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IV Encontro Internacional de Literaturas, Histórias e Culturas Afro-brasileiras e Africanas: Identidades e Diásporas Universidade Estadual do Piauí UESPI

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Ebook do IV Encontro Internacional de Literaturas, Histórias e Culturas Afro-brasileiras e Africanas Universidade Estadual do Piauí UESPI Teresina Piauí 18 a 20 de novembro de 2015

– Teresina – Piauí 18 a 20 de novembro de 2015 UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ -

UNIVERSIDADE ESTADUAL DO PIAUÍ - UESPI

Governador do Estado do Piauí José Wellington Barroso de Araújo Dias

Secretaria de Educação do Estado do Piauí Rejane Ribeiro Sousa Dias

Reitor Nouga Cardoso Batista

Vice-Reitora Bárbara Olímpia Ramos de Melo

Pró-Reitora de Ensino de Graduação Ailma do Nascimento Silva

Pró-Reitor de Pesquisa e Pós-Graduação Geraldo Eduardo da Luz Júnior

Pró-Reitor de Extensão, Assuntos Estudantis e Comunitário Luiz Gonzaga Medeiros de Figueiredo Júnior

Pró-Reitor de Administração e Recursos Humanos Raimundo Isídio de Sousa

Pró-Reitor de Planejamento e Finanças Benedito Ribeiro da Graça Neto

Diretora do Centro de Ciências Humanas e Letras Margareth Torres de Alencar Costa

Coordenador do Mestrado Acadêmico em Letras Diógenes Buenos Aires de Carvalho

Coordenador de Letras Português Domingos de Sousa Machado

Coordenador de Letras Espanhol Omar Mario Albornoz

Coordenadora de Letras Inglês Francisca Maria da Conceição Oliveira

PAFOR Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica Raimundo Dutra de Araújo

Líder do Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro NEPA/UESPI Elio Ferreira de Souza

Líder do Núcleo de Estudos Hispânicos Margareth Torres de Alencar Costa

Coordenação Elio Ferreira de Souza

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Teresina Piauí - Brasil 18 a 20 de novembro de 2015

e Diásporas Universidade Estadual do Piauí – UESPI Teresina – Piauí - Brasil 18 a 20

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Realização:

Universidade Estadual do Piauí - UESPI

Núcleo de Estudos e Pesquisa Afro NEPA/UESPI Mestrado Acadêmico em Letras da Universidade Estadual do Piauí UESPI Núcleo de Estudos Hispânicos da UESPI

Apoio:

Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES Fundação de Apoio a Pesquisa do Piauí - FAPEPI Plano Nacional de Formação de Professores da Educação Básica - PAFOR Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas - SEBRAE Secretaria de Educação do Estado do Piauí SEDUC Secretaria Municipal de Educação e Cultura de Teresina SEMEC

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IV Encontro Internacional de Literaturas, Histórias e Culturas Afro-brasileiras e Africanas: Identidades e Diásporas Universidade Estadual do Piauí UESPI

COMISSÃO ORGANIZADORA DOCENTE

Elio Ferreira de Souza (UESPI)

Presidente

Margareth Torres de Alencar Costa (UESPI) Domingos de Sousa Machado (UESPI) Omar Mario Albornoz (UESPI) Claudio Rodrigues de Melo (UESPI) Antonio Maureni Vaz Vercosa de Melo (UESPI) Assunção de Maria Sousa e Silva (UESPI/PUC-MG) Demócrito de Oliveira Lins (UESPI) Fabrício Flores Fernandes (UESPI) Feliciano Jose Bezerra Filho (UESPI) Iraneide Soares da Silva (UESPI) Jonas Rodrigues Morais (SEC.CULTURA) Joselita Izabel de Jesus (UESPI) Laura Torres de Alencar Neta (UESPI) Leiliane de Vasconcelos Silva (UESPI) Leonardo de Matos Coe Soares (UESPI) Lisete Napoleão Medeiros (UESPI) Maria do Socorro Baptista (UESPI) Silvana Maria Pantoja dos Santos (UESPI) Maria do Socorro Rio Magalhães (UESPI) Raimunda Celestina Mendes da Silva (UESPI) Raimundo Dutra de Araujo (UESPI)

COMISSÃO CIENTÍFICA

Adelmir Fiabani (UNIPAMPA) Alcebíades Costa Filho (UESPI) Alcione Correa Alves (UFPI) Arnaldo Eugênio Neto da Silva (UESPI) Carlindo Fausto Antonio (UNILAB-BA) Cheryl Sterling (The City College, New York, USA) Eduardo de Assis Duarte (UFMG) Enilce do Carmo Albergaria Rocha (UFJF) Francisca Verônica Cavalcante (UFPI) Francis Musa Boakari (UFPI) Jean Paul Delfino (FRANÇA) José Wanderson Lima Torres (UESPI) Lucineide Barros (UESPI) Maria da Conceicao Evaristo de Brito (UFRJ) Roland Gerhard Mike Walter (UFPE) Samantha de Moura Maranhão (UFPI) Sebastiao Alves Teixeira Lopes (UFPI) Solimar Oliveira Lima (UFPI) Tania Maria de Araujo Lima (UFRN) Vanessa Neves Riambau Pinheiro (UFPB)

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COMISSÃO ORGANIZADORA DISCENTE

Ana Carusa Pires Araújo Áurea Regina do Nascimento Santos Daniela Pedreira Aragão Fabiana dos Santos Sousa João Batista Sousa de Carvalho Juliana Alves de Sousa Marcos Antônio Borges de Araújo Raimundo Silvino do Carmo Filho Regilane Barbosa Maceno Risoleta Viana de Freitas Samuel Campelo dos Santos Viviana Vieira Pimentel Wilany Alves Barros do Carmo

COMISSÃO DE APOIO TÉCNICO

Eliege Maria Rodrigues de Deus Luiz Carlos dos Santos Lima Maria da Cruz Vieira Melo Maria Dagmar Lustosa Nogueira Patrícia Silva do Nascimento Roseni Feitosa Lima

Diagramação: Francisco Coelho Filho

COORDENAÇÃO DO PROJETO Elio Ferreira de Souza

Os autores são responsáveis pela boa origem e autenticidade dos trabalhos enviados.

FICHA CATALOGRÁFICA

Identidades e Diásporas: afrodescendência, africanidade, educação e cultura indígena (4. : 2016 : Teresina). / Elio Ferreira Souza; Feliciano José Bezerra Filho; Margareth Torres de Alencar Costa, Organizadores. - Teresina: UESPI; Fundação Universidade Estadual do Piauí, 2016.

1177 p.

Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro-NEPA; Mestrado Acadêmico em Letras e Núcleo de Estudos Hispânicos da Universidade Estadual do Piauí.

ISBN: 978-85-8320-170-0

1. Literaturas afrodescendente e afro-brasileira. 2. Literatura Africana I. Souza, Elio Ferreira. II. Bezerra Filho, Feliciano José. III. Costa, Margareth Torres de Alencar. IV. Título.

CDD:

Ficha Elaborada pelo Serviço de Catalogação da Biblioteca Central da UESPI

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SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO

17

PARTE I

19

CONFERÊNCIAS E PALESTRAS

19

COMUNIDADES NEGRAS DA FRONTEIRA SUL: RESISTÊNCIA E LUTA PELA TERRA

 

20

Adelmir Fiabani

 

20

PROJETANDO CANÇÕES EM NAÇÕES LITERÁRIAS

 

39

Assunção de Maria Sousa e Silva

 

39

LEITURA

E

ORALIDADE

NO

CONTEXTO

ESCOLAR:

PRÁTICAS

COM

CONTOS

AFRICANOS

 

55

Bárbara Olímpia Ramos de Melo

 

55

Fabiana Gomes Amado

55

A CRIAÇÃO DA ESTÉTICA NEGRA: O MOVIMENTO DAS ARTES NEGRAS E O

QUILOMBHOJE

71

Cheryl Sterling

71

ESPAÇO, MEMÓRIA E A CONSTRUÇÃO DA TERRITORIALIDADE

85

Cláudio Rodrigues de Melo

85

CLEMENTINA DE JESUS, O RESGATE DO CANTO DOS ESCRAVOS

101

Daniela Pedreira Aragão

101

ENTRE PASSADO E PRESENTE, CUTI E A NARRATIVA DO NEGRO

110

Eduardo de Assis Duarte

110

O NEGRO NA LITERATURA BRASILEIRA

117

Eduardo de Assis Duarte

117

A CARTA DA ESCRAVA ‘ESPERANÇA GARCIA’ DE NAZARÉ DO PIAUÍ: UMA

NARRATIVA DE TESTEMUNHO PRECURSORA DA LITERATURA AFRO-BRASILEIRA

 

135

Elio Ferreira de Souza

135

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A ESCRITA DE GLISSANT E A PRODUÇÃO HISTÓRICO-CULTURAL - DISCURSIVA DO

"NÓS" COLETIVO

161

Enilce Albergaria Rocha

161

RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS E CUIDADOS PALIATIVOS: UM ESTUDO DE

LITERATURA ANTROPOLÓGICA SOBRE ESPIRITUALIDADE E CURA

174

Francisca Verônica Cavalcante

174

ÁFRICA E FILOSOFIA

187

Francisco Antonio de Vasconcelos (UESPI)

187

TERRITÓRIOS, CULTURAS E EXPERIÊNCIAS DE TRABALHADORES NEGROS NA

CIDADE DE SÃO LUÍS/MA SÉC. XIX

195

Iraneide Soares da Silva

195

LES HEROS

OUBLIES

212

Jean-Paul Delfino

212

“COM MELE, COM GONGUÊ/ COM ZABUMBA, E CANTANDO NAGÔ”: CULTURA

ACÚSTICA E TRADUÇÃO AFRODIASPÓRICA

 

219

Jonas Rodrigues de Moraes

 

219

NA

JANGADA

DE

SIGNOS:

ELEMENTOS

MODERNISTAS

NA

CANÇÃO

PELA

INTERNET”, DE GILBERTO GIL

 

233

José Wanderson Lima Torres

233

Alfredo Werney Lima Torres

233

AIRES OU MACHADO DE ASSIS? AUTOBIOGRAFIA E AUTOFICÇÃO EM MEMORIAL

 

DE AIRES

250

Margareth Torres de Alencar Costa- UESPI

250

A

NÉGRITUDE NO TEXTO

262

Maria de Lourdes Teodoro

262

O OLHAR DA HISTÓRIA SOBRE AS PERSONAGENS EM PONCIÁ VICÊNCIO DE

CONCEIÇÃO EVARISTO

 

291

Maria Suely de Oliveira Lopes

291

ENEGRECENDO

PASÁRGADA:

O

PROTAGONISMO

NEGRO

NAS

RELAÇÕES

LITERÁRIAS BRASIL CABO VERDE

 

305

Ricardo “Riso” Silva Ramos de Souza (UNIAFRO – NEABI/UFOP)

305

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CAOS-MUNDO, PEDRA-MUNDO: AFFINITY STUDIES E ESTÉTICA DA TERRA EM

ÉDOUARD GLISSANT E PATRICK CHAMOISEAU

320

Roland Walter (UFPE/ CNPq)

320

INDÍCIOS LEXICAIS DA PRESENÇA MALÊ NA RELIGIOSIDADE AFRO-BRASILEIRA

 

333

Samantha de Moura Maranhão (UFPI)

333

SERTÃO QUILOMBOLA: COMUNIDADES NEGRAS RURAIS NO PIAUÍ

347

Solimar Oliveira Lima

347

AFROMANGUES: BERIMBAUS & MARACATUS

371

Tânia Lima

371

A ORALIDADE NAS LITERATURAS AFRICANAS DE LÍNGUA OFICIAL PORTUGUESA

 

383

 

Vanessa Riambau Pinheiro (UFPB)

 

383

 

PARTE II

391

COMUNICAÇÕES ORAIS APRESENTADAS NOS SIMPÓSIOS

391

A

VIDA

VERDADEIRA

DE

DOMINGOS

XAVIER: MEMÓRIAS

E

GUERRAS

NA

ESCRITA ANGOLANA

 

392

 

Alana Rodrigues Teixeira

 

392

Zoraide Portela Silva

392

AFRODESCENDÊNCIA E IDENTIDADE: UM OLHAR SOBRE A OBRA VENCIDOS E

DEGENERADOS, DE NASCIMENTO MORAES

400

Ana Carusa Pires Araujo (UESPI/FAPEPI)

400

Orientador: Professor Dr. Elio Ferreira de Souza (UESPI)

400

ESTEREÓTIPOS, IDENTIDADE CULTURAL E A RESISTÊNCIA NO ROMANCE

AMERICANAH DE CHIMAMANDA NGOZI ADICHIE

412

Ana Claudia Oliveira Neri Alves (IFPI)

412

Áurea Regina do Nascimento Santos (IFPI/UESPI)

412

Caio César Viana de Almeida (IFPI)

412

NA BATIDA DO PÉ

AO SOM DO TAMBOR: O ENSAIO DE PAGAMENTO DE

PROMESSAS DOS TEIXEIRAS DE QUICUMBI EM MOSTARDAS/RS

421

Andréa Witt (FEEVALE)

421

Magna Lima Magalhães (FEEVALE)

421

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O DEBATE SOBRE A IDENTIDADE DA CRIANÇA AFRODESCENDENTE NA ESCOLA

DE ENSINO FUNDAMENTAL

435

Antonia Regina dos Santos Abreu Alves (UFPI)

435

Tamara Regina da Silva Morais (UESPI)

435

HERANÇA NEGRA: A NOVA COR DA RURALIDADE

445

Ariosto Moura da Silva UFPI

445

Joselda Nery Cavalcante - OAB

445

EDUCAÇÃO QUILOMBOLA: INSURGÊNCIA E NECESSIDADES DE EFETIVAÇÃO DO

DIREITO ÉTNICO

457

Ariosto Moura da Silva (UFPI)

457

Joselda Nery Cavalcante (OAB-PI)

457

SEMENTE FÉRTIL EM TERRA ÁRIDA: A ESCRITA FEMININA E O ARSENAL DAS

FLORES

471

Benício Mackson Duarte Araújo (UERN)

471

Maria Edileuza da Costa (UERN)

471

O FEMINISMO NA PERSPECTIVA DA GLOBALIZAÇÃO CONTRA-HEGEMÔNICA:

QUANDO A DIFERENÇA NOS INFERIORIZA E A IGUALDADE NOS

DESCARACTERIZA

482

Carolina Alves Leite (UFPI)

482

O INSTRUMENTO DA LEI 10.639/2003 NO CURRÍCULO DE HISTÓRIA DA

EDUCAÇÃO BÁSICA: ASPECTO DE UMA PRÁTICA PEDAGÓGICA

497

Charlene Veras de Araújo (UFPI)

497

HIBRIDISMO LINGUÍSTICO EM GIRLS AT WAR AND OTHER STORIES DE CHINUA

ACHEBE

509

Cláudio José Braga Rocha (UFPI)

509

Sebastião Alves Teixeira Lopes (UFPI)

509

CONTOS E FÁBULAS NA CULTURA AFRICANA: SENSIBILIZANDO NOSSAS

CRIANÇAS A ENXERGAREM MAIS LONGE

523

Clevania Almeida Benevides

523

Orientadora: Prof. Lireida Maria Albuquerque Bezerra

523

PERFORMATIVIDADE INTELECTUAL AFRO-CARIBENHA EM POR BOCA PROPIA, DE

MAYRA SANTOS

533

Cristian Souza de Sales (UFBA/FAPESB)

533

EROTISMO NOS VEIOS POÉTICOS DE RITA SANTANA: A ESCRITA COMO

INSTRUMENTO DE DEMOLIÇÕES DE ALVENARIAS

545

Cristiane Santos de Souza Paixão (UFBA)

545

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A FRAGMENTADA RELAÇÃO DO CUIDAR: UMA ABORDAGEM REFLEXIVA SOBRE

SUSTENTABILIDADE NA NARRATIVA “A MÃE QUE SE TRANSFORMOU EM PÓ” 560

Damiana Silva de Melo (URCA)

 

560

Márcia Pereira da Silva Franca (URCA)

560

OS

CONTOS

DE

FADAS

NA

CONSTRUÇÃO

IDENTITÁRIA

DE

MULHERES

AFRODESCENDENTES

 

574

Emanuella Geovana Magalhães de Souza (UFPI)

 

574

Orientador: Francis Musa Boakari (UFPI)

574

ESPAÇO, GUERRA E ESPERANÇA: DESUMANIZAÇÃO E REUMANIZAÇÃO EM

VENTOS DO APOCALIPSE

587

Everton Fernando Micheletti (USP)

587

MEMÓRIA DOS CAPOEIRAS: CANÇÕES AFRO-BRASILEIRAS

597

Prof.º Msc. Francílio Benício Santos de Moraes Trindade IFMA

597

ARABISMOS EM CONTOS E LENDAS DA ÁFRICA

606

Francisco Barroso de Sousa (SEDUC-PI)

606

Samantha de Moura Maranhão (UFPI)

606

TEMÁTICA AFRICANA E AFRO-BRASILEIRA NA SALA DE AULA: EXPERIÊNCIAS REALIZADAS NAS AULAS DE HISTÓRIA NO CURSO DE ESPECIALIZAÇÃO EM METODOLOGIA DO ENSINO DE HISTÓRIA E GEOGRAFIA NA FACULDADE DE

JUAZEIRO DO NORTE FJN

619

Francisco Givaldo Pereira (ASU)

619

Orientador: Francisco Roberto de Sousa (ASU)

619

NARRATIVAS DE UMA RETERRITORIALIZAÇÃO IMPOSSÍVEL: A IDENTIDADE

TERRITORIAL DA FAMÍLIA RODRIGUES E A ANGLO AMERICAN

630

 

Francisleila Melo Santos (UNIVALE)

630

Patrícia Falco Genovez (UNIVALE)

630

A

REDE INSIVISÍVEL: MULHER E ANCESTRALIDADE EM PAULINA CHIZIANE

644

 

Igara Melo Dantas

(UFRN)

644

Drª. Tânia Maria de Araújo Lima (UFRN)

644

INCLUSÃO DE AFRODESCENDENTES: UM ESTUDO SOBRE OS SUJEITOS

REMANESCENTES DA COLÔNIA AGRÍCOLA DE SÃO PEDRO DE ALCÂNTARA

656

Jalinson Rodrigues de Sousa

656

Orientador: Prof. Dr. João Evangelista das Neves Araújo

656

POESIA E DIALÉTICA DA NEGRITUDE EM AIMÉ CÉSAIRE E JEAN-PAUL SARTRE

 

712

Jefferson Eduardo da Paz Barbosa (UFRN)

712

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TRAÇO

EXUSÍACO

E

ESCREVIVÊNCIA

EM

O

MAPA

DA

TRIBO,

DE

SALGADO

MARANHÃO

 

720

João Batista Sousa de Carvalho (UESPI)

 

720

Elio Ferreira de Souza (UESPI)

720

RELAÇÕES ENTRE ARTE E POLÍTICA EM TEXACO, DE PATRICK CHAMOISEAU, E

EM

JUVENTUDE EM MARCHA, DE PEDRO COSTA

735

José Pereira de Andrade Filho (UFPI)

735

Pedro Freitas Neto (UFPI)

735

ENTRE O SER E O EXISTIR: REPRESENTAÇÕES SEMIÓTICAS NA POÉTICA DE

CONCEIÇÃO EVARISTO E ÉLE SEMOG EM CADERNOS NEGROS (2008)

744

Josivan Antonio do Nascimento (UESPI)

744

ESCREVER SEM PODER: A ESCRITA FEMININA DE MARILENE FELINTO

759

Jucely Regis dos Anjos Silva (UFRN)

759

Drª. Tânia Maria de Araújo Lima (UFRN)

759

O CANDOMBLÉ EM TENDA DOS MILAGRES

772

L’Hosana Ceres de Miranda Tavares (UFPI)

772

“ÁFRICA GRITA”, DE LUCRECIA PANCHANO: DA POSSIBILIDADE DE

INTERPRETAR O CORPO NEGRO COMO

785

Lana Kaíne Leal (UFPI)

785

AFRICANIDADES E CONSTRUÇÕES IDENTITÁRIAS NA INVENÇÃO DO POPULAR

EM

ASCENSO FERREIRA

795

Liana Dantas de Medeiros(UFRN)

795

HOMOAFETIVIDADE, DITADURA MILITAR E NEGRITUDE: LEITURA DOS PERFIS

HOMOAFETIVOS DE STELLA MANHATTAN, DE SILVIANO SANTIAGO

805

Lucelia de Sousa Almeida (UESPI)

805

Rubenil da Silva Oliveira (UESPI)

805

APELIDOS PEJORATIVOS: DE “BRINCADEIRA” DE CRIANÇA À VIOLÊNCIA VERBAL

 

819

Luzia Bethânia da Silva Lopes UFPI,

819

Francis Musa Boakari DEFE/CCE/UFPI

819

A

QUESTÃO

AFRO-BRASILEIRA

NUMA

PERSPECTIVA

INTERDISCIPLINAR:

DESAFIOS

E

834

Márcia Pereira da Silva Franca (EEFM Amália Xavier)

834

Roberto de Sousa (Anne Sullivan University)

834

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A POSSIBILIDADE DE FALA DA MULHER MOÇAMBICANA

 

842

 

Maria Helena Damasceno da Costa (PG-UFPI)

 

842

Sebastião Alves Teixeira Lopes (UFPI)

842

A

LINGUAGEM

METAFÓRICA

EM

UM

RIO

CHAMADO

TEMPO,

UMA

CASA

CHAMADA TERRA

 

856

 

Maria Nery dos Santos (UESPI)

 

856

Rubenil da Silva Oliveira (UESPI)

856

LITERATURAS DE VIAGEM:

HAITI

863

 

Miriane da Costa Peregrino (UFRJ)

863

DESLOCAMENTOS IDENTITÁRIOS EM “NA BERMA DE NENHUMA ESTRADA”, DE

MIA COUTO

872

Moama Marques (IFRN)

872

CERCEAMENTO DA MEMÓRIA INDIVIDUAL E IDENTIDADE ÉTNICA DOS ESCRAVIZADOS: UMA TENTATIVA DE RASURA DA MEMÓRIA COLETIVA DOS NEGROS ATRAVÉS DO USO DA VIOLÊNCIA DESCRITA NAS SLAVE NARRATIVES

 

882

Nilson Macêdo Mendes Junior

 

882

RAÇA

E

NAÇÃO:

O

DETERMINISMO

HEREDITÁRIO

E

A

MESTIÇAGEM

NA

MEDICINA

LEGAL PIAUIENSE

 

895

Rafaela Martins Silva (UFPI)

895

NEGRITUDE BRASILEIRA: DA DÉCADA DE 1940 À DE 1970: TRÂNSITO,

TRANSCULTURAÇÃO E TRAVESSIA PELO ATLÂNTICO NEGRO

908

Raimundo Silvino do Carmo Filho

908

Elio Ferreira de Souza

908

(RE)DESCOBERTA DO PODER FEMININO DE RÍSIA: AS MULHERES DE

TIJUCOPAPO DE MARILENE FELINTO

 

925

 

Renzilda Ângela de S. F. de Santa Rita (UFRN)

 

925

Dra. Tânia Maria de Araújo Lima (UFRN)

925

O

DISCURSO

AFROFEMININO

EM

“NÃO

VOU

MAIS

LAVAR

OS

PRATOS”

DE

CRISTIANE SOBRAL

 

937

 

Rita de Cássia Barros Assunção (FAI / SEMEDUC)

 

937

GÊNERO, MULHERES E MACHISMOS NO UNIVERSO DA CAPOEIRA PIAUIENSE:

ANÁLISES DOS DISCURSOS E IMAGENS EM APARATOS MIDIÁTICOS DE REDES DE

RELACIONAMENTOS SOCIAIS

949

Dr. Robson Carlos da SILVA/(UESPI)

949

Esp. Cândida Angélica Pereira MOURA/(UESPI)

949

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Ebook do IV Encontro Internacional de Literaturas, Histórias e Culturas Afro-brasileiras e Africanas Universidade Estadual do Piauí UESPI Teresina Piauí 18 a 20 de novembro de 2015

Ms. Diogo Filipe Santos MOURA/(IFPI)

949

MEMÓRIA E IDENTIDADE HOMOAFETIVA NA CONTÍSTICA DE MIRIAM ALVES 962

Rubenil da Silva Oliveira (UESPI)

962

Elio Ferreira de Souza (UESPI)

962

BRASIL: A COR DO PROBLEMA OU O PROBLEMA DA COR?

976

Ruberval Rodrigues de Sousa (UFT SEDUC/TO)

976

Thyago Phellip França Freitas (CEULP SEDUC/TO)

976

LITERATURA E DIÁSPORA: UM ESTUDO SOBRE AS BANDAS DE REGGAE EM

TERESINA

988

Sâmara Vanessa Nascimento Costa (UFPI)

988

MARCAS DE ORALIDADE NA POESIA MILITANTE DE NOÉMIA DE SOUSA

1000

Sara Monteiro Lopes Neves (UFPI)

1000

Tiago Barbosa Souza

1000

A POESIA, ARMA DE LUTA E PROTESTO: UMA ANÁLISE DOS POEMAS DA

ESCRITORA SÃO-TOMENSE, ALDA DO ESPÍRITO SANTO

1010

Sílvia Tatiana do Carmo Will (UNILAB)

1010

Orientadora: Professora. Dra. Luana Antunes Costa (UNILAB)

1010

O REGGAE

COMO

ESTRATÉGIA

PEDAGÓGICA

NA

DISCUSSÃO/FORMAÇÃO

ÉTNICO-RACIAL NA ESCOLA

1016

Silvio Tavares dos Santos (UFPI);

1016

Prof. Me. Robison Raimundo Silva Pereira (UESPI/Floriano)

1016

AS NUANCES DE EXPERIÊNCIAS NA FORMAÇÃO DOCENTE EM CONTEXTOS DE

DISCUSSÕES SOBRE A TEMÁTICA RACIAL

1025

Tamara Regina da Silva Morais - UESPI

1025

Antonia Regina dos Santos Abreu Alves- UFPI

1025

ANÁLISE COMPARADA DOS ROMANCES BELOVED E PONCIÁ VICÊNCIO:

INFANTICÍDIO, AUTOFLAGELO E RESISTÊNCIA DO NEGRO ESCRAVIZADO

1035

Viviana Vieira Pimentel (UESPI)

1035

Maria do Socorro Baptista (UESPI)

1035

Elio Ferreira de Souza (UESPI)

1035

AS IDENTIDADES EM QUESTÃO NOS CONTOS: SIM, EU POSSO, DE DÉCIO DE

OLIVEIRA E MINHA COR, DE RAQUEL ALMEIDA EM CADERNOS NEGROS

1049

Wilany Alves Barros do Carmo

1049

Raimundo Silvino do Carmo Filho

1049

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LIVRO III

1064

PÔSTERES

1064

A IDENTIDADE FEMININA EM PONCIÁ VICÊNCIO, DE CONCEIÇÃO EVARISTO 1065

Amanda Gomes da Silva (UESPI)

1065

Orientadora: Profa. Dra. Maria Suely de Oliveira Lopes (UESPI)

1065

AS MARCAS DA ESCRITA AFRODESCENDENTE NO CONTO “A ESCRAVA”, DE MARIA

FIRMINA DOS REIS

1072

Ana Luiza Francelino Lima (UESPI)

1072

Orientadora: Professora Mestranda Ana Carusa Pires Araujo (UESPI)

1072

ATIVIDADES CULTURAIS REALIZADAS PELO PIBID: CONTRIBUIÇÕES PARA O

ESTUDO DOS SABERES AFROSDECENDENTES E A LEI 10.639

1078

Brenda Maria Moura Silva (UESPI)

1078

Isabel Cristina da Silva Fontineles (UESPI)

1078

ENSINO FUNDAMENTAL E OS REFLEXOS DA CULTURA NEGRA EM SALA DE AULA.

 

1083

Dinayra Costa Araújo (UESPI) 1

1083

Lídia Barbosa da Silva (UESPI) 2

1083

Isabel Cristina da Silva Fontineles Coordenadora (PIBID) 3

1083

O PROCESSO DE EXPRESSÃO DO EROTISMO DOS CORPOS NA POESIA DE CRUZ E

SOUSA E LUIZ GAMA

1093

Evyla Kataryna Ivo Araújo (UESPI)

1093

Maiele Carvalho da Silva (UESPI)

1093

Mariléa Paz Pinto dos Santos (UESPI)

1093

Orientadora: Msc. Joselita Izabel de Jesus (UESPI)

1093

A VIOLÊNCIA POLÍTICA-SOCIAL: UMA ANÁLISE DA POESIA DE ODETE SEMEDO.

 

1098

Ianes Augusto Cá (UNILAB)

1098

Orientadora: Profa. Dra. Jo A-mi

1098

"CARTA PÁ APOLINÁRIA": A CRÔNICA NA LITERATURA SÃO-TOMENSE

1103

Jessica do Rosário Bandeira (UNILAB)

1103

Orientadora: Profa. Dra. Sueli Saraiva (UNILAB)

1103

AS FACES DO MANIFESTO: LITERATURA E CONFLITO IDENTITÁRIO EM "O

ARTISTA NEGRO E A MONTANHA RACIAL", DE LANGSTON HUGHES

1107

José de Sousa Magalhães

1107

Pedro Pio Fontineles Filho

1107

15

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RELAÇÕES ÉTNICO RACIAIS E EDUCAÇÃO SUPERIOR: HISTÓRIA E CULTURA

AFROBRASILEIRA NO CURSO DE PEDAGOGIA DA FACULDADE IEST TERESINA -

PI

1115

 

Juliana Alves de Sousa (UESPI)

1115

Orientador Prof. Me. Cláudio R.Melo (UESPI)

1115

O

VOCABULÁRIO DA ESCRAVIDÃO EM ANÚNCIOS DE JORNAIS TERESINENSES DO

SÉCULO XIX: UM RETRATO LINGUÍSTICO DO NEGRO CATIVO NA TERESINA

OITOCENTISTA

1127

Lucas Anderson Neves de Melo (UFPI)

1127

Marielle Muniz Rodrigues (UFPI)

1127

Samantha de Moura Maranhão (UFPI)

1127

A LITERATURA GUINEENSE NA VISÃO DE SEUS ESCRITORES: TRAJETOS DE UMA

PESQUISA

1138

Mairra Augusto Badinca (UNILAB)

1138

Orientadora: Profa. Dra. Jo A-mi

1138

ESTUDO DA POESIA AFRO-BRASILEIRA DE AUTORES NEGROS DO PIAUÍ:

ANTOLOGIA DE POETAS NEGROS DO PIAUÍ: PRECURSORES DA CARTA DA

ESCRAVA ESPERANÇA GARCIA (1770 A 1940)

 

1143

Marcos Antonio Borges de Araújo (UESPI)

1143

Orientador: Prof. Dr. Elio Ferreira de Souza (UESPI)

1143

HISTÓRIA E LITERATURA NO CONTEXTO MOÇAMBICANO

1152

Maria Cesalânia Pereira Dos Santos(UNILAB)

1152

Orientador(a): Profa. Dra. Sueli da Silva Saraiva (UNILAB)

1152

UMA

LEITURA

DO

OUTRO

BRASIL:

A

REPRESENTAÇÃO

DA

NAÇÃO,

DA

IDENTIDADE AFRO-BRASILEIRA E DA IMAGINAÇÃO UTÓPICA NA LITERATURA

DE JOSÉ EDUARDO AGUALUSA

 

1158

Maria Julieta Dias Gonçalves (UERN)

 

1158

Dr.Sebastião Marques Cardoso (UERN)

1158

IDENTIDADE

NACIONAL

NA

OBRA

A

DOLOROSA

RAIZ

DO

MICONDÓ”,

DE

CONCEIÇÃO LIMA

 

1165

Marlene Arminda Quaresma José (UNILAB)

 

1165

JoA-mi, professora-orientadora(UNILAB)

1165

ESTUDO DA POESIA AFRO-BRASILEIRA DE AUTORES NEGROS DO PIAUÍ:

ANTOLOGIA DE POETAS NEGROS DO PIAUÍ: CONTEMPORÂNEOS (DE 1950 AOS

DIAS DE

1169

Samuel Campelo dos Santos (UESPI)

1169

16

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APRESENTAÇÃO

O IV ENCONTRO INTERNACIONAL DE LITERATURAS, HISTÓRIAS E CULTURAS AFRO-BRASILEIRAS E AFRICANAS: Identidades e Diásporas visa estabelecer intercâmbios dos saberes através da investigação científica e da interdisciplinaridade. Oportunizará o reconhecimento da História e do valor da Cultura dos afro-brasileiros, afrodescendentes e africanos pelo próprio negro e o não negro, a recusa dos estereótipos e preconceitos raciais elaborados ao longo de vários séculos de escravidão e desrespeito à humanidade dos povos e civilizações colonizadas pelo Ocidente. O evento promoverá o estudo, a produção e a publicação de textos acadêmicos relacionados aos temas da africanidade e da diáspora negra, sob a ótica da pluralidade de experiências, valores e saberes, da multiculturalidade, do respeito à diferença, possibilitando o debate e o conhecimento de conteúdos disciplinares atualizados nas áreas de Literatura, História e Cultura Afro-brasileiras, Africanas, Indígenas (Leis 10.639/2003 e 11.645/2008).

CONTRIBUIÇÃO

Este Encontro contribuirá para o ensino, a pesquisa e a extensão de literatura, história e cultura afro-brasileira e africana; abarcando também temas relacionados à história e à cultura indígena, gênero e representações. A proposta do projeto abriga os princípios de etnia e “raça”, o reconhecimento e a valorização da memória, da cultura, da religiosidade, a construção de identidades afrodescendentes, a resistência e o combate ao preconceito étnico-racial, promovendo o conhecimento de conteúdos disciplinares para o ensino de História da África e da Cultura afro-brasileira e indígena, previsto nas Leis 10.639/2003 e 11.645/2008, o que “significa o reconhecimento da importância da questão do combate ao preconceito, ao racismo e à discriminação na agenda brasileira de redução das desigualdades” (2009, p.3), promovendo ainda as Ações Afirmativas e a escola como “lugar da formação de cidadãos”, bem como a valorização da pluralidade cultural do Brasil.

FINALIDADE

O nosso objetivo é promover estudos, sob a ótica da pluralidade e da multiculturalidade, do respeito à diferença, intercambiando experiências e saberes através da transmissão de conhecimentos e conteúdos disciplinares atualizados nas áreas de Literatura, História e Cultura Afro-brasileiras, Africanas, Indígenas (Leis 10.639/2003 e 11.645/2008) e Gênero. O evento cria novas perspectivas para o Mestrado em Letras da UESPI (Literatura, Memória e Cultura), primeiro Curso de Pós- Graduação stricto sensu desta IES, no seu quarto ano de funcionamento, para o Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro NEPA, para a Licenciatura em Letras e demais cursos de graduação da UESPI. Visa ao ensino, à formação continuada do corpo docente do Ensino Básico, à produção científica nesta IES, disseminando essas ações pedagógicas junto às instituições envolvidas no processo educacional e movimentos organizados da sociedade civil.

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HISTÓRICO

O I ENCONTRO INTERNACIONAL DE LITERATURAS, HISTÓRIAS E CULTURAS AFRO-BRASILEIRAS E AFRICANAS, foi realizado em 2009 pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro NEPA / UESPI. Contou com a presença de mais de trezentos participantes e, na ocasião, houve conferências, palestras e apresentação de comunicações. Este acontecimento abriu novos horizontes nos estudos acadêmicos relacionados à afrodescendência, africanidade e cultura indígena nesta IES, assumindo um compromisso que se estendeu além das fronteiras do Estado do Piauí para se tornar um evento de alcance nacional e internacional.

O II ENCONTRO foi realizado de 15 a 18/11/2011, resultando nas publicações do Caderno de Resumos e Programação, dos Anais do evento, na organização e edição dos livros impressos Literatura, História e Cultura Afro-Brasileira e Africana, volumes 1 e 2, Teresina: EDUFPI; FUESPI, 2013.

Graças ao apoio irrestrito da CAPES através do AUXÍLIO FINANCEIRO A PROJETO EDUCACIONAL E DE PESQUISA AUXPE, o III ENCONTRO INTERNACIONAL DE LITERATURAS, HISTÓRIAS E CULTURAS AFRO- BRASILEIRAS E AFRICANAS constituiu-se numa das maiores realizações acadêmicas da Universidade Estadual do Piauí, alcançado expressiva notoriedade junto à sociedade piauiense e tornando-se uma referência nacional nessa área do conhecimento. No âmbito das atividades relacionadas à afrodescendência e africanidade, o III Encontro ocupou o lugar de maior abrangência e número de participantes em eventos acadêmicos do Estado. Nesta edição, contamos com a presença de aproximadamente 500 (quinhentos) participantes envolvidos durante a realização do Encontro, vinculados a 40 instituições de nível superior, tais como a UESPI (anfitriã do IIII Encontro), UFPI, IFPI, IESM / MA, UFMA, UEMA, IFMA, UFC, UNILAB / Redenção/CE, UNIPAMPA, UNB, UFRN, UFMG, PUC/BH, PUC/SP, UFPB, UNB, USP, UNIFESP/Hospital São Paulo, UFSC, UFU, UNIVERSIDADE DE LISBOA, UFJF, UNICAMP, UEL / Londrina/PR, UFMT, ICF / Instituto Camilo Filho/PI, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, IFBA, UESB, UNIFACS, UFRB, Instituto de História da Universidade do Rio de Janeiro, CEFET / RJ, UFPE, UNIVERSIDADE DA MADEIRA, UNEB, UFBA / ACHEI / REDEPECT, UFRGS, UERJ, UEPB; além de representantes da SEPPIR, CADERNOS NEGROS, ABAM, Academias de Letras do Piauí, dentre outras instituições.

Elio Ferreira de Souza Coordenador

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PARTE I CONFERÊNCIAS E PALESTRAS

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COMUNIDADES NEGRAS DA FRONTEIRA SUL:

RESISTÊNCIA E LUTA PELA TERRA

Adelmir Fiabani Universidade Federal da Fronteira Sul - Cerro Largo

Introdução

Em 1988, as comunidades negras rurais brasileiras conquistaram o direito à

aos

remanescentes das comunidades de quilombos que estejam ocupando suas terras é

titulação das suas terras, ou seja, a Constituição Federal assegura “[

]

reconhecida a propriedade definitiva, devendo o Estado emitir-lhes os títulos

definitivos” (TÁCITO, 2005, p. 223). O número de comunidades negras ainda é

impreciso, visto que nem todas ingressaram com pedido de regularização fundiária e

não constam nas estatísticas oficiais. Estima-se que exista mais de 4.500 comunidades

quilombolas em todo o país, número expressivo se compararmos com os títulos

expedidos pelo Estado. Desde que começaram as titulações, o índice de comunidades

contempladas permanece na casa dos 10%.

Em quase todo território brasileiro há comunidades negras, com maior número

onde a escravidão foi maior. Segundo dados divulgados pela Fundação Cultural

Palmares, a Bahia é o estado que contabiliza mais comunidades negras reconhecidas.

Anteriormente, o Maranhão e Pará eram as unidades da Federação com maior número

de comunidades, fato justificado, em parte, por ter sido nestes estados que se iniciou o

movimento quilombola (FIABANI, 2015). 1 Há comunidades que ainda não iniciaram

processo de reconhecimento; outras estão aguardando a tramitação dos documentos na

Fundação Cultural Palmares a fim de obter a certidão de comunidade remanescente de

1 Ver FIABANI, Adelmir. Os Novos Quilombos: luta pela terra e afirmação étnica no Brasil [1988- 2008]. Palmas: Editora Nagô, 2015.

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quilombo e, em número maior, há comunidades aguardando a titulação, que está sob- responsabilidade do INCRA.

No Rio Grande do Sul, há mais de 109 comunidades negras em processo de reconhecimento ou aguardando a titulação das terras. A maioria concentra-se na região Sul do estado onde foram utilizados trabalhadores escravizados em maior escala. Este fato revela que os libertos e seus descendentes continuaram a labutar nas mesmas unidades produtivas e não tiveram condições financeiras imediatas de migrar para regiões mais promissoras economicamente.

I Escravidão no Rio Grande do Sul

O Rio Grande do Sul conheceu o trabalho cativo bem antes da ocupação oficial portuguesa, em 1737. Há registros que indicam a presença de trabalhadores escravizados nas terras sulinas em 1680, por ocasião da fundação da Colônia do Sacramento. Segundo o historiador Mário Maestri, em Uma breve história do Rio Grande do Sul: da pré-história aos dias atuais, em 1725, “João de Magalhães partiu de Laguna para explorar e ocupar o Estreito com trinta e um acompanhantes, entre eles ‘homens pardos escravos’” (MAESTRI, 2006, p. 94).

A atividade mineradora desenvolvida no centro do país, sobretudo, na região das Minas Gerais, exigia mais charque para alimentar os trabalhadores escravizados. O charque e couros produzidos através da apreensão de gado alçado tornaram-se insuficientes para atender a demanda e iniciou-se a criação de gado planejada. Nesta atividade foram utilizados trabalhadores escravizados, porém em menor proporção comparadas com as regiões açucareira e mineradora. Numericamente, foram menos cativos, porém a maioria das atividades braçais era realizada por eles.

No sul do Brasil, a mão de obra escravizada também foi utilizada nas plantações e nos serviços urbanos. Por volta de 1750, chegaram casais açorianos e dedicaram-se ao plantio de trigo nos arredores de Rio Grande, nas margens das lagoas, ao longo do rio Jacuí. Nas chácaras formadas nos arredores dos povoados, a produção era diversificada, com o cultivo da cana-de-açúcar, frutas, legumes e outras, também se criavam pequenos animais. Da mesma forma que na região das charqueadas, o cativo foi o braço forte da produção.

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População livre e população escrava do Rio Grande do Sul (1807-1887).

Ano

Livres e libertos

Escravos

População total

% de escravos

1807

30.873

13.469

44.342

30,38

1809

34.839

14.629

49.460

29,57

1814

50.045

20.611

70.656

29,17

1858

211.667

70.880

282.547

25,09

1860

223.367

76.109

309.476

24,59

1861

226.639

77.588

344.227

22,54

1862

294.725

75.721

370.446

20,44

1863

315.306

77.419

392.725

19,71

1872

367.022

67.791

434.813

15,59

1874

364.002

98.450

462.452

21,29

1883

637.862

62.138

700.000

8,88

1887

936.174

8.442

944.616

0,89

Fonte: CORSETTI, Berenice. Estudos da charqueada escravista gaúcha no século XIX. Dissertação (Mestrado). Universidade Federal Fluminense, Niterói, 1983.

II O povoamento e ocupação da fronteira sul

Até a primeira metade do século XVIII, a atividade criatória buscava, sobretudo, a extração do couro. O charque ganhou importância com o aumento da demanda na região de extração mineral no centro do país. Os rebanhos existentes nos pampas sulinos não eram suficientes e houve a introdução do gado platino pelo território onde hoje é a República Oriental do Uruguai. O contrabando de gado tornou-se corriqueiro e os limites da fronteira foram ignorados. As famílias de estancieiros “dominavam a ‘Vacaria Del Mar’, território de campos de criação de gado estendido desde a depressão central do Rio Grande de São Pedro até a região do Sacramento” (TORRONTEGUY, 1994, p. 30).

A charqueada foi uma atividade importante na formação socioeconômica do Rio Grande do Sul, sobretudo, na região sul do estado. A cidade de Pelotas originou-se e desenvolveu-se através do charque, transformando-se em um polo de produção. A historiografia rio grandense indica que Pinto Martins foi o precursor desta atividade nas terras sulinas (Cf. ASSUMPÇÃO, 1985).

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As charqueadas de Pelotas se localizavam às margens do arroio homônimo, pois

era de fácil navegação e, através dele, se escoava a maior parte da produção. Os

charqueadores recebiam gado do sul do Jacuí-Ibicuí, dos campos setentrionais do

Uruguai, entre outros. “Era muito grande o número de trabalhadores escravizados que

trabalhava nas indústrias do charque pelotense”. No censo de 1833, registrou-se na

cidade de Pelotas 10.873 habitantes, sendo que, 5.623 eram escravos (SIMÃO, 2001. p.

61 e 68).

III Escravidão na fronteira sul

Canguçu, Jaguarão, Pelotas, Piratini, Rio Grande e outros munícipios do sul do

estado tiveram expressiva participação de cativos na produção do charque e demais

atividades laborais. Nos dias atuais, esta região abriga o maior número de comunidades

negras do estado. A economia da fronteira sul esteve amparada na mão de obra cativa

enquanto vigorou o sistema escravista no Brasil. A historiadora e arquiteta Ester J. B.

Gutierrez coordenou pesquisa sobre as estâncias fortificadas que existiram na atual

região de Jaguarão, onde foram apreciados seis inventários e pelas informações obtidas,

concluímos que os cativos estavam presentes em todas as atividades produtivas.

Quadro representativo do trabalho cativo extraído a partir de seis inventários de estancieiros em Jaguarão-RS (1816-1865).

Ano

Estancieiros

Cativos

Imóveis

Município atual

1816

Francisco de Faria Santos

07

01

Jaguarão

1818

Ignácio José de Leivas

10

01

Jaguarão

1823

Ignácio Felix Feijó

08

03

Jaguarão

1824

Manuel Amaro da Silveira

54

06

Herval

1832

Joaquim Manuel Porciúncula

13

03

Jaguarão

1865

Francisco José Gonçalves da Silva

32

15

Jaguarão

Fonte: APERS. Jaguarão. Cartório Órfãos e Ausentes. Seis inventários. In: GUTIERREZ, Ester J. B. et al. Estâncias fortificadas. In: MAESTRI, Mário e BRAZIL, Maria do Carmo [Orgs.]. Peões, vaqueiros & cativos campeiros: estudos sobre a economia pastoril no Brasil. Passo Fundo: Ed. Universidade de Passo Fundo, 2009, p. 203.

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Nas estâncias situadas na região do município de Jaguarão, os cativos desempenharam diversas funções. Gutierrez apurou ocupações como: carpinteiro, alfaiate, campeiros, lavradores, pedreiros, cozinheira, salgador (Cf. GUTIERREZ et al, In. MAESTRI & BRAZIL, 2009, p. 203). É crível que os trabalhadores escravizados tenham desempenhado outras funções, além das já citadas.

Com o fim da escravidão no Brasil, a maioria dos cativos foi abandonada a própria sorte. Poucos foram aqueles que lograram êxito como produtores independentes. A maioria dos negros livres viveu em condições análogas com as da escravidão, sendo que as primeiras décadas após a Abolição foram de muita penúria para este segmento social.

No dia 11 de maio de 1901, chegou a Jaguarão o cônego Thomas Aquinas Schoenaers. Este religioso de nacionalidade belga permaneceu na cidade três anos, tempo suficiente para escrever cinquenta e nove cartas, que pertencem à obra Drie Jeren In Brazilie, primeira edição em flamengo da obra Três Anos no Brasil, relatando o cotidiano da cidade e do interior da região (SCHOENAERS In. SOARES & FRANCO, 2010, p. 69).

Schoenaers ficou impressionado com a grande quantidade de negros em

Jaguarão. Conforme o religioso, naquela época, "[

A maioria deles pertence à classe trabalhadora e

temos alguns exemplos, a nosso serviço" (SCHOENAERS In. SOARES & FRANCO, 2010, p. 71). O padre belga afirmou que a população total de Jaguarão era de aproximadamente 10.000 pessoas em 1901.

negra e descende de escravos [

mais da metade da população é

]

].

A escravidão recém havia acabado no Brasil quando Schoenaers chegou à Jaguarão. Na fronteira sul do Rio Grande do Sul, como em outras partes do Brasil, os negros libertos continuaram trabalhando sem receber dignamente pelo que faziam. Muitas vezes, trabalharam em troca de comida e moradia. Neste período, formaram-se algumas comunidades negras em terras devolutas, nos interstícios das fazendas ou em lugares ermos.

Os relatos dos viajantes são importantes fontes para o historiador, no entanto, é prudente relativizar determinados dados. Schoenaers impressionou-se com o elevado número de negros vivendo nesta região da fronteira. O alto percentual de negros na

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composição da população de Jaguarão decorre diretamente das atividades econômicas de um passado escravista recente.

Em 1859, quatro décadas antes da chegada de Schoenaers ao Brasil, Jaguarão possuia 238 fazendas criatórias e 343 cativos. Os municípios de Alegrete, Bagé, Canguçu, Jaguarão, Piratini e São Borja somavam 1.153 trabalhadores escravizados. Este dado revela que a mão-de-obra escrava foi significativa na fronteira sul.

Fazendas, gado e trabalhadores em alguns municípios do Rio Grande do Sul em 1859.

Município

N. de fazendas

N. de vacuns

Capatazes

Peões

Cativos

Alegrete

391

777.232

124

159

527

Bagé

260

551.640

96

41

-

Canguçu

51

67.129

25

4

-

Jaguarão

238

285.800

107

-

343

Piratini

63

35.210

-

62

130

São Borja

568

438.840

171

339

153

Total

1.571

2.155.851

523

605

1.153

Fonte: MAESTRI, Mário [Org.]. O negro e o gaúcho: estâncias e fazendas no Rio Grande do Sul, Uruguai e Brasil. Passo Fundo: Ed. da Universidade de Passo Fundo, 2008, p. 180.

IV Para onde foram os negros após a Abolição?

Em 1901, Thomas Aquinas Schoenaers visitou uma propriedade rural no

município de Jaguarão e encontrou “[

teto de palha santa-fé”, que serviam de moradia aos peões, “todos negros”, residindo com mulheres e filhos (SCHOENAERS In. SOARES & FRANCO, 2010, p. 86). Este registro feito doze anos após a Abolição revela que os trabalhadores escravizados livres,

cinco ou seis ranchos com paredes de barro e

]

muitas vezes, permaneceram trabalhando nas unidades produtivas em condições parecidas com as da escravidão.

A Abolição garantiu a liberdade aos trabalhadores escravizados, no entanto, os ex-escravos não tiveram muitas opções com o fim do cativeiro, pois não receberam terras e nem foram indenizados. Impressionado com o quadro social da região de Jaguarão, Schoenaers criticou a forma como o negro era tratado na sociedade livre:

A lei de 1888 deu a todos plena liberdade. Pelo menos nas palavras, a

escravidão, aqui, acabou. Mas o será, também, de fato? [

o negro,

]

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aqui, é sempre desprezado, um ‘João ninguém’ [

para mim, que a escravidão continua (SCHOENAERS, In. SOARES

]. Por certo, tenho,

& FRANCO, 2010, p. 88).

Mas não era só nas fazendas, estâncias e médias propriedades que o religioso

belga encontrou situações parecidas com o trabalho escravo. Nas cidades a situação se

repetia. Conforme o padre, “[

negra, pais e filhos.” Estes moravam em uma casa pequena nos fundos da propriedade do patrão. A remuneração consistia em “receber alimentação e vestuário” (SCHOENAERS In. SOARES & FRANCO, 2010, p. 86).

tem a seu serviço uma família

]

cada família branca [

]

III O movimento quilombola no Rio Grande do Sul

No Rio Grande do Sul, o movimento quilombola organizado nasceu juntamente com a abertura dos primeiros processos visando o reconhecimento das comunidades negras à condição de remanescentes de quilombos. As comunidades de Casca, Família Silva e Morro Alto foram as primeiras a invocarem a aplicação do artigo 68 do ADCT. A partir deste momento, lideranças das comunidades e do movimento negro receberam apoio de parte da academia, iniciando-se o movimento social em favor dos povos remanescentes de quilombo.

O quilombo Família Silva está localizado no bairro Três Figueiras, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Trata-se de uma comunidade negra urbana que teve início com a fixação das primeiras famílias na região por volta de 1940. A partir de 1960, com a valorização da área, a comunidade sentiu-se ameaçada pela especulação imobiliária. As lideranças da comunidade buscaram apoio no Instituto de Assessoria às Comunidades Remanescentes de Quilombos, Movimento Negro Unificado do Rio Grande do Sul, Ministério Público Federal e na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul (CPISP, 2015).

Conscientes de seus direitos, a comunidade contatou com o INCRA em 2004, e abriu um processo visando à titulação das terras. Em 10 de dezembro de 2004, a comunidade negra foi reconhecida pela Fundação Cultural Palmares como remanescente de quilombo. No dia 21 de setembro de 2009, a Família Silva teve sua área titulada (CPISP, 2015).

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A Comunidade de Casca, pertencente ao município de Mostardas, foi a primeira

comunidade negra rural do Rio Grande do Sul a ser reconhecida pela Fundação Cultural Palmares como comunidade remanescente de quilombo. A mobilização da comunidade iniciou em 1971, quando as lideranças recorreram aos órgãos públicos para solicitar o

reconhecimento do direito à propriedade da terra. Em 1988, os herdeiros fizeram a solicitação de titulação à prefeitura de Mostardas (Cf. LEITE, 2002, p. 47).

Em 1996, sabendo das pesquisas desenvolvidas pelo Núcleo de Estudos sobre Identidade e Relações Interétnicas da UFSC NUER, o prefeito de Mostardas solicitou ao referido órgão um laudo antropológico e assessoria jurídica, visando à regularização fundiária das terras da Comunidade de Casca (Cf. LEITE, 2002, p. 47).

A Comunidade de Casca foi certificada pela Fundação Cultural Palmares em 19

de julho de 2001. No entanto, só obteve a titulação das terras em novembro de 2010. A luta da Comunidade de Casca motivou outras comunidades negras do Rio Grande do Sul, que se organizaram em associações e partiram em busca de seus direitos. Em 13 de julho de 2001, foi celebrado convênio entre a União Federal, através da Fundação Cultural Palmares, e o Estado do Rio Grande do Sul, por meio da Secretaria Estadual do Trabalho, Cidadania e Ação Social, com o intuito de auxiliar as comunidades negras (BARCELOS et al, 2004, p. 17).

Na década de 1960, a Comunidade Negra de Morro Alto, situada nos municípios de Maquiné e Osório RS, presenciou os primeiros conflitos pela posse da terra. Em

apresentou sua demanda de regularização das terras

ocupadas e a recuperação daquelas perdidas sob diversas formas” aos órgãos

competentes (BARCELOS et al, 2004, p. 17).

2001, a referida comunidade “[

]

Em 12 de junho de 2002, realizou-se audiência pública, na qual a Procuradoria da República e a comunidade estabeleceram um consenso sobre a delimitação territorial. No dia 03 de março de 2004, a Fundação Cultural Palmares reconheceu a Comunidade Negra de Morro Alto como “Remanescente das Comunidades de Quilombo” (BARCELOS et al, 2004, p. 484). A Comunidade Negra de Morro Alto ainda não obteve a titulação das terras.

Com a titulação das primeiras áreas quilombolas no Rio Grande do Sul, o movimento das comunidades negras se consolidou. Em curto espaço de tempo, o

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número de comunidades quilombolas rio-grandenses aumentou, revelando um novo

quadro social no campo e nas cidades. Termos desconhecidos de muitos gaúchos, como

“comunidades quilombola”, “terras quilombolas”, foram incorporados aos discursos e

plataformas governamentais. Lamenta-se que somente três comunidades tiveram suas

terras tituladas.

IV Comunidades negras da fronteira sul

Quando nos referimos à fronteira sul, aludimos à região do estado do Rio

Grande do Sul situada na fronteira com o Uruguai e Argentina. Trata-se da região

pertencente à metade sul do referido estado, com graves problemas de desenvolvimento

e que apresenta índices sociais semelhantes às regiões mais pobres do país.

Coincidentemente, na metade sul do Rio Grande do Sul localiza-se a maioria das

comunidades negras.

Quadro com 11 comunidades quilombolas localizadas na metade-sul do Rio Grande do Sul.

         

Reconhecida

Comunidade

Município

Número de

famílias

Área em hectares

Média de

ha por

pela

Fundação

família

Cultural

Palmares

     

Aproximadamente 40 hectares. A comunidade

   

Madeira

Jaguarão

6

famílias

afirma que a área inicial era de aproximadamente 100 ha.

6,6 ha por família

24/03/2010.

Lichiguana

Cerrito

15

famílias

Aproximadamente 30 ha

2 ha por família

24/03/2010.

Rincão do

     

25 ha por família

 

Quilombo

Piratini

60

famílias

1.500 há

24/03/2010.

Faxina

Piratini

5

famílias

Aproximadamente 2 ha

0,4 ha por família

27/04/2010.

Rincão do

   

Aproximadamente 117 ha somando- se as terras de todos os membros. A área não é contínua.

6,5 ha por família

 

Couro

Piratini

18

famílias

27/04/2010.

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Quilombo

Piratini

17

famílias

Os moradores não informaram.

   

São Manuel

   

20

famílias

     

Quilombo do

Candiota

quilombolas e 14 não- quilombolas

1.200 ha

35,20 ha

19/11/2009.

Candiota

por família

Fazenda

   

No passado eram 68 ha. A área foi reduzida com o tempo.

13,6 ha por família. Atualmente a média é de 5 ha por família.

 

Cachoeirinha

Piratini

5

famílias

07/06/2006.

Várzea dos

Pedras

23

famílias

3,5 há

 

24/03/2010.

Baianos

Altas

 
 

Pedras

   

35 ha por família

 

Solidão

Altas

2

famílias

70 há

24/03/2010.

Bolsa do

Pedras

       

Candiota

Altas

7

famílias

0,62 ha

24/03/2010.

Fonte: Informações obtidas junto às lideranças das comunidades negras em pesquisa de campo realizada pelo Programa de Educação Tutorial História da África em abril e maio de 2011.

Após visita in loco em 2011, constatamos que a maioria das comunidades negras

pertencentes à fronteira-sul do Rio Grande do Sul é constituída de poucas famílias,

sendo a menor composta de duas e a maior possuia 60 unidades familiares. Todas estão

localizadas no interior dos municípios e em regiões de difícil acesso. Não apresentavam

problemas fundiários graves, como conflitos pela posse da terra, mas algumas

comunidades tiveram a área inicial reduzida. Outras sobreviviam em pequenas nesgas

de terra.

As comunidades negras localizadas na região da fronteira-sul têm a história

ligada ao passado escravista e não identificamos nenhuma que tenha se originado de

quilombo. Todas se constituíram após a ocupação de terras doadas, compradas ou

herdadas e cresceram por incorporação de novos membros e pelo crescimento

vegetativo.

Na época da pesquisa, as famílias das comunidades negras sulinas trabalhavam a

terra em lotes individuais. A prática do mutirão é constante, sobretudo, nos momentos

de plantio e colheita, quando a atividade exige número maior de trabalhadores.

Percebemos que a solidariedade permeia as relações quando alguém da comunidade

necessita de ajuda. As propriedades são pequenas e insuficientes para o sustento de

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todos, fato que obrigou alguns membros, especialmente os jovens, saírem da comunidade em busca de emprego. As cidades de Pelotas, Rio Grande, Porto Alegre e outras da circunvizinhança absorveram esta mão de obra. Também encontramos moradores das comunidades que trabalham em fazendas, granjas e agroindústrias.

A renda dos moradores das comunidades é muito baixa. As famílias produzem para o consumo e, eventualmente, comercializam o excedente nas cidades. Os moradores reclamaram dos atravessadores que se dirigiam à comunidade e exploravam os produtores oferecendo valores muito abaixo do mercado. A precariedade das estradas

e a localização da comunidade em regiões de difícil acesso eleva o custo do transporte e reduz o lucro. Como os produtores não conseguiam vender diretamente nos mercados tradicionais transformaram-se em presas fáceis dos atravessadores.

Encontramos comunidades que estão isoladas devido à precariedade das estradas

e pontes. Não se percebe a presença do Estado, visto que nenhuma comunidade se

beneficiava de programas federais como o Programa Brasil Quilombola. Nas falas

informais, percebe-se descrença no poder público.

Os moradores da comunidade se identificam como remanescentes de quilombo ou quilombolas e disseram que alguma coisa mudou para eles após o reconhecimento oficial. No entanto, esperam muito mais do Estado e que o mesmo equacione da falta de estradas, estabeleça transporte regular de pessoas (linhas de ônibus), resolva a falta de atendimento básico na área da saúde. As comunidades estabeleceram como pauta a construção e reforma das moradias, projetos de valorização do artesanato local, programas de capacitação e regularização da documentação individual.

No período em que foi realizada a pesquisa de campo, as crianças das comunidades estudavam em escolas públicas e não desfrutavam de um currículo específico. O transporte escolar era de responsabilidade das prefeituras. Não encontramos nenhuma escola dentro de comunidade quilombola.

As comunidades guardam saberes, histórias e cultura própria. No entanto, reclamam que muitos pesquisadores se dirigem às comunidades e não retornam mais. Faz-se necessário registrar os saberes, a história e manifestações culturais das comunidades porque elas tendem a desaparecer, embora haja preocupação do Estado

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com este segmento social. Muitas famílias estão saindo para os centros maiores em busca de empregos, assistência médica, educação, entre outros.

V

Quatro comunidades negras do Rio Grande do Sul

V

I Quilombo Corrêa

No município de Giruá, estado do Rio Grande do Sul, encontra-se a comunidade negra Quilombo Corrêa. Esta comunidade tem suas origens ligadas à construção da estrada de ferro Cruz Alta - Ijuí, que começou a ser construída por volta de 1906 e a primeira parte foi concluída em 1915. Conforme relato do morador mais velho, líder da comunidade, seu avô trabalhou nas matas da região fazendo dormentes para a ferrovia. É provável que este senhor e outros trabalhadores da ferrovia continuaram no local prestando serviços aos proprietários de terra da região. Trabalhavam como lavradores nas plantações de trigo, milho e posteriormente soja. 2

A comunidade negra Quilombo Corrêa, distante 20 km da sede do município,

em 2010, a Fundação Cultural Palmares certificou como Comunidade Remanescente de Quilombo. No entanto, o INCRA ainda não emitiu o título da terra. Conforme FERREIRA; FUCKS; BONFADA (2011), a área de terra é de aproximadamente 6 hectares, que foi adquirida pelo patriarca da família Sr. Corrêa, que obteve recursos através do trabalho como peão e agregado de uma fazenda vizinha.

A comunidade negra Quilombo Corrêa cultiva soja, milho, feijão, arroz, batatas

e

outros produtos em 6 ha, complementa a renda com a prestação de serviços a terceiros

e

com os rendimentos dos benefícios da Previdência Social. As moradias são humildes,

construídas com tábuas cobertas de telhas de barro, metal ou cimento. Não há projetos

de maior envergadura, que possa alavancar o desenvolvimento da comunidade.

V II Passo do Araçá

A comunidade negra Passo do Araçá, situada em Engenho Velho, município de

Catuípe/RS, é composta de oito famílias. Originou-se com a vinda de um senhor da família Pacheco dos Santos proveniente de Itaqui/RS. Os moradores da comunidade afirmam que Santos casou-se com uma mulher da família Oliveira e deixaram numerosa

2 Informações obtidas em vista à comunidade Quilombo Corrêa. Entrevista feita pelo autor em

Abril/2012.

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descendência. Não há informações precisas sobre o ano do deslocamento de Pacheco dos Santos de Itaqui. Também não sabemos se este senhor era livre, cativo ou quilombola. Os moradores mais velhos da comunidade são Acácio Miranda dos Santos (73) e Nair Santos de Oliveira (74). Ao falar do tempo passado, os moradores lembram das festas e danças, animadas com 'gaita' (sanfona) e violão. Sublinharam a popularidade dos "Bailes do Araçá". Relataram com tristeza o preconceito sofrido no passado por serem negros e pobres.

A área inicial ocupada pela comunidade era de 24 ha. A comunidade viu a área

inicial ser reduzida para menos de três ha. As vendas de terra ocorreram por necessidade de sobrevivência. Os membros da comunidade revelaram que tiveram uma vida muito sofrida, pois precisaram trabalhar para os proprietários vizinhos e não receberam pagamento coerente com a atividade exercida.

Em 10 de fevereiro de 2011, a comunidade negra Passo do Araçá foi reconhecida como remanescente de quilombo pela Fundação Cultural Palmares. Atualmente a comunidade produz alimentos para a merenda escolar. Sentem-se orgulhosos com as visitas que recebem e o reconhecimento fez aumentar a autoestima da comunidade. O governo municipal ofertou serviços básicos para melhorar a qualidade de vida.

V III Comunidade Madeira

Esta comunidade está situada no interior do município de Jaguarão. Não há como precisar se a origem da comunidade é um quilombo de cativos fugidos. A memória dos moradores relata que na região havia o "Cerro dos Mulatinhos" habitados por três negros que não deixaram descendentes, também, um lugar chamado de "Quilombo".

A designação de Madeira para a comunidade deriva do sobrenome dos primeiros

povoadores: Leontina Lima Farias e Antônio Maria Farias, Aurélio Madeira e Mariana Ávila Madeira. Aurélio era índígena nascido no Uruguai, mas que teria vindo para o Brasil e se fixado no local. Um dos moradores, Antônio Lima de Farias, contou que seu avô teria nascido na África e entrou no Brasil na condição de escravo. Relatou também

que seu avô participou de uma guerra, mas não soube precisar qual delas.

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A Comunidade Negra Rural Madeira está localizada na região limítrofe com o

Uruguai e o fluxo de pessoas foi constante em todas as épocas. Típica região de fronteira, negros uruguaios teriam ultrapassado a fronteira e se fixado no lugar. É provável que este fato tenha ocorrido após a libertação dos cativos no Brasil, em 1888, visto que, em 15 de dezembro de 1842, Fructuoso Rivera decreta abolição da escravidão no Estado Oriental. Portanto, o Uruguai aboliu a escravidão quatro décadas antes do Brasil e é crivel que os cativos daqui tendessem a fugir para o lado de lá da fronteira. Com a Abolição da escravidão no Brasil é possível que alguns tenham realizado o caminho de volta.

A comunidade negra Madeira ocupa uma área de 40 hectares, sendo que 20

destes são de posse, sem título. Na documentação enviada à Fundação Cultural Palmares consta o número de 60 famílias. As mesmas trabalham lotes individuais e produzem para o consumo, sendo o excedente comercializado com pessoas de fora. Produzem várias hortaliças, abóboras, batata doce, feijão, laranjas, milho. Criam para o consumo e trabalho bovinos, suínos, ovelhas galinhas e cavalos. Os moradores completam a renda com o artesanato a base do couro, lã e vime. Quando não há trabalho na comunidade vendem a mão de obra aos vizinhos, sobretudo, em unidades criatórias e plantações. Há famílias que participam dos programas sociais e recebem benefícios.

O nível de escolaridade dos moradores é primeiro grau incompleto. Há uma

escola bem próxima da sede da comunidade. As casas são de tijolos e madeira. Todos têm acesso à água e energia elétrica. A maioria das pessoas é católica. É muito forte a tradição gauchesca e alguns moradores participam ativamente das festividades

relacionadas à Guerra Farroupilha, desfile de cavalarianos, Centros de Tradição Gaúcha, rodeios e outros. O quadro geral da comunidade é de carência, ou seja, são pessoas que sobrevivem com o mínimo e não há perspectivas de desenvolvimento econômico/social sem intervenção do Estado.

A comunidade reuniu-se em 27 de maio de 2009 para fazer a autodefinição de

remanescentes de quilombo. Em 11 de agosto daquele ano, o processo foi aberto junto a Fundação Cultural Palmares e, no dia 06 de outubro de 2009, a comunidade foi reconhecida como "Comunidade de Madeira" remanescentes de quilombo. Em 13 de julho de 2010, iniciou-se processo junto ao INCRA para regularização dos territórios

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quilombolas, porém ainda não foi titulada. Não verificamos a existência de conflitos pela posse da terra.

V IV Comunidade Negra Rincão do Quilombo

A comunidade negra Rincão do Quilombo está situada no município de Piratini,

no Rio Grande do Sul. Os moradores citam o ano de 1860, como início da ocupação da área, que foi doada pelo fazendeiro João Cardoso ao cativo Manoel Cardoso, bisavô dos

atuais moradores da comunidade. Este local de 1.500 hectares era conhecido como fazenda Arvorezinha.

A comunidade era composta de 80 famílias em fevereiro de 2009. As famílias

ocupam áreas que vão de dois a vinte hectares, quase na totalidade regularizadas. O trabalho não é coletivo, exceto nos momentos de intensa atividade como no plantio e colheita. Cultiva-se abóboras, feijão, milho, hortaliças. Há pomares com laranjas e outras frutas típicas da região. São criadas aves, bovinos, equinos, ovinos e suinos. A produção é para o consumo e o excedente é comercializado. A comunidade vale-se da

produção artesanal a partir da lã de ovelha. Os programas sociais do Governo Federal ajudam a complementar a renda.

As casas são de alvenaria e madeira. A água provém de cacimbas e todas têm acesso à rede de energia. Há uma escola próxima da comunidade. Os moradores dividem-se entre católicos e evangélicos. Mesmo não tendo problemas com a propriedade da terra, a comunidade é carente. Os moradores queixam-se de problemas em relação ao abastecimento de água, transporte escolar, moradias precárias e acesso aos serviços de saúde.

VI Conclusões

A escravidão foi praticada em todo o Brasil por mais de três séculos. O Rio

Grande do Sul foi importante pólo produtor de couro e charque baseado na mão de obra escrava. Os cativos sulinos também trabalharam nas roças, olarias, transporte, portos, entre outros. Após a Abolição, parte da população negra permaneceu nas antigas unidades produtoras trabalhando em condições análogas às da escravidão; outros trabalhadores escravizados livres perambularam de fazenda em fazenda; outros

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engrossaram as periferias das cidades, ainda existiram ex-cativos que formaram pequenos núcleos rurais ocupando terras devolutas, doadas, compradas ou herdadas.

No Rio Grande do Sul, parte dos ex-cativos também formou comunidades negras, que permaneceram no anonimato até a segunda metade do século XX. Nas décadas de 1970-80, correram alguns conflitos pela posse da terra revelando a presença de povoados formados em sua maioria por negros. As comunidades negras ganharam maior visibilidade após o conhecimento do artigo 68 do ADCT. Inicialmente, os dirigentes do Estado, o movimento negro, ativistas e parte da população imaginavam que havia somente alguns aglomerados rurais negros dispersos pelo estado. Em dezembro de 2015, a Fundação Cultural Palmares contabilizou a existência de 128 comunidades negras no Rio Grande do Sul.

As comunidades negras da fronteira-sul apresentam as mesmas características das demais comunidades negras rurais brasileiras. São núcleos rurais com muitas dificuldades econômicas, sem acesso à maioria das políticas públicas, com os maiores índices de pobreza, com problemas fundiários, moradias precárias, falta de saneamento, transporte, etc.

Não encontramos comunidades envolvidas em conflitos pela posse da terra. Algumas reconhecem que a área atual foi bastante reduzida em relação à área inicial e apontam as vendas de terras em tempos pretéritos como responsável pela diminuição do território. As negociações das terras aconteceram por motivo de dívidas contraídas pelas famílias, doenças dos moradores e êxodo para a cidade em busca de melhores condições de vida.

Mapa do Rio Grande do Sul com número de comunidades negras por município

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– Teresina – Piauí 18 a 20 de novembro de 2015 Fonte: Mapa elaborado por Ketlen

Fonte: Mapa elaborado por Ketlen Pinto da Silva Fonseca. (2015).

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PROJETANDO CANÇÕES EM NAÇÕES LITERÁRIAS

Assunção de Maria Sousa e Silva 3

A escrita de autoras africanas e afro-brasileira traz como traço identificador, em sua maioria, a metáfora do corpo feminino sob controle institucional ou patriarcal. Numa margem, são escritas tecidas no fluxos e refluxos da memória que revelam a violência sistêmica sofrida pelas mulheres; noutra margem são escritas que reivindicam o lugar de fala dos sujeitos femininos na perspectiva de gênero, no contexto patriarcal e pós- colonial. No caso africano, mesmo não correspondendo às chamadas vagas do feminismo ocidental, as construções poéticas das autoras contribuem para refletir sobre o espaço de participação do sujeito feminino na construção da nação. No caso brasileiro, evidencia-se uma escrita que identifica as fraturas sociais da nação brasileira, sinalizando para os entraves que dificultam a emancipação feminina. Os avanços conquistados ainda não foram capazes de modificar a realidade de opressão contra o sujeito feminino, especialmente negro. Nesse exercício de expor as rasuras socioculturais e identitárias, os poemas de Conceição Evaristo (Brasil), Paula Tavares (Angola) e Conceição Lima (São Tomé e Príncipe) podem ser lidos em diálogo entre si, na perspectiva de evidenciar gestos poéticos de resistência ao controle do corpo feminino. As artimanhas de opressão sucumbem nos “projetos de canção” e de nações poéticas quando a figura feminina é evocada para clamar o seu “grito”, expor suas “escarificações” como forma de resistir e denunciar. Por esta via reflexiva, o objetivo este artigo desenvolve uma breve leitura de poemas das autoras supracitadas, embasada nas ideias teórico-críticas de Rita Segato, Lélia Gonzalez, Sueli Carneiro e Inocência Mata.

Palavras-Chave: Poema. Feminino. Identidade. Nação. Negro.

3 Doutora em Letras/ Literaturas de língua portuguesa pela PUCMINAS. Professora da UESPI/UFPI.

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INTRODUÇÃO

O poema “O cataclismo e as canções”, da poetisa são-tomense Conceição Lima

que versa:

Feliz o que de mim restar, depois de mim Se uma só das canções cantadas Viver além daquele que em mim agora canta. Da hecatombe não salvaria contudo Uma só das canções que cantei e canto. Às entranhas do olvido Antes roubaria o riso das crianças E a idade do provérbio. Assim aos vindouros Intacto ofertaria o enigma da luz. (LIMA, 2012, p. 39)

O poema instiga refletir sobre qual meio o eu poético quer deixar o “intacto [ ]

enigma da luz” como legado. Podemos lê-lo em três compassos: no primeiro, há um desejo de que se perenize a presença do eu poético pela canção cantada, isto é, pelo poema; depois, que este desejo não será o maior dos desejos, se não se retirar das entranhas do esquecimento “o riso das crianças/ e a idade do provérbio”. Assim, é que seria ofertado à geração vindoura “o enigma da luz”. A sabedoria então que o eu poético quer deixar como herança é a que traz o elo entre o encantamento que se traduz no “riso da criança” e a sabedoria dos ancestrais ou da tradição que se traduz na durabilidade dos provérbios.

As sabedorias legadas nas canções poéticas vinculam-se ao mecanismo mobilizador da memória e, nesta perspectiva, traduz os meandros socioculturais e identitários dos eus coletivizados. Pelo poema, não havendo memória sem identidade ou vice-versa, os sujeitos se constroem com e pelas “sequencias temporais” da memória que vão tendo significados para eles. São pelas memórias que se revelam o modo de inserção no mundo. O dizer o mundo e construí-lo imaginariamente pela escrita poética se realiza através do processo de construção que chamamos de nações literárias projetadas, a partir do lugar dos sujeitos subalternizados.

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No compasso

A escrita de autoras africanas e afro-brasileira traz como traço identificador, em sua maioria, a metáfora do corpo feminino sob controle institucional ou patriarcal.

Numa margem, são escritas tecidas no fluxos e refluxos da memória que revelam a violência sistêmica sofrida pelas mulheres; noutra margem são escritas que reivindicam

o lugar de fala dos sujeitos femininos, na perspectiva destes, no contexto patriarcal e pós-colonial.

A poetisa mineira Conceição Evaristo constrói poemas que, de uma forma ou de outra, exemplificam esse movimento. Poemas, publicados anteriormente e recolhidos no livro Poemas da recordação e outros movimentos (já na segunda edição, 2011), ilustram de maneira instigante a condição e o papel da mulher na sociedade. Podemos aqui citar: “Vozes-mulheres”, “Filhos da rua”, “Todas as manhãs”, “Meu rosário”, “Eu- mulher” e muitos outros que revelam a voz feminina como foco central e o corpo feminino como extensão do corpo poemático. Ao mesmo tempo, a voz feminina releva

o mundo, à medida que socializa a sua vivência, transbordando-a em “escrevivência”.

Todavia, o corpo feminino negro, na maioria das vezes, apresenta-se como signo demolidor dos paradigmas de subserviência, não mais conformado com sua condição de subalternidade. O sujeito negro feminino, que se enuncia, busca e crava a sustentabilidade de um sonho coletivo de pertencimento étnico demarcado por signos e construção de sentido, engendrado das imagens poéticas que se erguem no ato de poetar. Vejamos “Meu corpo igual”, poema dedicado em memória ao poeta afro-

brasileiro Adão Ventura.

Na escuridão da noite meu corpo igual fere perigos adivinha recados assobios e tantãs.

Na escuridão da igual meu corpo noite

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abre vulcânico a pele étnica que me reveste.

Na escuridão da noite meu corpo igual, boia lágrimas, oceânico, crivando buscas cravando sonhos aquilombando esperanças na escuridão da noite. (EVARISTO, 2011, p. 22)

As três estrofes compõem um breve percurso de sublevação do sujeito que, igual ao corpo do poeta homenageado, negro corpo, submerge na escuridão da noite para, invisível, tramar o enfretamento. Se o par signo “escuridão da noite” / “corpo”, na primeira estrofe, com a iminência dos perigos solicita o despiste entre “assobios”, toques dos “tantãs” para a empreiteira do levante; na segunda estrofe, o mesmo par de signo, agora amalgamado, com procedimento de dissimulação, empreende o levante de uma assunção de sua etnicidade pela ação de abrir “vulcânico / a pele étnica/ que me reveste”. Esse levante de uma consciência mobilizadora ou automobilizadora de seu ethos faz-se desdobrável e concluído na terceira estrofe, onde o corpo insurreto desbrava o caminho da conquista de uma sonhada resistência. Por isso, o corpo negro que é também o corpo-poema se agiganta nesta última estrofe e, após um momentâneo e oceânico soluço, segue “crivando buscas/ cravando sonhos / aquilombando esperanças” – uma profusão de gradativos gerúndios, servindo para reafirmar a identidade étnica e cultural do eu enunciador.

Talvez seja por essa força internalizada e, ao mesmo tempo exposta, de resistir que o signo da esperança seja corrente nos variados poemas de Conceição Evaristo, como fio de amadurecimento da menina que se torna mulher em momento de renovação do corpo para novos caminhos, novas trilhas da vida, como no poema “Para a menina” que diz:

Sonho os dias da menina

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e a vida surge grata

descruzando as tranças

e a veste surge farta

justa e definida

e o sangue se estanca

passeando tranquilo na veia de novos caminhos, esperança. (EVARISTO, 2011, p. 33)

No entanto, essa esperança nutrida no tempo da infância parece se perder quando vitimada pelo ato de violência contra o corpo feminino no poema seguinte. O corpo da menina, como veremos, é o locus da dor e do sofrimento causado pelo “másculo cerol” cuja representação é o amalgama do poder masculino e do poder institucional. A menina abandona o feto no interior do “banheiro público”, espaço metonímico da cidade.

Da menina a pipa

e

a bola da vez

e

quando a sua íntima

pele, macia seda, brincava no céu descoberto da rua um barbante áspero, másculo cerol, cruel rompeu a tênue linha da pipa-borboleta da menina.

E quando o papel

seda esgarçada da menina estilhaçou-se entre

as pedras da calçada

a menina rolou entre a dor

e

o abandono.

E

depois, sempre dilacerada,

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a menina expulsou de si uma boneca ensanguentada que afundou num banheiro público qualquer. (EVARISTO, 2011, p. 44)

“Da menina, a pipa” expõe questões centradas, especificamente do feminino, e em maior evidência do feminino negro, pobre, que vagueia pela cidade e se acha às margens, expurgado. Conceição Evaristo toca em um dos pontos cruciais de exclusão: a violência sexual e de gênero que traz consigo outros males. A perda precoce da infância e da adolescência, o banimento e o estado abjeto do corpo feminino que a cidade não inclui socialmente. O corpo banido da esfera de decisão de ter ou não ter o filho, de criá-lo, de ser mulher-mãe. Portanto, o poema trata da violência sexual que, além de desagregar, impõe como castigo maior a negação da maternidade.

A violência do corpo feminino no poema se explicita pelo manuseio dos termos próprios do universo infantil e que são postos em desvios semânticos. O título “Da menina, a pipa”, construído por meio de anacoluto, enuncia um deslocamento sintático que se estende à brutalidade da tragédia vivida pela menina. Essa inversão frasal que indicia o rompimento da sintaxe e a denegação do campo semântico espelha a ruptura abrupta da fase da infância da “pipa-borboleta da menina” pelo “cerol cruel”. A fase da infância, simbolizado pela maciez da pele infantil da menina que brinca livre na rua é rompida pela dramática violência do “barbante áspero” e se perde nos vãos da cidade, evidenciando o problema social e a negligência da sociedade diante do cuidado para com as crianças brasileiras. Com esse problema, Conceição Evaristo de maneira conscienciosa leva o/a leitor/a à reflexão sobre o papel da família, da sociedade e do Estado negligentes quanto à proteção da criança e do adolescente. Mas, mais que isso, ao visualizar o corpo feminino, seja da mãe que aborta ou do feto “boneca ensanguentada”, em desvalio, remete à subjugação feminina e à violação de seus direitos.

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O poema, por isso, sintoniza-se com o que Rita Segato (2014) expõe em entrevista a Karina Bidaseca 4 , ao tratar sobre o corpo feminino. Na entrevista, Segato considera que no corpo feminino projetava-se um “campo de batalh[a] onde se plantavam as bandeiras do controle territorial” 5 no contexto de guerra não convencional. Partindo da noção de corpo como território para a compreensão dos aspectos e da necessidade de uma política de identidade em rede, a pesquisadora considera que o corpo feminino é o “último espaço de soberania, o último que controlamos quando todas as outras posses estão perdidas” (SEGATO, 2014). Textualmente ela diz que

o corpo das mulheres é particularmente afetado por este paradigma

territorial que domina hoje o pensamento contemporâneo. (

violência sexual tem componente muito mais expressivos do que instrumentais, não persegue um fim, não é para obter um serviço. A violência sexual é expressiva. A agressão ao corpo de uma mulher, sexual, física, expressa uma dominação, uma soberania territorial, sobre um território-corpo emblemático (SEGATO, 2014, s/p).

a

)

Em “Da menina, a pipa” de Conceição Evaristo, o corpo menina mulher se encena na arena central da violência de uma sociedade masculinizada e racializada. É um corpo que não tem controle sobre si, pois está dilacerado e sob domínio simbólico do outro-sujeito detentor das decisões, bem figurado na imagem do “barbante áspero, / másculo cerol, cruel/ [que] rompeu a tênue linha/ da pipa-borboleta da menina” sob o controle do Estado negligente. O poema se encerra com a morte física do nascituro e a morte simbólica da menina/mulher no espaço público da cidade, local de medo e insegurança:

E depois, sempre dilacerada,

a menina expulsou de si

uma boneca ensanguentada que afundou num banheiro

público qualquer.

4 Entrevista de Rita Segato a Karina Bidaseca in “Muyer y cuerpo bajo control” In http://congresoestudiosposcolonialeswordpress.com/tag/karina-bidaseca/ acesso em 15/06/2014.

5 Tradução livre do espanhol para o português pela autora do artigo.

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A representação da menina expurgada no banheiro do espaço público redimensiona o lugar ou o não-lugar da pessoa negra, no contexto de sua “denegação” e do nível de negociação à soberania do corpo às mulheres. Ao corpo-mulher, o corpo- feto é delegado o massacre simbólico.

Desta forma, circunscrito em uma conjuntura pré-moldada por concepções de inferiorização e/ou objetalização por razão de raça, de etnia e de sexo, os poemas remetem à realidade em que racismo (institucional e cultural) e sexismo 6 prevalecem. Vale lembrar que tal realidade se apresenta como problema histórico e social que interfere sobremaneira para igualdade de gênero, de classe e de raça. Lélia Gonzalez, ativista negra brasileira, alertava no final do século XX, para o silenciamento quanto à realidade da mulher negra no seio das preocupações e do discurso das feministas não- negras. Segundo ela,

Em termos de escritos brasileiros sobre o tema, percebe-se que a mulher negra, as famílias negras que constituem a grande maioria dessas camadas não caracterizadas como tais. As categorias utilizadas são exatamente aquelas que neutralizam a questão da discriminação racial, do confinamento que a comunidade negra está reduzida. Por aí se vê o quanto as representações sociais manipuladas pelo racismo cultural também por um setor, também descriminalizado, que se apercebe de que, no seu próprio discurso, estão presentes os velhos mecanismos do ideal de branqueamento, do mito da democracia racial. (GONZALEZ, 1979, p. 15)

Portanto, a ativista evidencia os entraves que persistiam na sociedade. Os poemas de Conceição Evaristo se revelam como uma escrita que identifica essas fraturas sociais da nação brasileira que dificultam o processo de emancipação feminina. Os avanços conquistados ainda não foram capazes de modificar a realidade de opressão contra o sujeito feminino, especialmente negro.

6 Esse fenômeno aqui se agrava precisamente quanto às representações concebidas da mulher negra. Seguindo o pensamento de Lélia Gonzalez (1978). O processo de exclusão da mulher negra passa por dois papeis atribuídos à ela: a de doméstica e a de “mulata”. Este último, “implica na forma mais sofisticada de reificação: ela é nomeada de “produto de exportação”, ou seja, objeto a ser consumido

Esse tipo de exploração sexual da mulher negra articula-se

a todo um processo de distorção, folclorização e comercialização da cultura negra brasileira.”

pelos turistas e pelos nacionais burgueses. (

)

(GONZALES, 1978, p. 16)

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Nesta ordem, impõe-se uma perspectiva feminista, defendida pela filósofa Sueli Carneiro na qual não se pode separar a questão de gênero da de raça para se combater a opressão. Por que vivemos em uma sociedade plurirracial e agora, mais do que nunca, multigêneros, faz-se urgente um novo olhar e novas formas de conceber o humano. Assim, segundo Sueli Carneiro,

Esse novo olhar feminista e anti-racista, ao integrar em si tanto as tradições de luta do movimento negro como a tradição de luta do movimento de mulheres, afirma essa nova identidade política decorrente da condição específica do ser mulher negra. O atual movimento de mulheres negras, ao trazer para a cena política as contradições resultantes da articulação das variáveis de raça, classe e gênero, promove a síntese das bandeiras de luta historicamente levantadas pelos movimentos negros e de mulheres do país, enegrecendo de um lado, as reivindicações das mulheres, tornando-as assim mais representativas do conjunto das mulheres brasileiras, e, por outro lado, promovendo a feminização das propostas e reinvindicações do movimento negro. (CARNEIRO, 2011, s/p)

Trazem-se as vozes dessas intelectuais e ativistas para estabelecer o elo entre o que clama a sociedade e o que “grita” a poética de autoria feminina declaradamente negra como é a de Conceição Evaristo. Ambos discursos, o político-militante e o literário reivindicam seus lugares como forma de combater as desigualdades e promover outras formas de enfrentamento que estabeleça novos valores para a construção de uma “sociedade multirracial e pluricultural”.

Nesse exercício de expor as rasuras socioculturais e identitárias, os poemas de Conceição Evaristo dialogam em dimensões diferentes com os de Paula Tavares e Conceição Lima no sentido de evidenciar os gestos de resistência ao controle do corpo feminino. Nos poemas dessas autoras, as artimanhas de opressão sucumbem nos “projetos de canção” e de nações poéticas quando a figura feminina é evocada para clamar o seu “grito”, expor suas “escarificações” como forma de resistir e denunciar.

No contexto africano, onde as chamadas vagas do feminismo ocidental pouco repercutem nos atos de resistências das mulheres no seio da sociedade, visto que os modos de enfrentamento são clamados conforme a realidade político-social do lugar, as construções poéticas das autoras contribuem para refletir quanto ao espaço de participação do sujeito feminino na construção da comunidade imaginária. Paula Tavares (Angola) e Conceição Lima (São Tomé e Príncipe), advindas de contextos

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africanos diferentes, têm preocupações singulares no que concerne a tratar da inserção da voz feminina como variante estética modificadora dos seus universos literários.

Ambas, no ato de narrar a nação literária, recorrem às vozes femininas que ficaram silenciadas no decorrer do processo de construção e formação da nação angolana e são-tomense, respectivamente. Vale dizer, ao construir uma narrativa poética da nação literária, tanto Paula Tavares quanto Conceição Lima, focalizam a figura feminina como sujeito que evidencia o que se situa nos escombrosda história ou o que ficou às “sombras” do discurso hegemônicos.

Inocência Mata 7 explica que essas autoras tendem a “afrontar a tradição e a ideologia nacionalista”, enfatizando que isso acontece a partir dos títulos dos poemas, com nova dicção, com diferente tom, indicando decidir a falar de si, sem se isentar de falar de outros temas, inclusive de política. Dizia a pesquisadora: isso “não quer dizer que a política não esteja também”. Em outro momento, a pesquisadora afirma:

Essa poesia feita por mulheres pode ler-se como uma viagem iniciática que persegue pelos trilhos de um mapa interior, explorando os lugares íntimos a que, muitas vezes, não é suposto a mulher chegar ou que, em determinada época histórica, de harmonização de contrários endógenos, visando a construção da utopia da nação, não convinha nomear. Inconveniência (quase) subversiva dos códigos morais assume Paula Tavares. (MATA, 2010, p. 118).

Em entrevista 8 , quando indagada sobre a recorrência do corpo feminino e masculino em seus poemas, sobretudo aqueles poemas que abordam a situação de guerra e seus efeitos, Paula Tavares se refere a ele como o lugar de “campo de batalha”, onde “as coisas agonizavam”, em razão da falta de perspectiva para o futuro.

[

agonizadas, porque não se sabia muito bem que não se podia

programar o futuro, quer dizer essa noção de futuro que se segue à

Havia

noção de passado, do presente era muito difícil de prever [

e aí as coisas mais

]

o corpo

é

um campo de batalha, [

]

]

digamos um passado desmensurado, não é?, Um presente para viver a

Eu acho

cada momento, e não sabia o que é que seria o amanhã [

]

7 Conferência de abertura à comemoração do Dia internacional da mulher, em março de 2014, na Universidade da Polônia.

8 Entrevista realizada por mim, durante Doutorado Sanduiche na Universidade de Lisboa em 14/04/2014.

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que tudo isso também se fez, refez, reproduziu nas relações dos amados, nos corpos desses

Desta forma, como exemplo ilustrativo desses corpos triturados pela guerra que os coloca à deriva, desprovidos de perspectiva de futuro, observemos o poema “O corpo antigo” que dimensiona no interior da relação homem / mulher o quão ambos estão submetidos à ordem opressora que interdita o equilibro da comunidade e a relação de afeto entre ambos.

A porta larga do curral ficou pequena

todos queriam entrar ao mesmo tempo

olhar o teu corpo antigo

tu

o da garça branca que planava nas alturas

tu

o mais esperto que o milhafre

tu

filho da multidão

o bicho cinzento das mulheres

voltaste mudo e sem o arco

meu marido

e nem sequer pude ofertar-te

a pulseira do clã

a era do sacrifício

as doces coxas das rãs

o meu cabelo. (TAVARES, 2011, p. 140)

Como noutros, no poema “O corpo antigo”, Paula Tavares traz para a cena poética questões importantes que se enunciam pela voz feminina, a partir da figuração central do corpo masculino morto. A primeira é a centralidade da figura masculina que após o enfrentamento da guerra volta morto para receber as honras da mulher amada e da comunidade. O corpo do marido morto na guerra, cujo motivo sinaliza as disputas de poder angolano, apresenta-se em versos interlocutórios que brotam como faixas fúnebres. Esse canto solitário, um canto elegíaco, lamenta a morte e exalta as qualidades do marido perante a comunidade, sobretudo na ênfase ao seu lugar viril e na sua liberdade de planar voos.

tu o da garça branca que planava nas alturas

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tu

o mais esperto que o milhafre

tu

filho da multidão

o bicho cinzento das mulheres

voltaste mudo e sem o arco

A voz feminina lamenta a perda e a impossibilidade de não lhe ter ofertado

aquilo que vem designado pela tradição:

meu marido

e nem sequer pude ofertar-te

a pulseira do clã

a era do sacrifício

as doces coxas das rãs

o meu cabelo

A poetisa Paula Tavares subleva de maneira sub-reptícia a forma como os

preceitos da tradição estão arraigados nas relações entre masculino e feminino e, por conseguinte, a introjeção dos preceitos pelo feminino, em nome do pai (da ordem) e em nome do amor. Assim, o sujeito feminino fala de um lugar não silenciado, um lugar de quem detém uma indignação quanto às sequelas da guerra sobre todos e o doloroso estado de impossibilidade do amor.

De outro modo, no poema sem título a seguir, o eu poético feminino toma consciência da reificação do seu corpo e de forma contundente expõe simbolicamente um corpo partido “a golpes de catana”, acenando para a hora tardia de expressar sua revolta, aquilo que até então a mulher não punha em discussão por não se permitir fazê- la.

A bola de cera do meu corpo

Foi partida a golpes de catana

A

cerveja do meu sangue de dentro

tinha bolhas

Caminhar por dentro do meu corpo

não foi difícil com o chicote de couro

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e as sandálias. (TAVARES, 2011, p. 174)

Neste sentido, o poema aponta para a consciência da subalternidade, dado o caráter de ser guardiã de si mesmo. O sangue derramado, “já tinha bolhas”, indicia o reconhecimento tardio de falar, mas sua postura discursiva não diminui o grau do despertar. Vemos, então, um exercício interior de olhar para dentro de si a fim de absorver as fissuras que marcam a subjetividade, pois que nela estão entranhados os signos da tradição: “chicote de couro” e as “sandálias. Paula Tavares tematizam a condição subalterna da mulher na/pela tradição, à medida que elaboram uma escrita de enunciação do feminino.

Na poética de Conceição Lima, a voz que fala ou que textualmente se inscrever no discurso traduz uma visão de mundo no qual a presença feminina situa-se pelas margens, mas privilegiadamente participando dos fatos históricos e por eles se compadece. A dimensão de mundo poeticamente construída expede o olhar para o passado a fim de refletir sobre o presente são-tomense. Isso se efetiva através de uma gradativa consciência que parte do individual para o coletivo.

Especialmente, é o olhar para o passado que procura imprimir a importância matricial, sobretudo no livro A dolorosa raiz do mincondó (primeira edição, 2006) que, segundo Inocência Mata (2010) “tem uma subdominante referencial bem marcante através da qual a poetisa intenta a visibilização e dignificação das raízes matriciais da são-tomensidade” (MATA, 2010, p. 162). Contudo, essa visibilização e a busca de evidenciar a dignidade nas raízes matriciais já se anunciam em O útero da casa (2004), quando a seiva da resistência começa então a ser assinalada. Dois poemas são importantes para espelhar este processo: “Seiva” e “Regaço de upa”. Neles, sobretudo no primeiro, prenuncia-se a arquitetura de A raiz do mincondó, e ao mesmo tempo, revela a quem está atribuída a simbologia da resistência. O poema “Seiva”, dedicado à avó Domingas, mostra metaforicamente, em concisa linguagem, por qual ramo a poesia de Conceição Lima é nutrida:

Seiva

Dos dedos longos da palmeira

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o leite escorre exausto incessante

Hoje todos os dias são puros no verde tronco acocorado

Não nego a metamorfose da folha se digo que nenhum enigma escurece os destroços da seiva que renasce (LIMA, 2004, p.54)

Ciente das mutações que ocorrem no percurso das estórias que muitas vezes ficam esquecidas nos vãos da memória, a poetisa efetua uma incisão poética ao caule do grande micondó para colocar em destaque o processo por onde se produz a seiva nutricional da resistência. Não negando “a metamorfose da folha”, isto é, as mudanças que porventura e desgraça venham a ser processadas no presente, importa de onde deriva a força de existir/resistir que é também do feminino.

Neste sentido, as três estrofes aludem metaforicamente ao processo de produção da seiva, mais especificamente, como se dá o transporte nutricional da planta pela produção da seiva bruta e da seiva elaborada 9 . Desse modo, reafirma-se o lugar da seiva nutricional do micondó: “Hoje todos os dias são puros / no verde tronco acocorado”, para a construção do seu projeto literário. A resistência, portanto, fortalece-se ao privilegiar o regaço e este está, especificamente, construído pelo mesmo processo de elaboração da seiva, nos ramos da palmeira são-tomense, a upa 10 , fazendo intimamente parte da linhagem de onde se alimenta a sustentação e ancoragem maternal. Por isso, o poema “Regaço de upa”, dedicado à mãe, clama à memória da linhagem materna no enfrentamento dos dias dolorosos:

9 Segundo a teoria de teoria da transpiração-tensão-coesão ou teoria de Dixon, há na planta duplo movimento nutricional, o transporte da seiva bruta e o transporte da seiva elaborada. A seiva bruta é absorvida do solo pela raiz e é levada para o caule e as folhas; a seiva elaborada dispersa-se por todas partes da planta através dos vasos do floema para alimentação das células e produzir a fotossíntese. (Fisiologia vegetal, 2014)

10 Upa, definido no glossário de O útero da casa, é (crioulo forro) uma substância semelhante ao algodão, de cor acastanhada, extraída do ramo da palmeira e utilizada em colchões e almofadas. (LIMA, 2004, p.

64)

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À minha mãe De que servirá o canto embora claro quanto tu te ausentares e o silêncio possuir a madrugada?

Quem despirá do frio as horas quando inertes as mãos quedarem sem memória? (LIMA, 2004, p. 55)

O projeto poético de Conceição Lima, nutrido da linhagem biológica, configura- se na imagem do micondó. Quando isso prevalece no corpo-poema, sempre vem sustentado pela força propulsora da mulher no âmbito da cultura são-tomense. Elas exercem o papel de testemunhas da história e participam como sujeitos transmissor da cultura. Neste movimento, a poetisa tensiona uma “visão (quase) monogenista da harmonia identitária, desvelando os lugares fracturantes que ficaram à margem do ‘relato da nação’ (MATA, 2010, p.141)” e evidencia “os segmentos sonegados no atual agenciamento identitário da nação” (MATA, 2010, p. 141).

BREVÍSSIMA CONSIDERAÇÃO FINAL

As três poetisas em foco são vozes questionadoras do status quo em seus países. Como autoras não estão à frente de seu tempo, elas estão efetivamente inseridas nele, atuando na produção da cultura e fomentando, no interior do sistema literário de seus países, nova formas de poetizar. As produções provocam vias de leituras diversas, direcionadas pelo rigor estético, especialmente, pela força e labor da palavra. Neste artigo, pretendeu-se mostrar que as contribuições das autoras ocorrem no campo discursivo em que o corpo-poema está estruturado e cerzido de metáforas: corpo-objeto; corpo-fonte, corpo-alimento, corpo-seiva motriz e matriz, circunscrito no universo feminino, em que, efeitos por inversão sintática e desvios semânticos, tecem a trama meticulosa dos versos. Vigoroso exercício de lapidação da palavra cujo resultado é a moldura da projeção das nações poéticas sob o ponto de vista feminino. Neste sentido,

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tem-se o estético amalgamado às questões do mundo, aos clamores humanos, nos

corpos-poemas, canções eternas que oferecem o “enigma da luz”.

REFERÊNCIAS

EVARISTO, Conceição. Poemas da recordação e outros movimentos. Belo Horizonte:

Nandyala, 2011.

GONZALEZ, Lélia. “Cultura, etnicidade e trabalho: efeitos linguísticos e políticos da exploração da mulher” Comunicação apresentada no 8º Encontro Nacional da Latin American Studies Association. Pittsburgh, 5 a 7 de abril de 1979. Disponível em <

ho.pdf, acessado em 03/09/2015.

LIMA, Conceição. O útero da casa Poesia Lisboa: Editorial Caminho, 2004.

LIMA, Conceição. O pais de Akendenguê Poesia. (Edição especial) São Tomé e Príncipe: Lexinics; Mecenas: Rui Mendonça, 2012.

LIMA, Conceição. A dolorosa raiz do micondó. Edição especial. São Tomé e Príncipe:

Mecenas: Rui Mendonça, 2012.

MATA, Inocência. Polifonias insulares cultura e literatura de São Tomé e Príncipe. Lisboa: Colibri, 2010.

NASCIMENTO, Sueli. “Energrecer o feminismo: a situação da mulher negra na América Latina a partir de uma perspectiva de gênero. Disponível em < http://www.unifem.org.br/sites/700/710/00000690.pdf>, acessado em 03/09/2015.

TAVARES, Paula. Entrevista gravada para a esta tese. Universidade de Lisboa, em abril de 2014.

TAVARES, Paula. Amargos como frutos Poesia reunida. Rio de Janeiro: Pallas, 2011.

SEGATO, Rita. Entrevista a Karina Bidaseca in “Muyer y cuerpo bajo control” Disponível em <http://congresoestudiosposcolonialeswordpress.com/tag/karina- bidaseca/ >acessado em 15/06/2014.

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LEITURA E ORALIDADE NO CONTEXTO ESCOLAR: PRÁTICAS COM CONTOS AFRICANOS

Bárbara Olímpia Ramos de Melo 11 Fabiana Gomes Amado 12

RESUMO

O presente artigo apresenta dados de um trabalho desenvolvido com alunos e

professores do 6º ano de duas Escolas da rede municipal de Teresina-PI. A proposta de trabalho com os contos africanos nas turmas selecionadas pauta-se, a priori, nas

dificuldades diagnosticadas de leitura, compreensão e produção de texto e associação da leitura aos seus aspectos sociais e contextuais. Dessa forma, há uma necessidade de aprofundamento do trabalho com os aspectos sociocognitivos e metacognitivos através

da leitura e da escrita de maneira planejada, uma vez que as referidas escolas não

contam com um projeto que estabeleçam objetivos previamente traçados para esse fim.

A partir de uma coletânea de contos folclóricos africanos reunidos por Nelson Mandela,

realizou-se um trabalho visando à interdisciplinaridade entre as disciplinas de Língua Portuguesa, História e Educação Artística, através do desenvolvimento de atividades de leitura, de compreensão, de oralidade através da recontagem dos contos, além de atividades de ilustração dos mesmos e uma palestra sobre a história e cultura africanas. Nesse sentido, objetivou-se a compreensão e interpretação de textos da literatura africana relacionando os aspectos sócio-históricos-culturais, inferindo seus aspectos linguísticos e extralinguísticos. Por fim, foi feita uma avaliação diagnóstica através de aplicação de questionário com os alunos sobre as atividades aplicadas para verificarmos

a aceitabilidade das atividades desenvolvidas e o que precisa ser repensado para garantir

a inserção efetiva do ensino de história e cultura africana na escola. O aporte teórico pautou-se nos conceitos de Letramento em Soares (2003), Cook-Gumpez (1991) no que

se refere à leitura e à escrita como práticas de letramento; nos PCN, nas Diretrizes

Curriculares Nacionais para a Educação das Relações Étnico-Raciais e para o Ensino de

História e Cultura Afro-brasileira e Africana e na lei citada referenciando a legalidade

da proposta em conformidade com os princípios da educação brasileira e na abordagem

de Bentes (2010) sobre a oralidade no espaço escolar.

Palavras-chave: Leitura; Oralidade; Contos; Literatura afrodescendente.

11

Doutora em Linguística (UFC). Professora da graduação em Letras Português e do mestrado em

Letras,

barbaraolimpiam@yahoo.com.br

12 Mestre em Linguística pelo Mestrado profissional em Letras- PROFLETRAS, Professora do Instituto Federal de Educação IFPI. Teresina, Piauí, Brasil. bianamado@hotmail.com

Brasil.

da

Universidade

Estadual

do

Piauí.

UESPI.

Teresina

PI,

*A presente pesquisa contou com apoio financeiro da CAPES, por meio de concessão de bolsas de Mestrado.

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ABSTRACT

This article presents data from one work with students and teachers of the 6th year of two schools in the municipal schools in Teresina-PI. The proposal to work with African stories in the selected classes is first guided by the diagnosed in the difficulties of reading, comprehension and production of text and as