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HUMBERTO ECO - Cientificidade e Outros

HUMBERTO ECO - Cientificidade e Outros

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QUE É A CIENTIFICIDADE?

*
Para alguns, a ciência se identifica com as ciências naturais ou com a pesquisa em bases quantitativas: uma pesquisa não é científica se não se conduzir mediante fórmulas e diagramas. Sob este ponto de vista, portanto, não seria científica uma pesquisa a respeito da moral em Aristóteles; mas também não o seria um estudo sobre consciência de classe e levantes camponeses por ocasião da reforma protestante. Evidentemente, não é esse o sentido que se dá ao termo “científico” nas universidades. Tentemos, pois, definir a que título um trabalho merece chamar-se científico em sentido lato. O modelo poderá muito bem ser o das ciências naturais tal como foram apresentadas desde o começo do século. Um estudo é científico quando responde aos seguintes requisitos:

1. O estudo debruça-se sobre um objeto reconhecível e definido de tal maneira que
seja reconhecível igualmente pelos outros. O termo objeto não tem necessariamente um significado físico. A raiz quadrada também é um objeto, embora ninguém jamais a tenha visto. A classe social é um objeto de estudo, ainda que algumas pessoas possam objetar que só se conhecem indivíduos ou médias estatísticas e não classes propriamente ditas. Mas, nesse sentido, nem a classe de todos os números inteiros superiores a 3725, de que um matemático pode muito bem se ocupar, teria realidade física. Definir o objeto significa então definir as condições sob as quais podemos falar, com base em certas regras que estabelecemos ou que outros estabeleceram antes de nós. Se fixarmos regras com base nas quais um número inteiro superior a 3725 possa ser reconhecido onde quer que se encontre, teremos estabelecido as regras de reconhecimento de nosso objeto. É claro que surgirão problemas se, por exemplo, tivermos que falar de um ser fantástico, como o centauro, cuja inexistência é opinião geral. Temos aqui três alternativas. Em primeiro lugar, podemos falar dos centauros tal como estão representados na mitologia clássica, de modo que nosso objeto se torna publicamente reconhecível e identificável, porquanto trabalhamos com textos (verbais ou visuais) onde se fala de centauros. Tratar-se-á, então, de dizer quais as características que deve ter um ente de que fala a mitologia clássica para ser reconhecido como centauro. Em segundo lugar, podemos ainda decidir levar a cabo uma pesquisa hipotética sobre as características que, num mundo possível (não o real), uma criatura viva deveria revestir para poder ser um centauro. Temos então de definir as condições de subsistência deste mundo possível, sem jamais esquecer que todo o nosso estudo se desenvolve no âmbito daquela hipótese. Caso nos mantenhamos rigorosamente fiéis à premissa original, estaremos à altura de falar num “objeto” com possibilidades de tornarse objeto de pesquisa científica. Em terceiro lugar, podemos concluir que já possuímos provas suficientes para demonstrar que os centauros existem de fato. Nesse caso, para constituirmos um objeto viável de discurso, deveremos coletar provas (esqueletos, fragmentos ósseos, fósseis, fotografias infravermelhas dos bosques da Grécia ou o mais que seja), para que também os outros concordem que, absurda ou correta, nossa hipótese apresenta algo sobre o qual se possa refletir. Naturalmente, esse exemplo é paradoxal, e não creio que vá alguém fazer teses sobre centauros, em especial no que respeita à terceira alternativa; o que pretendi foi mostrar como se pode sempre constituir um objeto de pesquisa reconhecível publicamente sob certas condições. E, se se pode fazê-lo com centauros, por que não com noções como comportamento moral, desejos, valores ou a idéia de progresso histórico?

Trata-se. se não as tiverem em conta. portanto. de Joyce. uma vez que nada acrescentaria ao que já sabemos. poderá valer-se do conhecimento de que. Há contribuições após as quais os estudiosos. sendo bem mais útil (se não do ponto de vista científico. Naturalmente. Analogamente. ou revelam que naquele momento ele vivia na mais extrema pobreza. Um trabalho é científico se (observados os requisitos 1 e 2) acrescentar algo ao que a comunidade já sabia. 3. nada acrescentam ao que já se sabia. em sua vida privada. Por outro lado. Havendo já obras comparativas sobre sistemas de construção de casinhas de cachorro. Ao contrário. mas não é possível falar aqui em progresso do conhecimento humano. como um manual que ensinasse a construir uma casinha de cachorro usando madeira. constituem insignificantes curiosidades biográficas e carecem de qualquer valor científico. e se todos os futuros trabalhos sobre o mesmo tema tiverem que levá-lo em conta. São textos de valor ínfimo. mas uma obra que confronte e discuta todos os métodos conhecidos para construir o dito objeto já apresenta algumas modestas pretensões à cientificidade. mesmo havendo pessoas que ganham fama de pesquisadores incansáveis trazendo à luz semelhantes ninharias. pelo menos do pedagógico) escrever um bom livrinho de divulgação que conte a vida e fale das obras daquele autor. Posso tentar demonstrar que existem centauros no Peloponeso. E há outras que os estudiosos fariam bem em considerar. 4. quando se publicou Stephen Hero. de um bom trabalho de divulgação. porém. Da mesma maneira. Por certo. freqüentemente ironizados. para uma continuidade pública. Um artigo que apresente nova descoberta sobre o comportamento das partículas elementares é útil. (Metodologia)O estudo deve fornecer elementos para a verificação e a contestação das hipóteses apresentadas e. Como já dissemos. Esse é um requisito fundamental. portanto. Joyce atribuía à esposa uma sensualidade vivaz e desenvolvida como a de Molly. Tratar-se ia. Trata-se. Às vezes. todos concordaram que era fundamental tê-lo em conta para a compreensão do desenvolvimento do escritor irlandês. Era uma contribuição científica indispensável. O estudo deve ser útil aos demais. de uma contribuição dispensável. Apenas uma coisa cumpre ter presente: um trabalho de compilação só tem utilidade científica se ainda não existir nada de parecido naquele campo. mas para tanto devo: (a) fornecer provas (pelo menos um osso da cauda.2. o mundo não se acabará. pois podem conferir um tom de humanidade sobre o artista. a importância científica se mede pelo grau de indispensabilidade que a contribuição estabelece. Recentemente. por conseguinte. Um artigo que narre como foi descoberta uma carta inédita de Leopardi e a transcreva na íntegra é útil. O estudo deve dizer do objeto algo que ainda não foi dito ou rever sob uma óptica diferente o que já se disse. ao menos em teoria. dados deste gênero também são úteis. nada poderão dizer de positivo. a primeira versão do romance de Joyce Retrato do Artista quando Jovem. quando não plágio. se não o fizerem. Um trabalho matematicamente exato visando demonstrar com métodos tradicionais o teorema de Pitágoras não seria científico. de uma útil contribuição científica. no máximo. fazer outra igual é pura perda de tempo. a propósito de rigorosíssimos filólogos alemães. mesmo uma tese de compilação pode ser cientificamente útil na medida em que o compilador reuniu e relacionou de modo orgânico as opiniões já expressas por outros sobre o mesmo tema. publicaram-se cartas que James Joyce escreveu à esposa sobre picantes problemas sexuais. mas. Outras vezes. pregos. chamados “notas de lavanderia”. existem admiráveis interpretações de Ulisses onde a personagem Molly foi focalizada com exatidão sem o recurso àqueles dados. notas que o autor havia tomado das despesas a serem feitas naquele dia. qualquer um poderia trazer à luz um daqueles documentos. Não é que se deva desencorajar aqueles que se divertem fazendo tais pesquisas. como se . que todos supunham isolado do mundo. serrote e martelo. um manual de instrução sobre como fazer uma casinha de cachorro não constitui trabalho científico. quem estudar amanhã a gênese da personagem Molly Bloom no Ulisses.

na medida em que contribui para o desenvolvimento do conhecimento geral. pode dizer-se que todo trabalho científico. a minha experiência e permitir a alguém refazê-la quer para obter os mesmos resultados.) para demonstrar que tenho razão. mas que nunca fora reconhecido como tal pelos outros membros. Suponhamos que eu faça uma tese para demonstrar que. . Só assim fornecerei aos outros a possibilidade de encetar novas investigações e mostrar. tem sempre um valor político positivo (tem valor negativo toda ação que tenda a bloquear o processo de conhecimento). Devo apresentar documentos (panfletos. mas. (b) contar como procedi para achar o fragmento. provas e procedimentos de confirmação e contestação. preciso dizer se considero como expressão do grupo apenas o material teórico produzido por seus membros até aquela data (mas então. Pode-se fazer uma tese política observando todas as regras de cientificidade necessárias. não se podia considerar como membro do grupo um indivíduo que fazia parte dele segundo a polícia. terei de dizer como procedi para encontrara aquele material e onde o encontrei. vê-se que não existe oposição entre tese científica e tese política.disse). mas a outros fatores que não considerei. e devo mostrar ainda que critério adotei para atribuir o dito material probatório aos membros daquele grupo. digamos. deverei mostrar quais os critérios que me levaram a considerar certas pessoas como membros do grupo: inscrição. Se minha tese serviu para estimular alguém a começar novos experimentos de contrainformação entre operários (mesmo sendo ingênuas as minhas presunções). que tipo de osso (ou outro fragmento qualquer) mandaria ao espaço minha hipótese. partindo do princípio de que. atas de assembléias. Pode haver também uma tese que narre uma experiência de informação alternativa mediante sistemas audiovisuais numa comunidade operária: ela será científica na medida em que documentar. E. é possível fazer-se uma tese “científica” mesmo sem utilizar logaritmos e provetas. durante o período ativista do grupo. se fosse encontrado. se o grupo se desfez em 1970. Tudo o que disse nos reporta à artificiosa oposição entre tese “científica” e tese “política”. (d) dizer. num movimento extraparlamentar de 1969. não só forneci as provas para a minha hipótese. artigos. talvez camufladas. ou se considero também os textos produzidos pelos exmembros do grupo após a sua dissolução. suposições da polícia?). por exemplo. obtive qualquer coisa de útil. havia dois componentes. que minhas observações estavam erradas porque. mas procedi de maneira a permitir que outros continuem a pesquisar. um leninista e outro trotskista. cumpri dizer que toda empresa política com possibilidade de êxito deve possuir uma base de seriedade científica. embora se supusesse que ele fosse homogêneo. Por exemplo. Escolhi de propósito temas bizarros justamente para demonstrar que os requisitos de cientificidade podem aplicar-se a qualquer tipo de pesquisa. participação em assembléias. O bom de um procedimento científico é que ele nunca faz os outros perderem tempo: até mesmo trabalhar na esteira de uma hipótese científica para depois descobrir que ela deve ser refutada significa ter feito algo positivo sob o impulso de uma proposta anterior. por outro lado. isso significa que já as tinham em mente. (c) informar como se deve fazer para achar outros. Terei assim apresentado uma hipótese. como se viu. para contestá-la ou confirmá-la. Desse modo. Por um lado. etc. se eles expressaram depois aquelas idéias. a julgar pelos documentos disponíveis. de modo a que outros possam continuar a pesquisar naquela direção. O mesmo sucede com qualquer outro tema. Nesse sentido. de modo público e controlável. se possível. quer para descobrir que os meus haviam sido casuais e de fato não se deviam à minha intervenção.

para a qual são necessários inúmeros dados. São Paulo: Perspectiva. ou recomendar um tema que conhecem pouco e querem conhecer mais. é porque confia no candidato. O estudante torna-se. e utilizar como material de fundo e de comparação as teses já elaboradas por outros estudantes sobre temas afins. E normalmente lhe diz explicitamente que o tema é novo para ele também e que está interessado em conhecê-lo melhor. talvez no âmbito de uma obra coletiva. e decide valer-se dos candidatos como membros de sua equipe de trabalho. acompanhando uma tese dessas. um carregador de água que se limita a recolher penosamente material que depois outros irão interpretar. ao contrário. sugeriu várias idéias e. 1996. . Ora. Como sua tese será modesta. pois se quiser avaliar bem o candidato e ajudá-lo em seu trabalho terá que debruçar-se sobre algo novo. os professores podem seguir dois critérios diferentes: indicar um assunto que conheçam bem e onde não terão dificuldades em acompanhar o aluno. feita no interesse coletivo. Há. durante alguns anos. determinará teses concernentes a setores particulares. esse segundo critério é o mais honesto e generoso. algum tempo depois. não tem o mínimo interesse naquela direção. Fique claro que. no entanto. Em geral. Às vezes se trata de uma desonestidade quase de boa fé: o mestre acompanhou a tese com paixão. talvez só use algumas partes do material recolhido. entretanto. Terá lido seus livros e descoberto se o autor costuma mencionar ou não seus colaboradores. ao abordar um determinado professor. não conseguimos mais recordar quais as idéias que perfilhávamos de início e quais as que assumimos depois por estímulo alheio. não citando sequer o estudante. uma idéia acerca de sua lisura. tal como. No mais. aceita a sugestão do professor a quem pede a tese. O professor está entusiasmado com seu próprio tema e violenta o candidato que. alguns inconvenientes possíveis: 1. contrariamente à primeira impressão. Assim. Se for um economista interessado na situação da indústria em um dado período.* ECO. COMO EVITAR SER EXPLORADO PELO ORIENTADOR* Por vezes o estudante escolhe um tema de seu próprio interesse. sucederá que o professor. Ou seja. E isso é útil até didaticamente porque o candidato poderá valer-se de conselhos da parte de um professor muito bem informado sobre o assunto. já terá entrado em contato com diplomados anteriores e possuirá. 14ª ed. 21-5. que contribui para temperar o rigor de muitos e inclinálos a uma maior compreensão. caso execute um bom trabalho. Outras vezes. por seu lado. ao elaborar a tese definitiva. 2. depois de uma acalorada discussão coletiva. O professor é desonesto. p. até porque não se lhe pode atribuir nenhuma idéia precisa. ele orienta as teses numa direção específica. Ao sugerirem temas. o candidato pode esperar uma publicação ao menos parcial de seus resultados. com o fito de estabelecer um quadro completo do assunto. quando o professor opta por essa segunda via. põe os estudantes a trabalhar. não mais destingue sua contribuição da do estudante. terá seus próprios horizontes alargados. Que é a cientificidade. casos específicos em que o professor está fazendo uma pesquisa de grande fôlego. Como evitar tais inconvenientes? O estudante. Há aqui. entram fatores imponderáveis de estima e confiança. nesse caso. aprova-os e utiliza desabusadamente o trabalho deles como se fosse seu. Existem professores que se recusam a orientar teses sobre assuntos surrados. tal critério é não apenas legítimo mas também cientificamente útil: o trabalho de tese contribui para uma pesquisa mais ampla. Humberto. O professor raciocina que. In: Como se faz uma tese. destarte. mesma na atual situação da universidade de massas.

seu assistente ou um colega se ocuparem do mesmo tema. Por roubo de trabalho científico entende-se. Aludimos antes ou àqueles em que a culpa é do professor. ao aceitar um tema de tese. Quatro Regras Óbvias (p. Não estamos nos referindo. que você fez. p. síndromes paranóicas à parte. todos têm direito de citar a tese). uma vez tornada pública. Que o tema responda aos interesses do candidato (ligado tanto ao tipo de exame quanto às suas leituras. 3. 2. Quem fez uma tese. sem menção da fonte (pois. Nestes casos. Que as fontes de consulta sejam acessíveis. OUTROS EXCERTOS (PRECIOSOS) DE HUMBERTO ECO* 1. a utilização de dados experimentais que só podiam ter sido recolhidos fazendo essa dada experiência. quantos outros já falaram sobre o mesmo assunto e quantas idéias comuns a todos os estudiosos. 1996. In: Como se faz uma tese. 6): Pode acontecer que o candidato faça a tese sobre um tema imposto pelo professor. está se inserindo ou não num trabalho coletivo. Humberto. o estudante deve verificar se. estejam ao alcance material do candidato. percorrendo a literatura crítica. estejam ao alcance cultural do candidato. ou àqueles em que a culpa cabe ao candidato. cultural ou religiosa). 14ª ed. aos casos em que o candidato busca o conselho do mestre. * ECO. sua atitude política. a apropriação da transcrição de manuscritos raros que nunca tivessem sido transcritos antes de você. Tais coisas devem ser evitadas. São Paulo: Perspectiva. sobre as relações darwinismo e lamarckismo. Que as fontes de consulta sejam manejáveis. ou seja. Seja como for. 33-4. não se julgue um gênio espoliado se algum tempo depois o professor. . teve oportunidade de ver. Ocupar-nos-emos daquelas situações em que se presume a existência de um candidato movido por certos interesses e um professor disposto a interpretar suas exigências. a utilização de dados estatísticos que ninguém havia coletado antes de você. as regras para a escolha do tema são quatro: 1. e pensar se vale a pena fazê-lo. sim. isto é. evidentemente. a utilização de traduções. de textos que não tinham sido traduzidos ou o foram de maneira diferente. Deste modo.Mesmo porque não convém cair na atitude neurótica de sinal contrário e julgarmo-nos plagiados sempre que alguém falar de temas semelhantes aos da nossa tese. digamos. Como evitar ser explorado pelo orientador. privado de interesse e disposto a fazer mal qualquer coisa para se ver livre dela o mais depressa possível.

Não receie repetir duas vezes o sujeito. Problema difícil: se houvesse a respeito regras cabais. Depois perceberá que o ímpeto lhe arrebatou a mão e o afastou do núcleo do tema.4. em suma. O pseudopoeta que faz sua tese em versos é um palerma (e com certeza mau poeta). Não imite Proust. mas quanto mais vezes melhor.) Não pretenda ser e. E. por exemplo. Elimine então as partes parentéticas e as divagações. usava vírgulas e pontos com muita parcimônia. (. registre-os. colocando-as em nota ou em apêndice. estas quatro regras parecem banais e resumíveis na norma “quem quer fazer uma tese deve fazer uma tese que esteja à altura de fazer”. Montale não se formou e nem por isso deixa de ser um grande poeta. e razoavelmente. Cummings era um poeta americano que assinava com as iniciais minúsculas. seríamos todos escritores de proa. Faça-o ler os primeiros capítulos (e depois. Que o quadro metodológico da pesquisa esteja ao alcance da experiência do candidato. cumpre resolver como se escreve. Escreva o que lhe vier à cabeça. e para tal precisará empregar uma metalinguagem crítica compreensível a todos. mas explicando por que motivo a linguagem dos doentes mentais não é uma linguagem “de loucos”.e. Poderíamos acrescentar uma quinta regra: que o professor seja adequado. É poeta? Não se forme. Mas você não é um poeta de vanguarda. não ao examinador). Se escrever sobre Caravaggio. (. o resto) com boa antecedência antes da entrega da tese. estar convencido de que os doentes mentais são os únicos a exprimir-se como deve ser. onde não se respeitam as regras do discurso crítico. pois escrever é também questão de treino. A finalidade da tese é demonstrar uma hipótese que se elaborou inicialmente. mas depois desmembre-os. é exatamente assim. Nada de períodos longos. As reações dele poderão ser de grande utilidade. vaidade ou desatenção) e depois não se vê à altura de seguir a tese. O docente aceita (por simpatia. e não provar que se sabe tudo. pois hoje em dia muita gente se mete a fazer teses de “ruptura”. querem fazer com o docente da matéria A uma tese que em verdade é da matéria B. de fato. 2..(. para arejar o texto. Com efeito. há candidatos que.) não diga que a violência poética “brota de dentro” de você e que se sente incapaz de submeter-se às exigências da simples e banal metalinguagem da crítica. evite escrever como um deles. Mas então terá duas alternativas: ou não fazer uma tese e manifestar o desejo de ruptura recusando os títulos universitários e começando. Não quero dizer que seja errado exprimir-se como eles: pode-se. Quando for necessário. Um psiquiatra que descreve doentes mentais não se exprime como os doentes mentais. mas apenas em rascunho. Esta é uma recomendação importante. Use o orientador como cobaia. Se o orientador for uma pessoa muito ocupada (ou preguiçosa) .. 115-21): Uma vez decidido a quem se escreve (à humanidade. naturalmente. ao falar do estilo dos futuristas. Se ocorrerem. uma linguagem que fala de outras linguagens. Pode-se recomendar escrever a tese várias vezes. A linguagem da tese é uma metalinguagem. fazia tudo aquilo que um poeta de vanguarda pode e deve fazer. aos poucos. isto é. a tocar guitarra. e sabe-se de teses dramaticamente abortadas justo porque não se soube colocar o problema inicial em termos tão óbvios. Como se Fala (p. pôr-se-á de súbito a pintar? Portanto.) Abra parágrafos com freqüência. por razões de simpatia ou preguiça.. é possível dar alguns conselhos muito gerais. cummings. E.. De qualquer forma. cortava os versos. ou fazer a tese. Assim expostas. ou escrever outras coisas antes de atacá-la... Elimine o excesso de pronomes e subordinadas.

esse índice hipotético se vê obrigado a reestruturar-se várias vezes. Não se obstine em iniciar no primeiro capítulo. ou “o artigo que citamos anteriormente”. redigir logo o índice como hipótese de trabalho serve para definir o âmbito da tese.(. Certo. O objetivo da introdução definitiva será ajudar o leitor a penetrar na tese: mas nada de prometer-lhe o que depois você será incapaz de cumprir. à medida que o trabalho avança. pois expressões assim não implicam nenhuma personalização do discurso científico. abandone tudo... pareceria que toda a pesquisa não trouxera nenhuma idéia nova.recorra a uma amigo. como “cabe. Dizemos “nós” por presumir que o que afirmamos possa ser compartilhado pelos leitores. “ao exame desse texto percebe-se que” etc. concluir que”. Não se faça de gênio solitário.) Um ensaio crítico ou um texto científico deveriam de preferência ser escritos em linguagem referencial (com todos os termos bem definidos e unívocos). de modo que o leitor faça desde logo uma idéia do conteúdo. Pode-se falar uma linguagem absolutamente referencial ou uma linguagem figurada. Naturalmente você conta com um ponto de apoio no índice-hipótese. tudo aquilo que os autores deixam no fim. (. Não use reticências ou pontos de exclamação.) Eu ou nós? Deve-se. 3. Quando muito. “é lícito supor”. Por linguagem referencial entendo uma linguagem onde todas as coisas são chamadas pelo seu nome mais comum. Em outras palavras. Mas a reestruturação será mais bem feita se contar com um ponto de partida. Enganou-se de tese (ou de profissão). nem faça ironias... introduzir as opiniões próprias na primeira pessoa? Deve-se dizer “penso que. Ganhará confiança. O Índice como Hipótese de Trabalho (p.. Não concordo.”? Alguns acham isso mais honesto do que apelar para o noi majestatis. pois. “conclui-se daí que”..) Defina sempre um termo ao introduzi-lo pela primeira vez. É normal. Entretanto. Comece por aí. mostrando-se bem mais cauteloso. Escrever é um ato social: escrevo para que o leitor aceite aquilo que lhe proponho. Verifique se qualquer pessoa entende o que você escreveu. com a desenvoltura de quem já pôs em ordem os capítulos anteriores.. o mais reconhecível por todos e que não se presta a equívocos. O conselho parece paradoxal: começar pelo fim? Mas quem disse que o índice vem no fim? Em alguns livros aparece no início. a introdução e o índice final – ou seja.) Fica. “parece acertado que”. na última. pois. (. que vai orientá-lo desde o começo. deve-se procurar evitar o pronome pessoal recorrendo a expressões mais impessoais. Se for um dos termos principais de sua tese e não conseguir defini-lo. claro que introdução e índice serão continuamente reescritos à medida que o trabalho progride. na tese. . mas às vezes é útil empregar uma metáfora.. Objetar-se-á que. você prometer muito menos que na primeira. evite-o. talvez assumindo uma forma totalmente diferente. O índice e a introdução finais (que aparecerão no trabalho datilografado) serão diferentes dos iniciais. basta dizer “o artigo anteriormente citado”.. 81-4): Uma das primeiras coisas a fazer para começar a trabalhar numa tese é escrever o título. Do contrário.não é necessário dizer “o artigo que citei anteriormente”. Talvez esteja mais preparado e documentado para o quarto capítulo.. é válido escrever “o artigo anteriormente citado nos demonstra que”. uma ironia ou uma litotes. É assim que se faz. (. Não sabendo defini-lo. O que distinguirá a primeira e a última redação da introdução? O fato de. “dever-se-ia dizer”.

e provavelmente copiará longos trechos das fichas. Isto serve também para mostrar que você batalhou. o tiver ajudado com conselhos orais. Mas a culpa cabe inteiramente a você. terá cometido um plágio. em nota de rodapé. E também reproduziu trechos inteiros entre aspas. Citações. Paráfrases e Plágio (p. por acaso. consultando muita gente. (. é claro. se for muito mais curta do que o original. abomina e despreza. Ou então. Se o ajudou. fê-lo. além do orientador. . então seja coerentemente desonesto. mas a quem que posteriormente estude a sua tese. não se deve descartar a eventualidade de ser ele um velho rabugento.. fez paráfrases e repetiu com suas próprias palavras o pensamento do autor. lhe parece um bom protetor. pois optou por ser da mesma estirpe que o mestre. Grave incidente acadêmico. Essa forma de plágio é assaz comum nas teses.. ou com apoio de qualquer outro gênero é costume inserir no começo ou no fim da tese uma nota de agradecimento. lívido e dogmático – pessoa que jamais se deveria ter escolhido para orientador. Deve confiar no orientador.4. Do contrário.) 5. não cite o outro. já não terá sob os olhos o texto. Aqui. 140-1): Se alguém. significando que não só não o copiamos como o entendemos. que lhe dissera ser aquele sujeito um imbecil (razão pela qual não o deveria ter consultado). É de mau gosto agradecer demasiado ao orientador. não se deve preocupar doentiamente em nunca colocar as mesmas palavras. Neste caso. Mas o leitor que. A prova mais cabal é dada quando conseguimos parafrasear o texto sem tê-lo diante dos olhos. Mas há casos em que o autor diz coisas de grande conteúdo numa frase ou período curtíssimo. você resumiu vários pontos do autor que lhe interessavam: isto é. de sorte que a paráfrase deve ser muito mais longa do que o trecho original. é preciso certificar-se de que os trechos que copiou são realmente paráfrases e não citações sem aspas. pois às vezes é inevitável ou mesmo útil que certos termos permaneçam imutáveis. empréstimo de livros raros. Ao passar para a redação da tese. apesar de seus defeitos. Agradecimentos (p. em parte. O estudante fica com a consciência tranqüila porque informa. por obrigação.128-9): Ao elaborar a ficha de leitura. jamais fará deste fato matéria de discussões durante a defesa da tese. E isto não diz respeito apenas ao orientador. pode tirar daí uma péssima impressão. neste caso. mas uma verdadeira cópia sem aspas. Como ter certeza de que uma paráfrase não é um plágio? Antes de tudo. para publicá-la ou para avaliar sua competência. antes ou depois. percebe na página não uma paráfrase do texto original. que aceita o fato de seu aluno recorrer até mesmo a fontes de que ele discorde e. Mas se quiser fazer mesmo a tese com ele porque. Pode ocorrer-lhe agradecer ou declarar seu débito para com um estudioso que seu orientador odeia. Mas pode suceder que esse orientador seja uma pessoa aberta. que está se referindo àquele autor.

indicar os métodos e técnicas a serem seguidos .responder de maneira inequívoca o problema colocado na introdução e desenvolvido no corpo do trabalho.delimitação do campo de estudo .justificar e determinar os autores a serem seguidos .resumir os argumentos fundamentais .definição do objeto . mas sim de uma explicitação do objetivo final do trabalho marcado pelo ponto de vista do autor.colocação do background sociológico-histórico do objeto a ser pesquisado. 3.colocar as dificuldades existentes em relação ao tema . Uma questão fundamental a ser colocada: A quem se refere o problema que está sendo formulado? Interesses pessoais? Interesses sociais ou de grupos? O segundo passo é demonstrar e justificar a importância do tema. . Corpo da exposição: . Introdução: .definir as combinações teóricas a serem empregadas .problematização do objeto . Conclusão: .titular as partes e subdivisões . cit.expor de maneira clara e lógica as idéias centrais do trabalho .* op.definir e trabalhar a abordagem teórica a ser seguida .refutar as interpretações contrárias .desenvolver uma crítica ideológica de toda a concepção e postura assumidos.destacar na análise a idéia principal do trabalho. Uma dissertação deve ser estruturada da seguinte maneira: 1.dividir de maneira coerente e equilibrada o conteúdo em partes .apresentar os possíveis argumentos contrários existentes . Referencial teórico-metodológico: . INDICAÇÕES PARA ELABORAÇÃO DE UMA MONOGRAFIA* O primeiro passo para elaboração de uma monografia ou dissertação é examinar se a idéia do trabalho pode ser transformada em um problema formulável. A conclusão é uma decorrência lógica e natural do que foi apresentado na introdução e desenvolvido no corpo do trabalho. 4. Não se trata portanto de um mero resumo do que foi desenvolvido. 2.

. modéstia excessivas ao recorrer a formas acauteladoras? Ou. Na transição do escrever ao redigir. o planejamento e a sistematicidade organizacionais. bem possível que isso ocorra em situações diferentes das de nossa amostragem. 8. o cientista precisa reler seu texto com atenção para seu uso de palavras e locuções que manifestem os dois extremos da escala comunicativa: cautela e convicção. a humildade (ou a modéstia) e a convicção (ou autoconfiança). parece. às vezes. dentre as quais a precisão conceitual e terminológica. que Luria provavelmente estava equivocado a respeito disso. entretanto. 9.. a análise quantitativa também será útil. 4. Razoavelmente (cf. relativamente. sob certos aspectos. 5. talvez.” “Talvez a data mais importante na história da afasiologia seja 1º de abril de 1861. A COMUNICAÇÃO DO CIENTISTA: DA CAUTELA À CONVICÇÃO* INTRODUÇÃO A complexa... Convém acrescentar à listagem os verbos: esperar. a imaginação criadora. geralmente (em geral. assim. Eis uma listagem parcial. por outro lado. a logicidade ou a coerência ideativa. Duas perguntas-chave a fazer.. até certo ponto. Se considerarmos verdadeira essa afirmação.* Extraído de apontamentos de aula da professora Jacinta Castelo Branco. sugerimos um esquema provisório para a descrição do desenvolvimento lingüístico. quantas vezes usamos palavras indicadoras de incerteza e quais dessas formas foram repetidas.” .” ‘É. a honestidade. 7. como expressão acauteladora.. Ilinois. quase.. 2. Scott Foresman and Company.).. tentar e tender.. em ordem alfabética.. A CAUTELA EM ESCRITOS CIENTÍFICOS: ALGUNS EXEMPLOS Como exemplificação do uso aparentemente adequado de acauteladores – os autores não poderiam ter sido categóricos. “mais ou menos” no português oral).” “Esses autores demonstraram.” “A seguir. de itens acauteladores em português: 1. importaria verificar até que ponto o cientista tem conhecimento explícito do repertório lexical disponível (que a sua língua materna oferece) para expressão de graus de incerteza ou de certeza informacionais....” “É razoável inferir que a cognição e a linguagem são relacionadas de modo complexo nos subnormais. da representação escrita de nossa atividade cognitiva. entretanto... 10. O lingüista americano Joseph Williams. estarei exagerando demais. em si mesmas? O bom senso comunicacional sugere (observe o uso do verbo sugerir. aparentemente. conseqüentemente. desafiadora. 6. em minha opinião.) que ao ponderarmos ou “pensarmos” nossas palavras. Esse exercício contribuirá ao aprimoramento de nosso pensar e. ao reler nosso texto. durante a disciplina Língua Portuguesa do Curso de Especialização em Gestão Escolar UNIR/SEMED. nesse exame crítico: não estarei dando ao meu leitor uma impressão de timidez. pelo menos. 3. dada a possível natureza “aberta” ou controvertida dos problemas localizados – colhemos estes fragmentos de textos em obras de lingüística: “As crianças parecem evidenciar uma compreensão do mundo real antes de poderem compreender sua língua materna.. atribuindo expressões intensificadoras ou enfáticas a força que minhas assertivas já possuem. 1981) afirma que “cada profissão possui sua fraseologia da cautela e da convicção”. procurar. em sua obra Style: 10 lessons in clarity and grace (Glenview. atividade redacional do cientista pressupõe o cultivo de várias virtudes. perguntemo-nos.

se quisermos ser mais enfáticos) distanciar o processador de seu texto.. os intensificadores em mente: indiscutivelmente. definitivas ou conclusivas..” “O objeto de trabalho desse autor tende a ser o texto em si... justamente. poderá (irá. está à espera de pesquisadores. até onde possamos ver.. nenhuma razão pela qual... “sempre”). o fato é que.. rumo a outro conceito também graduável: a certeza. está claro que.” “Este capítulo tem o modesto. para não diminuir a confiança de seu leitor no que você assevera.” “Neste estudo tentamos explicitar. no balanço crítico de um autor atento.. tudo. objetivo de. O estudo dos usos do vocabulário acautelador e da convicção.. é de importância fundamental que (ou “é de fundamental importância que. Por um lado manifesta seu “senso de limite”. dele retiram preciosos pontos. Por trás delas podem esconder-se generalizações falhas ou apressadas que em lugar de conferirem maior informatividade ao seu texto.. somente. invariavelmente (cf. ênfase ou excesso de confiança. o autor que escreve “Arrisco-me a afirmar que isto é falso” em vez de “Isto é falso” está aplicando duas virtudes à sua comunicação científica: humildade e coragem.” O leitor saberá construir sua própria lista de referência em benefício de seu polimento estilístico.... Cada usuário deve construir sua própria lista de referência (para autocontrole e aprimoramento redacionais).. em nossas comunicações científicas. Se você optar por esta segunda estratégia. empenhemo-nos (não disse “tentemos”. só..) na utilização consciente.. refletida desse componente do universo semântico de que dispomos e que deve ser aprimorado constante e permanentemente. Assim..” “Esses dois fatores podem ter sido os dois pré-requisitos que levaram ao surgimento revolucionário da linguagem humana.. não para impressionar o seu leitor com exagero. A COMUNICAÇÃO CONVINCENTE: NÃO ABUSE DA ÊNFASE Um dos princípios da comunicação científica eficaz é: redija para convencer. ninguém. desde que assuma os riscos ou as conseqüências de suas tomadas de decisão.” “Não há. . inquestionavelmente. Ao fazer uma leitura crítica de suas opções lexicais. decide ir em frente.. mas daremos alguns exemplos de itens a serem evitados ou parcimoniosamente usados – a releitura em voz alta para si ou para alguém ajudará a detectar o que é supérfluo ou desnecessário. nunca..” “Esta é uma revisão dos resultados ou achados preliminares... nem ser superconfiante e exagerado.”). porém necessário. sempre. ainda inexplorado nas gramáticas que se propõem a focalizar aspectos da comunicação em língua portuguesa.” ‘Quero apenas esclarecer que..“A evidência incompleta levantada neste capítulo. por outro.... CONCLUSÕES O bom senso redacional sugere que as virtudes da cautela ou da prudência e da convicção ou da confiança sejam exercidas e cultivadas judiciosamente.. fazendo com que diminua a confiança no que você transmite. fazendo afirmações que não são decisivas.. Nem ser cauteloso demais. A credibilidade de suas afirmações resultará mais de sua argumentação do que do uso exagerado de intensificadores ou enfatizadores. Quando pouco ou nada contribuirá à expressividade de sua mensagem. Até que tenhamos uma análise sistemática dos mesmos. verifique se há alguma ocorrência de algumas dessas palavras: todos. Todo escritor tem o direito de escolher seu próprio estilo.

Francisco Gomes de (Letras e Psicologia. distribuído sem outras referências bibliográficas durante a disciplina Língua Portuguesa do Curso de Especialização em Gestão Escolar UNIR/SEMED. 1995.* Texto de MATOS. . UFPE).

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