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INSTITUTO MULTIDISCIPLINAR

DEPARTAMENTO DE TECNOLOGIAS E LINGUAGENS


LICENCIATURA EM LETRAS
MORFOSSINTAXE

GRAMÁTICA

Fernando Vieira Peixoto Filho


(UFRRJ)

I. Conceitos
A palavra gramática provém do grego (grammatiké) e significava,
originariamente, arte de falar e escrever. Decorre daí o sentido tradicional do termo:
conjunto de prescrições linguísticas, de acordo com as convenções do que seria escrever
bem, falar bem, tomando-se por base o uso dos “grandes” escritores e dos falantes
escolarizados. Tal sentido se insere na chamada gramática tradicional (GT) – também
chamada gramática normativa, escolar ou prescritiva.
Outro sentido bastante difundido para o termo diz respeito ao compêndio ou
manual escolar, que pode ou não ter caráter prescritivo. Assim, um livro em que se
exponham regras formais ou convencionais de funcionamento linguístico também se
pode chamar gramática (Comprei uma excelente gramática. Aquela gramática contém
erros conceituais etc.).

O manual que apresenta o desenvolvimento cronológico de uma língua, das


origens aos nossos dias, chama-se gramática histórica. No caso do português, a história
remonta às estruturas lexicais e morfossintáticas do latim (que já incorporava termos
gregos), passando pela inserção de componentes galegos, árabes e, no caso do português
brasileiro, dialetos indígenas e africanos.
Por outro lado, é possível produzir um compêndio científico que faça um recorte
no tempo e no espaço, isto é, que descreva a estrutura de uma língua em determinado
lugar, em determinada época, sem atentar para questões de correção. É o que se tem
chamado gramática descritiva: um trabalho de pesquisa sobre o uso linguístico,
particularizando dada variedade ou grupo de falantes.
É necessário ressaltar, no entanto, que mesmo os manuais normativos dedicam
grande espaço à descrição; ou seja, as gramáticas normativas são também, de certa
forma, descritivas, visto que descrevem a variedade a partir da qual as regras e
convencionalismos são propostos.

Os estudos descritivos têm relação direta com o desenvolvimento da linguística


científica, que se mostra completamente desvinculada da feição deôntica da linguagem.
Com efeito, a partir da publicação do Curso de Saussure (1916) e, principalmente, com
o aparecimento do gerativismo chomskyano (1957, 1965), o problema da boa
linguagem deixa de ser o foco, dando lugar a uma abordagem mais “científica” sobre
formação, desenvolvimento e estabelecimento de uma língua.
No célebre trabalho de 1965 (Aspectos da Teoria da Sintaxe), Noam Chomsky
desautoriza uma abordagem vinculada apenas ao treinamento linguístico, calcado na
dicotomia estímulo/resposta. Chomsky procura mostrar que as estruturas profundas
(marcas internas das línguas) estão disponíveis para que os usuários construam uma
infinidade de frases, realizando o que ele chama de estrutura superficial. Cria-se, então,

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um conjunto terminológico ligado à tese de que as línguas possuem essa estrutura


interna ou profunda, cabendo aos usuários a realização cotidiana da linguagem. Vale
lembrar, aliás, que alguns binômios chomskyanos conferem com as dicotomias de
Saussure. Por exemplo, o principal binômio de Chomsky – competência/desempenho –
parece estar diretamente relacionado à dicotomia língua/fala de Saussure, o que fez com
que muitos estudiosos enxergassem a teoria gerativa como uma espécie de continuação
do estruturalismo.

Em síntese, o termo gramática, na acepção de estruturalistas, gerativistas e da


maioria dos linguistas atuais, alude ao conjunto de marcas léxicas e morfossintáticas
que fazem de uma língua o que ela é efetivamente. Uma língua como o inglês, por
exemplo, distingue-se do português sobretudo por sua sintaxe: posposição do nome,
anteposição do qualificador, presença obrigatória do pronome-sujeito, características
que não existem necessariamente na língua portuguesa. Tem razão então Mário
Marroquim (1996: 122) quando afirma que a sintaxe é “a estrutura viva da língua”, “a
alma e o caráter do idioma”.

II. Gramática tradicional: problemas


É preciso admitir que há uma grande confusão de critérios no exame tradicional
da gramática do português. As definições, principalmente na parte de sintaxe, tomam
por base processos teóricos díspares. Não se sabe, por exemplo, que abordagem está por
trás da tradicional divisão dos “termos” em essenciais, integrantes e acessórios”. Da
mesma forma cabe questionar por que a classificação dos pronomes em adjetivos ou
substantivos aparece no capítulo dedicado à morfologia, por que as orientações
ortográficas aparecem às vezes no capítulo da fonologia... Enfim, os questionamentos
são vários, o que abre espaço para críticas também várias, por vezes exageradas, injustas
e despropositadas.

Há muito a repensar em termos de GT; muito a reformular e adaptar, de acordo


com a realidade do português culto atualmente em voga no Brasil. É urgente que se
resolvam, definitivamente, os problemas conceituais que em muitos momentos dão uma
feição caricata à terminologia tradicional. Uma terminologia que tem o seu lugar, a sua
importância, desde que formulada em moldes mais aceitáveis. Mesmo porque as
propostas substitutivas ora apresentam um discurso inacessível aos não iniciados em
linguística, ora oferecem um corpo teórico ainda mais falho que o tradicional. Ou seja, o
Brasil ainda carece de trabalhos que aperfeiçoem a GT, de modo a torná-la mais viável
ao cotidiano nas classes de ensino básico.

III. Alguns itens para reformulação


Pode-se até itenizar, provisoriamente, algumas reformulações ou revisões que
julgo inadiáveis. Vejamos.

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FONÉTICA E FONOLOGIA
Dentro deste capítulo, é preciso isolar de modo mais racional os itens que
atendam aos objetivos propostos nas escolas brasileiras. Cabe questionar, por exemplo:
se a descrição dos fones é realmente necessária, considerando a precária carga horária
destinada aos professores; se a classificação de “encontros vocálicos” e consonantais
está adequada às realidades sonora e gráfica do português do Brasil; se a descrição dos
fonemas é feita segundo a realidade desses componentes, considerando oralidade e
escrita. Quando se fala, por exemplo, em vogais, semivogais e consoantes, fala-se em
quê? Em fonemas? Em grafemas?

MORFOLOGIA
Estudos de toda ordem, dissertações, teses já comprovaram satisfatoriamente
que a tradicional divisão das palavras em dez classes não é adequada à realidade
funcional das sentenças portuguesas. Aliás, falar em função nas sentenças é falar em
sintaxe, motivo por que se deveria rever inclusive o capítulo em que se estudam as
classes gramaticais. Morfologia mesmo, stricto sensu, é o estudo dos elementos
mórficos e dos processos de formação de vocábulos.
Quanto às flexões dos nomes em número, gênero, grau; dos verbos em tempo,
número, pessoa, não tenho dúvidas em afirmar que são estudos concernentes à sintaxe, à
semântica do discurso, e não à morfologia. É o ambiente sintático-semântico que
determina se um adjetivo deve estar ou não no feminino, no plural (concordância
nominal); se um verbo deve estar na primeira, segunda ou terceira pessoa (concordância
verbal); se se deve ou não atribuir uma flexão de grau ao advérbio; que aspecto de voz
deve o verbo assumir em relação a seu sujeito.
Some-se a essas questões a ausência quase absoluta de critério para classificação
das palavras. Por exemplo, o substantivo é definido semanticamente (palavra que
nomeia as entidades concretas ou abstratas); a classificação do verbo é ora semântica
(palavra que indica ação, estado ou fenômeno da natureza), ora morfológica (palavra
que agasalha as flexões de número, pessoa, modo e tempo), ou até mesmo sintática
(palavra que concorda com o sujeito). Classes como adjetivo e advérbio, por sua vez, só
acolhem a definição de cunho sintático, tendo em vista sua função adjunta,
modificadora.

SINTAXE
Este talvez seja o capítulo da GT que mais contém incoerências conceituais.
Além da hierarquia essenciais, integrantes e acessórios, que não funciona e
evidentemente precisa ser revista, é preciso repensar os seguintes fatores: a) definição
do sujeito sintático e função de seu estudo; b) distinção entre sintaxe analítica e sintaxe
relacional, verificando o processo mais adequado aos alunos; c) sintaxe do período
composto, observando a dicotomia coordenação-subordinação, a taxonomia de orações;
d) regras de uso de pronomes-sujeito e pronomes-complemento; e) a questão da
colocação dos clíticos.
Como se sabe, esses aspectos ocupam grande espaço num compêndio
gramatical. A análise sintática dos períodos simples e composto ocupa boa parte da

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gramática escolar, levando os professores que seguem a terminologia tradicional a


ocupar grande espaço da carga horária com a sintaxe analítica.

IV. E a semântica?
O leitor poderá talvez estranhar a ausência da semântica no tópico anterior, até
porque a maioria dos compêndios normativos já traz um capítulo dedicado à área. Mas o
fato de se excluir aqui a semântica não é gratuito. Nos últimos cinquenta anos, os
estudos do significado experimentaram grandes saltos e, grosso modo, as correntes são
unânimes em reconhecer o caráter fragmentário de uma descrição embasada apenas em
fatores linguísticos. Ou seja, o significado – assim postulam áreas como a semântica
cognitiva e a semântica da enunciação – não se sustenta sem o auxílio dos componentes
biossociais. Uma análise semântica, por consequência, tem sempre de recorrer a campos
não necessariamente linguísticos (antropologia, psicologia, sociologia etc.).
Portanto, creio que seja válido afirmar, mesmo não sendo muito simpático para
os filósofos da linguagem, que os estudos semânticos são pouco afeitos a qualquer tipo
de normatização ou descrição formal, motivo por que um capítulo sobre semântica
numa gramática normativa fica um pouco esdrúxulo.

V. Autores e obras citados


CHOMSKY, Noam. Syntactic structures. Haia: Mouton, 1957.

_______. Aspects of the theory of syntax. Cambridge: MIT Press, 1965.

MARROQUIM, Mário. A língua do Nordeste. 3.ed. Curitiba: HD Livros, 1996.

SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de linguística geral. 20.ed. São Paulo: Cultrix, 1995.