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GUIA DO EDUCADOR DE CIRCO SOCIAL

Das lições de circo às lições de vida


Catalogage avant publication de Bibliothèque et Archives nationales du Québec
et Bibliothèque et Archives Canada
Lafortune, Michel
Guia do educador de circo social : das lições de circo às lições de vida
(Formation Cirque social)
Traduction de: Guide de l’intervenant social.
Comprend des réf. bibliogr.
ISBN 978-2-923847-20-7
1. Cirque - Aspect social. 2. Cirque - Étude et enseignement.
I. Bouchard, Annie, 1972- . II. Cirque du Soleil. III. Titre.
IV. Collection: Formation Cirque social.
GV1815.L3319 2011 791.3 C2011-940716-7

Concepção e direção de projeto: Michel Lafortune


Redação: Michel Lafortune, Annie Bouchard
Coordenação de produção: David Simard
Coordenação linguística para a versão em português: Cláudia Marisa Ribeiro
Direção artística: Pierre Desmarais
Concepção gráfica: Emmanuelle Sirard, Maria Masella
Fotografia: Lyne Charlebois, Ierê Ferreira, Sarah Bédard-Dubé*
Revisão e uniformização do manuscrito em francês: Stéphane Batigne, Jacynthe Tremblay
Comitê de leitura da versão original (em francês): Hélène Brunet, Lino de Giovanni, Jean-Marie Richard, Mélanie .
Lavallée, Julie Théberge, Emmanuel Bochud, Lise Cadieux, Mariano Lopez
Revisão linguística da versão em português: Alice Tavares Mascarenhas
Comitê de leitura da versão em português: Antonio Cesar Marques, Maria de Fátima Pontes
Montagem e diagramação: Marie-Andrée Grondin

Depósito legal: Verão 2011

*As fotos apresentadas nas páginas 11, 25 e 41 são de Sarah Bédard-Dubé. Após um rico percurso como instru-
tora de circo social no Burkina Fasso, em Honduras, no Líbano e no Canadá, Sarah Bédard-Dubé é hoje forma-
dora e coordenadora do programa preparatório circo-estudos na École de cirque da Gaspésie. Ela possui um
certificado em jornalismo e trabalha como fotógrafa autônoma desde 2005. Suas fotos foram, entre outros,
publicadas nos jornais Le Soleil e La Presse, assim como nas revistas Makivik e Africalia.

**Neste documento, o masculino foi utilizado com o único objetivo de facilitar a leitura.

Toda e qualquer reprodução é estritamente proibida sem a autorização prévia do titular dos direitos autorais. O contraventor
expõe-se a sanções civis ou penais./Any reproduction is strictly prohibited without prior authorization of the copyright holders.
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Cirque du Soleil and used under license.
APRESENTAÇÃO

O Cirque du Soleil™ é uma empresa internacional de origem quebequense, dedicada à


criação, produção e difusão de obras artísticas, cuja missão é invocar o imaginário, pro-
vocar os sentidos e evocar a emoção das pessoas. A partir do momento em que ele
teve meios de viver seus sonhos e que ele se apresenta nos quatro cantos do planeta, o
Cirque du Soleil escolheu envolver-se com as comunidades, e mais precisamente, com
os jovens das classes populares. Hoje em dia, voltado para questões mais globais de
luta contra a pobreza, o Serviço de Cidadania do Cirque du Soleil, em colaboração com
seus parceiros, é presença atuante em cerca de 80 comunidades no mundo.

Foi no início dos anos noventa que surgiu a ideia de criar uma metodologia de ação
usando as artes circenses como pedagogia alternativa junto aos jovens das classes
populares, metodologia pedagógica hoje conhecida pelo nome de circo social.
Seguindo essa ideia, o Cirque du Soleil e o organismo de cooperação Jeunesse du
Monde criaram o programa Cirque du Monde™ (Circo do Mundo), cujas primeiras
­oficinas começaram em 1995. Em 2009, mais de 50 comunidades, espalhadas pelos
cinco continentes, estavam envolvidas neste programa.

Nos últimos quinze anos, o interesse pelo circo social não deixou de crescer. Assistimos
atualmente a uma abundância de iniciativas, destinadas a diferentes grupos que vivem
problemáticas muito diversificadas (jovens com problemas de saúde mental, mulheres
vítimas de violência, detidos, refugiados, deficientes físicos). Esses projetos suscitam
um interesse crescente por parte dos setores mais tradicionais como a educação, a
saúde mental e a justiça, que os veem como uma maneira criativa e dinâmica de realizar
uma ação social. Além disso, o meio universitário, através de seus diversos grupos de
pesquisa, tem demonstrado um grande interesse em aprofundar e enriquecer os conhe-
cimentos sobre essa nova metodologia pedagógica.

A fim de estimular e de apoiar esse desenvolvimento, o Cirque du Soleil criou, em 2000,


um programa de formação em circo social destinado aos instrutores e educadores
de circo social. Desde o início do programa, centenas de instrutores e educadores de
circo social puderam, através dessas formações, familiarizar-se com a metodologia
pedagógica do circo social.

Diante de um interesse crescente e dos testemunhos de numerosas necessidades


expressas por nossos colaboradores e parceiros, foi necessário fornecer aos forma­
dores, instrutores e educadores de circo social um material de formação adaptado
ao contexto do circo social. Este guia faz parte de uma série de ferramentas pedagógicas
que permitirão que as várias instituições interessadas pelo circo social se beneficiem da
expertise desenvolvida pelo Cirque du Soleil e por seus parceiros desde 1995.

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OS AUTORES

MICHEL LAFORTUNE

Michel Lafortune se interessa pelo desenvolvimento global dos jovens e seu lugar em
nossa sociedade. Psicólogo, conferencista e formador, ele desenvolve logo no início de
sua carreira um interesse pela utilização das artes como uma nova metodologia peda-
gógica de ação social junto aos jovens das classes populares.

De 2006 a 2011, Michel Lafortune foi diretor do Circo Social no Cirque du Soleil. Nessa
função, ele era responsável pelos programas de formação e pelo desenvolvimento de
conhecimentos em circo social. Ele se destaca principalmente pela edição de manuais
pedagógicos de grande importância. Além de ser coautor do Guia do Educador de
Circo Social: Das lições de circo às lições de vida, ele atua como produtor executivo,
idealizador e diretor do kit educativo multimídia entitulado Técnicas Básicas em Artes
Circenses. Ele também é coautor e diretor do Programa de Formação em Circo Social:
Guia do Formador (em produção editorial), uma ferramenta pedagógica destinada à
formação de instrutores e educadores de circo social.

Michel Lafortune inicia suas atividades no Cirque du Soleil em 1999 como coordenador do
programa Cirque du Monde do Cirque du Soleil para o Canadá, a América Central, a Amé-
rica do Sul e a África. Durante esse período, ele concebe e realiza as primeiras formações
de instrutores de circo social, que ele promove nos cinco continentes. Ele participa igual-
mente da redação da primeira Carta da Rede Internacional de Formação em Circo Social.

ANNIE BOUCHARD
Desde 1993, Annie Bouchard trabalha em meio comunitário junto a jovens e adultos em
situação de ruptura e à margem das estruturas sociais. Sua experiência conjuga compe-
tências em ação social, em relação de ajuda, em trabalho de rua, em supervisão e em
gestão de recursos humanos. Preocupada pela marginalização dos jovens, ela é enga-
jada na busca de soluções em comum acordo com o meio, visando o direito de cada um
à cidadania e à dignidade.

A concepção, realização e coordenação de projetos inovadores ocupam um lugar


importante em seu percurso profissional. Em 2001, conquistada pela metodologia peda-
gógica do circo social, Annie Bouchard torna-se responsável pela implantação do pro-
jeto Circo du Monde em Sherbrooke e fez parte de um grupo de instrutores que a École
nationale de cirque de Montreal consultou para desenvolver seu programa de formação
de instrutores de circo social. Além de ser coautora do Guia do Educador de Circo
Social: Das lições de circo às lições de vida, ela colabora igualmente como educadora e
consultora para o Cirque du Monde desde 2002.

Em 2007, ela é nomeada diretora geral da Coalition sherbrookoise pour le travail de rue
(Coalizão de Sherbrooke para o trabalho de rua), cargo que ela ocupará durante três
anos. No mesmo ano, em reconhecimento ao seu trabalho, seu meio de atuação lhe
oferece o prêmio Coup de cœur individu por sua luta contra a itinerância na Nuit des
sans-abris de Sherbrooke.

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INTRODUÇÃO

O objetivo deste guia é fornecer aos educadores de circo social, quaisquer que sejam as
instituições e os meios sociais nos quais atuam, uma ferramenta adaptada ao contexto
específico de ação em circo social. Sendo tanto uma síntese da metodologia pedagó-
gica do circo social quanto um guia prático, este documento permite que os educado-
res de circo social compreendam os fundamentos e os princípios diretores específicos a
essa metodologia de ação, além de apoiá-los na organização, no planejamento e na
avaliação das oficinas de circo social. Esperamos que ele ajude os educadores de circo
social de todas as partes do mundo a descobrir e se apropriar desta metodologia peda-
gógica inovadora, a melhor identificar seu papel e, principalmente, a melhorar o destino
de milhares de pessoas, transformando as lições de circo em lições de vida.

O Guia do Educador de Circo Social é composto de quatro grandes seções. A primeira


ressalta a evolução e os fundamentos da metodologia pedagógica do circo social, defi-
nindo seus objetivos e princípios. A segunda trata do papel e das responsabilidades das
instituições locais, tanto sobre o auxílio aos educadores de circo social como sobre as
ações que elas devem empreender a fim de assegurar a continuidade do programa. A
terceira parte assinala o conceito central da metodologia pedagógica do circo social
desenvolvida pelo Cirque du Soleil: o tandem de ação. São descritas as qualidades e
competências necessárias do instrutor de circo e do educador de circo social, a fim de
que eles possam criar a complementaridade e a coesão essenciais para o sucesso de
sua ação. Enfim, a quarta e última parte descreve, de modo concreto, o desenrolar de
uma oficina de circo social, da seleção dos participantes até a apresentação final. O
educador de circo social encontrará nesta seção um grande número de informações
práticas referentes, entre outros, ao planejamento, à execução e às condições de êxito
de uma oficina de circo social.

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SUMÁRIO

SEÇÃO 1
O CIRCO E A AÇÃO SOCIAL
a) Do circo espetáculo ao circo social 13
b) A Ação em circo social: objetivos e pertinência 16
c) Os pilares que definem o circo social 22

SEÇÃO 2
A INSTITUIÇÃO LOCAL, os DESAFIOS E RESPONSABILIDADES
a) Os desafios da ação em circo social 27
b) As responsabilidades da instituição local 28
c) continuidade do programa de circo social 29

SEÇÃO 3
o tandem EDUCADOR-INSTRUTOR, PILAR DO CIRCO SOCIAL
a) O instrutor, um artista antes de mais nada 33
b) O educador de circo social, impulsionador
do laço de confiança e ponte de relações 34
c) Os pontos fortes e os desafios da animação em tandem 37

SEÇÃO 4
GUIA PRÁTICO PARA OS EDUCADORES DE CIRCO SOCIAL
a) Visão geral das aulas de circo SOCIAL 43
b) Uma oficina de circo social, etapa por etapa 44

CONCLUSÃO 53

ANEXOS
Texto pela Rede Circo do Mundo Brasil (RCM – Brasil) 57
Glossário 59
Bibliografia 61
O CIRCO E A AÇÃO SOCIAL
SEÇÃO 1
O CIRCO E A AÇÃO SOCIAL

a) DO CIRCO ESPETÁCULO Nascido no fim do século 18, na Ingla-


AO CIRCO SOCIAL terra, o circo moderno se propagou rapi-
damente em toda a Europa, em seguida
na América e em todo o mundo. Orga­
1. O circo, uma fascinação
nizado em companhias profis­sionais,
universal e um atrativo mais frequentemente ambulantes, o circo
para os jovens moderno gozou de uma forte populari-
dade até os meados do século 20, antes
• História do circo de conhecer um certo declínio. Nos anos
O circo parece ser tão antigo quanto a setenta e oitenta, uma nova corrente,
humanidade. Os chineses reivindicam conhecida atualmente como circo con-
uma tradição milenar, utilizada com fins temporâneo, renovou esta arte milenar,
diplomáticos desde a dinastia Han, há dando-lhe mais criatividade artística
2.000 anos, quando o imperador ofere- e favorecendo a multidis­ciplinariedade.
cia diversões acrobáticas aos emissários Entre outros, o Cirque du Soleil (Canadá),
ocidentais. O Egito dos faraós também o Circo Oz (Austrália), o Circo Archaos
conheceu uma forma de circo, já que há (França), o Circo Plume (France) partici-
pinturas, com milhares de anos, que tes- param deste movimento.
temunham este fato.
• Atração do circo social nos jovens
Apesar da evidente relação etimológica, A fascinação que exercem os artistas de
as artes circenses têm muito pouco em circo, os itinerantes, portadores de habi-
comum com o circo romano, principal- lidades desconhecidas, dotados de força
mente no que se refere às corridas de e de destreza é particularmente impor-
carros e aos combates de gladiadores. tante nos jovens das classes populares.
Na Europa, as raízes do circo se encon- Por sinal, não é raro que estes jovens
tram sobretudo nos trovadores, artistas adotem maneiras inspiradas das discipli-
de rua e outros artistas itinerantes que nas de circo para expressar suas diferen-
iam de cidade em cidade apresentar ças e particularidades. Alguns praticam o
espetáculos variados: música, adestra- malabarismo, o  monociclo e os lazeres
mento de animais, peças de teatro, acro- acrobáticos, como o skate ou o break
bacias, etc. dance. Outros, modificam sua aparência
pela maquiagem, penteado, piercing ou a
Por sinal, esta ideia de itinerância está
utilização de roupas não convencionais.
profundamente ligada à identidade do
Procurando provocar ou se distinguir,
circo. Originários de outros países, sem- vários deles descobrem seus talentos e
pre em trânsito, sempre em movimento, sua criatividade.
os artistas de circo sempre foram veto-
res de novidade, de saber, de conheci- 2. O circo, uma ferramenta
mento, de abertura em relação a outras de ação social
culturas. Além disto, eles dominavam
o  equilíbrio, desafiavam a gravidade, • Definição de circo social
mandavam nos animais, mudavam de O circo social é uma metodologia peda-
identidade graças a suas fantasias e gógica de ação social vinda de uma fusão
maquiagens. inovadora entre as artes circenses e a

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ação social. O circo social visa o desen- • Os pilares do circo social
volvimento integral e a inclusão cidadã A metodologia pedagógica do circo
das pessoas das classes populares, mais social se apoia nos seguintes sete pilares:
especificamente dos jovens. Justamente a criação de um espaço lúdico e seguro; a
por dar lugar à liberdade e à criatividade, relação com a comunidade; a expressão e
exigindo sempre coragem, perseverança a criatividade; a colaboração social–circo;
e disciplina, o circo social permite aos a duração no tempo; uma metodologia
participantes se desenvolver, se expres- centrada nos participantes; e as parcerias.
sar e criar, com a ajuda de sua diferença, Estes princípios serão desenvolvidos na
novos tipos de relações com uma socie- parte C da presente seção.
dade que frequentemente os excluiu.
Ao contrário de outras metodologias de
Criado durante os anos noventa, o circo ação social, as ações do circo social
social se desenvolveu consideravelmente acontecem em grupo e são realizadas
em todo o mundo e inspira atualmente por uma equipe binomial, constituída
diversos tipos de projetos sociais desti- por  instrutores de circo e por educado-
nados a diferentes tipos de pessoas res de circo social. Estas ações tomam a
(jovens das classes populares, mulheres forma de aulas regulares, realizadas
vítimas de violência, detidos, refugiados, durante oficinas de circo. Criadas e
etc.). apoiadas por instituições implantadas
Esta metodologia pedagógica de ação nas comunidades locais (instituições
prioriza o crescimento pessoal e social comunitárias, governamentais ou outras),
dos participantes. Ela favorece o desen- as oficinas de circo social podem durar
volvimento da autoestima, a aquisição vários meses.
de competências sociais, a expressão
artística e a inserção profissional. Ela dá • Protagonistas e beneficiários
do circo social
aos participantes a possibilidade de se
Além do programa Cirque du Monde,
expressarem e de serem escutados, de
que é voltado para os jovens das classes
tomarem consciência de seu próprio
populares, vários projetos utilizam a
potencial e de darem sua contribuição
metodologia pedagógica do circo social
como cidadãos do mundo. Nos países
no mundo. Na Austrália, o Women’s Cir-
que possuem conflitos ou tensões, o
cus inicialmente propôs aulas de circo
circo social pode até ser um vetor de
para as mulheres vítimas de agressões
aproximação e de reconciliação entre as
sexuais, antes de ampliar sua ação para
comunidades rivais.
todas as mulheres. Em um bairro de Bar-
O circo social se distingue do que cha- celona, o circo social foi um meio para o
mamos de circo profissional ou mesmo Ateneu mobilizar as pessoas do bairro e
circo recreativo pelo fato de dar mais criar um centro cultural. Para o Circus in
importância à experiência vivenciada Ethiopia, o circo social é uma ferramenta
pelos participantes que ao resultado de educação popular para fazer a pre-
artístico procedente desta experiência, e venção do HIV com seus espetáculos.
de estabelecer, entre os participantes e a O  Belfast Community Circus trabalha,
comunidade, uma relação que vai além desde 1985, com os jovens da Irlanda do
da função estética e recreativa do circo Norte, em um contexto de tensões inter-
tradicional. comunitárias muito fortes. Em 1991, no
O circo social é uma metodologia peda- Rio de Janeiro, Brasil, uma campanha de
gógica focalizada nas artes circenses e sensibilização, realizada por quatro insti-
na ação social, que atua como um pode- tuições não governamentais, deu origem
roso agente de transformação social. à instituição Se Essa Rua Fosse Minha,

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que, com a ajuda da Intrépida Trupe, dade de se reagrupar dentro de redes, o
foram um dos primeiros projetos a recor- que lhes permite compartilhar as infor-
rer às artes circenses como metodologia mações e a experiência em relação às
de ação. Na França, o organismo Atoucir- preocupações comuns, como a segurança
que trabalha com detidos e, em Buenos ou o financiamento. Tais grupos existem no
Aires, várias dezenas de crianças das Brasil (ver Texto pela Rede Circo do Mundo
classes populares se beneficiam, desde Brasil, p. 57), na Austrália, nos Estados Uni-
2004, das aulas de circo social dadas por dos, na Europa e na província de Quebec.
El Circo Social Del Sur.
No Brasil, além do projeto Se Essa Rua
Fosse Minha, existe atualmente mais de
3. O programa de circo social
vinte projetos de circo social em todo o
do Cirque du Soleil:
país atingindo em média 10.000 crian-
Cirque du Monde
ças, adolescentes e jovens das classes
populares.* (Ver p. 62)
Na província de Quebec, a ideia de criar
um programa de ação utilizando as artes O Cirque du Monde não pretende ser
circenses como pedagogia alternativa uma panaceia dos diferentes problemas
junto aos jovens das classes populares sociais, nem um simples divertimento
surgiu em 1993. O programa Cirque du que somente desviaria a atenção dos
Monde, fundado pelo Cirque du Soleil e o jovens de sua verdadeira condição. Ele
organismo de cooperação internacional deseja oferecer aos jovens participantes,
Jeunesse du Monde, começou a elaborar quer eles sejam de Montreal, do Rio, de
parcerias com instituições comunitárias Cingapura ou de outro lugar, um trampo-
chilenas, brasileiras e canadenses, e as lim para uma nova etapa em suas vidas.
primeiras oficinas de circo social A profissionalização dos participantes
começaram em 1995. Integrado, em 1997, não é excluída, mas não está no centro
por um outro organismo de coopera-
das preocupações e nem constitui o
ção inter­nacional, Oxfam-Québec, o pro-
objetivo primordial do circo social.
grama Cirque du Monde foi implantado
em vários outros países do mundo. Em
2009, mais de cinquenta comunidades
4. A formação dos instrutores e
estão envolvidas neste programa, na dos educadores de circo social
África (Burkina Fasso, Camarões, África
do Sul), na Europa (Holanda), no Oriente Em 2000, o Cirque du Soleil criou um
Médio (Líbano), na Ásia (Mongólia, programa de formação destinado a
­Cingapura), na Oceania (Austrália), na desenvolver as competências pedagógi-
América Latina (Brasil, Chile, México, cas de instrutores de circo social. Por
Honduras) e  na América do Norte sinal, foi neste momento que o termo
(Canadá, Estados Unidos). “circo social” foi consagrado, e hoje é um
No modelo de Cirque du Monde, as aulas consenso para definir os projetos de circo
do circo são organizadas pelo parceiro que se destinam à ação social. Oferecido
local, ao qual o Cirque du Soleil dá seu tanto pelas escolas de circo existentes,
apoio financeiro, material (doação de como a ENC (École nationale de cirque) e
material de circo) e organizacional, assim o NICA (National Institute of Circus Arts),
como sua experiência específica em quanto por parceiros interessados, o pro-
circo social. Este apoio pode também grama deseja favorecer uma rede inter-
incluir a seleção e a formação de instru- nacional em torno da formação dos
tores de circo social. Em vários ­países, as instrutores de circo social e da ação junto
instituições locais sentiram a necessi- aos jovens.

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O que levou a esta iniciativa foi a dificul- b) A
 AÇÃO EM
dade em encontrar instrutores de circo CIRCO SOCIAL:
capazes de trabalhar em um contexto
OBJETIVOS E
social, a necessidade de aumentar as
PERTINÊNCIA
habilidades das pessoas já envolvidas e o
desejo de desenvolver laços e uma coe-
Como o circo social surgiu nos anos
rência entre os projetos existentes. A
noventa, ele é uma ferramenta de ação
criação de um programa de formação
inovadora, ainda jovem e por conse-
em circo social se mostrou como uma
quência, pouco documentada no plano
etapa lógica a fim de garantir a continui-
teórico. Os pioneiros desta metodologia
dade do programa Cirque du Monde e
de ação primeiro agiram com paixão,
favorecer o desenvolvimento do circo
entusiasmo e desejo de ajudar as
social em outras redes.
populações sofredoras, entretanto, não
Em 2002, ainda em relação a esta visão, tinham os recursos necessários para ava-
nasce a Rede Internacional de Formação liar cientificamente o pleno potencial
em Circo Social (RIFCS). Este movimento desta metodologia pedagógica. Hoje em
é centrado na transmissão das práticas e dia, mesmo se sua metodologia se apoia
dos conhecimentos de circo social cons- em um método pedagógico enriquecido
tituídos em um programa, que favorece com uma experiência de cerca de quinze
prioritariamente o desenvolvimento das anos, os impactos e os mecanismos de
crianças, dos jovens e dos adolescentes ação em circo social não estão ainda
reconhecidos como a risco ou excluídos todos estabelecidos. Sua pertinência
da sociedade, e das outras pessoas que como metodologia de ação social é reco-
se encontram na mesma situação que nhecida, mas ainda resta muito trabalho
eles. de avaliação e de pesquisa a ser reali-
A RIFCS reagrupa dez instituições do zado para demonstrá-la.
Brasil, do Chile, da Colômbia, do Canadá, Durante uma entrevista com a Juggling
do Burkina Fasso, da África do Sul e da Magazine, revista italiana dedicada, desde
Austrália. Além do Cirque du Soleil e da 1998, à divulgação das artes circenses
ONG de cooperação internacional Jeu- contemporâneas, Michel Lafortune, dire-
nesse du Monde, os membros são escolas tor do Circo Social do Cirque du Soleil na
profissionais de circo ou escolas de circo época, afirmava:
social.
“Para nós, o circo social permite aos
Sua carta, assinada em outubro de 2007 jovens não apenas adquirir competên-
em Melbourne, estipula que seus cias na área do circo, mas também
membros: desenvolver sua autoestima, expres-
• visam a justiça social e o respeito dos sar sua personalidade, ser mais criati-
direitos e liberdades das pessoas; vos, mudar seus hábitos para passar
• apoiam-se nos valores de respeito, coe- do estado de vítima ao de protago-
rência, equidade, imparcialidade política, nista, do papel de espectador ao de
laicismo, autonomia e solidariedade; artista. Ele lhes dá a possibilidade
de  se tornar os atores de suas pró-
• têm como orientações a sinergia, a qua-
prias vidas. A pedagogia completa-
lidade, a pesquisa, o rigor, a ética, a luta
mente nova do circo social permite ir
contra a discriminação e exploração;
além das artes circenses, para se inte-
• têm como objetivo reunir-se, favorecer ressar também pela leitura, abrir-se
a formação e a transmissão, promover à  cultura e criar uma relação entre a
e defender o circo social. sociedade e as pessoas carentes. Elas

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adquirem a possibilidade de se expri- praticar disciplinas não habituais, o jogo
mir e serem escutadas, de tomar cons- da experimentação, a alegria de evoluir e
ciência de seu próprio potencial e de de progredir em grupo em um contexto
dar sua contribuição como cidadãs do ao mesmo tempo artístico e físico, tudo
mundo. isto concorre para criar um ambiente de
O objetivo não é a reinserção: deseja- prazer.
mos antes de mais nada que a sua Alguns participantes levam seu aprendi-
situação possa enriquecer o tecido zado a sério, a ponto de se imaginar ini-
social. Estes jovens precisam primeira- ciando uma carreira profissional. Mesmo
mente aprender uma forma que lhes que este objetivo não seja desencora-
permita participar da sociedade. O jado pela equipe de educadores, deve
circo, assim como a dança, o teatro ou ficar claro que as aulas de circo social
outras disciplinas artísticas, é um ins- não constituem uma formação profissio-
trumento graças ao qual eles podem
nal. Assim, não se trata de um fim em si,
entrar em relação com o mundo dos
mas de um meio. Um meio de crescer
adultos, vivendo uma experiência
nos planos pessoal e social. Um meio
pessoal e coletiva diferente. Pedimos
para desenvolver um saber-ser antes de
somente à sociedade que venha,
obter um saber-fazer.
escute e veja estes jovens sob uma
outra ótica. Nós somos uma interface: A ação em circo social é dirigida a diver-
construímos uma ponte entre estas sos tipos de pessoas carentes, margi­
duas realidades. nalizadas, fragilizadas, excluídas. Tais
Nós utilizamos frequentemente o con- pessoas têm diversos problemas.
ceito de resiliência, desenvolvido por Graças a sua metodologia pedagógica
Boris Cyrulnik, segundo o qual cada particular, caracterizada pela diversidade
um de nós pode tirar proveito de suas das disciplinas de circo e o apoio ao
experiências passadas para evoluir. desenvolvimento do indivíduo, cada pes-
Certos jovens ficam marcados por soa pode encontrar o meio que melhor
toda a vida pelos obstáculos enfrenta- lhe convém para atingir seus próprios
dos, enquanto outros utilizam estas objetivos com o circo social.
provas para ir adiante e crescer. Com
o circo social, nós nos esforçamos 2. Favorecer o desenvolvimento
em desenvolver esta capacidade.”
da autoestima
(Juggling Magazine: v. 38, p. 22, 2008)
Por outro lado, os resultados concretos e Nos jovens das classes populares, a auto-
positivos observados nas instituições e confiança é frágil. Um dos principais
projetos permitem estabelecer uma série objetivos da ação em circo social é aju-
de objetivos que o circo social pretende dar os jovens participantes a construir e
atingir, em particular no desenvolvimento desenvolver a autoestima que lhes falta.
pessoal e social dos jovens participantes: Este percurso é favorecido pela essência
das disciplinas de circo, baseadas na
1. Oferecer um meio, ideia de tornar possível o que parece, em
não um fim em si princípio, impossível ou difícil. Cada
Durante as aulas de circo social, o pequena vitória, cada sucesso, cada pro-
aspecto lúdico é primordial, sobretudo gresso aumenta o grau de autoconfiança
para os jovens das classes populares, do participante, que toma progressiva-
com dificuldades socioeconômicas, às mente consciência de suas forças, de
vezes, muito profundas. O atrativo de suas qualidades e de sua capacidade

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de  enfrentar os desafios, de progredir, 4. Favorecer o desenvolvimento
de se superar. do sentimento de identificação
Para atingir tal objetivo, o tandem de e do espírito de solidariedade
açao (instrutor e educador de circo
social) deve fixar os alvos adaptados à Pode-se caracterizar o circo, justamente,
capacidade de cada participante. Não é como uma arte da solidariedade, pois ele
o nível absoluto de desempelho que se apoia amplamente na ajuda mútua e
deve ser buscado, mas sim o êxito de no trabalho coletivo. É por isto que, ao
cada um no alcance de seus objetivos contrário de outros tipos de ação social
pessoais. baseados em uma relação pessoal entre
um jovem e um assistente social, a ação
Certas disciplinas de circo, como o equi-
em circo social se apoia muito na partici-
líbrio, o monociclo e o malabarismo se
pação coletiva, seja durante os aqueci-
revelam particularmente bem adaptadas
mentos, os jogos, o aprendizado ou as
ao desenvolvimento da autoestima, pois
apresentações públicas.
elas constituem, em si mesmas, desafios
das leis da física. Agir dentro de um grupo realizando ati-
vidades comuns é um motor formidável
de confiança em relação ao outro, que
3. Favorecer o desenvolvimento
permite o desenvolvimento dos valores
da autonomia e da
sociais fundamentais, como a solidarie-
autorregulação dade, a empatia, a colaboração, o senti-
mento de identificação, a escuta, o
O aprendizado de disciplinas de circo, respeito e a amizade. As noções de lide-
tais como o malabarismo ou o monoci- rança e de respeito das regras comuns
clo, é um processo progressivo, baseado são igualmente favorecidas, o que leva
na repetição de movimentos e na supe- os participantes a não mais se consi­
ração dos fracassos. Cada queda, cada derarem unicamente como indivíduos
erro, deve ser seguido de uma nova mas, também, como membros de uma
­tentativa. O acompanhamento técnico e coletividade.
humano do tandem instrutor-educador
Uma das disciplinas circenses mais eficaz
de circo social é, certamente, primordial,
em relação a isso é a pirâmide, que
mas o participante é também chamado a
necessita da cooperação de várias pes-
fazer sua parte no processo, pela auto-
soas para a realização de um objetivo
motivação e pela autorregulação. Ele
comum. De fato, os participantes tomam
aprende, deste modo, a controlar suas
consciência não apenas do que os outros
reações, a melhor se conhecer, a agir
podem lhes trazer, mas também do que
sobre si mesmo e com os outros.
eles mesmos podem dar aos outros.
Neste processo, a reflexão pessoal e o
senso crítico são importantes já que per- 5. Favorecer o desenvolvimento
mitem aos jovens determinar as razões do espírito cidadão
de uma derrota, fixar os próprios objeti-
vos e definir estratégias para alcançá-los. Para os jovens em situação de marginali-
Para alguns deles, as aulas servem de ini- zação pela sociedade, que vai algumas
ciação para qualidades humanas e vezes até a rejeição social, o “viver em
morais fundamentais, como a paciência, conjunto” pode ser uma noção abstrata,
a perseverança, a concentração, o rigor e ou até mesmo completamente ausente.
o controle das emoções (medo, frustra- O espírito de cidadania, a consciência de
ção, cólera). pertencer a um grupo, com seus direitos

18 Gu ia d o Ed u c a d o r d e C irco S o c ia l - © 2011 Cirque du Soleil


e deveres, podem se ilustrar e mesmo se tos ou a comunicação estruturada que
encarnar durante as aulas de circo social. podem ser problemáticos. O trabalho em
Decisões coletivas devem ser tomadas grupo, no que diz respeito à comunica-
para o bem comum, os conflitos devem ção e trocas entre os participantes e com
ser resolvidos de maneira não violenta, as os educadores, se torna um trampolim
ideias são trocadas, os interesses ou os formidável para desenvolver competên-
desejos divergentes devem ser concilia- cias em comunicação: expressão dos
dos: é um verdadeiro aprendizado demo- sentimentos, das opiniões e das emo-
crático que os jovens são convidados a ções; transmissão dos saberes e das
fazer, graças à participação de todos. O experiências; trocas em relação ao futuro
circo social dá, assim, a possibilidade aos (concepção de um projeto) e do passado
jovens participantes de tomarem parte (análise das aulas).
na sociedade e de se conectarem com o
A linguagem verbal não é a única a ser
grupo social em que vivem.
encorajada: as aulas de circo social favo-
recem em muito a linguagem corporal,
6. Favorecer o desenvolvimento como entre outras, as mímicas, as care-
da condição física tas e a representação teatral. Os jovens
descobrem que o humor, a graça, a
Mesmo sem visar um nível de desempe-
leveza e a brancadeira humorística
nho muito elevado, as aulas de circo
podem constituir formas de comunica-
social exigem que os participantes pos-
ção capazes de transmitir emoções e
suam uma boa condição física, principal-
opiniões.
mente nos planos da força, do equilíbrio,
da coordenação motora e da flexibili- Além disto, a utilização do espaço público
dade. Tal exigência pode encorajar os por meio do espetáculo, da representa-
jovens a tomar consciência da importân- ção, do jogo, permite ao jovem dizer aos
cia de adquirir bons hábitos de vida (ali- outros que ele existe em tal espaço e que
mentação, saúde, consumo de álcool, tem coisas a mostrar, a dizer. É um local
tabaco, drogas, higiene, etc.) para dar a privilegiado de autoafirmação.
si mesmos os meios para alcançar seus
objetivos. Tais hábitos os conduzem, 8. Favorecer o desenvolvimento
também, a tomar e retomar o contato da subversão criadora
com seus corpos, a redescobrir o próprio
interior e suas sensações, o que tem As artes circenses, tradicionalmente
impactos psicológicos espetaculares. ligadas a certas formas de subversão
Além disto, a prática regular das discipli- (nomadismo, desafios do equilíbrio, exu-
nas de circo constitui um condiciona- berância, criatividade artística, fantasia,
mento físico cujos efeitos benéficos etc.), atraem naturalmente os jovens. Os
podem se fazer sentir durante as aulas, que vivem em situação de exclusão da
à medida que os participantes desenvol- sociedade encontram nelas um reflexo
vem suas habilidades. positivo e construtivo de sua própria
subversão, assim como um meio de
7. Favorecer o desenvolvimento valorizá-la.
das competências em Além disto, a prática das disciplinas
comunicação circenses evidencia frequentemente a
invenção e a criação, sobretudo nas for-
Para alguns jovens, o simples falar em mas mais modernas de circo. Para os
público pode ser um desafio insuperável; participantes, trata-se de um meio, às
para outros, é a expressão dos sentimen- vezes único, de liberar, dominar e estru-

Gu i a d o Ed u cad or d e C i rco So c ia l - © 2011 Cirque du Soleil 19


turar seu imaginário e permitir o desen- Tal realidade é devida a uma preparação
volvimento da própria criatividade. O sistemática e a uma gestão rigorosa dos
circo social não busca normalizar ou riscos pelos artistas de circo. Para os
amenizar os traços subversivos dos par- jovens que participam das aulas, trata-se
ticipantes ou fazer a reinserção a qual- frequentemente de uma visão total-
quer preço; ele visa, sim, fornecer aos mente nova da vida. As regras que eles
jovens as ferramentas para aprender a se consideram geralmente como restrições
comunicar com a comunidade a partir insuportáveis, tomam subitamente um
desta subversão. sentido positivo: elas garantem sua
segurança e, logo, lhes permitem a prá-
tica segura das disciplinas arriscadas.
9. Valorizar a diversidade
Tal tomada de consciência pode repre-
Assim como um ser humano não é igual a sentar um passo muito importante no
outro, não existe o artista de circo típico. encaminhamento pessoal, pois ela os
Seja o malabarismo, a acrobacia, a arte leva a uma responsabilização de si e dos
de palhaço, as contorções ou o equilíbrio, outros, assim como ao desenvolvimento
da capacidade de julgamento diante dos
cada especialidade remete a personali-
acontecimentos e dos perigos da vida.
dades, a estruturas físicas, a qualidades e
temperamentos diferentes. Tal diversi-
dade, que faz com que o circo seja aces-
11. Favorecer a integração
sível a todos, além das barreiras sociais,
socioeconômica
linguísticas, econômicas ou físicas, é um
A questão do desenvolvimento profissio-
exemplo extraordinário de inclusão para
nal dos jovens que participam dos proje-
os jovens. Ninguém será excluído do
tos de circo social é cada vez mais
grupo porque não compartilha das mes-
presente no movimento de circo social.
mas ideias, não tem a mesma historia,
Todos os projetos encaram esta questão
não usa as mesmas roupas ou possui um pois, como acontece frequentemente, os
corpo diferente dos outros. participantes se envolvem intensamente
A valorização da diversidade, no con- e descobrem todo um mundo de possibi-
texto criativo e construtivo das aulas de lidades. Tornar-se um artista profissional
circo social, permite às culturas e comu- é uma destas possibilidades. Os partici-
nidades que tenham tendência a se evi- pantes podem também pensar em se
tar, o encontro em um espaço neutro, tornar educadores de circo social, em se
que pode ajudá-los a redefinir suas rela- dedicar a profissões no mundo do espe-
ções coletivas. táculo, etc. De fato, o aspecto impor-
tante reside no modo de acompanhar
um participante após sua passagem em
10. Manter o controle da
um projeto, caso ele tenha a intenção de
tomada de riscos se tornar um profissional. Há diferentes
visões do desenvolvimento do circo
Os artistas de circo efetuam a cada dia social. A profissionalização é uma delas,
números audaciosos, até mesmo perigo- mas a integração socioeconômica é uma
sos. Como na vida rotineira, os acidentes questão estratégica, caso se  queira evi-
não podem ser totalmente excluídos, tar que os participantes, após terem
mas permanecem muito raros. Na ver- vivenciado experiências construtivas,
dade, os acidentes são muito menos fre- voltem a sua antiga realidade. Todas as
quentes sob uma lona de circo do que outras vias, como o retorno aos estudos,
nas estradas. a reconciliação com a família, a implica-

20 Gu ia d o Ed u c a d o r d e C irco S o c ia l - © 2011 Cirque du Soleil


ção na comunidade, serão também boas Os fatores de proteção designam os
soluções. ­elementos próprios de cada indivíduo e
sua capacidade de interagir com seu
12. O circo social como ambiente. Eles são ligados a sua perso-
tutor de resiliência nalidade e às estratégias de adaptação
que ele é capaz de colocar em ação, face
Se a ação em circo social consegue favo- a um estresse ou um acontecimento
recer o desenvolvimento pessoal e social traumático.
dos jovens das classes populares, é cer- Os tutores de resiliência, ao contrário,
tamente porque sua metodologia peda- são elementos exteriores em relação ao
gógica, baseada na autossuperação, na indivíduo que lhe fornecem um apoio
autorrealização graças a suas forças e para que possa desenvolver tal resiliên-
capacidades, no funcionamento coletivo cia. Trata-se, com frequência, de amigos,
e no acompanhamento por adultos res- parentes ou colegas, às vezes, terapeu-
ponsáveis, constitui uma verdadeira fer- tas ou educadores. Pessoas totalmente
ramenta de resiliência. desconhecidas podem também assumir
este papel, através de sua escuta, sua
• O conceito de resiliência confiança ou seu apoio ativo.
Inspirado em uma noção utilizada origi-
nalmente em física mecânica (resistência • O papel da aula de circo social como
aos choques de um material), o conceito ferramenta de resiliência
de resiliência psicológica foi estudado e As aulas de circo social são particular-
popularizado a partir dos anos oitenta. mente destinadas a pessoas que viven-
Neste contexto, a resiliência pode ser ciam dificuldades pontuais ou persistentes,
definida como o processo dinâmico pelo levando-as à marginalização. Tais dificul-
qual um indivíduo se adapta positiva- dades podem estar ligadas a situações de
mente a um traumatismo ou uma situa- violência, de instabilidade ou de exclusão,
ção de adversidade. Ao contrário do que ou ainda, ao abuso de drogas e álcool.
se pensa, não se trata de “saltar”, nem de Alguns participantes sofrem de fragilidade
negar o passado doloroso, mas sim de emocional, de dificuldades familiares ou
de exclusão social. Durante as aulas, con-
superar e integrar o acontecimento trau-
dições favoráveis são criadas a fim de
mático para crescer em direção a algo
permitir-lhes a expressão de suas emo-
novo.
ções e as situações que eles vivem. Deste
A resiliência está intimamente ligada à modo, eles têm condições de buscar um
autoestima e à percepção da própria apoio e ver de maneira construtiva os
capacidade de exercer um controle fatos da própria vida, sem se culpabilizar
sobre seu ambiente. pelos acontecimentos vivenciados. Esta
Estudos científicos, praticados junto a atitude é fundamental para reforçar e
populações que sofreram traumas (refu- desenvolver os fatores de proteção.
giados, vítimas de abusos sexuais, etc.) Os educadores e instrutores de circo
evidenciaram o papel de dois grupos de social também agem, com frequência,
fatores para explicar o porquê de certos como tutores de resiliência junto aos
indivíduos caminharem na direção da participantes. Dando provas de atenção,
resiliência, enquanto outros, ao contrá- confiança e escuta, eles tornam-se
rio, permanecem na incapacidade de pessoas significativas e influentes que
superar as provas. Estes fatores são cha- demonstram aos participantes que eles
mados “fatores de proteção” e “tutores são dignos de respeito, o que lhes per-
de resiliência”. mite retomar sua autoestima.

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Esta reconquista da autoestima passa 1. O espaço lúdico e seguro
por mudanças, mas também principal-
mente pela ação. Os participantes são O circo social oferece um espaço lúdico
animados por uma forte energia, às de criação, de comunicação e de apren-
vezes positiva, outras confusa, que a dizagens sociais. Ele cria um espaço pri-
equipe de ação deve utilizar da melhor vilegiado onde é possível experimentar,
maneira possível. considerar os riscos de modo seguro,
As atividades de circo funcionam como divertir-se e desenvolver um sentimento
um trampolim, um suporte para o esta- de identificação. Este espaço é também
belecimento de novas forças, novas ati- um espaço de segurança física e emocio-
tudes, novas relações com os outros. Por nal, um espaço que dê possibilidade de
exemplo, quando os jovens trocam cla- exprimir sua cultura, um espaço social de
vas, elas não são apenas acessórios de reconciliação e de descobertas.
malabarismo, mas também um meio de Esta noção de espaço seguro é muito
melhorar a comunicação: os dois mala- importante antes, durante e após o
baristas devem estabelecer um cenário desenvolvimento das aulas de circo social
antes do exercício, em seguida, respeitá- e os instrutores e educadores de circo
lo durante o exercício, coordenando e social são responsáveis de assegurar esta
adaptando seus movimentos e gestos noção. Eles devem principalmente garan-
um ao outro, simultaneamente. As clavas
tir que os participantes possam gozar de
passam de material lúdico a ferramenta
uma segurança completa, sob todos os
de relacionamento. Quanto ao espetá-
aspectos (física, psicológica, social, emo-
culo de fim de uma oficina, é um pro-
cional) e que o espaço comum seja isento
cesso de criação coletiva que leva os
de discri­minação, ameaças, violência ver-
participantes a expor publicamente seus
bal, física e psicológica, de assédio ou de
talentos e serem aplaudidos pelos mem-
intimidação.
bros de sua comunidade.
A existência deste espaço seguro permite
c) OS PILARES QUE DEFINEM aos participantes sair de seu ambiente
O CIRCO SOCIAL social, às vezes muito duro, e experimen-
tar, através das artes circenses, dimen-
Além de suas características funda­ sões como o irreal, o lúdico, o sensível e o
mentais (utilização das artes circenses, poético. O espaço seguro age, logo, não
ação junto a grupos sociais em dificul- apenas como um refúgio, mas também
dade), a metodologia pedagógica do como uma ocasião para experimentar
circo social repousa sobre sete pilares outras possibilidades.
primordiais, para alcançar seus objetivos
de ação. Os instrutores e educadores de 2. A relação com a comunidade
circo social, assim como as instituições
parceiras, devem aderir plenamente a O circo social estabelece ou restabelece
tais pilares. Estes princípios diretores as relações e o diálogo entre os partici-
são: a criação de um espaço lúdico e pantes, com frequência jovens, e suas
seguro; a relação com a comunidade; a famílias ou sua comunidade. Ele serve de
expressão e a criatividade; a colaboração ponte entre a comunidade e os partici-
social-circo; a duração no tempo; uma pantes e convida a comunidade a ir ao
metodologia centrada nos participantes; encontro destes jovens, a fim de mudar a
e as parcerias. percepção que ela tem deles.

22 Gu ia d o Ed u c a d o r d e C irco S o c ia l - © 2011 Cirque du Soleil


3. A expressão e a criatividade implicação do corpo, do coração e do
espírito.
Através da utilização das artes circenses, O circo social propõe uma dinâmica que
o circo social põe a criatividade no cen-
procura motivar o participante a preser-
tro de sua pedagogia. Ele fornece aos
var ou a retomar o contato com sua
jovens as condições que lhes permitam
capacidade de brincar. Se o participante
desenvolver sua criatividade, exprimir-
gosta do que faz, do que vê, do que
se, ­trocar ideias, dar lugar ao imaginário,
trans­formar-se e transformar o mundo, o sente durante as aulas, ele terá vontade
seu mundo. de voltar. A participação voluntária é um
dos princípios do circo: convidar mas
A criatividade permite aos participantes a
não forçar nem obrigar.
retomada de poder sobre o seu ambiente.
É o grupo que se autorregula, constitui o
4. A colaboração social-circo ritmo para se estabilizar, para encontrar
o equilíbrio. Com o tempo, o indivíduo é
A colaboração entre a área de atuação chamado a se estruturar para melhor
social e a área de atuação em circo está aprender, atuar, apoiar seu grupo; traba-
no centro da metodologia pedagógica lhar em sintonia com os outros, para
do circo social e constitui sua marca. A aprender com eles.
animação em tandem, educador de circo
Uma condição fundamental para recon-
social e instrutor de circo, é uma de suas
maiores riquezas, pois permite aos dois ciliar o participante com o desejo de
indivíduos conjugar seus esforços e aprender é o desenvolvimento das com-
experiências para um bem comum. Ela petências dentro de um ritmo adaptado
diminui os limites de cada um, trazendo e progressivo. A experimentação de êxi-
um suporte mútuo e o espaço de reflexão tos sucessivos está no centro da cons-
necessário para superar as dificuldades e trução da autoestima. Envolver todos os
introduzir novas soluções. componentes do indivíduo (o corpo, o
coração e o espírito) permite criar um
5. A duração no tempo sentido e ultrapassar a simples sensação
do fazer pelo fazer.
Embora as aulas de circo social possam
ter um impacto significativo a curto 7. As parcerias
prazo, são os projetos a longo prazo que
permitem criar condições de mudanças O estabelecimento de uma parceria é
profundas e favorecer o desenvolvi-
essencial para a implantação de um pro-
mento de um sentimento de identificação
jeto de circo social. O parceiro social é
nos participantes.
aquele que possui o conhecimento da
cultura, dos indivíduos e das estratégias
6. Uma metodologia centrada
para implantar e gerenciar as operações
nos participantes
do projeto. O parceiro circo oferece ao
projeto toda a pedagogia e o conheci-
Uma metodologia de ação social cen-
trada nos participantes, significa que há mento específico para unir a arte e o
pessoas (jovens ou não) que se encon- social. Os projetos que têm o maior
tram no centro do processo. O circo impacto são aqueles que se constroem
social valoriza um processo pedagógico com parceiras sólidas entre os educado-
baseado no lúdico, na dinâmica de res, os instrutores, a comunidade, a famí-
grupo, no aprendizado progressivo e na lia e os participantes.* (Ver p. 62)

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A INSTITUIÇÃO LOCAL,
OS DESAFIOS E RESPONSABILIDADES
SEÇÃO 2
A INSTITUIÇÃO LOCAL, OS DESAFIOS E RESPONSABILIDADES

Atualmente, no modelo de circo social ção das aulas; ela deveria também
adotado pelo Cirque du Soleil, a institui- acompanhar os jovens participantes e
ção local é a principal responsável pela assegurar um acompanhamento, antes e
organização das aulas de circo e pelo depois das aulas. Trata-se de um pro-
alcance de seus objetivos, a curto e a cesso mais longo e exigente, mas tam-
longo prazo. Assim, ela deve enfrentar
bém, mais completo pedagogicamente.
certos desafios e assumir responsabilida-
des particulares. Ela é responsável pela
continuidade do programa de circo
2. A adaptação a um novo
social em sua comunidade. método de ação

a) OS DESAFIOS DA AÇÃO A metodologia pedagógica do circo


EM CIRCO SOCIAL social apoia-se sobre um método de
ação diferente dos habituais, geralmente
No momento de se envolver na organiza- baseados no contato individual. Embora
ção das aulas de circo social, todos os a escuta e a ajuda personalizada estejam
parceiros locais devem estar conscientes também presentes na metodologia do
das particularidades desta metodologia circo social, a eficácia desta metodologia
pedagógica em comparação com seus repousa sobretudo na ação – neste caso,
modos de ação habituais. Estas diferen- na prática de disciplinas de circo. Além
ças de pedagógia podem representar
disto, o desenvolvimento da autoestima
desafios importantes, principalmente em
dos jovens não se origina apenas da sua
termos de obrigações e de adaptação.
prática individual das disciplinas de circo.
Ele resulta também dos contatos que se
1. O envolvimento
criam entre eles, pela dinâmica estabele-
A mobilização da instituição local é a pri- cida dentro do grupo e pelas relações,
meira condição de sucesso da utilização individuais e coletivas, que se desenvol-
das artes circenses como meio de ação vem entre os jovens e os facilitadores.
social. Seja na preparação, animação ou A ação em grupo, a animação em tan-
acompanhamento, a organização de uma
dem e a natureza das atividades de circo
oficina de circo social exige, com efeito,
são frequentemente realidades novas
um alto nível de envolvimento de tempo
para a instituição local e podem repre-
e energia. Entretanto, a instituição local
sentar desafios de adaptação. A anima-
não deveria considerar este esforço
como uma tarefa suplementar, pois um ção de aulas de circo se distancia
projeto de circo social pode se integrar também do modo comum de ação, mas
perfeitamente dentro de suas ações oferece ao educador de circo social a
regulares. Ela deve, então, conceber e oportunidade de conhecer e dominar
colocar em ação esta integração em fun- uma nova metodologia pedagógica cuja
ção de suas características e de seus experiência lhe permitirá o enriqueci-
objetivos. mento de seu trabalho junto aos jovens
Além disto, a instituição local não deve- durante um bom tempo após o fim das
ria se contentar apenas com a organiza- aulas de circo social.

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b) AS RESPONSABILIDADES • Experiência
É recomendada uma experiência mínima
DA INSTITUIÇÃO LOCAL
de seis meses na área de ação social, ou
Além da sua função institucional, a insti- até mesmo na instituição de onde pode
tuição local deve se encarregar de duas ter sido oriundo como participante.* (Ver
responsabilidades muito importantes: a p. 62) Além disto, a experiência de traba-
seleção dos educadores de circo social e lho com um grupo e a de animação em
a garantia da segurança. equipe, são critérios que deveriam rece-
ber a maior atenção no momento da
seleção do educador de circo social.
1. Responsabilidades
institucionais • Entusiasmo
O educador deve não somente possuir a
• Infraestruturas materiais
experiência e as habilidades profissionais
A instituição local é responsável pelas
e pessoais necessárias, mas do mesmo
infraestruturas de acolhimento do pro-
modo demonstrar o desejo de envolver-
jeto de circo: locais (reuniões, treina-
se com o projeto de circo social. Tal
mento, representação), material de circo
entusiasmo, associado a uma franca ade-
(inclusive fantasias, maquiagens, cená-
são à metodologia pedagógica do circo
rio) e material de gestão. Tais infraestru-
social, é importante.
turas devem ser adaptadas às atividades
previstas e respeitar as regras de segu- • Disponibilidade
rança. Elas devem também adequar-se A permanência do educador durante
às regras e leis em vigor no país. todo o período da oficina é primordial,
pois assegura a continuidade da relação
• Parcerias estratégicas e financeiras
de confiança com os participantes e a
A organização das aulas ou de certas
estabilidade da ação. A saída de um
atividades (deslocamento, espetáculo)
educador apreciado pelos participantes
necessita às vezes a criação de relações
pode comprometer a eficácia do projeto.
com parceiros (outras instituições,
A instituição deve ter a garantia da dis-
empresas privadas, administrações
ponibilidade do educador em todas as
públicas, mídia) a fim de encontrar
etapas do projeto. Um candidato cuja
financiamentos ou assegurar a divulga-
presença não possa ser garantida
ção do projeto. Tal responsabilidade é,
durante toda a duração da oficina deve-
do mesmo modo, uma garantia de conti-
ria ser descartado.
nuidade das atividades de circo social.
•S uporte para o educador
2. Seleção e suporte dos de circo social
educadores de circo social A instituição tem a responsabilidade de
apoiar seus educadores durante os pro-
O perfil dos educadores de circo social, jetos de circo social. Por exemplo, se um
em particular suas qualidades e aptidões, dentre eles tem problemas importantes,
está detalhado na seção 3 desta obra. ele deve poder encontrar ajuda junto à
Tais elementos devem ser considerados instituição. No caso de impasse ou se,
no momento da seleção dos educadores por alguma razão (doença, partida), o
de circo social pela instituição local. educador não possa mais exercer seu
Entretanto, outros aspectos devem, do papel, a instituição deve rapidamente
mesmo modo, ser considerados: experi- designar um substituto entre seus edu-
ência, entusiasmo e disponibilidade. cadores de circo social.

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A fim de assegurar o melhor suporte cipantes a tomar consciência de sua pró-
possível para os educadores, é recomen- pria segurança, a serem responsáveis de
dado que o pessoal da instituição se sua própria proteção e a dos outros. Os
envolva com a metodologia pedagógica instrutores de circo podem assumir a
do circo social, assegurando aos instru- responsabilidade principal em relação à
tores e educadores um processo de for- avaliação da segurança física, enquanto
mação téorica e técnica.* (Ver p. 62) os educadores de circo social podem
se ocupar da parte de segurança emo-
3. Segurança dos participantes cional, visto seu conhecimento dos
e dos facilitadores jovens e de suas necessidades no plano
psicossocial.
A segurança é um dos pilares que defi-
nem o circo social (ver Seção 1). Tal ele- c) C
 ONTINUIDADE
mento se aplica à segurança física e DO PROGRAMA
emocional dos participantes, educadores DE CIRCO SOCIAL
e instrutores. Os membros do grupo
devem poder dispor de um espaço A visão do circo social que defende o
seguro (ou safe space) que lhes dê a Cirque du Soleil implica uma metodolo-
possibilidade de sair de seu ambiente gia pedagógica de parceria alojada em
social habitual. um espírito de desenvolvimento durável.
Consequentemente, a instituição local Um de seus objetivos é assegurar a con-
tem a responsabilidade de fornecer os tinuidade a longo prazo das atividades
meios de equipar tal espaço, principal- circenses nas comunidades que acolhem
mente no que diz respeito aos locais e ao as oficinas. Para atingir tal objetivo, as
material. Suas responsabilidades tocam instituições locais têm um papel crucial.
em particular os seguintes pontos:
- garantir um local que inspire os jovens,
1. Responsabilidade da instituição
os educadores e instrutores, permi-
Historicamente, dentro do programa
tindo-lhes a expressão livre; um local
­Cirque du Monde, os acordos preveem
que possa tornar-se um espaço de liber-
que, após um certo número de anos
dade, de referência, de identificação;
determinados em comum acordo, as ins-
- fornecer material suficiente, seguro e tituições locais tornam-se inteiramente
bem adaptado; responsáveis pela organização, realiza-
- assegurar a manutenção do local; ção e financiamento das aulas de circo.
Hoje, o Cirque du Soleil, na posição de
- criar um plano de urgência e segurança;
conselheiro experiente, fornece o apoio
- assegurar acesso aos primeiros socorros; em termos de formação dos instrutores e
- respeitar as instruções de segurança; educadores de circo social, de difusão de
- preocupar-se com a qualidade do ferramentas pedagógicas e de avaliação.
ambiente; Esta exigência se traduz pela responsa-
bilização das instituições parceiras que
- possuir os seguros necessários que devem assegurar elas mesmas a conti-
cubram tanto seus funcionários (edu- nuidade do programa, assegurando a
cadores de circo social, instrutores, no transferência de experiência de um edu-
caso de contratados) quanto os jovens cador de circo social a outro, procurando
participantes. as fontes de financiamento locais ou
Os facilitadores devem também fazer enraizando o programa de circo em sua
uma avaliação dos riscos e levar os parti- comunidade.

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2. Continuidade dentro
da instituição

O projeto de circo social deve, antes de


mais nada, ser continuado dentro da ins-
tituição local. Para isto, é importante sis-
tematizar e difundir a informação gerada
pelas aulas. Esta pode ser conservada
por meio de diferentes tipos de docu-
mentos, como um diário de bordo e
documentos de síntese, a fim de ser
transmitida aos educadores de circo
social e instrutores que animarão as pró-
ximas oficinas de circo. Além do mais, é
desejável que os educadores ou instruto-
res façam parte das reuniões ordinárias
da instituição para compartilhar a evolu-
ção do projeto e receber feedback. Eles
deveriam igualmente ser convidados a
transmitir regularmente os balanços aos
responsáveis da instituição e a seus cole-
gas. Enfim, a instituição deve acolher e
integrar o novo pessoal, para transmitir-
lhe todos os conhecimentos adquiridos
durante as aulas.

3. Continuidade dentro
da comunidade

A continuidade do projeto de circo deve


também se inscrever no meio local. É
essencial para a instituição parceira asse-
gurar a visibilidade local do projeto, prin-
cipalmente por meio da mídia e
desenvolver as parcerias com diferentes
atores socioeconômicos locais (institui-
ções comunitárias, empresas, municipali-
dades, fundações, etc.). Esta sinergia
pode ser implementada dentro da reali-
zação das aulas, durante espetáculos ou
na organização de atividades paralelas.
Realizando estas etapas para tecer alian-
ças, a instituição local deve valorizar o
papel particular do circo social na diver-
sidade de ações desenvolvidas junto aos
jovens das classes populares. Ela pode
igualmente acentuar a complementari-
dade desta ação com a de seus eventu-
ais parceiros financeiros.

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O TANDEM EDUCADOR-INSTRUTOR,
PILAR DO CIRCO SOCIAL
Section 3
O TANDEM EDUCADOR-INSTRUTOR, PILAR DO CIRCO SOCIAL

A animação em tandem educador-ins­ sibilidade, respeito e integridade. Além


trutor é um dos pilares fundamentais da de suas competências nas artes circen-
metodologia pedagógica do circo social. ses, o instrutor de circo social é um ver-
Cada um dos dois facilitadores tem um dadeiro artista que escolheu colocar seu
papel bem definido junto aos jovens. O talento a serviço de pessoas das classes
instrutor de circo é um artista social, uma populares.
pessoa que divide um saber–fazer e um
saber–ser, uma pessoa dotada de quali- • As competências do instrutor
dades humanas e de uma forte experiên- Idealmente, o instrutor de circo social
cia em trabalho de grupo, adaptada aos possui competências para praticar e
participantes no aprendizado das disci- ensinar a maioria das disciplinas circen-
plinas circenses. Por seu lado, o educa- ses. Na realidade, normalmente ele
dor de circo social está próximo da domina duas ou três delas, mas possui as
comunidade local, conhece as realidades habilidades de base necessárias para
e dificuldades, e possui a experiência da ensinar as outras. O instrutor deve estar
relação de ajuda personalizada. Ele está aberto ao mesmo tempo para utilizar o
encarregado de estabelecer uma relação ensinamento das artes circenses e pro-
de confiança com os participantes e de curar meios criativos e adaptados às
transformar as lições de circo em lições necessidades dos indivíduos.
de vida. Apesar de suas diferenças, o ins-
trutor e o educador são chamados a tra- • As qualidades humanas do instrutor
balhar juntos em complementaridade, Paixão e talento são certamente indispen-
coesão e cumplicidade. Esta caracterís- sáveis para o trabalho do instrutor de circo
tica é uma fonte de grandes riquezas social, mas ele deve também demonstrar
potenciais, mas também de grandes um real comprometimento com os partici-
desafios. pantes e a instituição, comprometimento
que ultrapassa a simples transmissão de
técnicas das disciplinas circenses.
a) O INSTRUTOR,
UM ARTISTA ANTES Os instrutores não são chamados a exer-
DE MAIS NADA cer o papel de psicólogos ou de assisten-
tes sociais, porém devem ter consciência
Artista de circo dotado de qualidades de que seus comportamentos e atitudes
humanas, o instrutor é portador do ima- servem de modelo aos participantes
ginário do circo e representa um modelo e que este aspecto da relação é tão
inspirador para os participantes. significativo quanto os conteúdos de
aprendizagem.
1. O perfil do instrutor de circo O instrutor de circo social deve, então,
demonstrar empatia e comprometimento
O instrutor de circo social é, antes de em relação aos participantes, ser capaz
mais nada, animado pela paixão em rela- de demonstrar uma grande abertura,
ção a sua arte e dotado de um verda- escuta e respeito a sua realidade e suas
deiro talento. O contexto de ação do dificuldades. Esta sensibilidade lhe permi-
circo social exige também que ele tenha tirá evitar a falta de tato, a negligência e
qualidades humanas e que atue com sen- comportamentos incorretos ou abusivos.

Gu i a d o Ed u cad or d e C i rco So c ia l - © 2011 Cirque du Soleil 33


2. As funções do instrutor • A adesão à metodologia pedagógica
do circo social
As funções do instrutor consistem em Nas instituições comunitárias, o método
de ação mais corrente consiste em esta-
ensinar as técnicas de circo, orientar o
belecer um contato individual entre um
grupo durante as aulas de circo, assim
assistente social e uma pessoa em difi-
como dar apoio ao educador de circo
culdade. A pedagogia do circo social
social e à instituição. Ele pode ser levado
difere deste método: ainda que a escuta
a efetuar uma ação social em certas oca-
e o acompanhamento personalizado
siões e deve estar consciente do impacto
estejam também presentes, a eficácia da
social destes gestos. ação no circo social repousa principal-
Já que a descrição específica das fun- mente na ação (a aprendizagem das
ções do instrutor de circo social não é o disciplinas circenses) e em um enquadra-
objeto deste guia, este aspecto não será mento dispensado em complementari-
muito desenvolvido e nós convidamos as dade e em cumplicidade por um tandem
pessoas interessadas a obterem a docu- com especialidades diferentes. Além do
mentação específica sobre este tema. mais, a ação é dirigida a um grupo de
participantes e não a uma única pessoa.
3. A imagem do instrutor junto Este método permite insuflar em cada
participante a energia da coletividade e
aos participantes
associar o bem estar pessoal às relações
sociais positivas.
O instrutor veicula frequentemente a
arte e a criatividade. Seu domínio das Nesta metodologia pedagógica, o desen-
artes circenses, sua origem fora do meio volvimento pessoal e social dos parti­
e sua fibra artística fazem com que ele cipantes não deriva unicamente da sua
encarne naturalmente a relação entre o prática das disciplinas circenses. Este
desenvolvimento vem igualmente dos
desempenho e a representação.
contatos e da dinâmica que se instalam
dentro do grupo, assim como das rela-
b) O EDUCADOR DE CIRCO ções estabelecidas, a título individual e
SOCIAL, IMPULSIONADOR coletivo, entre os participantes e o tan-
DO LAÇO DE CONFIANÇA dem de facilitadores.
E PONTE DE RELAÇÕES Tais diferenças de método fazem com
que os educadores de circo social pos-
1. O
 perfil do educador sam se sentir inseguros em relação a um
de circo social método de ação que não conheçam ou
não dominem totalmente. De modo invo-
O educador de circo social ideal não luntário, eles podem mesmo se recusar a
existe. Desde o início do programa Cirque aderir plenamente e consequentemente
du Monde, pessoas muito diferentes com se privar de sua eficácia.
respeito a suas personalidades, suas A adesão dos educadores à metodologia
experiências e competências, representa- do circo social é indispensável ao êxito
ram este papel com sucesso. Entretanto, da ação. Crer profundamente que a utili-
os educadores de circo social que tive- zação das artes circenses terá uma inci-
ram maior êxito tinham em comum dência construtiva no desenvolvimento
a capacidade de aderir plenamente à pessoal e social dos participantes é um
metodologia pedagógica do circo social componente determinante do sucesso.
e possuir certas qualidades humanas e Para os educadores, trata-se também de
profissionais particulares. uma oportunidade de descobrir e apren-

34 Gu ia d o Ed u c a d o r d e C irco S o c ia l - © 2011 Cirque du Soleil


der a dirigir uma metodologia pedagó- participantes. Empregado pela institui-
gica que poderão utilizar em outras ção local, ele conhece o meio de vida dos
situações de ação, além das aulas de participantes e, em certos casos, pode
circo social. ter sido testemunha de sua trajetória de
vida e, mesmo, ter compartilhado de
• As qualidades humanas e profissionais suas dificuldades. O enraizamento do
do educador educador no meio de vida dos partici-
Os educadores de circo social que melhor pantes lhe dá oportunidades para susci-
souberam tirar proveito das possibilida- tar e manter seu interesse em um projeto
des da metodologia pedagógica do circo de circo social. Ele pode também ser um
social tinham em comum uma sutil mis- ponto forte na construção de uma rela-
tura de saber–ser (qualidades humanas) e ção de confiança de qualidade.
de saber–fazer (qualidades profissionais).
A primeira função do educador consiste
- A capacidade de mobilizar e motivar em preparar a oficina de circo: selecionar
os participantes, de levá-los a ultrapas- os participantes, encontrar o local, plane-
sar suas barreiras. jar as aulas. Durante as aulas, tem como
- A capacidade de reconhecer as neces- responsabilidade principal desenvolver os
sidades pessoais de cada participante, laços de confiança com os participantes,
estimulando o envolvimento coletivo, condição fundamental para a eficácia da
de estabelecer um equilíbrio entre o metodologia pedagógica do circo social.
suporte individual e a ação de grupo. A qualidade destas relações é, de fato, a
base de todo o processo de mudança.
- A abertura de espírito e a habilidade
Somente a existência de uma relação de
em trabalhar com outros profissionais,
confiança forte e durável entre o educador
respeitando as responsabilidades e as
funções de cada um. e os participantes pode lhe permitir trans-
formar as lições de circo em lições de vida.
- A firmeza e o tato na prevenção e na
gestão dos conflitos, principalmente Para estabelecer, desenvolver e consoli-
pela definição coletiva das regras a dar uma relação de confiança durável, o
serem respeitadas e a escuta em situa- educador deve, antes de  tudo, ficar
ções especiais. atento às dificuldades e necessidades dos
participantes (necessidades de respeito,
- A capacidade de adaptação e a criati- segurança, escuta, reconhecimento, afir-
vidade na busca de soluções dos pro- mação, liberdade e criatividade). É, logo,
blemas individuais ou coletivos. essencial estabelecer um contato direto
- A capacidade de planejamento e orga- entre eles, não somente durante mas
nização, principalmente na gestão de também antes e após as aulas.
grupos. O educador deve também observar se o
Estas qualidades todas encontram-se conteúdo e o ritmo das aulas são adapta-
raramente em um mesmo indivíduo, no dos às capacidades e necessidades dos
entanto elas encontram-se frequente- participantes e estão de acordo com as
mente reunidas graças à colaboração do particularidades da comunidade. Enfim,
tandem educador-instrutor. uma de suas funções consiste em expor
claramente as regras das aulas e fazê-las
2. As funções do educador ser respeitadas. Tal aspecto é essencial
para o desenvolvimento de laços de con-
De uma forma geral, o educador de circo fiança pois traz, com ele, as bases do res-
social tem a função de um ponto de rela- peito mútuo, da justiça e da segurança de
ção entre o projeto de circo social e os cada um.

Gu i a d o Ed u cad or d e C i rco So c ia l - © 2011 Cirque du Soleil 35


3. O educador e as lições de vida encontrar a ocasião de mostrar ao parti-
cipante como tirar lições positivas de
Uma das funções mais importantes do suas experiências negativas, de maneira
educador de circo social é chamar a a obter delas um enriquecimento pessoal.
atenção dos participantes para as cor- Analisar as razões de sua derrota lhe per-
respondências e as semelhanças entre os mitirá reconhecer suas fraquezas, enca-
aprendizados das disciplinas circenses e rar as soluções e consequentemente
as realidades da vida em sociedade. Tal melhor compreender como se comportar
responsabilidade o leva a promover ver- para atingir os próprios objetivos.
dadeiras lições de vida, ressaltando por Esta atitude positiva face às dificuldades
exemplo, algumas atitudes perante a e à derrota constitui um ponto forte for-
derrota (aprender a perder) e o êxito midável, não somente nas aulas de circo
(aprender a ganhar). social mas sobretudo na vida. Assim, é
A ideia geral a ser transmitida é que as importante que o educador estabeleça
aprendizagens adquiridas durante as uma relação entre a situação vivenciada
aulas podem ser aplicadas na vida do dia durante as aulas e as situações que o
a dia, que elas podem servir para desen- participante enfrenta na vida diária.
volver habilidades sociais, definir objeti-
vos de vida, cuidar de si e dos outros, Uma tarefa mais sutil e, talvez, mais difícil
adotar atitudes positivas face às vitórias para o educador, é ensinar ao par­ticipante
e derrotas da vida, pois estas se suce- como se comportar após um êxito, ou,
dem de modo imprevisível. em outras palavras, ensiná-lo a ganhar.
Um sucesso deve evidentemente ser
O papel do educador em relação a isto é
celebrado por seu respon­sável, os outros
levar os participantes das aulas de circo
participantes e os facilitadores, mas o
social a desenvolver modos de aprender
educador deve estar atento à maneira de
e fornecer elementos que lhes permitam
festejar.
assumir as inevitáveis situações da vida.
Dia após dia, cada um, de fato, deve É preciso verificar se o orgulho daquele
enfrentar várias situações cujo resultado que teve êxito não está se exibindo de
não é nunca o mesmo. modo muito demonstrativo, de maneira
a não se transformar em arrogância, nem
Uma aprendizagem, qualquer que ela em vaidade, pois tal atitude pode consti-
seja, é frequentemente constituída de tuir uma fonte de irritação para os outros
dificuldades que devem ser enfrentadas participantes. Em tal caso, o educador
e superadas. Isto é especialmente ver- deve transmitir a ideia de que uma vitó-
dade no aprendizado das disciplinas cir- ria, é, antes de mais nada, uma fonte de
censes; o participante das aulas de circo motivação e não um motivo de distinção
social pode ser confrontado com o medo ou para se sentir superior aos outros.
(de cair, de se ferir, de não obter êxito), a É igualmente importante que o educador
incapacidade de efetuar um gesto (por explique aos participantes que a vitória
falta de força ou de coordenação motora, é frequentemente temporária e que
por incompreensão), com o nervosismo, nenhuma vitória pode ser compreendida
o estresse, a frustração, etc. como algo definitivo. O excesso de con-
Quando um participante se encontra em fiança, decorrente de um sucesso, pode
situação de derrota, o educador de circo levar uma pessoa a relaxar seus esforços
social deve ajudá-lo a enfrentar a adver- e logo fracassar em uma tentativa poste-
sidade, valorizando a perseverança e a rior. É preciso, então, ressaltar que a
coragem. Ele deve do mesmo modo melhor maneira de festejar uma vitória é

36 Gu ia d o Ed u c a d o r d e C irco S o c ia l - © 2011 Cirque du Soleil


continuar o seu caminho e se preparar 1. A complementaridade dentro
para o próximo desafio. Isto vale para as do tandem de ação
numerosas dimensões que podem ser
mencionadas durante as aulas. A pertinência da animação em tandem
repousa amplamente na complementari-
4. A
 imagem do educador junto dade do instrutor e do educador de circo
aos participantes social, complementaridade que pode se
tornar uma verdadeira cumplicidade
De um modo geral, os participantes quando os dois facilitadores dividem os
podem ter do educador de circo social mesmos objetivos com relação aos parti-
cipantes, e a mesma adesão à metodolo-
uma imagem de razão, de responsabili-
gia pedagógica do circo social.
dade (organização, segurança), e de
autoridade relativa (transmissão e res- De fato, cada um se beneficia, por sua
peito das regras), sendo esta última divi- função e seu percurso, de experiências e
dida com o instrutor. de qualidades que podem faltar no outro.
O trabalho em equipe permite a ambos
Tal imagem pode ser difícil de manter colocar estas vantagens em comum,
para algumas pessoas e pode mesmo se com  o fim de alcançar os objetivos da
tornar uma fonte de tensões dentro do ação social.
tandem de ação, sendo o instrutor visto
Possuidor de uma experiência particular,
como um modelo de criatividade. Entre-
o instrutor leva aos participantes e à
tanto, o educador é igualmente aquele
comunidade local seus conhecimentos
da equipe que está mais próximo dos
artístico, técnico e pedagógico das artes
jovens e que pode compreendê-los circenses. Trata-se de uma nova riqueza,
melhor. Ele contribui para estabelecer e uma abertura para um outro mundo, uma
desenvolver relações de confiança fre- maneira diferente de ver as coisas. Esta
quentemente mais profundas que as fei- posição pode ser uma vantagem, pois
tas pelo instrutor, e encarna igualmente ela lhe dá a distância necessária para tra-
a continuidade. balhar com um grupo sem estar impli-
É preciso entender que isto é uma ques- cado em suas tensões ou dificuldades
internas. Além do mais, o instrutor possui
tão de percepção que pode ser tratada
uma experiência de trabalho com os gru-
com os participantes, caso necessário.
pos, o que não é sempre o caso do edu-
cador, mais experiente na relação de
c) O
 S PONTOS FORTES E OS ajuda individual.
DESAFIOS DA ANIMAÇÃO
Por outro lado, o educador conhece bem
EM TANDEM
a realidade do meio de vida dos partici-
pantes, pois ele, com frequência, é origi-
A animação em tandem por um instrutor
nário deste meio. Ao contrário do
e um educador de circo social é um dos
instrutor de circo que só intervém
fundamentos da metodologia pedagó- durante as aulas, o educador permanece
gica do circo social. Ela constitui um de em contato direto com os participantes
seus melhores pontos fortes mas, tam- antes, durante e após as aulas de circo
bém, um de seus maiores desafios. social. Esta proximidade lhe dá a possibi-
A coanimação já comporta desafios lidade de trabalhar de modo mais perso-
próprios. É preciso estar consciente das nalizado quando for necessário, por
percepções e das expectativas para exemplo, no caso de dificuldades pesso-
abordá-las em contextos específicos. ais de um participante. Ele tem mais con-

Gu i a d o Ed u cad or d e C i rco So c ia l - © 2011 Cirque du Soleil 37


dições de desenvolver os laços de • Planejamento do trabalho
confiança com os participantes, condi- Graças aos dados físicos e psicossociais
ção indispensável ao desenvolvimento fornecidos pelo educador, os dois mem-
de sua autoestima. bros do tandem de ação fixam antes do
início das aulas, os objetivos específicos
para cada participante, adaptados a suas
2. Coesão e planejamento no
capacidades. Tais objetivos devem ser
trabalho do tandem de ação constantemente reavaliados, segundo os
progressos efetuados, os sucessos obti-
No caso em que os dois facilitadores
dos e as dificuldades constatadas.
ajam nos mesmos grupo, espaço e
Além disto, o instrutor e o educador são
tempo, suas ações tendem a ser conjun-
chamados a planejar rigorosamente o
tas, o que significa que cada um deles
desenvolvimento das aulas, efetuar uma
pode intervir no campo do outro. Os
avaliação constante de sua interação e
limites desta junção devem entretanto fazer os ajustes necessários. Este plane-
permanecer claros para os jovens. A pro- jamento, que deve ser transparente para
cura de coesão nas ações dos dois faci­ os participantes, é o fiador da coesão do
litadores e o planejamento rigoroso trabalho dos dois facilitadores.
do desenvolvimento das aulas são
indispensáveis. 3. Evitar a rivalidade entre
o educador e o instrutor
•C ompartilhamento dos objetivos
e capacidades As diferenças de percepções entre a fun-
É imprescindível que os dois facilitadores ção e a imagem de cada um dos mem-
compartilhem seus objetivos respectivos bros do tandem de ação podem ser um
a fim de que cada um compreenda per- desafio para o educador: durante as
feitamente a função, as responsabilida- aulas, o instrutor é visto pelos participan-
des e o campo de ação do outro. tes como uma referência positiva e um
modelo que os leva a escapar de sua rea-
O educador deve entre outros apresen-
lidade enquanto o educador pode apare-
tar ao instrutor os objetivos da institui-
cer como o símbolo da razão. Esta
ção local e transmitir-lhe as informações situação é corrente e normal, mas pode
pertinentes em relação à situação de se tornar problemática se uma rivalidade
cada participante, dentro dos limites da se instala entre os dois facilitadores para
confidencialidade (dados psicossociais chamar a atenção e a admiração dos
ou condição física). Tais informações participantes. É indispensável que o edu-
permitirão ao instrutor adaptar o pro- cador não considere o instrutor como
grama da formação, seu ritmo e conte- um rival mas sim como um aliado que
údo às necessidades e capacidades dos pode ajudá-lo na realização do própio
participantes. trabalho, graças à fascinação que ele
exerce sobre o grupo.
O instrutor e o educador deveriam tam-
bém se informar, mutuamente, sobre 4. O lugar do educador
seus respectivos pontos fortes e fracos. nas lições de circo
Esta honestidade favorecerá o desenvol-
vimento de uma cumplicidade entre eles O lugar do educador de circo social
e lhes permitirá o melhor aproveita- nas lições de circo deve também ser bem
mento de suas capacidades, para o bem delimitado. Em relação a isto, dois riscos
dos participantes. de derrapagem, de natureza oposta,

38 Gu ia d o Ed u c a d o r d e C irco S o c ia l - © 2011 Cirque du Soleil


devem ser evitados: o educador-partici- O educador não deve perder de vista
pante e o educador-espectador. Estas que sua participação ativa nas aulas tem
duas ciladas conduzem ao rompimento o objetivo de melhorar seus contatos
do equilíbrio necessário para o estabele- com os participantes, mas esta participa-
cimento de uma relação de confiança ção não deve jamais lhes fazer esquecer
com os participantes e, logo, ao êxito da a função particular que ele exerce dentro
ação. do grupo.
O educador deve ao mesmo tempo
• O educador-espectador
observar os participantes e se envolver
Ao contrário do educador-participante, o
nas aulas de forma equilibrada, a fim de
educador-espectador fica fora das ativi-
poder compreender os participantes e o
dades de aprendizagem de circo durante
que eles vivenciam durante a oficina. Sua
as aulas, frequentemente por desejar
participação nas atividades visa demons-
compreender melhor a evolução dos
trar que as artes circenses podem ser
participantes e a dinâmica do grupo.
praticadas por todos. Atingido tal obje-
Mesmo que a observação seja uma fun-
tivo, ele desenvolve uma excelente rela-
ção importante do educador, uma posi-
ção com os participantes e se torna, ao
ção muito recuada em relação ao grupo
mesmo tempo, responsável e compreen-
e suas atividades pode se tornar danosa
sivo, observador e ativo, lúdico e sério.
para seu trabalho, fazendo-o perder o
• O educador-participante contato com os participantes. Adotando
As artes circenses exercem um tal poder este comportamento, o educador corre o
de fascinação que podem levar o educa- risco de ver o grupo se distanciar, desen-
dor a se tornar um participante muito volver uma atitude negativa em relação
ativo nas aulas, a ponto de desejar domi- a ele, e até mesmo uma desconfiança.
nar uma disciplina. Mesmo se seu envol- Esta evolução pode se revelar catastró-
vimento ativo durante as aulas deve ser fica, pois a função principal do educador
real de modo a criar e consolidar laços é estabelecer laços de confiança com os
de cumplicidade com os participantes, o participantes a fim de ajudá-los em seu
educador deve medir o tempo que ele desenvolvimento pessoal e social. Con-
consagra pessoalmente ao aprendizado tentando-se da posição de espectador,
e à prática das disciplinas de circo. Se o educador se priva da possibilidade
este tempo for excessivo, assim como a de chamar a atenção dos participantes
energia utilizada na tarefa, ele corre o para as lições de vida tiradas das lições
risco de prejudicar sua função de obser- de circo.
vador e acompanhador da evolução É necessário que o educador participe,
dos participantes e, consequentemente, de vez em quando, aos jogos e ao treina-
comprometer seu trabalho de ação. mento físico das aulas, e até que ele
Além disto, sua imagem de pessoa res- compartilhe em seguida suas impressões
ponsável pela supervisão do grupo com os participantes. Isto pode ser uma
poderia ficar enfraquecida aos olhos dos excelente forma de incitá-los a fazer o
participantes que poderiam considerá-lo mesmo.
como um participante do programa, pos-
suindo o mesmo estatuto que eles. Esta
situação poderia atrapalhar a posição de
autoridade relativa que ele possui, posi-
ção que garante a legitimidade de suas
ações junto aos participantes.

Gu i a d o Ed u cad or d e C i rco So c ia l - © 2011 Cirque du Soleil 39


GUIA PRÁTICO PARA OS
EDUCADORES DE CIRCO SOCIAL
SEÇÃO 4
GUIA PRÁTICO PARA OS EDUCADORES DE CIRCO SOCIAL

As seções precedentes permitiram des- aproveitamento pedagógico, os grupos


crever a filosofia do circo social, seus de participantes devem ser compostos
princípios diretores e suas vantagens por cerca de vinte pessoas em cada
como ação pedagógica e modelo de oficina.
ação. A função e o perfil dos diferentes
Em alguns casos, principalmente em paí-
atores (instituição parceira, educador de
ses que vivem tensões entre etnias
circo social, instrutor de circo) também
(África do Sul, Irlanda do Norte), a mixa-
foram expostos, assim como suas intera-
gem social dentro dos grupos pode ser
ções. Ainda falta mostrar como concre-
um objetivo em si a fim de ajudar na rea-
tamente organizar e realizar uma oficina
de circo social: é o objetivo desta última proximação de comunidades rivais. Em
parte. outras circunstâncias, projetos reserva-
dos a grupos homogêneos são mais
A experiência tirada das numerosas cola-
apropriados. Na África do Sul, o Zip Zap
borações realizadas dentro do programa
Circus criou, entre suas atividades cor-
Cirque du Monde, seja na província de
rentes, um programa de circo social des-
Quebec ou em vários países do mundo
tinado precisamente às crianças de
(Chile, Brasil, México, África do Sul,
todos os meios e origens. Na Austrália,
Burkina Fasso, etc.) demonstra que a
as oficinas do Women’s Circus são dirigi-
adoção de um modelo uniforme não é
nem pertinente, nem realizável. As reali- das especificamente às mulheres, sobre-
dades locais são múltiplas e o circo social tudo as vítimas de agressões sexuais e
deve se adaptar a elas, conservando a lhes oferece, assim, um espaço de segu-
sua especificidade: a utilização das artes rança e de convivialidade.
circenses, as oficinas em grupos, a ani-
mação por equipes binomiais (educador- 2. Frequência e duração
instrutor), os princípios diretores. das aulas
Este guia prático é um quadro geral den-
tro do qual as instituições locais e os Cada aula dura de duas a três horas, com
educadores de circo social poderão ade- uma frequência variável: uma ou mais
quar o seu projeto particular. vezes por semana. Elas duram, em geral,
de dois a dez meses e seguem, às vezes,
a) VISÃO GERAL DAS o ritmo escolar.
AULAS DE CIRCO SOCIAL
3. Conteúdo das aulas
1. Perfil dos participantes
Durante cada aula, os participantes são
Os projetos de circo social visam princi- iniciados em diferentes técnicas circen-
palmente – mas não unicamente – as ses (malabarismo, acrobacia, pernas de
crianças, adolescentes e jovens de 10 a pau, monociclo, trampolim, etc.) assim
29 anos, vivendo em condições econô- como atuação e arte de palhaço. Alguns
micas ou sociais precárias: ambiente períodos são reservados à recepção, ao
desfavorável, jovens em situação de rua, aquecimento, aos jogos de grupo e aos
etc. De um modo geral, para um bom rituais de chegada e de partida.

Gu i a d o Ed u cad or d e C i rco So c ia l - © 2011 Cirque du Soleil 43


O programa das aulas é adaptado à b) U
 MA OFICINA DE
composição do grupo e aos recursos dis- CIRCO SOCIAL,
poníveis. Além disto, certas instituições ETAPA POR ETAPA
integram aprendizagens conexas às
aulas de circo social, como a fabricação A organização e a realização das aulas
de material de circo ou de fantasias. de circo social compreendem numerosos
aspectos materiais, práticos e pedagógi-
4. Organização das aulas cos. Elas exigem várias competências e
suas responsabilidades devem ser divi­
As aulas são animadas por uma equipe didas entre os membros da equipe
de animação.
composta de um ou vários instrutores e
de um ou vários educadores de circo
1. A seleção dos participantes
social. Os instrutores são profissionais de
circo, enquanto os educadores são espe-
A seleção dos participantes faz parte das
cialistas da ação social, vindos da insti- responsabilidades divididas entre o edu-
tuição local. cador e o instrutor. Entretanto, o educa-
dor tem uma função particular neste
5. Espetáculo processo, pois ele faz parte da institui-
ção parceira. Esta tarefa deve ser feita
A apresentação de um espetáculo de com entusiasmo, mas também com apli-
circo feito pelos participantes encerra a cação e precaução: o objetivo não é sele-
oficina. Entretanto, certas instituições cionar a qualquer preço, mas assegurar
preconizam a utilização do termo “apre- que os participantes correspondam ao
sentação” em vez de “espetáculo”, a fim público visado pelo programa. É por isso
que é necessário que o educador
de reduzir os riscos de confusão entre o
conheça bem a missão do circo social e
circo social e o circo no sentido geral.
que ele compreenda e acredite em seus
Esta confusão pode ser fonte de mal-
valores.
entendidos, frustrações ou decepções.
• Quem selecionar
6. Continuidade do projeto Mesmo se a composição do grupo de
na comunidade participantes pode variar em função das
realidades e da missão da instituição
Após uma oficina de circo social, a insti- parceira, os programas de ação de circo
tuição pode desenvolver ações que per- social se destinam sobretudo aos jovens
em dificuldades (dificuldades sociais,
mitam prolongar a experiência dos
psicológicas e econômicas) ou em situa-
participantes, principalmente benefi-
ção de risco (condições de vida precá-
ciando a comunidade através de suas
rias). O educador deve, então, realizar
novas competências (representações sua seleção de modo a visar principal-
com ou para a comunidade, criação de mente esta população, escolhendo os
uma cooperativa ou de uma companhia ambientes suscetíveis de reunir jovens
teatral, etc.). Em certos casos, a institui- das classes populares.
ção pode também garantir uma continui- Apesar de suas diferenças, os jovens
dade no tempo, propondo outras oficinas selecionados devem ter em comum um
de circo social ou outros tipos de aulas, o interesse evidente, até mesmo uma
que permitará acompanhar os jovens paixão, pelas artes circenses. Esta moti-
participantes durante vários anos. vação é primordial e constitui uma con-

44 Gu ia d o Ed u c a d o r d e C irco S o c ia l - © 2011 Cirque du Soleil


dição essencial para a participação nas local habitualmente frequentado pelos
aulas. É preciso lembrar que a inscrição jovens. Durante o encontro, material e
nas aulas de circo é sempre voluntária números de circo podem ser utilizados
e que ninguém deve ser obrigado, de para mostrar o conteúdo das aulas. Os
nenhuma maneira, a participar delas. participantes das oficinas anteriores
Esta metodologia tem como efeito res- podem também se encontrar na reu-
ponsabilizar os participantes diante de nião e dar seu depoimento.
seu compromisso com o programa.
- Uma operação contínua de seleção é
• Estratégias de seleção efetuada pelos contatos que o educa-
Sempre respeitando a missão e os objeti- dor mantém com os jovens de sua
vos do circo social, o educador tentará comunidade durante todo o ano, que
conceber e utilizar as estratégias de sele- lhe permitem escolher os que corres-
ção adaptadas às realidades do meio no pondem ao perfil procurado.
qual ele intervém. No plano do discurso, - Finalmente, a seleção pode ser reali-
as aulas de circo podem ser descritas, zada de forma indireta, pelo intermédio
segundo o caso, como uma alternativa da rede de serviços e grupos comuni-
ao tédio ou ao isolamento, como uma tários, à qual pertence a instituição
experiência positiva a ser vivenciada ou parceira. Informando os funcionários
como um meio de se superar, como uma destas instituições sobre o projeto de
ocasião de mudança ou de fazer exercí- circo social e sensibilizando-os sobre
cio, o importante é apresentar o projeto as possibilidades que ele oferece, o
de maneira a suscitar o entusiasmo, cap-
educador pode obter aliados úteis para
tando a atenção dos jovens e mostrando-
a seleção. Além disso, não se deve
lhes o que as aulas podem lhes trazer.
negligenciar o fenômeno de boca a
Para isto, o educador utilizará meios boca, pelo qual os jovens fazem a pro-
interessantes, adaptados aos jovens e moção do projeto de circo no qual eles
suas realidades: por exemplo, pode-se participam ou participaram. Em certos
utilizar folhetos, cartazes, mensagens programas implantados há vários anos,
eletrônicas ou mesmo material de circo trata-se do único modo de seleção.
utilizado em demonstração pelo educa-
dor ou por antigos participantes.
2. O planejamento da oficina
Entretanto, é preciso certificar-se de não
criar confusão no espírito dos jovens. A O período durante o qual o educador e
filosofia das aulas deve ser claramente o instrutor se encontram para planejar
exposta, tanto como o fato de que os a oficina é uma etapa particularmente
participantes deverão respeitar certas importante, que lhes permite aprender
regras. Dando informações concretas a se conhecer e abordar o conteúdo
sobre os aspectos práticos das aulas, o da oficina e seus numerosos aspectos
educador dissipará antecipadamente logísticos.
todo mal-entendido e permitirá aos
jovens se envolver em todo conheci- • Compartilhamento das visões e dos
mento de causa. objetivos, determinação dos meios
A etapa de planejamento permite aos
A seleção pode ter três formas: pontual, dois facilitadores de se conhecer, de
contínua ou indireta. compartilhar suas visões e seus objetivos
- Uma operação pontual consiste em e de começar a construir a coesão indis-
uma sessão de informação única, feita pensável que deve uni-los durante a
antes do início de uma oficina em um oficina.

Gu i a d o Ed u cad or d e C i rco So c ia l - © 2011 Cirque du Soleil 45


O educador deve expor a missão de sua 3. O desenrolar da primeira aula
instituição e apresentar a filosofia de sua de uma oficina
ação. Ele deve também fazer um retrato
geral do grupo de participantes e des- Durante a primeira aula, o educador e o
crever o perfil de cada jovem. Por outro instrutor têm como tarefas principais
lado, o instrutor compartilha sua experi- explicar as bases de funcionamento da
ência de ação em circo social. oficina, apresentando seus diferentes
aspectos ao grupo de participantes.
Juntos, os dois facilitadores definem a
Entretanto, é importante garantir que a
função de cada um e escolhem um modo
comunicação seja bidirecional e que ela
de comunicação entre eles. Eles determi-
não se limite a um discurso dos facilita-
nam os objetivos gerais e específicos
dores. A fim de que a oficina não seja
para a oficina que vai começar e exami-
dominada pelo discurso, será possível
nam os dados, as relações e os balanços
tratar certos pontos através do jogo, o
das oficinas anteriores. É também a oca- que permitirá dar a este primeiro encon-
sião de escolher o material pedagógico a tro uma dinâmica mais próxima a dinâ-
ser utilizado em função dos recursos dis- mica das oficinas.
poníveis e das necessidades específicas
dos participantes. Enfim, o educador e o • Apresentação dos facilitadores e
instrutor estabelecem, conjuntamente, as descrição de suas respectivas funções
bases de um contrato de convivência É preciso notar que o instrutor, ao
que os participantes serão convidados a contrário do educador, é geralmente
completar durante a primeira aula. desconhecido dos participantes. A apre-
sentação de sua origem, de seu itinerário
• Planejamento logístico da oficina e suas realizações ajuda os jovens a
Os dois facilitadores aproveitam esta entrar mais facilmente em contato com
fase de planejamento para abordar e ele.
resolver numerosas questões logísticas.
• Apresentação dos participantes
É preciso, antes de mais nada, encontrar
Os jovens se apresentam um a um e indi-
um local seguro e acessível para os parti-
cam brevemente qual é o interesse que
cipantes e avaliar os recursos materiais e
eles têm nas aulas de circo e quais são as
financeiros disponíveis. Um inventário do
suas expectativas. O educador de circo
material de circo existente e uma verifi-
social pode ajudá-los a se exprimir.
cação de seu estado permitirão determi-
nar quais compras, empréstimos ou • Apresentação da metodologia
reparações deverão ser efetuados. Do pedagógica do circo social e dos
mesmo modo, os materiais pedagógicos objetivos da oficina
existentes devem ser inventariados e as Os facilitadores insistem sobre as orien-
necessidades atendidas. De um modo tações do circo social (participação
geral, é importante prever soluções de voluntária, adaptação das atividades ao
troca em caso de problemas. grupo, respeito dos indivíduos, autossu-
peração sem competição, segurança) e
Certas atividades podem ser organiza-
esboçam um retrato da metodologia
das paralelamente às aulas de circo:
pedagógica.
vacinação, conferências, realização de
um estande de roupas, etc. Enfim, é • Apresentação geral do conteúdo
indispensável que os facilitadores preve- das aulas
jam os procedimentos de intervenção A estrutura típica das aulas com suas
em caso de urgência. grandes partes (recepção, aquecimento,

46 Gu ia d o Ed u c a d o r d e C irco S o c ia l - © 2011 Cirque du Soleil


jogos, aula, avaliação) é apresentada objetivos pessoais e técnicos que eles
sem entrar em detalhes. Os facilitadores desejam alcançar durante a oficina.
dão igualmente uma visão geral das dife- A atitude adotada pela equipe de anima-
rentes disciplinas propostas. ção em relação aos participantes durante
o primeiro encontro terá repercussões
• Adoção de um contrato de convivência consideráveis nas próximas aulas. Desde
Diretamente ligado às orientações do os primeiros instantes, os jovens devem
circo social, o contrato de convivência é sentir que eles se encontram em um
um conjunto de regras que o grupo de ambiente estruturado pela escuta e o res-
participantes e de facilitadores deve peito, no qual a unidade coletiva é impor-
criar para assegurar o bom funciona- tante. Este encontro inicial deve suscitar
mento das aulas. O contrato de convi- o entusiasmo dos participantes e motivá-
vência deve também prever sanções, em -los a novas aprendizagens. Eles devem
caso de infração. se convencer de que as aulas serão para
eles uma fonte de prazer e realização,
O contrato de convivência mas devem também estar conscientes
A adoção de um contrato de convi- que terão de se submeter a certas exi-
vência é um exercício de prática gências e respeitar um contrato de convi-
democrática que pode revelar-se vência comum.
muito formador. Cada grupo de parti- Os facilitadores devem utilizar este pri-
cipantes e de facilitadores tem um meiro encontro para avaliar as motiva-
contrato de convivência que lhe é ções, necessidades e habilidades de cada
peculiar. Entretanto, certos elementos um dos participantes. Esta avaliação lhes
devem obrigatoriamente ser comuns. permitirá adaptar as atividades e a meto-
É o caso das regras relativas aos dologia pedagógica ao grupo.
locais, equipamentos (arrumação, lim-
peza, quebras, empréstimos, utiliza- 4. O desenrolar de
ção do material) e os horários. O uma aula típica
grupo deve igualmente tomar posição
sobre as questões de consumo de Uma aula dura aproximadamente três
droga, cigarro e álcool, e adotar nor- horas e pode acontecer pela manhã, à
mas de segurança muito claras. Final- tarde ou à noite, geralmente uma vez ou
mente, o contrato de convivência duas por semana. Esta duração é estru-
deve determinar as bases de uma turada em vários períodos que têm todos
comunicação respeitosa. sua importância e que servem de marcos
temporais para os participantes.
Uma vez que as regras foram esta­
belecidas, o grupo deve entrar em • Planejamento da aula
acordo sobre a natureza das sanções Cada aula necessita de um planejamento
que serão impostas, em caso de infra- rigoroso a fim de definir de maneira mais
ção. Elas não devem jamais excluir ou dirigida os objetivos a serem alcançados
ridiculizar um participante. e os meios de realizá-los. Do mesmo
modo, é a ocasião de fazer os ajustes em
• Convite aos jovens para se exprimir função das dinâmicas individuais e cole-
Os participantes são convidados a suge- tivas. Para tal, é necessário avaliar no iní-
rir atividades, a exprimir suas expectati- cio de cada aula a motivação de cada um
vas ou insatisfações e a propor ideias de dos participantes e o estado das relações
melhoria. Os facilitadores os estimulam entre os membros do grupo. O número
também a iniciar um reflexão sobre os de participantes pode também ter um

Gu i a d o Ed u cad or d e C i rco So c ia l - © 2011 Cirque du Soleil 47


impacto sobre o tipo de atividades grupo que compartilha de um espaço
propostas. comum.
Os dois facilitadores devem reavaliar a
• A aula propriamente dita
pertinência de suas ações antes de cada
A aula de circo propriamente dita,
aula e, se necessário, reformular os obje-
começa por um período de aqueci-
tivos, os meios pedagógicos e as estraté-
mento, que tem o objetivo de evitar
gias de ação. O desenrolar da aula,
lesões e ajustar a postura física, mas
principalmente em termos de conteúdo
também de tomar consciência de si
e de horário, deve ser determinado e
mesmo e aumentar a motivação do
estruturado e as tarefas a serem efetua-
grupo. Ele é praticado coletivamente e é
das devem ser claramente divididas
composto de uma sequência de movi-
entre o educador e o instrutor. Final-
mentos e exercícios.
mente, de maneira mais prática, é pre-
ciso se assegurar do estado do material Em seguida, a duração da aula é dividida
necessário para a aula. em vários períodos de jogos e ativida-
des, dirigidos ou livres, que podem variar
• Recepção segundo os grupos e as circunstâncias. O
O período de recepção é um momento período de jogos pode tomar numerosas
de retomada de contato com o grupo. formas. Seu objetivo é levar os partici-
Na medida do possível, é preciso acolher pantes a se conhecer, escutar uns aos
cada jovem individualmente tomar um outros e cultivar a confiança mútua. Nas-
pouco de tempo para se dedicar a ele, a cem cumplicidades, afinidades e comple-
sua vida e suas experiências, e estar dis- mentaridades são descobertas.
ponível. Mesmo sendo a participação às Durante as atividades dirigidas, os parti-
aulas voluntária, os facilitadores devem cipantes aprendem várias disciplinas de
anotar a presença de cada participante a circo: malabares, pirâmides, pernas de
fim de verificar sua assiduidade e moti- pau, atuação, arame, monociclo, acroba-
vação e, caso necessário, os eventuais cia, etc. Em seguida, eles têm a possi­
problemas. No caso da chegada de bilidade de escolher uma ou várias
novos participantes, eles serão integra- disciplinas de circo e praticá-las de modo
dos ao grupo durante o período de mais aprofundado, durante um período
recepção. Enfim, este período deve per- de atividade livre.
mitir a verificação do material empres- Finalmente, uma pausa deve ser prevista
tado aos jovens. no meio da aula, a fim de favorecer a rea-
proximação entre os participantes e o
• Ritual de chegada sentimento de identificação ao grupo.
Momento simbólico marcando o início da
aula, o ritual de chegada deve, ao contrá- • Avaliação
rio da recepção, obedecer a uma forma, O período de avaliação permite ao grupo
qualquer que ela seja, que indique a força dirigir um olhar retroativo sobre a aula e
do coletivo. Pode ser um reagrupamento seus diferentes momentos. Todas as for-
para formar um círculo e para se exprimir mas de avaliação são possíveis: para
em conjunto (canto, sequência de sons, sugerir melhorias, discutir das dificulda-
gestos, etc.). Através das práticas, do des vivenciadas, reviver bons momentos,
gesto e do cenário, o ritual reveste-se, pedir explicações, esclarecer as situa-
antes de mais nada, de uma dimensão ções de conflito, compartilhar suas
simbólica. Ele encadeia a adesão dos impressões, etc. A fim de evitar a mono-
participantes e cultiva o sentimento de tonia e tornar este período mais estimu-
ser um componente essencial de um lante e menos redundante, é aconselhado

48 Gu ia d o Ed u c a d o r d e C irco S o c ia l - © 2011 Cirque du Soleil


modificar seu desenrolar de vez em rar-se de que suas ações, atitudes e deci-
quando, por exemplo, organizando sub- sões sejam coerentes.
grupos, utilizando jogos, etc.
• Encorajar a participação
Os facilitadores devem aproveitar este
A participação ativa e positiva dos jovens
período para valorizar os progressos
nas diversas atividades da aula é essen-
obtidos, reforçar o entusiasmo dos parti-
cial. Os facilitadores devem encorajar
cipantes, ressaltar gestos responsáveis,
esta participação sem brutalidade, no
encorajar os jovens a se exprimir e guiá-
respeito dos ritmos, dos interesses, das
-los na expressão de críticas construti-
forças, das dificuldades e dos percursos
vas. Eles devem também assegurar que
de cada um, sempre esforçando-se em
cada participante tome parte ativa na
favorecer a perseverança, a regularidade
arrumação e no conserto do material.
e a assiduidade. É importante levar os
• Ritual de partida jovens a se superar, mas jamais em detri-
O fim da aula é marcado por um mento do prazer: trata-se de encontrar
momento de reagrupamento ritualizado um equilíbrio entre a técnica, o jogo, a
que pode tomar a mesma forma que o disciplina e a liberdade.
ritual de chegada. Os facilitadores podem estimular o inte-
resse e a participação dos jovens, man-
• Retorno sobre a aula tendo um ritmo contínuo durante o
Após a partida dos participantes, o edu- desenrolar da aula, variando sempre as
cador e o instrutor avaliam entre si o atividades e os métodos de ensino.
desenrolar da aula.
• Acompanhar os participantes
5. As condições de êxito O papel dos facilitadores consiste igual-
de uma aula mente em guiar cada um dos participan-
tes e levá-los a se situar em relação à
O educador e o instrutor animam cada aula, ao grupo e a seus próprios objeti-
aula de circo, se esforçando em assegu- vos. Em primeiro lugar, é necessário dar
rar ao mesmo tempo o  equilíbrio e o claras indicações e explicações em rela-
dinamismo dentro do grupo de partici- ção às atividades e ajudar cada um dos
pantes. Pela sua atitude geral, por suas participantes a estabelecer objetivos
ações e decisões durante a aula, eles realistas. É também importante ficar
procuram atrair e manter o interesse e a atento às dificuldades vivenciadas pelos
motivação dos jovens, encorajar sua par- jovens, a fim de descobrir uma eventual
ticipação e acompanhar seu percurso. A desmotivação que poderia se traduzir
animação de uma aula de circo comporta pela passividade ou por um questiona-
uma parte de intuição que permite se mento sobre a sua participação nas
adaptar a certas situações, mas também aulas.
uma necessidade de estrutura.
6. O
 espetáculo de fim
• Atitude geral dos facilitadores de uma oficina
A criatividade, o dinamismo e a esponta-
neidade assim como a escuta dos facili- Uma oficina termina normalmente pela
tadores são elementos de motivação apresentação de um espetáculo de circo,
para os jovens. Estas qualidades permi- graças ao qual os participantes compar-
tem também uma atmosfera positiva e tilham suas novas habilidades com a
estimulante dentro do grupo. Além disto, comunidade e familiares, e mostram o
o educador e o instrutor devem assegu- que são capazes de aprender e realizar.

Gu i a d o Ed u cad or d e C i rco So c ia l - © 2011 Cirque du Soleil 49


Este objetivo comum, ao qual os partici- Tais obstáculos podem ser evitados gra-
pantes orientam seus esforços durante a ças à vigilância dos dois facilitadores,
oficina, pode se revelar uma experiência que devem não somente gerenciar o
determinante que terá um impacto aspecto material e prático do espetá-
importante no percurso de cada um. Ele culo, mas também acompanhar os parti-
constitui um tipo de ritual de passagem, cipantes em seu percurso. Em relação a
marcando o fim de uma aprendizagem e isto, vários pontos devem ser objeto de
o reconhecimento pela comunidade. uma atenção particular:
A apresentação de um espetáculo incen-
- Os jovens devem estar preparados
tiva os jovens participantes a se superar
física, mental e emocionalmente para a
e a criar responsabilidades em relação a
representação.
seu envolvimento. Ela lhes permite tam-
bém superar a própria timidez e o medo - O conteúdo e o conceito do espetáculo
do ridículo, assim como modificar a ima- devem ser elaborados com os partici-
gem que eles projetam e que têm de si pantes, em um esforço de acordo
mesmos. Acentuando mais a criação e a autêntico, e adaptados em função da
solidariedade do que a delinquência e a evolução do grupo durante a oficina.
desmotivação, as representações públi- - As tarefas ligadas ao espetáculo (fan-
cas são ferramentas notáveis para iniciar tasias, cenário, música, técnica, maqui-
reaproximações entre os jovens e sua lagem) devem ser confiadas aos
comunidade. Além disso, elas oferecem a responsáveis vindos do grupo ou a
possibilidade às famílias e à comunidade uma equipe externa, que devem ser
de testemunhar seu reconhecimento e encorajados e apoiados.
gratidão aos jovens, pelos esforços que - O estado de preparação de cada partici-
tiveram na preparação e realização do pante deve ser verificado regularmente
espetáculo. e os objetivos devem ser reavaliados,
caso necessário.
• A preparação do espetáculo
A preparação do espetáculo é uma ação Do ponto de vista material e prático, o
progressiva que se estende em toda a educador e o instrutor devem realizar
oficina e que é acompanhada por esfor- algumas tarefas, como as que seguem,
ços constantes e numerosas discussões. com a colaboração da instituição parceira:
Ela não está evidentemente isenta de
dificuldades. Conflitos entre os jovens, a - Escolher e reservar um local para o
desistência de participantes, a instabili- espetáculo;
dade nas presenças e o não-respeito de
- Analisar as características do local e
prazos são fontes de tensão ou de des-
avaliar os recursos materiais disponíveis;
motivação que podem questionar a pre-
paração do espetáculo. A equipe de ação - Conceber e distribuir o material pro-
deve ficar atenta e sensível ao fato de mocional, indicando o local, a data e a
que o espetáculo pode ser uma fonte de hora do espetáculo;
estresse para os jovens. É preciso então - Encorajar os jovens a contribuir para a
procurar controlar este aspecto da promoção do espetáculo;
melhor maneira possível e ver como
- Convidar os parceiros locais para o
abordá-lo junto aos participantes. Além
espetáculo;
disto, uma superestima de suas capaci-
dades pelos participantes, pode também - Preparar o local e instalar o material;
ser uma fonte de problemas. - Acolher os convidados.

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Após o espetáculo, é preciso prever um
período de tempo, geralmente o equiva-
lente a uma aula, para avaliar e fazer um
retorno à experiência, verbalizar as
aprendizagens e as emoções vivencia-
das. Este momento de troca e debate
deve também permitir falar do futuro:
como os participantes podem integrar
em seu cotidiano as lições de vida tira-
das de sua formação? Tal exercício per-
mite preparar a sequência e assegurar a
continuidade tanto para os participantes
quanto para o projeto.

7. Continuidade do projeto
de circo na comunidade

Quando a oficina acaba e o mandato do


instrutor chega a seu fim, a instituição
parceira e o educador, permanecendo
como as únicas âncoras dos jovens, são
levados a continuar o trabalho iniciado
durante as aulas de circo. Mesmo se este
tipo de ação social se torna clássico, o
que foi adquirido com as aulas não desa-
parece e pode continuar a agir como
ferramentas de reaproximação e de valo-
rização dos jovens.
O educador pode implementar diversas
atividades a fim de apoiar o desenvolvi-
mento da cidadania dos jovens e favore-
cer o envolvimento da comunidade em
relação a eles. Pode se tratar da anima-
ção de aulas ou de festas de bairro, da
apresentação de espetáculos em resi-
dências para pessoas idosas ou durante
jantares de financiamento da instituição
parceira.
A implementação deste tipo de ativida-
des pela instituição parceira assegura
que o projeto de circo não se limita a um
período preciso, mas que ele continue
após a oficina. As lições de circo e as
lições de vida são adquiridas pelos parti-
cipantes, permitindo-lhes, assim, não
somente consolidar a autoconfiança mas
também retomar um lugar dentro da sua
comunidade.

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CONCLUSÃO

Para os jovens das classes populares, como para outros grupos em dificuldade, o circo
social é uma formidável ferramenta de desenvolvimento pessoal e social. Ele permite
acompanhar cada um dos participantes em seu percurso, respeitando sua personali-
dade, suas necessidades e capacidades e integrando-os em um projeto de grupo.

Nesta metodologia inovadora, a função dos educadores de circo social responsáveis


pelas aulas é crucial pois eles estabelecem e desenvolvem as relações entre o aprendi-
zado das disciplinas de circo e as situações da vida cotidiana, transformando as lições
de circo em lições de vida. Deste modo, eles fazem nascer ou renascer a confiança em
cada um dos participantes: autoconfiança e confiança em relação aos outros.

As proposições teóricas e práticas apresentadas neste guia permitem melhorar as práti-


cas de animação, refinar o conhecimento dos modos de ação do circo social, evitar os
obstáculos e facilitar a formação de novos parceiros, educadores e instrutores de circo
social.

O entusiasmo dos participantes pela metodologia pedagógica do circo social demons-


tra que este meio de ação, que oferece-lhes a possibilidade de exprimir a própria
persona­lidade e subversão de modo criativo, responde plenamente a suas aspirações.
Desenvolver projetos de circo social, é agir de maneira que a esperança substitua o
desânimo, é participar do bem estar da sociedade humana inteira.

A admiração planetária pelo circo social não é certamente um fenômeno passageiro; de


fato, pode-se atualmente qualificá-lo de movimento. O interesse pelo desenvolvimento
desta metodologia pedagógica e as diferentes perspectivas de generalização que se
desenham no horizonte, levam a crer que tal metodologia pedagógica não cessou de se
aprimorar e, eventualmente, de se generalizar nos campos da ação social, da educação,
da justiça e da saúde mental.

Assiste-se raramente a fenômenos desta amplitude e, para balizar este crescimento e


assegurar o desenvolvimento de altos padrões de qualidade, é importante investir na
formação dos instrutores e educadores de circo social.

Vários meios se questionam sobre as suas práticas e procuram intensamente metodolo-


gias inovadoras que sejam portadoras de valores significativos e de estratégias adapta-
das às realidades atuais e futuras. Estas metodologias devem ter, além dos impactos
sobre os indivíduos, impactos mobilizadores e duráveis sobre a comunidade. O circo
social possui todo este potencial.

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ANEXOS
TEXTO PELA REDE CIRCO DO MUNDO
BRASIL (RCM-BRASIL)
A Rede Circo do Mundo Brasil, criada em outubro de 2000, nasce da confluência de
diferentes intervenções reunindo seis instituições que há dois anos já se articulavam e
pactuavam os mesmos pressupostos - Escola Pernambucana de Circo, Arricirco, Acende/
Acess (grupo oriundo do Araguaia Pão e Circo), Grupo Cultural Afro Reggae, Se Essa Rua
Fosse Minha e FASE, de três cidades brasileiras distintas (Rio de Janeiro, Recife e Belo
Horizonte), da relação de parceria já estabelecida entre estas organizações e uma
organização não governamental canadense que trabalha com os jovens no plano local e
internacional, a Jeunesse du Monde e da parceria com uma empresa artística do Québec,
o Cirque du Soleil. Portanto, desde sua fundação, a RCM-Brasil favoreceu, assim, as trocas
planetárias em torno de uma vontade comum: destacar o potencial dos jovens quanto ao
seu próprio desenvolvimento e o seu papel na sociedade.

No Brasil, a experiência toma características específicas, uma vez que definem uma
organização em rede, mais aberta e ampliando relações com outras instituições brasileiras.
A Rede Circo do Mundo Brasil reúne hoje 20 instituições de 5 regiões brasileiras, atendendo
cerca de 5.000 crianças, adolescentes e jovens. Todas as instituições trabalham com
educação/promoção de crianças, principalmente de adolescentes e jovens das classes
populares e têm como perspectiva mais geral o trabalho educativo, o exercício da cidadania
e o resgate das raízes culturais. Estas instituições, em sua ação pedagógica, privilegiam
linguagens artísticas (teatro, música, dança e circo) no processo educativo. As atividades
pedagógicas desenvolvidas no cotidiano buscam favorecer a identificação destes jovens
com o universo mágico do circo e com seus valores cooperativos e associativos oferecendo-
lhes a oportunidade de uma nova experiência individual e coletiva.

Acreditar no desenvolvimento humano é acreditar na densidade institucional de seus


agentes. Esta densidade se refere tanto ao capital social e associativismo de cada instituição
assim como aos aspectos de fortalecimento da sociedade civil. Portanto, solidariedade,
emancipação e possibilidades associativas também se refletem como aspectos importantes,
geradores de desenvolvimento e orientadores de práticas pedagógicas. Formas
“comunicáveis” de refletir sobre o acesso são passos importantes na problematização das
diferenças sociais. A ênfase da Rede Circo do Mundo Brasil está também na temática
territorial do lugar, no local enquanto centralidade de foco e não como um ponto final –
subvertendo a lógica do “de cima para baixo” – na construção de novos atores e na
sensibilidade necessária para a elaboração de novos paradigmas socioculturais e produtivos.

A RCM-Brasil entende o “Circo Social” como uma proposta político-pedagógica que


aposta no desenvolvimento criativo e na construção da cidadania a partir dos saberes,
necessidades e potencialidades das crianças, adolescentes e jovens das classes populares.
Acredita que educar com circo é apostar na alegria, é apostar no potencial humano, é
apostar na capacidade de gerar mudanças e é recuperar todo o potencial da arte circense.
O circo, como arte milenar, tem como base, desde suas origens, a diversidade, a convivência,
a criatividade e a superação dos limites, ou seja, um enorme potencial civilizatório.

Rede Circo do Mundo Brasil

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Glossário

O circo social é um domínio jovem, cujas noções não são ainda uniformizadas. Neste
guia, utilizamos certos termos em um sentido que especificamos aqui.

• Circo social
Metodologia pedagógica e de ação social utilizando as artes circenses para favorecer o
desenvolvimento pessoal e social de pessoas das classes populares.

• Educador de circo social (ou educador)


Especialista da ação social, geralmente vindo da instituição local ou da comunidade na
qual o projeto desenvolve-se, cujo papel principal é assistir os jovens da comunidade
que ele acompanha nas aulas de circo social e no seu desenvolvimento, transformando
as lições de circo em lições de vida.

• Instrutor de circo social (ou instrutor)


Artista de circo cujo papel principal é ensinar diversas disciplinas de circo aos partici-
pantes das aulas de circo social.

• Tandem
No circo social, tandem corresponde à dupla formada pelo instrutor de circo e o educa-
dor de circo social trabalhando juntos, de maneira complementar e harmoniosa.

• Instituição parceira (ou instituição local)


Instituição comunitária encarregada da preparação e da realização do projeto de circo
social em sua comunidade.

• Jovens das classes populares


São visados nesta definição, os jovens com menos de 29 anos, privados de um ou de
mais elementos de segurança que permitem normalmente às pessoas assumir suas
­responsabilidades elementares e gozar de seus direitos fundamentais. Os jovens ­das
classes populares vivenciam a insegurança e sofrem consequências socioeconômicas
como a pobreza, a dificuldade de desenvolver uma vida social e familiar, a revolta social
ou a degradação da saúde física ou mental. Alguns jovens também sofrem de depen-
dências às d
­ rogas ou ao álcool.

• Participante
Pessoa que se beneficia das aulas de circo social. Neste guia, quando utiliza-se o termo
“participante”, ele inclui, entre outros, o grupo de jovens das classes populares.

• Oficina de circo social


Série de aulas de circo social realizadas com o mesmo grupo de participantes, que ter-
mina normalmente com uma apresentação pública.

• Aula de circo social


Atividade de circo social, com a duração de duas a três horas em média.

Gu i a d o Ed u cad or d e C i rco So c ia l - © 2011 Cirque du Soleil 59


• Contrato de convivência
Conjunto de regras de conduta estabelecido no início de cada oficina de circo social
pela equipe de animação (facilitadores) e pelo grupo de participantes.

• Cirque du Monde
Programa de circo social, criado em 1995 pelo Cirque du Soleil e o organismo Jeunesse
du Monde, que estabelece parcerias com instituições locais, a fim de realizar aulas de
circo social.

• P. 19, p. 27, p. 32 e p. 33
*Estas menções são específicas para a realidade do circo social no Brasil. Julgamos
pertinente acrescentá-las unicamente na versão em português deste documento.

60 Gu ia d o Ed u c a d o r d e C irco S o c ia l - © 2011 Cirque du Soleil


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Gu i a d o Ed u cad or d e C i rco So c ia l - © 2011 Cirque du Soleil 61


Criado pelo Cirque du Soleil e Jeunesse du Monde, o programa
Cirque du Monde™ pratica a metodologia pedagógica do circo
social, uma metodologia de ação usando as artes circenses como
pedagogia alternativa junto aos jovens das classes populares.
A fim de estimular e apoiar o desenvolvimento do circo social, o
Cirque du Soleil criou um programa de formação em circo social
destinado aos instrutores de circo e aos educadores de circo
social que recorrem a esta metodologia.
Este guia faz parte de uma série de ferramentas pedagógicas
que permitirão que as várias instituições interessadas pelo
circo social se beneficiem da expertise desenvolvida pelo
Cirque du Soleil e por seus parceiros desde 1995.
Sendo tanto uma síntese da metodologia pedagógica do circo
social quanto um guia prático, este documento permite que
os educadores de circo social compreendam os fundamentos
e os princípios diretores específicos a essa metodologia de
ação, além de apoiá-los na organização, no planejamento e na
avaliação das oficinas de circo social.

Produzido no Canadá/Produced in Canada © 2011 Cirque du Soleil


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