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Retrospectiva Estadão - 2003

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O ESTADO DE S. PAULO
QUARTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2003

2004
Desafios
N
a política, 2004 reserva um grande teste e um enorme desafio para o governo. O teste serão as primeiras eleições municipais com o PT no poder, cujos resultados vão balizar a avaliação desta administração. O desafio fica por conta da quesMercado eufórico com o Brasil tão social, que ainda não apresentou os avanços prometidos na camFome: com os dias contados? panha eleitoral. Nos últimos 12 meses, ficou evidente o contraste entre a euforia do mercado financeiro e a dura realidade dos indicadores de desemprego e renda. O ano novo traz esperanças de que a economia real comece a viver dias melhores. No ano em que o real completará dez anos, a economia poderá crescer graças à redução dos juros e ampliação do crédito.

2003
Festa no campo: safra recorde

Pode não ser um espetáculo, mas uma expansão de 3,5% ou mais significa o fim da estagnação. No cenário internacional, os bons ventos ajudam: o crescimento dos Estados Unidos pode ser quase duas vezes maior do que os 3% de 2003. Na Europa, que encerra o ano com expansão de apenas 0,5% – o pior resultado desde a recessão de 1993 – o clima também é de otimismo. Bom sinal para os produtos brasileiros de exportação, especialmente os agrícolas, que viveram dias de glória no ano que se encerra.

Memória

Foi o ano da guerra. Os Estados Unidos mostraram ao mundo que podiam derrubar o ditador Saddam Hussein. Mas foi mais fácil derrubar Saddam do que administrar a situação no Iraque, onde acabou sendo vítima de atentado o embaixador Explosão do VLS em Alcântara Sergio Vieira de Mello. Atentados e ataques suicidas se sucederam em várias regiões do Soldado americano em Bagdá mundo. Bush, vitorioso no Iraque, tentou o Mapa da Paz no Oriente Médio. Ficou na tentativa. A guerra no Iraque mudou as relações entre os países. Só não teve o impacto que se previa na economia mundial. No Brasil, esperou-se o espetáculo do crescimento econômico, anunciado para o segundo semestre. Não chegou. Não faltaram no País violência urbana e escândalos de corrupção. Juí-

zes foram assassinados. Policiais e um juiz foram presos. Foi um ano de luto para a exploração espacial. Os Estados Unidos perderam o ônibus espacial Columbia, com sete astronautas. O Brasil perdeu o terceiro protótipo do foguete VLS e 21 técnicos altamente especializados na Base de Alcântara. Mas o País brilhou nos esportes. Teve sua melhor performance em Jogos Pan-Americanos. Foi campeão mundial no vôlei e viu Daiane dos Santos ganhar a 1.ª medalha de ouro da ginástica brasileira no solo.

Daiane dos Santos e a medalha

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QUARTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2003

2003/ 2004

Eleições municipais, em outubro, vão avaliar atuação do presidente e eficácia de seu governo
ANA PAULA SCINOCCA, CIDA FONTES e ELIZABETH LOPES

O PRIMEIRO TESTE DO GOVERNO LULA

DESAFIO: AS CAMPANHAS NACIONAIS

s maiores desafios políticos do governo Lula em 2004, após a aprovação das reformas e a consolidação do ajuste fiscal, estarão fora do Congresso. A sociedade vai cobrar os resultados da tão anunciada recuperação da economia, com crescimento e geração de empregos, além de investimentos na área social. E o desempenho do segundo ano da administração será fundamental no primeiro teste eleitoral do governo, com as eleições municipais em outubro. A estratégia do PT é eleger mais de 400 prefeitos para se tornar um partido mais robusto e competitivo e se manter no poder em 2006, nas próximas eleições presidenciais. Por enquanto, na opinião do cientista político e professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) Fábio Wanderley Reis, o partido ainda está em fase de aprendizado. Reis elogia a atuação ortodoxa na economia, mas adverte que será preciso conciliar essa preocupação com a agenda social. Essa é uma marca, lembra ele, que levou o partido ao comando do País. “Agora, o PT tem de fazer isso (buscar resultados na macroeconomia) sem Marta comemora chegada do PT à Presidência, em 2002: reeleição da prefeita será estratégica para próxima campanha presidencial abandonar o que deu marção de José empregos e investir neste ano. nia, com o deputado Luiz Bit- dou na sua base política”, disse o deputado Paulo Rocha (PTca ao partido. Serra para o Isso se reverteria em votos. “A tencourt, do PMDB. SP). Um tema polêmico é a reeO grande desacomando do economia ainda não está com fio será o própartido, justa- musculatura suficiente para Reformas – O presidente do leição dos presidentes da Câmaprio PT manmente o adver- correr uma maratona”, provo- PT, José Genoino, já está atuan- ra e Senado, que desagrada ao ter a fidelidasário de Lula ca o deputado tucano Eduardo do nos bastidores para evitar PT e aos demais partidos. A data do envio das reforde aos objetina sucessão Paes (RJ), certo de que o gover- disputas internas e, em seguivos”, diz. presidencial. no agirá com cautela na econo- da, tentará ampliar a aliança mas trabalhista e sindical é ouEnquanto o Uma referên- mia para não pôr em risco a ree- com os partidos aliados. “Se tro tema sem convergência. houver guerra local, vamos evi- Uma idéia é cuidar da parte sinPT pretende cia nacional, leição de Lula em 2006. se firmar poliSerra pode Para enfrentar o PSDB e o tar que respingue na aliança na- dical neste ano, deixando os diticamente no dar novo ru- PFL nas urnas e se aproximar cional”, diz ele, ressaltando que reitos trabalhistas para depois. segundo ano mo ao PSDB, mais do centro político, o PT as alianças só serão discutidas Outra é deixar tudo para 2005. Fábio Wanderley Reis Outros projetos, como o marde governo, a a d o t a n d o vai pegar carona no PMDB, de- no primeiro semestre deste ano. Paralelamente às alianças co regulatório e lei de falências, oposição tenuma conduta tentor da mais poderosa máquitará mostrar que ainda é alter- mais crítica e consistente. na partidária e que a partir des- eleitorais, o Congresso terá têm interesses na economia, nativa de poder. Acuado pelo “Mesmo com erros, o gover- te mês deve participar do pri- uma agenda menos traumática mas não geram confrontos indiscurso pró-reformas que teve no Lula ainda é uma alternati- meiro escalão. Poderão ocorrer e trabalhosa em 2004. A discus- ternos. “Será um ano politicade assumir em 2003, o PSDB va melhor do que o retorno do acordos eleitorais como uma do- são da reforma política estará mente melhor e o governo terá promete sair desse embaraço PSDB e PFL ao poder”, diz o lí- bradinha PT/PMDB para a ree- concentrada na Câmara, mas condições de fazer realizações”, para assumir um comporta- der do governo na Câmara, Al- leição da prefeita Marta Su- só entrará em vigor em 2006. prevê o vice-líder do governo mento mais oposicionista. En- do Rebelo (PC do B). Ele acha plicy, ou uma chapa do petista “Nada será feito para pôr em na Câmara, Renildo Calheiros tra o ano revigorado com a elei- que o governo conseguirá gerar Pedro Wilson, prefeito de Goiâ- risco o que o governo consoli- (PC do B-PE).

O

O PT tem de buscar resultados na economia sem abandonar o que deu marca ao partido

Tanto o governo como a oposição estão se preparando para a nacionalização das campanhas municipais, principalmente nas capitais e grandes cidades. O presidente do PSDB, José Serra, já anunciou que o partido levará para as eleições os grandes temas nacionais, como o desempenho da economia e os investimentos do governo na área social. Os líderes petistas dizem já esperar por isso e um dos objetivos da campanha será fazer a defesa do governo Lula e apostar na recuperação econômica. O deputado Professor Luizinho (PT-SP), um dos vice-líderes do governo, acha que, se os índices sociais melhorarem, espera-se um bom desempenho eleitoral do PT. “Então para nós não será ruim nacionalizar a campanha”, avalia. O presidente do PT, José Genoino, não gosta de falar em números, mas o objetivo do PT é eleger 16 prefeitos de capitais, duplicando a presença do partido nessas cidades. Nas eleições passadas, o PT elegeu 187 prefeitos, a maioria nos grandes centros urbanos, com estimativa de 12 milhões de votos. Hoje, o partido administra 192 cidades. Já a idéia dos tucanos é consolidar a presença nos Estados governados pelo partido, seus principais núcleos políticos, como São Paulo e Minas. Um dos maiores embates entre tucanos e petistas será em São Paulo. O comando nacional do PT investirá pesado para desbancar o PSDB, que, em 2000, obteve o maior número de prefeituras no Estado: 179. Para o PT será fundamental reeleger a prefeita da capital, Marta Suplicy. O PSDB ainda não tem um candidato competitivo para enfrentar Marta. Com a recusa de Serra, os tucanos deverão sair com um nome vinculado ao governador Geraldo Alckmin. Além disso, devem buscar uma aliança forte já no primeiro turno, uma estratégia que será adotada também no interior paulista. (C.F., A.P.S. e E.L.)

Para a especialista Fátima Pacheco Jordão, o eleitor buscará renovação em 2004
s eleições municipais de 2004 serão uma das mais disputadas dos últimos tempos e as forças que derivarem do pleito deverão pavimentar o caminho das próximas eleições presidenciais. Um dos principais palcos será a capital paulista. O PT joga todas as fichas para garantir a reeleição da atual prefeita, Marta Suplicy, e a oposição – capitaneada pelo PSDB do governador Geraldo Alckmin – aposta nas alianças para vencer no maior colégio eleitoral do País. Segundo a socióloga e analista de pesquisas eleitorais Fátima Pacheco Jordão, apesar da importância do pleito, só um terço do eleitorado sabe hoje em quem votará para prefeito. “O quadro está totalmente indefinido”, afirma Fátima. De acordo com ela, uma das novidades nessas eleições é que, ao lado da honestidade e da probidade administrativa dos candidatos, a renovação é considerada essencial. “O novo terá muitas chances e não assusta mais”, aposta. A seguir, a entrevista. Estado – Qual o peso do desempenho do governo fe-

A

deral no próximo pleito municipal? Fátima Pacheco Jordão – Vai ser menor do que se pensa. Menor do que o PSDB tem esperança que seja, em termos de mau desempenho. E mesmo que vá muito bem, como deseja o PT, não será tão decisivo. O que vai decidir de fato é a performance dos atuais prefeitos e a maneira como irão propor o futuro da cidade. Os problemas locais são os problemas reais. E os eleitores querem soluções bastantes concretas para a cidade onde residem. Estado – Como a senhora classifica a proposta do atual presidente do PSDB, José Serra, de federalizar o debate das eleições municipais? Fátima – Acho que não vai funcionar. É uma estratégia equivocada. A federalização não funciona num pleito municipal, pois os debates e os anseios dos eleitores são muito localizados. O que se pode fazer é um background federalizado. Ou seja, utilizar o federal apenas como referência, com o objetivo de discutir os problemas locais. Estado – Qual a importância de São Paulo nessas
3 – Lula recomenda austeridade absoluta aos 34 ministros e secretários nacionais na primeira reunião ministerial. 5 – Dois atentados com homens-bomba palestinos matam 23 pessoas em TelAviv. É o primeiro ataque em Israel desde novembro de 2001. 7 – Henrique Meirelles toma posse na presidência do Banco Central. Ele anuncia que seu principal objetivo será trazer a inflação de volta à meta inicialmente prevista para o ano, que é de 4% com folga de 2,5 pontos porcentuais (6,5%). 8 – Carlos Alberto Parreira é apresentado como novo técnico da seleção brasileira. 9 – A Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) pede ao Brasil esclarecimento oficial sobre as declarações do mi-

‘O NOVO NÃO ASSUSTA MAIS’
dele é muito forte e o Lula está muito bem avaliado pessoalmente nas pesquisas, mais bem avaliado do que sua própria administração, com índice de aprovação em torno dos 70%. Com todo esse carisma, a lógica é que faça um tour pelo País, em apoio a seus candidatos. Apesar de os assuntos serem locais, se o presidente mantiver os mesmos índices de aprovação, certamente vai faEstado – E quais as condi- vorecer seu ções de o PT repetir, no ano partido. que vem, a boa performance das eleições de 2000? Estado – Fátima – O PT entra com as U m a d a s melhores condições possíveis. apostas do Não tenha dúvida disso. Caberá PT é a reeleià oposição encontrar, de um la- ção da prefeido, as alianças necessárias a esse ta Marta Suembate e, de outro, buscar candi- plicy, na cadatos que tenham condições de pital paulisconstruir alternativas locais. A ta. Qual a estratégia que o PT pretende sua análise adotar nesse pleito – de manter do desempenho da prefeita? as atuais prefeituras que admiFátima – A Marta em São nistra e conquistar outras cida- Paulo não está bem avaliada. des estratégicas – está absoluta- Apesar disso, ela tem um estomente correta. Foi essa base que que de votos de 20% a 25%, o deu mais estabilidade à candida- que lhe dá boas chances de estura de Lula à Presidência. tar no segundo turno da disputa. Portanto, ela é uma candiEstado – Apesar do mote data muitíssimo forte. local, qual a importância da figura do presidente Lula Estado – O fato de o PSnesse pleito? DB ainda não ter um candiFátima – A personalidade dato em São Paulo pode preeleições? Fátima – A cidade de São Paulo é muito estratégica porque as forças que se originarem desse pleito deverão pavimentar o caminho das eleições presidenciais de 2006. Caso o PT consiga manter a performance das eleições municipais de 2000 ou até melhorar o desempenho, crescem as condições de reeleição do presidente Lula.

judicar a performance do partido? Fátima – Se o candidato for escolhido como no passado, às vésperas das eleições, isso será uma tragédia. E pode influir negativamente. Estado – A figura do governador Geraldo Alckmin poderá ter alguma influência? Fátima – Pode ter um peso importante, sobretudo porque esse governo tem, na cidade, o que mostrar. O PSDB não está tão desvalido. Mas precisa ter cautela com as indefinições e brigas internas. Outros candidatos da oposição também podem aparecer. Pinotti (José Aristodemo, do PFL) é um deles. Ele aparece com 5 a 6 pontos de intenção de votos nas pesquisas mais recentes. Tuma (senador Romeu Tuma, também do PFL) tem cerca de 10. Erundina (Luiza Erundina, do PSB), nome alternativo, tem entre 12 e 17. O jogo não está ganho como o PT pensa.
R$ 283,2 bilhões, recorde histórico. 15 – Acusado de ligação com o tráfico, o deputado Pinheiro Landim (sem partidoCE) renuncia ao mandato. 16 – O processo de compras e fusões na telefonia é deflagrado com a confirmação da aquisição da Tele Centro-Oeste Celular pela Brasilcel, holding da Portugal Telecom e Telefônica, por R$ 1,408 bilhão. 20 – Líbia é eleita para ocupar a presidência da Comissão de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, sob protestos de ONGs, de Israel e dos EUA. – Acusado de crimes contra a humanidade, o ex-presidente sérvio Milan Milutinovic, de 60 anos, entrega-se ao Tribunal Penal Internacional em Haia, Holanda. – Em quatro dias, chuvas provocam

Jonne Roriz/AE

O que vai decidir de fato é a performance dos atuais prefeitos. Os problemas locais são os problemas reais

Estado – O que o eleitor espera de um candidato nas eleições de 2004? Fátima – A ética e a probidade administrativa ainda são imbatíveis. São qualidades que nunca saem de pauta. O que poderá ocorrer é o foco na questão da Segurança Pública (mesmo as políticas do setor sendo de responsabilidade dos governo estadual e federal). Estado – Além dessas qualidades, o que mais o eleitor espera nessas eleições? Fátima – O eleitorado aposta na renovação. A população aprendeu muito nesse processo e está buscando coisas novas. O novo tem chances nessas eleições e não assusta mais. Estado – Com base nessa análise, pode-se dizer que o pleito municipal de 2004 está totalmente indefinido? Fátima – Sem dúvida. Pesquisas recentes indicam que apenas um terço dos eleitores escolhem espontaneamente algum candidato. Em resumo, o quadro está totalmente indefinido para qualquer candidato. Há tendências, é claro, mas muita coisa pode acontecer até outubro. (A.P.S. e E.L.)
44 mortes em Minas. 21 – BC amplia para 8,5% o teto da inflação de 2003 e realiza primeira intervenção no mercado de câmbio na gestão Meirelles. Mas a cotação sobe 2,11%, para R$ 3,48 – segunda maior do ano. 22 – Copom aumenta a taxa básica de juros, a Selic, de 25% para 25,5% ao ano na primeira reunião no governo Lula. É a maior taxa desde maio de 1999. – O presidente da França, Jacques Chirac, e o chanceler da Alemanha, Gerhard Schroeder, declaram em Paris sua oposição aos planos do presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, de iniciar uma guerra contra o Iraque sem o aval do Conselho de Segurança da ONU. 23 – Holanda ultrapassa os EUA e se

FATOS DO ANO
JANEIRO
1 – Luiz Inácio Lula da Silva toma posse como o 36.º presidente da República em festa popular que reuniu mais de 200 mil pessoas em Brasília. Em seu discurso, pede o controle das “muitas e legítimas ansiedades sociais”, prometendo atendê-las “no momento justo”. Também tomam posse os 27 governadores. – Grupo de cientistas dos EUA e da França mapeia o cromossomo 14, que abriga genes relacionados a mais de 60 doenças.

nistro da Ciência e Tecnologia, Roberto Amaral, que afirmou ser favorável ao desenvolvimento de tecnologia nuclear pelo Brasil, até mesmo a da bomba atômica. – Coréia do Norte anuncia que deixa o Tratado de Não-Proliferação Nuclear. – Acidente com duas composições do metrô de Belo Horizonte deixa 77 feridos. 10 – A governadora Rosinha Matheus (PSB) exonera o presidente do Conselho de Desenvolvimento Industrial do Rio, Rodrigo Silveirinha Corrêa, e afasta três fiscais da Receita Estadual, investigados por extorsão, lavagem de dinheiro e remessa de US$ 30 milhões para o exterior. 11 – Entra em vigor o novo Código Civil. – Morre Júlio Botelho, ex-ponta direita da Portuguesa, Fiorentina e Palmeiras.

– Morre o comediante Jorge Lafond. – Dezesseis pessoas morrem em conseqüência da chuva em Petrópolis, Rio. 12 – Gustavo Kuerten vence o torneio ATP Tour de Auckland, na Austrália. – O ex-ditador Leopoldo Galtieri morre aos 76 anos em Buenos Aires. 13 – O Bradesco anuncia a compra do BBV Banco, controlado pelo grupo espanhol Bilbao Vizcaya, por R$ 2,63 bilhões. 14 – Fiesp anuncia que a indústria paulista encerrou 2002 com queda de 4,44% no nível de emprego, o que representa perda de 69.067 postos de trabalho, mais que o dobro dos 32.437 extintos em 2001. – Arrecadação do governo federal somou, em 2002, R$ 243,005 bilhões. Considerando-se os efeitos da inflação, atingiu

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O ESTADO DE S.PAULO - H3

2003/ 2004

Roberto Castro/AE–1/1/2003

O presidente Fernando Henrique recebe Lula, na rampa do Palácio do Planalto, para lhe passar o cargo
Ed Ferreira/AE–20/6/2003

Ed Ferreira/AE–25/9/2003

CENAS E FRASES

Lula cumprimenta George Bush, no salão oval da Casa Branca

Apesar da polêmica, Lula visitou Fidel Castro em Cuba

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É preciso saber como funciona a caixa-preta desse Poder que se considera intocável
Luiz Inácio Lula da Silva
Wilton Junior/AE–19/11/2003

Lula vai demorar um pouco para notar que pode muito menos do que pensa que pode
Fernando Henrique Cardoso

Em todo o País, idosos esperaram horas na fila para rever benefícios

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Jogar uma galinha é uma ofensa. Seria como se algum homem estivesse falando e se jogasse um veado
Márcio Thomaz Bastos

Berzoini errou um pênalti, marcou um gol contra e no final foi expulso
Joédson Alves/AE–16/12/2003

Walter Pinheiro (PT-BA)

Meu sonho acabou. Sonhei o sonho errado
Fernando Gabeira

Berzoini em busca de recuperação

Eduardo Nicolau/AE–6/8/2003

Dida Sampaio/AE–16/5/2003

Heloísa Helena chora na tribuna: ‘Sou uma mulher livre – e a liberdade ofende’

Contra reforma, servidor quebra vidro do Congresso

Os processos do ministro Celso de Mello: retrato de uma crise

No RS, fazendeiros fazem cavalagada contra desapropriações
torna o país com maior volume de investimentos diretos no Brasil em 2002: US$ 3,35 bilhões. – O 3.º Fórum Social Mundial é aberto em Porto Alegre, com críticas ao Fundo Monetário Internacional, ao Banco Mundial, à Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e à Organização Mundial do Comércio (OMC). Em Davos, na abertura do 33.º Fórum Econômico Mundial, analistas ortodoxos apóiam a política econômica conservadora de Lula. 26 – Lula propõe em Davos a criação de um fundo internacional para combater a miséria e a fome no Terceiro Mundo. 27 – O jogador de vôlei Giba é suspenso depois de exame antidoping constatar consumo de maconha. 28 – A primeira pesquisa após a posse de Lula mostra índices de aprovação inéditos para um presidente no primeiro mês de governo. Segundo o levantamento Sensus/CNT, 78,4% da população acredita que o governo Lula será ótimo ou bom. – Desemprego na Grande São Paulo atingiu em 2002 a segunda pior marca dos últimos 17 anos. A taxa média anual subiu de 17,6% da População Economicamente Ativa (PEA), em 2001, para 19%. – O artista plástico Cícero Dias morre em Paris, aos 95 anos. 30 – Lula lança o programa Fome Zero. – Chuvas fortes causam mais mortes no Sudeste. No Rio, sobe para 35 o número de mortos e, em Minas, para 45. 31 – Chefe da missão de inspetores de ar-

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Grana lavada até eu que sou boba, quero. Eu não quero é lavar grana pra ninguém
Norma Regina Emílio Cunha
Jonne Roriz/AE–10/12/2003

Ronaldo Bernardi/Zero Hora–27/6/2003

A luta camponesa abriga hoje 23 milhões de pessoas. Do outro lado, há 27 mil fazendeiros. Essa é a disputa
João Pedro Stédile
4 – República Federal da Iugoslávia é extinta. Parlamento aprova a Constituição do novo Estado de Sérvia e Montenegro. 5 – O secretário de Estado dos EUA, Colin Powell, apresenta ao Conselho de Segurança da ONU o que considera serem “provas irrefutáveis” de que o regime de Saddam Hussein esconde deliberadamente armas de destruição em massa. 6 – Varig e TAM assinam o protocolo de criação de uma nova companhia aérea, que surgiria a partir da fusão das duas. 7 – Governo eleva a meta de superávit primário, de 3,75% do Produto Interno Bruto (PIB) para 4,25% do PIB. 8 – Morre o ex-diretor-executivo do Jornal do Brasil Manoel Francisco Nascimento Brito, de 80 anos. Ele fi-

Sérgio Gomes ou ‘Sombra’ foi denunciado no caso Celso Daniel
cou no comando do JB por 52 anos. 10 – Lula anuncia o corte de R$ 14 bilhões do Orçamento da União de 2003. – Chirac e o presidente da Rússia, Vladimir Putin, lançam documento contra a guerra ao Iraque. – Morre aos 82 anos o ator José Lewgoy. 11 – EUA anunciam suas propostas para a formação da Alca. Sugerem que cerca de 65% das exportações de bens de consumo e produtos industrializados da América Latina e 56% das de produtos agrícolas fiquem isentas de taxas quando a Alca entrar em vigor, em janeiro de 2005. A proposta recebe críticas no Brasil. 13 – O IPCA, índice que baliza o regime de metas de inflação, subiu 2,25% em janeiro, 0,15 ponto porcentual acima do resultado de dezembro. É a maior inflação em janeiro desde o início do Plano Real. 14 – Hans Blix informa ao Conselho de Segurança da ONU que não encontrou nenhum indício de que o Iraque possua armas de destruição em massa. – IBGE revela que a agroindústria brasileira cresceu 7,9% em 2002, o melhor desempenho em 11 anos. O resultado é bem superior ao da indústria (2,4%). – A ovelha Dolly, primeiro mamífero clonado, é sacrificada, seis anos depois do seu nascimento, por sofrer de uma doença pulmonar incurável. 17 – Em discurso na reabertura dos trabalhos legislativos, Lula propõe ao Congresso uma parceria para a aprovação de seis reformas estruturais: a da Previdên-

mas químicas e biológicas da ONU, Hans Blix, diz que não há evidências capazes de justificar uma guerra contra o Iraque.

FEVEREIRO
1 – O ônibus espacial Columbia explode ao reentrar na atmosfera, a mais de 60 mil metros, matando sete tripulantes. – Sarney é eleito presidente do Senado. Tomam posse senadores e deputados. 2 – Presidente da Câmara, João Paulo Cunha (PT-SP) defende urgência na definição do “ritmo de tramitação” das reformas previdenciária, tributária e política. 3 – Governo dá início, em Guaribas (PI), ao projeto-piloto do Fome Zero. – Venezuela começa a retomar a rotina depois de 63 dias de greve geral.

Dida Sampaio/AE–26/11/2003

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2003/ 2004

DESAFIO É TORNAR ÁREA SOCIAL EFICAZ
Benonias Cardoso/AE

Para especialistas, melhora nos índices depende de crescimento e mais empregos, para que não se repitam os resultados modestos de 2003

JACQUELINE FARID

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ara não repetir em 2004 os resultados modestos de 2003 no campo das políticas públicas, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva terá de tornar mais eficiente seus programas sociais, melhorando a destinação dos recursos para projetos como o Fome Zero. A avaliação é feita por economistas e cientistas políticos, que apontam pouco ou nenhum avanço nessa área no pri- Medíocres – Ainda na avaliação de Gonçalves, o limite para meiro ano de governo. De acordo com eles, a ques- avanços na área social em 2004 tão social no País também pas- estará no cenário macroeconôsa por mudanças na política mico. “Para que a política soeconômica, com mais cresci- cial avance, é preciso renda e mento, geração de empregos e emprego”, anota. “Mas enquaninvestimentos na infra-estrutu- to não houver uma mudança ra, beneficiando diretamente a significativa na política econôpopulação de renda mais bai- mica, a previsão é que haverá xa. “Uma das maiores dificul- resultados cada vez mais medades de direcionar os gastos díocres nas políticas universais, sociais para os mais pobres é o como educação e saúde.” Nesse sentido, o professor pepoder de barganha daqueles que, na verdade, ficam com os de ações como uma “redução recursos”, afirma o cientista po- drástica” dos juros e uma dimilítico Alberto Almeida, coorde- nuição da meta de superávit nador do FGV Opinião (Institu- primário, dando mais fôlego pato de Pesquisa da Fundação Ge- ra investimentos no campo social. “É tecnicamente incompatúlio Vargas). Os especialistas concordam tível imaginar políticas públique educação, emprego, saúde cas com esse superávit primáe desigualdade social são desa- rio”, diz ele, referindo-se à mefios gigantescos para qualquer ta de 4,5% definida pelo goveradministração. Eles também no no início do ano. O economista admitem que as da UFRJ avalia dificuldades na ainda que os proárea são anterioVALIAÇÃO gramas de renda res ao atual gomínima adminisverno. Mesmo asÉ QUE, PARA trados pelo gosim, acham que verno, como o a situação pode AS POLÍTICAS Bolsa Família, ser melhorada são iniciativas em 2004 se foPÚBLICAS, positivas, mas rem superados faz algumas resobstáculos no diO ANO DE salvas. Gonçalrecionamento de ves lembra que recursos. 2003 FOI esses projetos te“Já existe, nesrão de ser avaliase governo e tamPERDIDO dos ao longo do bém no governo próximo ano, peanterior, a clarela sua própria caza de que os recursos podem ser muito melhor racterística de longo prazo. “Os aplicados, mas o obstáculo é po- programas de renda mínima lítico”, observa Almeida. “A ainda estão começando, a parte pressão dos mais ricos, que têm operacional é muito complicalobby poderoso, é muito forte.” da e só daqui a um ano haverá Por isso, entende ele, uma efeitos passíveis de avaliação.” O Fome Zero também está maior conscientização e organização dos mais pobres, que le- no grupo das iniciativas bem-invem a uma exigência de me- tencionadas, na opinião de lhor distribuição dos recursos, Gonçalves, mas acaba esbarrando em problemas que, para ele, ajudará a mudar o quadro. Já o professor titular de Eco- são básicos. “É um projeto muinomia da Universidade Fede- to articulado, mas que não con-

ral do Rio de Janeiro (UFRJ), Reinaldo Gonçalves, recomenda uma estratégia mais clara do governo nos investimentos na infra-estrutura, como transporte e saneamento. Só assim, considera Gonçalves, serão possíveis avanços no campo social. “Há uma falta de estratégia em relação à infra-estrutura, o que torna as coisas sem rumo e compromete também as políticas públicas”, afirma ele.

EM 2004, NOS ÍNDICES, POBREZA MUDA
Em 2004, o Brasil finalmente terá mais dados sobre sua própria pobreza. No início do ano, deverá estar concluído, pelo governo, o trabalho de definição de uma medida oficial de pobreza, segundo destacou o presidente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Eduardo Nunes. Atualmente, a medida da pobreza brasileira está vinculada à renda e a chamada linha de pobreza está abaixo de meio salário mínimo. Segundo Nunes, foi criado um grupo de trabalho no primeiro semestre de 2003, coordenado pela Secretaria de Segurança Alimentar, o IBGE e o Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada (Ipea), para “trabalhar a definição de linha de pobreza”. Nunes explicou que o IBGE já apresentou ao grupo resultados da última Pesquisa Nacional de Amostra Domiciliar (Pnad) e divulgará, até o início do ano, os resultados da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF) 2002/2003. “De posse da POF, vamos construir um conjunto mais amplo, rico e detalhado das características da pobreza no País”, disse Nunes. A tendência é que essa “versão definitiva” da linha da pobreza deixe de ser apenas monetária – vinculada ao salário mínimo – para incluir também informações mais subjetivas, já que a pesquisa da POF acrescentou um questionamento sobre condições de vida que permitem “respostas subjetivas”. Nunes ressalta que a medida oficial de pobreza é importante como “instrumento social de controle das políticas públicas”. Os Estados Unidos, por exemplo, dispõem de uma medida oficial da pobreza há 30 anos. Para o ex-secretário de Acompanhamento Econômico do Ministério da Fazenda, Cláudio Considera, está mais do que na hora de mudar esses critérios. Ele acha que o atual governo não tomou nenhuma atitude para distribuir melhor seus recursos. “Houve um grande sucesso na política econômica, mas na área social todas as expectativas se frustraram.” (J.F.)

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Em Acauã (PI), cidade incluída no Fome Zero, família percorre quilômetros para lavar suas roupas seguiu avançar pelo volume de recursos, que é pífio, e pelo fato de que as instituições do País não estão aparelhadas para efetivar um projeto como esse”, diz o economista. “A avaliação que tenho é que este ano foi perdido para as políticas públicas”, critica o professor. rio da Fazenda, o economista e professor do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), Cláudio Considera, é outro que critica o Fome Zero. Segundo ele, o programa é uma “mera continuidade” do Bolsa Escola. “Nesse caso também não houve avanços e fica uma sensação desagradável para a população de que as coisas estão paradas”, constata o ex-secretário. “O governo está patinando muito nesse programa.” Por isso mesmo, o professor demonstra pouco otimismo quanto ao resultado dessas políticas em 2004. “A impressão é que eles (o governo) vão levar muito tempo ainda para aprender a conduzir as políticas públicas”, diz Considera. Para ele, mais do que a falta de avanços nessa área em 2003, “houve alguns recuos importantes” no primeiro ano do atual governo.

Patinando – Também cético, o ex-secretário de Acompanhamento Econômico do Ministé-

‘POBREZA SÓ SE COMBATE COM CRESCIMENTO’
Ex-presidente do IBGE, Sérgio Besserman diz que o mais importante é garantir estabilidade
s políticas compensatórias do governo podem ajudar no combate à indigência, mas pobreza só se combate mesmo com crescimento, emprego e redução das desigualdades. Esta é a avaliação do economista Sérgio Besserman Vianna, que presidiu o IBGE entre 1999 e 2003. Nesses quatro anos, ele acompanhou de perto os avanços e deficiências das políticas públicas brasileiras e não tem dúvida sobre qual é a mais importante delas. “O essencial é garantir a estabilidade para que ocorram o crescimento e, depois, os investimentos.” De qualquer forma, ele não acredita que as políticas públicas sejam suficientes para enfrentar a pobreza. “É uma ilusão achar que isso muda de cima para baixo. É preciso mudar o grau de consciência, cultura e mobilização do povo.” Estado – Que falhas nas políticas públicas do País têm
cia, a tributária, a trabalhista, a política, a agrária e a do sistema financeiro. – Suspeito de liderar esquema que grampeou mais de 300 telefones na Bahia, Antônio Carlos Magalhães (PFL-BA) renuncia à indicação para presidir Comissão de Constituição e Justiça do Senado. – O Brasil decide se alinhar de forma clara às nações que defendem o desarmamento do Iraque de forma pacífica. 18 – O MST indica 10 dos 20 novos superintendentes do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). – Um incêndio no metrô de Daegu, Coréia do Sul, deixa 134 mortos e 99 desaparecidos. O responsável foi um homem com problemas mentais, que utilizou uma bomba de fabricação caseira.

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impedido a redução da desigualdade social? Sérgio Besserman – É muito importante distinguir com qual problema estamos querendo lidar. E tem havido muita confusão. Fome é um problema localizado no semi-árido e em alguns bolsões de pobreza dispersos pelo Brasil. É um problema de 2 milhões a 3 milhões de famílias, no máximo. Estamos falando de 8 a 12 milhões de pessoas, talvez até menos. Indigência é outro problema e a pobreza, um terceiro fenômeno. Então, as políticas públicas são necessariamente diferentes. Estado – Mas 8 a 12 milhões de pessoas é um número muito expressivo... Besserman – Com toda certeza e isso merece toda atenção. Não estou diminuindo o problema, mas ele não diz respeito a 50 milhões de pessoas. E tem uma localização regional clara. Estado – Essa confusão de conceitos foi inaugurada no governo Lula? Besserman – Não, acho que houve uma confusão por causa da precipitação. Há excelentes
– Governo venezuelano e a oposição firmam um acordo pelo fim da violência social e política no país. 19 – Copom decide elevar a taxa Selic de 25,5% para 26,5% ao ano. É a maior taxa desde maio de 1999. Também aumenta a alíquota do depósito compulsório sobre os depósitos à vista de 45% para 60%, retirando R$ 8 bilhões de circulação. – O estudante marroquino Mounir el Motassadeq, de 28 anos, torna-se o primeiro condenado no mundo pelos atentados de 11 de setembro de 2001 nos EUA. Corte alemã sentencia o estudante a 15 anos de prisão, considerando-o culpado de apoiar a célula local da rede terrorista Al-Qaeda. 20 – A polícia política do governo venezuelano prende Carlos Fernández, presi-

técnicos no governo que podem definir essas diferenças conceituais. Acredito que a política pública adotada para combater a indigência é a política mínima mesmo. No fundo, cadastro, bolsa de alimentação ou bolsa-escola são todos programas de renda mínima com exigência de contrapartida. Já a pobreza você só combate com crescimento, emprego e o enfrentamento de uma outra questão bem distinta, que é a desigualdade. A desigualdade em si é um imenso problema para o Brasil. Ela foi gerada por séculos de história, é estrutural. Então o combate à desigualdade passa por desconstruir seus instrumentos de reprodução, o que é uma tarefa muito difícil. Quem transforma essa situação é o próprio povo mobilizado e organizado. É através de uma distribuição mais igualitária de informação e conhecimento, da democracia, que vamos construir uma sociedade mais igual. Estado – Essa construção não esbarraria na ineficiência de políticas públicas? Besserman – As políticas públicas também têm um grande
dente da Fedecámaras, principal entidade empresarial do país, um dos líderes da greve geral de dois meses. – Pelo menos 86 pessoas morrem e mais de 160 ficam feridas em incêndio numa boate de Rhode Island (EUA). 21 – A Justiça Federal decreta o seqüestro de bens do presidente da Força Sindical, Paulo Pereira da Silva, o Paulinho, acusado de improbidade administrativa. 22 – Depois de dois dias de reunião na Granja do Torto, os 27 governadores e Lula divulgam a Carta de Brasília, no qual se comprometem a tratar como prioritárias as reformas da Previdência e tributária, encaminhando propostas ao Congresso ainda no primeiro semestre. 23 – A 45.ª edição do Grammy Awards

papel na questão da desigualdade. As crianças devem estar todas na escola, com qualidade do ensino, e a cultura deve ser disseminada, assim como o acesso ao microcrédito. Mas não creio que essas políticas sejam suficientes. Sabemos que os recursos no Brasil se perdem no meio do caminho e acabam indo para quem tem mais. É uma ilusão achar que isso muda de cima para baixo. É preciso mudar o grau de consciência, de cultura e de mobilização do povo. Mas nos últimos anos, a distribuição de bens e serviços melhorou bastante. As crianças estão na escola, o acesso a telefonia melhorou. Houve melhoria na distribuição de bens e serviços e estagnação na distribuição de renda.

Besserman – O caminho passa obrigatoriamente por concessão de serviço público e tentativa de atrair a poupança privada para os investimentos em infraestrutura. Se o projeto é eficiente para percorrer esse caminho, não sei dizer. É preciso avançar um pouco para saber. Estado – E essa vinculação do combate à pobreza ao crescimento e à geração de empregos? Besserman – A solução da pobreza passa pela geração de emprego e renda, ou seja, por macroeconomia. De modo geral, acho que o rumo tomado está correto, do ponto de vista do ajuste fiscal. Mas o objetivo de redução da vulnerabilidade externa tem de ser perseguido estrategicamente. Temos de nos tornar crescentemente mais produtivos e mais competitivos para exportar mais.

Houve melhoria na distribuição de bens e serviços e estagnação na distribuição de renda

Estado – Qual seria, no momento, a política pública mais essencial no País? Besserman – A mais essencial de todas está sendo tocada: garantir a estabilidade para que ocorra retomada do crescimento e, depois, dos investimentos. Num segundo plano poderíamos pensar na reforma da legislação trabalhista e em frentes de trabalho urbanas para geração de empregos. Além disso, investimentos no setor de saneamento, com recursos privados, e isso passa por desfazer os nós das concessões no setor. Estado – Como o sr. avalia, no campo das políticas públicas, o primeiro ano de Lula? Besserman – Sobre desigualdade, nenhuma mudança em relação ao governo anterior. No caso da indigência, estamos no bom caminho, com os programas de renda mínima. Nesses pontos, o governo Lula começou com alguma confusão. A expectativa geral era que a oposição estivesse mais preparada para chegar executando. Mas é absolutamente normal que os governos que chegam tenham um tempo de arrumação. (J.F.)
7,01% do PIB. É o melhor resultado já alcançado em janeiro desde 1991. 28 – O ex-deputado capixaba José Carlos Gratz é detido no interior paulista. Gratz é acusado de ter comprado votos de parlamentares para se reeleger presidente da Assembléia do Espírito Santo em 2000.

Estado – O projeto de Parceria Público-Privada seria uma solução?
tem uma grande vencedora: Norah Jones, vencedora em cinco categorias. 24 – Onda de violência orquestrada pelo tráfico espalha o terror em mais de 20 bairros da região metropolitana do Rio. Traficantes ordenam o fechamento do comércio e a destruição de 24 ônibus. Bombas explodem diante de prédios da zona sul e policiais são atacados. – EUA, Grã-Bretanha e Espanha apresentam à ONU resolução que condena o Iraque por “violações materiais adicionais” das ordens de desarmamento do país aprovadas no últimos 12 anos. 25 – Tráfico volta a impor o terror no Rio. Ônibus e carros são destruídos, o comércio é obrigado a fechar e criminosos atiram num supermercado, num

shopping e num posto de gasolina. 26 – Governo inicia Operação Rio Seguro, que mobiliza 2.500 policiais. Treze favelas e morros são ocupados. – O risco país e o C-Bond, principal título da dívida brasileira negociado no exterior, voltam ao nível de junho, quando começou a crise pré-eleitoral. 27 – Apontado como responsável pela onda de violência no Estado, o traficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, é transferido do Rio para o presídio de Presidente Bernardes (SP). – PIB brasileiro cresceu 1,52% em 2002, desempenho ligeiramente acima do 1,42% registrado em 2001. – No primeiro mês do governo Lula, o setor público registra superávit primário de

MARÇO
1 – Cúpula da Liga Árabe expressa “rejeição a qualquer agressão ao Iraque”. – Detido Khalid Mohamed, suposto mentor dos ataques do 11 de setembro. 4 – FMI anuncia que a segunda revisão do acordo com o Brasil foi concluída, o que abre caminho para o desembolso de uma parcela de US$ 4,6 bilhões, parte do pacote de ajuda financeira concedido

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ECONOMIA

QUARTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2003

2003/ 2004

PAÍS ENTRA NA MELHOR FASE EM 4 ANOS
Epitacio Pessoa/AE-26/09/2003

Governo, economistas e empresários acham que o caminho para o crescimento está aberto
RITA TAVARES

no novo, vida nova para a economia brasileira Em 2004. Essa é a expectativa compartilhada por governo, oposição, economistas e empresários. A queda dos juros e as medidas de incentivo ao consumo devem interromper o período de estagnação de 2003 e o Brasil pode crescer 3,5% em 2004, ou até mais que 4%, como apostam alguns, o que não ocorre desde 2000, quando o Produto Interno Bruto (PIB) teve alta de 4,4%. O secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Otaviano Canuto, confirma essa expectativa positiva. “O ano de 2004 é do investimento, que será o fermento que fará o bolo crescer”, disse, apostando em um crescimento de “pelo menos” 3,5%. “O ano de 2004 vai ser melhor que 2000 porque os efeitos positivos da mudança de regime cambial em direção ao câmbio flexível já estão maduros hoje para se expressarem. Tanto que temos agora menor volatilidade cambial e melhor perfil do balanço de pagamentos”, avaliou Canuto, descartando riscos que possam comprometer essa trajetória. “O pior já passou”, reforça o economista Eduardo Gianetti da Fonseca, alertando para os riscos do otimismo exagerado. “Se o País conseguir crescer de 3% a 3,5% com uniformidade, sem oscilações, não está ruim.” A média de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nos oito anos do governo de Fernando Henrique Cardoso foi de 2,6%, com muitas oscilações decorrentes de crises externas e internas. Nesta virada de ano, a produção industrial está crescendo, estimulada pela recuperação do consumo, este apoiado na melhor oferta de crédito. Os indicadores que mostram essa recuperação embutem outra informação vital: a inflação está absolutamente sob controle, depois de ter assustado o governo no iní-

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Às compras: apoiado na melhor oferta de crédito, o consumo verificou alguma recuperação na virada do ano cio de 2003. Em outubro, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) foi de 0,29%, praticamente um décimo dos 2,25% de janeiro. Nas pesquisas que o Banco Central faz semanalmente com 80 instituições financeiras, a expectativa é que o IPCA de 2004 seja de 6%. O economista-chefe do banco HSBC, Alexandre Bassoli, lembra que, se o IPCA de 2004 corresponder de fato às previsões atuais dos analistas, o governo Lula conseguirá cumprir a meta de inflação fixada para o ano, de 5,5%, com tolerância de 2,5 pontos porcentuais. Será uma façanha, porque as metas inflacionárias dos últimos três anos estouraram. No novo ano, o declínio dos juros deve seguir ritmo mais lento que em 2003. No primeiro trimestre de 2002, os juros bateram em 26,5% vembro. para enfrentar a crise de desconfiança dos investidores Tesoura – À medida que o governo Lula por causa da propôs as reforeleição do PT mas tributária para a PresiISCO e da Previdêndência da Recia e mostrou pública, mas a AINDA É UM que faria “mais taxa foi reduzido mesmo”, da para 17% na CHOQUE mantendo os pireunião do Colares da polítimitê de PolítiEXTERNO ca econômica ca Monetária do governo (Copom) de no-

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FHC (austeridade fiscal, compromisso com inflação baixa e câmbio livre), o risco Brasil, que mede a confiança dos investidores, despencou do pico de 2.436 para 500 pontos básicos. A recuperação da credibilidade, aliada ao controle da inflação, permitiu os cortes dos juros. No fim de 2004, os analistas prevêem que os juros básicos estarão em 14,5%, embora alguns mais otimistas, como o economista-chefe do Banco Credit Suisse First Boston, Rodrigo Azevedo, já fale em 13% e sugira ao Banco Central que continue a usar a tesoura. Quando se discute qual será o ritmo desses cortes, a LCA Consultores adverte que os rumos da economia dos Estados Unidos são fundamentais para qualquer projeção futura. Embora espere ajustes na economia norte-americana, a consultoria acredita que eles só vão aparecer em 2005, para não atrapalhar o projeto de reeleição do presidente George W. Bush. Se ocorrer mudança brusca ou um choque externo, o governo pode ser obrigado a elevar os juros. “Teoricamente, é possível um crescimento uniforme por alguns anos, desde que o País não sofra novos choques internos e externos”, observa o economista Celso Martone, professor de economia da Universidade de São Paulo (USP). Do contrário, a economia voltaria a patinar. Ele lembra que, ao longo dos anos 90, a cada 18 meses, o Brasil enfrentou um choque. Para enfrentar essa fragilidade externa, em 2004 o Brasil ainda contará com um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI), que garantirá um empréstimo ao País caso surja uma crise. As linhas gerais do acordo prevêem, mais uma vez, “mais do mesmo”. Ou seja, o Brasil terá de produzir um superávit primário (receitas governamentais menos despesas, descontados os juros) de 4,25% em 2004, assim como fez neste ano, o que limitará a capacidade de investimento e de gastos do governo Lula.
s Colaborou Adriana Fernandes Mauricio de Souza

DÚVIDA É SE O CRESCIMENTO VAI ABALAR AS EXPORTAÇÕES
Analistas prevêem menor saldo comercial em razão da alta do consumo interno
Plano Real vai comemorar o décimo aniversário em 2004. Para o Brasil, trata-se de uma proeza, já que antes de sua adoção, outras quatro moedas saíram de circulação com o fracasso e troca de planos econômicos. Só o cruzeiro teve vida mais longa, com quase 16 anos de sobrevivência. Mas o real já não tem a força da época de seu nascimento. Em 1994, cada um real valia um dólar. Nesta virada de ano, são precisos cerca de três reais para obter um dólar. E, para parte dos empresários nacionais, a desvalorização do câmbio deveria ser ainda maior, o que garantiria exportações fortes em 2004. Um saldo comercial gordo assegura entrada de dólares, que é fundamental para uma economia com vulnerabilidaem setembro, de US$ 30 bilhões. – Gaviões da Fiel leva o título de bicampeã do carnaval paulistano. – Morre, aos 60 anos, a cantora Celly Campello, precursora do rock brasileiro. 5 – Beija-Flor vence o carnaval do Rio. – Balança comercial registra superávit de US$ 1,123 bilhão. É o melhor resultado para meses de fevereiro desde 1993. 6 – China manifesta apoio à declaração feita pela França, Alemanha e Rússia de oposição a uma guerra contra o Iraque. – Boeing 737-200 da Air Algerie cai pouco depois de decolar no sul da Argélia. Uma das 103 pessoas a bordo sobrevive. 7 – Grã-Bretanha e Estados Unidos propõem à ONU que seja dado um ultimato a Saddam para que permita inspeções in-

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de externa, como é a do Brasil. mais fria dos fatos”, alerta Um dos consensos do mer- uma análise do Banco Safra, cado financeiro para as pro- que sustenta que o saldo da jeções de 2004 é o de uma balança deve superar US$ 22 queda do saldo da balança bilhões também em 2004. comercial, em conseqüência Para o Brasil, quanto da recuperação da econo- maior o saldo da balança comia. Com o mercado domés- mercial melhor o resultado tico aquecido, as importa- do balanço de conta corrente ções aumentariam e as em- (saldo dos compromissos e presas privilegiariam as ven- despesas do País em moeda das internas. estrangeira). A maioria das Neste ano, peprojeções referela primeira vez se a um superádesde 1993, esse ÉFICITS vit de até US$ 18 resultado deve bilhões, ante ser positivo, em DEVEM mais de US$ 23 até US$ 3 bibilhões de 2003. lhões. Já no ano SER Nesse caso, o que vem, a excâmbio estaria pectativa é de MENORES em R$ 3,20 no um retorno aos fim de 2004. déficits, em O presidente mais de US$ 4 da Associação de Comércio bilhões, segundo pesquisa do Exterior do Brasil, Benedicto Banco Central com mais de Fonseca Moreira, concorda 80 instituições. com essa queda e diz que a Resultado muito melhor, economia depende de insu- no entanto, do que os défimos importados. “A idéia de cits na faixa dos US$ 24 bique as exportações cairão por lhões entre os anos de 1999 e causa da retomada interna 2001, o que indica que o não resiste a uma análise País está menos vulnerável

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Terminal de carga no Porto de Santos: exportações podem cair e as importações, subir a flutuações e crises econômicas externas. Na avaliação do secretário de Assuntos Internacionais do Ministério da Fazenda, Otaviano Canuto, os desafios maiores para a economia brasileira vêm justamente do front externo: as dificuldades no âmbito das negociações internacionais e os ris– Acelino Popó Freitas derrota o mexicano Juan Carlos Ramirez e mantém o título de campeão dos superpenas da Associação Mundial de Boxe (AMB) e da Organização Mundial de Boxe (OMB). 17 – Bush, dá, pela TV, ultimato a Saddam para que deixe o país em 48 horas. A recusa resultará em conflito militar. – OMS divulga comunicado classificando de ameaça global à saúde a Sars, pneumonia surgida na Ásia que já matou 9 pessoas e contaminou outras 170. 18 – OMC confirma a decisão que autoriza o Brasil a retaliar o Canadá em US$ 247,8 milhões pelos subsídios concedidos à fabricante de aviões Bombardier. – Conselho de Ética do Senado abre sindicância para apurar o envolvimento de

cos de choques inesperados na economia mundial. A vantagem, disse ele, é que, “felizmente”, o comércio exterior não depende exclusivamente da conclusão e da extensão das negociações internacionais. “É claro que, se o processo negociador surpreender favoravelmente, acrescentará ainda mais
ACM com grampos telefônicos da Bahia. 19 – Começa o ataque dos EUA ao Iraque. Em pronunciamento pela TV, Bush anuncia o início da guerra e promete vitória, mas alerta para o fato de que a luta poderá ser mais difícil do que o previsto. Em três operações sucessivas, os EUA lançam cerca de 40 mísseis Tomahawk. – O primeiro-ministro britânico Tony Blair enfrenta crise política um dia depois de ter obtido sinal verde do Parlamento para levar a Grã-Bretanha à guerra conta o Iraque. Nove membros do segundo escalão deixam os cargos. 20 – EUA lançam a segunda bateria de ataques ao Iraque, com 72 mísseis Tomahawk, ao mesmo tempo em que tropas vindas do Kuwait invadem o país pe-

combustível”, disse o secretário, ponderando, no entanto, que o desfecho das negociações dependerá da atitude do governo norte-americano, que por sua vez está atrelada às eleições presidenciais nos Estados Unidos. “Estou sendo realista. Nós não precisamos contar. Se der certo é lucro”. (R.T.)
lo sul, ocupando a cidade de Umm Qasr. 21 – Chirac rejeita a proposta da Grã-Bretanha para que a ONU aprove uma resolução que permitiria ao país governar o Iraque ao lado dos EUA. Confirmada a morte de dois fuzileiros navais americanos no Iraque. 22 – Corinthians conquista o título de campeão paulista com vitória de 3 a 2 sobre o São Paulo. 23 – Dez soldados americanos são mortos numa emboscada e outros 12 são dados como desaparecidos no Iraque. A TV do Iraque mostra imagens de soldados mortos, supostamente americanos, e exibe entrevista com cinco prisioneiros. – Chicago vence o Oscar de melhor filme. O prêmio de melhor diretor vai para

ternacionais até 17 de março ou enfrente a guerra. Membros do Conselho de Segurança rejeitam a proposta. 10 – União bloqueia R$ 6 milhões das contas de Minas pelo não cumprimento, em 2001, de metas fiscais do acordo de renegociação da dívida do Estado. 11 – De cada grupo de 100 alunos matriculados no ensino fundamental, 41 deixam a escola sem completá-lo, revela o documento Geografia da Educação Brasileira em 2001, do Ministério da Educação. – A carga tributária sobre o salário do brasileiro é de 41,7%, a segunda maior de um ranking de 26 países, conforme estudo do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário. – Petrobrás descobre reserva gigante de

petróleo de “excelente” qualidade na costa de Sergipe. É a maior descoberta feita pela estatal desde 1996. 12 – O primeiro-ministro da Sérvia, Zoran Djindic, é assassinado. O crime é atribuído a Mikorak Lukovic, ex-policial aparentemente ligado ao crime organizado. 14 – Morre o ator Cyll Farney. – O juiz de execução criminal de Presidente Prudente, José Antonio Machado Dias, de 48 anos, é assassinado numa emboscada. Dias era corregedor de presídios da região – entre eles o de Presidente Bernardes, onde estão líderes do Primeiro Comando da Capital (PCC) e Beira-Mar. 16 – Wen Jiabao, de 60 anos, é eleito primeiro-ministro da China. – Cruzeiro vence o Campeonato Mineiro.

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ECONOMIA

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2003/ 2004

Protesto contra o G-7 na reunião da OMC em Cancun: negociações comerciais mais importantes fracassaram em 2004, incluindo a do Brasil com os Estados Unidos para a formação da Alca

Brasil também negocia com a UE, mas interesse depende de acerto com os EUA
VLADIMIR GOITIA e REGINA CARDEAL

Brasil entra em 2004 envolvido em duas grandes negociações comerciais. De um lado, a aproximação do Mercosul com a União Européia (UE), e, de outro, a construção da Área de Livre Comércio das Américas (Alca). As duas apontam para desfechos significativamente diferentes. As conversações com os europeus passaram a ter perspectivas mais positivas após a definição, no início de novembro, em Bruxelas, de uma agenda de discussões para 2004. Ao contrário, a última reunião formal da Alca, realizada poucos dias depois em Miami, apresentou poucos avanços e não deixou expectativas promissoras para o ano que se inicia. Mesmo assim, o Mercosul tem poucas chances de estabelecer um canal de livre comércio com a União Européia an-

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CHANCES DE ACORDO NA ALCA SÃO LIMITADAS
tes de fechar um pacto no âmbito da Alca, acredita o presidente da Sociedade Brasileira de Estudos de Empresas Transnacionais e da Globalização Econômica (Sobeet), Antônio Corrêa de Lacerda. Isso por conta da tradicional postura reativa da Europa às iniciativas dos EUA no campo do comércio. “A União Européia só negociou com o Chile depois que este fechou um acordo comercial com os EUA”, afirma Lacerda. O diretor-executivo do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi), Júlio Sérgio Gomes de Almeida, tem opinião semelhante. “A Alca é o carro-chefe”, diz. “As negociações do Mercosul com a União Européia vieram a partir da Alca e prosseguem em função dela”. Por esse raciocínio, o esvaziamento da Alca poderia tirar a atração do Lacerda não descarta que, mercado ampliado das Améri- dentro da proposta mais restricas que ajuda a manter a Euro- tiva esboçada em Miami, seja pa na mesa de negociações fechado um acordo para a Alcom o Mercosul. ca no prazo previsto inicialEmbora as negociações no mente, que é janeiro de 2005. âmbito da Alca não tenham O acordo seria apenas o início mostrado resulda trajetória patados significatira que todos os vos, tanto Gopaíses cheguem MPRESÁRIO mes de Almeida à tarifa zero quanto Lacerda num prazo de QUER analisam com 15 a 20 anos, seuma ótica otigundo ele. POLÍTICA mista os passos O presidente que foram dada Sobeet ressalINDUSTRIAL dos na reunião ta ainda que é de Miami. importante que O diretor do o Brasil tenha Iedi afirma que Miami “lim- um projeto de política induspou os empecilhos da agenda” trial e submeta as negociações e deixou claro que o centro da Alca a este projeto, e não o das discussões em 2004 será a contrário. questão do acesso aos merca“A política industrial não dos. “É o que realmente impor- pode ficar na dependência da ta para o comércio”, diz ele. Alca”, afirma Lacerda. Para

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ele, é preciso que se defina antes o que o governo quer para o País. Ele considera um erro conduzir as negociações com base em ganhos e perdas para setores em particular. “A Alca tem de resultar num ganho global para o País”, diz. “O destino do Brasil é ficar isolado, já que não há nenhum país com o porte brasileiro para contrabalançar o peso dos EUA nas negociações”, acrescenta. Segundo ele, o México e Canadá já estão integrados à esfera dos EUA e o único parceiro que pode ser cooptado pelo Brasil é a Argentina. O empresário Roberto Teixeira da Costa avalia que ficou muito difícil acreditar em uma retomada das negociações, mesmo que os 34 países tenham se comprometido a reiniciar o diálogo a partir de fevereiro. Ele acredita ser quase

impossível que Washington faça concessões significativas nos temas mais sensíveis para a América Latina no decorrer de 2004, ano de eleições presidenciais nos EUA. Ricardo Sennes, diretor executivo da Prospectiva - Consultoria de Assuntos Internacionais, acredita que o resultado de Miami deixou claro que será muito difícil arrancar concessões dos Estados Unidos. Ele afirma, entretanto, que o Brasil perdeu poder de barganha ao não aceitar negociar os chamados “temas quentes”. Para ele, a janela de oportunidades ficou totalmente comprometida. “O País decidiu não fazer concessões, mas também não vai se beneficiar de nada”, afirma Sennes. Qualquer um dos acordos, no entanto, será importante para o Brasil. E os números mostram isso. Se a Alca vier um dia a ser concretizada, englobará 800 milhões de pessoas, com um PIB de aproximadamente US$ 13 trilhões. Já o acordo entre o Mercosul e a União Européia significaria cerca de 650 milhões de potenciais consumidores e um PIB de pouco mais de US$ 9 trilhões.

EUA REFORÇARÃO PODER, DIZ ESPECIALISTA
Para Marcos Jank, americanos vão impor acordos rígidos ao Brasil
diretor-presidente do Instituto de Estudos do Comércio e Negociações Internacionais (Icone) e um dos especialistas em comércio internacional mais respeitados do País, Marcos Sawaya Jank, mostra grande ceticismo com as perspectivas para as negociações comerciais internacionais nas quais o Brasil está envolvido. Ele não espera avanços significativos ao longo de 2004 e até 2005, quando as conversações no âmbito da Área de Livre Comércio (Alca) e do Mercosul com a União Européia (UE) deveriam estar concluídas. Nas Américas, segundo Jank, caminha-se para uma Alca “a la carte”, na qual os EUA usarão poder para impor acordos rígidos a partir de uma estratégia unilateral e cada um fará o que quiser. “Estamos no longo e penoso caminho dos acordos bilaterais”, diz Jank nesta entrevista ao Estado.
Roman Polanski, por O Pianista. – Vasco conquista Campeonato Carioca. 24 – O juiz da 5.ª Vara de Execuções Penais do Espírito Santo, Alexandre Martins de Castro Filho, é executado com três tiros em Vila Velha. 25 – Polícia do Espírito Santo prende três acusados de participar do assassinato do juiz. As autoridades acreditam que o crime foi encomendado pelo coronel da PM Walter Gomes Ferreira, preso sob acusação de ser um dos líderes do crime organizado no Estado. – Polícia prende um dos supostos envolvidos no assassinato do juiz de Prudente. Todos os indícios apontam para um assassinato encomendado pelo PCC. 26 – Crescem manifestações contra a in-

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Estado – A Alca e as negociações entre o Mercosul e a União Européia (UE) têm cronogramas semelhantes. Qual desses acordos o sr. acha que têm maiores chances de se concretizar? Marcos Jank - Tenho sentido do governo um entusiasmo maior na negociação com a União Européia e, o fato de haver uma agenda concreta para os próximos meses, acaba servindo como estímulo. Mas eu, particularmente, sou muito cético. Acho que até 2005 não vamos ter absolutamente nada, em nenhuma das três esferas de negociação, que são a Alca, a negociação entre Mercosul e UE e a Organização Mundial do Comércio (OMC). Não consigo ver um acordo completo e ambicioso em nenhuma dessas três frentes. Quando muito, pode haver um acordo precário e parcial. Estado – Essa agenda com a UE não abre maior espaço para um acordo? Jank – A rigor, os temas mais sensíveis também não foram incluídos. A oferta européia vai aparecer só em abril. Portanto, acho muito difícil chegar a um acordo em 2005.
vasão do Iraque, com protestos nos EUA, Itália e França. 27 – Beira-Mar é transferido para a superintendência da Polícia Federal em Maceió (AL). – PIB cresceu 1,52% em 2002 e chegou a R$ 1,321 trilhão, segundo o IBGE. Com isso, o País é ultrapassado pela Coréia do Sul e cai para o 12.º posto no ranking das maiores economias do mundo. – A inflação medida pelo IGP-M fica em 1,53% em março, a menor variação desde maio de 2002. – Medida provisória de Lula libera a venda da safra de soja transgênica. 28 – Uma semana depois de invadirem o Iraque, soldados americanos estão estacionados a pouco mais de 100 quilôme-

Estado - Alguns analistas acreditam que as negociações com a UE andam a reboque da Alca, o senhor concorda? Jank – Essa negociação é tão ambiciosa quanto a da Alca. Nos anos 90, ocorreram grandes investimentos europeus no Mercosul. À medida que as empresas européias sentiram que a Alca poderia avançar mais e, com isso, per-

der o espaço conquistado na última década, foram atrás do o bloco econômico sulamericano. Tenho a impressão de que, se a Alca não avançar, a UE pode perder um pouco de interesse Estado – Existe algum outro fator para não se chegar a uma acordo com a UE? Jank – O aumento do núVidal Cavalcanti/AE

mero de países integrantes da UE é um deles. Outro problema é a agricultura, porque os europeus são muito mais protecionistas que os norteamericanos. Além disso, o nível dos subsídios é três vezes maior do que nos EUA.

Marcos Jank: “Impacto no setor industrail já ocorreu”
tros de Bagdá. O bombardeio continua. Mercado de rua de Bagdá é atingido, causando a morte de pelo menos 53 pessoas. – Rompimento de um reservatório da Cataguazes Indústria de Papel, em Cataguases, Minas, causa o vazamento de mais de 20 milhões de litros de produtos químicos no Rio Pomba. 29 – Quatro soldados americanos morrem num ataque suicida contra um posto de controle perto de Najaf, centro do Iraque. Em Basra, forças britânicas atacam edifício no qual se reuniam aliados de Saddam. Duzentas pessoas morrem. 30 – O médico que identificou o vírus da Sars, o italiano Carlo Urbani, morre na Tailândia, vítima da doença. 31 – Governo decide elevar de R$ 200,00 para R$ 240,00 o valor do salário mínimo. O ganho real, descontada a inflação desde abril de 2002, é de 1,85%.

perder no setor industrial. Essa é uma visão errada. Primeiro porque não existe mais essa divisão. Embora o grosso das nossas exportações venha do setor agroindustrial, o Brasil é competitivo em outras áreas. Estamos negociando para abrir mercado para têxteis, calEstado – Mas os EUA tam- çados, aço e indústria automobém se recusam a negociar os bilística. Queremos melhorar subsídios domésticos. também regras para exportar Jank – Os americanos pelo aviões. Por isso, é falsa a idéia menos dizem de que os venceque colocaram tudores desses prodo em cima da cessos serão os OVOS mesa de negociaagricultores do ção. A priori, eles interior do País PAÍSES SERÃO não retiraram nee as indústrias nhum produto das grandes cidaPROBLEMA da Alca. Já os eudes estarão perropeus eliminadidas. NA UE ram uma série de artigos agrícolas, Estado – Onembora estejam de seria o impacsinalizando melhorar as suas to maior, então? propostas. Mas com fixação de Jank – As pessoas acredilimites e adoção de quotas que, tam que a próxima integração em geral, seriam muito peque- terá um impacto terrível sobre nas. Eu acredito que não vão o setor industrial. Mas isso oferecer grande coisa. também é falso. Na realidade, o grande impacto já ocorreu. Estado – Em qual das fren- A tarifa média de importação tes o Brasil ganharia mais? caiu de 55%, em 1987, para cerJank – Às vezes, ouço pes- ca de 14% hoje. E foi reduzida soas afirmando que o Brasil de forma unilateral. (Vladimir vai ganhar na agricultura e Goitia e Regina Cardeal)

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ABRIL
1 – De acordo com a OMS, chega a 1.804 o número de casos identificados da Sars em 22 países, com 62 mortes. 2 – Forças da coalizão anglo-americana anunciam o rompimento do segundo cinturão de defesa, a 30 km de Bagdá. Bombardeio dos EUA atinge maternidade da cidade, matando pelo menos 30 pessoas. – Governo Lula consegue a primeira vitória expressiva na Câmara, com a aprovação em primeiro turno do Projeto de Emenda Constitucional que permite a regulamentação do sistema financeiro e

abre caminho para a autonomia do BC. – Às vésperas de completar 100 dias de governo, Lula continua com a popularidade em alta. Pesquisa do Ibope indica que 51% dos brasileiros consideram o governo ótimo ou bom, contra 36% de regular e 7% de ruim ou péssimo. – Em iniciativa inédita, Superior Tribunal de Justiça decide abrir processo administrativo disciplinar contra o ministro Vicente Leal, acusado de vender habeas-corpus a traficantes, e afastá-lo do cargo. 3 – Índice de Preços ao Consumidor da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (IPC-Fipe) chega a 0,67% em março, na segunda queda consecutiva. 4 – Exército americano toma o Aeroporto Internacional Saddam Hussein.

6 – Tropas americanas atingem, por terra, o centro de Bagdá. – Kimi Raikkonen (McLaren) vence o GP do Brasil. A corrida, uma das mais tumultuadas da história, foi interrompida na 53.ª volta, após dois acidentes graves. 7 – Governo federal anuncia o plano para unificar as polícias no combate ao crime e estabelecer um modelo único de trabalho para as Polícias Civil e Militar, com a integração da PF, da Polícia Rodoviária Federal, do Ministério Público e do Judiciário. 8 – Mais de 100 mil servidores federais fazem primeiro protesto do governo Lula. 9 – A era Saddam chega ao fim 21 dias depois do início da guerra, com a tomada de Bagdá, sem resistência. O paradeiro do ex-ditador é ignorado.

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ECONOMIA

QUARTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2003

2003/ 2004

Espera-se uma grande expansão do PIB em 2004, mas ninguém se arrisca a apostar em 2005
PAULO SOTERO
Correspondente

EUA VÃO CRESCER ‘UM BRASIL’
Mas persistem fortes elementos de incerteza no panorama dos próximos meses. Ninguém se arrisca, por exemplo, a falar em crescimento sustentado em 2005 ou a fazer previsões para os anos mais à frente. A decisão do departamento da Segurança Interna de elevar o alerta de risco contra atentados terroristas antes do Natal pressionou o dólar e aumentou a ansiedade dos lojistas, que já vinham registrando resultados desalentadores de vendas no varejo em dezembro, a despeito de quatro meses consecutivos de estatísti- car no ar a hipótese da repeticas indicando a volta da con- ção de um evento semelhante fiança dos consumidores. ao 11 de setembro de 2001, Motivada por informações com todas as conseqüências nedos serviços de inteligência so- fastas que traria para uma ecobre planos terroristas de usar nomia em plena decolagem. aviões de carga O panorama como mísseis de médio prazo é contra alvos nos mais complicaANORAMA EUA, a elevação do. Aumento de do alerta pode gastos de defesa DE MÉDIO ter refreado o ditados pela guerânimo das pesra ao terrorismo PRAZO AINDA soas de saírem às e pela invasão do compras. A deciIraque, três corÉ NEBULOSO são serviu tamtes de impostos bém para recoloem menos de

ASHINGTON – Após crescer 3% em 2003, segundo a média das projeções divulgadas em meados de dezembro, a economia americana inaugura 2004 dando sinais francamente positivos. O Conference Board prevê expansão de até 5,7% do PIB no novo ano. Se a realidade confirmar a expectativa, 2004 trará a mais vigorosa expansão do PIB nos Estados Unidos em duas décadas e o país acrescentará algo como um Brasil à sua riqueza nacional. Mais comedida, a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) espera crescimento de 4,2%, com queda da taxa de desemprego, de 5,9% apurada em novembro, para 5,6% em dezembro. O recuo do desemprego esperado pelos economistas deve ser visto, no entanto, sob a perspectiva da perda líquida de 2 milhões de postos de trabalho nos últimos 3 anos. As previsões otimistas animaram os analistas de investimentos a apostar na continuação das boas notícias no mercado de capitais, com ganhos adicionais no Dow Jones, que superou 10 mil pontos nas semanas finais do ano pela primeira vez desde 2001. “Após várias partidas falsas nos últimos 2 anos, está claro agora que a maioria, senão todos os setores da economia, está operando com todos os cilindros”, disse Wyane Ayers, economista-chefe do banco de investimentos FleetBoston ao jornal USA Today. “Tudo está apontando na direção certa”, concordou Larry Chimerine, da Radnor International Consulting. A exemplo de outros 56 economistas, dos 60 ouvidos pelo jornal, Chimerine disse que as tendência da economia ajudarão os planos de reeleição do presidente George W. Bush.

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três anos e aumento de gastos com programas sociais – como o seguro médico federal, aprovado pelos republicanos por motivos eleitorais – implodiram a disciplina fiscal em Washington. O legado de saldos fiscais deixado pelo governo do democrata Bill Clinton desapareceu. Em seu lugar, ressurgiram os enormes déficits estruturais. Afastada a hipótese do aumento dos impostos, a necessidade de recorrer a empréstimos para financiar esse buraco negro nas contas públicas, mais o déficit comercial de
Reuters/John Gress

Boas previsões para 2004 fizeram o Dow Jones superar os 10 mil pontos nas últimas semana do ano, pela primeira vez desde 2001

mais de US$ 600 bilhões previsto para 2003, trarão de volta pressões inflacionárias e forçará o Federal Reserve Board (Fed, o banco central dos EUA) a aumentar os juros em algum momento. O consenso entre os economistas é que isso acontecerá no segundo trimestre de 2004. Eles prevêem que, no fim do ano, a taxa de juros de curto prazo do Fed, hoje de 1% (seu ponto mais baixo em 45 anos), alcançará 1,75%. O ex-secretário do Tesouro Robert Rubin adverte que essas projeções são de pouco ou nenhum valor num horizonte de longo prazo. Arquiteto da política de disciplina fiscal que tirou o governo americano da disputa por capital com o setor privado, e ajudou a impulsionar a prosperidade dos anos 90, Rubin disse recentemente que o governo Bush e o Congresso republicano “colocaram (os EUA) de volta no pântano dos déficits fiscais de longo prazo”. O efeito adverso disso sobre as taxas de juros e sobre a confiança dos consumidores e dos investidores começará a aparecer tão logo as empresas, animadas pelo crescimento da economia, voltarem em massa ao mercado em busca de capital para seus investimentos. Segundo Rubin, as projeções econômicas disponíveis devem ser tomadas com cautela. “A maioria dos que fazem previsões subestimou significativamente as futuras condições fiscais ao projetar as condições econômicas à frente.” Para ele, os déficits fiscais acumulados pela atual administração limitará de forma substantiva o crescimento da economia americana ao longo da década. Isso ainda não apresenta um problema imediato para Bush, que está focalizado, antes de mais nada, em garantir a reeleição em novembro. A dramática queda dos juros barateou o custo financeiro da dívida pública do país. Em 2002, o Tesouro gastou US$ 178 milhões, ou 1,7% do PIB, nessa rubrica. Isso se compara a US$ 232 bilhões, ou 3% do PIB, em 1995.

EUROPA RESPIRA E JÁ FALA EM EXPANSÃO
Velho continente passou por um período em que o crescimento econômico não superou o 0,5%, mesmo nos países mais ricos
Reuters

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fixar crescimento de 1,7% no novo ano. Essa sensível melhoCorrespondente ria se deve, em grande parte, ao ARIS – A Europa respi- comércio mundial, cuja acelerara aliviada com a chega- ção tem permitido o aumento da do fim de 2003, um considerável da demanda dos ano cujo crescimento econômi- produtos junto às grandes emco foi quase nulo, oscilando en- presas francesas, italianas, aletre 0% e 0,2%, escapando por mãs, holandesas e, fora da zona muito pouco à recessão – mes- do euro, suíças e britânicas. mo nos países tidos como as loApós uma fase delicada, obricomotivas eurogadas a executar péias, como Aleplanos de reestrumanha e França. turação e a reduELHORA 2004 promete zir custos, as emmais, graças ao presas alemãs SE DEVE AO comércio internasão as que mais cional. Em méparecem ter recuCOMÉRCIO dia, o crescimenperado competitito do Velho Convidade semelhanEXTERNO tinente não foi sute à dos anos 80, perior a 0,5% nesantes da reunifite ano, o pior recação, quando os sultado desde a recessão de custos salariais explodiram. A 1993, a mais grave desde o fim reunificação custou 4 milhões da guerra. Apesar disso, a ex- de desempregados, que só agopectativa para o novo ano é ra o país começará a absorver. bem mais favorável e o contiQuase todos os países euronente europeu deve reencon- peus sofrem do mal do desemtrar parte de seu dinamismo an- prego. Só os italianos conseguiterior, ajudado pela retomada ram criar 200 mil empregos, não só dos EUA, como de paí- graças a medida adotadas para ses asiáticos, China e Japão. tornar mais flexível o mercado As previsões mais recentes, de trabalho. Os dirigentes franinclusive envolvendo os países ceses estão satisfeitos com as úlque mais sofreram, têm sido fa- timas estatísticas, que indicam voráveis. O Instituto Nacional que, graças ao relançamento da de Estatística da França aposta economia mundial, o desempreem crescimento de 2% – o que go não vai superar o teto simbócorresponde à média européia lico de 10% da população ativa. em 2004 –, e acima do previsto Nem a Suíça escapou da crise. pelo governo, mais modesto ao Foi o único país cuja renda per
REALI JÚNIOR

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Símbolo do euro em frente ao BC Europeu: juros podem subir capita baixou nos últimos anos. O exemplo de um país que sofreu menos com a crise tem sido a Espanha. Seu dinamismo será também visível em 2004, mas o crescimento ibérico se deve ao boom imobiliário, com as vendas ‘dopadas’ por taxas de juros baixas, fixadas pelo Banco Central Europeu, de 2%. A previsão, a médio prazo, de alta dos juros nos EUA e na Europa, poderá estancar em parte esse boom imobiliário e o próprio dinamismo atual da economia espanhola. Hoje, o endividamento das famílias espanholas bate todos os recordes
propostas de reforma tributária e previdenciária que serão enviadas ao Congresso. A proposta do governo para a Previdência do serviço público vai além das expectativas, já que prevê a cobrança de alíquota de 11% dos inativos que ganham acima de R$ 1.058. – O ABN Amro Real anuncia a compra do Sudameris, 18.º banco brasileiro em ativos, por R$ 2,293 bilhões. Com a aquisição, o ABN consolida a posição de quinto maior banco privado do País. – O astro do basquete Michael Jordan se despede das quadras na derrota de seu time, o Washington Wizards, para o Philadelphia 76ers, por 107 a 87. 18 – Milhares de pessoas tomam as ruas de Bagdá para protestar contra

europeus. O alinhamento de salários sobre preços pode erodir a competitividade do país. Parece que chegou a hora de voltar a investir. Os grupos empresariais, especialmente alemães e franceses, preparam-se para agir já no início do ano. Esses investimentos serão prioritários na renovação dos parques informáticos e tecnológicos, evitando ser distanciados pela concorrência internacional. Sem participar da zona do euro, o Reino Unido prospera pelas mesmas razões da Espanha, mas sem a mesma vulnerabilidade. A bolha imobiliária
a “ocupação estrangeira”. 19 – Onze mulheres e uma menina de 5 anos morrem afogadas em Cabo Frio (RJ), quando a escuna Tona Galea aderna, a 500 metros da praia. 20 – Polícia do Espírito Santo prende Odessi Martins da Silva Junior, o Lombrigão, apontado como autor do disparo que matou o juiz Castro Filho. 21 – A cantora americana de jazz Nina Simone morre aos 70 anos, na França. 22 – O senador Geraldo Mesquita (PSBAC), relator da sindicância do Conselho de Ética que apura o envolvimento de ACM com grampos telefônicos, recomenda abertura de processo de cassação por quebra de decoro parlamentar. – Blix acusa os serviços de inteligência

perde consistência e os preços A reestruturação operada já não se mantêm no mesmo ní- em 2003 nas grandes empresas vel dos anos 90, apesar de os ju- francesas começa a dar resultaros estarem num nível 3 vezes dos, pois estão mais rentáveis e inferior. O país mantém taxa menos endividadas – ou seja, de desemprego de 3% da popu- em condições de relançar seus lação ativa, bem inferior aos projetos congelados há 3 anos. 8% e 9% da Alemanha e FranNo plano do emprego, não se ça. O déficit orçamentário não espera inversão de tendência passa de 1% do PIB, nada a ver antes de meados de 2004. Por com o que se verifica no eixo Pa- enquanto, os salários permaneris-Berlim, onde não mais se res- cem sob forte controle, enquanpeita o pacto de estabilidade, to esforços serão feitos para reapós superado o teto de 3% fixa- duzir os custos de produção. do pela União Européia. Não se espera também grandes Na França, a tendência pare- resultados da redução de imposceu se inverter radicalmente tos promovida neste ano, pois neste fim de ano. A economia ela será anulada pela alta das escapou à recessão e tem razões taxas fiscais indiretas. para esperar mais de 2004. Os Uma inflação a 2% pouco números são encorajadores e, efeito terá sobre o aumento do mesmo que a popularidade do poder aquisitivo, estimado em primeiro-ministro Jean Pierre 1,5%. Um dilema da economia Raffarin sofra as francesa será enconseqüências contrar a fórmudos maus resultala mágica de coALÁRIOS dos de 2003, a brir déficits sem máquina da ecoaumentar imposESTÃO SOB nomia gira em tos, missão quase torno de um cresimpossível, diFORTE cimento de 2% zem os economisem 2004, contra tas. Uma saída CONTROLE 0,2% em 2003. seria o governo Os franceses aceitar o desafio apostam em aude lançar um promento considerável das expor- cesso de modernização do Estatações, mesmo com a valoriza- do, como fez seu vizinho aleção do euro preocupando gran- mão em 2002. Mas isso não sedes grupos exportadores. Cada rá fácil num ano eleitoral, quanaumento de 5% do valor do eu- do o governo será testado. É ro constitui um corte na expec- preciso ter muita coragem para tativa de crescimento de 0,5%. optar por esse caminho.

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10 – Inflação de março medida pelo IPCA, do IBGE, fica em 1,23%, 0,34 ponto porcentual abaixo da registrada em fevereiro. No ano, o índice acumula 5,13% - o equivalente a 60% da meta de inflação de todo este ano, de 8,5%. – Um dia depois da queda de Bagdá, as principais cidades iraquianas são tomadas pelo caos, com saques a prédios públicos, casas de líderes do regime de Saddam e até hospitais. – Bandidos lançam explosivos em um restaurante e um laboratório em ruas do Leblon, zona sul do Rio. 11 – Bush declara oficialmente que o regime de Saddam acabou, mas a situação de caos nas cidades se intensifica. – Após julgamento sumário, três seqües-

tradores cubanos de uma balsa com 50 pessoas são condenados e fuzilados. – Federação Internacional de Automobilismo muda resultado do GP Brasil de F-1 e dá a vitória ao italiano Giancarlo Fisichella, da Jordan. 13 – Bush acusa a Síria de ter armas químicas e oferecer abrigo a terroristas e partidários do regime de Saddam. – Canadenses anunciam o seqüenciamento do código genético do coronavírus identificado como causador da Sars. 14 – Cientistas divulgam a seqüência completa do genoma humano. O grupo já havia anunciado um primeiro rascunho, em 2000. Quase três anos depois, o quebra-cabeça está 99,99% concluído. 16 – Lula fecha com 27 governadores as

dos EUA e da Grã-Bretanha de terem falsificado documentos para ligar o Iraque à produção de armas nucleares. – O dramaturgo, cronista e roteirista Mauro Rasi, de 54 anos, morre no Rio. 24 – O número de brasileiros desocupados em seis regiões metropolitanas pesquisadas pelo IBGE cresceu de 1,31 milhão em fevereiro de 2002 para 2,4 milhões em fevereiro deste ano. São 1,09 milhão a mais de desocupados no mercado em apenas um ano, um crescimento de 83%. – EUA anunciam a prisão de Tarek Aziz, vice-primeiro-ministro de Saddam. – Coréia do Norte abandona reunião com EUA e China sobre o futuro de seu programa nuclear e confirma que possui armas atômicas.

25 – Todos os produtos alimentares com mais de 1% de organismos geneticamente modificados na composição devem indicar ao consumidor no rótulo essa informação, segundo decreto publicado no Diário Oficial da União. 27 – Eleição na Argentina será definida no segundo turno, entre dois peronistas: o ex-presidente Carlos Menem e o governador de Santa Cruz, Néstor Kirchner. No primeiro turno, Menem obteve 24,14% dos votos e Kirchner, 22,04%. 29 – Petrobrás anuncia a descoberta da maior reserva de gás natural do País, com 70 bilhões de metros cúbicos, na bacia de Santos. 30 – Lula sobe a rampa do Congresso e entrega os projetos de reforma

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2003/ 2004

A OUSADA APOSTA QUE ISOLOU OS EUA
Transformado pelo 11/9, país decide agir de modo unilateral e exercer seu poder sem páreo
PAULO SOTERO
Correspondente Larry Downing/Reuters–15/12/2003 Reuters–14/12/2003

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ASHINGTON – Ao ordenar a invasão do Iraque, em março, o presidente George W. Bush confirmou seu desprezo por preceitos que guiaram a política externa dos EUA durante mais de meio século e redefiniu as regras de engajamento da única superpotência com o restante do mundo. Em palavras e atos, o líder americano deixou claro que Washington não mais se sentiria limitada em suas decisões pela oposição a seus projetos por parte de países amigos e de aliados tradicionais ou por opiniões majoritárias em organismos internacionais contrárias a seus desígnios. A força econômica e militar sem precedentes com que o país emergiu da guerra fria seria agora posta a serviço de uma política externa alicerçada no exercício do poder e não mais da liderança baseada na persuasão. Psicologicamente transformados pelos devastadores eventos de 11 de setembro de 2001, os EUA zelariam por sua segurança menos atrelados a compromissos. Nos últimos meses do ano, o resultado dessa ousadíssima aposta era uma incógnita. Algumas das vozes mais respeitadas do establishment não disfarçavam seu alarme. “Vivemos hoje um paradoxo entre a posição e o papel dos EUA no mundo”, disse no fim de outubro o ex-conselheiro de Segurança Nacional Zbigniew Brzezinski, falcão democrata e um dos mais respeitados pensadores da estratégia internacional do pais no último quarto de século. “O poder mundial dos EUA está no zênite, mas o prestígio político global do país está no nadir.” Brzezinski ofereceu duas possíveis explicações para o fenômeno. O choque e o pavor que o 11/9 causou nos americanos levaram os mais altos funcionários do governo a adotar “uma visão paranóica do mundo”, resumida na afirmação que Bush fez em discurso ao Congresso em janeiro de 2002, “os que não estão com os EUA estão contra nós” – e, por exclusão, com os terroristas. A crise de credibilidade, o isolamento político internacional da superpotência e falhas de inteligência sem paralelo na história do país “são compensados por uma demagogia extremista que enfatiza os piores cenários para estimular o medo, o que, por sua vez, induz uma visão dicotômica e simplista da realidade do mundo”, explicou o ex-conselheiro do ex-presidente Jimmy Carter. Em dezembro, dois acontecimentos – a captura do ex-ditador iraquiano Saddam Hussein e a decisão do líder da Líbia, Muamar Kadafi, de desmantelar seus programas de armas nucleares, químicas e biológicas – pareceram recompensar a agressiva estratégia de Bush e reforçaram a simpatia dos americanos por seu presidente e suas políticas. Respaldado por essas boas notícias e pelos sinais de uma vigorosa retomada da economia, Bush começa 2004 com motivos para estar confiante na reeleição, possivelmente por vitória esmagadora sobre qualquer dos dez postulantes da candidatura do Partido Democrata, nas eleições de novembro. As últimas sondagens de opinião apontavam tendência de alta em todos os índices de aprovação do líder republicano. A determinação com que Bush levou adiante sua revolução conservadora da política externa dos EUA e as enormes implicações potenciais da mudança já animam o reexame da própria figura do presidente. No livro America Unbound, publicado em dezembro, Ivo H. Daalder e James M. Lindsay, ex-conselheiros do ex-presidente Bill Clinton
tributária e da Previdência. – Morre o ex-vice-presidente e ex-governador de Minas Aureliano Chaves. – Mediadores apresentam às lideranças israelense e palestina o “roteiro para a paz”, para pôr fim a mais de 31 meses de violência e estabelecer um Estado palestino. O plano, apoiado pelos EUA, é respaldado por um raro consenso global.

Bush: se tudo der certo, pode firmar-se como herdeiro de Reagan
Rob Gauthier/Reuters–19/8/2003

Saddam detido: feito parece recompensar estratégia americana
Reuters–221/11/2003

Atentado contra ONU em Bagdá: Vieira de Mello entre os mortos

Destroços do consulado britânico em Istambul, alvo de atentado

ORIENTE MÉDIO AMÉRICA LATINA UNIÃO EUROPÉIA

TERRORISMO

O sonho de paz Esfria ainda mais Expandindo-se, Cenas de horror adiado de novo relação com EUA mas com tropeços não têm trégua
JERUSALÉM – Três anos e meio após o início da segunda Intifada (resistência à ocupação israelense dos territórios palestinos), as duas partes se entrincheiraram politicamente. Apesar de terem sido lançadas novas iniciativas de paz, as paralisadas negociações entre as duas partes giram em torno do plano internacional conhecido como “mapa da estrada”, cuja aplicação já está um ano atrasada. O conflito deveria terminar, segundo previa o plano, com a criação de um Estado palestino até o fim de 2005. Hoje Israel impulsiona a construção de um muro na fronteira com a Cisjordânia e, apesar de o plano de paz proibir novos assentamentos, foram ampliadas as colônias nos territórios ocupados. Do lado palestino, os atentados suicidas continuam. Desde o início desta Intifada, morreram 2.753 palestinos e 859 israelenses.
5 – A Polícia Federal indicia os empresários Alexandre Martins e Reinaldo Pitta, procuradores do atacante Ronaldo, por sonegação e lavagem de dinheiro no inquérito que investiga o envio de US$ 33,4 milhões por servidores para a Suíça. 6 – Senado rejeita recurso que permitia a abertura de processo de cassação de ACM por quebra de decoro parlamentar. – Bush nomeia o diplomata Paul Bremer administrador civil para o Iraque. 8 – Governo conclui acordo com o PMDB para ampliar base no Congresso. – Judiciário inicia lobby contra o atrelamento dos salários dos juízes estaduais aos rendimentos dos governadores, como prevê a reforma da Previdência. 12 – PT abre processo na sua Comissão

WASHINGTON – Se o 11 de setembro de 2001 relegou a América Latina ao último lugar na agenda de Washington, a oposição generalizada à guerra contra o Iraque deteriorou as relações e criou um mal-estar visível no governo Bush. Entre os poucos que apoiaram Washington estão a Colômbia, que recebe ajuda bilionária para combater o tráfico e a guerrilha, e alguns países da América Central que negociam um tratado de livre comércio com os EUA. A Casa Branca se indignou com o que qualificou de “falta de lealdade”, apesar de os funcionários encarregados da política americana para a América Latina negarem que as relações estejam deterioradas. “Pela primeira vez em décadas, não se via um antiamericanismo na América Latina como o de agora. É importante tentar reparar as relações”, disse Peter Hakim, presidente do Diálogo Interamericano.
de Ética que pode terminar com a expulsão da senadora Heloísa Helena (AL) e dos deputados João Batista Araújo, o Babá (PA), e Luciana Genro (RS). Os três votaram contra a taxação de servidores inativos na reforma da Previdência. – Quarenta e uma pessoas morrem e 110 ficam feridas em ataque a alvos russos na Chechênia, no qual foi utilizado caminhão com 1,3 tonelada de explosivos. – Acusada de seqüestrar dois bebês, entre eles Pedro Rosalino Braule Pinto, o Pedrinho, e criá-los como filhos, Vilma Martins Borges é presa em Goiânia. 14 – Menem anuncia sua desistência da disputa presidencial, dando a vitória a Néstor Kirchner. – O segundo atentado em 48 horas na

MADRI – Reiteradas vezes se disse que a União Européia é um “gigante econômico, mas um anão político”. Esta opinião popular adquiriu especial relevância durante a guerra no Iraque, que dividiu os atuais 15 membros em dois grupos quase irreconciliáveis: o eixo mais europeísta, Paris-Berlim, e a frente euroatlântica, representada pelo trio Londres- Roma-Madri. A falta de consenso também ficou patente durante a cúpula de Bruxelas, em dezembro, quando deveria ser votada a Constituição da UE, um texto necessário para garantir a funcionalidade da união ampliada – mais dez membros em 2004. Espanha e Polônia impediram a aprovação, ao rejeitar um novo sistema de voto no Conselho reconhecendo o peso demográfico dos países membros. Os dois casos aumentam a sensação de que se a UE não consegue por ordem na casa com 15 membros, com 25 a situação será muito pior.
Chechênia deixa 14 mortos. 15 – Petrobrás anuncia lucro recorde de R$ 5,545 bilhões no primeiro trimestre. O resultado representa aumento de 540% em relação ao mesmo período de 2002. – Ministros do STF decidem abrir processo criminal contra ACM. A decisão acatou denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal, que acusa ACM de crime de injúria contra o deputado federal Geddel Vieira Lima (PMDB-BA). 16 – Arqueólogos encontram na Holanda navio que compunha uma frota armada romana há 18 séculos. – Respaldado por índices de aprovação de 65% a 70%, Bush anuncia formalmente sua candidatura à reeleição. 18 – No dia em que João Paulo II faz 83

WASHINGTON – A luta contra o terrorismo lançada pelos EUA após os atentados de 11 de setembro de 2001 fez com que muitos países temessem sofrer atentados por seu apoio à Casa Branca. Mas apenas a Turquia e a Grã-Bretanha foram alvos de retaliações. Quatro atentados a bomba – contra duas sinagogas, um banco britânico e o consulado da Grã-Bretanha – deixaram 61 mortos em novembro em Istambul. Membros da Al-Qaeda e do movimento afegão Taleban, deposto em 2001, intensificaram seus ataques contra as forças de paz no Afeganistão. No Iraque, são lançados ataques diários contra as tropas da coalizão. No entanto, o atentado mais marcante foi o lançado em agosto contra o escritório da ONU em Bagdá, que deixou 22 mortos, entre eles o brasileiro Sérgio Vieira de Mello, enviado pela organização ao Iraque para ajudar o país.
anos, jornal Corriere della Sera publica a confirmação de autoridade do Vaticano de que o papa sofre do mal de Parkinson. 19 – STF abre inquérito para investigar o envolvimento de ACM nas escutas telefônicas ilegais feitas na Bahia. 21 – Terremoto mata quase 2 mil pessoas na Argélia. – OMS aprova acordo para controle do tabagismo. Trata-se do primeiro tratado internacional no campo da saúde, que obriga signatários a restringirem o comércio, propaganda e distribuição de cigarros. 22 – EUA e Grã-Bretanha recebem poderes extraordinários para dirigir o Iraque depois que o Conselho de Segurança da ONU aprova o fim a 13 anos de sanções econômicas contra o país.

hoje engajados na campanha à Casa Branca do ex-governador de Vermont Howard Dean, alertam para o equívoco da imagem de líder tosco e tolo controlado por ideólogos ultraconservadores de seu gabinete que muitos têm de Bush, dentro e fora dos EUA. Herdeiro de uma dinastia de políticos iniciada por seu avô, um ex-senador de Connecticut, e consolidada por seu pai, o ex-presidente George H. Bush, Bush teve sua rápida ascensão facilitada pela tendência de seus adversários a subestimar sua inteligência e talento para a política. “O homem de Midland não é uma figura de fachada de uma revolução de outros”, escrevem Daalder e Lindsay. “Ele pode ter chegado à Casa Branca sem saber que general mandava no Paquistão, mas durante seus primeiros 30 meses no poder não foi marionete, e sim quem mexeu os cordéis. Ele governou da forma como disse que faria durante a campanha. Buscou ativamente o conselho de seus mais experientes assessores e tolerou, se não encorajou, desacordos vigorosos entre eles. Quando necessário, impôs-se a eles. George W. Bush liderou a própria revolução.” Se a situação no Iraque melhorar, a economia firmar-se e a taxa de desemprego continuar a diminuir, essa percepção mais benigna sobre o líder americano pode ajudá-lo a consolidar-se como herdeiro político não de seu pai, mas do expresidente Ronald Reagan, um ex-ator de segunda que passou a vida sendo subestimado, mas entrou para a história como um líder que desmontou a União Soviética e iniciou o mais longo período de prosperidade da economia americana. Da mesma forma, a imagem mais positiva de Bush poderá aumentar o nível de cobrança dos americanos e acabar funcionando contra ele. É, provavelmente, o que acontecerá se a captura de Saddam deixar de produzir o arrefecimento da resistência à ocupação, esperado por Washington. Nessas circunstâncias, a continuação dos ataques contra soldados e a complexidade e os custos da operação de estabilização e reconstrução do Iraque podem convencer os americanos de que Bush colocou o país num beco cuja única saída é retirar-se o quanto antes do Iraque e deixar que a maioria xiita do sul, a minoria sunita da região de Bagdá que dominou o país na era Saddam e os separatistas curdos do norte se entendam. Neste cenário, os especialistas prevêem que a libertação do Iraque seria seguida por uma devastadora guerra civil. O caos econômico que permanece nove meses depois da remoção da ditadura baathista pelas forças americanas e a incapacidade demonstrada até agora pela administração ocupante de restabelecer um nível mínimo de normalidade da vida no Iraque são ilustrados diariamente pelas filas quilométricas nos postos de gasolina num país que já foi o segundo maior produtor de petróleo do mundo. A separação física entre ocupantes e ocupados em Bagdá e a tensão que persiste entre os dois lados reforça previsões pessimistas sobre as chances de montagem de um governo iraquiano minimamente legítimo e viável. Tudo isso indica que, a médio e longo prazo, a transformação que Bush completou na política externa americana em 2003 augura menos a transformadora visão de democracia e paz no Iraque, de que se fala na Casa Branca e no Pentágono, do que conseqüências potencialmente calamitosas para o país ocupado e para o já abalado prestígio dos EUA no mundo. Considerando, porém, o período que falta para a eleição de 2 de novembro, que comanda os cálculos de Bush e de seus assessores, 2004 começa como um ano promissor para o líder americano.

MAIO
1 – Bush anuncia o fim dos combates no Iraque. 2 – Índia e Paquistão restabelecem relações diplomáticas. 3 – Morre o ator Wilson Vianna, de 75 anos, que viveu o Capitão Aza, personagem de seriado de TV nos anos 60 e 70.

25 – Primeiro-ministro israelense Ariel Sharon aprova o “Mapa da Estrada”, plano de paz que deve levar à criação de um Estado palestino em 2005. – Kirchner toma posse na Argentina. – Elefante, de Gus Van Sant, vence a Palma de Ouro do Festival de Cannes. – O brasileiro Gil de Ferran vence as 500 Milhas de Indianápolis (EUA). O Brasil dominou o pódio: Hélio Castro Neves chegou em 2.º lugar e Tony Kanaan em 3º. 26 – A PF indicia o ex-presidente Fernando Collor, seu irmão Leopoldo e outras 14 pessoas pela negociação do Dossiê Cayman. O documento falso acusava o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, seus ministros José Serra (Saúde) e Sérgio Motta (Comunicações) e o ex-

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INTERNACIONAL

QUARTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2003
Reuters–9/4/2003

2003/ 2004
Reuters–9/4/2003 Goran Tomasevic/Reuters–9/4/2003

Na seqüência, marines derrubam estátua de Saddam em Bagdá

GUERRA FAZ SURGIR MUNDO INÉDITO
Mais importante acontecimento do ano, a invasão do Iraque afeta todo o planeta
GILLES LAPOUGE
Correspondente

ARIS – De tempos em tempos, termina a guerra do Iraque. A primeira vez foi no dia 7 de abril, quando os soldados americanos tomaram Bagdá, A segunda foi no dia 1.º de maio, quando George W. Bush envergou seu belo uniforme militar para pousar sobre o convés do portaaviões Abraham Lincoln e apitar o fim do jogo. O terceiro fim da guerra do Iraque teve lugar quando os soldados americanos encontraram um buraco de onde retiraram Saddam Hussein. O chato é que a guerra é estúpida. Ela não chegou nem mesmo a entender que estava terminada. Nem mesmo a captura de Saddam lhe abriu os olhos: ela continua a celebrar suas núpcias macabras Uma coisa é certa: quer já tenha acabado ou não, essa guerra já fez nascer um mundo inédito, uma geografia sem precedentes, uma América enigmática, uma Europa diferente, uma Ásia em ebulição. E também novos sistemas de relações entre nações, talvez uma transformação do direito internacional. Avaliar essas metamorfoses não seria tarefa para um simples artigo e certamente demandaria nova revisão dentro de algum tempo, porque o vulcão iraquiano continua sua erupção e suas lavas estão sempre candentes. Um primeiro fato constatado é que a guerra do Iraque é aprovada por alguns, detestada por outros, mas todos a descrevem como a “o principal acontecimento do ano”. “Pesquisa sobre um desastre: o Iraque” – é o título de Le Nouvel Observateur. A capa da revista L’Express traz a foto de Bush e anuncia: “O homem que estragou nosso ano.” Mais complicado, o historiador Jacques Julliard escreve: “A maior vitória de Osama Bin Laden não é o ataque contra as torres gêmeas de Nova York e seus 3 mil mortos. Sua maior vitória é o novo rumo da política americana.” Todos esses veredictos, quer emanem dos que apóiam a guerra, quer dos que a rejeitam, têm uma coisa em comum: a aventura de Bagdá não interessa a um país apenas, ou a uma única zona do globo, mas ao mundo todo. O que fazem os soldados americanos interessa aos EUA, à Eugovernador Mário Covas de terem US$ 300 milhões em contas no Caribe. – Aos 45 anos, Oscar Schmidt oficializa no Rio o fim de sua carreira no basquete. 27 – O secretário-geral da ONU, Kofi Annan, nomeia o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello para o cargo de representante especial da entidade no Iraque. 28 – A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) interdita o laboratório Enila sob suspeita de que um de seus produtos, o contraste Celobar, tenha causado a morte de 13 pessoas. 29 – O Índice Geral de Preços do Mercado (IGP-M) fechou maio em -0,26%, segundo a Fundação Getúlio Vargas. Tratase da primeira deflação em 47 meses. – Governo e oposição assinam pacto que

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ropa, ao Oriente Médio, mas também à Indonésia, ao Canadá, à América Latina... Nos Estados Unidos, o reinado de Bush abala os dogmas: ele vira as costas (até agora pelo menos) e adota este “isolacionismo” que outrora constituía o receio dos europeus. E, então, será Bush o homem que reconhece que os EUA têm deveres para com o mundo? Sim, com toda a certeza, mas de uma maneira inédita. Efetivamente, se ele se intromete, não é tanto para debater com os outros mas para impor sua visão, a visão da América. No caso do Iraque, sua linha é clara: ao levar o fogo a Bag-

dá, ele é o oposto de um “isola- nal, ampliando a doutrina da cionista”. Mas, ao deixar a “ingerência humanitária” forONU fora do jogo, os países de- jada pelo francês Bernard Koumocráticos e os amigos que chner (fundador dos Médicos não o aprovam Sem Fronteiras). (França, AlemaBush acredita nha), ele mostra que os EUA têm IN LADEN que seu “intero “direito” de igvencionismo” é norar a soberaMUDA POLÍTICA ditado apenas nia de uma napela preocupação quando esta EXTERNA ção em garantir está nas garras ou administrar a de um tirano. DOS EUA “hegemonia” Seria difícil dos EUA sobre o não aprovar essa mundo inteiro – generosidade: os um ancestral da globalização. países democráticos teriam eviDe acordo com sua visão, tado um inferno, se tivessem Bush retifica os sacrossantos podido uma operação de “ingeprincípios do direito internacio- rência humanitária” contra

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Adolf Hitler. Mas logo caímos na conta de que essa “polícia universal” é inaplicável, porque são inúmeros esses tiranos em atividade. E, depois, quem decidirá que um país está submetido à barbárie? Ou que ele constitui um risco, uma ameaça aos outros? A não ser que se recorra a uma entidade universalista, a ONU. Sim, mas Washington bloqueou a ação da ONU porque era preciso agir depressa: Saddam tinha armas de destruição em massa que poderiam ser postas em operação dentro de 40 minutos. Esse foi um dia funesto para a ONU. Será que ONU reconquistará

E a guerra teve um efeito colateral: rachou em duas a União Européia

FOSSO ENTRE EUROPA E EUA FICOU MAIOR
realidade não era bem “o fim da confusão provocada por Sahistória”, mas sim o domínio da ddam Hussein, tomar o camihistória por parte da América. nho da felicidade traçada pelo Com certeza, hoje em dia, dez Ocidente, acabar com todos os anos depois da Guerra do Golfo, sistemas despóticos, em resumo, a teoria do fim da história (ge- voltar a ser povos decentes. O nial, quando foi forjada em 1806 “bem” é tão contagioso quanto pelo filosofo alemão Hegel e já o “mal”. Camuflada sob essa rançosa e surrada quando foi re- guerra do Iraque, haveria uma copiada por Fukuyama), está de- pedagogia do “bem”. O bom misacreditada em razão da ascen- cróbio da democracia iria infecsão do islamismo há dez anos. tar toda a região controlada por Mas, como os homens sempre ditadores sórdidos e religiosos precisam de uma teoria, os ame- histéricos. Até mesmo o conflito ricanos substituíram a do fim da entre israelenses e palestinos tehistória por outra teoria: a de sa- ria solução pacífica. muel Huntington sobre o “choO programa é fascinante. A que de culturas”, às vezes masca- Europa foi a primeira a se incorada como “volta da cruzada”. modar. Não é impressionante Cruzada? Choque de cultu- um povo árabe seduzindo outros ras? Bush e seus assessores evi- povos árabes? Entretanto, muito tam pronunciar essas palavras, recentemente, pode-se constatar mas seus atos paque a teoria dos recem muitas veneoconservadozes inspirados res de WashingÁQUINA nas opiniões de ton não era assim Huntington. Eles tão utópica. Um DO TERROR insinuam que dos mais infames existe uma vertigiterroristas dos úlGALVANIZADA nosa divisão do timos 20 anos, o mundo entre coronel líbio MuaPOR INVASÃO uma esfera ocimar Kadafi não dental e democráapenas renuntica, por um lado ciou às armas nue, por outro, essas regiões incer- cleares, como também parece detas que vão da Síria ao Afeganis- terminado a colaborar com os tão e abrigam poderes teocráti- EUA na busca dos terroristas. cos, monárquicos, despóticos, ar- Para a França, é uma piada forcaicos, irânicos ou sanguinários. midável vinda dele responder a De acordo com Washington, Bush e Blair. Para o mundo, é a os soldados americanos entra- esperança de ver a corrente do ram no Iraque para expurgar o bem propagar-se. Oriente Médio desses miasmas Melhor, no entanto, não canantidemocráticos e tirânicos. Os tar vitória antes do tempo. Em membros do estreito círculo de primeiro lugar, Kadafi não é Bush (Rumsfeld, Dick Cheney, um homem confiável. Em seguiCondoleezza Rice, William Kris- da, o terreno de onde saem os tol, etc.) nos catequizaram: essa terroristas não é mais o Magreb “tempestade” americana sobre o norte-africano faz muito tempo. Iraque iria aterrorizar todos os É a vasta zona que vai da Arápovos e levá-los ao caminho reto. bia ao Paquistão. E, por enquanOs governos asiáticos muçul- to, ao menos, a argamassa da manos iriam fazer aliança com paz no Iraque concentrou de tal a democracia, rechaçar toda a forma a diplomacia americana

ARIS – Além das reações psicológicas, restam algumas feridas muito fortes. Os americanos se vingam, por exemplo, privando a França dos benefícios da reconstrução iraquiana. A França não atenuou em nada as suas críticas contra a Casa Branca. Ela se ateve às suas teses com uma energia ainda maior do que em outros pontos. O governo de Jacques Chirac acumula fracassos sobre fracassos. Apenas a política externa francesa tem um pouco de brilho. Mas um dos efeitos mais detestáveis deste ano de guerra foi uma ampliação ainda maior do fosso entre a América e a Europa. Aqui, não se trata apenas da França. Para muitos europeus, os Estados Unidos “tiraram a máscara” e agora estamos descobrindo o seu rosto verdadeiro e inquietante: ávidos de açambarcar todas as riquezas do mundo (petróleo, aço, etc.), represadores do restante da humanidade, decididos a semear a borrasca na terra inteira, contanto que a hegemonia americana seja favorecida. Um país que inveja as glórias da antiga Roma, quando esta realizou a “pax romana”, tendo dominado todas as regiões não bárbaras de seu tempo e conquistado um período de trégua na história. Para estes europeus, os Estados Unidos gostariam de concretizar com George W. Bush filho o sonho messiânico do Bush pai depois da primeira guerra do Iraque: organizar esse fim da história, imaginado na época pelo filósofo Francis Fukuyama que, na
abre caminho para um referendo sobre o mandato de Hugo Chávez.

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que ela não conseguiu dar ao conflito israelense-palestino a atenção e a imparcialidade necessárias. Ariel Sharon é útil demais a uma América em dificuldade para que os EUA possam reclamar contra ele quando amontoa intransigências e provocações. Teria ele podido construir um muro se os EUA não estivessem hipnotizados por outras urgências? Não se pode esquecer que o próprio Iraque, embora livre de uma tirania cruel, da tortura, e dos assassinatos de Estado, não estava muito influenciado, sob o regime laico do tirano, pela fanatismo religioso. Hoje, existe o receio de que, nesse pútrido buraco, nesse vazio deixado pelo desaparecimento do déspota, desvarios religiosos mais assassinos tenham instalado seu domínio no Iraque, aproveitando-se da situação de calamidade e depressão em que se encontra mergulhado. A todas as centrais do terror (Afeganistão, Síria, Arábia Saudita...) acrescenta-se agora outra inédita central: o Iraque. Esses fanáticos, serão eles antigos assassinos (os de Saddam...), ou do Hezbollah, os discípulos de Bin Laden? No fundo, pouco importa se Bin Laden está ou não no comando, se Saddam Hussein não está mais em liberdade. Isso são apenas detalhes: a máquina do terror foi montada, colocada em ação, galvanizada pela guerra dos soldados americanos e ela continua por si mesma. Ela mata por si mesma. Enfim, é uma outra zona que saiu mal da aventura iraquiana. Coxa, com ferimentos generalizados, uma venda sobre os olhos e com vontade de vomitar, assim é a Europa segundo o Iraque. A luta entre os velhos europeus e os americanos dividiu a Europa – e sua instituição, a União Européia – em dois . (G.L.)

um pouco de autoridade desde que a tonitruante guerra de Bagdá se transformou em calamidade? De forma alguma, pois a própria ONU reduziu sua presença depois do ignóbil matança de seus representantes em Bagdá, incluindo a morte do brasileiro Sérgio Vieira de Mello. Contudo, recentemente, os EUA moderaram um pouco o seu tom em relação à ONU. Eles precisaram dela para encorajar países democráticos a enviar tropas ao Iraque a fim de aliviar os soldados americanos. Será que essa atitude mais flexível de Washington terá seu efeito e a ONU reconquistará sua dignidade? Isso é duvidoso, principalmente tendo em vista que o sucesso de Bush com a captura de Saddam poderá animar os elementos neoconservadores mais exagerados a voltar ao antigo desprezo contra a ONU. O mesmo se poderia dizer em relação a aqueles que Donald Rumsfeld qualificou de “velhos europeus” (sobretudo a França e Alemanha). No tocante a essas relações entre os EUA e a Europa, encontramos aqui um esquema semelhante ao que acabamos de descrever entre Washington e a ONU, mas com alguns traços ainda mais ásperos. A resistência contra guerra, orquestrada por Paris, lançou os dirigentes americanos e o povo americano num verdadeiro acesso de raiva. A intensidade dessa raiva, como o da furiosa reação francesa, ultrapassaram toda medida. Nesse ponto, chegamos a suspeitar que a guerra do Iraque permitiu que alguns sentimentos profundos, mas proibidos – sentimentos não expressos, não confessados – viessem à tona. E quais são esses sentimentos? Por um lado, a irritação exasperada dos americanos diante desses franceses que tudo sabem, que são pérfidos, que dão lições de moral o tempo todo, que não entendem nada de economia, são nulos em tudo e continuam a deambular sob os sois apagados de seu século 17... Quanto aos fraceses, eles se sentiram livres para demonstrar o seu desprezo por esses caubóis, esses americanos incultos e primitivos. (Essa lógica francesa não se sente incomodada pelo fato de que os americanos produzem os melhores romances há cem anos, o melhor cinema, a música mais difundida. Quando se diz isso aos franceses, eles sacodem a cabeça e continuam resmungando: “os americanos são incultos e ponto final!”)
– Seleção brasileira é eliminada da Copa das Confederações ao empatar com a Turquia em 2 a 2 na França. 24 – Previdência registra o maior déficit da história. Em maio, as contas tiveram balanço negativo de R$ 1,7 bilhão. – Dois ataques deixam seis soldados britânicos mortos e oito feridos no Iraque. É a maior baixa das forças de ocupação desde a declaração do fim da guerra. 25 – Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) mostram que o desmatamento na Amazônia em 2002 foi o maior desde 1995. A área desmatada chegou a 25.500 quilômetros quadrados. 26 – FGV apurou deflação de 1% no IGP-M em junho, maior queda desde junho de 1989, quando o índice co-

JUNHO
2 – Carga tributária quebra novo recorde histórico. De acordo com levantamento do Instituto Brasileiro de Planejamento Tributário, 41,2% do PIB foram comprometidos com o pagamento de impostos no primeiro trimestre, 5,56% a mais que no mesmo período de 2002. – Presos os empresários Alexandre Martins e Reinaldo Pitta. 4 – Os chefes de governo de Israel, Ariel Sharon, e da Autoridade Palestina (AP), Mahmud Abbas, comprometem-se, sob a mediação de Bush, a pôr em marcha o Mapa da Estrada.

5 – Maurício Corrêa toma posse como presidente do Supremo e faz duras críticas à reforma da Previdência, que prevê a redução dos salários e o fim da aposentadoria integral dos juízes. – Blix divulga seu último relatório sem chegar a conclusões sobre a existência de armas químicas no Iraque. 11 – Na maior manifestação contra o governo desde a posse de Lula, 20 mil servidores fazem marcha em Brasília para protestar contra a reforma da Previdência. – Cruzeiro derrota o Flamengo por 3 a 1 e conquista o título da Copa do Brasil. 12 – A Câmara de Política Social decide fundir os programas de transferência de renda do governo (Bolsa-Escola, BolsaAlimentação, Cartão-Alimentação, Pro-

grama de Erradicação do Trabalho Infantil, Agente Jovem e Auxílio-Gás) num único projeto social. – Dados da Síntese de Indicadores Sociais do IBGE mostram que 54,3% da população ocupada não contribui para a Previdência Social. – O ator americano Gregory Peck morre, aos 87 anos, em Los Angeles. – O músico Itamar Assumpção, de 53 anos, morre em São Paulo. 13 – FMI aprova desembolso de US$ 9,3 bilhões para o Brasil, na terceira revisão de acordo de US$ 32,4 bilhões. – Fundação Oswaldo Cruz anuncia que o lote do Celobar suspeito de ter causado a morte de 22 pessoas apresenta 14% de sais de bário tóxicos. O resultado indica

que o uso das substâncias foi intencional. 16 – Brasil assina a Convenção Internacional de Controle do Tabaco. 18 – Copom reduz juros básicos pela primeira vez na gestão Lula, cortando a taxa Selic de 26,5% para 26% ao ano. Apesar da pressão política, os juros continuam no nível mais alto desde maio de 1999. 20 – Lula e Bush anunciam na Casa Branca, a decisão de estreitar relações entre os dois países, “com vistas à promoção da cooperação hemisférica e global”. 23 – China ocupa o primeiro lugar entre os países que mais atraíram investimentos estrangeiros em todo o mundo em 2002, segundo a OCDE. A China recebeu US$ 52,7 bilhões. O Brasil, com US$ 19,2 bilhões, passa da 12.ª para a 9.ª posição.

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GERAL

O ESTADO DE S.PAULO - H11

2003/ 2004

PROVÃO CONTINUA, MAS PERDE FORÇA
MEC ampliou sistema de avaliação do ensino superior, no qual exame será apenas uma parte
RENATA CAFARDO
Kin Cheung/Reuters

le começou o ano desacreditado, foi tão criticado quanto defendido exaustivamente ao longo dos meses e no fim de 2003 o Provão mudou. Por meio de medida provisória, o ministro da Educação, Cristovam Buarque, tirou o brilho da maior estrela da gestão Paulo Renato Souza. O sistema de avaliação do ensino superior continuará com provas para os alunos, mas elas serão apenas parte de um processo amplo. O medidor se chamará agora Índice de Desenvolvimento do Ensino Superior (Ides), que resultará da combinação de quatro indicadores: ensino, aprendizagem, capacidade institucional e responsabilidade social. Em vez das notas de A a E, o exame classificará cursos em bem avaliados, intermediários e não-satisfatórios. Em julho, uma comissão nomeada pelo Ministério da Educação (MEC) começou a estudar as mudanças. Seguiram-se audiências públicas e debates e, em setembro, a conclusão foi entregue ao ministro. A forma final do sistema só foi divulgada este mês. Agora, os cursos que forem considerados não satisfatórios terão de assinar um termo de compromisso para corrigir falhas. Os cursos passarão por avaliações a cada três anos, num sistema de rodízio. A prova será no fim do primeiro ano e ao término do curso. Só haverá obrigatoriedade para todos nas áreas com poucos alunos. Mas não só o Provão chamou a atenção no MEC em 2003. O chefe da casa acabou ganhando o apelido de semeador de utopias, pela quantidade – e principalmente pela excessiva criatividade – de suas idéias. Durante os 12 meses, Cristovam sugeriu que novelas exibissem galãs alfabetizadores, propôs descontos em supermercados para mães de bons alunos e defendeu a troca de parcelas da dívida externa por investimento em educação. “Lanço muitas idéias, querendo que todas peguem”, disse. Para alguns educadores, o falatório mostrou um ministro ainda sem rumos.

E

Novo vírus
A síndrome respiratória aguda severa (Sars) pôs o mundo em alerta no primeiro semestre. A epidemia, causada por um novo tipo de
Rodrigo Lobo/JC Imagem

coronavírus, começou na província chinesa de Cantão, no fim de 2002, e se espalhou rapidamente pelo globo. Só foi controlada em julho, depois de

deixar mais de 8 mil pessoas doentes e causar 774 mortes em mais de 20 países. A doença causou prejuízos gigantescos às economias asiáticas e obrigou

milhões de pessoas a usarem máscaras cirúrgicas, como forma de reduzir o contágio. No Brasil, foram registrados apenas três casos suspeitos. Cientistas

agora trabalham em uma vacina contra o vírus, que teria passado de animais para o homem. Um caso suspeito foi registrado na China, no dia 27
Reuters

Os planos vêm desde 2001, mas este ano a Universidade de São Paulo (USP) definiu o lugar onde será construído seu campus na zona leste da cidade. A nova unidade no Parque Estadual do Tietê, perto da Rodovia Ayrton Senna, recebeu também uma verba extra de R$ 48,3 milhões na votação do Orçamento 2003. Foram anunciados ainda este ano os cursos que serão oferecidos. Pelo estatuto da USP não podem ser dados os mesmos cursos em duas unidades na mesma cidade. Não haverá na zona leste, portanto, Direito, Medicina ou Engenharia. As cerca de 1.500 vagas serão dispersas entre áreas como Políticas Públicas, Enfermagem Geriátrica, Marketing, Turismo, Gestão Ambiental, entre outras. As aulas serão preferencialmente à noite. As obras estão marcadas para começar no início de 2004, quando a universidade comemora seus 70 anos. O campus leste – que deve ter ainda um complexo esportivo disponível também para a comunidade – vai iniciar suas atividades apenas em janeiro de 2005. (R.C.)
meçou a ser calculado. – Congresso aprova Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2003, que reafirma o compromisso com um superávit primário de 4,25% do PIB pelos próximos três anos. – Combates entre forças rebeldes e o governo deixam pelo menos 300 mortos na Libéria, na África. – Suprema Corte dos EUA libera, em termos legais, homossexualismo nos 13 Estados em que a prática ainda era proibida. – O jogador de Camarões Marc Vivien Foe, de 28 anos, morre de aneurisma cerebral após desmaiar durante a semifinal da Copa das Confederações, em Paris. 27 – Morre em São Paulo, aos 74 anos, o cineasta Walter Hugo Khouri. 29 – Em partida marcada pelas homena-

USP GANHA FORMA NA ZONA LESTE

Cicatriz do tráfico
As denúncias de tráfico de órgãos foram confirmadas no Brasil. Em dezembro, a Polícia Federal descobriu quadrilha que aliciava pessoas no Recife para venda de rins na África do Sul. Foram indiciadas 28 pessoas: 11 foram presas. A PF acredita que mais de 30 pessoas venderam um rim por até US$ 10 mil. Acima, dois acusados mostram cicatrizes da operação
Divulgação

Astro preso
O popstar Michael Jackson foi preso em 20 de novembro, acusado de abusar sexualmente de um garoto de 12 anos. Acima, a foto do registro na delegacia do Condado de Santa Bárbara, Califórnia. Michael pagou fiança de US$ 3 milhões e foi liberado. Ele responde a nove acusações: sete por abuso sexual e duas por “uso de agente intoxicante (álcool) com intenção de cometer delitos”

GLOBO DIZ ADEUS A SEU PRESIDENTE
Roberto Marinho morreu em agosto, aos 98 anos, após um edema pulmonar

D

Jornalista deixou império de US$ 2 bilhões e 15 mil funcionários
gens a Foe, a França derrota Camarões por 1 a 0 e conquista o bicampeonato da Copa das Confederações. – Morre aos 96 anos a atriz Katherine Hepburn, vencedora de quatro Oscars. – Forças israelenses retiram-se de Belém, devolvendo o poder à Autoridade Palestina após sete meses. 3 – O Índice de Preços ao Consumidor (IPC) da Fipe registra deflação de 0,16% em São Paulo no mês de junho, primeira taxa negativa desde 2000. – EUA oferecem recompensa de US$ 25 milhões por informações que levem à prisão de Saddam. No caso de Uday e Qusay, filhos de Saddam, a recompensa chega a US$ 15 milhões. 4 – Morre o cantor Barry White. 5 – Duas militantes chechenas matam 16 pessoas ao detonar explosivos amarrados ao corpo durante show em Moscou. – Boeing 737 da Sudan Airways cai com 116 pessoas a bordo. Um meni-

ono da mais importante emissora de TV do País e uma das cinco maiores do mundo, o empresário Roberto Marinho morreu aos 98 anos, no dia 6 de agosto. Ele estava em casa, no Cosme Velho, zona sul do Rio, quando sofreu um edema pulmonar, provocado por trombose. Foi internado no Hospital Samaritano e morreu durante uma cirurgia para retirada de um coágulo do pulmão. “O Brasil perde um homem

que passou a vida acreditando no Brasil. Como dizia o nosso amigo Carlito Maia, tem gente que vem ao mundo a passeio, tem gente que vem ao mundo a serviço. Roberto Marinho foi um homem que veio ao mundo a serviço”, declarou o presidente Lula, que decretou luto oficial de três dias. Cerca de 1.800 pessoas foram ao velório, no salão principal do Cosme Velho, incluindo artistas, políticos e empresários do mais alto escalão. O sepultamento ocorreu no Cemitério São João Baptista, em Botafogo. Considerado por muitos um dos homens mais poderosos do Brasil, Roberto Marinho começou com paginador nas

oficinas do jornal A Noite, de seu pai, Irineu Marinho. Em sete décadas de trabalho empresarial e jornalístico, ergueu um império de mais de 15 mil funcionários e faturamento de cerca de US$ 2 bilhões. Seus herdeiros são filhos do primeiro casamento. Roberto Irineu, que supervisionava a televisão, assumiu o cargo do pai como presidente das Organizações Globo. João Roberto continuou como vice-presidente de Relações Institucionais e presidente do Conselho Editorial do grupo. E José Roberto, como vice-presidente de Responsabilidade Social, coordenando a Fundação Roberto Marinho. (Herton Escobar)
13 – Seleção brasileira masculina conquista em Madri pela terceira vez o título da Liga Mundial de Vôlei ao derrotar Sérvia e Montenegro por 3 sets a 2. 15 – Coréia do Norte anuncia que já tem plutônio suficiente para fabricar pelo menos seis bombas atômicas. 18 – Depois de dois anos e sete meses preso na Polícia Federal, em São Paulo, o juiz aposentado Nicolau dos Santos Neto consegue no STJ direito à prisão domiciliar. Nicolau responde a processo sob acusação de desvio de recursos da obra do Fórum Trabalhista de São Paulo. 19 – Cerca de mil famílias de sem-teto invadem terreno da Volkswagen em São Bernardo do Campo, no ABC. – O cientista britânico David Kelly se

JULHO
1 – Por 8 votos a 4, senadores do PT afastam Heloísa Helena da bancada. – Pesquisa CNI/Ibope registra queda no nível de aprovação do governo Lula de 75% em março para 70% em junho. 2 – Em encontro histórico com os principais dirigentes do MST no Planalto, Lula adverte que a onda de saques e invasões prejudica a reforma agrária. – O Santos é derrotado pelo Boca Juniors por 3 a 1 na final da Copa Libertadores.

no de 2 anos é o único sobrevivente. 7 – O Brasil foi o país que mais subiu, do 69.º para o 65.º posto, no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU. Os itens que mais contribuíram para isso foram longevidade e educação. – O Comitê Olímpico Brasileiro (COB) escolhe o Rio como candidato do País a sede dos Jogos Olímpicos de 2012. 8 – Funcionalismo federal pára em protesto contra a reforma da Previdência. Cerca de 45% dos 880 mil servidores cruzaram os braços. 9 – Líderes da base aliada fecham com Maurício Corrêa e o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, acordo que visa a manter na reforma da Previdência a aposentadoria integral dos servidores pú-

blicos, proposta que atende às reivindicações do Judiciário. – O IPCA, que serve de base para a meta de inflação do governo, registra deflação de 0,15% em junho. É a primeira variação negativa desde novembro de 1998. – Ricardo Teixeira é reeleito para o quinto mandato à frente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). 11 – Bush culpa a Agência Central de Inteligência (CIA) por ter acusado o Iraque, em janeiro, de tentar comprar urânio do Níger para uso no seu programa nuclear. – O principal líder dos sem-terra no Pontal do Paranapanema, José Rainha Júnior, de 43 anos, é preso em Teodoro Sampaio (SP). Ele responde a vários processos por invasão de propriedades rurais.

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QUARTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2003

2003/ 2004

TRAGÉDIA EM ALCÂNTARA: 21 MORTOS
Ed Ferreira/AE – 25/8/2003

Explosão frustra terceira tentativa de lançar o foguete VLS brasileiro
HERTON ESCOBAR

TRANSGÊNICOS E POLÊMICA NO CONGRESSO
Governo libera 2 safras de soja modificada, mas não define lei de biossegurança

ano foi de luto para a exploração espacial. Além da explosão do ônibus espacial Columbia, nos EUA, o desastre com o terceiro protótipo do foguete VLS, em 22 de agosto, lançou uma nuvem sobre o programa espacial brasileiro. Vinte e um funcionários do Instituto de Aeronáutica e Espaço morreram quando um dos motores do primeiro estágio foi acidentalmente acionado, transformando a torre da Base de Alcântara, no Maranhão, em uma fogueira de 3.000º C. O acidente ocorreu três dias antes do lançamento. Seria a terceira tentativa de enviar o Veículo Lançador de Satélites (VLS) ao espaço. As duas anteriores, em 1997 e 1999, fracassaram. Os foguetes apresentaram falhas e tiveram de ser destruídos em pleno vôo. Uma comissão de militares, técnicos e parentes das vítimas foi criada para investigar o acidente. Tudo indica que o motor foi acionado por uma corrente elétrica de dentro do foguete, cuja origem ainda não foi determinada. O relatório final, após quatro adiamentos, deve ser divulgado no início do ano.

O

A torre de lançamento do VLS, na Base de Alcântara: após acionamento do foguete, estrutura foi tomada por fogo de 3.000º C
Reuters/Nasa – 1.º/2/2003

A Nasa, agência espacial americana, sofreu sua maior tragédia desde a explosão da Challenger, em 1986. Sete astronautas – seis americanos e um israelense – morreram quando o ônibus espacial Columbia se despedaçou sobre o Estado do Texas, em 1.º de fevereiro. A causa não poderia parecer mais simplória: um pedaço de espuma que se soltou de um dos tanques de combustível e atingiu a borda da asa esquerda durante o lançamento, 15 dias antes. O impacto abriu um buraco numa das placas protetoras de cerâmica da nave, permitindo que um gás superquente penetrasse na asa durante a reentrada da atmosfera. O Columbia viajava a 20 mil quilômetros por hora, a 60 mil metros de altitude, com 4 toneladas de experimentos científicos a bordo. Os destroços foram recolhidos e uma comissão foi criada para apurar o acidente. A investigação, concluída em agosto, culpou a cultura de autoproteção da Nasa e sua relutância em enfrentar questões relativas à segurança. Os vôos dos três ônibus espaciais restantes foram suspensos pelo menos até setembro de 2004. (H.E.)

O COLUMBIA AOS PEDAÇOS E 7 MORTES

Destroços da nave Columbia deixaram rastros de fumaça sobre o Texas: tripulação era formada por seis americanos e um israelense
Reuters/Nasa

riga de ministros, declarações do Vaticano, caminhões barrados, pesquisas paralisadas e duas safras de semente transgênica contrabandeada autorizadas por medida provisória. 2003 foi o ano mais polêmico dos organismos geneticamente modificados (OGMs) no Brasil. Havia a expectativa de que a questão seria resolvida com o projeto de lei de biossegurança, enviado ao Congresso em outubro. Mas o regime de urgência, que exigia votação até o fim do ano, foi retirado no início de dezembro. O ano foi marcado pela disputa entre os Ministérios do Meio Ambiente, contrário aos transgênicos, e o da Agricultura, favorável aos OGMs. Mesmo a criação de uma comissão interministerial, em fevereiro, não produziu consenso sobre questões como a competência da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CTNBio). A briga continuou no Tribunal Regional Federal de Brasília, onde corre o processo sobre o parecer da CTNBio em favor da soja geneticamente modificada. O plantio ilegal tornou-se evidente, principalmente no Rio Grande do Sul. Com uma safra de soja transgênica avaliada em R$ 1 bilhão, o governo editou a Medida Provisória 113, autorizando sua comercialização para consumo humano e animal. Com a MP 131, repetiu o processo para a safra 2003/2004. Para fins de rotulagem, reduziu a tolerância de transgênicos nos alimentos de 4% para 1% e regulamentou o licenciamento de pesquisas com OGMs, mas as regras foram consideradas impraticáveis pelos cientistas, muitos dos quais continuaram com suas pesquisas paralisadas. Em outubro, o Paraná aprovou lei proibindo os plantio, importação e comercialização de transgênicos no Estado até 2006. Centenas de caminhões com soja de outros Estados a caminho do Porto de Paranaguá foram barrados na fronteira para ser inspecionados. No início de dezembro, o Supremo Tribunal Federal julgou a lei inconstitucional. Para apimentar a polêmica, o Vaticano fez pronunciamentos favoráveis aos transgênicos. Já a Monsanto, dona da patente sobre a soja transgênica, disse que assume a responsabilidade sobre a segurança do produto, mas deixou claro que cobrará royalties sobre ele. (H.E.)

B

Marte nunca esteve tão próximo
Marte passou “de raspão” pela Terra em 27 de agosto. Os dois planetas ficaram a 55.758.005 quilômetros um do outro – a maior aproximação dos últimos 60 mil anos. No mundo inteiro se pôde admirar o brilho avermelhado do planeta, facilmente perceptível durante várias semanas. Os cientistas aproveitaram a proximidade das órbitas para enviar missões ao planeta vermelho, em busca de vestígios de água e vida. A primeira a decolar, em junho, foi a sonda Beagle 2, da Agência Espacial Européia, que chegou a Marte no dia de Natal. Depois vieram os robôs Spirit e Opportunity, da Nasa, que deverão pousar no planeta em janeiro.
suicida e aprofunda a controvérsia sobre a manipulação de informes de inteligência para justificar a guerra no Iraque. 22 – Forças americanas matam os dois filhos de Saddam, Uday e Qusay, na cidade de Mossul, norte do país. 23 – Copom reduz a taxa Selic de 26% para 24,5% ao ano. – Taxa de desemprego no País sobe de 12,8% em maio para 13% em junho, segundo o IBGE. O índice é o maior desde outubro de 2001, quando o instituto alterou a forma do levantamento. – O repórter fotográfico Luiz Antônio da Costa, o La Costa, morre após ter sido baleado no terreno da Volks no ABC. 24 – Paulo Maluf é detido em Paris e fica quase 7 horas sob custódia da Justiça para explicar depósitos feitos numa conta aberta em nome de sua mulher, Sylvia, no banco Crédit Agrícole no valor de 1,738 milhão (R$ 5,6 milhões). – Morre o ator Rogério Cardoso. 25 – A queda do salário real dos trabalhadores levou o INSS a registrar, no primeiro semestre do ano, déficit de R$ 9,6 bilhões, o maior de sua história. 27 – Morre aos 100 anos o ator Bob Hope, rei da comédia americana. 28 – Lula recria a Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste (Sudene), extinta em 2001 por causa de denúncias de corrupção. 29 – O número de máquinas paradas na indústria paulista bateu recorde em junho. Segundo a Fiesp, o nível de utilização da capacidade instalada das empresas ficou em 78,7%. – Principal destaque do atletismo brasileiro, Maurren Maggi, número 1 do ranking internacional do salto em distância, é flagrada no exame antidoping após prova do Troféu Brasil, em junho, no Rio. 30 – Rainha é condenado a 2 anos e 8 meses de detenção, por porte ilegal de arma. 31 – Vaticano lança documento contra a legalização das uniões de homossexuais.

CÂMARA APROVA LEI DA MATA ATLÂNTICA
Projeto seguiu para o Senado em regime de urgência, mas votação acabou adiada

D

epois de 11 anos de tramitação, o projeto de lei da mata atlântica, para regulamentar a ocupação e a preservação da floresta, foi aprovado por unanimidade pelos deputados. Quando tudo parecia resolvido, o projeto chegou ao Senado e foi engavetado. O texto deveria ter sido votado ainda em dezembro, mas o pedido de urgência foi retirado no último minuto e não houve acordo para retomar a pauta. Segundo ambientalistas, o problema seria a possibilidade de proprietários exigirem grandes indenizações pela desapropriação de terras para preserva-

ção. Já os senadores alegam que não houve tempo suficiente para estudar o tema. Os 11 anos de tramitação custaram ao bioma mais de 10 mil quilômetros de desmatamentos, segundo a SOS Mata Atlântica e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). Reduzida a pouco mais de 7% da sua cobertura original, a mata atlântica é um dos ecossistemas mais ameaçados do planeta. Grande parte das espécies ameaçadas de extinção incluídas na nova lista do Ibama, divulgada este ano, existem ali – e muitas delas são endêmicas do bioma. No País, 70% dos vertebrados ameaçados do Brasil estão na mata atlântica e 37% deles são endêmicos. A nova relação do Ibama é uma atualização da lista de 1989, considerada incompleta e

carente de embasamento científico. O levantamento, realizado ao longo de 11 meses e por mais de 200 especialistas, em parceria com ONGs, servirá de base para projetos de preservação da biodiversidade. Das 395 espécies consideradas ameaçadas, mais de 80 (78 delas na mata atlântica) estão “criticamente em perigo”, o que significa que têm 50% de chance de desaparecer nos próximos 10 anos. Na Amazônia, estudo do Inpe indicou que, em 2002, a floresta perdeu 25.500 quilômetros quadrados – o maior índice de desmatamento desde 1995. Em novembro, o governo apresentou um ambicioso plano para conter a destruição na região. Uma das metas é o ordenamento territorial, com cadastro de terras e criação de unidades de conservação. (H.E.)
no Canadá. Houve caos na cidade, com moradores assustados pensando que se tratava de um atentado terrorista. – O ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, anuncia que o Brasil não aceita a proposta conjunta da União Européia e dos EUA sobre as negociações agrícolas com países em desenvolvimento no âmbito da OMC. Pela proposta, países com grande superávit comercial, como o Brasil, não teriam tratamento especial, reservado apenas aos países mais pobres. – Governo francês já admite a morte de pelo menos 3 mil pessoas em decorrência de uma onda de calor. – Rebeldes que fazem cerco de dois meses à capital da Libéria, Monróvia, retiramse enquanto cerca de 200 marines dos

AGOSTO
2 – Maurren Maggi é suspensa preventivamente pela Associação Internacional das Federações de Atletismo por doping. – A primeira medalha do Brasil nos Jogos Pan-Americanos de Santo Domingo

é de bronze, conquistada pela equipe feminina de ginástica artística. – Morre o violonista e compositor Paulinho Nogueira. 6 – O empresário Roberto Marinho, presidente das Organizações Globo, morre, aos 98 anos, no Rio. 7 – Um veículo-bomba explode em frente da Embaixada da Jordânia em Bagdá matando 11 pessoas e ferindo 65. 8 – BC reduz de 60% para 45% a alíquota do recolhimento compulsório sobre depósitos à vista dos bancos. 10 – Popó derrota o argentino Jorge Barrios por nocaute no 12.º e último round e mantém o título mundial. 11 – O presidente da Libéria, Charles Taylor, renuncia ao cargo.

13 – Câmara conclui votação em primeiro turno da reforma da Previdência, depois que o governo faz concessões à oposição. Foi fechado acordo para diminuir de 50% para 30% o redutor que incidirá sobre a parcela das pensões do funcionalismo que superarem o teto de R$ 2,4 mil. – A queda da renda, o desemprego e os juros altos produzem estragos no setor varejista. Segundo o IBGE, houve queda de 5,57% nas vendas no primeiro semestre na comparação com igual período de 2002. É o pior desempenho desde que a pesquisa teve início, em 2001. 14 – Nova York é surpreendida por um blecaute que atinge também partes dos Estados de Michigan, Ohio, Pensilvânia e New Jersey, além de Toronto e Ottawa,

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CIDADES

O ESTADO DE S.PAULO - H13

2003/ 2004

Policiais viram alvo no Rio e em São Paulo; dois juízes são assassinados
IURI PITTA

O CRIME ATACA POLÍCIA E JUÍZES
Fabio Motta/AE – 25/2/2003

País viveu momentos em que praticamente ficou refém da violência em 2003. Nas duas maiores cidades brasileiras, o retrato mais agressivo da falência da segurança pública se mostrou em ondas de ataques ordenadas pelo crime organizado. Delegacias e bases da Polícia Militar (PM) foram metralhadas, o comércio fechou em vários bairros do Rio e de São Paulo, ônibus e carros foram destruídos. Em uma das ações mais ousadas, criminosos assassinaram em 14 de março o juiz-corregedor Antônio José Machado Dias, de 48 anos, responsável por presídios da região de Presidente Prudente, incluindo a unidade de segurança máxima de Presidente Bernardes, onde estão presos alguns dos bandidos mais perigosos do País. No Espírito Santo, outro juiz, Alexandre Martins de Castro Filho, foi assassinado em Vila Velha, 11 dias depois, também a mando do crime organizado. A afronta ao Estado havia começado no mês anterior. Uma onda de violência ordenada pelo tráfico de drogas assustou o Rio. Logo no primeiro dia, 24 de fevereiro, mais de 20 bairros registraram ocorrências e 37 ônibus foram queimados ou depredados. A polícia deteve 31 suspeitos, mas as ações prosseguiram por mais quatro dias. O governo estadual chegou a mobilizar 2.500 policiais numa operação de emergência. O tra-

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gação sobre a autoria do disparo, que deixou a jovem tetraplégica, levou dois meses. Em São Paulo, o caso mais chocante foi o de dois rapazes obrigados a pular de uma composição da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos por três skinheads. Dois estão presos. Cleiton da Silva Leite, de 20 anos, não resistiu aos ferimentos e morreu. O amigo, Flávio Augusto de Nascimento Cordeiro, de 16 anos, teve o braço direito amputado.

Ônibus incendiado na Estrada Velha da Pavuna, zona norte do Rio: tráfico de drogas iniciou ações durante quatro dias de fevereiro ficante Luiz Fernando da Costa, o Fernandinho Beira-Mar, suspeito de ordenar os ataques, foi transferido de Bangu 1 para Presidente Bernardes. O traficante ainda “viajaria” outras vezes: para a superintendência da Polícia Federal em Maceió e novamente para Bernardes. O tráfico retomou ondas de violência no fim de março e em abril. Com isso, a governadora Rosinha Matheus trocou o secretário da Segurança Pública, nomeando o marido, Anthony Garotinho, em 24 de abril. Em São Paulo, entre erros e acertos, policiais acabaram envolvidos em histórias mal explicadas. O Estado revelou, em agosto, o sumiço de dólares falsos apreendidos com um traficante de drogas em 1987. A Justiça havia autorizado o uso do US$ 1,85 milhão, mas o paradeiro de US$ 585 mil ainda está sob investigação. Um dos acertos ocorreu em fevereiro, com a prisão do seqüestrador Pedro Ciechanovicz e a libertação do empresário João Bertin, 82 anos. Ele ficou 155 dias em cativeiro, o mais longo seqüestro do Estado. anos, evitavam que a filha saísse só. Na primeira vez em que ela tomou o metrô sozinha, em 26 de março, ocorreu o pior: Gabriela foi atingida no peito por uma bala perdida, durante um assalto. Dois meses depois, outra bala perdida feriu a universitária Luciana Gonçalves de Novaes, de 19 anos, no campus da Universidade Estácio de Sá. Ela foi atingida em um tiroteio entre policiais e traficantes. A investi-

Entrevista – Casos assim seguiram chocando o País. Atividades corriqueiras, como tomar um trem ou um metrô ou ir à faculdade, acabaram em tragédia. No Rio, os pais de Gabriela do Prado Ribeiro, de 14

Farsa – Não bastasse esse clima de apreensão, chegou-se ao ponto de o programa Domingo Legal, de Gugu Liberato, forjar uma entrevista com integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC). A farsa foi descoberta e Gugu, indiciado pelo Ministério Público. Em outubro, a violência chegou perto da família do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Um dos seguranças do filho de Lula foi morto numa tentativa de assalto, em Santo André. No mês seguinte, foi a vez de São Paulo viver sob ondas de violência. O PCC atacou bases da PM e da Guarda Civil Municipal. No primeiro dia, dois policiais morreram. Para o governo, os ataques foram o “último suspiro” da facção. Assustada, a população quer soluções. Depois do assassinato dos jovens Liana Friedenbach e Felipe Caffé, que teria sido comandado por um menor, foi retomada a polêmica sobre a redução da maioridade penal. Por ora, o governo sancionou o Estatuto do Desarmamento. A lei prevê um referendo popular em 2005, em que os brasileiros vão dizer se querem ou não proibir a venda de armas de fogo.

J.F.Diorio/AE–22/11/2003

VIOLÊNCIA
Liana e Felipe
A notícia do desaparecimento de Liana Friedenbach, de 16 anos, e Felipe Caffé, de 19, que tinham ido acampar num sítio abandonado em Embu-Guaçu, havia comovido a opinião pública. Quando os corpos foram achados, a comoção deu lugar à indignação. Quatro maiores e um menor confessaram o crime. Em 22 de novembro, os pais das vítimas organizaram uma passeata com 5 mil pessoas em que pediram a redução da maioridade penal. Um dia antes, o rabino Henry Sobel disse ao ‘Estado’ ser a favor da pena de morte. Voltou atrás. Estava sob forte emoção
Divulgação

Otávio Magalhães/AE – 14/9/2003

Chan Kim Chang
O comerciante Chan Kim Chang, chinês naturalizado brasileiro, pretendia embarcar para os EUA com US$ 30 mil, em 25 de agosto. Não declarou à Receita e foi preso no Rio. Levado ao Presídio Ary Franco,
Reuters

foi encontrado ferido dois dias depois. Em 4 de setembro, acabou morrendo. Os agentes penitenciários negaram ter agredido Chang e disseram que ele se machucara sozinho, num “acesso de fúria”. Parentes e
Epitácio Pessoa/AE – 19/8/2003

amigos protestaram. Sete agentes e o ex-diretor do presídio foram indiciados pelo crime. A polêmica chegou à cúpula do governo e provocou a saída do secretário de Direitos Humanos João Luiz Pinaud

Casal Staheli
O executivo da Shell Zera Todd Staheli estava no País havia três meses. Vivia com a mulher, Michelle, e os três filhos num condomínio na Barra da Tijuca, no Rio. Em 30 de novembro, Staheli foi encontrado morto, deitado na cama do casal. A mulher estava ao lado, gravemente ferida, e morreu quatro dias depois. Um mistério de repercussão internacional que ainda intriga a polícia. A arma do crime não foi encontrada e as investigações pouco avançaram, mais de um mês depois. São tantas dúvidas que chegaram a confundir o secretário da Segurança, Anthony Garotinho, e fazê-lo voltar atrás em declarações
EUA chegam para apoiar força de paz composta por soldados nigerianos. – ONU aprova resolução reconhecendo o Conselho de Governo Iraquiano. – Exército israelense mata Mohammad Seder, líder do braço armado do grupo palestino Jihad Islâmica. 15 – Líbia entrega carta ao Conselho de Segurança da ONU assumindo a responsabilidade pelo atentado de Lockerbie (1988) e renunciando ao terrorismo. 16 – Morre o poeta Haroldo de Campos. – O ex-ditador de Uganda Idi Amin Dada, responsável pela morte de dezenas de milhares de pessoas nos anos 70, morre em um hospital da Arábia Saudita. 17 – Brasil termina em 4.º lugar na classificação geral da competição de Santo Domingo. O País obteve 122 medalhas (28 de ouro, 40 de prata e 54 de bronze), quebrando o recorde estabelecido em Winnipeg, em 1999. 18 – Governo e rebeldes liberianos assinam acordo para pôr fim a três anos de guerra, após uma ofensiva de mais de dois meses que levou à deposição do presidente Charles Taylor e deixou mais de mil mortos. 19 – Pelo menos 20 pessoas, entre elas o diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello, morrem em um ataque sem precedentes ao edifício-sede da ONU em Bagdá. Cerca de cem pessoas ficaram feridas. Um militante suicida deixou um caminhão-bomba perto da parte do prédio onde ficava o escritório de Vieira de Mello, que ainda sobreviveu por algumas horas sob os escombros. – Suicida palestino vestido como judeu ortodoxo detona explosivos num ônibus que voltava do Muro das Lamentações, em Jerusalém. Pelo menos 20 pessoas morreram e mais de 100 ficaram feridas. – Preso o vice-presidente de Saddam, Taha Uassin Ramadan. – Dono da Cervejaria Schincariol, José Nelson Schincariol, é morto em Itu (SP). 20 – Copom surpreende o mercado e reduz a taxa Selic de 24,5% para 22% ao ano, a menor desde outubro de 2002. 21 – Um dos principais líderes políticos do Hamas, Ismail Abu Shanab, é morto por israelenses em Gaza. Extremistas anunciaram o fim da frágil trégua de sete semanas que o próprio Shanab havia convencido seu grupo a declarar. – EUA anunciam a prisão de Ali Hassan al-Majid, o temido primo de Saddam conhecido como Ali Químico. – Senado da Argentina aprova a anulação de duas leis que anistiaram milhares de acusados de crimes contra a humanidade durante a ditadura militar. 22 – A explosão do Veículo Lançador de Satélites (VLS) durante uma simulação de lançamento na Base de Alcântara, no Maranhão, provoca a morte de 21 pessoas. O VLS estava sendo preparado para o seu terceiro vôo da base de Alcântara, após duas tentativas malsucedidas. 24 – Daiane dos Santos vence medalha de ouro na ginástica de solo no Campeonato Mundial em Anaheim (EUA) com um salto inovador: o duplo twist carpado. 25 – Vilma Borges é condenada a 8 anos e 8 meses de prisão, em regime semi-aberto, pelo seqüestro de Pedrinho, parto suposto e falsificação de documentos. 26 – Com a execução de soldado numa emboscada em Bagdá, sobe para 140 o número de militares dos EUA mortos desde que Bush deu a guerra por encerrada. 27 – Reforma da Previdência é aprovada em segundo turno na Câmara. 28 – O primeiro Orçamento feito pelo governo Lula mantém o aperto fiscal, com a previsão de que a União invista R$ 7,8 bilhões em 2004. A proposta contém a projeção de aumento de 3,5% do PIB, inflação de 5,5% e taxa básica de juros de

Schincariol
Em três meses, a polícia descobriu e prendeu a quadrilha de sete pessoas que planejou o assalto ao empresário José Nelson Schincariol. Ele foi morto em 19 de agosto com três tiros, ao reagir a um assalto na garagem de sua casa, em Itu. Mas antes de desvendar o crime, a polícia cometeu uma série de falhas na ação que incluiu a invasão da casa do garçom Valdinei Sabino da Silva e sua prisão. A mãe garantia que estava com o filho na hora do crime. Silva passou 16 dias na cadeia injustamente. Agora, espera a investigação sobre a tortura a que diz ter sido submetido, depois de preso
15,17%. Pelo projeto, o salário mínimo poderá ter reajuste de até 14% em 2004. 29 – América Móvil, dona da Claro, anuncia a compra da BCP, operadora da Grande São Paulo, por US$ 625 milhões. 30 – Morre o ator Charles Bronson.

SETEMBRO
1 – Executiva Nacional do PT suspende, por 60 dias, oito deputados que não seguiram a orientação do partido na votação da reforma da Previdência. – Israel congela relações diplomáticas com a AP, declara guerra ao Hamas e realiza ataque que mata um dos líderes do grupo, Khader al-Huseri. 4 – O comerciante chinês naturalizado brasileiro Chan Kim Chang morre no

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CIDADES

QUARTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2003
Vidal Cavalcante/AE Epitacio Pessoa/AE – 10/8/2003

Sergio Castro/AE – 1.º/8/2003

2003/ 2004

Favre, Marta, Marisa e Lula na inauguração do primeiro CEU

Visita do enxadrista Anatoly Karpov à unidade Cidade Tiradentes

Marta no CEU Sapopemba: megaestrutura em áreas periféricas

MARTA INVESTE DE OLHO NAS URNAS
ge. A prefeita preciCEU, em Guaianasou de ajuda e o soses, com a presença corro não tardou. de Lula e do ministro Num evento no Meda Educação, Cristomorial da América vam Buarque, Marta Latina, Marta viu o iniciou a série de presidente Lula anigrandes eventos em IURI PITTA má-la a “não ceder” cada uma das 17 unidades. Passaram por prefeita Marta Suplicy e lançá-la candidata lá convidados ilus(PT) começou a segun- à reeleição. Era o setres: desde personalida metade do mandato gundo dia de mais dades mundiais, codesgastada. Motivos não falta- uma greve de motomo a presidente da ram: taxas recém-criadas, au- ristas. Em discurso, Finlândia, Tarja Hamento de passagem de ônibus Lula anunciou: “Galonen, e o prêmio No(o segundo da gestão) e proble- nhei tudo em 2002 e bel de Economia Josemas nos serviços de saúde. A quero ganhar com a ph Stiglitz, a celebricarta tirada da manga para re- Marta em 2004.” O apoio do presidades nacionais, coverter a queda nos índices de mo o empresário Oliaprovação não podia ter nome dente deu ânimo à vier Anquier e a apremais adequado. Com a inaugu- prefeita, mas foi em sentadora Adriane ração de 17 Centros Educacio- 19 de maio que MarGalisteu. nais Unificados (CEUs), Marta ta obteve a maior viCom outra festa, a aproveitou os holofotes para tória nos transpordos 450 anos de São mostrar o grande feito da ges- tes. Às 7 horas daquePaulo, em 25 de janeitão e melhorar as perspectivas la segunda-feira, primeiro dia útil em ro, Marta espera repara as eleições de outubro. forçar sua marca. Além de administrar o peso que mudanças no sisUma série de interde novos tributos, Marta come- tema entravam em venções, principalçou o ano perdendo parte da vigor, a Polícia Fedemente no centro, vai equipe para o governo federal. ral (PF) dava ordem marcar o aniversário A eleição de Luiz Inácio Lula de prisão ao então da cidade. E a festa da Silva fez a petista abrir mão presidente do Sindique coroou a retomade nomes que a acompanha- cato dos Motoristas da de dias menos tuvam desde 2001. Ao todo, qua- e Cobradores de Ônimultuados na gestão tro secretários e o presidente da bus, Edivaldo SantiaAnhembi trocaram o Palácio go. Mais dez direto- Greves de ônibus foram o maior problema do início do ano Prisão de Edivaldo Santiago pela PF: trunfo para a petista veio em 20 de setemres foram presos no bro: Marta se casou das Indústrias por Brasília. Eduardo Nicolau/AE – 20/9/2003 com Luiz Favre, seu namorado Outra substituição no secreta- mesmo dia e outros integrantes desde 2001. riado, ainda em janeiro, foi inu- da entidade se entregaram à PF sitada. E justamente na pasta ao longo da semana. Críticas – Nem tudo, porém, é Enquanto Edivaldo ficou preque Marta considera prioritátranqüilo. No início do ano, ria. O educador Nélio Bizzo, o so, os problemas no transporte Marta foi surpreendida várias terceiro a ocupar a Secretaria deixaram de ser paralisações e vezes por vaias de populares e, da Educação desde 2001, pediu se concentraram no sistema em por vezes, de claques armadas demissão menos de uma sema- si. Aos poucos, foram adotadas especialmente para isso. Mas na depois de assumir o cargo. mudanças que levarão à consoem agosto, nas comemorações lidação no novo No mês seguinte, do centenário da Faculdade de modelo, prometia saída de EduarDireito do Largo de São Franda para 2004. do Jorge, da SaúESTA DOS cisco, sofreu a maior agressão Em comum, a rede, expôs os prodesde que assumiu o cargo: um clamação dos blemas de indica450 ANOS jovem arremessou uma galinha passageiros de ções de vereadopreta contra a prefeita. falta de informares para cargos SERÁ UM Para 2004, a petista tem pela ções, como na no Executivo. frente a festa dos 450 anos, a inauguração do MARCO Ônibus – Longe aplicação propriamente dita do Passa-Rápido dos bastidores poque liga o centro, novo sistema de ônibus e mais líticos, o tormena Lapa e Pirituquatro CEUs. Fôlego não vai to de Marta eram as constantes ba. Para o próximo ano, Marta faltar. Além de contar com greves de motoristas de ônibus promete mais substitutos dos duas linhas de financiamento e a ineficiência do sistema. O atuais corredores exclusivos de importantes, R$ 493 milhões descontentamento era geral: ônibus. do BNDES para transportes e trabalhadores de braços cruzaUS$ 100,4 milhões do BID pados, empresários ameaçando CEUs – No segundo semestre, ra o centro, Marta tem o estímuboicotar a licitação e passagei- a prefeita começou a deixar sua lo que nenhum político deixa ros insatisfeitos. marca na Prefeitura. Com a de aproveitar: a avaliação das Em abril, a crise atingiu o au- inauguração do primeiro Depois de dois anos de namoro, Marta e Favre casaram-se em um sítio no interior de São Paulo urnas, em outubro.
Celso Junior/AE – 4/2/2003 Celso Junior/AE – 19/5/2003

Para reverter desgaste, prefeita petista construiu escolas e mudou o transporte

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F

A VIOLÊNCIA E O DÉFICIT HABITACIONAL
No mundo, problema atinge 1 bilhão de pessoas e pode dobrar em 30 anos, diz a ONU
problema é secular. As soluções tardam a chegar e, em 2003, a falta de moradia acabou parando nas páginas policiais. Foi num acampamento de 6 mil sem-teto, em São Bernardo do Campo, que bandidos entraram e tentaram levar o equipamento do repórter fotográfico Luís Antônio da Costa. La Costa, como era conhecido, morreu em 23 de julho, atingido por um tiro no peito.
Hospital Salgado Filho, Rio. Chang foi encontrado ferido e inconsciente numa cela do presídio Ary Franco. Ele havia sido detido um dia antes no Aeroporto Tom Jobim por agentes federais quando tentava embarcar para os EUA com US$ 30 mil não declarados à Receita. 5 – Morre o locutor Gontijo Theodoro, a voz do Repórter Esso. 6 – Presos seis agentes penitenciários indiciados no inquérito sobre a tortura e morte do comerciante Chan Kim Chang. – Mahmud Abbas apresenta sua renúncia ao presidente Yasser Arafat, depois de semanas de crise política. 7 – Seleção brasileira vence a Colômbia, em Barranquilla, por 2 a 1, na estréia das Eliminatórias da Copa do Mundo.

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Uma semana depois do crime, dois homens foram presos pela polícia. Um ficou internado em estado grave, depois de ferido em tiroteio com policiais. O outro confessou o homicídio e contou que, após a quadrilha roubar um posto de gasolina, queria levar o equipamento dos fotógrafos que faziam reportagens sobre a ocupação, para evitar “filmagens” do crime. A polícia chegou a deter um terceiro integrante, de 16 anos, mas ele foi liberado pela Justiça por falta de provas. O noticiário policial acabou desviando a atenção sobre o déficit da habitação no
– O presidente do Conselho Legislativo Palestino, Ahmed Korei, é indicado o novo primeiro-ministro da AP. – O apresentador Gugu Liberato exibe no Domingo Legal, do SBT, entrevista com falsos membros do PCC. Os encapuzados entrevistados são atores que ganharam R$ 500,00 para participar do programa. 10 – Um dia depois de deixar de pagar uma dívida de US$ 2,9 bilhões, Argentina anuncia “virtual acordo” com o FMI. – STF rejeita abertura de processo contra ACM, o deputado José Roberto Arruda (PFL-DF) e a ex-diretora do Serviço de Processamento de Dados do Senado Regina Borges. Eles foram acusados de ter violado, em 2000, o painel eletrônico do Senado na sessão na qual

ção das Nações Unidas lios em 16.433 favelas cadas(ONU) divulgou um dado tradas. Ou seja, o número poalarmante: o número de ho- de ser maior. mens e mulheres vivendo em Uma das táticas do govercondições precárias pode do- no para combater o déficit, esbrar em 30 anos. Hoje, 1 bi- timado em mais de 6 milhões lhão de pessoas, cerca de um de casas, foi a criação do Misexto da população mundial, nistério das Cidades. A Caixa vivem em faveEconômica Felas, cortiços, paderal remodelafitas ou submolou programas RASIL TEM radias. A ONU de financiatem desde 2000 mento para be2,3 MILHÕES uma força-tareneficiar um núfa criada para mero maior de DE CASAS tratar exclusivafamílias de baimente do déficit xa renda, que EM FAVELAS habitacional no representam a Sem-teto levantam faixa de solidariedade à família de La Costa mundo, cuja memaior parte do ta é reduzi-lo em problema. Em País, tão preocupante quanto nal é grave no mundo todo e 100 milhões de pessoas. 2004, o desafio será ampliar o o da violência. Especialistas viver sem o mínimo de condiNo Brasil, o Instituto Brasi- atendimento e conseguir algubrasileiros e de órgãos interna- ções é uma das primeiras por- leiro de Geografia e Estatísti- ma redução nessa estatística cionais são unânimes em di- tas de entrada para o crime. ca (IBGE) registrou a existên- e no número de ocupações em zer que o problema habitacioEm outubro, a Organiza- cia de 2,3 milhões de domicí- áreas urbanas. (I.P.)

Paulo Liebert/AE – 23/7/2003

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foi cassado o ex-senador Luiz Estevão. – Diolinda Alves de Souza, mulher de José Rainha, é presa em Teodoro Sampaio (SP). Ela foi condenada a 2 anos e 8 meses de cadeia por formação de quadrilha. 11 – A ministra das Relações Exteriores da Suécia, Anna Lindh, morre um dia após ter sido esfaqueada num shopping. 12 – Conselho de Segurança das ONU levanta oficialmente as sanções econômicas impostas à Líbia por sua responsabilidade no atentado de Lockerbie, que matou 270 pessoas. O país aceitou pagar US$ 2,7 bilhões às famílias das vítimas. – O número de celulares no País ultrapassa o de telefones fixos em serviço, segundo a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel). Eram, ao fim de agosto,

40,093 milhões de telefones móveis, cerca de 1 milhão acima do total de fixos. – Morre, aos 71 anos, o cantor de música country Johnny Cash. 14 – Seleção brasileira feminina de vôlei conquista o Campeonato Mundial. 17 – Copom reduz a Selic de 22% para 20% ao ano. – STF conclui que quem propaga idéias discriminatórias contra judeus comete crime de racismo. A posição foi tomada no julgamento de um pedido de habeas-corpus para o editor gaúcho Siegfried Ellwanger, acusado de divulgar livros com conteúdo anti-semita. 19 – Justiça Federal proíbe a exibição do programa Domingo Legal, do SBT. – O furacão Isabel causa a morte de

23 pessoas nos EUA. 21 – Funcionários do FMI denunciam que Arafat desviou para a Suíça US$ 900 milhões de fundos públicos. 22 – O representante comercial dos EUA, Robert Zoellick, culpa o Brasil pelo fracasso das negociações na última reunião de cúpula da OMC. 23 – Em discurso na abertura da 58.ª sessão da Assembléia-Geral da ONU, Lula propõe a criação de um Comitê Mundial de Combate à Fome. – Dois anteprojetos de lei divulgados pelo governo retiram poder das agências reguladoras e dão ao Estado o comando das concessões e dos contratos dos serviços públicos e privados. – Governo anuncia o bloqueio adicional

de R$ 319 milhões no Orçamento da União para se ajustar às novas previsões de receita e reduz para 0,98% a projeção de crescimento do PIB. – Ibama decreta alerta vermelho em quatro unidades de conservação por causa de incêndios: Serra da Canastra (MG), Parque Estadual do Jalapão (TO), Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros (GO) e Parque de Ilha Grande (PR). 24 – Câmara aprova em segundo turno a reforma tributária. 25 – Após muita relutância, o presidente em exercício, José Alencar, assina a medida provisória que libera o plantio de soja transgênica na safra 2003/04. – STJ concede habeas-corpus a Alexandre Martins e Reinaldo Pitta.

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2003/ 2004

Franco da Rocha e UAI do Brás fizeram o setor ser o mais complicado da gestão Alckmin

MAIS 365 DIAS DE CRISE NA FEBEM
Eduardo Nicolau/AE – 13/3/2003

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oi o ano da pressão na Fundação Estadual do Bem-Estar do Menor (Febem). Se a palavra descreve o estado de internos sob um regime que obtém pouco sucesso na ressocialização dos jovens, também é o motivo das principais medidas anunciadas para o órgão em 2003, quase sempre precedidas por uma ordem judicial. Por isso, o governador Geraldo Alckmin, ao fazer um balanço do primeiro ano do atual mandato, reconheceu que a fundação foi o setor mais complicado da gestão. A fundação começou o ano em que completou três décadas com troca de presidente: saiu Maria Luiza Granado, ligada ao secretário de Segurança Pública, Saulo Abreu, que já presidiu a Febem, e entrou o promotor Paulo Sérgio de Oliveira e Costa. Ainda vigorava a sentença judicial que determinava o fechamento de Franco da Rocha até 18 de março e pesavam as denúncias contra funcionários, acusados de abusos e maus-tratos contra internos. No segundo dia à frente da Febem, Oliveira enfrentou a primeira rebelião. Em 16 de janeiro, 34 funcionários foram afastados. Uma semana depois, Alckmin prometeu fechar o Complexo de Franco da Rocha antes de 2004 começar, promessa repetida em outras vezes, durante o ano.

fazer motins ou reféns. Dias depois, o complexo foi agitado por três rebeliões em menos de 24 horas e a Justiça voltou a exigir o seu fechamento. O Estado transferiu 244 internos para presídios e novamente entrou em conflito com a Justiça.

Flagrante em Franco da Rocha: em 13 de março, a reportagem do ‘Estado’ viu internos fumando cigarro que parecia feito de maconha vestigava uma quadrilha de monitores que incentivavam rebeliões para receber mais horas extras, também pressionou por mudanças. No começo de fevereiro, os primeiros sete funcionários responsabilizados por irregularidades foram demitidos da fundação. Dias depois, o sistema interno de vídeo da unidade 31 de Franco da Rocha flagrou dois funcionários abrindo as celas dos internos. Enquanto a Febem se tornava uma constante no noticiário, ganhou força entre os jovens a imagem de Fábio Paulino, o Batoré, acusado de uma série de crimes. Suspeito de liderar rebeliões em Franco da Rocha, Batoré foi transferido para o Presídio de Taubaté, desencadeando
Tasso Marcelo/AE – 19/4/2003

Rebeliões – O Ministério Público Estadual (MPE), que in-

a primeira das várias polêmicas sobre o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) ao longo do ano. Enquanto o governo defendeu medidas mais duras contra jovens infratores, especialistas dizem que a Febem é que deve cumprir o ECA. Em 13 de março, o Estado flagrou internos fumando um cigarro que parecia de maco-

nha no complexo. Um mês depois, em 12 de abril, a crise chegou ao auge: Batoré – de volta a Franco da Rocha e com quem Alckmin chegou a conversar no mês anterior, numa visita surpresa à unidade –, Edvaldo José de Araújo Lima, o Baianinho, e Weberson de Paula Lima, o Edinho, lideraram a fuga em massa de 121 internos, sem

UAI – Não foi só Franco da Rocha – cuja construção era contestada desde o início das obras e teve a última das unidades problemáticas, a 31, fechada neste fim de ano – que enfrentou problemas. A Unidade de Atendimento Inicial (UAI) do Brás, com capacidade para 62 internos, abrigava mais de 600. Novamente, a Justiça pressionou o Estado a cumprir essa lotação. Só assim a Febem iniciou a transferência dos jovens para outras unidades. A situação na UAI era tão grave que a relatora da Organizações das Nações Unidas (ONU) Asma Jahangir chegou a ser proibida de visitá-la. Depois, a Febem voltou atrás. “Horrível, horrível, horrível”, disse a paquistanesa Asma, ao terminar a inspeção na UAI. O governo passou então a buscar parcerias com empresas para capacitar parte dos adolescentes. Cerca de 700 jovens terminaram o ano trabalhando, fato comemorado pelo secretário da Educação, Gabriel Chalita. Alckmin prometeu para 2004 o início de uma nova Febem, com unidades menores e trabalho de ressocialização efetivo. Para a sociedade, pressionada pela rotina da violência, uma solução para a Febem seria um dos primeiros passos para diminuir o problema da segurança, ainda que apenas em parte. (Iuri Pitta)
Fabio Motta/AE – 3/4/2003

Tona Galea
A irresponsabilidade levou o Tona Galea, embarcação mal adaptada para virar uma escuna, a adernar a 500 metros da costa, matando 15 pessoas. O naufrágio ocorreu em 19 de abril em Cabo Frio, no litoral do Rio. As investigações mostraram irregularidades na reforma do barco e operação do passeio, além de falta de fiscalização do poder público

Cataguazes
Cerca de 1,2 bilhão de dejetos tóxicos vazaram após romper um dique da Cataguazes Indústria de Papel, no município de Cataguases (MG), em 29 de março. A maré tóxica contaminou as bacias dos Rios Pomba e Paraíba do Sul (foto), matando peixes e deixando 600 mil pessoas sem abastecimento em oito municípios. Minas, Rio e Espírito Santo foram atingidos

UM NOVO CÓDIGO CIVIL
Novo texto, que entrou em vigor em janeiro, atualizou anterior de 1916
s direitos civis no Brasil ganharam uma necessária atualização no início do ano. Em janeiro, começou a vigorar o novo Código Civil. O anterior era de 1916. A nova legislação pôs fim a conceitos ultrapassados – como o homem poder anular o casamento, se a mulher não for virgem –, permitiu mudança no regime de bens durante o casamento e determinou que marido e mulher sejam herdeiros em igualdade de posição com os filhos. Reuniu ainda diversas leis e jurisprudência sobre temas do dia-a-dia, que foram se transformando em prática ao longo dos anos.
– Tribunal islâmico da Nigéria anula a pena de morte imposta a Amina Lawal, de 31 anos, acusada de adultério por ter dado à luz uma menina depois de se divorciar do segundo marido. 28 – Maior apagão em dez anos na Itália deixa 57 milhões sem eletricidade. – O arcebispo do Rio, d. Eusébio Oscar Scheid, é nomeado cardeal pelo papa. – O cineasta Elia Kazan, um dos mais importantes e influentes diretores da história de Hollywood e da Broadway, morre em sua casa, em Nova York, aos 94 anos. 29 – O Brasil multiplicou por 100 sua riqueza e aumentou 10 vezes a população no século passado, de acordo com a publicação Estatísticas do Século 20, lançada pelo IBGE. Em 1900, o PIB equivalia a

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O texto começou a ser elaborado em 1969 mas só foi aprovado pelo Congresso em setembro de 2001. Como não podia deixar de ser, entrou em vigor cercado de críticas de juristas, que já o consideraram ultrapassado. Em apenas uma semana, 88 projetos estavam em tramitação para alterar partes da lei. O maior efeito das mudanças foi sobre a família. O texto regularizou o casamento religioso com efeito civil e aboliu a expressão “filho legítimo”, passando o natural e o adotivo a terem o mesmo tratamento. Também permitiu que o marido use o sobrenome da mulher e viceversa, assim como a mulher mantenha o nome do ex-marido após a separação. E o homem passa a ter direito de receber pensão da ex-mulher. Ficou faltando tratar do ca-

samento e dos direitos de união entre homossexuais. O tema não foi abordado, frustrando juristas e entidades civis. Pelo novo código, mãe solteira tem de ser tratada também como chefe de família e a maioridade civil passa de 21 para 18 anos. Os juros por atraso dos condomínios caíram de 20% para 2% ou até mesmo 1%, desde que não haja acordo anterior. Além disso, as garagens deixaram de ser exclusivas para os moradores de um prédio, já que o código permite que o condômino a alugue a terceiros. Também pune com multas de até dez vezes sobre o valor da contribuição mensal o morador de um edifício que perturbar seus vizinhos. Caso haja reincidência, o infrator pode ser obrigado a deixar o imóvel.
portante na redução da porcentagem de pobres – pessoas de famílias cuja renda per capita é inferior a R$ 75,50 – de 40,08% em 1991 para 32,75% em 2000. – O sul-africano J.M. Coetzee vence o Prêmio Nobel de Literatura. 6 – O químico americano Paul Lauterbur, de 74 anos, e o físico britânico Peter Mansfield, de 69, são contemplados com o prêmio Nobel de Medicina de 2003 pelo desenvolvimento dos exames de ressonância magnética. 7 – Os russos Vitaly Ginzburg e Alexei Abrikosov e o americano Anthony Leggett dividem o Nobel de Física por seu trabalho na área de física quântica sobre supercondutividade e superfluidez. 8 – A Academia Real de Ciências conce-

PROTEÇÃO A IDOSOS
Após sete anos de tramitação, estatuto entra em vigor amanhã
aprovação do Estatuto do Idoso, após sete anos de tramitação, foi motivo de comemoração para os mais velhos e de desentendimentos entre o presidente da República e o ministro da Saúde. Sancionado em outubro, o texto estabeleceu direitos para pessoas maiores de 60 anos, assim como penalidades para aqueles que as destratarem. As penas podem chegar a 12 anos para quem expor pessoas idosas a perigo de vida, submetendo-as a condições desumanas ou privando-as de cuidados indispensáveis. Parentes que abandonarem os idosos em asilos poderão ser condenados a
de o Nobel de Química aos americanos Peter Agre, de 54 anos, e Roderick MacKinnon, de 47. Eles explicaram como a célula regula a entrada e saída de substâncias através de sua membrana. – O americano Robert Engle e o galês Clive Granger ganham o Nobel de Economia por terem criado novos métodos de análise de séries históricas de dados econômicos. 9 – O recém-empossado primeiro-ministro da AP, Ahmed Korei, apresenta seu pedido de renúncia a Arafat. A razão seria sua irritação com a resistência do Conselho Legislativo em aprovar o gabinete. – Levantamento mostra que a onda de calor que atingiu a Europa matou 35 mil pessoas, 14 mil delas na França.

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6 meses até 3 anos de detenção. O estatuto garante atendimento preferencial no Sistema Único de Saúde e oferta de remédios gratuitos para a terceira idade, especialmente os de uso contínuo. Para os maiores de 65 anos, ficou definida a gratuidade nos transportes coletivos públicos e desconto de pelo menos 50% nos ingressos para eventos esportivos e culturais, além de acesso preferencial a esses locais. Além disso, quem não conseguir garantir a subsistência terá direito a um salário mínimo – direito que antes só valia após os 67 anos. A grande polêmica recaiu sobre o artigo que proíbe os planos de saúde de reajustarem as mensalidades de pessoas com mais de 60 anos. O limite antes era 70 anos. Às vésperas da sanção do projeto, a mudança foi criticada pelo ministro da Saú-

de, Humberto Costa, que pediu o veto do presidente Lula. Ele considerou o artigo “redundante”, já que a Lei dos Planos de Saúde proíbe reajuste por mudança de faixa etária para quem tem mais de 60 anos e seja associado há pelo menos 10 anos. “Não vou vetar nada”, disse depois o presidente. “E quem achar que não está bom, que mande outro projeto para o Congresso.” A aprovação do artigo acabou criando confusão na área da saúde, porque os planos passaram a ser subordinados a duas legislações e três regras diferentes para contratos antigos e novos. Com a redução da idade máxima para reajuste, teme-se que as mensalidades passem a ser aumentadas mais cedo, prejudicando os associados mais novos. O estatuto entra em vigor amanhã.
pilotada pelo astronauta Yang Liwei, novo herói nacional, permaneceu 21 horas na órbita terrestre. – O aumento do número de desempregados faz esgotar o dinheiro reservado para o seguro-desemprego em 2003. Os R$ 5,7 bilhões autorizados pelo Orçamento só são suficientes para pagar benefícios até o início de novembro. 16 – EUA conseguem que seu projeto de resolução para o Iraque seja aprovado por unanimidade pelos 15 membros do Conselho de Segurança da ONU. O texto reafirma a soberania e integridade territorial do Iraque. 17 – Depois de uma semana de violentos distúrbios que deixaram 74 mortos, o presidente da Bolívia, Gon-

cerca de R$ 1 bilhão, para uma população de 17,4 milhões de pessoas. Em 2000, chegou a R$ 1 trilhão para 169,6 milhões de brasileiros. O brasileiro passou a viver muito mais: uma pessoa que nascia em 1900 viveria, em média, 33,6 anos. Em 2000, a expectativa pulou para 68,6 anos. 30 – Maurren Maggi é oficialmente suspensa por dois anos.

OUTUBRO
1 – Lula sanciona o Estatuto do Idoso. 2 – Atlas do Desenvolvimento Humano mostra que a melhora da qualidade de vida no Brasil, na última década, foi impulsionada pelo aumento do número de matrículas no ensino fundamental. Os programas sociais também tiveram papel im-

10 – O brasileiro ganha cada vez menos, segundo o IBGE. Na média nacional, o rendimento em 2002 ficou 12,3% abaixo do de 1996. – A advogada iraniana Shirin Ebadi, ativista dos direitos humanos, conquista o Prêmio Nobel da Paz de 2003. 12 – O piloto alemão Michael Schumacher, da Ferrari, sagra-se o maior vencedor da história da Fórmula 1 ao conquistar o sexto título no Japão, superando o argentino Juan Manuel Fangio. 14 – O deputado Fernando Gabeira (RJ) anuncia oficialmente da tribuna da Câmara sua saída do PT e faz pesadas críticas ao governo petista. 15 – China completa com sucesso sua primeira missão espacial tripulada. A nave

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Ernesto Rodrigues/AE–10/9/2003

QUARTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2003
Eduardo Nicolau/AE–16/11/2003

Eliana Aponte/Reuters–7/9/2003

2003/ 2004

Kaká (E) marcou na estréia das Eliminatórias

Ronaldinho Gaúcho garantiu resultado magro de 1 a 0 diante do Equador

Rivaldo tirou o Brasil do sufoco, no empate de 1 a 1 com o Peru, em Lima
Marcos Brindicci/Reuters - 19/12/2003

EMOÇÃO, TENSÃO E TÍTULOS
A seleção iniciou em 2003 a caminhada para a Copa da Alemanha, em 2006. O Brasil precisa submeter-se à fase prévia do torneio, porque pela primeira vez a Fifa quebrou a tradição de garantir ao último vencedor vaga para o Mundial seguinte. O sistema de disputa para apontar os quatro representantes da América do Sul prevê confrontos de todos contra todos, em ida e volta, e por contos corridos. Para variar, a arrancada não foi das mais espetaculares. Depois das vitórias iniciais sobre Colômbia (2 a 1, em Barranquilla) e Equador (1 a 0, em Manaus), o time dirigido por Carlos Alberto Parreira suou para empatar com o Peru (1 a 1, em Lima) e com o Uruguai (3 a 3, em Curitiba). Por isso, fechou o ano em 3.º lugar, atrás de Paraguai (seu próximo adversário, em março) e Argentina. O Brasil não entusiasmou também na Copa das Confederações, em junho, na França. O treinador levou um time desfalcado, sem as principais estrelas, e não passou da primeira fase, ao ser superado por Colômbia e Turquia. O País foi representado na Copa Ouro, na América do Norte, pelo time sub-23, e chegou à final, contra o México (perdeu por 1 a 0, no Estádio Azteca). Ainda assim, o Brasil fechou o ano como líder do ranking da Fifa. Alegrias não faltaram nas categorias de base. A seleção sub-17 conquistou o título mundial, em agosto, na Finlândia, com vitória de 1 a 0 sobre a Espanha, na final, em Helsinque, com gol de Leonardo. A ‘Fúria Espanhola’ esteve no caminho do Brasil também na decisão do Mundial sub-20, nos Emirados Árabes Unidos. A competição inicialmente estava prevista para março, mas foi transferida para dezembro por conta da guerra no Iraque. Outra vez, os meninos brasileiros venceram – por 1 a 0, gol de Fernandinho –, conquistaram o tetracampeonato e fizeram a festa no Estádio de Abu Dabi. No Mundial feminino, nos EUA, o Brasil chegou às quartas-de-final, quando perdeu para a Suécia por 2 a 1.

Nos Emirados, a seleção sub-20 conquistou o tetracampeonato

Paulo Fonseca/AE –7/12/2003

OS PALESTRAS CAMPEÕES

Celso Junior/AE–29/11/2003

Cruzeiro, time quase perfeito
No primeiro Campeonato Brasileiro disputado no sistema de pontos corridos, em turno e returno, o Cruzeiro (na origem, Palestra Itália) mostrou como a regularidade e a eficiência podem ser premiadas e levam à consagração do melhor. A equipe mineira, sob o comando do técnico Vanderlei Luxemburgo e com o meia Alex em forma excepcional, liderou o torneio praticamente de ponta a ponta. Teve o Santos como sua sombra, quase até o fim, mas manteve folga suficiente para não se sentir ameaçado. Depois de 46 partidas, o novo campeão brasileiro cravou a marca histórica de 100 pontos e chegou a 102 gols. Em compensação, rivais tradicionais como Vasco, Fluminense, Corinthians, Grêmio decepcionaram. Fiasco maior mesmo só o de Bahia e Fortaleza, penúltimo e último colocados, respectivamente, e rebaixados para a Segunda Divisão em 2004.

Palmeiras, a volta por cima
Foi um caminho tortuoso, no princípio cheio de desconfianças, mas, no fim, glorioso. O Palmeiras, rebaixado para a Segunda Divisão, por ter ficado em 23.º lugar no Campeonato Brasileiro em 2002, começou o ano sem entusiasmar. Primeiro, ao ser eliminado no
Divulgação–8/1/2003

Paulista pelo arquiinimigo Corinthians. Depois, ao levar surra histórica do Vitória no Palestra Itália (7 a 2) que o tirou da Copa do Brasil. Com a temporada em andamento, o técnico Jair Picerni mudou praticamente todo o time, deu chance a novos jogadores e aos poucos foi encontrando o

ponto de equilíbrio na Série B nacional. A campanha foi impecável, tanto que terminou em 1.º lugar as três fases da competição. A torcida fez sua parte, ao lotar estádios muitas vezes, e viu despontar talentos como os de Vágner, Edmílson, Diego Souza, que podem brilhar na Série A em 2004.

ATENAS, CENTRO DO ESPORTE EM 2004
A XXVIII edição dos Jogos Olímpicos de Atenas, de 13 a 29 de agosto, promete ser o principal fato do esporte mundial em 2004. Reunindo atletas de todo o mundo em 28 esportes, os Jogos voltam à Grécia, onde surgiram. Atenas recebeu os primeiros Jogos da Era Moderna, em 1896, e o estádio Panathinaiko, usado há 107 anos, será a sede das provas de arco e flecha e da chegada da maratona. O arremesso do peso será em Olímpia, o local dos Jogos da Antiguidade, em 776 a.C. A Olimpíada será realizada numa “escala mais humana”, segundo a presidente do Comitê Organizador dos Jogos de Atenas (Athoc), a grega Giana Angelopoulos-Daskalaki. Se Atenas é patrimônio arquitetônico, cultural e histórico da Humanidade, a organização grega, o cumprimento dos prazos para a conclusão
zalo Sánchez de Lozada, renuncia. 19 – Cerca de 300 mil pessoas lotam a praça de São Pedro e locais próximos para assistir à cerimônia de beatificação de Madre Teresa de Calcutá. 20 – Lula lança a unificação dos programas sociais do governo, chamada de Bolsa-Família. A meta é beneficiar 11 milhões de famílias até 2006. – EUA registraram no ano fiscal de 2003, encerrado em setembro, o maior déficit orçamentário de sua história, de US$ 374,22 bilhões. 21 – A avaliação positiva da administração Lula tem a maior queda desde o início do governo, segundo pesquisa CNT/ Sensus: diminui de 48,3% em agosto para 41,6% em outubro.

CALENDÁRIO INTENSO À ESPERA DO FUTEBOL
O futebol terá calendário carregado para o Brasil em 2004 – no âmbito doméstico e em termos internacionais. A programação começa já no sábado, dia 3, com a abertura da Taça São Paulo de Futebol Júnior. A competição é tradicional e há décadas inaugura o calendário nacional com a missão de revelar talentos. Na seqüência, vêm os campeonatos estaduais. Em São Paulo, 21 equipes duelam pelo título. No primeiro semestre, ainda, há mais dois torneios de peso, disputados concomitantemente. O primeiro é a Copa do Brasil, no sistema de eliminação direta. O segundo é a Taça Libertadores da América, que terá Cruzeiro, Santos, São Paulo, Coritiba e São Caetano como representantes do País. O Santos ficou em segundo lugar, em 2003, ao perder a final para o Boca Juniors.
ram disparados mais de 300 tiros, dois PMs morreram e outros seis policiais e dois guardas municipais ficaram feridos. – O superávit da balança comercial acumulado no ano chega a US$ 20,3 bilhões, melhor resultado de todos os tempos. – Diolinda Alves de Souza tem sua prisão revogada pela Justiça. 4 – O Ministério Público Federal pede a quebra do sigilo bancário e fiscal de todos os acusados de integrar a organização criminosa envolvida em tráfico de influência, corrupção e venda de sentenças judiciais em São Paulo. A devassa inclui delegados e agentes da Polícia Federal, advogados, empresários e três juízes federais. – Apesar de uma megablitz da PM na Grande São Paulo, PCC volta a atacar

das obras das instalações olímpicas, a infra-estrutura de transporte são fatores que preocupam os dirigentes internacionais. O Athoc garante que tudo estará pronto a tempo e que funcionará bem. O Brasil, que não ganhou medalha de ouro nos Jogos de Sydney, em 2000, ainda não conhece o tamanho da delegação que levará à Grécia. Cada modalidade tem um processo de seleção e o Comitê Olímpico Brasileiro fecha o grupo em maio. Alguns esportes já asseguraram vagas e planejam a campanha olímpica, como o basquete feminino, o handebol e o vôlei – tanto o feminino como o masculino. Dentre os esportes coletivos, o futebol, com subsedes em Creta, Patras, Thessaloniki e Volos, terá Pré-Olímpicos. O torneio masculino será entre os dias 7 e 25 de janeiro, no Chile, com jogado– Irã concorda em suspender seu programa de enriquecimento de urânio. 22 – Copom reduz a Selic de 20% para 19% ao ano. 23 – A partir de 1.º de janeiro, o Brasil vai ocupar, por dois anos, uma cadeira do Conselho de Segurança da ONU. 24 – Três Concordes mergulham sobre o Aeroporto de Heathrow, em Londres, encerrando de forma espetacular a era das viagens supersônicas. Sai de cena o avião que foi uma maravilha tecnológica, mas um fiasco comercial. 26 – O subsecretário de Defesa dos EUA, Paul Wolfowitz, sai ileso de ataque cometido contra o Hotel Al-Rashid, em Bagdá. – Gustavo Kuerten vence o torneio ATP Tour de São Petersburgo.

Estádio Olímpico: palco da primeira Olimpíada da era moderna e local de várias finais em 2004 res de até 23 anos, e duas vagas para a América do Sul. A seleção feminina disputa seletiva entre países da América do Sul (data e local serão definidos). Também têm vagas confirmadas judô (nove pesos), ciclismo (estrada e mountain bike), ginástica artística e rítmica e hipismo. Atletismo e na27 – O Bank of America compra o FleetBoston Financial por US$ 47 bilhões, criando o segundo maior banco do mundo, com mais de US$ 933 bilhões em ativos, só superado pelo Citigroup. – O governador Roberto Requião sanciona lei que veta produtos transgênicos no Paraná. 28 – José Rainha tem sua prisão preventiva revogada pelo STJ. O líder sem-terra permanece na cadeia, em virtude de outras duas condenações. 30 – Economia dos EUA cresce 7,2% no terceiro trimestre, acima do esperado pelos analistas. – PF mobiliza cem agentes e prende oito pessoas em São Paulo, entre elas um delegado, um agente federal, advogados e em-

tação têm atletas com índices, mas ainda podem ver as delegações aumentadas, se outros fizerem as marcas estabelecidas pelas federações internacionais para cada prova. Há modalidades, como boxe, canoagem, esgrima, que dependem de ranking e seletivas marcadas para os primeiros meses de 2004.
presários acusados de integrar um esquema de venda de sentenças. Três juízes federais também são denunciados, com base em apurações da Operação Anaconda. 31 – Silveirinha e outros 21 réus são condenados a penas somadas de mais de 240 anos de prisão no processo sobre o envio de dólares para a Suíça.

Nos primeiros meses de 2004 também começa o Campeonato Brasileiro, com 24 concorrentes e pela segunda vez consecutiva em pontos corridos, em turno e returno. Desta vez, os 4 últimos serão rebaixados, mas só 2 subirão. Isso significa que, em 2005, haverá 22 times na Série A. No segundo semestre, 12 times brasileiros estarão na 3.ª edição da Copa SulAmericana. Não faltarão compromissos para a seleção. Em janeiro, o time sub-23 tentará garantir, no Chile, o direito de disputar o ouro Olímpico, nos Jogos de Atenas. A equipe principal, sob o comando do técnico Carlos Alberto Parreira, terá mais partidas na caminhada para o a Copa de 2006. Sem contar amistosos, no meio do ano o time pentacampeão do mundo joga a Copa América, no Peru.
carros e postos policiais. Um soldado da PM ficou ferido num dos atentados e um criminoso foi morto ao atacar uma base da Guarda Metropolitana. – Gugu Liberato é denunciado por crime de ameaça e por dois crimes de imprensa pela falsa entrevista com dois supostos integrantes do PCC. A acusação sujeita Gugu a pena de 1 ano e 1 mês a 5 anos de prisão, além de multa. – Primeira mulher a entrar para Academia Brasileira de Letras, a escritora cearense Rachel de Queiroz morre aos 93 anos, vítima de enfarte do miocárdio. 5 – O ministro da Fazenda, Antônio Palocci, anuncia os termos do novo acordo do Brasil com o FMI. O País terá direito a sacar até US$ 14 bilhões.

NOVEMBRO
2 – Dezesseis soldados morrem e 20 ficam feridos na queda de um helicóptero americano, aparentemente atingido por mísseis, perto da cidade iraquiana de Faluja. 3 – Em menos de 30 horas, a Polícia Militar e a Guarda Civil Metropolitana de São Paulo são alvo de 10 atentados atribuídos ao PCC. Nos ataques, em que fo-

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Issei Kato/Reuters–12/10/2003

Jonne Roriz/AE–6/8/2003

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UMA CHUVA DE MEDALHAS
O Brasil obteve a melhor performance em sua história nos Jogos Pan-Americanos. O País levou para São Domingos 429 atletas e trouxe 122 medalhas – 28 de ouro, 40 de prata e 54 de bronze, que lhe valeram o 4.º lugar. Os Estados Unidos, mesmo sem o time principal – temiam problemas com a organização –, foram os campeões (118 medalhas de ouro), seguidos por Cuba (71) e Canadá (29). Uma enorme bandeira com o Pão de Açúcar, cartão-postal do Rio, foi estendida no gramado do Estádio Olímpico, na festa de encerramento do Pan. O Rio será a sede dos Jogos de 2007. Em São Domingos, o destaque foi a despedida, com ouro, do tenista Fernando Meligeni. Ele venceu o chileno Marcelo Rios, de virada, pela primeira e única vez na carreira. E ainda pelos dois ouros das seleções de handebol, masculina e feminina (e a vaga olímpica), o ouro do basquete masculino e a boa campanha de esportes individuais como atletismo (com duplo ouro de Hudson de Souza) e natação (com Gustavo Borges chegando a 19 medalhas em quatro edições do Pan). A fraca campanha do vôlei foi o ponto negativo.
Jonne Roriz/AE–9/8/2003

Seis vezes campeão
Michael Schumacher não obteve o título de campeão da Fórmula 1 com a mesma folga de temporadas anteriores. E nas primeiras provas de 2003 – com o quarto lugar da Austrália, o sexto na Malásia e a batida na corrida do Brasil – parecia que o piloto alemão da Ferrari seria ameaçado pelo novo regulamento. Mas o andamento da temporada foi colocando tudo no lugar. A regularidade levou Schumacher ao hexacampeonato e a superar o recorde do argentino Juan Manoel Fangio, cinco vezes campeão do mundo.
Helvio Romero/AE–1/8/2003

Jonne Roriz/AE–15/8/2003

Ano do doping
Num ano marcado por escândalos de doping em todo o mundo, Maurren Higa Maggi, estrela do atletismo brasileiro, teve resultado positivo para a substância proibida Clostebol. Especialista no salto em distância, ela ficou fora do Pan-Americano e do Mundial
Washington Alves/COB–5/8/2003 Bruno Domingos/Reuters–6/9/2003

de Paris e está suspensa, desde agosto. Maurren espera julgamento no Brasil e depois na Associação Internacional de Federações de Atletismo (Iaaf). Ela alega que o resultado positivo foi causado pelo uso de pomada cicatrizante, depois de sessão de depilação a laser.
Robert Galbraith/Reuters–24/8/2003

Uma centena de títulos
O iatista Robert Scheidt teve um ano especial, apesar da frustração pela derrota na briga pelo heptacampeonato Mundial. Scheidt, dono de uma medalha de ouro e uma de prata (conquistadas nas Olimpíadas de 1996 e 2000, respectivamente), e de seis títulos mundiais, ganhou o 100.º título na carreira em 2003 – 85 deles são da classe Laser, sua especialidade. O velejador, tricampeão pan-americano nos Jogos de São Domingos, chegou à marca centenária ao vencer a Semana Pré-Olímpica de Atenas, no segundo semestre.
7 – O juiz federal João Carlos da Rocha Mattos é preso, acusado de ser mentor de esquema de venda de sentenças revelado na Operação Anaconda. 8 – PCC realiza seis novos ataques a postos e bases policiais na Grande São Paulo, Baixada Santista e no interior. – Terroristas dirigindo veículo policial roubado invadem complexo residencial em Riad, Arábia Saudita, e explodem o carro. Dezessete pessoas morrem e 122 ficam feridas. Autoridades atribuem o atentado à Al-Qaeda. 10 – OMC condena as sobretaxas de 8% a 30% impostas pelos EUA sobre o aço exportado por 22 países em março do ano passado. Os EUA terão de eliminar as tarifas ou ficarão sujeitos a sanções de bi-

No caminho olímpico
O campeão olímpico e mundial Giovane, de 33 anos, teve ano especial na seleção de vôlei. Recuperou o lugar de titular e terminou a Copa do Mundo do Japão, em dezembro, como melhor
lhões de dólares. Só a UE poderá impor retaliações de US$ 2,2 bilhões. No caso do Brasil, a barreira ao aço significou prejuízo de US$ 350 milhões. – Polícia acha corpos dos namorados Felipe Caffé, de 19 anos, e Liana Friedenbach, de 16, que tinham ido acampar em Juquitiba, Grande São Paulo, em 31 de outubro. O mentor do crime é R.A.A.C., de 16 anos. O crime reabre o debate sobre a redução da maioridade penal. 12 – Caminhão-bomba explode diante de base militar no sul do Iraque, matando pelo menos 18 italianos e 9 iraquianos. Mais de 80 pessoas ficam feridas. – Por decisão do STF, José Rainha deixa a prisão, após 123 dias. 13 – Petrobrás anuncia o maior lucro dos

Salto para a glória
jogador. O Brasil foi o campeão e se classificou para os Jogos de Atenas. A seleção seguiu no topo, apesar do resultado no Pan-Americano (foi bronze, após perder para a Venezuela na semifinal). O
seus 50 anos de história. No acumulado de janeiro a setembro, o lucro da estatal soma R$ 14,774 bilhões – aumento de 180,4% na comparação com 2002. 15 – Dois carros-bomba explodem quase simultaneamente em Istambul, matando 23 pessoas e ferindo mais de 270. Um grupo islâmico turco e a Al-Qaeda assumem responsabilidade pelos atentados. 16 – Seleção brasileira empata com o Peru por 1 a 1, pelas eliminatórias da Copa. 18 – O C-Bond, principal título da dívida externa brasileira, registra alta de 0,75% e atinge 95,25% do seu valor de face, recorde histórico. 19 – Copom reduz a taxa Selic de 19% para 17,5% ao ano. – A Federação Internacional de Ginásti-

time também foi o campeão da Liga Mundial. A seleção feminina, com a mudança de técnico e a volta das atletas “rebeldes”, conquistou sua vaga olímpica com o segundo lugar na Copa do Mundo.
ca batiza o salto duplo twist carpado criado por Daiane dos Santos. A acrobacia ganha o nome de Dos Santos. – O cantor Michael Jackson tem sua prisão decretada na Califórnia por “múltiplas acusações de abuso sexual de menor”. Os advogados negociam a apresentação à polícia de Michael. 20 – Dois atentados contra interesses britânicos em Istambul, na Turquia, deixam 27 mortos e 400 feridos. O grupo radical Frente dos Combatentes Islâmicos do Grande Oriente reivindica a autoria dos ataques em parceria com a Al-Qaeda. – Representantes das 34 nações que vão compor a Alca aprovam em Miami proposta negociada entre Brasil e EUA, que abre a possibilidade de os países do

Daiane dos Santos, de 1,45 m e 40 quilos, ganhou a 1.ª medalha de ouro da ginástica brasileira no solo, no Mundial de Anahein (EUA). Com salto inédito, o duplo twist carpado (dois mortais com o tronco próximo às pernas
bloco fecharem acordos bilaterais. – A 6.ª edição do Exame Nacional de Ensino Médio (Enem) mostra desempenho regular dos estudantes. A nota média na prova objetiva foi de 49,55 e na redação, de 55,36, numa escala de zero a 100. – Michael Jackson se entrega à polícia e é posto em liberdade após pagar fiança de US$ 3 milhões. 22 – Palmeiras vence o Sport por 2 a 1 e garante o título da série B e o retorno à primeira divisão do futebol brasileiro. O Botafogo fica com a outra vaga. 23 – Pressionado por três semanas de manifestações contra supostas fraudes nas eleições parlamentares na Geórgia, Eduard Shevardnadze renuncia, pondo fim a 12 anos de governo.

e as mãos nos joelhos) e de grau máximo de dificuldade. O salto agora se chama Dos Santos, em sua homenagem. Daiane fechou 2003 com mais uma medalha de ouro, na Copa do Mundo de Stuttgart.
24 – O procurador-geral da República, Claudio Fonteles, denuncia no STF o deputado Jader Barbalho (PMDB-PA) por desvio de dinheiro público na desapropriação de fazenda, em 1988. – Pelo menos 36 alunos morrem e 246 ficam feridos em conseqüência de um incêndio num alojamento para estudantes da Universidade Patrice Lumumba, em Moscou. O brasileiro Fernando Ivan Ostrowski escapa pulando do 5.º andar. – Rodovia Transamazônica é bloqueada por madeireiros no Pará em protesto contra a fiscalização do Ibama. 25 – C-Bond bate sexto recorde consecutivo. O título é negociado por 96,938 centavos por dólar. Risco país recua 0,18%. – Índia e Paquistão iniciam o primei-

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GILBERTO GIL DÁ VISIBILIDADE AO MINISTÉRIO
Mas sua proposição mais ambiciosa, a de ampliar o acesso da população aos bens de consumo culturais, hoje restritos à elite, é ainda uma promessa a ser cumprida
do Estadual de Cultura, sistema que poderá carrear R$ ano que passou, além 100 milhões anuais para o sede trazer como dado tor. O governo do Estado não novo na cena da políti- tem uma dotação regular de ca cultural a figura do cantor verbas para a área. Gilberto Gil, como ministro Os deputados não votada Cultura, também foi um ram, o fundo não foi aprovaano de ampla mobilização e do, mas a mobilização foi ativismo da classe artística. exemplar: de Ruth Escobar Gil, é unânime, deu visibilida- a Regina Duarte, de Fábio de ao ministério, valendo-se Assunção a José Celso Marde sua notoriedade artística. tinez Corrêa, de Jairo MatCom Gil, os artistas senti- tos a Hugo Possolo: todos os rem-se à vontade para reivin- artistas estavam lá, unidos dicar. Reunidos em fóruns no para pedir um mecanismo País todo, do Rio Grande do adequado e realista para o Sul ao Piauí, do Amazonas a fomento da cultura. Para peSanta Catarina, os artistas dir continuidade nas polítipleitearam como nunca este cas, sem paternalismo e com ano e por diversas causas. E uma consciência social. foram razoavelmente bem-suCom uma característica cedidos em quase todas elas. menos partidarizada, menos Mas é em 2004 que a bola po- ideologizada e mais pragmátiderá entrar finalmente no gol. ca, as novas frentes de ação Os artistas pediram mais dos artistas aproximam-se de verbas para o Ministério da uma conquista histórica. Cultura. Ganharam: o orça- Acostumados à divisão no mento do MinC vai para R$ momento das campanhas elei160 milhões (crescimento de torais – uns abraçam um par70%) e as leis de incentivo tido, outros abraçam outros crescerão 150% em 2004, che- no Horário Eleitoral Gratuigando a R$ 400 milhões o va- to –, os artistas parecem ter lor destinado à renúncia fis- descoberto que sua causa é cocal. A meta, no entanto, se- mum, e não tem sigla. gundo apregoa o próprio miNão foi um ano só de debanistro Gil, é chegar a 1% do tes, no entanto. O anúncio, orçamento federal (atualmen- também em dezembro, da te, está beirando 0,4%). criação do Museu CongoPediram a não extinção nhas, em Minas Gerais, comdas leis estaduais baseadas plexo numa área de 3,7 mil na renúncia fismetros quadracal, que estados que reunirá vam sendo limao Centro de ReIERAM das pela Reforferência do Barma Tributária. roco Mineiro e o MAIS VERBAS, Perderam na núcleo de estuCâmara Fededos da pedra-saMAIS APOIO E ral, mas tivebão, mostra que ram êxito no Sea iniciativa priUMA MAIOR nado e as leis fovada também ram mantidas. voltou a invesMOBILIZAÇÃO Pediram uma tir no crescimenpolítica cinemato cultural do DA CLASSE tográfica forte e País: um banco com atenção a e uma compaARTÍSTICA todos os setores nhia de aço indo processo, da vestiram R$ 3 pré-produção à milhões cada finalização, da exibição à co- na construção do prédio, que mercialização. Também tive- terá projeto do premiado arram certo êxito e os concur- quiteto português Álvaro Sisos anunciados este final de za e plano curatorial do muano, da Secretaria das Artes seólogo Emanoel Araújo. Audiovisuais e da Petrobrás, A construção de “âncoras” mostrando essa nova face da urbanísticas e culturais tem política estatal, com seleção se mostrado um grande camidescentralizada e criteriosa. nho para a recuperação de re“Estamos nos preparando giões do País, como acontepara uma primavera de lança- ceu com o centro cultural Dramentos. Serão mais de 150 tí- gão do Mar, em Fortaleza, ou tulos, com a geração direta mesmo no Recife Velho e no de nada menos do que 3.202 Pelourinho. Ou com a cidade empregos, a partir de um in- de Bilbao, na Espanha, e seu vestimento de R$ 20,7 mi- Museu Guggenheim. lhões”, prevê o ministro Gil“O Ministério da Cultura berto Gil. Gil fala de produ- tem clareza do principal desação, mas é fato que de 30 a fio que a realidade brasileira 40 filmes nacionais chega- impõe: ampliar o acesso da porão às telas no novo ano. pulação brasileira à produção O resultado dessa movi- e à fruição de bens e valores mentação toda foi um ama- culturais, como forma de unidurecimento visível do setor. versalizar o direito à expresO futuro deverá mostrar se são cultural, que constitui um esse amadurecimento será dos aspectos vitais do que chamesmo traduzido em uma mamos cidadania”, diz o minova relação entre o poder nistro Gilberto Gil. Atendenpúblico e a cultura no País. do a esse diagnóstico, Gil so“Não se trata de pedir nha criar um Sistema Naciouma política pública para nal de Cultura, para integrar beneficiar a classe artística, as políticas de todo o País. E mas toda a sociedade”, bra- amadurecer a proposta de dou o dramaturgo e diretor construir 20 Bases de Apoio Luiz Carlos Moreira, na As- à Cultura (BACs), previstas sembléia Legislativa de São para serem edificadas nas pePaulo, em dezembro. riferias das grandes cidades. Moreira era o porta-voz de Para que Gil tenha êxito, é centenas de artistas que lota- preciso que uma nova mentavam as galerias da assem- lidade suprapartidária surja. bléia paulista, pedindo a É o desafio da política cultuaprovação imediata do Fun- ral no ano que começa.
JOTABÊ MEDEIROS

Rubinho Guimarães/AE

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O ministro em seu gabinete, durante entrevista exclusiva ao ‘Estado’, em setembro: emprestando prestígio a uma pasta historicamente subestimada

DESTAQUES, REVELAÇÕES, PERDAS
Divulgação

Epitácio Pessoa/AE

V

Vencedor do Prêmio Visa deste ano, o compositor Chico Saraiva lançou o CD ‘Trégua’, com selo da gravadora Eldorado A mostra ‘Guerreiros de Xi’an – Tesouros da Cidade Proibida’ despertou a curiosidade do público com preciosidades arqueológicas da China
Otávio Magalhães/AE – 9/7/93 Ernesto Rodrigues/AE

Paulo Liebert/AE

O maestro alemão Kurt Masur fez série de concertos no Brasil, com a Sinfônica Brasileira, no Rio, e a Osesp, em São Paulo, onde também deu curso de regência
Walter Craveiro/Divulgação

Michael Dalder/Reuters

Primeira mulher a ser eleita para a Academia Brasileira de Letras, Rachel de Queiroz morreu de enfarte enquanto dormia, no dia 4 de novembro

Maria Rita lotou as casas onde cantou, foi ao topo das paradas com disco e DVD, projetou autores novos e, grávida, assumiu posto de musa da MPB
Divulgação

Obra de Lygia Pape, destaque da 4.ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre, que teve visitação recorde, de mais de um milhão de pessoas Paraty realizou sua primeira feira literária internacional em julho, reunindo grandes nomes como Hanif Kureishi
da sua história: 97,4% do valor de face. – Expectativa média de vida do brasileiro ao nascer chega a 71 anos, de acordo com estimativa do IBGE. – Balança comercial fecha novembro com superávit de US$ 1,7 bilhão. É o melhor resultado para o mês segundo a série histórica do BC, iniciada em 1959. Com isso, a balança acumula superávit de US$ 22,07 bilhões. – Depois de dois anos de negociações secretas, representantes civis da Palestina e de Israel lançam na Suíça um plano de paz alternativo para o Oriente Médio, a Iniciativa de Genebra. 2 – Câmara aprova projeto que prorroga a alíquota de 27,5% do Imposto de Renda da pessoa física.

Pelo envolvimento com os marginalizados, J.M. Coetzee foi o segundo sul-africano a ganhar um Nobel de Literatura
– Só 3,47% da população tem curso superior, de acordo com pesquisa do IBGE. – Governo anuncia pacote de medidas que vai ampliar os desembolsos do BNDES em R$ 7 bilhões em 2004. – Euro é negociado a US$ 1,2091, maior cotação desde sua criação, em 1999. 4 – Bush anuncia a retirada das sobretaxas às importações de aço. – Morre Michelle Staheli. 5 – Ministério Público Estadual acusa o empresário Sérgio Gomes da Silva, o Sobra, de ter sido o mandante do assassinato do ex-prefeito de Santo André Celso Daniel, em 2002. – Acusada de co-autoria intelectual na castração e morte de crianças no Pará, Valentina de Andrade é absolvida pelos sete jurados por 6 votos a 1. – Atentado a bomba em trem que seguia para a Chechênia mata 41 pessoas. – Bomba explode nos arredores de uma mesquita de Bagdá, causando a morte de dois civis e um soldado americano, um dia antes da visita ao Iraque do secretário de Defesa dos EUA, Donald Rumsfeld. 8 – Governo anuncia pacote contra a lavagem de dinheiro que facilita o acesso de autoridades a dados protegidos pelos sigilos bancário e fiscal. – Risco Brasil cai para 480 pontos, nível mais baixo desde 1998, influenciado pela alta do C-Bond, cotado a 98,12% do valor de face. Bovespa atinge 20.888 pontos, nível mais alto desde a criação da Bolsa paulista, há 36 anos. – População reprova desempenho de Lula na área social. Em pesquisa CNT/Sensus, 84% dos entrevistados afirmam que a violência aumentou; para 70%, o desemprego piorou em relação a 2002; 62% acreditam que a pobreza cresceu no País. Mesmo assim, o índice de aprovação do presidente continua alto: 69,9%. 10 – PF prende 39 policiais acusados de liberar contrabando mediante o pagamento de propina em Foz do Iguaçu (PR). – Senado aprova o Estatuto do Desarmamento, tornando mais rígidas as normas para fabricação, registro, uso e transporte de armas de fogo. – Bovespa bate novo recorde, fechando o pregão em 21.259 pontos 11 – Justiça acata denúncia do

ro cessar-fogo total após 14 anos de combates na Caxemira. – Só em 2003, 5 milhões de casos de aids foram registrados no mundo, recorde histórico. A infecção nunca matou tanto: são previstas 3 milhões de mortes. 26 – Senado aprova em primeiro turno o texto básico da reforma da Previdência. – PF prende o ex-governador de Roraima Neudo Campos e mais 40 pessoas, entre ex-deputados e servidores, acusados de envolvimento num esquema de fraude que desviou entre R$ 320 milhões e R$ 1 bilhão da folha de pagamento do Estado. – AIEA adota resolução condenando o Irã por ter escondido nos últimos 18 anos informações sobre seu programa nuclear. 27 – Bush faz visita-surpresa ao Iraque.

29 – Daiane dos Santos conquista a inédita medalha de ouro em exercícios de solo na Copa do Mundo, na Alemanha. 30 – Militares dos EUA matam 46 pessoas em Samarra, norte do Iraque. – Cruzeiro é de campeão brasileiro. – Seleção masculina de vôlei vence a Copa do Mundo. – Alto executivo da Shell, o americano Todd Staheli é assassinado em casa, no Rio. Sua mulher, Michelle, é internada em estado grave.

DEZEMBRO
1 – Risco país fecha em 494 pontos, abaixo da barreira dos 500 pontos pela primeira vez desde 8 de maio de 1998. C-Bond é negociado pela maior cotação

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CADERNO 2

O ESTADO DE S.PAULO - H19

2003/ 2004

CINEMA DO BRASIL: O SUCESSO CONTINUA
Marlene Bergamo/Divulgação

Mais de cem novos projetos estão em andamento, revitalizando o mercado cinematográfico brasileiro, que neste ano contou com 30 estréias

SÍLVIA HERRERA

magia da telona não se perdeu no 3.º milênio; ao contrário, tomou novo fôlego e fez os brasileiros saírem de casa para conferir os lançamentos nacionais. A qualidade dos roteiros e da tecnologia conquistaram o público. Neste ano, 20 milhões de brasileiros foram assistir aos filmes nacionais. E, entre as 30 estréias brasileiras do ano, as três mais vistas – Carandiru, Lisbela e o Prisioneiro e Os Normais – são da Globo Filmes, núcleo independente da Rede Globo que já pode ser chamada de Hollywood brasileira. “Este caminho da colheita fantástica de Monopólio – Os filmes com o 2003 é resultado do investimen- carimbo da Globo Filmes caíto em vários projetos há quatro ram no gosto do público. Por e cinco anos. E em 2004 ainda causa desse sucesso e por ser a vai haver muitos projetos desta produtora das Organizações safra”, destaca Carlos Eduardo Globo, alguns cineastas, como Rodrigues, diretor da Globo Fil- Ruy Guerra e Walter Salles, já mes. Para 2004, a empresa co- vieram a público defender a temeça a investir em documentá- se de que a Globo Filmes estarios, desenhos animados e tam- ria criando um monopólio. bém em filmes “Monopólio de com orçamentos quê?”, indaga menores (made Rodrigues. Ele ESTE for TV). explica que dos Os primeiros 30 filmes lançaANO, PÚBLICO sinais da retomados neste ano, da começaram a apenas 10 são CHEGOU A ser observados da Globo, que em 2000, quando detém 92% da 20 MILHÕES estrearam 24 filaudiência. “Sei mes, vistos por que há mais de 7.207.654 pescem projetos soas, número 25% superior ao rondando por aí, então não tedo ano anterior. De lá para cá, mos este monopólio. O probleos números só cresceram, emba- ma é que o público está referenlados por Cidade de Deus e Ca- dando nossos filmes. Pode ser o randiru. Neste ano o cinema na- monopólio do gosto do públicional só tem a comemorar. Se- co”, argumenta. E completa: gundo dados da Secretaria do “O crescimento da Globo FilAudiovisual, 20% dos lança- mes não foi por um monopólio, mentos no cinema foram brasi- mas por profissionalismo.” leiros. Não se via nada igual Rodrigues explica que a Glodesde a época de ouro dos anos bo Filmes é uma produtora e 70, quando foi lançado Dona não participa do processo de Flor e Seus Dois Maridos, ain- captação de filmes. Ele explica da o filme mais visto, com que Fernando Meirelles conse10.735.305 espectadores. guiu captar cerca de 20% do toAntenada nas tendências tal do filme apenas e bancou o mercadológicas, a Rede Globo resto do bolso. “A Xuxa, com decidiu co-produzir os projetos ou sem a Globo Filmes, vende. tupiniquins e criou há cinco Ela tem uma estrutura própria anos a Globo Filmes. Na época, para vender as cotas de patrocíum estudo identificou que a bi- nio.” O diretor observa tamlheteria nacional poderia do- bém que os anúncios nos interbrar em três anos. A empresa valos do Jornal Nacional na vésapostou no mercado futuro e co- pera das estréias são pagos pelo meçou a faturar. Dos 3% de distribuidor, não é um brinde participação no mercado dos da Globo como muitos pensam primeiros anos, agora a Globo nem é vendido a “preço de baFilmes detém 21%. “É uma res- nana”. “Acreditamos que se os ponsabilidade pesada, e é mui- distribuidores investem em

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to fácil perder o mercado”, garante Rodrigues. Um dos responsáveis direto de tanto sucesso é o diretor artístico Daniel Filho, que soube escolher com quem se associar. “A virtude é ter um conjunto de projetos com temáticas distintas. Não ficamos calcados em um só tipo de filme, que foi uma evolução fundamental. Temos a Xuxa fazendo os mesmos 2 milhões de sempre, Cidade de Deus (direção de Fernando Meirelles) fazendo 4 milhões e pouco, e uma comédia romântica como Lisbela (de Guel Arraes) fazendo 3 milhões e pouco”, destaca Rodrigues.

‘Carandiru’, de Hector Babenco: uma das maiores bilheterias do ano
Divulgação

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‘Lisbela e o Prisioneiro’: diversificação de gêneros como fórmula
Divulgação

‘Os Normais’ na tela grande: sucesso deve levar a projetos similares massa nos EUA, por que não investiriam aqui? Fazemos isso para dar uma ‘educada’ no mercado brasileiro.” Segundo a Lei do Audiovisual, uma rede de TV pode ser co-produtora do filme e deter no máximo 49% das ações do empreendimento. E Rodrigues não vê a hora de as emissoras entrarem no mercado. “Somos uma empresa de capital nacional e não temos nenhum tipo de incentivo fiscal, enquanto os distribuidores estrangeiros têm. Acho que o governo poderia estimular mais para que surjam a RedeTV Filmes, a Record Filmes, o SBT Filmes.” Em 2002, a Globo Filmes recebeu um volume muito grande de roteiros. “Sempre leio todos”, afirma Daniel Filho. Mas, para aproveitar o bom momen-

to da retomada do cinema, a to), mais um infantil. “Sendo empresa saiu em busca de proje- otimista, acho que vamos estos já filmados ou em fase final trear entre 15 a 20 filmes.” de filmagem, para exibir neste Ainda para 2004 há projetos ano. “Neste lote veio Deus É para desenhos animados, docuBrasileiro, O Homem Que Co- mentários e make for TV. “Espiava e Caminho das Nuvens. te último gênero pode ser ótimo Cada filme tem uma história e para testar algumas idéias, tamcada um deles tinha um atrati- bém para gerar emprego e desvo, uma razão para participar- cobrir novos talentos.” A Globo mos”, conta Rodrigues. Mas pa- Filmes promete olhar com carira 2004 a história é outra. “Nos- nho para as três possibilidades. sa missão daqui “O desenho anipara frente é mado é desejo anmais firme no tigo da Globo paESENHOS propósito de parra ajudar a desenticipar mais, vavolver o mercaE FILMES PARA mos entrar em do interno, seja filmes em que a para longa ou paA TV ESTÃO gente de fato ra série de TV. possa contribuir Até hoje não tiveNOS PLANOS mais porque os mos nenhum profilmes em que jeto concreto entramos de facom os produtoto com a co-produção tiveram res, mas agora já posso adianresultados melhores”, destaca tar que estão aparecendo alguo executivo. mas propostas. O problema é o A Globo Filmes não quer ser tempo para produzir: enquanto confundida com a emissora de um filme você realiza entre quaTV. “Não vamos mais nos asso- tro a seis semanas, um desenho ciar a projetos que nos vejam animado demora dois anos”, apenas como um bureau de di- compara. Já os documentários vulgação. Existem alguns dire- viriam para fomentar o cinema tores que não conhecem a nos- regional e o made TV, as produsa forma de trabalho. Pensam ções mais em conta. assim – ‘quero fazer o filme que O executivo destaca que, apeeu quero fazer e usar a mídia sar do clima de otimismo, há que eles têm para divulgar’. Is- outros problemas que tiram o to não é uma parceria ou um de- sono de muitos cineastas. A essenvolvimento conjunto. Isto é trutura financeira é muito fráum formato de trabalho com o gil, muito calcada nas distribuiqual não queremos trabalhar doras estrangeiras e nas estamais”, avisa. “Se o princípio tais. “Se um desses dois braços, for não trocar, deve existir no por algum motivo, não funciomercado alguém que trabalhe nar bem, não vamos chegar aos desta maneira.” mesmos números de 2003.” A Globo Filmes descarta Estréias – Mas o fantasma que qualquer estratégia para conronda o prédio no Jardim Botâ- quistar o mercado externo. nico, no Rio, é o outro. “A per- “Saiu um quadro na Screen Ingunta é: será que em 2004 va- ternational (revista de cinema) mos repetir o sucesso de mostrando que é mínima a pe2003?”, indaga Rodrigues. “Se netração de filmes no mercado tudo der certo, externo, com exhá uma probabiliceção dos ameridade de se checanos. Acho difíLOBO gar perto. Temos cil chegar ao Sandy & Jr., que mercado estranFILMES REBATE estreou agora, geiro, principaltem Xuxa e tem mente pela difeACUSAÇÃO DE Renato Aragão. rença cultural, é O problema é uma luta comMONOPÓLIO que o Brasil tem plicada. A essênpouca salas – é recia é o seguinte: gra fixa do jogo e o filme tem de não vai se resolver no curto pra- fazer sucesso no seu país de orizo. Mas temos filmes parrudos gem.” Ao contrário do que ocorpara estrear, como Olga, Cazu- re nos EUA, onde as produtoza e Redentor. Tem o próprio ras faturam alto com o mercaDona da História (novo filme de do de home vídeo e exibição na Daniel Filho), que deve ser TV, por aqui a receita, pelo meigual ou melhor que A Parti- nos da Globo Filmes, vem pratilha.” Além desses, estão nos pla- camente da exibição no cinenos da empresa filmar O Coro- ma. “Vem um pouco também nel e o Lobisomem, outro longa do home vídeo, que está cresna linha de Os Normais (que de- cendo, mas a TV ainda não tem morou três anos para ficar pron- participação relevante.”

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Doane Gregory/Reuters

Fabrizio Bensch/Reuters

Larry Downing/Reuters

Claudio Papi/Reuters

TELAS PERDEM GRANDES NOMES
Katharine Hepburn, a grande dama da sétima arte: morte em junho Elia Kazan, morto em setembro: clássicos como ‘Sindicato de Ladrões’
Reuters

Bob Hope, que fez a América rir: calou-se em julho, aos 100 anos
Raimundo Valentim/AE

Alberto Sordi: adeus, em fevereiro, ao ícone da comédia italiana
Ari Vicentini/AE

Alexandra Winkler/Reuters

Leni Riefenstahl: em setembro, fim de tantas polêmicas
MPE e processa Sombra por homicídio triplamente qualificado no caso Celso Daniel. – Com vendas projetadas de US$ 1,85 bilhão em 2003, Brasil se torna o maior exportador mundial de frango. – STF suspende vigência da lei paranaense que baniu os transgênicos no Estado. 12 – Sombra tem a prisão decretada e se entrega à polícia. – Governo anuncia novo modelo para o setor elétrico. Um dos objetivos é conter a “explosão tarifária”. – Senado aprova reforma da Previdência, a primeira do governo Lula. Também aprova, em primeira votação, texto da reforma tributária. – Justiça alemã suspende a ordem de pri-

Charles Bronson: herói de ação morreu em agosto
e dos deputados João Fortes (SE), Babá (PA) e Luciana Genro (RS). – Campeonato Brasileiro termina com o rebaixamento de Bahia e Fortaleza. 16 – Bush diz que iraquianos vão decidir futuro de Saddam. – FMI anuncia acordo com o País que prevê a concessão de linha de crédito no valor de US$ 6,6 bilhões. 17 – Governo edita MP que substitui o Provão pelo Sistema Nacional de Avaliação e Progresso do Ensino Superior. 18 – Copom reduz a Selic de 17,5% para 16,5% ao ano. Taxa é a menor desde abril de 2001. – EUA comemoram os 100 anos do primeiro vôo de avião dos irmãos Wright. 19 – Lula faz balanço do primeiro

País perdeu o talento de José Lewgoy em fevereiro
ano de governo e diz que “o tempo de incerteza passou”. – Promotor apresenta nove acusações formais a Michael Jackson no processo por abuso sexual. 20 – Tribunal Regional Federal de São Paulo decide processar por formação de quadrilha os juízes João Carlos da Rocha Mattos, Casem e Ali Mazloum, investigados na Operação Anaconda. – Pela primeira vez desde 1992 o País fechará o ano com superávit nas transações correntes. Até novembro, o saldo positivo é de US$ 3,8 bilhões. – Ameaças da Al-Qaeda fazem EUA entrarem em alerta contra possibilidade de novo ataque terrorista. – Seleção brasileira de futebol sub-20 bate

Walter Khouri, símbolo do cinema paulista: agosto
26 – Presidente paquistanês Pervez Musharraf escapa de atentado suicida que deixa 14 mortos e 46 feridos. – Explosão em campo de gás natural provoca a morte de 193 pessoas na China. – Agência Espacial Européia perde contato com a sonda Beagle 2, que deveria ter pousado em Marte. 27 – Terremoto devasta a cidade histórica de Bam, no Irã. O número de mortos é estimado em 25 mil. – Pesquisa do IBGE revela que metade da população ganha até R$ 300,00. – Morre o ator britânico Alan Bates. 29 – Justiça mantém regime de isolamento de Beira-Mar em Bernardes. – Saddam confessa ter US$ 40 bilhões em contas em vários países.

são do marroquino Abdelghani Mzoudi, acusado de envolvimento nos atentados de 11 de setembro. 13 – Saddam é preso na área rural de AlDaour, a poucos quilômetros de sua cidade natal, Tikrit. Ele estava escondido no terreno de um pequeno armazém, num buraco coberto por lixo e tijolos no qual cabia apenas uma pessoa. O ex-ditador tinha dois fuzis e uma pistola, mas não esboçou resistência. Imagens divulgadas pelos EUA mostram Saddam abatido, com barba e cabelos compridos. – Antes do anúncio da prisão do ex-ditador, ataque com carro-bomba a delegacia mata 21 pessoas a 80 km de Bagdá. – Diretório Nacional do PT aprova a expulsão da senadora Heloísa Helena (AL)

Espanha e sagra-se campeã mundial. 23 – Taxa de desemprego caiu de 12,9% em outubro para 12,2% em novembro, no primeiro recuo do ano. – Justiça determina que Beira-Mar seja retirado do regime de isolamento no presídio de Presidente Bernardes. – Senado aprova aumento da alíquota da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) de 3% para até 7,6%. – Bovespa bate novo recorde histórico e fecha pregão em 21.630 pontos. 24 – Parmalat pede concordata na Itália, quatro dias depois da revelação de um rombo de 3,9 bilhões no balancete. – EUA registram primeiro caso do mal da vaca louca.

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TELEJORNAL

QUARTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2003
Sebastião Moreira/AE

Reproduçao SBT

2003/ 2004

Gugu pede desculpas ao público no sofá de Hebe

Reprodução Rede Bandeirantes

Cena foi reprisada à exaustão na RedeTV!, Record e Band

A TV E A ARTE DE FRAUDAR
CRISTINA PADIGLIONE

ão foi em 2003 que a televisão se descobriu talentosa na arte de fraudar o que exibe. Mas foi a primeira vez que isso serviu de motivo para tirar um programa do ar na TV brasileira. A decisão da juíza Leila Paiva, da 10.ª Vara Cível Federal de São Paulo, de suspender uma edição do Domingo Legal em punição à encenação de uma entrevista com supostos criminosos, foi chamada pelo Ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, de “censura”. Em contrapartida, faz anos que o Ministério da Justiça dis-

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cursa sobre a elaboração de um bem mais que a multa aplicada código de auto-regulamentação ao SBT pelo Ministério das Copara a TV, sem êxito algum. municações (R$ 1.792,53). Foi no 7 de setembro que o Em novembro, a juíza da 2.ª Domingo Legal levou ao ar a tal Vara Criminal de Osasco, Izaentrevista com supostos mem- bel Islanda de Castro, mandou bros da facção criminosa Pri- a polícia indiciar formalmente meiro Comando da Capital, o Gugu Liberato, que já tinha siPCC. Encapuzado denunciado dos, dois atores pelo Ministério ameaçaram de Público por ENÚNCIAS morte autoridaameaça e dois crides e personalidames de imprenTAMBÉM des públicas. Em sa. Também fo21 de setembro, o ram denunciaATINGIRAM A programa foi susdos o chefe de repenso – com preportagem, WagBAND juízo comercial ner Maffesoli, o de R$ 1 milhão – repórter Rogério

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Casagrande, o produtor Amilton Tadeu dos Santos, e os atores Antonio Rodrigues da Silva e Vagner Faustino da Silva, que receberam, cada um, R$ 150 para interpretar os “bandidos”. Mas fraude na TV não foi exclusividade de Gugu em 2003. O mesmo cachê (R$ 150) teria sido pago a figurantes dispostos a fazer papel de cônjuge traído nos telebarracos de Márcia Goldschmidt, na Band. Assim como Gugu, ela sustenta que não sabia de nada, e chegou a se desculpar no ar pelo episódio, falso, da mulher que dizia ter tido um romance com o próprio filho.
Ed Ferreira/AE

O ranking das boas intenções
Disposta a expor os anunciantes que bancam programas considerados de baixa qualidade pelo público, a campanha Quem Financia a Baixaria é Contra a Cidadania, da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, completou um ano, a passos lentos. Sem recursos para promover pesquisas e divulgar suas boas intenções, recebeu cerca de 12 mil denúncias no ano todo – número modesto comparado a 1 ponto de audiência, que equivale a 49 mil domicílios só na Grande São Paulo. A novela ‘Kubanacan’ lidera o mais recente resultado do ranking de queixas, que tem balanços bimestrais.
Epitácio Pessoa/AE

Rafael Neddermeyer/AE

Luta aos ‘raqueteiros’: Lula ‘contracena’ com Helena Ranaldi e Dan Stulbach no Palácio do Planalto

O Estatuto do Idoso ganha apoio dos atores Oswaldo Louzada e Carmem Silva no Congresso Nacional

E A FICÇÃO SE MISTUROU À VIDA REAL
Difícil saber quem tirou mais proveito de quem, mas o resultado da vida real que virou novela, e vice-versa, desta feita, foi saudável. Em fevereiro, ao anunciar a estréia de Mulheres Apaixonadas, o autor Manoel Carlos mencionou que exploraria o descaso dos brasileiros com seus velhos. Este seria o merchandising social do folhetim. Faltou dizer que o assunto não seria o único do gênero no enredo e que Mulheres Apaixonadas iria superar todas as novelas já feitas até hoje no número de ações de cidadania. Até o Congresso Nacional se animou em levar adiante o Estatuto do Idoso, em maio, com as presenças de Oswaldo Louzada e Carmem Silva. Orgulhosos de seus papéis como Leopoldo e Flora na novela, os atores aceitaram o convite vindo de Brasília para acompanhar a votação do Estatuto na Comissão de Constituição e Justiça. Em agosto, quem parou para “contracenar” com atores da mesma trama foi o próprio Luiz Inácio Lula da Silva. “Mulheres, uni-vos contra os raqueteiros”, chegou a brincar o presidente, durante a cerimônia de posse do Conselho Nacional dos Direitos das Mulheres e do lançamento do Programa de Combate à violência contra a Mulher. Escoltando os atores Dan Stulbach e Helena Ranaldi, Lula se referia às surras de raquete que a personagem dela, Raquel, levava dele na ficção. Quem não apreciou de todo o enredo de Mulheres Apaixonadas foi a indústria do turismo do Rio, que se manifestou contra o fato de Fernanda, papel de Vanessa Gerbelli, morrer como vítima de bala perdida nas ruas do Leblon. Argumentouse que a cena traria danos ao turismo, já que as novelas da Globo são vistas no mundo todo. O autor não cedeu. Criou até uma passeata pelo desarmamento. Era para ser só mais uma seqüência de ficção, mas também ganhou proporções de vida real, com a adesão de autoridades e do público, que ali fez figuração voluntária. (C.P.)

Tasso Marcelo/AE

Na dança dos índices
Após concordar em abrir mão de qualquer participação no Datanexus, instituto de pesquisa de audiência no qual investiu mais de R$ 4 milhões, Silvio Santos viu nascer em agosto, enfim, um concorrente para o Ibope nesse terreno.
Monica Zarattini/AE

Ainda há divergências nos argumentos que poderiam explicar a distância entre os índices aferidos pelos dois institutos, mas o primeiro passo – evitar a dependência de um único parâmetro de audiência – está dado.

A televisão do Boni
Desde 1997, quando deixou o poder executivo da Globo, o nome de José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, nunca saiu de foco. Mas foi só em 2003 que ele voltou de fato à cena, com a inauguração de sua própria rede de TV, a Vanguarda. São duas estações, em Taubaté e São José dos Campos, que abrangem, juntas, 46 municípios. Retransmitem a programação da Globo, mas têm mais espaço local que as demais afiliadas para emplacar suas próprias apostas.
Divulgação

Vanessa Gerbelli e Tony Ramos na cena que ganhou platéia ao vivo e repercussão internacional
Otávio Magalhães

Na linha do ‘antes e depois’
Contrariando as previsões de que os reality shows estavam com seus dias contados, o mundo continua a prestigiar esses programas, agora sob a tendência de fabricar transformações. É o caso do ‘Queer Eye for the Straight Guy’, exibido aqui pelo canal Sony, em que cinco gays transformam os gostos de um hetero, por meio de dicas de decoração, figurino e culinária.

Morte por bala perdida da novela motivou passeata de verdade pelo desarmamento, com apoio de familiares de vítimas reais e adesão de políticos: cenas vistas no folhetim e nos jornais

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UM ANO DE LULA

O GOVERNO APRENDIZ

O ESTADO DE S. PAULO

Lula: um ano com inflação sob controle e superávit comercial, mas à custa de pesados efeitos colaterais, como queda na renda e aumento do desemprego

N

o seu primeiro ano de governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva agradou adversários e dividiu seguidores. A política econômica conservadora liquidou a turbulência financeira, ao custo de recessão e desemprego. Há, porém, sinais de retomada em 2004. Na política social, Lula não preencheu as expectativas que historicamente carrega. Na reforma agrária, desapontou tanto o MST, aliado radical de longa data, quanto agricultores e pecuaristas. A reforma tributária ficou capenga e a política externa foi polêmica. Mas o governo teve energia política para aprovar uma reforma da Previdência que o PT já lutou para impedir. Seu compromisso, Lula deixou claro, não é com posições do passado.

No poder, Guerra Na economia, Volta do PT convive contra a fome a dura investimento mal com continua arrumação é o desafio as críticas longe do fim da casa da vez
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QUARTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2003

O GOVERNO APRENDIZ

PRÁTICA CONTRARIA DISCURSO
PT faz lifting em seu programa, mantém política econômica que criticou e desanda na área social
JOÃO BOSCO RABELLO e VERA ROSA

governo do PT vai bem onde ele é menos PT: a política econômica. E vai mal onde ele é mais PT: as políticas sociais. Em seu primeiro ano de mandato, Lula acertou onde não inovou, submetendo-se ao receituário vigente, que historicamente criticou. E onde quis inovar – na área social e na política externa – colheu críticas e insucessos. O resultado é que se indispôs com a facção mais ortodoxa de sua base – a esquerda – e colheu elogios no segmento que mais temia sua gestão: o mercado financeiro. O governo chega a seu primeiro aniversário com um perfil ideológico bem diferente daquele que projetava ao tempo da posse. Longe do espetáculo do crescimento previsto há seis meses, o governo Lula completa um ano com inflação sob controle e superávit comercial, mas à custa de pesados efeitos colaterais, como queda na renda e aumento do desemprego. O pífio resultado do Produto Interno Bruto (PIB), a perda de postos de trabalho e as trapalhadas na área social contrastam com o alentado programa de governo petista, Um Brasil para Todos, que destacava a vocação do País para crescer 7% ao ano, com patamar mínimo de 5%. Mais: puxava o social como “eixo” do desenvolvimento. “Não há processo sustentável e duradouro de desenvolvimento se não enfrentarmos essa questão da distribuição de renda”, afirma o ministro da Fazenda, Antônio Palocci Filho. Documento reservado da Fazenda, obtido pelo Estado, garante que o governo criará, em 2004, “mecanismos permanentes de monitoramento (...) dos programas sociais em andamento, a fim de avaliar a eficácia do gasto público na redução da pobreza e da desigualdade de renda”. “Aumentar em 10% a distribuição de renda seria equivalente a crescer 3% durante 25 anos. Este é o nosso maior desafio”, constata Palocci. Uma resolução política aprovada recentemente pela cúpula do PT propõe que o governo defina uma “agenda concreta” para tratar da chamada microeconomia, gerar empregos e promover a inclusão social. Diz o texto que falta ao Palácio do Planalto “traduzir”, de forma prática, o projeto estratégico previsto em sua plataforma.

O

até porque não tem maioria no Congresso, mas não está fragmentado. “Quando assumimos, encontramos um buraco muito maior do que imaginávamos. Tivemos de fazer algumas concessões, mas sem desfigurar o nosso programa”, diz. Na prática, no entanto, o partido enfrenta uma crise de identidade por causa da metamorfose exibida em seus 23 anos. De uma trajetória que foi do sisudo João Ferrador – símbolo dos metalúrgicos do ABC, nos anos 80 – ao sorridente Lulinha Paz e Amor de 2002, o PT passou por uma verdadeira recauchutagem. Cumpriu o mesmo percurso dos partidos forjados na oposição quando chegam ao poder.

José Dirceu: alguns acordos para aprovação de reformas foram costurados até mesmo sem o conhecimento do presidente

A REPÚBLICA DE DIRCEU
TÂNIA MONTEIRO

Escanteio – O ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu, resume assim a nova etapa do governo: “Temos de ser progressistas dentro do conservadorismo.” Em outras palavras, a equipe petista não pretende jogar para escanteio instrumentos clássicos do ajuste, como metas de superávit primário e de inflação. “Mas terá uma agenda de desenvolvimento mais ousada”, assegura o presidente do PT, José Genoino. O Planalto comemora agora a aprovação das reformas tributária e da Previdência no Congresso, uma iniciativa que também foi do governo Fernando Henrique, frustrada pela oposição do próprio PT. O partido jamais engoliu o discurso de que era necessário taxar servidores públicos aposentados. “Mas, em política, não podemos nos referenciar em posições que defendemos no passado”, alega hoje o ministro da Previdência, Ricardo Berzoini. “O PT também pregava a estatização do sistema financeiro.” Na área social, dois estandartes petistas – o combate à fome e a reforma agrária – ainda deixam a desejar. O Fome Zero perdeu-

BRASÍLIA – O ministrochefe da Casa Civil, José Dirceu, é o personagem mais emblemático do governo. Seu poder é tanto que passou a ser informalmente chamado de primeiro-ministro. O tratamento não é descabido: com Lula no papel de chanceler, em constantes viagens ao exterior, Dirceu ganhou carta branca para negociar os acordos políticos e orientar as ações administrativas, num formato que lembra o sistema parlamentarista. Embora rejeite o epíteto, Dirceu se diverte com a fama de todo-poderoso. “Vou dividir o poder: uma parte vai ficar com o Zé, outra com o Dirceu”, brincou, ao rejeitar a divisão de tarefas no Gabinete Civil proposta por parlamentares. Em pé de igualdade no círculo do poder, estão apenas seu colega da Fazenda, Antônio Palocci, e o quase invisível Luiz Gushiken. Costuma-se ouvir nos bastidores que só eles discutem com Dirceu: os demais obedecem. Os elogios de Lula, na solenise nos meandros do marketing e da burocracia. Na reforma agrária, Lula tenta se equilibrar entre dois pólos: de um lado, seus compromissos com os movimentos sociais no campo; de outro, a responsabilidade de não comprometer um dos setores mais prósperos da economia, o agronegócio. O presidente valeu-se de seu capital político pessoal para conter o MST. Em novembro, anunciou que assentará 400 mil famí-

dade em que fez um balanço de seu primeiro ano no governo, só reforçaram o poder de Dirceu. Lula confessou que não conhece os acordos do ministro-chefe da Casa Civil que levaram à aprovação das reformas – ou seja, a autonomia do chefe da Casa Civil é a maior de que se tem notícia na história brasileira. “Já agradeci ao presidente a lembrança que eu não mereço”, afirmou ele, assegurando que não faz nenhum acordo contra o presidente. Durante discurso, Lula chegou a lembrar que ele é considerado o “homem mau do governo”, numa referência à sua rigidez na condução dos acordos e no controle interno exercido sobre os ministérios. De fato, não há um assunto de governo que não passe pelo crivo do ministro. Todas as câmaras temáticas ficam sob sua coordenação. A coordenação política do governo, antes atribuição da Secretaria-Geral, também é sua. Sua estrutura ocupa a maioria das salas do quatro andar do Planalto. Até o ministro-chefe da Casa Militar, general Jorge Armando Félix, perdeu o espaço e o poder que o lias até o fim do mandato, em 2006, e fixou como meta conceder crédito fundiário para outras 130 mil. “Até aqui foi uma tragédia”, define o coordenador do Movimento dos Sem-Terra (MST), João Pedro Stédile. “O governo prometeu assentar 60 mil famílias neste ano e vamos terminar 2003 com 15 mil, sendo metade da gestão anterior.” O fiasco no campo social e a ortodoxia na área econômica

gabinete tivera na gestão anterior. Assuntos que eram vinculados ao gabinete militar passaram para a Casa Civil.

mo pelas nomeações dos principais cargos de assessoramento superior DAS 6, 5 e 4, que antes eram assinados pelo presidente. Todas as avaliações MP – Foi o próprio Dirceu de nomeações também estão quem tomou as providências sob seu completo controle. para legitimar administrativaO gabinete de Dirceu é o mente o poder que tinha politi- mais procurado do Planalto, camente. É dem e s m o le a alteração quando o da medida presidente provisória que está em Brafez a Casa Cisília. Ele devil ter precedica duas dência sobre tardes da seos ministérios, mana a parque antes era lamentares e da pasta da chega a receJustiça. Dirber 40 num ceu se senta dia. Quando ao lado do preLula está foMinistro da Casa Civil, sidente da Rera do País, José Dirceu pública, auxitodas as deciliando o presisões são diredente em todas as reuniões, e cionadas para o seu gabinete. tem precedência sempre. Responsável por grande As nomeações de DAS (Dire- parte dos acordos firmados peção de Assessoramento Supe- lo então candidato Lula, Dirrior) e outros cargos de impor- ceu só se viu desautorizado tância do governo, antes prerro- uma vez. Foi na primeira vergativa da Secretaria-Geral, pas- são do acordo para inserir o saram para a Casa Civil. Dir- PMDB no bloco governista, receu ficou responsável até mes- cusada por Lula.

Figurino – Com a bênção de seus companheiros, Lula vestiu o figurino de centro ainda como candidato e desbastou o discurso ideológico. Depois que a esperança venceu o medo, slogan da campanha petista, a palavra da vez é paciência para o crescimento. No programa de governo, o PT estipulou metas ambiciosas: criar 10 milhões de empregos em quatro anos e dobrar o valor do salário mínimo no mesmo período. Para que esse objetivo começasse a sair do papel já em 2003, o PIB teria de crescer, em média, 5% ao ano. Mas a tesourada já desfez a aritmética eleitoral: o Plano Plurianual de Investimentos (PPA) agora prevê 8 milhões de empregos até 2007, ou seja, num prazo ainda maior e após o término do governo Lula. Até aqui, o tão falado programa Primeiro Emprego é uma peça de marketing. Responsável pelo cálculo da meta dos 10 milhões de empregos, o economista Antônio Prado diz que o cenário encontrado foi “totalmente adverso” para começar a atender os compromissos de campanha logo em 2003. “Na situação em que recebemos a economia não havia possibilidade de promover uma política ativa de geração de empregos”, afirma Prado, o executivo de Palocci na coordenação do programa de Lula. “Uma coisa é querer construir uma casa e outra é chegar lá e ver que a casa pegou fogo.” Surto – O incêndio, no caso, foi provocado pelo surto inflacionário – não previsto com ênfase na campanha. “Quando a Carta ao Povo Brasileiro foi escrita, a preocupação maior era com o estrangulamento externo e a fuga de capitais”, conta Prado, numa referência ao documento lançado em junho de 2002 para tranqüilizar o mercado financeiro. Nele, Lula se comprometia a honrar os contratos e a cumprir as metas de superávit primário. A época era de forte turbulência na economia. O PT fez o dever de casa e agora tenta se livrar da recessão. “Não tem mágica: ou a economia cresce ou não se combate o desemprego”, insiste o ministro do Trabalho, Jacques Wagner. Para o economista Fernando Cardim de Carvalho, professor titular da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Lula precisa deixar claro que suas escolhas são irreversíveis. “Das duas uma: ou o presidente faz uma autocrítica e renega de uma vez por todas o ideário do PT ou adota um conjunto de reformas institucionais, como a independência do Banco Central, para impedir o governo de voltar atrás em seus compromissos”, argumenta Carvalho. De qualquer forma, a autonomia operacional do Banco Central é a próxima batalha do governo e também dentro do PT. Motivo: enfrenta um turbilhão de resistências em todas as facções internas. “Estou disposto a marcar hora, local e armas para discutir esse assunto no PT”, brinca Palocci. Quem viver verá.

Vou dividir o poder: uma parte vai ficar com o Zé, outra com o Dirceu

provocaram um racha no PT. Além da expulsão de quatro parlamentares – a senadora Heloísa Helena (AL) e os deputados João Batista Araújo, o Babá (PA), Luciana Genro (RS) e João Fontes (SE) –, o partido perdeu alguns intelectuais filiados desde a fundação, como Carlos Nélson Coutinho e Francisco de Oliveira. Outros tantos insatisfeitos que ficaram, porém, ainda reivindi-

cam o cumprimento de bandeiras históricas empoeiradas, como a que pregava “Fora FMI”. Mesmo entre os moderados há certo desconforto com o lifting do partido. “Quem está no governo e no PT não deve achar que está tudo bem, mas fazer uma análise crítica deste ano de aprendizado”, observa o senador Flávio Arns (PT-PR). No diagnóstico de Genoino, o PT vive “um momento difícil”,

CENAS DO GOVERNO LULA
24 de julho: Marisa e Lula em Concórdia (SC), com chapéus que receberam de agricultores

Joedson Alves/AE

Roberto Castro/AE

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9 de agosto: Lula (centro) disputa jogada durante pelada na Granja do Torto 8 de agosto: presidente “toca” violino em inauguração de escola municipal
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O GOVERNO APRENDIZ

DIPLOMACIA DE RISCO
Por uma ‘nova geografia’ em que os emergentes sejam respeitados, País dá passos ousados

no exterior do desafio interno do governo, que ainda não angariou resultados práticos.

Venezuela – No início do governo, a premissa do protagonismo natural do Brasil deu susDENISE CHRISPIM MARIN tentação a atitudes atabalhoadas da diplomacia presidenRASÍLIA – O presidencial. Antes de sua posse, Lula te Luiz Inácio Lula da ensaiou uma interferência em Silva imprimiu um ritquestões internas da vizinhanmo ansioso e ambicioso à sua ça ao enviar seu assessor espepolítica externa e, com improvicial para Assuntos Internaciosos em seus discursos e giros innais, Marco Aurélio Garcia, a ternacionais, gerou mais polêuma Venezuela mergulhada no mica interna que discussões e conflito entre o governo Hugo impactos além das fronteiras Chávez e a oposição. A confudo Brasil. Seus críticos mais sesão acabou consertada pelo Itaveros acreditam que suas iniciamaraty, que propôs a criação tivas, com raros exemplos subsdo Grupo de Amigos da Venetantivos, não passam de uma zuela, com um perfil moderado retórica ideologizada, que mese subordinado ao secretariadocla elementos da política indegeral da Organização dos Estapendente de Jânio Quadros e dos Americanos (OEA), e aindo general Ernesto Geisel. Os da “convidou” os Estados Unimais afáveis avaliam que as atidos para o integrarem. tudes tomadas pelo Palácio do “A intenção de manter uma Planalto e o Itamaraty são expolítica proativa e de esforçartremamente ousadas e positise em direção a um protagonisvas. Embora considerem que mo é positiva. Também parece ainda não é possível calcular os boa a idéia da estratégia Sulbenefícios e os riscos dessas Sul, como um instrumento paações, ressaltam que, na sua pora que os países em desenvolvilítica internacional, o País anmento ganhem força e particida “no fio da navalha”. pação na formulação das novas Desde que tomou posse, em regras mundiais”, disse Valla1.º de janeiro, Lula manteve um dão. “O nó central é saber se esdiscurso enfático sobre a prioridade de seu governo à relação O chanceler Celso Amorim, empenhado em revitalizar a estratégia Sul-Sul, de alinhamento contra as premissas do Primeiro Mundo sa política traz consigo a ambição de construir do Brasil com a um pólo de poArgentina, como der de confrontabase para o fortação com o munlecimento do do rico.” Mercosul. Mas Em sintonia, o orientou sua políprofessor Gilbertica para a consto Dupas, do Instrução do que batituto de Estudos tizou de a “nova Avançados da geografia polítiUniversidade de ca e comercial paSão Paulo, acrera o mundo”. dita que a boa reApresentada pelação entre Bralo próprio Lula sil e Argentina como uma via paao longo de 2003 ra a inclusão dos deveu-se principaíses subdesenpalmente à debivolvidos nos lidade da econograndes debates mia do vizinho. internacionais – Com a perspectinão como instruva de recuperamento de conção argentina frontação com os Lula com o líder da Líbia, Muammar Kadafi: para especialistas, contato perigoso Presidente, ao lado da primeira-dama, Marisa: esboço do novo mapa-múndi em 2004 e as dúEstados Unidos, vidas sobre o vôo da galinha da a União Européia e o Japão –, a economia brasileira, Dupas anidéia ressoa como o resgate da tevê o início de um novo períofracassada estratégia Sul-Sul, do de turbulência na célula cende alinhamento contra as pretral da política externa. missas do Primeiro Mundo. Dupas acredita que a polítiCom base nessa estratégia, o ca externa de Lula ainda não governo expandiu as ambições causou danos graves nas relade integração física e comercial ções do Brasil com os EUA poralém das fronteiras do Mercoque os americanos estão concensul, com o objetivo de abarcar trados no combate ao terrorisos demais países sul-americamo e no conflito com o Iraque. nos em uma rede de comercialiNesse sentido, os discursos afiazação mais ativa e de criar um dos do presidente contra a políanteparo político para a fase tica externa americana e sua conclusiva das negociações da motivação em aliar-se, de forÁrea de Livre Comércio das ma escancarada, aos países deAméricas (Alca). Como contrasenvolvidos que vêm resistindo partida, apresentou-se como às ações unilaterais de Wauma “liderança generosa” e espalhou promessas de linhas de Ao lado de Fidel Castro: avarias à imagem de Lula não são visíveis Na Síria, com presidente Bashar al-Assad: prioridade é comercial shington seriam atitudes, no mínimo, perigosas. “O risco de financiamento do Banco Nacional para o Desenvolvimento às vésperas da reunião ministe- Sul será levada pelo próprio mércio e no investimento recí- nal foram montados sobre um apontar o dedo para o leão é Econômico e Social (BNDES) rial da Organização Mundial Lula à Índia, à China e, quem proco, esse empreendimento conceito de elevada auto-esti- perder a mão”, advertiu. Ele ainda chama a atenção aos países da região e de respei- do Comércio (OMC), em se- sabe, à Rússia, fato que poderá traz o risco de converter-se em ma – se não sobre uma visão tembro, em Cancún. Exitosa, consolidar sua idéia de unir es- uma sessão de loas a regimes de messiânica da contribuição que para a seguinte dúvida: a retórito às assimetrias. o presidente Lula pretende dei- ca de Lula servirá como instruAté dezembro, essa política a experiência tornou-se o sas economias emergentes de exceção. havia impulsionado o acordo exemplo mais concreto da cos- relevância no cenário interna“Prestigiar regimes ditato- xar para o mundo. Nessa base mento para aumentar o seu pode livre comércio entre o Merco- tura desse novo mapa-múndi. cional em um Grupo dos Cin- riais é particularmente perigo- está assentada sua convicção der de barganha ou sua política sul e o Peru e preparado terre- Mas ainda se mostra suscetível co (G-5). Com isso, em princí- so para um país como o Brasil, de que o Brasil tem de assumir externa está no limite da pruno para a possível implementa- a escapar do plano pragmático pio, o esboço do novo mapa- que tem uma imagem no exte- a liderança da América do Sul dência? Para o professor, tratae também do res- se de uma questão difícil de resção dos acertos semelhantes para o da ideologização, avi- múndi do presidente estaria rior de democraconcluído. Lula, entretanto, cia consolidada e tante do mundo ponder neste momento, em que com a Venezuela, a Colômbia e sam os críticos. Da mesma forma, o Itamara- igualmente recomendou à sua garantidora das subdesenvolvido o Brasil passou por várias zoo Equador em meados de 2004. RASIL SE e pobre, sem ne- nas de risco sem avarias visíEm um segundo movimento da ty insistiu na queda-de-braço equipe prosseguir com todas as instituições da renhuma modéstia veis – como as viagens presidenremoçada estratégia Sul-Sul, com os Estados Unidos em tor- iniciativas adotadas em 2003 e gião”, disse o proMOSTRA COMO “colonizada”. ciais a Cuba, à Síria e à Líbia, Lula embrenhou-se em um ro- no de um novo modelo para a aprofundá-las. fessor Alfredo A estratégia nas quais não foi solicitada neteiro por cinco países da África, negociação da Alca. Ganhou a Nessa linha enquadra-se a Valladão, da Cá‘LIDERANÇA Sul-Sul está inse- nhuma moderação aos goverentre os quais três de língua por- parada, com o consenso sobre o proposta de realização de uma tedra Mercosul rida nesse princí- nantes, e a montagem do G-20. tuguesa. O terceiro traço do ma- formato da “Alca Light” em no- reunião de cúpula esdrúxula. do Instituto NaGENEROSA’ pio, assim como “Por enquanto, Lula conta pa-múndi imaginado por Lula vembro, em Miami. Mesmo Envolverá os chefes de Estado cional de Ciêna atual campa- com um estoque de tolerânseguiu na direção do Oriente com os acordos com sua vizi- da América do Sul – região que, cias Políticas nha do governo cia, no plano internacional. Médio, onde se meteu em uma nhança sul-americana, a diplo- nas últimas duas décadas, des- (Sciences-Po), de polêmica visita a cinco países, macia não conseguiu dissipar o dobrou-se em favor da redemo- Paris. “O País perderia, com em favor de uma cadeira per- Ele ainda é visto como um líentre os quais a Síria e a Líbia. alto risco de o Brasil acabar iso- cratização e do fortalecimento certeza, suas chances de atuar manente para o Brasil no Con- der que promete adotar uma lado e com acesso limitado de de suas instituições – e dos paí- como mediador de crises.” selho de Segurança da ONU. política de combate à excluLight – Em paralelo a essas seus bens e serviços ao merca- ses árabes – na sua maioria, regiTambém se enquadram no ce- são social mesmo mantendo a iniciativas, o Itamaraty resol- do americano. mes ditatoriais, pouco sensíveis Messiânica – Indiscutivel- nário os repetidos discursos de ortodoxia na sua política ecoPara 2004, o governo preten- à prioridade que se dá, no Oci- mente, os diferentes tabuleiros Lula em favor de um fundo nômica. Mantém um governo veu construir uma aliança com outros 21 países exporta- de partir para a prospecção de dente, a questões de direitos hu- explorados pelo novo governo mundial de combate à pobreza popular, mas ainda não popudores e importadores agrícolas novos aliados. A estratégia Sul- manos. Mesmo focada no co- brasileiro na órbita internacio- – uma transposição para o pla- lista”, afirmou.

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Dida Sampaio/AE

Dida Sampaio/AE

Ed Ferreira/AE

Dida Sampaio/AE

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AVALIAÇÃO DO GOVERNO LULA

Na área social, vou dar nota 5 para o nono ano do governo FHC, com forte esperança que o governo Lula comece a cumprir no próximo NOTA ano as promessas feitas na campanha

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A política externa é muito boa. A gente tem esperança de que as coisas melhorem no próximo ano. Não vou dar nota porque não sou de dar nota NOTA para ninguém

Siro Darlan, juiz da 1.ª Vara da Infância e Juventude do Rio

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Este ano foi de transição, difícil, com duas reformas essenciais. Isso nos dá a partir de 2004 esperança de desenvolvimento, com o NOTA social em primeiro lugar e a cultura incluída no social

Oscar Niemeyer, arquiteto

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O GOVERNO APRENDIZ

Deputados da base aliada comemoram, em setembro, a aprovação da reforma tributária em primeiro turno: as prometidas mudanças estruturais foram esvaziadas pelo lobby dos governadores

REFORMAS CHEGAM PEDINDO OUTRAS
Com alma de tucano, novas regras para a Previdência e tributária ficam muito aquém do que se prometeu
SÉRGIO GOBETTI

RASÍLIA – O governo Lula chega ao fim de seu primeiro ano comemorando a aprovação das reformas previdenciária e tributária no Congresso, mas muito pouco dessa vitória pode ser atribuído à plataforma ou às promessas de campanha do PT. Grande parte das mudanças promovidas no sistema de aposentadoria dos servidores e do sistema tributário apenas repete ou consolida a agenda do governo Fernando Henrique Cardoso. A cobrança de contribuição previdenciária dos servidores públicos só não foi implementa-

B

da antes por causa de uma decisão do Supremo Tribunal Federal contrária à medida, combatida na época pelo PT. A atual reforma previdenciária também conseguiu quebrar a paridade entre os proventos de servidores ativos e inativos, uma das normas constitucionais mais caras aos sindicatos do funcionalismo ligados à CUT. No campo tributário, o governo teve de abrir mão de grande parte das mudanças que tinha a “cara do PT” – como a progressividade dos impostos sobre heranças e transmissão de bens imóveis, além de uma reformulação mais profunda do Imposto de Renda – para conseguir aprovar a reforma. Do texto enviado ao Congresso, apenas três medidas fiscais – a prorrogação da CPMF e da DRU e a repartição da Cide com Estados e municípios – entrarão

imediatamente em vigor. As prometidas mudanças estruturais, como a reformulação do ICMS e o fim da guerra fiscal, foram amenizadas pelo lobby dos governadores e só devem ser concluídas em 2004, para entrar em vigor em 2005. A instituição do Imposto sobre Valor Adicionado (IVA) foi transformada apenas em uma meta a ser perseguida até 2007. Segundo o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), a divisão da reforma em três etapas foi justamente o que viabilizou sua aprovação. “Realizamos uma grande obra política, porque votar uma reforma destas em um quadro de debilidade fiscal como o atual é extremamente complexo.” Outras medidas adotadas no âmbito da reforma constitucional, como a desoneração das exportações e o fim da cumulativi-

dade da Cofins, apresentadas como grandes incentivos ao setor produtivo, concluem um processo iniciado na gestão FHC. E, no caso da Cofins, a proposta de adoção da contribuição sofreu intensa crítica pelos reflexos que teria sobre a carga tributária.

co desempenho da economia e pelo reajuste das aposentadorias do INSS, deveriam encerrar 2003 com um buraco duas vezes maior do que o de dois anos atrás. Vários analistas já apontam a necessidade de uma nova reforma, capaz de controlar o crescente peso dos Receita – As benefícios preduas reforvidenciários e mas devem reassistenciais. forçar a receiUm estudo do ta da União Ministério da Aloizio Mercadante em R$ 13,2 biFazenda chelhões já em ga a sugerir 2004 e propiciar uma redução uma ampla reforma nos gastos lenta e gradual do déficit previ- sociais, focalizando as despesas denciário do setor público. As prioritariamente em progracontas do setor privado, em mas que atendam às classes compensação, afetadas pelo fra- mais baixas.

Realizamos uma grande obra política. Votar a reforma num quadro de debilidade fiscal é complexo

Por outro lado, a idéia de fazer justiça social por meio de uma reformulação profunda no IR parece cada vez mais distante da agenda do governo. Além de resistir à eficácia de uma alíquota de 35% sobre os grandes salários, o comando da Receita é contrário a rever alguns dispositivos criados na gestão anterior e muito criticados pelos petistas, como o direito de as empresas deduzirem do cálculo de seu imposto o chamado “juros sobre capital próprio”. Um dos poucos avanços em termos de justiça tributária assinalados pela reforma é a redução do ICMS sobre produtos da cesta básica, medicamentos e energia elétrica de baixo consumo. Mas essa medida já é aplicada por vários Estados e sua uniformização ainda depende de confirmação na Câmara e de uma longa regulamentação. do Palácio do Planalto, foram aprovados. O primeiro, relacionado à lavagem de dinheiro, cria o Cadastro Único de Correntistas. Outro é o Estatuto do Desarmamento, que proíbe a venda de armas e concessão de portes – o texto original, no entanto, recebeu várias emendas que não agradaram ao governo. O terceiro projeto recebeu críticas de vários setores, pelo fato de criar o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), que coloca prisioneiros de alta periculosidade por até um ano em presídios de segurança máxima. Apesar do anúncio de admissão de novos policiais federais, as três turmas formadas em 2003 são herança da administração Fernando Henrique Cardoso – os concursos e processo de seleção foram realizados no governo anterior. O primeiro concurso público para a PF, no governo Lula – com previsão de ampliação em 70% dos quadros da corporação –, só será feito a partir de março. Até lá, o Ministério da Justiça terá de encontrar bons argumentos para sensibilizar a área econômica que deixou a instituição sob pesado constrangimento, com o corte de linhas de telefone e interrupção de abastecimento de água por falta de pagamento.

Para dar à PF status de FBI, Bastos iniciou depuração de quadros
EDSON LUIZ e FAUSTO MACEDO

UMA FAXINA COMPLICADA

primeiro passo do ministro Márcio Thomaz Bastos (Justiça) rumo à construção de uma Polícia Federal com jeito de FBI foi dado à custa de ações para depuração dos quadros da corporação. Quando assumiu o cargo, em 2 de janeiro, Thomaz Bastos declarou publicamente que pretendia fazer da PF de Lula uma polícia igual à dos americanos, uma força inteligente, ágil, dedicada ao contribuinte e livre do fardo da corrupção que pesa sobre parte do aparelho policial. A promessa do ministro, ele próprio reconhece, está longe de ser cumprida. A PF preserva estilo e limitações de outros tempos. Thomaz Bastos considera, no entanto, animadores os primeiros resultados de sua cruzada. A Anaconda, superinvestigação sobre suposto esquema de ven-

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da de sentenças na Justiça Fe- tificar sinais exteriores de riquederal em São Paulo, deixou o za. Todo o programa será deministro orgulhoso, segundo senvolvido em 2004. suas palavras. A operação mandou um magistrado para a ca- Pesquisas – Thomaz Bastos deia – outros dois foram afasta- destaca que seu ministério mudos sumariamente das funções dou os critérios para a libera– e expôs o tamanho das trapa- ção de recursos destinados à lhadas na própria PF, desmas- área de segurança. “Não somos carando agentes de graduação uma tesouraria, para ter recurmodesta e delegados do alto es- sos é necessário apresentar projetos”, adverte o calão que foram ministro, que reparar na prisão. passou este ano Anaconda à PERAÇÃO US$ 187 milhões parte, o pacote para Estados e contra lavagem ANACONDA municípios, sode dinheiro discuma pequena comtido por 60 técniPÔS JUIZ parada aos procos e autoridades blemas vividos do governo Lula, NA CADEIA atualmente pelo nos primeiros País. dias de dezemO ministro bro, talvez seja a marca registrada do ministro também se empenhou para alda Justiça na área de seguran- cançar a unificação das ações ça pública. As 13 medidas de combate à violência por anunciadas por ele vão atingir meio do Sistema Único de Segudesde as altas movimentações rança Pública (Susp) e os Gabibancárias até os servidores pú- netes de Gestão Integradas blicos, que serão obrigados a jus- (GGI) – uma idéia de Thomaz

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Thomaz Bastos: “Para ter recursos é necessário apresentar projetos” Bastos que acabou sendo lançada por iniciativa dos governadores do Sudeste. “Nunca tivemos integração e parceria como agora”, avalia. No segundo semestre, o ministro debelou ao seu estilo, com discrição e firmeza, a ameaça de uma crise interna, quando descobriu que o então secretário nacional de Segurança Pública, Luiz Eduardo Soares, havia contratado a ex-mulher, e também a atual, para coordenação de pesquisas da Pasta da Justiça.

Concurso – Mas se os planos de combate à violência começam a sair do papel e dos gabinetes do Executivo, no Congresso as coisas andam devagar. Durante 2003, apenas três projetos importantes, de autoria

CENAS DO GOVERNO LULA

Joédson Alves/AE

Dida Sampaio/AE

Reuters

Rafael Neddermeyer/AE

Ed Ferreira/AE

Ed Ferreira/AE

Companheira de todas as horas, Marisa Letícia desfila elegância das cerimônias aos passeios informais com o marido presidente

Reuters

Dida Sampaio/AE

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O ESTADO DE S.PAULO - X5

O GOVERNO APRENDIZ

Com acusações de falta de transparência, Lula forçou caminho para a reforma da Judiciário
MARIÂNGELA GALLUCCI e EDSON LUIZ

UMA CRISE CALCULADA

RASÍLIA – Ao custo de uma crise política calculada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu caminho a fórceps para a reforma do Poder Judiciário, ao acusálo de manter uma “caixa-preta” e instalar no Ministério da Justiça uma secretaria de Reforma do Judiciário. A reação foi tão barulhenta quanto inútil: o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), Maurício Corrêa, termina seu mandato no começo de 2004 sem conseguir evitar seu desgaste pessoal e do Poder Judiciário, apesar do apoio de toda a corporação. A crise começou em abril, com as declarações de Lula, agravou-se com os escândalos registrados no âmbito do Judiciário ao longo do ano e só foi atenuada Corrêa e Lula: crise entre os dois começou em abril, quando o presidente acusou o Judiciário de manter uma caixa-preta em novembro quando o preciário com o com a reforma previdenciária, entre Lula e Corrêa aumentou, cer no dia indicado e outra data sidente da Reobjetivo de re- associações de juízes e de pro- criando dificuldades institucio- ficou de ser marcada. Até hoje, pública conformar o Exe- motores aprovaram a convoca- nais para os dois Poderes. No não houve uma reunião formal. cordou em encutivo. A res- ção de uma greve inédita de desfile de 7 de Setembro, por Mas no fim de novembro o cliMárcio Thomaz Bastos contrar-se posta a essa uma semana em agosto para exemplo, os dois dividiram o ma tenso entre Executivo e Jucom o presinova provoca- protestar. Pressionado, o gover- mesmo palanque e não se cum- diciário começou a dissipar. Foi dente do STF, reunião ainda ção veio no mês seguinte. No no resolveu ceder em alguns primentaram, mas já tinham durante uma cerimônia de criapor acontecer. discurso de posse de Corrêa na pontos, garantindo, por exem- sido colocados estrategicamen- ção de varas trabalhistas e fedeA criação da secretaria da re- presidência do STF, Lula teve plo, aposentadoria integral pa- te à distância pelo cerimonial rais que os presidentes dos dois forma do Judiciário, em maio, de escutar calado uma série de ra os atuais servidores. A greve da Presidência. Poderes voltaram a se falar. foi recebida pelos juízes como críticas ao projeto de reforma foi cancelada e a popularidade Em outubro, tentando quePor causa dos problemas de uma interferência na soberania previdenciária que propunha de Corrêa subiu na magistratu- brar o gelo, Corrêa convidou relacionamento e da troca de do Poder Judiciário. Chegou-se mudanças no Judiciário. A par- ra, depois de representar um pa- Lula para discutir no STF a re- comando no STF, marcada paa alegar que a medida poderia tir daí, o relacionamento tor- pel em que mesclou discursos forma do Judiciário e dos códi- ra maio, o governo tem optado ser comparada à instituição de nou-se mais azedo. de juiz e de sindicalista. gos de processo. O presidente por dialogar com o futuro presium órgão semelhante no JudiDiante de prováveis perdas Nos meses seguintes, o fosso disse que não podia compare- dente do Supremo, Nelson Jo-

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bim. Ex-deputado federal pelo PMDB gaúcho, ministro da Justiça no governo de Fernando Henrique Cardoso e amigo de vários integrantes do primeiro escalão do governo, Jobim é favorável à criação de um órgão de controle externo do Judiciário, integrado, inclusive, por cidadãos. A expectativa é de que ele não deverá oferecer resistências aos projetos do governo Lula para o Judiciário. O Palácio do Planalto também se aproxima do ministro Edson Vidigal, que em 2004 irá presidir o Superior Tribunal de Justiça (STJ), e que defende as mesmas posições de Jobim.

Temos uma relação amigável com todos e não queremos ferir a autonomia do Judiciário

Bombeiro – O governo pretende fazer a reforma do Judiciário nos quatro anos de Lula. Para isso, atua como bombeiro durante as crises o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, que também tem o papel de articulador das reformas dentro do Executivo. “Precisamos de uma reforma radical do Judiciário. Há divergências, mas isso faz parte do ciclo da democracia”, afirmou o ministro, pouco depois de sua posse, quando anunciou que a reforma seria o carro-forte de sua pasta. “Temos uma relação amigável com todos e não queremos ferir a autonomia do Judiciário. Longe disso.” A idéia é relacionar todos os pontos convergentes entre os Poderes para levar a reforma o mais rápido ao Congresso. “O que for divergência, deve ser discutido depois”, avalia Vidigal, acompanhando o mesmo pensamento de Bastos, que criou a secretaria de reforma do Judiciário para colher informações e sugestões que possam ser encaixadas no pacote preparado pelo Executivo para ser levado ao Legislativo.

APRENDENDO A SER VIDRAÇA
deu em tamanho para a cobertura da viagem do presidente Lula ao Oriente Médio. Os atritos tornaram-se corriqueiros. Até simples informações – como a agenda de ministros e do presidente – dão motiJOÃO DOMINGOS vo a discórdias. Ao contrário de e TÂNIA MONTEIRO secretários de Imprensa de goRASÍLIA – Estilingue vernos anteriores, que faziam por 22 anos, o PT atirou tudo para facilitar a convivênpedras como ninguém. cia com os meios de comunicaVidraça há um ano, convive ção credenciados no Planalto, a mal com as críticas. Especialis- Secretaria de Imprensa não tas na difusão de denúncias pe- tem pressa em resolver pendênla imprensa, os petistas ator- cias que surgem no dia-a-dia. mentaram a vida dos governos Na gestão Sarney, a sala do passados com o vazamento de então secretário de Imprensa, informações as mais confiden- Fernando Cesar Mesquita, era ciais. Calouros no trato da cor- aberta ao público, embora fosse rupção dentro de casa, passa- o primeiro governo civil após o ram a ver um inimigo potencial regime militar e a estrutura adem cada jornalista. Por isso, o ministrativa ainda estivesse governo adotou um formato de contaminada pela síndrome do comunicação fechado, centrali- sigilo de informação. Ana Tavazado em alguns funcionários. res, assessora do ex-presidente Nesse contexFernando Henrito, fortaleceu a que, não deixava Radiobrás e privitelefonema sem OTSCHO legiou-a com resposta, mesmo acesso exclusivo quando o acomNÃO ADMITE aos eventos e ampanhava fora do bientes que têm a País. Ana tinha QUE REPÓRTER presença do precuidado especial sidente e, historicom os que a proABORDE LULA camente, sempre curavam ou viaforam abertos a javam com o prejornalistas cresidente. Articuladenciados. Com isso, tenta esta- va entrevistas coletivas nas embelecer um noticiário padrão, baixadas ou hotéis. Esclarecia distribuindo em sua rede gratui- pontos obscuros, convidava edita imagens e textos com enfo- tores para almoços de trabalho. que de interesse oficial. O processo é extensivo à co- Tapa – Avesso a celular e combertura de áreas e assuntos fora putador, o secretário de Comuda esfera oficial, como cultura, nicação, Ricardo Kotscho, coleesporte, lazer. No início do mês, ciona desentendimentos. Não o site da Radiobrás na internet admite que repórter credencia(www.radiobras.gov.br) dedi- do aborde o presidente, mesmo cou espaço nobre ao polêmico quando Lula favorece e permiprocurador da República Luiz te a abordagem. Mais duro que Francisco de Souza, que só per- um agente da segurança, já deu

Partido convive mal com críticas e denúncias e criou um esquema fechado de comunicação

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Lula tira foto de fotógrafos no Itamaraty: vida difícil para jornalistas tapa nas mãos de um repórter que, gravador em punho, “ousou” fazer perguntas a Lula. No Oriente Médio, Kotscho chamou duas vezes uma repórter do Estado de “cafajeste” e mandou-a calar a boca porque comentara com o presidente sobre a beleza da mesquita onde estavam. “Realmente chamei a repórter de cafajeste. A repórter passou pelos seguranças e se aproximou do Lula. Disse que faria uma pergunta. Respondi que não podia, porque aquilo era um templo. Mais tarde, ela insistiu. Eu me aproximei e disse: saia daqui. Você está sendo cafajeste. No dia anterior, a mesma repórter fora barrada por seguranças ao tentar se aproximar do presidente quando não podia”, diz Kotscho. Seus auxiliares ligam para os jornalistas antes de cerimônias para reiterar a “regra” que proíbe perguntas. Num dia de bom humor, Lula pegou uma câme-

ra e passou a fotografar os fotó- manual que as cartas de govergrafos. Um repórter perguntou- nantes aos jornais devem ter colhe como era estar do “outro la- mo objetivo corrigir um erro de do” da câmera. O presidente informação ou responder a crítirespondeu, mas o gravador do ca ou infâmia: “Erros de inforrepórter já estava no chão após mação sempre devem ser corrium tranco do próprio Kotscho. gidos, mesmo os de pequena im“Com relação ao tapa na portância. Críticas nascidas de mão do repórter, isso aconte- discordâncias ideológicas ou ceu. Estávamos chegando de doutrinárias ou de mera vontabalsa a Itinga, no Vale do Jequi- de de agredir não devem ser tinhonha. Era um sistema de se- contestadas.” Patrulhamento e gurança complicado. De repen- interferência numa opinião jate, no meio da multidão, surgiu mais devem ocorrer. uma mão com gravador. Afastei a mão e disse: agora não”, re- Briefings – Outro problema é lata Kotscho. “Isso tudo que o porta-voz da Presidência, Anaconteceu é muito desagradá- dré Singer. Nos governos passavel. Foi um primeiro ano de dos e no início deste o porta-voz uma adaptação muito difícil pa- falava quase diariamente com ra a imprensa e para mim. No jornalistas. Em janeiro, Singer ano que vem espero que as coi- falou 14 vezes com a imprensa. sas possam melhorar. Eu não No mês passado, apenas 6. A exvou fazer mais isso”, promete. plicação foi que Lula não teve O Comitê de Imprensa do espaço na agenda para converPlanalto, criado para o diálogo sar com seu porta-voz. formal com a SeJá foram feicretaria de Imtas várias tentatiprensa, autodisvas para melhoOMITÊ DE solveu-se por ser rar a relação eninútil. Na linha tre governo e imIMPRENSA DO adotada em toda prensa. Três mea estrutura do goses depois do iníPLANALTO FOI verno, de concencio do governo, o tração das inforrelacionamento DISSOLVIDO mações, a secrejá era tão ruim taria foi ampliaque o Sindicato da. Criou uma redos Jornalistas dação que mantém o site www. do Distrito Federal enviou à Seinfo.planalto.gov.br e reproduz cretaria de Imprensa um abaia agenda oficial do presidente. xo-assinado, “Manifesto pela Todas as assessorias de co- Liberdade de Informar”. Aponmunicação foram enquadradas tava sérios entraves de setores na orientação central. A Secre- do governo à liberdade de infortaria de Comunicação e Gestão mação, afirmava que ministros Estratégica criou o Serviço de proibiam a divulgação de suas Pronta Resposta, para que toda agendas e havia nos ministérios informação de jornais conside- e palácios bloqueio de informarada infundada seja rebatida ções até a respeito de enconna hora. Existe até um manual tros, debates e processos que para orientar funcionários a co- sempre foram acompanhados mo responder a jornais. Diz o sem problemas pela imprensa.

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AVALIAÇÃO DO GOVERNO LULA

Superou as expectativas. Foi bom e surpreendente, tranqüilizando o mercado, com o controle da inflação, NOTA do câmbio

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Dou nota 10 ao primeiro ano do governo Lula, porque ele é maravilhoso, torço muito por ele e desejo que 2004 seja um ano de muitas realizações para NOTA ele e todos nós

Joédson Alves/AE

Carlos Alberto Parreira, técnico da seleção brasileira de futebol

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Nota zero, porque não existe menos 1, pela política econômica e as reformas. Mas dou nota 3 pela boa intenção que há na alma NOTA e no coração de algumas personalidades do governo

Emilinha Borba, cantora

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QUARTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2003

O GOVERNO APRENDIZ

OPOSIÇÃO LIGHT COM DIAS CONTADOS
Tucanos e pefelistas, que ajudaram Planalto a aprovar as reformas da Previdência e tributária, prometem jogo duro daqui para a frente
EUGÊNIA LOPES

RASÍLIA – As eleições municipais de 2004 vão pôr um ponto final na lua-de-mel de parte da oposição com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Pelo menos é o que apostam líderes dos principais partidos de oposição: o PSDB e o PFL. Os tucanos e os pefelistas, que este ano tinham compromissos com as reformas da Previdência e tributária e Divisão – Situação bem difeajudaram o Palácio do Planal- rente da deste ano quando o to, prometem agora fazer uma PFL expôs claramente sua divioposição mais aguerrida ao go- são interna na votação das reverno de Lula no ano que vem. formas da Previdência e tributáAfinal, seus candidatos serão ria. A corrente de Bornhausen concorrentes diretos na disputa ficou em franca oposição ao Placom o PT pelas mais de cinco nalto, votando contra o governo. Na reforma tributária, mesmil prefeituras do País. mo depois de “A eleição um amplo municipal seacordo entre rá um miracutodos os partiloso bálsamo dos, três senaporque ficará dores do PFL claro que o – Marco MaPT é nosso adciel (PE), José versário em toJorge (PE), da parte. E aí além de Boro fígado vai fanhausen – inlar mais alto e sistiram em se o namoro de posicionar parte do PFL contra a procom o PT terposta. minará com José Agripino Maia as eleições”, Já a ala do diz o líder do PFL liderada PFL no Senado, José Agripino por ACM esteve praticamente Maia (RN). todo o tempo ao lado do governo “A tendência é a oposição ser Lula. Ajudou o governo com vomais dura em 2004 e a tendên- tos e articulações políticas. cia é que fique mais acirrada “Acho que o PFL vai esticar a com as eleições. Todos os defei- corda o ano que vem e continuatos do governo virão à tona rá nesse posicionamento de ser com eleições”, observa o ex-go- contra tudo”, aposta a senadora vernador e senador Tasso Je- Roseana Sarney (PFL-MA), aliareissati (PSDB-CE). “O PSDB da do presidente Lula desde as vai ter menos momentos em eleições de 2002. “Mas em tudo que votará com o governo no aquilo que for para ajudar o Braano que vem”, afirma o líder tu- sil nós vamos estar juntos com o cano no Senado, Arthur Virgí- governo”, completa a senadora, lio Neto (AM). que também terá de enfrentar o O PFL, que passa por um sé- PT no Maranhão na disputa murio racha interno, deverá ficar nicipal do ano que vem. mais unido no ano que vem. A O PSDB também acabou se

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tendência é que as alas comandadas pelo presidente do partido, senador Jorge Bornhausen (SC), e pelo senador Antonio Carlos Magalhães (PFL-BA) acabem unificando o discurso, em 2004, contra o governo por causa das eleições municipais. Ambos têm como inimigos em seus Estados o PT e, opor-se ao Planalto, será uma questão de sobrevivência política.

realidade, ela não é irresponsável”, afirma Virgílio. Com a aprovação das reformas, o compromisso dos tucanos com o Planalto acaba. Essa liberdade coincide com a eleição do ex-senador José Serra para comandar o PSDB. Candidato derrotado à Presidência, Serra já assumiu a direção do partido fazendo críticas contundentes ao governo Lula, principalmente na condução da economia.

A eleição será um miraculoso bálsamo porque ficará claro que o PT é nosso adversário. E aí o fígado vai falar mais alto

Bornhausen, Virgílio e Agripino: com aprovação das reformas, compromisso com Planalto acaba dividindo este ano durante a votação das reformas. Mas a divisão foi mais por conta da conveniência dos governadores que, desde o início, apoiaram as reformas de Lula. De um lado, ficaram os parlamentares ligados aos governadores, que votaram a favor das reformas. De outro, os tucanos sem muitos compromissos com os governadores, que se posicionaram contra o Planalto. “Alguns dizem que a oposição é pouco combativa. Mas isso não é verdade. Na

Construtiva – Apesar de garantirem que farão uma oposição mais aguerrida ao governo, tanto pefelistas quanto tucanos prometem se comportar de forma responsável. Querem deixar claro que são bem diferentes do PT, que não ajudou o governo de Fernando Henrique Cardoso a aprovar projetos e reformas constitucionais. “Não será uma oposição destrutiva, mas será uma oposição fiscalizadora”, resume Agripino Maia. Segundo ele, o PFL vai se dedicar em 2004 a mostrar à sociedade que o governo não cumpre suas promessas, como acabar com o desemprego e melhorar a segurança pública. Também fará “uma vigilância permanente” no campo da ética, cobrando ações rápidas e eficazes do governo e do PT para explicar episódios como o da ministra da Assistência e Promoção Social, Benedita da Silva, que viajou para o exterior com recursos públicos para participar de um culto evangélico. Cobranças semelhantes serão feitas pelos tucanos, que também prometem não deixar em paz o governo quando o assunto for ética e emprego. “A opinião pública deu este ano de graça para o governo e o PT. Houve até complacência”, diz Tasso. “No ano que vem, o governo não terá desculpas para não deslanchar seus projetos. A oposição vai recrudescer na medida em que os governo terá mais erros. Temos muito a criticar neste governo”, afirma Virgílio, que no início do ano, ao assumir o mandato de senador, prometeu dar “o pior” de si para combater o governo.

AOS DESILUDIDOS, A PORTA DE SAÍDA
Da empolgação à decepção foi questão de meses, e muitos petistas já entram 2004 fora do PT
SILVIO BRESSAN

Dida Sampaio/AE

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ara alguns petistas, desiludidos com os rumos do governo Lula, 2003 foi o primeiro e último ano no poder. Na definição usada pelo deputado Fernando Gabeira, em outubro, ao sair do partido, este foi o ano em que o sonho acabou. Empolgados com o que consideravam uma oportunidade histórica para o partido pôr em prática seus discursos na oposição, eles ficaram decepcionados com as semelhanças entre o governo Lula e o de Fernando Henrique Cardoso. A continuidade da política econômica, a agenda de reformas e a falta de resultados na área social, além das arestas abertas no meio ambiente e nos direitos humanos, foram completadas com a expulsão, em dezembro, dos parlamentares radicais. “Acabou”, resumiu o ex-deputado Milton Temer (RJ), um dos que resolveram abandonar o partido após as expulsões. “No PT, não há outro sonho a ser sonhado.” É o que já achava Gabeira, quando subiu na tribuna da

Câmara para pronunciar o discurso do sonho perdido. Hoje, ele admite que o governo até evoluiu um pouco na política externa, mas no geral, ressalta o deputado, o balanço continua o mesmo de outubro. “Nas políticas sociais, no saneamento, na educação, no meio ambiente, não se acrescentou nada”, afirma o ex-petista. A saída dos radicais, no seu entender, foi outro erro. “São atitudes baseadas no centralismo democrático soviético do início do século”, compara. Já na avaliação de Milton Temer, o equívoco maior dos “sonhadores” foi achar que Lula quisesse reproduzir um no- Gabeira, na saída do Planalto: “Não adianta querer sonhar o mesmo sonho em outro partido” vo modelo de socialismo. contro, defen- contraditório entre a política tar”, afirma. “Mas concluí dendo o supe- econômica conservadora, a Outro eleitor cético de Lula é que, no funrávit primá- política externa soberana e as o presidente do Tribunal Supedo, Lula querio de 4,25% demandas sociais não atendi- rior do Trabalho (TST), Franria copiar o e a autono- das”, resume. cisco Fausto, que em julho, no (Jacques) Chimia para o Também sem tantos sonhos, auge da crise entre Executivo e rac”, afirma. Banco Cen- o jornalista e historiador Jacob Judiciário, admitiu ter votado “É um govertral. “Com es- Gorender não deixa de criticar nele: “Fui vítima de um esteliono de política sa perspecti- o primeiro ano do governo Lu- nato eleitoral.” Embora hoje se externa avanMilton Temer va, qualquer la. Autor do consagrado Com- mostre menos enfático, Fausto çada e de polísonho fica li- bate nas Trevas, que conta a vê grandes mudanças entre as tica econômiquidado.” história e o drama dos grupos promessas de Lula e seu desemca neoliberal, um modelo que A política econômica e a ex- guerrilheiros durante a ditadu- penho até agora. “Houve uma o próprio Chirac não hesita pulsão dos dissidentes tam- ra militar, Gorender se diz um mudança muito radical”, afirem qualificar de direita.” A úl- bém deixou o filósofo Emir cético sobre o comportamento ma. “Mas ainda acho que estatima esperança, diz o ex-parla- Sader, diretor do Laboratório do governo na área dos direi- mos na fase de plantar.” E o somentar, foi liquidada com a de- de PolíticaS Públicas da Uerj tos humanos. “Acho que o go- nho dos petistas? O juiz acha cisão do diretório em expulsar e petista de carteirinha, ain- verno Lula está ganhando tem- melhor esperar pela fase da coos radicais e o discurso que o da mais cético quanto ao futu- po e não acho que vá fazer lheita. “Não sei se ela vai cheministro da Fazenda, Antônio ro do governo Lula. “No míni- qualquer coisa, porque quer gar mesmo, mas quem sabe Palocci, fez nesse mesmo en- mo, trata-se de um governo evitar atritos com a área mili- 2003 não foi só um pesadelo?”

POUCOS FALAM EM DEIXAR O PT
Se o sonho é ruim, a realidade pode ser pior. Apesar de todas as críticas ao governo, poucos falam em sair do PT, um partido organizado e cada vez mais poderoso. Mesmo os descontentes, como o filósofo Emir Sader, e até alguns que já saíram, a exemplo do deputado Fernando Gabeira, consideram que este pode não ser o melhor caminho. “O melhor lugar para mudar o País e o PT ainda é dentro do partido”, avalia Sader, que não pretende rasgar sua carteirinha tão cedo. “Não adianta querer sonhar o mesmo sonho em outro partido”, diz Gabeira. Por isso mesmo, Sader insiste em permanecer na trincheira. “Ainda temos muita luta pela frente.” Na opinião de Gabeira, que ainda está sem legenda, os petistas precisam primeiro compreender tudo o que houve com o partido em seus 24 anos de existência. “É preciso reavaliar tudo e pensar para a frente, em como se faz um partido novo compatível com a sociedade atual”, afirma. “Não adianta mais reproduzir algo que já ficou lá atrás.” (S.B.)

Acabou. No PT, não há outro sonho a ser sonhado

CENAS DO GOVERNO LULA
Benedita, com Lula: gastos em três viagens complicam vida da ministra da Assistência e Promoção Social

Joedson Alves/AE

Dida Sampaio/AE

Tasso Marcelo/AE

Babá, Heloísa Helena, Luciana Genro e João Fontes: dor de cabeça no Congresso

Joédson Alves/AE

Marisa Letícia faz carinho em Lula: elogios à mulher são freqüentes nos discursos do presidente

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O GOVERNO APRENDIZ

UMA GUERRA AINDA LONGE DO FIM
Lula conclamou País para tentar vencer a fome, mas resultados em 2003 foram fracos
LUCIANA NUNES LEAL

IO – Às vésperas do segundo turno da campanha, o então candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva, anunciava: “Meu primeiro ano de governo terá o selo social do combate à fome. A única guerra que pretendo travar é contra a fome e em favor do emprego.” Elegeu-se e, no dia da posse, conclamou o País a fazer da erradicação da fome “uma causa nacional”. Foi o presidente quem transformou a área social na maior expectativa de seu governo. Ao fim de um ano, porém, ela virou a grande promessa para 2004. Um passo importante foi dado em outubro, com o lançamento do Bolsa-Família, que unifica quatro programas de transferência de renda e tem R$ 5,3 bilhões reservados para 2004. Esta é a grande aposta do governo, embora ainda tenha problemas sérios, como o cadastro dos beneficiários. O festejado programa Fome Zero também tem anunciado avanços, depois de um começo cheio de desencontros. “Na área social, o primeiro semestre foi muito confuso”, avalia a economista Sônia Rocha, coordenadora de projetos do Instituto Brasileiro de Economia, da Fundação Getúlio Vargas (FGV). “Foi lançado o Fome Zero, mas a população são sabia o que era política pública e o que era mobilização da sociedade. As pessoas começaram a doar coisas que não se sabia para onde iam”, conta. Enquanto isso, a parte de transferência direta de renda começou nas pequenas cidades do semiárido sem formato definido. Hoje, as transferências de renda estão a cargo do BolsaFamília, coordenado pela socióloga Ana Fonseca e ligado diretamente à Presidência. O Fome Zero, do Ministério Extraordinário da Segurança Alimentar, é responsável por dez ações, que vão da agricultura familiar à construção de cisternas e parceria com empresas privadas.

Marise Santana: sem queixas, a não ser o medo de morar longe

José de Fontes: “Aqui não vou ser roubado como na palafita”

Brasília Teimosa, de onde foram tiradas as palafitas: daqui a cerca de um ano, moradores deverão ter suas casas de alvenaria

ADEUS ÀS PALAFITAS
Brasília Teimosa, onde Lula levou os ministros para mostrar a miséria, começa a mudar
ÂNGELA LACERDA

Novo – Para outro pesquisador da pobreza na FGV, Marcelo Néri, não se deve esperar demais do Fome Zero. “O programa tem algumas vantagens, se deixar que faça o que é sua vocação, mobilizar a sociedade. Este é um dado novo”, diz. “Este lado participativo tem um gene de Josué de Castro, de Betinho, contando com um excelente homem de marketing que é o Duda Mendonça e um garoto-propaganda que é o próprio Lula.” Néri elogia o governo, independentemente das polêmicas, por ter começado com as atenções voltadas para o social. “A grande vantagem de Lula foi não perder tempo”, avalia. “O governo Fernando Henrique lançou o programa Alvorada em 2001 e 2002. Foi um pouco tardio.” Ele explica que a idéia era iniciar o Bolsa-Família em abril e só foi possível fazê-lo em outubro. “Mas foi melhor fazer com mais calma. É injusto criticar o governo neste ponto.”

ECIFE – Nadjaíra Claudino da Silva, 43 anos, três filhos, morou durante 13 anos em uma palafita no bairro de Brasília Teimosa, na Praia do Pina, no Recife. O medo a acompanhou durante todo esse período, e sua moradia de madeira cedeu três vezes à ressaca do mar. Ela também teve televisão, bujão, rádio e objetos pessoais roubados por causa da vulnerabilidade do barraco suspenso. Convivia com ninhos de ratos, baratas e escorpiões, não tinha água encanada e a área era usada como abrigo de vendedores de maconha e marginais. “Eu já nem sabia mais o que era dormir direito”, afirmou ela, contente por ter, há três meses, deixado essa realidade para trás, com outras 560 famílias que viviam nas palafitas, ocupando 1.300 metros de praia. As habitações foram destruídas. A maior parte dos seus moradores, como Nadjaíra, ainda está vivendo em Brasília Teimosa, em vãos alugados com o auxílio-moradia de R$151 mensais patrocinados Já Sônia acha que não é o momento de estender benefícios a famílias sem crianças. Na gestão FHC, os principais programas eram ligados à matrícula de filhos na escola ou à freqüência aos postos de saúde. O Bolsa-Família prevê R$ 50 por família. Para cada filho são acrescidos R$ 15, no limite de R$ 45.

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pela prefeitura. Daqui a um ano, todos irão para suas casas de alvenaria, com dois quartos, sala e cozinha, que serão construídas no Cordeiro, na zona oeste da cidade. A mudança é resultado do compromisso assumido pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que visitou o local no dia 10 de janeiro, acompanhado de todo o seu ministério para que os auxiliares diretos conhecessem a miséria e a tivessem como referência para o seu trabalho. Lula encampou o projeto “Recife sem Palafitas”, do prefeito João Paulo (PT), comprometendo-se a financiar a construção das novas moradias. A prefeitura é responsável pela reurbanização da orla. O projeto inclui recuperação de muro de contenção do mar, engorda da praia, avenida beira-mar com ciclovia, pista de skate, playground, equipamentos para a prática de ginástica e banheiros públicos. A intervenção pública vai impedir que as palafitas voltem a se instalar no local, para alívio dos 36 mil habitantes do bairro que já atestam a redução da insegurança e da marginalidade na área. “Tinha tiroteio e boca de fumo, por conta da gente de fora que se abrigava debaixo das palafitas”, afirmou a líder comunitária Tânia Cristina Ribeiro, contando que esta foi a quarta vez que a orla foi invadi“O ideal seria continuar com as famílias com crianças até que todas estivessem atendidas”, afirma Sônia. “Ter a escola como ancoragem, com os professores como facilitadores, fazendo o cadastro, é importante, o acompanhamento é mais fácil.” Pesquisa feita por ela estima em 54,4 milhões os pobres,

da pelas construções. “Das outras vezes nada era feito na área, que voltava a ser invadida pelas palafitas.”

lidando-se como área de resistência popular. José Francisco Figueiredo de Fontes, de 41 anos, solteiro, destacou que em Brasília Longe do ideal – Mesmo li- Teimosa tem amigos que o vres dos problemas enfrentados ajudam nas necessidades e o nas palafitas e com a perspecti- mar: “Quando a coisa aperta, va da casa própria, muitos de- a gente pesca um peixe, um monstram insatisfação. Uns re- marisco, dá para ir levando.” clamam que R$ 151 é pouco pa- Ele ainda reclama do valor do ra pagar um aluguel. Muitos es- auxílio-moradia. Alugou uma tão frustrados moradia de porque irão modois vãos por rar longe de BraR$ 150, mas UXÍLIO DE sília Teimosa, onpassou a pagar de construíram água e luz, o R$ 151 É suas vidas. Roque não acontesângela da Silva cia na palafita. POUCO, Leite, de 20 anos, “Lá a gente punão sabe como sexava uma gamRECLAMAM rá quando se mubiarra de um dar com o mariposte.” MUITAS DAS do André, que é Com as nopescador. “Ele vas despesas, o 560 FAMÍLIAS vai perder dinheipouco dinheiro ro com transporconseguido BENEFICIADAS te e tempo para com um biscate vir para cá.” tornou-se ainMarise de Olida mais insufiveira Santana, 31 anos, cinco fi- ciente. Ele admite, porém, lhos, marido desempregado, que está mais tranqüilo. “Não alugou um vão por R$ 100 para corro mais o risco de acordar que sobrasse um pouco de di- com o barraco arriando e aqui nheiro para o sustento. Acostu- não vou ser roubado como na mada ao desconforto, não se palafita.” queixa. Ela não esconde, po“Mesmo ruim, é bom”, resurém, o temor de se mudar para me Nadjaíra, definindo a mulonge. Ela nasceu em Brasília dança. “Ter a casa própria vai Teimosa, comunidade que sur- valer a pena os sacrifícios que giu em 1957 e resistiu a inúme- a gente vai ter pela frente”, ras tentativas de despejo, conso- completa Marise.

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Fotos: Alexandre Belem/AE

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nuou praticamente igual. “O efeito da transferência de renda sobre a família é aumento do bem-estar, pois há mais recursos, mas não muda estruturalmente logo. O que muda mesmo, no futuro, é a criança se educar melhor”, diz Sônia, que se confessa cética em relação ao futuro. “Sou pessimista porque o crescimento espontâneo da economia também é concentrador de renda. Gera empregos, mas muito qualificados.” Para ela, o problema dos programas sociais não é a falta de recursos, mas como fazê-los chegar aos mais pobres. O cadastramento, por exemplo, “é uma complicação”, mas não há outra forma de focalizar o atendimento aos pobres. “A concepção geral é simples, mas o fim da linha é complicado. O governo chega e diz que descobriu a pólvora sem fumaça, mas vê que os problemas são os mesmos”, diz. O ministro José Graziano (Segurança Alimentar) concorda que a questão do cadastramento é complicada. Ele estima que metade das famílias miseráveis do País não está no cadastro do governo e, portanto, não é beneficiária de programas de transferência de renda. Ele faz um “balanço extremamente favorável” da área social neste primeiro ano, mesmo apontando como ponto fraco as dificuldades de registro dos pobres, “uma herança” de governos anteriores. “Tem muita gente extremamente pobre fora do cadastro, especialmente nas grandes cidades. Herdamos isso. Nossa prioridade não foi fazer recadastramento ou ampliação de cadastro, mas unificar os vários cadastros que já havia”, afirmou o ministro. “Estamos terminando o ano com uma grande conquista, que é a unificação dos programas de transferência de renda. Vai dar ao governo um controle e uma amplitude jamais vistos e, frente à dispersão dos programas que nós tínhamos, é uma grande vitória.”

ou 35% da população, e indica que a faixa etária mais atingida é a de zero a 4 anos: 54% do total de crianças nessa faixa de idade são pobres. Dos 5 aos 9 anos, são 50%. De 10 a 14, 45%.

Desigualdade – Uma constatação comum aos pesquisadores da pobreza é que a transfe-

rência de renda é crucial para resolver a emergência, mas tem pouco efeito sobre um dos maiores males do País: a desigualdade, com extrema concentração de renda. Estudo de Sônia sobre efeitos do Plano Real mostra que houve redução nos pobres, de 44% para 35% da população, mas a desigualdade conti-

Ações – Em 2004, ele terá R$ 400 milhões para o Fome Zero. “No total, temos um leque de 50 ações dispersas por 15 ministérios. Nosso papel sempre foi de articular, coordenar e depois devolver a ação para seu lugar devido”, diz Graziano, negando que sua pasta tenha sido esvaziada pelo Bolsa-Família. “Havia uma grande expectativa com o Fome Zero, as pessoas queriam participar e esse desejo de participação não era bem cobrança. Mas foi lida por setores da imprensa e da oposição como uma cobrança.” Com 2 mil comitês funcionando em todo o País, Graziano espera que em 2004 o poder público seja capaz de enfrentar a burocracia e tornar as iniciativas sociais mais ágeis. Em 2003, o Bolsa-Família chegou a 3,6 milhões de famílias. Até o fim do governo Lula, pretende alcançar 11 milhões. “Um primeiro ano é mais difícil pela falta de infra-estrutura, gente capacitada, treinada. Depois de um ano em contato com a máquina, aprendemos muito”, diz Graziano. “Vamos encontrar caminhos para fazer que as ações andem mais depressa.”

AVALIAÇÃO DO GOVERNO LULA

O primeiro ano do governo foi mil vezes melhor do que eu esperava. Ele é um homem verdadeiro, passa confiança. Só espero NOTA que consiga implementar o Fome Zero com força total

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O governo Lula tem feito esforço para preparar o futuro. Mas a Segurança ficou de fora. Desestabilizou a Secretaria Nacional de NOTA Segurança ao demitir Luiz Eduardo Soares

Carmen Mayrink Veiga, socialite

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Não gostei do aperto da classe média. Com os impostos que tivemos que pagar, ninguém teve dinheiro para NOTA investir e o trabalho ficou escasso

Carlos Santiago, pai de Gabriela Maia, morta aos 14 anos num assalto ao metrô

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Nana Caymmi, cantora

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QUARTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2003

O GOVERNO APRENDIZ

BISPOS ELOGIAM, MAS COBRAM
Igreja espera que, em 2004, governo saia do discurso para a prática
JOSÉ MARIA MAYRINK

‘NADA MUDOU ATÉ AGORA’, DIZ DOM IRINEU
Há quatro anos as torneiras estão secas na pequena Caetés, onde Lula nasceu, quando a cidade pertencia ao município de Garanhuns, no sertão pernambucano. Como faz tempo que não chove forte e o reservatório secou, o abastecimento depende de caminhões-pipa. “O povo achou que, apesar da seca, ia ter água com a eleição de um conterrâneo para presidente, mas nada mudou até agora”, disse o bispo de Garanhuns, dom Irineu Roque Scherer, apreensivo com as conseqüências da seca na região. Nas visitas pastorais a Caetés, uma das 25 paróquias da diocese, dom Irineu fica admirado com a fé e a esperança do povo – 5.508 habitantes na área urbana e 18.629 no campo, segundo o censo de 2000. “Apesar de todo o sofrimento da seca, as pessoas ainda confiam em Lula e o PT continua em alta”, afirma o bispo. Gaúcho de Cerro Largo, com passagem pelo Paraná, ele chegou ao Nordeste em 1998. “A situação está muito grave, porque a água acabou de vez, após 4 anos de racionamento”, informa o secretário municipal de Agricultura, Luciválter Santana Bernardo, confirmando a situação de calamidade de Caetés, que é administrada pelo PT. Com a seca prolongada, os agricultores perderam 90% da produção de milho, feijão e mandioca, calcula o secretário.

inda impressionados com a boa performance do presidente em Itaici, onde falou sobre seu programa na assembléia geral do episcopado, na noite de 1.º de maio, os bispos são unânimes em elogiar a conduta e as boas intenções de Luiz Inácio Lula da Silva. Mas, feita essa ressalva, todos cobram medidas mais concretas do governo, pois acham que está na hora de ele cumprir as promessas de campanha. A cobrança começa por dom Geraldo Majella Agnelo, presidente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) (leia entrevista ao lado), que exige pressa nas reformas, com ênfase para a agrária. A questão da terra, a fome, o desemprego e a violência são os principais problemas que, na opinião dos bispos, independentemente de tendência ideológica, vão desafiar o governo em 2004. “Lula perderá credibilidade, se não retomar o crescimento econômico, que foi inexpressivo em 2003”, adverte dom Demétrio Valentini, bispo de Jales (SP) e membro da Comissão Episcopal de Pastoral para o Serviço da Caridade, da Justiça e da Paz, da CNBB. Dom Demétrio ressalta a seriedade e a transparência como qualidades “inegáveis” do governo, elogia a política externa e diz compreender que Lula tenha optado inicialmente pelo choque de credibilidade, para recuperar o controle monetário e de despesas. Mas lamenta que a contenção tenha sido feita com prejuízo de programas sociais. É essa também a opinião do bispo de São Félix (MT), dom Pedro Casaldáliga, um representante da esquerda no episcopado. “Entende-se que houvesse necessidade de Lula se voltar para o exterior, pela preocupação de salvar a situação econômica do País, mas no segundo ano é preciso olhar para dentro e enfrentar questões como a reforma agrária, o desemprego e a renda interna”, diz. Para ele, a violência no campo é fruto de problemas não resolvidos. “A reforma agrária é uma dívida de cinco séculos”, adverte. Para o bispo de Jundiaí (SP), dom Amaury Castanho, os resultados do primeiro ano de governo não correspondem às expectativas criadas por projetos que, em sua opinião, coincidem com as propostas da CNBB. “O crescimento quase zero do Produto Interno Bruto (PIB) e o desemprego são problemas sérios que Lula enfrenta no plano doméstico”, observa dom Amaury, um representante da linha mais moderada do episcopado que não esconde o entusiasmo provocado pela visita do presidente a Itaici.

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Lula, na assembléia geral do episcopado, em maio: para a CNBB, está na hora de o presidente cumprir as promessas de campanha

CNBB PEDE PRESSA NA REFORMA
O presidente da CNBB, cardeal Geraldo Majella Agnelo, cobra pressa de Lula na condução das reformas, especialmente a agrária. “É a mais importante reforma que o governo pode fazer, porque atinge as raízes da injustiça social.” Arcebispo de Salvador e primaz do Brasil, ele elogia nesta entrevista ao Estado o empenho do governo em combater a corrupção e manifesta a esperança de que em 2004 Lula leve adiante suas reformas. Estado – Como o sr. avalia o desempenho de Lula? Geraldo Majella Agnelo – Lula continua gozando de enorme prestígio popular. Isso significa que está correspondendo à expectativa do eleitorado. É preciso considerar que sua biografia é emblemática e a novidade de um operário no Planalto está carregada de grande poder simbólico. Mesmo que muita gente não entenda as decisões do governo, confia em Lula por causa de seu passado. Por isso, espera que mude os rumos políticos do Brasil assim que as condições econômicas forem favoráveis. Estado – As ações do governo para enfrentar problemas sociais são suficientes? Agnelo – Não há dúvida de que Lula enfatiza, em seu programa de governo e nos discursos, a prioridade à solução dos problemas sociais. Penso, contudo, que suas ações ainda não têm sido tão fortes quanto seus propósitos. Já poderia ter realizado bem mais no campo das políticas sociais, se tivesse contido com mais rigor a voracidade dos credores e renegociado as condições de pagamento dos juros da dívida. A “dívida social” tem prioridade sobre qualquer dívida financeira. Estado – Como analisa o desempenho do governo em relação à reforma agrária? Agnelo – A reforma agrária é, a meu ver, a mais importante que este governo pode fazer, porque é a que mais fundo atinge as raízes da injustiça social em nosso país. Ela precisa ser ampla e capaz de quebrar a espinha dorsal dessa estrutura injusta, que é a concentração da propriedade fundiária. Não se trata de intensificar a política de assentamentos, mas de mudar prioridades: o agronegócio para exportação deve ser o complemento natural da agricultura familiar, e não o carro-chefe da política agrícola. O MST tem posição firme em defesa do Programa Nacional de Reforma Agrária, e merece respeito. Estado – O governo faz o bastante contra a corrupção? Agnelo – É um dos pontos mais positivos do governo Lula. A atuação do Ministério da Justiça, a nomeação do novo procurador-geral da República e a firmeza do Ministério Público na dom José Carlos de Lima Vaz, a Igreja deve reconhecer o esforço do governo em combater a corrupção e o empenho de Lula em enfrentar o problema da fome. Mas adverte que a solução definitiva é o emprego. “O programa Fome Zero é pontual, não é mudança de estrutura.” “O povo continua a ter esperança no presidente, um homem digno, correto e idealista, mas, por enquanto, temos visto muito pouco na Amazônia”, diz o arcebispo de Belém (PA), dom Vicente Zico. Sem responsabilizar diretamente Lula, pois acha que o problema é também estadual e municipal, ele adverte para o agravamento da violência nas cidades e no campo. “Fome Zero? Se está funcionando em outras regiões, aqui ainda estamos esperando pelo programa”, queixa-se dom Viinvestigação de qualquer suspeita de ações danosas ao bem público estão trazendo maior densidade ética para a sociedade. simplifica os diagnósticos e só mostra a solução que propõe. Estado – O governo omitiu-se em alguma área que exige urgência ou demora a atacar algum problema? Agnelo – Sim, em duas áreas muito sensíveis. A reforma agrária, que a meu ver tem prioridade maior do que as da Previdência e tributária, e a promoção de um debate nacional sobre como encaminhar uma negociação soberana da dívida pública, que precisará ser feita. Estado – Qual é a avaliação da Igreja sobre o Fome Zero? Agnelo – À Igreja cabe a mobilização das pessoas e grupos, sensibilizando a sociedade para o problema e debatendo os melhores caminhos para sua solução. Ao Estado cabem a formulação e a execução de políticas públicas que assegurem a todo cidadão e cidadã a segurança alimentar e nutricional. Nem um nem outro pode se Estado – contentar O que o sr. com distribuiespera do ção de alimengoverno? tos. O goverAgnelo – no deve ultraNossa expecpassar logo a tativa é que fase das ações Lula, fiel à emergenciais sua origem D. Geraldo Majella Agnelo e implemenpobre e à biotar os progragrafia marmas previstos no Fome Zero. cada pela “nobre luta pela justiça social”, assuma corajosaEstado – O governo cami- mente o programa de refornhou bem nas reformas? mas que tire o Brasil de sua poAgnelo – Não. Sem entrar no sição subalterna diante do camérito das reformas, critico seu pital financeiro, e realize o deritmo de urgência. A sociedade sejo popular que o conduziu à deveria ter tido mais condições Presidência: um governo de de debater as questões, a partir transição para outro modelo de um leque de informações se- socioeconômico, com base no guras, de modo a formar uma desenvolvimento sustentável, verdadeira opinião pública. O na democracia e na redistrigoverno usou o marketing que buição da riqueza. (J.M.M.)

Ana Nascimento/ABR

A reforma agrária é a mais importante, porque é a que mais fundo atinge as raízes da injustiça social

Confiança – Apesar de tudo, diz dom Irineu, Lula inspira confiança, porque “sabe descomplicar a linguagem e falar de uma maneira que o povo entende”. O problema, é que ele “tem um discurso bonito, que encanta e convence, mas o PT não engrena”. Conseqüência: o governo promete, mas as coisas não acontecem. “O programa Fome Zero, por exemplo, deveria ser mais arrojado”, diz o bispo, após criticar a distribuição de bolsas-alimentação de R$ 50. Caetés, onde a renda familiar per capita é de R$ 55,8, distribui 337 bolsas. “A Igreja tem colaborado em nível nacional, mas acho que não é essa a solução definitiva, pois quem recebe o dinheiro na mão perde o gosto de plantar e colher.” Para mostrar que essa ajuda pode aquecer a economia local, mas é pouca diante da penúria geral, ele falou de Itaíba, também em sua diocese, onde 2 mil famílias se cadastraram e só 444 recebem bolsa. “O povo passa fome, mas fica feliz quando vem o caminhão-pipa”, disse. Violência – Garanhuns e Caruaru, as cidades maiores da região, têm problemas de violência, com homicídios e tráfico de drogas. “São conseqüência de uma situação de pobreza que deve ser enfrentada, mesmo sabendo que a seca não acaba.” Dom Irineu atribui à “indústria da seca, que explora os pobres”, o sofrimento do Nordeste. “Garanhuns tem 40 poços abertos com dinheiro do governo que estão desativados, e a água continua sendo distribuída em caminhões-pipa.” Por que não abrir mais poços artesianos, se a terra só precisa de irrigação para produzir? O bispo lembra a colaboração da Igreja, por meio da Caritas, entidade internacional de solidariedade, que financia a instalação de 1 milhão de cisternas no sertão. (J.M.M.)

messas feitas no dia da posse”, observa. “Espero Guinada – que haja uma Amigo de Luguinada em la, que consi2004, pois o dera sincero e povo não pocapaz, dom de mais espePaulo Evarisrar”, reforça o to Arns, arcebispo de Blubispo emérito menau (SC), (aposentado) dom Angélico D. Paulo Evaristo Arns de São Paulo, Sândalo Beré duro na avanardino, baliação do governo. “Foi um ano tendo nas mesmas teclas – reforindiferente, pois o governo não ma agrária, emprego e poder progrediu nem regrediu em na- aquisitivo. “Não estou proponda”, avalia o cardeal, acrescen- do radicalismo, mas alertando tando que, como confia em Lu- para o contraste entre opulênla, espera que em 2004 ele seja cia e miséria”, diz. Ele aplaude mais realista e não apenas um a política externa, mas critica a homem de discurso. “Talvez a “subserviência” do País aos situação tenha piorado para banqueiros internacionais. muita gente, em relação às proPara o bispo de Petrópolis,

Talvez a situação tenha piorado para muita gente, em relação às promessas feitas no dia da posse

cente. Outro problema no Pará é a precariedade das rodovias federais. “Estão uma vergonha, mas ninguém parece se preocupar com as estradas.”

Positivo – Outro arcebispo da Amazônia, dom Moacyr Grechi, de Porto Velho (RO), faz um balanço positivo. “Lula me surpreendeu pela capacidade de ser presidente e, no contato com países e organismos internacionais, sabe por onde caminhar.” Ele não espera demais do governo, mas aposta em alguns pontos. A começar pela reforma agrária, que “deveria ser acelerada”. Também aponta o desemprego e as reformas políticas como principais desafios. O arcebispo da Paraíba, dom Marcelo Pinto Carvalheira, que trabalha há mais de 30 anos na região, prefere não falar sobre a

política para o Nordeste. “Não quero atrapalhar a caminhada de ninguém”, diz, alegando que precisa ter conhecimento mais profundo da situação para opinar. “Sou muito ligado ao Lula e me encontro com ele de vez em quando, mas não é em tudo que a gente concorda.” Dom Marcelo tem divergências sobre os rumos da Superintendência para o Desenvolvimento do Nordeste, a extinta Sudene que o governo promete reativar. No campo moral, a Igreja discorda da política de combate à aids. “A questão em torno da propaganda de preservativos se originou num setor do Ministério da Saúde, sem envolver o governo enquanto tal”, ressalva dom Agnelo. A CNBB protestou em dezembro contra a divulgação de um vídeo sobre o uso da camisinha.

CENAS DO GOVERNO LULA

Roberto Castro/AE

Joédson Alves/AE

Evelson de Freitas/AE

O presidente Lula, em momentos de informalidade: de astro de rock a skatista

Joédson Alves/AE

Dida Sampaio/AE

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O ESTADO DE S.PAULO - X9

O GOVERNO APRENDIZ

Rafael Neddermeyer/AE

Integrantes do MST, na chegada a Brasília, após marcha em novembro: de acordo com levantamento da Comissão Pastoral da Terra, há tempos não se via tantos conflitos no campo como em 2003

ENTRE O PRAGMATISMO E O SONHO
Agronegócio, alvo de críticas do PT e do MST, vira peça fundamental para política econômica de Lula
ROLDÃO ARRUDA

questão da reforma agrária voltou à cena política com mais força em 2003. E não podia ser diferente. Luiz Inácio Lula da Silva sempre foi entusiasta da redistribuição de terras e sua ascensão ao cargo de presidente da República reacendeu tanto as esperanças do Movimento dos SemTerra (MST) quanto os temores de quem discorda dos métodos dessa organização. De acordo com o principal pensador e estrategista do MST, João Pedro Stédile, a vitória de Lula abriu uma oportunidade histórica de redemocratização da terra. Ele repetiu durante o ano todo que a sociedade brasileira não pode virar as costas para essa janela no tempo, como já teria feito em outras três ocasiões – no fim do período escravocrata, no início da industrialização nos anos 30 e na crise política que resultou no golpe militar de 1964. Animados por essa crença, o MST e outras organizações sociais intensificaram suas ações e elevaram o tom da reivindicação desde o dia da posse de Lula. Há tempos não se via tantos conflitos no campo como em 2003, de acordo com levantamentos da Comissão Pastoral da Terra (CPT), que desde 1985 coleta números sobre assassinatos, invasões, despejos, acampamentos, confrontos. Em São Paulo, o número de acampados saltou de 4 mil no fim de 2002 para 13 mil em novembro deste ano, conforme o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra). No País todo seriam 219 mil.

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De tudo que se exportou nes- milhões de toneladas – o que rete ano, 42% saiu do agronegó- presenta um salto de 120,9% cio, num total de quase US$ 30 em relação ao que se produzia bilhões, de acordo com o Institu- no início da década passada. to de Pesquisas Econômicas No meio dessas estatísticas, Aplicadas (Ipea). Do total de há dois pontos que chamam a brasileiros ematenção. A pripregados, meira é que o 37% estão ligasalto na prodos ao agronedução de gócio. grãos se deve Para onde sobretudo à quer que se melhoria da apontem os inprodutividadicadores, os de. Ainda de números suracordo com preendem. números citaNo dia 10, ao dos por Rodrifalar sobre o gues, enquanRicardo Abromavay, agronegócio to a área planprofessor da FEA-USP na Comissão tada com de Política Rugrãos passou ral da Câmara dos Deputados, de 37,8 milhões de hectares em o ministro Roberto Rodrigues, 1990-1991 para 45,2 milhões da Agricultura, disse que a pro- em 2003-2004, numa variação dução de grãos na safra de 19,6%, a produtividade no 2003-2004 deve chegar a 127,7 mesmo período passou de 1,5

tonelada por hectare para 2,83 t/ha, numa variação de 88,3%.

No Brasil não há oposição entre agricultura familiar e agronegócio

Frangos – O outro ponto a destacar é que o agronegócio no Brasil não é só uma atividade de grandes produtores. Em recente entrevista ao Estado, o pesquisador Ricardo Abramovay, professor titular da Faculdade de Economia e Administração da USP (FEA-USP), estudioso da agricultura familiar, lembrou que as exportações de frango, um dos ramos mais

bem-sucedidos do agronegócio, são sustentados pela agricultura familiar. “No Brasil não há oposição entre agricultura familiar e agronegócio”, disse ele. Essas informações batem de frente com a idéia bem assentada entre os defensores da reforma de que o modelo agrícola brasileiro é caracterizado pelo atraso. Hoje, além de empurrar negócios no exterior, o campo tem condições de abastecer de alimentos a mesa de todos os brasileiros. Mesmo se houver

aumento da demanda, ele poderá dar conta do recado, segundo Rodrigues. Todas essas informações foram alardeadas durante o ano e esquentaram o debate com a seguinte questão: por que investir na reforma, como querem os sem-terra, quando o atual modelo está dando certo?

SOB O BONÉ, AMBIGÜIDADES
O comportamento do presi- várias vezes pelo PT de derrudente Luiz Inácio Lula da Sil- bar a medida provisória que coíva diante do debate da refor- be as invasões de terras no País. ma foi ambíguo. Em discur- Em segundo, fez tão poucos assos, ele reafirmou sempre o sentamentos que o programa propósito de uma reforma am- de campanha, que prometia pla e ao mesmo tempo de qua- “medidas de alcance profunlidade – numa constante críti- do” diante da existência de “4 ca ao seu antecessor, que teria milhões de famílias de trabalhase preocupado apenas em dis- dores rurais sem-terra”, ficou tribuir lotes. parecendo peça de retórica. No início de julho, ao receNo primeiro semestre o gober no Planalto os 27 coorde- verno prometeu que seriam asnadores nacionais do MST, sentadas 60 mil famílias em mostrou-se muito à vontade, 2003 – um número muito baicomo se estivesse entre velhos xo, segundo o MST, que desejaamigos. Foi quando pôs na ca- va uma solução imediata para beça por alguns instantes o bo- as 180 mil famílias que estané vermelho do riam acampadas movimento – fano País. No seto que empolgundo semestre ÚMEROS gou os sem-tera meta baixou para e provocou ra 30 mil e em noMOSTRAM protestos dos vembro o Incra ruralistas, temepatinava para BAIXO rosos de que o atingir a marca gesto servisse de 25 mil. DESEMPENHO de estímulo paO descompasra atos ilegais so entre intenção como a invasão e gesto também de propriedades. apareceu na análise dos gastos. Para além do discurso e dos Do total disposto no Orçamenatos simbólicos, porém, a prá- to de 2003 para a reforma, o gotica do governo, não foi entu- verno só usou 25% até a primeisiasmante para os sem-terra. ra quinzena de dezembro. Em primeiro lugar, Lula reOutro sinal de que o governo cuou do propósito reafirmado não andaria rápido foi a demisDida Sampaio/AE

Lula põe na cabeça 2 bonés de movimentos de sem-terra: polêmica são do presidente do Incra, Marcelo Rezende. Originário dos quadros da CPT e simpático ao MST, de onde tirou nomes para dirigir superintendências regionais do Incra, ele chegou ao poder com um discurso de tom mais radical que o desejado. E caiu. entidades do aparato legal do MST – que não existe oficialmente. Também melhorou o fornecimento de cestas básicas para os acampados – o que favorece o recrutamento de novas pessoas. Enfim, Lula ainda não deixou claro até onde irá. Ao mesmo tempo em que reafirma os laços com o MST, mostra entusiasmo com o agronegócio. Dias atrás, ao fazer o balanço do primeiro ano de governo, elogiou o ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, chamando-o de de “mascate agrícola”, numa referência a seus esforços para ampliar a pauta de exportações. Miguel Rossetto, do Desenvolvimento Agrário, responsável pela reforma, foi esquecido. (R.A.)

Ironia – Mas a animação do MST esbarrou numa espécie de ironia histórica. A tão esperada vitória do presidente favorável à reforma agrária coincidiu com um momento de ouro do modelo agrícola que os sem-terra criticam. O chamado agronegócio, a face mais visível desse modelo, é uma peça fundamental na política econômica do governo Lula – assim como foi no governo anterior. É um dos principais responsáveis pelo sucesso da balança comercial do País, o que significa mais divisas, mais dólares em caixa, mais confiança no exterior.

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Recursos – O MST, porém, não ficou totalmente na berlinda. Ao mesmo tempo em que manteve a MP contra invasões, o governo pôs abaixo as restrições impostas por Fernando Henrique Cardoso para o repasse de recursos públicos para a Associação Nacional de Cooperação Agrícola (Anca) e a Confederação das Cooperativas de Reforma Agrária do Brasil (Concrab), as duas principais

Instável – O MST tem uma resposta pronta para rebater cada argumento a favor do agronegócio. Fala-se que os bons números devem ser creditados mais aos investimentos públicos, generosamente despejados nas mãos de grandes produtores desde os anos 70, do que às iniciativas dos empresários agrícolas; que no País ainda convivem lado a lado propriedades modernas e latifúndios atrasados e improdutivos; que o modelo baseado na exportação de grãos é frágil, porque depende de cotações instáveis no mercado internacional; e que a produção de alimentos consumidos no mercado interno, como o feijão, avança num ritmo lento e inferior ao do crescimento da população. De maneira geral o MST não se deteve tanto na crítica direta ao agronegócio e ao atraso no campo. Seus líderes e outros defensores da mudança do modelo, como o ex-deputado federal Plínio de Arruda Sampaio, convidado por Lula para elaborar o Plano Nacional de Reforma Agrária, preferiram empurrar a discussão para outro eixo, insistindo na tese de que a reforma é a solução mais barata, rápida e eficiente para um problema que vai além do campo – o da grande massa de desempregados urbanos. Essas idéias provocam arrepios do outro lado. Na opinião de Xico Graziano, estudioso da questão agrária, ex-presidente do Incra e destacado porta-voz do ponto de vista dos ruralistas, fazer reforma com desempregados que não conhecem os ofícios da vida no campo é a mesma coisa que jogar fora dinheiro público. O debate deve adentrar 2004 com a temperatura ainda mais alta, uma vez que o governo pretende pôr em execução o Plano Nacional de Reforma. Embora já tenha sido desbastado (a proposta original de Sampaio previa o assentamento de 1 milhão de famílias e o governo baixou para 400 mil) o texto do documento não pára de provocar polêmicas desde que veio a público, em novembro.

AVALIAÇÃO DO GOVERNO LULA

Dou 7, mais pelo esforço do Lula do que pelo governo. O projeto, as idéias e a vontade do Lula são grandes demais, mas alguns NOTA auxiliares não executam, empurram com a barriga

7

Entendo pouco de política, mas creio que a situação está melhorando. O povo tem muitas necessidades e estou certo de que o governo vai NOTA fazer de tudo para ajudar a resolver os problemas

Frei Chico, irmão

7

Ele (Lula) só fez arar a terra. Dou nota 6. Em 2003 vivemos muitas frustrações. Acredito que, em 2004, Lula vai fazer o plantio NOTA para começar a colher

Ronaldo, jogador da seleção brasileira

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Francisco Fausto, presidente do TST

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QUARTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2003

O GOVERNO APRENDIZ

‘O QUE ESTÁ HAVENDO DE NOVO É ANTIGO’
FHC critica volta do modelo Geisel, que enfatiza mais o Estado que a sociedade
PAULO SOTERO
Correspondente

ASHINGTON – Um ano depois de deixar o poder, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso se dispôs a fazer sua primeira análise detalhada do governo do sucessor. Em entrevista ao Estado, na véspera de embarcar com Ruth para São Paulo, para os feriados de fim de ano, ele avaliou vários aspectos do governo petista e deixou implícita uma crítica que provavelmente surpreenderá muitos dos que celebraram a ascensão de Luiz Inácio Lula da Silva como um triunfo da esquerda. Para FHC, a marca do novo governo tem sido a da continuidade. Mas, nas áreas em que tem tentado mudar, as políticas propostas não representam um avanço, mas uma volta ao passado do “desenvolvimentismo estatal” que o regime direitista dos militares aplicou, com os resultados conhecidos. “Há a volta de um sentimento parecido com o tipo de política que foi proposta na época do general Geisel, a valorização de um modelo que põe mais ênfase no Estado do que na sociedade.” Ruth e Fernando Henrique alugam desde outubro um apartamento em Washington, de onde vão com freqüência ao John W. Hughes Center, na Biblioteca do Congresso. Ele trabalha num livro sobre seu governo. Em fevereiro, pretende voltar para São Paulo, para cuidar do Instituto Fernando Henrique Cardoso. “Acho que um ex-presidente com a minha experiência pode ter uma vida ativa de intelectual e de cidadão”, explicou. Os principais trechos da entrevista:

W

mas de impacto. É coisa de regime militar. Tenho medo de que o Fome Zero seja mais impacto do que realidade. Acho que houve certa descontinuidade, por causa da imensa quantidade de novos programas anunciados. Mas ainda é cedo para julgar. Acho correto terem feito o cadastro único. Já tínhamos começado, com o cartão magnético. É bom que haja um controle unificado. Mas acho que o Brasil não tem alternativa a não ser fortalecer as instituições locais. Estado – Qual é o efeito da descontinuidade na execução de programas sociais? FHC – É a perda de velocidade. Demora para ganhar o impulso necessário para esses programas mostrarem efeito. Por exemplo, está aparecendo agora, com mais clareza, o que fizemos em educação. Acusavam meu governo de não fazer nada e só olhar para o mercado. Outro dia vi o ministro Palocci dizer que a diferença do atual governo em relação ao meu é que, agora, estão cortando despesas para valer. Ele disse isso com alegria. Eu diria com tristeza. Estado – Na educação, o governo quer esvaziar o provão. FHC – Sou contra. O provão foi uma luta importante, que a sociedade comprou. Estado – Há diferenças entre a sua política de reforma agrária e a de Lula? FHC – O problema agrário no Brasil foi muito politizado. O MST e o PT convenceram a sociedade de que o Brasil dependia da reforma agrária, isso no momento em que estava havendo uma revolução agrícola, em que o agronegócio estava se expandindo. O futuro do Brasil não dependia da reforma agrária, mas o futuro de muita gente dependia de ter terra. É uma questão social importante. Não havia e nós criamos um programa para financiar a pequena agricultura. Tenho a sensação de que o contingente de pessoas que precisa de terra e sabe trabalhar na terra está esgotado. Começa a haver outro problema: é gente pobre em busca da terra como um bem, uma propriedade, um valor. Estado – O novo governo pode inovar nessa área? FHC – O que há a fazer é consolidar o que existe. Fui forçado, pelo momento político, pela pressão, a assentar muito depressa, para evitar o aumento das invasões e o caos no campo. Imagino que as invasões, agora, tenham diminuído. Estado – O senhor tem mantido contato com Lula? FHC – Estivemos juntos algumas vezes. Tenho uma relação sincera de amizade, admiração pelo Lula. Torço por ele. Acho que Lula tem feito das tripas coração nas circunstâncias, para fazer frente às promessas e expectativas que ele e seu partido criaram. Acho que tem agido com responsabilidade nas questões nacionais. Querem me jogar contra o Lula. Não quero, mas não vou deixar de me pronunciar e dizer o que, como pessoa, cidadão, como homem do PSDB, tenho o direito e até o dever de dizer. Acho que chegou a época de maturidade. Não precisam mais ficar nervosos quando digo que não houve ruptura. Nem devem querer que a gente cale a boca. Maturidade implica respeitar a opinião do outro.

FHC: “Eu tive mais dificuldades com o FMI, no começo, do que Lula. Não por causa do Lula ou de mim, mas por causa da situação” za o que penso. O que está havendo de novo é antigo. Há a volta de um sentimento parecido com o tipo de política que foi proposta na época do general Geisel, a valorização de um modelo que põe mais ênfase no Estado do que na sociedade. Diferente da tendência anterior do PT, que tinha visão mais internacionalista e de esquerda. O que vemos é uma tendência de volta ao passado, a um desenvolvimentismo estatal. Isso é diferente do que eu estava fazendo. Estado – O sr. acha que o governo está empenhado na volta à política de Estado forte? FHC – Não, até porque não conseguiria. Essas idéias de Estado forte não são mais plenamente realizáveis, porque o contexto não permite. Agora, a tentativa de ir por esse caminho é diferente do que eu estava fazendo. Não estou dizendo se é melhor ou pior. Isso, a história dirá. Mas digo que existe no governo uma visão do que foi, no Brasil, uma prática nacional estatista, muito mais do que uma visão do sonho socialista que inspirou o PT. As questões chamadas de esquerda não estão colocadas. As que estão postas giram no eixo do nacional-estatismo, inclusive algumas que lembram o Brasil Grande, que vem dos regimes militares. Estado – Para fazer o contraste com seu governo, usase o argumento de que o de Lula quer o desenvolvimento. FHC – Mas qual é o governo que não quer o desenvolvimento? O problema não é de querer, é de como fazer. Isso não depende apenas da vontade do governo, mas de circunstâncias. O governo Lula pegou um quadro internacional mais favorável do que o do meu período. As crises financeiras diminuíram. O Brasil vive um boom exportador, que é o resultado da mudança cambial. A reversão das contas externas aconteceu há dois anos. A expansão da agricultura também foi montada há algum tempo. O que estamos vendo são os resultados. Aí também não vejo ruptura. Estado – Parece haver continuidade também na relação com os EUA, no qual o sr. investiu bastante. Para surpresa de muitos, George Bush, que é talvez o presidente mais direitista que os EUA já teve, e Lula, que é o mais esquerdista da história do Brasil, estabeleceram diálogo cordial. FHC – Uma coisa são as relações pessoais, podem ser melhores ou piores. Aparentemente, há uma química boa entre Lula e Bush, como havia entre mim e Clinton. Não sei qual é o grau efetivo dessa química. Isso só Lula e Bush podem dizer. Estado – A política dos EUA em relação ao Brasil mudou? FHC – Não. Na transição, o governo americano apoiou o governo Lula. O Fundo Monetário Internacional, no qual os EUA têm grande influência, teve atitude absolutamente positiva. Também aí não houve mudança. Eu tive mais dificuldades com o FMI, no começo, do que Lula. Não por causa do Lula ou de mim, mas por causa da situação. Nós construímos uma situação boa. A herança é boa. É tão boa que essas organizações todas ficaram contentes de não ter havido mudanças. Estado – As negociações da Alca são o grande desafio do relacionamento entre os dois países. O sr. as teria conduzido de forma diferente do governo Lula? FHC – Dificilmente. Os americanos não querem fazer duas coisas que eu considerei condições necessárias à nossa participação: mudar a maneira como usam o antidumping e mexer na questão dos subsídios à agricultura. Diante do impasse, deram, agora, uma volta por cima e resolveram fazer um cardápio com múltiplas escolhas. Aí não há enfrentamento. A decisão que Brasil e EUA tomaram em Miami foi dizer: não vamos brigar. Houve uma acomodação conveniente para os dois lados. Estado – O sr. vê risco, para o Brasil, nessa acomodação? FHC – O risco que vejo é que, se os EUA forem avançando em negociações bilaterais com outros países, com base no cardápio, vamos ficar isolados. E poderemos ter os EUA como nosso concorrente na América do Sul. O Brasil é hoje um exportador de manufaturas – 50% das nossas exportações são de manufaturados, basicamente para a América Latina e os EUA. Se os nossos vizinhos derem vantagens de acesso aos EUA, vamos competir com os manufaturados americanos. Essas negociações não são fáceis. Estado – Há riscos na estratégia de comércio exterior? FHC – Precisamos perguntar quais serão nossos parceiros daqui a 20, 30 anos. Será que não estamos nos arriscando a jogar uma carta de isolamento? Isso não é um jogo de respostas fáceis. Decisões que estão se tomando agora terão efeitos mais tarde. É uma discussão de interesse nacional que nunca tivemos. Convém a nós ou não a aliança mais profund a com os EUA? É preciso que o Brasil pense mais sobre o que acontecerá daqui a 20, 30 anos. Estado – O que dificulta o exame da idéia de aprofundamento com os EUA? É o medo? É o antiamericanismo? FHC – É o medo. O antiamericanismo, no Brasil, não é forte. Existe nas elites econômicas e intelectuais. Na população não, porque é uma realidade muito distante. O medo é o fator mais forte. E os EUA são tão fortes e têm agido nesses últimos anos de uma forma tão unilateral, tão arrogante, que se justifica o medo. Gostamos de um lado dos EUA, o da prosperidade. Mas não gostamos do espírito americano, como o consideramos. E ultimamente a política americana acentuou o lado negativo. O Brasil gostaria de ser mais europeu. Na verdade, não seremos nem europeus nem americanos. Temos identidade nacional e força própria. Estado – Lula proclama a liderança do Brasil na América do Sul, mas críticos dizem que o debate da Alca deixará claro que o País pode acabar sem ter a quem liderar. FHC – Disse e repito: nosso maior risco hoje é o de isolamento. Não em palavras. Palavra é fácil. Em coisas concretas. Preocupa-me a baixa taxa de investimentos. Nós conseguimos aumentar a taxa de investimentos de 13% para 18%, 19% do PIB. Agora caiu e está em 13%, 14%. 2003 foi muito ruim. E há queda do investimento interno. Atrair investimentos não se resolve só com confiança. É preciso ter políticas práticas, o que significa criar condição de continuidade.

Estado – O sr. disse que vê continuidade no governo Lula. Para o PSDB, o primeiro ano do PT foi um fracasso. Fernando Henrique Cardoso – Todos os governos fazem mudanças. A profundidade varia, e depende de momentos históricos. Getúlio Vargas criou uma base que expressou um momento. No governo de Juscelino Kubitschek, o Brasil se democratizou e começou a ter ligação com a globalização. Os militares, sobretudo no período Geisel, montaram outro modelo. Penso que o Plano Real marcou o início de um novo momento. Quando falo em continuidade, é a isso que me refiro. Não estou falando sobre a continuidade do que eu, como presidente, fiz. Algumas pessoas, inclusive no próprio PT, achavam que eles tinham um modelo novo. Eu não vi até agora esse modelo. O que estou dizendo, ao falar em continuidade, é que não houve uma ruptura. E não acho isso mau. Não falo em continuidade no sentido de que estão fazendo as mesmas coisas, da mesma maneira. Acho que em alguns setores estão até piorando. Portanto, não há incompatibilidade entre o que eu disse e o que meu partido diz. Estado – Por que sua constatação de que há continuidade provoca reação do PT? FHC – Não vejo razão para isso. É falta de maturidade histórica. Não estou criticando, estou dizendo que não houve ruptura. Vou dizer com mais clare-

Algumas pessoas, inclusive no PT, achavam que eles tinham um modelo novo. Não vi até agora esse modelo

Não gosto de programas de impacto. É coisa de regime militar. Tenho medo de que o Fome Zero seja mais impacto que realidade

Existe uma visão do que foi uma prática nacional estatista, muito mais do que a visão do sonho socialista que inspirou o PT

Estado – Lula está sendo criticado pelo que ele e outros criticaram no sr.: a freqüência das viagens ao exterior. FHC – No mundo de hoje, os presidentes são obrigados a viajar. Primeiro, há muitos encontros de cúpula que viraram rotina. O errado foi eles (PT) terem me atacado tanto sem ter noção disso. Outro dia o assessor internacional do Lula (Marco Aurélio Garcia) disse que a diferença é que eu fazia viagens para ter vantagem pessoal e nas viagens do Lula a vantagem é para o Brasil. Relacionamento internacional, como pessoa, eu já tinha antes de ser presidente. Estado – Como avalia o desempenho dos programas sociais, como o Fome Zero? FHC – Não tenho os dados. Achei, desde o início, que havia um apelo forte no Fome Zero, mas faltava conteúdo ao apelo. Estado – Houve mais barulho do que execução efetiva? FHC – Não gosto de progra-

CENAS DO GOVERNO LULA

Fotos: Paulo Sotero/AE

15 de julho: um guarda real esquece a primeira-dama, Marisa Letícia, no Rolls-Royce, em Madri; o rei Juan Carlos vai resgatá-la

Fotos: Ed Ferreira/AE

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O ESTADO DE S.PAULO - X11

O GOVERNO APRENDIZ

A ARRUMAÇÃO DA CASA
Economia não cresceu em 2003: mal necessário, para defensores de Lula; decepção, para os críticos
FERNANDO DANTAS

MUNDO AJUDOU EM 2003

A

o final do primeiro ano O mundo ajudou o presido governo Luiz Inácio dente Luiz Inácio Lula da Lula da Silva, o temor, Silva no seu primeiro ano de vivido em 2002, de que o presimandato. Mesmo não cresdente petista fizesse uma gescendo, a economia brasileira tão econômica populista e irse estabilizou, e, para isto, a responsável, e levasse o País contribuição do cenário inao colapso, está tão enterrado ternacional favorável foi funque parece quase surreal. No damental. entanto, há menos de um ano Os Estados Unidos voltae meio, quando o dólar bateu ram a crescer, injetando âniem R$ 4 e o risco Brasil supemo e demanda na economia rou 2.400 pontos, era exataglobal, o que estimulou as exmente aquele medo que movia portações do Brasil. Por ouos mercados e premiava a estro lado, a retomada ameriperteza dos especuladores. cana não foi explosiva a ponA política macroeconômica to de levar o Federal Reserde Lula controlou a crise, baive (Fed, banco central do xando o risco Brasil para mepaís) a subir os baixíssimos nos de 500, e estabilizando o juros básicos, de 1% ao ano. dólar em torno de R$ 2,90. Em Neste ambiente de baixos reação ao fim da turbulência, juros internacionais, os capie à possibilidade de a econotais globais buscam mais remia voltar a crescer em 2004, torno, e fluem para investio índice da Bolsa de São Paulo mentos mais arriscados e (Ibovespa) atingiu nível recorrentáveis nos países emerde no final do ano, subindo gentes, como o Brasil. O País mais de 150% desde o pior motambém está sendo beneficiamento, em outubro de 2002. do pelo crescimento espetaApesar dos indicadores ficular da China e de outras nanceiros positivos, houve economias asiáticas, que esuma profunda decepção por tá puxando as exportações parte daqueles que esperavam brasileiras de ferro, aço, proque Lula, dando conseqüência dutos agropecuários e matéa anos de pregação do PT conrias-primas em geral. tra o neoliberalismo, o arrocho O cenário internacional rómonetário e a visão fiscalista seo, porém, tem bases fráda economia, fosse baixar os geis, por causa dos enormes juros, retomar os gastos e indéficits fiscal e externo dos vestimentos públicos e (suponEstados Unidos. A grande do que funcionasse) botar a maioria das previsões para economia para crescer imedia2004 é positiva, mas os anatamente. listas frisam que há riscos e Na verdade, Henrique Meiincertezas pairando sobre a relles, presidente do Banco economia global. “Parece Central (BC), elevou inicialque estamos voltando a um mente os juros básicos (Selic) período de calma mundial, de 25% ao ano para 26,5%, e o mas a situação está no míniministro da Fazenda, Antonio mo esquisita”, comenta AnPalocci, ampliou o superávit drei Spacov, economista-cheprimário (exclui pagamento fe do Unibanco. de juros) de 3,9% para 4,25% E, além dos Estados Unido PIB. 2003 acabou sendo dos, há outras incertezas no um ano duríssimo para a ecocenário: a sustentabilidade nomia, e vai fechar com crescido ritmo vertiginoso de cresmento próximo a zero, alto decimento da China, o perene semprego e forte queda na renmarasmo das economias jada real dos trabalhadores. ponesa e européia, o risco de “Do ponto de vista da polítigrandes atentados terrorisca econômica, este primeiro tas e turbulências geopolítiano foi de continuidade, com cas, uma eventual disparada desemprego em alta e salário dos preços do petróleo etc. em baixa”, diz Paulo Pereira (F.D.) da Silva, o Paulinho, presiden- BM&F, em São Paulo: apesar da retração econômica, risco Brasil em queda e estabilização levaram euforia ao mercado financeiro te da Força Sindical. nos na solvência ve aspectos positivos da políti- presas e consumidores. O piso dos juros reais, que Para os do setor público. ca econômica do governo antemuitos defenO crescimento rior, como os aprofundou. “O iniciou 2003 na faixa de 18% Desempenho de alguns indicadores de mercado, em 2003 sores de Pada relação entre importante no governo Lula ao ano, caiu para menos de locci, porém, 1.446 Risco país (em número de pontos) a dívida pública foi não só o cuidado com a 9,5% em dezembro. Em 2000, Dólar (em R$) o desempe- 31/12/02 e o PIB foi mais questão fiscal do curto prazo, quando a economia cresceu 3,530 nho pífio da ou menos estan- mas também com equilíbrio 4,4%, o piso não caiu jamais 3,553 1.328 economia em cado em 2003, no longo prazo”, diz o econo- abaixo de 10%. Agora, já se 3,515 2003 foi o preembora perma- mista José Alexandre Scheink- prevê que ele chegue a 8% ao 1.178 3,313 ço a ser pago neça em nível man, da Universidade de Prin- longo de 2004, ou a até menos. 1.044 ceton, referindo-se à reforma É a perspectiva desta queda para debelar muito alto. da Previdência do setor públi- inédita dos juros reais, combia turbulência 801 788 3,030 Juros – A recu- co. Também foram elogiadas nada com diversos indicadoiniciada em 2,986 2,980 694 822 799 2,926 2,903 peração da con- a manutenção do superávit pri- res da recuperação da ativida2002, que pro2,965 705 2,905 fiança, combina- mário de 4,25% de econômica vocou um cor529 468 609 2,837 2,850 da com o nível do PIB para no fim de 2003, te abrupto 2/ 3/ 5/ 1/ 2/ 2/ 1/ 1/ 1/ 1/ 3/ 1/ 30/ 31/ 28/ 31/ 30/ 30/ 30/ 31/ 29/ 30/ 31/ 28/ 30/ mais desvalori- 2004 e 2005, e a que alimenta o dos fluxos exJan. Fev. Mar. Abr. Mai. Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez. Dez. Jan. Fev. Mar. Abr. Mai. Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez. URO REAL zado do real sua obtenção, otimismo em reternos de capi( c o m p a r a d o em 2003, via corlação a 2004. tal e temores Inflação (IPCA) – em % ESTÁ CAINDO Bovespa (em número de pontos) 22.236 com o período te de despesas, e A animação de um calote 2,47 anterior à crise não de aumento começa a chegar da dívida pú20.183 PARA NÍVEIS de 2002), levou de impostos. às empresas, deblica e camà estabilização No último tripois da dureza bial do País. 17.982 INÉDITOS do dólar e à que- mestre do ano de 2003. “O acerA crise em 1,37 1,38 da do risco Bra- passado, com a to macroeconô2002 foi atri16.010 sil. Assim, foi inflação sob conmico tem efeito buída por 1,46 15.174 11.268 0,82 0,99 criado o ambien- trole e o setor externo em equi- direto e imediato na nossa atimuitos ao fa13.421 31/12/02 12.556 te propício à re- líbrio, puxado pelo surpreen- vidade”, observa Paul Altit, vivoritismo do 13.571 0,37 dução da Selic dente crescimento das exporta- ce-presidente de Finanças e PT na eleição 13.291 10.941 0,04 0,39 11.273 de 26,5% para ções e do saldo comercial, co- Relações com Investidores da presidencial, 0,18 0 10.280 16,5%, de junho meçou a ser vislumbrada a pos- Brasken, o maior grupo petrocombinado -0,06 a dezembro, an- sibilidade de uma queda dos químico da América Latina. com o históri31/ 28/ 31/ 30/ 30/ 30/ 31/ 29/ 30/ 31/ 28/ 30/ Jan. Fev. Mar. Abr. Mai. Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Jan. Fev. Mar. Abr. Mai. Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. Dez. tecipada pela juros reais para níveis jamais Por outro lado, muitos deco do partido queda dos juros experimentados no período fensores da gestão macroecode contestaFonte: mercado de mercado. Fiel posterior ao Plano Real. O cha- nômica de Lula têm críticas às ção à política econômica ortodoxa. Isto, é verno e do setor privado. nário causado pela alta do dó- à ortodoxia, o governo reno- mado “juro real” é o piso dos ditas questões “microeconômiclaro, numa situação de vulneNa visão favorável ao Lula lar. Já a política fiscal aperta- vou o acordo com o Fundo Mo- juros de mercado descontados cas”, como regulação, infra-esda inflação, acima do qual se trutura, modelo energético, esrabilidade do País, causada pe- presidente, o sacrifício dos ju- da foi considerada crucial pa- netário Internacional (FMI). Os admiradores de Palocci movem todas as taxas efetiva- tímulo aos investimentos etc. la grande dívida pública e pelo ros altos foi um mal necessário ra restabelecer a confiança dos endividamento externo do go- para combater o surto inflacio- investidores externos e inter- acham que Lula não só mante- mente pagas pela massa de em- (ver páginas 15 e 17).

SINAIS DE CONFIANÇA

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AVALIAÇÃO DO GOVERNO LULA

Foi só parte de uma longa caminhada, mas trouxe ânimo e credibilidade para avançarmos em direção à recuperação dos NOTA indicadores sociais

7

Este primeiro ano foi de continuidade. Esperamos que o Lula passeie menos no próximo ano e cuide mais de fazer o País voltar a crescer e ter NOTA empregos

Marcio Cypriano, presidente do Bradesco

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Paulo Pereira da Silva, presidente da Força Sindical

7,5

O governo Lula surpreendeu. Afastou a inflação e diminuiu o risco Brasil. Foi pragmático e determinado. Mas NOTA excedeu-se nos ajustes
Horácio Lafer Piva, presidente da Fiesp

Eduardo Nicolau/AE

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QUARTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2003

O GOVERNO APRENDIZ

O ANO DA VIRADA EXTERNA
Desafio em 2004 será combinar contas externas saudáveis com PIB em alta
PATRÍCIA CAMPOS MELLO

O

Brasil prepara-se para enfrentar um grande desafio – combinar ajuste externo com economia em crescimento. Em 2003, o País debelou a vulnerabilidade externa e deve encerrar o ano com um superávit de cerca de US$ 3,8 bilhões na conta corrente, seu melhor resultado desde 1992. As glórias do desempenho vão para o surpreendente resultado da balança comercial, que termina o ano com superávit acima de 24,5 bilhões. Trata-se, porém, de um superávit que dependeu de importações praticamente no mesmo nível de 2002, o que em parte foi causado pelo crescimento quase nulo da economia em 2003. No ano que vem, o Produto Interno Bruto (PIB) volta aos eixos e deve crescer, segundo a maior parte da projeções, de 3% a 4%, elevando também as importações. Será que com isso o País voltará a seu ciclo de “stopand-go”, com aumento da vulnerabilidade externa obrigando o governo a, mais uma vez, elevar a taxa de juros e brecar a atividade econômica? “O ajuste que fizemos vai deixar o crescimento potencial menos dependente do balanço de pagamentos”, aposta Andrei Spacov, economista do Unibanco. O País saiu de um déficit (em conta corrente) de US$ 24 bilhões em 2000 para um superávit de US$ 3,8 bilhões. No passado, explica Spacov, todas as vezes que o Brasil começava a crescer, batia em um problema 25 de balanço de pagamentos. A economia se ex20 pandia, e aí vinha uma explo15 são nas importa10,7 ções, que torna10 va o País vulnerável de novo. Além disso, 5 toda vez que o governo reduzia os juros, a 0 economia se reaquecia, mas -5 aí o câmbio se desvalorizava – para enfrentar -10 a fuga de capi90 91 tais externos para outros países mais rentáveis,

América Latina da consultoria Idea Global. Em 2003, as importações cresceram, mas menos de 2%. O valor é baixo porque as compras externas vinham de uma base muito deprimida – caíram 15% em 2002, em relação ao ano anterior. Para que o saldo comercial não encolha com o salto das importações, é importante incentivar as exportações. As vendas externas vão encerrar 2003 com crescimento de mais de 20% em relação ao ano PRECISO passado. Novos mercados, moeAUMENTAR da competitiva, boom do agroneCORRENTE DE gócio, valorização das commodiCOMÉRCIO ties e aumento da participação da China foram alguns dos fatores que colaboraram para o crescimento. Mas esse ritmo será difícil de manter. Analistas prevêem aumento de 3% a 9% nas exportações. O Brasil deve voltar a ter déficit em conta corrente no ano que vem, projetado em US$ 4,6 bilhões pelo Banco Central. O superávit das transações correntes deste ano foi uma adaptação forCom a ajuda de produtos agropecuários, como a soja, as exportações brasileiras cresceram mais de 20% em 2003, para US$ 73 bilhões çada que o País teve de fazer à escassez de financiamento exterdesencadeada pelos juros mais “Não se pode comparar o Bra- importações de 10% a 20%. O de comércio – importações mais no, que secou depois dos atentabaixos. Com o dólar em alta, a sil superavitário com o País de que é saudável, uma vez que in- exportações – é a fórmula para dos de 11 de setembro e durante inflação subia de novo e o gover- três anos atrás, quando tinha sumos importados são necessá- manter o ajuste em uma econo- a transição política. no era obrigado a elevar os ju- déficits em conta corrente de rios para aumentar a capacida- mia aquecida. “No ano que vem, Neste ano, com os juros interros, brecando a economia. Daí mais de US$ 20 bilhões. Hoje de de produção e também para acredito que conseguiremos ter nacionais muito baixos e o auo “stop-and-go”. “Mas agora é podemos reduzir os juros sem garantir as exportações. um aumento na corrente de co- mento da liquidez, houve uma diferente, o BC vem reduzindo temer desvalorização cambial Mas o equilíbrio é tênue e não mércio com crescimento de 19% volta dos empréstimos externos. os juros e a moeda não está se tão grande.” se pode sacrificar o superávit co- nas importações e 10% nas ex- Mas os investimentos estrangeidesvalorizando. Pelo contrário, Com a volta do crescimento, mercial dos últimos dois anos. portações”, diz Ricardo Amo- ros diretos, de US$ 16 bilhões o real está em alta”, diz Spacov. analistas prevêem aumento nas Conseguir aumentar a corrente rim, chefe de Pesquisa para a em 2002, neste ano minguaram para cerca de US$ 9 bilhões. “A turbulência de 2002 bateu no fluxo de investimentos O superávit gigante Saldo da balança comercial Saldo da conta-corrente deste ano”, diz (em US$ bilhões) (em US$ bilhões) Antônio Corrêa Os fatores que impulsionaram 24,5 10 de Lacerda, preas exportações sidente da So3,8 5 beet. Ele prevê As vendas para a Argentina -0,6 um fluxo de 0 19,0 se recuperaram, crescendo US$ 13 bilhões 90% 13,4 em 2004. 13,5 -5 Mesmo as-3,8 -4,6 A China se tornou o sim, o Brasil -10 segundo parceiro comercial não vai poder abrir mão de do Brasil -15 polpudos supeO País conquistou novos rávits comer-20 ciais e mais mercados, como Oriente -24,4 -25 uma vez ceder à Médio e Leste Europeu tentação de de-8,4 -30 pender da pouO preço internacional de pança externa. commodities como soja e aço -35 -34,9 “Estamos consubiu denados a gerar 90 91 92 93 94 95 96 97 98 99 00 01 02 03* 04* 92 93 94 95 96 97 98 99 00 01 02 03* 04* superávits de A safra agrícola foi recorde US$ 20 biFonte: Banco Central *Previsão lhões”, diz ele.

É

CORREÇÃO DE RUMOS

O PT SE RENDE AO FMI
No primeiro ano de governo, Lula acertou um acordo ‘preventivo’ de US$ 14 bi com o Fundo
LU AIKO OTTA

B

RASÍLIA – O Partido dos Trabalhadores, que durante anos pregou a ruptura com o Fundo Monetário Internacional (FMI), terminou seu primeiro ano no comando do País fechando um novo acordo com a satanizada instituição, no valor de US$ 14 bilhões, que valerá para o ano de 2004. É fato que o acordo não foi assinado para socorrer um país à beira do abismo, como nas experiências passadas. No entanto, o arrocho nos gastos públicos, principal alvo das críticas aos programas com o FMI, continuará. Não por im-

posição do Fundo, mas por decisão do próprio governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Mudou o Fundo ou mudou o PT? “Mudou o Brasil”, respondeu o presidente nacional do PT, José Genoíno. A mesma avaliação é feita pelo ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, sócio da Tendências Consultoria Integrada. “O PT mudou muito, para sorte deles e do Brasil.” Mailson acha que a decisão de renovar com o FMI viria do governo do PT ou de qualquer outro nas atuais circunstâncias. Mais do que uma decisão programática, o novo acordo com o Fundo é, acredita ele, resultado de um processo de amadurecimento institucional em torno da política econômica nacional. “Gerou-se uma rotina de informações, o Brasil se integrou ao mundo globalizado, houve uma

sofisticação da imprensa e do mercado financeiro”, disse. “Se o governo fizer alguma besteira, isso se reflete nos prêmios de risco, na taxa de câmbio, nas expectativas dos agentes econômicos e nas manchetes dos jornais.” Então, o governo do PT foi ao Fundo. “Tínhamos um programa de US$ 30 bilhões e não se pode sair de um acordo desse tamanho sem um certo colchão para, diante de uma turbulência externa, não ameaçar a nova fase de crescimento”, justificou Genoíno, repetindo um argumento do ministro da Fazenda, Antônio Palocci. “É uma espécie de seguro, que é bom que não se use.” O presidente do PT afirma que não há nenhum desconforto com isso. O ministro Palocci lembra que o relacionamento do Brasil com o FMI é o de sócio e independe de partidos. O mes-

mo diz a vice-diretora gerente versar com vocês”. Bem mais de do FMI, Anne Krueger: o FMI 20 minutos depois, o secretário tem acordo com diversos países do Tesouro Nacional, Joaquim governados por partidos de cen- Levy, acompanhado pelo chefe tro-esquerda. da missão do FMI que se enconIsso não imtrava no País, pediu, porém, Jorge Márque o tema quez-Ruarte, FMI provocasparou no térse ruído denreo para infortro do governo mar à imprenna hora de torsa oficialmennar oficial a dete, pela primeicisão de negora vez, que o ciar um proBrasil ia sim grama para renovar seu 2004. No final programa da manhã do com o FMI. AlJosé Genoíno, dia 4 de nogumas horas presidente do PT vembro, Palocdepois, o presici chegou ao dente Lula, Ministério da Fazenda, vindo de que se encontrava na África do uma reunião do Planalto, e avi- Sul, desautorizou a informação, sou aos repórteres que estavam dizendo que nada seria decidido na porta: “Daqui uns 20 minu- na sua ausência do País. tos, o Joaquim desce para conNo entanto, já no dia seguin-

Robson Fernandjes/AE

(O acordo) é uma espécie de seguro, que é bom que não se use

te, o formato do novo programa foi anunciado. Nos dias seguintes, interlocutores da área política se dedicaram a espalhar a versão de que Levy teria anunciado a renovação por conta própria, atropelando até o presidente. Intencionalmente ou não, criou-se uma blindagem para as autoridades petistas do governo. Para o registro da história, fica que a renovação do acordo foi anunciada por Levy, um técnico herdado do governo passado. Desde janeiro, quando perguntado sobre a relação do Brasil com o FMI, Palocci tomava o cuidado de manter aberta a porta para um novo programa, mas dava a entender que, no que dependesse de sua vontade, o acordo não seria prorrogado. “É cumprir o contrato (então em vigor) e boa noite, obrigado”, disse ele, em janeiro.

CENAS DO GOVERNO LULA
Presidente Lula visita modelo de casa popular em Rondonópolis (MT), com o governador Blairo Maggi

Ed Ferreira/AE

Ed Ferreira/AE

Lula e o governador Geraldo Alckmin na festa dos 50 anos da VW no Brasil

Reuters

Lula, com o governador Zeca do PT (MS), dirige colheitadeira num assentamento em Ponta Porã

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O GOVERNO APRENDIZ

Com o desemprego nas alturas, um concurso público para a vaga de gari no Rio de Janeiro atraiu mais de 15 mil candidatos, provocou tumulto e a polícia precisou ser chamada

RECESSÃO, A OUTRA FACE DO AJUSTE
Custo foi alto para o brasileiro comum, mas empresários vêem oportunidade de retomada, se governo fizer o seu papel para estimular os investimentos

PIB X PRODUÇÃO INDUSTRIAL
Crescimento em relação ao ano anterior (em %) 6,64 PIB Produção industrial 4,31 2,45 1,58 0,79 0 -0,65 1999 2000 2001 2002
*Expectativa média do mercado, coletada pelo Banco Central

A

não haverá gargalos para essa MÁRCIA DE CHIARA expansão da atividade, ao meestabilização da econo- nos no primeiro semestre de mia em 2003 custou ca- 2004. Após esse período, no enro para os brasileiros, tanto, as restrições na capacidacom férias coletivas fora de hora de produtiva, compensadas via nas indústrias, níveis recordes aumento de preço ou de imporde desemprego e queda na ren- tação, podem aparecer, a menos da real. que se estimule investimento. Os números do Produto InterPara muitos empresários e no Bruto (PIB) do primeiro se- analistas, a retomada sustentámestre, apurados pelo Instituto vel do crescimento da econonoBrasileiro de Geografia e Estatís- mia em 2004 está nas mãos do tica (IBGE), confirmaram o que próprio governo. Nesta visão, o tecnicamente se configura uma deslanche da economia de forrecessão. Por dois trimestres ma consistente no próximo ano consecutivos o indicador fechou dependerá da concretização das em queda na comparação com o reformas tributária e previdenperíodo imediatamente ante- ciária, além do estímulo ao inrior. No primeiro trimestre des- vestimento por meio da contite ano, o PIB recuou 0,8% ante nuidade da queda dos juros e de o último de 2002 e, no segundo regras mais claras, especialmentrimestre, a retração foi de 1,2% te no setor de infra-estrutura. ante o primeiro trimestre. AlO empresário Abílio Diniz, gum alívio ocorpresidente do reu no terceiro triConselho de Admestre com cresministração do ARA cimento do PIB Grupo Pão de de 0,4%. Açúcar, diz que a ABÍLIO DINIZ, Apesar de o recuperação da PIB, a medida de economia não seRETOMADA todas as riquezas rá uma bolha na produzidas no medida em que NÃO SERÁ País, ter ficado os juros contipraticamente esnuem caindo e BOLHA, SE tagnado em que a venda a cré2003, a política dito cresça. JURO SEGUIR monetária apertaJá o presidente da e o ajuste nas da Federação do CAINDO contas públicas Comércio do Essão considerados tado de São Paufundamentais palo (Fecomercio ra o arranque da atividade. SP), Abram Szajman, vincula o “2003 não foi perdido, foi um crescimento sustentado ao invesano de ajuste”, afirma o coorde- timento, tanto privado como púnador do Núcleo de Bancos de blico. Por enquanto, ele diz, não Dados Especiais do Instituto há evidências de que os investiBrasileiro de Economia (Ibre) mentos estejam ocorrendo. da Fundação Getúlio Vargas, O presidente da Câmara Aloísio Campelo Jr. Ele observa Americana de Comércio de São que a credibilidade do País foi re- Paulo (Amcham-SP) e do Concuperada com o controle da in- selho de Administração da Diflação e das contas públicas. xie-Toga, a maior indústria de Para Campelo Jr. ainda não é embalagens plásticas da Améripossível afirmar se a tímida re- ca Latina, Sérgio Haberfeld, cuperação da atividade esboça- acha que a retomada consistenda nos indicadores, neste final te está começando, e acredita de ano, é sustentável ou se se tra- que esse movimento deverá ser ta apenas de uma bolha. “A pa- mantido no ano que vem. “Colavra-chave daqui para frente é mo 2004 será um ano eleitoral e o aumento do investimento”, o partido do governo quer gaele diz. Mantido o lento ritmo de nhar mil prefeituras, ele deverá recuperação, ele acredita que acelerar a economia para ga-

RECORDE PARA ESQUECER
3,62

4,36

1,31

1,93

0,17 -0,47 2003*

2004*

DESEMPREGO X RENDIMENTO
13,0 12,5
12,1 Em % Rendimento médio real* 13,0 Taxa de desemprego** 12,9 980,00 960,00 940,00 12,2 920,00 900,00 880,00 860,00 840,00 820,00 10,5
Nov. Dez. Jan. Fev. Mar. Abr. Mai. Jun. Jul. Ago. Set. Out. Nov. 2002 2003

P

12,0 11,5 11,0 10,9 10,5

800,00

*Habitual das pessoas ocupadas **Nas regiões metropolitantas de SP, RJ, BH, PA, Salvador e Recife/IBGE

nhar eleições.” “A retomada só será ‘vôo da galinha’ (curto e baixo) se o governo não der a partida para estimular o investimento”, diz o economista-chefe da LCA Consultores, Luís Suzigan. Ele pondera que a retomada está sendo mais lenta do que a esperada por causa do baque na renda real, que acumula perda de 20% em relação a três anos atrás. Para Suzigan, dois dos três ingredientes que sustentam a economia estão com desempenho garantido em 2004. As exportações vão continuar indo bem graças ao crescimento da economia mundial e à conquista de novos mercados. O consumo também deve melhorar por con-

ta da recuperação da renda real, estimada entre 5% e 6%, especialmente por causa da reposição da inflação passada por índice bem superior à perspectiva de inflação futura. O pilar que continua fragilizado é o do investimento. Neste aspecto, o pesquisador da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe), Heron do Carmo, acredita que haja espaço para que o governo seja o indutor do investimento. “Existe a possibilidade de que o governo reduza o custeio e invista esses recursos.” Ele ressalta que a continuidade na queda dos juros e a ampliação do crédito poderão garantir o crescimento entre 3,5% e 5%.

Pereira, gerente da pesquisa mensal de emprego do IBGE. O desemprego promete ba- Explica-se: a queda na renda ter todos os recordes no pri- e o aumento do desemprego lemeiro ano do governo Lula. vam mais pessoas de uma Na Região Metropolitana de mesma família a procurar traSão Paulo, a taxa média balho, para reforçar a renda anual, pesquisada pela Funda- familiar. Isto aumenta a taxa ção Sistema Estadual de Aná- de desemprego, porque reprelise de Dados (Seade) e o De- senta mais desocupados em repartamento Intersindical de lação à PEA. Como essas pesEstatísticas e Estudos Sócio- soas geralmente só obtêm ocuEconômicos (Dieese), deve su- pação no mercado informal, perar até a de 1999, ano da de baixíssima remuneração, o desvalorização do real. De ja- rendimento médio volta a neiro a outubro de 2003, a mé- cair, num círculo vicioso. Media estava em 20,1% da Popu- tade dos trabalhadores não lação Economicamente Ativa tem carteira assinada. (PEA). Em 1999, o índice méAs prioridades de política dio foi de 19,3% – o maior des- econômica no primeiro ano de 1985, quando se iniciou a de governo passaram longe de pesquisa (ver tabela). ações para a retomada do em“O ano está sendo um de- prego e da renda. Medidas alsastre para o mercado de tra- tamente recessivas foram tobalho”, diz o ex-diretor-técni- madas em boa parte de 2003, co do Dieese Sérgio Mendon- para evitar uma explosão inça, que acaba de assumir a Se- flacionária. O PIB no ano pracretaria de Recursos Huma- ticamente não deve crescer. nos do MinistéA reação da rio do Planejaeconomia esbomento. Ele diz çada neste fim ENDA que o baixo cresde ano abre escimento da ecopaço para a reMÉDIA CAIU nomia limita a dução do degeração de possemprego, mas 13% ATÉ tos de trabalho esse processo só a um nível insudeverá ganhar NOVEMBRO ficiente para fôlego dentro derrubar o dede seis meses. semprego. Há 2 “Normalmenmilhões de desocupados na te, há uma defasagem entre o Região Metropolitana de São reaquecimento e a decisão de Paulo – 1 em cada 5 trabalha- contratar”, diz Antônio Cardores. los Borges, diretor da FederaNas média das 6 regiões me- ção do Comércio do Estado tropolitanas pesquisadas pelo de São Paulo. Ganhos de efiInstituto Brasileiro de Geogra- ciência e produtividade duranfia e Estatística (IBGE) – Reci- te a retração podem atrasar as fe, Salvador, Rio de Janeiro, contratações, até a certeza de São Paulo, Belo Horizonte e que a retomada não é bolha. Porto Alegre –, o desemprego Para Mendonça, o mercado se manteve em torno do nível de trabalho pode dar sinal de recorde de 13% desde agosto, melhora a partir de maio, ao só caindo um pouco, para fim da fase sazonalmente 12,2%, em novembro. O rendi- ruim para o emprego: “O promento real médio dos traba- cesso pode ser mais intenso se lhadores caiu 13% entre no- diminuir o ritmo de queda da vembro de 2002 e 2003. renda, porque isto abre uma “É como uma bola de ne- janela para a retomada do emve”, compara Cimar Azeredo prego no setor de serviços”.
MARCELO REHDER

R

AVALIAÇÃO DO GOVERNO LULA

O governo construiu uma sólida base para o desenvolvimento. Reconquistamos nossa credibilidade, controlamos a NOTA inflação. Empresário não deve dar nota ao governo

-

O Brasil era um avião que estava caindo. Conseguiram estabilizar o vôo, porém em baixa altitude. Por isso, está consumindo tanto NOTA combustível, imposto

Abílio Diniz, presidente do conselho de administração do Pão de Açúcar

5

O primeiro ano do governo foi pragmático: ele deixou o discurso eleitoral e operou bem a política e a economia. Isso é o NOTA fundamental

Guilherme Afif Domingos, presidente da Associação Comercial de SP

8

Heron do Carmo, economista da Fipe

Fábio Motta/AE

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QUARTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2003

O GOVERNO APRENDIZ

palhar boatos sobre um “Plano B”, que marcaria a adoção de políticas mais agressivas para o crescimento. Mais recentemente, o presidente do Senado, José Sarney (PMDB-AP), LU AIKO OTTA defendeu que o Brasil deveria pagar menos juros sobre a díviRASÍLIA – Olhar a sida externa. O fantasma do catuação da economia ao lote voltou a assombrar os final de 2003 e compaagentes de mercado. Com um rá-la com o quadro de doze merecado de Palocci, o assunto ses atrás confirma: o ataque morreu. de nervos pré-eleitoral foi deNo geral, o tiroteio não probelado, à custa de doses maciduziu nada além de barulho. ças de ortodoxia econômica No início do ano, Palocci receprescritas pelo doutor Antobeu em seu gabinete um grupo nio Palocci Filho. Ao aplicar o de empresários assustados tratamento, ele recebeu elocom as declarações desencongios de inimigos históricos da tradas. “É bom ir se acostuesquerda brasileira, como o mando”, avisou. “O PT é pura empresariado e o Fundo Moneemoção.” tário Internacional. Pela mesEm alguns momentos, poma razão, foi alvo de uma sarém, o clima realmente pesou. raivada de críticas principalPalocci saiu do sério quando mente de seus companheiros seu colega das Comunicações, de partido e de seus colegas de Miro Teixeira, pôs em dúvida governo. A opção do presideno cumprimento dos contratos te Luiz Inácio Lula da Silva, das concessionárias de telefoporém, foi clara. nia fixa. Miro achou o reajuste O ministro da Fazenda, Anexagerado e ameaçou levar a tonio Palocci, termina o ano questão à Justiça. Para um tendo consolidada sua posição País que lutava para recupena tríade de homens fortes do rar sua credibilidade diante do governo, ao lado do ministroinvestidor externo, a atitude chefe da Casa Civil, José Dirde Miro ia na direção oposta. ceu, e do ministro-chefe da SeO pior momento, porém, cretaria de Comunicação de Otimismo no discurso do ministro: ‘2004 será um ano de crescimento e geração de emprego, em que se abre uma oportunidade histórica’ ocorreu em agosto. Pela priGoverno e Gesmeira vez, circutão Estratégica, capaz. O esto- Discutiu-se, então, no chama- de governo. Em tempos de do Desenvolvilaram boatos soLuiz Gushiken. que, garantem do núcleo duro do governo, o guerra no Iraque, ficou popu- mento, Luiz Ferbre a demissão UROS E ALOCCI A Melhor ainda seus assessores, que fazer: um ajuste profundo lar também em Brasília a ex- nando Furlan, de Palocci, que que o posto de é inacreditavel- e de curta duração ou um tra- pressão “fogo amigo”, aquele expressou preoestaria envolviCÂMBIO NA EMPRESÁRIOS: destaque é pomente grande. tamento mais brando que de- que causa baixas dentro das cupações quando numa dispuder afirmar, Diz seu secretá- mandaria mais tempo. próprias linhas. to ao desempeta de espaço MIRA DO ‘O PT É PURA com todas as lerio de Assuntos Venceu a opção pela dureO vice-presidente, José nho das exportacom José Dirtras: “ 2004 será Internacionais, za, e o que se seguiu todos sa- Alencar, não deixou escapar ções. O líder do ceu. O chefe da ‘FOGO AMIGO’ EMOÇÃO’ um ano de cresciOtaviano Canu- bem: aperto brutal nos gastos nenhuma oportunidade para governo no SenaCasa Civil estamento e geração to: “É a pessoa e taxas de juros persistente- criticar as altas taxas de juros. do, Aloízio Merria pressionande emprego, em com maior taxa mente elevadas. A atividade Ataques ao aperto monetário cadante (PTdo pela flexibilique se abre uma oportunidade de inteligência emocional que econômica mergulhou e o de- também partiram do Ministé- SP) foi mais longe: ameaçou zação da política econômica. histórica nova.” É o que Paloc- conheço.” semprego cresceu. De tão pare- rio do Planejamento. Tampou- dar “declarações bombásti- Ao final do primeiro ano do goci vem repetindo nas últimas No final de 2002, quando as- cido com seu antecessor, Pe- co foi poupado outro pilar da cas” para fazer o dólar subir. verno Lula, queria ter algo semanas. sumiu o posto de coordenador dro Malan, Palocci passou a macroeconomia brasileira, o “É meu instrumento heterodo- mais a mostrar além da estabiChegar a esse ponto, porém, da transição, Palocci encon- ser chamado de “Malocci”. câmbio flutuante. Quando o xo.” lização macroeconômica. Os exigiu o máximo de tranqüili- trou a economia num estado Pior que a piada foram os ata- dólar estacionou na cotação Os descontentes com a polí- rumores foram negados e o asdade e bom humor que ele foi mais grave do que o esperado. ques dos colegas de partido e perto de R$ 3,00, o ministro tica econômica passaram a es- sunto morreu.

A RECEITA DO DOUTOR PALOCCI

Aperto fiscal e monetário sem precedentes rende ao ministro as glórias e as críticas pelo ajuste

B

J

P

MEIRELLES E AS DECISÕES ARRISCADAS
Presidente do BC enfrenta resistências à sua nomeação e impõe política monetária dura
FERNANDO DANTAS

LADEIRA ABAIXO
30
29,12 29,19 Juros de 1 ano – evolução semanal (% ao ano) Taxa Selic (% ao ano)

28
26,50 26,00 25,54 24,10 24,50 23,54 21,84 22,00 21,01 20,00 19,00 19,00 17,90
Mônica Zarattini/AE

26

25,64 25,00

25,50

IO – A escolha de Henrique Meirelles, ex-alto dirigente global do BankBoston, para a presidência do Banco Central (BC), confirmou a idéia de que executivos de destaque são sujeitos que sabem tomar decisões arriscadas em momentos difíceis, e sair-se bem. Meirelles acabara de se eleger deputado federal por Goiás, pelo PSDB, e teve de renunciar à Câmara para assumir o BC. No início da sua gestão, elevou a Selic, o juro básico, de 25% para 26,5%, nível mantido até junho, em uma política duríssima para conter a disparada das expectativas inflacionárias, na esteira da megadesvalorização cambial de 2002. Meirelles: Senador Mercadante foi padrinho da sua indicação No segundo semestre, MeiInácio Lula da luta confiança do mercado firelles reduziu raSilva, à hipóte- nanceiro e dos investidores inROMESSA pidamente a Sese da manter no ternacionais. lic, até 16,5%, e cargo o prestiA tentativa de convencer DE o ano fechou giado Armínio Pedro Bodin, amigo e ex-colecom inflação Fraga, último ga de BC de Fraga, a aceitar AUTONOMIA controlada e otipresidente do o convite (nunca tornado púmismo quanto BC de Fernan- blico) para a presidência do FOI ADIADA ao crescimento do Henrique, BC fracassou. Outras sondaem 2004. era preciso ar- gens do PT junto a banqueiA nomeação ranjar um subs- ros e economistas ortodoxos de Meirelles, em dezembro de tituto à altura. Antônio Paloc- foram elegantemente escan2002, pôs fim a um dos impas- ci, já indicado ministro da Fa- teadas. A solução acabou vinses mais aflitivos da transição zenda, e defensor interno de do do senador Aloísio Mercade governo. Com a rejeição fi- Fraga, deixou claro que o no- dante (PT-SP), que convennal do presidente eleito, Luiz vo nome teria de ser de abso- ceu o amigo Meirelles e o go-

R

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22

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Paulo Pinto/AE

17,50

17,69 16,00

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Jan. Fev.

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Abr.

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Out.

Nov.

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verno de que o casamento entre os dois seria feliz. Na presidência do BC, Meirelles pegou pela proa o pior repique inflacionário desde 1995, com o IPCA anualizado do último trimestre de 2002 batendo em 29%. Sua nomeação desagradou tanto aos petistas tradicionais, incomodados com a presença de um banqueiro internacional tucano na equipe econômica, quanto a parte do mercado, que via em Meirelles um político sem o conhecimento ma-

croeconômico específico para tocar a política monetária. Com total apoio de Palocci e colaboração de Fraga, Meirelles herdou a antiga cúpula do BC, e, seguro no exercício da liderança, soube fazê-la trabalhar com afinco para reverter a difícil situação que ele encontrara. Aos poucos, substituiu os diretores herdados por técnicos de perfil parecido: sólida formação econômica e matemática, orientação ortodoxa e sintonia com o mercado financeiro.

Meirelles não ganhou a autonomia operacional do BC, prometida por Palocci, em 2003, e talvez não a obtenha em 2004. Na prática, porém, trabalhou com independência informal, garantida por Palocci. Outro mérito da sua gestão foi melhorar o perfil da dívida pública, reduzindo a dolarização. Na conta de pontos duvidosos, está a dureza talvez excessiva da política monetária em 2003: o PIB deve fechar o ano com crescimento próximo a zero.

CENAS DO GOVERNO LULA
Palocci com a diretoragerente do FMI, Anne Krueger: elogios e aval à gestão econômica do PT

J.F. Diório/AE

Dida Sampaio/AE

Palocci e o presidente da Fiesp, Horácio Piva: apoio com restrições

Sebastião Moreira/AE

Palocci com o presidente da Bovespa, Raymundo Magliano Filho: confiança e adesão do setor financeiro

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O GOVERNO APRENDIZ

INVESTIMENTO, O DESAFIO DA VEZ
Receita para crescer no longo prazo: agenda ‘microeconômica’, queda de juros reais, ou os dois?
FERNANDO DANTAS

U

ma das condições cruciais para a retomada sustentável do crescimento econômico em ritmo mais forte no Brasil é o aumento dos investimentos. Desde o início da década de 90, a taxa de investimentos brasileira têm girado em torno de 20% do PIB, e em 2003 deve cair para algo em torno de18%. Para muitos economistas, a taxa de investimentos tem de subir uns cinco pontos porcentuais do PIB, no mínimo, se o Brasil quiser sustentar um crescimento mais robusto no longo prazo. “Para que o Brasil cresça 6% ou 7%, num ano bom, em vez de crescer 3% ou 4%, e para que cresça 2% num ano ruim, em vez de zero, a taxa de investimentos tem de subir para 25% do PIB”, diz José Alexandre Scheinkman, economista da Universidade de Princeton. Outra preocupação é com a queda dos investimentos diretos estrangeiros, que desabaram de US$ 30 bilhões anuais, em 1999 e 2000, para pouco mais de US$ 9,2 bilhões em 2003. As projeções do mercado não superam US$ 15 bilhões ao ano até pelo menos 2006. Para uma corrente de econo- Fábrica de papel da Klabin no Paraná: como muitas empresas, planos de investimentos estão ligados à exportação, por causa do baixo crescimento do mercado interno mistas, a recuperação dos investimentos depende da chamada “agenda microeTaxa de investimentos Investimentos estrangeiros diretos conômica”, refe(% do PIB) (Líquidos/em US$ bilhões) rente a temas como regulação, 30,5 19,4 mercado de tra24,7 balho, sistema juJosé A. Sheinkman, economista de Princeton rídico etc. A lista de pendências 14,8 14,2 18,8 14,1 microeconômi12,1 18,7 cas é longa: Justi9,2 ça inoperante e protelatória, in18,4 certeza sobre contratos, excesso de 2000 2001 2002 2003*** 2004*** 2005*** 2006*** 2001* 2002* 2003** 2004** burocracia para Stephane Engelhard, do grupo hoteleiro Accor abrir empresas, *Dados do Ipea **Projeções do Ipea ***Média das projeções do mercado, coletada pelo Banco Central confusão regulatória nos setores de infra-estrusustentam que o principal fator tura, encargos trabalhistas muide inibição dos investimentos to altos, número gigantesco de no Brasil é o nível altíssimo dos ações na Justiça do Trabalho, juros reais. Se isto for verdade, dificuldade para executar gaé uma boa notícia, já que os jurantias de crédito etc. ros reais estão caindo, e em Nesta área, ao contrário da 2004 podem descer a níveis inégestão macroeconômica, o goditos após o Plano Real. verno Lula colheu mais críticas “A principal causa do investido que aplausos no seu primeimento baixo é o juro real elevaro ano, por parte dos setores lido, assim como no passado era berais e pró-mercado. O minisa hiperinflação. Se o juro real tro da Fazenda, Antonio Paloccair para 8%, vai haver uma reci, vem dizendo que quer prioritomada do investimento”, diz zar agora os temas microeconôAndrei Spacov, economistamicos. O fato, porém, é que eschefe do Unibanco. tas questões transcendem o núDe fato, as empresas, na hocleo de poder da Fazenda, e ra de investir, parecem basicamuitas das críticas dirigem-se mente preocupadas com o aujustamente a problemas surgimento da demanda por seus dos em outros ministérios. produtos. Em setores exportaO projeto de mudar as agêndores, como celulose e siderurcias reguladoras foi visto como gia, há investimentos pesados. uma tentativa de enfraquecer a A Klabin, fabricante de papel, sua autonomia. O ministro das tem seus planos de investimenTelecomunicações, Miro Teixeitos voltados à exportação, emra, estimulou os usuários a conbora venda bem mais no Brasil. testar na Justiça um aumento Para os negócios direcionadas tarifas de tedos ao mercado brasileiro, o lefonia fixa. O íncrescimento da economia é o dice previsto nos motor fundamental. Paul Altit, M 2003, contratos foi trovice-presidente da petroquímicado liminarmenca Braskem, nota que a empreINVESTIMENTO te, por outro mesa tem um programa de investiFábrica da Ford no ABC: queda contínua dos juros reais pode deflagrar novo ciclo de consumo e investimentos nor. Fernando mentos entre US$ 100 milhões CAIU PARA Xavier, presidenmodelo energéti- e Tecnologia, diz: “Nada do nou alvo de críticas por empre- quetes de refeição, e emprega e US$ 150 milhões por ano, em te da Telefônica co, que está sen- que escutei nesta área me dei- sas do setor de serviços, ao ele- 27 mil pessoas. 2003 e 2004, e que “a partir de PERTO DE 18% – um dos grupos do questionado xou animado; além daquele ba- var de 3% para 7,6% a alíquota Num dos poucos avanços da 2005 deve subir”. A retomada externos que como estatizante rulho bobo sobre a bomba atô- da Cofins, contribuição trans- agenda microeconômica em da economia, segundo Altit, é a mais investiram e centralizador, e mica, houve a questão mais sé- formada em tributo sobre o va- 2003, o governo avançou na tra- motivação básica para investir. no Brasil nos últimos anos –, porque esvaziaria as atribui- ria da proposta de descentrali- lor agregado a partir de 2004. mitação da nova Lei de FalênJáder Piccin, diretor da Boadisse que a empresa deixou de ções da Agência Nacional de zação da ciência e tecnologia, “Esta mudança vai reduzir nos- cias no Congresso, que reforça vistense, empresa de balas e faturar cerca de R$ 300 mi- Energia Elétrica (Aneel). quando é sabido que todos os sa lucratividade em 40%, e não os direitos dos credores e agili- confeitos de Erechim (RS), diz lhões pela troca de índices. A política científica e tecnoló- países que se tornaram impor- vamos poder manter o ritmo de za a recuperação ou liquidação que a decisão sobre um novo inOutro alvo de críticas foi a gica é considerada pífia por tantes nesta área o fizeram atra- investimentos”, diz Stephane de empresas em dificuldade. vestimento de R$ 6 milhões deministra de Minas e Energia, muitos observadores. Scheink- vés da formação de centros de Engelhard, diretor-financeiro Apesar de todo o falatório pende de “uma sinalização Dilma Roussef. Ela demorou man, em crítica direta a Rober- excelência”. do grupo Accor no Brasil, que em torno de da agenda microe- mais forte de crescimento interum ano para gestar um novo to Amaral, ministro da Ciência A reforma tributária se tor- atua no setor hoteleiro e de tí- conômica, alguns economistas no da economia”.

TORNEIRA FECHADA

Para que o Brasil cresça 6% ou 7%, num ano bom, em vez de crescer 3% ou 4%, a taxa de investimentos tem de subir para 25% do PIB

A mudança na Cofins vai reduzir em 40% nossa lucratividade; não poderemos manter o ritmo de investimentos

E

AVALIAÇÃO DO GOVERNO LULA

O governo conseguiu conter a inflação, que é o pior câncer. E a redução dos juros está sendo feita com o pé no chão, NOTA para não prejudicar essa conquista

10

Walter Wieland, presidente da GM do Brasil

7,5

Minha avaliação é positiva na política internacional e no controle da situação econômica. Mas ficamos com o desemprego e a NOTA queda de renda
Luiz Marinho, presidente da CUT

6,5

O governo Lula, neste primeiro ano, foi um governo médio, com a cabeça no freezer e NOTA os pés no forno
David Zylbersztajn, consultor e ex-diretor da Agência Nacional do Petróleo

Robson Fernandjes/AE

Agliberto Lima/AE

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QUARTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2003

O GOVERNO APRENDIZ

Sem resolver o déficit do setor público, País está condenado a uma vida medíocre, diz Giannetti
MARIANA BARBOSA

‘CRESCIMENTO SERÁ DESAPONTADOR’

quinas, treinamento e tecnologia, estão financiando o governo. Se tudo correr bem, teremos um crescimento moderado de 3% a 4% ao ano. Sem resolver as questões mais profundas, o potencial de crescimento é muito baixo. Estado – É mais do que o País cresceu ao ano, em média, na última década. Giannetti – É melhor do que a média do real para cá, que foi de 2,4%, mais vai ser muito desapontador descobrir que, no melhor cenário, sem nenhuma turbulência, o país cresce apenas moderadamente. Com a população crescendo 1,5%, 4% é baixo. Estado – Insuficiente para resolver o desemprego. Giannetti – A falta de crescimento é apenas parte do problema. O desemprego no Brasil, em qualquer momento do ciclo econômico, não seria tão alto se tivéssemos um mercado de trabalho mais flexível e mais confiável. Os países mais protegidos da Europa despedem menos na recessão, mas também contratam menos na alta. Nós temos uma combinação perversa do modelo europeu com o americano, que é mais flexível. Na informalidade, não temos direitos nem proteção. Na economia formal, que está cada vez menor, temos uma estrutura ossificada e senil. Estado – A reforma trabalhista poderia minimizar o impacto do baixo crescimento? Giannetti – A reforma pode ter um impacto positivo no curto prazo. A incerteza que paira hoje sobre o contrato de trabalho é o pior inimigo do trabalhador brasileiro. Somos recordista mundial em ações trabalhistas. Os empresários relutam o quanto podem antes de abrir um flanco que pode lhes custar caro depois. Estado – O que precisa para ter crescimento alto e sustentado? Giannetti – Precisa aumentar os investimentos em capital físico e humano, em pesquisa e desenvolvimento. Para isso, o setor privado precisa poder usar o que poupa para investir na sua própria capacidade de produção. É preciso também uma ação contundente do Estado para gerar conhecimento e suas aplicações técnicas. Precisamos ainda de um ambiente institucional favorável ao empreendedorismo. No Brasil, um empreendedor pode ver seu negócio suceder ou naufragar por causa de uma mudança na legislação tributária. Estado – Como as recentes mudanças nos marcos regulatórios podem afetar os investimentos? Giannetti – Não há uma definição sobre o marco regulatório do setor elétrico, está tudo ainda muito vago, nem sobre o papel das agências reguladoras. A impressão que se tem é de que o governo quer preservar um poder discricionário muito grande em relação a todos os setores de infra-estrutura. Isso não ajuda a criar um ambiente adequado para atrair investimentos.

pós uma dolorosa cirurgia e um longo ano de convalescença, a economia brasileira terá alta em 2004. Porém, sem um ambiente favorável aos investimentos e sem resolver questões estruturais como o déficit do setor público, o País estará condenado a um crescimento medíocre, de 4% ao ano no máximo. Assim acredita o economista Eduardo Giannetti da Fonseca. PhD pela Universidade de Cambridge e professor do Ibmec, ele elogia a ortodoxia macroeconômica do governo Lula, mas é cético quanto a sua manutenção ao longo do mandato. “A tentação de acelerar o crescimento para maximizar as chances de reeleição será forte.” A seguir, os principais trechos da entrevista. Estado – Como o senhor avalia a política econômica no 1º ano do governo? Eduardo Giannetti da Fonseca – Na política econômica estrito senso (política monetária e fiscal de curto prazo), o veredicto é claramente favorável. O governo venceu ao conter a ameaça de aceleração inflacionária e reverter o jogo das expectativas. Se alguma crítica puder ser feita é de excesso de prudência, um pequeno erro de dosagem, mas isso é natural para um governo que precisava construir credibilidade. Estado – E qual a sua avaliação sobre as reformas estruturais aprovadas? Giannetti – A proposta de reforma da previdência foi ousada e sobreviveu à negociação. Traz um ganho importante nas finanças públicas que pode chegar a 0,5% do PIB. Já a tributária foi um fracasso. O que era para ser uma reforma para melhorar a eficiência e diminuir a informalidade acabou se tornando mais uma rodada na disputa entre União, Estados e municípios e que deverá resultar em aumento da carga tributária. Isso pode comprometer a meta de superávit primário. Sem resolver o nó fiscal, nosso potencial de crescimento ficará muito limitado. Estado – O fato de o PT ter ganho em poucos Estados na última eleição pode explicar a dificuldade em aprovar a reforma tributária? Giannetti – Não. Creio que é porque não tinham uma proposta e não souberam como fazer. A reforma era tecnicamente ruim e politicamente mal resolvida. Mas essa tentativa fracassada de reforma tributária revelou como a questão fiscal, no fundo, é um problema de disputa por receitas entre União, Estados e municípios. Temos um federalismo truncado em que não há uma clara definição das atribuições e competências tributárias dos três níveis de governo.

A

Para o economista Eduardo Giannetti, incertezas nos marcos regulatórios dos setores de infra-estrutura inibem investimentos Estado – O País está preparado para crescer? Giannetti – A economia foi para a UTI no final do ano passado: estresse total, risco, câmbio, tudo à beira do precipício. Fizeram uma cirurgia dolorosa e o País passou 2003 em convalescença. Em 2004, o paciente terá alta e voltará à vida normal. No início vai ser gostoso. Mas ele irá se deparar com uma vida medíocre, com um crescimento desapontador. Estado – Não haverá espetáculo? Giannetti – Não teremos um processo de crescimento continuo que dê ânimo e alento. Passada a recuperação cíclica, tenho a impressão de que o governo imagina que vai construir as condições objetivas para que o País tenha um crescimento acelerado, com queda do desemprego e alívio das tensões sociais. Aí vai chegar a hora da verdade do PT. Na segunda metade do mandato, o estímulo da reeleição vai estar funcionando nos hormônios dos governantes. A tentação de artificialmente acelerar o crescimento para maximizar as chances de reeleição será forte. Não descarto uma guinada populista. Estado – O senhor não está convencido da ortodoxia deste governo? Giannetti – A conversão para a ortodoxia é muito recente. Assim como o PT mudou o discurso a seis meses da eleição para chegar ao poder, com o mesmo desprendimento pode mudar para se manter no poder. Em qualquer país democrático existe o ciclo econômico eleitoral e políticos tendem a manipular instrumentos para permanecerem mais tempo no poder. Fernando Henrique fez isso com o câmbio, deixando a desvalorização para depois da reeleição. Estado – A redução dos juros não será suficiente para a retomada? Giannetti – Política monetária não gera crescimento, mas ciclos. Há um limite para o estímulo da demanda que é a capacidade instalada. Se a demanda atropelar a oferta, teremos ou inflação ou desequilíbrio no balanço de pagamentos. Aí o crescimento é interrompido. Estado – Temos margem para crescer 4%, 4,5% em 2004? Giannetti – Nos primeiros trimestres de 2004 a economia vai simplesmente voltar a normalidade. Vai parecer formidável. O cenário que se desenha para 2004 é muito parecido com 2000. Crescemos 4,5%, a relação dívida/ PIB ficou estável, o câmbio não se depreciou e a meta de inflação foi cumprida. Muitas empresas investiram em expansão apostando que a segunda metade do segundo mandato de FHC iria repetir o padrão de 2000. Aí tivemos o apagão, que comprometeu um ano de crescimento. Estado – Quais são os entraves para o crescimento sustentado? Giannetti – A poupança do setor privado está sendo gasta para financiar o gasto do setor público. Estamos falando de um Estado que arrecada 37% do PIB, gasta 5% do PIB a mais do que arrecada e cuja capacidade de investimento é mínima. Isso prejudica em caráter muito profundo o potencial de crescimento da economia. Os recursos das empresas e das famílias, que poderiam estar sendo investidos em má-

Assim como o PT mudou o discurso a 6 meses da eleição para chegar ao poder, pode mudar para se manter no poder

O desemprego no Brasil não seria tão alto se tivéssemos um mercado de trabalho mais flexível

CENAS DO GOVERNO LULA
Lula e Aécio Neves andam de balsa em Itinga, Minas: vendendo o Fome Zero

Evelson de Freitas/AE

Dida Sampaio/AE

Marcio Fernandes/AE

De volta à fábrica: presidente cumprimenta operários em Mauá, SP

Evelson de Freitas/AE

Agrados para todos: Lula visita feira de pecuária em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul

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O GOVERNO APRENDIZ

NA INFRA-ESTRUTURA, INCERTEZAS
Investimento paralisado e falta de estabilidade na regulamentação podem impedir retomada
IRANY TEREZA e RENATO CRUZ

H

Saúde – No saneamento, existe muito a ser feito. Apesar de o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) ter apontado que 68,1% das residências brasileiras tinham saneamento no ano passado, se forem levadas em conta as ligações à rede geral de esgoto, o porcentual cai para 46,4%, menos que a telefonia. “É um problema de saúde pública”, disse o diretor do Departamento de Meio Ambiente e Energia do Instituto de Engenharia, João Eduardo Cavalcanti. “Existem estudos apontando que, a cada R$ 1 investido em saneamento, o governo Demora do governo na definição das regras para o setor de energia levou à paralisação dos investimentos em novos projetos economizaria R$ 4 na saúde.” O próprio Ministério das CidaPara ela, a retomada ficará trutura, o dedes calcula que o adiada em dois anos. O setor, sempenho do setor precisaria intensivo em capital, somente governo este de investimentos no longo prazo dá retorno ao in- ano certamenSituação dos setores de infra-estrutura de R$ 9 bilhões vestimento. E não há como ga- te foi deceppor ano. Mesmo rantir que os empreendedores cionante”, reEnergia Telecomunicações Saneamento Setor assim, o orçaafugentados este ano retornem sume Júlio mento deste ano no próximo, quando as novas Sérgio Gomes Lei Geral de Vários projetos de Medida Provisória Regulamentação destinou somennormas estão ainda em análise de Almeida, Telecomunicações (1997) lei no Congresso 144 (2003) Paralisação – “O agravamen- e com possibilidade de mudan- diretor-execute R$ 350 mito da insegurança regulatória ça. lhões para o sativo do Instituprovocou uma paralisia generaGoret argumenta que as in- to de Estudos neamento, somaR$ 8,9 R$ 9 R$ 20 Necessidade anual lizada”, diz Claudio Sales, pre- certezas para 2004 não se resu- para o Desendos a R$ 1,4 bibilhões* bilhões bilhões de investimento sidente do CBIEE. Ele não ar- mem aos investidores mas, volvimento Inlhão da Caixa risca uma cifra para os investi- principalmente, aos financiado- dustrial (IeEconômica FedeQuestionamento do É preciso definir Para os investidores, o Deficiências mentos de 2003 ainda, mas as- res dos projetos. “A grande per- di), organizaral, recursos libegoverno ao modelo regras para o governo tem excesso de segura que as gunta é: o se- ção empresarados somente preocupa investidor investimento poder e falta segurança empresas “litor será capaz rial que tem em novembro. mitaram-se a de atrair fi- contribuído “O investimento privado para projetos de longo realizar o mínanciamen- com órgãos em saneamento prazo nimo, em proto? O contra- do governo poderia criar mijetos já em anto de compra no fornecilhões de empre61,6% 68,1% 96% População atendida damento e e venda de mento de estugos, principalque não poenergia terá dos e diagnósmente para mão* Previsão para 2004 Fontes: Empresas, IBGE e Abinee diam ser interpeso suficien- ticos do setor. de-obra pouco rompidos”. A te para servir Destacanqualificada”, desMAIS CELULARES 46,0 organização d e g a r a n - do a baixa tatacou CavalcanFixo Evolução dos telefones Celulares representa os tia?”, indaga. xa de investiti. 38,8 Júlio Sérgio Gomes de móveis e fixos em serviço 37,4 grupos resEla lembra m e n t o d o Existem váAlmeida, diretor-executivo (em milhões) 30,9 ponsáveis por que o setor elé- País, que este rios projetos de do Iedi 39,3 34,9 61% da distritrico vem ad- ano deve ser lei no Congresso 24,9 buição de ministrando pouco supecom o objetivo re28,7 energia de todo o País e 28% graves crises desde 1993, quan- rior a 17%, Al- 20,3 gularizar o sa23,2 da geração, como AES, Iber- do era totalmente estatal e rece- meida aponta neamento. O endrola, EDF, VBC, entre ou- beu aporte de US$ 28 bilhões como princiviado pelo gover15,0 *Previsão 7,4 tros. do Tesouro para cobrir a ciran- pal motivo pano prevê parceA chefe do Centro de Ener- da de inadimplência que se es- ra uma aplicarias entre o po1998 1999 2000 2001 2002 2003* gia do Ibre, da Fundação Getú- palhou por todas as compa- ção de recurder público e a Fonte: Anatel lio Vargas, Goret Paulo, con- nhias. sos tão fraca a iniciativa privacorda com a avaliação de que Ao contrário das telecomuni- infra-estrutura. “É um proble- comunicações, o ano foi marca- uma decisão definitiva sobre o da, com contratos de conces2003 foi um ano perdido em re- cações, regidas por uma lei es- ma qualitativo e quantitativo. do por uma série de conflitos assunto. são de 20 a 30 anos, e uso de O destaque, tanto em cresci- bancos oficiais e instituições inlação aos empreendimentos pecífica, o modelo elétrico lan- Para um crescimento sustentá- entre o governo e a Anatel. No em energia elétrica: “Este foi çado há dez dias pelo governo vel, necessitaríamos de uma ta- principal deles, em julho, o mi- mento quanto em investimen- ternacionais. Nesta discussão, um ano de total paralisação se reporta a mais de 50 leis dife- xa de investimento entre 22% e nistro das Comunicações, Miro tos, foi a telefonia móvel. O nú- a maior polêmica diz respeito à das decisões de investimentos. rentes e a mais de 500 resolu- 25%. Mas o País, que tem em- Teixeira, discordou do reajuste mero de celulares ultrapassou titularidade: se o responsável Novos projetos foram adiados ções da Agência Nacional de presas ultramodernas, perde de telefonia fixa homologado o total de linhas fixas em servi- pelo setor é o município ou o goou mesmo cancelados e os gas- Energia Elétrica (Aneel), como competitividade em logística.” pela Anatel e incentivou os con- ço. A base de telefones fixos fi- verno estadual. O marco regusumidores a questioná-lo na cou praticamente estagnada, latório para o setor ficou para o tos se resumiram à manuten- chama a atenção a analista. ção do sistema.” “Na parte relativa à infra-es- Desentendimento – Nas tele- Justiça, que ainda não deu apesar de existirem cerca de 10 ano que vem.

ouve pouco avanço no setor de infra-estrutura durante o primeiro ano de governo. A falta de investimentos em energia e transporte pode ser um gargalo à retomada do crescimento econômico. No setor elétrico, houve suspensão de todos os novos projetos. O modelo regulatório, inicialmente previsto para junho, foi adiado sucessivamente até sair por Medida Provisória em dezembro, sob uma saraivada de críticas, e ainda depende de aprovação do Congresso. Nas telecomunicações, os desentendimentos entre o Ministério das Comunicações e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) deixaram os investidores preocupados. No saneamento, área de infraestrutura mais carente de investimento, o chamado marco regulatório ainda está para ser definido. Precisam ser criadas as regras para a participação da iniciativa privada, com o objetivo de fazer frente a uma necessidade de investimento de R$ 178 bilhões até 2020. Em outubro, o ministro do Planejamento, Guido Mantega, apresentou o projeto do governo para as parcerias público-privadas em investimentos do setor público, mas a complexidade do assunto e váriasdúvidas dos investidores indicam que o esquema pode demorar a decolar. O setor de eletricidade não espera grandes investimentos em 2004, apontado como “de adaptação”. A retomada, na melhor das hipóteses, virá somente em 2005. A Câmara Brasileira de Investidores de Energia Elétrica (CBIEE), órgão que congrega os 15 principais investidores privados no País, nacionais e estrangeiros, calcula em R$ 20 bilhões anuais a necessidade de aplicação de recursos em geração, transmissão e distribuição de energia para garantir um crescimento de 3,4% do Produto Interno Bruto (PIB) ao ano. Pelo menos R$ 11 bilhões viriam da iniciativa privada, que este ano se restringiu a iniciativas marginais.

milhões de linhas em estoque. A universalização do serviço foi barrada pela má distribuição de renda. Em outubro, o diretor-geral da Telefônica São Paulo, Manoel Amorim, criticou a ausência de uma política pública para telecomunicações. “Não existe uma visão precisa de futuro, que esteja à altura dos recursos que existem para serem investidos”, explicou Amorim. “Existem recursos abundantes no mundo para onde tem visão. Estamos ficando para trás.” Para a analista Juliana Abreu, da Pyramid Research, as divergências entre o ministério e a Anatel tiveram um impacto negativo no mercado, pois aumentaram a incerteza no cenário regulatório. Segundo ela, o governo precisaria desenhar um plano para o setor nos próximos cinco anos, como foi feito à época da privatização. “É necessário articular um plano, sinalizando como o mercado vai crescer e se expandir”, explicou Juliana. Ela destacou, porém, que as metas precisam ser realistas. O grande desafio para a política de telecomunicações seria ampliar a universalização, levando telefonia para consumidores de baixa renda, e, ao mesmo tempo, propor serviços que sejam viáveis do ponto de vista das operadoras.

GARGALOS DO CRESCIMENTO

Na parte relativa à infra-estrutura, o desempenho do governo foi decepcionante

TALK

END

1 4 7 *

2 5

3 6 9 #

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0

AVALIAÇÃO DO GOVERNO LULA

Está sendo feito exatamente o que foi proposto no programa governamental. O governo superou a situação de crise do NOTA início do ano. Mas eu prefiro não dar nota

-

Na política econômica, o governo Lula acertou no atacado, mas lamentavelmente o consumo no varejo NOTA foi esquecido

Roberto Setubal, presidente do Banco Itaú

6

No que teve de continuação do governo anterior, foi até mais à frente, como no ajuste fiscal. Onde criou expectativa de que ia inovar, como na área NOTA social, ficou devendo

Arthur Sendas, presidente do Grupo Sendas

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Salomão Quadros, economista da FGV

Paulo Liebert/AE

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O GOVERNO APRENDIZ
CARLOS FRANCO

presidente da Companhia Vale do Rio Doce (CVRD), Roger Agnelli, passa 12 horas por dia fazendo contas e tomando decisões com impacto nos resultados da companhia. A Vale faturou, entre janeiro e setembro, R$ 7,4 bilhões, com lucro líquido de R$ 3,7 bilhões no período, ante R$ 502 milhões de janeiro a setembro de 2002. Na ponta do lápis, esse economista formado pela Fundação Armando Álvares Penteado em 1981, que, antes, passou pelas cadeiras do tradicional Colégio Rio Branco, diz que o saldo do primeiro ano do governo petista de Luiz Inácio Lula da Silva é positivo, tanto quanto o da companhia. Na sua avaliação, o governo Lula encerra 2003 “com um enorme ganho de credibilidade ao executar políticas interna e externa que irão abrir caminho para o desenvolvimento e o crescimento de forma sustentada”. Na conta favorável ao governo, Agnelli destaca a aprovação das reformas da Previdência e tributária, a estabilidade das regras cambiais, a redução das taxas de juros e o controle da inflação. E o emprego e os compromissos sociais de Lula em campanha? “Sem uma política rigorosa de combate à inflação e controle dos gastos, qualquer ganho correria o risco de se perder rapidamente”, diz, apostando que, a partir de agora, o emprego poderá surgir de forma sustentada, assim como o crescimento. “Aposto em crescimento de 3% a 4% do PIB (Produto Interno Bruto) em 2004. É um ano que pode surpreender, favoravelmente.” O economista, de 44 anos, entrou para os quadros do Bradesco ao concluir a faculdade e assumiu o comando da Vale em maio de 2000, empresa na qual a Bradesco Participações (Bradespar) é o maior acionista individual. Palmeirense, Agnelli fez carreira no Bradesco, onde Lázaro Brandão o apelidou de “menino do café”, por participar de reuniões de diretoria do banco quando ainda era muito jovem e ter se tornado o mais novo diretor da instituição financeira sediada na Cidade de Deus, em Osasco, aos 38 anos. Para Agnelli, os investimentos da Vale de janeiro a setembro, totalizando US$ 1,5 bilhão, e as exportações, somando US$ 2,7 bilhões, são o melhor exemplo de que “Lula trouxe confiança a investidores e ao mercado”. Ele prevê encerrar o ano com investimento de US$ 2 bilhões, que deve se repetir em 2004 e 2005. Na semana do Natal, ele comemorava o fato de a Vale estar cotada nas Bolsas a US$ 21 bilhões, a cotação mais alta em 61 anos de história da empresa que nasceu estatal na era Vargas e foi privatizada no governo Fernando Henrique Cardoso.

O

mais rápida e eficaz as questões ambientais. Mas acho normal que o governo leve um certo tempo para discutir estas questões. Elas são complexas e há muitos pontos e interesses contraditórios. A demora, porém, passa a ser positiva quando se tem a certeza de que o governo está tentando acertar e não criar novos problemas. Estado – A Vale tem projetos na área de energia. O modelo do setor elétrico foi motivo de polêmica, o senhor o aprova? Agnelli – O mais importante é que, agora, temos um modelo. Um ponto de partida para discutir, o que antes não havia. É natural que ocorram críticas, mas o mais importante é que agora temos um marco, um ponto de partida até para avaliar as críticas e os acertos, procurando contribuir para que o governo acerte ao regulamentar o setor. Estado – E as reformas? O que falta para manter esse clima de otimismo, de queda do risco Brasil? Agnelli – Passou a reforma da Previdência, a tributária, agora a trabalhista está vindo aí e já se começa a falar da reforma política. O importante é que o governo está encarando os problemas de frente, não está jogando esses problemas para debaixo do tapete. Eles estão aí. É com a reforma trabalhista que você terá como criar novos empregos. É com a reforma política que você consolidará ainda mais a democracia. No conjunto, todas são essenciais para a percepção do Brasil, tanto aqui como no exterior. Agora, não há dúvidas de que o emprego é um desafio enorme, a ser enfrentado com mais velocidade, assim como os investimentos em infra-estrutura. Estado – Os projetos de Parcerias Público-Privadas (PPP) seriam uma alternativa para criar novos empregos e, ao mesmo tempo, solucionar problemas de infraestrutura? Agnelli – As parcerias são uma alternativa. Mas é preciso ter projetos. O custo de capital é fundamental, mas não é o essencial. O que se tem que ter para que os investimentos em infra-estrutura saiam do papel é estabilidade de regras. É a visão de longo prazo que faz com que os investimentos nessa áreas ocorram. É preciso também que o governo tire rapidamente todos os entraves da frente para que esses projetos venham a se realizar. Se você tiver bons projetos, num ambiente macroeconômico estável, com regras estáveis, o dinheiro rende. Os empregos são criados e, depois, mantidos. O problema em muitos casos não é de dinheiro, mas de estabilidade de regras. Precisamos ter simplificação nas regras. O problema da energia, por exemplo, não afeta apenas o setor de mineração, mas diversas e diferentes cadeias produtivas. O governo precisa atacar a questão do meio ambiente, senão teremos problemas em breve, já enfrentamos um apagão. A sorte é que, tenho certeza, o governo Lula está muito consciente e determinado a corrigir esses problemas. Até porque sabe que isso irá se traduzir em empregos, em crescimento.

Roger Agnelli, presidente da Companhia Vale do Rio Doce: governo encerra seu primeiro ano com um enorme ganho de credibilidade

‘VANTAGEM DE LULA É SABER OUVIR’
No balanço do presidente da Vale, Roger Agnelli, 1.º ano do governo Lula é uma surpresa positiva
a manter esse clima de otimismo. Elas (as reformas) abrem caminho para a continuidade desse ambiente positivo. E tudo isso se completa com a redução dos juros em função justamente desse clima de confiança no governo, das suas atitudes firmes na condução macroeconômica. Além disso, o governo Lula soube dar a importância devida e ter o cuidado necessário para que a inflação não retomasse o fôlego. Ela já foi domada. É isso que motiva os investimentos e cria essa clima de confiança. Estado – A Vale investiu quanto este ano? Agnelli – De janeiro a setembro, foram US$ 1,5 bilhão e vamos encerrar o ano com investimento de US$ 2 bilhões, que vai se manter em 2004 e em 2005, dentro do nosso projeto de globalização, de maior presença no mercado mundial. Este é mais um sinal de que Lula trouxe confiança a investidores e ao mercado porque temos tido boa aceitação no mercado externo, não há desconfiança em relação ao Brasil. É certo que corremos um risco enorme em investir naquele momento de início de um novo governo, mas hoje podemos encerrar o ano com a certeza de que os investimentos foram corretos e estão dando resultado. Outras empresas estão investindo e vão investir ainda mais daqui para frente porque o clima de credibilidade deve continuar a existir. A Vale, por exemplo, continuará investindo, apostando no seu crescimento e no do País. vestir? Agnelli – O projeto da Vale, que deve investir US$ 6 bilhões nos próximos quatro anos, é chegar em 2010 ao seleto grupo das três maiores empresas diversificadas de mineração do mundo, ao lado de BHP Billington e Anglo American. Hoje, estamos entre as cinco maiores mineradoras e continuaremos investindo para sermos uma empresa brasileira e global. Estado – O senhor está no comando de uma das maiores empresas de mineração do mundo e está feliz e surpreso positivamente com o governo Lula. Mas será que ele não frustrou aqueles trabalhadores a quem prometeu crescimento e emprego neste primeiro ano de governo, durante a campanha eleitoral? Agnelli – Sem uma política rigorosa de controle da inflação e dos gastos, qualquer ganho em crescimento e emprego correria o risco de se perder rapidamente. Não se sustentaria, como vimos acontecer várias vezes no passado. Nós estamos muito melhores que estávamos há 12 meses. Temos que aplaudir o governo Lula, que foi de muita responsabilidade, muito rigor neste primeiro ano. Foi certamente um ano duro porque foi exigida uma atitude dura. O País estava numa situação muito complicada. Você tinha que optar: ou olhava para o longo prazo ou olhava para o curto prazo. A visão de longo prazo exigia a estabilidade das regras, do câmbio flutuante, o respeito e manutenção dos contratos. Resultado: a parte macroeconômica está muito bem. Os fundamenregulamentações. Há contradições. Mas ninguém parece ter dúvidas de que o governo Lula foi uma surpresa positiva. Por isso, os mercados reagiram rápida e positivamente a seus atos de governo, todos pautados no respeito à lei e aos contratos. Se olharmos para trás e virmos o Lula e o PT, muitos poderiam não acreditar no que estão vendo hoje. Havia quem imaginava que o Brasil fosse acabar. Que os contratos não fossem ser respeitados, que a dívida interna e externa não fosse honrada. O Brasil, no entanto, não acabou. Melhorou. Hoje, eu diria sem medo de errar, que há muito mais credibilidade e confiança no ar. Melhor ainda: há uma forte expectativa de que poderemos e vamos crescer nos próximos anos. Eu não tenho também a menor dúvida de que o clima de confiança continuará sustentando o crescimento no próximo e nos próximos anos. Estado – A que o senhor atribui esta confiança? Agnelli – Há um clima de responsabilidade fiscal e política. Há uma preocupação por parte do governo de buscar o acerto em todas as áreas. Há mais ainda, em relação ao passado: a grande vantagem do diálogo. O presidente Lula sabe ouvir. Ele é sensível aos pleitos da sociedade, e fala com clareza o que pensa e o que acha. Não há, ao contrário do que muitos temiam, surpresa. As reformas da Previdência e tributária, por exemplo, foram apresentada pelo governo com rapidez e votadas pelo Congresso no mesmo ano. E outras reformas deverão vir, o que ajuda tos são sólidos. Por isso, os investimentos externos estão voltando, os juros caindo. Todo o empresariado tem uma perspectiva muito boa para 2004. Se para alguns Lula era o fim do Brasil, isso não ter acontecido já é um ganho enorme para o País e para a sociedade. Ninguém duvida que o emprego é um desafio, e muitos esperam um emprego nas filas, mas sem uma estrutura macroeconômica definida, forte, você não teria como criar condições para a criação de empregos de forma sustentada. Seria o mesmo que empregar hoje para demitir amanhã. Não tenho dúvidas de que este é um problema a ser enfrentado, de preferência com urgência. Mas é preciso entender que, hoje, estamos muito melhores e muito mais confiantes no futuro do que estávamos no final do ano passado, antes da posse de Lula. Estado – Apesar desse otimismo, o senhor mesmo diz que ainda há problemas a serem enfrentados. Agnelli – Existem alguns problemas de regulamentação, ajustes que devem ser feitos. A vantagem, repito, é que esse governo escuta. Acho que a sociedade, incluindo as empresas, tem participado mais do que no passado. E o governo tem ciência dos problemas a serem enfrentados em áreas como meio ambiente, energia e transporte. A área de transportes, por exemplo, estava completamente abandonada. Existe hoje um déficit enorme em transporte e o País para crescer precisa resolver esse problema. No caso da energia, os problemas não são menos graves. É preciso solucionar de forma

A democracia está fortalecida. A Constituição, respeitada. O novo governo respeita as leis e os contratos

Temos de aplaudir o governo Lula, que foi de muita responsabilidade, muito rigor neste primeiro ano

O problema em muitos casos não é de dinheiro, mas de estabilidade de regras

Estado – Como o senhor avalia o primeiro ano do governo de Luiz Inácio Lula da Silva? Ele o surpreendeu? Roger Agnelli – Se olharmos o que significa a eleição de Lula, veremos o quanto foi positiva. A democracia está fortalecida. A Constituição, respeitada. O novo governo respeita as leis e os contratos. Há ainda muito a fazer, falta

Estado – Isso quer dizer que a Vale continuará a in-

CENAS DO GOVERNO LULA
O presidente inspeciona um leitão assado em feira agrícola em Chapecó, Santa Catarina

Fotos: Ed Ferreira/AE - 25/6/2003

Dida Sampaio/AE

Ed Ferreira/AE

Lula oferece brinde de chopp em desfile na Oktoberfest, em Blumenau

Dida Sampaio/AE

Presente dos brasileiros no Líbano, o bolo é cortado por Lula com uma espada, num hotel em São Paulo

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O ESTADO DE S.PAULO - X19

O GOVERNO APRENDIZ

A INDÚSTRIA À ESPERA DE POLÍTICA
Setor vai contar apenas com medidas específicas para desfazer gargalos e atrair investimentos
SUELY CALDAS

não for, nossa margem de erro nas escolhas será enorme”, responde Arbix aos que acusam o governo de lentidão.

IO – Quem apostou que o governo Lula agisse em radical oposição à falta de ação do governo FHC e praticasse uma política industrial intervencionista, detalhada e abrangente, com incentivos previamente definidos e crédito abundante, perdeu aposta e esperança. Em seu primeiro ano de gestão, o governo do PT conseguiu produzir apenas duas iniciativas: uma prática – a polêmica redução do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para a indústria automobilística, que dividiu o governo – e outra teórica – o documento “Diretrizes de política industrial, tecnológica e de comércio exterior”, divulgado em novembro, depois de sucessivos adiamentos. A não ser medidas pontuais para atrair o investimento e desfazer gargalos, sobretudo nos quatro setores eleitos como prioritários (bens de capital, fármacos e medicamentos, se- Documento divulgado pelo governo elegeu como prioritários os setores de bens de capital, fármacos, semicondutores e software micondutores e software), os entre eles o tu- planeja a política industrial do tismo nas ações de governo, se- zação de máquinas e equipaletividade na escolha dos seto- mentos nos setores agrícola industriais cano José Ser- governo Lula. res industriais e não preconcei- (Moderfrota) e industrial (Mobrasileiros ra e o senador não devem espetista Aloi- O que será – “Tem gente espe- to na adoção de incentivos – dermaq) e medidas para atrair perar por inszio Mercadan- rando que o Estado abra a tor- sempre pontuais e temporários empresas estrangeiras para trumentos de te. Não tive- neirinha do dinheiro. Isto é po- – quando o governo julgar ne- produzirem no Brasil. Novas política, como ram em 2003, lítica do passado e não vai acon- cessário, como aconteceu com ações podem ser decididas, mas o governo não vai estender proteção tarinão terão em tecer neste governo. Não have- o acordo automotivo. Antigo companheiro de Pa- políticas públicas para todos os fária, crédito 2004, nem no rá incentivo irrestrito. A polítifavorecido ou decorrer do ca industrial será pragmática, locci no grupo radical de es- setores industriais, como ocorrenúncia fisgoverno intei- seletiva e sem preconceitos”, querda Liberdade e Luta (Libe- reu nos governos militares. “Depois de 20 anos sem polícal, vistos pero. A receita é responde o presidente do Insti- lu) e hoje coordenador da polítiGlauco Arbix, la equipe de investir em tuto de Pesquisa Econômica ca industrial de Lula, o sociólo- tica industrial, o Estado não popresidente do Ipea Lula como tecnologia, ga- Aplicada (Ipea), Glauco Arbix, go Glauco Arbix afirma que o de ser o único responsável. Só “benesses do nhar eficiên- a decepcionados empresários e governo vai ajudar no cresci- empresários de cultura atrasapassado”. Tampouco devem cia e aumentar produtividade economistas que esperavam mento da produção industrial da querem o Estado mandancontar com intervenções do para garantir bons lucros. É o ações concretas e viram no do- em 2004 desfazendo gargalos do em tudo. Não é nossa intenBanco Central para socorrer o que aconselham o ministro da cumento sobre diretrizes “um na exportação e no marco regu- ção. A política industrial tem dólar e as exportações, como Fazenda, Antonio Palocci, e o tímido guia de intenções”. Se- latório, com programas de cré- de ser definida em debate públipropõem alguns economistas, núcleo técnico que concebe e gundo Arbix, haverá pragma- dito para estimular a moderni- co com a sociedade. Se assim

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Tem gente esperando que o Estado abra a torneirinha do dinheiro. Isto não vai acontecer

Abertura – Aumentar ou reduzir o grau de abertura comercial não está nos planos do governo Lula. Se no governo passado, Pedro Malan e Armínio Fraga defendiam a idéia de abrir mais a economia e reduzir tarifas de importação como instrumento de política, o governo Lula admite intervenções pontuais, como a redução tarifária para bens de capital. Mas medidas genéricas nessa direção só no âmbito dos países do Mercosul, o que não está na ordem do dia hoje. Prioridade decidida há em relação à ações de incentivo à ciência, pesquisa e desenvolvimento tecnológico. “Em inovação tecnológica sim, há incentivos e linhas de crédito para projetos. E não só para universidades, também para empresas”, avisa Arbix. Com exceção da conduta agressiva do ministro do Desenvolvimento, Luiz Fernando Furlan, viajando pelo exterior em missões comerciais, pouco ou nada aconteceu de novo no comércio exterior. Em 2003 as exportações foram impulsionadas muito mais pela recessão da economia e o cambio favorável do que por novas medidas de incentivo. Não é propósito do governo Lula fazer do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) um Eximbank, para priorizar o crédito para exportações, como queria o ex-ministro Sérgio Amaral. Na política cambial prevaleceu a posição do Ministério da Fazenda e do Banco Central de não forçar desvalorizações do real para ajudar as vendas externas. E a melhor prova de que isto teria sido desnecessário é o megasuperávit da balança comercial de 2003, que vai fechar o ano acima de US$ 24,5 bilhões.

O NOVO E POLÊMIC0 BNDES
Lessa compra brigas ao tentar trazer de volta o desenvolvimentismo
FERNANDO DANTAS

Epitácio Pessoa/AE

IO – A maior exceção à continuidade da política econômica, entre o governo de Fernando Henrique Cardoso e o de Luiz Inácio Lula da Silva, foi o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). O novo presidente do BNDES, Carlos Lessa, iniciou uma mudança drástica na instituição, e sua atuação ao longo de 2003 foi um foco constante de polêmicas dentro e fora do governo. Dois casos, particularmente, jogaram o BNDES nos holofotes da mídia e do público durante 2003. O primeiro foi a inadimplência, junto ao BNDES, da empresa de energia norte-americana AES, que havia, no governo anterior, tomado um crédito de US$ 1,3 bilhão para comprar a Eletropaulo (o acordo final entre o banco e a AES só foi fechado na última sexta-feira). O segundo caso foi a aquisição pelo BNDES, em novembro, de 8,5% do capital da Valepar, controladora da Vale do Rio Doce, por R$ 1,5 bilhão. A operação foi criticada como es-

Rafael Neddermeyer/AE

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tatizante. Também chamou a atenção a disposição da nova direção do banco de financiar empresas de países vizinhos, como Venezuela e Argentina. Na verdade, porém, algumas das medidas de maior impacto tomadas por Lessa estão ligadas ao funcionamento interno do BNDES. Um dos seus principais objetivos foi o de desativar as características de ‘banco de investimentos’ assumidas pela Nova diretoria, chefiada por Lessa, pretendeu simplificar a máquina, mas operações desaceleraram instituição durante a décacadas”, criticou o consultor Gus- trutura burocrática excessivada de 90. Natavo Loyola, ex-presidente do mente inchada e a recompactei. quela feição, Banco Central (BC). Fiz isso em seis semanas e sem que acompaOs efeitos das mudanças de gastar um tostão. A reforma annhou a particiLessa, até agora, têm sido confu- terior custou R$ 8 milhões ao pação do BNsos. Por um lado, a visão de polí- BNDES”, afirmou Lessa ao EsDES na privatica industrial do novo BNDES tado, em março. tização, o bannão se encaixa com a orientação Maurício Borges Lemos, co procurava geral de Lula (ver reportagem atual diretor de Planejamento, Carlos Lessa, presidente do BNDES alocar seus acima). Por outro, o estilo abrup- explicou na época que a reforempréstimos to e agressivo de Lessa e seus au- ma de Gros tinha estabelecido subsidiados para os projetos vimentista e de política indus- xiliares funciona como um am- duas análises de risco para as mais seguros e rentáveis. E, ao trial setorial. Uma das medidas plificador de conflitos. demandas de crédito: no momesmo tempo, abstinha-se de mais polêmicas de Lessa foi a A primeira grande iniciativa mento em que o pedido entrava um papel ativo de planejar o de- mudança das políticas operacio- de Lessa foi uma reforma admi- no banco, e, posteriormente, senvolvimento nacional. nais do BNDES, que flexibilizou nistrativa, em março, para des- nas áreas de produtos do banco: No lugar do banco de investi- a relação entre o risco da empre- fazer as mudanças introduzidas “Agora a análise é feita de uma mentos, Lessa está tentando re- sa cliente e o custo do crédito, pelo ex-presidente do banco, só vez, na entrada”. criar o ‘banco de desenvolvi- uniformizando o chamado Francisco Gros, em 2001. Na reApesar da aparente simplifimento’, caracterizado pela in- ‘spread de risco’. “É um incenti- forma de 2003, o número de cação, o BNDES andou em terferência na estratégia das vo às empresas de maior risco, e áreas do BNDES foi reduzido marcha lenta nas aprovações e empresas, numa ótica desenvol- um desincentivo às menos arris- de 25 para 12. “Peguei uma es- liberações de empréstimos até

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Novas regras incentivam empresas de maior risco e desincentivam as de menor
Gustavo Loyola, ex-presidente do BC

Agora, a análise é feita de uma só vez, na entrada (do pedido de crédito)
Maurício Borges Lemos, diretor do BNDES

Peguei uma estrutura burocrática e inchada e recompactei, sem gastar um tostão

meados do segundo semestre. Os críticos atribuíram a desaceleração dos financiamentos à turbulência que as constantes mudanças nas chefias e na estrutura de cargos teria provocado. A atual diretoria defende-se apontando a retomada do ritmo de liberações no final do ano, e observando que a estagnação do PIB em 2003 reduziu a demanda por financiamentos. Outro foco de polêmica foi a queda de braço entre o BNDES e o Tesouro nacional sobre uma possível capitalização do banco. A solução final foram alterações contábeis que permitirão ao BNDES aumentar sua capacidade de financiamento em 2004.

AVALIAÇÃO DO GOVERNO LULA

Foi uma boa surpresa a condução da política econômica, mas me preocupo com o lado NOTA executivo da presidência

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Pelo equilíbrio macroeconômico, o governo merece nota 8, mas foi um ano perdido para NOTA o setor de energia

Manoel Horácio da Silva, presidente do Banco Fator

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Adriano Pires, consultor da área de energia

Foi um ano de recomposição de expectativas: arrumaram a casa, recuperaram a credibilidade. Agora começa a fase de NOTA favorecer o crescimento

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Abram Szajman, presidente da Federação do Comércio de SP

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QUARTA-FEIRA, 31 DE DEZEMBRO DE 2003

O GOVERNO APRENDIZ

ESPELHO, ESPELHO MEU

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Temos trabalhado aqui como jamais se trabalhou nesta República, nem na República Velha, nem na República Nova

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Nós estamos construindo, nesses 11 meses, um Brasil em que o preconceito não está sendo jogado embaixo do tapete, mas está sendo extirpado da nossa sociedade

As coisas estavam tão difíceis que o povo falou: está precisando de um presidente pernambucano para tomar a Presidência da República

Nossa política externa, soberana, ativa e criativa, está à altura dos maiores valores do Brasil. As linhas de crédito internacionais foram inteiramente restabelecidas. O real se fortaleceu. Reduzimos e dominamos a inflação

Nós estamos em um porto seguro. O iceberg do Titanic já foi afastado e, pelo fato de o presidente ser metalúrgico, a gente soldou bem todos os buracos por onde entrava água

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OS NÚMEROS DE LULA LÁ

Eu acho que poucas vezes os homens públicos deste país trabalharam com tanta dedicação e com tanta vontade de fazer o melhor

Eu acho que nós já conseguimos, em seis meses, do ponto de vista de política internacional, aquilo que muitos estudaram a vida inteira e não conseguiram fazer

Deito a cabeça no travesseiro e durmo o sono justo, daqueles que têm a consciência limpa do dever cumprido. Não fizemos mais porque não tínhamos condições de fazer mais

discursos e mentos pronuncia

236

medidas provisórias editadas (4,6 por mês)

56

leis sancionadas

194

projetos de lei enviados

26

propostas de emenda constitucional enviadas

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,6 milhões 3
elo ndidas p ílias ate ília fam olsa-Fam grama B Pro

e Brasília: dias fora d rior, 70 em 68 no exte e 47 em São Paulo ades outras cid

185

viagens nacionais

51

ais ternacion viagens in

20

participações em enterros e velórios

7

visitas ao Congre sso

4

945.351
empregos criados no mercado formal (até novembro)

reuniões ministeriais

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autoridad

es contund

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idas

3.100
cisternas construíd as no semi-árido

churrascos para ministros

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Estad

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dos os visita

e Estado chefes d o País visitaram

22

bonés ganhos
ArtEstado/Carlinhos/Glauco Lara

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3.500
presentes recebidos até novembro

89.000
cartas recebidas no Planalto até novembro

1.500
livros rece bidos até novem bro

CDs receb idos até novembro

800

1.227
municípios aten didos pelo Programa Fome Zero

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