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O olhar do professor

Walt Whitman conta o que sentiu quando, menino, foi para a escola:

Ao começar os meus estudos, agradou-me tanto o passo inicial, a simples


consciencialização dos factos, as formas, o poder do movimento, o mais pequeno
insecto ou animal, os sentidos, o dom de ver, o amor – o passo inicial, torno a dizer,
assustou-me tanto, agradou-me tanto, que não foi fácil para mim passar e não foi fácil
seguir adiante, pois eu teria querido ficar ali a vaguear o tempo todo, cantando aquilo
em cânticos extasiados.

Nietzsche disse que a primeira tarefa da educação é ensinar a ver. É a primeira tarefa
porque é através dos olhos que as crianças, pela primeira vez, tomam contacto com a
beleza e o fascínio do mundo. Os olhos têm que ser educados para que a nossa alegria
aumente.

Já li muitos livros sobre psicologia da educação, sociologia da educação, filosofia da


educação, didáctica – mas, por mais que me esforce, não me consigo lembrar de
qualquer referência à educação do olhar, ou à importância do olhar na educação.

Por isso, lhe digo: Professor: trate de prestar atenção ao seu olhar. Ele é mais
importante que os seus planos de aula. O olhar tem o poder de despertar ou, pelo
contrário, de intimidar a inteligência. O seu olhar tem um poder mágico!

O olhar de um professor tem o poder de fazer a inteligência de uma criança florescer ou


murchar. Ela continua lá, mas recusa-se a partir para a aventura de aprender. A criança
de olhar amedrontado e vazio, de olhar distraído e perdido. Ela não aprende. Os
psicólogos apressam-se em diagnosticar alguma perturbação cognitiva. Chamam os
pais. Aconselham-nos a mandá-la para uma terapia. Pode até ser. Mas uma outra
hipótese tem que ser levantada: que a inteligência dessa criança – que parece incapaz de
aprender –, tenha sido petrificada pelo olhar do professor.

Por isso lhe digo, professor: cuide dos seus olhos…

Rubem Alves
Gaiolas ou Asas
A arte do voo ou a busca da alegria de aprender
Porto, Edições Asa, 2004
(excertos adaptados)