por sua vez, reprimiu a armada e decretou estado de sítio, receben-
do a alcunha de Marechal de Ferro. Em 1894, finalmente, novas eleições foram convo-
cadas, transferindo o governo a civis e inaugurando um novo modo de se fazer política,
em um período que ficou conhecido como República Oligárquica.
República Oligárquica
50
Posteriormente à Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, o Bra-
sil foi alvo de mudanças significativas no seu sistema político e econômico, decorren-
tes da abolição do trabalho escravo, ocorrida no ano anterior (1888), da ampliação da
indústria, dos movimentos migratórios de pessoas do meio rural para centros urbanos
(êxodo rural) e do surgimento da inflação. Além disso, também se buscou o abando-
no do modelo do parlamentarismo franco-britânico, em proveito do presidencialismo
norte-americano.
Dessa forma, o marechal Deodoro da Fonseca, autor da Proclamação da República e
chefe do governo provisório, nomeou uma comissão de cinco pessoas para apresentar
um projeto a ser examinado pela Assembleia Constituinte que viria a surgir. Ainda nes-
se viés, as inovações dessa Constituição ocorreram da seguinte forma:
Por fim, vale salientar que essa Constituição ficou em vigor em nosso ordenamento
jurídico por 43 anos.
A Constituição de 1891 estabeleceu as bases do novo regime: presidencialista e
federalista. Para além disso, a Igreja separou-se do Estado e instituiu-se o regime civil
para casamentos, nascimentos e mortes. O federalismo organizava o novo regime em
bases descentralizadas, de modo que as antigas províncias, agora estados, obtivessem
maior autonomia, derrubando a concepção de centralismo que vigorava na monarquia.
Como se sabe, houve um consenso a respeito da importância do exército para a efe-
tivação do golpe de 1889 e para a implantação da República, o que lhe conferiu enorme
prestígio; mas também incentivou a ambição política desse grupo, o que não foi visto
51
entre Minas Gerais e São Paulo, posto serem essas as unidades da federação reconhe-
cidas como as mais importantes, já que seus eleitorados eram grandes e implicavam
significativa presença parlamentar.
A estabilidade política da República era garantida por meio de três procedimentos:
a conservação, pelos governadores, dos conflitos à esfera regional; o reconhecimento,
pelo governo federal, da autonomia dos estados frente à política interna, e, por fim, a
manutenção de um processo eleitoral em que as fraudes eram frequentes.
Alguns dos processos de fraudes presentes no regime podem ser exemplificados
pela chamada “degola”, que consistia no não reconhecimento do eleito pela Comissão
de Verificação da Câmara dos Deputados, e pelo “voto de cabresto”, prática muito
comum que dizia respeito à lealdade dos votantes ao chefe local. Havia, ainda, o cha-
mado “curral eleitoral”, que aludia ao barracão no qual os votantes eram mantidos e
vigiados, liberados do local apenas na hora de depositar o voto, que já estava marcado
em um envelope fechado.
O voto era uma espécie de moeda de troca, já que as relações de poder se desen-
volviam a partir do município, o que deu origem ao que os historiadores chamam de
coronelismo. Esse fenômeno dava vistas a um complexo sistema de negociação entre
chefes locais e governadores de estados, e destes com o presidente.
O coronel foi um elemento fundamental na estrutura oligárquica, que se baseou nos
poderes personalizados, concentrados nas grandes fazendas e latifúndios. Ele apoiava
o governo estadual com seus votos e, em troca, o governo garantia o poder do coronel
sobre seus dependentes e oponentes, por meio da cessão de cargos públicos. A Repú-
blica se suportava, dessa forma, por via de favoritismo, negociações e repressão.
52
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2020) “A primeira constituição da república se inspirou no modelo norte-a-
mericano, consagrando a República Federativa Liberal. A chave da autonomia dos Esta-
dos — designação dada às antigas províncias — estava no artigo 65 § 2º da Constituição
(de 1891). Aí se dizia caber aos Estados poderes e direitos que não lhes fossem negados
por dispositivos do texto constitucional. Desse modo os Estados ficaram implicitamente
autorizados a exercer atribuições diversas, como as de contrair empréstimos no exterior
e organizar forças militares próprias.”
(Boris Fausto. História do Brasil)
a) a criação de divisões regionais que se fortaleceriam para combater ações federais que
ferissem seus interesses, gerando uma verdadeira anarquia entre os governos provinciais.
b) a organização de grupos separatistas das províncias, principalmente as mais ricas, que
se fortaleceram para que o movimento ganhasse força e projeção nacional.
c) a formação de milícias estaduais capazes de se oporem às Forças Nacionais, sendo São Pau-
lo a província que mais investiu no armamento de grupos submissos ao governo estadual.
d) o lucro das empresas provincianas que ocasionou a necessidade de intervenção Federal
nas economias estaduais, além da quebra de acordos com o poder da União.
e) a possibilidade de contrair empréstimos no exterior, que seriam vitais para o governo
paulista criar planos de valorização do café e decretar impostos sobre a exportação de
suas mercadorias.
A autonomia econômica conferida aos estados possibilitava uma gama de políticas econômicas
independentes, variando da proteção ao livre comércio até a contração de dívidas externas. Espe-
cificamente para São Paulo, essa autonomia se mostrou particularmente vantajosa devido à sua
posição de destaque na economia, impulsionada pelas exportações de café. Através de emprés-
timos internacionais, o governo de São Paulo tinha maior liberdade para influenciar os preços
globais do café, utilizando reservas estratégicas; essa prática se estendia também à manipulação
das taxas de exportação. Resposta: Letra E.
53
O texto afirma que a consolidação do Rio de Janeiro como “o centro da vida política
nacional” ocorreu com
A Transição da Mão de Obra Escrava para o Trabalho Livre no Brasil do Século XIX
54
Muitas vezes, os problemas se apresentavam para os imigrantes ainda na viagem,
pois pagavam taxas altíssimas pelas passagens e descobriam existir grupos variados
de pessoas que nem sempre possuíam culturas conciliáveis. Os recém-chegados não
eram, portanto, um grupo homogêneo, e precisaram adaptar-se ao novo país e à nova
vida.
Contudo, na década de 1930, a imigração transoceânica sofreu uma diminuição e
muitos países implementaram políticas restritivas, pois não desejavam mais um grande
fluxo de imigração, argumentando que os estrangeiros estariam tomando o espaço de
trabalho dos naturais. Ainda assim, já não era possível retroceder: a paisagem humana
estava definitivamente alterada, os hábitos dos imigrantes foram sendo incluídos na
cultura nacional e sua presença não podia ser ignorada.
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2022) Impunha-se o estabelecimento de um mecanismo regulador das elei-
ções, que consagrasse a sua venalidade em nível institucional. Para isso, modificava-se
o regimento interno da Câmara dos Deputados, no que diz respeito à Comissão de Veri-
ficação de Poderes.
O candidato, para ser eleito, precisava ter o cômputo dos seus votos reconhecido em
várias instâncias, dependendo do cargo pretendido.
No final dessa tramitação sempre se encontrava uma Comissão de Verificação de Pode-
res, que diplomava os eleitos.
(Maria de Lourdes M. Janotti, O coronelismo, uma política de compromisso)
55
e) controlava os processos de alistamento eleitoral, votação, apuração dos votos, além de
disciplinar a formação de partidos políticos, o que possibilitou, progressivamente, a exis-
tência de eleições livres de práticas ilegais, sem o voto de cabresto.
A Comissão de Verificação de Poderes tinha como atribuição a validação da contagem dos votos
e a diplomação dos candidatos eleitos, o que abrangia os integrantes das Assembleias Estaduais,
do Senado e da Câmara dos Deputados. Em virtude dessa função, a comissão detinha a autorida-
de para determinar quem seria oficialmente diplomado, permitindo-lhe, portanto, a exclusão de
candidatos considerados inapropriados sob justificativas de fraudes ou inconsistências adminis-
trativas. Resposta: Letra D.
2. (FCC – 2015) Seu Mundinho, todo esse tempo combati o senhor. Fui eu quem mandou
atirar em Aristóteles. Estava preparado para virar Ilhéus do avesso. Os jagunços estavam
de atalaia, prontos para obedecer. Os meus e os outros amigos, para acabar com a elei-
ção. Agora tudo acabou.
(In: AMADO, Jorge. Gabriela, cravo e canela)
a) tenentismo, que considerava o exército como a única força capaz de conduzir os desti-
nos do povo.
b) coronelismo, que se constituía em uma forma de o poder privado se manifestar por meio
da política.
c) mandonismo, criado com o objetivo de administrar os conflitos no interior das elites
agrárias do país.
d) messianismo, entidade com poderes políticos capaz de subjugar a população por meio
da força.
e) integralismo, que consistia em uma forma de a oligarquia cafeeira demonstrar sua
influência e poder político.
A passagem do romance “Gabriela, Cravo e Canela” ilustra um episódio representativo do coro-
nelismo, um fenômeno político prevalente no Brasil durante a República Velha. O coronelismo se
destacava pelo domínio dos chefes políticos locais, conhecidos como “coronéis”, que eram geral-
mente latifundiários e exerciam seu poder econômico e social para influenciar os desfechos elei-
torais. Na narrativa mencionada, o personagem indica sua prontidão para recorrer à violência
a fim de manipular o processo eleitoral, refletindo uma das facetas marcantes do coronelismo.
Resposta: Letra B.
56
MOVIMENTOS DE CONTESTAÇÃO NA PRIMEIRA REPÚBLICA: DE CANUDOS AO
TENENTISMO
Em 1896, teve início um conflito de grande visibilidade nos anos iniciais da República:
Canudos. A rebelião opunha a população de Canudos, um arraial que cresceu no inte-
rior na Bahia, ao recém-criado regime republicano. Esse movimento sociorreligioso foi
liderado por Antônio Conselheiro e durou de 1896 a 1897. Essa população se rebelava
contra o aumento do imposto republicano.
57
Os sobreviventes de Canudos em 1897.
Fonte: MultiRio.
Contestado (1912-1916)
58
a concessão para construir uma estrada de ferro que ligava o estado de São Paulo ao
Rio Grande do Sul. Para cumprir um dos termos do contrato, a companhia se responsa-
bilizou por 9 km de cada lado da via férrea. Isso ocasionou a desapropriação de terras
dos antigos habitantes, que não possuíam a propriedade legal.
Em 1911, a Lumber, poderosa empresa madeireira ligada a Brazil Railway, estabe-
leceu-se na zona contestada. Tinha autorização para explorar a madeira da região,
comprometendo-se pela colonização. Isso afastava a possibilidade de um acordo entre
Paraná e Santa Catarina, pois ambas queriam ficar com a posse da região, onde se
esperava um grande desenvolvimento econômico. Quando a construção da estrada de
ferro terminou, deixou cerca de 8 mil trabalhadores desempregados. Eles haviam sido
recrutados em vários estados brasileiros. Os donos das fazendas ficaram preocupados
com tantos desocupados que invadiam as propriedades para sobreviverem.
Na região de Campos Novos, surgiu um monge, José Maria, que era um desertor do
exército paranaense. Monarquista, agrupou a população pobre, sem terra e desem-
pregada, que via nele um curandeiro e profeta, formando grupos com alguma milita-
rização. Ele pregava a existência de um reino milenarista, que tinha a crença de que o
Messias destruiria o mal e inauguraria um reino de felicidade, um reino paradisíaco de
mil anos. Nesse reino, vigoraria a lei de Deus, todos teriam lugar para plantar e haveria
prosperidade e justiça.
José Maria foi morto em 1912 após luta contra a força policial requisitada por fazendei-
ros da região; porém, os paranaenses acabaram derrotados. No entanto, os redutos foram
sendo constantemente atacados, até finalmente serem derrotados em 1916 por forças do
governo federal. Ao fim, um tratado territorial foi assinado entre Santa Catarina e Paraná.
Região do “Contestado”.
Fonte: Senado Federal.
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Cangaço
O movimento do cangaço foi uma forma conhecida como banditismo social, isto é, a
violência dos ataques e saques aos municípios e vilarejos do sertão nordestino envolvia
disputas de terras, coronelismo, vinganças pessoais, revolta com a situação de miséria
e a falta de assistência do poder público. Esses bandos eram formados por jagunços
e antigos capangas de fazendeiros que perambulavam armados pelo interior do nor-
deste. Os cangaceiros tornaram-se extremamente temidos por todo o país, sendo seu
mais famoso líder Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Quando de sua morte, em
1938, sua cabeça foi exibida em praça pública, ao lado de outros do seu bando, como
sua companheira, conhecida como Maria Bonita.
Tenentismo
Coluna Prestes.
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A insatisfação tinha entre seus atores: a classe média (descontente com a inflação),
os intelectuais (viam o coronelismo como uma “pedra no caminho” para o Brasil se tor-
nar civilizado), os empresários (ligados aos setores têxteis e alimentícios que exigiam
uma política de industrialização para o país), os operários (combativos e organizados
em torno do Partido Comunista, fundado em 1922) e os oficiais do Exército (defenden-
do um Estado forte, autoritário e intervencionista para a modernização do país).
Revolta da Vacina
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Revolta da Chibata
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Após a Revolta da Chibata, a Marinha recuou até o fim da Primeira República, mas
o movimento fazia parte de um contexto mais amplo de revoltas militares, como a
Revolta da Escola Militar da Praia Vermelha, a Revolta dos Sargentos e a Primavera de
Sangue, movimentos que apontavam para fissura no centro do poder republicano.
Revoltas Sertanejas
A reação a tantas novidades advindas pela mudança de regime e pelo boom das cida-
des não se manteve contida apenas nas maiores cidades. Em distintas regiões do país
foram deflagrados movimentos sociais que combinavam questões agrárias e a luta
pela posse de terra, muito amparados por traços religiosos. Exemplos desses movi-
mentos são Contestado, Juazeiro, Caldeirão, Pau-de-Colher e Canudos, que indicam o
lugar entre a mística popular e a revolta, produto inesperado do processo de moderni-
zação e da negligência do Estado com essa população.
Em 1896, iniciou-se um conflito de grande visibilidade nos anos iniciais da República:
Canudos. A rebelião opunha a população de Canudos, um arraial que cresceu no inte-
rior na Bahia, ao recém-criado regime republicano. Esse movimento sociorreligioso foi
liderado por Antônio Conselheiro e durou de 1896 a 1897; essa população rebelava-se
contra o aumento do imposto republicano.
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O Governo enviou a Canudos quatro expedições formadas por tropas do Exército,
mas só obteve sucesso no quarto e último atentado. Prometeu-se que, se a população
se rendesse, sobreviveria, mas o acordo não foi mantido e a comunidade foi dizimada.
A República queria transformar Canudos em um exemplo: era o que se recebia por não
fazer parte do sistema.
Revoltas Operárias
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Há que se dizer, por fim, que as divisões internas diminuíram a capacidade de mobi-
lização dos trabalhadores; foi apenas na década seguinte que o movimento operário se
ampliou, tornando-se mais organizado e complexo.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2021) Para responder a questão, leia o trecho do romance Grande sertão:
veredas, de Guimarães Rosa.
Sei que estou contando errado, pelos altos. Desemendo. Mas não é por disfarçar, não
pense. De grave, na lei do comum, disse ao senhor quase tudo. Não crio receio. O senhor
é homem de pensar o dos outros como sendo o seu, não é criatura de pôr denúncia. E
meus feitos já revogaram, prescrição dita. Tenho meu respeito firmado. Agora, sou anta
empoçada, ninguém me caça. Da vida pouco me resta — só o deo-gratias; e o troco.
Bobeia. Na feira de São João Branco, um homem andava falando: —“A pátria não pode
nada com a velhice...” Discordo. A pátria é dos velhos, mais. Era um homem maluco, os
dedos cheios de anéis velhos sem valor, as pedras retiradas —ele dizia: aqueles todos
anéis davam até choque elétrico... Não. Eu estou contando assim, porque é o meu jeito
de contar. Guerras e batalhas? Isso é como jogo de baralho, verte, reverte. Os revoltosos
depois passaram por aqui, soldados de Prestes, vinham de Goiás, reclamavam posse de
todos os animais de sela. Sei que deram fogo, na barra do Urucuia, em São Romão, aonde
aportou um vapor do Governo, cheio de tropas da Bahia. Muitos anos adiante, um roceiro
vai lavrar um pau, encontra balas cravadas. O que vale, são outras coisas. A lembrança
da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento,
uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo
sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte
ou pesar,cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedi-
do desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. [...] Tem horas antigas que fica-
ram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe.
(Grande sertão: veredas, 2015.)
a) à Revolta da Chibata.
b) à Revolta da Armada.
c) ao Cangaço.
d) ao Abolicionismo.
e) ao Tenentismo.
65
O texto menciona a Coluna Prestes, um dos diversos movimentos tenentistas que surgiram na
década de 1920. De forma ampla, o tenentismo representou uma sequência de rebeliões armadas
lideradas por segmentos do oficialato jovem do Exército, que consideravam a República Velha
como uma violação dos ideais que inspiraram a Proclamação da República em 1889. Para esses
oficiais, a configuração política do Brasil e a ascensão das oligarquias voltadas para a exporta-
ção agrícola ao poder constituíam uma traição aos valores positivistas que o próprio Exército
havia adotado como base para o fim da monarquia. Nesse contexto, o tenentismo se apresentava
como uma nova interpretação e um reavivamento dos ideais positivistas no cenário político do
país. Resposta: Letra E.
66
Com o fim da guerra, o Brasil recebeu navios alemães como compensação pelas
perdas sofridas antes de sua entrada no conflito. A experiência da Primeira Guerra
Mundial teve um impacto duradouro na política externa brasileira, influenciando as
relações internacionais do país nas décadas seguintes.
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FCC – 2022) A respeito da crise diplomática conhecida como “questão do Acre”, assina-
le a afirmativa correta.
2. (FCC – 2018) Os litígios fronteiriços entre a região do Amapá e a Guiana Francesa tive-
ram desfecho com
67
A controvérsia territorial envolvendo o Amapá e a Guiana Francesa foi definitivamente solu-
cionada em 1900 por meio de um processo de arbitragem conduzido pela Suíça, com a decisiva
intervenção do Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores do Brasil na época. O vere-
dicto da arbitragem suíça foi favorável ao Brasil, permitindo que o país retivesse a maior parte
da área em disputa. Esse julgamento marcou o término de uma extensa fase de disputas e tensões
na fronteira entre o Brasil e a França. Resposta: Letra D.
Nos primeiros anos do século XX, a vida cultural das elites brasileiras, assim como a
de outros países do mundo ocidental, fora fortemente influenciada pelos hábitos e cos-
tumes europeus, sendo perceptível no modo como as pessoas se vestiam, na pintura,
na literatura e em muitas outras expressões artístico-culturais.
Entretanto, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os países euro-
peus experimentaram um período de crise política e econômica, levando as demais
nações a questionarem a suposta “superioridade” da cultura europeia.
Na figura3 a seguir, observe alguns dos artistas brasileiros mais influentes da época:
Nesse cenário, os(as) intelectuais e jovens artistas, membros da nascente elite urba-
na brasileira, procuravam novos referenciais para suas produções, com a intenção de
reconstituir uma identidade nacional. Para isso, empenharam-se em não promover
3 Escritor Mário de Andrade (primeiro à esquerda, no alto), o bibliógrafo Rubens Borba de Moraes (sentado,
segundo da esquerda para a direita) e outros modernistas brasileiros, como Tácito, Baby, Mário e Guilherme de
Almeida e Yan de Almeida Prado, 1922. Autoria, dimensões e local de guarda não identificados. Fonte: Wikimedia
Commons.
68
uma simples reprodução dos padrões europeus: reconheciam e valorizavam a sua
importância, mas também passaram a incorporar em suas obras alguns elementos
da cultura e da memória nacional, representativos do que era “ser brasileiro” naquele
contexto.
Assim, as manifestações populares, a linguagem, as diferentes etnias e tipos sociais
passaram a ser incorporados nas produções de escritores, pintores, escultores e musi-
cistas brasileiros. A ideia era que suas produções combinassem os elementos nacionais
às mais modernas tendências artísticas mundiais. Assim, surgia o movimento moder-
nista brasileiro, que ganhou grande visibilidade, sobretudo, entre a elite intelectual
paulistana.
Os referenciais estéticos do Modernismo brasileiro derivam do Modernismo euro-
peu, originado no início do século XX, com o advento das inovações científicas que
modificaram os hábitos e costumes sociais. Os intelectuais adeptos desse movimento
buscavam se distanciar do tradicionalismo artístico e literário do século XIX, tido como
“ultrapassado”. Com isso, almejavam criar referenciais culturais mais conectados ao
contexto de transformações vivenciado pela sociedade capitalista industrial. Observe
a imagem4 a seguir:
69
dos referenciais modernistas. Além das exposições, houve palestras, debates e apre-
sentações de música e dança.
Patrocinado por ricos fazendeiros e por famílias tradicionais paulistanas, o even-
to foi um sucesso, levando o público a reagir de diversas formas: algumas pessoas o
elogiaram, concordando com os valores estéticos propostos, e outras, apreciadoras
do tradicionalismo, rejeitaram a nova proposta artística e literária, vaiando e atirando
objetos naqueles que se apresentavam.
A Semana de 22 pode ser considerada uma linha divisória entre um período cultural
caracterizado pela tradição, pelo academismo, pelo conservadorismo e pelo surgimen-
to de uma nova forma de expressão, marcada pela liberdade de expressão e pela valo-
rização/incorporação de novos referenciais estéticos e artísticos, com destaque para os
elementos que caracterizavam a cultura brasileira. Ao propor uma mudança de menta-
lidade no campo das artes e da literatura, esse movimento contribuiu, em certa medi-
da, para uma transformação no modo de pensar a política no país.
Washington Luís foi presidente do Brasil até outubro de 1930. Durante seu manda-
to, ocorreu uma série de eventos que levaram a uma transição política tumultuada.
Em comparação a seu antecessor, Arthur Bernardes, o governo de Washington Luís
foi relativamente tranquilo. No entanto, ninguém poderia prever os conflitos que sur-
giriam durante a transição de poder. Os problemas começaram quando Washington
Luís insistiu em apoiar o candidato paulista, Júlio Prestes, como seu possível sucessor
(Fausto, B., 2019; Pandolfi, 2010).
Nas eleições anteriores, os mineiros haviam aceitado que Washington Luís, repre-
sentante dos interesses paulistas, fosse o candidato em 1926. Para equilibrar a chapa,
o mineiro Fernando de Melo Viana foi escolhido como vice-presidente. No entanto, os
mineiros não estavam dispostos a permitir que um representante dos interesses pau-
listas assumisse o poder novamente.
Em busca de apoio, os mineiros uniram-se aos gaúchos, que até então mantinham
uma boa relação com o governo federal. Para garantir a participação dos gaúchos na
disputa, os mineiros concordaram em permitir a candidatura de oposição de Getúlio
Vargas, com João Pessoa como vice (Schwarcz; Starling, 2018; Fausto, B., 2019).
No dia 1º de março de 1930, um sábado de Carnaval, os brasileiros que sabiam ler e escrever saí-
ram de casa para eleger o próximo presidente da República — e escolher uma nova bancada de
deputados federais. Essa seria a 12ª eleição presidencial da República brasileira. O pequeno núme-
ro de eleitores — votava o brasileiro adulto, do sexo masculino e alfabetizado, correspondente a
5,6% da população [...]. (Schwarcz; Starling, 2018, p. 351)
70
Após a apuração das eleições, Júlio Prestes foi declarado vencedor em 1º de maio de
1930. Para Getúlio Vargas, não restava outra opção senão aceitar a derrota e reassumir
o governo do Rio Grande do Sul.
No entanto, nem todos compartilhavam desse pensamento. Surgiu um movimento,
conhecido como “tenentes civis”, que defendia uma resposta armada. Embora o movi-
mento tenha recebido muitas adesões, inicialmente não possuía grande força. Entre-
tanto, em 26 de julho, João Pessoa, vice na chapa de Vargas, foi assassinado por João
Dantas, um adversário político.
O GOLPE DE 1930 E O GOVERNO PROVISÓRIO (1930-1934)
Esse evento se tornou um marco, sendo o estopim para a revolução que se iniciou
em 3 de outubro de 1930 em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. O presidente eleito,
Júlio Prestes, foi deposto, e uma junta provisória foi estabelecida. Porém, a junta não
conseguiu resistir às pressões. Getúlio Vargas dirigiu-se a São Paulo e depois ao Rio de
Janeiro, acompanhado por 3 mil soldados. Em 3 de novembro de 1930, ele assumiu
a presidência do país. Com isso, terminava a Primeira República brasileira (Schwarcz;
Starling, 2018; Fausto, B., 2019).
Após conquistar o poder, Getúlio Vargas decidiu manter-se no cargo, e não foram
realizadas novas eleições; ele permaneceu como presidente do país por 15 anos. Duran-
te esse período, ele implementou diversas medidas que tiveram impacto significativo,
como afirma Boris Fausto (2019):
� Centralização: pouco tempo após assumir o Executivo, Vargas dissolveu o Congres-
so e assumiu também o Legislativo. Ele demitiu todos os governadores eleitos, com
exceção do de Minas Gerais, e nomeou interventores federais em seus lugares. Em
1931, foi criado o Código dos Interventores, que estabelecia as normas de subordi-
nação ao governo federal. Essa centralização não se limitou apenas à esfera política,
mas também se estendeu à economia, com o controle da Política do Café sendo
assumido por Vargas;
� Educação: os líderes políticos vitoriosos em 1930 tinham preocupação em formar
uma elite intelectual mais bem preparada. Neste sentido, um marco importante foi
a criação do Ministério da Educação e Saúde. Como ditador, Vargas também teve
71
As tensões intensificaram-se quando Vargas indicou um nordestino como interven-
tor em São Paulo, pois havia um grande preconceito contra a população nordestina na
época. Em 1932, os paulistas passaram a exigir a convocação imediata de uma Assem-
bleia Nacional Constituinte. Além disso, havia um sentimento evidente de que São Pau-
lo estava “carregando o peso” do restante do Brasil, e alguns chegaram a pregar o
separatismo caso suas demandas não fossem atendidas (Schwarcz; Starling, 2018).
No dia 9 de julho de 1932, estourou em São Paulo a revolução contra o governo fede-
ral. Os paulistas esperavam contar com o apoio dos mineiros e rio-grandenses, porém
esse apoio não veio. Na verdade, o interventor do Rio Grande do Sul, Flores da Cunha,
apoiou Vargas e enviou tropas para combater os paulistas. São Paulo viu-se sozinho
em meio ao conflito com o governo federal, contando apenas com a Força Pública e a
mobilização popular. O plano dos paulistas era atacar a capital da República e colocar
o governo “contra a parede”, buscando negociar ou forçar uma capitulação. No entan-
to, eles falharam em seu plano, uma vez que o governo federal possuía uma enorme
superioridade militar (Fausto, B., 2019).
Em 1º de outubro de 1932, São Paulo assinou a rendição. Num gesto característico, Vargas primei-
ro acertou as contas: prendeu os rebeldes, expulsou os oficiais do exército, cassou os direitos civis
dos principais implicados no levante, despachou para o exílio as lideranças políticas e militares do
estado, mandou reorganizar a Força Pública e reduzi-la ao status de órgão policial. A elite paulista
estava derrotada. (Schwarcz; Starling, 2018)
Importante!
Essa nova constituição estabelecia o sistema de República Federativa no
Brasil.
No dia seguinte, em 15 de julho de 1934, Getúlio Vargas foi eleito pelo voto indireto
da Assembleia Nacional Constituinte como presidente. Seu mandato estava previsto
para terminar em 3 de maio de 1938.
Segundo a nova Constituição, a partir do fim do mandato do presidente Vargas, as
eleições para a presidência da República deveriam ser diretas, ou seja, o povo teria o
direito de escolher diretamente o próximo presidente. Mas o golpe no Novo Estado
frustrou as expectativas democráticas (Fausto, B., 2019; Vianna, 2010).
72
A Ruptura Oligárquica e a Revolução de 1930
Washington Luís (1926-1930) não se deu conta da frágil relação entre as oligarquias
mais poderosas, em especial São Paulo e Minas Gerais, indicando o também paulista
Júlio Prestes para a sua sucessão e não Antônio Carlos de Andrada, de Minas Gerais.
Os mineiros romperam e apoiaram a Aliança Liberal, encabeçada por Getúlio Vargas
e João Pessoa, contra Júlio Prestes. A máquina política dominada pelos paulistas levou
a melhor sobre a inovadora e reformista campanha da Aliança Liberal nas eleições de
maio de 1930.
A indignação dos derrotados e as acusações de fraude eleitoral foram incorpora-
das pelas oligarquias contrárias a São Paulo, pelo Exército, pelo movimento operário e
pelas classes médias. O assassinato de João Pessoa em 26 de julho de 1930 indignou
a opinião pública, que acusava motivações políticas por trás do crime. No início de
outubro, Minas, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Paraíba mobilizaram tropas até as
fronteiras de São Paulo.
Com a iminência de uma guerra civil, uma junta militar depôs Washington Luís em 24
de outubro de 1930. Em 31 de outubro, Getúlio Vargas chegou ao Rio de Janeiro na con-
dição de líder da Revolução, aclamado pelos tenentes e pela multidão. Em 3 de novem-
bro de 1930, tinha início o governo provisório (1930-1934) sob a chefia de Vargas.
Uma coligação entre oligarquias adversárias de São Paulo e frações do Exército ocu-
pou o poder na queda da República Oligárquica. Todavia, a única coisa que unia todos
esses setores era a oposição aos oligarcas do Partido Republicano Paulista (PRP): os
tenentes defendiam um governo forte e centralizado que tutelasse a sociedade e inter-
visse na economia, as elites gaúchas positivistas eram inclinadas a um Estado centra-
lizado e interventor, as elites mineiras liberais simpatizavam com o federalismo e com
algumas reformas sociais.
73
Em meio às tensões entre liberais e autoritários, estava Getúlio Vargas, fazendo o
papel de mediador de interesses em conflitos, dando equilíbrio entre os grupos em
disputa e isolando seus opositores. Esse esquema ganhou o nome de “Estado de com-
promisso”, reunindo liberais da velha prática política, reformadores políticos e sociais,
o empresariado industrial, que ainda era dependente da ajuda do café, a classe operá-
ria, organizada em torno de organizações sindicais, e uma classe média que ocupava
cargos de funcionários públicos e profissionais liberais.
Nesse período, destacam-se a fundação do Ministério do Trabalho e o Ministério da
Educação, em 1931, e a vigência do novo Código Eleitoral (direito ao voto feminino e
Justiça Eleitoral autônoma para monitorar resultados e coibir fraudes), em 1932. Entre
as tendências político-ideológicas nos anos 1930, destacam-se:
Integralistas reunidos.
Fonte: Toda Matéria.
74
Em 1932, eclodiu a Revolução Constitucionalista de 1932. A tensão teve início com
a nomeação do coronel João Alberto (pernambucano, tenentista e de esquerda), cau-
sando a ira dos paulistas, organizados sob Frente Única Paulista (junção do PRP com o
Partido Democrático). Com a pressão, Vargas acabou nomeando Pedro de Toledo (pau-
lista e civil). A intenção de acalmar os ânimos foi por água abaixo com a depredação do
Diário Carioca (crítico do Governo Provisório), o que levou ao acirramento dos ânimos
entre liberais e tenentistas.
A visita do ministro Osvaldo Aranha foi vista como uma provocação pelos liberais.
Em 23 de maio, a tentativa de tomar de assalto o Partido Popular Paulista (PPP) acabou
com a morte de Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo. Suas iniciais, MMDC, deram
nome à sociedade secreta criada para derrubar Vargas. A revolta explodiu em 9 de
julho, durou quase 3 meses e terminou com a rendição de São Paulo em 3 de outubro.
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FGV – 2023)
75
As afirmativas a seguir caracterizam corretamente as posições do governo de Getúlio
Vargas sobre a questão da imigração referidas nos textos I e II, à exceção de uma.
Assinale-a.
2. (VUNESP – 2015) Em março de 1988, o modelo sindical levado por Lindolfo Collor para
o Ministério do Trabalho completou 57 anos de idade. Em todos estes anos foi olhado
com suspeita pelos empresários e com bastante desconfiança pelos grupos socialistas,
comunistas e pela esquerda em geral. Atribuía-se sua criação, na década de 30, à influên-
cia das doutrinas autoritárias e fascistas então na moda.
(Letícia Bicalho Canêdo. A classe operária vai ao sindicato, 1988.)
76
GOVERNO CONSTITUCIONAL (1934-1937) E A CONSTITUIÇÃO DE 1934
77
Cerimônia de queima das bandeiras estaduais em 1937, dias após o golpe do Estado Novo.
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FCC – 2018) Conforme o Decreto nº 22.621, de 5/4/1933, a Assembleia Constituinte
que iria debater a nova Constituição brasileira deveria ser composta por 214 deputados
eleitos na forma da lei eleitoral vigente desde 1932, e mais 40 representantes classistas
eleitos pelos sindicatos legalmente reconhecidos pelo Ministério do Trabalho. Esta com-
posição pode ser compreendida como fruto da convivência
78
ordem. Logo, a prática de atribuir uma representação singular a cada grupo não só validava a
relevância de sua classe social, mas também neutralizava as divergências internas, fortalecendo
o poder regulatório do Estado sobre a força de trabalho. Resposta: Letra D.
2. (FCC – 2015) A Constituição Federal brasileira de 1934, que tratou pela primeira vez no
Brasil de Direito de Trabalho (art.121), ao garantir a liberdade sindical, isonomia salarial
e outros direitos ao trabalhador, foi influenciada
REFERÊNCIAS
CAPELATO, M. H. O Estado Novo: o que trouxe de novo. In: FERREIRA, J.; DELGADO, L.
(Org.). O Brasil republicano 2: o tempo do nacional-estatismo. Rio de Janeiro: Civili-
zação Brasileira, 2010. p. 113-153.
FAUSTO, B. História do Brasil. 14ª ed. atual. e ampl., 3ª reimp. São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 2019.
FAUSTO, S. Modernização pela via democrática. In: FAUSTO, B. História do Brasil.
14ª ed. atual. e ampl., 3ª reimp. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo,
2019.
GOMES, A. C.; FERREIRA, J. Brasil, 1945-1964: uma democracia representativa em con-
solidação. Locus: Revista de História, [S. l.], v. 24, n. 2, 2023. Disponível em: https://
79
O ESTADO NOVO (1937–1945)
A fonte que Vargas usou como inspiração para o golpe do Estado Novo era encontra-
da na Segunda Guerra Mundial; porém, com a derrota do Eixo neste mesmo contexto
combativo, o nazifascismo entrou em crise e o Brasil acabou recebendo os estilha-
ços dessa derrota. Assim, o então presidente da época tentou resistir, porém a rea-
ção popular, com apoio das Forças Armadas, foi capaz de encaminhar que houvesse
a deposição do presidente e atribuição do poder ao presidente do Supremo Tribunal
Federal (STF) vigente à época, José Linhares, em 29 de outubro de 1945.
Assim, o novo presidente, para consertar a desordem, constituiu outro ministério,
e revogou o art. 167, da Constituição, que adotava o estado de emergência, acabando
também com o Tribunal de Segurança Constitucional. No final do ano de 1945, as elei-
ções realizadas para a Presidência da República deram vitória ao general Eurico Gaspar
Dutra, que foi empossado em 31 de outubro de 1946, governando o país por meio de
decretos-leis, enquanto uma nova Constituição era confeccionada.
80
Vargas foi o único civil a comandar uma ditadura no Brasil. Esse regime, que tocava
as orlas do fascismo europeu5, teve como base a leitura de alguns pensadores conser-
vadores, como Alberto Torres, que defendia a ideia de que era responsabilidade do
Estado organizar a sociedade, realizar mudanças no país e dar um propósito à nação
(Schwarcz; Starling, 2018). Uma das sugestões apresentadas consistia na implementa-
ção de controle social por meio da presença de um Estado poderoso liderado por um
indivíduo carismático, com a habilidade de guiar as massas em direção à estabilidade
(Capelato, 2010).
Durante o período do Estado Novo de Vargas, que ocorreu entre 1937 e 1945, houve
uma forte presença de autoritarismo, centralização de poder, restrição das liberdades
civis e políticas, censura à imprensa e perseguição política.
Vargas também implementou princípios trabalhistas, com políticas voltadas para os
direitos dos trabalhadores. Um exemplo disso foi a criação da Consolidação das Leis
do Trabalho, em 1943, que estabeleceu direitos e garantias para os empregados, refle-
tindo sua tentativa de conciliar o controle estatal com uma abordagem favorável aos
interesses trabalhistas. Além disso, Vargas impulsionou a industrialização e exerceu
controle sobre a economia, buscando consolidar um Estado forte com base em sua
liderança carismática.
Após enfrentar intensa pressão, em 28 de fevereiro Getúlio Vargas anunciou que
eleições seriam realizadas em um prazo de 90 dias. Em 2 de dezembro de 1945, ocor-
reriam as eleições para a presidência da República, e em 6 de maio de 1946, para os
governos estaduais. Vargas declarou que não seria candidato, mas foi durante seu
governo que surgiu a candidatura de Dutra, então ministro da Guerra. O principal opo-
sitor seria Eduardo Gomes (Schwarcz; Starling, 2018; Fausto, B., 2019).
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FCC – 2018) No debate historiográfico, vários autores sustentam a tese de que, apesar
de autoritário e repressivo, o Estado Novo brasileiro não pode ser considerado tipicamen-
te fascista, pois lhe faltava
81
e) um ditador com amplos poderes, a instalação de campos clandestinos de concentração
e o uso da censura sistemática nos meios de comunicação.
O regime do Estado Novo, apesar de seu caráter autoritário, não se apoiava em um partido polí-
tico de grande escala com organização em todo o território nacional. O partido governista da
época, o PSD, não compartilhava da mesma infraestrutura e capacidade de mobilização popular
característica dos partidos fascistas da Europa. Ademais, o Estado Novo não promoveu a criação
de milícias paramilitares, elemento associado aos regimes fascistas. Resposta: Letra B.
2. (VUNESP – 2022) Tão visivelmente defeituosa era a prática do nosso sistema repre-
sentativo que os estadistas, legisladores e escritores políticos do Império e da Primeira
República costumavam atribuir-lhe a principal responsabilidade pelos males do regime.
[…] Com semelhante visão dos problemas políticos brasileiros, é muito explicável que o
aperfeiçoamento da legislação eleitoral tenha sido um dos mais eficientes slogans da
campanha de que resultou a Revolução de 1930.
(Victor Nunes Leal. Coronelismo, enxada e voto, 1976. p. 240-241)
82
ECONOMIA NA ERA VARGAS: DO CAFÉ À INDÚSTRIA
83
Propaganda veiculada durante o Estado Novo.
Fonte: Indagação.
84
O debate sobre a possibilidade de Vargas concorrer às eleições foi bastante tenso;
quando ele nomeou seu irmão Benjamin Vargas para a chefia da Polícia do Distrito
Federal, a oposição e o Alto Comando do Exército não aceitaram. Todavia, sem maiores
resistências, Getúlio aceitou a deposição em 29 de outubro de 1945.
Na ausência de Congresso, José Linhares, presidente do STF, dirigiu o país até a pos-
se do eleito Eurico Gaspar Dutra em 31 de janeiro de 1946. Vargas seguia, mesmo de
sua fazenda em São Borja (RS), uma liderança importante. Não à toa, voltaria ao Palácio
do Catete através do voto em 1951.
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2019) Em termos econômicos, o Estado Novo (1937-45) caracterizou-se
a) pela política da privatização de empresas ligadas aos serviços urbanos, como o abaste-
cimento de água.
b) pela adoção de um nacionalismo extremado por meio do qual se proibiu a entrada de
capitais estrangeiros no país.
c) pelo forte intervencionismo estatal com a criação de conselhos regulatórios, como o
Conselho Nacional do Petróleo.
d) pela aplicação de medidas liberais, tais como o congelamento dos salários para evitar o
aumento da inflação.
e) pela redução do deficit público com o corte de gastos em algumas áreas sociais, como
a educação.
O estabelecimento do Conselho Nacional do Petróleo em 1938 marcou um momento crucial para
a escolha do Brasil pelo modelo de desenvolvimento com forte presença do Estado. Foi nesse
contexto que o Estado tomou medidas decisivas para regular e definir direções para diversos
segmentos da economia nacional, priorizando a energia como um dos campos estratégicos
fundamentais. Essa visão estratégica representou uma significativa conquista dos militares na
implementação de um intervencionismo estatal sólido, um traço marcante do nacional-desenvol-
vimentismo no Brasil. Resposta: Letra C.
De 1889/1890, começo da República, até 1930-1940 mais ou menos, a indústria e as HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL
cidades apresentaram determinadas características.
A atividade industrial, sempre crescente, era conduzida fundamentalmente no interior de
empresas de pequeno e médio porte, ainda que as grandes fábricas existentes concen-
trassem o maior número de operários e a maior quantidade de capital, sendo responsá-
veis também pela maior parte da produção industrial. [...] Apenas a partir das décadas
de 1940 e 1950 as indústrias de bens de consumo duráveis e bens de capital desenvol-
veram-se de modo significativo.
(Maria Auxiliadora Guzzo de Decca. Indústria e trabalho no Brasil, 1991.)
85
O texto divide a industrialização brasileira em dois ciclos distintos. O primeiro deles
caracteriza-se
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FGV – 2023) A ascensão de movimentos populistas no cenário político contemporâneo
reativou o debate sobre o conceito e a história do populismo no Brasil. Mas o populismo
não é unívoco: é um fenômeno amplo, ao qual foram associadas diversas definições.
86
As afirmativas a seguir reconstituem corretamente diversas abordagens conceituais ao
fenômeno do populismo, à exceção de uma. Assinale-a.
Emblema utilizado pela Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial.
87
Com a entrada dos Estados Unidos na guerra, em 1941, e o torpedeamento de vários
navios mercantes brasileiros, o país entra em guerra ao lado dos aliados em agos-
to de 1942. A saída de Lourival Fontes, Filinto Müller e Francisco Campos, defensores
da aliança com os alemães, marcou a tomada de decisão. Em 1944, foram mandados
25.000 soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) para a Itália, marcando a par-
ticipação do Brasil no conflito.
O período pós-Segunda Guerra Mundial no Brasil foi marcado por uma série de
transformações políticas, sociais e econômicas que redefiniram o curso da nação. Com
o fim do conflito global, o Brasil emergiu com uma nova postura no cenário internacio-
nal, buscando uma posição de maior relevância e alinhamento com os Estados Unidos,
que se consolidaram como uma superpotência.
88
A guerra havia impulsionado a industrialização e o desenvolvimento econômico,
mas também deixou desafios, como a necessidade de reestruturação e a gestão das
consequências sociais do conflito.
No âmbito interno, o fim da guerra coincidiu com o declínio do Estado Novo, o regi-
me ditatorial de Getúlio Vargas que vigorou de 1937 a 1945. A participação do Brasil
ao lado dos Aliados contra as potências do Eixo foi um fator que contribuiu para a
crise final desse regime. A contradição entre lutar contra o totalitarismo no exterior e
manter uma ditadura em casa tornou-se insustentável, alimentando movimentos pela
redemocratização.
A crise do Estado Novo se agravou com a pressão por mudanças democráticas, tanto
de setores internos quanto de aliados externos. A situação contraditória do Brasil na
guerra, aliada à crescente insatisfação popular e à mobilização de grupos opositores,
culminou na queda de Vargas em 1945. Esse evento abriu caminho para a redemocra-
tização do país e para a promulgação de uma nova Constituição em 1946, marcando o
início da Quarta República ou “República Populista”.
Economicamente, o Brasil pós-guerra enfrentou o desafio de consolidar o proces-
so de industrialização iniciado durante o conflito. O desenvolvimentismo tornou-se a
palavra de ordem, e o país buscou capital externo para gerar empregos e fortalecer sua
indústria. No entanto, essa fase também foi caracterizada por turbulências políticas,
com a presença de diversos grupos ideológicos disputando a direção do país.
A crise final do Estado Novo e o período subsequente foram fundamentais para a
formação da identidade política e econômica do Brasil moderno. As lições aprendidas
com a participação na guerra e o processo de redemocratização moldaram as políticas
internas e externas do país nas décadas seguintes, estabelecendo as bases para o Bra-
sil contemporâneo.
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2021) O Estado Novo foi arquitetado como um Estado autoritário e moderni-
zador que deveria durar muitos anos. No entanto, seu tempo de vida acabou sendo curto,
89
b) pressão diplomática da Argentina para que o Estado brasileiro aderisse às forças alia-
das, declarasse guerra aos países do Eixo e mandasse tropas para libertar o Norte da
África das forças nazistas.
c) deliberação da I Conferência Internacional de Estados Americanos determinando, apesar
da discordância do Brasil, que todas as nações da América deveriam se manter neutras
na Segunda Guerra.
d) entrada do Brasil na Segunda Guerra, ao lado dos Aliados, provocando ação de oposito-
res, que começaram a explorar a contradição entre a ditadura Vargas e o apoio do gover-
no brasileiro às democracias.
A adesão do Brasil ao conflito mundial em agosto de 1942, lutando ao lado das nações demo-
cráticas, revelou uma incoerência flagrante na política interna do país: embora o Estado Novo,
estabelecido em 1937, tivesse raízes em princípios autoritários e inspirações fascistas, em 1942
o país entrou na guerra contra as potências do Eixo, alinhando-se com as democracias liberais.
Enquanto reprimia dissidentes, impunha censura e mantinha um governo de partido único, o
Estado Novo igualmente se juntava ao esforço bélico, aliando-se aos combatentes antifascistas
na guerra, o que era contraditório. Resposta: Letra D.
2. (VUNESP – 2019) No início da guerra, Getúlio Vargas manteve o Brasil neutro e conservou
relações comerciais tanto com os alemães como com os norte-americanos. Aos poucos,
no entanto, foi se tornando cada vez mais difícil para o Brasil manter a neutralidade.
(Alfredo Boulos Júnior, História: sociedade & cidadania, 9º ano)
90
3. (VUNESP – 2022) Embora o argumento do pêndulo possa ter servido como elemento
secundário de convencimento no processo decisório junto a funcionários em Washing-
ton, o mais plausível é, uma vez mais, a explicação pelo cálculo estratégico: tendo em
vista a alta possibilidade de envolvimento dos Estados Unidos na guerra, seria útil atrair
o Brasil como principal ponto de sustentação político-diplomática no hemisfério sul.
(Rubens Ricupero. A diplomacia na construção do Brasil – 1750-2016, 2017. p. 329 - 330)
O texto alude à política exterior do governo de Getúlio Vargas durante o Estado Novo
(1939-1945). A grave tensão ideológica e militar em grande parte dos anos de 1930
poderia favorecer uma atitude “pendular” do governo brasileiro entre a Alemanha e os
Estados Unidos da América.
91
Já o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) era o partido de Vargas, e seu candidato foi
Dutra. Conforme Gomes e Ferreira (2023):
PSD e PTB surgiram sob a égide do getulismo, enquanto a UDN tinha perfil radicalmente antigetu-
lista e antitrabalhista. (Gomes; Ferreira, 2023, p. 261)
92
A segunda eleição presidencial ocorreu em outubro de 1950 e, nesse caso, vê-se o desenho de uma
crise política que se inicia quando da apresentação das candidaturas, mas não cessa durante o
governo do eleito. Isso porque Getúlio Vargas se lançou candidato pela coligação do PTB com o Par-
tido Social Progressista (PSP), retomando em sua campanha o discurso trabalhista e nacionalista
construído após 1942, no Estado Novo. A promessa era dar curso ao projeto nacional-desenvolvi-
mentista e estender a política de benefícios sociais aos trabalhadores. (Gomes; Ferreira, 2023, p.
267)
A oposição a Vargas foi liderada pela UDN, novamente com a candidatura do bri-
gadeiro Eduardo Gomes. O PSD também apresentou um candidato, mas, ao perceber
que suas chances eram mínimas, decidiu apoiar a candidatura de Vargas. Com 48,73%
dos votos, Vargas foi eleito presidente da República, enquanto Eduardo Gomes obte-
ve 29,66% dos votos. Os derrotados tentaram invalidar as eleições, mas seus planos
foram frustrados. Vargas assumiu a presidência (Gomes; Ferreira, 2023).
Em seu primeiro mandato em um regime democrático, eleito pelo povo, Vargas
enfrentou dificuldades para manter-se no poder, com uma oposição forte. Ele conser-
vou um discurso semelhante ao dos governos anteriores, enfatizando o nacionalismo
e o trabalhismo.
Na oposição, destacava-se Jânio Quadros, que baseou sua campanha no populismo.
Diante das pressões, Vargas tomou uma medida desesperada ao aumentar os salários
em 100%. No entanto, as pressões continuaram e, em um último ato, Vargas cumpriu
sua promessa — “só morto deixo o Catete”. Em 24 de agosto, ele cometeu suicídio no
Palácio do Catete (Fausto, B., 2019).
Em frente ao Catete, cerca de 1 milhão de pessoas tentavam ver o corpo de Getúlio; muita gente
chorava compulsivamente, outros desmaiavam, e havia quem, ao entrar na sala onde ocorria o
velório, se agarrasse ao caixão […]. O suicídio de Vargas frustrou a oposição, que, desnorteada, viu
escapar a oportunidade de acirrar a crise, desmoralizar o presidente com a renúncia e abrir cami-
nho para o golpe militar. (Schwarcz; Starling, 2018, p. 411)
O PSD foi o primeiro partido a lançar um candidato nas eleições: Juscelino Kubits-
chek. Um mês depois, a UDN lançou Juarez Távora como candidato. No dia 3 de outubro
de 1955, Juscelino estava na liderança, com 36% dos votos. João Goulart fez campanhas
93
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2022) As eleições de 1945 despertaram um grande interesse na população.
Depois de anos de ditadura, a Justiça Eleitoral ainda não ajustara o processo de recepção
e contagem de votos. Pacientemente, os brasileiros formaram longas filas para votar.
Nas últimas eleições diretas à presidência da República, em março de 1930, tinham vota-
do 1,9 milhão de eleitores, representando 5,7% da população total; em dezembro de 1945
votaram 6,2 milhões, representando 13,4% da população.
Em uma época em que não existiam pesquisas eleitorais, a oposição foi surpreendida
pela nítida vitória de Dutra. Tomando-se como base de cálculo os votos dados aos can-
didatos, com exclusão dos nulos e brancos, o general venceu com 55% dos votos contra
35% atribuídos ao brigadeiro [Eduardo Gomes].
(Boris Fausto, História do Brasil)
94
Entre as limitações citadas no trecho, é correto identificar
95
Durante a República Liberal, que se estendeu de 1945 a 1964, o Brasil experimentou
grandes transformações em sua estrutura econômica e social. A industrialização avan-
çou significativamente, com a criação de indústrias de base e a expansão do parque
industrial, especialmente nas regiões Sudeste e Sul. Esse processo foi acompanhado
por uma intensa urbanização, com o crescimento das cidades e a migração do campo
para as áreas urbanas.
A urbanização brasileira, impulsionada pela industrialização, transformou o espaço
geográfico e a dinâmica social do país. As cidades tornaram-se centros de oportunida-
des econômicas, atraindo um grande número de migrantes rurais. Isso resultou em um
êxodo rural massivo e na formação de grandes aglomerações urbanas, principalmente
nas regiões mais industrializadas.
O Nacional-Desenvolvimentismo e as políticas de industrialização e urbanização
durante a República Liberal tiveram um impacto profundo no Brasil. Essas políticas
contribuíram para a integração do país na nova ordem econômica mundial e estabele-
ceram as bases para o desenvolvimento econômico e social nas décadas seguintes. O
legado dessas transformações ainda é sentido no Brasil contemporâneo.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC -2019) As políticas desenvolvimentistas dos anos 1950, levadas a cabo sobretudo
nos governos de Getúlio Vargas e de Juscelino Kubitschek, acabaram por gerar dois efei-
tos colaterais em termos socioeconômicos, perceptíveis entre o fim dos anos 1950 e a
década de 1960, tais como:
96
Durante o desenvolvimentismo, observou-se um foco de investimentos na região centro-sul do
Brasil, fator que agravou as disparidades entre as regiões. Paralelamente, a procura por condi-
ções de trabalho mais favoráveis resultou em um crescimento da migração interna, notadamente
do Nordeste em direção ao Sudeste. Resposta: Letra C.
Após assumir a presidência, ficou evidente que Jânio Quadros era habilidoso em
conquistar votos, mas enfrentava dificuldades em administrar o país e lidar com a polí-
tica. Ele entrou em conflito com o Congresso, com o vice-presidente Jango e com a
imprensa. Em 25 de agosto de 1961, apenas alguns meses após tomar posse, Jânio
convocou os ministros militares e anunciou sua renúncia no palácio. A renúncia nunca
foi devidamente explicada à população brasileira. Seu vice-presidente, João Goulart,
assumiu o cargo em 7 de setembro de 1961 (Schwarcz; Starling, 2018).
As próximas eleições democráticas estavam programadas para ocorrer em 1965.
No entanto, em 19 de março de 1964, em São Paulo, ocorreu a Marcha da Família com
Deus pela Liberdade, que reuniu cerca de 500 mil pessoas. Essa marcha demonstrou
aos defensores de um golpe que havia uma base social de apoio significativa.
O último ato de Jango foi perigoso, ao discursar no Rio de Janeiro em uma assem-
bleia de sargentos, enquanto o golpe já estava em andamento. O general Olímpio Mou-
rão Filho precipitou o então presidente e, em 31 de março, seguiu com tropas de Juiz de
Fora para o Rio de Janeiro. Em 1º de abril, o cargo de presidente da República foi decla-
rado vago. Brizola tentou mobilizar tropas e a população, mas não obteve resultados.
O Brasil vivia o fim da experiência democrática (Fausto, B., 2019).
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2018) Observe a imagem a seguir.
97
Essa fotografia foi tirada em 1961, na posse de Jânio Quadros na presidência da Repúbli-
ca, e mostra João Goulart, recém-eleito vice-presidente; Jânio Quadros,discursando com
a faixa presidencial; Juscelino Kubitschek, antecessor de Jânio na presidência.
2. (FGV – 2019) As “Marchas da Família com Deus pela Liberdade” ocorreram em várias
cidades brasileiras, motivadas pelo comício do presidente João Goulart anunciando seu
programa de reformas de base, em 13 de março de 1964, no Rio de Janeiro.
REFERÊNCIAS
98
SCHWARCZ, L. M.; STARLING, H. M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das
Letras, 2018.
Castelo Branco
99
Além disso, outras 3644 pessoas receberam sanções políticas baseadas nos Atos Ins-
titucionais, o que correspondeu a 65% de todo o ocorrido dessa natureza nos 21 anos
de ditadura, e 90% das 1230 punições aos militares oposicionistas ao longo de todo o
regime foram efetuadas sob seu mando.
A economia ficou a cargo de Roberto Campos, e suas principais medidas estavam
sintetizadas no Plano de Ação Econômica do Governo (Paeg), cujas prioridades eram
a contenção da inflação, o retorno da capacidade do Estado em investir em infraestru-
tura produtiva, a reorganização das finanças públicas mediante um novo sistema tribu-
tário e, por fim, a renegociação da dívida externa a fim de alcançar novos empréstimos.
No que se refere à nova política salarial, os salários eram reajustados baseados em
um cálculo que considerava não somente a inflação dos últimos doze meses, como
também a previsão de inflação dos próximos doze meses. Assim, “como a inflação era
sistematicamente subestimada, a nova legislação provocou perda salarial sistemática,
com perversos efeitos distributivos” (LUNA; KLEIN, 2014, p. 94).
Esse arrocho salarial era visto pelo governo como um fator para a insatisfação popu-
lar e para a consequente instabilidade do novo regime; assim, em 1964, foi criado o
Banco Nacional da Habitação (BNH), mais tarde incrementado pela criação do Fundo
de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), formando uma política de financiamento
para a construção de casas populares e um fundo para o trabalhador demitido sem
justa causa. Por fim, o projeto de modernização autoritária pressupunha o controle das
organizações de trabalhadores urbanos e rurais pelo Estado, assim como a persegui-
ção de líderes sindicais.
Costa e Silva
O Marechal Artur da Costa e Silva foi o segundo militar a ocupar a presidência e,
empossado em 15 de março de 1967, pertencia ao grupo conhecido como “linha dura”,
diferentemente de seu antecessor. Além disso, implementou uma política externa mais
nacionalista e menos alinhada aos Estados Unidos.
Seu breve governo ficou marcado pela implementação do quinto Ato Institucional
(AI-5), cujo conteúdo viabilizou o terrorismo de Estado. Esse ato estabelecia a cas-
sação ampla e irrestrita de políticos e cidadãos, suspendia o habeas corpus de presos
políticos, permitia a decretação de estado de sítio sem autorização prévia mediante
a centralização excessiva do poder Executivo Federal e, por fim, a censura prévia sob
todos os meios de comunicação e sob os produtos culturais.
Médici
O terceiro presidente da ditadura foi Emílio Garrastazu Médici, o general de maior
patente entre os pré-candidatos e que também pertencia à “linha dura” palaciana. Seu
governo ficou conhecido como os “anos de chumbo”, dada à violação sistemática dos
direitos humanos. Todo cidadão era passível de ser acusado de subversivo, baseado
em uma simples suspeita, e ficando sujeito à detenção, à tortura e à morte.
100
Seu governo coincidiu, ainda, com o período do “milagre econômico”, cuja taxa de
crescimento médio foi de 10% ao ano. A maior expansão industrial ficou concentrada
— e sustentada pelos juros baixos — no setor de bens de consumo duráveis, além de
um crescimento exponencial no setor automobilístico. No campo social, contudo, a
situação não era favorável, uma vez que o arrocho salarial e a concentração de renda
não permitiram a transformação dos ganhos de produtividade dos trabalhadores.
O endividamento externo é, também, marca desse período, agravado ainda mais
pela primeira crise do petróleo, em 1971, quando os preços e os juros internacionais
cresceram vertiginosamente. O maior problema estava no financiamento das indús-
trias estatais mediante crédito de bancos privados internacionais, que, por sua vez,
possuíam taxas de juros altíssimas e flutuantes. O endividamento externo saltou de
menos de 5 bilhões de dólares em 1964 para mais de 90 bilhões de dólares em 1983;
ao mesmo tempo em que o Brasil ascendeu à condição de 10ª potência do mundo, os
indicadores de qualidade de vida o alocavam entre os últimos.
Geisel
101
A notícia repercutiu negativamente, uma vez que setores importantes da sociedade
descreditavam o comunicado oficial. Diante do ocorrido, o presidente, tido como mode-
rado, nada fez senão advertir o comandante do II Exército, Ednardo D’Ávila Melo.
Em 1976, outra morte tornou-se pública e comoveu a sociedade: o sindicalista Manoel
Fiel Filho apareceu morto após ser interrogado pelas forças da repressão. Somente
após forte pressão houve a demissão de D’Avila Melo pelo presidente. É importante
destacar que embora somente esses dois casos tenham repercutido de forma mais
ampla, outras centenas de denúncias eram feitas em relação às torturas.
Já em abril de 1977, o governo, prevendo a derrota do partido governista nas elei-
ções do ano seguinte, fechou o Congresso por 15 dias e editou um conjunto de medi-
das autoritárias conhecido como “Pacote de Abril”. Esse pacote, em síntese, previa a
extensão do mandato do presidente, de cinco para seis anos, eleições indiretas para
governadores de Estado e a nomeação de um terço do Senado pelo presidente. A “Lei
Falcão” foi promulgada na esteira do pacote, inviabilizando o acesso da oposição à
televisão.
O governo Geisel, por fim, marcou um avanço na industrialização pesada, sobretudo
no setor elétrico, nuclear, petroquímico e de equipamentos industriais, promovendo,
ademais, a estatização da economia. Embora tenha conseguido, em 1974, manter o
crescimento econômico, dependendo cada vez mais de quantidade vultuosa de inves-
timentos exteriores, é possível afirmar que a crise econômica efetivamente havia se
iniciado em seu governo, intercalada com períodos de crescimento, que seguiriam até
o início do governo Figueiredo.
Figueiredo
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC – 2018) Os Atos Institucionais editados e promulgados ao longo do Regime Mili-
tar brasileiro, além de versarem sobre vários temas específicos, foram fundamentais ao
conferirem um fundamento normativo a uma marca política do regime, qual seja
102
a) o estabelecimento da censura prévia aos meios de comunicação, automática ao se
declarar Estado de Sítio permanente no país.
b) a militarização do Estado, por meio da nomeação de generais interventores nos três
poderes republicanos e da obrigatoriedade do Poder Executivo ser ocupado por um mili-
tar de carreira.
c) o reforço dos poderes do Presidente, que poderia exercer uma tutela sobre os poderes da
República, sobre os direitos dos cidadãos, além de assumir funções legislativas.
d) o fim do Congresso Nacional, com a supressão de suas atividades políticas e a promul-
gação de lei que condenava os partidos de oposição à ilegalidade.
e) o fortalecimento do Poder Legislativo, que tornou possível a proibição das atividades
públicas e políticas dos cidadãos , ao decretar o fim do direito ao habeas corpus.
Os Atos Institucionais, particularmente o AI-5, ampliaram as prerrogativas do presidente da
República, concedendo-lhe a capacidade de intervir em outros poderes, suspender direitos polí-
ticos, decretar o fechamento do Congresso Nacional, legislar através de decreto-lei, entre outras
ações. Essa concentração de poder no Executivo destacou-se como um dos traços marcantes do
regime militar no Brasil. Resposta: Letra C.
103
Este texto constituinte ainda sofreu emendas sucessivas por meio da expedição dos
atos institucionais (AIs), que serviram de mecanismos de legitimação e legalização das
ações políticas dos militares, dando a eles poderes que excediam a Constituição.
Assim, do ano de 1964 até 1969, foram decretados 17 atos institucionais, que eram
regulamentados por 104 atos complementares. Nesse sentido, como forma de ilustra-
ção, um deles, o AI-5, de 13 de dezembro de 1968, funcionou como um instrumento
que deu origem ao regime de poderes absolutos, com a primeira consequência atin-
gindo o Congresso Nacional, que foi fechado por quase um ano e, posteriormente, o
recesso dos mandatos de senadores, deputados e vereadores, que passaram a receber
somente a parte fixa de seus subsídios.
Em outubro de 1969, estando o Congresso fechado desde a implementação do Ato
Institucional nº 5 (AI-5), a Junta Militar impôs uma emenda constitucional reformando
o texto de 1967; dentre as alterações, constavam a implementação da pena de morte, o
banimento, a ampliação do estado de sítio de 60 para 180 dias ou tempo indetermina-
do, assim como a determinação de novas limitações ao exercício dos direitos políticos,
liberdade de cátedra e expressão artística.
Outras medidas desse mesmo AI-5 devem ser mencionadas, tais como:
Mais do que a Constituição de 1937, a Carta de 1967, 30 anos depois, foi capaz de
aumentar a insegurança, mais uma vez, causando muitas lesões sociais, econômicas e
culturais, gerando impactos que repercutiram durante anos em na sociedade.
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FCC – 2022) Após o início do Regime Militar no Brasil, a Constituição Brasileira vigente
104
c) permaneceu como a Carta Magna reconhecida pelos juristas até o fim do regime e quan-
do, já sob o governo de José Sarney, foi convocada uma nova assembleia constituinte,
responsável pela elaboração da Constituição de 1988.
d) foi suspensa devido à decretação de Estado de Exceção uma vez que os militares enten-
diam que uma guerra contra o comunismo se fazia urgente e, naquele contexto, o Estado
democrático de direito não poderia ser garantido.
e) sofreu adaptações através de Emendas e Atos institucionais durante todo o regime, no
intuito de alinhar o Brasil à Aliança para o Progresso, campanha anticomunista empreendi-
da pelos Estados Unidos, que exerceram grande interferência na política interna nacional.
A Constituição de 1967 representou o marco legal fundamental da ditadura militar no Brasil,
marcando o término da República Liberal (1945-1964) e estabelecendo as bases jurídicas do novo
governo. O documento incorporou e legitimou as principais normas dos primeiros quatro atos
institucionais e ampliou a doutrina de segurança nacional, concedendo poderes extensivos à
União e ao Poder Executivo sob a justificativa de proteger a segurança nacional. De acordo com
esse pensamento, era imprescindível reforçar o poder central para assegurar a defesa do Brasil
contra a “subversão” interna e prevenir ameaças de intervenção externa, especialmente o “peri-
go” do avanço comunista nas Américas. Assim, a Constituição enfraqueceu o Poder Legislativo
e favoreceu o poder central, intensificando a autoridade autocrática do estado. Adicionalmen-
te, foram realizadas várias reformas no Judiciário para diminuir o poder das instituições que
tinham maior potencial de interferir e influenciar o Executivo, afetando até a composição do
Supremo Tribunal Federal. Resposta: Letra B.
2. (VUNESP – 2024) Após definido o projeto político a ser seguido pelo Governo, Geisel e
sua equipe ministerial elaboraram as principais metas da política econômica expostas
no II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), que entrou em vigor em 1974.
Durante o período de elaboração do II PND, o Presidente explicou que os planos de seu
governo se voltavam para o desenvolvimento e que seria impossível para o país alcançar
a modernização sem a presença impulsionadora do governo federal.
(Karina C. Brotherhood. A política nacional-desenvolvimentista de Geisel [...]. Disponível em: [Link]
Acesso em 28.02.2024. Adaptado)
A política econômica abordada pelo texto tinha como parte de suas finalidades
105
A estratégia econômica do governo Geisel estava direcionada à busca de soluções para a crise
energética do Brasil, com o objetivo de assegurar a autossuficiência energética e minimizar a
dependência do país em relação a recursos energéticos estrangeiros. Essa iniciativa ganhou espe-
cial importância diante da escalada dos preços do petróleo no mercado global. Resposta: Letra D.
106
REFORMAS ADMINISTRATIVAS, INVESTIMENTOS E REFORMAS PÚBLICAS NO
REGIME MILITAR: O BRASIL POTÊNCIA; A ORDEM E O PROCESSO DE ABERTURA
POLÍTICA NO REGIME MILITAR; POLÍTICA EXTERNA DO REGIME MILITAR
Reforma Agrária
A questão agrária, que há tempos vinha se arrastando no Brasil e foi fator importan-
te na queda de Jango, também começou a ser rediscutida ainda no começo do governo
militar. Assim, o ministro Roberto Campos apresentou uma proposta do Estatuto da
Terra baseada em três aspectos: primeiro, a tributação progressiva da propriedade,
levando-se em consideração seu tamanho e produtividade; o segundo previa a desa-
propriação mediante indenização para o caso de terras improdutivas; terceiro, a colo-
nização de terras ociosas.
Em outubro de 1964, o texto foi enviado para a apreciação do Congresso. Contudo,
tratava-se de um texto bastante diferente do que fora apresentado ao público dias
antes, o que refletia conflitos de interesses.
A principal alteração estava relacionada à descentralização do aspecto fiscal da refor-
ma agrária proposta pelo governo, uma vez que o mecanismo de tributação progressi-
va ficaria a cargo dos governos estaduais. Nesse sentido, o conflito mais claro era entre
a perspectiva modernizante defendida pelos militares, em detrimento à perspectiva
conservadora dos grandes proprietários e por membros da UDN. A queda de braço
entre o governo e as elites regionais resultou na derrota do primeiro e na impossibili-
dade de se implementar o projeto de modernização do campo.
107
após sua posse. A tentativa fracassada de setores golpistas dentro das Forças Armadas
de impedir a posse de Goulart, principal herdeiro do varguismo, elevou a gravidade das
sucessivas crises.
Empossado, Jango não foi capaz de se equilibrar e atender às demandas dos distin-
tos grupos, e seu governo foi perdendo cada vez mais apoio popular, isolando-se em
relação ao conservadorismo institucional.
O golpe militar de 1964 foi aplaudido e auxiliado por conspiradores ligados à UDN e
aos demais setores civis antivarguistas, tendo à frente civis como Ademar de Barros,
governador de São Paulo, Carlos Lacerda, governador da Guanabara, e Magalhães
Pinto, governador das Minas Gerais. Foi apoiado também por militares anticomunis-
tas radicais, pelo núcleo ligado ao Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), que
já colhia informações desde 1961, e pela cúpula da Igreja Católica.
O golpe civil-militar foi justificado pela Doutrina de Segurança Nacional, cujo con-
teúdo foi reiteradamente ministrado na Escola Superior de Guerra (ESG), criada em
1949, e que contou com assistência francesa e norte-americana. O objetivo da ESG era
treinar quadros de alto nível para as tarefas de direção e planejamento da segurança
nacional.
Nesse contexto, às Forças Armadas foi atribuída uma nova função, desempenhar
o papel de dirigente, diferentemente do papel de interventor transitório ocupado em
outros golpes na história recente brasileira. Assim, os militares passaram a ocupar
variadas funções políticas e administrativas, chegando a ocupar quase 30% de todos
os cargos civis do Estado em 1979.
108
Além desta articulação interna, o golpe foi apoiado pelos Estados Unidos, que pre-
pararam, inclusive, uma operação militar — conhecida como Brother Sam — para caso
houvesse resistência por parte de João Goulart. Em sessão do Congresso Nacional, con-
vocada para às 2h40 de 2 de abril de 1964, o Senador Auro de Moura Andrade declara-
va vaga à presidência, muito embora Goulart ainda estivesse no Brasil.
Goulart, por sua vez, exauridas todas as possibilidades de resistir ao golpe, partiu
para o exílio no Uruguai. Apesar de tudo, uma pesquisa de opinião mostrou que Jango
gozava de amplo respaldo: 45% considerava seu governo “ótimo” ou “bom”; 49% plane-
javam reelegê-lo em 1965; e apenas 16% considerava seu governo “ruim” ou “péssimo”.
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2017) Em meados da década de 1970, as condições externas que haviam
sustentado o sucesso econômico do regime militar sofreram alterações profundas.
(Tania Regina de Luca. Indústria e trabalho na história do Brasil, 2001.)
a) pelos investimentos oriundos dos países do Leste europeu e pelo aumento gradual dos
preços em dólar das mercadorias importadas.
b) pela ampla disponibilidade de capitais para empréstimos a juros baixos e pelo aumento
súbito do custo de importação do petróleo.
c) pelos esforços norte-americanos de ampliar sua intervenção econômica na América
Latina e pela redução acelerada da dívida externa brasileira.
d) pela ampliação da capacidade industrial dos demais países latino-americanos e pelo
crescimento das taxas internacionais de juros.
e) pela exportação de tecnologia brasileira de informática e pela recessão econômica
enfrentada pelas principais potências do Ocidente.
Durante a Ditadura Militar no Brasil (1964–1985), a economia nacional se beneficiou de um con-
109
2. (FCC – 2018) A partir de meados da década de 1970, o combate ao regime militar acen-
tuou-se, envolvendo políticos da oposição e diversos setores da sociedade civil no rumo
da retomada democrática. Em 1978, o Ato Institucional nº 5 foi revogado, e em agosto de
1979, foi sancionada a Lei da Anistia, após manifestações populares em comícios,pas-
seatas e atos públicos. O desgaste do regime militar era visível, e as forças da oposição
política, formando uma frente suprapartidária, apresentaram, em 1983, um projeto que
mobilizou novamente a sociedade: a campanha pelas “Diretas Já”, para mudar as regras
da sucessão do general João Batista Figueiredo, com a Emenda Dante de Oliveira. Vota-
da em 26 de abril de 1984, sob forte clima de tensão, pois a base de apoio político à
ditadura ainda não se esfacelara, a Emenda
a) foi aprovada e, por isso, em 1985, Tancredo Neves foi eleito por voto popular.
b) recebeu votos contrários do PDT, que anteriormente a apoiara.
c) foi aprovada e, em seguida, vetada pelo presidente Figueiredo.
d) obteve número insignificante de votos dos deputados presentes.
e) foi rejeitada, pois não obteve a maioria necessária de dois terços dos votos.
A Emenda Dante de Oliveira não alcançou a aprovação devido à falta da maioria de dois terços
dos votos exigida. Embora tenha contado com o apoio da maioria dos congressistas, a emenda
falhou em atingir o quórum necessário para sua passagem. Resposta: Letra E.
110
Uma entidade civil suprapartidária também foi criada, em 1966, como forma de
resistência à ditadura. A Frente Ampla era liderada por antigos simpatizantes do gol-
pe, como Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, e contou até mesmo com a adesão do
presidente deposto, João Goulart.
No que se refere às esquerdas, a radicalização do movimento estudantil era conco-
mitante à preparação e organização da luta armada. A adoção, pelo Partido Comunista
Brasileiro, da perspectiva de se adotar uma resistência pacífica à ditadura fez com que
ocorressem muitas deserções no seio do partido.
Assim, muitas figuras importantes organizaram-se em grupos guerrilheiros, sendo
os mais conhecidos Carlos Marighela, com a Ação Libertadora Nacional (ALN), e Car-
los Lamarca com o Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8). O PCdoB
também montou uma base de guerrilha na região amazônica brasileira, ao longo do rio
Araguaia. Com a guerrilha urbana praticamente extinta já no início do governo Médici,
a repressão pôde se concentrar totalmente no Araguaia, operacionalizando uma ver-
dadeira guerra que dizimou os últimos guerrilheiros do PCdoB por volta de 1975 e a
guerrilha na região amazônica brasileira, ao longo do rio Araguaia.
Já o movimento estudantil viu seu auge em engajamento em 1968. O assassinato do
secundarista Edson Luís Lima Souto pela polícia em um protesto contra o fechamento
do restaurante Calabouço gerou uma grande comoção na sociedade como um todo,
evidenciada pela presença massiva em seu cortejo fúnebre.
Na conhecida “sexta-feira sangrenta”, no dia 21 de junho, mais um confronto vio-
lento aconteceu, resultando na morte de 4 pessoas e em mais de 20 feridos à bala,
aumentando a indignação da opinião pública. Por fim, em 26 de junho, estudantes, tra-
balhadores, artistas, políticos e intelectuais reuniram-se na conhecida “Passeata dos
Cem Mil”.
A imprensa, sobretudo a alternativa, mesmo sob censura prévia e com oficiais ins-
talados dentro das redações, também procurava meios de denunciar a tortura, a cor-
rupção massiva, os erros da política econômica, o encaminhamento da guerrilha, a
cassação de políticos, entre outros.
Ademais, os novos movimentos sociais que surgiram ainda durante o auge repressor
do governo Médici protestavam contra a miséria da vida dos trabalhadores urbanos.
111
Nesse sentido, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) declarou a greve ilegal; entre-
tanto, isso não surtiu efeito na mobilização dos trabalhadores.
O novo sindicalismo, como ficou conhecido, tinha como objetivo descolar-se do sin-
dicalismo “pelego”, herança da Era Vargas, procurando ter mais independência junto
aos trabalhadores.
Golbery do Couto Silva, escolhido por Geisel como estrategista e chefe da Casa Civil,
estipulou uma agenda para a transição do poder civil, incorporando diversas reformas
políticas como a anistia política, a reorganização partidária e a eleição direta para os
governos públicos. As campanhas pela Anistia recebiam bastante atenção dos movi-
mentos pela democracia.
Em 1979, seguindo a pauta da abertura, foi promulgada uma lei que prescrevia a
maioria dos crimes políticos ocorridos entre 1964 e 1979, seja daqueles considerados
subversivos, seja pelas forças da repressão. No mesmo ano, uma nova lei extinguiu o
sistema bipartidário e estabeleceu condições para um regime pluripartidário. Nesse
ínterim, uma série de atentados terroristas ocorreu por parte dos militares contrários
à agenda da abertura.
112
As ruas, contudo, pareciam ditar o ritmo da abertura e não estavam dispostas a
ceder, e foi nesse momento que estourou uma das maiores e mais entusiasmadas
campanhas políticas da história brasileira: as Diretas Já, que, entre fevereiro e março
de 1984, se espalharam por todo o país.
Na madrugada de 25 de abril de 1983, data da votação da emenda Diretas Já, uma
parte dos deputados, liderada pelo candidato do PDS, Paulo Maluf, boicotou a vota-
ção, impedindo um quórum mínimo para a aprovação da PEC. Um balde de água fria
foi jogado na vigília cívica que acompanhava na madrugada a votação.
Nos meses seguintes à derrota, a sociedade não se desmobilizou, embora não escon-
desse sua frustração e agitação. Assim, um conjunto de negociatas escusas nos basti-
dores da política desfechou o modelo final da abertura, entre articulações partidárias:
uma parte do PDS debandou do governo formando a Frente Liberal.
Esses indivíduos, junto a uma parcela significativa do PMDB, formaram uma chapa
conservadora, a fim de disputar a eleição no Colégio Eleitoral, marcada para 1985: Tan-
credo Neves encabeçou a chapa, tendo como vice o até então aliado histórico da dita-
dura, José Sarney. A chapa saiu vitoriosa nas eleições de janeiro de 1985; entretanto,
por motivos de saúde, Tancredo Neves não pôde assumir a presidência, sendo empos-
sado seu vice. Produto da saída negociada, a transição democrática seria iniciada por
Sarney, um entusiasta da ditadura.
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2020) “A preocupação em institucionalizar as relações entre Estado e ope-
rariado (...) manifestou-se, no imediato pós30, com a criação do Ministério do Trabalho
(1931) e a promulgação da legislação trabalhista a mais diversa. No entanto, desde 1933
o sindicalismo independente e pluralista (...) sofrerá séria ofensiva estatal.”
(Maria Yedda Linhares (org). História Geral do Brasil)
113
A autora deixa evidente que, durante a Era Vargas, o sindicalismo independente e plura-
lista enfrentaria restrições por parte do Estado. Portanto, é incoerente considerar a exis-
tência de um sindicalismo com tais características, o que elimina as opções A, B e C.
É essencial lembrar que, embora a Era Vargas tenha promovido a sindicalização dos trabalhado-
res, ela veio acompanhada de condições significativas. Sob a perspectiva de Vargas, os sindicatos
deveriam organizar os trabalhadores sem desestabilizar o Estado, alinhando-se ao projeto nacio-
nal centralizado. Vargas visava à modernização autoritária do país, necessitando de um opera-
riado urbano alinhado ao projeto estatal. Assim, a sindicalização tinha o propósito de integrar os
trabalhadores ao projeto nacional, e não de engajá-los em uma luta de classes. O Estado absor-
veria as tensões sociais, organizando-as como parte de um organismo unificado. Práticas como
greves eram vedadas, e os sindicatos não deveriam confrontar a ordem vigente. Esse modelo de
organização persistiu após a Era Vargas, até ser interrompido pela ditadura militar. Somente no
final dos anos 1970 os sindicatos ressurgiriam como entidades independentes e pluralistas, reali-
zando grandes greves e desafiando a ordem estabelecida. Resposta: Letra D.
2. (FCC – 2018) O ciclo grevista operário entre os anos de 1978 e 1980, particularmente
significativo no ABC paulista, foi pautado por reivindicações que podem ser sintetizados
na seguinte formulação:
a) Luta pela liberdade sindical, em defesa do direito de greve, do direito à livre negociação,
e contra o arrocho salarial.
b) Apoio à guerrilha de esquerda, organizada pelo Movimento Estudantil, e luta pela exten-
são das Leis Trabalhistas às fábricas multinacionais.
c) Luta pela legalização do Partido Comunista, proibido pelo governo militar, e pela estati-
zação das empresas multinacionais.
d) Apoio ao projeto de distensão política do governo, criticado pela linha dura, e pressão para
partilhar as benesses do crescimento econômico conhecido como“Milagre Brasileiro”.
e) Luta pelo cumprimento da promessa de redemocratização, feita pelos militares, e contra
a crise de desemprego causada naquele momento com o primeiro choque do petróleo.
A fase de prosperidade econômica não se refletiu em avanços equitativos para todas as camadas
sociais, com as classes mais desfavorecidas continuando a enfrentar uma política de arrocho sala-
rial, que se intensificava diante do crescente cenário inflacionário. Em paralelo, a repressão política
permanecia distante de uma conclusão, exercendo rigoroso controle sobre lideranças e restringin-
do efetivamente o direito à livre associação e ao movimento grevista. Resposta: Letra A.
REFERÊNCIAS
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Universidade de São Paulo, 2019.
114
FAUSTO, S. Modernização pela via democrática. In: FAUSTO, B. História do Brasil.
14ª ed. atual. e ampl., 3ª reimp. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo,
2019.
GOMES, A. C.; FERREIRA, J. Brasil, 1945-1964: uma democracia representativa em con-
solidação. Locus: Revista de História, [S. l.], v. 24, n. 2, 2023. Disponível em: https://
[Link]/index. php/locus/article/view/20880. Acesso em: 21 ago. 2023.
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Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. p. 13-37.
SCHWARCZ, L. M.; STARLING, H. M. M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia
das Letras, 2018.
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DELGADO, L. (Org.). O Brasil republicano 2: o tempo do nacional-estatismo. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. p. 67-122.
NOVA REPÚBLICA
Governo Sarney
115
O resultado foi a diminuição da inflação e um boom consumista, que rendeu boa
popularidade ao presidente naquele momento. Esse consumismo, contudo, levou a
uma crise de desabastecimento, fazendo com que faltasse uma série de produtos na
prateleira; mesmo que o governo tentasse importar esses gêneros, não conseguia,
pois, a burocracia herdada da ditadura impossibilitava.
O Cruzado II foi anunciado em novembro de 1986, e previa o descongelamento dos
preços, há muito exigido pelos empresários, e o aumento das tarifas dos serviços públi-
cos. A inflação, que estava contida, passou de 3% nesse mês para 16% em menos de
três meses. Em 1987, o presidente foi em cadeia nacional de televisão para anunciar a
moratória da dívida externa do Brasil. A crise parecia não ter fim.
Em 1988, o governo apresentou o Plano Verão, criando a moeda “cruzado novo”,
mas o plano foi um completo fiasco, pois, àquela altura, o governo já havia perdido
toda a sustentação política e se tornara extremamente impopular.
A partir desse momento, o país caminhou à hiperinflação, chegando a 83% em mar-
ço de 1990. Preços de supermercado eram reajustados todos os dias e filas aconte-
ciam em supermercados e postos de gasolina toda vez que surgia o menor indício de
aumento dos preços.
Ainda em 1987, iniciou-se o importante processo da Constituinte, transformando
os próprios congressistas eleitos em 1986 no Congresso Constituinte, com ampla maio-
ria do PMDB. Os debates foram acalorados e algumas propostas do PMDB foram con-
sideradas radicais demais, mas, de fato, muitos avanços se tornaram constitucionais.
Há que se dizer, por fim, que até o final do governo Sarney, nenhuma ruptura sig-
nificativa em relação à ditadura havia acontecido (a começar pelo próprio presidente,
como dissemos), e também porque nenhum julgamento havia acontecido para punir
militares envolvidos em crimes contra a humanidade. As esperanças se voltaram, enfim,
para a primeira eleição direta que escolheria um presidente da república em 21 anos.
Em 27 de novembro de 1985, por meio da Emenda Constitucional nº 26, a Assembleia
Nacional Constituinte foi chamada com o propósito de fazer novo texto constitucional
para mostrar a realidade social que o país vivia, que era um processo de redemocrati-
zação depois do fim do regime militar.
Promulgada em 5 de outubro de 1988, a Constituição trouxe um novo modelo jurídi-
co-institucional ao país, com aumento das liberdades civis, dos direitos e das garantias
individuais. A nova Carta colocou cláusulas transformadoras com a intenção de mudar
relações econômicas, políticas e sociais, dando direito de voto aos analfabetos e aos
jovens de 16 e 17 anos. Além disso, também houve a criação de novos direitos traba-
lhistas, como diminuição da jornada semanal de 48 para 44 horas, seguro-desempre-
go e férias pagas com mais um terço do salário. Ainda, é relevante ressaltar algumas
outras adoções.
116
� Licença-paternidade de cinco dias;
� Criação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) no lugar do Tribunal Federal de Recursos;
� Criação dos mandados de injunção, de segurança coletivo e restabelecimento do
habeas corpus;
� Foi também criado o habeas data, que possui função de garantir o direito de infor-
mações sobre a pessoa do interessado, guardadas em registros de entidades gover-
namentais ou banco de dados particulares que tenham caráter público;
� Previsão de reforma no sistema tributário e na repartição das receitas tributárias
federais, com propósito de fortalecer estados e municípios;
� Reformas na ordem econômica e social, com instituição de política agrícola e fundiá-
ria, e regras para o sistema financeiro nacional;
� Leis de proteção ao meio ambiente;
� Fim da censura em rádios, TVs, teatros, jornais e demais meios de comunicação;
� Alterações na legislação sobre seguridade e assistência social.
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FGV – 2022) A cidadania não se restringe ao voto. A Constituição de 1988 previu diver-
sas formas de exercer a cidadania além da consulta eleitoral, como, por exemplo, atuar
em órgãos considerados importantes instâncias de participação social, garantidos pela
Constituição nas áreas da saúde, educação e assistência social. Estes órgãos são deli-
berativos e contam com participação de organizações da sociedade civil e representan-
a) ouvidorias públicas
b) conselhos municipais.
c) orçamento participativo.
d) audiências públicas da cidade.
e) sessões legislativas na Câmara dos Vereadores.
117
Instituídos por legislação municipal e passíveis de serem propostos pela iniciativa popular, os
conselhos municipais são estabelecidos como órgãos contínuos para a participação popular e
para a tomada de decisões sobre assuntos determinados, promovendo a prática democrática por
meio da participação popular, que se estende além do âmbito das eleições. Resposta: Letra B.
a) a propriedade das terras dos ancestrais e direito de dispor das terras para venda ou
outros fins.
b) o direito à assimilação harmoniosa à sociedade brasileira, com acesso ao sistema de
saúde e educação.
c) os direitos originários sobre as terras que originariamente ocupam e a explicitação do
respeito à diferença cultural e linguística.
d) o direito de extrair as riquezas minerais, da fauna e da flora para garantir meios de sobre-
vivência diante da sociedade capitalista.
e) ampliação dos direitos jurídicos de serem incondicionalmente protegidos pelo Estado
nacional.
A resposta dessa questão encontra-se no art. 231, da Constituição Federal: “São reconhecidos aos
índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários
sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer
respeitar todos os seus bens.” Resposta: Letra C.
118
As emissoras de televisão tiveram papel fundamental para o declínio do candidato
esquerdista, transmitindo com frequência os “alarmes” de Collor, em especial a Rede
Globo, durante seu principal telejornal. Collor, assim, foi eleito presidente pelo Partido
da Reconstrução Nacional (PRN), mas possuía desde o início quase nenhum apoio da
estrutura partidária.
No dia 16 de março de 1990, foi apresentado o Plano Collor, que estipulava o blo-
queio de todas as aplicações em bancos e depósitos em contas correntes, além da aber-
tura comercial e do congelamento dos preços. Cerca de 95 bilhões de dólares foram
confiscados para bloquear a liquidez, a fim de conter a inflação, fazendo exatamente
aquilo que supostamente seu adversário faria caso chegasse à presidência.
Ao fracasso de sua estratégia para economia, somaram-se denúncias de corrupção
no seu governo, sendo a mais evidente a de seu irmão, Pedro Collor, em maio de 1992.
Pedro denunciou a existência de um amplo esquema liderado pelo tesoureiro da cam-
panha de Fernando Collor, conhecido como “PC Farias”.
Em seguida, o Congresso instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)
para averiguar as denúncias, descobrindo contas bancárias associadas a “laranjas” para
o financiamento da campanha; descobriram-se também “contas-fantasma” que finan-
ciavam reformas na casa do presidente, mas que logo descobriu-se tratar de restos dos
fundos da campanha, além da compra de um carro para sua esposa com dinheiro ilegal
proveniente dos esquemas de PC Farias.
Uma série de protestos tomou conta do país: a Ordem dos Advogados do Brasil
(OAB) apresentou ao Congresso um pedido de impeachment do presidente; surgiu o
Movimento pela Ética na Política, cuja organização reunia cerca de 900 entidades; os
estudantes tiveram papel importante e simbólico nos protestos: por conta dos rostos
pintados com as cores nacionais, ficaram conhecidos como “cara-pintadas”.
Em 29 de setembro de 1992, a Câmara autorizou a abertura do processo de impedi-
mento e, no final desse ano, Collor foi condenado no Senado por 76 votos favoráveis
contra apenas 3. Antes disso, é preciso dizer, ele havia tentado manobrar a situação
tentando renunciar; o que não deu certo. Perdeu, assim, o mandato, e se tornou inele-
gível por 8 anos.
Quem assumiu em seu lugar foi o vice-presidente, Itamar Franco, e foi em seu gover-
119
Ainda durante o governo de Itamar, foi possível chegar a um arguto acordo de rene-
gociação da dívida, após os norte-americanos finalmente aceitarem a proposta de Luiz
Carlos Bresser Pereira de conceder descontos para os montantes. Mas foi o sucesso
do plano real que marcou seu breve período à frente da presidência, sucesso esse que
impulsionou seu ministro ao executivo federal.
Governo FHC
120
Em 1995, foi instituída a Comissão sobre Mortos e Desaparecidos, cuja proposta
era reconhecer os mortos e desaparecidos durante os anos repressivos, ritual bastante
simbólico para aqueles que perderam alguém e nunca chegaram a ter sequer um ates-
tado de óbito. Tempos depois, em 2001, surgiu a Comissão da Anistia, concedendo
indenizações às vítimas da ditadura.
Governo Lula
121
sobrevivência a longo prazo; diminuir a pressão sobre os recursos, permitindo o resga-
te da capacidade de gastos públicos; e aumentar a equidade, reduzindo as distorções
nas transferências de renda realizadas pelo Estado.
O governo petista optou, então, por iniciativas de forte impacto simbólico, no ambien-
te nacional e internacional. Nos primeiros dias da nova administração, lançou-se o já
mencionado programa Fome Zero e uma reforma da previdência social. Com a refor-
ma da previdência, procurava-se reparar privilégios vigentes, estabelecendo o mes-
mo teto para as aposentadorias dos empregados do setor público e privado. Essa foi
uma medida bem recebida pelas agências internacionais, que esperavam que o novo
governo demonstrasse moderação política e se mantivesse dentro dos parâmetros de
austeridade fiscal.
No que se refere ao Fome Zero, faltava consistência, pois muitas ações precisavam
ser realizadas, e se carecia de articulação de vários setores. A fragilidade do programa
foi se evidenciando e, ainda em 2003, o Ministério de Segurança Alimentar, que havia
sido criado para mobilizar as ações necessárias para o funcionamento do programa, foi
fundido com o Ministério da Assistência Social.
Assim, engendrou um novo programa de transferência de renda, o Bolsa Família,
que unificou três programas criados na administração de FHC: Bolsa-Escola, Bolsa-Ali-
mentação e Auxílio Gás. Também foram realizadas iniciativas que priorizaram a ação
governamental na área da educação; além disso, propôs-se a criação do Fundo de
Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Desenvolvimento da
Educação Básica (Fundeb), o que incluía o ensino médio no sistema de incentivos que
vinham sendo realizados pela administração anterior.
Alguns autores argumentam que, embora de um ponto de vista de classe, o PT con-
tinua sendo um partido dos trabalhadores, principalmente no que se refere à sua ori-
gem, pois é inegável que o PT foi criado por e para trabalhadores. Houve um claro
rompimento com os interesses desse grupo; após assumir o poder, as ideias, discursos
e ações resguardadas pela direção do partido apresentaram semelhanças embaraço-
sas com as dos representantes da grande burguesia. De todo modo, as multidões con-
tinuaram indicando, em momentos cruciais, o Partido dos Trabalhadores como seu
representante.
O governo Lula reuniu em seus quadros administrativos tanto líderes sindicais e
intelectuais do PT, quanto convictos neoliberais, o que o tornou, em uma análise mais
sóbria, um governo muito pouco afeito aos interesses da classe que dizia representar.
Lula cumpriu sua promessa de moderar as propostas mais radicais do programa petis-
ta antes do lançamento da “Carta ao povo brasileiro”, de 2002.
Um evidente exemplo foi a preocupação com o pagamento da dívida externa, mes-
mo existindo problemas sociais evidentes, como rodovias danificadas e insuficientes,
adversidades nas redes elétricas, de saúde, saneamento, entre outros. Essa foi uma
escolha impensável para o Lula do século anterior. Assim, sua administração deu pros-
seguimento à política econômica de FHC, elevou o superávit, prometeu a flexibilização
do mercado de trabalho e a reforma sindical.
122
Dica
Superávit é o resultado positivo de todas as receitas e despesas do
governo, ou seja, é o equivalente ao que o governo consegue economi-
zar para o pagamento de juros da dívida pública.
FMI é a sigla do Fundo Monetário Internacional, organização financei-
ra que pode oferecer ajuda financeira pontual e temporária aos países
membros.
As limitações das administrações de Lula são evidentes, embora seja difícil negligen-
ciar os avanços no campo social. Por exemplo, a reforma agrária — pauta importante
para esquerda —, não foi considerada; e a reforma tributária apenas aumentou a carga
tributária, evitando propostas como a taxação de grandes fortunas.
Outra crítica é que os programas sociais não se constituíram enquanto direito, ou
seja, não foram incorporados enquanto emendas à Constituição, o que significa que
podiam ser retirados a qualquer momento.
Governo Dilma
123
veria bombardeado por acusações de que sua autonomia estava comprometida pela
interferência política. Se, por outro lado, a arrecadação tributária diminuísse e o gasto
primário não trilhasse a mesma direção, o governo era atacado, acusado de não cuidar
da credibilidade da trajetória da dívida pública, tampouco da inflação.
Para conseguir pôr em prática suas intenções de mudanças estruturais, o gover-
no teria que se apoiar em ampla campanha pública que expusesse suas intenções e
motivações. Isso, contudo, não ocorreu, e o capital financeiro, por sua vez, reagiu rapi-
damente, mobilizando a opinião pública e deslegitimando os discursos de Dilma, que
tencionavam defender seu projeto econômico.
A recuada do governo, traduzida pelo aumento dos juros, foi uma tentativa de abran-
dar os ataques realizados pelos representantes ideológicos dos interesses rentistas,
procurando recompor o bloco de poder político mobilizado pela administração de Lula,
tática que seria reforçada em 2015.
A estratégia, no entanto, não foi bem sucedida, pois, na busca pela governabilidade,
Dilma perdeu bastante popularidade, dado que se voltava cada vez mais à uma políti-
ca econômica que primava pela ortodoxia, sobretudo na austeridade fiscal e salarial,
pondo à parte os interesses populares, que representavam o grosso de seu eleitorado.
A opinião empresarial era a de que o Bolsa Família reduzia a procura por empre-
gos e dificultava a contratação; esse argumento é difícil de ser sustentado, tendo em
vista que o valor do benefício sempre foi muito inferior ao do salário mínimo, que foi
ganhando cada vez mais encorpo. Além disso, figuras públicas reconhecidas usavam os
meios de comunicação para apontar que os gastos sociais e aumentos salariais eram
responsáveis pela desaceleração do investimento privado e da redução dos lucros.
Quanto aos projetos sociais, Dilma tinha um grande desafio, considerando que seu
predecessor, Lula, conquistara popularidade amparando-se justamente nesse tipo de
programa. No primeiro mandato de Dilma, o desemprego diminuiu, o salário mínimo
aumentou e a presidente deu sequência aos programas de transferência de renda.
Na questão dos avanços da legislação trabalhista, é possível apontar, por exemplo,
a regulamentação do trabalho doméstico, que embora tenha incomodado os setores
mais conservadores da população brasileira, foi um movimento muito importante para
os trabalhadores da área, pois assegurava direitos básicos como jornada de trabalho
regulamentada, férias e piso salarial.
Em sua administração, uma das ações mais importantes talvez tenha sido a amplia-
ção do Minha Casa Minha Vida, programa habitacional que assegurou moradia para
1,7 milhões de famílias apenas em seu primeiro mandato. O programa oferecia subsí-
dio para o financiamento de moradias à população de baixa renda, tornando possível
o sonho da casa própria para famílias que teriam bastante dificuldade em adquirir um
imóvel em outras circunstâncias.
124
No âmbito da saúde, Dilma lançou o programa Mais Médicos, que atendeu seis mil
municípios e estendeu o acesso a médicos a cerca de cinquenta milhões de pessoas
que residiam em municípios do interior e em áreas periféricas. Foram inauguradas 144
de Unidades de Pronto Atendimento, e a Farmácia Popular distribuiu remédios a mais
de dez milhões de pessoas.
No setor educacional, Dilma lançou o Programa Nacional de Acesso ao Ensino
Técnico e Emprego (Pronatec), que tinha como objetivo expandir e interiorizar as ofer-
tas a cursos técnicos, além da formação inicial e continuada. Houve, ainda, a criação
do Ciência sem Fronteiras, que visava a formação acadêmica de pesquisadores em
programas de intercâmbio, oferecendo bolsas de estudos e financiando projetos. Além
disso, até 2014, as matrículas em cursos superiores aumentaram em 122%, evidencian-
do uma expansão do acesso ao ensino superior.
Além de todos esses programas, foi no governo Dilma que a chamada Lei do Femi-
nicídio foi sancionada. Com a lei, o assassinato de mulheres, decorrente de violência
doméstica ou discriminação de gênero, passou a ser considerado crime hediondo. Foi
uma grande conquista, levando em consideração que o Brasil possui a 5° taxa mais
alta de feminicídios do mundo: no ano de 2010, eram registrados cinco espancamento
a cada dois minutos; em 2013, se reportava um feminicídio a cada noventa minutos; e
em 2015, o serviço de denúncia registrou 179 casos de agressão por dia.
Foi também no mandato de Dilma que se inaugurou a Casa da Mulher, programa
que integra no mesmo espaço serviços especializados de apoio aos diversos tipos de
violências sofridas por mulheres. Nesse espaço, têm-se acesso ao acolhimento e à tria-
gem, apoio psicossocial, juizado especializado em violência doméstica e familiar contra
mulher, defesa pública, serviço de promoção de autonomia econômica, espaço de cui-
dado às crianças, alojamento de passagem, entre outras ações de apoio.
Governo Temer
O governo de Michel Temer, que durou de 31 de agosto de 2016 a 31 de dezembro
de 2018, foi marcado por uma série de reformas e medidas de austeridade econômica.
Temer assumiu a presidência do Brasil após o impeachment de Dilma Rousseff, prome-
tendo estabilidade política e econômica.
125
Seu governo foi marcado por uma agenda de reformas econômicas, incluindo a
reforma da previdência, que visava reduzir o déficit fiscal e estimular o crescimento.
No entanto, suas políticas ambientais e sociais geraram controvérsia, com críticas fre-
quentes à sua abordagem em relação à proteção ambiental e aos direitos humanos.
Além disso, seu estilo de governança polarizou a opinião pública, dividindo o país
entre seus apoiadores e opositores, contribuindo para uma atmosfera política tensa
durante seu mandato.
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FCC – 2023) Dentre os Presidentes do Brasil que tomaram posse entre 1964 e 2019,
foram eleitos por meio do voto direto popular, especificamente para esse cargo:
a) Tancredo Neves, José Sarney, Itamar Franco, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardo-
so, Luiz Inácio Lula da Silva (em duas eleições consecutivas), Dilma Roussef (em duas
eleições consecutivas) e Jair Bolsonaro.
b) Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso (em duas eleições consecutivas), Luiz Iná-
cio Lula da Silva (em duas eleições consecutivas), Dilma Roussef (em duas eleições
consecutivas) e Jair Bolsonaro.
c) José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio
Lula da Silva (em duas eleições consecutivas), Dilma Roussef (em duas eleições conse-
cutivas), Michel Temer, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.
126
d) Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Itamar Franco, Fernando Collor, Fernando Henrique
Cardoso (em duas eleições consecutivas), Luiz Inácio Lula da Silva (em duas eleições
consecutivas), Dilma Roussef e Jair Bolsonaro.
e) João Figueiredo, Tancredo Neves, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso (em duas
eleições consecutivas), Luiz Inácio Lula da Silva (em duas eleições consecutivas), Dilma
Roussef e Jair Bolsonaro.
Fernando Collor foi o primeiro presidente do Brasil eleito por voto direto, mas teve seu man-
dato abreviado devido a um impeachment. Após eleições no final de 1994, Fernando Henrique
Cardoso assumiu a presidência, sendo reeleito para um segundo mandato e permanecendo no
poder de 1995 a 2002. Luiz Inácio Lula da Silva sucedeu FHC, também conquistando a reeleição e
governando de 2003 a 2010. Lula foi sucedido por sua indicada, Dilma Rousseff, que também foi
reeleita, mas teve seu segundo mandato interrompido por impeachment, governando de 2011 a
2016. Em 2018, Jair Bolsonaro foi eleito presidente, ocupando o cargo de 2019 a 2022. Resposta:
Letra B.
127
Ao manter-se a procura interna com maior firmeza que a externa, o setor que produ-
zia para o mercado interno passa a oferecer melhores oportunidades de inversão que o
setor exportador. Cria-se, em consequência, uma situação praticamente nova na econo-
mia brasileira.
(Celso Furtado. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Adaptado)
128
c) o fortalecimento das lutas sociais em áreas de mineração ocorre quando as políticas
públicas são implementadas pelo Estado em escala regional.
d) os movimentos sociais que eclodem em áreas de mineração têm a seu favor a visibilida-
de propiciada pela importância regional das empresas mineradoras.
e) os interesses das empresas mineradoras entram em choque com as políticas públicas
que procuram garantir expressivas conquistas.
O texto aborda o tema das mineradoras, ressaltando sua importância econômica e social ao
gerar grande movimentação financeira e visibilidade para a região e sua população. Resposta:
Letra D.
ANOTAÇÕES
129
HISTÓRIA GERAL
ANTIGUIDADE
O tempo é algo muito precioso em nossas vidas, certo? Em nosso dia a dia, em nossa
semana corrida, nos meses que se passam, dividimos o tempo em função das nossas
atividades para nos organizarmos. Pois é, na História fazemos o mesmo. Para com-
preendermos melhor contextos, conjunturas, estruturas e eventos históricos usamos a
divisão da história em “Idades”.
� A Idade Antiga ou Antiguidade tem início com o surgimento da escrita entre os sumé-
rios por volta de 4000 a. C. e se estende até a queda do Império Romano no Ocidente
em 476 d. C;
� A Idade Média tem início com a queda do Império Romano no Ocidente e se estende
até a queda do Império Romano no Oriente em 1453;
� A Idade Moderna tem início com a queda do Império Romano no Oriente e se esten-
de até a Revolução Francesa em 1789;
� A Idade Contemporânea tem início com a Revolução Francesa e se estende até os
nossos dias.
Temos ainda o período chamado de “Pré História” que dá conta da história humana
anterior ao surgimento da escrita.
Dica
A escrita é o marco inicial da História porque durante muito tempo ape-
nas os documentos escritos eram considerados como fontes legítimas
para o estudo histórico. Com o tempo, outras fontes como as artísticas,
as orais, as materiais, entre outras foram sendo consideradas para o
conhecimento sobre a vida dos homens no tempo e no espaço.
130
OS POVOS DO ORIENTE PRÓXIMO E SUAS ORGANIZAÇÕES POLÍTICAS
O lugar de origem das primeiras civilizações já gerou debates entre diversos estudio-
sos. Por um lado, houve aqueles que apontaram as margens do rio Nilo, por outro lado,
houve aqueles que apontaram as margens dos rios Tigres e Eufrates, localizadas no
Oriente Próximo. Ainda houve aqueles que defenderam que ambas regiões se desen-
volveram de forma simultânea.
Por conta do formato em lua crescente e pela fertilidade propiciada por esses rios, a
região ficou conhecida como crescente fértil.
Mar Negro
Rio Hális
Mesopotâmia
Mar
Cáspio
Golfo
Pérsico
Deserto da
Arábia
Rio
Nilo Mar Vermelho
Fonte: [Link]
A Mesopotâmia, região entre os rios Tigre e Eufrates, foi berço das primeiras civi-
131
POVO PERÍODO CARACTERÍSTICAS
2340–2000 Absorveram a cultura suméria, incluindo o sistema de escri-
Acádios
a. C. ta e a religião politeísta
Responsáveis pela formação de um Estado unificado e pela
2000–1550
Babilônios criação de um código de leis conhecido como Código de
a. C.
Hamurabi
1550–1300 Responsáveis pelo desenvolvimento de técnicas agrícolas e
Cassitas
a. C. pela introdução do uso do cavalo
1300–612 Possuíam um forte poder militar com o uso de armaduras,
Assírios
a. C. armas de ferro, carros de guerra e cavalarias
Responsáveis pela formação do Segundo Império Babilô-
612–539 a. nico, ampliando seus domínios até a fronteira com o Egito.
Caldeus
C. Com a derrota para os persas em 539 a. C., temos o fim da
civilização mesopotâmica
A Pérsia era uma região localizada entre o golfo Pérsico e o mar Cáspio, habitada em
2000 a. C. por medos e persas. No entanto, a partir de 559 a. C. conquistaram a sua
emancipação política. A partir daí, deram início a um processo de expansão rápido que
formou um dos maiores impérios da Antiguidade, se estendendo da África até a Ásia
Central e da Grécia até a Índia. Construíram uma eficiente rede de estradas que facili-
tava o comércio e a administração.
O povo hebreu é mais conhecido pelo fato de ter dado origem ao monoteísmo, isto
é, o culto a uma só divindade: Javé. Eles se fixaram na atual região da Palestina em 1800
a. C., chamada de Terra Prometida. Por volta de 1600 a. C., após um período de grande
seca, eles foram para a região do Egito. Em 1575 a. C., os egípcios derrotaram os hicsos
e reconquistaram o domínio sobre a região, escravizando os hebreus. Até que em 1300
a. C., os hebreus saíram do Egito no episódio conhecido como Êxodo.
132
Segundo a Bíblia, durante o percurso, Moisés recebeu a Tábua dos Dez Mandamen-
tos, onde estavam todas as leis que aquele povo deveria seguir. Esse período inicial é
conhecido como o período dos patriarcas.
O período dos juízes, situado entre 1250 a. C., e 1025 a. C., é marcado pela luta em
retomar a Palestina de outros povos e pela administração dos juízes, que exerciam
funções militares, políticas e religiosas. Durante esse período, as tribos hebraicas se
organizaram e se unificaram militar e politicamente, dando origem ao Reino de Israel.
Porém, após a morte do rei Salomão, as tribos do sul divergiram e fundaram o Reino
de Judá em 922 a. C., quando passaram a ser conhecidos como judeus. Duzentos anos
depois, o Reino de Israel foi invadido e absorvido pelos assírios, enquanto isso, o Reino
de Judá resistiu a diversas tentativas de invasão até ser dominado pelos caldeus entre
586 a. C. e 539 a. C. Com a derrota dos caldeus para os persas, os judeus puderam ter
alguma autonomia política. Isso durou até 63 a. C., quando o Império Romano domi-
nou a região.
Após várias rebeliões, os judeus não resistiram aos ataques enviados pelo impera-
dor Adriano em 135 d. C, quando foram expulsos da Palestina e iniciaram um processo
de dispersão pelo mundo.
O Egito Antigo
133
� A sociedade egípcia
Faraó
Nobres e
Sacerdotes
Soldados
Escribas
Comerciantes
Artesãos
Agricultores e
Escravos
Fonte: [Link]
� Faraó: principal autoridade na sociedade egípcia, era visto como uma figura divina e vivia
em grande luxo;
� Alta sociedade: vinham abaixo do faraó e gozavam de muitos privilégios. Destacam-se:
nobres (descendentes do faraó ou de antigos nomarcas), sacerdotes (responsáveis pelos
rituais), chefes militares (ocupavam altos postos do exército) e escribas (fiscalizavam plan-
tações e cobravam impostos);
� Camada baixa: eram os mais pobres e pagadores de impostos e serviços para o Esta-
do. Destacam-se: comerciantes (também comercializavam com outros povos, produtos
como ouro, papiro, linho, trigo e objetos feitos pelos artesãos), artesãos (fabricavam ces-
tos, potes, roupas, sandálias, móveis ou mesmo objetos mais elaborados de luxo) e cam-
poneses (cultivavam tricô, linho e algodão, além de se dedicarem à criação de animais e
ao extrativismo);
� Escravos: em geral, eram prisioneiros de guerra empregados para o trabalho no campo,
na extração de ouro ou no trabalho doméstico.
Religiosidade Egípcia
134
Hórus (Deus Protetor dos Faraós), Tot (Deus da Sabedoria) e Anúbis (Deus dos Mortos).
Além da crença em vários deuses, tinha muita relevância a crença na vida após a morte.
Segundo a crença egípcia, a alma voltaria para o corpo depois de um tempo, o que
levava a necessidade do ritual de mumificação. No qual, com o uso de técnicas especí-
ficas, eles preservavam os corpos sem vida. Esse ritual surgiu somente entre os faraós,
mas com o tempo, o restante da sociedade também passou a fazê-lo.
� Pirâmides
Elas simbolizavam a morada para o espírito após a morte do corpo. Abrigava os cor-
pos mumificados em suas câmaras subterrâneas. As pirâmides localizadas em Gizé no
Egito (imagem) foram construídas entre 2550 e 2470 a. C.
Fonte: [Link]
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2015) A maior parte das regiões vizinhas [da antiga Mesopotâmia] caracteri-
za-se pela aridez e pela falta de água, o que desestimulou o povoamento e fez com que
fosse ocupada por populações organizadas em pequenos grupos que circulavam pelo
deserto. Já a Mesopotâmia apresenta uma grande diferença: embora marcada pela pai-
sagem desértica, possui uma planície cortada por dois grandes rios e diversos afluentes
e córregos.
(Marcelo Rede. A Mesopotâmia, 2002.)
HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL
A partir do texto, é correto afirmar que
135
d) a ocupação sedentária das regiões desérticas representava uma ameaça militar aos
habitantes da Mesopotâmia.
e) os povos mesopotâmicos jamais puderam se sedentarizar, devido às dificuldades de
obtenção de alimentos na região.
A Mesopotâmia está localizada em uma região geograficamente diversificada, cortada pelos
rios Tigre e Eufrates e seus afluentes. Essa área, irrigada pelos rios, é conhecida por suas terras
férteis, ideais para a agricultura. Além disso, a presença de água nessa região atraiu diversas
populações, tornando-a um centro de ocupação. Nos arredores, há cadeias de montanhas e áreas
desérticas, onde a escassez de água desencorajou o povoamento, sendo ocupadas por grupos
nômades. Resposta: Letra C.
Em relação à cidade citada no trecho, é correto afirmar que ficava localizada em uma
região
a) desértica, sem muitos recursos e sem a possibilidade de cultivar alimentos, o que fez do
lugar um sítio bastante inóspito e com uma ocupação sempre muito instável e irregular.
b) bem próxima ao vale do rio Nilo, o que favorecia o cultivo de alimentos nas terras fér-
teis da várzea do rio, tendo possibilitado o contato com os egípcios e o processo de
sedentarização.
c) pouco propícia à sedentarização, o que levava os seus habitantes a estabelecerem tro-
cas comerciais em busca de alimentos, além de conviverem com a dificuldade de produ-
zir objetos de cerâmica.
d) banhada por dois importantes rios, o Tigre e o Eufrates, em torno dos quais surgiram os
primeiros agrupamentos humanos que dominaram a técnica da escrita de que se tem
notícia.
e) que oferecia água corrente em abundância, sem que se fizessem necessárias obras hidráu-
licas, o que favoreceu o desenvolvimento de uma sociedade complexa e institucionalizada.
O movimento radical “Estado Islâmico” iniciou uma campanha de destruição contra monumen-
tos históricos, sob a crença de que eles eram incompatíveis com a fé islâmica. Dentre esses locais
históricos, um situava-se próximo a Nimrud, uma das antigas metrópoles do Império Assírio,
estabelecido na área da Mesopotâmia, ladeada pelos rios Tigre e Eufrates. A Mesopotâmia é
reconhecida como o berço das primeiras civilizações urbanas e também pela criação do primeiro
sistema de escrita conhecido como cuneiforme. Resposta: Letra D.
136
AS CIDADES-ESTADOS DA GRÉCIA
Os gregos foram responsáveis pela formação de várias áreas do conhecimento que temos
contato em nossos dias, como a filosofia, a ciência, a literatura, a escultura, a arquitetura e o
teatro, assim como várias palavras do nosso vocabulário. Os gregos também são conhecidos
como “helenos”. O termo “heleno” vem do nome que os povos da região davam a sua pátria:
Hélade. O termo “grego” apareceu quando os romanos conquistaram a região.
Costumamos dividir a história da Grécia Antiga da seguinte forma:
PERÍODO CARACTERÍSTICA
Os primeiros povos de língua indo-europeia se fixaram no território
PRÉ-HOMÉRICO
da Grécia
As sociedades gregas desse período eram organizadas em conjun-
HOMÉRICO
tos de famílias governadas por patriarcas (genos)
O crescimento populacional impulsionou a formação das cidades-
-estados e a colonização de novas áreas. Houve um aumento da pro-
ARCAICO
dução artesanal e do comércio. Nesse período, ampliou-se o uso de
moedas nas trocas comerciais entre as cidades
Cidades-estados disputaram entre si a hegemonia política e militar
CLÁSSICO
da região
A Grécia foi invadida e dominada por Felipe II, rei da Macedônia.
HELENÍSTICO Após a sua morte, seu filho Alexandre assumiu o poder e ampliou o
território, conquistando desde o norte da África até a Índia
CIDADES-ESTADOS
Esparta
137
o treinamento militar já aos sete anos, enquanto as meninas eram preparadas para
serem mães de filhos fortes e saudáveis.
O governo espartano era liderado por dois reis (diarquia), responsáveis administra-
tivos, religiosos e militares. No entanto eles dividiam o poder com o eforato (órgão de
cinco membros que fiscalizam os demais poderes e controlavam o sistema educacio-
nal), com a gerúsia (formado por 28 membros com mais de 60 anos, que juntamente
com os dois reis formulavam as leis, julgavam os crimes e decidiam sobre as guerras
que envolviam Esparta) e com a Ápela (todos os cidadãos espartanos acima de 30 anos
responsáveis pela eleição dos outros membros e por votar as propostas de leis).
Soldado espartano.
Fonte: [Link]
Atenas
Fundada pelos jônios no século X a. C. Inicialmente, era governada por uma monar-
quia restringida por um conselho de aristocratas, que aos poucos assumiu mais poderes
até tornar Atenas uma oligarquia (governo de um grupo de pessoas). Esses eram cha-
mados eupátridas e descendiam das antigas famílias proprietárias de terra. No entan-
to, com a expansão comercial e colonial das cidades gregas, em Atenas foi aumentando
a força dos comerciantes e artesãos que passaram a reclamar por maior participação
política. Assim foi criada a figura do legislador, responsável pelo registro das leis.
O mais conhecido dos legisladores foi Sólon, que no início do século IV a. C. foi res-
ponsável por uma série de mudanças fundamentais: fim da escravidão por dívidas,
aumento do número de cidadãos com direitos políticos, criação de um conselho de
quatrocentos membros (Bulleutérion), de uma assembleia popular (Eclésia) e de um
tribunal popular de justiça (Helieia).
138
Na economia, houve incentivo ao artesanato e ao comércio, além da padronização
de moeda, pesos e medidas. No entanto, os camponeses ficaram insatisfeitos sem a
redistribuição de terras.
Essas reformas parciais levaram ao surgimento da tirania, quando um indivíduo
com o apoio das classes populares tomou o poder. O mais conhecido foi Pisístrato, que
por volta de 560 a. C. trouxe algumas mudanças como a distribuição de terras e dispo-
nibilização de empréstimos aos camponeses, fomentou a construção de obras públicas
e incentivou artistas e estudiosos. Seus sucessores, no entanto, não conseguiram dar
continuidade à tirania.
Por volta de 510 a. C., o aristocrata Clístenes devolveu os poderes ao Bulleutérion e ao
Helieia, além de criar os demos. Esses funcionaram como assembleias populares que
permitiram aos cidadãos atenienses tomarem decisões sobre questões públicas, além
do direito de voto ao ostracismo, mandando ao exílio por dez anos aqueles que vies-
sem a ameaçar a ordem democrática. A democracia foi consolidada por Péricles entre
461 e 429 a. C. No entanto, só participavam da democracia os nascidos em Atenas com
mais de 18 anos, além disso, os mais pobres tinham menos tempo de participação por
conta da dedicação ao trabalho, fazendo com que os mais abastados tivessem mais
espaço de decisão.
O espaço público de Atenas era dividido pela Acrópole (cidade alta), onde se locali-
zavam os templos religiosos como o Partenon, e pela Ágora (cidade baixa), onde fica-
vam as assembleias como Helieia e o Bulleutérion.
139
Período Helenístico
Por volta de 340 a. C., os macedônios liderados por Alexandre Magno conquistaram
várias cidades gregas. Essa dominação causou transformações políticas, econômicas,
sociais e culturais muito significativas. Houve a possibilidade de intenso intercâmbio
cultural dos gregos com outros povos, como persas e macedônios. Esse movimento é
conhecido como helenismo.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2022) No pensamento grego, tudo o que é “musical” se relaciona intimamen-
te com o ritual, sobretudo com as festas, nas quais, evidentemente, o ritual possui sua
função específica. Talvez não haja uma descrição mais lúcida das relações entre o ritual,
a dança, a música e o jogo do que a das Leis de Platão. Os deuses, diz ele, cheios de
piedade pela raça humana, condenada ao sofrimento, ordenaram que se realizassem as
festas de ação de graças como descanso para suas preocupações, e deram-lhes Apolo,
as Musas e Dionísio como companheiros dessas festas, a fim de que essa divina comu-
nidade festiva restabelecesse a ordem das coisas entre os homens.
(Johan Huizinga. Homo ludens, 2007.)
a) a dimensão material dos sentimentos e das ações políticas dos homens, sustentada
pela filosofia clássica.
b) a centralidade do mito na sociedade antiga grega e o vínculo desse mito com manifesta-
ções de caráter público.
c) a fragilidade do politeísmo perante a lógica e a incapacidade desse politeísmo de mobi-
lizar politicamente a sociedade.
d) as origens filosóficas da piedade e do sentimento de culpa posteriormente apropriados
pelo cristianismo.
e) as matrizes religiosas da democracia grega e o reconhecimento por essa democracia da
igualdade entre os homens livres.
O texto destaca a relevância dos deuses na sociedade grega antiga, que são considerados res-
ponsáveis por estabelecer rituais e festas para amenizar o sofrimento humano. Essas práticas
públicas estão associadas aos mitos, tornando a afirmação correta. Resposta: Letra B.
140
FORMAÇÃO, DESENVOLVIMENTO E DECLÍNIO DO IMPÉRIO ROMANO DO
OCIDENTE
Roma foi fundada no século VIII a. C. Até os dias de hoje, não possuímos muitos
vestígios sobre suas origens, mas a explicação mais aceita é que ela foi fundada pelo
povo etrusco unindo também povoados sabinos e latinos. Nos séculos seguintes, ela
se desenvolveu como uma cidade dotada de boa infraestrutura e usando o latim como
língua. Inicialmente, os habitantes se organizavam em grupos familiares chamados de
gens, chefiados por um patriarca.
Monarquia
República
141
Na administração romana, além dos cônsules, possuíam grande prestígio os preto-
res (administravam a justiça) e os censores (calculavam a riqueza dos cidadãos e inter-
feriam na composição do Senado). Em caso de crise, o Senado podia optar pela eleição
de um ditador, que assumia a direção do Estado Romano. Foi durante a época republi-
cana que tiveram início as guerras de conquista de Roma, sendo as mais conhecidas as
três Guerras Púnicas contra a cidade portuária de Cartago entre 264 e 146 a. C.
Em decorrência do expansionismo romano, a escravidão acabou se tornando mui-
to comum, já que as populações derrotadas eram vendidas como escravos para os
mais ricos, realizando diversos trabalhos como a produção de alimentos, a mineração,
a construção de obras públicas e os serviços domésticos. Por outro lado, os plebeus
que se envolviam nas guerras acabaram perdendo suas terras pela falta de cultivo e
endividamento, fazendo com que Roma passasse por um processo de êxodo rural.
Os empregos urbanos ocupados por escravos levaram a maiores dificuldades para a
plebe.
Para reduzir esses problemas, os plebeus se organizaram para conseguir certos
direitos, tais como: se casarem com patrícios, o acesso às terras públicas e às altas
magistraturas e a validação dos decretos aprovados pelos plebeus. Mais adiante, os
irmãos Tibério e Caio Graco procuraram promover uma ampla reforma agrária, mas
acabaram sendo impedidos pela nobreza descontente com a iniciativa.
Outra consequência do expansionismo romano foi a profissionalização do exér-
cito. Em 104 a. C., tendo o general Mário como cônsul, o Senado aprovou a exigência
de possuir bens para o ingresso militar, os soldados passaram a ser remunerados e a
carreira militar passou a ser algo almejado em Roma.
Com o fortalecimento da plebe e do Exército, o poder do Senado passou a ser cada
vez mais ameaçado. Em 60 a. C., o líder dos plebeus, Júlio César, se alia aos generais
Crasso e Pompeu, reduzindo o poder do Senado e formando o Primeiro Triunvira-
to. Com a morte de Crasso e a expulsão de Pompeu, Júlio César se tornou ditador e
promoveu algumas mudanças como a distribuição de terras e de trigo, o perdão das
dívidas e a reforma do calendário. No entanto, ele foi assassinado por senadores con-
trários ao seu poder em 44 a. C.
Sem Júlio César, os militares Marco Antônio, Lépido e Otávio formaram o Segundo
Triunvirato. Parente de Júlio Cesar, Otávio derrotou os outros dois e assumiu o papel
de ditador em 31 a. C. Ele assumiu os títulos máximos da república até que em 27 a. C.
recebeu o título de augustus (venerado), pondo fim à república e se tornado o primeiro
imperador romano.
142
O assassinato de Júlio César em 15 de março de 44 a. C.
Fonte: [Link]
Alto Império
O período do Alto Império é, muitas vezes, caracterizado pela chamada Pax Roma-
na. Nesse período, houve um grande desenvolvimento político, econômico e social do
Império Romano, no entanto, conflitos de menores proporções foram travados, sendo
em sua maioria revoltas internas em várias regiões do Império, além da defesa contra
os ataques externos.
Algumas reformas foram empreendidas ainda no governo de Otávio Augusto, tais
como: a liberação de camponeses do serviço militar obrigatório, distribuição de terras
aos soldados não ativos e houve a organização da administração em todas as áreas do
Império.
Também foi durante esse período que o Império Romano atingiu a sua máxima
extensão no ano 117 d. C. com a conquista de regiões do Oriente Próximo e da ilha
Britânia.
O direito de voto e de cidadania era restrito aos homens livres nascidos na Península
Itálica. No entanto, com o desenvolvimento de certas regiões do Império, esses direitos
foram estendidos aos estrangeiros mais abastados. A extensão do Império também
Baixo Império
143
O campo político também se encontrava em situação crítica. Entre 235 e 284, houve
uma grande sucessão de imperadores que governavam em média três anos, dado que
eram vítimas de deposições, golpes e assassinatos. Como resposta, o imperador Dio-
cleciano dividiu o seu poder com outros três imperadores, sistema que ficou conhecido
como tetrarquia. No entanto, uma onda de guerras civis atingiu o império. Constanti-
no já em 330 d. C. decidiu unificar o poder novamente e transferiu a capital do Império
para a cidade de Constantinopla. Já em 395 d. C., o Império foi dividido em ocidental,
com capital em Roma, e oriental, com capital em Constantinopla.
A pressão dos povos germânicos sobre as fronteiras levou a concessões cada vez
maiores do governo romano. O exército imperial enfraquecido e a crise econômica
levaram Roma a um declínio acentuado de sua força, até que em 476 a. C., Roma foi
invadida e o último imperador romano destituído, pondo fim ao Império Romano do
Ocidente.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC – 2018) O Império Romano, diante do desafio de administrar um vasto território
conquistado, estruturou-se por meio de uma ordem política
144
O LEGADO CULTURAL DOS GREGOS E ROMANOS
Até os dias de hoje temos profundas influências da Grécia Antiga em nossa socie-
dade. Muitos prédios públicos, universidades e tribunais, seguem a arquitetura grega
clássica. A filosofia grega influenciou alguns dos principais filósofos modernos, como
Rosseau e Voltaire, que elaboraram suas teorias tendo como base a racionalidade.
Além disso, foi com os gregos que nasceu a democracia, regime político que adotamos
nos dias de hoje em nosso país.
Vários elementos da cultura romana também merecem destaque. Roma sofreu
influências muito diversas: gregas, etruscas, germânicas, entre outras. No campo reli-
gioso, por exemplo, os romanos seguiram por muito tempo a adoração aos deuses
correspondentes dos gregos, tais como: Júpiter (Zeus), Minerva (Atena), Marte (Ares),
Vênus (Afrodite) e Netuno (Posêidon). No entanto, no século IV, o cristianismo ganhou
cada vez mais espaço, ganhando liberdade de culto em 313 sob Constantino e se tor-
nando a religião oficial do Império em 392 sob Teodósio.
Nas artes, a contribuição romana pode ser vista na arquitetura, com o uso de arcos,
abóbadas e cúpulas, eles construíram basílicas, templos, termas, teatros, anfiteatros,
aquedutos e estradas. Na literatura, nomes como Horácio, Virgílio e Tito Lívio deram
suas contribuições. Na língua, o latim se tornou o idioma oficial do Império. Ele se dis-
seminou e se fundiu com outras línguas, dando origem às línguas neolatinas, tais como
o espanhol, o italiano, o francês e o português.
Coliseu em Roma.
Fonte: [Link]
O Coliseu é um exemplo de espaço que recebia espetáculos públicos. Ele podia rece-
ber até 50 mil pessoas para assistir aos gladiadores, escravos treinados, lutarem contra
soldados ou contra animais selvagens. Encenações teatrais e corridas de biga também
eram espetáculos públicos populares.
145
O direito romano, outro importante legado, era dividido em direito público, que
organizava o funcionamento político do Estado, e em direito privado. Esse último pos-
suía como subdivisões: direito civil (orientava a vida jurídica dos cidadãos romanos),
direito das gentes (englobava outros povos dominados pelos romanos) e direito natural
(comum a todos, mesmo para os que viviam fora das fronteiras do Império Romano).
Fonte: [Link]
Já no século VIII, Carlos Magno promoveu a expansão dos francos, formando o Impé-
rio Carolíngio.
Para governar um território com extensão cada vez maior, Carlos Magno passou a
delegar poderes para grandes proprietários de terra que passaram a possuir títulos de
nobreza: duques, condes e marqueses. A principal função deles era garantir a proteção
146
do território. Após a morte de Carlos Magno, o Império Carolíngio foi dividido entre
seus três filhos. No entanto, a dificuldade de manter uma administração centralizada
levou ao crescimento do prestígio e do poder dessa nobreza proprietária de terras.
Dava-se o nome de feudo a essas grandes faixas de terras dadas em troca de obe-
diência e fidelidade. Desse termo, surgiu o feudalismo, isto é, um sistema baseado na
relação de dependência entre pessoas que recebiam posses e em troca garantiam pro-
teção, assim como os servos que trabalhavam em troca de moradia no feudo. Nesse
sistema, a Igreja Católica tinha grande influência e prestígio.
No sistema político feudal, o rei era uma figura que possuía o poder simbólico. Quem
detinha o poder de fato eram os senhores feudais, donos de terras e capazes de mobi-
lizar exércitos para defender territórios de invasões externas. Os mais pobres tinham a
função de trabalhar e obedecer a ordens do senhor feudal.
Em geral, dividimos a sociedade feudal em três grupos principais:
Por volta do ano 1000, começa um período de melhoria das condições de vida. Em
especial, isso se deve:
147
As cidades dessa época se desenvolveram como entrepostos comerciais ou pela ini-
ciativa de senhores feudais que permitiam as atividades de comércio para arrecadar
com impostos. Elas eram cercadas por muralhas, o que permitia segurança e o cresci-
mento desordenado de pessoas. No interior das muralhas, ocorriam feiras e mercados
nos quais eram comercializados produtos agrícolas, ferramentas, tecidos e sapatos,
como pode ser visto na imagem a seguir:
Fonte: [Link]
Com a nova dinâmica ocorrendo nas cidades foi possível o surgimento de grupos em
meio à sociedade europeia:
148
A Civilização Árabe e a Expansão do Islã
Maomé e o Arcanjo.
Fonte: [Link]
No entanto, Maomé e seus primeiros adeptos passaram a ser perseguidos por pode-
149
A partir da Dinastia Abássida (750-1258), persas e iranianos islamizados consegui-
ram os mesmos direitos que os árabes, foi nessa época, em 809, que o domínio islâmi-
co atingiu o seu ápice territorial. No entanto, a fragmentação política ocorreu por conta
da dificuldade em administrar regiões distantes.
Durante muito tempo era comum designar o período situado entre a queda do Impé-
rio Romano e o movimento renascentista como “Idade das Trevas”. Ainda hoje vemos
em vários espaços da opinião pública pessoas que utilizam o termo “medieval” para
qualificar tudo aquilo que é retrógrado e ultrapassado.
No entanto, ao conhecermos a Idade Média com mais atenção, vemos que se tra-
ta de um período de grandes transformações socioeconômicas e culturais que tem
impacto em nossa vida até os dias de hoje. Veja um trecho do texto do historiador
Hilário Franco Jr.:
Pouca gente se dá conta, mas muitos hábitos, conceitos e objetos estão presentes no nosso dia
a dia, inclusive o idioma que falamos, vêm [da Idade Média]. Pensemos num dia comum de uma
pessoa comum. Tudo começa com algumas invenções medievais: ela põe sua roupa de baixo, veste
calças compridas, passa um cinto fechado com fivela. A seguir, põe uma camisa e faz um gesto
simples, automático, tocando pequenos objetos que também relembram a Idade Média, quando
foram inventados, por volta de 1204: os botões. Então, ela põe os óculos (criados em torno de 1285,
provavelmente na Itália) e vai verificar sua aparência num espelho de vidro (concepção do século
XIII). Por fim, antes de sair olha para fora através da janela de vidro (outra invenção medieval, de
fins do século XIV) para ver como está o tempo.
Sentindo fome, a pessoa levanta os olhos e consulta o relógio na parede da sala, imitando gesto
inaugurado pelos medievais. Foram eles que criaram, em fins do século XIII, um mecanismo para
medir o passar do tempo, independentemente da época do ano e das condições climáticas. Sen-
do hora do almoço, a pessoa vai para casa ou para o restaurante e senta-se à mesa. Eis aí outra
novidade medieval! Da mesma forma que os medievais, pegamos os alimentos com colher (criada
por volta de 1285) e garfo (século XI, de uso difundido no século XIV). Terminada a refeição, a pes-
soa passa no banco, que, como atividade laica, nasceu na Idade Média. Depois, para autenticar
documentos, dirige-se ao cartório, instituição que desde a Alta Idade Média preservava a memória
de certos atos jurídicos (“escritura”), fato importante numa época em que pouca gente sabia escre-
ver. (FRANCO JÚNIOR, Hilário. Somos todos da Idade Média. Revista de História da Biblioteca
Nacional, Rio de Janeiro: Sabin, ano 3, n. 30, p. 58-60, mar. 2008. Adaptado).
Com isso, podemos ver a importância que esse período tem na nossa cultura e no
nosso cotidiano.
A Civilização Bizantina
O Império Bizantino teve origem com a divisão feita pelo imperador romano Teodósio
em 395, quando fundou o Império Romano do Oriente com capital em Constantinopla.
150
A capital do Império era uma das cidades mais populosas de seu tempo, sua locali-
zação entre a Europa e a Ásia a tornava fundamental nas trocas comerciais entre Oci-
dente e Oriente.
Os bizantinos tinham influência romana no direito e na administração, influência
grega no idioma, influência oriental na arquitetura e nos produtos. Além disso, incor-
poraram a religião cristã. Por conseguinte, as crescentes tensões com relação à influên-
cia, ao poder e às questões dogmáticas levaram a formação da Igreja Ortodoxa Grega
separada da Igreja Católica Apostólica Romana.
O Império Bizantino foi derrubado pela invasão turco-otomana em 1453. Com isso, a
sede dos ortodoxos foi deslocada para Moscou, na Rússia, podendo ser melhor visua-
lizado a seguir:
Basílica de Santa Sofia em Istambul (antiga Constantinopla) na atual Turquia. Foi sede da Igreja Ortodoxa.
Fonte: [Link]
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2023) A recuperação demográfica carolíngia, mesmo pequena, apontava
para a expansão que começaria em meados do século X. Apesar da inexistência de uma
a) A maior parte dos alimentos básicos consumidos na Europa Ocidental, caso do trigo, a
partir do século XI, provinha de regiões fora do continente, especialmente do norte da
África, de espaços islamizados, e as mercadorias estrangeiras eram trocadas por arte-
sanato e metais preciosos.
151
b) Mesmo com a Crise do Século XIV, a população europeia cresceu constantemente, em
essência em razão do aumento da taxa de natalidade e pelo acentuado decrescimento
da mortalidade, especialmente nas regiões que foram menos afetadas por uma rápida
urbanização.
c) Cresceram, de forma considerável, os conflitos bélicos envolvendo um número crescente
de reinados e outros domínios regionais, a partir do século XII, com o envolvimento de
exércitos, que contavam com a incorporação de enorme contingente de guerreiros, com
a maioria sendo de servos.
d) A partir da percepção das autoridades eclesiásticas, presente nos principais bispados
europeus, de que havia um crescimento descontrolado da população nos espaços urba-
nos, surgiram bulas papais, desde o século XII, que apontavam para um controle ainda
mais forte sobre a sexualidade dos fiéis.
e) Há um acentuado crescimento da população urbana naquele período, pois enquanto por
volta do ano 1 000 talvez não existisse na Europa católica nenhuma cidade com uma
população de 10 000 habitantes, no século XIII havia 55 cidades com um número de
habitantes superior àquele.
A opção correta evidencia um marcante sinal de expansão demográfica: a elevação notável na
contagem de cidades que ultrapassam os 10 mil moradores no intervalo dos anos 1000 a 1300.
Tal fenômeno é um reflexo direto do incremento populacional, demonstrando um crescimento no
número de indivíduos residindo em zonas urbanas. Resposta: Letra E.
152
d) despovoamento sistemático das cidades.
e) conversão dos pagãos por meio do batismo.
O historiador Perry Anderson destaca o papel crucial da Igreja Cristã na transformação de diver-
sos costumes medievais. Ele ressalta a habilidade da Igreja em disseminar o latim entre as popu-
lações não romanas. A partir do século IV d.C., com a cristianização do Império Romano, bispos
e clérigos provinciais empreenderam a conversão dos habitantes rurais, empregando o idioma
como ferramenta para tal fim. Resposta: Letra C.
a) a decisão do Império Persa em assumir o Islã como religião oficial em todos os seus
domínios.
b) o reconhecimento da cidade sagrada de Meca como a capital religiosa do Estado
Islâmico.
c) a publicação do Corão, livro que trazia as pregações divinas que teriam sido reveladas
diretamente a Moisés.
d) as pregações monoteístas de Maomé e a disseminação dessa crença a partir da Penín-
sula Arábica.
e) a vitória dos califas muçulmanos sobre os califas judeus, na guerra que polarizou dois
projetos distintos de Estados religiosos na Síria.
O islamismo inicia-se no século VII d.C., já na Idade Média, com o profeta Maomé na Península
Arábica. Ele se apresentou como um mensageiro de Deus, escolhido pelo arcanjo Gabriel para
guiar a humanidade à conversão. O Islã emergiu em oposição a práticas profundamente enraiza-
das entre os árabes, como o tribalismo, o politeísmo e a construção de imagens religiosas. A reli-
gião islâmica propôs a eliminação dessas tradições, consideradas nocivas, em favor da formação
de uma ampla comunidade de fiéis. No contexto islâmico, comportamentos sectários contra a
revelação divina, contra o profeta Maomé e contra a comunidade muçulmana eram vistos como
transgressões sérias. Ademais, a conversão dos politeístas e a diminuição do politeísmo foram
prioridades imediatas para o Islã sob a liderança de Maomé. Resposta: Letra D.
153
IDADE MODERNA
No século XIV, a Europa passou por uma grande crise. Simultaneamente, ocorreu a
Peste Negra, pandemia que vitimou um terço da população europeia, a Guerra dos
Cem Anos, também responsável por mortes e instabilidade, além de uma crise na pro-
dução agrícola que levou a uma crise de fome, sendo melhor representado pela ima-
gem a seguir:
Fonte: [Link]
154
Os Principais Valores Renascentistas Eram
� Humanismo: retorno aos estudos de pensadores da Antiguidade greco-romana,
que não significava o abandono da religião, mas sim uma renovação na cultura a
partir de uma visão mais crítica do papel do homem, por isso davam muito valor à
liberdade de pensamento;
� Antropocentrismo: o homem tomado como referencial para a compreensão do Uni-
verso, de modo que ele tivesse criatividade e iniciativa própria para o conhecimento;
� Heliocentrismo: o Sol visto como o centro do Universo, diferente a interpretação
vigente na qual a Terra era vista como o centro;
� Ciência e busca do conhecimento: com base no uso do raciocínio, da observação e
da experimentação;
� Artes: baseadas em novas técnicas, como a valorização dos traços e da harmonia cor-
poral do homem, pinturas que representavam movimento e liberdade de movimento
aos corpos e uso de conhecimentos matemáticos para o emprego da técnica de pers-
pectiva e impressão de profundidade. Os nomes de maior destaque foram: Leonardo
Da Vinci, Rafael Sanzio, Michelangelo, Donatello, Sandro Botticelli, entre outros.
155
Monalisa, Leonardo Da Vinci, 1506
Fonte: [Link]
Fonte: Wikipedia.
Você já deve ter se deparado com essas imagens em algum momento da sua vida.
Essas imagens são muito famosas, sendo pertencentes aos artistas: Rafael Sanzio, Leo-
nardo da Vinci e Michelangelo, respectivamente.
O mesmo ambiente de transformação cultural europeia que possibilitou o surgi-
mento do movimento renascentista também foi palco de profundas mudanças no
âmbito religioso. O ambiente de hegemonia da Igreja Católica passou a ser questiona-
do e novas denominações cristãs surgiram. Esse processo é conhecido como reforma
protestante.
156
� A Reforma Luterana: o então frade católico Martinho Lutero (1483-1546), após dis-
cordar de uma série de práticas do clero católico, decidiu fixar na porta da Igreja
de Wittenberg um documento conhecido como 95 teses. Rejeitado e posteriormente
expulso da Igreja, Lutero fundou sua própria igreja. O luteranismo pregava que a
salvação dependia da fé em Deus e não nos rituais católicos, que a Bíblia deveria ser
acessível a todos para ser lida e interpretada sem a mediação dos sacerdotes e tam-
bém que o sacerdócio era algo universal, rejeitando a divisão entre clérigos e leigos.
O luteranismo agradou alguns príncipes alemães insatisfeitos com a Igreja Católica,
dando proteção e sustentação a Lutero;
� A Reforma Calvinista: exilado em Genebra, na Suíça, João Calvino foi outro clérigo
católico que se revoltou contra Roma. Com o tempo formou sua própria concepção
religiosa, apartando-se do luteranismo.
� A Reforma Anglicana
Tendo como estopim a rejeição de um divórcio pelo papa, o rei inglês Henrique VIII
fundou o anglicanismo. No entanto, a motivação fundamental era o interesse da Coroa
inglesa em tomar as terras papais na Inglaterra. Muitas práticas foram mantidas, como
o reconhecimento de santos e os sacramentos, e houve algumas inovações, como a
permissão de que mulheres integrassem o clero.
Fonte: [Link]
Como pode ser visto na imagem anterior, temos Henrique VIII, Martinho Lutero e
João Calvino. Esse processo de reformas incomodou profundamente a Igreja Católica,
que deu início a um processo de renovação conhecido como contrarreforma, suas
principais propostas foram apontadas durante o Concílio de Trento (1545-1563).
157
Importante!
Destacam-se a reafirmação das tradições católicas, a reaproximação dos
clérigos com os leigos para renovar a espiritualidade e a proibição da venda
de indulgências (perdão dos pecados).
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC – 2022) Dentre as consequências da Reforma protestante iniciada na Alemanha,
cita-se:
158
A Expansão Marítimo Comercial e o Processo de Colonização da América, África e
Ásia
Além do fato de Constantinopla estar nas mãos dos turco-otomanos e das técnicas
de navegação, alguns outros motivos explicam o pioneirismo dos reinos ibéricos:
� Conquista de Ceuta dos mouros pelos portugueses no norte da África em 1415, que
possibilitou o controle de um estratégico centro comercial;
� Conquista de Granada dos mouros pelos espanhóis em 1492, sendo um marco na
retomada da Península Ibérica;
� Procura por metais preciosos, em especial, o ouro e a prata, já que nos séculos XV e
XVI esses metais eram usados como forma de acumular riqueza, cunhar moedas e
em trocas comerciais;
� O ideal de evangelização para levar a fé cristã às populações que não a conheciam era
um projeto muito importante para os reinos católicos de portugueses e espanhóis.
Após a conquista de Ceuta, Portugal conseguiu uma série de outros feitos, como a
chegada à Ilha da Madeira (1419) e à Ilha de Açores (1439). Ainda em 1434, Gil Eanes
atravessou o Cabo do Bojador na Costa Africana e, a partir daí, Portugal estabeleceu
seus entrepostos e fortalezas ao longo da costa atlântica de todo o continente africano.
159
Em 1492, foi a vez dos espanhóis buscarem essas novas rotas. Sob o patrocínio dos
reis Fernando e Isabel, Cristóvão Colombo partiu em busca de uma rota alternativa às
Índias, tendo a ideia de contornar o globo terrestre e chegar pelo extremo oriente. No
entanto, encontrou novas terras (e ele morreu sem saber que tinha encontrado novas
terras!!) que viriam a ser chamadas de América.
Para regular o processo da conquista de novas terras, Portugal e Espanha recorre-
ram ao papa Alexandre VI que promulgou a bula Inter Coetera. No entanto, a discor-
dância do rei português João II levou ao Tratado de Tordesilhas em 1494, em que a
oeste da linha imaginária eram terras espanholas e a leste eram terras portuguesas.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2016) Entre os motivos do pioneirismo português nas navegações oceânicas
dos séculos XV e XVI, podem-se citar
160
Foram criadas instituições administrativas, jurídicas e burocráticas para aumentar
o controle real sobre as outras classes, como os nobres, clérigos e camponeses. O
rei fazia um jogo duplo com a nobreza e com a burguesia. Nobres eram incluídos em
altos cargos da administração, tendo isenções de impostos e pensões. Burgueses tra-
ziam rendas para o Estado por meio de suas atividades comerciais, em troca, o rei lhes
garantia proteção nas rotas de comércio e a padronização de moeda, pesos e medidas.
As principais formas de Estado Moderno ocorreram em Portugal, com a vitória da
burguesia que conseguiu entronar D. João I após a revolução de Avis, e na Espanha,
com a junção dos reinos de Castela e Aragão e a expulsão dos mouros de Granada. Na
França, a vitória sobre a Inglaterra na Guerra dos Cem Anos e a supressão das revoltas
religiosas do século XVI aumentaram a força da monarquia. Na Inglaterra, a ascensão
dos Tudor após o término da Guerra das Duas Rosas e o rompimento com a Igreja
Católica deram força ao rei.
Iluminismo e Despotismo
161
Experiência com um pássaro e uma bomba de ar de Joseph Wright.
Fonte: [Link]
ar-joseph-wright/
162
� O despotismo esclarecido foi uma forma de governo que buscava conciliar ideias
iluministas e práticas absolutistas. Monarcas como Frederico II, da Prússia, Catarina,
da Rússia, José II, da Áustria, e José I, de Portugal promoveram o combate à corrup-
ção, à melhoria na administração dos tributos, a abolição da servidão e o incentivo à
agricultura, à indústria e ao comércio.
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FGV – 2023) “Embora não ocupe em sua obra um maior destaque, uma vez que as suas
preocupações principais estavam em outros domínios, como o da metafísica e da epis-
temologia, a moral e a estética, ou mesmo da ciência e da matemática, Immanuel Kant
(1724-1804) publicou, em 1784, um ensaio com o curioso título de AIdeia de Uma Histó-
ria Universal de Um Ponto de Vista Cosmopolita. Obra cujas ideias vieram a influenciar
outros pensadores, como o do princípio teleológico que atraiu a Hegel, mas que também
ganharam adversários mordazes, como foi o caso de Herder.”
(ABREU, Gilberto. A deserção da História: pós-modernidade e neoliberalismo como armas ideológicas do capitalismo
global. Curitiba: Appris, 2017. p. 81).
163
Na obra “A Ideia de Uma História Universal de Um Ponto de Vista Cosmopolita”, Kant alinha-se
ao pensamento iluminista do século XVIII, que postula um desenvolvimento histórico progressivo
da humanidade. Segundo essa visão kantiana, o curso da história seria marcado por um avanço
contínuo rumo a um estado de maior liberdade, autodeterminação e iluminação, refletindo um
progresso que visa atingir patamares superiores de evolução moral e intelectual. Resposta: Letra E.
2. (FGV – 2023) Nós, abaixo-assinados, tendo nos reunido em virtude das ordens do Rei,
no dia 6 do presente mês de maio de 1789, resolvemos o que segue:
“Pedimos que todos os privilégios sejam abolidos. Declaramos que se alguém merece
ter privilégios e gozar de isenções, são os habitantes do campo, pois são os mais úteis
ao Estado, porque por seu trabalho o fazem viver. Pedimos também que as talhas com as
quais a nossa paróquia está sobrecarregada sejam abolidas; que este imposto seja con-
vertido num só e único imposto ao qual devem ser submetidos todos os eclesiásticos e
nobres sem distinção”.
Adaptado de MATTOSO, Kátia M. de Q. Textos e documentos para o estudo de História Contemporânea.
São Paulo: Edusp, 1976.
O documento exemplifica
164
A Crise do Sistema Colonial e a Independência no Continente Americano
Fonte: [Link]
enem,779859/[Link]
165
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FGV – 2022) Na noite de 16 de dezembro de 1773, um grupo de homens disfarçados
de índios, autodenominados Filhos da Liberdade, embarcou em três navios e despejou o
carregamento de chá no porto de Boston.
Esse episódio ficou conhecido como a “Festa do chá em Boston” e teve como objetivo
principal
a) atacar a Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC), responsável pelo contraban-
do de chá nas colônias americanas e pelos prejuízos aos comerciantes de chá inglês.
b) protestar contra a Lei do Chá, considerada abusiva pois o debate sobre o tributo havia
ocorrido no Parlamento inglês, no qual os colonos não tinham direito de representação.
c) punir as atividades de comerciantes holandeses e norte-americanos que contrabandea-
vam chá holandês, eliminando a remessa do produto no porto de Boston.
d) defender a liberdade de comércio no Atlântico Norte, sobretudo em função da repressão
indireta ao comércio triangular, reativada pela Lei do Chá.
e) lutar por um programa de independência americana, representado por colonos que se
consideravam os habitantes originais da América, contra ingleses e holandeses.
A Festa do Chá de Boston, ocorrida em 16 de dezembro de 1773, foi um marco decisivo no caminho
para a independência dos Estados Unidos. Representou um protesto organizado pelos colonos
americanos contra as políticas opressivas da coroa britânica, em especial os impostos elevados e
o monopólio da Companhia Britânica das Índias Orientais. Durante o evento, os colonos, vestidos
como indígenas, abordaram três navios da companhia e jogaram as cargas de chá no porto de
Boston. Esse ato de desafio visava denunciar as taxas impostas pela Grã-Bretanha à colônia, que
eram vistas como injustas e excessivas. Resposta: Letra E.
166
HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA: SÉCULO XIX
167
Queda da Bastilha em 14 de julho de 1789.
Fonte: [Link]
168
O Período Napoleônico
Logo após o Golpe do 18 Brumário, o Consulado foi tomado e governado por três
cônsules. Em 1802, Napoleão foi nomeado cônsul vitalício. Dois anos depois foi coroa-
do imperador da França após um plebiscito popular. Em seu governo ele reorganizou
a arrecadação de impostos, investiu na construção de obras públicas, criou o Banco
da França, estabeleceu o franco como moeda, manteve a desapropriação de terras de
nobres e instituiu o ensino público controlado pelo Estado.
Outra importante característica do governo napoleônico foi o expansionismo. As
guerras napoleônicas que ocorreram entre 1799 e 1815 levaram à conquista de pra-
ticamente toda a Europa. O grande empecilho para Napoleão foi a Inglaterra. Graças
ao seu isolamento, ela conseguiu se defender da conquista francesa. Napoleão então
impôs o Bloqueio Continental, impedindo que as nações europeias fizessem comér-
cio com os ingleses. Por outro lado, graças à força de sua marinha, a Inglaterra isolou a
Europa e explorou a ausência do comércio colonial.
O Império Napoleônico entrou em colapso após o Bloqueio Continental, além disso,
sofreu um duro revés na campanha da Rússia. Em 1814, não resistiu à aliança forma-
da por Inglaterra, Prússia, Áustria, Rússia e Suécia, que tomou Paris, levou Napoleão a
abdicar e entronou Luís XVIII como novo rei. No entanto, Napoleão conseguiu escapar
da prisão na ilha de Elba e formou o que ficaria conhecido como o Governo dos Cem
Dias. Em 18 de junho de 1815, ele foi derrotado na Batalha de Waterloo, na Bélgica. Foi
preso na Ilha de Santa Helena no Oceano Atlântico, onde viria a morrer em 1821.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FGV – 2022) Em meados de 1793, a situação da França era gravíssima: 60 dos 80 depar-
tamentos franceses estavam nas mãos da contrarrevolução, além da especulação, da
inflação, da carestia que assolavam o país.
(Modesto Florenzano, As revoluções burguesas. São Paulo: Brasilense, 1983, p. 56-57. Texto adaptado)
169
c) a adoção de medidas que ampliaram a participação política dos camponeses, que eram
fundamentais para garantir o abastecimento de alimentos da população urbana e a rea-
lização de recorrentes consultas públicas sobre as principais decisões a serem tomadas
pela Convenção.
d) a nova constituição, que limitava os direitos de cidadania porque o voto passou a ser
censitário, ao mesmo tempo, o governo jacobino estabeleceu acordos de paz com cada
uma das nações em conflito com a França e, para isso, foi necessário restaurar o poder
das principais casas dinásticas europeias.
e) o reestabelecimento da escravidão, que havia sido abolida pelo governo girondino, nas
colônias americanas sob o domínio francês e a abertura de contatos comerciais com
países do leste europeu para a aquisição de trigo, e outros alimentos, para suprir as
necessidades da população da França.
Segundo Modesto Florenzano, para contornar a crise que ameaçava o fim da Revolução, com a
rebelião em 60 dos 80 departamentos, era imprescindível a exclusão dos girondinos da Conven-
ção. Esse objetivo foi atingido por meio de uma insurreição popular que depôs o poder girondino
e elevou os jacobinos ao comando. Os jacobinos implementaram uma estratégia de guerra total,
mobilizando completamente a população por meio de recrutamento militar, racionamento e uma
economia de guerra sob estrito controle, além de praticamente eliminar a distinção entre a vida
militar e civil. Eles perceberam que, para triunfar sobre os adversários da Revolução, era neces-
sário engajar a nação no esforço de guerra, o que só seria possível atendendo às demandas dos
sans-culottes. Resposta: Letra B.
Dica
Chamamos de Revolução Puritana a essa primeira revolução inglesa.
170
A república durou pouco tempo após a morte de Cromwell, houve o retorno à dinas-
tia dos Stuarts, com a posse do filho do rei decapitado, Carlos II. Quando da morte dele
em 1685, este não havia deixado herdeiro, de tal sorte que o trono inglês passou para
seu irmão Jaime II. O novo rei trouxe de volta os atritos com o parlamento. Entre suas
medidas estava o retorno aos poderes absolutos do rei e o fortalecimento do catolicis-
mo na Inglaterra, havendo certos privilégios aos católicos como isenção de impostos e
nomeação para altos cargos.
É importante saber que o medo da perpetuação de católicos no poder com o nasci-
mento do filho do rei, em 1688, foi o estopim para o que conhecemos como Revolução
Gloriosa.
Ela ganhou esse nome, pois sua saída foi feita sem guerra. O Parlamento protestante
tramou junto à filha do rei, Maria Stuart, e seu marido, Guilherme de Orange. Com a
reunião de tropas para sua deposição, o rei Jaime II se exilou na França, enquanto sua
filha e seu genro assumiam o trono e garantiam o poder dos protestantes na Ingla-
terra. A condição fundamental para a coroação dos novos reis foi a assinatura da Bill
of Rights (Declaração dos Direitos), em que a monarquia constitucional era baseada
em limites postos pelo Parlamento à atuação real, como no aumento de impostos, no
confisco de propriedade e no direito à liberdade de expressão, a Coroa não poderia
interferir sem a decisão do Parlamento.
Essas revoluções são vistas como burguesas, pois garantiram as demandas da bur-
guesia inglesa, interessada em derrubar o absolutismo, sendo esse sistema visto como
um entrave no desenvolvimento das atividades econômicas. Além disso, as revoluções
burguesas da Inglaterra repercutiram no século seguinte: na própria Inglaterra, com a
Revolução Industrial, e na França, com a Revolução Francesa.
Fonte: [Link]
171
expresso como uma rejeição ao estrangeiro, que passa a ser visto como alguém que
“toma o lugar” do natural de um determinado país. Os discursos desse nacionalismo
xenofóbico ganharam força a partir de crises do sistema capitalista, que levaram à bus-
ca frustrada por emprego, do terrorismo ou, ainda, da fuga de pessoas em situação de
risco pelo mundo.
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FGV 2019) Após a Restauração, em 1660, o líder da Revolução Puritana, Oliver Crom-
well (1599-1658), teve seu corpo exumado e publicamente enforcado. Simultaneamente
amado e odiado, Cromwell foi visto, por alguns, como figura revolucionária, libertador do
absolutismo de Carlos I Stuart, e, por outros, como um fanático religioso, um regicida
signatário da sentença de morte do rei e, por isso, a encarnação do próprio “diabo”, como
representado na imagem a seguir.
172
A demonização de Cromwell e da República, feita pela nobreza inglesa do período da
Restauração, visava criticar
O excerto apresenta
a) as revoluções de 1848.
b) a restauração pós era napoleônica.
173
REVOLUÇÃO INDUSTRIAL, VIDA ECONÔMICA E TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS
Sem exagero algum, podemos dizer que a Revolução Industrial “pariu” a nossa épo-
ca. A Revolução Industrial é o longo processo de transformação social e econômica
iniciado com novas formas de produção, emprego de novas matérias-primas e formas
de energia que modificaram a forma de trabalho, a estrutura social, a estrutura urbana
e rural, as tecnologias e a relação com o tempo.
A Revolução Industrial não tem uma data específica. Ela possui diferentes fases e
cada uma dessas fases foi marcada por uma inovação na forma de produzir as merca-
dorias. Seguindo esse entendimento: A Primeira Revolução Industrial ocorreu entre
os anos 1760 até os anos 1830 e foi marcada pela força da indústria de lã e algodão
para a fabricação de tecidos e difusão do uso de máquinas a vapor que utilizavam o
carvão mineral como fonte de energia, essa fase praticamente se limitou à Inglaterra,
embora Países Baixos e França tenham participado tardiamente. A Segunda Revolu-
ção Industrial ocorreu entre os anos de 1850 até os anos 1910 e foi marcada pelo
emprego de combustíveis fósseis, principalmente o petróleo, pela expansão do setor
secundário da economia (siderurgia e metalurgia): Estados Unidos (no processo de
reconstrução após a Guerra Civil), o Japão (durante a Era Meiji) e a Alemanha (em seu
processo de unificação) tiveram maior destaque. A Terceira Revolução Industrial, ini-
ciada nos anos 1950, tem como característica a expansão da indústria de tecnologia de
ponta, com o emprego da robótica, da informática e da eletrônica, com o protagonismo
de europeus, estadunidenses, japoneses e sul-coreanos.
O crescimento desses negócios levou à circulação de moeda, aparecimento de ban-
cos regulares, de novas operações financeiras que foram valorizando cada vez mais
os bens móveis sobre os bens imóveis, afetando a terra e o símbolo de poder da aris-
tocracia. A necessidade de unificar moedas, impostos, leis, normas, pesos, medidas,
fronteiras, alfândega e regulamentar mercados nacionais e internacionais significou a
necessidade da unificação política em torno do Estado Nacional. Por outro lado, o pro-
cesso de expurgos e expropriações dos camponeses de suas terras para a produção
de lã permitiu a formação de uma massa carente de trabalho nas cidades para serem
absorvidas pela indústria.
A condição de vida dos trabalhadores era péssima. Crianças, idosos, mulheres ou
homens eram submetidos a jornadas que chegavam a de 16 horas de trabalho por dia.
Caso houvesse atrasos ou eles perdessem o ritmo da produção poderiam sofrer com
castigos físicos, além de sofrerem com descontos de metade de seu pagamento. Não
tardou que surgissem movimentos de reação a esse sistema de exploração.
Em 1799, o Parlamento Inglês aprovou o Combination Act, proibindo a criação de
associações de trabalhadores para negociar condições de trabalho e de salário. Houve
no período de 1811 e 1812 entre os tecelões um movimento de quebrar teares para
forçar o recuo de proprietários na demissão de trabalhadores e na diminuição de salá-
rios. Esse movimento ficou conhecido como ludismo e acabou inspirando outros movi-
mentos pela Europa.
174
Mesmo em meio à repressão, a pressão do movimento fez com que o Parlamento
em 1825 revogasse a Combination Act de 1799, permitindo o surgimento de associações
de trabalhadores.
Importante!
É desse modo que a partir da década de 1830 tem início um movimento
conhecido como cartismo, que buscava direitos por meio da política, como o
sufrágio universal e as eleições parlamentares anuais, lembrando que apenas
18% da população masculina inglesa votava. A rejeição do Parlamento a
essas mudanças é o estopim para diversas greves.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2015) A divisão capitalista do trabalho – caracterizada pelo célebre exem-
a) o maior equilíbrio social provocado pelas melhorias nos salários e nas condições de
trabalho.
175
b) o melhor aproveitamento do tempo de trabalho e a autogestão da empresa pelos
trabalhadores.
c) o desenvolvimento tecnológico como fator determinante para o aumento da capacidade
produtiva.
d) a ampliação da capacidade produtiva como justificativa para a supressão de cargos dire-
tivos na organização do trabalho.
e) a importância do parcelamento de tarefas e o estabelecimento de uma hierarquia no
processo produtivo.
A especialização laboral, resultante da divisão do trabalho, permitiu que os operários se dedicas-
sem exclusivamente a uma função específica, sob a orientação de um supervisor. Essa constância
na execução de uma única atividade levou a um aumento na destreza dos trabalhadores e, con-
sequentemente, na produção. Contudo, essa especialização resultou na perda do conhecimento
integral do processo de produção por parte dos trabalhadores. Portanto, o texto discute dois
aspectos da divisão do trabalho: a segmentação das atividades e a presença de uma estrutura
hierárquica no ambiente produtivo. Resposta: Letra E.
A vida política após as Revoluções de 1848 na Europa foi marcada por uma série de
mudanças estruturais que moldaram o continente. As revoluções, conhecidas como a
“Primavera dos Povos”, foram uma resposta aos regimes autocráticos e às crises eco-
nômicas que afligiam as classes médias e trabalhadoras. Embora as revoluções não
tenham sido bem-sucedidas em muitos aspectos, elas estabeleceram uma nova opo-
sição política entre a burguesia e o proletariado, que se tornaria uma característica
definidora da política europeia.
Na França, a Revolução de 1848 levou à queda da monarquia de Luís Filipe e ao
estabelecimento da Segunda República Francesa. A nova república introduziu reformas
significativas, como a abolição da pena de morte e a implementação do sufrágio univer-
sal masculino. No entanto, a república foi de curta duração, e em 1851, Luís Napoleão
Bonaparte realizou um golpe de estado, estabelecendo o Segundo Império Francês.
Em outros lugares da Europa, as revoluções de 1848 tiveram efeitos variados. Na
Alemanha e na Itália, as revoluções impulsionaram movimentos de unificação nacio-
nal que eventualmente levariam à formação de nações-estados unificadas. No Império
Austríaco, as revoluções resultaram na abolição da servidão e no fortalecimento do
nacionalismo entre os vários grupos étnicos do império.
O fim do século XIX viu o surgimento de novas ideologias políticas e movimentos
sociais. O socialismo e o anarquismo ganharam força como alternativas ao capitalismo
industrial e à ordem política estabelecida. Esses movimentos buscavam uma reorgani-
zação radical da sociedade e economia, defendendo a igualdade social e a abolição da
propriedade privada.
176
O período que se seguiu às revoluções de 1848 foi crucial para o desenvolvimento
da política moderna. As tensões entre diferentes classes sociais e grupos políticos, bem
como as questões de nacionalismo e identidade, continuariam a influenciar a política
europeia até o século XX. O legado das revoluções de 1848 e as transformações políti-
cas do fim de século estabeleceram o cenário para os conflitos e mudanças que mar-
cariam o próximo século.
177
O estopim para o movimento mais amplo de emancipação das colônias teve início
quando Napoleão Bonaparte invadiu a Espanha e prendeu o rei Fernando VII. As colô-
nias passaram a agir cada vez mais autonomamente em relação às metrópoles. Por
outro lado, a Inglaterra, em um momento de necessidade de ampliar os mercados con-
sumidores por conta da Revolução Industrial, viu com bons olhos o fim do monopólio
comercial espanhol na América.
Nesse contexto, a mobilização ganha impulso. A restauração da autoridade colonial
espanhola foi o início para as hostilidades dos criollos. Simon Bolívar e José de San
Martin tiveram papel de destaque, conseguindo mobilizar lideranças e exércitos que
tinha como objetivo declarar a independência de vários países no continente. O projeto
pan-americano de integração entre as nações independentes no Congresso do Pana-
má em 1826 não foi adiante, inclusive pela intervenção inglesa preocupada que isso
colocasse em risco seus interesses na região.
Os processos de independência acabaram não se traduzindo em uma efetiva e radi-
cal transformação da sociedade, vide o poder das elites locais que instauraram regimes
ditatoriais. Além disso, a dependência econômica em relação às potências capitalistas
estabelecida a partir do século XIX fez com que muitos dos problemas como a desigual-
dade econômica e a instabilidade social e política permanecessem.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2019) Segundo Maria Ligia Coelho Prado, no livro América Latina no século
XIX, “a constância da presença dos heróis nacionais na produção desses historiadores
liga-se, de um lado, às questões políticas da edificação da nação e, de outro, à perspecti-
va dominante na época, que conferia fundamentalmente aos grandes homens a realiza-
ção dos feitos históricos.
Entretanto, no campo do simbólico, os heróis nacionais só foram consagrados depois
de lutas de representação, que determinaram escolhas e exclusões particulares a cada
país.”
a) desprezo e depois sua consagração como herói na década de 1840 na Venezuela, quan-
do o país viveu intensas lutas políticas com ameaça de sua coesão interna.
b) a construção de uma imagem de herói exemplar na época em que percorreu as regiões
da América do Sul, lutando pela independência da Colômbia, México,Brasil e Equador.
c) a rejeição como traidor da pátria ao longo do século XIX na Colômbia, e o elogio como
herói, em outros países da América Latina, quando desponta o século XX.
d) debates calorosos, críticas e desprezo de seus aliados e da população do continente
americano por ter se envolvido nas guerras de independência dos Estados Unidos.
178
e) imagem de homem pobre e modesto, descendente da população nativa, elevado a herói e
pai da nação, na década de 1810, por ter vencido a guerra de descolonização no Equador.
Simon Bolívar, antes de ser consagrado como herói nacional da Venezuela, teve sua reputação
amplamente debatida e reinterpretada por historiadores e pensadores. Imediatamente após seu
falecimento, no período de 1830 a 1840, prevaleceu a visão de Bolívar como um líder autoritário,
avesso à inclusão do povo no processo decisório político, e que foi abandonado por seus compa-
nheiros de política. Contudo, na década de 1840, em meio a crises políticas que colocaram em
risco a integridade territorial venezuelana, a figura de Bolívar foi ressignificada. Ele passou a
ser visto como um guardião da unidade nacional, o que o elevou ao patamar de herói nacional.
Resposta: Letra A.
Fonte: [Link]
179
A primeira fase da guerra foi conhecida como Guerra de Movimento, quando a
Alemanha avançou sobre territórios franceses e sobre a região dos Balcãs no Leste
Europeu. No entanto, o que marcou a guerra mesmo foi a segunda fase chamada de
Guerra de Posição ou Guerra de Trincheiras entre 1915 e início de 1918, sem que
nenhum bloco tenha conseguido avançar de maneira considerável. O uso de novas
armas, produzidas em ritmo industrial, e a presença de aviões e tanques, levou a uma
grande mortalidade, estimada ao longo de toda a guerra por volta de 17 milhões de
pessoas, soldados e civis.
Em 1917, a Tríplice Entente perdeu a Rússia, que saiu da guerra após a Revolução
Bolchevique de outubro. No entanto, ganhou apoio militar, além do econômico, dos
Estados Unidos. A guerra chegou ao fim em 1918, com a vitória da Tríplice Entente e
derrota da Tríplice Aliança. Em 1919, o Tratado de Versalhes penalizou a Alemanha
com a perda de território, exército e obrigatoriedade de pagar uma grande indeniza-
ção aos vencedores. O Império Austro-Húngaro foi dissolvido, assim como o Império
Turco-Otomano. Além disso, a Liga das Nações foi criada para estreitar a diplomacia
entre as nações europeias. Como a história comprovaria 20 anos depois, o Tratado de
Versalhes e a Liga das Nações não só fracassaram em pôr fim às hostilidades, como
deram força ao revanchismo e à continuidade da disputa imperialista.
O Brasil passou a maior parte do conflito na neutralidade. No entanto, o bombar-
deio de um navio cargueiro que transportava café por um torpedeiro alemão em 1917
levou à Declaração de Guerra ao Império Alemão, assinada pelo presidente Wenceslau
Braz. A participação do Brasil, no entanto, foi tímida: restringiu-se ao envio de enfer-
meiras e à patrulha da costa norte-africana. Inclusive, foi nessa patrulha marinha que
o fuzilamento, por engano, de um bando de toninhas (espécie de golfinho) marcaria o
episódio bizarro da participação brasileira no conflito.
Mais importante, no entanto, seria o desdobramento econômico da guerra para o
Brasil. A queda nos preços do café, graças ao conflito, escancarou ao governo brasileiro
os males da dependência de produtos agrários para a exportação. Foi assim que, de
forma lenta, gradual e tímida, o país passou a investir na produção industrial, ainda que
em um primeiro momento ela ficasse praticamente restrita aos setores alimentícios,
têxteis e de construção civil, tornando São Paulo um destacado centro industrial.
180
por maior atenção do czar para com o povo, resultou em um massacre, episódio que
ficou conhecido como Domingo Sangrento. Isso apenas aumentou a revolta e os
populares começaram a se organizar em conselhos, chamados de sovietes. Além disso,
alguns partidos também surgiram. Vale destacar o Partido Operário Social Democra-
ta Russo, dividido entre os mais radicais, chamados bolcheviques, e mais moderados,
chamados mencheviques. Para conter a possível escalada revolucionária, o czar criou
a Duma: parlamento que deveria promover uma maior abertura política, mas que na
prática não o fez.
Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, ignorando todas as dificuldades, o Impé-
rio Russo entrou na guerra interessado no pan-eslavismo: expandir sua influência pelo
leste europeu. No entanto, o alto nível de deserção dos soldados russos e o alto nível
de pobreza da população fizeram eclodir a Revolução de Fevereiro em 1917. Com a
renúncia do czar, um governo provisório foi montado e os sovietes foram restabeleci-
dos. Em muitas fábricas, os conselhos operários passaram a comandar a produção. No
entanto, a Rússia permaneceu na guerra.
Em abril de 1917, um dos principais revolucionários russos voltou do exílio. Vladimir
Lênin tomou a liderança e passou a organizar os bolcheviques para tomarem o poder,
tirar a Rússia da guerra e aprofundar o processo revolucionário, sob o lema pão, paz e
terra. Em 25 de outubro (7 de novembro no nosso calendário), os bolcheviques chega-
ram ao poder ao derrubarem o governo provisório.
Lênin discursando em 1920 com a presença de Kamenev e Trotsky nas escadas do palanque. HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL
Fonte: [Link]
O poder dos conselhos operários foi garantido nas fábricas, os sovietes passaram a
ser administrados de maneira mais centralizada, as terras da nobreza e da Igreja Orto-
doxa foram divididas entre os camponeses e o estado passou a ser administrado pelo
Conselhos dos Comissários do Povo. Também foi instituído o Exército Vermelho, sob
o comando de Leon Trotsky. A Rússia foi retirada da guerra ao assinar o Tratado de
Brest-Litovsk com a Alemanha.
181
A assinatura do armistício não significou a paz na Rússia, pois as forças czaristas
receberam apoio de ingleses e franceses para formarem o Exército Branco e tentar
destruir o processo revolucionário. A estratégia do Comunismo de Guerra buscou ajus-
tar o Estado àquela conjuntura, promovendo a militarização da economia e direcio-
nando-a para os esforços de guerra. Assim, o Comunismo de Guerra impôs a disciplina
militar nas indústrias e passou a confiscar a produção camponesa. A união entre as
forças ucranianas e as do Exército Vermelho conseguiram derrotar o Exército Branco.
A Guerra Civil Russa durou de 1918 até 1921, deixando a Rússia destruída.
Para restaurar a economia, Lenin propôs que os revolucionários dessem “um pas-
sou para trás para que tivessem condições de dar dois passos à frente”. Sendo assim,
foi instituída a Nova Política Econômica (NEP), dando espaço para pequenas e médias
empresas privadas. Teve início a coletivização das terras camponesas, o que causou
forte tensão no campo com os grandes e médios proprietários de terra. Também, em
1921, foi redigida a Constituição da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, reunin-
do 12 repúblicas e mais de 150 nacionalidades em um vasto território.
Lenin veio a falecer em janeiro de 1924. Com sua morte houve uma grande dis-
puta pelo poder que só foi resolvida em 1928, quando Josef Stalin assumiu o cargo
de Secretário Geral. O stalinismo foi caracterizado como um regime autoritário que
buscou modernizar a União Soviética, ao mesmo tempo em que suprimia liberdades
políticas e perseguia adversários. Stalin permaneceu no poder até sua morte em 1953.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC – 2016) Considere os itens abaixo.
I. Consistia na abolição dos salários, na estatização das fábricas que empregassem mais
de cinco pessoas e na entrega obrigatória das colheitas ao governo.
II. Promovia um retorno parcial ao capitalismo com o objetivo de aumentar a produção e
superar a crise econômica. Por essa política, as colheitas passaram a ser vendidas no
mercado pelos camponeses; as indústrias que empregavam menos de vinte pessoas
foram privatizadas e o governo procurou atrair investimentos estrangeiros.
III. Criados para vigorar por cinco anos, definiam objetivos econômicos e mobilizavam
os recursos materiais e humanos russos para alcançá-los. Assim o Estado assumia a
função de centralizar e planificar rigidamente a economia.
182
c) ao comunismo de guerra, à Nova Economia Política (NEP) e aos planos quinquenais.
d) ao socialismo democrático, ao Programa de Reforma Social e aos Planos de Metas
Econômicas.
e) ao comunismo de guerra, ao Programa de Reforma Social e aos Planos de Metas
Econômicas.
I. Esse segmento aborda o “comunismo de guerra”, um regime adotado durante a Guerra Civil
Russa (1918–1921), caracterizado por ações drásticas do governo bolchevique para assegurar
recursos e a continuidade do conflito. Durante essa fase, houve uma centralização e militarização
da economia, marcada pela eliminação do sistema salarial e pela nacionalização das indústrias.
II. Esse trecho trata da Nova Política Econômica (NEP), introduzida por Lenin em 1921, visando à
recuperação econômica do país após os impactos da Guerra Civil. A NEP relaxou algumas restri-
ções do comunismo de guerra, reintroduzindo elementos capitalistas na economia, como a per-
missão para que camponeses vendessem suas colheitas e a privatização de pequenas empresas.
III. Este ponto detalha os Planos Quinquenais, iniciados por Stalin em 1928, que estabeleciam
objetivos econômicos a serem alcançados a cada cinco anos. Esses planos foram fundamentais
na transição da União Soviética de uma sociedade baseada na agricultura para uma nação indus-
trializada. Resposta: Letra C.
PERÍODO ENTREGUERRAS
Período entre guerras é como é conhecido o período entre o fim da Primeira Guerra
Mundial em 1918 e início da Segunda Guerra Mundial em 1939. Com a Europa devas-
tada, os Estados Unidos apareceram com empréstimos que os auxiliaram a se recons-
truir. O modelo de vida americano, ou american way of life, passou a ser admirado por
aquele mundo europeu em ruínas. Os Estados Unidos, com isso, acabaram se consoli-
dando como a principal potência mundial.
Como a Europa estava necessitando retomar sua indústria, abriu-se uma grande
oportunidade para a industrialização de setores que forneciam aço, ferro, alumínio,
carvão mineral e petróleo servir à reconstrução industrial. Além dos empréstimos, os
EUA viram o crescimento do nível de consumo de sua população, o que deu força inclu-
sive a países agroexportadores, como era o Brasil naquela ocasião.
Esse grande boom econômico levou a um grande otimismo por parte de investido-
183
Como resposta à crise de 1929, o governo de Franklin D. Roosevelt, eleito em 1933,
lançou o new deal. Sua estratégia era romper com a doutrina liberal de não intervenção
na economia. Sendo assim: o setor financeiro passou a sofrer com maior regulação, os
sindicatos foram base para negociações de conflitos de classe e obras públicas foram
espalhadas por todo o país para a retomada do emprego. No entanto, a recuperação
da chamada Grande Depressão só seria consolidada após a Segunda Guerra Mundial.
Na imagem a seguir pode ser vista a crítica feita ao slogan “O mais alto padrão de
vida: não há vida igual à vida americana”, pois o índice de desemprego era muito alto.
Desempregados em frente a uma propaganda que diz: “O mais alto padrão de vida: não há vida igual à vida
americana”.
Fonte: [Link]
O período entre guerras também foi marcado pela ascensão dos regimes fascis-
tas. Em geral, eles prometiam um retorno a um passado idealizado e grandioso pelo
qual seu povo tinha passado. Para isso, a sociedade deveria ser militarizada, o Estado
comandado por um partido único, sem pluralidade política e ideológica, além do com-
ponente racista e preconceituoso que atingia diversos grupos: os judeus, os ciganos, os
negros, os homossexuais etc.
Fascismo na Itália
Benito Mussolini era um antigo militante socialista que rompeu com a esquerda
quando se opuseram à entrada de seu país na guerra. O revanchismo não foi um fator
aproveitado como em outros países, já que a Itália foi uma das vitoriosas na guerra.
Porém, a frustração em não receber compensações territoriais após a vitória e a grave
crise econômica enfrentada pelo país fizeram com que desempregados, estudantes,
classe média, militares e proprietários de terra aderissem à ideologia fascista, que pro-
metia o retorno ao suposto “passado glorioso italiano” a partir da obediência a Mussoli-
ni, combate aos adeptos da esquerda e controle do Estado sobre as relações de classe.
Esse último ponto fez com que o fascismo ganhasse a simpatia da burguesia.
184
Após a bem sucedida Marcha sobre Roma em 1922, o rei Vitor Emanuel III nomeou
Mussolini primeiro-ministro. Aos poucos ele concentrou poderes ditatoriais, aboliu sin-
dicatos e partidos políticos, pôs fim ao poder legislativo e submeteu o poder judiciário
ao seu governo.
Fonte: [Link]
Nazismo na Alemanha
Os alemães foram tratados como os grandes culpados pela Primeira Grande Guer-
ra, o que acarretou grandes perdas territoriais, militares, além dos custos das indeni-
zações ficassem sob sua responsabilidade. Nesse contexto, surgiu o Partido Nacional
Socialista dos Trabalhadores Alemães, que teve como importante porta-voz um cabo
da Primeira Guerra chamado Adolf Hitler. Em 1923, no auge do colapso econômico
alemão, ele tentou promover em Munique uma Marcha sobre Berlim. Preso e solto
quase dois anos depois, tomou a liderança do partido e divulgou suas ideias por meio
de sua obra Mein Kampf (Minha Luta), em que defendia que o “passado glorioso
alemão” foi perdido graças à conspiração judaica e marxista que dominava a Repú-
185
Importante!
O regime ditatorial Nazista promoveu a perseguição de judeus, ciganos,
eslavos, homossexuais, testemunhas de jeová e comunistas.
Na imagem vemos Hitler discursando diante da SS, milícia que substituiu as AS:
Fonte: [Link]
[Link]
A Segunda Guerra Mundial teve entre suas causas a tensão entre os imperialismos
europeus, vitoriosos e derrotados, ao fim do primeiro conflito. O acordo de paz de Ver-
salhes, mais do que estabelecer novas relações diplomáticas, procurou culpar a Alema-
nha pelo conflito. Isso fez com que persistisse aquele sentimento de revanchismo entre
as nações, em especial, entre alemães e franceses. Nesse sentido, a Liga das Nações
nasceu quase que fadada ao fracasso em garantir a paz. No Oriente, o Japão começou
a guerra de colonização da China em 1931. Esse conflito acabou se somando à Segunda
Guerra.
Outro importante fator é o impacto da Revolução Bolchevique de 1917. Com a vitória
dos comunistas, o restante dos países europeus temeu que a revolução se espalhasse
naquele contexto de crise.
186
Para evitar que isso acontecesse, parte da burguesia europeia aderiu a movimentos
radicalmente anticomunistas como no caso da Alemanha e da Itália. Outras nações
viam o nazifascismo como um “mal menor” diante da “ameaça comunista”, de modo
que foram complacentes com o militarismo e o expansionismo dos países que forma-
ram o Eixo.
A expansão territorial empenhada pela Alemanha fazia parte da formação daquilo
que os nazistas chamavam de “espaço vital”, região que deveria abrigar os arianos.
A prosperidade dos alemães seria garantida por meio da exploração dos povos vistos
como “sub-humanos” e como “inferiores”, como os eslavos e judeus.
Em 1938, os alemães anexam a Áustria em um evento conhecido como Anschluss.
Depois, os alemães se voltaram para dominar a Tchecoslováquia, dominando os Sude-
tos e integrando a minoria alemã ao território do Reich. Durante a Conferência de
Munique, ingleses e franceses cederam às pressões alemãs e permitiram que os ale-
mães invadissem o território da Tchecoslováquia para evitar que uma guerra fosse
iniciada. No entanto, houve a contrapartida que aquela seria a última ofensiva ale-
mã. Essa estratégia adotada por ingleses e franceses era conhecida como política de
apaziguamento.
Para ganhar tempo, Hitler conseguiu assinar o Pacto de Não Agressão com a União
Soviética em agosto de 1939. Em setembro, a Polônia foi invadida. Inglaterra e França
cumpriram a promessa de garantir a integridade da Polônia e declararam guerra à Ale-
manha. Tinha início a Segunda Guerra Mundial.
Fonte: [Link]
187
Hitler em Paris.
Fonte: [Link]
Fonte: [Link]
188
O fim da Segunda Guerra ocorreu primeiro na Europa. Mussolini foi morto em 28 de
abril de 1945.
Dois dias depois, Hitler se suicidou em seu bunker na Chancelaria do Reich em Ber-
lim, quando os soviéticos já tomavam a cidade. A rendição alemã ocorreu em 8 de maio.
No Oriente, a guerra se arrastou até agosto. Os ataques com bombas atômicas em
Hiroshima e Nagasaki junto à entrada da União Soviética na luta contra o Japão, fez
com que declarasse o fim das hostilidades em 14 de agosto. A rendição oficial foi assi-
nada em 2 de setembro de 1945.
A Segunda Guerra Mundial deixou cerca de 60 milhões de mortos, sendo o conflito
mais letal em toda história. Os crimes contra a humanidade cometidos pelos nazistas
nos campos de concentração foram julgados pelo Tribunal de Nuremberg em 1946, com
alguns condenados à pena de morte, outros à prisão perpetua e também os que tiveram
a pena com direito à liberdade depois de cumprida. Em 1948, foi criada a Organização
das Nações Unidas para reformar a diplomacia mundial e manejar a paz mundial.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2017) Na Segunda Guerra Mundial, a participação dos Estados Unidos não
foi preventiva, mas central, embora existisse uma forte corrente “isolacionista” dentro da
classe dominante americana até dezembro de 1941 (ataque japonês a Pearl Harbor), que
marcou seu ingresso na guerra.
(COGGIOLA, Osvaldo. “Natureza da Segunda Guerra Mundial”. Em: COGGIOLA, Osvaldo (org.). Segunda Guerra
Mundial: um balanço histórico. São Paulo: Xamã, 1995. Adaptado)
Entre os antecedentes que levaram ao confronto entre o Japão e os EUA em 1941, é cor-
reto identificar
a) o tratado secreto de não agressão entre o Japão e a União Soviética, que provocou forte
tensão quando descoberto pelos EUA.
b) a conquista norte-americana do Havaí, arquipélago no Pacífico que até então pertencia
ao Japão, o que gerou descontentamento entre os nacionalistas japoneses.
c) o expansionismo japonês na China e na Indochina, que contribuiu para que os EUA deci-
189
GUERRA FRIA E AS SUPERPOTÊNCIAS
LITUÂNIA
ATLÂNTICO
MEDITERRÂNEO
Fonte: [Link]
190
Também houve a fundação de dois blocos de cooperação militar: a Organização
do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) tinha como objetivo impedir a expansão do
comunismo pela Europa, enquanto o Pacto de Varsóvia formou uma aliança militar
entre os países alinhados à URSS.
Em alguns momentos, a Guerra Fria resultou em confrontos em regiões pretendi-
das pelas duas superpotências. Destacam-se a Guerra da Coreia, travada entre 1950
e 1953, quando a Coreia do Norte comunista tentou, sem sucesso, invadir e unificar a
Coreia do Sul capitalista, e a Guerra do Vietnã, travada entre 1964 e 1974, quando os
EUA interviram para evitar que o Vietnã do Sul fosse integrado ao Vietnã do Norte, mas
fracassou.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FGV – 2023) “Para os EUA, o novo governo congolês de Maurice Lumumba parecia ser
mais uma ameaça de esquerda do Terceiro Mundo, uma ameaça ainda pior diante das
imensas riquezas naturais do Congo, que incluíam urânio. Ao voltar a Kinshasa, Lumum-
ba criticou o Secretário Geral das Nações Unidas porque as forças da ONU não esta-
vam apoiando seu governo. Em dezembro de 1960, Lumumba foi capturado, torturado e
assassinado sob os olhares de ‘ministros’ de Katanga e oficiais belgas”.
Adaptado de WESTAD, Odd Arne. The global Cold War, p. 137-140.
191
O objetivo educacional da proposta de vincular as batalhas pela independência e o processo
de descolonização da África, juntamente com a Guerra Fria e as recentes ondas de imigração
de refugiados do século XXI ao trágico assassinato do jovem Moïse Kabagambe, é criar elos
didáticos que facilitam a compreensão dos conflitos atuais que afetam as populações africanas.
Essa abordagem busca iluminar as contínuas lutas enfrentadas por aqueles que são descenden-
tes dessas populações, que ainda hoje lidam com o legado do racismo, um resquício das políticas
coloniais europeias que promoveram a invasão e partilha do continente africano, além de impul-
sionarem o comércio transatlântico de seres humanos para atender a seus interesses econômicos
e comerciais. Resposta: Letra C.
DESCOLONIZAÇÃO AFRO-ASIÁTICA
192
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2018) Na Guiné, Moçambique e Angola, os movimentos de libertação sem-
pre fizeram cuidadosa distinção entre o povo português, que os apoiava, e o governo
ditatorial que estava tentando esmagá-los. Desde o início, tais movimentos temeram que
uma revolução política na África portuguesa ainda pudesse deixá-los na condição de
dependência neocolonial de Lisboa e dos interesses econômicos europeus aos quais
Lisboa estava ligada e pelos quais às vezes atuava como agente. Por isso, a emergência
de ideias “terceiro-mundistas” no seio das forças armadas portuguesas foram observa-
das com grande interesse pelos movimentos marxistas na África.
(Maxwell, K. O Império derrotado: revolução e democracia em Portugal. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
Adaptado)
O trecho citado evidencia o fato de que, no contexto da Guerra Fria, havia forte associa-
ção entre
ECONOMIA NO SÉCULO XX
Durante o século XX, a atividade industrial alcançou muitos países da Europa, além
193
O elevado grau de especialização para o trabalho é outra característica, no qual se
nota também o deslocamento de trabalhadores do setor secundário (indústria) para o
setor terciário (comércio e serviços).
A Terceira Revolução Industrial também se mostra muito ligada ao processo de glo-
balização, no qual cada etapa de produção é realizada em países ou em continentes
diferentes. Nesse sentido, a mão de obra mais especializada tem se concentrado nos
países centrais mais desenvolvidos e com alto grau de inovação tecnológica, enquan-
to outras economias participantes dos países emergentes ou subdesenvolvidos ficam
com uma parte menor dos ganhos da produção.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC – 2018) Sobre o processo histórico conhecido como a chamada “Terceira Revolu-
ção Industrial”, ocorrida a partir dos anos 1980, considere:
I. Este processo foi marcado pelo impacto das novas tecnologias de automação, informa-
ção e comunicação no processo produtivo, sobretudo nas indústrias.
II. O desenvolvimento da robótica é comumente citado como parte desse processo e de
seus elementos desencadeadores.
III. Houve diminuição da circulação de capital entre as nações, em contraponto ao aumento
do fluxo de pessoas em busca de emprego.
IV. Provocou um aumento do aparato de regulamentação jurídica e da presença do Estado
nacional na economia.
a) I e III.
b) I e II.
c) III e IV.
d) II e IV.
e) I, III e IV.
As afirmativas I e II estão corretas. Na afirmativa III, era essencial reconhecer a profunda cone-
xão entre a década de 1980 e o fenômeno da globalização. Um elemento chave dessa era foi a
expansão sem precedentes na integração dos mercados financeiros globais, o que resultou em
um aumento significativo no fluxo de capital transnacional, frequentemente além do controle
efetivo dos governos nacionais. A Terceira Revolução Industrial, caracterizada pela descentra-
lização industrial, está intrinsecamente ligada à fluidificação do capital na era da revolução da
informação, pois a capacidade de acumulação e investimento progrediu em conjunto com as
transformações nos processos produtivos já mencionadas. Portanto, a afirmação é incorreta.
Já na afirmativa IV, vê-se que, com a Terceira Revolução Industrial, a mobilidade do capital e
a redução dos vínculos territoriais nas cadeias de produção enfraqueceram o papel dos Esta-
dos nacionais na economia. Isso ocorreu porque tanto a produção quanto o capital adquiriram
194
uma capacidade sem precedentes de se mover rapidamente além das fronteiras nacionais. Em
resposta a essa nova realidade, houve um movimento generalizado por parte dos Estados para
desregulamentar suas economias, buscando manter-se competitivos na atração de capitais e
investimentos produtivos. A pressão para reduzir os custos de produção foi amplamente inter-
pretada como uma necessidade de relaxar as regulamentações governamentais, permitindo que
as forças de mercado, agora operando globalmente, distribuíssem os recursos de maneira mais
eficiente. Portanto, a afirmação é considerada incorreta. Resposta: Letra B.
Nas primeiras décadas do século XIX, grande parte dos países latino-americanos
conseguiu proclamar sua independência política e elaborar constituições que assegu-
raram a estabilidade. No entanto, por conta das disputas políticas entre chefes locais, a
estabilidade estava longe de ser conseguida. Os novos países latino-americanos man-
tiveram o modelo agroexportador e continuaram com suas economias dependentes
das nações industrializadas, principalmente Estados Unidos e Inglaterra, fornecendo
matéria-prima e comprando produtos manufaturados. A concentração de terra e da
renda levou grande parte da população, principalmente os camponeses, a viver em
condições miseráveis, situação que gerava revoltas.
Durante a Primeira Guerra Mundial, como as nações fornecedoras de produtos indus-
trializados estavam envolvidas no conflito, alguns países latino-americanos desenvol-
veram suas indústrias. Na década de 1950, Brasil, Argentina, Chile e México aceleraram
o processo de urbanização, industrialização, consolidação de uma burguesia indus-
trial, ampliação das camadas médias e da classe operária. As burguesias nacionais não
tinham condições de realizar investimentos para desenvolver a indústria de base e o
Estado ocupou esses espaços. O capital estrangeiro, principalmente estadunidense,
tornou-se imprescindível para alavancar o desenvolvimento. Todavia, aumentou a dívi-
da externa, ampliando a dependência dos países em desenvolvimento.
No período da Guerra Fria, os Estados Unidos interviram de forma direta e indireta
na deposição de presidentes e na instauração de regimes ditatoriais, casos de Argenti-
na, Chile e Brasil. Tudo em nome do receio de que a Revolução Cubana de 1959 causou
nos estadunidenses, preocupados que o ideal comunista ganhasse força pelo conti-
195
Importante!
Como resposta a essa crise no desenvolvimento com grande participação
do Estado, o neoliberalismo surgiu como resposta, privatizando empresas
estatais, flexibilizando direitos e leis trabalhistas e abrindo as reservas
naturais nacionais para a exploração estrangeira.
A crise desse modelo no início dos anos 2000 levou ao ciclo mais recente de guina-
da à esquerda nos países latino-americanos, que passaram a repassar os ganhos nas
exportações de produtos primários para a redistribuição de renda por meio de políti-
cas de assistência social.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC – 2018) Na história da América Latina dos séculos XIX e XX, há vários exemplos
de interferência dos Estados Unidos na política interna de outras nações que configuram
o que se denomina intervencionismo estrangeiro. No caso do Brasil, é um exemplo de
intervencionismo norte-americano a Operação
a) Panamericana, que vigorou de 1959, ano da Revolução Cubana, ao fim do regime militar
brasileiro, mobilizando polícias políticas latino-americanas para acaptura de militantes
do Partido Comunista Brasileiro.
b) Popeye, em 1945, que consistiu na articulação de uma conspiração empresarial contra
Getúlio Vargas.
c) Pátria e Liberdade, que financiou a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, durante
o período militar, em resposta à Passeata dos Cem mil.
d) Brother Sam, em março de 1964, em apoio aos grupos empenhados na derrubada do
governo de João Goulart.
e) Mosquito, que envolveu a força aérea norte-americana, ameaçando o governo de Jânio
Quadros após este ter condecorado Che Guevara.
Em aliança com líderes civis contrários a Goulart, os Estados Unidos iniciaram a Operação Bro-
ther Sam com o objetivo de financiar grupos opositores a Goulart e, caso fosse preciso, apoiar
um golpe de Estado. Esse movimento desembocaria no golpe militar ocorrido em 1964. Resposta:
Letra D.
196
EUROPA NO SÉCULO XX: DA RECONSTRUÇÃO À UNIÃO EUROPEIA
A Europa no século XX foi palco de uma das mais rápidas e significativas transforma-
ções na história moderna. Após a devastação da Segunda Guerra Mundial, o continente
enfrentou a colossal tarefa de reconstrução. O Plano Marshall, lançado em 1947, foi
um elemento crucial nesse processo, fornecendo recursos financeiros essenciais para
a recuperação econômica dos países europeus ocidentais. Este plano não só ajudou a
reconstruir as infraestruturas destruídas, mas também serviu como um baluarte con-
tra a expansão da influência soviética durante a Guerra Fria.
Com a recuperação econômica em andamento, a Europa começou a dar passos em
direção à integração política e econômica. A criação da Comunidade Econômica do
Carvão e do Aço (CECA) em 1951, que incluía Alemanha Ocidental, França, Itália, Bél-
gica, Holanda e Luxemburgo, foi um marco inicial. A CECA visava garantir a reserva de
carvão e aço, insumos vitais para o processo de reconstrução e fomentar a cooperação
econômica, evitando futuros conflitos.
O sucesso da CECA levou à formação da Comunidade Econômica Europeia (CEE) em
1957, também conhecida como Mercado Comum Europeu. Este foi um passo signifi-
cativo em direção a uma Europa mais unificada, com a eliminação de tarifas e a livre
circulação de bens, serviços, capital e pessoas. A CEE estabeleceu as bases para uma
integração mais profunda, que eventualmente evoluiria para a União Europeia.
A queda do Muro de Berlim em 1989 e o subsequente colapso da União Soviéti-
ca abriram caminho para uma Europa mais ampla e unida. A União Europeia (UE) foi
formalmente estabelecida pelo Tratado de Maastricht em 1992, marcando uma nova
era de integração política, econômica e social. A UE expandiu-se para incluir países
da Europa Central e Oriental, promovendo a estabilidade e a democracia em todo o
continente.
Hoje, a União Europeia é uma entidade supranacional única, composta por Estados-
-membros que compartilham legislação comum em várias áreas, desde o comércio até
o meio ambiente. A UE é um testemunho da capacidade da Europa de se reconstruir,
integrar e prosperar após períodos de conflito e divisão. O projeto europeu continua a
ser um exemplo de cooperação e unidade, apesar dos desafios e críticas que enfrenta
no século XX.
Conhecida como uma das regiões mais conflituosas do mundo, o Oriente Médio é
palco de muitas tensões de ordem econômica, política, religiosa e étnica. Como um
ponto inicial, pode-se destacar a riqueza de recursos minerais da região, em especial,
o petróleo.
197
Na imagem temos as reservas de petróleo distribuídas pelo mundo.
Reservas de petróleo no mundo. Destaque para a abundância desse recurso no Oriente Médio.
Fonte: [Link]
Além disso, temos a presença de povos árabes, persas, curdos, judeus, turcos, entre
outros, que formam uma grande diversidade de etnias, além da diversidade religiosa,
tendo a presença de judeus, muçulmanos e cristãos, as três maiores denominações
religiosas do mundo. Em muitas vezes, essas diferenças se transformam em atritos
muito sérios, convertendo-se em guerras muitas vezes.
Vejamos alguns desses conflitos:
� Questão Palestina: após a Segunda Guerra Mundial, a ONU decidiu dividir a Pales-
tina como forma de tentar resolver os inúmeros problemas da região causados pela
presença dos dois povos, árabes e judeus. Assim, em 1947, o território palestino foi
dividido, mas os árabes rejeitaram a proposta. Durante a Guerra de Independência
(1948-1949), a Liga Árabe, composta por sete países (Jordânia, Egito, Síria, Líbano,
Iraque, Arábia Saudita e Iêmen), não aceitou a partilha da Palestina e invadiu o novo
Estado de Israel, mas acabou derrotada. O Estado de Israel aumentou o seu territó-
rio, a Faixa de Gaza foi anexada ao Egito e o território chamado de Cisjordânia pas-
sou a ser administrado pela Jordânia. Em 1967, as tensões se agravaram e, com o
apoio da União Soviética, o Egito, a Síria e a Jordânia criaram uma força militar com o
intuito de recuperar o território perdido em 1947. No entanto, com o apoio dos Esta-
dos Unidos, Israel atacou esses três países e ocupou a Península do Sinai (Egito); a
Faixa de Gaza e a Cisjordânia (Palestina); as Colinas de Golã (Síria); e a parte oriental
de Jerusalém. Com isso, o território israelense cresceu consideravelmente.
198
Esse conflito é conhecido como a Guerra dos Seis Dias. Em 1973, teve início a guer-
ra do Yom Kippur (Dia do Perdão). Aproveitando o feriado judeu, as tropas egípcias
e sírias avançaram sobre a Península do Sinai e as Colinas de Golã com o objetivo de
reconquistar os territórios perdidos na Guerra dos Seis Dias. Uma das consequências
dessa guerra foi a crise do petróleo, já que os países árabes, membros da Organização
dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), decidiram interromper a produção e a
exportação desse produto para o Ocidente. Em 1979, Israel devolveu a Península do
Sinai ao Egito. Atualmente, a maior parte do território da Cisjordânia é controlada por
Israel, assim como as fronteiras da Faixa de Gaza, apesar de a região ser dominada por
palestinos.
PALESTINA
PALESTINA PALESTINA
PALESTINA
Fonte: [Link]
199
� Afeganistão: entre 1979 e 1988, o país foi ocupado pela URSS, apesar da forte resis-
tência imposta pelos guerrilheiros afegãos. Em 1996, o Talibã tomou o poder no
Afeganistão. Esse movimento islâmico radical implantou um Estado muçulmano.
Segundo o Serviço de Inteligência dos EUA, os atentados terroristas que ocorreram
em 11 de setembro de 2001 teriam sido de autoria do grupo Al-Qaeda, que tinha seu
principal centro de treinamento no Afeganistão. O que justificou a invasão estadu-
nidense em outubro de 2001. O líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, foi morto em
2011. No entanto, as tropas só começaram a deixar o país em 2015.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FGV – 2022) Este conflito teve como protagonistas o governo iraquiano, liderado pelo
ditador Saddam Hussein, e um grupo étnico predominante nas regiões norte e nordeste
do Iraque. Apesar de as ações do governo iraquiano terem sido retaliações contra rebel-
des dessa etnia que apoiaram o Irã durante a Guerra Iraque-Irã (1980-1988), elas não se
restringiram apenas aos rebeldes, mas atingiram todo um povo cujas aspirações separa-
tistas, língua e cultura foram duramente reprimidas.
a) curdos.
b) berberes.
c) armênios.
d) judeus.
e) turcomenos.
No ano de 1988, o líder iraquiano Saddam Hussein ordenou um ataque utilizando armas quími-
cas contra uma área no nordeste do Iraque, habitada majoritariamente por cidadãos de origem
curda. No conflito com o Irã entre 1980 e 1988, o Iraque viu o controle sobre várias áreas curdas
escapar. Uma fração das forças separatistas curdas, conhecidas como peshmergas, lutou ao lado
do Irã em busca de autonomia política. Em resposta a essa aliança e com o intuito de retomar o
controle territorial, o governo iraquiano realizou um bombardeio químico sobre a localidade de
Halabja, sob a alegação de visar os separatistas curdos. No entanto, os bombardeios atingiram
também a população civil, afetando residências, hospitais e escolas, e resultando na morte de
mais de 5 mil indivíduos. Resposta: Letra A.
200
Para compreendermos esse processo, é necessário entender qual é o significado de
Ordem Mundial, vejamos:
� Por ordem mundial, entende-se uma forma de equilíbrio de poder no âmbito inter-
nacional, mundial, global em um determinado período histórico da humanidade.
Dito isso, é comum que o surgimento dessas ‘’novas autoridades’’ encontre-se atre-
lado a momentos específicos, nos quais o crescimento econômico, as disputas polí-
ticas e/ou comerciais e as instabilidades diplomáticas estejam gerando influências e
alterações nas ordens vigentes.
As “Ordens Mundiais” são conhecidas por serem uma regionalização do globo com
base em critérios econômicos, políticos e militares, dividindo o mundo, portanto, em
“polos de poder”. Considerando esta definição, veremos, agora, as três principais
Ordens Mundiais que vigoraram, ou vigoram, no mundo nos últimos tempos — mais
precisamente entre os séculos XVIII e XXI.
Para que ocorra a consolidação de uma ordem mundial, é necessário que o processo
de globalização esteja em andamento. De outro modo, para que uma Ordem Mundial
se torne realidade, é necessário um mínimo processo de inter-relação entre as diversas
nações, povos e territórios do mundo, os quais virão a sofrer a influência hegemônica
de outras.
201
Embora algumas nações, tais como Portugal, Espanha e França, já fossem potências
mundiais reconhecidas por suas economias baseadas em atividades manufaturadas,
a primeira Ordem Mundial foi estabelecida por meio da consolidação do Reino Unido
como uma grande nação hegemônica entre o século XVIII e parte do século XIX8.
Dentre os fatores que contribuíram para com o crescimento hegemônico do Reino
Unido, é importante destacar o expressivo poder marítimo e comercial, atrelado ao
desenvolvimento de seu processo produtivo no contexto da Primeira Revolução Indus-
trial, iniciada com a transição da economia manufatureira para a economia maquinofa-
tureira na Inglaterra por volta de 1750.
A supremacia britânica ocorreu até meados do século XIX, período no qual o pro-
cesso de industrialização e expansão de outras nações, tais como França, Alemanha,
Rússia e Japão, passou a torná-las cada vez mais influentes.
Por meio da expansão das áreas de influência destas potências para regiões como
África, Ásia e Oceania, em um contexto conhecido como Imperialismo ou Neocolonia-
lismo, foi imposta, nessas colônias, a formação de uma divisão internacional do traba-
lho (DIT). De outro modo, as regiões coloniais eram obrigadas a fornecer, para as suas
metrópoles europeias, matérias-primas de baixo custo e valor agregado, funcionando
como uma economia complementar de sua metrópole. Assim, pode-se dizer que a Pri-
meira Ordem Mundial tem relação direta com o processo de colonização e exploração
dos territórios colonizados.
Em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, devido ao enfraquecimento das
potências europeias em vários aspectos, especialmente o financeiro, ocasionado pelos
gastos com o conflito, a Primeira Ordem Mundial termina.
Atenção: o processo de enfraquecimento e consequente reconstrução das potên-
cias europeias proporcionou o movimento de independência de suas colônias na Áfri-
ca, Ásia e Oceania
O fim do conflito, entretanto, foi responsável, também, pelo deslocamento do centro
de poder mundial para os países que saíram vitoriosos e emergiram como potências
econômicas e políticas no pós-guerra: EUA e URSS. Este deslocamento, por sua vez, foi
o motor da construção de uma nova Ordem Mundial.
Em uma linha temporal, a Ordem Bipolar, ou Segunda Ordem Mundial, tem relação
direta com a forma que o mundo se organizou, do ponto de vista geopolítico e econô-
mico, no período posterior ao da Segunda Guerra Mundial.
O conflito militar global conhecido como Segunda Guerra Mundial (1939 — 1945),
assim como a Primeira Guerra Mundial, evidenciou a necessidade de reafirmação de
uma Ordem Mundial em um mundo que, desde o início do século XX, presenciou um
ambiente de pseudomultipolaridade.
8 Quando apenas um país ou nação exerce hegemonia sobre as outras, trata-se de uma ordem unipolar.
202
Importante!
O termo “multipolaridade”, na geopolítica, refere-se a um cenário no qual
vários países, inseridos num contexto de Ordem Mundial, agem na condução
do processo de atuação e formação dos ambientes político, econômico,
militar e financeiro globais. De outro modo, indica a existência de distintos
centros de poder atuando no globo.
203
Temendo o avanço socialista em uma Europa arrasada economicamente, e, conse-
quentemente, nos demais países do mundo, em 12 de março de 1947, o então pre-
sidente dos EUA, Harry Truman, apresentou ao Congresso as diretrizes da sua nova
política externa, que exigiam esforços especiais para combater a expansão dos sovié-
ticos no mundo. Dentre as principais propostas apresentadas pelo presidente, encon-
travam-se a Doutrina Truman e o Plano Marshall.
A primeira explicitava que o mundo, a partir daquele momento, estava dividido
entre dois sistemas: os formados por governos livres e apoiados na vontade da maioria
(democráticos), e outros, totalitários (comunistas), apoiados na vontade de uma mino-
ria e impostos, à força, a uma maioria.
Um dos pontos fortes da Doutrina, que objetivava, sobretudo, a contenção política,
foi a ajuda econômica oferecida aos países conhecidos como “elos frágeis”. Esta ajuda
de recuperação econômica, por sua vez, ficou conhecida como Plano Marshall.
Atenção: é importante destacarmos que a Doutrina Truman promoveu um real
antagonismo entre as duas superpotências que dominavam o palco internacional pós-
-guerra, acirrando o período que ficou conhecido como Guerra Fria.
Atualmente chamada de Velha Ordem Mundial, a ordem mundial bipolar9 teve
início com o término da Segunda Guerra Mundial (1945) e com a consequente disputa
geopolítica entre EUA e URSS. Esses dois Estados emergiram como grandes potências
mundiais e lutaram pela hegemonia econômica, militar, política e cultural do mundo,
protagonizando a chamada Guerra-Fria.
Para não se esquecer: o conflito político-ideológico entre os sistemas Capitalista
e Socialista ficou conhecido como Guerra Fria (1947-1991) pois, ao contrário de um
embate direto entre as duas novas potências, o duelo deu-se por meio do desenvol-
vimento de novas tecnologias espaciais e armamentistas (utilizadas como ameaça), e,
também, por meio de guerras em territórios emergentes (Vietnã, Coreias, Afeganistão).
Ademais, como fruto do conflito ideológico, este período foi marcado por uma inten-
sa disseminação de suas próprias verdades pelas duas superpotências. Isso, pois, caso
emergisse um confronto bélico (possivelmente nuclear) em larga escala, era preciso
conquistar cada vez mais países para fortalecer suas fileiras.
À vista dos fatores anteriormente dispostos, a frase do filósofo francês Raymond
Aron “a guerra era improvável, e a paz, impossível” serve como ilustração das tensões
vivenciadas pelo mundo durante a Guerra-Fria. Essa comparação pode ser compro-
vada, dado que, mesmo com diversos momentos de tensão e conflitos indiretos, uma
guerra direta entre Estados Unidos e União Soviética não era interessante a nenhum
dos dois lados.
Outrossim, como comentado anteriormente, entre as décadas de 1950 e 1970,
as duas grandes potências da época tiveram influências em conflitos internacionais.
Observemos alguns destaques.
9 A Ordem Mundial bipolar do pós-guerra foi protagonizada por dois polos de influência e atuação: o Capitalista,
representado pelos EUA, e o Socialista, representado pela URSS.
204
� Guerra das Coreias (1950–1953): a península coreana, do início do séc. XX até o
fim da Segunda Guerra, havia sido ocupada pelo Império Japonês — que impunha a
cultura japonesa através da violência e da proibição da cultura local. Com a derrota
do Japão na guerra, soviéticos e estadunidenses ocuparam a península para auxiliar
a Coreia (até então uma só) na expulsão dos japoneses. Assim, a URSS ocupou a
porção norte (liderada pelos comunistas coreanos) e os EUA, a porção sul (liderada
pelos capitalistas coreanos). Ao final, a própria bipolaridade da ocupação desenhou
as fronteiras dos países que conhecemos hoje como Coreia do Norte e Coreia do Sul;
� Revolução Húngara (1956): na época, a Hungria era reconhecida como “República
Popular da Hungria”, fazendo parte do bloco socialista da divisão bipolarizada. A
proposta da URSS para suas repúblicas era a de que os meios e as relações de pro-
dução, assim como a exploração do trabalhador, fossem substituídos pelo controle,
autonomia e poder popular/proletário (operários, camponeses e demais trabalhado-
res). Porém, conforme o socialismo soviético foi se desenvolvendo pela concepção
e imposição stalinistas, o que surgiu nas repúblicas foi uma camada de burocratas
(funcionários de alto cargo de órgãos e empresas estatais) que passaram a contro-
lar os meios de produção, continuando a exploração da massa trabalhadora. Dessa
forma, operários, estudantes e membros da ala reformista do partido comunista
húngaro iniciaram uma revolta contra o governo em outubro de 1956. Ao final, já em
novembro, a revolução foi suprimida pelo partido comunista húngaro. No entanto,
esta revolução foi um importante marco do início do separatismo de várias repúbli-
cas da então URSS;
� Guerra do Vietnã (1960–1975): retratada em diversos filmes, tais como “Bom dia,
Vietnã” (1987) e “Corações e Mentes” (1974), foi um dos conflitos com ação mais dire-
ta dos EUA durante a Guerra Fria e é considerado uma consequência da Guerra da
Indochina. No sudeste asiático, o Vietnã, assim como as Coreias, estava dividido,
à época, em norte comunista (aliado à URSS) e sul capitalista (aliado aos EUA). Até
o ano de 1965, os EUA se incumbiam de fornecer armas e apoio tático à guerra.
No entanto, como o Vietnã do Sul não estava tendo sucesso em parar as forças do
exército norte-vietnamita (os famosos vietcongues), o país norte-americano decidiu
entrar, de fato, no conflito, enviando tropas de seu exército. O conflito ficou famoso
205
descobriu os mísseis e a crise estava dada. Com a iminência e o grande risco que
uma guerra nuclear poderia ocasionar, em 28 de outubro, EUA e URSS assinaram um
acordo, no qual os soviéticos propuseram tirar suas bases nucleares de Cuba com a
condição de que os EUA tirassem suas bases nucleares da Turquia e se comprome-
tessem a não atacar Cuba — de fato os EUA não atacaram, mas esse foi o princípio
do grande embargo econômico sofrido pelo país cubano;
� Primavera de Praga (Tchecoslováquia — 1968): motivada pelas mesmas razões
da Revolução Húngara, a massa de trabalhadores e intelectuais tchecoslovacos via
o regime comunista, imposto pelo stalinismo soviético, como inadequado para seu
país e propunham reformas em seu próprio governo. Vale ressaltar que as cama-
das populares apoiavam o regime comunista, que se instalou na década de 40, mas
se sentiram frustrados com a forma como ele se dava. Assim, no início de 1968,
com a ascensão, no país, do líder Dubcek — membro do partido comunista ligado e
intencionado às reformas —, começou-se um processo de reformulação do socialis-
mo tchecoslovaco, caminhando para um regime democrático (mais de um partido
socialista poderia tentar a eleição) e para o fim da censura. Porém, os manifestan-
tes foram fortemente reprimidos pelo governo russo, que via tal atitude como uma
demonstração de perda de controle do bloco comunista. Com o fim da Primavera de
Praga, ainda em 1968, o regime comunista foi retomado. No entanto, esse evento,
tais como outros de natureza reformista e/ou separatista do bloco comunista, foram
enfraquecendo a centralização da URSS até o fim da Guerra Fria;
� Guerra do Afeganistão (1979): até 1973, o Afeganistão era um regime monárquico
que — por mais contraditório que possa parecer — estava alinhado à URSS e tinha
membros do partido comunista afegão em sua camada burocrática. No entanto,
nesse ano, um golpe republicano, alinhado aos ideais capitalistas, tomou o poder,
retirando diversos desses burocratas do comando. Com o ocorrido e com o alinha-
mento do então presidente republicano, Daoud, aos países vizinhos (como a Arábia
Saudita), os comunistas passaram a conspirar contra seu governo, até que, em 1978,
tomaram o poder. No entanto, porque impunham uma série de reformas e mudan-
ças drásticas no país — como abolir leis religiosas e o uso do véu (hijab) — a maior
parte da população, extremamente conservadora e religiosa, se revoltou contra o
governo comunista afegão. Assim, vários líderes religiosos convocaram jihad (“guer-
ras santas”) contra o governo comunista, chamando a atenção dos EUA para uma
oportunidade de abater as forças soviéticas a partir do financiamento dos revoltosos
(mujahidin). Em 1979, a URSS invadiu o Afeganistão para tentar controlar as revoltas
e manter o poder comunista afegão. Este fato levou a 10 anos de conflito, até que,
em 1989, os mujahidin conseguiram expulsar os soviéticos.
206
São estas:
Por fim, em dezembro de 1988, Mikhail Gorbatchev, líder da União Soviética, anun-
ciou a chamada Doutrina Sinatra, que contribuiu para com a aceleração das mudan-
ças que varreram o Leste Europeu e que culminaram na total dissolução do Pacto de
Varsóvia no início dos anos 1990. O enfraquecimento do Pacto de Varsóvia e a suces-
siva Queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, depois de 28 anos de
existência, marcam o início da derrocada da Guerra Fria, assim como da Velha Ordem
Mundial.
207
Essa interdependência pode ser facilmente percebida no aspecto econômico, por
meio das trocas comerciais (exportação e importação) — evidenciado pela criação e
manutenção de blocos econômicos a partir da década de 50 em diante —, assim como
na questão política, haja vista as relações internacionais estabelecidas entre países, nas
quais governos podem se apoiar (ou divergir) em relação a líderes e a vieses ideológi-
cos, estabelecendo acordos ou conflitos.
Sendo assim, a velha divisão do mundo em Leste (socialista) e Oeste (capitalista) deu
lugar a uma nova forma de regionalização, representada pelos países do Norte (ricos) e
os países do Sul (pobres), que, mesmo com diferenças socioeconômicas e estruturais,
ainda se relacionam em um processo de integração e interdependência internacional.
Importante!
A globalização pode ser compreendida como um conjunto de fatores e
acontecimentos que vem determinando, de forma cada vez mais intensa,
a integração e a interdependência entre os diversos países do mundo nos
seguintes aspectos: político, econômico, comercial, financeiro, cultural,
territorial e social.
A globalização pode ser vista, também, como o processo pelo qual a economia carac-
teriza-se como mundial, ou seja, o espaço mundial adquire, dessa forma, uma unidade.
Em um contexto histórico, o processo de globalização pode ser visto como o momen-
to no qual os seres humanos, que, até certo tempo, viviam isolados em seus países e
continentes, passaram a tomar conhecimento de sociedades que habitavam regiões
além-mar e, a partir disso, passaram, também, a promover uma maior interação, em
especial por meio das práticas comerciais. Assim, fica fácil compreender porque o pro-
cesso conhecido com as Grandes Navegações (Expansão Marítimo Comercial Euro-
peia) é considerado, por muitos, como o início da globalização.
De modo resumido, as fases do processo de globalização podem ser visualizadas
pelos seguintes processos históricos:
208
� fim da 2ª Guerra Mundial, que, mesmo com as tensões provocadas pela Guerra
Fria, não impediu o processo de globalização, que atingiu seu ápice com o colapso
do socialismo entre os anos de 1989 e 1991.
209
O mundo parecia estar cada vez menor (encolhimento do sistema mundo), pois o
processo de globalização e de mundialização de hábitos permitiu que ficassem cada
vez mais barata, rápida e fácil (mesmo que sendo somente para alguns grupos de paí-
ses, pois a integração não ocorreu de forma homogênea) a obtenção de informações,
conhecimento e influências nos processos de transações comerciais, culturais e econô-
micas mundo afora.
As consequências desse processo ainda estão em consolidação e a humanidade ain-
da não sabe, por completo, quais as extensões exatas que as mudanças que ainda
ocorrerão no mundo nos próximos anos e décadas poderão acarretar.
A fase atual do processo de globalização pode ser caracterizada como fenômeno
comum, com consequências positivas e negativas.
Observe a tabela a seguir para compreender melhor o conteúdo.
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2018) Depois da Segunda Guerra Mundial, mas principalmente a partir da
década de 1990, a economia que passou progressivamente a prevalecer internacional-
mente no mundo foi
210
Desde a década de 1990, o capitalismo ganhou maior proeminência no cenário econômico glo-
bal, um fenômeno conhecido como mundialização capitalista ou globalização. Um dos traços
marcantes deste período é o estabelecimento de parcerias estratégicas entre países, visando ao
desenvolvimento econômico mútuo. Essas colaborações são fundamentais para a criação dos
blocos econômicos. Resposta: Letra D.
ANOTAÇÕES
211
ANOTAÇÕES
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