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Educação e esfera pública democrática: um

capítulo negligenciado da filosofia política – Axel


Honneth
• Questão principal: qual é a relação entre a educação e a
organização democrática do governo republicano?
• A educação é entendida como um processo formativo
destinado a instituir uma forma de governo ou uma
estrutura política de poder que coloca o bem comum
acima dos interesses particulares, de classes sociais, de
grupos específicos, de corporações econômicas ou
famílias; o governo republicano é um ideal de governo
que remonta à Roma, e em que o chefe de Estado
(governante) é eleito pelo povo e seu poder se dá por
tempo limitado;
• Argumento principal: no entender de Honneth,
pelo menos desde Kant os teóricos clássicos da
filosofia política estavam convencidos de que
uma boa educação e uma ordem estatal
republicana dependem uma da outra: formar
cidadãos para a liberdade para que, como
cidadãos autônomos, institucionalizem uma
educação pública que possibilite a seus filhos o
caminho para a maioridade política;
• Nos dias atuais, o que se constata é um divórcio
entre as gêmeas teorias da democracia e da
educação: duas razões principais dessa cisão:
• a) uma concepção truncada de democracia, que
dependeria de comunidades tradicionais e
mesmo religiosas para reproduzir suas bases
ético-culturais;
• b) e uma falsa concepção normativa de
neutralidade do estado, que culmina
concebendo os professores não mais como
servidores públicos a serviço do estado
democrático de direito, mas como servidores
dos pais;
• Ao desacoplamento entre a formação do cidadão
autônomo e do governo autônomo dos cidadãos,
entre pedagogia e teoria política, Honneth
demonstra, partindo dos clássicos da teoria social,
um nexo fundamental entre educação e liberdade
política, entre formação e democracia;
• O autor chama a atenção para dois grandes
desafios que a pedagogia e a teoria democrática
precisam enfrentar:
• 1) o impacto da revolução digital sobre a esfera
pública;
• 2) a crescente heterogeneidade cultural dos
cidadãos, em especial nas democracias ocidentais,
para que a educação torne a ser o lugar do
aprendizado da cultura democrática;
• A história do sistema público de educação
(subdivisão, forma e conteúdo do ensino escolar,
currículo e métodos de ensino) é perpassado,
desde o século 19, por disputas no âmbito das
forças principais dentro dos estados
constitucionais democráticos;
• Promessa estatal de um direito geral dos
cidadãos a formação e educação - Immanuel
Kant = preleções Sobre a Pedagogia: “duas
invenções humanas decerto podem ser vistas
como as mais difíceis, a saber, a da arte do
governo e a da arte da educação, e ainda assim
existe conflito até mesmo na ideia delas”;
• Para Kant, o paralelo entre a arte do governo e a
arte da educação resultava da consideração de
que ambas são instituições criadas pela
sociedade que têm de cumprir a mesma tarefa
nas dimensões diferentes da história da espécie
e do indivíduo;
• Por meio de uma escolha habilidosa dos meios e
métodos, ou seja, através de uma espécie de
“arte”, elas precisam nos ensinar como, num
caso, um povo de súditos e, no outro, uma
criança por natureza ainda submissa devem ser
levados do estado de imaturidade para o de
liberdade;
• Portanto, há um duplo condicionamento entre
ordem estatal republicana e educação:
• a) o ser humano pequeno e impelido pela
natureza precisa percorrer primeiro um
processo de educação voltado para a liberdade
para poder se tornar membro do povo de um
estado que governa a si mesmo;
• b) inversamente, só cidadãos e cidadãs
autônomos podem institucionalizar uma
educação pública que possibilite a seus filhos o
caminho para a maioridade política;
• Dessa forma, uma boa educação e uma ordem
estatal republicana dependem
complementarmente uma da outra, porque a
boa educação produz concretamente, por meio
de uma instrução geral e pública, as
capacitações culturais e morais com cuja ajuda
a ordem estatal republicana pode existir e
prosperar de tal maneira que a cidadania ainda
participe da emancipação política também dos
integrantes das classes baixas.
• Como no Emílio de Rousseau, na Pedagogia
de Kant a ideia do “bom cidadão” constitui o
elo de ligação entre a teoria da educação e a
do governo, entre concepção de formação e
filosofia política: sem uma, a outra não seria
possível, porque ambas explicam
pressupostos de uma coletividade
democrática que não poderiam existir
independentemente um do outro;
• No discurso político-filosófico da era moderna,
quase todos os teóricos da democracia famosos
tenham produzido uma contribuição sistemática
para a teoria da educação: Rousseau (Emílio),
Kant (Sobre a Pedagogia), Schleiermacher (Texto
sobre a Pedagogia), Emile Durkheim (Educação,
Moralidade e Sociedade) e John Dewey
(Educação e Democracia, Natureza e
Democracia);
• A pedagogia, entendida como a teoria dos critérios e
métodos de uma instrução adequada das gerações
futuras, era compreendida como irmã gêmea da
teoria da democracia, porque sem orientações
equilibradas sobre como se devem despertar na
criança, ao mesmo tempo, a capacidade para a
cooperação e a iniciativa moral própria, não parecia
possível se explicar o que significaria falar da
cooperação conjunta na autodeterminação
democrática.
• A ideia do “bom cidadão” não era uma fórmula vazia
ou peça decorativa de discursos políticos, e sim um
desafio prático, e era preciso se mostrar à altura dele
através do esboço teórico e até do teste experimental
de formas escolares e métodos de ensino
apropriados;
• A vinculação entre democracia e concepção
educacional, de filosofia política e pedagogia foi
progressivamente rompida; há iniciativas de refletir
sobre a necessidade de uma educação democrática,
mas elas geralmente vêm de uma ciência
educacional que foi deixada sozinha, e não mais
extraída do centro da própria filosofia política;
• A teoria da democracia, na diversidade de suas
formas e vozes, silencia hoje amplamente sobre o
lado educacional de sua tarefa essencial; não se
encontram mais nela reflexões sobre métodos
escolares nem sobre o currículo;
• A tese de que uma democracia vital precisa primeiro
gerar, através de processos de formação geral, os
pressupostos de sua própria subsistência cultural e
moral foi perdida pela filosofia política;
• Quais são as razões do desligamento entre
pedagogia e filosofia política?
• Para Honneth, essas razões residem, numa
união fatal, baseada no que se pode chamar de
“afinidade eletiva”, de concepções
problemáticas a respeito dos pressupostos
culturais da democracia e de um imperativo de
neutralidade estatal compreendido
erroneamente;
• Para Honneth, Kant, Durkheim ou Dewey sempre
consideravam o tema da educação democrática
parte integrante de seus próprios
empreendimentos político-filosóficos;
• Hoje em dia, dentro da teoria da democracia de
orientação normativa, esse tema só tem ainda
um papel marginal – a pedagogia científica
cumpriria o papel de pensar a relação entre
educação e democracia = bom cidadão;
• Duas fontes teóricas principais que, ao longo das últimas
décadas, fizeram com que a teoria da democracia
perdesse a crença no valor da educação organizada pelo
estado para a constituição de uma sociedade
democrática:
• a) a disseminação da noção de que só resta ao estado
democrático de direito uma margem muito pequena na
regeneração de suas próprias condições morais e culturais
pode ter contribuído a concepção segundo a qual a
democracia depende, em sua reprodução, do
fornecimento de componentes de tradição anteriores a
ela – conhecida como tese de Böckenförd;
• Tese de Böckenförde - afirma que as democracias devem
sua conservação social a atitudes morais que só podem
prosperar em comunidades consolidadas com
orientações éticas substanciais e até religiosas;
• Essa tese resulta em dois problemas graves:
• 1) nega aos processos educacionais organizados
pelo estado (formação escolar e pré-escolar)
qualquer valor para a transmissão de
comportamentos promotores da democracia (as
atitudes morais, o valor da cooperação social, a
capacidade de tolerância, o poder se colocar no
lugar dos outros, a orientação pelo bem comum
etc.);
• 2) esses comportamentos promotores da
democracia não são aprendidos em processos de
ensino, por melhor que sejam conduzidos, mas
somente no ambiente de socialização ética de
comunidades pré-políticas (comunidades religiosas,
por exemplo);
• Portanto, as atitudes democráticas – vitais para a
democracia – não são adquiridas em processos
educacionais mediados pelo estado, mas nos
ambientes pré-políticos de comunidades
tradicionais – primeira característica da cisão entre
educação e filosofia política/teoria democrática;
• Na recepção geral desta tese resta apenas a
convicção da necessidade de as sociedades
democráticas confiarem na sobrevivência de
comunidades tradicionais formadas em torno de
atitudes mentais: todos os esforços estatais de
organização de uma educação democrática são em
vão porque não podem gerar as virtudes morais
que são vitalmente necessárias para a subsistência
de democracias.
• b) a interpretação frouxa do imperativo da
neutralidade do estado é feita de modo tão
restritivo que até mesmo os princípios da
formação da vontade democrática não podem
mais se expressar de modo algum no ensino
escolar público – trata-se de uma
reinterpretação neoconservadora da
democracia, segundo a qual esta última só
permanece viável mediante um fornecimento
permanente de componentes de tradições
anteriores a ela;
• Na disputa perpétua em torno da inevitável
parcialidade da ação estatal, nunca havia dúvida,
para a tradição que se estende de Kant até
Durkheim e Dewey, de que o ensino promovido pelo
estado deve corporificar exatamente os valores que
se expressaram na decisão de torná-lo obrigatório
para todos os futuros cidadãos;
• O direito dos pais de transmitir a seus filhos suas
próprias convicções valorativas particulares tinha de
ser rompido no portão da escola para se poder abrir
aos pupilos o caminho para participar da formação
da vontade pública mediante o exercício de
comportamentos reflexivos;
• A naturalidade que se expressa em tal
direcionamento do ensino escolar para os mesmos
procedimentos democráticos está sendo
questionada em grau crescente hoje em dia: dois
motivos:
• 1) ou se apela para o imperativo da neutralidade do
estado para advertir contra uma sobrecarga da
educação escolar com valores políticos, estranhos a
ela;
• 2) ou se reclama, por parte de pais interessados,
que com uma orientação excessivamente forte por
objetivos democráticos a transmissão de funções
promotoras da carreira profissional poderia ficar
prejudicada.
• Nas reinterpretações culturais conservadoras da
viabilidade das democracias, encontra-se a
convicção de que os métodos e conteúdos do
ensino administrado pelo estado também precisam
ser libertos de todos os objetivos democráticos;
• Já se encontram hoje em dia ponderações no
sentido de só incumbir a escola (a) a tarefa da
inculcação de um “mínimo civil”, (b) deixar por
conta dos pais, através de vales educacionais, a
escolha do caráter cosmovisivo do ensino escolar e
(3) não entender mais os professores e professoras
em seu conjunto como incumbidos pelo estado de
direito, mas apenas pelas associações de pais;
• Para Honneth, quanto mais escola pública fosse
concebida como eticamente neutra, para colocar
no lugar dela um sem-número de escola
privadas com vínculo cosmovisivo, tanto mais
acentuadamente a sociedade democrática
perderia o quase único instrumento de que ela
dispõe para a regeneração de seus próprios
fundamentos morais;
• O conflito em torno do sistema escolar estatal,
independentemente de ele dizer respeito à sua
estruturação, aos currículos ou aos métodos
empregados, sempre é também uma luta pela
viabilidade das democracias para o futuro.