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Aspectos Nutricionais em

Crianças com Transtorno


do Espectro Autista
Renata Torres Abib
Apresentação pessoal

• Formação
• Mestrado e Doutorado = pesquisa experimental área neuro
• Modelo animal de autismo – ácido valpróico
• Pós doc = Investigação da etiologia do autismo – hipótese de
mecanismos inflamatórios
• UFPel = proj extensão/pesquisa clínica Nutrição x autismo
O que é o autismo?

• Variedade de comportamentos do tipo autista (DSM-V) 


Desordem do Espectro Autista (ASD) ou Transtorno do Espectro
Autista (TEA).
• Graus de severidade:
– Leve
– Moderado
– Severo
– Com ou sem prejuízo intelectual ou na linguagem

Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-V); American Psychiatric Association (APA).
Critérios de diagnóstico:

A. Prejuízo persistente na comunicação social recíproca, nos


comportamentos comunicativos não verbais utilizados para a
interação social e no desenvolvimento, manejo e compreensão de
relacionamentos

B. Padrões restritos e repetitivos de comportamentos, interesses ou


atividades
Categorias do TEA

• Déficit na comunicação e interação social


– Déficit na reciprocidade emocional
– Compartilhamento reduzido de emoções, afeto e interesses
– Dificuldade para estabelecer uma conversa
– Pouco contato visual e/ou linguagem corporal
– Déficit na compreensão e uso de gestos
– Dificuldade de se adequar a contextos sociais, compartilhar brincadeiras imaginativas ou em
fazer amigos

• Comportamentos, interesses e atividades restritos e repetitivos (Estereotipias);


– Movimentos motores, uso de objetos (girar ou alinhar brinquedos…)
– Adesão inflexível a rotinas
– Padrão rígido de comportamento (necessidade sempre fazer o mesmo caminho, mesmos
horários, mesmos alimentos)
– Apego ou preocupação com objetos incomuns
– Hiper ou hiporreatividade a estimulos sensoriais e ambientais

Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-V); American Psychiatric Association (APA).
Livro: Neurociências e Aprendizagem. Processos básicos e transtornos. Velasques e Riberio, 2015.
Mais comum em meninos (razão de 4:1)
Aumento de 9,3% ao ano
Independe da região do mundo, cultura e
classes socioeconômica

Van Naarden Braun, K., Christensen, D., Doernberg, N., Schieve, L., Rice, C., Wiggins, L., Schendel, D., Yeargin-Allsopp, M., 2015. Trends in the
prevalence of autism spectrum disorder, cerebral palsy, hearing loss, intellectual disability, and vision impairment, metropolitan atlanta, 1991-
2010. PLoS One. 10, e0124120.
Etiologia

• Possui influência genética e ambiental (ex: ac valpróico).


• Evidências apontam a inflamação e o estresse oxidativo como
mecanismos envolvidos.

Rossignol, D.A., Frye, R.E., 2014. Evidence linking oxidative stress, mitochondrial dysfunction, and inflammation in the brain of individuals with
autism. Front Physiol. 5, 150.
Etiologia

• Não há marcadores biológicos até o momento para o diagnóstico


precoce.
• Ácido fólico pré gestacional ↓ o risco
• Carência de vitamina D pode ser um fator de risco.

Cannell, J.J., 2008. Autism and vitamin D. Med Hypotheses. 70, 750-9.
Faucher, M.A., 2013. Folic acid supplementation before and in early pregnancy may decrease risk for autism. J Midwifery Womens Health. 58 ,
471-2.
Consequência Nutricional

• Problemas comportamentais que influenciam no


hábito alimentar:
– aversão a certos alimentos preferência por carboidratos, lanches e
alimentros processados e resistência a frutas, vegetais e proteinas.

– comportamento alimentar problemático


– recusa em experimentar alimentos novos
– seletividade: textura (ex: tomate cereja), cor, sabor, forma
(preferem líquido ou pastoso), apresentação dos pratos e
temperatura da comida

carências nutricionais/ alteração no peso

Poppert, K.M., Patton, S.R., Borner, K.B., Davis, A.M., Dreyer Gillette, M.L., 2015. A Systematic Review of Mealtime Behavior Measures Used in
Pediatric Chronic Illness Populations. J Pediatr Psychol.
• Disfunção gastrointestinal, refluxo, alergias alimentares e
doenças inflamatórias (esofagite, gastrite, colite, doença celíaca)  maior
permeabilidade intestinal e disbiose.

Frye, R.E., Rose, S., Slattery, J., MacFabe, D.F., 2015. Gastrointestinal dysfunction in autism spectrum disorder: the role of the mitochondria and
Alterações Fisiológicas
the enteric microbiome. Microb Ecol Health Dis. 26, 27458.
• Algumas dietas restritivas (caseína e glúten) parecem amenizar os
problemas gastrointestinais, melhora no sono e na agressividade
(def enzima que degrada (enzima dipeptidil peptidase IV ) digestão incompleta  peptideos similiares a opiodes  aumento da
permeabilidade intestinal atravessam BBB  efeitos na sintese de neurotransmissores e desenvolvimento do cérebro – efeito
neurotóxico – gluteomorfina e caseomorfina)
• Enterocitos imaturos

• Há controvérsias sobre esta conduta.

Mari-Bauset et al, Journal of Child Neurology 2014, Vol. 29(12) 1718-1727


Relevância Clínica

Alterações Comportamentos
Fisiológicas Desafiadores

Risco Nutricional
O que se sabe sobre Nutrição e TEA?

– ↓ Cálcio, proteína, laticínios, Vit B12, C e D, Zinco, ferro, folato;


– ↑ vitamina E, vitamina B6, Mg;
– Não diferem quanto a ingestão de fibras e vitamina A (todos ↓DRI);
– ↑ seletividade e ↓variedade na alimentação;
– ↓ qualidade da dieta, porém essa diferença é ressaltada nas
crianças seletivas;
– Quanto à antropometria ainda há discrepância, alguns apontam
↑obesidade e outros ↑baixo peso;
– Há melhora nos hábitos alimentares quando acompanhado por
nutricionista
Mari-Bauset, S., Llopis-Gonzalez, A., Zazpe-Garcia, I., Mari-Sanchis, A., Morales-Suarez-Varela, M., 2015. Nutritional status of children with
autism spectrum disorders (ASDs): a case-control study. J Autism Dev Disord. 45, 203-12.
ASD  5 x + risco de
não atingir a meta de
Ca e Fe comparado
aos controles; 3
vezes + risco no
alcance de proteínas
e vitamina C;

Mari-Bauset, S., Llopis-Gonzalez, A., Zazpe-Garcia, I., Mari-Sanchis, A., Morales-Suarez-Varela, M., 2015. Nutritional status of children with
autism spectrum disorders (ASDs): a case-control study. J Autism Dev Disord. 45, 203-12.
Sun, C., Xia, W., Zhao, Y., Li, N., Zhao, D., Wu, L., 2013. Nutritional status survey of children with autism and typically developing children aged 4-6
years in Heilongjiang Province, China. J Nutr Sci. 2, e16.
Níveis séricos de Ca, vitamina A e folato estavam mais baixos nos ASD do que nos controles.

Não houve diferença no exame físico de desnutrição

Sun, C., Xia, W., Zhao, Y., Li, N., Zhao, D., Wu, L., 2013. Nutritional status survey of children with autism and typically developing children aged 4-6
years in Heilongjiang Province, China. J Nutr Sci. 2, e16.
ASD consumiram mais vitamina B6

Herndon, A.C., DiGuiseppi, C., Johnson, S.L., Leiferman, J., Reynolds, A., 2009. Does nutritional intake differ between children with autism
spectrum disorders and children with typical development? J Autism Dev Disord. 39, 212-22.
ASD consumiram significativamente menos
cálcio e mais vitamina E.
Herndon, A.C., DiGuiseppi, C., Johnson, S.L., Leiferman, J., Reynolds, A., 2009. Does nutritional intake differ between children with autism
spectrum disorders and children with typical development? J Autism Dev Disord. 39, 212-22.
Herndon, A.C., DiGuiseppi, C., Johnson, S.L., Leiferman, J., Reynolds, A., 2009. Does nutritional intake differ between children with autism
spectrum disorders and children with typical development? J Autism Dev Disord. 39, 212-22.
Muitas crianças de ambos os grupos
não atingiram a recomendação de
fibras, cálcio, ferro, vitamina E e
vitamin D.

Herndon, A.C., DiGuiseppi, C., Johnson, S.L., Leiferman, J., Reynolds, A., 2009. Does nutritional intake differ between children with autism
spectrum disorders and children with typical development? J Autism Dev Disord. 39, 212-22.
Herndon, A.C., DiGuiseppi, C., Johnson, S.L., Leiferman, J., Reynolds, A., 2009. Does nutritional intake differ between children with autism
spectrum disorders and children with typical development? J Autism Dev Disord. 39, 212-22.
Escore de variedade da alimentação

Zimmer, M.H., Hart, L.C., Manning-Courtney, P., Murray, D.S., Bing, N.M., Summer, S., 2011. Food Variety as a Predictor of Nutritional Status
Among Children with Autism. Journal of Autism and Developmental Disorders. 42, 549-556.
Zimmer, M.H., Hart, L.C., Manning-Courtney, P., Murray, D.S., Bing, N.M., Summer, S., 2011. Food Variety as a Predictor of Nutritional Status
Among Children with Autism. Journal of Autism and Developmental Disorders. 42, 549-556.
Zimmer, M.H., Hart, L.C., Manning-Courtney, P., Murray, D.S., Bing, N.M., Summer, S., 2011. Food Variety as a Predictor of Nutritional Status
Among Children with Autism. Journal of Autism and Developmental Disorders. 42, 549-556.
As principais diferenças no consumo foram
observadas nas crianças ASD seletivas

Zimmer, M.H., Hart, L.C., Manning-Courtney, P., Murray, D.S., Bing, N.M., Summer, S., 2011. Food Variety as a Predictor of Nutritional Status
Among Children with Autism. Journal of Autism and Developmental Disorders. 42, 549-556.
Attlee, A., Kassem, H., Hashim, M., Obaid, R.S., 2015. Physical Status and Feeding Behavior of Children with Autism. Indian J Pediatr.
Choro;
Refugo;
Manter-se sentado;
Agressividade;
Boca fechada;
Flexibilidade na hora da refeição;
Disposição a experimentar novos
alimentos

Attlee, A., Kassem, H., Hashim, M., Obaid, R.S., 2015. Physical Status and Feeding Behavior of Children with Autism. Indian J Pediatr.
Relevância Clínica

Carência de estudos no Av. nutricional e de


âmbito da Nutrição; comportamento
alimentar
↑incidência de casos;
propor medidas
Impacto sobre os nutricionais que ↑
pacientes e seus QV e melhore o
familiares . desenvolvimento
dessas crianças.
Projetos desenvolvidos

• Projeto de Extensão (FN):


– Atenção nutricional a usuários do Centro de Atendimento ao Autista
Dr Danilo Rolim de Moura, Pelotas-RS

• Projeto de Pesquisa:
– Avaliação do estado nutricional de indivíduos com Transtorno do
Espectro Autista

• Coordenação e Supervisão:
– Prof Renata Abib
– Prof Sandra Valle
EQUIPE
Sandra
Valle

Renata Cristielle
Andressa Giliane Gabriela Olívia Abib De Leon
Josiane
Abrantes Monk Sanchi Farias Luçardo
Objetivos

a) Caracterizar e fazer o diagnóstico nutricional da


amostra;
b) Avaliar o consumo alimentar;
c) Analisar o comportamento
alimentar/seletividade/hábitos;
d) Promover educação nutricional com os cuidadores;
e) Verificar a prevalência de sintomas gastrointestinais;
f) Encaminhar ao ambulatório de nutrição aqueles em
risco nutricional.
Resultados preliminaries (N=184)
N %
Sexo:  
Feminino 29 15,8
Masculino 155 84,2
Idade (media ,dp em anos) 8,5± (4,8) -
Cor:  
Branco 156 84,8
Não Branco 28 15,2
Alergia Alimentar:    
Possui 9 4,9
Não possui 175 95,1
Enacaminhamentos:  
Orientação local 55 29,9
Encaminhamento 23 12,5
Ambulatório
O + EA 48 26,1
ND 6 3,3
Incompletas 52 28,3
  n %
Baixo peso 4 2,2
Eutrofia 62 33,7
Excesso de 118 64,1
peso

  N %
Irritabilidade    
Não 101 54,9
Sim 31 16,8
Às vezes 52 28,3
Agressividade    
Não 143 77,7
Sim 18 9,8
Às vezes 23 12,5
  N %
Não usa 54 29,3
Faz uso 130 70,7
Quantidade de Medicamentos    
1 79 60,8
2 30 23,1
3 2 1,5
>3 19 14,6

Nunca % Raramente % Frequentemente %


Azia 169 91,8 14 7,6 1 0,5
Gastrite 178 96,7 4 2,2 2 1,1
Flatulência 79 42,9 55 29,9 50 27,2
Constipação 128 69,6 27 14,7 29 15,8
Diarreia 164 89,1 14 7,6 6 3,3
Aguda
Diarreia 180 97,8 2 1,1 2 1,1
Crônica
Dor 132 71,7 40 21,7 12 6,5
Abdominal
Refluxo 173 94,0 7 3,8 4 2,2
Esofágico
 
Tabela 6: Caracterização da frequência de consumo alimentar referente a <5 ou
≥5 dias na semana a partir de grupos alimentares do questionário de frequência
alimentar, Pelotas- 2016. (n=184)

<5 ≥5
n % n %
Salada 158 85,9 26 14,1
Legumes 148 80,4 36 19,6
Fruta 94 51,1 90 48,9
Feijão 61 33,2 123 66,8
Leite 32 17,4 151 82,1
Frituras 172 93,5 12 6,5
Embutidos 161 87,5 23 12,5
Biscoitos 115 62,5 69 37,5
salgados
Biscoitos doces 135 73,4 49 26,6
Refri 150 81,5 34 18,5
Educação nutricional

- Como obter uma alimentação saudável


- Classificação dos Alimentos
- Como ter uma alimentação colorida
Perspectivas

a) Avaliar atividade física


b) Validar instrumentos de pesquisa
c) Avaliação genética de deficiências enzimáticas
d) Testar dietas
e) Verificar QV
f) Estudar microbiota intestinal
g) Obter um grupo controle
Obrigada!
renata.abib@ymail.com
Wp.ufpel.edu.br/renataabib
Faculdade de Nutrição /UFPel
PPGNA/UFPel