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Antonio Jaques de Matos

Curso de Filosofia infantil

Porto Alegre, janeiro de 2011


Prefácio
Foram-me dadas duas turmas em 2009 chamadas de "aproveitamento", um grupo de
adultos que retornava ao colégio após completar o ensino médio para um curso de educação
continuada visando o ensino para crianças, o que incluiria noções de Filosofia. Soube apenas depois
de transcorridas algumas aulas que se tratava de filosofia da educação. Mas, o que é isso? Tirar
filosofia da educação ou educação da filosofia? Este é um problema antigo e que se repete em obras
como filosofia da história ou filosofia da arte. Se a filosofia trata ou procura estudar a totalidade da
realidade e as ciências estudam partes desta totalidade, como tirar o todo de uma parte? Qualquer
livro que una estes dois temas, deveria ter como título: "educação filosófica" e mais nada.
Bem, pensei em chamar este livro de "Filosofia para adultos filosofarem com crianças",
pois, é primeiro aos professores que ela deve se dirigir, mas, mais do que isso, ela deve ensinar os
professores a filosofarem, do contrário, esqueça filosofia para crianças.
Os livros de filosofia para crianças fazem isso? Não, eles dão pronto ao professor (porque é
o que os professores pedem!) um texto, lista os assuntos que devem ser tratados, sem estimular o
questionamento, que é central na filosofia! Autores como Matthew Lipman (filho da cultura do fast
food) jogaram fora toda a história de reflexões e dúvidas pertencentes à filosofia e ficou com a lógica
aristotélica para autômatos.
Relembro que quando fui aluno da universidade federal do rio grande do sul, em
licenciatura em filosofia, e tive um semestre de "filosofia da educação", o professor, doutor em
filosofia, disse que não existia isso de filosofia da educação: ou há filosofia, ou há educação. Depois,
ele trabalhou com um livro que nem lembro o título, a partir do qual estudamos as ideias de alguns
pensadores, como Sócrates, Maquiavel, etc. Quando perguntei a ele por que não estudamos Paulo
Freire, ele respondeu que aquele tinha assimilado as teses de pensadores anteriores a ele, como
Sócrates e Karl Marx, opinião que eu aceito. Mas, a questão central por que lembrei daquele
professor é que não se tira filosofia da educação, mas educação da filosofia. Uma mera troca de
palavras? A ordem delas não altera o produto final? Mas, se dizemos educação filosófica,
entendemos coisas distintas:
1- educação filosófica propõe que toda educação e todo educador seja um filósofo na
medida em que ele deve refletir sobre as causas e efeitos das questões que ele estuda,

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contextualizando os fatos, não apenas apresentando um conteúdo solto a um aluno, mas, ainda, por
que ele está apresentando este assunto e por que os fenômenos descritos são assim.
2- filosofia não é uma disciplina a mais, mas o alicerce das outras, a primeira deseja
perceber o todo, a outras, fragmentos do todo. Ouvi de uma aluna do semestre passado, em relação a
uma colega que não tinha nota para passar: "é só filosofia!". Triste que a nossa sociedade tenha esta
visão da filosofia, mas isto se deve aos próprios "doutores da filosofia" que eu chamo de "doutores
de papel" ou pseudofilósofos, que contra a origem e a história da filosofia se tornaram especialistas
(fragmentam o todo) e não generalistas (estudiosos do todo)!
Senti na obrigação de escrever um curso de FILOSOFIA INFANTIL, a partir de duas obras
que publiquei na internet e uma terceira que não cheguei a publicar, mas que está presente aqui,
nessa obra - Filosofia Infantil I, II e II -, porque os livros que aí estão apenas tangenciam a matéria.
Chegam a ponto de perder tempo se definindo e se diferenciando se autodenominando “filosofia
com” ou “filosofia para” crianças. Ora, o “com” parece uma estrada de mão dupla, onde há diálogo,
já o “para”, é uma via de mão única, um monólogo. Um professor e sua aula é algumas vezes “para”,
outra “com”.
Neste trabalho, reúno, portanto, a maioria das ideias já apresentadas antes, na internet, no
site Scribd.com reorganizando de um modo mais claro para quem quiser fazer uso de um “mapa” que
oriente o professor iniciante em filosofia para ou com crianças.

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Há um único método de ensinar filosofia para crianças?

Antes de mais nada, gostaria de pôr em destaque o seguinte prescrição filosófica :


- Uma das grandes razões porque não faz sentido um único método para filosofar com
crianças é que não há uma única maneira de filosofar, nem mesmo há uma única definição de
filosofia!! Assim, por que não estudar os diversos filósofos e suas diversos pontos-de-vista?

Eis uma linha do tempo, mostrando alguns pensadores estudados por nós:

Há uma outra questão que queremos (devemos) tratar aqui, no começo da obra:
- O maior obstáculo para filosofar com crianças não são as crianças, mas os adultos,
especialmente os professores das crianças. Quando tratarmos de "Aristóteles e a filosofia como
causa primeira", sugeriremos um exercício para estimular os adultos a gostar e querer perguntar
pelos porquês das coisas.
É curiosa a pressa de minhas alunas em querer que eu iniciasse o mais rápido aulas voltadas
para “filosofia para crianças” e não filosofia. Elas perguntaram como explicaríamos às crianças a
definição de Sócrates e os dois mundos de Platão? Daí, senti a necessidade de lhes dizer e escrever
um lembrete no quadro:
“Antes de filosofia com crianças, precisamos nos tornar filósofos, do contrário, apenas
decoraremos fórmulas”.

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1ª aula:
Esta aula é a mesma que eu leciono, também, para adolescentes. Primeiro, apresentei-lhes
sete teorias com definições de filosofia:

TALES: filosofia é o estudo da natureza de que as coisas são feitas, para ele, são feitas de
água. Ele, também, previu colheitas de oliveiras, de acordo com a previsão do tempo e alugou
prensas para as pessoas, ganhando muito dinheiro.

Pitágoras: Inventou a palavra filosofia (amiga da sabedoria) e filósofo (amigo da


sabedoria), isto é, aquele que busca o conhecimento das coisas. Foi, também, matemático: é dele o
teorema que leva seu nome.

Sócrates: a filosofia nos faz examinar a vida em todos os seus aspectos e isso nos torna
sábio e ético e a posse da sabedoria é a melhor vida.

Platão: a filosofia é a atividade superior do ser humano que o distancia da vida material e o
aproxima do mundo divino.

Aristóteles: a Filosofia é a ciência da verdade que trata da ética, lógica, da natureza e da


matemática.

David Hume: a filosofia ensina a ver os diversos aspectos que podem ser, por nós,
observados e que freqüentemente nos escapam.

Will Durant: Filosofia é o estudo da experiência como um todo, já as ciências, estudam


partes do todo.

Marilena Chauí: a filosofia reflete sobre as religiões, as ciências, a arte, a história e a


política para buscar origens, significados, forma e conteúdo.

Após tê-las escrito no quadro, perguntei se havia uma única definição de filosofia, se nos
perguntassem o que ela é? Evidente que não. Mas, há, sim, uma constante presente em todas elas: ela
é o estudo de todas as coisas, especialmente aqueles assuntos que requerem o uso da mente. Na

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Grécia antiga, construção de casas ou a medicina não eram atividade incluídas na filosofia, pois se
tratavam de atividades manuais, embora, Aristóteles tenha investigado o funcionamento do corpo
humano (para ele, o coração era a sede do fogo vital, mantido aceso pela respiração, por exemplo).
De todas as definições (o total é de 28, listadas na minha obra "Filosofia para adolescentes"
e deve haver muito mais, no meu livro "Curso de Filosofia Temática", ambas obras disponíveis na
internet - www.scribd.com -, mas estas oito são suficientes e, penso, abrangem todas as outras), a que
mais se aproxima da minha visão de filosofia é a de Will Durant: ela é uma atividade que se
interessa pelo todo e não tanto pelas partes, partes que são mais interessantes às ciências.

Método de ensino das teorias dos filósofos às


crianças:

Nossa proposta é tomar as teses filosóficas e traduzi-las em linguagem infantil. Seguir a


ordem cronológica pode ser um bom critério de como (ou em que ordem) apresentar os filósofos às
crianças.
Podemos pensar, também, que a ordem em que as idéias filosóficas aparecem na história
humana tem uma razão implícita e não facilmente reconhecida: o próprio desenvolvimento da mente,
da razão humana. Como crianças, os pressocráticos, se preocuparam em tentar entender o mundo a
sua volta; somente mais adiante, na história, é que suas preocupações se centrarão em si e nos outros
humanos. Não muito diferente é o desenvolvimento, por exemplo, das religiões: os primeiros deuses
se identificaram com a natureza, animais e fenômenos atmosféricos e somente, posteriormente, os
deuses adquiriram a forma humana e, mais tarde, alcançou um nível abstrato.
No século XVIII, Augusto Comte, apresentou sua teoria sobre o desenvolvimento da
humanidade, de um estágio religioso, passando pelo estágio filosófico e, segundo ele, estágio
científico. Deve haver alguma verdade nisso. Para Piaget, a mente infantil percorre momentos em
que só pensa sobre coisas concretas e só mais tarde, reflete sobre idéias, abstrações.

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E a mitologia?

Não gosto, como todo filósofo, de mitologias, embora reconheça alguma beleza nelas. Não
sei se deveríamos começar a filosofar pelos mitos. Sei o quanto os alunos se maravilham por essas
histórias. Sei, também, o quanto as crianças misturam realidade e fantasia e o que queremos lhe
ensinar é que elas busquem respostas, causas, explicações e não lendas e soluções mágicas!
Comprei o livro “Divinas aventuras” por achar que ele apresenta a história de cada deus
grego de modo muito simples e bonito. Tenho pensado em trabalhar essa obra com adolescentes,
porque sei que eles também gostam de ouvi-las e seria uma forma de um primeiro contato com o
mundo grego antigo.
Um aspecto secundário de se falar sobre mitos é mostrar às crianças e adolescentes outros
pontos de vista sobre religiosidade, além daquela monoteísta, cristã, que prevalece entre nós. Saber
que entre os povos mais antigos (o conceito de antigo não será fácil explicar, compara com o tempo
do bisavô...) havia a crença na existência de muitos deuses e que eles tinham sentimentos como os
humanos parece. Pode-se, inclusive, dar destaque às lendas locais de cada país: a lenda nórdica do
Deus Thor, a africana, com os Orixás que foram introduzidos na cultura brasileira, originalmente
divindades, mas que, como os africanos foram trazidos como escravos para o Brasil, não restou
alternativa àquela gente de identificar seus deuses com os santos da Igreja católica romana; do
contrário, seriam severamente punidos. E a mitologia gaúcha? Negrinho do pastoreio, a salamandra
de Jarau, o MBoitatá?
Algo igualmente interessante é tratar da tese de que os povos humanos mais antigos
identificaram nas forças da natureza (sol, chuva, inundações, relâmpagos, tempestades, furacões,

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secas, etc) seus primeiros deuses. Depois, vieram os animais e apenas por último os deuses foram
desenhados ou esculpidos com a forma humana!
Ainda sobre mitos: há alguns que poderiam ser trabalhados isoladamente (abaixo há

resumos tirados de www.wikipedia):

(a) o minotauro:
Após assumir o trono de Creta, Minos passou a combater seus
irmãos pelo direito de governar a ilha. Rogou então ao deus do
mar, Posídon que lhe enviasse um touro branco como a neve,
como um sinal de aprovação ao seu reinado. Uma vez com o
touro, Minos deveria sacrificar o touro em homenagem ao deus,
porém decidiu mantê-lo devido a sua imensa beleza. Como
forma de punir Minos, a deusa Afrodite fez com que Pasífae,
mulher de Minos, se apaixonasse perdidamente pelo touro vindo
do mar o Touro Cretense.[7] Pasífae pediu então ao arquetípico
artesão Dédalo que lhe construísse uma vaca de madeira na qual
ela pudesse se esconder no interior, de modo a copular com o
touro branco. O filho deste cruzamento foi o monstruoso
Minotauro. Parsífae cuidou dele durante sua infância, porém
eventualmente ele cresceu e se tornou feroz; sendo fruto de uma
união não-natural, entre homem e animal selvagem, ele não tinha
qualquer fonte natural de alimento, e precisava devorar homens
para sobreviver. Minos, após aconselhar-se com o oráculo em
Delfos, pediu a Dédalo que lhe construísse um gigantesco
labirinto para abrigar a criatura, localizado próximo ao palácio
do próprio Minos, em Cnossos.
Androgeu, filho de Minos, foi morto pelos atenienses, invejosos das vitórias obtidas por ele
nos Jogos Panatenaicos. Já outra versão do mito afirma que Androgeu teria morrido em Maratona,
atacado pelo Touro Cretense, o ex-amante taurino de sua mãe, que Egeu, rei de Atenas, tinha
ordenado que ele matasse. A tradição mais comum conta que Minos teria então declarado guerra a
Atenas para vingar a morte de seu filho, e saiu vitorioso do confronto. Catulo, em seu relato do
nascimento do Minotauro,[12] se refere a outra versão do mito, na qual Atenas teria sido "obrigada
pela praga cruel a pagar compensação pela morte de Androgeu." Egeu deve então evitar a praga
causada por seu crime enviando "jovens rapazes, bem como as melhores garotas solteiras, para um
banquete" do Minotauro. Minos exigia que pelo menos sete rapazes e sete donzelas atenienses,
escolhidos através de sorteio, lhe fossem enviados a cada nove anos (ou, segundo alguns relatos,
anualmente[13]) para ser devorado pelo Minotauro.
Quando se aproximava a data do envio do terceiro sacrifício o jovem príncipe Teseu se
ofereceu para assassinar o monstro, prometendo a seu pai, Egeu, que ordenaria que o navio que o
trouxesse de volta para casa erguesse velas brancas, caso ele tivesse sido bem-sucedido na
empreitada, ou velas negras, caso ele tivesse morrido. Em Creta, Ariadne, filha de Minos, se
apaixona por Teseu e o ajuda a se deslocar pelo labirinto, que tinha um único caminho que levava até
seu centro. Na maior parte dos relatos Ariadne dá a ele um novelo, que ele utiliza para marcar seu
caminho de modo que ele possa retornar por ele. Teseu então mata o Minotauro com a espada de
Egeu, e lidera os outros atenienses para fora do labirinto. Na viagem de volta, no entanto, ele se
esquece de erguer as velas brancas e seu pai, ao ver o navio e imaginar que Teseu estava morto, se
suicida, arremessando-se no mar que desde então leva seu nome

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(b) a caixa de pandora:
Foi a primeira mulher que existiu, criada por Hefesto (deus do
fogo, dos metais e da metalurgia) e Atena (deusa da guerra, da
civilização, da sabedoria, da arte, da justiça e da habilidade) auxiliados
por todos os deuses e sob as ordens de Zeus. Cada um lhe deu uma
qualidade. Recebeu de um a graça, de outro a beleza, de outros a
persuasão, a inteligência, a paciência, a meiguice, a habilidade na dança
e nos trabalhos manuais. Hermes, porém, pôs no seu coração a traição e
a mentira. Feita à semelhança das deusas imortais, destinou-a Zeus à
espécie humana, como punição por terem os homens recebido de
Prometeu o fogo divino. Foi enviada a Epimeteu, a quem Prometeu
recomendara que não recebesse nenhum presente dos deuses. Vendo-
lhe a radiante beleza, Epimeteu esqueceu quanto lhe fora dito pelo
irmão e a tomou como esposa.
Ora, tinha Epimeteu em seu poder uma caixa que outrora lhe
haviam dado os deuses, que continha todos os males. Avisou a mulher
que não a abrisse. Pandora não resistiu à curiosidade. Abriu-a e os
males escaparam. Por mais depressa que providenciasse fechá-la,
somente conservou um único bem, a esperança. E dali em diante, foram
os homens afligidos por todos os males.
Uma outra versão diz que a intenção de Zeus quando mandou Pandora
para a Terra, era a de agradar aos homens, e que seu presente de
casamento à moça foi uma caixa onde cada um dos deuses havia
colocado um bem. Infelizmente, porém, Pandora abriu a caixa sem
querer, e todos os bens escaparam e desapareceram, com exceção da
esperança que só se vai com a permição do homem que a traz, jóia
preciosa que fortifica o homem e lhe dá condição de enfrentar todos os
males com que a vida o maltrata

(c) Prometeu
Segundo Hesíodo[3] foi dado a Prometeu e seu irmão Epimeteu a
tarefa de criar os homens e todos os animais. Epimeteu encarregou-se
da obra e Prometeu encarregou-se de supervisioná-la. Na obra,
Epimeteu atribuiu a cada animal os dons variados de coragem, força,
rapidez, sagacidade; asas a um, garras outro, uma carapaça protegendo
um terceiro, etc. Porém, quando chegou a vez do homem, formou-o do
barro. Mas como Epimeteu gastara todos os recursos nos outros
animais, recorreu a seu irmão Prometeu. Este então roubou o fogo dos
deuses e o deu aos homens. Isto assegurou a superioridade dos homens
sobre os outros animais. Todavia o fogo era exclusivo dos deuses.
Como castigo a Prometeu, Zeus ordenou a Hefesto que o acorrentasse
no cume do monte Cáucaso, onde todos os dias uma águia (ou corvo)
dilacerava seu fígado que, todos os dias, regenerava-se. Esse castigo
devia durar 30.000 anos.
Prometeu foi libertado do seu sofrimento por Hércules que,
havendo concluído os seus doze trabalhos dedicou-se a aventuras. No

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lugar de Prometeu, o centauro Quíron deixou-se acorrentar no Cáucaso,
pois a substituição de Prometeu era uma exigência para assegurar a sua
libertação. A história foi teatralizada pela primeira vez por Ésquilo no
século V a.C. com o título de Prometheus desmotes (Prometeu
Agrilhoado/Acorrentado).
(d) ícaro:
O pai de Ícaro, Dédalo, um talentoso e notável artesão
ateniense, tentou deixar o seu exílio na ilha de Creta, onde ele e o
seu filho estavam presos nas mãos de Minos, o rei para o qual ele
havia construído o Labirinto para confinar o minotauro (metade
homem, metade touro). Dédalo, o artesão-chefe, estava exilado
porque deu à filha de Minos, Ariadne, um novelo de linha de
modo a ajudar Teseu, um inimigo de Minos, a sobreviver ao
Labirinto e derrotar o minotauro.
Dédalo confeccionou dois pares de asas, usando penas e cera,
para ele mesmo e o seu filho. Antes de deixarem aquela ilha,
Dédalo avisou o seu filho para não voar muito rente ao sol, pois o
calor derreteria a cera, nem muito rente ao mar, pois a humidade
deixaria as asas mais pesadas levando-o a cair no mar. Graças à
enorme liberdade que a sensação de voar deu a Ícaro, este cruzou
curiosamente o céu, mas durante o processo ele aproximou-se do
sol, que derreteu a cera. Ícaro manteve-se batendo as asas mas
logo acreditou que já não lhe sobrava qualquer pena daquelas e
que ele estava batendo apenas os seus próprios braços. E assim,
Ícaro caiu ao mar na região que recebeu o nome dele – o mar
Icário próximo a Icaria, uma ilha a sudoeste de Samos.

Uma outra possibilidade de aula sobre mitos é falar sobre eles em diferentes capítulos que
apresentaremos ao longo dessa obra: a história do Minotauro pode ser contada quando tratarem dos
animais, a Pandora, sobre a saúde e as doenças humanas, o mito do prometeu que levou o fogo aos
homens ao tratar dos elementos primordiais (filósofos pressocráticos) que organizariam tudo o que
existe, vivo ou inanimado, Ícaro, pode ser lembrado quando se falar dos sonhos, dos animais que
gostaríamos de ser, etc.
Historicamente, a partir dos mitos gregos surgirá um novo modo de explicar o mundo, onde
as pessoas com uso de seus sentidos e sua racionalidade independente de sua origem, embora a
sociedade grega antiga foi aristocrática, escravista e machista, o critério para distinguir a verdade da
falsidade não será mais o de sua suposta descendência divina, mas a coerência interna das ideias.
Porém, podemos pensar que aquilo que chamamos de razão seja tão somente um outro nome ou
estagio de uma metamorfose na qual os pensamentos míticos se transformaram. Veremos mais
adiante que Platão, um grande filósofo, criou e utilizou-se de um mito, da Caverna, para ensinar sua
teoria dos dois mundos.

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Os pressocráticos para crianças
O que eles podem ensinar às crianças? Sua indagação central era "de que eram feitas as
coisas?". De água, disse Tales, de números, Pitágoras, de ar, Anaxímenes, de átomos, Demócrito,
etc. Mas, não convém fazer as crianças perderem tempo com isso. Podemos pular essa parte e
perguntar a elas: de que são feitas as coisas que estão ao redor delas, que fazem parte de sua vida?
Aqui, há um aspecto importante: a analítica, a capacidade de decompor as coisas para saber quais
são os seus elementos constituintes. Muitas vezes nós adultos quando vemos uma criança quebrar
um brinquedo, achamos se tratar de vandalismo, mas talvez não seja: haveria ali um desejo de
decompor para saber o que há dentro e uma curiosidade de entender como as partes daquele objeto,
juntas, o formam. Não teriam sido os pressocráticos, também, crianças?

Como operacionalizar essa aula?

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(1°) Podemos apresentar vários objetos às crianças e fazer a pergunta que os sábios gregos
antigos fizeram - "de que são feitas esas coisas?". Aí, elas irão decompor as bonecas, os carrinhos,
etc, e nos dizer de que são feitos.
Podemos perguntar: O braço, é feito de quê? E os dedos, de quê? E a unha, de quê?
Não queremos forçar demais, mas podemos tentar ir além e perguntar: de que é feita a
unha? E se ela parecer ser feita de vidro, por causa de sua transparência, perguntar, então, de que é
feito o vidro? Podemos dizer que o vidro é feito de areia derretida, mas que a gente não consegue
enxergar... Haverá mais coisas que a gente não enxerga, mas está ali bem perto de nós? As pulgas
não seriam exemplos e as doenças, não são causadas por bichinhos bem pequenos?
Nessa aula, ou aulas, poderíamos mostrar um microscópio, mas isso dependerá da condição
financeira da escola, embora tal equipamento seja, em nosso entendimento, fundamental. Ouvi, com
satisfação, de uma aluna, professora de crianças que na escola onde ela trabalha há um microscópio
que as crianças utilizam! Um equipamento desses (se minha fonte não estiver enganada, amplia em
até 900 vezes uma imagem) custa pouco: R$80.
Pode-se usar, também, frutas: a maçã, de que é feita? Casca, a parte de dentro (o que
comemos), a semente, etc. A pêra, por exemplo, parece ter grãos de areia, duros, que nossos dentes
quebram, mas não vemos. E no microscópio?
Seria interessante que ao mencionar cada detalhe, como o cabinho da maçã, o professor
perguntasse: para que serve? Para prender a maçã a árvore. E, nós, temos cabinho? As crianças
provavelmente rirão. Mas, e o cordão umbilical, ele nos liga à mãe, como a maçã à árvore, sim?

(2°) há um outro elemento também importante a debater: a relação entre partes e todo. Pôr
partes em lugares diferentes daqueles originais, o que provoca? Mantém o ser ou o objeto realizando
tudo o que realiza antes? Um braço no lugar da perna ou a maçã sem casca ou se a casca estivesse
dentro dela, que diferença seria observada e que conseqüências, produzidas? Interessante se uma das

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crianças relacionar a boneca sem perna a um ser humano com um membro amputado e refletir sobre
as dificuldades que uma pessoa pode enfrentar no seu dia a dia, mas nem por isso a faz desistir: elas
trabalham e fazem bem muitas coisas que as outras pessoas fazem.

A foto acima se refere a um filme que me foi apresentado em um curso de Filosofia com
crianças na PUC de Porto Alegre (no terceiro trimestre de 2010) que mostra uma irmã iraniana
acompanhando seu irmão cego em um mercado público. Ocorre que eles acabam se perdendo. Ela ao
invés de insistir encontra-lo usando o que usamos habitualmente, os olhos, resolve fecha-los para que
agisse como seu irmão e tentasse intuitivamente refazer os passos que ele poderia ter feito, seguindo
os sons. E, então, ela o encontra.
Exercício:
Em grupo ou individual cada criança escolherá um dos brinquedos que a professor
disponibilizar e, por escrito, ou oralmente:
(1) listará as partes desses brinquedos
(2) proporá perguntas sobre as partes: por que estão organizadas assim?
(3) Comparará as partes de um objeto com as partes do corpo humano.
(4) tentará pensar (dirigido a professores, primeiramente) em outras maneiras diferentes de
combinar as partes.
Perguntas: o brinquedo cumpriria a sua função? Compare com o corpo humano, se as partes
fossem reordenadas de um modo diferente. Tente reorganizar as partes de um outro modo igualmente
funcional.
(5) o todo ou as partes: o que é mais importante? (para professores: Aristóteles acreditava
que o todo era mais importante que as partes, como uma cidade, mais importante que os indivíduos,
tomados isoladamente). Para ajudar: o braço é mais importante que a cabeça? O coração, mais
importante que o ouvido?
Encontrei alguns livros muito interessantes que envolvem o tema “todo/partes”, como o
“do que sou feito?”, editora Caramelo, com uma abordagem científica, mostrando os órgãos, ossos,
apresentando diferenças entre os cérebros femininos e masculinos (mas como fica os cérebros dos
homossexuais?), nele a criança encontrará testes para conhecer melhor seus gostos, se é, por
exemplo, introspectiva ou extrovertida (personalidade). Há, também, uma coleção que não mostra a
animal inteiro, apenas partes e a criança tem que descobrir que animal é?

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René Descartes, no século XVI, quando buscava um método para encontrar certezas das
quais não pudesse duvidar, apresentou as seguintes etapas:
(1) jamais tomar algo como verdade, a menos que tenha evidência, senão juízos claros e
distintos;
(2) dividir as dificuldades em partes que sejam possíveis de resolver;
(3) conduzir o pensamento em ordem, do mais simples ao mais complexo;
(4) realizar enumerações e as mais completas revisões para ter certeza de que nada omitiu.
O que isso tem a ver com filosofia com ou para crianças? É que para elas conhecerem algo
novo, terão que dividi-lo em seus elementos menores, mais simples, relacionando-os (comparando,
fazendo analogias, identificando semelhanças e diferenças) a outras coisas que já conheçam, como
seus próprios corpos ou a sua casa ou a sua família ou o seu bicho de estimação ou seus materiais
escolares, etc.
Crítica à visão cartesiana:
Fritjof Capra entre outros pensadores, especialmente cientistas criticou o pensamento de
René Descartes, chamando-o de reducionista, predominante no século XX e deu destaque, em
oposição àquela visão, a um novo olhar: holístico, que vê o todo como indissociável, de modo que o
estudo das partes não permite conhecer o funcionamento do organismo. Reconheço que ao dividir
um ser em suas partes, não resta muito do princípio de vida que o animava, mas podemos jogar fora
todas as descobertas que foram feitas a partir da necropsia dos seres? Reconheço, também, que
Descartes contribuiu muito para o menosprezo dos animais: dizia ele, que os animais não passam de
máquinas, sem alma, pensamento e, por isso, ainda hoje, tomamos os animais como objetos,
dissecando-os ainda vivos, testando neles, remédios ou cosméticos para nosso uso!

2a aula:
Também esta aula é idêntica a que leciono aos meus alunos adolescentes do primeiro ano
do ensino médio e acredito que possa ser utilizada na preparação de professores de educação infantil
e, quem sabe, possa ser usada com crianças!

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O objetivo é aprofundarmos a diferença entre o todo e as partes, a partir da definição de
filosofia dada por Will Durant. Propus um exercício que consistia em a partir de diversos objetos ou
situações (totalidades), pedir que os alunos identificassem suas partes:
(1) sol
(2) Terra
(3) Amazônia
(4) Relógio
(5) Cerveja (aqui aproveitei para dar uma alfinetada: sendo o álcool uma de suas partes,
lembrei-lhes que esta substância era a mesma que usamos para limpar vidros e fazer carros andarem.
Por que bebê-la, então?)
(6) Átomos
(7) Sentimento de raiva
(8) Sentimento de amor

Nestes dois últimos itens, dos sentimentos, surgiram, para a maioria dos alunos, listas de
partes. Mas, perguntei-lhes se eles não eram sentimentos indivisíveis, tal como as cores básicas, azul,
amarelo e vermelho? Especialmente, os sentimentos, poderiam ser trabalhados pelas crianças. Por
que não usar aquelas “emotion faces”, rostos que expressam emoções?
Quando tratarmos de René Descartes, pensador do século XVII, retornaremos à questão dos
sentimentos.

Ainda sobre a 2a aula:


Em outro semestre com outra turma, pedi aos alunos, que definissem a filosofia a partir das
diversas opiniões apresentadas e, depois, formulassem perguntas referentes ao todo e às partes de
determinados objetos, seres ou sentimentos.
Em geral, os alunos (deste curso do pós-médio) se limitaram a reunir em uma frase partes
das definições dadas, o que demonstra uma dificuldade de aprendizagem que vem da escola (do
ensino médio). Disse-lhes que tinham me dado um "patchwork" de respostas, como aqueles
cobertores feitos de vários tecidos costurados uns aos outros, mas o que eu tinha pedido era outra
coisa: uma única definição. Uma aluna me apresentou uma definição que se destacou sobre as
demais, mais ou menos assim: que "filosofia é a capacidade do ser humano de conhecer o mundo e
a si mesmo através de sua percepção". Agradeci, na hora, as céus, por aquela dádiva, chamei a
definição dada pela aluna de genial, mas depois veio a explicação: ela, como um bom símio, como
todos nós (entre os quais me incluo!), copiou a definição que a professora de Psicologia lhe deu e,

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provavelmente, nem sabia o que significava! Outras colegas, também, copiaram a mesma definição e
eu as rejeitei pensando que estas tivessem copiado a definição daquela "genial" aluna!
Sobre a segunda parte da tarefa, lhes pedi que formulassem perguntas sobre o todo e as
partes dos seguintes itens:
a) colégio
b) banco (instituição financeira)
c) Terra (planeta)
d) Amor
e) Ódio
f) Internet
g) Sala de aula
h) Vida
i) Automóvel
j) Corpo humano
k) Aluno
l) Supermercado
m) Olho
n) Professor
o) Almoço

Peguemos, por exemplo, o colégio. Uma pergunta sobre o todo: "por que vamos à escola
aprender?" e uma pergunta sobre as partes: "quantas salas estão em boas condições?". Com este
exercício, propus distinguir a filosofia das ciências, mas, sei que não é tarefa fácil. Uma sugestão que
eu lhes dei foi observar se uma pergunta sobre um destes itens trata de todos os elementos de um
conjunto ou se apenas de um elemento do conjunto.
Um outro modo de estudar partes/todo é relacionar aos conjuntos estudados na matemática:

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Muitos exercícios com crianças são feitos desse modo: pôr um elemento, uma fruta ou um
bicho de pelúcia, dentro de uma cesta, onde estejam outras frutas ou outros bichos de pelúcia, por
exemplo.
Eu ia apresentar às minhas alunas, futuras professoras, mas não tivemos mais tempo, o
poema de Gregório de Matos, poeta mineiro do século XVII, época das descobertas de ouro e
diamantes e do desenvolvimento econômico do interior do Brasil, que tratou do todo e das partes, a
partir da destruição por invasores holandeses de uma escultura religiosa:

"O todo sem a parte, não é o todo"


"A parte, sem o todo, não é parte"
"Mas, se a parte faz o todo, sendo parte"
"não se diga que é parte, sendo o todo"

Ainda sobre a questão do todo e das partes, não se trata de mera convenção, mas tem
grande relevância, embora reconheçamos que há dificuldade em precisar os limites de um e de outro.
O que é o amor? Não é querer o bem do outro em sua totalidade? O que é o Estado? A população
como um todo? E o Estado, como um todo, é maior que a soma das partes, o que lhe autorizaria a
esmagar partes dissidentes, vozes que se oponham? Isto tudo não é relevante? (esta parte, também,
não foi apresentada aos alunos, pela mesma razão do poema)

17
Dois livros em especial trechos onde se pode trabalhar
"partes/ todo" com crianças:
Na página 22 do livro ULA, do filósofo brasileiro da PUC do Rio Grande do Sul, professor
Sardi, nos é apresentada uma experiência, sempre sob a forma de uma narrativa: o que acontece se
cortarmos um pedaço de papel na metade e essa metade em uma metade menor e assim
sucessivamente, cortando a metade menor em uma nova metade. Chegará um momento em que não
haverá mais nada para cortar ou sempre será possível cortar um pedaço ainda menor?

Mas, quando perguntei a professoras e alunos qual é a solução para a pergunta do livro ("se
a gente for cortando, cortando uma coisa no meio... tem uma hora que não vai sobrar mais nada?
Ou a gente ia continuar dividindo, dividindo sem parar nunca?"), suas respostas foram, em geral:
(a) é um bom exercício para desenvolver a motricidade do aluno,
(b) ou, que não haveria tesoura ou mão humana pequena suficiente para cortar e cortar, sem
fim, em metades menores. E aí, acreditamos, o exercício se inviabiliza, porque não é isso que se
pergunta, mas se as coisas (e nós mesmos) somos compostos de partes que são compostas de partes
ainda menores e, mais, se há elementos que formam tudo o que existe e que não podem ou não são
compostos de outros elementos. Tesoura ou papel são meros exemplos, coadjuvantes. Uma última
crítica: ao cortar papéis e depois jogá-los fora parece pouco ou nada ecológico!

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Dei a futuros professores (de uma turma de magistério) o seguinte exemplo: ao dividir "1"
pela metade, teremos 0,5 e dividindo-o, 0,25, e, poderemos dividir o número pela metade e fazendo
isso chegaremos a um número que não pode mais ser dividido ou sempre poderemos dividir e
encontrar um número ainda menor (0,25...0,125..0,0625..0,03125..etc) ?

19
Na página 19 e 20 do livro Rebeca, de Richard Reed, discípulo de Mathew Lipman,
pioneiro na proposta de filosofia para crianças, há uma história em que a menina, Rebeca, fala de seu
elefante, começa dizendo "tenho um elefante", como se aquele ser vivo fosse sua propriedade. No
livro Manual dos professores, para uso do livro Rebeca, o autor diz que esse trecho trata de estética e
ética. Mas...
(1) Há ética quando você vê um animal como sua propriedade?
(2) Ele diz, também, que se um elefante tiver a orelha laranja e o resto do corpo cinza
parecerá engraçado. E uma pessoa com vitiligo? É engraçada por ter uma parte da pele de uma cor e
o resto do corpo de outra cor? Que graça há nisso, sr. Reed?

20
Melhor seria ler para as crianças a história da ovelha que nasceu com uma orelha da cor de
limão (Orelha de Limão: Katja Reider. Editora Brinque book)...em vez de dizer que uma pessoa que
tem uma parte diferente do corpo produz em nós risos! No resumo da obra está escrito: “Era uma vez
uma pequena ovelha, igual a todas as outras. Só uma coisinha nela era diferente: uma de suas
orelhas era amarelo-limão." Mas quanta diferença! Por conta desse pequeno detalhe, uma orelha
amarelo-limão, nada dava certo para a ovelha e ela sofria muito. Em Orelha de Limão, a autora
fala das diferenças: muitas vezes pequenos detalhes que nos fazem sofrer geram grandes
transtornos”.
(3) nos exercícios sugeridos sobre "partes/todo", sugere que perguntemos às crianças se, por
exemplo, um gato em uma sala cheia de crianças corresponde a uma parte de um todo? É claro que
para um adulto a resposta é negativa, mas, para uma criança, não haveria felicidade maior, a menos
que fosse alérgica a felinos! Esse é um exemplo de exercício sem resposta!
(4) Na página seguinte, 21, leva a criança a pensar que leões e elefantes não tem a mesma
cor para que nós não os confundamos e acariciemos um leão, feroz, quando queríamos demonstrar
afeto pegando a tromba de um elefante!
Nas três aulas seguintes, pedi um exercício: que refletissem sobre o uso dos livros Rebeca e
Ula em aulas para crianças, observando prós e contras, deixando, primeiramente, os sentimentos
surgirem ao natural. Primeiramente, tiveram dificuldade de entender o exercício proposto. Lembrei-
lhes que a questão era saber como dar aula sobre o tema "Partes/todo" para crianças. Depois,

21
recordei, também, que a ideia de parte e todo podia ser comparada com a ideia matemática de
conjuntos: "x" é parte de "z" ou "x" está no conjunto "z".
Além disso, perguntei, ainda, que aula dariam sobre o tema "Partes/todo", procurando com
essa pergunta saber se escolheriam seguir um dos livros, a aula que eu dei (decompor partes de um
brinquedo até usar microscópio) ou algo original e diferente, pensado por elas mesmas.
O mais curioso é que embora tenha pedido que refletissem sobre os livros, o que achavam
de utilizar aqueles trechos em aula, as alunas, mais de uma, me perguntaram se o que elas tinham
escrito estava de acordo com o que eu esperava!

Pontos positivos na Ula e na Rebeca?


(a) Pioneiros em crer que se possa filosofar com ou para crianças. Na verdade, as crianças
lidam melhor com os porquês do que nós adultos. É muito comum, aliás, serem, por nós, censuradas
por perguntar tanto!
As crianças são f i l ó s o f a s n a t a s! Não desestimulemos sua simplicidade,
sinceridade e curiosidade com nossa arrogância!

(b) ainda que Rebeca tenha um manual de orientação, não se vê respostas, o que é positivo,
pois a filosofia ensina a ver um tema sob diversos ângulos, não apenas sob um só. Exemplo: no
exercício sugerido: "Diga se faz parte do todo: um gato em uma classe de crianças" talvez um adulto
diga que não faz, o animal pode estar doente ou com pulgas e isso irá ameaçar a vida das crianças.
Mas, as crianças podem ver isso como algo positivo: ter um ou mais bichos de estimação para que
possam cuidar deles, exercitar a capacidade de dar afeto em vez de apenas receber.

E os Pontos negativos na Ula e na Rebeca?


(a) acredito que Lipman, não deu o devido valor a uma série de filósofos e suas teorias: ele
não tratou, de dialética, por exemplo. Em sua obra para a educação infantil, “Rebeca”, percebo uma
série de dualismos: verdade-falsidade, mundo exterior-mundo interior, belo-feio, que se mantêm e
não são superados. Com menor intensidade, no livro “Ula”, também, há dualismos: o “eu” em
oposição aos outros, determinismo e liberdade, embora nesse último autor pareça que tais oposições
são momentos, postos para reflexão, para provocar o pensamento, não necessariamente para
permanecerem eternamente em oposição!
(b) Os temas filosóficos tratados por Lipman estão espalhados, desordenadamente, e,
embora, ele apresente um manual para o professor, ainda assim, o professor não conseguirá ter uma
visão geral dos objetivos a alcançar. Isso talvez se explique pelo fato de que os livros organizados
por Lipman e sua equipe não são autoexplicativos; exigem que o professor participe de um ou mais

22
cursos de formação. O mesmo ocorre com a obra Ula, não me parece auto-explicativo: apresentei-o a
minhas alunas (de pós-médio, muitas já são professores de crianças) e, no tema relacionado a teoria
dos pressocráticos, elas ao lerem a experiência de cortar um papel ao meio e dessa metade,
novamente cortar ao meio e refletir se sobrará algo ou se poderá cortar indefinidamente, elas
interpretaram isso como um exercício de psicomotricidade! Na Ula, contudo, é possível identificar as
teorias filosóficas que subjazem à história, vê-se com clareza que o autor, professor Sérgio Sardi,
partiu da história e das contribuições filosóficas, um tesouro do qual não se deveria abrir mão. O
ponto que me causa dúvida é por que o professor partiu da dúvida sobre o “eu”? O pensamento de
René Descartes exerceu sobre ele grande influência? Por que não poderíamos começar um livro
infantil pelos pressocráticos, por quem a filosofia começo?

Nessa presente obra, procuro apresentar a meus alunos (professores de crianças) um caminho
baseado nas teorias filosóficas surgidas em cada momento da história da humanidade história
(método historiográfico), mas que revela o desenvolvimento da razão humana (para Hegel, o
aparecimento dos filósofos em uma certa ordem temporal não é obra do acaso, são momentos em que
o espírito do mundo se manifesta!) e que se assemelha ao próprio desenvolvimento mental da
criança, passando pela adolescência até a fase adulta.

(c) enquanto Lipman quer excessivamente ensinar às crianças categorias, classificações, na


obra Ula, há uma aversão, também excessiva, mas completamente inversa, a qualquer tipo e
categorização. O autor de “Ula”, com quem pude participar de um curso, sugere e estimula que
pensemos e estimulemos as crianças a pensar, em novos nomes para sentimentos só nossos, algo que
parece democrático, libertador, mas cuja prática, se tornada prática comum, inviabilizaria qualquer
comunicação humana – John Locke, no século XVII, refletiu sobre isso: se déssemos nomes para
cada folha de uma árvore, como poderíamos memorizar infinitos nomes e comunicá-los às outras
pessoas?
(d) Um outro aspecto que me intriga por sua ausência em obras de filosofia com ou para
crianças é a ausência da experiência concreta. Li no livro de orientações para professores da obra Ula
sugestões para se trabalhar com os cinco sentidos, mas não vi destaque significativo na obra Ula
dirigida às crianças. Aliás, o simples fato da criança estar lendo ou vendo as imagens implicará que
ela não estará, por exemplo, observando pássaros, o céu, as nuvens, embora o exercício da Ula se
olhando no espelho possa estimular a criança a fazer o mesmo. Mas, na maior parte da obra, a
experiência se limita àquela mental, que sob o ponto de vista de um empirista (cuja máxima é “nada
está na mene que não tenha passado pelos sentidos”, embora reconheça uma exceção, a própria
mente não passou pelos sentidos!) pode (não afirmo que seja!) ser menos nítida do que aquelas
originadas nos órgãos dos sentidos.

23
O pressocrático Heráclito:
Sua teoria consiste na afirmação de que a única constante na vida é a inconstância, a
mudança: sua frase célebre: Não entramos duas vezes no mesmo rio, pois já não é o mesmo rio e nós
(adição de Crátilo, seu discípulo) também já não somos os mesmos.
Como dizer isso às crianças? Por que não construir um pequeno córrego com mangueira e
água corrente. Nesse dia, pedir que as mães tragam um muda extra de roupa, pois as crianças vão se
sujar. E como diz uma propaganda de tv de um detergente em pó: "se sujar faz bem", isto é, no
processo de aprender, roupas sujas são o que menos deve importar a uma mãe, mas, sim, o quanto a
criança aprendeu interagindo no mundo!
Havia uma propaganda cujo "slogan" era muito inteligente e educativo (coisa que não se
espera de uma propaganda e que se opõe à crença de que a mídia emburrece as pessoas) : "se sujar
faz bem", que vendia um detergente de roupas, um sabão em pó chamado OMO, que citava o
filósofo Aristóteles - "Nós aprendemos fazendo" e relacionava a experiência humana (e infantil) de
se sujar como condição para o “estímulo e libertação de todo nosso potencial humano pois, para
crescer e nos desenvolver, precisamos ser livres para descobrir o mundo e aprender através de
nossas próprias experiências”.

Por que não somos todos iguais? Ou por que tudo está em constante mudança?
Numa das aulas, uma aluna que também era mãe, lembrou que o filho lhe perguntara: "por
que as pessoas são diferentes, algumas mais escuras, outras, mais claras?". Então, sugeri o seguinte
exercício:

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Peça ao filho que faça o desenho de um carrinho. E, depois, se ele quiser, um segundo
desenho e, quem sabe, depois, um terceiro desenho. Recolha cada um e não o deixe olhá-los.
Finalmente, depois de reunidos, mostre a ele os três desenhos e pergunte: são iguais ao carrinho. Por
que não? Deixe - socraticamente - que ele busque explicações, mesmo porque muitas perguntas,
como essa, são realmente de difícil solução!
Outro exercício: o "telefone sem fio", onde uma pessoa escuta uma frase e repassa de uma
pessoa para outra e a última pessoa que escuta a frase a pronuncia em voz alta. Por que a frase ficou
diferente?
Uma aluna questionou se esse exercício não ensinaria que há um designer, uma inteligência
que cria as coisas. Se há, por que não cria todos iguais? Por que há diferenças?

Os pressocráticos e a physis (o brotar da vida)?


A filosofia da natureza, proposta pelos pressocráticos, visava conhecer o que estava no
fundamento de todas as coisas vivas ou não. Mas, além disso, também tratavam de como as coisas
surgem ou como a vida brota (physis, que usamos na palavra Física, vem do verbo grego para
"brotar", surgir, transbordar).
Assim, por que não tratar da origem das coisas após refletir sobre de que são feitas? Há
uma força invisível que trás a vida às coisas e aos seres? Se um fruto, como uma maçã tem partes,
entre elas a semente, podemos, agora, dedicar atenção às sementes. Como elas produzem a vida?
Quais os tipos de sementes existem? São todas iguais?

25
Um exercício bastante antigo para fazer é pedir que as crianças plantem feijões em algodão
para visualizarem o desenvolvimento, mas penso que falte um momento ou momentos para refletir,
buscar o porquê aquelas coisas acontecem como acontecem? E, pelo que me lembro, se as
professoras mantiverem a experiência apenas usando o algodão como substrato os alunos perderão
fases igualmente importantes como a floração e a frutificação do feijoeiro!

Perguntas filosóficas:
Que surpresa quando abrindo a vagem encontramos as sementes parecidas com aquelas
com as quais iniciamos o processo, de um grão surgirão dezenas. Aí, também, se observa um ciclo,
um círculo, um início, meio e um fim, mas um fim que conduz a um novo começo, ponto-de-vista
comum entre os pensadores gregos, como Heráclito e, mais tarde, os estóicos – por que a ciência da
Economia crê que no mundo predomina escassez?
E o ser humano e os animais têm sementes? Resposta possível, mas não a única: uma
mulher grávida não carrega a "semente" de um novo ser humano? Aqui, ao falar sobre os primeiros
filósofos, pode-se tratar da educação sexual para crianças, de um modo objetivo. Especialistas em
educação sexual dizem que se deve esperar pelo interesse da criança. E se não houver interesse? Ou
se os pais lhes ensinarem que a sexualidade é feia?

26
Resolvi fazer esse experimento (do feijão) em uma turma de magistério (futuros professores
de ensino fundamental) e observei que muitos que não fizeram eram aqueles mais indisciplinados,
que eu achava que não seriam ou deveriam ser professores, pois, não tinham desejo de aprender,
aliás, viam aprender como um peso - o que iriam ensinar às crianças? O psicólogo Pierre Weil no
livro “Minha vida, meu futuro”, no intuito de ajudar os jovens a escolher a profissão, organizou-as
segundo preferências e características de personalidade das pessoas e quando tratou dos professores,
inclui essa profissão no grupo daquelas em quem predomina o gosto por “Tratar, cuidam, curar,
educar, criar, cultivar” e, abaixo, lista ocupações, tais como, agrônomo, assistente social, boiadeiro,
botânico, cardiologista, enfermeiro, floricultor, massagista, parteiro (a mãe de Sócrates tinha esta
função e ele dizia que ele também a tinha), professor, psicólogo, psiquiatra, quiroprático, sanitarista,
veterinário, vinicultor, entre outras.

Há observações específicas a fazer sobre tal experimento: o ciclo desde a germinação até a
vagem e novos grãos, dependendo da temperatura ambiente pode levar entre 65 a 120 dias. Assim, é
útil que se comece no início do ano letivo e não como eu fiz, na primeira vez em que pedi aos alunos
essa tarefa: iniciando no dia nove de outubro. No dia 3 de dezembro, cerca de 48 dias após a
germinação, somente agora se pode visualizar o surgimento de gemas, que antecederão as flores,
que, em um primeiro momento pareciam ser apenas folhas novas que surgiam. No dia 9 de
dezembro, observei as flores se abrindo e, curiosamente, secaram 1 dia depois e atrás delas, apareceu
uma minúscula vagem!
Há livros infantis cujo tema é ciclos de vida:

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CICLOS DE VIDA - DE GIRINO A
SAPO
JC REPRESENTACOES

Camilla de la Bedoyere

Preço: R$23.00

BORBOLETA - COMO OS BICHOS


CRESCEM
GIRASSOL

Mary Ling;

Preço: R$10.96

CICLOS DE VIDA - DE OVO A


GALINHA
NOBEL Camilla de la Bedoyere

Preço: R$23.00

28
CICLOS DE VIDA - DE FILHOTE A
CANGURU
NOBEL

Camilla de la Bedoyere

Preço: R$23.00

Pode parecer estranho falar de cangurus, um animal exótico no Brasil, só visto em


zoológicos, mas há um ensinamento: o bebê permanecer na bolsa da mãe canguru até estar pronto
para andar, pular e se alimentar com suas próprias pernas!
Do Youtube, copiei para mostrar às alunas, futuras e algumas já professoras de crianças,
vídeos sobre partos. A reação das minhas alunas foi de repugnância, embora dentre elas se achassem
muitas que já tinham tido filhos. Uma delas, aliás, disse que não mostraria os vídeos às crianças,
pois, os meninos implicariam e caçoariam com as meninas, pois lembrariam das imagens e as
associariam à genitália das meninas. Pergunto: devemos então esconder?

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Apresentei às minhas alunas do turno da tarde, de magistério, o livro “Mamãe, como nasci”
e cada vez que lia um trecho elas riam de nervosas, porque falar sobre sexo ainda é um tabu,
causando vergonha. Em parte, até eu fiquei um pouco envergonhado: há trechos que eu não leria para
uma criança, tais como, “quando o pênis do menino fica duro” ou “é normal a vagina da menina ficar
molhadinha quando é, por ela, acariciada”, pois “molhadinha” é um termo que adultos usam, com
uma conotação vulgar, envolvendo um desejo sexual do homem em relação a mulher. Menos
ofensivos, mas polêmicos (em Pernambuco, mandaram apreender livros distribuídos às crianças e um
pastor evangélico sugeriu que se distribuísse bíblias...), há desenhos de um menino acariciando seu
pênis em uma banheira e uma menina vendo sua vulva e suas partes (lábios, clitóris, uretra e vagina)
com um espelho, o que não é má sugestão, pois, desse modo, é possível conhecer o seu próprio
corpo!

Encontrei na internet trechos de um livro escrito por Per Holm Knudsen, na Dinamarca (e
não na Alemanha, como muitos pensam), na década de setenta, do século passado dirigido a crianças,

30
segundo a pesquisa precisa, da professora Maria José Alves Veiga, da Universidade portuguesa de
Aveiro :

Encontrei, também, na internet um trabalho de crianças


(http://www.cdcc.usp.br/maomassa/mostra_09/posteres_09/9_poster_como_
%20nascem_animais.pdf) , da escola CEMEI, de São Carlos/ SP, sobre como nascem os seres, a

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partir de uma dúvida das crianças (de onde vêm os coelhos?). A maioria respondeu que vem do ovo e
se satisfizeram com isso. Outras, provavelmente, motivadas pelos pais ou professores disseram que
vem de uma sementinha que o pai põe na barriga da mãe.
Repararam que a boneca Barbie não tem genitais? Somos uma sociedade normal, quando
até os bonecos são castrados? E os povos indígenas, que andam nus, se tornam por isso promíscuos?
(foto: povo Yanomami, Brasil)

Ida ao ginecologista.
Lembro de ter quando criança acompanhando minha mãe ao ginecologista. E, sem
cerimônia, curioso, passei diante da genitália dela, ela estava deitada com as pernas para o ar, sobre
aqueles suportes para ser examinada e pelo fato o canal vaginal ter sido alargado pelo especulo, achei
estranha aquela imagem, feia mesmo, a genitália me pareceu um simples buraco escuro (achei
porque o menino vê a menina e a própria mãe, o sexo feminino, oposto a ele, como inferior,
simplesmente por ser diferente dele)! Hoje, se me perguntarem se aquela experiência me foi útil,
respondo que é sempre melhor deixar ver do que manter escondido da criança, pois a curiosidade
precisa ser satisfeita.

Pornografia.

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Lembro, também, que em um verão bem distante alugamos uma casa e meus pais
encontraram uma revista pornográfica embaixo da cama. Eu e minha prima infernizamos nossos pais
até que nos mostrassem as revistas. Depois, que vimos que eram pessoas tendo relações sexuais (não
me lembro se sabia exatamente o que era isso), que elas estavam nuas e tocando os órgãos umas das
outras, fomos fazer outra coisa!

Como falar de drogas para crianças?


Outra polêmica gigantesca.
Para uma turma de 2o ano do magistério (futuros professores) apresentei vídeos que
mostravam o uso de drogas entre indígenas, líderes religiosos, que inalam um pó feito a partir de
plantas, o inoco, e dizem ver espíritos da floresta que os orientam para curas de doentes da tribo, por
exemplo. Mostrei, também, que na Índia, religiosos também usam drogas, dessa vez, maconha, que,
segundo eles, os aproxima do Deus Shiva. Procurei mostrar que bebidas alcoólicas, também, viciam,
mas essas são aceitas pela sociedade ocidental, embora, também, produzam conseqüências nocivas às
pessoas, a seus familiares e a desconhecidos.

Propus à turma de alunos do magistério que refletissem sobre isso. Uma aluna, pensou em
mostrar as fotos que vem junto nas carteiras de cigarros, fotos sobre o efeito do consumo de tabaco.
Outros alunos, acharam forte demais para mostrar às crianças as imagens de cadáveres, aborto.
Outro, confeccionou pacote de droga, depois um cachimbo de crack. Outra, um jogo em que a cada
resposta correta sobre os efeitos nocivos de drogas, a criança progredia no jogo. Uma aluna, sugeriu
um livro que trata de substâncias químicas e sua ação no corpo humano: Bom ou ruim? Coleção:
Meu corpo, Autor: Claire Llewellyn. Uma outra aluna, questionou se devemos apenas mostrar as

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drogas como nocivas, se as crianças de comunidades envolvidas com o problema vem, também, o
lado positivo: o poder e riqueza que os traficantes ostentam, a felicidade (temporária) que o usuário
experimenta. Assim, diferente do livro “bom ou ruim?”, que vê as coisas como opostos (cujo tema
aprofundaremos quando tratarmos da dialética do filósofo Platão), a aluna foi além ao observar que
muitas crianças por estarem imersas no mundo das drogas ou serem vizinhas dele, vêem-no de um
modo valorizado e, ainda que nos opusemos às drogas, não basta dizer que elas fazem mal, mas
mostrar como isso se dá a longo prazo, reconhecer que dentro das famílias das crianças há pessoas
que se drogam, incluir, também, o que normalmente não fazemos, entre drogas: remédios (incluindo
o uso desmedido de Ritalin, entorpecendo as crianças, pois está na moda os psiquiatras inventarem
complexos para cada ser humano que apresenta alguma diferença do que é convencionado “ser
normal”), além dos cigarro e bebidas alcoólicas, legais na nossa cultura!
Tanto sobre a sexualidade quanto sobre drogas, assuntos polêmicos, a sugestão é que a
escola abra um diálogo com os pais, buscando refletir sobre os limites das informações que vão ser
apresentadas às crianças. Talvez, seja preciso educar os pais para, somente depois, educar as
crianças.

O pressocrático Parmênides:
Defensor de que só o que existe é um único ser, eterno, imóvel e infinito, qualidades que as
religiões, ainda hoje, atribuem a Deus, Parmênides vai mais além questiona a realidade: o
movimento, a pluralidade das coisas seriam apenas ilusões!
Não precisamos falar sobre Parmênides tão diretamente às crianças. Podemos brincar com
elas usando o “jogo de estátua” para ver até que ponto elas agüentam ficar paradas. Podemos
perguntar, então: é possível parar tudo dentro de nós, o barulhinho do estômago até os nossos
pensamentos? Até Buda pode ser ensinado aqui: no silêncio interno o que podemos descobrir? Eu
tive um professor de biologia (e outros, antes dele) que nos fazia baixar a cabeça e manter-se em
silêncio, estimulando esse hábito em nós. Como essa experiência afeta nossos pensamentos? Fica
mais fácil ouvi-los?
Há, ainda, outra brincadeira: a de tentar fazer o colega, estático, piscar os olhos. Simples,
mas efetivo, se quisermos provocar reflexões: é possível existir assim, sr. Parmênides?
Pode parecer inútil estudar esse filósofo, mas se tudo muda e nada permanece o mesmo,
idéia que a maioria de nós acredita, então, como poderíamos dizer uma verdade, se nem as palavras e
as experiências permaneceriam paradas?
Há uma brincadeira possível relacionada a Parmênides, cuja idéia partiu de um dos seus
alunos, Zenão:

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Imagine uma tartaruga e um atleta competindo para ver quem ganha. A tartaruga sai na
frente, pois, lhe deram essa vantagem, talvez por acreditarem que ela não tem nenhuma chance
mesmo! Mas... e se o espaço que separa a tartaruga do atleta estiver dividido em infinitas partes, o
corredor terá que percorrer cada uma, mas se são infinitas... ele nunca alcançará a tartaruga!
Há um outro desafio parecido, só que, agora, se imagina um arqueiro arremessando uma
flecha até um alvo distante. A pergunta que se faz é se o tempo também está dividido em infinitas
partes, a flecha terá que passar por cada uma dessas infinitas partes, infinitos momentos e, assim,
nunca chegará ao alvo!

Outros pressocráticos:
Há outros, Anaxímenes que diz que tudo e feito de ar, Tales de Mileto, tudo é feito de água,
Pitágoras, tudo é feito de números, Empédocles, tudo é uma combinação de fogo, ar, água e terra. À
exceção de Empédocles, que lida com fogo e na idade das crianças é bom afastá-las desse elemento,
sem assusta-las como quando diziam para nós “quem brinca com fogo, urina na cama!”, os demais
pressocráticos tratam de elementos que causam em todos nós uma curiosidade.
O ar, algo invisível, que está a nossa volta, pode ser um leve sopro, um vento que nos
empurra até um furacão (que no seu centro é silencioso!) Um exercício simples, relacionado ao
silêncio é apenas sentir o vento ou, então, falar à distância para ver a diferença de altura e força do
som...
A água, presente em todas as coisas. Quem sabe uma aula onde as crianças deixem em um
dia ou em uma semana de temperatura elevada algo exposto ao sol, como uma roupa molhada ou
uma fruta se decompondo dentro de uma jarro de vidro? Para onde foi a água que estava ali?
Os números? Que tal pegar uma régua e sair medindo o colega ao lado, as plantas, a
calçada ou o muro da escola, de modo que, depois disso, as informações sejam reunidas em um

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desenho onde não existam objetos ou seres desenhados, mas apenas números? É apenas uma
sugestão! ...

A educação grega: Esparta e Atenas.


Nesta aula apresentamos as características básicas das educações espartana e ateniense, mas
mais do que isso, questionamos quem estabelece o tipo de educação em cada povo? E a resposta
recaiu sobre seus governos. Perguntamos qual o tipo de educação que o governo brasileiro e os
políticos eleitos por nós estabeleceram? Se nossa educação remunera mal os professores, os alunos
não aprendem nada, isto não deixa de ser uma escolha, um projeto: não educar, esta foi a decisão dos
nossos líderes!

Esparta Atenas séc. V aC


- crianças doentes ou mal-formadas eram jogadas de - educação voltada para a formação
m precipício; integral, do corpo e da alma.
- aos 7 anos, criança sai da família e é entregue ao - até os 18 anos há uma educação em
governo para educação básica escolas particulares
- aos doze, dedicadas ao esporte. Depois, aulas de - depois, intrução em esportes, esgrima,
poesia (Homero) e música luta e natação
- aos 18, treino militar, andavam descalços para - dois anos de serviço militar
enrijecer a pele e resistir às dores continuação da educação com
- dos 20 aos 30, estavam disponíveis para guerrear mestres da retórica
por Esparta
- aos 30, fim do serviço militar e conquista da Fonte: História. Editora
cidadania Ática:2008.
- mas só a partir dos 60 anos, termina suas
obrigações militares

Depois que falei sobre a educação de Esparta tão bem retratada no filme "300", as alunas
ficaram interessadas em vê-lo. Uma deles se ofereceu para trazer o DVD e outras, milho para fazer a
pipoca, além de refrigerantes. Mas, não trouxeram o filme e tive que introduzir o dos grandes
pensadores da filosofia ética: Sócrates, Platão e Aristóteles.

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Primeiramente, destaquei a maravilha da filosofia grega cujos mestres incentivavam seus
discípulos a conceberem opiniões diferentes das suas e mostrei o contraste com o que acontece hoje
em dia nas nossas universidades: o mestre exige do discípulo fidelidade a um filósofo antigo, um
retrocesso! Como tinha sido possível que Sócrates desse origem a teorias tão diferentes quanto à
platônica e, depois, a aristotélica, mantendo uma tese central inalterada: a de que a razão é um
elemento divino em nós, diferenciando apenas como ela entra em nós, externamente em Platão e,
antes, Heráclito ("a razão é inspirada", como inspiramos ar e quando dormimos é expirada, por isso
os sonhos são irracionais!) e internamente, em Aristóteles, quando o pai transmite sua forma, alma
ou mais especificamente o espírito, o que há de racional para o filho, enquanto a mãe, transmite a
matéria. E tal diversidade de opiniões só foi possível surgir na Grécia antiga, porque eles
valorizavam a argumentação, exercitaram como nenhum outro povo a democracia direta e
valorizaram a formação integral dos indivíduos.
Ao refletir sobre a educação ateniense, me dei conta de que, a partir de Sócrates, temos
duas visões conflitantes sobre educação:
(a) Platão com sua divisão tripartite da alma (inteligência, irascibilidade e concupiscência)
e, também, de sua dialética, exercício que a alma faz (que já trás consigo a verdade, pois conviveu

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com as coisas divinas antes de vir para este mundo material), analisando as respostas às perguntas
que todos os homens fazem, as decompondo para testar sua veracidade e, depois, as reagrupando
para ter a idéia geral, teoria, e
(b) de outro lado, a visão empírica, que toma o mundo físico como ponto de partida para se
chegar ao conhecimento. Vemos aqui duas posturas frente a crianças: entendê-las como possuidoras
de uma verdade que elas trazem dentro de si ou uma folha de papel em branco a ser escrito pelo
mundo material? Na aula seguinte, iniciaremos o estudo de Platão e, depois, de Aristóteles.
Diante desse quadro surgiram algumas questões: deveriam os professores ensinar a teoria
dos dois mundos de Platão às crianças? Eu respondi, não. Mas, rapidamente, diante do vazio,
respondi, também: devemos observar os dons nas crianças e apoiá-los, sem se importar se tais dons
foram postos nelas pelos pais ou se vieram de alguma vida prévia, uma alma que existia antes junto a
uma divindade... Dons! E uma aluna (também professora de crianças) lembrou de uma criança que
tinha uma mania por dinossauros: o que elas fizeram? Aconselhamento psicológico para que a
criança não pensasse tanto neles. Lembrei, depois, que o gosto por dinossauros pode ter surgido a
partir de um hábito causado ou reforçado pelos pais: digamos que a criança tenha gostado da forma
daqueles animais e se a família lhe deu outros brinquedos semelhantes pode ter, repetidas vezes,
recompensado a criança com mais dinossauros, fazendo com que ela não pensasse em outra coisa.
Outra aluna-professora sugeriu que a reação tivesse sido outra: dar à criança o máximo de
informações, até mesmo levá-la a um museu onde tivesse dinossauros para que ela recebesse
informações até que ela se entediasse deste tema. Interromper este interesse em dinossauros só irá
represar o desejo insatisfeito..., mas sobre isto eu não falei, pois deixarei Sigmund Freud para mais
tarde.
Sobre Aristóteles, não surgiu tanto interesse, procurei mostrar que todo o conhecimento
vem dos cinco sentidos. Esqueci de mencionar outros “sentidos”: de espaço, tempo, arte, por
exemplo, ou os “sentimentos internos” relacionados às emoções, amor, ódio.

Sócrates: comemos para viver ou vivemos para comer?


Sócrates foi um marco na história da filosofia. Com ele se inicia o estudo da ética, de como
educar as pessoas para conviverem bem entre si. Aliás, “pressocráticos” significa aqueles que vêm
antes de Sócrates, como se não tivessem importância em si mesmos...
Pensamos, primeiramente, uma tarefa para tornar os professores de crianças em
“professores de filosofia com crianças”: pedi-lhes de uma semana para a seguinte que abrissem mão
de algo que sabiam ser ruim ou que faziam excessivamente e que registrassem os sentimentos que
surgissem dessa experiência.

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Apresentei-lhes o fundamento filosófico: é que Sócrates, entendia que “se os deuses nada
precisavam e se nós humanos desejávamos nos aproximar dos deuses, então, deveríamos necessitar
de pouco para viver”.
Lembrei-lhes dos índios da Amazônia, que, ao dançarem, suam, perdem peso e se sentem
mais leves e, assim, seus espíritos, podem ascender mais facilmente às regiões mais próximas dos
espíritos e divindades. Lembrei, também, de Sidarta Gautama, o Buda, que realizou uma experiência
de abrir mão de prazeres (aos quais ele tinha experimentado (pois era de uma casta nobre de
governantes) e das dores que acompanham os prazeres que aparecem mais cedo ou mais tarde.
Segundo a lenda, chegou a comer apenas um grão de arroz por dia, mas abandonou a experiência,
pois ao pôr a mão no abdômen, sentia a sua coluna! E, além do mais, ele observou que esta
experiência radical não havia libertado sua mente, mas a confundido. Depois disso, ele idealizou,
como sabemos hoje, a técnica da meditação (concentração) dirigida a um único ponto ou através da
repetição de uma frase cantada. Será que produz hipnose? Será que ele conseguiu se livrar de todas
as cinco sensações (externas) e encontrar o mundo real dentro de sua consciência?
Os objetivos desta tarefa consistem em :
(a) refletir sobre o que fazemos, examinar nossa vida, parando para pensar sobre isto;
(b) estimular o prazer (se quiser usar este termo) de refletir, torná-lo um (bom) hábito, uma
vez que tudo o que fazemos repetidas vezes se torna automático em nossa mente, quer se algo bom
ou ruim. Se ruim, podemos enfraquecer aquele hábito (ou reação ou desejo) automático que trazemos
em nós;
(c) questionar se o afastamento dos desejos materiais facilitariam a reflexão ou o uso da
razão?
(d) Estimular a ampliação da percepção, além da nossa curiosidade cotidiana, indo além
dos nossos costumes e condicionamentos.
Entre as descobertas que fizemos juntos desde que iniciei esta atividade, destacam-se
principalmente os testemunhos que cada aluno partilha com os colegas, seus esforços, seus
obstáculos. Há histórias de vida interessantíssimas: um aluno disse que seu medico mandou que ele
parasse com refrigerantes, pois elevavam sua pressão e comprometiam a saúde. Outra, não conseguia
abrir mão do cigarro, mas dois anos depois ela conseguiu ficar um mês sem fumar e só voltou a fazê-
lo, pois estava em uma semana de muito estresse.

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Há um filme que, por falta de tempo (um semestre de filosofia infantil é pouco) não
mostramos para boa parte de nossas turmas, mas que cheguei a sugerir que assistissem. Está, aliás,
disponível no Youtube, de graça: “Super size me”, em que uma pessoa sem ser cientista (mais se
parece com filósofo, pois realiza uma experiência solitária, levado pela intuição, o que quer que seja
isso... intuição), Morgan Spurlock, resolveu testar em si ficar 30 dias se alimentando só de sanduíche
de uma rede de fast-food, Mc’Donalds. Três momentos do filme mais interessantes para professores
de crianças tratam da falta de mais tempo para educação física infantil (30 minutos diários em vez
dos semanais 30), a moda da alimentação nas merendas das escolas baseadas em alimentos
industrializados, calóricos, onde predominam a gordura e o açúcar e o teste que Morgan realizou
deixando se decompor naturalmente diferentes sanduíches e batatas fritas e, observando, que as
batatas não apodreciam.
Por que não fazer essa experiência com as crianças?

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Sócrates: o filme.

Fomos ver um DVD dirigido pelo cineasta Roberto Rossellini sobre os momentos finais da
vida de Sócrates. Como tínhamos dois períodos, acabamos vendo todo o filme, de 2 horas. Mesmo
sendo, os alunos, pessoas maiores de idade, em torno de trinta e poucos anos, para a maioria deles,
foi difícil assistir todo o filme. E mais: muitos deles tiveram dificuldade de ver as imagens e ler a
legenda (subtitle), fato que eu só posso explicar pela falta de leitura, causa de um cérebro lento ou
preguiçoso! Sugeri a uma aluna que assistisse muitos filmes com legenda para se acostumar, mas ela
respondeu que não tinha tempo, resposta absurda, especialmente para uma professora, pois o que ela
tinha era preguiça de aprender!
Depois, pedi-lhes que fizesse um resumo sobre o filme e a maioria copiou informações
sobre Sócrates que encontrou na internet!
Mas, a parte positiva desta aula, sobre a qual eu não tinha pensado, foi que o método de
investigação socrática pode ser aplicado às crianças de pouca idade: não que devamos pedir-lhes
definições de tudo, mas na medida em que elas nos fizerem perguntas, procuraremos não lhes dar
respostas prontas, mas, sim, pediremos a elas que nos ofereçam o seu ponto de vista e tal qual
Sócrates, poderemos lhes dar pequenas orientações para que refinem, lapidem, suas tenras teorias.
Foi, por causa deste ponto, uma aula inesquecível, na qual me senti recompensado como professor: já
tinha lido "Um Café para Sócrates", de Marc Sautet, onde Sócrates vai a um café, isto é, se usa o
espaço público para filosofar, mas, agora, eu tinha levado Sócrates para um jardim de infância!

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Sócrates: o que é? o que é?

Nessa obra, Sócrates é apresentado como se em sua infância ele tivesse despertado para a
Filosofia, embora o filósofo que conhecemos até os dias de hoje tivesse tido seu apogeu já aos
setenta anos de idade. Mas, a ideia não deixa de ser interessante para aproxima-lo das crianças,
reconhecerem muitas das suas curiosidades naquela figura infantil. Quando vi a capa do livro pensei:
como eles diriam às crianças que Sócrates havia sido levado a tribunais, condenado por corromper os
jovens com sua filosofia (questionamento constate, inclusive dos valores e costumes de Atenas e de
rejeitar os deuses da cidade, embora ele mesmo dissesse possuir em si um deus interno), depois
julgado e condenado a beber cicuta, um veneno que o levaria à morte? Felizmente, a autora não
incluiu esse triste fim, que não deixa de ter algo heróico, não, especialmente porque lhe ofereceram
como alternativa fugir para outro país e ele rejeitou a oferta?
Na história de Sócrates, um oráculo lhe diz que ele era o mais sábio de Atenas e ele
duvidou disso, pois, pensava que havia outros que eram mais sábios que ele e resolveu investigar:
conversou com políticos, poetas, comerciantes e concluiu que eles acreditavam possuir sabedoria,
mas não a possuíam. E ele? Sabia que nada sabia e era capaz de humildemente reconhecer suas
limitações.
A partir da história, propus a meus alunos (professores de crianças) que me dessem
definições de diversos temas que interessaram e ainda interessam aos filósofos, tais como:

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O QUE É A FILOSOFIA? QUEM SOU EU? QUAL É O SENTIDO DA
VIDA?

O QUE É FELICIDADE? O QUE É O BEM? O QUE É LIBERDADE?

O QUE É O AMOR? O QUE É DEUS? O QUE É ALMA?

O QUE É O TEMPO? O QUE É A BELEZA? O QUE É A SOCIEDADE?

Minha sugestão é que o professor distribua as perguntas iguais para dois ou três alunos para
que na leitura para o grande grupo eles possam por si mesmos comparar as respostas, não visando
encontrar aquela que é a verdadeira, mas perceber os diversos pontos de vista. Eis alguns exemplos
de respostas (turma de magistério de 2010):

O que é a filosofia?
- “É o estudo da natureza, das coisas e dos seres. É o amor à sabedoria, nos aproxima do
mundo espiritual e nos afasta do mundo natural. Ensina-nos a ver as coisas que passam
despercebidas”. Resposta do professor: a aluna reproduziu as definições dos pressocráticos, de
Platão e de David hume. A proposta era formular a sua própria definição! O que ela entendeu ao
longo do ano quando foram apresentadas aulas de filosofia?
- “é sim à pergunta e não à resposta. Não é uma ciência exata como matemática. O
filósofo nem sempre é o maissábio. Ele é quem procura interrogar, saber, descobrir para, assim,
formar suas teorias. Nem uma teoria se baseia em uma resposta, mas várias”. Resposta do
professor: Será a matemática sempre exata? Uma gota sobre outra gota dá duas gotas? As várias
respostas não podem ser diferentes perspectivas sobre uma mesma resposta, como quando vemos
uma casa de cima, do telhado, do lado de frente, pelos fundos, etc?

O que sou eu?


- “um ser que ocupa lugar no espaço”. Bem filosófico, aliás! Resposta do professor: você
é o corpo, o cabelo? E se eles mudam, você é algo que muda ou haver?
- “sou uma pessoa composta pelos mesmos elementos de todos os seres humanos, mas não
sou igual a ninguém, pois tenho meus pensamentos, sentimentos, valores e virtudes, me considero
única, como todas as pessoas são” Resposta do professor: Somos iguais e diferentes... Nossos
pensamentos nos diferenciariam... Mas, dizemos que todos os seres humanos têm emoções

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semelhantes, não iguais... e somos os mesmos ao longo da vida? Se não, por que achamos que
somos? Ela falou em humanidade: o que nos faz humanos? Sentimentos? Razão? Bípedes? Temos
linguagem? Temos a mesma forma, saímos da mesma fôrma?

Qual é o sentido da vida?


- “é viver, amar, sorrir, é deixar o imprevisível acontecer!”. Resposta do professor: não
pode ser também brigar, se o destino nos deixar frente a frente com um animal feroz?
- “acho que é estar com as pessoas de quem gostamos, não importa qual seja o obstáculo,
o importante é ser feliz, talvez fraquejamos algumas vezes, com certas pessoas, mas é importante
nunca deixar se abater e seguir em frente”. Resposta do professor: “acho” sinal de sinceridade e
humildade, “não sou dono da razão”... “é estar com as pessoas de quem gostamos” e com as que não
gostamos, não? Um professor que insiste em dar aula para alunos que não querem aprender? Não
estaria aí um sentido para a vida dele... não desistir de ensinar? E “Ser feliz”... alguém que se
sacrifica pelos outros, não estaria, também buscando a felicidade, ainda que em uma experiência que
lhe causa dor?

O que e a felicidade?
- “é a gente que faz, é estar com os amigos ou quando conseguimos realizar nossos
desejos, nos sentimos felizes”. Resposta do professor: não há coisas que estão longe de nosso
alcance? Não se pode ser feliz estando só?
- “algo ou ação que se vive ou recebe. É uma das formas de se expressar quando se está
feliz. É algo que todos queremos em nosso cotidiano, para nos sentirmos bem, alegres, etc”.
Resposta do professor: um objeto, algo que possa ser tocado ou uma ação, um movimento? Todos
queremos? Por que somos assim? E não há pessoas que fazem de tudo para não ser feliz ou deixar os
outros infelizes? Por que fazem isso? A felicidade nos fará bem ou a felicidade é esse bem?

O que é o bem?
- “pode ser um ato ou um caráter bom em si, fazer o bem, praticar o bem. E sempre ser
capaz de ver e reconhecer o que foi feito pelo próximo, talvez se a sociedade fosse mais do bem,
tudo seria melhor ou até mesmo diferente”. Resposta do professor: O bem é bom. Só? O bem ou uma
pessoa boa reconhece o bem fora dela, também... de onde surge o bem? Nascemos com ele?
Aprendemo-lo? Um churrasco é uma coisa boa? E os animais cuja vida foi destruída para que nós
continuemos vivos? Quanto somos bons, se pudéssemos calcular em um percentual? Já pensou se os
outros também nos acham bons tanto quanto nós nos achamos bons?

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- “é (são) todas as coisas e atos positivos que se possa ter. resumindo bem são as pessoas,
as coisas boas, coisas feitas com boas intenções”. Resposta do professor: O bem é algo positivo, real
e o mal... uma ausência, então? Há coisas e atos cem por cento bons? O que são boas intenções... atos
que visam coisas reais? Um ato de violência é, também, algo real, mas não se diz “bom”...

O que é liberdade?
- “é o direito de você ficar livre”. Resposta do professor: Mas quem te deu esse direito? E o
que é ser livre? Você escolheu em que país nascer? Que língua falar? Que pais teria?
- “é ser livre, poder fazer o que quiser, na hora que quiser, sem ser controlado” Resposta do
professor: somos realmente livres como diz a definição, a ponto de fazer o que quiser? Então, se não
somos assim, não somos livres? É possível ser mais ou menos livre?

O que é o amor?
- “É um sentimento puro, algo inexplicável, que sentimos pelas pessoas e que não tem
explicação, nem remédios para controlar”.Resposta do professor: o termo “puro” é interessante para
filosofar: puro é algo sem partes? Que outras coisas conhecemos que, também, são puras? Água?
Mas, água tem hidrogênio e oxigênio... o ar, é puro ou parece puro?
- “É um sentimento que não pode ser sentido sozinho, é aquilo que alimenta a alma dos
apaixonados, é o que ganha do orgulho e da ganância”. Resposta do professor: E o amor por si
mesmo, não é solitário? Ele alimenta, sacia...? há algo vazio que o amor preenche? Uma necessidade
física ou mental? Por que a temos? Qual sua origem? Como o amor ganha do orgulho? Se o amor é
querer o bem para alguém e o orgulho querer o bem para si, como um ganha do outro?

O que é Deus?
- “Deus é um ser supremo, que criou o mundo e que nos deu a vida”.Resposta do professor:
é o que nos disseram... quem criou Deus? Por definição, Deus é incriado, mas há a nossa volta seres
ou coisas incriados (não criadas)? Ele criou a vida e a morte, não é como pensou Descartes no século
XVI, quando aquilo que nos dá a vida deixa de nos dá-la? Então, Deus seria o culpado pela nossa
morte? A vida é cheia de imperfeições: quantas vezes nos engasgamos quando o alimento deveria ir
para o estômago e vai para os pulmões? Foi Deus que criou a vida e as imperfeições? Se tivesse
criado seres perfeitos, não seria uma vida perfeita?
- “é algo que não se explica, algo que cada um define. Algo supremo, que muitos
respeitam. Um alguém que chamamos quando estamos precisando de uma mão amiga. Para mim,
Deus é o meu ponto de equilíbrio, paz e conforto. Em muitos momentos que estamos tristes é na
hora de conversar (rezar) com Deus que sentimos um pouco de esperança”. Resposta do professor:

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em filosofia tudo deve ser explicado. Há características interessantes: “supremo”, um “alguém”, um
amigo, uma pessoa gigante e invisível, com quem podemos contar, que pode nos ouvir... um porto
seguro... De onde aprendemos que existe esse Ser ? Um bebê nasce com essa ideia? Ou ele a aprende
com os pais?

O que é alma?
- “é algo no interior de uma pessoa que nos mostra todas as suas qualidades e defeitos, se
a pessoa é boa ou ruim, qual as suas intenções”. Resposta do professor: simples e bem abrangente. É
“algo”, não inteiramente conhecido. Dela, temos pistas: ela nos mostra algumas coisas... atos que as
pessoas praticam, revelariam a alma ou se a alma é boa ou má?

O que é o tempo?
- “é tudo o que passa e não volta”. Resposta do professor: um pássaro que passa por ti e
não volta? O sol que passa no céu e não volta? A ideia de tempo desaparece e não volta?
- “é algo meio irrespondível. É o que todos nós, seres vivos, temos, e devemos aproveita-lo
o mais intensamente. Às vezes as pessoas dizem que não têm tempo, o que não é verdade. Todos
temos tempo para tudo, o que acontece é que não sabemos aproveitá-lo, utilizá-lo da melhor forma”.
Resposta do professor: o filósofo busca entender o que é o tempo, busca uma resposta. É um Deus
que dá ritmo ao mundo? é um fenômeno natural? Ao viver intensamente não perdemos a noção do
tempo, esquecemos, o perdemos de vista, não?

O que é a beleza?
- “pode ser aquilo que faz a motivação que vem de dentro ou o que nos faz nos apaixonar
por outra pessoa, sua beleza. O que faz vir do interior e exala no meio de outras pessoas. Aquilo
que faz você ter amigos e pessoas que a amam por sua beleza interior e muitas vezes exterior”
Resposta do professor: “aquilo” e “faz a motivação” são palavras. Não é físico, não? Parece ser um
sentimento interno... Você precisa ser belo para ter amigos e ser amado? O termo “exala” é
interessante, lembra a teoria da ciência dos feromônios, substâncias químicas que as pessoas exalam
fisicamente!
- “é a beleza exterior que a pessoa tenta mostrar, na ansiedade de ser vista e a interna que
consiste em querer nos melhorar por dentro para que as pessoas não vejam apenas nossa linda
roupa ou cabelo, mas nossos valores e nos achar bonitos por isso” Resposta do professor:
interessante o termo “ansiedade de ser vista”... queremos ser notados, não é uma escolha, é uma
necessidade? Acreditamos que há dentro de nós valores guardados e que queremos expressá-los para
que as pessoas não nos julguem apenas pela imagem que elas têm de nós...? por que algumas vezes

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expressamos raiva e outras, amor? Qual desses sentimentos são realmente nossos? O que é o
temperamento: uma média entre esses sentimentos de raiva e amor ou outros mais?

O que é a sociedade?
- “somos nós, um grupo de pessoas diferentes, porém que constituem o mesmo mundo. O
que fazemos, somos, faz parte de uma sociedade. Sociedade é um conjunto de leis, normas, regras,
pessoas que têm muitas vezes o mesmo intuito”. Resposta do professor: Vago, no início. Um grupo
de pessoas... amigos, são uma sociedade? Na parte final, lembro que sugeri à aluna se as leis e
costumes não caracterizariam uma sociedade e acho que ela inclui essa objeção na definição...E os
animais, também, formam sociedades, formigas, cupins, felinos, pássaros, pois vivem juntos,
estabelecem relações de cooperação, não?
- “é um conjunto de pessoas. Eu estou incluída, claro”. Resposta do professor: resposta
apressada. O filosofar requer certa paciência... uma torcida é um grupo de pessoas, então é uma
sociedade? Não é preciso mais características para que se possa chamar um grupo de sociedade? Um
grupo de alunos é uma sociedade?

Crítica de Aristóteles a Sócrates.


Há uma crítica de Aristóteles bem justificada ao método socrático de perguntar (definir) um
assunto sobre o qual as pessoas estejam conversando. E sua crítica repousa na crença de que não é
suficiente a pessoa saber definir uma coisa, mas, sim, praticar, experimentar aquilo sobre o qual se
fala – “não é preciso saber o que é a bondade, para sermos bons. Para ele, o conhecimento tem
pouco ou nenhum peso” (Ética a NIcômaco: II,4).
Um outro argumento a favor de Sócrates é pensar que buscar definições envolve, também,
procurar causas: sentir uma coisa é apenas um estágio do pensamento que se completa quando com
justificativas, porquês. E não nos damos conta disso, pois, temos à disposição dicionários que nos
dão prontas as definições.
Uma alternativa (uma conciliação dos dois pontos de vista, de Sócrates e de Aristóteles)
para esta polêmica é que a pessoa seja capaz de relacionar um tema (uma questão) a sua própria vida.
Muitas vezes, os alunos são capazes de definir o que é, por exemplo, gula ou avareza, mas se
comportam como muitos políticos que são capazes de discursar sobre honestidade, mas raramente a
praticam!

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Quadro de áreas da filosofia e temas que ela trata.
Para a turma de 2009, apresentei-lhes um quadro que mostra as área da filosofia e as
classifica segundo três tipos de perspectiva, o que os ajudará a escolher histórias que englobem estas
áreas, as diferentes perspectivas com as quais podemos investigar estas mesmas áreas e exemplos de
perguntas ou temas que podem ser estudados, entre tantos que existem. Uma observação importante
é que este quadro poderia ser apresentado nas primeiras aulas, quando distinguimos a filosofia como
o estudo do todo, mas, reconhecemos que isto possa causar alguma confusão, pois o todo seria
apresentado como feito de partes e o estudo de partes é uma característica que atribuímos às
ciências!:

Uma brincadeira que tem tudo a ver com o método socrático!


Encontrei no site http://www.mulhervirtual.com.Br/oquee/ 2.htm, aquelas perguntas “O que
é o que é ?” que podem ser feitas a crianças, acostumando-as a busca de definições:

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O que quanto mais se tira, maior fica? Buraco
! Que é, um mundo verde onde a terra é
vermelha e os habitantes são pretos? Melancia.
Que tem rabo de porco, mas não é porco. Pé
de porco mas não é porco. Costela de porco, Que quando anda vai deixando uma trilha
mas não é porco? Feijoada para trás? Agulha.

Que quanto mais cresce, menos se vê? Qual é a diferença entre o gato e coca-cola ?
escuridão O gato mia e a coca light !

Que pula no ar, estoura e vira do avesso? Como se faz para transformar um giz numa
Pipoca. cobra ? É só colocar o giz num copo de água.
Daí o gizbóia ... !
Que tem cabeça, mas não é gente. Tem dente,
mas não é Como se faz para ganhar um Chokito ? É só
pente? Alho. colocar o dedito na tomadita !

Que não tem cabelo na cabeça, mas que Estavam dois caminhões voando. Aí um disse
quando : "Peraiiií, caminhão não voa!"Um caiu no chão
envelhece, fica careca? Pneu mas o outro continuou voando. Por quê ?
Porque era um caminhão-pipa !
Que quando estamos deitados, ele está em pé.
E, quando Estavam dois frangos voando. Aí um disse :
estamos em pé, ele está deitado? O Pé ! "Peraiiií, frango não voa!". Um caiu no chão
mas o outro continuou voando. Por quê ?
Que fala e ouve, mas não é gente? Telefone ! Porque era um frango à passarinho!

Que é, que sempre cai, mas nunca se Por que o japonês não sente frio quando
machuca? Chuva ! dorme ? Porque ele dorme com a japona!

Que fica cheio de boca para baixo e vazio de Para que serve óculos verde ? Para
boca para verdeperto.
cima? Chapéu !
Para que serve óculos vermelho ? Para
Que parte e reparte e fica sempre do mesmo vermelhor !
tamanho? Amor de Mãe !
Como a bruxa sai na chuva ? De rodo!
Que tem escama mas não é peixe, tem coroa
mas não é Que o pneu disse para o carro? Você está me
rei? Abacaxi deixando careca!

Quando dizemos o seu nome, ele deixa de Sabe qual é o melhor remédio para olho
existir? Silêncio. gordo ? Colírio diet!
Que enche uma casa, mas não enche uma
mão? Botão. Que quando uma parte a outra parte também ?
A Perna !
Que mesmo sendo seu é mais usado pelos
outros? Seu Nome. O que entra na água e não se molha? A
Sombra!
Que é pequeno como rato mas cuida da casa
como um leão? Cadeado.

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Qual a diferença entre a mulher e o leão? A Que é gostosa mas não tem gosto, é bonita
mulher usa batom e o leão ruge ! mas não tem cor? Água !

O que o pára-quedas malvado disse para o Um pontinho preto em cima de um jornal?


pára-quedista? To contigo e NÃO ABRO! Uma formiga procurando emprego!

O que o tomate foi fazer no banco ? Foi tirar Por que o pato tem ciúmes do cavalo? Porque
um extrato ! ele tem 4 patas!

Qual é o bicho que anda com as patas ? O Que a galinha foi fazer na igreja ? Assistir a
pato ! Missa do Galo !

O que o tijolo falou pro outro ? Há um Deus dá duas vezes,e se alguém quiser mais,
ciumento entre nos! terá que mandar fazer? Os dentes !

O que é que é ? Quem nasce no rio,vive no rio e não está


molhado? Carioca !
Um vinho que não tem álcool ? Ovinho de
codorna. Qual a semelhança entre cobertor de lã no
verão e um trem andando ? Os dois estão fora da
Que tem cabeça mas não é gente tem bico estação!
mas não é
criança? O Bule ! O que o fósforo falou para o cigarro? Por sua
causa, perdi a cabeça!
Que quanto maior menos se vê ? A sombra !
Quem é o pai do volante ? O painel !
Que o pescador procura procura e não acha ?
Um buraco na rede ! O que é um pontinho azul no gramado ? É
uma formiguinha de calças jeans !
Qual é a comida que liga e desliga ? É o
StrogON-OFF! O que é um pontinho dourado no gramado ?

Que nasce grande e morre pequeno ? O Lápis O que é um pontinho amarelo no


estacionamento? É um Uno milho !
Que se compra para comer mas, não se
come ? Prato ! Que tem o poder de virar a cabeça dos
homens? O pescoço !
Que tem quatro letras, mas tirando duas ainda
sobram 11 ? TÁXI! Que é, cheio de buracos mais segura a água?
Que é grande antes de ser pequena ? A Vela ! A esponja !

Por que é que o boi muge quando a vaca Que está sempre na sua frente e você não vê?
passa? Porque ele não sabe assobiar O seu nariz !

Encontramos um segundo site, http://br.guiainfantil.com/ adivinhacoes/ 136-adivinhacoes-


para-brincar-com-as-criancas.html

Adivinhe quem sou: quanto mais lavo,


mais suja vou. R: A água Todo mundo leva,Todo mundo tem,
Porque a todos lhes dão um
Quem é que bebe pelos pés? A árvore Quando ao mundo vem. O nome

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O que é que é que nunca volta, embora nunca
Todos me pisam,Mas eu não piso em tenha ido? o Passado
ninguém;Todos perguntam por mim,
E eu não pergunto por ninguém. O que é que se pões na mesa, parte, reparte
O caminho mas não se come?baralho

Minha casa levo nas costas,Atrás de mim O que é que dá um pulo e se veste de noiva?
deixo uma trilha,Sou lento de movimentos,E pipoca
não gosto do jardineiro.
O Caracol Está no meio do ovo? A letra V

Somos muitos irmãozinhos, em uma só casa O que o zero disse para o oito?
vivemos, se nos coçam a cabeça, num instante Que cinto maneiro!!!
morremos. Os fósforos
Por que o computador foi preso?
Fui na feira e comprei uma bela, cheguei em Porque ele executou um programa.
casa e comecei a chorar com ela.A cebola
Uma casinha com duas janelinhas Qual o pé que é mais rápido?
Se olhas para ela, ficas zarolha.O nariz O pé- de- vento!!!
O que é, o que é?Que não se come,
Ouro não é, prata não é, abre a cortina e verás Mas é bom para se comer?Talher
o que é. a banana
Tem coroa, mas não é rei, tem raiz, mas não é
planta? O Dente

Uma última consideração sobre o método socrático. Não se enganem em pensar que aquele
filósofo saía pelas ruas perguntando apenas o que as coisas eram?, seu método vai mais além: ele
dialogava com as pessoas, buscando verificar se sabiam sobre o que estavam falando. Podemos
produzir com as crianças diálogos, conversas, onde reflitamos sobre diversos temas, como a beleza,
por exemplo, identificando exemplos de coisas belas e nessas coisas (ou seres) apontar qualidades
que acham belas, experiências pessoais em que reconhecemos algo como belo, etc

Platão: mais sobre os opostos.


Curiosa a vida... a partir do relato de uma aluna sobre uma experiência com crianças e o
sentido do tato - pedia-se que a criança de olhos fechados sentisse um pedaço de algodão e em
contraste se oferecia a ela um objeto duro -, surgiu-me a idéia desta aula. Pensei em começar a
filosofia romana, mas havia muita coisa a falar sobre Platão e, também, de Aristóteles. Não era
suficiente apenas falar dos dois mundos platônicos e da necessidade de observar os dons das crianças
e, ainda, estimular seus sentidos, porque o conhecimento segundo Aristóteles começa a partir daí.
Havia dois outros assuntos indispensáveis: a Dialética platônica e a teoria da causalidade aristotélica.

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O que eu queria com estes dois assuntos? A dialética mostraria a eles que não basta mostrar
aos alunos elementos que se opõem (algodão e pedra, por exemplo), é preciso mostrar que o macio e
o duro, podem ser unidos, seus papéis invertidos ou, ainda, tornarem-se uma coisa só. Uma aluna
sugeriu que muitos tecidos de algodão juntos também se tornariam um material pesado e duro. Não
disse, mas e se colocássemos uma quantidade de algodão na janela e atirássemos a pedra, o algodão
seguraria a pedra e protegeria o vidro!! Dei um outro exemplo de algo mole que supera sua condição
e é capaz de transformar algo duro, como a água que pinga sobre uma pedra até lapidá-la, alterando
sua forma. Há, citei, também, ferramentas que usam a água em alta velocidade e pressão para cortar
metais! Ensinar às crianças apenas os elementos opostos é prendê-las ao mundo dos conflitos sem
lhes mostrar que é possível superá-los.
Um exemplo mais concreto é a democracia como governo da maioria que limita à minoria
tão somente o direito de protestar, sem participar do seu destino. Lembrei, também, do problema
grave da violência, com seus elementos que se opõem e perguntei como conciliá-los? Em geral, a
resposta, rápida, e simplista é dizer que a polícia deve matar os bandidos, até mesmo sem
julgamento! Não percebem, quem pensa assim, que o conflito permanecerá, sem uma resposta
definitiva.
Propus, então, após dar-lhes alguns exemplos de oposições (neste mundo físico, material) e
pedi que procurassem conciliá-los, chegando a um terceiro elemento distinto dos anteriores, mas que
os contém dentro de si. Parti dos exemplos mais comuns:

Elementos opostos e sua conciliação?


Homem x mulher = Filho, casamento, sexo
Água X óleo = Usados na preparação de comidas
Grêmio x Inter (clubes de futebol) = Jogadores convocados para a seleção brasileira
Noite e dia = Sol da meia-noite
Letras x números = fórmulas matemáticas, placas de carros

Surgiram dois tipos de respostas entre os alunos: aquelas que apenas agrupavam os
elementos, sem perceber que eles continuavam separados e em oposição e as que tinham entendido a
tarefa e a dialética platônica. Alguns dos exemplos dados pelo primeiro grupo: amor e ódio e a
síntese de ambos: "sentimentos". Mas, esta resposta, é muito genérica e os sentimentos podem ainda
permanecer separados, não conciliados. Outro aluno tentou conciliar petróleo derramado no mar, mas
ainda permaneciam dois elementos inconciliáveis. Outro, a partir dos elementos números e palavras,
os reuniu em sentenças. O exemplo foi muito bom, mas entendi que ainda estavam separados; sugeri-

52
lhe como exemplo as placas de automóveis, onde números e letras estão unidos representando algo
novo, mas o exemplo das sentenças não era ruim, não.
Na obra Filosofia infantil 2, tratamos da questão dos opostos: para Platão, é preciso superá-
los através de uma conciliação. No exemplo da história dos três porquinhos e o lobo mau, há opostos,
os personagens estão em extremos, o bem e o mal? Diríamos isso, se víssemos um lobo ou uma
matilha caçando para sobreviver? Ok, talvez estejamos tentando ensinar convívio entre pessoas sem
mencioná-las, usando imagens de animais. Isso é compreensível. Mas, como termina a história? Um
dos extremos é destruído, o lobo (na verdade, o lobo é morto na obra "Chapeuzinho vermelho" ou,
platonicamente, um dos opostos é destruído; portanto, não há conciliação!). É isso que buscamos no
convívio com os outros, destruir quem se opõe a nós? Evidente que não, mas é isso que as histórias
infantis ensinam! Parecia inofensivo e educativo tratar de oposições com crianças, não?

História dos três porquinhos e o lobo mau:


Os personagens do conto são três porquinhos - Prático, Heitor e Cícero - e um lobo mau,
cujo objetivo era devorar os porquinhos. Ao decidirem sair da casa de sua mãe (em algumas versões,
da avó), (lembrando que em algumas versões, eles recebem uma herança de sua mãe/vó para assim
poderem construir as casas) eles foram construir cada um a sua própria casa.
Cícero, o mais preguiçoso, não se queria cansar e construiu uma cabana de palha. Heitor,
decidiu construir uma cabana de madeira, enquanto Prático optou por construir uma casa melhor
estruturada, com cimento e tijolos. Como a sua casa demorou mais tempo para ser construída, Prático
muitas vezes via os irmãos divertindo-se enquanto se esforçava para terminar o trabalho.
Um dia o lobo surgiu e bateu na porta da casa de Cícero, que escondeu-se. Mas o lobo, com
um assoprão, desfez a casa. Enquanto Cícero fugia, o lobo foi bater na porta de Heitor e, com dois
assoprões, destruiu também a cabana de madeira. Heitor fugiu para a casa de Prático, onde já se
encontrava Cícero. O lobo então foi à casa de Prático e tentou derrubá-la, sem sucesso. Após muitas
tentativas, o lobo decidiu esperar a chegada da noite.
Quando anoiteceu, o lobo foi tentar entrar na casa descendo pela chaminé, mas começou a
sentir cheiro a queimado. Era Prático que, com uma panela ao lume, estava a queimar a cauda do
lobo. O lobo então fugiu assustado e nunca mais voltou,e eles viveram felizes para sempre. Fonte
Wikipédia

Que oposições podem ser identificadas?


Porquinhos são bons x Lobo é mau
Prático era mais trabalhador x Cícero, preguiçoso
Porquinhos felizes x lobo, frustrado.

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Porquinhos unidos x lobo, solitário

História do chapeuzinho vermelho:


Na obra "chapeuzinho vermelho" - que segundo interpretações psicanalíticas, o vermelho
significa que ela está pela primeira vez mestruando - também há um lobo, mas dessa vez o
personagem mau - o que quer que isso signifique, o que não está claro na história, "mau" por que
quer comê-los? Então, também somos, porque nos alimentamos de animais... - tem um fim trágico:
ele morre ou, platonicamente, de Platão, um dos opostos é destruído, não há conciliação!

A mãe de Chapeuzinho pede à menina que atravesse a floresta para visitar a avó, e para
levar-lhe um pote de doce com um pouco de bolo. No caminho,Chapeuzinho Vermelho encontra-se
com o lobo, que era mau e feio. O lobo pergunta:
- Para onde você vai?
- Vou à casa da vovozinha, que está muito doente, levar-lhe um presente da minha mãe.
- Onde fica a casa de sua avó?
- Fica a uns 15 minutos daqui. A casa dela fica debaixo de três grandes carvalhos e é
cercada por uma sebe de aveleiras.
O lobo destraiu a capuchinho, enquanto ele corria para a casa da avó dela, chegou na casa
da avó da chapeuzinho, engoliu a vovó e deitou-se na cama. Depois de algum tempo chapeuzinho
chega e faz perguntas para sua avó (Lobo), depois de várias perguntas o lobo avança em
chapeuzinho, ela corre pedindo por ajuda, o lenhador percebe o perigo, e destemido, mata o lobo e
tira a avó de chapeuzinho ainda inteira das entranhas do lobo.

Vejamos exemplos de livros com histórias contemporâneas:


- APRENDA COM O PROF. GIRASSOL - OS OPOSTOS
coleção GIRASSOL

- APRENDENDO SOBRE OS OPOSTOS - MEU PRIMEIRO LIVRO ELETRONICO


editora CARAMELO

APRENDA COM O JÚLIO


MELHORAMENTOS (opostos) Editora Melhoramentos

- Livro : Charlie e Lola - Opostos

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APRENDA COM O PROF. GIRASSOL - OS
OPOSTOS
GIRASSOL

Nuno Miguel Caravela

Preço: R$7.90 *

APRENDENDO SOBRE OS OPOSTOS - MEU


PRIMEIRO LIVRO ELETRONICO DE
CARAMELO

Editora Caramelo;

Preço: R$36.46

55
APRENDA COM O JÚLIO
MELHORAMENTOS Editora Melhoramentos

Preço: R$34.30

Livro : Charlie e Lola - Opostos -


Lauren Child Por: R$ 20,80

Nessa obra, os irmãos Charlie e Lola


ensinam opostos: Em cima/embaixo,
muito/pouco, seco/molhado.

No livro Os opostos, da editora Vale das letras, há o uso formidável de tecidos que
reproduzem os pelos de animais, desde um elefante, uma onça, um balão de gás e um cãozinho.
Sobre o tema central, as oposições, tenho dúvidas:

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(a) Como são escolhidos os temas e as oposições? Por que escolher as oposições
dentro/fora, rápido/lento, sobe/desce, macio/duro, chegar/partir? Porque outros livros similares
usaram outros temas? Por que não há uma metodologia, como, por exemplo, trabalhar só com
animais? Fica difícil um professor desenvolver uma aula a partir de tantos temas e contextos tão
diferentes.
(b1) Aparece imagens de um cão e um capacete. Ao lado de cada um está escrito: cão-
mole, capacete-duro. Um cão é mole? E um capacete é duro? Simples, assim? E como pode um cão,
mole, triturar um ossinho? E quando derrubamos um armário em cima do capacete, não parece bem
mole?
(b2) Ao lado da imagem de um guepardo está escrito rápido; ao lado da tartaruga, lenta.
Um guepardo é sempre rápido? E uma tartaruga, sempre lenta, mesmo quando ela se esconde de um
ataque de um guepardo? E um felino não pode perder para uma zebra em uma corrida?

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Um bom exemplo de livro - temático - sobre opostos é o "Aprendendo os opostos com os
dinossauros": Por quê? Porque envolve a criança em uma história completa, contínua, não
fragmentada como a do livro anterior, embora nossa crítica permaneça: há um desenho em que são
comparados dois dinossauros, um grande e outro de porte menor e se diz claramente: um é o grande e
o outro, o pequeno. Em que sentido? De dimensão? Não há o risco da criança pensar que um deles é
grande em todos os sentidos (é superior) e o outro, não (e, assim, é inferior)? No mesmo livro
aparecem oposições tais como:
- sujo/ limpo: um porco, por exemplo, é um dos bichos mais asseados do mundo, será que
rola na lama para ficar sujo? Não há seres humanos que crêem em fins medicinais em ficar todo
enlameado, isso é ruim sempre?
- alto/ baixo (isso induz em nosso entendimento ao preconceito)
(b) Há uma oposição no livro que nos leva ao ponto seguinte da nossa presente reflexão:
Quando aparecem o "quente" e o "frio": Aqui vai uma explicação que a Ciência Física nos
dá: o frio não existe, o que há é matéria se movimentando mais ou se movimentando menos - um
calor excessivo, que supera a nossa temperatura corpora ou, então, um calor pequeno, um calor
inexpressivo, se comparado ao calor do nosso corpo.
De onde nossas editoras tiraram inspiração? Provavelmente, do "primeiro mundo".
Até que ponto uma criança não aprende a rotular as pessoas: aquela é gorda, outra, magra
ou magricela. Aquele é sempre lento, outro, sempre rápido?

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Aquele carro é velho? Não seria melhor dizer antigo? E mesmo que tivesse ferrugem, não
importa que há uma pessoa dentro dele que tem motivos de estar dirigindo aquele carro e não outro?
A segunda imagem é bem instrutiva: alguém com uma escada alcança o topo da árvore, escada que a
outra pessoa poderia fazer uso, também, se quisesse alcançar as frutas no topo.
Por que ensinar que há seres pesados e outros, leves? As crianças não percebem isso? Não
estaríamos apenas antecipando o conhecimento das palavras que usamos para expressar aquela ideia
que surge em nossas mentes?
O mesmo vale para "grande" e "pequeno", relação de oposição que mencionamos antes, na
obra dos dinossauros. O grande é grande em tudo? É o que a figura parece querer comunicar à
criança!

Por que não estimular a imaginação e perguntar à criança: como uma pessoa que tem uma
altura baixa poderia se tornar alta se ela quisesse (uma mulher usando salto alto) ou, então, como
uma pessoa com altura alta poderia tornar sua altura baixa (se brincasse com fantoches)?
Por que não falar de graus de calor, força, altura assim como já se fala de graus (ou tons)
das cores? Imagino (não li) que o livro Charlie e Lola seja um bom exemplo de apresentação às
crianças de graus (tonalidades) de cores, exceto se forem mostradas como opostos, o que acho
improvável.

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CHARLIE E LOLA - CORES
ATICA Lauren Child

Preço: R$17.52

O paciente Charlie e sua divertida irmãzinha,


Lola, apresentam às crianças todas as cores
do arco-íris

E a diversidade de cores humanas?

Pode-se propor um exercício em que as crianças recortem rostos de revistas que mais lhes
agradam, mas na hora de reunir as fotografias, o professor pode pedir sugestões de que modo as
organizaremos? Observem as sugestões: organizar por sexo? Organizar por idade? Organizar por
profissão? E se quisermos coloca-los lado-alado, todos juntos, de quantas maneiras poderemos fazer
isso? E por cores de pele? Com que outra coisa se parecerá esse único grupo? Um arco-íris?

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Há um vídeo (http://www.youtube.com/watch?v=orxxp-3gBiE) para crianças que estão
aprendendo a contar, de um a dez. A letra é assim:
“Ma-ri-a-na conta uuummm, é um, é um, é um,
Ana, viva a Ma-ri-a-na, viva a Ma-ri-a-na”.
“Ma-ri-a-na conta dois, Ma-ri-a-na conta dois, é um, é dois,
Ana, Ana, viva a Ma-ri-a-na, viva a Ma-ri-a-na...”.

Perguntei às minhas alunas (muitas já eram professoras de crianças) se podemos identificar


opostos nessa música. Resposta: Não. Eu perguntei, então: o “um” não pode ser oposto de “dois”,
quando, por exemplo dizemos que uma pessoa está só enquanto outras duas estão fazendo companhia
uma para outra? No entanto, acrescentei, oposições são o que menos importa no aprendizado de
números e, além disso, “dois” só é dois porque está compreendido pelo “um” e “três”, “quatro”,
“cinco”, “seis”, etc, têm cada um dentro de si todos os números que o antecedem, “sete” é formado
de “1,2,3,4,5 e 6”, não?

Há dois filmes cujo título é “cães e gatos” (1 e 2) que tratam de oposições: no primeiro, os
gatos são apresentados como "maus", o que soa, pelo menos, estranho para quem tem gato de
estimação e sabe que quem não tem não conhece o quanto um felino pode ser afável e bom! Será que

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no segundo filme, foram as críticas, que alteraram a visão maniqueísta, de bem versus mal, cães
versus gatos?
E a história da lebre e da tartaruga? E a do leão e do ratinho? Ambas podem ser baixadas do
Youtube para as crianças verem. Tenho um primo de segundo grau que com três anos de idade já
clica o mouse sobre os vídeos da internet para assistir. Sobre os desenhos: são belos exemplos
dialéticos de que o tamanho do leão e a velocidade da lebre por si mesmos não garantem a
superioridade sobre quem seja mais lento ou mais fraco, fisicamente!

No site http://www.youtube.com/watch?v=0hhz7KSEIAE, encontramos a música


tradicional e a versão atual, da coleção DVD Galinha Pintadinha 2 - para crianças e bebês:

“Atirei o páu no gato tô tô Não atire o pau no gato (to-to)


Mas o gato tô tô Porque isso (sso-sso)
Não morreu reu reu Não se faz (faz-faz)
Dona Chica cá Ô gatinho (nho-nho)
Admirou-se se É nosso amigo (go)
Do berro, do berro que o gato deu Não devemos maltratar
Miau !!!!!!” Os Animais
Miau!!!

Há uma história infantil inspirada no mito da caverna de Platão, feita pela equipe de
Maurício de Souza, o Disney brasileiro. Tenho-na apresentado a professores de crianças, mas, em
geral, evito mostrar o fim da história, em um primeiro momento, que mostra pessoas não mais
vivendo na ignorância que confunde esse mundo material com um outro mundo, eterno e original,
mas, ambientado nos nossos dias, onde a "caverna", agora, é a casa das pessoas, mais
especificamente na frente de uma tevê.

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E procuro evitar mostrar esse final por algumas razões: podem pensar que Platão estava se
referindo a meios de comunicação ou uma crítica social, embora ele criticasse seus contemporâneos,
ele se referia - objetivamente - à existência de um outro mundo, mesmo, alcançado pelo nosso
pensamento racional ou, então, após a morte se merecêssemos. Mas, não vejo por que não apresentar
o final alternativo aos nossos alunos, professores ou crianças, como uma alternativa de explicação do
mito da caverna. E podemos fazer mais: abrir um debate sobre os hábitos deles de ver tevê: que
programas assistem, em que horários, com quem, o que gostam menos, etc.

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Finalmente, é oportuno lembrar a sentença de um escravo liberto que se tornou filósofo
estóico em Roma chamado Epicteto e procurar relacioná-la ao risco de ensinar às crianças apenas os
opostos , tais como alto/baixo, forte/fraco, rico/pobre, gordo/magro, feio/bonito, etc. Ao ensinar
opostos (e as palavras) às crianças ou reforçar uma percepção/impressão ou conhecimento sobre
oposições que elas têm naturalmente, mesmo sem os adultos lhes informarem, não estaríamos
reforçando tais impressões?
Escreveu Epicteto: "É ilógico raciocinar da seguinte maneira "Eu sou mais rico do que
você, portanto eu sou superior a você"; "Eu sou mais eloqüente do que você portanto sou superior a
você". É mais lógico raciocinar "Eu sou mais rico do que você, portanto a minha propriedade é
superior que a sua", "Eu sou mais eloqüente do que você, portanto a minha fala é superior à sua".
Você é algo mais do que propriedade ou fala. (A ARTE DE VIVER: aforisma: 44)

Exercício de dialética com histórias infantis.


Para as aulas seguintes pedi que as alunas pensassem em um exemplo de dialética para
aplicar com as crianças. Algumas, sem que o professor pedisse, pensaram em histórias infantis, como
"O patinho feio", por exemplo. Minha intenção era reforçar a noção de superação de opostos. Muitas
histórias fazem isso, mas muitas outras mantém o conflito ou tentam resolvê-lo matando o vilão da
história ou o exilando em algum lugar distante. Poderão pensar: isso é bobagem, a vida é assim
mesmo. Porém, a filosofia não quer apenas imitar a vida, repetindo os erros dos outros, quer, sim,
superá-los.
Contudo, nestas aulas, o melhor debate não se travou sobre as histórias fictícias, mas nas
histórias conjugais de algumas alunas: uma delas reclamava que o marido recebia tudo pronto da mãe
dele e ela não gostava disso, ele parecia sempre passivo, esperando que fizessem tudo por ele e, ela, a
esposa, queria mudar isso quando se mudassem para uma casa nova. Outra aluna objetou dizendo
que havia ali duas maneiras de educar (dois opostos, em conflito!); eu perguntei, então, qual deles era
o certo? Ninguém, nem eu, tínhamos a resposta. Talvez, se devesse tomar algo de bom de cada um...
No segundo momento, apresentei as contribuições de Platão à filosofia e à educação
infantil:

Contribuição de Platão à filosofia: Contribuição de Platão à educação


infantil:
-Há dois mundos, um físico e outro A dialética: instrumento que possibilita,
espiritual, alcançado pelo pensamento ou dados elementos opostos, supera-los,

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após a morte; através da conciliação destes.
-A alma, antes de vir para o corpo,
contempla as verdades eternas junto a Observar os dons (naturais?) que a alma
Deus;
das crianças trazem, apoiando a
-O mito da caverna é uma história criada
por Platão para mostrar como nós somos curiosidade delas, para que investiguem e
neste mundo material e como
aprendam mais sobre assuntos que elas
desconhecemos o outro mundo,
verdadeiro. gostam mais.
- O mundo (eterno) das ideias é de onde
Platão tira inspiração e modelo para
pensar a cidade ideal, a educação ideal e,
também, o amor ideal.

Observei, ainda, algo que aprendi em uma peça de teatro sobre o "Banquete" de Platão: é
que o psicanalista Jacques Lacan, relembrando a tese do amor ideal de Platão (que se relacionava à
ideia de belo e à ideia de bem, Deus, quando amamos o corpo físico de alguém), fez relação ao
conflito observado por ele entre o amor que as pessoas idealizam (a imagem de uma pessoa
idealizada ou de um casamento idealizado) e o amor vivido (e, não raro, envolvido por experiências
frustradas, por pessoas que nos desapontam ou, quando nós mesmos desapontamos).
Platão deu muito destaque às formas: não há nesse mundo físico nenhum circulo perfeito,
linha reta ou qualquer outra figura perfeita. Então, de onde tiramos essas figuras? Para aquele
filósofo, a alma trás consigo memória de um mundo divino, perfeito, que ela testemunhou antes de
vir para o corpo, o seu “sepulcro” na visão dele. Não vamos exagerar, Demócrito, contemporâneo de
Platão, defendeu algo oposto: que o corpo deveria processar a alma pelo tratamento que recebe dela!
Bem, mas de qualquer forma, podemos trabalhar as “formas” com as crianças e, platonicamente,
perguntar-lhes se há nesse mundo formas perfeitas? Há muitos livros que tratam desse tema:

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AS FORMAS DO MUNDINHO

- Editora DCL

- Ingrid Biesemeyer Bellinghausen

Preço: R$11.92

Charlie e Lola ensinam, as primeiras formas


geométricas para os pequenos leitores.
Autor: Lauren Child
Editora Ática
Formato: 16,5 x 18 cm
Número de páginas: 12
Sugestão de faixa etária: a partir de 3 anos

Retorno à infância...ou a volta à caverna?


Dito tudo isso, quero explicar uma experiência que tive em um curso na Universidade PUC
da cidade de Porto Alegre. Para conhecer bem de perto os doutores de filosofia com ou para crianças,
me matriculei no curso de extensão de 80 horas "um desafio à filosofia: filosofia com crianças",
dirigido pelo professor Sérgio Sardi, o "pai" da Ula. Um dos momentos mais recompensadores foi
quando conversamos (ou filosofamos) com crianças. Entre as descobertas (ou redescobertas, se
lembrássemos de quando fomos crianças...) encontramos:

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(a) em um texto construído por elas mesmas, crianças de 2o ano do ensino fundamental, o
personagem principal João Bolão refletia que não queria ser nem muito grande, nem anão... Pareceu-
me preconceito, embora parecesse que o anão em questão fosse o da história da branca de neve ou,
então, uma daquelas estátuas de jardim, que não se importariam de ser desprezadas.

Perguntei às crianças se o anão, em questão, não ficaria triste, pois, o João não queria ser ou
ter a altura do anão? Suas respostas não foram precisas, mas um dos alunos (o Celso), de cerca de
oito anos, 3a série, observou que uma pessoa anã tem atributos e vantagens que só pertencem a ela
como, por exemplo, alcançar lugares que pessoas de mais altas não conseguiriam alcançar!

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No sábado seguinte, um outro aluno, Vitor, sobre os motivos porque colocaram o
personagem anão em uma história elaborada por eles, observou que era apenas uma referência de um
tipo de altura que o personagem principal procurava se situar e, acrescentou: "cada um é de um
jeito".
ISSO É PENSAMENTO DIALÉTICO, QUE SUPERA AS OPOSIÇÕES que observamos
no dia a dia!
Então, por que tratar de dialética com crianças?
Saí de lá um pouco frustrado, pois entre as minhas propostas está o ensino da dialética...

Lembrei que meus alunos adolescentes, quando perguntei como resolver o problema da
violência no nosso país, disseram: mandar a polícia matar os bandidos, sem julgamento. Simples,
assim? E as pessoas inocentes no meio do tiroteio, por que proibir algumas drogas como a maconha e
deixar livre as bebidas alcoólicas, por que essas últimas são consumidas pela maioria das pessoas? E
os pajés (índios) que inalam um pó alucinógeno da casca de uma árvore como ritual religioso que,
dizem, os faz ver espíritos da floresta ou os iogues hindus que fumam um dia inteiro maconha em
homenagem ao Deus Shiva?
Conclusão: supondo que todas as crianças nasçam dialetas, o que acontece ao longo de suas
vidas para que, ao se tornarem adolescentes, voltem a pensar em oposições e não em conciliação?
RESPOSTA: passaram a pensar tal qual adultos!

Para nos ajudar, vale a pena lembrar a teoria da reminiscência (ou anamnese) de
Platão:
Em sua obra Mênon, sem ter uma definição de virtude, Platão imagina ou recorda um
diálogo entre Mênon e Sócrates: a questão central é se podemos encontrar algo que não conhecemos?
Sócrates cita a tese da reminiscência da alma: lembranças que ela guarda da época em que tomou

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contato com as coisas divinas, antes de vir para o corpo. Para provar esta tese, é chamado um escravo
e Sócrates lhe faz perguntas sobre geometria para mostrar que aquele, sem ter estudado geometria
tinha noções sobre figuras e cálculos. Por que ela esquece tais verdades eternas que possui? É que
antes de vir para o corpo ela para no rio do esquecimento e ao beber de sua água... pronto, não
lembra de quase nada!
Em outra obra, Fédon, onde descreve momentos antes da morte de Sócrates, Platão reflete
sobre a morte: ela não é outra coisa, que a separação mútua do corpo e da alma, a que ele considera
como um "sepulcro" da alma. Entre os seus argumentos sobre a imortalidade da alma, destacam-se:
(1) cada coisa tem seu contrário. Assim viver tem por contrário "estar morto" e "estar morto", é
"reviver"; (2) a alma antes de estar unida ao corpo, recebeu o conhecimento das coisas eternas e já no
corpo, irá relembrando (tese da reminiscência) as coisas belas e justas que contemplou antes do seu
nascimento.

A ciência e os sentidos inatos de ordem e justiça nos bebês. (revista Época, 10 de agosto de
2009)
O que é mais curioso é que recentemente a ciência chegou à conclusão que os bebês já
trazem com eles sentidos de justiça e capacidade matemática. Do ventre? De seu dna? De uma outra
vida? E os cientistas fizeram algumas experiências, tais como:
(a) apresentar ao bebê um determinado número de fantoches e que vão sendo postos atrás
de uma cortina. Antes de abri-la, os pesquisadores retiram alguns dos bonecos escondido do bebê.
Assim que a cortina é aberta, o bebê se surpreende e procura os bonecos que estão faltando. Ele
contou a quantidade de bonecos, mesmo sem conhecer números?
(b) em outro teste, o bebê observa que um objeto se move de modo a tirar outros objetos do
caminho. Quando os objetos são oferecidos ao bebê, ele rejeita aquele que interrompia o movimento
dos outros objetos, demonstrando um senso inato de justiça?
(c) quando se pede que um bebê reúna uma série de objetos, observou-se que ele os agrupava
conforme uma semelhança, de cores ou formatos dos objetos, sem que ninguém os ensinasse!

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Minha tese: não faço como Platão, ir buscar uma explicação em outra vida anterior a essa,
para explicar os sentidos ético, de ordem (matemático, geométrico, aritmético) e estético (arte,
beleza) já nos primeiros dias de vida. Mas, não podemos deixar de reconhecer que a obra de Platão,
Philebo, nos estimulou a encontrar um outro caminho: é que nela, Platão, pergunta de onde temos
lembrança não das necessidades que temos, mas da completude? Ora, de qual outro lugar poderíamos
supor que aprendemos harmonia, completude? Por que não do período de vida uterina, cerca de nove
meses? Depois de nascer e quando crescemos e desejamos construir um mundo harmonioso, onde
não exista necessidade alguma e as pessoas quando precisarem de algo tenham e não fiquem sentindo
falta de nada, não poderia ser um efeito da vida enquanto éramos feto, um desejo de reproduzir aqui
fora o que vivenciamos dentro do útero?
A título de conhecimento geral, gosto de lembrar de René Descartes, não porque concorde
com tudo que ele pensou, mas porque suas ideias podem iluminar nosso raciocínio, ainda que nossas
conclusões sejam discordantes. No seu livro “Paixões da alma” (art. 1-19,24-46, 69-96,107-211), ele
lembra que há reações que surgem específicas em certas pessoas. Como elas surgiriam? Ele responde
que pessoas que têm aversão ao odor de rosas ou a gatos, teriam vivido no início de suas vidas

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experiências desagradáveis - cuja lembrança permanecerá por toda a vida - ou, ainda, podem ter
compartilhado do sentimento de suas mães, quando estas estavam grávidas.

E a dialética para crianças?


Refeito do susto de ter que abrir mão da dialética para crianças, saí me sentindo reforçado:
talvez a função do filósofo seja a de tentar plantar a semente da dialética para que um dia dê frutos e
impeça que ervas daninhas se aproprie do terreno mental dos jovens!
(b) entre a lista de coisas menos importantes que pedimos que eles listassem, foi listado:
"estudar". Quando lhes perguntei se ao jogar vídeogame eles não precisavam, também, estudar, eles
em um primeiro momento se opuseram a ideia, mas refletindo disseram que no jogo havia palavras
em inglês e a aula dessa disciplina os ajudava a entender melhor o brinquedo em questão! Sugeri à
professora que deixasse o aluno trazer o videogame para a escola, para que estudar não fosse tão
chato, como diziam...
(c) quando perguntadas as crianças disseram que ter vontade e gostar não eram a mesma
coisa, embora semelhantes e que a vontade vinha antes do gostar! Eram aquelas crianças inatamente
Kantianas? Calma, leitor! Lembrem-se: nós os adultos é que ensinamos o sentido das palavras para
elas!
(d) as alunas pareciam se preocupar mais com os sentimentos, não os meninos... Mas,
quando perguntamos se temos dentro de nós coisas boas e, também, ruins, até o menino concordou,
destacando entre elas, a raiva - crianças de 8 anos já reconhecem ter raiva e coisas ruins dentro delas!
(e) na obra que as crianças produziram havia uma referência à moral da história "o pequeno
príncipe": "o importante é invisível aos olhos". Mas, objetamos que há coisas que são visíveis e,
também, importantes. Eu mesmo quando fiz a lista, pensei em pôr a paz mundial entre as mais
importantes e, depois, me dei conta de que comida, salário, minha casa, são mais importantes que a
paz mundial que provavelmente foi pensada, por mim, por achar que era isso que esperavam que eu
dissesse! Acredito que seja assim com as crianças! Um garoto listou o videogame como uma das
coisas mais importantes e é uma coisa visível, embora, o prazer que aquele brinquedo desperta nele
seja algo invisível, também.
Moral da história ou daquele fantástico encontro com as crianças: presenciei o momento em
que o superego se forma, isto é, as regras (valores) sociais são incutidos em nossas pueris mentes: na
escola, pelas mãos das nossas doces professorinhas...e presenciei, também, e em mim mesmo. Foi
como viajar no tempo (possibilidade ilusória, mas bem imaginativa) para o dia em que os valores dos
adultos são enraizados nas mentes das crianças!

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(f) há uma inclinação para pensar filosofia como debate de temas livres e o professor como
guia. Isso é caótico para mim e vejo o professor como um indivíduo ausente (uma estrela do mar,
levada de um lado a outro) ou, ainda, um refém de mais um modismo! Não há espaço para que ele
possa usar um método, uma bússola, pois aos olhos de alguns parecerá autoritário? É evidente que
vivemos em uma época onde não aceitamos que pessoas venham nos ensinar verdades absolutas, isso
porque nunca existiu gente com tal competência, mas daí não se segue que não se possa chegar a
boas respostas!

É complicado pensar que Filosofia seja outro nome para ensinar valores morais tão
presentes nas “morais das histórias”. Antes, devemos estimular a sinceridade sobre a prática ou não
dos valores estabelecidos pela sociedade antes de nascermos e não a memorização autômata dos
mesmos.

Dois exemplos:
(1) as alunas disseram que diante de uma pessoa "só vemos a sua fachada", mas não o seu
interior. Aprenderam isso sozinhas ou a professora impôs a elas seu modo de pensar? Provavelmente
- e infelizmente - a segunda resposta...
(2) um dos alunos mencionou que um colega mentia muito. Antes de dizer que isso é ruim
- ele mesmo se deu conta de que já tinha mentido, até como o caminho mais curto para sair de um
problema, como quando quebramos um vaso de nossa mãe! - procurei perguntar a ele se ele sabia por
que alguém mentia. No caso do amigo de escola dele tudo parece indicar que a criança por não ter os
mesmos brinquedos que ele se sentia inferiorizada e, por isso, incorria em freqüentes mentiras (não
serão elas sinônimos de invenções, imaginações ou sonhos?).

O poeta Mário Quintana escreveu: "A MENTIRA É UMA VERDADE QUE SE


ESQUECEU DE ACONTECER". Em outro poema, sobre a mesma temática: DO BEM E DO MAL:

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“Todos têm seu encanto, os santos e os corruptos. Não há coisa na vida inteiramente má. Tu dizes
que a verdade produz frutos.. Já viste as flores que a mentira dá?”.
Podemos concluir que a filosofia é amoral? Depende. Se há filosofia para cada filósofo,
então, não se pode generalizar. Mas, em nossa opinião, a primeira tarefa da filosofia (sua parte
desconstrutiva (ANALÍTICA), como diziam os antigos sobre a maiêutica socrática, arte de trazer
conceitos à vida) é quando vemos algo sob uma nova perspectiva e a segunda tarefa é reequilibrar as
coisas, construindo uma visão geral, integral de uma ideia (DIALETICA). O símbolo da filosofia
deveria ser uma balança, daquelas antigas:

Platão e as sombras nas paredes.


Ao lembrar de Platão, a maior parte das pessoas vai lembrar do mito da caverna, homens
que cresceram sem saber o que era a luz do dia e as coisas reais, vendo tão somente sombras. Para

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aquele filósofos só também somos assim: pensamos ver o real quando, na verdade, são apenas
reproduções do real.
Não sei se é um bom exercício usar esse mito em aula. É que lembro que levantou dúvidas
entre adolescentes: (1) uns chegaram a dizer que se tratava de como os homens antigos viviam,
presos em cavernas! (2) outros, relacionavam ao domínio que os meios de comunicação exercem
sobre nós... mas isso é reflexão, se, de um lado, criticamos a tevê, mas, de outro, não abrimos mão
dela ?
No livro Ula, o autor sugere o exercício das sombras na parede e inclui um vovô contando
aos netos a história de Platão...:
Algo que não gostei naquele curso que participei (Um desafio à filosofia: filosofia com
crianças) foi que o primeiro projeto escolhido para filosofarmos com crianças não era de nenhuma
daquelas pessoas já eram professores e professores de crianças, mas a de um aluno de graduação da
universidade do mesmo autor do livro Ula e do curso e que tinha escolhido trabalhar com crianças
exatamente da mesma forma que o professor propôs trabalhar, com sombras feitas com as duas mãos
no livro Ula.
A vaidade falou mais alto do que a busca por filosofar com crianças!! E o pior disso tudo: o
aluno graduando trouxe consigo a noção de oposições (ilusão e realidade) e foi chamada sua atenção
pela professora das crianças: “elas não entenderiam conceitos que adultos utilizam, mas não elas,
naquela tenra idade”. Estaria a criança iludida quando ela tropeça e bater sua perna em uma mesa e a
xinga dizendo: - mesa feia? Faz mais sentido pensar como os adultos que há no mundo uma rígida
divisão entre coisas vivas e coisas inanimadas? Essa tese é mais real que a das crianças?
Temos outra sugestão que parece fugir o mito da caverna, mas sem os extremos, opostos,
sombra-luz, verdade-ilusão, etc: (1) pegar uma folha em branco e (2) sobre ela derramar uma tinta,
misturando sem prévia ordem, (3) perguntar o que a criança vê e, a partir daí, refletir por que vemos
diferente dos demais, se aquilo não pode ser apenas um borrão, se isso ocorre em nossas vidas, que
exemplos teríamos semelhantes, etc
Ainda que depois do que dissemos o leitor queira trabalhar com sombras, sugerimos o site
http://recantodasletras.uol.com.br /rondel/ 1752025, onde se pode encontrar alguns exemplos delas.
No segundo encontro que tivemos com crianças (em um curso na universidade PUC, de
Porto Alegre), havia a proposta inicial de organizar uma sala escura, onde seriam apresentadas às
crianças sombras para elas refletirem a experiência mental de Platão que consta no mito da caverna.
O problema é que não é tão fácil fazer uma sala ficar escura, sem que sejam facilmente identificados
os objetos e suas sombras - as crianças são muito rápidas em fazer descobertas. A solução que um
dos participantes daquele curso ofereceu foi apresentar às crianças ilusões de ótica.

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A partir daí, abriu-se um debate interessante: O que era a verdade? Se aquela ilusão era ou
não real? Por que um desenho parecia confuso? Se a confusão é algo sempre ruim? Uma criança
observou que se visse aquelas imagens todos os dias, elas não lhe pareceriam mais confusas! Bastaria
um jeito de olhar para entender melhor. As crianças, muito inventivas, inventaram uma palavra:
"confunso", algo que é completamente confuso. Depois, inventaram outra: "confunsidade", quando
sequer sabemos que estamos confusos. Tiveram dúvidas sobre o que significa "ilusão ótica", uma
delas lembrou o show de um mágico, que iludem, engana, depois eu lembrei a elas que os óculos que
duas delas usavam tinham vindo de uma ótica e não foi difícil que elas relacionassem a palavra a
"olhos", "visão". Uma delas falou sobre sonhar acordado, o que achei interessante e perguntei se não
era outro nome para imaginação? Ela disse que havia diferenças... Outra falou de anjo com uma
certeza total de sua existência!
Finalmente, foi proposto às crianças que desenhassem algo muito confuso: uma desenhou
uma figura em forma de caracol que não tinha fim (disse que era algo infinito dentro de algo finito),
outra desenhou uma serei com cabelos de medusa e disse que ela estava confusa com coisas que a
cercavam.

Se aquele foi o exemplo de uma aula ideal...


Recuso-me a aceitar isso: uma aula que parece certas viagens onde o viajante não sabe onde
vai, fica sem rumo, isso é antítese da razão, que primeiro encontra um método ainda que seja
provisório, um plano, e, então, empreende suas experimentações. Jogar fora mais de 2400 anos de
sabedoria dos filósofos antigos em troca de uma aula caótica, onde se bombardeia crianças com
perguntas? (No caso do Lipman, o professor é bombardeado com perguntas, mas o bombardeio
continua!) Isso é filosofar? O que estamos querendo lhes ensinar? Do caos surgirão a ordem e as
descobertas?

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Não podemos descartar a monotonia de aulas que seguem uma única metodologia! A cada
aula, os alunos farão a mesma coisa: formular perguntas ou faze-las ao professor! ISTO É
DOLOROSO!
Além do que já foi dito: com modismos como o método de ensino do pioneiro em filosofia
com crianças Matthew Lipman, estamos jogando fora ou, pelo menos, desprezando as teorias
filosóficas geniais dos grandes pensadores e embora Lipman use noções da filosofia de Sócrates
(diálogos) e Aristóteles (lógica), onde estão os outros pensadores?
Poderíamos elaborar um único método de filosofar com crianças: traduzir em linguagem
infantil as teorias filosóficas. E isso não impede que as crianças e o professor criem suas próprias
teorias! Agora, pensar que o professor tem que se apresentar na mesma condição do aluno, de
ignorância mútua - é um desrespeito aos anos de carreira, dedicação, aprendizado, investigação e
descobertas que um professor acumula!
Essa história de entender filosofia como produzir perguntas que levam a outras perguntas
sem respostas ou com respostas rápidas lembra-me "conversa de bar", onde os amigos falam de
coisas que os interessam, mas sem nenhuma profundidade, mais um desabafo sem se chegar a
mudanças de atitude ou alterar a capacidade de perceber as coisas.
Já que falamos em Lipman, devo dizer algo importante que podemos aprender com aquele
filósofo: não devemos censurar ou discriminar tipos de perguntas vindas das crianças, nem pré-
classificá-las como filosóficas e não filosóficas!
Os sonhos, o mundo ideal e uma exposição de arte.
Eu perguntei sobre os sonhos: seriam confusos, também? Poderíamos ter ido além e
chegado à tese central de Platão: se existe um outro mundo? Se esse mundo que conhecemos fosse
apenas um sonho ou uma ilusão? (esse tese é de René descartes, século XVI) Imaginemos que fosse
uma ilusão, como poderia ser o mundo real? Seria igual a esse? Seria algo perfeito, um mundo ideal
como acreditava Platão? Poderíamos pedir que elas não só imaginassem um mundo assim, mas o
desenhasse?
Para os espíritas o mundo perfeito é separado desse mundo em que estamos. Platão, na obra
A República já falava sobre vários mundos existindo um sobre o outro. Mas, como espírito e corpo
interagiriam? Para Aristóteles, discípulo de Platão, isso é impossível, porque alma e corpo não
podem ocupar o mesmo lugar (físico ou em nossa mente). E como algo eterno interagiria com algo
material? Que cola os uniria? Esta cola seria eterna ou material?

Podemos, também, organizar uma exposição de fotografias para refletirmos sobre o belo ou a
beleza. Nessa aula, podemos apenas expor as fotos e pedir perguntas. Algo que devo evitar é pedir,
como já fiz em muitas aulas, perguntas especificamente filosóficas. E algo que aprendi com a

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filosofia para crianças de Lipman é receber quaisquer perguntas para, somente depois, selecionar
aquelas que pareçam mais relevantes à filosofia!

Por fim, quais são as contribuições de Platão às crianças?


(a) o pensamento pode nos fazer imaginar um mundo ideal.
(b) se esse mundo (que vivemos acordado) for um sonho, pode a nossa mente alcançar o
mundo ideal, real?
(c) De onde tiramos as ideias de círculo perfeito, linha absolutamente reta, etc, se nesse
mundo físico não há essas e outras figuras completamente perfeitas? Para Platão, de outro mundo.
Ele estará certo? Pensemos sobre isso, a favor dele, mas, também, reflita e construa argumentos que
se oponham a ele!
(d) Que mundo seria o ideal? De onde tiramos essa ideia? Podemos construí-lo nesse
mundo em que vivemos?

E as ilusões das mágicas?


Não tinha pensado em usar mágicas para falar sobere ilusões às crianças! Já as tinha praticado
com adolescentes. Em uma das aulas, inesquecível, os alunos começaram a arrastar cadeiras para
ficar m,ais próximo de mim. E eu nem sou mágico e minhas mágicas são facilmente desmascaradas
em poucos segundos!

Eis alguns truques que aprendi (aprendi, realmente?)

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 o truque do jornal: pega-se uma folha e dentro, escondida, cole uma segunda folha e ao redor
dela ponha um elástico. Na frente dos alunos corte a folha que eles veem e amasse-a de maneira que
disfarçadamente com aquele elástico você agrupe as partes recortadas guardando-a com o elástico e,
então, abrindo aquela folha que estava dobrada e escondida. Assim, aparecerá que a folha rasgada foi
consertada!

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 adivinhar a cor do giz de cera: o professor trás de casa ou pede a alunos 4 ou 5 lápis de cor
ou (melhor) 4 ou 5 gizes de cera. Pede , então, que sem ele ver, o aluno escolha uma das cores.
Depois, o professor, ainda de costas, reúne os gizes e, sem que ninguém veja, pega em uma mão o
giz que a aluna escolheu e marca em sua unha a cor daquele giz. Virando, agora, de frente para a
platéia, o professor finge que está tentando ler o pensamento da aluna e vai retirando alguns gizes
que não batem com a cor do giz que está na sua unha, fazendo um mistério até, finalmente revelar a
cor escolhida.

: pedi que um aluno escrevesse em um bloco uma palavra qualquer. Depois, mostrasse aos
seus colegas, mas não para mim. Ele tiraria a folha do bloco e ao me devolver o bloco, eu
conseguiria adivinhar a palavra, pois no bloco havia um papel carbono que faria a cópia da palavra
escrita pelo aluno. Depois, escreveria no meu braço a palavra e lhes mostraria como se ela tivesse se
materializado em meu braço. O truque original, do mr. “m”, envolve queimar o papel no qual o aluno
escreveu a palavra e com as cinzas esfregá-las no braço do mágico, fazendo aparecer a palavra, mas,
para isso, eu precisaria escrever a palavra com uma tinta incolor, difícil de achar em lojas e as cinzas
manchariam o braço, menos aquela parte escrita com a tinta incolor.

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O problema nessa mágica: ao escrever a palavra no meu braço na sala de aula alguns alunos do
canto da sala observaram o que eu estava fazendo e revelaram o segredo (embora eu tenha achado
falta de respeito da parte deles, podemos ver nisso, também, um desejo de participar!?). Uma
alternativa seria não ter alunos próximos do “mágico”. Outra, mais viável, foi deixar a sala a pretexto
de que, assim, o aluno que escreveu a palavra poderia mostrá-la aos outros alunos. Depois, que voltei
à sala, contei uma história que vi/ ouvi de um programa de outro mágico: disse-lhes que de manhã,
me preparando para vir para o colégio, pensei na mágica e uma palavra imediatamente me veio à
mente e eu a anotei no braço; tinha certeza, continuei, que aquela seria a palavra escolhida pelo
aluno. Ao puxar a manga do blusão, a palavra apareceu escrita e perguntei se essa era a palavra
escolhida pelo aluno? Era, evidente. Em outra turma, escrevi duas palavras, uma em cada braço para
dar uma certa expectativa, mostrar uma delas, para dar a impressão de que eu tinha errado (eles
adoram quando o professor erra, coisa da idade, que não desaparece com o tempo, mas fica
camuflada na idade adulta!)

 apresentei uma outra mágica na primeira turma, mas desisti de apresentá-las às outras. Ela
consistia de uma garrafa que eu apresentava à platéia para que se certificassem de se tratar de uma
garrafa plástica normal. Depois, sem que vissem (o que foi impossível, pois havia alunos muito
perto!), eu a trocaria por outra garrafa com uma abertura na lateral. Com ela eu introduziria um
objeto qualquer como se eu tivesse atravessado pela parede da garrafa, misteriosamente!

: um último truque que eu apresentei foi criação minha: peguei duas caixas de fósforos e
construí uma nova caixa com duas “gavetas” invertidas de modo que ao abrir a primeira eu poderei
colocar um clipe pequeno e ao virá-la na “gaveta” de baixo eu posso esconder um outro clipe maior
dando a impressão de que o primeiro objeto se transformou em um objeto maior. Um pano, poderá

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ser adicionado para que a platéia não veja o mágico girar a caixa para que a gaveta com o clipe maior
(que será aberta) fique por cima. É interessante que se coloque rótulo nos dois lados da embalagem.

 Há um outro truque muito interessante que dá para construir em casa: amarre de modo bem
secreto um elástico escuro na ponta de uma caneta e com um alfinete prenda-o na calça e passe-o por
dentro da roupa até chegar a manga de sua camisa comprida. Você dirá à platéia que quando você
contar até 3 a caneta irá desaparecer na frente dos olhos deles. O que você fará é soltar a caneta e
deixar que o elástico estendido faça o resto.

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Exercício sobre dialética para professores e crianças.
MENINA BONITA DE LAÇO DE FITA
(Ana Maria Machado)

Era uma vez uma menina linda, linda.


Os olhos pareciam duas azeitonas pretas brilhantes, os cabelos
enroladinhos e bem negros.
Apele era escura e lustrosa, que nem o pelo da pantera negra na chuva.
Ainda por cima, a mãe gostava de fazer trancinhas no cabelo dela e
enfeitar com laços de fita coloridas. Ela ficava parecendo uma princesa
das terras da áfrica, ou uma fada do Reino do Luar.
E, havia um coelho bem branquinho, com olhos vermelhos e focinho nervoso
sempre tremelicando. O coelho achava a menina a pessoa mais linda que ele
tinha visto na vida.
E pensava:
- Ah, quando eu casar quero ter uma filha pretinha e linda que nem ela...
Por isso, um dia ele foi até a casa da menina e perguntou:
- Menina bonita do laço de fita, qual é o teu segredo para ser tão
pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:
- Ah deve ser porque eu caí na tinta preta quando era pequenina...
O coelho saiu dali, procurou uma lata de tinta preta e tomou banho nela.
Ficou bem negro, todo contente. Mas aí veio uma chuva e lavou todo aquele
pretume, ele ficou branco outra vez.
Então ele voltou lá na casa da menina e perguntou outra vez:
- Menina bonita do laço de fita, qual é o seu segredo para ser tão
pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:
- Ah, deve ser porque eu tomei muito café quando era pequenina.
O coelho saiu dali e tomou tanto café que perdeu o sono e passou a noite
toda fazendo xixi. Mas não ficou nada preto.
- Menina bonita do laço de fita, qual o teu segredo para ser tão pretinha?
A menina não sabia, mas inventou:
- Ah, deve ser porque eu comi muita jabuticaba quando era pequenina.
O coelho saiu dali e se empanturrou de jabuticaba até ficar pesadão, sem
conseguir sair do lugar. O máximo que conseguiu foi fazer muito cocozinho
preto e redondo feito jabuticaba. Mas não ficou nada preto.
Então ele voltou lá na casa da menina e perguntou outra vez:
- Menina bonita do laço de fita, qual é teu segredo pra ser tão pretinha?
A menina não sabia e... Já ia inventando outra coisa, uma história de

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feijoada, quando a mãe dela que era uma mulata linda e risonha, resolveu
se meter e disse:
- Artes de uma avó preta que ela tinha...
Aí o coelho, que era bobinho, mas nem tanto, viu que a mãe da menina devia
estar mesmo dizendo a verdade, porque a gente se parece sempre é com os
pais, os tios, os avós e até com os parentes tortos.
E se ele queria ter uma filha pretinha e linda que nem a menina, tinha era
que procurar uma coelha preta para casar.
Não precisou procurar muito. Logo encontrou uma coelhinha escura como a
noite, que achava aquele coelho branco uma graça.
Foram namorando, casando e tiveram uma ninhada de filhotes, que coelho
quando desanda a ter filhote não para mais! Tinha coelhos de todas as
cores: branco, branco malhado de preto, preto malhado de branco e até uma
coelha bem pretinha. Já se sabe, afilhada da tal menina bonita que morava
na casa ao lado.
E quando a coelhinha saía de laço colorido no pescoço sempre encontrava
alguém que perguntava:
- Coelha bonita do laço de fita, qual é o teu segredo para ser tão
pretinha?
E ela respondia:
- Conselhos da mãe da minha madrinha...

Apliquei esse texto a professoras de crianças e pedi que (1) extraíssem da história oposições
e que, por si mesmos, tentassem as superar. Eis, a seguir, exemplos de respostas:

(1) aluna “x” (não entendeu a proposta!) (2) aluna “y”:

opostos conciliação opostos conciliação

Cabelo x enroladinho = ninho branco x preto = arroz (branco) e feijão (preto)

Coelho x branquinho = algodão laço x fita = embalagem de um presente

Escura x noite = preta jabuticaba (doce) x azeitona (salgada) = árvores


em um jardim ou ingredientes de uma pizza
exótica!
Para terminar as aulas sobre opostos mostrei-lhes um vídeos curtos do “Discovery kids” em
que falam sobre oposições que chamei de “inofensivas”: dentro/fora, embaixo/ em cima,
juntos/separados, perto/longe, para que notassem que não rejeito o ensino de oposto,s ou melhor,
pressuponho que as crianças chegam capazes de, sozinhas, perceber oposições e a nós adultos caberá
ensinar-lhes que palavras expressam essas e outras oposições e, se quisermos liberta-las de
condicionamentos ou percepções restritas, apresentar-lhes, também, como superar as oposições ou
boa parte delas!

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Aristóteles: o desejo natural de conhecer.
Como falar de Aristóteles, como relaciona-lo ao ensino com crianças? Temo que os
professores já saibam como ensinar e eu apenas esteja apresentando-lhes nomes famosos que apenas
ratificariam o que eles já sabem e já fazem, uma aula fundada no argumento da autoridade: Sócrates
falou..., Platão falou...., amém! Mas, procuremos algo que surpreenda, algo que ultrapasse o senso
comum. Assim, penso ter chegado a duas ou três contribuições aristotélicas à educação infantil:
1o - todos os seres humanos têm o desejo natural de conhecer. Não podemos dizer que são
naturalmente avessos às descobertas. O que acontece é que por alguma razão (meus alunos disseram
que é por acomodação) as crianças deixam de perguntar o por quê das coisas, porque o céu é azul,
porque mamãe se veste de saia e o papai não, etc. Os psicólogos dizem (e restringem sua explicação
nisso) que as crianças estão tentando descobrir qual seu papel sexual, isto é, a quem devem imitar, no
vestir e no agir, com seu pai ou com sua mãe ou, ainda, com um parente ou vizinho mais próximo, na
ausência de um ou dos dois pais? Restringir a um motivo é tomar a sexualidade como fim e sentido
de nossas vidas e se o desenvolvimento sexual é tardio em nós não seria este um motivo para
acreditar que a sexualidade é secundária e não central em nossas vidas? Lembrei, também, que minha
mãe, sem querer, ficou irritada por eu fazer muitas perguntas e, talvez, por isso, por causa dos
adultos cansados de seus dias estressantes, as crianças deixem de investigar o por quê das coisas!
Some-se a isso o fato de que vivemos uma sociedade de especialistas: se você tem uma pergunta,
pergunte a um especialista. Mas, quem conhece ou tem uma vaga idéia do todo?
2o - nossas aulas não devem ser repetitivas, pois nos leva à acomodação, devemos, sim,
estimular a nós mesmos a procurar coisas novas. Por que nos acomodamos? Não quis dizer na aula,
porque poderia magoar uma aluna obesa, mas penso que a má alimentação e a ausência de exercícios
nos torna acomodados e cansados. Preferiremos, então, assistir um programa medíocre na televisão,
porque até mesmo para assistir a um programa científico isto nos causa preguiça. Precisamos que a
sociedade e as leis tornem um dever de cada cidadão de cuidar de sua saúde e de sua mente, querer
aprender sempre mais e, se possível, ensinar aos outros. E, acrescente-se, uma vez que os salários
pagos aos professores são baixos e a jornada de trabalho longa, tendemos a repetir a mesma aula nos
anos seguintes, a usar os mesmos livros didáticos ano após ano e, por hábito (leia-se
condicionamento) não conseguimos mais abandonar esta condição.
3o - estimular os sentidos, muitas escolas infantis fazem, como, exemplo de uma aluna,
mostrar às crianças um pedaço de algodão e outros materiais para que sintam a textura, é um bom

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começo. Parece-me que o problema não está aí, as professoras já estimulam os sentidos, embora
muitas delas tenham se queixado de que os pátios onde as crianças brincam sequer têm areia, pelo
medo de que contraiam alguma doença de pele, micose ou, então, vermes. Não sabia, as alunas me
disseram, que há areia artificial onde as crianças brincam, acho que ela tem cor azul! Lembrei-as de
que quando mostrei aos meus alunos um pedaço de terra e pedi que cheirassem, eles mostraram uma
expressão de nojo, nós que somos homo sapiens, que mencionei antes, "homo" vem de húmus, terra.
Estamos criando um mundo afastado da natureza? Provavelmente. Mas, até que ponto este admirável
novo mundo não se parecerá com um mundo morto semelhante àquele do escritor Aldous Huxley,
onde acabaremos com nojo de nós mesmos? A questão central no estudo dos sentidos é torná-la
habitual, cotidiana e estimular o prazer dos sentidos: nem todos serão exímios degustadores de
vinhos, mas, pelo menos, degustarão a vida a sua volta.
Um filme interessante sobre sentidos é o "perfume", que mostra um bebê recém-nascido
deixado no chão de uma feira de peixes e, a partir daí, ele descobrirá os cheiros com uma
sensibilidade invejável; talvez poderíamos, tornar mais complexo o contato das crianças com os
diferentes dados dos sentidos (Aristóteles e os medievais usavam um termo mais simples: os
"sensíveis"). Isto faria ou ajudaria enraizar nas novas mentes um hábito, o de perceber o mundo
como uma fonte inesgotável de conhecimento e satisfação honesta, como diria Aristóteles; hoje, em
dia, os homens preferem o cheiro do dinheiro ou das drogas!

Bem, vejamos, comecei com uma aula bem curta: mostrando que Aristóteles tinha sido
discípulo de Platão e mestre de Alexandre, magno. Tinha discordado do mestre sobre a teoria de dois

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mundos e acreditado em apenas um mundo, onde os seres humanos têm alma e corpo existindo
unidos e inseparáveis, onde a única possibilidade de eternidade, para nós, é deixarmos nossa forma
para nossos filhos. Lembrei algumas de suas boas teorias: por que dormimos? Para que os sentidos
não sejam destruídos por funcionarem sem descanso. Por que um bebê não fica em pé e os
quadrúpedes, também não? Uma aluna respondeu que nascemos incompletos e eu observei que se
um bebê não anda porque está incompleto, ainda não responde à pergunta. Outra aluna disse que se
devia a não ter músculos suficientemente fortes para sustentar o corpo e, eu acrescentei segundo a
tese aristotélica, não ter ossos mais longos que possam se sustentar sobre duas pernas. Em uma
turma, lembrei da tese do tempo: o passado está na memória, o futuro é expectativa e o que existe: o
presente, um ponto sem dimensão, também inexistente?
Lembrei, também, que como mestre, Aristóteles dizia que o mundo tinha limites e que os
outros povos, não-gregos, eram bárbaros (irracionais) demais para que pudéssemos aprender algo
com eles e, disse ainda, que Alexandre em suas conquistas militares procurou pela experiência
própria testar tais teses. Hoje em dia, um aluno não questiona o professor, como bem faziam na
Grécia antiga! Alexandre, acrescentei, mandava ao mestre espécimes de animais e plantas que ele
descobria nos novos territórios conquistados, de cujos povos absorvia suas culturas.
Depois, no segundo período de aula, propus experiências com os sentidos, a partir da
opinião de que os sentidos podem ser fonte de engano, o que não é correto, pois quem nos engana é o
cérebro, que interpreta os dados que recebe, criando, por exemplo, movimento, a partir de uma
imagem estática ou suprimindo palavras quando a frase completa está disposta em duas ou três linhas
como, por exemplo: "Sou morador do" na primeira linha e, na linha debaixo está escrito "do rio
grande do sul", sem perceber que há duas preposições "do". Apresentei-lhes imagens de ilusões de
ótica e disse-lhes que, em geral, não vemos tudo que se apresenta a nós, apenas uma parte e achamos
que esta parte, sozinha, explica tudo!
Não sei se usarão com crianças ilusões de ótica, até porque li algo sobre que as imagens de
ilusão de ótica poderia induzir ataques epilépticos naqueles propensos a essas crises. Mas, pelo
menos, este exercício e os seguintes, provocarão dúvidas nas mentes de pessoas que acham que
existem respostas definitivas e verdades absolutas e, isso, não é pouco.
Depois, passamos para o sentido do tato: em sacos escuros, para que identificassem os
objetos. Pedi que fizessem isto com uma mão e depois buscaríamos explicar por que me parecia que
com uma mão era mais difícil reconhecer os objetos em vez usar duas mãos. Uma aluna lembrou que
em um curso de Artes visuais, na disciplina de Estudo sobre a Percepção, a resposta consiste em
dizer que apenas uma parte do cérebro funciona e não as duas partes; achei boa a resposta, mas não
quis lhe dizer, que não deveríamos tomá-la com definitiva. Em outra turma, apresentei minha
resposta: é que com duas mãos construímos rapidamente, a partir do tato, uma imagem em três

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dimensões que corresponderá em nosso cérebro a uma imagem já conhecida. Já com uma mão a
quantidade de dados é menor e quando tocamos o objeto em uma extremidade e nos demoramos a
alcançar a outra extremidade, as primeiras informações ou sensações já estão esquecidas. É muito
forte a crença de que a ciência tem todas as verdades!!!
A seguir, ofereci aos alunos uma bala e pedi que identificassem o sabor. Disseram que era
de framboesa, mas o fabricante disse no rótulo que era de cereja. Perguntei por que deste erro?
Poderia ser do fabricante, não? Poderia ser do fato de que nunca conheci ou provei framboesa a não
ser de outros doces artificiais. Chamei a atenção para o fato de que aquele doce não tinha suco
natural, mas nos enganou mesmo assim ao crermos que ali estava uma amostra de uma fruta
verdadeira. Aproveitei a situação para perguntar: se a língua só reconhece o gosto ácido, doce,
salgado e amargo, que parte dela reconhece que a acidez vem da laranja ou do limão ou a doçura
vem do morango ou do chocolate? Nossa resposta: é o nariz que recebe estas informações. Prova isto
quando estamos gripados e não sentimos o gosto e o cheiro de um alimento; estes dois sentidos estão
muito próximos e não distinguimos seus limites!
O último sentido, a audição, foi mais interessante, apesar de simples: ouvimos os toques
(sons) que estão disponíveis dentro do aparelho de celular, sons que escolhemos para usar e para nos
alertar quando recebemos uma chamada telefônica. E pedi que me dissessem que sentimentos cada
som provocava: um som os irritava, responderam, outro som, os acalmava, entre outros, fato que me
levou a ter mais respeito em relação à tese de Platão e Aristóteles de que a música afeta nosso
comportamento e pode mesmo moldá-lo. Alguém falou que a música que os jovens ouvem hoje os
incita à violência. Não sei, não devemos culpar a música, talvez, disse-lhes, só reforce neles uma
inclinação a agir violentamente. Uma aluna lembrou que nas escolas infantis cantam músicas para os
alunos e eu lhe disse que a música (a melodia) nesses casos é apenas co-adjuvante da letra. Outra
aluna, lembrou da letra da música "atirei o pau no gato" e que ela induziria as crianças a maltratarem
os animais. Há uma versão que começa a ser ensinada: "não atire o pau no gato, porque ele é nosso
amigo".
Resumi as teorias de Aristóteles no quadro abaixo:

Teorias Aplicação possíveis às crianças


Em sua obra “Metafísica”, escreveu: Não há criança que não queira
“todos naturalmente têm o desejo de aprender, pois, em todos nós há uma
conhecer e isso se prova pelo prazer curiosidade natural, mesmo nos
que temos de sentir apenas pelo animais que chamamos de inferiores.
sentir”.
Na obra “Ética a Nicômaco”, “o fim de Em todos temos a capacidade de
todo ser humano e a felicidade que fazer uso da razão, que nos guia para
buscamos e a função que a natureza resolver problemas práticos e

87
nos deu é a de raciocinar”. estabelecer regras de convívio – “a
virtude está no meio-termo, entre
excessos e fraquezas”, como, por
exemplo, a coragem está em um
meio-termo entre a covardia diante de
algo que não representa perigo real e
a insanidade de querer lutar contra um
exército inteiro.
O ser humano é definido como um Uma boa sugestão é perguntar para
“animal racional”. criança: com que bicho ela se parece,
ajudando-a a expressar e canalizar de
um modo racional a sua parte natural,
instintiva.
Definiu a Filosofia (teoria ou De onde veio essa fruta? Da feira. E
sabedoria) como a “busca das causas como chegou lá? De caminhão? De
primeiras” ou dos “primeiros onde veio ele? Da fazenda. De que
princípios”, uma série de porquês cuja modo ela apareceu na fazenda?
resposta leva-nos a um novo porquê e Alguém plantou? Quem foi? O
esse a uma nova resposta... agricultor. E a semente de onde veio?
Etc
Aristóteles foi o pai da lógica, a crença (1) Um exercício de encaixar figuras
de que existe um tipo de raciocínio em lugares vazios com a mesma
correto em oposição a raciocínios forma é um exemplo de exercício
errados. lógico.
Se A está em B e C está em A, então (2) Leve o bichinho de volta a seu
C está em B dono:
Exemplo: O bicho de Bobi não pode voar, o de
Se todos os homens são mortais e Carlos e o de Débora têm ambos
Sócrates é homem, então, conclui-se pêlos e o de Débora não late:
que Sócrates é mortal. Pássaro Gato Cão Peixe
Ana
Bobi
Carlos
Débora

“Nada está na mente que não tenha Exercícios:

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passado pelos 5 sentidos” (1) visão vendar os olhos e com ajuda
“pela natureza, os animais são de um colega andar pela sala ou pátio
dotados de sensação e das (ou ver figuras de ilusões de ótica)
sensações, em muitos deles, surge a (2) tato – tentar com uma mão
memória” descobrir o que é o objeto
“de muitas memórias de uma mesma (3) paladar – provar e diferenciar
coisa, surge a experiência” sabores
“da experiência veem a arte e a (4) olfato – conhecer e relacionar
ciência” cheiros objetos
(5) audição – ouvir músicas e
emoções que despertam.

Em uma palestra com um psicólogo, fizemos - nós professores – alguns exercícios:


(a) “que bicho você mais gosta?”. Pediu-nos que listasse três, depois disse que o primeiro
era a imagem do que achávamos que fôssemos, a segundo imagem, como os outros nos viam e a
terceira, o que somos realmente. Pareceu-me ter relação com a tese do superego (o que os outros vão
pensar), ego (o que eu penso) e id (e o que eu, no fundo, sou), embora eu não tenha simpatia por tal
teoria, não convém queimar nenhum livro na fogueira!
(b) diante do mar, cite três sentimentos? (a imagem do mar significaria para os psicólogos a
vida);
(c) um muro gigantesco que aparecesse diante de você, cite três coisas que ele significaria?
(o muro disse o psicólogo, significava a morte) e
(d) uma taça de champagne, que sentimentos apareceriam? A imagem significava “sexo”.

Aristóteles e Rousseau: ensino do livro do mundo!


Tanto o livro Ula, quanto Rebeca encontram-se limitados como recursos metodológicos,
pois usam apenas narrativas como instrumento para motivar as crianças a filosofarem, quando
menosprezam o poder da experiência, que nos faz sentir o mundo físico, material e nos provoca,
penso eu, um grau de emocionalidade muito superior ao que se obtém das páginas de um livro. No
livro Ula (manual de orientação aos professores), sugere-se estimular os cinco sentidos. Mas, o que
está no livro de texto (para crianças) não estimula a experimentação!
Tais livros e seus métodos propõem filosofar através de histórias, o melhor seria estimular
as crianças a ler o "livro do mundo", como bem disse Rousseau. Lipman, o inpirador do livro
Rebeca, contradiz o próprio John Dewey (seu modelo e defensor do educação empírica), pois a cada
palavra que a criança entende, este entendimento a leva à lembrança de sua vivência distante,

89
restringindo seu aprendizado àquilo que ela já sabe. Nem quero imaginar quantas crianças falam de
bichos e árvores e nunca tocaram neles!
Pode parecer que eu menospreze os livros, mas não é verdade. Podemos utilizá-los, mas em
poucos momentos, como quando está chovendo, ou quando a criança não quer sair para a rua ou
olhar algo em um microscópio ou até na mesma proporção das vivências (experiências) práticas, mas
desde que o professor não se acomode, achando que filosofar é seguir a história, sem estimular as
crianças a perguntar, a pensar diferente, a construir suas explicações, esquecendo ou desconhecendo
o que os filósofos pensaram. Apenas nesse caso, eu diria que a Ula pode ser útil em aula, pois tem:
- um desenho primoroso ,
- uma história, embora curta, pode ser vista como uma boa introdução aos problemas
filosóficos, mas não é suficiente como método de aula, embora o autor acredite que filosofar com
crianças seja levar a elas um tema ou problema e deixar que elas trilhem os seus próprios caminhos
para chegarem a uma resposta (ou uma hipótese).
Outro aspecto que diferencia esse nosso livro (Filosofia Infantil) e os dois anteriores (Ula e
Rebeca) é que ambos são limitadores da "liberdade de ação" do professor e a nossa presente obra
defende que o professor antes de tudo conheça as principais teorias filosóficas e, a partir delas possa
construir aulas diferentes daquelas que sugerimos. Ou seja, que aprendam a andar por suas próprias
pernas!

Por que não sair da sala e observar pássaros? Por que não construir uma armadilha para
pegar pássaros, para observa-los de perto? Cruel? Quem vos fala é um vegetariano! Não estou
propondo que se faça pássaro frito!! É semelhante a pescar peixes e depois devolvê-los ao mar! Isso
será inesquecível para as crianças, mais do que ensinar-lhes sobre pássaros apenas em livros!

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Aristóteles e ética
Bastaria sobre ética tratar das noções que vimos antes em Sócrates - a busca pelo mínimo, o
comer para viver, não o contrário, viver para comer - e o que vimos em Platão - sua dialética trás em
si a conciliação, a harmonização entre conflitos (oposições), ao contrário do que muitos possam
pensar, a filosofia, pelo menos, platônica, é moralizadora ou moral, sim.
Porém, podemos trabalhar virtudes e vícios, já que Aristóteles, antes das 8 tentações (além
dos sete pecados que conhecemos, havia a “melancolia”, conhecida no século XX como depressão e
tratável com remédios) escritas pelo monge Evóglio (350 d.C.) e a lista dos 7 pecados capitais
(orgulho, inveja, ira, avareza, preguiça, gula, luxúria) escrita pelo papa Gregório (cerca de 500
d.C.), o filósofo macedônio, mestre de Alexandre, o Grande, já tinha escrito uma lista de virtudes e
vícios, trezentos anos antes de Cristo nascer!

Vícios e virtudes segundo Aristóteles


Vício (falta) Virtude (meio-termo) Vício (excesso)
Covarde coragem temerário
Não há um nome temperança (uso auto-indulgente ou
adequado dos incontinente
prazeres do corpo,
especialmente os do
tato e do gosto)
mesquinharia Liberalidade (uso da prodigalidade
riqueza)
Avarentos Magnificência vulgares
(grandeza em relação
a gastos pessoais)
Pusilânimes magnanimidade (nos pretensiosos
faz agir bem para com
os outros em uma
“grande escala”)
humildade indevida orgulho - ou “amor- vaidade
próprio” (merecedor de
grandes coisas)

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sem um nome moderação ou irascibilidade (“sangue
cordialidade quente”)
Fanfarrões sinceridade(ama a presunçosos
verdade)
rude, grosseiro espirituosidade bufão
vergonha
sofrer injustiça justiça agir injustamente

Um alerta: filosofia com ou para crianças não pode ser lavagem cerebral: incutir máximas,
valores nas cabeças das crianças, mas pensar nas conseqüências de agir de um modo ou agir de um
modo contrário. Isso lhes ensinará mais, pois, elas abertamente poderão expor seus sentimentos
verdadeiros. Quantos de nós, em algum momento da vida, não agimos imoralmente e gostamos
disso?
Há, sim, livros voltados para a educação moral, mas não se pode chamá-los de filosóficos,
pois, não há, neles possibilidade de debate, de pensar o oposto do que diz o professor!

Aristóteles e a filosofia como causa primeira (Os porquês


e as crianças)
Depois, pedi que escolhessem uma notícia de revistas e identificasse as causas de um fato
qualquer e, mais, identificassem as causas daquelas causas e, por último, as causas das causas das

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causas. Procurei mostrar que perguntar o por que das coisas é uma tarefa que sempre nos remeterá a
uma explicação ainda mais antiga e lhes disse que gostaria que eles tornassem um hábito perguntar
pelas causas das causas das causas, o que, acrescentei, poderia levá-los a uma série sem fim de
indagações ou, talvez, terminar no Big Bang ou em uma intervenção criadora de um deus, para quem
acredita.
Propus um exercício para habituar os professores a não criticarem seus alunos quando esses
lhe metralharem com infinitos porquês. Aliás, em geral, a reação natural dos adultos é dizer "pare de
perguntar essas coisas menino" ou "Xi, o fulano está naquela idade de perguntar", como se perguntar
fosse específico de uma idade!! O exercício consistiu em pegar uma afirmação sobre o tema
sexualidade infantil e formular uns 10 porquês relacionados, encadeados, como no exemplo abaixo:
Estes exercícios tem um efeito significativo?
(1) gostar de ouvir e procurar os porquês das coisas,
(2) aprender a pensar mais rápido, embora não necessariamente pensar melhor, o que exige
assistirmos programas, ler textos científicos, aprender a gostar de aprender. Muitas alunas não
sabiam quem foi Darwin e o que ele propôs!!

Exemplos de tarefas relacionadas a porquês:


(1) Pedir que busquem causas a partir de algo do seu próprio ambiente que tenha
despertado a sua curiosidade. Por exemplo: o que há além do teto? Como a luz chega à sala de aula?
Ainda que os alunos não consigam resolver por si mesmos, podem procurar pessoas que podem lhes
ajudar: o eletricista da escola, por exemplo
(2) distribuímos revistas e pediremos aos alunos que busquem as causas mais longínquas
que puderem encontrar a partir de uma notícia que lhes chamar mais atenção.
Por exemplo: se a notícia trata de um acidente aéreo, pergunte por suas causas e depois que
obtiver respostas proponha novas perguntas a partir das respostas e assim sucessivamente. Verá que
não tem fim, não é?

1- despreparo do piloto,
2- peças e avião antigos,
3- clima atmosférico desfavorável,
4- pista ruim,
5- controladores de voo estressados?

Mas, não parem aí, procurem na notícia ou em sua imaginação o porquê das causas
anteriores:

1.1 o porquê do despreparo do piloto;


1.2 o porquê das peças antigas
1.3 o porquê do clima desfavorável

93
1.4 o porquê da pista ruim
1.5 o porquê dos controladores estressados

Se a imaginação for fértil poderemos obter muitas respostas, tais como:


1.1.1 piloto mal remunerado
1.1.2 piloto com poucas horas de experiência

1.2.1 peças contrabandeadas


1.2.2 empresa não repõe as peças segundo o tempo de uso
1.2.3 empresa visa o lucro e não a segurança

1.3.1 mudança repentina da atmosfera


1.3.2 clima foi subestimado
1.3.3 não queriam atrasar o voo, etc.

Sugeri às alunas (professoras de crianças) que organizassem as respostas em uma ordem


temporal:

Não vamos continuar com o exemplo, alongando-o, pois, acreditamos que o leitor já
entendeu a proposta. Se o nosso aluno tornar esta atividade (de perguntar pelos o porquês cada vez
mais longínquos daquelas causas mais imediatas) um hábito, temos certeza de que os tornamos
filósofos, porque a filosofia busca as causas que Aristóteles chamava de "primeiras", na ordem dos

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acontecimentos, vamos dizer assim. Em geral, os alunos acham divertido este exercício, embora
alguns se cansem!, será o cérebro trabalhando, finalmente?

E quem nasceu primeiro: o ovo ou a galinha?

Uma pergunta que os alunos me fazem com freqüência. E não sei se há uma única resposta.
(a) Se acreditarmos na teoria de Charles Darwin, da seleção das espécies, isto é, um filho
descende de um pai e uma mãe, mas nele, devem existir diferenças sutis que o faz diferente dos seus
progenitores, pode-se pensar (E ASSIM O FAZEM OS CIENTISTAS): que a galinha que
conhecemos veio de um animal que não era galinha, mas que já poderia colocar ovos ou não, como
faziam os dinossauros..
(b) os defensores do criacionismo dirão que Deus pôs a galinha no mundo e a partir dela
surgiu o primeiro ovo de galinha. E os dinossauros? Segundo os religiosos, todos os animais foram
criados juntos. Há quem diga que os ‘dinos” só foram extintos porque não quiseram entrar na arca de
Noé (deve ser piada de ateu!)

Aristóteles, o pai da lógica.


Crê-se desde Aristóteles que o pensamento tem uma ordem e, por isso, ele pensava que
ensinar lógica ajudaria a ensinar a pensar segundo uma ordem. Fácil para quem pensava, também,
que o universo tinha uma ordem a ser encontrada. Mathew Lipman, no século XXI, mantém esta
crença, acredita ele que este seja o problema que limita a inteligência de nossos adolescentes. Será
mesmo? Em nossa opinião o problema principal na capacidade de pensar de um adolescente ou de
um adulto é simples: não ver outras perspectivas de um problema. A palavra "perspectiva" sugere
três dimensões, não uma única direção, como pensam os lógicos ainda hoje.
De qualquer modo, a lógica é o que chamo de "fitness" para o cérebro, um instrumento a
mais para movimentar a massa cinzenta e acelerar o pensamento, o que não é algo ruim.
Somente na segunda parte, então, eu tratei da lógica aristotélica ou mais precisamente citei
os métodos dedutivo (que parte de uma lei, por exemplo, toda água ferve a 100oC e se colocarmos
um copo d'água no micro-ondas e observarmos sua temperatura, ela será de 100o C e isso valerá para
a água de uma chaleira ou um gêiser) e indutivo (que parte de casos particulares e chega a uma
teoria, sentido oposto, aliás nenhum aluno observou isso, do método dedutivo).
Passei, então, para exercícios de lógica, utilizados em testes de quociente de inteligência.

95
Eu, normalmente por excesso de turmas, esqueço de revisar a matéria. E neste dia, eu não
levei junto as respostas dos testes e havia um, em especial, que me deixou de calças curtas, mas que,
na realidade, é ou parece fácil:
(1) "João tem 12 anos e seu irmão três vezes menos. Que idade terá João quando seu irmão
tiver o dobro". Assim, o irmão de João tem atualmente 4 anos e o dobro significa oito anos. Ora,
imaginei que o dobro é quatro mais outros quatro anos que se passaram para o irmão de João e para o
próprio João que teria, então, doze mais quatro, dezesseis. Alguns alunos chegaram a vinte anos, pois
somaram ao doze de João mais oito anos. Poderíamos pegar a idade de oito anos do irmão e
multiplicar por três, mas vinte e quatro não estava entre as respostas...
Outra dúvida surgiu quando se afirmava algo como:
(2) "Alguns Sloopies pertencem ao grupo dos Throins e alguns Throins pertencem aos
Bloogies, então... Alguns Sloopies pertencem definitivamente aos Bloogies?".
Para crianças, evidentemente, devemos substituir esses nomes estranhos até para nós
adultos, por algo que seja conhecido por elas. Por exemplo: Se alguns passarinhos pertencem
(moram) naquela floresta e naquela floresta há árvores que pertencem a um parque, então, podemos
dizer que alguns passarinhos pertencem definitivamente àquele parque, também?

Resposta ou respostas:
(a) os pássaros podem pertencer a uma parte da floresta que não está dentro do parque!
(b) pode ser que exista uma parte do parque onde os pássaros tenham ninhos nessas árvores
(c) há uma terceira possibilidade: poderia haver uma parte do parque em que os pássaros
morem, mas que não tenha árvores, só grama, por exemplo, mas fica difícil, pois, pássaros preferem
fazer ninhos em árvores!

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(3) Qual a palavra que não pertence a este grupo? Cigarro - Pato - Sorriso - Pensamento -
Oxigênio (Nota do professor: Será que o pensamento é realmente imaterial ou nos ensinaram assim?)
(4) Em uma palestra com um psicólogo aprendi mais 2 testes interessantes que estimulam a
criatividade:
(4.1) com seis canudinhos, construa quatro (4) triângulos idênticos. Depois de tentar
construí-los em duas dimensões, no chão, irritado, resolvi imagina-los em três dimensões:

(4.2) outro desenho apresentava nove pontos e pedia que com quatro (linhas retas)
uníssemos os pontos sem tirar a caneta do papel.

Os testes abaixo são interessantes para desenvolverem os professores de crianças:


 Qual o número que deveria ser o seguinte nesta seqüência: 9, 16, 25, 36, ...? ( )45 ( )43
( )47 ( )49 ( )44

Qual figura de qual letra preenche o quadrado vazio?

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 Qual figura de qual letra completa o espaço onde está o ponto de interrogação?

 o número de quadrinhos claros na figura que ocupa a 10a posição é:

 Que palavra não pertence ao grupo?


( ) prata ( ) platina ( ) ouro ( ) marfim
Nesse exercício, a professora pode adaptar as palavras para o vocabulário infantil. Reed, no
manual do livro Rebeca perguntou: “uma sala com crianças e um gato”, o gato faz parte do todo (sala
de aula)? Como não há respostas naquele livro, supõe-se que possam defender a tese de que um
visitante peludo seria muito bem vindo ou, então, que não, ali não seria lugar de bichinhos, vamos
deixa-los no pátio...

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 Qual figura não pertence ao grupo?

qual quadrado da fileira de baixo completa a série de quadrados da fileira de cima?

 De quais países as crianças vieram?


França Inglaterra EUA Argentina
Ana não não Sim (4o) ---
Bobi ---- Sim(3o) não não
Carlos não não não sim (1o)
Débora sim(2o) não não ---

Já mostramos antes um exercício para crianças, onde cada uma delas tinha um bicho de
estimação. Apresentaremos mais um modelo para trabalhar com crianças, embora seja mais
adequado o professor adaptar e construir exercícios mais próximos da realidade do aluno: “Quatro
crianças nasceram em diferentes países. Encontre quem nasceu em qual país, segundo as seguintes
pistas: Ana não nasceu na Europa, a língua de Débora não é o inglês, Bobi não é das Américas e Cal
não é do hemisfério norte (é interessante lembrar os alunos que o hemisfério citado é o que está ao
norte do Equador!)”.
Novamente, o professor pode adaptar o exercício às palavras que as crianças conheçam.

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Um recurso que o professor pode utilizar é o laboratório de informática: há excelentes sítios
na internet onde se pode fazer testes de lógica e onde calculam inclusive o quociente de inteligência
da pessoa após responder os testes. Há exercícios (http://rachacuca.com.br/jogos/o-lobo-e-a-ovelha/)
em que você tem que ajudar um pastor a atravessar de uma margem a outra de um rio uma caixa de
ovos, uma ovelha e um lobo, mas um de cada vez e de um modo que a ovelha não fique sozinha com
os ovos, porque ela adoraria comê-los, nem o lobo fique só com a ovelha pela mesma razão!

Mas, basta perguntar às crianças e elas dirão sites ainda melhores: há dois que eu vi
crianças jogando, um era de encontrar itens de maquiagem e embelezar o rosto de uma boneca virtual
e outro, era levar a personagem da sua casa, até o shopping para buscar amigos, sem sair da estrada.
Porém, nem todos os sites que eles gostam tem relação com lógica, embora o professor possa
construir aulas em que sejam apresentadas alternativas às crianças de escolhas e estimula-las a pensar
em conseqüências.
De outro lado, o próprio jogo de xadrez sempre foi visto como estimulante da inteligência,
ele é bem lógico, pois, faz pensar em alternativas e conseqüências dos movimentos das peças.

Falácias, raciocínios ou conclusões errôneas, que podem estimular os cérebros de um modo


engraçado:

(A) Imagine um pedaço de queijo suíço, daqueles bem cheios de buracos


Quanto mais queijo, mais buracos
Cada buraco ocupa o lugar onde haveria queijo
Assim, quanto mais buracos, menos queijo
Quanto mais queijos, mais buracos e quanto mais buracos, menos queijo

100
Logo, quanto mais queijo, menos queijo

(B) Existem biscoitos feitos de água e sal.


O mar é feito de água e sal
Logo, o mar é um biscoitão

(C) todos os cães são mamíferos,


todos os gatos são mamíferos,
portanto, todos os gatos são cães.

A lógica humana

Quis usar aqui a imagem do famoso detetive Sherlock Holmes, porque simboliza tão bem a
atividade investigativa dos filósofos e dos cientistas e para tratar, aqui, da “lógica humana”: chamo-
la assim, pois, trata de fatos reais cuja tentativa ou efetiva resolução foi vivenciada por uma pessoa.
Além do mais, a lógica tradicional não reproduz a vida com fidelidade, parece ser maniqueísta (só há
uma resposta válida contra as demais, inválidas, algo como o bem versus o mal!).
Um exemplo que apresentei aos alunos foi o de um cão pertencente à minha família: ele
defecou fezes muito duras, além do que se reconheceria como normal para um cão. A pergunta que
lhes fiz é a que fiz a mim mesmo: por que ele defecou fezes que mais pareciam pedra? Quantas
respostas são possíveis? A seguir, reproduzo o exercício tal como encontra-se na minha obra
"Filosofia para adolescentes":

O que aconteceu com ele? Podemos dar pistas aos alunos e esperar por suas perguntas:

101
- Ele vai só passear na rua? não, alguém o acompanha e ninguém o viu comendo areia;
- A comida dele é seca? Não e ele ao mastigar produz saliva que umidifica o alimento.
- Há em casa areia nos fundos? Não, era apartamento.
- Há vasos de plantas? Não, apenas nas janelas onde ele não alcança.
- Ninguém deixou cair nada no chão, com argila, terra, farinha de trigo, cacos de vidro, etc?
Não.
- Há outros bichos morando na mesma casa? Sim, há um gato. Aqui está a solução que
espero eles cheguem sozinhos: o gato tem uma caixa de areia (grãos de argila) , nela ele defeca e o
cão teve acesso a esta caixa e resolveu comer alguns grãos.
Aliás, se o leitor permite que eu faça uma interrupção aqui para lembrar por que não damos
tanta importância ao estudo dos métodos dedutivo e indutivo: nesta história das fezes do cão, onde
estão os métodos lógicos? Partimos de alguma lei? Todos os seres comem? Ok, mas ela é importante
para resolver o dilema? Parece-nos que não. Tomamos diversos casos particulares de cães e
examinamos suas fezes? Também não. Primeiro de tudo: partimos de um efeito e buscamos uma
causa, algo totalmente diferente de uma dedução e indução que partem da identificação de causas até
efeitos e, além disso, apenas no que diz respeito à areia, isto pode ser chamado de analogia, pois as
fezes pareciam ser compostas de areia e em casa só havia areia na caixa do gato. Não sei se os
próprios filósofos e lógicos sabem como realmente pensamos ou apenas querem apresentar um
pensamento ideal!
Podemos pedir que os alunos especulem sozinhos e apenas aos poucos lhes serão dadas
pistas. E, depois, podemos pedir-lhes que construam seus próprios exercícios para trabalharem com
crianças, transformando-as, habituando-as a seres detetives, sempre curiosas por encontrar respostas
para as infindáveis perguntas que nos cercam.

102
O pioneirismo de Lipman: lógica para crianças!

É evidente que Matthew Lipman, professor universitário da disciplina de lógica para


adolescentes, priorizou este ramo da filosofia ao imaginar um método de ensino de filosofia para
crianças, embora ele não deixe de citar, ainda que superficialmente, em nossa opinião, a importância
do raciocínio criativo. Um exemplo do próprio Lipman: é um raciocínio lógico e correto dizer "todas
as cebolas são vegetais é correto", mas não o é quando dizemos que "Todos os vegetais são cebolas".
O ensino de filosofia para crianças de Lipman é, na verdade, um ensino de lógica para crianças. Por
que ele não deu esse nome? Mas, não podemos imaginar que ao cortar batatas poderíamos chorar, é
um raciocínio criativo, imagem que pode inspirar um poeta ou um publicitário ou, ainda, um
geneticista, que pode fundir o dna da batata ao da cebola, só por brincadeira... Não é de criatividade
que precisamos no mundo, perguntamos?
Em resumo, seu método consiste de aulas que se desenvolvem da seguinte forma :
(a) leitura de uma parte da história pelos alunos;
(b) indicação de passagens interessantes pelos alunos ou, ainda, pelo professor;
(c) discussão a respeito do tema da história;
(d) aplicação (opcional) de exercícios de um Manual do próprio Lipman.

Entre as críticas ao método de Lipman, convém destacar:


- falta de espaço para crítica uma vez que os manuais e histórias já estão prontos;

103
- não há participação democrática, apenas a aplicação de instrumentos de lógica para o
desenvolvimento do raciocínio lógico e criativo, embora a ênfase seja para o primeiro tipo de
raciocínio.
Lipman enfatiza o problema dos “entimemas” ou raciocínios incompletos, quando um
professor diz laconicamente:
"Se eu ouvir conversa, interromperei a aula", quando deveria dizer:
A - "Se eu ouvir conversas"
B- "conversas que atrapalham a aula"
C- "aula que só pode realizar-se no silêncio"
D- "se não houver silêncio, devo interromper a aula".

Mas isso já está implícito na mente, daquele que fala e daquele que escuta? Em parte, sim,
se forem ambos adultos. Na aula, com meus alunos, não percebi a necessidade de falar de um modo
completo, explicando a eles nossas razões, bem como, o encadeamento de cada um dos nossos
pensamentos; neste aspecto, didático, Lipman está correto. E mesmo adultos, para Lipman, não têm
desenvolvidas, naturalmente, as habilidades de raciocínio, como se poderia pensar.
Nos meus poucos anos de educador observei poucos problemas de raciocínio e mais de
indisciplina:
(a) os adolescentes em sua maioria são preconceituosos, avessos aquilo que seja diferente
do comportamento deles, o que não deixa de ser um erro de raciocínio , pois se veem como centros
do mundo, referências em termos do que seja certo ou errado. É preciso acrescentar que a teoria e a
prática não tem um limite preciso que a separem: a teoria, em nossa opinião, teoria é o nome que
damos ao resultado de uma experiência prática que alguém viveu antes de nós!;
(ß) generalizam aquilo que se fala de uma ou algumas pessoas a todas as pessoas.
(γ) não explicam suas opiniões e tentam resolver um problema com uma única causa ou
solução (o problema da violência gerada pelo tráfico de drogas, por exemplo, pensam que a resposta
reside em a polícia matar sem julgamento os bandidos!).

Regras de lógica apresentadas por Lipman:


Para finalizar a aula, passei rapidamente por algumas das regras de lógica que Lipman e
seus seguidores tanto valorizam, regras que o professor deve observar nos alunos e garantir seu bom
uso.
Como eram mais de 20 regras, expus apenas um exemplo de cada:
(1) Tirando inferências de premissas simples:

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De "alguns valentes são estudantes" se pode inferir "alguns estudantes são valentes", mas
de "todas as pessoas são valentes" não se pode inferir que "Todos os valentes são pessoas"

(2) Padronizando frases da linguagem comum:


Linda: "todos os romances são trabalhos de ficção".
Gene: Então, segue-se que apenas os romances são trabalhos de ficção (Gene está errada: o
que se segue é "apenas os trabalhos de ficção são romances").

(3) Tirando inferências de premissas duplas:


Márcia: Os meninos são agressivos.
Walter: As meninas do Vôlei são agressivas, então elas são como meninos.

(4) Usando lógica ordinal ou relacional:


"Os verbos são tão importantes quanto os substantivos" segue-se que "os substantivos são
também tão importantes quanto os verbos"

(5) Trabalhando com a consistência e a contradição:


Phil: Nenhum país é democrático. Liz: eu conheço alguns que são, mas acho que ambos
estamos certos..

(6) Sabendo como lidar com ambigüidades:


Vi um velho vestido de noiva (uma pessoa vestida ou uma roupa velha?)
(7) Formulando perguntas:
Horace: Fred, você parou de colar nas provas? Fred: Eu nunca colei.

(8) Compreendendo as conexões entre parte-todo e todo-parte:


"A polícia de nossa cidade trabalha 24h por dia" - "Pobres policiais! Como eles conseguem
trabalhar sem descanso?"

(9) Dando razões:


Quando uma resposta "explica, mas não justifica".

(10) Identificando suposições adjacentes:


Grace: "veja estas fotos de cadeias superlotadas". Cindie: "Eles devem ter feito coisas
horríveis para serem tratados deste jeito".

105
(11) Trabalhando com analogias:
"Quando alguém derrubou acidentalmente o vaso sobre o pé, Isabel tentou lembrar de como
se sentiu quando prendeu seus dedos na porta do carro"

(12) Formulando relações de causa e efeito:


Al: "as estrelas surgem depois que o sol de põe". Horace: "Será que as estrelas surgem
porque o sol se pôs?"

(13) Desenvolvimento de conceito:


"Se você trai um amigo, ainda podem ser amigos mais tarde?" (o que é amizade?)

(14) Generalização:
"Todos os políticos são corruptos". Não há um que não seja?

(15) Tirando inferências de silogismos hipotéticos:


Burt: "se o gás do dirigível fosse hélio, ele não teria incendiado". Harry: "mas, ele não
incendiou, portanto, o gás dele não era hélio"

(16) Capacidade de evitar e reconhecer - ou utilizar conscientemente - a falta de precisão:


"Dois países podem declarar guerra e não lutarem? Sim. "Então, guerra e paz são termos
vagos!"

(17) Reconhecendo a interdependência de meios e fins:


"além de servir como um cabide, que outro uso pode ter isso?" - "Isso pode servir para abrir
um carro quando se esquece a chave dentro"

(18) Sabendo como lidar com "falácias informais":


"Quem pode nos falar sobre os efeitos do vazamento de substâncias tóxicas?" - "Meu pai,
ele dirige caminhão que recolhe estas coisas".

(19) Definindo termos:


Wilma: "o que é liberdade?". Grace: "É independência". Wilma: "E independência?".
Greice: "É liberdade" (Parece que estamos andando em círculos.)

106
(20) Exemplificação:
Gene: "tudo o que sobre, desce?". Joy: "Como um foguete, não é?"

(21) Antecipando, prevendo e estimando conseqüências:


Clare: "Bill, eu não faria isso, pois existe uma punição para quem dá alarme falso". Bill:
"Ninguém vai me pegar". Clare: "Mas, enquanto os bombeiros correm atrás de alarmes falsos,
deixam de apagar incêndios de verdade"
(22) Classificação e categorização:
Há dois tipos de classificação: (a) por escolha e (b) por nivelamento, sendo o último o que
envolve diferença entre "melhor" e "pior"

Na última aula, propusemos um último trabalho do semestre (não faço provas, exceto a de
recuperação, se o aluno não alcançou a média): pedi-lhes que lessem a história infantil que
encontrei na internet, "a árvore triste", e, a partir das regras de aplicação da lógica apresentadas por
Lipman, as identificasse no texto infantil, com exemplos extraídos da história.
Do site onde encontramos este texto há uma recomendação que não repetimos aos nossos
alunos: "Ao professor caberá acrescentar comentários mostrando a natureza como obra de Deus e
ainda o respeito que devemos a ela". O adequado para a filosofia infantil é perguntar "de onde veio a
árvore? E o céu? E nós mesmos?, mas nunca pressupor nenhum criador ou misturar religião, pois o
que estamos propondo é que nossos alunos investiguem, busquem explicar o que se aparece sem
explicação". Se chegarmos às mesmas respostas que as religiões têm como verdades, ótimo, mas e se
não chegarmos às mesmas respostas? Na minha opinião, podemos fazer uso da dialética que vimos
em aulas passadas e tentar conciliar diferentes pontos de vista!

"A árvore triste"


Certa vez, existiu uma árvore que vivia sempre triste, porque de seus galhos jamais
havia brotado uma flor. Só folhas. Uma abelhinha aproximou-se dela cantando:
- Zumm...zumm...zumm...Que árvore feia! Só tem folhas! E as flores, onde estão?
Sua companheira observou:
- Aqui não fico, pois preciso levar um pouco de mel para minha colméia.
Vocês sabem o que é uma colméia? É a casinha das abelhas. É ali que elas moram e
fabricam o tão preciso mel. As abelhinhas são trablhadeiras, retiram o néctar das
flores, que é um docinho que todas elas possuem.
Depois levam esse néctar para a colméia e ali o depositam. Hoje, amanhã,
depois...E vão formando o mel tão saboroso.
Como é gostoso um favo de mel!
Bem, voltemos à nossa história. A abelhinha continuou:

107
- Como esta árvore não tem flores, vou-me embora. Chegou em seguida, uma linda
borboleta e, voando em torno da árvore, comentou:
- Como é triste esta árvore! Não tem nenhuma flor! As flores é que alegram a
vida... Vocês sabiam que as borboletas põem ovinhos nas folhas das plantas, e desses
ovinhos nascem uma porção de lagartas que um dia se transformam em lindas
borboletas? Como é maravilhosa a natureza!
Vieram também alguns passarinhos, mas não gostaram de fazer seus ninhos na
árvore sem flores, por isso não ficaram lá.
A noite já vinha chegando, quando um menininho se aproximou da árvore.
- Estou tão cansado que vou me deitar debaixo dessa árvore, disse o pequeno.
Deitou e dormiu. A árvore, no seu silêncio, pensou: "Como ele está cansado...Deve
estar sentindo frio! Vou derrubar minhas folhas sobre ele, para lhe servirem de
agasalho, assim ele não sentirá tanto frio."
Quando amanheceu, o menino acordou e disse admirado: - Que vejo? Quantas
folhas! Dormi tão bem...Como essa árvore é boa e generosa! Agasalhou-me com suas
folhas!
O menininho, muito agradecido, disse a árvore:
- Você terá sua recompensa: vou transformá-la na árvore mais bela e alegre deste
lugar.
E continuou: - Árvore, de hoje em diante, de seus galhos brotarão flores multicores,
para que todos se sintam felizes!
Voltaram as abelhinhas, a borboleta e os passarinhos, e todos disseram:
- Como está bonita, perfumada e alegre! Você é a árvore mais linda que existe!
Viremos sempre visitá-la! E todos cantaram junto com as flores...

Exemplos de respostas ao exercício proposto (texto: A árvore triste):


(1) Tirando inferências de premissas simples:
De “algumas árvores têm flores” se pode dizer “algumas flores dão em árvores”, mas
“Todas as árvores dão flores” não se pode tirar “todas as flores nascem das árvores”

(2) Padronizando frases da linguagem comum:


A frase “todos amavam a árvore” está errada. Apenas o menino amava a árvore.

(3) Tirando inferências de premissas duplas:


As abelhas podem ser agressivas. Os leões podem ser agressivos, então os leões devem ter
ferrões como as abelhas.

(4) Usando lógica ordinal ou relacional:


"Os pássaros são tão importantes quanto as abelhas" segue-se que "as abelhas são tão
importantes quanto os pássaros"

(5) Trabalhando com a consistência e a contradição:


Todas as árvores dão flores. Eu conheço algumas que não.

(6) Sabendo como lidar com ambigüidades:


Ela vi a árvore deitada.

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(7) Formulando perguntas:
Abelhas falam? Árvores pensam?

(8) Compreendendo as conexões entre parte-todo e todo-parte:


se a árvore é feia, então suas folhas, raízes, galhos são feios também?

(9) Dando razões:


as abelhas, os pássaros, as borboletas acham a árvore feia, porque ela não tem flores. Mas,
por que não ter flores, a faz feia? Porque as abelhas precisam de néctar, os pássaros querem flores
nos seus ninhos...

(10) Identificando suposições adjacentes:


A árvore é feia por que ela fez algo errado?

(11) Trabalhando com analogias:


Como você se sentiria se fosse aquela árvore?

(12) Formulando relações de causa e efeito:


Porque a árvore cobriu o menino com folhas ele teve uma boa noite de sono.

(13) Desenvolvimento de conceito:


O que é uma colméia?

(14) Generalização:
Todas as árvores que não têm flores são feias?

(15) Tirando inferências de silogismos hipotéticos:


Se a árvore tivesse flores, os insetos a achariam bela.

(16) Capacidade de evitar e reconhecer - ou utilizar conscientemente - a falta de precisão:


a beleza para os pássaros é ter flores para os seus ninhos, mas para as abelhas, é de onde
tiram o néctar.

(17) Reconhecendo a interdependência de meios e fins:


Além de proteger do sol, a árvore pode, proteger da chuva, dar néctar, ...

(18) Sabendo como lidar com "falácias informais":


Quem pode dizer se a árvore é feia? Porque meu pai disse que sua madeira não é boa para
fazer móveis.

(19) Definindo termos:


O que é beleza? O que é feiúra? O que é vida? O que é um pássaro?

(20) Exemplificação:
Tudo o que tem asas voa? Como os pássaros, as borboletas, os aviões...

(21) Antecipando, prevendo e estimando conseqüências:


Se nos afastarmos da árvore ela ficará triste.

(22) Classificação e categorização:

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Eu acho aquela árvore mais bela que aquela outra. Acho aquele alimento mais nutritivo que
aquele outro.

Muitas vezes é preciso beber direto na fonte original: não gosto desse enxame de regras
apresentadas pelo Lipman. M teoria, elas poderiam ser em número infinito. Pergunto: o que há de
comum nelas? Aristóteles dizia:

A verdade é dizer o que é daquilo que é. (A é B)


(esse livro é escrito em português)

A verdade é dizer o que não é daquilo que não é. . (A não é B)


(esse livro não está traduzido em inglês)

A mentira é dizer o que é do que não é. . (A é não B)


(esse livro é feito para filosofar com seres de outros planetas)

A mentira é dizer o que não é do que é. . (A não é B)


(esse livro não deve ser jamais utilizado em sala de aula)

Por que não tentar a cada frase pronunciada por um aluno, refletir apenas (e isso já será de
grande valia) se o que ele (ela) diz é algo observável (perceptível) no mundo em que vivemos?

Aristóteles e as sensações.
Uma das principais obras de Aristóteles, a "Metafísica", teve seu nome dado posteriormente
por Andrônico de Rhodes, talvez porque se referisse àqueles escritos que foram organizados em sua
estante "depois dos livros de Física" ou porque se trata de teorias que ultrapassam o mundo físico,
embora para Aristóteles, não exista outro mundo além deste em que estamos, embora a mente,
defendeu ele, tem algo de eterno, é divina, e muitos dos pensamentos, também. Além disso, a alma é
o que dá uma forma ao corpo material e é eterna, mas há uma forma que os homens compartilham e
sua eternidade reside em ser transmitida às gerações seguintes. Ou seja, quando morremos,
morremos. Na mesma "Metafísica", Aristóteles escreveu que temos naturalmente o desejo de
conhecer e a prova disto é o prazer que experimentamos vindo dos nossos sentidos apenas pelo uso

110
que fazemos deles. Assim, por que não experimentar os sentidos isoladamente para conhece-los
melhor ou, pelo menos, refletir se essa experiência pode nos ser útil ou não?
Visão/tato - Privar da visão com um pedaço de pano sobre os olhos, caminhar pela
sala de aula acompanhado/guiado por um colega e refletir, depois, sobre isto, invertendo os papéis?
Ou pôr objetos em sacolas escuras e pedir que digam o nome deles. Mostramos, ainda, ilusões óticas
para mostrar que os olhos se enganam ou, mas precisamente, nosso cérebro se engana.

História de superação é a de Helen Keller, nascida em 1880, norte-americana, desde os três


anos de idade era cega e surda, de uma doença que se supõe fosse escarlatina. Tornou-se escritora e
filósofa. Aprendia as palavras relacionando os objetos com as letras desenhadas na palma de sua
mão. Há um filme, de 1962, cujo título em português é “O milagre de Anne Sulivan” cuja sinopse é a
seguinte: “A incansável tarefa de Anne Sullivan (Anne Bancroft), uma professora, ao tentar fazer
com que Helen Keller (Patty Duke), uma garota cega, surda e muda, se adapte e entenda (pelo
menos em parte) as coisas que a cercam. Para isto entra em confronto com os pais da menina, que
sempre sentiram pena da filha e a mimaram, sem nunca terem lhe ensinado algo nem lhe tratado
como qualquer criança”.

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Contemporâneos nossos são o humorista Magella e a personagem Dorinha, do desenhista
Maurício de Souza (www.monica.com.br/comics/dorinha/welcome.htm), exemplos de
superação da deficiência visual.

Paladar - provar comidas ou sabores sem saber o que é e tentar descobri-los?


Pensamos em oferecer-lhes um hamburger de soja e pedir que adivinhem o sabor? Ou apresentar três
diferentes tipos de chocolates e pedir que ordenem-nos do menor percentual de cacau até o maior...

Olfato – mostrei o trailer do filme “perfume” que parte da ideia de que um bebê é
estimulado muito cedo pelo ambiente a sua volta a apreciar diferentes cheiros e, assim, se torna
especialista em produzir perfumes. Quanto mais cedo estimularmos os sentidos, maior será nossa
capacidade perceptiva? Em um exercício prático, pedi-lhes que identificassem frutas em sabonetes
líquidos. Alguns cheiros passaram despercebidos, como quando reconheceram o cheiro de maracujá
e não de manga, por xemplo.

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Audição - no semestre anterior apresentamos toques musicais de nosso aparelho celular e
perguntamos que sentimento cada música despertava?

Algumas conclusões:
Uma aluna refletiu algo muito interessante: por sermos atingidos por diferentes sensações
acabamos perdendo muito dos detalhes... Se podemos desconfiar dos sentidos, devemos evitar
decidir apressadamente, não?

Nesse segundo semestre de 2010 não foi possível ir mais adiante na matéria. Gostaríamos
de ter abordado outras questões e outros filósofos. Mas, disse-lhes que aprender quem foram os
pressocráticos, Sócrates, Platão e Aristóteles já lhes daria uma boa compreensão de filosofia, uma
vez que muitos dos que vieram depois nada fizeram do que recontar teses antigas ou apenas
combiná-las.

Um pouco sobre a educação romana:


A seguir, introduzimos algumas noções da educação romana:

Elite romana (séc. Via C – séc. VdC): tinha uma formação geral e integral do indivíduo
(Humanitas):
(1o) educação elementar: leitura e escrita, chamada de “ludi-magister” (mestre do
brinquedo)
(2o) na escola secundária havia ditados de um fragmento de texto, memorização, tradução
do verso para prosa e vice-versa, expressão de uma ideia em diferentes formas, análise das palavras e
frases e composição literária;
(3o) educação superior: Direito e Filosofia.

Para Cícero, o pai de Roma, o ideal de cidadão baseava-se nas virtudes


(piedade, honestidade e austeridade), um indivíduo deveria ser ao mesmo tempo dialético, poeta,
jurista e ator.

113
Já Quintiliano, observa que “trazido o menino para o perito na arte de
ensinar, esse logo perceberá sua inteligência e caráter. Nas crianças, a memória é o principal
índice de inteligência que se revela por aprender facilmente e guardar com fidelidade”.

Jogo da memória
Para testar isso, precisamos experimentar, em um jogo da memória, qual o peso dela em
nossos pensamentos. Oportuno, aqui, recordar, após os alunos esgotarem suas próprias reflexões,
Aristóteles, para quem a memória é condição de nossas experiências, a partir das sensações repetidas
que se interiorizam em nós. Sem ela, portanto, não há aprendizado e conhecimento.
Percebi que faltou pedir algo por escrito, a turma ficou dispersa. Houve algumas boas
reflexões:
- a memória, disseram, se relacionava a cada sensação, no caso do jogo da memória, a
memória visual tinha sido utilizada,
- a repetição de sensações produz uma memória (Aristóteles) e, os alunos reconheceram,
que sem memória não há inteligência;
- uma outra aluna, observou que havia o uso da lógica, parte da mente que organizava as
figuras em colunas e fileiras para facilitar a lembrança do lugar onde cada figura se encontrava.
Perguntei se esta capacidade não tinha sido, em algum momento, também, memorizada e, assim,
inteligência e memória seriam sinônimos;
- lembrei que meus alunos adolescentes da manhã em provas apenas copiam os textos que
eu lhes passo, sem saber o que estão copiando, não todos, evidentemente, mas a maioria, sim.
- lembrei, também, quer em um programa de televisão (globo repórter) fizeram uma
pesquisa que mostrou que crianças que dormiam após a aula recordavam mais o conteúdo aprendido
e, só assim, as sensações memorizadas no lóbulo iriam para o córtex cerebral, um lugar definitivo da
nossa memória (parecido com a noção de memória de curto e longo prazo, de William James;
- citei Platão e a diferença na memória dos jovens e dos velhos: é como uma tábua de
argila, às vezes muito úmida, o que impede que se guarde o que se aprendeu, mas em geral, mais
fácil de receber a impressão, enquanto a o último grupo é, em geral, mais seca e sobre ela
dificilmente algo é bem impresso.
- a conclusão geral era que memória e inteligência são coisas diferentes (para mim, isso é o
senso comum, uma opinião geral, ainda superficial).

114
- uma aluna lembrou aquelas pessoas que aprendem vários idiomas e, acrescentei,
provavelmente porque muito cedo aprenderam um ou dois idiomas!
Faltou algumas outras questões: e se não tivéssemos memória? Sem ela não pode haver
idéia de mim mesmo (David Hume), não é estranho que escrevamos bilhetes para nós mesmos? E a
imaginação, é outro nome da memória? Não citei Aristóteles, mas deveria: "o pensamento é uma
afecção da alma que depende da imaginação ou é impossível (sem ela)".
Reconheço que não tive tempo de preparar questões para reflexão, só tinha a idéia de que
fosse um momento em que a memória voltasse a ser revalorizada, uma vez que, hoje em dia, a
repetição foi deixada de lado. Não se pede mais que o aluno memorize datas, o que é certo, pois não
se quer papagaios, mas se o cérebro é capaz de guardar informações e seu tamanho é quase infinito
por que não usar a memória? Não é belo quando alguém recorda um fato importante para si mesmo?
Reconheço, também, que não os desafiei a filosofar profundamente sobre a memória, talvez
porque não tenham o hábito de filosofar, o que requer um desejo de falar e escrever muito, girar
mentalmente ao redor do problema, formular hipóteses, imaginar respostas.

Santo Agostinho: como o amor deve estar presente na


educação?
Confesso que sobre Santo Agostinho não guardei nenhuma tese sobre a educação. Sua obra,
(De Magistro, Sobre o mestre) apresenta a teoria de que a alma é iluminada pela verdade divina. Ora,
devemos rezar em vez de ler, escrever e experimentar? Além disso, fiquei impressionado com a sua
falta de caráter ao abandonar a mulher que amava e com quem teve filho.
Mas, lembrei que a religião cristã destaca o amor de Jesus pela humanidade. Um amor,
aliás, que rejeitou Maria como sua mãe e escolheu ser um amor por toda a humanidade e não por uns
poucos. De qualquer modo, o amor deve estar presente na educação.
Hoje em dia supervalorizamos o conhecimento teórico, avaliamos a capacidade de um
aluno de aplicar uma teoria ou uma fórmula, mas não avaliamos a capacidade desse aluno de
respeitar o professor ou seu colega ao lado!
Por que não avaliar o comportamento afetivo, o respeito aos outros? Em um debate com
alunas do pós-médio, apresentei essa tese de que parece-me que:

“Existe uma relação entre receber afeto na infância e se sair bem na escola, isto é, se um
bom aluno, não só que faz as tarefas, mas se relaciona bem como os outros”.

115
Mas algumas delas me disseram que, embora tenham recebido muito afeto de suas mães,
não se saíram bem na escola! Então, repensei a tese: talvez não basta receber afeto, pois, assim,
vamos querer, no futuro, mais e mais afeto. Talvez a questão seja: aprender a devolver afeto e, em
síntese, é isso que proponho ao exigir um comportamento mínimo de cordialidade dos alunos com o
professor e entre eles mesmos!
Em algumas turmas do magistério e do ensino médio, lembrei que minha mãe pedia para eu
passar creme em seus pés e pentear seus cabelos e eu acho que isso representou um ensinamento, um
dos maiores, sobre como retribuir afeto e não apenas esperar afeto.
Para a próxima aula, pensei em passar o DVD de Santo Agostinho, filme dirigido por
Roberto Rossellini, o mesmo diretor do filme Sócrates, já visto pelas turmas de Filosofia da
educação, mas não gostei desta adaptação, pareceu perder-se em fragmentadas cenas, além de ser
preconceituoso, como quando relaciona a homossexualidade à decadência do império romano.

Músicas sobre o amor ou filosofar sobre fotos da infância.


Então, pedi que trouxessem músicas sobre amor porque eu tinha para mim que o afeto é
importante na educação
Inicialmente, procurei lhes mostrar suas letras, a análise de cada frase, superar noções
culturais, tentando ir mais a fundo da questão do que emitir juízos superficiais, o que é mais comum.

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Boas músicas: Elvis Presley, Raul seixas, Ray Charles, Ivete Sangalo, etc, até levei a música do
padre Marcelo, mas a maioria não agüentou, era um sermão gravado em CD.

ALWAYS ON MY MIND (TRADUÇÃO) de Elvis Presley

Talvez eu não tenha te tratado


Tão bem quanto deveria...
Talvez eu não tenha te amado
Tanto quanto eu poderia...
Pequenas coisas que eu deveria ter dito e feito...
Eu simplesmente nunca encontrei tempo

Você esteve sempre na minha mente...


Você esteve sempre na minha mente...

Talvez eu não tenha te abraçado...


Em todos aqueles solitários, solitários momentos
E eu acho que nunca te disse:
"Sou tão feliz por você ser minha!"
Se eu te fiz sentir-se em segundo lugar
Garota, eu sinto muito, eu estava cego

Você esteve sempre em minha mente...


Você esteve sempre em minha mente...

Diga-me, diga-me que seu doce amor não morreu


Dê-me, dê-me mais uma chance
para deixá-la satisfeita, satisfeita..

Pequenas coisas que eu deveria ter dito e feito..


Eu simplesmente nunca encontrei tempo..
Você esteve sempre na minha mente
Você esteve sempre na minha mente
Você esteve sempre na minha mente

Uma aluna disse que o amor é uma palavra e um sentimento. Indaguei se não deveria ser
um dos dois, pois uma palavra é um símbolo gráfico para uma imagem, mas que imagem era esta? É
claro que poder-se-ia aceitar esta resposta, são percepções do amor, mas queríamos aprofundar a
investigação, ir além. Falamos de amor como algo que ultrapassa a sexualidade, o que se pode ver
em músicas feitas por heterossexuais ou homossexuais cujas letras se dirigem para um sentimento de
necessidade independente de sexo ou, pelo menos, paralelo À sexualidade. Uma música falava que
alguém tinha sede da outra pessoa, o que nos dava pista de que o amor é um vazio, uma necessidade.
Outra música, do Ray Charles, falava em desatar ou libertar as amarras que rendiam o seu coração à
outra pessoa, uma dependência mental ao outro; o amor mora em cada pessoa, mas não se pode dizer

117
que ele é algo que está nas duas, pois, nem sempre os dois amam igualmente. Outra música dizia que
a pessoa queria que a amada lhe pegasse no colo e que lhe contasse histórias e aqui perguntei se o
amor não se refere a uma necessidade que remonta à infância. Outra música, falava que após amar,
passamos a perceber coisas que não percebíamos, portanto, o amor altera a capacidade de perceber.
Não tive pressa de chegar a uma definição, nem mesmo chegamos a uma.

Aula seguinte:
Nesta aula senti a necessidade de tentar definir o que é o amor. Antes de tudo para que os
alunos não terminem o semestre sem entender que a filosofia busca respostas, ainda que provisórias,
que ela não uma "masturbação sexual", um exercício isolado que não leva a nada, exceto a um prazer
egoísta, solitário.
Assim, comecei me perguntando se ele é um sentimento simples ou complexo, se simples,
se refere a uma única causa, mas se for complexo é tal qual uma casa que é complexa, pois é formada
de partes (telhado, fundações, tijolos, janelas, etc).
Tenho uma teoria de que o amor é complexo, isto é, é uma ideia composta por outras
ideias:
 temos necessidade de afeto, de se sentir cercado de atenção e de dar atenção. Ora, qual é
a origem disso? Ficamos nove meses no útero cercado de líquido amniótico, sem experimentar
nenhuma necessidade, por que não pensar que a necessidade de afeto é, na verdade, a busca
inconsciente, digamos assim, de voltar àquela experiência fetal, protegidos, abraçado por todos os
lados pelo... líquido amniótico?
Qual ou quais alternativas teríamos se rejeitássemos esta?
(a) temos um instinto de reprodução da espécie que nos leva a quere o outro para simples
cópula e a idéia de amor é uma ilusão ou camuflagem para interesses egoístas (tese de Darwin e
Freud)?;
(b) nossa alma ao amar o belo no outro quer na verdade buscar a idéia eterna de beleza, em
um Ser supremo (tese platônica)? Aliás, foi da leitura da obra Philebo, de Platão, que me surgiu a
tese da influenciada vida fetal na vida adulta, o que inclui nossos sentido estético e ético, nosso
desejo de harmonizar a vida em sociedade, de extinguir necessidades e encontrar-mo-nos em total ou
quase total completude - um feto não sabe o que é necessidade! Platão, no Philebo, perguntou: "de
onde temos memória, não da necessidade, mas da completude?". Para ele, de outra vida, do mundo
das formas, para mim, da vida intrauterina.

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Encontrei na internet alguns psicanalistas que defendem, como eu defendo, que muitas de
nossos comportamentos quando adultos, têm origem fetal: Esther Frankel diz, por exemplo, que a
sensação agradável que nos surge quando vemos uma experiência como alguém varrendo o chão ou,
acréscimo meu, quando vejo as ondas do mar em um vai e vem contínuo, tem sua origem quando
éramos fetos e percebíamos os pelos (lanugens) sendo movimentada de um lado para outro pelo
líquido amniótico. Ela, também, crê que esportistas gostam do que fazem porque desejam repetir
aqueles movimentos de chute que os fetos fazem, alguns talvez mais do que os outros e, também, que
certos adultos se sentem desconfortáveis na região do umbigo, pois tal região era onde se encontrava
o cordão umbilical que nos supria com alimentação; assim, quando não sabemos lidar com nossa
satisfação na vida adulta nos surgirá um desconforto, um desequilíbrio com relação àquele período
fetal, onde não experimentamos, penso eu, necessidades ou, pelo menos, grandes necessidades.
Tenho uma prima que, grávida, colocava música clássica perto de sua barriga e, depois,
quando ela colocava a mesma música perto de seu bebê, esse se acalmava e sorria!

 por que queremos mais o amor ou a amizade de algumas pessoas do que de outras? E
por que simpatizamos com algumas mesmo que nos sejam estranhas, enquanto outras nos repulsam?
Por que achamos que devemos amar uma única pessoa? Estas perguntas se referem à tese do ideal
segundo Platão e que no século XX continuou a ser pensada pelo psicanalista Lacan. Perguntei aos
alunos se já não tinham se perguntado por um ideal? Se os divórcios não seriam resultado de uma
insatisfação entre o ideal que buscamos em contraste com o tipo de parceiro que conquistamos?
Lembrei os alunos de um programa de televisão onde um casal não sabia por que tinham se escolhido
um ao outro e uma psicóloga observou que a esposa parecia com a irmã do marido, isto é, uma tinha
traços físicos e de personalidade que o homem aprendeu a gostar ao longo dos anos e foi a uma ou
mais pessoas com esses traços semelhantes que ele dirigiu sua atenção, esforço e conquista. Nada
impede que, aqui, a biologia e neurologista sejam ouvidas: há pesquisas que nos sugerem que
homens e mulheres fazem suas escolhas de parceiros que possuam (produzam) feromônios

119
(substância química exalada pela pele) semelhantes a de seus pais e de suas mães. Mas, creio que é ir
muito longe dizer que é a química que provoca e causa a sensação de estar amando, quando ela pode
simplesmente aparecer como um produto, efeito e não causa, quando dizem que a paixão é
provocada por oxicitina ou pela busca de dopamina, pois quando sentimos prazer pela primeira vez,
o que é que buscávamos?

O tempo foi curto e faltou, ainda, tratar de uma parte do amor a que se refere ao sexo, aos
genitais que, é uma descoberta tardia, mas que para Sigmund Freud, o pai da psicanálise, determina
toda a nossa vida adulta. Poderia ter falado, ainda, sobre a divisão freudiana do Ego, superego e id, o
complexo de Édipo, quando o filho se apaixona pela mãe e o complexo de Electra, quando a filha se
apaixona pelo pai, primeiros "objetos amorosos", e, nesse ponto concordo com ele: a primeira
imagem materna e paterna permanecessem em nossa mente - vejo casais que se chamam um ao outro
por "pai", "mãe".

Minha experiência pessoal de afeto:


Fui o primeiro neto da família do meu pai e recebi muito afeto até chegarem os outros netos
e fui, deixado de lado, o que causou problemas emocionais. Porém, este afeto influenciou o que sou,
deu-me suporte para a vida adulta, segurança, alguma confiança, mas, também, me fez inseguro,
desconfiado em certos aspectos, mais precisamente, nas relações com as outras pessoas, mas não em
relação a pensar teorias abstratas, apresentar respostas práticas, desde que não se relacionem com
pessoas ou exijam persuasão, por exemplo – “aliás isso é autoconhecimento, com muito do que
aprendi lendo filosofia e uma mínima pitada de Freud, quase desnecessária”.
Na época em que os problemas emocionais surgiram, eu, sem receber tanto afeto quanto
antes, me apeguei a bens materiais; lembro que, uma vez, não quis emprestar a um primo um
cobertor, pois não queria ter a sensação de perder aquilo que era meu.
Que outras conseqüências o afeto proporciona, ajuda a memória? Na escola fui um bom
aluno, primeiro por ter boa memória (eu reproduzia o que tinha sido dado pelos professores em aula),
embora não fosse capaz de criar como uma colega de quarta série que produzia frases longas e

120
diferentes das minhas ("O carro é bonito", "A casa é bonita", etc). Foi só quando uma professora da
quinta série estimulou os alunos a produzirem coisas novas é que eu fiz, por exemplo, maquetes de
vulcões ou de refinarias de petróleo. Nos últimos anos de colégio, não houve muito espaço para criar,
fiz isso no grêmio estudantil: jornais, organização de palestras, festas, feiras de ciências, mas, fiz e
sozinho ou com pouca ajuda, um indivíduo autônomo (embora solitário, mas não por causa da
educação escolar e, sim, familiar).
Lembro, fazendo um contraste, que meu irmão recebeu menos afeto e se tornou um aluno
que dentro dos padrões escolares seria rotulado de "mau aluno". O que é curioso é que eu me tornei
pensador solitário, um professor mal remunerado e meu irmão está casado, é sociável e
empreendedor!

Tarefa: relembrar tempos de escola...


Para terminar este dia de aula eu pedi aos alunos, à moda de Freud e sua terapia (que uma
aluna chamou de limpeza de chaminé), que relembrassem os seus primeiros anos de escola e lhes
perguntei (a) ensinariam ou ensinarão seus alunos daquela mesma forma com que foram ensinados?
E, depois, pedi que relembrassem fatos familiares ou escolares relacionados a uma manifestação de
afeto. Dois alunos relembraram ainda na sala de aula experiências em que foram chamados atenção
na frente de seus colegas, um acabou abandonando a escola e a outra, por ter recebido palmatória na
infância, se surpreendeu fazendo a mesma coisa com a filha, ainda que rejeitasse aquele antigo
método para manter a disciplina.
Para concluir esta aula mostrei semelhanças entre a figura fetal e o pensador, de Rodin.
Faltou a foto de um monge budista meditando, creio que nos três casos eles estão fazendo quase a
mesma coisa, experimentando ou relembrando a vida intrauterina:

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René Descartes: como distinguir o sonho da realidade?
Não muito diferente da tese platônica que acreditava que esse mundo fosse uma cópia
imperfeita de um muito eterno, divino (e portanto, havia de um lado, a verdade e, de outro, a ilusão),
René Descartes, no século XVI, vai, em sua obra “Meditações metafísicas” se questionar: como
saber que não estamos sonhando? E como diferenciar os sonhos da realidade? Essa pergunta exigirá
esforço das crianças, pois, em geral, dizemos freqüentemente que sua imaginação se mistura com o
real, não? E nós adultos acreditamos separar bem os limites do real e do irreal, não? Mas, se nossas
opiniões são apenas perspectivas (visões ou sensações parciais) de experiências que vivemos, então,
como saber que nossas conclusões revelam a totalidade (100%) da realidade?

Na obra “Ula”, há referência a essa questão – “não será tudo um sonho?” –, que não é tão
explícita em “Rebeca”, da equipe de Lipman: há referências sobre natural e artificial, verdade e
falsidade. No capítulo 7, os personagens Beto e Rebeca experienciam sensações diferentes quando
provam a própria lágrima, para um, ela é salgada, para outro, meio doce. Qual dos dois poderia estar

122
enganado? Ou ambos, podem estar certos?, pergunta o autor, apresentando a seus alunos para a
noção lógica ou ilógica do princípio da não-contradição, isto é, que nada pode ser e não ser sob um
mesmo aspecto e ao mesmo tempo? Há exercícios sobre isso no manual do professor:

Beto diz: Rebeca diz:


“estou vendo o sol” "Não estou vendo o sol”
“Estou com fome” “Você não está com fome”
“esta piscina é muito funda” “Esta piscina não é muito funda”

No curso na PUC, em setembro de 2010, como o autor de “Ula”, professor Sérgio Sardi, ele
lembrou de uma aula em que uma criança contava um sonho e as outras montam um teatro sobre
isso. Ele, então, perguntou a elas: dessa forma, “o sonho se torna real, não?”.

René Descartes: as emoções.


Ao nos dedicarmos a desenvolver na criança a racionalidade, corremos o risco de
esquecermos as emoções! O risco disso é sermos responsáveis ou, pelo menos, cúmplices de formar
pessoas frias, calculistas, insensíveis. Nossa educação é predominantemente essa, quando cobramos
respostas exatas, esquecendo o percurso, a perspectiva do aluno, sem dar valor à experiência pessoal,
à opinião, ao afeto envolvido.
No tempo de escola, lembro vagamente de um professor ter estimulado que fizéssemos
desenhos de caras alegres ou tristes dependendo de nossa condição no momento. Deveríamos
incentivar isso nos alunos.
Há uma lista de sentimentos humanos? Para René Descartes, sim. Ele até fez em sua obra
“As paixões da alma”, uma lista de emoções básicas, a partir das quais todas as outras surgiriam:
admiração, o amor, o ódio, o desejo, a alegria e a tristeza.
Já as paixões compostas, seriam elas: (1) o “remorso”, um tipo de tristeza relacionado à
dúvida sobre se um ato resultou ou não em um bem; (2) o “arrependimento”, também um tipo de
tristeza, mas referente a uma possível maldade; (3) a “compaixão”, uma espécie de tristeza
misturada ao amor. Quando observamos o sofrimento de uma pessoa; (4) o “medo”, um excesso de
covardia, só superado se nos preparamos para o que acontecerá e, (5) o “fastio”, uma espécie de
tristeza, provocado quando um desejo cessa e é substituído pela aversão (Paixões da alma: art.
1,2,17, 20, 176-208).
Em filosofia, nada é verdade definitiva até que se prove como tal e isso é tão raro, devido a
dificuldade de encontrar verdades assim, que nossa postura deve ser sempre questionadora:
- Por que devemos aceitar que existam seis emoções básicas?
- Por que devemos aceitar que só existam cinco emoções compostas?

123
Os pós-modernos, aliás, embora desconfiemos de seu interesse em alcançar respostas ou
verdades (parecem terroristas explodindo quaisquer teorias que estejam na sua frente!), parecem
sensatos ao propor que cada indivíduo tenha suas próprias sensações, únicas, irreproduzíveis, a ponto
de viverem ou vivermos uma sensação que não retornará jamais nas experiências seguintes. Essa tese
não é tão nova: a vimos Heráclito (tudo está em constante mudança), ela reaparece em Nietzsche e,
mais tarde, nos fenomenologistas. O professor Sérgio Sardi sugere que pensemos em sensações que
só nós tenhamos vivenciado e que demos para elas novos nomes: por exemplo, quando temos
saudade do que não aconteceu? – em todos esses pensadores se observa a vitória do indivíduo sobre
a massa, mas será uma vitória definitiva? Ou uma provisória, enquanto não se supera o dualismo
indivíduo-grupo??
Descartes vai mais além em sua teoria: pergunta “como surgem as paixões?”:
“Primeiro os objetos externos afetam - “ferem” - os nossos sentidos, provocando o envio, por
condutos - nervos - dos músculos até o cérebro dos chamados “espíritos animais” - mais ou menos
o que conhecemos como impulsos elétricos - que, segundo o filósofo, são corpos pequenos - partes
sutis do sangue - que se movem muito depressa, sendo que alguns dos movimentos produzidos são
voluntários e outros não. Os movimentos voluntários surgem quando os “espíritos animais” vão até
a glândula - pineal - situada no centro do cérebro, lá onde, segundo ele, reside a alma e,
conseqüentemente, onde são tomadas as decisões voluntárias. Descartes dá o seguinte exemplo
sobre estes últimos movimentos: se somos tomados por uma acesso de cólera - uma paixão - , isto
nos faz levantar a mão para bater em alguém. Mas, a vontade (racional, localizada na alma) pode
evitar - ou não - tal ação”.
Para que servem as paixões, pergunta?
- “Elas informam e estimulam a alma a querer coisas que são úteis ao corpo, como sentir
medo diante de algo estranho. Quanto às paixões fortes, dificilmente podemos superá-las, apenas
diminuir seus efeitos, especialmente quando dirigimos nossos pensamentos a outras coisas” (Paixões
da alma: art. 1-19,24-46, 69-96,107-211).

124
Um bom exemplo de expressões faciais relacionadas às emoções, encontramos no ‘site”
www.iisd1.org/hs_theatre/ : vale a pena o professor trabalhá-las com seus alunos, especialmente para
(1o) habituar a exteriorizá-las e não guardá-las, acumulando sentimentos que vão nos corroendo por
dentro e para (2o) que nos habituemos a controlar seus excessos. Um bom exercício é tirar fotos da
caretas que alunos e professor podem fazer a cada emoção sobre a qual dialogarem.

125
Jean-Jacques Rousseau: a educação natural?
Na aula seguinte, apresentei uma série de imagens que eu
peguei na internet (destaque para as impressionantes obras do
artista Ron Mueck) e as juntei com uma série de pensamentos de
Jean-Jacques Rousseau, dando atenção especial à sua influência na
revolução francesa e às suas ideias pedagógicas extraídas do livro
Emílio.

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128
As imagens e os pensamentos de Rousseau falam por si mesmos, o que não impede que o
professor faça comentários, especialmente relacionando a suas experiências de vida, como, por
exemplo, quando lembrei que deixei de tomar refrigerante, porque não acrescentava a mim nada de
útil e voltei a tomar suco de frutas ou as frutas in natura que, como Rousseau, revela um retorno à
vida natural em contraste com nossa vida artificial.
Para que os alunos não precisassem copiar, preparei um resumo das teses principais de
Rousseau 1712-78 para cada um:

* "O homem nasce livre ("todos nus e pobres... condenados à morte", Emílio: livro
IV), e em toda parte é posto a ferros. Quem se julga o senhor dos outros não deixa de ser
tão escravo quanto eles."

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"O escravo não é propriedade do outro, mas não deixa de ser homem "... "O
homem é bom por natureza. É a sociedade que o corrompe." Se há um direito da força,
também há o direito de resistir a ela - pois o mais forte nunca é sempre forte.
* "O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um
terreno, lembrou-se de dizer 'isto é meu' e encontrou pessoas suficientemente simples
para acreditá-lo. Quantos crimes, guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia
ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse
gritado a seus semelhantes: 'Defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se
esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém'"
* Defende uma vida próxima à do selvagem: não há tarefa prescrita, suas forças e
razão "crescem juntas". Nossos alunos se assemelham ao camponês, que executa tarefas
repetidas, não passa de um autômato. Aprendemos "cem vezes mais" no pátio com as
outras crianças do que na sala de aula.
* Não oferecer à criança resposta fundada na autoridade de alguém, mas na razão
humana, pois há muitos cujo desejo se limita a ser considerado pelos outros sábio sem sê-
lo. Nem lhes dê uma resposta, estimule que aprenda sozinha, que "leia o livro da vida".
Enquanto as outras crianças estudam mapas, faça-a fazer seus próprios. Sugere um único
livro: Robinson Crusoé.
* Foram os ricos que "propuseram" os governos. São os pobres que permitem a
existência dos ricos, desde que os últimos não deixem de sustentar aqueles que não têm
trabalho ou não ganham o suficiente.
* Não alimentem as crianças com carne, os carnívoros parecem "esquartejadores
de cadáveres". O formato de nossos dentes, intestinos e estômago, indicam que somos
propensos à alimentação vegetariana. E, também, pelo fato de que os herbívoros têm
filhos com menos freqüência, como os humanos.
* O propósito da educação não o é destinar homens para "espada, igreja ou
barra", mas para a vida - "viver é o ofício que quero ensinar", que não se limita à
sobrevivência (respirar), mas a sentir a vida e agir. A educação natural deve tornar cada
pessoa capaz de realizar todas as realizações humanas Quando nos especializamos em
uma arte, nos "escravizamos em outra mil"!
* Há dois tipos de pessoas - as que pensam e as que não pensam, que passam a
vida trabalhando e não têm outra idéia, exceto seu trabalho. Que se escolha entre os seus
iguais ou passará a vida "pensando sozinha".

130
* "Tudo degenera nas mãos do homem"), desde quando planta espécies em terras
que não lhe são originais, funde a uma árvore os galhos e frutos de outras, "mistura
climas", mutila cães, cavalos e escravos. O homem rejeita o que a natureza lhe deu.
* Apenas o que é novo desperta a nossa imaginação; um pedreiro por hábito não
tem vertigem quando sobe o telhado.
* o rigor e as variações do clima, os "imperativos" geológicos e geográficos
incitaram os homens às invenções. Os que viviam perto de rios, criaram os anzóis e a
pesca, tornando-se donos dos riachos e pescadores. Nas florestas, fabricavam arcos e
flechas e tornam-se guerreiros. O trovão ou um vulcão lhe sugeriu o conhecimento do fogo,
cozinhando as carnes que, antes, comiam crus
* Podem acreditar que são as necessidades - como a fome ou a sede - são as
causas dos primeiros gestos e palavras, mas foram as paixões - como o amor, o ódio, a
piedade, a cólera - que "arrancaram nossas primeiras vozes". Não começamos a usar as
palavras, para raciocinar, mas para expressar nossos sentimentos.
* As cidades não passam de formigueiros, onde os homens vivem amontoados e
para as quais eles não foram feitos, mas, sim, para se espalharem sobre toda a terra. É no
campo que se originam homens que "renovam as raças".
* A maioria de nossos males é obra nossa e os evitaríamos, quase todos,
conservando uma forma de viver simples, uniforme e solitária que nos era prescrita pela
natureza"
* Se neste mundo onde os maus "triunfam" e os justos são oprimidos, resta que
exista uma vida posterior a esta onde a harmonia seja reestabelecida Os homens
reclamam que a vida é curta, mas não raro ouve-se deles que gostariam que o tempo
passasse para que o dia ou a semana seguinte chegasse logo.
* Primeira fase: infância 0-2 anos
* Rousseau critica a proteção dada às crianças, presas às fraldas e bandagens,
nem sequer são alimentadas pelas próprias mães... que a criança aprenda com a natureza
da qual é discípula. A natureza as exercita, ela as torna fortes, enrijece seu temperamento,
um corpo fortalecido obedece mais à alma, já um corpo fraco, incapaz de satisfazer suas
paixões sensuais, estará preso a elas.
* O choro da criança produz-lhe a idéia de domínio ou de servidão, quando ela
"faz o que lhe agrada ou o que nos agrada". Os choros mais longos, por sua vez, são
produto do hábito e teimosia e a ele aconselha não dar atenção. Quanto aos objetos a
serem dados à criança, nada de guizos ou chocalhos de prata, mas ramos de árvores com
frutos e folhas. Na obra "Emílio" (Livro I) diz que certa vez presenciou uma criança que ao

131
chorar, apanhou e, em seguida, voltou a chorar mais forte; viu ele nisso "exemplo
suficiente para provar que o sentimento do justo e do injusto é inato"!
* Segunda fase: infância 2- 12 anos:
* Fazendo-a plantar sementes, cultivar uma terra e colher o que ela produzir. Aí,
por experiência, poderemos mostra-lhe: eis o fruto do seu tempo e do seu sofrimento -
"naquela terra há algo que é dela", um direito natural daquele que "primeiro ocupou a
terra"!
* A criança não conhece o bem e o mal ("não há um mal natural no coração
humano") e, por isso, não lhes impor um dever que não sentem! Nem ensinar virtude e
verdade, apenas protegê-las do vício e do erro.
* Se ela quebrar um enfeite, não castigá-la, nem se aborreça. Nem a moral que as
fábulas pensam ensinar elas compreendem, antes da idade certa, os 12 anos.
* De nada adianta perguntar-lhe: "foste tu?", pois isto só a levará a negar o que ela
mesma fez. Nem devemos fazê-las dar uma esmola, pois elas não entendem o valor
daquele dinheiro - "é o mestre quem deve dar". Nem é pela imitação que aprende a fazer
caridade, pois além da imitação degenerar em vício, quem imita quer aparecer para os
outros, ser aplaudido.
* Terceira fase: puberdade 12, 13 anos:
* Na puberdade criança se torna surda à voz dos adultos. Torna-se impaciente,
agitada e irritadiça de uma hora para outra. Estas paixões são naturais - "um grande rio
que engrossa sem parar". Nossa tarefa é a de ordenar estas paixões.
* Nesta idade mal sabemos que os outros também sofrem, mas aos poucos nos
aproximamos dos outros por eles serem semelhantes na capacidade de sofrer - "é a
fraqueza que torna-nos sociáveis, nossas misérias comuns que nos incitam à
humanidade"... "Aristóteles disse que a homem mau vive sozinho, pois é o homem bom
que está só, pois se o mau estivesse só, que mal ele faria?".
* Quem quer uma criança dócil, estará contribuindo para formar um adulto "fácil de
ser enganado". Rejeita a crença de que a educação prepara para a vida em sociedade,
onde as crianças viverão não entre sábios, mas entre loucos.
* Ele (Rousseau) prepara para que dê "mais valor ao ferro que ao ouro, mais valor
ao vidro que ao diamante". E o que "pensará do luxo, quando ver que 20 milhões de mãos
trabalharam para apresentar-lhe ao meio-dia o que à noite vai depositar na privada?".
* Aos mestres que se queixam da indisciplina dos jovens, procure adverti-los de
erros futuros, fazê-lo depois, só os revoltará. Se notar que estão humilhados, ofereça

132
palavras consoladoras. Quando for censurá-los, usa de fábulas e, assim, o fará por trás de
máscaras ou personagens fictícios.
Sobre a beleza da parceira: deve ser evitada, pois além dela "logo se desgastar
pela posse", representa risco de infidelidade, que "não encante à primeira vista, mas
agrade mais a cada dia", E se na primeira vez (relação sexual) o "libertino" não perder o
desejo de repetir a experiência, se não se arrepender, se envergonhar e chorar, então ele
não passa de "monstro" (Emílio: livro IV).
* Rousseau teve 5 filhos e os deixou aos cuidados de um Orfanato.

David Hume e a pergunta: Quem sou eu?


À pergunta quem sou eu, sugerimos: pergunte ao espelho: quem sou eu? Sou um menino ou
menina, vestido com certas roupas, pareço alto, pareço pálido, etc. Mas, eu fui sempre assim? Peça
para mamãe que lhe mostre fotos antigas, desde seu nascimento até hoje. Compare-as. Elas podem
lhe ajudar a responder: quem é você? Parece que você está mudando e que não é o mesmo que era,
não? Há coisas que permanecem? Seu nome, pro exemplo? Mas, também ele não mudou? Os
vizinhos me chamavam de “toninho”, depois, “Antonio”, “filho”, “amor”, “Jaques”, etc.

Aliás, o que é um nome? Um cão poderia ter outros nomes além daqueles que damos a
eles? Uma “mesa” é “table” em inglês, “table” em francês...

E a casa onde você mora, é a mesma, mesmo após ter as paredes rebocadas e as grades
pintadas para evitar ferrugem (uma mudança entre várias transformações que podemos observar em
todas as coisas e seres a nossa volta) ou mesmo reconstruídas?

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Reparei, outra coisa: estava passeando com o cão da minha irmã e observei que na imagem
refletida dele no espelho ele (o cã) parecia mais comprido do que eu pensava que ele fosse. Quem
está certo: minha memória ou o espelho?

Li sobre a “terapia do espelho” e reconheço que muitas pessoas têm medo de se olharem no
espelho e quando adquirem o hábito dessa contemplação, sua autoestima melhora na proporção do
tamanho do espelho e quanto mais cedo estimularmos as crianças a se olharem no espelho melhor!
A seguir, proponho alguns exercícios:
(1) peça que um amigo te desenhe... esse exercício um professor de artes quando estava no
colégio. Podemos notar características em nós que os outros percebem e nós não! Como isso é
possível?
(2) Ao se ir a uma loja, naquelas cabines onde experimentamos roupas, às vezes e não raro,
elas têm espelhos dos dois lados. Não surgem imagens infinitas de nós mesmos? Não é estranho? Por
que aparecem várias imagens de mim mesmo? Elas tem um número ou são infinitas?

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No livro “Ula”, de filosofia com crianças, o autor propõe que a criança se olhe seus olhos no
espelho (ou olhe nos olhos de outra pessoa) para descobrir quem ela é. Acho que tal experimento
não resiste a dez segundos de debate com um cientista: dentro dos olhos há retina, cristalino, o fundo
dos olhos, células que percebem luminosidade, humor aquoso, etc. Mas, há alguns aspectos
positivos:
- fazer essa experiência com um grupo de pessoas as fará se aproximarem umas das outras,
algo muito útil nos dias de hoje, quando nossos relacionamentos são virtuais, distantes!

Fiz essa experiência com alunas (de magistério) e suas respostas foram:
- vi minha imagem refletida;
- vi um brilho nos olhos que não eram da lagrimejamento natural
- os olhos dizem com sinceridade nossas intenções (e isso independe da expressão do
restante do rosto)
- uma aluna lembrou algo da infância: ela pensou, certa vez, que assim como ela
manipulava e causava os movimentos de suas bonecas (como fantoches), não seria possível pensar
que seus movimentos fossem causados por um outro alguém e não por ela?

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Os sentidos de tempo e espaço segundo Kant:

Certa vez eu joguei a bola de futebol da janela do apartamento (não me lembro exatamente
em qual andar morava) e esperei que ela voltasse. Depois, tentei abrir um buraco para saber se o que
eu conseguiria enxergar a partir dele: se a mesma imagem que eu via da janela, um prédio na frente
do meu, o céu azul, etc.
O que isso tem a ver com o filósofo Kant? É que, para ele, já nascemos com os sentidos de
tempo e espaço internalizados em nossa mente e, assim, não é da nossa experiência que os
aprendemos. Será? A partir daquela minha lembrança, posso dizer que não tinha ideia nenhuma de

136
espaço (e especificamente, gravidade) e precisei vivenciar aquele momento para perceber. O que eu
poderia sugerir como inato é a ideia que eu fazia de que “analogia”: se eu jogo a bola à distância de
sessenta centímetros, ela bate no chão e volta, então se eu jogar a bola no chão (independente da
distância ou altura), ela voltará ao ponto de origem.
Quanto ao sentido de tempo, a criança parece permanecer no presente, desconhecendo o
passado e o futuro e sequer tem noção de duração quando vive algo bom, apenas quando tem que
esperar por uma semana é que ela sente a espera como insuportável, o que revela um desequilíbrio na
percepção do tempo.
O problema de Kant é que ele não observou crianças e a origem das ideias em suas mentes,
coisa que só no século XX, Piaget fará, com observação científica.

Nietzsche para crianças.


Ele dizia que há em nós uma fera enjaulada, nossos instintos, nossa verdadeira natureza,
que a sociedade mantém presa.
Ora, como ensinar essa tese às crianças: proponho vesti-las ou, pelo menos, maquia-las com
as cores e roupas de bichos, leões, pássaros, peixes, etc. Esse seria, também, um bom exercício de
autoconhecimento, pois peguntaríamos a elas por que escolheram tal bicho, provavelmente Nietzsche
diria que os com maior ou menor intensidade os instintos se manifestavam ou porque a sociedade os
reprimia, ou porque alguns já tinham se libertado, pelo menos, em algum grau. Há crianças muito
rebeldes e essas seriam as mais livres? Os super-homens de Nietzsche, aqueles que acima da boiada,
lideraria os demais, e seria o único capaz de fazer transformações, imprimindo sua marca ou seria
destruído?

137
Peter Singer e os direitos dos animais.
Um dos raros “grandes filósofos” do século XX, por suas ideias originais - concordemos
(direito dos animais) ou não (direito humano à eutanásia) com elas. Para ele, os animais têm direito à
vida, não porque sejam racionais como nós (tese controversa), mas simplesmente por serem capazes
de sofrer tal qual nós, humanos.
O que os livros dizem sobre os animais? Encontrei o livro “Para que serve?”, coleção Bebê
Eco, onde na capa há uma desenho de um bebê com um copo de leite na mão e ao seu lado uma vaca.
Tive a impressão de que a vaca é apenas um meio para um fim: ter leite à sua disposição!

BEBÊ ECO - PARA QUE SERVE?

ABC PRESS

Editora Abc Press

Preço: R$10.96

Proposta de tarefa:
Seria interessante um dia para que cada aluno levasse um animal de estimação. O problema
é que os que não tivessem animais de estimação acabariam em prantos pedindo um igual a seus pais!
Uma alternativa: pedir que tragam fotos. Ou apenas falem sobre a experiência que viveram com os
animais ou relatem a observação de um comportamento específico do seu bicho de estimação. Dá
para construir uma história com as crianças a partir de fotos dos seus bichos de estimação e do
professor!!

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Meus exemplos:

(a) eu ensinei o cão que pertence (pertence? Parece um móvel, não?) à minha irmã a abrir
porta. Repetido isso duas, três vezes, ele nunca mais esqueceu!
(b) habituei (ou condicionei?), como estamos acostumados a nos referir aos animais, mas
nunca a nós mesmos... por quê?) a esconder ossos em alguma parte da casa para que meus cães
procurassem. Essa brincadeira parece estimulá-los mentalmente.
Que perguntas podemos propor no debate sobre os animais?
- Animais são máquinas? (tese de René Descartes)
- Eles têm alma?
- Eles choram?
- Eles pensam? Eles fazem escolhas?
- Sentem raiva como nós? Ciúme? Têm afeto e amam?

O professor pode falar sobre as histórias de animais famosos que viraram filmes por
demonstrarem o que parece ser um amor incondicional por nós humanos:
- como Marlei, um cão labrador bagunceiro (cuja raça é muito usada como guia de
deficientes visuais),
- o Hachico, que esperou por dez anos seu dono voltar na estação ferroviária, mesmo após o
dono ter falecido.
- E o leão Christian, que mesmo um ano após ser mandado para uma reserva na África,
lembrou dos seus antigos companheiros humanos e pulou sobre seus ombros como se estivesse

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abraçando-os? Há um programa “Encantador de cães”, no canal Animal Planet, que vê de um modo
diferente esse “abraço”: o cão (será que isso vale para o leão?) não está demonstrando afeto, mas
dizendo “eu mando em você”.

NÃO ESQUEÇA PROFESSOR: QUANDO FILOSOFAMOS, DEVEMOS PESAR


DIFERENTES PONTOS DE VISTA E ESTAR ABERTO A ABRIR MÃO DE NOSSAS ANTIGAS
CERTEZAS!

A seguir, apresentaremos alguns exemplos de provas utilizadas por nós para avaliar o
aprendizado. Em geral, evito fazer uso delas, pois tenho observado que os resultados são péssimos.
Por quê? Acredito que seja porque minhas alunas, por terem uma idade adulta e há muito terem
concluído a escola têm dificuldade de pensar de modo tão genérico e sobre tantas questões que lhe
são apresentadas em um único semestre. Por isso, evito realizar provas e procuro pedir a elas
trabalhos práticos, dos quais vêm a maior parte da nota final.

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PROVA DE RECUPERAÇÃO 2o semestre de 2009:
Relacione a primeira coluna com a segunda:
( ) Sócrates () Platão () Aristóteles () Cícero
() Quintiliano ( ) Jean-Jacques Rousseau ( ) Mathew Lipman

(3) Nada está na mente que não tenha passado, antes, pelos sentidos através da
experiência vivenciada por uma pessoa, criança ou adulto.
(2) A dialética ensina que não basta mostrar aos alunos elementos que se opõem
(algodão e pedra, por exemplo), é preciso mostrar que o macio e o duro, podem ser
unidos, seus papéis invertidos ou, ainda, tornarem-se uma coisa só.
(1) O autoconhecimento ou o conhecimento de si mesmo, é resultado da reflexão
constante e ele nos dá a capacidade de controle sobre as paixões (emoções)
(2) De onde tiramos a idéia de círculo perfeito ou figuras geométricas perfeitas,
senão do tempo em que a alma vivia junto a Deus?
(1) na medida em que os alunos nos fizerem perguntas, procuraremos não lhes dar
respostas prontas, mas, sim, pediremos que nos ofereçam o seu ponto de vista e, assim,
poderemos lhes dar pequenas orientações para que refinem, lapidem, suas próprias
teorias.
(3) o pensamento tem uma ordem, uma lógica, tem início a partir de leis (ex: a água
ferve a 100o C) e dela encontra verdades ou, então, inicia-se por casos particulares até
formular uma lei (João é mortal, Maria é mortal, logo todos os seres humanos são
mortais)
(1) Temos em nós um deus interno, ou seja, a razão, que nos diz o que é certo a
fazer.
(2) A alma está dividida em razão, irascibilidade (raiva,coragem) e concupiscência
(desejo carnal) e a melhor vida é um equilíbrio entre estas partes
(5) a memória é um forte indicador da inteligência de uma criança.
(3) todos os seres humanos têm o desejo natural de conhecer, por isso, nossas aulas
não devem ser repetitivas, devemos, sim, estimular a nós mesmos a procurar coisas
novas. E os sentidos estão mais sensíveis nas crianças.
(2) “A música exerce poder sobre a moral, o caráter, incitando a prazeres
honestos”.
(2) “Observe as crianças brincando e veja seus dons”
(3) A filosofia é a busca das causas das causas das causas das causas..., até alcançar
uma causa primeira.
(3) O hábito, uma experiência repetida várias vezes, constitui-se em um guia para
ações futuras
(4) Um indivíduo completo é um dialético, um orador, um jurista e um ator.
(7) o professor deve observar nas crianças a ordem correta dos raciocínios, desde o
início da investigação até a conclusão, da pergunta à resposta encontrada.
(6) a educação deve aproximar o aluno da natureza e é com ela que ele aprenderá,
fortalecerá seu corpo e o corpo forte será melhor comandado pela alma.

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PROVA DE RECUPERAÇÃO 2o semestre de 2010:
Foi pedido a você, professora de crianças, que criasse quatro (04) aulas de
filosofia para explicar sexualidade para crianças, da seguinte maneira:

01 aula de filosofia inspirada nos pressocráticos


01 aula de filosofia inspirada em Sócrates
01 aula de filosofia inspirada em Platão
01 aula de filosofia inspirada em Aristóteles

Em linhas gerais, como seriam essas aulas?

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Exemplos de respostas dadas por alguns alunos:
01 AULA DE FILOSOFIA INSPIRADA NOS PRESSOCRÁTICOS
os pressocráticos buscavam saber de eu são feitas as coisas e os seres.
Por que não refletir sobre o corpo humano, começando com as roupas
que usam ao corpo físico? Identificando partes e dessas, partes ainda
menores, até chegar a elementos sem partes? E a sexualidade: os
órgãos sexuais são partes do corpo e eles têm partes menores. Poderia-
se falar, ainda, da vida, do seu surgimento, do espermatozóide e do
óvulo, invisíveis a olho nu – como sabemos que existem? (pode-se usar
microscópio ou imagens)

questão considerada certa ou que relacionou a teoria filosófica com o tema


sexualidade:

- “Primeiramente, perguntaria às crianças de que são feitas as coisas e o


corpo humano. Depois, perguntaria por mais detalhes, como a função das
coisas do corpo. E, por fim, explicaria que as partes das coisas são
diferentes das sensações do corpo humano”

- “Pode-se fazer um trabalho inspirado na Barbie e no Ken (bonecos)


perguntando às crianças se eles tem órgãos sexuais, se tem, por que tem,
aula é o menino, qual é a menina?”

questão considerada vaga, sem sentido, estranha:

- “A sexualidade, assim como tudo era feito de coisas, tudo existia de algo,
coisas que se podia ser tocado”, eu poderia descrever cada parte e
tentaria achar a parte onde eles dariam as sensações de mais prazeres”

- “Explicar como viviam (pressocráticos), de que forma eram feitas as


coisas, como tratavam sobre a sexualidade”

01 AULA DE FILOSOFIA INSPIRADA EM SÓCRATES


Sua filosofia estimulava o aluno a encontrar respostas às perguntas que
preferencialmente o aluno trazia e ao professor cabia apenas ajudar
com novas perguntas que pudessem esclarecer as dúvidas dos
estudantes. Podemos perguntar: o que é ser menino? O que é ser

143
menina? O que são os órgãos sexuais? O que fazem? O que é o amor?
O que é sexo?

questão considerada certa ou que relacionou a teoria filosófica com o tema


sexualidade:

- “Perguntando para as crianças de onde elas vêm, conforme vão dizendo,


a professora vai anotando no quadro as sugestões esclarecidas”

- “Faria diálogos entre os alunos sobre a sexualidade para que eles


criassem suas ideias, para ver o melhor caminho e que nem todos pensam
igual”

questão considerada vaga, sem sentido, estranha:

- “Daria uma aula sobre sexualidade e depois perguntando: por que o


homem e a mulher fazem sexo?”,

01 AULA DE FILOSOFIA INSPIRADA EM PLATÃO


A filosofia poderia ajudar o espírito que Platão supõe existir dentro de
nós a se elevar do mundo físico, temporal. A sexualidade deve estar sob
o controle e a direção da razão, parte divina e isso pode ser feito no
questionar sobre as coisas, na busca de respostas das nossas dúvidas,
no nosso comportamento (uma criança que tirasse a roupa em sala de
aula, poderíamos afetuosamente orienta-la a não fazer isso ali?). A
partir de Platão, pode-se identificar opostos (conflitos) e tentar
concilia-los, como, por exemplo, homem e mulher, que diferenças têm e
como essas diferenças são superadas, ultrapassadas? Quem sabe se
cada um se colocasse no lugar do outro e imaginar o que é ser o outro?

questão considerada certa ou que relacionou a teoria filosófica com o tema


sexualidade:

“Os alunos falariam de sexualidade, sobre superar oposições, como no


exemplo (chamados de sexos opostos) homem x mulher, se atraem
(conciliam) , por que só no plano material existe sexualidade e no plano
espiritual,existiria também?”

144
“Através de um bom diálogo, levara um filme romântico com cenas muito
leves, então introduziria o assunto falando de sentimentos que regem os
casais e que os deixam com espíritos na mesma sintonia”

questão considerada vaga, sem sentido, estranha:

“Para Platão, através do diálogo ele queria ver o espírito desse mundo
material, no qual nós somos todos de espírito e carne e então perguntaria
para as crianças: por que possuímos órgãos sexuais?”

01 AULA DE FILOSOFIA INSPIRADA EM ARISTÓTELES


O ponto de partida do conhecimento são as sensações. Como ensinar
sexualidade a partir do que a criança vê, toca, cheira, ouve e prova? À
exceção da visão, as demais sensações são muito íntimas, explícitas.
Mas, por que não refletir sobre animais tendo relações sexuais? Muitas
crianças já presenciaram tais acontecimentos. Podem, por analogia,
perguntar se ocorre o mesmo com as pessoas?

questão considerada certa ou que relacionou a teoria filosófica com o tema


sexualidade:

“Em um livro sobre corpo humano, podemos trabalhar o conhecimento do


próprio corpo, o que desenvolveu de uns tempos para cá, o que é diferente
nas meninas e nos meninos, trabalhar, também, a vaidade com a
sexualidade”.

questão considerada vaga, sem sentido, estranha:

“Para Aristóteles, nada está na mente que não tenha passado pelos
sentidos e perguntaria: por que através de nossa mente o homem no ato
sexual fica com o pênis ereto e a mulher com a sensação de prazer?

“Passar no qaudro questões que avaliam a experiência da sexualidade em


sua vida (do aluno), se é importante, se tem sentimentos, para sua vida
sexual cotidiana”.

145
CONCLUSÃO

Talvez a grande ou mesmo a única utilidade desse curso e de qualquer outra aula que se
intitule “filosofia com ou para crianças” seja dizer às crianças e aos adultos, pais e professores: não
parem de, naturalmente, filosofarem, de perguntarem os porquês das coisas, apesar dos adultos
fazerem tudo para que vocês desistam disso!
Meu objetivo profissional mais imediato após a graduação em Filosofia era fazer mestrado
e doutorado e lecionar em universidade, mas como lá não se apóia novas teorias, exceto o que
Nietzsche chamou de "polir velhos conceitos a vê-los reluzir", decidi seguir a licenciatura, com um
nó na garganta. Mas, ao perceber que as faculdades de filosofia tomaram o caminho errado, baseado
unicamente na parte irascível da alma, através da conquista de títulos e não de respostas, fui parar na
licenciatura.
Depois de dar achar que eu estaria condenado a dar aulas para adolescentes, que estão em
uma fase da vida difícil e por incrível que pareçam preferem não ter aulas a tentar satisfazer as
dúvidas comuns nessa idade (embora eu note que do 1o para o 2o ano do ensino médio ocorre um
amadurecimento e eles começam a se dar conta de que a Filosofia não é inútil), fui convidado a dar
aulas para adultos, muitos deles já professores de crianças. Que interessante é a vida, pois, estas aulas
de filosofia para crianças são dirigidas para adultos, o público para o qual que eu gostaria de dar aula,
pois pensava que por sua maturidade entenderiam mais facilmente filosofia, inclusive minhas teorias.
E, para meu espanto, eu aprendi mais do que eles. Aplicar Sócrates à educação infantil?
Platão? Aristóteles? Nunca pensei nisso. Mas, quando refleti um pouco sobre qual seria a
contribuição de cada um deles, eis que a resposta apareceu sem dificuldade, o que me causou uma
grata surpresa. Se nas primeiras versões dessa obra (publicadas na internet) não fui longe a ponto de
descobrir aplicações de René Descartes ou Kant ou Nietzsche à educação infantil, nesse trabalho
realizei a tarefa que se encontrava incompleta.
É normal que um professor tenha dúvidas e o mais importante é que ele corrija sua
trajetória na medida em que realiza o percurso. Mas, de uma coisa não temos dúvida: não se pode
pensar filosofia para ou com crianças fazendo uso de uma única técnica ou de um método de um
único filósofo.
Espero que o legado desta obra não seja o de oferecer um conteúdo acabado para educar
filosoficamente as crianças, porque, neste caso, terei fracassado (filosofar é perguntar, inclusive
perguntar como filosofar). Espero, sim, ter oferecido um método, um caminho, um mapa provisório a
professores, pais e crianças, cujo conteúdo qualquer professor com boas intenções e vontade o

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alterará de acordo com o interesse de seus alunos e a criatividade de ambos. Pois o filósofo (que todo
professor deve ser, pelo menos um pouco) deve sempre estar incomodado com a repetição e ir em
busca do que não compreende e quer compreender [FIM OU APENAS O COMEÇO?].

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