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Síntese da

Unidade

Eça de Queirós
Eça de Queirós

Nasceu a 25 de novembro de 1845, na Póvoa de Varzim.

Estudou Direito na Universidade de Coimbra.

Tornou-se amigo de Antero de Quental e de outros


intelectuais com os quais constitui a Geração de 70.
Síntese da Unidade 4

Em 1866, fundou e dirigiu o jornal Distrito de Évora.

Entre 1869 e 1870, viajou para o Oriente, Egito.

Em 1871, proferiu, nas Conferências do Casino, uma conferência.

Do mesmo modo que fez parte da Geração de 70, integrou os Vencidos da Vida.
Em Havana, Newcastle e Bristol exerceu atividade diplomática.

Foi cônsul em Paris, em 1888.

Algumas das suas obras, como A Cidade e as Serras são publicadas


postumamente.
Geração de 70

Grupo de intelectuais com preocupações sociais, políticas e literárias, que visava


provocar a mudança em Portugal.
Questão Coimbrã

A Questão Coimbrã (1865) está na origem da Geração de 70.


Proclamava uma nova conceção de arte.
Expressava uma nova conceção do intelectual.
Pretendia a oposição a uma prática literária inspirada pelo Romantismo.
Contribuiu para criar um desejo de ação nos intelectuais.
Antero de Quental e Teófilo Braga são os dois líderes intelectuais da Geração de 70.
As Conferências do Casino

Em 1871, os membros do Cenáculo (intelectuais que simpatizavam com os ideais


defendidos pela Geração de 70) organizaram um ciclo de conferências sobre “matérias
políticas e sociais”.

 Permitiram que a Geração de 70 se afirmasse.

Eça de Queirós profere a conferência sobre “A Literatura Nova – O Realismo como


Nova Expressão de Arte”.
Realismo

O Crime do Padre Amaro de Eça de Queirós foi o primeiro romance realista


publicado em Portugal.

A observação e análise da sociedade são objetivos do Realismo.

Pretendia apresentar os costumes, numa perspetiva crítica, com o objetivo de


regenerar a sociedade.
O Realismo pressupunha a narração e a descrição baseadas numa minuciosa
observação e análise psicofisiológicas.

A anatomia moral das personagens devia-se a fatores deterministas de meio,


educação e hereditariedade.

Rompeu com o patriotismo dos ultrarromânticos, promovendo a difusão de


influências estrangeiras e renovando as letras de uma maneira ampla.
Neste contexto histórico-literário, surge, em 1888, Os Maias,
romance queirosiano que narra a história duma família, centrada
no processo dos amores incestuosos de Carlos da Maia com Maria
Eduarda, sua irmã, sem que ambos o soubessem.
A par da história da família Maia é feita uma ampla crónica da vida
social da elite lisboeta de 1880, tardiamente romântica e vivendo
no mimetismo estrangeirado do Constitucionalismo.
Os Maias
Episódios da vida romântica

Título
História de uma família, centrada nos amores incestuosos de Carlos e Maria Eduarda,
sua irmã, sem que ambos o soubessem.

Subtítulo
Crónica da vida social da elite lisboeta de 1880, tardiamente romântica e vivendo no
mimetismo estrangeirado do Constitucionalismo.
Os Maias
Episódios da vida romântica

Precedendo a intriga principal, surge, em analepse, a intriga secundária: a relação


amorosa de Pedro e Maria Monforte (pais de Carlos e Maria Eduarda), cuja separação
leva ao suicídio de Pedro.

Paralelamente à intriga principal, assoma a crónica de costumes, que vai perdendo


destaque à medida que se adensa a tragicidade da intriga.
Visão global da obra

 Os Maias decidem habitar o Ramalhete, no outono de 1875, após a viagem de final


de curso de Carlos.

 Em analepse, conhecemos a juventude de Afonso da Maia, avô de Carlos, a infância,


juventude e amores de Pedro e Maria Monforte e o suicídio daquele. Tomamos
conhecimento, ainda, da infância e juventude de Carlos em Santa Olávia e a sua
educação à inglesa.

 Carlos cursa Medicina, em Coimbra, e regressa a Lisboa onde se estabelece e se


envolve com a condessa de Gouvarinho.
Visão global da obra

 Carlos vê Maria Eduarda e, desde logo, manifesta interesse. Ao conhecê-la percebe


as semelhanças entre ambos e julga tratar-se de evidências do destino para que se
encontrassem.

 Carlos e Maria Eduarda envolvem-se amorosamente e o local dos seus encontros é


nos Olivais, numa casa à qual chamaram Toca.

 Mais tarde, Carlos toma conhecimento da sua relação de parentesco com Maria
Eduarda e, ainda assim, continua o relacionamento. Afonso, após perceber que o
neto comete incesto conscientemente, morre.
Visão global da obra

 Carlos viaja pela Europa com Ega. Regressa a Lisboa, após 10 anos, e constata que o
Ramalhete está destruído a par da sua família. Para além disso, encontra um país que
não evoluiu durante o tempo em que esteve ausente.
Os Maias (fotograma), 2014, João Botelho.
Visão global da obra
Crónica dos costumes

 Jantar no Hotel Central (capítulo VI)


Objetivo
Homenagear o banqueiro Cohen (por parte de Ega) e inserir Carlos na vida social lisboeta.
Intencionalidade crítica
Perspetivar a opinião e a visão das classes dominantes sobre temas da atualidade:
 a literatura (e por extensão a crítica literária);
 o confronto entre as ideias do ultrarromantismo e as do Naturalismo;
 a (má) situação financeira do país, que, contudo, não causa inquietação.
Visão global da obra
Crónica dos costumes

 Jantar em casa dos Condes de Gouvarinho (capítulo XII)


Objetivo
Reunir a sociedade pensante, a elite política e intelectual.

Intencionalidade crítica
Caricaturar a alta burguesia e a aristocracia (Sousa Neto representa a alta administração
pública e Gouvarinho os políticos − ambos se revelam ignorantes e néscios).
Evidenciar a falta de reflexão, o caráter conservador, racista e machista das opiniões sobre
determinados assuntos, como a educação da mulher e o desenvolvimento dos povos
africanos.
Visão global da obra
Crónica dos costumes

 As corridas de cavalos no hipódromo (capítulo X)


Objetivo
Proporcionar um momento de lazer e de distração junto da elite lisboeta.

Intencionalidade crítica
Mostrar a necessidade de imitar os estrangeiros (franceses e ingleses) e os seus
comportamentos.
Criticar a mentalidade e os comportamentos da alta sociedade lisboeta que evidencia uma
contradição entre o “ser” e o “parecer”.
Visão global da obra
Crónica dos costumes

 A Imprensa (capítulo XV)


Objetivo
Denunciar a falta de isenção da imprensa ao permitir a publicação de insultos, acusações e
“justificações” entre Dâmaso e Carlos da Maia.
Intencionalidade crítica
No caso da Corneta do Diabo: o jornalismo sensacionalista; bisbilhotice e corrupção (o
Palma deixa-se subornar para publicar e deixa-se corromper para suspender a venda dos
jornais).
No caso d’A Tarde: a “politiquice” jornalística, ausência de ética, proteção dos
correligionários.
Visão global da obra
Crónica dos costumes

 Sarau no teatro da Trindade (capítulo XVI)


Objetivo
Ajudar as vítimas das cheias do Ribatejo.

Intencionalidade crítica
Criticar, mais uma vez, o provincianismo e a falta de desenvolvimento do país; a prevalência
do gosto romântico e a falta de cultura (desconhecimento da música clássica).
Espaços e seu valor simbólico e emotivo

Ramalhete
Delimita a passagem de Carlos por Lisboa (da chegada, em 1875, ao regresso 12 anos
depois).
Acompanha o evoluir da intriga e o estalar da catástrofe.
Assim, a sua presença divide-se em três fases:
 a instalação do protagonista, representando uma projeção de Carlos no
ambiente que o rodeia;
 dois anos de vida em Lisboa, servindo de pano de fundo discreto à intriga e à
representação da crónica dos costumes;
 reencontro em Lisboa em 1887, em que o protagonista encontra o Ramalhete
em decadência, salientando-se a dispersão da família Maia.
Os espaços e os indícios trágicos

No passado, um avô da mãe de Pedro, cujo retrato estava


na casa de Benfica, enlouquecera e enforcara-se numa
Casa de figueira.
Benfica
Suicídio de Pedro da Maia após ter sido abandonado por
Maria Monforte.

Ramalhete
Alusão à fatalidade das paredes (por Vilaça).
(antes de
Indícios de morte e destruição:
1875)
– abandono do interior – (frescos das paredes);
– abandono do jardim – a deterioração da estátua de
Vénus;
Os espaços e os indícios trágicos

Perde o ar de decadência e abandono e a simbologia inicial


deste espaço esbate-se. No entanto, funciona como pano
de fundo a uma atmosfera trágica que se vai criando na vida
Ramalhete
(de 1875 a de Carlos, a partir do momento em que este inicia o
1877) romance com Maria Eduarda – referência à “face lívida” de
Pedro da Maia; semelhanças entre Carlos e a mãe de Maria
Eduarda.
Os espaços e os indícios trágicos

Os elementos decorativos evidenciam, metaforicamente,


fim, tragédia, dor, nomeadamente:
Toca
– o quadro com a cabeça degolada de S. João Baptista;
– os dourados/amarelos;
– a tapeçaria representando os amores de Marte e Vénus;
– o olhar agoirento da coruja.
Os espaços e os indícios trágicos

Espectral e apresentando “tons de sangue” provocados pela


Ramalhete luz sobre o veludo (quando Carlos regressa depois de ter
(em 1877)
cometido incesto conscientemente).

Morte de Afonso e dispersão da família – partida de Maria


Eduarda e viagem de Carlos.
Os espaços e os indícios trágicos

Ramalhete Morte e destruição:


(passados dez – abandono do interior;
anos) – abandono do jardim – a deterioração da estátua de
Vénus; a cascata seca; o cedro e o cipreste.

Outros espaços
Santa Olávia Coimbra
(infância feliz de (vida estudantil de
Carlos da Maia) Carlos da Maia)
Destino e caráter trágico

 A destruição consuma-se por meio do destino (fatum), sendo este a força que
comanda os eventos conducentes à catástrofe final.
Linguagem e estilo queirosianos

 Neologismos.
 Adjetivação.
 Advérbio (um dos campos favoritos de experimentação neológica).
 Verbo num caráter metafórico.
 Estilo indireto livre.
 Metáfora e metonímia.
 Hipálage.
 Enumeração.
 Ironia.
 A humanização descritiva surge como um pronunciamento dos afetos,
que são implicação existencial e humana.
A ironia n’ Os Maias

 Em Eça, denota-se uma oscilação entre ironia socrática e ironia romântica, sendo a
ironia do narrador predominantemente romântica e Ega, personagem que
frequentemente assume uma atitude irónica, recorre a uma ironia socrática.

 Contudo, Ega, ao longo da ação, abandonará a vontade de agir e adotará um


comportamento romântico, que antes censurara.
Complexidade do tempo

 O tempo da história é vivido por múltiplas personagens, vários dias, meses e anos,
sendo suscetível de ser cronologicamente ordenado.
 O tempo do discurso é o resultado da elaboração do tempo da história e pode,
assim, surgir alongado ou resumido.
 A ação d’Os Maias que se estende por cerca de setenta anos não se distribui, ao
nível do tempo discurso, de modo ordenado nem uniforme. Observa-se o recurso
a analepses; anisocronias (reduções temporais – o tempo do discurso é menor do
que o tempo da história); isocronias (tentativas para conferir ao tempo do discurso
uma duração semelhante à da história).
O beijo, c. 1907-1908,
Gustav Klimt, Museu
de Belvedere, Viena.
Protagonistas
 Afonso da Maia

É o representante do liberalismo face ao absolutismo da época. Representa a integridade


moral, a retidão de caráter e a condenação do procedimento e do modo de vida do
neto cujo diletantismo inútil verbera.

 Pedro da Maia

A sua debilidade de caráter é dada como resultado da educação excessivamente mimada


que lhe dera a mãe e que fez dele um ser débil, fraco, incapaz de enfrentar as
situações.
Protagonistas
Carlos da Maia

Pertence à galeria dos aristocratas cultos, ricos, inativos e diletantes. Tem a intenção de
se dedicar à ciência, sem deixar de ser um homem de sport e de gosto. Acabará em Paris,
reconhecendo que “falhou na vida”.

Maria Eduarda

Divina, esplêndida, sublime, não obstante o seu passado, é associada à deusa Juno e à
deusa Vénus. Sensatez, equilíbrio, doçura, forte sentido de dignidade são características
fundamentais da sua personalidade.
Protagonistas

João da Ega

Inseparável amigo de Carlos da Maia; partidário do naturalismo, acalentava um velho


projeto de escrever as Memórias de um Átomo, de criar um Cenáculo de arte e de
publicar uma revista.
A visão acutilante de Eça permite, n’ Os Maias, um retrato irónico e caricatural
Da sociedade lisboeta do final do século XIX.

Os Maias e outros textos


A obra Os Maias tem aspetos em comum com outros textos:

Os Lusíadas – também, na obra queirosiana, é feita a denúncia de valores morais e


culturais.

Frei Luís de Sousa – semelhança com os acontecimentos trágicos que envolvem a


família.

Sermão de Santo António – apresentam ambos uma visão crítica.

Farsa de Inês Pereira – a semelhança reside na visão satírica.


Gramática

Reprodução do discurso no discurso


 Modo direto - o narrador/locutor reproduz, no seu discurso, o discurso de outros
locutores, fazendo uso de aspas; dois pontos; travessões, verbos do tipo declarativo, entre
outros aspetos.

Exemplo: “Se algum amigo vinha à porta do café


perguntar por Pedro da Maia, os criados já respondiam
muito naturalmente:
− O Sr. D. Pedro? Está a escrever à menina.”
Os Maias, Eça de Queirós
Gramática

Reprodução do discurso no discurso


Modo indireto – o narrador/locutor apropria-se do discurso anteriormente proferido,
fazendo alterações. Faz uso de verbos declarativos, de orações subordinadas substantivas
completivas ou infinitivas e da terceira pessoa gramatical.

Exemplo: “Dias depois o Vilaça apareceu em Benfica,


muito preocupado: na véspera Pedro visitara-o no
cartório, pedira-lhe informações sobre as suas
propriedades, sobre o meio de levantar dinheiro.”
Maias, Eça de Queirós
Gramática

Reprodução do discurso no discurso


 Discurso indireto livre – o narrado/locutor integra, no seu próprio discurso, as
manifestações verbais ou os pensamentos sem recorrer às características formais e
expressivas dos discursos direto e indireto.

Exemplo: “Deus lhe perdoe, ele, Teixeira, chegara a pensá-lo… Mas


não, parece que era sistema inglês! Deixava-o correr, cair, trepar às
árvores, molhar-se, apanhar soalheiras, como um filho de caseiro.
E depois o rigor com as comidas! Só a certas horas e de certas
coisas… E às vezes a criancinha, com os olhos abertos, a aguar!
Muita, muita dureza.”
Maias, Eça de Queirós