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DDaaddooss IInntteerrnnaacciioonnaaiiss ddee CCaattaallooggaaççããoo nnaa PPuubblliiccaaççããoo ((CCIIPP))

((CCââmmaarraa BBrraassiilleeiirraa ddoo LLiivvrroo,, SSPP,, BBrraassiill))

ri a Júlia Kovács coordenadora. - Mort e e desenvolvimento humano / Ma SãoPaulo: Casa
ri a Júlia Kovács coordenadora. -
Mort e e desenvolvimento humano / Ma
SãoPaulo: Casa doPsicólogo, 1992.
Bibliogr afia.
ISBN 85-85141-21-2
rt e - Aspectos psicoló-
rt amento humano 2. Medo. 3. Mo
1.Compo
gicos 4. Suicídio I. Kovács, Maria Júlia.
CCDDDD--115555
993377
9922--11994444
ÍÍnnddiiccee ppaarraa ccaattáállooggoo ssiisstteemmááttiiccoo::
1. Doentes terminais: Atitudes comportamentais: Psicologia 155.937
2.Luto:A
spectospsicológi
cos155.937
3. Mo rt e: Atitudes comportamentais: Psicologia 155.937

Editor: Anna Elisa de Villemor Amaral Güntert Capa Criação e Arte: William Nahme

Computação

gráfica: Mauro M

inniti e Marili

Produção e diagramação: Casa do Psicólogo - Ma Revisãoortográfica:SandraRodriguesG

sa Minniti ri a Celina Jurado arcia

MMaarriiaaJJúúlliiaaKKoovvááccss

C o o rd e na d o ra

MMOORRTTEE

EE DDEESSEENNVVOOLLVVIIMMEENNTTOO HHUUMMAANNOO

CCaassaa ddoo PPssiiccóóllooggoo®®

© 19 92 Casa

do Psicólogo Livrari

a e Editora Ltda.

Reservados os direitos de publicação em língua portuguesa à

Casa do P

Rua Alves Guimar

Fone: (011)852-4633 Fax: (011) 64-5392

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ães, 436 - CEP 05410

-000 - São Paulo - SP

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para qua lquer finalidade, sem autorização por escrito dos editores.

blicação,

Impresso

no Brasil / Printed in Brazil

EEssccrriittoorreess

DDaanniieellaa RRootthhsscchhiilldd -- Psicóloga

HHeennrriieettttee TTooggnneettttii PPeennhhaa MMoorraattoo

Psicolo gia da U SP, chefe do S erviço de Aconselhamento Psicol ógico da

- Psicóloga, professora do Instituto de

USP

LLaauurraa VViillllaarreess ddee FFrreeiittaass --

Psicologi a da USP com formação na

Psicóloga, professora do Instituto de

Sociedade Brasilei

ra de P sicol ogia

Analítica de São Paulo

MMaarriiaa JJúúlliiaa KKoovvááccss

- Psicóloga, professora do Instituto de Psicologia da

USP, c oordenadora do curso "Psicologi

a da Morte"

RRaauufflliinn AAzzeevveeddoo CCaallaazzaannss

- Psiquiatra.

Rachel

LLééaa RRoosseennbbeerrgg

(in memo ri a m ) -Psicóloga, psicoterapeuta,

professora do Instituto de Psicologia da USP.

Roosevelt Moisés

SSmmeekkee CCaassssoorrllaa

Membro da

-

Sociedade Brasile

ira de

Psicanálise de São Paulo. Professor do Departamento de Psicologia

Médica e Psiquiatri

a da Faculdade de Ciências Médicas da UNTCA

Vicente

AA

ddee CCaarrvvaallhhoo - Médico psiquiatra, psicoterapeuta, diretor

MP.

técnico do Centro Oncológico de Recuperação e Apoio.

Dedico este livro a todos aqueles que colaboraram ppaa rraa oo mm eeuu ddee ssee

Dedico este livro a todos aqueles que colaboraram ppaa rraa oo mm eeuu ddee ssee nnvv oollvv iimm eenn ttoo ccoommoo pp eess ssooaa:: mmee uuss ppaa iiss,,

ppaarreenn tteess ,, ooss gg rraann ddeess aa mmoo rreess ,, ooss aa mmiigg ooss,, ooss pp rrooff eessssoorreess ,, tteerraappeeuuttaass ee hhoojjee ooss aalluunnooss

In memorianm:

Ferenc OOttttoo KKoovvAAccss:: que me ensinou os primeiros passos, que nas suas exigências me impulsionou a

buscar as forças dentro de mim.

Katarina Bakk: Que me m

sobre a morte, quando ainda se está vivo, ela faz par-

ostrou que é preciso fal

ar

te da vida. Espero que ten ha encontrado resposta à

sua constante pergunta: "O que acontece após a mor-

te"?

NNééllssoonn RRoossaammiillhhaa:: Que facilitou a pesquisa acadê- mica sobre o tema da morte.

RRaacchheell RRoosseennbbeerrgg:: Colega,professora,edepoisami-

ga. A sua calma e profunda sabedoria sempre me i mpressionaram muito.

SSuummáárriioo

AApprreesseennttaaççããoo

PPrreeffáácciioo

CCaappííttuulloo 11 Representações de Morte

CCaappííttuulloo 22

Medo da Morte

CCaappííttuulloo 3. Atitudes diante da Morte - Visão Histórica,

Social e Cultural

CCaappííttuulloo 44 Morte no Processo do D

A Criança e o

Adolescente diant

esenvol vimento Humano

e da Morte

CCaappííttuulloo 55

CCaappííttuulloo 66

CCaappííttuulloo 77

Envelhecimento e Morte

Refl exões sobre a Psicanálise e a Morte

00 Ser Humano: Entre a Vida e a M

Visão da Psicologia Analítica

orte

CCaappííttuulloo 88

CCaappííttuulloo 99

CCaappííttuulloo 1100

CCaappííttuulloo 1111

CCaappííttuulloo 1122

Morte Abordagem

Morte, Separação, Perdas, o Processo de Luto

Comportamentos Autodestrutivos e o Suicídio

Paciente Terminal e a Questão da Morte

Atendimento Psicossocial a Pacientes de Câncer

Fenomenológico-Existenc

Relato de uma Experiência

CCaappííttuulloo 1133

Profissionais de Saúde diante da Morte

ial

XXII

XXVV

1.

11 44

28

48

5 8

90

11 1

1 4 2

1 49

1 6 5

1. 8 8

204

226

AApprreesseennttaaççããoo

Será a m orte a grande musa inspiradora dos filósofos e dos psicólogos?

Sempre tive medo da morte, aliás, de tudo o que é novo, desconhecido e

portanto misteri oso. Assim como escrever um livro para um marinheiro

de primeira viagem, é desconhecido. É uma espécie de morte e de renas-

cimento.

Este é um livro idealizado por uma psicóloga e é neste viés, ou recorte,

que ele deve ser compreendido. Ao escrever sobre um tema tão amplo e

ao mesmo temp o tão "tabu", correm-se sérios riscos.

O primeiro deles

é o de ser superficial, incompleto e unilateral com ób-

vias limitações diante da vasti

Sou mortal, e esta não

de. Mas escrever um livro pode ser uma opção ousada e pretensiosa. Ou talvez seja uma forma de lidar com um grande medo. Ler, pensar, coletar informações e, finalmente, transmitir algumas dessas reflexões pode ser

uma forma de desafiar a morte.

é uma opção, e sim uma certeza, daí a incompletu-

dão e do aprofundamento qu

e o tema exige.

O segundo risco é o de ser considerada uma pessoa mórbida, por ler,

estudar e escrever sobre a m

orte. Muitos amigos e colegas meus

fizer am

este comentário alguns tentando demover-me desse propósito. Não me

sinto mórbida, pois não é um ca minho mórbido, trata-se de um a trilha de vida, de questionamentos, de reflexões, de batalhas, de inovações. Posso

afirmar que para mim a busca da "compreensão" psicológica da morte

conduziu-me à elaboração de uma dissertação de m estrado, a uma tese

de doutorado, a um curso na graduação em psicologia, outro na pós-gra-

duação, e agora a este livro. Trata-se, efetivamente, de uma grande musa

inspiradora!

XII

Mort ee ee ddeesseennvvoollvviimmeennttoo hhuummaannoo

De que morte falo "daquela do momento foral, da fantasia, a que nos

acompanha durante a vida, do sonho, do alívio, da dor, da ruptura". Falo de todas e de nenhuma em p articular.

Apresento vivências, reflexões, pensamentos e sentimentos, inspirada em autores que me impressionaram, sobre "aquela morte" que não podemos

experiencia

também sobre aquela que

r nem refleti r a respeito, e que

acontece no fimda

vida, mas

a, e que

está presente em toda nossa existênci

tem uma' significação marcante para no processo do desenvolvimento humano.

a nossa trajetória de vida. É a morte

A psicologia como ciência, arte, reflexão e prática cuida da

homem, da sua relação com os outros e com o mundo, com a vida e

também com a morte. Portanto, acredito ser a questão da morte um tema

de suma importância para reflexão, sensibilizaç ão e questionamentos para

o psicólogo. A questão da morte e d o morrer, em suas várias instânci as,

pode estar presente nas diferentes áreas de trabalho do psicólogo. Refle- tir sobre o tema nos parece fundam ental ao futuro profissional, que terá o

questão do

seu trabalho centrado na relação com o ser humano.

A partir destas idéias, criei em 1986 uma disciplina optativa intitulada

"Psicol ogia da Morte", no Instituto de Psicologia da USP, onde são abor-

dados vários temas, visando facilitar a sensibilização, reflexão e discussão

de alguns aspectos relacionados à questão da morte, dentre os quais des-

tacamos: a m orte no processo do desenvol

perdas e p rocesso de luto, comportamentos autodestrutivo s e suicídio,

orte,

vimento, o medo da m

paciente terminal. O curso apresenta três ab gia, relacionadas à questão da morte: a menológico-existencial.

ordagens teóricas em psicolo-

psicanalíti ca, a junguiana

e a feno-

Durante esse tempo em que o curso vem sendo ministrado, surgiu a

necessidade de elaborar um livro texto, um livro abordados. Como professora, eu também gostaria

fosse um facilitados da discussão" que se desenvolve na sala de aula.

Te nd o esse mater ial bá sico , p od eria te ntar alç ar vô os maiores, s em pe r-

que

sobre

temas

si

ter um

os

der o fio. Esta é uma característica pessoal minha: t

fio. É uma espécie de

condutor. Os seus capítulos são os temas das aulas dad

leitmotiv do livro, a sua srcem, gênese e

entar não perder o

fio

as por mim,

AApprreesseennttaaççããoo

XIII

como coordenadora do curso e por especialistas convi dados a m inist ra-

rem algumas das aulas.

Pedimos aos convidados que mantivessem o espírito da aula, qu

fossem escritos em linguagem

da profundidade do tema. O leitor que imaginamos para este livro é o

estudante de psicologia. Nã

e os textos

simples e' acessível, sem detrimento, é claro,

o se trata de um livro para espec

ialistas, nem

pretende esgotar todo o assunto. Na verdad

e, é impossível esgotar um

assunto tão controverti

do, profundo e abrangente. São

algumas pontuaçõ-

es, idéias, que espero possam

favorecer novos questionamentos e orientar

o desejo de aprofundamento.

Depois de tantas explicações, acredito que se trate de uma publicação

interessant

pessoas que queiram buscar informações sobre o tema para seu

conhecimento.

Para este singelo empreendimento, que para mim foi a conquista de um

e para estudantes e p

rofissi onais de saúde

e para quaisquer

próprio

desafio, contei com a inestimável colaboração de uma

série de pessoas

que me "agü

entaram" neste período tão envolvente de criação:

Minha mãe A

nne Kovács que semp

re me incentivou a arriscar e a tentar

coisas novas, dando seu apoio e amor.

A querida "irmã" Verônica Landy que me ajudou muito nos momentos

mais difíceis.

Os alunos da graduação do Instituto de Psicologia da USP, que desde

1986 foram "cobaias" deste curso, com sua participação e questionamen- tos muito estimuladores para este projeto.

As alunas: Kátia Regina Honora, Cássia Simone, Suzana da Silva Rosa e

Paula Giulano Galeano, que transcreveram a

professores convidados.

As revisoras Maria Celina Jurado e Sandra R

s fitas com as aulas dos

odrigues Garcia que leram

cuidadosamente o texto para o ap

A Casa do Psicólogo

erfeiçoamento do vernáculo.

e seus diretores Ingo Bernd Güntert e Anna Elisa

infra-es-

de Villemor Amaral Güntert, p ela confiança e oferecimento da

trutura da "Casa".

XIV

MMoorrttee ee ddeesseennvvoollvviimmeennttoo hhuummaannoo

OO amigo André Lengyel pela inestimável ajuda com a "máquina de

versofisti

processo criativo.

O Dr. Roosevelt M. Smeke Cassorla e Dra. Eda Marconi Custódio que

escre-

cada"que,a

lgumasvezes,teimava em

emperrar,dificultandoo

sempre deram b

A O dila Weigand que vem sendo um to pessoal.

Os amigos qu

ons conselhos e apoio.

a facilit adora do meu desenvolvimen-

omentos de conflito.

e sempre estiveram presentes em m

São Paulo, fevereiro de 1992.

MMaarriiaa JJúúlliiaa KKoovvááccss

PPrreeffáácciioo

O

leitor se encontra diante de um livro ousado: que se propõe a abordar

o

mais difícil dos temas: a morte. A morte negada, escamoteada, escondi-

da, não nomeada, tabu. A

morte que nos espreita, de fora, de cima, do

lado, de dentro. E, que, nos incomoda, preferimos não vê-la. Ela insiste, reaparece: nas faltas, nas ausências, nos jornais, na TV, nas guerras, no vizinho, no chefe, na traição, na miséria, na saudade, na mentira, na ver- dade, na favela, no M inistéri o.

O artista a enfrenta, a denuncia: "E

bêbado; E flutuou no ar como se fosse um pássaro; E se acabou no chão

tropeçou no céu como se fo sse um

blico. Morreu

feito um pac ote flácido; Agonizou no meio do passeio pú

na contramão atrapalhando o tráfego." (Chico Buarque, "Construção"). E como atrapalha! - o trânsito, o movimento, a multidão louca, correndo e sofrendo, num correr que não acaba, num sofrer que não se sabe. E isso

a vida? Ou é a morte em vida?

A morte começa quando não levamos em conta que a morte existe.

Quando nem sequer nos indignamos ao ver os mortos - mortos, não por-

que a morte existe, mas porque não lutamos pela vida. A criança miserá- vel que morreu de fome, o operário que perdeu as mãos, a prostituta que perdeu o amor, o ser humano que perdeu a humanidade e também o seu.

ser. O suicida que não sabe que já morreu

suportou a vida, a morte em

morte do outro, e vai em busca dele, num mundo imaginário, que delírio,

engana como se fosse vida.

vida; muitas vezes porque não pode tolerar a

antes de matar-se, porque não

Mas, delírio? Não há nada após a

pouco, Drummond disse, com mais saber e sabor: "A porta da verdade

morte? Não sei. O que sei, e é mu ito

estava aberta,/ mas só de

ixava passar/ meia pessoa de cada vez./ Assim

XVI Motre e edsnevvomilenot humano

não era possível atingir toda a verdade,/ porque a meia pessoa que entra-

va/ só trazia o perfil da m eia-verdade. / E sua segunda m etade/ voltava

igualmente com meio perfil,/ E os meios perfis não coincidiam./ Arreben- taram a porta./ Derrubaram a p orta./ Chegaram ao lugar luminoso/ onde

a verdade esplendia seus fogos./ Era dividida em duas metades/ diferen-

tes uma da outra./ Chegou-se a discutir qual a metade mais bela./ Nenhu-

ma das duas era totalmente bela./ E carecia optar./Cada um optou con- forme/ seu capricho, sua ilusão, sua miopia." ("Verdade")

Maria Júlia nos abrirá, sempre gentil e contundente, as portas para a

nossa ânsia de verdade: e

nos brindará com muitas verdades, sobre as

quais cada um pode optar. Ou, sugiro, não optar. Assim, podemos conti-

nuar com a porta aberta - sempre poderemos ver algo mais. A opção

mata o desejo, a curiosidade. O esperar o novo, o acrescentJr, o d

o transformar, tudo isso é ruído de vida, é música num créscendo.

iminuir,

Mas é difícil não saber e admitir isso. Todos nós procu

a mãe,

bobo, é o camponês. É

nenhum. É a vida e também é a m

Assim eu me via quando vi o primeiro cadáver. Não senti nada, a não ser

curiosidade, diante daquela coisa cheiran

morte. Depois as piadas e a "coragem" que procurávamos ter, dissecando

a carne morta. Era necessária muita"vida" para conviver com a morte, ou

melhor, para negá-la. Mas, não éramos desumanos. Éramos apenas jo-

ramos respostas: é

é o calor, é a amante, é a imprensa. Não: é o governo, é o rei, é o

Deus, é o Diabo. Somos todo s e não somos

orte. É tudo e é nada.

do formol. Senti o formol, não a

vens, moleques aterrori zados, que vínhamos estudar anatomia para que

depois, médicos, pudéssemos combater a m

orte, ficar do lado da vida.

Mas, havíamos de passar por essa iniciação: demonstrar a nós mesmos

que desprezávamos a m

orte - e, por iss

o, ousávamos enfrentá-la!

Um dia, entre os cadáveres em que aprendíamos a salvar vidas, imit

cirurgias, encontrei uma jovem, que atendera semanas antes, viva, em seu leito, e que passara a um colega, melhorada. Impressionara-me sua bele- za, beleza de moça pobre, desnutrida, beleza mais de alma, de olhar, que

de pele ou de toque. Estava bela também na morte, mas só bela para mim, que a conhecera. Para todos era apenas um monte de tecidos, de órgãos e matéria. Nesse dia chorei: o choro que em quatro anos havia

contido.

ando

Prefácio

Mas, tive de chorar escondido, envergonhado por ser humano.

Muitos a n os depois me vi ensin a n do moleques, como eu era, a serem

médicos. E me lemb rei daquilo, e de muito, muito mais. De outras mor-

tes: da desumanização do paciente e do médico. Do conluio com a socie- dade. Das mortes matadas pelos homens. Dos homens suicidas, suicida-

XVII

dos. E, de um Brasil, esplendoroso de vida, mas a vida, estr

sufocada, a vida não-vida: moribunda.

Só quando repercebi a morte, senti de fato o amor. Primos: "Eu te amo

porque te amo. Não precisas ser amante,/ e nem precisas saber sê-lo./ Eu

te amo porque te amo. Amor é estado de graça/ e com amor não se

paga./ Amor é dado de graça,/ é sem eado no vento,/ na cachoeira, no

ecli pse. Amor foge a d icionários/ e a regulamentos vá

primo da morte,/ e da m orte vencedor,/ por mais que o matem (e ma

tam)/ a cada instante de amor." (Drummond, "As sem-razões do amor").

Amando

os mistérios da vida e

bruçam sobre esses temas, com todo o vigor que o amor imprime em

angulada,

/

Amor é

rios./

conheci muitas pessoas, vários companheiros de estudos sobre

da morte. E

que, curiosos, vivos

, amantes, se de-

-

estado de

Qu

gr aça. Maria Júlia Kovács é uma delas.

an do Maria Júlia me intimou a escrever este Prefácio, o que me dei-

xou num estado temeroso e feliz, fiq uei pens an do o que ela mais me passava. E me veio a palavra CORAGEM. Coragem, é vida. Vem de

coração. De confiar na vida.

Num domingo, refletindo sob o sol que me cobria, recebo um telefonema.

Maria Júlia se apresenta. É professora do Departamento de Psicologia da

Aprendizagem,Desenvolvimento e Personali dade,do Instituto de Psico-

logia da USP. Estamos em 198

e que, conversando com seu

orientador Dr. Nélson Rosamilha, haviam

5. Diz que leu um livro meu sobre Suicídio,

decidido convidar-me para a sua banca de defesa de dissertação de mes- trado. Alertava-me: não é bem sobre Suicídio - é sobre a Morte.

Impressionado com o tamanho do nome de seu Departamento, com o

livro e, mais ainda, com a

fato de pessoas tão importantes terem lido meu

coragem dos dois em convidar um desconhecido para uma b

pasmo e paralisado. Geralmente se convidam amigos, e quando os pes-

anca, fiquei

b anca de

quisadores são tão sérios, invest

igadores não inimigos para uma

XVIII Motre e desveminevnootlhmuano

mestrado ou doutorado

mistério e, logo que me recuperei, aceitei o convite. Precisava descobrir o

enigma.

E que surpresa! Era apenas coragem. Conheci a dissertação ("Um estudo sobre o medo da morte em universitários das áreas de saúde, humanas e

exatas"), correta e precisa. Enfrentava-se o medo de algo temível e se desvelava. Mais importante: conheci Maria Júlia e Eda Custódio (que assumiu como orientadora, p or ocasião do falecimento do Dr. Nélson)

dois seres humanos excepcionais, como fui confirmando no decorrer dos

anos seguintes. Todos diss eram o mesmo a respeito do professo r Nélson

Rosamilha, que encorajou Maria Jú

que faleceu antes de su

Nunca um desconhecido. Fiquei fascinado pelo

lia nos primeiros passos de sua tese, e

ix ou nela a sua marca.

a defesa. Mas, que de

("

Alguém deste clã é bobo de

morrer?/A conversa o restaura e faz eter-

no"

- Drummond, "Conversa")

Já mestre, Maria Júlia criou a primeira disciplina de graduação, numa.

Universidade, que tenho notícia: "Psicologia da Morte", pa ra os alunos do Instit utodeP sicolo gia da USP. G enerosa,convido u-metodos estesanos

para ministrar aulas ligadas à psicaná lise e ao suicídio. Saía fel iz de Cam-

pinas, sabendo que em Sã

o Paulo iria encontrar um grupo de alunos

interessadíssimos, questionadores, desafiadores, enfim, VIVOS, e de uma

vida aproveitada, vivida ou rica para

se viver. Estou certo de que Maria

Jú lia tem mu ito a v er c om isso .

Em 1989, ela se tornou doutora. Em sua

tese "A questão da m orte e a

formaçãodopsicólogo",ondedescrevecriativamenteasexperiênciasque

viveu na nova disciplina, já não é ma

is tão precisa como na anterior.

Abandonando os nú

meros, entra mais fundo na alma

dos indivíduos, dis-

seca-a, procura compreendê-la - é mais ciência poética que lida com

gente, do que ciência fria, rica em estatísticas. Novamente na banca, sur- preendo-me, cada vez mais, com a coragem de Maria Júlia que, estimula- da por Eda, incursiona com desenvoltura pela pesquisa do homem, cada

homem como ser único, que pede para ser reconhecido como indivíduo,

compreendido, interpretado (e há tantas interpretações

)

Em seguida, Maria Júlia cria uma disciplina de pós-graduação em Psico-

logia Escolar: "A morte no p rocesso do desenvolvimento humano: suas

representações em crianças e a

dolescentes."

Prefácio

Mais uma

vez, Maria Júlia demonstra seu

vigor, ao organizar este livro,

onde o leitor encontr

vários ângulos. Mais uma

ará vários autores, abordando o tema

riqueza da investigado

da morte sob

ra: contemplar todas as

X IX

leituras possíveis e, assim, como educadora que é, fazer o aluno (e o leitor) refletir, comparar, duvidar, questionar, e, com tudo isso, criar. Sem dogmas, que p ara mim é morte. Ao contrário: obrigando o outro a

pensar - e isso é vida.

Isso não quer dizer que o leitor vai encontrar respostas em relação à

morte. Talvez encontre, como diz o poeta, por "capricho, ilusão ou mio-

pia". Mas, com certeza, poderá VIVER a riqueza de conVIVE

idéias, sentimentos, especulações, ricos e variados. Talvez fique frustrado,

mas, tenho a esperança de que possa viver a ausência da certeza, de todas as certezas, da vida e da morte. E mais uma vez Drummond nos

inspira:

R com

"Por muito tempo achei que a

ausência é falta

Elastimava, ignorante, a falta. Hoje não a lastimo.

Não há falta sem ausência.

A ausência é um estar em mim. E sinto-a branca, tão pegada, aconchegada em meus braços,

que rio e danço e invento exclamações alegres,

porque a ausência, essa ausência assimilada, ninguém a rouba mais de mim "

((CCaarrllooss DDrruummmmoonndd ddee AAnnddrraaddee,,

" Ausência ")

RRoooosseevveelltt MMooiissééss SSmmeekkee CCaassssoorrllaa

AAnnoo NNoovvoo//11999922

CCaappííttuulloo 11
CCaappííttuulloo 11

RREEPPRREESSEENNTTAA ÇÇÕÕEESS DDEE MMOORRTTEE

MMaarriiaa JJúúlliiaa KKoovvááccss

OOrriiggeemm ddaa mmoorrttee

fil hos gêmeos, alguns dizem que eram

" Uma mulher tinha dois

irmão e irmã; que desmaiara m. Possivelmente só estavam dor-

mindo. Sua mãe os deixou de madrugada e quando retornou à

noite, eles ainda estavam deitados lá. Ela notou pegada

deles, e imaginou que eles tinham voltado à vida e brincado du- rante a sua ausência. Certa vez ela chegou, inesperadamente, e

s como as

a. Um deles dizia: `É vivo.' Quando

a viram, pararam de falar e d esde então as pessoas morrem de

há vivos e mortos. Se ela

tivesse permanecido escondida e permitido que eles encerrassem

sua discussão, um teria vencido o outro, e daí não haveria vida

ou não haveria morte."

((iinn Meltzer, 1984)

tempos em tempos, portanto, sempre

melhor estar morto'. O outro dizia: `É m

encontrou-os discutindo dentro da

cab an

elhor estar

Sobre que mo

rt e falar? Existe uma mo

em princípio, não tem

rt e, aquela do fmal da vida, da qual,

os consciência durante o seu processo, pois "ninguém

volta para contar", como diz o

com a sua religião e fi losofi a, a morte é o mom ento de máxima consciência, tras vidas. Então

não há só uma morte, mas várias, dur

a minha crença,

e os homens iluminados lembram su

povo. Segundo os bu

distas, ou seja, de acordo

as mortes e suas ou a n te todo o processo evolutivo. Esta é

as sim como cada pessoa tem a sua.

As religiões e a filosofia sempre procuraram

gem e o destino do homem. P

or tradição cult

questionar e explicar a

ori-

ural, fami

liar ou mesmo por

investigação pessoal cada um de nós

traz dentro de si "uma

morte", ou

seja, a sua próp

ficações,qualidades,formas.

ria representação da morte. São atribuídas a

esta, personi-

22

MMoorrttee ee ddeesseennvvoollvviimmeennttoo hhuummaannoo

A morte sempre inspirou poetas, músicos, artistas e todos os homens

comuns. Desde o tempo dos homens das cavernas há inúmeros registros

sobre a morte como perda, ruptura, desintegração, degeneração, mas,

também, como

ou alivio.

Qual delas poderia ser a "nossa morte"? A forma como a vemos certa-

mente influenciará a nossa forma de ser. Entrelaçamos vida e morte, du-

rante todo o nosso processo de desenvolvimento vital. Engana-se quem acredita que a morte só é um problema no final da vida, e que só então

deverá pensar nela. Podemos, é claro, tentar esquecer, ignorar ou mesmo " matar" a morte. Sabemos que a filosof ia e o modo de viver do século XX

pregam veementemente esta atitude, porém, com um sucesso relativo,

fascíni o, sedução, uma

grande viagem, entrega, desc

anso

como veremos. N

a verdade, trata-se de um grande e

inútil dispê

ndio de

energia.

Desde todos os tempos em busca da imortalidade, o homem desafia e

tenta vencer a morte. Nos mitos e lendas essa atitude é simbolizada pela morte do dragão ou monstro. Os heróis podem conseguir tal façanha mas

os mortais não. E o homem é um ser mortal, cuja principal característica

animais,

é a consciência de sua

finitude - isso o diferencia dos

que não

têm essa consciência. Portanto, obnubilar, apagar essa consciência não

seria umretrocesso?.

Não nos iludamos, pois o que buscamos não é a vida eterna e sim a

juve ntud e eterna co m se us pr azeres, força, b eleza e nã o a v elh ice eterna

com suas perdas, feiúra, dores. Quantos "heróis" perderam a vida na bus-

ca da imortalidade! Não acreditamos em nossa própria morte, agimos

como se ela não

filho s, imaginamos que estes perpetuarão o

existi sse, fazemos planos para o

futuro, criamos obras e

casos,

nosso ser. Em alguns

isso ocorre, o homem é perpetuado pelas suas obras. Algumas vezes,

estas se mostram m

ais vivas depois da sua morte. Quantos foram reco-

nhecidos só depois de mortos!Van

Goghé u m exem plo destes "imortai

s"

depois da morte.

No entanto, não podemos viver a vida toda sob a esmagadora "presença"

da m orte. Existem váriaspossibili dadesdeocultamento,t anto culturais, quanto psicológicas. Entre estas últimas podem ser destacados os meca-

nismos

ded efesa:negação,repressão,

intel ectuali zação,deslocamento.

RReepprreesseennttaaççõõeess ddee mmoorrttee

As defesas ao mesm o tempo que nos protegem do medo da morte, po- dem nos restringir. Há momentos em que o sujeito fica tão acuado que

parece não viver. Eesse não-viver, pode ser equivalente a morrer. Então

surge uma situação paradoxal, em que a pessoa "está" morta, mas "esque-

ceu" de morrer: temos a chamada morte em vida. Com

cando com as palavras vida e morte e com o seu entrelaçamento, mas que

verdades profundas essas brincadeiras nos trazem!

isso estamos brin-

3

A morte faz parte do desenvolvimento humano desde a mais tenra idade.

Nos primeiros meses de

que esta não é

mortes, a criança se percebe só e desamparada. Efetivamente não é ca-

paz de sobreviver sem a m

vida a criança vive a ausência da

mãe, sentindo

onipresent

e. Estas primeiras ausências são vividas como

ãe. São, no entanto, breves momentos ou, às

vezes, períodos mais longos, porém logo alguém aparece. Mas esta pri-

meira impressão fica carimbada e marca uma d

fortes de todos os tempos que

as representações mais

é a morte como ausência, perda, separa-

ção, e a

conseqüente vivên

cia de aniquilação e desamparo. A

experiência

da relação materna tão acolhedora e receptiva, também é responsável

por outra representação poderosa da morte, ou seja, a morte como figura

maternal que acolhe, que dá conforto. Esta representação provavelmente

bastante acentuada em indivíduos que tentam suicídio diante de situa- ções insuportáveis, ou que srcinam impasses profundos.

é

À medida que a criança processa o seu desenvolvimento afetivo e emo- ando

cional, porém, experiencia as mortes efetivas que a rodeiam, tent

compreender o que se passa. A tualmente, acredi ta-se que a criança não

sabe nada sobre a m orte e que, portanto, deve ser poupada. No entanto, todas as crianças inadverti damente já pisaram numa formiga e esta, es-

magada, parou de se mex

a n ça já "perdeu"

um passarinho, um gato, um peixe ou qualquer bicho de estimação. Per-

cebeu então que ficaram "diferentes" do que eram quando estavam vivos. Além disso, podem m orrer bisavós, avós, pais, irmãos, amigos e, nos noti- ciários e novelas da TV, inúmeras pessoas. D iferentes dos personagens de

desenhos animados, que semp re renascem, aqueles jamais retornam. uma tarefa muito difícil para a criança definir vida e morte, pois na sua percepção a morte é não-movimento, cessação de algumas funções vitais como a li mentação, respiração;mas na sua c oncepção a morte é reversí -

entre aterrorizadas e curiosas, o que aconteceu. Toda cri

er. Diante disso, el

as param e ficam observando,

É

vel, pode ser desfeita. Há diferenças entre vivos e mortos, mas os ú

poderão ser ressuscitados sozinhos ou com ajuda de alguém. Na realida-

de não é assim, os verdadeiros mortos não ressuscita m; como a cri ança

consegue elaborar esta contr adição? A morte se faz acompanhar de uma

tentativa de explicação e, por outro lado, fortes emoções assolam q

de seu acontecimento. A dor acompanha as mortes e o processo de luto se faz necessário; a cri a n ça também processa as suas perdas, chora, se desespera e depois se conforma como o adulto. Certamente não expres-

sará a sua dor, se não souber que aconteceu uma morte, entretanto a

criança percebe que algo aconteceu pois todos est

a for-

uando

ltimos

ão agindo de um

ma diferente. Estes pontos serão m

elhor discutidos emoutros capítulos

deste livro.

Um dos atributos freqüentem ente associados à morte é a sua carac terísti-

ca de reversibilidade, presente na fantasia de mu

mos nos processos de luto. Em m uitas tentativas de suicídio há a fantasia de "se morrer só um p ouco", para que o outro p ossa sentir a falta, ou para que se sinta culpado. Entretanto , a própria criança começa a compreen-

der a irreversibilidade da morte pela própria experiência.

itos adultos, como vere-

Sabemos que faz parte do desenvolvimento infantil o pensamento mágico

e a onipotência. Fica, portanto, a grande questão: se os outros m

será que morrerei também?

de. Ela se representa como o herói que dur a n te o dia vence a sua fragili-

dade e, à noite, tem os seus pesadelos, os monstros, os dragões e os

fantasmas que a ameaçam. A morte representa o desconhecido e o mal

orrem,

A criança reproduz a história da humanida-

Nos filmes, na TV e talvez até mesmo na rua a criança começa a conviver com a concretude d a morte, corpos mutilados, sangue, violência, vê homi- cídios, assassinatos, acidentes. A morte passa a adquirir alguns dos seus

contornos principais, o caráter

de violência, repentinidade, acaso. Uma

das formas principais de proteção passa a ser a crença de que a morte só ocorre com os outros.

Outro elemento da morte que fica muito presente nesta fase da vida é o

elemento culpa. Esta relaciona-se muito com o pensamento mágico e onipotente inf a n til e com os elementos de sociabilização que levam a

desejos de morte, de tal forma que, se ocorre um

a cri an ça estabeleça uma

a morte, é inevitável que

relação entre esses desejos e a morte efetiva.

Como todos nós já vivenciamos tais desejos, em algum momento de nos-

sas vidas, sabemos que é inevitável a

outro.

Racionalmente os adultos reconhe cem que não é assim, m as emocional-

mente é freqüente a atribuição de culpa em relação à morte do outro,

muitas vezes associada à falta de cuidados, sentimentos exacerbados no processo de luto.

Ao construir o mundo, o adolesce nte deixa as idéias e os pensamentos

infantis, o "faz-de-conta" é relegado como coisa de criança. Adquirir co-

li gação da culpa com a morte do

nhecimentos, tornar-se adulto, ter um corpo de homem ou mulher são

tarefas da adolescência. A sua pa

te

potente, com um corpo mais forte e uma mente mais aguçada, com todas

as

as representações figurativas os heróis são jovens, be-

e da maturidade. N

los, fortes, predominando, sempre, a característica da impetuosidade.

lavra-chave é desafiar, pois o adolescen-

criança havia sido

, .só que um

herói mais

ção, sem os freios restritivos da razão

também é

um herói como a

possibilidades de criação e execu

Não há lugar para a morte, que representa a

podemos ver aqui está representada a visão atual da m orte:fracasso ,

derrota, incompetência. Devemos admitir que somos uma civilização

derrota, o fracasso. Co mo

adolescente, onipotente, forte, entretant o com p ouca ma

Desafiar, romper limites é o grito de vida, é a identi dade de um novo ser que rompe barreiras, extravasa li mites, para configurar os contornos da

própria identidade, e m busca d a qual tem de ir até o fim. Experimentar

novos prazeres, sentir o

mos. Estamos exagerando ao falar de um ideal adole scente de onipotên-

cia, força, impulso o "pico" da vida, sem espaço p

mos diante de uma contradição, pois neste momento em

turidade?

li mite do possível é viver a vida nos seus extre-

ara a morte. Mas, esta- que não há lugar

para a morte, é que ela está mais p

ca n tos. No desafio da vida, pode estar a morte, não só a do outro, mas a própria. Pelo seu desenvolvimento cognitivo o adolescente sabe que a

morte não é reversível, mas sim, defmitiva, não tem, portanto, o elemento

protetor da inconsciência, pelo menos do ponto de vista racional.

O adolescente pode viver várias mortes concretas, com a perda de am i- gos, colegas, em acidentes, overdose, assassinatos, doenças. Apesar de

viver a concretude dessas perdas, o pensamento adolescente conclui que

resente, espreitando em todos os

66

Mortee ee ddeesseennvvoollvviimmeennttoo hhuummaannoo

a morte ocorreu

é ele próprio, não vai morrer. Aqui está representada a busca e o

por inabilida

de, imperícia e que o

verdadeiro herói, que

desejo

de imortalidade do ser hu mano, o seu desejo de ser herói, forte, belo e

onipotente, com a grande missão de vencer o dragão da morte.

Mas em seu íntimo, ocorre uma dúvida: será ele apenas hum terá o mesm o destino do outro?A adolescência se configura pelas ambi-

valências. Ao mesmo tempo que se sen te todo-poderoso, o adolescente

também "borra as calças", só que dificilmente exterioriza essas fraquezas. Assim, o herói tem os seus momentos de dúvida e insegurança.

A morte espreita no pico da vida. É que para viver os grandes êxtases

ano, frágil, e

que a vida promete, a m orte pode oco rrer como acidente ou busca.

Como o número de tentativas de suicídio e acidentes é muito grande

nesta etapa da vida, resta saber se ocorrem por acidente ou por motiva-

cão intencional. Se são atos deliberados o que buscaria o sujeito: uma

vida melhor, mais amor, mais valorização, vingança, castigo? Este enigma

será aprofundado no ca

pítulo referente ao suicídio

.

A adolescência também é o tempo da descoberta do amor. Durante o

Romantismo as pessoas se matavam por amor, quando estavam muito apaixonadas, o que deu srcem à expressão popular "morrer de amor".

De novo, no pico da vida ronda a morte. Os temas de sedução, conquista,

amor e morte fazem parte do enredo de óperas, poemas, romances e

novelas e freqüentemente a culminância destes enredos se configura com um grande amor e uma grande morte. Uma das representaçõ es mais for- tes da morte está ligada ao seu caráter de sedução, presente nas figuras de sereias, botos, arlequins. Por outro lado, o ponto culminante do amor

é o orgasmo também chamado de "pequena morte".

O uso d e drogas pode ter como objeti vo elevar o "pico" da vida ou servir

como elemento de alteração da consciência. Sabemos que

mortesconcretasassociadasàsdrogas

tes, doenças. No entanto a droga traz a

grandes viagens, à percepção diferent

deconsciência.

do de desenvolvimento do qual nos temp

é m uito alto,envolve

o número de

ndo aciden-

representação da morte ligada às

e do m undo, a um

estado altera

do

pode ser conside ra da um pe río -

os atuais da sociedade cap

italis-

a f ase a du lta , m uitas v ezes indefinida,

ta, não temos clareza sob& seu início e seu término Aparentemente se

RReepprreesseennttaaççõõeess ddee mmoorrttee

inicia com o fim

os seus limites não são

estado íntimo que nos faz

da adolescênci

a, e termina com o

iníci o da velhice, mas

tuemum

precisos. As exigências externas consti

sentir adultos.

Responsabilidade em relação à

comunidade e colaboração com o seu

7

desenvolvimento são tarefas próprias desta fase. Consolidar uma intimi-

dade afetiva, iniciada na fa se anterior, constituir família, criar filhos tam-

bém fazem parte deste período. Muita energi a é dispendida na constru-

ção de todos estes pilares. O espaço da morte na consciência ainda pode estar muito distante . O impulso e os arroubos da adolescênci a tendem a diminuir e, em geral, a pessoa se torna mais ponderada e calma, pois, se

permanecesse no ritmo da fase anterior, poderia adoecer.

Entre as doenças comuns

desta época estão os ataques cardíacos fulmi-

nantes que ceifam a vida. Mais uma vez, é

a morte rondando no p

ico da

vida.

Esta fase constituiria o

que Jung cham

ou de metanóia ou metade da vida.

É quando fazemos um balanço do que foi a nossa existência até aquele

momento. Em princípio, quase tudo o que se almejava como realização

de vida foi conseguido. Houve alegrias e

decepções. Fatos concretos, porém, permitemavaliar o que se

vitórias, mas, também,

tristezas e

alcançou

em relação à profissão, às posses, à família, aos filhos, ou a quaisquer

outros pontos considerados vitais. Quando se chega ao topo da montanha e se admira a paisagem à volta, a descida parece obrigatória. Não dá para ficar todo o tempo no topo, nem que se queira, sob o risco de estancar o

processo, com conseqüências. A subida remeteu a um esforço, como vi-

mos, o mesmo ocorrerá com a descida. Ela representa a segunda metade

da vida, potencialmente tão criativa quanto a primeira, só que de num outro ângulo. Temos to da a experiência do na scimento, da infância, da

adolescên cia e da primeira fase adulta. Ao fazer um

riência, uma grande transformação interna se processa em nós e a morte

não se configura mais como algo que acontece somente aos outros, mas

que pode acontecer conosco também. Surge, então, a possibilidade da

minha morte e isto traz um novo significado para a vida. Esta pa

balanço dessa expe-

ssa a ser

definida e ressignificada pela possibilidade da morte. Não temos mais

todo o tempo do

para ser conhecido e adm

mundo, o limite não está lá para ser extrapolado e sim

itido.

Assim continuamosnossatrajetóriade descida,ressignif icandovalores,

abandonando alguns da juventude e admitindo outros. O tempo não pode ser est an cado. Tentar pará-lo, porém, para distanciar a morte, foi sempre uma tentativa inútil f eita pelo homem. Esta imagem do homem que pro-

cura driblar a morte, através de jogos, disfarces ou artimanhas é ba st ante significativa, em todos os tempos. E o homem que vende a alma ao diabo

em troca da não-morte, só que neste ponto ela é inexorável. O filme

"Sétimo Selo", de Ingmar Bergman, traz esta representação do homem

que joga uma partida de xadr ez com a morte. Aí se apresenta outro

atributo de sua inexorab

herói pode vencer e esta é a diferença entre a consciência da vida adulta

e a da adolescência. Outros atributos, freqüentemente, associados à

te são o mistério, o poder e a força. O homem, que sempre m ediu forças com a morte, viu-a como inimiga que arrebanha e, num poder de sedução

maior, domina a vida. O símbolo cia foice, freqüentemente usado nas

representações da morte, dá esta idéia de corte.

E assim continua a nossa descida. Em

mos a uma fase conhecida como velhice, que como vimos, não tem um

ilidade, pois ela é sempre vitoriosa, a ela nenhum

mor-

termos de desenvolvimento chega-

nido, mas cujp fim é claramente a m

orte.

início de fi

A velhice é a fase do desenvolvimento humano que carrega mais estigmas

e atributos negativos. Isso se justifica em pa

corporais,financei ras,deprodutividadee,às

pria família se torna inevitável. No entanto, a maneira de viver ou repre-

sentar cada uma dessas perdas se vincula ao processo de desenvolvimen- to e à consciência de cada um.

E import an te verifi car onde é

este período est

rte porque ocorrem perd

vezes,a separaçãoda

pró-

na morte. Se

colocada a ênfase: na vida ou

á voltado só para a m

orte, como alguns teimam em colo-

a s

car, porque é tão longo, maior do que qualquer outra f

mento, durando, às vezes, mais de 30 ou 40

Há pessoas que chegam aos 90 ou 1

Jung diz que se temos vinte an os para nos prepararmos para a

deveríamos ter o mesmo tempo para nos prepararm

Pode-se preparar para a

estamos falando de negar a morte, ou esconder o

mas de conviver com

a s e do desenvolvi-

vviiddaa??

vida,

anos?

00 anos. Será para morrer em

os para a m orte.

morte vivendo intensamente, obviamente "não

ela em busca do seu

sol com uma

peneira,

signifi cado. Temos observado

RReepprreesseennttaaçç

õõeess ddee mm

oo rt e

muitas pessoas que viveram de forma significativa o fmal da vida, pois

nesse tempo todas as experiências se somam, as da subida, a visão abran-

gente do pico e todo o processo da descida. Ao escrever, vem-me

gem de meu

alunos o conheceram trouxe toda a plenitude de sua

a ima-

mestre, Dr. Sandor Petho, que durante o tempo em que seus

experiência, com-

partilh andoconoscoa sua sabedoria. Sua morterepentina entriste ceu a

todos, famíli a, amigos e discípul os, como é inevit ável, mas também nos

trouxe a lição de como a vida pod

e ser vivida na sua plenitude até o final.

99

Esta imagem nos lembra a representação da morte como sabedoria, o velho sábio que nos conduz pela sea ra do novo, do desconhecido e que

provoca em nós

profundas transformações.

A morte como limite nos ajuda a crescer, mas a

morte vivenciada como

limite, t ambém

soli dão, triste

velhice , representada por uma

dentes, feia e fedida. É uma visão que nos causa repulsa e terror.

é dor, perda da função, das carnes, do afeto. É também

za, pobreza. Uma

das imagens m

ais fortes da morte

velha encarquilhada, magra, ossuda, sem

é a da

Neste capítulo que inicia est

semos estabelecer uma relação entre as representações mais comuns da

morte e as fases do desenvolvimento hum

a obra, com p

oucas citações nós nos propu-

ano. Já qu e a tônica deste livro

é falar da morte enquanto há vida, este é o lugar da psicologia no seu

estudo do homem.

Do ponto de vista biológico, como definimos a morte, Morin (1970) de-

fende uma tese, baseada em p esquisa, segundo a qual o que caracteriza

os seres vivos é a imortalida de, considerando-se as suas unidades mais

simples, como as células. Existe uma aptidão biológica para o viver inde-

finidamente, reproduzindo-se. Neste sentido, a morte é o fim da existên-

cia e não da matéria. Os estados de vida e morte ocorrem num

nuum com células e tecidos se substituindo num processo dinâmico. Não é possível a sobrevivência de determinadas partes do corpo se outras não

conti-

morrerem, como, por exemplo, as células da p

serem separáveis claramente os estados de vida e de m

ele, dos cabelos. Daí não

orte. A evolução, a

especialização levou a uma desigualdade celular, à desarmonia e, portan

to, à morte. Esta surge como o p

reço da organização e da especialização.

A velhice permitiu que se fizessem estudos sobre o p

rocesso de morte. A

chamada "morte natural" é a que não ocorre por acidentes ou doença

11 00

Mortee ee ddeesseennvvoollvviimmeennttoo hhuummaannoo

fatal. Do ponto de vista bioquímico a m

de regeneração, mas é difícil descobrir qual a sua causa e

É

parte imortais. Temos dentro de nós a raiz da imorta

Desenvolveremos neste livro extensas discussões sobre o viver psicologi-

camente o processo da morte, de interesse da psicologia. Do ponto de

vista médico sempre se buscou definir com clareza o momento da morte. Isso nem sempre foi muito fácil, c omo atestam relatos acerca de muitas pessoas que foram enterradas vivas, tratando-se de um fato que tem des- pertado temor em todos os tempos. Objetivamente fal ando isso não ocor-

re mais, em nossos dias, pois há parâmetros cientificamente definidos

para constatar a morte.

((OOss vviivvooss ee aa mmoo rte, 1977) encontramos a definição de

Hipócrates para o momento em

da e árida, olhos cavos, nariz saliente, cercado de coloração escu

poras deprimidas, cavas e enrugadas, qu

derme seca, um

damente contornada e irreconhecível.

Em termos de função, a morte se caracteriza pela interrupção completa e

definitiv a das funções vitais de um organismo vivo, com o desapa

to da coerência funcional e destruição p rogressiva das unidades tissulares

ecelulares.

Como veremos a seguir cabe atualmente ao médico definir o momento da morte, com conseqüências sociais muito sérias. O médico confirma esse momento, constatando-ò como definitivo e irreversível, bem como deter- mina a sua cau sa. Entre os critérios que atualmente definem a ocorrência da morte estão os seguintes (Ziegler, 1977):

ra, têm-

orte se configura como um

a falta

o seu processo.

parte mortais e em lidade.

a questão da

mortalidade

/imortali dade. Somos em

No livro de Ziegler

que a morte ocorre, como: testa enruga-

eixo franzino e endurecido, epi-

um branco fosco, fisi

onomia niti-

recimen-

a espécie de poeira de

1. Não-receptividade e não-reação total a estímulos externos, mesmo que dolorosos. Não há emissão de sons, gemid os, contrações, nem

2.

aceleração da respiração.

Ausência de

movimentosrespiratóri

os,falta demovimentom

uscular

espontâneo ou de respiração ao se des

ligar o aparelho respiratório

por um tempo m

ais longo.

RReepprreesseennttaaççõõeess ddee mmoorrttee

3. Ausência de reflexos, ou coma irrever sível com abo li ção da atividade do Sistema Nervoso Central. Ausência de reflexos condicionados

como: reação da pupila, que fica fixa e dilata

de luz, sem reflexo na córnea, faringe e tendões.

da mesmo

na presença

11 11

4. Encefalograma plano,comprovandodestruiçãocerebralplena e versível.

irre-

A m orte clíni ca é definida como um

estado onde todos os sinais de vida

(consciência,

embora uma p arte dos processos metabólicos continue a funcionar. A

re fl exos, respiração, atividade cardíaca) estão suspen

sos,

morte clínica se tornou um conceito, pois atualmente todas essas funções vitais podem ser substituídas por máquinas, p rologando a vida indefini da- mente. A morte total ocorre quando se inicia a destruição das células de órgãosaltamenteespecializ ados,como océrebro,osolhos,passando de- pois para outros órgãos menos especializados.

Como se vê, do ponto de vista somático há um a definição que permite a

constatação da morte sem maiores problemas. Em caso de dúvida,

pode-se pedir que mais de um médico confirme o óbito. Uma vez dado

o atestado, iniciam-se os ritos funerários. Do ponto de vista psicológico

existem inúmeras mortes, como vimos, nas suas mais variadas repre-

sentações, inclusive podemos agir como se ela não existisse.

Alguns autores estudaram as experiências vividas por indivíduos que estiveram muito próximos da morte, numa tentativá de relatar o que seria a experiência de morrer. Mo ody (1975) pesquisou 150 casos de pessoas que foram ressuscitadas após estarem clinicamente mortas, e

de pessoas que sofreram acidentes e esti veram muito próximas da mor- te. Esse autor estudou o relato dessas pessoas, observando semelhanças extraordinárias dentre as quais, destacamos:

1. Sensação de serem expectadores, quando ouvem

sobre a sua própria morte.

"pronunciamentos"

2. Sensação de paz e quietude ou, ao contrário, ruídos muito intensos.

3. Experiência de passagem por um túnel escuro.

11 22

MMoorrttee ee ddeesseennvvoollvviimmeennttoo hhuummaannoo

4. Experiência extracorpórea, em que o indivíduo se vê acima do seu

5.

corpo. Algumas pessoas relatam

mas não sabem como, tentam falar, mas ninguém escuta.

que gostariam de voltar ao corpo,

Encontro com outras pesso

as, que podem assumir a

forma de paren-

tes ou amigos já falecidos ou de pessoas que ajudaram no m

omento

da transição.

6. Encontro com um "Ser Iluminado", muitas vezes identificado com

uma figura divina, cuja imagem

está relacionada com a história reli-

giosa da pessoa. Esta figura pode exercer uma

transcendental.

atração irresistível e

7. Sensação de retrocesso, onde ocorre uma visão panorâmica da vida

do sujeito, normalmente relatada cont sendo muito rápida e e m or- dem seqüencial de trás para a frente, com imagens rápidas, vívidas e

reais.

8. Experiência de limite: a pessoa sente que chegou ao fim.

9. Muitos relataram um desejo imenso de voltar à terra

familiar, com a responsabilidade e necessidade de cuidar dos filhos; outros após o encontro com a pessoa divina não queriam m ais voltar.

e ao convívio

10.

11.

Algumas pessoas se recusam a do descrédito.

Outros relataram que essa

e provocou mudanças na sua forma de encarar a morte, diminuindo,

inclusive, o medo de morrer.

contar essas experiênci

as com m edo

experiência foi extremamente impactante

Watson (1974) relata que diante da

ocorrer três reações em seqüência:

morte rápida e repentina, podem

a.

b. Depois ela deixa de lutar e se en trega, relembr a n do cenas do passado.

A princípio a pessoa c

omeça a lutar contra o p

erigo e o inevitável.

cc

Em seguida, pode entrar num

não deseja voltar.

estado místico do qual, muitas vezes,

RReepprreesseennttaaççõõeess ddee mmoo rtee

Como afirmamos, neste li vro trataremos da morte do ponto de vista psi- cológico, ou seja a morte como representada pelo ser humano. A questão

da vida após a m

orte sempre foi uma preocupação universal do ser hu-

mano e, de alguma forma, determina a maneira como o homem reagiu

dian

à

alguns trechos do li vro, mais particularmente no capítulo 7 referente

abordagem junguiana.

Neste li vro a questão religiosa é somente tangenciada. Não se trata de nosso enfoque no momento, embora saibamos que as religi ões tiveram e têm grande função na explicação dos mistéri os da vida e da morte, atra-

vés da fé e da crença. Acreditamos que este tema por si mereceria um

livro.Abordaremosbrevemente a função sociale psicológicadareligião,

a sua função transcendente, a sua dimensão cósmica. Discutiremos,

bém, como a questão da continuaçã o da vida sempre foi um d esejo do

tam-

te da morte durante toda a História. Essa questão será abordada em

homem durante todos os tempos. A segurança de uma vida após

parece aplacar o terror, que a

finitude árida e drástica introduz.

a morte

RReeffeerrêênncciiaass BBiibblliiooggrrááffiiccaass

JUN G, C . G . - The so ul and de ath. VVooll 88 CCoolllleecctteedd WWoorrkkss tledge and Keagan Paul, 1960.

MOODY, R. - LLiiffee aafftteerr lliiffee

New York, Bantam Books, 1975.

London, Rou-

MORIN, E. - O homem e a morte. Lisboa,PublicaçõesEuropa-Améri-

ca,1970.

ZIEGLER, J. -

OOss vviivvooss ee aa mm

oorrttee Rio de Janeiro, Zahar, 1977.

Medo da morte

11 55

CCaappííttuulloo 22

MMEEDDOO DDAA MMOORRTTEE

Maria Júlia Kovács

" As muda nças ocorridas do nascimento até a velhice, da doença

até a morte são ainda mais rápidas. As quatro estações, têm

uma seqüência determinada. Assim, a hora da morte não espe- ra a sua vez. Ela não vem necessariamente de frente, pode estar

planejando o seu ataque por trás. Todo mundo sabe da morte,

mas ela chega inesperadamente, quando as pessoas sentem que

ainda têm tempo, que a morte não é iminente. É como as pla-

nícies secas que se este ndem mar adentro, para que a m

chegue, inundando o seu caminho até a praia." (Kenko, Urabe

no Kaneyoshi, Japão século XIII,

in Meltzer , 1984 )

aré

O medo é a resposta psicológica mais comum diante da morte. O medo

de morrer é

universal e atinge todo

s os seres huma

nos, independent

e da

idade, sexo, nível sócio-econômico e credo religioso. Apresenta-se com

composto por várias dimensões. Segundo Feifel e

diversas facetas e é

Nagy (1981) nenhum ser humano está livre do medo da morte, e todos os

medos que temos estão de algum

É difícil diferenciar entre medo e ansiedade. De uma maneira geral, a ansiedade é associada a um sentimento difuso, sem uma causa aparente- mente defini da. Já o medo é geralmente ligado a uma causa mais especí-

a forma, relacionados a ele.

fica. No caso da morte, porém, esta experiência é tão ampla e

que se poderia pensar em ansiedade e medo de forma similar. Segundo

Hoelter (1979) a ansiedade pode ser d

universal

efinida como um estado geral que

precede uma preocupação mais específica do homem com a morte. Veri-

ficou-se, ent ão, que pessoas que têm um nível maior de ansiedade apre-

sentam mais medo da morte, ou seja, o medo da morte evoca ansiedade.

as pecto da morte. Em função disso, Kas-

Cada pessoa teme mais um certo tenbaum(1983) afirma que deve-se consid erar a morte sob du as co nce pções:

1. A morte do outro: O medo do abandono, envolvendo a consciência

da ausência e da separação.

2. A própria morte: A consciência da própria finitude, a fantasia de

como será o fim e quando ocorrerá.

Ao pensar sobre a sua morte, cada pessoa pode relacioná-la a um dos

seguintes aspectos:

a.

b.

c.

Medo de morrer: Quanto à própria morte, surge o medo do sofrimen-

to e da indignidade pessoal. Em relação à morte do outro é difícil ver

o seu sofrimento e desintegração, o que srcina sentimentos de impo- tência por não se poder fazer nada.

Medo do que vem após a m orte: Quando se trata da própria m orte e o medo do julgamento, do castigo divino e da rejeição. Em relação à

do outro, surge o medo da

retaliação e da perda da relação.

Medo da extinção:Diante da própria morte existe a ameaça do

conhecido, o medo de não ser e

o medo básico da própria

des-

extinção.

Em relação ao outro, a extinção evoca a vulnerabilidade pela sensa-

ção de abandono.

O que parece mais temido na morte depende da época de vida de cada

um e das circunstância

nente devido a situações externas de gu

ções inte rnas que ameaçam morte de alguém.

Kastenbaum (19

deve estudar o medo da m

1. Tempo: Quando está prevista a ocorrência da morte? Está próxima ou distante temporalmente? Qual é a velocidade de sua aproximação e a possibili dade de estancar o seu processo?

2. Espaço: O perigo damorte é encarado como ameaça interna, ou

segundo as quais se

esmo a

s do m omento, como, por exemplo: o perigo imi-

erras, crimes, violência; perturba-

o sujeito , como medos e fobias, ou m

83) relacionou as seguintes variáveis

orte:

como algo projetado no ambiente externo.

3. Probabilidade: Oindivíduo perceb e que tem alta probabilidade de

morrer real ou simbolicamente.

11 66

44

Mort ee ee ddeesseennvvoollvviimmeennttoo hhuummaannoo

GGêênneessee:: Onde se pode buscar

entrelaça com outros fatores de p ersonalidade?

o início desse medo e como ele se

55 MMaanniiffeessttaaççããoo:: Os sintomas mais comuns relacionados com o medo da morte podem ser: insônia, preocupações excessivas com algum aspecto da vida como família, trabalho ou saúde, estado de ânimo

depressiv o,sintomas psicossomáticos,entre outros.

66

PPaattoollooggiiaa:: Até que ponto o medo

mal em todos os seres hum

que momento começa

sidade, formas de manifestação e conseqüências na vida do sujeito?

da morte pode ser considerado nor-

a n os, como afirmamos anteriormente? Em

a adquirir contornos patológicos pela sua inten-

77 DDiiffeerreennççaass iinnddiivviidduuaaiiss::

O medo da m orte está ligado a característi-

cas pessoais e circunstanciais da vida e não pode ser considerado

separadamente da p

ersonalidade do sujeito.

88 FFuunnççããoo:: Qual é a função do medo da morte na vida de uma p

essoa?

Trata-se de um fator de proteção da vida ou apresenta contornos

restrição vital?

Murphy (195 9) em seu com entário sobre o li vro de Feifel The Meaning of Death (1959), arrola as várias facetas do medo da morte, relacionadas às

atitudes das pessoas diante dela. Para alguns a m

vista como fim

patológicos, levando a uma

ou como

orte amedronta, pois é

perda de consciência similar ao adormecer, des-

maiar ou perder o controle. O medo da morte pode conter também

medo da solidão, da separação de quem se ama, o medo do desconheci-

do, o medo do julgamento pelos atos terrenos, o medo do que possa

ocorrer aos dependentes, o medo da interrup ção dos planos e fracasso

o

emrealizar os objetivos mais importantes da pessoa. São

dos, que algum sem dú

Para Feifel (195

medo da morte, são: a m

tantos os me-

vida faz parte de nossa vida.

9) os fatores que mais influenciam, no sentido de conter o

aturidade psicológica do indivíduo, a sua capaci-

dade d e enfrentamento, a

possa ter e a sua própria idade.

Alguns medos são m

latentes.Po rtan to, como medir e ava

de diferentes pessoas? Dentre os instrumentos mais utilizados para isso

orientação e o 'envolvimento religio

sos que

ais conscientes e expressos, ou

t r os permanecem mais

li ar a intensidade do medo da morte

MMeeddoo ddaa mmoo rtee

estão os questionários, as pr

17

ovas projetivas, as entrevistas, os diários, as

autobiografias e a observação do comportamento. Alguns

instrumentos

avaliam aspectos mais conscientes relacionados ao medo da morte, como

os questionários e as provas de auto-relato qu

acessíveis ao sujeito, por outro são mais susceptíveis de distorções, atra-

vésde respostassocial mente esperadas.Provasp adronizadaspermitem

rápidas medidas e favorecem c omparações entre sujeitos e amostras, mas

ignoram a subjetividade, fator importante, neste caso. Provas projetivas

medem aspectos mais latentes e inconscientes do indivíduo, o que permi- te uma análise mais profunda da dinâmica do m edo, mas podem acarretar dificuldades de interpretação. Esta é uma difícil decisão para o pesquisa-

dor.

Foram realizados diversos estudos em que a pergunta básica era: o medo da morte é unidimensional ou multidimensi onal?

e, se por um lado, são ma

is

Donald Templer foi o autor que construiu a Death Anxiety Scale (DAS),

muito conhecida pelos pesquisadores que constroeminstrumentos para

medir a ansiedade ligada à morte. Sua escala tem 40

ansiedade diante d a morte como fator unidimensional. Sua validade foi

itens e consi

dera a

verificada em pacientes psiquiátricos e ele observou, também, que su

jeitos

muito ansiosos, tive ram alto resultado na DAS, bem como na escala

de

ansiedadedoM

innesot aM ultiphasi c Personali tyIventory(MMP

I).

Outros estudos consideraram a m

ultidi mensionali

dade do m

edo da m or-

te, usando a análise fatorial para verificar a saturação de

cada fator. Entre

estes pode ser citado o estudo de Lester (1969) que especifica quatro dimensões: medo da própria morte, medo da m orte do outro, medo do

processo de morrer próprio e do outro. Conte, Weiner e Plutchik (19

82)

reali zaram um

estudo de análise fatorial e chegaram a quatro

dimensões

independentes: medo do desconhecido, medo do sofrimento, medo da

solidão e medo da extinção pessoal. Para a construção de sua escala fo-

ram conduzidas entrevistas com idosos e estudantes para que expressas-

sem seus medos relacionados à morte, chegan

cobriam vários aspectos: medo da doença e

do-se, então, a 24 itens que

sofrimento antes da morte,

medo de estar só diante dela, medo das despesas com o funeral, medo de ser esqueci do, medo do que vem após a morte. Como se vê há uma ampla

gama de medos que para cada pessoa, podem ser mais evidentes. Fica

difícil, portanto, falar do medo da morte de forma g

enérica.

11 88

Mort ee ee ddeesseennvvoollvviimmeennttoo hhuummaannoo

Hoelter(1979)realizouum estudo fatorialdetermin ando oito dimensões

do medo da morte, a

Multidimens ionalFearof

deste livro

EEssccaallaa MMuullttiiddiimmeennssiioonnaall ppaarraa

la, que após a tradução recebeu o

DeathScale.

A autora

(Kovács, 1985

) realizou uma pesquisa no Brasil com essa esca-

nome de

Medir o Medo da M

orte (EMMM).

Escalas multidimensionais permitem

que, além do escore geral, se obtenha um escore parcial para cada dimen-

são considerada, trazendo uma riqueza de dados para pesquisas. Esta

escala é composta por uma abrang ência de itens que englobam as dimen-

sões do medo da m orte. Foram efetuados est udos que comprovam a sua

validade de constructo e precisão. O medo da morte foi defmido pelo

autorcomo uma reaçãoemocionalenvolve ndosentimentossubjeti vosde

desagrado, e a preocupação, contemplação ou antecipação de quaisquer

das várias facetas relacionadas com a morte, supondo-se que estes senti-

mentos possam ser conscientes.

Esta escala compõe-se de 4 2 itens, divididos em oito di mensões, submeti- das à análise fatorial pelo autor, na qual as saturações dos fatores foram operacionalmente definidas (Hoelter, 1979).

As definições das oito dimensões são as seguintes:

1.Medo de morrer: Esta dimensão lida mais com

morrer,doquecom quaisquerconseqüênci asque acompanhem estepro- cesso. (Exemplo: Tenho medo de morrer de câncer.) - 6 itens.

2.Medo dos mortos: Esta dimensão mede a reação das pessoas com ani- mais ou pessoas mortas (Exemplo: Seria uma experiência horrível encon- trar um cadáver) - 6 itens.

o processo específico de

3. MMeeddoo ddee sseerr ddeessttrruuííddoo:: Esta dimensão lida com a d estruição do corpo i mediatamente após a morte.(Exemplo :Não quero que estudantes de

medicina usem meu corpo p

ara treinamento.) - 4 itens.

4. Medo da perda de pessoas significativas: Esta dimensão se relaciona

com o medo da perda de ssas pessoas, bem. como com os efeitos que a própria morte pode causar nas pessoas importantes. (Exemplo: Tenho

medo de que pessoas da m

inha família morram.) - 6 itens.

5. Medo do desconhecido:

existência e da dúvida acerca do que virá após a morte, incluindo a ques-

Esta dimensão lida com a questão última da

Medo ddaa mmoo rt ee

tão da crença em

Deus. (Exemplo: Tenho medo de que não haja vida

após a morte.) - 5 itens.

6.MMeeddoo ddaa

mmoorrttee ccoonnsscciieennttee Es::ta dimensão lida com o medo dos proces-

sos subjacentes à morte e com

(Exemplo: Tenho medo de que muitas pessoas, consideradas mortas, ain-

da estejam vivas.) - 5 itens.

7.MMeeddoo ddoo ccoorrppoo aappóóss

o temor de se estar consciente nessa hora.

preocupaçãoda

aa mmoorrttee::Esta dimensãolida com a

11 99

qualidade do corpo após a morte. (Exemplo: Tenho medo de que meu

corpo fique desfigurado quando eu m orrer.) - 4 itens.

8. Medo da mo rtee pprreemmaattuurraa:: Esta dimensão

poral da vida e na frustração por não ser possível atingir os objetivos, ou

por não viver certas experiências antes de morrer. (Exemplo: Tenho medo de não realizar os meu s objetivos até morrer.) - 4 itens.

Os itens da escala foram

a fidedignidade da tradução e a melhor redação em português .

é baseada no elemento tem-

traduzidos e foi pedido a juízes que verificassem

1

Quais as variáveis que influenciam o medo da morte?

Mc Mordie(1981) estudou as crenças religiosas e o medo da morte e

verific ou que esse medo diminui nas pessoas mais religiosas. Oque tem

mais relação com o medo da morte é o grau de incerteza/certeza, ou seja,

o grau de envolvimento religioso de cada um. Os religiosos e os ateus

convicto s têm m enos medo da morte que os m

certeza aumenta a percepção de controle e previsibilidade. Miran-

da(1979) e Kovács (1985) p esquisar am e observaram esta mesma tendên -

cia em nosso meio. Miranda, estudando grupos de várias religiões, verifi- cou que o grupo dos evangélicos considerado como muito religioso, tinha

menor nível de ansiedade ligada à morte do que os demais, pois a fé

ajuda a superar a ansiedade. O grupo católico, mais heterogêneo , consi-

derado de médio envolvimento religioso, apresentou um

de mais elevado, tendo a incerteza contribuído para este fator. Em nossa

edianamente envol

vidos. A

nível de ansieda-

1 Para conhecimento da versão definitiva da escala em portugu@s, a listagem dos itens por dimensão, e a forma de atribuição dos escores consultar a obra de Kovács, MM JJ

UUmm

eessttuuddoo mmuullttiiddiimmeennssiioonnaall ssoobbrree oo mmeeddoo ddaa mmoorrttee eemm eessttuuddaanntteess ddaass áárreeaass ddee ssaaúúddee,,

hhuummaannaass e exatas, São Paulo, Disse rt ação de Mestrado, 1985, Biblioteca do Instituto de PPssiiccoollooggiiaa da USP.

20

MMoorrttee ee ddeesseennvvoollvviimmeennttoo hhuummaannoo

pesquisa com universitários verificamos que os indivíduos que declararam

maiorenvolviment

oreligiosoapresent

aram menoresescoresdem

edoda

morte na EMMM, e os que dec lararam m édio envolvimento religioso ti-

veram os escores ma

is altos, ficando os ateus com os escores intermediá-

rios.

Kastenbaum (19

83) realizou uma pesquisa para verificar se havia diferen-

ças significativas entre pessoas normais, neuróticos e psicóticos em rela-

ção ao medo da morte. Não foram encontradas diferenças significativas

relacionadas à variável pesquisada. Como tendência, porém, foi verificado que os pacientes com problemas mentais tendiam a negar mais veemente-

mente a morte, temendo, sobretudo, a morte violent a. Nos esquizofrêni-

cos pôde-se observar que a sua expressão era de como se não estivesse m

vivos, como uma defesa contra o medo da morte.

Segundo Hoelter (1979) as variáveis intervenientes nesse medo são: a ex- posição à morte do outro, influência do 'tipo de morte que ocorreu (suicí- dio, homicídio, morte natural), o desenvolvimento emocional da pessoa, a

duração de uma doença

perdeu. O autor verificou que o contato direto com a morte tem

cia sobre o medo consciente,

morte prematura.

Conte, Weiner e Plutchik (1982), verificaram em seus estudos que a idade

gr ave, a idade do moribundo ou da

o medo do processo de morrer e o

pessoa que se

medo influên- da

não era uma variável relevante

em relação ao medo da morte. As variá-

veis relevantes foram a experiência de vida e as características da perso-

nalidade. Foi encontrada uma correlação entre o medo da morte, a de-

MMeeddoo ddaa mmoo rrtt ee

2211

Em nossa pesquisa (Kovács, 1985) usando a EMMM, verificamos que não houve correlação entre o medo da morte e a escolha profissional,

baseadas nas duas

medo da

hipóteses contr

árias, a saber, que

o sujeito com mais

morte não escolheria medicina, e a hipótese de que as pessoas

com mais medo da morte poderiam escolher a medicina

poder adquirir controle e domínio sobre ela. No estudo das oito di-

mensões do medo da morte, na área de saúde, verificou-se que a cate-

como forma de

goria medo da m

ria medo dos mortos, os escores mais baixos. Entre os cursos da área de

saúde (medicina, psicologia e enfermagem), as alunas do curso de psi- cologia apresentaram escores significantemente mais altos de medo da morte. Aliás, estes dados foram coincidentes nas outras áreas conside-

radas, ou seja, nas áreas de humanas e de exatas. Em relação às dimen-

sões específicas verificaram-se diferenças significantes nas que se se-

guem: medo dos mortos, medo da perda de pessoas significativas e

medo da morte consciente, tendo as a lunas de psicologia obtido os es-

cores mais altos da área de saúde. Os

orte prematura obteve os escores mais altos e a catego-

alunos de medicina tiveram esco-

res significantemente mais baixos nas dimensões: medo dos mortos e

medo da morte consciente. Nossa hipótese é a de que os alunos de

medicina já respondem de acordo com o que é esperado dos médicos,

os que não temem a morte e estão aí como os heróis a desafiá-la. As

alunas de psicologia já respondem também com o que é esperado dos

psicólogos, ou seja, est ar em contato comos sentimentos, tendo a auto-

rização para manifestá-los.

Numa abordagem mais qualitativa

, Ernest Becker (1976) faz um

a análi-

pressão, a ansiedade em geral, com

excessivas preocupações somáticas.

se interessante sobre o espaço da morte em nossa cultura, revendo al-

 

guns aspectos da teoria psicanalíti

ca e da

abordagem existencial. Come-

Feifel e Nagy (1981) verifica ram que as pessoas com mais medo da m orte,

ça dizendo que o medo da

morte é universal na condição humana. Esta-

em escalas padronizadas, foram aquelas que a perceberam com imagens

belece a infância como o início da manifestação desse m

edo. Não nas-

mais negativas. Entre as

imagens negativas, oferecidas pelos autores, esta-

cemos com o m

edo da morte, a criança entra em contato gradat

ivamen-

vam a morte como: um lar abandonado, um cavalo fugitivo, uma rua sem

saída, um tigre devorador, uma neblina

gr ossa, um espaço sem sonhos.

Estes indivíduos es

eram menos religiosos e evitavam a participação em ritos funerários. Este estudo é importante porque levou em conta a avaliação do medo da mor-

te no nível consciente e no nível imagético. É

dade quando se trabalha somente com dados estatísticos.

tavam mais freqüentemente preocup

ados com a morte,

difícil considerar a subjetivi-

te com ela, em seu desenvolvimento, em parte atra

com seus pais.

vés das experiências

No início o mundo da criança é o mundo da m

ãe que garante a

sua

sobrevivência. Gradativamente a criança tem de se libertar da mãe, usa

n-

do seus impulsos a

gr essivos. É neste momento que surge a ambivalência,

2 2

Mort e e desenvolvimento humano

pois ao mesmo tempo qu e a mãe é fonte de satisf ação e prazer, a criança

necessita se libertar dela.

O temor da morte pode ser ampliado quando os pais negam e hostil izam

os impulsos vitais infantis. Neste sentido o medo da morte é algo que a

issa. As crian-

ças que tiveram experiências negativas, provavelmente, apresentarão mais

angústia de morte.

Segundo Wahl (1959) o medo da morte está muitas vezes relacionado ao

medo da castração. Antigamente se imaginou que a criança não tivesse

medo da morte, por não conhecê-la. Entretanto, o medo da castração que

surge após o período edipiano está relacionado com o medo da morte.

sociedade cria e utiliza contra a pessoa para mantê-la subm

Aparece ligado à culpa e

aos desejos destrutivos, vinculado s à raiva e à

frustração, em relação aos pais, que não atendem a

todos os seus desejos.

O

processo de socialização para todas as crianças tem aspectos dolorosos

e

frustradores, por isso elas têm, em alguns m

omentos, desejo

s de m orte

contra as pessoas que sãò responsávei s pela sua educação. Todos nós já

sentimos esses desejos, mesmo que não estivéssemos conscientes deles. Ao mesmo tempo que a criança os m anifest a, porém, sente culpa e medo

de

que tais desejos possam se

pesadelos, fobias, terrores noturnos e o medo da retaliação. A criança se crê em certas circunstâncias onipotente, com uma força que empresta dos pais. Essa invulnerabilidade é vivida também pelo adulto, quando acredita que a morte só acontece com os outros.

A criança tem medo da morte, mas acredita na sua

realizar. Nestes períodos são freqüentes

reversibilidade e no

seu poder de de sfazê-la, e isto faz parte do desenvolvimento infantil

normal. À medida que a

criança compreende que a

morte é irreversível,

passa a temer

em relação às pessoas mais próximas. Seus

ainda mais os seus

impulsos destrutivo

s, principal

mente

desejos de morte se tornam

aterrori zastes, pois ao mesmo tempo que os expressa teme pela sua

ocorrência. Pela Lei de Talião, imagina que o mesm

outro (normalmente, pais, irmãos, professores), possa acontecer com

ela.

A morte do adulto é temida como abandono e, por isso, além de poder

o que deseja para o

incitar a raiva e a frustração, causa u

til. Se o adulto forte e poderoso não co

m sério abalo na onipotência infan-

nsegue evitá-la o que d

irá a

Medo da morte

criança que é e se sente mais frágil. Muitas vezes, ela sente culpa após a morte de um a pessoa, pois se acredita responsável por ela.

A criança bem amada e cuidada se vê forte e poderosa, com um senti- mento de invulnerabilidade e apoio, que colaboram para o estabeleci- mento da individualidade. O medo da morte, portanto, depende da na-

tureza edas

viciss itudesprópriasdop

rocessodecrescimento.

2233

Como vimos, embora o medo da morte não seja inato ele é inerente ao

processo de desenvolvimento e está presente em

É um m edo básico, que influi em todos os outros e do qual ninguém fica

imune, por mais que possa estar disfarçado. Becker cita Zilboorg, que afirma que a maioria das pessoas pensa que o medo da morte está ausen- te, porque ele raramente mostra a sua verdadeira fisio nomia, mas sob as aparências pode-se notar o seu espectro. Ele cita alguns exem plos como,

a sensação de insegurança di

an te do perigo, o medo básico por trás do

ais

complexas elaborações e se manifest a das mais variadas formas. O medo

da morte pode estar ligado à morte concreta, à finitude, à extinção e

sentimento de desencorajamento e depressão, o medo que sofre as m

todos os seres hum

an os .

também aos seus equivalentes, como o medo do abandono, da vingança e

de outras forças destrutivas.

O m edo da morte tem um lado vital e por isso precisa estar presente em

certa medida. Ele é a expressão do instinto de autoconservação, uma

forma de proteção à vida e um a possibili dade de sup erar os instintos

destrutivos. A própria palavra au toconservação implica um esforço

contra as forças de desintegração, um estímulo para o funcionamento

biológico normal.

Uma das coisas que impulsiona o homem, a sua criação e frenética

atividade é o terror diante da morte. O heroísmo pode refletir esse

medo, uma form a de ação que funciona como se ele não existisse, o que

Becker chama de "mentira vital". Se estivéssemos conscientes o tempo todo de nossa morte e do nosso terror seríamos incapazes de agir nor- malmente, ficaríam os paralisados. Agimos como se fôssemos imortais, acreditamos que nossas ações são perenes, pois este é o nosso desejo supremo, e temos ilusões de que deixaremos obras gar an tindo nosso não-esquecimento. A repressão e a negação como mecanismos de defe- sa, são as grandes dádivas que nos protegem contra esse medo. Mas é

Mort e e desenvolvimento humano

importante ressaltar que essas defesas têm um caráter tran

eliminam a morte, o homem não poderá de i x ar de encárá-las em vá rias etapas de seu d esenvolvimento. Não po demos olhar diretamente para

morte, o tempo todo, mas também não podemos ignorá-la, pois ela impõe a sua presença.

Há algo que caracteriza o ser humano como tal e o diferencia dos

animais, é a consciência da sua morte e finitude. Ele tem um nome,

uma história, tem o

Por outro lado , possui um corpo que sente dor, adoece, e nvelhece e morre. O homem está b ipartido: ao mesmo tempo que sabe de sua

srcinali dade e poder de criação, reconhece sua finitude d e forma ra-

sitório, não

a

ssttaattuuss de um pequeno deus em relação à natureza.

cional e conscie nte. Vive toda a sua

existência com a morte presente

em seus sonhos, fantasias. Durante toda a sua existência, o ser humano

tenta driblar esse sa ber, essa consciência e age como se fosse imortal. Becker fala então do caráter c omo uma forma de proteção contra esse terror, uma aparência externa forte que esconde uma fragilidade inte-

rior. Mas o corpo não deixa que o esquec imento se torne perene. O homem pode se sentir pequeno diante da grandeza da criação, que

expõe a sua pequenez e fragilidade. Segundo o autor, a grande dádiva

da repressão é tornar possível viver em um m

undo miraculoso e incom-

preensível, um mundo de beleza e terror. O homem precisa dessas de- fesas contlra a plena percepção do mundo externo. Assim, ao mesmo tempo, que temos acesso a toda a criação, e n os sentimos potencial-

mente capazes, somos como vermes, com um

ções animais Eis o grande paradoxo humano.

corpo que tem manifesta-

Na verdade, o ser humano

possui dois grandes medos: o medo da vida e

o medo da morte. O medo da vida

se vincula ao medo da realização, da

individualização e, portanto, está propenso à destruição. Por isso, o indi- víduo se torna vulnerável a acidentes e deslizes.

Lowen (1980) estabelece uma relação entre o medo de viver e o de mor- rer. Se a vida é ser, por que temos tanto medo dela? N o relato dos casos

que menciona em seu livro, observamos um paradoxo, ou seja, quando o

indivíduo está mais cheio de vida, fica mais consciente da morte e do desejo de morrer. Viver plenamente com as emoções é se arriscar. Para

não sofrer, a pessoa pode se "amortecer", não sentir mais, mas também

Medo da morte 2255
Medo da morte
2255

não conseguirá viver. Segundo Lowen, toda tensão crônica no corpo de-

corre de um medo da vida, um medo de se soltar, um medo de ser.

Quando o sujeito vai recuperando a sua vitalidade no processo psicoterá- pico, abre o caminho para o estado de dor que havia suprimido. Ativa-se o caminho da sensação de morte, mas também se está a caminho da vida.

Por outro lado, o medo do sucesso, segund o Lowen, pode relacionar-se com o medo da castração, da destruição, suscitando a inveja. O poder

conduz ao medo e

excitação, maior o perigo.

A excitação sexual també

forma, o orgasmo é experimentado como uma morte. A ansiedade rela-

cionada ao orgasmo é a da

não ao amor. Quanto m

ais alta a expectativa, maior a

m pode evocar o medo da morte. De certa

dissoluç ão do ego, vivido como m

orte.

A maior parte das doenças psicológicas está vinculada ao temor diante do conhecimento de si mesmo, das emoções, dos impulsos, das lem-

branças, das capacidades, das potencialidades ligadas ao próprio desti- no. Tememos quaisquer conhecimentos que denunciemnossa fragili da-

de, reprimimos funções corporais que expressem a nossa mortalidade.

A

pavor diante da morte e da

couraça e, arrebentá-la, pode expor o indivíduo à loucura. O grande

tragédia do homem tem srcem na percepção de sua finitude, no

enormidade da vida, por isso ele cria uma

terror da psicose é o da perda de

controle, c

onseqüência de uma ruptu-

ra interna do sujeito com a perd a do eixo. O esquizofrênico não conse- gue se defender de doses extras de angústia, desamparo e culpa, acen-

tuadas pela incapacidade de projetar uma

parte desse terror para fora.

grandiosidade da vida e o terror

diante da morte é a depressão; através da auto-recriminação, da auto-

Uma outra forma de defesa contra a

desvalorização e paralisação, a pessoa não vive, morre

( em vida, embora

seu corpo sobreviva. M uitas vezes, quando o sujeito sente

controle sobre a sua

que não tem

de-

vida, ocorre o desamparo, que evolui para a

pressão, sintoma que está na gênese de vários quadros somáticos.

Buscam-se relações simbióti cas como forma de adqu irir segurança, as-

pecto presente no desenvolvimento normal de bebês, mas considerado patológico no caso de adultos. Podem-se desejar figuras de autoridade, representantes paternos que exigem, eliminando o livre-arbítrio, a ne-

26

Mort ee ee ddeesseennvvoollvviimmeennttoo hhuummaannoo

cessidade de tomar decisões, ou fazer escolhas, que poderiam elevar o sentimento de culpa. Nesse caso, a culpa p elo seu caráter restritivò,

acaba tendo um caráter punitivo, que protege também

liação.

O medo da vida e da

doenças. Muitos dos sintomas neuróticos servem p ara reduzir e estrei-

da possível reta-

s também em várias

morte podem estar presente

tar a qua

processo de evitamento da morte, faz com que

ação, isolando-se das pes-

soas, vivendo como se estivesse morto. A abstenção das experiências

vitais elimina o medo da morte e, consigo, a própria vida.

Para Becker o m asoquismo, co mo um sofrimento permeado de certo prazer, pode ser consider ado um meio de afastar a angústia de vida e

matando simbo

li dade de vida, evitando situações de morte. A

li camente, diminuindo a sua

neurose, no seu

o indivíduo acabe se

de morte. Pode também ser a forma encontrada de pegar o terror da

existência e congelá-lo numa pequena dose, o que seria um sacrifício

menor, um castigo mais leve, um meio de apaziguamento.

Depois de todas estas colocações, podemos ver novamente o entrelaça-

mento entre vida e morte. O m edo da morte tem um lado vital, que nos

protege, permite que continuemos nossa obras, nos

trutiv os e autodestrutivos

da em que se torna tão potente e restritivo que, simplesmente, a pessoa

de ix a de viver para não m

salva de riscos des-

mortal, na medi-

. Esse mesmo

medo pode ser

orrer, mas, se observarmos mais atentamente

teremos um morto diante de n ós que se esqueceu d e morrer. Todo ser

humano é obrigado a se confrontar com esse dilema, como o viverá,

porém, vai depender em parte de sua história de vida, da s característi-

cas de sua personali dade, mas também de seu esforço pesso al para

enfrentar essas qu estões. Podemos concluir, portanto, que o homem é

responsável pela sua vida e pela sua morte.

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AAttiittuuddeess ddiiaannttee ddaa mmoorrttee

2299

CCaappííttuulloo 33

i munidade ao seu

toque, oramos, jejuamos e nos retiramos em cavernas

escurase som

brias.Uma

caligraf iapersistente se misturaaos

mistérios

 

não p revistos .

AATTIITTUUDDEESS DDIIAANNTTEE DDAA MMOORRTTEE VVIISSÃÃOO HHIISSTTÓÓRRIICCAA,, SSOOCCIIAALL EE CCUULLTTUURRAALL

MMaarriiaa JJúúlliiaa Kovács

" A arte de morrer é tão importante como a arte de viver, o futuro
" A arte de morrer é tão importante como a arte de viver, o
futuro do ser depende talvez inteiramente de uma m orte corre-
(O livro dos mo rt os tibetano, Prefácio à
tamente controlada."
Segunda Edição)
A consciência da própria
morte é um
a importante conquista constit
utiva
do homem.O homem é d eterminado pela consciê ncia objetiv a de sua
morta li dade e por uma
subjetivi dade que busca
a imortalidade.

Segundo Morin (1970) é nas atitudes e crenç

homem exprime o que a vida tem

de mais fundamental. A sociedade a n izada

as

diante da morte que o

funciona apesar da morte, contra ela, mas só existe, enquanto org ana, a morte está
funciona apesar da morte, contra ela, mas só existe, enquanto org
ana, a morte está
pela morte, com a morte e na morte. Para a espécie hum
presente durante a vida toda e se faz a companhar de ritos. Desde o ho-
mem de Neanderthal são dadas sepulturas aos mortos. A morte faz parte
docotidiano,éconcreta e fundamental. Qualquer gr upo, mesmo os mais
primitivos, não abandonam os seus mortos. A crença na imortalidade
sempre acompanhou o homem.

Segundo Meltzer (1984), a morte é o inimigo que os vivos passa

m suas

vidas tentando superar e derrotar para sempre, sem

idéia da conseqüên-

cia disso. Todas as culturas personificam a morte de forma diferente, e

elaboram variadas magias contra a

sua intrusão. Combatemos a morte

com a nossa linguagem, com am uletos e talis mãs, transcrevemos nossos

sinais e símbolos em diversos materiais, juntamo-nos em

mais para romper as suas redes. Quando dançam

corpo tem sua função no rito, nos escondemos sob máscaras e vestimen-

tas de poder contra a m orte, reunimos substâncias sa gr adas para criar

cerimônias for- os e cada parte de nosso

Morinfaz uma interes s an te análise do lugar das crenças dos ritos e ma-
Morinfaz uma
interes s an te análise do lugar das crenças dos ritos e ma-
gias em relação à m
orte. O papel da religião é em parte o de
social izar e
dirigir os ritos de morte, como forma de lidar com o terror. Os ritos,
práticas e crenças referentes a ela con tinuam a ser o setor mais prim itivo
de nossa civilização. O sacrifício favorece a ligação entre vida e morte,

sendo a força da vida resultante dos aspectos fecundantes da

morte.

Quando se sacrifica um

balismo, existe a idéia

a<