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Quem sou eu? Infinito.

Realizei com turmas de 1os e 2os anos do ensino médio o seguinte exercício: a cada semana,
pedi a eles que respondesse a uma mesma pergunta: quem sou eu? Ou quem é você? Isso após eu
falar para eles da tese do grego Heráclito: “não entramos duas vezes no mesmo rio, pois, já não é
mais o mesmo rio”

As respostas variaram muito, nas turmas de menos idade suas respostas diziam que embora as
palavras fossem as mesmas eles não mudavam, eram os mesmos. Nas turmas da série seguinte, as
respostas diziam que eles pareciam mudar muito de uma resposta para a seguinte.
Evitei induzi-los a crer na minha opinião: de que somos muitos e apenas aparentemente
parecemos o mesmo a vida toda. Tal como um furacão, que parece o mesmo desde o seu surgimento
no oceano até o seu fim, na terra, e que nada mais é do que um encontro entre correntes de vento –
quente, ascendente e fria, descendente – nós também somos levados a crer na ilusão de que somos os
mesmos ou, pelo menos, que parte de nós permaneceria a mesma.
O que me surpreendeu mais nesse exercício foi que conversando com um aluno sobre suas
respostas, ele me disse que não era suficiente descrever a si próprio em um pedaço de papel (10x 15
talvez). Perguntei-lhe que tamanho seria suficiente? Páginas? Ou seria possível escrever sem fim
sobre nós mesmos, descrevendo um infinito número de detalhes? Lembrei a tese de Platão: “se nossa
alma é capaz de conhecer conhecimentos eternos (como um teorema de Pitágoras), então ela mesma
é eterna”. O problema é que a matemática é tautológica: 1+ 1 = 2 é uma verdade eterna, pois, o que a
expressão diz é que uma coisa acrescida a outra é igual a duas coisas juntas. Não ouso apresentar um
exemplo de matemática avançada, pois, meus professores me ensinaram a temer e manter distância
da matemática, mas afirmo que toda a matemática não revela nada sobre eternidade!

Mas, após o exercício do “quem sou eu?”, proponho uma nova tese sobre nossa eternidade: se
não podemos nos descrever com um conjunto finito de frases, palavras, e, assim, só podemos nos
descrever com um número infinito (sem fim) de frases é porque nós mesmos somos infinitos. O
problema é que parece que aqui caímos em um erro: seríamos infinitos apenas dentro de nossa finita
vida! A não ser que, mesmo após a nossa morte, as pessoas sempre
possam acrescer uma nova descrição de nós mesmos!

Antonio Jaques de Matos


Professor de Filosofia

Porto Alegre, 11 de maio de 2011