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Texto No. 1, Globalização econômica

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GLOBALIZAÇÃO ECONÔMICA1
Reinaldo Gonçalves

E, ainda assim, saibamos todos, os capiaus gostam muito de relações de efeito e causa, leviana e dogmaticamente inferidas: Manuel Timborna, por exemplo, há três ou quatro anos vive discutindo com um canoeiro do Rio das Velhas, que afirma que o jacaré-do-papo-amarelo tem o pescoço cor de enxofre por ser mais bravo do que os jacarés outros, ao que contrapõe Timborna que ele só é mais feroz porque tem a base do queixo pintada de limão maduro e açafrão. E é até um trabalho enorme, para a gente sensata, poder dar razão aos dois, quando estão juntos. João Guimarães Rosa (1946), “Duelo”, em Sagarana, Rio de Janeiro, Editora Record, p. 158.

1. Que trajetória teve a palavra “globalização”? Nos últimos vinte ou trinta anos, houve importantes transformações em escala mundial. Essas transformações globais têm abrangido as esferas econômica, política, jurídica, institucional, social, cultural, ambiental, geográfica, demográfica, militar e geopolítica. No entanto, somente a partir de meados da década de 90 do século XX é que a palavra “globalização” passou a ser difundida para descrever essas transformações. A difusão dessa palavra tem sido marcada, freqüentemente, pela chamada síndrome do “samba-enredo”, isto é, a palavra “globalização” tem se caracterizado por ter muito mais “alegoria” do que “enredo”. O uso frouxo da palavra tem sido acompanhado de evidências pontuais como, por exemplo, a redução dos custos dos telefonemas internacionais, a criação da internet, e a pasteurização cultural por meio da expansão da indústria norte-americana de entretenimento. Mesmo autores importantes tendem ao uso pouco rigoroso do conceito. Por exemplo, Eric Hobsbawm, um dos mais destacados historiadores da atualidade, escorrega na redundância quando afirma que globalização “é uma divisão mundial cada vez mais elaborada e complexa de trabalho; uma rede cada vez maior de fluxos e intercâmbios que ligam todas as partes da economia mundial ao sistema global.” (Hobsbawm, 1994, p. 92). O sociólogo Otávio Ianni, um dos mais importantes do país, depois de fazer uma estupenda resenha das teorias da globalização, nos deixa órfãos quanto a uma definição mais precisa. Quando trata especificamente da economia, Ianni (1995, p. 17-18) deixa a entender que globalização referese ao momento atual, quando “toda economia nacional, seja qual for, torna-se província da
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Capítulo 1 do livro de Reinaldo Gonçalves, O Nó Econômico, Editora Record, Rio de Janeiro, 2002.

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economia global. O modo capitalista de produção entra em uma época propriamente global, e não apenas internacional ou multinacional. Assim, o mercado, as forças produtivas, a nova divisão internacional do trabalho, a reprodução ampliada do capital, desenvolvem-se em escala mundial.” A ausência de um tratamento mais preciso da palavra “globalização” tem implicado no seu uso abusivo. Assim, a globalização tende a ser um verdadeiro “deus ex-machina”, que apareceu no cenário internacional no final do século XX para explicar tudo ou quase tudo, da expansão da televisão a cabo às crises cambiais recorrentes experimentadas pela economia brasileira. A globalização, também, tem sido usada para justificar o fracasso de modelos econômicos (neoliberais) na América Latina ou o desempenho medíocre da política externa brasileira. O uso frouxo e, até mesmo leviano da palavra “globalização” tem provocado o uso abusivo, quando não ridículo, da famosa expressão que “a globalização trás oportunidades e riscos”. O uso dessa expressão esconde, quase que invariavelmente, a incapacidade de se definir claramente a própria natureza do fenômeno. No entanto, há um grupo de analistas que se coloca no outro extremo e tende a negar o próprio conceito. Segundo esse grupo, as transformações econômicas do final do século XX tenderam a reafirmar tendências seculares, isto é, os movimentos de internacionalização ou mundialização já observados no final do século XIX. Por exemplo, Hirst e Thompson (1996, p. 16) comparam alguns indicadores de integração econômica a nível mundial nas últimas décadas do século XIX com indicadores no final do século XX. Eles chegam a conclusão que as diferenças não são muito significativas. Esses autores argumentam que globalização seria a predominância do modelo de uma economia global no qual cada economia nacional seria permeada e transformada pelas relações internacionais. Contudo, eles afirmam que no sistema atual “as principais entidades são as economias nacionais”. Nesse sentido, tendem a rejeitar o uso da palavra “globalização” para descrever as transformações das últimas décadas. Assim, a maior parte da análise situa-se entre aqueles que usam a palavra “globalização” de forma muito abrangente ou, mesmo frouxa, e os que negam a necessidade de uma nova palavra para descrever as transformações globais mais recentes (Held e McGrew, 2001). A situação complica-se quando se tem em mente que essas transformações transcendem a esfera econômica e têm repercussões tão complexas quanto heterogêneas (Anderson, 1999). Entretanto, há fenômenos marcantes que ocorreram nas últimas décadas que merecem ser destacados. E, portanto, a ocorrência simultânea desses fenômenos exige uma palavra nova para diferenciar o momento atual de outros momentos da economia mundial.

Assim.8% e o estoque de investimento externo direto cresceu 12. 1999).3%. O primeiro é o crescimento extraordinário dos fluxos internacionais de bens. Esse fato é evidente quando levamos em conta que uma das . O terceiro processo é o da crescente interdependência entre agentes econômicos e sistemas econômicos nacionais.3 2. os ativos totais das empresas transnacionais cresceram a uma taxa média anual (valores correntes) de 14. houve o aumento da concorrência entre empresas no mercado mundial. pois os Estadosnacionais − nas suas relações exteriores − são os mais poderosos instrumentos de defesa dos interesses nacionais (Fiori et al. O segundo processo é o acirramento da concorrência internacional. Na medida em que as exportações e as importações de bens e serviços tendem a crescer a taxas superiores à renda nacional. essa rivalidade persiste. é necessário restringir a discussão à questão econômica. O que é globalização econômica? Para dar um tratamento mais rigoroso. Quem são os principais atores da globalização? Rivalidade entre Estados-nacionais e concorrência entre empresas é uma marca do mundo moderno. No entanto. no chamado período da pósmodernidade. enquanto as exportações de bens e serviços cresceram 6. em meados dos anos 80. A globalização econômica pode ser entendida como a ocorrência simultânea de três processos. acirramento da concorrência internacional e maior interdependência entre empresas e economias nacionais. No período 1982-2000.4%. A evidência empírica é pontual e. a globalização econômica pode ser entendida como a ocorrência simultânea de três processos: crescimento extraordinário dos fluxos internacionais de produtos e capital.8% ao ano (Ibid). os Estados Unidos. a chamada “agenda da competitividade” tem tido um papel cada vez maior na definição das estratégias de desenvolvimento econômico ou das políticas de relações exteriores. Nas últimas décadas do século XX. 3. Por outro lado.8% (UNCTAD-WIR. Por exemplo. não há indicadores agregados a esse respeito. 2001. a renda mundial (preços correntes) cresceu a uma taxa média anual da ordem de 6. Entretanto. a rivalidade interestatal na arena internacional arrefeceu-se sob a hegemonia militar e política norte-americana. serviços e capital. p. há o aumento do grau de abertura externa das economias nacionais. alteraram o nome da sua Lei de Comércio Internacional para Lei de Comércio e Competitividade Internacional. portanto. No período 1982-2000. e as vendas das subsidiárias e filiais dessas empresas cresceram 10. 10).

principalmente. No cenário internacional os Estados usam instrumentos econômicos (comércio. Não há dúvida que a questão do poder está no centro das relações entre países. militares). O Estado-nacional detém o monopólio da força e é o locus do poder político e militar. e capacidades gerencial. de fato. visto que tem o monopólio da força. ao mesmo tempo em que a determina. trata-se das bases econômicas do poder político (militar) nacional. da moeda e da definição de normas que regulam as coisas.4 características centrais da globalização econômica (a pós-modernidade na sua dimensão econômica) é o próprio acirramento da concorrência ou a maior contestabilidade do mercado mundial. à atuação das empresas transnacionais) significa reduzir a importância relativa de instituições. Isso significa a existência de fluxos Visto que. que são poderosos instrumentos de . que sofrem influências as mais variadas. 4. tecnologia. Kindleberger) e Poder e Riqueza (Klaus Knorr). o poder de uma instituição muito específica – o Estado-nacional –. as pessoas. Não é por outra razão. inclusive. que trabalhos pioneiros na Economia Política Internacional foram Poder e Moeda (Charles P. É. empresas. os EstadosNo presente. e das bases militares do poder econômico. O poder do Estado-nacional na arena internacional é determinado pela riqueza nacional. A empresa transnacional é o principal locus de acumulação e de poder econômico. que determina ou influencia a evolução das relações econômicas internacionais. a partir do seu controle sobre ativos específicos (capital. Na realidade. cada um deles é o principal locus de poder político (Estado-nação) e econômico (empresa transnacional). as classes dominantes usam os instrumentos de poder do seu Estado-nacional para defender seus interesses econômicos no sistema internacional. Restringir o escopo da economia internacional ao mercado (ou. Aqui. O Estado é uma instituição única. o capital e o território. Ao mesmo tempo. É uma endocausalidade plena. pode-se mencionar o FMI e o Banco Mundial. tecnologia) para alcançar determinados objetivos políticos (inclusive. capital. organizacional e mercadológica). do processo político interno das economias nacionais. o cenário internacional é o conjunto de territórios nacionais que se relacionam entre si. Quais são as formas do processo de globalização? A internacionalização da produção ocorre sempre que residentes de um país acessam bens e serviços com origem em não-residentes. política econômica externa dos governos dos países hegemônicos. nacionais são os atores principais deste cenário. O alvorecer do século XXI tem dois registros marcantes: o poder do Estado-nacional e o poder da empresa transnacional.

que viabilizam a produção de bens ou serviços no país B por uma empresa desse país.. 1998. . cruzou fronteiras nacionais.g. A internacionalização da produção também ocorre sempre que não-residentes de um país “fazem residentes fazer”. então.. tecnologias de produto. a transferência de know-how ou direitos de propriedade por meio de relações contratuais. Há três formas básicas de internacionalização da produção: comércio. organizacional e mercadológica). ocorre o estabelecimento de subsidiárias e filiais por meio do investimento externo direto (IED). da transferência de know-how (tecnologias de processo. patentes. de modo geral. então. capacidade gerencial. A globalização econômica tem. capítulo 6). A dimensão produtiva refere-se às operações de empresas transnacionais. O IED é todo fluxo de capital com o intuito de controlar a empresa receptora do investimento. A importação de um bem significa que um produto físico. o comércio internacional de serviços exige o deslocamento do consumidor (e. Assim. portanto. serviços e capital. A dimensão comercial expressa o comércio internacional de bens e serviços. investimento externo direto. A dimensão tecnológica envolve. por meio do investimento externo direto. as relações econômicas também têm uma dimensão financeira. a sua matriz localizada nos países desenvolvidos e.5 internacionais de bens. Além da dimensão produtiva (internacionalização da produção). armazenável. Trata-se. assistência técnica. Residentes de um país podem acessar bens e serviços com origem em não-residentes por meio da importação. Essas empresas têm. produtiva. elas controlam subsidiárias e filiais em outros países. A dimensão financeira abrange os fluxos internacionais de capital de empréstimo. investimento externo direto e relações contratuais (Gonçalves et al. tecnológica e financeira. etc) por meio de relações contratuais. que controlam subsidiárias e filiais em outros países. copyrights. Nesse caso. os residentes de um país A transferem para residentes de um país B um conjunto de ativos específicos à sua propriedade (tecnologia. em grande medida. turismo) ou do produtor com a presença de pessoa natural ou pessoa física (e. transferência de know-how e fluxos financeiros internacionais. geralmente. No entanto. Os serviços. consultoria). são produtos intangíveis e não-armazenáveis e.g. a principal forma da internacionalização da produção de serviços é a presença comercial (pessoas jurídica). Isto é. tangível. O principal agente de realização do IED é a empresa transnacional − empresa de grande porte que controla ativos em pelo menos dois países. as relações econômicas internacionais manifestam-se por meio de quatro formas básicas: comércio. por meio de relações contratuais. quatro formas ou dimensões: comercial. etc) ou direitos de propriedade (marcas. franquias.

política e tecnológica. portanto. que tendem a caracterizar essas políticas. o descolamento entre oferta e demanda pode não coincidir com o início de um novo ciclo de inovação. a causa básica da globalização é de natureza sistêmica. então. Beinstein. Quando as expectativas dos capitalistas com relação à realização da produção tornam-se desfavoráveis. Quando o Estado gasta de forma autônoma.6 financiamento e investimento externo indireto (ou de portfólio). ele provoca uma expansão da renda e. Quais são os determinantes da globalização econômica? As causas da globalização são de natureza sistêmica. 2001). O problema é que o processo de inovação tem um componente aleatório não-desprezível. Do ponto de vista macroeconômico. 2002. Essa é conhecida como a “saída Schumpeteriana”. Isto é. títulos de governo. quando a estagnação vem acompanhada de pressões inflacionárias (devido. A situação complica-se. Esse movimento afeta negativamente as expectativas do setor privado. Isto é. há momentos em que a capacidade de investimento na produção de bens e serviços por parte dos capitalistas é superior à absorção do conjunto da economia. títulos privados. a choques de oferta) ou. etc). a “oferta cria sua própria demanda”. O capitalismo recoloca permanentemente o problema da insuficiência de demanda agregada (Gonçalves. pois tem como referência as contribuições do economista austríaco Joseph Schumpter. há a necessidade de se encontrar macro saídas para o capital excedente. ainda. dos gastos totais de consumo e investimento. os efeitos da política fiscal expansionista (aumento dos gastos públicos) são compensados pela política monetária restritiva (juros altos). por exemplo. diretamente. que foi pioneiro em chamar atenção para a instabilidade do capitalismo e da influência determinante da inovação tecnológica nos ciclos econômicos. Cinco são as saídas. a alternância de poder em países democráticos tende provocar movimentos de “idas e vindas” no nível e na composição dos gastos públicos. esse gasto tem a “vantagem” de não satisfazer. No entanto. A primeira é promover uma nova onda tecnológica. A terceira saída é um derivativo da segunda e refere-se aos gastos militares. Esse último abarca transações com ativos financeiros (ações. Essa é conhecida como a saída “keynesiana”. de descontrole sobre a dívida pública. que oferecerá novos bens e serviços e. 5. portanto. que dispensam o controle sobre o agente econômico receptor do investimento.a. . A segunda saída envolve os gastos públicos. Isto é. quotas de empresas ou de fundos de investimento. Nesse caso. bem como pela síndrome do “stop and go”. Os limites dessa saída são dados pelo processo de endividamento do setor público.

então. investimento e gato público) suficiente para realizar o excedente econômico. então. não há absorção interna (consumo. O fenômeno da globalização nas últimas duas ou três décadas foi determinado pela onda de liberalização e desregulamentação que atingiu tanto os países desenvolvidos como os em desenvolvimento. A quarta saída é a distribuição de riqueza e renda. O que o neoliberalismo faz é a troca de sinais: intervenção estatal x iniciativa privada. org. vidas humanas) provocadas pela guerra. regulação x mercado.. O resultado é a internacionalização da produção por meio do comércio exterior (exportação de bens e serviços) ou do investimento externo direto (exportação de capital). Procura-se. Essa onda tem como marco de referência a eleição de Margareth . Santos. Em síntese. O problema central consiste em persuadir os indivíduos de altas rendas ou elevado nível de riqueza que a menor desigualdade tem efeitos macroeconômicos favoráveis. 2000. “encontrar” um inimigo externo que viabilize a realização da produção bélica. naturalmente. uma dimensão política. 6. A transferência de renda de indivíduos com baixa propensão a consumir para indivíduos com elevada propensão a consumir tende a ter impacto positivo sobre a demanda agregada (consumo e investimentos).7 qualquer necessidade humana. O problema reside em se manter a corrida armamentista pelo tempo necessário para a retomada do crescimento ou. e. Essa saída significa. barreiras comerciais x liberalização. há a dificuldade política do Estado ser capaz de impor medidas redistributivas. resta a alternativa de se procurar deslocar a produção ou o capital para o exterior. Os limites dessa saída são dados pela força dos “inimigos” e pela resistência interna frente às perdas (principalmente. o mercado internacional. 1998). Fiori et al. A quinta e última saída é a exportação de bens. a aceleração dos fluxos de comércio e investimento internacional. então. serviços e capital. controle do investimento externo x abertura. Quando nas economias nacionais dos países desenvolvidos. a causa básica da globalização econômica é a necessidade das economias desenvolvidas de expandir os seus mercados. A liberalização representa a redução das barreiras comerciais de acesso aos mercados nacionais. A desregulamentação envolve a eliminação ou afrouxamento das normas reguladoras da atividade econômica. Qual é a ideologia da globalização? A ascensão do neoliberalismo foi determinante fundamental da globalização econômica (Sader. assim. 1995. Essa saída tem. o acirramento da concorrência e a maior integração entre as economias nacionais. Ou.

os maiores beneficiados são as grandes empresas transnacionais. Temos. novos produtos e novas formas de organizar a produção implicaram em maiores oportunidades de investimento em escala global. para a sua viabilização econômica. Que interesses movem a globalização? Os países desenvolvidos são os principais ganhadores. Com a telemática. Qual é o papel das novas tecnologias na globalização? A ruptura do paradigma tecnológico e organizacional é outro fator determinante da globalização. Dessa forma. Ao mesmo tempo. Nesses países. Essa ruptura decorreu. reduziram-se os riscos e as incertezas provenientes das operações internacionais visto que se aperfeiçoaram os mecanismos de controle. Mais importante do que essa redução dos custos operacionais foi a redução dos custos de transação associados com a internacionalização da produção via comércio ou investimento externo. Esses governos conservadores não somente implementaram políticas de liberalização e desregulamentação dentro dos seus próprios países como também usaram instrumentos de política externa para promover políticas liberais no resto do mundo. 7. das inovações da microeletrônica. monitoramento.8 Thatcher na Inglaterra em 1979 e de Ronald Reagan nos Estados Unidos em 1980. que o mercado alvo seja o mercado mundial. tendo em vista a aceleração do progresso técnico. da informática e das telecomunicações. que as inovações estão associadas a mercados cada vez mais ampliados. serviços e . a revolução da telemática provocou significativa redução dos custos diretos das operações internacionais. 8. A globalização econômica permite que os países desenvolvidos resolvam o problema sistêmico de insuficiência de demanda interna por meio da exportação de bens. A natureza desse novo ciclo tecnológico provocou um encurtamento dos horizontes de investimento. supervisão e de tomada de decisão em escala global. qualquer inovação significativa já exige. Novos processos. há a elite econômica e a classe dirigente dos países em desenvolvimento. então. Ademais. a ascensão do liberalismo ou a revitalização de estratégias e políticas liberais em escala global. Não é por outra razão que a globalização econômica também pode ser chamada de globalização neoliberal. Esses dois aspectos significam. houve o encarecimento das atividades de pesquisa e desenvolvimento. assim. os bancos internacionais e os Estadosnacionais. principalmente. Ainda como ganhadores.

no contexto do programa de combate à inflação e da globalização neoliberal. A globalização neoliberal significa a redução das barreiras comerciais. os grupos sociais continuam mantendo seus privilégios de importação de bens e serviços. Por outro. Entretanto. Entretanto. naturalmente. Como resultado. dos países em desenvolvimento. obtém maior liberdade de atuação e maior poder de barganha nos países em desenvolvimento. Por exemplo. portanto. principalmente. nos países em desenvolvimento também há grupos econômicos e sociais interessados no processo de globalização. Esses países tornam-se mais vulneráveis. perdem capacidade de resistência a pressões. A liberalização e a desregulamentação dos fluxos internacionais de capitais permitem que a elite econômica dos países em desenvolvimento transfiram renda e riqueza para o . permitiu aos exportadores brasileiros aumentar suas vendas para esse país. maiores possibilidade de exportação (OMC. Quando os fluxos internacionais de capitais são interrompidos e há uma crise cambial. a recessão e a contração dos investimentos estatais em infra-estrutura econômica e social. perdem capacidade de controlar o comércio exterior e os fluxos internacionais de capitais. A liberalização significa menores restrições de acesso ao mercado internacional e. os grupos sociais desfavorecidos sofrem com a inflação. A globalização neoliberal também implica em maior liberdade para as operações de empresas transnacionais e bancos internacionais. Assim. portanto. que além das maiores oportunidades de acumulação. componentes da cesta básica). A desregulamentação e a maior proteção às empresas transnacionais e aos bancos internacionais estimulam o investimento externo. O setor exportador tende. Os Estados-nacionais. A exportação gera empregos nos países desenvolvidos. A “farra de importação” (bens e serviços de alto luxo) significa o desperdício de divisas estrangeiras escassas. fatores desestabilizadores e choques externos. é verdade que o conjunto da sociedade beneficia-se com a importação de bens mais baratos provenientes do exterior (inclusive. a ganhar na medida em que haja abertura de mercados externos. do enfraquecimento dos Estados-nacionais dessas economias. 2002).9 capital. que materializam as oportunidades de negócios no exterior. a acumulação de capital e de riqueza nacional. aumenta o poder de barganha Estados do países desenvolvidos vis-à-vis os Estados dos países em desenvolvimento. isto é. é ainda mais verdadeiro que os principais beneficiários são os membros dos grupos sociais de renda mais alta. Os Estados dos países desenvolvidos também ganham em decorrência da maior vulnerabilidade externa das economia em desenvolvimento e. Por um lado. isto é. a abertura externa da Argentina. nos países desenvolvidos os maiores interessados são as grandes empresas e os bancos.

como foi o caso do Brasil entre 1994 e 1998. pois os primeiros tem que exportar quantidades cada vez maiores de commodities para poder . A maior volatilidade dos capitais internacionais têm aumentado os riscos e as incertezas de crises econômicas nacionais e internacionais. frente à desestabilização macroeconômica. Nesse mesmo período. 2000). os produtos manufaturados exportados pelos países desenvolvidos para os países em desenvolvimento tiveram um aumento de preço médio de 40% (Banco Mundial. 9. Quais são as conseqüências da globalização? A liberalização e a desregulamentação representam maior liberdade para os fluxos internacionais de capitais. trás benefícios políticos e eleitorais. Os ganhos com operações especulativas tornam-se parte do cotidiano dessas elites. 2001. A manutenção de taxas de câmbio sobrevalorizadas. Esse é o conhecido fenômeno da deterioração dos termos de troca. As classes dirigentes nacionais de países em desenvolvimento beneficiam-se com globalização pois ela permite (e até mesmo estimula) políticas irresponsáveis e incompetentes. Em conseqüência. Isto é. 330). têm provocado um processo de fusões e aquisições. Diariamente. reconhecidamente insustentáveis em países marcados por déficits crônicos nas contas externas. Isso tende a provocar pressões sobre os preços de matérias primas. o preço médio das commodities (excluindo petróleo) reduziu-se em 51% entre 1980 e 2000. associada ao volume extraordinário de recursos comandados pelas empresas transnacionais e pelos bancos internacionais. tem significado a maior volatilidade dos fluxos financeiros internacionais (Singer. Ademais. há forte estímulo à centralização do capital em escala global. de diversificação de risco (para se proteger da maior turbulência dos mercados) e de acesso a tecnologia (frente aos custos da inovação e a variabilidade dos ciclos dos produtos). juntamente com os novos instrumentos financeiros e as inovações tecnológicas. A maior instabilidade sistêmica da economia internacional. Isso significa uma enorme transferência de recursos reais dos países em desenvolvimento para os países desenvolvidos. Esse fato. um número cada vez menor de grandes empresas controlam uma parcela cada vez maior da produção mundial. A globalização tem um efeito pró-competitivo – é o acirramento da concorrência internacional. Por exemplo. p. Esse processo responde à necessidade permanente de reestruturação produtiva (devido às mudanças rápidas nas condições de competitividade). bilhões de dólares são movimentados no sistema financeiro internacional. a elite econômica protege-se com transferências rápidas de investimentos de moeda nacional para moeda estrangeira e vice-versa. produtos agrícolas e produtos intermediários.10 exterior.

Na realidade.11 comprar as quantidades anteriormente importadas de bens manufaturados. do tráfico de drogas. Os direitos políticos são filtrados pelo poder econômico. A globalização neoliberal implica na mercantilização. Há. dignidade e liberdade. A questão da vulnerabilidade externa não se restringe à capacidade de resistência. os problemas das opções e dos custos de se contrapor à influência das variáveis . Tudo se transforma em mercadoria (Santos. a globalização neoliberal. aumento do tráfico de drogas. O que se entende por vulnerabilidade externa? Vulnerabilidade externa é a baixa capacidade de resistência a pressões. etc). que são incompatíveis com a realidade. do “cangaço urbano”. violência. desemprego. restringem o direito do cidadão de ir e vir. A globalização neoliberal compromete o próprio sentido da vida. quando reduz as possibilidades de felicidade. O resultado final é o aumento da desigualdade internacional. persistem direitos civis retardatários (Carvalho. Riscos crescentes de crises institucionais em países em desenvolvimento provocam perda de liberdade. por exemplo. portanto. etc) e têm graves conseqüências sociais (deterioração da saúde e da educação. bem como das formas de abertura. O Brasil não é a Suíça e. cada vez mais suscetível ao desemprego e à precarização das relações de trabalho. As políticas ortodoxas (de forte cunho liberal) provocam sérios problemas econômicos (recessão. A vulnerabilidade externa reduz a capacidade desses países implementarem estratégias e políticas nacionais de desenvolvimento. provoca vulnerabilidade externa e. 10. Essa vulnerabilidade decorre do grau de abertura. As tensões políticas derivadas desses problemas econômicos e sociais podem desembocar em crises institucionais como tem ocorrido na América Latina nos últimos anos. do tráfico de armas. Em muitos países verifica-se o retrocesso dos direitos sociais. fatores desestabilizadores e choques externos. os Estados Unidos para ter as facilidades de abertura comercial e financeira similares ou próximas às existentes nesses países. A ânsia de riqueza gera perda de felicidade. o aumento da violência. 2000). O individualismo impede a solidariedade. também. Em grande parte dos países em desenvolvimento. 2001). muito menos. ao exigir ao maior abertura das economias. Em países como o Brasil. O aumento da vulnerabilidade externa dos países em desenvolvimento é outra conseqüência da globalização neoliberal. A sociedade do espetáculo contaminou a política tendo em vista a influência dos meios de comunicação. crises cambiais recorrentes. O homem-mercadoria. tende à perda de dignidade. Os interesses sufocam os valores e os ideais. da economia brasileira.

então. de fato. E. aqueles que se livraram formalmente. 11. do Brasil. O processo de globalização tem. 1998). há mais de um século. que responde por menos de 1% do comércio mundial e por cerca de 2% do investimento e da renda no sistema econômico internacional. do investimento e do comércio internacionais. Entretanto. duas dimensões igualmente importantes. Quais são os limites e as contradições da globalização? As contradições da globalização neoliberal estão na sua própria natureza. serviços e capital. De modo geral. A vulnerabilidade externa varia inversamente com as opções de ajuste e diretamente com os custos do ajuste. por exemplo. um país que tem vulnerabilidade unilateral é muito sensível frente a eventos externos e sofre de forma significativa as conseqüências de mudanças no cenário internacional. e quanto maiores forem os custos do processo de ajuste. . No casamento entre “globalização” e “neoliberalismo” o problema está no neoliberalismo. a vulnerabilidade externa é tão maior quanto menores forem as opções de política de ajuste. tem sido parte integrante do processo histórico desses países. dos fluxos financeiros internacionais. Este é o caso. A vulnerabilidade externa abarca os custos negativos da resistência aos efeitos negativos da volatilidade dos fluxos financeiros. Isto é. que têm uma capacidade mínima de repercussão em escala mundial (Ramonet.12 externas (Gonçalves. principalmente. O problema central não reside no crescimento dos fluxos internacionais de bens. enquanto os eventos domésticos desse país têm impacto nulo ou quase nulo sobre o sistema econômico mundial. p. cambial e fiscal. levado a um sistema mais complexo de interdependências entre economias nacionais. os países em desenvolvimento têm como atributo a vulnerabilidade externa que. de laços coloniais.políticas monetária. que se pode falar de "vulnerabilidade unilateral" por parte da grande maioria de países do mundo. 7). A vulnerabilidade tem. a segunda incorpora os custos de enfrentamento ou de ajuste frente aos eventos externos (Jones. inclusive. 1999). muito menos na crescente integração econômica entre os países. sem dúvida alguma. esse sistema complexo de interdependências continua significativamente assimétrico. como a política comercial para enfrentar os problemas criados pela volatilidade. com o uso de políticas macroeconômicas tradicionais -. A primeira envolve as opções de resposta com os instrumentos de política disponíveis. Esta resistência é exercida. os governos podem usar tanto controles diretos sobre os fluxos de capital. de tal forma. 1995. E. geralmente. Assim. Outrossim.

como também nos países desenvolvidos. animal e vegetal. étnicas ou religiosas. A manutenção de alto nível de desemprego. na Europa e na Ásia. ao transformar tudo em mercadoria em escala mundial. “quando há razões razoáveis para a preocupação de que riscos potenciais podem afetar o meio ambiente e a saúde humana. cultura e meio ambiente. A globalização neoliberal. A pasteurização e a vulgarização de bens e serviços provoca desconforto em sociedades que têm sólidos valores culturais. A desregulamentação dos fluxos internacionais de capitais tem provocado crises sérias não somente nos países em desenvolvimento.13 A experiência histórica mostrou que há quatro “bens estratégicos”: capital. e quando. O “confronto de civilizações” expressa a resistência de diversos povos frente a invasão de valores que violam identidades nacionais. Desde o final do século XIX sabe-se que o capital precisa ser controlado e para isso foram criados os bancos centrais. A exportação de produtos culturais é uma das principais fontes de renda dos Estados Unidos. da fauna e da flora. aplicado no âmbito da União Européia e nas suas relações de comércio exterior. gera resistências crescentes no sentido de proteção do homem. A percepção é que o princípio precautório deverá submeter as forças da globalização neoliberal. ao mesmo . bem como a precarização do mercado de trabalho tem provocado crescente resistência em todo o mundo. A lógica do mercado (oferta versus demanda) ou a do capital (lucro e acumulação máxima) não podem ser dominantes no mundo de recursos limitados. Esse é o seu próprio limite. Não é por outra razão que crescem as resistências à desregulamentação e flexibilização do mercado de trabalho. da Organização Mundial do Comercio. mas também em termos de perda de bem-estar. A mercantilização da cultura tem também encontrado forte resistência. em todas as partes. estão reagindo ao desconforto do presente e à falta de perspectivas quanto ao futuro. quando das reuniões do Fundo Monetário Internacional. 1944). o objetivo de se proteger a humanidade por meio da conservação do meio ambiente. A crescente preocupação com uma “nova arquitetura” financeira internacional expressa essa preocupação com a volatilidade dos capitais e a instabilidade dos sistema financeiro internacional. particularmente. Cada vez mais valoriza-se. do Banco Mundial. e dos chefes de Estado dos países desenvolvidos. Boa parte dos jovens que protestam nas ruas. A perda de segurança compromete a felicidade do homem. O limite da globalização neoliberal está na necessidade de re-regulação dos capitais. A flexibilização do mercado de trabalho tem tido conseqüências nefastas não somente sobre a organização dos trabalhadores. Segundo esse princípio. trabalho. O moinho satânico do mercado não pode massacrar o sentido da vida (Polanyi.

na prática. p. precisam se proteger frente a um mundo crescentemente hostil. 1996).. e que a avaliação científica não permite que o risco seja determinado com suficiente precisão. p. orgs. o fator determinante da globalização neoliberal.” (OMC. serviços e capital pode ser interrompido e. 2000. Os três processos econômicos básicos que constituem o fenômeno da globalização são passíveis de retrocesso. Os que não acreditam nisso são aqueles que se esquecem que a história não é um estoque de acontecimentos. até mesmo. Isso significa. Nessa síndrome. Essa é a contradição principal. revertido. inclusive. mais harmônico. os Estados-nacionais. Uma nova onda de falências. que elimina tirania do lucro e o moinho satânico do mercado (Arruda e Boff. A humanidade precisa de um mundo mais integrado. interrupções de tendências. mas sim um processo (Boyer e Drache. O crescimento extraordinário dos fluxos internacionais de bens. o princípio precautório tem sido politicamente aceito como uma estratégia de gerenciamento de risco em vários campos. Na . assim. 12. O cenário de crise internacional envolve a síndrome do “farinha pouca meu pirão primeiro”. os dados disponíveis impedem uma avaliação de risco detalhada. As grandes empresas transnacionais evitarão a concorrência predatória e procurarão fazer acordos tácitos ou formais de divisão e controle do mercado mundial. a interrupção e a reversão dos processos de liberalização e desregulamentação. produto ou processo tenham sido identificados. 2). A experiência do período entre-guerras mostrou exatamente isto.14 tempo. A globalização neoliberal é um processo reversível? Sim. 7). Esse princípio pode se aplicado à proteção do homem contra os efeitos nefastos do capital em todas as dimensões das relações humanas.b.” (Ibid. mais igual. 2000). revertido. A resolução dessa contradição passa pela globalização solidária. O segundo processo constitutivo do fenômeno da globalização – o acirramento da concorrência – poderá ser interrompido e. Mas. por uma questão de legitimidade e sobrevivência. No processo histórico há movimentos cíclicos. A globalização econômica e neoliberal é perfeitamente reversível. mais global. rupturas e reversões de tendências. Elimina-se. ela rejeita a globalização neoliberal. a tendência é o aumento do protecionismo em escala global. aquisições e fusões representará uma maior centralização do capital a nível nacional e internacional. A Comissão reafirma que “o recurso ao princípio precautório pressupõe que efeitos potencialmente perigosos decorrentes de um fenômeno. Se o cenário de profunda crise na “locomotiva” dos Estados Unidos se transformar em realidade nos próximos anos. a introdução de controles sobre capitais e maiores restrições à migração internacional.

Desaparece. os maiores controles sobre os fluxos internacionais de capitais e a menor rivalidade entre as empresas. poderemos ter um mundo menos globalizado em 2010. Assim. p. os Estados-nacionais procurarão diminuir a vulnerabilidade externa. com o protecionismo crescente. tem uma . poderemos ter a reversão do fenômeno da globalização neoliberal. 190). A humanidade poderá entrar em nova era – a da globalização solidária. Por fim. rivalidade e contestabilidade de mercado. Essa estratégia tenderá a significar a redução do grau de abertura das economias nacionais nas esferas financeira. então." Com isso. a estratégia dominante será a da consolidação das posições existentes. "O comércio internacional história de rápida internacionalização alternando com retrocessos.15 ausência de crescimento econômico a nível mundial. teremos menor concorrência. Segundo Paul Bairoch (1996. produtiva-real e comercial. mais uma das características centrais da globalização neoliberal. Mais precisamente.

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