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Capítulo 1

DIREITO E FILOSOFIA

Sumário: 1.1. Metodologia - 1.1.1. Filosofia do


Direito e Filosofia no Direto. 1.2. Conhecimento
e linguagem - 1.2.1 Consciência e objeto - 1.2.2.
Noções básicas sobre o objeto do conhecimento
- 1.2.3. Teoria dos objetos e regiões ônticas

1.1. METODOLOGIA
Quero ressaltar que não sou filósofo do direito, mas com-
preendi, de há muito, que a consistência do saber científico
depende do quantum de retroversão que o agente realize na
estratégia de seu percurso, vale dizer, na disponibilidade do
estudioso para ponderar sobre o conhecimento mesmo que se
propõe construir. Expressando-me de outra maneira, estou
convicto de que o discurso da Ciência será tanto mais profun-
do quanto mais se ativer, o autor, ao modelo filosófico por ele
eleito para estimular sua investigação. Já foi o tempo em que
se nominava, acriticamente, de científica a singela coleção de
proposições afirmativas sobre um direito positivo historica-
mente situado, passível de dissolver-se sob o impacto dos
primeiros questionamentos. Requer-se, hoje, a inserção num
paradigma mais amplo, numa tomada mais abrangente, capaz
de manter-se em regime de interação com um esquema que
possa realimentar incessantemente o labor da Ciência, nos
quadros de uma concepção grandiosa do pensamento humano.
O toque da cultura, cada vez reconhecido com maior intensi-

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

dade, evita que se pretenda entrever o mundo pelo prisma do Direito. Renovou-se, assim, de forma eloquente, aquilo que
reducionista do mero racionalismo descritivo. Por isso, o sopro de alguma maneira já houvera ocorrido nos domínios do direi-
filosófico, na forma superior de meditação crítica, há de estar to civil, penal, processual, constitucional e administrativo.
presente em toda a extensão do trabalho.
Por uma circunstância histórica que o tempo ainda não
Não somente aquelas disciplinas de caráter empírico- permite identificar com clareza, importante segmento da dou-
descritivas de relações interativas, como o são a Psicologia trina dos tributaristas autodeterminou-se no sentido de ofere-
Social do Direito e a Sociologia do Direito, mas todas as pos- cer os fundamentos de sua concepção jurídico-filosófica, de
turas cognoscentes do jurídico, entre elas a Dogmática ou Ci- modo expresso, antes de iniciar o desenvolvimento da matéria
ência do Direito em sentido estrito, postulam, a cada passo, os proposta, ensejando ao leitor o controle e a vigilância sobre o
incrementos do pensar filosófico, criando novo alento e expan- conteúdo do trabalho.
dindo, com isso, os horizontes de seu saber. O progresso da
Não é preciso dizer que procedimento desse tope, tornando
pesquisa científica fica na dependência direta do apoio indis-
o pensamento susceptível ao juízo crítico da coerência, requer
pensável da Filosofia. Daí seu prestígio para o desenvolvimen-
seriedade de propósitos, demandando estudos aprofundados
to dos estudos atuais, na multiplicidade de suas manifestações sobre a realidade do direito. Muda, de certa forma, o tom da
construtivas. retórica jurídica tradicional, para colocá-la em bases mais só-
A Teoria Geral do Direito tem recebido valiosa contribui- lidas e consistentes. Sem abandonar a estrutura dialética do social,
ção dos estudos empreendidos por especialistas da área tribu- mantendo o diálogo entre a rotinização e a inovação, o exegeta
tária. Desde a obra de Becker e das elaborações de Geraldo avança em direção ao elo que há de existir entre as proposições
Ataliba e de José Souto Maior Borges, até a decidida inserção teoréticas e a experiência concreta do "mundo da vida".
do Grupo de Estudos que o IBET' promove há vinte e três anos, Agora, se agregarmos a tal critério expositivo a preocu-
no movimento do "giro-linguístico", afirmando-se na linha de pação com a linguagem jurídico-normativa; se atinarmos para
frente da "Filosofia da Linguagem". Com efeito, as intensas o rendimento que pode ser obtido pela utilização das categorias
reflexões sobre o fenômeno do direito vêm acontecendo numa do projeto semiótico, mais precisamente para as dimensões
sucessividade digna de nota. Vários estudiosos, de muito ele- lógico-semânticas do texto prescritivo; se pensarmos que toda
vado nível, num espontâneo e desinteressado esforço de coo- a marcha do raciocínio se reporta a uma visão da norma jurí-
peração intelectual, tomando a obra incomum de Lourival dica, analisada com vigor na sua inteireza conceptual, como
Vilanova como paradigma e deixando de lado o fluxo turbulento "unidade mínima e irredutível" da mensagem deôntica porta-
da vida social e profissional dos nossos dias, plantaram, em dora de sentido completo; se não perdermos de vista a neces-
terra firme, interessante centro de indagação teórica e prática. sidade premente de o discurso teórico propiciar a compreensão,
O denominador comum dessa dinâmica especulativa esteve com boa dose de racionalidade, da concretude empírica do
sempre representado pela busca incessante de encontrar, na direito posto; estaremos diante daquilo que bem se pode cha-
experiência concreta do direito tributário, as respostas satis- mar de "constructivismo jurídico", vertido sobre o subsistema
fatórias contidas em proposições de Teoria Geral e de Filosofia das regras tributárias, o qual analisaremos em capítulos sub-
sequentes com maior rigor metodológico.
Creio, porém, que não se deva aprisionar labor desse
1. Instituto Brasileiro de Estudos Tributários. estilo num único e singelo rótulo, por mais significativo que
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

dade, evita que se pretenda entrever o mundo pelo prisma do Direito. Renovou-se, assim, de forma eloquente, aquilo que
reducionista do mero racionalismo descritivo. Por isso, o sopro de alguma maneira já houvera ocorrido nos domínios do direi-
filosófico, na forma superior de meditação crítica, há de estar to civil, penal, processual, constitucional e administrativo.
presente em toda a extensão do trabalho.
Por uma circunstância histórica que o tempo ainda não
Não somente aquelas disciplinas de caráter empírico- permite identificar com clareza, importante segmento da dou-
descritivas de relações interativas, como o são a Psicologia trina dos tributaristas autodeterminou-se no sentido de ofere-
Social do Direito e a Sociologia do Direito, mas todas as pos- cer os fundamentos de sua concepção jurídico-filosófica, de
turas cognoscentes do jurídico, entre elas a Dogmática ou Ci- modo expresso, antes de iniciar o desenvolvimento da matéria
ência do Direito em sentido estrito, postulam, a cada passo, os proposta, ensejando ao leitor o controle e a vigilância sobre o
incrementos do pensar filosófico, criando novo alento e expan- conteúdo do trabalho.
dindo, com isso, os horizontes de seu saber. O progresso da
Não é preciso dizer que procedimento desse tope, tornando
pesquisa científica fica na dependência direta do apoio indis-
o pensamento susceptível ao juízo crítico da coerência, requer
pensável da Filosofia. Daí seu prestígio para o desenvolvimen-
seriedade de propósitos, demandando estudos aprofundados
to dos estudos atuais, na multiplicidade de suas manifestações
sobre a realidade do direito. Muda, de certa forma, o tom da
construtivas. retórica jurídica tradicional, para colocá-la em bases mais só-
A Teoria Geral do Direito tem recebido valiosa contribui- lidas e consistentes. Sem abandonar a estrutura dialética do social,
ção dos estudos empreendidos por especialistas da área tribu- mantendo o diálogo entre a rotinização e a inovação, o exegeta
tária. Desde a obra de Becker e das elaborações de Geraldo avança em direção ao elo que há de existir entre as proposições
Ataliba e de José Souto Maior Borges, até a decidida inserção teoréticas e a experiência concreta do "mundo da vida".
do Grupo de Estudos que o IBET 1 promove há vinte e três anos, Agora, se agregarmos a tal critério expositivo a preocu-
no movimento do "giro-linguístico", afirmando-se na linha de pação com a linguagem jurídico-normativa; se atinarmos para
frente da "Filosofia da Linguagem". Com efeito, as intensas o rendimento que pode ser obtido pela utilização das categorias
reflexões sobre o fenômeno do direito vêm acontecendo numa do projeto semiótico, mais precisamente para as dimensões
sucessividade digna de nota. Vários estudiosos, de muito ele- lógico-semânticas do texto prescritivo; se pensarmos que toda
vado nível, num espontâneo e desinteressado esforço de coo- a marcha do raciocínio se reporta a uma visão da norma jurí-
peração intelectual, tomando a obra incomum de Lourival dica, analisada com vigor na sua inteireza conceptual, como
Vilanova como paradigma e deixando de lado o fluxo turbulento "unidade mínima e irredutível" da mensagem deôntica porta-
da vida social e profissional dos nossos dias, plantaram, em dora de sentido completo; se não perdermos de vista a neces-
terra firme, interessante centro de indagação teórica e prática. sidade premente de o discurso teórico propiciar a compreensão,
O denominador comum dessa dinâmica especulativa esteve com boa dose de racionalidade, da concretude empírica do
sempre representado pela busca incessante de encontrar, na direito posto; estaremos diante daquilo que bem se pode cha-
experiência concreta do direito tributário, as respostas satis- mar de "constructivismo jurídico", vertido sobre o subsistema
fatórias contidas em proposições de Teoria Geral e de Filosofia das regras tributárias, o qual analisaremos em capítulos sub-
sequentes com maior rigor metodológico.
Creio, porém, que não se deva aprisionar labor desse
1. Instituto Brasileiro de Estudos Tributários. estilo num único e singelo rótulo, por mais significativo que
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seja. Há outras perspectivas que colhem aspectos relevantes A primeira locução, utilizada para significar o conjunto de
dessefactum cultural, hoje irradiado por vários Estados do Bra- reflexões acerca do jurídico, corpo de ponderações de quem
sil, despertando, igualmente, a curiosidade de juristas estran- olha, de cima e por fora, textos de direito positivo historica-
geiros. Testemunhos veementes são os numerosos livros que já mente dados, compondo proposições crítico -avaliativas. A
circulam nessa comunidade de conhecimento, fundados, todos segunda, como o emprego de categorias que se prestam às
eles, na concepção da regra-matriz de incidência tributária. meditações filosóficas, todavia inseridas nos textos da Dogmá-
tica, isto é, vindas por dentro, penetrando as construções mes-
O modelo que foi nascendo jamais chamou a si a primazia
mas da Ciência. São enunciados extrajurídicos, não necesaria-
de instrumento exclusivo para ensejar a aproximação do dado
mente filosóficos, linguísticos ou não, mas que potencializam
jurídico. Pelo contrário, alimenta a convicção de que muitos
o trabalho do cientista do direito em sentido estrito, na medida
são os sistemas de referência por intermédio dos quais o obje- em que são introduzidos no discurso para aumentar sua capa-
to do direito pode ser examinado. Eis que a pluralidade de cidade cognoscente, ao provocar novos meios de aproximação
métodos científicos instrumentando a aproximação do exege- com o objeto que se pretende conhecer.
ta ao próprio objeto cultural que é o sistema jurídico, decidi-
damente, demonstra a complexidade da ontologia do direito. Não há nessa nota qualquer espírito emulativo, para
Entre a camada linguística do chamado direito positivo e a apontar esta ou aquela proposta metodológica como a melhor:
realidade social, tomada na porção das condutas interpessoais, podem conviver, ambas, harmonicamente, outorgando maior
rendimento ao trabalho expositivo.
há uma multiplicidade de modos de aproximação, um número
crescente de enfoques temáticos, representando cada qual uma O exemplo sempre foi expediente fundamental para ilu-
forma de corte metodológico com que o ser cognoscente trava minar o conhecimento. Nesse sentido, o estudo das "fontes do
contato com o objeto do conhecimento. Provém dessa dificul- direito" ficou engrandecido com as categorias linguísticas de
dade a opção pelas concepções reducionistas, seja na vertente enunciação, enunciação-enunciada, enunciado e enunciado-
do jusnaturalismo, seja na do positivismo ou do realismo. enunciado. Da mesma forma, os elementos pragmáticos relato
e cometimento, empregados para a especulação teórica sobre
Na verdade, o saber científico dos tempos atuais é enfá-
a norma jurídica, fortaleceram a mensagem cognoscitiva, pro-
tico em um ponto: todos entendem que não há como abrir mão
piciando condições mais cômodas para a compreensão das
da uniformidade na apreciação do objeto, bem como da rigo- unidades normativas.
rosa demarcação do campo sobre o qual haverá de incidir a
proposta cognoscitiva. Foi neste sentido que Kelsen, habilmen- Construções desse tipo estimulam o emprego da "Filoso-
te, esquivou-se do problema ontológico, fazendo sua opção pelo fia no Direito", tendo em vista expandir o conhecimento e dar
caminho da Epistemologia: ali onde houver direito, certamente mais consistência ao saber jurídico.
haverá normas. Ao surpreendê-las, teremos assegurado a uni-
formidade do objeto e demarcado o espaço da investigação. 1.2. CONHECIMENTO E LINGUAGEM

O "mundo da vida", com as alterações ocorridas no cam-


1.1.1. Filosofia do Direito e Filosofia no Direito
po das experiências tangíveis, é submetido à nossa intuição
Parece-me útil distinguir "Filosofia do Direito" de "Filo- sensível, naquele "caos de sensações" a que se referiu Kant. O
sofia no Direito", como tem feito Tercio Sampaio Ferraz Junior. que sucede neste domínio e não é recolhido pela linguagem

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PAULO DE BARROS CARVALHO
DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

social não ingressa no plano por nós chamado de "realidade",


introspectiva que lhe oferece os meios de captar mutações
e, ao mesmo tempo, tudo que dele faz parte encontra sua forma
internas, percebendo as alterações que se operam no fluxo
de expressão nas organizações linguísticas com que nos comu-
contínuo de suas vivências interiores. Mais além, a consciência
nicamos; exatamente porque todo o conhecimento é redutor
retroverte sua atenção para os próprios conhecimentos obtidos
de dificuldades, reduzir as complexidades do objeto da expe-
(sejam eles internos ou externos), numa atitude eminentemen-
riência é uma necessidade inafastável para se obter o próprio
te reflexiva, avaliando-os sob múltiplos aspectos. Dito de outro
conhecimento. modo, apropria-se dos conhecimentos a que teve acesso,
Encontramos nesse contexto e no inevitável processo re- combinando-os na conformidade dos valores que lhe pareçam
ducionista, a exemplo de Husserl, a figura do homem como pólo cabíveis segundo sua ideologia. Conhece, sabe que conhece e,
central de construção da realidade jurídica ou não jurídica ela- sobretudo, avalia e reflete acerca dos elementos que conheceu,
borada a partir da contextura físico-material. Sem ele, com suas incorporando-os ao patrimônio de seu espírito. Eis a reflexão,
estruturas intelectuais, seria impossível alcançar as instâncias momento decisivo que, ao lado da atividade transcendente,
cognoscitivas do saber. Eis que se toma como premissa do estu- manifestada pela "intencionalidade", vai oferecer a medida
do linguístico do direito a análise do próprio conhecimento, das adequada dessa função sobranceira, que identifica fundamen-
estruturas de consciências e dos objetos e estruturas lógico- talmente o ser humano, no amplo domínio dos entes da natu-
abstratas a ele inerentes. O direito observado como linguagem reza. Registrou Edmund Husserl que a intencionalidade é o
não sobrevive sem esses traços do conhecimento. que caracteriza a consciência de modo significativo, o que levou
Lourival Vilanova 2 a exprimir que "a consciência, expressão
da subjetividade, tende para as coisas; o sujeito está vertido
1.2.1. Consciência e objeto
sobre seu contorno, por urgência vital, antes de o ser pelo puro
Tomemos a palavra "consciência" como a função pela qual chamamento da verdade objetiva". Como unidade dos proces-
o ser humano trava contato com suas vivências, estados psíqui- sos psíquicos, que governam a intelecção pelo homem do
cos e condutas, bem como projeta sua atenção para o mundo mundo objetivo e do território imanente a suas subjetividades,
exterior recolhendo os dados obtidos pela intuição sensível (ol- a consciência é forma superior e exclusiva à espécie humana.
fato, visão, audição, tato, paladar), processando assim suas "O desenvolvimento pleno do espírito comporta a sua própria
emoções, sentimentos, sensações, lembranças, sonhos, imagi- reflexividade, a consciência. Sob todos os aspectos, a consci-
nação, pensamentos, esperanças e a gama imensa de suas ma- ência é o produto e a produtora da reflexão", como pondera
Edgar Morin 3 .
nifestações volitivas. Nota-se, desde logo, que a "direcionalidade"
é algo absolutamente necessário para a definição desse concei- Agora, tudo isso se faz mediante formas, produzidas por
to, de modo que consciência é sempre "consciência de algo". atos que, por sua vez, têm um conteúdo. São três faces diferentes:
Essa bi-relacionalidade integra a idéia de "consciência" com o ato de consciência, o resultado do ato (que é a forma), e o
tanta força que não há sentido em cogitarmos de um recinto conteúdo do ato (que é seu objeto). Uma coisa é exercer o ato
encerrado nos limites da sua configuração interna ou, mesmo,
apenas voltado para a contingência externa do ente humano,
jogado como um ser carente nos horizontes de sua existência. 2. "Notas para um ensaio sobre a cultura", in Escritos jurídicos e filosóficos,
vol. 2, São Paulo, Mis Mundi/ IBET, 2003, pp. 285 e 286.
O transcender, levando o espírito para o ambiente exterior 3. 0 Método 3: o conhecimento do Conhecimento, trad. Juremir Machado da
do seu contorno de vida, é tão relevante quanto a atividade Silva, 3a ed., Porto Alegre, Sulina, 2005, p. 209.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

de pensar, que gera a forma "pensamento" e se dá num deter- modo de ser e de existir. Dissolvidas essas formas, com os res-
minado instante; outra é o conteúdo desse pensamento (seu pectivos objetos, desaparece também a consciência.
objeto), que pode ocupar-se de qualquer situação da vida, in- Essas considerações justificam a divisão da consciência
clusive dele mesmo, "pensamento". Uma coisa é lembrar-se em direta ou espontânea e indireta ou reflexiva, quatro ângu-
(ato); outra, a lembrança (forma); outra, ainda, a situação lem- los fundamentais, anotados por Marilena Chauí 5 : a) do ponto
brada (objeto). de vista psicológico, como um fluxo temporal de estados cor-
O ato de consciência produz a forma de consciência, do- porais e mentais, que retém o passado na memória, percebe
tada de conteúdo (objeto). E, assim, estendemos a tríade da o presente pela atenção e espera o futuro pela imaginação e
consciência para todas as formas que possam ocorrer: a per- pelo pensamento; b) do ponto de vista ético e moral, onde
cepção, a sensação, a lembrança, as emoções, a imaginação, a aparece o ser pessoa, dotado de vontade livre e de responsa-
vontade, o pensamento (com suas modalidades: idéias, juízos, bilidade; c) na sua feição política, em que a consciência é o
raciocínios, sistemas), o sonhar, o conhecer, etc. Cabe aduzir cidadão, i merso no tecido das relações sociais, como portador
que o ser consciente não sente a sensação, não percebe a per- de direitos e deveres, relacionando-se com a esfera pública do
cepção, não pensa o pensamento, mas sim apreende o objeto poder e das leis, integrando grupos e camadas sociais especí-
dessas formas em que a consciência se manifesta. ficas; e d) sob o ponto de vista da teoria do conhecimento, o ser
cognoscente, em que a consciência comparece como atividade
De qualquer modo, é sempre útil assinalar que a consci- sensível e intelectual, carregada do poder de análise, de sín-
ência somente existe por aquilo que a transcende, seja para tese e de representação.
fora, quando o ser humano observa o mundo exterior, seja para
dentro, introspectivamente, quando surpreende suas próprias
1.2.2. Noções básicas sobre o objeto do conhecimento
mutações interiores. A consciência pode ser vista, então, vol-
tada para o exterior ou preocupada com a intimidade interna
Husserl 6 chamou de noeses o ato de consciência e de no-
do espírito, remanescendo, ainda, a capacidade de refletir sobre
ema o conteúdo surpreendido pelo ato. E já anotei, linhas atrás,
tudo aquilo que colheu nessa atividade bi-transcendente. Daí
que a consciência requer, de maneira indispensável, pelo menos
dizer-se que é um saber de algo que como tal se sabe. Kant a
alguma das formas a que aludi. Inexistirá consciência, portan-
toma como condição transcendental da possibilidade do co-
to, sem a identificação precisa dessas entidades com os respec-
nhecimento e para E. Husserl 4 , "a intencionalidade é aquilo
tivos conteúdos, já que não há forma sem conteúdo e a recí-
que caracteriza a consciência no sentido forte, e que justifica
proca é inteiramente verdadeira.
ao mesmo tempo designar todo o fluxo do vivido como fluxo
de consciência e como unidade de uma única consciência". Deixarei de lado a forma, bem como o ato que a produziu,
Mediante a intencionalidade, a consciência seria doadora de para ater-me à substância recolhida pelo ato: eis aí o território
significado ao mundo. imenso dos objetos, exteriores ao ser cognoscente, ou interiores
a ele, pouco importa, como também pouco interessa aqui indagar
Mas convém insistir na circunstância de que não haverá
consciência sem as formas que compõem seu particularíssimo
5. Convite à filosofia, 2a ed., São Paulo, Ática, 1995, pp. 117-118.
6. Idéias para uma fenomenologia
4. Idéias para uma fenomenologia pura e para uma filosofia fenomenológica, pura e para uma filosofia fenomenológica,
cit., p. 201 e ss.
São Paulo, Idéias & Letras, 2006, p. 190.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

se a consciência está ou não naquela atividade reflexiva que linguísticos. N'outra circunstância, emocionado diante de um
assume com tanta frequência, a ponto de ser indicada como objeto de arte, reparo traços e movimentos que não estão ex-
um dos seus fatores compositivos. postos ao olhar frio e neutro do espectador comum, e sobre
Bem, o conhecimento pode ocorrer mediante qualquer eles emito um juízo de valor, expressivo de minhas preferências.
das modalidades formais de consciência: a percepção, a sen- Eis o conhecimento se apresentando, na forma superior do
sação, a lembrança, as emoções, a imaginação, a vontade, o emocional, mas igualmente declarado por um juízo lógico.
pensamento (idéias, juízos, raciocínios, sistemas), o sonhar, o Alaor Caffé Alves, no seu magnífico texto sobre Lógica',
alimentar esperanças, etc. Consubstancia-se na apreensão do diz com objetividade:
objeto mediante ato específico e forma correspondente. É
preciso salientar, contudo, que há meios mais ou menos efi- "Conhecer é representar-se um objeto. É a operação ima-
cazes para que se dê o fenômeno de absorção. Sempre lem- nente pela qual um sujeito pensante representa um objeto.
brando que, vezes sem conta, o objeto é aprisionado por atos É o ato de tornar um objeto presente à percepção, à imagi-
competentes, mas, por uma série de motivos sobre os quais nação ou à inteligência de alguém... Esse processo cogniti-
especula a psicologia individual, ele permanece latente, osci- vo está fundado, portanto, em três elementos: a represen-
tação, o objeto representado e o sujeito que representa o
lando em camadas inferiores do nosso espírito, que podería-
referido objeto."
mos chamar de "saberes inconscientes". Por variadas contin-
gências existenciais, esses objetos não são conduzidos ime-
diatamente à plataforma da consciência, o que não significa Na tentativa de evitar o desequilíbrio entre os elementos
dizer que não tenham sido adequadamente capturados ou que formadores do conceito básico de "conhecimento" é que Mi-
guel Reale 8 propôs a expressão Ontognosiologia Jurídica, por
inexistam como conhecimento. Nossas vivências pessoais
parecer-lhe
atestam circunstâncias desse tope, com muita reiteração. Num
átimo, são eles alçados à condição de objetos sobre os quais
"impossível deixar de considerar, concomitantemente,
temos consciência, conquanto saibamos que já estavam depo-
no plano transcendental, os aspectos ôntico e lógico de
sitados nos misteriosos arquivos situados em camadas infe-
todas as realidades culturais que, sendo como são, pro-
riores do nosso espírito. dutos da atividade espiritual segundo os valores condi-
Tecidas essas notas introdutórias, que reputo indispensá- cionantes da convivência humana, caracterizam-se por
veis, posso dizer, desde logo, que, por exemplo, já existe um serem 'realidades dialéticas', nos quais o subjetivo e o
quantum de conhecimento no ato de percepção, mas o conhe- objetivo necessariamente se polarizam e se co-implicam,
dada a impossibilidade de reduzir-se qualquer desses
cimento mesmo atinge sua plenitude quando aquele conteúdo
dois fatores ao outro, ou de conceber-se qualquer deles
se torna alvo de modalidades do pensamento (juízo). Pela in- sem o outro, resultando dessa tensão dois aspectos com-
tuição visual percebo o cão que passa, percebo também a cor plementares de um único processo."
de sua pelagem. Por enquanto, são meras percepções. Em se-
guida, emito o juízo afirmativo mediante o qual declaro que
aquele animal tem o predicado de ser branco. Manifesta-se o 7. Lógica — Pensamento formal e
argumentação Elementos para o discurso

conhecimento de maneira plena, submetendo-se, imediata- jurídico, São Paulo, Edipro, 2000, p. 27.
mente, aos critérios de confirmação ou de infirmação, se não 8. O direito como experiência:
introdução à epistemologia jurídica, 2a ed., São
quisermos falar em verdade e falsidade, atributos de enunciados Paulo, Saraiva, 1999, p. 84.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

se a consciência está ou não naquela atividade reflexiva que linguísticos. N'outra circunstância, emocionado diante de um
assume com tanta frequência, a ponto de ser indicada como objeto de arte, reparo traços e movimentos que não estão ex-
um dos seus fatores compositivos. postos ao olhar frio e neutro do espectador comum, e sobre
Bem, o conhecimento pode ocorrer mediante qualquer eles emito um juízo de valor, expressivo de minhas preferências.
das modalidades formais de consciência: a percepção, a sen- Eis o conhecimento se apresentando, na forma superior do
sação, a lembrança, as emoções, a imaginação, a vontade, o emocional, mas igualmente declarado por um juízo lógico.
pensamento (idéias, juízos, raciocínios, sistemas), o sonhar, o Alaor Caffé Alves, no seu magnífico texto sobre Lógica',
alimentar esperanças, etc. Consubstancia-se na apreensão do diz com objetividade:
objeto mediante ato específico e forma correspondente. É
preciso salientar, contudo, que há meios mais ou menos efi- "Conhecer é representar-se um objeto. É a operação ima-
cazes para que se dê o fenômeno de absorção. Sempre lem- nente pela qual um sujeito pensante representa um objeto.
brando que, vezes sem conta, o objeto é aprisionado por atos É o ato de tornar um objeto presente à percepção, à imagi-
competentes, mas, por uma série de motivos sobre os quais nação ou à inteligência de alguém... Esse processo cogniti-
especula a psicologia individual, ele permanece latente, osci- vo está fundado, portanto, em três elementos: a represen-
tação, o objeto representado e o sujeito que representa o
lando em camadas inferiores do nosso espírito, que podería-
referido objeto."
mos chamar de "saberes inconscientes". Por variadas contin-
gências existenciais, esses objetos não são conduzidos ime-
Na tentativa de evitar o desequilíbrio entre os elementos
diatamente à plataforma da consciência, o que não significa
formadores do conceito básico de "conhecimento" é que Mi-
dizer que não tenham sido adequadamente capturados ou que
guel Reale 8 propôs a expressão Ontognosiologia Jurídica, por
inexistam como conhecimento. Nossas vivências pessoais
parecer-lhe
atestam circunstâncias desse tope, com muita reiteração. Num
átimo, são eles alçados à condição de objetos sobre os quais
"impossível deixar de considerar, concomitantemente,
temos consciência, conquanto saibamos que já estavam depo-
no plano transcendental, os aspectos ôntico e lógico de
sitados nos misteriosos arquivos situados em camadas infe-
todas as realidades culturais que, sendo como são, pro-
riores do nosso espírito. dutos da atividade espiritual segundo os valores condi-
Tecidas essas notas introdutórias, que reputo indispensá- cionantes da convivência humana, caracterizam-se por
veis, posso dizer, desde logo, que, por exemplo, já existe um serem 'realidades dialéticas', nos quais o subjetivo e o
objetivo necessariamente se polarizam e se co-implicam,
quantum de conhecimento no ato de percepção, mas o conhe-
dada a impossibilidade de reduzir-se qualquer desses
cimento mesmo atinge sua plenitude quando aquele conteúdo
dois fatores ao outro, ou de conceber-se qualquer deles
se torna alvo de modalidades do pensamento (juízo). Pela in- sem o outro, resultando dessa tensão dois aspectos com-
tuição visual percebo o cão que passa, percebo também a cor plementares de um único processo."
de sua pelagem. Por enquanto, são meras percepções. Em se-
guida, emito o juízo afirmativo mediante o qual declaro que
aquele animal tem o predicado de ser branco. Manifesta-se o 7. Lógica — Pensamento formal e argumentação — Elementos
para o discurso
conhecimento de maneira plena, submetendo-se, imediata- jurídico, São Paulo, Edipro, 2000, p. 27.
mente, aos critérios de confirmação ou de infirmação, se não 8.0 direito como experiência:
introdução à epistemologia jurídica, 2a ed., São
quisermos falar em verdade e falsidade, atributos de enunciados Paulo, Saraiva, 1999, p. 84.

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E mais: Creio oportuno frisar que há uma relação dialética entre


sujeito e objeto, de tal sorte que um, não sendo o outro, não
"A Ontologia Jurídica, tendo por fim determinar afundação existe sem o outro; em última instância, um é pelo outro. O
cognoscitiva do Direito, em termos de integralidade, indaga
de sua consistência `ôntica' e da correlata estrutura 'lógica', objeto do conhecimento, em sentido estrito, não é a coisa
isto é, dos pressupostos universais ao mesmo tempo subje- concreta, sentida ou percebida como algo existente, também
9
tivos e objetivos da realidade jurídica. " chamada objeto em sentido amplo. É sempre interior. Por isso
se apresenta, invariavelmente, sob determinada forma de
Realmente, uma análise ponderada do fenômeno, seja ele consciência, como a percepção, a imagem, o conceito, etc.
jurídico ou não, pressupõe essas três instâncias cognoscitivas: Transmitido de modo diverso, o processo de conhecimento
o sujeito, no espírito de quem se dá o processo de absorção e dos objetos do mundo não se completa sem transitar, obriga-
retenção, o objeto conquistado no curso desse procedimento toriamente, pela subjetividade do ser cognoscente, quer os
cognoscente e a própria representação. do mundo exterior como os de seu próprio universo interior,
fazendo-se presentes em sua consciência por uma das formas
"Objeto" é vocábulo que provém do latim, objectus, par-
que cogitamos.
ticípio passado de objicere - que nos aponta para "atirar em",
ou "lançar contra", aludindo, então, àquilo a que a consciência É comum a confusão entre "objeto" do conhecimento e o
se dirige, cognitiva ou conativamente. Lembremo-nos de que "objeto" que vemos ali, concretamente existente no mundo
objeto cognitivo é qualquer item percebido, imaginado, conce- real. O que está em nossa consciência é o conteúdo da forma,
bido ou pensado. Enquanto o objeto conativo é qualquer item não o objeto mesmo, tomado na sua contextura físico-material.
desejado, pretendido ou evitado. Os filósofos separam de maneira clara essas duas situações,
referindo-se a "objeto" em sentido amplo: a coisa-em-si, per-
Objetos, em tal sentido amplo, nascem com o discurso,
cebida por nossos órgãos sensoriais, e "objeto" em sentido
surgem com o exercício de atos de fala, ou seja, não o precedem,
estrito, vale dizer, em sentido epistêmico: conteúdo de uma
muito ao contrário do que comumente se pensa. Os objetos
forma de consciência. Efeito prático imediato dessa distinção
nascem quando deles se fala: o discurso, na sua amplitude, lhes
é a lembrança de William James de que "a palavra 'cão' não
dá as condições de sentido mediante as quais os recebemos e
morde".
os processamos.
A Teoria dos Objetos reconhece que todo objeto tem
1.2.3. Teoria dos objetos e regiões ônticas
sempre um lado subjetivo, conteúdo de alguma forma subje-
tiva, apresentando-se, portanto, como um dado, um elemen- É também de Edmund Husserl a teoria geral dos objetos,
to integrante do mundo da consciência. Mantenhamos pre- retomada e explicitada por Carlos Cossio. Nela, vemos quatro
sente o que já foi dito: a consciência, enquanto tal, no fluxo ontologias regionais ou regiões ônticas, tendo o ser humano
incessante de sua existência, dissolve-se caso não se apresen- como ponto de referência de onde se irradiam os espaços cor-
te sob alguma forma. respondentes. Penso que o diagrama abaixo servirá como ele-
mento coadjuvante na explicitação da mensagem. Vale ressaltar
a presença do ser humano bem na confluência das regiões
9. O direito como experiência: introdução à epistemologia jurídica, cit., p. 85. mencionadas.
14 15
PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Antes de passar em revista os objetos e as corresponden-


tes regiões ônticas, firmemos a premissa segundo a qual essa
classificação, como, de resto, todas as outras, não esgotam com
O BJ ETOS OBJ ETOS precisão o mundo objetal. Há entidades que preenchem os
NATURAIS IDEAIS
critérios de pertinência de duas ou mais classes regionais,
2 3
suscitando a dúvida em nosso espírito.
1) Esta notação indica que o ser humano é o centro a
partir do qual os objetos do mundo são considerados. Trata-
se, sem dúvida alguma, de uma visão antropocêntrica, que
O BJ ETOS OBJ ETOS toma o homem como o núcleo que integra todas as tentativas
METAFÍSICOS CULTURAIS de localização dos objetos. Breve reflexão sobre esses elemen-
5 4 tos nos mostra que as quatro regiões têm nele, homem, par-
ticipação imediata, encontrando nesse ponto central suas
fontes últimas de existência, suas plataformas operacionais.
Assim, por exemplo, sendo de carne e osso, o ente humano
pertence à região dos objetos naturais; é na sua mente que
Maria Helena Diniz 10 oferece-nos uma visão geral do assun-
estão depositadas as figuras ideais, como é, também, por meio
to, propondo, de maneira didática, os caracteres, o ato gnosioló-
de ações concretas, na trajetória de sua existência, que apa-
gico e o método de cada uma das quatro ontologias regionais.
recem os objetos culturais. Ao mesmo tempo, é o homem, na
REGIÃO ÔNTICA CARACTERES ATO GNOSIOLÓGICO MÉTODO complexidade de suas vivências psicológicas que cria e opera
2) Objetos A) são reais, têm existência Explicação Emp írico-
com os objetos metafísicos. Afinando-se pela mesma craveira,
naturais
no tempo e no espaço;
B) estão na experiência;
indutivo Gabriel Ivon é incisivo:
C) são neutros de valor.

3) Objetos A) são irreais; não têm exis- Intelecção Racional- "Em todos os momentos a presença humana é imprescin-
ideais tência no tempo e no es- dedutivo
paço; dível. No ato de vontade de aplicação; o intérprete autênti-
B) não estão na experiência; co no sentido kelseniano. E no ato de conhecimento, de
C) são neutros de valor.
designação do sentido dos textos normativos, ou seja, na
4) Objetos A) são reais; têm existência Compreensão Empírico-
culturais no tempo e no espaço; dialético construção das normas jurídicas; o intérprete não-autênti-
B) estão na experiência; co de Kelsen".
C) são valiosos, positiva ou
negativamente.

5) Objetos A) são reais; têm existência 2) Os objetos físicos ou naturais são reais, manifestam-se
metafísicos no tempo e no espaço;
B) não estão na experiência;
no tempo e no espaço, o que significa dizer que podem ser
C) são valiosos, positiva ou colhidos na experiência, mediante enunciados protocolares,
negativamente.
base das construções que costumamos chamar de leis físicas.

10. Maria Helena Diniz, Compêndio de introdução à ciência do direito, São


Paulo, Saraiva, 1988, p. 124. 11. Norma jurídica: produção e controle, São Paulo, Noeses, 2006, pp. 60-61.

16 17
PAULO DE BARROS CARVALHO

Todavia, tendem à neutralidade axiológica, vale dizer, inclinam-


se para a condição de objetos neutros com relação a valores.
Cumpre notar, entretanto, que os objetos psicológicos podem
ser vistos entre os naturais, porém, só existem no tempo, não
se verificando no espaço. O ato gnosiológico apropriado aos
objetos dessa região ontológica é a explicação e o método é o
empírico-indutivo.
3) Os objetos ideais são irreais, inocorrendo no âmbito das
coordenadas de espaço e de tempo, o que implica declarar a
Capítulo 2
i mpossibilidade de seu conhecimento empírico. Tanto quanto NOÇÕES FUNDAMENTAIS PARA UMA
os anteriores, tendem à neutralidade axiológica, o ato gnosio- TOMADA DE POSIÇÃO ANALÍTICA
lógico que lhes é próprio chama-se intelecção e o método eficaz
para o trato com tais elementos é o racional-dedutivo.
Sumário: 2.1. Círculo de Viena — 2.1.1. O Neopo-
4) Já os culturais são reais, têm existência espaço-tempo- sitivismo lógico e o Círculo de Viena: aspectos
ral, susceptíveis, portanto, à experiência, além de serem valio- gerais do movimento — 2.1.2. Como se formou o
sos, positiva ou negativamente. O acesso cognoscitivo se dá Círculo de Viena — antecedentes históricos — pre-
cursores e fundadores — pessoas e obras que o
pela compreensão e o método próprio é o empírico-dialético, já
influenciaram — 2.1.3. Propostas e objetivos do
que o saber, nesse campo, pressupõe incessantes idas e venidas Neopositivismo lógico. 2.2. Língua e linguagem
da base material ao plano dos valores e, deste último, à con- — 2.2.1. Linguagem e signos do sistema — 2.2.2.
creção da entidade física que examinamos. Funções da linguagem — 2.2.3. Formas de lingua-
gem — 2.2.4. Tipos de linguagem. 2.3. Direito e
5) É importante salientar, ao falarmos dos objetos metafí- Lógica — 2.3.1. A Lógica e seu objeto: "Lógica
sicos, que são eles reais, tendo existência no tempo e no espaço, jurídica" e "Lógicas jurídicas" — 2.3.2. Generali-
mas não podem ser surpreendidos pela experiência, ainda que zação e formalização — 2.3.3. O domínio das es-
sejam valiosos, positiva ou negativamente. É desconhecida a truturas lógicas — 2.3.4. Relações lógicas e relações
possibilidade de acesso, ao menos em termos científicos, ao entre os objetos da experiência — 2.3.5. A chama-
da Lógica formal e a metodologia — 2.3.6. Valores
mundo da metafísica, formada por objetos que estão para lá da
lógicos da linguagem do direito positivo e seus
experiência, justificando-se, unicamente, pela via da crença modais. 2.4. Proposição e linguagem: isolamen-
(doxa). Para quem acredite e se convença da existência do bem to temático da proposição — 2.4.1. Linguagem
metafísico, ele existe; contudo, para aqueles que não ficarem formalizada e representação simbólica: as formas
persuadidos, o dado metafísico, não estando sujeito aos atos lógicas nas estruturas proposicionais — 2.4.2. As
variáveis e as constantes da Lógica Proposicional
gnosiológicos e correspondentes métodos indicados para as
Alética — 2.4.3. Cálculo proposicional. 2.5. Teoria
outras três regiões de objetos, será apenas algo inaccessível, que, das relações — 2.5.1. Simbolização: relações de
normalmente, as pessoas ignoram ou não levam a sério. Em primeira ordem e relações de segunda ordem —
suma, o caminho científico não existe e, quanto ao conhecimen- 2.5.2. As propriedades, as funções e as qualidades
to vulgar, dependerá do poder retórico de quem o afirma, con- das relações — 2.5.3. Sobre a relação de identida-
tando com a boa vontade e a crença do receptor da mensagem. de — 2.5.4. Cálculo das relações — 2.5.5. Aplicação

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

da teoria das relações. 2.6. Teoria das classes - mantiveram intenso intercâmbio de idéias, num regime de
2.6.1. Aplicabilidade prática: o sistema harmoni- cooperação intelectual poucas vezes registrado, circunstância
zado de designação e de codificação de mercado-
que possibilitou uma série de conclusões tidas como válidas
rias, a nomenclatura brasileira e a tabela do im-
posto sobre produtos industrializados. 2.7. O
para os diversos setores do conhecimento. É daí que se pode
dever-ser como entidade relacional. 2.8. Teoria falar de uma Epistemologia Geral, isto é, de uma teoria crítica
da norma jurídica - 2.8.1. Ambiguidade do termo voltada para o estudo e a análise dos conceitos básicos, dos
"norma jurídica" - 2.8.2. Estrutura lógica: análise princípios e dos objetivos do conhecimento científico em geral,
da hipótese normativa - 2.8.3. Estrutura lógica bem como dos resultados de sua efetiva aplicação. Epistemo-
da norma: análise do consequente - 2.8.4. Sistema logia, aliás, é termo mais restrito que Teoria Geral do Conhe-
jurídico como conjunto homogêneo de enuncia- cimento ou Gnosiologia, pois seu foco temático não é o simples
dos deônticos - 2.8.5. O conceito de "norma com- conhecimento (doxa = crença, opinião), mas o saber qualifica-
pleta": norma primária e norma secundária -
do como científico (episteme = conhecimento científico + logos
2.8.6. Espécies normativas. 2.9. A regra-matriz
de incidência - 2.9.1. O método da regra-matriz
= estudo, pensamento, reflexão).
de incidência tributária - 2.9.2. Escalonamento A forte preocupação com os princípios básicos do saber
da incidência normativa na óptica da teoria co-
científico ainda não é suficiente para caracterizar a índole
municacional.
desse movimento filosófico. De fato, tal tendência epistemoló-
gica revela uma redução do campo filosófico, uma vez que a
Filosofia da Ciência não se esgota com as especulações a pro-
2.1. CÍRCULO DE VIENA pósito do quadro de possibilidades e das avaliações atinentes
a Epistemologia. Vai mais além. Os neopositivistas lógicos re-
2.1.1. O Neopositivismo lógico e o Círculo de Viena: aspectos
duziram também a Epistemologia à Semiótica, compreendida
gerais do movimento esta como teoria geral dos signos, abrangendo todo e qualquer
Neopositivismo Lógico ou, simplesmente, Positivismo sistema de comunicação, desde os mais singelos e primitivos
Lógico - além de Filosofia Analítica, Empirismo Contemporâ- até os sistemas linguísticos dos idiomas naturais e das linguagens
neo ou Empirismo Lógico - são os nomes pelos quais dá a co- formalizadas das Ciências. Agora, se levarmos em conta as duas
nhecer uma corrente do pensamento humano que adquiriu mencionadas reduções (da Filosofia à Epistemologia e desta à
corpo e expressividade em Viena, na segunda década do sécu- Semiótica), poderemos entender a importância essencial que os
lo XX, quando filósofos e cientistas se encontravam, sistema- adeptos do movimento atribuem à linguagem como o instru-
ticamente, para discutir problemas relativos à natureza do mento por excelência do saber científico. E, mais ainda, como a
conhecimento científico. Tratavam, portanto, de Filosofia das própria linguagem vai servir de modelo de controle dos conhe-
Ciências, mais preocupados, porém, com uma Epistemologia cimentos por ela produzidos. Chegam, por isso, a proposições
Geral, na medida em que cada um dos participantes lá estava afirmativas como esta: compor um discurso científico é verter
movido pelos interesses específicos do seu campo de indaga- em linguagem rigorosa os dados do mundo, de tal sorte que ali
ções. O grupo era heterogêneo, reunindo filósofos, físicos, onde não houver precisão linguística não poderá haver Ciência.
sociólogos, matemáticos, psicólogos, lógicos, juristas (Kelsen Na verdade, perceberam os neopositivistas lógicos que a lin-
esteve presente em alguns encontros), etc. Profundamente guagem natural, com os defeitos que lhe são imanentes, como
interessados nos fundamentos das respectivas Ciências, por exemplo a ambiguidade, jamais traduziria adequadamente

20 21
PAULO DE BARROS CARVALHO
DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

os anseios cognoscitivos do ser humano, donde a necessidade


com extraordinária habilidade, incentivando a mútua coope-
de partir-se para a elaboração de linguagens artificiais, em que
ração entre os membros, mas, sempre que necessário, tolhen-
os termos imprecisos fossem substituídos por vocábulos novos,
do os arroubos excessivos, para que tudo se mantivesse num
criados estipulativamente, ou se submetessem àquilo que Rudolf
plano de efetiva praticidade. Em 1929, Schlick esteve na Cali-
Carnap chamou de "processo de elucidação".
fórnia como professor convidado pela Universidade de Stanford
Esboçado genericamente, para efeito da primeira aproxi- durante a primavera e o verão. Ao ensejo de seu regresso a
mação, eis o perfil do movimento conhecido por Neopositivis- Viena, em agosto daquele mesmo ano, três membros do Círculo
mo Lógico. - Rudolf Carnap, Hans Hahn e Otto Neurath - redigiram um
manifesto intitulado "O ponto de vista científico do Círculo de
2.1.2. Como se formou o Círculo de Viena - antecedentes Viena", com o que pretenderam prestar justa homenagem ao
históricos - precursores e fundadores - pessoas e obras pai do cenáculo vienense, dedicando-lhe o opúsculo. A divul-
que o influenciaram gação desse trabalho e a realização do congresso internacional
de Praga, no mesmo ano, deram larga e pública difusão ao mo-
Desde os idos de 1907, Hans Hahn, Phillipp Frank e Otto vimento que ficou, assim, conhecido como "Círculo de Viena".
Neurath encontravam-se, constantemente, num determinado O manifesto apresentava uma concepção científica do
café vienense, com o objetivo de trocar idéias a respeito de mundo, como algo a ser conquistado mediante uma série de
temas ligados à Filosofia da Ciência. Entretanto, foi com a medidas, entre elas: a) colocar a linguagem do saber contem-
vinda de Moritz Schlick para a capital austríaca, transferindo- porâneo sob rigorosas bases intersubjetivas; b) assumir uma
se de Kiel, nomeado para ocupar a cátedra de Filosofia das orientação absolutamente humanista, reafirmando o velho
Ciências Indutivas, que se pôde reconhecer, efetivamente, a princípio dos sofistas: o homem é a medida de todas as coisas;
gênese do chamado "Círculo de Viena". Schlick obtivera o e c) deixar assentado que tanto a Teologia quanto a Filosofia
doutoramento em Berlim, com tese sobre Óptica teórica, orien- não poderiam ostentar foros de genuína validade cognoscitiva,
tado por Max Planck. Iniciou seu magistério em Viena em 1922, formando, no fundo, um aglomerado de pseudoproblemas. De
mas logo no ano seguinte coordenava um seminário, no seio tal concepção emergem dois atributos essenciais: 1 2) todo o
do qual surgiu o famoso grupo de debates, integrado por filó- conhecimento fica circunscrito ao domínio do conhecimento
sofos e cientistas dos mais variados campos e dotados, todos eles, empírico; e 2Q) a reivindicação do método e da análise lógica
de inusitado interesse por temas epistemológicos, passando a da linguagem, como instrumento sistemático da reflexão filo-
reunir-se, com habitualidade, às senoites das quintas-feiras. sófica. Este último aspecto dá originalidade ao movimento, em
Cumpre advertir que uma das características do Círculo contraste com a tradição psicologizante da própria gnosiologia
era a atitude aberta e antidogmática existente nas discussões, empírico-positivista.
em que todos se mostravam dispostos a submeter suas teses à
Também faz parte do corpo do manifesto um exame dos
crítica dos demais. Predominava, amplamente, o espírito de
fundamentos da Aritmética, da Física, da Geometria, da Bio-
colaboração, suplantando qualquer tipo de participação com-
logia e da Psicologia, apontando seus autores para a inconsis-
petitiva. O ambiente refletia, sem dúvida alguma, a especialís- tência de termos precariamente definidos, tais como alma, bem
sima personalidade de Schlick. Equilibrado e portador de um comum, espírito dos povos, enteléquia e muitos outros de cunho
dinamismo propenso à conciliação, coordenava os encontros metafísico. No final, está declarado que a visão científica do
22
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DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM• MÉTODO
PAULO DE BARROS CARVALHO

sobre os alicerces filosóficos da Física. Produziu fortes argu-


mundo coloca-se a serviço da vida, propugnando por autênticas mentos antimetafísicos, criticando o conceito de "coisa em si"
bases racionais para a existência associativa do homem, assim
como algo distinto de sua aparência ("Análise das Sensações").
como para o próprio conhecimento humano.
Mach enfatizou um ponto muito importante para o Neopositi-
São muitos os nomes a que se reporta o manifesto vienen- vismo Lógico, qual seja, a imprescindível "unidade da ciência",
se, na condição de precursores do Neopositivismo Lógico. e regeu a cátedra de Filosofia das Ciências Indutivas, mais
Poremos em evidência, contudo, as figuras de David Hume, de tarde ocupada por Moritz Schlick.
Gottlob Frege e de Ernst Mach. Há coincidências acentuadas, igualmente, entre o ideário
12
O primeiro deles - David Hume (1711/1776) - empirista do Empirismo contemporâneo e o pensamento do lógico e
inglês, é conhecido como o pai espiritual do Positivismo Lógico, matemático americano Charles Sanders Peirce (1839/1914).
tendo afirmado que "(...) o único fundamento sólido que pode- Todavia, melhor será firmarmos o nome daqueles três pensa-
mos dar à ciência tem que residir na experiência e na obser- dores, cujas obras decididamente prepararam o advento do
vação". Elaborou a distinção entre impressões e idéias, resu- famoso "Círculo de Viena".
mindo sua posição antimetafísica na obra Investigação sobre o
Por outro lado, não é difícil identificar os fundadores do
entendimento humano. Foi o mesmo Hume que, no seu Tratado movimento: Rudolf Carnap, Hans Hahn e Otto Neurath, sob a
da natureza humana, tecendo observações sobre a moral, abriu coordenação indiscutível e brilhante de Moritz Schlick, de
espaço para que outros pensadores resumissem suas idéias,
quem já falamos. Ludwing Wittgenstein não chegou a perten-
formulando o princípio: "é impossível deduzir uma proposição
cer ao grupo, entretanto seu livro Tractatus logico-philosophicus
normativa de uma série de proposições descritivas e vice-ver-
influenciou diretamente os integrantes do movimento, haven-
sa". Em outras palavras, do ser, não se chega ao dever-ser e do do quem afirme que sem as idéias contidas nesses escritos, os
dever-ser, não se chega ao ser. neopositivistas jamais teriam alcançado os níveis de profundi-
Gottlob Frege (1848/1925) formulou a definição de núme- dade a que chegaram. Essa obra apareceu em 1922, com intro-
ro (1884), na obra As leis fundamentais da Aritmética, demons- dução de Bertrand Russel, e na proposição 5.6 está dito que "os
trando que esta Ciência é redutível à Lógica. Além disso, an- li mites da minha linguagem são os limites do meu mundo".
tecipou-se à chamada concepção semântica da verdade, apre- Em comentário ligeiro, o Tractatus logico-philosophicus é
sentada por Alfred Tarski e compôs o primeiro sistema com-
marco decisivo na história do pensamento humano. Até Kant,
pleto de Lógica Formal. É sua também a distinção entre senti-
a filosofia do ser; de Kant a Wittgenstein, a filosofia da consci-
do e referência, acentuando que a busca da verdade é o que ência; e, de Wittgenstein aos nossos dias, a filosofia da lingua-
nos impele a avançar do sentido à referência.
gem, com o advento do "giro-linguístico" e de todas as impli-
Por fim, Ernst Mach (1838/1916) era físico e, em sua prin- cações que se abriram para a teoria da comunicação. Não estou
cipal obra, trata dos princípios da Mecânica (1883). Preocupado entre aqueles que tomam o Investigações Filosóficas como
com as noções básicas de sua Ciência, refletiu profundamente rejeição cabal do Tractatus, vendo nele a autonegação da obra
revolucionária do extraordinário pensador. Prefiro conceber
os "jogos de linguagem", e tudo mais que está contido na se-
12. Tratado da natureza humana: uma tentativa de introduzir o método gunda obra, como grande e corajosa revisão daquele impulso
experimental de raciocínio nos assuntos morais, São Paulo, Imprensa Oficial/ inicial que abalou as estruturas filosóficas tradicionais e que
UNESR 2001.
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PAULO DE BARROS CARVALHO
DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

foi escrito em condições especialíssimas: nas trincheiras da "Do paradigma verificacional que vinha dominando a filo-
Primeira Guerra Mundial. Além do que, claro, longe de imagi- sofia da linguagem desde Frege, passou-se para o paradig-
nar que as proposições do livro, cuidadosamente ordenadas, ma comunicacional. Essa mudança de perspectiva no estu-
teriam resolvido todos os problemas essenciais da filosofia. do da linguagem tornou-se conhecida como giro linguístico-
Aliás, o texto permite várias e desconcertantes leituras: desde pragmático."
a que fizeram os neopositivistas lógicos, até aquelas, de cunho
metafísico, que salientam o sentido ético do Tractatus, dando E continua:
como exemplo a proposição pela qual o que não é dizível cien-
"Tractatus logicophilosophicus e Investigações filosóficas, não
tificamente é a parte mais relevante, associada à ética e à reli-
apenas são referências desses dois momentos da filosofia da
gião. Há quem diga que Wittgenstein acreditasse, de maneira
linguagem, como também nos permitem observar o giro
apaixonada, que tudo de importante na vida humana seria linguístico-pragmático sob a ótica do mesmo filósofo. Como
precisamente aquilo sobre o que devemos calar. Seja como for, exposto anteriormente, no Tractatus, WITTGENSTEIN
interessa-me agora a asserção "falar uma linguagem faz parte entende que a linguagem tem como função representar o
de uma atividade ou de uma forma de vida", uma das cláusulas mundo e, como examinaremos posteriormente, em Inves-
fundamentais da obra tida como derradeira desse autor con- tigações filosóficas, o filósofo afirma o caráter comunicacio-
nal da linguagem.' 4 "
siderado como a expressão maior do seu tempo. A nova con-
cepção, dando origem à filosofia da linguagem ordinária,
provocou aquilo que veio a chamar-se "giro-linguístico", mo- 2.1.3. Propostas e objetivos do Neopositivismo lógico
vimento dentro do qual estamos imersos, cada vez com maior
intensidade, segundo penso. As reivindicações substanciais do Neopositivismo Lógico
foram expostas e discutidas, no seu tempo, com suficiente
Há divergências sobre a identificação de Wittgenstein com
clareza. Não fora isso, contudo, e a luz projetada pela análise
o Empirismo Lógico, postos os antagonismos que alguns apon-
histórica serviria para isolar os tópicos principais que essa
tam entre as linhas primordiais do pensamento neopositivista
tendência do pensamento filosófico quis ver consagrados. Fa-
e algumas proposições do Tractatus. A despeito disso, porém, é
lemos aqui dos mais relevantes, lembrando que na primeira
notória a irradiação de sua influência entre os participantes do
parte, ao tratarmos da natureza do movimento, ficou patente
cenáculo vienense, tanto pela obra em si como por sua própria
que o Neopositivismo Lógico encarece sobremaneira a lingua-
pessoa, por intermédio de Schlick. Penso que a referência a
gem como instrumento do saber científico e, mais do que isso,
essas duas obras de Wittgenstein possa servir de marco para
como meio de controle daqueles mesmos conhecimentos. Ora,
apontar a grande virada linguística que se deu nas concepções
fazendo convergir para a linguagem todas as atenções, perce-
da linguagem e do homem em relação aos dados brutos do uni-
beram a necessidade premente da construção de modelos ar-
verso do sensível, que são o seu contorno. Ainda neste ponto,
13 tificiais para a comunicação científica, assim entendidas as
cito, concisamente, as ponderações de Sonia Mendes , que linguagens naturais purificadas pela substituição de vocábulos
bem elucidou esse movimento da filosofia da linguagem: que, por uma ou outra razão, obscureciam a explicação ou a
compreensão do objeto.

13. A validade jurídica pré e pós giro linguístico, São Paulo, Noeses, 2007,
p. 55. 14. A validade jurídica pré e pós giro linguístico, cit., p. 55.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

O discurso científico, desse modo aperfeiçoado, estaria que fizermos. Se o fato for confirmado, mediante informações
apto para proporcionar uma visão rigorosa e sistemática do colhidas em fonte credenciada, aquele enunciado adquirirá o
mundo. Os recursos semióticos permitiram a análise das três valor de verdade. Caso contrário, será falso. Note-se que é a
dimensões que a linguagem apresenta' 5 . Os neopositivistas verificabilidade o critério tomado para sabermos da verdade ou
lógicos, na procura da depuração discursiva, outorgam uma falsidade dos enunciados descritivos de situações objetivas.
importância muito grande à sintaxe e à semântica, em detri- Com tais anotações, já podemos expor um importante
mento do ângulo pragmático. Ao conceber uma linguagem traço da concepção neopositivista, que não só exige a boa for-
ideal para as ciências, construíram um paradigma linguístico mação da sintaxe frásica, como também declara que os enun-
empobrecido no plano pragmático, ainda que bastante rigoro- ciados inverificáveis não poderão integrar o discurso científico.
so nos planos sintático e semântico. Este há de abranger, única e exclusivamente, enunciados ver-
dadeiros, assim considerados por serem passíveis de compro-
De fato, o respeito às regras sintáticas é um pressuposto
vação efetiva. Advém daí o postulado: um enunciado terá
inafastável para o sentido do enunciado. Não basta a justapo-
sentido semântico se puder ser empiricamente verificável.
sição de vocábulos conhecidos para que a mensagem tenha
significação. É necessário que estejam dispostos segundo cer- Esta firme e radical postura epistemológica afasta, desde
ta ordem. Se dissermos: "todavia quando e retoma", ninguém logo, os enunciados metafísicos dos quadros do saber científi-
certamente compreenderá o que foi transmitido, porque a co, que estaria circunscrito aos limites do factual, do tangível,
disposição das palavras não obedece às normas sintáticas da vale dizer, daquele campo de objetos que podem ser recolhidos
formação de frases, em língua portuguesa. Se, porém, o arran- por nossa intuição sensível e demonstrados experimentalmen-
jo estiver adequadamente composto, há possibilidade de en- te. As proposições metafísicas, por insusceptíveis de experi-
tender-se o que foi comunicado. Diremos, portanto, que tem mentação, não chegavam a adquirir status científico e, para o
sentido. Mas, a validade sintática, ainda que permita o sentido, pensamento do "Círculo de Viena", sequer poderiam ser cha-
não chega a garantir o conteúdo de verdade do enunciado. madas de "proposições". A carência de sentido relegava-as à
Estamos, aqui, em pleno campo semântico, isto é, no domínio condição de pseudoproposições. Com isso, os neopositivistas
da relação das palavras e expressões com as realidades inte- lógicos acolhiam duas teses dos Tractatus de Wittgenstein, quais
riores ou exteriores que elas denotam. Havendo a ponte entre sejam: a) os enunciados factuais têm sentido apenas e tão-só
o suporte material dos signos e os objetos significados, surge o quando puderem ser verificados empiricamente; e b) existem
valor de verdade, como atributo do enunciado. Desse modo, a enunciados não verificados empiricamente, mas que têm sen-
frase "choveu na cidade de Olinda, no dia 03 de junho de 1980", tido e são verdadeiros ou falsos consoante os próprios termos
além de ter sentido, pois está bem formada sintaticamente, pode que os compõem. São as tautologias, que nada afirmam a res-
ser verdadeira ou falsa, dependendo da cuidadosa certificação peito da realidade. A Lógica e a Matemática estudam essa fi-
gura, podendo dizer-se que ambas se estruturam como verda-
deiros conjuntos de tautologias.
15. Não custa recordá-las: a) o sintático, em que os signos linguísticos são A condição semântica de sentido, que repousa no teor de
examinados nas suas relações mútuas, isto é, signos com signos; b) o semân- verdade do enunciado, é uma tese central para os empiristas
tico, que se ocupa da relação do signo com o objeto que ele representa; e c) contemporâneos. Ao lado disso, a confluência de todos os enun-
o pragmático, em que os signos são vistos na relação que mantêm com os
utentes da linguagem. ciados para o mesmo campo temático permite a demarcação da

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DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO
PAULO DE BARROS CARVALHO

o português, o francês, o inglês, etc., se bem que os homens se


região objetiva de que se vai ocupar determinada Ciência, comuniquem por meio de inúmeros códigos; assim, por exem-
outorgando-lhe foros de unidade. Um discurso científico esta- plo, a expressão corporal e, dentro dela, a mímica, a linguagem
ria assim caracterizado pela existência de um feixe de propo- do olhar e tudo aquilo que, com sua postura, o ente racional
sições linguísticas, relacionadas entre si por leis lógicas e pode transmitir a seus semelhantes. A língua, portanto, é ape-
unitariamente consideradas em função de convergirem para nas um dos sistemas sígnicos que se presta a fins comunica-
um único domínio, o que dá aos enunciados um critério de cionais. O vestuário, o mobiliário, a culinária, a arquitetura, a
significação objetiva. música, as artes plásticas são também códigos e, no quadro de
A título de complementação deste breve estudo sobre seus limites, deles se aproveitam as criaturas humanas para
Positivismo Lógico, cumpre lembrar que a corrente de pensa- estabelecer interações do mesmo tipo. Deixemos de lado, po-
mento que reduz a Filosofia à análise da linguagem bifurca-se, rém, essas manifestações que o homem histórico construiu e
dando origem à vertente que se dirige à análise da linguagem fiquemos tão-só com as estruturas idiomáticas, sistemas que
científica - Neopositivismo Lógico -, bem como àquela que melhor atendem aos contatos intersubjetivos, como mecanis-
toma por objeto a linguagem comum. Esta última é conhecida mos fecundos de intercâmbio de informações, da transmissão
como "Filosofia da Linguagem Ordinária" e tem como ponto de notícias e conhecimentos, de ordens e de sentimentos, de
de partida a segunda obra de Wittgenstein - Investigações fi- sugestões, da formulação de perguntas, da própria realização
losóficas - que já circulara na Inglaterra, influenciando um de fatos importantes para a sociedade, bem como para a apro-
grupo de pensadores, antes mesmo de sua publicação, que ximação inicial das pessoas no convívio diário.
ocorreu em 1953. Alfredo Ayer é expressão dessa diretriz. A É imperioso que fixemos um ponto de apoio para situar-
Filosofia da Linguagem Ordinária, não operando com modelos mos, devidamente, a temática da língua enquanto sistema
artificiais, preserva toda a riqueza do ângulo pragmático, que convencional de signos (no mais das vezes imotivados) e que
é inerente às linguagens naturais. Todavia, como ressaltou se mostra resistente a tentativas isoladas de modificação por
Bertrand Russel, seus excessos muitas vezes comprometem parte dos indivíduos, assumindo, por isso mesmo, o caráter de
por inteiro as vantagens que, porventura, possa apresentar uma autêntica instituição social. Essa plataforma está repre-
com relação à corrente da linguagem científica. sentada pela linguagem, na sua natureza multiforme e heteró-
clita, como bem salientou Ferdinand de Saussure' 6 , participan-
do, a um só tempo, do mundo físico, do fisiológico e do psíqui-
2.2. LÍNGUA E LINGUAGEM
co, da índole pessoal de cada um e do seu contorno social. É
É dentro daquelas ideologias adotadas pelo Neopositivismo na confluência de fatores compositivos tão distintos que se
que se propõe uma visão mais rigorosa da realidade e do mundo opera o corte metodológico mediante o qual surgirá aquele
jurídico, tomando a linguagem como modo de aquisição do saber sistema sígnico alheio à matéria de que são feitos os sinais que
científico, aplicada por meio de mecanismos lógicos, na cons- o integram: eis a língua que Saussure opôs à fala. Consiste esta
trução de modelos artificiais para a comunicação científica. última num ato individual de seleção e de atualização, em face
da primeira, que é instituição e sistema: o tesouro depositado
Entre outras acepções, tomemos língua como sistema de
signos, em vigor numa determinada comunidade social, cum-
prindo o papel de instrumento de comunicação entre seus 16. Curso de linguística geral, São Paulo, Cultrix, 1975, p. 17.
membros. A palavra está aqui com o sentido de idioma, como
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PAULO DE BARROS CARVALHO
DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

pela prática da fala nos indivíduos pertencentes a uma mesma sentido, vê-se, ocorre a confusão entre essa linguagem que
comunidade. Atreladas num processo dialético, não pode haver
mencionamos e a fala, segundo as categorias de Saussure. Para
língua sem fala, e a recíproca é verdadeira. A dicotomia língua/
os objetivos do presente texto, usaremos linguagem em vez de
fala, que Hjelmslev prefere substituir por esquema/uso e Jako- fala, aproveitando ressaltar a extraordinária importância de
bson por código/mensagem, é de grande relevância para a que se reveste o estudo da linguagem nos tempos atuais, espe-
compreensão do assunto de que tratamos, de tal modo que
cialmente no que tange ao conhecimento "científico", como já
podemos aceitar a proposição afirmativa segundo a qual a
explicitamos no apanhado histórico a que me referi em item
língua é, praticamente, a linguagem menos a fala, com o que anterior. Vale recordar, a este respeito, a proposição 5.6, do
R. Barthes" nos indica a forma de abstração que permite al- Tractatus logico-philosophicus, de L. Wittgenstein: "Os limites
cançar o conceito de língua. da minha linguagem significam os limites do meu mundo". Ou
Noções correlatas, linguagem, língua e fala são indissoci- a afirmação categórica de Tercio Sampaio Ferraz Jr.": "A rea-
áveis. Nenhuma delas poderá ser estudada, com profundidade, lidade, o mundo real, não é um dado, mas uma articulação
se não atinarmos para o esquema dialético que as aproxima. linguística mais ou menos num contexto social". E, páginas
Sendo assim, da mesma maneira como pusemos em evidência depois: "Fato não é, pois, algo concreto, sensível, mas um ele-
a idéia de língua, como resultado da subtração, em que retira- mento linguístico capaz de organizar uma situação existencial
mos a fala da linguagem, nada custa reconstruir os conceitos, como realidade".
para recuperar a noção de linguagem e, em seguida, abstrair
as idéias de língua e de fala. Linguagem, aliás, é a palavra mais 2.2.1. Linguagem e signos do sistema
abrangente, significando a capacidade do ser humano para
comunicar-se por intermédio de signos cujo conjunto sistema- O falar em linguagem remete o pensamento, forçosamen-
tizado é a língua. Sua análise se irradia por terrenos diversos, te, para o sentido de outro vocábulo: o signo. Como unidade
consoante os tipos de relações que estabelece: com o sujeito de um sistema que permite a comunicação inter-humana, sig-
(psicolinguística); com a sociedade (sociolinguística); com a no é um ente que tem o status lógico de relação. Nele, um su-
língua, enquanto sistema organizado de signos, ingressando porte físico se associa a um significado e a uma significação,
aqui todos aqueles domínios que a Linguística recobre, tendo para aplicarmos a terminologia husserliana. O suporte físico
como proposta fundamental o estudo científico da linguagem. da linguagem idiomática é a palavra falada (ondas sonoras, que
são matéria, provocadas pela movimentação de nossas cordas
De agora em diante, sem nos afastar do plano da língua,
vocais no aparelho fonético) ou a palavra escrita (depósito de
no qual estudaremos mais detidamente os signos, depositemos
tinta no papel ou de giz na lousa). Esse dado, que integra a
nossa atenção nos modos pelos quais os seres utilizam a estru-
relação sígnica, como o próprio nome indica, tem natureza fí-
tura da língua no contexto comunicacional. Vai interessar-nos,
sica, material. Refere-se a algo do mundo exterior ou interior,
a contar deste momento, as maneiras de emprego dos códigos
da existência concreta ou imaginária, atual ou passada, que é
idiomáticos, circunstância que determina o aparecimento de
seu significado; e suscita em nossa mente uma noção, idéia ou
muitas linguagens, em decorrência de uma só língua. Neste

18.Introdução ao estudo do direito, 3a ed., São Paulo, Atlas, 2001, p. 245.


17. Elementos de semiologia, São Paulo, Cultrix, 1993, p.17.
19.Idem, ibidem, p. 253.
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

conceito, que chamamos de "significação". É necessário adver- tipo de associação mantida entre o suporte físico e o significa-
tir que impera abundante descompasso entre os autores a do, exposta por Charles S. Peirce, distingue o gênero signo em
respeito das denominações atribuídas a cada qual dos pontos três espécies: índice, ícone e símbolo. índice é o signo que
desse triângulo, começando por aqueles que consideram o mantém conexão física com o objeto que indica. Nuvens car-
signo no seio de uma relação meramente bifásica ou bilateral". regadas, que se avolumam no céu, aparecem como índice de
De fato, se percorrermos os livros que se aprofundam na te- chuva. Os sintomas patológicos que os homens manifestam
mática dos signos, vamos encontrar a mais variada terminolo- nada mais são do que índices das várias enfermidades. Exami-
gia. Umberto Eco 2 ' utiliza significante para designar o suporte nado o paciente, verificando o médico que nele ocorrem alguns
físico, significado para a significação e referente para o signifi- sintomas, interpreta esses índices como significativos da pre-
cado. Expõe, ainda, o nome que outros estudiosos adotam, sença de um mal, substituindo-os, então, pelo nome técnico
como, por exemplo, Peirce, para quem signo é o suporte físico; que as ciências médicas artificialmente criaram: sinusite, he-
interpretante, a significação; e o objeto, o significado. Morris, patite, laringite, gastrite, etc. Veremos depois que tais palavras
de sua parte, elegeu veículo sígnico no lugar de suporte físico, são signos da linguagem médica. O ícone, por sua vez, procura
designatum ou significatum em vez de significação e denotatum reproduzir, de algum modo, o objeto a que se refere, oferecen-
para aludir ao significado. É sensível a divergência entre os
do traços de semelhança ou refletindo atributos que estão no
termos usados pela doutrina especializada, circunstância que
objeto significado. Os desenhos figurativos, as próprias carica-
não chega a obscurecer ou dificultar a compreensão do assun-
turas, os bustos esculpidos ou entalhados, todos e muitos outros,
to. Estabeleçamos, contudo, num pacto semântico, a adoção
são exemplos de signos icônicos. Já o símbolo é um signo arbi-
das palavras de que se serve Edmund Husserl: suporte físico,
trariamente construído, não guardando, em princípio, qualquer
significação e significado, prosseguindo no caminho que nos
propusemos percorrer. Um exemplo, porém, terá o condão de ligação com o objeto do mundo que ele significa. Aceitos por
consolidar a idéia de signo como relação triádica. A palavra convenção, os símbolos são largamente utilizados nos mais
manga (fruta) é o suporte físico (porção de tinta gravada no diferentes códigos de comunicação. Deles não pode haver me-
papel). Refere-se a uma realidade do mundo exterior que todos lhor exemplo do que as palavras de um determinado idioma.
conhecemos: uma espécie de fruta, que é seu significado. E faz O vocábulo casa nada sugere, considerado em si mesmo, a
surgir em nossa mente o conceito de manga, variável de pessoa respeito da entidade real que menciona. É produto de conven-
para pessoa, na dependência de fatores psíquicos ligados à ção, formada num processo evolutivo que a gramática históri-
experiência de vida de cada um. Para aqueles que apreciarem ca pode em parte explicar, se bem que a escolha propriamente
essa fruta, certamente que sua imagem será de um alimento dita, no seu modo primitivo de existir, continue sendo ato ar-
apetitoso, suculento. Para os que dela não gostarem, a idéia bitrário. São exemplos de símbolo, em linguagens não idiomá-
será desfavorável, aparecendo a representação com aspectos ticas, a bandeira branca, que exprime o pedido de paz; a cruz,
bem diferentes. Trata-se da significação. expressão viva do cristianismo; os emblemas, brasões, distin-
A classificação dos signos gera, também, intensas polêmicas. tivos e tudo aquilo que representa pessoas, famílias, clubes,
Uma das mais difundidas, que examina a entidade segundo o países, instituições, etc.
A Semiologia, como Ciência que estuda a vida dos sig-
nos no seio da sociedade, foi apresentada por Ferdinand de
20. Carnap: indicador e indicado; Saussure: significante e significado. Saussure e voltou-se mais para a linguagem verbal, uma vez
21. O signo, 3a ed., Lisboa, Editorial Presença, 1985. que o autor era linguista. Todavia, o projeto foi concebido

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

para a pesquisa de todo e qualquer sistema sígnico. Quase colecionam ordenadamente os signos de uma língua, tendo em
simultaneamente, Charles Sanders Peirce, filósofo america- vista a explicação de seu significado. Há dicionários próprios
no, fundava a Semiótica como disciplina independente, a muitos sistemas de linguagem, que servem ao conhecimento
tendo por objeto, também, os signos dos mais variados sis- e à comunicação desse conhecimento entre os homens. Salien-
temas. De caráter mais acentuadamente filosófica, a teoria tamos aqui, a título de registro, os dicionários de terminologia
de Peirce teve, desde o início, o mesmo campo objetal que a jurídica, onde as palavras do direito estão dispostas de tal modo
Semiologia de Saussure, razão por que a maioria dos autores que o leitor interessado possa encontrar os correspondentes
emprega os dois nomes como sinônimos para designar a significados que os diversos signos abriguem, atribuindo-lhes
teoria geral dos signos 22 . os sentidos possíveis. Por fim, o plano pragmático, que é de
extrema fecundidade, sendo infinitas as formas de utilização
Peirce e outro americano - Charles Morris2 3 - distinguem
dos signos pelos sujeitos da comunicação, em termos de pro-
três planos na investigação dos sistemas sígnicos: o sintático,
duzir mensagens. Imaginemos um elogio feito pelo emissor a
em que se estudam as relações dos signos entre si, isto é, signo
uma terceira pessoa, ausente do contexto comunicacional,
com signo; o semântico, em que o foco de indagação é o víncu-
introduzindo a mensagem mediante sorriso irônico. É certo
lo do signo (suporte físico) com a realidade que ele exprime; e
que o receptor compreenderá não se tratar de elogio verdadei-
o pragmático, no qual se examina a relação do signo com os
ro, por força da combinação dos signos idiomáticos com os
utentes da linguagem (emissor e destinatário). Exemplo da
sinais extra-idiomáticos produzidos pelo emissor (manifestação
dimensão semiótica da sintaxe é a gramática de um idioma,
que também aparece como signo ou signos, pertencentes, no
conquanto a pesquisa gramatical vá além, ocupando-se da
entanto, a outro código).
morfologia e da fonologia. A sintaxe, entretanto, pode ser de-
finida como o sistema finito de regras capaz de produzir infi-
nitas frases. Já o ângulo semântico cuida da associação que se 2.2.2. Funções da linguagem
instala entre o signo (como suporte físico) e o objeto do mundo
(exterior ou interior) para o qual aponta. Modelo de trabalho Polarizemos nossas atenções nos sistemas idiomáticos,
semântico são os dicionários que, inspirados pela lexicografia, corpos de linguagem dotados de amplos recursos para o de-
senvolvimento do processo de comunicação inter-humana, e
deixemos de lado, propositadamente, todos os demais códigos,
22. Durante anos, Semiótica, empregada por Charles Sanders Peirce, e por expressivos ou sugestivos que possam ser. Verificaremos,
Semiologia, utilizada por Ferdinand de Saussure, eram termos usados para desde logo, que a interação ocorre num contexto extremamen-
designar a teoria geral dos signos. Ambos autores viveram no final do século te complexo, pois há múltiplas possibilidades de utilização das
XIX e início do século XX, portanto, foram contemporâneos. Por outro lado,
palavras, individualmente consideradas, assim como numero-
contudo, não chegaram a manter contato e desenvolveram as respectivas teo-
rias paralelamente. Só com Roman Jakobson, em 1974, em Milão, na abertura sos são os usos das construções frásicas que a gramática de
do primeiro congresso da Associação Internacional de Estudos Semióticos cada língua permite compor, sem que as regras sintáticas ve-
que se definiu a semiótica como ciência geral dos signos. Foi quando com nham a ter caráter decisivo para o esclarecimento da específi-
seu On language, publicado em Cambridge, pela Universidade de Harvard,
ca função em que a linguagem está sendo empregada. A cor-
firmou: "Language as one of the sign systems and linguistica as the science of
verbal sign, is but a part of semiotics, the general science of sign which was respondência entre forma e função não acontece como relação
forseen, named and delineated in John Locke's essay...". necessária, de tal sorte que as estruturas gramaticais oferecem
23. Signos, lenguaje y conducta, Buenos Aires, Losada, 1962. apenas precários indícios a respeito da função, como acentua

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Irving M. Copia'. Isso compele o intérprete a sair da significação Discorrer, porém, sobre as funções da linguagem, obriga-
de base (que toda palavra tem) em busca da amplitude do dis- nos a fixar premissa sem a qual as conclusões ficariam incom-
curso, onde encontrará a significação contextual, determinada pletas ou prejudicadas: toda e qualquer manifestação linguís-
por uma série de fatores, entre eles e, principalmente, pelos tica, desde as mais simples às mais complicadas, raramente
propósitos do emissor da mensagem. Ora, se os objetivos da- encerram uma única função, aparecendo como espécies quimi-
quele que expede o comunicado são tão importantes, é de
camente puras, no dizer de Copi. Ainda que haja uma função
convir que a decodificação da mensagem se dá, em grande
dominante, outras a ela se agregam no enredo comunicacional,
parte, no plano pragmático da linguagem. Procede, portanto,
tornando difícil a tarefa de classificá-las. Para contornar o em-
a observação de Luis Alberto Warat":
peço, sugere Alf Ross 27 que tomemos o efeito imediato como
"Analizar la problemática funcional del lenguaje es en cier- critério classificatório:
to modo efectuar un planteamiento de nivel pragmático,
para cuya elucidación debemos incursionar indefectible- "La función de cualquier herramienta debe determinarse
mente en torno a las condiciones subjetivas de su uso por por su efecto propio, esto es, el efecto inmediato a cuya
parte de un sujeto determinado." producción la herramienta está directamente adaptada. Son
irrelevantes cualesquiera otros efectos ulteriores en la ca-
Aliás, tudo se encaixa bem naquela noção que apresenta- dena causal subsiguiente."
mos sobre a pragmática, como ângulo semiótico em que se
analisa a relação dos signos com seus usuários. E os estudos Cientes de que toda comunicação efetiva exige certa com-
pragmáticos se projetam exatamente nesse sentido, isto é, binação de funções e, recolhendo o critério do efeito imediato
considerando o ser humano enquanto produtor da mensagem ou da função dominante, como entendemos melhor, passemos
e, por meio dela, visando a obter certos efeitos. a formular uma classificação das linguagens, de acordo com as
No processo constitutivo da interação comunicacional, Ro- funções que cumprem no processo comunicacional. O esboço
man Jakobson 26 descreve a coalescência de seis componentes: parte de um sincretismo que julgamos conveniente para o fim
de ressaltar a importância das variadas maneiras segundo as
"O REMETENTE envia uma MENSAGEM — ao DESTINA- quais o homem manipula os signos do seu idioma. Adota, por-
TÁRIO. Para ser eficaz, a mensagem requer um CONTEXTO
tanto, o animus que move o emissor da mensagem (critério
a que se refere (ou "referente", em outra nomenclatura algo
ambígua), apreensível pelo destinatário, e que seja verbal ou pragmático), sem desprezar as particularidades sintáticas que
suscetível de verbalização; um CÓDIGO total ou parcialmen- as linguagens ostentam (critério sintático ou lógico). Tal caminho
te comum ao remetente e ao destinatário (ou, em outras nos permitirá ir além das funções assinaladas por Jakobson, ao
palavras, ao codificador e ao decodificador da mensagem); associá-las a cada um dos fatores que constituem o processo de
e, finalmente, um CONTACTO, um canal físico e uma cone-
comunicação.
xão psicológica entre o remetente e o destinatário, que os
capacite a entrarem e permanecerem em comunicação". a) Linguagem descritiva, informativa, declarativa, indica-
tiva, denotativa ou referencial é o veículo adequado para a
transmissão de notícias, tendo por finalidade informar o receptor
24. Introdução à lógica, São Paulo, Mestre Jou, 1974, p. 55.
25. Semiótica y derecho, Buenos Aires, Eikón, 1972, p. 80.
26. Linguística e comunicação, São Paulo, Cultrix, 1991, p. 123. 27.Lógica de las normas, Madrid, Editorial Tecnos, 1971, p. 28.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

acerca de situações objetivas ou subjetivas que ocorrem no de alegria, de dor, de surpresa, de desejo, de afeto, etc., fazen-
mundo existencial. Apresenta-se como um feixe de proposições, do-o pelo emprego de interjeições.
afirmadas ou negadas, que remetem o leitor ou o ouvinte aos
Quando desempenha essa função, a linguagem de que
referentes situacionais ou textuais. É a linguagem própria para
tratamos não pode subordinar-se aos critérios de verdade e
a transmissão do conhecimento (vulgar ou científico) e de in-
falsidade, inerentes à lógica do discurso descritivo. A licença
formações das mais diferentes índoles, sendo muito utilizada
poética afasta de cogitação qualquer tentativa no sentido de
no intercurso da convivência social. Seus enunciados subme-
vincular suas elaborações aos critérios da Lógica Clássica. Até
tem-se aos valores de verdade e de falsidade, razão pela qual
o presente momento, pelo que sabemos, não se tem notícia da
essa sintaxe é estudada pela Lógica Clássica, também conhe-
descoberta de sistema lógico capaz de explicar o funcionamen-
cida por Lógica Apofântica ou Lógica Alética". Como discurso
to sintático da linguagem expressiva. Não que o discurso poé-
descritivo que é, mantém um vector semântico com as situações
tico prescinda do ângulo sintático, que o descaracterizaria como
indicadas, de modo que seus enunciados serão verdadeiros se
linguagem, mas, pura e simplesmente, porque ninguém ainda
os fatos relatados tiverem realmente acontecido ou vierem a
descobriu, pelo que sabemos, quais as regras que presidem
efetivar-se; e falsos, se não se verificarem na conformidade do
que foi descrito. Note-se que a relação entre o enunciado factu- essa sintaxe. Quando se diz que a linguagem poética não tem
al e o acontecimento por ele informado só é possível se dispu- lógica, na verdade o que se pretende transmitir é que a lingua-
sermos de metalinguagem que afirme ou negue a correspondên- gem que atua nessa função não pode ser governada pelos pa-
cia entre enunciado e fato" ("verdade por correspondência"). drões da Lógica Alética. Nunca que carecesse do plano sintá-
tico, o que seria absurdo.
b) Linguagem expressiva de situações subjetivas é aquela
na qual o emissor exprime seus sentimentos, quer pelo uso de c) Linguagem prescritiva de condutas presta-se à expedição
interjeições (ai!, oba!, oh!), de palavras interjeicionais (viva!, de ordens, de comandos, de prescrições dirigidas ao compor-
apoiado!, fora!) ou de expressões interjeicionais (minha Nossa tamento das pessoas. Seu campo é vasto, abrangendo condutas
Senhora!, quem dera!), quer por intermédio de orações ou de intersubjetivas e intra-subjetivas. Todas as organizações nor-
períodos. O traço característico da linguagem empregada nes- mativas operam com essa linguagem para incidir no proceder
sa função é a presença de emoções manifestadas pelo reme- humano, canalizando as condutas no sentido de implantar
tente da mensagem, que se expande para comunicar aquilo valores. Um excerto de Lourival Vilanova" diz bem da impor-
que lhe passa n'alma, provocando no receptor, quase sempre, tância desse uso: "Altera-se o mundo físico mediante o trabalho
sentimentos da mesma natureza. e a tecnologia, que o potencia em resultados. E altera-se o
mundo social mediante a linguagem das normas, uma classe
O exemplo típico da linguagem expressiva de situações
da qual é a linguagem das normas do Direito".
subjetivas é a linguagem poética, mas convém referir que pode
revestir-se de outras formas, que não a da poesia, como nas As ordens não são verdadeiras ou falsas, mas sim válidas
reações espontâneas, em que o homem exibe seus sentimentos ou não-válidas. Estes últimos são os valores lógicos da lingua-
gem prescritiva e sua sintaxe é estudada pela chamada Lógica

28.Alethéa, palavra grega que significa verdade.


29. Alfred Tarski, A concepção semântica da verdade: Textos Clássicos de 30. As estruturas lógicas e o sistema do direito positivo, São Paulo, Noeses,
Tarski, São Paulo, Imprensa Oficial/UNESP, 2007. 2005, p. 42.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Deôntica, de que faz parte a Lógica Deôntico-jurídica, cujo em que provoca uma tomada de posição do receptor. Ninguém
objeto é a organização sintática da linguagem do direito posi- pode ficar impassível perante uma indagação, seja ela qual for.
tivo. Esta especialização da Lógica Deôntica encontra-se hoje Responderá ou não, afastando-se a possibilidade de conduta
sistematizada, principalmente a partir da obra Deontic Logic, indiferente. Por mais absurda e impertinente que seja a per-
de autoria de Georg Henrik von Wright, publicada em 1951. gunta, o destinatário assumirá uma de duas posturas: ou se
mantém silente, ignorando-a, com o que implementa a condu-
Em Lógica, o vocábulo proposição significa a expressão
ta de não responder; ou apresenta, satisfatoriamente ou não, a
verbal de um juízo. Os estudiosos, entretanto, negaram-se a
juízo do emissor, comportamento que realiza a resposta.
empregá-lo para designar outros juízos que não os descritivos
de situações, subordinados aos critérios de verdade/falsidade. Do mesmo modo que a linguagem prescritiva, as propo-
É curioso sublinhar que Kelsen, evitando a palavra para refe- sições que compõem este discurso não estão sujeitas aos valo-
rir-se às unidades do direito positivo, utilizou-a na expressão res da Lógica Clássica: verdadeiro e falso. Seus critérios são
"proposição jurídica", querendo aludir ao discurso do cientis- outros. Uma pergunta é pertinente ou impertinente; adequada
ta, em nível de metalinguagem. Daí a distinção que fez entre ou inadequada; própria ou imprópria; além do que, como todos
norma jurídica e proposição jurídica. O étimo proposição, con- os demais enunciados, haverá de ser bem formada sintatica-
tudo, serve para denominar qualquer espécie de juízo, seja ele mente, condição indispensável para que tenha sentido.
declarativo, interrogativo, imperativo ou exclamativo. E é assim Sobre a lógica da linguagem das perguntas, Georges Ka-
que o encontramos em Lourival Vilanova, que distingue as linowski 31 nos dá notícias das obras de A. N. Prior, Erotetic logic;
proposições normativas das proposições descritivas, ambas de Stalh, Developpement de la logique des questions; e de
contidas no conceito mais abrangente de proposições jurídicas. Ajdukiewicz, Logiczne podstawy nauczania.
Resta lembrar que a linguagem prescritiva se projeta Deparamos, em alguns teóricos da linguagem, com o tra-
sobre a região material da conduta humana. Mais ainda, que tamento conjunto das funções prescritiva e interrogativa, de-
seu vector semântico atinge única e exclusivamente os fatos e baixo da designação genérica de função conativa, cuja finali-
as condutas possíveis, caindo fora de seu alcance as ocorrências dade seria de influenciar o comportamento do destinatário da
factuais e os comportamentos necessários ou impossíveis. A mensagem. Sob o ângulo pragmático, nada há que objetar, a
consideração vale para todos os campos do deôntico, em par- não ser acrescentando também a função persuasiva. Entretan-
ticular para o do deôntico-jurídico, em que não teria sentido a to, a diretriz que elegemos para presidir nossa classificação
regra que colhesse a conduta necessária - ou impossível, mo- não repousa, exclusivamente, na instância pragmática, levan-
dalizando-a com o "P" (permitido), com o "V" (proibido) ou do em conta aspectos do plano sintático. Repetimos que a linha
com o "O" (obrigatório). diretora que escolhemos considera o animus que move o emis-
d) Linguagem interrogativa ou linguagem das perguntas sor da mensagem, sem desprezar as particularidades sintáticas
ou dos pedidos é a de que se utiliza o ser humano diante de que as linguagens ostentam. Ora, há profundas diferenças de
objetos ou situações que desconhece, ou ainda quando preten- sintaxe entre as três linguagens referidas com o nome de co-
da obter alguma ação de seus semelhantes. As perguntas podem nativas, o que justifica estudá-las separadamente.
ser interplretadas como pedidos de respostas, circunstância
que nos permite reduzir uma linguagem a outra. Em muitas
situações, reflete a insegurança do emissor, ao mesmo tempo 31. Introducción a la lógica jurídica, Buenos Aires, Eudeba, 1973, p. 8.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

e) Linguagem operativa ou performativa é o discurso em Nas atividades diárias do ser humano é de grande intensi-
que os modos de significar são usados para concretizar alguma dade o emprego da linguagem na sua específica função factual.
ação. Como efeito imediato, nada informam, pois sua função Exercendo papel eminentemente introdutório, mantenedor ou
primordial é operativa, dando a concretude que certos eventos terminativo da comunicação, essa linguagem quase nada in-
exigem para sua efetiva realização. Exemplo típico de função forma, sendo que as orações interrogativas que a integram não
performativa é aquela mencionada por Irving M. Copi 32 , em visam à obtenção de respostas, a não ser em gradações ínfimas.
que o sacerdote ou o juiz de paz, para o encerramento da ceri- Quando nos encontramos com pessoa de nossas relações e
mônia, proclama: "eu vos declaro marido e mulher". Tais pala- emitimos a pergunta "como vai?", o objetivo não é travarmos
vras constituem o ato em si, não sendo emitidas com o escopo conhecimento com o estado de saúde física ou psíquica do
imediato de informar. Para o autor citado, a linguagem opera- destinatário, mas de simplesmente saudá-lo - que denotaria
tiva emprega as chamadas "elocuções de desempenho", cujo breve comunicação - ou de prepararmos diálogo mais profun-
papel é realizar, em circunstâncias apropriadas, a ação que do. Da mesma forma, a resposta não costuma trazer dados
relatam ou que transmitem. Tais locuções empregam os verbos explicativos a respeito do que foi perguntado, já que o interlo-
que ele chama de atuantes, entre eles aceitar, aconselhar, des-
cutor percebe, desde logo, tratar-se de linguagem utilizada em
culpar-se, batizar, parabenizar, prometer e sugerir.
sua função fáctica. É bem verdade que a mesma indagação
É oportuna a lembrança de Warat 33 de que "Este uso pre- poderia colocar-se dentro de outro contexto, em que o emissor
supone la existencia de un sistema normativo vigente que le da pergunta estivesse efetivamente interessado em conhecer
otorga sentido objetivo a ciertos atos de voluntad". E agregamos o estado de saúde do receptor. É a sensibilidade psicológica de
que nem sempre o sistema normativo é o jurídico, podendo cada um, ou de terceiros que assistem ao fato comunicacional,
ocorrer sob preceitos de qualquer dos muitos plexos de regras que vai reconhecer a linguagem como empregada na função
que estão presentes no fato social. interrogativa ou fáctica. Nesses domínios, já o dissemos, o ân-
f) Linguagem fáctica. Alude-se, com tal expressão, à lin- gulo pragmático é decisivo.
guagem introdutória da comunicação, bem como todos os re- Interessante exemplo de linguagem cumprindo função
cursos linguísticos empregados para manter o contato comu-
factual nos é oferecido por Francis Vanoye 35 , ao mencionar a
nicacional já estabelecido. Dela faz parte tudo aquilo que, numa
letra da música "Sinal Fechado", de Paulinho da Viola, cujo
mensagem, serve para estabelecer, manter ou cortar o vínculo
trecho inicial transcrevemos:
da comunicação. Para Francis Vanoye 34 , "numa comunicação
telefônica, o tradicional 'alô' estabelece o contato, as expressões
Olá, como vai?
`você está me ouvindo?, um momento por favor' mantêm o
Eu vou indo, e você, tudo bem!
contato, 'vou desligar' interrompe a comunicação".
Tudo bem, eu vou indo, correndo,
pegar meu lugar no futuro. E você?

32. Introducción a la lógica, Tradução de Álvaro Cabral, São Paulo, Mestre Tudo bem, eu vou indo em busca de um sono
Jou, 1981, p. 52. tranquilo, quem sabe?
33. Semiótica y derecho, Buenos Aires, Eikón, 1972, p. 76.
34. Usos da linguagem: problemas e técnicas na produção oral e escrita, 4 2. ed.,
São Paulo, Martins Fontes, 1983, p. 54. 35. Usos da linguagem: problemas e técnicas na produção oral e escrita, cit.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Quanto tempo.. . registrada em todas as funções que a linguagem desempenha,


Me perdoe a pressa em diferentes níveis de intensidade, circunstância que nos
é a alma dos nossos negócios ... permite identificar uma espécie em que a persuasão exerce
Oh! não tem de quê papel dominante: eis a linguagem a que nominamos de "pro-
eu também só ando a cem.
priamente persuasiva". Aqui, o intuito de quem expede a co-
municação é prioritariamente de convencer o interlocutor,
induzindo-o a aceitar sua argumentação a ponto de estabele-
cer-se o acordo de opiniões. O caráter persuasivo manifesta-se
ostensivamente, com função imediata, pronta e determinante
Vale notar que o encontro se dá ao fechar-se o sinal e da própria razão de ser do discurso. É a linguagem que ocorre
ambos instalam a comunicação, procurando mantê-la median- quando existirem interesses conflitivos ou em situações em
te frases destituídas de sentido preciso, com reiteradas per- que alguém postula algo, reivindicando a justiça, a razoabili-
guntas e correspondentes respostas, mas sem outro objetivo dade ou a conveniência daquilo que é solicitado.
que não o de aproveitar os pouquíssimos instantes de contato,
sustentando a comunicação instaurada. Nos territórios do direito esta linguagem assume extraor-
dinária importância e enorme frequência: é o chamado discur-
Temos para nós que a "função cerimonial", indicada por so judicial. Também o encontramos na discussão de questões
Irving M. Copi 36 , em muitas oportunidades ajusta-se melhor administrativas, sempre que o convencimento da autoridade
no âmbito desta linguagem que ora referimos. As palavras competente seja pressuposto da decisão. Gregorio Robles
introdutórias que enchem os documentos oficiais, os ditos Morchón 37 examina a linguagem empregada pelos juristas nos
pomposos que antecedem certas solenidades e os ritos verbais processos de decisão, propondo uma teoria da decisão jurídica.
que abrem espaço a sermões ou discursos políticos são, todos Afirma que a linguagem do advogado não cria a decisão, ainda
eles, modos de significar que preparam ou sustentam o curso que a propicie por representar uma das partes, oferecendo um
de tipos específicos de interação comunicacional. ponto de vista dentro do diálogo que constitui o processo. Seu
g) Linguagem propriamente persuasiva, como entendemos objetivo não é decidir senão convencer e a retórica jurídica é
melhor chamar, é aquela animada pelo intento imediato de o esquema metódico de que se serve.
convencer, persuadir, induzir, instigar. Falamos em "propria- Vale salientar a propósito o caráter retórico indissociável à
mente persuasiva" porque as mensagens transmitidas com linguagem persuasiva, não incorrendo, com esta afirmativa, no
outras funções sempre têm um quê de persuasivas. Quem se mau vezo de atribuir somente a ela este registro. Sim, porque
comunica para informar alguém acerca de um fato procura toda a função linguística exige o tom retórico, sem o qual a men-
fazer chegar a notícia ao destinatário, de acordo com seu modo sagem não se transmite do enunciador ao enunciatário. Enganam-
de ver o acontecimento. Formulando conceitos, que são inva- -se aqueles que admitem a retórica apenas como expediente da
riavelmente seletores de propriedades, o emissor acentua os função persuasiva, estruturada para facilitar o convencimento
aspectos que correspondam aos seus valores, passando-os ao de quem recebe o impacto da enunciação. Inexiste a "não-retó-
receptor. A presença do animus persuasivo, aliás, pode ser

37. Las regias dei derecho y las regias de los juegos, Universidade de Palma
36. Introdução à lógica, cit., p. 52. de Mallorca, 1984, p. 271.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

rica". E a contra-retórica é retórica também. Resta saber qual a os mais conhecidos modelos de procedimento, no âmbito da
intensidade de sua utilização nos diversos tipos de linguagem. argumentação jurídica, sem intuito classificatório.
Em comentários ligeiros, os recursos a serem utilizados Salta aos olhos que a estrutura sintática da linguagem
pelo cientista variam segundo a região ôntica do objeto a ser jurídica, num processo de decisão judicial ou administrativa,
descrito. Há um tipo de veemência recomendado para o domí- subordina-se a valores lógicos outros que não os do discurso
nio dos entes físico-naturais; outro para o dos ideais e ainda descritivo (verdadeiro/falso) ou prescritivo (válido/não-válido)
outro para o dos culturais, levando-se em conta, neste setor, a ou ainda o da linguagem das perguntas (pertinentes/imperti-
multiplicidade imensa das manifestações objetais 38 . Tudo para nentes). Os sujeitos participantes desenvolvem seus esforços
advertir, de maneira incisiva, que não é qualquer torneio retó- no sentido de obter um fim determinado: o convencimento do
rico que convém ao discurso da Ciência do Direito ou mesmo juiz ou da autoridade competente para decidir. E o próprio
daquel'outros produzidos com o objetivo de convencer a auto- magistrado ou o agente administrativo, ao proferir o ato deci-
ridade competente ou o juiz de direito nos respectivos autos. sório, procurará justificá-lo, argumentando em termos de
Por outro lado, é impossível estipular o espaço de variação da mostrar que o fez para atender a princípios de justiça, de coe-
possibilidade retórica no recinto do jurídico, mesmo porque rência, de segurança, de respeito à ordem jurídica vigente.
um é o do direito posto, outro o da dogmática. Simplesmente isso. Com efeito, se atinarmos bem, veremos que o rigoroso
Caberá à intuição, tomada aqui como órgão, aliás o mais pode- apego à verdade dos enunciados, a precisão ao relatar os acon-
roso instrumento cognoscitivo, a chamada "ciência direta", su- tecimentos factuais, a adequada subsunção dos conceitos dos
gerir os critérios de avaliação do quantum de argumentação re- fatos ao conceito das normas, tudo isso, ainda que sirva de
tórica que deve ser empregada na construção do discurso cien- instrumento valioso para a configuração das peças jurídicas,
tífico, evitando, por todo o modo, a logomaquia e tantas extrava- no contexto processual, cede lugar ao objetivo primeiro, ao
gâncias que rondam e ameaçam a pena de quem escreve. fim último que os interessados almejam alcançar, qual seja o
Com estas modulações, pretendo deixar claro que a lógi- convencimento do órgão decisório. É certo que há expedien-
ca da linguagem persuasiva ou da linguagem que prepara a tes dentro do processo, como os laudos periciais, por exemplo,
decisão é a lógica da argumentação, isto é, uma lógica da in- cuja função preponderante da linguagem não é persuasiva.
terpretação para decidir ou lógica dialógica orientada para a Contudo, tais manifestações, longe estão de predominar, a
decisão". Sobre a Teoria da Argumentação, Tercio Sampaio ponto de exercer função caracterizadora do discurso judicial
Ferraz Jr." tece importantes considerações que merecem de- ou do campo mais amplo da linguagem que trata dos proce-
tida reflexão. Assinalando que a lógica retórica se ocupa da dimentos decisórios.
argumentação como tipo específico de raciocínio, correspon- h) A linguagem afásica consiste num conjunto de enun-
dendo a procedimentos quase lógicos, que não obedecem ao ciados que alguém dirige contra a mensagem de outrem, vi-
rigor exigido pelos sistemas formais, passa a estudar, um a um, sando a obscurecê-la, confundi-la perante o entendimento de
terceiros ou a dificultar sua aceitação, por meio de recursos
linguísticos variados, tudo no pressuposto de que o discurso
38.A propósito, ver pg. 116 do livro. que sofre o impacto da linguagem afásica seja claro, estando
39.Gregórito Robles Morchon, Las regias dei derecho y las regias de los juegos, em condições de ser devidamente apreendido. Cai bem o nome
cit., p. 273. dessa função, pois afasia é termo técnico que designa pertur-
40.Introdução ao estudo do direito, cit., p. 294. bações na comunicação verbal. Neste caso, porém, a afasia não
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

é provocada por lesões que a neuropsicologia e a neurolinguís- aquilo que denomina de ficção ou hipótese, ao passo que o
tica localizaram no hemisfério esquerdo do cérebro humano, discurso correspondente terá função fabuladora.
numa zona específica da linguagem, mas por efeito da contra-
Frise-se que a linguagem desse modo utilizada cobre vasto
mensagem do destinatário.
segmento no quadro geral da comunicação humana, integrando
Na amplitude da discussão judicial, bem o sabemos, é os textos considerados fantasiosos ou fictícios, como as fábulas,
comum que os representantes das partes litigantes utilizem os contos infantis, as novelas, os filmes cinematográficos, os
esse tipo de linguagem para tumultuar o andamento regular mitos, as anedotas e, especialmente para o nosso interesse, as
do feito. Diante de uma peça racionalmente composta, porta- ficções jurídicas, bem como as hipóteses com que trabalham os
dora de forte capacidade de persuasão, o advogado da parte cientistas. Descabe cogitar-se do teor de verdade desses enun-
contrária, não tendo como contrapor-se aos fundamentos de ciados, de tal arte que mesmo na contingência de serem coinci-
ordem fáctica e jurídica, passa a questionar afirmações pacífi- dentes com a realidade, isso não lhes dá preeminência no siste-
cas, levanta problemas sobre palavras, sobre situações estra- ma contextuai. Predominam os casos de falsidade, mas também
nhas ao tema controvertido, com o deliberado escopo de des- é irrelevante para tipificar a atribuição que desempenham.
pertar embaraços e dificuldades na compreensão daquilo que, Tratando-se de uma película cinematográfica ou de represen-
sem esses expedientes, seria perfeitamente admissível. tação teatral de conteúdo histórico, requer-se, é evidente, um
Mas o exercício da linguagem com tão antipáticos fins não mínimo de proposições dotadas do valor-verdade, exatamente
é o único a que se presta o discurso afásico. Pode também en- para reproduzir as situações escolhidas pelo autor.
cobrir o vazio de significação de certas mensagens, neste caso Por outro lado, as histórias imaginárias abrigam somente
cumprindo uma função axiologicamente positiva. Em alguns enunciados falsos, sem que essa contingência enfraqueça o dis-
momentos é o meio de escapar dos domínios estritos da litera- curso. Fique bem claro que os enunciados da linguagem fabu-
lidade da lei, fazendo prevalecer uma solução valorativa da ladora são susceptíveis de apreciação segundo os critérios de
equidade. Nas palavras de Warat 41 : "cuando se puede hacer verdade/falsidade, entretanto, a verificação não importa para os
pasar gato semántico por liebre equitativa". A função afásica fins da mensagem. Sotopondo-se a esses valores, mesmo assim
permite, então, preencher lacunas, completando o discurso ao a dinâmica discursiva continua lentamente sua marcha para
qual se dirige. atingir a finalidade proposta, sem que o respeito àqueles padrões
i) Linguagem fabuladora. Se a função descritiva se desen- ou à sua manifesta inobservância tenham o condão de afetar-lhe
volve mercê de enunciados com pretensão de verdade, há certo a natureza de linguagem fictícia ou fabuladora.
uso pragmático, como aponta Alf Ross 42 , que não faz a propo- O direito, na prescritividade mesma de sua linguagem,
sição depender dos conceitos de verdade e falsidade, exigindo- aproveita-se frequentemente das ficções. Como seu vector
se apenas que tenha significado. Este autor refere-se a tal uso semântico está preparado para incidir na realidade social e
como "apresentação da proposição", que passa a constituir não para com ela coincidir 43, sempre que o legislador das nor-
mas gerais e abstratas estiver premido a esquematizar fatos e

41.Warat, oP. cit., p. 79.


42. Sobre el derecho y la justicia. Tradução de Genaro Carrió, Buenos Aires, 43.Lourival Vilanova, "Analítica do dever-ser", in Escritos jurídicos e filosó-
EUDEBA, 1974, p. 37. ficos, vol. 2, cit., p. 69.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

qualificar objetos, em desacordo com a índole em que normal- especializado, para poder examinar a natureza e pensar nas
mente são tomados, emprega o recurso fabulador. possibilidades do seu trabalho. Nesse átimo, estará discorren-
do sobre a técnica da sua construção científica, examinando o
j) A linguagem que opera na função metalinguística, se-
método de investigação para declará-lo ou explicitá-lo, instan-
gundo Roman Jakobson 44 , focaliza o código, ou seja, o próprio
te em que põe em curso a função metalinguística.
discurso em que se situa. Nela, antecipa-se o emissor às inter-
rogações do destinatário, explicitando fragmentos do discurso
que lhe pareceriam desconhecidos ou absurdos aos ouvidos ou 2.2.3. Formas de linguagem
aos olhos do interlocutor. Antes que o receptor interrompa a
locução para formular perguntas, aquele que fala ou escreve Orientar a atenção para as formas da linguagem significa
esclarece o trecho, oferecendo informações adicionais a res- ingressarmos no terreno da gramática do idioma. Mas a gra-
peito. Há metalinguagem, mas no interior do discurso. A função mática, designada por normativa, cobre cinco setores diferen-
metalinguística, assim versada por Jakobson, pressupõe um tes: a) morfologia; b) fonética; c) sintaxe; d) semântica; e e)
estilística. A divisão nos leva a supor que o estudo das formas
único código e, dentro dele, dois níveis de linguagem conviven-
seria desenvolvido nos quadros da morfologia. Não é assim. A
do na mesma sequência contextual. Difere, portanto, daquelas
morfologia cuida das palavras, isoladamente consideradas,
circunstâncias em que linguagem-objeto e metalinguagem
pesquisando seu modo de formação, sua estrutura, suas pro-
aparecem em momentos distintos e, muitas vezes, elaboradas
priedades e as flexões que podem experimentar. Enquanto isso,
por sujeitos diferentes. Basta essa lembrança para divisarmos
pensamos agora nas formas de discurso como modalidades de
que a expressão não é unívoca: contempla a situação em que
mensagens transmitidas no plexo interacional da comunicação,
o emissor fala da sua própria fala, num único contexto; assim cujo conhecimento se dá no capítulo reservado à sintaxe, par-
como todas as manifestações de linguagem que se ocupam de te da gramática que examina as possíveis opções no que tange
falar sobre outras linguagens, seja do mesmo autor ou de au- à combinação das palavras na frase, para que a exteriorização
tores diferentes. Estipulemos aqui, para efeito do desenvolvi- do pensamento ocorra com clareza. Distribui-se a sintaxe por
mento dos nossos estudos, que a função metalinguística acon- três subcapítulos: a) sintaxe de concordância; b) sintaxe de
tece sempre no interior de um único código, promovida por subordinação (ou de regência); e c) sintaxe de ordem (ou de
um só emissor e, mais adiante, versaremos o assunto das hie- colocação).
rarquias de linguagem.
Dentro dos limites que o interesse temático nos permite,
Para ilustrar com exemplos, lembremos que denunciam estabeleçamos como ponto de partida o conceito de frase para
a presença da função metalinguística frases introduzidas por chegarmos logo aos objetivos que este trabalho projetou atingir.
expressões como isto é, ou seja, ou melhor, por outro modo, em Frase é a palavra ou combinação de palavras com que expres-
outros termos, dito de forma diferente, etc. samos nosso pensamento. É categoria genérica, abrangendo
No campo da Ciência, observamos que o teórico sente muitas as frases nominais, as orações, também conhecidas por sen-
vezes a necessidade de extrapassar os limites do conhecimento tenças, e o período. As frases nominais não têm verbo; as ora-
ções, portadoras de estrutura sintática, apresentam obrigato-
riamente o verbo como elemento essencial e, muitas vezes,
44. Linguística e comunicação. Tradução de José Paulo Paes e Isidoro Bliks- sujeito e complemento como elementos acidentais. Por fim, o
tein, São Paulo, Cultrix, 1991. período, formado por uma oração, uma combinação de oração

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

e frase ou mais de uma oração, será simples, existindo uma só e) Já sossega, depois de tanta luta, já me descansa em paz o
coração - Transcendentalismo, Antero de Quental - forma
sentença; composto, quando houver duas ou mais estruturas
declarativa e função expressiva.
oracionais.
f) Os mais celebrados autores, assim nacionais, que estran-
As frases meramente nominais diferem das sentenças geiros, advogam a mesma tese - forma declarativa e função
porque as primeiras carecem de estrutura sintática, não sendo persuasiva.
passíveis de análise. g) O autor desenvolve seus argumentos sem discutir o cabi-
mento das duas premissas que lhe servem de suporte - forma
Recuperando o sentido genérico de frase, indicam os declarativa e função afásica.
autores seis classes: 1) as declarativas; 2) as interrogativas; 3) h) Eu te batizo em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo
as exclamativas; 4) as imperativas; 5) as optativas; e 6) as im- - forma declarativa e função operativa.
precativas. Consulta ao nosso interesse expositivo reduzir esses i) A tartaruga, perante Aquiles, admite o condicional e seu
tipos a apenas quatro, o que entendemos possível, visto que as antecedente, mas nega o consequente - Diálogo de Aquiles
frases optativas (que manifestam um desejo) e as imprecativas com a tartaruga, em conto de Lewis Carrol - forma decla-
(que contêm uma imprecação), cabem ambas no espaço das rativa e função fabuladora.
exclamativas. j) Tudo bem, eu vou indo, correndo, pegar meu lugar no futu-
ro - trecho de Sinal Fechado - forma declarativa e função
A matéria dessa maneira exposta predispõe nossa mente fáctica.
a imaginar correspondência entre as formas de frases e as di-
versas funções que cumprem na comunicação humana. Tal A dissociação entre forma e função não se verifica apenas
correspondência, contudo, não acontece necessariamente. As com a frase declarativa. Breve esforço da parte do leitor de-
funções de que se utiliza a linguagem não se prendem a formas monstrará que a função da linguagem empregada pelo reme-
determinadas, de modo que o emissor poderá escolher esta ou tente, ao expedir a mensagem, independe da modalidade frá-
aquela, a que melhor lhe aprouver, para transmitir seu comu- sica adotada.
nicado, dependendo dos fatores extralinguísticos que fizer
acompanhar a manifestação verbal. O registro impede que iden-
tifiquemos a função pelo reconhecimento do enunciado textual.
2.2.4. Tipos de linguagem
Façamos então uma experiência, firmando a estrutura da frase Uma classificação estará construída corretamente se tiver
declarativa e procurando ver a que funções pode prestar-se: observado as regras sintáticas do procedimento classificatório,
prescritas pela Lógica dos termos ou Lógica dos predicados.
a) Palmares é cidade do Estado de Pernambuco - forma de-
Trata-se de condição a priori de sua validade semântica. Nada
clarativa e função declarativa.
obsta, entretanto, que, superado o plano sintático, venhamos
b) Estou com muita sede - forma declarativa e função inter- a compor muitas classificações sobre o mesmo objeto, utilizan-
rogativa, imaginando-se um meio de pedir água.
do, para tanto, critérios diferentes sob cuja inspiração possamos
c) O som elevado da televisão está atrapalhando meu trabalho analisá-lo por variados ângulos.
- forma declarativa e função prescritiva.
d) Toda pessoa é capaz de direitos e deveres na ordem civil Já contemplamos a linguagem à luz das inúmeras funções
(art. r do Código Civil) - forma declarativa e função que desempenha no fato concreto da comunicação. De seguida,
prescritiva. vimo-la pelo ponto de referência das possíveis formas gramaticais

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

que presidem o surgimento de frases em língua portuguesa. A linguagem natural, rebelde em termos sintáticos, problemáti-
diretriz, agora, será outra: descansa no grau e no modo de ela- ca no plano semântico, mas extremamente fecunda pelo prisma
boração de mensagens, que serão mencionadas segundo tipos. pragmático.
O Neopositivismo Lógico alude a três tipos de linguagem: Na área dessa linguagem, na qual se aloja o coloquial, não
a) a natural ou ordinária; b) a linguagem técnica; e c) a lingua- haveria espaço para descrições cujo rigor dos enunciados é
gem formalizada. Entendemos que o aspecto que nutre a es- pressuposto de seu valor veritativo. O discurso natural, em face
pecificação admite outros desdobramentos. Falaremos, assim, da latitude de indeterminações semânticas que provoca, ao
em seis tipos de linguagem, a saber: a) a natural, ordinária ou lado da flexibilidade excessiva na construção sintática de suas
vulgar; b) a linguagem técnica; c) a linguagem científica; d) a proposições, jamais atenderia ao caráter analítico-descritivo
linguagem filosófica; e) a linguagem formalizada; e f) a lingua- do saber científico, que requer fórmulas minudentes, precisas,
gem artística. capazes de relatar a sutileza e a finura dos fenômenos que
constituem seu objeto.
a) A linguagem natural aparece como o instrumento por
excelência da comunicação entre as pessoas. Espontaneamen- b) Linguagem técnica é toda aquela que se assenta no
te desenvolvida, não encontra limitações rígidas, vindo forte- discurso natural, mas aproveita em quantidade considerável
mente acompanhada de outros sistemas de significação coad- palavras e expressões de cunho determinado, pertinentes ao
juvantes, entre os quais, quando falada, a mímica. domínio das comunicações científicas. Não chegando a atingir
uma estrutura que se possa dizer sistematizada, busca trans-
Entre suas múltiplas características figura o descompro-
mitir informações imediatas acerca da funcionalidade do ob-
metimento com aspectos demarcatórios do assunto sobre que
jeto, utilizando, para tanto, número maior ou menor de termos
se fala ou escreve: flui com ampla liberdade e corresponde, por
científicos.
isso, à reivindicação própria da comunicação cotidiana. Sobre-
mais, lida com significações muitas vezes imprecisas, não se O intercâmbio socioeconômico dos dias atuais é pródigo
prendendo a esquemas rígidos de formação sintática de enun- em exemplos desse tipo de linguagem. A cada instante, depa-
ciados. A combinação desses fatores prejudica a economia do ramo-nos com manuais de instruções para o manejo de ferra-
discurso, acentuando a dependência das mensagens à boa mentas, máquinas, utensílios eletrodomésticos, veículos, etc.,
compreensão da conjuntura contextual. De contraparte, sua e as recomendações contidas nesses corpos de linguagem em-
dimensão pragmática é riquíssima, evoluindo soltamente entre pregam palavras específicas, de conteúdo fixo, viradas para o
emissor e destinatário. Nela, percebem-se com clareza as pau- objetivo primordial de tornar possível o máximo proveito na
tas valorativas e as inclinações ideológicas dos interlocutores manipulação do bem. Há porção significativa de linguagem
que, em manifestações despreocupadas, exibem suas intenções, descritiva, mas apenas para atender às necessidades explica-
dando a conhecer os vínculos psicológicos e sociais que entre tivas que a exploração das potencialidades do objeto requer.
eles se estabelecem. Sabemos que, para além daqueles manuais acima referi-
Atento a esses traços que lhe são peculiares, o movimen- dos, muitos outros exemplos podem ser sacados, entre eles as
to conhecido por "Filosofia da Linguagem Ordinária" estrutu- bulas que acompanham os remédios, abrigando escritos que
rou-se como reação ao "Empirismo Contemporâneo", princi- se dirigem aos leigos. Nelas, é considerável a presença de ter-
palmente porque este último, ao recolher o discurso científico minologia das ciências médicas, ainda que a finalidade esteja
como exclusivo objeto de suas especulações, deixava de lado a ligada estreitamente à sua administração adequada por quem
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

venha a consumir o medicamento. Difere da linguagem cien- c) Linguagem científica é um discurso que se pode dizer
tífica, toda ela vertida sobre os limites internos da matéria- artificial, porquanto tem origem na linguagem comum, pas-
objeto e sistematicamente organizada, de tal sorte que o feixe sando por um processo de depuração, em que se substituem
de proposições indicativas, governado pelo método, estará apto as locuções carregadas de imprecisão significativa por termos
para produzir conhecimentos e controlar o teor de verdade dos na medida do possível unívocos e suficientemente aptos para
enunciados emitidos. indicar, com exatidão, os fenômenos descritos. Nem sempre,
porém, torna-se exequível a estipulação de vocábulos precisos,
Quanto ao direito positivo, aqui considerado na sua mais procedendo-se então ao que Carnap designou de "processo de
elevada extensão, seja a linguagem do legislador das normas elucidação", no qual se emprega a palavra, explicitando-se, em
gerais e abstratas, seja aquela das normas individuais e con- seguida, o sentido em que foi utilizada. A linguagem científica
cretas, ambas se enquadram no tipo de linguagem técnica. As arma-se, desse modo, para caminhar em direção à idéia limite
regras emanadas do Poder Legislativo, em razão de sua com- de um sistema, consistente e rigoroso, pronto para descrever
postura heterogênea, decorrência inevitável da representati- a realidade objetal de que se ocupa. Esta circunscrição material
vidade política, revela presença menor de termos com acepção há de ser demarcada de maneira firme e o cientista o faz ado-
precisa e predominância incontestável do linguajar comum. Já tando cortes arbitrários e incisivos. A delimitação do objeto é
as normas individuais e concretas, principalmente as exaradas pressuposto do controle da incidência das proposições descri-
pelo Poder Judiciário, costumam revestir-se de mais rigor, tivas, que não poderão extrapolar as lindes traçadas, com o que
penetradas em maior intensidade por vocábulos próprios da se comprometeria a homogeneidade do espaço empiricamen-
Ciência do Direito. Isso, contudo, não lhes tira o caráter de te observado. São questões epistemológicas, mas que integram
linguagem técnica, ainda porque, significativa que seja a pre- o modo de ser da linguagem científica, imprimindo-lhe fisio-
ponderância de termos e expressões artificialmente construí- nomia própria.
dos, para responder à determinação ínsita que a disciplina da Valem para qualquer Ciência as ponderações de Roberto
conduta reclama, mesmo assim jamais poderia adquirir foro J. Vernengo 45 :
de discurso científico por não ser descritiva de objetos, e sim
prescritiva de comportamentos intersubjetivos. "pretenderá formular, en un lenguaje lógicamente coheren-
te, un conjunto de proposiciones verdaderas sobre su tema
Se caso faltassem notas que pudessem justificar tratamen- de investigación, en forma tal que los enunciados que las
to diferenciado entre linguagem técnica e linguagem científica, expresen sean racionalmente controlables, sea en cuanto
a experiência do jurídico serviria, à perfeição, para demonstrar empiricamente verificables, sea en cuanto lógicamente
que, certamente, essas linguagens são de tipos diferentes. derivables de otras proposiciones cuya verdad se asume o
Ninguém ousaria afirmar que o discurso prescritivo das pro- ha sido acreditada."
posições normativas labora tão-somente no campo da comu-
nicação natural. Tais mensagens, entretanto, nunca atingirão Assentadas essas características, a linguagem científica
o status de linguagem científica, remanescendo o adjetivo téc- há de aparecer bem esquematizada sintaticamente, com seu
nica para qualificá-las. Ao contrário do que sucede com outras plano semântico cuidadosamente elaborado, mas enfraquecida
linguágens desse tipo, na jurídica nada há de função descritiva,
apesar de sua forma muitas vezes dissimular esse aspecto re-
levante, que referimos linhas acima. 45. Curso de teoria general del derecho, Buenos Aires, Depalma, 1986, p. 34.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

na dimensão pragmática. O esforço de estruturação sintática questionamento de conceitos fundamentais, em que até as
e o empenho no sentido de evitar as confusões significativas premissas poderão ser submetidas a discussão e substituídas.
trazem como resultado a diminuição do quadro de manobras Este tipo de enfoque é chamado de zetético. A ele se contrapõe
de que dispõem os usuários dessa linguagem, ficando difícil o procedimento dogmático, em que se firmam as premissas,
captar as inclinações ideológicas, pois o texto referencial não como algo intangível, absoluto.
deve conter palavras emotivas, evitando-se o recurso a argu- Tercio Sampaio Ferraz Jr. 47 adverte que em toda investi-
mentos de cunho retórico. No caso do direito, a linguagem gação vamos encontrar os dois enfoques, se bem que algumas
científica fala a respeito de outra linguagem: a linguagem téc- acentuem mais um aspecto que outro. Feliz é o exemplo do
nica do direito positivo. Pretende dizer como ela é, investigan- problema de Deus, examinado pela Filosofia e pela Teologia.
do-a nas suas dimensões semióticas. Sendo assim, convém ao Sirvamo-nos das palavras desse ilustre Professor:
cientista do direito, na composição de seu discurso indicativo,
o uso de palavras emotivamente neutras, que não divirtam a "A primeira, num enfoque zetético, pode pôr em dúvida a
atenção do leitor para fins outros que atendam suas intenções sua existência, pode questionar até mesmo as premissas da
valorativas. E a persuasão há de fazer-se sem qualquer empe- investigação, perguntando-se inclusive se a questão de Deus
nho retórico, mas por força da precisão descritiva da linguagem tem algum sentido. Nestes termos, o seu questionamento é
infinito, pois até admite uma questão sobre a própria ques-
empregada. Bem certo que tudo isso representa uma procura
tão. Já a segunda, num enfoque dogmático, parte da exis-
incessante, a busca de um modelo ideal de Ciência, que por ser
tência de Deus como premissa inatacável."
ideal o homem jamais alcançará. Principalmente se seu objeto
estiver contido na região dos objetos culturais, como o direito.
Toda vez que uma investigação, de caráter zetético ou dog-
Vejamos, a propósito, a penetrante observação de Louri- mático, compuser sistema de proposições orientado para um fe-
val Vilanova 46 : nômeno com fins cognoscitivos, teremos uma teoria. E essa teoria
será Ciência se, e somente se, além de formar um feixe de enun-
"Se o formal permite a neutralidade do comportamento ciados vertido sobre determinado campo objetal, tiver pretensão
cognoscitivo do homem, se o homem concreto, em face das e finalidade veritativas. Sendo assim, as ciências nada mais são
formas e sua articulação em sistema — assim, na Lógica — que teorias (uma só ou combinação delas) animadas pelo objetivo
comporta-se como sujeito puro, quando trava contato com
de apresentar conclusões que se confirmem como verdadeiras.
o mundo dos conteúdos sociais e históricos, vem a travar
contato consigo mesmo, e, em vez da relação sujeito-objeto, Enquanto modo específico de conhecimento da realidade,
mescla-se essa relação com uma inevitável parcela de ati- o assunto da Ciência requer meditações mais profundas, que os
tude prático-valorativa." li mites deste trabalho não comportam. É matéria da Epistemo-
logia ou, em termos mais amplos, da Filosofia das Ciências.
Os problemas suscitados pelo interesse cognoscente do
Para concluir, aquilo que se passa com a Ciência do Direi-
ser humano podem ser investigados por um procedimento
to, em relação a seu objeto, o direito positivo, oferece um bom
que enfatize o aspecto pergunta, abrindo-se o espírito para o
exemplo da diferença entre a linguagem científica e a técnica.

46. "O problema do objeto da teoria geral do estado", in Escritos jurídicos e


filosóficos, vol. 1, São Paulo, Axis Mundi/IBET, 2003, p. 82. 47. Introdução ao estudo do direito, cit., p. 42.

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d) A linguagem filosófica assume foros que a distinguem entre o pensar filosófico e o pensar científico, cada qual mani-
como discurso peculiar. Com efeito, as reflexões sobre a vida festado num tipo de linguagem adequada a seus propósitos,
da criatura humana, na sua trajetória existencial, no papel que suas finalidades e, substancialmente, ao seu modo particular
cumpre como ente da natureza, nos seus anseios de conquistas de ser. Agora, em nenhum plano de indagação o enfoque zeté-
materiais e seus apelos de espiritualidade, enfim, o pensar no tico está tão presente quanto no das especulações da Filosofia.
homem e no que ele representa, o tomar posição perante o Cada teoria filosófica, antes de qualquer outra coisa, revela a
mundo, requer uma linguagem de tipo especial, saturada de perplexidade de uma grande indagação que une os indivíduos
valores, com terminologia própria, tudo para habilitar aquela em torno de suas intermináveis dúvidas existenciais.
investigação que retroverte sobre o conhecimento mesmo, da Uma referência prática ilustrará a distinção que vimos
realidade circundante, como do universo interior, na procura afirmando: se quisermos entender um texto da linguagem dos
do ser em sua totalidade universal. Trata-se de uma linguagem economistas ou dos sociólogos ou dos juristas consultaremos
que incide em todas as regiões ônticas: natural ou física, me- dicionários de terminologia de cada uma daquelas ciências. Da
tafísica, ideal e cultural, de tal modo que seu objeto poderá ser mesma forma, muitos dos termos da linguagem filosófica não
tanto linguístico como extralinguístico. O filósofo medita sobre serão encontrados senão em dicionários de Filosofia, o que
o conhecimento vulgar (doxa) e medita sobre o conhecimento denota estarmos diante de um tipo especial de discurso.
científico (episteme), quando indaga a propósito das condições e) A linguagem formalizada advém da necessidade de
e possibilidades de determinada ciência. Mas, antes de tudo, abandonarmos os conteúdos de significação das linguagens
pensa sobre o próprio conhecimento, o conhecimento em si, idiomáticas, em ordem a surpreender as relações entre classes
colocando-o como foco temático. Numa ascese temporária, sus- de indivíduos ou de elementos. As relações mesmas, com a
pende o interesse pelos objetos do mundo existencial, em atitu- pureza ínsita aos conceitos primitivos, fundantes, não são mui-
de de renúncia momentânea e metodológica, e projeta sua tas vezes perceptíveis no conjunto frásico, por obra das vicis-
atenção no fenômeno que ocorre entre o ser cognoscente e o situdes gramaticais da língua, dos torneios inerentes ao falar
objeto. comum e, principalmente, pelo comprometimento natural do
homem com a realidade circundante. Tudo isso acaba inibindo
Se a Filosofia tem a pretensão de explicar o mundo, com-
a apreensão dos vínculos associativos que aproximam os termos
pondo teorias, estas, para serem legitimamente filosóficas,
e as proposições. A formalização da linguagem aparece como
haverão de romper os limites do estrito campo objetal das ci-
instrumento eficaz para exibirmos relações, sejam elas mate-
ências particulares, para nelas pensarem, em atitude crítica,
máticas, físicas, econômicas, sociológicas, psicológicas ou jurí-
analisando a natureza do trabalho cognoscitivo e as técnicas
dicas. Quando a Geometria, utilizando fórmulas matemáticas,
aplicadas à elaboração do material levantado. O passo subse- 2
enuncia que (h 2 = a 2 + b ), está exprimindo em linguagem
quente é estabelecer a complementariedade daquele segmen-
formalizada uma relação constante para todo triângulo retân-
to do saber, no contexto da teoria geral com que o filósofo se
gulo. Interpretada em linguagem desformalizada, teríamos:
propõe expressar a totalidade do real.
Em todo triângulo retângulo, o quadrado da hipotenusa é igual
Tanto o saber comum como o científico marcam o ponto à soma dos quadrados dos catetos. Ao tratar da operação conhe-
de partida da investigação filosófica, que retribui as contribui- cida como produto, a Aritmética oferece a fórmula (x.y) = (y.x),
ções particulares, esclarecendo-lhes as causas e assentando- indicando com precisão o comportamento das variáveis x e y,
lhes os fundamentos. Nesse ponto, vê-se com nitidez a relação enquanto fatores da multiplicação, e o sinal de igualdade põe
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

em evidência a propriedade comutativa de que desfruta essa venha a ser uma linguagem formalizada. Quero insistir, porém,
operação. Também as relações jurídicas podem exprimir-se num ponto: ao despojarmos o discurso de suas roupagens idio-
mediante esquemas de linguagem formalizada, momento em máticas, há de remanescer um resíduo formal dotado de alguma
que saltam aos nossos olhos as qualidades que lhe são imanen- significação, sob pena de transformar-se o conjunto num mero
tes. Querendo salientar o caráter irreflexivo das relações jurí- cálculo, quer dizer, numa combinação das relações possíveis
dicas ou a assimetria do vínculo que une dois sujeitos, empre- entre os sinais do sistema, sinais esses que nada dizem, que nada
ga o lógico do direito as fórmulas, respectivamente, -(xRx) e comunicam, como adverte Lourival Vilanova 48 .
(xRy) (yRx). No caso da Aritmética, qualquer número que
substitua x ou y mantém constante a relação. Paralelamente, f) Por linguagem artística entendemos aqueles modos de
no liame jurídico, pouco importa o sujeito de direito que este- significar, de funções variadas, reveladores de valor estético. Sir-
ja no tópico de x ou de y: a relação é sempre irreflexiva -(xRx), vamo-nos da literatura, em prosa ou verso, que são modelos ca-
isto é, ninguém pode estar juridicamente relacionado consigo racterísticos, ou da peça jurídica da sentença, ou do relato histó-
mesmo; assim como invariavelmente assimétrica, vale dizer, rico, ou do parecer do jurista especializado. Seja o relatório mé-
se x é credor de y, então y é devedor de x, não sendo possível dico, as palavras introdutórias de um projeto arquitetônico ou
a transposição pura e simples dos termos referente e relato: páginas de um livro de Ciência. Nada disso importa. A função não
-[(xRy) = (yRx)]. Dito de maneira diversa, a relação (xRy) e sua está aqui como fator de identificação: não é o critério. Este é o
conversa (yRx) não são iguais. senso estético, algo que provoca nossa sensibilidade, orientando-
Apesar de toda a formalização, com a simbologia artifi- a em direção ao belo e produzindo aquela satisfação cuja índole
cialmente criada para acentuar os laços que a linguagem co- subjetiva e seu caráter intuitivo impedem seja isolado e definido
mum disfarça, mesmo assim estaremos diante de uma autên- com explicitude. Convocamos novamente a doutrina do jusfiló-
tica linguagem. Há variáveis (x e y) e constante (R), de tal modo sofo pernambucano 49 para ilustrar as noções expostas:
que as variáveis têm um mínimo de significação, recolhendo
"Sob o ponto de vista estético, passa a plano secundário a
em x ou em y quaisquer pessoas (físicas ou jurídicas, de direi-
verificabilidade histórica dos fatos cujo contexto situam-se um
to público ou de direito privado), mas sujeitos de direito. Não
César ou um Henrique IV A linguagem aqui é o sistema de
posso substituir x ou y por nomes de condutas ou de fatos, o símbolos portadores de significações que valem para um uni-
que indica haver, realmente, uma significação muito genérica, verso de formas, de formas do trágico, do sublime e do cômico,
portanto, significação. Também R, como relacional deôntico, e onde as ocorrências e as pessoas são meras possibilidades
surgirá sempre modalizado num dos operadores: O, P e V na ordem dos fatos. Que haja uma confirmação empírica, ou
(obrigado, permitido e proibido), inexistindo uma quarta pos- que haja uma discordância com a realidade histórica, não
sibilidade (lei deôntica do quarto excluído). Estamos, então, acrescenta nem diminui o valor estético das produções artís-
diante de uma linguagem com estrutura sintática rígida e bem ticas. A busca da verdade subjacente à composição literária,
organizada, com plano semântico em que seus termos encon- se é um tema importante sob certos pontos de vista, represen-
ta um vetor de análise irrecusavelmente extra-estético."
tram uma e somente uma significação, e com dimensão prag-
mática, pobre, mas existente.
Adiantamos alguns conceitos, que serão explicados e 48. "Lógica jurídica", in Escritos jurídicos e filosóficos, vol. 2, cit., p. 178.
desenvolvidos em capítulos ulteriores. Fizemo-lo apenas a tí- 49.Lourival Vilanova, As estruturas lógicas e o sistema do direito positivo, cit.,
tulo de exemplificação, para transmitir idéia sumária do que p. 159.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

O discurso que chama a atenção pelo valor artístico, as- com suas dimensões sintática, semântica e pragmática: uma
sumindo, como de fato assume, qualquer das funções que autêntica linguagem, com a particularidade de ser formalizada.
examinamos, pode igualmente revestir-se das formas grama- Os recursos semióticos, por sua vez, permitem a análise das
ticais disponíveis à expressão do pensamento, o que significa três dimensões que esta linguagem apresenta, cada qual ana-
admitir que, como tipo de linguagem, é critério que pode pre- lisado de acordo com as respectivas bases: (i) as estruturas
valecer entre os demais. O subjetivismo que preside à utilização frasais e as regras lógico-gramaticais nelas contidas; (ii) os tipos
desse valor de referência dá margem a intensos desacordos de de linguagem; e (iii) as funções da linguagem no discurso. De
opinião. Isso, no entanto, não é obstáculo para sua autonomia, um lado, a referida formalização contemplará os vínculos as-
que se afirma a cada instante, na medida em que nos deparamos sociativos que ligam os vários signos de um mesmo sistema,
com textos que despertem em nosso espírito, como primeira expondo à carne viva o plano sintático daquele conjunto, e, na
reação, o sentimento estético que o inspirou. Quem já não leu instância semântica, encontrando-se a significação que é ine-
sentenças ou acórdãos tão harmônicos e bem compostos, esti- rente àquela estrutura formal. De outro, a pragmática da co-
listicamente, que antes de provocar em nós qualquer tomada municação humana indicará a trajetória imprescindível para
de posição acerca da justiça da decisão, ou de seu teor de juri- a determinação do tipo de lógica com que devemos trabalhar.
dicidade, suscitou a admiração pelo modo de expressar-se, pela Ingressemos, agora, nos estudos propriamente da linguagem
nobreza das referências, pela riqueza das imagens e pela com- formalizada, estabelecendo o paralelo entre a lógica e o direito
binação simétrica das formas? Pois bem, é precisamente essa positivo.
linguagem que traz à frente um apelo à sensibilidade estética,
aquela que versamos sob o nome de artística. 2.3. DIREITO E LÓGICA
Vimos, portanto, que em toda a formulação linguística,
fruto das concepções neopositivistas, preza-se a boa formação A Lógica integra a parte da Filosofia que trata do conhe-
da sintaxe frásica e toma-se a verificabilidade como critério cimento. Entre os gregos, inicialmente, assumiu a feição de
semântico para que o texto se enquadre como discurso científi- arte ou dom de produzir argumentos de maneira habilidosa,
co. A linguagem, aqui, é tida como instrumento do saber cientí- com o fito de organizar a mensagem, ensejando o convenci-
fico, empregada pelo intérprete jurídico na constituição do di- mento. Evoluiu, em seguida, para tornar-se um conjunto de
reito positivo. É esta busca da excelência sintática dos neoposi- proposições cujo objetivo ia mais além, oferecendo critérios
para a determinação da própria validade dos esquemas inte-
tivistas que os aproxima da Lógica ou, em outras palavras, da
lectuais que buscavam o valor-verdade. O núcleo das preocu-
linguagem formalizada. O pensar científico, no intuito de preci-
pações lógicas passou a estudar os modos que presidem o
sar a descrição da mensagem legislada, exige métodos que as-
funcionamento do pensar humano, isolando-se a temática do
segurem a estrutura sintática rígida e bem organizada, que, no
pensamento naquilo que se podia considerar o quadro das
plano semântico caminhem ao encontro de termos dotados de
relações possíveis entre as várias formas de manifestação do
uma e somente uma significação. Apenas a Lógica, expressão
intelecto. Essa função tem início com as associações que nosso
da dimensão formal de toda e qualquer linguagem, com recursos
espírito elabora a partir dos materiais oferecidos pela intuição.
da simboflogia, foi capaz de dar substrato a este universo.
Esses materiais são as idéias, noções ou conceitos. Aliás, o
Acontece que o conjunto escolhido para representar o pensamento começa pelo ato da afirmação, que põe o juízo,
plano das unidades lógicas constitui um sistema comunicacional, enquanto este último se exterioriza pela proposição.
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Foi Aristóteles quem transformou a pesquisa dos conte- Insistamos em que o objeto da Lógica, enquanto Ciência,
údos mentais na secreta intimidade de sua organização interior, é o pensamento da criatura humana, visto na condição de es-
num sistema de enunciados de natureza científica. E o fez de trutura, independentemente de suas causas genéticas e das
modo tão bem composto que Kant admitiu estar diante de um circunstâncias externas que lhe imprimem dinamismo funcio-
corpo de conhecimentos pronto e acabado, não havendo como nal, setores especulativos pertinentes à Psicologia. Interessa à
experimentar novos progressos. Lógica lidar com as entidades formais que organizam a estru-
Com efeito, desvencilhada dos componentes psicológicos tura do pensamento.
que dão vida e movimento às suas estruturas, a Lógica atingiu
As ponderações acima mostram-se de grande relevância
foros de disciplina particular. Enquanto linguagem, é um sis-
para o estudo e a aplicação do direito positivo. Considerada a
tema de significações dotado de regras sintáticas rígidas - com
premissa de que o direito situa-se na região ôntica dos objetos
plano semântico em que seus signos apresentam um e somen-
culturais, a lógica o encontrará como um autêntico cosmos para
te um sentido - e que procura reproduzir, com recursos da
simbologia, as relações que se estabelecem entre termos, pro- dele organizar o seu material ontológico, constituindo verda-
posições e argumentos. Esclareçamos desde já que assim como deiro sistema formalizado de sobrelinguagem. No entanto, fica
a proposição é a expressão verbal do juízo, o termo o é da idéia a advertência: a Lógica não altera o ordenamento jurídico, mas
e o argumento, do raciocínio. o descreve em linguagem formalizada, transformando o objeto
cultural, que é o direito positivo, em objetos ideais, próprios
Nos nossos dias, a lógica se apresenta em linguagem for-
das Ciências Lógicas. Constitui assim a ampliação dos horizon-
malizada, fazendo-se necessário, por isso, referência expressa
tes culturais existentes.
ao sistema notacional adotado. Esse discurso formalizado re-
quer, para explicá-lo, uma metalinguagem que, por sua vez, A Lógica atua do mesmo modo que uma sobrelinguagem
para falar acerca da linguagem-objeto, tem de apresentar-se, da Ciência Jurídica, descrevendo e codificando a própria lin-
obrigatoriamente, desformalizada. É impossível conceber-se guagem descritiva do direito, assim como sobrelinguagem da
metalinguagem formalizada transcodificando linguagem-ob- argumentação jurídica. São, portanto, três linguagens-objeto
jeto também formalizada. O enunciado da linguagem lógica que a análise da Lógica formaliza: (i) a do direito positivo, (ii)
dirá: "p-q"; e a metalógica explicitará, afirmando: "esta fór- a da Ciência do Direito e (iii) a da retórica do direito. Eis o
mula molecular exprime o conectivo condicional, de maneira porquê da afirmativa do Professor Lourivar:
que, sendo verdadeira a proposição 'p', como antecedente,
então a consequente 'g' também o será." "A ciência da Lógica, sim, é que é a sobrelinguagem que
formaliza a linguagem das proposições jurídicas (da ciência
Tomada como Ciência, a Lógica consiste num discurso
jurídica) e a linguagem das normas (do direito positivo),
linguístico que se dirige a determinado campo de entidades.
pois é nesse seu nível que se reduzem as duas capas de
Esse domínio é o universo das formas lógicas, situado na região linguagem a fim de se obterem estruturas formais, consti-
ôntica dos objetos ideais, que, portanto, não têm existência tuídas de variáveis lógicas, de constantes lógicas e de func-
concreta, real; não estão na experiência e são axiologicamente tores intra/interproposicionais."
neutros. Apreendemo-los pelo ato gnosiológico da intelecção
e o método que se lhes aplica é o racional-dedutivo. Essas for-
mas ideais, contudo, só existem onde houver qualquer mani- 50. Lourival Vilanova, "Níveis de linguagem em Kelsen (Norma jurídica/
festação de linguagem, por insignificante que seja. proposição jurídica)", in Escritos jurídicos e filosóficos, vol. 2, cit., p. 216.

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Diante deste poderoso instrumental descritivo que é a e não-válido. Isso, nos horizontes das chamadas "lógicas biva-
Lógica, o exegeta do direito encontrará racionalidade no dis- lentes", porque na pesquisa do plano formal das linguagens,
curso jurídico, sendo capaz, pela utilização das leis e estruturas levando-se em conta suas oscilações funcionais, muitas lógicas
lógicas, de apontar uma infinidade de características, vícios e foram criadas. Com o passar do tempo, apareceram estudos
contradições no ordenamento normativo. alentados sobre a matéria, de tal sorte que se fala, hoje, em
muitas outras lógicas.

2.3.1. A Lógica e seu objeto: "Lógica jurídica" e "Lógicas Pois bem, explorando a temática da linguagem, sob o
jurídicas" enfoque da função pragmática do discurso, vamos nos aproxi-
mando daquilo que chamamos de "Lógica jurídica", expressão
Havemos de convir que a lógica (do grego logiké) é apenas ambígua utilizada para mencionar a linguagem prescritiva do
um ponto de vista sobre o conhecimento. Nesse sentido, ex- direito posto, mas também empregada para fazer referência à
pressaria a dimensão formal de toda e qualquer linguagem, linguagem da Ciência do Direito e ao estudo do complexo de
representada pelo conjunto das regras morfológicas e sintáticas formas de argumentação que surpreende o sentido retórico
que presidem a composição dos signos, bem como o grupamen- das comunicações jurídicas. Essas três "lógicas" se acomodam
dentro do campo semântico da expressão "Lógica jurídica",
to dos modos possíveis de associação entre tais unidades,
com os nomes, respectivamente, de "Lógica deiintico-jurídica",
tendo em vista a geração de estruturas cada vez mais comple-
"Lógica da ciência jurídica" e "Lógica da retórica jurídica".
xas. É "Lógica" também a Ciência que estuda essa estrutura
formal, analisando os entes e as relações que se verificam nes- Convém insistir, porém, que essas formas ideais só existem
se setor do mundo ideal. onde houver qualquer manifestação de linguagem, por insig-
nificante que seja. Não há lógica na floresta, no fundo dos
Mas é importante dizer que, por esse ângulo de análise, oceanos ou no céu estrelado: torna-se impossível investigarmos
a lógica existirá, única e exclusivamente, ali onde houver lin- entes lógicos em qualquer outra porção da existência real que
guagem. Mais ainda, suas variações estarão ligadas às funções não seja um fragmento de linguagem. O saber lógico pressupõe
que a linguagem cumpre no contexto comunicacional, de tal a linguagem, que é seu campo de eleição, e a ela se dirige não
maneira que as alterações do uso linguístico determinarão como fim temático e sim como índice temático, para recolher
modificações importantes nos padrões lógicos a serem empre- a lição de E. Husserl, oportunamente lembrada por Lourival
gados. Dito de outro modo, a pragmática da comunicação Vilanova 51 . Tudo porque o pensamento humano se acha indis-
humana será o caminho imprescindível para a determinação sociavelmente jungido à linguagem, meio exclusivo de fixar o
do tipo de lógica com que devemos trabalhar. Para a linguagem produto da atividade cognoscitiva e de transmiti-lo nas situa-
utilizada em função descritiva de situações objetivas, a Lógica ções comunicacionais. Ora, transportando essas considerações
é chamada "formal", "menor", "Lógica clássica", "alética" ou para o campo do direito, podemos falar numa lógica deiintico-
"apofântica", na qual os valores são a verdade e a falsidade; jurídica que terá como objeto a linguagem dos enunciados
tratando-se da função interrogativa, teremos a lógica erotética, prescritivos e de uma lógica da Ciência do Direito, preocupada
com seus valores cabível ou incabível, pertinente ou imperti- com os enunciados descritivos proferidos pelos juristas.
nente; se a função for a persuasiva, os valores serão o convin-
cente ou o não-convincente; para a linguagem empregada na
função prescritiva de condutas, lidaremos com os valores válido 51. "Lógica Jurídica", in Escritos jurídicos e filosóficos, vol. 2, cit., p. 195.

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Firmado o pressuposto de que chegamos ao mundo da trata-se realmente de raciocínio e sua natureza não pode ser
lógica pela formalização, explicitemos a diferença entre esse outra que a indutiva. Já a indução matemática guarda o cará-
processo e a conhecida "generalização". ter de autêntica dedução, não se confundindo com as duas
primeiras.

2.3.2. Generalização e formalização Retomemos a generalização, enquanto processo, para


dizer que em seu percurso, quer finito ou infinito o universo
A linguagem formalizada, portanto, é aquela que logrará de objetos, desde o primeiro registro à conclusão generalizan-
plenamente substituir todas as palavras do discurso por sím- te, o observador não abandona, um momento que seja, o do-
bolos lógicos para a elaboração dos cálculos proposicionais. mínio demarcado. Em outras palavras, permanecerá operando
Porém, como se dá esta formalização? Será que ela se faz por no mesmo campo semântico, do começo ao fim. Se a área de
um processo de generalização ou mesmo de um processo de verificação constituir-se de metais, por exemplo, sairá o inte-
abstração? Qual o método aplicado pela Lógica para chegar a ressado pesquisando, de espécie em espécie, até chegar ao
esta formalização? conceito genérico que postula obter, mas conservar-se-á sem-
pre, rigorosamente, dentro da região material dos metais. Se
Toda vez que passamos da observação de fatos particula- acaso dirigisse a investigação para o lado jurídico dos contratos
res para uma conclusão geral sobre todos os fatos de uma dada e outro tanto ocorreria, pois o estudioso não cessaria de falar
classe, estaremos diante do processo de generalização. O mé- nessa figura, começando pelos tipos específicos que for encon-
todo que lhe convém é o indutivo, que parte de enunciados trando, até surpreender os traços gerais integrantes de todo e
protocolares observados e, sem esgotar o universo de fatos da qualquer contrato, sem jamais ultrapassar os limites que cir-
mesma índole, pretende extrair lei geral, válida inclusive para cunscrevem a matéria. Eis a característica da generalização:
os acontecimentos não submetidos à experiência. O enunciado atua com conteúdos significativos constantes e uniformes,
conclusivo seria explicativo do subconjunto dos enunciados variando apenas os acidentes que identificam as espécies.
protocolares examinados, bem como de seu complemento, isto
é, aquele formado pelos eventos não empiricamente testados. Formalizar, entretanto, é algo bem diferente. Nesse pro-
O método indutivo ergue-se sobre a base da regularidade ob- cesso, deixamos de lado os núcleos específicos de significação
jetiva dos fenômenos do mundo e da sua cognoscibilidade pelo das palavras para ficar com signos convencionalmente estabe-
homem. Trilhando caminho oposto ao da dedução, pelo racio- lecidos, que não apontam para este ou para aquele objeto e sim
cínio indutivo realizamos a síntese, ao passo que pelo dedutivo para o objeto em geral. No lugar de João ou de Pedro ou de
elaboramos a análise. Mas a indução de que falamos é a incom- Antonio ponho "S", que é o homem em geral, podendo ser
pleta, roteiro interativo e constante no quadro das Ciências substituído tanto por João quanto por Pedro ou por Antonio.
naturais, na Sociologia, na Psicologia, etc. A chamada "indução Trata-se de despojarmos a linguagem natural, técnica, cientí-
completa", cuja conclusão geral exaure a classe dos objetos fica ou qualquer outra, de seus teores estritos de significação,
considerados, supõe universos finitos, além de não muito nu- substituindo-os por símbolos que expressem os objetos em
merosos. Têm-na alguns como simples enumeração, não me- geral, os predicados em geral, além das partículas que cumprem
recendo o nome de "raciocínio". Outros, contudo, a incluem funções meramente sintáticas ou operatórias. Desse modo,
no esquema dedutivo, designando-a de "silogismo indutivo de edificamos um sistema de conhecimentos reduzido às suas
Aristóteles". Todavia, evoluindo o pensamento do particular estruturas formais, em que os materiais empíricos ou intuitivos
para o geral e sacando-se conclusão que difere das premissas, são postos entre parênteses, para que surjam em evidência as

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relações sintáticas do discurso. É o instrumento eficaz para penso que aquela tonalidade se assemelha à cor do céu ou do
contemplarmos os vínculos associativos que ligam os vários mar. Recolho somente a cor de seus olhos, como se isso fosse
signos de um mesmo sistema, expondo abertamente o plano possível, e componho versos que alimentam a imaginação.
sintático daquele conjunto. Por outros meneios, podemos dizer Estamos diante de processo de abstração, mas abstração que se
que é pela formalização que chegamos ao domínio das formas estabelece no mesmo nível do ser físico daquela figura feminina.
lógicas. Sim, porque generalizando não conseguimos despren- Isolei "propriedades físicas que se manifestam juntas", declara
der-nos do campo de irradiação semântica de cada palavra, Lourival Vilanova 52 (em exemplo semelhante). E conclui:
permanecendo, como já vimos, no plano dos conteúdos mate-
riais. Agora, na formalização, há um descontinuitm que repre- "Não é assim a abstração em lógica. A proposição não está
senta verdadeiro salto para o território das entidades lógicas. no mesmo sítio ontológico das letras, sílabas, palavras e
orações da linguagem. (...) A abstração que nos conduz à
É por isso que depois de substituir "João é médico" por "S é
proposição, como proposição, salta para outro plano: o que
P", em que "S" é o tópico dos objetos e "P" o dos predicados, podemos denominar o universo das formas lógicas" (o grifo
posso, perfeitamente, aplicar a proposição "S é P" em domínio é do original).
estranho, para significar que "o próton é integrante do núcleo
dos átomos", que "o metal é bom condutor de eletricidade", Mantenhamos na retentiva a diferença entre a abstração
que "a água do mar é salgada", que "o homem é racional", que isoladora e a abstração lógica.
"a consciência é doadora de significado ao mundo". Note-se
que os exemplos oferecidos ajustam-se todos à mesma forma A formalização ou abstração lógica tornou-se ferramenta
proposicional, variando apenas a circunstância de o objeto, que indispensável ao matemático, ao lógico, ao filósofo, ao linguis-
é sujeito de uma predicação, estar num sintagma nominal mais ta, ao que lida com informática e a todos aqueles que preten-
ou menos complexo, e também assim no que concerne ao sin- derem conhecer a fundo e aprimorar a organização de seu
tagma verbal, onde está o predicamento. Chegaremos então discurso, cuidando zelosamente da dimensão sintática da lin-
ao patamar das formas lógicas e o faremos pelo caminho da guagem. Basta levarmos em conta os sistemas idiomáticos para
formalização. De lá, se quisermos, é fácil retroceder, bastando ver, com clareza, a imprescindibilidade dos controles gramati-
saturar as variáveis lógicas com as significações de uma lin- cais, em grande parte responsáveis pelo sentido preciso das
guagem-de-objeto. É a trajetória inversa: a desformalização. mensagens. Atinemos para que a boa construção da frase é
Desaparecem os símbolos notacionais e, em seus lugares, apa- pressuposto inafastável do entendimento comunicacional e as
recem palavras carregadas de significação e pertencentes a regras de seu uso adequado estão na sintaxe.
certo domínio material. Vale a proposição segundo a qual a
generalização está para a particularização, assim como a for- 2.3.3. O domínio das estruturas lógicas
malização para a desformalização.
Vem ao ponto advertir que a formalização a que nos referi- Vimos que generalizando não atingiremos a região do
mos não se confunde com a atividade de abstração, usada com logos, permanecendo envolvidos com os núcleos de significação
tanta frequência em todos os níveis comunicacionais. Nesta de uma linguagem-de-objeto ou de metalinguagem material.
última, 'a mente humana provoca um corte conceptual, de modo
que logra separar o inseparável. Vejo uma mulher de olhos
azuis e a cor de seus olhos me impressiona. Imediatamente, 52. "Lógica Jurídica", in Escritos jurídicos e filosóficos, vol. 2, cit., pp. 159-160.

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Tão-somente o processo de formalização libertar-nos-á da que a Lógica vai parando por aqui, negando-se a discutir as
concretude imanente daquelas linguagens, propiciando o sal- razões determinantes do ato, para não se imitir nos domínios
to para o universo das formas lógicas, autônomo e irredutível. da Psicologia.
Nele, toparemos com entidades que convivem de modo har- Oferecidas essas considerações propedêuticas, já podemos
monioso, formando um todo que se movimenta por força de dizer que o termo é a expressão verbal da idéia; a proposição,
combinações que o cálculo do conjunto admite. Sabemos da do juízo; e o argumento, do raciocínio. Em outras palavras, as
existência de unidades, como sabemos a maneira pela qual noções, os juízos e os raciocínios são produzidos e permanecem
ocorrem as articulações possíveis entre essas unidades. Mas, em nossa mente. Verbalizados, surgem como termos, proposi-
sobre a natureza das formas lógicas, nada há para afirmar-se: ções e argumentos, respectivamente. Se, ao lidarmos com a
são conceitos primitivos, situados na raiz do fenômeno do co- linguagem da Lógica, ativermo-nos às expressões verbais,
nhecimento, sendo, portanto, indefiníveis. Aliás, são indefiní- entidades físicas que suportam significações, nem por isso
veis não só as formas lógicas, como o próprio domínio que as podemos esquecer estas últimas, no quadro da estrita corres-
recolhe e organiza. Por não consubstanciarem noções derivadas pondência que mantêm com as primeiras.
e sim originárias, fundantes, ser-nos-á vedado o ingresso em
sua ontologia: um véu espesso permanecerá encobrindo tais Vista a proposição internamente, teremos variáveis de
essências. O obstáculo, contudo, não é suficiente para tolher objeto e variáveis de predicado, como categoremas; além de
esforços no sentido de isolar esse cosmos e estudá-lo nas suas partículas que cumprem papéis meramente sintáticos dentro
funções. do esquema proposicional (operadores ou functores e quanti-
ficadores), isto é, sincategoremas. A fórmula clássica da estru-
Alojando-se na região ôntica dos objetos ideais, como já tura proposicional, na Lógica Apofântica: S é P, mostra S e P
dissemos, o ato que apreende as formas lógicas é a intelecção, como categoremas (S é variável de objeto e P variável de pre-
que capta as noções ou conceitos, como simples representação dicado), enquanto o "é" apofântico faz as vezes de sincatego-
mental. Em seguida, praticamos o ato de julgar, pelo que afir-
rema. Há situações em que o termo-objeto, o termo-predicado
mamos ou negamos que a idéia de um predicado convém à ou ambos são compostos, aparecendo então conectivos como
idéia de dado objeto, sujeito da predicação: é o juízo. Passamos,
e e ou ligando os símbolos integrantes. N'outras, o termo vem
então, ao raciocínio, operação em que, de dois ou mais juízos,
afetado por quantificador, do tipo todos, nenhum, alguns, pelo
extraímos um terceiro, que deles deriva de modo necessário.
menos um.
Enquanto atos integrantes do processo cognoscitivo, a apre-
ensão nos leva à idéia, noção ou conceito; o julgamento produz Convenhamos nisso: só com categoremas ou com sinca-
o juízo; e a conjugação de juízos com vistas à obtenção de um tegoremas não posso compor uma estrutura formal dotada de
terceiro manifesta-se como raciocínio. De um lado, atos do validade sintática. A associação de Pedro Paulo alto apóstolo
espírito; de outro, os produtos finais desses atos. É a distinção José forte, contado apenas em categoremas, não permite que
entre processo e produto ou entre noeses e noema. O primeiro cheguemos ao nível de uma construção logicamente bem for-
exprime o ato e o segundo, seu conteúdo. A título de exemplo, mada. Pelo mesmo motivo, se dispusermos tão-só de sincate-
no terreno dos fenômenos naturais, o ato de olhar para o hori- goremas (todos e se então ou) não atingiremos o mínimo neces-
zonte do mar, por onde se desloca um navio, é noeses, ao passo sário para satisfazer as normas sintáticas de composição de
que o navio que surpreendo com o desempenho dessa ativida- enunciados, ainda que nos dois exemplos conheçamos as pa-
de é o conteúdo noemático do ato, ou floema. Importa lembrar lavras utilizadas.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

O universo das formas lógicas, porém, não termina com em termos verbais. Enquanto não merecesse esse cuidado,
as indagações intraproposicionais. Estas se integram em es- continuaria o fenômeno físico que é, todavia, sem capacida-
truturas mais complexas, até alcançar a condição-limite de de de expressão lógica, pois na região dos fatos não há vín-
sistema, "a forma das formas", no dizer de Husserl. E as asso- culos dessa natureza. Os vínculos lógicos existem a partir
ciações se fazem por meio de conectivos que estudaremos em da linguagem, repetimos.
capítulo subsequente (negador, e, ou-includente, ou-excludente,
Sendo assim, como admitir referências a relações como
se ..., então, se e somente se). Outras regras sintáticas, agora da
Lógica Proposicional, disciplinam a conjugação de proposições esta, por exemplo: o evento econômico X implicou o evento
numa combinatória apta para a elaboração de infinitas fórmu- político Y? Há implicações (no sentido estritamente lógico)
las, todas rigorosamente pertinentes ao sistema. entre eventos econômicos e eventos políticos? Evidentemen-
te, não. Incide aqui a figura mediante a qual o homem trans-
porta para o domínio dos objetos da experiência uma relação
2.3.4. Relações lógicas e relações entre os objetos da experiência de índole lógica. É mera transposição que o falar comum in-
sistentemente registra, mas que não se sustenta numa análi-
Os nexos lógicos, como vemos, acontecem num mundo
se rigorosa. Um acontecimento físico ou social é causa de
abstrato cujo ingresso se dá a partir da experiência com a
outras ocorrências físicas ou sociais. A lei que vige é a da
linguagem. Sem este ponto de apoio, ninguém penetra nos
causalidade natural, manifestada em termos de antecedência,
domínios das entidades lógicas. Entretanto, é com o empre-
de simultaneidade ou de sucessividade no tempo, algo intei-
go da linguagem que o ser cognoscente adquire e mantém
ramente estranho ao campo da lógica, ao menos das lógicas
contato com a realidade circundante, comunicando esse
convencionais. A relação de implicação, em contrapartida,
conhecimento a seus semelhantes. É com tal instrumento
instaura-se entre termos, proposições ou feixes de proposições
que ele descreve as mutações que a dinâmica existencial vai
de maneira que o termo, a proposição ou o conjunto delas,
produzindo em sua volta, constante e paulatinamente, até
situado no tópico de antecedente, é condição suficiente do
permitir que ele se aproprie de uma visão objetiva, que lhe
termo, da proposição ou conjunto delas, alojado no lugar
propicie mover-se nessa mesma realidade, cumprindo sua
sintático do consequente que, por sua vez, será condição ne-
trajetória. Ao fazê-lo, verbaliza as relações que ocorrem no
cessária do antecedente.
plano da circunstância tangível, depositando em sua lingua-
gem aquilo que vê realizar-se segundo a lei da causalidade Consignemos a doutrina de Lourival Vilanova 53 :
física ou natural. Um corpo cai, atraído pelo centro da terra,
e com ela se choca. O homem observa atentamente o fenô- "A relação de causa/efeito é uma relação no mundo dos
meno físico provocado na experiência e, pela indução gene- fatos, dos fatos naturais, ou dos fatos socioculturais. Entre
objetos lógicos ou objetos formais não se encontra. As pre-
ralizadora, proclama o enunciado confirmatório da conhe-
missas não causam a conclusão, o enunciado implicante não
cida proposição newtoniana: a matéria atrai a matéria na
causa o enunciado implicado, uma variável de objeto x não
razão direta das massas e na razão inversa do quadrado das é causa ou efeito de outra variável y, uma variável R' não é
distâncias. Pronto: trata-se de um evento do mundo cosmo-
lógico que acaba de ser descrito em linguagem. Surge, ago-
ra, a possibilidade de representá-lo por meio da simbologia 53. Causalidade e relação no direito, 4a ed., São Paulo, Editora Revista dos
lógica. Mas, única e exclusivamente, porque foi transcrito Tribunais, 2000, p. 39.

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causa ou efeito de outra variável R", uma variável de classe Quando, porém, o homem se nutre dos recursos dessa
A não se inclui como causa ou efeito de outra variável B, lógica e se dirige a um determinado segmento especulativo,
nem a relação de pertinência de um indivíduo x 'com sua em atitude cognoscente, aplicando aquelas leis universais ao
classe A' é de causa ou de efeito 54 ". campo particular que foi proposto, surge a Lógica Aplicada,
Lógica Maior, Lógica Material ou, simplesmente, Metodologia.
É que a origem das relações causais-naturais está na ex- Neste exato sentido, Metodologia significa adaptação da Lógi-
periência com os objetos físicos, provocada ou não pelo homem ca Menor a uma específica região material. Tenhamos presen-
no seu contato direto com a natureza. Já as relações lógicas dão- te que a Lógica Menor ou Lógica Apofântica ou Lógica Alética
se na região dos objetos ideais e partem da experiência da lingua- está credenciada tão-só para revelar a sintaxe da linguagem
gem, mas não estão nela, linguagem. Podemos dizer que esses com função descritiva de situações, não servindo à linguagem
dois tipos de relações pertencem a ontologias diferentes, de sorte das ordens, das perguntas ou da linguagem poética.
que as interconexões no mundo dos acontecimentos tangíveis
não constituem sintaxe: são laços criados no plano da realidade Evoquemos, novamente, as considerações a respeito do
física e explicados pela lei da causalidade natural. Só por exces- rumo seguido para alcançar o estrato das formas lógicas: par-
so vamos nos deparar, aqui e ali, com tal transposição. timos da experiência do fato comunicacional e, pelo processo
de formalização, fomos retirando os conteúdos de significação
das palavras, até o ponto de despojarmos o fragmento de lin-
2.3.5. A chamada Lógica formal e a metodologia guagem com que trabalhamos de todo sentido determinado.
Remanesceram símbolos representativos do objeto em geral,
A lógica de que vimos falando é a chamada "Lógica For- do predicado em geral, além de partículas operatórias que
mal" ou "Lógica Menor", que tem por objetivo o estudo das exercem apenas função sintática. Nesse instante, atingimos as
formas do pensamento, isto é, das idéias, dos juízos e dos ra- entidades lógicas, nuamente expostas, como estruturas abertas
ciocínios, bem como de seus correlatos verbais, a saber, dos para receber qualquer tipo de objeto e qualquer tipo de predi-
termos, das proposições e dos argumentos, fazendo-se abstra-
cado, o que lhes atribui status de universalidade.
ção dos conteúdos significativos a que se aplicam aqueles es-
quemas. Trata-se de examinar as estruturas do conhecimento, O procedimento que nos leva ao formal é sempre o mesmo,
independentemente do objeto mesmo do conhecimento, o que variando somente o domínio de objetos a que nos dirigimos.
lhe outorga foros de validade universal, uma vez que suas leis Da multiplicidade dessas variações advém a quantidade de
estão aptas para incidir em qualquer província do saber. Ob- métodos que os muitos setores reclamam em razão de suas
serve-se, contudo, que a locução "Lógica Formal" não pode peculiaridades existenciais. E, nesse meio, há de estar o jurí-
escapar da crítica de pleonástica, pois, como ficou registrado, dico, com seu modo específico de existir. Cada porção do real
o único caminho capaz de conduzir-nos ao domínio das formas representa uma incisão profunda, mas abstrata, imposta pelo
lógicas é o da formalização. A linguagem da lógica é necessa- ângulo de análise que satisfaz o interesse do sujeito do conhe-
riamente formalizada, carecendo de sentido acrescentarmos o cimento. Este, por sua vez, não ignora a natureza contínua e
adjetivo formal. Ao cabo de contas, toda lógica é formal. heterogênea do mundo que o envolve, procurando, enquanto
sujeito transcendental, romper aquela continuidade extensiva
e intensiva para extrair o descontínuo homogêneo sobre o qual
54. No texto transcrito, o professor Vilanova emprega fato como entidade ex- fará incidir o feixe de suas proposições descritivas. Mas é evi-
tralógica, fora, portanto, do âmbito da linguagem, diferentemente do uso que dente que o objeto de tal maneira recortado reivindica um meio
venho recomendando. A ressalva preserva o inteiro cabimento da citação. próprio de aproximação e de exploração cognoscitiva, em outras
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

palavras, um método. Daí a insistente asserção segundo a qual atitudes ideológicas, como se estivesse perante um fenômeno
a cada ciência corresponde uma metodologia, ainda que um da natureza. A neutralidade axiológica impediria, desde o iní-
único método admita técnicas diferentes de implantação e de cio, a compreensão das normas, tolhendo a investigação. Além
operação. A via racional-dedutiva, por exemplo, utilizada para do mais, o conhecimento jurídico já encontra no seu objeto
a intelecção dos objetos ideais, não pode substituir o processo uma auto-explicação, pois o direito fala de si mesmo e este
empírico-indutivo, empregado na explicação generalizadora das falar-de-si é componente material do objeto. Daí a função re-
ciências naturais, em virtude de razões que provêm da própria construtiva do saber jurídico expressa nas proposições da Ci-
ontologia objetal: enquanto os primeiros não têm existência ência do Direito. Noções expostas com segurança e vigor pelo
espaço-temporal, não se prestando à experiência, os últimos são já referido pensador pernambucano.
reais e empíricos, pouco importando o traço comum de neutra- Desta maneira, o procedimento de quem se põe diante do
lidade axiológica que une tais objetos. Ainda mais: os métodos direito com pretensões cognoscitivas há de ser orientado pelas
racional-dedutivo (adequado ao plano dos objetos ideais) e em- possibilidades gnosiológicas do ser humano, levando-se em
pírico-indutivo (objetos naturais) não convêm à investigação dos conta as exigências que o próprio objeto levanta. A Ciência do
objetos culturais, sempre valiosos, positiva ou negativamente. Direito, como sistema autônomo de conhecimentos, tem sua
Aqui, o ato cognoscente já é outro - a compreensão - e o caminho metodologia, podendo exibi-la em face de outros sistemas que
a ser percorrido é o método empírico-dialético. se ocupam da mesma realidade-objeto.
O direito positivo, como camada de linguagem prescritiva
de condutas, é uma construção do ser humano que está longe 2.3.6. Valores lógicos da linguagem do direito positivo e seus
de ser um dado simplesmente ideal, não lhe sendo aplicável, modais
também, as técnicas de investigação do mundo natural. As
unidades normativas selecionam fatos e regulam condutas, Válido e não válido são os dois (e somente dois) valores ló-
fatos e condutas recolhidos no campo do social. Ora, o fato gicos das proposições do direito posto, que não se confundem com
social, como processo de relação, é um fenômeno com sentido os modalizadores das condutas intersubjetivas. Estes são três e
e, sem ele (sentido), que imprime direção aos fatos sociais, é somente três (lei deontológica do quarto excluído): obrigatório
i mpossível compreendê-los. Os fatos jurídicos, quer os previs- (Op), proibido (Vp) e permitido (Pp). O chamado comportamento
tos nos antecedentes das normas, quer os prescritos na fórmu- facultativo (Fp) não é um quarto modal, precisamente porque se
la relacional dos consequentes, apresentam-se na forma de resolve sempre numa permissão bilateral: permitido cumprir a
fenômeno físico, relações de causas e efeitos, mais o sentido, conduta, mas permitido também omiti-la (Pp . P-p).
isto é, o fim jurídico que os permeia. Sem a significação jurídi-
Em linguagem formalizada, dirigindo a atenção para a
ca que presidiu a escolha do evento e inspirou a regulação da
norma jurídica completa, no seu mínimo deôntico, chegaremos
conduta, não se há de falar em fatos jurídicos e relações jurí-
a duas implicações: a da norma primária e a da norma secun-
dicas. Essa parte do mundo empírico pede tratamento especial,
dária, unidas pelo conectivo disjuntor-includente. Consignemos
que atente para seu lado dinâmico de ações e reações, no es- 55
a doutrina de Lourival Vilanova a respeito:
quema de causa e efeito, mas que o considere, fundamental-
mente, naquilo que ele tem de significação, de sentido.
Quem se propuser conhecer o direito positivo não pode 55. Lourival Vilanova, As estruturas lógicas e o sistema do direito positivo,
aproximar-se dele na condição de sujeito puro, despojado de cit., p. 105.

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"Seguimos a teoria da estrutura dual da norma jurídica: 2.4. PROPOSIÇÃO E LINGUAGEM: ISOLAMENTO
consta de duas partes, que se denominam norma primária TEMÁTICO DA PROPOSIÇÃO
e norma secundária. Naquela, estatuem-se as relações de-
ônticas direitos/deveres, como consequência da verificação Dissemos que a Lógica integra a parte da Filosofia que
de pressupostos, fixados na proposição descritiva de situa-
trata do conhecimento. Tal se dá pelo ato intelectivo do pensar;
ções fácticas ou situações já juridicamente qualificadas;
nesta, preceituam-se as consequências sancionadoras, no
exteriorizado pelas figuras do termo, da proposição e do argu-
pressuposto do não-cumprimento do estatuído na norma mento. Eis a importância da proposição como suporte linguís-
determinante da conduta juridicamente devida. (...) As tico que traduz os juízos pessoais, a saber, asserções de que
denominações adjetivas 'primária' e 'secundária' não expri- algo é algo. O referido ente lógico tem características próprias
mem relações de ordem temporal ou causal, mas de ante- dentro da linguagem que o distingue e o eleva a um patamar
cedente lógico para consequente lógico." único, na medida em que o conhecimento adquire proporções
adequadas a partir das estruturas proposicionais.
A título de exemplo, utilizando o sistema notacional
Enunciado é o produto da atividade psicofísica de enun-
inglês, de Bertrand Russel, podemos representá-la assim:
ciação. Apresenta-se como um conjunto de fonemas ou de
D [(f —> r) v (-r --> s )], o que possibilita perceber a drástica
grafemas que, obedecendo a regras gramaticais de determina-
redução que se promove nos textos do direito positivo, para
do idioma, consubstancia a mensagem expedida pelo sujeito
alcançar a universalidade própria da lógica. Nesse primeiro
emissor para ser recebida pelo destinatário, no contexto da
contato, porém, não aparecem os functores deônticos intrapro-
comunicação. Para a Lógica Apofântica, que opera com a lin-
posicionais, que estão contidos no consequente das implicações.
guagem tomada em sua função exclusivamente descritiva de
Comparece, todavia, o functor interproposicional, representa- situações objetivas, enunciado é toda formação linguística bem
do na fórmula pelo "D". Em termos de metalinguagem, diría- construída, indicativa de um acontecimento efetivo, ostentan-
mos "deve-ser que se ocorrer o fato 'f', então se instaure a do, por isso mesmo, a propriedade de ser verdadeira ou falsa.
relação 'r', ou se não for cumprida a conduta estabelecida na A exigência de ser um segmento de linguagem "bem constru-
relação 'r', seja aplicada a sanção ído" garante ao enunciado aquilo que conhecemos por "senti-
Como se vê, a lógica é apenas um ponto de vista sobre o do completo" e, por conseguinte, sua subordinação às valências
conhecimento, de modo que ultrapassar seus limites conduz ao lógicas mencionadas.
logicismo. Geraldo Ataliba, ao prefaciar a obra "Estruturas ló- Há palavras frequentemente utilizadas como sinônimas de
gicas e o sistema do direito positivo" de Lourival Vilanova, enunciado: "oração", "sentença", "asserção", "proposição". Os
chama a atenção para a circunstância de que a experiência ju- autores alemães empregam o vocábulo "aussage", que significa
rídica integral levará em conta todos os aspectos constituintes "enunciado". Ficaremos, porém, com a orientação anglo-saxô-
do dado: o lógico nos enunciados e o empírico nos dados-de-fato, nica que distingue "sentença", "oração" ("sentence") de "pro-
valorativamente selecionados da realidade física e social (que, posição" ("proposition"). Para os ingleses, "oração" e "senten-
por isso, se qualifica juridicamente, ou se torna juridicamente ça" teriam o mesmo valor semântico de "enunciado", isto é, a
relevante). Considerações desse tope nos permitem perceber expressão oral ou gráfica de uma proposição, enquanto esta
que a lógica, por si só, não é suficiente para nos conduzir à con- seria o conteúdo significativo que o enunciado, sentença ou
creção material da experiência jurídica, isolando, na sua ampli- oração exprimem. Daí que a mesma proposição possa encontrar
tude, tão-só os caracteres formais das normas. diferentes expressões verbais, correspondendo, portanto, a
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

enunciados distintos, num só ou em idiomas diversos. Vejamos com "proposições prescritivas", dirigidas ao comportamento
este exemplo, em que dois enunciados em língua portuguesa inter-humano, no convívio social.
expressam uma única proposição: "o movimento teve a adesão
Recomenda-se muita cautela na utilização dos termos
de muitos parlamentares" e "muitos parlamentares aderiram
"enunciado" e "proposição", especialmente porque a Lógica
ao movimento". Ou este, em idiomas diferentes: "it is raining",
tradicional nominava de "proposição" aquilo que os modernos
"il pleut", "chove". Em ambos os exemplos, segmentos de lin-
autores ingleses chamam de "sentence" e que nós empregare-
guagem sintaticamente diversos portam uma única significa-
mos como "enunciado", "oração" ou "sentença", ao passo que
ção. Em contrapartida, pode ocorrer que uma sentença comu-
anotava como "juízo" o que esses últimos indicam como sendo
nique proposições distintas: "No Brasil, o Presidente da Repú-
"proposição". Como dito anteriormente, trabalharemos com
blica foi deposto". A frase tanto serve para significar o episódio
os vocábulos "proposição" e "enunciado" ("sentença" ou "ora-
de 1945, quanto o de 1964. Conhecemos sua "significação geral",
ção"), à maneira dos ingleses. Como o interesse da Lógica está
mas desconhecemos seu "sentido específico". A dualidade
voltado para a forma das proposições e não dos enunciados, é
"significação geral"/"sentido específico" cumpre, então, inte-
sempre relevante lembrar que as proposições não são enun-
ressante papel para a compreensão do texto.
ciados e os elementos das proposições e das formas de propo-
Cremos que se legitima o uso da palavra "proposição", sições não são palavras nem expressões linguísticas, mas
apesar de algumas críticas advindas principalmente dos nomi- aquilo que significam. A nota serve para divisarmos o campo
nalistas, para quem as proposições não têm existência real, temático da Lógica, em face do objeto de investigação da mor-
pelo que preferem referir-se a sentenças ou orações perten- fologia e da sintaxe gramatical de um idioma qualquer.
centes às linguagens concretas, faladas ou escritas (daí, cálculo
sentencial). Na verdade, as proposições são objetos conceptu-
2.4.1. Linguagem formalizada e representação simbólica: as
ais, o que não importa admitir que desfrutem de existência
formas lógicas nas estruturas proposicionais
autônoma, isto é, que haja "proposições-em-si", independen-
temente de quem possa pensá-las. Nessa linha, a distinção que As particularidades gramaticais de cada língua e os fa-
se estabelece com o termo "enunciado" parece-nos bastante tores pragmáticos que estão presentes no fato comunicacional
útil. Contudo, quando se afirma que a proposição é o conteúdo dificultam sobremaneira a apreensão das entidades lógicas,
de um enunciado descritivo (declarativo, indicativo ou teoré- sendo necessário formalizar o discurso para percebermos os
tico), temos que advertir tratar-se de um excesso. O asserto vínculos associativos que unem os termos, as proposições e
vale para as proposições da linguagem descritiva mas, como os conjuntos de proposições, na figura maior de sistema. Ora,
sabemos, esta não é a única função que a linguagem desempe- formalizar implica um salto para o domínio das formas lógicas
nha no fenômeno comunicacional. Ali onde houver enunciados e tal procedimento se dá pelo deliberado abandono dos con-
linguísticos, seja qual for a função, encontraremos proposições teúdos concretos de significação, substituindo as palavras e
com o sentido daquelas sentenças. A redução se explica por expressões da linguagem de que tratamos por signos conven-
motivos históricos, já que a linguagem descritiva de situações cionalmente estabelecidos, portadores de um mínimo semân-
foi pioneira e intensamente estudada. Hoje, entretanto, pode- tico, qual seja o de representar um sujeito qualquer, um
mos falar de proposições interrogativas, imperativas, exclama- predicado qualquer, uma proposição qualquer, um sistema
tivas, etc. No estudo das normas jurídicas, por exemplo, lidamos qualquer. Sem esse resíduo significativo não poderíamos falar
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de signos, muitos menos de linguagem. Sucede que o conjun- Admitamos que é possível estudar-se Lógica com os me-
to escolhido para representar o plano das unidades lógicas ros recursos da linguagem comum, como o fez Aristóteles e o
constitui um sistema comunicacional, com suas dimensões fizeram tantos outros. Durante muitos séculos foi escasso o
sintática, semântica e pragmática. nível de formalização da linguagem dos lógicos. Leibnitz, pio-
A fim de que possa referir-se de modo apropriado aos neiramente, concebeu a possibilidade de uma Lógica inteira-
objetos ideais com que trabalha, faz-se preocupação constante mente formalizada, expondo as idéias fundamentais daquilo
que viria a ser hoje a chamada "Lógica Simbólica" ou "Lógica
da Lógica operar com o máximo de rigor. No capítulo "Lógica
Matemática". Os primeiros resultados concretos, porém, foram
dos predicados" (melhor seria "Lógica dos termos"), para
colhidos por A. de Morgan e G. Boole, seguindo-se os trabalhos
exemplificar, pretendendo ocupar-se da compostura interna
de C. S. Peirce, G. Frege, G. Peano, A. N. Whitehead e B. Rus-
da proposição, o lógico detém-se no estudo do termo sujeito,
sel, que construíram sistemas totalmente desvinculados da
do termo predicado, da cópula apofântica, dos quantificadores,
linguagem idiomática. Com efeito, a substituição de certos
sugerindo uma convenção sígnica em que as unidades simbó- nomes por símbolos de variáveis já denuncia algum grau de
licas, não podendo ser ambíguas, pois a linguagem há de ser formalização, como no exemplo "X" vende o bem imóvel para
precisa, venham a ter uma e somente uma significação. Ima- "Y". Entretanto, dizemos que a linguagem estará plenamente
ginemos um acontecimento comunicativo do falar comum: formalizada quando lograrmos substituir todas as palavras do
"João ajuda seu pai". "Pai", nesta frase, denota um termo, está discurso por símbolos lógicos. Eis um caso: [(p-q) . p] q,
no lugar do nome de pessoa, de um substantivo próprio. En- da Lógica Proposicional Alética, em que "p" e "q" são variáveis
tretanto, quando dizemos "Antonio é pai de João", a palavra de proposição, "-->" e "." são símbolos de constantes (conectivos
"pai" é o nome de uma relação: "ser pai de", que tem como condicional e conjuntor) e "H" e "()"são símbolos auxiliares.
seus termos "Antonio" e "João". No primeiro enunciado, a
Não é preciso ressaltar que a adoção de signos que repre-
palavra "pai" está no papel sintático de substantivo próprio,
sentem as formas lógicas facilita sobremaneira a elaboração dos
enquanto que no segundo participa como predicado diádico
cálculos (de predicados, de proposições, de relações), por permi-
ou "relação" entre dois nomes de pessoas. Pois bem, esta am-
tir tábuas combinatórias ricas e sofisticadas, abrindo espaço para
biguidade, que muitas vezes abre caminho para a falácia do a criação de sistemas aptos para descrever as variadas e comple-
equívoco, é algo que se pode considerar ínsito às linguagens xas situações do mundo. Para além do interesse teórico que pos-
idiomáticas, muito mais intensamente, é claro, na comunicação sa suscitar, a matematização da Lógica é a responsável direta por
ordinária e muito menos nos discursos científicos, dada a arti- grandes e relevantes conquistas do nosso tempo, especialmente
ficialidade com que estes últimos são construídos. Para elimi- no campo da informática, com o projeto e aperfeiçoamento de
nar esse e outros problemas que perturbam o fenômeno comu- circuitos digitais ("hardware"), desenvolvimento de programas
nicacional, imprimindo rigidez e determinação às mensagens, ("software") e toda a gama de contribuições que a computação
bem como para outorgar presteza e agilidade à combinatória eletrônica vem exibindo nas sociedades modernas.
entre as formas lógicas dos diversos sistemas, é que a simboli-
zação da linguagem se apresenta como um passo decisivo.
2.4.2. As variáveis e as constantes da Lógica Proposicional
Substituem-se as palavras por meio de letras, números ou si-
Alética
nais, mas sempre de modo arbitrário, segundo as preferências
de quem os escolhe. O requisito indispensável repousa na uni- Entende-se por Lógica Proposicional Alética o capítulo
vocidade tão-somente. da Lógica da Linguagem Descritiva de situações objetivas,
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

também conhecida por "Lógica Apofântica", "Lógica Clás- "Una fórmula está siempre compuesta, en forma exclusiva,
sica", "Lógica Menor" ou "Lógica Formal", que tem como por los signos apuntados, que constituyen — por así decirlo
— su elenco estable. Ningún actor ajeno a la compaffla pue-
objeto o estudo das proposições consideradas como tais, vale
de introducirse en la función... Que variables, conectivas y
dizer, enquanto proposições, analisando-as na relação com signos auxiliares formen el elenco estable del teatro lógico
outras proposições e sem se preocupar com sua estrutura no implica que todos ellos deban estar siempre en escena:
interna. Trata-se de uma Lógica bivalente: seus valores são bastará con que haya, por lo menos una variable."
o verdadeiro "V" e o falso "F", daí o adjetivo "alética", que
vem do grego - "Alethéa" - e significa "verdade". Na condi- As variáveis proposicionais são símbolos que representam
ção de linguagem formalizada que modernamente é, opera uma proposição qualquer, a proposição em geral, e que podem
com fórmulas (atômicas e moleculares), havendo regras de ser substituídas, no instante em que quisermos, por uma dada
construção e de transformação que permitem o chamado proposição, concretamente especificada. Alguns autores pre-
"cálculo de proposições". A esquematização formal em que ferem chamá-las de "letras esquemáticas" ou "letras senten-
são expressas as fórmulas presta-se para mostrar, desde ciais", mas insistamos na advertência de que as proposições
logo, uma série de afirmações da Ciência Lógica, antecipan- com as quais substituiremos as variáveis proposicionais, letras
do-se à própria verificação empírica, para ensejar o asserto esquemáticas ou letras sentenciais, que fazem agora os nossos
sobre a verdade ou falsidade dos enunciados proposicionais. cuidados, são exclusivamente as correspondentes a enunciados
A atenta leitura de certas fórmulas já autoriza afirmarmos descritivos de situações objetivas. Os símbolos de variáveis da
o seu caráter de verdadeira (tautologias) ou de falsa (con- Lógica Proposicional, por significarem uma proposição qual-
tradições). quer, conservam esse mínimo semântico, sem o qual não seriam
Na linguagem de que tratamos haverá símbolos de vari- signos. Não devemos confundir, portanto, a variável proposi-
áveis e símbolos de constantes; os primeiros estão no lugar das cional, que é um lugar sintático, com a proposição concreta
proposições e os últimos representam as conexões entre pro- que, porventura, venha a preencher aquele espaço lógico. Esta
posições. Além disso, no sistema notacional que viremos a pode manifestar-se, verbalmente, pela sentença que bem en-
adotar, há os chamados "símbolos auxiliares", que colaboram tendermos, desde que seja declarativa ou indicativa de uma
no sentido de evitar dificuldades quanto à leitura e interpreta- situação objetiva. Todavia, se tivermos duas ou mais variáveis
ção das expressões formais. Nem sempre, porém, estarão todos proposicionais, a interpretação que dermos a uma das variáveis
os tipos sígnicos mencionados compondo uma única fórmula. será restritiva das demais, ou seja, posso atribuir a "p" um
Aprenderemos, a seguir, que uma variável proposicional, iso- significado qualquer; do mesmo modo a "q". Mas, quando es-
ladamente considerada, já consubstancia uma fórmula e que colher a sentença de "q", terei que excluir aquela primeira,
os símbolos auxiliares são recomendáveis apenas quando hou- outorgada a "p". Ao menos dentro da mesma sequência dis-
ver possibilidade de dúvidas, em face de leituras diferentes. cursiva, pois num segundo momento estarei livre novamente,
para eleger o conteúdo dos enunciados, de tal modo que o
São elucidativas, por isso mesmo, as palavras de Echave, espaço sintático de "p" pode ser empregado para abrigar outra
56
Urquijo e Guibourg : forma descritiva de significação determinada.
Função proposicional é um enunciado que, tendo a estru-
56. Lógica, proposición y norma, Bueno Aires, Astrea, 1981, p. 43. tura sintática de proposição, não se apresenta completa e

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conserva certo grau de indeterminação. Como nem todos os do alfabeto: p, q, r, s, t, etc., acrescentando-lhes aspas simples,
seus termos estão especificados, não há como promover o tes- segundo as necessidades de variação simbólica. Assim, p e p',
te empírico e submetê-la aos valores "verdadeiro" e "falso". q e q', r e r', que lemos "p" e "p-linha", "q" e "q-linha", "r" e
Nada obstante, por revestir a forma sintática inerente às pro- "r-linha".
posições, bastará substituirmos a variável ou as variáveis por As constantes da Lógica Proposicional Apofântica são os
constantes, recolhidas no domínio próprio, para que a expres- conectivos, partículas que cumprem a função operatória de
são se converta em entidade proposicional. Quem enunciar: "o associar as variáveis de proposição para formar estruturas mais
número X é divisível por 3" não estará formulando uma pro- complexas. São em números de 6 (seis): o negador, o conjuntor,
posição. Impossível seria comprovar seu teor de verdade ou de o disjuntor includente, o disjuntor excludente, o condicional
falsidade. Porém, desde que venhamos a trocar "X" pelo nú- ou implicador e o bicondicional ou bi-implicador. O primeiro,
mero 65, imediatamente aquela organização sintática se trans- negador, é monádico, uma vez que atua exclusivamente sobre
forma em proposição, oferecendo ensejo a que lhe prediquemos a fórmula que está à sua direita. Os demais são diádicos ou
o valor falsidade. Igualmente, teremos proposição se o número binários, porquanto unem duas fórmulas, exercendo sobre
consignado for 18, momento em que seu valor lógico será o ambas sua influência sintática. Os conectivos são conhecidos
verdadeiro. também como "conectivos extensionais", "constantes lógicas",
"operadores" ou "functores" e seu papel não apenas se cir-
A idéia de função nasceu na Matemática moderna, junta-
cunscreve a afetar uma fórmula (operadores monádicos) ou
mente com a poderosa noção de variável. Vimos que no enun-
unir fórmulas - uma à direita, outra à esquerda - como no caso
ciado "S é P", "S" e "P" são variáveis (categoremas, na termi-
dos functores diádicos: deles depende o valor lógico das estru-
nologia clássica), enquanto o "é" apofântico aparece como
turas formais, daí a locução "conectivos extensionais".
constante (sincategorema). Uma relação "R" é funcional, ou
simplesmente "função", sempre que a todo elemento "Y" cor- De fato, o valor verdade ou falsidade que venhamos a
responda um elemento "X", tal que "xRy". Por outro giro, se extrair de uma formação lógica bem construída está na estrita
"xRy" e "zRy", então "x-z". Chamam-se "valores do argumen- dependência do tipo de conectivo que aproxima os termos da
to" os objetos que ocupam o lugar sintático de sucessor, tendo composição. Além de inverter o valor da fórmula a que se liga
em vista a relação "R", e "valores em função" aos predecesso- (sempre pelo lado esquerdo), que é propriedade do negador,
res do mesmo vínculo ("xRy"). Num exemplo da Matemática, os demais operadores (diádicos) combinam de certa maneira
se uma variável "x" tem seu valor dependente de outra variá- os valores das expressões componentes, de tal sorte que in-
vel "y", de forma que "x = 2y", é evidente que o valor de "x" fluem, decisivamente, no resultado final, como teremos a
está ligado ao valor de "y", de tal maneira que vale o asserto oportunidade de conhecer ao examinarmos as peculiaridades
segundo o qual "x é função de y", ou, em linguagem formal de cada um, mediante observação atenta das respectivas tabe-
"x = f(y)". Saliente-se, contudo, que nem toda relação entre las de casos possíveis (que alguns autores preferem chamar de
variáveis constitui uma função: em "ser maior do que", não temos "tabelas de verdade").
relação funcional, pois para cada valor de "y" haverá um núme- Há muitas notações para representar as constantes lógi-
ro infinito de valores de "x", satisfazendo a relação "x > y". cas. O negador, por exemplo, manifesta-se por meio dos se-
A convenção mais difundida para signos de variáveis é guintes símbolos: "-", "-", ou " --
p"" (afetando aqui a variável "p"
aquela que os representa por consoantes minúsculas do final por cima e não pela esquerda); o conjuntor, por ".", "A", ou por

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"&"; o disjuntor includente, por "v"; o disjuntor excludente susceptível de duas traduções: x+(y.z) e (x+y).z. Há quem uti-
por "É" ou "w"; o condicional, por " " ou por "o"; o bicondi- lize tão-só os parênteses "( )", justapondo-os nos casos em que
cional, por "n" ou " < - > "ou ainda por "<-÷". Todos esses símbo- a leitura das expressões requer.
los dizem respeito ao sistema notacional de B. Russel conhe-
cido como "notação inglesa". Muito difundido, também, é o 2.4.3. Cálculo proposicional
sistema polaco, proposto por Lukasiewicz, que tem a particu-
laridade de empregar somente letras do alfabeto, de tal modo Fórmula é uma expressão lógica bem construída, com-
que dispensa a utilização dos símbolos auxiliares. Outros exis- posta por apenas um ou por mais símbolos, dentre aqueles
tem, contudo. relacionados no sistema notacional escolhido. Dizer-se que a
Tanto os símbolos de variáveis quanto os de conectivos fórmula é uma expressão lógica bem construída significa ad-
são conceitos fundantes da Lógica Proposicional Alética. A mitir que foi formada em estrita observância às corresponden-
partir deles, e com auxílio de regras de inferência, chegaremos tes regras de construção. São elas:
aos conceitos derivados, exaurindo o sistema.
R1) Uma variável proposicional, isoladamente considerada,
Façamos a comparação: é uma fórmula. Exemplos: "p", "q", "r", etc.
R2) Se antepusermos o negador a uma fórmula constituída
por uma variável proposicional, teremos outra fórmula.
Notação Polaca Notação Inglesa Exemplos: "-p", "-q", -r", etc.
" Np,' 44_,, , 44 ,__,,, , 441399 R3) Uma fórmula ligada a outra fórmula por um, e somente
ou
Negador
um operador diádico, é também uma fórmula. Exemplos:
,, Kpq,,
".", 4, A ,, ou "&" Conjuntor 9 9
“pve 4413„(49, “pE,, q) {4.p.(199, 44i9 >... cf 4134 , 41(w > q) . 14. > q” ,
"Apc , ,, v ,, "(p--.Eq)-(p->q).(q->p)", etc.
Disjuntor includente
"Jpq,, 44 ,, 44 w f,
ou
Disjuntor excludente
Os símbolos auxiliares exercem papel importante para a
44 C pq ff 44_ > ,,, 44_,) 44 D ,,
identificação das expressões formadas na conformidade de R3,
ou
Condicional
" Epq ,, ,,=,, porquanto os conjuntos encerrados entre parênteses, entre
4 ff
"< - >" Bicondicional
colchetes, entre chaves e entre barras, representam uma única
fórmula. A propósito, vê-se que existem, no último exemplo,
Adotaremos o sistema notacional inglês, na primeira de sete fórmulas. Ei-las: a) "p", b) "q", c) "(paq)", d) "(p-> q)", e)
suas variantes: "-" ".", "v", "É" "->" e "(q->p)",f) "(p-> q).(q->p)" e a expressão final que decompõe
o bicondicional: g) "(pci) --(p-> q).(q-> p)".
Como símbolos auxiliares, vamos utilizar os parênteses
"( )", os colchetes "[ ]", as chaves "{ }" e as barras "11". Exa- Nominaremos de fórmulas atômicas aquelas construídas
tamente nessa sequência. Tais pares de sinais gráficos aten- em consonância com R1, vale dizer, uma variável isoladamen-
dem ao objetivo de esclarecer os conectivos dominantes, te considerada. Todas as demais serão moleculares, incluindo-
sendo empregados para indicar grupamentos simbólicos que se a formada de acordo com R2, ou seja, uma única variável
evitem a dualidade de interpretações, com o mesmo efeito da proposicional precedida do operador monádico. A fórmula
linguagem da Álgebra. Assim, a expressão algébrica x+y. z é atômica é também conhecida por "simples", sendo "complexa"

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a molecular. Os termos vêm da Química, na qual os símbolos das que devemos seguir para a movimentação de suas estruturas,
moléculas são obtidos por associações de símbolos de átomos, que atingindo unidades formalmente diferentes, integram o nível
são originários ou primitivos e, portanto, indecomponíveis. da Metalógica, isto é, da linguagem que fala da Lógica, não
Reiteremos a afirmação mediante a qual o valor lógico da devendo confundir-se com as tautologias em que estas leis se
fórmula molecular é uma função do valor das fórmulas atômi- manifestam. São estratos de linguagem de hierarquias diferen-
cas que a compõem, tomando-se como referência o conectivo tes: as fórmulas tautológicas, na posição de linguagem-objeto
empregado. Em outras palavras, uma fórmula complexa será e as regras de inferência, como metalinguagem. Cabe aqui a
verdadeira ou falsa na dependência da verdade ou da falsidade analogia com os manuais de instrução para o bom uso de cer-
das fórmulas simples que nela se integram, mais a consideração tos bens, como automóveis e eletrodomésticos em geral, em
do operador lógico presente. que fica patente a diferença entre o objeto adquirido que, no
caso, não se manifesta como linguagem, e o corpo de normas
Cálculo de um sistema é o conjunto das relações possíveis de procedimento, dele inteiramente distinto.
entre as unidades que o compõem. Tratando-se de um sistema
lógico-proposicional, em que as unidades são expressões sim- Ao converter um dado sistema em objeto de nossa análi-
bólicas chamadas de "fórmulas" (atômicas ou moleculares), se, vemos que é construído por conceitos primitivos e por outros
seu cálculo será representado pelo conjunto das relações pos- conceitos obtidos dos primeiros por derivação, daí chamarem-
síveis entre as fórmulas desse sistema. Assim, fala-se em se "conceitos derivados". O procedimento de derivação é re-
"cálculo de predicados", "cálculo de quantificadores", "cálcu- gulado pelas regras de inferência que, rigorosamente, não
lo de classes", "cálculo proposicional", etc., tudo com referên- pertencem ao sistema, integrando linguagem de sobrenível.
cia ao conjunto das relações que se podem extrair entre os No plano considerado, teremos apenas conceitos primitivos e
predicados, entre os quantificadores, entre as classes, entre as conceitos derivados ou proposições axiomáticas e proposições
proposições de um sistema considerado. teoremáticas.

Ora, dado que o sistema com que operamos é o proposi- Três são as regras de inferência: a) a substituição simples;
cional, formado por elementos que são as fórmulas simples e b) o intercâmbio; e c) o modus ponens (ou regra de separação).
complexas a que nos referimos para apuração do cálculo desse Pela substituição simples, permite-se trocar uma variável
sistema, é preciso conhecer as regras sintáticas de construção qualquer por outra variável ou por uma fórmula molecular,
e de transformação daquelas fórmulas. As regras de construção sem que se altere o valor lógico da expressão. Entretanto, a
já foram examinadas; cabe-nos, então, indagar de que modo substituição há de operar-se em todas as aparições da variável.
aquelas unidades lógicas se modificam, movimentando as es-
truturas: são as regras de transformação, ou de demonstração, Vejamos estes dois exemplos:
também conhecidas como "regras de inferência" e que expri-
(p v q) - (-p . -q)
mem a maneira como é possível transitar, validamente, de uma
(s v q) = - (-s . -q)
fórmula a outra, mais ou menos complexa, mantendo-se rigo-
rosamente dentro do sistema. Dito de outro modo, são instru- substituição da variável "p" pela variável "s".
ções que nos permitem transformar dada proposição em novas (p v q) - (-p . q)
proposições também verdadeiras. Como tais regras falam da [(r = s) v q] = - [- (r = s). q]
linguagem formalizada da Lógica, indicando os procedimentos substituição da variável "p" pela fórmula molecular (r = s).

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Já o intercâmbio autoriza a permuta de toda e qualquer proposicional, vamos encontrar nomes de indivíduos (de pes-
fórmula por outra, desde que lhe seja equivalente. Ao passo soas ou de objetos) e outras palavras ou expressões que desig-
que a substituição simples, quando realizada numa variável, nam qualidades (propriedades) atribuídas aos nomes. Além
pressupõe a necessidade de implementá-la em todas as apari- disso, em alguns casos, em vez de propriedades ligadas aos
ções dessa variável, no intercâmbio, a substituição pode operar- nomes, temos uma relação entre indivíduos. São duas as formas
se apenas uma vez, segundo o interesse de quem exercita. Na do predicado: aparece como (i) característica ou propriedade
fórmula tautológica: [(p -> q) . (q -> r)] -> (p -> r), conhecida conferida a um indivíduo; ou (ii) à maneira de uma relação que
como "transitividade do condicional", podemos promover o vincula dois ou mais indivíduos. Atinemos para os exemplos:
intercâmbio de "(p -> q)" por "(-p v q)", dada a equivalência
entre as duas expressões simbólicas: "(p -> q) (-p v q)". E, 1. Pierce era americano.
mesmo que houvesse outras manifestações da fórmula inter- 2. Cabral foi um grande descobridor.
cambiada, a substituição seria opcional: ou promovemos o
3. Sócrates foi mestre de Platão.
intercâmbio em uma só aparição, ou o fazemos em algumas
delas, ou, finalmente, em todas. Nisso se distingue da substi- 4. Três é maior do que dois.
tuição pura e simples.
5. Rodolfo prefere o esporte aos estudos.
No modus ponens, ou regra de separação, se admitirmos
6. Na lista dos aprovados, Otávio esteve abaixo de Júlio,
um condicional "(p -> q)" como verdadeiro, e afirmarmos a
Pedro e Augusto.
verdade do antecedente "p", necessariamente teremos que
reconhecer a verdade do consequente "q" (o antecedente é 7. Considerando-se os dez primeiros números inteiros, 6
condição suficiente do consequente). Diz-se também "regra de é menor que 7, 8, 9 e 10.
separação" porque este raciocínio "afasta", "isola", "separa" o
consequente da fórmula molecular "(p -> q)". Em todos eles, sem contar com os nomes, as demais pa-
lavras ou expressões cumprem o papel de predicados. Nos
Se as regras de substituição e de intercâmbio representam exemplos 1 e 2, os predicados guardam a forma de qualidades,
procedimentos auxiliares para a movimentação das estruturas características ou propriedades que reconhecemos aos indiví-
do cálculo proposicional, o princípio do modus ponens, transi- duos (no caso, pessoas) Pierce e Cabral. Nos enunciados sub-
tando das premissas para a conclusão do pensamento, pode
sequentes (3, 4, 5, 6 e 7), aquilo que encontramos é uma relação:
ser qualificado de raciocínio dedutivo por excelência.
entre dois nomes de pessoas, como em 3; entre dois nomes de
As chamadas "regras de inferência" são, em rigor, proce- números, como em 4; entre três nomes, sendo um de pessoas
dimentos de demonstração, preceitos de como conduzir as e dois de atividade, como em 5; entre quatro nomes de pessoas,
provas neste campo do conhecimento formal. como em 6; e, finalmente, entre cinco nomes de números, tal
como em 7. Isso nos permite afirmar que os predicados são
2.5. TEORIA DAS RELAÇÕES monádicos (quando se referem, isoladamente, a um indivíduo)
ou poliádicos (quando vinculam dois ou mais indivíduos). Vê-
Càrnap utilizou "predicado" para indicar o símbolo de se, então, nos mencionados exemplos, que em 1 e 2 os predi-
propriedades ou de relação atribuíveis a um indivíduo. Expos- cados são monádicos; em 3 e 4 são diádicos (ou binários); em
to de modo distinto, na composição interior de um enunciado 5 o predicado é triádico; em 6 é tetrádico; e em 7 é pentádico.

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Em face do que foi dito, portanto, é intuitivo perceber que do cálculo proposicional, negamos aquela relação: "-(xRy)",
o tema "Teoria das Relações" nada mais é que um subcapítulo que significa afirmar a inexistência da relação R entre os ob-
da Lógica dos Predicados ou mesmo "Lógica dos Predicados jetos x e y.
Poliádicos". Trata-se de uma parte importantíssima da Lógica
A variável de objeto "x" ocupa o tópico de predecessor da
e seu desenvolvimento inicial é atribuído a A. de Morgan e a
relação "R". A outra variável de objeto "y" figura na posição
Charles S. Peirce, principalmente no que diz respeito ao cha-
de sucessor. Diremos, assim, que todo o objeto que tenha rela-
mado "Cálculo de Relações". Lembremo-nos que em todo o
ção "R" com algum objeto "y" é um predecessor com respeito
segmento do saber científico, seja ele qual for, encontramos a
à relação "R"; igualmente, todo o objeto "y" para o qual exista
descrição de relações entre os mais variados entes, físicos, um objeto "x" tal que "xRy" é um sucessor com respeito à re-
ideais, culturais ou metafísicos, e que o "substractum" desses lação "R". Para designar esta posição sintática, os lógicos em-
vínculos há de ser conhecido no plano dos estudos lógicos. De pregam também os termos "anterior" e "posterior"; região
fato, tanto as relações matemáticas, químicas, biológicas, fisio- anterior e região posterior; bem como região esquerda e região
lógicas, quanto as relações históricas, antropológicas, psicoló- direita.
gicas, sociológicas, éticas e jurídicas hão de ser colhidas, nos
seus fundamentos últimos, no domínio da Lógica dos Predica- A classe de todos os predecessores, tendo em vista a re-
dos Poliádicos ou, o que é a mesma coisa, no âmbito da Teoria lação "R", é chamada de domínio e a classe de todos os suces-
das Relações. Eis um dos motivos pelos quais a Lógica é con- sores, de contradomínio ou de domínio recíproco da relação
siderada como a base de todas as outras ciências, seja pela "R". No vínculo de paternidade, por exemplo, a coleção de
circunstância de que em cada raciocínio que empregamos todos os pais forma o domínio, enquanto a dos filhos, seu con-
estão presentes conceitos no universo da Lógica, seja porque tradomínio ou domínio recíproco. Tomando-se como referência
toda inferência, para ser correta, há de conformar-se aos câ- a relação jurídica de venda e compra, todos os vendedores
integrarão seu domínio e todos os compradores, seu contrado-
nones dessa disciplina.
mínio, já que os primeiros ocupam o lugar de predecessores
ou anteriores, ao mesmo tempo em que os últimos estão no
2.5.1. Simbolização: relações de primeira ordem e relações de tópico de sucessores ou posteriores.
segunda ordem Existem relações de diversas ordens. Relações de primei-
A representação das variáveis e constantes lógicas me- ra ordem são aquelas que ocorrem entre nomes de indivíduos
diante símbolos arbitrariamente convencionados é um dos ou de objetos, ao passo que as relações de segunda ordem en-
laçam não indivíduos ou objetos, mas classes ou relações de
mais significativos traços da Lógica atual, conhecida por isso
primeira ordem, isto é, são relações que se estabelecem entre
como Lógica Simbólica ou Lógica Matemática. Adotemos,
relações. O critério é idêntico para falarmos de relações de
pois, as letras maiúsculas "R", "5", ..., para simbolizar relações
terceira, quarta ou enésima ordem. Vezes há, contudo, em que
e as minúsculas "x", "y", ..., para denotar as variáveis de no-
nos deparamos com relações mistas, nas quais figura um nome
mes de indivíduos ou de objetos, mais simplesmente, variáveis
de indivíduo na região anterior (predecessor) e uma classe de
de objetos.
indivíduos na região posterior (sucessor). Para os objetivos
Teremos, então, "xRy" no lugar do enunciado "o objeto x deste estudo, porém, lidaremos mais frequentemente com
tem a relação R com o objeto y". Da mesma forma, mas agora relações de primeira ordem, em que tanto predecessores como
com a utilização do negador ("-"), símbolo que já conhecemos sucessores são nomes de indivíduos.
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

2.5.2. As propriedades, as funções e as qualidades das relações vínculo figura no plano das relações pluriunívocas ou posterior-
unívocas, considerando-se que, na hipótese, vários "x" podem
Dada a relação - "xRy" - notamos que pode estar cons- ser esposas de um único "y".
truída de tal modo que a um "x" corresponda um único "y"; a
"x" correspondam vários "y"; a um "y", vários "x"; ou a vários Finalmente, há relações que são pluriplurívocas porquan-
"x" correspondam vários "y". Exemplifiquemos. Na relação de to vários nomes podem assumir o espaço da região anterior, o
paternidade, expressa simbolicamente por xRy, podemos enun- mesmo sucedendo com o lugar de sucessor. São exemplos:
ciar: "x é pai de y". Um pai pode ter vários filhos, todavia, um
conhecido de
filho terá somente um pai.
x amigo de y
,
y colega de
y 99
x
y999 Nelas, são diversos os nomes aptos para figurar no pólo
de predecessor ou no posto de sucessor. Teríamos:
Relações como essa denominamos uni-plurívocas (porque
há um só nome na região anterior e vários na posterior). Cha- x' y,
mam-na, também, de anterior-unívoca (pois o nome que está
na posição de predecessor é único). No campo da Matemática,
x" y ,,
esta categoria assume extraordinária importância e é conhe-
cida como relação funcional ou, simplesmente, função. Reco-
y9
nhecemo-la sempre que a todo objeto "y" corresponder um x'"
único objeto "x", tal que "xRy". A relação "x é pai de y" é tipi-
camente uma relação funcional, visto que para toda pessoa "y" Cumpre advertir que nem toda relação é uma função. Este
existe unicamente outra pessoa "x", que é pai de "y". último termo tem sentido mais restrito, aplicando-se apenas
Na relação conversa, isto é, "yRx", ou "y é filho de x", às relações uni-plurívocas e às uni-unívocas ou biunívocas.
temos um vínculo pluriunívoco ou posterior-unívoco, consoan- Três características são particularmente relevantes para
te queiramos salientar o perfil total da relação, ou vê-la apenas
a teoria das relações. Vamos examiná-las:
por um dos lados.

a) Reflexividade
y,
y99 Diz-se que uma relação é reflexiva se o nome do indivíduo
x
inscrito no predecessor, ou no sucessor, estiver em correspon-
y ,,,
dência com ele próprio. Dito de outra maneira, sempre que a
relação for universalmente válida com anteriores e posteriores
Dé outra parte, a relação "x é esposa de y" é unívoca, tam- idênticos. A classe das relações reflexivas é o conjunto total dos
bém conhecida como função biunívoca (Matemática), ao menos vínculos que existem entre uma coisa e a mesma coisa, por
na concepção cristã de matrimônio. Entre os maometanos, esse força da identidade dos termos neles atrelados. Utilizando a
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

simbologia, teremos: "xRx". São exemplos de relações reflexi- modificação, ressalvado o caso das relações simétricas, altera-se
vas: a igualdade, a congruência e a equivalência. Aliás, nesses o vínculo. Observamos alguns exemplos desse paralelismo:
casos, a reflexividade é total, porque tais relações são sempre
reflexivas. Em contraparte, há vínculos que nunca podem ser
reflexivos, configurando-se, por via de consequência, como Relação original Relação conversa
irreflexivos. São todos aqueles em que se torna impossível que
o mesmo nome ocupe o espaço de predecessor e sucessor, no "x é maior do que y" "y é menor do que x"
âmbito da mesma relação. A título de exemplo, encontramos
inúmeras relações, tais como "maior que", "pai de", "ao norte "x é pai de y" "y é filho de x"
de", "mais velho que", "casado com", etc. Hipótese genuína de
relação irreflexiva é a jurídica, dado que ninguém pode estar, "x é marido de y" "y é mulher de x"
juridicamente, em relação consigo próprio. O direito pressupõe,
"x é professor de y" "y é aluno de x"
inexoravelmente, dois sujeitos distintos, no mínimo, como
imperativo de sua fundamental bilateralidade.
"x está ao norte de y" "y está ao sul de x"
Entre as relações reflexivas (que sempre o são) e as irre-
flexivas (que nunca poderão ser reflexivas), encontramos as
assim chamadas semi-reflexivas, as quais assumem por vezes Também no quadro de estudo das relações simétricas po-
um ou outro caráter, como em "elogiar", "quadrado de", "res- demos falar de uma categoria intermediária: as relações semi-
peitar", "estar satisfeito com", etc. "X" tanto pode elogiar "y", simétricas, que se apresentam ou não com as características
como "elogiar-se"; "4 é o quadrado de 2", mas "1 é o quadrado descritas, dependendo da situação. No exemplo "x ama y", este
de 1"; "x" pode respeitar "y", como pode, também, "respeitar- amor pode ser unilateral, assim como correspondido. Outro
se", "um pai pode estar satisfeito com o filho", porém pode, tanto acontece com "x aprende de y" ou "x coopera com y".
igualmente, "estar satisfeito consigo mesmo".
c) Transitividade
b) Simetria Uma relação é transitiva, numa classe K, se, para três
Uma relação é simétrica quando, se ocorre entre "x" e elementos quaisquer "x", "y" e "z" dessa classe, as condições
"y", também se dá entre "y" e "x". São simétricas as relações: "xRy" e "yRz" sempre implicam "xRz". Vimos, no cálculo pro-
"casada com", "vizinho de", "compatível com", "paralela a", e posicional, que a transitividade é uma das propriedades do
muitas outras. conectivo condicional, de sorte que "[(p->q).(q-r)]->(p-> r)]".
Aqui, as variáveis são proposições e não nomes de indivíduos.
Já empregamos, linhas acima, a expressão "relação con- Tomemos, no entanto, alguns exemplos da linguagem ordiná-
versa", sem defini-la. Vamos fazê-lo agora, para enfatizar a ria, envolvendo indivíduos. "Se um tigre é maior do que um
circunstância de que, numa relação simétrica, o objeto e seu gato e um gato é maior do que um rato, então o tigre é maior
converso são iguais. Relação conversa é aquela que se obtém do que o rato." "Se Artur é mais velho do que Pedro e Pedro é
pela inversão da ordem de sucessão de seus membros. Opera- mais velho do que José, então Artur é mais velho do que José."
se uma troca de posições, em que o sucessor passa ao tópico Vê -se que as relações "mais velho do que", "maior do que",
de predecessor e este assume o lugar do sucessor. Com tal "superior a", "preferível a" são transitivas.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Nada obstante, relações há que nunca são transitivas, Salienta-se, aqui, a propriedade transitiva inerente à re-
como, por exemplo, "x é mãe de y" ou "y é pai de z". Nesses lação de identidade (iii).
casos, se "x" é mãe de "y" que é mãe de "z", então "x" é avó
"Se x =zey = z, então x = y"
de "z" e nunca "mãe de z". São denominadas, por isso, in-
transitivas. De acordo com esta formulação, se dois objetos são iguais
a um terceiro, então são iguais entre si (iv).
Entre umas e outras, porém, temos as relações semitran-
sitivas, como "ser amigo de", "conhecer", etc., as quais se Para concluir, registre-se que os termos "igualdade" e
apresentam ora como transitivas, ora como intransitivas, de- "identidade", sempre que utilizados no campo da Lógica, são
sinônimos.
pendendo das circunstâncias.

2.5.3. Sobre a relação de identidade 2.5.4. Cálculo das relações


Cálculo pode ser definido como o conjunto de relações
Entre os conceitos lógicos não pertencentes ao cálculo
entre os símbolos de um sistema. Tratando-se de assunto em
proposicional, como ensina Alfred Tarski, o de maior impor-
que os símbolos do sistema representam relações, teremos
tância é, provavelmente, o conceito de relação de identidade. então um conjunto de relações entre relações.
Sua definição foi formulada por G. W. Leibniz (1646-1716),
aproximadamente nestes termos: O cálculo de relações é uma parte do tema maior, a Teoria
das Relações. Seu objetivo principal é o estabelecimento de
"x = y se, e somente se, x tiver toda a propriedade que y leis formais que regem as operações por meio das quais se
tenha, e y tiver toda a propriedade que tenha x." constroem relações a partir de outras relações dadas.
A forma lógica é a do bicondicional (se, e somente se), como Comecemos por aludir a dois importantes conceitos des-
convém a uma definição bem composta. Nela, o sinal "=", que se cálculo: relação universal e relação nula.
se pretende definir, está empregado unicamente no definiendum,
não aparecendo no definiens, aspecto que a recomenda. (i) Relação universal
Tomando-a como ponto de partida, os lógicos deduziram A relação universal é aquela que vincula todo indivíduo
outras leis pertencentes à teoria da identidade, das quais as a todo indivíduo, dentro de determinado contexto. Mudando
mais importantes são as seguintes: as palavras, é a relação que se mantém entre quaisquer dos
indivíduos do conjunto universo. O símbolo que a exprime é
"Todo objeto é igual a si mesmo: x = x" "V". Isolando-se a classe dos advogados, a relação "ser colega
Esta lei (i), tal qual enunciada, chama a atenção para o de" está presente para qualquer par de seus membros. É exem-
caráter reflexivo da identidade. plo de relação universal, válida, naturalmente, dentro do men-
cionado universo de discurso.
"Se x = y, então y = x"
Qiier significar (ii) que a relação de identidade é simétri- (h) Relação nula
ca, sendo iguais, ela e sua conversa.
Relação nula ou vazia é aquela que nunca se estabelece
"Se x = y e y = z, então x = z" entre pares de indivíduos do conjunto tomado como universo
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de referência. Só existiria entre termos que não possuem iden- (v) Inclusão de relações
tidade. Como a identidade é a relação que todo indivíduo man- Uma relação está incluída em outra se, e somente se,
tém consigo mesmo, relação nula ou vazia é aquela que não se quando a primeira se instaurar entre dois indivíduos, então a
instala, no quadro, é claro, de determinado universo discursi- segunda, inevitavelmente, também ocorrerá. Exemplo de ope-
vo. Para o conjunto de indivíduos solteiros (na acepção restri- ração dessa natureza é a que se passa entre as relações "menor
ta da palavra), "ser casado com" é uma relação nula. Repre- que" e "maior que", ambas incluídas na relação "ser de distin-
senta-se assim: "A". to tamanho". Igualmente, "ser pai de", "ser filho de", "ser tio
de", "ser irmão de", todas se incluem na relação mais abran-
(iii) Complemento de uma relação gente "ser parente de". O símbolo próprio é "<-", também
utilizado na teoria de classes.
Complemento de uma relação R se define como a classe
de pares ordenados de indivíduos entre os quais não se dá essa (vi) Produto absoluto de relações
relação. Se R é a relação "estar casado com" (que se configura
Também conhecida por "intersecção de relações", esta
como a classe de todos os "x" e de todos os "y", tal que "x" está operação consiste na conjunção de duas relações dadas, ou seja,
casado com "y"), o complemento de "R" será R', ou seja, a na classe de todos os pares ordenados entre os quais se dá a
classe de todos os "x" e de todos os "y", tal que "x" não está primeira juntamente com a segunda. Exemplo: se R é a relação
casado com "y", ou ainda, a classe de todos os pares de indiví- "irmão de" e S a relação "maior que", o produto absoluto ou
duos entre os quais não se dá a relação matrimonial. produto lógico ou intersecção das duas relações será a terceira
(T), interpretada como "irmão maior de". Sua representação se
(iv) Soma ou união absoluta de relações faz pelo símbolo "n", à semelhança da teoria de classes.

Dadas as relações R e S, podemos dizer que a soma lógi- Se confrontarmos a soma lógica com o produto lógico das
ca ou união dessas relações é a classe de todos os pares orde- relações, veremos que, enquanto a soma segue o modelo formal
nados entre os quais se dá somente a primeira relação, ou do disjuntor, o produto acompanha o do conjuntor. Por isso,
em toda a intersecção de relações encontraremos, em lingua-
apenas a segunda, ou ainda ambas. O resultado, isto é, a soma
gem simbólica:
lógica, é uma nova relação. Se interpretarmos R como "irmão
de" e S como "irmã de", teremos a relação-soma, chamemo-la x (R)"S) y (xRy) . (xRy)
T, que está representada por "irmão e irmã de". A soma lógica
das relações "filho de", "neto de" e "bisneto de" será a relação (vii) Produto relativo de relações
"descendente". Tal qual se emprega na teoria das classes, a Produto relativo de R e S é a relação que se instaura entre
notação simbólica é "U". Assim: "RUS" significa a soma lógica todos os "x" e todos os "y", de maneira que haverá um "z" com
ou a união das relações R e S. Atente-se para a circunstância o qual "x" mantém a relação R e "y" mantém a relação S. Re-
de que a união de relações segue o modelo da disjunção, de tal presenta-se por "R/S". Por outro giro, afirmamos que se dá o
sorte que inclui os pares ordenados da primeira relação (R), produto relativo R/S entre dois indivíduos "x" e "y" se, e so-
mente se, existir um terceiro indivíduo - "z" -, tal que, simul-
ou da segunda (S), ou de ambas as relações (R e S). Enunciado
taneamente, "xRz" e "zSy". Figuremos um exemplo em que a
em linguagem simbólica, teríamos:
relação R é "ser marido de" e a relação S interpreta-se como
x (RUS) y E---- (xRy) v (xSy) "ser filha de". Neste caso, o produto relativo R/S se estabelece

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

entre "x" e "y" se houver uma terceira pessoas - "z" -, tal que Pai (sogro) Mãe (sogra)
"x é marido de z" e "z é filha de y".
Na hipótese, o produto relativo R/S indica a relação "ser
genro de".
Há uma diferença essencial entre o produto absoluto e o
produto relativo de relações. Ao passo que o primeiro se perfaz
com os indivíduos "x" e "y", exclusivamente, o segundo pressupõe Filha Marido Filho Mulher
um outro indivíduo, que ocupa a região posterior na relação R, e (genro) (nora)
a região anterior, na relação S. Esse terceiro elemento - "z" - per-
mite o aparecimento do produto relativo R/S, entre "x" e "y". O
elemento "z" não consta da relação final, pois esta vinculará ape- Nos produtos relativos de relações os "fatores" não são
nas "x" e "y"; todavia, intervém na produção do resultado, facili- passíveis de comutação. Assim, o irmão do pai é o tio, enquan-
tando o trânsito de "x" para se ligar a "y". Analisemos as seguin- to que o pai do irmão é o próprio pai. O marido da irmã é o
tes situações: "x é irmã de z" e "z é mãe de y", logo "x é a tia cunhado; pelo contrário, a irmã do marido é a cunhada. A mãe
materna de y" (produto relativo daquelas duas relações). Outro do marido é sogra, ao passo que o marido da mãe é o pai.
exemplo: suponhamos que se trate de definir a expressão relacio-
nal "x é o assassino do irmão de y". Vemos, de pronto, que há duas Vamos examinar, finalmente, a relação processual, aque-
relações: "ser assassino de" e "ser irmão de". De que forma com- la que se estabelece entre juiz, autor e réu. Consideramo-la
binar os dois vínculos? Tentemos operar com o produto absoluto. triádica, numa visão integral. Se isolarmos, porém, a relação
Obteremos: x(RnS)37 -=(xRy).(xSy), vale dizer, "x matou seu irmão", "autor/réu", saberemos que é o produto relativo de duas outras:
porque "x assassinou y" e "x é irmão de y". Conclui-se que o "autor/juiz" e "juiz/réu", atuando o magistrado, neste caso,
produto absoluto não serve para os objetivos daquela mensagem como elemento que possibilita o trânsito do autor, para se ligar
inicial. Na verdade, a questão se resolve pela operação chamada ao réu num vínculo jurídico-processual implícito. Vejamos:
"produto relativo", na qual se une "x" a "y", de tal arte que há um
"z" que "x" assassinou e que era irmão de "y". Juiz

(xRz) . (zSy)
O produto relativo de relações tem enorme aplicação na
vida prática e, por meio dele, conseguimos entender e explicar
uma série de relações tipicamente jurídicas. Utilizemos, agora,
alguns gráficos.
Pai Irmão (tio)
Autor Réu

(viii) Potências de uma relação


Do mesmo modo como podemos elevar um número ao
quadrado, também poderemos, mediante o produto relativo,
formar as potências de uma relação:
Filho (sobrinho)
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Ri = R ( R = S) = (R' = S') (equivalência entre a igualdade de


relações e respectivas conversas).
R2 = R/R
R 3 = R 2/R
2.5.5. Aplicação da teoria das relações
Em geral,
A título elucidativo do que acabamos de expor sobre a
Rn = Rn 1/R
Teoria das Relações, vamos aos exemplos do domínio que nos
interessa, retomando os conceitos fundamentais da Ciência do
Para entender o que significa elevar uma relação a certa
potência, nada como considerar a relação "ser pai de": Direito dentro de uma concepção relacional.
Fato jurídico é a parte do suporte fáctico que o legislador,
R = ser pai de mediante a expedição de juízos valorativos, recortou do uni-
R' = ser pai de verso social para introduzir no mundo jurídico. Pontes de
Miranda" argumenta que o suporte factual, que está no mundo,
R 2 = ser avô de
R 3 = ser bisavô de "não entra, sempre, todo ele. As mais das vezes, despe-se
de aparências, de circunstâncias, de que o direito abstraiu;
R 4 = ser trisavô de e outras vezes se veste de aparências, de formalismo, ou se
reveste de certas circunstâncias, fisicamente estranhas a
R 5 = ser tetravô de
ele, para poder entrar no mundo jurídico. A própria morte
não é fato que entre nu, em sua rudeza, em sua definitivi-
(ix) Algumas leis da lógica das relações dade no mundo jurídico".

- -R = R (dupla negação aplicada à lógica das relações) Ao promover essas incisões no plano da realidade social,
R U S= S U R (comutatividade da soma das relações) o legislador tem de levar em conta a estrutura lógica da norma
que vai compor, uma vez que as descrições factuais serão as-
R n S= S n R (comutatividade do produto absoluto)
sociadas implicacionalmente a prescrições de conduta. Estará
RUSm-( -R n S) (lei de DE MORGAN para relações ) às voltas, então, com as combinações possíveis entre os ante-
cedentes e os consequentes de cada unidade, de tal sorte que
R n S = - (-R U -S) (lei de DE MORGAN para relações)
teremos as seguintes possibilidades: a) F' / R'; b) F' / R', R",
(R <- S) = ( -S <- -R) (contraposição da inclusão) R'"...; c) F', F", R'; d) F', F",F'".../ R', R" R'"... Equivale a
[(R <- S) . (-S <- -R)] -> (R <- T) (transitividade da inclusão) dizer, em linguagem desformalizada: a) um fato (F') pode estar
ligado a uma única relação jurídica (R'); b) o mesmo fato (F')
[(R/S)/T] [R/(S/T)] (associatividade do produto relativo) pode associar-se a dois ou mais vínculos jurídicos (R', R", R"'...);
(R<- S) -> [(T/R) <- (T/S)] (inclusão dos produtos relativos) c) dois ou mais fatos ( F', F", podem provocar a mesma
R': = R (a conversa da conversa é a própria relação)
(R <- S) = (R' <- S') (equivalência entre a inclusão de 57. Pontes de Miranda. Tratado de direito privado, 4a ed., Tomo I, São Paulo,
relações e respectivas conversas) Revista dos Tribunais, 1974, p. 20.

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relação (R'); e d) dois ou mais fatos (F', F", F"...) podem irradiar distintas: a da regra-matriz de direito ao crédito pelo valor do
duas ou mais relações de direito (R', R", R'"...). i mposto pago nas compras para o processo de industrialização
Já notamos que a Teoria das Relações (ou Lógica dos (N') e a da regra-matriz de incidência do IPI (N"). Esse exem-
Predicados Poliádicos) não admite outras junções, somente plo demonstra caso típico da possibilidade lógica d).
essas: a) um com um; b) um com vários; c) vários com um; e d) As bases da Teoria das Relações, explicadas acima, faci-
vários com vários. E o legislador, como todos os demais seres litam muito a compreensão dos institutos de direito de manei-
pensantes, será prisioneiro dessa combinatória formal. ra geral e, no caso, daqueles do direito tributário, impregnados
Bem sabemos, contudo, que o mesmo fato social pode pelo legislador de uma dificuldade operativa ímpar. Essa aná-
sofrer tantos cortes jurídico-conceptuais quanto o desejar a lise relacional demonstra de maneira formalizada a Lógica
autoridade que legisla, dando ensejo à incidência de normas Deôntica, como linguagem objeto, existente entre as unidades
jurídicas diferentes. Ao confluírem sobre a mesma base de sistêmicas desse universo axiológico que é o direito. A Lógica
incidência, as várias regras vão projetando, um a um, os dis- dos Predicados ou "Lógica dos Predicados Poliádicos" preo-
tintos fatos jurídicos, dos quais se irradiam as peculiares cupa-se em estudar esses cálculos de relações, uma vez que
eficácias. estrutura, como sobrelinguagem (apofântica) que é, de manei-
ra lógica e formal as frases normativas.
Se, desde já, quisermos transportar essas reflexões para
um caso concreto, cumpre verificar de pronto quais os tipos de Agora, aplicando-se essa teoria a uma situação concreta,
relações existentes na estrutura normativa daquele fato jurí- observa-se que ela traz soluções cognoscitivas imprescindíveis
dico que nos interessa. para a boa compreensão da subsunção que ocorre entre os
fatos jurídicos e as normas de direito.
Neste sentido, a fim de não deixar nenhuma dúvida sobre
o assunto, trago exemplo no âmbito do direito tributário. As- Neste sentido e no intuito de esclarecer quaisquer dúvidas,
sunto polêmico e muito atual é o que tange ao crédito-prêmio vale apresentar outra situação tributária. Citemos. Para saber
do IPI. A dúvida estaria na seguinte indagação: este crédito da incidência ou não de ICMS na atividade de transporte pres-
continuaria válido mesmo em casos em que há isenção tribu- tado por uma empresa brasileira que executa serviço de courier
tária sobre a atividade de industrialização tal qual ocorre na a uma empresa estrangeira, é fundamental atinar para a teoria
região de Manaus? Para a solução da dúvida, cumpre verificar das relações, tendo em vista que nos ajudará a definir, dentre
que, nestes casos, será possível perceber que não se trata, os tipos de relações e classes, onde aquele específico vínculo
apenas, de uma regra de direito, porquanto dois foram os cor- se enquadra. No exemplo mencionado, observadas as relações
tes conceptuais promovidos no suporte fáctico, como duas normativas possíveis, interessa-nos a "inclusão de relações".
foram as relações jurídicas que se propagaram pela ocorrência Uma relação está incluída em outra se, e somente se,
dos respectivos acontecimentos: a obrigação tributária e o instaurando-se a primeira entre dois indivíduos, a segunda,
58
vínculo no bojo do qual emergiu o direito ao crédito. Duas inevitavelmente, também ocorrer. Esclarece Helmut Seiffert
ocorrências do mundo físico-social, sendo uma de aquisição que a relação de classe inclusiva dá-se quando uma classe A
de insumos para o processo de industrialização (F') e outra contém totalmente uma classe B. Nesse caso, todo elemento
operação de compra e venda mercantil (F"), entre Manaus e
qualquer outro Estado, tendo por objeto produtos industrializa-
dos, abriram espaço para a percussão de duas normas jurídicas 58. Introdución a la lógica, Barcelona, Herder, 1977, pp. 78-79.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

de B é também elemento de A, uma vez que A inclui B. Sendo e dos quantificadores (universal e existencial). Os nomes são
assim, o serviço de transporte realizado por uma prestadora palavras tomadas voluntariamente para designar indivíduos e
de serviço de courier encontra-se incluso no serviço de trans- seus atributos, num determinado contexto de comunicação.
porte internacional. Isso porque a contratação do serviço de Ao mesmo tempo em que todos os nomes são nomes de alguma
transporte internacional consiste na coleta de documentos no coisa, real ou imaginária, nem todas as coisas têm nome priva-
domicílio do remetente, localizado no exterior, e sua entrega tivo. Algumas reivindicam designação distinta, em função da
ao destinatário, em território nacional. Todavia, para que essa sua individualidade, como acontece com as pessoas e com
prestação de serviço seja concretizada, é necessário outra re- certos lugares que se tornam famosos. Mas há objetos que não
lação, nela inclusa, consistente na subcontratação da empresa têm nome próprio, de tal maneira que, se for preciso indicá-los,
brasileira que prestará o serviço de courier em nome da em- empregam-se nomes gerais, aptos para abrangê-los em núme-
presa internacional, para finalizar esse serviço no país. Cha- ro indefinido. Com efeito, um nome geral é susceptível de ser
maremos, respectivamente, de empresa A e empresa B. Não aplicado, no mesmo sentido, a um número indefinido de coisas.
resta qualquer dúvida, por conseguinte, de que a relação con- Um nome geral denota uma classe de objetos que apre-
sistente em prestar serviço de transporte internacional, pela sentam o mesmo atributo. Neste sentido, "atributo" significa
empresa estrangeira B, é classe inclusiva, que contém, neces- a propriedade que certo objeto manifesta e todo nome, cuja
sariamente, a finalização do serviço pela empresa brasileira A. significação está constituída de atributos é, em potencial, o
Em consequência, estando a atividade da empresa A embutida nome de um número indefinido de objetos. Portanto, todo
naquela contratada com a empresa B, não pode dela ser disso- nome, geral ou individual, cria uma classe de objetos (de alguns
ciada. Trata-se, pois, de uma relação componente da prestação objetos, como no geral, ou de apenas um, como nos nomes
do serviço de transporte internacional. próprios). Um nome geral é introduzido no discurso em face
da necessidade de palavra que denote determinada classe de
Portanto, mesmo havendo subcontratação para transpor-
objetos e de seus atributos peculiares. Definamos, então, clas-
te em trecho interno, não se descaracteriza a relação de trans-
se como "a extensão de um conceito geral ou universal", na
porte internacional, não constituindo, o transbordo, nova
lição de Albert Menne 59 , lembrando que o nome individual tem
prestação de serviço. A subcontratação de parcela do serviço
o condão de exaurir seu universo, sendo, portanto, também
de transporte não implica quebra da unidade da operação, que universal. Ou, finalmente, como a relação dos nomes de objetos
é de natureza internacional. que satisfazem a função proposicional "f(x)".
São dois exemplos que ilustram a teoria das relações com Ao examinar a estrutura interna do enunciado, a Lógica
o pragmatismo da realização jurídico-tributária, comprovando dos Termos se ocupa, além da definição, das operações de
a seriedade e a aplicabilidade do estudo lógico-relacional. classificação e de divisão. Classificar é distribuir em classes, é
dividir os termos segundo a ordem da extensão ou, para dizer
2.6. TEORIA DAS CLASSES de modo mais preciso, é separar os objetos em classes de acor-
do com as semelhanças que entre eles existam, mantendo-os
A Lógica dos Predicados, ou Lógica dos Termos, como em posições fixas e exatamente determinadas em relação às
pensai :nos ser mais apropriado referir, compreende o estudo
da composição interna dos enunciados simples e, dentro deles,
a análise dos termos sujeito e predicado, da cópula apofântica 59. Introducción a la lógica, Madrid, Editorial Gredos, 1969, p. 140.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

demais classes. Os diversos grupos de uma classificação rece- Toda classe é susceptível de ser dividida em outras classes.
bem o nome de espécies e de gêneros, sendo que espécies É princípio fundamental em Lógica que a faculdade de esta-
designam os grupos contidos em um grupo mais extenso, en- belecer classes é ilimitada enquanto existir uma diferença,
quanto gênero é o grupo mais extenso que contém as espécies. pequena que seja, para ensejar a distinção. O número de clas-
A presença de atributos ou caracteres que distinguem deter- ses possíveis é, por conseguinte, infinito; e existem, de fato,
minada espécie de todas as demais espécies de um mesmo tantas classes quantos nomes, gerais e próprios. Porém, se
gênero denomina-se "diferença", ao passo que "diferença es- examinarmos, uma a uma, as classes assim formadas, como a
pecífica" é o nome que se dá ao conjunto das qualidades que dos contratos ou das plantas, a classe dos elementos químicos
se acrescentam ao gênero para a determinação da espécie, de ou dos planetas, e se considerarmos em que particularidade os
tal modo que é lícito enunciar: "a espécie é igual ao gênero indivíduos de uma classe diferem dos que a ela não pertencem,
mais a diferença específica (E = G + De)". Tomando o exemplo encontraremos sob esse aspecto uma diferença bastante nítida
da linha curva, podemos classificá-la em circunferência, elipse,
entre duas classes distintas.
parábola, hipérbole, espiral, etc. Se adicionarmos ao gênero
(linha curva) as diferenças peculiares a cada qual, teremos as Por outro lado, o expediente classificatório pode dar sen-
espécies anunciadas. Obviamente que as qualidades somente tido artificial a uma palavra em decorrência da necessidade
gerais não se prestam à divisão do gênero em espécies. técnica de uma Ciência particular. Isto porque cada gênero di-
Com efeito, o gênero compreende a espécie. Disto decor- fere dos outros, não necessariamente por um só atributo, senão
re que o gênero denota mais que a espécie ou é predicado de por número indefinido de atributos. A taxa, por exemplo, é es-
um número maior de indivíduos. Em contraponto, a espécie pécie do gênero tributo, tomando-se como critério de distinção
deve conotar mais que o gênero, pois, além de conotar todos a circunstância de sua hipótese de incidência abrigar sempre
os atributos que o gênero conota, apresenta um plus de cono- uma atuação do Estado, efetiva ou potencial, referida ao sujeito
tação que é, justamente, a diferença ou diferença especifica. passivo. Entretanto, outra é a característica segundo a qual, para
Daí por que estabelecer o significado de diferença como aqui- as taxas, não há falar-se em competências privativas.
lo que deve ser adicionado à conotação do gênero, para com- Realmente, não existem limites à liberdade de fazer clas-
pletar a conotação da espécie.
sificações que, no fundo, consubstancia-se em separar em
Nessa linha, os princípios que devem dirigir a classifica- classes, em grupos, formando subclasses, subdomínios, sub-
ção, como procedimento lógico, informam que não há nomes conjuntos. Ao sujeito do conhecimento é reservado o direito
que sejam exclusivamente gêneros ou apenas espécies. Tais de fundar a classe que lhe aprouver e segundo a particularida-
palavras são termos relativos, aplicados a certos predicados de que se mostrar mais conveniente aos seus propósitos. Res-
para explicar sua relação com dado sujeito. Desse modo, a salvemos, porém, que se a conveniência prática é motivo sufi-
classe que aparece como gênero relativamente à subclasse ou ciente para autorizar as principais demarcações de nossos
espécie que contém, pode ser, ela mesma, uma espécie em objetos, a fortiori devemos estar atentos para a correção do
relação a uma classe mais compreensiva (gênero superior). As processo de circunscrição, garantindo que os gêneros e as es-
normas individuais e concretas consubstanciam espécies de
pécies sejam, efetivamente, gêneros e espécies.
normas jurídicas; todavia, formam o gênero de que são espécies
as norrhas individuais e concretas veiculadas pelo Poder Judi- A operação que nos permite distinguir as espécies de um
ciário que, por sua vez, são o gênero com relação às individuais gênero dado é a divisão, assim entendido o expediente lógico
e concretas postas por sentenças. em virtude do qual a extensão do termo se distribui em classes,

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

com base em critério tomado por fundamento da divisão. Mas, são classes que exprimem gêneros ou espécies e, como tais,
evitemos a confusão entre dividir e desintegrar. Quando afir- passíveis de distribuição em outras classes, segundo, eviden-
mamos que "o ano tem 12 meses" ou que "o livro consta de dez temente, as diretrizes do critério escolhido para a divisão. Com
capítulos" estamos diante de procedimento chamado "desin- os recursos da classificação, o homem vai reordenando a rea-
tegração", que pode ser reconhecido na medida em que os lidade que o cerca, para aumentá-la ou para aprofundá-la
elementos desintegrados do todo não conservam seus traços consoante seus interesses e suas necessidades, numa atividade
básicos, não sendo possível, neles, perceber o conteúdo do sem fim, que jamais alcança o domínio total e a abrangência
conceito desintegrado. Um capítulo do livro não é o livro, assim plena. E salientamos esse caráter reordenador porque assim
como o mês não é o ano. Em contranota, quando dizemos que como a classificação pressupõe a existência de classe a ser
"seres vivos se dividem em animais e plantas", tanto podemos distribuída em subclasses, o aumento ou aprofundamento da
predicar dos animais a condição de seres vivos quanto das realidade, como algo constituído pela linguagem, antessupõe
plantas. também a afirmação da própria realidade enquanto tal.
Importa mencionar as regras que presidem a operação A Lógica reserva à temática da classificação um capítulo
de dividir que é, afinal de contas, o processo empregado para
inteiro, denominado Teoria das Classes, em que se estuda o
classificar os termos. A inobservância de tais preceitos provo-
conceito de classe e o quadro de suas propriedades gerais.
ca erros inevitáveis que maculam o raciocínio, comprometen- Como disciplina autônoma, foi criada e desenvolvida pelo ma-
do a manifestação do pensamento e prejudicando a comunica-
temático alemão G. Cantor (1845/1918), recebendo, nesse setor
ção entre as pessoas.
do conhecimento, o nome de "Teoria dos Conjuntos".
São elas: 1) A divisão há de ser proporcionada, significan-
Visto que todos os nomes são classes de elementos, inclu-
do dizer que a extensão do termo divisível há de ser igual à
sive os nomes individuais (domínios ou conjuntos formados
soma das extensões dos membros da divisão. 2) Há de funda-
por um único objeto), não só a comunicação cotidiana, com sua
mentar-se num único critério. 3) Os membros da divisão devem
linguagem livre e descomprometida, mas a Matemática, a Bo-
excluir-se mutuamente. 4) Deve fluir ininterruptamente, evi-
tânica, a Zoologia, a Sociologia, o Direito e todas as demais
tando aquilo que se chama "salto na divisão".
ciências lidam, necessária e insistentemente, com essas enti-
Cumpre advertir que a boa classificação depende não só dades. Ali onde houver linguagem, natural ou técnica, cientí-
do processo de bem dividir o termo, mas, antes disso, de ela- fica ou filosófica, haverá, certamente, classes e operações entre
borarmos uma definição adequada de seu conceito. E definir classes, com o aparecimento de gêneros, espécies e subespécies.
é operação lógica demarcatória dos limites, das fronteiras, dos Isso, em qualquer das regiões ônticas: seja a dos objetos natu-
lindes que isolam o campo de irradiação semântica de uma rais ou dos ideais; a dos metafísicos ou dos culturais. E frases
idéia, noção ou conceito. Com a definição, outorgamos à idéia como "o indivíduo x é elemento do conjunto C", "o objeto y
sua identidade, que há de ser respeitada do início ao fim do pertence à classe K" ou "o domínio D contém como elemento
discurso. o indivíduo z", são expressões que denunciam a presença des-
Ora, se dissemos e redissemos que nossa realidade é sa categoria formal que, em linguagem simbólica, escrevemos
constituída pela linguagem; que o mundo jurídico se estabele- "x E K" ("x está em K").
ce pela linguagem do direito; claro está que as unidades desses Dito isto, é imprescindível ter em mente - recordando -
sistemas sígnicos, em grande parte nomes, gerais e próprios, que as coisas não mudam de nome, nós é que mudamos o modo
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

de nomear as coisas. Portanto, não existem nomes verdadeiros O código-posição denota uma classe de mercadorias que
ou falsos das coisas. Apenas existem nomes aceitos, nomes apresentam o mesmo atributo e atributo é a propriedade que
rejeitados e nomes menos aceitos que outros, como nos ensina manifesta um dado objeto. Todo código cuja significação este-
ja constituída de atributos é, em potencial, o código de um
Ricardo Guibourg. Esta possibilidade de inventar nomes para
número indefinido de mercadorias. Portanto, todo código-po-
as coisas chama-se "liberdade de estipulação". Ao inventar
sição cria uma classe de objetos.
nomes (ou ao aceitar os já inventados), traçamos limites na
realidade, como se a cortássemos idealmente em pedaços e, ao Tomemos por exemplo a máscara utilizada na codificação
assinalar cada nome, identificássemos o pedaço que, segundo da tabela NBM/SH-TIPI:
nossa decisão, corresponderia a esse nome.
"XXXXXYZZzz"

2.6.1. Aplicabilidade prática: o sistema harmonizado de Três são as divisões: código-posição "XXXX", código
subposição "YY" e código-item/subitem "ZZzz". Cada uma das
designação e de codificação de mercadorias, a
letras representa um número. Assim, considerando que o sis-
nomenclatura brasileira e a tabela do imposto sobre tema numérico empregado seja o decimal e tratando-se de
produtos industrializados variáveis numéricas, é lícito concluir que:
O sistema harmonizado de designação e de codificação de 1 - o código-posição "XXXX" pode apresentar variação
mercadorias é conteúdo aprovado pela Convenção Internacional combinacional de 0000 até 9 999, isto é, 10 000 combinações
(Bruxelas, 14/06/83), à qual o Brasil aderiu em 31/10/86. Ela é a possíveis;
base da nomenclatura brasileira de mercadorias que, por sua 2 - o código subposição "YY" pode apresentar variação
vez, é a fonte da implantação da tabela de incidência do impos- combinacional de 00 até 99, ou seja, 100 combinações
to sobre produtos industrializados (TIPI). São, todas, classifica- possíveis; e
ções codificadas, isto é, expedientes artificiais que nos possibi-
3 - o código-item/subitem "ZZzz" pode apresentar varia-
litam repartir dado setor de objetos em subsetores específicos,
ção combinacional de 0000 até 9 999, isto é, 10 000 combi-
consoante determinado critério, fixando-se para cada classe não
nações possíveis.
um nome, mas um número ou um código alfanumérico.
Revestindo o caráter artificial de todas as classificações, Infere-se, ainda, da ordem das variáveis de grupo, o
a que estrutura a tabela de incidência do IPI criou uma outra seguinte:
realidade, reordenando a até então existente. Cada código 4 - o código-posição "XXXX" descreve 10 000 gêneros
denota um conjunto de mercadorias e, idealmente, cada mer- possíveis e cada um desses pode apresentar 100 espécies
cadoria tem um código ao qual se subsome. Algumas, mesmo diferentes em relação ao código-subposição "YY";
semelhantes, exigem e recebem códigos distintos.
5 - o código subposição "YY", que é espécie em relação
O sistema harmonizado, como aprovado na Convenção a "XXXX", é gênero em função do código-item/subitem
Internacional, opera com seis dígitos, correspondendo a posi- "ZZzz". Nesse sentido, o código-subposição "YY" des-
ções e subposições de mercadorias, mas a NBM/SH (TIPI/TAB) creve até 100 gêneros distintos e cada um deles pode
sobrepõe-se àquele sistema para acrescentar-lhe matriz de su- apresentar até 10 000 espécies diferentes em relação ao
bespécies, mediante a particularização de itens e de subitens. código "ZZzz";

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

6 - deduz-se que o código-posição "XXXX" é sempre functor", uma vez que, inaugurando a relação implicacional, é
variável de gênero; o código-item/subitem "ZZzz" é vari- ponente também do functor intraproposicional.
ável de espécie em relação a "YY" e variável de subespé-
Adverte muito bem Lourival Vilanova que, na linguagem
cie em relação a "XXXX"; o código subposição "YY" é
falada e escrita do direito positivo, não nos deparamos com o
variável de espécie em relação a "XXXX" e de gênero em
dever-ser, com a função sintática de modal-deôntico neutro.
relação a "ZZzz".
"Generalizando, obtenho o conceito de norma jurídica. Agora,
2.7. O DEVER-SER COMO ENTIDADE RELACIONAL só formalizando obtenho o conceito de `dever-ser': ultrapas-
sando a linguagem da Teoria Geral do Direito para ingressar
Kelsen insistiu na diferença entre as leis da natureza, na linguagem formal da Lógica° (o grifo é do original)."
submetidas ao princípio da causalidade física, e as leis jurídicas,
articuladas pela imputabilidade deôntica. Lá, a síntese do ser; Em linguagens extrajurídicas, a expressão dever-ser traz
aqui, a do dever-ser. Nas duas causalidades temos a implicação, o sentido de algo que pode ser, que tem a possibilidade de
o conectivo condicional atrelando o antecedente ao consequen- acontecer, ou também, revelando o modo alético da necessida-
te. Entretanto, quando usado e não simplesmente mencionado, de, aquilo que tem-de-ser. Na região do jurídico, porém, o
o dever-ser denota uma região, um domínio ontológico que se dever-ser estará sempre ligado às condutas inter-humanas,
contrapõe ao território do ser, em que as proposições implican- tendo, portanto, significação, ainda que nada denote, pois não
te e implicada são postas por um ato de autoridade: D (p-->q) aponta para objetos do mundo, inexistindo fatos ou situações
(deve-ser que p implique q). Falamos, por isso, num operador que lhe possam especificamente corresponder. Aliás, seja como
deôntico interproposicional, ponente da implicação. Não fora sintagma verbal, seja como sintagma nominal, o dever-ser
o ato de vontade da autoridade que legisla e a proposição-hi- exprime sempre conceitos relacionais. Assim, para que nos
pótese não estaria conectada à proposição-tese. Daí por que aproximemos mais desse operador responsável pela síntese
esse operador deôntico seja chamado de neutro, visto que fundamental do próprio domínio do jurídico, sirvamo-nos no-
nunca aparece modalizado. vamente da lição do Professor Vilanova 61 :

Cumpre acrescentar, contudo, que no arcabouço norma- "Em rigor, o 'dever-ser' é expressão sintática, é uma partí-
tivo, enquanto estrutura lógica, encontraremos outro dever-ser cula operatória que se encontra na estrutura dos enunciados
expresso num dos operadores deônticos, mas inserto no con- normativos, participando na sua lei de composição interna.
sequente da norma, dentro da proposição-tese, ostentando Como partícula, carece de significação per se, não é por-si-
caráter intraproposicional e aproximando dois ou mais sujeitos, só bastante para conduzir a uma expressão completa."
em torno de uma previsão de conduta que deve ser cumprida
por um e pode ser exigida pelo outro. Este dever-ser, na con- Por isso mesmo, o que está ao nosso alcance é a regra de uso
dição de conectivo intraproposicional, triparte-se nos modais dessa expressão sintática, movendo-se na articulação interna
"proibido" (V), "permitido" (P) e "obrigatório" (0), diferente-
mente do primeiro, responsável pela implicação, e que nunca
se mbdaliza. Se chamarmos de "functor deôntico" aquele pre- 60.Lourival Vilanova, "Analítica do dever-ser", in Escritos jurídicos e filosó-
sente na proposição-tese da norma jurídica, seguindo a termi- ficos, vol. 2, cit., pp. 53-54.
nologia de Georges Kalinowski, o primeiro será "functor-de- 61.Idem, ibidem, p. 59.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

dos enunciados deônticos e, convém insistir, também no interior Enquanto isso prosperam teorias em várias direções: teorias
do enunciado que cumpre a função de apódose ou consequen- sobre os fatos jurídicos, teorias sobre as relações jurídicas,
te. Iremos examinar a proposição-tese ou consequente norma- teorias sobre as estruturas institucionais, teorias sobre o siste-
tivo, mais à frente, ocasião em que reencontraremos esse ma e sobre seus valores, teorias, enfim, acerca das categorias
functor, entreligando, como anunciamos, dois ou mais sujeitos fundamentais do fenômeno jurídico.
de direito, acerca de uma conduta tipificada pela regra.
Devo esclarecer, contudo, que a visão normativa a que me
refiro não pretende assumir caráter absoluto que a levaria,
2.8. TEORIA DA NORMA JURÍDICA certamente, ao "normativismo", entendido o termo como algo
excessivo, que se põe logo em franca competição com outros
A norma jurídica tem sido, muitas vezes, o ponto de refe- esquemas de compreensão, afastando iniciativas epistemoló-
rência para importantes construções interpretativas do direito. gicas que se dirigem aos diferentes setores de que se compõe
Torna-se difícil compreender, por isso mesmo, o papel de pou- o fenômeno. A teoria da norma de que falo há de cingir-se à
co relevo que algumas propostas cognoscentes de grande en-
manifestação do deôntico, em sua unidade monádica, no seu
vergadura lhe atribuem. Em Pontes de Miranda, por exemplo,
arcabouço lógico, mas também em sua projeção semântica e
que desenvolveu com muito cuidado temas como "o fato jurí-
em sua dimensão pragmática, examinando a norma por dentro,
dico", "a incidência", "a validade" e a "eficácia", não encontra-
num enfoque intranormativo, e por fora, numa tomada extra-
mos a estrutura completa da norma jurídica, como bem anota
normativa, norma com norma, na sua multiplicidade finita,
Lourival Vilanova 62 . Ele, Pontes, o grande dogmático, que par-
tira de um positivismo filosófico que o levou ao positivismo porém indeterminada.
jurídico-sociológico; que observou minuciosamente a tessitura Tenho por imprescindível a investigação estrutural das
relacional que a experiência com o direito oferece, aplicando- unidades do sistema, vale dizer, as normas jurídicas, nas ins-
lhe com destreza, diga-se de passagem, as categorias lógicas tâncias semióticas a que já me referi. A doutrina atual do Di-
da relação; ele mesmo que levou tão a sério o direito processu- reito Tributário vive, abertamente, esse momento histórico de
al, a ponto de chamá-lo "o ramo do direito mais rente à vida"; sua evolução: começou, tendo por núcleo de sustentação a
pois bem, o jurista alagoano, que teorizou fartamente sobre o chamada "obrigação tributária"; em seguida, ocupou-se do
material empírico que o contato com o direito proporciona, em "fato gerador"; e agora encontrou na norma jurídica a fonte de
nenhum momento se mostrou estimulado a compor uma teoria suas especulações.
da norma, preferindo falar simplesmente em "incidência da
regra de direito".
2.8.1. Ambiguidade do termo "norma jurídica"
Mas a concepção ponteana é tão só um exemplo. Mesmo
autores que dispensaram tratamento mais abrangente ao A teoria comunicacional do direito vem se irradiando,
tema das normas jurídicas não procuraram surpreendê-la, tanto na Europa, com a obra de Gregorio Robles Morchón,
ingressando, com entusiasmo, na intimidade de sua essência. quanto em outros países, como o Brasil, ainda que debaixo de
diversas designações, sendo o caso das "doutrinas pragmáticas"
e do "constructivismo lógico-semântico". Tratar o direito como
62. "A teoria do direito em Pontes de Miranda", in Escritos jurídicos e filosó- algo que necessariamente se manifesta em linguagem prescri-
ficos, vol. 1, op. cit., p. 410. tiva, inserido numa realidade recortada em textos que cumprem
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

as mais diversas funções, abriu horizontes largos para o trabalho que as construções normativas exibem, logo no exame do pri-
científico, permitindo oportuna e fecunda conciliação entre as meiro instante. Mas é difícil admitir que o comando deôntico-
concepções hermenêuticas e as iniciativas de cunho analítico. jurídico deixe de revestir aquela estrutura imputativa traba-
lhada por Hans Kelsen e tão bem desenvolvida por Lourival
Por outro lado, uma série de ajustes hão de ser feitos para
encurtar as distâncias entre tais propostas. Um deles é a deli- Vilanova, como denominador comum e último reduto das co-
municações que se estabelecem entre o editor da regra e seus
mitação das proporções do chamado princípio da "homogenei-
destinatários.
dade sintática" das normas do sistema, em face da heteroge-
neidade linguística dos enunciados do direito positivo. De fato, Fixemos aqui um marco importante: quando se proclama
como nos adverte Celso Lafer, "(...) o que caracteriza o Direito o cânone da "homogeneidade sintática" das regras do direito,
Positivo, no mundo contemporâneo, é a sua contínua mudan- o campo de referência estará circunscrito às normas em sen-
ça. Daí a necessidade de conhecer, identificar e qualificar as tido estrito, vale dizer, aquelas que oferecem a mensagem ju-
normas como jurídicas pela sua forma 63 ". rídica com sentido completo (se ocorrer o fato F, instalar-se-á
a relação deôntica R entre os sujeitos S' e S"), mesmo que essa
Com efeito, a ambiguidade da expressão "normas jurídicas"
completude seja momentânea e relativa, querendo significar,
para nominar indiscriminadamente as unidades do conjunto,
apenas, que a unidade dispõe do mínimo indispensável para
não demora a provocar dúvidas semânticas que o texto discur-
transmitir uma comunicação de dever-ser. E mais, sua elabo-
sivo não consegue suplantar nos seus primeiros desdobramen-
ração é preparada com as significações dos meros enunciados
tos. E a clássica distinção entre "sentido amplo" e "sentido es-
do ordenamento, o que implica reconhecer que será tecida com
trito", conquanto favoreça a superação dos problemas introdu-
o material semântico das normas jurídicas em sentido amplo.
tórios, passa a reclamar novos esforços de teor analítico.
Penso que tais elucidações afastem, desde logo, algumas
A despeito disso, porém, interessa manter o secular modo
dificuldades atinentes à singela dicotomia "homogeneidade/ he-
de distinguir, empregando "normas jurídicas em sentido amplo"
terogeneidade", sobretudo porque a teoria comunicacional em-
para aludir aos conteúdos significativos das frases do direito
prega esses signos voltada para a organização linguística do dis-
posto, vale dizer, aos enunciados prescritivos, não enquanto
curso jurídico, ao passo que o "constructivismo lógico-semântico"
manifestações empíricas do ordenamento, mas como significa-
restringe esses nomes a planos distintos da análise semiótica.
ções que seriam construídas pelo intérprete. Ao mesmo tempo,
a composição articulada dessas significações, de tal sorte que Uma coisa são os enunciados prescritivos, isto é, usados na
produza mensagens com sentido deôntico-juridico completo, função pragmática de prescrever condutas; outras, as normas
receberia o nome de "normas jurídicas em sentido estrito". jurídicas, como significações construídas a partir dos textos po-
sitivados e estruturadas consoante a forma lógica dos juízos
Por certo que ninguém ousaria negar a diversidade de
condicionais, compostos pela associação de duas ou mais propo-
formas sintáticas e a multiplicidade dos conteúdos semânticos
sições prescritivas. É exatamente o que ensina Riccardo Guastini 64 ,
de modo peremptório: "um documento normativo (uma fonte del
diritto) è um aggregato di enunciati del discorso prescritivo".
63. Celsp Lafer, A ruptura totalitária e a reconstrução dos direitos humanos: um
diálogo com Hannah Arendt, São Paulo, Tese de concurso para provimento
de cargo de professor titular do Departamento de Filosofia e Teoria Geral
do Direito da Faculdade de Direito da USR 1988, p. 53. 64. Riccardo Guastini, Delle fonti alie norme, p. 16.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Gomes Canotilho 65 percorre o mesmo caminho epistemo- a norma como construção "a partir dos enunciados" e não
lógico, firmado, entre outros, na posição daquele jurista italia- "contida ou involucrada nos enunciados". Todavia, a expressão
no. Todavia, acaba por acolher doutrina que não me parece "o intérprete produz a norma" cai como uma luva ao sentido
rigorosa, ao conceber a possibilidade de norma sem base em que outorgamos às unidades normativas. Adverte o autor, no
enunciados prescritivos. Ao citar como exemplo o princípio do entanto, que o intérprete produz a norma na acepção de que,
procedimento justo (due process), arremata: "Este princípio não posto o enunciado pela autoridade competente, ele, intérprete,
está enunciado linguisticamente; não tem disposição, mas resul- passa a construir a regra de direito. Outra proporção semân-
tica seria a de expedir o próprio enunciado, a contar do qual
ta de várias disposições constitucionais(...)". Ora, se resulta de
será edificada a norma, tarefa do órgão indicado pelo sistema.
várias disposições constitucionais, assenta-se não em um enun-
ciado apenas, mas em vários, o que infirma o pensamento do Seja como for, o processo de interpretação não pode abrir
autor português. Sucede que as construções de sentido têm de mão das unidades enunciativas esparsas do sistema positivo,
partir da instância dos enunciados linguísticos, independente- elaborando suas significações frásicas para, somente depois,
mente do número de formulações expressas que venham a organizar as entidades normativas (sentido estrito). Principal-
servir-lhe de fundamento. Haverá, então, uma forma direta e mente porque o sentido completo das mensagens do direito
i mediata de produzir normas jurídicas; outra, indireta e me- depende da integração de enunciados que indiquem as pessoas
diata, mas sempre tomando como ponto de referência a plata- (físicas e jurídicas), suas capacidades ou competências, as ações
forma textual do direito posto. que podem ou devem praticar, tudo em determinadas condições
de espaço e de tempo. A teoria comunicacional, aliás, trata
Também Eros Grau, distinguindo "texto" de "norma", admiravelmente bem desse tema, organizando os enunciados
afirma que a atividade interpretativa é um processo intelectivo, do direito positivo (ordenamento) de tal modo que facilite as
pelo qual, partindo-se de fórmulas linguísticas contidas nos providências subsequentes da montagem comunicativa.
atos normativos (textos, enunciados, preceitos, disposições),
66
alcançamos a determinação de seu conteúdo normativo . Em
outro escrito, retrilhando a mesma idéia, aduz: 2.8.2. Estrutura lógica: análise da hipótese normativa

A derradeira síntese das articulações que se processam


"è volta al discernimento degli enunciati semantici veico-
lati daí precetti (enunciati, disposizione, testi). ['interprete
entre as duas peças daqueles juízos, postulando uma mensagem
libera la norma dal suo invólucro (il texto); in questo senso, deôntica portadora de sentido completo, pressupõe, desse
l'interprete `produce la norma'"(grifo do autor)". modo, uma proposição-antecedente, descritiva de possível
evento do mundo social, na condição de suposto normativo,
A doutrina do ilustre publicista se aproxima do ponto de i mplicando uma proposição-tese, de caráter relacional, no tó-
vista que expusemos, com a pequena diferença de que tomamos pico do consequente. A regra assume, portanto, uma feição
dual, estando as proposições implicante e implicada unidas por
um ato de vontade da autoridade que legisla. E esse ato de
vontade, de quem detém o poder jurídico de criar normas,
65.Direito constitucional e teoria da Constituição, 4a ed, Coimbra, Almedina,
2000, p1 208.
expressa-se por um dever-ser neutro, no sentido de que não
aparece modalizado nas formas "proibido", "permitido" e
66. Eros Roberto Grau, Licitação e contrato administrativo, São Paulo, Ma-
lheiros, 1995, pp. 5-6. "obrigatório". "Se o antecedente, então deve-ser o consequente".
67.Idem, La doppia destrutturazione del diritto, Milão, Edizioni Unicopli, p. 59. Assim diz toda e qualquer norma jurídico-positiva.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

A proposição antecedente funcionará como descritora de inoperante para a regulação das condutas intersubjetivas.
um evento de possível ocorrência no campo da experiência Tratar-se-ia de um sem-sentido deôntico, ainda que pudesse
social, sem que isso importe submetê-la ao critério de verifica- satisfazer a critérios de organização sintática.
ção empírica, assumindo os valores "verdadeiro" e "falso", pois
Havendo grande similitude entre as proposições tipifica-
não se trata, absolutamente, de uma proposição cognoscente
doras de classes de fatos, como é a hipótese normativa, e
do real, apenas de proposição tipificadora de um conjunto de
eventos. Nesta linha, Florence Haret 68 afirmou: aquel'outras cognoscentes do real, seus traços individualiza-
dores não se evidenciam, à primeira vista. Uma observação
"... o direito positivo se utiliza da linguagem em função fa- lógica, contudo, pode dar bem a dimensão do antecedente em
buladora, toda vez que o legislador, no momento em que face de proposições que dele se aproximem: a hipótese, como
elabora a lei, opera com signo apto a significar algo, sem a norma na sua integralidade, pressupõe-se como válida antes
que lhe seja demandado a sua verdade ou a falsidade em- mesmo que os fatos ocorram, e permanece como tal ainda que
pírica, para ser signo válido no sistema e constitutivo de os mesmos eventos (necessariamente possíveis) nunca venham
realidade jurídica".
a verificar-se no plano da realidade. Paralelamente, diante de
um enunciado declarativo ou teorético, teremos de aguardar
Faz-se oportuno lembrar que o suposto, qualificando
o teste empírico para então expedirmos juízo de valor lógico
normativamente sucessos do mundo real-social, como todos
sobre a proposição correspondente. Só depois da experiência
os demais conceitos, é seletor de propriedades, operando como
será possível dizer da verdade ou falsidade dos enunciados
redutor das complexidades dos acontecimentos recolhidos
descritivos, ressalvando-se, por certo, aqueles tautológicos e
valorativamente. Todos os conceitos, antes de mais nada, são
contraconceitos, assim como cada fato será um contrafato e os contraditórios.
cada significação uma contra-significação. Apresentam-se Anote-se que o suposto normativo não se dirige aos acon-
como seletores de propriedades, e os antecedentes normativos, tecimentos do mundo com o fim de regrá-los. Seria um inusi-
conceitos jurídicos que são, elegem aspectos determinados, tado absurdo obrigar, proibir ou permitir as ocorrências factu-
promovendo cortes no fato bruto tomado como ponto de refe- ais, pois as subespécies deônticas estarão unicamente no
rência para as consequências normativas. E essa seletividade prescritos. A hipótese guarda com a realidade uma relação
tem caráter eminentemente axiológico. semântica de cunho descritivo, mas não cognoscente, e esta é
O antecedente da norma jurídica assenta-se no modo sua dimensão denotativa ou referencial.
ontológico da possibilidade, quer dizer, os eventos da realidade Se a proposição-hipótese é descritora de fato de possível
tangível nele recolhidos terão de pertencer ao campo do pos- ocorrência no contexto social, a proposição-tese funciona
sível. Se a hipótese fizer a previsão de fato impossível, a con- como prescritora de condutas intersubjetivas. A consequência
sequência que prescreve uma relação deôntica entre dois ou mais normativa apresenta-se, invariavelmente, como uma propo-
sujeitos nunca se instalará, não podendo a regra ter eficácia sição relacional, enlaçando dois ou mais sujeitos de direito
social. Estaria comprometida no lado semântico, tornando-se
em torno de uma conduta regulada como proibida, permitida
ou obrigatória.

68. As presunções e a linguagem prescritiva do direito, in Revista de Direito O antecedente da norma, salientamos, assenta-se no modo
Tributário, vol. 97, São Paulo, Malheiros, p. 114. ontológico da possibilidade, devendo a escolha do legislador

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

recair sobre fatos de possível ocorrência no plano dos aconte- pelo passivo. O elemento prestacional fala diretamente da
cimentos sociais. Agora, quando versamos sobre o consequen- conduta, modalizada como obrigatória, proibida ou permitida.
te, outro tanto há de ser dito, porque a modalização das con- Entretanto, como o comportamento devido figura em estado
dutas interpessoais somente terá sentido dentro do quadro de determinação ou de determinabilidade, ao fazer referência
geral da possibilidade. Não faria sentido prescrever compor- à conduta terá de especificar, também, qual é seu objeto (pagar
tamento obrigatório, proibitivo ou permissivo a alguém, se o valor em dinheiro, construir um viaduto, não se estabelecer
destinatário, por força das circunstâncias, estivesse tolhido de em certo bairro com particular tipo de comércio, etc.). O ele-
praticar outras condutas. Careceria de sentido deôntico obrigar mento prestacional de toda e qualquer relação jurídica assume
alguém a ficar em uma sala, proibido de sair, se a sala estivesse relevância precisamente na caracterização da conduta que
trancada, de modo que a saída fosse impossível. Também cairia satisfaz o direito subjetivo de que está investido o sujeito ativo,
em solo estéril permitir, nessas condições, que a pessoa lá per- outorgando o caráter de certeza e segurança de que as intera-
manecesse. Ao disciplinar condutas intersubjetivas, o legislador ções sociais necessitam. É nesse ponto que os interessados vão
opera no pressuposto da possibilidade. Ali onde houver duas ou ficar sabendo qual a orientação que devem imprimir às respec-
mais condutas possíveis, existirá sentido em proibir, permitir ou tivas condutas, evitando a ilicitude e realizando os valores que
obrigar certo comportamento perante outrem. a ordem jurídica instituiu.
Para encerrar este tópico, quero dizer que a concepção
2.8.3. Estrutura lógica da norma: análise do consequente de norma que temos operado é a chamada "hilética", qual seja,
a que toma as unidades normativas, de modo semelhante às
Para a Teoria Geral do Direito, "relação jurídica" é defi- proposições, como o significado prescritivo de certas formula-
nida como o vínculo abstrato segundo o qual, por força da ções linguísticas.
imputação normativa, uma pessoa, chamada de sujeito ativo,
tem o direito subjetivo de exigir de outra, denominada sujeito "En la otra versión, denominada "concepción expresiva", lo
passivo, o cumprimento de certa prestação. Para que se ins- distintivo de una norma no reside en su aspecto semántico
taure um fato relacional, vale dizer, para que se configure o sino en el uso de un contendo proposicional, y por ello, la
enunciado pelo qual irrompe a relação jurídica, são necessários identificación de una norma supone recurrir a una análisis
dois elementos: o subjetivo e o prestacional. No primeiro, sub- pragmático del lenguaje"".
jetivo, encontramos os sujeitos de direito postos em relação:
um, no tópico de sujeito ativo, investido do direito subjetivo de E, inserindo-se na corrente hilética, o Professor Lourival
exigir certa prestação; outro, na posição passiva, cometido do Vilanova" registra bem a distinção apontada:
dever subjetivo de cumprir a conduta que corresponda à exi-
gência do sujeito pretensor. Ambos, porém, necessariamente "O uso é sempre relação pragmática. É externo ao enunciado.
sujeitos de direito. Nada altera tratar-se de pessoa física ou É relação pragmática intersubjetiva, não relação sintática na
jurídica, de direito público ou de direito privado, nacional ou
estrangeira.
69.Pablo Eugênio Navarro, La eficacia del derecho, Madrid, Centro de Es-
Ao lado do elemento subjetivo, o enunciado relacional tudios Constitucionales, 1990, p. 31.
contém uma prestação como conteúdo do direito de que é titu- 70.Lourival Vilanova, "Analítica do dever-ser", in Escritos jurídicos e filosó-
lar o sujeito ativo e, ao mesmo tempo, do dever a ser cumprido ficos, vol. 2, cit., p. 54.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

estrutura do enunciado, nem relação semântica de referên- deônticas, a despeito do modo descritivo ou informativo de que
cia denotativa com as situações que deonticamente quali- se serviu o editor da regra. Vejo nisso um expediente correto
ficam" (grifos no original). e sobremaneira útil para a devida compreensão do fenômeno
jurídico, além de oferecer instrumento apropriado e eficaz para
Todo e qualquer vínculo jurídico voltado a um objeto as elaborações descritivas da dogmática.
prestacional apresenta essa composição sintática: liame entre
pelos menos dois sujeitos de direito. Tão só pela observação do 2.8.5. O conceito de "norma completa": norma primária e norma
conteúdo semântico das relações jurídicas é que estas podem secundária
ser objeto de distinção.
As normas jurídicas têm a organização interna das propo-
sições condicionais, em que se enlaça determinada consequên-
2.8.4. Sistema jurídico como conjunto homogêneo de enunciados cia à realização de um fato. Dentro desse arcabouço, a hipótese
deônticos refere-se a um fato de possível ocorrência, enquanto o conse-
quente prescreve a relação jurídica que se vai instaurar, onde e
Kelsen sempre chamou a atenção para a circunstância de
quando acontecer o fato cogitado no suposto normativo. Redu-
que todas as normas do sistema convergem para um único zindo complexidades, podemos representar a norma jurídica da
ponto, axiomaticamente concebido para dar fundamento de seguinte forma: H ---> C, onde a hipótese (H) alude à descrição
validade à constituição positiva. Esse aspecto confere, decisi- de um fato e a consequência (C) prescreve os efeitos jurídicos
vamente, caráter unitário ao conjunto, e a multiplicidade de que o acontecimento irá provocar, razão pela qual se fala em
normas, como entidades da mesma índole, outorga-lhe o timbre descritor e prescritor, sendo o primeiro para designar o antece-
de homogeneidade. dente normativo e o segundo para indicar seu consequente.
Sabemos que o legislador emprega, muitas vezes, a lin- Mas a norma de que falamos é unidade de um sistema,
guagem informativa ou expressiva, como forma de veicular tomado aqui como conjunto de partes que entram em relação
suas mensagens. A despeito disso, entretanto, sua linguagem formando um todo unitário. O todo unitário é o sistema; as
mantém, invariavelmente, uma função diretiva ou prescritiva, partes, unidades que o compõem, configuram o repertório; e
dobrando-se para o contexto social e nele atuando para tecer a as relações entre essas partes tecem sua estrutura.
disciplina da conduta entre as pessoas. Seu discurso se organi-
As regras jurídicas não existem isoladamente, mas sempre
za em sistema e, ainda que as unidades exerçam papéis diferen- num contexto de normas com relações particulares entre si.
tes na composição interna do conjunto (normas de conduta e Atentar para a norma, na sua individualidade, em detrimento
normas de estrutura), todas elas exibem idêntica arquitetura do sistema é, na contundente metáfora de Norberto Bobbio 71 ,
formal. Há homogeneidade, mas homogeneidade sob o ângulo "considerar-se a árvore, mas não a floresta". Construir a norma
puramente sintático, uma vez que nos planos semântico e prag- aplicável é tomar os sentidos de enunciados prescritos no con-
mático o que se dá é um forte grau de heterogeneidade, único texto do sistema de que fazem parte. A norma é proposição
meio de que dispõe o legislador para cobrir a imensa e variável prescritiva decorrente do todo que é o ordenamento jurídico.
gama de situações sobre que deve incidir a regulação do direito,
na pluralidade extensiva e intensiva do real-social.
Com admitir uma só esquematização formal para todas 71. Teoria do ordenamento jurídico, Trad. Maria Celeste Cordeiro Leite dos
as normas do sistema poderemos reescrevê-las em fórmulas Santos, Brasília/São Paulo, UNB/Polis, 1991, p. 19.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Enquanto corpo de linguagem vertido sobre o setor material secundária apareceria da seguinte forma: [D(p.-q)-->Sn]. E com
das condutas intersubjetivas, o direito aparece como conjunto o desdobramento de Sn: (S'RS"), em que "p" é a ocorrência
coordenado de normas, de tal modo que uma regra jurídica do fato jurídico; ".", o conectivo conjuntor; "-q", a conduta
jamais se encontra isolada, monadicamente só: está sempre descumpridora do dever; o operador implicacional; e Sn
ligada a outras normas, integrando determinado sistema de a sanção, desdobrada em S', como sujeito ativo (o mesmo da
direito positivo. relação da norma primária; R, o relacional deôntico; e S'", o
Depende a norma, pois, desse complexo produto de rela- Estado-Juiz, perante quem se postula o exercício da coativi-
ções entre as unidades do conjunto. É produzida por um ato dade jurídica). A Teoria Geral do Direito refere-se à relação
(do Legislativo, do Executivo, do Judiciário ou mesmo do par- jurídica prevista na norma primária como de índole material,
ticular), sua fonte material. Mas, ao ingressar o enunciado enquanto a estatuída na norma secundária seria de direito
linguístico no sistema do direito posto, seu sentido experimen- formal (na acepção de processual, adjetiva).
ta inevitável acomodação às diretrizes do ordenamento. A Não seguimos a terminologia inicialmente acolhida por
norma é sempre o produto dessa transfiguração significativa. Kelsen: norma primária a que prescreve a sanção e secundária a
Na completude, as regras do direito têm feição dúplice: que estipula o dever jurídico a ser cumprido. Fico na linha de
(i) norma primária (ou endonorma, na terminologia de Cossio), pensamento de Lourival Vilanova, coincidente, aliás, com o recuo
a que prescreve um dever, se e quando acontecer o fato pre- doutrinário registrado na obra póstuma do mestre de Viena".
visto no suposto; (ii) norma secundária (ou perinorma, segun- As duas entidades que, juntas, formam a norma comple-
do Cossio), a que prescreve uma providência sancionatória, ta, expressam a mensagem deôntica-jurídica na sua integri-
aplicada pelo Estado-Juiz, no caso de descumprimento da dade constitutiva, significando a orientação da conduta,
conduta estatuída na norma primária. juntamente com a providência coercitiva que o ordenamento
Inexistem regras jurídicas sem as correspondentes san- prevê para seu descumprimento. Em representação formal:
ções, isto é, normas sancionatórias. A organização interna de D{(p-q) v [(p-4-q) S]}. Ambas são válidas no sistema, ainda
cada qual, porém, será sempre a mesma, o que permite produ- que somente uma venha a ser aplicada ao caso concreto. Por
zir-se um único estudo lógico para a análise de ambas. Tanto isso mesmo, empregamos o disjuntor includente ("v") que
na primária como na secundária, a estrutura formal é uma só suscita o trilema: uma ou outra ou ambas. A utilização desse
[D (p->q)]. Varia tão-somente o lado semântico, porque na disjuntor tem a propriedade de mostrar que as duas regras são
norma secundária o antecedente aponta, necessariamente, simultaneamente válidas, mas que a aplicação de uma exclui
para um comportamento violador de dever previsto na tese de a da outra.
norma primária, ao passo que o consequente prescreve relação
jurídica em que o sujeito ativo é o mesmo, mas agora o Estado, 2.8.6. Espécies normativas
exercitando sua função jurisdicional, passa a ocupar a posição
de sujeito passivo. Por isso, o que existe entre ambas é uma Parece-nos perfeitamente justificada e coerente a adoção
relação-de-ordem não simétrica, como agudamente pondera das qualidades "abstrato" e "concreto" ao modo como se toma
Lourival Vilanova". Apresentada em notação simbólica, a norma

73. Hans Kelsen, Teoria geral das normas, Porto Alegre, Sergio Antonio
72. As estruturas lógicas e o sistema do direito positivo, cit., p. 105. Fabris, 1986, p. 181.

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o fato descrito no antecedente. A tipificação de um conjunto um dado sistema jurídico. Observadas essas reflexões, o ante-
de fatos realiza uma previsão abstrata, ao passo que a conduta cedente das normas abstratas e gerais representará, invaria-
especificada no espaço e no tempo dá caráter concreto ao co- velmente, uma previsão hipotética, relacionando as notas que
mando normativo. Embora revista caracteres próprios, a exis- o acontecimento social há de ter, para ser considerado fato
tência do antecedente está intimamente atrelada ao consequen- jurídico. Será, portanto, um enunciado conotativo, que se com-
te, vista na pujança da unidade deôntica, que, por seu turno, põe ora de uma classe ou conjunto, enumerando os indivíduos
terá outro perfil semântico. Levando em conta tais considera- que a compõem, ora indicando as notas ou nota que o indivíduo
ções, a relação jurídica será geral ou individual, reportando-se precisa ter para pertencer à classe ou conjunto. A primeira é
o qualificativo ao quadro de seus destinatários: geral, aquela a forma tabular; a segunda, forma-de-construção. A modalidade
que se dirige a um conjunto de sujeitos indeterminados quan- em que, quase sempre, manifesta-se a proposição normativa
to ao número; individual, a que se volta a certo indivíduo ou a geral e abstrata não é a forma tabular, mas a forma-de-constru-
grupo identificado de pessoas. ção. Nela se estatuem as notas (conotação) que os sujeitos ou as
ações devem ter para pertencer ao conjunto. Em posição sub-
Pudemos relevar, outrossim, que argutos conhecedores
sequente, teremos o consequente normativo que, por seu turno,
têm se limitado à apreciação do antecedente normativo, ao
trará conduta invariavelmente determinada em termos gerais,
qualificar as normas jurídicas de gerais e individuais, abstratas voltada para um conjunto indeterminado de pessoas.
e concretas. Apesar da fecundidade de notações, a redução não
se justifica. A diferença repousa em que a compostura da nor- Agora, em abono desse matiz e considerando a feição
ma reclama atenção para o consequente: tanto pode haver dúplice de toda norma completa, depararemo-nos, no plano
indicação individualizada das pessoas envolvidas no vínculo semântico, com dois diferentes tipos gerais e abstratos: a nor-
como pode existir alusão genérica aos sujeitos da relação. Uma ma geral e abstrata primária e a norma geral e abstrata secun-
coisa é certa: é possível que o antecedente descreva fato con- dária. Na primeira, acomoda-se um enunciado que prescreve
um dever: "Se ocorrer o fato E então dever-ser a conduta Q".
creto, consumado no tempo e no espaço; com o consequente,
Na segunda, instala-se um enunciado que prescreve uma pro-
porém, será isso impossível, uma vez que a prescrição da con-
vidência sancionatória hipotética: "Se ocorrido o fato F e des-
duta devida há de ser posta, necessariamente, em termos
cumprido o dever da conduta Q, então deve-ser a relação
abstratos. Briga com a concepção jurídico-reguladora de com-
sancionatória Sn entre o sujeito do dever e o Estado-Juiz".
portamentos intersubjetivos imaginar prescrição de conduta
Ambas estruturas guardaram homogeneidade sintática, abrin-
que já se consolidou no tempo, estando, portanto, imutável.
do-se para receber apenas o plano dos conteúdos. Comprova-
Seria um sem-sentido deôntico.
se, mais uma vez, a heterogeneidade semântica invariavelmen-
Sopesadas essas premissas, poderemos classificar as nor- te presente no domínio das estruturas normativas.
mas em quatro espécies: (i) abstrata e geral; (ii) concreta e
Penso ser inevitável, porém, insistir num ponto que se me
geral; (iii) abstrata e individual; e (iv) concreta e individual.
afigura vital para a compreensão do assunto: a norma geral e
Bem, passemos a examinar uma a uma.
abstrata, para alcançar o inteiro teor de sua juridicidade, reivin-
A norma abstrata e geral adota o termo abstrato, em seu dica, incisivamente, a edição de norma individual e concreta.
antecedente, no bojo do qual preceitua enunciado hipotético Uma ordem jurídica não se realiza de modo efetivo, motivando
descritivo de um fato, e geral, em seu consequente, onde re- alterações no terreno da realidade social, sem que os comandos
pousa a regulação de conduta de todos aqueles submetidos a gerais e abstratos ganhem concreção em normas individuais.
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O fenômeno da incidência normativa opera, pois, com a individual e concreta pressupõem um ato ponente de norma,
descrição de um acontecimento do mundo físico-social, ocor- juridicizado pela competência jurídica de inserir norma no
rido em condições determinadas de espaço e de tempo, que sistema que lhe prescreve o direito positivo. Torna-se preciso,
guarda estreita consonância com os critérios estabelecidos na como pede a teoria das fontes do direito, que um veículo intro-
hipótese da norma geral e abstrata (regra-matriz de incidência). dutor (ato jurídico-administrativo do lançamento, por exemplo)
Por isso mesmo, a consequência desse enunciado será, por faça a inserção da regra no sistema. Significa dizer: unidade
motivo de necessidade deôntica, o surgimento de outro enun- normativa alguma entra no ordenamento sem outra norma que
ciado protocolar, denotativo, com a particularidade de ser re- a conduza. O preceito introduzido é a disciplina dos compor-
lacional, vale dizer, instituidor de uma relação entre dois ou tamentos inter-humanos pretendida pelo legislador, indepen-
mais sujeitos de direito. Este segundo enunciado, como sequ- dente de ser abstrata ou concreta e geral ou individual, ao
ência lógica e não cronológica, há de manter-se, também, em passo que a entidade introdutora é igualmente norma, porém
rígida conformidade ao que for estabelecido nos critérios da concreta e geral. Lembremo-nos de que a regra incumbida de
consequência da norma geral e abstrata. Em um, na norma conduzir a prescrição para dentro da ordenação positiva é de
fundamental importância para montar a hierarquia do conjun-
geral e abstrata, temos enunciado conotativo; em outro, na
to, axioma do próprio sistema jurídico.
norma individual e concreta, um enunciado denotativo. Ambos
com a prescritividade inerente à linguagem jurídica. Em sua estrutura completa de significação, a norma geral
e concreta tem como suposto ou antecedente um acontecimen-
O fato, portanto, ocorre apenas quando o acontecimento
to devidamente demarcado no espaço e no tempo, identificada
for descrito no antecedente de uma norma individual e con-
a autoridade que a expediu. Muitas vezes vêm numeradas, como
creta. O átimo de constituição, saliente-se, não pode ser con-
é o caso das leis, dos decretos, das portarias, ou referidas dire-
fundido com o momento da ocorrência a que ele se reporta, e
tamente ao número do processo, do procedimento ou da auto-
que, por seu intermédio, adquire teor de juridicidade.
ridade administrativa que lhe deu ensejo. A verdade é que a
Posto isto, pretendo deixar claro que, em notações para- hipótese dessa norma refere-se a um fato efetivamente acon-
lelas ao que se postulou em planos abstratos, a norma primária tecido. Já o consequente revela o exercício de conduta autori-
e a norma secundária, em termos individuais e concretos, zada a certo e determinado sujeito de direitos e que se preten-
apresentam ordens semânticas diversas. Prescreve, a primeira, de respeitada por todos os demais da comunidade. Nesse
o fato típico denotativo previsto no suposto do dever, identifi- sentido é geral.
cando o próprio acontecimento relatado no antecedente da
Quando faço alusão ao conteúdo do ato competencial
norma individual e concreta; e a conduta regulada, identifican- introdutor de norma, estou me referindo àquilo que a conduta
do os sujeitos da relação e seu objeto. A segunda, por sua vez, autorizada do sujeito competente da norma introdutora reali-
em seu antecedente, alude, com determinação, à ocorrência za: à norma ou às normas gerais e abstratas, gerais e concretas,
do fato típico e à conduta descumpridora do dever em termos individuais e concretas ou individuais e abstratas, inseridas no
concretos; e, em seu consequente, à própria sanção, vinculan- ordenamento por força da juridicidade da regra introdutora.
do Estado-Juiz e sujeito de dever por meio de uma relação Essas normas introduzidas são o próprio objeto da norma in-
concreta, portadora de coatividade jurídica. trodutora. Implica reconhecer que, sem tal núcleo de signifi-
Seguindo o degrau das estruturas normativas, percebe- cação, o veículo introdutor fica oco, vazio, perdendo o sentido
remos que tanto a norma geral e abstrata quanto a norma de sua existência.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Sua importância, em termos sistemáticos, aloja-se em dois ao consequente individualizado, uma vez que já se pode deter-
pontos: a) são os instrumentos apropriados para inserir regras minar os sujeitos e o objeto da relação veiculada pela consulta.
jurídicas no sistema positivo; e, além disso, b) funcionam como
Outros dois exemplos bastante férteis são a servidão de
referencial para montar a hierarquia do conjunto. Afinal de passagem e o regime especial. Ao conceder servidão de passa-
contas, temos de ser coerentes com as premissas que declara- gem em sentença, o Juiz expede uma norma individual e abs-
mos. Se o direito é tomado como conjunto de normas válidas, trata. No antecedente não indica fato determinado no tempo
num determinado território e num preciso momento do tempo e no espaço, mas uma hipótese factual que se desdobra no
histórico, tudo dentro dele serão normas, em homenagem ao tempo. Diante da análise linguística do vocábulo "passagem",
princípio epistemológico da uniformidade do objeto. Daí por perceberemos que ele nada mais é que a substantivação do
que as entidades "leis", "contratos", "atos administrativos", verbo "passar", caracterizando a inexistência do fator tempo-
"desapropriação", "matrimônio", "tributo", etc., reduzidos à ral na expressão. Para além do rigor, servidão de passagem não
expressão mais simples, assumem a condição de normas jurí- quer dizer servidão do que se passou, descartando-se com isso
dicas. E a prova está na circunstância segundo a qual a insti- a possibilidade de fato jurídico concreto. O antecedente da
tuição, a modificação e a extinção dessas figuras se operam por norma prescindirá necessariamente de uma previsão abstrata,
regras de direito. ao passo que nada ocorrerá com a norma individual e abstrata
No plano das formulações normativas, fazendo-se menção quando o beneficiário passar pelo prédio serviente, pois seu
ao conteúdo da norma geral e concreta em termos primários direito de passagem estará garantido enquanto perdurar a
ou secundários, iremos nos deparar com uma importante sec- prescritividade daquele enunciado normativo. Em seu conse-
ção semântica. Dado que a aplicação da norma secundária quente, por outro lado, encontraremos um vínculo relacional
sujeito competente como unicamente ao Estado-Juiz, esta vem no seio do qual são identificados os sujeitos de direito e de
a constituir um subconjunto dentro daquele em que se inscre- dever, bem como o objeto da relação jurídica, revelando que se
vem os sujeitos competentes da norma primária. Nesta, é su- trata de enunciado individual.
jeito de direito o Estado-legislativo, o Estado-executivo e o Tudo se dará da mesma forma com o regime especial. Há
Estado-judiciário, bem como os particulares, uma vez que há de notar-se, em determinados casos, por necessidade pragmá-
hipóteses em que a lei autoriza ao próprio particular a efetivação tica ou por objetivos sancionatórios, a autoridade administra-
da norma jurídica. O conteúdo da norma primária abrange aque- tiva, a requerimento do interessado ou de ofício, adota regime
le da norma secundária, no entanto, com maior amplitude. especial para o cumprimento das obrigações fiscais e o faz por
Por fim, depuraremos a norma individual e abstrata, me- intermédio de norma individual e abstrata. Em seu anteceden-
nos frequente no sistema que as três explicitadas acima. É te, prescreve qualquer tratamento diferenciado da regra geral,
aquela que toma o fato descrito no antecedente como uma ti- tal como a alteração das formas usuais de emissão de docu-
pificação de um conjunto de fatos; e que, no quadro de seus mentos fiscais, de escrituração, apuração e recolhimento dos
destinatários, volta-se a certo indivíduo ou a grupo identifica- tributos; e, em seu consequente, caracteriza os beneficiários
do regime, formalizando o vinculo jurídico entre a autoridade
do de pessoas. Seria o caso, por exemplo, de uma consulta
fiscal, r m que o interessado, ainda inerte, questiona ao Fisco administrativa e o sujeito de direito.
a possibilidade de determinada conduta para fins tributários. Eis, ainda que a breve trecho, um panorama do cenário
A resposta.do Fisco trará à luz uma norma individual e abstra- normativo no ordenamento jurídico. O evolver dos tempos e o
ta: justapondo o antecedente hipotético (objeto da consulta), desenvolvimento gradativo da Ciência do Direito com alicerce

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

no "constructivismo lógico-semântico" e na estrutura lógica penso, inscreve-se o esquema da regra-matriz de incidência.


da regra-matriz de incidência, tudo isso se encarregou de de- Além de oferecer ao analista um ponto de partida rigorosamen-
monstrar, pouco a pouco, a eficiência do critério subjacente a te correto, sob o ângulo formal, favorece o trabalho subsequen-
essa classificação. te de ingresso nos planos semântico e pragmático, tendo em
vista a substituição de suas variáveis lógicas pelos conteúdos
2.9. A REGRA-MATRIZ DE INCIDÊNCIA da linguagem do direito positivo.
Com efeito, o conhecimento do sistema jurídico-prescri-
A construção da regra-matriz de incidência, como instru-
tivo não pode continuar livre e descomprometido de padrões
mento metódico que organiza o texto bruto do direito positivo,
metodológicos como tem acontecido em múltiplas manifesta-
propondo a compreensão da mensagem legislada num contex-
ções de nossa doutrina. Antes de tudo, a investigação científi-
to comunicacional bem concebido e racionalmente estrutura-
ca requer método, como critério seguro para conduzir o pen-
do, é um subproduto da teoria da norma jurídica, o que signi-
samento na caminhada expositiva. Feito isso, pode o autor até
fica reconhecer tratar-se de contribuição efetiva da Teoria
Geral e da Filosofia do Direito, expandindo as fronteiras do trazer para o espaço discursivo proposições de outras áreas,
território científico. É claro que nesse percurso vai um reposi- as quais permanecerão como elementos ancilares, ao longo do
cionamento do agente do saber jurídico que assume uma cos- eixo temático, este sim, governado por uma diretriz definida
mo-visão situada, declaradamente, no âmbito do chamado e, obviamente, compatível com o fenômeno-objeto.
"giro-linguístico". De qualquer modo, o esquema da regra- Assentemos a premissa, reconhecida unanimamente no
matriz é um desdobramento aplicativo do "constructivismo seio da Filosofia do Direito, segundo a qual toda norma jurídi-
lógico-semântico" sugerido com tanta precisão na obra e no ca tem estrutura lógica de um juízo hipotético, em que o legis-
pensamento de Lourival Vilanova. E sua repercussão no direi- lador (sentido amplo) enlaça uma consequência jurídica (rela-
to tributário vem acontecendo com surpreendente intensidade.
ção deôntica entre dois ou mais sujeitos), desde que aconteci-
Somam-se, hoje, centenas de textos que empregam essa orien-
do o fato previsto no antecedente. Fala-se, por isso, em ante-
tação epistemológica para aprofundar a investigação em ma-
cedente e consequente, suposto e mandamento, hipótese e tese,
téria de tributos, certamente pelo seu vigor analítico e pela
fecundidade das notações semânticas e pragmáticas que sus- prótase e apódose, pressuposto e estatuição, descritor e pres-
cita, valendo ressaltar que têm sido auspiciosos os resultados critor. A regulação da conduta se dá com a aplicação dos modais
práticos dessa proposição elaborada, originariamente, no pla- deônticos (permitido, proibido e obrigatório), mas sempre na
no teórico. Sua utilização nos conduz àquele momento decisi- dependência do acontecimento factual previsto na hipótese.
vo em que a teoria e a prática se encontram para propiciar o Obviamente, o evento descrito no pressuposto há de situar-se
domínio da mente humana sobre o mundo circundante, parti- no campo do possível, sob pena de jamais obter-se a disciplina
cularmente, no nosso caso, a propósito das complexidades do dos comportamentos intersubjetivos. Também a conduta, mo-
fenômeno jurídico da incidência tributária. dalizada deonticamente, não pode localizar-se na região do
necessário ou do impossível, pois a norma assim construída
não chegaria a ter sentido jurídico. Resta, como é evidente, o
2.9.1. O método da regra-matriz de incidência tributária
intervalo das condutas possíveis.
Dentre os recursos epistemológicos mais úteis e operativos Muito bem. Ocupemo-nos com a hipótese ou descritor da
para a compreensão do fenômeno jurídico-tributário, segundo norma jurídica, polarizando nossa atenção nos enunciados de
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

regras que instituem tributos. O legislador formula conceitos Ht = Cm (v.c) . Ce . Ct


sobre os fatos do mundo real-social, escolhendo aqueles que onde "Ht" é a hipótese tributária, "Cm" o critério material,
ostentem signos presuntivos de riqueza econômica. Entretan- "v" o verbo, "c" o complemento, "Ce" o critério espacial,
to, dada a multiplicidade de aspectos que dizem respeito a todo "Cr o critério temporal e "." o símbolo do conjuntor.
e qualquer acontecimento, o legislador vê-se compelido a se-
lecionar caracteres, eleger traços, indicar meios de identifica- O critério material é o núcleo do conceito mencionado na
ção do fato que quer juridicizar, que aparecerá, então, como hipótese normativa. Nele há referência a um comportamento
corte ou recorte daquilo que seria o fato bruto. Pontes de Mi- de pessoas físicas ou jurídicas, condicionado por circunstâncias
randa utilizou suporte fáctico para designar o fato bruto e o de espaço e de tempo, de tal sorte que o isolamento desse cri-
fato jurídico para referir-se àquela porção demarcada pelas tério, para fins cognoscitivos, é claro, antessupõe a abstração
notas da descrição hipotética. Acrescentemos que o fato bruto, das condições de lugar e de momento estipuladas para a rea-
o suporte fáctico, é plurilateral; o fato jurídico é que é, todo ele lização do evento. Já o critério espacial é o plexo de indicações,
e exclusivamente, jurídico. mesmo tácitas e latentes, que cumprem o objetivo de assinalar
o lugar preciso em que a ação há de acontecer. O critério tem-
Prever a ocorrência de um evento é oferecer critérios
poral, por fim, oferece elementos para saber, com exatidão, em
de identificação, de tal modo que possa vir a ser reconheci-
que preciso instante ocorre o fato descrito.
do ao ensejo de sua concretização. Ajeita-se aqui a distinção
sobre que tanto insistiu Alfredo Augusto Becker, entre a Na regra-matriz de incidência tributária, vale dizer, aque-
formulação abstrata redigida pelo legislador e o fato que se la responsável pelo impacto da exação, quando reduzida à sua
verifica no mundo empírico, sempre relacionado a condições estrutura formal, no mínimo irredutível que é o ponto de con-
espaço-temporais. Para nominar-lhes, Geraldo Ataliba su- fluência das indagações lógicas, vamos encontrar o pressupos-
geriu "hipótese de incidência" e "fato imponível", mas pre- to ou antecedente representado simbolicamente da maneira
ferimos operar com "hipótese tributária" e "fato jurídico supramencionada. Sabemos, contudo, que a interpretação não
tributário", assinalando que o importante é discernir as duas se esgota no plano formal, havendo necessidade de investigar-
situações, evitando, com isso, a possível ambiguidade da mos os conteúdos de significação que a linguagem do direito
expressão fato gerador. positivo carrega e, ainda, os modos como os utentes dessa lin-
guagem empregam seus signos. O passo subsequente, então,
Retornando à linha do raciocínio inicial, descrever um
será preencher as variáveis daquela fórmula lógica com as
fato social é apresentar as notas conceptuais que elegemos
constantes do direito posto.
para transmitir sua idéia a nossos interlocutores. Significa
apontar critérios de identificação, diretrizes para seu reco- Esse preenchimento de conteúdos concretos, como era
nhecimento, toda vez que ocorra no contexto social, ainda de se esperar, ocorre por meio da enunciação dos fatos jurídicos,
que o sucesso pertença ao mundo dos objetos físicos ou na- ou seja, pela transformação dos eventos factuais em linguagem
turais. Em outras palavras, equivale a consignar o critério deôntico-jurídica. Concretizado o evento hipoteticamente des-
material (verbo + complemento), o critério espacial e o crité- crito no suposto da norma de incidência, instaura-se uma re-
rio temporal, isto é, o núcleo do acontecimento fáctico e seus lação deôntica entre dois ou mais sujeitos, tal qual prevista no
condicionantes de espaço e de tempo. Em linguagem forma- consequente ou prescritor normativo. Se a proposição-hipoté-
lizada teremos: tica opera como descritor de um fato de possível ocorrência no

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

mundo exterior, a proposição-tese funciona como prescritor instância seguinte, o isolamento da incidência como ativida-
de um vínculo abstrato, entre dois ou mais sujeitos de direito, de de feição lógica, composta pelas operações de subsunção e
mediante o qual o sujeito ativo, credor ou pretensor, terá o de implicação, não só decompõe algo que não fora estudado
direito subjetivo de exigir do sujeito passivo ou devedor o cum- com mais vagar, em outros tempos, como deixa assentado que
primento de determinada prestação (expressa em pecúnia, no o ser humano, e só ele, com seu aparato mental, autor de um
caso da obrigação tributária). ato de fala que manifesta o teor de sua vontade, poderá fazer
com que a "norma incida", aplicando a regra geral e abstrata
Adotando o pressuposto de que no universo jurídico não
às situações concretas do mundo. No contradomínio, estão os
há relação de causalidade, porém de imputabilidade, como bem
preciosos efeitos da realização do fato jurídico, isto é, o relato
o demonstrou Kelsen, podemos dizer que a hipótese implica a
em linguagem de um evento que teria ocorrido no domínio dos
tese ou consequência, do mesmo modo que o fato jurídico im-
objetos da experiência e sua implicação inexorável: o nasci-
plica a relação jurídica. Esta será sempre irreflexiva, por im-
mento da obrigação tributária.
posição da própria ontologia do direito, e dar-se-á por existen-
te quando dois sujeitos, no mínimo, se encontrarem deontica- As regras do direito juridicizam os fatos sociais (entre eles,
mente atrelados. Não é preciso que as duas pessoas, termos da os naturais que interessem de algum modo à sociedade), fa-
relação, estejam determinadas. Basta uma. É o que se passa zendo irromper relações jurídicas, no seio das quais aparecem
com a promessa de recompensa, com os títulos ao portador ou os direitos subjetivos e os deveres correlatos. Daí dizer-se que
com a declaração unilateral de vontade. a incidência da regra faz nascer o vínculo entre sujeitos de
direito, por força da imputação normativa. E a norma tributá-
Em face de tais considerações que se pode afirmar que o
ria não refoge desse quadro de atuação que é universal, valen-
prescritor da regra-matriz de incidência contém dois critérios: o
do para todo espaço e para todo o tempo histórico.
pessoal (sujeito ativo e passivo) e o quantitativo (base de cálculo
e alíquota). Nada mais é necessário para que possamos iden- Como decorrência do acontecimento do evento previsto
tificar uma obrigação tributária, espécie do gênero relação hipoteticamente na norma tributária, instala-se o fato, consti-
jurídica. Sua representação lógica poderia ser expressa com a tuído pela linguagem competente, irradiando-se o efeito jurí-
seguinte notação simbólica: Csta"Cp(sa.sp).Cq(bc.al). Em que dico próprio, qual seja o liame abstrato, mediante o qual uma
"Cst" é o consequente tributário; "Cp" é o critério pessoal; "sa" pessoa, na qualidade de sujeito ativo, ficará investida do direi-
o sujeito ativo; "sp" o sujeito passivo; "Cq" o critério quantita- to subjetivo de exigir de outra, chamada de "sujeito passivo",
tivo; "bc" a base de cálculo; "al" a alíquota; e "." novamente o o cumprimento de determinada prestação pecuniária. Empre-
conjuntor ou multiplicador lógico. gando a terminologia do Código Tributário Nacional, diríamos:
"ocorreu o 'fato gerador' (em concreto), surgindo daí a obriga-
ção tributária"; é a fenomenologia da chamada incidência dos
2.9.2. Escalonamento da incidência normativa na óptica da tributos.
teoria comunicacional
Em rigor, não é o texto normativo que incide sobre o fato
No primeiro plano, a adoção da teoria da regra-matriz social, tornando-o jurídico. É o ser humano que, buscando fun-
outorga inegável caráter de potencialização ao pensamento damento de validade em norma geral e abstrata, constrói a
do sujeito que investiga, instrumentalizando-o para explorar norma jurídica individual e concreta, na sua bimembridade
camadas mais profundas da linguagem do direito posto. Na constitutiva, empregando, para tanto, a linguagem que o sistema
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

estabelece como adequada, vale dizer, a linguagem competen- jurídica válida e vigente; por outro, a realização do evento ju-
te. Isso é o que reitera Gabriel Ivo 74 : ridicamente vertido em linguagem, que o sistema indique como
própria e adequada.
"É a aplicação, portanto, que dá o sentido da incidência.
Separar os dois momentos como se um, o da incidência, Como verificado, a mesma norma pode incidir sobre
fosse algo mecânico ou mesmo divino que nunca erra ou acontecimentos diferentes, produzindo, com isso, fatos jurídi-
falha, e o outro, o da aplicação, como algo humano, vil, su- cos distintos. Paralelamente, normas diferentes podem incidir
jeito ao erro, é inadequado. É pensar que nada precisa da sobre o mesmo suporte fáctico, engendrando também fatos
interpretação. E mais, a incidência automática e infalível juridicamente diversos. Um único fato social comparece aos
reforça a idéia de neutralidade do aplicador. Assim, a inci- olhos do jurista como dois fatos jurídicos distintos porque ob-
dência terá sempre o sentido que o homem lhe der. Melhor:
jeto da incidência de normas jurídicas diversas. Eis aí, desde
a incidência é realizada pelo homem. A norma não incide
por força própria: é incidida". logo, uma observação que me parece preciosa.

O intérprete instaura, desse modo, o fato jurídico e relata


seus efeitos prescritivos, consubstanciados no laço obrigacional
que vai atrelar os sujeitos da relação, como órgãos habilitados
para o seu exercício. E tal atividade, que consiste na expedição
de uma norma individual e concreta, somente será possível se
houver outra norma, geral e abstrata, que lhe sirva de funda-
mento de validade.
Aquilo que se convencionou chamar de "incidência" é, no
fundo, uma operação lógica entre conceitos conotativos (da
norma geral e abstrata) e conceitos denotativos (da norma
individual e concreta). É a relação entre o conceito da hipóte-
se de auferir renda (conotação) e o conceito do fato de uma
dada pessoa "A" auferir renda no tempo histórico e no espaço
do convívio social (denotação). Exatamente porque se dá entre
conceitos de extensão diversa, tal operação é conhecida como
"inclusão de um elemento" (o fato protocolarmente identifi-
cado) na classe correspondente, expressa no enunciado co-
notativo da hipótese tributária. Utiliza-se também a palavra
"subsunção" para fazer referência a esse processo do quadra-
mento do fato na ambitude da norma. Tecnicamente, interes-
sa sublinhar que a incidência requer, por um lado, a norma

74. Norma jurídica: produção e controle, cit., p. 62.

152 153
Capítulo 3
TEORIA HERMENÊUTICA

Sumário: 3.1. O movimento do "giro-linguísti-


co" e a superação dos métodos científicos
tradicionais - 3.1.1. O "giro-linguístico" e a
desconstrução da verdade absoluta - 3.1.2. O
direito como sistema comunicacional - 3.1.3. O
conteúdo semântico do vocábulo "comunicação"
- 3.1.4. - Comunicação, língua e realidade na
concepção de Vilém Flusser - 3.1.5. A construção
da realidade para o direito e o mundo da facti-
cidade jurídica. 3.2. Direito e valores - 3.2.1.
Direito na sua dimensão axiológica - 3.2.2. Ca-
racterísticas do valor. 3.3. Direito e interpreta-
ção - 3.3.1. O percurso gerador de sentido e as
estruturas sígnicas do sistema jurídico - 3.3.2.
Interpretação e semiótica do direito: texto e
contexto - 3.3.3. Interpretação e Lógica formal
do direito: o mínimo irredutível da mensagem
deôntica - 3.3.4. Reflexo do método na constru-
ção do texto - 3.3.5. Axiomas da interpretação e
os limites do exegeta - 3.3.5.1. Interdisciplinari-
dade e intertextualidade - 3.3.5.1.1. Interdisci-
plinaridade e disciplinaridade - 3.3.5.2. Inesgo-
tabilidade da interpretação - 3.3.6. As diferentes
técnicas interpretativas e o direito. 3.4. Ciência
e experiência - 3.4.1. A conversação da prática
com a teoria nos domínios do direito.

155
PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

3.1. O MOVIMENTO DO "GIRO-LINGUÍSTICO" E A mantendo-se fiel aos pontos de partida, para elaborar um sis-
SUPERAÇÃO DOS MÉTODOS CIENTÍFICOS tema descritivo consistente, dando a conhecer como se apro-
TRADICIONAIS xima, vê e recolhe o objeto da investigação. Agora, as medita-
ções que tal conhecimento venha a suscitar, em termos de re-
Mais do que mera presença de proposições descritivas de flexões ulteriores, serão matéria de outras conjecturas, tecidas
origens estranhas, a doutrina do direito tributário ostentou, pelo pensamento humano que não cessa, não se detém, porque
durante considerável espaço de tempo, a confluência de métodos a linguagem apta para falar do mundo é inesgotável.
diversos, naquela "mancebia irregular" a que se referiu Alfredo
Neste ponto, nutro uma convicção que me parece acerta-
Augusto Becker. E o resultado foi o que todos sabem: a falência,
da: a expansão dos horizontes do saber do exegeta do direito
enquanto "conhecimento multidisciplinar", da nossa velha "Ci-
positivado só será possível por meio de um método dogmático,
ência das Finanças", que ousou ter a pretensão de relatar a
restritivo do conteúdo da realidade semântica difusa, fundan-
atividade financeira do Estado sob todos os aspectos possíveis.
do este corte metodológico em premissas sólidas.
Esta seria, como foi, tentativa vã de descrever o mesmo objeto
segundo ângulos cognoscentes distintos: econômico, histórico, Nunca é demais lembrar que escrever "pensando", me-
antropológico, jurídico, ético e tantos mais, porquanto sabemos diante corpo de asserções fundadas em premissas explícitas,
que a cada Ciência cabe um, e somente um método. dista de ser um trabalho fácil. Pelo contrário, é acontecimento
Como reação, a pretexto de repudiar o que não fosse es- inusual, sobretudo em face da doutrina dominante, com seu
tritamente jurídico, a comunidade científica acabou despre- viés de tradição meramente expositiva, fincada em argumentos
zando domínios importantes para a disciplina das condutas de autoridade, como garantia, quase que exclusiva, da proce-
inter-humanas. dência dos enunciados.

Antes de caracterizar-se como singela procura da origi- De uns anos para cá, no entanto, para benefício da comu-
nalidade, em certa medida providência necessária nas elabo- nidade jurídica, com o movimento do "giro-linguístico", e,
rações da Academia, o caráter expansionista, em termos me- posteriormente, do constructivismo lógico-semântico preconi-
todológicos, é o resultado da busca de novos modelos, de outras zado pelo mestre Lourival Vilanova, verifica-se uma grande
forMas de expressão, de paradigmas diferentes dos usuais, no tendência, por parte de alguns exegetas, em se aperfeiçoar a
trato com o fenômeno do direito. Sobre a utilidade concreta Teoria Geral do Direito fazendo uso de expedientes epistemo-
dessas contribuições, como acréscimos efetivos no mundo da lógicos ricos em método, que visam a aprofundar o conheci-
experiência, só o passar do tempo poderá dizer. mento da matéria. E neste movimento, obviamente, encontra-
se envolvido também o direito tributário brasileiro.
De uma coisa, porém, estou convencido: justificam-se
plenamente sob o enfoque da pesquisa científica, da reflexão O estudo do direito tributário, no Brasil, tem exibido in-
aprofundada, da investigação intelectual conduzida no âmbito vejável sentido de verticalidade. A circunstância da farta ela-
desse padrão especulativo, de tal sorte que sua repercussão boração da matéria no altiplano da Constituição e a consciên-
prática passe a ser mera questão circunstancial que as premên- cia de que o conhecimento do direito administrativo é impres-
cias dá vida algumas vezes antecipam, outras protelam. cindível para a boa compreensão da sistemática tributária, tudo
Espera-se do cientista do direito que escolha as premissas, sustentado por uma base sólida de Teoria Geral, Lógica Jurí-
penetradas, é claro, pelos valores que compuserem sua ideologia, dica e por sadias reflexões de Filosofia do Direito, enformaram

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

uma doutrina que vem se distinguindo pela densidade e apri- de sair do âmbito do conhecimento especializado, para exami-
moramento de suas elaborações, pela seriedade da pesquisa e nar a natureza de seu trabalho, inspecionando a técnica da
pela produção de um coerente discurso científico. Óbvio que construção científica, a fim de arrumar organicamente o ma-
tais predicados não atingem a generalidade dos trabalhos, mas terial da investigação, que é o campo próprio da metodologia
é traço bem característico em número razoável de escritos jurídica.
publicados nos últimos anos.
Foi com esta preocupação em "escrever bem e pensando"
Diríamos que a primeira causa é de índole histórica, en- que o constructivismo lógico-semântico tomou força em toda
sejada pelo modo minucioso segundo o qual o constituinte comunidade científica. A busca incessante de se aperfeiçoar a
brasileiro estabeleceu o campo das possibilidades impositivas, Teoria Geral, com o objetivo de aprofundar o conhecimento da
obrigando o estudioso a ingressar no exame acurado da ordem matéria, tornou-se a base do movimento que introduziu, no
constitucional, como pressuposto indeclinável do entendimen- campo epistemológico do direito, mudanças ideológicas rele-
to das instituições tributárias. Outras causas, porém, hão de
vantes. Transportando-se este panorama para o quadro das
ser creditadas à sensibilidade de nossos pesquisadores, que inovações teóricas do movimento, breve investigação nos de-
perceberam, oportunamente, a necessidade do controle na
monstrará o enorme passo dado pela Ciência do Direito.
construção da linguagem científica no âmbito do direito, enfa-
tizando a Teoria Geral e, para o coroamento da pesquisa, esti-
mulando as meditações acerca da natureza do processo cog- 3.1.1. O "giro -linguístico" e a desconstrução da verdade absoluta
noscitivo e de suas projeções efectuais. Este último esforço,
que retroverte sobre a própria construção do discurso, encon- Atravessamos o tempo do "giro-linguístico", concepção
tra limitações, mas, ao mesmo tempo, trava contato com suas do mundo que progride, a velas pandas, quer nas declarações
virtudes e potencialidades. estridentes de seus adeptos mais fervorosos, quer no remo
surdo das construções implícitas dos autores contemporâneos.
No domínio das chamadas "Ciências Sociais", a postura
A cada dia, com o cruzamento vertiginoso das comunicações,
axiológica do ser cognoscente é pressuposta, já que, sem valor,
aquilo que fora tido como "verdade" dissolve-se num abrir e
que é o sentido específico do homem e da sua liberdade, ele
mesmo não existe como tal e não há como falar em cultura. A fechar de olhos, como se nunca tivesse existido, e emerge nova
polaridade se estabelece em termos diferentes. Há cabimento teoria para proclamar, em alto e bom som, também em nome
de enunciados de outras ciências na linguagem da dogmática, da "verdade", o novo estado de coisas que o saber científico
desde que não interfiram naquilo que conhecemos por "mode- anuncia.
lo do raciocínio da Ciência do Direito em sentido estrito". Em exemplo recentíssimo, temos Plutão, "o nono planeta",
Vale dizer, o autor pode, perfeitamente, enriquecer seu que acaba de ser inapelavelmente desqualificado pelos "avan-
discurso descritivo com orações estranhas, desde que o faça a ços" da Astronomia. Pequena substituição na camada de lin-
título de observações marginais. Torna-se possível, então, tras- guagem que outorgava àquela esfera celeste a condição de
ladar sentenças da Economia, da Ciência Política, da Sociologia, planeta foi o suficiente para desclassificá-lo, oferecendo à co-
da História, da Antropologia para ajudar no esclarecimento munidade das Ciências outro panorama do nosso sistema solar.
indicativo, para servir de contraste, de pano de fundo, jamais Mas é curioso perceber que enquanto isso, indiferente às lin-
para fundamentar o modo de ser peculiar do pensamento ju- guagens que nós produzimos sobre ele, Plutão continua cum-
rídico. Tudo isso, sem falar da necessidade que o teórico tem prindo sua trajetória, como se nada houvesse acontecido.
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Quando Nietzsche asseverou que a Ciência aspirava ao saber teorias. Em outras palavras, firmado o pressuposto da indeter-
sem ater-se a suas eventuais consequências, já antevia modifica- minabilidade da "verdade última", já que não consta haver
ções como essa, que estendem sobre nós o manto do ceticismo, tribunal credenciado para enunciá-la, isso não impediria a
porém não impedem o progresso do conhecimento e a marcha elaboração de um discurso preciso, consistente, dotado de
inexorável da pesquisa, levantando apenas novas conjecturas que força preditiva, porém com assomos de simplicidade, unifican-
proporcionam outras refutações, para lembrar Popper. do fenômenos que pareceriam desconexos à compreensão
daqueles que partissem do chamado "conhecimento vulgar".
As conquistas do "giro" fazem sentir-se em todos os qua-
drantes da existência humana. Ali onde houver o fenômeno do Pondere-se: ultrapassar o modelo que trabalha com a
conhecimento, estarão interessados, como fatores essenciais, "verdade absoluta", no âmbito da linguagem empregada em
o sujeito, o objeto e a possibilidade de o sujeito captar, ainda função descritiva, não significa prescindir dos valores "verda-
que a seu modo, a realidade desse objeto. deiro/falso". Obviamente, quem transmite uma notícia, uma
informação, o faz "em nome da verdade", sem o que não teria
Reflexões desse gênero conduziram o pensamento a uma
sentido a proposição expedida a título de mensagem. Tal reco-
desconstrução da verdade objetiva e a correspondente tomada
nhecimento, contudo, não tolhe as livres especulações de nos-
de consciência dos limites intrínsecos do ser humano, com a
sa mente a respeito do valor metafísico "verdade". Há, portan-
subsequente ruína do modelo científico representado por mé-
to, duas dimensões operativas: (i) uma, de caráter eminente-
todos aplicáveis aos múltiplos setores da experiência física e
mente lógico, que advém da necessidade imanente ao ser hu-
social. Plantado no princípio da auto-referencialidade da lin-
mano de lidar com a "verdade" e com a "falsidade" das propo-
guagem, eis a assunção do movimento do "giro-linguístico". É
sições; e (ii) outra, de índole ontológica, a concepção de "ver-
a retórica, não como singelo domínio de técnicas de persuasão,
dade" como valor filosófico.
mas, fundamentalmente, como o modelo filosófico adequado
Para a compreensão do mundo. Têm-se como não mais exis- Com estes torneios, pretendo deixar claro que a superação
tente aquele espaço excessivamente privilegiado da racionali- dos métodos científicos tradicionais pelo movimento do "giro-
dade, apoiado nos auspiciosos resultados colhidos pela Ciência, linguístico" deixou de encontrar-se tão-só no degrau do valor
tão enaltecido e reverenciado nos tempos do Iluminismo. da "verdade"; crava, da mesma forma, uma nova postura cog-
noscitiva perante o que se entende por "sujeito", por "objeto"
O abandono puro e simples da matriz convencional de e pelo próprio "conhecimento". Levando-se em conta essas
recorte cartesiano poderia resvalar para um relativismo exa- injunções para delinear os traços do movimento, após o "giro-
cerbado, representando o perigo de nos movermos em direção linguístico", passou-se a exigir o próprio conhecer da lingua-
ao anarquismo metodológico, sem perspectivas austeras para gem, condição primeira para a apreensão do objeto. Eis o re-
o projeto científico. Nada obstante, a Filosofia das Ciências sultado desta transposição de sistemas referenciais.
continua sua trajetória, cogitando de recursos compatíveis com
a produção de paradigmas novos, nos quais se estabeleçam Uma vez estabelecidas as fronteiras da nova visão cientí-
conhecimentos rigorosos, desvencilhados do referencial im- fico-filosófica, postula-se agora do intérprete muito mais que
placável da "verdade absoluta", mas habilitados a manter de concepções subjetivistas (em que se focaliza o sujeito) ou dou-
Pé o prestígio do discurso científico nos domínios do saber. trinas objetivistas (nas quais há o privilégio para o conheci-
mento do objeto). Tais cortes cognitivos causavam mudanças
É possível estruturar sistemas de objetivações que satisfaçam no modo de aproximação do intérprete tendo em vista a aqui-
aos anseios do espírito, preservando a incomensurabilidade das sição do conhecimento.
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

3.1.2. O direito como sistema comunicacional do direito posto, que são numerosos os casos de discrepância
entre a proposição prescritiva e a situação do mundo recolhida
Neste contexto, penso que nos dias atuais seja temerário como conteúdo da linguagem ordinária, utilizada no cotidiano.
tratar do jurídico sem atinar a seu meio exclusivo de manifes- A autoridade que legisla passa por alto pela conformação da
tação: a linguagem. Não toda e qualquer linguagem, mas a linguagem vivida no ambiente social, tomando o acontecimen-
verbal-escrita, em que se estabilizam as condutas intersubje- to como convém à disciplina de seus interesses regulatórios,
tivas, ganhando objetividade no universo do discurso. E o exibindo, com isso, a manifesta independência que existe entre
pressuposto do "cerco inapelável da linguagem" nos conduzi- os dois segmentos sígnicos.
rá, certamente, a uma concepção semiótica dos textos jurídicos,
em que as dimensões sintáticas ou lógicas, semânticas e prag- Claro está que dessa observação advêm consequências
máticas, funcionam como instrumentos preciosos do aprofun- fundamentais para a compreensão do fenômeno jurídico. Entre
damento cognoscitivo. elas, cabe referir: a) o discurso normativo, para reger os com-
portamentos entre pessoas, não pode ater-se, pura e simples-
Além disso, a presença de uma eficaz teoria das normas
mente, à linguagem mediante a qual aquelas condutas se efe-
abre as portas ao cientista para uma série de evoluções que o
tivam no meio social, sob pena de ficar tolhido pelos mesmos
pensamento pode organizar, na construção de sentidos ade-
quados para compreender o sistema do direito posto. fatores que o condicionam. Por isso mesmo, permite-se-lhe
tanto confirmar proposições factuais como alterá-las pela in-
Orientar as condutas inter-humanas, no sentido de pro- firmação, total ou parcialmente, ao talante do legislador, com
piciar a realização de valores caros aos sentimentos sociais, o que se constrói o plano da facticidade jurídica; b) disso de-
num determinado setor do tempo histórico, tem sido o primor-
corre uma configuração semiótica bem distinta entre os dois
dial objetivo do direito. Essa pré-ordenação de comportamen-
corpus, com suas peculiares dimensões sintáticas, semânticas
tos possíveis, no âmbito do relacionamento intersubjetivo,
e pragmáticas, nitidamente diferentes; c) e uma conclusão
porém, é apenas estimulada, instigada, provocada pelos meca-
incisiva, no sentido de que o intervalo dessa diferença é ocu-
nismos linguísticos de que se pode servir o instrumento jurí-
pado por construções em que o autor dos preceitos normativos
dico, porquanto sabemos que a linguagem, ainda que proferi-
da com a autoridade coativa dos órgãos do Poder Público, não opera com liberdade, vigiada pela Lógica Deôntica e pelos
chega a tocar materialmente os eventos e as condutas por ela imperativos do próprio sistema, é certo, mas imprescindível
regulados. O legislador, tomado aqui em seu sentido amplo, para os fins reguladores a que se destina a linguagem do direi-
tem de mexer com crenças, hábitos sociais, sentimentos e es- to positivo.
ti mativas; tem de apreender, historicamente, a marcha do so- Ora, como a demarcação do objeto é da responsabilidade
cial, para que lhe seja possível motivar os destinatários da regra do cientista, atento aos limites epistemológicos do correspon-
jurídica, induzindo-os no sentido de realizar as expectativas dente campo de investigação, nada impede que seu interesse
normativas. venha a incidir exatamente no espaço daquela diferença a que
Agora, esse poder retórico que atravessa de cima a baixo aludi linhas acima, enfrentando indagações como: até que
a mesagem legislada, e sem o qual ficará irremediavelmente ponto o editor da norma jurídica pode desprender-se das formas
comprometida a eficácia social da norma, faz com que o dis- usuais encontradas no exame do tecido social, sob o pretexto
curso jurídico-prescritivo assuma ares de autonomia com re- de disciplinar os comportamentos interpessoais? Que expe-
lação à linguagem da realidade. Verifica-se, ao percorrer textos dientes retóricos estaria ele credenciado a empregar? Como

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

funcionariam esses recursos que, no final das contas, outorgam possibilitou atingir níveis mais profundos de observação e
tal supremacia à linguagem do legislador? também desenvolver uma análise mais fina e penetrante do
As respostas dessas e outras indagações se enlaçam estri- trabalho construtivo da Ciência. Tal perspectiva sacode a cons-
tamente na escolha da concepção filosófica adotada pelo intér- ciência e mexe com as concepções convencionais que estamos
acostumados a encontrar.
prete do direito na compreensão do direito posto e na constru-
ção da facticidade jurídica. E muitas podem ser! Eis que, por O direito, no seu particularíssimo modo de existir, mani-
esse vezo metodológico apresentado acima, fica claro meu festa-se necessariamente na forma de linguagem. E linguagem
apreço pelas concepções do constructivismo lógico-semântico. é texto. Agora, a proposição segundo a qual "tudo é texto", o
chamado "cerco inapelável da linguagem", como asserção fi-
Certo é que o direito, tomado como um grande fato comu-
losófica da mais alta indagação, não nos cabe discutir neste
nicacional, é concepção relativamente recente, tendo em vista
espaço e nesta oportunidade.
a perspectiva histórica, numa análise longitudinal da realidade.
Situa-se, como não poderia deixar de ser, no marco da filosofia
da linguagem, mas pressupõe interessante combinação entre 3.1.3. O conteúdo semântico do vocábulo "comunicação"
o método analítico e a hermenêutica, fazendo avançar seu
programa de estruturação de uma nova e instigante Teoria do Partindo da premissa de que, ao interpretarmos os textos
Direito, que se ocupa das normas jurídicas enquanto mensagens jurídico-positivos, devemos buscar no discurso científico o
conteúdo semântico dos vocábulos, passarei a fazê-lo no que
produzidas pela autoridade competente e dirigidas aos inte-
tange ao termo "comunicação", objetivando explanar a con-
grantes da comunidade social. Tais mensagens vêm animadas
cepção do direito como formador de um grande processo co-
pelo tom da juridicidade, isto é, são prescritivas de condutas,
municacional. Animado por este propósito, impõe-se observar
orientando o comportamento das pessoas de tal modo que se
o significado a ele atribuído pela Semiótica, disciplina que
estabeleçam os valores presentes na consciência coletiva.
estuda os elementos pertinentes à comunicação, pois essa ma-
O direito como sistema de comunicação - cujas unidades téria, na qualidade de Teoria Geral dos Signos, estará mais
são ações comunicativas e, como tais e enquanto tais, devem autorizada a dizer, de forma precisa, que é e como funciona o
ser observadas e exploradas - impõe que qualquer iniciativa fenômeno da comunicação.
para intensificar o estudo desses fenômenos leve em conta o A palavra "comunicação", assim como a quase totalidade
conjunto, percorrendo o estudo do emitente, da mensagem, do dos termos idiomáticos conhecidos, padece do problema da
canal e do receptor, devidamente integrados no processo dia- ambiguidade. No falar quotidiano, e até mesmo em obras que
lético do acontecimento comunicacional. pretendem esclarecer o significado dos vocábulos (dicionários),
Tenho a firme convicção de que essa proposta epistemo- "comunicação" seria uma palavra utilizada em ocasiões diver-
lógica é sumamente enriquecedora, oferecendo perspectivas sas, com sentidos variados. Cientificamente, porém, a situação
valiosas para quem se aproxima do direito em atitude cognos- é outra. "Comunicação" deve ser entendida em conformidade
centy. E o testemunho vivo desse reconhecimento já está con- com a Ciência que estuda os signos, isto é, a Semiótica, aban-
signádo em numerosos escritos da dogmática brasileira, prin- donando-se os sentidos resultantes dos usos comuns.
cipalmente no campo do direito tributário. A investigação do Na acepção mais geral, o termo "comunicação" designa qual-
fenômeno jurídico, com os recursos da teoria comunicacional, quer processo de intercâmbio de uma mensagem entre um emissor
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

e um receptor". Para que isso seja possível, porém, necessária se O significado de cada um desses elementos deve ser de-
faz a coalescência de determinados componentes que, segundo li mitado: (1) emissor: é a fonte da mensagem, aquele que com-
Roman Jakobson 76 , são seis: remetente, mensagem, destinatário, porta as informações a serem transmitidas; (2) canal: é o su-
contexto, código e contato. Utilizando esses elementos para descre- porte físico necessário à transmissão da mensagem, sendo o
ver o processo da interação comunicacional, temos a seguinte si- meio pelo qual os sinais são transmitidos (é o "ar", para o caso
tuação: O remetente (1) envia uma mensagem (2) ao destinatário (3). da comunicação oral, mas pode apresentar-se em formas di-
Para ser eficaz, a mensagem requer um contexto (4) a que se refere,
versas, como faixas de frequência de rádio, luzes, sistemas
apreensível pelo destinatário, e que seja verbal ou susceptível de
mecânicos ou eletrônicos, etc.); (3) mensagem: é a informação
verbalização; um código (5) total ou parcialmente comum ao reme-
transmitida; (4) código ou repertório (comum a ambos): é o con-
tente e ao destinatário; e, finalmente, um contato (6), um canal físi-
co e uma conexão psicológica entre o remetente e o destinatário, junto de signos e regras de combinações próprias a um sistema
que os capacite a entrar e permanecer em comunicação. de sinais, conhecido e utilizado por um grupo de indivíduos
ou, em outras palavras, é o quadro das regras de formação
Umberto Eco" define o processo comunicativo como a (morfologia) e de transformação (sintaxe) de signos; (5) recep-
passagem de um sinal que parte de uma fonte, mediante um
tor: a pessoa que recebe a mensagem, o destinatário da infor-
transmissor, ao longo de um canal, até o destinatário. J. Teixei-
mação; (6) conexão psicológica: é a concentração subjetiva do
ra Coelho Netto 78 também adota semelhante definição de pro-
emissor e receptor na expedição e na recepção da mensagem;
cesso comunicacional. Segundo esse autor, u'a mensagem é
e (7) contexto: é o meio envolvente e a realidade que circuns-
elaborada pela fonte, com elementos extraídos de um determi-
crevem o fenômeno observado.
nado repertório, sendo transmitida por um canal e decodifica-
da por um receptor, que, para tanto, utilizará elementos extra- É forçoso concluir que o processo comunicativo, segundo
ídos de outro repertório, que tenha algum ponto em comum teóricos da comunicação e linguistas, consiste na transmissão, de
com o repertório da fonte. uma pessoa para outra, de informação codificada. O esquema da
Em síntese, o processo comunicacional, seja ele de que comunicação supõe, portanto, a transmissão de u'a mensagem,
espécie for, apresenta a seguinte esquematização: por meio de um canal, entre o emissor e o receptor, que possuem
em comum, ao menos parcialmente, o repertório necessário para
a decodificação da mensagem. Eis o conteúdo semântico cienti-
CONTEXTO ficamente atribuído ao vocábulo "comunicação".
emissor - canal - mensagem - código - receptor - conexão Tomando este pano de fundo, situaremos o direito como
psicológica um fato comunicacional.
Considerando que o direito existe para disciplinar os
comportamentos humanos no convívio social, o consequente
75.Gérard Durozoi e André Roussel, Dicionário de filosofia, Trad. Marinha normativo é a categoria fundamental do conhecimento jurídi-
Appenzeller, Campinas, Papirus, 1993, p. 95. co. Forma-se, invariavelmente, por uma proposição relacional,
76.Lingitistica e comunicação, São Paulo, Cultrix, 1991, p. 123. enlaçando dois ou mais sujeitos de direito em torno de uma
77.Tratado geral de semiótica, 2a ed., São Paulo, Perspectiva, 1991, p. 5. conduta regulada como proibida, permitida ou obrigatória.
78. Semiótica, informação e comunicação, 3 2 ed., São Paulo, Perspectiva, Para terem sentido e, portanto, serem devidamente compre-
1990, p. 123. endidos pelo destinatário, os comandos jurídicos devem reves-
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

tir um quantum de estrutura formal. Em simbolismo lógico, Para que haja comunicação da mensagem jurídica geral
teríamos: D[F —> (S'RS")], que se interpreta da seguinte forma: e abstrata e sua eficácia é necessário, portanto, o fenômeno da
"deve-ser que, dado o fato F, então se instale a relação jurídica incidência, que é a percussão da norma, por meio da juridici-
R, entre os sujeitos S' e S"." Apenas com esse esquema formal zação do acontecimento do mundo da experiência social, fa-
haverá possibilidade de sentido deôntico completo. Sua com- zendo propagar efeitos peculiares na disciplina das condutas
posição sintática é constante: um juízo condicional, em que se interpessoais.
associa uma consequência à realização de um acontecimento As normas jurídicas, entretanto, não incidem por força
fáctico previsto no antecedente, fazendo-o por meio implica- própria. É indispensável que seja efetuada sua aplicação, isto
cional. Eis o porquê de afirmar-se ser a norma jurídica a uni-
é, que alguém interprete a amplitude dos preceitos legais, fa-
dade irredutível de manifestação do deôntico.
zendo-os incidir no caso particular e sacando, assim, a norma
Na hierarquia do direito posto, há forte tendência de que individual e concreta. A incidência das normas jurídicas requer
as normas gerais e abstratas se concentrem nos escalões mais o homem, como elemento intercalar, movimentando as estru-
altos, surgindo as gerais e concretas, individuais e abstratas e turas do direito, construindo, a partir de normas gerais e abs-
individuais e concretas à medida que o direito vai se positivan- tratas, outras gerais e abstratas, gerais e concretas, individuais
do, com vistas à regulação das condutas interpessoais. Carac- e abstratas, ou individuais e concretas, para, com isso, imprimir
teriza-se o processo de positivação exatamente por esse avan- positividade ao sistema, até atingir o máximo de motivação das
ço em direção aos comportamentos humanos, que se dá na consciências e, dessa forma, tentar mexer na direção axiológi-
produção das mensagens normativas expedidas pelo agente ca dos comportamentos intersubjetivos. É no homem que en-
competente (emissor) por meio de linguagem escrita (canal) contramos a fonte da mensagem jurídica; é nele que se arma-
segundo os preceitos do direito positivo (código). As normas zenam as informações a serem transmitidas.
gerais e abstratas, dada sua generalidade e posta sua abstração,
não têm condições efetivas de atuar num caso materialmente Não é qualquer sujeito de direito, porém, que está habi-
definido. Ao projetar-se em direção à região das interações litado a aplicar a norma jurídica. Este aparece, já foi dito, como
sociais, desencadeiam uma continuidade de regras que progri- um grande fato comunicacional, sendo a criação normativa
dem para atingir o caso especificado. Isso demonstra a neces- confiada a órgãos credenciados pelo sistema. O sujeito produ-
sidade da especificação da mensagem ínsita ao processo co- zirá regras apenas na medida em que participe, efetivamente,
municacional do direito positivo. daquele processo, integrando o fato concreto da comunicação
jurídica. Sempre que não estiver inserido nesse processo, per-
Em suma, as normas gerais e abstratas não ferem direta-
manecendo de fora, não atuando, mas simplesmente estudan-
mente as condutas intersubjetivas para regulá-las. Exigem o
do, descrevendo, conhecendo o direito positivo, formulará, se
processo de positivação, vale dizer, reclamam a presença de
muito, propostas de normas, hipóteses sobre composição de
norma individual e concreta a fim de que a disciplina prevista
estruturas normativas. A construção dessas unidades irredu-
para a generalidade dos casos possa chegar ao sucesso efeti-
vamente ocorrido, modalizando deonticamente as condutas. A tíveis de significação do deôntico-jurídico pressupõe a inserção
mensagem do direito, neste processo jurídico-comunicacional, de enunciados prescritivos na ordenação total, revestindo todos
exige a tipificação no espaço e no tempo do comando norma- os caracteres formais exigidos pelo sistema, e isso é tarefa pri-
tivo antecedente bem como, no consequente, do indivíduo ou vativa dos órgãos, pessoas físicas ou jurídicas, para tanto ha-
do grupo identificado de pessoas. bilitadas. Somente sujeito de direito, indicado pela lei, poderá,

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

por intermédio da norma individual e concreta, recolher os constituindo-se a "realidade". Haveria, portanto, um mundo
elementos verificados no acontecimento efetivo da vida social, "aparente" caótico e um mundo "real" ordenado. O espírito
proceder à operação lógica de subsunção e expedir a norma humano avançaria da "aparência" para a "realidade". Os ins-
individual e concreta, constituindo em linguagem a relação trumentos desse avanço seriam a Filosofia, a Religião, as Ci-
jurídica. Em outras palavras, e transportadas essas reflexões ências e as Artes, métodos pelos quais o espírito tenta romper
ao campo do fato comunicacional, só será emissor da mensagem as "aparências" constituindo e propagando a "realidade".
jurídica aquele que estiver assim qualificado pelo código co-
municacional, ou seja, pelo ordenamento positivo. Gustavo Bernardo Krauser oferece interessantes e suges-
tivos aspectos da concepção de Flusser no Prefácio do livro
Resumindo. Falar em incidência normativa ou subsunção
Língua e Realidade 81 . Dele me servi para esse breve resumo.
do fato à norma, portanto, é descrever o processo comunica-
cional do direito, indicando os elementos participantes na As objeções que se têm levantado contra as idéias de
construção da mensagem legislada. Flusser são de três ordens: a) as que negam a possibilidade
do espírito em penetrar as aparências (o ceticismo); b) as que
negam a realidade, seja qual for (o niilismo); e c) as que afir-
3.1.4. Comunicação, língua e realidade na concepção de Vilém
mam a impossibilidade de articular e comunicar a penetração
Flusser
(o misticismo). Críticas epistemológicas, as primeiras; obje-
Vilém Flusser" afirmou que universo, conhecimento, ver- ções ontológicas, as segundas; e obstáculos de cunho religio-
dade e realidade são aspectos linguísticos, de tal modo que a so, as últimas.
língua é, forma, cria e propaga a realidade". Aquilo que nos Flusser, porém, combate-os com argumentos convincen-
chega pela via dos sentidos (intuição sensível), e que chamamos
tes, afirmando que o conhecimento absoluto, a realidade fun-
de "realidade", é dado bruto, que se torna real apenas no con-
damental e a verdade imediata não passam de conceitos ocos
texto da língua, única responsável pelo seu aparecimento.
e desnecessários para a construção de um cosmos. A estrutura
Assim, todas as palavras são metáforas. As ciências, como ca-
madas de linguagem, longe de serem válidas para todas as desse cosmos se identifica com a língua, lembrando que logos,
línguas, são, elas próprias, outras línguas que precisam ser a palavra, é o fundamento do mundo dos gregos pré-filosóficos;
traduzidas para as demais. O autor tcheco foi fortemente in- nama-rupa, a palavra-forma, o fundamento do mundo dos
fluenciado por Wittgenstein e por Husserl, criando seu método hindus pré-vedistas; hachem hacadoc, o nome santo, é o Deus
de análise fenomenológica da linguagem, o que lhe permitiu dos judeus. E conclui, para dizer que o evangelho tem início
captar a língua como elemento vivo, capaz de transformar o com a frase: No começo era o verbo. É preciso advertir que, para
caos dos dados imediatos, no cosmos das palavras preenchidas Flusser, o intelecto, com sua infra-estrutura, os sentidos, e sua
de sentido. superestrutura, o espírito (ou qualquer outra palavra), formam
Prosseguindo com o pensamento desse autor, o mundo é o Eu. O Eu é, portanto, uma árvore cujas raízes, os sentidos,
"aparentemente" caótico, mas, pela linguagem, pode ser ordenado, estão ancoradas no chão da realidade, cujo tronco é o intelec-
to e cumpre a função de transportar a seiva colhida pelas raízes,

79.Vilém Flusser, Língua e realidade, 2a ed., São Paulo, Annablume, 2004.


80.Idem, ibidem, p. 33. 81. Vilém Flusser, Língua e realidade, 2a ed., São Paulo, Annablume, 2004.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

transformada até a copa, o espírito, para produzir folhas, flores também pelo setor privado, este último, aliás, o mais fecundo
83
e frutos 82 . E, mais adiante , e numeroso, se bem que de menor hierarquia que as outras
fontes. São tais enunciados articulados na forma implicacional
"Ele sabe dos sentidos e dos dados brutos que colhe, mas das estruturas normativas e organizados na configuração su-
sabe deles em forma de palavras. Quando estende a mão perior de sistema; eles, repito, que são, formam, criam e propa-
para apreendê-los, transformam-se em palavras. Isto justa-
gam a realidade jurídica.
mente caracteriza o intelecto: consiste de palavras, modifi-
ca palavras, reorganiza palavras, e as transporta ao espíri- No livro Direito Tributário - Fundamentos Jurídicos da
to, o qual, possivelmente, o ultrapassa. O intelecto é, por- Incidência, procurei transmitir essa proposição afirmativa com
tanto, produto e produtor da língua, 'pensa'." as seguintes palavras: Digamos, então, que sobre essa linguagem
(a social) incide a linguagem prescritiva do direito positivo,
Curioso e sugestivo, também, é o tropo de linguagem juridicizando fatos e condutas, valoradas com o sinal positivo
utilizado por Flusser ao distinguir intelecto stricto sensu do lato da licitude e negativo da ilicitude. A partir daí, aparece o direi-
sensu 84 . Na primeira acepção, intelecto comparar-se-ia a uma to como sobrelinguagem, ou linguagem de sobrenível, cortando
tecelagem que usa palavras como fios. No sentido lato, o local a realidade social com a incisão profunda da juridicidade. Ora,
disporia de uma ante-sala na qual funcionaria uma fiação que como toda a linguagem é redutora do mundo sobre o qual incide,
transforma algodão bruto (dados dos sentidos) em fios (pala- a sobrelinguagem do direito positivo vem separar, no domínio do
vras). Acrescentando que a maioria das matérias-primas já vem
real-social, o setor juridicizado do setor não juridicizado, vem
na forma de fios. desenhar, enfim, o território da facticidade jurídica 85 .
Para não alongar o assunto, e procurando ser bem obje-
3.1.5. A construção da realidade para o direito e o mundo da tivo, quero manifestar a convicção plena de que a realidade
facticidade jurídica jurídica é constituída, em toda a sua extensão, em todos os seus
momentos e manifestações, em todas as suas instâncias orga-
O grande mérito de Flusser situa-se na força retórica de
nizacionais, pela linguagem do direito posto, entrando nessa
seus argumentos, que tiveram a virtude de demonstrar, o quan-
função configuradora tanto as normas gerais e abstratas e
to se pode fazê-lo nessa difícil região do conhecimento, que a
gerais e concretas como as individuais e abstratas e as indivi-
língua é, forma, cria e propaga a realidade. Pois então, o terri-
tório das condutas intersubjetivas, campo de eleição do direito, duais e concretas, as quais decompostas, exibem a multiplici-
sendo, como de fato pensamos ser, a realidade jurídica por dade imensa dos enunciados jurídico-prescritivos.
excelência, é construído pela linguagem do direito positivo,
tomado aqui na sua mais ampla significação, quer dizer, o con- 3.2. DIREITO E VALORES
junto dos enunciados prescritivos emitidos pelo Poder Legis-
lativo, pelo Poder Judiciário, pelo Poder Administrativo e Examinamos, no capítulo anterior, a figura dos objetos
culturais, como sínteses do ser e do dever-ser. Ao construir tais

82.Língua e realidade, cit., p. 46.


83.Idem, ibidem, p. 47. 85.Paulo de Barros Carvalho, Direito tributário: Fundamentos jurídicos da
84.Idem, ibidem, p. 40. incidência, 5a ed., Saraiva, São Paulo, p. 13.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

objetos, o ser humano pretende alcançar um fim, que, na ex- aprova o comportamento prescrito, ou mesmo o tem por ne-
pressão de Miguel Reale 86 , nada mais é do que um valor toma- cessário para o convívio social. Caso o functor escolhido seja o
do enquanto razão de ser da conduta. Naquele momento, fiz "proibido", fica nítida a desaprovação social da conduta, ma-
notar que o direito preenche, na integridade, os requisitos nifestando-se inequívoco valor negativo. Vê-se que o valor está
próprios aos objetos culturais, cujo ato gnosiológico adequado na raiz mesma do dever-ser, isto é, na sua configuração lógico-
é a compreensão. Pois bem. Parece-me imprescindível analisar, formal.
agora, a projeção axiológica do direito, tendo em vista a apro- Foi Rudolf Hermann Lotze, um dos grandes metafísicos
ximação que pretendemos estabelecer. alemães e dos mais representativos pensadores do seu século,
que introduziu a categoria valor na problemática da filosofia
3.2.1. Direito na sua dimensão axiológica moderna. Haveria uma ordem dos valores distinta da ordem
do ser, como o mundo das validades irreais, de uma objetivi-
Não é exagero referir que o dado valorativo está presente dade puramente espiritual. Newton Sucupira 87 apresenta al-
em toda configuração do jurídico, desde seus aspectos formais guns princípios gerais que norteavam a teoria de Lotze e que
(lógicos), como nos planos semântico e pragmático. Em outras se encontram na filosofia dos valores do neokantismo de Baden
palavras, ali onde houver direito, haverá, certamente, o ele- e em outros filósofos: 1) os valores repousam sobre validades
mento axiológico. A demonstração deste asserto não é difícil e irreais; 2) constituem campo autônomo junto e sobre o ser
pode ser feita com singelas lembranças das manifestações ju- concreto; 3) o valor é sempre uma relação ligada a um sujeito;
rídicas, em pontos diversos da existência desse fenômeno. Vou 4) não é atividade puramente teorética, mas uma faculdade
tecer algumas considerações, a título de exemplo, pois o exem- prática que nos conduz à apreensão do valor.
plo sempre foi ponto de apoio fundamental, importantíssimo
Como referiu Tercio Sampaio Ferraz Jr.", valores são
para a absorção e fixação do conhecimento.
preferências por núcleos de significação, ou melhor, são centros
Ao escolher, na multiplicidade intensiva e extensiva do significativos que expressam preferibilidade por certos conte-
real-social, quais os acontecimentos que serão postos na con- údos de expectativa. Podemos dizer que é a não-indiferença
dição de antecedente de normas tributárias, o legislador exer- de alguma coisa relativamente a um sujeito ou a uma consci-
ce uma preferência: recolhe um, deixando todos os demais. ência motivada. É uma relação entre o sujeito dotado de uma
Nesse instante, sem dúvida, emite um juízo de valor, de tal necessidade qualquer e um objeto ou algo que possua qualida-
sorte que a mera presença de um enunciado sobre condutas de ou possibilidade real de satisfazê-lo. Valor é um vínculo que
humanas em interferência subjetiva, figurando na hipótese da se institui entre o agente do conhecimento e o objeto, tal que
regra jurídica, já significa o exercício da função axiológica de o sujeito, movido por uma necessidade, não se comporta com
quem legisla. Outro tanto se diga no que atina ao modo de indiferença, atribuindo-lhe qualidades positivas ou negativas.
regular a conduta entre os sujeitos postos em relação deôntica. Luiz Fernando Coelho" salienta a quase unanimidade das
As possibilidades são três, e somente três: obrigatória, permi-
tida ou proibida. Os modais "obrigatório" e "permitido" trazem
a marca de um valor positivo, porque revelam que a sociedade 87. Tobias Barreto e a filosofia alemã, Rio de Janeiro, Gama Filho, 2001, pp.
149-150.
88.Introdução ao estudo do direito, cit., p. 111.
86. Introdução à filosofia, 3a ed., São Paulo, Saraiva, 1994, p. 145. 89.Aulas de introdução ao direito, São Paulo, Manole, 2004, p. 15.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

opiniões no sentido de que os valores não têm expressão ônti- como equivalente nominal de "avaliação ideológica", e, neste
ca, isto é, eles não são, não consistem em algo, mas valem, e só sentido, funciona como fator que gera equilíbrio, calibrando
se pode predicar sua existência como algo aderente ao ser e as diversas instâncias do ordenamento normativo.
não como alguma coisa que tenha um ser. Haveria uma depen-
Sobre a temática dos valores, além dos trabalhos especí-
dência ontológica dos valores com relação ao ser.
ficos de Johannes Hessen, Max Scheler, Nicolai Hartmann e
Registre-se, entretanto, que essa forte inclinação das Miguel Reale, vale a pena consultar outros autores, como Hein-
opiniões filosóficas para o niilismo dos valores recebe o impac- rich Rickert, Wilhelm Windelband e Emil Lask.
to da noção fenomenológica de objeto como correlato intencio-
nal da consciência cognitiva. Isso permite que os valores sejam
objetivamente pensados como ser-em-si. Podemos, então, fo-
3.2.2. Características do valor
calizar a justiça como dado supremo para o direito, a igualda-
Miguel Reale", desvinculando os valores dos objetos ide-
de, a segurança, a boa fé e assim por diante.
ais, logrou dar status autônomo à Axiologia ou Teoria dos Va-
Não é excessivo, porém, falar na inexistência, propria- lores. Consoante as lições do jusfilósofo, seguindo a trilha de
mente dita, dos valores. Seu existir consistiria apenas no ato Hessen, há traços que assinalam a presença de valores, permi-
psicológico de valorar, segundo o qual, atribuímos a objetos, tindo identificá-los em contraste com entidades próximas. São
aqui considerados em toda a sua plenitude semântica, quali- eles: a) a bipolaridade, apenas possível entre os objetos meta-
dades positivas ou negativas. E o que nos dá acesso ao reino físicos e culturais, que é marca obrigatória dos valores. Onde
dos valores é a intuição emocional, não a sensível nem a intelec- houver valor, haverá, como contraponto, o desvalor, de tal modo
tual. Tomados, porém, isoladamente, tais atributos assumiriam que os valores positivos e negativos implicam-se mutuamente,
a feição de objetos metafísicos: a justiça em si, a beleza em si, daí b) a implicação recíproca. A terceira nota c) é a necessida-
etc. Enfim, os valores não são, mas valem. Dito de outra manei- de de sentido ou referibilidade, querendo significar que o valor
ra, os valores seriam aquelas entidades cujo modo específico de importa sempre uma tomada de posição do ser humano peran-
ser é o valer. Eles são na medida em que valem. Por outro lado, te alguma coisa, a que está referido. Além disso, as estimativas
as ideologias constituem prismas, critérios de avaliação de va- são d) entidades vetoriais, apontando para uma direção deter-
lores. Como pondera Tercio, são valores que filtram outros va- minada, para um fim, e denunciando, com isso, preferibilidade.
lores. A ideologia vai se formando com a consolidação de valo- Por outro lado, e) não sendo passíveis de medição, os valores
res em posições de preeminência, de tal modo que definida a são incomensuráveis, mas f) apresentam forte tendência à
composição desse bloco axiológico, passa ele a submeter outros graduação hierárquica, o que exprime a inclinação de se aco-
valores que pretendam ingressar no sistema de estimativas do modarem em ordem escalonada, quando se encontram em
indivíduo, selecionando-os em função de sua compatibilidade relações mútuas, tomando como referência o mesmo sujeito
com aquela camada que fundamenta a estrutura. É a experiên- axiológico. O fato de não poderem ser mensurados mostra a
cia de vida de cada um que vai, paulatinamente, tecendo a con- flagrante incompatibilidade entre o reconhecimento das esti-
figuração desse esquema seletor, em organizações que podem mativas e sua medição, seja qual for o padrão adotado. Entenda-
ser categorizadas e reconhecidas por aspectos peculiares, so- se por incomensurabilidade, portanto, o sem-sentido semântico
mente seus. Daí a proposição afirmativa segundo a qual a valo-
ração ideológica tem por objeto imediato os próprios valores.
Aliás, utiliza-se com muita propriedade o termo "ideologia" 90. Introdução à filosofia, cit., p. 141.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

que representaria estabelecer proporções de medida aos valo- entre o agente do conhecimento e o objeto, tal que o sujeito,
res. Além das características lembradas, g) os valores requerem movido por uma necessidade, não se comporta com indiferen-
sempre objetos da experiência para neles assumir objetividade. ça, atribuindo-lhe qualidades positivas ou negativas.
Não se revelam sem algo que os suporte e sem uma ou mais
Bem se vê que o deparar com valores leva o intérprete,
consciências às quais se refiram. A objetividade é consequên-
necessariamente, a esse mundo de subjetividades, até porque
cia da particular condição ontológica dos valores. Se eles se
eles se entrelaçam formando redes cada vez mais complexas,
configuram como qualidades aderentes, que os seres humanos
que dificultam a percepção da hierarquia e tornam a análise
predicam dos objetos (reais e ideais), hão de requerer, invaria-
uma função das ideologias dos sujeitos cognoscentes.
velmente, a presença desses mesmos objetos. Chamamos, aqui,
de "objetividade" a esse atributo intrínseco a todos os valores, Em relação sucinta, para que possamos reter na memória
a despeito de sua verificação cognoscitiva processar-se mais essas informações sintáticas sobre valores, eis o rol dos dez
emocional do que racionalmente. elementos mencionados, sem que a ordem signifique predo-
minância de uns em face de outros.
Ainda sobre a composição lógica dos valores, é preciso
dizer que h) eles vão sendo construídos na evolução do proces- a) Bipolaridade.
so histórico e social, o que lhes dá o timbre de historicidade.
b) Implicação recíproca.
Com efeito, os valores não caem do céu, mas vão sendo depo-
sitados, gradativamente, ao longo da trajetória existencial dos c) Referibilidade.
homens. O elemento da historicidade nos valores significa, d) Preferibilidade.
portanto, que eles não aparecem do nada, de um momento para
outro, tratando-se de uma particularidade importante que e) Incomensurabilidade.
integra sua estrutura lógica. Outro, porém, é i) a inexauribili- f) Tendência à graduação hierárquica.
dade, exibindo, a cada passo, que os valores sempre excedem
os bens em que se objetivam. Mesmo que o belo seja insisten- g) Objetividade.
temente atribuído a uma obra de arte, sobrará esse valor esté- h) Historicidade.
tico para muitos outros objetos do mundo. Tal transcendência
i) Inexauribilidade.
é própria às estimativas, de modo que o bem em que o valor se
manifesta não consegue contê-lo, aprisioná-lo, evitando sua j) Atributividade.
expansão para os múltiplos setores da vida social.
Como derradeira marca na configuração sintática ou ló- 3.3. DIREITO E INTERPRETAÇÃO
gica dos valores, convém mencionar a j) atributividade, aspec-
to relevantíssimo que enaltece o ato de valoração, deixando Desde os idos do "constructivismo lógico-semântico" ou,
acesa a lembrança de que os valores são preferências por nú- simplesmente, "constructivismo lógico", a relevância da aná-
cleos de significação ou centros significativos que expressam lise epistemológica é algo imprescindível na elaboração cien-
uma preferibilidade por certos conteúdos de expectativa, como tífica. Os leitores, de um modo geral, sabem identificar o tra-
já fico iu dito linhas acima. Ao mesmo tempo, acentua o caráter balho desenvolvido com método, seguindo um roteiro prede-
de não indiferença de um sujeito ou de uma consciência moti- terminado, para distingui-lo daquel'outro, meramente infor-
vada, em face de algo que esteja à sua frente. É uma relação mativo, voltado apenas ao fim de informar ou de transmitir a

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

notícia. Quem lê ou quem ouve o discurso, mesmo não poden- o direito positivo se apresenta aos nossos olhos como objeto
do justificar sua impressão, percebe quando a mensagem vem cultural por excelência, plasmado numa linguagem que porta,
impregnada de certas reflexões que lhe dão gravidade e senti- necessariamente, conteúdos axiológicos. Agora, esse oferecer-
do de aprofundamento. se em linguagem significa dizer que aparece na amplitude de
um texto, fincado este num determinado corpus que nos permi-
De outra parte, o direito posto, na sua continuidade nor-
te construir o discurso, utilizada aqui a palavra na acepção de
mativa, oferece flagrante heterogeneidade de conteúdos, vista
plano de conteúdo, a ser percorrido no processo gerativo de
sua pretensão de regular as condutas intersubjetivas no con-
sentido. Surgirá o texto quando promovermos a união do plano
texto social. Daí a divisão, de cunho puramente metodológico, de conteúdo ao plano de expressão, vale dizer, quando se mani-
entre os vários ramos do sistema jurídico, providência estraté-
festar um empírico objetivado, que é o plano expressional.
gica do sujeito do conhecimento para poder aproximar-se do
objeto que pretende conhecer. A proposta que se contém neste subcapítulo levanta-se
igualmente sobre alguns pressupostos, como não poderia ser
A todo o instante, porém, instado pelas dificuldades da diferente, e procura instrumentos adequados para a exploração,
interpretação, envolvido com toda a sorte de peculiaridades em níveis mais profundos, dos textos do direito positivado,
desse ente cultural que é o direito, o exegeta vê-se na contin- decompondo-os em quatro subsistemas, todos eles qualificados
gência de lançar um olhar retrospectivo, recuperando o espa- como jurídicos. As mencionadas incisões, como é óbvio, são de
ço das noções fundamentais, ali onde estão depositados os caráter meramente epistemológico, não podendo ser vistas as
conceitos básicos de sua Ciência. Ei-lo de volta à Teoria Geral fronteiras dos subsistemas no trato superficial com a literali-
do Direito; ei-lo refletindo sobre o conhecimento jurídico, numa dade dos textos.
posição de filósofo do seu saber, para regressar com toda a
força, dando sustentação a suas teses no domínio das dogmá-
ticas. E nesta tarefa cognoscitiva, elaboraremos os cortes me- 3.3.1. O percurso gerador de sentido e as estruturas sígnicas
todológicos que a matéria exige. do sistema jurídico
Já observamos que, dentre os muitos traços que lhe são Um dos alicerces que suportam esta construção reside no
peculiares, o direito oferece o dado da linguagem como seu discernir entre enunciados e normas jurídicas, com os diferen-
integrante constitutivo. A linguagem não só fala do objeto (Ci- tes campos de irradiação semântica a que já aludimos. Se bem
ência do Direito), como participa de sua constituição (direito que ambas as entidades se revistam de caráter conativo ou
positivo). Se é verdade que não há fenômeno jurídico sem directivo, pois, mais que as outras, a função da linguagem
prescrições escritas ou não escritas; também é certo que não apropriada à regulação das condutas intersubjetivas é verda-
podemos cogitar de manifestação do direito sem uma lingua- deiramente a prescritiva, os primeiros (os enunciados) se
gem, idiomática ou não, que lhe sirva de veículo de expressão. apresentam como frases, digamos assim, soltas, como estrutu-
Mantenho presente a concepção pela qual interpretar é atribuir ras atômicas, plenas de sentido, uma vez que a expressão sem
valores aos símbolos, isto é, adjudicar-lhes significações e, por sentido não pode aspirar à dignidade de enunciado. Entretan-
meio dessas, referências a objetos. to, sem encerrar uma unidade completa de significação deôn-
'(lenho assinalando, também, que a linguagem, típica re- tica, na medida em que permanecem na expectativa de juntar-
alização do espírito humano, é sempre um objeto da cultura e, se a outras unidades da mesma índole. Com efeito, terão que
como tal, carrega consigo valores. Como decorrência imediata, conjugar-se a outros enunciados, consoante específica estru-

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

tura lógico-molecular, para formar normas jurídicas, estas sim, partir do enunciado expresso da Federação, combinado com o
expressões completas de significação deôntico-jurídica. Por da autonomia dos Municípios); o princípio da supremacia do
certo que também as normas ou regras do direto posto, en- interesse público ao do particular (reconhecido pela leitura aten-
quanto manifestações mínimas e, portanto, irredutíveis do ta dos enunciados explícitos, relativos à disciplina da atividade
conjunto, permanecerão à espera de outras unidades da mes- administrativa do Estado).
ma espécie, para a composição do sistema jurídico-normativo.
Seguindo esta construção exegética e partindo da premis-
Entretanto, são elas as unidades desse domínio, do mesmo
sa da unicidade do texto jurídico-positivo que se pode alcançar
modo que os enunciados também o são no conjunto próprio,
os quatro subsistemas pelos quais se locomovem obrigatoria-
que é o sistema de enunciados jurídico-prescritivos.
mente todos aqueles que se dispõem a conhecer o sistema ju
Aproveito para inserir, aqui, pequena digressão. Tenho rídico normativo: a) o conjunto de enunciados, tomados no
insistido na tese de que normas são as significações construídas plano da expressão; b) o conjunto de conteúdos de significação
a partir dos suportes físicos dos enunciados prescritivos. No dos enunciados prescritivos; c) o domínio articulado de signi-
sentido amplo, a cada enunciado corresponderá uma signifi- ficações normativas; e d) os vínculos de coordenação e de su-
cação, mesmo porque não seria gramaticalmente correto falar- bordinação que se estabelecem entre as regras jurídicas.
se em enunciado (nem frase) sem o sentido que a ele atribuímos.
Penso que seja suficiente mencionar "suporte físico de enun- Há que se tomar nota que o comportamento de quem
ciado prescritivo" para referir-me à fórmula digital, ao texto pretende interpretar o direito para conhecê-lo deve ser orien-
no seu âmbito estreito, à base material gravada no documento tado pela busca incessante da compreensão desses textos
legislado. As normas são da ordem das significações. Em sen- prescritivos. Ora, como todo texto tem um plano de expressão,
tido amplo, quaisquer significações. Porém, em acepção res- de natureza material, e um plano de conteúdo, por onde in-
trita, aquelas que se articularem na forma lógica dos juízos gressa a subjetividade do agente para compor as significações
hipotético-condicionais: Se ocorrer o fato F, instalar-se-á a da mensagem, é pelo primeiro, vale dizer, a partir do contato
relação R entre dois ou mais sujeitos de direito (S' e S"). Rei- com a literalidade textual, com o plano dos significantes ou com
tero a terminologia para facilitar as comparações e os paralelos o chamado plano da expressão, como algo objetivado, isto é,
que ordinariamente o leitor estabelece cada vez que lhe acode posto intersubjetivamente, ali onde estão as estruturas morfo-
à mente o ponto de vista de outros autores. Distinções como lógicas e gramaticais, que o intérprete inicia o processo de
esta, se formuladas com clareza, alimentam a possibilidade interpretação, propriamente dito, passando a construir os
criativa de quem reflete, sugerindo idéias que aprofundam a conteúdos significativos dos vários enunciados ou frases pres-
busca intelectual e enriquecem o pensamento. critivas para, enfim, ordená-los na forma estrutural de normas
São exemplos de enunciados expressos: homens e mulheres jurídicas, articulando essas entidades para construir um domí-
são iguais em direitos e obrigações, nos termos desta Constituição nio. Se retivermos a observação de que o direito se manifesta
(art. 5 2 , inciso I, da CR); Brasília é a Capital Federal (art. 18, § 1 2 , sempre nesses quatro planos: o das formulações literais, o de
da CR). Outros, porém, não têm forma expressa, aparecendo na suas significações enquanto enunciados prescritivos, o das
i mplicitude do texto, fundados que são em enunciados explícitos. normas jurídicas, como unidades de sentido obtidas mediante
São od implícitos, obtidos por derivação lógica dos enunciados grupamento de significações que obedecem a determinado
expressos, como, por exemplo, o da isonomia jurídica entre as esquema formal (implicação) e o dos vínculos de coordenação
pessoas políticas de direito constitucional interno (produzido a e de subordinação que se estabelecem entre as regras jurídicas
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- e se pensarmos que todo nosso empenho se dirige para es- com o complexo de significações enunciativas, unificadas em
truturar essas normas contidas num estrato de linguagem - não forma lógica determinada (estrutura implicacional) e a expres-
será difícil verificar a gama imensa de obstáculos que se levan- são literal desses enunciados, ou mesmo os conteúdos de sen-
tam no percurso gerativo de sentido ou, em termos mais sim- tido que tais enunciados apresentem, quando isoladamente
ples, na trajetória da interpretação. considerados. O plano dos significantes (plano de expressão)
A missão do exegeta dos textos jurídico-positivos, ainda é o veículo que manifesta, graficamente (no direito escrito), a
que possa parecer facilitada pela eventual coincidência da mensagem expedida pelo autor. Na sua implexa totalidade,
mensagem prescritiva com a sequência das fórmulas gráficas constitui o sistema morfológico e gramatical do direito posto,
utilizadas pelo legislador (no direito escrito), oferece ingentes conjunto de frases prescritivas introduzidas por fatos jurídicos
dificuldades se a proposta for de um exame mais sério e atila que a ordenação positiva para tanto credencia.
do. E, sendo o direito um objeto da cultura, invariavelmente
Com propósitos analíticos, entretanto, podemos isolar
penetrado por valores, teremos, de um lado, as estimativas,
frase por frase, enunciado por enunciado, compondo um do-
sempre cambiantes em função da ideologia de quem interpre-
mínio de significações, antes de agrupar os conteúdos segundo
ta; de outro, os intrincados problemas que cercam a metalin-
fórmulas moleculares caracterizadas pelo conectivo implica-
guagem, também inçada de dúvidas sintáticas e de problemas
cional. Nesse momento intermediário, estaremos diante daqui-
de ordem semântica e pragmática.
lo que poderíamos chamar de "sistema de significações propo-
Tudo isso, porém, não nos impede de declarar que conhe- sicionais". Agora, num patamar mais elevado de elaboração,
cer o direito é, em última análise, compreendê-lo, interpretá-lo, juntaremos significações, algumas no tópico de antecedente,
construindo o conteúdo, o sentido e o alcance da comunicação outras no lugar sintático de consequente, tudo para constituir
legislada. Tal empresa, contudo, nada tem de singela. Requer as entidades mínimas e irredutíveis (com o perdão do pleonas-
o envolvimento do exegeta com as proporções inteiras do todo mo) de manifestação do deôntico, com sentido completo, uma
sistemático, incursionando pelos escalões mais altos e de lá vez que as frases prescritivas, insularmente tomadas, são tam-
regressando com os vetores axiológicos ditados por juízos que bém portadoras de sentido. Formaremos, desse modo, as uni-
chamamos de "princípios". dades normativas, regras ou normas jurídicas que, articuladas
A lei, vista sob certo ângulo, representa o texto, na sua em relações de coordenação e de subordinação, acabarão com-
dimensão de veículo de prescrições jurídicas. Constituição, pondo a forma superior do sistema normativo.
emenda constitucional, lei complementar, lei delegada, lei or- Colho o ensejo para reiterar que os quatro subsistemas a
dinária, medida provisória, resoluções, decretos, sentenças,
que me refiro são constitutivos do texto, entendida a palavra
acórdãos, contratos e atos administrativos, enquanto suportes
como produto da enunciação e, portanto, na sua ampla dimen-
materiais de linguagem deôntico jurídica, pertencem à plata-
são semântica. Nunca é demais insistir que as subdivisões em
forma da expressão dos textos prescritivos e, como tais, são
sistemas respondem a cortes metódicos que os objetivos da
veículos introdutórios de normas jurídicas, constituindo a base
investigação analítica impõem ao espírito do pesquisador. Te-
empírica do conhecimento do direito posto.
nhamos presente que a norma jurídica é uma estrutura cate-
Já/a norma jurídica é juízo implicacional construído pelo gorial construída, epistemologicamente, pelo intérprete, a
intérprete em função da experiência no trato com esses supor- partir das significações que a leitura dos documentos do direito
tes comunicacionais. Por isso, não há que se confundir norma positivo desperta em seu espírito. É por isso que, quase sempre,
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não coincidem com os sentidos imediatos dos enunciados em ao mesmo tempo, para a referência aos entes significados,
que o legislador distribui a matéria no corpo físico da lei. Pro- perfazendo aquela estrutura triádica ou trilateral que é própria
vém daí que, na maioria das vezes, a leitura de um único arti- das unidades sígnicas. Nele, texto, as manifestações subjetivas
go será insuficiente para a compreensão da regra jurídica. E, ganham objetividade, tornando-se intersubjetivas. Em qual-
quando isso acontece, o exegeta se vê na contingência de con- quer sistema de signos, o esforço de decodificação tomará por
sultar outros preceitos do mesmo diploma, e até a sair dele, base o texto e o desenvolvimento hermenêutico fixará nessa
fazendo incursões pelo sistema. A proposição que dá forma à instância material todo o apoio de suas construções.
91
norma jurídica, ensina Lourival Vilanova : Na linguagem escrita, ainda que as palavras possam ser
decompostas em semas e sememas, continuam sendo as unida-
"é uma estrutura lógica. Estrutura sintático-gramatical é a des significativas e se dispõem em sequências que formam as
sentença ou oração, modo expressional frástico (de frase) da associações sintagmáticas (sintagmas verbais e nominais). As
síntese conceptual que é a norma. A norma não é a oralida-
associações paradigmáticas, fluindo num eixo de estruturas
de ou a escritura da linguagem, nem é o ato-de-querer ou
ausentes, já pertencem ao domínio do contexto porque não têm
pensar ocorrente no sujeito emitente da norma, ou no su-
natureza material. Surge logo uma distinção que há de ser
jeito receptor da norma, nem é, tampouco, a situação obje-
tiva que ela denota. A norma jurídica é uma estrutura lógi-
feita: texto no sentido estrito e texto em acepção ampla. Stric-
co-sintática de significação (...)" (os grifos são do original). to sensu, o texto se restringe ao plano dos enunciados enquan-
to suporte de significação, de caráter eminentemente físico,
expresso na sequência material do eixo sintagmático. Mas não
há texto sem contexto, pois a compreensão da mensagem pres-
3.3.2. Interpretação e semiótica do direito: texto e contexto
supõe necessariamente uma série de associações que poderí-
Tendo o signo status lógico de uma relação que se estabe- amos referir como linguísticas e extralinguísticas. Neste sen-
lece entre o suporte físico, a significação e o significado, para tido, aliás, a implicitude é constitutiva do próprio texto. Have-
utilizar a terminologia de E. Husserl, pode dizer-se que toda rá, portanto, um contexto de linguagem envolvendo imediata-
linguagem, como conjunto sígnico que é, também oferece esses mente o texto, como as associações do eixo paradigmático, e
três ângulos de análise, ou seja, compõe-se de um substrato outro, de índole extralinguística, contornando os dois primei-
material, de natureza física, que lhe sirva de suporte, uma di- ros. Desse modo, podemos mencionar o texto segundo um
mensão ideal na representação que se forma na mente dos ponto de vista interno, elegendo como foco temático a organi-
falantes (plano de significação) e o campo dos significados, vale zação que faz dele uma totalidade de sentido - operando como
dizer, dos objetos referidos pelos signos e com os quais eles objeto de significação no fato comunicacional que se dá entre
mantêm relação semântica. Nessa conformação, o texto ocupa emissor e receptor da mensagem - e outro corte metodológico
o tópico de suporte físico, base material para produzir a repre- que centraliza suas atenções no texto enquanto instrumento
sentação na consciência do homem (significação) e, também, da comunicação entre dois sujeitos, tomado agora como obje-
termo da relação semântica com os objetos significados. O to cultural e, por conseguinte, inserido no processo histórico-
texto é o ponto de partida para a formação das significações e, social, onde atuam determinadas formações ideológicas. Fala-se,
portanto, numa análise interna, recaindo sobre os procedimen-
tos e mecanismos que armam sua estrutura, e numa análise
externa, envolvendo a circunstância histórica e sociológica em
91. Lourival Vilanova, "Níveis de linguagem em Kelsen (Norma jurídica/
proposição jurídica)" in Escritos jurídicos e filosóficos, vol. 2, cit., p. 208. que o texto foi produzido.

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Ora, se tomarmos o texto na sua dimensão estritamente 3.3.3. Interpretação e Lógica formal do direito: o mínimo
material - que é, aliás, a acepção básica, como aquilo que foi irredutível da mensagem deôntica
tecido, circunscrevendo nosso interesse ao conjunto dos pro-
dutos dos atos de enunciação, o que importa ingressar na es- O direito, sabemos, é um fenômeno complexo. Um modo,
quematização estrutural em que se manifesta -, poderemos porém, de estudá-lo sem ter de enfrentar o problema de sua
compreender a razão pela qual os enunciados linguísticos não ontologia é isolar as unidades normativas. Ali onde houver
direito, haverá normas jurídicas (Kelsen). Ao que poderíamos
contêm, em si mesmos, significações. São objetos percebidos
acrescentar: e onde houver normas jurídicas haverá, certamen-
pelos nossos órgãos sensoriais que, a partir de tais percepções
te, uma linguagem em que tais normas se manifestem.
ensejam, intra- subjetivamente, as correspondentes significa-
ções. São estímulos que desencadeiam em nós produções de Aprisionando, então, a linguagem prescritiva de um di-
sentido. Vê-se, desde agora, que não é correta a proposição reito positivo historicamente dado, estaremos em condições de
segundo a qual, dos enunciados prescritivos do direito posto, iniciar o processo de aproximação com o conjunto das entida-
extraímos o conteúdo, o sentido e o alcance dos comandos des normativas, expressões irredutíveis de manifestação do
jurídicos. Impossível seria retirar conteúdos de significação de deôntico. Para esse fim será utilíssima a distinção entre texto
entidades meramente físicas. De tais enunciados partimos, isto e contexto, ou entre texto em sentido estrito e texto em sentido
sim, para a construção das significações, dos sentidos, no pro- amplo, como já podemos depreender a partir da análise do item
cesso conhecido como "interpretação". antecedente.
É preciso explicar, contudo, o significado da locução "uni-
Observando esse mesmo rigor, adverte Umberto Eco 92 :
dade irredutível de manifestação do deôntico". É que os co-
"É mister, porém, estabelecermos aqui uma diferença entre
mandos jurídicos, para terem sentido e, portanto, serem devi-
a mensagem como forma significante e a mensagem como damente compreendidos pelo destinatário, devem revestir um
sistema de significados. A mensagem como forma signifi- quantum de estrutura formal. Por certo que ninguém entende-
cante é a configuração gráfica ou acústica 'I vitelli dei ro- ria uma ordem, em todo o seu alcance, apenas com a indicação
mani sono belli', que pode subsistir mesmo se não for rece- da conduta desejada: "pague a quantia de x reais". Adviriam
bida, ou se for recebida por um japonês que não conheça o logo algumas perguntas e, no segmento das respectivas res-
código língua italiana. Ao contrário, a mensagem como postas, chegaríamos à fórmula que nos dá o sentido completo.
sistema de significados é a forma significante que o desti- Supondo identificado o sujeito que deve cumprir o comando,
natário, baseado em códigos determinados, preenche de
perguntaria este: "pagar a quem? Quando? Por quê?" Ao aten-
sentido."
der a tais indagações, iríamos perfazendo aquele mínimo irre-
dutível que possibilita a mensagem do direito.
Para os efeitos que pretendemos, importa discernir o
texto, enquanto instância material, expresso em marcas de Penso que a explicação possa também servir como fator
tinta sobre o papel ou mediante sons (fonemas), com sua na- de discernimento entre aquilo que se conhece por meras "or-
tureza eminentemente física, do plano do conteúdo, do contex- dens", "prescrições" ou "comandos" e a entidade da "norma
to, seja o linguístico, seja o extralinguístico. jurídica" ou da "regra de direito", expressões tomadas como
sinônimas, em toda a extensão deste trabalho.
Em simbolismo lógico, teríamos: D[F.-->(S' R S")], que se
92. A estrutura ausente, São Paulo, Perspectiva, 1976, p. 42. interpreta assim: deve-ser que, dado o fato F, então se instale
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a relação jurídica R, entre os sujeitos S' e S". Seja qual for a O direito, como sistema de objetivações que projeta as
ordem advinda dos enunciados prescritivos, sem esse esquema formas pretendidas para a interação social, manifesta-se inva-
formal inexistirá possibilidade de sentido deôntico completo. riavelmente pela linguagem, seja ela escrita ou não escrita,
pouco importa. Sistema de signos utilizado para a comunicação,
Ao nos aproximarmos da linguagem do direito posto, em
a linguagem jurídica assume, desde logo, a função de conteúdos
atitude gnosiológica, aceitando o isolamento das normas jurí-
prescritivos voltados para o setor específico das condutas in-
dicas como expediente que imprime uniformidade ao objeto,
tersubj etivas.
imperioso se faz um ajuste semântico da maior relevância. De
fato, o discurso produzido pelo legislador (em sentido amplo) À proposta epistemológica de isolar o dado jurídico iden-
é, todo ele, redutível a regras jurídicas, cuja composição sintá- tificando-lhe as normas, acresceu-se a verificação, até certo
tica é absolutamente constante: um juízo condicional, em que ponto tardia, de que tais entidades não teriam outro meio de
se associa uma consequência à realização de um acontecimento aparição, no contexto da realidade social, que não fosse pela
fáctico previsto no antecedente. Agora, a implicação é o conec- linguagem técnica, concebida pelo legislador para canalizar os
tivo das formações normativas, após a leitura dos enunciados comportamentos inter-humanos em direção aos valores que a
prescritivos. E enfatizo a sequência temporal exatamente para sociedade quer ver concretizados.
deixar claro que os enunciados prescritivos recebem tratamen- Travar contato com a linguagem do direito, portanto, é o
to formal ao serem acolhidos em nossa mente, que os agrupa ponto de partida, inafastável, incisivo, para o conhecimento
e dispõe na conformidade lógica daquela fórmula iterativa que das estruturas mesmas do fenômeno jurídico. Aliás, ninguém
mencionamos. Vê-se que os enunciados prescritivos ingressam, lograria construir o ato hermenêutico, oferecendo sentido ao
na estrutura sintática das normas, na condição de proposição- produto legislado, sem iniciar seu trabalho pelo plano da ex-
hipótese (antecedente) e de proposição-tese (consequente). E pressão ou da literalidade textual, suporte físico das significa-
tudo isso se dá porque firmamos a norma jurídica como unidade ções do direito. Daí a extraordinária importância da semiótica,
mínima e irredutível de significação do deôntico. Quero trans- como teoria geral dos signos de toda e qualquer linguagem,
mitir, dessa maneira, que reconheço força prescritiva às frases teoria responsável pelas radicais transformações dos costumes
isoladas dos textos positivados. Nada obstante, esse teor prescri- da comunidade jurídica, no mundo contemporâneo. Nessa linha
tivo não basta, ficando na dependência de integrações em unida- de reflexão, não seria excessivo afirmar que a teoria dos signos,
des normativas, como mínimos deônticos completos. Somente a tomando o direito positivo como sistema de objetivações, re-
norma jurídica, tomada em sua integridade constitutiva, terá o corta-o, metodologicamente - é claro - nos três planos da
condão de expressar o sentido cabal dos mandamentos da auto- análise semiótica: sintático, semântico e pragmático, atraves-
ridade que legisla. sando o discurso prescritivo de cima a baixo, num invejável
esforço de decomposição. E esse modo peculiar de investigação
está provocando sensível mudança nos paradigmas clássicos
3.3.4. Reflexo do método na construção do texto de estudo, podendo ser identificado como autêntica revolução
nos padrões científicos.
Sabe-se quão difícil é sustentar a correção do pensamento
sem fazer concessões; instaurar o processo comunicacional, pas- Fique consignado, porém, que a derivação de caminho,
sando a mensagem científica com o rigor necessário, sem provo- longe de representar mera operação de contorno, justifica-se
car os ruídos que a precisão vocabular muitas vezes suscita. plenamente. A instância da pesquisa semântica, dentre as

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outras opções de análise semiótica, é algo de grande especifi- pressupõe o trabalho penoso de enfrentar o percurso gerador
cidade, de tal sorte que o arsenal terminológico existente, na de sentido, fazendo com que o texto possa dialogar com outros
busca da precisão indispensável às rigorosas articulações de textos, no caminho da intertextualidade, onde se instala a con-
sentido, sobre ser complexo, é formado por termos que muitas versação das mensagens com outras mensagens, passadas,
vezes vêm em outro idioma, tal qual o inglês, aceito pela comu- presentes e futuras, numa trajetória sem fim, expressão da
nidade jurídica por convenção de caráter internacional. inesgotabilidade. Antes, porém, de tocar nesses dois pontos,
axiomas que são de todo e qualquer empenho interpretativo,
A título exemplificativo, estamos convictos de que nin- creio que se ajeita aqui uma advertência, que faço utilizando-
guém poderá responder à pergunta, aparentemente singela, me de um meneio de linguagem ao gosto de Rui Barbosa: o
sobre a incidência ou não de tributos como o ICMS e o ISSQN, vocábulo "interpretação" padece, como tantos outros, da am-
nos casos de serviços de acesso à "rede das redes" (internet) biguidade processo/produto, uma vez que alude à atividade de
ou de serviços prestados por seu intermédio, se não dispuser construção de sentido, por um lado, e da própria compreensão,
do domínio semântico adequado àquele aparato de signos. de outro. Relatado com signos diversos, percorrer as dificul-
Acrescente-se a tanto que a manipulação de significações rei- dades e vicissitudes do trajeto formador do sentido realiza o
vindica, necessariamente, certo nível de conhecimento de processo, ao passo que a conquista das significações da mensa-
formas operacionais, inerentes ao veículo da comunicação, vale gem textual consubstancia o produto. A distinção é importante
dizer, dos meios de produção, de armazenamento, de transmis- como dado semântico inerente à pesquisa sobre o termo.
são e de recepção de elementos sígnicos. Retorno, entretanto, aos dois pontos que suportam o tra-
Aliás, é oportuno lembrar que as alterações produzidas balho interpretativo, como axiomas da interpretação: intertex-
pelo homem no mundo circundante, por mais desenvolvidos tualidade e inesgotabilidade. Como disse, a intertextualidade
que sejam o instrumental e a técnica utilizados em determina- é formada pelo intenso diálogo que os textos mantêm entre si,
do setor, terão de apoiar-se, invariavelmente, na chamada sejam eles passados, presentes ou futuros, pouco importando
"causalidade física ou natural", isto é, no saber efetivo das as relações de dependência estabelecidas entre eles. Assim que
relações "meio/fim". Daí por que, pondo entre parênteses o inseridos no sistema, iniciam a conversação com outros conte-
údos, intra-sistêmicos e extra-sistêmicos, num denso intercâm-
dado jurídico, numa ascese provisória, ingressamos em tópicos
bio de comunicações. Normas de lei ordinária dialogando com
da teoria da comunicação, para de lá regressar com elementos
escritos constitucionais, com outras regras já revogadas, com
informativos imprescindíveis ao conhecimento da matéria.
dispositivos insertos em atos normativos infralegais, além das
Enfatiza-se, com isso, a experiência efetiva do princípio da
conversações que se instalam com mensagens advindas dos
intertextualidade, interior e exterior ao direito, sem a qual se
mais diversos setores do direito posto. Com o advento da lei
tornaria impraticável o ato de interpretação.
nova, institui-se complexa e extensa rede de comunicações
jurídicas e extrajurídicas, repito, perfazendo o universo do
3.3.5. Axiomas da interpretação e os limites do exegeta conteúdo, delimitado, unicamente, pelos horizontes de nossa
cultura. A inesgotabilidade, por sua vez, é a idéia de que toda
Reitero que interpretar o direito é conhecê-lo, atribuindo a interpretação é infinita, nunca restrita a determinado campo
valorá aos símbolos, isto é, adjudicando-lhes significações e, semântico. Daí a inferência de que todo texto poderá ser sem-
por meio dessas, fazer referência aos objetos do mundo, na pre reinterpretado. Eis as duas regras que aprisionam o ato de
linha dos ensinamentos de Lourival Vilanova. A interpretação interpretação do sujeito cognoscente.

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da intertextualidade. Simultaneamente, porém, não haveria


Segundo os padrões da moderna Ciência da Interpretação, cabimento falar-se numa interdisciplinaridade prescindindo-se
o sujeito do conhecimento não "extrai" ou "descobre" o senti- do valor individual das disciplinas postas em relação, o que
do que se achava oculto no texto. Ele o "constrói" em função significa reconhecer a bi-implicação desses conceitos.
de sua ideologia e, principalmente, dentro dos limites de seu
"mundo", vale dizer, do seu universo de linguagem. Exsurge, Consignada a ressalva, é preciso dizer que a intertextua-
com muita força, o axioma da inesgotabilidade do sentido - ao lidade no direito se apresenta em dois níveis bem característi-
lado da intertextualidade - que opera não só no território do cos: (i) o estritamente jurídico, que se estabelece entre os vários
sistema do direito posto, mas o transcende, na direção de outros ramos do ordenamento (intertextualidade, interna ou intraju-
segmentos do saber. rídica); e (ii) o chamado jurídico em acepção lata, abrangendo
todos os setores que têm o direito como objeto, mas o conside-
Os predicados da inesgotabilidade e da intertextualidade ram sob ângulo externo, vale dizer, em relação com outras
não significam ausência de limites para a tarefa interpretativa. propostas cognoscentes, assim como a Sociologia do Direito, a
A interpretação toma por base o texto: nele tem início, por ele História do Direito, a Antropologia Cultural do Direito, etc.
se conduz e, até o intercâmbio com outros discursos, instaura- (intertextualidade externa ou extrajurídica). Quanto ao "direi-
se a partir dele. Ora, o texto de que falamos é o jurídico-posi- to comparado", tanto cabe na primeira classe quanto na se-
tivo e o ingresso no plano de seu conteúdo tem de levar em gunda, dependendo da perspectiva em que se coloca o sujeito
conta as diretrizes do sistema. Em princípio, como bem salien- do conhecimento.
tou Kelsen, teríamos molduras dentro das quais múltiplas
Quando Kelsen põe acento na impossibilidade de sepa-
significações podem ser inseridas. Mas esse é apenas um pon-
rarmos até o direito público do direito privado, em termos
to de vista sobre a linguagem das normas, mais precisamente
metodológicos, proclamando a unidade do sistema de normas
aquele que privilegia o ângulo sintático ou lógico. Claro está
como imperativo da construção de uma Ciência, já se nota a
que, no processo de produção normativa, os aplicadores esta-
convicção firme de reconhecer a intertextualidade intrajurídi-
rão lidando com os materiais semânticos ocorrentes na cadeia
ca, chamando a atenção, pioneiramente, para seu caráter
de positivação, pois não teria cabimento prescindir dos conte-
axiomático. Dito de outro modo, a intertextualidade é o pro-
údos concretos, justamente aqueles que se aproximam das
cesso constitutivo, ou melhor, o procedimento elementar para
condutas interpessoais, postulando implementar os valores e
a composição do texto, que, partindo de duas ou mais materia-
as estimativas que a sociedade adota.
lidades textuais, desenha e atualiza o sentido naquela particu-
lar situação de interdiscursividade. Para José Luiz Fiorin 93 :
3.3.5.1. Interdisciplinaridade e intertextualidade "Ela é o processo da relação dialógica não somente entre duas
`posturas de sentido', mas também entre duas materialidades
As questões mais difíceis acerca do caráter disciplinar ou linguísticas."
interdisciplinar do conhecimento científico perdem substância
Ora, como a demarcação do objeto científico é apenas
diante do reconhecimento inevitável da intertextualidade.
o "corte" inicial no continuum heterogêneo da realidade
Tomado o saber da Ciência como algo que se apresenta inva-
riavélmente em linguagem, constituindo-se na forma e no
sentido de texto, não teria propósito sustentar o projeto do
93. "Interdiscursividade e intertextualidade", in Bakhtin: outros conceitos-
isolamento disciplinar sem ferir de maneira frontal o axioma chave. Beth Brait (org.), São Paulo, Contexto, 2006, p. 184.

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circundante, para propiciar o descontinuum homogêneo de de depuração de idéias seletivamente ordenadas. Não acredi-
cada Ciência em particular (Rickert), dentro deste último, to ser possível, por isso mesmo, isolar-se, dentro do social, o
muitos outros cortes e recortes podem ser traçados, dependen- fato jurídico, sem uma série de cortes e recortes que represen-
do das metas e dos objetivos de aprofundamento que o agente tem, numa ascese temporária, o despojamento daquele fato
se proponha alcançar, preservada a condição de que permane- cultural maior de suas colorações políticas, econômicas, éticas,
ça aberta a via do retorno à esquematização inicial, e seja históricas etc., bem como dos resquícios de envolvimento do
sempre possível ao sujeito cientista combinar as classes e sub- observador, no fluxo inquieto de sua estrutura emocional.
classes do domínio total, dentro, é claro, dos limites que a ló- Sem disciplinas, é claro, não teremos as interdisciplinas,
gica do sistema permitir. mas o próprio saber disciplinar, em função do princípio da
intertextualidade, avança na direção dos outros setores do
3.3.5.1.1. Interdisciplinaridade e disciplinaridade conhecimento, buscando a indispensável complementaridade.
O paradoxo é inevitável: o disciplinar leva ao interdisciplinar
A escolha do caráter disciplinar ou interdisciplinar, como e este último faz retornar ao primeiro. A relação de implicação
estratégia para a construção do discurso científico, além de e polaridade, tão presente no pensamento de Miguel Reale,
opção incontornável, continua sendo tema discutido nos cír- manifesta-se também aqui, uma vez que o perfil metódico que
culos epistemológicos, juntamente com a própria amplitude da venha a ser adotado, se-lo-á, certamente, para demarcar uma
inter-relação das disciplinas, conteúdo de outra decisão a ser porção da cultura.
tomada pelo cientista. Tudo para perseguir aquele quantum de Dois outros obstáculos, na forma de desafios, estarão no
objetividade que pretende ter contraparte na carga mínima de caminho do estudioso, mesmo que se admita superada aquela
subjetividade. situação paradoxal: (i) quais as proporções do corte e (ii) que
Tem-se como certo, nos dias de hoje, que o conhecimen- critérios utilizar para a condução do raciocínio no trato com o
to científico do fenômeno social, seja ele qual for, advém da objeto já constituído (digamos, recortado).
experiência, aparecendo sempre como uma síntese necessa- Aquilo que podemos esperar de quem empreenda a aven-
riamente a posteriori. Ele, o fato social, na sua congênita e tura do conhecimento, no campo do social, a esta altura, é uma
inesgotável plurilateralidade de aspectos, reivindica, enquan- atitude de reflexão, de prudência, em respeito mesmo às in-
to objeto, uma sequência de incisões que lhe modelem o for- trínsecas limitações e à própria finitude do ser humano. Esta
mato para a adequada apreensão do espírito humano. Está tomada de consciência, contudo, não pode representar a re-
presente nessa atividade tanto a objetivação do sujeito como a núncia do seguir adiante, expressa nas decisões que lhe pare-
subjetivação do objeto, em pleno relacionamento dialético. Isso cerem mais sustentáveis ao seu projeto descritivo.
i mpede a concepção do "fato puro", seja ele econômico, histó-
rico, político, jurídico ou qualquer outra qualidade que se lhe
3.3.5.2. Inesgotabilidade da interpretação
queira atribuir. Tais fatos, como bem salientou Lourival Vila-
nova", são elaborações conceptuais, subprodutos de técnicas Inesgotabilidade é outra coluna que sustenta o processo
interpretativo. O programa de pesquisa para acesso à compre-
ensão é, efetivamente, interminável. Conhecer e operar os
94. As estruturas lógicas e o sistema do direito positivo, cit., p. 65. textos, aprofundando o saber, é obra de uma vida inteira, mesmo
196 197
PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

que se trate de algo simples, aparentemente accessível ao exame com base nos métodos empregados em sistemas de linguagens.
do primeiro instante. A instável relação entre os homens, no E o conhecimento de toda e qualquer manifestação de linguagem
turbulento convívio social, gera inevitáveis mutações semânticas, pede a investigação de seus três planos fundamentais: a sintaxe,
numa sucessão crescente de alterações que se processam no a semântica e a pragmática. Só assim reuniremos condições de
interior do espírito humano. Aquilo que nos parecia objeto de analisar o conjunto de símbolos gráficos e auditivos que o ser
inabalável convicção, em determinado momento de nossa exis- humano emprega para transmitir conhecimentos, emoções,
tência, fica desde logo sujeito a novas conformações que os fatos formular perguntas, ou, como é o caso do direito positivo,
e as pessoas vão suscitando, no intrincado entrelaçamento da transmitir ordens, substanciadas em direitos e deveres garan-
convivência social. O mundo experimenta mudanças estruturais tidos por sanções.
de configuração sob todos os ângulos de análise que possamos
O plano sintático é formado pelo relacionamento que os
imaginar. E essa congênita instabilidade, que atinge as quatro
símbolos linguísticos mantêm entre si, sem qualquer alusão ao
regiões ônticas, está particularmente presente no reino dos
mundo exterior ao sistema. O semântico diz respeito às ligações
objetos culturais, território onde se demoram as prescrições
dos símbolos com os objetos significados, as quais, tratando-se
jurídico-normativas. Os signos do direito surgem e vão se trans-
da linguagem jurídica, são os modos de referência à realidade:
formando ao sabor das circunstâncias. Os fatores pragmáticos,
qualificar fatos para alterar normativamente a conduta. E o
que intervêm na trajetória dos atos comunicativos, provocam
pragmático é tecido pelas formas segundo as quais os utentes
inevitáveis modificações no campo de irradiação dos valores
da linguagem a empregam na comunidade do discurso e na
significativos, motivo pelo qual a historicidade é aspecto indis-
comunidade social para motivar comportamentos.
sociável do estudo das mensagens comunicacionais.
Pertencem ao plano sintático todos os critérios que se
Considerações desse tope já nos permitem ver a flagran-
detêm no arranjo dos signos jurídicos. A boa disposição das
te instabilidade que acompanha a vida das palavras e das ex-
palavras, na frase normativa, é condição para o sentido da
pressões de uma língua, tomada aqui como instituição e siste-
mensagem. A chamada interpretação literal é um passo nesse
ma; e o direito pode ser visto como tal".
longo caminho e o método lógico de interpretação também
opera no nível da sintaxe. Aliás, a Lógica Jurídica ou Lógica
3.3.6. As diferentes técnicas interpretativas e o direito Deôntica desenvolve-se a partir das estruturas sintáticas. E
não é só isso. Aquele trabalho prévio a que Carlos Maximiliano
A doutrina tem aconselhado vários métodos de interpre- chama de crítica é igualmente atividade no campo da sintaxe,
tação, quais sejam: literal ou gramatical, histórico ou histórico- consistente na verificação da constitucionalidade da regra, da
evolutivo, lógico, teleológico e sistemático. Contudo, tomado o autenticidade do preceito, em função do procedimento legis-
direito positivo como camada linguística vazada em termos lativo que o teve como resultado, ou da competência do juiz
prescritivos, com um vetor dirigido ao comportamento social,
que proferiu a sentença. São todos exercícios que o exegeta faz
nas relações de intersubjetividade, este deve ser interpretado
sob o ângulo sintático.
Não há qualquer exagero ao afirmar que os problemas
95. Essas lembranças reafirmam, com força incisiva, a relatividade do conhe- relativos à validade das normas jurídicas, à constitucionalidade
cimento, proposição tão bem desenvolvida na obra de Vilém Flusser —Língua de regras do sistema são questões que têm um lado sintático
e Realidade. 2a ed., São Paulo, Annablume, 2004. e, em parte, podem ser estudadas no plano da gramática jurí-
198 199
PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

dica. Dizem respeito à correta posição que as unidades norma- Nas situações do mundo real, durante todo o trajeto do
tivas devem manter no arcabouço do direito. percurso gerador de sentido, o pensamento do exegeta lida
Por sua vez, situam-se no prisma semântico os importan- com dados exclusivamente jurídicos: analisa hipóteses de in-
tes estudos das denotações e conotações dos termos jurídicos. cidência, compara bases de cálculo, aplica alíquotas, confere
Desenvolveremos atividade semântica, por exemplo, quando qualificações normativas de eventuais sujeitos passivos. Até os
tratarmos da significação dos vocábulos "suspensão" e "isen- valores que quantificam as operações, muito embora expressos
ção" do pagamento. em pecúnia, comparecem como o resultado de procedimentos
regidos pelo direito, de tal modo que não sobra espaço para
Implementa-se a investigação da linguagem pela verifi-
conjecturas de outra índole, que pudessem recomendar o em-
cação do plano pragmático. E aqui radicam muitos dos proble-
prego de categorias e formas do pensar dos economistas. As
mas atinentes à eficácia, à vigência e à aplicação das normas
próprias vantagens ou desvantagens aferidas entre os resulta-
jurídicas, incluindo-se o próprio fato da interpretação, com seu
dos obtidos entrariam num jogo comparativo de prestações
forte ângulo pragmático. A aplicação do direito é promovida
tributárias, realizadas estas na estrita conformidade dos parâ-
por alguém que pertence ao contexto social por ele regulado e
emprega os signos jurídicos em conformidade com pautas metros legais. Vê-se que interpretações dessa natureza nada
axiológicas comuns à sociedade. têm de econômicas, tecidas que são com elementos, categorias
e formas necessariamente prescritas em textos do direito po-
Na proposta epistemológica do direito, não me canso de sitivo e desenvolvidas mediante fórmulas procedimentais
repetir que todo trabalho com aspirações mais sérias há de igualmente contidas naqueles textos.
expor previamente seu método, assim entendido o conjunto de
técnicas utilizadas pelo analista para demarcar o objeto, colo- Atingindo esse ponto, não é difícil distribuir as citadas
cando-o como foco temático e, em seguida, penetrar seu con- técnicas de interpretação pelas três plataformas da investigação
teúdo. Parece apropriado efetuar breves considerações sobre linguística. Os métodos literal e lógico estão no plano sintático,
o itinerário do pensamento, no sentido de abrir caminho para enquanto o histórico e o teleológico influem tanto no nível se-
que o leitor possa percorrê-lo com desenvoltura, consciente do mântico quanto no pragmático. O critério sistemático da inter-
plano traçado pelo autor. A informação, que é de grande utili- pretação envolve os três planos e é, por isso mesmo, exaustivo
dade até para ensejar a iterativa conferência do rigor exposi- da linguagem do direito. Isoladamente, só o último (sistemático)
tivo, volta-se, fundamentalmente, para esclarecer o trajeto que tem condições de prevalecer, exatamente porque ante-supõe os
será trilhado, facilitando sobremaneira o entendimento das anteriores. É, assim, considerado o método por excelência.
proposições apresentadas.
De qualquer modo, a exegese dos textos legais, para ser
A norma jurídica somente pode ser compreendida com completa, tem de valer-se de incursões nos níveis sintático,
base no conhecimento do ordenamento do direito. A tarefa de semântico e pragmático da linguagem jurídica, única forma de
interpretar qualquer unidade do direito positivo é, portanto,
se chegar ao conteúdo intelectual.
uma função da estrutura sistêmica de que faz parte, compare-
cendo a chamada técnica de interpretação literal como pres-
suposto para o ingresso no interior do sistema. Afinal, ninguém 3.4. CIÊNCIA E EXPERIÊNCIA
poderá imitir-se no conhecimento da ordem jurídico-positiva
sem travar contato com o suporte físico (plano de expressão) O dinamismo da convivência humana, na sua incessante e
do produto legislado. surpreendente criatividade, vai produzindo novas manifestações
200 201
PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

de relacionamento entre as pessoas, expandindo ações, desen- O jurista, exegeta das proporções inteiras deste todo
volvendo instrumentos e aperfeiçoando técnicas de aproxima- sistemático, pela atitude cognoscitiva de interpretação, é o
ção. Enquanto série interligada de ações e omissões, esse ponto de intersecção destes dois mundos sígnicos: realidade
mundo circunstante das condutas intersubjetivas, feito de e direito positivo, em toda sua complexidade. Tal empresa
proximidades e de distâncias, dá-se no espaço físico e no espa- dista de ser fácil, pedindo ao exegeta uma interpretação que
ço social, perfazendo uma sequência indeterminável em termos mantenha as proporções inteiras destes dois sistemas de lin-
quantitativos e qualitativamente inexaustiva. O fluxo do acon- guagem. Neste viés, é algo sem sentido cogitarmos do saber,
tecer histórico é imprevisível e suas incontidas mutações em termos rigorosos, isolando a teoria da prática. A episte-
acrescentam uma dificuldade enorme para o fim de gerar mo- mologia pressupõe a dialética e a interdependência entre as
dos de controle e nutrir expectativas de padronizar conteúdos. proposições teoréticas e os objetos do mundo, de tal sorte que
Daí por que o sistema jurídico, abrindo mão das ocorrências aquelas, ordenadas racionalmente, possam descrever estes
efetivas, se atém a formas de interação, a pautas de comporta- últimos de modo satisfatório.
mento com referentes semânticos genéricos, providência que
No mesmo sentido, é perceptível o quão árdua é a tarefa
é sempre um posterius em relação ao fato social objeto das
de executar a projeção dos modelos teóricos, quando os preci-
normas e que provoca o inevitável descompasso entre os dois
pitamos sobre o espaço do mundo objetivo, tendo em vista as
planos: o da realidade social e o do ordenamento jurídico que
dificuldades que cercam o desempenho dos iniciantes. Entre
sobre ela incide, numa "circularidade" que chama a atenção
a linguagem da teoria e a linguagem da prática, no dia-a-dia
do observador e passa a ser um dos traços bem característicos
da turbulenta vida social, interpõe-se outra camada linguística,
da concepção pós-moderna do direito. Esse intervalo feito pelo
que eu chamaria de linguagem técnico-empírica, porque con-
destempo, tido às vezes como demora ou atraso, encerra, para
siste em fazer valer categorias abstratas, artificialmente con-
outros, o quantum de sabedoria, de equilíbrio, de comedimen-
cebidas no âmbito da verdade por coerência, incidindo na
to, de prudência, que as construções jurídico-prescritivas
plataforma das construções quase sempre desordenadas do
portam como seu apanágio ou, quando menos, como marca
contato entre as pessoas, no tecido da existência comunitária.
indelével de seu caráter.
Dizendo de modo mais simples, é a preciosa linguagem da
Seja como for, é naquele vazio cronológico que acontecem experiência, responsável pela intermediação entre as propos-
as coisas, se instalam as novidades, surgem costumes auspi- tas do saber teorético e os contundentes reclamos da pragmá-
ciosos ou preocupantes, propostas de modificação pela via da tica da comunicação jurídica.
instauração, da restauração, da revolução, mas é sobretudo
De fato, essa linguagem intercalar não se oferece ao do-
nessa fração de tempo que a sociedade se dá conta dos bens
mínio logo no exame do primeiro instante. Às vezes, são ne-
culturais que ela mesma produziu, das técnicas inovadoras que
cessários longos anos de atividade atenta e aplicação cuidado-
foram inventadas pelo crescimento do domínio operacional do
sa, para que o profissional possa dizer-se experiente.
ser humano sobre a natureza que o cerca. Em ritmo surdo, às
vezes até sem ele o perceber, avança o homem no domínio Por outro lado, a realidade social oferece uma natural
cognoscente das leis naturais, transformando meros laços de resistência às iniciativas de regulação de condutas operadas
causalidade física em relações de meio-fim: eis o aparecimen- pelo processo de positivação do direito, intervalo que é objeto
to de novas regras técnicas. de estudo pelas teses sobre a eficácia jurídica. Ajeitando essas

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

reflexões, assim se expressou Lourival Vilanova 96 : "O jurista, Não se pode perder de vista a noção fundamental de que
no sentido mais abrangente, é o ponto de intersecção da teoria tanto a realidade normada quanto as próprias regras do direi-
e da prática, da ciência e da experiência (...)." to positivo aparecem sempre na forma de texto. Nada melhor,
portanto, que a concepção semiótica para submetê-lo a uma
O direito positivo, enquanto camada de linguagem prescri-
crítica rigorosa, passando e repassando a estrutura da ordem
tiva, se projeta sobre o contexto social, regulando as condutas
jurídica vigente, no que atina aos tributos, mediante uma série
intersubjetivas e direcionando-as para os valores que a socieda-
de considerações de cunho sintático, semântico e pragmático.
de quer ver praticados. Em momento algum, todavia, o fenôme-
no jurídico é reduzido à singela expressão das normas que inte-
gram a sua ontologia. A opção pelo tratamento semiótico da 3.4.1. A conversação da prática com a teoria nos domínios do
linguagem normativa é decisão de cunho metodológico, que se direito
projeta na cognição do processo ontológico do objeto de conhe-
cimento em que atua o homem pelo sistema lógico da linguagem. Faz algum tempo que a comunidade jurídica brasileira
Eis o apontamento e o surgimento de um método científico que vem reivindicando trabalhos específicos sobre as figuras im-
toma por base as evoluções nos campos da filosofia, epistemo- positivas do nosso sistema tributário. As obras gerais, de boa
logia e teoria comunicacional destes últimos dois séculos. qualidade, diga-se de passagem, oferecem um roteiro seguro
para as necessárias incursões do estudioso nos vários campos
Habitar o espírito do nosso tempo, como diria G. Vattimo
de incidência, propiciando aos interessados o acesso a instru-
é, de certo modo, participar desse mundo de incertezas, aca-
tar essa multidiversidade que a todo instante nos deixa ad- mentos institucionais que permitem a compreensão adequa-
mirados, escapando, minutos depois, do nosso controle; é da daquelas entidades do direito posto. A despeito dessa
tomar consciência do extraordinário salto tecnológico havido doutrina firmada na parte geral da temática tributária, de-
no setor da comunicação, com informações que se cruzam e senvolveu-se um sentimento de carência com relação aos
entrecruzam em múltiplos sentidos, acrescentando outras e impostos, particularmente considerados, às taxas e às contri-
inesperadas combinatórias ao tecido já hipercomplexo das buições, uma vez que a vivência empírica da sociedade bra-
sociedades atuais. sileira já se mostrava substanciosa, exigindo, por assim dizer,
um esforço de organização da experiência, de reflexão sobre
Agora, bem, um dos ângulos da disciplina jurídica das esse material precioso que advém da prática reiterada e cons-
novas situações comunicacionais é o tributário. Importa refle- tante da aplicação normativa.
tir, por isso mesmo, com que amplitude de compreensão nosso
sistema constitucional vai permitir às pessoas políticas abran- No final das contas, o direito se constrói na experiência,
gê-las, dimensioná-las, mas, sobretudo, definir as linhas de- no entretecer paulatino das expectativas normativas envolvidas
marcatórias das várias unidades operacionais. E essa temática, nos múltiplos conflitos de interesse, filtrados em linguagem
nos dias de hoje, é algo que se afigura difícil e pressupõe o competente e submetidos à apreciação de órgãos credenciados
conhecimento minucioso do universo factual em que se pro- pelo ordenamento. Já se pode falar, hoje, numa vivência con-
cessam as condutas. creta, efetiva, rica de variações e de alternativas, na existência
de cada um dos tributos brasileiros, principalmente dos im-
postos. Estes não representam mais, como outrora, meras
96. "Fundamentos do estado do direito", in Escritos jurídicos e filosóficos, construções de linguagem, à espera do longo e penoso pro-
vol. 1, cit., p. 414. cesso de concretização. Vemo-los, agora, integrados numa

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PAULO DE BARROS CARVALHO

realidade vivida e construída pela sociedade brasileira, por-


tanto, por isso mesmo, dotadas de respeitável carga pragmá-
tica e que, agregada às outras duas instâncias semióticas,
poderá propiciar uma visão mais ampla e fecunda da lingua-
gem jurídico-tributária.

206
Capítulo 1
SISTEMA CONSTITUCIONAL
TRIBUTÁRIO

Sumário: 1.1. Sistema Constitucional Tributário


—1.1.1. Sistema do direito positivo e sistema da
Ciência do Direito —1.1.2. Teubner e o direito
como sistema autopoiético — 1.1.3. A impossibili-
dade de traduções perfeitas entre os idiomas da
mesma família e a conversação que entre eles se
estabelece, segundo a concepção de Vilém Flus-
ser — 1.1.4. Axioma da hierarquia no direito posto
—1.1.5. O axioma da validade — 1.1.6. Sistema
tributário nacional e a Lei n. 5.172/66 — 1.1.7.
Sobre a reforma constitucional — considerações
de ordem política. 1.2. Competência tributária
—1.2.1. Competência legislativa tributária e os
limites constitucionalmente estabelecidos — 1.2.2.
Competência legislativa e a aptidão de inovar o
sistema jurídico — 1.2.3. Competência residual —
1.2.4. Competência extraordinária — 1.2.5. Com-
petência tributária e capacidade tributária ativa
—1.2.6. Fiscalidade, extrafiscalidade e parafisca-
lidade — 1.2.7. Competência legislativa e ICMS.
1.3. Os princípios jurídicos tributários — 1.3.1.
Os "princípios" na textura das várias linguagens
jurídicas — 1.3.2. Os "princípios" e a compreensão
do direito — 1.3.3. A classificação dos "princípios"
em razão dos critérios de objetividade que presidem
sua aplicação aos casos concretos — 1.3.4. Limites
objetivos como mecanismos realizadores do valor

209
PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

- 1.3.5. Os sobreprincípios no sistema jurídico 1.1. SISTEMA CONSTITUCIONAL TRIBUTÁRIO


tributário - 1.3.5.1. O sobreprincípio da seguran-
ça jurídica - 1.3.5.1.1. O primado da segurança Dentre os muitos legados que a obra fecunda de Geraldo
jurídica no tempo - 1.3.5.2. O sobreprincípio da Ataliba nos deixou, está a necessidade premente de partirmos
certeza do direito - 1.3.5.3. O sobreprincípio da do Texto Constitucional para podermos compreender as devi-
igualdade - 1.3.5.4. Sobreprincípio da liberdade
das proporções do sistema tributário brasileiro. Sem uma to-
- 1.3.5.5. Sobreprincípio da justiça - 1.3.6. Os
princípios formadores do Estado - 1.3.6.1. Prin- mada de posição consciente a respeito das diretrizes sobran-
cípios da Federação e da República - 1.3.6.2. O ceiras estabelecidas pela Lei Suprema, fica difícil, para não
princípio da separação dos poderes - 1.3.6.3. dizer impossível, isolarmos a planta básica dos tributos, per-
Princípio da isonomia das pessoas políticas de cebendo as peculariaridades de um subdomínio normativo cuja
direito constitucional interno - 1.3.6.4. O princípio complexidade vem crescendo numa velocidade espantosa. Mais
da autonomia dos Municípios - 1.3.7. Os limites
do que nunca, o esforço da atividade cognoscente, neste setor,
objetivos no direito tributário - 1.3.7.1. Princípio
reivindica uma drástica redução da multiplicidade extensiva
da legalidade tributária - 1.3.7.2. O princípio da
tipicidade tributária - 1.3.7.3. O princípio da an- de funções, órgãos e atividades, inerentes ao fenômeno imposi-
terioridade - 1.3.7.4. O princípio da irretroativi- tivo, para que possa aparecer, como resíduo, um plexo racional
dade da lei tributária - 1.3.7.4.1. A retroatividade de enunciados, orientadores do raciocínio que vai nos conduzir
das leis interpretativas - 1.3.7.4.2. Aplicação pros- à inteligência dos numerosos comandos prescritivos.
pectiva de conteúdos decisórios e modulação de
efeitos em decisão de (in) constitucionalidade: Na verdade, a mensagem do saudoso professor não se
Integração entre o sobreprincípio da Segurança li mitava à mera escolha do ponto de partida, mas proclamava,
Jurídica e a retroatividade das leis tributárias - como providência indispensável, nessa linha de investigação,
1.3.7.5. Princípio da não-cumulatividade - o saber da trilogia direito constitucional, direito administrativo
1.3.7.5.1. A norma decorrente do regime jurídico e direito tributário, sustentada pelo hábil meneio das categorias
da não-cumulatividade - 1.3.8. Princípio da proi-
da Teoria Geral do Direito.
bição de tributo com efeito de confisco - 1.3.9.
Princípio da capacidade contributiva. 1.4. Imu- Sem abandonarmos, por um instante sequer, esse precio-
nidades tributárias 1.4.1. Noção corrente de
-
so caminho especulativo, que tem como pressuposto o isola-
imunidade tributária - 1.4.2. Teoria da imunida-
mento das normas, à maneira de Kelsen, podemos acrescentar
de como técnica legislativa de exoneração - 1.4.3.
as conquistas da semiótica e de outras Ciências da linguagem
Conceito e definição do instituto: sua natureza
jurídica - 1.4.4. Sistema constitucional tributário como algo também imprescindível no prosseguimento dos
e as imunidades - 1.4.5. Paralelo entre imunida- objetivos cognoscitivos do jurista pós-moderno, tendo em vis-
des e isenções - 1.4.6. Imunidade recíproca - 1.4.7. ta as construções de sentido que os textos legislados provocam
Imunidade dos templos de qualquer culto - 1.4.8. em nossa mente. Em outras palavras, o jurista aparece como
Imunidade dos partidos políticos e das institui- o intérprete, por excelência, dos textos prescritivos do direito
ções educacionais ou assistenciais - 1.4.9. Imuni-
posto, atravessando, com sua análise construtiva, o sistema das
dade do livro, dos periódicos e do papel destina-
normas positivadas, em que os comportamentos interpessoais
do à sua impressão - 1.4.10. Outras hipóteses de
imunidade - 1.4.11. Imunidades de taxas e de se encontram modalizados em obrigatórios (0), proibidos (V)
contribuições. e permitidos (P).

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Dentro desta análise semiótica do sistema, o conhecimen- resultado desse intenso labor estruturante, sem contradições,
to de toda e qualquer manifestação de linguagem jurídica pede isento de ambiguidades e pronto para ser compreendido pelo
a investigação de seus três planos fundamentais: a sintaxe, a destinatário. O ordenamento seria o texto bruto, tal como me-
semântica e a pragmática. No sistema normativo do direito ditado pelos órgãos competentes e tomado na multiplicidade
temos que o aspecto sintático se apresenta nas articulações das das decisões concretas em que se manifesta a autoridade de
normas entre si. É sintática a relação entre a norma da Cons- quem legisla. Melhor: seria o conjunto ou a totalidade das
tituição e aquela da lei ordinária, assim como puramente sin- mensagens legisladas, que integrariam um domínio heterogê-
tático é o vínculo entre a regra que estipula o dever e a outra neo, uma vez que produzidas em tempos diversos e em dife-
que veicula a sanção. De ordem sintática, também, a estrutura 4,
rentes condições de aparecimento.
intranormativa e, dentro dela, o laço condicional que une an-
tecedente (hipótese) ao consequente. Observado segundo esses padrões, o direito posto não
alcançaria o status de sistema, reservando-se o termo para
Por sua vez, semântica jurídica é o campo das significações
designar a contribuição do cientista, a atividade do jurista que,
do direito. É o meio de referência que as normas guardam com
pacientemente, compõe as partes e outorga ao conjunto o sen-
relação aos fatos e comportamentos tipificados. Essa relação é
tido superior de um todo organizado. Ordenamento e direito
justamente a ponte que liga a linguagem normativa à conduta
positivo, de um lado, sistema e Ciência do Direito, de outro,
do mundo social que ela regula. O aspecto semântico nos leva
seriam binômios paralelos, em que os dois últimos termos im-
ao tormentoso espaço das acepções dos vocábulos jurídicos, às
vezes vagos, imprecisos e multissignificativos. plicam os primeiros.

Mas, para além do estudo da arrumação dos termos jurí- Ora, a despeito de tomar as variações terminológicas como
dicos dentro da fraseologia da lei (sintaxe) e da pesquisa dos precioso recurso para a construção da descritividade própria
seus significados (semântica), o conhecimento da linguagem do discurso científico, não vejo como se pode negar a condição
do direito supõe a indagação da maneira como os sujeitos a de sistema a um estrato de linguagem tal como se apresenta o
utilizam dentro da comunidade em que vivem (pragmática). direito positivo. Qualquer que seja o tecido de linguagem de
Como motivar a conduta, realizando os valores da ordem jurí- que tratamos, terá ele, necessariamente, aquele mínimo de
dica, é o grande tema da pragmática. racionalidade inerente às entidades lógicas, de que o ser siste-
ma é uma das formas. Pouco importa, aqui, se o teor da men-
sagem é prescritivo, interrogativo, exclamativo ou meramente
1.1.1. Sistema do direito positivo e sistema da Ciência do
descritivo. A verdade é que o material bruto dos comandos
Direito
legislados, mesmo antes de receber o tratamento hermenêuti-
Não são poucos os autores que insistem na distinção entre co do cientista dogmático, já se afirma como expressão linguís-
ordenamento e sistema, tendo em vista o direito positivo. Os tica de um ato de fala, inserido no contexto comunicacional
enunciados prescritivos, assim que postos em circulação, como que se instaura entre enunciador e enunciatário. E o asserto
conjuntos de decisões emanadas das fontes de produção do se confirma quando pensamos que o trabalho sistematizado
direito, formariam matéria bruta a ser ordenada pelo cientista que a doutrina elabora, em nível de sobrelinguagem, pode,
à custá. de ingentes esforços de interpretação e organização perfeitamente, ser objeto de sucessivas construções hermenêu-
das unidades normativas em escalões hierárquicos, até atingir ticas porque a compreensão é inesgotável. Ali onde houver um
o nível apurado de sistema, entidade que apareceria como texto, haverá sempre a possibilidade de interpretá-lo, de reor-
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

ganizá-lo, de repensá-lo, dando origem a novos textos de nível Mas não só o direito positivo se apresenta como sistema,
linguístico superior. Sistema é o discurso da Ciência do Direi- como também a Ciência que dele se ocupa assume foros siste-
to, mas sistema também é o domínio finito, mas indeterminável, máticos. O direito positivo é um sistema nomoempírico pres-
do direito positivo. critivo, onde a racionalidade do homem é empregada com
Advirto, portanto, que emprego, livremente, no curso objetivos diretivos e vazada em linguagem técnica. A Ciência
desta obra, "ordenamento" como sinônimo de "ordem positiva", que o descreve, todavia, mostra-se um sistema não só nomo-
"direito posto" e "direito positivo". empírico, mas também teorético ou declarativo, vertido em
linguagem que se propõe ser eminentemente científica.
Assim sendo, as normas jurídicas formam um sistema, na
medida em que se relacionam de várias maneiras, segundo um Como sistema nomoempírico teorético que é, a Ciência do
princípio unificador. Trata-se do direito posto, que aparece no Direito tem de ter uma hipótese-limite, sobre a qual possa cons-
mundo integrado numa camada de linguagem prescritiva. truir suas estruturas. Do mesmo modo que as outras Ciências,
Produto do homem para disciplinar a convivência social, o vê-se o estudioso do direito na contingência de fixar um axioma
direito pertence à região ôntica dos objetos culturais, dirigin- que sirva de base última para o desenvolvimento do seu dis-
do-se, finalisticamente, ao campo material das condutas in- curso descritivo, evitando assim o regressus ad infinitum. A
tersubj etivas . descoberta da norma hipotética fundamental, empreendida
O sistema do direito oferece uma particularidade digna por Hans Kelsen, é o postulado capaz de dar sustentação à
de registro: suas normas estão dispostas numa estrutura hie- Ciência do Direito, demarcando-lhe o campo especulativo e
rarquizada, regida pela fundamentação ou derivação que se atribuindo unidade ao objeto de investigação. A norma hipo-
opera tanto no aspecto material quanto no formal ou proces- tética fundamental, entretanto, não se prova nem se explica.
sual, o que lhe imprime possibilidade dinâmica, regulando, ele É uma proposição axiomática, que se toma sem discussão de
próprio, sua criação e suas transformações. Examinando o sua origem genética, para que seja possível edificar o conheci-
sistema de baixo para cima, cada unidade normativa se encon- mento científico de determinado direito positivo. Ela dá legi-
tra fundada, material e formalmente, em normas superiores. ti midade à Constituição, não cabendo cogitações de fatos que
Invertendo-se o prisma de observação, verifica-se que das a antecedam. Com ela se inicia o processo derivativo e nela se
regras superiores derivam, material e formalmente, regras de esgota o procedimento de fundamentação. É fruto de um arti-
menor hierarquia. A Carta Magna exerce esse papel funda- fício do pensamento humano e a Filosofia do Direito a tem
mental na dinâmica do sistema, pois nela estão traçadas as como pressuposto gnosiológico do conhecimento jurídico.
características dominantes das várias instituições que a legis-
lação comum posteriormente desenvolverá. Sua existência Não deve causar espécie a circunstância de a Ciência do
i mprime, decisivamente, caráter unitário ao conjunto, e a mul- Direito precisar de um axioma, enunciado que se dá por ver-
tiplicidade de normas, como entidades da mesma índole, lhe dadeiro sem demonstração, para fincar a raiz do seu sistema.
confere o timbre de homogeneidade. Isso autoriza dizermos Tal acontece em todo o sistema científico: a Geometria, a Ma-
que o sistema também empírico do direito é unitário e homo- temática, a Sociologia, a Psicologia e as demais Ciências partem
gêneo, 'afirmação que vale para referência ao direito nacional sempre de proposições escolhidas arbitrariamente ou de evi-
de um país ou, para aludirmos ao direito internacional, com- dência imediata, não demonstráveis, e sobre elas desdobra a
posto pela conjunção do pluralismo dos sistemas nacionais. organização descritiva dos respectivos objetos.
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

A contar da CR, reafirmamos, as restantes normas do sistema direito se consubstancia num sistema que vive em clausura
distribuem-se em vários escalões hierárquicos, ficando nas bases comunicativa (isto é, comunica acerca de si próprio), então
da pirâmide as regras individuais de máxima concretude. Concep- deixou de ser possível conceber sua origem num Direito Na-
ção dessa ordem propicia uma análise estática do ordenamento tural, num Direito Divino, ou numa qualquer essência pré-
jurídico — nomoestática — e uma análise dinâmica do funciona- estabelecida e exterior ao próprio sistema jurídico: não há
mento do sistema positivo — nomodinâmica. Na primeira, as Direito fora do Direito.
unidades normativas são surpreendidas num determinado ins-
O sistema jurídico aparece aqui concebido como sistema
tante, como se fossem fotografadas; na segunda, é possível indagar
auto-referencial e auto-reprodutivo de actos de comunicação
do ordenamento nas suas constantes mutações, quer no que diz
particulares (os actos jurídicos), ou seja, um sistema constituído
com a criação de regras novas, quer no que atina às transformações
por eventos comunicativos específicos que, simultaneamente,
internas que o complexo de normas tem idoneidade para produzir.
se auto-reproduzem à luz do código binário "lícito/ilícito", se
No plano da nomodinâmica nos deparamos, entre a norma fun-
articulam recursiva e circularmente entre si, definem as frontei-
dante e a norma fundada, com o ser humano, suas crenças, seus
ras do sistema jurídico, e constroem seu meio envolvente próprio
valores, suas ideologias, atuando para movimentar o sistema,
("realidade jurídica"): numa palavra, um sistema comunicativo
positivando-o e realizando, assim, efetivamente o direito.
"normativamente fechado". Sempre que as normas jurídicas
entram no cálculo de outros subsistemas, apenas o fazem porque
1.1.2. Teubner e o direito como sistema autopoiético as mesmas foram tidas como importantes pelos códigos binários
correspondentes (Moral, Religião, Economia etc).
Cabe, aqui, algumas palavras quanto à nomoestática aci-
ma referida, para fins de identificar a importância de uma Vê-se que a Teoria dos Sistemas, no modelo autopoiético,
análise sincrônica do ordenamento jurídico. ressalta com tintas fortes a autonomia do direito e o quanto
parece estranho interpretar a realidade jurídico-tributária em
Para Teubner, o Direito constitui um sistema autopoiético termos econômicos, contábeis, entre tantos outros pontos de
de segundo grau, autonomizando-se em face da Sociedade, en- vistas possíveis, de maneira a tomar tal interpretação como se
quanto sistema autopoiético de primeiro grau, graças à consti- prescritiva fosse.
tuição auto-referencial dos seus próprios componentes sistêmicos
e à articulação destes num hiperciclo 96-A
1.1.3. A impossibilidade de traduções perfeitas entre os
E continua o autor alemão, referindo-se ao direito como idiomas da mesma família e a conversação que entre eles
subsistema social autopoiético de comunicação, que se auto- se estabelece, segundo a concepção de Vilém Flusser
nomizou do sistema social geral graças à emergência de um
código próprio e diferenciado, suficientemente estável para No seu Língua e Realidade, Flusser dá uma contribuição
funcionar como centro de gravidade e princípio energético de valiosa ao estudo da tradução entre idiomas. Além de estabe-
um processo de auto-produção recursiva, fechada e circular lecer proposições sugestivas a respeito de a língua ser a reali-
de comunicações especificamente jurídicas. Segundo ele, se o dade, formar a realidade e criar a realidade 96-B, mencionando

96-A. TEUBNER, Gunther. O direito como sistema autopoiético. Trad. José 96-B. BERNARDO, Gustavo. Prefácio do livro Língua e Realidade. 2a ed.,
Engrácia Antunes. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1989. la reimp. São Paulo: Annablume, p. 17.
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

a conversação que se institui entre tais ordens para formar as No âmbito destas investigações, chegaremos à conclusão
várias culturas, o pensador Tcheco proclama, com bastante cla- de que toda construção de linguagem pode ser observada como
reza, que as Ciências são línguas, de tal modo que as observações jurídica, econômica, antropológica, histórica, política, contábel,
aplicáveis aos sistemas idiomáticos se acomodam perfeitamente etc.; tudo dependendo do critério adotado pelo corte metodo-
ao esquema organizacional das Ciências. Ouçamo-lo. "A ciência lógico empreendido. Existe interpretação econômica da reali-
sensu stricto, tal qual a conhecemos no Ocidente, desde o Renas- dade jurídica? Sim, para os economistas. Existirá interpretação
cimento, equivale, deste ponto de vista, ao aparecimento de uma contábil dela? Certamente, para o contabilista. No entanto,
nova língua." 96-c E Gustavo Bernardo Krause, ao prefaciar essa uma vez assumido o critério jurídico, o enunciado construído
obra prima, como ele mesmo reconhece, reproduz o texto de será, único e exclusivamente, jurídico; e claro, terá natureza
Flusser: "a ciência, longe de ser válida para todas as línguas, é jurídica, não econômica ou contábil, entre outras matérias.
ela própria uma língua a ser traduzida para as demais." 96-D Esse Como já anotado, o direito não pede emprestado conceitos de
argumento se encontra presente também no artigo do mesmo fatos para outras disciplinas. Ele mesmo constrói seu universo,
autor, subsequente a este nessa revista, destacando que advém seu objeto, suas categorias e unidades de significação. O para-
daí o dilema da tradução. Eis a razão e a pertinência de se reunir doxo inevitável, e que causa perplexidade no trabalho herme-
aos estudos tributários a "filosofia da palavra" de Krause. nêutico, justifica a circunstância do disciplinar levar ao inter-
Vilém Flusser, de fato, não admite a possibilidade de uma disciplinar e este último fazer retornar ao primeiro. Com já
tradução perfeita, mesmo em se tratando de línguas flexionais, lembrei em outros momentos deste trabalho, sem disciplinas,
com organizações parecidas. Torna-se possível aproximadamen- portanto, não teremos as interdisciplinas, mas o próprio saber
te, graças às semelhanças existentes entre as estruturas dos disciplinar, em função do princípio da intertextualidade, avan-
idiomas. Daí o adágio consagrado: tradutore, traditore. Entre as ça na direção dos outros setores do conhecimento, buscando
realidades criadas e formadas por duas línguas diferentes, ain- a indispensável complementariedade. Tanto o jurídico quanto
da que semelhantes, há um abismo que tem de ser transposto, o econômico fazem parte do domínio social e, por ter este re-
momento em que surgem as inevitáveis distorções. ferente comum, justifica-se que entre um e outro haja aspectos
ou áreas que se entrecruzem, podendo ensejar uma tradução
Ora, se o Direito (tomado aqui como Ciência) e a Econo- aproximada e, em parâmetros mais amplos, uma densa e pro-
mia, são dois sistemas cognoscentes distintos, entre eles so- fícua conversação.
mente poderá haver uma tradução aproximada, com a presen-
ça de termos e expressões intraduzíveis que determinam fre-
quentes descompassos. Podem, contudo, manter uma conver- 1.1.4. Axioma da hierarquia no sistema do direito posto
sação ampla, que envolva também o saber a respeito de outros
segmentos do tecido social, como a Ciência Política, a Sociolo- Sem hierarquia não há sistema de direito, pois ninguém
gia (em sentido estrito), as Ciências Contábeis, a Psicologia poderia apontar o fundamento de validade das unidades com-
Social, a História etc. ponentes, não se sabendo qual deva prevalecer. Uma regra há
de ter, para desfrutar de juridicidade, seu fundamento em ou-
tra que lhe seja superior. E isso vale tanto para o direito públi-
96-C. FLUSSER, Vilém. Língua e Realidade. Editora Anna Blume, São co como para o direito privado, sem qualquer distinção. Daí
Paulo. 2a. edição, p. 54. ser possível afirmar, peremptoriamente, que o princípio da
96-D.Idem, p.19. hierarquia é um axioma. A maneira como cada direito positivo
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

a realiza, todavia, é que pode variar, uma vez que o legislador ministerial, instrução normativa, circular, ordem de serviço,
a tece conforme os critérios que adota. Os mais comuns são, ato declaratório e outros atos normativos expedidos pelas
como sabemos, o de que a lei posterior prevalece sobre a an- autoridades administrativas.
terior; a lei especial sobre a geral; a superior sobre a inferior. Qualquer tipo de obrigação tributária ou de dever instru-
Saliente-se, contudo, que tais orientações são construídas his- mental que seja instituído por esta última classe de instrumen-
toricamente pelo sistema, como instrumentos de consagração tos introdutores, sem fundamento de validade naquelas normas
do postulado da hierarquia. de superior hierarquia, será, com efeito, incompatível com o
Não confundamos, portanto, o axioma da hierarquia com ordenamento jurídico e deverá ter sua invalidade reconhecida
os critérios que o legislador adota para implantá-la. Hierarquia pelos órgãos competentes da Administração Pública ou do
tem de existir sempre, de uma forma ou de outra, onde houver Poder Judiciário.
direito positivo. Tão só a visão do direito positivo como um todo, assimi-
A Constituição da República, em seu artigo 5 4 , inciso II, lado nas suas relações internas de coordenação e de subordi-
nação (hierarquia), tudo sob o manto dos grandes princípios
estabelece que "ninguém será obrigado a fazer ou deixar de
que o sistema consagra e prestigia, é que terá o vigor de efun-
fazer alguma coisa senão em virtude de lei". Entenda-se "lei"
dir luzes para o discernimento apropriado de questões contro-
no sentido amplo e teremos o quadro dos instrumentos primá-
versas observadas no mundo jurídico.
rios de introdução de normas no direito brasileiro, válido para
as quatro ordens jurídicas que constituem o sistema total, quais As normas se conjugam de tal modo que as de menor
sejam: a) o sistema nacional; b) o sistema federal; c) os sistemas hierarquia buscam seu fundamento de validade, necessaria-
estaduais; e d) os sistemas municipais. A lei e os estatutos nor- mente, em outras de superior hierarquia, até chegarmos ao
mativos que têm força de lei são os únicos veículos credencia- patamar da Constituição, ponto de partida do processo deriva-
dos a promover o ingresso de regras inaugurais no universo tivo e ponto de chegada do esforço de regressão. Vê-se, de
jurídico brasileiro, sendo por isso designados "instrumentos pronto, que a hierarquia exsurge como autêntico axioma de
primários". São eles: lei constitucional, lei complementar, lei toda e qualquer ordem positiva, como também os chamados
ordinária, lei delegada e até mesmo as medidas provisórias, "princípios ontológicos do direito" 96- E.
além das resoluções e dos decretos-legislativos.
Todas as demais normas reguladoras das condutas hu- 1.1.5. O axioma da validade
manas intersubjetivas, neste país, têm juridicidade condicio-
Muita diferença existe entre os mundos do "ser" e do
nada às disposições legais, quer emanem de preceitos gerais
dever-ser. São duas realidades que não se confundem, apre-
e abstratos, quer individuais e concretos. Por essa razão, re-
sentando peculiaridades tais que nos levam a uma considera-
cebem o nome de "instrumentos secundários". Não possuem,
ção própria e exclusiva. São dois corpos de linguagem, dois
por si só, a força vinculante capaz de alterar as estruturas do
mundo jurídico-positivo. Realizam, simplesmente, os coman-
dos qúe a lei autoriza e na precisa dimensão que lhes foi es-
96 - E. No direito privado, tudo que não estiver expressamente proibido estará
tipulada. São normas complementares das leis e a elas subor- juridicamente permitido; no direito público, tudo que não estiver expressa-
dinadas, representadas por decreto regulamentar, instrução mente autorizado estará juridicamente proibido.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

discursos linguísticos, cada qual portador de um tipo de orga- condições de tempo, integra o mundo do dever-ser, isto é, seus
nização lógica e de funções semânticas e pragmáticas diversas. enunciados são prescritivos, impondo como as coisas hão de
O mundo normativo tem sua existência própria. ocorrer. Com isso, o direito cria sua própria realidade, admi-
tindo e conhecendo como reais apenas os fatos produzidos na
Diferentemente do que ocorre na realidade do "ser", em
forma linguística prevista pelo ordenamento.
que a causalidade é natural, no mundo do dever-ser a causali-
dade é normativa, ou seja, demanda que o homem a construa, Vale a proporção: a linguagem natural está para a reali-
enlaçando um fato a uma relação jurídica mediante conectivo dade em que vivemos (realidade social), assim como a lingua-
i mplicacional deôntico. Exemplificando. Ao soltarmos um lápis, gem do direito está para a realidade jurídica. Dito de outra
ele inevitavelmente cai, em razão da gravidade, ou seja, em maneira, da mesma forma que a linguagem natural constitui
virtude de uma relação naturalmente existente (ser). Por outro nosso mundo circundante, a que chamamos de "realidade", a
lado, ao depararmos com uma placa contendo a inscrição "não linguagem do direito cria o domínio do jurídico, isto é, o campo
fume", não significa a impossibilidade física de praticar o ato material das condutas intersubjetivas, dentro do qual nascem,
ali tipificado, mas sim que um ser humano está manifestando vivem e morrem as relações disciplinadas pelo direito. Se não
sua vontade de que não haja pessoas fumando naquele local há fato sem articulação de linguagem, também inexistirá fato
(dever-ser). Tanto que, independentemente dessa regra vir a ser jurídico sem a linguagem específica que o relate como tal.
observada ou não, o preceito continua válido.
Para aclarar a assertiva, tomemos a situação em que um
Em suma, o mundo do "ser" é disciplinado pela causali- sujeito S' empresta quantia em dinheiro para S". Caso S' não
dade natural, em que há relações de implicação exprimindo consiga expressar sua reivindicação mediante as provas que o
nexo formalmente necessário entre os fatos naturais e seus direito prescreve como ajustadas à espécie, faltando, portanto,
efeitos. Já no universo jurídico, inexiste necessidade lógica ou
a linguagem jurídica competente para narrar o acontecimento,
factualmente fundada de a hipótese implicar a consequência,
é descabido falar em fato jurídico ou norma válida, inserida no
sendo a própria norma quem estatui o vínculo implicacional
sistema. Conserva sua natureza factual porque descrito em
por meio do dever-ser.
linguagem ordinária, porém não alcança a dignidade de fato
Agora, o leitor estará se perguntando qual o vínculo lógi- ou norma jurídica, por ausência da expressão verbal adequada.
co destes efeitos com a temática da validade no direito positivo.
Inseridos, portanto, dentro dessa autoconstitutividade da
Pois bem, enquanto na lei da causalidade natural a relação
realidade deôntica, um mandamento qualquer só adquire status
entre antecedente e consequente é descritiva, na lei de causa-
de jurídico por pertencer a determinado sistema de direito po-
lidade jurídica é o sistema jurídico que determina, dentre as
sitivo e o critério de pertinência é exatamente o sinal decisivo
possíveis hipóteses e consequências, as relações que devem se
estabelecer. É o ato de vontade da autoridade que legisla ex- de sua validade. Uma norma "N" é válida no sistema jurídico
presso por um dever-ser neutro, isto é, que não aparece moda- "S" se, e somente se, pertencer a esse conjunto, o que significa
lizado nas formas "proibido", "permitido" e "obrigatório", o admitir que foi produzida por órgão previsto pelo sistema, con-
responsável pela conexão deôntica entre proposição-antece- soante procedimento específico nele também estipulado.
dente e proposição-tese. Para a lógica deôntica, as normas jurídicas, proposições
O direito positivo, sendo tomado como o conjunto de nor- prescritivas que são, têm sua valência própria. Delas, não se
mas jurídicas válidas em determinado espaço e em certas pode dizer que sejam verdadeiras ou falsas, valores imanentes

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

às proposições descritivas da Ciência do Direito, mas as nor- Por fim, não posso deixar de enfatizar que as colocações
mas jurídicas serão sempre válidas ou inválidas, com referên- de caráter teorético serão básicas para a compreensão dos
cia a determinado sistema "S". E ser norma válida quer sig- problemas, além do que tem sido o caminho que, com mais
nificar que mantém relação de pertinencialidade com o sis- eficiência e segurança, me tem guiado na solução de questões
tema "S", ou que nele foi posta por órgão legitimado a pro- práticas.
duzi-la, mediante procedimento estabelecido para esse fim.
Nesse sentido, Lourival Vilanova 97 lembrou, com sutileza de
análise, que: 1.1.6. Sistema tributário nacional e a Lei n. 5.172/66

"No direito, são as regras do processo legislativo, ou quais- A Lei n. 5.172/66 cumpre, em termos de sistema tributário
quer outras regras-de-regras, que estabelecem como nacional, relevante papel de mecanismo de ajuste, calibrando
constituir, reformar ou desconstituir normas válidas. A a produção legislativa ordinária em sintonia com os manda-
validade é, assim, validade no interior do sistema positivo. mentos supremos da Constituição de 1988. Posso afirmar, de
Normas de outra procedência, ou de outro conteúdo, para forma resumida, que exercendo sua missão, essa lei assegura
ingressar no sistema, requerem regra-de-regra que as o funcionamento do sistema, quer introduzindo preceitos que
juridicize, que as convalide. A correspondência com tais
regulem as limitações constitucionais ao exercício do poder de
regras 'processuais' dá-lhes relação-de-pertinência em
tributar, quer dispondo sobre conflitos de competência entre
face do sistema positivo."
as pessoas políticas de direito constitucional interno, ou disci-
plinando certas matérias que o constituinte entendeu merece-
Eis a razão de se entender que a validade das normas
doras de cuidados especiais. Tudo visando à uniformidade e
aparece como um dos conceitos fundantes no domínio do
harmonia do ordenamento como um todo.
jurídico.
Pode dizer-se auspiciosa a experiência vivida pela comu-
Essa advertência nos conduz a três conclusões imediatas:
nidade jurídica brasileira com o advento do Código Tributário
a) em termos jurídico-normativos, existir e valer são grandezas
Nacional. Em face de uma estrutura rica e minuciosa, como
semânticas que se equivalem; e b) o conhecimento de qualquer
a prevista pela Lei Básica, as construções doutrinárias en-
das unidades normativas pressupõe contato com a totalidade
contraram repercussão na jurisprudência, que debateu, am-
do conjunto. Como já dissera Carnelutti, "em torno de uma
plamente e com abertura de propósitos, os temas imprescin-
simples relação jurídica gira todo o sistema do direito positivo".
díveis à implantação dos tributos concebidos pelo Texto Su-
Breve exame dessas considerações preliminares nos premo. Ao mesmo tempo, institutos caríssimos para a com-
aponta o despropósito consistente em procurar o teor signifi- postura do sistema tributário passaram por um processo de
cativo de uma regra de direito, nos estritos termos de sua evolução e de acabamento normativo digno de nota. O resul-
configuração literal, ao mesmo tempo em que convoca nossa tado não demorou a aparecer: a despeito das críticas que
atenção para uma análise mais profunda das estruturas do venhamos a formular sobre os excessos cometidos e, ainda
direito positivo brasileiro. que impondo carga tributária incompatível com as aspirações
das forças produtivas da sociedade em que vivemos, o sistema
não deixa de ser rápido, operativo e funcional, respondendo
97. Lourival Vilanova, Estruturas lógicas e o sistema do direito positivo, cit., ao mais singelo impulso, com resultados quase que imediatos
p. 19.
e previsíveis.
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Analisando de outra maneira, as queixas sobre eventuais sua organização entitativa, nada mais almeja do que preparar-
injustiças com que nos deparamos na relação mantida entre se, aparelhar-se, preordenar-se para implantá-los.
os sujeitos da obrigação tributária no Brasil estão longe de
Ora, a sociedade brasileira vive momentos de inquietação.
comprometer o sistema na dinâmica de sua operatividade
O debate sobre matérias relativamente simples, cuja solução
funcional. Por esse ângulo, merece aplausos sinceros de reco-
já se encontrava sedimentada na experiência jurídica nacional,
nhecimento e de admiração.
mercê de remansosa e pacífica jurisprudência, apoiada em
sólida doutrina, conduziu nossas consciências, de maneira
1.1.7. Sobre reforma constitucional - considerações de ordem vertiginosa, ao questionamento de princípios fundamentais,
política sem que pudéssemos perceber o que estava se passando. Aquilo
que há de mais caro para a dignidade de um sistema de direi-
O procedimento de tomar o direito como fato da cultura,
to positivo foi posto em tela de juízo, desafiando nosso espírito
de reconhecer-lhe o caráter retórico e de compreendê-lo como
e estimulando nossas inteligências, ao reivindicar uma tomada
produto efetivo de um tempo histórico marcado pela presença
sensível de invariantes axiológicas, está longe de ser mera tá- de posição firme e contundente. Chegando-se a esse ponto,
tica aproximativa do estudioso para tentar compreender a não cabem mais tergiversações e os expedientes retóricos
textura do fenômeno jurídico. Ainda que em certos momentos somente serão admitidos para fundamentar a decisão de
a ordem normativa possa parecer mero conjunto de estratégias manter a segurança jurídica, garantindo a estabilidade das
discursivas voltadas a regrar condutas interpessoais e, desse relações já reconhecidas pelo direito, ou de anunciar, em alto
modo, concretizar o exercício do mando, firmando ideologias, e bom som, que chegou o reino da incerteza, que o ordena-
tudo isso junto há de processar-se no âmbito de horizontes mento vigente já não assegura, com seriedade, o teor de suas
definidos, em que as palavras utilizadas pelo legislador, a des- diretrizes, que as pomposas manifestações dos tribunais su-
peito de sua larga amplitude semântica, ingressem numa periores devem ser recebidas com reservas, porque, a qual-
combinatória previsível, calculável, mantida sob o controle das quer momento, podem ser revistas, desmanchando-se as
estruturas sociais dominantes. A possibilidade de estabelecer orientações jurídicas até então vigentes, sem outras garantias
expectativas de comportamento e de torná-las efetivas ao longo para os jurisdicionados.
do tempo impede que o direito assuma feição caótica e dá-lhe Trata-se de pura idealização pensar na possibilidade de
a condição de apresentar-se como sistema de proposições ar-
funcionamento de um subsistema social qualquer sem a boa
ticuladas, pronto para realizar as diretrizes supremas que a
integração dos demais subsistemas que formam o tecido social
sociedade idealiza.
pleno. Não cabe cogitar da implantação de um primoroso mo-
Com efeito, os valores e sobrevalores que a Constituição delo econômico, por exemplo, sem a sustentação das estruturas
proclama hão de ser partilhados entre os cidadãos, não como políticas e jurídicas que com ele se implicam. As virtudes da
quimeras ou formas utópicas simplesmente desejadas e con- Constituição de 1988, que são muitas, fizeram imaginar um
servadas como relíquias na memória social, mas como algo Brasil avançado e democrático, em que os direitos e garantias
pragmaticamente realizável, apto, a qualquer instante, para dos cidadãos se multiplicariam em várias direções. Mas bastou
cumprir seu papel demarcatório, balizador, autêntica fronteira a prática dos primeiros anos para nos fazer ver que as previsões
nos hemisférios da nossa cultura. A propósito, vale a afirmação da Carta Suprema não se concretizariam sem o suporte de um
peremptória de que o direito positivo, visto como um todo, na plano econômico consistente e amparado, por sua vez, em

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

procedimentos políticos e administrativos compatíveis com as determinou que o imposto sobre a renda e proventos de qual-
dimensões do projeto. Algumas expectativas se frustraram, é quer natureza fosse progressivo, e "curiosamente", a partir
certo, mas ficou a lição da experiência vivida intensamente na desse marco, a legislação infraconstitucional passou a adotar
operosidade turbulenta do convívio social, caracterizado pela tabela com apenas duas faixas de alíquotas, para a pessoa físi-
instabilidade de suas relações. ca, fora a de isenção, negando acatamento ao princípio superior,
O sistema tributário brasileiro surgiu no âmago desse de redação cristalina. Isso nos faz refletir: será que o recente
processo empírico onde o direito aparece e comparece como amor à progressividade é algo concreto, efetivo, um anseio
autêntico produto da cultura, acumulando-se no seu histori- consciente de uma comunidade jurídica treinada nas vicissi-
cismo para projetar o entusiasmo de uma sociedade que olha tudes da difícil relação Fisco-contribuinte, ou, de modo diver-
para o futuro e pretende vivê-lo com a consciência de suas so, é pretexto oportuno para a implantação de outra sorte de
conquistas e com a força do seu espírito. medidas?
Sua configuração jurídica reflete bem a complexidade das Aspirar à simplificação, à racionalidade, à eficiência eco-
instituições básicas de um Estado igualmente complexo. Seria nômica, à eficiência administrativa, à progressividade, ao
até ingenuidade supor que num sistema em que convivem fortalecimento da federação e da autonomia municipal, é o
pessoas dotadas de autonomia legislativa, financeira, adminis- lugar comum de todos aqueles que se referem, em tom retóri-
trativa e política, pudessem existir diretrizes simples e trans- co, ao sistema tributário nacional. Considerá-lo, porém, como
parentes que, em conjugação elementar com outras providên- um eficiente produto da experiência jurídica, política e econô-
cias, tivessem o condão de esquematizar uma organização mica do nosso país, curtido, demoradamente, no dia-a-dia das
operativa e eficiente. discussões administrativas e judiciais, bem como no pensamen-
O sistema que temos foi forjado na prática das nossas to aturado da dogmática, é algo que aponta para sugestões de
instituições, nasceu e cresceu entre as alternâncias de uma muito equilíbrio e prudência. Mexer em alguma coisa que apre-
história política agitada, irrequieta, no meio de incertezas eco- senta tal rendimento, com respostas ágeis e prontas aos estímu-
nômicas internas e externas. Sua fisionomia é a do Brasil dos los da sociedade, como tem sido iterativamente demonstrado, é
nossos tempos, com suas dificuldades, suas limitações, mas um passo difícil e que pode deixar marcas indesejadas.
também com suas grandezas e, para que não dizer, com a sur- Devemos reconhecer, por outro lado, que a carga tributária
preendente vitalidade de um país jovem, que marca, incisiva- é excessiva, sufocando setores da economia e afetando a com-
mente, sua presença no concerto das nações. petitividade de nossos produtos, além de vários outros desvios
Aquilo que de negativo se lhe atribuem nem sempre cor- que não escapariam à atenção de um observador pouco exi-
responde à realidade. Antes, porém, revela posturas de cunho gente do cotidiano. Entretanto, sob pena de um erro histórico
ideológico já conhecido de outras circunstâncias. Querem mu- irreparável, essas anomalias não podem ser atribuídas ao sis-
dar o sistema em nome de uma simplificação mais retórica do tema, que em si mesmo é bom, capaz de propiciar arrecadações
que efetiva; em nome da "racionalidade", princípio de difícil vultosas aos cofres do Poder Público, que está preparado para
identificação, uma vez que dele precisamos para dele falarmos; operar de muitas maneiras diferentes, entre elas e até nessas
em nome, até, de uma "progressividade" que viria a imprimir linhas que são tidas como inequívocas distorções. Em suma,
projeção mais dinâmica e justa à administração de certos gra- creio que o sistema tributário nacional possa ser acionado de
vames. Mal se lembram, contudo, que a Constituição de 1988 formas positivas, levando-se às últimas consequências diretrizes
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constitucionais que estão aí, à nossa frente, e, por uma série aproveitarmos o ensejo para estabelecer os limites que estão
de razões, não foram ainda mobilizadas. faltando? Por que não emendarmos a Constituição em trechos
Tenho para mim que tais lembranças devem ser consig- como esse, atendendo às reivindicações dos especialistas, para
nadas, no momento mesmo em que entra em jogo a própria aperfeiçoar um sistema que vem sendo construído como a
manutenção da integridade sistêmica do Estado brasileiro. projeção do sentimento histórico da sociedade brasileira?
Vivemos o processo de uma decisão significativa e importante.
E a melhor contribuição que o jurista poderia oferecer está na
1.2. COMPETÊNCIA TRIBUTÁRIA
manifestação axiologicamente neutra (na medida do possível)
a respeito do quanto percebe existir no trato com o real. Se a Da concepção global de sistema jurídico-positivo, tomada
pretensão é alterar, efetivamente, algumas competências cons- a expressão como conjunto de normas associadas segundo
titucionais, assunto delicado que pode abalar em seus funda-
critérios de organização prescritiva, e todas elas voltadas para
mentos a organização jurídica nacional, requer-se domínio
o campo material das condutas interpessoais, extraímos o
técnico e conhecimento especializado sobre a matéria.
subsistema das normas constitucionais e, de dentro dele, outro
Tomemos o quadro das chamadas "contribuições inter- subsistema, qual seja o subsistema constitucional tributário.
ventivas". Singelo apanhado histórico registra que sua utiliza- Pode dizer-se, ainda que em traços largos e sobremodo abran-
ção vem crescendo substancialmente nos últimos anos. Se as gentes, que neste subsistema serão suas unidades integrantes
facilidades que a pessoa política União tem encontrado, num as normas constitucionais que versam, direta ou indiretamen-
campo por assim dizer nebuloso em termos competenciais, em
te, matéria tributária.
que a incidência dos cânones superiores não é nítida pela pró-
pria estrutura de linguagem do Texto Básico; se tais facilidades, Entre os assuntos tratados pelo Texto Maior está o da com-
repito, favorecem o aspecto da fruição integral desses recursos, petência legislativa tributária. Expressão de uma das diversas
não incluídos no rol daqueles que devem ser distribuídos entre formas empregadas pelo constituinte para traçar o desenho das
Estados, Distrito Federal e Municípios, tudo isso contou, cer- competências legiferantes voltadas à instituição de tributos, os
tamente, para chamar a atenção do poder político sobre as princípios constitucionais assumem especial relevância,
"vantagens" jurídicas e econômicas desse tipo de gravame, configurando preceitos a serem observados pelo legislador
explorado até aqui com grande vigor e determinação. infraconstitucional, no momento da criação das normas jurí-
A jurisprudência, ao seu jeito, vai construindo o sentido dicas tributárias. Por esta razão, o subsistema de que falamos
que lhe parece ser o mais justo, refletindo a inconstância dos é fortemente marcado por enunciados de cunho axiológico,
relacionamentos sociais, enquanto a doutrina acompanha esse revelando a orientação do legislador constituinte em impregnar
processo de configuração, procurando encontrar o perfil de as normas de inferior hierarquia com uma série de conteúdos
uma outorga de competência que o legislador constituinte não de preferência por núcleos significativos.
adscreveu de maneira expressa.
Eis um ponto de real interesse para o programa de uma 1.2.1. Competência legislativa tributária e os limites consti-
reforma constitucional, que envolve diretamente o bom fun- tucionalmente estabelecidos
cionamento das instituições, garantindo o contribuinte e o
próprio Estado-administração contra excessos que a Carta A Carta Fundamental traçou minuciosamente o campo e
Magna esteve longe de conceber e de autorizar. Por que não os limites da tributação, erigindo um feixe de princípios cons-
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

titucionais com o fim de proteger os cidadãos de abusos do Lógico, em situações desse jaez cabe-nos tão-somente especi-
Estado na instituição e exigência de tributos. Desse modo, o ficar o sentido em que estamos empregando a dicção, para
legislador, ao criar as figuras de exação, deve percorrer o ca- afastar, por esse modo, as possíveis ambiguidades.
minho determinado pelo Texto Maior, observando atentamen- Quadra advertir, portanto, que a mensagem não é dirigi-
te as diretrizes por ele eleitas. da somente ao legislador das normas gerais e abstratas, mas,
O primeiro é o cânone da legalidade, projetando-se sobre igualmente, ao administrador público, ao juiz e a todos aqueles
todos os domínios do direito e inserido no artigo 5 2 , II, do Tex- a quem incumba cumprir ou fazer cumprir a lei. No desempe-
to Constitucional vigente: "ninguém será obrigado a fazer ou nho das respectivas funções, a todos se volta o mandamento
deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei". No setor constitucional, que há de ser cumprido. Qualquer tipo de im-
do direito tributário, porém, esse imperativo ganha feição de posição tributária que se pretenda instituir há de curvar-se aos
maior severidade, por força do que se conclui da leitura do ditames desse primado, conquista secular dos povos civilizados
artigo 150, I, do mesmo Diploma: "sem prejuízo de outras ga- que permanece como barreira intransponível para os apetites
rantias asseguradas ao contribuinte, é vedado à União, aos arrecadatórios do Estado-administração.
Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios: I - exigir ou
O mesmo cabe dizer das demais regras impositivas de
aumentar tributo sem lei que o estabeleça". Em outras palavras, comportamentos aos contribuintes. Em linha de princípio, o
qualquer das pessoas políticas de direito constitucional inter-
veículo introdutor da norma tributária no ordenamento há de
no somente poderá instituir tributos, isto é, descrever a regra-
ser sempre a lei (sentido lato). O princípio da estrita legalidade,
matriz de incidência, ou aumentar os existentes, majorando a
todavia, vem acrescer os rigores procedimentais em matéria
base de cálculo ou a alíquota, mediante expedição de lei.
de tributo, dizendo mais do que isso: estabelece que a lei ad-
Não podemos deixar de considerar que têm, igualmente, ventícia traga, no seu bojo, os elementos descritores do fato
competência tributária o Presidente da República, ao expedir jurídico e os dados prescritores da relação obrigacional. Esse
um decreto sobre IR, ou seu Ministro ao editar a correspon- plus caracteriza a tipicidade tributária.
dente instrução ministerial; o magistrado e o tribunal que vão
A tipicidade tributária significa a exata adequação do fato
julgar a causa; o agente da administração encarregado de lavrar
à norma, e, por isso mesmo, o surgimento da relação jurídica
o ato de lançamento, bem como os órgãos que irão participar
se condicionará ao evento da subsunção, que é a plena corres-
da discussão administrativa instaurada com a peça impugna-
pondência entre o fato jurídico tributário e a hipótese de inci-
tória; aquele sujeito de direito privado habilitado a receber o
dência, fazendo surgir a obrigação correspondente, nos exatos
pagamento de tributo (bancos, por exemplo); ou mesmo o par-
termos previstos em lei. Não se verificando o perfeito quadra-
ticular que, por força de lei, está investido na condição de
mento, inexistirá obrigação tributária. Nesse percurso, ou
praticar a sequência procedimental que culminará com a pro-
ocorre a subsunção do fato à regra, ou não, afastando-se ter-
dução de norma jurídica tributária, individual e concreta (casos
de IPI, ICMS, ISS, etc.). Todos eles operam revestidos de com- ceira possibilidade. Perfaz-se aqui a eficácia da lei lógica do
petência tributária, o que mostra a multiplicidade de traços terceiro excluído: a proposição "p" é verdadeira ou falsa,
signifiCativos que a locução está pronta para exibir. Não haveria inadmitindo-se situação intermediária. Por outro lado, ocorri-
por que adjudicar o privilégio a qualquer delas, em detrimen- do o fato, a relação obrigacional que nasce há de ser exatamen-
to das demais. Como sugeriram expoentes do Neopositivismo te aquela estipulada no consequente normativo.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Em síntese, no trajeto de construção de sentido das nor- Manifesta-se, de fato, a competência tributária, ao desen-
mas tributárias (acepção estrita), os enunciados que versam as cadearem-se os mecanismos jurídicos do processo legislativo,
competências (normas indiretas da ação, para Gregorio Robles acionado, respectivamente, nos planos federal, estadual e mu-
Morchón 98 ), são decisivos para a estipulação das fronteiras nicipal. Por esse iter, rigidamente seguido em obediência às
dentro das quais o factum tributário pode acontecer. proposições prescritivas existentes, a União, os Estados, o Dis-
trito Federal e os Municípios elaboram as leis (acepção larga),
São três condições necessárias para o estabelecimento de
que são promulgadas e, logo depois, expostas ao conhecimento
vínculo tributário válido: sem lei anterior que descreva o even-
geral pelo ato da publicação. Vencidas as dificuldades desse
to, obrigação tributária não nasce (princípio da legalidade);
curso formativo, ingressam os textos legislados no ordenamento
sem subsunção do fato à hipótese normativa, também não
em vigor, surgindo a disciplina jurídica de novas situações tri-
(princípio da tipicidade); havendo previsão legal e a correspon-
butárias, no quadro do relacionamento da comunidade social.
dente subsunção do fato à norma e, após a devida transforma-
Foi exercida a competência, enriquecendo-se o direito positivo
ção na linguagem competente, os elementos do liame jurídico
com o acréscimo de outras unidades normativas sobre tributos.
irradiado devem equivaler àqueles prescritos na lei. O desres-
peito a esses cânones fulminará, decisivamente, qualquer Transportando-se isto para o quadro das formulações
pretensão de cunho tributário. normativas e adotando pressuposto de que toda norma jurídi-
ca é sintaticamente homogênea, variando apenas em planos
É da tradição do direito brasileiro reger a matéria das
semânticos e pragmáticos, podemos afirmar que, com a com-
competências no altiplano constitucional, deixando bem claro
petência tributária, deparar-nos-emos com a mesma estrutura
o poder jurídico atribuído às pessoas, aos órgãos e às institui-
normativa bipartida. Tácio Lacerda Gama 99 , analisando o tema
ções. E, no que concerne ao direito tributário, é procedimento
sobre a contribuição de intervenção, acertadamente compõe
iterativo, traço inconfundível do nosso sistema, principalmen-
essa estrutura normativa, asseverando que:
te pela abundância principiológica, como já demonstramos, e
pela maneira exaustiva com que os constituintes foram mol- "a norma de competência tributária em sentido estrito re-
dando as leis fundamentais, no correr da História. Esse pecu- quer a reunião das proposições construídas a partir da
liar modo de conceber os paradigmas constitucionais que leitura do direito positivo numa estrutura lógico-condicio-
sempre regeram as relações tributárias no Brasil foi anotado nal. No antecedente dessa norma, descreve-se um fato — o
com riqueza de pormenor por Geraldo Ataliba, no seu clássico processo de enunciação necessário à criação dos tributos —,
imputa-se a esse fato uma relação jurídica, cujo objeto con-
Sistema Constitucional Tributário Brasileiro, obra insuperável
siste na faculdade de criar tributos. De forma análoga ao
que indica a necessidade premente de estabelecer-se o texto que se dá com as demais normas jurídicas, sem que se
da constituição como patamar a partir do qual os processos construa essa norma em sentido estrito, a análise da com-
interpretativos hão de desenvolver-se, para chegar ao sentido petência estará incompleta."
que o exegeta tem por bem atribuir ao material linguístico
bruto do direito positivo. Eis um breve resumo da competência no direito tributário.

98. Gregorio Robles Morchón, Teoria del derecho: fundamentos de teoria 99. Tácio Lacerda Gama, Contribuição de intervenção no domínio econômico,
comunicacional del derecho, Madrid, Civitas, 1998. São Paulo, Quartier Latin, 2003, p. 73.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

1.2.2. Competência legislativa tributária e a aptidão de inovar a) Quanto aos impostos (tributos não-vinculados de acor-
o sistema jurídico do com a classificação de Geraldo Ataliba), os elementos rele-
vantes para sua fisionomia jurídica encontram-se estipulados
"Competência", com as acepções encontradas no direito no sistema constitucional tributário brasileiro de modo minu-
positivo e na doutrina, é termo próprio do vocabulário técnico- cioso. As situações susceptíveis de integrar o critério material
jurídico. Quando empregado na Constituição para autorizar as dos impostos de competência da União, dos Estados, do Dis-
pessoas políticas de direito constitucional interno a legislar sobre trito Federal e dos Municípios foram previstas nos artigos 153,
matéria tributária, falamos em "competência tributária". Trata-se 155 e 156, remanescendo aberta apenas a faixa de competência
de especificação da competência legislativa, posta como aptidão tributária da União, em face da possibilidade residual estabe-
de que são dotadas aquelas pessoas para expedir regras jurídicas, lecida no artigo 154, I, do Texto Supremo.
inovando o ordenamento, e que se opera pela observância de uma b) As taxas e contribuições de melhoria, tributos direta e
série de atos, cujo conjunto caracteriza o procedimento legislati- indiretamente vinculados à atuação estatal, respectivamente,
vo. A despeito de a locução experimentar outras tantas acepções podem ser instituídos por qualquer das pessoas políticas. Con-
na própria simbologia do direito tributário brasileiro, focalizarei quanto à primeira vista pareça que o constituinte não repartiu
esse modo de emprego da expressão, circunscrito à atividade de entre elas o poder para criar taxas, tal equívoco se desfaz por
legislar sobre o assunto, em termos inaugurais. meio do exame dos dispositivos constitucionais que disciplinam
as competências administrativas das várias esferas: União,
No plexo de faculdades legislativas que o constituinte
Estados, Distrito Federal e Municípios só estão autorizados a
estabeleceu, figura aquela de editar normas disciplinadoras do
instituir e cobrar taxas na medida em que desempenhem a
segmento das imposições tributárias, desde a que contemple
atividade que serve de pressuposto para sua exigência. O mes-
o próprio fenômeno da incidência, até as que disponham a
mo raciocínio deve ser efetuado com relação às contribuições
propósito de uma imensa gama de providências, circundando
de melhoria: tendo em vista a necessária vinculação (ainda que
o núcleo da regra-matriz e tornando possível a realização con- indireta) à atuação estatal, é permitida sua instituição apenas
creta dos direitos subjetivos de que é titular o sujeito ativo, bem pela pessoa jurídica de direito público que realizar a obra pú-
como dos deveres cometidos ao sujeito passivo. blica geradora de valorização nos imóveis circunvizinhos.
A competência tributária é, em síntese, uma das parcelas c) Os empréstimos compulsórios, por sua vez, são de com-
entre as prerrogativas legiferantes das quais são portadoras as petência privativa da União. Não obstante essa exação possa
pessoas políticas, consubstanciada na faculdade de legislar revestir qualquer das formas que correspondam às espécies
para a produção de normas jurídicas sobre tributos. Configura do gênero tributo (imposto, taxa ou contribuição de melhoria),
tema eminentemente constitucional. Uma vez cristalizada a conforme a hipótese de incidência e base de cálculo eleitos pelo
delimitação do poder legiferante, pelo seu legítimo agente (o legislador, a disciplina jurídico-tributária à qual está sujeita
constituinte), a matéria dá-se por pronta e acabada, carecendo apresenta peculiaridades, relacionadas no artigo 148, incisos I
de sentido sua reabertura em nível infraconstitucional. e II, da Constituição. A União só está autorizada a fazer uso
A Constituição da República é extremamente analítica, desse tributo (i) para atender a despesas extraordinárias, de-
relaciónando as hipóteses em que as pessoas jurídicas de di- correntes de calamidade pública, de guerra externa ou sua
reito público, por intermédio dos respectivos poderes legisla- i minência; e (ii) no caso de investimento público de caráter
tivos, estão habilitadas à instituição de tributos: urgente e de relevante interesse nacional, devendo introduzi-los

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

no ordenamento, necessariamente, por meio da edição de lei conformam o regime tributário desses tributos. Por isso, além
complementar. de prescrever os dispositivos que fundamentam a regra-matriz
de incidência tributária, a norma de competência determina,
d) Por fim, a Carta Magna faculta, no artigo 149, a criação também, qual destino deve ser dado ao produto de arrecadação.
100
de contribuições sociais, de intervenção no domínio econô- Como percebeu de maneira inaugural Tácio Lacerda Gama, é
mico e de interesse de categorias profissionais e econômicas. a norma de competência que vincula a instituição da norma
Essas competências são exclusivas da União, salvo as contri- tributária à norma financeira que prescreve a destinação do
buições sociais cobradas dos servidores públicos, destinadas produto arrecadado. Eis suas palavras:
ao financiamento de seus sistemas de previdência e assistência
social, cuja exigência é autorizada aos Estados, Distrito Federal "... à construção da norma de competência que regula a
e Municípios, e da contribuição para custeio do serviço de criação das contribuições (...), seria possível separar os enun-
iluminação pública, atribuída aos Municípios e Distrito Federal ciados que delimitam a criação de uma dessas contribuições
pelo artigo 149-A e parágrafo único, introduzidos pela Emenda em dois blocos distintos, mas inter-relacionados: de um lado,
surgiria o conjunto de enunciados que delimitam a instituição
Constitucional n. 39/2002. Também com relação a esse tributo
da regra-matriz de incidência possível; do outro, agrupar se--

o constituinte foi expresso ao impor limitações à atuação legis-


ia o conjunto de enunciados que indicam afinalidade especial
lativa infraconstitucional, prescrevendo observância ao regime ,
que enseja a instituição do tributo' ioi (grifos no original).
jurídico tributário, com especial rigor no que diz respeito às
contribuições sociais destinadas ao financiamento da seguri- Nesses termos, observa-se quão rígido é o sistema cons-
dade social, para as quais delimitou os conteúdos susceptíveis titucional tributário brasileiro, não podendo esse fato ser
de tributação, estatuindo, para o exercício de competência ignorado pelo legislador infraconstitucional ou pelo aplicador
residual, o cumprimento dos requisitos do artigo 154, I, do do direito.
Texto Maior (artigo 195, § 4 2 , da CR/88). Além disso, todas as
contribuições previstas no art. 149 devem observância aos
1.2.3. Competência residual
artigos 146, III, e 150, I e III, que determinam, respectivamen-
te, submissão do exercício da competência às normas gerais A Constituição de 1988 deu autorização expressa para que
de direito tributário, a observância do princípio da estrita le- a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios legis-
galidade tributária, bem como os da anterioridade, da irretro- lassem sobre determinados impostos, mas, além disso, outorgou
atividade e todos os demais que se apliquem indiretamente ao à União a chamada "faixa de competência residual", contida
gênero tributo. no artigo 154, I, bem como a previsão do inciso II do mesmo
Ressalta-se que a norma de competência, nos domínios dispositivo, conhecida como competência extraordinária. Exa-
das contribuições, tem a função de aglutinar os elementos que minemos a primeira.
Prescreve o mencionado artigo 154, I, da Constituição
brasileira:
100. À semelhança do que ocorre com os empréstimos compulsórios, também
as contribuições podem assumir a feição de impostos ou taxas, conforme sua
hipótese de incidência, confirmada pela base de cálculo, seja vinculada ou
não-vinculada a uma atuação estatal. 101. Contribuições de intervenção no domínio econômico, ob. cit., p. 84.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

"A União poderá instituir: extravagantes). E a competência residual permaneceu inativa,


I — mediante lei complementar, impostos não previstos no decorando a tábua de possibilidades legiferantes do ente federal.
artigo anterior, desde que sejam não-cumulativos e não
tenham fato gerador ou base de cálculo próprios dos discri-
Por outro lado, a disjunção "fato gerador" ou base de
minados nesta Constituição". cálculo não exprime bem aquilo que uma interpretação siste-
mática do Texto Constitucional reivindica. Ambos devem ser
A titularidade competencial é da pessoa política União, considerados conjuntamente. Formam, aliás, o binômio que dá
que deverá exercê-la por meio de lei complementar, com o a feição tipológica do tributo. É comparando a hipótese de
quorum estipulado no artigo 69 da Lei Maior, vale dizer, com incidência com a base de cálculo que saberemos distinguir im-
maioria absoluta. Em outras palavras, a previsão do art. 154, I, postos de taxas e, destas, a contribuição de melhoria. Em outras
da CF/88 requer ser somente lei complementar o veículo intro- palavras, por este critério que apontaremos as diferenças entre
dutor do tributo que tem por fundamento de validade a com- os impostos, as taxas e as contribuições de melhoria.
petência residual, contendo-se nesta lei, portanto, todos os Para efeito de demarcação do espaço jurídico da compe-
elementos que compõem a regra-matriz de incidência da exa- tência residual, entretanto, o binômio hipótese de incidência/
ção instituída. E a autorização delimita apenas o ponto de base de cálculo aparece como pressuposto indeclinável, não
partida: impostos não previstos no artigo anterior. A contar daí, podendo a nova exação utilizar qualquer das hipóteses ou ba-
a área a ser explorada pela entidade tributante fica indetermi- ses de cálculo arroladas para a competência dos Estados, dos
nada, expandindo-se até onde puder ir o talento criativo do seu Municípios ou do Distrito Federal. Respeitados esses limites e
legislador. Os limites referidos, quais sejam, a não-cumulativi- empregado o instrumento próprio - lei complementar -, a União
dade e a circunstância de não terem "fato gerador" ou base de poderá criar o imposto que bem lhe aprouver.
cálculo próprios dos discriminados na Constituição, por serem
requisitos de técnica jurídica, não interferem no tamanho da 1.2.4. Competência extraordinária
competência residual, mas sim no modo de realizá-la. Não so-
beja repisar que tais limitações têm por destinatário o legisla- Também coube à União a competência constitucional para
dor infraconstitucional, encontrando-se fora de sua abrangên- instituir impostos extraordinários, compreendidos ou não no
cia o poder constituinte derivado. Nestes termos, emenda à campo que lhe fora outorgado, os quais serão suprimidos, gra-
Constituição poderia tratar sobre competência residual sem dativamente, cessadas as causas de sua criação. Em decorrên-
tomar em conta tais enunciados limitativos, afirmativa esta já cia, justamente, deste enunciado, a privatividade, caracterís-
consolidada no STF em voto do Eminente Min. Carlos Velloso tica atribuída pela doutrina tradicional às competências legis-
(julgamento da ADIn 939/DF) inclusive. lativas, não se sustenta. Autorizada a União a legislar sobre
competências de outros entes políticos, confere-se-lhe aptidão
Ajeita-se aqui uma observação de cunho histórico, mas
legislativa concorrente aos Estados, Distrito e Municípios. Daí
que nos parece procedente: há muito que a União dispõe de
dizer-se privativos, no Brasil, somente os impostos outorgados
faixa residual de competência tributária. Em vez de movimen-
à União. Em outros termos, a privatividade fica reduzida tão
tá-la ; nas ocasiões em que necessitou, preferiu servir-se de
só à faixa de competência do Poder Público Federal.
expedientes desaconselháveis, como a singela mudança de
nomes (chamando impostos pela designação de taxas, emprés- Além de ser uma pessoa política de direito constitucional
timos compulsórios, contribuições e uma sorte de epítetos interno, a União foi investida dessa competência por força de

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

sua condição de pessoa política no concerto das nações, impor- ordinário aos ditames da anterioridade, tanto aquela prevista
ta dizer, pessoa política de direito constitucional externo. no inciso III, b, do art. 150 (exercício financeiro seguinte) quan-
O pressuposto, porém, é explícito: na iminência ou no caso to aquel'outra enunciada na alínea c do mesmo inciso (nona-
de guerra externa. De fato, para enfrentar as vicissitudes de gesimal). No entanto, o constituinte entendeu por bem pres-
guerra externa, ou de sua iminência, entendeu por bem o crever expressamente não se aplicar aos impostos extraordi-
constituinte de 1988 atribuir tal autorização legiferante ao ente nários as regras da anterioridade, conforme prescrição do
federal, consignando-a na redação do artigo 154, II. Convém parágrafo 1 2 do art. 150.
esclarecer, todavia, que por guerra externa haveremos de en-
tender aquela de que participe o Brasil, diretamente, ou a si- 1.2.5. Competência tributária e capacidade tributária ativa
tuação de beligerância internacional que provoque detrimen-
tos ao equilíbrio econômico-social brasileiro. É claro que na No curso do presente subitem, tomaremos competência
segunda hipótese os efeitos do conflito internacional hão de tributária com a significação acima especificada, vale dizer, de
ser tais que se equiparem àqueles que seriam suscitados caso legislar (pelo Poder Legislativo, já que "legislador", em sentido
o Brasil participasse efetivamente da guerra. Diga-se o mesmo amplo, todos nós o somos). Esta não se confunde com a capa-
da iminência de guerra externa. cidade tributária ativa. Uma coisa é poder legislar, desenhando
No falar cotidiano, os impostos originários de competên- o perfil jurídico de um gravame ou regulando os expedientes
cia extraordinária poderão vir com o qualificativo de finalida- necessários à sua funcionalidade; outra é reunir credenciais
de específica, sendo aqueles que se determinam pela sua vin- para integrar a relação jurídica, no tópico de sujeito ativo. O
culação a um objetivo pré-fixado. Um imperativo, entretanto, estudo da competência tributária é um momento anterior à
deve ser observado. Cessadas as causas que determinaram a existência mesma do tributo, situando-se no plano constitucio-
criação dos impostos extraordinários, serão eles suprimidos, nal. Já a capacidade tributária ativa, que tem como contrano-
gradativamente. Logo, deixando de existir a causa, deve-se ta a capacidade tributária passiva, é tema a ser considerado no
extinguir a referida exação, o que se dá somente mediante a ensejo do desempenho das competências, quando o legislador
expedição de um novo enunciado jurídico-normativo que re- elege as pessoas componentes do vínculo abstrato, que se ins-
vogue o imposto instituído. tala no instante em que acontece, no mundo físico e social, o
Satisfeito o pressuposto, o legislador federal poderá editar fato previsto na hipótese normativa.
normas jurídicas que venham a instituir impostos, dentro ou A distinção justifica-se plenamente. Reiteradas vezes, a
fora de seu âmbito de competência, isto é, poderá servir-se pessoa que exercita a competência tributária se coloca na po-
daquelas exações que foram concedidas, inicialmente, aos sição de sujeito ativo, aparecendo como credora da prestação
Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios, o que caracteri- a ser cumprida pelo devedor. É muito frequente acumularem-
zaria hipótese de bitributação constitucionalmente autorizada; se as funções de sujeito impositor e de sujeito credor numa
como também de sua própria competência, resultando na pessoa só. Além disso, uma razão de ordem constitucional nos
constitucionalidade de específicas situações de 'bis in idem'. leva a realçar a diferença: a competência tributária é intrans-
Por último, é intuitivo crer que o exercício da competên- ferível, enquanto a capacidade tributária ativa não o é. Quem
cia extraordinária, em decorrência do próprio pressuposto recebeu poderes para legislar pode exercê-los, não estando,
escolhido pelo Texto Maior, não enseja submissão do legislador porém, compelido a fazê-lo, com exceção do ICMS, que há de

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

ser instituído e mantido, obrigatoriamente, pelas pessoas po- de inequívocas providências no sentido de prestigiar certas
líticas competentes (Estados-membros e Distrito Federal). situações, tidas como social, política ou economicamente va-
Todavia, em caso de não-aproveitamento da faculdade legisla- liosas, às quais o legislador dispensa tratamento mais confor-
tiva, a pessoa competente estará impedida de transferi-la a tável ou menos gravoso. A essa forma de manejar elementos
qualquer outra. Trata-se do princípio da indelegabilidade da jurídicos usados na configuração dos tributos, perseguindo
competência tributária, que se põe entre as diretrizes implícitas objetivos alheios aos meramente arrecadatórios, dá-se o nome
e que é uma projeção daquele postulado genérico do artigo 2 2 de "extrafiscalidade". Alguns exemplos esclarecerão bem o
da Constituição, aplicável, por isso, a todo o campo da ativida- assunto. A lei do Imposto Territorial Rural (ITR), ao fazer in-
de legislativa. A esse regime jurídico não está submetida a cidir a exação de maneira mais onerosa, no caso dos imóveis
capacidade tributária ativa. inexplorados ou de baixa produtividade, busca atender, em
É perfeitamente possível que a pessoa habilitada para primeiro plano, a finalidades de ordem social e econômica e
legislar sobre tributos edite a lei, nomeando outra entidade não ao incremento de receita. A legislação do Imposto sobre a
para compor o liame, na condição de sujeito titular de direitos Renda e proventos de qualquer natureza (IR) permite o abati-
subjetivos, o que nos propicia reconhecer que a capacidade mento de verbas gastas em determinados investimentos, tidos
tributária ativa é transferível. Acredito que esse comentário como de interesse social ou econômico, tal o reflorestamento,
explique a distinção que deve ser estabelecida entre compe- justamente para incentivar a formação de reservas florestais
tência tributária e capacidade tributária ativa. no país. Em outras passagens, na composição de sua base de
cálculo, seja entre as deduções ou entre os abatimentos da
1.2.6. Fiscalidade, extrafiscalidade e parafiscalidade renda bruta, insere medidas que caracterizam, com nitidez, a
extrafiscalidade. Quanto ao IPI, a própria Constituição pres-
Os signos fiscalidade, extrafiscalidade e parafiscalidade creve que suas alíquotas serão seletivas em função da essen-
são termos usualmente empregados no discurso da Ciência do cialidade dos produtos (artigo 153, § 3 2 , I), fixando um critério
Direito para representar valores finalísticos que o legislador que leva o legislador ordinário a estabelecer percentuais mais
imprime na lei tributária, manipulando as categorias jurídicas
elevados para os produtos supérfluos. Os chamados "tributos
postas à sua disposição. Raríssimas são as referências que a eles
aduaneiros" — impostos de importação e de exportação — têm
faz o direito positivo, tratando-se de construções puramente
apresentado relevantíssimas utilidades na tomada de iniciativas
doutrinárias. O modo como se dá a utilização do instrumental
diretoras da política econômica. Haja vista para a tributação dos
jurídico-tributário é o fator que identifica o gravame em uma
automóveis importados do exterior que, em dado momento
das três classes. Fala-se, assim, em "fiscalidade" sempre que a
organização jurídica do tributo denuncie que os objetivos que histórico, foi desestimulante ao extremo, para impulsionar a
presidiram sua instituição, ou que governam certos aspectos indústria automobilística nacional.
da sua estrutura, estejam voltados ao fim exclusivo de abaste- Há tributos que se prestam, admiravelmente, para a in-
cer os cofres públicos, sem que outros interesses — sociais, trodução de expedientes extrafiscais. Outros, no entanto, in-
políticos ou econômicos — interfiram no direcionamento da clinam-se mais ao setor da fiscalidade. Não existe, porém,
atividade impositiva. entidade tributária que se possa dizer pura, no sentido de re-
A experiência jurídica nos mostra, porém, que vezes sem alizar tão-só a fiscalidade, ou, unicamente, a extrafiscalidade.
conta a compostura da legislação de um tributo vem pontilhada Os dois objetivos convivem, harmônicos, na mesma figura

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

impositiva, sendo apenas lícito verificar que, por vezes, um Em algumas oportunidades, porém, verificamos que a lei
predomina sobre o outro. instituidora do gravame indica sujeito ativo diferente daquele
que detém a respectiva competência, o que nos conduz à con-
Consistindo a extrafiscalidade no uso de fórmulas jurídi-
clusão de que uma é a pessoa competente, outra a pessoa
co-tributárias para a obtenção de metas que prevalecem sobre
credenciada a postular o cumprimento da prestação. Ora,
os fins simplesmente arrecadatórios de recursos monetários, sempre que isso ocorrer, apontando a lei sujeito ativo diverso
o regime que há de dirigir tal atividade não poderia deixar de do portador da competência impositiva, estará o estudioso
ser aquele próprio das exações tributárias. Significa, portanto, habilitado a reconhecer duas situações juridicamente distintas:
que, ao construir suas pretensões extrafiscais, deverá o legis- a) o sujeito ativo, que não é titular da competência, recebe
lador pautar-se, inteiramente, dentro dos parâmetros consti- atribuições de arrecadar e fiscalizar o tributo, executando as
tucionais, observando as limitações de sua competência impo- 2
normas legais correspondentes (CTN, artigo 7 ), com as garan-
sitiva e os princípios superiores que regem a matéria, assim tias e privilégios processuais que competem à pessoa que le-
entendidos tanto os dispositivos expressos quanto os implícitos. gislou (CTN, artigo 7 2 , § 1 2 ), mas não fica com o produto arre-
Não tem cabimento aludir-se a regime especial, visto que o cadado, isto é, transfere os recursos ao ente político; ou b) o
instrumento jurídico utilizado é invariavelmente o mesmo, sujeito ativo indicado recebe as mesmas atribuições do item a,
modificando-se tão-somente a finalidade do seu emprego. acrescidas da disponibilidade sobre os valores arrecadados,
para que os aplique no desempenho de suas atividades espe-
Tenho insistido, reiteradamente, por fim, que só as pessoas
cíficas. Nesta última hipótese, temos consubstanciado o fenô-
políticas — União, Estados, Distrito Federal e Municípios — dis-
meno jurídico da parafiscalidade.
põem de competência tributária, na acepção que especificamos,
pois são as únicas dotadas de Poder Legislativo e, por via de con- Firmado esse preâmbulo, podemos definir "parafiscali-
sequência, com possibilidades de produzir inovações na ordem dade" como o fenômeno jurídico que consiste na circunstância
jurídica. E exercer a competência tributária nada mais é que de a lei tributária nomear sujeito ativo diverso da pessoa que
editar leis que instituam tributos ou regulem sua funcionalidade. a expediu, atribuindo-lhe a disponibilidade dos recursos aufe-
ridos, tendo em vista o implemento de seus objetivos peculiares.
A competência tributária pressupõe a capacidade ativa. A propósito adverte Paulo Ayres Barretol° :
2

Vale dizer, às três entidades a quem se outorgou a faculdade


de expedir leis fiscais, atribuiu-se a prerrogativa de serem "A não coincidência entre a titularidade da competência
sujeitos ativos de relações jurídicas de cunho tributário. Desse i mpositiva e a indicação do sujeito ativo da relação jurídica
modo, sendo a União competente para legislar sobre o IPI, será não desnaturam o caráter tributário da exigência. Da mesma
forma, a disponibilidade do recurso ao eleito para figurar no
ela, em princípio, a pessoa capaz de integrar a relação jurídica,
pólo ativo dessa mesma relação jurídica, com o objetivo de
na condição de titular do direito subjetivo de exigir o mencio-
aplicação nos propósitos que motivaram a sua exigência, não
nado imposto. Assim ocorre com grande número de tributos, modifica a sua natureza tributária. A parafiscalidade harmo-
tanto vinculados como não-vinculados. Omitindo-se o legisla- niza-se plenamente com o conceito de tributo."
dor a propósito do sujeito ativo do vínculo que irá desabrochar
com o acontecimento do fato jurídico tributário, podemos per-
feitamente entender que se referiu a si próprio, na qualidade 102. Contribuições: regime jurídico, destinação e controle, São Paulo, Noeses,
de pessoa jurídica de direito público. 2006, p. 99.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Dois aspectos, por conseguinte, hão de ser atendidos para a obrigação, satisfazendo o devedor o pagamento que lhe cabia
que possamos isolar o chamado tributo parafiscal: 1) sujeito perante o sujeito pretensor. Transcorrido esse momento, ingres-
ativo indicado expressamente na lei instituidora da exação, samos no terreno do direito financeiro. Recordemo-nos, para
diferente da pessoa política que exerceu a competência; e 2) encerrar, do teor do artigo 4 4 do Código Tributário Nacional,
atribuição, também expressa, do produto arrecadado, à pessoa que afirma ser irrelevante para a qualificação jurídica específi-
apontada para figurar como sujeito ativo. ca do tributo a destinação legal do produto da arrecadação.
Poderão ser sujeitos ativos de "tributos parafiscais" as
pessoas jurídicas de direito público, com ou sem personalidade 1.2.7. Competência legislativa e ICMS
política, e as entidades paraestatais, que são pessoas jurídicas
O imposto sobre operações relativas à circulação de mer-
de direito privado, mas que desenvolvem atividades de inte-
cadorias e sobre prestações de serviços de transporte interes-
resse público.
tadual e intermunicipal e de comunicação, mais conhecido pela
Inúmeros são os casos de tributação parafiscal no direito sigla ICMS, foi outorgado à competência dos Estados e do
positivo brasileiro. As contribuições previdenciárias (INSS Distrito Federal, consoante o artigo 155, II, da Lei Suprema.
— autarquia federal); as quantias exigidas pela OAB (Ordem dos Dessa maneira, considerando o feixe de normas constitucionais
Advogados do Brasil — autarquia federal) e muitos outros. que disciplinam a matéria, veremos que a uniformidade de sua
implantação jurídica, em todo o território brasileiro, com a
Todas as espécies impositivas são instrumentos idôneos
adoção de medidas harmonizadoras que permitem a sistema-
da parafiscalidade. Quer as exações vinculadas (taxas e con-
tização da cobrança, aliadas a outros expedientes assecurató-
tribuições de melhoria), quer as não-vinculadas (impostos). A rios do regular intercâmbio entre os sujeitos tributantes, tudo
contribuição previdenciária que se reclama do empregado, por isso nos leva a concluir pelo indisfarçável caráter nacional do
exemplo, tem a natureza jurídica de taxa. Já com relação ao gravame. Tais aspectos exprimem feição peculiar à chamada
empregador, o tributo assume a feição de imposto. Não temos competência legislativa do ICMS. Passemos à análise.
notícias concretas a respeito do uso da contribuição de melhoria,
Torna-se necessário lembrar que a competência tributária
dentro do esquema da parafiscalidade, o que não impede sua
é exercida por intermédio de lei (ordinária ou, excepcional-
inclusão entre as formas jurídicas disponíveis para esse fim.
mente, complementar) e ela é, de modo geral, facultativa, vale
Por manipular categorias próprias às espécies tributárias, dizer, o ente público é livre para instituir o tributo que lhe foi
seria até despiciendo lembrar que o estatuto da parafiscalidade conferido pela Lei Maior. A única exceção a esse característico
está estreitamente subordinado ao regime jurídico-constitu- traço do exercício da competência refere-se ao ICMS, pois que,
cional dos tributos. Uma advertência, contudo, não pode ficar pelas regras próprias, os Estados e o Distrito Federal estão
sem registro: o tema, a bem do rigor, não pertence ao domínio obrigados a implantar e a arrecadar a exação, em decorrência
especulativo do direito tributário, uma vez que a nota caracte- do que dispõe o artigo 155, da Lei Suprema:
rística de sua definição jurídica reside na conjuntura de as
i mportâncias recebidas incorporarem-se ao patrimônio do "§ aQ será não-cumulativo, compensando-se o que for devi-
do em cada operação relativa à circulação de mercadorias
sujeito ativo, que as investe em seus objetivos primordiais, ou prestação de serviços com o montante cobrado nas ante-
quando sabemos que o ponto terminal das investigações jurí- riores pelo mesmo ou outro Estado ou pelo Distrito Federal;
dico-tributárias é, precisamente, o instante em que se extingue (...)
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

XII - cabe à lei complementar: a integração de legislações estaduais, muitas vezes diversas e
(...)
conflitantes. Nutro com convicção de que somente com os
f) prever casos de manutenção de crédito, relativamente à convênios pôde ser alcançada a integração de todos esses sub-
remessa para outro Estado e exportação para o exterior, de sistemas normativos de ICMS elaborados pelos Estados e pelo
serviços e de mercadorias; Distrito Federal.
g) regular a forma como, mediante deliberação dos Estados Agora, outro ponto é examinar os convênios sob o lado da
e do Distrito Federal, isenções, incentivos e benefícios fiscais
sua juridicidade. Os convênios, continuo dizendo, são uma
serão concedidos e revogados (...)."
aberração em termos de ofensa ao princípio da legalidade.
Estes hão de ser, segundo a estipulação constitucional, firmados
Por esse modo, é forçosa a ilação de que os Estados e o
e ratificados pelos Estados. Quando se diz "firmados pelos
Distrito Federal não podem deixar de obedecer, direta ou in-
Estados" e "ratificados pelos Estados", não significa, eviden-
diretamente, à letra constitucional, tal como inserida na alínea
temente, a possibilidade de o Secretário de Fazenda celebrar
g, do artigo 155, cabendo-lhes produzir a legislação correspon-
o convênio, trazê-lo de volta para seu Estado, levá-lo ao Gover-
dente ao gravame.
nador e este chancelá-lo. Não! Quando se diz isso - e nós sa-
Sabemos que o ICMS é o tributo com a maior participação bemos que no Brasil ninguém será obrigado a fazer ou não
no montante das receitas do sistema brasileiro e isso mostra fazer alguma coisa senão em virtude de lei - pressupõe-se o
não só sua importância, como também nos faz pensar que a estabelecimento do convênio e, depois, sua ratificação pela
supremacia de que desfruta, hoje, vem sendo conquistada Assembléia mediante Decreto-legislativo.
gradativamente. O Estado do Rio Grande do Sul foi o primeiro a submeter
Em congressos internacionais, tenho notado uma curio- os convênios à apreciação do Poder Legislativo. Em todo caso,
sidade muito grande por parte de professores e especialistas essa subordinação ao poder legislativo, que é positiva e faz
de outros países com relação a esse tributo aqui no Brasil. Eles respeitar o princípio da legalidade, vem sendo feita de forma
indagam como é possível um imposto dessa natureza, de cará- automática. Não tenho notícias de convênios que foram rejei-
ter nacional, sendo produzido por focos ejetores de normas tão tados. Tem-se uma aprovação automática, o que tira, de certo
diferentes (quer dizer, as unidades federadas, e, além disso, o modo, o valor da iniciativa do Estado do Rio Grande do Sul,
Distrito Federal) funcionar bem, já que a experiência de outros pois caberia ao Poder Legislativo manifestar-se, discutindo os
países se dá de forma bem diferente. Quer dizer, o órgão que termos do acordo, para depois aprová-lo.
gera as normas, a fonte normativa do imposto, nos demais Outro tanto ocorre no plano internacional com os acordos
países, é o poder central, ficando muito mais fácil, naturalmen- entre nações. Nós sabemos que o Presidente da República pode
te, implantar e administrar o tributo. Diante dessa indagação, celebrar tratados ou convenções internacionais e, no entanto,
entendi que a única resposta plausível seria a seguinte: os esses tratados dependem do referendum legislativo, ato próprio
convênios, tão combatidos, sob certos aspectos, e sobre os quais do nosso Parlamento, que o ratifica, aprovando-o. Como o
os juristas se manifestam com reservas, na verdade têm pro- convênio teria essa força? Eis uma questão a ser refletida e que
piciado a integração e a possibilidade de o ICMS adquirir o a legislação, como está hoje, não nos dá resposta adequada.
vulto que vem hoje no quadro de participação das receitas no
sistema brasileiro. Vejam bem: esse é um aspecto positivo dos O importante é destacar, em se tratando de convênios,
convênios, pois se tornaram um instrumental significante para que o princípio da legalidade não pode ser afastado em prol do

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

pragmatismo e do interesse executivo. A ratificação efetiva e que se levar em conta o conjunto ou subconjunto em que ele é
fundamentada pelo Poder Legislativo é o que confere validade tomado elucidando o texto ("princípio") dentro do contexto.
a tais diplomas normativos, tornando-os válidos e juridicamen- Tornou-se necessário apresentar os princípios na textura das
te executáveis. Entender de outra forma é aniquilar o princípio várias linguagens jurídicas, como o primeiro corte metodoló-
federativo, o princípio da legalidade e tantos outros que sus- gico a ser feito no presente estudo e, a partir daí, prosseguir
tentam o sistema. elaborando outros cortes, classificando em critérios objetivos,
buscando com isso identificar na ordem do direito, em geral,
no sistema jurídico formador do Estado brasileiro e no direito
1.3. OS PRINCÍPIOS JURÍDICOS TRIBUTÁRIOS tributário os primados que integram a estrutura e que servem
de alicerce para a compreensão dos diversos microssistemas
Venho insistindo na tese de que, com a linguagem, o homem
do direito. Vejamos.
vai criando novos nomes e novos fatos, na conformidade de seus
interesses e de suas necessidades, atribuindo valores de acordo
com a sociedade em que vive num dado momento histórico. Com 1.3.1. Os "princípios" na textura das várias linguagens jurídicas
o passar do tempo, aqueles mesmos vocábulos, já conhecidos,
Empregamos "linguagem jurídica" para designar os sis-
passam a assumir novas acepções, tanto uns como outros incor-
temas de comunicação que se prestam ao objetivo de realizar
porando-se ao patrimônio linguístico por força de incessantes
ou de aludir ao fenômeno jurídico. Por essa locução mencio-
mutações sociais. É a linguagem constituindo realidades novas e
naremos o chamado direito posto, a Dogmática Jurídica ou
alargando as fronteiras do nosso conhecimento. Ciência do Direito em sentido estrito, bem como todos aqueles
Conhecer é saber emitir proposições sobre determinadas setores do conhecimento que tomam o sistema do direito po-
situações, pessoas ou coisas. A partir do momento em que fa- sitivo como objeto de suas indagações, ainda que não o façam
lamos sobre algo, conferindo acepções, definindo, dividindo, em termos exclusivos. Nessa linha de pensamento, é linguagem
classificando em gênero e espécies, conhecemos mais profun- jurídica a da Filosofia do Direito e, dentro dela, a da Lógica
damente aquele objeto que nos é dado. E, nesse sentido, todo Jurídica, a da Epistemologia do Direito, a da Axiologia do Di-
objeto, seja ele natural, metafísico, ideal, e, no nosso caso, cul- reito e a da Ontologia Jurídica. Mas serão também "linguagem
tural, está submetido a esse processo cognitivo. Trata-se do jurídica" a Sociologia do Direito, a Antropologia Cultural do
"cerco inapelável da linguagem". Direito, a História do Direito e tantas mais que levem em con-
ta de objeto o sistema das normas positivadas.
O vocábulo "princípio" porta, em si, uma infinidade de
De um lado, como linguagem-objeto, temos determinada
acepções, que podem variar segundo os valores da sociedade
ordem jurídico-normativa, operando num ponto do tempo
num dado intervalo da sua história. No direito, ele nada mais
histórico e sobre dado espaço territorial; de outro, como meta-
é do que uma linguagem que traduz para o mundo jurídico-
linguagem descritiva, a Ciência do Direito em sentido estrito
prescritivo, não o real, mas um ponto de vista sobre o real,
ou Dogmática Jurídica, voltada somente a compreender e re-
caracterizado segundo os padrões de valores daquele que o latar sua linguagem-objeto. A Filosofia do Direito comparece
interpreta.
aqui na condição de metalinguagem se suas reflexões incidirem
No labor de definir o que seja o princípio no ordenamen- sobre a linguagem do direito positivo. As meditações filosóficas,
to jurídico e, mais especificamente, no direito tributário, há entretanto, trabalham muitas vezes sobre construções científicas,
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

momento em que assumem a hierarquia de meta-metalin- a apenas um, ficando a repetição por conta do interesse retó-
guagem. Outro tanto vale para os demais segmentos contidos rico do legislador.
no âmbito das "Ciências Jurídicas em sentido amplo".
Bem, até aqui vimos princípios empíricos, ontológicos e
Firmados nessas ponderações é lícito asseverar a existên- lógicos. Examinemos outros. A "norma fundamental" kelse-
cia de "princípios jurídicos" em todos os setores da investigação niana é um princípio epistemológico-jurídico, colocado na
do direito. E é com tal dimensão significativa que enunciamos condição de pressuposto da atividade cognoscitiva do direito.
os princípios ou leis ditas ontológicas: "tudo que não estiver Sem a "norma fundamental", ou regressaríamos ao infinito,
juridicamente proibido, estará juridicamente permitido" (apli- jamais começando a tarefa cognoscente, ou sacrificaríamos o
cável ao direito privado) e "tudo que não estiver juridicamen- cânone do isolamento do objeto, sem o que o estudo não atin-
te permitido, estará juridicamente proibido" (válido para o giria a dignidade de Ciência. Outros princípios epistemológi-
campo do direito público); os princípios jurídicos empirica- co-jurídicos são os da "homogeneidade sintática" e da "hete-
mente verificáveis, como, por exemplo: "de acordo com a rogeneidade semântica" das unidades normativas. Já nos
Constituição vigente, o Brasil é uma República Federativa" domínios axiológicos mencionemos o "princípio da justiça",
(princípios federativo e republicano). Há o princípio lógico- da "igualdade", da "segurança", da "racionalidade", entre
jurídico segundo o qual "toda conduta obrigatória está neces- muitos outros.
sariamente permitida" (em linguagem formalizada, diremos: Vistos por outro prisma, os "princípios" seriam gerais (a
(Op-Pp), em que "O" é o modal "obrigatório", "P", o "permi- legalidade referida no art. P, II, da Constituição de 1988) ou
tido" e "p" uma conduta qualquer). Esse "princípio" ou "lei" específicos (a legalidade tributária instituída no art. 150, I, do
da lógica deemtico-jurídica, aliás, é o fundamento da conhecida mesmo Estatuto). Além disso, há os explícitos (art. 150, III -
"ação de consignação em pagamento". Ao lado dele, por opor- princípio da anterioridade tributária) e os implícitos (princípio
tuno, podemos indicar a lei lógica da "idempotência do con- da isonomia das pessoas políticas - União, Estados, Distrito
juntor", aplicada ao direito: "se duas ou mais normas servirem- Federal e Municípios). Cumpre observar que os princípios
se do mesmo antecedente e prescreverem idêntica regulação mencionados estão distribuídos entre a linguagem-objeto (di-
da conduta, então todas elas equivalem a uma só". Expliquemos reito positivo) e as metalinguagens jurídicas acima indicadas.
o princípio, formalizando-o e, depois, mediante exemplo prá- Pois bem. Demos exemplos, tecemos considerações, elucidamos
tico e objetivo. A "lei" da idempotência do conjuntor (utilizada algum conteúdo, mas permaneceu aberta a questão principal:
para o universo jurídico) assim se exprime em linguagem formal: que é princípio?
( Vp.Vp.Vp.Vp.Vp)=Vp, onde "V" é a notação simbólica da
"proibição"; "p", uma conduta qualquer; ".", o conectivo da
1.3.2. Os "princípios" e a compreensão do direito
conjunção lógica; e a equivalência. No sistema da Consti-
tuição de 1967, havia três preceitos consagrando a "legalidade Empregaremos como hipótese de trabalho o estudo do
tributária": um genérico e dois específicos. Quer significar, por direito sob o ponto de vista dogmático, a partir das estruturas
outro giro, que o legislador constitucional prescrevia: "só é normativas existentes aqui e agora, que se projetam sobre a
permitido exigir tributo novo ou aumentar os existentes por realidade social para ordená-la, no que tange às relações inter-
meio de lei". Tal era o conteúdo de três normas constitucionais. pessoais que nela se estabelecem, canalizando o fluxo das
Pelo princípio da idempotência do conjuntor, os três equivaliam condutas em direção a certos valores que a sociedade quer
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

implantados. Reconhecemos no fenômeno jurídico algo extre- exemplo, a Psicologia e outras Ciências que poderiam explicar
mamente complexo, em que interferem fatores de naturezas aspectos parciais do fenômeno.
distintas, num intensivo processo de miscigenação. Afigura-
Todavia, se os fatos são jurídicos porque previstos em
se-nos um trabalho dificílimo ingressar na ontologia, para
antecedentes normativos, remanesceria apenas um, o mais
extrair dados de sua intimidade existencial, caso isto, porven-
importante porque fundador do próprio sistema, sem a qua-
tura, seja possível, premissa que não pretendemos discutir.
lificação de jurídico, circunstância que viria a comprometer
Nossa concepção há de caminhar predominantemente no pa-
a uniformidade objetal: trata-se do acontecimento que dá
drão analítico da linguagem, respeitando aquela complexidade
origem à Constituição. É precisamente neste tópico que Kel-
que salientamos como ínsita ao dado jurídico, mas ao mesmo
sen trouxe a singela, porém genial contribuição da "norma
tempo refletindo na consideração de que ali onde houver re-
gulação jurídica haverá, inexoravelmente, proposições norma- fundamental", não posta, mas pressuposta, juridicizando
tivas que, escritas ou não escritas, hão de manifestar-se em aquele fato que ficara de fora, por imprimir-lhe o timbre de
linguagem. normatividade que lhe faltava. Fecha-se assim o conjunto,
isolado na especificidade de seu objeto, uniforme porque
Ora, se isolarmos o universo normativo, naquilo que ele composto tão-somente de normas jurídicas, de tal modo que
tem de fenômeno linguístico, aparecerá diante de nós um ob- nele, conjunto, não encontraremos senão descritores e pres-
jeto uniforme (somente normas jurídicas), todas compostas na critores, bem como suas contrapartes factuais: fatos jurídicos
mesma organização sintática, vale dizer, mediante juízo hipo- e relações jurídicas.
tético em que o legislador (sentido amplo) imputa, ao aconte-
cimento de um fato previsto no antecedente, uma relação de- O corolário natural de tudo quanto se expôs é que o direi-
ôntica entre dois ou mais sujeitos, como consequente. A pre- to positivo, formado unicamente por normas jurídicas, não
visão fáctica ou "descritor", como suposto, implica a disciplina comportaria a presença de outras entidades, como, por exem-
da conduta intersubjetiva, contida no "prescritor" (Lourival plo, princípios. Estes não existem ao lado de normas, co-par-
Vilanova). Nunca será demasiado insistir que tanto a ocorrên- ticipando da integridade do ordenamento. Não estão ao lado
cia factual como o comportamento regulado, têm de ser possí- das unidades normativas, justapondo-se ou contrapondo-se a
veis, para que a regra venha a ser aplicada, tornando-se indi- elas. Acaso estivessem, seriam formações linguísticas portado-
vidualmente eficaz. ras de uma estrutura sintática. E qual é esta configuração ló-
gica? Ninguém, certamente, saberá responder a tal pergunta,
Sobressai à evidência a homogeneidade sintática suso
porque "princípios" são "normas jurídicas" carregadas de
referida, porquanto todas as unidades do sistema terão idên-
forte conotação axiológica. É o nome que se dá a regras do
tica estrutura lógica, a despeito da multiplicidade extensiva
direito positivo que introduzem valores relevantes para o sis-
de seus vectores semânticos. O direito positivo, então, apre-
tema, influindo vigorosamente sobre a orientação de setores
sentar-se-á aos olhos da Dogmática como um conjunto finito,
da ordem jurídica.
mas indeterminado de normas jurídicas, nas quais surpreen-
deremos fatos jurídicos e relações jurídicas, associados por A tipificação dos fatos que ingressam pela porta aberta
um ato de vontade de quem pôs as regras no sistema, ato das hipóteses normativas se dá mediante conceitos que o
psicológico este que o cientista coloca entre parênteses me- legislador formula: conceitos sobre os acontecimentos do
tódico, para não se imitir em territórios alheios, como, por mundo e conceitos sobre as condutas inter-humanas. Ocorre
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

que todo o conceito, que tem como correlato expressional o Tal é a conclusão a que chegou Genaro Carrió, percorren-
termo, assim como o juízo o tem na proposição, todo o con- do caminhos um pouco distintos, em seu opúsculo sobre "Prin-
ceito, repetimos, é seletor de propriedades não só no direito, cipios Jurídicos y Positivismo Jurídico 103 ":
como em qualquer região do conhecimento. Conceituar im-
porta selecionar caracteres, escolher traços, separar aspectos, "De lo expuesto se sigue que no existe la pretendida 'dife-
desprezando os demais. As singularidades irrelevantes, o rencia lógica' entre las regias jurídicas y las pautas dei tipo
de la que expresa que a nadie debe permitírsele beneficiar-
legislador as deixa de lado, mesmo porque são em tal quan- se con su propria trasgresión."
tidade que o trabalho ganharia proporções infinitas. E surge
o conceito, após a aplicação do critério seletivo que o legis-
O autor argentino não chega a esse resultado partindo
lador adotou, critério este que nada mais é que um juízo de das premissas que elegemos. Seu objetivo foi, antes de mais
valor expedido em consonância com sua ideologia, tomada a nada, questionar a procedência de crítica ao positivismo jurí-
palavra, neste ensejo, como pauta de valores, tábua de refe- dico, que o Professor Ronald M. Dworkin, da Universidade de
rências axiológicas. Assim, valora o legislador fatos e condu- Oxford, apresentou com o trabalho "The model of rules 104 ", e
tas, tecendo o conteúdo de significação das normas jurídicas segundo o qual a análise e consideração adequada dos princí-
ou, em outras palavras, saturando as variáveis lógicas daque- pios ficaria prejudicada pela concepção positivista do fenôme-
la estrutura sintática que é comum a todas as unidades do no jurídico, já que tal concepção do direito não deixa ver o
sistema. E, ao enfatizar esse ângulo da construção jurídico- papel central que na prática os princípios desempenham. É
normativa, estamos apenas reconhecendo ao direito positivo nesse sentido que parte do sistema de Hart 105 , para dele retirar
a condição de objeto cultural, anteriormente consignada. argumentos que demonstrem a plena compatibilidade entre
Mantenhamos na retentiva que os objetos do mundo cultural as normas jurídicas, examinadas pelo ângulo de sua positivação
são, invariavelmente, portadores de valores, como também e os princípios que com elas combinam para formar o sistema
os metafísicos, o que não se verifica com os objetos da natu- do direito positivo.
reza e com os da região ôntica dos ideais, ambos axiologica-
Tendo seu pensamento mais próximo de Hart, em virtude
mente neutros. das ligações que sempre manteve com a Universidade de Oxford,
Até esta parte, estabelecemos duas proposições que Carrió entende que o positivismo de Kelsen ofereceria menos
aceitamos por verdadeiras: a) o direito positivo é formado, recursos à sustentação de sua tese, não lhe permitindo dar os
única e exclusivamente, por normas jurídicas (para efeitos passos de que necessitava para alojar os princípios dentro da
dogmáticos), apresentando todas o mesmo esquema sintático ordem jurídica, consoante os critérios que lhe pareciam justos.
(i mplicação), ainda que saturadas com enunciados semânticos Nossa posição, contudo, é bem diversa, ainda que tenha-
diversos (heterogeneidade semântica); e b) por outro lado, mos de intuir certos desdobramentos que o mestre de Viena
como construção do ser humano, sempre imerso em sua cir-
cunstância (Gasset), é um produto cultural e, desse modo,
portador de valores, significa dizer, carrega consigo uma por- 103.Buenos Aires, Abeledo-Perrot, 1970.
ção axiológica que há de ser compreendida pelo sujeito cog- 104.35 University of Chicago Law Review 14, 1967.
noscente - o sentido normativo, indicativo dos fins (thelos) 105.O conceito de direito, Tradução de Armindo Ribeiro Mendes, Lisboa,
que com ela se pretende alcançar. Fundação Calouste Gulbenkian, 1961.

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não empreendeu. Que não seja isso motivo de censuras, por- apanhando como exemplo a filosofia de Schopenhauer, que a
quanto Carlos Cossio proclamou ter ido além de Kelsen sem "vontade se constitui naquele ímpeto cego e irresistível que
haver transbordado os limites do próprio sistema kelseniano consubstancia o querer-viver universal"; entre os objetos ideais,
(foi além de Kelsen sem sair de Kelsen). E, de fato, há desdo- que a "transitividade" é uma lei lógica: [(p-->q).(q r)]—>(p—>r),
bramentos que se afiguram como corolários de uma teoria, não assim como a "reflexividade" também o é (xRy) -* (yRx); em
destacados por aquele que a concebeu, mas que podem perfei- Economia, falamos em "lei da oferta e da procura", ao mesmo
tamente ser percebidos por quem se dispuser a segui-la. tempo em que afirmamos que a "História é fundamentalmen-
te diacrônica", para ingressarmos nos domínios dos objetos
O que importa é que Genaro Carrió chega aos mesmos
culturais, onde ao lado de "leis" ou "princípios" descritivos,
resultados, não só admitindo a existência de "princípios" den-
vamos encontrar as prescrições éticas, religiosas, morais, etc.,
tro da ordem jurídica positiva, como reconhecendo que não há
que ostentam o porte de autênticos "princípios".
qualquer desencontro entre o esquema lógico das normas e o
daqueles primados. Ainda que não ingresse na análise dos Como desdobramento dessa descritividade e prescritivi-
"valores", fala, insistentemente, no "peso" dos princípios, o dade, lidamos com "princípios gerais" e "específicos", "explí-
que basta para identificar a referida concordância. citos" ou "implícitos", classificando- os como "empíricos",
"lógicos", "ontológicos", "epistemológicos" e "axiológicos".
Oferecidas essas observações propedêuticas, já podemos Tudo isso é índice da riqueza significativa que a palavra exibe,
antever que, no campo das significações, o uso do signo "prin- compelindo-nos a um esforço de elucidação para demarcar o
cípio" oferecerá farta variedade conotativa, de tal sorte que, sentido próprio que desejamos imprimir ao vocábulo, dentro
com elas, será possível alcançar todas as circunscrições de de seu plano de irradiação semântica. Impõe-se uma decisão
objetos, atuando nas quatro regiões ônticas. para cada caso concreto, principalmente se a proposta discur-
Como ficou consignado, princípio é palavra que frequen- siva pretender foros de seriedade científica.
ta com intensidade o discurso filosófico, expressando o "início", Neste tema, há que se ter como premissa que, sendo ob-
o "ponto de origem", o "ponto de partida", a "hipótese-limite" jeto do mundo da cultura, o direito e, mais particularmente as
escolhida como proposta de trabalho. Exprime também as normas jurídicas, estão sempre impregnadas de valor. Esse
formas de síntese com que se movimentam as meditações filo- componente axiológico, invariavelmente presente na comuni-
sóficas ("ser", "não-ser", "vir-a- ser" e "dever-ser"), além do cação normativa, experimenta variações de intensidade de
que tem presença obrigatória ali onde qualquer teoria nutrir norma para norma, de tal sorte que existem preceitos forte-
pretensões científicas, pois toda ciência repousa em um ou mente carregados de valor e que, em função de seu papel
mais axiomas (postulados). Cada "princípio", seja ele um sim- sintático no conjunto, acabam exercendo significativa influên-
ples termo ou um enunciado mais complexo, é sempre suscep- cia sobre grandes porções do ordenamento, informando o
tível de expressão em forma proposicional, descritiva ou pres- vector de compreensão de múltiplos segmentos.
critiva. Agora, o símbolo linguístico que mais se aproxima Em direito, utiliza-se o termo "princípio" para denotar as
desse vocábulo, na ordem das significações, é "lei". Dizemos, regras de que falamos, mas também se emprega a palavra para
por isso, que há uma lei, em Física, segundo a qual "o calor apontar normas que fixam importantes critérios objetivos, além
dilata 'os corpos", "os metais são bons condutores de eletrici- de ser usada, igualmente, para significar o próprio valor, inde-
dade", "a matéria atrai a matéria na razão direta das massas e pendentemente da estrutura a que está agregado e, do mesmo
na razão inversa do quadrado das distâncias"; na Metafísica, modo, o limite objetivo sem a consideração da norma.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Assim, nessa breve digressão semântica, já divisamos determinação. Noutras, porém, ficam subjacentes à dicção do
quatro usos distintos: a) como norma jurídica de posição pri- produto legislado, suscitando um esforço de feitio indutivo para
vilegiada e portadora de valor expressivo; b) como norma jurí- percebê-los e isolá-los. São os princípios implícitos. Entre eles
dica de posição privilegiada que estipula limites objetivos; c) e os expressos não se pode falar em supremacia, a não ser pelo
como os valores insertos em regras jurídicas de posição privi- conteúdo intrínseco que representam para a ideologia do in-
legiada, mas considerados independentemente das estruturas térprete, momento em que surge a oportunidade de princípios
normativas; e d) como limite objetivo estipulado em regra de e de sobreprincípios.
forte hierarquia, tomado, porém, sem levar em conta a estru-
Há formulações específicas que atinam à ordenação em
tura da norma. Nos dois primeiros, temos "princípio" como
vigor no Brasil, determinações normativas contidas no Texto
"norma"; nos dois últimos, "princípio" como "valor" ou como
Supremo e que de lá se irradiam aos múltiplos segmentos dis-
"critério objetivo".
ciplinadores das condutas interpessoais. Sendo assim, ninguém
Entrevemos na consideração do signo "princípio", distin- pode ignorar os princípios da Federação e da República, a di-
guindo-o como "valor" ou como "princípio objetivo", um pas- retriz que consagra a autonomia municipal, o primado da
so decisivo, de importantes efeitos práticos. Isso porque, se isonomia entre as pessoas políticas de direito constitucional
reconhecermos no enunciado prescritivo campo para a atri- interno, os cânones da supremacia do interesse público sobre
buição de valores, teremos que ingressar, forçosamente, nos o privado e o da indisponibilidade dos interesses públicos, bem
domínios da Axiologia, para estudá-los segundo as caracterís- como o catálogo dos direitos e garantias individuais. É efetiva-
ticas próprias das estimativas. mente longa e minuciosa a listagem dos valores que a Consti-
tuição da República estabeleceu como planta básica, a partir
A par dessas significações, outras existem empregadas
da qual hão de compor-se as cadeias de normas estruturadas
nos campos da Ciência, da Epistemologia, da Lógica, da Meta-
deonticamente para regular os comportamentos entre as enti-
física, essas três últimas como partes da Filosofia, e também
dades dotadas de personalidade jurídica.
nos horizontes do conhecimento vulgar. Tais variações, contu-
do, não são muito frequentes no discurso jurídico, pelo que No território dos tributos, por tocarem direitos relevan-
ficaremos com as quatro significações que assinalamos linhas tíssimos para o ser humano, como o da liberdade e o da pro-
atrás. Nesse sentido, para evitar ambiguidades, quando men- priedade, o legislador constitucional redobrou os cuidados de
cionarmos os princípios do sistema positivo brasileiro, e enten- elaboração normativa, estatuindo princípios fundamentais de
dermos necessário, faremos consignar em que acepção o termo proteção aos direitos do cidadão, ao mesmo tempo em que deu
foi utilizado. cumprimento aos desígnios superiores da Federação, da Re-
pública e da autonomia dos Municípios. E a complexidade
Seja como for, os princípios aparecem como linhas dire-
desse sistema fez com que a disciplina prescritiva em matéria
tivas que iluminam a compreensão de setores normativos,
tributária atingisse níveis intensos, havendo uma multiplici-
imprimindo-lhes caráter de unidade relativa e servindo de
dade de preceitos normativos dirigidos tanto aos agentes dos
fator de agregação num dado feixe de normas. Exercem eles
poderes tributantes como aos sujeitos passivos, atribuindo, a
uma reação centrípeta, atraindo em torno de si regras jurídicas
ambos, deveres e direitos correlatos.
que caem sob seu raio de influência e manifestam a força de
sua presença. Algumas vezes constam de preceito expresso, Exatamente por ser o sistema constitucional tributário
logrando o legislador constitucional enunciá-los com clareza e tão intrincado, trazendo rigorosa delimitação das esferas

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

competenciais dos entes federativos, influenciada por vasta ou majoradora do tributo. O princípio que prestigia a casa como
quantidade de princípios, o exame acerca da constitucionali- asilo inviolável do indivíduo (art. 5 4 , XI, da Constituição), bem
dade de qualquer exação tributária deve compreender a tota- como o que protege o sigilo de correspondência, das comuni-
lidade de permissões e vedações juridicizadas pelo constituinte. cações telegráficas e das telecomunicações telefônicas, todos
Há muitos princípios constitucionais gerais, válidos para eles, em maior ou menor amplitude, podem acomodar-se rigo-
a plenitude do ordenamento e, por isso, influindo, decisiva- rosamente no plano da aplicação factual.
mente, no setor dos fenômenos jurídico-tributários. Conside- Apesar da aparente simplicidade operativa, o critério que
raremos, um a um, aqueles de maior expressividade. anima essa classificação procura transmitir uma objetividade
que os valores não têm nem podem ter. A natureza eminente-
mente subjetiva desses núcleos significativos jamais poderá
1.3.3. A classificação dos "princípios" em razão dos critérios
ser aprisionada, como se fora mero fato cosmológico insular-
de objetividade que presidem sua aplicação aos casos
mente levado à análise. Fiquemos com sua operacionalidade,
concretos
mas desde que reconheçamos ser impossível fixar diretrizes
É sedutora, ao menos no exame do primeiro instante, a objetivas e, portanto, com validade intersubjetiva, para delimi-
classificação dos princípios levando-se em conta o grau de tar valores. O que distrai nossa atenção entre as duas classes
objetividade que se verifica no momento de sua efetiva aplica- de princípios é que o legislador atribui valores (sempre subje-
ção. Há princípios que são postos em termos vagos e excessi- tivos) a situações diferentes: incertas, indecisas, indetermina-
vamente genéricos, ao lado de outros, enunciados de modo tão das, as primeiras; limitadas e rigidamente delineadas, as últi-
preciso, que passam a ser escassas as dissenções a respeito de mas. Reflitamos sobre este tópico e estaremos autorizados a
sua incidência numa situação concreta. Vamos aos exemplos. utilizar a classificação. Caso contrário, seremos surpreendidos
A Lei Fundamental, no art. 37, caput, expressa-se de maneira quando o legislador empregar o mesmo valor em hipóteses
vaga ao impor que a administração pública obedeça ao princí- abertas, sem fronteiras onde o desenho recortado do suporte
pio da "moralidade", tornando-se no mínimo duvidosa e dis- fáctico (Pontes de Miranda) não corresponda aos traços que a
cutível sua indicação numa faixa enorme de eventos reais. A realidade material sugerir aos nossos sentidos. Eis o princípio
"função social da propriedade" (art. 5Q, XXIII, da Constituição) da "igualdade" que pode ser tomado como exemplo. Ao proje-
acha-se também envolvida por forte teor de indeterminação. tar-se num dado acontecimento do mundo, essa diretriz expe-
E o mesmo se diga da "liberdade", da "segurança", da "racio- rimenta curiosas configurações. Sabemos quanto difícil seria
nalidade", do "bem comum", da "finalidade pública", etc. Bem sustentar a discriminação entre homens e mulheres, no pro-
certo que toda a palavra encerra alguma vaguidade, mas que- cesso de seleção para ingresso na carreira do Ministério Públi-
ro insistir na existência de fórmulas expressionais onde predo- co. A singela invocação do art. 5Q, I, da Carta Constitucional
mina densamente a indeterminação, ao lado de outras de fácil vigente seria o bastante para tolher qualquer entendimento
e intuitivo reconhecimento, em que a ocorrência do mundo discriminatório. Ao mesmo tempo, em matéria publicada na
exterior está visivelmente demarcada, sobrando pouco espaço Folha de S. Paulo, em janeiro de 1992, Flávia Piovesan discutiu
para os desacordos de opinião. É o caso da irretroatividade tri- a interessante tese de benefícios pleiteados por pessoas do
butária' (art. 150, inciso III, a, da Lei Magna). Basta saber o mesmo sexo vivendo "maritalmente". Tudo sobre o funda-
momento em que se deu o fato jurídico tributário e confrontá-lo mento daquela norma que sobranceira estaria impregnando
com aquele que marcou o início da vigência da lei instituidora o sentido das demais regras do ordenamento. Num caso, o

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

primeiro, a mera alusão ao primado da igualdade tem a força empregando com os efeitos que a visão estática sugere. De nada
suficiente para decidir o problema. No segundo, em que a adiantam direitos e garantias individuais, placidamente inscri-
complexidade do desenho típico se vê agravada pela presença tos na Lei Maior, se os órgãos a quem compete efetivá-los não
de outros valores, numa combinatória que suscita considera- o fizerem com a dimensão que o bom uso jurídico requer. Ago-
ções mais profundas, o mesmo princípio perde seu aparente ra, já na pragmática da comunicação jurídica se é fácil perceber
conteúdo de objetividade não se prestando mais para, sem e comprovar os "limites objetivos", outro tanto não se dá com
outros meneios retóricos, encaminhar a solução exegética. os valores. Este é o caso, por exemplo, do sobreprincípio da
segurança jurídica.
Recobremos a lembrança de que as expressões linguísticas
conservam sempre um mínimo de vaguidade em sua integrida- Não é preciso dizer mais. Convencionou-se que tal valor
de compositiva, inafastável por maior que seja o esforço de ar- é, basicamente, a igualdade, a legalidade e a legalidade estrita,
gumentação para efeito de convencimento. Não há como escapar a universalidade da jurisdição, a vedação do emprego do tri-
dessa porção movediça que se aloja nos termos e nos enunciados buto com efeitos confiscatórios, a irretroatividade e a anterio-
proposicionais, alimentando, incessantemente, os estudos se- ridade, ao lado do princípio que consagra o direito à ampla
mânticos. Admitir esse traço, porém, longe de trazer a insegu- defesa e ao devido processo legal, todos, em verdade, limites
rança que desde logo imaginamos, significa reconhecer que há objetivos realizadores do valor da segurança jurídica.
uma matéria-prima própria para o discurso persuasivo, tecendo
Experimentemos associar à segurança jurídica o limite
a linguagem jurídica que antecede a decisão normativa.
objetivo da anterioridade. Com base neste preceito de direito
tributário, se o tributo foi introduzido por ato infralegal, o que
1.3.4. Limites objetivos como mecanismos realizadores do se prova com facilidade, ficaremos seguros em dizer que o
valor princípio foi violado. Fique bem claro que o tributo cuja norma
foi publicada em determinado exercício somente poderá inci-
Apesar de tudo o que se disse, o direito existe para cumprir dir sobre fatos que vierem a ocorrer no ano seguinte, dando
o fim específico de regrar os comportamentos humanos nas margem para que os destinatários planejem suas atividades
suas relações de interpessoalidade, implantando os valores que econômicas, já cientes do custo representado pelo novo encargo.
a sociedade almeja alcançar. As normas gerais e abstratas, É limite objetivo que opera, decisivamente, para a realização
principalmente as contidas na Lei Fundamental, exercem um do sobreprincípio da segurança jurídica. Seu sentido experi-
papel relevantíssimo, pois são o fundamento de validade de menta inevitável acomodação neste primado, vetor axiológico
todas as demais indicam os rumos e os caminhos que as regras do princípio da anterioridade, de modo que o contribuinte não
inferiores haverão de seguir. Porém, é nas normas individuais seja surpreendido com exigência tributária inesperada.
e concretas que o direito se efetiva, se concretiza, se mostra
como realidade normada, produto final do intenso e penoso Da mesma forma se dá com o princípio da legalidade, li-
trabalho de positivação. É o preciso instante em que a lingua- mite objetivo que se presta, ao mesmo tempo, para oferecer
gem do direito toca o tecido social, ferindo a possibilidade da segurança jurídica aos cidadãos, na certeza de que não serão
conduta intersubjetiva. Daí porque não basta o trabalho preli- compelidos a praticar ações diversas daquelas prescritas por
minar de conhecer a feição estática do ordenamento positivo. representantes legislativos, e para assegurar observância ao
Torna-se imperioso pesquisarmos o lado pragmático da lingua- primado constitucional da tripartição dos poderes. O princípio
gem normativa, para saber se os utentes desses signos os estão da legalidade compele o intérprete, como é o caso dos julgadores,

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

a procurar frases prescritivas, única e exclusivamente, entre do direito posto. Não cremos existir uma "região de valores",
as introduzidas no ordenamento positivo por via de lei ou de existente em si, como o topos uranos de Platão ou qualquer
diploma que tenha o mesmo status. Se do consequente da regra tipo de sistema suprapositivo de valores, ao modo de algumas
advier obrigação de dar, fazer ou não-fazer alguma coisa, sua vertentes jusnaturalistas. Aqueles de que nos ocupamos são os
construção reivindicará a seleção de enunciados colhidos ape- postos, centros significativos abstratos, mas positivados no or-
nas e tão-somente no plano legal. denamento e que ficam ao sabor de nossa intuição emocional.
E assim também o é com o princípio da irretroatividade Se tais observações forem procedentes, cabe cogitar de
das leis. Renovo, neste momento, a posição segundo a qual, uma hierarquia de valores jurídicos ou, de outra maneira, de
abaixo da justiça, o ideal maior do direito é a segurança jurídi- uma classificação hierárquica das normas do direito positivo,
ca, sobreprincípio que se irradia por todo o ordenamento e tem elegendo-se como critério a intensidade axiológica nelas pre-
sua concretização viabilizada por meio de outros princípios, sente. Todavia, plantadas essas premissas, aquilo que se não
tal como o da legalidade, da irretroatividade das leis e tantos pode admitir, consoante assentamos linhas atrás, é a coales-
outros que podemos enunciar. O exemplo toma em conta o cência de "normas" e "princípios", como se fossem entidades
valor da segurança jurídica, mas a regra é válida para todos os diferentes, convivendo pacificamente no sistema das proposi-
valores que ordenam a organização jurídico-tributária brasi- ções prescritivas do direito. Os princípios são normas, com
leira. Citemos, por exemplo, o valor do não-confisco, da isono - todas as implicações que esta proposição apodítica venha a
mia ou até mesmo o da capacidade contributiva. Em suma, os suscitar, mas são também valores, na medida em que lhes adju-
princípios limites objetivos trabalham no sentido de realizar dicamos um vector semântico axiologicamente determinado.
tais valores, funcionam como verdadeiros mecanismos que dão
Com efeito, os valores e sobrevalores que a Constituição
força de eficácia a estes primados axiológicos do direito.
proclama hão de ser partilhados entre os cidadãos, não corno
quimeras ou formas utópicas simplesmente desejadas e con-
1.3.5. Os sobreprincípios no sistema jurídico tributário servadas como relíquias na memória social, mas como algo
pragmaticamente realizável, apto, a qualquer instante, para
Toda vez que houver acordo, ou que um número expres- cumprir seu papel demarcatório, balizador, autêntica fronteira
sivo de pessoas reconhecerem que a norma "N" conduz um nos hemisférios da nossa cultura. A propósito, vale a afirmação
vector axiológico forte, cumprindo papel de relevo para a com- peremptória de que o direito positivo, visto como um todo, na
preensão de segmentos importantes do sistema de proposições sua organização entitativa, nada mais almeja do que preparar-
prescritivas, estaremos diante de um "princípio". Quer isto se, aparelhar-se, pré-ordenar-se para implantá-los.
significar, por outros torneios, que "princípio" é uma regra
Corolário inevitável da aplicação desses princípios é o
portadora de núcleos significativos de grande magnitude in-
preâmbulo da Constituição Brasileira de 1988, plataforma, por
fluenciando visivelmente a orientação de cadeias normativas,
excelência, da ideologia constitucional. Lá se encontram os
às quais outorga caráter de unidade relativa, servindo de fator
valores jurídicos da mais alta hierarquia, objetivando "insti-
de agregação para outras regras do ordenamento.
tuir um Estado Democrático, destinado a assegurar o exercí-
Advirta-se, entretanto, que ao aludirmos a "valores" es- cio dos direitos sociais e individuais, a liberdade, a segurança,
tamos indicando somente aqueles que julgamos depositados o bem-estar, o desenvolvimento, a igualdade e a justiça como
pelo legislador (consciente ou inconscientemente) na linguagem valores supremos de uma sociedade fraterna, pluralista e sem
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

preconceitos, fundada na harmonia social e comprometida, na Entre as grandes diretrizes que formam o estrato axioló-
ordem interna e internacional, com a solução pacífica das con- gico das normas tributárias no Brasil, já anotamos, algumas se
trovérsias, (...)". A despeito de seu caráter moral e político, o apresentam como conteúdos de enunciados expressos, enquan-
texto do preâmbulo é texto de lei, no interior do qual se encon- to outras se encontram na implicitude dos textos do direito
tram normas jurídicas vinculantes. Nelas, estão disciplinados posto. Todas, porém, com a mesma força vinculante. Aliás,
valores dos quais se retiram direitos e deveres subjetivos cons- quanto à dita implicitude do sobreprincípio da segurança ju-
titucionalmente garantidos. rídica, salientemos, a propósito, o fato de não se ter notícia de
Na pragmática da comunicação jurídica é muito difícil per- que algum ordenamento a contenha como regra explícita.
ceber e comprovar os "valores" impregnados nas formulações Efetiva-se pela atuação de outros princípios, como o da legali-
normativas da Constituição da República Federativa do Brasil. dade, da anterioridade, da igualdade, da irretroatividade, da
Experimentemos, por exemplo, lidar com o valor "justiça", com universalidade da jurisdição, etc. Isso, contudo, em termos de
"segurança jurídica", com "igualdade". Demoremo-nos, agora, concepção estática, de análise das normas, de avaliação de um
em cada um desses magnos princípios, procurando discernir o sistema normativo sem considerarmos suas projeções sobre o
que os tornaram predicados indispensáveis a qualquer ordem meio social. Se nos detivermos em um direito positivo, histo-
jurídica que se pretenda racional nas sociedades pós-modernas. ricamente dado e isolarmos o conjunto de suas normas (tanto
as somente válidas, como também as vigentes), indagando dos
teores de sua racionalidade; do nível de congruência e harmo-
1.3.5.1. O sobreprincípio da segurança jurídica
nia que as proposições apresentam; dos vínculos de coordena-
Vivemos um tempo histórico de grandes questionamentos ção e de subordinação que armam os vários patamares da or-
constitucionais, sobretudo em matéria tributária. As raízes do dem posta; da rede de relações sintáticas e semânticas que
nosso sistema, cravadas no Texto Supremo, fazem com que a respondem pela tessitura do todo; então será possível imitirmos
atenção dos estudiosos seja convocada para o inevitável deba- um juízo de realidade que conclua pela existência do primado
te sobre o conteúdo de princípios fundamentais, conduzindo de segurança, justamente porque neste ordenamento empírico
os feitos à apreciação do Supremo Tribunal Federal. Fica até estão cravados aqueles valores que operam para realizá-lo. Se
difícil imaginar assunto tributário que possa ser inteiramente a esse tipo de verificação circunscrevemos nosso interesse pelo
resolvido em escalões inferiores, passando à margem das di- sistema, mesmo que não identifiquemos a primazia daquela
retrizes axiológicas ou dos limites objetivos estabelecidos na diretriz, não será difícil implantá-la. Bastaria instituir os valo-
Carta Magna. Por sem dúvida que tal consideração eleva, des- res que lhe servem de suporte, os princípios que, conjugados,
de logo, esse ramo do direito público, outorgando-lhe status de formariam os fundamentos a partir dos quais se levanta. Assim,
grande categoria, pois discutir temas de direito tributário pas- vista por esse ângulo, será difícil encontrarmos uma ordem
sa a significar, em última análise, resolver tópicos da mais alta jurídico-normativa que não ostente o princípio da segurança.
indagação jurídica, social, política e econômica. E, se o setor especulativo é o do Direito Tributário, praticamen-
Por outro lado, a estabilidade das relações jurídicas tri- te todos os países do mundo ocidental, ao reconhecerem aqueles
butárias, diante das manifestações da nossa mais alta corte de vetores que se articulam axiologicamente, proclamam, na sua
justiça, torna-se assunto sobremaneira delicado, requerendo i mplicitude, essa diretriz suprema. A circunstância de figurarem
atenção especialíssima do intérprete, porquanto está em jogo no texto, ou no contexto, não modifica o teor de prescritividade
o sobreprincípio da segurança jurídica. da estimativa, que funciona como vetor valorativo que penetra
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

as demais regras do sistema, impregnando-lhes, fortemente, Qualquer agressão a essa sentença constitucional representa-
a dimensão semântica. Por isso mesmo são colocadas no alti- rá, ao mesmo tempo, uma investida à estabilidade dos súditos
plano da Constituição. De lá, precisamente onde começam e um ataque direto ao bem da certeza do direito.
todos os processos de positivação das normas jurídicas, descem
Contudo, entre um conceito e outro utilizados para definir
aqueles primados para os vários escalões da ordem legislada,
o princípio da irretroatividade, não há por que confundir a
até atingir as regras terminais do sistema, timbrando os pre-
certeza do direito naquela acepção de índole sintática, com o
ceitos que ferem diretamente as condutas em interferência
cânone da segurança jurídica. Aquele é atributo essencial, sem
intersubjetiva, com a força axiológica dos mandamentos cons-
o que não se produz enunciado normativo com sentido deônti-
titucionalmente consagrados.
co; este último é decorrência de fatores sistêmicos que utilizam
O princípio da certeza do direito traduz as pretensões do o primeiro de modo racional e objetivo, mas dirigido à implan-
primado da segurança jurídica no momento em que, de um tação de um valor específico, qual seja o de coordenar o fluxo
lado, (i) exige do enunciado normativo a especificação do fato das interações inter-humanas, no sentido de propagar no seio
e da conduta regrada, bem como, de outro, (ii) requer previsi- da comunidade social o sentimento de previsibilidade quanto
bilidade do conteúdo da coatividade normativa. Ambos apon- aos efeitos jurídicos da regulação da conduta. Tal sentimento
tam para a certeza da mensagem jurídica, permitindo a com- tranquiliza os cidadãos, abrindo espaço para o planejamento
preensão do conteúdo, nos planos concretos e abstratos. de ações futuras, cuja disciplina jurídica conhecem, confiantes
Pensamos que esse segundo significado (ii) quadra melhor no que estão no modo pelo qual a aplicação das normas do direi-
âmbito do princípio da segurança jurídica. A relação entre tais to se realiza. Concomitantemente, a certeza do tratamento
princípios é evidentemente complexa, devendo ser melhor normativo dos fatos já consumados, dos direitos adquiridos e
elucidada no próximo item deste estudo. da força da coisa julgada, lhes dá a garantia do passado. Essa
Mas, ao lado da certeza, em qualquer das duas dimensões bidirecionalidade passado/futuro é fundamental para que se
de significado, outros valores constitucionais, explícitos e im- estabeleça o clima de segurança das relações jurídicas, motivo
plícitos, operam para concretizar o sobrevalor da segurança por que dissemos que o princípio depende de fatores sistêmicos.
jurídica. Diremos que em um dado sistema existe este sobre- Quanto ao passado, exige-se um único postulado: o da irretroa-
princípio, pairando sobre a relação entre Fisco e contribuinte, tividade. No que aponta para o futuro, entretanto, muitos são os
sempre que nos depararmos com um feixe de estimativas, in- expedientes principiológicos necessários para que se possa falar
tegradas para garantir o desempenho da atividade jurídico- na efetividade do primado da segurança jurídica. Desnecessário
tributária pelo Estado-administração. encarecer que a segurança das relações jurídicas é indissociável
do valor justiça, e sua realização concreta se traduz numa con-
quista paulatinamente perseguida pelos povos cultos.
1.3.5.1.1. O primado da segurança jurídica no tempo
Observado sob o ponto-de-vista do passado, o simples
As leis não podem retroagir, alcançando o direito adquirido, vedar que a lei não prejudique o direito adquirido, o ato jurí-
o ato jurídico perfeito e a coisa julgada. É o comando do art. 5 2 , dico perfeito e a coisa julgada, seria o bastante para obstar
XXXVI da CF/88. Nesse princípio, que vem impregnado de gran- qualquer incursão do legislador dos tributos pelo segmento
de força, podemos sentir com luminosa clareza seu vetor imedia- dos fatos sociais que, por se terem constituído cronologicamen-
to, qual seja a realização do primado da segurança jurídica. te antes da edição legal, ficariam a salvo de novas obrigações.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Qual o motivo do zelo constitucional? Sabemos que o legisla- Há ocasiões excepcionais, entretanto, em que se concede
dor das normas gerais e abstratas, a começar por aquelas ao legislador a possibilidade de atribuir às leis sentido retroa-
fundantes da ordem jurídica, comete seus desassisos, seja pela tivo. O Código Tributário Nacional discorre sobre o assunto,
ausência de regras disciplinadoras - anomia -, seja pela po- ao cristalizar, no art. 106 e seus incisos, as hipóteses em que a
nência de normas contrárias e contraditórias, seja ainda pela lei se aplica a fato pretérito. Interessa-nos, nesta oportunidade,
i mpressão, juridicamente falsa, mas aparentemente útil, de as chamadas leis interpretativas. Segundo o inciso I, do art. 106
que prescrevendo a mesma coisa duas ou mais vezes, outor- do CTN, assumindo a lei expressamente esse caráter, pode ser
gará a eficácia que a regra não logrou alcançar na formulação aplicada a fatos passados, excluindo-se a aplicação de penali-
singular. Se em termos dogmáticos representa um ledo enga- dades à infração dos dispositivos interpretados.
no, nada modificando no panorama concreto da regulação
As leis interpretativas exibem um traço bem peculiar,
das condutas, pelo ângulo histórico ou sociológico encontra-
na medida em que não visam à criação de novas regras de
se a explicação do fato.
conduta para a sociedade, circunscrevendo seus objetivos ao
Com efeito, o enunciado normativo que protege o direito esclarecimento de dúvidas levantadas em razão da dubieda-
adquirido, o ato jurídico perfeito e a coisa julgada, conhecido de dos vocábulos linguísticos constantes da lei interpretada.
como princípio da irretroatividade das leis, não vinha sendo, é Encaradas sob esse ângulo, despem-se da natureza inovado-
bom que se reconheça, impedimento suficientemente forte ra que acompanha a atividade legislativa, retrotraindo ao
para obstar certas iniciativas de entidades tributantes, em início da vigência da lei interpretada, explicando com fórmu-
especial a União, no sentido de atingir fatos passados, já con- las elucidativas sua mensagem antes obscura. Este, no en-
sumados no tempo, debaixo de plexos normativos segundo os tanto, será objeto de enfoque em momento subsequente
quais os administrados orientaram a direção de seus negócios. deste trabalho.
Isso marcou decisivamente o meio jurídico e, na primeira opor-
tunidade, que ocorreu com a instalação da Assembléia Nacio-
1.3.5.2. O sobreprincípio da certeza do direito
nal Constituinte, fez empenho em consignar outra prescrição
explícita, dirigida rigorosamente para o território das preten-
Trata-se, também, de um sobreprincípio, estando acima
sões tributárias, surgindo, então, o princípio de que falamos.
de outros primados e regendo toda e qualquer porção da ordem
Por outro lado, como expressão do imperativo da segu- jurídica. O sobreprincípio da certeza do direito experimenta
rança do direito, as normas jurídicas voltam-se para a frente, uma dualidade de sentido que não pode ser ignorada: (i) ex-
para o porvir, para o futuro, obviamente depois de oferecido prime a circunstância de que o comando jurídico, atuando
ao conhecimento dos administrados seu inteiro teor, o que se numa das três modalidades do deôntico (proibido, permitido
dá pela publicação do texto legal. Na linha de realização des- e obrigatório), requer, com assomos de necessidade absoluta,
se valor supremo, da mesma forma está o enunciado do inci- que a conduta regrada esteja rigorosamente especificada (al-
so XXXVI art 5. da Carta Magna. Fere a consciência jurídica guém, estando obrigado, tendo a permissão ou estando proi-
das nações civilizadas a idéia de que a lei possa colher fatos bido, deve saber, especificamente, qual a conduta que lhe foi
pretéritos, já consolidados e cujos efeitos se canalizaram re- i mputada, comportamento esse que não se compadece com
gularmente em consonância com as diretrizes da ordem a dúvida, com a inexatidão, com a incerteza); (ii) ao mesmo
institucional. tempo, certeza do direito significa previsibilidade, isto é, o
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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

administrado tem o direito de saber, com antecedência, qual 1.3.5.3. O sobreprincípio da igualdade
o conteúdo e alcance dos preceitos que lhe serão imputados,
para que possa programar-se, tomando iniciativas e dirigindo O sobreprincípio da igualdade, por seu turno, está conti-
suas atividades consoante a orientação que lhe advenha da do na formulação expressa do art. 5 2 , caput, da Constituição e
legislação vigente. É aquilo que alguns preferem chamar de reflete uma tendência axiológica de extraordinária importância.
"princípio da não-surpresa". Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer na-
tureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros resi-
Como valor imprescindível do ordenamento, sua presen-
dentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade,
ça é assegurada nos vários subsistemas, nas diversas institui-
à igualdade, à segurança e à propriedade. Seu destinatário é o
ções e no âmago de cada unidade normativa, por mais insig- legislador, entendido aqui na sua proporção semântica mais
nificante que seja. A certeza do direito é algo que se situa na larga possível, isto é, os órgãos da atividade legislativa e todos
própria raiz do dever-ser, é ínsita ao deôntico, sendo incom- aqueles que expedirem normas dotadas de juridicidade.
patível imaginá-lo sem determinação específica. Na sentença
de um magistrado, que põe fim a uma controvérsia, seria No domínio do direito tributário, o artigo 150, II, da Car-
absurdo figurarmos um juízo de probabilidade, em que o ato ta Magna, proíbe à União, Estados, Distrito Federal e Municí-
jurisdicional declarasse, como exemplifica Lourival Vilanoval° 6 , pios a instituição de tratamento desigual a contribuintes que
que "A possivelmente deve reparar o dano causado por ato se encontrem em situação equivalente. Não deverá haver qual-
quer discrimen com base na ocupação profissional ou função
ilícito seu". Não é sentenciar, diz o mestre, ou estatuir, com
pretensão de validade, o certum no conflito de condutas. E exercida. O intuito é garantir a tributação justa (sobrevalor).
ainda que consideremos as obrigações alternativas, em que Isto não significa, contudo, que todos os contribuintes devam
o devedor pode optar pela prestação A, B ou C, sobre uma receber tratamento tributário igual, mas, sim, que as pessoas,
físicas ou jurídicas, encontrando-se em situações econômicas
delas há de recair, enfaticamente, sua escolha, como impera-
idênticas, ficarão submetidas ao mesmo regime jurídico, com
tivo inexorável da certeza jurídica. Substanciando a necessi-
as particularidades que lhe forem próprias. Caberá à legislação
dade premente da segurança do indivíduo, o sistema empíri-
de cada tributo, tomando em consideração as notas singulares
co do direito elege a certeza como postulado indispensável
das diversas classes de sujeitos passivos, eleger fatos distintivos
para a convivência social organizada.
que sejam hábeis para atender às especificidades dos casos
O princípio da certeza jurídica é implícito, mas todas as submetidos à imposição, de tal maneira que se mantenha a
superiores diretrizes do ordenamento operam no sentido de correspondente equivalência entre as múltiplas situações em-
realizá-lo. píricas sobre as quais haverá de incidir a percussão tributária.
Além do caráter sintático dessa acepção, outra muito di- O estabelecer itens de desigualdade entre os destinatários
fundida é aquela que toma "certeza" com o sentido de "previ- da norma, achando-se esses em situações jurídico-econômicas
sibilidade", de tal modo que os destinatários dos comandos semelhantes, exige a observância de rigorosa e manifesta pro-
jurídicos hão de poder organizar suas condutas na conformi- porcionalidade, marca decisiva da própria isonomia com que
dade dos teores normativos existentes. foram tratadas as ocorrências distintas, e que se traduz numa
equação reveladora da aplicação do princípio da igualdade tri-
butária. Afinal, todos sabemos que o real é irrepetível, não ha-
106. As estruturas lógicas e o sistema do direito positivo, cit., p. 232. vendo, nem podendo haver, dois sucessos totalmente iguais.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Resta ao legislador, portanto, assegurar a estabilidade bem-estar social. Longe disso, por lidar com direitos funda-
funcional do diploma normativo de modo que a lei possa irra- mentais (propriedade e liberdade), a ordem jurídica cerca de
diar sua eficácia por toda a extensão do domínio pretendido, garantias o direito que cada um tem de responder pela carga
fazendo-o, contudo, uniformemente, sem oscilações que esca- tributária de forma igualitária, recolhendo aos cofres públicos
pem da equação montada para realizar o equilíbrio da ativida- i mportâncias do mesmo tamanho econômico daquelas que
de impositiva. Dentro daquele seguimento, os sujeitos saberão, qualquer outro sujeito de direitos venha a arcar, encontrando-
previamente, o modo pelo qual serão alcançados pela incidên- se em situação idêntica.
cia da regra tributária, assegurada a proporção entre as inevi-
A isonomia de que desfrutam os sujeitos passivos das
táveis desigualdades existentes. obrigações tributárias, além disso, é uma estimativa da mais
Tudo seria fácil se o princípio da isonomia não fosse um elevada relevância, pois de sua concreta efetividade, em cada
autêntico valor. Para o universo do direito, múltiplos são os situação empírica, dependem dois sobrevalores, quais sejam,
critérios que podem ser tomados para a realização da igual- o da segurança das relações jurídico-tributárias e o da "justiça
dade. Há isonomia entre pessoas qualificadas como maiores da tributação". Percebe-se, claramente, que sem igualdade na
para os atos da vida civil, para fins eleitorais, criminais; há distribuição das cargas tributárias não atingiremos os níveis
igualdade entre pessoas do mesmo sexo, nacionalidade, cor, adequados de segurança, impedindo a realização suprema da
grupo profissional, político e social. Quando a estimativa justiça na implantação dos tributos.
"igualdade" é empregada no direito tributário, o critério é
José Artur Lima Gonçalves 107 , em aprofundado estudo
bem objetivo: dois sujeitos de direito que apresentarem si-
sobre o tema, e perfeitamente consciente do que significa o
nais de riqueza expressos no mesmo padrão monetário ha-
implemento desse valor em cada caso concreto, propõe ao in-
verão de sofrer a tributação em proporções absolutamente
térprete um itinerário seguro:
iguais.
Exemplificando, podemos mencionar a situação de duas "Para que se afira a existência ou não de ofensa ao princípio
empresas localizadas em território nacional, em que uma delas da isonomia em matéria tributária, sugere-se que o pesqui-
aufira o dobro de receita do valor obtido pela outra: o montan- sador siga o seguinte roteiro sistemático ao deparar-se com
a norma que crie discriminação:
te da COFINS devida por uma será exatamente o dobro da
1. dissecar a regra-matriz de incidência tributária em seus
outra. Isso quer dizer que o critério jurídico da igualdade, para
cinco critérios;
fins de incidência tributária, tem como ponto de referência a
2. identificar qual é o elemento de discriminação utilizado
variação jurídico-econômica da base de cálculo, podendo, em
pela norma analisada;
casos muito específicos, ser temperado por providências de
3. verificar se há correlação lógica entre o elemento de dis-
natureza extrafiscal.
criminação e a diferenciação de tratamento procedida; e,
Aproveito para afirmar que o direito, reconhecendo na 4. investigar se há relação de subordinação e pertinência
igualdade tributária um valor, trata de colocar parâmetros lógica entre a discriminação procedida e os valores posi-
incisivos, tendo em vista estabilizar as expectativas normativas. tivados no texto constitucional."
Não fora assim e cada um empregaria suas referências subje-
tivas, construindo "isonomias" que consultassem antes suas
inclinações ideológicas, acarretando profunda insegurança ao 107. Isonomia na norma tributária, São Paulo, Malheiros, 1993, p. 75.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Encaixa-se bem, neste tópico, a observação mediante 1.3.5.4. O sobreprincípio da liberdade


a qual o direito positivo introduz uma série de proposições
prescritivas tendo em vista tolher o trabalho exegético, para Adotando o pressuposto de que o sobreprincípio da liberda-
evitar, por esse modo, que o aplicador mobilize valores que de é um direito fundamental, podemos dizer que se encontra
lhe são próprios, pondo em jogo sua ideologia em detrimen- permeado por todo o sistema jurídico prescritivo em diferentes
feições. Temos a liberdade legiferante de que os Parlamentos são
to das orientações axiológicas que o sistema consagra. Ain-
portadores, dentro dos limites constitucionais; a liberdade políti-
da que não se elimine a participação subjetiva do operador,
ca entre os entes do Estado-governo; a liberdade de associação,
reduz seu exercício a padrões mínimos, aptos para garantir
entre pessoas individuais, empresas ou sindicatos; a liberdade de
que o ordenamento cumpra sua trajetória reguladora sem
expressão, opinião e difusão, garantida, na ordem tributária, pe-
interferências estranhas ao projeto que a sociedade solene-
las imunidades; a liberdade de tráfego no direito tributário; entre
mente adotou.
tantas outras liberdades explícitas ou implícitas no texto consti-
É conferido à lei tributária desigualar situações, aten- tucional. Essas figuras vêm a aparecer, mediatamente, na reali-
dendo a peculiaridades de categorias de contribuintes, mas zação do Estado Democrático Brasileiro, em que se impõe sistema
somente quando houver relação de imanência entre o ele- que equilibra liberdades e limitações de direitos.
mento diferencial e o regime conferido aos que estão inclu-
O ordenamento jurídico, como forma de tornar possível
ídos na classe diferenciada. O princípio da isonomia é agre-
a coexistência do homem em comunidade, garante, efetiva-
dido quando o tratamento diverso, dispensado pelo legisla-
mente, o cumprimento das suas ordens, ainda que, para tanto,
dor a várias pessoas, não encontra motivo razoável. Na lição
seja necessária a adoção de medidas punitivas que afetem a
de Celso Antônio Bandeira de Mello 108 , "há ofensa ao pre-
própria liberdade das pessoas. Daí por que, ao criar um direi-
ceito constitucional da isonomia quando (...) a norma atribui
to subjetivo, concomitantemente o legislador enlaça um dever
tratamento jurídico diferente em atenção a fator de discrimen
ou, em segunda instância, uma providência sancionatória ao
adotado que, entretanto, não guarda relação de pertinência
não-cumprimento do referido dever. Só o direito coage me-
lógica com a disparidade de regimes outorgados (...)", e diante o emprego da força, com a aplicação, em último grau,
também quando "a norma supõe relação de pertinência ló- das penas privativas da liberdade ou por meio da execução
gica existente em abstrato, mas o discrimen estabelecido forçada. Essa maneira de coagir, de garantir o cumprimento
conduz a efeitos contrapostos ou de qualquer modo disso- dos direitos e dos deveres estatuídos em suas regras, é que
nantes dos interesses prestigiados constitucionalmente". Em assinala o direito, apartando-o de outros sistemas de normas.
suma, para realizar-se a isonomia, não basta tratar diferen-
temente os desiguais. É preciso que o tratamento diferen- Dentre as liberdades constitucionais, cumpre relevar, num
ciado dê-se em razão dessa diferença, ou seja, que o trata- primeiro momento, o fraseado do art. 5 4 , XIII, que garante o
mento diferenciado tenha relação com o critério discrimi- livre exercício de qualquer trabalho, ofício ou profissão, aten-
nante eleito. didas as qualificações profissionais que a lei estabelecer. Nes-
se mesmo sentido, garante também a "liberdade de associação
para fins lícitos, vedada a de caráter paramilitar" (art. 5 4 , XVII,
108. Conteúdo jurídico do princípio da igualdade, 3a ed., São Paulo, Malheiros,
da CR/88), bem como dispõe que "a criação de associações e,
2003, p. 47. na forma da lei, a de cooperativas independem de autorização,

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

sendo vedada a interferência estatal em seu funcionamento" em seu fato gerador a designação de "circulação de mercadoria"
(art. 5 2 , XVIII, da CR/88). Mais a frente ainda completa esta- como base de tributação.
tuindo que "as entidades associativas, quando expressamente
A liberdade de tráfego vem reafirmar o princípio federa-
autorizadas, têm legitimidade para representar seus filiados
tivo, formador do Estado brasileiro, vedando a todos os entes
judicial ou extrajudicialmente" (art. 5 2 , XXI, da CR/88). Há que
políticos "estabelecer limitações ao tráfego de pessoas ou bens,
se tomar nota que as leis sobre tributo não podem tolher o livre
por meio de tributos interestaduais ou intermunicipais", como
exercício do trabalho e da livre associação, a que tem direito o
se depreende do próprio texto do artigo. Isto quer dizer que
cidadão brasileiro. Como bem tutelado no plano da Constitui-
não poderá compor o antecedente da norma, em nenhum tipo
ção, é um limite a mais que confrange as iniciativas legislativas
tributário (imposto, taxa ou contribuição), o predicado "ope-
em matéria tributária.
ração interestaduais ou intermunicipais". Em outras palavras,
Outras vezes, vamos deparar com o étimo "liberdade" não será tomado como base de tributação o simples fato de se
querendo apontar as garantias de expressão, conforme dis- configurar deslocamento de pessoa ou bem entre Estados e
posto nos arts. 5 2 , IX, e 220 da CR/88. Dessa forma, "a mani- Municípios, garantindo o movimento livre das massas popula-
festação do pensamento, a criação, a expressão e a informação, cionais e do comércio.
sob qualquer forma, processo ou veículo não sofrerão qual-
quer restrição", proibindo, por intermédio do que foi dispos- 1.3.5.5. O sobreprincípio da justiça
to, qualquer tipo de censura pelo Estado aos sujeitos de di-
reito. No domínio tributário, o Texto Magno, por meio das O princípio da justiça é uma diretriz suprema. Na sua
imunidades, garantiu a liberdade de expressão religiosa (so- explicitude, pois está expressa no Preâmbulo da CR/88, pe-
bre os templos de qualquer culto), política (sobre patrimônio, netra de tal modo as unidades normativas do ordenamento
renda ou serviços dos partidos políticos), sindical (sobre en- que todos o proclamam, fazendo dele até lugar comum, que
tidades sindicais dos trabalhadores), da educação (sobre se presta para justificar interesses antagônicos e até descon-
instituições de educação e de assistência social, sem fins lu- certantes. Como valor que é, participa daquela subjetividade
crativos) e de imprensa (sobre livros, jornais, periódicos e o que mencionamos, ajustando-se diferentemente nas escalas
papel destinado a sua impressão), desonerando tais institutos hierárquicas das mais variadas ideologias. Os sistemas jurí-
e instituições da carga tributária. Trata-se de reafirmação do dicos dos povos civilizados projetam-no para figurar no sub-
princípio da liberdade que a Constituição prestigia no seu art. solo de todos os preceitos, seja qual for a porção da conduta
5 2 . Nenhum óbice há de ser criado para impedir ou dificultar a ser disciplinada.
esses direitos de todo cidadão. E entendeu o constituinte de
Realiza-se o primado da justiça quando implementamos
eximi-lo também do ônus representado pela exigência de
outros princípios, o que equivale a elegê-lo como sobreprin-
i mpostos (art. 150, VI, da CR/88).
cípio. E na plataforma privilegiada dos sobreprincípios
Por fim, a propósito, vale a lembrança peremptória, no ocupa lugar preeminente. Nenhum outro o sobrepuja, ainda
domínio tributário, da liberdade de tráfego, prestigiada pelo porque para ele trabalham. Querem alguns, por isso mesmo,
art. 150, V, da CR/88 de que é apenas exceção a cobrança de que esse valor se apresente como o sobreprincípio funda-
pedágio pela utilização de vias conservadas pelo Poder Públi- mental, construído pela conjunção eficaz dos demais sobre-
co e o ICMS em razão de estar constitucionalmente garantido princípios.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

1.3.6. Os princípios formadores do Estado sujeito passivo, em ocasiões como essa, insurgir-se contra a
exigência federal, sobre o fundamento de que não fora respei-
Pertencendo ao estrato mesmo da Constituição, da qual tada a autonomia das unidades federadas, consagradas no art.
se destaca por mero expediente lógico de cunho didático, o 1 2-da Constituição.
subsistema constitucional dos princípios formadores do Nesse ponto, as hipóteses mais comuns de violação de
Estado realiza as funções do todo, dispondo sobre os poderes direitos e garantias individuais parecem alojar-se nos artigos
capitais do Estado, nos diversos campos da política, da ad- 155, § 2 4 , XII, e 146 da CR/88, este, justamente, prevê a edição
ministração e, de nosso interesse atual, da tributação, ao de normas gerais de direito tributário, rubrica de que nos ocu-
lado de medidas que asseguram as garantias imprescindíveis paremos em momento subsecutivo.
à liberdade das pessoas, diante daqueles poderes. Empre-
ende, na trama normativa, uma construção harmoniosa e Importa firmar, por enquanto, a infringência de direitos
conciliadora, que visa a atingir a forma do Estado brasileiro e garantias individuais do contribuinte ou de terceiros, ligados
e, a partir dessa formação, abstrair os conteúdos dos valores à relação jurídico-tributária, sempre que desrespeitado for o
supremos da certeza, da liberdade, da igualdade, da justiça, princípio da Federação, salvaguarda intangível da autonomia
pela segurança das relações jurídicas que se estabelecem dos Estados.
entre Administração e administrados. E, ao fazê-lo, enuncia O ser "República" Federativa é pretender uma forma de
normas que são verdadeiros princípios, tal o poder agluti- governo na qual o povo, soberano, investe seus representantes
nante de que são portadoras, permeando, penetrando e in- em funções de poderes diferentes. No modelo atual, são eles
fluenciando um número inominável de outras regras que lhe tripartidos em: legislativo, executivo e judiciário.
são subordinadas. Do ponto de vista da cidadania, define-se como a forma
de estado que atribui condição especial ao povo na formação
1.3.6.1. Princípios da Federação e da República do regimento constitucional interno. Em seu aspecto estru-
tural, apresenta-se como conjunto de instituições ordenadas
O princípio federativo, inscritos no art. 1 2 da Constituição, para o fim de preservar os direitos individuais e coletivos
está endereçado, inequivocamente, aos legisladores da União, bem como a representação legítima de seus administrados.
dos Estados-membros e do Distrito Federal. Contudo, não há Nesse ponto, Geraldo Ataliba asseverou com sutileza de
negar que enquanto expresse a autonomia recíproca das uni- análise em seu República e Constituição", que "a Repúbli-
dades federadas, sob o manto da Lei Fundamental, represen- ca, tal como plasmada pelos sucessivos constituintes brasi-
tará fonte inesgotável de direitos e garantias individuais. A leiros, traduz-se num conjunto de instituições cujo funcio-
experiência brasileira nesse sentido, aliás, é bem sugestiva. namento harmônico visa a assegurar, da melhor maneira
Que de vezes a União tem invadido as províncias da compe- possível, a eficácia de seu princípio básico, consistente na
tência estadual, a pretexto de legislar sobre seus impostos soberania popular".
privativos, ou tirando proveito da atribuição que os arts. 147 e
154, do Texto Maior lhe adjudicam, em claro detrimento dos
outros entes federativos e, em muitas oportunidades, arranhando 109. Geraldo Ataliba, República e Constituição, 2a ed., São Paulo, Malheiros,
o patrimônio jurídico dos próprios contribuintes. Cabe ao 1998, p. 89.

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Nesse tópico, é preciso dizer enfaticamente que princípio ao mesmo tempo em que o Estado lhes confere poderes, esti-
nenhum se encontra isolado no sistema. Corolário inevitável pula uma série de responsabilidades que lhes fazem contra-
da aplicação desse postulado é a confluência dos preceitos partida. Eis as condições de base em que deve enquadrar-se o
republicanos e federativos no Estado brasileiro. Ambos são regime jurídico brasileiro republicano.
atributos indissociáveis, fundamento da forma atual da Nação,
e, juntos, determinam como os outros princípios devem ser
1.3.6.2. Princípio da separação dos poderes
interpretados. Nenhuma lei pode ser interpretada sem que se
conforme à exegese desses dois princípios. Nesses termos,
Apesar do poder estatal ser uno e indivisível, como repe-
podemos apresentar afirmativa peremptória de que um não é
tidamente advertido por Rousseau, para que se opere seu ra-
o outro, mas um está pelo outro. Tanto o princípio republicano
cional e responsável exercício, este é partido em três segmen-
quanto o princípio federativo são os alicerces necessários da
tos, objetivando atender à complexidade das tarefas estatais e
presente formação do Estado brasileiro.
à consequente necessidade de especialização dos órgãos do
Demoremo-nos, porém, num ponto: a despeito de apre- Estado, no desempenho dessas tarefas. Fala-se, assim, em se-
sentarem-se no mesmo Diploma e, portanto, serem normas de paração dos poderes, consistente na divisão do exercício do
sobrenível, os princípios adquirem diferentes relevâncias na poder estatal.
formulação do sentido completo normativo. E os postulados
O conceito de separação dos poderes designa princípio
da Federação e da República exercem no direito positivo bra-
sileiro função determinante. Tal conclusão se depura de vários de organização política que, mediante a repartição de compe-
fatores: (i) na atual Constituição esses princípios se manifestam tências jurídicas, estrutura órgãos com funções específicas. No
expressamente representados no art. 1 2 , marca do início do ordenamento brasileiro, o assunto encontra-se disciplinado,
ordenamento jurídico vigente; (ii) além disso, por diversas expressamente, no artigo 2 2 da Constituição da República, nos
vezes, repete-se o preceito em outras formulações normativas, termos do qual "são Poderes da União, independentes e har-
explícita ou implicitamente; e, por fim; (iii) encontra-se, a for- mônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário". A
ma federativa de Estado, garantida entre as cláusulas pétreas independência e a harmonia entre os poderes do Estado indi-
do art. 60, § 4 2 , da CR/88 não sendo, portanto, objeto de emen- cam, como princípio, que cada um deles projeta uma esfera
da constitucional. própria de atuação, cuja demarcação tem por fundamento de
validade a própria norma constitucional. Ao Legislativo con-
No regime republicano, a forma federativa assegura o
fere, preponderantemente, a função de editar normas gerais e
sistema de representação dos administrados pela Administra-
abstratas; ao Executivo o dever de efetivá-las mediante a edição
ção Pública. Nele garantem-se os instrumentos que permitem
de normas individuais e concretas; e, finalmente, ao Judiciário,
a representação, bem como os meios de controle e fiscalização
a tarefa de dirimir os inevitáveis conflitos na aplicação das
dos mandantes sobre seus mandatários. Nesse sentido, utiliza-
110, normas jurídicas produzidas pelo sistema. Nessa projeção das
se do princípio "Poder contendo poder" ou nos termos nor-
fontes, não está previsto o setor privado responsável pela pro-
te-americanos adota o regime do "Check and Balance", no qual,
dução intensiva de normas que, a todo momento, enriquecem
o ordenamento positivo.
110. Geraldo Ataliba, República e Constituição, 2a ed., São Paulo, Malheiros, Justamente para atender às estipulações dessa índole é
1998, p. 48. que ao Poder Judiciário é vedado extrapolar os limites da lei,
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emitindo normas individuais e concretas que não se encontrem Sobremais, é preciso salientar que todo esse arcabouço
fundamentadas nos preceitos gerais e abstratos emitidos pelo montado pelo legislador constituinte foi concebido dentro de
Legislativo. Eis a presença inafastável da legalidade, pressu- padrões que tendem à fixidez, pois a Constituição brasileira é
posto do universo jurídico. rígida, prevendo, expressamente, os meios e modos de possíveis
modificações, todos eles reivindicando procedimentos especiais
Na qualidade de subdomínio da ordenação jurídico-posi-
e mais complicados que os do rito comum. Aliás, em obra de
tiva, nosso sistema tributário traz a marca indelével das parti- imenso valor doutrinário, Geraldo Ataliba pôs em evidência
cularidades do constitucionalismo praticado no Brasil. O esse traço, aliado, no setor específico dos tributos, àquilo que
quadro formado pela coexistência das quatro classes de pes- chamou de "abundância", quer dizer, o legislador constituinte,
soas políticas de direito constitucional interno (União, Estados- ao estabelecer um número sobremaneira elevado de preceitos
membros, Distrito Federal e Municípios), todas desfrutando de a propósito de matéria tributária, fê-lo no corpo de uma Cons-
autonomia e estruturadas como entidades que se autocom- tituição rígida, aspecto que imprime ao subsistema tributário
põem, buscando o fundamento de validade de suas normas brasileiro um caráter de amplitude e firmeza sem paralelo nos
diretamente na Constituição da República, exibe, desde logo, ordenamentos de países que seguem o modelo do direito con-
uma feição peculiar ao sistema do direito posto, colocando de tinental europeu.
manifesto sua grande complexidade. Isso, ainda, passando por
Torna-se necessário um esforço concentrado para mer-
alto pela existência de outro ente político, a própria União, mas
gulhar na amplitude textual e isolar os princípios fundamentais
investida agora de soberania e operando como pessoa de di-
da ordem jurídica vigente para, daí avante, projetar estratégias
reito constitucional na ordem externa, no direito das gentes.
de compreensão, passando à fase de construir o conteúdo,
Sabemos, perfeitamente, quão difícil tem sido a articula- sentido e alcance do produto legislado.
ção dessas entidades, justapostas como detentoras de faixas
próprias de competência impositiva, na medida em que se 1.3.6.3. Princípio da isonomia das pessoas políticas de direito
entrecruzam os problemas de ordem jurídica, política e social. constitucional interno
Tudo para respeitar o modelo federativo implantado pela
Constituição de 1988, mas que, de resto, já vem atravessando O conceito de isonomia não é de fácil determinação. Au-
a tradição histórica e jurídica do país há muito tempo. tores ilustres pretenderam demarcá-lo, encontrando acerbas
dificuldades, pois os valores não podem ser objetivados. Em
Em verdade, não é fácil manter o equilíbrio e a harmonia
função de sua plasticidade, amolda-se diferentemente aos
das pessoas políticas de direito interno, assim no plano estático
múltiplos campos de incidência material das regras jurídicas,
como, e principalmente, na dinâmica do seu funcionamento.
o que torna penosa a indicação precisa do seu conteúdo. Celso
São quatro focos ejetores de normas cujo fundamento de vali-
Antônio Bandeira de Mellom, como já vimos, tem importante
dade está plantado na Lei das leis, não havendo vínculos de
contribuição ao estudo dos obstáculos que se interpõem no cami-
subordinação entre essas esferas parciais de governo. São qua-
nho de um exame científico e aprofundado acerca desse tema.
tro fontes de produção normativa que hão de manter-se em
constante sintonia, integradas por obra de diretrizes superiores
que lhes asseguram o movimento simultâneo, tendo em vista a 111. Conteúdo jurídico do princípio da igualdade, 3a ed., São Paulo, Malhei-
realização dos valores supremos que a Constituição proclama. ros, 2003.

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PAULO DE BARROS CARVALHO DIREITO TRIBUTÁRIO, LINGUAGEM E MÉTODO

Já identificamos em subitem anterior a presença da acep- implícito, construído a partir de duas formulações expressas:
ção de isonomia como equivalente ao conceito de igualdade de a que assegura o princípio federativo (autonomia dos Estados
todos perante a lei. Por outro lado, em linha de princípio, ve- sob a égide da CR, art. 1 2 ) e a que consagra a autonomia dos
rificaremos que isonomia está presente também na formação Municípios (art. 13, § 2Q; art. 18, caput, e § 4 2 ; art. 23, caput, e
do Estado, veiculando predicados normativos entre as pessoas parágrafo único; arts. 29, 30, 44, 45, 46 e 53 da CR/88). E é nes-
políticas de direito constitucional interno, garantindo trata- se último que iremos focalizar nossas atenções no momento.
mento igual e autonômico entre si.
Sabemos que as mensagens prescritivas dos arts. 18 a 57
O art. 18, caput da CR/88, estatui que "A organização po- da Constituição do Brasil realizam o "princípio da autonomia
lítico-administrativa da República Federativa do Brasil com- dos Municípios", confirmado pela análise do sistema vigente.
preende a União, os Estados, o Distrito Federal e os Municípios, Nada obstante, juristas de renome, menos inclinados ao "mu-
todos autônomos, nos termos desta Constituição." A despeito nicipalismo", conquanto não neguem a indigitada autonomia,
de sua redação imprópria, uma vez que os Municípios não reduzem drasticamente a relevância dessas pessoas políticas,
compõem a Federação brasileira, põe, em pé de igualdade, as em suas interpretações, chegando ao ponto de designá-las por
entidades políticas, firmando ainda sua autonomia. "entes menores". Esforçados nessa mesma inspiração, com-
A premissa autoriza dizermos que esse princípio funciona preendem, ao pé da letra, o que preceitua o art. 187, parágrafo
como fator de paridade entre as entidades políticas de direito único, do Código Tributário Nacional, sobre violarem de ma-
interno, reafirmando os princípios da Federação e da autonomia neira frontal o princípio implícito da isonomia das pessoas
dos Municípios, sem os quais não se alcança a isonomia das políticas de direito constitucional interno, chegando ao resul-
pessoas políticas de direito interno e o inverso da mesma tado deplorável de admitir a "ordem" que o dispositivo esta-
forma é verdadeiro. Em outros termos, a isonomia de que des- belece, com o que relegam os Municípios a uma condição de
frutam os entes políticos é uma estimativa da mais elevada flagrante inferioridade em face dos Estados, do Distrito Fede-
relevância, pois de sua concreta efetividade dependem dois ral e da União.
sobrevalores, quais sejam, o da Federação e o da autonomia
dos Municípios. Percebe-se, claramente, que sem isonomia A autonomia municipal se reflete em diferentes passa-
entre as pessoas políticas não atingiremos os níveis adequados gens no texto constitucional, quando o próprio texto da Car-
do federalismo, impedindo a realização suprema da autonomia ta Magna os autoriza a ter símbolos próprios (art. 13, § 2 2 ),
dos Municípios. indica expressamente que União, Estados, Distrito Federal e
Municípios são todos autônomos entre si (art. 18, caput), im-
Por esse modo, é forçosa a ilação de que os princípios
põe consulta prévia à população municipal nos casos de cria-
formadores do Estado brasileiro são um emaranhado de normas
ção, incorporação, fusão ou desmembramento de Municípios
que só adquirem significação completa quando colocadas em
(art. 18, § ,V), dentre tantos outros que vão aos poucos com-
combinatória. Isonomia, Federação e autonomia dos Municípios
provando, de uma vez por todas, a existente e necessária
são o reflexo de uma só idéia: o Estado brasileiro.
autonomia dos Municípios.

1.3.6.4. Princípio da autonomia dos Municípios Justamente para atender às estipulações dessa índole é
que a Constituição da República, ao dispor sobre as competên-
A oração que proclama a isonomia das pessoas políticas cias legislativas, estabelece autonomia e competência munici-
de direito constitucional interno apresenta-se como enunciado pais para dispor sobre a matéria tributária. Em seu inciso III,

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do art. 30, prescreve, de forma abrangente, competir aos Mu- cerrada; da anterioridade e da irretroatividade da lei tributária;
nicípios a instituição e arrecadação dos tributos de sua com- da não-cumulatividade nos casos de IPI e ICMS; entre tantos
petência, bem como aplicação de suas rendas. Reafirmando outros.
peremptoriamente esse princípio, a fiscalização do Município
Por outro lado, não há como negar que os cânones da
será exercida pelo próprio Poder Legislativo Municipal, me-
legalidade, da anterioridade e da irretroatividade trazem con-
diante controle externo, e pelos sistemas de controle interno
sigo uma carga axiológica expressiva, na medida em que re-
do Poder Executivo Municipal. É uma prova de sua autonomia.
presentam conquistas seculares mantidas e anunciadas pela
Mais a frente, ainda no domínio tributário, assegura a compe-
tradição do nosso direito.
tência equiparando os Municípios às outras entidades por meio
do art. 145, caput; e, por fim, coloca-os no rol das imunidades,
inviabilizando que União, Estados, Distrito Federal onerem o 1.3.7.1. Princípio da legalidade tributária
patrimônio municipal com impostos. Do exposto percebe-se a
condição de igualdade que se encontram os Municípios em O princípio da legalidade é introduzido no sistema jurídi-
relação aos Estados, ao Distrito Federal e à União. co quer na formulação genérica do artigo 5 2 , II, da CR, quer
em sua conformação específica para o direito tributário (artigo
150, I, da CR). A análise do texto legal se desenvolve a partir
1.3.7. Os limites objetivos no direito tributário deste plano constitucional, onde se situa, aliás, o enunciado
normativo daquele valor, expandindo-se pelo corpo do sistema,
Os "limites objetivos" distinguem-se dos valores, pois são
com integral respeito à hierarquia. É tomando posições firmes
concebidos para atingir certas metas, certos fins. Estes, sim,
do texto da Carta Magna, racionalmente compostas e fundadas
assumem o porte de valores. Aqueles limites não são valores,
sempre em doutrina segura, que o exegeta compõe a linguagem
são procedimentos, se os considerarmos em si mesmos, mas
descritiva, imprimindo seriedade ao discurso.
voltam-se para realizar valores, de forma indireta, mediata,
que são os fins para os quais estão preordenados os procedi- Nunca serão demais os estudos que evoluírem em torno
mentos. Os princípios de direito tributário, por seu turno, ge- de valores com a magnitude do princípio da legalidade, a des-
ralmente se expressam como "limites objetivos", posto como peito do timbre subjetivo que os faz resvalarem, frequentemen-
sobre-regras que visam a implementar os valores estipulados te, pela quadra das especulações ideológicas, distanciando-se,
no ordenamento jurídico. em certa medida, do objetivo final do labor cognoscente. Sua
i mportância marca com tal intensidade a presença do fenôme-
A despeito dos "limites objetivos" perseguirem valores
como objetivos teleológicos da norma, não entram em jogo, no jurídico que não seria exagerado afirmar tratar-se de dado
aqui, as motivações subjetivas do legislador ou mesmo da pró- inafastável, decisivo para a compreensão dessa realidade. Re-
pria sociedade na sua positivação, tornando-se muito mais fletir sobre o princípio da legalidade, aqui, equivale a meditar
simples a construção de sentido dos enunciados. E na aplicação sobre o próprio direito.
prática do direito esses limites saltam aos olhos, sendo de veri- O princípio da legalidade é limite objetivo que se presta,
ficação pronta e imediata. Expressão de uma das diversas formas ao mesmo tempo, para oferecer segurança jurídica aos cida-
empregadas, observa-se os princípios tributários, tal como um dãos, na certeza de que não serão compelidos a praticar ações
limite objetivo, nos primados da legalidade e da tipicidade diversas daquelas prescritas por representantes legislativos, e

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para assegurar observância ao primado constitucional da tri- via de lei delegada, não há essa possibilidade. Entretanto, exis-
partição dos poderes. O princípio da legalidade compele o in- tem aqueles que aceitam a medida provisória com a virtude de
térprete, como é o caso dos julgadores, a procurar frases pres- criar tributos também. Não é minha interpretação.
critivas, única e exclusivamente, entre as introduzidas no or-
Uma exigência, contudo, se faz presente: na lei tributária
denamento positivo por via de lei ou de diploma que tenha o
há que se conter todos os elementos necessários à chamada
mesmo status. Se do consequente da regra advier obrigação
regra-matriz de incidência, isto é, aquele mínimo irredutível,
de dar, fazer ou não-fazer alguma coisa, sua construção reivin-
aquela unidade monádica que caracteriza a percussão do tri-
dicará a seleção de enunciados colhidos apenas e tão-somente
buto, vale dizer, a descrição de um evento de possível ocorrên-
no plano legal.
cia para a norma poder operar, e a prescrição de uma relação
Isso se aplica, na plenitude, à regra-matriz de incidência jurídica que vai nascer quando ocorrer esse acontecimento.
tributária: sua estrutura lógico-sintática há de ser saturada Nessa proposição consequencial, também chamada de conse-
com as significações do direito positivo. Pela diretriz da estrita quência tributária, existem não só dois sujeitos, mas uma
legalidade, não podem ser utilizados outros enunciados, senão conduta que pode ser exigida pelo titular do direito subjetivo
aqueles introduzidos por lei. Seja a menção genérica do acon- e que deve ser cumprida por aquele que foi cometido do dever
tecimento factual, com seus critérios compositivos (material, jurídico. Tal conduta no direito tributário está ligada à entrega
espacial e temporal), seja a regulação da conduta, firmada no de uma quantia em dinheiro e essa apuração em valor devido
consequente, também com seus critérios próprios, vale dizer, ao Fisco pressupõe a conjugação de dois fatores: a base de
indicação dos sujeitos ativo e passivo (critério pessoal), bem cálculo e a alíquota. Temos aqui um dado importantíssimo para
como da base de cálculo e da alíquota (critério quantitativo), a compreensão do direito tributário brasileiro: um primado
tudo há de vir expresso em enunciados legais. que decorre dessas ponderações e que se apresenta como o
binômio "hipótese de incidência/base de cálculo".
1.3.7.2. Princípio da tipicidade tributária Acredito, pessoalmente, que o artigo 4 4 do Código Tribu-
tário Nacional, ao dizer que a natureza específica do tributo é
Quando se reclama a observância do princípio da legali- definida pelo fato gerador, nos fornece uma pequena contri-
dade inscrito no art. 150, inciso I, da Constituição de 88, repe- buição, mas não diz tudo. A natureza específica do tributo é
tindo de certo modo o que já dissera o art. 5 2 , no seu inciso II, dada pela conjugação da hipótese da incidência e da base de
o que se quer exprimir é a exigência da lei ordinária. Diria "em cálculo. Vou dar dois exemplos práticos que me parecem bem
princípio", porque "lei", neste passo, está usada num sentido elucidativos: um, ocorrido no Estado do Rio Grande do Sul, em
que permite várias acepções. Eis novamente o cientista do Município gaúcho que, pretendendo ampliar a faixa da inci-
direito ou o jurista prático olhando para o direito positivo como dência do IPTU, no caso de imóveis dados em locação, escolheu
um fenômeno de linguagem e procurando, dentro das acepções como base de cálculo o montante percebido pelo locador, no
desse vocábulo, escolher uma que pode não ser a do outro. ano anterior. Alfredo Augusto Becker imediatamente apontou:
Gostaria que "lei" fosse interpretada aqui no seu sentido de lei "eis uma invasão de competência, trata-se de uma inconstitu-
ordinária, mas sabemos que o ordenamento brasileiro assim cionalidade", o Município estará invadindo a competência fe-
não dispõe. Há uma série de tributos que são criados, em vir- deral, pois o montante percebido pelo locador no ano imedia-
tude de imposição constitucional, por lei complementar. Já pela tamente anterior é um dos integrantes daquilo que se chama
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de rendimento bruto, colhido pelo imposto sobre a renda e competência residual, preferindo criar impostos com nome de
proventos de qualquer natureza. Percebe-se, claramente, nes- taxas, impostos com nome de empréstimos compulsórios, im-
te caso, que a base de cálculo, ao dimensionar o critério mate- postos com nome de depósito para viagens, impostos com nome
rial da hipótese de incidência, serve para definir aquilo que se de salário-educação, etc., em vez de utilizar da competência
pretende tributar pelo Município: a renda do proprietário e residual constitucionalmente estabelecida.
não a propriedade predial e territorial urbana. Ora, de ver está que o artigo 145, § 2 2 , da CR/88, impõe
Quero utilizar também de um excelente parecer do Pro- que as taxas tenham base de cálculo diferente dos impostos e,
fessor Geraldo Ataliba ao identificar na "taxa de melhoramen- ao criar a faixa de competência residual, inscrita no artigo 154,
to dos portos", não uma taxa, mas um imposto. Por quê? Porque I do mesmo Diploma encontraremos também o seguinte:
a base de cálculo deixava de medir atividade estatal diretamen-
te ligada ao obrigado, e voltava-se para um fato qualquer, in- "A União poderá instituir, mediante lei complementar, im-
postos não previstos no artigo anterior, desde que sejam
dependente de atuação do Poder Público. Ao detectar a base
não-cumulativos e não tenham fato gerador ou base de
de cálculo, confrontando-a com o critério material da hipótese
cálculo próprios dos discriminados nesta Constituição".
de incidência, concluiu: "isto é imposto, não uma taxa".
O artigo 4 2 - repito - do Código Tributário Nacional, Mas, aí não há o conjuntor "e" e, sim, o disjuntor "ou"?
quando prescreve que a denominação e o destino do produto Quer dizer, tendo fato gerador ou base de cálculo está satisfei-
da arrecadação são irrelevantes para dizer da natureza jurídi- ta a exigência constitucional? Creio que com breve interpre-
ca específica do tributo e que esta é dada pelo fato gerador, diz tação do sistema do direito positivo brasileiro, em especial, do
pouco. Pelo fato gerador, nós teríamos a hipótese de incidência sistema constitucional, verificaremos que é um simples trope-
daquele imposto predial e territorial urbano mencionado por ço do legislador. Empreendeu redação no sentido de significar
Alfredo Augusto Becker. Agora, a base de cálculo está medin- que só lhe é vedada a competência de instituir novos tributos
do outra realidade que não a de ser proprietário, ter o domínio com fato gerador e base de cálculo iguais aos impostos.
útil ou a posse de imóvel no perímetro urbano do Município.
Tal estilo interpretativo caracteriza instante delicado da
Faz-se necessária, todavia, a observação do princípio da tarefa elaborada pelo legislador constituinte, porque teve cui-
tipologia dos tributos. Dá-me o caminho para discernir os im- dado muito grande em delinear as competências da União, dos
postos dos impostos e os impostos das taxas. Esse critério tem Estados, dos Municípios, do Distrito Federal, salvaguardando
fundamento constitucional, não é mera criação doutrinária. diretrizes consagradas como intangíveis, entre elas a da Fede-
Nesse sentido, temos o art. 145, § 2 2 , da CR, onde se encontra ração. É demarcando a zona de competência da União que o
disposto: "As taxas não poderão ter base de cálculo própria de legislador constituinte decretou, digamos assim, a Federação.
impostos". Também foi em respeito ao princípio da autonomia dos Muni-
O legislador quando discerniu impostos de taxas escolheu cípios que outorgou competência para que tais pessoas políti-
como critério ter base de cálculo diferente. Em outro momen- cas de direito constitucional interno instituíssem seus tributos.
to, quando quis criar a faixa de competência residual da União, Trata-se, portanto, de momento sumamente importante da
que, por incrível que pareça, nunca foi utilizada, empregou o atividade constitucional o demarcar das competências. E foi
mesmo critério discriminador. Na verdade, a União não sabe nessa atividade delicadíssima que o legislador, intuitivamente
ou não desejou saber, até hoje, se dispunha ou não de faixa de ou não, escolheu e utilizou o mencionado critério, que põe em

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confronto a hipótese de incidência com a base de cálculo do artigo 142 do Código Tributário Nacional, traduz uma conquis-
tributo. A prática nos mostra que se nós aceitarmos, pura e ta no campo da segurança dos administrados, em face dos
simplesmente, aquilo que o legislador diz ser o fato gerador de poderes do Estado moderno, de tal maneira que o exercício da
certo gravame, correremos o risco de ficar redondamente en- administração tributária encontra-se tolhido, em qualquer de
ganados pela singela leitura do texto. seus movimentos, pela necessidade de aderência total aos ter-
Parece-me fundamental entender, quanto ao princípio da mos específicos da lei, não podendo abrigar qualquer tipo de
tipicidade tributária, que o exercício do poder impositivo-fiscal, subjetividade própria aos atos de competência discricionária.
no Brasil, encontra-se orientado por uma série de vetores, No procedimento administrativo de gestão tributária não
voltados especialmente para organizar as relações que nesse se permite ao funcionário da Fazenda o emprego de recursos
setor se estabelecem. São os chamados "princípios constitucio- imaginativos, por mais evidente que pareça ser o comporta-
nais tributários", na maioria explícitos, e a que deve submeter- mento delituoso do sujeito passivo. Para tanto, a mesma lei
se a legislação infraconstitucional, sempre que o tema da elabo- instituidora do gravame, juntamente com outros diplomas que
ração normativa seja a instituição, administração e cobrança de regem a atividade administrativa, oferece um quadro expres-
tributos. Pois bem, entre tais comandos, em posição de indiscu- sivo de providências, com expedientes das mais variadas espé-
tível preeminência, situa-se o princípio da tipicidade tributária, cies, tudo com o escopo de possibilitar a correta fiscalização do
que se define em duas dimensões: (i) no plano legislativo, como cumprimento das obrigações e deveres estatuídos.
a estrita necessidade de que a lei adventícia traga no seu bojo,
Seguindo esta ordem de considerações, surgem como
de modo expresso e inequívoco, os elementos descritores do fato
notas características do Sistema Tributário Brasileiro a impos-
jurídico e os dados prescritores da relação obrigacional; e (ii) no
sibilidade de instituir, arrecadar e fiscalizar tributos fora dos
plano da facticidade, como exigência da estrita subsunção do
estritos limites legalmente prescritos. Com efeito, para que um
evento aos preceitos estabelecidos na regra tributária que o
sujeito seja convocado a participar de uma relação jurídica,
prevê, vinculando-se, obviamente, à adequada correspondência
tenha ela natureza tributária ou sancionatória, os seus contor-
estabelecida entre a obrigação que adveio do fato protocolar e
nos, bem como os das hipóteses que lhes antecedem logica-
a previsão genérica constante da norma abstrata, conhecida
mente, devem ser introduzidos por instrumento introdutor
como "regra-matriz de incidência".
primário. Vejamos o porquê.
Corolário inevitável da aplicação desse princípio é a ne-
cessidade de que os deveres sejam introduzidos no sistema de
direito positivo por veículos introdutores primários, com força 1.3.7.3. Princípio da anterioridade
de lei, portanto. E mais, que os agentes da Administração Pú-
O art. 150, I, veda a possibilidade de exigir-se ou aumen-
blica, no exercício de suas funções de gestão tributária, indi-
tar-se tributo sem que a lei o estabeleça (princípio da legalida-
quem, pormenorizadamente, todos os elementos do tipo nor-
de estrita), enquanto o inc. III consagra os cânones da irretro-
mativo existentes na concreção do fato que se pretende tribu-
atividade (letra a) e da anterioridade (letra b). Fixemos nossa
tar e, bem assim, dos traços jurídicos que apontam uma con-
atenção nesse último. A diretriz da anterioridade, com toda a
duta como ilícita.
força de sua presença na sistemática impositiva brasileira, é
Por outro lado, o princípio da vinculabilidade da tributa- um "limite objetivo". Sua comprovação em linguagem compe-
ção, retirado da implicitude do Texto Supremo e inserido no tente (a linguagem das provas admitidas em direito) é de uma

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simplicidade franciscana: basta exibir o documento oficial exercício financeiro. Não se trata de problema de eficácia, mas
relativo ao veículo que introduziu normas jurídicas no sistema única e exclusivamente de vigência. Na hipótese, o que ocorre
do direito positivo, com a comprovação do momento em que é a convergência de dois fatores condicionantes, que interagem
se tornou de conhecimento público, e poderemos saber, ime- provocando o deslocamento do termo inicial da vigência, de
diatamente, se houve ou não respeito ao princípio da anterio- modo que a regra jurídica que entraria em vigor quarenta e
ridade. Dessa linha de raciocínio não discrepa a legalidade. Se cinco dias depois de publicada ou na data que estabelecer
o tributo foi introduzido por ato infralegal, o que se prova com continua sem força vinculante, até que advenha o primeiro dia
facilidade, ficaremos seguros de que o princípio foi violado. do novo exercício financeiro. Isso nos autoriza a falar numa
Seu sentido experimenta inevitável acomodação no primado vigência predicada pela norma e noutra imperiosamente esta-
belecida pelo sistema. São reflexões dessa natureza que nos
da segurança jurídica, vetor axiológico do princípio da ante-
permitem entender o conteúdo do art. 104 do Código Tributá-
rioridade, de modo que o contribuinte não seja surpreendido
rio Nacional, exarado em consonância com o art. 150, III, b e c,
com exigência tributária inesperada.
da Constituição da República.
Em função de sua plasticidade, o princípio da anteriori-
dade para muitos parece amoldar-se ora como recorte da efi-
1.3.7.4. Princípio da irretroatividade da lei tributária
cácia ora como recorte da vigência. Nesse ponto, é preciso
dizer enfaticamente que a vigência das normas tributárias no Entre as limitações do poder de tributar inscreveu o cons-
tempo carrega uma particularidade que deve ser posta em tituinte de 1988 o princípio da irretroatividade (artigo 150, III,
relevo. Aquelas que instituem ou majoram tributos hão de a). Por certo que a prescrição é despicienda, visto que a diretriz
respeitar não somente o princípio da legalidade, inerente à contida no artigo 5 2 , XXXVI, da Constituição da República, é
tipicidade cerrada das figuras tributárias, como também outro portadora desse mesmo conteúdo axiológico, irradiando-se por
limite, qual seja, aquele sobranceiramente enunciado no corpo todo o universo do direito positivo, incluindo, portanto, a região
do art. 150, III, b, e que consiste na necessidade de terem sido das imposições tributárias.
publicadas antes do início do exercício financeiro em que se
A Constituição da República estabelece no artigo 5 2 , in-
pretenda cobrar a exação. É o princípio da anterioridade, que
ciso XXXVI, que "a lei não prejudicará o direito adquirido, o
comporta apenas as exceções enunciadas no § 1 2 do mesmo
ato jurídico perfeito e a coisa julgada" enquanto, de maneira
preceptivo constitucional. Ora, se bem sopesarmos a conjuga-
mais restritiva estabelece, no capítulo concernente ao sistema
ção desses dois condicionantes, leg