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PIPAS E MATEMÁTICA

PIPAS E MATEMÁTICA

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Published by: Nathan D'Avila on Jan 29, 2011
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MODELAGEM MATEMÁTICA: Um projeto com Pipas

Analúcia D’Avila

RESUMO: Com o objetivo de apresentarmos a geometria, que muitas vezes é tão abstrata para os alunos do Ensino Fundamental, nos apropriamos da Modelagem Matemática. Como este método de ensino parte da compreensão do concreto para atingir um objetivo matemático escolhemos a pipa que é um brinquedo simples e encantador que muitas crianças e adolescentes brasileiros utilizam para se divertir e com ela podemos aprender muito. Este foi um projeto desenvolvido com alunos do 7º ano do Ensino Fundamental e tem por finalidade mostrar aos alunos a presença da Matemática nos brinquedos e nas situações do cotidiano, visando potencializar o processo ensino aprendizagem de conceitos geométricos através do material concreto e da prática de construção da pipa. Palavras chave: Pipa; Brinquedo; Modelagem Matemática; Geometria.

ABSTRACT: Using Modelling, we introduced Geometry to Middle School kids. This method starts with a real object or situation leading to a Mathematic goal. Thinking of that, we have chosen the Kite that is a simple and charming toy that lots o Brazilian kids and teenagers like to play with, to have fun and they have can learn a lot form it. This project was developed with 7 th grades and was done to show the students that Math is present in toys e everyday situations; our goal was to help them in the learning process of geometry using the kite construction. Key-Words: Kite; Toy; Modelling; Geometry.

raciocinar. leva em conta o contexto sócio-cultural e viabiliza a interdisciplinaridade. Documentos oficiais.2 1 INTRODUÇÃO Ter aulas de matemática. 1991. trabalhar as áreas dos polígonos. difíceis de acompanhar. os professores e estudiosos do assunto. 1997. A Modelagem Matemática tem sido defendida como uma das abordagens pedagógicas para o ensino de Matemática (Anastácio. A falta de interesse dos alunos tem aumentado a cada dia e dentre tantos fatores que ajudam a intensificar esta falta de interesse são as novas tecnologias como por exemplo a internet e a televisão. Tem-se estudado por todo o mundo formas alternativas para tornar a matemática menos difícil ou menos chata. Este projeto tem como objetivo mostrar aos alunos que a matemática também pode ser divertida e está no dia-a-dia deles. agudo ou obtuso. identificar os polígonos presentes na armação das pipas. pensar nos vários caminhos alternativos que podem tomar para resolver as várias situações em que eles se encontram no seu dia-a-dia. Meneghetti & Hermini. ou seja. Desta forma pretendemos fazer com que o ensino-aprendizagem em sala de aula seja mais dinâmico e que desperte o interesse de nossos alunos. 1994b. entre outras coisas. também abordam este tema e se utilizam desta teoria para incentivar atividades nas escolas. monótonas. Tais tecnologias tem propiciado aos alunos encontrar tudo pronto. usaremos a construção de pipas. PCNs. entre outros conceitos matemáticos. para a grande maioria dos alunos. fazer com que os alunos compreendam e consolidem algumas noções matemáticas como a classificação dos ângulos em reto. ensinar aos alunos a trabalharem com transferidores para que façam as leituras dos ângulos. “A modelagem matemática consiste na arte de transformar problemas da realidade em problemas matemáticos e resolvê-los interpretando suas soluções na linguagem do mundo real” ( Bassanezi. Borba. 1990. 1994a. Tentando amenizar este problema no nosso dia-a-dia como professores decidimos experimentar a Modelagem Matemática como ferramenta de ensino em sala de aula. reconhecer e representar simbolicamente os elementos de um polígono como vértices. tomar decisões. Levando tudo isto em conta. como os Parâmetros Curriculares Nacionais de Matemática. Referindo-se às vantagens. para nos auxiliar no aprendizado de alguns conceitos geométricos que por muitas vezes é de difícil compreensão por parte dos alunos. defendem que a Modelagem contribui na compreensão dos conceitos matemáticos. por ser um assunto que interessa aos alunos na faixa etária do Ensino Fundamental. 1999). Como professores de matemática podemos perceber que as aulas de matemática são geralmente tachadas como chatas. Blum & Niss. lados ângulos. eles não precisam de pensar. desenvolve habilidades de experimentação. . Bassanezi. 1994). muitas vezes é penoso.

Tudo começou quando o homem primitivo se deu conta de sua limitação diante da capacidade de voar dos pássaros.1 Etapas: Construção das pipas em sala de aula. Teorias. desafiando a natureza com sua imaginação. beleza e encantamento. símbolos e mitos. ele continuou a ousar. tentaram alcançar a liberdade voando. papel. As pipas nascem desta tentativa frustrada de voar. Construíram asas com cera e penas e conseguiram escapar. aprofundar e solidificar alguns conceitos geométricos de forma mais concreta. Essa frustração foi o mote para que ele dessas asas a sua imaginação. aprisionado no labirinto de Creta pelo rei Minos. 2. de alçar vôo de terra firme. quando o homem transferiu para um artefato de varetas. Educação Física e Educação Artística. Dédalo. Todo esse encantamento demonstrado pelas pipas nos fez perceber que. Ícaro negligenciou a prudência e chegou muito perto do Sol. que derreteu a cera das asas e precipitou-o ao mar matando-o. Mesmo levando em conta o estranho acidente da lenda de Ícaro. cola e linha sua vontade intrínseca de planar. a data aproximada gira em torno de 200 anos antes de Cristo. Análise das pipas quanto aos ângulos. Confecção dos relatórios de aprendizagem dos alunos. lendas e suposições tendem a demonstrar que o primeiro vôo de uma pipa ocorreu em tempos e em várias civilizações diferentes. Apesar das recomendações do pai embevecido pela possibilidade de dominar os ventos. mas. Foi desenvolvido 7º ano do Ensino Fundamental onde pudemos introduzir. Para introduzir o projeto aos alunos falamos um pouco sobre a história da pipa que é recheada de mistérios. polígonos e áreas Levamos os alunos para “soltar” ou “empinar” a pipa. esse projeto iria integrar a curiosidade e o senso comum dos alunos e o conhecimento formal de matemática proposto pela escola. O local: China. mas principalmente de muita magia. com toda certeza. De qualquer forma o homem não parou por aí. de lendas.3 2 MATERIAL E MÉTODOS Este projeto da pipa pode ser desenvolvido como um projeto interdisciplinar envolvendo as seguintes disciplinas: Matemática. . O primeiro vôo do homem está registrado na mitologia grega e conta que Ícaro e seu pai.

2. a pipa não é um brinquedo que faz parte do dia-a-dia das crianças e que muitos de nossos alunos já tinham visto a pipa e tinham ouvido falar sobre ela da experiência dos pais. trouxeram o material necessário para a\construção das pipas direcionados pelos facilitadores ( professores). no 7º ano do ensino fundamental muitos alunos não sabiam como utilizar ou ler os transferidores e uma fala muito interessante deles foi que todos os anos este item estava incluso em suas listas de material. tesoura. 2. pudemos ainda em sala. Tivemos que recorrer a bairros mais humildes para encontrar o bambu. Outra curiosidade. e destacamos os ângulos formados dando a eles nomes específicos.2. porém os alunos tiveram grande dificuldade de encontrar as varetas de bambu necessárias para a armação da pipa. Figura 1.1.2 Estratégias de realização: 2. Material necessário: 3 varetas de bambu : 2 de 40 cm e 1 de 60 cm Linha de algodão nº 10 Papel de seda Sacola plástica para rabiola Uma garrafa pet de 600 ml para enrolar a linha Cola branca. Pudemos constatar que na região da escola. retos e obtusos. mas que nunca havia sido utilizado por nenhum professor. O interessante é que pensávamos que seria muito fácil de conseguir o material.3. Deixamos que os alunos explorassem as formas geométricas e dessem nome os polígonos que eles conheciam. falar dos conteúdos matemáticos aplicáveis à pipa.2.4 2. Ao explorarmos juntos a pipa os alunos faziam anotações para que ao fim do processo pudessem escrever seus relatórios. Análise “matemática” da pipa Depois de duas aulas confeccionado as pipas.2. utilizando letras maiúsculas. Ao medirmos os ângulos pudemos falar sobre a classificação dos ângulos em agudos. Formato da pipa confeccionada pelos alunos . Ao desenharmos os polígonos demos nomes aos vértices. um bairro de média classe. Com o transferidor pudemos medir os ângulos. régua e transferidor. Iniciamos por analisar os vértices da pipa e os polígonos que a constitui.2. Confecção da pipa: os alunos em grupos de dois.

mas estes alunos experimentaram a solidariedade dos colegas que proporcionaram a eles momentos de alegria ao empinarem as pipas dos colegas.5 Ao falarmos sobre área e perímetro.2.5. “Soltando” ou “empinado” a pipa Esta foi. tiveram prazer em estar em uma aula de matemática e gostaram da experiência. Para a tristeza de alguns. Por mais que nós professores. pudemos concluir que. Os relatórios feitos pelos alunos e a observação dos colaboradores seriam as ferramentas para a avaliação dos alunos como parte final do projeto. Pontuação designada pela escola para este tipo de atividade. Ao término da experiência prazerosa de soltarmos a pipa pudemos sentar e discutir por que algumas pipas não voaram. pudemos deduzir com eles as fórmulas para calcular as áreas dos polígonos presentes na pipa. como aprenderam. Não só pelo lado . Obtivemos respostas de todos os tipos dos alunos como.4. Os alunos que participaram do projeto. entre outras. o que acharam da experiência. eles através da experiência da construção do conhecimento por conclusões a que eles mesmos chegaram.2. “pode ser que estava muito pesada”. 2. Pudemos perceber que os alunos tiveram um gostinho de que a matemática pode ser divertida também. executando todas as tarefas da melhor maneira possível ganharam 4 pontos na média final do trimestre. Nesta parte do projeto os alunos puderam refletir muito sobre o que aconteceu no momento da confecção das pipas. algumas pipas não levantaram vôo. já tenhamos tentado com palavras convencê-los de que a matemática pode ser divertida e que está em toda a parte de suas vidas. 2. como já tínhamos no decorrer do ano letivo falado sobre álgebra. num primeiro momento utilizamos o papel quadriculado e contamos os quadrinhos que compunham o polígono e num segundo momento. classificada como a melhor hora para a grande maioria dos alunos. Relatórios Os alunos deveriam relatar com palavras breves o que aprenderam. como já esperávamos. 3 CONCLUSÃO Pudemos avaliar a experiência como positiva e de grande aprendizado tanto por parte dos alunos quanto por nós professores-facilitadores. ou “as varetas não estavam no lugar certo”. Levamos os alunos a uma área bem grande e sem perigos como os fios de alta tensão e o tráfego de automóveis.

Claro que este foi um caso isolado. porém tivemos vários casos de alunos que não trouxeram o material necessário para a confecção da pipa porque os pais simplesmente porque não acreditavam no projeto. Primeiramente os pais. Alguns alunos gostaram tanto que disseram que iriam brincar de pipa durante as férias . e a pergunta que fica é como vamos lidar com os outros conteúdos que temos que dar conta até o final do ano. com certeza nunca sairá da memória de nossos alunos. se empenhamos tantas aulas em um só projeto? É claro que não estamos aqui generalizando os projetos da modelagem matemática. Outro aspecto que impede a muitos professores de executarem tais projetos são os hormônios e a capacidade de se dispersarem facilmente que os alunos nesta faixa etária têm. ou ainda “vamos sentar aqui e pensarmos juntos sobre o assunto”. A nosso ver a experiência foi muito positiva e podemos apostar neste método de ensino e aprendizagem. é muito mais fácil para nós enquanto professores irmos para frente da sala de aula e explicarmos o conteúdo que levamos várias aulas para concluir neste projeto. dizendo que este tipo de projeto era projeto de escola pública e que quem solta pipa é “marginal”. São respostas que nem todos estão dispostos a dar porque acham que pode desprestigiar ou desmoralizar o professor. e eles mesmo respondem dizendo que os professores não estão preparados para atuarem como facilitadores de aprendizagem e para responderem a perguntas das quais nem ele mesmo sabe a resposta. Um projeto como este. Nos pegamos em algumas situações em que o aluno questionava alguns pontos do projeto e por não serem estritamente matemáticos não tínhamos a resposta pronta para eles e tínhamos que responder: “vou pesquisar e depois conversamos”. estávamos juntos construído o conhecimento. Durante o desenvolvimento do projeto pudemos entender porque alguns autores que escrevem sobre Modelagem matemática dizem que os professores por muitas vezes não desenvolve este tipo de projeto com seus alunos. pudemos experimentar algumas resistências vindo de todos os lados. porém temos grande dificuldade de adotarmos tais projetos em sala de aula com grande freqüência por termos que dispor de muitas aulas. Porém será sempre diferente para os alunos que se engajaram no trabalho e descobriram que podem participar de todo o processo de aprendizagem. Porém. nós não pensamos desta forma. Dá muito trabalho para manter todos os alunos participando das atividades. mas pela experiência de chegar às suas próprias conclusões e entenderem que têm capacidade de chegarem às conclusões a que chegaram.6 lúdico e descontraído das aulas. porém estamos apenas considerando um aspecto do processo. tivemos alguns pais que questionaram a legitimidade do projeto fazendo indagações à direção pedagógica da escola.

4ª Ed. C.15. 5-23. Puderam ainda perceber que conseguem e podem compreender matemática. Modelagem Matemática no ensino. n. 2003 . HEIN Nelson. 2001. São Paulo: SP. Contexto. 3ª ed. Aprendizagem em matemática: Registros de representação semiótica. São Paulo: SP. Carlos. Contexto. São Paulo. entre outras coisas. Ensino – aprendizagem com modelagem matemática: uma nova estratégia. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARBOSA. suas áreas. Papirus. Silvia Dias A. 2006. Muitos achavam que não conheciam os polígonos. J. Bolema. Maria Sallet. 1ª reimpressão. Rio Claro.7 Outro aspecto positivo do projeto foi que trabalhou um pouco mais a auto-confiança dos alunos numa área que se julgavam analfabetos: a geometria. Com a pipa puderam constatar que não é nada diferente do que vêem e utilizam nos seu dia a dia. R. os ângulos. BASSENEZI. BIEMBENGUR. Modelagem matemática e os professores: a questão da formação. SP. 2007 MACHADO. p.

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