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Ubirajara de Melo

Graça e libertação

A ATUALIDADE DO EMBATE ENTRE AGOSTINHO E PELÁGIO

Ubirajara de Melo Graça e libertação A ATUALIDADE DO EMBATE ENTRE AGOSTINHO E PELÁGIO

Copyright desta edição © Palavra & Prece Editora Ltda., 2015. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser utilizada ou reproduzida sem a expressa autorização da editora.

Grafia atualizada segundo o Acordo Ortográfico da Língua Portuguesa.

Coordenação editorial Revisão e diagramação Capa

Júlio César Porfírio Equipe Palavra & Prece Sérgio Fernandes Comunicação Imagem: Shutterstock Mark Press Brasil

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ISBN

978-85-7763-328-9

1 a edição | 2015

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Melo, Ubirajara de Graça e libertação : a atualidade do embate entre Agostinho e Pelágio / Ubirajara de Melo. – 1. ed. – São Paulo : Palavra & Prece, 2015.

Bibliografia

ISBN 978-85-7763-328-9

1. Agostinho, Santo, Bispo de Hipona, 354-430 - Crítica e interpretação 2. História da Igreja - Igreja primitiva, ca. 30-600 3. Pelagianismo I. Título.

15-00776

CDD-280.092

Índices para catálogo sistemático 1. Agostinho e Pelágio : Pensadores cristãos : Cristianismo

280.092

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Sumário

Introdução

 

9

Capítulo 1 – A doutrina da graça antes de Agostinho

17

A

herança do Antigo Testamento

19

O

Novo Testamento: Evangelhos e Atos

22

O

Evangelho anunciado por Paulo

26

Da experiência da fé ao anúncio

27

O

pecado e a graça

30

A

graça como justificação e santificação

34

A

Igreja: Corpo de Cristo

37

A

oposição: os judaizantes

38

O

Evangelho da Graça questionado

41

A

doutrina dos gnósticos

47

A

divinização na gnose cristã

53

O

Cristianismo nominal

55

A

vida consagrada à perfeição

64

O

Montanismo e o Donatismo

67

O

estoicismo

69

Capítulo 2 – Agostinho contra Pelágio

71

Pelágio

71

 

A

Igreja Romana no tempo de Pelágio

73

Pelágio e seus primeiros movimentos

75

No Norte da África e Oriente

79

A

teologia de Pelágio exposta por Agostinho

81

Agostinho

87

 

O

caminho da conversão

91

Agostinho cristão, sacerdote e teólogo

94

Balizas intelectuais de Agostinho de Hipona

96

O primeiro confronto: Celéstio

100

A refutação de Agostinho a Pelágio:

aspecto histórico-teológico da querela

101

A

doutrina da graça contra os pelagianos

104

Graça como relação com Deus, amoroso e próximo

105

O

perdão dos pecados: cerne da fé cristã

106

O

pecador socorrido pela graça Cristo

107

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A

graça de Cristo, remédio pela fé e pelo batismo

109

Somente pela graça o ser humano supera o pecado e pode agir em ordem a salvação

110

A vida em Cristo como caminho de santificação

111

A graça de uma Igreja misericordiosa

113

Os semipelagianos

114

 

A refutação a Juliano de Eclano

115

A refutação aos monges de Adrumeto e Marselha

124

Capítulo 3 – Reflexões sobre a vida na graça

131

Antropologia e Cristologia: A graça do homem novo

133

Uma antropologia da graça

133

Uma cristologia da graça

144

 

O

Ato de Fé como encontro entre Cristo e o homem no Espírito

146

Moralidade e Espiritualidade: a vida na graça, obra do Espírito

153

 

A

graça do Espírito como caminho de vida moral

153

Ligação entre Moral e Espiritualidade

157

Moral Sobrenatural: contraponto à Teologia de Rahner

161

Ponto de intersecção: uma certa Teologia da Libertação

169

Eclesiologia e Pastoral: o lugar da graça

171

 

A Igreja, lugar da misericórdia

171

A predestinação, um bem pastoral

176

A graça e a missão da Igreja

186

Misericórdia pastoral, fruto precioso desta doutrina

189

Teologia da Graça e a Nova Evangelização

198

Conclusões finais

201

Bibliografia Geral

209

I. Documentos do Magistério

209

II.

Dicionários e coleções

209

III. Revistas e artigos

210

IV. Obras de Santo Agostinho

210

Outras edições

210

V.

Autores e obras consultadas

211

6

Agradeço ao teólogo e escritor Francisco Faus, da Prelazia do Opus Dei, por sua paciência em ler os ori- ginais desta obra e apontar sugestões valiosíssimas. Ao cônego José Adriano, da Arquidiocese de São Paulo e a D. Beni dos Santos, bispo emérito de Lorena, por acom- panharem os primeiros passos desta discussão teológi- ca, incentivando-me a prosseguir na pesquisa e futura publicação que chegou só agora.

Dedico este livro ao meu pai Severino Vieira de Melo e à minha mãe Maria Dalva.

Mas Ele me disse: ‘Basta-te minha graça, porque é na fraqueza que se revela totalmente a minha força’. Portanto, prefiro gloriar-me das minhas fraquezas, para que habite em mim a força de Cristo.” (2Cor 12,9)

Introdução

Como uma heresia que está há mais de 1500 anos no passado poderia interessar e fazer pensar problemas e realidades da Igreja de hoje? A pri- meira vez que ouvi falar sobre a heresia pelagiana, foi justamente como reedição. Um artigo afirmava que alguns teólogos queriam reabilitar a doutrina de Pelágio, um antigo herege que, basicamente, ensinava que o bom uso do livre-arbítrio seria suficiente para o homem chegar à felicida- de e salvação. Era uma matéria de capa da extinta revista 30 dias, ligada ao movimento Comunhão e Libertação, do ano de 1991.

Nesta matéria, havia uma frase de São Jerônimo afirmando que a here- sia pelagiana era como “um resumo de todas as heresias” e que “reúne em si os venenos de todos os hereges”. 1 Como uma única heresia poderia reeditar todos os hereges? Instigado por tal pensamento, comecei a pesquisar o fenômeno pelagiano e, especialmente, o seu antídoto, que é a Teologia da Graça. 2 Neste itinerário de pesquisa fiz a minha conclusão de licenciatura em história e filosofia e escrevi o mestrado em teologia dogmática.

Mas recentemente, o Papa Francisco voltou com este assunto do pela-

gianismo, quando apontou a atualidade do projeto pelagiano, falando sobre

o perigo de sua presença na Igreja. Na visita ao Brasil, em um discurso aos bispos responsáveis pelo CELAM (Conselho Episcopal Latino-americano),

o Papa fez uma profunda reflexão sobre a Missão da Igreja no nosso conti-

nente. Ao falar sobre algumas tentações contra o discipulado missionário, ele apontou para o que chamou de “tentação pelagiana”, como uma dentre outras tentações na Igreja hodierna. Sobre esta tentação/proposta, disse:

1 JERÔNIMO. Carta a Ctesifonte, cuja tradução pode ser encontrada na Revista 30 Dias, São Paulo, Editbras, janeiro de 1991, pp. 40-45. O texto original In: MIGNE, Patrologia Latina 21,

1147-1161.

2 O termo Teologia da Graça, aparecendo com iniciais maiúsculas, se refere à doutrina católica da graça na sua expressão total que abrange desde as Escrituras até os últimos pronunciamen- tos do Magistério, como por exemplo no Novo Catecismo, e não a algum acento teológico, ou contribuição particular.

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Aparece fundamentalmente sob a forma de restauração. Perante os males da Igreja, busca-se uma solução apenas disciplinar, na restau- ração de condutas e formas superadas que nem mesmo culturalmente tem capacidade de ser significativas. Na América Latina, verifica-se em pequenos grupos, em algumas novas Congregações Religiosas, em tendências exageradas para a ‘segurança’ doutrinal ou disciplinar. Fundamentalmente é estática, embora possa prometer uma dinâmica ad intra: regride. Procura ‘recuperar’ o passado perdido.3

A crítica de Francisco é acertada, mas penso que poderíamos alargar ainda mais sua análise. O chamado “projeto pelagiano” não seria apenas uma tentação exclusiva de setores tradicionalistas mais radicais, mas algo que se configura como uma tendência muito mais abrangente, segundo aquela antiga e douta indicação de São Jerônimo de que o pelagianismo se- ria o resumo de todas as heresias e, neste caso, de todas as outras tentações elencadas pelo Romano Pontífice. Na proposta pelagiana, tradicionalis- tas e progressistas se encontram implicados, como bem expressou Joseph Ratzinger, no artigo citado:

O erro pelagiano tem muito mais seguidores na Igreja do que pare- ce à primeira vista. Estamos vivendo uma tentação, humanamente compreensível, de sermos compreendidos também onde não há fé, e acreditamos que a ponte entre a fé da Igreja e a mentalidade mo- derna poderia ser a moral. Todos veem que a moral é necessária, e assim apresentam a Igreja como garantia de moralidade, como uma instituição de moralidade, mas não têm coragem de apresentar o Mistério”. 4

Antônio Socci sintetizaria essa acurada percepção de Ratzinger, ao afir- mar que: “Assim, se realiza a prodigiosa convergência de todas as tendên- cias eclesiásticas de centro, de esquerda e de direita”. 5

3 FRANCISCO. Discurso aos dirigentes do CELAM em 28 de julho de 2013. A parte deste dis- curso que a nós interessa está copilada aqui nas páginas conclusivas.

4 Revista 30 Dias, janeiro de 1991, p. 34.

5 Ibidem. p. 35.

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O Papa Francisco chamou a atenção para um aspecto do perigo pela-

giano, que podemos encontrar na maioria das outras correntes ideológicas

que povoam o cenário eclesial atual, naquilo que o Papa indicou como “busca de uma solução apenas disciplinar, na restauração de condutas e formas superadas que nem mesmo culturalmente tem capacidade de ser significativas”. Ora, tal exprobração vale para soluções disciplinares e restaurações de condutas e formas superadas, sejam de trinta anos ou de centenas de anos atrás. Qual a diferença entre o anacronismo de setores que vivem com a mente de cristãos militantes revolucionários, como se a queda do Muro de Berlim ainda não tivesse ocorrido, daqueles outros que militam pelo reinado social de Cristo, como se ainda vivessem em uma Cristandade? Isto, principalmente, quando pensamos que a velocidade das transformações no século XX, transformações da realidade, correram ace- leradas no tempo, formando o que o historiador Eric Hobsbawm, no livro “A Era dos Extremos”, 6 chamou de o “século breve”.

De fato, se apenas fixarmos o olhar no conteúdo das propostas dos tra- dicionalistas ou progressistas, perdemos de vista sua essência pelagiana, que se encontra não nas propostas e soluções, muito diferentes entre si, mas na marca formal da disciplina, na segurança racional de práticas obe-

decidas e ensinadas, na confusão entre Evangelho e lei. Os ditos conserva- dores, com um acervo bimilenar, ou os progressistas, com alguma cartilha libertária e datada, são tendências que podem terminar por ler o Evange- lho não como um dom, que se experimenta pela fé em uma Pessoa, mas como uma ideologia que transforma a fé em um partido, em uma escola. No fim, o perigo de toda ideologia é reduzir-se a uma obediência, a uma prática moral impositiva, a uma educação que lê de modo reducionista

e unívoco a realidade, seja esta leitura de que viés for. Ora, este não é o Evangelho de Cristo, este é o Evangelho de Pelágio: educar o homem para

a observância de uma moral.

A crítica do Papa Francisco foi feita em relação aos vários perigos que

ameaçam a Missão da Igreja, mostrando que este perigo vai desde uma

6 HOBSBAWM, Eric. A era dos extremos: O breve século 1914-1991. 2ª ed. São Paulo: Compa- nhia das Letras.

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ideologização da mensagem evangélica (no reducionismo socializante, na ideologização psicológica, na proposta gnóstica e no pelagianismo), até a tentação do funcionalismo e do clericalismo. Aquilo que o Papa aponta acertadamente como perigosas tendências eclesiais, são verdadeiros pla- nos de ação que têm no pelagianismo, como veremos neste trabalho, o seu denominador comum. No final, cada um destes projetos acaba dimi- nuindo o Cristianismo a uma ética, a um esforço moral, sem espaço para

o mistério imprevisível da graça de Deus, mesmo que cada um deles conti-

nue acreditando ou ensinando a doutrina tradicional sobre a graça divina, como os mais perfeitos católicos.

Pelágio queria uma Igreja composta apenas de fortes, de santos, de se- veros cumpridores de seus deveres sociais e cristãos. Por isto, esta igreja pelagiana é uma igreja fria, organizativa, racionalista e, acima de tudo,

segura de si, por ser autorreferencial. Segundo o Papa Francisco, este tipo de tendência garantista, de segurança doutrinal e disciplinar, se firma no engano de que o conhecimento de certas verdades e de certas práticas são

a garantia da realização do Reino de Deus. E em seus dogmas, tanto mo-

dernistas como conservadores são radicais e o Reino deixa de ser um dom para ser simplesmente uma conquista de um grupo, cujo fechamento salva apenas sua membresia ideologicamente alinhada.

O Papa Francisco tinha em mente, ao discursar para a diretoria do CELAM, a retomada do Documento de Aparecida, 7 o qual havia ajuda- do a escrever. Neste Documento, a Igreja Latino-americana é chamada a ser discípula e missionária e, por isto, no encontro com os dirigentes do CELAM, o Papa viu a necessidade do desmascaramento daquilo que ele chamou de “ falsas soluções” que impediriam a missionariedade e o dis- cipulado. Desmascarar estas falsas soluções, onde o Santo Padre inclui o projeto pelagiano, é algo de uma atualidade vital. Cremos que o diagnós- tico de Francisco está correto e é um alerta para a Igreja no mundo mo- derno. Se a graça de Deus faz nascer o discípulo e a testemunha de Jesus,

então ela é a protagonista da Missão. O alerta do Papa vai para o fato de

discipulado não se reduzir a uma mera disciplina de fazer coisas, a uma

o

7

CELAM. Documento de Aparecida. Passim.

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obediência às regras, a um exercício ascético, ou aos projetos e cálculos humanos, por maior importância que todas estas coisas possam ter. Na base de tudo está a caridade de Deus agindo, e é a Palavra de Deus quem insiste nisto (cf. 1Cor 13). As ideologias, que nascem de falsas doutrinas, desconhecem, ou se aborrecem do Mistério da graça exatamente porque esta retira do homem, e de suas instituições, o controle absoluto daquilo que pertence à soberania divina. Mergulha-o na dinâmica incontrolável, surpreendente, e por vezes inefável, do encontro com a misericórdia di- vina. Subliminarmente, o que o Papa está dizendo é que o discipulado e missão devem abordados e vivenciados sob o prisma de uma Teologia da Graça e, portanto, em oposição ao projeto pelagiano que, também neste sentido, sintetizaria o erro de todas as heresias.

Toda vez que a tentação do projeto pelagiano de alguma forma se rea- presenta ao coração da Igreja, em suas estruturas, movimentos, pastorais

e associações, esta deve apelar ao antídoto, sempre eficaz, do Evangelho da Graça. Este é o foco deste nosso trabalho.

Exatamente, por tudo isto, este nosso trabalho foi buscar na pequena

Hipona o grande mestre e opositor ao projeto pelagiano. Através da vida

e da teologia de Santo Agostinho de Hipona encontraremos muitas indi-

cações para pensar a questão atualíssima do neopelagianismo. Contudo, será antes necessário um passeio panorâmico sobre a teologia que forma- tou a mente e o mundo cristão do Doutor da Graça. É preciso entender que a doutrina da graça pertence ao horizonte fenomenológico cristão, e que este horizonte foi forjado desde as figuras, símbolos e textos no An- tigo Testamento até a manifestação da graça, do dom de Deus em Jesus. Faremos um passeio, também, sobre o mesmo horizonte formado pela ela- boração teológica de São Paulo, abrangendo, assim, os principais dados teológicos que antecederam a querela pelagiana.

Voltar à Teologia da Graça reelaborada por Agostinho, como resposta

à tentação pelagiana, será voltarmos a um momento crítico da História da

Igreja, muito parecido a este que vivemos hoje. Estamos outra vez diante do impasse entre sermos uma pequena seita moralista, disciplinadora, ou ser- mos o que sempre fomos, a grande Igreja Católica, Mãe cheia de misericórdia

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que acode a todos com os remédios da graça deixados pelo seu Senhor. Mãe que confia que, misteriosamente, Deus faz agir a Sua misericórdia na vida de todos os homens, inclusive por meios que ela mesma desconhece.

Neste trabalho de revisitar a Teologia da Graça, em especial na sua ma- triz agostiniana, nos deparamos com certas interpretações que fazem da teologia tradicional da graça uma espécie de “beco sem saída”, criando um falso impasse entre uma ortopráxis do dever e a liberdade operativa de um lado, e a vida segundo o Espírito, de outro. Interpretações teológicas que ora privilegiam Deus, ora privilegiam o homem, diante do ato salvífico. Sabemos da predileção, sem muita margem de manobra, da Teologia da Graça, na ação divina. Esta doutrina que põe Deus como o protagonis- ta do ato salvífico, põe, também, uma série de questionamentos sobre a condenação eterna, a bondade divina, a culpabilidade ou não do inocente

e do ignorante, etc. Este enfoque é particularmente difícil para alguns teó-

logos. No citado artigo da Revista 30 Dias de janeiro de 1991, os autores faziam uma ligação explícitas entre as teses pelagianos e a teologia de Karl Rahner. Neste nosso trabalho buscaremos as razões desta ligação a fim de verificar a plausibilidade de tal acusação.

K. Rahner, “entendia toda pessoa humana como ‘homo mysticus’ (‘ho- mem místico’), como místico no mundo, como ser extático criado para con- fiar-se voluntaria e amorosamente ao Mistério, que se doa inteiramente a todos e abraça a todos.8 Rahner não admitia uma graça que não fosse

aberta a todos e a todos tocasse e, por isto mesmo, lia em Agostinho, como

o fazem a maioria dos teólogos progressistas, uma graça restritiva.

Para dialogar com a teologia moderna, colocaremos em conversação a teologia tradicional e realista de Agostinho e a visão rahneriana, com seu idealismo salvacionista geral, interpretada naquele artigo como um apelo neopelagiano que se aparta do Magistério. Trata-se de um fato: Rahner, e muito da Teologia Moderna, compreenderam mal e se afastarem do Doutor

8 EGAN, H. D. verbete sobre Rahner, In: Dicionário de Mística, p. 907. Aqui, a teologia mística de Rahner pode ser lida não como um naturalismo idealista, mas dentro da tradicional fé ca- tólica do “homem criado para (finalidade) Deus”, e se entende-se a graça que atua misteriosa- mente no mundo, não como identificada ao livre-arbítrio, dado por Deus, mas como a Graça de Cristo que atua pelo Espírito Santo, não se pode acusar Rahner de pelagianismo. O fato é que esta leitura tradicional dificilmente é possível de acontecer.

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da Graça. A teologia de Agostinho tem sido lida por estes como uma teolo-

gia que estaria mais pronta a condenar ao fogo do inferno do que a salvar. Durante o tempo de sua produção teológica, Rahner chegou a se manifes- tou em favor da reabilitação de Pelágio, exatamente por não compreender

a crítica de Agostinho, conforme a compreenderemos aqui neste trabalho. 9 Karl Rahner, assim como grande parte dos teólogos modernos, no afã de

abranger na salvação aqueles que não receberam, ou não compreenderam de todo a mensagem de Cristo (e mesmo assim procuram viver de acordo com

o melhor de suas consciências, o que seria conhecido como “Cristianismo

anônimo”), se afastou e criticou a teologia tradicional da graça, como uma teologia restritiva e, portanto, pessimista no plano da salvação universal. 10 Ora, por mais que a mentalidade teológica de seu tempo pudesse dar mar- gem a este tipo de impostação, esta não é a fé de Agostinho sobre a salvação dos pecadores. Agostinho é, entre os grandes teólogos da antiguidade, aque-

le que mais abriu espaço para a expressão de uma doutrina que equilibra mi-

sericordiosa e justiça, os dois polos contrastantes da ação de Deus no plano

da salvação. Um desafio que a maioria dos teólogos modernos ousou sequer enfrentar, preferindo a solução simplista de uma salvação geral.

O desafio se põe quando pensamos que Deus é Justiça e, portanto, não pode simplesmente tolerar o pecador, pois isto desfiguraria um dos seus principais atributos, o da santidade. Deus é amor, mas o Amor é Santo. Como coadunar estes polos, aparentemente irreconciliáveis, quando se trata de aproximar o pecado e o pecador do Amor Santo de Deus? A res- posta de Pelágio é a de que Deus capacitou o homem para a santidade e

) era tudo falso o que

Pelágio e Juliano de Eclano diziam contra Agostinho, que parecia vencedor em todas as frontes? Eles não teriam razão em muitos aspectos no tempo deles, e com uma lenta evolução chegaram aos nossos dias? ”. Concordamos com Rahner que os hereges pelagianos chegaram aos nossos dias, concordamos que tivessem razão em muitos pontos, aliás, o próprio Agostinho o reco- nheceria, enquanto toda a heresia é envolta em boas verdades, mas discordamos deles com Igreja, pois estavam errados em suas afirmações mais centrais. Rahner, como grande parte dos teólogos modernos, não compreendeu de modo positivo a Teologia da Graça de Agosti- nho, em especial no que se refere ao tema do pecado original e da soteriologia.

10 Quando lemos os argumentos desta rejeição, parece que estas interpretações, dadas às teses de Agostinho, seriam mais bem dirigidas àqueles teólogos que leram Agostinho equivocadamen- te, na História da teologia, tais como Lutero, Calvino, Baius, Jansenius, e outros. Estas sim, interpretações restritivas e/ou pessimistas no plano da salvação.

9 Cf. a citação de K. Rahner feita no artigo aqui já citado: 30 DIAS, p. 35: “(

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deu Cristo como exemplo a ser seguido. Assim, o projeto pelagiano fa- zia da Igreja um punhado restrito de pessoal altamente qualificado para o Reino. Nisto Agostinho não se ressentiria, afinal o próprio Jesus havia perguntado: “Mas quando o Filho do Homem voltar encontrará a fé sobre a terra?” (Lc 18,8). Contudo, o problema de Agostinho não era numérico, se poucos ou muitos se salvam. De outro lado, quanto à qualidade dos fiéis, não há o que se perguntar, pois deveria ser altíssima, e nisto concordava também, com Pelágio. A questão do Bispo de Hipona é outra, e mais fun- damental e absoluta. Ele quer saber o que, de fato faz, cria, transforma um ímpio em justo. Ou seja, o que a fé cristã tem a oferecer ao mundo, que vive na impiedade, sob o Maligno (1Jo 5,19)? O pelagianismo diria: temos uma ética, um modelo de vida, uma práxis distintiva que salva. É contra esta resposta que se levanta a doutrina da graça em Santo Agostinho. O primado da graça é a expressão irrenunciável, absoluta e necessária que distingue a fé cristã. Uma graça que nada tem banal, nada tem de manipu- lável. Exige da liberdade do homem, ao mesmo tempo em que se ampara apenas e suficientemente só em Deus. Eis o aparente dilema, eis a aventura que perseguiremos ao longo deste trabalho.

Desde já é preciso ter claro, como se pode intuir, que este trabalho é uma visita à Teologia da Graça exposta por Agostinho e, exatamente por isto, não nos deteremos no pelagianismo propriamente, mas naquilo que Agostinho, e a Igreja africana, entenderam e chamaram de heresia pelagia- na. Muito mais do que um estudo sobre o pelagianismo, este é um estudo sobre a resposta da Igreja, na pessoa do Bispo de Hipona, a este projeto e os desdobramentos atuais desta resposta para a Igreja no mundo moderno.

Nesta época, meados do século V, a Igreja fechou e definiu o Evange - lho da Graça como imprescindível a sua vida e missão. Agostinho e Pelá- gio, mas do que duas pessoas, duas biografias, são dois caminhos opostos, duas culturas, duas mentalidades, duas teologias, duas religiões. Há 1500 anos a Igreja, esposa de Cristo, fiel à sua Tradição, fiel ao Evangelho, disse não a Pelágio e sim a Agostinho. Façamos esta viagem e descubramos o significado e a abrangência de tal decisão que nos toca ainda hoje.

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Este livro não termina aqui

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