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História Geral e Do Brasil para Concursos

Para Concursos públicos na área específica de história.

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Levamos muito a sério os direitos de conteúdo. Se você suspeita que este conteúdo é seu, reivindique-o aqui.
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HISTÓRIA GERAL

E DO BRASIL PARA
CONCURSOS
Coletânea O que cai na prova!

NV-007JL-24-HISTORIA-BRA-GER
Cód.: 7908428808921
Obra

História Geral e do Brasil para Concursos


Coletânea O que cai na prova!

Disciplinas

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL PARA CONCURSOS • Diana Magalhães, Jean Talvani, Otávio Massaro,
Vinícius Bernardo, Vitor Augusto Grimaldi e Zé Soares

ISBN: 978-65-5451-379-1

Edição: Julho/2024

Todos os direitos autorais desta obra são reservados e protegidos


pela Lei nº 9.610/1998. É proibida a reprodução parcial ou total,
por qualquer meio, sem autorização prévia expressa por escrito da
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APRESENTAÇÃO

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todos os tópicos, simplificando os conceitos mais complexos da história para
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Nosso time editorial, junto de nossos professores especialistas, fez a seleção


e comentários a diversas questões de concursos realizados recentemente para
que você tenha compreensão profunda dos conceitos abordados e orientações
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Esta obra é estruturada de forma didática, guiando o leitor por uma trilha
progressiva de aprendizado. Trazemos dicas, fluxogramas, mnemônicos, tabelas
e roteiro teórico para que os capítulos sejam interligados, construindo assim um
plano para o entendimento abrangente da história.

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Bons estudos!
SUMÁRIO
HISTÓRIA DO BRASIL..........................................................................................................9
PERÍODO COLONIAL (1500–1808)...................................................................................................... 9

COLONIZAÇÃO E CONFIGURAÇÃO TERRITORIAL DA AMÉRICA PORTUGUESA..........................................12

POLÍTICA E ECONOMIA COLONIAIS................................................................................................................14

ARTES, CULTURA E SOCIEDADE COLONIAIS..................................................................................................18

MOVIMENTOS EMANCIPACIONISTAS.............................................................................................................19

A COLÔNIA E O MUNDO: A METRÓPOLE, AS INVASÕES E OS VIZINHOS.....................................................23

PERÍODO JOANINO (1808–1821) E A INDEPENDÊNCIA................................................................. 27

A FUGA DA FAMÍLIA REAL E AS REFORMAS JOANINAS...............................................................................27

A CRISE DO SISTEMA COLONIAL, A CRISE PORTUGUESA E A PARTIDA REAL...........................................29

A INDEPENDÊNCIA (1822) E A GUERRA DE INDEPENDÊNCIA.......................................................................31

IMPÉRIO (1822–1889)........................................................................................................................ 35

PRIMEIRO REINADO..........................................................................................................................................36

PERÍODO REGENCIAL........................................................................................................................................37

SEGUNDO REINADO..........................................................................................................................................40

A QUESTÃO DA ESCRAVIDÃO: ASPECTOS GERAIS........................................................................................43

PRIMEIRA REPÚBLICA (1889–1930)................................................................................................ 49

PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA, OS GOVERNOS MILITARES E A CONSTITUIÇÃO DE 1891.....................49

A POLÍTICA E O SISTEMA DE GOVERNABILIDADE DA PRIMEIRA REPÚBLICA; ECONOMIA NA


PRIMEIRA REPÚBLICA......................................................................................................................................54

MOVIMENTOS DE CONTESTAÇÃO NA PRIMEIRA REPÚBLICA: DE CANUDOS AO TENENTISMO..............57

POLÍTICA EXTERNA NA PRIMEIRA REPÚBLICA E O BRASIL NA PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL...............66

A CULTURA DO BRASIL REPUBLICANO: ARTE E LITERATURA......................................................................68

ERA VARGAS (1930–1945)................................................................................................................ 70

O GOLPE DE 1930 E O GOVERNO PROVISÓRIO (1930-1934)........................................................................71

GOVERNO CONSTITUCIONAL (1934-1937) E A CONSTITUIÇÃO DE 1934...................................................77


O ESTADO NOVO (1937–1945).......................................................................................................... 80

A GUINADA AUTORITÁRIA E A CONSTITUIÇÃO DE 1937; AS REFORMAS INSTITUCIONAIS:


O BRASIL SEGUNDO VARGAS..........................................................................................................................80

ECONOMIA NA ERA VARGAS: DO CAFÉ À INDÚSTRIA ..................................................................................83

O POPULISMO VARGUISTA E AS GRANDES REFORMAS ..............................................................................86

BRASIL E A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL......................................................................................................87

POLÍTICA EXTERNA NA ERA VARGAS.............................................................................................................88

O PÓS-GUERRA E A CRISE FINAL DO ESTADO NOVO.....................................................................................88

REPÚBLICA LIBERAL (1945–1964)................................................................................................... 91

A REDEMOCRATIZAÇÃO NA REPÚBLICA LIBERAL E A CONSTITUIÇÃO DE 1946; POLÍTICA


E ECONOMIA NA REPÚBLICA LIBERAL...........................................................................................................91

O NACIONAL-DESENVOLVIMENTISMO E AS GRANDES TRANSFORMAÇÕES: INDUSTRIALIZAÇÃO


E URBANIZAÇÃO NA REPÚBLICA LIBERAL.....................................................................................................95

A CRISE FINAL DA REPÚBLICA LIBERAL E O GOLPE DE 1964.......................................................................97

REGIME MILITAR (1964–1985)......................................................................................................... 99

A ESTRUTURAÇÃO DO REGIME MILITAR E A TRANSIÇÃO ATÉ 1968; ECONOMIA NO REGIME


MILITAR..............................................................................................................................................................99

CONSTITUIÇÃO DE 1967 E AS MODIFICAÇÕES DE 1969.............................................................................103

REFORMAS ADMINISTRATIVAS, INVESTIMENTOS E REFORMAS PÚBLICAS NO REGIME MILITAR:


O BRASIL POTÊNCIA; A ORDEM E O PROCESSO DE ABERTURA POLÍTICA NO REGIME MILITAR;
POLÍTICA EXTERNA DO REGIME MILITAR....................................................................................................107

OS MOVIMENTOS DE RESISTÊNCIA DO REGIME MILITAR E A REPRESSÃO..............................................110

NOVA REPÚBLICA.............................................................................................................................115

A REDEMOCRATIZAÇÃO NA NOVA REPÚBLICA E A CONSTITUIÇÃO DE 1988..........................................115

POLÍTICA NO BRASIL ATUAL; ECONOMIA BRASILEIRA DA NOVA REPÚBLICA: DA HIPERINFLAÇÃO


À GLOBALIZAÇÃO E O NEODESENVOLVIMENTISMO; POLÍTICA EXTERNA NA NOVA REPÚBLICA.........118

HISTÓRIA GERAL............................................................................................................. 130


HISTÓRIA ANTIGA (4000 A.C.–476 D.C.).......................................................................................130

IDADE MÉDIA (476–1453)................................................................................................................146

IDADE MODERNA..............................................................................................................................154

HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA: SÉCULO XIX..................................................................................167


REVOLUÇÃO FRANCESA E ERA NAPOLEÔNICA...........................................................................................167

AS REVOLUÇÕES BURGUESAS E O NACIONALISMO ..................................................................................170

REVOLUÇÃO INDUSTRIAL, VIDA ECONÔMICA E TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS.......................................174

VIDA POLÍTICA PÓS-1848 E O FIM DE SÉCULO............................................................................................176

IMPERIALISMO DO SÉCULO XIX....................................................................................................................177

A AMÉRICA NO SÉCULO XIX...........................................................................................................................177

HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA: SÉCULO XX...................................................................................179

A CRISE INTERNACIONAL E A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL.....................................................................179

REVOLUÇÃO RUSSA (1917)............................................................................................................................180

PERÍODO ENTREGUERRAS.............................................................................................................................183

IDEOLOGIAS E GOVERNOS NO SÉCULO XX...................................................................................................184

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1939-1945)..................................................................................................186

GUERRA FRIA E AS SUPERPOTÊNCIAS.........................................................................................................190

DESCOLONIZAÇÃO AFRO-ASIÁTICA.............................................................................................................192

ECONOMIA NO SÉCULO XX............................................................................................................................193

AMÉRICA LATINA NO SÉCULO XX.................................................................................................................195

EUROPA NO SÉCULO XX: DA RECONSTRUÇÃO À UNIÃO EUROPEIA..........................................................197

ÁFRICA E ÁSIA PÓS-DESCOLONIZAÇÃO.......................................................................................................197

O FIM DA BIPOLARIDADE E A NOVA ORDEM MUNDIAL...............................................................................200


História Geral e do Brasil
Coletânea O que cai na prova!

HISTÓRIA DO BRASIL

PERÍODO COLONIAL (1500–1808)

OS POVOS INDÍGENAS DO BRASIL

Os povos indígenas que ocupavam o território do Brasil podem ser classificados em


quatro grandes troncos linguísticos, a saber:

� Tupi: viviam no litoral e foram os primeiros a entrar em contato com os portugueses.


Utilizavam-se da pesca, caça e coleta na mata. Eram considerados desse tronco os
tamoios, os guaranis, os tupinambás, os tabajaras, entre outros;
� Macro-Jê: algumas comunidades viviam na Serra do Mar, mas se localizavam, prin-
cipalmente, no Planalto Central. Apenas no século XVII, foi que os grupos macro-jê
passaram a ser atacados, por conta da escravização indígena. Eram considerados
desse tronco os timbiras, os aimorés, os Goitacazes, os carijós, os carajás, os boro-
rós, os botocudos, entre outros;
� Karib: ocupavam a região da Planície Amazônica, além dos atuais Amapá e Roraima.
Bastante hostis aos invasores, praticavam, inclusive, a antropofagia. Assim como os
macro-jê, entraram em contato com os brancos no século XVII, por conta dos aldea-
mentos religiosos e das fortificações militares. Eram considerados desse tronco os
atroari e os uaimiri;
� Aruak: estabeleciam-se na região amazônica e na Ilha de Marajó, com destaque

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


para seus utensílios em cerâmica. Eram considerados desse tronco os aruá, pareci,
cunibó, guaná e terena.

9
Fonte: Atlas Histórico Escolar. 8ª ed. Rio de Janeiro: FAE, 1991. p. 12.

BRASIL ANTES DA CHEGADA DOS EUROPEUS

Os tupis, por habitarem o litoral e terem sido os primeiros a entrarem em contato


com os colonizadores, são os mais conhecidos e descritos nos documentos da época.
Sobre eles, temos conhecimento graças às descrições feitas por padres, viajantes e
funcionários da Coroa portuguesa que resultaram em uma imagem dos povos pré-ca-
bralinos, como se todos fossem iguais. O que sabemos sobre eles serve de base para o
entendimento das demais sociedades tribais.
A organização social básica era a tribo, que se subdividia em aldeias ou tabas, cada
uma delas com um chefe. A aldeia era formada por um conjunto de quatro a sete ocas,
dispostas de forma circular, delimitando uma praça central — a ocara — onde eram

10
realizadas as cerimônias religiosas, as festas e a reunião dos líderes para decidir uma
guerra ou migração. Geralmente, em torno da aldeia, era levantada uma cerca de tron-
cos — a caiçara — com a finalidade de defendê-la.
As aldeias ligadas entre si por parentesco, costumes e tradição formavam uma tri-
bo. O parentesco garantia a manutenção do modo de ser do grupo e perpetuava-se
através de uniões obrigatórias com pessoas de fora. A relação de parentesco criava a
relação de aliança grupal, na qual o casamento significava uma possibilidade de refor-
ço do poderio do grupo. A família era patriarcal e o casamento poligâmico em algumas
comunidades e monogâmico em outras.
A chefia realizava a organização interna da aldeia. Entre os tupis, a chefia era exerci-
da pelos homens mais velhos e os líderes guerreiros. Eles tomavam as decisões sobre
a guerra, a migração, as grandes caçadas e o sacrifício dos inimigos.
Para prover a sua alimentação, os povos indígenas caçavam, pescavam e coletavam
crustáceos, frutos e raízes. A divisão do trabalho nas aldeias obedecia a dois critérios:
sexo e idade. Os homens derrubavam as matas, preparavam o terreno para o plantio,
caçavam, pescavam, guerreavam e confeccionavam canoas, arcos, flechas e adornos.
As mulheres plantavam, colhiam, faziam cestaria e cerâmica. Quanto às crianças, a
divisão entre meninos e meninas ocorria a partir dos cinco anos de idade, quando as
meninas brincavam e ajudavam as mulheres em seus trabalhos e os meninos seguiam
o exemplo dos homens, buscando aprender sobre a caça e a pesca.
Quando os recursos próximos à aldeia se esgotavam, migravam para outro lugar.
O nomadismo da população indígena também ocorria pela procura de um lugar ideal
e quase utópico, chamado “terra sem mal”, onde teriam prosperidade constante. Os
indígenas procuravam lugares próximos aos rios e lagos, para ter acesso mais fácil à
caça e, eventualmente, à agricultura. A chegada em um território ocupado por outra
comunidade podia gerar guerras.
Os povos indígenas estavam muito envolvidos com a natureza e tinham uma manei-
ra peculiar de entendê-la, por meio de uma concepção mítica de mundo. A própria
natureza era tida como uma dádiva das divindades ou transformava-se na própria
divindade, como a mãe-terra. Portanto, a religião indígena pode ser classificada como
politeísta.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Nas épocas de plantio, de colheita, de caça, ou nas estações de chuva ou de seca,
os membros da aldeia se reuniam e os pajés, líderes religiosos, relatavam as lendas e
os mitos de cultuar. O pajé, preocupado em manter vivas as tradições tribais, usava
vestimentas especiais, como mantos, plumas coladas ao corpo, máscaras de madeira,
visando à transmissão de sua mensagem. Também bebia o cauim, fumava o tabaco,
cantava, dançava e invocava os mitos. O ambiente revestia-se dessa atmosfera mágica
e religiosa, a fim de agradecer a chuva, uma boa colheita ou a decisão do conselho de
chefes para migração.

11
COLONIZAÇÃO E CONFIGURAÇÃO TERRITORIAL DA AMÉRICA PORTUGUESA

O que foi, afinal, a “descoberta” de um Novo Mundo para a Europa, no século XV? O
que tal “descoberta” implicava, para os “descobridores” e os “descobertos”?
Esse “Novo Mundo” era assim considerado porque antes essas terras não consta-
vam nos mapas do mundo ocidental, tampouco se conhecia sua fauna, flora e, sobretu-
do, sua população, que se mostrava radicalmente diferente da humanidade conhecida
pelo ocidente. Tratava-se, afinal, de homens e mulheres que praticavam a poligamia,
não trajavam roupas, viviam em constantes guerras e, para horror dos europeus,
comiam carne humana. Muito pouco espaço se deu, na chamada descoberta, para efe-
tivo conhecimento e aproximação da população nativa das Américas. Tinha-se muita
curiosidade, exotismo e uma grande imaginação.
Em 1492, Cristóvão Colombo, comandando uma frota espanhola que procurava um
caminho alternativo para as Índias, sob ordens dos reis católicos Fernando e Isabel,
defrontou-se com o que chamariam de continente americano e seria um dos primei-
ros a usar o termo canibal para qualificar os nativos.
A Europa mantinha contato com os países do Oriente desde 1415, e os portugueses
já haviam contornado uma parte considerável da costa africana no século XV. Ao final
desse mesmo século, a questão era encontrar uma rota para as Índias que tornasse
possível continuar com o comércio de especiarias, metais preciosos, joias e sedas, uma
vez que a rota oriental estava sob o domínio turco islâmico, ou seja, interditada para
os cristãos.
Os europeus, sobretudo espanhóis e portugueses, esperavam receber algum res-
sarcimento imediato pelas suas viagens desbravadoras, e de início não perceberam
grande potencial de exploração econômica para a área “descoberta”. Continuaram as
incursões ao Novo Mundo até serem descobertas, pelos espanhóis, reservas de metais
preciosos no território que lhe cabia, deixando os portugueses ansiosos por descobrir
na sua parte da América também grande quantidade de ouro e prata.
Sabe-se que desde o século XV os portugueses já haviam se lançado em espaços afri-
canos. Esse movimento de aproximação se deu com o objetivo de expulsar os mouros
da Península Ibérica, mas a manutenção do contato com o continente africano permi-
tiu que construíssem ali feitorias, promovendo, por fim, sua colonização. Seria apenas
em 1500 que, dando sequência ao seu desbravamento marítimo, Portugal se depararia
com o Brasil, embora já em 1494 lusitanos e espanhóis tivessem assinado o chamado
Tratado de Tordesilhas que dividia o Novo Mundo entre os dois Estados.
Inicialmente, Portugal não teve interesse imediato em desbravar suas “novas” terras,
uma vez que o comércio oriental lhe era mais rentoso. Os primeiros contatos permiti-
ram a criação de um imaginário sobre o ambiente da América Portuguesa, assim como
da população que lá habitava: o lugar era um paraíso na terra, no qual residiam todo
tipo de monstros — de alguma forma, “os indígenas canibais” eram vistos, também,
como uma espécie monstruosa.

12
Nos primeiros trinta anos após a chegada de Portugal à América Portuguesa, a explo-
ração econômica se deu pela exportação da madeira do pau-brasil, que era recolhido e
movimentado por trabalho indígena.

Capitanias Hereditárias e Governo Geral

O território da América Portuguesa frequentemente sofria invasões de corsários de


variadas nacionalidades, ficando evidente para a Coroa a necessidade de apossar-se
efetivamente do território, uma vez que apenas o tratado de Tordesilhas não frearia
as incursões e estabelecimentos não autorizados. Nesse sentido, foram criadas frentes
colonizadoras independentes, que apresentavam pouca comunicação entre si, relacio-
nando-se imediatamente apenas com a metrópole. O sistema administrativo pelo qual
se optou foram as chamadas capitanias hereditárias, forma de administração realizada
em outros domínios lusitanos. A Coroa não tinha os recursos necessários para realizar
a exploração de tão amplos domínios, por isso, doou lotes de terras a particulares que,
com seus recursos econômicos e humanos, deveriam primar pelo desenvolvimento
dos espaços. Esses lotes de terra eram hereditários.
O território da América Portuguesa foi dividido em quinze lotes, sendo quatorze
capitanias que, por sua vez, eram administradas por doze donatários. O donatário era
o responsável com poder proeminente e, além do uso da terra, também administrava
o trabalho indígena. As capitanias não se relacionavam entre si e o distanciamento
era evidente e preocupante, de modo que em 1572 a Coroa Portuguesa fragmentou a
administração em dois governos-gerais: o Governo do Norte, que tinha como capital a
cidade de Salvador e era composto da Capitania da Baía até a capitania do Maranhão, e
o Governo do Sul, sediado no Rio de Janeiro, e composto pela região de Ilhéus até o Sul.
Reuniam-se regiões, ainda, que não pareciam compreender pertencerem ao mesmo
espaço administrativo e político.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2018) “Este Brasil já é um novo Portugal”. Esta afirmação do Padre Fernão

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Cardim corresponde, segundo o historiador Evaldo Cabral de Melo (in: Viagem Incomple-
ta –formação: histórias), a um processo de construção de identidade das populações da
América portuguesa que pode ser definido como

a) resistência ao sistema colonial e desejo de emancipação em relação à metrópole.


b) submissão das elites locais e identificação com as formas de dominação lusitanas.
c) modalidade inicial de sentimento nativista durante o primeiro século da colonização.
d) acelerado desenvolvimento da colônia em relação ao atraso da metrópole.
e) expectativa de renovação dos colonos em relação às antigas tradições portuguesas.

13
Conforme interpretado da fonte consultada para elaborar a questão, um trabalho do his-
toriador Evaldo Cabral de Mello, a citação do padre Fernão Cardim deve ser entendida den-
tro de um quadro de formação da identidade dos habitantes da América Portuguesa.
Segundo Evaldo Cabral de Mello, o sentimento de identidade nativista (local) não se baseava
inicialmente na noção de pertencimento a uma pátria brasileira autêntica. As crônicas revelam
um tipo de nativismo (local) que se vincula ao sentimento de orgulho de pertencer à nação portu-
guesa ou lusitana. Resposta: Letra C.

POLÍTICA E ECONOMIA COLONIAIS

No Brasil, antes da descoberta de metais preciosos nas Minas Gerais, o modelo colo-
nial adotava a ideia de grandes propriedades agrícolas, na qual era cultivado um único
gênero destinado à exportação, sendo a mão de obra predominantemente composta
por escravizados. O conceito que sintetiza essa descrição é derivado da língua inglesa,
sendo conhecido como “plantation”1. Nesse período, tiveram destaque na economia
exportadora o açúcar e, posteriormente, o ouro, embora houvesse outros produtos
secundários, como o fumo e o algodão (Prado Junior, 2004; Fausto, 2019).
A exportação, no contexto histórico do Brasil Colônia, não pode ser equiparada à
prática contemporânea, em que os países exportam seus produtos livremente, nego-
ciando com autonomia. Na condição de colônia, o Brasil tinha como objetivo principal
atender às necessidades de Portugal, sua metrópole colonial. O sistema de “plantation”
deixou uma marca indelével na história do Brasil, com algumas de suas características,
como os extensos latifúndios, a prática da monocultura, a ênfase na exportação e a
utilização da mão de obra escravizada, persistindo mesmo após a emancipação política
do país (Fausto, 2019).
No contexto colonial, o epicentro das atividades econômicas se situava no que é
hoje o Nordeste, denominado, na época, de Região Norte. Nesse período, o Sul era
considerado uma área periférica, com pouca relevância para as práticas de exportação
(Fausto, 2019). Entre os produtos previamente mencionados, dois se destacam pela
sua importância exportadora: o açúcar e o ouro, sendo o açúcar associado à agricultura
e o ouro, à mineração.
O açúcar desempenhou um papel fundamental na ativação socioeconômica do Nor-
deste durante o período colonial. A criação do Governo Geral, em parte, teve como
objetivo revitalizar a antes negligenciada capitania da Bahia, sendo um dos principais
estímulos para essa iniciativa. O Regimento Tomé de Souza, responsável por estabele-
cer as diretrizes para a administração colonial, inclusive, concedeu isenção de impostos
por tempo determinado para o cultivo e processamento do açúcar (Fausto, 2019).
A partir do século XVI a empresa colonial giraria em torno da cana: a formação de vilas e cidades,
a defesa de territórios, a divisão de propriedades, as relações com diferentes grupos sociais e até a
escolha da capital. (Schwarcz e Starling, 2015, p. 66)

1 “Plantação” em português.

14
Além da Bahia, Pernambuco se destacou como outro importante centro açucareiro
na colônia. Essa preferência se deve a uma combinação de fatores climáticos, geográfi-
cos, políticos e econômicos. A região apresentava condições climáticas e um regime de
chuvas propícios para o cultivo de cana-de-açúcar. Ambas as áreas estavam localizadas
na região costeira, facilitando o contato com a metrópole e a eficaz distribuição do pro-
duto para exportação (Fausto, 2019).
Lilia Schwarcz e Heloisa Starling (2015) destacam a possibilidade de se referir a uma
“civilização do açúcar”, pois esse produto permeava as esferas sociais, econômicas e
culturais da sociedade colonial. O termo “engenho”, inicialmente associado à estrutura
de produção açucareira, passou a abranger todo o empreendimento, incluindo as plan-
tações de cana, o maquinário para seu processamento, as edificações, os escravizados,
além de elementos como gado, pastagens, carro de transporte e a casa-grande (Fausto,
2019).
A relevância dos engenhos para a economia exportadora no Brasil perdurou até o
século XIX, e mesmo o avanço do ciclo do ouro no século XVIII não foi capaz de suprimir
a importância econômica da produção açucareira (Fausto, 2019). O açúcar foi o princi-
pal produto da economia exportadora, mas o Nordeste não foi só açúcar — observe o
apontamento de Boris Fausto (2019, p. 73):
[...] o próprio açúcar gerou uma diversificação de atividades, dentro de certos limites. A tendência à
especialização no cultivo da cana trouxe como consequência uma contínua escassez de alimentos,
incentivando a produção de gêneros alimentícios, especialmente a mandioca. A criação de gado
também estava vinculada às necessidades da economia açucareira. Houve ainda outras ativida-
des, como a extração da madeira e o cultivo do fumo.

Em resumo, a agricultura de exportação no Brasil Colônia, marcada pelo modelo


de “plantation”, estabeleceu as bases fundamentais que moldaram o curso da história
nacional. O Nordeste se destacou como o centro dessas atividades, com o açúcar exer-
cendo um papel crucial na ativação socioeconômica.
Mesmo após a independência política, as características do “plantation” persistiram,
evidenciando a resistência desses padrões ao longo do tempo. A noção de uma “civili-
zação do açúcar” permeou não apenas as esferas econômicas, mas também as sociais

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


e culturais da sociedade colonial. A diversificação de atividades, como a produção de
alimentos e a criação de gado, revela a intrincada interconexão das práticas econômi-
cas na colônia.

A Exploração do Pau-Brasil

Para a exploração do pau-brasil, a primeira fase da chegada portuguesa é caracte-


rizada pela instituição das feitorias após a chegada da esquadra de Cabral em 22 de
abril de 1500, até a instituição das capitanias hereditárias. Essas feitorias eram fortifi-
cações militares que visavam garantir o domínio sobre uma área e explorá-la. Foram
construídas em Porto Seguro, Cabo Frio e Iguaçu, fazendo a extração não apenas de

15
pau-brasil, mas também do jacarandá, que possuíam valor para a fabricação de em-
barcação, móveis, além da tinta do pau-brasil para tecidos. A mão de obra empregada
foi a indígena, que trocava produtos europeus em força de trabalho e permissão no
uso da madeira; essa relação ficou conhecida como escambo.

A Era Açucareira

O açúcar não foi, nos primeiros anos de colonização, apenas um produto produzido
na colônia; ele era responsável pelo surgimento de códigos, costumes e hábitos. Foi
apenas no século XVI que se desenvolveu o hábito, na Europa, do consumo do açúcar
feito da cana, que passou de produto de requinte para um uso frequente no cotidiano
das pessoas.
Como já foi exposto, depois dos primeiros trinta anos, reconheceu-se a necessidade
de povoar, ao menos, a faixa litorânea de terra da nova colônia, para assim evitar as
invasões estrangeiras que começavam a crescer. Contudo, já não se pretendia ape-
nas povoar a colônia; passava-se, também, a uma forma de colonização que visava
outro objetivo: o ganho monetário. O projeto colonial tomava contornos de empresa
colonial, exigindo maior investimento para a produção de produtos que deveriam ser
exportados para o mercado europeu. A produção era, portanto, direcionada para fora
da colônia.
Formaram-se grandes centros produtivos, os chamados latifúndios, que se dedica-
vam à produção de apenas um produto em grande escala. Esse produto seria, de início,
a cana de açúcar. A partir de então, o empreendimento do açúcar se estabeleceria no
Nordeste da América Portuguesa.
Alguns pontos tornaram o empreendimento açucareiro mais feliz na região nordes-
te: a proximidade com a metrópole e o clima e a hidrografia eram fundamentais para o
transporte do produto internamente. Nesse momento, Portugal concentrou sua aten-
ção no Brasil e no empreendimento açucareiro, estabelecendo um monopólio. Con-
tudo, mesmo que a Coroa tenha tentado controlar todo o processo de produção e
mercantilização de açúcar, isso não ocorreu, uma vez que os holandeses eram respon-
sáveis pela comercialização, no exterior, do produto produzido na colônia portuguesa.
O tabaco também foi um produto importante para o sistema econômico colonial,
visto que era um produto importante a ser trocado por africanos a serem escravizados,
assim como a cachaça; não havia possibilidade de tal produto disputar com o monopó-
lio do açúcar.
A partir do século XVI, toda a empresa colonial seria sustentada pelo empreendi-
mento do açúcar: a formação de cidades e vilas, a divisão do território e a relação entre
os grupos sociais. Até 1763, quando a capital passou para o Rio de Janeiro, era em Sal-
vador que se desenvolviam as atividades administrativas. Ainda assim, nos primeiros
anos da colonização, o poder efetivo estava localizado na casa-grande e no engenho.

16
Daí os senhores de engenhos terem se tornado o grupo social mais destacado, embo-
ra sua posição não adviesse de um arranjo hereditário, como era o caso da nobreza
europeia.
No contexto colonial, no qual a economia era sustentada pelo trabalho forçado, ser
branco e não desempenhar trabalho braçal já indicava alguma ascensão social, pelo
menos para o “povo”. Havia trabalhos que eram desempenhados apenas por cativos,
fossem eles indígenas ou africanos, por isso, nessa sociedade marcada pelo escravis-
mo, a cor se tornou logo um indicador social.
Ademais, se a díade senhores e escravizados era central nessa sociedade constituída
sob o empreendimento açucareiro, havia também, ao redor, os agregados do senhor,
pessoas que, embora não tivessem relevância econômica, eram importantes para o
desempenho político e social dos senhores de engenho. Eram, sobretudo, parentes
destituídos de terra, comerciantes e homens livres que não possuíam autonomia social
e que viviam sob a proteção do senhor e lhe davam influência política.

Pecuária nos Sertões

Com o estabelecimento do governo-geral, foi adotada a prática de doar sesmarias


(grandes porções de terra) destinadas à pecuária em áreas do interior. Houve pecuária
em vários locais onde se estabeleceram colonos. No Nordeste, essa atividade ocupou
uma vasta área do interior desde a Bahia até Piauí e Goiás. São Paulo, Paraná e Rio
Grande do Sul também eram núcleos importantes. Com o declínio do Ciclo do Ouro
em Minas Gerais, a pecuária acabou sendo uma importante atividade no atual sul do
estado.

Ciclo do Ouro

Os bandeirantes encontraram ouro na região de Minas Gerais por volta de 1698, o


que levou a um grande fluxo migratório, em que milhares de portugueses se desloca-
ram para as minas, assim como se intensificou o tráfico de escravizados da África (a
população da região chegou a 300 mil habitantes, em que 50% era de escravizados). A
vinda de forasteiros causou tensão entre os bandeirantes paulistas e os “emboabas”

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


portugueses sobre o direito de exploração do ouro, assim, eclodiu entre 1707 e 1709
a Guerra dos Emboabas. Derrotados e expulsos, os bandeirantes se deslocaram para
oeste do território, onde encontram ouro em Cuiabá (1717) e em Goiás Velho (1721).
Após o episódio, a Coroa Portuguesa reforçou o seu domínio com a tributação (a
quinta sobre a onça de ouro extraída), o impedimento de que vilas se tornassem cida-
des (exigindo mais autonomia), a construção da Estrada Real (primeiro, entre Parati e
Ouro Preto, e depois, entre Rio de Janeiro e Diamantina) e a mudança da sede do gover-
no-geral para o Rio de Janeiro (1763). O mercado interno tornou-se mais integrado para
o abastecimento da Capitania das Minas.

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Com o declínio do ciclo do ouro por volta de 1770, a população se espalhou, princi-
palmente para o sul de Minas e para a Zona da Mata. Outra consequência foi a cultural,
com o florescimento das artes, em especial na arquitetura, com Aleijadinho.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FGV – 2021) Considerando a formação da sociedade brasileira no período colonial, a
respeito da escravidão indígena assinale a afirmativa correta.

a) O indígena não se adaptou ao trabalho sistemático e foi reduzido a uma vida de roubo e
contravenções.
b) A resistência indígena desapareceu quando a prática missionária disciplinou a popula-
ção autóctone.
c) A escravidão permaneceu como um modo de exploração relevante de parte da popula-
ção nativa.
d) O trabalho escravo dos indígenas foi extinto a partir da importação de africanos.
e) A lei de 1570 determinou a substituição de mão de obra indígena por africana.
Apesar do crescente aumento na “importação” de escravizados africanos, certas áreas da colônia
continuaram a empregar trabalhadores indígenas, como observado em São Paulo, São Vicente,
no Maranhão e nas capitanias do norte. Adicionalmente, os povos indígenas eram frequentemen-
te utilizados nas missões jesuíticas dispersas pelo norte e sul da colônia, onde recebiam cate-
quese e eram engajados na coleta de produtos naturais do interior e no cultivo da erva-mate,
respectivamente. Resposta: Letra C.

ARTES, CULTURA E SOCIEDADE COLONIAIS

A colonização das Minas foi o único empreendimento colonial de cunho urbano, e foi
também aí que se desenvolveu um grupo ocupado com as produções artísticas e inte-
lectuais. Os poetas da região consideravam-se árcades, ligados à poesia bucólica que
tinha como ideal a paisagem natural ocupada por pastores. Seguiam, de modo geral, as
regras do gênero literário arcadismo, muito apreciado na Europa. Exprimiam questões
próprias da região, como o conflito cada vez mais evidente entre a empresa colonial e
a população mineira, a taxação excessiva e a censura.
Nas Minas, havia uma população miscigenada, e o ambiente urbano fazia com que
escravizados e proprietários por vezes convivessem com maior maleabilidade do que
no resto da colônia. Era ainda possível um desempenho mais autônomo para os escra-
vizados, que poderia levar, possivelmente, à sua alforria — a região tinha o maior grupo
de libertos da colônia — e à ascensão social.
Esses grupos expressaram-se também por meio do movimento Barroco, que trazia
características próprias da experiência dessa população, sustentando artisticamente a
sociedade que florescia no interior.

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É nesse contexto que surgiram artistas como Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadi-
nho, negro, mestre escultor e arquiteto, e Manuel da Costa Ataíde, pintor, decorador e
professor.

MOVIMENTOS EMANCIPACIONISTAS

Palmares

A resistência coletiva dos escravizados originou os chamados quilombos (em Ango-


la, um tipo de acampamento militarizado) ou mocambos (que significava esconderijo).
Na América Portuguesa, os quilombos foram agrupamentos de escravizados fugidos,
que tentavam escapar do violento sistema. Esses escravizados se mantinham à mar-
gem da sociedade, em lugares de acesso difícil, sem, contudo, perderem as relações de
proximidade com vilarejos e comunidades das proximidades.
Palmares, surgida em 1597, foi a maior comunidade de escravizados fugidos que
se tem conhecimento na história da América Portuguesa, e ficava na Zona da Mata,
onde hoje está o estado de Alagoas. O ambiente favoreceu o abrigo da população do
quilombo e as palmeiras possibilitaram-lhes sustento e possibilidade de confecciona-
rem-se armadilhas, roupas e cobertas. A partir de algum momento, Palmares passou
a nomear uma confederação de comunidades com diversos tamanhos, que se vincula-
vam por acordos. Era também por acordo que escolhiam seus líderes, além de contar
com administração pública, leis e forma de governo própria, disposição militar e con-
cepções religiosas e culturais típicas que colaboravam para a coesão do grupo.
Obviamente, as autoridades metropolitanas percebiam um grande risco em Palma-
res: além da relação ativa com vilas que mediavam a região, poderia incentivar o imagi-
nário dos escravizados, acenando para a fuga e resistência. Em 1612, deu-se a primeira
ação contra Palmares, e a última, em 1694. Durante 1644 e 1645, período da ocupação
holandesa, Palmares foi crescendo, aproveitando o contexto social e político tumultua-
do para se favorecer.
As autoridades coloniais direcionavam frequentemente à confederação missões de
reconhecimento e expedições para ataque, além das tentativas incessantes de desfazer
ligações comerciais dos quilombolas com as comunidades próximas. Embora as ações

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


das autoridades portuguesas sempre acabassem fracassadas, puderam ser finalmen-
te favorecidas com as divisões internas que surgiam dentro de Palmares, ocasionan-
do sua derrocada. Nesse contexto, em 1678, Ganga Zumba e Zumbi se indispuseram,
criando uma fissura em Palmares e dando início a anos violentos. Ganga Zumba foi
morto por considerar fazer um acordo com as autoridades coloniais e, por mais quinze
anos, Zumbi conseguiu manter a liberdade e autonomia dos quilombolas. Contudo, o
estado de sítio feito pelas tropas coloniais, em 1694, ao Cerco Real do Macaco, levou à
derrota da comunidade e ao assassinato de Zumbi. Embora tenha tido um final trágico,
Palmares permaneceu no imaginário da população cativa, representando um ideal de
resistência.

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Revolta de Beckman

O descontentamento com o governador Francisco de Sá Meneses era grande: havia


sua aparente apatia pela situação de miséria no Maranhão e, ponto fundamental, havia
a legislação a respeito da escravização indígena, questão que se relacionava com a
ação jesuítica. No dia 25 de fevereiro de 1684, liderados pelos irmãos Manuel e Tomás
Beckman, os insurgentes tomaram a cidade de São Luís e instituíram uma junta de
governo com representantes dos latifundiários, do clero e do povo.
Depois de conquistada a cidade, o movimento foi perdendo a adesão popular e ter-
minou em 1685, com a chegada do novo governador Gomes Freira de Andrade e das
tropas lusas, quando foi decretada a prisão dos principais líderes, pondo fim à revol-
ta. Embora descontentes com as autoridades coloniais, os revoltosos não pretendiam,
nesse movimento, romper com a Coroa portuguesa, não ainda.

Guerra dos Emboabas

A Guerra dos Emboabas está inserida dentro daquilo que os historiadores chamam
de “revoltas nativistas”, que implicam certo amor à pátria e desacordo com a metrópo-
le. No início do século XVIII, o ouro foi descoberto na região das Minas e teve-se início o
conflito entre bandeirantes paulistas e emboabas (termo que designava forasteiros),
pela administração do território aurífero.
A Guerra dos Emboabas foi, sobretudo, uma contenda entre práticas e concepções
políticas diversas: de um lado os paulistas e, de outro, os forasteiros. Não se pode
reduzir o conflito apenas aos desejos de obtenção de terra e riqueza, existindo, ainda,
questões sociais e políticas mais profundas.
Os descobridores do ouro, bandeirantes paulistas, acreditavam que mereciam tra-
tamento especial, ou as chamadas mercês, pelos serviços prestados à Coroa, como o
desbravamento do território e, consequente, a descoberta de metais preciosos; isso
não ocorreu, o que gerou ressentimento por parte dos paulistas. A guerra terminou
em 1709, após a Coroa apoiar os emboabas com o intuito de sufocar os revoltosos
paulistas.

Revolta dos Mascates

A revolta dos Mascates data de 1710 e faz parte de um conjunto de eventos que se
caracterizam pela ruptura com a ordem colonial. O início do conflito se deu quando
os comerciantes de Recife, apelidados pejorativamente de mascates, clamaram pela
autonomia do povoado que era, até então, compreendido como porto de Olinda, cida-
de já em decadência. A elite açucareira de Olinda reagiu violentamente ao pedido de
autonomia de Recife, convocando a população pobre e criando milícias.
A revolta durou menos de um ano. O grupo, formado majoritariamente pela popu-
lação pobre e pela elite açucareira, marchou contra Recife, forçando o governador da
capitania a fugir para a Bahia, o que deu aos revoltosos controle de boa parte da região

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por um tempo. O grupo de revoltosos, mais especificamente a elite de Olinda, incorpo-
rou à sua pauta o propósito de tornar Pernambuco independente, vislumbrando um
regime republicano. Como plano alternativo, caso o plano de independência falhasse,
concebeu-se a criação de um protetorado francês, o que nunca ocorreu, posto que a
conjuntura delicada da França não tornava viável esse tipo de apoio.
Um ano depois, os comerciantes de Recife retomaram o controle da capitania após
combaterem no interior com os revoltosos e receberem reforços de Lisboa. Ao final,
os mascates saíram vitoriosos: a elite de Olinda foi derrotada, o controle da capitania
recobrado, Recife foi transformada em vila, convertendo-se em sede da capitania de
Pernambuco. Apesar do fracasso da revolta, pela primeira vez falou-se em autogover-
no ou declarou-se a preferência pela forma republicana de governo, o que constituiu
um marco importante.

Revolta de Vila Rica

A motivação para a Revolta de Vila Rica, de 1720, é encontrada nas práticas fiscais
aplicadas pela Fazenda Real. Os revoltosos intentavam obrigar a Coroa a suspender o
estabelecimento das Casas de Fundição, locais onde o ouro era transformado em bar-
ras e nos quais retirava-se a parte referente ao pagamento das taxações da Coroa. O
conflito se deu entre as autoridades metropolitanas e a elite socioeconômica da região.
Os revoltosos faziam ações de pilhagem na região, gritando frases que expressa-
vam descontentamento com a administração. O governador da capitania reagiu com
intensidade: fechou os caminhos de entrada de Vila Rica e prendeu os protagonistas
do levante, enviando-os ao Rio de Janeiro. Felipe dos Santos foi executado por conta de
sua oratória, que apoiava os revoltosos, tornando-o vítima do suplício público.

Inconfidência Mineira

Formada por um grupo eclético e aliada à elite econômica de Minas, homens e


mulheres contestaram as relações coloniais, planejando um levante armado que decla-
raria Minas uma República. No grupo, havia cônegos eruditos, poetas, professores,
inúmeros homens de letras e membros da elite econômica. As pessoas envolvidas na

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Inconfidência apontavam para a diversidade das atividades desenvolvidas em Minas e,
portanto, para a possibilidade de autossuficiência da capitania.
O que levou esse grupo a de fato considerar a rebelião foi a articulação de fatores
político-administrativos, econômicos e culturais. A política metropolitana continuava
a taxar a capitania e seus habitantes, sem considerar que a produção aurífera havia
decaído, insistindo na imposição da “derrama” (cobrança de impostos atrasados). Além
disso, a administração ficava quase inteiramente fora das mãos da elite local, o que
causava desagrado.

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Supõe-se que a Conjuração começou a tomar forma na década de 1780, sendo que
o projeto de autonomia das Minas foi formalmente debatido em reuniões locais ape-
nas em 1788. Na metade da década de 1780, falava-se de uma “República Florente” e
evidenciava-se a capacidade de Minas de se tornar soberana.
Tiradentes foi o mais ativo propagandista das ideias da Conjuração: eloquente ora-
dor, fez ideias de autonomia circularem por redes que aglutinavam diferentes segmen-
tos sociais, e esse é um fator essencial para a compreensão da punição severa que esse
personagem sofreu.
A Conjuração teria início com um motim, que deveria ocorrer no mês de fevereiro,
em Vila Rica, no momento de imposição da derrama. Se saíssem vitoriosos, os conjura-
dos irromperiam a rebelião por toda a capitania, declarando a independência de Minas
e a implementação de uma República.
Os conjurados observavam atentamente a Revolução Americana e procuravam
aprender com a movimentação que acontecia no norte do continente, entrevendo as
possibilidades de uma República Confederada. Pretendia-se exaurir a Corte e fazê-la
negociar; contudo, Minas se viu sozinha, tanto na colônia, como no cenário internacio-
nal. A Conjuração foi denunciada por Joaquim Silvério dos Reis, ativo participante da
conjuração, que delatou a ação para receber o perdão das muitas dívidas que tinha
com a Coroa.
Feita a delação, ocorreram seis denúncias, a derrama foi suspensa, os conspiradores
foram presos e abriu-se a “devassa”, busca por provas que iriam constituir os autos do
processo da Conjuração Mineira. Ao final de três longos anos, os conjurados considera-
dos culpados foram degradados para a África, houve o sequestro de seus bens e alguns
foram condenados à forca. Quanto a Tiradentes, sua pena foi aplicada pela Coroa de
modo a ser exemplar e espetacular, ficando por muito tempo na memória dos colonos:
foi enforcado no Rio de Janeiro, seu corpo foi esquartejado e salgado e os pedaços fica-
ram em exibição em pontos estratégicos do Caminho Novo, sendo sua cabeça exposta
no centro de Vila Rica.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2022) O que quer que possa “deslustrar” os inconfidentes, seja do ponto
de vista moral, seja do ponto de vista de sua existência material e cotidiana, com fre-
quência, é colocado em segundo plano, quando não ignorado ou citado em notas abso-
lutamente secundárias. Procedimentos como esse chegam a configurar um problema
relevante quanto à explicação da trama ou dos projetos sediciosos presentes nas Minas
setecentistas?
(João Pinto Furtado, Imaginando a nação: o ensino da história da Inconfidência Mineira na perspectiva da crítica
historiográfica. Em: Lana M. de C. Siman e Thais N. de L. e Fonseca, Inaugurando a História e construindo a nação)

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João Pinto Furtado responde à própria pergunta afirmando que

a) se refere a uma questão secundária para a plena compreensão da Conjuração Mineira,


na medida em que cabe ao historiador, assim como ao professor de História, revelar os
projetos do movimento rebelde e não destacar detalhes que pouco explicam tal evento
histórico.
b) se trata de um problema relevante, na medida em que algumas das opções dos histo-
riadores e professores de História, eivadas de anacronismos de toda espécie, podem
obscurecer aspectos importantes na interpretação do tema da Inconfidência Mineira.
c) as novas tendências historiográficas têm muita preocupação com as grandes estruturas
políticas e sociais e, nesse sentido, analisar a mais importante rebelião contra a coloni-
zação portuguesa, exige que os interesses coletivos sejam destacados e não particulari-
dades de indivíduos.
d) considerando que a revolta anticolonialista de Minas Gerais é fundamental para a com-
preensão do processo de emancipação política do Brasil, traçar um perfil das condições
cotidianas dos personagens centrais do movimento mineiro traz poucos ganhos para a
análise histórica.
e) há a necessidade de um olhar atento para os perfis socioeconômicos dos principais
ativistas da Inconfidência Mineira, porque essa metodologia permitirá a compreensão
dessa revolta como um movimento homogêneo, no qual seus integrantes aderiram inte-
gralmente a um único projeto.
João Pinto Furtado sustenta que a propensão de certos historiadores e docentes de História a
negligenciar ou diminuir a importância de determinados elementos da existência dos inconfiden-
tes tem o potencial de resultar em leituras anacrônicas, o que pode encobrir facetas significativas
da Inconfidência Mineira. Resposta: Letra B.

A COLÔNIA E O MUNDO: A METRÓPOLE, AS INVASÕES E OS VIZINHOS

Invasões Estrangeiras — União Ibérica e Período Holandês

Desde o início da chegada dos portugueses à América, a costa da colônia fora alvo
de inúmeras invasões estrangeiras, de povos franceses, ingleses, holandeses, entre

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


outros. Contudo, o inconveniente não vinha apenas dos piratas, pois a França já havia
tentado quebrar o Tratado de Tordesilhas por duas vezes e os holandeses também não
ficaram para trás.
A primeira tentativa da França de colonização da América Portuguesa ficou conheci-
da como França Antártica, e foi empreendida por Nicolas Durand de Villegagnon, que
desembarcou no Rio de Janeiro em 1555 e permaneceu lá por três anos: um período
curto, mas que trouxe muitas repercussões no que se refere ao imaginário em relação
aos grupos indígenas. Em 1612, a França realizou a segunda invasão, dessa vez em São
Luís, no Maranhão.

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Ali, tentaram instalar a França Equinocial, começando por instituir uma feitoria na
ilha de São Luís e se relacionando com as sociedades indígenas que habitavam a região.
A França Equinocial tinha apoio da Coroa francesa e se instituiu sob a autoridade de
Daniel de la Touche, fundador do povoado de Saint Louis, que seria apenas o território
inicial de uma vasta extensão ocupada pelos franceses: desde o litoral maranhense até
o espaço do que hoje é o atual Tocantins. Em 1615, os franceses foram expulsos pelas
tropas lusitanas e o território ocupado por colonos portugueses que inseriram a cultu-
ra de açúcar na região. Em 1626, os franceses tomaram o território da contemporânea
Guiana Francesa, e apenas aí tiveram êxito.
Se a França falhou na fundação de uma colônia duradoura na América Portuguesa,
a Holanda teria mais êxito em sua tentativa. A relação entre Holanda e Portugal nem
sempre foi tranquila, e quando da crise de sucessão da monarquia portuguesa, que
entregava o trono português à Coroa espanhola (ato conhecido como União Ibérica),
Portugal assumiu, consequentemente, os inimigos da Coroa Espanhola, e entre eles
estavam os holandeses. Com as duas Coroas unidas, os domínios coloniais também
foram fundidos, ficando sob o comando da Casa Real espanhola, na dinastia que ficou
conhecida como “filipina”.
Em 1604, os holandeses atacaram Salvador, imaginando que os portugueses não
conseguiriam, pelo tamanho da costa, impedir a ação. Essa primeira tentativa falhou.
Seria criada, então, a Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, em 1621, formada
por capital do Estado e investidores privados, cujos objetivos eram a tomada das áreas
açucareiras e o controle do mercado de escravizados na África.
Finalmente, em 1624, a capital foi ocupada por um dia, mas retomada em seguida
em ação coordenada por Matias de Albuquerque (governador português vigente), evi-
tando, assim, que as fazendas de cana e os engenhos fossem tomados. Novo ataque
aconteceu em 1627, mas o objetivo parecia ser apenas a pilhagem e não a ocupação
da área.
Como não conseguiam ocupar a capitania da Bahia, os holandeses se voltaram para
Pernambuco, que também era importante centro produtor de açúcar. Organizados,
7280 homens, em 65 embarcações, iniciaram o ataque em 1630, e Olinda foi ocupada
pelos holandeses. Estes, por sua vez, investiram na colônia que acabavam de conquis-
tar: Maurício de Nassau foi feito governador-geral do Brasil holandês e transformou
substancialmente a área. Nassau restabeleceu os engenhos que haviam sido abando-
nados pelos colonos portugueses, recompôs o tráfico de escravizados, forneceu crédi-
to e obrigou o plantio para subsistência da capitania. Além disso, Nassau se mostrou
tolerante na questão religiosa.
A administração do Brasil holandês por Nassau trouxe bons feitos para a região,
como a criação da Cidade Maurícia, melhorando a situação da população da região,
que antes se via em péssimas habitações e sem acesso às devidas condições de higie-
ne. Foi também sob sua supervisão que se construiu as três primeiras pontes de grande
proporção no território colonial, e criou-se um espaço que recolhia espécies variadas
de fauna e flora.

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Embora Nassau tenha feito uma administração popular na região, acabou retornan-
do à Europa em 1644, por conta das sucessivas pressões dos seus compatriotas. A par-
tir daí, deu-se um declínio do chamado Brasil holandês, e as “guerras brasílicas”, que
visavam à retomada do território pelos portugueses, prolongaram-se até 1654, quando
as tropas portuguesas finalmente retomaram o espaço invadido.

Intensificação Metropolitana — Entradas, Bandeiras e Missões

Uma questão fundamental na colonização portuguesa diz respeito ao trato dos indí-
genas pelos colonos, pois enquanto estes queriam escravizar as populações nativas,
as missões jesuíticas procuravam protegê-los do trabalho forçado e encaminhá-los à
catequese. A concepção de trabalho das sociedades indígenas era um tanto diferente
da concepção europeia, já que não havia nessas sociedades interesse imediato por
excedentes e sua produção se caracterizava por uma concepção coletiva de fabrico e
consumo.
Muitos indígenas, ao terem contato com os colonizadores, foram se retirando para
o interior, procurando escapar do trabalho compulsório. Uma questão se mostrou
central nesse contexto: a necessidade cristã de catequização das populações indíge-
nas. Para a Igreja, esses indivíduos eram importantes “novos fiéis” que precisavam ser
encaminhados.
Muito embora se tenha encorpado o discurso que diz respeito à substituição do
trabalho indígena pelo trabalho, também compulsório, dos africanos, o que de fato se
percebe nas pesquisas historiográficas é que uma ação não anulou a outra, pois ambas
as populações foram utilizadas como mão de obra forçada.
Um exemplo notável do processo de escravização indígena pode ser apontado pelas
atividades dos bandeirantes, da região de São Paulo. Os bandeirantes adentravam o
interior — os sertões — procurando por indígenas e assaltando as missões jesuítas que
transportavam os indígenas, onde eram criadas vilas em que trabalhavam e eram cate-
quizados. Assim, as duas categorias, colonos e jesuítas, se viam em constante litígio.
Há que se dizer que a posição de defesa da Igreja, em relação aos indígenas, freou,
em alguma medida, as ações bandeirantes, fazendo a atenção voltar-se para o tráfico
atlântico, que causava menos incômodo moral que o trabalho compulsório indígena

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


que, é preciso reiterar, continuou a existir.

A Ação Missionária e a Educação Jesuítica

A Companhia de Jesus foi criada por Inácio de Loyola em 1534, como resposta para
a Reforma Protestante que acontecia na Europa. Seu objetivo era espalhar a fé católica
pelo mundo. Os primeiros representantes chegaram ao Brasil com o padre Manuel da
Nóbrega em 1549. Após desembarcarem na Bahia, ajudaram na fundação da cidade
de Salvador.

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Uma das estratégias adotadas por Manuel da Nóbrega na conversão dos gentios
(catequese) foi a construção de aldeias de catequização (aldeamentos), que se situa-
vam próximas das vilas e cidades portuguesas. Essas aldeias eram habitadas pelos
padres jesuítas e pelos indígenas a serem convertidos. No ano de 1553, José de Anchie-
ta chegou ao Brasil. À frente do Colégio na vila de São Paulo, fez contato intenso com
os grupos indígenas locais, o que auxiliou na elaboração de um guia de gramática e um
dicionário; criou inclusive o teatro jesuítico, entendido por especialistas como o primei-
ro empreendimento educacional da história do Brasil.
A partir da década de 1580, a missão realizava-se por meio de visitas esporádicas
aos grupos localizados nas matas, e os padres não permaneciam muito tempo entre
os grupos. Na segunda metade do século XVIII, a presença dos jesuítas no Brasil sofreu
um duro golpe. Nessa época, o influente ministro Marquês de Pombal decidiu que os
jesuítas deveriam ser expulsos do Brasil por conta da grande autonomia política e eco-
nômica que conseguiam com a catequese. A justificativa para tal ação veio da ocorrên-
cia das Guerras Guaraníticas, onde os padres das missões do sul armaram os indígenas
contra as autoridades portuguesas em uma sangrenta guerra.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FGV – 2022) Em meados do séc. XVIII, no reinado de D. José I (1750-1777), seu principal
ministro, o Marquês de Pombal, desenvolveu uma política que classificava os jesuítas
como inimigos dos interesses da coroa portuguesa.
Nesse contexto, os jesuítas eram acusados de

a) aproveitarem-se de sua condição de missionários para controlar o trabalho dos índios,


prejudicando os colonos.
b) serem agentes da coroa espanhola, motivo pelo qual foram substituídos pelos mercedá-
rios no vale amazônico.
c) promoverem a secularização da administração dos aldeamentos que concentravam
índios não cristianizados.
d) competirem com as companhias comerciais monopolistas lusas, sobretudo com a Com-
panhia das Índias Orientais.
e) Descuidarem da educação dos colonos, ofício ao qual deveriam se restringir a partir das
reformas pombalinas.
Estrategicamente, a administração pombalina considerava essencial a remoção dos jesuítas
para facilitar a implementação de uma ampla reforma no império colonial português. Assim, o
governo de Pombal procurava fundamentos para justificar a expulsão dos jesuítas, acusando-os
de interferir negativamente na vida dos colonos devido à sua influência significativa sobre o tra-
balho indígena. É importante ressaltar que essa era uma manobra estratégica de Pombal para
desmantelar as estruturas de poder estabelecidas e promover suas reformas com maior autono-
mia. A ausência dos jesuítas removeria um influente grupo de pressão organizada na América
Portuguesa. Resposta: Letra A.

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REFERÊNCIAS

FAUSTO, B. História do Brasil. São Paulo: EdUSP, 2019.


PRADO JUNIOR, C. Formação do Brasil Contemporâneo. 23ª ed. São Paulo: Editora
Brasiliense, 2004.
SCHWARCZ, L. M.; STARLING, H. M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Editora Compa-
nhia das Letras, 2015.

PERÍODO JOANINO (1808–1821) E A INDEPENDÊNCIA

A FUGA DA FAMÍLIA REAL E AS REFORMAS JOANINAS

D. José I, em 1750, colocou em prática as reformas de Estado de seu ministro, Mar-


quês de Pombal. Destacam-se: criação do Erário Régio (controlar os gastos da Coroa),
extinção das Capitanias Hereditárias (1759), expulsão dos jesuítas e a instituição da
derrama (para evitar as fraudes causadas com a cobrança do quinto, passou a exigir
que os mineradores da colônia pagassem um valor fixo de 1500 quilos de ouro por
ano).
Com a instituição da derrama e das imposições centralizadoras da Coroa, movimen-
tos revoltosos e levantes se convertem em uma categoria mais organizada, robusta
e de cunho separatista que buscava autonomia de regiões coloniais. Exemplos são a
Conjuração Mineira (1788-89), que sob os ideais do iluminismo buscava a independên-
cia de Minas Gerais e fundação de uma república; e a Conjuração Baiana (1798), com
ideais e propostas semelhantes à mineira, além da luta pela abolição da escravidão.
As guerras de independência dos Estados Unidos (1776) e do Haiti (1790) também sur-
giam como símbolos de emancipação da colônia.
Com a invasão napoleônica à Espanha e a prisão do rei em 1807, D. João viu a pos-
sibilidade de o Império Português entrar em colapso, como começava a ocorrer com o
Império Espanhol. Sendo assim, em um acordo com a Inglaterra, “escondido” da Fran-
ça, D. João partiu com a Família Real para o Brasil (1808), onde pretendia manter a uni-
dade de seu império e fugir da prisão pelo exército napoleônico.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Em terras brasileiras, o então príncipe regente deu fim ao Pacto Colonial (abrindo os
portos para a Inglaterra), criou a Imprensa Nacional, a Biblioteca Nacional, o Banco do
Brasil, além de outros órgãos administrativos, como a junta de Comércio e o Conselho
da Fazenda.
Em 1815, o Brasil foi elevado a Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves. Dois anos
depois, nasceu em Pernambuco o primeiro grande movimento pela independência do
Brasil: a Revolução Pernambucana, que reunia oficiais, negociantes liberais e padres.

27
Em Portugal, eclodiu, em 1820, a Revolução Liberal do Porto, que exigia uma nova
constituição e o retorno de D. João VI à Europa. Em meio à formação das Juntas Cons-
titucionais (nas quais o Brasil também possuía representantes), D. João deixa seu filho,
D. Pedro, como príncipe-regente, e volta para Portugal.
Durante 1822, houve diversos movimentos de oposição a Portugal, principalmente
no Grão-Pará e na Bahia. Entre diversas tendências, venceu aquela que defendeu a
construção de um Estado independente, que mantivesse a escravidão e o poder das
elites econômicas. Assim, a liderança de D. Pedro em 7 de setembro de 1822 era a
garantia mais próxima da unidade em uma imensa porção de terra marcada por regio-
nalismos e profundas diferenças sociais. As elites temiam que uma agitação social
incluísse pobres e escravizados, que eram 80% da população.

Tratados de Limites

A configuração dos limites territoriais alterou-se bastante após o Tratado de Torde-


silhas de 1494. Durante a União Ibérica, quando as possessões de Espanha e Portugal
foram fundidas, o respeito aos limites do território deixou de ser levado a sério. Porém,
a atividade bandeirante e a atividade pecuária aumentavam o espaço ocupado por
colonos ligados a Portugal.
O Tratado de Utrecht, de 1713, teve como objetivo resolver esses problemas. Definiu
que a Colônia de Sacramento, atual Uruguai, era posse portuguesa. O Tratado de Madri,
de 1750, devolveu a Colônia de Sacramento aos espanhóis, enquanto estabelecia a região
dos Sete Povos das Missões (atual Rio Grande do Sul), do atual Centro-Oeste e boa parte
da Amazônia como posses portuguesas. Essa decisão seria também confirmada com o
Tratado de Santo Ildefonso, em 1750, e com o Tratado de Badajós, em 1801.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2022) Na Europa de então, uma vez que o Brasil havia adquirido seu status
enquanto lugar de riqueza, real ou potencial, também começou a servir de lugar de fuga
ou sede alternativa de império para monarcas europeus de grandes ambições ou espe-
ranças limitadas. Parece nítido que durante a luta pela sucessão ao trono de Portugal,
que se seguiu à morte de d. Sebastião, em 1578, d. Antônio, o Prior do Crato, chega a
considerar a ideia de se estabelecer como rei no Brasil e esperava utilizar a colônia como
base de futuras pretensões. […] Em Madri, rumores de que os holandeses estabeleceriam
um descendente de d. Antônio para justificar a invasão de Pernambuco persistiram até
a década de 1620. A sugestão de se transferir a corte de Lisboa para o Brasil, surgida
durante o século XVIII, era reiterada ocasionalmente por membros da corte e conselhei-
ros políticos.
(Stuart B. Schwartz, “Gente da terra braziliense da nasção”. Pensando o Brasil: a construção de um povo. Em: Carlos
Guilherme Mota, A experiência brasileira. Formação: histórias)

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A partir do excerto, é correto afirmar que, para Stuart B. Schwartz,

a) as recorrentes rebeliões coloniais ao longo dos séculos XVII e XVIII, todas fortemente
reprimidas pelas autoridades metropolitanas, inibiram a consubstanciação do projeto
português de comandar o império colonial a partir de Salvador.
b) a chegada da corte portuguesa, no início do século XIX, foi não apenas um expediente
imediatista, mas a realização de um projeto acalentado desde longa data e uma atitude
que reconhecia a crescente importância do Brasil para a corte portuguesa.
c) a invasão holandesa na capitania de Pernambuco reforçou as posições políticas do gru-
po que defendia que a sede da Coroa portuguesa deveria ser na América ou em Luanda,
mas a expulsão dos invasores fez esse projeto ser abandonado.
d) a burguesia metropolitana, no intuito de ampliar os mecanismos de exploração colonial
em relação à América e à África, pressionava a Coroa no sentido de aumentar as restri-
ções mercantilistas e, para isso, era fundamental trazer o poder para o Brasil.
e) o secular projeto da Coroa portuguesa de transferir a administração do Império Colonial
para a América sofreu uma série de entraves, porque não interessava à nobreza reinol
que o poder fosse transferido para um dos espaços coloniais.
Como se nota no texto, a ideia de mudar a corte real de Lisboa para o Brasil, que emergiu no
século XVIII, era periodicamente reforçada por integrantes da realeza e assessores políticos. Isso
sugere a existência de um plano antigo para a realocação da corte para o Brasil, um plano que se
materializou no começo do século XIX com a transferência da família real portuguesa. Ademais,
a consideração do Brasil como uma opção viável para a localização da corte real sublinha a
importância crescente do Brasil no contexto da monarquia portuguesa. Resposta: Letra B.

A CRISE DO SISTEMA COLONIAL, A CRISE PORTUGUESA E A PARTIDA REAL

Para compreender a gênese do Estado brasileiro, recapitularemos alguns pontos


importantes. O Estado é o conjunto das instituições que governam o território brasilei-
ro, que hoje denominamos “República Federativa do Brasil”. Embora atualmente seja
uma república, quando o Brasil se tornou independente, adotamos a monarquia como
forma de governo. Esse sistema foi herdado do império europeu que nos colonizou,
Portugal.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Sendo assim, começamos a falar do nascimento do Estado brasileiro alguns anos
antes da independência, quando a invasão de Portugal pelos franceses ocasionou um
fato inédito na história: um império moderno passou a ser governado não mais da
metrópole europeia, mas a partir da colônia, com a transferência da corte de Lisboa
para o Rio de Janeiro.
Quando a corte portuguesa embarca, fugindo estrategicamente de Lisboa em novem-
bro de 1807, o faz porque tinha consciência dos acontecimentos recentes na Europa,
em um momento em que o expansionismo de Napoleão Bonaparte parecia imparável.

29
Uma experiência ainda mais próxima acendeu o sinal vermelho e mostrou que os
prognósticos eram corretos: o rei espanhol, Fernando VII, foi deposto do trono por
Napoleão, em maio de 1808. A fuga da corte portuguesa foi um sucesso em curto pra-
zo; contudo, em longo prazo, ocasionou uma quebra de legitimidade do Império portu-
guês num momento em que os ares eram revolucionários.
A presença da corte no Brasil, ademais, causava incômodo em algumas parcelas da
população, sendo o exemplo mais evidente a Revolução Pernambucana, que estourou
na província de Pernambuco, em 1817. Antes da chegada da corte em 1808, essa pro-
víncia ligava seu comércio diretamente a Portugal, posto que as dificuldades logísticas
— como rotas terrestres ou fluviais — impediam o estabelecimento de relações com o
Rio de Janeiro. Somava-se ao fim desses benefícios concedidos ao comércio pernambu-
cano um período de graves secas e crises de abastecimento.
O movimento revolucionário pautava a necessidade de se combater a crise e recu-
perar os benefícios comerciais, assim como a possibilidade de se romper com a monar-
quia. Em partes, e por um curto período, os revoltosos — homens livres, escravizados,
ricos e pobres — saíram vitoriosos, uma vez que conseguiram destituir o governo de
Pernambuco e instalar brevemente uma república; contudo, foram violentamente
reprimidos, com prisões e condenações em praça pública.
Na Europa, cessada a agitação política entre portugueses e franceses, a soberania
lusa conseguiu, enfim, gozar de certa estabilidade, e um forte movimento de pressões
pôde ecoar a fim de que D. João retornasse a Portugal. A relutância do rei em retornar
causava indignação na população lusa, num momento em que a metrópole passava
por uma grave crise de produção agrícola e desvalorização do papel moeda. Essa agita-
ção culminou na chamada Revolução Liberal do Porto, também conhecida como Rege-
neração de 1820.
O prolongamento da ausência régia na metrópole evidenciou que o “exercício da
exclusiva vontade do rei” não era mais cabível. Assim, profissionais liberais, advogados,
médicos e comerciantes reuniram-se na cidade do Porto a fim de redigirem uma Cons-
tituição que, embora conservadora, propunha a limitação do poder do monarca e sua
submissão à carta constitucional. A Regeneração também inovava ao propor a trans-
ferência da soberania — antes circunscrita ao rei — às chamadas Cortes. As pressões
exercidas pelas Cortes constituídas fizeram com que D. João retornasse com sua famí-
lia a Portugal em abril de 1821, mas deixando no Brasil seu filho, D. Pedro de Alcântara.
A promulgação da Constituição proposta pela assembleia constituinte de 1820 teria
validade para todos os portugueses, o que incluía os habitantes das colônias portugue-
sas, inclusive na América. Algumas medidas, no entanto, causaram profundo descon-
forto nos grandes comerciantes do Brasil, que, por sua vez, já estavam acomodados
sob os privilégios concedidos pela presença da corte na colônia.

30
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FGV – 2023) “Entre 1776 e 1825, a Europa perdeu a maior parte de suas colônias ame-
ricanas devido a uma série de revoluções, movimentos de independência e rebeliões. Os
afro-latinos tinham desempenhado um papel preponderante na constituição dos impé-
rios ibero-hispânicos. Haviam servido não só como mão-de-obra escrava, mas também
enquanto tripulantes, exploradores, oficiais, colonos, proprietários de terra e, em certos
casos homens livres e senhores de escravos. Quando da dissolução dos impérios e
dos levantes anticoloniais ao longo do século XIX, voltamos a encontrá-los em diversos
papéis, seja como soldados, seja a encabeçar movimentos políticos. Com as estruturas
imperiais do mundo Atlântico arruinadas e substituídas pelos Estados-nações, as rela-
ções entre as colônias e a metrópole sofreram alterações. Uma classe de brancos criou-
los se implantou e consolidou sua influência. As velhas questões de heterogeneidade,
diferença e liberdade foram ressuscitadas, ao passo que as novas elites se aproveitaram
da ideologia da mestiçagem para negar e desqualificar a questão racial. A contribuição
dos afro-latinos e dos escravos negros para o desenvolvimento histórico da América do
Sul acabou sendo, se não apagada, pelo menos severamente ocultada.”
(MBEMBE, Achille. Crítica da razão negra. São Paulo: n-1 edições, 2018. p. 37)

As ideias presentes no texto propõem uma abordagem inovadora para a compreensão


dos processos históricos da independência das colônias ibéricas na América Latina.
Essas ideias podem ser explicitadas quando o professor

a) valoriza os feitos da elite Crioula.


b) enfatiza o Estado como agente da História.
c) valoriza a narrativa universalizante.
d) defende a narrativa eurocêntrica.
e) substitui a história do colono pela do colonizado.
O escritor revisita a tendência de omitir a participação significativa daqueles que foram subjuga-
dos e que, na realidade, construíram a América Latina — os afro-latinos e os escravizados africa-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


nos — favorecendo assim a perpetuação de uma narrativa histórica centrada na Europa. Portanto,
ele sugere uma perspectiva renovadora que propõe o exame do período colonial e do processo de
independência das colônias ibéricas focando nos sujeitos não europeus, ou seja, deslocando a aná-
lise histórica da perspectiva do colonizador para a do colonizado. Resposta: Letra E.

A INDEPENDÊNCIA (1822) E A GUERRA DE INDEPENDÊNCIA

A presença da corte no Brasil (1808-1820) foi moldando as consciências dos colonos


a respeito da possibilidade de se constituir um governo real que permanecesse no
Brasil. Assim, a ideia de independência começa a ganhar força por volta de 1821, como
uma reação à Regeneração de 1820, uma vez que esta era entendida como uma revo-
lução contrária ao Brasil.

31
Latente o conflito de interesses, os colonos que ganharam com a presença da corte
reivindicavam um governo no Brasil que, por sua vez, evoluiu à percepção da neces-
sidade de um Estado Nacional brasileiro, a grande novidade revolucionária. É nessa
configuração que entra a figura do príncipe regente, futuro D. Pedro I.
Outra determinação polêmica das Cortes era que as províncias do Brasil se trans-
formassem em províncias portuguesas, o que gerou, segundo comenta D. Pedro em
carta a seu pai, “um choque mui grande nos brasileiros”. O que o príncipe regente pre-
cisava fazer era se equilibrar num cenário instável, no qual havia a necessidade de se
cumprir os decretos das Cortes ao mesmo tempo em que tinha que corresponder aos
interesses do povo do território onde ele se encontrava. Ao passo que as Cortes foram
convocadas com a finalidade de reorganizar o Império Português dentro da dinâmica
colonial, os colonos se agrupavam cada vez mais em torno da ideia de separação.
Já em 1822, o príncipe regente também recebia pressões a fim de que retornasse a
Portugal, o que gerou um episódio bastante curioso no dia 9 de janeiro de 1822, o “Dia
do Fico”, quando D. Pedro recebeu um requerimento que continha 8 mil assinaturas
solicitando-o que ficasse no Brasil. Não sabemos ao certo quais foram as verdadeiras
palavras proferidas pelo jovem príncipe regente, contudo, consagrou-se na memória
social a perspectiva de que ele ficaria a fim de preservar os interesses da população
brasileira.
Um governo foi organizado por D. Pedro logo após esse evento, tendo figuras proe-
minentes como José Bonifácio de Andrada e Silva, um moderado que fazia campanhas
por maior autonomia da colônia, mas não reivindicava uma separação radical. Foram
convocados representantes de todas as províncias e, mais tarde, uma assembleia legis-
lativa e constituinte.
Já a politização da sociedade colonial com a chegada da corte em 1808 se deu em con-
teúdos bastante inovadores. Aspectos da recente Revolução Francesa (1779) estavam
em alta, sobretudo na crítica ao modelo estamental de sociedade, abrangendo novas
formas de se organizar a sociedade, e também na crítica aos privilégios da nobreza e
dos corpos sociais mais altos.
Depois da revolução de independência do Haiti (1804), esses conteúdos se torna-
ram inescapáveis. Era preciso apropriar-se de alguns elementos e fazer uma revolução
menos radical que a francesa e bem menos radical que a de São Domingos, segundo a
perspectiva das elites coloniais brasileiras.
A escravidão foi um elemento importante neste caso: a dimensão do escravismo
na América Portuguesa era tão grande que foi capaz de influenciar todos os outros
aspectos da vida social, como valores, formas de pensar, de comportamento, práticas
políticas. A independência, nesse sentido, muda a forma de compreender essa socieda-
de: não era mais uma sociedade estamental legitimada por Deus, embora o rico ainda
fosse rico, mas agora havia um parlamento; a escravidão tornou-se uma escravidão
nacional e não mais portuguesa.

32
A chegada da corte também dinamiza fluxos econômicos internos, dada a necessi-
dade de abastecimento. Em verdade, essa dinâmica e a diversificação da produção é
anterior à chegada da corte, mas se intensifica a partir de 1808. O Rio de Janeiro é um
epicentro que conecta São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande de São Pedro (atualmente
Rio Grande do Sul); tanto é, que foram as primeiras regiões a encamparem o projeto de
independência centrada na figura de Pedro I, justamente por esses auspícios econômi-
cos, mas também políticos.

Independência ou morte, Pedro Américo.

Fonte: Wikimedia Commons.

O processo de Independência do Brasil, concretizado em 7 de setembro de 1822, às


margens do riacho Ipiranga, representou o rompimento dos laços coloniais com Portu-
gal. O reconhecimento da emancipação política brasileira em âmbito internacional foi
crucial para a consolidação desse movimento. Os Estados Unidos, por exemplo, forma-
lizaram o reconhecimento apenas em 1824, embora já o tivessem feito informalmente
antes disso, especialmente pela Inglaterra, que buscava manter a estabilidade na anti-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


ga colônia, preservando suas vantagens comerciais. Esses reconhecimentos internacio-
nais contribuíram para afirmar a soberania do Brasil como uma nação independente
no cenário global (Fausto, 2019).
O reconhecimento informal por parte dos ingleses se deve, notadamente, à condição
estabelecida por eles, que condicionava a formalização do reconhecimento à imedia-
ta extinção do tráfico de escravizados. É importante destacar a sutileza dessa afirma-
ção, pois a exigência incidia sobre o fim do tráfico, não sobre o fim da escravidão, que
somente ocorreu durante a transição para o período republicano. Independentemente
disso, os ingleses desempenharam um papel significativo no processo de consolidação
da independência brasileira, atuando como mediadores no reconhecimento do novo
país por parte de Portugal (Fausto, 2019).

33
O evento que formalizou o reconhecimento da independência brasileira por Por-
tugal ocorreu em 1825, com a assinatura de um tratado entre Brasil e Portugal — no
qual o Brasil se comprometeu a indenizar a antiga metrópole em 2 milhões de libras
pela perda da colônia. Esse tratado estabeleceu as bases para o primeiro empréstimo
externo do Brasil, uma transação financeira de relevância histórica, cuja concessão foi
efetuada pelos ingleses (Fausto, 2019).

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC – 2023) A Independência do Brasil foi fruto de um processo histórico permeado por
fatores externos e internos importantes. São exemplos de um fator externo e um fator
interno que impactaram na relação entre Portugal e Brasil, respectivamente,

a) as Cortes de Cádiz, que obrigaram o pronto retorno de Dom João VI a Portugal, e a circu-
lação de ideias liberais e republicanas na imprensa das principais províncias brasileiras.
b) a leva de independências ocorrida na América Hispânica, na década anterior, e as mani-
festações urbanas contra os privilégios da Coroa Portuguesa nos anos 1820, como a
Noite das Garrafadas.
c) a crise política interna de Portugal, devido à invasão de Napoleão, e a pressão popular pro-
vocada pelo assassinato de Líbero Badaró, jornalista militante da causa independentista.
d) o aumento da exploração colonial devido à situação econômica de Portugal após ações
de combate, por parte da Inglaterra, ao tráfico negreiro por meio da lei conhecida como
Bill Aberdeen, e a criação das Juntas Provisórias nas províncias.
e) a Revolução Liberal do Porto e o crescimento de mobilizações pela independência em
várias regiões da América portuguesa, que demonstravam grande descontentamento
por parte das elites locais.
Um elemento catalisador para a independência do Brasil pode ser identificado na irrupção da
Revolução Liberal do Porto em Portugal, no ano de 1820. Essa revolução visava garantir que o
reino português honrasse uma Constituição de natureza mais liberal e menos absolutista. Adi-
cionalmente, houve uma demanda por parte das Cortes para que o rei e sua família real retor-
nassem imediatamente, o que se concretizou em 1821, deixando D. Pedro como representante no
Brasil. No cenário interno, surgiram movimentos que inicialmente defendiam a criação de juntas
governativas provinciais no Brasil. Essas juntas eram favoráveis ao movimento constituciona-
lista de Portugal, contudo, com a mudança de postura política das Cortes em relação ao Brasil
— que almejava rebaixar o status do país no Império Português, eliminando seu título de reino e
reduzindo sua autonomia e relevância na monarquia — as elites políticas e econômicas brasilei-
ras viram na independência a única solução viável. Resposta: Letra E.

REFERÊNCIAS

FAUSTO, B. História do Brasil. São Paulo: EdUSP, 2019.

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IMPÉRIO (1822–1889)

Para a construção de um Estado Monárquico, alguns desafios estavam postos para o


Brasil: como fazer um país? Como ele funcionará? Quem irá governá-lo? Quais nações
serão suas parceiras? Enfim, os desafios de um país exigem uma coesão entre as elites
que irão conduzi-lo.
No entanto, essas elites concordavam apenas quanto à exclusão das massas mais
pobres e dos escravizados, praticamente. Isso levou a muita tensão durante a Assembleia
Constituinte responsável por redigir a primeira carta constitucional de nossa história.
A Assembleia Constituinte, eleita em 1823, desejava limitar os poderes de D. Pedro
I. Durante a Noite da Agonia, o imperador cassou os deputados opositores, impugnou
as proposições constitucionais e outorgou a Primeira Constituição Brasileira, em 1824.
Ela estabelecia, entre outras coisas:
� Existência do poder moderador, que poderia suspender o poder legislativo, executi-
vo e judiciário;
� Poder hereditário;
� Voto censitário, calculado pela renda;
� País oficialmente católico, e com a instituição do padroado, no qual o imperador
poderia intervir em questões eclesiais;
� Pouca autonomia às províncias (hoje estados) e municípios, com grande centraliza-
ção pela Monarquia;
� Instituição do parlamentarismo, porém sem liberdade de oposição aos parlamentares;
� Chefia de Gabinete, formada por parlamentares que aconselhavam o imperador;
� Cargo de senador vitalício, ou seja, o ocupante do cargo só o deixaria na ocasião de
sua morte;
� Constituição outorgada, ou seja, imposta pelo próprio imperador.
A seguir, observe uma pintura que exibe o momento de coroação de D. Pedro I:

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL

Coroação de D. Pedro I, pintura de Jean-Baptiste Debret.


Fonte: Aventuras na História.

35
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC – 2018) Leia os artigos 98 e 99 da Constituição do Império do Brasil, outorgada em
1824:
Art. 98. O Poder Moderador é a chave de toda a organização Politica, e é delegado priva-
tivamente ao Imperador, como Chefe Supremo da Nação, e seu Primeiro Representante,
para que incessantemente vele sobre a manutenção da Independencia, equilíbrio, e har-
monia dos mais Poderes Politicos.
Art. 99. A Pessoa do Imperador é inviolavel, e Sagrada: Elle não está sujeito a responsa-
bilidade alguma.
(Grafia original extraída de [Link]

Conforme os artigos acima, o Poder Moderador era

a) equivalente aos outros Poderes políticos, embora fosse delegado ao Imperador, que
estava sujeito ao controle da Assembleia.
b) uma forma de tutela política sobre os outros poderes, exclusiva ao Imperador, que não
poderia ser submetido a nenhum controle constitucional ou jurídico.
c) superior aos Poderes Políticos mas exclusivo ao Poder Executivo, devendo ser utilizado
para resolver conflitos no seio do Império.
d) um modelo de organização política que viabilizava a Independência, considerada sagra-
da pela Constituição, e que tinha como função prática substituir o Poder Judiciário.
e) presidido pelo Imperador, que estava acima da constituição, e exercido de forma colegia-
da com os outros Poderes Políticos, visando a harmonia da organização política nacional.
Embora o léxico constitucional favorecesse expressões como zelar pela “manutenção da Indepen-
dência, equilíbrio e harmonia entre os Poderes Políticos”, a realidade era que o Poder Moderador
exercia uma supervisão sobre os outros três poderes, possuindo ampla autoridade para intervir
em questões delicadas. A Constituição isentava o Imperador de qualquer jurisdição dos outros
poderes, tornando-o, de acordo com o artigo 99, uma figura sagrada, inviolável e isenta de res-
ponsabilidade. Resposta: Letra B.

PRIMEIRO REINADO

Entre 1822 e 1831, temos a primeira fase administrativa do Império, conhecida como
Primeiro Reinado. Como dito, a Assembleia Constituinte eleita em 1823 desejava a limi-
tação dos poderes de D. Pedro I. Durante a Noite da Agonia, o imperador cassou os
deputados opositores, impugnou as proposições constitucionais e outorgou a Primeira
Constituição Brasileira, em 1824.
Em reação ao autoritarismo, eclodiu, em Pernambuco, a Confederação do Equa-
dor, exigindo uma república liberal, a abolição da escravidão e a ampliação de direi-
tos sociais. Esse movimento teve como principal líder Frei Caneca, mas acabou sendo
reprimida com sucesso.

36
O fuzilamento de Frei Caneca.

Fonte: Meio Norte.

Entre 1825 e 1828, ocorreu a Guerra da Cisplatina entre o Império do Brasil e as


Províncias Unidas do Rio da Prata. Após um desgastante e custoso conflito (o Banco
do Brasil chegou a falir), a independência do Uruguai foi reconhecida. A instabilida-
de política também podia ser verificada em episódios como a Noite das Garrafadas,
demonstrando a grande divergência entre brasileiros e portugueses. Juntava-se a isso
a crise econômica e a disputa pela sucessão do trono em Portugal, levando D. Pedro I
à abdicação do trono em 7 de abril de 1831.

PERÍODO REGENCIAL

Segundo a Constituição de 1824, a abdicação de D. Pedro I levaria ao trono seu filho


D. Pedro II. No entanto, ele tinha apenas cinco anos de idade naquela ocasião. Então,
o Parlamento buscou uma alternativa: a regência. O período regencial durou de 1831
até 1840 e foi marcado por grandes conflitos regionais. Os grupos políticos dividiam-se
entre:

� Restauradores, que defendiam o retorno de D. Pedro I e, posteriormente, a coroação


de D. Pedro II;

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


� Liberais moderados, que exigiam poderes monárquicos com restrições;
� Liberais exaltados, favoráveis ao federalismo, com maior autonomia das províncias.
Durante o período foram criados: o Código de Processo Criminal, a Guarda Nacional,
o Ato Adicional de 1834 (dando poder a assembleias regionais) e a Lei Feijó (que abo-
lia o tráfico no papel, mas fazia “vista grossa” para que ele ainda existisse na prática).

Durante a Regência Trina Provisória, Francisco de Lima e Silva, Carneiro de Campos


e Nicolau de Campos Vergueiro estiveram à frente do poder. Durante esse curto perío-
do, o ministério deposto por D. Pedro I foi readmitido, houve perdão aos processos
políticos e os estrangeiros foram demitidos do Exército Brasileiro. A Regência Trina Per-
manente (1831-1835) foi liderada por Francisco de Lima e Silva, José da Costa Carvalho

37
e João Bráulio Muniz.. Nesse período, ajuntamentos noturnos foram proibidos, bem
como criaram-se o Código de Processo Criminal, a Guarda Nacional, o Ato Adicional de
1834 (dando poder a assembleias regionais) e a Lei Feijó (que abolia o tráfico no papel,
mas fazia “vista grossa”, para que ele ainda existisse na prática).
A Regência Una de Feijó (1835-1838) destacou-se pelo autoritarismo contra rebe-
liões de homens livres pobres e escravizados. No entanto, foi nesse período que eclodi-
ram as principais revoltas regionais pelo Brasil. Em 1838, os conservadores assumiriam
a liderança sob a Regência Una de Araújo Lima (1838-1840), responsável por tirar a
autonomia das províncias na nomeação de cargos públicos; no entanto, sua preocupa-
ção maior, que era deter as revoltas regionais, não se concretizou, ficando a cargo da
antecipação do Golpe da Maioridade em 1840. Araújo Lima ainda foi responsável pela
fundação de duas importantes instituições, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
(IHGB) e o Colégio D. Pedro II, no Rio de Janeiro.
O período regencial foi marcado por uma grande instabilidade política, que se
acentuou com a eclosão de diversos movimentos separatistas nas províncias do país,
destacando-se:

� Cabanada (1832-34, em Pernambuco): lutavam pela restauração da monarquia sob


D. Pedro I e pelo fim da escravidão;
� Cabanagem (1835-40, no Grão-Pará): lutavam por melhores condições de vida para
a população da região. Vitimou cerca de 30 mil pessoas;
� Revolução Farroupilha (1835-45, no Rio Grande do Sul): lutavam pela independên-
cia do estado e por melhores condições para os criadores de gado;
� Sabinada (1837-38, na Bahia): lutavam pela independência da Bahia e pelo fim da
escravidão;
� Balaiada (1838-41, no Maranhão): lutavam contra a desigualdade social e contra as
injustiças cometidas pelas elites.

Na preocupação de garantir a unidade do território, liberais e conservadores (anti-


gos restauradores) fizeram uma manobra constitucional e aclamaram D. Pedro II por
meio do golpe da maioridade (1840).

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FGV – 2022) A respeito da Cabanagem, analise as afirmativas a seguir e assinale V para
a verdadeira e F para a falsa.

( ) A Cabanagem foi um movimento político liderado por políticos regionais do Partido


Caramuru (restaurador), que defendiam a manutenção da unidade política do Brasil com
Portugal.

38
( ) A Cabanagem foi um levante liberal, inspirado nos ideais norte-americanos, que queria
implementar no Brasil uma república federativa de pequenos proprietários escravistas.
( ) A Cabanagem foi politicamente heterogênea: para as oligarquias o Ato Adicional abriu a
oportunidade de conquistar o poder; para os setores populares o levante era o meio para
exigir melhores condições de vida e o fim da escravidão.

A sequência correta, de cima para baixo, é

a) V – V – F.
b) V – F – F.
c) F – F – V.
d) F – V – F.
e) V – V – V.
A Cabanagem representou uma insurreição popular que eclodiu no Grão-Pará, inserida nas
rebeliões provinciais do Período Regencial brasileiro (1831-1840). Inicialmente concentrado nas
áreas urbanas, o movimento se propagou para o interior e perdurou de 1835 a 1840, enfrentando
uma repressão severa por parte das autoridades centrais. Naquele momento, o Ato Adicional
de 1834 havia expandido a influência das oligarquias regionais, promovendo uma reestrutura-
ção do cenário político local. Contudo, essa mudança acarretou novas desigualdades para uma
ampla camada da população, que questionava a legitimidade do governo regencial. Em outras
palavras, o aumento do poder local era percebido por muitos como um fator adicional para o
agravamento das condições sociais. A última afirmativa demonstra bem esse cenário, enquanto
as duas primeiras estão equivocadas. Resposta: Letra C.

2. (FGV – 2022) Durante a “Guerra dos Cabanos” (1835-1840), os revoltosos se denomina-


vam de “patriotas”, querendo forjar para si mesmos uma nova identidade.
O vocábulo “patriota” usado pelos cabanos indicava

a) o sentimento nacionalista das camadas populares do Alto Amazonas, cujo movimento


apoiava a integração de sua região à uma nação brasileira independente.
b) o projeto monarquista dos revoltosos, que se identificavam como “portugueses” em opo-
sição aos “brasileiros” da Corte do Rio de Janeiro.
c) a influência do modelo norte-americano de revolução: lutar por um estado federalista e

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


escravocrata, incentivando a expansão da produção para o mercado interno.
d) a emergência de uma identidade comum entre rebeldes de diversas etnias e culturas
(indígenas, negros e mestiços), mas que percebiam problemas e luta em comum.
e) o desenvolvimento de uma imagem anti-imperialista entre os setores populares do Impé-
rio, que se organizavam para lutar contra a exploração dos colonizadores.
A severa conjuntura de adversidades sociais e econômicas experimentada no norte do Brasil
constituiu o estopim para essa revolta, que teve a adesão de indígenas, afro-brasileiros e indiví-
duos de baixa renda. Portanto, é correto dizer que esse movimento tinha uma natureza essencial-
mente popular, reunindo pessoas com problemas em comum. Resposta: Letra D.

39
SEGUNDO REINADO

D. Pedro II em 1876.

Fonte: Wikimedia Commons.

Com o golpe da maioridade, tem início o período conhecido como Segundo Reinado,
que se estendeu até 1889. Por meio de uma manobra conhecida como “parlamentaris-
mo às avessas”, D. Pedro II exercia poder sobre a Chefia de Gabinete e sobre o Parla-
mento. Embora o legislativo fosse dividido entre o Partido Conservador (saquaremas)
e o Partido Liberal (luzias), ambos tinham posições semelhantes, como a manutenção
da escravidão e a centralização de poder pelo imperador.
O desafio inicial do imperador era debelar as revoltas regionais herdadas do período
regencial, sendo que, em 1842, eclodiu ainda a Revolta Liberal em Minas Gerais e em
São Paulo, marcando a disputa de poder entre liberais e conservadores por espaço no
poder. Liderada, em terras paulistas, por Tobias de Aguiar e Padre Feijó, eles conquis-
taram diversas cidades do interior, sendo, no entanto, derrotados pela tropa do Barão
de Caxias em Campinas. Em terras mineiras, a liderança ficou a cargo de Teófilo Otoni,
que conseguiu a adesão de algumas cidades e o bloqueio da Estrada Real entre Ouro
Preto e Rio de Janeiro, mas acabou derrotado por Caxias em Santa Luzia. Essas derro-
tas fortaleceram a moral tanto do jovem imperador quanto do Exército Brasileiro, que
passou a ver em Caxias um grande líder.
O Segundo Reinado foi marcado também por uma fase de desenvolvimento econô-
mico. O sucesso do ciclo do café (1830-1950) foi possível pelo fortalecimento da Ingla-
terra e dos Estados Unidos como mercados consumidores, além de algumas condições
internas:

40
� A abertura de caminhos que ligavam o litoral ao interior passando pelo Vale do
Paraíba;
� A disponibilidade de terras herdadas da política de vigilância na época do ouro;
� O sistema de transporte que foi modernizado com a instalação das ferrovias a partir
de 1860.

O Império começou a sofrer com legislação internacional inglesa para a proibição do


tráfico, o que o levou a aprovar duas medidas: a Lei Eusébio de Queirós (extinção do
tráfico atlântico de escravizados) e a Lei de Terras (a terra só poderia ser adquirida por
meio de compra, excluindo futuros escravizados libertos e os imigrantes europeus que
começaram a vir).
O Segundo Reinado foi marcado por uma fase de modernização, também chama-
da de Era Mauá, fazendo referência ao empresário do Império responsável por diver-
sos empreendimentos no período, como ferrovias, hidrovias, bancos e telégrafos. O
aparecimento de novas técnicas de transportes — como ferrovias e navegação —, a
comunicação pelo telégrafo, o surgimento de indústrias de máquinas e o aumento da
atividade comercial caracterizam esse desenvolvimento econômico, acompanhado do
crescimento de centros urbanos.
A rede ferroviária chegou a nove mil quilômetros de trilhos, o que colocava o Brasil
atrás apenas dos Estados Unidos, no continente americano. A primeira ferrovia foi a
Estrada de Ferro D. Pedro II, construída em 1854, no Rio de Janeiro, por iniciativa do
Barão de Mauá. Entre 1874 e 1884, o número de indústrias no país saltou de 175 para
600, concentrando-se na produção de alimentos e tecidos e localizados, principalmen-
te, no Rio de Janeiro, em São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul.
Na política externa, o Brasil travou um importante conflito em 1852. A Campanha
contra Oribe e Rosas, como ficou conhecida, teve como objetivo manter sua hegemo-
nia sobre o Rio da Prata. Sendo assim, o Exército Brasileiro depôs Oribe do governo
uruguaio e Rosas do governo argentino. Já na década de 1860, o Brasil rompeu relações
entre 1863 e 1865 com a Inglaterra por conta de tensões em mar, quando o governo
brasileiro se recusou a indenizar os ingleses pelo saque da mercadoria do navio Chris-
tie (por isso, o impasse ficou conhecido por Questão Christie). O Brasil invadiria nova-
mente o Uruguai em 1864; dessa vez, resultaria no maior conflito armado da história

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


da América do Sul.
Em 1864, a Campanha contra Aguirre levou o Brasil a depor o então presidente
uruguaio para colocar seu aliado Venâncio Flores. Essa atitude desagradou diretamen-
te o ditador uruguaio Solano Lopez. Assim, em 1865, teve início a Guerra do Paraguai,
ou Guerra da Tríplice Aliança, iniciada a partir da intervenção brasileira sobre os gover-
nos do Uruguai e da Argentina, desagradando os interesses paraguaios na Bacia Pla-
tina. Em resposta, os paraguaios invadiram o atual Mato Grosso do Sul. A guerra opôs
os paraguaios, liderados pelo ditador Solano Lopez, e a Tríplice Aliança, formada por
Brasil, Argentina e Uruguai. Vale destacar que o comando vitorioso de Caxias pas-
sou a ser extremamente decisivo a partir de 1867, com destaque para as vitórias nas

41
batalhas de Humaitá, Avaí (representada no quadro de Victor Meirelles, a seguir), Itoro-
ró, Lomas Valentinas, Angostura e a tomada de Assunção em janeiro de 1869. O Brasil
acabou indo mais além que uruguaios e argentinos, arrastando a guerra até o assas-
sinato de Lopez, em 1870. Mesmo vitorioso, o Brasil passou a enfrentar um processo
de crise, que desencadearia o início do processo de enfraquecimento da monarquia
brasileira, culminando em sua queda, em 1889.

Representação feita, em 1882, por Victor Meirelles sobre a Batalha do Riachuelo travada durante a Guerra do
Paraguai.

Fonte: Wikimedia Commons.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (CEBRASPE-CESPE – 2022) Acerca dos ciclos da borracha no Brasil, assinale a opção
correta.

a) Após a Segunda Guerra Mundial, devido ao bloqueio do acesso americano ao suprimento


de borracha a partir da Ásia, o governo brasileiro e o estadunidense fomentaram for-
temente a produção de borracha na Amazônia, o que, consequentemente, fez o Brasil
alcançar seu auge na exportação da borracha amazônica.
b) O crescimento econômico na região amazônica durante as décadas iniciais do século
XIX foi possível devido à importação da seringueira, que é uma planta nativa do continen-
te asiático.
c) O Brasil, desde o início do século XIX, mantém supremacia no comércio internacional da
borracha, o que ainda é determinante para a economia do país.
d) Na atualidade, as toneladas de borracha fabricadas por ano no Brasil têm como maté-
ria-prima o látex obtido na Amazônia, onde se usa um modelo de produção de seringais
plantados, que substituiu o antigo modelo de coleta do látex em seringais nativos.
e) No final da década de 70 do século XIX, devido a uma severa seca no Nordeste, milhares
de nordestinos migraram para a Amazônia em busca de trabalhar no então crescente
mercado de extração do látex, suprindo, assim, a falta de mão de obra na região naquele
período.

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Durante a segunda metade do século XIX, o aumento substancial na demanda global por borra-
cha provocou um significativo incremento nos preços internacionais. Esse fenômeno incentivou
fortemente a expansão da produção de borracha no Brasil, o que, por sua vez, atraiu trabalhado-
res de diversas partes do país, especialmente do Nordeste, que enfrentava um declínio econômico
desde o início do século. A situação se agravou com uma série de secas severas no final da década
de 1870, que devastaram a agropecuária e intensificaram a fome. Diante desse cenário, a Ama-
zônia emergiu como um horizonte de oportunidades, atraindo esses trabalhadores em busca de
melhores condições de vida. Resposta: Letra E.

A QUESTÃO DA ESCRAVIDÃO: ASPECTOS GERAIS

Na Europa, a escravidão era conhecida pelo menos desde a Grécia e Roma antigas.
Contudo, a forma assumida na América Portuguesa, sobretudo no empreendimento
açucareiro, trouxe características específicas, pois solidificou-se como uma exploração
humana de caráter comercial. Em primeiro lugar, desde o início do tráfico atlântico,
no século XVI, até seu término, no século XIX, a taxa de nascimento entre os cativos
foi negativa, em razão, sobretudo, das mortes precoces e da violência do sistema. A
escravização atlântica demonstrava novos padrões e nova intensidade: os escravizados
eram destituídos de suas famílias, sociedades, comunidades, e desenraizados de tudo
o que conheciam.
De outro modo, podemos afirmar que a escravidão atlântica moderna constituiu a
base do sistema econômico colonial: era a partir do trabalho escravizado que, primei-
ro nos engenhos e depois na mineração e nas demais atividades econômicas impor-
tantes, construía-se a economia da colônia. Além disso, a comercialização dos corpos
africanos foi responsável por articular e gerar uma das principais fontes de lucro das
Metrópoles colonizadoras.
A escravidão também era uma instituição presente na África, contudo, trazia carac-
terísticas muito diversas daquelas apresentadas pela escravidão atlântica. Nesse con-
tinente, o sistema de escravidão constituía-se a partir de relações de pertencimento
e parentesco: de modo muito genérico, ser escravo significava não pertencer, estar à
margem, mas, na maioria das populações locais, esta era uma condição que poderia
mudar, pois um escravizado poderia ser absorvido pela sociedade. A escravidão atlân-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


tica, colonial, ao contrário, configurou-se enquanto articulação comercial, imperia-
lista, e fundamentou o domínio e a exploração europeia.
Com a indústria do açúcar, o trabalho escravo passou a ser essencial, sustentando
toda a economia: não era possível mantê-la tão lucrativa sem o trabalho compulsório.
O tráfico atlântico inaugurou, também, outro nível de violência nas relações escravistas.
Os cativos eram capturados no interior do continente africano e levados para a cos-
ta, onde eram embarcados em navios para o “Novo Mundo”, regiões nas quais tra-
balhariam compulsoriamente. Muitos escravizados morriam na longa viagem pelo
Atlântico, fosse pelas condições péssimas de higiene, fosse pela falta de mantimentos
ou doenças.

43
Mas, dentro dos porões dos Navios Negreiros, essas pessoas também criavam laços
com outros cativos, mesmo que muitas vezes fossem trazidos de partes diferentes do
continente, iniciando, ali, a resistência ao regime.
Embora já existissem rotas de comércio de escravizados controladas por muçulma-
nos na África, os portugueses criaram várias feitorias e portos no litoral do continente
para suprir a constante demanda de mão de obra escravizada no Novo Mundo, domi-
nando o comércio atlântico. Para a América Portuguesa, vieram, sobretudo, escraviza-
dos da Senegâmbia e costa ocidental da África.
Se os jesuítas “tentaram proteger”, em alguma medida, as populações indígenas do
trabalho forçado, o que é questionável, o mesmo não aconteceu com os negros escra-
vizados. A Igreja fazia coro, a exemplo de Padre Antônio Vieira, no seu famoso Sermão
XIV do Rosário, ao discurso que compreendia a imposição do trabalho forçado aos afri-
canos como uma maneira de civilizá-los e impor-lhes disciplina.
O trabalho compulsório, por si só, já dava ao cotidiano tons de violência. Contudo,
a ordem e disciplina eram mantidas pela constante ameaça de castigos, comunitários
ou não, e pela utilização de múltiplas formas de violência e tortura. Isso não significa,
contudo, que os escravizados não criaram formas de resistência, sejam estas solitárias
ou em grupo.
Além disso, é preciso desvincularmos nossa mente da ideia de que as relações entre
senhores e escravizados se davam, todas, igualmente, pois processos históricos apre-
sentam múltiplas variáveis que, infelizmente, são perdidas com o tempo. A título de
exemplo, sabe-se, atualmente, que, nos espaços urbano e rural, o trabalho exercido
pelos escravizados era visivelmente distinto e que, no primeiro, havia um nível de
mobilidade um pouco maior, pois algumas atividades exigiam que o escravizados se
afastasse do senhor.
Ademais, a resistência coletiva dos escravizados originou os chamados quilombos
(em Angola, um tipo de acampamento militarizado) ou mocambos (que significava
esconderijo). Na América Portuguesa, os quilombos surgiram como agrupamentos de
escravizados fugidos, que tentavam escapar do violento sistema. Esses escravizados se
mantinham à margem da sociedade, em lugares de acesso difícil, sem, contudo, perde-
rem as relações de proximidade com vilarejos e comunidades das proximidades.

HISTÓRIA CULTURAL DOS POVOS AFRICANOS

A região mais ao norte da África, conhecida como saariana, sofreu grande influência
de povos fenícios, turcos, árabes, romanos e gregos. Nessa região, consolidou-se, ao
longo do tempo, uma intensa rede comercial, cujo epicentro era a cidade histórica de
Tombuctu.
Nessa região, devido aos processos históricos, o islamismo confirmou-se como a
principal religião, determinando um importante elo cultural entre os povos locais.

44
A imagem a seguir representa a Cidade de Tombuctu, no Mali:

Fonte: Blog Ensinar História, 20142.

A porção continental ao sul do deserto do Saara, subsaariana, é composta por diver-


sas populações, dentre as quais podemos citar os bantos, os nagôs e os jejes. A base
religiosa dessa região era, geralmente, politeísta, e configurava-se, comumente, pelo
culto aos orixás. A rivalidade entre as etnias dessa região fez com que os europeus
identificassem uma oportunidade de usar prisioneiros de guerra como escravizados
na América.
Muitos artefatos são, hoje, reconhecidos como símbolos da diversidade cultural dos
povos daquele continente. Máscaras, trançados de corda, estatuetas, objetos talhados
em madeira, confecção de tecidos são alguns dos exemplos.
A metalurgia também é uma técnica dominada, na África Ocidental, há muito tempo.
Nessa região, podemos destacar a fabricação de armas de caça e de guerra, além de
ferramentas para o trabalho. Na música, podemos citar instrumentos como o ataba-
que, o berimbau, o agogô e o afoxé.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


A LUTA DOS NEGROS NO BRASIL E O NEGRO NA FORMAÇÃO DA SOCIEDADE
BRASILEIRA

Diferentemente dos Estados Unidos, no Brasil, não houve um sistema legal voltado
para a segregação racial. Por ser um país de origem escravista, o racismo persiste como
um problema social que persegue os negros. O movimento negro, como ficou conhe-
cida a luta pela igualdade étnico-racial, possui grandes nomes que lutaram contra o
sistema escravista, como Zumbi e Dandara dos Palmares e Luís Gama.

2 DOMINGUES, J. E. Reino Islâmico de Mali, na África Ocidental. Ensinar História, 2014. Disponível em: [Link]
[Link]/reino-de-mali/. Acesso em: 16 jan. 2023.

45
Ao longo do século XX, a atuação de diversas personalidades foi importante para a
tomada de espaço e conquistas pelo movimento. Nomes como Abdias do Nascimento
(político), Iyalorixá (mãe de santo), Laudelina de Campos Melo (empregada doméstica),
Milton Santos (geógrafo), Kabengele Munanga (professor), Djamila Ribeiro (socióloga) e
Marielle Franco (vereadora brutalmente assassinada) ganharam destaque.
Essas personalidades, bem como outras pessoas envolvidas no movimento negro,
procuraram evidenciar que o racismo configura uma forma de segregação social não
oficial cujas consequências são visualizadas, por exemplo, quando grande parte da
população negra permanece sem acesso aos melhores empregos ou não ocupa os
espaços universitários. Neste sentido, a atuação de movimentos como, por exemplo,
o Movimento Negro Unificado, é fundamental.
Entre as conquistas legais dos movimentos negros, podemos citar a Lei nº 12.711,
de 2012, popularmente conhecida como Lei de Cota. Ela prevê a reserva de 50% das
vagas em cursos de universidades e institutos federais para estudantes de escola públi-
ca e estudantes que se autodeclarem pretos, pardos ou indígenas.
A Lei nº 7.716, de 1989, prevê detenção de um a cinco anos para crime de dis-
criminação racial. Essa Lei veda a recusa ao acesso a estabelecimentos públicos ou
privados, o impedimento de acesso aos transportes públicos, a recusa à matrícula em
instituições de ensino, ofensas, agressões e tratamento desigual por motivação racial.
Vale o destaque, também, para a celebração do Dia da Consciência Negra, que ocor-
re no 20 de novembro, mesma data do assassinato de Zumbi dos Palmares, um dia
voltado à memória da luta dos negros no Brasil.
Uma outra luta da população negra ocorre dentro dos espaços acadêmicos, visto
que, por séculos, os estudos sobre os povos africanos partiam sempre de um mesmo
ponto: a escravidão negra. Fruto de uma historiografia eurocêntrica, ou seja, guiada
pelos valores e crenças europeias, a história do continente africano e seus povos foi
por muito tempo contada a partir da perspectiva do colonizador.
Embora seja extremamente válido conhecer os aspectos da maior migração forçada
da História, é necessário reconhecer que os povos africanos já possuíam uma história
anterior à escravidão. De sociedades tribais a reinos, de desconhecidos a personali-
dades como Nzinga, rainha de Ndongo e de Matamba, o continente africano foi pal-
co da vida humana desde sua origem, sendo espaço de rica cultura, conhecimento e
tradições.
Do mesmo modo, no Brasil e em outros países construídos à base do trabalho escra-
vizado de forças negras, buscando um olhar para além do eurocentrismo, é possível
encontrar, mesmo no período escravocrata, elementos dignos de estudo que reforçam
a individualidade dos diversos povos que compõem sua história.
Em nosso país, um dos grandes fortalecedores da ampliação das áreas de pesquisa
sobre a África é o perfil diversificado dos alunos que ingressam nas universidades fede-
rais, uma vez que são elas, atualmente, os principais espaços de produção de pesquisa
histórica no Brasil.

46
Através do sistema de cotas, ao possibilitar a diferentes grupos sociais e raciais aces-
so ao meio acadêmico, cria-se um ambiente plural em que novos olhares, movidos
por diferentes trajetórias, exploram áreas ainda não consideradas ou devidamente
aprofundadas.

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FCC – 2021) Considere o texto abaixo:

Negro da Guiné e gentio da Guiné foram as primeiras designações utilizadas para marcar
a origem dos escravos africanos chegados à Bahia no século XVI. Mais do que um regis-
tro de procedência, estas expressões queriam significar a condição mesma de escravo
na linguagem corrente da época. Seu uso se generalizara em Portugal,desde o final do
século, quando o tráfico de escravos começou a se transformar na mais potente empre-
sa comercial daquele país. A multiplicidade cultural da África passava a ser ignorada
pelos portugueses na razão direta em que o caráter de mercadoria se incorporava ao
conjunto da população.
(OLIVEIRA, Maria Inês Côrtes de. Quem eram os“Negros da Guiné”? A origem dos africanos na Bahia. Salvador,
Revista Afro/Ásia, 19/20, 1997, p. 37)

De acordo com a autora,

a) os primeiros escravizados que desembarcaram na Bahia após o sequestro no continen-


te africano foram oriundos da Costa Oriental da África, onde havia homogeneidade de
povos.
b) o termo “Negro da Guiné” representa uma visão pluralista, usada pelos comerciantes de
escravos para identificar os nativos africanos.
c) os escravos traficados para Bahia foram classificados a partir de uma visão homogenei-
zadora, que desprezava a multiplicidade dos povos africanos.
d) o “gentio da Guiné” era o escravizado, que ao chegar em solo baiano, passava a ser iden-
tificado por seus traços culturais, preservando-se o nome original do povo africano ao

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


qual pertencia.
e) as designações “Negro da Guiné” e “gentio da Guiné” identificavam os crioulos trazidos
para os engenhos de cana do Recôncavo, região de maior rentabilidade comercial para
os lusos.
A alternativa correta pode ser encontrada pela interpretação do texto, especialmente do seguinte
trecho: “Mais do que um registro de procedência, estas expressões queriam significar a condição
mesma de escravo na linguagem corrente da época”. Assim, a expressão “Negro da Guiné” não
servia para identificar, mas sim para despersonalizar completamente o escravizado, aplicando-
-se a qualquer indivíduo escravizado, sem levar em conta sua etnia ou nacionalidade específica.
Resposta: Letra C.

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2. (CEBRASPE-CESPE – 2022) Considerando a abolição da escravidão no Brasil, assinale a
opção correta.

a) A abolição da escravidão se deveu exclusivamente à benevolência de Dom Pedro II e de


Princesa Isabel.
b) Os escravizados aceitavam de forma pacífica sua condição jurídica e social, revoltando-
-se apenas contra feitores cruéis.
c) Desde a sua fundação, em 1870, o Partido Republicano defendeu a abolição da escravi-
dão sem a necessidade de indenização aos senhores de escravizados.
d) De acordo com a Lei do Ventre Livre, os nascidos de mãe escravizada eram imediata-
mente considerados libertos, sem qualquer necessidade de trabalho ou de indenização
aos senhores de escravizados.
e) O povo negro escravizado no Brasil foi o protagonista de sua liberdade, não aceitando
passivamente o jugo opressor e estabelecendo revoltas que apressaram os debates abo-
licionistas e a conquista de sua liberdade.
A luta ativa dos escravizados desempenhou um papel crucial no movimento pela abolição da
escravidão no Brasil. Longe de se submeterem passivamente ao cativeiro, eles se opuseram
por meio de rebeliões, fugas e a criação de comunidades quilombolas. Esses atos de oposição
exerceram pressão sobre a sociedade e o governo brasileiro, impulsionando a discussão sobre
o abolicionismo e a eventual conquista da emancipação. Assim, a alternativa correta destaca a
importância central dos escravizados na jornada rumo à abolição. Resposta: Letra E.

3. (FCC – 2018) O movimento abolicionista, no contexto dos anos 1880, foi

a) protagonizado por liberais de vários grupos sociais (trabalhadores e proprietários) que


reivindicavam o fim da escravidão e da Monarquia.
b) organizado exclusivamente por ex-escravos libertos e mulatos livres que assumiram o
combate à escravidão e apregoavam a democracia racial.
c) apoiado pelo governo imperial brasileiro para responder politicamente à pressão do
governo inglês, que combatia a escravidão e o tráfico.
d) patrocinado pelo Partido Republicano Paulista para impor a solução imigrantista e repu-
blicana como saída para a crise da exportação de café.
e) composto por republicanos e monarquistas contrários à escravidão e defensores do
direito à cidadania do ex-escravo.
O movimento abolicionista era formado por indivíduos com distintas convicções políticas, abran-
gendo tanto republicanos quanto monarquistas, unidos pelo repúdio à escravidão. Além disso,
numerosos abolicionistas pleiteavam a concessão de direitos civis aos ex-escravizados, apesar
das discrepâncias existentes quanto ao entendimento e à implementação dessa cidadania. Res-
posta: Letra E.

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REFERÊNCIAS

BARBOSA, M. S. Eurocentrismo, História e História da África. Sankofa (São Paulo), [S.


l.], v. 1, n. 1, p. 47–63, 2008.
LONGOBARDI, A. P. Fragmentos de visualidades chinesas no setecentos mineiro
(1720-1770). 2011. Dissertação (mestrado em História) — Faculdade de Filosofia e
Ciências Humanas, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte.

PRIMEIRA REPÚBLICA (1889–1930)

PROCLAMAÇÃO DA REPÚBLICA, OS GOVERNOS MILITARES E A CONSTITUIÇÃO DE


1891

República da Espada

Em 1889, a campanha republicana ganhou força no Brasil; nesse contexto, foi criada
a “Guarda Negra”, espécie de força paralela ao Exército composta por negros libertos,
que procurava proteger a monarquia. A situação dos libertos ainda era delicada e, na
época, acreditava-se que apenas a monarquia tornaria possível a abolição, advindo daí
a lealdade da guarda à família imperial, pois receavam que sua condição de libertos
pudesse ser revertida.
Em 15 de junho de 1889, na saída do Teatro Sant’Ana, o imperador Dom Pedro II
sofreu um atentado que, embora não tenha causado nenhuma gravidade, tornou-se
um evento notório quando lhe foram atribuídos significados maiores: apontava a fragi-
lidade do regime e a demonstração manifesta de descontentamentos. As autoridades
tentavam censurar as manifestações de insatisfação e clamados pela República, mas
era inútil dissimular normalidade. A monarquia não se sustentava mais. O Exército, por
sua vez, se manifestava exigindo maior representação política, como vimos, e era dele
que viriam os principais defensores da República.
Marechal Deodoro obrigou o visconde de Ouro Preto a se demitir — aquele que
havia formado um gabinete disposto a fazer reformas e demonstrar que a monarquia

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


podia se renovar. Entre a demissão de Ouro Preto e a proclamação da República, houve
um espaço de tempo; o anúncio foi feito na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, por
José do Patrocínio e, no dia seguinte, já se falava nos jornais do Governo Provisório.
No dia 16 de novembro, o Governo Provisório anunciou o banimento da família real,
dando um prazo de 24 horas para que ela deixasse o Brasil.
Se a monarquia teve seus dias expirados, o projeto republicano não se tornou por
isso mais consolidado.

49
Era notável que mudanças aconteciam no âmbito político e social: o romantismo
deu lugar ao materialismo e ao positivismo; passava-se a almejar o progresso e a
modernidade, que eram associados à república. Porém, apesar das ideias progressis-
tas e modernas, ainda havia dúvidas sobre o projeto republicano e seu futuro.
Até 1894, o país experimentou a tutela militar. Os dois primeiros governos foram
encabeçados pelo marechal Deodoro da Fonseca, líder do golpe de Estado de 15 de
novembro, e foram sucedidos por Floriano Peixoto.
Durante o governo de Deodoro, em 1891, eclodiu a primeira Revolta Armada, que
também ficou conhecida como Revolta da Esquadra, liderada por membros da Mari-
nha Brasileira. Seu estopim se deu por conta do autoritarismo de Deodoro, que havia,
inclusive, fechado o Congresso (em clara violação da Constituição), demonstrando sua
inabilidade em lidar com a oposição. Com a Primeira República, veio também uma cri-
se econômica e de descontentamento. Por fim, em 23 de novembro de 1891, Deodoro
renunciou, tendo em vista a possível guerra civil caso insistisse em manter-se no poder.
Floriano Peixoto, seu vice, assumiu a presidência e se manteve no cargo, embora
devesse ter convocado novas eleições. Foi no governo de Floriano que surgiu o que
ficou conhecido como “florianismo”, movimento que aconteceu entre 1893 e 1897, no
Rio de Janeiro, com expressiva participação popular. O líder conseguira, de fato, entu-
siasmar setores expressivos das camadas médias urbanas e da população em geral,
mas o autoritarismo permaneceu.
Ainda assim, a Marinha não recuou e, em setembro de 1893, um grupo de oficiais
exigiu a convocação de novas eleições presidenciais, visto que se sentiam particular-
mente negligenciados pelo poder republicano. Esse grupo estava crente de que era
preciso rebelar a Armada contra Floriano para que assim pudesse recuperar seu antigo
prestígio.
Floriano Peixoto, por sua vez, reprimiu a armada e decretou estado de sítio, receben-
do a alcunha de Marechal de Ferro. Em 1894, finalmente, novas eleições foram convo-
cadas, transferindo o governo a civis e inaugurando um novo modo de se fazer política,
em um período que ficou conhecido como República Oligárquica.

República Oligárquica

Em uma tentativa de consolidar o projeto republicano, procurou-se alterar rapida-


mente nomes e símbolos, evidenciando a mudança de regime. O largo do Paço passou
a se chamar 15 de novembro e a Estrada de Ferro Pedro II passou a ser a Central do
Brasil. Mudou-se, também, o impresso no papel-moeda, deixando de lado imagens da
monarquia, substituindo-as por símbolos da República.
Ainda assim, a população não se acostumou tão rapidamente com as mudanças, por
vezes se referindo aos nomes e símbolos advindos do tempo da monarquia. Procurou-
-se, ainda, construir novos heróis e o principal deles foi Tiradentes, transformado, no
período, em mártir da República.

50
Posteriormente à Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, o Bra-
sil foi alvo de mudanças significativas no seu sistema político e econômico, decorren-
tes da abolição do trabalho escravo, ocorrida no ano anterior (1888), da ampliação da
indústria, dos movimentos migratórios de pessoas do meio rural para centros urbanos
(êxodo rural) e do surgimento da inflação. Além disso, também se buscou o abando-
no do modelo do parlamentarismo franco-britânico, em proveito do presidencialismo
norte-americano.
Dessa forma, o marechal Deodoro da Fonseca, autor da Proclamação da República e
chefe do governo provisório, nomeou uma comissão de cinco pessoas para apresentar
um projeto a ser examinado pela Assembleia Constituinte que viria a surgir. Ainda nes-
se viés, as inovações dessa Constituição ocorreram da seguinte forma:

� instituição da forma federativa do Estado e forma republicana de governo;


� estabelecimento da independência dos Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário;
� criação do sufrágio com menos restrições, porém ainda impedindo mulheres, men-
digos e analfabetos;
� separação entre Igreja e Estado, não se considerando mais a religião católica como
oficial;
� instituição do habeas corpus (garantia concedida sempre que alguém estiver sofren-
do ou ameaçado de sofrer violência ou coação em seu direito de locomoção — ir, vir,
permanecer — por ilegalidade ou abuso de poder).

Por fim, vale salientar que essa Constituição ficou em vigor em nosso ordenamento
jurídico por 43 anos.
A Constituição de 1891 estabeleceu as bases do novo regime: presidencialista e
federalista. Para além disso, a Igreja separou-se do Estado e instituiu-se o regime civil
para casamentos, nascimentos e mortes. O federalismo organizava o novo regime em
bases descentralizadas, de modo que as antigas províncias, agora estados, obtivessem
maior autonomia, derrubando a concepção de centralismo que vigorava na monarquia.
Como se sabe, houve um consenso a respeito da importância do exército para a efe-
tivação do golpe de 1889 e para a implantação da República, o que lhe conferiu enorme
prestígio; mas também incentivou a ambição política desse grupo, o que não foi visto

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


com bons olhos. Havia desunião e desacordo entre as elites civis a respeito do papel
que deveria ser desempenhado pelo Exército na nova sociedade e no novo regime.
Em 1894, depois de anos em que o governo da República havia ficado nas mãos de
militares, novas eleições foram convocadas, e Prudente de Morais, do Partido Repu-
blicano Paulista, venceu a disputa. Era a vitória da corrente moderada do PRP, que
pretendia uma política de pacificação do país e a garantia dos interesses das elites
cafeicultoras de São Paulo.
A partir de 1898, foi criada a Política dos Governadores ou Política dos Estados, que
reconhecia a autonomia das elites regionais, o que significava, por vezes, ignorar os
excessos dessa elite. O controle do governo federal, a partir desse período, se revezava

51
entre Minas Gerais e São Paulo, posto serem essas as unidades da federação reconhe-
cidas como as mais importantes, já que seus eleitorados eram grandes e implicavam
significativa presença parlamentar.
A estabilidade política da República era garantida por meio de três procedimentos:
a conservação, pelos governadores, dos conflitos à esfera regional; o reconhecimento,
pelo governo federal, da autonomia dos estados frente à política interna, e, por fim, a
manutenção de um processo eleitoral em que as fraudes eram frequentes.
Alguns dos processos de fraudes presentes no regime podem ser exemplificados
pela chamada “degola”, que consistia no não reconhecimento do eleito pela Comissão
de Verificação da Câmara dos Deputados, e pelo “voto de cabresto”, prática muito
comum que dizia respeito à lealdade dos votantes ao chefe local. Havia, ainda, o cha-
mado “curral eleitoral”, que aludia ao barracão no qual os votantes eram mantidos e
vigiados, liberados do local apenas na hora de depositar o voto, que já estava marcado
em um envelope fechado.
O voto era uma espécie de moeda de troca, já que as relações de poder se desen-
volviam a partir do município, o que deu origem ao que os historiadores chamam de
coronelismo. Esse fenômeno dava vistas a um complexo sistema de negociação entre
chefes locais e governadores de estados, e destes com o presidente.
O coronel foi um elemento fundamental na estrutura oligárquica, que se baseou nos
poderes personalizados, concentrados nas grandes fazendas e latifúndios. Ele apoiava
o governo estadual com seus votos e, em troca, o governo garantia o poder do coronel
sobre seus dependentes e oponentes, por meio da cessão de cargos públicos. A Repú-
blica se suportava, dessa forma, por via de favoritismo, negociações e repressão.

Charge de 1927 ironizando a prática do voto de cabresto.

Fonte: Educação O Globo.

52
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2020) “A primeira constituição da república se inspirou no modelo norte-a-
mericano, consagrando a República Federativa Liberal. A chave da autonomia dos Esta-
dos — designação dada às antigas províncias — estava no artigo 65 § 2º da Constituição
(de 1891). Aí se dizia caber aos Estados poderes e direitos que não lhes fossem negados
por dispositivos do texto constitucional. Desse modo os Estados ficaram implicitamente
autorizados a exercer atribuições diversas, como as de contrair empréstimos no exterior
e organizar forças militares próprias.”
(Boris Fausto. História do Brasil)

A decorrência mais impactante do artigo da Constituição de 1891, citado no excerto, foi:

a) a criação de divisões regionais que se fortaleceriam para combater ações federais que
ferissem seus interesses, gerando uma verdadeira anarquia entre os governos provinciais.
b) a organização de grupos separatistas das províncias, principalmente as mais ricas, que
se fortaleceram para que o movimento ganhasse força e projeção nacional.
c) a formação de milícias estaduais capazes de se oporem às Forças Nacionais, sendo São Pau-
lo a província que mais investiu no armamento de grupos submissos ao governo estadual.
d) o lucro das empresas provincianas que ocasionou a necessidade de intervenção Federal
nas economias estaduais, além da quebra de acordos com o poder da União.
e) a possibilidade de contrair empréstimos no exterior, que seriam vitais para o governo
paulista criar planos de valorização do café e decretar impostos sobre a exportação de
suas mercadorias.
A autonomia econômica conferida aos estados possibilitava uma gama de políticas econômicas
independentes, variando da proteção ao livre comércio até a contração de dívidas externas. Espe-
cificamente para São Paulo, essa autonomia se mostrou particularmente vantajosa devido à sua
posição de destaque na economia, impulsionada pelas exportações de café. Através de emprés-
timos internacionais, o governo de São Paulo tinha maior liberdade para influenciar os preços
globais do café, utilizando reservas estratégicas; essa prática se estendia também à manipulação
das taxas de exportação. Resposta: Letra E.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


2. (VUNESP – 2018) Leia o texto para responder a questão.
O Rio de Janeiro dos primeiros anos da República era a maior cidade do país, com mais
de 500 mil habitantes. Capital política e administrativa, estava em condições de ser tam-
bém, pelo menos em tese, o melhor terreno para o desenvolvimento da cidadania. Desde
a independência e, particularmente, desde o início do Segundo Reinado,quando se deu a
consolidação do governo central e da economia cafeeira na província adjacente, a cidade
passou a ser o centro da vida política nacional. O comportamento político de sua popu-
lação tinha reflexos imediatos no resto do país. A Proclamação da República é a melhor
demonstração dessa afirmação.
(José Murilo de Carvalho. Os bestializados, 1987.)

53
O texto afirma que a consolidação do Rio de Janeiro como “o centro da vida política
nacional” ocorreu com

a) a reunião dos órgãos administrativos na capital e o fechamento das assembleias


provinciais.
b) a proclamação da independência política e a implantação do regime republicano no país.
c) a concentração do poder nas mãos do imperador e a ascensão econômica de São Paulo.
d) o declínio da economia açucareira nordestina e o início da exploração do ouro nas Minas
Gerais.
e) o crescimento populacional da capital e a democratização política no Segundo Reinado.
Após a independência, e mais notavelmente após a consolidação do governo central, a cidade do
Rio de Janeiro emergiu como o centro da vida política do país. Foi um período em que o poder se
centralizou sob o comando do imperador e coincidiu com o fortalecimento da economia cafeeira
na província vizinha, aludindo à prosperidade econômica alcançada por São Paulo através do
cultivo do café. Resposta: Letra C.

A POLÍTICA E O SISTEMA DE GOVERNABILIDADE DA PRIMEIRA REPÚBLICA;


ECONOMIA NA PRIMEIRA REPÚBLICA

A Transição da Mão de Obra Escrava para o Trabalho Livre no Brasil do Século XIX

Com o fim da escravidão, houve uma desorganização inicial no sistema de mão de


obra e houve grande movimentação para que se atraíssem trabalhadores imigrantes
europeus. A ideia inicial era embranquecer a sociedade brasileira, em um processo
claramente eugenista.
Inicialmente, os imigrantes foram destinados ao campo, mas com o desenvolvimen-
to das cidades e industrialização, muitos desses imigrantes acabaram absorvidos pela
dinâmica urbana.
Como esses imigrantes eram atraídos para as terras brasileiras? Havia o mito da
abundância dos trópicos, somado ao movimento de expulsão, na Europa, de seu
contingente populacional pobre. Além disso, o número da população mundial havia
crescido e os meios de transporte melhorado, o que resultou em grandes grupos de
camponeses à disposição, pois estavam majoritariamente desempregados.
De muitas origens, os imigrantes vinham com o objetivo de “fazer a América”. Havia
os imigrantes que se instalaram nas grandes áreas não ocupadas no Sul do país for-
mando pequenas propriedades de policulturas.
Se os núcleos eram promissores, também estavam sujeitos a muitas adversidades,
como ataques de indígenas e maus tratos da população local. No caso dos cafezais, a
imigração estrangeira era subsidiada pelo Estado ou pelos proprietários de terra, e os
imigrantes eram destinados a trabalhar nas fazendas.

54
Muitas vezes, os problemas se apresentavam para os imigrantes ainda na viagem,
pois pagavam taxas altíssimas pelas passagens e descobriam existir grupos variados
de pessoas que nem sempre possuíam culturas conciliáveis. Os recém-chegados não
eram, portanto, um grupo homogêneo, e precisaram adaptar-se ao novo país e à nova
vida.
Contudo, na década de 1930, a imigração transoceânica sofreu uma diminuição e
muitos países implementaram políticas restritivas, pois não desejavam mais um grande
fluxo de imigração, argumentando que os estrangeiros estariam tomando o espaço de
trabalho dos naturais. Ainda assim, já não era possível retroceder: a paisagem humana
estava definitivamente alterada, os hábitos dos imigrantes foram sendo incluídos na
cultura nacional e sua presença não podia ser ignorada.

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2022) Impunha-se o estabelecimento de um mecanismo regulador das elei-
ções, que consagrasse a sua venalidade em nível institucional. Para isso, modificava-se
o regimento interno da Câmara dos Deputados, no que diz respeito à Comissão de Veri-
ficação de Poderes.
O candidato, para ser eleito, precisava ter o cômputo dos seus votos reconhecido em
várias instâncias, dependendo do cargo pretendido.
No final dessa tramitação sempre se encontrava uma Comissão de Verificação de Pode-
res, que diplomava os eleitos.
(Maria de Lourdes M. Janotti, O coronelismo, uma política de compromisso)

Ainda sobre a Comissão de Verificação de Poderes, presente durante a Primeira Repúbli-


ca no Brasil, é correto afirmar que essa comissão

a) trabalhava em conjunto com a Justiça Eleitoral em cada um dos estados, buscando


padronizar o processo eleitoral, com o objetivo de conter as violências contra os eleitores
e garantir a apuração das urnas sem qualquer ato ilícito.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


b) contribuía para permitir que as minorias parlamentares tivessem algum grau de interfe-
rência nas decisões das suas casas legislativas, porque fazia a exigência que os parla-
mentos tivessem regimentos internos.
c) denunciava os processos eleitorais viciados por várias ilegalidades, que eram sumaria-
mente anulados, situação que trouxe problemas para as oligarquias estaduais dominan-
tes, que tinham seus poderes apoiados em fraude eleitoral.
d) fazia o reconhecimento de seus próprios membros, nas Assembleias Estaduais, no Sena-
do e na Câmara dos Deputados, o que a tornava uma expurgadora de candidatos indese-
jáveis, sob a alegação de fraudes ou irregularidades burocráticas.

55
e) controlava os processos de alistamento eleitoral, votação, apuração dos votos, além de
disciplinar a formação de partidos políticos, o que possibilitou, progressivamente, a exis-
tência de eleições livres de práticas ilegais, sem o voto de cabresto.
A Comissão de Verificação de Poderes tinha como atribuição a validação da contagem dos votos
e a diplomação dos candidatos eleitos, o que abrangia os integrantes das Assembleias Estaduais,
do Senado e da Câmara dos Deputados. Em virtude dessa função, a comissão detinha a autorida-
de para determinar quem seria oficialmente diplomado, permitindo-lhe, portanto, a exclusão de
candidatos considerados inapropriados sob justificativas de fraudes ou inconsistências adminis-
trativas. Resposta: Letra D.

2. (FCC – 2015) Seu Mundinho, todo esse tempo combati o senhor. Fui eu quem mandou
atirar em Aristóteles. Estava preparado para virar Ilhéus do avesso. Os jagunços estavam
de atalaia, prontos para obedecer. Os meus e os outros amigos, para acabar com a elei-
ção. Agora tudo acabou.
(In: AMADO, Jorge. Gabriela, cravo e canela)

O texto descreve uma realidade que, na história do Brasil, identifica o

a) tenentismo, que considerava o exército como a única força capaz de conduzir os desti-
nos do povo.
b) coronelismo, que se constituía em uma forma de o poder privado se manifestar por meio
da política.
c) mandonismo, criado com o objetivo de administrar os conflitos no interior das elites
agrárias do país.
d) messianismo, entidade com poderes políticos capaz de subjugar a população por meio
da força.
e) integralismo, que consistia em uma forma de a oligarquia cafeeira demonstrar sua
influência e poder político.
A passagem do romance “Gabriela, Cravo e Canela” ilustra um episódio representativo do coro-
nelismo, um fenômeno político prevalente no Brasil durante a República Velha. O coronelismo se
destacava pelo domínio dos chefes políticos locais, conhecidos como “coronéis”, que eram geral-
mente latifundiários e exerciam seu poder econômico e social para influenciar os desfechos elei-
torais. Na narrativa mencionada, o personagem indica sua prontidão para recorrer à violência
a fim de manipular o processo eleitoral, refletindo uma das facetas marcantes do coronelismo.
Resposta: Letra B.

56
MOVIMENTOS DE CONTESTAÇÃO NA PRIMEIRA REPÚBLICA: DE CANUDOS AO
TENENTISMO

Revolta da Armada (1891-1894)

A Revolta da Armada pode ser compreendida como um movimento de marinheiros


que exigia maior participação política e melhores salários em um contexto de grande
turbulência política e social no início da República, contrastado com o autoritarismo das
presidências de Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto. Se a primeira revolta da arma-
da obteve sucesso com a renúncia de Deodoro, a segunda foi mais intensa, de modo
que os revoltosos acabaram derrotados na cidade de Desterro, que acabou rebatizada
de Florianópolis, depois da vitória das forças do governo federal.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Bateria militar durante a Revolta da Armada, ocorrida durante o governo de Floriano Peixoto.

Fonte: Wikimedia Commons.

Guerras de Canudos (1896-1898)

Em 1896, teve início um conflito de grande visibilidade nos anos iniciais da República:
Canudos. A rebelião opunha a população de Canudos, um arraial que cresceu no inte-
rior na Bahia, ao recém-criado regime republicano. Esse movimento sociorreligioso foi
liderado por Antônio Conselheiro e durou de 1896 a 1897. Essa população se rebelava
contra o aumento do imposto republicano.

57
Os sobreviventes de Canudos em 1897.

Fonte: MultiRio.

Antes de se estabelecerem na fazenda de Canudos, o grupo sob liderança de Con-


selheiro peregrinava pelo sertão, e chegou a reunir cerca de 24 mil habitantes após a
fundação de um arraial, batizado de Belo Monte.
O que gerou tanto incômodo no governo republicano e nos grandes proprietários de
terra a respeito do movimento de Canudos foi que ele traduzia uma nova maneira de
viver no sertão, à parte do sistema. Era uma experiência social e política muito distin-
ta daquela do governo central, pois as pessoas de Canudos viviam do uso coletivo da
terra, além da distribuição equitativa daquilo que nela se produzia. Além disso, Canu-
dos não estava submetido nem aos proprietários de terra nem aos chefes políticos da
região.
O governo enviou a Canudos quatro expedições formadas por tropas do Exército,
mas só obteve sucesso no quarto e últimos atentado. Prometeram que se a população
se rendesse, sobreviveriam, mas o acordo não foi mantido e comunidade foi dizimada.
A República queria transformar Canudos em um exemplo: era isso que se recebia por
não fazer parte do sistema.

Contestado (1912-1916)

Desde a criação da província do Paraná, em 1853, seus dirigentes questionavam os


limites estabelecidos com Santa Catarina. Essa divergência, entre outros fatores, levou
à Questão do Contestado, como ficou conhecida a região disputada por Santa Catarina
e Paraná. Em 1890, catarinenses solicitaram ao governo brasileiro a definição de limites
entre Santa Catarina e Paraná. Sem resposta, resolveram entrar com uma ação judicial
para ficarem com a posse da região situada ao sul dos rios Negro e Iguaçu.
Por duas vezes, o governo federal deu ganho de causa a Santa Catarina (1904-1910)
e o Paraná conseguiu impedir a demarcação de terras. Concomitantemente a essa
questão, no ano de 1910, a companhia estadunidense Brazil Railway Company ganhou

58
a concessão para construir uma estrada de ferro que ligava o estado de São Paulo ao
Rio Grande do Sul. Para cumprir um dos termos do contrato, a companhia se responsa-
bilizou por 9 km de cada lado da via férrea. Isso ocasionou a desapropriação de terras
dos antigos habitantes, que não possuíam a propriedade legal.
Em 1911, a Lumber, poderosa empresa madeireira ligada a Brazil Railway, estabe-
leceu-se na zona contestada. Tinha autorização para explorar a madeira da região,
comprometendo-se pela colonização. Isso afastava a possibilidade de um acordo entre
Paraná e Santa Catarina, pois ambas queriam ficar com a posse da região, onde se
esperava um grande desenvolvimento econômico. Quando a construção da estrada de
ferro terminou, deixou cerca de 8 mil trabalhadores desempregados. Eles haviam sido
recrutados em vários estados brasileiros. Os donos das fazendas ficaram preocupados
com tantos desocupados que invadiam as propriedades para sobreviverem.
Na região de Campos Novos, surgiu um monge, José Maria, que era um desertor do
exército paranaense. Monarquista, agrupou a população pobre, sem terra e desem-
pregada, que via nele um curandeiro e profeta, formando grupos com alguma milita-
rização. Ele pregava a existência de um reino milenarista, que tinha a crença de que o
Messias destruiria o mal e inauguraria um reino de felicidade, um reino paradisíaco de
mil anos. Nesse reino, vigoraria a lei de Deus, todos teriam lugar para plantar e haveria
prosperidade e justiça.
José Maria foi morto em 1912 após luta contra a força policial requisitada por fazendei-
ros da região; porém, os paranaenses acabaram derrotados. No entanto, os redutos foram
sendo constantemente atacados, até finalmente serem derrotados em 1916 por forças do
governo federal. Ao fim, um tratado territorial foi assinado entre Santa Catarina e Paraná.

Área contestada Área


de
Guerra

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL

Região do “Contestado”.
Fonte: Senado Federal.

59
Cangaço

O movimento do cangaço foi uma forma conhecida como banditismo social, isto é, a
violência dos ataques e saques aos municípios e vilarejos do sertão nordestino envolvia
disputas de terras, coronelismo, vinganças pessoais, revolta com a situação de miséria
e a falta de assistência do poder público. Esses bandos eram formados por jagunços
e antigos capangas de fazendeiros que perambulavam armados pelo interior do nor-
deste. Os cangaceiros tornaram-se extremamente temidos por todo o país, sendo seu
mais famoso líder Virgulino Ferreira da Silva, o Lampião. Quando de sua morte, em
1938, sua cabeça foi exibida em praça pública, ao lado de outros do seu bando, como
sua companheira, conhecida como Maria Bonita.

Lampião e Maria Bonita.

Fonte: Aventuras na História.

Tenentismo

O movimento Tenentista destacou-se primeiro com os “18 do Forte de Copacabana”


em julho de 1922. Entre 1924 e 1926, a Coluna Prestes, sob a liderança de Miguel Costa,
Luís Carlos Prestes e Juarez Távora, pretendia sacudir o país, guiada pelo sentimento
patriótico de libertar as massas da dominação dos coronéis.

Coluna Prestes.

Fonte: Wikimedia Commons.

60
A insatisfação tinha entre seus atores: a classe média (descontente com a inflação),
os intelectuais (viam o coronelismo como uma “pedra no caminho” para o Brasil se tor-
nar civilizado), os empresários (ligados aos setores têxteis e alimentícios que exigiam
uma política de industrialização para o país), os operários (combativos e organizados
em torno do Partido Comunista, fundado em 1922) e os oficiais do Exército (defenden-
do um Estado forte, autoritário e intervencionista para a modernização do país).

CONFLITOS BRASILEIROS DURANTE A REPÚBLICA VELHA

Revolta da Vacina

A República estava ainda em processo de consolidação após a independência; no


início, muitos se empolgaram e aderiram ao projeto republicano, mas com o passar
dos anos, o descontentamento e desapontamento apareceram e, com eles, as revoltas.
Em 1904, ocorreu no Rio de Janeiro uma revolta popular contra as medidas que pre-
tendiam erradicar a febre amarela, a chamada Revolta da Vacina, na qual a população
pobre, que havia sido expulsa dos centros das grandes cidades e se fixado em seus
arredores, reagia à vacinação obrigatória contra a varíola, cuja iniciativa foi do sanita-
rista Oswaldo Cruz.
Mesmo que a movimentação tenha sido resultado da desinformação a respeito da
vacina, não podemos limitá-la somente a isso, pois havia mais fatores no movimen-
to: a população pobre revoltava-se contra a forma como era tratada pelo governo
republicano.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Charge de Leônidas Freire, em 1904, ironizando o “despotismo” do secretário Oswaldo Cruz.
Fonte: Wikimedia Commons.

O povo reagiu com violência, quebrou transportes públicos, depredou edifícios e


atacou agentes higienistas. O governo, por sua vez, também revidou com violência:
decretou estado de sítio, suspendeu direitos constitucionais, prendeu os líderes e os
deportou para o Acre. E, embora a revolta tenha sido controlada pelo governo e a varío-
la, contida, o número de óbitos foi grande: trinta mortos e mais de cem feridos.

61
Revolta da Chibata

No Brasil, como em outras partes do Ocidente, teorias como o darwinismo cultu-


ral ganharam força, o que significa dizer que a compreensão de raça se fazia a partir
de dados essenciais e fixos, e que a humanidade, por sua vez, dividia-se a partir de
hierarquias que eram consideradas naturais. A conclusão “óbvia” era de que os bran-
cos caucasianos, “mais evoluídos”, estariam no topo dessa hierarquia, e os negros se
encontrariam na base dessa pirâmide social, passíveis de toda “degeneração hereditá-
ria”. A mestiçagem, por sua vez, era compreendida como um grande mal e decadência
social.
Nesse sentido, Oswaldo Cruz iniciou movimentos que pretendiam melhorar a saú-
de no interior, pois os sertões fervilhavam de doenças. Os grandes alvos das doenças
eram os sertanejos, caipiras, populações do interior e ex-escravizados, ou seja, tratava-
-se de uma questão social também.
Os marinheiros, nesse contexto, entre 22 e 27 de novembro de 1910, protagoniza-
ram na baía de Guanabara a Revolta da Chibata. Os marujos eram majoritariamente
negros e mestiços, e a ordem na Marinha era mantida com a aplicação de castigos físi-
cos, como com chicote. A rebelião recebeu essa alcunha por conta de os marinheiros
terem se revoltado, entre outras coisas, contra os castigos que lhes eram infligidos.
Embora o uso da chibata na manutenção da ordem tenha sido uma herança da
Marinha portuguesa, no Brasil ela tomou novas conotações, dado que era associada à
escravidão; mesmo que a escravidão tivesse sido abolida em 1888, continuava-se, na
Marinha, as práticas de castigo físico típicas do período, revoltantemente amparadas
pela legislação.
A revolta deu-se na ocasião das eleições entre Hermes da Fonseca e Rui Barbosa.
Enquanto a candidatura de Hermes da Fonseca representava a volta do Exército ao
poder, a de Rui Barbosa indicava o funcionamento regular das instituições e a perma-
nência das lideranças civis no exercício do governo.
Hermes da Fonseca ganhou as eleições e, enquanto em terra celebrava-se sua vitó-
ria, nos navios de guerra a situação era tensa. O castigo infligido a Marcelino Rodrigues
Menezes — 250 chibatadas — foi o estopim em um cenário que prenunciava revolta há
bastante tempo. Em 16 de novembro de 1910, os marinheiros ocuparam navios e dire-
cionaram seus canhões à cidade, mandando uma advertência ao governo: ou os cas-
tigos corporais na Marinha do Brasil eram suspensos ou a capital seria bombardeada.
O governo cedeu, os revoltosos receberam anistia e os navios foram devolvidos.
Contudo, em 24 de dezembro, 22 marujos foram presos na ilha das Cobras, acusados
de conspiração; um deles havia sido o principal líder da revolta, João Cândido. Desses
22 homens, apenas dois sobreviveram após as torturas. João Cândido foi um deles,
recebeu a alcunha de Almirante Negro pela imprensa e se tornou um herói popular.

62
Após a Revolta da Chibata, a Marinha recuou até o fim da Primeira República, mas
o movimento fazia parte de um contexto mais amplo de revoltas militares, como a
Revolta da Escola Militar da Praia Vermelha, a Revolta dos Sargentos e a Primavera de
Sangue, movimentos que apontavam para fissura no centro do poder republicano.

Revoltas Sertanejas

A reação a tantas novidades advindas pela mudança de regime e pelo boom das cida-
des não se manteve contida apenas nas maiores cidades. Em distintas regiões do país
foram deflagrados movimentos sociais que combinavam questões agrárias e a luta
pela posse de terra, muito amparados por traços religiosos. Exemplos desses movi-
mentos são Contestado, Juazeiro, Caldeirão, Pau-de-Colher e Canudos, que indicam o
lugar entre a mística popular e a revolta, produto inesperado do processo de moderni-
zação e da negligência do Estado com essa população.
Em 1896, iniciou-se um conflito de grande visibilidade nos anos iniciais da República:
Canudos. A rebelião opunha a população de Canudos, um arraial que cresceu no inte-
rior na Bahia, ao recém-criado regime republicano. Esse movimento sociorreligioso foi
liderado por Antônio Conselheiro e durou de 1896 a 1897; essa população rebelava-se
contra o aumento do imposto republicano.

Os sobreviventes de Canudos em 1897.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Fonte: MultiRio.

Antes de se estabelecer na fazenda de Canudos, o grupo sob liderança de Conselhei-


ro peregrinava pelo sertão, e chegou a reunir cerca de 24 mil habitantes após a funda-
ção de um arraial, batizado de Belo Monte.
O que gerou tanto incômodo no governo republicano e nos grandes proprietários de
terra a respeito do movimento de Canudos foi que ele traduzia uma nova maneira de
viver no sertão, à parte do sistema. Era uma experiência social e política muito diversa
daquela do governo central, pois as pessoas de Canudos viviam do uso coletivo da terra,
além da distribuição equitativa daquilo que nela se produzia. Além disso, Canudos não
estava submetido nem aos proprietários de terra nem aos chefes políticos da região.

63
O Governo enviou a Canudos quatro expedições formadas por tropas do Exército,
mas só obteve sucesso no quarto e último atentado. Prometeu-se que, se a população
se rendesse, sobreviveria, mas o acordo não foi mantido e a comunidade foi dizimada.
A República queria transformar Canudos em um exemplo: era o que se recebia por não
fazer parte do sistema.

Revoltas Operárias

A partir de 1910, outro setor se agitaria: os operários do novo parque industrial,


resultado imediato da chegada dos imigrantes europeus. De fato, os imigrantes não
foram os únicos nem os mais importantes nos movimentos grevistas e operários, mas
foram fundamentais para a construção deles.
Com os imigrantes, o anarquismo ganhou mais visibilidade, a começar pela década
de 1890; essa foi a corrente que mais mobilizou e estruturou o movimento político ope-
rário pelas próximas três décadas.
A indústria brasileira teve início por volta de 1840, e esses novos empreendimentos
demandavam mão de obra operária. É a partir de 1860, com as tecelagens de algodão,
que a indústria foi se concentrando cada vez mais na região Centro-Sul; de 1880 em
diante, houve um grande aceleramento industrial acompanhado por grande demanda
de mão de obra. A base desses operários era proveniente de migrações inter-regionais,
mas, a partir dos anos 1860, principalmente em São Paulo e no Rio de Janeiro, começa-
ram a surgir imigrantes estrangeiros, sobretudo italianos.
A principal forma de mobilização desses grupos eram as greves. Havia ainda a divi-
são entre anarco-sindicalistas, que acreditavam na associação como tática de atuação
política, e os anarcocomunistas, que viam na insurreição o caminho.
A classe operária reagia, sobretudo, às péssimas condições de trabalho, pois não
havia restrições de idade — crianças eram captadas para trabalhar nas fábricas — nem
tempo máximo de jornada diária. Também reivindicava melhores salários e a criação
de órgãos de representação, como partidos e sindicatos.
A presença de mulheres e crianças nas fábricas mantinha os salários baixos e a
carestia aumentava frequentemente nos anos de guerra; nesse contexto, a classe ope-
rária foi ganhando protagonismo na vida pública do Brasil. Entre 1900 e 1920, deflagra-
ram-se por volta de quatrocentas greves organizadas, exigindo melhores condições de
vida e trabalho. Contudo, as greves eram alvo de repressão sistemática, principalmente
em um país afeiçoado à tradição clientelista e acostumado à pouca representativida-
de pública. Muitos imigrantes foram expulsos do Brasil, e os trabalhadores brasileiros
eram frequentemente presos e espancados.
A partir de 1920, a grande repressão policial praticada contra os trabalhadores fez
com que a possibilidade de greves fosse reduzida. Da mesma forma, o movimento
sindicalista foi se enfraquecendo. Aos poucos, as lideranças adotaram um novo refe-
rencial teórico, o comunismo, que entrou no país em 1922 por um grupo composto
principalmente de ex-anarquistas.

64
Há que se dizer, por fim, que as divisões internas diminuíram a capacidade de mobi-
lização dos trabalhadores; foi apenas na década seguinte que o movimento operário se
ampliou, tornando-se mais organizado e complexo.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2021) Para responder a questão, leia o trecho do romance Grande sertão:
veredas, de Guimarães Rosa.

Sei que estou contando errado, pelos altos. Desemendo. Mas não é por disfarçar, não
pense. De grave, na lei do comum, disse ao senhor quase tudo. Não crio receio. O senhor
é homem de pensar o dos outros como sendo o seu, não é criatura de pôr denúncia. E
meus feitos já revogaram, prescrição dita. Tenho meu respeito firmado. Agora, sou anta
empoçada, ninguém me caça. Da vida pouco me resta — só o deo-gratias; e o troco.
Bobeia. Na feira de São João Branco, um homem andava falando: —“A pátria não pode
nada com a velhice...” Discordo. A pátria é dos velhos, mais. Era um homem maluco, os
dedos cheios de anéis velhos sem valor, as pedras retiradas —ele dizia: aqueles todos
anéis davam até choque elétrico... Não. Eu estou contando assim, porque é o meu jeito
de contar. Guerras e batalhas? Isso é como jogo de baralho, verte, reverte. Os revoltosos
depois passaram por aqui, soldados de Prestes, vinham de Goiás, reclamavam posse de
todos os animais de sela. Sei que deram fogo, na barra do Urucuia, em São Romão, aonde
aportou um vapor do Governo, cheio de tropas da Bahia. Muitos anos adiante, um roceiro
vai lavrar um pau, encontra balas cravadas. O que vale, são outras coisas. A lembrança
da vida da gente se guarda em trechos diversos, cada um com seu signo e sentimento,
uns com os outros acho que nem não misturam. Contar seguido, alinhavado, só mesmo
sendo as coisas de rasa importância. De cada vivimento que eu real tive, de alegria forte
ou pesar,cada vez daquela hoje vejo que eu era como se fosse diferente pessoa. Sucedi-
do desgovernado. Assim eu acho, assim é que eu conto. [...] Tem horas antigas que fica-
ram muito mais perto da gente do que outras, de recente data. O senhor mesmo sabe.
(Grande sertão: veredas, 2015.)

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


O evento histórico mencionado no texto está relacionado

a) à Revolta da Chibata.
b) à Revolta da Armada.
c) ao Cangaço.
d) ao Abolicionismo.
e) ao Tenentismo.

65
O texto menciona a Coluna Prestes, um dos diversos movimentos tenentistas que surgiram na
década de 1920. De forma ampla, o tenentismo representou uma sequência de rebeliões armadas
lideradas por segmentos do oficialato jovem do Exército, que consideravam a República Velha
como uma violação dos ideais que inspiraram a Proclamação da República em 1889. Para esses
oficiais, a configuração política do Brasil e a ascensão das oligarquias voltadas para a exporta-
ção agrícola ao poder constituíam uma traição aos valores positivistas que o próprio Exército
havia adotado como base para o fim da monarquia. Nesse contexto, o tenentismo se apresentava
como uma nova interpretação e um reavivamento dos ideais positivistas no cenário político do
país. Resposta: Letra E.

POLÍTICA EXTERNA NA PRIMEIRA REPÚBLICA E O BRASIL NA PRIMEIRA GUERRA


MUNDIAL

A política externa brasileira durante a Primeira República (1889-1930) foi marcada


por uma transição significativa de uma zona de influência europeia para uma zona de
influência norte-americana. Este período foi caracterizado pela consolidação territo-
rial do Brasil após o reconhecimento da independência e pela busca de uma inserção
internacional mais diversificada e paritária. A diplomacia brasileira, sob figuras como
o Barão do Rio Branco, trabalhou para delimitar as fronteiras nacionais e posicionar o
Brasil como um ator relevante nas Américas.
O conceito de pan-americanismo foi central para a política externa da época, embo-
ra houvesse divergências significativas entre os principais atores políticos sobre como
deveria ser implementado. Enquanto alguns defendiam uma aproximação com os
Estados Unidos, outros viam a necessidade de uma política externa mais autônoma.
Essas divergências refletiam diferentes visões sobre o papel do Brasil no cenário inter-
nacional e sobre a natureza das relações com as grandes potências.
Com o início da Primeira Guerra Mundial em 1914, o Brasil inicialmente adotou uma
postura neutra, seguindo a decisão dos Estados Unidos. Havia um intenso intercâmbio
político e comercial entre o Brasil e a Alemanha, e muitos imigrantes alemães residiam
no sul do país. No entanto, a neutralidade brasileira foi abalada quando navios brasi-
leiros foram afundados por submarinos alemães em 1917, levando o Brasil a romper
relações diplomáticas com a Alemanha.
A participação do Brasil na guerra foi estabelecida formalmente em abril de 1917,
após o afundamento dos navios brasileiros. Em resposta, o Brasil confiscou navios mer-
cantes alemães ancorados em portos nacionais e, em outubro do mesmo ano, decla-
rou guerra ao Império Alemão. O Brasil enviou enfermeiras, médicos e aviadores para
missões de observação no Mar Mediterrâneo, além de participar de operações navais
para proteger o Atlântico dos submarinos alemães.
O Brasil foi o único país da América do Sul a entrar na guerra como combatente,
enquanto outros países da região limitaram-se a romper relações diplomáticas ou per-
maneceram neutros.

66
Com o fim da guerra, o Brasil recebeu navios alemães como compensação pelas
perdas sofridas antes de sua entrada no conflito. A experiência da Primeira Guerra
Mundial teve um impacto duradouro na política externa brasileira, influenciando as
relações internacionais do país nas décadas seguintes.

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FCC – 2022) A respeito da crise diplomática conhecida como “questão do Acre”, assina-
le a afirmativa correta.

a) Começou com a proclamação da República Independente do Acre pelas autoridades


bolivianas, preocupadas em frear o avanço da migração nordestina naquele território.
b) Teve origem com os conflitos fronteiriços com a Bolívia, uma vez que os seringueiros, em
sua busca pela borracha, cruzavam a fronteira que separava os dois países.
c) Foi consequência da rebelião boliviana contra a empresa estadunidense Anglo Bolivian
Syndicate, que obteve do Brasil a concessão para explorar economicamente a região.
d) Foi motivada pela disputa, entre Brasil e Estados Unidos, sobre a exploração da ferrovia
Madeira-Mamoré, que escoava a borracha pelos portos de Manaus e Belém.
e) Findou com a assinatura do Tratado de Petrópolis (1903), articulado pelo Barão do Rio
Branco, que conseguiu reestabelecer as fronteiras entre os dois países vigentes no
Império.
Durante a transição do século XIX para o XX, a região acreana despertava grande interesse entre
os seringueiros. A migração desses trabalhadores brasileiros para áreas dentro das fronteiras
bolivianas gerava conflitos significativos, em um contexto onde o governo da Bolívia enfrenta-
va dificuldades para exercer um controle fronteiriço efetivo. Com a ausência de uma estrutura
governamental boliviana que regulasse a extração da borracha, o Acre se transformou em um
cenário de frágeis equilíbrios e tensões crescentes, que poderiam facilmente escalar para con-
frontos entre brasileiros e bolivianos. Resposta: Letra B.

2. (FCC – 2018) Os litígios fronteiriços entre a região do Amapá e a Guiana Francesa tive-
ram desfecho com

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


a) o Tratado de Utrecht de 1713, que definiu as fronteiras entre os territórios portugueses e
franceses na América.
b) os tratados de Madrid de 1750 e de Santo Idelfonso de 1777, que definiram grande parte
das fronteiras atuais do Brasil.
c) a devolução da região aos franceses em 1817, depois que D. João VI mandara invadir a
Guiana em 1809.
d) o resultado da arbitragem suíça de 1900, conseguida com a atuação do Barão do Rio
Branco.
e) os acordos do governo de Getúlio Vargas com as autoridades francesas instaladas na
Guiana Francesa.

67
A controvérsia territorial envolvendo o Amapá e a Guiana Francesa foi definitivamente solu-
cionada em 1900 por meio de um processo de arbitragem conduzido pela Suíça, com a decisiva
intervenção do Barão do Rio Branco, ministro das Relações Exteriores do Brasil na época. O vere-
dicto da arbitragem suíça foi favorável ao Brasil, permitindo que o país retivesse a maior parte
da área em disputa. Esse julgamento marcou o término de uma extensa fase de disputas e tensões
na fronteira entre o Brasil e a França. Resposta: Letra D.

A CULTURA DO BRASIL REPUBLICANO: ARTE E LITERATURA

Nos primeiros anos do século XX, a vida cultural das elites brasileiras, assim como a
de outros países do mundo ocidental, fora fortemente influenciada pelos hábitos e cos-
tumes europeus, sendo perceptível no modo como as pessoas se vestiam, na pintura,
na literatura e em muitas outras expressões artístico-culturais.
Entretanto, com a eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), os países euro-
peus experimentaram um período de crise política e econômica, levando as demais
nações a questionarem a suposta “superioridade” da cultura europeia.
Na figura3 a seguir, observe alguns dos artistas brasileiros mais influentes da época:

Nesse cenário, os(as) intelectuais e jovens artistas, membros da nascente elite urba-
na brasileira, procuravam novos referenciais para suas produções, com a intenção de
reconstituir uma identidade nacional. Para isso, empenharam-se em não promover
3 Escritor Mário de Andrade (primeiro à esquerda, no alto), o bibliógrafo Rubens Borba de Moraes (sentado,
segundo da esquerda para a direita) e outros modernistas brasileiros, como Tácito, Baby, Mário e Guilherme de
Almeida e Yan de Almeida Prado, 1922. Autoria, dimensões e local de guarda não identificados. Fonte: Wikimedia
Commons.

68
uma simples reprodução dos padrões europeus: reconheciam e valorizavam a sua
importância, mas também passaram a incorporar em suas obras alguns elementos
da cultura e da memória nacional, representativos do que era “ser brasileiro” naquele
contexto.
Assim, as manifestações populares, a linguagem, as diferentes etnias e tipos sociais
passaram a ser incorporados nas produções de escritores, pintores, escultores e musi-
cistas brasileiros. A ideia era que suas produções combinassem os elementos nacionais
às mais modernas tendências artísticas mundiais. Assim, surgia o movimento moder-
nista brasileiro, que ganhou grande visibilidade, sobretudo, entre a elite intelectual
paulistana.
Os referenciais estéticos do Modernismo brasileiro derivam do Modernismo euro-
peu, originado no início do século XX, com o advento das inovações científicas que
modificaram os hábitos e costumes sociais. Os intelectuais adeptos desse movimento
buscavam se distanciar do tradicionalismo artístico e literário do século XIX, tido como
“ultrapassado”. Com isso, almejavam criar referenciais culturais mais conectados ao
contexto de transformações vivenciado pela sociedade capitalista industrial. Observe
a imagem4 a seguir:

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


O auge desse movimento ocorreu com a Semana de Arte Moderna de 1922, no
Theatro Municipal de São Paulo entre os dias 11 e 18 de fevereiro, em comemoração
ao primeiro centenário da Independência do Brasil. A Semana de 22, como ficou conhe-
cida, reuniu diversos intelectuais, como os escritores Mário de Andrade e Oswald de
Andrade, os pintores Di Cavalcanti e Anita Malfatti, o escultor Victor Brecheret, o músi-
co Heitor Villa-Lobos, entre outros, que expuseram os trabalhos produzidos a partir
4 Capa do catálogo da exposição da Semana de Arte Moderna de 1922, produzido por Di Cavalcanti. Reprodução
fotográfica de Rômulo Fialdini. Instituto de Estudos Brasileiros (IEB-USP), São Paulo, Brasil. Fonte: Wikimedia
Commons.

69
dos referenciais modernistas. Além das exposições, houve palestras, debates e apre-
sentações de música e dança.
Patrocinado por ricos fazendeiros e por famílias tradicionais paulistanas, o even-
to foi um sucesso, levando o público a reagir de diversas formas: algumas pessoas o
elogiaram, concordando com os valores estéticos propostos, e outras, apreciadoras
do tradicionalismo, rejeitaram a nova proposta artística e literária, vaiando e atirando
objetos naqueles que se apresentavam.
A Semana de 22 pode ser considerada uma linha divisória entre um período cultural
caracterizado pela tradição, pelo academismo, pelo conservadorismo e pelo surgimen-
to de uma nova forma de expressão, marcada pela liberdade de expressão e pela valo-
rização/incorporação de novos referenciais estéticos e artísticos, com destaque para os
elementos que caracterizavam a cultura brasileira. Ao propor uma mudança de menta-
lidade no campo das artes e da literatura, esse movimento contribuiu, em certa medi-
da, para uma transformação no modo de pensar a política no país.

ERA VARGAS (1930–1945)

Washington Luís foi presidente do Brasil até outubro de 1930. Durante seu manda-
to, ocorreu uma série de eventos que levaram a uma transição política tumultuada.
Em comparação a seu antecessor, Arthur Bernardes, o governo de Washington Luís
foi relativamente tranquilo. No entanto, ninguém poderia prever os conflitos que sur-
giriam durante a transição de poder. Os problemas começaram quando Washington
Luís insistiu em apoiar o candidato paulista, Júlio Prestes, como seu possível sucessor
(Fausto, B., 2019; Pandolfi, 2010).
Nas eleições anteriores, os mineiros haviam aceitado que Washington Luís, repre-
sentante dos interesses paulistas, fosse o candidato em 1926. Para equilibrar a chapa,
o mineiro Fernando de Melo Viana foi escolhido como vice-presidente. No entanto, os
mineiros não estavam dispostos a permitir que um representante dos interesses pau-
listas assumisse o poder novamente.
Em busca de apoio, os mineiros uniram-se aos gaúchos, que até então mantinham
uma boa relação com o governo federal. Para garantir a participação dos gaúchos na
disputa, os mineiros concordaram em permitir a candidatura de oposição de Getúlio
Vargas, com João Pessoa como vice (Schwarcz; Starling, 2018; Fausto, B., 2019).
No dia 1º de março de 1930, um sábado de Carnaval, os brasileiros que sabiam ler e escrever saí-
ram de casa para eleger o próximo presidente da República — e escolher uma nova bancada de
deputados federais. Essa seria a 12ª eleição presidencial da República brasileira. O pequeno núme-
ro de eleitores — votava o brasileiro adulto, do sexo masculino e alfabetizado, correspondente a
5,6% da população [...]. (Schwarcz; Starling, 2018, p. 351)

70
Após a apuração das eleições, Júlio Prestes foi declarado vencedor em 1º de maio de
1930. Para Getúlio Vargas, não restava outra opção senão aceitar a derrota e reassumir
o governo do Rio Grande do Sul.
No entanto, nem todos compartilhavam desse pensamento. Surgiu um movimento,
conhecido como “tenentes civis”, que defendia uma resposta armada. Embora o movi-
mento tenha recebido muitas adesões, inicialmente não possuía grande força. Entre-
tanto, em 26 de julho, João Pessoa, vice na chapa de Vargas, foi assassinado por João
Dantas, um adversário político.
O GOLPE DE 1930 E O GOVERNO PROVISÓRIO (1930-1934)
Esse evento se tornou um marco, sendo o estopim para a revolução que se iniciou
em 3 de outubro de 1930 em Minas Gerais e no Rio Grande do Sul. O presidente eleito,
Júlio Prestes, foi deposto, e uma junta provisória foi estabelecida. Porém, a junta não
conseguiu resistir às pressões. Getúlio Vargas dirigiu-se a São Paulo e depois ao Rio de
Janeiro, acompanhado por 3 mil soldados. Em 3 de novembro de 1930, ele assumiu
a presidência do país. Com isso, terminava a Primeira República brasileira (Schwarcz;
Starling, 2018; Fausto, B., 2019).
Após conquistar o poder, Getúlio Vargas decidiu manter-se no cargo, e não foram
realizadas novas eleições; ele permaneceu como presidente do país por 15 anos. Duran-
te esse período, ele implementou diversas medidas que tiveram impacto significativo,
como afirma Boris Fausto (2019):
� Centralização: pouco tempo após assumir o Executivo, Vargas dissolveu o Congres-
so e assumiu também o Legislativo. Ele demitiu todos os governadores eleitos, com
exceção do de Minas Gerais, e nomeou interventores federais em seus lugares. Em
1931, foi criado o Código dos Interventores, que estabelecia as normas de subordi-
nação ao governo federal. Essa centralização não se limitou apenas à esfera política,
mas também se estendeu à economia, com o controle da Política do Café sendo
assumido por Vargas;
� Educação: os líderes políticos vitoriosos em 1930 tinham preocupação em formar
uma elite intelectual mais bem preparada. Neste sentido, um marco importante foi
a criação do Ministério da Educação e Saúde. Como ditador, Vargas também teve

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


influência na área educacional;
� Tenentismo: os “tenentes”, que apoiavam Vargas, passaram a fazer parte de seu
governo, defendendo a continuidade de sua ditadura. Eles foram utilizados para
combater as oligarquias estaduais.

No ano de 1932, as lideranças políticas começaram a suspeitar de que Vargas tinha a


intenção de prolongar o seu governo provisório, o que levou à mobilização para exigir
eleições imediatas. Os paulistas estavam cada vez mais insatisfeitos com o governo de
Vargas, que havia retirado deles o controle sobre a produção de café e também a auto-
nomia do Estado, ao nomear interventores.

71
As tensões intensificaram-se quando Vargas indicou um nordestino como interven-
tor em São Paulo, pois havia um grande preconceito contra a população nordestina na
época. Em 1932, os paulistas passaram a exigir a convocação imediata de uma Assem-
bleia Nacional Constituinte. Além disso, havia um sentimento evidente de que São Pau-
lo estava “carregando o peso” do restante do Brasil, e alguns chegaram a pregar o
separatismo caso suas demandas não fossem atendidas (Schwarcz; Starling, 2018).
No dia 9 de julho de 1932, estourou em São Paulo a revolução contra o governo fede-
ral. Os paulistas esperavam contar com o apoio dos mineiros e rio-grandenses, porém
esse apoio não veio. Na verdade, o interventor do Rio Grande do Sul, Flores da Cunha,
apoiou Vargas e enviou tropas para combater os paulistas. São Paulo viu-se sozinho
em meio ao conflito com o governo federal, contando apenas com a Força Pública e a
mobilização popular. O plano dos paulistas era atacar a capital da República e colocar
o governo “contra a parede”, buscando negociar ou forçar uma capitulação. No entan-
to, eles falharam em seu plano, uma vez que o governo federal possuía uma enorme
superioridade militar (Fausto, B., 2019).
Em 1º de outubro de 1932, São Paulo assinou a rendição. Num gesto característico, Vargas primei-
ro acertou as contas: prendeu os rebeldes, expulsou os oficiais do exército, cassou os direitos civis
dos principais implicados no levante, despachou para o exílio as lideranças políticas e militares do
estado, mandou reorganizar a Força Pública e reduzi-la ao status de órgão policial. A elite paulista
estava derrotada. (Schwarcz; Starling, 2018)

O ano de 1934 foi marcado pela promulgação da Constituição em 14 de julho, que


colocava fim no Governo Provisório de Vargas.

Importante!
Essa nova constituição estabelecia o sistema de República Federativa no
Brasil.

No dia seguinte, em 15 de julho de 1934, Getúlio Vargas foi eleito pelo voto indireto
da Assembleia Nacional Constituinte como presidente. Seu mandato estava previsto
para terminar em 3 de maio de 1938.
Segundo a nova Constituição, a partir do fim do mandato do presidente Vargas, as
eleições para a presidência da República deveriam ser diretas, ou seja, o povo teria o
direito de escolher diretamente o próximo presidente. Mas o golpe no Novo Estado
frustrou as expectativas democráticas (Fausto, B., 2019; Vianna, 2010).

72
A Ruptura Oligárquica e a Revolução de 1930

Washington Luís (1926-1930) não se deu conta da frágil relação entre as oligarquias
mais poderosas, em especial São Paulo e Minas Gerais, indicando o também paulista
Júlio Prestes para a sua sucessão e não Antônio Carlos de Andrada, de Minas Gerais.
Os mineiros romperam e apoiaram a Aliança Liberal, encabeçada por Getúlio Vargas
e João Pessoa, contra Júlio Prestes. A máquina política dominada pelos paulistas levou
a melhor sobre a inovadora e reformista campanha da Aliança Liberal nas eleições de
maio de 1930.
A indignação dos derrotados e as acusações de fraude eleitoral foram incorpora-
das pelas oligarquias contrárias a São Paulo, pelo Exército, pelo movimento operário e
pelas classes médias. O assassinato de João Pessoa em 26 de julho de 1930 indignou
a opinião pública, que acusava motivações políticas por trás do crime. No início de
outubro, Minas, Rio Grande do Sul, Pernambuco e Paraíba mobilizaram tropas até as
fronteiras de São Paulo.
Com a iminência de uma guerra civil, uma junta militar depôs Washington Luís em 24
de outubro de 1930. Em 31 de outubro, Getúlio Vargas chegou ao Rio de Janeiro na con-
dição de líder da Revolução, aclamado pelos tenentes e pela multidão. Em 3 de novem-
bro de 1930, tinha início o governo provisório (1930-1934) sob a chefia de Vargas.

Getúlio Vargas sendo recebido no Rio de Janeiro durante a Revolução de 1930.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Fonte: Aventuras na História.

Governo Provisório de Vargas (1930-1934)

Uma coligação entre oligarquias adversárias de São Paulo e frações do Exército ocu-
pou o poder na queda da República Oligárquica. Todavia, a única coisa que unia todos
esses setores era a oposição aos oligarcas do Partido Republicano Paulista (PRP): os
tenentes defendiam um governo forte e centralizado que tutelasse a sociedade e inter-
visse na economia, as elites gaúchas positivistas eram inclinadas a um Estado centra-
lizado e interventor, as elites mineiras liberais simpatizavam com o federalismo e com
algumas reformas sociais.

73
Em meio às tensões entre liberais e autoritários, estava Getúlio Vargas, fazendo o
papel de mediador de interesses em conflitos, dando equilíbrio entre os grupos em
disputa e isolando seus opositores. Esse esquema ganhou o nome de “Estado de com-
promisso”, reunindo liberais da velha prática política, reformadores políticos e sociais,
o empresariado industrial, que ainda era dependente da ajuda do café, a classe operá-
ria, organizada em torno de organizações sindicais, e uma classe média que ocupava
cargos de funcionários públicos e profissionais liberais.
Nesse período, destacam-se a fundação do Ministério do Trabalho e o Ministério da
Educação, em 1931, e a vigência do novo Código Eleitoral (direito ao voto feminino e
Justiça Eleitoral autônoma para monitorar resultados e coibir fraudes), em 1932. Entre
as tendências político-ideológicas nos anos 1930, destacam-se:

� Positivismo corporativista: Estado forte, burocratizado e interventor na economia,


na educação e nas relações de trabalho;
� Liberalismo: livre-iniciativa na economia, direito inviolável de propriedade, liber-
dade individual, liberdade de expressão, federalismo, independência entre os Três
Poderes, limitação na participação política popular e repressão contra movimentos
de massa;
� Esquerda (reformista e revolucionária): para os comunistas, a saída para a crise
capitalista era o fim da propriedade privada e a construção de uma sociedade igua-
litária. Ficavam entre a defesa da revolução radical e a construção de uma alian-
ça entre setores democráticos e progressistas. Em 1934, socialistas, nacionalistas
e comunistas acabaram convergindo na formação da Aliança Nacional Libertadora
(ANL). Suas principais bandeiras eram o antifascismo, a crítica aos latifundiários e a
crítica ao capital financeiro e estrangeiro;
� Fascismo: organizados sob a Ação Integralista Brasileira (AIB), a ideologia integralis-
ta misturava nacionalismo, civismo, corporativismo, anticomunismo e antiliberalis-
mo, que deveriam ser conduzidos por um Estado forte. Possuíam forte inspiração
nos movimento nazifascistas europeus.

Integralistas reunidos.
Fonte: Toda Matéria.

74
Em 1932, eclodiu a Revolução Constitucionalista de 1932. A tensão teve início com
a nomeação do coronel João Alberto (pernambucano, tenentista e de esquerda), cau-
sando a ira dos paulistas, organizados sob Frente Única Paulista (junção do PRP com o
Partido Democrático). Com a pressão, Vargas acabou nomeando Pedro de Toledo (pau-
lista e civil). A intenção de acalmar os ânimos foi por água abaixo com a depredação do
Diário Carioca (crítico do Governo Provisório), o que levou ao acirramento dos ânimos
entre liberais e tenentistas.
A visita do ministro Osvaldo Aranha foi vista como uma provocação pelos liberais.
Em 23 de maio, a tentativa de tomar de assalto o Partido Popular Paulista (PPP) acabou
com a morte de Martins, Miragaia, Dráuzio e Camargo. Suas iniciais, MMDC, deram
nome à sociedade secreta criada para derrubar Vargas. A revolta explodiu em 9 de
julho, durou quase 3 meses e terminou com a rendição de São Paulo em 3 de outubro.

Cartaz convocando os paulistas a lutarem na Revolução Constitucionalista de 1932.


Fonte: Wikimedia Commons.

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FGV – 2023)

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


I. Como marco do fim do governo provisório, em 16 de julho de 1934, foi estabelecida uma
nova constituição brasileira pelo presidente Getúlio Vargas. Dentre as demais determina-
ções, ficou estabelecido que “A entrada de imigrantes no território nacional sofrerá as res-
trições necessárias à garantia da integração étnica e capacidade física e civil do imigrante”.
Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil de 1934, Art.121, § 6.
II. Esta decisão foi resultado da consulta aos médicos que dias antes publicaram o seguinte
parecer: “Poderia esta comissão desenvolver argumentos demonstrativos da inconveniên-
cia da imigração síria, principalmente no ponto de vista da sua fraca aptidão como agricul-
tores. Também pelo fato da poderosa unidade moral e religiosa exibida por este grupo”.
Jornal do Comercio, Rio de Janeiro, 04 de julho de 1934. Adaptado.

75
As afirmativas a seguir caracterizam corretamente as posições do governo de Getúlio
Vargas sobre a questão da imigração referidas nos textos I e II, à exceção de uma.

Assinale-a.

a) O discurso médico-sanitarista era um dos critérios que embasava a seleção imigratória


preocupada com a dimensão racial da composição da nacionalidade brasileira.
b) A preferência era por imigrantes de nações consideradas portadoras de valores associa-
dos ao processo civilizatório e ao progresso econômico.
c) O perfil do cidadão brasileiro era moldado de acordo com critérios raciais em função dos
quais hierarquizavam-se os imigrantes estrangeiros.
d) A regulamentação da imigração era influenciada por uma cultura médica propensa à
imposição de critérios seletivos para imigração.
e) A nova mestiçagem operaria um branqueamento pela mescla biológica de nacionais com
imigrantes professos em religiões tradicionais, como islamismo,catolicismo e judaísmo.
Os fragmentos citados não abordam a noção de “branqueamento” ou a mistura biológica entre
cidadãos nacionais e imigrantes de crenças tradicionais. O segundo texto destaca a “poderosa
unidade moral e religiosa” como um aspecto desfavorável, indicando uma inclinação para a aco-
lhida de imigrantes que não compartilham dessas religiões tradicionais. Resposta: Letra E.

2. (VUNESP – 2015) Em março de 1988, o modelo sindical levado por Lindolfo Collor para
o Ministério do Trabalho completou 57 anos de idade. Em todos estes anos foi olhado
com suspeita pelos empresários e com bastante desconfiança pelos grupos socialistas,
comunistas e pela esquerda em geral. Atribuía-se sua criação, na década de 30, à influên-
cia das doutrinas autoritárias e fascistas então na moda.
(Letícia Bicalho Canêdo. A classe operária vai ao sindicato, 1988.)

Entre as características do modelo citado no texto, sobressaíam

a) o direito de greve e a valorização da luta de classes.


b) a unicidade sindical por categoria e o corporativismo.
c) a liberdade de organização sindical e a conscientização política dos trabalhadores.
d) o predomínio de lideranças de esquerda e a autonomia de atuação dos sindicatos.
e) o controle governamental e a sindicalização obrigatória dos trabalhadores.
O trecho em análise discute a política sindical implementada durante o governo de Getúlio
Vargas. Dentro de um contexto corporativista, a intenção do governo Vargas era que o Estado
atuasse como mediador entre empregadores e empregados, com o objetivo de prevenir greves e
manifestações. Isso levou ao desenvolvimento de um modelo de sindicalismo vinculado ao Esta-
do, por meio do qual Vargas procurou ampliar progressivamente seu domínio sobre os sindicatos
e a classe trabalhadora. Resposta: Letra B.

76
GOVERNO CONSTITUCIONAL (1934-1937) E A CONSTITUIÇÃO DE 1934

A Constituição de 1934 possui suma relevância para o constitucionalismo brasilei-


ro, e principalmente, para o movimento feminista, que sempre lutou pelo seu direito
de voto. Nesse aspecto, dois anos antes de sua promulgação, o Decreto nº 21.076, de
1932, que criou a Justiça Eleitoral, concedeu às mulheres o direito ao voto. Além disso,
também foram adotadas outras medidas, tais como:
� maior poder ao Governo Federal;
� voto obrigatório e secreto a partir dos 18 anos, estendendo-se às mulheres, mas
ainda restringindo mendigos e analfabetos;
� criação da Justiça Eleitoral e da Justiça do Trabalho;
� criação de leis trabalhistas, instituindo jornada de trabalho de 8 horas diárias, repou-
so semanal e férias remuneradas;
� previsão do mandado de segurança e ação popular.
Essa Carta sofreu três emendas em dezembro de 1935, com a finalidade de reforçar
a segurança do Estado e as atribuições do Poder Executivo, para coibir, segundo o tex-
to, “movimento subversivo das instituições políticas e sociais”.
Para a redação de uma nova Constituição, houve a formação de uma Assembleia
Constituinte, que se reuniu entre 1933 e 1934. Mesmo aprovando o aumento dos pode-
res da União, sobretudo no campo da legislação econômica e social, frente aos estados,
o princípio federalista foi mantido.
O voto passaria a ser obrigatório e secreto, mas continuava proibido aos analfa-
betos. Houve a criação da Justiça do Trabalho, do salário mínimo, da jornada de oito
horas diárias e das férias anuais, que acabaram demorando em ser implementadas. O
governo foi derrotado com a aprovação da pluralidade sindical. Vargas foi confirmado
como presidente pelo voto indireto com mandato até 1938, quando deveriam ocorrer
novas eleições.
No entanto, a Intentona Comunista, iniciada em julho de 1935, acabou mudando os
rumos. Prestes divulgou um manifesto pedindo a derrubada de Vargas e defendendo
todo poder à Aliança Nacional Libertadora. Getúlio respondeu suspendendo as ativi-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


dades da ANL. No final de novembro de 1935, vários quartéis se rebelaram em Natal,
Recife e no Rio de Janeiro, mas acabaram derrotados.
A repressão foi intensa, com prisões, deportações, proibição do Partido Comunis-
ta Brasileiro (PCB) e declaração de “estado de guerra” pelo governo. Ainda em 1935, o
governo instituiu o Tribunal de Segurança Nacional para realizar julgamentos rápidos,
praticamente sem direito de defesa. Na prática, a Constituição de 1934 estava suspensa.
Em 1937, aproveitando-se do clima de agitação, o governo alegou ter descoberto um
documento que provava um plano de tomada do poder pelos comunistas, denominado
Plano Cohen. Essa falsificação serviu de pretexto para que Vargas fechasse o Congresso
e suspendesse a constituição, dando início à ditadura, chamada de Estado Novo.

77
Cerimônia de queima das bandeiras estaduais em 1937, dias após o golpe do Estado Novo.

Fonte: Blog Futebol e Diplomática.

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FCC – 2018) Conforme o Decreto nº 22.621, de 5/4/1933, a Assembleia Constituinte
que iria debater a nova Constituição brasileira deveria ser composta por 214 deputados
eleitos na forma da lei eleitoral vigente desde 1932, e mais 40 representantes classistas
eleitos pelos sindicatos legalmente reconhecidos pelo Ministério do Trabalho. Esta com-
posição pode ser compreendida como fruto da convivência

a) da concepção oligárquica, que valorizava um sistema eleitoral herdado da Primeira Repú-


blica, e de uma perspectiva socialista de participação popular, baseada na eleição de repre-
sentantes dos partidos estaduais e de delegados escolhidos por sindicatos operários.
b) dos princípios da democracia, entre os quais figurava a representação do indivíduo pelo
voto concedido aos candidatos a deputados, e do poder político da maçonaria, que determi-
nava aqueles que seriam os representantes correspondentes em cada classe profissional.
c) dos princípios do fascismo, como a defesa da estatização da representação popular por
intermédio de um partido único, e da concepção anarco- sindicalista, que estabelecia o
princípio do voto coletivo para escolha de delegados sindicais.
d) da concepção liberal, que estabelecia o princípio de representação do indivíduo pelo
voto, e do princípio corporativista que entendia a sociedade como um corpo composto
majoritariamente por grupos ligados ao mundo do trabalho e da produção econômica.
e) da concepção republicana, que postulava a escolha da constituição e a representação do
indivíduo por meio de eleições diretas, e do princípio keynesiano que entendia a socieda-
de como um organismo livre composto por indivíduos autorrepresentados.
O princípio corporativista sustentava que cada segmento trabalhista possuía interesses clara-
mente delineados e consistentes internamente; ou seja, via cada coletivo dentro do “universo do
trabalho e produção” como portador de um consenso unânime, numa unidade coletiva. Dessa
forma, era comum a expectativa de que as demandas de todos os trabalhadores de uma certa
área fossem representadas por um único delegado, silenciando conflitos laborais em nome da

78
ordem. Logo, a prática de atribuir uma representação singular a cada grupo não só validava a
relevância de sua classe social, mas também neutralizava as divergências internas, fortalecendo
o poder regulatório do Estado sobre a força de trabalho. Resposta: Letra D.

2. (FCC – 2015) A Constituição Federal brasileira de 1934, que tratou pela primeira vez no
Brasil de Direito de Trabalho (art.121), ao garantir a liberdade sindical, isonomia salarial
e outros direitos ao trabalhador, foi influenciada

a) pela doutrina marxista soviética.


b) pelo anarco-coletivismo social.
c) pela ideologia socialista alemã.
d) pelo constitucionalismo social.
e) pela ideologia europeia.
O constitucionalismo social, doutrina que defende a atuação estatal na economia e na sociedade
com o objetivo de assegurar direitos trabalhistas e sociais, refletiu-se diretamente na Constitui-
ção de 1934. Essa Constituição, ao assegurar direitos como a liberdade sindical, a isonomia de
salários e outras garantias laborais, incorporou os preceitos do constitucionalismo social. Logo,
é acertado dizer que a Constituição de 1934 foi moldada sob a influência do constitucionalismo
social. Resposta: Letra D.

REFERÊNCIAS

CAPELATO, M. H. O Estado Novo: o que trouxe de novo. In: FERREIRA, J.; DELGADO, L.
(Org.). O Brasil republicano 2: o tempo do nacional-estatismo. Rio de Janeiro: Civili-
zação Brasileira, 2010. p. 113-153.
FAUSTO, B. História do Brasil. 14ª ed. atual. e ampl., 3ª reimp. São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 2019.
FAUSTO, S. Modernização pela via democrática. In: FAUSTO, B. História do Brasil.
14ª ed. atual. e ampl., 3ª reimp. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo,
2019.
GOMES, A. C.; FERREIRA, J. Brasil, 1945-1964: uma democracia representativa em con-
solidação. Locus: Revista de História, [S. l.], v. 24, n. 2, 2023. Disponível em: https://

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


[Link]/index. php/locus/article/view/20880. Acesso em: 21 ago. 2023.
PANDOLFI, D. C. Os anos de 1930: as incertezas de um regime. In: FERREIRA, J.; DEL-
GADO, L. (Org.). O Brasil republicano 2: o tempo do nacional-estatismo. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. p. 13-37.
SCHWARCZ, L. M.; STARLING, H. M. M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia
das Letras, 2018.
VIANNA, M. A. O PCB, a ANL e as insurreições de novembro de 1935. In: FERREIRA, J.;
DELGADO, L. (Org.). O Brasil republicano 2: o tempo do nacional-estatismo. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. p. 67-122.

79
O ESTADO NOVO (1937–1945)

A GUINADA AUTORITÁRIA E A CONSTITUIÇÃO DE 1937; AS REFORMAS


INSTITUCIONAIS: O BRASIL SEGUNDO VARGAS
No dia 10 de novembro de 1937, tropas da polícia militar cercaram o Congresso e impediram a
entrada dos congressistas. O ministro da Guerra — general Dutra — se opusera a que a operação
fosse realizada por forças do exército. À noite, Getúlio anunciou uma nova fase da política e a
entrada em vigor de uma Carta constitucional elaborada por Francisco Campos. Era o início do
Estado Novo. (Fausto, 2019, p. 311)

Em 10 de novembro de 1937, houve a revogação da Constituição de 1934; Getúlio


dissolveu o Congresso e outorgou ao país por conta própria a Carta Constitucional do
Estado Novo, inspirado no fascismo. Suprimiu-se a existência dos partidos políticos e
concentrou-se o poder nas mãos do chefe supremo do Executivo, causando uma inse-
gurança jurídica por completo nos cidadãos. A data de sua outorga foi 10 de novembro
de 1937. Algumas medidas foram instituídas.

� Instituição da pena de morte;


� Supressão da liberdade partidária e da liberdade de imprensa;
� Anulação da independência dos poderes Legislativo e Judiciário;
� Restrição das prerrogativas do Congresso Nacional;
� Permissão para suspensão da imunidade parlamentar;
� Prisão e exílio de opositores do governo;
� Eleição indireta para presidente da República, com mandato de seis anos.

A fonte que Vargas usou como inspiração para o golpe do Estado Novo era encontra-
da na Segunda Guerra Mundial; porém, com a derrota do Eixo neste mesmo contexto
combativo, o nazifascismo entrou em crise e o Brasil acabou recebendo os estilha-
ços dessa derrota. Assim, o então presidente da época tentou resistir, porém a rea-
ção popular, com apoio das Forças Armadas, foi capaz de encaminhar que houvesse
a deposição do presidente e atribuição do poder ao presidente do Supremo Tribunal
Federal (STF) vigente à época, José Linhares, em 29 de outubro de 1945.
Assim, o novo presidente, para consertar a desordem, constituiu outro ministério,
e revogou o art. 167, da Constituição, que adotava o estado de emergência, acabando
também com o Tribunal de Segurança Constitucional. No final do ano de 1945, as elei-
ções realizadas para a Presidência da República deram vitória ao general Eurico Gaspar
Dutra, que foi empossado em 31 de outubro de 1946, governando o país por meio de
decretos-leis, enquanto uma nova Constituição era confeccionada.

80
Vargas foi o único civil a comandar uma ditadura no Brasil. Esse regime, que tocava
as orlas do fascismo europeu5, teve como base a leitura de alguns pensadores conser-
vadores, como Alberto Torres, que defendia a ideia de que era responsabilidade do
Estado organizar a sociedade, realizar mudanças no país e dar um propósito à nação
(Schwarcz; Starling, 2018). Uma das sugestões apresentadas consistia na implementa-
ção de controle social por meio da presença de um Estado poderoso liderado por um
indivíduo carismático, com a habilidade de guiar as massas em direção à estabilidade
(Capelato, 2010).
Durante o período do Estado Novo de Vargas, que ocorreu entre 1937 e 1945, houve
uma forte presença de autoritarismo, centralização de poder, restrição das liberdades
civis e políticas, censura à imprensa e perseguição política.
Vargas também implementou princípios trabalhistas, com políticas voltadas para os
direitos dos trabalhadores. Um exemplo disso foi a criação da Consolidação das Leis
do Trabalho, em 1943, que estabeleceu direitos e garantias para os empregados, refle-
tindo sua tentativa de conciliar o controle estatal com uma abordagem favorável aos
interesses trabalhistas. Além disso, Vargas impulsionou a industrialização e exerceu
controle sobre a economia, buscando consolidar um Estado forte com base em sua
liderança carismática.
Após enfrentar intensa pressão, em 28 de fevereiro Getúlio Vargas anunciou que
eleições seriam realizadas em um prazo de 90 dias. Em 2 de dezembro de 1945, ocor-
reriam as eleições para a presidência da República, e em 6 de maio de 1946, para os
governos estaduais. Vargas declarou que não seria candidato, mas foi durante seu
governo que surgiu a candidatura de Dutra, então ministro da Guerra. O principal opo-
sitor seria Eduardo Gomes (Schwarcz; Starling, 2018; Fausto, B., 2019).

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FCC – 2018) No debate historiográfico, vários autores sustentam a tese de que, apesar
de autoritário e repressivo, o Estado Novo brasileiro não pode ser considerado tipicamen-
te fascista, pois lhe faltava

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


a) um movimento miliciano controlado pelas Forças Armadas, uma polícia política organi-
zada e uma política expansionista.
b) um partido de massas oficial organizado em nível nacional, o investimento na forma-
ção de milícias paramilitares e uma política colonialista ou imperialista sobre os outros
países.
c) uma política ostensiva de propaganda de massas, uma constituição autoritária e o con-
trole do Estado pelos altos oficiais do Exército.
d) uma ideologia nacionalista, um partido único e centralizador e o uso do terror de Estado
contra os oponentes.
5 Apesar disso, não deve ser considerado um regime fascista.

81
e) um ditador com amplos poderes, a instalação de campos clandestinos de concentração
e o uso da censura sistemática nos meios de comunicação.
O regime do Estado Novo, apesar de seu caráter autoritário, não se apoiava em um partido polí-
tico de grande escala com organização em todo o território nacional. O partido governista da
época, o PSD, não compartilhava da mesma infraestrutura e capacidade de mobilização popular
característica dos partidos fascistas da Europa. Ademais, o Estado Novo não promoveu a criação
de milícias paramilitares, elemento associado aos regimes fascistas. Resposta: Letra B.

2. (VUNESP – 2022) Tão visivelmente defeituosa era a prática do nosso sistema repre-
sentativo que os estadistas, legisladores e escritores políticos do Império e da Primeira
República costumavam atribuir-lhe a principal responsabilidade pelos males do regime.
[…] Com semelhante visão dos problemas políticos brasileiros, é muito explicável que o
aperfeiçoamento da legislação eleitoral tenha sido um dos mais eficientes slogans da
campanha de que resultou a Revolução de 1930.
(Victor Nunes Leal. Coronelismo, enxada e voto, 1976. p. 240-241)

Os governos de Getúlio Vargas, de 1930 a 1945, procuraram responder a essa questão do


regime representativo

a) ampliando o direito ao sufrágio à grande massa de trabalhadores imigrantes das


indústrias.
b) restringindo o número de candidatos às casas legislativas por meio do sufrágio universal.
c) suspendendo a eleição para presidente da República após a adoção constitucional do
voto secreto.
d) qualificando o voto popular por meio da concessão de direitos civis aos operários urbanos.
e) generalizando as consultas plebiscitárias nos casos de reformas políticas mais relevantes.
A formulação da alternativa apresenta-se confusa, estabelecendo conexões pouco evidentes. O
Código Eleitoral de 1932 destacou-se por ser o primeiro marco legal a instituir o voto secreto
no Brasil, uma mudança significativa em relação ao anterior sistema de voto aberto, que era
suscetível a pressões durante as eleições. A Constituição de 1934 consolidou essa mudança, inte-
grando o voto secreto ao conjunto de normas constitucionais. Entretanto, durante a transição
do Governo Provisório (1930-1934) para o Governo Constitucional (1934-1937), a Constituição
estipulava a realização de uma eleição indireta para presidente, na qual Getúlio Vargas saiu
vitorioso. Após esse mandato, esperava-se a realização de eleições diretas para presidente. Con-
tudo, em 1937, Vargas instaurou um golpe de Estado, anulando a Constituição e interrompendo
o processo democrático no país, assumindo o controle sem a existência de partidos políticos, sem
Parlamento e com poderes ditatoriais. Portanto, é impreciso afirmar que a questão da represen-
tatividade seria resolvida com a suspensão das eleições presidenciais, visto que tal suspensão
resultou de uma quebra institucional. A opção que a banca identificou como correta apresenta
falhas significativas, contudo, é a mais acertada dentre as opções fornecidas. Resposta: Letra C.

82
ECONOMIA NA ERA VARGAS: DO CAFÉ À INDÚSTRIA

Embora Vargas agisse habilidosamente, com o intuito de aumentar o próprio poder,


não foi somente sua atuação que gerou o Estado Novo. Pelo menos três elementos
convergiam para sua criação: a defesa de um Estado forte por parte dos cafeicultores,
que dependiam dele para manter os preços do café; os industriais, que seguiam a
mesma linha de defesa dos cafeicultores, já que o crescimento das indústrias dependia
da proteção estatal; as oligarquias e a classe média urbana, que se assustavam com
a expansão da esquerda e julgavam que para “manter a ordem” era necessário um
governo forte.
Além disso, Vargas tinha também o apoio dos militares. Durante o período, foram
implacáveis o autoritarismo, a censura, a repressão policial e política e a perseguição
daqueles que fossem considerados inimigos do Estado.
Em termos práticos, o governo do Estado Novo funcionou da seguinte maneira:

� O poder político concentrava-se todo nas mãos do presidente da República;


� O Congresso Nacional, as Assembleias Estaduais e as Câmaras Municipais foram
fechadas;
� Houve o fechamento de todos os partidos políticos;
� O sistema judiciário ficou subordinado ao Poder Executivo;
� Os Estados eram governados por interventores nomeados por Vargas, os quais, por
sua vez, nomeavam os prefeitos municipais;
� A Polícia Especial (PE) e as polícias estaduais adquiriram total liberdade de ação,
prendendo, torturando e assassinando qualquer pessoa suspeita de se opor ao
governo;
� A propaganda pela imprensa e pelo rádio foi largamente usada pelo governo, por
meio do Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP). O DIP era incansável tan-
to na censura quanto na propaganda, voltada para todos os setores da sociedade,
como operários, estudantes, classe média, crianças e militares. Procurava-se, assim,
formar uma “ideologia estadonovista” que fosse aceita pelas diversas camadas
sociais, por grupos profissionais e intelectuais. Cabia também ao DIP o preparo das
gigantescas manifestações operárias, particularmente no dia 1º de maio, quando os

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


trabalhadores, além de comemorarem o Dia do Trabalho, prestavam uma homena-
gem a Vargas, apelidado de “o pai dos pobres”.

83
Propaganda veiculada durante o Estado Novo.

Fonte: Indagação.

Com a criação do Departamento Administrativo do Serviço Público (DASP), além de


centralizar a reforma administrativa, o governo tinha poderes para elaborar o orça-
mento dos órgãos públicos e controlar a execução orçamentária deles. Com a criação
do DASP e do Conselho Nacional de Economia, não só a atuação administrativa e eco-
nômica do governo passou a ser muito mais efetiva, como também aumentou conside-
ravelmente o poder do Estado.
A cafeicultura foi convenientemente defendida, a exportação agrícola foi diversifi-
cada, a dívida externa foi congelada, a indústria cresceu rapidamente, a mineração
de ferro e carvão expandiu e a legislação trabalhista foi consolidada com a adoção da
Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
As principais empresas estatais criadas no período foram: CSN — Companhia Side-
rúrgica Nacional (1940); Companhia Vale do Rio Doce (1942); CNA — Companhia nacio-
nal de Álcalis (1943); FNM — Fábrica Nacional de Motores (1943) e CHESF — Companhia
Hidroelétrica do São Francisco (1945).
O antigetulismo tentava apontar para a contradição de um regime ditatorial que
lutava por democracia ao lado dos aliados na Europa. A pressão política acabou por
levar o governo a aprovar o Ato Adicional nº 9, que previa a realização de eleições e a
liberdade partidária. Entre abril e julho de 1945, o Partido Comunista Brasileiro voltou
a funcionar, e foram fundados a União Democrática Nacional (UDN), o Partido Traba-
lhista Brasileiro (PTB) e o Partido Social Democrático (PSD).

84
O debate sobre a possibilidade de Vargas concorrer às eleições foi bastante tenso;
quando ele nomeou seu irmão Benjamin Vargas para a chefia da Polícia do Distrito
Federal, a oposição e o Alto Comando do Exército não aceitaram. Todavia, sem maiores
resistências, Getúlio aceitou a deposição em 29 de outubro de 1945.
Na ausência de Congresso, José Linhares, presidente do STF, dirigiu o país até a pos-
se do eleito Eurico Gaspar Dutra em 31 de janeiro de 1946. Vargas seguia, mesmo de
sua fazenda em São Borja (RS), uma liderança importante. Não à toa, voltaria ao Palácio
do Catete através do voto em 1951.

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2019) Em termos econômicos, o Estado Novo (1937-45) caracterizou-se

a) pela política da privatização de empresas ligadas aos serviços urbanos, como o abaste-
cimento de água.
b) pela adoção de um nacionalismo extremado por meio do qual se proibiu a entrada de
capitais estrangeiros no país.
c) pelo forte intervencionismo estatal com a criação de conselhos regulatórios, como o
Conselho Nacional do Petróleo.
d) pela aplicação de medidas liberais, tais como o congelamento dos salários para evitar o
aumento da inflação.
e) pela redução do deficit público com o corte de gastos em algumas áreas sociais, como
a educação.
O estabelecimento do Conselho Nacional do Petróleo em 1938 marcou um momento crucial para
a escolha do Brasil pelo modelo de desenvolvimento com forte presença do Estado. Foi nesse
contexto que o Estado tomou medidas decisivas para regular e definir direções para diversos
segmentos da economia nacional, priorizando a energia como um dos campos estratégicos
fundamentais. Essa visão estratégica representou uma significativa conquista dos militares na
implementação de um intervencionismo estatal sólido, um traço marcante do nacional-desenvol-
vimentismo no Brasil. Resposta: Letra C.

2. (VUNESP – 2018) Leia o texto para responder à questão.

De 1889/1890, começo da República, até 1930-1940 mais ou menos, a indústria e as HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL
cidades apresentaram determinadas características.
A atividade industrial, sempre crescente, era conduzida fundamentalmente no interior de
empresas de pequeno e médio porte, ainda que as grandes fábricas existentes concen-
trassem o maior número de operários e a maior quantidade de capital, sendo responsá-
veis também pela maior parte da produção industrial. [...] Apenas a partir das décadas
de 1940 e 1950 as indústrias de bens de consumo duráveis e bens de capital desenvol-
veram-se de modo significativo.
(Maria Auxiliadora Guzzo de Decca. Indústria e trabalho no Brasil, 1991.)

85
O texto divide a industrialização brasileira em dois ciclos distintos. O primeiro deles
caracteriza-se

a) pelo esforço de atendimento à demanda externa provocada pela desindustrialização nor-


te-americana durante a Primeira Guerra Mundial.
b) pelo avanço maior da industrialização no Sudeste e no Nordeste, que dependeu de capi-
tais deslocados da produção de café e de cana.
c) pela valorização da livre iniciativa empresarial, estimulada pelas campanhas industrialis-
tas e de renúncia fiscal do governo brasileiro.
d) pelo investimento prioritário na produção de aço, com o desenvolvimento de uma tecno-
logia industrial autônoma.
e) pelo desenvolvimento maior das indústrias têxtil e alimentícia, com o prevalecimento de
capital nacional.
Durante o primeiro surto industrial do país, a estratégia adotada foi a de substituir importações,
uma necessidade que se tornou evidente quando, durante a Primeira Guerra Mundial, o Brasil
se viu privado da possibilidade de importar bens manufaturados da Europa. Com isso, houve
um foco particular no desenvolvimento da produção nacional de itens como tecidos de algodão,
sapatos, materiais de construção, mobiliário e alimentos. Resposta: Letra E.

O POPULISMO VARGUISTA E AS GRANDES REFORMAS

Durante o processo de deposição de Vargas do poder, em 1945, cresceu entre as


camadas populares um movimento conhecido como “queremista”. Ele pretendia pre-
servar as conquistas trabalhistas obtidas sob o Estado Novo por meio da manutenção
de Vargas, desde que ele se comprometesse a conduzir a reabertura democrática e a
promulgação de uma nova constituição. Essa intenção não se converteu em realidade.
No entanto, a resolução das questões trabalhistas por meio da política, com forte
apelo às reformas sociais, ganhou corpo com a fundação do Partido Trabalhista Brasi-
leiro (PTB) que, até a sua extinção, em 1965, tinha em seu programa um forte apelo às
classes trabalhadoras e à defesa de reformas sociais, como a reforma agrária.
Esse forte apelo popular de líderes de massa carismáticos ganhou o nome de popu-
lismo, prática política na qual um governo se baseia na propaganda, na adesão maciça
da população ao poder de um líder e a certas pautas reformistas. O conceito de popu-
lismo acabou sendo usado menos de forma acadêmica e mais de forma política pelos
opositores de figuras como Getúlio Vargas.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FGV – 2023) A ascensão de movimentos populistas no cenário político contemporâneo
reativou o debate sobre o conceito e a história do populismo no Brasil. Mas o populismo
não é unívoco: é um fenômeno amplo, ao qual foram associadas diversas definições.

86
As afirmativas a seguir reconstituem corretamente diversas abordagens conceituais ao
fenômeno do populismo, à exceção de uma. Assinale-a.

a) A abordagem econômica enfatiza o crescimento da economia na gestão de líderes populistas


em função da competição agressiva em um livre mercado capaz de regular a vida produtiva.
b) A abordagem pautada na teoria da modernização define o populismo como um fenô-
meno de transição entre a sociedade tradicional, rural e agrária, e a sociedade moderna,
urbana e industrial.
c) A abordagem inserida na teoria das relações sociais identifica o populismo como uma
convergência entre a repressão estatal e a manipulação política das massas.
d) A abordagem discursiva considera o populismo como uma narrativa política que enfatiza
a disputa entre dois grupos antagônicos: o povo “puro” e a elite“corrupta”.
e) A abordagem do populismo como estratégia política busca entender como um ator polí-
tico obtém o apoio do cidadão comum, seja ele um partido ou um político individual.
A política econômica do populismo não se alinha com a competição acirrada de um mercado
aberto. De fato, é mais comum que o populismo econômico esteja ligado a medidas de gasto
público e redistribuição de renda, frequentemente sustentadas por endividamento ou inflação,
em detrimento da competição mercadológica. Tais medidas são empregadas para conquistar o
apoio popular, muitas vezes comprometendo a estabilidade econômica a longo prazo. Logo, a
alternativa A falha em representar adequadamente a política econômica associada ao populis-
mo. Resposta: Letra A.

BRASIL E A SEGUNDA GUERRA MUNDIAL

No início da Segunda Guerra Mundial, em 1939, o governo de Vargas ensaiou uma


neutralidade para negociar tanto com os Aliados quanto com o Eixo, conseguindo finan-
ciamento dos Estados Unidos para a construção da usina siderúrgica de Volta Redonda
e trocas comerciais com a Alemanha.
Apesar da neutralidade de Getúlio, que esperava o desenrolar do conflito para deter-
minar apoio ao provável vencedor, em seu governo havia grupos divididos e definidos
sobre quem apoiar: Oswaldo Aranha, que era ministro das Relações Exteriores, era
favorável aos Estados Unidos, enquanto os generais Gaspar Dutra e Góis Monteiro

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


eram favoráveis ao nazismo.

Emblema utilizado pela Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial.

Fonte: Wikimedia Commons.

87
Com a entrada dos Estados Unidos na guerra, em 1941, e o torpedeamento de vários
navios mercantes brasileiros, o país entra em guerra ao lado dos aliados em agos-
to de 1942. A saída de Lourival Fontes, Filinto Müller e Francisco Campos, defensores
da aliança com os alemães, marcou a tomada de decisão. Em 1944, foram mandados
25.000 soldados da Força Expedicionária Brasileira (FEB) para a Itália, marcando a par-
ticipação do Brasil no conflito.

POLÍTICA EXTERNA NA ERA VARGAS

Durante a Era Vargas, que abrangeu os períodos de 1930-1945 e 1951-1954, a polí-


tica externa do Brasil passou por uma fase de intensa transformação e definição de
novos rumos. Vargas adotou uma postura de fortalecimento da soberania nacional e
de busca por um desenvolvimento econômico autônomo. A política externa varguista
foi marcada por um pragmatismo realista; o Brasil procurou estabelecer relações inter-
nacionais que favorecessem seus interesses econômicos e políticos.
O objetivo era abrir mercados para os produtos brasileiros, estimular a produção
interna e diversificar as exportações. Esse movimento ganhou força especialmente após
a Crise de 1929, que impôs limitações ao comércio internacional e incentivou políticas
de autarquia em diversos países. Apesar das limitações de um país ainda dependente
de exportações primárias, principalmente o café, o Brasil buscou formas de coopera-
ção e barganhas que atendessem a um interesse nacional mais abrangente.
O período também foi marcado por uma aproximação com os Estados Unidos, refle-
tindo uma mudança de eixo nas relações exteriores do Brasil, que anteriormente tinha
a Grã-Bretanha como principal aliado. Essa nova orientação se alinhou com a política
de boa vizinhança promovida pelos EUA, que buscava fortalecer os laços com os países
da América Latina. A política externa de Vargas, portanto, equilibrou a necessidade de
manter relações amistosas com os Estados Unidos e a busca por uma maior autonomia
nas decisões internacionais.
Durante a Segunda Guerra Mundial, a posição do Brasil foi inicialmente de neutrali-
dade, mas com o avanço do conflito e a pressão dos Aliados, especialmente dos Esta-
dos Unidos, o Brasil se alinhou com os países contra o Eixo. A participação do Brasil no
conflito foi marcada pelo envio da Força Expedicionária Brasileira (FEB) para combater
na Itália, o que representou um momento significativo na história militar do país e
reforçou a aliança com os Estados Unidos.

O PÓS-GUERRA E A CRISE FINAL DO ESTADO NOVO

O período pós-Segunda Guerra Mundial no Brasil foi marcado por uma série de
transformações políticas, sociais e econômicas que redefiniram o curso da nação. Com
o fim do conflito global, o Brasil emergiu com uma nova postura no cenário internacio-
nal, buscando uma posição de maior relevância e alinhamento com os Estados Unidos,
que se consolidaram como uma superpotência.

88
A guerra havia impulsionado a industrialização e o desenvolvimento econômico,
mas também deixou desafios, como a necessidade de reestruturação e a gestão das
consequências sociais do conflito.
No âmbito interno, o fim da guerra coincidiu com o declínio do Estado Novo, o regi-
me ditatorial de Getúlio Vargas que vigorou de 1937 a 1945. A participação do Brasil
ao lado dos Aliados contra as potências do Eixo foi um fator que contribuiu para a
crise final desse regime. A contradição entre lutar contra o totalitarismo no exterior e
manter uma ditadura em casa tornou-se insustentável, alimentando movimentos pela
redemocratização.
A crise do Estado Novo se agravou com a pressão por mudanças democráticas, tanto
de setores internos quanto de aliados externos. A situação contraditória do Brasil na
guerra, aliada à crescente insatisfação popular e à mobilização de grupos opositores,
culminou na queda de Vargas em 1945. Esse evento abriu caminho para a redemocra-
tização do país e para a promulgação de uma nova Constituição em 1946, marcando o
início da Quarta República ou “República Populista”.
Economicamente, o Brasil pós-guerra enfrentou o desafio de consolidar o proces-
so de industrialização iniciado durante o conflito. O desenvolvimentismo tornou-se a
palavra de ordem, e o país buscou capital externo para gerar empregos e fortalecer sua
indústria. No entanto, essa fase também foi caracterizada por turbulências políticas,
com a presença de diversos grupos ideológicos disputando a direção do país.
A crise final do Estado Novo e o período subsequente foram fundamentais para a
formação da identidade política e econômica do Brasil moderno. As lições aprendidas
com a participação na guerra e o processo de redemocratização moldaram as políticas
internas e externas do país nas décadas seguintes, estabelecendo as bases para o Bra-
sil contemporâneo.

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2021) O Estado Novo foi arquitetado como um Estado autoritário e moderni-
zador que deveria durar muitos anos. No entanto, seu tempo de vida acabou sendo curto,

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


pois não chegou a oito anos. Os problemas do regime resultaram mais da inserção do
Brasil no quadro das relações internacionais do que das condições políticas internas do
país.
(Boris Fausto, História concisa do Brasil)

No contexto apresentado no excerto, o “quadro das relações internacionais” refere-se à

a) demissão de parte do ministério de Vargas quando, em meio à Segunda Guerra, o gover-


no ditatorial estabeleceu um acordo com o Eixo, permitindo que esse bloco usasse o
espaço marítimo do Brasil.

89
b) pressão diplomática da Argentina para que o Estado brasileiro aderisse às forças alia-
das, declarasse guerra aos países do Eixo e mandasse tropas para libertar o Norte da
África das forças nazistas.
c) deliberação da I Conferência Internacional de Estados Americanos determinando, apesar
da discordância do Brasil, que todas as nações da América deveriam se manter neutras
na Segunda Guerra.
d) entrada do Brasil na Segunda Guerra, ao lado dos Aliados, provocando ação de oposito-
res, que começaram a explorar a contradição entre a ditadura Vargas e o apoio do gover-
no brasileiro às democracias.
A adesão do Brasil ao conflito mundial em agosto de 1942, lutando ao lado das nações demo-
cráticas, revelou uma incoerência flagrante na política interna do país: embora o Estado Novo,
estabelecido em 1937, tivesse raízes em princípios autoritários e inspirações fascistas, em 1942
o país entrou na guerra contra as potências do Eixo, alinhando-se com as democracias liberais.
Enquanto reprimia dissidentes, impunha censura e mantinha um governo de partido único, o
Estado Novo igualmente se juntava ao esforço bélico, aliando-se aos combatentes antifascistas
na guerra, o que era contraditório. Resposta: Letra D.

2. (VUNESP – 2019) No início da guerra, Getúlio Vargas manteve o Brasil neutro e conservou
relações comerciais tanto com os alemães como com os norte-americanos. Aos poucos,
no entanto, foi se tornando cada vez mais difícil para o Brasil manter a neutralidade.
(Alfredo Boulos Júnior, História: sociedade & cidadania, 9º ano)

A respeito da participação brasileira na Segunda Guerra Mundial, é correto afirmar que

a) se condicionou a participação do Brasil na guerra contra o Eixo ao perdão da dívida com


a Alemanha.
b) pressionado pela França e pela Inglaterra, o Brasil rompeu relações diplomáticas com a
Alemanha, mas não mobilizou tropas.
c) rompidas as relações diplomáticas com o Japão, a participação da Marinha brasileira foi
decisiva nas batalhas do Atlântico.
d) se declarou guerra ao Eixo e houve o envio da Força Expedicionária Brasileira (FEB) para
a Itália.
e) foi fundamental a pressão exercida pela Argentina, que exigiu que o Brasil declarasse
guerra contra os Aliados.
Seguindo intensas negociações com os aliados, o Brasil montou uma operação de guerra, envian-
do tropas de solo e unidades aéreas para o front. A Força Expedicionária Brasileira foi instituída
em agosto de 1943, e suas primeiras divisões desembarcaram na Itália um ano depois, lutando
até a capitulação do regime fascista italiano. Resposta: Letra D.

90
3. (VUNESP – 2022) Embora o argumento do pêndulo possa ter servido como elemento
secundário de convencimento no processo decisório junto a funcionários em Washing-
ton, o mais plausível é, uma vez mais, a explicação pelo cálculo estratégico: tendo em
vista a alta possibilidade de envolvimento dos Estados Unidos na guerra, seria útil atrair
o Brasil como principal ponto de sustentação político-diplomática no hemisfério sul.
(Rubens Ricupero. A diplomacia na construção do Brasil – 1750-2016, 2017. p. 329 - 330)

O texto alude à política exterior do governo de Getúlio Vargas durante o Estado Novo
(1939-1945). A grave tensão ideológica e militar em grande parte dos anos de 1930
poderia favorecer uma atitude “pendular” do governo brasileiro entre a Alemanha e os
Estados Unidos da América.

No final, a aliança com os Estados Unidos

a) favoreceu o projeto do Estado brasileiro de proteger o preço dos produtos manufatura-


dos exportados.
b) aboliu a tradição brasileira de oposição à hegemonia norte-americana na América.
c) pressupôs formalmente a democratização da política brasileira.
d) decorreu da condenação pública do regime nazista pelo governo brasileiro.
e) implicou o financiamento norte-americano da indústria de base no Brasil.
O Brasil utilizou algumas moedas de troca com os Estados Unidos para confirmar o apoio aos
EUA durante a guerra. A pressão do contexto bélico favoreceu as solicitações do Brasil, levando
os Estados Unidos a concordar com um acordo de assistência técnica e financeira para a criação
da Companhia Siderúrgica Nacional, um marco essencial no projeto de desenvolvimento do país.
Resposta: Letra E.

REPÚBLICA LIBERAL (1945–1964)

A REDEMOCRATIZAÇÃO NA REPÚBLICA LIBERAL E A CONSTITUIÇÃO DE 1946;


POLÍTICA E ECONOMIA NA REPÚBLICA LIBERAL

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Em 1945, ocorreram as eleições no Brasil, com a participação de três partidos que
disputaram o voto do povo (Gomes; Ferreira, 2023).
A União Democrática Nacional (UDN), que surgiu no início de 1945 como um movi-
mento contra a ditadura do Estado Novo, defendia a candidatura do brigadeiro Eduar-
do Gomes.
O Partido Social Democrático (PSD), por sua vez, buscava associar-se à herança polí-
tica de Vargas, embora tenha sido oposição nas eleições, sem conspirar contra a figura
de Vargas.

91
Já o Partido Trabalhista Brasileiro (PTB) era o partido de Vargas, e seu candidato foi
Dutra. Conforme Gomes e Ferreira (2023):
PSD e PTB surgiram sob a égide do getulismo, enquanto a UDN tinha perfil radicalmente antigetu-
lista e antitrabalhista. (Gomes; Ferreira, 2023, p. 261)

Dutra, ex-ministro de Vargas, recebeu o apoio do ex-presidente Vargas em 28 de


novembro. Nas eleições, Eduardo Gomes foi surpreendido pela vitória de Dutra, que
obteve 55% dos votos, contra 35% de Gomes.
Vargas foi eleito senador pelo Rio Grande do Sul e por São Paulo, além de deputado
em sete estados. Na época, era possível candidatar-se dessa forma. Ele assumiu como
senador pelo PSD do Rio Grande do Sul.
Dutra tomou posse em 1946 e, em 18 de setembro do mesmo ano, foi promulgada
a nova Constituição brasileira, que se distanciava da Carta de Vargas de 1937. Esta
Constituição retomou a linha democrática de 1934 após as deliberações do Congresso
recém-eleito, que assumiu as tarefas de Assembleia Nacional Constituinte.
Entre as medidas adotadas, restabeleceu-se os direitos individuais, e colocou-se fim
à censura e à pena de morte. Além disso, a Carta também devolveu a independência ao
Executivo, Legislativo e Judiciário, restaurando o equilíbrio entre tais Poderes, além de
conceder autonomia aos estados e municípios. Também houve a instituição das elei-
ções diretas para presidente da República, com a fixação do mandato em cinco anos.
Além disso, as demais normas estabelecidas por essa Constituição foram:

� incorporação da Justiça do Trabalho e do Tribunal Federal de Recursos ao Poder


Judiciário;
� pluralidade partidária;
� direito de greve e livre associação sindical;
� condicionamento do uso da propriedade ao bem-estar social, possibilitando a desa-
propriação por interesse social.

Destarte, também se destaca as emendas promulgadas à Carta de 1946, o chamado


“ato adicional”, de 2 de setembro de 1961, que instituiu o regime parlamentarista, com
a motivação da crise político-militar após a renúncia de Jânio Quadros, presidente do
país no ano de promulgação do ato.
Assim, como essa emenda previa que houvesse uma consulta popular posterior-
mente, foi realizado um referendo em 2 de janeiro de 1963, momento no qual houve a
retomada do regime presidencialista, escolhido pela população, restaurando, portan-
to, os poderes tradicionais conferidos ao presidente da República.
O governo Dutra pode ser caracterizado, do ponto de vista da política econômica,
como seguidor de uma abordagem liberal, condenando a intervenção estatal e abolin-
do os controles estabelecidos pelo Estado Novo (Fausto, B., 2019).

92
A segunda eleição presidencial ocorreu em outubro de 1950 e, nesse caso, vê-se o desenho de uma
crise política que se inicia quando da apresentação das candidaturas, mas não cessa durante o
governo do eleito. Isso porque Getúlio Vargas se lançou candidato pela coligação do PTB com o Par-
tido Social Progressista (PSP), retomando em sua campanha o discurso trabalhista e nacionalista
construído após 1942, no Estado Novo. A promessa era dar curso ao projeto nacional-desenvolvi-
mentista e estender a política de benefícios sociais aos trabalhadores. (Gomes; Ferreira, 2023, p.
267)

A oposição a Vargas foi liderada pela UDN, novamente com a candidatura do bri-
gadeiro Eduardo Gomes. O PSD também apresentou um candidato, mas, ao perceber
que suas chances eram mínimas, decidiu apoiar a candidatura de Vargas. Com 48,73%
dos votos, Vargas foi eleito presidente da República, enquanto Eduardo Gomes obte-
ve 29,66% dos votos. Os derrotados tentaram invalidar as eleições, mas seus planos
foram frustrados. Vargas assumiu a presidência (Gomes; Ferreira, 2023).
Em seu primeiro mandato em um regime democrático, eleito pelo povo, Vargas
enfrentou dificuldades para manter-se no poder, com uma oposição forte. Ele conser-
vou um discurso semelhante ao dos governos anteriores, enfatizando o nacionalismo
e o trabalhismo.
Na oposição, destacava-se Jânio Quadros, que baseou sua campanha no populismo.
Diante das pressões, Vargas tomou uma medida desesperada ao aumentar os salários
em 100%. No entanto, as pressões continuaram e, em um último ato, Vargas cumpriu
sua promessa — “só morto deixo o Catete”. Em 24 de agosto, ele cometeu suicídio no
Palácio do Catete (Fausto, B., 2019).
Em frente ao Catete, cerca de 1 milhão de pessoas tentavam ver o corpo de Getúlio; muita gente
chorava compulsivamente, outros desmaiavam, e havia quem, ao entrar na sala onde ocorria o
velório, se agarrasse ao caixão […]. O suicídio de Vargas frustrou a oposição, que, desnorteada, viu
escapar a oportunidade de acirrar a crise, desmoralizar o presidente com a renúncia e abrir cami-
nho para o golpe militar. (Schwarcz; Starling, 2018, p. 411)

O PSD foi o primeiro partido a lançar um candidato nas eleições: Juscelino Kubits-
chek. Um mês depois, a UDN lançou Juarez Távora como candidato. No dia 3 de outubro
de 1955, Juscelino estava na liderança, com 36% dos votos. João Goulart fez campanhas

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


contra a posse de JK, mas não obteve sucesso.
Em 31 de janeiro de 1956, Juscelino tomou posse como presidente. Comparado ao
governo de Vargas, seu mandato foi marcado por tranquilidade e estabilidade política.
Durante seu governo, foi construída a cidade de Brasília. Em 1960, ocorreram novas
eleições, e dessa vez Jânio Quadros saiu vitorioso em outubro. Ele foi o primeiro presi-
dente da República a tomar posse em Brasília (Fausto, B., 2019).

93
EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2022) As eleições de 1945 despertaram um grande interesse na população.
Depois de anos de ditadura, a Justiça Eleitoral ainda não ajustara o processo de recepção
e contagem de votos. Pacientemente, os brasileiros formaram longas filas para votar.
Nas últimas eleições diretas à presidência da República, em março de 1930, tinham vota-
do 1,9 milhão de eleitores, representando 5,7% da população total; em dezembro de 1945
votaram 6,2 milhões, representando 13,4% da população.
Em uma época em que não existiam pesquisas eleitorais, a oposição foi surpreendida
pela nítida vitória de Dutra. Tomando-se como base de cálculo os votos dados aos can-
didatos, com exclusão dos nulos e brancos, o general venceu com 55% dos votos contra
35% atribuídos ao brigadeiro [Eduardo Gomes].
(Boris Fausto, História do Brasil)

Para Boris Fausto, a vitória eleitoral de Dutra teve relação com a

a) expressiva participação das mulheres no processo eleitoral e na fragilidade dos progra-


mas de governo dos demais candidatos.
b) inabilidade do PTB, que defendeu durante a campanha eleitoral a extinção do salário
mínimo, e ao forte apoio do empresariado paulista.
c) decisiva votação recebida em todos os estados do Norte-Nordeste e o importante apoio
recebido do Partido Comunista do Brasil.
d) capacidade da UDN em mostrar os malefícios causados no país pelo Estado Novo e pela
considerável adesão das classes médias urbanas.
e) força da máquina eleitoral montada pelo PSD a partir dos interventores estaduais e o
prestígio de Getúlio Vargas entre os trabalhadores.
De acordo com Boris Fausto, a vitória de Dutra nas eleições foi viabilizada pela combinação da
estrutura eleitoral organizada pelo PSD e pelo endosso pessoal de Getúlio Vargas ao marechal
Dutra. O historiador aponta que as classes populares brasileiras mantinham afeição por Vargas
e rejeitavam candidatos de perfil mais conservador e elitista. Essa dinâmica é o que justifica a
eleição de Dutra, que obteve 55% dos votos, superando os 35% alcançados por Eduardo Gomes,
o representante da UDN. Resposta: Letra E.

2. (VUNESP – 2018) Ainda hoje, as interpretações mais difundidas, embora reconheçam a


inequívoca vocação democrática da Constituição de 1946, sublinham suas limitações e
sua incidência sobre aquilo que consideram ser a fragilidade da experiência democrática
brasileira nesse período.
(Schwarcz, L. M.; Starling, H. M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015. Adaptado)

94
Entre as limitações citadas no trecho, é correto identificar

a) a exclusão do voto feminino.


b) a manutenção do voto censitário.
c) a proibição de manifestações de rua.
d) a inexistência do direito ao habeas corpus.
e) a exclusão do direito de voto aos analfabetos.
A Constituição de 1946 vedava o sufrágio aos analfabetos (um segmento substancial da popula-
ção adulta brasileira), aos militares não oficiais, aos indigentes e aos indivíduos destituídos de
direitos políticos. Resposta: Letra E.

3. (FGV – 2019) Sobre o Segundo Governo Vargas (1950-1954), assinale a afirmativa


correta.

a) Foi marcado pelo desenvolvimentismo internacionalista, sinalizando um recuo à implan-


tação de monopólios estatais.
b) Transcorreu de forma democrática, sujeito à crítica aberta dos movimentos sindicais.
c) Foi um momento de retrocesso da cidadania, manifesto no controle governamental dos
sindicatos.
d) Foi marcado pela proibição do direito de greve.
e) Caracterizou-se pela criação da lei trabalhista, seguindo o modelo da Carta do Trabalho
de Mussolini.
Já não era possível para Getúlio Vargas governar com as mesmas práticas autoritárias do Esta-
do Novo. Ao longo de sua gestão, enfrentou uma série de críticas vindas de segmentos liberais,
incluindo a mídia e os militares, bem como de grupos associados à classe operária, como os sindi-
catos. O segundo mandato de Getúlio (1951-1954) faz parte do que é conhecido como “experiência
democrática”, uma fase que se estendeu de 1945 a 1964. Resposta: Letra B.

O NACIONAL-DESENVOLVIMENTISMO E AS GRANDES TRANSFORMAÇÕES:


INDUSTRIALIZAÇÃO E URBANIZAÇÃO NA REPÚBLICA LIBERAL

O Nacional-Desenvolvimentismo foi uma política econômica adotada no Brasil, prin-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


cipalmente nas décadas de 1950 e 1960, que visava promover o crescimento econô-
mico por meio da industrialização e da modernização da infraestrutura. Esse modelo
buscava superar a dualidade econômica do país, dividido entre uma parte “atrasada”
e outra em desenvolvimento, e tinha como objetivo a construção de uma sociedade
cultural e politicamente moderna.
A industrialização, sob o Nacional-Desenvolvimentismo, era vista como a chave para
a modernização do Brasil. O Estado assumiu um papel central nesse processo, lideran-
do o desenvolvimento e articulando grupos sociais conflitantes. O nacionalismo, nesse
contexto, significava a afirmação de um Estado que definisse as fronteiras e as institui-
ções do mercado nacional.

95
Durante a República Liberal, que se estendeu de 1945 a 1964, o Brasil experimentou
grandes transformações em sua estrutura econômica e social. A industrialização avan-
çou significativamente, com a criação de indústrias de base e a expansão do parque
industrial, especialmente nas regiões Sudeste e Sul. Esse processo foi acompanhado
por uma intensa urbanização, com o crescimento das cidades e a migração do campo
para as áreas urbanas.
A urbanização brasileira, impulsionada pela industrialização, transformou o espaço
geográfico e a dinâmica social do país. As cidades tornaram-se centros de oportunida-
des econômicas, atraindo um grande número de migrantes rurais. Isso resultou em um
êxodo rural massivo e na formação de grandes aglomerações urbanas, principalmente
nas regiões mais industrializadas.
O Nacional-Desenvolvimentismo e as políticas de industrialização e urbanização
durante a República Liberal tiveram um impacto profundo no Brasil. Essas políticas
contribuíram para a integração do país na nova ordem econômica mundial e estabele-
ceram as bases para o desenvolvimento econômico e social nas décadas seguintes. O
legado dessas transformações ainda é sentido no Brasil contemporâneo.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC -2019) As políticas desenvolvimentistas dos anos 1950, levadas a cabo sobretudo
nos governos de Getúlio Vargas e de Juscelino Kubitschek, acabaram por gerar dois efei-
tos colaterais em termos socioeconômicos, perceptíveis entre o fim dos anos 1950 e a
década de 1960, tais como:

a) o aumento dos índices de pobreza causado pela superexploração dos trabalhadores, e a


diminuição da classe operária, uma vez que foram efetivados projetos de empreendedo-
rismo rural.
b) o incremento de impostos e tributos, devido aos custos demandados para se construir
Brasília, e a devastação da Amazônia setentrional com vistas à ocupação demográfica e
à exploração agrícola.
c) a intensificação da desigualdade inter-regional, causada pela concentração de investi-
mentos no centro-sul, e o aumento da migração interna, principalmente do Nordeste para
o Sudeste do país.
d) a crise do agronegócio monopolista, por causa da política de financiamento ao pequeno
produtor, e a favelização da periferia das grandes cidades,acompanhando a instalação
de grandes parques industriais.
e) a erradicação do analfabetismo, resultante de políticas nacionais de alfabetização,
e a urbanização do Centro-Oeste, em virtude da abertura de estradas e núcleos de
povoamento.

96
Durante o desenvolvimentismo, observou-se um foco de investimentos na região centro-sul do
Brasil, fator que agravou as disparidades entre as regiões. Paralelamente, a procura por condi-
ções de trabalho mais favoráveis resultou em um crescimento da migração interna, notadamente
do Nordeste em direção ao Sudeste. Resposta: Letra C.

A CRISE FINAL DA REPÚBLICA LIBERAL E O GOLPE DE 1964

Após assumir a presidência, ficou evidente que Jânio Quadros era habilidoso em
conquistar votos, mas enfrentava dificuldades em administrar o país e lidar com a polí-
tica. Ele entrou em conflito com o Congresso, com o vice-presidente Jango e com a
imprensa. Em 25 de agosto de 1961, apenas alguns meses após tomar posse, Jânio
convocou os ministros militares e anunciou sua renúncia no palácio. A renúncia nunca
foi devidamente explicada à população brasileira. Seu vice-presidente, João Goulart,
assumiu o cargo em 7 de setembro de 1961 (Schwarcz; Starling, 2018).
As próximas eleições democráticas estavam programadas para ocorrer em 1965.
No entanto, em 19 de março de 1964, em São Paulo, ocorreu a Marcha da Família com
Deus pela Liberdade, que reuniu cerca de 500 mil pessoas. Essa marcha demonstrou
aos defensores de um golpe que havia uma base social de apoio significativa.
O último ato de Jango foi perigoso, ao discursar no Rio de Janeiro em uma assem-
bleia de sargentos, enquanto o golpe já estava em andamento. O general Olímpio Mou-
rão Filho precipitou o então presidente e, em 31 de março, seguiu com tropas de Juiz de
Fora para o Rio de Janeiro. Em 1º de abril, o cargo de presidente da República foi decla-
rado vago. Brizola tentou mobilizar tropas e a população, mas não obteve resultados.
O Brasil vivia o fim da experiência democrática (Fausto, B., 2019).

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2018) Observe a imagem a seguir.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL

97
Essa fotografia foi tirada em 1961, na posse de Jânio Quadros na presidência da Repúbli-
ca, e mostra João Goulart, recém-eleito vice-presidente; Jânio Quadros,discursando com
a faixa presidencial; Juscelino Kubitschek, antecessor de Jânio na presidência.

A imagem registra um momento marcante da vida política nacional, pois

a) a posse de Jânio Quadros representou a ascensão de um programa reformista e nacio-


nal- desenvolvimentista ao poder.
b) a sucessão de Juscelino inaugurou um período marcado pelo crescimento econômico e
pela estabilidade política.
c) Jango, Jânio e Juscelino foram aliados na implementação de uma agenda economica-
mente liberal e socialmente conservadora.
d) apenas muito tempo depois um presidente civil, eleito pelo voto popular, tornaria a entre-
gar a faixa ao seu sucessor.
e) as três lideranças políticas retratadas na imagem foram parte importante da articulação
do golpe civil-militar de 1964.
O evento em questão foi uma reunião entre três presidentes civis, ocorrida antes de o Brasil
entrar no período do Regime Militar (1964-1985).
Apenas com a conclusão desse regime é que o país teve a oportunidade de voltar a eleger direta-
mente seu chefe de Estado, visto que, durante o governo militar, os presidentes eram escolhidos
por meio de eleições indiretas. Resposta: Letra D.

2. (FGV – 2019) As “Marchas da Família com Deus pela Liberdade” ocorreram em várias
cidades brasileiras, motivadas pelo comício do presidente João Goulart anunciando seu
programa de reformas de base, em 13 de março de 1964, no Rio de Janeiro.

As “Marchas da Família com Deus pela Liberdade” caracterizaram-se pelo

a) anticomunismo, presente nas classes médias urbanas.


b) nacionalismo, típico das esquerdas revolucionárias.
c) liberalismo, representativo das democracias cristãs.
d) socialismo, presente nos setores estudantis.
e) militarismo, apoiado na doutrina de segurança nacional.
As “Marchas da Família com Deus pela Liberdade” consistiram em uma sequência de manifesta-
ções ocorridas nas grandes metrópoles do Brasil, em oposição à “ameaça do comunismo”. Pro-
movidos por integrantes do clero e organizações femininas, tais como a União Cívica Feminina,
esses atos foram uma reação ao comício que aconteceu no Rio de Janeiro em 13 de março de 1964,
ocasião em que o presidente João Goulart divulgou seu plano de reformas estruturais. Resposta:
Letra A.

REFERÊNCIAS

FAUSTO, B. História do Brasil. São Paulo: Edusp, 2019.

98
SCHWARCZ, L. M.; STARLING, H. M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia das
Letras, 2018.

REGIME MILITAR (1964–1985)

A ESTRUTURAÇÃO DO REGIME MILITAR E A TRANSIÇÃO ATÉ 1968; ECONOMIA NO


REGIME MILITAR

Castelo Branco

Cumprindo o rito institucional, o Congresso Nacional elegeu, no dia 9 de abril de 1964,


o Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco, com 361 votos, à presidência da
república. O discurso oficial afirmava, com apoio de importantes lideranças como Jus-
celino Kubitschek e Carlos Lacerda, que os militares permaneceriam no poder apenas
por um período curto, até que a corrupção fosse extinta e o crescimento econômico
fosse retomado, gozando, assim, de grande legitimidade. Contudo, logo descobriu-se
que a intervenção de 1964 seria muito diferente das demais intervenções militares.
No dia 9 de abril de 1964, o primeiro Ato Institucional (AI-1) foi baixado, tendo sido
elaborado por Francisco Campos, simpatizante do fascismo e idealizador do Estado
Novo, e possuía validade de 2 dois anos. Esse ato previa a cassação dos direitos polí-
ticos dos cidadãos, o controle do Congresso Nacional, o decreto do estado de sítio,
assim como marcava as eleições presidenciais para o dia 3 de outubro de 1965, o que,
evidentemente, não aconteceu. Esse ato marcou as primeiras dissidências dos liberais
que apoiaram inicialmente o golpe como Lacerda e Kubitschek
A vitória da oposição liberal nas eleições de 1965 fez com que o governo planejas-
se, também, o controle do sistema eleitoral. Assim, o segundo Ato Institucional (AI-2)
tinha como finalidade evitar que a oposição ascendesse ao governo estadual de 9 esta-
dos nas eleições do ano seguinte, ao mesmo tempo que almejava criar uma fachada
democrática.
A manobra foi a seguinte: o multipartidarismo foi substituído pelo bipartidarismo,
a ARENA (Aliança Renovadora Nacional), partido governista, e o MDB (Movimento

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Democrático Brasileiro), partido oposicionista. Esse mesmo ato estabelecia eleições
indiretas para presidente, realizadas via Colégio Eleitoral. Já o terceiro Ato Institucional
(AI-3) previa eleições indiretas para os governos estaduais. A Lei da Imprensa e a Lei de
Segurança Nacional, de 1967, solaparam de vez a liberdade de expressão e quarto Ato
Institucional (AI-4) foi baixado para garantir a aprovação da nova Constituição Federal.
Na intenção de erradicar a elite política e intelectual reformista do coração do Esta-
do, o governo de Marechal Castelo Branco apelou ao uso irrestrito de Inquéritos Poli-
ciais Militares (IPMs), sendo mais de 700 processos tocados.

99
Além disso, outras 3644 pessoas receberam sanções políticas baseadas nos Atos Ins-
titucionais, o que correspondeu a 65% de todo o ocorrido dessa natureza nos 21 anos
de ditadura, e 90% das 1230 punições aos militares oposicionistas ao longo de todo o
regime foram efetuadas sob seu mando.
A economia ficou a cargo de Roberto Campos, e suas principais medidas estavam
sintetizadas no Plano de Ação Econômica do Governo (Paeg), cujas prioridades eram
a contenção da inflação, o retorno da capacidade do Estado em investir em infraestru-
tura produtiva, a reorganização das finanças públicas mediante um novo sistema tribu-
tário e, por fim, a renegociação da dívida externa a fim de alcançar novos empréstimos.
No que se refere à nova política salarial, os salários eram reajustados baseados em
um cálculo que considerava não somente a inflação dos últimos doze meses, como
também a previsão de inflação dos próximos doze meses. Assim, “como a inflação era
sistematicamente subestimada, a nova legislação provocou perda salarial sistemática,
com perversos efeitos distributivos” (LUNA; KLEIN, 2014, p. 94).
Esse arrocho salarial era visto pelo governo como um fator para a insatisfação popu-
lar e para a consequente instabilidade do novo regime; assim, em 1964, foi criado o
Banco Nacional da Habitação (BNH), mais tarde incrementado pela criação do Fundo
de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), formando uma política de financiamento
para a construção de casas populares e um fundo para o trabalhador demitido sem
justa causa. Por fim, o projeto de modernização autoritária pressupunha o controle das
organizações de trabalhadores urbanos e rurais pelo Estado, assim como a persegui-
ção de líderes sindicais.
Costa e Silva
O Marechal Artur da Costa e Silva foi o segundo militar a ocupar a presidência e,
empossado em 15 de março de 1967, pertencia ao grupo conhecido como “linha dura”,
diferentemente de seu antecessor. Além disso, implementou uma política externa mais
nacionalista e menos alinhada aos Estados Unidos.
Seu breve governo ficou marcado pela implementação do quinto Ato Institucional
(AI-5), cujo conteúdo viabilizou o terrorismo de Estado. Esse ato estabelecia a cas-
sação ampla e irrestrita de políticos e cidadãos, suspendia o habeas corpus de presos
políticos, permitia a decretação de estado de sítio sem autorização prévia mediante
a centralização excessiva do poder Executivo Federal e, por fim, a censura prévia sob
todos os meios de comunicação e sob os produtos culturais.
Médici
O terceiro presidente da ditadura foi Emílio Garrastazu Médici, o general de maior
patente entre os pré-candidatos e que também pertencia à “linha dura” palaciana. Seu
governo ficou conhecido como os “anos de chumbo”, dada à violação sistemática dos
direitos humanos. Todo cidadão era passível de ser acusado de subversivo, baseado
em uma simples suspeita, e ficando sujeito à detenção, à tortura e à morte.

100
Seu governo coincidiu, ainda, com o período do “milagre econômico”, cuja taxa de
crescimento médio foi de 10% ao ano. A maior expansão industrial ficou concentrada
— e sustentada pelos juros baixos — no setor de bens de consumo duráveis, além de
um crescimento exponencial no setor automobilístico. No campo social, contudo, a
situação não era favorável, uma vez que o arrocho salarial e a concentração de renda
não permitiram a transformação dos ganhos de produtividade dos trabalhadores.
O endividamento externo é, também, marca desse período, agravado ainda mais
pela primeira crise do petróleo, em 1971, quando os preços e os juros internacionais
cresceram vertiginosamente. O maior problema estava no financiamento das indús-
trias estatais mediante crédito de bancos privados internacionais, que, por sua vez,
possuíam taxas de juros altíssimas e flutuantes. O endividamento externo saltou de
menos de 5 bilhões de dólares em 1964 para mais de 90 bilhões de dólares em 1983;
ao mesmo tempo em que o Brasil ascendeu à condição de 10ª potência do mundo, os
indicadores de qualidade de vida o alocavam entre os últimos.

Geisel

Ernesto Beckmann Geisel firmou-se como sucessor de Médici, tornando-se o quar-


to presidente da ditadura. O novo presidente ficou responsável por uma nova fase de
institucionalização do regime, conhecida como “lenta, gradual e segura” até transição
para um poder civil.
Geisel propôs quatro objetivos estratégicos: o primeiro diz respeito ao restabeleci-
mento da profissionalização dos quadros das Forças Armadas e à redução do poder
dos “linha duras”; o segundo propunha a manutenção do controle da oposição de cen-
tro e de esquerda, além daqueles indivíduos considerados “subversivos”; o terceiro
planejava a construção de uma democracia restrita e controlada; e o quarto previa a
manutenção das elevadas taxas de crescimento, uma vez que era o principal mecanis-
mo que atribuía legitimidade ao regime frente às classes médias e empresariais.
Somava-se a isso a aproximação do governo à grande imprensa liberal. Contudo,
alguns acontecimentos provam que a tendência autoritária do regime ainda estava em
voga: com a vitória do MDB nas eleições parlamentares de 1974 e com as previsões de
que a oposição ganharia ainda mais espaço nas eleições de 1978, órgãos do governo

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


passaram a disseminar a tese de que o Partido Comunista havia se infiltrado no partido
de modo a ampliar o número de votos.
Além disso, militares de extrema direita responderam violentamente às medidas
propostas por Geisel, participando de diversos ataques terroristas, ao mesmo tempo
em que organizações anticomunistas tornavam a ganhar fôlego. Ainda em seu gover-
no, 39 opositores desapareceram e 42 foram mortos pela repressão, o Congresso foi
fechado por 15 dias e a censura foi largamente utilizada até 1976.
Em outubro de 1975, o comando do II Exército, com sede em São Paulo, noticiou que
o renomado diretor jornalístico da TV Cultura, Wladimir Herzog, havia suicidado.

101
A notícia repercutiu negativamente, uma vez que setores importantes da sociedade
descreditavam o comunicado oficial. Diante do ocorrido, o presidente, tido como mode-
rado, nada fez senão advertir o comandante do II Exército, Ednardo D’Ávila Melo.
Em 1976, outra morte tornou-se pública e comoveu a sociedade: o sindicalista Manoel
Fiel Filho apareceu morto após ser interrogado pelas forças da repressão. Somente
após forte pressão houve a demissão de D’Avila Melo pelo presidente. É importante
destacar que embora somente esses dois casos tenham repercutido de forma mais
ampla, outras centenas de denúncias eram feitas em relação às torturas.
Já em abril de 1977, o governo, prevendo a derrota do partido governista nas elei-
ções do ano seguinte, fechou o Congresso por 15 dias e editou um conjunto de medi-
das autoritárias conhecido como “Pacote de Abril”. Esse pacote, em síntese, previa a
extensão do mandato do presidente, de cinco para seis anos, eleições indiretas para
governadores de Estado e a nomeação de um terço do Senado pelo presidente. A “Lei
Falcão” foi promulgada na esteira do pacote, inviabilizando o acesso da oposição à
televisão.
O governo Geisel, por fim, marcou um avanço na industrialização pesada, sobretudo
no setor elétrico, nuclear, petroquímico e de equipamentos industriais, promovendo,
ademais, a estatização da economia. Embora tenha conseguido, em 1974, manter o
crescimento econômico, dependendo cada vez mais de quantidade vultuosa de inves-
timentos exteriores, é possível afirmar que a crise econômica efetivamente havia se
iniciado em seu governo, intercalada com períodos de crescimento, que seguiriam até
o início do governo Figueiredo.

Figueiredo

O último presidente da ditadura foi João Baptista Figueiredo, cuja promessa ao


tomar posse foi a consolidação da abertura. O último presidente não possuía a mesma
expertise política de seu antecessor e não conseguiu manter o controle do processo de
abertura.
Seu governo ficou marcado pela maior crise econômica vivida pelo país e pelo fim
do AI-5. Uma série de protestos e a emersão de novos movimentos sociais ocorreram
sob sua governança, assim como violentos ataques terroristas praticados pela extrema
direita militar, intencionando parar o processo de abertura.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC – 2018) Os Atos Institucionais editados e promulgados ao longo do Regime Mili-
tar brasileiro, além de versarem sobre vários temas específicos, foram fundamentais ao
conferirem um fundamento normativo a uma marca política do regime, qual seja

102
a) o estabelecimento da censura prévia aos meios de comunicação, automática ao se
declarar Estado de Sítio permanente no país.
b) a militarização do Estado, por meio da nomeação de generais interventores nos três
poderes republicanos e da obrigatoriedade do Poder Executivo ser ocupado por um mili-
tar de carreira.
c) o reforço dos poderes do Presidente, que poderia exercer uma tutela sobre os poderes da
República, sobre os direitos dos cidadãos, além de assumir funções legislativas.
d) o fim do Congresso Nacional, com a supressão de suas atividades políticas e a promul-
gação de lei que condenava os partidos de oposição à ilegalidade.
e) o fortalecimento do Poder Legislativo, que tornou possível a proibição das atividades
públicas e políticas dos cidadãos , ao decretar o fim do direito ao habeas corpus.
Os Atos Institucionais, particularmente o AI-5, ampliaram as prerrogativas do presidente da
República, concedendo-lhe a capacidade de intervir em outros poderes, suspender direitos polí-
ticos, decretar o fechamento do Congresso Nacional, legislar através de decreto-lei, entre outras
ações. Essa concentração de poder no Executivo destacou-se como um dos traços marcantes do
regime militar no Brasil. Resposta: Letra C.

CONSTITUIÇÃO DE 1967 E AS MODIFICAÇÕES DE 1969

A Constituição da Ditadura Militar tinha o propósito de institucionalizar o novo regi-


me, e seu texto basicamente era a reunião dos diversos Atos Institucionais estabele-
cidos até 1967. De modo geral, concedia amplos poderes às Forças Armadas, como
suspender direitos políticos, cassar mandatos legislativos, interferir nos estados da
federação, determinar eleições indiretas para governadores e prefeitos e instituir o
bipartidarismo.
A época era marcada pelo autoritarismo e pela política da chamada segurança nacio-
nal, que tinha como objetivo combater inimigos do regime dentro do país, chamados
de subversivos. Instaurado em 1964, o regime militar manteve o Congresso Nacional,
mas dominava e controlava o Legislativo. Assim, o Executivo mandou ao Congresso
uma nova proposta de Constituição, que foi aceita pelos parlamentares e promulgada
no dia 24 de janeiro de 1967.
Ainda nesse viés, sobre essa dada promulgação, muitos historiadores questionam e

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


consideram uma “falsa” promulgação, uma vez que a promulgação ocorreria de qual-
quer forma, posto que o poderio militar estava controlando diretamente o Poder Legis-
lativo, ou seja, se fôssemos considerar o viés impeditivo, poderia ser considerada como
outorgada.
Essa Constituição era mais sintetizada do que a antecessora; porém, manteve a for-
ma de Estado como Federação, expandindo a União, e adotando a eleição indireta para
presidente da República, por meio de Colégio Eleitoral formado pelos integrantes do
Congresso e delegados indicados pelas Assembleias Legislativas. Outras mudanças
também foram realizadas no Judiciário, suspendendo as garantias dos magistrados.

103
Este texto constituinte ainda sofreu emendas sucessivas por meio da expedição dos
atos institucionais (AIs), que serviram de mecanismos de legitimação e legalização das
ações políticas dos militares, dando a eles poderes que excediam a Constituição.
Assim, do ano de 1964 até 1969, foram decretados 17 atos institucionais, que eram
regulamentados por 104 atos complementares. Nesse sentido, como forma de ilustra-
ção, um deles, o AI-5, de 13 de dezembro de 1968, funcionou como um instrumento
que deu origem ao regime de poderes absolutos, com a primeira consequência atin-
gindo o Congresso Nacional, que foi fechado por quase um ano e, posteriormente, o
recesso dos mandatos de senadores, deputados e vereadores, que passaram a receber
somente a parte fixa de seus subsídios.
Em outubro de 1969, estando o Congresso fechado desde a implementação do Ato
Institucional nº 5 (AI-5), a Junta Militar impôs uma emenda constitucional reformando
o texto de 1967; dentre as alterações, constavam a implementação da pena de morte, o
banimento, a ampliação do estado de sítio de 60 para 180 dias ou tempo indetermina-
do, assim como a determinação de novas limitações ao exercício dos direitos políticos,
liberdade de cátedra e expressão artística.
Outras medidas desse mesmo AI-5 devem ser mencionadas, tais como:

� suspensão de qualquer reunião de cunho político;


� censura aos meios de comunicação, estendendo-se à música, ao teatro e ao cinema;
� suspensão do habeas corpus para os chamados crimes políticos;
� decretação do estado de sítio pelo presidente da República em qualquer dos casos
previstos na Constituição;
� autorização para intervenção em estados e municípios.

Mais do que a Constituição de 1937, a Carta de 1967, 30 anos depois, foi capaz de
aumentar a insegurança, mais uma vez, causando muitas lesões sociais, econômicas e
culturais, gerando impactos que repercutiram durante anos em na sociedade.

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FCC – 2022) Após o início do Regime Militar no Brasil, a Constituição Brasileira vigente

a) sofreu a interferência de diversos Atos Institucionais, que impuseram eleições indiretas


para todos os cargos do Poder Executivo de todos os entes federativos até o fim do regi-
me e a obrigatoriedade do ensino de Educação Moral e Cívica nas escolas.
b) foi substituída por uma nova, promulgada nos primeiros anos do regime militar, que refor-
çou o controle do Poder Executivo sobre o Legislativo e o Judiciário e institucionalizou o
regime em curso.

104
c) permaneceu como a Carta Magna reconhecida pelos juristas até o fim do regime e quan-
do, já sob o governo de José Sarney, foi convocada uma nova assembleia constituinte,
responsável pela elaboração da Constituição de 1988.
d) foi suspensa devido à decretação de Estado de Exceção uma vez que os militares enten-
diam que uma guerra contra o comunismo se fazia urgente e, naquele contexto, o Estado
democrático de direito não poderia ser garantido.
e) sofreu adaptações através de Emendas e Atos institucionais durante todo o regime, no
intuito de alinhar o Brasil à Aliança para o Progresso, campanha anticomunista empreendi-
da pelos Estados Unidos, que exerceram grande interferência na política interna nacional.
A Constituição de 1967 representou o marco legal fundamental da ditadura militar no Brasil,
marcando o término da República Liberal (1945-1964) e estabelecendo as bases jurídicas do novo
governo. O documento incorporou e legitimou as principais normas dos primeiros quatro atos
institucionais e ampliou a doutrina de segurança nacional, concedendo poderes extensivos à
União e ao Poder Executivo sob a justificativa de proteger a segurança nacional. De acordo com
esse pensamento, era imprescindível reforçar o poder central para assegurar a defesa do Brasil
contra a “subversão” interna e prevenir ameaças de intervenção externa, especialmente o “peri-
go” do avanço comunista nas Américas. Assim, a Constituição enfraqueceu o Poder Legislativo
e favoreceu o poder central, intensificando a autoridade autocrática do estado. Adicionalmen-
te, foram realizadas várias reformas no Judiciário para diminuir o poder das instituições que
tinham maior potencial de interferir e influenciar o Executivo, afetando até a composição do
Supremo Tribunal Federal. Resposta: Letra B.

2. (VUNESP – 2024) Após definido o projeto político a ser seguido pelo Governo, Geisel e
sua equipe ministerial elaboraram as principais metas da política econômica expostas
no II Plano Nacional de Desenvolvimento (II PND), que entrou em vigor em 1974.
Durante o período de elaboração do II PND, o Presidente explicou que os planos de seu
governo se voltavam para o desenvolvimento e que seria impossível para o país alcançar
a modernização sem a presença impulsionadora do governo federal.
(Karina C. Brotherhood. A política nacional-desenvolvimentista de Geisel [...]. Disponível em: [Link]
Acesso em 28.02.2024. Adaptado)

A política econômica abordada pelo texto tinha como parte de suas finalidades

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


a) promover o crescimento econômico por intermédio do capital nacional, aproveitando a
baixa nos preços do petróleo no mercado internacional da época.
b) reduzir a dívida externa do Brasil, em razão da determinação do Fundo Monetário Inter-
nacional (FMI), quando da negociação de mais créditos junto ao órgão.
c) aprofundar as atividades tecnológicas com países do bloco capitalista, buscando rom-
per relações comerciais com países do bloco socialista, tais como a China.
d) buscar alternativas para o problema energético, por meio do fomento à pesquisa de
petróleo e outras fontes, a exemplo do programa nuclear e do álcool.
e) aumentar a competitividade de estatais de áreas estratégicas para a economia do país,
por meio da privatização, como ocorreu com a Companhia Vale do Rio Doce.

105
A estratégia econômica do governo Geisel estava direcionada à busca de soluções para a crise
energética do Brasil, com o objetivo de assegurar a autossuficiência energética e minimizar a
dependência do país em relação a recursos energéticos estrangeiros. Essa iniciativa ganhou espe-
cial importância diante da escalada dos preços do petróleo no mercado global. Resposta: Letra D.

3. (FGV – 2023) “Durante a ditadura, os operários da Volkswagen sofreram com contenção


salarial, perda de direitos e práticas repressivas. Em uma época em que o Brasil era líder
mundial de acidentes de trabalho, eles também eram recorrentes nas fábricas da mon-
tadora. Só no primeiro semestre de 1970, operários relataram a morte de cinco trabalha-
dores na unidade de São Bernardo por acidentes de trabalho. Isso consta em panfleto
apreendido pela empresa e encaminhado ao DEOPS. Além de repassar panfletos como
o mencionado, o órgão da empresa elaborava fichas dos seus funcionários que traziam
dados como período em que atuou na empresa e atividades políticas desempenhadas
pelo trabalhador, como engajamento no sindicato, empenho em greves e distribuição
de panfletos. É interessante notar como na Volkswagen - a exemplo de outras várias
empresas -, os agentes responsáveis pela segurança interna e pela vigilância sobre os
operários era militares deformação. Assim, em 1970, o major Ademar Rudge era chefe da
segurança industrial da empresa e recebeu um agente do DEOPS na fábrica, entregando-
-lhe documentos com relatos sobre as atividades políticas dos seus funcionários”.
Adaptado de SILVA, M., CAMPOS, P., COSTA, A. A Volkswagen e a ditadura, in Revista Brasileira de História, 89, 2022.

Assinale a afirmativa que descreve corretamente as relações entre desenvolvimento


capitalista, relações trabalhistas e a ditadura brasileira, com base no trecho.

a) A colaboração entre a companhia automotiva e os agentes da ditadura é um exemplo do


apoio de setores empresariais ao golpe.
b) A elevada ocorrência de acidentes de trabalho na fábrica indica a decadência do sistema
produtivo da indústria automobilística nos anos 1970.
c) As estratégias de vigilância e punição dentro da fábrica eram executadas por militares da
ativa, a mando do governo, para proteger o parque industrial de ataques subversivos.
d) A atuação dos órgãos de repressão se dava de forma centralizada, vinculada Ministério
do Exército.
e) A instalação da indústria alemã Volkswagen no Brasil nos anos 1970 foi facilitada pelo gover-
no brasileiro, em troca da colaboração da montadora com o sistema repressivo vigente.
O excerto apresentado pela questão insere-se em um conjunto de estudos históricos que têm
como foco central a análise do envolvimento de corporações e empresários como apoiadores
financeiros, ideológicos e até repressivos durante a Ditadura Civil-Militar. Para diversos estudio-
sos, essa conexão entre o setor empresarial e o governo autoritário justifica a denominação de
Ditadura Empresarial-Civil-Militar para o período, refletindo a parceria entre essas entidades e
o regime. Resposta: Letra A.

106
REFORMAS ADMINISTRATIVAS, INVESTIMENTOS E REFORMAS PÚBLICAS NO
REGIME MILITAR: O BRASIL POTÊNCIA; A ORDEM E O PROCESSO DE ABERTURA
POLÍTICA NO REGIME MILITAR; POLÍTICA EXTERNA DO REGIME MILITAR

Reforma Agrária

A questão agrária, que há tempos vinha se arrastando no Brasil e foi fator importan-
te na queda de Jango, também começou a ser rediscutida ainda no começo do governo
militar. Assim, o ministro Roberto Campos apresentou uma proposta do Estatuto da
Terra baseada em três aspectos: primeiro, a tributação progressiva da propriedade,
levando-se em consideração seu tamanho e produtividade; o segundo previa a desa-
propriação mediante indenização para o caso de terras improdutivas; terceiro, a colo-
nização de terras ociosas.
Em outubro de 1964, o texto foi enviado para a apreciação do Congresso. Contudo,
tratava-se de um texto bastante diferente do que fora apresentado ao público dias
antes, o que refletia conflitos de interesses.
A principal alteração estava relacionada à descentralização do aspecto fiscal da refor-
ma agrária proposta pelo governo, uma vez que o mecanismo de tributação progressi-
va ficaria a cargo dos governos estaduais. Nesse sentido, o conflito mais claro era entre
a perspectiva modernizante defendida pelos militares, em detrimento à perspectiva
conservadora dos grandes proprietários e por membros da UDN. A queda de braço
entre o governo e as elites regionais resultou na derrota do primeiro e na impossibili-
dade de se implementar o projeto de modernização do campo.

O Golpe Civil-Militar de 1964 e a Doutrina de Segurança Nacional e Desenvolvimento

O tempo de disputas institucionais e nas ruas em torno da implementação das refor-


mas de base propostas pelo presidente João Goulart foi findado com um golpe militar,
apoiado por parte expressiva da sociedade civil, no dia 31 de março de 1964.
A ditadura inaugurou 21 anos de generais na direção do Estado brasileiro, sem
nenhum tipo de alternância partidária no poder e com um alto nível de violência polí-
tica. Contudo, para entendermos melhor esse período, é preciso retornar às disputas

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


políticas em torno da aceitação ou não do varguismo.
A modernização industrial iniciada pelo nacionalista Getúlio Vargas, e sua proposta
de uma política externa mais autônoma em relação às grandes potências, levou a um
alargamento da participação política interna; os governos que o sucederam tiveram de
se equilibrar entre essa nova dinâmica interna, de grande politização, dentro de um
contexto marcado pelos fantasmas da Guerra Fria, assim como sucessivas ameaças
golpistas.
Desde o final do governo de Juscelino Kubitschek, a economia dava sinais de crise,
com a diminuição da taxa de crescimento, desequilíbrio das finanças públicas e aumen-
to da inflação, crise essa agravada pela renúncia de Jânio Quadros apenas oito meses

107
após sua posse. A tentativa fracassada de setores golpistas dentro das Forças Armadas
de impedir a posse de Goulart, principal herdeiro do varguismo, elevou a gravidade das
sucessivas crises.
Empossado, Jango não foi capaz de se equilibrar e atender às demandas dos distin-
tos grupos, e seu governo foi perdendo cada vez mais apoio popular, isolando-se em
relação ao conservadorismo institucional.
O golpe militar de 1964 foi aplaudido e auxiliado por conspiradores ligados à UDN e
aos demais setores civis antivarguistas, tendo à frente civis como Ademar de Barros,
governador de São Paulo, Carlos Lacerda, governador da Guanabara, e Magalhães
Pinto, governador das Minas Gerais. Foi apoiado também por militares anticomunis-
tas radicais, pelo núcleo ligado ao Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (Ipes), que
já colhia informações desde 1961, e pela cúpula da Igreja Católica.
O golpe civil-militar foi justificado pela Doutrina de Segurança Nacional, cujo con-
teúdo foi reiteradamente ministrado na Escola Superior de Guerra (ESG), criada em
1949, e que contou com assistência francesa e norte-americana. O objetivo da ESG era
treinar quadros de alto nível para as tarefas de direção e planejamento da segurança
nacional.
Nesse contexto, às Forças Armadas foi atribuída uma nova função, desempenhar
o papel de dirigente, diferentemente do papel de interventor transitório ocupado em
outros golpes na história recente brasileira. Assim, os militares passaram a ocupar
variadas funções políticas e administrativas, chegando a ocupar quase 30% de todos
os cargos civis do Estado em 1979.

Tanque passando pela cidade do Rio de Janeiro em 1964.

Fonte: Site Outras Palavras.

108
Além desta articulação interna, o golpe foi apoiado pelos Estados Unidos, que pre-
pararam, inclusive, uma operação militar — conhecida como Brother Sam — para caso
houvesse resistência por parte de João Goulart. Em sessão do Congresso Nacional, con-
vocada para às 2h40 de 2 de abril de 1964, o Senador Auro de Moura Andrade declara-
va vaga à presidência, muito embora Goulart ainda estivesse no Brasil.
Goulart, por sua vez, exauridas todas as possibilidades de resistir ao golpe, partiu
para o exílio no Uruguai. Apesar de tudo, uma pesquisa de opinião mostrou que Jango
gozava de amplo respaldo: 45% considerava seu governo “ótimo” ou “bom”; 49% plane-
javam reelegê-lo em 1965; e apenas 16% considerava seu governo “ruim” ou “péssimo”.

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2017) Em meados da década de 1970, as condições externas que haviam
sustentado o sucesso econômico do regime militar sofreram alterações profundas.
(Tania Regina de Luca. Indústria e trabalho na história do Brasil, 2001.)

As condições externas que embasaram o sucesso econômico do regime militar e as alterações


que sofreram em meados da década de 1970 podem ser exemplificadas,respectivamente,

a) pelos investimentos oriundos dos países do Leste europeu e pelo aumento gradual dos
preços em dólar das mercadorias importadas.
b) pela ampla disponibilidade de capitais para empréstimos a juros baixos e pelo aumento
súbito do custo de importação do petróleo.
c) pelos esforços norte-americanos de ampliar sua intervenção econômica na América
Latina e pela redução acelerada da dívida externa brasileira.
d) pela ampliação da capacidade industrial dos demais países latino-americanos e pelo
crescimento das taxas internacionais de juros.
e) pela exportação de tecnologia brasileira de informática e pela recessão econômica
enfrentada pelas principais potências do Ocidente.
Durante a Ditadura Militar no Brasil (1964–1985), a economia nacional se beneficiou de um con-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


texto internacional favorável e da obtenção de empréstimos com taxas de juros reduzidas. Isso
possibilitou que, no período do governo Médici (1969–1974), o país experimentasse o chamado
“milagre econômico” — uma fase de crescimento econômico marcada por substanciais investi-
mentos federais em áreas vitais para a economia, tais como a indústria siderúrgica, petroquími-
ca, transportes, construção naval e mineração. No entanto, essa era de prosperidade foi breve, e
a administração Geisel (1974–1979) enfrentou a decadência do “milagre econômico” e, por exten-
são, os últimos dias da ditadura militar. A transição política do regime militar começou em um
contexto desafiador, quando a crise do petróleo de 1973 levou a um súbito aumento nos custos de
importação do petróleo, abalando a economia global e, por consequência, a economia brasileira.
Resposta: Letra B.

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2. (FCC – 2018) A partir de meados da década de 1970, o combate ao regime militar acen-
tuou-se, envolvendo políticos da oposição e diversos setores da sociedade civil no rumo
da retomada democrática. Em 1978, o Ato Institucional nº 5 foi revogado, e em agosto de
1979, foi sancionada a Lei da Anistia, após manifestações populares em comícios,pas-
seatas e atos públicos. O desgaste do regime militar era visível, e as forças da oposição
política, formando uma frente suprapartidária, apresentaram, em 1983, um projeto que
mobilizou novamente a sociedade: a campanha pelas “Diretas Já”, para mudar as regras
da sucessão do general João Batista Figueiredo, com a Emenda Dante de Oliveira. Vota-
da em 26 de abril de 1984, sob forte clima de tensão, pois a base de apoio político à
ditadura ainda não se esfacelara, a Emenda

a) foi aprovada e, por isso, em 1985, Tancredo Neves foi eleito por voto popular.
b) recebeu votos contrários do PDT, que anteriormente a apoiara.
c) foi aprovada e, em seguida, vetada pelo presidente Figueiredo.
d) obteve número insignificante de votos dos deputados presentes.
e) foi rejeitada, pois não obteve a maioria necessária de dois terços dos votos.
A Emenda Dante de Oliveira não alcançou a aprovação devido à falta da maioria de dois terços
dos votos exigida. Embora tenha contado com o apoio da maioria dos congressistas, a emenda
falhou em atingir o quórum necessário para sua passagem. Resposta: Letra E.

OS MOVIMENTOS DE RESISTÊNCIA DO REGIME MILITAR E A REPRESSÃO

Os Movimentos de Oposição ao Regime Militar: Luta pela Anistia, “Diretas Já” e


Movimentos Sociais Urbanos

Os movimentos de resistência à ditadura aconteceram em diversas frentes, come-


çando pelas artes (sobretudo o teatro, a música popular e o cinema) mobilizadas em
vanguarda pelas classes médias engajadas à esquerda. Por conta da característica
heterogênea do golpe de Estado, e sendo as classes médias as principais apoiadoras
dos militares, a repressão, de início, não pôde recair sobre essa parcela contestadora,
embora fosse considerada subversiva.
Aconteceu, assim, uma politização da cultura concomitantemente ao fechamento
dos canais de representação política, e todos aqueles que desejavam ouvir suas reivin-
dicações acabavam participando das manifestações artísticas.
Assim, nesse começo, a ditadura teve de reprimir mais instituições e movimentos
culturais, sobretudo os ligados às esquerdas e ao PCB, como o Centro Popular de Cul-
tura, o Movimento de Cultura Popular de Recife e o Instituto Superior de Estudos
Brasileiros. A repressão somente recaiu sobre esses indivíduos quando a classe média
estudantil se engajou na luta armada. Ainda assim, é preciso dizer que a cultura enga-
jada foi um dos principais focos de resistência à ditadura, pelo menos até a primeira
metade da década de 1970.

110
Uma entidade civil suprapartidária também foi criada, em 1966, como forma de
resistência à ditadura. A Frente Ampla era liderada por antigos simpatizantes do gol-
pe, como Juscelino Kubitschek e Carlos Lacerda, e contou até mesmo com a adesão do
presidente deposto, João Goulart.
No que se refere às esquerdas, a radicalização do movimento estudantil era conco-
mitante à preparação e organização da luta armada. A adoção, pelo Partido Comunista
Brasileiro, da perspectiva de se adotar uma resistência pacífica à ditadura fez com que
ocorressem muitas deserções no seio do partido.
Assim, muitas figuras importantes organizaram-se em grupos guerrilheiros, sendo
os mais conhecidos Carlos Marighela, com a Ação Libertadora Nacional (ALN), e Car-
los Lamarca com o Movimento Revolucionário Oito de Outubro (MR-8). O PCdoB
também montou uma base de guerrilha na região amazônica brasileira, ao longo do rio
Araguaia. Com a guerrilha urbana praticamente extinta já no início do governo Médici,
a repressão pôde se concentrar totalmente no Araguaia, operacionalizando uma ver-
dadeira guerra que dizimou os últimos guerrilheiros do PCdoB por volta de 1975 e a
guerrilha na região amazônica brasileira, ao longo do rio Araguaia.
Já o movimento estudantil viu seu auge em engajamento em 1968. O assassinato do
secundarista Edson Luís Lima Souto pela polícia em um protesto contra o fechamento
do restaurante Calabouço gerou uma grande comoção na sociedade como um todo,
evidenciada pela presença massiva em seu cortejo fúnebre.
Na conhecida “sexta-feira sangrenta”, no dia 21 de junho, mais um confronto vio-
lento aconteceu, resultando na morte de 4 pessoas e em mais de 20 feridos à bala,
aumentando a indignação da opinião pública. Por fim, em 26 de junho, estudantes, tra-
balhadores, artistas, políticos e intelectuais reuniram-se na conhecida “Passeata dos
Cem Mil”.
A imprensa, sobretudo a alternativa, mesmo sob censura prévia e com oficiais ins-
talados dentro das redações, também procurava meios de denunciar a tortura, a cor-
rupção massiva, os erros da política econômica, o encaminhamento da guerrilha, a
cassação de políticos, entre outros.
Ademais, os novos movimentos sociais que surgiram ainda durante o auge repressor
do governo Médici protestavam contra a miséria da vida dos trabalhadores urbanos.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


O melhor exemplo está nas Comunidades Eclesiais de Base, surgidas em 1969, que
estavam ligadas à Igreja Católica, mas abrigavam um número diverso de militantes.
Finalmente, desde os primeiros meses de 1978 o movimento dos operários ganhava
força, sobretudo no ABC paulista. Em maio, milhares de metalúrgicos cruzaram os bra-
ços em sinal de protesto, ao mesmo tempo em que lideranças oriundas efetivamente
das fábricas emergiram, como Luís Inácio Lula da Silva.
Em 1979, em meio à posse de Figueiredo, uma ampla e organizada greve operária no
ABC paulista sinalizou ao governo e aos parlamentares que a população trabalhadora
estava descontente com o ritmo das discussões a respeito da abertura política e da
agenda econômica do governo.

111
Nesse sentido, o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) declarou a greve ilegal; entre-
tanto, isso não surtiu efeito na mobilização dos trabalhadores.
O novo sindicalismo, como ficou conhecido, tinha como objetivo descolar-se do sin-
dicalismo “pelego”, herança da Era Vargas, procurando ter mais independência junto
aos trabalhadores.
Golbery do Couto Silva, escolhido por Geisel como estrategista e chefe da Casa Civil,
estipulou uma agenda para a transição do poder civil, incorporando diversas reformas
políticas como a anistia política, a reorganização partidária e a eleição direta para os
governos públicos. As campanhas pela Anistia recebiam bastante atenção dos movi-
mentos pela democracia.
Em 1979, seguindo a pauta da abertura, foi promulgada uma lei que prescrevia a
maioria dos crimes políticos ocorridos entre 1964 e 1979, seja daqueles considerados
subversivos, seja pelas forças da repressão. No mesmo ano, uma nova lei extinguiu o
sistema bipartidário e estabeleceu condições para um regime pluripartidário. Nesse
ínterim, uma série de atentados terroristas ocorreu por parte dos militares contrários
à agenda da abertura.

Campanha pela Anistia.

Fonte: Departamento de Direito da PUC-Rio.

Em 1981, a política econômica de Delfim Neto colapsara e, em 1982, os partidos de


oposição conseguiram eleger cinco deputados a mais que o partido governista (agora
Partido Democrático Social), segundo a reformulação partidária, demonstrando clara-
mente aos militares que o fim do regime era iminente.
Foi nesse momento que ganhou força entre os militares a possibilidade de uma
“saída negociada”, uma vez que não estavam dispostos a se submeterem a tribunais
de justiça que os investigassem e os punissem pelas sucessivas violações aos direitos
humanos.
Em relação ao PMDB, uma parte liderada por Ulysses Guimarães reivindicava a
organização de comícios e a condução de uma ampla campanha em prol das eleições
diretas, enquanto outra parcela, liderada por Tancredo Neves, estava disposta a nego-
ciar nos termos dos militares.

112
As ruas, contudo, pareciam ditar o ritmo da abertura e não estavam dispostas a
ceder, e foi nesse momento que estourou uma das maiores e mais entusiasmadas
campanhas políticas da história brasileira: as Diretas Já, que, entre fevereiro e março
de 1984, se espalharam por todo o país.
Na madrugada de 25 de abril de 1983, data da votação da emenda Diretas Já, uma
parte dos deputados, liderada pelo candidato do PDS, Paulo Maluf, boicotou a vota-
ção, impedindo um quórum mínimo para a aprovação da PEC. Um balde de água fria
foi jogado na vigília cívica que acompanhava na madrugada a votação.
Nos meses seguintes à derrota, a sociedade não se desmobilizou, embora não escon-
desse sua frustração e agitação. Assim, um conjunto de negociatas escusas nos basti-
dores da política desfechou o modelo final da abertura, entre articulações partidárias:
uma parte do PDS debandou do governo formando a Frente Liberal.
Esses indivíduos, junto a uma parcela significativa do PMDB, formaram uma chapa
conservadora, a fim de disputar a eleição no Colégio Eleitoral, marcada para 1985: Tan-
credo Neves encabeçou a chapa, tendo como vice o até então aliado histórico da dita-
dura, José Sarney. A chapa saiu vitoriosa nas eleições de janeiro de 1985; entretanto,
por motivos de saúde, Tancredo Neves não pôde assumir a presidência, sendo empos-
sado seu vice. Produto da saída negociada, a transição democrática seria iniciada por
Sarney, um entusiasta da ditadura.

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2020) “A preocupação em institucionalizar as relações entre Estado e ope-
rariado (...) manifestou-se, no imediato pós30, com a criação do Ministério do Trabalho
(1931) e a promulgação da legislação trabalhista a mais diversa. No entanto, desde 1933
o sindicalismo independente e pluralista (...) sofrerá séria ofensiva estatal.”
(Maria Yedda Linhares (org). História Geral do Brasil)

Do contexto abordado no excerto, resultou

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


a) o sindicalismo pluralista, que reunia sob sua influência sindicatos de diferentes catego-
rias em prol da revolução social.
b) o sindicalismo independente, que agregava tendências mais radicais da esquerda e que
perdurou até meados de 1980.
c) o sindicalismo pluralista, que só foi superado pelo movimento grevista do ABC, cuja ten-
dência foi a centralização.
d) o sindicalismo corporativista, superado somente com os movimentos grevistas de 1978
no ABC Paulista.
e) a união independente classista de categorias, que esteve à frente dos principais movi-
mentos grevistas no Brasil desde então.

113
A autora deixa evidente que, durante a Era Vargas, o sindicalismo independente e plura-
lista enfrentaria restrições por parte do Estado. Portanto, é incoerente considerar a exis-
tência de um sindicalismo com tais características, o que elimina as opções A, B e C.
É essencial lembrar que, embora a Era Vargas tenha promovido a sindicalização dos trabalhado-
res, ela veio acompanhada de condições significativas. Sob a perspectiva de Vargas, os sindicatos
deveriam organizar os trabalhadores sem desestabilizar o Estado, alinhando-se ao projeto nacio-
nal centralizado. Vargas visava à modernização autoritária do país, necessitando de um opera-
riado urbano alinhado ao projeto estatal. Assim, a sindicalização tinha o propósito de integrar os
trabalhadores ao projeto nacional, e não de engajá-los em uma luta de classes. O Estado absor-
veria as tensões sociais, organizando-as como parte de um organismo unificado. Práticas como
greves eram vedadas, e os sindicatos não deveriam confrontar a ordem vigente. Esse modelo de
organização persistiu após a Era Vargas, até ser interrompido pela ditadura militar. Somente no
final dos anos 1970 os sindicatos ressurgiriam como entidades independentes e pluralistas, reali-
zando grandes greves e desafiando a ordem estabelecida. Resposta: Letra D.

2. (FCC – 2018) O ciclo grevista operário entre os anos de 1978 e 1980, particularmente
significativo no ABC paulista, foi pautado por reivindicações que podem ser sintetizados
na seguinte formulação:

a) Luta pela liberdade sindical, em defesa do direito de greve, do direito à livre negociação,
e contra o arrocho salarial.
b) Apoio à guerrilha de esquerda, organizada pelo Movimento Estudantil, e luta pela exten-
são das Leis Trabalhistas às fábricas multinacionais.
c) Luta pela legalização do Partido Comunista, proibido pelo governo militar, e pela estati-
zação das empresas multinacionais.
d) Apoio ao projeto de distensão política do governo, criticado pela linha dura, e pressão para
partilhar as benesses do crescimento econômico conhecido como“Milagre Brasileiro”.
e) Luta pelo cumprimento da promessa de redemocratização, feita pelos militares, e contra
a crise de desemprego causada naquele momento com o primeiro choque do petróleo.
A fase de prosperidade econômica não se refletiu em avanços equitativos para todas as camadas
sociais, com as classes mais desfavorecidas continuando a enfrentar uma política de arrocho sala-
rial, que se intensificava diante do crescente cenário inflacionário. Em paralelo, a repressão política
permanecia distante de uma conclusão, exercendo rigoroso controle sobre lideranças e restringin-
do efetivamente o direito à livre associação e ao movimento grevista. Resposta: Letra A.

REFERÊNCIAS

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(Org.). O Brasil republicano 2: o tempo do nacional-estatismo. Rio de Janeiro: Civili-
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FAUSTO, B. História do Brasil. 14ª ed. atual. e ampl., 3ª reimp. São Paulo: Editora da
Universidade de São Paulo, 2019.

114
FAUSTO, S. Modernização pela via democrática. In: FAUSTO, B. História do Brasil.
14ª ed. atual. e ampl., 3ª reimp. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo,
2019.
GOMES, A. C.; FERREIRA, J. Brasil, 1945-1964: uma democracia representativa em con-
solidação. Locus: Revista de História, [S. l.], v. 24, n. 2, 2023. Disponível em: https://
[Link]/index. php/locus/article/view/20880. Acesso em: 21 ago. 2023.
PANDOLFI, D. C. Os anos de 1930: as incertezas de um regime. In: FERREIRA, J.; DEL-
GADO, L. (Org.). O Brasil republicano 2: o tempo do nacional-estatismo. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. p. 13-37.
SCHWARCZ, L. M.; STARLING, H. M. M. Brasil: uma biografia. São Paulo: Companhia
das Letras, 2018.
VIANNA, M. A. O PCB, a ANL e as insurreições de novembro de 1935. In: FERREIRA, J.;
DELGADO, L. (Org.). O Brasil republicano 2: o tempo do nacional-estatismo. Rio de
Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. p. 67-122.

NOVA REPÚBLICA

A REDEMOCRATIZAÇÃO NA NOVA REPÚBLICA E A CONSTITUIÇÃO DE 1988

Governo Sarney

A morte de Tancredo havia abatido enormemente o país, levando a uma comoção


que há bastante tempo não se via em um cortejo fúnebre: seu caixão subiu a rampa do
Planalto em um gesto bastante simbólico, pois se tratava do primeiro presidente civil
após 21 anos de ditadura.
De todo modo, José Sarney, seu vice, assumiu a presidência no dia 15 de março de
1985, e, mesmo que fosse um aliado histórico da ditadura, as expectativas da popu-
lação não diminuíram. Pelos próximos 10 anos, diferentes governos tentariam, sem
sucesso, organizar uma economia que herdava da ditadura dívida externa e inflação
monstruosas.
Ainda em 1985, a equipe econômica de Sarney decretou o congelamento dos preços,

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


tentando diminuir a inflação; estabeleceu um corte de 10% do orçamento e proibiu a
contratação de funcionários públicos. Além disso, o cálculo da correção monetária pas-
sou a ser determinado pela inflação dos três últimos meses. Essas medidas reduziram
a inflação para 7,2% em abril, mas diversas questões, sobretudo agrícolas, elevaram-na
a 14% em agosto.
Em fevereiro, o governo apresentou o Plano Cruzado, substituindo a antiga moe-
da, o cruzeiro, pelo cruzado. A nova moeda perdeu três zeros; assim, a conversão dos
depósitos em bancos estabeleceu que cada mil cruzeiros equivaleriam a um cruzado.
O plano previa, ainda, o congelamento de tarifas, preços e serviços, além de basear o
salário na média do poder de compra dos seis meses anteriores.

115
O resultado foi a diminuição da inflação e um boom consumista, que rendeu boa
popularidade ao presidente naquele momento. Esse consumismo, contudo, levou a
uma crise de desabastecimento, fazendo com que faltasse uma série de produtos na
prateleira; mesmo que o governo tentasse importar esses gêneros, não conseguia,
pois, a burocracia herdada da ditadura impossibilitava.
O Cruzado II foi anunciado em novembro de 1986, e previa o descongelamento dos
preços, há muito exigido pelos empresários, e o aumento das tarifas dos serviços públi-
cos. A inflação, que estava contida, passou de 3% nesse mês para 16% em menos de
três meses. Em 1987, o presidente foi em cadeia nacional de televisão para anunciar a
moratória da dívida externa do Brasil. A crise parecia não ter fim.
Em 1988, o governo apresentou o Plano Verão, criando a moeda “cruzado novo”,
mas o plano foi um completo fiasco, pois, àquela altura, o governo já havia perdido
toda a sustentação política e se tornara extremamente impopular.
A partir desse momento, o país caminhou à hiperinflação, chegando a 83% em mar-
ço de 1990. Preços de supermercado eram reajustados todos os dias e filas aconte-
ciam em supermercados e postos de gasolina toda vez que surgia o menor indício de
aumento dos preços.
Ainda em 1987, iniciou-se o importante processo da Constituinte, transformando
os próprios congressistas eleitos em 1986 no Congresso Constituinte, com ampla maio-
ria do PMDB. Os debates foram acalorados e algumas propostas do PMDB foram con-
sideradas radicais demais, mas, de fato, muitos avanços se tornaram constitucionais.
Há que se dizer, por fim, que até o final do governo Sarney, nenhuma ruptura sig-
nificativa em relação à ditadura havia acontecido (a começar pelo próprio presidente,
como dissemos), e também porque nenhum julgamento havia acontecido para punir
militares envolvidos em crimes contra a humanidade. As esperanças se voltaram, enfim,
para a primeira eleição direta que escolheria um presidente da república em 21 anos.
Em 27 de novembro de 1985, por meio da Emenda Constitucional nº 26, a Assembleia
Nacional Constituinte foi chamada com o propósito de fazer novo texto constitucional
para mostrar a realidade social que o país vivia, que era um processo de redemocrati-
zação depois do fim do regime militar.
Promulgada em 5 de outubro de 1988, a Constituição trouxe um novo modelo jurídi-
co-institucional ao país, com aumento das liberdades civis, dos direitos e das garantias
individuais. A nova Carta colocou cláusulas transformadoras com a intenção de mudar
relações econômicas, políticas e sociais, dando direito de voto aos analfabetos e aos
jovens de 16 e 17 anos. Além disso, também houve a criação de novos direitos traba-
lhistas, como diminuição da jornada semanal de 48 para 44 horas, seguro-desempre-
go e férias pagas com mais um terço do salário. Ainda, é relevante ressaltar algumas
outras adoções.

� Instituição de eleições majoritárias em dois turnos;


� Direito à greve e liberdade sindical;
� Aumento da licença-maternidade de três para quatro meses;

116
� Licença-paternidade de cinco dias;
� Criação do Superior Tribunal de Justiça (STJ) no lugar do Tribunal Federal de Recursos;
� Criação dos mandados de injunção, de segurança coletivo e restabelecimento do
habeas corpus;
� Foi também criado o habeas data, que possui função de garantir o direito de infor-
mações sobre a pessoa do interessado, guardadas em registros de entidades gover-
namentais ou banco de dados particulares que tenham caráter público;
� Previsão de reforma no sistema tributário e na repartição das receitas tributárias
federais, com propósito de fortalecer estados e municípios;
� Reformas na ordem econômica e social, com instituição de política agrícola e fundiá-
ria, e regras para o sistema financeiro nacional;
� Leis de proteção ao meio ambiente;
� Fim da censura em rádios, TVs, teatros, jornais e demais meios de comunicação;
� Alterações na legislação sobre seguridade e assistência social.

A Constituição de 1988, que é a vigente em nossos dias, é conhecida como Consti-


tuição Cidadã. O texto restabeleceu eleições diretas para presidente e demais cargos
executivos, reduziu o mandato para quatro anos, fortaleceu o Ministério Público, deu
direito de voto aos analfabetos, assim como a pessoas a partir dos 16 anos, diminuiu a
jornada de trabalho para 44 horas semanais, criou o abono de férias e o seguro-desem-
prego, o décimo terceiro salário para aposentados, definiu como crimes inafiançáveis o
racismo e a tortura, proibiu a censura, garantiu a liberdade de expressão e aumentou
significativamente os mecanismos de participação popular direta.

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FGV – 2022) A cidadania não se restringe ao voto. A Constituição de 1988 previu diver-
sas formas de exercer a cidadania além da consulta eleitoral, como, por exemplo, atuar
em órgãos considerados importantes instâncias de participação social, garantidos pela
Constituição nas áreas da saúde, educação e assistência social. Estes órgãos são deli-
berativos e contam com participação de organizações da sociedade civil e representan-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


tes do Estado em proporções iguais. Suas reuniões são abertas à população e tratam de
diferentes temas como juventude, direitos da mulher, mobilidade urbana, meio ambiente,
entre tantos outros.

O texto se refere à participação em

a) ouvidorias públicas
b) conselhos municipais.
c) orçamento participativo.
d) audiências públicas da cidade.
e) sessões legislativas na Câmara dos Vereadores.

117
Instituídos por legislação municipal e passíveis de serem propostos pela iniciativa popular, os
conselhos municipais são estabelecidos como órgãos contínuos para a participação popular e
para a tomada de decisões sobre assuntos determinados, promovendo a prática democrática por
meio da participação popular, que se estende além do âmbito das eleições. Resposta: Letra B.

2. (VUNESP – 2018) A Constituição Federal, de 1988, assegurou aos povos indígenas

a) a propriedade das terras dos ancestrais e direito de dispor das terras para venda ou
outros fins.
b) o direito à assimilação harmoniosa à sociedade brasileira, com acesso ao sistema de
saúde e educação.
c) os direitos originários sobre as terras que originariamente ocupam e a explicitação do
respeito à diferença cultural e linguística.
d) o direito de extrair as riquezas minerais, da fauna e da flora para garantir meios de sobre-
vivência diante da sociedade capitalista.
e) ampliação dos direitos jurídicos de serem incondicionalmente protegidos pelo Estado
nacional.
A resposta dessa questão encontra-se no art. 231, da Constituição Federal: “São reconhecidos aos
índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários
sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer
respeitar todos os seus bens.” Resposta: Letra C.

POLÍTICA NO BRASIL ATUAL; ECONOMIA BRASILEIRA DA NOVA REPÚBLICA: DA


HIPERINFLAÇÃO À GLOBALIZAÇÃO E O NEODESENVOLVIMENTISMO; POLÍTICA
EXTERNA NA NOVA REPÚBLICA

Governo Collor e Itamar Franco

As eleições de 1989 tiveram 22 candidaturas e foram vividas como a possibilida-


de real de mudanças. Por parte da esquerda, Lula encabeçava a chapa pelo Partido
dos Trabalhadores (PT), advogando um programa radical, como a supressão da dívida
externa, considerada demasiadamente onerosa à classe trabalhadora. Do outro lado,
estava o governador de Alagoas, Fernando Collor de Mello, até então desconhecido
do grande público, mas que transmitia a imagem de ousado, jovem e vigoroso para
cumprir sua fama de “caçador de marajás”.
Ambos eram promessa de novidade, mas Lula parecia radical demais, o que fez com
que a grande mídia, políticos conservadores, empresários e militares, temerosos de
que o petista levasse a cabo julgamentos e punições, se aglutinassem em torno de Col-
lor. Durante o segundo turno, Lula receberia apoio do PDT de Leonel Brizola, do PMDB
e do novato PSDB. A disputa foi dura.
Enquanto Lula crescia nas pesquisas de opinião e estouravam casos de corrupção
em Alagoas, Collor passou a atacar seu adversário dizendo que o petista confisca-
ria poupanças e apartamentos da classe média, além de ser incentivador do aborto.

118
As emissoras de televisão tiveram papel fundamental para o declínio do candidato
esquerdista, transmitindo com frequência os “alarmes” de Collor, em especial a Rede
Globo, durante seu principal telejornal. Collor, assim, foi eleito presidente pelo Partido
da Reconstrução Nacional (PRN), mas possuía desde o início quase nenhum apoio da
estrutura partidária.
No dia 16 de março de 1990, foi apresentado o Plano Collor, que estipulava o blo-
queio de todas as aplicações em bancos e depósitos em contas correntes, além da aber-
tura comercial e do congelamento dos preços. Cerca de 95 bilhões de dólares foram
confiscados para bloquear a liquidez, a fim de conter a inflação, fazendo exatamente
aquilo que supostamente seu adversário faria caso chegasse à presidência.
Ao fracasso de sua estratégia para economia, somaram-se denúncias de corrupção
no seu governo, sendo a mais evidente a de seu irmão, Pedro Collor, em maio de 1992.
Pedro denunciou a existência de um amplo esquema liderado pelo tesoureiro da cam-
panha de Fernando Collor, conhecido como “PC Farias”.
Em seguida, o Congresso instaurou uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI)
para averiguar as denúncias, descobrindo contas bancárias associadas a “laranjas” para
o financiamento da campanha; descobriram-se também “contas-fantasma” que finan-
ciavam reformas na casa do presidente, mas que logo descobriu-se tratar de restos dos
fundos da campanha, além da compra de um carro para sua esposa com dinheiro ilegal
proveniente dos esquemas de PC Farias.
Uma série de protestos tomou conta do país: a Ordem dos Advogados do Brasil
(OAB) apresentou ao Congresso um pedido de impeachment do presidente; surgiu o
Movimento pela Ética na Política, cuja organização reunia cerca de 900 entidades; os
estudantes tiveram papel importante e simbólico nos protestos: por conta dos rostos
pintados com as cores nacionais, ficaram conhecidos como “cara-pintadas”.
Em 29 de setembro de 1992, a Câmara autorizou a abertura do processo de impedi-
mento e, no final desse ano, Collor foi condenado no Senado por 76 votos favoráveis
contra apenas 3. Antes disso, é preciso dizer, ele havia tentado manobrar a situação
tentando renunciar; o que não deu certo. Perdeu, assim, o mandato, e se tornou inele-
gível por 8 anos.
Quem assumiu em seu lugar foi o vice-presidente, Itamar Franco, e foi em seu gover-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


no que finalmente houve o controle da inflação. O Ministério da Fazenda foi ocupado
por Fernando Henrique Cardoso, em 1993, e logo no início anunciou cortes de despe-
sas e privatizações de empresas estatais, além de dar sequência à abertura comercial.
O ministro também criou um padrão de valor monetário, conhecido como Unidade
Real de Valor (URV), de modo a mostrar a equivalência entre uma URV — 647,50 cru-
zeiros em sua primeira aparição, em março de 1994 — e o cruzeiro real.
Além disso, os salários foram estabelecidos a partir de uma média da inflação dos
últimos quatro meses. Após sucessivos testes, acompanhados pelo valor da URV que
permanecia fixo, a equipe econômica finalmente apresentou a nova moeda em julho
de 1994: o real, um sucesso que logo se converteu em inflação baixa.

119
Ainda durante o governo de Itamar, foi possível chegar a um arguto acordo de rene-
gociação da dívida, após os norte-americanos finalmente aceitarem a proposta de Luiz
Carlos Bresser Pereira de conceder descontos para os montantes. Mas foi o sucesso
do plano real que marcou seu breve período à frente da presidência, sucesso esse que
impulsionou seu ministro ao executivo federal.

Governo FHC

Fernando Henrique Cardoso tomou posse em 1995; é importante comentarmos


que em seu governo foi aprovada uma emenda constitucional que permitia a reeleição
de prefeitos, governadores e presidente da república. A votação foi permeada de acu-
sações de compra de votos, que nunca foram devidamente apuradas, e permitiu que
FHC se reelegesse em 1998.
A ampla mobilização popular reivindicando melhorias nas condições de vida, desde
os movimentos organizados no final da ditadura, começou a frutificar nos governos de
FHC. Em 1995, foi criado o programa Bolsa Escola, em Campinas, cuja proposta era a
transferência de uma renda mínima a famílias pobres com a condição de manterem
suas crianças frequentes nas escolas; em 2001, foi adotado pelo governo federal, que
foi capaz de estender o programa a mais de 5 milhões de famílias. É do seu governo,
também, o Bolsa Alimentação.
Contudo, há que se dizer que as primeiras mudanças no modelo de proteção social
tiveram início com o primeiro governo civil após a ditadura e registradas na Consti-
tuição de 1988, que pretendia garantir o acesso à saúde, à seguridade e à educação
básica.
Ao longo dos anos 1990, essas diretrizes começaram a se desenvolver, exigindo uma
lenta descentralização de responsabilidades e recursos. Além da descentralização e
colaboração entre os níveis governamentais, o Plano Real foi importante ao tornar pos-
sível maior fluxo de recursos para a área social, o que produziu, por exemplo, a muni-
cipalização da assistência social e da rede básica de saúde. Os acessos à educação e à
saúde se tornaram quase universais, e a assistência social foi consideravelmente dila-
tada mediante programas de garantia de renda para idosos e pessoas com deficiência.
No governo FHC também foram criados programas que formavam uma rede de pro-
teção social, como a previdência rural, e ainda programas não contributivos de assis-
tência social: Bolsa-Escola, Erradicação do Trabalho Infantil, Bolsa-Alimentação, Auxílio
Gás, Agente Jovem, Programa de Saúde da Família, Programa de apoio à Agricultu-
ra Familiar. Nesses programas, houve uma opção pela transferência direta da renda
monetária, distanciando-se de programas como os de distribuição de cestas básicas,
que muitas vezes valiam à manipulação clientelista, tão comum na política brasileira.
O governo de FHC também foi pioneiro no enfrentamento de algumas heranças da
ditadura, no campo da justiça de transição.

120
Em 1995, foi instituída a Comissão sobre Mortos e Desaparecidos, cuja proposta
era reconhecer os mortos e desaparecidos durante os anos repressivos, ritual bastante
simbólico para aqueles que perderam alguém e nunca chegaram a ter sequer um ates-
tado de óbito. Tempos depois, em 2001, surgiu a Comissão da Anistia, concedendo
indenizações às vítimas da ditadura.

Governo Lula

Em 1º de janeiro de 2003, Luiz Inácio Lula da Silva, representante do Partido dos


Trabalhadores (PT), assumiu a presidência do Brasil. Sua eleição significou, para mui-
tos, a primeira grande mudança das elites governantes desde a redemocratização, ain-
da que esse novo governo se sustentasse em uma coalização, o que significa a inclusão
de partidos que já haviam estado no poder nos últimos dezenove anos.
As propostas de políticas sociais do Partido dos Trabalhadores indicam uma reunião
de continuidades e mudanças da forma de gestão, continuidade na política econômica
e algumas mudanças no âmbito social.
No que se refere à transferência de renda, que foi a caraterística mais marcante do
governo de Lula, ela indica uma movimentação caraterística de proteção social, o que se
afastava das expectativas reformistas que pairavam sobre o Partido dos Trabalhadores.
Com a redemocratização, como vimos, passou-se a identificar a necessidade de redi-
recionar as ações de políticas sociais como descentralização, participação dos beneficiá-
rios nas tomadas de decisões, racionalização dos gastos e maior isonomia na prestação
de serviços e benefícios. Além disso, constatou-se ser necessário políticas emergenciais
voltadas para a população mais vulnerável economicamente.
O percurso feito até aqui indica que, quando o Partido dos Trabalhadores assumiu
o governo em 2003, já haviam sido tomadas algumas ações visando a reforma do sis-
tema de proteção social herdado da ditadura, além do êxito razoável na luta contra a
pobreza, principalmente no que toca ao acesso à educação e saúde; entretanto, pouco
tinha sido feito para a redução das desigualdades notáveis entre ricos e pobres, bran-
cos e negros. E essa é uma questão fundamental.
Durante as eleições, a campanha de Lula ignorava esses avanços, condicionando
a resolução desses problemas à sua vitória, e foi assim que Lula ganhou as eleições,

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


insistindo na redução da pobreza e das desigualdades, embora sem propostas que
embasassem concretamente tal propósito.
O governo Lula teve início com dois projetos para a área social: o Fome Zero, uma
proposta de política de segurança alimentar para o Brasil; e Política Econômica e
Reformas Estruturais. O primeiro foi fruto do trabalho de 45 pesquisadores orienta-
dos por José Graziano da Silva, e consistia em uma combinação de políticas assisten-
ciais com ações extensivas de incentivo à agricultura familiar.
O segundo documento, que foi preparado por economistas de orientação liberal,
focalizava a política econômica e incluía um capítulo de propostas de política social.
Assim, ele pretendia: recompor o equilíbrio da previdência pública, garantindo sua

121
sobrevivência a longo prazo; diminuir a pressão sobre os recursos, permitindo o resga-
te da capacidade de gastos públicos; e aumentar a equidade, reduzindo as distorções
nas transferências de renda realizadas pelo Estado.
O governo petista optou, então, por iniciativas de forte impacto simbólico, no ambien-
te nacional e internacional. Nos primeiros dias da nova administração, lançou-se o já
mencionado programa Fome Zero e uma reforma da previdência social. Com a refor-
ma da previdência, procurava-se reparar privilégios vigentes, estabelecendo o mes-
mo teto para as aposentadorias dos empregados do setor público e privado. Essa foi
uma medida bem recebida pelas agências internacionais, que esperavam que o novo
governo demonstrasse moderação política e se mantivesse dentro dos parâmetros de
austeridade fiscal.
No que se refere ao Fome Zero, faltava consistência, pois muitas ações precisavam
ser realizadas, e se carecia de articulação de vários setores. A fragilidade do programa
foi se evidenciando e, ainda em 2003, o Ministério de Segurança Alimentar, que havia
sido criado para mobilizar as ações necessárias para o funcionamento do programa, foi
fundido com o Ministério da Assistência Social.
Assim, engendrou um novo programa de transferência de renda, o Bolsa Família,
que unificou três programas criados na administração de FHC: Bolsa-Escola, Bolsa-Ali-
mentação e Auxílio Gás. Também foram realizadas iniciativas que priorizaram a ação
governamental na área da educação; além disso, propôs-se a criação do Fundo de
Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental e Desenvolvimento da
Educação Básica (Fundeb), o que incluía o ensino médio no sistema de incentivos que
vinham sendo realizados pela administração anterior.
Alguns autores argumentam que, embora de um ponto de vista de classe, o PT con-
tinua sendo um partido dos trabalhadores, principalmente no que se refere à sua ori-
gem, pois é inegável que o PT foi criado por e para trabalhadores. Houve um claro
rompimento com os interesses desse grupo; após assumir o poder, as ideias, discursos
e ações resguardadas pela direção do partido apresentaram semelhanças embaraço-
sas com as dos representantes da grande burguesia. De todo modo, as multidões con-
tinuaram indicando, em momentos cruciais, o Partido dos Trabalhadores como seu
representante.
O governo Lula reuniu em seus quadros administrativos tanto líderes sindicais e
intelectuais do PT, quanto convictos neoliberais, o que o tornou, em uma análise mais
sóbria, um governo muito pouco afeito aos interesses da classe que dizia representar.
Lula cumpriu sua promessa de moderar as propostas mais radicais do programa petis-
ta antes do lançamento da “Carta ao povo brasileiro”, de 2002.
Um evidente exemplo foi a preocupação com o pagamento da dívida externa, mes-
mo existindo problemas sociais evidentes, como rodovias danificadas e insuficientes,
adversidades nas redes elétricas, de saúde, saneamento, entre outros. Essa foi uma
escolha impensável para o Lula do século anterior. Assim, sua administração deu pros-
seguimento à política econômica de FHC, elevou o superávit, prometeu a flexibilização
do mercado de trabalho e a reforma sindical.

122
Dica
Superávit é o resultado positivo de todas as receitas e despesas do
governo, ou seja, é o equivalente ao que o governo consegue economi-
zar para o pagamento de juros da dívida pública.
FMI é a sigla do Fundo Monetário Internacional, organização financei-
ra que pode oferecer ajuda financeira pontual e temporária aos países
membros.

As limitações das administrações de Lula são evidentes, embora seja difícil negligen-
ciar os avanços no campo social. Por exemplo, a reforma agrária — pauta importante
para esquerda —, não foi considerada; e a reforma tributária apenas aumentou a carga
tributária, evitando propostas como a taxação de grandes fortunas.
Outra crítica é que os programas sociais não se constituíram enquanto direito, ou
seja, não foram incorporados enquanto emendas à Constituição, o que significa que
podiam ser retirados a qualquer momento.

Governo Dilma

Dilma Rousseff, a primeira mulher presidente do Brasil, foi eleita em 2010, em um


contexto de otimismo no qual a economia se recuperava dos efeitos da crise financeira
global de 2008. Embora Dilma não tenha explicitado seu objetivo em campanha, logo
ficou evidente o que pretendia: questionar o poder estrutural do capital financeiro na
determinação de taxas de juros e câmbio, o que significava se afastar do caminho das
políticas econômicas conservadoras do governo Lula.
Todavia, o governo não se preparou para lidar com as óbvias reações que vieram

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


dos grupos que tiveram seus interesses recolocados. Esses grupos possuíam, ainda, o
poder sobre os meios de comunicação, manipulando as informações e não tardando a
acusar o governo de “irresponsável tecnicamente” e “politicamente populista”.
O governo de Dilma não conseguiu sustentar a pretensão inicial, recuando diante da
reação dos interesses rentistas, que foram atingidos pela guerra dos juros; assim, em
abril de 2013, o Banco Central iniciou um novo ciclo de elevação das taxas de juros, que
era apenas o início da retratação.
Os regimes de metas de inflação e de metas de superávit primária concediam enor-
me poder estrutural ao capital financeiro, de modo que, se hipoteticamente a inflação
subisse e o Banco Central não subisse também as taxas de juros, provavelmente se

123
veria bombardeado por acusações de que sua autonomia estava comprometida pela
interferência política. Se, por outro lado, a arrecadação tributária diminuísse e o gasto
primário não trilhasse a mesma direção, o governo era atacado, acusado de não cuidar
da credibilidade da trajetória da dívida pública, tampouco da inflação.
Para conseguir pôr em prática suas intenções de mudanças estruturais, o gover-
no teria que se apoiar em ampla campanha pública que expusesse suas intenções e
motivações. Isso, contudo, não ocorreu, e o capital financeiro, por sua vez, reagiu rapi-
damente, mobilizando a opinião pública e deslegitimando os discursos de Dilma, que
tencionavam defender seu projeto econômico.
A recuada do governo, traduzida pelo aumento dos juros, foi uma tentativa de abran-
dar os ataques realizados pelos representantes ideológicos dos interesses rentistas,
procurando recompor o bloco de poder político mobilizado pela administração de Lula,
tática que seria reforçada em 2015.
A estratégia, no entanto, não foi bem sucedida, pois, na busca pela governabilidade,
Dilma perdeu bastante popularidade, dado que se voltava cada vez mais à uma políti-
ca econômica que primava pela ortodoxia, sobretudo na austeridade fiscal e salarial,
pondo à parte os interesses populares, que representavam o grosso de seu eleitorado.
A opinião empresarial era a de que o Bolsa Família reduzia a procura por empre-
gos e dificultava a contratação; esse argumento é difícil de ser sustentado, tendo em
vista que o valor do benefício sempre foi muito inferior ao do salário mínimo, que foi
ganhando cada vez mais encorpo. Além disso, figuras públicas reconhecidas usavam os
meios de comunicação para apontar que os gastos sociais e aumentos salariais eram
responsáveis pela desaceleração do investimento privado e da redução dos lucros.
Quanto aos projetos sociais, Dilma tinha um grande desafio, considerando que seu
predecessor, Lula, conquistara popularidade amparando-se justamente nesse tipo de
programa. No primeiro mandato de Dilma, o desemprego diminuiu, o salário mínimo
aumentou e a presidente deu sequência aos programas de transferência de renda.
Na questão dos avanços da legislação trabalhista, é possível apontar, por exemplo,
a regulamentação do trabalho doméstico, que embora tenha incomodado os setores
mais conservadores da população brasileira, foi um movimento muito importante para
os trabalhadores da área, pois assegurava direitos básicos como jornada de trabalho
regulamentada, férias e piso salarial.
Em sua administração, uma das ações mais importantes talvez tenha sido a amplia-
ção do Minha Casa Minha Vida, programa habitacional que assegurou moradia para
1,7 milhões de famílias apenas em seu primeiro mandato. O programa oferecia subsí-
dio para o financiamento de moradias à população de baixa renda, tornando possível
o sonho da casa própria para famílias que teriam bastante dificuldade em adquirir um
imóvel em outras circunstâncias.

124
No âmbito da saúde, Dilma lançou o programa Mais Médicos, que atendeu seis mil
municípios e estendeu o acesso a médicos a cerca de cinquenta milhões de pessoas
que residiam em municípios do interior e em áreas periféricas. Foram inauguradas 144
de Unidades de Pronto Atendimento, e a Farmácia Popular distribuiu remédios a mais
de dez milhões de pessoas.
No setor educacional, Dilma lançou o Programa Nacional de Acesso ao Ensino
Técnico e Emprego (Pronatec), que tinha como objetivo expandir e interiorizar as ofer-
tas a cursos técnicos, além da formação inicial e continuada. Houve, ainda, a criação
do Ciência sem Fronteiras, que visava a formação acadêmica de pesquisadores em
programas de intercâmbio, oferecendo bolsas de estudos e financiando projetos. Além
disso, até 2014, as matrículas em cursos superiores aumentaram em 122%, evidencian-
do uma expansão do acesso ao ensino superior.
Além de todos esses programas, foi no governo Dilma que a chamada Lei do Femi-
nicídio foi sancionada. Com a lei, o assassinato de mulheres, decorrente de violência
doméstica ou discriminação de gênero, passou a ser considerado crime hediondo. Foi
uma grande conquista, levando em consideração que o Brasil possui a 5° taxa mais
alta de feminicídios do mundo: no ano de 2010, eram registrados cinco espancamento
a cada dois minutos; em 2013, se reportava um feminicídio a cada noventa minutos; e
em 2015, o serviço de denúncia registrou 179 casos de agressão por dia.
Foi também no mandato de Dilma que se inaugurou a Casa da Mulher, programa
que integra no mesmo espaço serviços especializados de apoio aos diversos tipos de
violências sofridas por mulheres. Nesse espaço, têm-se acesso ao acolhimento e à tria-
gem, apoio psicossocial, juizado especializado em violência doméstica e familiar contra
mulher, defesa pública, serviço de promoção de autonomia econômica, espaço de cui-
dado às crianças, alojamento de passagem, entre outras ações de apoio.
Governo Temer
O governo de Michel Temer, que durou de 31 de agosto de 2016 a 31 de dezembro
de 2018, foi marcado por uma série de reformas e medidas de austeridade econômica.
Temer assumiu a presidência do Brasil após o impeachment de Dilma Rousseff, prome-
tendo estabilidade política e econômica.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Durante seu mandato, implementou a PEC do Teto dos Gastos Públicos, que limitou
os gastos federais por 20 anos, e a Reforma Trabalhista, que flexibilizou as leis traba-
lhistas. Seu governo também enfrentou desafios, incluindo acusações de corrupção e
protestos populares contra algumas de suas políticas.
Governo Bolsonaro
Durante o mandato de Jair Bolsonaro como presidente do Brasil de 2019 a 2022,
o país testemunhou uma série de mudanças políticas e econômicas. Bolsonaro, um
ex-capitão do Exército e político de longa data, assumiu o cargo com a promessa de
implementar políticas conservadoras e pró-mercado.

125
Seu governo foi marcado por uma agenda de reformas econômicas, incluindo a
reforma da previdência, que visava reduzir o déficit fiscal e estimular o crescimento.
No entanto, suas políticas ambientais e sociais geraram controvérsia, com críticas fre-
quentes à sua abordagem em relação à proteção ambiental e aos direitos humanos.
Além disso, seu estilo de governança polarizou a opinião pública, dividindo o país
entre seus apoiadores e opositores, contribuindo para uma atmosfera política tensa
durante seu mandato.

Governo Lula (2023-Atual)

No seu retorno à presidência em 2023, Lula implementou uma série de medidas


que marcaram uma ruptura com as políticas do governo anterior. Entre as ações mais
notáveis, destaca-se a recriação do programa Bolsa Família, que visa oferecer suporte
financeiro às famílias em situação de pobreza e extrema pobreza, mantendo o valor de
R$ 600 e introduzindo condicionantes como a matrícula escolar e a vacinação em dia
das crianças beneficiadas. Além disso, houve uma revogação significativa de normas
que facilitavam o acesso a armas e munições, refletindo um compromisso com políti-
cas de desarmamento.
Outras medidas importantes incluíram a desoneração de impostos sobre combus-
tíveis até o final de 2023, a reestruturação da Esplanada dos Ministérios com a criação
de novas pastas, e a revogação de processos de privatização de estatais iniciados no
governo anterior. No âmbito ambiental, o governo Lula enfrentou o desafio de conter
o desmatamento na Amazônia, e no cenário internacional, buscou reposicionar o Brasil
no mapa diplomático mundial.

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FCC – 2023) Dentre os Presidentes do Brasil que tomaram posse entre 1964 e 2019,
foram eleitos por meio do voto direto popular, especificamente para esse cargo:

a) Tancredo Neves, José Sarney, Itamar Franco, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardo-
so, Luiz Inácio Lula da Silva (em duas eleições consecutivas), Dilma Roussef (em duas
eleições consecutivas) e Jair Bolsonaro.
b) Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso (em duas eleições consecutivas), Luiz Iná-
cio Lula da Silva (em duas eleições consecutivas), Dilma Roussef (em duas eleições
consecutivas) e Jair Bolsonaro.
c) José Sarney, Fernando Collor, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso, Luiz Inácio
Lula da Silva (em duas eleições consecutivas), Dilma Roussef (em duas eleições conse-
cutivas), Michel Temer, Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.

126
d) Ulisses Guimarães, Tancredo Neves, Itamar Franco, Fernando Collor, Fernando Henrique
Cardoso (em duas eleições consecutivas), Luiz Inácio Lula da Silva (em duas eleições
consecutivas), Dilma Roussef e Jair Bolsonaro.
e) João Figueiredo, Tancredo Neves, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso (em duas
eleições consecutivas), Luiz Inácio Lula da Silva (em duas eleições consecutivas), Dilma
Roussef e Jair Bolsonaro.
Fernando Collor foi o primeiro presidente do Brasil eleito por voto direto, mas teve seu man-
dato abreviado devido a um impeachment. Após eleições no final de 1994, Fernando Henrique
Cardoso assumiu a presidência, sendo reeleito para um segundo mandato e permanecendo no
poder de 1995 a 2002. Luiz Inácio Lula da Silva sucedeu FHC, também conquistando a reeleição e
governando de 2003 a 2010. Lula foi sucedido por sua indicada, Dilma Rousseff, que também foi
reeleita, mas teve seu segundo mandato interrompido por impeachment, governando de 2011 a
2016. Em 2018, Jair Bolsonaro foi eleito presidente, ocupando o cargo de 2019 a 2022. Resposta:
Letra B.

2. (FGV – 2023) As afirmativas a seguir apresentam corretamente marcos da organização


da previdência social e da assistência à saúde na história contemporânea do Brasil, à
exceção de uma. Assinale-a.

a) No primeiro governo Vargas, foi criado o Instituto de Aposentadorias e Pensões (IAPs)


dos industriários garantindo a assistência à saúde aos associados por meio de suas
contribuições, entre outras receitas dos Institutos.
b) No governo Castelo Branco, foi criado o Instituto Nacional de Previdência Social (INPS),
instaurando um sistema centralizado de previdência social.
c) No governo de Ernesto Geisel, foi instituído o Sistema Nacional de Saúde em um contex-
to de preocupação com a universalização da saúde.
d) No governo Médici, foi criado o Programa de Assistência ao Trabalhador Rural que garan-
tia a assistência à saúde ao trabalhador rural, seja ele proprietário ou não.
e) No governo de José Sarney, o Sistema Único de Saúde (SUS) é instituído com base em
um conceito restrito de saúde, entendida como ausência de doença.
A alternativa “E” está incorreta porque o SUS foi criado durante o governo de Fernando Collor de

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Mello nos anos 90, com a proposta de oferecer assistência integral e gratuita, baseada em princí-
pios universalistas na área da saúde. Resposta: Letra E.

3. (VUNESP – 2020) Já observamos que, de 1929 ao ponto mais baixo da depressão, a


renda monetária no Brasil se reduziu entre 25 e 30 por cento. Nesse mesmo período, o
índice de preços dos produtos importados subiu 33 por cento. Compreende-se, assim,
que a redução no quantum das importações tenha sido superior a 60 por cento.
Depreende-se facilmente a importância crescente que, como elemento dinâmico, irá
logrando a procura interna nessa etapa de depressão.

127
Ao manter-se a procura interna com maior firmeza que a externa, o setor que produ-
zia para o mercado interno passa a oferecer melhores oportunidades de inversão que o
setor exportador. Cria-se, em consequência, uma situação praticamente nova na econo-
mia brasileira.
(Celso Furtado. Formação econômica do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2007. Adaptado)

A “situação praticamente nova na economia brasileira”, segundo Furtado, refere-se

a) ao estabelecimento de mecanismos de transferência de capitais do setor agrário para o


financeiro.
b) ao abandono dos mecanismos públicos de proteção à agricultura de exportação, espe-
cialmente do algodão.
c) à elaboração de uma política econômica voltada a ampliar as disparidades regionais do
país.
d) à passagem da hegemonia econômica dos cafeicultores paulistas para os industriais
nordestinos.
e) à preponderância do setor ligado ao mercado interno no processo de formação de capital.
Durante a Grande Depressão, a desorganização econômica levou a uma queda significativa nas
exportações, enquanto a industrialização voltada para o mercado interno manteve a atividade
econômica em níveis importantes. Assim, a produção e o consumo internos se tornaram a principal
atividade econômica, em contraste com a exportação de produtos primários. Resposta: Letra E.

4. (FCC – 2024) Considere o texto a seguir:

A presença da mineradora, associada à importância do volume financeiro mobilizado por


ela, cria uma situação de centralidade que acaba por impulsionar as políticas públicas
— não divergentes aos interesses do capital - e a formação ou consolidação de fortes
movimentos sociais combativos. Esta centralidade propícia aos movimentos sociais nas
regiões de mineração outra visibilidade, adquirindo uma nova importância regional, que
lhes permite propagar as suas insatisfações, tecer redes de alianças em múltiplas esca-
las, fortalecer a luta, acessar mais facilmente o Estado e assim alcançar expressivas
conquistas (Coelho, 2007).
(WANDERLEY, Luiz Jardim. “Movimentos sociais em área de mineração na Amazônia Brasileira”. E-cademos CES
[En línea), 17 | 2012. Disponivel em: http:/[Link])

De acordo com o texto,

a) as empresas mineradoras são responsáveis pela execução de políticas públicas pois os


ganhos financeiros permitem atender as insatisfações dos menos favorecidos.
b) as redes de alianças no âmbito estatal e a ampla comunicação são fatores que assegu-
ram aos movimentos sociais o capital necessário para suas conquistas.

128
c) o fortalecimento das lutas sociais em áreas de mineração ocorre quando as políticas
públicas são implementadas pelo Estado em escala regional.
d) os movimentos sociais que eclodem em áreas de mineração têm a seu favor a visibilida-
de propiciada pela importância regional das empresas mineradoras.
e) os interesses das empresas mineradoras entram em choque com as políticas públicas
que procuram garantir expressivas conquistas.
O texto aborda o tema das mineradoras, ressaltando sua importância econômica e social ao
gerar grande movimentação financeira e visibilidade para a região e sua população. Resposta:
Letra D.

ANOTAÇÕES

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL

129
HISTÓRIA GERAL

HISTÓRIA ANTIGA (4000 A.C.–476 D.C.)

ANTIGUIDADE

O tempo é algo muito precioso em nossas vidas, certo? Em nosso dia a dia, em nossa
semana corrida, nos meses que se passam, dividimos o tempo em função das nossas
atividades para nos organizarmos. Pois é, na História fazemos o mesmo. Para com-
preendermos melhor contextos, conjunturas, estruturas e eventos históricos usamos a
divisão da história em “Idades”.

� A Idade Antiga ou Antiguidade tem início com o surgimento da escrita entre os sumé-
rios por volta de 4000 a. C. e se estende até a queda do Império Romano no Ocidente
em 476 d. C;
� A Idade Média tem início com a queda do Império Romano no Ocidente e se estende
até a queda do Império Romano no Oriente em 1453;
� A Idade Moderna tem início com a queda do Império Romano no Oriente e se esten-
de até a Revolução Francesa em 1789;
� A Idade Contemporânea tem início com a Revolução Francesa e se estende até os
nossos dias.

Temos ainda o período chamado de “Pré História” que dá conta da história humana
anterior ao surgimento da escrita.

Dica
A escrita é o marco inicial da História porque durante muito tempo ape-
nas os documentos escritos eram considerados como fontes legítimas
para o estudo histórico. Com o tempo, outras fontes como as artísticas,
as orais, as materiais, entre outras foram sendo consideradas para o
conhecimento sobre a vida dos homens no tempo e no espaço.

130
OS POVOS DO ORIENTE PRÓXIMO E SUAS ORGANIZAÇÕES POLÍTICAS

O lugar de origem das primeiras civilizações já gerou debates entre diversos estudio-
sos. Por um lado, houve aqueles que apontaram as margens do rio Nilo, por outro lado,
houve aqueles que apontaram as margens dos rios Tigres e Eufrates, localizadas no
Oriente Próximo. Ainda houve aqueles que defenderam que ambas regiões se desen-
volveram de forma simultânea.
Por conta do formato em lua crescente e pela fertilidade propiciada por esses rios, a
região ficou conhecida como crescente fértil.

Mar Negro

Rio Hális

Mesopotâmia
Mar
Cáspio

Rio Rio Tigre


Mar Mediterrâneo Eufrates
Egito

Golfo
Pérsico
Deserto da
Arábia

Rio
Nilo Mar Vermelho

Área do Crescente Fértil

Fonte: [Link]

OS POVOS ANTIGOS DO ORIENTE PRÓXIMO ANTIGO

Mesopotâmicos (3500 a. C. a 539 a. C.)

A Mesopotâmia, região entre os rios Tigre e Eufrates, foi berço das primeiras civi-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


lizações da História, responsáveis pela criação da escrita, pela criação dos primeiros
sistemas hidráulicos e dos primeiros centros urbanos. Destacam-se:

POVO PERÍODO CARACTERÍSTICAS


Responsáveis pela invenção da escrita, feitas em plaquetas
de argila com um instrumento pontiagudo (escrita cunei-
3500–2340
Sumérios forme), com o objetivo de registrar a produção agrícola e a
a. C.
cobrança de impostos. Suas cidades foram invadidas pelos
acádios

131
POVO PERÍODO CARACTERÍSTICAS
2340–2000 Absorveram a cultura suméria, incluindo o sistema de escri-
Acádios
a. C. ta e a religião politeísta
Responsáveis pela formação de um Estado unificado e pela
2000–1550
Babilônios criação de um código de leis conhecido como Código de
a. C.
Hamurabi
1550–1300 Responsáveis pelo desenvolvimento de técnicas agrícolas e
Cassitas
a. C. pela introdução do uso do cavalo
1300–612 Possuíam um forte poder militar com o uso de armaduras,
Assírios
a. C. armas de ferro, carros de guerra e cavalarias
Responsáveis pela formação do Segundo Império Babilô-
612–539 a. nico, ampliando seus domínios até a fronteira com o Egito.
Caldeus
C. Com a derrota para os persas em 539 a. C., temos o fim da
civilização mesopotâmica

Fenícios (2700 a. C. a 146 a. C.)

Os fenícios se fixaram na região onde hoje é o Líbano. Foram grandes navegadores


estabelecendo colônias nas costas africana e europeia do Mar Mediterrâneo. Desen-
volveram intensas trocas comerciais que também permitiram muitas trocas comer-
ciais. Com isso, os fenícios possuíam técnicas de fabricação de tecidos e de artefatos
de vidro, conhecimentos matemáticos e astronômicos, além do uso de um sistema de
escrita bastante eficiente e disseminado entre seu povo.

Persas (2000 a. C. a 330 a. C.)

A Pérsia era uma região localizada entre o golfo Pérsico e o mar Cáspio, habitada em
2000 a. C. por medos e persas. No entanto, a partir de 559 a. C. conquistaram a sua
emancipação política. A partir daí, deram início a um processo de expansão rápido que
formou um dos maiores impérios da Antiguidade, se estendendo da África até a Ásia
Central e da Grécia até a Índia. Construíram uma eficiente rede de estradas que facili-
tava o comércio e a administração.

Hebreus (1800 a. C. a 135 d. C.)

O povo hebreu é mais conhecido pelo fato de ter dado origem ao monoteísmo, isto
é, o culto a uma só divindade: Javé. Eles se fixaram na atual região da Palestina em 1800
a. C., chamada de Terra Prometida. Por volta de 1600 a. C., após um período de grande
seca, eles foram para a região do Egito. Em 1575 a. C., os egípcios derrotaram os hicsos
e reconquistaram o domínio sobre a região, escravizando os hebreus. Até que em 1300
a. C., os hebreus saíram do Egito no episódio conhecido como Êxodo.

132
Segundo a Bíblia, durante o percurso, Moisés recebeu a Tábua dos Dez Mandamen-
tos, onde estavam todas as leis que aquele povo deveria seguir. Esse período inicial é
conhecido como o período dos patriarcas.
O período dos juízes, situado entre 1250 a. C., e 1025 a. C., é marcado pela luta em
retomar a Palestina de outros povos e pela administração dos juízes, que exerciam
funções militares, políticas e religiosas. Durante esse período, as tribos hebraicas se
organizaram e se unificaram militar e politicamente, dando origem ao Reino de Israel.
Porém, após a morte do rei Salomão, as tribos do sul divergiram e fundaram o Reino
de Judá em 922 a. C., quando passaram a ser conhecidos como judeus. Duzentos anos
depois, o Reino de Israel foi invadido e absorvido pelos assírios, enquanto isso, o Reino
de Judá resistiu a diversas tentativas de invasão até ser dominado pelos caldeus entre
586 a. C. e 539 a. C. Com a derrota dos caldeus para os persas, os judeus puderam ter
alguma autonomia política. Isso durou até 63 a. C., quando o Império Romano domi-
nou a região.
Após várias rebeliões, os judeus não resistiram aos ataques enviados pelo impera-
dor Adriano em 135 d. C, quando foram expulsos da Palestina e iniciaram um processo
de dispersão pelo mundo.

O Egito Antigo

“O Egito é uma dádiva do Nilo”. A frase em destaque é do historiador grego Heródo-


to, considerado o “pai da História”. Foi às margens de um dos maiores rios do mundo
que surgiu uma das mais importantes civilizações da Antiguidade: o Egito Antigo.
As margens do rio Nilo eram habitadas desde 8000 a. C aproximadamente. Ao longo
dos séculos, por conta da fertilidade propiciada pela cheia do rio, os grupos foram se
fixando na região para o plantio de cereais e o armazenamento de água para a irriga-
ção. Isso fez com que fossem se formando pequenas comunidades agrícolas chamadas
nomos. Seus líderes, chamados nomarcas, disputavam o controle das áreas férteis.
Para se fortalecerem, os nomarcas se juntaram em dois reinos: o Baixo Egito e o Alto
Egito. Por volta de 3100 a. C., o rei Menés, rei do Alto Egito, unificou os dois reinos e se
tornou o primeiro faraó. Com a diminuição das disputas políticas, a sociedade egípcia
pode se desenvolver.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL

133
� A sociedade egípcia

Faraó

Nobres e
Sacerdotes

Soldados

Escribas

Comerciantes

Artesãos

Agricultores e
Escravos

Fonte: [Link]

� Faraó: principal autoridade na sociedade egípcia, era visto como uma figura divina e vivia
em grande luxo;
� Alta sociedade: vinham abaixo do faraó e gozavam de muitos privilégios. Destacam-se:
nobres (descendentes do faraó ou de antigos nomarcas), sacerdotes (responsáveis pelos
rituais), chefes militares (ocupavam altos postos do exército) e escribas (fiscalizavam plan-
tações e cobravam impostos);
� Camada baixa: eram os mais pobres e pagadores de impostos e serviços para o Esta-
do. Destacam-se: comerciantes (também comercializavam com outros povos, produtos
como ouro, papiro, linho, trigo e objetos feitos pelos artesãos), artesãos (fabricavam ces-
tos, potes, roupas, sandálias, móveis ou mesmo objetos mais elaborados de luxo) e cam-
poneses (cultivavam tricô, linho e algodão, além de se dedicarem à criação de animais e
ao extrativismo);
� Escravos: em geral, eram prisioneiros de guerra empregados para o trabalho no campo,
na extração de ouro ou no trabalho doméstico.

Religiosidade Egípcia

Os egípcios eram politeístas, portanto, acreditavam em várias divindades. Destacando-


-se: Amon-Rá (Deus Sol), Osíris (Deus da Morte e da Ressurreição), Ísis (Deusa da Família),

134
Hórus (Deus Protetor dos Faraós), Tot (Deus da Sabedoria) e Anúbis (Deus dos Mortos).
Além da crença em vários deuses, tinha muita relevância a crença na vida após a morte.
Segundo a crença egípcia, a alma voltaria para o corpo depois de um tempo, o que
levava a necessidade do ritual de mumificação. No qual, com o uso de técnicas especí-
ficas, eles preservavam os corpos sem vida. Esse ritual surgiu somente entre os faraós,
mas com o tempo, o restante da sociedade também passou a fazê-lo.

� Pirâmides

Elas simbolizavam a morada para o espírito após a morte do corpo. Abrigava os cor-
pos mumificados em suas câmaras subterrâneas. As pirâmides localizadas em Gizé no
Egito (imagem) foram construídas entre 2550 e 2470 a. C.

Fonte: [Link]

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2015) A maior parte das regiões vizinhas [da antiga Mesopotâmia] caracteri-
za-se pela aridez e pela falta de água, o que desestimulou o povoamento e fez com que
fosse ocupada por populações organizadas em pequenos grupos que circulavam pelo
deserto. Já a Mesopotâmia apresenta uma grande diferença: embora marcada pela pai-
sagem desértica, possui uma planície cortada por dois grandes rios e diversos afluentes
e córregos.
(Marcelo Rede. A Mesopotâmia, 2002.)
HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL
A partir do texto, é correto afirmar que

a) os povos mesopotâmicos dependiam apenas da caça e do extrativismo vegetal para a


obtenção de alimentos.
b) a ocupação da planície mesopotâmica e das áreas vizinhas a ela, durante a Antiguidade,
teve caráter sedentário e ininterrupto.
c) a ocupação das áreas vizinhas da Mesopotâmia tinha características nômades e os
povos mesopotâmicos praticavam a agricultura irrigada.

135
d) a ocupação sedentária das regiões desérticas representava uma ameaça militar aos
habitantes da Mesopotâmia.
e) os povos mesopotâmicos jamais puderam se sedentarizar, devido às dificuldades de
obtenção de alimentos na região.
A Mesopotâmia está localizada em uma região geograficamente diversificada, cortada pelos
rios Tigre e Eufrates e seus afluentes. Essa área, irrigada pelos rios, é conhecida por suas terras
férteis, ideais para a agricultura. Além disso, a presença de água nessa região atraiu diversas
populações, tornando-a um centro de ocupação. Nos arredores, há cadeias de montanhas e áreas
desérticas, onde a escassez de água desencorajou o povoamento, sendo ocupadas por grupos
nômades. Resposta: Letra C.

2. (VUNESP – 2015) O grupo extremista islâmico autodenominado “Estado Islâmico” (EI)


começou a destruir mais um sítio arqueológico no norte do Iraque, segundo fontes cur-
das. No início desta semana, militantes do grupo haviam começado a demolir as ruínas
da cidade de Nimrud, antiga capital do império assírio, situada no norte da Mesopotâmia
e fundada no século 13 a.C..
(UOL, 7 mar.15. Disponível em: <[Link] Adaptado)

Em relação à cidade citada no trecho, é correto afirmar que ficava localizada em uma
região

a) desértica, sem muitos recursos e sem a possibilidade de cultivar alimentos, o que fez do
lugar um sítio bastante inóspito e com uma ocupação sempre muito instável e irregular.
b) bem próxima ao vale do rio Nilo, o que favorecia o cultivo de alimentos nas terras fér-
teis da várzea do rio, tendo possibilitado o contato com os egípcios e o processo de
sedentarização.
c) pouco propícia à sedentarização, o que levava os seus habitantes a estabelecerem tro-
cas comerciais em busca de alimentos, além de conviverem com a dificuldade de produ-
zir objetos de cerâmica.
d) banhada por dois importantes rios, o Tigre e o Eufrates, em torno dos quais surgiram os
primeiros agrupamentos humanos que dominaram a técnica da escrita de que se tem
notícia.
e) que oferecia água corrente em abundância, sem que se fizessem necessárias obras hidráu-
licas, o que favoreceu o desenvolvimento de uma sociedade complexa e institucionalizada.
O movimento radical “Estado Islâmico” iniciou uma campanha de destruição contra monumen-
tos históricos, sob a crença de que eles eram incompatíveis com a fé islâmica. Dentre esses locais
históricos, um situava-se próximo a Nimrud, uma das antigas metrópoles do Império Assírio,
estabelecido na área da Mesopotâmia, ladeada pelos rios Tigre e Eufrates. A Mesopotâmia é
reconhecida como o berço das primeiras civilizações urbanas e também pela criação do primeiro
sistema de escrita conhecido como cuneiforme. Resposta: Letra D.

136
AS CIDADES-ESTADOS DA GRÉCIA

Os gregos foram responsáveis pela formação de várias áreas do conhecimento que temos
contato em nossos dias, como a filosofia, a ciência, a literatura, a escultura, a arquitetura e o
teatro, assim como várias palavras do nosso vocabulário. Os gregos também são conhecidos
como “helenos”. O termo “heleno” vem do nome que os povos da região davam a sua pátria:
Hélade. O termo “grego” apareceu quando os romanos conquistaram a região.
Costumamos dividir a história da Grécia Antiga da seguinte forma:

2000–1200 A. C. 1200–800 A. 800–500 A. C. 500–338 A. 338–145 A.


PERÍODO C. PERÍODO PERÍODO C. PERÍODO C. PERÍODO
PRÉ-HOMÉRICO HOMÉRICO ARCAICO CLÁSSICO HELENÍSTICO

PERÍODO CARACTERÍSTICA
Os primeiros povos de língua indo-europeia se fixaram no território
PRÉ-HOMÉRICO
da Grécia
As sociedades gregas desse período eram organizadas em conjun-
HOMÉRICO
tos de famílias governadas por patriarcas (genos)
O crescimento populacional impulsionou a formação das cidades-
-estados e a colonização de novas áreas. Houve um aumento da pro-
ARCAICO
dução artesanal e do comércio. Nesse período, ampliou-se o uso de
moedas nas trocas comerciais entre as cidades
Cidades-estados disputaram entre si a hegemonia política e militar
CLÁSSICO
da região
A Grécia foi invadida e dominada por Felipe II, rei da Macedônia.
HELENÍSTICO Após a sua morte, seu filho Alexandre assumiu o poder e ampliou o
território, conquistando desde o norte da África até a Índia

CIDADES-ESTADOS

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Ao longo dos séculos, a Península Balcânica foi sendo ocupada por diferentes povos,
destacando-se os aqueus, os jônios, os dórios e os eólios. Esses povos se estabele-
ceram politicamente em torno de cidades autônomas que ficaram conhecidas como
cidades-estados.

Esparta

Fundada pelos dórios no século IX a. C. e localizada em uma região muito monta-


nhosa e pantanosa, foi uma sociedade baseada no militarismo. A educação esparta-
na era muito rígida, tanto para homens quanto para mulheres. Os meninos iam para

137
o treinamento militar já aos sete anos, enquanto as meninas eram preparadas para
serem mães de filhos fortes e saudáveis.
O governo espartano era liderado por dois reis (diarquia), responsáveis administra-
tivos, religiosos e militares. No entanto eles dividiam o poder com o eforato (órgão de
cinco membros que fiscalizam os demais poderes e controlavam o sistema educacio-
nal), com a gerúsia (formado por 28 membros com mais de 60 anos, que juntamente
com os dois reis formulavam as leis, julgavam os crimes e decidiam sobre as guerras
que envolviam Esparta) e com a Ápela (todos os cidadãos espartanos acima de 30 anos
responsáveis pela eleição dos outros membros e por votar as propostas de leis).

Soldado espartano.
Fonte: [Link]

Atenas

Fundada pelos jônios no século X a. C. Inicialmente, era governada por uma monar-
quia restringida por um conselho de aristocratas, que aos poucos assumiu mais poderes
até tornar Atenas uma oligarquia (governo de um grupo de pessoas). Esses eram cha-
mados eupátridas e descendiam das antigas famílias proprietárias de terra. No entan-
to, com a expansão comercial e colonial das cidades gregas, em Atenas foi aumentando
a força dos comerciantes e artesãos que passaram a reclamar por maior participação
política. Assim foi criada a figura do legislador, responsável pelo registro das leis.
O mais conhecido dos legisladores foi Sólon, que no início do século IV a. C. foi res-
ponsável por uma série de mudanças fundamentais: fim da escravidão por dívidas,
aumento do número de cidadãos com direitos políticos, criação de um conselho de
quatrocentos membros (Bulleutérion), de uma assembleia popular (Eclésia) e de um
tribunal popular de justiça (Helieia).

138
Na economia, houve incentivo ao artesanato e ao comércio, além da padronização
de moeda, pesos e medidas. No entanto, os camponeses ficaram insatisfeitos sem a
redistribuição de terras.
Essas reformas parciais levaram ao surgimento da tirania, quando um indivíduo
com o apoio das classes populares tomou o poder. O mais conhecido foi Pisístrato, que
por volta de 560 a. C. trouxe algumas mudanças como a distribuição de terras e dispo-
nibilização de empréstimos aos camponeses, fomentou a construção de obras públicas
e incentivou artistas e estudiosos. Seus sucessores, no entanto, não conseguiram dar
continuidade à tirania.
Por volta de 510 a. C., o aristocrata Clístenes devolveu os poderes ao Bulleutérion e ao
Helieia, além de criar os demos. Esses funcionaram como assembleias populares que
permitiram aos cidadãos atenienses tomarem decisões sobre questões públicas, além
do direito de voto ao ostracismo, mandando ao exílio por dez anos aqueles que vies-
sem a ameaçar a ordem democrática. A democracia foi consolidada por Péricles entre
461 e 429 a. C. No entanto, só participavam da democracia os nascidos em Atenas com
mais de 18 anos, além disso, os mais pobres tinham menos tempo de participação por
conta da dedicação ao trabalho, fazendo com que os mais abastados tivessem mais
espaço de decisão.

Fonte: [Link] HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL

O espaço público de Atenas era dividido pela Acrópole (cidade alta), onde se locali-
zavam os templos religiosos como o Partenon, e pela Ágora (cidade baixa), onde fica-
vam as assembleias como Helieia e o Bulleutérion.

139
Período Helenístico

Por volta de 340 a. C., os macedônios liderados por Alexandre Magno conquistaram
várias cidades gregas. Essa dominação causou transformações políticas, econômicas,
sociais e culturais muito significativas. Houve a possibilidade de intenso intercâmbio
cultural dos gregos com outros povos, como persas e macedônios. Esse movimento é
conhecido como helenismo.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2022) No pensamento grego, tudo o que é “musical” se relaciona intimamen-
te com o ritual, sobretudo com as festas, nas quais, evidentemente, o ritual possui sua
função específica. Talvez não haja uma descrição mais lúcida das relações entre o ritual,
a dança, a música e o jogo do que a das Leis de Platão. Os deuses, diz ele, cheios de
piedade pela raça humana, condenada ao sofrimento, ordenaram que se realizassem as
festas de ação de graças como descanso para suas preocupações, e deram-lhes Apolo,
as Musas e Dionísio como companheiros dessas festas, a fim de que essa divina comu-
nidade festiva restabelecesse a ordem das coisas entre os homens.
(Johan Huizinga. Homo ludens, 2007.)

O excerto, que aborda história e pensamento na Grécia Antiga, caracteriza

a) a dimensão material dos sentimentos e das ações políticas dos homens, sustentada
pela filosofia clássica.
b) a centralidade do mito na sociedade antiga grega e o vínculo desse mito com manifesta-
ções de caráter público.
c) a fragilidade do politeísmo perante a lógica e a incapacidade desse politeísmo de mobi-
lizar politicamente a sociedade.
d) as origens filosóficas da piedade e do sentimento de culpa posteriormente apropriados
pelo cristianismo.
e) as matrizes religiosas da democracia grega e o reconhecimento por essa democracia da
igualdade entre os homens livres.
O texto destaca a relevância dos deuses na sociedade grega antiga, que são considerados res-
ponsáveis por estabelecer rituais e festas para amenizar o sofrimento humano. Essas práticas
públicas estão associadas aos mitos, tornando a afirmação correta. Resposta: Letra B.

140
FORMAÇÃO, DESENVOLVIMENTO E DECLÍNIO DO IMPÉRIO ROMANO DO
OCIDENTE

Os romanos formaram na Antiguidade uma das sociedades mais conhecidas, admira-


das e temidas da história. Por meio de influências diversas e intercâmbios culturais inten-
sos, Roma em seu apogeu chegou a governar grade parte da Europa, o norte da África
e o Oriente Próximo. Costumamos dividir a História da Roma Antiga da seguinte forma:

800–509 a. C. 509–31 a. C. 31 a. C. 235–476 d. C.


Monarquia República Alto Império Baixo Império

Roma foi fundada no século VIII a. C. Até os dias de hoje, não possuímos muitos
vestígios sobre suas origens, mas a explicação mais aceita é que ela foi fundada pelo
povo etrusco unindo também povoados sabinos e latinos. Nos séculos seguintes, ela
se desenvolveu como uma cidade dotada de boa infraestrutura e usando o latim como
língua. Inicialmente, os habitantes se organizavam em grupos familiares chamados de
gens, chefiados por um patriarca.

Monarquia

A Monarquia Romana é o período em que Roma foi dominada e governada pelos


etruscos. O rei etrusco era responsável pelo controle administrativo, judicial, militar
e religioso. Os patrícios eram os descendentes das famílias mais antigas de Roma,
faziam parte do Senado e tinham participação nas decisões políticas. Os plebeus eram
formados pelos agricultores, artesãos, comerciantes e pequenos proprietários, esses
não tinham participação política. Os clientes eram plebeus dependentes dos patrícios,
a quem deviam obediência. Os escravos eram plebeus escravizados por dívida, no
período monárquico, essa camada não era tão significativa.

República

Em 509 a. C., descontentes com certas reformas sociais, os patrícios destituíram o


rei e instauraram uma república. O Senado, formado pelos patrícios, foi a instituição

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


com mais poder no período republicano. No entanto, ao longo do tempo, os plebeus
conquistaram algum espaço no campo político.
Sendo assim, o Senado era responsável pela administração e fiscalização dos funcio-
nários públicos, presidido por dois cônsules com mandato de um ano. A Assembleia
Centurial tratava das questões militares, controlava as decisões e elegia os magistra-
dos. A Assembleia Curial tratava das questões religiosas. A Assembleia Tribal tam-
bém tinha interferência sobre as decisões dos magistrados e ficava responsável por
eleger os magistrados inferiores, ou seja, aqueles que lidavam com a inspeção dos edi-
fícios públicos (edil), os que lidavam com o tesouro público e arrecadação de impostos
(questores) e os que defendiam os direitos da plebe no Senado (tribunos).

141
Na administração romana, além dos cônsules, possuíam grande prestígio os preto-
res (administravam a justiça) e os censores (calculavam a riqueza dos cidadãos e inter-
feriam na composição do Senado). Em caso de crise, o Senado podia optar pela eleição
de um ditador, que assumia a direção do Estado Romano. Foi durante a época republi-
cana que tiveram início as guerras de conquista de Roma, sendo as mais conhecidas as
três Guerras Púnicas contra a cidade portuária de Cartago entre 264 e 146 a. C.
Em decorrência do expansionismo romano, a escravidão acabou se tornando mui-
to comum, já que as populações derrotadas eram vendidas como escravos para os
mais ricos, realizando diversos trabalhos como a produção de alimentos, a mineração,
a construção de obras públicas e os serviços domésticos. Por outro lado, os plebeus
que se envolviam nas guerras acabaram perdendo suas terras pela falta de cultivo e
endividamento, fazendo com que Roma passasse por um processo de êxodo rural.
Os empregos urbanos ocupados por escravos levaram a maiores dificuldades para a
plebe.
Para reduzir esses problemas, os plebeus se organizaram para conseguir certos
direitos, tais como: se casarem com patrícios, o acesso às terras públicas e às altas
magistraturas e a validação dos decretos aprovados pelos plebeus. Mais adiante, os
irmãos Tibério e Caio Graco procuraram promover uma ampla reforma agrária, mas
acabaram sendo impedidos pela nobreza descontente com a iniciativa.
Outra consequência do expansionismo romano foi a profissionalização do exér-
cito. Em 104 a. C., tendo o general Mário como cônsul, o Senado aprovou a exigência
de possuir bens para o ingresso militar, os soldados passaram a ser remunerados e a
carreira militar passou a ser algo almejado em Roma.
Com o fortalecimento da plebe e do Exército, o poder do Senado passou a ser cada
vez mais ameaçado. Em 60 a. C., o líder dos plebeus, Júlio César, se alia aos generais
Crasso e Pompeu, reduzindo o poder do Senado e formando o Primeiro Triunvira-
to. Com a morte de Crasso e a expulsão de Pompeu, Júlio César se tornou ditador e
promoveu algumas mudanças como a distribuição de terras e de trigo, o perdão das
dívidas e a reforma do calendário. No entanto, ele foi assassinado por senadores con-
trários ao seu poder em 44 a. C.
Sem Júlio César, os militares Marco Antônio, Lépido e Otávio formaram o Segundo
Triunvirato. Parente de Júlio Cesar, Otávio derrotou os outros dois e assumiu o papel
de ditador em 31 a. C. Ele assumiu os títulos máximos da república até que em 27 a. C.
recebeu o título de augustus (venerado), pondo fim à república e se tornado o primeiro
imperador romano.

142
O assassinato de Júlio César em 15 de março de 44 a. C.
Fonte: [Link]

Alto Império

O período do Alto Império é, muitas vezes, caracterizado pela chamada Pax Roma-
na. Nesse período, houve um grande desenvolvimento político, econômico e social do
Império Romano, no entanto, conflitos de menores proporções foram travados, sendo
em sua maioria revoltas internas em várias regiões do Império, além da defesa contra
os ataques externos.
Algumas reformas foram empreendidas ainda no governo de Otávio Augusto, tais
como: a liberação de camponeses do serviço militar obrigatório, distribuição de terras
aos soldados não ativos e houve a organização da administração em todas as áreas do
Império.
Também foi durante esse período que o Império Romano atingiu a sua máxima
extensão no ano 117 d. C. com a conquista de regiões do Oriente Próximo e da ilha
Britânia.
O direito de voto e de cidadania era restrito aos homens livres nascidos na Península
Itálica. No entanto, com o desenvolvimento de certas regiões do Império, esses direitos
foram estendidos aos estrangeiros mais abastados. A extensão do Império também

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


levou à construção das estradas. Inicialmente voltadas para o uso militar, logo elas pas-
saram a ter utilidade para a troca de mensagens, circulação de pessoas e transporte de
mercadorias.

Baixo Império

No século III d. C., ocorre a crise do escravismo, resultante da paralisação da expan-


são territorial e consequente redução do fornecimento de escravos. Com isso, a pro-
dução agrícola, comercial e artesanal sofreu danos significativos. Muitos trabalhadores
urbanos desempregados passaram a migrar para o campo como mão de obra dos
grandes proprietários de terra, movimento conhecido como ruralização da economia.

143
O campo político também se encontrava em situação crítica. Entre 235 e 284, houve
uma grande sucessão de imperadores que governavam em média três anos, dado que
eram vítimas de deposições, golpes e assassinatos. Como resposta, o imperador Dio-
cleciano dividiu o seu poder com outros três imperadores, sistema que ficou conhecido
como tetrarquia. No entanto, uma onda de guerras civis atingiu o império. Constanti-
no já em 330 d. C. decidiu unificar o poder novamente e transferiu a capital do Império
para a cidade de Constantinopla. Já em 395 d. C., o Império foi dividido em ocidental,
com capital em Roma, e oriental, com capital em Constantinopla.
A pressão dos povos germânicos sobre as fronteiras levou a concessões cada vez
maiores do governo romano. O exército imperial enfraquecido e a crise econômica
levaram Roma a um declínio acentuado de sua força, até que em 476 a. C., Roma foi
invadida e o último imperador romano destituído, pondo fim ao Império Romano do
Ocidente.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC – 2018) O Império Romano, diante do desafio de administrar um vasto território
conquistado, estruturou-se por meio de uma ordem política

a) baseada na imposição da cultura e da língua romana (o Latim) a todos os cidadãos


livres e aos escravos em todo o território, reprimindo a cultura local e impondo senadores
romanos para governar as regiões anexadas.
b) calcada em um sistema federativo e representativo, no qual o Imperador era escolhido
por assembleias formadas por homens da nobreza, considerados cidadãos livres, em
todas as regiões conquistadas.
c) fundamentada em um sistema militar de ocupação territorial e imposição do catolicismo
romano, com a nomeação de cardeais, bispos e inquisidores pelo imperador entre as
autoridades de cada localidade.
d) inspirada no modelo de dominação vigente na Grécia antiga, que respeitava a autonomia
das cidades-estados e incentivava a formação de confederações e ligas.
e) organizada de maneira hierárquica, centralizada em Roma e que contava com a adesão
das elites locais das regiões dominadas para a cobrança de impostos exigida e a manu-
tenção da ordem social.
O Império Romano constituía-se como uma entidade política fortemente hierarquizada e centra-
lizada, tendo o imperador como a figura máxima dessa estrutura. A gestão imperial era sustenta-
da pela colaboração das elites regionais, essenciais na arrecadação de tributos e na preservação
da ordem social. Ademais, a administração imperial tinha seu eixo em Roma, a metrópole e sede
do império. Resposta: Letra E.

144
O LEGADO CULTURAL DOS GREGOS E ROMANOS

Até os dias de hoje temos profundas influências da Grécia Antiga em nossa socie-
dade. Muitos prédios públicos, universidades e tribunais, seguem a arquitetura grega
clássica. A filosofia grega influenciou alguns dos principais filósofos modernos, como
Rosseau e Voltaire, que elaboraram suas teorias tendo como base a racionalidade.
Além disso, foi com os gregos que nasceu a democracia, regime político que adotamos
nos dias de hoje em nosso país.
Vários elementos da cultura romana também merecem destaque. Roma sofreu
influências muito diversas: gregas, etruscas, germânicas, entre outras. No campo reli-
gioso, por exemplo, os romanos seguiram por muito tempo a adoração aos deuses
correspondentes dos gregos, tais como: Júpiter (Zeus), Minerva (Atena), Marte (Ares),
Vênus (Afrodite) e Netuno (Posêidon). No entanto, no século IV, o cristianismo ganhou
cada vez mais espaço, ganhando liberdade de culto em 313 sob Constantino e se tor-
nando a religião oficial do Império em 392 sob Teodósio.
Nas artes, a contribuição romana pode ser vista na arquitetura, com o uso de arcos,
abóbadas e cúpulas, eles construíram basílicas, templos, termas, teatros, anfiteatros,
aquedutos e estradas. Na literatura, nomes como Horácio, Virgílio e Tito Lívio deram
suas contribuições. Na língua, o latim se tornou o idioma oficial do Império. Ele se dis-
seminou e se fundiu com outras línguas, dando origem às línguas neolatinas, tais como
o espanhol, o italiano, o francês e o português.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL

Coliseu em Roma.

Fonte: [Link]

O Coliseu é um exemplo de espaço que recebia espetáculos públicos. Ele podia rece-
ber até 50 mil pessoas para assistir aos gladiadores, escravos treinados, lutarem contra
soldados ou contra animais selvagens. Encenações teatrais e corridas de biga também
eram espetáculos públicos populares.

145
O direito romano, outro importante legado, era dividido em direito público, que
organizava o funcionamento político do Estado, e em direito privado. Esse último pos-
suía como subdivisões: direito civil (orientava a vida jurídica dos cidadãos romanos),
direito das gentes (englobava outros povos dominados pelos romanos) e direito natural
(comum a todos, mesmo para os que viviam fora das fronteiras do Império Romano).

IDADE MÉDIA (476–1453)

FORMAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DO SISTEMA FEUDAL

Após a queda do Império Romano Ocidental, a Europa acabou sendo dividida em


diversos reinos germânicos, como pode ser visualizado no mapa abaixo:

Europa no século VI.

Fonte: [Link]

Já no século VIII, Carlos Magno promoveu a expansão dos francos, formando o Impé-
rio Carolíngio.
Para governar um território com extensão cada vez maior, Carlos Magno passou a
delegar poderes para grandes proprietários de terra que passaram a possuir títulos de
nobreza: duques, condes e marqueses. A principal função deles era garantir a proteção

146
do território. Após a morte de Carlos Magno, o Império Carolíngio foi dividido entre
seus três filhos. No entanto, a dificuldade de manter uma administração centralizada
levou ao crescimento do prestígio e do poder dessa nobreza proprietária de terras.
Dava-se o nome de feudo a essas grandes faixas de terras dadas em troca de obe-
diência e fidelidade. Desse termo, surgiu o feudalismo, isto é, um sistema baseado na
relação de dependência entre pessoas que recebiam posses e em troca garantiam pro-
teção, assim como os servos que trabalhavam em troca de moradia no feudo. Nesse
sistema, a Igreja Católica tinha grande influência e prestígio.

A Organização Política Feudal

No sistema político feudal, o rei era uma figura que possuía o poder simbólico. Quem
detinha o poder de fato eram os senhores feudais, donos de terras e capazes de mobi-
lizar exércitos para defender territórios de invasões externas. Os mais pobres tinham a
função de trabalhar e obedecer a ordens do senhor feudal.
Em geral, dividimos a sociedade feudal em três grupos principais:

� Nobreza: “os que lutam”;


Formada por reis, condes, marqueses, duques e barões que tinham como função
a defesa do território de invasões. Aqueles que doavam parte de suas terras eram
conhecidos como suseranos, enquanto aqueles que recebiam essas terras eram
conhecidos como vassalos. Ofereciam proteção e moradia aos camponeses, rece-
bendo em tributos e serviços;
� Clero: “os que rezam”;
Faziam parte bispos, cardeais, padres e monges. Divididos entre alto clero, ao qual
pertenciam os descendentes de nobres e baixo clero, composto por aqueles que não
tinham origem na nobreza. O alto clero cuidava da administração de reinos e feudos.
O baixo clero cuidava do atendimento espiritual e do auxílio às pessoas mais pobres;
� Camponeses: “os que trabalham”;
Era formado principalmente pelos servos. Tinham direito a morar e a plantar para
sua subsistência em terras do feudo. Em troca, trabalhavam para o senhor feudal
por toda a vida. Um grupo menor era formado pelos vilões, que eram descendentes

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


dos antigos romanos que cederam suas terras para os senhores feudais, a diferença
era que esses não precisam ficar a vida toda ligados ao feudo.

O Crescimento Comercial-Urbano e a Desagregação do Feudalismo

Por volta do ano 1000, começa um período de melhoria das condições de vida. Em
especial, isso se deve:

� Ao aumento da produção agrícola graças às novas técnicas no uso do solo;


� À diminuição das guerras e das invasões;
� Ao aumento do fluxo comercial com o Oriente e nova dinâmica nas cidades.

147
As cidades dessa época se desenvolveram como entrepostos comerciais ou pela ini-
ciativa de senhores feudais que permitiam as atividades de comércio para arrecadar
com impostos. Elas eram cercadas por muralhas, o que permitia segurança e o cresci-
mento desordenado de pessoas. No interior das muralhas, ocorriam feiras e mercados
nos quais eram comercializados produtos agrícolas, ferramentas, tecidos e sapatos,
como pode ser visto na imagem a seguir:

Imagem atual da cidade medieval de Carcassone na França.

Fonte: [Link]

Com a nova dinâmica ocorrendo nas cidades foi possível o surgimento de grupos em
meio à sociedade europeia:

� Os burgueses: Além das feiras regionais, houve o surgimento de feiras internacio-


nais. Os mercadores responsáveis pelo comércio se destacaram não só na econo-
mia, mas também na política, que permitiu a conquista de alguns privilégios como
a ampliação das muralhas ao redor de seus bairros, que eram conhecidos como
burgos, por isso os moradores eram chamados de burgueses. Cada vez mais orga-
nizados, os burgueses passaram a reclamar por maior participação política;
� Os banqueiros: Em meio às feiras internacionais, era possível ter contato com pro-
dutos de vários lugares diferentes. Para determinar as trocas (câmbio) entre moe-
das, alguns mercadores passaram a se dedicar em bancas que serviam para fazer
esse câmbio, assim, passaram a ser conhecidos como banqueiros. Ao longo do tem-
po, passaram a fazer outras operações como depósitos e empréstimos;
� As corporações de ofício: Foram formadas como associações de artesãos para
padronizar preços e a qualidade dos produtos comercializados. Surgiram também
corporações de pintores, de ferreiros, de marceneiros, de boticários, entre outros.
Elas eram organizadas pela liderança dos mestres que regulavam os salários e jor-
nadas de trabalho dos aprendizes. Cada corporação tinha um santo católico como
padroeiro.

148
A Civilização Árabe e a Expansão do Islã

No mesmo período em que o feudalismo estava em formação na Europa, nascia no


Oriente Médio uma das principais e mais influentes religiões que temos nos dias de
hoje: o islamismo. No início do século VII, a Península Arábica era uma região povoada
por uma série de tribos nômades ligadas ao comércio e à criação de animais. Esses
povos eram politeístas e tinham seus ídolos cultuados em um lugar sagrado chamado
Caaba, em Meca.
Em 609, Maomé, um mercador de Meca, começou a pregar que “Há um só Deus, Alá,
e Maomé é o seu profeta”. Conta a tradição que o Arcanjo Gabriel teria revelado essa
verdade, assim como as leis e condutas sagradas que devem ser seguidas, que se tor-
nou o livro sagrado do islamismo, o Alcorão.

Maomé e o Arcanjo.

Fonte: [Link]

No entanto, Maomé e seus primeiros adeptos passaram a ser perseguidos por pode-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


rosos chefes tribais que temiam perder os lucros que obtinham da peregrinação reli-
giosa em Meca. Em 622, Maomé e seus seguidores buscam refúgio em Iatreb, primeira
cidade a viver sobre as leis islâmicas, que passou a se chamar Medina. Esse episódio é
conhecido como Hégira e é o marco inicial do calendário muçulmano. Já em 630, tendo
os poderes militar e religioso, Maomé voltou a Meca e tomou a cidade. Os ídolos da
Caaba foram destruídos e o lugar se tornou o centro de peregrinação islâmica.
Mesmo após a morte de Maomé em 632, a expansão muçulmana prosseguiu sob a
liderança dos califas, chefes que possuíam poder militar e religioso. Entre 661 e 750,
com a Dinastia Omíada, o poder dos árabes muçulmanos sobre os não árabes islami-
zados aumentou. Em 711, a Península Ibérica foi conquistada.

149
A partir da Dinastia Abássida (750-1258), persas e iranianos islamizados consegui-
ram os mesmos direitos que os árabes, foi nessa época, em 809, que o domínio islâmi-
co atingiu o seu ápice territorial. No entanto, a fragmentação política ocorreu por conta
da dificuldade em administrar regiões distantes.

O Legado Cultural do Mundo Medieval

Durante muito tempo era comum designar o período situado entre a queda do Impé-
rio Romano e o movimento renascentista como “Idade das Trevas”. Ainda hoje vemos
em vários espaços da opinião pública pessoas que utilizam o termo “medieval” para
qualificar tudo aquilo que é retrógrado e ultrapassado.
No entanto, ao conhecermos a Idade Média com mais atenção, vemos que se tra-
ta de um período de grandes transformações socioeconômicas e culturais que tem
impacto em nossa vida até os dias de hoje. Veja um trecho do texto do historiador
Hilário Franco Jr.:
Pouca gente se dá conta, mas muitos hábitos, conceitos e objetos estão presentes no nosso dia
a dia, inclusive o idioma que falamos, vêm [da Idade Média]. Pensemos num dia comum de uma
pessoa comum. Tudo começa com algumas invenções medievais: ela põe sua roupa de baixo, veste
calças compridas, passa um cinto fechado com fivela. A seguir, põe uma camisa e faz um gesto
simples, automático, tocando pequenos objetos que também relembram a Idade Média, quando
foram inventados, por volta de 1204: os botões. Então, ela põe os óculos (criados em torno de 1285,
provavelmente na Itália) e vai verificar sua aparência num espelho de vidro (concepção do século
XIII). Por fim, antes de sair olha para fora através da janela de vidro (outra invenção medieval, de
fins do século XIV) para ver como está o tempo.
Sentindo fome, a pessoa levanta os olhos e consulta o relógio na parede da sala, imitando gesto
inaugurado pelos medievais. Foram eles que criaram, em fins do século XIII, um mecanismo para
medir o passar do tempo, independentemente da época do ano e das condições climáticas. Sen-
do hora do almoço, a pessoa vai para casa ou para o restaurante e senta-se à mesa. Eis aí outra
novidade medieval! Da mesma forma que os medievais, pegamos os alimentos com colher (criada
por volta de 1285) e garfo (século XI, de uso difundido no século XIV). Terminada a refeição, a pes-
soa passa no banco, que, como atividade laica, nasceu na Idade Média. Depois, para autenticar
documentos, dirige-se ao cartório, instituição que desde a Alta Idade Média preservava a memória
de certos atos jurídicos (“escritura”), fato importante numa época em que pouca gente sabia escre-
ver. (FRANCO JÚNIOR, Hilário. Somos todos da Idade Média. Revista de História da Biblioteca
Nacional, Rio de Janeiro: Sabin, ano 3, n. 30, p. 58-60, mar. 2008. Adaptado).

Com isso, podemos ver a importância que esse período tem na nossa cultura e no
nosso cotidiano.

A Civilização Bizantina

O Império Bizantino teve origem com a divisão feita pelo imperador romano Teodósio
em 395, quando fundou o Império Romano do Oriente com capital em Constantinopla.

150
A capital do Império era uma das cidades mais populosas de seu tempo, sua locali-
zação entre a Europa e a Ásia a tornava fundamental nas trocas comerciais entre Oci-
dente e Oriente.
Os bizantinos tinham influência romana no direito e na administração, influência
grega no idioma, influência oriental na arquitetura e nos produtos. Além disso, incor-
poraram a religião cristã. Por conseguinte, as crescentes tensões com relação à influên-
cia, ao poder e às questões dogmáticas levaram a formação da Igreja Ortodoxa Grega
separada da Igreja Católica Apostólica Romana.
O Império Bizantino foi derrubado pela invasão turco-otomana em 1453. Com isso, a
sede dos ortodoxos foi deslocada para Moscou, na Rússia, podendo ser melhor visua-
lizado a seguir:

Basílica de Santa Sofia em Istambul (antiga Constantinopla) na atual Turquia. Foi sede da Igreja Ortodoxa.

Fonte: [Link]

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (VUNESP – 2023) A recuperação demográfica carolíngia, mesmo pequena, apontava
para a expansão que começaria em meados do século X. Apesar da inexistência de uma

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


documentação quantitativa, é inquestionável aquele crescimento na Idade Média Cen-
tral, como se percebe por cinco claros indícios.
(Hilário Franco Júnior, A Idade Média, nascimento do ocidente)

Assinale a alternativa que apresenta um desses indícios.

a) A maior parte dos alimentos básicos consumidos na Europa Ocidental, caso do trigo, a
partir do século XI, provinha de regiões fora do continente, especialmente do norte da
África, de espaços islamizados, e as mercadorias estrangeiras eram trocadas por arte-
sanato e metais preciosos.

151
b) Mesmo com a Crise do Século XIV, a população europeia cresceu constantemente, em
essência em razão do aumento da taxa de natalidade e pelo acentuado decrescimento
da mortalidade, especialmente nas regiões que foram menos afetadas por uma rápida
urbanização.
c) Cresceram, de forma considerável, os conflitos bélicos envolvendo um número crescente
de reinados e outros domínios regionais, a partir do século XII, com o envolvimento de
exércitos, que contavam com a incorporação de enorme contingente de guerreiros, com
a maioria sendo de servos.
d) A partir da percepção das autoridades eclesiásticas, presente nos principais bispados
europeus, de que havia um crescimento descontrolado da população nos espaços urba-
nos, surgiram bulas papais, desde o século XII, que apontavam para um controle ainda
mais forte sobre a sexualidade dos fiéis.
e) Há um acentuado crescimento da população urbana naquele período, pois enquanto por
volta do ano 1 000 talvez não existisse na Europa católica nenhuma cidade com uma
população de 10 000 habitantes, no século XIII havia 55 cidades com um número de
habitantes superior àquele.
A opção correta evidencia um marcante sinal de expansão demográfica: a elevação notável na
contagem de cidades que ultrapassam os 10 mil moradores no intervalo dos anos 1000 a 1300.
Tal fenômeno é um reflexo direto do incremento populacional, demonstrando um crescimento no
número de indivíduos residindo em zonas urbanas. Resposta: Letra E.

2. (CEBRASPE-CESPE – 2024) Em relação ao feudalismo, assinale a opção correta.

a) Nessa época, houve expansão acentuada do comércio.


b) Preponderou o uso da moeda nas trocas mercantis.
c) Caracterizou-se pelo amplo domínio de uma nobreza fundiária e guerreira.
d) A mão de obra escrava foi usada de forma generalizada.
e) Inexistiu nessa época o trabalho servil.
Os senhores feudais, constituídos pela nobreza proprietária de terras e guerreira, mantinham o
domínio sobre vastas áreas rurais e possuíam poder sobre os camponeses que nelas laboravam.
A estrutura social feudal era estratificada, fundamentando-se na divisão entre a nobreza, o clero
e os camponeses. Resposta: Letra C.

3. (VUNESP – 2018) Dentre as alternativas a seguir, assinale a que contém a contribuição


significativa dada pela Igreja ao processo de fortalecimento do feudalismo durante a
Idade Média.
(Perry Anderson. In: Passagens da Antiguidade para o Feudalismo)

a) invenção do sistema de servidão.


b) formalização do pacto feudo-vassálico.
c) latinização gradual das línguas germânicas.

152
d) despovoamento sistemático das cidades.
e) conversão dos pagãos por meio do batismo.
O historiador Perry Anderson destaca o papel crucial da Igreja Cristã na transformação de diver-
sos costumes medievais. Ele ressalta a habilidade da Igreja em disseminar o latim entre as popu-
lações não romanas. A partir do século IV d.C., com a cristianização do Império Romano, bispos
e clérigos provinciais empreenderam a conversão dos habitantes rurais, empregando o idioma
como ferramenta para tal fim. Resposta: Letra C.

4. (FCC – 2018) A expansão do Islã ocorreu, no período correspondente à Idade Média,


com

a) a decisão do Império Persa em assumir o Islã como religião oficial em todos os seus
domínios.
b) o reconhecimento da cidade sagrada de Meca como a capital religiosa do Estado
Islâmico.
c) a publicação do Corão, livro que trazia as pregações divinas que teriam sido reveladas
diretamente a Moisés.
d) as pregações monoteístas de Maomé e a disseminação dessa crença a partir da Penín-
sula Arábica.
e) a vitória dos califas muçulmanos sobre os califas judeus, na guerra que polarizou dois
projetos distintos de Estados religiosos na Síria.
O islamismo inicia-se no século VII d.C., já na Idade Média, com o profeta Maomé na Península
Arábica. Ele se apresentou como um mensageiro de Deus, escolhido pelo arcanjo Gabriel para
guiar a humanidade à conversão. O Islã emergiu em oposição a práticas profundamente enraiza-
das entre os árabes, como o tribalismo, o politeísmo e a construção de imagens religiosas. A reli-
gião islâmica propôs a eliminação dessas tradições, consideradas nocivas, em favor da formação
de uma ampla comunidade de fiéis. No contexto islâmico, comportamentos sectários contra a
revelação divina, contra o profeta Maomé e contra a comunidade muçulmana eram vistos como
transgressões sérias. Ademais, a conversão dos politeístas e a diminuição do politeísmo foram
prioridades imediatas para o Islã sob a liderança de Maomé. Resposta: Letra D.

5. (VUNESP – 2022) Durante a Idade Média na Europa Ocidental, as realizações artísticas

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


eram

a) relacionadas prioritariamente à exploração científica dos corpos humanos.


b) diversificadas do ponto de vista das linguagens expressivas empregadas.
c) circunscritas aos espaços de culto popular oriundos do cristianismo romano.
d) caracterizadas pela repetição de conteúdos culturais impostos pelo mecenato.
e) limitadas às imitações rigorosas de padrões estéticos da Antiguidade clássica.
A arte medieval, apesar de estar profundamente enraizada em influências religiosas, não era uni-
forme. Havia uma vasta gama de estilos e métodos de expressão artística, que diferiam conforme
a época, localidade e o contexto cultural específico. Resposta: Letra B.

153
IDADE MODERNA

A RENASCENÇA, A REFORMA E A CONTRARREFORMA

No século XIV, a Europa passou por uma grande crise. Simultaneamente, ocorreu a
Peste Negra, pandemia que vitimou um terço da população europeia, a Guerra dos
Cem Anos, também responsável por mortes e instabilidade, além de uma crise na pro-
dução agrícola que levou a uma crise de fome, sendo melhor representado pela ima-
gem a seguir:

O Triunfo da Morte de Pieter Bruegel, 1562.

Fonte: [Link]

No contexto de crise, houve o enfraquecimento dos nobres, incapazes de lidar com


as revoltas e com a insatisfação popular. Por outro lado, a burguesia comercial e finan-
ceira passou a adquirir as propriedades de nobres falidos, acumulando cada vez mais
poder e prestígio. Para que houvesse a unificação da moeda, a unificação do sistema
de pesos e medidas e a proteção contra a concorrência no mercado, a burguesia pas-
sou a apoiar a concentração de poder pela figura do rei.
Na Itália, a situação em que as cidades se encontravam era de maior urbanização
e de ampla atividade comercial. As principais cidades, Gênova, Veneza e Florença, dis-
putavam poder, influência e prestígio. As famílias mais poderosas manifestavam sua
força, não apenas no controle político, mas também ostentando riqueza, apoiando
artistas que expressavam novos valores culturais em suas obras. Em um momento de
crise da Igreja e da aristocracia, esses benfeitores chamados mecenas queriam valori-
zar a figura do homem individual. Esse ambiente fez com que a Itália fosse o berço de
uma grande transformação cultural e intelectual conhecida como Renascimento.

154
Os Principais Valores Renascentistas Eram
� Humanismo: retorno aos estudos de pensadores da Antiguidade greco-romana,
que não significava o abandono da religião, mas sim uma renovação na cultura a
partir de uma visão mais crítica do papel do homem, por isso davam muito valor à
liberdade de pensamento;
� Antropocentrismo: o homem tomado como referencial para a compreensão do Uni-
verso, de modo que ele tivesse criatividade e iniciativa própria para o conhecimento;
� Heliocentrismo: o Sol visto como o centro do Universo, diferente a interpretação
vigente na qual a Terra era vista como o centro;
� Ciência e busca do conhecimento: com base no uso do raciocínio, da observação e
da experimentação;
� Artes: baseadas em novas técnicas, como a valorização dos traços e da harmonia cor-
poral do homem, pinturas que representavam movimento e liberdade de movimento
aos corpos e uso de conhecimentos matemáticos para o emprego da técnica de pers-
pectiva e impressão de profundidade. Os nomes de maior destaque foram: Leonardo
Da Vinci, Rafael Sanzio, Michelangelo, Donatello, Sandro Botticelli, entre outros.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL

A Escola de Atenas, Rafael Sanzio, 1510.


Fonte: [Link]

155
Monalisa, Leonardo Da Vinci, 1506
Fonte: [Link]

Davi, Michelangelo, 1504

Fonte: Wikipedia.

Você já deve ter se deparado com essas imagens em algum momento da sua vida.
Essas imagens são muito famosas, sendo pertencentes aos artistas: Rafael Sanzio, Leo-
nardo da Vinci e Michelangelo, respectivamente.
O mesmo ambiente de transformação cultural europeia que possibilitou o surgi-
mento do movimento renascentista também foi palco de profundas mudanças no
âmbito religioso. O ambiente de hegemonia da Igreja Católica passou a ser questiona-
do e novas denominações cristãs surgiram. Esse processo é conhecido como reforma
protestante.

156
� A Reforma Luterana: o então frade católico Martinho Lutero (1483-1546), após dis-
cordar de uma série de práticas do clero católico, decidiu fixar na porta da Igreja
de Wittenberg um documento conhecido como 95 teses. Rejeitado e posteriormente
expulso da Igreja, Lutero fundou sua própria igreja. O luteranismo pregava que a
salvação dependia da fé em Deus e não nos rituais católicos, que a Bíblia deveria ser
acessível a todos para ser lida e interpretada sem a mediação dos sacerdotes e tam-
bém que o sacerdócio era algo universal, rejeitando a divisão entre clérigos e leigos.
O luteranismo agradou alguns príncipes alemães insatisfeitos com a Igreja Católica,
dando proteção e sustentação a Lutero;
� A Reforma Calvinista: exilado em Genebra, na Suíça, João Calvino foi outro clérigo
católico que se revoltou contra Roma. Com o tempo formou sua própria concepção
religiosa, apartando-se do luteranismo.

� A principal característica do calvinismo é a crença na predestinação, ou seja, a salva-


ção ou a condenação da alma do homem era feita por Deus já em seu nascimento, sendo
a prosperidade econômica a indicação disso. Com isso, diferentemente do catolicismo, o
lucro passou a ser visto como algo positivo.

� A Reforma Anglicana

Tendo como estopim a rejeição de um divórcio pelo papa, o rei inglês Henrique VIII
fundou o anglicanismo. No entanto, a motivação fundamental era o interesse da Coroa
inglesa em tomar as terras papais na Inglaterra. Muitas práticas foram mantidas, como
o reconhecimento de santos e os sacramentos, e houve algumas inovações, como a
permissão de que mulheres integrassem o clero.

Henrique VIII, Martinho Lutero e João Calvino. HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL

Fonte: [Link]

Como pode ser visto na imagem anterior, temos Henrique VIII, Martinho Lutero e
João Calvino. Esse processo de reformas incomodou profundamente a Igreja Católica,
que deu início a um processo de renovação conhecido como contrarreforma, suas
principais propostas foram apontadas durante o Concílio de Trento (1545-1563).

157
Importante!
Destacam-se a reafirmação das tradições católicas, a reaproximação dos
clérigos com os leigos para renovar a espiritualidade e a proibição da venda
de indulgências (perdão dos pecados).

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC – 2022) Dentre as consequências da Reforma protestante iniciada na Alemanha,
cita-se:

a) O surgimento de novas igrejas em toda a Europa, a exemplo da Igreja Ortodoxa Grega,


levando a maioria dos países europeus a reverem sua religião oficial e não mais reconhe-
cerem a autoridade papal.
b) A reorganização administrativa e missionária da Igreja Católica para fazer frente à forte
atração que as religiões não cristãs, então emergentes, passam a exercer na população
camponesa.
c) A divisão da nobreza europeia entre reinos católicos e protestantes, causando guerras
por motivos religiosos, entre outros fatores, a exemplo da Guerra dos Trinta Anos.
d) A eliminação de determinadas práticas arraigadas na Igreja Católica, denunciadas pelos
protestantes, como a cobrança de dízimo, a condenação por heresia e a instituição do
celibato.
e) A mudança na forma da escolha do Papa, agora por meio de eleição, e a simplificação
dos rituais católicos, a exemplo da substituição do uso do latim por línguas vernáculas,
nas missas e em outras celebrações eucarísticas.
A Contrarreforma refere-se ao conjunto de medidas adotadas durante o Concílio de Trento
(1545–1563), no qual se avaliaram as teses de Lutero e a Reforma Protestante em geral. A Igreja
Católica decidiu então fortalecer seus dogmas e estruturas eclesiásticas, rejeitando as ideias pro-
testantes e intensificando a disciplina e a lealdade a Roma. Este período foi marcado por crescen-
te intolerância religiosa e pela formação de estados protestantes na Europa Central, culminando
nas tensões que levaram à Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), um conflito que redefiniu a diplo-
macia e a política europeia. Resposta: Letra C.

158
A Expansão Marítimo Comercial e o Processo de Colonização da América, África e
Ásia

Os meios tradicionais de comércio realizados pelos europeus foram sendo coloca-


dos em xeque por algumas mudanças sociopolíticas importantes, como o domínio do
entreposto de Constantinopla pelos turco-otomanos em 1453, o que dificultava o per-
curso via Mar Mediterrâneo. Isso forçou a busca de novas rotas comerciais pelo Ocea-
no Atlântico.
Alguns fatores foram importantes para o sucesso de portugueses e espanhóis no
início da expansão marítima:

� Uso da bússola (de origem chinesa);


� Uso do astrolábio (de origem árabe); e o
� Uso da caravela, tipo de embarcação mais rápida do que suas predecessoras.

Além do fato de Constantinopla estar nas mãos dos turco-otomanos e das técnicas
de navegação, alguns outros motivos explicam o pioneirismo dos reinos ibéricos:

� Conquista de Ceuta dos mouros pelos portugueses no norte da África em 1415, que
possibilitou o controle de um estratégico centro comercial;
� Conquista de Granada dos mouros pelos espanhóis em 1492, sendo um marco na
retomada da Península Ibérica;
� Procura por metais preciosos, em especial, o ouro e a prata, já que nos séculos XV e
XVI esses metais eram usados como forma de acumular riqueza, cunhar moedas e
em trocas comerciais;
� O ideal de evangelização para levar a fé cristã às populações que não a conheciam era
um projeto muito importante para os reinos católicos de portugueses e espanhóis.

Após a conquista de Ceuta, Portugal conseguiu uma série de outros feitos, como a
chegada à Ilha da Madeira (1419) e à Ilha de Açores (1439). Ainda em 1434, Gil Eanes
atravessou o Cabo do Bojador na Costa Africana e, a partir daí, Portugal estabeleceu
seus entrepostos e fortalezas ao longo da costa atlântica de todo o continente africano.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Quando em 1487, Bartolomeu Dias atravessou o Cabo das Tormentas (da Boa Esperan-
ça posteriormente), Portugal encontrou uma rota marítima para as Índias, formalizada
com a viagem de Vasco da Gama em 1498.
Dois anos depois, Pedro Álvares Cabral deu início à viagem que chegaria ao que hoje
é o Brasil. Ao contrário do que muitos imaginam, isso não foi acidental, mas sim pre-
visível, já que os portugueses tinham noção da existência de outras terras a oeste do
Atlântico.

159
Em 1492, foi a vez dos espanhóis buscarem essas novas rotas. Sob o patrocínio dos
reis Fernando e Isabel, Cristóvão Colombo partiu em busca de uma rota alternativa às
Índias, tendo a ideia de contornar o globo terrestre e chegar pelo extremo oriente. No
entanto, encontrou novas terras (e ele morreu sem saber que tinha encontrado novas
terras!!) que viriam a ser chamadas de América.
Para regular o processo da conquista de novas terras, Portugal e Espanha recorre-
ram ao papa Alexandre VI que promulgou a bula Inter Coetera. No entanto, a discor-
dância do rei português João II levou ao Tratado de Tordesilhas em 1494, em que a
oeste da linha imaginária eram terras espanholas e a leste eram terras portuguesas.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2016) Entre os motivos do pioneirismo português nas navegações oceânicas
dos séculos XV e XVI, podem-se citar

a) a influência árabe na Península Ibérica e a parceria com os comerciantes genoveses e


venezianos.
b) a centralização monárquica e o desenvolvimento de conhecimentos cartográficos e
astronômicos.
c) a superação do mito do abismo do mar e o apoio financeiro e tecnológico britânico.
d) o avanço das ideias iluministas e a defesa do livre-comércio entre as nações.
e) o fim do interesse europeu pelas especiarias e a busca de formas de conservação dos
alimentos.
Diversos elementos contribuíram para que os portugueses se destacassem nas Grandes Navega-
ções. Entre eles, destaca-se a centralização do poder monárquico em Portugal, efetivada após a
Revolução de Avis, que colocou D. João I no trono e inaugurou uma dinastia dedicada à expansão
territorial e naval. Além disso, avanços técnico-científicos que começaram na Idade Média impul-
sionaram o progresso da navegação, notadamente os conhecimentos em cartografia e astrono-
mia, que possibilitaram a elaboração de mapas mais precisos e detalhados. Resposta: Letra B.

Formação e Evolução das Monarquias Nacionais

A desagregação do feudalismo na Europa, entre os séculos XIV e XV, permitiu a for-


mação de um novo sistema político conhecido como Estado Moderno. Suas caracterís-
ticas em maior destaque foram: soberania do reino com território unificado e fronteiras
definidas, poder centralizado na figura do rei, jurisdição do poder real sobre o território
e sobre a população.
Como as fortalezas de cidades e feudos já não eram mais suficientes para garantir
a proteção das cidades, as monarquias procuraram investir em seus exércitos, usando
técnicas novas, como as de artilharia com o uso de pólvora. Em um período de instabi-
lidade, a Coroa assumiu a responsabilidade de defender o reino, os bens e a segurança
dos súditos, o que passou inclusive a justificar os tributos cobrados.

160
Foram criadas instituições administrativas, jurídicas e burocráticas para aumentar
o controle real sobre as outras classes, como os nobres, clérigos e camponeses. O
rei fazia um jogo duplo com a nobreza e com a burguesia. Nobres eram incluídos em
altos cargos da administração, tendo isenções de impostos e pensões. Burgueses tra-
ziam rendas para o Estado por meio de suas atividades comerciais, em troca, o rei lhes
garantia proteção nas rotas de comércio e a padronização de moeda, pesos e medidas.
As principais formas de Estado Moderno ocorreram em Portugal, com a vitória da
burguesia que conseguiu entronar D. João I após a revolução de Avis, e na Espanha,
com a junção dos reinos de Castela e Aragão e a expulsão dos mouros de Granada. Na
França, a vitória sobre a Inglaterra na Guerra dos Cem Anos e a supressão das revoltas
religiosas do século XVI aumentaram a força da monarquia. Na Inglaterra, a ascensão
dos Tudor após o término da Guerra das Duas Rosas e o rompimento com a Igreja
Católica deram força ao rei.

Iluminismo e Despotismo

O iluminismo foi um movimento intelectual que ocorreu na Europa, no século XVIII.


Os intelectuais que participaram desse movimento acreditavam que sua época pre-
cipitava ser iluminada pela luz da razão, ou seja, a natureza e a sociedade deveriam
ser compreendidas por meio da racionalidade. Os pensadores iluministas pretendiam
tornar a sociedade europeia mais justa e racional, por isso, questionaram as bases do
Antigo Regime, criticando o poder despótico dos reis absolutistas.
As ideias iluministas tiveram grande repercussão e influenciaram movimentos sociais
por todo o mundo, como a Revolução de Independência dos Estados Unidos da Améri-
ca e a Revolução Francesa. Os ideais iluministas também inspiraram algumas rebeliões
no Brasil, como a Conjuração Mineira e a Conjuração Baiana.
O iluminismo foi importante também por promover uma revolução científica. O
método científico moderno deveria ser baseado em algumas “leis” a serem seguidas:

� A curiosidade para resolver uma dúvida;


� Para resolver essa dúvida, desenvolve-se uma explicação possível chamada de
hipótese;

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


� Essa hipótese deve ser posta à prova por meio dos experimentos;
� Se o experimento comprovou a hipótese, temos uma teoria.

Os principais nomes a empregar esse método científico moderno de forma pioneira


foram Galileu Galilei, no estudo do sistema solar, Francis Bacon, por estabelecer o
empirismo e a importância da experiência, René Descartes, pela abordagem racional
dos fenômenos para estabelecer uma teoria, e Isaac Newton, responsável por esta-
belecer pela primeira vez um sistema científico para explicar o movimento dos corpos
físicos.

161
Experiência com um pássaro e uma bomba de ar de Joseph Wright.

Fonte: [Link]
ar-joseph-wright/

As críticas dos pensadores iluministas foram direcionadas principalmente contra o


Absolutismo e contra o poder da Igreja Católica.
Alguns pensadores foram:

� Montesquieu: o absolutismo, segundo ele, era um regime violento, corrupto, culpa-


do pela estagnação, temor e pobreza do povo. Para combatê-lo, deveria haver uma
divisão entre três poderes. O legislativo, para elaborar as leis, o executivo, para
administrar as leis, e o judiciário, para julgar os desvios da lei;
� Voltaire: um crítico feroz da Igreja Católica, ao qual via como responsável por propa-
gar superstição, fanatismo e a intolerância religiosa. Nesse sentido, ele defendia que
a razão deveria combater tais males;
� Rousseau: defendia que o poder tinha origem no povo e só seria legítimo se fosse
exercido sob seu nome. Para garantir a sua liberdade em sociedade, o homem deve-
ria priorizar os interesses coletivos ao invés de seus interesses individuais, manten-
do assim a sua liberdade e combatendo a corrupção.
� John Locke: defensor radical da propriedade privada, que segundo ele era o meio
por onde o homem produzia seus bens e garantia a riqueza da sociedade. Defendia
que a população escolhesse seus governantes por meio do voto e fiscalizasse seus
governantes, o chamado livre consentimento político;
� Adam Smith: considerado pai da liberdade econômica, defendia que as pessoas
fossem livres para comprar e vender produtos que desejassem. Sendo assim, o pro-
tecionismo feito pela Coroa era algo ruim, porque isolava o mercado interno de pro-
dutos externos, assim não deveria haver intervenção estatal;

162
� O despotismo esclarecido foi uma forma de governo que buscava conciliar ideias
iluministas e práticas absolutistas. Monarcas como Frederico II, da Prússia, Catarina,
da Rússia, José II, da Áustria, e José I, de Portugal promoveram o combate à corrup-
ção, à melhoria na administração dos tributos, a abolição da servidão e o incentivo à
agricultura, à indústria e ao comércio.

Marques de Pombal, ministro português responsável pelas reformas no reinado de José I.


Fonte: [Link]

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FGV – 2023) “Embora não ocupe em sua obra um maior destaque, uma vez que as suas
preocupações principais estavam em outros domínios, como o da metafísica e da epis-
temologia, a moral e a estética, ou mesmo da ciência e da matemática, Immanuel Kant
(1724-1804) publicou, em 1784, um ensaio com o curioso título de AIdeia de Uma Histó-
ria Universal de Um Ponto de Vista Cosmopolita. Obra cujas ideias vieram a influenciar
outros pensadores, como o do princípio teleológico que atraiu a Hegel, mas que também
ganharam adversários mordazes, como foi o caso de Herder.”
(ABREU, Gilberto. A deserção da História: pós-modernidade e neoliberalismo como armas ideológicas do capitalismo
global. Curitiba: Appris, 2017. p. 81).

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Na obra A Ideia de Uma História Universal de Um Ponto de Vista Cosmopolita, Immanuel
Kant acompanha a tendência do pensamento europeu do século XVIII que se fundamen-
tava em

a) elaborar abordagens filosóficas críticas ao colonialismo europeu moderno.


b) produzir literatura filosófica ancorada em visões pessimistas e derrotistas sobre a história.
c) estreitar o diálogo com a concepção de história presente na teologia cristã medieval.
d) criticar as concepções racionalistas sobre a História da Humanidade.
e) considerar que a história segue um fluxo ascendente em direção ao progresso humano.

163
Na obra “A Ideia de Uma História Universal de Um Ponto de Vista Cosmopolita”, Kant alinha-se
ao pensamento iluminista do século XVIII, que postula um desenvolvimento histórico progressivo
da humanidade. Segundo essa visão kantiana, o curso da história seria marcado por um avanço
contínuo rumo a um estado de maior liberdade, autodeterminação e iluminação, refletindo um
progresso que visa atingir patamares superiores de evolução moral e intelectual. Resposta: Letra E.

2. (FGV – 2023) Nós, abaixo-assinados, tendo nos reunido em virtude das ordens do Rei,
no dia 6 do presente mês de maio de 1789, resolvemos o que segue:

“Pedimos que todos os privilégios sejam abolidos. Declaramos que se alguém merece
ter privilégios e gozar de isenções, são os habitantes do campo, pois são os mais úteis
ao Estado, porque por seu trabalho o fazem viver. Pedimos também que as talhas com as
quais a nossa paróquia está sobrecarregada sejam abolidas; que este imposto seja con-
vertido num só e único imposto ao qual devem ser submetidos todos os eclesiásticos e
nobres sem distinção”.
Adaptado de MATTOSO, Kátia M. de Q. Textos e documentos para o estudo de História Contemporânea.
São Paulo: Edusp, 1976.

O documento exemplifica

a) uma crítica girondina à sociedade estamental francesa.


b) um pleito dos Estados Gerais para a reforma tributária.
c) uma proposta ministerial de reforma financeira.
d) um caderno de reclamações do Terceiro Estado.
e) uma declaração igualitária da Convenção Nacional.
Os “cadernos de queixas” constituíam documentos preparados pelos três estados sociais — cle-
ro, nobreza e Terceiro Estado — para expor suas demandas ao monarca. Especificamente para
o Terceiro Estado, formado sobretudo por camponeses, mercadores e operários das cidades, as
demandas comuns incluíam o fim dos privilégios feudais, mudanças no sistema de impostos e
aprimoramento das condições sociais. O documento em questão, que advoga pelos “habitantes
do campo” e solicita a eliminação de privilégios e a reforma fiscal, corresponde precisamente a
essas aspirações. Resposta: Letra D.

A Política Econômica Mercantilista

Mercantilismo é a doutrina que caracterizou a prática econômica dos Estados euro-


peus entre os séculos XVI e XVIII. Surgiu na desintegração do feudalismo e fortaleci-
mento das monarquias nacionais. Alguns princípios básicos do mercantilismo eram:
o metalismo, ou seja, a riqueza de um Estado era baseada na acumulação de metais
preciosos, a balança comercial favorável, isto é, as exportações deveriam ser maio-
res que as importações, o protecionismo, que se traduzia no aumento de tarifas sobre
produtos importados para proteger o mercado interno, além da forte intervenção
estatal na economia.

164
A Crise do Sistema Colonial e a Independência no Continente Americano

O primeiro processo de independência colonial da história ocorreu nas possessões


britânicas na América do Norte. As Treze Colônias Continentais eram divididas entre
as do norte, colonizada por imigrantes puritanos insatisfeitos com a Igreja Anglicana, e
as do sul, colonizada por imigrantes camponeses que se especializaram no cultivo de
produtos tropicais. O abastecimento dessas colônias era caracterizado pelo comércio
triangular entre América, África e Europa. A África cedia escravizados para a América,
que por sua vez cedia matérias-primas para a Europa, que por seu turno cedia produ-
tos manufaturados para América e África.
Os antecedentes da independência têm marco inicial com a Guerra dos Sete Anos,
quando os colonos defenderam as possessões inglesas contra os franceses. Entre 1764
e 1765, a Lei do Açúcar (obrigatoriedade em adquirir melaço e açúcar das Antilhas
inglesas), a Lei da Moeda (proibição da emissão de papéis de crédito) e a Lei do Selo
(taxação de todos os documentos e publicações por agentes ingleses) causaram gran-
de insatisfação entre os colonos. Em 1773, em um episódio conhecido como a Festa do
Chá de Boston, colonos radicais saquearam navios ingleses e lançaram a carga de chá
no mar, como forma de protesto contra a lei que obrigava a compra exclusiva de chá
dos ingleses. Como reação, a Inglaterra interditou o porto de Boston.
Os colonos se organizaram no Primeiro Congresso Continental, na Filadélfia, em
1774, para pedir sem sucesso ao rei inglês que as leis fossem abolidas. Como protesto,
houve o boicote dos produtos ingleses. Em 1776, o Segundo Congresso Continental
redigiu a Declaração de Independência em 4 de julho daquele ano. As hostilidades
entre rebeldes e colonizadores transformou-se em guerra, que só foi cessada em 1783
com o reconhecimento inglês da independência. Em 1787, um encontro entre os líde-
res das 13 colônias deu origem à Constituição dos Estados Unidos da América, sendo a
primeira república moderna do mundo.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL

Imagem que representa a Guerra de Independência dos EUA.

Fonte: [Link]
enem,779859/[Link]

165
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FGV – 2022) Na noite de 16 de dezembro de 1773, um grupo de homens disfarçados
de índios, autodenominados Filhos da Liberdade, embarcou em três navios e despejou o
carregamento de chá no porto de Boston.

Nathaniel Currier. Destruição do chá no porto de Boston, 1846

Esse episódio ficou conhecido como a “Festa do chá em Boston” e teve como objetivo
principal

a) atacar a Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC), responsável pelo contraban-
do de chá nas colônias americanas e pelos prejuízos aos comerciantes de chá inglês.
b) protestar contra a Lei do Chá, considerada abusiva pois o debate sobre o tributo havia
ocorrido no Parlamento inglês, no qual os colonos não tinham direito de representação.
c) punir as atividades de comerciantes holandeses e norte-americanos que contrabandea-
vam chá holandês, eliminando a remessa do produto no porto de Boston.
d) defender a liberdade de comércio no Atlântico Norte, sobretudo em função da repressão
indireta ao comércio triangular, reativada pela Lei do Chá.
e) lutar por um programa de independência americana, representado por colonos que se
consideravam os habitantes originais da América, contra ingleses e holandeses.
A Festa do Chá de Boston, ocorrida em 16 de dezembro de 1773, foi um marco decisivo no caminho
para a independência dos Estados Unidos. Representou um protesto organizado pelos colonos
americanos contra as políticas opressivas da coroa britânica, em especial os impostos elevados e
o monopólio da Companhia Britânica das Índias Orientais. Durante o evento, os colonos, vestidos
como indígenas, abordaram três navios da companhia e jogaram as cargas de chá no porto de
Boston. Esse ato de desafio visava denunciar as taxas impostas pela Grã-Bretanha à colônia, que
eram vistas como injustas e excessivas. Resposta: Letra E.

166
HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA: SÉCULO XIX

REVOLUÇÃO FRANCESA E ERA NAPOLEÔNICA

A Revolução Francesa é o evento histórico que separa a Idade Moderna e a Idade


Contemporânea, dado o tamanho do seu impacto na história da humanidade. Até o
século XVIII, a França vivia sob o reinado absolutista de Luís XVI, ele acumulava os pode-
res legislativo, executivo e judiciário.
A estrutura do Estado Absolutista possuía três diferentes estados que caracterizavam
sua população: o Primeiro Estado era representado pelo Alto Clero, o Segundo Estado
era formado pela nobreza, dividia-se entre aqueles de funções militares (nobreza de
espada) e aqueles de funções jurídicas (nobreza de toga), já o Terceiro Estado com-
preendia a burguesia, o Baixo Clero, comerciantes, banqueiros, empresários, trabalha-
dores urbanos e os camponeses. Os membros do Terceiro Estado eram conhecidos
como sans-cullotes, por conta de não usarem um calção que caracterizava a nobreza.
A Corte absolutista francesa possuía um alto custo de vida sustentado pelo estado.
No contexto pré revolucionário a França enfrentava uma terrível seca que afetou a pro-
dução de alimentos, uma crise no campo. Enfrentava também uma crise financeira, por
conta do endividamento e da falta de modernização econômica.
No fim da década de 1780, os membros do Terceiro Estado, já sob a influência ilumi-
nista, começaram a exigir maior participação política e uma resposta efetiva da Coroa
e da nobreza para a crise. Com a tensão entre os interesses do Terceiro Estado e os do
Alto Clero e da Nobreza se acentuando, Luís XVI convocou a Assembleia dos Estados
Gerais em maio de 1789. Entretanto, o fato dos votos do Primeiro e do Segundo Estado
terem maior peso despertou a indignação de burgueses e trabalhadores. A burguesia
passou a se articular para redigir uma nova constituição para a França. No mesmo
momento, o levante de populares sacudiu a cidade de Paris.
Em 14 de julho de 1789, o povo tomou a prisão da Bastilha (que será melhor visua-
lizado na figura a seguir) que simbolizava o Antigo Regime, pois era onde ficavam deti-
dos os presos políticos. Em 4 de agosto, a Assembleia Nacional ditou alguns decretos
que cortavam os privilégios da nobreza, como a isenção de impostos e o monopólio

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


sobre terras cultiváveis. Também instituiu a Declaração de Direitos do Homem e do
Cidadão, estabelecendo cidadania, liberdade, soberania e direito à defesa.

167
Queda da Bastilha em 14 de julho de 1789.

Fonte: [Link]

Em setembro de 1791 foi promulgada a nova constituição. Ela assegurava a cida-


dania para todos, a igualdade de todos perante a lei, o voto censitário e confiscava as
terras da Igreja, entre outras coisas. Essa fase da Revolução é conhecida como Monar-
quia Constitucional, que durou de 1791 a 1792. Os jacobinos, partidários de mudanças
mais radicais, defendiam uma ampliação da revolução, aumentando a pressão contra
os nobres e o clero para instituir a república. Ameaçado pelos rumos da Revolução,
Luís XVI articulou com a Prússia uma intervenção na França. Após o fracasso, o rei e sua
esposa Maria Antonieta tentaram fugir, mas acabaram sendo detidos. Ambos foram
mortos na guilhotina em 1793.
Esses eventos marcam o início do período da Convenção, sob a liderança dos jacobi-
nos. Caracterizou-se pela fase do Terror, quando a guilhotina foi usada de forma mais
sistemática. Robespierre, Saint-Just e Danton eram os líderes mais conhecidos. Nesse
período, os franceses também tiveram que resistir contra prussianos e austríacos, que
tentaram deter a revolução com medo de que ela se espalhasse. Nesse momento nas-
ceu o exército nacional francês. O que foi um marco por não ser composto por merce-
nários e aristocratas, mas pelo povo que se reconhecia com aquela nacionalidade.
Em 1795, a burguesia conseguiu retomar o poder e deu início ao período conhecido
como Diretório. Uma nova constituição foi redigida. O órgão de liderança era formado
por cinco membros indicados pelos deputados. A crise social na França era generaliza-
da e o medo da burguesia de que os jacobinos retornassem ao poder fez com que eles
se aliassem ao jovem general de destaque que retornava do Egito: Napoleão Bonapar-
te. O Golpe do 18 Brumário (9 de novembro) em 1799 instaurou uma ditadura sob sua
liderança e pôs fim a Revolução Francesa.

168
O Período Napoleônico

Logo após o Golpe do 18 Brumário, o Consulado foi tomado e governado por três
cônsules. Em 1802, Napoleão foi nomeado cônsul vitalício. Dois anos depois foi coroa-
do imperador da França após um plebiscito popular. Em seu governo ele reorganizou
a arrecadação de impostos, investiu na construção de obras públicas, criou o Banco
da França, estabeleceu o franco como moeda, manteve a desapropriação de terras de
nobres e instituiu o ensino público controlado pelo Estado.
Outra importante característica do governo napoleônico foi o expansionismo. As
guerras napoleônicas que ocorreram entre 1799 e 1815 levaram à conquista de pra-
ticamente toda a Europa. O grande empecilho para Napoleão foi a Inglaterra. Graças
ao seu isolamento, ela conseguiu se defender da conquista francesa. Napoleão então
impôs o Bloqueio Continental, impedindo que as nações europeias fizessem comér-
cio com os ingleses. Por outro lado, graças à força de sua marinha, a Inglaterra isolou a
Europa e explorou a ausência do comércio colonial.
O Império Napoleônico entrou em colapso após o Bloqueio Continental, além disso,
sofreu um duro revés na campanha da Rússia. Em 1814, não resistiu à aliança forma-
da por Inglaterra, Prússia, Áustria, Rússia e Suécia, que tomou Paris, levou Napoleão a
abdicar e entronou Luís XVIII como novo rei. No entanto, Napoleão conseguiu escapar
da prisão na ilha de Elba e formou o que ficaria conhecido como o Governo dos Cem
Dias. Em 18 de junho de 1815, ele foi derrotado na Batalha de Waterloo, na Bélgica. Foi
preso na Ilha de Santa Helena no Oceano Atlântico, onde viria a morrer em 1821.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FGV – 2022) Em meados de 1793, a situação da França era gravíssima: 60 dos 80 depar-
tamentos franceses estavam nas mãos da contrarrevolução, além da especulação, da
inflação, da carestia que assolavam o país.
(Modesto Florenzano, As revoluções burguesas. São Paulo: Brasilense, 1983, p. 56-57. Texto adaptado)

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Em parte, superar a crise foi possível com

a) a radicalização dos direitos de propriedade, inclusive com o reconhecimento da impor-


tância da pequena propriedade, além de um conjunto de experiências de organização
social, como a criação das Oficinas Nacionais em todo o território francês, com o objeti-
vo de combater o desemprego.
b) a prática da guerra total, na qual houve a total mobilização dos recursos da nação atra-
vés do recrutamento, do racionamento e de uma economia de guerra rigidamente con-
trolada, e quase abolição da distinção entre soldados e civis, além do atendimento das
reivindicações dos sans-culottes, como o controle geral de preços.

169
c) a adoção de medidas que ampliaram a participação política dos camponeses, que eram
fundamentais para garantir o abastecimento de alimentos da população urbana e a rea-
lização de recorrentes consultas públicas sobre as principais decisões a serem tomadas
pela Convenção.
d) a nova constituição, que limitava os direitos de cidadania porque o voto passou a ser
censitário, ao mesmo tempo, o governo jacobino estabeleceu acordos de paz com cada
uma das nações em conflito com a França e, para isso, foi necessário restaurar o poder
das principais casas dinásticas europeias.
e) o reestabelecimento da escravidão, que havia sido abolida pelo governo girondino, nas
colônias americanas sob o domínio francês e a abertura de contatos comerciais com
países do leste europeu para a aquisição de trigo, e outros alimentos, para suprir as
necessidades da população da França.
Segundo Modesto Florenzano, para contornar a crise que ameaçava o fim da Revolução, com a
rebelião em 60 dos 80 departamentos, era imprescindível a exclusão dos girondinos da Conven-
ção. Esse objetivo foi atingido por meio de uma insurreição popular que depôs o poder girondino
e elevou os jacobinos ao comando. Os jacobinos implementaram uma estratégia de guerra total,
mobilizando completamente a população por meio de recrutamento militar, racionamento e uma
economia de guerra sob estrito controle, além de praticamente eliminar a distinção entre a vida
militar e civil. Eles perceberam que, para triunfar sobre os adversários da Revolução, era neces-
sário engajar a nação no esforço de guerra, o que só seria possível atendendo às demandas dos
sans-culottes. Resposta: Letra B.

AS REVOLUÇÕES BURGUESAS E O NACIONALISMO

Revoluções burguesas são as caracterizações dadas às duas revoluções inglesas do


século XVIII, que tiveram como consequência a formação de uma monarquia constitucio-
nal e a imposição de limites ao poder do rei, dividindo atribuições com o parlamento. A
primeira revolução tem início em 1640. O Parlamento, majoritariamente puritano (protes-
tante), estava descontente com a aproximação do rei católico Carlos I com o papado e deci-
diu recusar o recolhimento de impostos como forma de protesto. Com isso, tem início uma
violenta guerra civil, que tem como desfecho a decapitação do rei, a queda da monarquia
e a instauração de uma república sob a liderança de Oliver Cromwell em 1649.

Dica
Chamamos de Revolução Puritana a essa primeira revolução inglesa.

170
A república durou pouco tempo após a morte de Cromwell, houve o retorno à dinas-
tia dos Stuarts, com a posse do filho do rei decapitado, Carlos II. Quando da morte dele
em 1685, este não havia deixado herdeiro, de tal sorte que o trono inglês passou para
seu irmão Jaime II. O novo rei trouxe de volta os atritos com o parlamento. Entre suas
medidas estava o retorno aos poderes absolutos do rei e o fortalecimento do catolicis-
mo na Inglaterra, havendo certos privilégios aos católicos como isenção de impostos e
nomeação para altos cargos.
É importante saber que o medo da perpetuação de católicos no poder com o nasci-
mento do filho do rei, em 1688, foi o estopim para o que conhecemos como Revolução
Gloriosa.
Ela ganhou esse nome, pois sua saída foi feita sem guerra. O Parlamento protestante
tramou junto à filha do rei, Maria Stuart, e seu marido, Guilherme de Orange. Com a
reunião de tropas para sua deposição, o rei Jaime II se exilou na França, enquanto sua
filha e seu genro assumiam o trono e garantiam o poder dos protestantes na Ingla-
terra. A condição fundamental para a coroação dos novos reis foi a assinatura da Bill
of Rights (Declaração dos Direitos), em que a monarquia constitucional era baseada
em limites postos pelo Parlamento à atuação real, como no aumento de impostos, no
confisco de propriedade e no direito à liberdade de expressão, a Coroa não poderia
interferir sem a decisão do Parlamento.
Essas revoluções são vistas como burguesas, pois garantiram as demandas da bur-
guesia inglesa, interessada em derrubar o absolutismo, sendo esse sistema visto como
um entrave no desenvolvimento das atividades econômicas. Além disso, as revoluções
burguesas da Inglaterra repercutiram no século seguinte: na própria Inglaterra, com a
Revolução Industrial, e na França, com a Revolução Francesa.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL

Coroação de Guilherme de Orange e Maria Stuart em 1690.

Fonte: [Link]

Ao falarmos em nacionalismo, devemos ter em mente que muitas definições podem


ser empregadas. Ele pode se expressar pela defesa da soberania nacional em se
explorar riquezas naturais, por exemplo; pode ser, também, relacionado à exaltação
de símbolos patrióticos, ou, ainda, como vemos com frequência nos últimos anos, ser

171
expresso como uma rejeição ao estrangeiro, que passa a ser visto como alguém que
“toma o lugar” do natural de um determinado país. Os discursos desse nacionalismo
xenofóbico ganharam força a partir de crises do sistema capitalista, que levaram à bus-
ca frustrada por emprego, do terrorismo ou, ainda, da fuga de pessoas em situação de
risco pelo mundo.

EXERCÍCIOS COMENTADOS
1. (FGV 2019) Após a Restauração, em 1660, o líder da Revolução Puritana, Oliver Crom-
well (1599-1658), teve seu corpo exumado e publicamente enforcado. Simultaneamente
amado e odiado, Cromwell foi visto, por alguns, como figura revolucionária, libertador do
absolutismo de Carlos I Stuart, e, por outros, como um fanático religioso, um regicida
signatário da sentença de morte do rei e, por isso, a encarnação do próprio “diabo”, como
representado na imagem a seguir.

172
A demonização de Cromwell e da República, feita pela nobreza inglesa do período da
Restauração, visava criticar

a) o aumento dos impostos sobre os puritanos instituído pelo Parlamento republicano.


b) o retrocesso dos direitos econômicos da burguesia durante o comando de Cromwell.
c) a instauração do sufrágio universal para eleição do Parlamento e dos ministros no perío-
do republicano.
d) o uso da religião como instrumento de defesa e/ou de perseguição de lideranças políticas.
e) a aliança com outras repúblicas concorrentes, como Veneza e Holanda, durante o gover-
no Cromwell.
Oliver Cromwell, possuidor de terras e puritano fervoroso, teve papel fundamental na execução
do monarca e se autoproclamou “Lorde Protetor da Grã-Bretanha”, instaurando uma era de
perseguição religiosa contra anglicanos e católicos. Em sua governança, adotou práticas compa-
ráveis às de um monarca absoluto.
Cromwell foi uma personalidade controversa na história inglesa, simultaneamente venerado e
repudiado. Com sua morte, o poder retornou à dinastia Stuart. De forma póstuma, em 1661, seu
corpo foi desenterrado e submetido a um simbólico enforcamento. Resposta: Letra D.

2. (VUNESP – 2019) Quase que simultaneamente, a revolução explodiu e venceu (tempo-


rariamente) na França, em toda a Itália, nos Estados alemães, na maior parte do império
dos Habsburgo e na Suíça. De forma menos aguda, a intranquilidade também afetou
a Espanha, a Dinamarca e a Romênia; de forma esporádica, a Irlanda, a Grécia e a Grã-
-Bretanha. Nunca houve nada tão próximo da revolução mundial com que sonhavam
os insurretos do que esta conflagração espontânea e geral, que conclui a era analisada
neste livro. O que em 1789 fora o levante de uma só nação era agora, assim parecia, “a
primavera dos povos” de todo um continente
(Eric Hobsbawm. Era das revoluções)

O excerto apresenta

a) as revoluções de 1848.
b) a restauração pós era napoleônica.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


c) as decorrências da grave crise de 1873.
d) a reação aristocrática pós 1830.
e) os antecedentes da Primeira Guerra.
As revoluções nacionalistas que irromperam em 1848, conhecidas como a Primavera dos Povos,
representam um ponto de inflexão na concepção do Estado-nação na Europa. Durante aqueles
meses, uma série de insurreições varreu o continente europeu, impulsionadas pelo fervor nacio-
nalista e pela reivindicação de fronteiras definidas pela identidade nacional. Isso reflete a transi-
ção para uma compreensão de que a legitimidade governamental emana do povo, culminando na
ideia de que a soberania de um Estado está intrinsecamente ligada não ao território delimitado
por acordos diplomáticos, mas ao espaço habitado e definido pela nação — uma entidade com-
plexa que engloba população, cultura e território. Resposta: Letra A.

173
REVOLUÇÃO INDUSTRIAL, VIDA ECONÔMICA E TRANSFORMAÇÕES SOCIAIS

Sem exagero algum, podemos dizer que a Revolução Industrial “pariu” a nossa épo-
ca. A Revolução Industrial é o longo processo de transformação social e econômica
iniciado com novas formas de produção, emprego de novas matérias-primas e formas
de energia que modificaram a forma de trabalho, a estrutura social, a estrutura urbana
e rural, as tecnologias e a relação com o tempo.
A Revolução Industrial não tem uma data específica. Ela possui diferentes fases e
cada uma dessas fases foi marcada por uma inovação na forma de produzir as merca-
dorias. Seguindo esse entendimento: A Primeira Revolução Industrial ocorreu entre
os anos 1760 até os anos 1830 e foi marcada pela força da indústria de lã e algodão
para a fabricação de tecidos e difusão do uso de máquinas a vapor que utilizavam o
carvão mineral como fonte de energia, essa fase praticamente se limitou à Inglaterra,
embora Países Baixos e França tenham participado tardiamente. A Segunda Revolu-
ção Industrial ocorreu entre os anos de 1850 até os anos 1910 e foi marcada pelo
emprego de combustíveis fósseis, principalmente o petróleo, pela expansão do setor
secundário da economia (siderurgia e metalurgia): Estados Unidos (no processo de
reconstrução após a Guerra Civil), o Japão (durante a Era Meiji) e a Alemanha (em seu
processo de unificação) tiveram maior destaque. A Terceira Revolução Industrial, ini-
ciada nos anos 1950, tem como característica a expansão da indústria de tecnologia de
ponta, com o emprego da robótica, da informática e da eletrônica, com o protagonismo
de europeus, estadunidenses, japoneses e sul-coreanos.
O crescimento desses negócios levou à circulação de moeda, aparecimento de ban-
cos regulares, de novas operações financeiras que foram valorizando cada vez mais
os bens móveis sobre os bens imóveis, afetando a terra e o símbolo de poder da aris-
tocracia. A necessidade de unificar moedas, impostos, leis, normas, pesos, medidas,
fronteiras, alfândega e regulamentar mercados nacionais e internacionais significou a
necessidade da unificação política em torno do Estado Nacional. Por outro lado, o pro-
cesso de expurgos e expropriações dos camponeses de suas terras para a produção
de lã permitiu a formação de uma massa carente de trabalho nas cidades para serem
absorvidas pela indústria.
A condição de vida dos trabalhadores era péssima. Crianças, idosos, mulheres ou
homens eram submetidos a jornadas que chegavam a de 16 horas de trabalho por dia.
Caso houvesse atrasos ou eles perdessem o ritmo da produção poderiam sofrer com
castigos físicos, além de sofrerem com descontos de metade de seu pagamento. Não
tardou que surgissem movimentos de reação a esse sistema de exploração.
Em 1799, o Parlamento Inglês aprovou o Combination Act, proibindo a criação de
associações de trabalhadores para negociar condições de trabalho e de salário. Houve
no período de 1811 e 1812 entre os tecelões um movimento de quebrar teares para
forçar o recuo de proprietários na demissão de trabalhadores e na diminuição de salá-
rios. Esse movimento ficou conhecido como ludismo e acabou inspirando outros movi-
mentos pela Europa.

174
Mesmo em meio à repressão, a pressão do movimento fez com que o Parlamento
em 1825 revogasse a Combination Act de 1799, permitindo o surgimento de associações
de trabalhadores.

Importante!
É desse modo que a partir da década de 1830 tem início um movimento
conhecido como cartismo, que buscava direitos por meio da política, como o
sufrágio universal e as eleições parlamentares anuais, lembrando que apenas
18% da população masculina inglesa votava. A rejeição do Parlamento a
essas mudanças é o estopim para diversas greves.

Entre as principais consequências da Revolução Industrial podemos mencionar os


métodos de produção mais eficientes que exigiram a ampliação de mercado consumi-
dor e que levou ao barateamento de produtos. A necessidade de exploração de maté-
rias-primas induziu as nações europeias a uma nova expansão colonial: a partir da
década de 1880, Inglaterra, França, Alemanha, Bélgica, entre outros se firmam como
impérios neocoloniais com possessões em vários continentes, mas com destaque para
a partilha da África e da Ásia. Inclusive foi essa guerra imperialista por terras, mercados
e poder que serviu de pretexto para a Primeira Grande Guerra em 1914.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2015) A divisão capitalista do trabalho – caracterizada pelo célebre exem-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


plo da manufatura de alfinetes, analisada por Adam Smith – foi adotada não pela sua
superioridade tecnológica, mas porque garantia ao empresário um papel essencial no
processo de produção: o de coordenador que, combinando os esforços separados dos
seus operários, obtém um produto mercante.
(Stephen Marglin. In: André Gorz (org.). Crítica da divisão do trabalho, 1980.)

Ao analisar o surgimento do sistema de fábrica, o texto destaca

a) o maior equilíbrio social provocado pelas melhorias nos salários e nas condições de
trabalho.

175
b) o melhor aproveitamento do tempo de trabalho e a autogestão da empresa pelos
trabalhadores.
c) o desenvolvimento tecnológico como fator determinante para o aumento da capacidade
produtiva.
d) a ampliação da capacidade produtiva como justificativa para a supressão de cargos dire-
tivos na organização do trabalho.
e) a importância do parcelamento de tarefas e o estabelecimento de uma hierarquia no
processo produtivo.
A especialização laboral, resultante da divisão do trabalho, permitiu que os operários se dedicas-
sem exclusivamente a uma função específica, sob a orientação de um supervisor. Essa constância
na execução de uma única atividade levou a um aumento na destreza dos trabalhadores e, con-
sequentemente, na produção. Contudo, essa especialização resultou na perda do conhecimento
integral do processo de produção por parte dos trabalhadores. Portanto, o texto discute dois
aspectos da divisão do trabalho: a segmentação das atividades e a presença de uma estrutura
hierárquica no ambiente produtivo. Resposta: Letra E.

VIDA POLÍTICA PÓS-1848 E O FIM DE SÉCULO

A vida política após as Revoluções de 1848 na Europa foi marcada por uma série de
mudanças estruturais que moldaram o continente. As revoluções, conhecidas como a
“Primavera dos Povos”, foram uma resposta aos regimes autocráticos e às crises eco-
nômicas que afligiam as classes médias e trabalhadoras. Embora as revoluções não
tenham sido bem-sucedidas em muitos aspectos, elas estabeleceram uma nova opo-
sição política entre a burguesia e o proletariado, que se tornaria uma característica
definidora da política europeia.
Na França, a Revolução de 1848 levou à queda da monarquia de Luís Filipe e ao
estabelecimento da Segunda República Francesa. A nova república introduziu reformas
significativas, como a abolição da pena de morte e a implementação do sufrágio univer-
sal masculino. No entanto, a república foi de curta duração, e em 1851, Luís Napoleão
Bonaparte realizou um golpe de estado, estabelecendo o Segundo Império Francês.
Em outros lugares da Europa, as revoluções de 1848 tiveram efeitos variados. Na
Alemanha e na Itália, as revoluções impulsionaram movimentos de unificação nacio-
nal que eventualmente levariam à formação de nações-estados unificadas. No Império
Austríaco, as revoluções resultaram na abolição da servidão e no fortalecimento do
nacionalismo entre os vários grupos étnicos do império.
O fim do século XIX viu o surgimento de novas ideologias políticas e movimentos
sociais. O socialismo e o anarquismo ganharam força como alternativas ao capitalismo
industrial e à ordem política estabelecida. Esses movimentos buscavam uma reorgani-
zação radical da sociedade e economia, defendendo a igualdade social e a abolição da
propriedade privada.

176
O período que se seguiu às revoluções de 1848 foi crucial para o desenvolvimento
da política moderna. As tensões entre diferentes classes sociais e grupos políticos, bem
como as questões de nacionalismo e identidade, continuariam a influenciar a política
europeia até o século XX. O legado das revoluções de 1848 e as transformações políti-
cas do fim de século estabeleceram o cenário para os conflitos e mudanças que mar-
cariam o próximo século.

IMPERIALISMO DO SÉCULO XIX

O desenvolvimento industrial do século XIX levou as grandes potências mundiais a


empreender a colonização de vários territórios na África, na Ásia e na Oceania. Além
do poder econômico, essas potências possuíam força militar muito expressiva, já que
estavam munidas de diversas inovações tecnológicas no setor bélico. O imperialismo,
dessa maneira, dominou vários povos e moldou o mundo na passagem do século XIX
para o século XX.
A Conferência de Berlim, entre 1884 e 1885 foi convocada pelo chanceler alemão
Otto Von Bismark e contou com a presença de 13 nações europeias, além dos Estados
Unidos e do Império Turco-Otomano. O objetivo da conferência era estabelecer regras
e critérios para a anexação dos territórios africanos. A posse de um território era reco-
nhecida mediante a fixação de um protetorado ou outra forma de administração sobre
aquele território.
Vale destacar que o processo neocolonial foi caracterizado também pela grande vio-
lência empregada. Essa se deu em sentido militar, sufocando qualquer iniciativa de
oposição dos colonizados, assim como em sentido cultural, já que o racismo, a inferio-
rização dessas populações e o esforço de aniquilar as práticas culturais nativas foram
práticas de europeus.

A AMÉRICA NO SÉCULO XIX

A elite letrada da América Espanhola, influenciada pelos ideais iluministas, passou


a questionar as decisões autoritárias da metrópole, bem como o pacto colonial. Esses
intelectuais faziam parte de um grupo conhecido como criollos, filhos de espanhóis

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


nascidos na América, que eram desprovidos de direitos políticos. Seu enfrentamento
se daria sobretudo contra os chapetones, nascidos na Espanha e que ocupavam os
principais cargos.
Além do iluminismo entre os intelectuais, a exploração do trabalho dos indígenas,
dos escravizados e dos mestiços também motivou algumas rebeliões. Junto à situação
de miséria vivida por esses grupos, essa exploração levou movimentos revolucionários
a tomar força, como a Rebelião Tupac Amaro (1780, Peru) e o Movimento Comunero
(1781, atual Colômbia).

177
O estopim para o movimento mais amplo de emancipação das colônias teve início
quando Napoleão Bonaparte invadiu a Espanha e prendeu o rei Fernando VII. As colô-
nias passaram a agir cada vez mais autonomamente em relação às metrópoles. Por
outro lado, a Inglaterra, em um momento de necessidade de ampliar os mercados con-
sumidores por conta da Revolução Industrial, viu com bons olhos o fim do monopólio
comercial espanhol na América.
Nesse contexto, a mobilização ganha impulso. A restauração da autoridade colonial
espanhola foi o início para as hostilidades dos criollos. Simon Bolívar e José de San
Martin tiveram papel de destaque, conseguindo mobilizar lideranças e exércitos que
tinha como objetivo declarar a independência de vários países no continente. O projeto
pan-americano de integração entre as nações independentes no Congresso do Pana-
má em 1826 não foi adiante, inclusive pela intervenção inglesa preocupada que isso
colocasse em risco seus interesses na região.
Os processos de independência acabaram não se traduzindo em uma efetiva e radi-
cal transformação da sociedade, vide o poder das elites locais que instauraram regimes
ditatoriais. Além disso, a dependência econômica em relação às potências capitalistas
estabelecida a partir do século XIX fez com que muitos dos problemas como a desigual-
dade econômica e a instabilidade social e política permanecessem.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2019) Segundo Maria Ligia Coelho Prado, no livro América Latina no século
XIX, “a constância da presença dos heróis nacionais na produção desses historiadores
liga-se, de um lado, às questões políticas da edificação da nação e, de outro, à perspecti-
va dominante na época, que conferia fundamentalmente aos grandes homens a realiza-
ção dos feitos históricos.
Entretanto, no campo do simbólico, os heróis nacionais só foram consagrados depois
de lutas de representação, que determinaram escolhas e exclusões particulares a cada
país.”

No contexto do texto, é correto afirmar que a trajetória de Simón Bolívar envolveu:

a) desprezo e depois sua consagração como herói na década de 1840 na Venezuela, quan-
do o país viveu intensas lutas políticas com ameaça de sua coesão interna.
b) a construção de uma imagem de herói exemplar na época em que percorreu as regiões
da América do Sul, lutando pela independência da Colômbia, México,Brasil e Equador.
c) a rejeição como traidor da pátria ao longo do século XIX na Colômbia, e o elogio como
herói, em outros países da América Latina, quando desponta o século XX.
d) debates calorosos, críticas e desprezo de seus aliados e da população do continente
americano por ter se envolvido nas guerras de independência dos Estados Unidos.

178
e) imagem de homem pobre e modesto, descendente da população nativa, elevado a herói e
pai da nação, na década de 1810, por ter vencido a guerra de descolonização no Equador.
Simon Bolívar, antes de ser consagrado como herói nacional da Venezuela, teve sua reputação
amplamente debatida e reinterpretada por historiadores e pensadores. Imediatamente após seu
falecimento, no período de 1830 a 1840, prevaleceu a visão de Bolívar como um líder autoritário,
avesso à inclusão do povo no processo decisório político, e que foi abandonado por seus compa-
nheiros de política. Contudo, na década de 1840, em meio a crises políticas que colocaram em
risco a integridade territorial venezuelana, a figura de Bolívar foi ressignificada. Ele passou a
ser visto como um guardião da unidade nacional, o que o elevou ao patamar de herói nacional.
Resposta: Letra A.

HISTÓRIA CONTEMPORÂNEA: SÉCULO XX

A CRISE INTERNACIONAL E A PRIMEIRA GUERRA MUNDIAL

Fonte: [Link]

Na imagem você pode ver o arquiduque Francisco Ferdinando acompanhado de sua


esposa Sofia. No dia 28 de junho de 1914, o herdeiro ao trono do Império Austro-Hún-
garo foi à Sarajevo para uma solenidade. Um grupo de nacionalistas sérvios e bósnios
conseguiu a proeza de assassinar o futuro imperador. Com isso, um jogo de alianças foi
formado: acusada de envolvimento, a Rússia defendeu a Sérvia contra Alemanha, Áus-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


tria-Hungria e Itália, ganhando o reforço da Entente, formada com França e Inglaterra.
Tinha início a Primeira Guerra Mundial.
As causas para a guerra vinham sendo amadurecidas desde o século XIX. A emergên-
cia da Alemanha como potência após sua unificação e tomada de territórios da França,
levou ao surgimento de um forte sentimento de revanche entre os franceses. Logo que
a Alemanha formou a Tríplice Aliança, a França correu para formar a Tríplice Entente. A
expansão do nacionalismo em meio às divergências étnicas e a expansão do neocolo-
nialismo promovida sobre territórios na Ásia e na África conduziram a Europa ao con-
flito em 1914. Vale o destaque para o fato de que a Itália abandonou a Tríplice Aliança
e se juntou à Entente no ano seguinte.

179
A primeira fase da guerra foi conhecida como Guerra de Movimento, quando a
Alemanha avançou sobre territórios franceses e sobre a região dos Balcãs no Leste
Europeu. No entanto, o que marcou a guerra mesmo foi a segunda fase chamada de
Guerra de Posição ou Guerra de Trincheiras entre 1915 e início de 1918, sem que
nenhum bloco tenha conseguido avançar de maneira considerável. O uso de novas
armas, produzidas em ritmo industrial, e a presença de aviões e tanques, levou a uma
grande mortalidade, estimada ao longo de toda a guerra por volta de 17 milhões de
pessoas, soldados e civis.
Em 1917, a Tríplice Entente perdeu a Rússia, que saiu da guerra após a Revolução
Bolchevique de outubro. No entanto, ganhou apoio militar, além do econômico, dos
Estados Unidos. A guerra chegou ao fim em 1918, com a vitória da Tríplice Entente e
derrota da Tríplice Aliança. Em 1919, o Tratado de Versalhes penalizou a Alemanha
com a perda de território, exército e obrigatoriedade de pagar uma grande indeniza-
ção aos vencedores. O Império Austro-Húngaro foi dissolvido, assim como o Império
Turco-Otomano. Além disso, a Liga das Nações foi criada para estreitar a diplomacia
entre as nações europeias. Como a história comprovaria 20 anos depois, o Tratado de
Versalhes e a Liga das Nações não só fracassaram em pôr fim às hostilidades, como
deram força ao revanchismo e à continuidade da disputa imperialista.
O Brasil passou a maior parte do conflito na neutralidade. No entanto, o bombar-
deio de um navio cargueiro que transportava café por um torpedeiro alemão em 1917
levou à Declaração de Guerra ao Império Alemão, assinada pelo presidente Wenceslau
Braz. A participação do Brasil, no entanto, foi tímida: restringiu-se ao envio de enfer-
meiras e à patrulha da costa norte-africana. Inclusive, foi nessa patrulha marinha que
o fuzilamento, por engano, de um bando de toninhas (espécie de golfinho) marcaria o
episódio bizarro da participação brasileira no conflito.
Mais importante, no entanto, seria o desdobramento econômico da guerra para o
Brasil. A queda nos preços do café, graças ao conflito, escancarou ao governo brasileiro
os males da dependência de produtos agrários para a exportação. Foi assim que, de
forma lenta, gradual e tímida, o país passou a investir na produção industrial, ainda que
em um primeiro momento ela ficasse praticamente restrita aos setores alimentícios,
têxteis e de construção civil, tornando São Paulo um destacado centro industrial.

REVOLUÇÃO RUSSA (1917)

Os antecedentes da Revolução Russa têm sua baliza associada à modernização ocor-


rida na segunda metade do século XIX. Em 1861 a servidão foi abolida, o que possibi-
litou um espaço para uma dinâmica comercial por parte dos camponeses. No fim do
século XIX, graças ao movimento de industrialização de cidades como Moscou e São
Petersburgo, houve o florescimento de uma classe operária urbana.
O fracasso da Rússia na guerra contra a emergente potência japonesa foi o estopim
para que a insatisfação se transformasse em revolta. Em 22 de janeiro de 1905, um pro-
testo pacífico convocado por um padre que apenas queria entregar uma reivindicação

180
por maior atenção do czar para com o povo, resultou em um massacre, episódio que
ficou conhecido como Domingo Sangrento. Isso apenas aumentou a revolta e os
populares começaram a se organizar em conselhos, chamados de sovietes. Além disso,
alguns partidos também surgiram. Vale destacar o Partido Operário Social Democra-
ta Russo, dividido entre os mais radicais, chamados bolcheviques, e mais moderados,
chamados mencheviques. Para conter a possível escalada revolucionária, o czar criou
a Duma: parlamento que deveria promover uma maior abertura política, mas que na
prática não o fez.
Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, ignorando todas as dificuldades, o Impé-
rio Russo entrou na guerra interessado no pan-eslavismo: expandir sua influência pelo
leste europeu. No entanto, o alto nível de deserção dos soldados russos e o alto nível
de pobreza da população fizeram eclodir a Revolução de Fevereiro em 1917. Com a
renúncia do czar, um governo provisório foi montado e os sovietes foram restabeleci-
dos. Em muitas fábricas, os conselhos operários passaram a comandar a produção. No
entanto, a Rússia permaneceu na guerra.
Em abril de 1917, um dos principais revolucionários russos voltou do exílio. Vladimir
Lênin tomou a liderança e passou a organizar os bolcheviques para tomarem o poder,
tirar a Rússia da guerra e aprofundar o processo revolucionário, sob o lema pão, paz e
terra. Em 25 de outubro (7 de novembro no nosso calendário), os bolcheviques chega-
ram ao poder ao derrubarem o governo provisório.

Lênin discursando em 1920 com a presença de Kamenev e Trotsky nas escadas do palanque. HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL
Fonte: [Link]

O poder dos conselhos operários foi garantido nas fábricas, os sovietes passaram a
ser administrados de maneira mais centralizada, as terras da nobreza e da Igreja Orto-
doxa foram divididas entre os camponeses e o estado passou a ser administrado pelo
Conselhos dos Comissários do Povo. Também foi instituído o Exército Vermelho, sob
o comando de Leon Trotsky. A Rússia foi retirada da guerra ao assinar o Tratado de
Brest-Litovsk com a Alemanha.

181
A assinatura do armistício não significou a paz na Rússia, pois as forças czaristas
receberam apoio de ingleses e franceses para formarem o Exército Branco e tentar
destruir o processo revolucionário. A estratégia do Comunismo de Guerra buscou ajus-
tar o Estado àquela conjuntura, promovendo a militarização da economia e direcio-
nando-a para os esforços de guerra. Assim, o Comunismo de Guerra impôs a disciplina
militar nas indústrias e passou a confiscar a produção camponesa. A união entre as
forças ucranianas e as do Exército Vermelho conseguiram derrotar o Exército Branco.
A Guerra Civil Russa durou de 1918 até 1921, deixando a Rússia destruída.
Para restaurar a economia, Lenin propôs que os revolucionários dessem “um pas-
sou para trás para que tivessem condições de dar dois passos à frente”. Sendo assim,
foi instituída a Nova Política Econômica (NEP), dando espaço para pequenas e médias
empresas privadas. Teve início a coletivização das terras camponesas, o que causou
forte tensão no campo com os grandes e médios proprietários de terra. Também, em
1921, foi redigida a Constituição da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, reunin-
do 12 repúblicas e mais de 150 nacionalidades em um vasto território.
Lenin veio a falecer em janeiro de 1924. Com sua morte houve uma grande dis-
puta pelo poder que só foi resolvida em 1928, quando Josef Stalin assumiu o cargo
de Secretário Geral. O stalinismo foi caracterizado como um regime autoritário que
buscou modernizar a União Soviética, ao mesmo tempo em que suprimia liberdades
políticas e perseguia adversários. Stalin permaneceu no poder até sua morte em 1953.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC – 2016) Considere os itens abaixo.

I. Consistia na abolição dos salários, na estatização das fábricas que empregassem mais
de cinco pessoas e na entrega obrigatória das colheitas ao governo.
II. Promovia um retorno parcial ao capitalismo com o objetivo de aumentar a produção e
superar a crise econômica. Por essa política, as colheitas passaram a ser vendidas no
mercado pelos camponeses; as indústrias que empregavam menos de vinte pessoas
foram privatizadas e o governo procurou atrair investimentos estrangeiros.
III. Criados para vigorar por cinco anos, definiam objetivos econômicos e mobilizavam
os recursos materiais e humanos russos para alcançá-los. Assim o Estado assumia a
função de centralizar e planificar rigidamente a economia.

Considerando as fases da Revolução Comunista na Rússia, os itens referem-se,


respectivamente,

a) à Nova Economia Política (NEP), ao Programa de Reforma Política e aos Programas


Sociais.
b) ao programa do partido comunista, à Nova Política Social (NPS) e aos planos quinquenais.

182
c) ao comunismo de guerra, à Nova Economia Política (NEP) e aos planos quinquenais.
d) ao socialismo democrático, ao Programa de Reforma Social e aos Planos de Metas
Econômicas.
e) ao comunismo de guerra, ao Programa de Reforma Social e aos Planos de Metas
Econômicas.
I. Esse segmento aborda o “comunismo de guerra”, um regime adotado durante a Guerra Civil
Russa (1918–1921), caracterizado por ações drásticas do governo bolchevique para assegurar
recursos e a continuidade do conflito. Durante essa fase, houve uma centralização e militarização
da economia, marcada pela eliminação do sistema salarial e pela nacionalização das indústrias.
II. Esse trecho trata da Nova Política Econômica (NEP), introduzida por Lenin em 1921, visando à
recuperação econômica do país após os impactos da Guerra Civil. A NEP relaxou algumas restri-
ções do comunismo de guerra, reintroduzindo elementos capitalistas na economia, como a per-
missão para que camponeses vendessem suas colheitas e a privatização de pequenas empresas.
III. Este ponto detalha os Planos Quinquenais, iniciados por Stalin em 1928, que estabeleciam
objetivos econômicos a serem alcançados a cada cinco anos. Esses planos foram fundamentais
na transição da União Soviética de uma sociedade baseada na agricultura para uma nação indus-
trializada. Resposta: Letra C.

PERÍODO ENTREGUERRAS

Período entre guerras é como é conhecido o período entre o fim da Primeira Guerra
Mundial em 1918 e início da Segunda Guerra Mundial em 1939. Com a Europa devas-
tada, os Estados Unidos apareceram com empréstimos que os auxiliaram a se recons-
truir. O modelo de vida americano, ou american way of life, passou a ser admirado por
aquele mundo europeu em ruínas. Os Estados Unidos, com isso, acabaram se consoli-
dando como a principal potência mundial.
Como a Europa estava necessitando retomar sua indústria, abriu-se uma grande
oportunidade para a industrialização de setores que forneciam aço, ferro, alumínio,
carvão mineral e petróleo servir à reconstrução industrial. Além dos empréstimos, os
EUA viram o crescimento do nível de consumo de sua população, o que deu força inclu-
sive a países agroexportadores, como era o Brasil naquela ocasião.
Esse grande boom econômico levou a um grande otimismo por parte de investido-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


res que passaram a hipotecar casas e outros bens na bolsa de valores esperando que
eles rendessem cada vez mais. Esse processo ao longo do tempo gerou uma bolha de
especulação, na qual muita gente estava colocando seus bens na oferta, mas não havia
demanda.
Foi, então, em outubro de 1929 que a crise explodiu, pois todos bens sofreram uma
desvalorização profunda. Ocorreu então um “efeito dominó” em que o setor financeiro
produziu uma crise econômica generalizada afetando a produção, a renda nacional, o
emprego, o empréstimo e, inclusive, o comércio externo, que viu perder dois terços de
sua atividade anterior.

183
Como resposta à crise de 1929, o governo de Franklin D. Roosevelt, eleito em 1933,
lançou o new deal. Sua estratégia era romper com a doutrina liberal de não intervenção
na economia. Sendo assim: o setor financeiro passou a sofrer com maior regulação, os
sindicatos foram base para negociações de conflitos de classe e obras públicas foram
espalhadas por todo o país para a retomada do emprego. No entanto, a recuperação
da chamada Grande Depressão só seria consolidada após a Segunda Guerra Mundial.
Na imagem a seguir pode ser vista a crítica feita ao slogan “O mais alto padrão de
vida: não há vida igual à vida americana”, pois o índice de desemprego era muito alto.

Desempregados em frente a uma propaganda que diz: “O mais alto padrão de vida: não há vida igual à vida
americana”.

Fonte: [Link]

O período entre guerras também foi marcado pela ascensão dos regimes fascis-
tas. Em geral, eles prometiam um retorno a um passado idealizado e grandioso pelo
qual seu povo tinha passado. Para isso, a sociedade deveria ser militarizada, o Estado
comandado por um partido único, sem pluralidade política e ideológica, além do com-
ponente racista e preconceituoso que atingia diversos grupos: os judeus, os ciganos, os
negros, os homossexuais etc.

IDEOLOGIAS E GOVERNOS NO SÉCULO XX

Fascismo na Itália

Benito Mussolini era um antigo militante socialista que rompeu com a esquerda
quando se opuseram à entrada de seu país na guerra. O revanchismo não foi um fator
aproveitado como em outros países, já que a Itália foi uma das vitoriosas na guerra.
Porém, a frustração em não receber compensações territoriais após a vitória e a grave
crise econômica enfrentada pelo país fizeram com que desempregados, estudantes,
classe média, militares e proprietários de terra aderissem à ideologia fascista, que pro-
metia o retorno ao suposto “passado glorioso italiano” a partir da obediência a Mussoli-
ni, combate aos adeptos da esquerda e controle do Estado sobre as relações de classe.
Esse último ponto fez com que o fascismo ganhasse a simpatia da burguesia.

184
Após a bem sucedida Marcha sobre Roma em 1922, o rei Vitor Emanuel III nomeou
Mussolini primeiro-ministro. Aos poucos ele concentrou poderes ditatoriais, aboliu sin-
dicatos e partidos políticos, pôs fim ao poder legislativo e submeteu o poder judiciário
ao seu governo.

Mussolini durante a Marcha sobre Roma.

Fonte: [Link]

Nazismo na Alemanha

Os alemães foram tratados como os grandes culpados pela Primeira Grande Guer-
ra, o que acarretou grandes perdas territoriais, militares, além dos custos das indeni-
zações ficassem sob sua responsabilidade. Nesse contexto, surgiu o Partido Nacional
Socialista dos Trabalhadores Alemães, que teve como importante porta-voz um cabo
da Primeira Guerra chamado Adolf Hitler. Em 1923, no auge do colapso econômico
alemão, ele tentou promover em Munique uma Marcha sobre Berlim. Preso e solto
quase dois anos depois, tomou a liderança do partido e divulgou suas ideias por meio
de sua obra Mein Kampf (Minha Luta), em que defendia que o “passado glorioso
alemão” foi perdido graças à conspiração judaica e marxista que dominava a Repú-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


blica de Weimar (governo alemão). Eleição em eleição, o Partido Nazista foi ganhando
cadeiras, na medida em que sua milícia, as SA, atuava perseguindo opositores políticos.
Com a crise de 1929 e declínio da recuperação econômica alemã, o discurso extremis-
ta ganhou força, até que em janeiro de 1933 Hitler foi nomeado Chanceler. Por meio
de sabotagens e perseguições, ele acumulou mais poderes, até que, com a morte do
presidente Hindenburg, ele assumiu o comando absoluto do país, sendo chamado de
führer (líder).

185
Importante!
O regime ditatorial Nazista promoveu a perseguição de judeus, ciganos,
eslavos, homossexuais, testemunhas de jeová e comunistas.

Na imagem vemos Hitler discursando diante da SS, milícia que substituiu as AS:

Hitler diante das SS, milícia que substituiu as SA após 1934.

Fonte: [Link]
[Link]

SEGUNDA GUERRA MUNDIAL (1939-1945)

A Segunda Guerra Mundial teve entre suas causas a tensão entre os imperialismos
europeus, vitoriosos e derrotados, ao fim do primeiro conflito. O acordo de paz de Ver-
salhes, mais do que estabelecer novas relações diplomáticas, procurou culpar a Alema-
nha pelo conflito. Isso fez com que persistisse aquele sentimento de revanchismo entre
as nações, em especial, entre alemães e franceses. Nesse sentido, a Liga das Nações
nasceu quase que fadada ao fracasso em garantir a paz. No Oriente, o Japão começou
a guerra de colonização da China em 1931. Esse conflito acabou se somando à Segunda
Guerra.
Outro importante fator é o impacto da Revolução Bolchevique de 1917. Com a vitória
dos comunistas, o restante dos países europeus temeu que a revolução se espalhasse
naquele contexto de crise.

186
Para evitar que isso acontecesse, parte da burguesia europeia aderiu a movimentos
radicalmente anticomunistas como no caso da Alemanha e da Itália. Outras nações
viam o nazifascismo como um “mal menor” diante da “ameaça comunista”, de modo
que foram complacentes com o militarismo e o expansionismo dos países que forma-
ram o Eixo.
A expansão territorial empenhada pela Alemanha fazia parte da formação daquilo
que os nazistas chamavam de “espaço vital”, região que deveria abrigar os arianos.
A prosperidade dos alemães seria garantida por meio da exploração dos povos vistos
como “sub-humanos” e como “inferiores”, como os eslavos e judeus.
Em 1938, os alemães anexam a Áustria em um evento conhecido como Anschluss.
Depois, os alemães se voltaram para dominar a Tchecoslováquia, dominando os Sude-
tos e integrando a minoria alemã ao território do Reich. Durante a Conferência de
Munique, ingleses e franceses cederam às pressões alemãs e permitiram que os ale-
mães invadissem o território da Tchecoslováquia para evitar que uma guerra fosse
iniciada. No entanto, houve a contrapartida que aquela seria a última ofensiva ale-
mã. Essa estratégia adotada por ingleses e franceses era conhecida como política de
apaziguamento.
Para ganhar tempo, Hitler conseguiu assinar o Pacto de Não Agressão com a União
Soviética em agosto de 1939. Em setembro, a Polônia foi invadida. Inglaterra e França
cumpriram a promessa de garantir a integridade da Polônia e declararam guerra à Ale-
manha. Tinha início a Segunda Guerra Mundial.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


Chamberlain (Inglaterra), Daladier (França), Hitler (Alemanha) e Mussolini (Itália) na Conferência de Munique.

Fonte: [Link]

As fases da guerra podem ser divididas em três:

� 1939–1941: avanço do Eixo (Alemanha-Itália-Japão), conquistando novos territórios.


A Alemanha conquistou França, Bélgica, Países Baixos, Luxemburgo a oeste e come-
çou sua expansão a leste, que ganharia impulso com o início da Operação Barbaros-
sa para invadir a União Soviética. O Japão conquistou áreas do sudoeste asiático e a
Itália tomou áreas na África.

187
Hitler em Paris.
Fonte: [Link]

� 1942–1943: equilíbrio entre as forças aliadas (URSS-Inglaterra-EUA) e as forças do Eixo.


Os EUA entraram na guerra após o ataque japonês a Pearl Harbor. A URSS conseguiu
reagir ao avanço alemão em seu território e passou a equilibrar o conflito, destaque
para a Batalha de Moscou e a Batalha de Stalingrado. A Alemanha toma territórios de
antigos aliados seus para formar estados fantoches e garantir sua força.

Ataque japonês a Pearl Harbor.


Fonte: [Link]

� 1944–1945: avanço e vitória dos aliados. Inglaterra e EUA invadiram a Normandia


na França e reconquistam o país. A URSS lançou a Operação Bagration, expulsou os
alemães de seus territórios e partiu rumo à derrubada do Reich. Os EUA conseguem
avançar sobre os domínios japoneses.

Soldado soviético colocando a bandeira da URSS no Reichstag.

Fonte: [Link]

188
O fim da Segunda Guerra ocorreu primeiro na Europa. Mussolini foi morto em 28 de
abril de 1945.
Dois dias depois, Hitler se suicidou em seu bunker na Chancelaria do Reich em Ber-
lim, quando os soviéticos já tomavam a cidade. A rendição alemã ocorreu em 8 de maio.
No Oriente, a guerra se arrastou até agosto. Os ataques com bombas atômicas em
Hiroshima e Nagasaki junto à entrada da União Soviética na luta contra o Japão, fez
com que declarasse o fim das hostilidades em 14 de agosto. A rendição oficial foi assi-
nada em 2 de setembro de 1945.
A Segunda Guerra Mundial deixou cerca de 60 milhões de mortos, sendo o conflito
mais letal em toda história. Os crimes contra a humanidade cometidos pelos nazistas
nos campos de concentração foram julgados pelo Tribunal de Nuremberg em 1946, com
alguns condenados à pena de morte, outros à prisão perpetua e também os que tiveram
a pena com direito à liberdade depois de cumprida. Em 1948, foi criada a Organização
das Nações Unidas para reformar a diplomacia mundial e manejar a paz mundial.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2017) Na Segunda Guerra Mundial, a participação dos Estados Unidos não
foi preventiva, mas central, embora existisse uma forte corrente “isolacionista” dentro da
classe dominante americana até dezembro de 1941 (ataque japonês a Pearl Harbor), que
marcou seu ingresso na guerra.
(COGGIOLA, Osvaldo. “Natureza da Segunda Guerra Mundial”. Em: COGGIOLA, Osvaldo (org.). Segunda Guerra
Mundial: um balanço histórico. São Paulo: Xamã, 1995. Adaptado)

Entre os antecedentes que levaram ao confronto entre o Japão e os EUA em 1941, é cor-
reto identificar
a) o tratado secreto de não agressão entre o Japão e a União Soviética, que provocou forte
tensão quando descoberto pelos EUA.
b) a conquista norte-americana do Havaí, arquipélago no Pacífico que até então pertencia
ao Japão, o que gerou descontentamento entre os nacionalistas japoneses.
c) o expansionismo japonês na China e na Indochina, que contribuiu para que os EUA deci-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


dissem embargar as importações japonesas de petróleo.
d) a ação conjunta de China e Japão contra o avanço imperialista dos EUA sobre o Pacífico,
o que levou à formação de uma aliança antiocidental.
e) o ingresso da União Soviética na aliança antifascista formada por França, EUA e Inglater-
ra, o que gerou desconfiança no Japão anticomunista.
É amplamente aceito que o bombardeio de Pearl Harbor pelo Japão foi o catalisador para a entra-
da dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial. Entretanto, o caminho para o ataque em
Pearl Harbor teve início com as ambições expansionistas do Japão, evidenciadas pelos ataques
ao território chinês e à Indochina. Como resposta a essas ofensivas, os Estados Unidos, junta-
mente com o Reino Unido e outras nações ocidentais, impuseram sanções econômicas ao Japão,
incluindo o congelamento de ativos japoneses. Resposta: Letra C.

189
GUERRA FRIA E AS SUPERPOTÊNCIAS

Quando os Estados Unidos lançaram as bombas atômicas sobre Hiroshima e Naga-


saki, além de terem posto um fim à Segunda Guerra, mostraram o tamanho de sua
força bélica, em especial, à União Soviética, a outra superpotência que emergia dos
escombros do conflito. Durante a Conferência de Yalta e a Conferência de Potsdam,
em 1945, as duas começaram a desenhar seu campo de força em torno das negocia-
ções de paz. Como diria o primeiro-ministro inglês Winston Churchill, formara-se uma
“cortina de ferro” sobre a Europa, que dividia o lado oriental comunista, do lado ociden-
tal capitalista. Como também ficou claro com a divisão da Alemanha.

LITUÂNIA

ATLÂNTICO

MEDITERRÂNEO

Fonte: [Link]

Empenhadas em manter as áreas de influência que haviam conquistado e em adqui-


rir outras, as disputas entre as duas superpotências geraram blocos de cooperação
econômica: o Conselho de Assistência Mútua (COMECOM) foi fundado pelo governo
soviético para ajudar os países de orientação comunista, enquanto os Estados Unidos
operaram o Plano Marshall, com o objetivo de reconstruir os países do ocidente euro-
peu e o Japão destruídos pela guerra.

190
Também houve a fundação de dois blocos de cooperação militar: a Organização
do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) tinha como objetivo impedir a expansão do
comunismo pela Europa, enquanto o Pacto de Varsóvia formou uma aliança militar
entre os países alinhados à URSS.
Em alguns momentos, a Guerra Fria resultou em confrontos em regiões pretendi-
das pelas duas superpotências. Destacam-se a Guerra da Coreia, travada entre 1950
e 1953, quando a Coreia do Norte comunista tentou, sem sucesso, invadir e unificar a
Coreia do Sul capitalista, e a Guerra do Vietnã, travada entre 1964 e 1974, quando os
EUA interviram para evitar que o Vietnã do Sul fosse integrado ao Vietnã do Norte, mas
fracassou.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FGV – 2023) “Para os EUA, o novo governo congolês de Maurice Lumumba parecia ser
mais uma ameaça de esquerda do Terceiro Mundo, uma ameaça ainda pior diante das
imensas riquezas naturais do Congo, que incluíam urânio. Ao voltar a Kinshasa, Lumum-
ba criticou o Secretário Geral das Nações Unidas porque as forças da ONU não esta-
vam apoiando seu governo. Em dezembro de 1960, Lumumba foi capturado, torturado e
assassinado sob os olhares de ‘ministros’ de Katanga e oficiais belgas”.
Adaptado de WESTAD, Odd Arne. The global Cold War, p. 137-140.

Os congoleses compõem atualmente a 5ª nacionalidade com mais refugiados no Brasil.


Em janeiro de 2022, o assassinato do jovem Moïse Kabagambe, no Rio de Janeiro,rea-
cendeu o debate sobre as guerras civis no Congo e a situação de seus refugiados. Um
professor de História partiu deste caso para incentivar um debate que articulasse desco-
lonização da África, Guerra Fria e imigrações no século XXI.

A proposta didática de conectar os processos de descolonização da África, durante


a Guerra Fria, e o dilema global dos refugiados no século XXI, permite ao docente de
história

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


a) associar a descolonização da África ao processo de redemocratização no Brasil.
b) atribuir a violência política do processo de independência do Congo às características da
sociedade congolesa.
c) compreender a atualidade da relação entre descolonização e racismo a partir do episó-
dio do assassinato de Moïse.
d) comparar a cultura colonialista e etnocêntrica da sociedade belga com a tradição da
democracia racial brasileira.
e) identificar a intolerância e as motivações étnicas que levaram à derrubada de Lumumba
e à perseguição de Moïse.

191
O objetivo educacional da proposta de vincular as batalhas pela independência e o processo
de descolonização da África, juntamente com a Guerra Fria e as recentes ondas de imigração
de refugiados do século XXI ao trágico assassinato do jovem Moïse Kabagambe, é criar elos
didáticos que facilitam a compreensão dos conflitos atuais que afetam as populações africanas.
Essa abordagem busca iluminar as contínuas lutas enfrentadas por aqueles que são descenden-
tes dessas populações, que ainda hoje lidam com o legado do racismo, um resquício das políticas
coloniais europeias que promoveram a invasão e partilha do continente africano, além de impul-
sionarem o comércio transatlântico de seres humanos para atender a seus interesses econômicos
e comerciais. Resposta: Letra C.

DESCOLONIZAÇÃO AFRO-ASIÁTICA

A descolonização da Ásia e da África só ocorreu após o fim da Segunda Guerra Mun-


dial, graças ao declínio dos países imperialistas e a ascensão dos nacionalismos entre
os povos dominados. Durante a Primeira Guerra Mundial começaram a se formar em
regiões asiáticas movimentos nacionalistas que propunham a libertação dos povos
dominados por potências imperialistas europeias. No entanto, seus objetivos só teriam
viabilidade após o fim da Segunda Guerra Mundial.
Na Índia, o Partido do Congresso Nacional Indiano reivindicava autonomia política,
modernização, igualdade e reformas sociais desde o fim da Primeira Guerra. Sob a lide-
rança de Mahatma Gandhi, o movimento incomodava os colonizadores britânicos, que
buscou prender seus líderes, além de fomentar a tensão entre hindus e muçulmanos.
Em 1947, sem condições para manter os seus domínios, a Inglaterra cedeu à indepen-
dência indiana. No entanto, a região sofreu intensos conflitos políticos, de tal maneira
que os hindus se firmaram na Índia, muçulmanos no Paquistão e budistas no Sri Lanka.
Em 1948, Gandhi foi assassinado por um muçulmano radical. Em 1971, Bangladesh se
separou do Paquistão. Apesar das independências, a população de todas essas regiões
permaneceu em condições muito pobres, além do convívio com conflitos religiosos,
étnicos e políticos.
Na Indochina Francesa, que compreendia Vietnã, Laos e Camboja, o movimento de
independência deu origem a uma guerra que se estendeu do fim de 1946 a 1954. A
divisão do Vietnã produziu outro conflito que opôs o Vietnã do Norte contra o Vietnã
do Sul apoiado pelos EUA. A Guerra do Vietnã foi cessada em 1974, quando o Vietnã
foi unificado sob o governo comunista de Hanói.
Durante o século XIX, a África foi alvo de várias conquistas coloniais, que atingiram
quase todo continente. Na metade da década de 50 do nosso século, quando se iniciou
o processo de descolonização, apenas eram independentes a Etiópia, a Libéria e a Áfri-
ca do Sul. O primeiro a se tornar independente foi Gana em 1957. Alguns países, como
Moçambique (1975) e Angola (1976), formaram governos independentes de orientação
comunista e alinhados à União Soviética.

192
EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2018) Na Guiné, Moçambique e Angola, os movimentos de libertação sem-
pre fizeram cuidadosa distinção entre o povo português, que os apoiava, e o governo
ditatorial que estava tentando esmagá-los. Desde o início, tais movimentos temeram que
uma revolução política na África portuguesa ainda pudesse deixá-los na condição de
dependência neocolonial de Lisboa e dos interesses econômicos europeus aos quais
Lisboa estava ligada e pelos quais às vezes atuava como agente. Por isso, a emergência
de ideias “terceiro-mundistas” no seio das forças armadas portuguesas foram observa-
das com grande interesse pelos movimentos marxistas na África.
(Maxwell, K. O Império derrotado: revolução e democracia em Portugal. São Paulo: Companhia das Letras, 2006.
Adaptado)

O trecho citado evidencia o fato de que, no contexto da Guerra Fria, havia forte associa-
ção entre

a) o nacionalismo conservador e a luta pela autodeterminação dos povos.


b) o terceiro-mundismo e os ideais e valores associados ao bloco capitalista.
c) as lutas anti-coloniais e a defesa de vínculos identitários com a metrópole.
d) as lutas socialistas e os processos de descolonização e libertação nacional.
e) os princípios democráticos liberais e o anti-autoritarismo comunista.
O texto indica que os movimentos marxistas no continente acompanhavam atentamente as bata-
lhas pela independência nas colônias africanas, evidenciando uma conexão significativa entre
os ideais socialistas e o movimento de descolonização do continente. Em Angola, Moçambique e
Guiné-Bissau, colônias portuguesas, surgiram grupos armados cujo objetivo inicial era alcançar
a autonomia nacional. O marxismo-leninismo servia como fundamento ideológico para esses
grupos. Resposta: Letra D.

ECONOMIA NO SÉCULO XX

Durante o século XX, a atividade industrial alcançou muitos países da Europa, além

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


de países latino-americanos, principalmente Brasil, México e Argentina. Sobretudo a
partir da década de 1950, inovações no campo da informática aplicadas na produção
permitiram que novos e importantes avanços fossem possíveis. A esse processo cha-
mamos de Terceira Revolução Industrial, caracterizada por um grande desenvolvi-
mento tecnológico, sendo importante pelo eixo técnico-científico-informacional.
O processo de informatização continua crescendo até os dias atuais. A robótica tam-
bém se desenvolveu muito, tornando a produção cada vez menos dependente de mão
de obra. A intensa substituição da mão de obra por máquinas é acompanhada pelo
desenvolvimento de novas fontes de energia, como a nuclear, as fontes alternativas,
como a solar e a eólica, consideradas fontes limpas por não emitirem gases poluentes.

193
O elevado grau de especialização para o trabalho é outra característica, no qual se
nota também o deslocamento de trabalhadores do setor secundário (indústria) para o
setor terciário (comércio e serviços).
A Terceira Revolução Industrial também se mostra muito ligada ao processo de glo-
balização, no qual cada etapa de produção é realizada em países ou em continentes
diferentes. Nesse sentido, a mão de obra mais especializada tem se concentrado nos
países centrais mais desenvolvidos e com alto grau de inovação tecnológica, enquan-
to outras economias participantes dos países emergentes ou subdesenvolvidos ficam
com uma parte menor dos ganhos da produção.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC – 2018) Sobre o processo histórico conhecido como a chamada “Terceira Revolu-
ção Industrial”, ocorrida a partir dos anos 1980, considere:

I. Este processo foi marcado pelo impacto das novas tecnologias de automação, informa-
ção e comunicação no processo produtivo, sobretudo nas indústrias.
II. O desenvolvimento da robótica é comumente citado como parte desse processo e de
seus elementos desencadeadores.
III. Houve diminuição da circulação de capital entre as nações, em contraponto ao aumento
do fluxo de pessoas em busca de emprego.
IV. Provocou um aumento do aparato de regulamentação jurídica e da presença do Estado
nacional na economia.

Está correto o que consta APENAS de

a) I e III.
b) I e II.
c) III e IV.
d) II e IV.
e) I, III e IV.
As afirmativas I e II estão corretas. Na afirmativa III, era essencial reconhecer a profunda cone-
xão entre a década de 1980 e o fenômeno da globalização. Um elemento chave dessa era foi a
expansão sem precedentes na integração dos mercados financeiros globais, o que resultou em
um aumento significativo no fluxo de capital transnacional, frequentemente além do controle
efetivo dos governos nacionais. A Terceira Revolução Industrial, caracterizada pela descentra-
lização industrial, está intrinsecamente ligada à fluidificação do capital na era da revolução da
informação, pois a capacidade de acumulação e investimento progrediu em conjunto com as
transformações nos processos produtivos já mencionadas. Portanto, a afirmação é incorreta.
Já na afirmativa IV, vê-se que, com a Terceira Revolução Industrial, a mobilidade do capital e
a redução dos vínculos territoriais nas cadeias de produção enfraqueceram o papel dos Esta-
dos nacionais na economia. Isso ocorreu porque tanto a produção quanto o capital adquiriram

194
uma capacidade sem precedentes de se mover rapidamente além das fronteiras nacionais. Em
resposta a essa nova realidade, houve um movimento generalizado por parte dos Estados para
desregulamentar suas economias, buscando manter-se competitivos na atração de capitais e
investimentos produtivos. A pressão para reduzir os custos de produção foi amplamente inter-
pretada como uma necessidade de relaxar as regulamentações governamentais, permitindo que
as forças de mercado, agora operando globalmente, distribuíssem os recursos de maneira mais
eficiente. Portanto, a afirmação é considerada incorreta. Resposta: Letra B.

AMÉRICA LATINA NO SÉCULO XX

Nas primeiras décadas do século XIX, grande parte dos países latino-americanos
conseguiu proclamar sua independência política e elaborar constituições que assegu-
raram a estabilidade. No entanto, por conta das disputas políticas entre chefes locais, a
estabilidade estava longe de ser conseguida. Os novos países latino-americanos man-
tiveram o modelo agroexportador e continuaram com suas economias dependentes
das nações industrializadas, principalmente Estados Unidos e Inglaterra, fornecendo
matéria-prima e comprando produtos manufaturados. A concentração de terra e da
renda levou grande parte da população, principalmente os camponeses, a viver em
condições miseráveis, situação que gerava revoltas.
Durante a Primeira Guerra Mundial, como as nações fornecedoras de produtos indus-
trializados estavam envolvidas no conflito, alguns países latino-americanos desenvol-
veram suas indústrias. Na década de 1950, Brasil, Argentina, Chile e México aceleraram
o processo de urbanização, industrialização, consolidação de uma burguesia indus-
trial, ampliação das camadas médias e da classe operária. As burguesias nacionais não
tinham condições de realizar investimentos para desenvolver a indústria de base e o
Estado ocupou esses espaços. O capital estrangeiro, principalmente estadunidense,
tornou-se imprescindível para alavancar o desenvolvimento. Todavia, aumentou a dívi-
da externa, ampliando a dependência dos países em desenvolvimento.
No período da Guerra Fria, os Estados Unidos interviram de forma direta e indireta
na deposição de presidentes e na instauração de regimes ditatoriais, casos de Argenti-
na, Chile e Brasil. Tudo em nome do receio de que a Revolução Cubana de 1959 causou
nos estadunidenses, preocupados que o ideal comunista ganhasse força pelo conti-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


nente. Na década de 1980, com as crises do petróleo, os Estados Unidos inviabilizaram
os empréstimos e aumentaram os juros para pagamentos, o que levou a uma crise
sistemática, tanto social quanto política, na América Latina.

195
Importante!
Como resposta a essa crise no desenvolvimento com grande participação
do Estado, o neoliberalismo surgiu como resposta, privatizando empresas
estatais, flexibilizando direitos e leis trabalhistas e abrindo as reservas
naturais nacionais para a exploração estrangeira.

A crise desse modelo no início dos anos 2000 levou ao ciclo mais recente de guina-
da à esquerda nos países latino-americanos, que passaram a repassar os ganhos nas
exportações de produtos primários para a redistribuição de renda por meio de políti-
cas de assistência social.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FCC – 2018) Na história da América Latina dos séculos XIX e XX, há vários exemplos
de interferência dos Estados Unidos na política interna de outras nações que configuram
o que se denomina intervencionismo estrangeiro. No caso do Brasil, é um exemplo de
intervencionismo norte-americano a Operação

a) Panamericana, que vigorou de 1959, ano da Revolução Cubana, ao fim do regime militar
brasileiro, mobilizando polícias políticas latino-americanas para acaptura de militantes
do Partido Comunista Brasileiro.
b) Popeye, em 1945, que consistiu na articulação de uma conspiração empresarial contra
Getúlio Vargas.
c) Pátria e Liberdade, que financiou a Marcha da Família com Deus pela Liberdade, durante
o período militar, em resposta à Passeata dos Cem mil.
d) Brother Sam, em março de 1964, em apoio aos grupos empenhados na derrubada do
governo de João Goulart.
e) Mosquito, que envolveu a força aérea norte-americana, ameaçando o governo de Jânio
Quadros após este ter condecorado Che Guevara.
Em aliança com líderes civis contrários a Goulart, os Estados Unidos iniciaram a Operação Bro-
ther Sam com o objetivo de financiar grupos opositores a Goulart e, caso fosse preciso, apoiar
um golpe de Estado. Esse movimento desembocaria no golpe militar ocorrido em 1964. Resposta:
Letra D.

196
EUROPA NO SÉCULO XX: DA RECONSTRUÇÃO À UNIÃO EUROPEIA

A Europa no século XX foi palco de uma das mais rápidas e significativas transforma-
ções na história moderna. Após a devastação da Segunda Guerra Mundial, o continente
enfrentou a colossal tarefa de reconstrução. O Plano Marshall, lançado em 1947, foi
um elemento crucial nesse processo, fornecendo recursos financeiros essenciais para
a recuperação econômica dos países europeus ocidentais. Este plano não só ajudou a
reconstruir as infraestruturas destruídas, mas também serviu como um baluarte con-
tra a expansão da influência soviética durante a Guerra Fria.
Com a recuperação econômica em andamento, a Europa começou a dar passos em
direção à integração política e econômica. A criação da Comunidade Econômica do
Carvão e do Aço (CECA) em 1951, que incluía Alemanha Ocidental, França, Itália, Bél-
gica, Holanda e Luxemburgo, foi um marco inicial. A CECA visava garantir a reserva de
carvão e aço, insumos vitais para o processo de reconstrução e fomentar a cooperação
econômica, evitando futuros conflitos.
O sucesso da CECA levou à formação da Comunidade Econômica Europeia (CEE) em
1957, também conhecida como Mercado Comum Europeu. Este foi um passo signifi-
cativo em direção a uma Europa mais unificada, com a eliminação de tarifas e a livre
circulação de bens, serviços, capital e pessoas. A CEE estabeleceu as bases para uma
integração mais profunda, que eventualmente evoluiria para a União Europeia.
A queda do Muro de Berlim em 1989 e o subsequente colapso da União Soviéti-
ca abriram caminho para uma Europa mais ampla e unida. A União Europeia (UE) foi
formalmente estabelecida pelo Tratado de Maastricht em 1992, marcando uma nova
era de integração política, econômica e social. A UE expandiu-se para incluir países
da Europa Central e Oriental, promovendo a estabilidade e a democracia em todo o
continente.
Hoje, a União Europeia é uma entidade supranacional única, composta por Estados-
-membros que compartilham legislação comum em várias áreas, desde o comércio até
o meio ambiente. A UE é um testemunho da capacidade da Europa de se reconstruir,
integrar e prosperar após períodos de conflito e divisão. O projeto europeu continua a
ser um exemplo de cooperação e unidade, apesar dos desafios e críticas que enfrenta
no século XX.

ÁFRICA E ÁSIA PÓS-DESCOLONIZAÇÃO HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL

Conhecida como uma das regiões mais conflituosas do mundo, o Oriente Médio é
palco de muitas tensões de ordem econômica, política, religiosa e étnica. Como um
ponto inicial, pode-se destacar a riqueza de recursos minerais da região, em especial,
o petróleo.

197
Na imagem temos as reservas de petróleo distribuídas pelo mundo.

Reservas de petróleo no mundo. Destaque para a abundância desse recurso no Oriente Médio.

Fonte: [Link]

Além disso, temos a presença de povos árabes, persas, curdos, judeus, turcos, entre
outros, que formam uma grande diversidade de etnias, além da diversidade religiosa,
tendo a presença de judeus, muçulmanos e cristãos, as três maiores denominações
religiosas do mundo. Em muitas vezes, essas diferenças se transformam em atritos
muito sérios, convertendo-se em guerras muitas vezes.
Vejamos alguns desses conflitos:

� Questão Palestina: após a Segunda Guerra Mundial, a ONU decidiu dividir a Pales-
tina como forma de tentar resolver os inúmeros problemas da região causados pela
presença dos dois povos, árabes e judeus. Assim, em 1947, o território palestino foi
dividido, mas os árabes rejeitaram a proposta. Durante a Guerra de Independência
(1948-1949), a Liga Árabe, composta por sete países (Jordânia, Egito, Síria, Líbano,
Iraque, Arábia Saudita e Iêmen), não aceitou a partilha da Palestina e invadiu o novo
Estado de Israel, mas acabou derrotada. O Estado de Israel aumentou o seu territó-
rio, a Faixa de Gaza foi anexada ao Egito e o território chamado de Cisjordânia pas-
sou a ser administrado pela Jordânia. Em 1967, as tensões se agravaram e, com o
apoio da União Soviética, o Egito, a Síria e a Jordânia criaram uma força militar com o
intuito de recuperar o território perdido em 1947. No entanto, com o apoio dos Esta-
dos Unidos, Israel atacou esses três países e ocupou a Península do Sinai (Egito); a
Faixa de Gaza e a Cisjordânia (Palestina); as Colinas de Golã (Síria); e a parte oriental
de Jerusalém. Com isso, o território israelense cresceu consideravelmente.

198
Esse conflito é conhecido como a Guerra dos Seis Dias. Em 1973, teve início a guer-
ra do Yom Kippur (Dia do Perdão). Aproveitando o feriado judeu, as tropas egípcias
e sírias avançaram sobre a Península do Sinai e as Colinas de Golã com o objetivo de
reconquistar os territórios perdidos na Guerra dos Seis Dias. Uma das consequências
dessa guerra foi a crise do petróleo, já que os países árabes, membros da Organização
dos Países Exportadores de Petróleo (Opep), decidiram interromper a produção e a
exportação desse produto para o Ocidente. Em 1979, Israel devolveu a Península do
Sinai ao Egito. Atualmente, a maior parte do território da Cisjordânia é controlada por
Israel, assim como as fronteiras da Faixa de Gaza, apesar de a região ser dominada por
palestinos.

PALESTINA

PALESTINA PALESTINA

PALESTINA

Diferenças territoriais entre palestinos e israelenses ao longo do tempo.

Fonte: [Link]

� Irã x Iraque: em 1979, um movimento islâmico radical implementou um sistema


teocrata no Irã. Esse movimento, chamado de Revolução Iraniana, causou proble-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


mas entre o Irã e o Ocidente. O Iraque, liderado por Saddam Hussein e apoiado
pelos EUA, invadiu uma província iraniana rica em petróleo. No entanto, após oito
anos de conflito, a guerra terminou sem vitoriosos, além dos altos custos humanos
e econômicos;
� Guerras do Golfo: entre 1990 e 1991, os Estados Unidos, com o aval da ONU, luta-
ram contra o Iraque para sua expulsão do Kuwait. Os bombardeios estadunidenses
acabaram sendo decisivos para a retirada iraquiana. Em 2003, mesmo sob críticas
da ONU e de diversos países, o governo Bush ordenou a invasão do Iraque, sob a
justificativa de posse de armas de destruição em massa, acusação que nunca foi
comprovada. A ocupação durou até 2011;

199
� Afeganistão: entre 1979 e 1988, o país foi ocupado pela URSS, apesar da forte resis-
tência imposta pelos guerrilheiros afegãos. Em 1996, o Talibã tomou o poder no
Afeganistão. Esse movimento islâmico radical implantou um Estado muçulmano.
Segundo o Serviço de Inteligência dos EUA, os atentados terroristas que ocorreram
em 11 de setembro de 2001 teriam sido de autoria do grupo Al-Qaeda, que tinha seu
principal centro de treinamento no Afeganistão. O que justificou a invasão estadu-
nidense em outubro de 2001. O líder da Al-Qaeda, Osama Bin Laden, foi morto em
2011. No entanto, as tropas só começaram a deixar o país em 2015.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (FGV – 2022) Este conflito teve como protagonistas o governo iraquiano, liderado pelo
ditador Saddam Hussein, e um grupo étnico predominante nas regiões norte e nordeste
do Iraque. Apesar de as ações do governo iraquiano terem sido retaliações contra rebel-
des dessa etnia que apoiaram o Irã durante a Guerra Iraque-Irã (1980-1988), elas não se
restringiram apenas aos rebeldes, mas atingiram todo um povo cujas aspirações separa-
tistas, língua e cultura foram duramente reprimidas.

O texto refere-se à repressão iraquiana aos

a) curdos.
b) berberes.
c) armênios.
d) judeus.
e) turcomenos.
No ano de 1988, o líder iraquiano Saddam Hussein ordenou um ataque utilizando armas quími-
cas contra uma área no nordeste do Iraque, habitada majoritariamente por cidadãos de origem
curda. No conflito com o Irã entre 1980 e 1988, o Iraque viu o controle sobre várias áreas curdas
escapar. Uma fração das forças separatistas curdas, conhecidas como peshmergas, lutou ao lado
do Irã em busca de autonomia política. Em resposta a essa aliança e com o intuito de retomar o
controle territorial, o governo iraquiano realizou um bombardeio químico sobre a localidade de
Halabja, sob a alegação de visar os separatistas curdos. No entanto, os bombardeios atingiram
também a população civil, afetando residências, hospitais e escolas, e resultando na morte de
mais de 5 mil indivíduos. Resposta: Letra A.

O FIM DA BIPOLARIDADE E A NOVA ORDEM MUNDIAL

O termo “poder” define-se, dentre outros, como “o direito ou a capacidade de deci-


dir, agir e ter voz de mando, autoridade”, ou, ainda, “como a supremacia em dirigir e
governar ações de outrem pela imposição da obediência, domínio, influência”. Esses
conceitos são bastante elucidativos. Entretanto, de que forma essas relações de poder
se aplicam à geopolítica mundial?

200
Para compreendermos esse processo, é necessário entender qual é o significado de
Ordem Mundial, vejamos:

� Por ordem mundial, entende-se uma forma de equilíbrio de poder no âmbito inter-
nacional, mundial, global em um determinado período histórico da humanidade.
Dito isso, é comum que o surgimento dessas ‘’novas autoridades’’ encontre-se atre-
lado a momentos específicos, nos quais o crescimento econômico, as disputas polí-
ticas e/ou comerciais e as instabilidades diplomáticas estejam gerando influências e
alterações nas ordens vigentes.

O conceito de Ordem Mundial, entretanto, é contestado por vários estudiosos, diplo-


matas e especialistas em política internacional, tais como o ex-secretário estaduniden-
se Henry Kissinger. Segundo este, o mundo, no atual momento, está passando por
uma desordem, pois a comunidade internacional não possui e não apresenta, de uma
maneira clara e objetiva, um conjunto de metas, métodos e até mesmo limites6.
De acordo com Kissinger7 (2015), diante do cenário mundial, é necessária a constru-
ção de uma ordem capaz de equilibrar os desejos conflitantes das nações, que, ainda
sob a mesma perspectiva, dividem-se em dois grupos:

� Potência Ocidentais: aquelas que estabeleceram as regras vigentes, que impõem


suas perspectivas na geopolítica mundial, sendo conhecidas também como “potên-
cias hegemônicas”, tais como os EUA e a União Europeia;
� Potências Emergentes: no geral, marcadas por industrializações tardias e uma ace-
leração econômica muito intensa nos últimos 70 anos, são nações que contrariam e/
ou alteram as regras impostas pelas potências hegemônicas. São exemplos: a China,
Brasil, Rússia e Índia.

As “Ordens Mundiais” são conhecidas por serem uma regionalização do globo com
base em critérios econômicos, políticos e militares, dividindo o mundo, portanto, em
“polos de poder”. Considerando esta definição, veremos, agora, as três principais
Ordens Mundiais que vigoraram, ou vigoram, no mundo nos últimos tempos — mais
precisamente entre os séculos XVIII e XXI.

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


A Primeira Ordem Mundial — Séculos XVIII ao XX

Para que ocorra a consolidação de uma ordem mundial, é necessário que o processo
de globalização esteja em andamento. De outro modo, para que uma Ordem Mundial
se torne realidade, é necessário um mínimo processo de inter-relação entre as diversas
nações, povos e territórios do mundo, os quais virão a sofrer a influência hegemônica
de outras.

6 KISSINGER, H. Ordem Mundial. 1ª ed. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2015.


7 Ibid.

201
Embora algumas nações, tais como Portugal, Espanha e França, já fossem potências
mundiais reconhecidas por suas economias baseadas em atividades manufaturadas,
a primeira Ordem Mundial foi estabelecida por meio da consolidação do Reino Unido
como uma grande nação hegemônica entre o século XVIII e parte do século XIX8.
Dentre os fatores que contribuíram para com o crescimento hegemônico do Reino
Unido, é importante destacar o expressivo poder marítimo e comercial, atrelado ao
desenvolvimento de seu processo produtivo no contexto da Primeira Revolução Indus-
trial, iniciada com a transição da economia manufatureira para a economia maquinofa-
tureira na Inglaterra por volta de 1750.
A supremacia britânica ocorreu até meados do século XIX, período no qual o pro-
cesso de industrialização e expansão de outras nações, tais como França, Alemanha,
Rússia e Japão, passou a torná-las cada vez mais influentes.
Por meio da expansão das áreas de influência destas potências para regiões como
África, Ásia e Oceania, em um contexto conhecido como Imperialismo ou Neocolonia-
lismo, foi imposta, nessas colônias, a formação de uma divisão internacional do traba-
lho (DIT). De outro modo, as regiões coloniais eram obrigadas a fornecer, para as suas
metrópoles europeias, matérias-primas de baixo custo e valor agregado, funcionando
como uma economia complementar de sua metrópole. Assim, pode-se dizer que a Pri-
meira Ordem Mundial tem relação direta com o processo de colonização e exploração
dos territórios colonizados.
Em 1945, com o fim da Segunda Guerra Mundial, devido ao enfraquecimento das
potências europeias em vários aspectos, especialmente o financeiro, ocasionado pelos
gastos com o conflito, a Primeira Ordem Mundial termina.
Atenção: o processo de enfraquecimento e consequente reconstrução das potên-
cias europeias proporcionou o movimento de independência de suas colônias na Áfri-
ca, Ásia e Oceania
O fim do conflito, entretanto, foi responsável, também, pelo deslocamento do centro
de poder mundial para os países que saíram vitoriosos e emergiram como potências
econômicas e políticas no pós-guerra: EUA e URSS. Este deslocamento, por sua vez, foi
o motor da construção de uma nova Ordem Mundial.

A Segunda Ordem Mundial — 1945 a 1991

Em uma linha temporal, a Ordem Bipolar, ou Segunda Ordem Mundial, tem relação
direta com a forma que o mundo se organizou, do ponto de vista geopolítico e econô-
mico, no período posterior ao da Segunda Guerra Mundial.
O conflito militar global conhecido como Segunda Guerra Mundial (1939 — 1945),
assim como a Primeira Guerra Mundial, evidenciou a necessidade de reafirmação de
uma Ordem Mundial em um mundo que, desde o início do século XX, presenciou um
ambiente de pseudomultipolaridade.

8 Quando apenas um país ou nação exerce hegemonia sobre as outras, trata-se de uma ordem unipolar.

202
Importante!
O termo “multipolaridade”, na geopolítica, refere-se a um cenário no qual
vários países, inseridos num contexto de Ordem Mundial, agem na condução
do processo de atuação e formação dos ambientes político, econômico,
militar e financeiro globais. De outro modo, indica a existência de distintos
centros de poder atuando no globo.

A situação pós-guerra, nesse sentido, relaciona-se à pseudomultipolaridade, pois,


nesse contexto, muito embora o cenário político já apresentasse a influência de vários
atores e distintos centros de poder, ainda havia a força hegemônica de uma única
potência, a Inglaterra.
De outro modo, nessa conjuntura, diversas nações buscavam o seu fortalecimento
por meio de seus domínios imperialistas, tanto de forma territorial quanto por meio de
ações políticas e econômicas.
A Segunda Guerra Mundial é considerada o maior conflito da história, pois diversos
países se organizaram em duas alianças militares opostas: os Aliados e o Eixo. Com
mais de 100 milhões de militares mobilizados, e com mais de 70 milhões de mortos,
o resultado do confronto teve, como consequência, uma nova forma de organização
geopolítica e econômica do mundo.
Entre 17 de julho e 2 de agosto de 1945, ocorreu a Conferência de Potsdam (cidade
a sudoeste de Berlim), responsável por reunir os Estados Unidos, Reino Unido e União
Soviética, que estabeleceram várias diretrizes políticas e econômicas para a Alemanha
no pós-guerra. Muitos já consideravam o processo de divisão administrativa da Alema-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


nha em quatro zonas de ocupação feita pelo Conselho Interaliado, o primeiro passo
para a segregação político-ideológica que tomaria conta de toda a Europa nas décadas
seguintes.
Por causa de atritos internos, a partir de 1948, a URSS considerou extinto o Conselho
Interaliado e bloqueou a zona oriental de Berlim, o que levou à separação, de fato, da
Alemanha. No dia 23 de maio de 1949, entrou em vigor a lei Fundamental, assinada por
Estados Unidos, Reino Unido e França, que deu origem à República Federal da Alema-
nha (RFA), de caráter capitalista.

203
Temendo o avanço socialista em uma Europa arrasada economicamente, e, conse-
quentemente, nos demais países do mundo, em 12 de março de 1947, o então pre-
sidente dos EUA, Harry Truman, apresentou ao Congresso as diretrizes da sua nova
política externa, que exigiam esforços especiais para combater a expansão dos sovié-
ticos no mundo. Dentre as principais propostas apresentadas pelo presidente, encon-
travam-se a Doutrina Truman e o Plano Marshall.
A primeira explicitava que o mundo, a partir daquele momento, estava dividido
entre dois sistemas: os formados por governos livres e apoiados na vontade da maioria
(democráticos), e outros, totalitários (comunistas), apoiados na vontade de uma mino-
ria e impostos, à força, a uma maioria.
Um dos pontos fortes da Doutrina, que objetivava, sobretudo, a contenção política,
foi a ajuda econômica oferecida aos países conhecidos como “elos frágeis”. Esta ajuda
de recuperação econômica, por sua vez, ficou conhecida como Plano Marshall.
Atenção: é importante destacarmos que a Doutrina Truman promoveu um real
antagonismo entre as duas superpotências que dominavam o palco internacional pós-
-guerra, acirrando o período que ficou conhecido como Guerra Fria.
Atualmente chamada de Velha Ordem Mundial, a ordem mundial bipolar9 teve
início com o término da Segunda Guerra Mundial (1945) e com a consequente disputa
geopolítica entre EUA e URSS. Esses dois Estados emergiram como grandes potências
mundiais e lutaram pela hegemonia econômica, militar, política e cultural do mundo,
protagonizando a chamada Guerra-Fria.
Para não se esquecer: o conflito político-ideológico entre os sistemas Capitalista
e Socialista ficou conhecido como Guerra Fria (1947-1991) pois, ao contrário de um
embate direto entre as duas novas potências, o duelo deu-se por meio do desenvol-
vimento de novas tecnologias espaciais e armamentistas (utilizadas como ameaça), e,
também, por meio de guerras em territórios emergentes (Vietnã, Coreias, Afeganistão).
Ademais, como fruto do conflito ideológico, este período foi marcado por uma inten-
sa disseminação de suas próprias verdades pelas duas superpotências. Isso, pois, caso
emergisse um confronto bélico (possivelmente nuclear) em larga escala, era preciso
conquistar cada vez mais países para fortalecer suas fileiras.
À vista dos fatores anteriormente dispostos, a frase do filósofo francês Raymond
Aron “a guerra era improvável, e a paz, impossível” serve como ilustração das tensões
vivenciadas pelo mundo durante a Guerra-Fria. Essa comparação pode ser compro-
vada, dado que, mesmo com diversos momentos de tensão e conflitos indiretos, uma
guerra direta entre Estados Unidos e União Soviética não era interessante a nenhum
dos dois lados.
Outrossim, como comentado anteriormente, entre as décadas de 1950 e 1970,
as duas grandes potências da época tiveram influências em conflitos internacionais.
Observemos alguns destaques.

9 A Ordem Mundial bipolar do pós-guerra foi protagonizada por dois polos de influência e atuação: o Capitalista,
representado pelos EUA, e o Socialista, representado pela URSS.

204
� Guerra das Coreias (1950–1953): a península coreana, do início do séc. XX até o
fim da Segunda Guerra, havia sido ocupada pelo Império Japonês — que impunha a
cultura japonesa através da violência e da proibição da cultura local. Com a derrota
do Japão na guerra, soviéticos e estadunidenses ocuparam a península para auxiliar
a Coreia (até então uma só) na expulsão dos japoneses. Assim, a URSS ocupou a
porção norte (liderada pelos comunistas coreanos) e os EUA, a porção sul (liderada
pelos capitalistas coreanos). Ao final, a própria bipolaridade da ocupação desenhou
as fronteiras dos países que conhecemos hoje como Coreia do Norte e Coreia do Sul;
� Revolução Húngara (1956): na época, a Hungria era reconhecida como “República
Popular da Hungria”, fazendo parte do bloco socialista da divisão bipolarizada. A
proposta da URSS para suas repúblicas era a de que os meios e as relações de pro-
dução, assim como a exploração do trabalhador, fossem substituídos pelo controle,
autonomia e poder popular/proletário (operários, camponeses e demais trabalhado-
res). Porém, conforme o socialismo soviético foi se desenvolvendo pela concepção
e imposição stalinistas, o que surgiu nas repúblicas foi uma camada de burocratas
(funcionários de alto cargo de órgãos e empresas estatais) que passaram a contro-
lar os meios de produção, continuando a exploração da massa trabalhadora. Dessa
forma, operários, estudantes e membros da ala reformista do partido comunista
húngaro iniciaram uma revolta contra o governo em outubro de 1956. Ao final, já em
novembro, a revolução foi suprimida pelo partido comunista húngaro. No entanto,
esta revolução foi um importante marco do início do separatismo de várias repúbli-
cas da então URSS;
� Guerra do Vietnã (1960–1975): retratada em diversos filmes, tais como “Bom dia,
Vietnã” (1987) e “Corações e Mentes” (1974), foi um dos conflitos com ação mais dire-
ta dos EUA durante a Guerra Fria e é considerado uma consequência da Guerra da
Indochina. No sudeste asiático, o Vietnã, assim como as Coreias, estava dividido,
à época, em norte comunista (aliado à URSS) e sul capitalista (aliado aos EUA). Até
o ano de 1965, os EUA se incumbiam de fornecer armas e apoio tático à guerra.
No entanto, como o Vietnã do Sul não estava tendo sucesso em parar as forças do
exército norte-vietnamita (os famosos vietcongues), o país norte-americano decidiu
entrar, de fato, no conflito, enviando tropas de seu exército. O conflito ficou famoso

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


pela derrota por desistência dos EUA e pela unificação do Vietnã do Norte e do Sul
em um único Vietnã (com o regime comunista em vigor);
� Crise dos Mísseis de Cuba (1962): este evento, apesar de ter durado pouco menos
de 2 semanas, foi uma das situações mais tensas de toda a Guerra Fria. A Crise dos
Mísseis foi uma consequência do alinhamento político de Cuba com a URSS. Com a
Revolução Cubana, em 1959, movimento liderado por Fidel Castro e Che Guevara, o
país passou a se alinhar com o comunismo internacional. Por a ilha estar estrategi-
camente posicionada no Caribe, próximo aos EUA, a URSS tinha a intenção de enviar
bases de mísseis nucleares ao país caribenho. Com uma tentativa frustrada de con-
trarrevolução cubana, investida pela CIA, o recém governo de Fidel decidiu aceitar
as bases soviéticas. Desse modo, em outubro de 1962, o governo estadunidense

205
descobriu os mísseis e a crise estava dada. Com a iminência e o grande risco que
uma guerra nuclear poderia ocasionar, em 28 de outubro, EUA e URSS assinaram um
acordo, no qual os soviéticos propuseram tirar suas bases nucleares de Cuba com a
condição de que os EUA tirassem suas bases nucleares da Turquia e se comprome-
tessem a não atacar Cuba — de fato os EUA não atacaram, mas esse foi o princípio
do grande embargo econômico sofrido pelo país cubano;
� Primavera de Praga (Tchecoslováquia — 1968): motivada pelas mesmas razões
da Revolução Húngara, a massa de trabalhadores e intelectuais tchecoslovacos via
o regime comunista, imposto pelo stalinismo soviético, como inadequado para seu
país e propunham reformas em seu próprio governo. Vale ressaltar que as cama-
das populares apoiavam o regime comunista, que se instalou na década de 40, mas
se sentiram frustrados com a forma como ele se dava. Assim, no início de 1968,
com a ascensão, no país, do líder Dubcek — membro do partido comunista ligado e
intencionado às reformas —, começou-se um processo de reformulação do socialis-
mo tchecoslovaco, caminhando para um regime democrático (mais de um partido
socialista poderia tentar a eleição) e para o fim da censura. Porém, os manifestan-
tes foram fortemente reprimidos pelo governo russo, que via tal atitude como uma
demonstração de perda de controle do bloco comunista. Com o fim da Primavera de
Praga, ainda em 1968, o regime comunista foi retomado. No entanto, esse evento,
tais como outros de natureza reformista e/ou separatista do bloco comunista, foram
enfraquecendo a centralização da URSS até o fim da Guerra Fria;
� Guerra do Afeganistão (1979): até 1973, o Afeganistão era um regime monárquico
que — por mais contraditório que possa parecer — estava alinhado à URSS e tinha
membros do partido comunista afegão em sua camada burocrática. No entanto,
nesse ano, um golpe republicano, alinhado aos ideais capitalistas, tomou o poder,
retirando diversos desses burocratas do comando. Com o ocorrido e com o alinha-
mento do então presidente republicano, Daoud, aos países vizinhos (como a Arábia
Saudita), os comunistas passaram a conspirar contra seu governo, até que, em 1978,
tomaram o poder. No entanto, porque impunham uma série de reformas e mudan-
ças drásticas no país — como abolir leis religiosas e o uso do véu (hijab) — a maior
parte da população, extremamente conservadora e religiosa, se revoltou contra o
governo comunista afegão. Assim, vários líderes religiosos convocaram jihad (“guer-
ras santas”) contra o governo comunista, chamando a atenção dos EUA para uma
oportunidade de abater as forças soviéticas a partir do financiamento dos revoltosos
(mujahidin). Em 1979, a URSS invadiu o Afeganistão para tentar controlar as revoltas
e manter o poder comunista afegão. Este fato levou a 10 anos de conflito, até que,
em 1989, os mujahidin conseguiram expulsar os soviéticos.

Em um contexto mundial no qual, a qualquer momento, poderia ocorrer uma guerra


nuclear, duas grandes organizações militares surgiram a fim de atrair ideologicamente
as nações para algum dos lados do confronto.

206
São estas:

� Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN ou NATO, em inglês), criada em


1949;
� Pacto de Varsóvia (URSS), criado em 1955.

Por fim, em dezembro de 1988, Mikhail Gorbatchev, líder da União Soviética, anun-
ciou a chamada Doutrina Sinatra, que contribuiu para com a aceleração das mudan-
ças que varreram o Leste Europeu e que culminaram na total dissolução do Pacto de
Varsóvia no início dos anos 1990. O enfraquecimento do Pacto de Varsóvia e a suces-
siva Queda do Muro de Berlim, em 9 de novembro de 1989, depois de 28 anos de
existência, marcam o início da derrocada da Guerra Fria, assim como da Velha Ordem
Mundial.

A Terceira Ordem Mundial

O processo de desintegração da URSS, seu consequente enfraquecimento e sua


desorganização política foram responsáveis por determinar a formação de uma Nova
Ordem Mundial.
Com o processo de independência dos países que formavam a antiga URSS e com
a posterior formação da Comunidade dos Estados Independentes (CEI), bloco que a
Rússia, maior república soviética, criou a fim de manter o domínio (ou pelo menos as
influências) sobre os países do leste europeu, foi colocado um ponto final na ordem
bipolar e na Guerra Fria que estava prestes a acontecer.
A partir de 1991, iniciou-se a abertura de novos horizontes geopolíticos e econômi-
cos responsáveis pela multipolaridade: a Nova Ordem Mundial, marcada pelo fim
do socialismo enquanto sistema econômico e, principalmente, pela criação de vários
polos de influência capitalista.
De uma maneira diferente do que ocorreu durante a Ordem Bipolar, as potências
do novo mundo multipolar são os países que detêm poderio econômico, embora
não haja como descartar, no aspecto geopolítico, o poder bélico dos EUA.
Atualmente, são países considerados polos de poder devido ao seu poder econômi-

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


co, o Japão, os países da União Europeia e a China, além dos EUA. Em um contexto mais
recente, principalmente a partir do início dos anos 2000, não se pode ignorar, também,
o papel exercido pela Rússia, que passou a aumentar sua influência após um longo
período de sucessivas crises econômicas.
Atenção: a quantidade de atores nesse novo cenário geopolítico mundial demons-
tra que a Nova Ordem Mundial ainda está em processo de formação.
Graças ao fenômeno da globalização internacional, o mundo multipolarizado apre-
sentou um maior processo de integração entre os países. Nos dias atuais, ocorre, entre
as várias nações, um constante processo de cooperação.

207
Essa interdependência pode ser facilmente percebida no aspecto econômico, por
meio das trocas comerciais (exportação e importação) — evidenciado pela criação e
manutenção de blocos econômicos a partir da década de 50 em diante —, assim como
na questão política, haja vista as relações internacionais estabelecidas entre países, nas
quais governos podem se apoiar (ou divergir) em relação a líderes e a vieses ideológi-
cos, estabelecendo acordos ou conflitos.
Sendo assim, a velha divisão do mundo em Leste (socialista) e Oeste (capitalista) deu
lugar a uma nova forma de regionalização, representada pelos países do Norte (ricos) e
os países do Sul (pobres), que, mesmo com diferenças socioeconômicas e estruturais,
ainda se relacionam em um processo de integração e interdependência internacional.

Importante!
A globalização pode ser compreendida como um conjunto de fatores e
acontecimentos que vem determinando, de forma cada vez mais intensa,
a integração e a interdependência entre os diversos países do mundo nos
seguintes aspectos: político, econômico, comercial, financeiro, cultural,
territorial e social.

A globalização pode ser vista, também, como o processo pelo qual a economia carac-
teriza-se como mundial, ou seja, o espaço mundial adquire, dessa forma, uma unidade.
Em um contexto histórico, o processo de globalização pode ser visto como o momen-
to no qual os seres humanos, que, até certo tempo, viviam isolados em seus países e
continentes, passaram a tomar conhecimento de sociedades que habitavam regiões
além-mar e, a partir disso, passaram, também, a promover uma maior interação, em
especial por meio das práticas comerciais. Assim, fica fácil compreender porque o pro-
cesso conhecido com as Grandes Navegações (Expansão Marítimo Comercial Euro-
peia) é considerado, por muitos, como o início da globalização.
De modo resumido, as fases do processo de globalização podem ser visualizadas
pelos seguintes processos históricos:

� neocolonialismo europeu nos continentes africano e asiático;


� industrialização de várias nações europeias, com destaque para Inglaterra, Fran-
ça, Alemanha;

208
� fim da 2ª Guerra Mundial, que, mesmo com as tensões provocadas pela Guerra
Fria, não impediu o processo de globalização, que atingiu seu ápice com o colapso
do socialismo entre os anos de 1989 e 1991.

Atenção: todos os fenômenos anteriormente citados relacionam-se entre si e tem


sua origem no período mercantilista das Grandes Navegações.
É importante destacar que o processo de globalização é um fenômeno de caráter
capitalista que cresceu com o fortalecimento da lei da oferta e da procura, na incansá-
vel e interminável busca pelo lucro. A globalização foi e é diretamente acompanhada
pelo desenvolvimento tecnológico das redes de transporte, comunicação e das novas
mídias: em conjunto, estes fenômenos promoveram (e promovem) a aniquilação do
espaço pelo tempo, isto é, permitem um maior fluxo nas relações e nos deslocamentos
dos indivíduos, materiais e finanças.
Mesmo com a consolidação do modelo neoliberal, ideologia que propõe a menor
interferência do Estado na tomada de decisões relacionadas às questões econômicas,
e com a inegável relação entre as ideias liberais e a globalização, a origem do termo
ainda gera discussões.
Para não se esquecer: a hipótese mais aceita é a de que o termo “globalização” foi
utilizado pela primeira vez em meados dos anos 60, no livro “Guerra e Paz na Aldeia
Global” (1968), escrito por Mcluhan, e na discussão sobre a Revolução Tecnotrônica de
Brzenzinski.
Nas obras, os autores apresentam termos como “aldeia global” e “sociedade global”
buscando contextualizar e caracterizar as variadas mudanças que vinham acontecen-
do, em especial aquelas de cunho tecnológico, ligadas, principalmente, à questão da
comunicação global, que passou a ser uma realidade a partir da cobertura da Guerra
do Vietnã pelas redes de televisão e também pela cobertura de acontecimentos poste-
riores, como o Massacre na Praça da Paz Celestial, ocorrido na China em 1988, e pela
Queda do Muro de Berlim em 1989.
De acordo com os pensadores, o surgimento da aldeia global seria responsável por
proporcionar um maior estreitamento dos laços entre as nações do mundo, que pas-
sariam a realizar, cada vez mais, volumes maiores de transações financeiras. Tudo isso
seria possível, ainda em conformidade com os autores, graças à expansão das grandes

HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL


multinacionais para vários lugares do globo. Assim, a aldeia global resultaria em um
gigante e avassalador mercado consumidor internacional.
O término da Guerra Fria e da Velha Ordem Mundial Bipolar serviu para aquecer ain-
da mais os motores do processo de globalização, que se expandia para alguns países
que, antes, encontravam-se distantes do capitalismo internacional globalizado. A anti-
ga Divisão Internacional do Trabalho (DIT) passou por um processo de transformação e
reformulação, sendo adequada para esta nova realidade, em especial pelo processo de
formação e consequente expansão dos blocos econômicos, e, também, pelo processo
de interdependência da economia mundial.

209
O mundo parecia estar cada vez menor (encolhimento do sistema mundo), pois o
processo de globalização e de mundialização de hábitos permitiu que ficassem cada
vez mais barata, rápida e fácil (mesmo que sendo somente para alguns grupos de paí-
ses, pois a integração não ocorreu de forma homogênea) a obtenção de informações,
conhecimento e influências nos processos de transações comerciais, culturais e econô-
micas mundo afora.
As consequências desse processo ainda estão em consolidação e a humanidade ain-
da não sabe, por completo, quais as extensões exatas que as mudanças que ainda
ocorrerão no mundo nos próximos anos e décadas poderão acarretar.
A fase atual do processo de globalização pode ser caracterizada como fenômeno
comum, com consequências positivas e negativas.
Observe a tabela a seguir para compreender melhor o conteúdo.

PONTOS POSITIVOS PONTOS NEGATIVOS


� Aumento do desemprego
� Maior abertura e maior internacionaliza- � Aumento da desigualdade social e re-
ção dos mercados dução de políticas públicas que visem o
� Crescimento industrial que proporciona bem-estar do cidadão
o aumento da oferta de produtos � Maior possibilidade de ocorrência de
� Aumento da concorrência internacional crises financeiras que podem afetar vários
e de uma maior flexibilização dos preços países em escala global
� Constante avanço tecnológico e desen- � Aumento das dívidas externas dos
volvimento dos meios de transportes e de países, assim como um aumento da de-
telecomunicações pendência econômica entre as nações do
mundo

Desta forma, é importante sabermos que o processo de globalização possui aspec-


tos positivos e negativos, sendo que os últimos se mostraram extremamente nocivos,
uma vez que são reflexo de fenômenos históricos violentos e repressivos.

EXERCÍCIO COMENTADO
1. (VUNESP – 2018) Depois da Segunda Guerra Mundial, mas principalmente a partir da
década de 1990, a economia que passou progressivamente a prevalecer internacional-
mente no mundo foi

a) o fim dos incentivos dados ao setor financeiro.


b) a implantação do Estado de bem-estar social.
c) a abertura plena das fronteiras econômicas.
d) a criação de blocos econômicos.
e) o controle da economia pelo Estado nacional.

210
Desde a década de 1990, o capitalismo ganhou maior proeminência no cenário econômico glo-
bal, um fenômeno conhecido como mundialização capitalista ou globalização. Um dos traços
marcantes deste período é o estabelecimento de parcerias estratégicas entre países, visando ao
desenvolvimento econômico mútuo. Essas colaborações são fundamentais para a criação dos
blocos econômicos. Resposta: Letra D.

ANOTAÇÕES

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211
ANOTAÇÕES

212

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HISTÓRIA DO BRASIL...................................................................................................
O ESTADO NOVO (1937–1945)....................................................................................................
REVOLUÇÃO FRANCESA E ERA NAPOLEÔNICA.........................................................................................
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PERÍODO COLONIAL (15
10
Fonte: Atlas Histórico Escolar. 8ª ed. Rio de Janeiro: FAE, 1991. p. 12.
BRASIL ANTES DA CHEGADA DOS EUROPEUS
Os tupis, po
HISTÓRIA GERAL E DO BRASIL
11
realizadas as cerimônias religiosas, as festas e a reunião dos líderes para decidir uma 
guerra

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