P. 1
1Janeiro

1Janeiro

|Views: 27|Likes:
Publicado porRevista Missões

More info:

Published by: Revista Missões on Oct 02, 2009
Direitos Autorais:Attribution Non-commercial

Availability:

Read on Scribd mobile: iPhone, iPad and Android.
download as PDF, TXT or read online from Scribd
See more
See less

10/15/2013

pdf

text

original

EDITORIAL

A

AS vÁRIAS exclUSõeS

SUMÁRIO
Janeiro/Fevereiro 2006/01
Missões mudou! Buscando ser um veículo sempre dinâmico, a revista apresenta um logotipo moderno, com o nome suportando o mundo e vice-versa, significando que Missões quer conscientizar para a universalidade da Missão.

modernidade fez crescer tudo, menos o tempo. O conhecimento científico está sendo usado para o bem e para o mal do ser humano, desde a célula mais ínfima até às bombas nucleares. Cresceu o poder de eliminação de vários tipos de vírus mortais e cresceram os sistemas de dominação de algumas nações sobre as outras. Cresceu até a capacidade de se falar mentira, com tamanho disfarce que todos acreditam ser verdade absoluta. Entre avanços e recuos, há um crescimento que nos preocupa profundamente: o fenômeno da exclusão globalizada. Esse não é um fenômeno único da modernidade, mas, pelas proporções que já alcançou, começa a ter as dimensões de uma bomba generalizada. Sempre existiu na história a exclusão social, política, cultural, religiosa e econômica, mas a tomada de consciência do seu significado não é geral. Isso porque a globalização ainda se apresenta com uma roupagem messiânica, prometendo bem-estar a todos. A espera e a paciência estão presentes na vida dos excluídos. A exclusão paradoxalmente se compreende hoje a partir de duas janelas muito simples. Há dois encontros mundiais que acontecem no começo de cada ano: o Fórum Econômico realizado em Davos, Suíça e o Fórum Social Mundial, este ano realizado em várias partes do mundo. Para as Américas a sede foi Caracas, Venezuela. São dois grupos de concepção de mundo em contraposição. Davos constituído por pessoas engravatadas, cercadas por forte esquema de segurança e tomando banho de sauna. O Fórum Social constituído por alguns intelectuais, movimentos sociais representando uma va- MSU (Movimento dos Sem-Universidade), SP. riedade de segmentos e pessoas tomando banho a céu aberto, mas acreditando num outro mundo possível. Gente que acredita na união de forças, na utopia, que tem esperança e não sofre da síndrome do medo. A Campanha da Fraternidade (CF) 2006 também proporciona uma profunda reflexão sobre a exclusão. Ela propõe como tema Fraternidade e Pessoas com Deficiência, seguido de um convite evangélico: Levanta-te, vem para o meio! (Mc 3, 3). Num ambiente cultural que tende a marginalizar e excluir os que têm menos capacidade individual de competir com os outros, as pessoas com deficiência, com freqüência, são vítimas de preconceito e discriminação. Diante dessa dura realidade, a CF é ocasião para uma grande tomada de consciência em favor da inclusão. A caminhada rumo à inclusão é penosa e demorada. Já no Antigo Testamento, Deus nos adverte sobre essa questão, afirmando que é necessário cuidar em primeiro lugar do órfão, da viúva e do estrangeiro. Jesus ensina que no mundo não há espaços reservados para gente de primeira e de segunda classe. “Quem tem duas túnicas tem que repartir” (Lc 3, 11). A exclusão tem raízes profundas em preconceitos históricos que dão suporte a sistemas injustos. Ela se apresenta, muitas vezes em situações aparentemente pequenas, mas com grande significado. Temos hoje dois exemplos evidentes: o muro da Cisjordânia e o muro da Califórnia. Quaisquer muros, sejam eles de concreto ou de ferro, podem ser demolidos se soubermos juntar a força do Evangelho com a dos excluídos. 

Cartaz Oficial da Campanha da Fraternidade 2006
Foto1: Júlio César Costa. Foto2: Nicole Roitberg

Mulher ladakhi, Índia.

 MURAL DO LEITOR -------------------------------------04
Cartas

 OPINIÃO -------------------------------------------------05
Eucaristia: encontro com Jesus João Pedro Baresi Cansados do Evangelho? Rosa Clara Franzoi Notícias do Mundo Fides / Zenit

 PRÓ-VOCAÇÕES ---------------------------------------07  VOLTA AO MUNDO------------------------------------08  ESPIRITUALIDADE ---------------------------------------10
Levanta-te e vem para o meio! Hilário Cristofolini A CPI e as verdades limitadas Humberto Dantas

Vanessa Alves, MSU

 CIDADANIA ----------------------------------------------12  TESTEMUNhO ------------------------------------------13
Vida missionária na selva amazônica Cristina Noskoski A coragem que vem de Deus Cecília Clara Zamboni Evangelii Nuntiandi Luiz Balsan

 TESTEMUNhO ------------------------------------------14  FORMAÇÃO MISSIONÁRIA ---------------------------15  MISSÃO hOJE ------------------------------------------19
O hoje da Missão Francisco Lerma Martinez

 DESTAQUE DO MÊS -----------------------------------20
Educação globalizada: a história de Ladakh Nicole Roitberg

 ATUALIDADE ---------------------------------------------22
Fraternidade e pessoas com deficiência Maria Emerenciana Raia Queremos um mundo de paz Roseane de Araújo Silva E aí galera?! Júlio César Caldeira Ferreira

 INFÂNCIA MISSIONÁRIA ------------------------------24  CONEXÃO JOVEM -------------------------------------25  ENTREVISTA MARCELO GUIMARÃES ----------------26
Cultura de paz: uma construção coletiva Joaquim Gonçalves

 AMAZÔNIA ----------------------------------------------28
Seca: questão para uma teologia ecológica Ricardo Castro Notícias do Brasil Adital / CNBB

 VOLTA AO BRASIL --------------------------------------30

- Jan/Fev 2006

3

Mural do Leitor
Ano XXXIII no

01 JAn/Fev 2006
Elvira Pessin

Diretor: Jaime Carlos Patias Editor: Maria Emerenciana Raia Equipe de Redação: Joaquim F. Gonçalves, Cristina Ribeiro Silva e Rosa Clara Franzoi Colaboradores: Vitor Hugo Gerhard, Lírio Girardi, Luiz Balsan, Marinei Ferrari, Roseane de Araújo Silva, Júlio César, Manoel Aparecido Monteiro, Humberto Dantas Agências: Adital, Adista, CIMI, CNBB, Dom Hélder, IPS, MISNA, Pulsar, Vaticano Diagramação e Arte: Cleber P Pires . Jornalista responsável: Maria Emerenciana Raia (MTB 17532) Administração: Cláudio Cobalchini Sociedade responsável: Instituto Missões Consolata (CNPJ 60.915.477/0001-29) Impressão: Edições Loyola Fone: (11) 6914.1922 Colaboração anual: R$ 40,00
BRADESCO - AG: 545-2 CC: 38163-2 Instituto Missões Consolata (a publicação anual de Missões é de 10 números)

Natal solidário

MISSõES é produzida pelos Missionários e Missionárias da Consolata Fone: (11) 6256.7599 - São Paulo/SP (11) 6231.0500 - São Paulo/SP (95) 3224.4109 - Boa Vista/RR Membro da PREMLA (Federação de
Imprensa Missionária Latino-Americana)

Rua Dom Domingos de Silos, 110 02526-030 - São Paulo Fone/Fax: (11) 6256.8820 Site: www.revistamissoes.org.br E-mail: redacao@revistamissoes.org.br

Redação

A comunidade Nossa Senhora Consolata de Itapevi, São Paulo, celebrou o Natal no dia 17 de dezembro de 2005, na rua da alegria, trazendo aos mais pobres e pequeninos, paz, esperança e fraternidade. Jesus ao nascer foi colocado em uma manjedoura na periferia da cidade. Por isso nós quisemos celebrar o “Natal de Rua” com as crianças para que o Menino Deus sentisse todo o amor que temos para com estes pequeninos, seus prediletos. Maria queria apresentar à humanidade a verdadeira consolação – Jesus. Ele fez-se pobre em meio aos pobres para que os pequeninos se sentissem atraídos. A exemplo de Jesus somos impulsionados a sair de nós mesmos, do nosso egoísmo e irmos ao encontro do Deus Menino com a nossa pobreza, com o nosso despojamento, com o nosso sacrifício para entendermos melhor os que Ele nos confiou nesta Missão. Hoje constatamos que milhares de crianças são esquecidas, marginalizadas e maltratadas pelas autoridades, pelas pessoas de melhores condições e até por seus pais. E Cristo se faz presente nesses pobres, nessas crianças abandonadas, órfãs e doentes. A comunidade Nossa Senhora Consolata, junto com pessoas voluntárias e generosas de Itapevi e Jandira, dedicou seu tempo para recolher fundos e donativos a fim de alegrar, neste gesto de solidariedade, as 1.300 crianças que estavam presentes. Foi uma imensa recompensa ver nos olhos daqueles pequeninos, ao receber um simples brinquedo, a alegria de celebrar o Natal do Menino Deus. O Natal, que era triste em outros anos, tornou-se um momento de felicidade extrema.

A Pastoral da Promoção Humana da Paróquia Nossa Senhora Consolata do Jardim São Bento, São Paulo, preparou o Natal solidário para 1.300 crianças atendidas pelas creches do Jardim Peri, periferia da Zona Norte da capital. No dia 17 de dezembro, 300 kits foram distribuídos para as crianças da Paróquia Natividade do Senhor, no Jardim Fontales, e 50 cestas básicas para famílias socorridas pela comunidade. No dia 20 de dezembro, cerca de 800 crianças receberam seus kits contendo brinquedos, roupas, calçados e produtos de higiene, numa festa com churrasco organizado pelos paroquianos. Foram contempladas as crianças das creches Bernardo Gora, Jardim Antártica, Jardim Peri e Espaço de Gente Jovem (EGJ), todos localizados no bairro do Jardim Peri.
Arquivo Pessoal

No dia 27 de dezembro, outra festa, com as Irmãs de Caridade Madre Teresa de Calcutá, ainda no Jardim Peri. Desta vez, 200 crianças e 100 idosos, entre homens e mulheres, receberam seus kits. Foram distribuídos ainda cerca de 50 kits de adulto para os portadores do vírus HIV do Lar Betânia e colaboradores. Mais de 3.000 quilos de alimentos foram arrecadados, sendo distribuídos entre asilos, seminário e pessoas mais necessitadas. Ser missionário é também sair dos limites geográficos da paróquia e socorrer os que mais precisam. Este trabalho vem sendo realizado há quase dez anos, atendendo cada vez mais pessoas. A paróquia agradece todos os que colaboram, pois esse gesto de solidariedade envolve muita gente comprometida com a construção do Reino de Deus.

Irmãs Erminângela e Elvira Pessin Missionárias da Consolata, Itapevi, SP.

Alete Helena Maggi Quartiero Jardim São Bento, SP.
Jan/Fev 2006 -

4

Eucaristia
Nas conclusões do sínodo sobre a Eucaristia falta o “cheiro” do povo.
de João Pedro Baresi

encontro com Jesus

E

xpressar opiniões sobre documentos do papa e dos bispos é sempre uma tarefa espinhosa. O ar que se respira é que o campo está aberto só para a aprovação. Pontos de vista diferentes (conhecidos como “de crítica”) são encarados com suspeita, como se nossa fé fosse tão frágil a ponto de não resistir ao diálogo, a partir de posições não completamente submissas. É triste ver como a maioria dos católicos se proíbe de pensar nos assuntos de sua fé. Por várias razões: insegurança diante dos questionamentos que a vida pessoal, comunitária e social faz nascer dentro da cabeça e do coração; sentimento de incompetência em assuntos reservados a poucos; medo das reprimendas de quem tem poder dentro da Igreja. O resultado é a passividade, a obediência estéril, sem a riqueza dos dons que o Espírito espalha em todo batizado. Depois dessa premissa, e sabendo que se trata de uma simples opinião, vou centralizar minha reflexão sobre um aspecto, sem dúvida de muita importância. Posso defini-lo como aspecto pastoral, a partir de minha experiência de 30 anos junto às comunidades populares. Minha opinião é que nas conclusões do Sínodo sobre a Eucaristia falta o “cheiro” do povo. Há declarações que falam do respeito ao povo, mas são frias, dominadas pela teologia, engessadas com normas. A legítima preocupação de preservar o caráter sagrado do mistério leva a diminuir a importância do povo que o celebra, junto com o sacerdote (“Orai irmãos e irmãs para que o nosso sacrifício...”). Sua participação espontânea, expressando maneiras diferentes de ser e de sentir, é encarada como perigosa e por isso deve ser normatizada nos pormenores. O resultado é o triste espetáculo de assembléias de fiéis espectadores, sem uma consciência profunda de que todos estão no centro da Eucaristia, como proclamam as palavras da consagração: “Isto é o meu Corpo que é entregue por vós”, e: “Este é o cálice do meu sangue derramado por vós”. Jesus não veio ao mundo para instituir a Eucaristia; a instituiu para realizar a missão que o trouxe ao mundo. Se isso não for colocado em evidência, o culto eucarístico torna-se ponto final e não caminho missionário. Parece-me que o documento do Sínodo não vai ajudar suficientemente para superar o perigo, sempre presente no meio do povo, de encarar a hóstia como presença mágica. O Concílio Vaticano II diz que “a liturgia é o cimo para o qual se dirige a ação da Igreja e, ao mesmo tempo, a fonte de onde - Jan/Fev 2006

Encontro Diocesano das CEBs, São José dos Campos, SP.

emana toda a sua força” (SC, 10). Muito se comentou sobre o cimo e a fonte, menos sobre a recíproca interferência entre a ação da Igreja e a fonte e o cimo que a fecundam e a orientam. Como deve ser vivido e celebrado o mistério da Eucaristia pela comunidade cristã que vive e atua encarnada na história e nas culturas, solidária com "as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres?" (GS, 1). Nesse questionamento há muitas sementes que, superada a estação fria das normas, farão florescer a primavera do encontro de amor de Jesus com o seu povo. 

João Pedro Baresi é missionário comboniano.

5

Jaime C. Patias

OPINIÃO

mIssIoNÁrIos além-fronteiras
o dia 17 de dezembro de 2005, na Paróquia São Paulo, Cascavel, PR, foi ordenado sacerdote Cláudio Moratelli, que em breve, partirá para a Venezuela como missionário. Nascido aos 16 de fevereiro de 1974, em Cascavel, Cláudio é o quinto filho de Arcanjo (in memorian) e Marlene Moratelli. Entrou no Seminário em 1996, fez os estudos de Filosofia em Curitiba, o Noviciado em Buenos Aires, Argentina, e os estudos de Teologia no ITESP (Instituto São Paulo de Estudos Superiores). No dia 14 de janeiro de 2006, em Pinhal Grande, RS, foi ordenado sacerdote Sandro Lago Dalanôra, segundo filho de Ladinir Dalanora e Maria Lago Dalanora. Nascido aos 20 de junho de 1973 na mesma cidade, Sandro ingressou no Seminário Diocesano em Santa Maria, RS, em 1995. Prosseguiu seus estudos de Filosofia com os missionários da Consolata em Curitiba, PR. Fez o Noviciado em Buenos Aires e Teologia na Universidade Javeriana, em Bogotá, Colômbia. Em breve, Sandro partirá para a Etiópia, África, onde atuará como missionário. 

N

Fotos: Jaime C. Patias

Fotos: José Roberto Garcia

Comprometer-se com a Missão
Noviciado é uma etapa de grande importância em nossa vida de religioso, fundamentada num ponto de partida e de chegada da caminhada formativa, ou seja, é um período que reservamos para estudar e aprofundar o carisma da Congregação a qual pertencemos, a vida religiosa em todas suas dimensões e a vida missionária. Buscamos fazer uma experiência de Deus para colocar-nos a serviço da Missão. Nós, missionários da Consolata, realizamos esta etapa em um ano. O Noviciado latino-americano fica em Buenos Aires, Argentina. No ano de 2005 iniciamos no dia 15 de janeiro, com 12 jovens, provenientes da Colômbia, Venezuela, Argentina e Brasil, tendo como mestre o padre Daniel Bertea, argentino. Sete desses noviços fizeram sua primeira profissão religiosa no dia 31 de dezembro. Cremos que a convivência com pessoas de diversos países nos ajudou a entender melhor os caminhos da Missão no que diz respeito à internacionalidade e o respeito à cultura do outro.
Fotos Arquivo Pessoal

O

Agora entendemos melhor a obrigação que temos de testemunhar e propor, com nossa vida missionária, a construção de um novo tipo de sociedade, fundamentada nos valores universais: paz, fraternidade, justiça, liberdade e solidariedade. Avocação missionária é aquela em que a pessoa deixa seu pequeno mundo para viver em outros espaços, em diálogo com todos os povos e culturas. Seus sonhos e desejos se juntam aos de outros irmãos e irmãs para construir um mundo mais humano. Por isso é necessário trabalhar em solidariedade, esperança e gratuidade, engajando-se na luta pela justiça, paz e igualdade, sem perder de vista a utopia. Com a profissão religiosa nós abraçamos a Vida Consagrada, com tudo o que ela representa na sociedade, sinal de contradição perante a antivalores que sufocam e matam a vida, deixando-nos guiar por Jesus e aceitando um estilo de vida comunitário, onde devemos ter a capacidade de transformar a história. Vamos continuar nosso caminho de formação com o estudo da Teologia em outros países como Quênia, Roma, Congo, Colômbia e Brasil. 

João Batista Amâncio dos Santos, seminarista da Consolata.

6

Jan/Fev 2006 -

CaNsados
do Evangelho...?
de Rosa Clara Franzoi

a sabedoria oriental é a Boa Nova de muitos.

Uma audiência com o Criador

S

urpreende o exagerado interesse que muitas pessoas têm hoje pelas artes e a sabedoria do Oriente: a meditação zen do Japão, o Kung-Fu e o Tai-Chi da China, a meditação de Yoga e a astrologia da Índia. Hoje, os “gurus”, das mais diversas tendências, são muito procurados por adultos e especialmente pela juventude, em busca de orientação espiritual, de trilhas para encontrar a realização e a felicidade. O que se pode deduzir disso tudo é que Jesus, o Caminho, a Verdade e a Vida para nós, cristãos, não tem mais nada de novo a oferecer. As “igrejas e ideologias modernas”, parecem estar apresentando caminhos mais interessantes, de maneira que os ensinamentos de Jesus, as suas propostas, quando muito, podem competir com as supracitadas “doutrinas”, nada mais... Para nós, que professamos Jesus Cristo como “resposta” às profundas aspirações e anseios do ser humano, o problema não deixa de ter seu peso. Há muita gente hoje, que já se cansou do Evangelho de Jesus. Parece que o que ele propõe é simples demais, quase banal, para uma humanidade que se acha superavançada, pois ele trata quase sempre das coisas corriqueiras da vida. Embora a psicologia explique, de vários modos, esse fenômeno, o que se percebe é que bem no fundo, toda essa busca insaciável, nada mais é do que o intrínseco desejo que o ser humano tem, de entrar em contato com o divino e com o mistério, através da experiência do sensível...

Uma lagosta insatisfeita chegou à conclusão de que o Criador havia cometido um erro a seu respeito. Pediu uma audiência para discutir a questão. Na data combinada, assim falou: “Com todo respeito, eu vim à sua presença para reclamar do modo como o Senhor me projetou. Veja, mal me acostumo com este meu invólucro, logo tenho que abandoná-lo por outro. Acho isso muito incômodo e uma enorme perda de tempo”. Deus replicou: “Ah! Entendo! Mas, você não percebe que é justamente esta troca que lhe dá a possibilidade de crescer?” A lagosta insistia em seu ponto de vista. Então Deus disse: “Bem, já que você diz estar certíssima de que o erro foi meu, de hoje em diante, não mudará mais a casca; ficará com a mesma, do nascimento até a morte”. A lagosta saiu da audiência radiante, achando ter ganho a causa. Daí por diante, tudo seria só alegria. Mas, passado não muito tempo, a lagosta começou a se sentir prensada por todos os lados. Resolveu voltar ao Criador. Disse-lhe: “Com todo respeito, venho protestar porque o Senhor não cumpriu o que prometeu”. “Como não”, respondeu o Criador. E ela: “O Senhor disse, que eu ficaria sempre com a mesma casca e isto não está acontecendo; o Senhor não vê que quase não consigo respirar, que estou sendo sufocada?” E Deus disse: “Percebeu agora, que a mudança era necessária para você poder crescer e se desenvolver? A sua casca é a mesma”, respondeu o Criador; “quem está mudando é você”. A lagosta, muito envergonhada, retirou a palavra, por entender que era mesmo aquele o caminho que deveria percorrer para chegar à realização, ainda que às vezes incômodo e lento.

Quer ser um missionário/a?
Irmãs Missionárias da Consolata - Ir. Dinalva Moratelli
Av. Parada Pinto, 3002 - Mandaqui 02611-011 - São Paulo - SP Tel. (11) 6231-0500 - E-mail: rebra@uol.com.br

As novidades podem apenas nos iludir

Centro Missionário “José Allamano” - Pe. Manoel A. Monteiro (Néo)
Rua Itá, 381 - Pedra Branca 02636-030 - São Paulo - SP Tel. (11) 6232-2383 - E-mail: secretariamissao@imconsolata.org.br

Missionários da Consolata - Pe. César Avellaneda
Rua da Igreja, 70-A - CXP 3253 69072-970 - Manaus - AM Tel. (92) 624-3044 - E-mail: amimc@ibest.com.br

Jovem! Percebeu como a gente é? Nunca estamos satisfeitos com o que temos e com o que somos. Nosso coração é insaciável. Passamos o tempo todo procurando novas doutrinas, filosofias, novidades, que tragam satisfação ao nosso espírito; algo que nos dê certezas.... Lembre-se, que o caminho é um só: você só será feliz e se sentirá realizado quando tiver encontrado o seu lugar, como pessoa humana, como cristão, como alguém chamado a desenvolver uma tarefa específica no mundo, na sociedade, na Igreja; uma tarefa-missão que ajude o Reino de Deus a se concretizar. Preste atenção: Deus é fiel e se manifesta nas mediações. As muitas novidades podem apenas nos iludir.O texto de Hb 13, 5-9 pode ajudar na nossa reflexão. 

Rosa Clara Franzoi é irmã missionária e animadora vocacional.

- Jan/Fev 2006

Jaime C. Patias

7

pró-vocações

Libéria Posse da nova presidente

diálogo inter-religioso, com visitas a locais de culto e líderes budistas e muçulmanos. Segundo padre Joseph Virasak Vanarotsuvit, Diretor Nacional das Pontifícias Obras Missionárias na Tailândia, o Ano da Evangelização representa uma oportunidade para revitalizar a consciência do papel missionário dos fiéis e para dar uma contribuição de paz e harmonia à sociedade tailandesa.

VOLTA AO MUNDO

“Um momento positivo para todos os liberianos e de reflexão sobre o futuro da nação”, afirma o padre Mauro Armanino, missionário da Sociedade das Missões Africanas, na capital liberiana, Monróvia, onde em 16 de janeiro tomou posse oficialmente Ellen Johnson-Sirleaf como nova Chefe de Estado. “A população participou com alegria da cerimônia, que se realizou diante do Parlamento”, afirma o missionário, que ouviu também algumas reações dos participantes. Um jovem disse: “Agora sim, a Libéria volta a ser a doce terra da liberdade”, referindo-se ao hino nacional. “As mulheres usavam roupas com o rosto da presidente, com o slogan: “Temos orgulho de ser mulher”, afirma Armanino. No seu discurso, Ellen Johnson-Sirleaf convidou os dirigentes da oposição a unirem-se ao governo para reconstruir o país, e nomeou os primeiros membros da sua administração. Depois do juramento, a senhora Johnson-Sirleaf, dirigiu-se a uma multidão de milhares de pessoas reunidas em Monróvia na praça diante do Parlamento e se comprometeu a responder “às suas necessidades e às suas preocupações sobre o desenvolvimento do país. O meu governo estende a mão da amizade e da solidariedade aos dirigentes de todos os partidos políticos”, declarou diante do adversário derrotado nas eleições, o ex-jogador George Weah, que não assistiu à cerimônia de juramento.

Índia Evangelizar através do cinema

As novas fronteiras do cinema mundial passam por “Bollywood”, o centro cinematográfico no qual são produzidos filmes indianos e de outras nações asiáticas: também ali, é preciso levar a mensagem de Cristo, evangelizando através do cinema, um dos meios de comunicação mais importantes de nossa época. É o que afirma o católico C.D. Jebasingh, presidente da Galilean International Films and Television Services, casa de produção cinematográfica ativa no contexto indiano. O produtor da casa - que no acrônimo inglês “gifts” significa “dons” - afirma: “é o momento da Igreja decidir utilizar o cinema como instrumento para difundir a Boa Nova. Existem na Índia mais de 13 mil salas de cinema, freqüentadas por 15 milhões de pessoas semanalmente, enquanto são produzidos mais de 900 filmes por ano”. Por isso, a Gifts está disponível a colocar-se a serviço da comunidade católica, para concretizar esta idéia.

Vaticano Nova Encíclica

Tailândia Ano da Evangelização

2006 será para a Igreja tailandesa o “Ano da Evangelização”. Os bispos tailandeses informam que será um ano de sensibilização, e que a Igreja local quer empenhar-se em criar “uma consciência mais forte e um espírito de evangelização”, num país de maioria budista, no qual os católicos são 0,4% numa população de mais de 63 milhões de pessoas. Para os fiéis, “não é suficiente freqüentar a missa dominical”: é mais importante “levar a luz de Cristo aos outros”, pois “todo cristão é missionário”. A Conferência Episcopal sugere às dioceses 12 temas a serem aprofundados ao longo dos 12 meses do ano, através de encontros específicos, a serem organizados localmente. Os bispos também exortaram as diversas realidades locais - paróquias, movimentos e associações - a promover iniciativas públicas de testemunho e evangelização. Nas dioceses, haverá encontros sobre o

No dia 18 de janeiro o Santo Padre anunciou a publicação de sua primeira encíclica com o título “Deus Caritas est” (Deus é Amor). “O tema não é diretamente ecumênico, mas o contexto e o pano de fundo são ecumênicos, pois Deus e nosso amor são a condição da unidade dos cristãos, são a condição da paz no mundo. Com esta encíclica gostaria de mostrar que “eros”, é um dom do amor entre homem e mulher e procede do mesmo manancial da bondade do Criador, e deve transformar-se em “ágape”, caridade, percorrendo um caminho de purificação. Tento demonstrar também que o ato totalmente pessoal que nos vem de Deus é um único ato de amor. Tem de se expressar também como um ato eclesial, organizativo. Se é realmente verdade que a Igreja é expressão do amor de Deus, desse amor que Deus tem por sua criatura humana, tem de ser também verdade que o ato fundamental da fé, que cria e une a Igreja e nos dá a esperança da vida eterna e da presença de Deus no mundo, gera um ato eclesial. Ou seja, inclusive como Igreja, como comunidade, de maneira institucional, tem que amar”, explicou Bento XVI. 

Fontes: Fides e Zenit.
Jan/Fev 2006 -

8

INTENÇÃO MISSIONÁRIA
Para que nas missões os cristãos sintam a necessidade de servir o próprio país também com um maior empenho na vida política e social.
de Vitor Hugo Gerhard

O
Jaime C. Patias

s meses de janeiro e fevereiro, para nós do hemisfério sul, representam um tempo mais ameno nas atividades e no corre-corre do ano, tempo para algum repouso merecido, mas também tempo para um olhar mais calmo sobre as coisas que acontecem à nossa volta e que precisam ser revisadas. Neste sentido, a intenção missionária proposta para fevereiro nos coloca diante da realidade social, com todos os seus desafios e provocações e nos faz a seguinte pergunta: “como vai nossa presença na realidade que nos rodeia?” Já escutei pessoas dizerem que seremos julgados, não pela fé que professamos ou pela prática religiosa que realizamos, mas pela presença que tivermos no tecido da sociedade civil, como “sal, fermento e luz”.

A qualidade da nossa presença no mundo é um critério objetivo para verificar a força do cristianismo, para a transformação da realidade e sua adequação ao Plano de Deus. Tenho dito, com relativa freqüência, que a nota mais forte dos tempos de hoje é o fato de vivermos mergulhados numa humanidade ferida, machucada, às vezes perdida nos longos caminhos da história, incapaz de perceber os sinais de insanidade que se abatem sobre ela. Mesmo com todo o otimismo que a cruz de Cristo nos inspira, não podemos fechar os olhos para a dura realidade em que vivem tantos povos e nações, raças e línguas. A tarefa fundamental dos cristãos leigos, originada de sua fé e adesão ao Evangelho, é a capacidade de, mergulhados no caldeirão da realidade, serem capazes de, pela palavra e pelas atitudes, gerarem estruturas novas, norteadas por valores que permanecem. Não existe neutralidade política ou ideológica. Todas as nossas opções serão sempre reflexo de nossa visão de mundo, de nossa concepção de pessoa e de nossas escolhas, e terão sempre um preço a ser pago. A neutralidade já é uma opção. Se formos capazes de, estando no mundo, pensarmos e agirmos como se não fôssemos dele, como nos diz São Paulo (estar no mundo e não ser do mundo), então nossa intervenção na sociedade humana poderá ser benéfica, no sentido de iluminar, com os critérios do Evangelho, os melhores caminhos a serem trilhados. Pelo fato mesmo de sermos cristãos, somos insistentemente convidados a exercer a função política, própria dos seres humanos, entendendo-se aqui por política, a capacidade humana de participar nas decisões, pequenas ou grandes da sociedade humana, na condução do seu destino, até o final da história. E tudo isso vale para a “missão de além-mar” e para a missão “além da porta da minha casa”. 

Representantes da CRB se manifestam em favor da paz, Catedral da Sé, SP.

Vitor Hugo Gerhard é sacerdote e coordenador de pastoral da Diocese de Novo Hamburgo, RS.

Missão nas montanhas de Mindanao, Filipinas
A imensa ilha de Mindanao, habitada por cristãos, muçulmanos e indígenas lumads, é uma terra de missão em que alguns sacerdotes, religiosos e leigos levam a Boa Nova. Eles chegam até as aldeias mais remotas, na floresta ou nos montes, habitados por grupos indígenas que nunca ouviram falar de Jesus Cristo. Pe. José Aduana, dos Oblatos de Maria Imaculada é um deles. Dirige uma escola primária na aldeia Montana de Pangipasan, e vive em contato com estas populações, divididas em pequenas tribos, que não receberam influência da civilização ocidental nem da islâmica. Antes de tudo, os missionários ajudam e sustentam os índios na campanha de conservação de suas terras, que muitas vezes, no passado, foram expropriadas por motivos políticos ou econômicos, para serem dadas em concessão a empresas exploradoras de recursos minerais e naturais. A proteção da terra, explica o missionário, é a garantia fundamental para a sobrevivência dos povos indígenas. Em segundo lugar, os índios lutam todos os dias pela sobrevivência, pois vivem de agricultura de subsistência, e é necessário ensinar-lhes novas técnicas agrícolas. Os missionários Oblatos ocupam-se também da assistência médica, sanitária, e da instrução destes povos, atuando principalmente no distrito montanhoso de Kidapawan. A escola primária de Pangipasan foi construída em 1977, e hoje, funciona com professores em tempo integral, e 177 alunos da tribo dos manobos. Anteriormente no local havia uma escola primária pública, que foi fechada pela impossibilidade de encontrar professores dispostos a ensinar em áreas tão remotas. Hoje, graças à obra dos missionários, a vida dos índios de Kidapawan melhorou, e seu desenvolvimento humano, social e cultural prossegue em harmonia com sua cultura e suas tradições. Através da promoção humana e colocando em prática o processo de “inculturação” da fé cristã, os missionários anunciam aos índios de Mindanao a mensagem de amor de Deus e a redenção do homem em Jesus Cristo.

Fonte: Fides

- Jan/Fev 2006

9

A Igreja do Brasil, através da Campanha da Fraternidade 2006, reza pelas pessoas com algum tipo de deficiência.
de Hilário Cristofolini

S

abendo que a Campanha da Fraternidade deste ano vai se dedicar às pessoas com deficiência, com o lema “Levanta-te, vem para o meio”, um jovem que há tempos me conhece como “cadeirante”, brincando perguntou: “quer dizer que neste ano você vai levantar da cadeira de rodas e andar, é isso?” Quase isso - brinquei, e pensando nos muitos colegas com deficiência, garanti: seguiremos na luta contra este preconceito nosso, de pessoas deficientes e também de muita gente que continua inaugurando lugares públicos e até igrejas(!), sem pensar numa rampinha que tanto facilitaria nossa inclusão na sociedade pelo trabalho e lazer. Um senhor fisicamente “perfeito”, um dia se desculpou assim: “não foi por má vontade que não construí a rampa. É que não pensei, não lembrei...” Nós, então, amargamos a conclusão: pior que a falta de rampa, é saber que se esqueceram de nós e continuamos esquecidos...

Padre Zachariah King’aru e Hilário Cristofolini.

O Evangelho de Jesus

Sempre que o Evangelho apresenta cegos, surdos, mudos, doentes, paralíticos, ficamos felizes porque temos aí mais provas de que o Senhor Jesus sempre se lembrava dos nossos colegas daqueles tempos e não gostava de ver ninguém assim. Sempre que encontrava um cego, surdo, mudo, aleijado, curava-o. E quando encontrava um cara assim como eu, não gostava nadica de nada! Mandava-o levantar e ir embora... As pessoas com deficiência, que costumam ler o Evangelho de Jesus, aos

poucos descobrem que este Seu amor apaixonado por nós continua. A Igreja nos convida a ler Marcos 3, 2-6. Narra-se aí a entrada de Jesus na Sinagoga onde seus inimigos tinham preparado uma armadilha para O flagrar, pois era sábado. Se Ele curasse aquele aleijado da mão seca seria acusado de desobedecer à lei do sábado. Se não o curasse diriam que Ele não era de nada e, pior ainda: que não se interessava por nós. Nós não sabemos se o colega estava lá como convidado dos que prepararam a armadilha. Neste caso temos certeza que ele não sabia de nada! Nem nos interessa saber se estava lá com vergonha por ser aleijado; interessa saber que estava lá. Encolhido num canto, meio escondido, mas estava. E o que nos comove na leitura é que Jesus não só o viu, mas olhou para ele, o chamou e curou. Ora, Ele sempre pensa em nós, gosta

de nós e é nosso maior amigo! E sabem por que é o maior? Porque sabe tudo a nosso respeito e, mesmo assim, ainda pensa e gosta de nós! E sabem por que nem se esforça para que os outros seus filhos fisicamente “perfeitos” se lembrem de nós e construam rampas? Porque aos poucos nos vai fazendo entender que, para chegar a Ele não precisamos nem de escadarias, nem de rampas...

Ajuda para carregar a cruz

Que nos desculpem os santos este nosso tipo de espiritualidade de, às vezes, parecer que nos esquecemos deles e vamos diretamente ao tribunal de instância superior. É que são tantas e superiores e tão graves nossas necessidades que só Ele pode dar jeito. Sempre que falamos assim de nosso amigo, alguém pergunta: “por que esse Jesus que gosta tanto de vocês, não dá Jan/Fev 2006 -

10

Fotos: Jaime C. Patias

Levanta-te e vem
para o meio!

espiritualidade

forças às pernas secas de vocês, como fez com a mão seca do aleijado da Sinagoga?” E mais: “por que lhes diz: levantem e venham para o meio e não lhes dá ao menos uma cadeira de rodas para que possam fazer isso?” Ora, ora, amigos, lentamente Ele nos faz entender que não veio ao mundo para tirar a cruz das costas de ninguém, mas para nos ajudar a carregá-la. E nisso mostra uma disposição infinitamente maior que a do Cireneu quando o ajudou a carregar a sua. Com Sua ajuda, então, vamos descobrindo o valor imenso de nosso pequeno sofrimento quando aliado ao Seu, na subida de nosso calvário. Quanto ao fato de não dar sequer uma cadeira de rodas a muitos que não tem, isso Ele não dá mesmo e sabem por quê? Porque esta é uma das missões que deu a muitos de Seus filhos fisicamente “perfeitos”... como aquela que confiou aos quatro amigos do paralítico de Cafarnaum... Vale a pena reler: Marcos 2, 3-5.

Você sabia?
Há 25 milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência física, motora, sensorial ou mental. Esse número corresponde a 14,5% da população. Os gastos com órteses e próteses correspondem, respectivamente, a 2% e 1% das despesas ambulatoriais realizadas no sistema público de saúde. Os homens sofrem mais de distúrbios mentais, físicos e auditivos. As mulheres são as mais afetadas com as dificuldades visuais e motoras. Os rendimentos das pessoas com deficiência também são desiguais: 31,87% recebem até um salário mínimo por mês e 30,96% não têm qualquer rendimento. Conforme o Censo 2000, as maiores percentagens de pessoas com deficiência estão nas regiões Norte (16,1%) e Nordeste (17,7%). O Estado com maior proporção é a Paraíba (18,8%); São Paulo é o de menor incidência, com 11,4%. Com suas famílias, as pessoas com deficiência representam diretamente 25% da população brasileira. O percentual de pessoas com deficiência com ocupação (38,62%) é menor quando comparado ao da população em geral (47,94%).

Voluntário faz a diferença

Os amigos chegaram à cama do paralítico dizendo: “nós ouvimos falar de um tal Jesus que anda pela Palestina curando todo mundo. Amanhã Ele estará em nossa cidade e decidimos trazê-Lo aqui para curar você”. O aleijado não mostrou entusiasmo porque já não tinha esperança de cura; mas, para não desagradar aos amigos, concordou com eles. No dia seguinte foram buscar Jesus na casa de Pedro. Mas havia muita gente lá com doentes. Eles viram que era impossível chegar até Ele. E decidiram: já que não podemos levar Jesus ao amigo, vamos levar o amigo a Jesus! Compraram um tipo de maca, foram à casa do aleijado dizendo: “Jesus não pode vir, então vamos levar você

até Ele”. O aleijado resmungou: “não, não vou! Se o tal Jesus não pode vir até aqui, é sinal que é vontade de Deus que eu não ande mais”. E eles: “que vontade de Deus, que nada! Vamos levar você lá”. “Não, não! É muito longe!” Mesmo assim, saíram com ele por aí. Lá adiante viram a casa de Pedro com mais gente ainda. Dando e recebendo cotoveladas, os quatro chegaram lá. Mas que pena! A porta era estreita: a maca não passava! Mas os quatro eram ótimos! Um ficou cuidando do aleijado, outro foi comprar cordas, e os outros subiram no telhado e destelharam um buraco bem em cima de onde estava Jesus pregando e curando. Amarradas as cordas nos cantos da maca, desceram o amigo bem na frente do Mestre! O resmungão assustado se viu diante de Cristo e nem sabia o que dizer; mas não precisou dizer nada. O nosso amigo, encantado com o trabalho dos quatro, olhou para cima e viu seus rostos confiantes. E, sabendo que tinham feito a sua parte, fez a Sua. Vendo a confiança e a fé mostrada pelos quatro, curou o amigo deles. Parabéns aos colegas voluntários que pelo Brasil, mesmo com deficiências físicas graves, levantaram a cabeça, vieram para o meio, se incluíram na sociedade... e agora, sempre que podem, visitam rodapés onde sofrem outros colegas. Deus os abençoe, irmãos!

CF 2006

Que ótimo ver a Igreja de Jesus na Campanha da Fraternidade deste ano dedicar orações e reflexões sobre esta obscura fatia de 14,5% da população brasileira com deficiência. Ela verá em tantas casas muitíssimos colegas: crianças, jovens, adultos, idosos, que aguardam sua visita. Ela saberá que muitos desses filhos amados de Deus, não foram lembrados, nem talvez para o batismo. E se o foram, chegaram à Igreja pelos braços dos padrinhos... e depois, com o passar do tempo, a deficiência física foi tomando conta de seus corpos e lhes faltam agora braços de voluntários para voltarem à Igreja. Bendita a Igreja que se faz Fraternidade! Que ela nos olhe com o olhar de Jesus. E se não nos puder abrir caminho de inclusão para esta sociedade, que nos inclua em suas orações para que um dia, após a rodada final, sejamos incluídos na sociedade do Amigo. Ele sabe que nossa Campanha de Fraternidade começou há muito tempo e só tem tempo de terminar quando chegarmos definitivamente a Ele. 

Lançamento do texto-base da CF 2006 na APAE, Vila Mariana, São Paulo, SP.

Hilário Cristofolini é escritor, autor de Seguimos seus passos, sobre a vida de Pierina Morosini, entre outros.

- Jan/Fev 2006

11

e as verdades limitadas
Ser cidadão também é tomar consciência do que ocorre no Poder Legislativo. Ultimamente, as CPIs têm sido palco para políticos artistas e inescrupulosos.
José Cruz/ABr.

A CPI
de Humberto Dantas

cidadania

A

o longo da história, as constituições brasileiras “aperfeiçoaram” e trataram de garantir a existência das Comissões Parlamentares de Inquérito. Desde a Proclamação da República existem prerrogativas legais que sugerem a investigação de determinados fatos pelos membros do Poder Legislativo. Recentemente, a força desse instrumento consolidou-se com a Constituição de 1988 e a CPI de PC Farias, que resultou no impeachment de Fernando Collor, em 1992. Ao longo dos últimos 13 anos assistimos a outros vários exemplos de Comissões de Inquérito. Não apenas no Congresso Nacional, mas também nos legislativos municipais e estaduais. Em inúmeros exemplos, também testemunhamos tentativas frustradas de instalações de Comissões que esbarraram na força impeditiva de alguns agentes. Em 2003, por exemplo, o presidente do Senado, José Sarney, conseguiu manobrar suas forças e vetar a CPI dos Bingos, que por força das ocorrências, emergiu dois anos depois. Diante dos exemplos citados, nos resta uma simples pergunta: o que representa uma CPI para a nação? Falamos de que tipo de inquérito? O brasileiro já é capaz de amadurecer a idéia de que tais comissões têm um papel importante para o país, mas por trás de suas ações se escondem algumas questões fundamentais. Por que tais comissões encerram seus trabalhos, ou desviam suas atenções, quando o quadro investigado aponta para uma realidade mais “absurda” e abrangente do que se supunha? Por que certos personagens parecem intocáveis? A CPI do Mensalão, por exemplo, deixou de interessar quando supôs que a quantidade de envolvidos transcendia uma ou duas legendas partidárias. A CPI dos Correios, apesar de prorrogada, esteve fadada ao fim quando parlamentares das bases governista e oposicionista votaram por seu término. A CPI da Terra transformou-se em palco de disputas entre ruralistas e partidários da reforma agrária, quando seu objetivo era completamente diferente.

Deputados membros da CPI do Mensalão durante trabalho em Brasília, DF.

Interesses individuais

Parece razoável supor que a relevância de uma CPI tem esbarrado constantemente nos interesses individuais dos parlamentares. A forma como os depoimentos são colhidos, por exemplo, priorizam a capacidade teatral de alguns argüidores - que aproveitam a ex-

posição na televisão para lembrar de seu eleitorado. O interesse da nação é constantemente deixado de lado, em nome de um conjunto de legisladores que, ao invés de agir pelo país, atua como classe consolidada. Quem não se lembra dos dizeres de um vereador paulistano que, ao ver seu mandato ameaçado pela CPI dos Fiscais, bradou: “vejam bem o que os senhores decidirão sobre meu futuro. Eu tenho alguns de vocês nas minhas mãos”. Quando assuntos pessoais transcendem o interesse público, o Estado está fadado à falência. É o que dizia o filósofo Jean-Jacques Rousseau, e o que parece ocorrer entre nossos representantes. Qualquer CPI, nesse caso, nos remete à fábula da raposa que toma conta do galinheiro. A sociedade necessita de uma postura mais ativa diante dos fatos trazidos. Seja por meio do voto, de manifestações ou de ações consistentes, precisamos deixar de aceitar passivamente que as verdades tenham limite. Nosso momento é tão delicado, e exige tamanha reflexão, que as recentes CPIs passaram a considerar comum crimes como o “caixa 2”, utilização da máquina pública para fins privados e compra de votos. Num universo em que a regra é desrespeitada por quem a constrói, parece possível falarmos em falência do Estado. 

Humberto Dantas é cientista político, coordenador do Curso de Formação Política da Assembléia Legislativa e assessor da Pastoral Fé e Política em São Paulo.
Jan/Fev 2006 -

12

na selva amazônica
Ir. Cristina Noskoski relata o seu trabalho de evangelização na Prelazia de Coari, Amazonas.
de Cristina Noskoski

Vida missionária
Arquivo Pessoal

N

asci em Getúlio Vargas, Rio Grande do Sul. Meus pais eram agricultores. Desde criança estive em contato com a natureza, aprendendo o respeito e o amor pelo meio ambiente. Talvez por isso, o carisma franciscano tenha me atraído. Meu pai demonstrava um apreço especial pelos missionários. Todos os dias ao rezar o terço em família ele colocava uma intenção por eles. Quando os padres vinham à comunidade, ou os missionários, sempre se hospedavam em nossa casa. Eu e meus irmãos crescemos familiarizados com a Igreja. A minha irmã Antônia, e eu optamos pela Vida Religiosa, ambas na mesma Congregação.

Opção missionária

Em 1980, a convite de Dom Gutenberg Freire Régis, bispo da Prelazia de Coari, Amazonas, a Congregação decidiu fortalecer e ampliar a nossa presença missionária naquela região, abrindo mais uma casa na mesma Prelazia, desta vez, em Beruri, no rio Purus. Na época, Beruri era distrito de Manacapuru, tornando-se município em 1982. Com a chegada das irmãs a Beruri, foi instalada a Paróquia de Nossa Senhora de Nazaré. Dom Gutenberg a entregou aos cuidados das Irmãs Franciscanas Missionárias de Maria Auxiliadora. Elas administraram a paróquia durante 24 anos, até 2004, quando chegou o primeiro pároco, padre José Orlando da Cruz, da Igreja Irmã de Mogi das Cruzes, São Paulo. A paróquia abrange 14 mil quilômetros quadrados. No início havia apenas uma comunidade urbana e cinco comunidades rurais. Hoje, após 25 anos, há cinco comunidades urbanas e 53 rurais. Destas, algumas são bastante organizadas e outras em formação. As rurais são todas ribeirinhas. É o povo das águas! Beruri não possui estradas. A locomoção é feita por vias fluviais. A distância da sede paroquial até a última comunidade é de 30 horas de barco-motor. Nas vias fluviais as distâncias são medidas em horas e não em quilômetros. Nos primeiros anos de paróquia, as irmãs assumiram a organização e coordenação, não só do trabalho pastoral paroquial, mas também da educação e saúde de todo o município. As comunidades rurais não possuíam escola. Mesmo assim ainda hoje há comunidades ribeirinhas sem professor e sem escola. Em algumas, as aulas são ministradas em capelas ou residências e os alunos escrevem no chão, porque não há carteiras. O atendimento religioso às comunidades ribeirinhas é feito - Jan/Fev 2006

duas vezes ao ano, através de visitas da Equipe Pastoral Paroquial. Mesmo não havendo sacerdote permanente na paróquia, durante todos estes anos, as irmãs realizaram regularmente essas visitas, levando a Palavra de Deus, ministrando os Sacramentos, orientando sobre cidadania, saúde preventiva, formando lideranças e organizando as comunidades.

Experiência de Deus

Em 1999, senti em mim um pequeno desânimo, proveniente de vários fatores: cansaço físico, saudades da família e meus pais que, com certa idade, pediam o meu retomo. Na Igreja do Brasil preparava-se a celebração dos 500 anos de evangelização. Uma réplica da cruz da 1ª Missa no Brasil peregrinava em todas as paróquias de cada Regional. Eu me preocupei em motivar o povo e preparar bem a celebração para que este acontecimento se tornasse um momento forte de evangelização. Em nenhum instante pensei em mim, mas no povo. Eis a surpresa! Ao aproximar-se o barco do porto de Beruri trazendo a pequena cruz de bronze, acompanhada da imagem de Nossa Senhora Aparecida, senti em mim algo inexplicável! Olhando para aquela cruz, pequena e corroída pelo tempo, parecia ouvir Jesus me dizer: “Cristina, olhe para mim e veja!” A partir daquele dia tudo mudou em mim. Voltou a alegria de continuar me doando ao povo, que se assemelhava àquela cruz! Ao me despedir no final do ano 2004, pude afirmar com tranqüilidade que ali doei os melhores anos de minha vida. Agora me encontro em minha terra natal, o Rio Grande do Sul. Vejo este tempo como um período de graça, para recompor as forças físicas e uma oportunidade de atualização e aprofundamento espiritual. O meu coração, no entanto, continua palpitando por um trabalho de doação missionária em terras mais desprovidas de agentes pastorais. 

Cristina Noskoski é irmã Franciscana Missionária de Maria Auxiliadora.

13

Testemunho

A coragem que vem de Deus
Ir. Cecília conta sua experiência missionária no Quênia e no Estados Unidos.
de Cecília Clara Zamboni

Testemunho

M
Jaime C. Patias

eu nome de batismo é Maria Augusta. Sou italiana, nasci no ano de 1939, em Bologna, histórica cidade da Itália sententrional. Meu pai, formado em legislatura, sempre trabalhou na administração pública municipal. Por 40 anos ocupou-se também do setor de Assistência em Bologna e na província de Milão, no pós-guerra. Minha mãe, professora, passou a ocupar-se apenas do lar e da família depois do nascimento da segunda filha. Aos treze anos, quando estava para iniciar o que chamamos de Ensino Médio, meu pai me fez duas propostas: continuar os estudos, sendo que ele faria qualquer sacrifício para custeá-los, porém, eu teria que abrir mão de todo luxo e regalias ou começar a trabalhar, porque os irmãozinhos eram muitos e ele sozinho não podia sustentar as minhas vaidades. Escolhi continuar a estudar. Aos 15 anos comecei a participar da Ação Católica.

Consolata. Era o dia 5 de novembro de 1959 e eu tinha 20 anos. O diploma universitário só consegui depois de ter feito a Profissão, em maio de 1962. Especializei-me em Sociologia e Psicologia. Quando fui trabalhar no Quênia, África, o governo estava montando uma escola para assistentes sociais e eu precisei do diploma para que ela pudesse ser reconhecida. A minha vocação manifestou-se aos 15 anos, durante uma visita a um hospital de pacientes incuráveis, assistido pelas Irmãs do Cottolengo, em Turim. Ali o Senhor fez-me sentir claramente que me queria para si. Minha primeira resposta foi que eu era ainda muito jovem para pensar em coisa tão séria; porém, comecei a me esforçar para fazer melhor todos os meus deveres, na escola e em casa e a ser mais atuante na Ação Católica.

Como vivo a Missão

Vida acadêmica e opção vocacional

Escolhi formar-me como Assistente Social. Antes de iniciar o segundo ano, decidi entrar no Instituto das Missionárias da

Parti para os Estados Unidos em agosto de 1963. Lá, aprendi a fazer um pouco de tudo, além do estudo. Em seguida, fui trabalhar no Quênia. Ali fiz minha Profissão Perpétua, na capela de Getoro, onde lecionava. Uma das estudantes de então, me escreveria anos mais tarde, dizendo-me que a sua vocação religiosa para ser irmã da Anunciação, nasceu naquela ocasião. Isto me deu uma grande alegria. O que sempre me deu muita força é a consciência de que a evangelização é obra do Espírito e os tempos e o modo de concretizá-la são seus. Convenci-me de que o meu empenho deve ser o de dar espaço e tornar-me cada vez mais aquela criatura que Deus pensou desde toda a eternidade. Assim, ele me ensinou como chegar a um equilíbrio humano e a considerar tempo perdido o perfeccionismo e a competição. Ensinou-me a superar os meus desânimos, a acalmar o meu temperamento e criar espaço para a reflexão e a oração. Não que eu já tenha chegado, mas, estou a caminho. Aprendi que isto é o mais importante. O que mais me emociona nesta estrada é a fidelidade de Deus. Ele a demonstra muitas e muitas vezes, quer diretamente, ou através da bondade e da compreensão das minhas irmãs e das pessoas com as quais me relaciono, especialmente os pobres. Neles encontro Jesus, vivo e verdadeiro. “Se o grão de trigo caindo na terra não morre, permanece só; mas se morre, produz muito fruto” (Jo 12, 24); “Quem perde a sua vida por mim vai encontrá-la” (Mt 10, 39), são frases do Evangelho que alimentam o meu viver e fortalecem o meu caminhar. Muitas vezes fico pensando em tantas pessoas que procuram desesperadamente o sucesso e a felicidade. Infelizmente ainda não sabem quanta alegria se esconde na doação da própria vida a Deus e a serviço do Evangelho. Neste sentido, há 18 anos esse Deus fiel, iniciou-me num caminho de paz e não-violência. Ele me chama cada dia a fazer escolhas decisivas, de um jeito novo. Estou convencida que para poder “denunciar é preciso antes ter a coragem, que nos vem somente de Deus, de denunciar a nós mesmos”. Assim diz um profeta da paz, Thomaz Merton. 

Cecília Clara Zamboni é irmã missionária da Consolata nos Estados Unidos.

14

Jan/Fev 2006 -

Formação Missionária

Evangelii Nuntiandi
A Exortação ressalta a importância da evangelização, levando em conta as circunstâncias de tempo, lugar, cultura, meios e agentes.
Sim: a pregação, a proclamação verbal de uma mensagem, permanece sempre como algo indispensável. Nós sabemos bem que o homem moderno, saturado de discursos, se demonstra muitas vezes cansado de ouvir e, pior ainda, como que imunizado contra a palavra. Conhecemos também as opiniões de numerosos psicólogos e sociólogos, que afirmam ter o homem moderno ultrapassado já a civilização da palavra, que se tornou praticamente ineficaz e inútil, e estar a viver, hoje em dia, na civilização da imagem. Estes fatos deveriam levar-nos, como é óbvio, a pôr em prática na transmissão da mensagem evangélica os meios modernos criados por esta civilização. Já foram feitos, de resto, esforços muito válidos neste sentido. Nós não temos senão que louvar as iniciativas tomadas e encorajá-las para que se desenvolvam ainda mais. O cansaço que hoje provocam tantos discursos vazios, e a atualidade de muitas outras formas de comunicação não devem no entanto diminuir a permanente validade da palavra, nem levar a perder a confiança nela. A palavra continua a ser sempre atual, sobretudo quando ela for portadora da força divina. (70) É por este motivo que permanece também com atualidade o axioma de São Paulo: “A fé vem da pregação”, (71) é a Palavra ouvida que leva a acreditar (EN 42).
Jaime C. Patias

Celebração de encerramento do CAM 2 - COMLA 7, Guatemala. de Luiz Balsan

C

om a Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi o papa Paulo VI quis dar continuidade à reflexão do Concílio Ecumênico Vaticano II que buscava tornar a Igreja mais capaz de anunciar o Evangelho na sociedade contemporânea. Consciente de que sua reflexão se inseria numa época de profundas transformações culturais, partiu de algumas convicções importantes: 1. a atenção dada ao conteúdo da evangelização não nos deve levar a esquecer a importância das vias e dos meios da evangelização; 2. o problema do “como evangelizar” apresenta-se

sempre atual, pois os modos variam de acordo com as circunstâncias de tempo, de lugar e de cultura; 3. aos pastores da Igreja cabe o cuidado de remodelar com ousadia e com prudência os processos, tornando-os o mais possível adaptados e eficazes para comunicar a mensagem evangélica aos homens do nosso tempo. Em seguida, o papa apresentou algumas vias de evangelização que, por algum motivo se revestem de uma importância fundamental.

melhor boa vontade as testemunhas do que os mestres (...) ou então se escuta os mestres, é porque eles são testemunhas” (41). Será, antes de mais nada, pelo seu comportamento, pela sua vida, que a Igreja há de evangelizar este mundo.

Uma pregação viva

Testemunho de vida

Uma vida autenticamente cristã, entregue nas mãos de Deus, dedicada ao próximo com um zelo sem limites, é o primeiro meio de evangelização. “O homem contemporâneo escuta com

A importância do testemunho, porém, não deve levar a menosprezar a necessidade da pregação. “Como poderiam crer naquele que não ouviram? E como poderiam ouvir sem pregador? ... pois a fé vem da pregação” (Rm 10, 14.17). Este princípio, estabelecido outrora pelo apóstolo Paulo, conserva, ainda hoje, todo o seu vigor. O fato de estarmos hoje vivendo a civilização da imagem deveria

- Jan/Fev 2006

15

Formação Missionária
ção eucarística. Convida os pastores a dedicarem-se a ela com amor e afirma que os fiéis “esperam muito desta pregação e dela poderão tirar fruto abundante, contanto que ela seja simples, clara, direta, adaptada, profundamente aderente ao ensinamento evangélico e fiel ao magistério da Igreja, animada por um ardor apostólico equilibrado que lhe advém do seu caráter próprio, cheia de esperança, nutriente para a fé e geradora de paz e de unidade. Muitas comunidades paroquiais ou de outro tipo vivem e consolidam-se graças à homilia de cada domingo, quando ela tem as qualidades apontadas” (43).
Fotos: Jaime C. Patias

A catequese

11º Intereclesial das CEBs, Ipatinga, MG.

nos motivar a usar os meios modernos criados por ela. Isto, porém, não nega o valor do anúncio pela palavra. De forma análoga, o papa afirma que o cansaço que hoje provocam muitos discursos vazios e a atualidade de muitas outras formas de comunicação não devem diminuir a permanente validade da palavra, nem levar a perder a confiança nela. A palavra continua a ser sempre atual, sobretudo quando ela for portadora da força divina. É por este motivo que permanece atual o princípio de São Paulo: a fé vem da

pregação, é a Palavra ouvida que leva a acreditar (42).

Liturgia da Palavra

A pregação evangelizadora pode assumir uma diversidade quase infinita de formas. A Liturgia da Palavra, seja na celebração eucarística ou em outro momento, é um meio privilegiado de evangelização. A atenção do papa se centraliza, de modo particular, sobre a homilia, à qual reconhece um grande potencial evangelizador e recomenda que não seja usada apenas na celebra-

A catequese é uma das vias que não pode ser descuidada no processo de evangelização. As crianças e adolescentes, precisam aprender, de forma sistemática, o conteúdo vivo da verdade que Deus nos quis transmitir, e que a Igreja procurou exprimir de maneira cada vez mais rica, ao longo da sua história. No momento em que o papa escreve esta exortação, há uma grande valorização da dimensão existencial. A forte valorização da experiência parecia negar a importância do conteúdo. Por isso ele manifesta a preocupação que não se passe ao outro extremo: dar tanta importância ao existencial ao ponto de menosprezar a compreensão racional da fé. Ambos devem caminhar juntos. Para que a catequese alcance o êxito esperado, porém, é necessário que os textos sejam apropriados e atualizados com prudência e com competência; os métodos sejam adaptados à idade, à cultura e à capacidade das pessoas; os catequistas sejam bem preparados nesta arte do ensino religioso. Não menos importante é a catequese para adultos, que pouco a pouco descobrem o rosto de Cristo e mostram o desejo de segui-lo mais de perto (44).

Os meios de comunicação social

Grupo de missionários atuantes no Brasil, Argentina, Venezuela e Colômbia.

Neste século tão marcado pelos meios de comunicação social (MCS) o primeiro anúncio, a catequese ou o aprofundamento ulterior da fé, não podem deixar de se servir deles. “Postos a serviço do Evangelho, tais meios (...) fazem com que a Boa Nova chegue a milhões de pessoas. A Igreja viria a sentir-se culpável diante do

16

Jan/Fev 2006 -

Formação Missionária
E é por isto que, ao lado da proclamação geral para todos do Evangelho, uma outra forma da sua transmissão, de pessoa a pessoa, continua a ser válida e importante. O mesmo Senhor a pôs em prática muitas vezes, por exemplo as conversas com Nicodemos, com Zaqueu, com a Samaritana, com Simão, o fariseu, e com outros, atestam-no bem, assim como os apóstolos. E vistas bem as coisas, haveria uma outra forma melhor de transmitir o Evangelho, para além da que consiste em comunicar a outrem a sua própria experiência de fé? Importaria, pois, que a urgência de anunciar a Boa Nova às multidões de homens, nunca fizesse esquecer esta forma de anúncio, pela qual a consciência pessoal de um homem é atingida, tocada por uma palavra realmente extraordinária que ele recebe de outro. Nós não poderíamos dizer nunca e enaltecer bastante todo o bem que fazem os sacerdotes que, através do sacramento da Penitência ou através do diálogo pastoral, se demonstram dispostos a orientar as pessoas pelas sendas do Evangelho, a ajudá-las a firmarem-se nos seus esforços, a auxiliá-las a reerguer-se se porventura caíram, enfim, a assisti-las continuamente, com discernimento e com disponibilidade (EN 46). seu Senhor, se ela não lançasse mão destes meios potentes que a inteligência humana torna cada dia mais aperfeiçoados. É servindo-se deles que ela ‘proclama sobre os telhados’, a mensagem de que é depositária” (45). Paulo VI, porém, adverte que não basta atingir grande quantidade de pessoas; é preciso profundidade: a mensagem evangélica deverá chegar sim às multidões, mas, com a capacidade de penetrar na consciência de cada uma das pessoas, de se depositar nos corações de cada um deles, levando

Celebração durante Assembléia Continental dos Missionários da Consolata, SP.

a uma adesão, um compromisso realmente pessoal (45).

Indispensável contato pessoal

seus esforços, auxiliá-las a reerguerse se porventura caíram e assisti-las continuamente, com discernimento e disponibilidade (46).

São memoráveis os encontros pessoais de Jesus – com a Samaritana, Zaqueu, Simão... O papa se pergunta se haveria uma outra forma melhor de transmitir o Evangelho do que comunicar ao outro a própria experiência? A urgência de anunciar a Boa Nova às multidões não deve levar a menosprezar esta forma de anúncio. De modo particular, o texto se centraliza naqueles

O papel dos sacramentos

A evangelização não se esgota com a pregação. Pelo contrário, a evangelização exprime toda a sua riqueza, quando ela realiza uma ligação e melhor ainda, uma intercomunicação entre a Palavra e os sacramentos. Nos anos 70, havia uma atitude crítica diante de uma prática eclesial que supervalorizava os

Paróquia São José, Pinhal Grande, RS.

aspectos do ministério sacerdotal que propiciam um encontro pessoal com os fiéis, como o sacramento da penitência, o diálogo pastoral, a orientação pessoal. Através destes, os sacerdotes podem ajudar as pessoas a se firmarem nos

sacramentos em prejuízo de uma séria formação na fé. Com seu equilíbrio, Paulo VI quer evitar que agora se passe ao outro extremo: valorizar tanto a formação na fé menosprezando a importância dos sacramentos. Por isso alerta: “Num

- Jan/Fev 2006

17

Formação Missionária
Jaime C. Patias

No nosso século tão marcado pelos “mass media” ou meios de comunicação social, o primeiro anúncio, a catequese ou o aprofundamento ulterior da fé, não podem deixar de se servir destes meios conforme já tivemos ocasião de acentuar. Postos a serviço do Evangelho, tais meios são susceptíveis de ampliar, quase até ao infinito, o campo para poder ser ouvida a Palavra de Deus e fazem com que a Boa Nova chegue a milhões de pessoas. A Igreja viria a sentir-se culpável diante do seu Senhor, se ela não lançasse mão destes meios potentes que a inteligência humana torna cada dia mais aperfeiçoados. É servindo-se deles que ela “proclama sobre os telhados”, (72) a mensagem de que é depositária. Neles encontra uma versão moderna e eficaz do púlpito. Graças a eles consegue falar às multidões. Entretanto, o uso dos meios de comunicação social para a evangelização comporta uma exigência a ser atendida: é que a mensagem evangélica, através deles, deverá chegar sim às multidões de homens, mas com a capacidade de penetrar na consciência de cada um desses homens, de se depositar nos corações de cada um deles, como se cada um fosse de fato o único, com tudo aquilo que tem de mais singular e pessoal, a atingir com tal mensagem e do qual obter para esta uma adesão, um compromisso realmente pessoal (EN 45).
certo sentido há um equívoco em contrapor, como já algumas vezes se fez, a evangelização à sacramentalização. É bem verdade que uma certa maneira de administrar os sacramentos, sem um apoio sólido na catequese destes mesmos sacramentos e numa catequese global, acabaria por privá-los, em

Encontro Diocesano das CEBs, São José dos Campos, SP.

grande parte, da sua eficácia. O papel da evangelização é precisamente o de educar de tal modo para a fé, que esta depois leve cada um dos cristãos a viver – e a não se limitar a receber passivamente, ou a suportar – os sacramentos como eles realmente são, verdadeiros sacramentos da fé” (48).

Religiosidade popular

Seja nas igrejas de antiga tradição, seja nas mais recentes, subsistem expressões particulares da busca de Deus e da fé. Estas expressões, por muito tempo, foram, de certa forma, desprezadas. Hoje, porém, mais ou menos em toda a parte são objeto de uma redescoberta. Num primeiro momento a Evangelii Nuntiandi alerta para alguns limites da religiosidade popular: não raro, está aberta à penetração de superstições e corre o risco de permanecer apenas a um nível de manifestações cultuais, sem expressar ou determinar uma verdadeira adesão de fé. Mas, ao mesmo tempo, é rica de valores: ela traduz em si uma certa sede de Deus, que somente os pobres e os simples podem experimentar; ela predispõe as pessoas à generosidade e ao sacrifício até ao heroísmo, quando se trata de manifestar a fé; ela comporta um apurado sentido dos atributos profundos de Deus: a paternidade, a providência, a presença amorosa e constante... Ela suscita atitudes interiores que raramente se observam alhures no mesmo grau: paciência, sentido da cruz na vida cotidiana, desapego, aceitação dos outros,

dedicação, devoção etc. Em virtude destes aspectos, nós a denominamos, de bom grado, “piedade popular”, no sentido de religião do povo, em vez de religiosidade. É preciso, portanto, tratála com caridade pastoral; ser sensível em relação a ela, dar-se conta das suas dimensões interiores e dos seus inegáveis valores, estar disposto a ajudá-la a superar os seus limites. Bem orientada, esta religiosidade popular, pode vir a ser cada vez mais, para o povo, um verdadeiro encontro com Deus em Jesus Cristo. 

Luiz Balsan é missionário, professor de Espiritualidade e doutor em Teologia.

Para reflexão
1. Na Igreja, houve um tempo em que se valorizou muito os sacramentos, esquecendo-se da importância de uma séria formação na fé. Como você avalia a formação da fé na Igreja hoje? 2. Em sua paróquia existe grupo missionário de evangelização? 3. No seu modo de ver, a forte migração de uma denominação cristã para outra revela uma fragilidade na evangelização? 4. O projeto nacional de evangelização da CNBB (2004-2007) no nº 72 apresenta três grandes metas da evangelização: a) Formação da dignidade da pessoa; b) Renovação da comunidade; c) Participação na construção de uma sociedade justa e solidária. Como podemos ou estamos enfrentando este desafio a nível pessoal e comunitário?

18

Jan/Fev 2005 -

O hoje
da missão
de Francisco Lerma Martinez

Atualmente não se fala mais em territórios de Missão, mas em situações humanas, em processos sociais, em contextos socioculturais que precisam da iluminação do Evangelho.

omeçamos a nossa reflexão invertendo a ordem das palavras da rubrica desta página: o hoje da Missão. Foi assim que aconteceu com a ação de Deus na história da humanidade. O povo escravizado clamou por libertação e Deus enviou um Salvador. Foi assim a primeira Missão na história. Mais tarde foram os pobres que gritaram e Deus escutou, e assim por diante, até os nossos dias. Por isso podemos afirmar que a Missão nasce também hoje no contexto concreto do povo sofrido.

C

crentes e não crentes, entre cristãos e seguidores de outras religiões, uma luta de toda a humanidade, de todos os que se sentem filhos deste mesmo e único planeta.

Os desafios

Nós, cristãos, somos enviados a essa Missão universal. E é nesse contexto generalizado que tem sentido a Missão hoje. A tal contexto chamamos os novos aerópagos da Missão, que superam o conceito geográfico. Já não falamos mais de territórios de Missão, mas de situações humanas, de processos sociais, de contextos socioculturais que precisam da iluminação do Evangelho.
ArquivoPessoal

As perspectivas da Missão

Estamos vivendo um tempo de mudanças, como nunca se viu antes. Um mundo globalizado que faz da Terra uma aldeia; um mundo caracterizado pelas altas tecnologias da comunicação que encurtaram as distâncias no tempo e no espaço. O imediato é tido em alta consideração, pois o passado já não nos pertence e o futuro ainda não está ao nosso alcance; a movimentação das pessoas por causa das migrações, turismo, comércio e cooperação internacional aproximou povos e culturas; a crise da democracia formal, das instituições civis e religiosas está criando o desajustamento das instituições comunitárias que regiam a sociedade. Contemporaneamente aparecem novas dependências e novas exclusões: o aumento da diferença entre ricos e pobres, os mais ricos sempre mais ricos Irmã Elvira Pessin, Itapevi, SP. e os mais empobrecidos sempre em maior número; o comércio humano que humilha profundamente a dignidade Entre todos os desafios que a situação atual do mundo nos de crianças, jovens e mulheres; os movimentos migratórios apresenta, indico alguns, considerados como mais urgentes pela como nunca aconteceram em toda a história, sem conseguirem sua incidência nos mais variados âmbitos da vida: a pobreza processos culturais de integração das diversidades; as culturas nas suas duas vertentes, econômica e social; a cultura, com os desprezadas ou marginalizadas no contexto da globalização; a processos mais generalizados da identidade cultural e da interpandemia do vírus HIV e doenças endêmicas na maioria dos culturalidade, com todas as suas implicações na construção do países ao sul do hemisfério; os equilíbrios sociopolíticos frágeis futuro da humanidade; e o diálogo intercultural e inter-religioso. que facilmente degeneram em conflitos armados sem solução; As religiões só encontrarão a sua unidade, não na conversão guerras esquecidas na África e Ásia; terrorismo generalizado em dos membros de uma confissão religiosa para a outra, nem no qualquer parte do mundo; e auto-afirmação de fundamentalismos abandono das próprias convicções mais íntimas. Não é esse o culturais e religiosos. caminho, mas sim, o compromisso na luta pela justiça, paz e Este nosso mundo - a natureza, as pessoas - sofre as doconservação da natureza, isto é, na luta contra tudo o que oprime res do parto. A crise em si mesma considerada não é má nem os homens e as mulheres deste planeta e neste tempo. Amar o boa. Trata-se simplesmente de um processo de gestação de nosso tempo, partilhar as suas dores e anseios mais profundos algo novo. É um momento que faz possível o ressurgir de um por um futuro melhor e comprometer-se nas lutas justas pela mundo novo, desde que as pessoas assim o entenderem e se sua libertação integral, eis as perspectivas da Missão hoje.  empenharem em consegui-lo. É o grande desafio de todos e da Missão em concreto. Trata-se de uma ação comum entre Francisco Lerma Martinez é missionário, antropólogo e secretário para a Missão. - Jan/Fev 2006

19

história daHoje Missão missão

Destaque do mês

Educação globa
a história de Ladakh
Educação oficializada
de uma região remota e de difícil acesso. Permaneceu praticamente inalterada até 1962 quando, em resposta ao conflito no Tibete, o exército indiano construiu uma estrada para ligar a região com o restante do país. Em 1975, foi aberta ao turismo internacional. Conectada ao sistema global, a região mudou para sempre sua paisagem física e mental. Chegaram turistas, produtos de consumo, burocracia governamental, economia monetária e escolas. O governo tornou-se o condutor do sistema educacional. Hoje, a grade curricular básica é uma imitação daquilo que é ensinado em outras partes da Índia, que por sua vez, é uma imitação arcaica da educação colonial britânica. As crianças aprendem em livros didáticos escritos por pessoas que nunca estiveram no país. As cartilhas estão cheias de imagens estranhas ao habitat (navios, elefantes e famílias loiras cozinhando com seus utensílios ocidentais). O currículo, desconectado da realidade, reduziu o aprendizado à memorização de informações abstratas, compartimentadas em disciplinas, horas e faixas etárias. A educação, antes acostumada a ser dinâmica e abraçando todas as facetas da vida, hoje tem caráter passivo e hierárquico. A ênfase ocidental no individualismo, na competição, em títulos e critérios de avaliação, contrasta fortemente com a reciprocidade e colaboração familiar tão comum aos ladakhis. Sendo budistas, a vida é vista de forma holística. Seu mundo inclui tanto a mente quanto a alma, o visível e o invisível. Qualidades como compaixão, generosidade e renúncia são critérios essenciais de avaliação. No entanto, as imposições tecnológicas tornaram irrelevante esse tipo de sabedoria milenar. A escolarização não é feita na língua ladakhi, mas sim em urdu e hindi. As escolas ensinam todas as suas disciplinas em urdu até o que chamamos de Ensino Fundamental (oitava série) e, daí em diante, em inglês. A maioria dos alunos acaba semi-analfabeta nos dois idiomas, Jan/Fev 2006 -

Texto e fotos de Nicole Roitberg

P
20

assei o ano de 2004 na Índia, buscando compreender a influência do desenvolvimento global na educação em áreas remotas. A jornada levou-me a Ladakh, uma região elevada do deserto, aninhada na Cordilheira do Himalaia. Lá, tive a oportunidade de trabalhar em um projeto desenvolvido pelo ISEC (Sociedade Internacional para Ecologia e Cultura), uma ONG que promove soluções sociais, ambientais e econômicas com as comunidades locais. Os ladakhis vivem em comunidades predominantemente budistas que se estabeleceram há mil anos e, apesar da hostilidade da região, aprenderam a viver em uma economia de

auto-subsistência formada por estruturas econômicas, agrárias e sociais baseadas na adaptação com o ambiente montanhês. Até 1961, os monastérios eram a principal fonte de educação e a aprendizagem ocorria no relacionamento íntimo dos ladakhi com o seu ecossistema. As crianças aprendiam com a família, os amigos e o mundo natural. As gerações mais velhas interagiam com as mais novas, desenvolvendo um sentido de responsabilidade e cuidado. A educação local permitia às crianças o conhecimento e as habilidades necessárias para que usassem os recursos disponíveis de uma maneira eficaz e sustentável. Ladakh havia sido ignorada pela Inglaterra durante a época colonial, e mais tarde pelo próprio governo indiano, por possuir baixo potencial econômico, tratando-se

alizada
O processo desenvolvido na região de Ladakh, Índia, retrata alguns dos problemas educacionais impostos pela globalização.
e analfabeta em sua própria língua. Como resultado, 95% dos alunos das escolas governamentais são reprovados todos os anos e, portanto, privados de ingressarem no ensino superior. Hoje, a língua materna dos ladakhis é restrita ao espaço doméstico e informal, enquanto o urdu é usado na esfera do comércio e do mercado. a educação das crianças num estilo de vida consumista. Surpreendentemente, o discurso desenvolvimentista tem sido calorosamente bem-vindo por nações no mundo inteiro. Esse “colonialismo moderno” teve suas grandes vitórias, não tanto pela força militar mas, pela habilidade de criar um novo cenário mental incompatível com a ordem tradicional. Essa hierarquia prometia uma nova configuração que parecia com a resolução sobre a erradicação da pobreza e a criação de um mundo mais justo. A globalização – a colonização do século XXI – revela um panorama psíquico complexo porque libera forças dentro das sociedades para que alterem suas prioridades culturais para sempre. Há uma diferença notável entre culturas e comunidades que se submetem à mudança natural com a passagem do tempo e entre a homogeneização universal de sociedades inteiras causadas pela imposição de uma única “cultura” de economia de mercado. Essa para funcionar, exige a desvalorização de todas as outras formas de existência social.As necessidades pessoais, a autonomia, as experiências e a identidade do indivíduo desaparecem através da mediação do mercado. Assim como as vastas extensões de uma monocultura

de agricultura industrial se tornam mais vulneráveis ao ataque, as monoculturas culturais também se tornam insustentáveis e ameaçadas de extinção.

Instrumentos de poder

Globalização da educação

O que estamos testemunhando aqui não é exclusivo de Ladakh, mas sim um movimento mundial impulsionado pela força de um discurso desenvolvimentista. Este discurso, que a princípio derivou seu vigor da expansão do mercado e das transnacionais, vem influenciando todos os aspectos da vida. Quando a ONU percebeu que era inadequado medir o bem-estar social de um país unicamente pela sua habilidade em competir no mercado global, passou a publicar (em 1990) o Relatório de Desenvolvimento Humano, comissionado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). O censo para este novo cenário global reconheceu a educação como fator chave no desenvolvimento humano e na justiça social, tornando-a um pré-requisito para as nações que queiram alcançar progresso. A globalização transformou

As escolas estão formalizando relacionamentos do tipo colonizado-colonizador em países emergentes. Fazer da educação um “bem de consumo”, e prepará-la para a produção de mão-de-obra ditada por mercados ocidentais é a mesma lógica que força os países mais pobres aos programas de ajuste estrutural do FMI, com seu drástico corte nos serviços públicos. A educação se transformou em um elegante instrumento de poder que consiste em manter um véu diante dos olhos dos subordinados sem deixá-los sentir o que os está guiando. Qual preço as gerações futuras pagarão pela maneira com que nós estamos sendo educados? Toda educação é ambiental, pois somos parte do mundo natural. Nós devemos urgentemente reconhecer a falha da educação com relação à ampla rede de sistemas ecológicos. Infelizmente, não é somente a falha em reconhecer nossa inextricável ligação com sistemas naturais, mas é também uma falha no processo educacional para unir intelecto, afeição e lealdade às ecologias de lugares específicos. O que acontece quando nos despimos desta experiência bioestética do mundo? As escolas fazem pouco para exercitar a imaginação, motivar ou criar sistemas democráticos. Nossa grade de ensino fragmentou o mundo em pedacinhos chamados “disciplinas”, alienadas umas das outras. Como conseqüência, a maioria de nós sai da escola sem um sentido integrado das coisas e do mundo. Apesar da natureza nos ser apresentada como um aglomerado de experiências sensoriais, temos uma educação organizada para uma conveniência intelectual de maneira antagônica àquela que nós realmente vivenciamos. A história dos ladakhis com certeza questiona o que vale a pena ser ensinado nesse mundo. Se queremos efetivamente mudar os padrões auto-destrutivos que criamos e começar a preparar um tipo responsável de humanidade, devemos começar pela transformação de todo nosso sistema educacional. As escolas, em sua natureza alienante, ajudam a formar seres humanos incompletos. Deveríamos parar de ensinar o conhecimento para o lucro e começar a criar o conhecimento para a totalidade, como plenitude do ser humano. Para os ladakhis e talvez para o resto do mundo, é a única forma de garantir um futuro seguro, ético e sustentável. 

Nicole Roitberg é antropóloga e educadora ambiental.
- Jan/Fev 2006

21

Fraternidade e Pessoas com
A Campanha da Fraternidade 2006 tem como tema Fraternidade e pessoas com deficiência e como lema Levanta-te, vem para o meio!, inspirado no Evangelho de Mateus (Mt 3,3).
de Maria Emerenciana Raia, com informações do texto-base da CNBB.

atualidade

É

fácil perceber como a fraternidade e a solidariedade estão implicadas na questão do trato das pessoas com deficiência. Com freqüência, elas são vítimas de preconceito e discriminação, sobretudo num ambiente cultural que tende a marginalizar e excluir os que têm menos capacidade individual de competir com os outros e de se afirmar social e economicamente. A Campanha da Fraternidade (CF) é ocasião para uma grande tomada de consciência sobre as condições geralmente difíceis vividas pelas pessoas com deficiência e para desencadear muitas iniciativas de valorização efetiva delas. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil espera que a CF leve a atitudes de verdadeira fraternidade cristã em relação a esses irmãos e irmãs e aprofunde na sociedade a cultura da solidariedade em relação a eles.

Júlio César Costa.

Cartaz da Campanha da Fraternidade
“Levanta-te, vem para o meio!” (Mc 3,3). A frase de Jesus, dirigida ao homem com a mão atrofiada, representa o convite feito a todas as pessoas com deficiência para que se sintam acolhidas e valorizadas. O lema traduz também as ações positivas propostas pela Campanha de 2006 para a inclusão fraterna desses nossos irmãos e irmãs. Essa atitude fraterna é indicada pelo gesto de acolhida e pelo sorriso dos dois jovens. Desta Campanha ninguém deverá ficar de fora. As cores claras e alegres mostram que a deficiência não é, por si, causa de tristeza. Ao mesmo tempo, a Campanha ajuda a tomar consciência sobre as condições quase sempre difíceis vividas pelas pessoas com deficiência. O fundo azul transmite calma e tranqüilidade. Lembra que Deus está presente na vida dessas pessoas. Victor é um jovem com síndrome de Down. Ele estuda, trabalha numa lanchonete e faz academia. Permitir e favorecer que pessoas com deficiência possam se desenvolver é um desafio para os vários setores da sociedade e da Igreja. A imagem é um apelo forte para que deixemos a condição de espectadores. Vamos nos envolver com ações que resgatem a dignidade das pessoas com deficiência! Vamos construir uma cultura de solidariedade com esses irmãos e irmãs!
Jan/Fev 2006 -

Os números da discriminação

A deficiência não é uma doença, mas o preconceito, sim. A Organização Mundial de Saúde (OMS) calcula que no mínimo 350 milhões de pessoas com deficiência

Cartaz da CF-2006: Criação: Equipe Prospecto: Alexandre Yuki Ogusuku, Maryam Morandi Silva, Letícia Guarnieri, Jefferson Luiz Bonfim da Costa, Marcelo Pires de Oliveira – alunos da Agência Experimental em Publicidade e Propaganda da PUC Campinas – Mode los: Daniele Sawaya, Victor Andreucci.

Dona Liliana Dias de Pastore com a filha Natália Dias Pastore durante lançamento do texto-base da CF 2006 na APAE, Vila Mariana, SP.

vivem em regiões carentes, sem os serviços necessários para ajudá-las a superar suas limitações. Na maioria dos países, de cada dez pessoas, uma tem algum tipo de deficiência, que repercute em pelo menos 25% de toda a população. Na América Latina e Caribe, segundo dados do Banco Mundial, existem mais de 50 milhões de pessoas com deficiência. Isso significa cerca de 10 milhões da população regional. Outros fatores tornam essa situação ainda mais difícil: apenas 20% a 30% das crianças com deficiência estão matriculadas na escola; cerca de 80% a 90% das pessoas com deficiência estão desempregadas, ou, pior, nem fazem parte da força de trabalho; quem trabalha, ganha mal – isso quando recebe salário; não há serviço de saúde,

22

m Deficiência
é impossível chegar aos hospitais; as seguradoras de saúde rejeitam clientes com deficiência; os poucos dados disponíveis revelam que menos de 20% dos incapacitados recebem benefícios de seguro.

Informações importantes
A Coordenadoria Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (Corde), da Secretaria Especial dos Direitos Humanos tem a função de implementar políticas públicas relacionadas às pessoas com deficiência. O Corde mantém uma das mais amplas fontes de informação no país: o Sistema de Informações da Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (Sicorde), com um banco foram de ganhos. Basta conferir as conquistas: 1981 foi o Ano Internacional das Pessoas Deficientes e, por determinação da ONU, de 1983 a 1992 foi a Década das Nações Unidas para as Pessoas com Deficiência. A partir daí, foram dezenas de resoluções e compromissos internacionais que contemplam educação especial, atendimento às mulheres com deficiência, garantia de emprego e trabalho, melhor atendimento de saúde e políticas públicas específicas para as pessoas com deficiência. de dados completo. As informações são gratuitas. Há dados completos sobre equipamentos e utensílios destinados a melhorar a qualidade de vida dessas pessoas, informações sobre órgãos públicos e organizações não-governamentais, eventos, livros e muito mais. Para acessar: www.presidencia.gov.br/sedh ou via e-mail: corde@mj.gov.br.

Novas conquistas

Em 1975, a Organização das Nações Unidas (ONU) proclamou duas resoluções: a Declaração de Direitos do Deficiente Mental e a Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes. Também nessa época começou a se formar o movimento People First (Pessoas em Primeiro Lugar), de defesa da pessoa com deficiência mental. O Brasil também fez sua parte: iniciou o sistema Sorri-Brasil, com um plano de ação para reabilitação de ex-pacientes de hanseníase, que tinham seqüelas físicas, mentais, auditivas, visuais e sociais. Ampliou o atendimento feito nos serviços de reabilitação da Legião Brasileira de Assistência (LBA). Promulgou, em 1996, a Emenda Constitucional n.12, que previa garantias à pessoa com deficiência, desde a educação especial e gratuita até a possibilidade de acesso a edifícios públicos. Para as pessoas com deficiência, as décadas de 1980 e 1990
Fotos: Jaime C. Patias

A solidariedade em ação

Lançamento texto-base da CF 2006, SP.

Os vários tipos de deficiência
Físicas ou motoras – diversas razões impedem a locomoção, a execução ou a coordenação parcial ou total dos movimentos, causando deficiências físicas ou motoras. Dentre elas estão as seqüelas de poliomielite, paralisia cerebral, acidentes vasculares, lesões medulares, amputações, malformações congênitas e acidentes traumáticos diversos. Sensoriais – são as que provocam perda total ou parcial - Jan/Fev 2006 da visão, da audição e da fala. Mentais – diferente de doença mental (que diz respeito a transtornos da mente). Trata-se de uma condição na qual o cérebro está impedido de atingir seu pleno desenvolvimento, prejudicando a aprendizagem e a integração social. Pode ser caracterizada por graus e natureza variadas, desde um déficit intelectual e cognitivo leve até uma deficiência mental profunda.

Acabar com os preconceitos e aceitar, integralmente, a pessoa com deficiência é tarefa de todos. É preciso agir, de forma solidária e responsável, para destruir os muros que separam os não deficientes daqueles que têm alguma deficiência. Alimentados pela fé, todos devem colocar a mão na massa. Essa tarefa envolve os setores da Igreja – grupos de oração, movimentos, círculos bíblicos, grupos ecumênicos, grupos de setores e quarteirões, escolas, redes de comunidades e a força transformadora das diversas pastorais. Um dos frutos mais bonitos da Campanha da Fraternidade é o gesto concreto. Trata-se da Coleta da Solidariedade, que este ano destinará os recursos a vários projetos, como os de formação de agentes, realização de seminários e encontros, produção de materiais de divulgação, fortalecimento dos conselhos e fóruns de defesa dos direitos da pessoa com deficiência, atividades profissionalizantes e de geração de trabalho e renda etc. As doações serão realizadas nacionalmente no dia 9 de abril, Domingo de Ramos. Mas também podem ser feitas em toda a Quaresma e durante o ano. Do total arrecadado, 40% constituem o Fundo Nacional de Solidariedade (FNS), que é administrado pela Cáritas Brasileira. Os outros 60% ficam nas dioceses, formando o Fundo Diocesano de Solidariedade (FDS), para o atendimento a projetos locais.  Mais informações: Cáritas Brasileira SDS – Bloco P – Ed. Venâncio III – Sala 410 Brasília – DF fones (61) 3325.2261 ou 3325.7473

Maria Emerenciana Raia é jornalista, editora da revista Missões.

23

Queremos um mundo
Infância Missionária

“Lutai por um mundo de irmãos; Fazei a vontade do Pai O chão é de todos e o pão!”
Reginaldo Veloso

de PAZ
Jaime C. Patias

Raquel chora por seus filhos!

de Roseane de Araújo Silva

I

niciamos o novo ano desejando que a paz tão sonhada aconteça em nosso meio, em nosso mundo. Dessa vez não foi diferente, começamos 2006 “forçando” o nosso olhar para os acontecimentos que estão por vir. Trata-se de um período de grandes compromissos: Copa do Mundo, eleições presidenciais... Porém, renovam-se sempre as esperanças de um mundo de paz.

Jesus criança, recém-nascido em Belém, ao receber a visita dos três Reis Magos incomoda profundamente Herodes, que decide “matar todos os meninos de Belém e do território ao redor, de dois anos para baixo (...). Ouviu-se um grito em Ramá, choro e grande lamento: é Raquel que chora seus filhos, e não quer ser consolada porque eles não existem mais” (Mt 2, 16-18). A criança em sua fragilidade é alvo fácil para malfeitores e aliciadores em nossas ruas. Sem defesa, ela é explorada pelos vários Herodes de hoje, no roubo e no tráfico, violando indiscriminadamente sua infância. Há muitas mães que choram a morte dos seus

Crianças de rua ou na rua?

Retomamos a nossa página da Infância Missionária com a realidade das crianças que moram ou estão nas ruas. Segundo o UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância), há cerca de 100 milhões de crianças de rua no mundo, desse total 40% só na América Latina, 30% na Ásia, 10% na África. Em nosso país, o índice de crianças e adolescentes mendigando nas ruas é altíssimo. Temos dois exemplos a apresentar: primeiro Belém, na Região Norte, e em seguida São Paulo, maior cidade do país. Na capital do Pará, uma pesquisa detectou 2.328 crianças e adolescentes de rua, dos quais 79% trabalhavam; 12,9% perambulavam e dormiam nas ruas; 2,6% esmolavam, 2,3% se prostituíam e outros 3,2% encontravam-se em outras situações, incluindo os drogados e alcoolizados. Segundo um estudo recente realizado Infância Missionária, Paróquia Santa Margarida, Curitiba, PR. em São Paulo existem em torno de 1.030 crianças e adolescentes filhos: crianças que junto com seus pais migram por melhores (dados preliminares) sobrevivendo nas ruas, não incluindo neste condições de vida, em nosso país, na Europa, enfrentando até total as crianças que trabalham ou esmolam. Estima-se que 3.000 mesmo conflitos étnicos. crianças e adolescentes vivem nas ruas paulistas. Eles passam Assim como Raquel que chorou pelos seus filhos, a Infância um bom tempo cometendo pequenos delitos, utilizando drogas e Missionária é chamada também a gritar pelas crianças e adopedindo esmolas. Esta pesquisa revelou ainda, que 90% destas lescentes que sofrem e morrem a cada dia nas ruas brasileiras, crianças sabem quem são os seus pais e optam pela vida nas da mesma maneira que diante do clamor das crianças chinesas, ruas. A pesquisa resultará na integração dos pais destas crianças mobilizou toda a Europa para defendê-las. A paz que queremos e adolescentes em programa socioeducativos. Dessa maneira, começa com crianças e adolescentes vivendo com dignidade. São Paulo integra-se a outras capitais brasileiras que desenvolvem Pedimos a benção de Maria, mãe missionária e mãe de Deus campanhas contrárias à esmola, buscando desestimular a doação que caminha conosco em busca de paz, lembrando o 10º Comde dinheiro e prestação de serviços de crianças e adolescentes promisso da Criança Missionária: “a criança missionária sempre que trabalham na rua, integrando-os em programas sociais. Como pensa em Nós”. Das crianças do mundo – sempre amigas!  cantou um dia Luiz Gonzaga, “uma esmola ou mata de vergonha ou vicia o cidadão”. Roseane de Araújo Silva é missionária leiga e pedagoga da Rede Pública do Paraná.

24

Jan/Fev 2006 -

E aÍ GalEra?!...
Na primeira edição do ano, abrimos nosso espaço para sugestões que despertem interesse nos nossos leitores jovens.
de Júlio César Caldeira Ferreira

E

ncerramos 2005 com a nossa página Conexão Jovem tratando de vários temas: sexualidade, meios de comunicação social, consumismo, religião, experiências de jovens... Agora desejamos perguntar aos nossos leitores: “e aí galera?!” Vamos partir de uma experiência concreta: em preparação às festas de final de ano e início de 2006, no Rio de Janeiro, a partir de um bate-papo com um grupo de jovens que estavam preparando com dedicação as atividades que lhes foram confiadas, surgiram questões que gostaríamos de citar, pois demonstram expectativas e sonhos, desilusões e esperanças que nos são próximas.

Depoimentos

O jovem Joel disse que “existem infinitas atividades como shoppings, boates e festas, que dão apenas uma satisfação passageira. Por isso deveríamos ter lugares, pontos de encontro para que nós jovens possamos trocar idéias e que nos renove e nos dê ânimo para enfrentar as dificuldades. Proponho que

a página seja um instrumento de interação”. Para Wendson, “a busca por uma vida melhor faz com que as pessoas deixem, muitas vezes, até a sua razão pensando somente em si mesmas, esquecendo-se que muito próximo pode estar alguém que necessita de uma palavra que o conforte”. Wendson propõe que a página narre experiências de jovens. “Cada ano que se inicia é como um renascer de esperanças e oportunidades. É primordial que paremos para refletir e pensar em estratégias que modifiquem aquilo que não atende às nossas expectativas”, afirma Andréia. Patrícia observa que “para muitas pessoas a palavra juventude é sinônimo de ‘irresponsabilidade, imaturidade’. Mas o fato é que tudo muda quando o Espírito Santo é revelado aos corações e as vocações florescem através de uma formação profunda, objetiva e com a ‘cara’ do jovem”. Neste aspecto, Rodrigo diz que “pode-se perceber uma crescente descrença com relação à ‘comunidade jovem’. Por isso, é necessário que existam pastores, que com suas experiências de vida incentivem essa canalização da juventude para o bem. Não é utopia tentar convergir força e sabedoria para o mesmo objetivo”.

Desafio
Jaime C. Patias

E aí galera?! Neste mês queremos convocálos a debater com o seu grupo ou com outros jovens os temas que deveriam ser tratados pela nossa página Conexão Jovem, que busca ser um canal de interação, informação e formação, de jovem para jovem. Gostaríamos de encerrar deixando a mensagem do papa Bento XVI para a XX Jornada Mundial da Juventude, realizada em Colônia, Alemanha, em agosto de 2005: “Amados jovens, a Igreja precisa de testemunhas autênticas para a nova evangelização: homens e mulheres cuja vida seja transformada pelo encontro com Jesus; homens e mulheres capazes de comunicar esta experiência aos outros. A Igreja precisa de santos. Todos somos chamados à santidade, e só os santos podem renovar a humanidade. Sobre este caminho de heroísmo evangélico foram muitos os que nos precederam e exorto-vos a recorrer com freqüência à sua intercessão”.  Galera, é isso! Estamos esperando as sugestões, que podem ser enviadas pelo e-mail: conexaojovem@revistamissoes.org.br ou pelo end.: Conexão Jovem, CXP. 12.015 CEP 82.021-970 - Stª Felicidade - Curitiba - PR.

Júlio César Caldeira Ferreira é seminarista em Curitiba, PR.
Participante do Acampamento da Juventude, V FSM, Porto Alegre, RS.

- Jan/Fev 2006

25

conexão jovem

Cultura de Paz
O monge e professor Marcelo Guimarães explica o processo de construção de uma cultura de paz, que envolve todos os seres humanos.
de Joaquim Gonçalves

entrevista

uma construção coletiva
Arquivo Pessoal

A

pesar de vivermos o decênio da paz, proposto pela UNESCO em 2000, o começo do milênio está marcado por novos tipos de violência. No início de cada ano, governos, Organizações Não Governamentais, igrejas, movimentos e associações articulam seus discursos em torno do sonho de paz que todo ser humano carrega. Os sonhos têm a capacidade de concentrar e mobilizar energias para concretizar valores fundamentais, como a paz. Quando se fala em paz, a memória coletiva recorda figuras importantes da construção de sua cultura: Francisco de Assis, Gandhi, Luther King, Mandela, Isaac Rabin... Para nós, cristãos, a paz, além de ser um sonho, é dom e chamado de Deus para que caminhe junto com a justiça. Talvez porque a mídia enfoca demasiado as situações de guerra e de violência, apresentando-as como espetáculo, acabamos por ficar com a sensação de que a violência é natural e que a paz é fruto da ordem estabelecida. Entrevistamos o monge Marcelo Guimarães, co-autor do livro “O Dia do Senhor”. Professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul e membro do Conselho Editorial do Journal of Peace Education, ele tem se tornado um incansável minerador de caminhos para a paz, através da reflexão, da pesquisa e do ensino.

O que o levou a se interessar pela causa da justiça e paz? Inegavelmente o Evangelho, lido na perspectiva do ensino social da Igreja, este imenso patrimônio pacifista que nós temos hoje: as mensagens papais pelo Dia Mundial da Paz, as encíclicas e as declarações pacifistas do magistério. Também o contato com os movimentos sociais, como os de direitos humanos, ou a campanha contra as minas terrestres. A estadia no Mosteiro da Anunciação, em Goiás, foi um fator catalisador, que possibilitou contato com pacifistas do mundo inteiro e experiências como vigílias semanais pela paz. A rotina de orar pela paz e pela justiça foi fundamental!

Na sua opinião, o resultado negativo do referendo sobre o controle de armas é fruto de uma campanha mal conduzida ou da convicção de muitos católicos de que é melhor estar armado? Houve alguns erros graves, mas eu gostaria de ver este resultado numa perspectiva maior de processo de construção de paz em terras brasileiras. Um dos elementos que influenciou foi a ausência de um movimento pacifista estruturado como em outros países; não temos ainda, neste campo, “massa crítica” capaz de produzir conhecimento e de sustentar uma argumentação. Neste campo discursivo, necessitamos reconhecer a nossa limitação: nossos argumentos ainda são inconsistentes e pouco persuasivos. Jan/Fev 2006 -

26

Temos sérias dificuldades para pensar a paz como um projeto consistente, além das boas e românticas idéias. Também precisamos reconhecer a força da doutrina da guerra justa na mentalidade católica. No cristianismo primitivo, a paz tinha uma força inequívoca. Muitas comunidades não aceitavam batizar soldados porque estes matavam. Alguns testemunhos da época patrística proclamam claramente: “Em Deus não há violência”, “Depois que Jesus tirou a espada de Pedro, nos tornamos em Cristo filhos e filhas da paz”. Mas por volta do século V, esta posição sofreu mudanças e os cristãos começaram a aceitar a possibilidade da violência para alguns fins, bons e justos. Assim, cresceu entre nós, a doutrina da guerra justa, isto é, da possibilidade de fazer a guerra com a finalidade de promover a paz. Só há bem pouco tempo, depois do Concílio Vaticano II, é que se começou a rever isto. Por que entre nós as manifestações em favor da paz ainda mobilizam pouco as pessoas? Nossa cultura tem uma visão da história muito verticalista, individualista e androcêntrica, enquanto os processos de construção da paz são mais coletivos, de baixo para cima e liderados por mulheres. Creio que o dia 15 de fevereiro de 2003, quando milhões no mundo inteiro saíram às ruas para dizer “não” a uma guerra, foi um acontecimento incomparável que ainda não conseguimos avaliar corretamente. Jamais isto tinha acontecido na história da humanidade! Então, há um movimento social pela paz inequívoco, que acontece ao mesmo tempo em que emergem novas formas de violência. É claro que os nossos condicionamentos por uma cultura de violência possuem força. Aprendemos a violência desde as cantigas infantis – “sambalelê precisava é de umas boas lambadas!” – até os rituais do cotidiano (a entrada de um escritor na Academia Brasileira de Letras é ritualizada pela entrega de uma espada!), passando por elementos diversos, como os nomes de ruas, onde as batalhas e os atos violentos merecem registro. A violência é mais profunda em nós do que imaginamos, do ponto de vista cultural. Entre nós, católicos, a paz não terá se reduzido a uma dimensão espiritualista e individualista demais a despeito de um compromisso de educação social interativa para a paz? A visão bíblica de paz é mais coletiva e pública. “Shalom”, paz em hebraico, tem uma conotação social: implica saúde, felicidade, pão na mesa, terra para todo mundo etc. No seu progredir histórico, os - Jan/Fev 2006

“A violência é mais profunda em nós do que imaginamos”. “Shalom, paz em hebraico, implica saúde, felicidade, pão na mesa, terra para todos”. “A paz é um esforço coletivo; mais do que uma idéia ou uma mensagem”.
cristãos foram encontrando outras visões de paz e se deixando influenciar, como a visão romana, mais centrada na segurança e na força (paz romana era o nome do exército romano!), ou como a visão estóica, enfocando a serenidade e a tranqüilidade da alma. Talvez seja esta a tragédia do cristianismo: ter perdido esta visão cósmica e ter se contentado em trocar “o novo céu e a nova terra” do Apocalipse pelo “salva tua alma”. Estou apenas enfatizando a necessidade de não ficarmos apenas restritos à dimensão intimista. Quais as iniciativas em favor da justiça e da paz que merecem destaque hoje? Embora sejamos expostos às mais diversas faces da violência, o fato é que estamos vivendo um período de muito interesse, criatividade e empenho na luta pela paz. Em todos os cantos do mundo, protagonizadas por pequenos grupos ou por grandes instituições, multiplicam-se iniciativas de toda a ordem. Lembremos, em primeiro lugar, os que lutam contra toda forma de armamentismo: o movimento pela abolição das armas nucleares, a campanha contra as minas terrestres, a rede contra as armas leves, a coalizão pelo fim das crianças-soldado, os esforços pela redução e eliminação das armas químicas e biológicas,
Jaime C. Patias

as campanhas pelo desarmamento, enfim, os que insistem em se contrapor ao poderio da indústria bélica e desejam acabar com o escândalo de gastarmos 25 mil dólares por segundo em armas. Não esqueçamos os milhares de educadores que, nas escolas e fora delas, protagonizam esforços de educação para a paz, tais como a década para uma cultura de paz e não-violência para as crianças do mundo, a campanha mundial para incluir educação para a paz no currículo escolar, a campanha contra brinquedos de guerra e a capacitação dos jovens para atuarem pela paz e resolverem conflitos de forma não-violenta. Tenhamos presente, também, todos os que se empenham na resolução das diversas situações de conflito no mundo e manifestam solidariedade com o povo do Timor, Chiapas, Colômbia, Oriente Médio etc. Todo este movimento pela paz nos ensina que ela, mais do que a inexistência de guerras, é a afirmação da justiça; mais do que um estado, é uma construção; mais do que um atributo individual, é um esforço coletivo; mais do que uma idéia ou uma mensagem, é uma agenda e uma pauta que pedem um engajamento e um compromisso. Como os meios de comunicação podem contribuir mais para uma cultura de paz? Os meios de comunicação têm uma ambigüidade que toda instituição e toda pessoa tem. Os meios de comunicação não são diferentes das igrejas, por exemplo, que ao mesmo tempo que anunciam a paz, apresentam também elementos de intolerância. Ou como a família que possui elementos fundamentais de socialização, mas que também produz cultura de violência, quando diz: “Olha, meu filho, apanhou, bateu…”; “Em briga de marido e mulher ninguém mete a colher”. Tais afirmações mostram essa ambigüidade, de forma que os meios de comunicação não fogem a essa regra humana. Um adolescente de 14 anos já assistiu a 11 mil assassinatos pela TV, e isso contribui um pouco para a questão da banalização da violência como mais um ingrediente do cotidiano. Precisamos mudar isso, e precisamos mudar discutindo o papel dos meios de comunicação na produção da cultura de paz. Nunca existiram tantos grupos trabalhando pela não-violência e pela paz. Mas isso não veicula com força na publicidade - está aí o papel fundamental da mídia. O seu papel seria de veicular aquilo que o papa João Paulo II chamou, em uma de suas mensagens para o Dia Mundial da Paz, de “visões de paz”. 

Marcha Pela Paz, Av. Paulista, SP.

Joaquim Gonçalves é missionário e membro da Comissão Justiça e Paz.

27

Seca na Amazô
de Ricardo Castro

amazônia

questão para uma teolo

M

uito se falou ao longo dos últimos meses sobre a devastadora seca que atingiu algumas áreas da Amazônia. Além do terrível destino que se abateu sobre milhares de espécies de peixes e animais, o sofrimento humano não foi menor. A prática teológica de nosso tempo se alimenta de um constante olhar sobre a história e seus eventos, tanto cotidianos como extraordinários. Nossa pretensão neste momento é refletir à luz da fé, sobre esta seca peculiar. Um acontecimento que para muitos não passa de um fenômeno normal nos ciclos de vida da natureza, ou um sinal de alerta planetário com relação ao meio ambiente? Nossa pretensão não é responder tais questões a partir de uma análise científica. Estes aspectos já foram bem articulados nos meios de comunicação e nas revistas especializadas. Nosso enfoque parte daquilo que sentimos ser o papel fundamental de quem crê, refletir criticamente sobre a história e criar atitudes e práticas que motivem nossa luta em movimentos, redes e comunidades de fé, em favor da vida.

Incêndios e desmatamentos agravam a situação da seca na Amazônia.

Distanciamento da terra

Nosso processo evolutivo passa de uma total dependência da terra para uma busca de compreensão e conquista do meio ambiente. A dependência da terra e de seus fenômenos nos levou a uma relação de temor para com a natureza. Mesmo nossos deuses, rituais e mitos religiosos brotavam das forças da natureza e do cosmos. Essa percepção nos fez tribais, cíclicos e nômades, compreendendo nossa transitoriedade, morte e ressurreição, exuberância e decadência. O distanciamento e o estranhamento para

com a terra e a natureza aumentou com a imposição da supremacia da mente e da razão, fragmentando e destruindo o próprio meio ambiente. A ruptura do contato com a terra cria o divórcio entre mente e corpo, que gera uma deteriorização progressiva das capacidades humanas, tais como percepção, discernimento e criatividade. A tecnologia embrutece nossos sentidos, incapacitando-nos para compreender e interpretar corretamente a realidade. O que vemos são imagens distorcidas, produzidas pelas câmaras fotográfica ou televisiva, pelos frigoríficos, comidas rápidas e materiais industrializados. O progresso e o afastamento das pessoas do contato com a terra se torna real nas estruturas econômicas e políticas e começa a se tornar perceptível nos níveis de poluição, na devastação da floresta para fins do agronegócio, doenças incuráveis e por fim, na seca da Amazônia. Como ler

este fenômeno? Estamos diante do início do fim do planeta ou ainda temos tempo de repensar e recriar nossa relação com este mundo? Para algumas leituras religiosas esse é um momento apocalíptico, predito nas suas interpretações de textos sagrados. Para uma leitura teológica mais sóbria, estes fenômenos são um kairós, uma crise que quer dizer momento de escolha, momento de reconciliação, de cura, de tecer novas relações, de descobrir caminhos alternativos. Aprendemos com as práticas populares que grandes transformações começam com gestos cotidianos que constróem uma nova sociedade. Salvar os rios, os peixes e a vida aquática certamente depende de políticas nacionais e compromissos internacionais, depende de leis rigorosas que punam indústrias e projetos multimilionários que poluem os rios e as águas. Contudo, todas estas Jan/Fev 2006 -

28

ônia
Angelo Costalonga

ogia ecológica
políticas somente se tornam eficazes na medida em que mudamos nossa mentalidade e atitudes de consumo, exploração e relação com a natureza. Devemos ser a mudança que queremos fazer. Nosso consumo diário deve ser coerente com as lutas pela defesa e preservação da vida natural.

O fenômeno da seca na região amazônica suscita uma leitura teológica, já que está cercado de elementos míticos e ecológicos.

Resgate dos símbolos

Nas culturas tradicionais dos povos se fez uso por um longo período dos símbolos e ritos para inserir um membro da comunidade nas complexas relações sociais, espirituais e naturais. Esses símbolos e mitos estavam estreitamente ligados ao contexto, à terra em que se vivia, fonte primeira de sustento e orientação social. No contexto amazônico não é diferente, rios e águas são os símbolos básicos de inserção na vida complexa desta teia de relações e biodiversidade. Estamos apenas começando a aprender a natureza amazônica e seu entrelace de vida. Hoje, mais que nunca, precisamos assimilar e inserir em nossas práticas de vida estas lições. A Amazônia com sua complexidade é uma grande parábola para as diversas relações, que somos chamados como humanidade, a construir ao longo de nossa jornada. Vejamos um exemplo deste poder simbólico das águas, rios e florestas: Em uma tribo da Amazônia, uma índia, grávida de Boiúna (cobra grande, sucuri), deu à luz a duas crianças gêmeas, que na verdade eram cobras. Um menino, que recebeu o nome de Honorato ou Nonato, e uma menina, chamada Maria Caninana. Para ficar livre dos filhos, a mãe jogou as duas crianças no rio. Lá, como cobras, se criaram. Honorato era bom, mas sua irmã era muito perversa. Prejudicava os outros animais e também as pessoas. Eram tantas as maldades praticadas por ela, que o irmão acabou por matá-la. Honorato, em algumas noites de luar, perdia o seu encanto e adquiria a forma humana, transformando-se em - Jan/Fev 2006

um belo rapaz, deixando as águas para levar uma vida normal na terra. Para que se quebrasse o encanto de Honorato era preciso que alguém tivesse muita coragem para derramar leite na boca de Boiúna e fazer um ferimento em sua cabeça até sair sangue. Ninguém tinha coragem de enfrentar o enorme monstro. Até que um dia um soldado conseguiu libertar Honorato da maldição. Ele deixou de ser cobra d’água para viver na terra com sua família. Em nossa região, as serpentes tornaram-se seres sobrenaturais e formam um conjunto de imagens conflituosas: ora inspiram proteção, ajuda; ora escancaram o medo, a angústia. Observamos pela narrativa que é exatamente esse sentimento que transparece na história de Honorato; um sentimento que é também uma crença, já que nosso sentir expressa nossa fé, ou melhor, nossa capacidade de acreditar. Na passagem que narra a metamorfose de Honorato, na qual ele aparece ora bicho, ora homem, percebemos uma intrigante metáfora que retrata muito bem a vida de nosso ribeirinho, o homem-réptil; ele oscila entre viver fincado na terra úmida ou misturado, engolido e inebriado pelas correntezas dos rios. A água-terra-natureza fica entranhada na pele, na alma, na fé desse homem. Ser cobra ou ser gente tanto faz, são símbolos de uma mesma vida. Ainteração permanente do amazonense com as águas gerou a chamada civilização ribeirinha, na qual os rios, lagos, igarapés e igapós são fontes da vida, da morte e do imaginário regional. São caminhos, referências e habitat naturais dos que vivem ou viveram, durante séculos, às margens do grande rio Amazonas e de seus inumeráveis tributários, herança cultural que recebemos de nossos ancestrais indígenas e portugueses. Mas a relação do caboclo com os rios não é apenas uma conjunção física e conjuntural, vai muito além do campo material, é sensível e presente. Nunca suas histórias são contadas no tempo passado,

são presentes como se estivessem acontecendo naquele momento, ali mesmo. Nos mitos e símbolos da Amazônia, rios e águas são fontes de vida e morte, devem ser reverenciados, temidos e com estes se deve tecer uma relação amorosa e afetiva. Todavia, as grandes migrações ribeirinhas e indígenas para as cidades, a poluição dos rios pelas embarcações e pelas indústrias da Zona Franca de Manaus, matam não somente rios e peixes, mas a alma do amazonense.

Leitura teológica

É importante construir este caminho reflexivo a partir de alguns pressupostos: resgatar a relação humanidade-terra, terra sagrada que somos todos, dom de Deus. Tal relação se dará principalmente na compreensão, valorização e resgate de nossa identidade religiosa indígena e afro. Com a cultura cabocla ribeirinha temos que aprender a nos tornarmos uma sociedade sustentável, ou seja, que produz o suficiente para si e para os seres dos ecossistemas onde se situa; que toma da natureza somente o que ela pode repor; que mostra um sentido de solidariedade generacional ao preservar para as sociedades futuras os recursos naturais de que precisarão. Com as populações da periferia da cidade que se organizam em movimentos, partidos, pastorais sociais, temos que lutar juntos pela superação da lógica do capital, de sistemas econômicos que olham somente para o lucro e não para a humanidade e para o planeta. Nas nossas expressões religiosas, espirituais, celebrativas e místicas temos que valorizar as formas mitológicas de nosso povo, os rituais que nos ajudam na valorização do corpo e da terra, que nos lembrem constantemente o valor sagrado de todos os tipos de vida e de nossa dependência da terra e dos outros seres. 

Ricardo Castro é sacerdote e professor doutor em Teologia Dogmática.

29

Brasília 44ª Assembléia Geral da CNBB

VOLTA AO BRASIL

A Evangelização da Juventude será o tema central da 44ª Assembléia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), em maio de 2006. “Não existem dúvidas sobre a importância de uma intensa e eficaz evangelização dos jovens: deles, depende o futuro da vida e da missão da Igreja. A evangelização da juventude é importante principalmente porque eles têm o direito de se encontrar com Jesus Cristo e receber o seu Evangelho”, é o que afirma Dom Odilo Pedro Scherer, Secretário-Geral da CNBB, explicando porque a 44ª Assembléia Geral da entidade, entre os dias 9 e 17 de maio, terá como centro dos trabalhos a prioridade da “Evangelização da Juventude: desafios e perspectivas pastorais”. Faz-se necessário colocar em discussão os métodos aplicados, as propostas de envolvimento em iniciativas eclesiásticas, e os espaços reservados à juventude nos programas de evangelização e pastoral, que se revelaram insuficientes. “As iniciativas de evangelização da juventude - afirma o Secretário da CNBB - já existentes, são frequentemente dirigidas a pequenos grupos, e não alcançam a maioria dos jovens. A juventude é a fase da vida que merece uma atenção especial por parte das iniciativas missionárias. A preocupação com os jovens que freqüentam a Igreja, e seu envolvimento em atividades da vida eclesiástica e social é uma coisa boa, mas não se pode ignorar os numerosos jovens batizados que vivem distantes da fé e da vida eclesial”.

e às antigas oligarquias rurais do país”, afirma Saulo Feitosa, vice-presidente do Cimi. Feitosa lembra que existe no Senado Federal uma proposta de emenda constitucional que propõe limitar a extensão de terras indígenas por estado brasileiro, de autoria do senador Mozarildo Cavalcanti, que tem histórica atuação contra a demarcação de terras indígenas. Mércio Gomes chega a afirmar que o Brasil deveria servir de exemplo para outros países. “Retiramos terras indígenas de fazendeiros que estavam ali havia duas gerações. Quem mais faz isso?” Simplesmente ignora os direitos originários dos indígenas às terras que, tradicionalmente, ocupam, garantidos pela Constituição Federal de 1988.

Florianópolis 15º Congresso Eucarístico Nacional

Goiás Inculturação da Liturgia e Povos Indígenas

Florianópolis foi a cidade escolhida pela CNBB para sediar o 15º Congresso Eucarístico Nacional e prepara-se para ser, de 18 a 21 de maio de 2006, o altar do Brasil. Cerca de 100 mil peregrinos deverão visitar a capital catarinense e participar deste importante evento. Um Congresso Eucarístico é uma demonstração publica de fé pessoal: “Anunciamos sua morte e proclamamos sua ressurreição! Vinde, Senhor Jesus!” Desse modo, reafirma-se a certeza de vida eterna para além dos horizontes da história! A partir dessa profissão explícita de fé na Eucaristia, o Congresso Eucarístico busca as conseqüências práticas de gesto tão sublime! “Adorareis o Senhor em espírito e verdade”. Durante quatro dias, grandes concentrações populares, shows artísticos e culturais, além do Congresso Teológico irão movimentar a cidade.

Entre os dias 17 e 19 de março, ocorrerá o IV Seminário sobre Inculturação da Liturgia no Meio dos Povos Indígenas, com o tema “Símbolos cristãos e símbolos nas culturas indígenas: caminhos e perspectivas de inculturação”. O evento será realizado em Luziânia, Goiás. Destina-se a pessoas que atuam nas comunidades indígenas, pessoas que animam a pastoral no meio dos índios, pastoralistas, liturgistas, teólogos, antropólogos, entre outros. As inscrições vão até 1º de março. Informações: nacional@cimi. org.br ou liturgia@cnbb.org.br ou pelos telefones: (61) 2106-1650/2103-8300.

Brasília Frei Galvão pode ser primeiro santo brasileiro

Brasília Direito dos indígenas à terra

Segundo a agência de notícias Reuters, o presidente da Fundação Nacional do Índio (Funai), Mércio Pereira Gomes, teria questionado o direito dos indígenas às terras que tradicionalmente ocupam. “É terra demais”, teria dito ele. “Até agora, não há limites para suas reivindicações fundiárias, mas estamos chegando a um ponto em que o Supremo Tribunal Federal terá de definir um limite”, disse Gomes. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) rechaça essas declarações. A imposição de limites para a demarcação das terras indígenas no país, é uma das reivindicações antigas dos setores antiindígenas. “Isso revela o atrelamento de Mércio Gomes e do governo Lula ao agronegócio

Médicos legistas da Itália reconheceram oficialmente a cura de um doente, que seria o segundo milagre atribuído ao Frei Antônio de Sant’Anna Galvão. Com isso, o religioso deve se tornar o primeiro santo nascido no Brasil - a primeira santa nacional é Madre Paulina, que nasceu na Itália e trabalhou aqui. A informação foi divulgada ontem, mas o milagre será mantido em sigilo até que seja confirmada a canonização. Para isso, faltam as assinaturas de teólogos, cardeais e do Papa Bento XVI. Segundo irmã Claudia Hodecker, que trabalha no processo, a resolução pode levar três meses. A postuladora da causa, ou seja, a advogada do beato junto ao Vaticano, é irmã Célia Cadorin, a mesma que conseguiu a canonização de Madre Paulina. Nascido em Guaratinguetá, no interior de São Paulo, em 1739, Frei Galvão entrou aos 21 anos para o Noviciado da Ordem dos Frades Franciscanos Menores, no Convento de São Boaventura, no Rio. Depois de ordenado sacerdote, foi transferido para o Convento de São Francisco, em São Paulo. Em 1774, fundou o Recolhimento de Nossa Senhora da Conceição da Divina Providência, hoje Mosteiro da Imaculada Conceição da Luz. É lá que está enterrado o corpo do frei, padroeiro dos arquitetos, e que são distribuídas as pílulas milagrosas dele - pequenos pedaços de papel com orações. 

Fontes: Adital, CNBB.
Jan/Fev 2006 -

30

Campanha de ReConstRução
Missão Surumu, Roraima
A Diocese de Roraima continua com a Campanha de solidariedade e reconstrução da Missão Surumu que foi invadida, saqueada e queimada na madrugada de 17 de setembro de 2005. O ataque foi protagonizado por um grupo de pessoas contrárias a presença da Igreja Católica junto aos povos indígenas e ao direito da terra que lhes é garantido pela Constituição. A Missão Surumu, criada em 1909 é um marco histórico na educação e formação de lideranças, catequistas, professores e auxiliares de enfermagem. Do ano de 1997 para cá tem sido o berço da organização indígena e da luta pela garantia de seus direitos, tornando-se um patrimônio cultural e histórico de referência.

“Queimaram as paredes, mas não destruíram o sonho!”
A Revista Missões apóia a Campanha de Reconstrução da Missão Surumu e convoca os leitores, as comunidades, paróquias, organismos e amigos das missões a participar com coletas e gestos de solidariedade para garantir a continuação da Escola Indígena e do Hospital São Camilo. ENTREGUE SUA DOAÇÃO: No Estado de Roraima: Catedral Cristo Redentor – praça do centro cívico Igreja São João Batista – Av 16 – Bairro Caranã Igreja São Francisco – na rotatória da Av. Capitão Julio Bezerra Igreja Consolata – Av. Villy Roy, próxima a rodoviária Na secretaria da Diaconia Missionária – Rua Arnaldo Nogueira Para o restante do Brasil: Faça o seu depósito na conta: Diocese de Roraima 8848 – x Agência: 2617 – 4 - Banco do Brasil Mais informações: Tels.: (95) 3224 4109 – Boa Vista, RR. (11) 6256 7599 – São Paulo, SP. Email: redacao@revistamissoes.org.br
1) Hospital São Camilo 2) Igreja São José - Missão Surumu 3) Dormitório dos alunos com estrutura para amarrar as redes para dormir.

Colaboração anual R$

Desejo receber MISSÕES
40,00

 por BOLETO BANCÁRIO  por CHEQUE NOMINAL E CRUZADO

Novo/a leitor/a

Renovação

Quantidade

 por DEPÓSITO BANCÁRIO pelo Banco Bradesco, agência 0545-2 c/c 38163-2.

Tabela de preços

01 assinatura 02 a 09 assinaturas 10 ou mais assinaturas

R$ 40,00 R$ 35,00 cada assinatura R$ 30,00 cada assinatura

A Revista Missões publica 10 edições no ano. Nos meses de Jan/Fev e Jul/Ago a edição é bimensal.

TELEFAX.: (11) 6256.8820

PREENCHA, RECORTE E ENVIE JÁ o cupom pelo correio. Rua Dom Domingos de Silos, 110 - 02526-030 - São Paulo

Nome: ...................................................................................................................... Endereço: ................................................................................................................ Cidade: ......................................................................... UF: ................................

CEP: .............................................................................. Telefone: ......................... E-mail: ....................................................................................................................

ORAÇÃO DA CAMPANHA DA FRATERNIDADE 2006 Ó Pai de misericórdia, nós vos louvamos e agradecemos porque, pela morte e ressurreição de vosso Filho e pela ação do Espírito Santo, nos reconciliais convosco e entre nós. Abri nossos olhos para reconhecermos em cada ser humano a dignidade de filhos benditos vossos. Convertei nosso coração para acolhermos a todos com amor fraterno, de maneira especial as pessoas com deficiência. Ajudai-nos a promover a autonomia e a plena realização desses nossos irmãos e irmãs, na família, na sociedade e na Igreja. Ensinai-nos que o segredo da felicidade está em fazer o bem e em partilhar alegrias e sofrimentos. Tornai-nos solidários em relação às pessoas com deficiência: que elas ocupem o centro de nossas atenções. Ao lado delas estaremos mais perto de Vós e receberemos muito mais do que oferecemos. Ó Maria, Mãe querida, Jesus nos confiou a Vós como filhos e filhas. Confortai os que se dedicam com amor àqueles que um dia, felizes, nos receberão na casa do Pai. Amém!

You're Reading a Free Preview

Descarregar
scribd
/*********** DO NOT ALTER ANYTHING BELOW THIS LINE ! ************/ var s_code=s.t();if(s_code)document.write(s_code)//-->