4 edição revisada e ampliada

a

Alessandra G. S. Capovilla Fernando C. Capovilla

Colaboradores:

Fernanda B.Silveira Ilza G. Seabra Alessandra R. Trombella Célia R. Correia

Alfabetização: Método fônico

MEMNON

São Paulo, 2007

1. Por que a educação brasileira precisa do Método Fônico
Alessandra G. S. Capovilla (Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo e Instituto de Psicopedagogia, Universidade de Santo Amaro) Fernando C. Capovilla (Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo) .. .. É um problema de pedagogia experimental decidir se a maneira de aprender a ler consiste em começar pelas letras, passando em seguida às palavras e finalmente às frases, segundo preceitua o método clássico chamado "analítico”, ou se é melhor proceder na ordem inversa, como recomenda método "global" de Decroly. Só o estudo paciente, metódico, aplicado a grupos comparáveis de assuntos em tempo igualmente comparável, neutralizando-se tanto quanto se possa os fatores adventícios (...), é capaz de permitir a solução do problema. (...) Este exemplo corriqueiro mostra a complexidade dos problemas colocados à pedagogia experimental quando se quer julgar os métodos segundo critérios objetivos e não apenas segundo as avaliações dos mestres interessados, dos inspetores ou dos pais de alunos. (...) [Para a pedagogia experimental] completar suas averiguações por meio de interpretações causais ou "explicações", é evidente que precisa recorrer a uma psicologia precisa, e não simplesmente àquela do senso comum. (Piaget, 1969/1976, Psychologie et Pedagogie, pp. 29-32.) A leitura é específica da espécie humana, assim como a fala, mas não decorre diretamente das capacidades inatas que seriam ativadas por simples exposição ao texto. (...) Aprender a ler requer uma escola e uma instrução adquirida (...) e depende essencialmente de uma conquista crucial pelo educando que é a compreensão, alcançada com a mediação de leitores proficientes, do princípio subjacente ao código alfabético. É importante que professores e pais admitam que a leitura é uma atividade mental altamente complexa e organizada. A pesquisa sobre o processo de leitura (... ) fez grandes progressos nos últimos 25 anos, e é indispensável fazer referência a este conhecimento. (...) As interpretações espontâneas e de senso comum não são suficientes. Do mesmo modo que não nos contentamos com opiniões sobre funcionamento do coração ou ação de vitaminas mas recorremos a especialistas, a comunidade da Educação deve considerar e recorrer aos trabalhos científicos sobre a leitura. (Observatoire National de la Lecture, Centre National de Documentation Pédagogique, 2001, Apprendre à Lire. Introduction: Apprendre à lire n'est ni naturel ni surnaturel, pp. 1-2.)

 

a maior parte destes abandonou a escola porque não estava aprendendo. Os dados da Língua Portuguesa de 1997 a 1999 já falam por si mesmos: no caso dos alunos da quarta série. o que equivale a 6. inclusive no Brasil.7 em 1999.. Os procedimentos aqui descritos que implementam tais atividades comprovadamente auxiliam as crianças no seu processo de aquisição de leitura e escrita. a taxa de reprovação no ensino público brasileiro gira em torno de 20%.. aperfeiçoar e documentar procedimentos e modelos científicos consolidados à atuação prática e diária de alfabetização.) Segundo ele. A educação brasileira passa atualmente por uma crise severa e que parece sem precedentes. apesar dos investimentos anunciados pelo governo na área da educação. o desempenho médio caiu de 283. Para Klein. cuja média deve ficar entre 200 e 250. a repetência em 1999 chegava a 35% 3    . e diminuem de modo marcante os elevados índices de problemas com a linguagem escrita que são apresentados pelas crianças brasileiras. No caso do ensino médio. Por causa da evasão. Em 1999.1.. E na terceira série do ensino médio o atraso é ainda maior: muitos estariam num nível de sétima série. elas eram de 18%. aplicar. as taxas de evasão escolar continuam altas. As atividades aqui descritas resultam de mais de uma década de pesquisas científicas rigorosas empreendidas com sucesso no mundo todo. os índices de aprovação devem piorar nos próximos levantamentos.. ) Na média geral. o desempenho baixou de 250 para 232. cuja média mínima exigida é de 150 a 200 pontos. numa interação profícua que permitiu criar. Muitos alunos de quarta série apresentam nível de conhecimento compatível como de segunda. adaptar. para a Educação brasileira.. (. os resultados do Sistema de Avaliação do Ensino Básico do MEC (Saeb) revelaram que os níveis de desempenho dos alunos de quarta e oitava séries do ensino fundamental e da terceira série do ensino médio continuam em forte e sistemática tendência de queda. De acordo com o MEC. O parecer dos peritos é claro: . que vai aumentando ao longo dos anos.1.5 milhões de estudantes. Tais atividades têm se mostrado notavelmente eficazes em produzir aquisição de leitura e escrita competentes.5 em 1997 para 170. Rubem Klein da Fundação Cesgranrio faz um alerta: O Saeb mostra que boa parte dos alunos tem um déficit de conhecimento preocupante." (. procedimentos avançados e eficazes para promover a alfabetização que resultam dos mais recentes desenvolvimentos da pesquisa internacional na área da aquisição de leitura e escrita. Nos últimos anos. Ele é fruto da colaboração entre pesquisadores do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo e professores de primeira série do ensino fundamental de escolas públicas. os veículos de comunicação têm mostrado recorrentemente um declínio pronunciado e alarmante no desempenho dos alunos do ensino fundamental. eles estariam num nível de quinta.. Como exemplo disso.6. No caso da oitava série. testar. Introdução Este livro torna disponíveis. o desempenho dos alunos caiu de 186. no final de 2000.9 para 266. No caso dos alunos de oitava. cuja média exigida vai de 250 a 300 pontos.9.

fora do âmbito da educação. temos a atribuição e o dever de procurar fazer o melhor com o que temos. de modo a descobrir como melhor ensinar nossas crianças. como educadores. educadores de estatura (como uma Anne Sullivan. ao serem considerados os índices de evasão. É evidente que as condições sociais e econômicas adversas da população brasileira afetam o desempenho de nossas crianças. temos visto autoridades governamentais brasileiras em educação impondo políticas falhas e métodos mal testados. bem como de avaliação.na primeira série do ensino fundamental. Embora essa busca possa ser bem sucedida pela inspiração e dedicação especiais do educador. justificativas fáceis e cômodas para o fracasso educacional. Precisamos descobrir por que os desempenhos dos alunos têm piorado de modo tão sistemático e marcante. A grandeza da Educação emana precisamente de sua capacidade de responder. ao desafio de promover o desenvolvimento das competências e habilidades dos educandos. não há dúvida de que ela pode ser facilitada e enriquecida pela leitura das experiências de educadores de sucesso e de experimentos bem sucedidos que indicam caminhos que funcionam. Precisamos analisar a fundo o que ocorre hoje na educação brasileira e comparar com o que ocorre nos países mais avançados do mundo.) Cabe a nós. limitando a autonomia dos educadores de fazer suas próprias descobertas a partir de experimentos e de implementar as descobertas mais animadoras de todo o mundo. capaz de torná-las mais competentes. 2001a. Como educadores. Ao invés de conduzir pesquisas para descobrir como reverter o fracasso das crianças. pp. apesar dessas limitações. à altura. descobrir soluções claras e eficazes. lúcido e corajoso. (Kaminski & Gil. pesquisadores e educadores. a despeito das mais adversas e limitadoras circunstâncias. capazes de reverter esse quadro alarmante. de modo a dar às nossas crianças um ensino de melhor qualidade. Frente a uma dificuldade de aprendizagem. Boa parte do esforço do verdadeiro educador diz respeito à busca de um método apropriado para ajudar eficazmente seus educandos no desafio da aprendizagem e do desenvolvimento. tais autoridades 4    . Revista Educação. mas sim à falta de um método apropriado para ajudá-los a aprender e a desenvolver-se. E. sobretudo. 56-58. sistemático. soluções baseadas em pesquisa de pedagogia experimental. iniciar um esforço cooperativo intensivo de análise comparativa das práticas nacionais e internacionais. e empreendê-las ' de modo decisivo. tendo sempre em mente os problemas que podemos corrigir e os erros que podemos evitar. e de buscar soluções educacionais para o fracasso escolar. precisamos resistir fortemente à tentação de buscar. Mas. intervenção e pesquisa para buscar explicações claras e soluções efetivas para o problema. por exemplo) jamais pensariam em atribuir o fracasso momentâneo de seus educandos (seja a notável Helen Keller ou o anônimo Zezinho) a limitações imanentes ou circunstanciais desses educandos (como cegueira-surdez ou pobreza). no entanto. tenham elas os problemas e as dificuldades que tiverem. De mal a pior: Taxa de aprovação pode ser ainda menor nas próximas pesquisas. Infelizmente.

é capaz de permitir a solução do problema. em senso comum ou em sua limitada experiência particular com alfabetização. ou se é melhor proceder na ordem inversa. aplicado aos grupos comparáveis de assuntos em tempo igualmente comparável. como recomenda o método 'global de Decroly. para a pedagogia experimental "completar suas averiguações por meio de interpretações causais ou 'explicações'.. 18) pondera por que a pedagogia não consegue formar uma elite de pesquisadores capazes de fazer dela uma disciplina científica e viva. p. e não simplesmente àquela do senso comum. Só o estudo paciente. E continua: "Este exemplo corriqueiro mostra. o pouco prestígio intelectual que o 5    . contentando-se apenas em resolver os problemas por meio de opiniões. os professores têm que submeter-se a programas estabelecidos pelas decisões burocráticas dos administradores e não pelos dados dos pesquisadores.) a pedagogia não organize experimentos contínuos e metódicos. então. Finalmente. dos inspetores ou dos pais de alunos.desencorajam qualquer pesquisa e propõem respostas prontas e inconseqüentes.). passando em seguida às palavras e finalmente às frases.. que não conduzem pesquisa e não tendem a levar em conta os dados de pesquisa. segundo preceitua o método clássico chamado 'analítico'. "É inacreditável que (. a complexidade dos problemas que são colocados à pedagogia experimental quando se quer julgar os métodos segundo critérios objetivos e não apenas segundo as avaliações dos mestres interessados. Piaget (1969/1976. metódico. 32). assim. inicialmente. que no campo da pedagogia.. É essencial ultrapassar a esfera do senso comum e conduzir pesquisas científicas capazes de identificar as causas dos problemas educacionais e de descobrir métodos comprovadamente eficazes em garantir que nossas crianças consigam aprender e desenvolver seu pleno potencial. 17). Piaget (1969/1976) ressalta a importância de conduzir pesquisas em pedagogia e de constituir uma Pedagogia Experimental. Piaget (1969/1976) continua: "Como se explica. neutralizando-se tanto quanto se possa os fatores adventícios (." (p. ressalta que. cujo 'bom senso' encerra realmente mais afetividade do que razões efetivas. Assim. não têm tido autonomia para comparar sistematicamente a eficácia de diferentes procedimentos de ensino e dar peso de prova às suas conclusões.." (p. dentre elas: 1) A falta de autonomia dos professores que são obrigados a seguir diretrizes e programas ditados por autoridades oficiais que se dedicam apenas às atividades administrativas." (p. Segundo ele: “é um problema de pedagogia experimental decidir se a melhor maneira de aprender a ler consiste em começar pelas letras. onde o futuro das próximas gerações está em causa num grau pelo menos igual ao do campo da saúde. 31). 29-30). Piaget (1969/1976.. Aponta. Seguindo em sua crítica à falta de pesquisa séria no âmbito da educação.. as pesquisas de base permaneçam tão pobres." (p. é evidente que precisa recorrer a uma psicologia precisa. Como já dizia Piaget (1969/1976) em seu livro Psicologia e Pedagogia. 15). 2) A falta de condução de pesquisas pelos próprios professores. baseadas em mera especulação." (pp. que têm pouco contato com a prática de pesquisa durante a sua formação e ao longo da sua profissão e que. p: 22) aponta quatro razões para tal situação. como um dos fatores responsáveis por isso.

a ausência de condução de pesquisas pelos próprios professores. Portanto. aprender a verificar. antes que a criança tenha tido a chance de aprender a decodificar e a codificar. Aparentemente. sendo que uma parte deles foi coletada pelos próprios professores. quando comparado a qualquer outro profissional liberal. Lemann. tais críticas parecem ter surtido efeito nos países desenvolvidos como a França. 20) atribui isto ao fato de que o professor não é considerado um especialista. num autêntico esforço de pedagogia experimental. 2) Escolhidos os objetivos. com complexidade crescente. traçar os métodos mais adequados. Grã-Bretanha e França examinados neste capítulo descrevem as 6    . quer do ponto de vista das técnicas. p. o raciocínio. a experimentação. Até os anos 1990. E afirma que quem pensa assim se esquece de que o ensino tem três problemas centrais que somente podem ser resolvidos com a ajuda do professor. e à medida que a criança for adquirindo uma boa habilidade de fazer decodificação grafofonêmica fluente. mais que em pesquisa científica. definir os ramos necessários para alcançá-lo: a cultura. Logo. Piaget (1969/1976. O método global prega que a alfabetização deve ser feita diretamente a partir de textos complexos. ideologias e palpites. a Grã-Bretanha e os Estados Unidos. ou seja.professor tem em nossa sociedade. o engenheiro e o médico. O cerne de tais pesquisas diz respeito a como se deve alfabetizar as crianças. o que produziu a grande controvérsia conhecida como A Guerra da Leitura (The Reading Wars. o método global era a moda e grande parte dos países procurava alfabetizar suas crianças segundo ele. aprender a aprender. há mais de trinta anos Piaget já criticava essa situação de falta de pesquisa em pedagogia e de submissão dos professores a parâmetros curriculares ditados por burocratas do Estado que não fazem pesquisa e não levam em conta pesquisa. para Piaget (1969/1976). já que os parâmetros curriculares desses países foram estabelecidos a partir de dados de pesquisa experimental. São eles: 1) Traçar o objetivo do ensino: adquirir conhecimentos. Já o método fônico afirma que o texto deve ser introduzido de modo gradual. dentre outros. se pelo método global ou pelo método fônico. como o advogado. a queda sistemática no desempenho da população escolar desses países produziu enorme e crescente insatisfação entre os educadores sensíveis à involução e fracasso progressivo das crianças. 1997) e forçou as autoridades a buscar evidências sólidas de pesquisa experimental para poder fazer uma opção oficial por um ou outro método. 3) Escolhidos os ramos. quer do ponto de vista da criação científica. depois que ela tiver recebido instruções explícitas e sistemáticas de consciência fonológica e de correspondências entre grafemas e fonemas. Contudo. sendo que não há um ensino explícito e sistemático das correspondências grafema-fonema. pois se espera que a criança sozinha perceba tais relações. o pouco desenvolvimento teórico e científico da pedagogia se deve a fatores como o pouco contato com pesquisa científica por parte dos professores durante sua formação. Os documentos dos Estados Unidos. e a sua falta de autonomia para ensinar na medida que devem submeter-se a parâmetros e programas ditados por autoridades e baseados em circunstâncias. que devem ser introduzidos logo ao início da alfabetização. A diferença essencial entre eles é simples. aprender a inovar.

os países que teimam em seguir o construtivismo (como Portugal. franceses e norte-americanos que. mas mistos (como Itália e Alemanha). embora tenha se esquecido por completo. antes de se decidir por um ou outro lado (isto é. É a única maneira de garantir que a criança e a educação sejam as grandes vencedoras de todas as guerras que se travam. o global). basta examinar nossos depauperados Parâmetros Curriculares Nacionais. O que distingue autoridades governamentais respeitáveis de nações desenvolvidas na área de educação é a seriedade com que tomam decisões a partir de evidência científica sólida quando se trata de decidir o futuro de suas crianças. por exemplo. sem sequer esboçar qualquer preocupação em sustentar sua esdrúxula opção em um único dado de pesquisa experimental séria. de modo intransigente e dogmático. E. após revisão dos dados de 100 mil estudos experimentais. Para constatar isto. das recomendações explícitas de Piaget quanto à necessidade de estabelecer uma Pedagogia Experimental para escolher dentre diferentes métodos de alfabetização como. É uma lástima que o Brasil ainda insista em permanecer no último time. Tal esforço concentrado de pesquisa revelou a superioridade absoluta do método fônico e levou o Congresso dos Estados Unidos a estabelecer oficialmente o método fônico como o método mais eficaz para a alfabetização. nossos PCNs fazem inconseqüentemente a opção invertida. pelo método global ou pelo fônico). ironia das ironias. A mesma seriedade e competência foi demonstrada por outros governos de países desenvolvidos. seguidos pelos países que adotam métodos não puramente fônicos. Com o falecimento de Piaget. esses Parâmetros Curriculares Nacionais são ditados e mantidos por um establishment construtivista que se diz piagetiano. optaram explícita e responsavelmente pelo método fônico. a França e os Estados Unidos). Os bons frutos dessa combinação de responsabilidade e competência evidenciam-se nos resultados do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa). Nesse longo período. do que trabalhar para edificar a Pedagogia Experimental com que sonhava Piaget e de que este país tanto necessita. pelo método global. isto é. Contrastando com os britânicos. o global (ou ideovisual) versus o fônico (ou "analítico". em que os jovens da Grã-Bretanha. como a Grã-Bretanha e a França. da França e dos Estados Unidos obtiveram excelentes posições entre os primeiros do mundo em competência de leitura. o establishment construtivista falhou de 7    . e finalmente. desde que agarrou-se ao poder em meados dos 1980. o Congresso dos Estados Unidos determinou que fosse feita uma meta-análise para avaliar os resultados de mais de 100 mil estudos experimentais conduzidos sobre a eficácia de diferentes métodos de alfabetização. México e Brasil) ainda que em detrimento da educação de seus jovens. Por exemplo. certos construtivistas parecem ter achado mais fácil entronizar um dos lados (isto é. nas últimas posições. Os resultados do Pisa deixam claro que os países que adotam ensino fônico produzem jovens com maior competência de leitura (como a Grã-Bretanha.lições fortes e definitivas que essa guerra legou. por carecer de uma Pedagogia Experimental e não ter inaugurado a tradição saudável de conduzir pesquisas de avaliação comparativa e de intervenção como base sólida para a tomada de decisões responsáveis. como se dizia na época).

. (sic) (. C11. na matéria: Educação: Brasil foi o pior colocado. (. (..) Entre 32 países submetidos ao teste. das redes pública e privada. como se "a verdade da educação" já tivesse sido decretada pelo construtivismo. o desempenho de estudantes com 15 anos nas redes pública e particular de ensino de 32 países: Os alunos brasileiros também ficaram na última colocação no ranking que levou em consideração fatores socioeconômicos e no que considerou apenas os estudantes com escolaridade. série do ensino fundamental e do 1°' e 2°' ano do ensino médio.) De cinco níveis possíveis de classificação da média geral. apesar do detalhe incômodo da incompetência crescente da criança brasileira (especialmente a pobre) que teima em não alfabetizar-se a si mesma e em fracassar sob essa orientação..) O Brasil também acumula a última colocação na pontuação atingida por alunos que tinham ao menos nove anos de estudo. de outro modo tão aparente mente inspirada e romântica.) com 8    . 5 de dezembro.) No Brasil participaram 4.800 do Brasil... (sic). (Suwwan. em matéria intitulada Estudantes brasileiros não entendem o que lêem. Tais resultados vergonhosos foram objeto de matérias dos principais jornais do país e do mundo no início de dezembro de 2001. o Brasil ficou em último lugar... (.8 mil alunos de 7a.. A conseqüência da opção cega dos PCNs pelo método global e da insistência crônica das autoridades em impingi-lo sobre os alfabetizadores nos últimos anos está aí. (.) Nessa mesma data.) "Esperava um desastre maior".. disse o Ministro da Educação. realizada no ano passado por cerca de 5. os brasileiros foram os únicos a ficar no nível 1.. (..000 brasileiros. sendo 4. Por exemplo...) A leitura foi a mais enfatizada na prova.. dos ensinos funda mental e médio. e salta aos olhos mesmo de quem não quer ver: na recém divulgada avaliação de competência de leitura do Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa) promovida pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). esse establishment desencorajou sistematicamente a condução de pesquisas sobre alfabetização. Educação: Brasil foi o pior colocado.... como se não fossem necessárias.) O Ministério da Educação considerou o resultado "melhor que o esperado".modo lamentável e completo em conduzir pesquisas comparando a eficácia de diferentes métodos de alfabetização. com base em especulações de discutível credibilidade como "não é o professor que alfabetiza a criança.. o jornal O Estado de São Paulo relata: O aluno brasileiro não compreende o que lê. A prova avaliou a capacidade de leitura de alunos de 15 anos. a Folha de São Paulo relata: o Brasil foi o último colocado no Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos). mas sim é a criança que se alfabetiza a si mesma". (.. prova que mediu. já que participaram do estudo 265 mil estudantes de 15 anos. pela primeira vez. 2001. (.. e 8a.... p. Pior do que isso. E não se trata de uma amostra pequena ou de escolas apenas públicas. Folha de São Paulo.. o Brasil ocupou a escandalosa posição de último lugar do mundo.

de modo a evitar que as crianças continuem sendo reprovadas.média de 396 pontos. analisar que tipo de formação os alfabetizadores estão recebendo nas universidades.. em seguida. difícil é pensar. Para ir à raiz do fracasso escolar das crianças. (.) Ainda na mesma data. 5 de dezembro. Quando isto for feito. série. 2001 b. C11). em que a retenção só ocorre na 4a. p. o Jornal da Tarde relata: Técnicos da OCDE (Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico) que analisaram o resultado do Pisa concluíram que os estudantes brasileiros têm a tendência de “responder pelo que acham e não pelo que efetivamente está escrito". que) "voltou a defender o sistema de ciclos. "a identificação da alternativa correta exigia apenas uma leitura atenta do texto". página A14) e. escola brasileira tem de ensinar o aluno a ler" disse o Ministro da Educação. por exemplo. num momento o ministro afirma que a escola brasileira não está ensinando e que tem de passar a ensinar o aluno a ler (O Estado de São Paulo. em matéria intitulada Para alunos brasileiros. abolindo essas provas anuais! Em vez de supor que as crianças têm mau desempenho porque são reprovadas. (.) Contrastando com os dados sobre a vergonhosa posição de último lugar do mundo. 5 de dezembro de 2001. E. os alunos brasileiros foram classificados no nível 1. 5 de dezembro de 2001. o texto informava explicitamente que uma enfermeira aplicaria uma vacina nos funcionários de uma empresa.. 5 de dezembro de 2001. o desempenho dos estudantes é prejudicado pelas condições de vida nas cidades brasileiras. A matéria continua: "Não é que o ensino seja ruim: há muita repetência" (disse o ministro. Ou seja. Apesar disso. pareceria bem mais lógico reconhecer que elas são reprovadas porque têm mau desempenho. difícil é pensar. 5 de dezembro. sim. em sua 9    . na mesma matéria encontram-se as declarações do ministério da educação acerca deles: "O Ministro da Educação disse que ficou satisfeito com os resultados do Pisa.. 5 de dezembro. então." (Folha de São Paulo. Além disso. ou na 8a. página A9. A9.) Para o ministro." (Folha de São Paulo. o mais elementar.. (Weber & Avancini. p. 5 de dezembro de 2001. numa escala que pode ultrapassar os 626. 27% dos alunos brasileiros responderam que a vacina seria aplicada por um médico. faz-se necessário. Ele disse que ficou surpreendido porque esperava resultados piores. 2001 a. então. Ou seja.) "A. O Estado de São Paulo. é preciso avaliar o ensino que vem sendo ministrado e os parâmetros que o norteiam ou desnorteiam. são considerados pratica mente analfabetos funcionais. A14. (Weber & Avancini. também. Jornal da Tarde. pressionado diante dos dados de fracasso. e Jornal da Tarde. Estudantes brasileiros não entendem o que lêem. propõe evitar a reprovação nas provas anuais não melhorando o ensino mas. afirma que as crianças têm mau desempenho porque são reprovadas (Folha de São Paulo. Numa das questões. p. ficará óbvio que o ensino só é inadequado porque é ministrado por professores que. C11). Para os técnicos. buscar maneiras de melhorar o desempenho. Para alunos brasileiros. C11) e.

Educação: Brasil foi o pior colocado. como profissionais. do Saeb. (Suwwan. perdemos a oportunidade de tratamento e será tarde demais para o sistema que ficará arruinado como um todo. podemos até abolir as provas durante algum tempo. Enquanto o ensino não for mudado.formação. e que. Não adianta abolir as provas. algumas autoridades brasileiras procuram evitar o fracasso escolar evidenciado pelas provas simplesmente abolindo as provas! Desconhecem que o fracasso escolar das crianças é um sintoma de que há algo profundamente errado com o ensino. os resultados serão sempre os mesmos: fracasso de nossas crianças e de nossos jovens. têm permanecido constrangidos e manietados em sua capacidade de ensino devido ao patrulhamento ideológico empreendido pelas secretarias de educação que têm que seguir os parâmetros decretados pelo MEC na ausência de qualquer pesquisa. Enquanto isto. algumas autoridades propõem abafar o fracasso escolar simplesmente abolindo os exames e provas anuais. Mas. do Enem. Quando se proíbe isto é um desastre. nossas autoridades ainda não chegaram a cogitar em reconhecer. "Não é proibido aplicar testes. Em vez de empreender uma análise sistemática das variáveis por trás do fracasso escolar para poder operar sobre as causas (especialmente os métodos de ensino inadequados) de modo a erradicar o fracasso. como já o fizeram os ministérios da educação dos países bem sucedidos. da vida. Os testes não são para punir o 10    . p... dos concursos de emprego. que as crianças só são reprovadas e têm que repetir de ano porque as escolas não têm conseguido oferecer um ensino suficientemente eficaz. o atraso escolar é agravado pela repetição dos erros que geraram a repetência. C11. do Provão. Diante da dor incômoda. do vestibular. Por exemplo: Klein (da Fundação Cesgranrio) faz duras críticas ao sistema de progressão continuada e diz que o aluno deve sim ser avaliado. pois as avaliações estarão aí o tempo todo. Isto fica claro nos dados dos exames e das pesquisas que coincidem em denunciar o problema: Segundo a presidente do Inep. Folha de São Paulo. Todo este esforço de fazer as perguntas certas e de buscar as respostas com seriedade e dedicação já foi feito com sucesso nos países desenvolvidos.) A respeito da proposta de abolir as provas anuais. serão as do ciclo. Mais ou menos como um paciente hipertenso que tenta se livrar da pressão arterial elevada atirando o manômetro pela janela. Na análise do Inep. os resultados do Saeb (Sistema Nacional de Avaliação de Educação Básica) e do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) haviam antecipado as dificuldades dos alunos brasileiros na leitura e produção de textos. receberam mais doutrinamento construtivista do que instrução eficaz e experiência efetiva como alfabetizadores. mais ou menos como uma dor no peito que indica a existência de distúrbios coronarianos que precisam ser tratados. 2001. Se não forem as provas escolares semestrais ou anuais. que organizou a pesquisa no país. os peritos também têm pareceres claros.. se insistirmos nisso. 5 de dezembro. os quais vêm colhendo os frutos de sua seriedade e coragem em empreender as mudanças necessárias.

58. só lhes resta procurar desembaraçarse do embaraçoso fracasso das crianças varrendo-o para debaixo do vasto tapete do subdesenvolvimento. Podemos observar. de mera opinião." (Folha de São Paulo. Chamadas a prestar contas das quedas sistemáticas nos desempenhos dos alunos do ensino fundamental. 5 de dezembro de 2001. com a crença infundada e falsa de que isto facilitaria a leitura e produção de textos. p.) o Assim. Analisando os Parâmetros Curriculares Nacionais. revelada pelo Pisa. C1I). fora de sua alçada de competência e responsabilidade. mas o desempenho pobre que gera a repetência. e a manutenção dos erros que têm levado a esse desempenho pobre. mais ou menos como atribuir a incompetência de leitura. Aceitando cega e 'piamente os Parâmetros Curriculares Nacionais como verdade absoluta e inquestionável. em parecer encomendado pelo próprio MEC: "A escola. afirma. que extrapola as condições econômicas e repousa na escola e em seus métodos. Os resultados da pesquisa internacional (Pisa) e nacional (Saeb e Enem) são unânimes em comprovar a incompetência dessa política de ensino. podemos constatar um bom exemplo desse tipo de pseudoexplicação conveniente e amadorística. apesar da insistência do MEC. 2üülb. o problema não é a repetência. tanto de rico quanto de pobre. Questão de método. conforme explicado em seções ulteriores deste capítulo. portanto. A7. insistem em tentar justificar o fracasso dos escolares como decorrente de fatores outros que não o método global e os princípios pedagógicos oficialmente instituídos. 2) "Os pais deveriam desempenhar um papel mais ativo na educação de seus filhos". sentencia o analista de educação Cláudio de Moura Castro. 3) "As escolas têm dificuldades em adotar práticas interativas". e recorrem a argumentos como: 1) "A incorporação de um aluno mais carente ao sistema de ensino contribui para a queda na qualidade". as autoridades entrevistadas tentaram justificar-se atribuindo a queda a pretensas causas que estão fora de sua alçada. ou do ponto de vista que lhes convém. às "condições de vida nas cidades brasileiras". sobre a queda no desempenho dos alunos no Sistema de Avaliação do Ensino Básico do MEC (Saeb). que o baixo desempenho dos alunos é atribuído às 11    . Assim. Parece evidente que algo muito errado está acontecendo com a educação. e atribuindo-o a causas extra-educacionais. para ver se conteúdo que está sendo ministrado precisa ser revisto ". em 27 de novembro de 2000. podemos observar que as autoridades educacionais brasileiras ainda se entregam à prática grosseira de procurar explicar as causas do fracasso escolar a partir de evidências anedóticas. Em matéria publicada pela Folha de São Paulo. sem a condução de pesquisa experimental efetiva. em pregar a alfabetização a partir do texto complexo introduzido logo ao início da alfabetização e na ausência de qualquer instrução preparatória sistemática de natureza fônica e metafonológica. por meio dos PCNs. não está ensinando seus alunos a ler um texto escrito e a tirar dele as conclusões e reflexões logicamente permitidas. p. (Kaminski & Gil.aluno com a reprovação. A este respeito. mas sim para avaliar o processo. na medida que mascara os erros da política de ensino. Revista Educação. E isto. O sistema de progressão continuada só vai agravar o fracasso.

Uma espécie de "espera pedagógica" aplicada a toda uma nação. que o nível ·socioeconômico do povo brasileiro melhorasse. será que essas "causas" especuladas pelas autoridades brasileiras seriam as mesmas causas descobertas pelos pesquisadores sérios do Brasil e do exterior? Será que as pesquisas científicas de campo nas escolas apontam para as mesmas causas que as especulações de gabinete das autoridades? Tais "explicações" são tão infrutíferas e inoperantes para mudar a educação e o destino de nossas crianças quanto são cômodas e convenientes para as autoridades educacionais que as proferem. revisão crítica fundamentada em pesquisa. à carência econômica. para certas autoridades brasileiras de ensino não haveria nada a fazer em term0S de pesquisa comparativa.condições de vida nas cidades brasileiras. já que as isentam de qualquer obrigação de encontrar soluções efetivas sob sua alçada. que os pais participassem mais ativamente da educação de seus filhos. ou que as escolas adotassem práticas mais "interativas". Ao atribuir o fracasso das crianças a causas fora de seu controle e alçada. e aperfeiçoamento sistemático de métodos de alfabetização e ensino. acabe por custar o futuro da criança brasileira. 12    . esperar até que mudassem as condições de vida nas cidades brasileiras. ainda que. à falta de "interatividade" das escolas. Apesar do poder que emana de seus cargos. na melhor das hipóteses. inadvertidamente. Porém. tais "explicações" tomam o lugar de pesquisas que poderiam aclarar a visão. Restaria. e funcionam como uma cortina de fumaça que busca isentar as autoridades de sua responsabilidade pelo ensino. como a pesquisa e adoção de métodos de ensino mais efic3zes. à falta de participação dos pais ou. apenas.

e com resultados verdadeiramente encorajadores. na Inglaterra. constituiu-se uma aliança entre alfabetizadores de escolas públicas e pesquisadores do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo para revisar a bibliografia. por meio de · investigação experimental. procedimentos claros e comprovadamente eficazes para prevenir e remediar problemas de alfabetização e 13    . na França e em tantos outros países e blocos que. Ao mesmo tempo. o Brasil tem conseguido ignorar. adaptar.De acordo com as "explicações" de autoridades brasileiras. Parece nem passar pela cabeça de certas autoridades que o método global de alfabetização. enquanto o nível de competência de nossas crianças continuava a afundar e as autoridades brasileiras insistiam nas mesmas cogitações construtivistas desgastadas e pouco elucidativas. as autoridades educacionais responsáveis de outros países trataram de buscar soluções efetivas a partir de dados sólidos de pesquisas e de meta-análises conduzidas a partir de mais de 100 mil estudos científicos sobre métodos de alfabetização. num autêntico esforço para desenvolver a Pedagogia Experimental brasileira. implementar. a revolução do ensino fundamental ocorrida nos Estados Unidos. possa ser o responsável por grande parte do fracasso. testar e aperfeiçoar. depois de intensas pesquisas científicas. não haveria nada que os responsáveis pela educação pudessem fazer em termos de oferecer às crianças métodos de ensino mais apropriados. Em plena era da globalização. entronizado tão veementemente pelos Parâmetros Curriculares Nacionais. com inexplicável obtusidade. descobriram os estragos alarmantes feitos pelo pernicioso método global e adotaram explicitamente o método fônico para a alfabetização de suas crianças. Nos anos de 1990.

o tamanho da amostra. & Smíth. baseados em pesquisa. o Congresso dos Estados Unidos mostrava-se preocupado com a queda nos desempenhos em leitura e escrita das crianças norte-americanas. Mullen & Rosenthal.reverter a crescente onda de fracasso de nossas crianças. O Congresso. em abril de 2000. para começar.nationalreadingpanel. sobre a aquisição e o desenvolvimento da leitura. para poder chegar a decisões conclusivas sobre o melhor método de alfabetização. o relatório intitulado Ensinando crianças a ler: uma avaliação baseada em dados da bibliografia de pesquisa científica sobre leitura e suas implicações para a alfabetização (Teaching children to read: An evidence-based assessment of the scientific research literature on'reading and its implications for reading instruction) que contém as diretrizes fundamentais para a alfabetização bem sucedida. 1985). e de audiências públicas envolvendo toda a comunidade de professores. o Comitê Nacional de Leitura do Instituto Nacional de Saúde da Criança e de Desenvolvimento Humano publicou.org. uma banca composta por pesquisadores. Os estudos foram reunidos por assunto e seus resultados foram comparados por meio de meta-análises estatísticas computadorizadas (Glass. subseções Summary Report.2. em conjunto com a Secretaria de Educação. incluindo a eficácia das diferentes metodologias de ensino da leitura. seção Publications and Materials. então. Em 1997. e Reports of the Subgroups. professores universitários de faculdades de educação. Parâmetros curriculares dos Estados Unidos Vejamos. as pesquisas conduzidas nos Estados Unidos. 1981.1. A banca examinou mais de 100 mil estudos científicos publicados na área de leitura e escrita desde 1966. 14    . de cientistas e de pais acerca dos temas mais relevantes para análise. solicitou ao Instituto Nacional de Saúde da Criança e de Desenvolvimento Humano (National Institute ofChild Health and Human Development) um relatório sobre todos os conhecimentos disponíveis. constituiu o Comitê Nacional de Leitura (National Reading Panel). McGaw. Os textos completos do relatório encontram-se disponíveis na Internet no endereço: http://www. Tais desenvolvimentos auspiciosos e animadores são revisados brevemente neste capítulo. Exemplos de parâmetros curriculares de países desenvolvidos e com alto desempenho em leitura 1.2. em que modelos avançados de estatística para tomada de decisão levam em consideração todos os elementos (por exemplo. O Instituto Nacional de Saúde da Criança e de Desenvolvimento Humano. Com base nessa investigação completa de todo o universo de pesquisas conduzidas no campo da alfabetização. a força do efeito e a confiabilidade ou significância estatística) dos milhares de estudos já conduzidos a respeito. e mais 15 mil estudos publicados antes dessa data. três anos depois. administradores educacionais e pais. 1. professores de ensino infantil e fundamental.

tanto com crianças de escolas públicas quanto com crianças de escolas particulares. a competência dessas crianças nessas habilidades aumentou de modo significativo e marcante.5. foi observado no terceiro estudo. assim. na faixa de zero a 30% do tempo indicada pelas professoras.1. tanto maior o desenvolvimento da competência de leitura e da compreensão de texto. a bibliografia científica internacional no campo. mesmo não tendo recebido qualquer instrução direta de leitura ou escrita. Além disso. em menor escala. Ou seja. foi demonstrado que. quanto maior o tempo dedicado às instruções fônicas (ou de correspondências grafofonêmicas) e metafonológicas (ou de consciência fonológica). Os três estudos demonstram claramente a _importância que os procedimentos para desenvolver a consciência fonológica e ensinar as correspondências entre grafemas e fonemas têm para desenvolver as competências de leitura e escrita.3. como também em leitura em voz alta e escrita sob ditado.2. Este estudo deixou claro que o ensino de leitura a partir do 15    . depois de participarem das atividades de consciência fonológica e de correspondência entre grafemas e fonemas. cuja consciência fonológica e escrita também melhoraram significativamente após algumas poucas sessões de instrução de correspondências grafofonêmicas e de consciência fonológica. Conclusões Todos os quatro estudos brasileiros relatados deixam clara a importância das instruções fônicas e corroboram. no quarto estudo. Nos dois primeiros estudos de intervenção com crianças com dificuldades de leitura e escrita. O mesmo. Isto ocorreu não apenas em consciência fonológica e conhecimento de letras. com a estudante com paralisia cerebral. as crianças anteriormente atrasadas tornaram-se melhores que seus pares controle e equivalentes aos melhores de sua classe.

é ·importante examinar o processo de desenvolvimento da competência de leitura e escrita. Para evitar a cristalização de um estilo de leitura ideovisual.texto é flagrante mente menos eficiente em produzir compreensão de texto e competência de leitura do que o ensino de leitura a partir de atividades consciência fonológica e de correspondências grafofonêmicas. a criança aprende a fazer leitura visual direta de palavras de alta freqüência. mas não decodifica a palavra segmentando-a nas letras componentes e convertendo-as em som. sistematicamente explicado e expandido por A. os professores devem ensinar e encorajar a criança a progredir para o segundo estágio. 2) o alfabético em que. Capovilla (2001b). em que ela trata a palavra escrita como se fosse uma representação pictoideográfica e visual do referente. fonemas). como um desenho. sendo que a escolha e a ordenação das letras ainda não estão sob controle dos sons da fala. 1.4. Do mesmo modo. Capovilla (2000b). e não uma escrita alfabética. a seleção e o seqüenciamento das sílabas e dos fonemas durante a pronúncia passam a ficar sob 16  controle das sílabas escritas e dos grafemas do   . a criança passa por três estágios na aquisição de leitura e escrita: 1) o logográfico. desde que o formato geral da palavra permaneça constante. e 3) o ortográfico em que. sendo que não percebe se forem trocadas as letras seguintes. com o desenvolvimento da rota fonológica. ao formato e à coloração geral da palavra. Durante a escrita. paralexia) visualmente semelhantes. Maiores detalhes sobre a arquitetura cognitiva envolvida no processamento de leitura podem ser encontrados no fluxograma de A. a criança trata o texto mais ou menos como se fosse um desenho. De acordo com o modelo de desenvolvimento de leitura de Frith (1985. 1990). Capovilla e F. exceto usualmente a primeira. a leitura consiste no reconhecimento visual global de uma série de palavras comuns que a criança encontra com grande freqüência. ou seja. processo e desenvolvimento da competência de leitura e escrita Para entender porque atividades para desenvolver a consciência fonológica e ensinar correspondência entre grafemas e fonemas são tão importantes para a aquisição da leitura e da escrita alfabéticas. com o desenvolvimento da rota lexical. como se fosse um desenho. primeiro em relação à escrita e. na leitura. a criança aprende a fazer decodificação grafofonêmica. também em relação à leitura. Capovilla e F. tais como seu próprio nome e os nomes de comidas. No estágio alfabético. Estrutura. como o de troca de palavras (isto é. Capovilla (2000b) e F. Neste estágio. um código de correspondências entre determinadas letras e combinações de letras (isto é. A escrita também se resume a uma produção visual global. as relações entre o texto e a fala se fortalecem. A criança atenta ao contexto. Capovilla e A. A manutenção de tal estratégia de leitura logográfica exigiria muito da memória visual da criança e acabaria levando a uma série crescente de erros grosseiros. CocaCola e McDonalds). grafemas) e seus respectivos sons da fala (isto é. a seleção das letras e o seu seqüenciamento passam a ficar sob controle dos sons da fala. bebidas e lugares impressos em rótulos e cartazes (por exemplo. No estágio logográfico. depois.

chegando a processar palavras inteiras se estas forem muito comuns e lendo-as de memória. e vai cometendo cada vez menos erros envolvendo as palavras irregulares. pseudopalavras. mas no sentido inverso. quer por inferência direta a partir do texto. desde que as encontre com uma certa freqüência. ela está pronta para ler e escrever qualquer palavra nova. agora. a converter as letras do texto escrito em seus sons correspondentes) e o da codificação na escrita (isto é. Capovilla & F. a criança não apenas deixa de hesitar. conforme A. Neste ponto. Tendo já passado pelo estágio alfabético em que aprendeu as regras de correspondência entre grafemas e fonemas que lhe permitem ler e escrever qualquer palavra nova de maneira automática e rápida. quer com o auxilio de um dicionário. logo ela passará a ser capaz de ler e escrever qualquer palavra. isto é. e para aprender por si mesma o seu significado.texto. a converter os sons da fala ouvidos ou apenas evocados em seus grafemas correspondentes). a criança começa a ser capaz de fazer leitura por decodificação grafofonêmica. Para produzir tais desempenhos. No entanto. como são aceitáveis para a ortografia. convertendo as letras em seus respectivos sons e. Assim. No estágio ortográfico. Capovilla. repetindo mais rapidamente a seqüência toda de sons para si mesma. bem como a escrita correspondente por codificação fonografêmica. para que consiga entender o que está lendo. a criança aprende que há palavras que envolvem irregularidade nas relações entre os grafemas e os fonemas. ou seja. como se estivesse ouvindo uma outra pessoa falando. então. à medida que a criança vai se exercitando na leitura e na escrita. mesmo "palavras inventadas" ou melhor. 2000b). na análise morfológica das palavras que lhe permite apreender seu significado. em vez das letras individuais. Pseudopalavras consistem em seqüências de letras em combinações que. Pelo mesmo princípio. e no processamento cada vez 17    . por exemplo. De início. podem ser pronunciadas. embora careçam de qualquer significado. tal leitura por decodificação grafofonêmica. Quando a criança consegue ler e escrever pseudopalavras. Além disso. ela vai se tornando cada vez mais rápida e fluente no exercício dessas habilidades. os professores devem expor a criança a instruções de correspondência entre letras e sons. a criança aprende que a escrita alfabética representa os sons das palavras. das mesmas palavras que ela usa para pensar e se comunicar com os outros. Neste estágio. Se a criança dominar esses princípios. como também passa a processar agrupamentos de letras cada vez maiores (correspondentes aos morfemas e logogens. são muito lentas. a criança está deixando o segundo estágio e entrando no terceiro. no estágio ortográfico. Com a prática. na ortografia das palavras grafofonemicamente irregulares). Ela aprende que é preciso memorizar essas palavras para que possa fazer uma boa pronúncia na leitura e uma boa produção ortográfica na escrita. o ortográfico. Aprendendo as relações entre as letras e os sons. falando consigo mesma e convertendo os sons da fala nas suas letras correspondentes. ou seja. TÁXI). a criança aprende o princípio da decodificação na leitura (isto é. a criança tende a cometer erros na leitura e escrita de palavras em que há irregularidade nas relações entre as letras e os sons (como. a criança pode concentrar-se na memorização das exceções às regras (isto é. a criança começa a fazer escrita por codificação fonografêmica.

as palavras conhecidas e familiares. pela estratégia fonológica). e não mais exclusivamente por meio de decodificação (isto é. mas precisam ser lidas pela estratégia fonológica. ou de composição morfológica evidente. Se a criança tentar usar a estratégia de leitura fonológica. a criança não tenderá a notar a troca. Para Frith (1985. e isto certamente tenderia a comprometer a sua compreensão de leitura. crianças com dislexia morfêmica não conseguem fazê-lo. crianças com dislexia fonológica não conseguem fazê-lo. e sinais de trânsito tendem a ser lidos pela estratégia logográfica. Por exemplo. Na fase alfabética. o que ocorre em cerca de 10% dos casos de dislexia. 1990) identifica três fases distintas na alfabetização. A propósito. Por exemplo. a dislexia do desenvolvimento pode ser compreendida como uma espécie de interrupção na progressão de uma a outra fase ao longo do desenvolvimento da leitura. materiais como algarismos matemáticos. ao chegar a este último estágio. Já as palavras novas de morfologia desconhecida e as pseudopalavras não podem ser lidas por reconhecimento visual direto. exceto a primeira. desde que comuns. Neste ponto. só porque a criança passa a ser capaz de fazer uso da estratégia lexical. N por M.5.mais avançado da sintaxe do texto. mas não atenta às letras. seu sistema de leitura pode ser considerado completo e maduro. se fossem lidas pela estratégia fonológica. a criança aprende a fazer decodificação grafofonêmica e passa a ler pseudopalavras e palavras. desde que sejam regulares grafofonemicamente. por meio do reconhecimento visual direto (isto é. as três estratégias de leitura ficam disponíveis o tempo todo à criança. 1. Tal interrupção pode ocorrer já na passagem do estágio logográfico para o alfabético. como no caso da dislexia fonológica. elas seriam pronunciadas incorretamente (isto é. 1973). ou apenas 18    . ocorreria erro de regularização fonológica) e a criança não compreenderia o que está lendo. Na fase ortográfica. e D por P na palavra escrita McBOMALP'S. Em verdade. e toma-se capaz de ler palavras irregulares. o que ocorre em 67% dos casos de dislexia do desenvolvimento (Boder. mas sim como "ch". Na fase logográfica. Contudo. a criança aprende a ler lexicalmente. Finalmente. Assim. a palavra EXÉRCITO precisa ser lida lexicalmente para que possa ser compreendida. 1990). o modelo de desenvolvimento de leitura e escrita de Frith (1985. e a criança passa a tirar vantagem crescente da freqüência com que as palavras aparecem. as palavras com irregularidades grafofonêmicas precisam ser lidas por esta estratégia já que. na forma e na cor. Contudo. ela irá pronunciar o X não como "z". se trocarmos D por B. conseguindo lê-las com cada vez maior rapidez e fluência. desde que haja arcos dourados sobre um fundo vermelho. podem ser lidas mais rapidamente pela estratégia lexical de reconhecimento visual direto. por exemplo. sendo que ela aprende a fazer uso da estratégia que se revelar mais eficaz para um ou outro tipo de material de leitura e escrita. É importante ressaltar que. Como avaliar o desenvolvimento da competência de leitura Como vimos. símbolos de notação científica e lógica. não significa que ela abandone as estratégias anteriores. pela estratégia lexical). a criança faz reconhecimento visual direto com base no contexto.

como a palavra TREM sob a figura de um ônibus.. APATAR (apagar). Outros exemplos: XADREZ. Outros exemplos: GAIO (gato). ROSA (sob árvore). CRIANQAS (crianças).. MININU (menino). a palavra escrita FADA sob a figura de uma fada. CINAU (sinal). MENINA e PIPA. COBRA (peixe). CALÇAS. AGASALHO. A tarefa da criança é cruzar (isto é. Outros exemplos: BATATA. PIPOTA (pipoca). assinalar com um X) os pares figura-escrita incorretos e circular os corretos. elaboramos o Teste de Competência de Leitura Silenciosa (F. cada qual com um par composto de uma figura e uma palavra ou pseudopalavra escrita (isto é. como RASSUNO sob a figura de 19    . A. MAIÔ. ao mesmo tempo. todos distribuídos aleatoriamente ao longo das tentativas. pares figura-escrita). Há sete tipos de itens (isto é. como CANCURU sob a figura de um canguru. CAINELO (chinelo). Tipo 7) Pseudopalavras (incorretas) estranhas. JÊLU (gelo). por exemplo. Outros exemplos: FACA (vaca). como a palavra TÁXI sob a figura de um táxi. como CAEBÇA sob a figura de uma cabeça. TÁCSI (táxi) e ÓMI (homem). Capovilla. EXÉRCITO. TOMADA. Capovilla. HOSPITAU (hospital). JACAPÉ (jacaré). com dez itens de teste para cada tipo. Capovilla et al. AVIÃO (águia). como BÓQUISSE sob a figura de uma luta de boxe. TEIEUISÃO (televisão). EXERCÍCIO e BRUXA. 1998). e inferir a fase de desenvolvimento em que ela se encontra e as estratégias de leitura que prevalecem em seu desempenho. PAROUE (parque). MAPA. Buscando permitir avaliar o estágio de desenvolvimento da leitura ao longo dessa progressão. PONECA (boneca) e JUVEIRO (chuveiro). PRINCESA. como no caso da dislexia morfêmica. BUZINA. Tipo 6) Pseudopalavras (incorretas) homófonas. Outros exemplos: PÁÇARU (pássaro). Tipo 4) Pseudopalavras (incorretas) com trocas visuais. TESOURA. Tipo 5) Pseudopalavras (incorretas) com trocas fonológicas. O teste consiste em oito itens de treino e 70 itens de teste. RÁDIO (telefone). PINCEL. PIJAMA.na passagem do alfabético para o ortográfico. OFELHA (ovelha). F. um instrumento psicométrico e neuropsicológico cognitivo. FÊRA (pêra). acompanhado de tabelas de normatização. HAPELHA (abelha). Tipo 3) Palavras com incorreção semântica. 2000. AUMOSSU (almoço). SOFÁ (casa). Tipo 2) Palavras corretas grafofonemicamente irregulares. O teste objetiva ser. Macedo et al. em relação à idade e à escolaridade. MÁCHICO (mágico). MAÇÃ (morango). São eles: Tipo 1) Palavras corretas grafofonemicamente regulares como. BONÉ. ESTERLA (estrela) e CADEPMO (caderno). um par figura-escrita). inspirado no paradigma geral esboçado por Khomsi (1997) e aperfeiçoado por Braibant (1997). Neuropsicológico cognitivo porque permite interpretar os dados da criança em termos de modelo do desenvolvimento da leitura e escrita. CHINELO (sapato) e SORVETE (bombom). RELÓCHIO (relógio). XAPEL (chapéu). A escrita é feita em letras maiúsculas para permitir manipular o efeito da similaridade visual. Psicométrico porque. permite avaliar o grau de desvio de cada criança em relação às normas de seu grupo de referência. Outros exemplos: CACHORRO (sob figura de camundongo).

uma pseudopalavra homófona (TÁCSI) e uma estranha (MELOCE). DILHA (pião). uma palavra com incorreção semântica (RÁDIO sob figura de telefone). 4. e em rejeitar (isto é. MELOCE (palhaço). Exemplos de cada um dos sete tipos de pares figura-escrita do Teste de Competência de Leitura Silenciosa: duas palavras corretas. Os acertos consistem em aceitar (isto é. MITU (óculos). uma regular (FADA) e uma irregular (PRINCESA). os erros consistem em rejeitar (isto é. assinalar com um X) os pares de tipo 3. FOTIS (meia). deixar de aceitar) os pares de tipo 1 e 2. cruzados com um X). Outros exemplos: PAZIDO (xarope). O insucesso na aceitação de palavras corretas grafofonemicamente irregulares (tipo 2) pode indicar dificuldade com o processamento lexical. A Figura 7 ilustra exemplos dos sete tipos de pares figura-escrita do Teste de Competência de Leitura Silenciosa. ASPELO (coelho).uma mão. 4. O padrão de distribuição dos tipos de erros tem um valor informativo importante na caracterização da natureza específica da dificuldade de leitura de uma dada criança. lAMELO (tigre). SOCATI (urso) e CATUDO (tênis). assinalar com um círculo) os pares de tipo 1 e 2. 5. 5. ou em aceitar (isto é. 5. 6 e 7.6e7.6 e 7) devem ser rejeitados (isto é. Reciprocamente. deixar de rejeitar) os pares de tipo 3. I FADA PRINCESA RÁDIO TEIEUISÃO MÁCHICO TÁCSI MELOCE Figura 7. Os pares figura-escrita compostos de palavras corretas grafofonemicamente regulares (tipo 1) e grafofonemicamente irregulares (tipo 2) devem ser aceitos (isto é. uma pseudopalavra com troca visual (TEIEUISÃO) e uma com troca fonológica (MÁCHICO). circulados com o lápis). Do 20    . enquanto que aqueles compostos de palavras com incorreção semântica (tipo 3) ou de pseudopalavras (tipos 4. ou falta dele.

1996) ou de longo prazo (Elbro. Capovilla. PÁSSARO. MENINO. BOXE. 2001a) testou a participação desses três fatores. Capovilla & F. & Alégria. o estudo avaliou as habilidades de leitura de 103 escolares de primeira e segunda séries de ensino público. SINAL. A falha em rejeitá-las sugere falta de representação apropriada no léxico ortográfico. Cluytens. com ausência de processamento lexical. 1996. 1998). TÁXI. problemas de memória de trabalho (Gerber. Capovilla & A. por decodificação grafofonêmica estrita. o insucesso na rejeição de pseudopalavras homófonas (tipo 6) pode indicar a mesma dificuldade com o processamento lexical (ou falta dele) num nível ainda mais acentuado. fonológico e. GELO. cada qual composta de uma consoante seguida da vogal "a". Um pouco mais sério é o insucesso na rejeição de pseudopalavras com trocas fonológicas (tipo 5). F. Tallal. sem fazer recurso à rota lexical. isto é. & Fitch. HOSPITAL. quer por exposição insuficiente ao texto ou por dificuldade de leitura. 1. Studdert-Kennedy. & Brady. Morais. Swanson. Capovilla. No Teste de Discriminação Fonológica Computadorizado (A. Share. 1984). Capovilla. & Silveira. Nos cinco pares de sílabas. mas com o agravante de dificuldades adicionais no próprio processamento fonológico. Evidências de problemas fonológicos nos maus leitores Pesquisadores vêm atribuindo os problemas de aquisição de leitura e escrita dos escolares a uma série de fatores como. 1995. problemas de discriminação fonológica (Mody. isto indica que ela está lendo pela rota fonológica. Já o insucesso na rejeição de palavras semanticamente incorretas (tipo 3) poderia indicar falta de acesso ao léxico semântico. 2000). e isolou os dois extremos da distribuição de escores: as 16 crianças (chamadas de boas leitoras) com desempenho acima de um desvio padrão em relação à média da turma. Se ela fizesse recurso ao léxico ortográfico e encontrasse nele as palavras alvo (como. Um estudo recente (F. Finalmente. 21    . e as 16 crianças (chamadas de más leitoras) com desempenho abaixo de um desvio padrão em relação à média da turma. ou problemas de velocidade de processamento de informação (Nicolson & Fawcett. que poderia indicar a mesma falta de recurso ao léxico.6. o insucesso na rejeição de pseudopalavras com trocas visuais (tipo 4) poderia indicar dificuldade com o processamento fonológico. A partir exclusivamente dos escores no Teste de Competência de Leitura Silenciosa. 1997. HOMEM. ela rejeitaria as pseudopalavras homófonas. as consoantes podiam ser: iguais ("za" -"za". A.mesmo modo. por exemplo. e recurso à estratégia de leitura logográfica. por exemplo. Miller. as crianças ouviam cinco tipos de pares de sílabas. mesmo. 1994. o insucesso na rejeição de pseudopalavras estranhas (tipo 7) poderia indicar sérios problemas de leitura. Ashbaker. no prelo. & Lee. Ainda mais sério. O estudo comparou os dois grupos (bons e maus leitores) em sua discriminação fonológica. Quando uma criança já tem pelo menos nove anos de idade e já foi bastante exposta a textos. Capovilla. memória fonológica e velocidade de processamento fonológico numa tarefa de julgar pares de sílabas ouvidas como iguais ou diferentes. com uma leitura mais limitada à decodificação fonológica. logográfico. se ela deixar de rejeitar pseudopalavras homófonas. 1993). ALMOÇO).

desde uma duração média (2. e a criança selecionava com o mouse um dos sinais. 22    . 500. Para tanto. 1000) ou então muito longos (numa escala de segundos: 5. Tais resultados encontram-se representados na Figura 8.5 s) até intervalos que eram muito curtos (numa escala de milésimos de segundo: 0. sendo que a dificuldade foi maior com intervalos entre sílabas muito curtos· (o que indica baixa velocidade de processamento) ou muito longos (o que indica memória fonológica pobre). sendo essas diferenças quanto ao modo de articulação ("za" -"la". 15. "ja"-"lha"). 350. "ga" -"ca"). A criança devia julgar se as sílabas apresentadas com voz digitalizada pelo computador eram iguais ou diferentes.20. após cada apresentação de pares de sílabas. sendo que a dificuldade em discriminar entre as sílabas ouvidas tende a aumentar quanto maior é a demanda sobre a velocidade de processamento fonológico ou sobre a memória de trabalho fonológica. O teste apresentava cada um dos cinco tipos de pares de sílabas sob 20 intervalos entre estímulos (IEEs). Os resultados mostraram que os maus leitores da primeira série apresentaram maior dificuldade em discriminar entre sílabas sutilmente diferentes (o que indica discriminação fonológica pobre). 300. 450. "ta" "pa") ou aos três fatores ("sa" -"ma"."sa" -"sa") ou diferentes. que variavam semialeatoriamente. à sonorização ("fa" -"va". as crianças que foram identificadas pelo Teste de Competência de Leitura Silenciosa 'como tendo baixo desempenho (isto é. 60. 80. 100. ao ponto de articulação ("ba" -"da". 400. apareciam na tela os sinais igual e diferente. Conforme a figura. 200.40. 60). "cha" -"Ra"). 250. abaixo de um desvio padrão em relação à média) também apresentam baixo desempenho na tarefa de discriminação fonológica. 150. 30.

por sua vez. na prática cotidiana escolar prevalece o ensino de leitura e escrita na abordagem global. 1994. séries. Esses PCNs encontram-se disponíveis na Internet em http://www. Os professores de escolas de ensino infantil e fundamental geralmente não têm conhecimento da importância das instruções fônica e metafonológica para a alfabetização. StahI & Kuhn. Lembremo-nos agora da realidade brasileira e da posição oficial das autoridades responsáveis pela política educacional deste país. como também corroboram a hipótese de que a dificuldade apresentada por crianças com problemas de aquisição de leitura e escrita é de natureza fonológica. Inglaterra.7. em franca contradição com as evidências da pesquisa científica internacional e nacional em alfabetização. 1. especialmente a crianças de baixo nível socioeconômico (Hempenstall. a 4a. os PCNs são baseados no 23    . dentre outros. O sucesso do método fônico e o seu reconhecimento em todo o mundo são fáceis de compreender a partir de estudos de avaliação como este. E.br. Ao contrário do que é explicitamente recomendado por países como Estados Unidos. tópico 29: O texto como unidade de ensino. que demonstram a eficácia dos procedimentos de desenvolvimento de consciência fonológica e de correspondência grafema-fonema sobre o desenvolvimento da competência de leitura e escrita. e a eficácia do método fônico (com instruções metafonológicas e de correspondências grafofonêmicas) tanto para a prevenção e remediação de problemas de leitura e escrita. Morais. mesmo quando possuem tal conhecimento. demonstrando a natureza fonológica das dificuldades subjacentes aos problemas de aquisição de leitura e escrita. seção Educação Fundamental.gov. dificilmente foram instruídos em seus cursos de formação sobre como introduzir tais instruções no cotidiano escolar. as autoridades brasileiras ainda recomendam o método global de alfabetização. 1995). Até quando continuarão os PCNs brasileiros na contramão da História? Os cinco estudos brasileiros acima descritos corroboram a bibliografia internacional sobre a importância do processamento fonológico nas dificuldades de leitura e escrita. Conforme descrito em sua Introdução. 1997. subseção seguinte PCN 1a. e de estudos de intervenção como os descritos neste capítulo. Neste capítulo constatamos que os anacronismos da educação brasileira encontram-se instituídos oficialmente pelo governo nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs). Isto.mec. 1995). com pouca ênfase à apresentação sistemática de instruções fônicas (Lehr.Tais resultados não apenas comprovam a validade do Teste de Competência de Leitura Silenciosa e do modelo teórico a ele subjacente. subseção Parâmetros Curriculares Nacionais. ajuda a explicar a grande eficácia de procedimentos educacionais baseados no desenvolvimento de consciência fonológica e de correspondências grafema-fonema para a prevenção e remediação de problemas de leitura e escrita. responsáveis pela (des)orientação de nossa educação. Dinamarca e outros. quanto para o ensino regular de leitura e de escrita. subseção seguinte Volume 2: Língua Portuguesa. França. Apesar das pesquisas experimentais mostrarem consistentemente tais resultados auspiciosos.

tendem a parecer as únicas possíveis. condição para poder disparar o segundo estágio do metafórico foguete. 27. a juntar palavras para formar frases e a juntar frases para formar textos. o estudo da língua propriamente dita. como os 24    .) rompe com a crença arraigada de que o do mínio do bê-á-bá seja um pré-requisito para o início do ensino da língua e nos mostra que esses dois processos de aprendizagem podem e devem ocorrer de forma simultânea.. o professor deveria ensinar o sistema alfabético de escrita (a correspondência fonográfica) e algumas convenções ortográficas do 'português . os PCNs brasileiros ignoram modelo do duplo processo (A. na seção Alfabetização e ensino da língua dos PCNs brasileiros: É habitual pensar sobre a área de Língua Portuguesa como se ela fosse um. seção Volume 2: Língua Portuguesa. seção Educação Fundamental. para a maioria dos professores. Secretaria de Educação Fundamental. O conhecimento atualmente disponível recomenda uma revisão dessa metodologia e aponta para a necessidade de repensar sobre teorias e práticas tão difundidas e estabelecidas. e contrastam de modo flagrante e até grotesco com as diretrizes curriculares britânicas. p. Eles ilustram claramente a adesão ao método global ou ideovisual de ensino.. O primeiro seria o que já se chamou de "primeiras letras”.. 2000b. aí sim. 1995). Capovilla.. O ensino da Língua Portuguesa tem sido marcado por uma seqüenciação de conteúdos que se poderia chamar de aditiva: ensina-se a juntar sílabas (ou letras) para formar palavras. Esse segundo estágio se desenvolveria em duas linhas básicas: os exercícios de redação e os treinos ortográficos e gramaticais.mec. foguete de dois estágios (. com leitura inicial pela rota fonológica e competente pela lexical. Capovilla & F. a 4 a. Durante o primeiro estágio.gov. 1997. a 4 tópico 29: O texto como unidade de ensino: séries. Ellis. séries. Examinemos de novo outro trecho. disponível no mesmo site http://www. que. seção PCN 1 a.) Como se depreende da citação acima.br.o que garantiria ao aluno a possibilidade de ler e escrever por si mesmo. previsto para durar e m geral um ano.. Essa abordagem aditiva levou a escola a trabalhar com "textos" que só servem para ensinar a ler. subseção Parâmetros a. Isto pode ser constatado em trechos como os seguintes. Como os PCNs não oferecem citações bibliográficas e dados de pesquisa. (Ministério da Educação. francesas e norte-americanas.livro Psicogênese da língua escrita (Ferreiro & Teberosky.. hoje alfabetização. Curriculares Nacionais. só resta ao leitor tentar imaginar a que "conhecimento atualmente disponível" os PCNs poderiam estar se referindo. Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa: Ensino de la. e o segundo.). (.) A compreensão atual (. "Textos" que não existe m fora da escola e. 1986).

24. Dentro desse marco. Como vimos. mas isso não significa que não se enfoque m palavras ou frases nas situações didáticas especificas que o exijam. e desde o início. os PCNs acabam por comprometer seriamente a competência de leitura das crianças. 1997. a do ensino contextualizado de palavras e frases. mas sim na "competência discursiva". Prática da leitura. A segunda recomendação. Ao instituir oficialmente a introdução do texto complexo logo ao início do processo de alfabetização. a 4 séries. compreensão na qual os sentidos começam a ser constituídos antes da leitura propriamente dita. Tais recomendações contrariam. Se o objetivo é que o aluno aprenda a produzir e a interpretar textos. é que. nem a sílaba. segundo os PCNs brasileiros: A leitura é um processo no qual o leitor realiza um trabalho ativo de construção do significado do texto. p. Secretaria de Educação Fundamental. 41. mais grave do que isto. Não se trata simplesmente de extrair informação da escrita. pois não passam de simples agregados de frases. Trata-se de uma atividade que implica. também já foi refutada como inadequada pelas pesquisas na área. e m geral. conforme apresentado anteriormente na revisão do National Reading Panel do governo norte-americano. que é questão central. Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa: Ensino de 1 a. séries. os PCNs contrariam as diretrizes adotadas nos países desenvolvidos e ignoram todo o conhecimento científico no campo. duas décadas e meia de pesquisas internacionais que mostram a importância fundamental das instruções metafonológicas e fônicas preparatórias à introdução de textos complexos. 25    . a partir de seus objetivos.. não é possível tomar como unidade básica de ensino nem a letra. como demonstra o Estudo 4 anteriormente descrito. (Ministério da Educação. a unidade básica de ensino só pode ser o texto.. nem sequer podem ser considerados textos. Secretaria de Educação Fundamental. 1997. (Ministério da Educação.). nem a frase que.) U ma prática constante de leitura na escola deve admitir várias leituras. sobre o autor. de tudo que sabe sobre a língua (. que são as que mais dependem da escola para aprender. no nível da palavra. nem a palavra. a. As conseqüências dos desacertos dos Parâmetros Curriculares Nacionais são de tamanha monta que merecem um escrutínio um pouco mais detido. Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa: Ensino de 1 a. desde o início. palavra por palavra. descontextualizadas. entretanto. necessariamente.. Para eles. a ênfase não deve ser em unidades menores.escritos das cartilhas. do seu conhecimento sobre o assunto. Ainda . especialmente as da escola pública. de modo flagrante e anacrônico. pouco têm a ver com a competência discursiva. ao determinar que as professoras tomem o texto como unidade básica de ensino e que o introduzam logo ao início. pois a. p. a 4 . do texto. decodificando-a letra por letra.) Como a citação acima deixa claro. Língua escrita: usos e formas. os PCNs preconizam que as atividades de leitura e escrita partam diretamente.

1997. Para alunos brasileiros. por leitura lexical. (. depois. Um texto claro tem um significado claro. os PCNs defendem que a criança procure atribuir significado ao texto antes mesmo de tentar extrair tal significado do texto por decodificação e. 2001b. é preciso oferecer aos alunos inúmeras oportunidades de aprenderem a ler usando os procedimentos que os bons leitores utilizam.. Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa: Ensino de 1 a. a partir não só do que está escrito. difícil é pensar. p. p.) Como os trechos acima deixam claro. (Weber & Avancini. que faça m inferências a partir do texto ou do conhecimento prévio que possuem. Como demonstra a prova de leitura do Pisa. A14. O significado.com os textos de verdade. O conhecimento atualmente disponível a respeito do processo de leitura indica que não se deve ensinar a ler por meio de práticas centradas na decodificação. 37. mas do conhecimento que traz para o texto.) a. (Ministério da Educação. fruto do pressuposto de que o significado está dado no texto. bem poderia ter sido não é? O juízo internacional sobre a incompetência de leitura de nossos estudantes é claro: Técnicos da OCDE que analisaram o resultado do Pisa concluíram que os estudantes brasileiros têm a tendência de "responder pelo que acham e não pelo que efetivamente está escrito". Aprendizado inicial da leitura. constrói-se pelo esforço de interpretação do leitor. (. p. 24. basta extrair este significado de suas próprias cabeças. Jornal da Tarde. (Ministério da Educação. de seu "conhecimento do mundo"..) Será que os autores dos PCNs brasileiros conseguiriam convencer as autoridades internacionais em leitura do Pisa de que seria um "mito" pensar que o significado possa estar no texto? É evidente que não. portanto.tanto em relação à escrita propriamente quanto ao significado.). é preciso que o aluno se defronte com os escritos que utilizaria se soubesse mesmo ler . 5 de dezembro. alunos que aprenderam a "ler" desta forma preconizada pelos PCNs não precisam preocupar-se em extrair do texto a informação explícita de que quem administrou a vacina foi a enfermeira.outra concepção que deve ser superada é a do mito da interpretação única.) 26    . séries. p. Parâmetros Curriculares Nacionais: Língua Portuguesa: Ensino de 1 a. e "ler" que foi o médico quem vacinou. De certa forma.. Ao contrário. Secretaria de Educação Fundamental.) Para aprender a ler. Afinal. Os materiais feitos exclusivamente para ensinar a ler não são bons para aprender a ler: têm servido apenas para ensinar a decodificar (. em vez de extrair a informação do texto. Já que eles sabem que a qualificação do médico é maior que a enfermeira. a 4 séries. a 4a. É preciso que antecipem. 43.. 1997. que verifiquem suas suposições .. Isto ajuda a entender porque os alunos acabam aprendendo a "ler" o que bem entendem no texto. é preciso agir como se o aluno já soubesse aquilo que deve aprender.. no entanto. Aprendizado inicial da leitura. Secretaria de Educação Fundamental.

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