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JEAN DELUMEAU

HISTÓRIA DO MEDO
NO OCIDENTE
~

L/bqrtó • Ésa lité • Fracernité


1300~1800
RÉPUBLIQUE FRANÇAISE
Uma cidade sitiada
Este li vro, publicado no âmbito do Ano da França no Brasil e do programa de
auxíl i<> :\ publicação Carlos Drummond de Andrade, contou com o apoio do
Mi nisté rio Francês das Relações E xteriores e Europeias.
a, Ano da França no Brasil (21 de abril a 15 de novcm- Tradução
I: .. ,, ....... ,...
, e •••:w• i , g bro) é organizado, na França, pelo Comissariado
N Geral Francês, pelo M inisté rio das Relaçõcs'E xte-
Maria Lucia Machado
riorcs e E uropeias, pelo Ministério da Cultura e da Comunicação e por Cul-
tu rcsfrance; no Brasil, P,clo Comissariado Geral Brasileiro, pelo Ministério da
Tradução de notas
C ultura e pelo Minist1rio das Relações Exteriores. Heloísa J ahn

Cet ouvrnge, publié d11m /e md,·c de l'A1111éc de /11 Fm11ce 11u B,-ésil et du Prognmnnc
d'Aide à /11 P11blimtio11 Cm·los Dr11111111ond de Audmde, bi néficie du so111ien d11
Ministiwe frnuçnis dcs Affaires Etrnugei-e.r ct E11ropéeimes.
a, /'A1111ée de ln Fmnce 1111 Brisil (21 nvril - 15 novwrbrc)

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péermes, /e !Vliuisterc de la Culture et de la Coum,1111imtio11 et C11/turesfrm1re; au
llrésil, par /e Co11mriss11ria1 Généml Bdsilien, /e Miuisti:re de la C1d1111·e et /e
Mi11isti:1-c des Rcl11tio11s Extériem·es.
Capítulo 3 641 INTRODUÇÃO
Capítulo 4 648 O HISTORIADOR EM BUSCA DO MEDO
Capítulo 5 653
Capítulo 6 656
Capítulo 7 662
Capítulo 8 665
Capítulo 9 669 1. O SILÊNCIO SOBRE O MEDO·
Capítulo 10 673
No século XVI, não é fácil entrar à noite em Augsburgo.
Capítulo 11 680
Montaigne, que visita a cidade em 1580, maravilha-se diante
Capítulo 12 685
da "porta falsa", protegida por dois guardas, que controla os
Conclusão 689
viajantes chegados depois do pôr do sol. Estes deparam, antes
Sobre o autor 695
de tudo, com uma poterna que o primeiro guarda abre de seu
quarto, situado a mais de cem passos dali, por intermédio de
uma corrente de ferro, a qual puxa uma peça também de ferro
"por um caminho muito longo e cheio de curvas". Passado
esse obstáculo, a porta volta a fechar-se bruscamente. O visi-
tante transpõe em seguida uma ponte coberta situada sobre
um fosso da cidade e chega a uma pequena praça onde declara
sua identidade e indica o endereço que o alojará em Augsburgo.
O guarda, com um toque de sineta, adverte então seu compa-
nheiro, que aciona uma mola situada numa galeria próxima ao
seu aposento. Essa mola abre em primeiro lugar uma barreira
- sempre de ferro - e depois, com auxílio de uma grande
roda, comanda a ponte levadiça "sem que nada se possa perce-
ber de todos esses movimentos, pois são conduzidos pelos pe-
sos do muro e das portas, e subitamente tudo isso volta a fe-
char-se com grande ruído". Para além da ponte levadiça
abre-se uma grande porta, "muito espessa, que é de madeirn e
reforçada com várias grandes lâminas de ferro". Através dela o
estrangeiro tem acesso a uma sala onde se vê encerrado, só e
sem luz. Mas outra porta semelhante à precedente permite-lhe
entrar numa segunda sala em que, desta vez, "há luz", e onde
ele descobre um vaso de bronze que pende de uma corrente.
Deposita aí o dinheiro de sua entrada. O (segundo) porteiro
puxa a corrente, recolhe o vaso, verifica a soma depositada

li
pelo visitante. Se não está de acordo com a tarifa fixada, o G. Lefebvre e dos votos expressos sucessivamente por ele e por
porteiro o deixa "de molho até o dia seguinte". Mas, se fica L. Febvre. O primeiro escrevia, já em 1932, em sua obra consa-
satisfeito, "abre-lhe da mesma maneira mais uma grossa porta grada ao Grande Medo de 1789: "No decorrer de nossa história
semelhante às outras, que se fecha logo que passa, e ei-lo na houve outros medos antes e após a Revolução; houve medos
cidade". Detalhe importante que completa esse dispositivo ao também fora da França. Não poderíamos encontrar-lhes um
mesmo tempo pesado e engenhoso: sob as salas e as portas traço comum que lançaria alguma luz sobre o de 1789?".2
existe "um grande porão para alojar" quinhentos homens de Fazendo-lhe eco, L. Febvre, um quarto de século mais tarde,
armas com seus cavalos, no caso de qualquer eventualidade. Se esforçava-se por sua vez em engajar os historiadores nesse ca-
for necessário, são enviados para a guerra "sem a chancela do minho, balizando-o com grandes traços:
povo da cidade".'
Precauções singularmente reveladoras de um clima de in- Não se trata [...] de reconstruir a história a partir da exclusi-
segurança: quatro grossas portas sucessivas, urna ponte sobre va necessidade de segurança - como G. Ferrero estava ten-
um fosso, uma ponte levadiça não parecem excessivas para tado a fazer a partir do sentimento do medo (no fundo, de
proteger contra qualquer surpresa uma cidade de 60 mil habi- resto, os dois sentimentos, um de ordem positiva, o outro
tantes que é, na época, a mais povoada e a mais rica da de ordem negativa, não acabam por encontrar-se?) - [...],
Alemanha. um país atormentado por querelas religiosas e trata-se essencialmente de colocar em seu lugar, digamos,
num império cujas fronteiras são rondadas pelos turcos, todo de restituir seu quinhão legítimo a um complexo de senti-
estrangeiro é suspeito, sobretudo à noite. Ao mesmo tempo, mentos que, considerando-se as latitudes e as épocas, não
desconfia-se do homem "comum" cujas "emoções" são impre- pôde deixar de desempenhar um papel capital na história
visíveis e perigosas. Assim, dá-se um jeito para que não perce- das sociedades humanas para nós próximas e fa miliares.1
ba a ausência dos soldados habitualmente estacionados sob o
dispositivo complicado da "porta falsa". No interior desta, É a esse apelo que tento responder por meio da presente
empregaram-se os últimos aperfeiçoamentos da metalurgia obra, precisando desde o início três limites de meu trabalho. O
alemã da época; graças a isso, uma cidade particularmente primeiro é aquele mesmo traçado por L. Febvre: não se trata
cobiçada consegue, se não afastar completamente o medo para de reconstruir a história a partir do "exclusivo sentimento de
fora de seus muros, ao menos en fraquecê-lo o suficientê para medo". Tal redução das perspectivas seria absurda, e é sem
que se possa viver com ele. dúvida demasiadamente simplista afirmar com G. Ferrero que
LOda civilização é o produto de uma longa luta contra o medo.
Portanto, convido o leitor a lembrar-se de que projetei sobre o
Os complicados mecanismos que outrora protegiam os passado certo enfoque, mas de que há outros, possíveis e dese-
habitantes de Augsburgo têm valor de símbolo. Pois não só os j6veis, suscetíveis de completar e de corrigir o meu. As duas
indivíduos tomados isoladamente, mas também as coletividades outras fronteiras são as de tempo e espaço. Busquei meus
e as próprias civilizações estão comprometidos num diálogo exemplos, de preferência - mas nem sempre - no período
permanente com o medo. No entanto, até o momento, a histo-' que vai de 1348 a 1800 e no setor geográfico da humanidade
riografia pouco estudou o passado sob esse ângulo, a despeito ocidental, a fim de dar coesão e homogeneidade à minha expo-
do exemplo preciso - e muito esclarecedor - fornecido por sição e de não dispersar a luz do projetor sobre cronologia e

12 /J
períodos desmedidos. Nesse quadro, ficava_ por ser preenchido ta edições espanholas e grande quantidade de edições france-
um vazio historiográfico que em certa medida vou esforçar-me sas e italianas. Mais impressionante ainda é a fortuna de
em completar, bem ciente de que tal tentativa, sem modelo a Orlando furioso, de Ariosto: cerca de 180 edições de 1516 a
ser imitado, constitui uma aventura intelectual. Mas uma 1600.8 Orlando, ''paladino insensível ao medo", despreza
aventura excitante. naturalmente "o vil bando dos sarracenos" que o ataca em
Roncevaux. Com a ajuda de Durandal, "os braços, as cabeças,
os ombros (dos inimigos) voam por todos os lados" (cap. XIII).
Por que esse silêncio prolongado sobre o papel do medo na Quanto aos cavaleiros cristãos que Tasso coloca em cena na
história? Sem dúvida, devido a uma confusão mental ampla- JentSlllém libertt1clll (1581), ao chegar diante da cidade santa,
mente difundida entre medo e covardia, coragem e temeridade. agitam-se de impaciência, "antecipam-se ao sinal das trombe-
Por uma verdadeira hipocrisia, o discurso escrito e a língua- tas e dos tambores, e saem a campo com altos gritos de alegria"
falada - o primeiro influenciando a segunda - tivera1:n por (cap. III).
muito tempo a tendência de camuflar as reações naturais que A literatura das crônicas é igualmente inesgotável no que
acompanham a tomada de consciênci_a de um perigo yor t~~s d iz respeito ao heroísmo da nobreza e dos príncipes, sendo
das falsas aparências de atitudes rmdosamente heroicas. A esses a flor de toda nobreza. Apresenta-os como imperm eá-
palavra medo está carregada de tanta vergonha",. escreve G. veis a todo temor. Assim é com João Sem Medo, que ganhou
Delpierre, "que a escondemos. Enterramos no mais profundo tl alcunha significativa em luta contra Liege, em 1408.9 Sobre
de nós o medo que nos domma . as entran has."• Carlos, o Temerário - outro apelido a destacar-, os elogios
É no momento - séculos XIV-XVI - em que começam a são hiperbólicos. "Era altivo e de grande coragem; seguro no
avançar na sociedade ocidental o elemento bur~uês e seus perigo, sem medo e sem pavor; e se um dia Heitor foi valente
valores prosaicos que uma literatura épica e narrativa, encora- diante de Troia, este o era outro tanto." Assim fala Chastellain. 'º
jada pela nobreza ameaçada, reforça a e~altação sem n~ança_ da Ir Molinet vai ainda mais longe depois da morte do duque:
audácia. "Como a lenha não pode queimar sem fogo , ensma "Era [...] a planta de honra inestimável, o tronco de graça
Froissard, "o fidalgo não pode chegar à honra perfeita, nem _à hem-aventurada, e a árvore de virtude colorida, perfumada,
glória do mundo, sem proeza."; Três quartos de sé~ulo~ mais frutuosa e de grande altitude". 11 Reveladora, por sua vez, é a
tarde, o mesmo ideal inspira o autor de Jehan de Samtre (por f(lória que cerca Bayard durante sua vida. É o cavaleiro "sem
volta de 1456). Para ele, o cavaleiro digno desse tít~lo deve temor e irrepreensível". A morte do famoso fidalgo do Dau-
desafiar os perigos. por amor da glória e de sua dama. E "aque- phiné, em 1524, também deixa "toda nobreza de luto". Pois,
le que [...] faz tànto que, entre os outros, há_ notícias dele"-:- ossegura o Leal Servidor, "em audácia pouca gente a ele se
por façanhas guerreiras, entende-se.6 Conqmsta-se tant? m~1s 1•omparou. Em conduta, em um Eibio Máximo; em empresas
honra quanto mais se arrisca a vida nos combates de~'.gu~1s. sutis, um Coriolano, e em força e magnanimidade, um segun-
São esses o pão cotidiano de Amadis de Gaula, um herm sa1d_o do Heitor".'2
do ciclo do romance bretão, que chega a fazer "tremer as mais Esse arquétipo do cavaleiro sem medo, perfeito, é constan-
cruéis feras selvagens".1 Publicado na Espanha em 1508, tradu- temente realçado pelo contraste com uma massa considerada
zido para o francês a pedido de Francisco I, o Amadis de Gau!ll ~cm coragem. Virgílio já escrevera: "O medo é a prova de um
e seus suplementos dão lugar, no século XVI, a mais de sessen- nnscimento baixo" (Eneidll, IV, 13). Tal afirmação restou incon-

/4 15
teste por muito tempo. Commynes reconhece que os arqueiros Esse lugar-comum - os humildes são medrosos - pode
se tornaram "a soberana coisa do mundo para as batalhas". iVIas ser bem exemplificado na época da Renascença por duas obser-
é preciso tranquilizá-los com a presença de "grande quantidade vações, contraditórias em suas intenções m.1s convergentes
de nobres e de cavaleiros", e dar-lhes vinho antes do combate a quant~ ao ponto de vista que empregam e que se pode assim
fim de cegá-los diante do perigo.u No cerco de Pádua ~n~ ~509, rcsum~r: os homens no poder fazem de modo a que o povo -
Bayard se insurge contra a opinião do imperador Max1m1hano, c~scnc1~lment~ ?s campones~s - tenha medo. Symphorien
que pretendia colocar a gendarmaria francesa a pé e fazê-la Champ1er, medico e humamsta mas turiferário da nobreza,
atacar ao lado dos lansquenetes, "gente maquinal que não tem escreve em 1510: "O senhor deve tirar prazer e delícia das coi-
1
a honra em tão grande recomendação quantos os fidalgos". ~ ~as em Jue seus homens ~êm sofrimento e trabalho". Seu papel
Montaigne atribui aos humildes, como uma característica típi- cA o de mante: terra, pois pelo pavor que os homens do povo
ca, a propensão ao pavor, mesmo quando são soldados: perce- tem dos cavaleiros eles trabalham e cultivam as terras por pavor
bem couraceiros onde há apenas um rebanho de ovelhas; e medo de ser~m destruídos".10 Quanto a Thomas More, que
tomam caniços por lanceiros.u Associando, além disso, covar- contesta a sociedade de seu tempo situando-se, contudo, em
dia e crueldade, ele assegura que uma e outra são mais especial- uma imaginária "Utopia", afirma que "a pobreza do povo é a
mente próprias dessa "canalha de vulgo".16 o século XVII, La defesa da monarquia [...]. A indigência e a miséria eliminam
Bruyere por sua vez toma por certa a ideia de que a massa de toda coragem, embrutecem as almas, acomodam-nas ao sofri-
camponeses, artesãos e criados não é corajosa porque não bus~a mento e à escravidão e as oprimem a ponto de tirar-lhes toda
- e não pode buscar - a fama: "O soldado não sente que seJa onergia para sacudir o jugo".n
conhecido; morre obscuro e na multidão; vivia do mesmo ~ss_as poucas evocações - que teríamos podido multiplicar
modo, na verdade, mas vivia, e essa é uma das origens da falta l1_1~ef1_mdamente - ressaltam as razões ideológicas do longo
de coragem nas condições baixas e servis"Y Romance e teacr_o silencio sobre o papel e a importância do medo na história dos
destacaram por seu turno a incompatibilidade entre esses dois homens. Da Antiguidade até data recente, mas com ênfase no
universos ao mesmo tempo sociais e morais: o da valentia - lcm~o da Renascença, o discurso literário apoiado pela icono-
individual - dos nobres, e o do medo - coletivo - dos f(r::tf~a (retratos em pé, estátuas equestres, gestos e drapeados
pobres. Preparando-se dom Quixote para intervir pelo :~ér~ito gloriosos) exaltou a valentia - individual - dos heróis que
de Pentapolin contra o de Alifanfaron, Sancho Pança tumda- l{overnaram a sociedade. Era necessário que fossem assim, ou ao
mente lhe faz nqtar que se trata simplesmfnte de dois rebanhos menos apresentados sob essa perspectiva, a fim de justificar aos
de carneiros. .Merece esta resposta: "E o medo que tens'. ~~us próprios olhos e aos do povo o poder de que estavam reves-
1
Sancho, que te faz ver e entender tudo mal. Mas se teu pavor _e 1idos. Inversamente, o medo era o quinhão vergonhoso - e
tão grande, afasta-te [...]. Sozinho, darei a vitória ao exército a t•ornum - e a razão da sujeição dos plebeus. Com a Revolução
que levarei o socorro de meu braço".1~ Façanhas individuais Frnncesa, estes conquistaram pela força o direito à coragem.
sempre, mas desta vez sacrilégios de dom Juan, "o enganador de M:1s .º novo dAisc~rso ideológico copiou amplamente o antigo e
Sevilha", que desafia o espectro do comendador, D eus e o ~cgum a tendencia de camuflar o medo para exa ltar o heroísmo
inferno. Naturalmente, seu criado vai de pavor em pavor e dom clc'.s_humildes. Portanto, é só lentamente, a despeito das marchas
Juan o censura: "Que medo tens de um morto? Que farias tu se 111il1rnres e dos monumentos aos mortos, que uma descrição e
fosse um vivo? Tolo e plebeu temor".19 11111:1 aproxjmação objetivas do medo desembaraçado de sua ver-

/(í 17
gonha começaram a mostrar-se. De maneira significativa, as Q ue necessidade tenho de ir [...] ao encont ro do que não se
primeiras grandes evocações de pânico foram equilibradas em dirige a mim [trata-se da morte]? [...] Pode a honra devol-
contraponto por elementos grandiosos que proporcionavam ver uma perna? Não. Um braço? Não. Eliminar a dor de
como que desculpas para uma degringolada. Para Victor Hugo, um ferimento? Não. A honra não entende nada de cirur-
foi a "Debandada, gigante de face assustada", que venceu a cora- gia? Não. O que é a honra? Uma palavra. O que h á nessa
gem dos soldados de N apoleão em Waterloo; e "esse campo palavra honro? Um sopro [...] Desse modo, não quero saber
sinistro onde Deus combinou tantas fraquezas/ Treme ainda de dela. A honra é uma simples insíg nia, e assim termina meu
ter visto a fuga dos gigantes".21 No quadro de Goya intitulado O catecismo.24
pânico (Prado), um colosso cujos punhos golpeiam em vão um
céu carregado de nuvens parece justificar o amedrontamento de Áspero desmentido a todos os "diálogos de honra" do sécu-
25
uma multidão que se dispersa precipitadamente em todas as lo xv1! E xistem outros, no período da Renascença, em obras
direções. Depois, pouco a pouco, a preocupação com a verdade que de modo algum eram de ficção. Commynes é uma teste-
psicológica prevaleceu. Dos Contos de Maupassant aos Diálogos mun~a prec!osa a esse respeito, pois ousou dizer o que os
dos crnwelitns de Bernanos, passando por Ln débíicle de Zola, a demais cronistas calavam sobre a covardia de certos grandes.
literatura progressivamente restituiu ao medo seu verdadeiro Relatando a batalha de Montlhéry, em 1465, entre Luís >..'1 e
lugar, ao passo que a psiquiatria agora se inclina cada vez mais Carlos, o Temerário, declara: "Jamais houve fuga maior dos
sobre ele. E m nossos dias, são incontáveis as obras científicas, os dois lados". Um nobre francês se foi n uma só caminhada até
romances, as autobiografias, os filmes que trazem no título o Lusignan; um senhor do conde de Charolais, partindo em sen-
medo. Curiosamente, a historiografia, que em nosso tempo tido com nírio, só parou no Quesnoy. "Esses dois não tinham
deslindou tantos novos domínios, o negligenciou. preocupação de atingir um ao outro."26 No capítulo que consa-
gra a~ "medo" e à "punição da covardia", também Monta igne
menciona a conduta pouco gloriosa de certos nobres:
Em qualquer época, a exaltação do heroísmo é enganadora:
discurso apologético, deixa na sombra um vasto campo da rea- [No cerco de Roma, 1527,J foi memorável o medo que aper-
lidade. O que havia por trás do cenário montado pela literatura tou, tomo_u e gelou tão fortemente o coração de um fida lgo
cavalheiresca que gabava incansavelmente a bravura dos cava- que ele cam duro morto em combate, sem nenhum ferimen-
leiros e zombava lia covardia dos plebeus? A própria Renascença to.21 No tempo de nossos pais, lembra ele ainda, o senhor de
encarregou-se, bn obras maiores que transcendem todo con- Franget [...J, governador de Fontarabie [...), tendo-a entre-
formismo, de corrigir a imagem idealizada da valentia nobiliá- · gue aos espanhóis, foi condenado a ser destituído de no-
ria. Será que nos damos conta de que Panurgo e Falstaff são breza, e tanto ele quanto sua posteridade foram declarados
fidalgos, companheiros preferidos de futuros reis? O primeiro plebeus sujeitos a impostos, e incapazes de usar as armas·
declara, no navio desorientado pela tempestade, que daria uma e foi essa rude sentença executada em Lyon. Depois sofre~
renda de "180 mil escudos[...] a quem o colocasse em terra todo ram semelhante punição todos os fidalgos que se encontra-
frouxo e defeçado" como estáY O segundo, coerente consigo vam em Guise, quando o conde de Nassau ali penetrou (em
mesmo, resigna-se em ser desprovido de honra: 1536]; e outros mais depois.18

18 19
Medo e covardia não são sinônimos. .Mas é preciso se per- buscar o santo eremita Francisco de Paula nos confins da
guntar se a Renascença não foi marcada por uma tomada de Ca lábria, lançou-se a seus pés quando ele chegou ao Plessis "a
consciência mais nítida das múltiplas ameaças que pesam sobre fim de que lhe concedesse prolongar sua vida". Commynes
os homens no combate e em outras situações, neste mundo e no acrescenta este outro traço que aproxima mais uma vez Luís XT
outro. Daí, por várias vezes perceptível nas crônicas da época, de Filippo-lvlaria Visconti:
a coabitação em uma mesma personalidade de comportamen-
tos corajosos e de atitudes temerosas. Filippo-Maria Visconti [...] Jamais um homem temeu tanto â morte, nem fez tantas
(1392-1447) empreendeu guerras longas e difíceis. Mas manda- coisas para encontrar-lhe remédio: e todo o tempo de sua
va revistar todas as pessoas que entravam no castelo de Milão e vida, pedira a seus servidores e a mim, como a outros, que,
proibia que se parasse perto das janelas. Acreditava nos astros e se o víssemos nessa aflição de morte, que não lhe dissésse-
na fatalidade e invocava ao mesmo tempo a proteção de uma mos, a não ser tão somente: "falai pouco" e que o incitás-
legião de santos. Esse grande leitor dos romances de cavalaria, semos apenas a confessar-se sem lhe pronunciar essa cruel
esse fervoroso admirador de seus heróis, não queria ouvir falar palavra da morte, pois lhe parecia jamais ter coração para
da morte, fazendo até expulsar do castelo seus favoritos quando ouvir _tão cruel sentença.n
agonizavam. i\1orreu, todavia, com dignidade.2'' Luís XI se pare-
ce com ele em mais de um aspecto. Esse rei inteligente, pruden- De fato, ele a suportou "virtuosamente", embora seu cí r-
te e desconfiado, não careceu de coragem em graves circuns- t•1ilo não tenha respeitado a instrução real. O mais nobre dos
tâncias, como na batalha de Montlhéry ou quando o advertiram 11obres, o chefe de uma ordem de cavalaria, confessa portanto
de seu fim próximo - notícia, escreve Commynes, que "supor- que tem medo, como logo o farão Pannrgo e Falstaff. Mas, ao
tou virtuosamente, e todas as outras coisas, até a morte, e mais rnntrário destes, ele o faz sem cinismo e, chegado o momento
que qualquer homem que eu jamais tenha visto morrer"/º 10111ido, não se conduz como covarde. A psicologia do soberano
Contudo, esse soberano que criou uma ordem de cavalaria foi 11ílo pode ser separada de um contexto histórico onde abundam
desprezado por vários de seus contemporâneos que o julgaram tl1111ças macabras, artes moriendi, sermões apocalípticos e ima-
um "homem amedrontado" e "era verdade que o era", precisa f(éllS do Juízo Final. Os temores de Luís são os de um homem
Commynes. Seus temores agravaram-se no fim da vida. Gomo que se sabe pecador e teme o inferno. Ele faz peregrinações,
1•on fcssa-se com frequência, homenageia a Virgem e os santos,
0 último dos Visconti, caiu "em extraordinária suspeita de todo
o mundo", só queii~ndo perto dele os "criados" e quatrocentos 11•1í11e relíquias, faz largas doações às igrejas e às abadias.ii
arqueiros que o protegiam com uma guarda contínua. Ao redor 1\ ssim, a atitude do rei é reveladora, para além de um caso indi-
do Plessis, "mandou fazer uma grade de grossas barras de fer- vidual, da escalada do medo no Ocidente na aurora dos tempos
ro". Mandou também "fixar" nas muralhas do castelo "espetos · 111odcrnos.
de ferro de várias pontas".ll Alabardeiros tinham ordem de Mas não exist~ uma relação entre consciência dos perigos e
atirar em qualquer um que se aproximasse à noite da residência 11/vcl de cultura? E o que sugere Montaigne em uma passagem
real. Medo das conjurações? Mais amplamente, temor da mor- dos f .'11sn.ios onde, com humor, estabelece uma relação entre a
1

te. Doente, enviaram-lhe de Reims, Roma e Constantinopla ~oi ist icação intelectual dos povos do Ocidente, de um lado, e
relíquias preciosas das quais esperava a cura. Tendo mandado ~IIIINcomportamentos na guerra, do outro:

21
20
Um senhor italiano, relata ele sorrindo, sustentou uma vez 2. O MEDO É NATURAL
esta afirmação em minha presença, em detrimento de sua
nação: que a sutileza dos italianos e a vivacidade de suas Quer haja ou não em nosso tempo mais sensibilidade ao
concepções era tão grande, previam de tão longe os peri- medo'. este é um componente maior da experiência humana, a
gos e acidentes q ue lhes pudessem advir que não se devia despeito dos esforços para superá-lo.i1 "Não há home m acima
acha r estranho se eram vistos frequentemente, na g uerra, do medo", escreve um militar, "e que possa gabar-se de a ele
prover sua segurança, até mesmo antes de ter reconhecido
u .
cscapar." JB m g uia d e montanha a quem se faz a pergunta
o perigo; que nós e os espanhóis, que não éramos tão finos, "Aconteceu-lhe sentir medo?" respo nde: "Sempre se te m medo
íamos mais além, e que nos era necessário fazer ver ao olho ela te~pestade quando a ouvimos crepitar nas rochas. Isso
e tocar com a mão o perigo a ntes de nos amedrontarmos e n1:repia os cabelos debaixo da boina".3° O título da obra deJakov
que então não tínhamos mais firmeza; m as que os alemães L1_nd, l~ pe_m· est 111a mcine, não se aplica só ao caso de uma
e os suíços, mais g rosseiros e mais pesadões, não tinham o criança Judia de Viena que descobre o antissemitismo Pois 0
senso de se precaver, quando muito no momento mesm o me do "nasceu com o homem na m ais obscura das eras".•º . "Ele
em que estavam abatidos sob os golpes.H está
•. emd nós [...) Acompanha-nos por toda a nossa existeAnc·
, ia.
,,.,
( ,1tan o Vercors, que dá esta curiosa definição da natureza huma-
Generalizações irônicas e talvez sumárias, que têm no no - os homens usam amuletos, os animais não os usam _
e ntanto o mérito de ressaltar o elo entre m edo e lucidez tal More O raison conclui q ue o homem é por excelência "o ser q u~
41
como ele se estabelece na Renascença - uma lucidez solidária 1cm medo". No mesmo sentido, Sartre escreve: "Todos os
de um progresso do equipamento m ental. homens _têm medo. T odos. Aque le que n ão tem medo n ão é
Refinados que somos por um lo ngo passado cultural, não normal, rsso nada tem a ver com a coragem":3 A necessidade de
somos hoje mais frágeis diante dos _perigos e mais permeáveis ~cgura nça é portanto fundamental; está na base da afetividade
ao medo do que nossos ancestrais? E provável que os cavaleiros 1· do mora l humanas. A insegurança é símbolo de morte e a
de outrora, impulsivos, habituados às guerras e aos duelos e que ~cgu~ança símbolo_ ~a vida. O companheiro, o anjo da g u~rda,
se lanç:wam com impetuosidade nas disputas, fossem menos ': 11211go,_ o se: benef1co é sempre aquele que difunde a segu ran-
conscientes dos perigos do combate do que os soldad,9s do \ll. , A~s1111, e um erro de Freud "não ter levado a análise da
século xx, portanto menos sensíveis ao medo. Em nossa época, 1111g11s~1a e de suas formas patogênicas até o enraizamento na
em todo caso, o ~edo diante do inimigo tornou-se a reg ra. D e 11uccs_s1dade de conservação ameaçada pela previsão da morte"! '
sondagens efct9adas no exército americano na Tunísia e no <) n~11mal não tem ciência de sua finitude. O homem ao con-
Pacífico no decorrer da Seg unda Guerra Mundial, resulta que 11 1fr10, sabe - muito cedo - que morrerá. É, pois, 0 "ó nico no
apenas 1% dos homens declarou jamais ter tido medo.35 Outras 1111'.ndo ~ conhecer o medo num grau tão temível e duradouro":6
sondagens realizadas entre os aviadores americanos durante o· \1~111 ~1s:º•. nota R. Caillois, o medo das espécies animais é
mesmo conflito e, anteriorme nte, e ntre os voluntários da A. 11111co, 1dent1co a si mesmo, imutável: o de ser devorado. "E 0
Lincoln Brigade quando da Guerra Civil Espanhola colheram llll'clo humano, filho de nossa imaginação, não é uno mas múl-
r esultados análogos.' 6 1lplo, _não é fixo mas perpetuamente cambiante.""' Daí a
111•1•css1dade de escrever sua histór ia.
No entanto, o medo é ambíguo. Inerente à nossa natureza,
??
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é uma defesa essencial, uma garantia contra os perigos, um l'hlc1·s no século xvu? Para precaver-se contra o medo, carre-
reflexo indispensável que permite ao organismo escapar provi- flll~n m com eles olhos ou dentes de lobo, ou ainda, se a possi-
soriamente à morte. "Sem o medo nenhuma espécie teria l11lid11de se apresentava, montavam num urso e davam várias
sobrevivido."~8 Mas, se ultrapassa uma dose suportável, ele se vohns em cima dele.S1
torna patológico e cria bloqueios. Pode-se morrer de medo, ou .O medo pode com efeito tornar-se causa da involução dos
ao menos ficar paralisado por ele. Maupassant, nos Contos dll lnd1vfduos, e Marc Oraison observa a esse respeito - voltarei
gnlinholn, descreve-o como uma "sensação atroz, uma decom- 11 esse t_ema en~ um segundo volume - que a regressão para 0
posição da alma, um espasmo horrível do pensamento e do medo e o perigo que espreita constantemente o sentimento
4
coração de que só a lembrança dá arrepios de angústia".~" Por rnligioso.~ Mais geralmente, quem quer que seja presa do inedo
causa de seus efeitos por vezes desastrosos, Descartes o identi- 1•orrc o risco de desagregar-se. Sua personalidade se fende "a
fica com a covardia, contra a qual não se poderia muito prote- 1111prcssão de conforto dada pela adesão ao mundo" desapar~ce·
ger-se com antecedência: "o ser se torna seearado, outro, estranho. O tempo para, ~
1•~pnço encolhe".55 E o que acontece a Renée, a esquizofrênica
[...] O medo ou o pavor, que é contrário à audácia, não é ape- t'NI ucla~a p~la sra. Sechehaye: num dia de janeiro, experimenta

nas uma frieza , mas também-uma perturbação e um espanto pdn primeira vez o medo que lhe é provocado, acredita ela, por
11111 forte vento anunciador de lúgubres mensagens. Logo esse
da alma que lhe tiram o poder de resistir aos males que ela
pensa estarem próximos [...] Desse modo, não é uma paixão 111cclo, crescendo, aumenta a distância entre Renée e o mundo
1•xtcrior, cujos elementos perdem progressivamente sua realida-
particular; é apenas um excesso de covardia, de assombro e
de temor, o qual é sempre vicioso [...] E porque a principal de:'li A_ doente confessou mais tarde: "O medo, que antes era
'l_fHsód1co, não me abandonava mais. Sentia-o todos os dias,
causa do medo é a surpresa, não há nada melhor para dele
t 111ha certeza. E depois também os estados de irrealidade
isentar-se do que usar de premeditação e preparar-se para 1111 mcntavam". 11
todos os acontecimentos cujo temor pode causá-lo.50
Coletivo, o medo pode ainda conduzir a comportamentos
,,berrantes e suicidas, nos quais a apreensão correta da realida-
Simenon declara da mesma maneira que o medo é um de desaparece: como esses pânicos que escandiram a história
"inimigo mais perigoso do que todos os outros".5 ' Ainda hoje, 1·occnte da França depois de Waterloo até o êxodo de junho de
indígenas - e até mestiços - de aldeias afastadas do México lf)40. Zola descreveu fielmente os que resultaram na derrota
conservam entre ;i::us conceitos o de doença do pavor (espanto de 1870:
ou susto): um doente perdeu a alma em razão de um pavor.
Espantar-se é "deixar a alma em outra parte". Pensa-se eÍltão t...] Os generais galopavam no espanto, e tal tempestade de
que ela é retida pela terra, ou por pequenos seres maléficos estupor soprava, arrebatando ao mesmo tempo os vencidos
chamados chnneques. Daí a urgência de ir a uma "curandeira de e os vencedores, que num instante os dois exércitos estavam
terror", que, graças a uma terapêutica apropriada, permitirá à perdidos, nessa perseguição, em pleno dia, fugindo Mac-
alma reintegrar-se ao corpo de que escapou.51 Esse comporta- -Mahon na direção de Lunéville, e o príncipe real o pro cu-
mento não deve ser comparado ao dos camponeses do Perche, rava do lado dos Vosgues. Em 7 [de agosto), os restos do l•
cujas práticas "supersticiosas" foram descritas pelo padre J.-B. corpo atravessavam Saverne, assim como um rio limoso e
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transbordado carreando destroços. Em 8, em Sarrebourg, rôneas, encontra-o quase a cada passo - e nos setores mais
5° corpo vi~ha rombar no 1° como uma torrente agitada diversos <la existência cotidiana. Como prova, por exemplo, as
0
numa outra, em fuga ele também, vencido sem ter comba- máscaras muitas vezes apavorantes que inúmeras civilizações
tido, arrastando seu chefe, o general D e Failly, desatinado, util izaram no decorrer das eras em suas liturgias. E screve R.
enlouqµecido de que se fizesse remontar à sua inação a re~- Cnillois:
ponsabilidade da derrota. Em 9, em 10, a galopada conti-
nuava, um salve-se quem puder furioso que nem sequer Máscara e medo, máscara e pânico estão constantemente
presentes juntos, inextricavelmente emparel hados [...J [o
olhava para trás.18
homem] abrigou atrás <lesse segundo rosto seus êxtases e
Compreende-se por que os antigos viam no med_o uma suas vertigens, e sobretudo o traço que ele tem em comum
punição dos deuses, e por que os gregos divinizara1~ _Deunos (o com tudo o que vive e quer viver, o medo, sendo a máscara
Temor) e Fobos (o Medo), esforçando-se em conc1l_ia_r-se com ao mesmo tempo tradução do medo, defesa contra o medo
eles em tempo de guerra. Os espartanos, na~~o m1htar, con- e meio de espalhar o medo. 60
sagraram uma pequena edícula a Fobos, d1vmdade a quem
Alexandre ofereceu um sacrifício solene antes da batalha_ de E cabe a L. Kochnitzl-y explicitar, a propósito dos casos
Arbelos. Aos deuses homéricos Dei mos e Fobos correspondiam 11fricanos, esse medo que a máscara si multaneamente camufla e
as divindades romanas Pallor e Pavor, às quais, segundo Tito t'"<prime: "Medo dos gênios, medo das forças da natureza, medo
Lívio Tulo Hostílio teria decidido consagrar dois santu}irios ao dos mortos, dos animais selvagens à espreita na selva e de sua
ver s:u exército debandar diante dos estrangeiros. Quanto a Pã, vlngança depois que o caçador os matou; medo de seu seme-
na origem deus nacional da Arcádia que, ao cair do_ dia, e~pa- lhnnte que mata, viola e até devora suas vítimas; e, acima de
lhava o terror entre os rebanhos e os pastores, a partir do secu- 111do, medo do desconhecido, de tudo que precede e segue a
lo v tornou-se uma espécie de protetor nacional dos gregos. O s lll'cvc existência do homem". 61
atenienses atribuíram-lhe a derrota dos persas em Maratona e Mudemos voluntária e bruscamente de tempo e de civili-
levantaram-lhe um santuário na Acrópole, homenageado todos 111~·~0 e merg ulhemos por um instante na modernidade econô-
os anos com sacrifícios rituais e corridas com tochas. /1.. voz 11drn. Nesse domínio, escreve A. Sauvy, "onde tudo é incerto,
dissonante de Pã teria semeado a desordem na frota de Xerxes ,, onde o interesse está constantemente em jogo, o medo é
em Salamina e, mais tarde, detido a marcha dos gauleses sobre 111ntfnuo". 61Os exemplos que o provam são inúmeros, das desor-
Delfos.19 Assim~ os antigos viam no medo um poder mais forte tl1•11~ da rua Quincampoix no tempo de Law à "quinta-feira
do que os homens, cujas graças contudo podiam ser ga1~h~s ~or . 111 wn" de 24 de outubro de 1929, em vVall Street, passando
meio de oferendas apropriadas, desviando então para o m11rngo p1 ln depreciação dos nssignats* e a degringolada do marco em
sua ação aterrorizante. E haviam compreendido - e em certa l'IJ \. Em todos esses casos, houve pânico irrefletido por con-
medida confessado - o papel essencial que ele desempenha nos 1,11(111 de um verdadeiro medo do vazio. O elemento psicológi-
destinos individuais e coletivos. 1111 isto é, a louca inquietação, ultraIJassou a sã anál ise da
O historiador, em todo caso, não precisa procurar muito
para identificar a presença do medo nos comportamentos de
• l>upcl-mocd3 emitido no período d3 Revolução Frances3. (N. T.)
grupos. Dos povos ditos "primitivos" às sociedades contempo-
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conjuntura. Mais lucidez e sangue-frio, assim como menos Talvez seja por nossa época ter inventado o neologismo
apreensão excessiva com o f~turo por p_a~te dos de_t~ntores d_e ~'l!Curizar que está mais apta -
ou menos mal armada - do que
promissórias e de ações, teriam sem duv1~a perm1t1d~ c~nt1- outras para lançar sobre o passado esse olhar novo que busca
nuar a experiência de Law, conter em lumtes razoave1s as descobrir o medo. Tal pesquisa visa, no quadro espaço-tempo-
desvalorizações respectivas do assignat revolucionário, mais mi preciso estipulado aqui, a penetrar nos móveis ocultos de
tarde do marco de vVeimar, e sobretudo permitido controlar uma civilização, descobrir-lhe os comportamentos vividos mas
melhor, em consequência do craque de 1929, a queda da pro- por vezes inconfessados, apreendê-la em sua intimidade e em
dução e o crescimento do desemprego. Os movimentos da sons pesadelos para além dos discursos que ela pronunciava
Bolsa, de que dependem tantos destinos humanos, não co~he- sobre si mesma.
cem afinal senão uma regra: a alternância de esperanças imo-
deradas e de medos irrefletidos.
3. DO SINGULAR AO COLETIVO: POSSIBILIDADES E
DIFICULDADES DA TRANSPOSIÇÃO*
Atento a essas evidências, o pesquisador descobre, mesmo Nada é mais difícil de analisar do que o medo, e a dificul-
no decorrer de um sobrevoo rápido do espaço e do tempo, o dnde aumenta ainda mais quando se trata de passar do indivi-
número e a importância das reações coletivas de temor. A cons- dual ao coletivo. As civilizações podem morrer de medo como
tituição de Esparta era fundada sobre ele, sistematizando a 11s pessoas isoladas? Assim formulada, essa pergunta põe em
organização dos "iguais" em casta militar. Mobilizados perma- 11vidênc.ia as ambiguidades veiculadas pela linguagem corren-
nentemente, aguerridos desde a infância, viviam sob a constan- 1c, que muitas vezes não hesita diante dessa passagem do sin-
te ameaça de uma revolta dos hilotas. A fim de os paralisar pelo ~11lnr ao geral. Pôde-se ler recentemente nos jornais: "Depois
medo, Esparta precisou modificar-se ela própria cada_vez mais du guerra do Kippur, Israel está em depressão". Semelhantes
radicalmente. As medidas "aloplásticas" iniciais dirigidas con- 11•11nsposições não são novas. Na França, na Idade Média,
tra os bilotas logo acarretaram medidas "autoplásticas" ainda ,1hn111avam-se "pavores" as "rebeliões" e as "loucas comoções"
mais rigorosas "que transformaram Esparta em um campo dns populações revoltadas, querendo com isso expressar o ter-
fortificado".61 Mais tarde, a Inquisição foi semelhantem!nte 1m· que espalhavam mas que também sentiam.64 Mais tarde, os
motivada e mantida pelo medo desse inimigo sem cessar renas- ll•nnceses de 1789 chamaram de Grande Medo o conjunto dos
cente: a heresia que parecia perseguir incansavelmente a Igreja. lillsos alertas, paradas militares, saques de castelos e destrui-
Em nosso tempo, Ô.fascismo e o nazismo beneficiaram-se dos \1\cs de esconderijos provocados pelo temor de um "complô
alarmes dos detentores de rendas e dos pequenos burgueses que 1111istocrático" contra o povo com a ajuda dos bandidos e das
temiam as perturbações so~iais, a ruína da moeda e o com~nis- pot0ncias estrangeiras. No entanto, é arriscado aplicar pura e
mo. As tensões raciais na Africa do Sul e nos Estados Umdos, ~l 111plesmente a todo um grupo humano análises válidas para
a mentalidade obsidional que reina em Israel, o "equilíbrio do
terror" mantido pelas superpotências, a hostilidade que opõe a
• Agradeço fortemente à sra. dra. De1úse PawlotsJ...'}'-Mondauge, direwra
China e a União Soviética são umas tantas manifestações dos ,li 11111centro médico-psicopedagógico em Rcnnes, por ter aceitado ler esta
medos que atravessam e dilaceram nosso mundo. , ,,111 tlc minha introdução e fornecer-me suas observações.

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um indivíduo tomado em particula r. O s mesopotâmicas acre- 1111111 ~oh o efeito das agressões repetidas de nossa época, n em
ditavam na realidade de homens- escorpiões, cuja visão bastava 111111 1• umprega com discernime nto.
para causar a morte. 61 Os g regos estavam igualmente conven- 1>11w-sc utilizar esse quadro clínico no nível coletivo? E
cidos de que toda pessoa que e ncarasse uma das górgonas lll'IHllllla prévia - o que se entende por coletivo? Pois esse
ficava instantaneamente petrificada. Nos dois casos, tratava- 1111111 h•o Ium dois significados. Pode designar uma multidão
-se da versão mítica da experiência: a possibilidade de qualquer ,111t1h11rnda em debandada, ou sufocada de apreensão em
um mo rrer de medo. Certamente é difícil generalizar essa 1111•1•1111uncia de um sermão sobre o in ferno, o u ainda liberada
constatação que, no plano individual, é indiscutível; mas como 111 11wilo de morrer de fome por meio do ataque a comboios
não partir assim m esmo, para tentar a passagem do singular 11 11 n•nl. Mas significa também u m homem q ualquer na
ao plural, do estudo dos medos pessoais c ujo quadro ga nha a 1111,lltilndc de :imostra a nônima de um grupo, para além da
cada dia em precisão Qá que agora se sabe desencadear r eações 111, il k iclade das reações pessoais de tal ou tal membro do
de m edo, de foga, de agressão ou de defesa em m acacos, gatos 111 11p11.
o u ratos, provoca ndo lesões nervosas no âmbito do s,istem a l 1•111 1111clo-se do primeiro significado de coletivo, é provável
límbico)? 11111 11t I cnções de uma multidão tomada de pânico ou que libera
No sentido estrito e estreito do termo, o medo (individual) 11lch ,1111cnte sua agressividade resultem em g rande parte da
é uma emoção-choque, frequentemente precedida de surpresa, 1ll~,h1 de_emoções-choques pessoais tais como a medicina psi-
provocada pela tomada de consciência de um perigo presente e 11 ,111111lt 1ca nos faz conhecê-las. Mas isso só é verdade em

urgente que ameaça, cremos nós, nossa conservação. Colocado 111111 11wclida. Pois, como o pressentira Gustave Lebon,67 os
em estado de aler ta, o hipotálamo reage mediante mobilização 11111pr11·111mentos de multidão exageram, complicam e transfor-
global do organismo, que desencadeia diversos tipos ele com - 1111111 111, excessos individuais. Com efeito, e ntram em jogo
portame ntos somáticos e provoca sobretudo modificações en- l 111111•~ de agravamento. O pânico que se apodera de um exér-
dócrinas. Como toda emoção, o medo pode provocar efeitos 1111 1 horioso (como o de Napoleão na noite de \iVagra m)68 ou
contr:istados segundo os indivíduos e as ci rcunstâncias, o u até 111 II IIINNll dos clientes de um bazar em chamas ser á tanto mais
reações alternadas em uma mesma pessoa: ccleração dos movi- h1111 qunnto for mais fraca a coesão psicológica entre as pessoas
mentos do coração ou sua diminuição; respiração demasiada- 111111111111s ele medo. Nas sedições de outrora, muito frequente-
mente rápida ou lenta; contração o u dilatação dos vasos san- 11111111·, ns mulheres davam o sinal da agitação, e depois da re be-
g uíneos; hiper ou hipossecreção das glândulas; constipação ou 11111, ' nrl':lstando atrás de si homens que, em casa, não gostavam
diarreia , poliúra ·•ou anúria, compo rtame nto de imobilização 111111 um pooco de deixar-se levar pela esposa. Além disso, os
ou exterio rizaçâo violenta. Ios casos-limite, a inibição pode 1j1111111111entos humanos são mais sensíveis à ação dos chefes do
chegar a uma pseudo paralisia diante cio perigo (estados catalép- 1p11 11 ~uriam as unidades isoladas que os compõem.
ticos), e a exteriorização r esultará numa tempestade de movi- Mnls geralmente, os caracteres fundamentais da psicologia
mentos desatinados e inadaptados, característicos do pânico.f,6 11, 1111111 multidão são sua capacidade de ser influenciável, o
Ao m esmo tempo manifestação externa e experiência interior, 1 11 1ll11r nbsoluto de seus julgamentos, a rapidez dos contágios
a emoção de medo libera, portanto, uma energia desusada e a 11111 n ntrnvessam, o enfraquecimento ou a perda do espírito
difunde por todo o o rganismo. Essa descarga é em si uma rea- 1111 h o, n diminuição ou o desaparecimento do senso da respon-
ção utilitária de legítima defesa, mas que o indivíduo, sobre- 1ltl lld11clc pessoal, a subestimação da força do adversário, sua
30 31
capacidade de passar subitamente do horror ao entusiasmo e 111 • ll'ili'l.ação ocidental ela qual ela finalmente saiu vitoriosa?
das aclamações às ameaças de morte.10 1111~ ,•:ibe, por uma espécie ele análise espectral, individua-
Mas, quando evocamos o medo atual de entrar no carro li ti os medos particulares que então se adicionaram para
para uma longa viagem (trata-se na realidade de uma fobia 1111 um clima de medo.
cuja origem reside na experiência do sujeito) ou quando lem-
11
1Me.,,,1os pa rt1cu
. 1ares", ou seJ3,
· "me dos nomeados". Aqui po-
bramos que nossos ancestrais temiam o mar, os lobos e os h 1111•1111~·-se operatória no plano coletivo a distinção que a
fantasmas, não nos remetemos a comportamentos de multi- 1 1t111h111'13 agora estabeleceu no plano individual entre medo e
dão, e fazemos menos alusão à reação psicossomática de uma Ili( 1111 in, o utrora confundidos pela psicologia clássica. Pois se
pessoa petrificada no lugar por um perigo repentino ou que 111111 dt• dois polos em torno cios quais gravitam palavras e fatos
foge às pressas para dele escapar do que a uma atitude bas- I' 1t111lms no mesmo tempo semelhantes e diferentes. O temor,
tante habitual que subentende e totaliza muitos pavores indi- 1 • ~11111110, o pav~r, o terror dizem mais respeito ao medo; a
viduais em contextos determinados e faz prever outros em l111111111111çiio, a ans1e?acle, a melancolia, à angústia. O primeiro
casos semelhantes. O termo medo ganha então um sign.i ficado 1 1t 11• Nl' no conhecido; a segunda, ao desconhecido. 71 O medo
menos rigoroso e mais amplo do que nas experiências indi- 1 111 11111 objeto determinado ao qual se pode fazer frente. A
viduais, e esse singular coletivo recobre uma gama de emo- 111411•1111 não o tem e é vivida como uma espera dolorosa diante
ções que vai do temor e da apreensão aos mais vivos terrores. 1 11111 perigo tanto mais temível quanto menos claramente
O m edo é aqui o hábito que se tem, em um grupo humano, 1li 111 li il'ndo: é um sentimento global ele insegurança. D esse
de temer tal ou tal ameaça (real ou imaginária). Pode-se 111111111, 11111 é mais difícil de suportar que o medo. Estado ao
então legitimamente levantar a questão de saber se cerras li ~11111 lc.:mpo orgânico e afetivo, manifesta-se de modo corri-
c ivilizações foram - ou são - mais temerosas que outras; ou 1"' 1111 (n nnsicdacle) por "uma sensação discreta de aperto da
formular esta outra interrogação a que o presente ensaio IIM,111111, de enfraquecimento das pernas, ele tremor", acres-
tenta responder: será que, em certo estágio de seu desenvol- llt,tdn 1\ 11~ree1~são com o futuro; e, em sua forma mais aguda,
vime nto, nossa civilização europeia não foi assaltada por uma 11 1111111 Cl'ISC violenta:

perigosa conjunção de medos diante dos quais precisou rea-


g ir? E essa conjunção de medos, não se pode chámá-la Ili 11sc11mence, à noite ou de dia, o doente é tomado por
globalmente de_ "o Medo"? Essa generalização explica o 1111111 sc.:1_1saç:io de constrição torácica com opressão respirn-
título de meu Hvro, que retoma de maneira mais ampla e 1111 ln e impressão ele morte iminente. Da primeira vez, ele
sistemática fórhmlas empregadas aqui ou ali por iminentes 11 1111• <.' Om razão um ataque cardíaco, a tal ponto a sensação
· · 1ores que f a Iaram de "escalada" ou de " recuo" do
h1stonac ,h 11 111-fÚStia assemelha-se ao angor*, com o qual a lingua-
medo." Tratando-se de nossa época, a expressão "doenças da 1111111 ''.ponta a semelhança. Se os episódios se repetem, o
civilização" se tornou familiar e com e la denotamos o impor- p111pr10 doente reconhece seu caráter psicogênico. Isso
tante papel desempenhado pelo modo de vida contemporâ- 111\11 hnsla para acalmar nem suas sensações nem seu medo
1111 IIIOl'IC.:.11
neo. De o utra maneira, será que um acúmulo de agressões e
de medos, portanto de estresses emocionais, não provocou no
Ocidente, ela peste negra às guerras religiosas, uma doença l'~I 11111 lnlina c1ue significa "angúsáa" e "angina". (N. T.)

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Nos obsedados a angústia torna-se neurose, e nos melancó- jllll 111.Ro demasiadamente prolongada pode também criar um
licos uma forma de psicose. Porque a imaginação desempenha 111lt1 cl1• desorientação e de inadaptação, uma cegueira afetiva,
um papel importante na angústia, esta tem sua causa mais no 111111 p1ollfcrnção perigosa do imaginário, desencadeando um
indivíduo do que na realidade que o cerca, e sua duração não 11111 ,111IN1110 in,volutivo pela instalação de um clima interior de
está, como a do medo, ]imitada ao desaparecimento das amea- Ili 1111111111çn. E especialmente perigosa sob a forma de angústia
ças. Assim, ela é mais própria do homem do que do animal. 11lp,11h1. Po is o sujeito vira então contra si as forças que deve-
Distinguir entre medo e angústia não significa, porém, ign?rar 111111 _,,r 111obilizadas contra agressões externas e torna-se para
seus laços nos comportamentos humanos. Medos rependos 11111 1111110 seu principal objeto de temor.
podem criar uma inadaptação severa em um sujeito e co~duzi- 1'111·1111c é impossível conservar o equilíbrio interno afron-
-lo a um estado de inquietação profunda gerador de crises de tt1111h1 pm muito tempo uma angústia incerta, infinita e indefi-
angústia. Reciprocamente, um temperamento ansioso corr~ o 1111• 1, 1 necessário ao homem transformá-la e fragmentá-la em
risco de estar mais sujeito aos medos do que um outro. Alem lllt d11~ precisos de alguma coisa ou de alguém. "O espírito
disso, o homem dispõe de uma experiência tão rica e de uma h1111111110 fabrica permanentemente o medo" 75 para evitar uma
memória tão grande que sem dúvida só raramente experimenta 11141\111ln 1116 rbida que resultaria na abolição do eu. É esse pro-
medos que não estejam em algum grau penetrados de angústia. •11 q111: reencontraremos no estágio de uma civilização. E m
Ainda mais do que o animal, ele reage a uma situação desenca- 1111111 ~11qu0ncia longa de traumatismo coletivo, o Ocidente ven-
deadora em função de sua experiência anterior e de suas "lem- 11 ,11lll)<t'1 stia "nomeando", isto é, identificando, ou até "fabri-

branças". Assim, não é sem razão que a linguagem corrente 1t11d11" medos particulares.
confunde medo e angústia/' o que desse modo inconsciente- \ ,llst inção fundamental entre medo e angústia, que forne-
mente leva à compenetração dessas duas experiências, ainda 1,I plll't:lnto uma das chaves do presente livro, convém acres-
que os casos-limites permitam diferenciá-las ':ºm nitide_z. 111 ,11 1 sem pretender esgotar a questão, outras abordagens
Como o medo, a angústia é ambivalente. E pressentimento 1111ph1mcntares graças às quais a análise dos casos individuais
do insólito e espera da novidade; vertigem do nada e esperança 1111111 li 1•0111preender as atitudes coletivas. D esde 1958 a teoria
de plenitude. É ao mesmo tempo temor e desejo. Kierkegaard, 11 '' lh 11çílo",76 ultrapassando a psicanálise freudiana, colocou
Dostoiévski e Nietzsche colocaram-na no coração das reflexões Ili 11·1.IOncia que o laço entre o filho e a mãe não é o resultado
filosóficas. Para Kierkegaard, que publicou em 1844 súa obrn h 1111111 sntisfação ao mesmo tempo nutritiva e sexual, nem a
sobre o conceito. de angústia, ela é o símbolo do destino huma- 11111111q110ncia de uma dependência emocional do bebê em rela-
no, a expressão cl~ sua inquietação metafísica. Para nús, homens A11 11 111ílc. Essa "fixação" é anterior, primária. É também a
do século XX, el'a tornou-se a contrapartida da liberdade, a emo- 11 11111111r1is seg:1ra de uma tendência original e ~ermanente de
ção do possível. Pois liberar-se é abandonar a segurança, enfren- 1111~1111' n relaçao com outrem. A natureza social do homem
tar um risco. A angústia é então a característica da condição t1p ,111 11•0 desde então como um fato biológico, e é nesse subsolo
humana e o peculiar de um ser que se cria incessantemente. 111 11l1111do qne estariam mergulhadas as raízes de sua afetivida-
Reduzida ao plano psíquico, a angústia, fenômeno natural 1, 1111111 criança a quem terão faltado o amor materno e/ou
ao homem, motor de sua evolução, é positiva quando prevê lt1,11~ 1101·11rnis com o grupo de que faz parte corre o r isco de ser
ameaças que, por serem ainda imprecisas, nem por isso são l11111hq1111d:1e v ive rá, no fundo de si mesma, com um sentimento
menos reais. Estimula então a mobilização do ser. Mas uma jtt1il t111do de insegurança, não tendo podido realizar sua voca-

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ção de "ser de relação". Ora, observa G. Bouthoul, o sentimen- 111 11 futuro da humanidade, a despeito de algumas palavras
to d e insegurança - "o complexo de Dâmocles" - é causa de 1 ~111 11111çn expressas no final de Mnl-estnr 1111 civiliznçíio. Pois,
agressividade.11 • li 11,1 ,, lc funcla?1_e nta lmente, ou a agressividade não é repri-
Essa constatação oferece a oportumdade de uma nova pas- lhl11 • ,,111rlo se dmge para outros grupos ou pessoas externas
sagem do singular ao plural. As coletividades mal-amadas da ~ l llflll daí as guerras e as perseguições - ou então é repri-
história são comparáveis a crianças privadas de amor materno 111, 1111111 cm seu lugar aparece uma culpabilidade desastrosa
e, de qualquer modo, situadas em falso na sociedade; desse 111 11•1 Indivíduos. Essa concepção é muitas vezes considerada
modo, tornam-se as classes perigosas. A prazo mais ou menos li 1h ~\'lo do pensamen_to de Freud, e muitos psicólogos jamais
longo, é, portanto, uma atitude suicida ela parte ele um grupo 1 ll,11 ,1111. Mas, segnmdo um outro caminho, K. Lorenz e
dominante encurralar uma categoria ele dominados no descon- 1 111~1 íp1'.l~s t:un?ém foram levados a propor a existência de
forto material e psíquico. Recusar amor e "relação" só pode 1111 1ll(ll'~s1v1dacle mata em todo o reino animaU8 Para eles
engendrar medo e ódio. Os vagabundos do Antig~ ~egime, que 1 h 11111 instinto de combate no cérebro, aí compreendid o ~
eram os "deslocados" rejeitados dos quadros soc1a1s, provoca- lt11111t1111, que assegura o progresso das espécies e a vitória dos
ram em 1789 o "Grande Medo" dos proprietários, mesmo 1 1111 ll'S sobre os mais fracos. Tal instinto daria conta do
modestos, e, por consequência inesperada, a ruína dos pri_vilé- 11/i /m· lifc darwiniano; seria necessário a essas "grandes
gios jurídicos sobre os q uais estava fundada a ~onarquia. A llfh 111111·1111''. do mun~o_vivo que são a seleção e a mutação.
política do apartheid, cujo próprio nome expn~1e a r 7:l~s:i 1 111 1111111 ido contrario, W Reich, distinguindo a agressivi-
consciente e sistemática do amor e da "relação", cnou na Afnca 1 r1111111•11 I e espontânea a serviço da vida daquela produzida
do Sul verdadeiros paióis cuja explosão corre o risco de se r 1 11111,l~õcs - essencialmente sexuais-, negou a existência
terrível. E o drama palestino não reside no fato ele que cada um 11111 lll'llllltO destrutivo primário e transferiu todo o tânatos
dos dois parceiros quer excluir o outro ele uma terra e ele lllll Ili 11•IHl'l'SSividacle por inibição.1'' Mais amplamente,]. Dollard
enraizamento que são comuns a ambos? 11, 111lnhnrndor~s procuraram mostrar que toda agressivicla-
A partir daí se verifica no plano coletivo o que é evidente no 111•11111·11 sua o rigem em uma frustração: seria um meio para
plano individual: a saber, o elo entre 1~1ecl~ e angústia de un~ 11•11111 os obstáculos que se opõem à satisfação de uma neces-
lado, e agressividade do outro. Mas o h1stonador encon9"a aq111 111 111111 l11tiv:1.~0 Nesse segundo tipo de hipótese, a agressivi-
uma imensa pergunta: as causas da violência humana são antro- 1 1111111111111 não seria um instinto como o apetite sexuaJ, a
pológicas ou soçiológicas? Frenei j,í tinha 59 an_o~ quand~, ~111 1 • ,1 ~,•ele; não resultaria de uma programação genética do
1915, escreveu pela primeira vez sobre a agre~s1v1clade, d1st111- 11111, 111ns ape~as de aquisições e aberrações corrigíveis. A
1
o-uindo-a da sexualidade. Apresentou em segmda (em 1920) sua 111 11~11 sucessao das guerras que escandiram a história
~eoria cio "instinto de morte" em Além do princípio do prnze1: 1\ llt!tlil p111·cce dar razão àqueles que c reem e m um instinto de
agressividade, que encontra em eros seu _etern_o a~tagonista, cr:, t lt I• 1111:ctanto, objetou-se a K. Lorenz que a agressividade
então descrita como um desvio da energia do rnsnnto de morte, 1~111 t•íl.ic:i _é, se não ausente, ao menos pouco freque tc
11
afastada do eu, contra o qual era inicialmente dirigida. Freud 1 11 ,1111ma1s. Os combates entre machos no momento do
redescobria :1ssim as antigas mitologias e metafísicas orient:ii~ 1111 fl' 111 posse ele um território raramente terminam com a
que situavam a luta entre o amor e o ódio nas_origens ~o ~rni 1lt d11 Vt•n~ido. E~sas violências moderadas têm por função
verso. Sua nova teoria só podia conduzi-lo a v isões pess1m1s1a, lu l1 • 1•1 h1cr:irqmas e a sobrevivência do grupo no meio.

36 37
Contudo, o ponto de vista de J. Dollard é sem dúvida, ele tam- 111' l'~N1i l'ia ao prosseguimento da atividade física e fornecem
bém, demasiadamente esquemático. Não seria melhor, com A. Ili 1 , 1l111tilnnte suplementar.
Storr e E. Fromm, distinguir entre a agressão como "pulsão I• •~1IN!!Vocações da fisiologia individual sem dúvida não são
motriz" para o domínio do meio, ao mesmo tempo desejável e 11111 ,~ pnrn c?mpreender os fenômenos coletivos. Como as
necessária à sobrevivência, e a agressão como "hostilidade 11~•111•~ sofndas pelos grupos poderiam deixar de provocar
destruidora"?s' Pois existem populações pacíficas (por exemplo, , 1lt111111do ao se.s?marem ou se repetirem com demasiada
os esquimós do Ártico central canadense) em que o espírito de li '" ldndc - . mobilizações de energia;i ' · E essas , deve m [ogica- ·
iniciativa, isto é, a agressividade em seu sentido positivo, não 1 11111 11 11cluz11:-se ou
. . por pânicos ' ou por i·evolta · s, ou, se nao -
toma o aspecto maligno de uma vontade de destruir. Ness,1 li 1,1111 cm •extenonzações imediatas , , pela 1·11st·1l - d
, açao e um
linha de investigação, as análises que encontraremos nos dois 1111111 11<' nns1edade, ou até de neurose, ele propno ' · capaz. d e
capítulos consagrados às sedições de outrora parecem prov,11' 111• l111•dc, levar . a explosões violentas ou a persegu1çoes . _ de
bem um elo entre destrutividade e frustrações, mas não só no 1 11 11•1 1•,p1atónos,
sentido sexual caro a vV. Reich. As inibições, as carências afeti- 11 ('[ jmo de "ma!-~star" no qual o Ocidente viveu da peste
vas, as repressões, os fracassos sofridos por um grupo acumu- 111''. 111'. g-~e.1:ras re!tg,osa~ p~de ainda ser apreendido graças a
lam nele cargas de rancor suscetíveis de explodir um dia, do 11111 ~ll 11til1zado pelos psiquiatras-pediatras, chamado Teste do
mesmo modo que no indivíduo o medo ou a angústia liberam e 1• ,/11 1111rdo e do • país da a/eurir,
.:i · Tratando - se do pnme1ro,• . 1evam
mobilizam no organismo forças inabituais. Essas se tornam , 11t111\'ll 11 .afmnar sua angústia - esse ter111o gera1 convem ,
então disponíveis para responder à agressão que assalta o sujei- Ili 1li 1111• nqu, cio que o de medo - com 'a aJ'uda d e frases e sob re-
to (salvo no caso de voltar-se contra ele por um traumatismo 11111 til' , desenhos
, que são reagrupados em quatro categ orrns. · .
acima de suas forças). li ~~1tu, rnsegurança, abandono e morte •sz Os snn , bo1os que
A fisiologia da reação de alarme mostra que, após a recepção
111 li11um e povoam • esse "país do medo" 5ao - ora d e carater ,
da perturbação emocional pelo sistema límbico e pela região
• Ili 1c•o (cataclismos),, ora tirados do bestiário (lobos, d 1.agoes, . -
hipocâmpica que desencadeiam os pisca-piscas de alerta, o hipo-
li 11l1111 occ), ora extra1dos do arsenal dos obJ.etos maléficos(. _
tálamo e o rinencéfalo, zonas de orientação em ligação com 11
11111 1mos de supl'1c10, . ataúdes, cemitérios), ora oriundos111S do
rodo o sistema nervoso e endócrino, lançam no corpo impulsos
111h ,11•~0 dos seres agressivos (torturadores , diabos, , e spectros) .
que devem permitir uma reação de defesa e de ataqué. A libe-
111 l'~llllt a r, mesmo que sucinta mente , esse teste , basta para
ração de adrenalina, a aceleração do coração, a redistribuiçfo

vascular em woveito dos músculos, a contração do baço, a vaso- 11111 11 ,1r que ele fornece, no plano coletivo, uma chave de leitu-
1 il11 purt urbada época aqui estudada ' (e sem d'uv1'da tam b,e1n d a
constriç:io esplâncnica põem em circulação maior número dt
llm•111 qu~, a esse respeito, lhe é comparável). Com efeit
vetores de oxigênio, que tornam possível um dispêndio físico
mais forte (fuga ou luta). A liberação de açúcar e de gordura no 1111111\1:afia, desd~ ª. é~oca do es tilo gótico flamboyant
1111111111 ismo, expnmm mcansavelmente e com deleite mórbido
a:;
sangue age no mesmo sentido, fornecendo um substrato energé-
tico imediatamente utilizável para o esforço. A essa primeir:1 " ~111111:ro comp_~nent~s da angústia identificados pelos testes
réplica, imediata e breve, segue-se uma segunda resposta, cons 1111 111! 1•110~, que altas se mspiraram nesse inquietante conjunto
tituída pela descarga de hormônios corticotrópicos. Estes, por· li 1:11ngcns (por exemplo, o TAT Tbemrttic Apperception Test). A
sua ação glicogenética, permitem assegurar a reposição energé li " ~Nilo, ao mesmo tempo temid·a' e saboreada · , r10tnece • o tema

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tanto de Dulle Griet (Margot, a furiosa) de Brueghel, quanto das 111lt lll1111IN 1 chamaram de "objetivação"? G . Delpierre escreve
múltiplas Tentações de santo Antão e das inúmeras cenas de n~á1_·- 1 1mipoito:
tires oferecidas aos olhos dos cristãos do tempo. A Idade Media
clássica não insistira tanto nos sofrimentos dos supliciados. Os 11111 1.. ,1 efeito cio medo é a objetivação. Por exemplo, no
mártires da fé apresentavam-se comumente sob um aspecto 1111•do dn violência, o homem, ao invés ele lançar-se à luta
triunfal. Além disso, os pequenos compartimentos dos vitrais 1111 111~'11' de.la, satisfaz-se olhando-a de fora. E ncontra pra-
onde seu fim trágico era contado mal podiam agir sobre as • 1 11111 escrever, ler, ouvir, contar histórias de batalhas.
imaginações. Mas em seguida o clima se deteriorou e o homem l\ •~l111c com certa paixão às corridas perigosas, às lutas ele
do Ocidente encontrou um estranho deleite em representar a 1111~1• , ~s touradas. O instinto combativo deslocou-se para
agonia vitoriosa dos torturados. A Legenda dur~a( os mistérios li 1thj~ll(),Hl

representados diante das multidões e a arte religiosa sob todas


as suas formas popularizaram com mil refinamentos o flagelo 1\11 hlt1wriador cabe operar a dupla transposição do singu-
e a agonia de Jesus - pensemos no Cristo esverdeado e c'.·ivado 111 ph1 rol e cio atual ao passado.
de feridas de Issenheim - , a degolação de são João Batista, o 1)11111110 no sentimento de insegurança, ele próprio parente
apedrejamento de santo Estêvão, a morte de ~ão Sebastião per- , 11111 1 de um temor do abandono, não é explicitado pelos inú-
furado de flechas e de são Lourenço quennado sobre urna l11• 111(•1,os Finais e evocações do inferno que obsedaram a
grelha.83 A pintura maneirista, à espreita dos espetáculos m_a~- •~~11111\%1 dos pintores, cios pregadores, dos teólogos e dos
sãos, transmite aos artistas contemporâneos da Reforma catolt- 11111 •, til• 11rtes 111.oriendi? Não foi por temer a rejeição nas cha-
ca esse gosto pelo sangue e pelas imagens violentas herdado da 1
1 11 1nns que Lutero se refugiou na doutrina da justificação

idade gótica agonizante. Sem dúvida, jamais foram pintadas nas ltt 11 PMns OS temas ela agressão, ela insegurança e cio abandono
igrejas tantas cenas de martírios, não menos obsedantes pelo 111 11111' rnrol:í rio inevitável o da morte. Ora, a obsessão desta
formato da imagem quanto pelo luxo dos detalhes, como entn: 1 11 1111lprcsente nas imagens e nas palavras dos europeus no
1400 e 1650. Os fiéis só tiveram o embaraço da escolha: apre- Ili ~ •1 dn lcl:icle Moderna: nas danças macabras assim como em
sentavam-lhes santa Ágata com os seios cortados, santa Martinc f 11111/il dtt 111orte, de Brueghel, nos Ensaios, ele Montaigne, como
com o rosto ensanguentado por unhas de ferro, são Liévin com li ,ti 111 ele Shakespeare, nos poemas ele Ronsard assim como
a língua arrancada e lançada aos cães, são Bartolomeu_esfol~do, fll 111•1•ssos de feitiçaria: umas tantas iluminações sobre uma
são Vital enten;ado vivo, santo Erasmo com os mtestmos IN1h l 111 l'Olctiva e sobre uma civilização que se sentiu frágil,
desenrolados. Todas essas representações não exprimem con- 1111,11110 uma tradição demasiadamente simplista por muito
juntamente u~ discurso homogêneo que afirma ao _mesmo 111111 1 ltlll'VC apenas os sucessos da Renascença.
tempo a violência sofrida por uma civilização e a v~nganç:1
sonhada? E , além disso, não constituem no plano coletivo rnm
verificação daquilo que os psiquiatras, estudando os medos l 111f( llldade por quê? A reviravolta da conjuntura que se
11111 ,111 1111 Europa no século XIV é agora bem conhecida: a
• Jacopo de Varczze, Legenda ríurea. São Paulo: Companhia das Letr'1s, li li11, llllt:io uma reaparição estrondosa - seguida ele uma
2003. (N. E.) li 11 h 1111•11 presença - ao mesmo tempo em que se delineia um

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lador ver com que insistência livros piedosos e sermões comba- 1tll l h 11l111•cs, a situações neuróticas. iVIas, como se corria O risco
teram entre os cristãos a tentação do desencorajamento nas l 11111111111gústia culpada instalar-se em almas demasiadamente
proximidades da morte: prova de que essa vertigem do desespe- 11 11p11losns, moralistas e confessores procuraram desviá-las
ro realmente existiu numa escala bastante ampla e de que mm- 111 lt 111111•-10 . - obsessão do passado e fonte de desespero - para
ta gente experimentou um sentimento de impotência face a um 111,1111111cl1mento, que abre para o futuro. Por outro lado
inimigo tão temível quanto Satã. Ili 1111111 li 1~opt1lação inteira de uma cidade, por ocasião de l..llll~
Mas, precisamente, os homens de Igreja apontaram e des- I• , 1wd 1n graças no decorrer de uma procissão expiatória,
mascararam esse adversário dos homens. Levantaram o inven- li 11111111v11 nessa solicitação razões de esperança para este
tário dos males que ele é capaz de provocar e a lista de seus 111111111 ,, pnrn o outro. Ter medo de si era, afinal, ter medo de
agentes: os turcos, os judeus, os heréticos, as mulheres_ (e~pe- 1~ 111 11, Sntfi é menos forte que Deus. Assim, os conselheiros
cialmente as feiticeiras). Partiram à procura do Ant1cnsto, 1111 li 1111i~ do Ocidente, empregando uma pedagogia de c-ho-
anunciaram o Juízo Final, prova certamente terrível, mas que 1 1 1l1tt\'llrn~11-se em substituir por medos teológicos a pesada
seria ao mesmo tempo o fim do mal sobre a terra. Uma ameaça 11~1 lu 1•olcc1va resultante de estresses acumulados. Operaram
global de morte viu-se assim segmentada em medos, segura- 11 t t I l.11,111111 entre os perigos e assinalaram as ameaças essen-
mente temíveis, m as "nomeados" e explicados, porque reflet i• 1 , 111111 \.', nquelas que lhes pareceram tais, levados em conta
dos e aclarados pelos homens de Igreja. Essa enunciação desig- 111111111\'1{0 religiosa e seu poder na sociedade.
nava perigos e adversários contra os quais o combate era, se não 1 ,,11 11•11são num combate incessante contra o inimigo do
fác il, ao menos possível, com a ajuda da graça de Deus. O dis- 1 111 111111~11110 era tudo menos serenidade, e o inventário dos
curso eclesiástico reduzido ao essencial foi com efeito este: os 111 ~111111dos pela Igreja e que ela tentou compartilhar com
lobos, o mar e as estrelas, as pestes, as penúrias e as guerras são t•11p11ht\10cs, colocando-os no lugar de temores mais visce-
menos temíveis do que o demônio e o pecado, e a morte do (11111111 t:111 evidência dois fatos essenciais não suficiente-
corpo menos do que a da alma. Desmascarar Satã e seus agentes 1111 11ltN111·v~dos. E ~_primeiro lugar, uma intrusão maciça da
e lutar contra o pecado era, além disso, diminuir sobre a terra 1111 hl 1111 v1d:1 _c ~t1diana da civilização ocidental (na época
a dose de infortúnios de que são a verdadeira causa. Ess:1 h ,, , 11111 l11vnd1ra tanto os testamentos de modestos artesãos
denúncia se pretendia, pois, liberação, a despeito - ou melhor 111 11 li II hn Iite ratura, inesgotiivel no tema da graça); em
por causa - de todas as ameaças que fazia pesar sobre os ini- 11hh1 , 11t•l' li c nltura da Renascença sentiu-se mais frágil do
migos de Deus desentocados de seus esconderijos. Num:, 111 htlll{t' é l~0r te_r _final e brilhantemente triunfado, hoje a
atmosfera obsidional, a Inquisição apresentou tal denúnci:1 llhllllllN, A 1dent1ficação dos dois níveis de medo cond112
como salvação,~ orientou suas temíveis investigações para d11:1s Ili ,, 1t~111•nt:1r face a face duas culturas das quais cada urna
grandes direções: de um lado, para bodes expiatórios que todo 1\ li ,1 ti 0111 rn e nos explica o vigor com que não só a Igreja,
mundo conhecia, ao menos de nome - heréticos, feiticeiras, 11111l111111 o Est~do (estreitamente ligado a ela) reagiram,
turcos, judeus etc. - ; de outro, para cada um dos cristãos, 1111 11111 111 de pen go, contra o que pareceu à elite uma amea-
atuando Satã, com efeito, sobre os dois quadros, e podendo i 111111 por uma civilização rural e pagã, qualificada de
todo homem, se não tomar cuidado, tornar-se um agente do llh I I•111 suma, a distinção entre os dois planos de temor
demônio. Daí a necessidade de certo medo de si mesmo. Esst• li ,,
11 nos 111~1 instrumento metodológico essencial para
convite autoritário à introspecção não deixou de levar, em casos 11 li 1111 lntén or de uma mentalidade obsidional que mar-

44 45
cou a história europeia no começo da Idade Moderna, mas que \f'h ~ lllc . teria~ ,ªq~ii impedido de ver os conjuntos e teriam
cortes cronológicos artificiais e o sedutor termo Renascença por l111 1111d o, ,1rrea l1zaveis
. as aproximaço-es
· das. quais . surgHa,
. . , espe-
muito tempo ocultaram. 111, 11 111.:1nc de minha ,, proposta
· · "O m e'todo e, precisamente . a
No entanto, existe o perigo de cair no excesso inverso e 1 - • li li Ili dos- fa tos , escrevia H · Poincare ' ·81 E ' portanto pe a 1
tornar-se prisioneiro de u m tema e de uma ótica que enegrece- 1111111 llf{tlnçao
, ,A
progressiva resultante de numerosas 1e1turas,

.
riam para além do verossímil a realidade de outrora. D aí um 111 111 onvcr~encia dos documentos e por seu emprego ao d
terceiro momento em nossa caminhada: aquele que nos fad th 1111111 realização sinfônica que me esco i , rçare1 em . d emonstraro
mo
descobrir os caminhos utilizados por nossos ancestrais para 111111 1Ili tese. Confessemos contudo - h onest1
• A • ,
"da de e1ementar
sair do país do medo. A essas sendas salutares, daremos três 11111111•011f1
\ dencta necessária - , que por tra's desse p1ano e d es-'
nomes: esquecimentos, remédios e audácias. Dos paraísos aos 1111 todo desenham-se em filigrana' uma f1"1osof·ia d a h 1stona, º , .
fervores místicos, passando pela proteção dos anjos da guarcb 1111111 Inposta sobre O futuro humano , e .
espec1a 1mente a convic- .
e pela de são José, "patrono da boa morte", percorreremos ao ft11 • ,. qu~ os séculos não se repetem, de que existe uma ines-
fi nal um universo tranquilizador onde o homem se libera do
medo e se abre para a alegria.
11111il\1111 1e Irreversível
r - criatividade humana e de q
' h
ue a umam-
..
11 ,. 111o e ispoe de modelos prontos entre os quais escolher
Desse projeto, enunciado aqui em sua totalidade, o presente jllllldo , . osd tempos . e os. lugares. Creio, ao con t rano, , . que no
livro traz apenas u ma realização parcial. O medo de si e a saídn 1 • , 11 te, e sua pereo-rmação terrestre ela ,
º. , e constantemente
do país do medo terão lugar em um segundo volume em proces- 11t111111<1.11 n mudar de direção, a corrigir sua rota, a mventar . seu
so de redação. Mas me pareceu necessário, nessa introdução 11111111111'10 em função dos obstáculos encontrad .
geral, dar a conhecer também as etapas posteriores de meu iti- · 1 os - muitas
, ~ i•nnc os por ela mesma. O que se tentou traçar aqui em
nenírio para dele oferecer ao leitor uma visão panorâmica e
1111 l'Spaço e dur~nte certo tempo, é essa recusa do dese~co-
coerente. Desde já o editor julgou necessário oferecer ao público
flll,ttt wnto graças a qual uma civilização foi para a frente -
os resultados disponíveis desse inventário explicativo dos medos
1A11 ~11m cometer seguramente crimes odiosos - analisando
de outrora. Cedendo a suas solicitações, reagrupei então os ele- li\ 1111.:dos e superando-os.
mentos de minha investigação, no ponto de andamento em que
\o reconhecimento de uma filosofia subjacente é preciso
se encontra hoje, em dois conjuntos: a) "Os medos da maioria";
11 ~1•0 1\ta~· uma conf!ssão pessoal, motivada não por uma vã
b) "A cultura dirigente e o medo" - que correspondem aós dois
níveis de investigação definidos anteriormente. O subtítulo do 11, ,1111p11çao de ~utob10grafia mas pelo desejo de melhor fazer
volume, "Uma cidade sitiada", refere-se mais especialmente :1<1 ""I" ccnder mmha proposta · "Na-o , h,a nen h uma busca"
segundo desses 1:lois níveis, sendo verdade que, para chegar :1 , , ,,v1• A. B_esançon, "que não seja busca de si mesmo e e~
1~11111 /(l'au,
~ · introspecção."ss
1 • Essa fórmula apl 1ca · - se p,1rt1cu
. . '1ar- .
este, foi preciso inicialmente explorar o primeiro.
li 111 1' ,, 111. 111 rn mvestigação sobre o n1edo • E u tm . h a dez anos
A síntese tentada nesta obra e na que se seguirá só podia
ser realizada por meio de uma historiografia de tipo qualitati 1111111 110,ce de março, um farmacêutico amigo de meus pai~
vo. Essa escolha consciente e esse risco calculado não compor- 111 1onversar, em casa: conversa calma e alegre n a qua . l ev1-.
tam - é preciso destacá-lo? - nenhum desprezo e nenhuma 11111 111unte
11 . . so presto uma atenção
. , . distra1'da , oc d
upan o-me
crítica dos métodos quantitativos que eu próprio utifo.ci 111 li ncat a alguma d1stanc1a do círculo dos a d u lt os. N- ao
amplamente em outras obras."'' .Mas intermináveis quant ifica t l,t 1•1111scrvado nenhuma lembrança dess·a cena bana1 se, na

46 47
()111111do meus lábios pronunciarem pela última vez vosso adorá-
manhã do dia seguinte, não tivessem vindo anunciar a meu
fl Nt11111•,
pai o falecimento súbito do farmacêutico, que não era um 1J1isericordioso Jesus, tende piedade de 111im.
velho. Sua mulher, ao acordar, encontrara-o morto ao lado
dela. Senti um verdadeiro choque, enquanto o desapareci- U111111do 11~e1~ rosto, empalidecido e vincado pelo sofrimento, pro-
mento, alguns meses antes, de minha avó paterna, que morre- ,, ,11 11 1:01/1,patxao,e os suores de minha fronte fizerem preve1· 71te11s
ra aos 89 anos, não me perturbara. Foi para mim a verdadeir:1
tl/1111111,1' 111stantes,
descoberta da morte e de seu poder soberano. A evidência se misericordioso Jesus, tende piedade de rnim.
impunha: ela atinge pessoas com boa saúde e de qualquer
idade. Senti-me frágil, ameaçado; um medo visceral. instalou- ()1111,ulo meus ouvidos, doravante insensíveis às palavras buma-
-se em mim. Fiquei doente por mais de três meses, durante os ""'• /1111Jllmn-e1~H': par~ escutar vossa sentença de Divino ]uiz,
quais fui incapaz de ir à escola. 11usericordioso Jesus, tende piedade de mim.
Dois anos mais tarde vou para um colégio interno mantido
pelos salesianos. Na manhã da "primeira sexta-feira do mês'' fJ111111do ~nin~a imaginação, agitada por sombrias visões, mergu-
que passo nesse estabel.ecimento, participo com meus colcgns 11,,,, fllt' 1111 1~1qmetação; quando meu espírito, perturbado pela /em-
do exercício religioso que se consagra ali regularmente às 1111111 tlt· mmb11s faltas e pelo temor de vossa Justiça, lutar contra
"litanias da boa morte". A cada uma das inquietantes sequên- 111,1, 1/llt' quererá fazer-me duvidar de vossa infinita bondade
cias, respondemos "misericordioso Jesus, tende piedade ck misericordioso Jesus, tende piedade de mim. '
mim". Esse texto, proposto a crianças de doze anos e que lhes
era lido a cada mês, me foi recuperado, nestes últimos tempos, IJ111111domeu coração esgotado pelo sofrimentofísico e 1110ml conhecer
89
por um religioso salesiano em uma ediçãode 1962. Creio J'dl1111" dr,
morte que muitas vezes rts almas mais srmtas conbecerrmz
necessário reproduzi-lo in extenso, acrescentando que era segui- misericordioso Jesus, tende piedade de mim. '
do de um pai-nosso e de uma ave-maria "por aquele de nós que
morrer primeiro": t)11,111tlo eu ~erramar minhas últimas lágrimas, recebei-as em
'1/11 Ili th- expwção por todas as faltas de minha vida, unidas às
Senbor Jesus, Coração pleno de 'fllisericórdia, apresento~nu !Jll- 'l//11/1' q11e vós haveis derrmnado na cruz
'flf.ildemente diante de vós, lmnentmzdo meus pecados. Venbo recomeu- misericordioso Jesus, tende pied~de de mim.
dar-vos minha b8r,a derradeira e o que deve segui-Ia.
~ l)111111do meus parentes. e meus amigos, reunidos em torno de
Quando meus pés imóveis indicarem que minha estrada 11es1c ,, 11/,wçrwe~n-s_e em_aliviar-me e vos invocarem por mim,
mundo está prestes a terminar, m1sencord1oso Je.ms, tende piedade de mim.
11tisericordioso Jesus, tende piedade de mim.
1)1111111I~eu tiver perdido o uso de todos os meus sentidos, e o mun-
Quando minhas mãos desfalecentes jti não tiverem nem mesmo 11 1,11, /111 11vc1· desaparecido para mim, e eu estiver sob o risco da
força de estreitar o crucifixo bem-amado,
,,,,,,
misericordioso Jesus, tende piedade de mim. misericordioso J esus, tende piedade de mim.
49
48
Quando minha alma deixar meu c01po, aceitai minha morte h1 1111111 última e decisiva ilustração. Para melhor atingir o cris-
como o supremo testemunho prestado ao vosso Amor salvadoi; que por in11 1• 1.10nduzi-lo mais seguramente à penitência, a ele se fazia
mim quis sofrer essa dolorosa ruptum, 1h1~ dcl'l'ndeiros momentos do homem uma descrição que não é
misericoi-clioso Jesus, tende piedade de mim. hll \ llNllrncnte exata. Pois existem finais serenos, embora a mor-
l11d1•1 t'Stcja sempre presente nessas evocações demasiadamente
Enfim, quando eu apnrecer diante de vós e vir pela primeira vez 11lill ll•ns. Mas me impressiona mais ainda a vontade pedagógi-
o esplendor de vossa Nlajestade e de vossa Doçura, não me rejeitais da 1 d11 ruforçar no espírito dos recitantes o necessário medo do

frente de vossa Face: diy;nai unir-me a vós para sempre, pttra que e11 f11l11,1111cnto por meio de obsedantes imagens de agonia.
Por mais traumatizante e por mais obscuro que fosse, esse
cante eter11t11nente vossos louvores,
misericordioso Jesus, tende piedade de mim. ll-1111•~0 religioso sobre a morte que ouvi regularmente todo
111111 d11r:lnte dois anos escolares (portanto, para mim, dos doze
111 1ntorzc anos) revelou-me uma mensagem que aclara um
Oração: Ó Deus nosso Pai, vós nos haveis providencialmente owl-
tttdo o dia e a bom de nossa morte, para convidar-nos n estar sempre 1111111111111:1 histórico muito amplo: para a Igreja, o sofrimento e
prontos. Concedei-me morrer amando-vos, e pam isso, viver mda di11 111lq11 il11ç:'ío (provisória) do corpo são menos temíveis do que
em estado de graça, tt qualquer preço! Eu vô-lo peço por Nosso Senhor 1111, 111111 e o inferno. O homem nada pode contra a morte, mas
Jesus Cristo vosso Filho e meu Sfllvfldo,: 111111 n njuda de Deus - lhe é possível evitar as penas eternas.
Amém. I"'' 1li' dní, um medo - teológico - substituía um outro que
1 1 ,11111•rior, visceral e espontâneo: medicação heroica, medica-
Aconteceu-me várias vezes fazer a leitura dessas litanias ;1 " ,,~~lrll mesmo, já que proporcionava uma saída ali onde não
estudantes de uns vinte anos, que ficaram aturdidos: prova de hl\ Ili ~1111ílo o vazio. Tal foi a lição que os religiosos encarrega-
uma mudança rápida e profunda de mentalidades de uma gera- 111 d,, minha educação se esforçaram em me ensinar, e que
ção para outra. Tendo subitamente envelhecido, após long;1 1111111 ,, n chave de meu livro.
atualidade, essa prece por uma boa morte tornou-se documen- P11l11 no construir o plano da obra e ordenar seus materiais,
to histórico na medida em que reflete uma longa tradição de , ,, •m rpresa de constatar que recomeçava, com quarenta
pedagogia religiosa. De resto, não era senão uma repro<luçi"ío 1111~ dt• distância, o itinerário psicológico de minha infância e
dialogada de uma meditação sobre a morte escrita p<H· ~lo,_n 11, p1111•nrria novamente, sob o pretexto de uma investigação
Bosco em uma obra destinada às crianças de suas escolas e mtr- 1 1111 hlf{l'tlfica, as etapas de meu medo da morte. A caminhada
tulada O jovem instruído. Por trás dessas litanias dramáticas, 1,1 11hrn em dois volumes retomará sob a forma de trans-
adivinham-se q Dies irne, inúmeras Artes 111orie11di e outro~ l~ 1h1 111c11 caminho pessoal: meus pavores primeiros, meus
Pensai bem nisso e toda uma iconografia onde se avizinharam, ao llh 1 1~1•11fê>rços para habituar-me ao medo, minhas meditações
longo dos séculos, danças macabras, Juízos Finais, comunhões 11l11lt1,i1•cnce sobre os fins últimos e, como final, uma pacien-
aos agonizantes (por exemplo, a de são José Calasanza, dl.' 11111111 dn serenidade e da aceitação.
Goya)9º e torrentes de imagens piedosas distribuídas durante;'.~
missões. Culpabilização e pastoral do medo - sobre as quais
insistirei no segundo volume e que tanto contaram na história \ p11l~111ica despertada por meu livro anterior, Le christi11-
ocidental - encontram nos textos salesianos que acabamos di.: ' 1111 til 111ourir?, leva-me a fornecer um esclarecimento

50
que deveria ser inútil, mas que não é. A "cidade sitiada" de que
vai se tratar é sobretudo a Igreja dos séculos XIV-XVII - mas a
Igreja como poder. Daí a necessidade de voltar às "duas leitu-
ras" historiográficas propostas na obra vilipendiada por alguns.
O terna que estudo nas páginas que se seguem pouco remete ~
caridade, à piedade e à beleza cristãs, que também existiram
apesar do medo. Mas por isso era preciso, mais urna vez, fazer
silêncio sobre este? É hora de os cristãos deixarem de ter medo
da história.

1>rimeira Parte
<>S MEDOS DA l\!lAIORIA

52
1t I lthulc de Ys ou a dos órgãos submersos de Wenduine que as
1. ONIPRESENÇA DO MEDO ,1 • •o\o o uvidos tocando o Dies irne - evocaram por m uito
1 111p11 ~cus avanços fu riosos.1 Elemento hostil, o mar é orlado
1 11•1•1fcs inumanos ou de pântanos insalubres e lança, nas
f 1411\1•~ costeiras, um vento que impede as cnlturas. .Mas é
_,11tl111~•ntc perigoso quando jaz imóvel sem que o menor sopro
11111l11lc. Um mar calmo, "espesso como um pântano", pode
1. "MAR VARIÁVEL ONDE TODO TEMOR ABUNDA"
l~111t11·11r a morte para os marinheiros bloqueados ao largo,
(MAROT, Co111pftlinte 1" ) 11111111N de "fome voraz" e de "sede ardente". Por muito tempo
Na Europa do começo da Idade Moderna, o medo, camufla- 1111·11110 desvalorizou o homem , que se sentia pequeno e fnígi l
do ou manifesto, esd presente em toda parte. Assim é em toda dl111111 1 clclc e sobre ele - razão pela qual os homens do mar
civilização mal armada tecnicamente para responder às múltipbs 1111 1 mnparáveis aos montanheses e aos homens do deserto.
agressões de um meio ameaçador. Nlas, no universo de outrora, 1 11111w, nté período recente, as ondas causavam medo a todos e
h,í um espaço onde o historiador está certo de encontrá-lo se1~1 111 l11lmunte às pessoas do campo, que se esforçavam em não
nenhuma falsa aparência. Esse espaço é o mar. Para alguns, mui- ~ 1111 11 11rnr quando o acaso as levava para perto dele. Após a
to audazes - os descobridores da Renascença e seus epígonos - , Ili 11 11 f(l'CCO- turca de 1920-2, camponeses expulsos da Ásia

0 mar foi provocação. Mas, para a maioria, ele permaneceu por


1 11111 lornm reinstalados na península de Súnio. Construíram
muito tempo dissuasão e, por excelência, o lugar do medo. Da 111~ , 11~11s com muro cego do lado do mar. Por causa do vento?
Antiguidade ao século XIX, c..la Bretanh~ à Rússia, são legiã? os h,, Mais ainda, sem dúvida, para não ver o dia inteiro a
provérbios que aconselham a não se arriscar no mar. Os latino~ 11~1t11uc ameaça das ondas.
diziam: "Louvai o mar, mas conservai-vos na margem". Um
ditado russo aconselha: "Louva o mar, sentado no aquecedor".
Erasmo faz dizer a um personagem do colóquio Nnufmgi11111: Nu lin:1 1 da Idade Média, o homem do Ocidente continua
"Que loucura confiar-se ao mar!". Mesmo na marítima Holand:1 11111110 contra o m ar não apenas pela sabedoria dos provér-
corria a sentença: "Mais vale estar na charneca com u~a velh:1 1 , 11111~ rnmbém por duas advertências paralelas: uma expres-
carroça do que no mar num navio novo". 1 Reflexo de defesa d1.: 11111111isc11rso poético, a outra pelos relatos de viagens, espe-
uma civilização .essencialmente terrestre confirmada pela expe- 11111 llll' os dos peregrinos a Jerusalém. D esde Homer o e
riência daqueles• que, apesar de tudo, arriscavam-se longe da, 1t11rll11 nté a Fnmcinde e Os lusíndns, não há nenhuma epopeia.
margens. A fó~mu la de Sancho Pança: "Se queres aprender :1 11 111111pcstade, esta figurando também com destaque nos
rezar, vai para o mar", encontra-se com múltiplas variantes dl' l1J.1ll1 1•~ medievais (Brut, Rou, Tristão etc.) e separando no
uma ponta a outra da Europa, por vezes nuançada de humor, !11111111110111ento Isolda de seu bem-amado.4
como na Dinamarca, o nde se precisava: "Quem não sabe rezar
deve ir para o mar; e quem não sabe dormir deve ir à ig reja".: 1 ,i~l l' 11111 tema mais banal [notava G. Bachelard] do que o
Incontáveis são os males trazidos pela imensidão líquida: :1 ,l,111'1lurn do oceano? Um mar calmo é tomado de súbita sa-
peste negra, está claro, mas também as invasões normandas l' 11h11 U1·ra e ruge. Recebe todas as metáforas ela fúria, todos
sarracenas, e mais tarde as incursões dos berberes. Lendas - :1 " •l111holos animais do furor e da raiva f...]. É que a psico-

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11 111 1494, o cônego milanês Casola também empreende a
logia da cólera é no fundo uma das mais ricas e das mais
l,11411111 dn Terra Santa e encontra a tempestade, na ida e na
nuançadas [...). A quantidade de estados psicológicos a pro-
11h 11 A 11i ltima estrondeia ao largo de Zante. O vento sopra de
jetar é bem maior na cólera do que no amor. As metáforas
t111l11H ON lndos, e os marinheiros, tendo ferrado as velas, não
do mar tranquilo e bom serão portanto menos numerosas
1t11h1111 f'n'l.cr nada além de esperar. "Na noite seguinte", relata
do que as do mar bravio.5
l •-•11111 "o mar estava tão agitado que todos tinham abando-
1111111 11 c~pcrança de_ sobreviver; repito, todos."º Então, quan-
Contudo, a tempestade não é apenas tema literário e imagem
111 11 1111v10 chega afmal ao porto, ninguém fica vagueando a
das violências humanas. É também e em primeiro lugar a expe-
111111!1, "Quando um homem", escreve o irmão Félix Fabri,
riência relatada por todas as crônicas da navegação para a Terra
q111 1111 no Oriente em 1480, "suportou a tempestade por
Santa. Em 1216, quando o bispo Jacques de Vitry segue par:1
., 111~ ill11s seguidos, definhou por falta de alimento e chega a
Saint-Jean-d"Acre, os ventos e as correntes da costa da Sardenha
Ili li11111 porto, arriscaria de preferência cinco saltos (da
dirigem um navio na direção daquele no qual ele se encontra. O
choque parece inevitável. Todo mundo grita, confessa-se às pres-
h 111 j llll'!l um barco que o conduzirá à terra] a permanecer a
u,h,,'•111
sas com muitas lágrimas de arrependimento. Mas "Deus teve
1 l111rntura de ficção e crônicas apresentam a mesma visão
piedade de nossa aflição".6 Em 1254, Luís IX volta da Síria par:1 a
h 11•111 ipnda da tempestade no mar. Ela se levanta de modo
França com a rainha,Joinville e os que se salvaram da VII cruz.a-
111 ,11 t• <"ni de repente. Vem acompanhada de trevas: "O céu
da. O furacão surpreende os viajantes diante de Chipre. O.~
11,111111o nr denso". Os ventos sopram em todos os sentidos.
ventos são "tão fortes e tão horríveis", o perigo de naufrágio tiio
" lll'tHlciam-se raios e trovões. "O céu", conta Rabelais no
evidente que a rainha implora a são Nicolau e lhe promete um:1
,o I IIIJ/'1' (cap. xvm), "[começou a] trovejar do alto, fulmi-
nave de prata de cinco marcos." É logo atendida. "São Nicolau", 7 1, 111 llhnr, chover, granizar; o ar a perder sua transparência,
diz, ela, "nos protegeu desse perigo, pois o vento enfraqueceu."
111o11 ~t• opaco, tenebroso e escurecido, sem que outra luz

Em 1395, o barão de Anglure volta de Jerusalém. É aind:1 1p1t1'1lccsse que não a dos raios, clarões e refrações das
111111111•s nuvens."
perto das costas de Chipre que "subitamente" ~e ergue um:l
1 111 Os lusíadas, Camões faz Vasco da Gama dizer:
"grande e horrível desgraça" que dura quatro d tas. E na ver
dade não havia ninguém que tivesse outro semblante a nfo
ser o daquele que bem vê que deve morrer[...]. E sabei qu~ [...] Contarte longamente as perigosas
ouvimos jtirar muitos, que por muitas vezes haviam esrndu Cousas do mar, que os homens não entendem,
em muitas e diversas desgraças no mar, sobre a danação tk Súbitas trovoadas tenebrosas,
suas almas, que jamais em nenhuma desgraça que tivcssc111 Relampados que o ar em fogo acendem:
tido não t iveram tão grande pavor de estar perdidos como Negros chuveiros, noites tenebrosas,
llmmidos de trovões que o mundo fendem,
dessa vez.8 Não menos te trabalho, que grande erro
Ainda que tivesse a voz de ferro. 11
• Anógo peso de oito onças de Paris (244,5 g) que servia para pesar mci.,I,
preciosos. (N. T.)
57
<;r,
11110 XVI, ,1 lição que muitos tiram das viagens transoceânicas
Instantaneidade, borrascas turbilhonantes, vagas imensas 11111 1 111\0 se pode correr piores perigos do que aqueles que se
que sobem do "abismo", temporal e escuridão: tais são, para os 11111 1111 11111 no mar. Lê-se em uma Histoire de plusieurs voyages
viajantes de outrora, as constantes da tempestade que muitas 1 • llf/1/'fl!IX publicada em 1600 em Rouen, portanto num porto,
vezes dura três dias - o tempo passado por Jonas no ventre d:1 11~ 111llcxões significativas:
baleia - e que nunca deixa de criar um perigo mortal. Assim,
até os marinheiros profissionais têm medo quando deixam o 11 c•u1•10 que entre os perigos que se encontram na passagem
porto. Como prova, esta canção ele marinheiros ingleses (final il1•~111 vicia humana, não há de modo nenhum tais, semelhan-
do século xrv ou começo do XV): 111~ tão frequentes e ordinários quanto aqueles que ad-
111.llll
i 11111 110s homens que frequentam a navegação do mar, tanto
A tripulaçiío pode rennnci11r a todos os prazeres
Que vai faz er vela para Saint-James; • 111111í 111ero e diversidade de qualidades como em violências
Pois para 111uitos homens é tt11l desgosto 1ll'nrosas, cruéis e inevitáveis, para eles comuns e diárias, e
1,1111 que não poderiam garantir por uma só hora do dia estar
Co1lleçar II fazer vela.
De foto, quer tenham se /m1çado ao mar 1111111imcro dos vivos[...) Todo homem de bom juízo, depois
Em Saudwich ou em T,,Vinchelsea, 11111• 1ivcr realizado sua viagem, reconhecerá que é um mi-
Em Bristol ou alhures, 1,1/\11' manifesto ter podido escapar de todos os perigos q ue
11
Sua coragem começa a fraquejm: 1 11prcscntaram em sua peregrinação; tanto mais que, a lém
d11 l\lll' diziam os antigos sobre aqueles que vão para o mar
Do mesmo modo, o Vasco da Gama de Camões declara na 111l11 li11·cm entre a vida e a morte senão a espessura de uma
véspera da grande partida de 1497: 1,1111111 de po nte que só tem três ou quatro dedos de travessia,
Depois de aparelhados desta sorte
h,I 1111110s outros acidentes que diariamente aí podem ocor-
11 1 q11t• seria coisa pavorosa àqueles que aí navegam querer
De quanto tal viagem pede e manda,
1911 11111 todos diante dos olhos quando querem empreender
Aparelhamos a alma para a 1/lOrte
Que sempre aos nautas ante os olhos anda.
11 11>1~ vingcns.14

Avalia-se melhor a partir daí o extraordinário sangue-frio \1111111 que as montanhas também despertem apreensão,
dos descobridores da Renascença, que precisaram lutar const,111 1 1111 cll'I, Shakespeare, senão "verrugas ao lado das vagas".
temente contra •o pavor das tripulações. As viagens desse templl lt11 Nino, po r seu lado, evoca "ondas tão altas que escon-
resultaram, ali;ís, em consequências contraditórias no que di·t 11 1 lrn\'1, C hega ndo perto do objetivo, Vasco da Gama é
respeito à navegação. De fato, os progressos da cartografia, do h 11111 1wlo furacão. "Vendo", conta Camões, "ora o mar até
cálculo para fixar a latitude, da construção naval e do bal i,.a ttl• 11111 nhcrto, ora com nova fúria ao céu subia."15 Ent ão,
menta das costas foram - negativamente - compensados \HH 111111 -•• prnpõc um caso exemplar de medo, ele é situado de
todos os aborrecimentos que decorreram do alongamento d:1·, 1 ti 111 111 no mar. Assim faz Rabelais no Quart livre. La
viagens: deterioração dos alimentos, escorbuto, doença dos cli 11, 11 111 1111do por sua vez uma tipologia do medroso,
mas exóticos, ciclones assustadores nas zonas tropicais e, p111· 1111111 ,1 11 um p rimeiro lugar com as aven turas da navega-
tanto, morbidez e mortalidade aumentadas. Ainda no final do
59
58
ção, depois - como segunda experiência apenas - com as d11 , \ 11111s de muitos santuários não estão cheios de promes-
guerra. 16 Para além da covardia pessoal de Panurgo, o dcsvan11 11uilh11mcs, das quais Erasmo acredita dever zombar no
que o toma diante dos elementos desencadeados pode ser idc11 1111111 Nt111jit1giu111?
tificado como um comportamento coletivo que se encon11 11 1 l'1111rn1p·uel, o irmão João e Epistémon conservaram o
facilmente nos relatos de viagens. Um comportamento marcn 111 li 10, confessam no entanto ter tido medo, e Pantagruel
do por duas dominantes: a nostalgia da terra, lugar de scgu 111,1, depois de Homero e Virgílio, que a pior das mortes é
rança em relação ao mar; e o apelo desordenado a santos pro 11~11lldo pelas ondas: "Digo que essa espécie de morte, por
tetores (mais do que a Deus). No auge da tempestade Panurgn ti IH1111 é [de se temer], ou nada é de se temer. Pois, como diz
exclama: 111111, ,·ois:i dolorosa, abominável e desnaturada é perecer
1111 '' (t•11p. XXI). Gonzalo experimenta uma repulsa análoga
Ó como três e quatro vezes felizes são aqueles que plant:1111 1l111(11111cnto: "Que a vontade cio alto seja feita, mas eu pre-
couves! [...] Quem quer que plante couves é por meu clec:n· l 1 111111·rcr de morte seca!".18 Se a mor te no mar é sentida
to declarado bem-aventurado [...) Ah! por mansão deífir,1 111 "ilt•~n:Hurada", é que o oceano foi por muito tempo visto
e senhorial, n ão h::í como a terra firme!" (cap. xvrn). M:w, 11111111 mundo marginal, situado fora da experiência corren-
adiante, volta uma variante do mesmo tema (só há pr:w.t•1 M,11~ l(Cralmente ainda, é que a água, naquilo que tem de
cm terra firme): "Quisesse à digna virtude de Deus - l.1 l\11, poderoso, incontrolável, profundo e tenebroso, foi
menta-se Panurgo - que à hora presente eu estivesse 1111 111111• milênios identificada como um antielemento, como a
quinta de Seuillé ou na casa de Innocent, o pasteleiro, 1111 1 11-110 do negativo e o lugar de toda perdição. "Todo um
fre nte da adega, em Chinon, sob pena de me colocar d1• 11h nossa alma n oturna", escrevia G. Bachelard, "explica-se
gibão para cozinhar os pasteizinhos (cap. xx). l I mito da morte concebida como uma partida sobre a
11
,~ ' • l)nf o Styx dos antigos, "triste rio de inferno" (Marot,

E m A tempestade, de Shakespeare, Gonzalo, no cora\·:111 pl111111e Ili), e a barca de Caronte, navio dos mortos tam-
do perigo, declara preferir ao oceano a terra mais ingrata: ''/\ 11 1011hccido pelas lendas célticas e pelas do Extremo
essa hora, daria bem mil jeiras de mar por um acre de tcrru 1 1111•, t\s águas profundas - mar, rio ou lago - eram con-
estéril: uma grande charneca, pinheiros queimados, qualq1H·1 1 11li1~ um abismo devorador sempre pronto a engolir os
coisa [...]". 11 m ( :01110 testemunho, entre mil outras provas, esta antiga
Os pedidos supc~rsticiosos do companheiro de Pantagrud, 1\ ln f'lnmenga atestada desde o século XIV:
apresentados ironiçamente por Rabelais, eram evidentemc1111'
habituais nessas espécies de apuros. Ele invoca "todos os bcn l•:m m dois filhos de rei,
ditos santos e santas em seu auxílio", garante "confessar-se c111 //111av111n-se tanto 11111 ao outro.'
tempo e lugar adequados", recita várias vezes o confiteo1; implo Níio podiam e11co11tmr-se,
ra ao irmão João que não blasfeme cm tal perigo, faz voto d1 1 1/ tÍfslta era muito profunda.
edificar uma capela a são Miguel ou a são Nicolau, ou a amho•,, Que foz e/{f? Acendeu três círios,
sugere "fazer um peregrino", isto é, sortear aquele que, c111 1i noite, qufl11do a luz do dia declinava:
nome de todos, irá a algum lugar santo agradecer ao céu c111 "Ob.' meu bem-amado, vem! Atmvessa {f 17(/do.'"
caso de desfecho fel iz (cap. XVIIJ- XXI) . Os relatos de "milagrt·," O que foz o filho do rei: era jovem.'

61
\111111 fogo, ar, mar, terra, todos os elementos em refratária
Foi o que viu uma velha feiticeira,
h1-1l1111 (cnp. x vm). Leonardo da Vinci, cujos estudos geoló-
Um ser tão maldoso.
• ,, 111ccnnicos o haviam levado a se interessar pela potêncja
Biri foi então apagar aquela luz
111111, deleitou-se em evocações assustadoras de dilúvio:
E aí ojovem herói se afogou [...]
A sequência da canção conta como a moça desespcr:1d11 1 1< )N l'ios cheios transbordam e submergem todas as terras
acabou por enganar a vigilância dos seus e se afogou vol1111l1I 11,i. 1•111'canias com seus habitantes. Poder-se-ia ver, assim
riamente. 20 O elemento líquido figura portanto aqui como 11 111111 ldos nos topos, toda a espécie de animais apavorados
inimigo da felicidade e da vida. ,l11111ésticos, na companhia dos homens e das mulheres
Polifemo, Cila, Circe, as Sereias, Leviatã, Lorelci: scn•- 11111• 1111 se refugiaram com seus filhos. Os campos submer-
ameaçadores que vivem na água ou à beira d'água. Seu objct ivn m 111ostravam ondas geralmente cobertas de mesas, de
comum era apanhar os humanos, devorá-los ou pelo m cnoN, Ili 11111\'~cs de camas, de barcos, e de todos os expedientes
como Circe, fazê-los perder sua identidade de homem. Ass1111 1 ll1,pl111dos pela necessidade e pelo medo da morte; estavam
para conjurar o mar é preciso sacrificar-lhe seres vivos ()Ili 11 111"11dos de homens e de mulheres com seus filhos, em
saciarão - talvez? - seu apetite monstruoso. Ex-votos napoll 1111 lt1 11 l11111entações e gemidos, cheios de pavor diante do
tanos do final do século Jl..'VI apresentam navios que lev.1111 1111 h11 ,li 110 que rolava as ,1guas em tempestade com cadáveres
proa uma pele de carneiro. Era um rito de conjuração do 111111 11111111111s. Tudo que podia flutuar estava coberto de animais
N o lançamento do navio, matava-se um carneiro branco, rc~ll 111 , 1~nN, reconciliados e agrupados em bandos amedronta-
va-se o barco com seu sangue e conservava-se sua pele n a di:111 111 li1hos, raposas, serpentes, criaturas de todo o tipo [...)
teira da embarcação. Dava-se assim uma vida ao mar para q111 h1 q11111\10s gemidos! [...] Quantos barcos virados, inteiros
11
ele fosse apaziguado e 11ão exigisse a dos marinheiro. No sél'll li'"" puclnços, sobre pessoas que se debatiam com gestos e
lo xvu, os marinheiros berberes praticavam uma variante dcs•H 11111 l11111n10s desolados, anúncio de urna horrível morteY
rito. Levavam carneiros a bordo. Quando a tempestade i1-r0111
pia, cortavam um deles vivo ao meio, depois lançavam mc1:11h 1111111 11oi1·e de junho de 1525, Dürer teve um pesadelo: via
do animal à direita do navio e a outra metade à esque rda. ~1 1il11 1111111110 chegar. Transcrevendo esse sonho angustiado
o mar não se acalmava, sacrificavam-se sucessivamentê v:í 1·111•
111 1 ,1q1111rcln, representou imensas nuvens neo-ras carreo-a-
animais. 22 º o
Os element~s desencadeados - tempestade ou dilúvio
1 1 li111·11l' nmeaçando a terra.HAo fazer isso, Dürer dava da
111h 11 11111 uma visão correntemente aceita em seu tempo
evocavam parl os homens de outrora o retorno ao caos pri111I
11, 1 ,,, 11 111cnte elaborada a partir dos textos apocalípticos
tivo. Deus, no segundo dia da criação, separara "as águas q111
1 , 11111/l que aumentava em r elação a eles o papel atr ibuí-
estão sob o firmamento das águas que estão acima do fi l'lllll
mento" (Gênesis 1:7). Se, com a permissão divina, está d:11111 111 11 1• ~ :lgua no desenrolar do grande cataclismo. Nas
1 1 I ltf11 do Anticristo publicadas no século X V e nas várias
elas transbordam novamente os limites que lhes haviam ~,d11
designados, o caos se reconstitui. A propósito da tempcst 11th , /1111/1, nparece de maneira estereotipada a lista dos
enfrentada por Pantagruel e seus companheiros, Rabelais c~l'II' 111,11~ nnunciadores do "advento de Nosso Senhor". O s
ve: "Crede que aquilo nos parecia ser o antigo caos, no q1111I 111 l11111lrns referem-se ao mar e à água dos rios:

63
f,7
1111 ~1• que feiticeiros e feiticeiras haviam enfeitiçado o
O primeiro dos ditos XV sinais que antecedem o ?i~ do g r_1111
de juízo geral será quando o mar se elevar XV cub1tos ac111111
h ,tlof,l'nndo um gato.19 Em todas as margens setentrio-
das mais altas montanhas do mundo. O II sinal será qu:rndl t 1 l 111111111, m.1s também no País Basco, recitou-se o conto
mar descer ao abismo, concavidade e profundeza da tcr1'll1 h , 11tK11ll" altas como torres e brancas como neve - na
0 1
tão baixo que mal se poderá vê-lo. O III sinal será que os 1~1 1
11h , 1tt1~ mulheres de marinheiros que se tornaram feiti-
-• 11·1111s formaram em vagas para vingar-se de seus
xes e monstros do mar aparecerão sobre o mar com mu1tm
111llt ls.'º
grandes gritos. O IV sinal será que o mar e todas as águas d1•~
21 h11l,1 '1111• 110s navios de Vasco da Gama, de Colombo e de
outros rios arderão e queimarão no fogo vindo do céu.
ll1111 ~•· 1t111 hn saudado a aparição do fogo de santelmo na
111 HIIIHI 1·0s como o sinal de próximo apaziguamento das
Caos, ou seja, desrazão, demência. As estranhas palavras 1h
111 1111111, 11 maior parte do tempo esse fogo e os fogos-
Tristão lançado pelos marinheiros às costas da Cornualh:1, / 11
1l,111\1111do sobre o mar eram vistos como manifestações
neft!es fous, de Sébastien Brant, e a morte de Ofélia sugerclll q111
a mentalidade coletiva estabelecia um laço entre a loucur:1 l' 11
1 t• 1 11111í 11cio de algum infortúnio. Em A tempestade, de
111 111•, l\riel, espírito do ar, conta a Próspero como,
elemento líquido, "avesso do mundo";1" um laço que a temp.cst 11
111 1111 1IINI ruções deste, ele "organizou" o furacão:
de não podia senão reforçar. Hamlet, no julgamento da rn111h11,
está num estado de demência "como o mar e o vento qu:1111111
lutam para ver quem será o mais forte" [IV, 1). Enlouq1'.cdd11,
l 11, lh1111uj111· o terror. Por vezes eu me dividia e queimava
oceano desencadeado provoca loucura. Próspero e Anel , 1•111 11111111 p1111tc: no mastro, na gávea, nas vergas, no gurupé
0 1till11 11l1111nns distintas que se reencontravam para juntar~
A tempestade, de Shakespeare, trocam estas palavras signi fin 1
1111 1111011 de Júpiter, precursores do terrível trovão não
tivas: t 111,1111 l11stuntâneos, nem mais fugidios ao o lhar.31 '

PRÓSPERO: Diz-me, meu bravo espírito, houve um ho1111'III


li li il, que fizera havia quinze anos a viagem da Escócia,
bastante firme, bastante intrépido para que a tormc nlll 11R11
Ili 1111 l t1111111c t!es daimons que estes "[...] se transformam
t ivesse afetado sua razão?
AnrnL: Alma nenhuma que não sentisse a febre dôs dc11 11111
1 11 ~ 11111 gra ndes chamas ardentes/ Perdidas sobre uma
1111 ,11111Holfor/ O passante fulminado iludido com sua luz/
tese não s,e entregasse a algum ato de desespero.n
1, 1 ,1 11 nf'ognr-se na onda assassina" (Livre des hymnes, 1).
As popufações costeiras, na Bretanha por e.xemplo, c0111p11 111111l11, l11úmeros marinheiros, especialmente na Grécia
li~ • ~l1wi;nvnm-se em expulsar esses fogos inquietantes a
ravam o mar em fúria a um cavalo sem cavaleiro, a um rnv11h,
que salta para fora de seu campo ou aindaª. uma égua c nl 1111 1 111,I I, rn:nc~m um ruidoso tumulto, ora com gritos de
cida.18 A tempestade não era portanto considerada - e vlvltl • ~• - 111111n:11s que se acreditava serem de natureza dia-
- como um fenômeno natural. Suspeitava-se que sua nri111•111 111111, supo nha-se, afugentavam os espíritos maléficos.l1
11111 1 d1• outro.ra - e também na Legenda áurea (no capí-
estava associada a feiticeiras e demônios. Tendo a violênci11 1h1
11 1111 ,ido n vicia de santo Adriano) - , o diabo aparece
ondas impedido por várias vezes o rei Jaime da Escócin 1 '
princesa Ana de atravessarem o mar do Norte em 15H > ' 1
1 1 h 11111111111111cnte como o capitão do "navio fantasma", bar-
65
1111111111tlnndo ainda a 'análise, desco6re-se que O 1
coque obsedou a imaginação das populações costeiras e que c1·11 ti • l111q11untcmente representado como o d , . ~a~,
1 1 ', 1~ • 1 omm10 pnv1-
identificado com o inferno dos marinbeiros.H Atribuiu-se 11
1i"1
A • ,

li 1.c e as potencias infernais. E uma identif -


Giorgione uma tela do começo do século XVI que representa 11111 li ill~ •1 .11li nele - talvez involuntanamente
. - no icaçao
Q•tfl ·t
navio fantasma provido de uma tripulação de demônios. 1111111 1tt 1Ili', o irmãoJo-ao d'izer, no centro da tempestade:
' 1,
De diferentes maneiras a mentalidade coletiva estabelccl11
laços entre mar e pecado. Nos romances medievais, volta co11111 h1 11111• todos os diabos estão enfurecidos l .
um tópos o episódio da tempestade que se forma por causa tl11 1 1"'"" \llltn cm trabalho de arto Tod l~Je ou que
presença de um grande pecador - ou de uma mulher gdvid,1, Ili • 11111 lj!ll(Jt:IS" (cap. XIX). E paind~: "C~~~s ~1:tos_cla_n-
e portanto impura - a bordo do navio assaltado pelas ond11M, t' 11•~111 de todos os milhões de d ' b " q OJe e a
como se o mal atraísse o mal. Esse lugar-comum literário crn 11111 Ih,, chi n ré1)lica· "C . d ia os ~cap. xx). Pa-
. re10 que to os os milhões de d'
respondia a uma crença profunda das populações. Ainda c111 ti Ili ,1q111 seu capítulo provincial, ou bri am
1111111 111ilor (cap. xx). g
I l .
pe a e e1çao
i:-
163 7, a tripulação do Tentb Wbelp recusou-se a deixar o p01·111
porque temia o pior para um barco sob o comando de um c:,pl
tão com a reputação de ser um blasfemador.H Além disso, o~ 111111111 i) 11.llllpcstade contada A . 1
li lllh11 tio rei Ferdinando fºr ne na peça de Shake-
marinheiros, a despeito de suas peregrinações e de seus ex-1111
llt 11111m ''() infe rno está va~ioo~1:addo de pdavor~ l~nça-se à
tos, eram muitas vezes considerados maus cristãos pelas pcssrnl~ o os os emomos estão
cio interior e pelos homens de Igreja. Dizia-se que eram "111111
ordenáveis às virtudes morais" (N. Oresme), e até mesmo n:11111 1 ' Ili 'o~11hl11dc de exorcizar o oceano f . .
"civilizados" (Colbert). Em um manual de confessor inglês 111 1,111" i p11t't ug ueses faziam recitando o p:~·11~;0; de i~o os
1344, citado e traduzido por M. Mollat, lê-se: 111 lrnlo (que figura no ritual do exorcismo) o va~-
11 t I•~111111h11 e de outros lugares mergulhand e osl~na~1-
\ 111 , d - ' • o re 1qmas
'I'u, confessor, se te acontece ouvir algum marinheiro 1•111 \1 111 1esta e nao se acalma, portanto por si mes
confissão, não deixa de interrogá-lo com cuidado. Devi• 11111111 011 sfio N icolau ou algum outro s~nt -
1lt Ili poder que receberam d-1 uele . o q~e por
saber que uma pena dificilmente bastaria para descrcvc t' 11
111111\11, i•, tH> lago de Tiberíades 'q }ue cammhou
pecados nos quais essa gente está mergulhada. É~tal, i'OIII 11, 1111 udttN. , coman ou os elemen-
efeito, a g1:;andeza de sua malícia que ultrapassa os pní p1 li1
nomes d\: todos os pecados (.. .). Não só matam os clériHII 111111•111111 scjn o itinerário privilegiado dos d A • ,

1111 l llllll'\'O cio século XVII o céleb' . . emomos e o


e os lei.gos quando estão em terra, como no mar entrq.(11111 1 1111" ' 1•111•rr1sco cio Pa,1's Ba'sco.
. Elre
-se à abominação da pirataria, pilhando o bem de oul n•1111 • e assegura magistra-
e sm1stro · ·
1111111 p111• 1111~1' :1 Bordéus, viram exércitos de i~~:t'an-
sobretudo o dos comerciantes [...). 111111111•, ,tio 1•,xtrcmo Oriente pelos rn1·s s1onanos
. , . d'irigi
sem
Além disso, são todos adúlteros e fornicadores, pob, 1111
todas as terras e regiões onde vivem, ou bem contn1cm 111111 1 11 11'1 1't 1111~!1 •" Quem. duvidava d o carater
, d emomaco
' , -
1 1 "Hº c·onvcnc1clo pela multidão e pela e .d· d
ção com diversas mulheres, acreditando a coisa pern1 it ld 1 111111 1, , h norm1 a e
t 1.:scos que o abitavam e que sã d
11 1, 1111 .
ou então entregam-se ao deboche com as mulheres ,k vlll li ,1111111• p1:l11s ''cosmografias" , e re1atos de º. escntos
viagens da
alegre.35
67
1111110 li identificação de outrora D , . . . , .
Renascença. Pierre Martyr d'Angbiera conta a respeito cio~ ' ,lh11•111•so literár1·0 comparava . d a1 ·a ms1stencia
d
com a
O t
marinheiros que, em 1526, dirigiam-se à América: "Eles vira111 11111 1111 1•00 em perigo. eS mo e cada um de
distintamente um peixe gigantesco que dava a volta ao bcrga11
tim e com um golpe de sua cauda partiu em pedaços o leme do
k1111,1111lo n N ossa Senhora,. E ustache Deschamps lhe diz:
navio". E conclui: "E sses mares, com efeito, alimentam mo nsl l'I 1~
1 \111111 minha 11aujinm, pob·.
ie e apodrectda
·.
marinhos gigantescos".)? Relatando uma viagem ao Brasil l'lll
1557-8, Jean de Léry fala com pavor das "horríveis e medo11 h11~ "Ir ltJl'IJ/cntas assaltada no mar-
baleias" que ameaçam arrastar o navio pelo fundo. U ma dc\11~, HI rwlfl está rota, âncoms niíopo,s.so ancorar-
ln/1,1
''escondendo-se, produziu ainda um tal e tão horrível jorro, q111 ,., qm11de pavor que soçobre ou afunde '
1111,I J1ltulade
. por mm1
· - se firmar [Ballade CXXX/V].
nao
eu mais uma vez temia que, atraindo-nos atrás de si, fôssc1rn1
engolidos nesse abismo":º Em 1555, o bispo sueco Olaus Magn11
publica em Roma uma Historia de gentibus septentrio11alib11s 1111 111,,1HI,
li ,11 h1hno
11:
flymne de la mo1"t' assim evoca as preocupações
qual admite a existência de imensos animais marinhos qm· 11
tripulações tomam por ilhas e onde atracam. Ali acendem foKP
1,1,1 :1 111~~1· dos ~esgostos transborda sobre nós
para aquecer-se e cozinhar seus alimentos. Então os mo nq1111
afundam, tragando homens e navios. Essas ilhas vivas e flutullll l ,I, /11/,l,l// 1YIZtlO desloca
a •·
rada gope
/
11#1' r11111citlo pela onda desabada...
tes, inspiradas em Behemot e no Leviatã, são assim descrita~ 11111
Olaus Magnus: "Sua cabeça, toda coberta de espinhos, é cc1·1•111I 1
11 ll1dl11y proclama feliz o natimor·to, pois
.
de longos chifres pontudos semelhantes às raízes de uma 1~1 v11
re arrancada".4 ' No século XVIII, um outro bispo escandi1111111 11 111/11 ,l'llhre ll
cabeça
Pontoppidan, identificará esses monstros com polvos gi!-(11111• H, it//i/fJV/ tempestade
cujos tentáculos são tão grossos quanto os mastros dos mwlt1 ,,11,•111/IIOS agitados [Complainte du désespéré].
Em 1802, um aluno de Buffon falará do Kraken, polvo gi!(illll•
1
como do "animal mais imenso de nosso planeta",4 e insist il'1l 1111 111,1,.ué julga-se
sua agressividade: tema retomado em 1861 por Michcls t l'III /
11te1; em 1866 por Victor Hugo em Os trabalhadores do 111111 •, 11111
l ,lfltlll /1111" ventos e vagas
que popularizà•, o vocábulo polvo, e em 1869 por Júlio Vcnu• 111 '" ~11/,/11 por uma tempestade
Vinte 111il /éguas'submarinas. Duradoura lenda, nascicb do 11 11 ,1 111111llq11,1'1 de complôs, de emboscadas [H.'ecatom be de Diane].
dos monstros assustadores que um elemento tão host il q111111111
II 1110 XV III ' J.-J. R ousseau escrever'· "P d "d
mar não podia deixar de gerar em suas profundezas. ,h 1111111s infortúnios - ª· er 1 o no mar
Lugar do medo, da morte e da demência, abisntn 111111 11111 11 0 unufrág1·0" cc' '~~~ ~osso esquecer os detalhes de
vivem Satã, os demônios e os monstros, o mar um cli:1 1h•N1lp ' onj 1ssoes v) ~ J ·
ld ,1 llll'llmn comparação: ' · er ame, por sua vez,
recerá quando toda a criação for regenerada. São João proli 11
no Apocalipse (XX,l): "Depois, eu vi um céu novo, 1111111 1111 ,111 ,1,, viver' e0111, medo de morrer sem lb
nova. O primeiro céu, com efeito, e a primeira terr:i dc~1q1111 /lltl'llido,joguete do fluxo e do' 1.e,;e
1lij/11' · 1 .uxo,ante
ceram; e de mar, já não há mais". O mar, perigo número 11111 1
69
Nliuhn n/1110 pnm horríveis 11011.frtigios npnrelhn [1" Poem,·
1 1,1111l1é111 não se dizia, até o século xv, que o mar
saturnieu].
1111,111111 , que os antípodas são inabitados e inabit,1veis?
A essas poucas sondagens, u ma i nvestigação siste11111t h 11 111 ,lm marinheiros portugueses quando Henrique,
não deixaria de tra7.er ampla confirmação. 1111 , 111•1ll11-lhcs que ultrapassasse o cabo Bojador (ao sul
Assim, até as vitórias da técnica moderna, o mar er:1 11~ 11 11 1, 1 oo~idcrado por muito tempo "o cabo do medo":
ciado na sensibilidade coletiva às piores imagens de :1111~ 1,
Estava ligado à morte, à noite, ao abismo. É todo esse scµ11111 I, 1111, ~•n !diziam eles] que para além desse cabo não h :í
plano de repu lsa milen ar que se adivinha por tds ele 011 111 h11111111.. nem lugares habitados. O solo ali n ão é m e-
uox: " Onde estão os marinheiros soçobrados nas noites 1•~111 l 1111~11 do que nos desertos da Líbia onde não h:1 n em
ras?". Victor I Iugo escreveu esse poema em 1836. D ezoi10 11111, 111111 1lrvore, nem relva verde. Ali o mar é tão pouco
mais tarde, o relatório anual da .M arinha inglesa menc:io1111 111.!1111111•, a uma légua de terra, o fundo não ultrapassa
832 perdas d e navios em 1853.4) 111 ,1~11. As correntes são tão fortes que qu alquer n avio
Unrn civi lizaçiio essencialmente ter restre não podia 111 11 li lll~flll'il'SSe o cabo não poderia dali regressar. Foi por
tanto senão desconfiar de um elemento tão pérfido <:011111 11111 lltlN~Os pais jamais empreenderam u ltrapassá-lo.• r.
água, sobretudo quando se acumula sob forma de m:11·.
metade cio século xvrn, um dominicano de Grasse dirigl' •,1 , II l1111t,,/11s, Camões faz eco aos temores sentidos pelos
capítulo geral de sua ordem. Embarca em Nice. Mas logo, 111 ~· li 11~ 11111·111g uescs nas proximidades do cabo da Boa
pelo m,rn tempo, desde i\11ônaco, ele se faz trner de volt ,, 1, • 111tnom inado anterior mente cabo das Tormentas.

margem; e é pela estrada de terra q ue alcança Roma.lns1111111 1111,1u11111cl11 pelo poeta não teria nascido em seu espírito
pela aventura, consigna em seu diário de viagem a scg11li11 1111111~1111 relatos orais e escritos relativos à temível pas-
sentença: "Por mais próxima q ue esteja a terra, no mar M' llljll 1 111111.11110 os n avios avançam na sua direção, eis que o
se cst:1 bastante longe para ali encontrar sepultura".•• t1p11 ~1 1111r1 nos capitães e às tripulações como uma está-
11111111• ,, gigantesca", "réplica do colosso de Rodes" - e
1111111h111tório do de Goya em O pn11ico. "O rosto carre-
2. O DISTANTE E O PRÓXIMO; O NOVO E O ANTI( ,11 li 111 111 t•squ:ílida: os olhos encovados, e a postura med o-
li 1 1 1•or terrena e pálida, ch eios de terra e crespos os
/\berro paiia o d istante, o mar desembocava o utrora c111 p,11
1 li111·11 neg ra, os dentes amarelos." Dirigindo-se ao s
ses insólitos onde tudo era possível e onde o estranho era :111111
- um estranho muitas vezes assustador. De P línio, o Vl·ll111,
h li 11~ portugueses, ameaça-os nestes termos:
Simone Majolo (Dies caniculares, Roma, 1597), passand11 I"
( J!(t'lllt: onsnd1111Iais que quamns
Vinccnt de Beauvais, i\ifandeville e As 111il e 11111a noites, c:om1•11
V11 1111111do cometerão gmudes cousas, [...]
-se a crença cm uma montanha imantada situada cm :1111 11111
1111/1- (}.I' vedados términos quebrantas
parte na rota da Índia: ela atraía irresistivelmente os navio\ 11111
li 1/((Vegar 111e11s /011gos 111nres ousas,
tadores de objetos metálicos, e especialmente pregos, m:111li11h,
te111po hríjrí que guardo e tenho
()f/t' 1•11 l'lmto
-os prisioneiros ou até mesmo p rovocava seu desmembr:11111111
Nfl11t'(I nmdos rlestrnnto, ou próp1·io lenho.
70
71
* 1 ,, 11111 11111:1 obra publicada no final do século XV, O
" /1/1/tl/'/({ ur1tural:
Pois vens ver os segredos escondidos
Da naturez a, e do úmido eleruento, h1h 11 1,;/,(ito f...), vivem dois perigosos monstros. E se
A nenhum grande humano concedidos[...]. Ili 111 ele• hom grado às margens do mar, que são muito
Sabe que quantas naus esta viagem
hl 1111 1 1•1111sn m medo à gente do país, dos quais uns têm

Que tufazes, fizerem de atrevidas


1 ,h hipopótamos e os outros têm nome de crocodilos.
1111 11h11, que é do lado do Oriente, pastam muitas bestas
Inimiga terão esta pamgem .
Com ventos e tormentas desmedidas:
li' 1111 Vlll\Cnosas como leões, leopardos, parídeos, tri-
E da primeira armada que passagern 1 m, lt11Niliscos, dragões, serpentes e ,1spides que estão
111• d11 11111ito perigoso e mortal veneno.
Fhe1· por estas ondas insufridrts,
Eu farei di111proviso tal castigo_
li ,_ rl1•~~11s crenças lendárias ou desses exageros assusta-
Que seja 111,ôr o dano que o perigo. [...]
Ihl11lt11•Nc o medo do outro, isto é, de tudo que pertence
Antes em vossas naus vereis cada ano 1111 • 1~11 ili ferente. Por certo, os aspectos extraordinários
Se é verdade o que meu juízo alcança, Ili 111 li 111 ídos aos países distantes podiam também consti-
Naufrágios, perdições de toda sorte, 1111,11 Ivo poderoso. A imaginação coletiva da Europa na
47
Que O menor mal de todos seja a morte. 1 1lh1 1• 1111 Renascença inventava, para além dos mares
llh • l11x11riosos, paraísos cujas miragens arrancaram
Cronistas e poetas portugueses procuraram nat ur:1l11w11t 1 li 1l11~ horizontes familiares descobridores e aventurei-
engrandecer a coragem dos capitães. lu~itanos. Por outro h1th 1 t 111111,u111• - o outro - foi também um ímã que permitiu
as correntes que circulam nas proximidades do cabo Boj111h 11 1h tlt• Hi mesma: voltaremos a isso mais adiante.
são efetivamente violentas. Enfim, cada nação, na . ~p<H'II 11 1 11111h fllll'll n massa das pessoas o recuo diante do estra-
Renascença, tentou impressionar seus conco_r~entes d1fu11tl lt11lt le 1,11 h11i 11s suas formas permaneceu por muito tempo
relatos terrificantes sobre as viagens mant1mas - ;1rn1 11 th 1111111,lt• mnis comum. O conselho dado no século xr pelo
dissuasão que se acrescentava ao segredo que se tentava 11111 1111 • 1111 1, 11lit1vmcnos teria podido ser formulado quinhentos
sobre os melhores itinerários. De todo modo, as rorns do 11111 1 t ,11t ll1 por muitos ocidentais: "Se um estranho cherra
gínquo causavam medo. , , . 111h , lll{n-sc a ti e entende-se contigo, não confia n ele:
E, se assim mesmo se chegasse aos pa1ses exotu.:<~~. q11 1111 1,1, ,1 ontílo que precisas precaver-te".49 Daí a hostili-
seres monstruosos, que animais fantásticos e aterron1,11111t 111 " lut nsleiros", a cólera nas aldeias, manifestada por
ali não se encontrariam? A Idade Média situou na l111h ~• 1111111 moça se casava com um homem vindo de
homens com cabeça de cachorro que rosnavam e 1111 111111 t li , 11 1,ilêncio dos habitantes diante das autoridades
outros que não tinham cabeça, mas ol_hos sobre o v,•1111, 11111 ,ltilt:S havia maltratado um "forasteiro", as rixas
outros ainda que se protegiam do sol de1tando-_se de c0t,t11 11111111111~1Js de duas localidades vizinhas, a propensão
erguendo um único e largo pé - universo onínco quc 11•1111 • Ih ,11 ,~ Judeus a responsabilidade pelas epidemias,5º os
rece no final do século XV na obra de Bosch. A prop(iHit11 11 111111111 lisonjeiros que nos séculos xv e XVI os euro-

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peus fazem muitas vezes uns dos outros, no morr~e1~to cm qm 11h11dos ele vinte paróquias bretãs em 1675 fazem diri-
explode a nebulosa cristã. Em seu Livre de la d~scrtptron des /UI\''• 111 llllll~S de Nevet e por ele ao governador da província:
redigido por volta de 1450, Gilles Le Bouv1er a~rese n1 :1 11! lm I rn1ltmtes de pagar [os impostos] que existiam há
maneira pejorativa a maior parte dos europeus: os 11:gl_esc~ ~n11 11111~ e não nos recusamos a pagar cada um sua contri-
"cruéis e sanguinários" e, além disso, mercadores cupidos. ( l 11111111 lhe cabe, e não contestamos nada senão os novos
suíços são "gente cruel e rude"; os ~s~~ndina~~s e_os P?lon~Nt'' 1 111 111'/,(0S".H Se os projetos ou os rumores de extensão
"pessoas terríveis e furiosas"; os s1c1hanos, mu1t~ c1u111c 111 11 l 1 11 1lll(i<1es que dela estavam tradicionalmente isentas
de suas mulheres"; os napolitanos, "pessoas grosseiras e n11l1 N11111111ndia, Bretanha, Poitou, Gasconha - desperta-
e maus católicos e grandes pecadores"; os castelhanos, "f.(l'l111 1111~ 11•11çõcs violentas, é que os povos aí viam um ataque
que por tudo se enfurece,' _e s~? mal _vestidos, mal _ca_li;:1_do~ 1 Ili h llrl(ÍOS mais antigos, portanto à sua liberdade, uma
maldormidos, e maus catohcos . Na epoca da Refo111u , "'Kl1 11h 1111us direitos e da palavra dos reis. Daí o grito famo-
ses e alemães consideram que a Itália é a sentina de todo•, 11 111 11•l :;cm gabela!". D aí o 111anifosto em favor da liber-
vícios, e essa opinião não deixou de contribuir para a pm p11 1111111111111 do alto e indomável mpitão João Miserável, geneml
1
gação do protestantismo. Ass!m, mesmo no _momento c11_1 ,1111 1/11 ./1' 11/(rimento (1639):
a Renascença amplia os honzontes do Ocidente - e ,1~1111
depois - , 0 estranho é visto por muita g:nte como suspc11 11 1 ,7t11io Miserável é vosso apoio,
inquietante. Será preciso tempo para habituar-se a ele._ N 1h1 ' Vingllrá vossf/ querela,
destacam, no século xvn ou até o começo do XVIII, mov1111l·111t1 l,i/1crtm1do-vos dos impostos,
xenófobos em diversos cantos da Europa: em 1620 em Mar~1•ll1
1 /rimí retimr a gabe/a
contra os turcos - 45 deles são massacrados - , em 1621 1•111 N ro111bate1'fÍ por nós todas essas gentes
Barcelona contra os genoveses, em 1706 em Edimburgo 011d1 1 Q1111 se enriquecem às cnstas
51 !),, vossos bens e da pátria;
população mata a tripulação de um barco inglês?
/r'()i ele que Deus enviou
Pmr, colocar na },lonnandia
A novidade era - e é - uma das categorias do OtJ.I ro, 11111 Um11 pe1feita liberdade. 15
nossa época, a novidade é um slogan qu_e re~de. Outrrn'111 111
li 111111, nno é excessivo perceber com Y.-M. Bercé, por
contnírio, caus,1va medo. Evocaremos mais adia_nte as rcl wlltll
1 d l~•lics antifiscais de outrora, o choque de duas cul-
e as revoltas~provocadas pelos aumentos de n_11postos. l Ili
sobrecarga fiscal não era apenas um fardo a mais para 0111111 11 1111111 lll'n l, costumeira, na defensiva, "tomando seus
1 111 11111 passado imutável", a outra escrita, moderna,
fatigados, era também uma novidade. Era um! das forn 111t1 11
outro. "Nossos povos", reconheciam os escabmos de _Boi 1h 11 ti p111•igos:11nente inovadora.5" O papel timbrado teria

em 1651, "sãonaturalmenteimpacientes com todas asnov1d:1dl' 111 1,111 odioso se não tivessem tentado impô-lo a popula-
As revoltas do Périgord em 163 7, as taxações ~ec~ntc,1111 Ili 11111l111111•11cc ana lfabetas? As mesmas estruturas mentais
decididas parecem "extraordinárias, insuportáveis, ilcg-11 l111,1 111 1 111volt:1 dos "tard-avisés" do Quercy, em 1707, contrn
53
excessivas, desconhecidas de nossos pais". A mesma rcc11•11111' 1 q111• l11st ituía controladores dos autos extraídos dos

"novidades" reaparece na "petição da populaça" que o s c11111111 1 11111oq11i:1is.57 Se as sedições de outrora procederam a

-,,, 75
frequentes queimas de papéis, não foi porque o povo iletrado [...] Devolverei em b1-eve a primeim liberdade
tinha medo e ódio da escrita? Do nobre, do camponês e da santa lgi·eja,
Os novos tributos eram acompanhados não só de uma pape- Quero dizer no estado em que estávamos
lada sem exemplo no passado, mas também da instalação de Quando Luís Doze conduzia um século de 01wo.60
organismos de arrecadação aos quais não se estava habituado:
razões de sobra para a inquietação. A coleta das talhas na França A utopia do Estado sem tributo atravessou os séculos.
\ ~sim, na França, acreditou-se no alívio, ou até na supressão do
do século XVII foi precedida pela redução de regiões de estados
IIHrn, quando da morte de Carlos v, da ascensão de Henriq:ue
a regiões de eleições e os oficiais de finanças, tradicionalmente
li , dn morte de Luís XIII, da de Luís XIV, no momento da reu-
ligados aos interesses de sua cidade ou de sua província, foram
uh1o dos Estados Gerais por Luís XV e ainda quando se difun-
progressivamente desapossados em favor de comissionados assa-
diu nos campos a notícia das jornadas parisienses de 1848. 61 Tal
lariados, revogáveis e nomeados pelo intendente. Assim, na opi-
1111!0 teve por muito tempo como componente maior a crença
nião geral, novos tributos e "forasteiros" estiveram indissolu- tlll inesgotável bondade do soberano. Ele era o pai de seus súdi-
velmente ligados. Os comissionados e os cobradores da gabela 111s; não demandava senão o alívio de seu povo. lvlas era enga-
de toda laia apareceram como gente que chegava de outras par- undo por seus ministros e pelos agentes locais destes últimos.
tes para extorquir uma comunidade a que não pertenciam. Em 1 >t•ssc modo, durante séculos, não houve revolta contra o rei
1639 os "Miseráveis" da baixa Normandia reuniram-se em cm um personagem sagrado acima de qualquer suspeita - ,
ann~s para defender a pátria "oprimida por financistas e cobra- 11111:; apenas contra seus indignos servidores. Os bordeleses,
dores da gabela" e "não tolerar nenhuma pessoa desconhecida" puclindo perdão a Henrique IJ em 1549, fizeram-lhe sincera-
nas paróquias.58 O Manifesto de João iVliserável lançava em sua ltlCnte notar que "a sublevação [não tinha] sido feita para opor-
terceira estrofe esta exclamação significativa: Ni" à sua autoridade, mas para resistir às grandes pilhagens que
lt1iinm aqueles que estavam comissionados para a gabela e que
E eu suportarei um povo languescente ••~~cs fotos lhes eram insuportáveis".'·'
Sob a tirania, e que mn bando de forasteiros Revoltar-se era ajudar o rei a livrar-se das sanguessugas da
Oprime todos os dias com suas frações! ;•, 1111\:ilO. Do mesmo modo, pensava-se periodicamente que o
pl'lncipe desejava essa cooperação ativa e, durante certo tempo
Os estudos recentes sobre as sedições de outrora provaram
1111 menos, dava ordem e até intimava o povo a fazer justiça por
que a imensa maioriá; ~elas tinha uma dominante "misoneísta".
~i mesmo. G. Lefebvre pôs em evidência esse elemento da psi-
Conservadoras e passadistas, faziam por vezes referência explíci- 1•11logia coletiva quando das perturbações rurais do verão de
ta - ou, com mais frequência, remetiam inconscientemente - 1789. Depois de 14 de julho, Luís xvr, como acreditava bom
ao mito da idade de ouro perdida, maravilhoso paraíso ao qual se 111i111cro de camponeses, decidira rebaixar o poder dos privi-
teria amado voltar e que os milenaristas percebiam novamente h gindos e redigira instruções nesse sentido. Mas conjurados
no horizonte. Sob sua forma atenuada, esse mito fazia crer às Impediam sua publicação, e os padres abstinham-se de lê-las na
populações que existira outrora um Estado, sem tributo nem homília. Apesar desse silêncio, convenceram-se de que o rei
tirania, por exemplo no tempo de Luís XII. E o que assegurava 1111dcnara queimar os castelos e outorgara algumas semanas
João Miserá~el aos revoltosos normandos de 1639: dl• permissão para essa santa tarefa.63 Tal mitologia sobrevivia

76 77
ainda em 1868. Nessa data, camponeses do Angoumois e do Ih 111~11 que afastava do verdadeiro D eus. Destruí-las era resti-
Périgord estavam persuadidos de que o imperador concedera 11111 110 culto a autenticidade que os séculos haviam obscu recido.
alguns dias de pilhagem - uma pilhagem que não teria sido, l 111 111mbém, de certa m aneira, imitar a conduta e a santa cóle-
evidentemente, senão uma forma popular de justiça.,,, Assim, 1 t dt• Jesus expulsando os mercadores do templo.
ocorreram poucos i1tos de v iolência coletiva, o utrora, sem refe- Nigrinus, superintendente de Hesse, afirmav.1 em um ser-
rência ao menos implícita a um passado idílico, sem apreensão 1111111 ele 1570:
diante das novidades e dos estrangeiros que as traziam, sem que
se colocassem em jogo as desconfianças viscerais que se sentia Nilo esqueçamos que aqui estão a justiça e o castigo do Se-
em relação às pessoas externas a seu próprio universo: os cam- 11hor. E_le_ ameaçava havia muito tempo as casas de prostitui-
poneses pelos citadinos, os citadinos pelos camponeses, uns e
i;1l~ cspmtua( e os templos dos ídolos, anunciando que logo
outros pelos vagabundos. Todos esses medos atuaram de novo
11cr1am reduzidos a cinzas. Agora é preciso que sua vontade
plenamente na França por ocasião dos distúrbios de 1789-93.
Nc cumpra; sabei que, se não se encontrasse n inguém para
1•xccutar sua sente nça, o Senhor, irritado, lançaria seu raio
pnrn aniquilar os ídolos. 66
O medo e a recusa do novo são encontrados também nas
agitações e revoltas religiosas dos séculos XVI-XVTI. Os protes-
Assim, em todo o percurso protestante, até em suas violên-
tantes não ti nham de modo algum desejo de inovar. Seu obje-
1hlN, pretendia-se o retorno ao passado, fazia-se referência à
tivo era voltar à pureza da primitiva Igreja e livrar a Palavra
D ivina de todos os disfarces que a traíam. Era preciso eliminar, hliulc ele ouro da primitiva Igreja, recusavam-se as inovações
,,tc•rílcgas acumuladas pelo papismo no decorrer das eras.
ainda que pela força, tantos acréscimos idólatras e supersticio-
Mas as populações estavam habituadas às imagens às ceri-
sos que os homens, enganados por Satã, haviam "introduzido", .
~ '
11111111:is, aos sete sacramentos, à hierarquia, à organização ca-
"i nventado", "forjado" ao longo dos séculos às custas da me nsa-
gem de salvação. Indulgências, peregrinações, c ulto dos santos, 111l1çn: 0 es~e modo, para muitos os p rotestantes pareceram
ofícios em latim, confissão obrigatória, votos monásticos, miss.1 ,1t11ln_c1~sos mo~adores e assim foram considerados perigosos:
papista deviam ser varridos para que se pudesse novamenJe ir ,11pr11111am a missa, as vésperas, a quar esma, não reconheciam
em direção do Senhor pela via reta da Bíblia. D emolir, como 11111i:; o papa; repudiavam em bloco o sistema eclesiástico insta-
exigia Lutero, os "três muros da romanidade" (isto é, a superio- h11l0 havia séculos e a instituição monástica; desvalorizavam 0
ridade cio poder P.,Ontifício sobre o poder c ivil; o direito que se 111ho _à Vi rgem e aos santos. A verdade é que introduziam no
arroga o papa de só ele interpretar as Escrit uras; a preeminên- p1opr10 coração do cotidiano mudanças verdadeiramente iirnu-
cia do papa sobre os concílios) era trabalhar para Deus contra clhns. Na França, os "conventículos" protestantes - isto é as
o Anticristo e recolocar as coisas da cristandade em seu verda- 11•1111iões cultur~is dos reformados - foram rapidamente obj~to
deiro lugar. 65 Nem Lutero nem Calvino aprovaram as destrui- ilt• lc.:ndas caluniosas, e o aspecto voluntariamente austero dos
ções de imagens. Mas foram ultrapassados na Alemanha, na dlNdpulos de Calvino tornou-se ele próprio suspeito a toda
Suíça, nos Países Baixos e na França por ativistas que levaram 1111111 parcela da opinião. A regente dos Países Baixos certamen-
às suas extremas consequências a doutrina que haviam recebi- te• cxprimia o sentimento de muita gente quando denunciava "o
do. Ora, tal doutrina via nas imagens uma iconografia supers- p11rigo iminente de uma destruição e subversão geral e próxima

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79
67
da religião antiga e católica, juntamente com o estado público". população irritou-se porque seu padre deixara de celebrar a
A fé protestante ganhou fisionomia, para seus inúmeros adver- h•NtR de são Lucas. Em uma localidade do East Riding, a mesma
sários, de "doutrina nova", de "religião nova". Além disso, foi c•onn se produziu a propósito da festa de são Wilfrido.69 Os
apresentada na França como importada do estrangeiro pelos "1•ruzados" da Peregrinação da Graça exigiam, pois, antes de
"cães genebrinos". Assim, adotar "a moda de Genebra" era pro- 111nis nada, a "restauração" de sua religião. Em seu manifesto,
priamente mudar de religião com todas as consequências que dl:-,inm especialmente:
tal decisão podia comportar. Na sagração de Carlos IX (em 5 de
maio de 1561), o cardeal da Lorena anunciou ao jovem rei que Em pri1'.1eiro lugar, no tocante à nossa fé, queremos que
"quem quer que lhe aconselhasse mudar de religião lhe arran- ns heresias de Lutero, Wyclif, Huss, Melanchton, Occo-
caria ao mesmo tempo a coroa da cabeça". O dever dos católicos lampade, Bucer [...] e outras heresias dos anabatistas sejam
era portanto "manter a fé antiga", "restaurar o santo serviço de anuladas e destruídas neste reino. Em segundo lugar, que
Deus". No momento em que se constituiu em 1575 a liga de a sede ?eRoma seja restaurada como autoridade suprema
Péronne, a associação dos príncipes, senhores e fidalgos decla- da IgreJa, no que concerne ao cuidado das almas, como era
rou pretender "estabelecer a lei de Deus por inteiro, recolocar o hábito anteriormente, e que os bispos recebam dela sua
e guardar o santo serviço segundo a forma e maneira da santa consagração [...].
Igreja católica, apostólica e romana". Assim, no plano da psico- Que as abadias suprimidas sejam restabelecidas em suas
logia coletiva, se a heresia era considerada uma "úlcera" que era casas e em seus bens [...). Que os irmãos observantes reen-
preciso "cortar" e "ressecar", era por ser uma novidade contra contrem novamente suas casas.'º
a qual importava defender-se.
Contrariamente ao que se passou na França e nos Países '1111 1547, a revolta da Cornualha começou pelo assassinato
Baixos, na Inglaterra os soberanos fizeram pender a balança 1,111 1lelston de um agente do governo, William Body, que lá
para o lado do protestantismo. Mas não sem dificuldade. Pois 1•htigara para promover a implantação das diretrizes de reforma
várias revoltas exprimiram o apego de parte da população ao 1ciligiosa_ de ~duardo VI e do protetor Somerset. Após o assassínio,
culto romano e às estruturas religiosas tradicionais. A Pere- lllll dos mspJradores da rebelião declarou publicamente na praça
grinação da Graça (1536), na região de York, foi uma subJeva- 1111 mercado: "Qualquer um que ousar tomar o partido desse
ção em favor dos mosteiros, os quais o governo desejava a ll11cly e seguir as novas modas como ele o fez será punido da
suprimir. Certamente, os mosteiros desempenhavam um papel 111t•s111a maneira".11 A bandeira dos rebeldes (que logo empreen-
econômico e socia1,importante. Mas, segundo Aske, o chefe da 1h1m 111 o cerco de Exeter) comportava simbolicamente as cinco
rebelião, tinham1 sobretudo duas funções religiosas principais: 1 h111(ns de Cristo, um cálice e um ostensório, esses dois objetos
mantinham por sua piedade a autêntica tradição cristã e ensi- -llf{l'lldos marcando com evidência o apego ao culto tradicional.
navam a religião a um povo "pouco instruído na lei divina"."º Os conflitos confessionais do século XVI podem ser vistos
Este, precisamente, aferrava-se à maneira antiga de rezar: p111•rn11to como um choque dramático entre duas recusas do
provam-no os incidentes que eclodiram no leste da Inglate~·ra 1111vo. ?ns ~ueriam bani_r os escandalosos acréscimos papistas
pouco antes da Peregrinação da Graça. Em Kendal, no domm- -oh ct'.Jº acumulo .ª IgreJa romana progressivamente sepultara
go depois do Natal, os fiéis insurgiram na igreja e obrigaram o 11 IHl)lca. Os demais agarravam-se ao culto tal como o haviam
sacerdote a recitar o rosário pelo papa. Em Kirkby Stephen, a e 1111 hccido na infância e tal como seus ancestrais o haviam pra-

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ticado. Todos olhavam na direção do passado. Ninguém dese- 11111 li desconfiança; portanto, o temor. Assim, convinha vigiar
java ser inovador. A mudança constituía _par~ os home~s _de 11 ourro e manter-se em estado de alerta constante em relação a
outrora urna perturbação da ordem; o mab1tnal era v1v1do 111•: " Pelo olhar se conhece a pessoa" (século XIII). "Conhecern-
como um perigo. Na Alemanha protestante, quando se procu- ~c• 11s pessoas por seus gestos e atitudes" (século XVI 76).
rou adotar, no final do século XVI, o calendário gregoriano Aqueles e aquelas que foram denunciados como feiticeiros e
ajustado em Roma em 1582, violentos protestos explodiram e h,h icei ras eram frequentemente pessoas que seus acusadores
surgiram movimentos de pânico: _temia-se um ban_ho de_ san- 11111hcciam bem ou acreditavam conhecer bem e cujos passos
gue! Esse calendário não era papista? Tal era a afmnaçao de •11/jpoitos haviam sido cotidianamente espreitados: assistiam pou-
superfície. i\llas, no fundo, o que certamente perturbava era 111 cn, mal à missa ou recebiam os sacramentos com gestos estra-
essa modificação inaudita cio cômputo dos dias.
72 11hos; passando perto de uma pessoa, lançavam-lhe um feitiço
,11 11tovclando-a ou soprando-lhe no rosto sua respiração empes-
1,11111 ou ainda lhe dirigindo um olhar diabólico - o mau-olhado.
O distante, a novidade e a alteridade provocavam medo. \1d11 ontão aqui um fator de proximidade, fonte de hostilidade.
Mas temia-se do mesmo modo o próximo, isto é, o vizinho. \h1111 disso, conhecia-se não apenas fulano ou fulana, mas tam-
Nosso campo de concentração cotidiano ignora muitas vezes a 111111 seu pai morto na prisão ou sua mãe, ela própria feiticefra.
porta ao lado. Conhecem-se melhor os ruídos d~ apa~tamento l lpl11iílo pública e conhecidos concluíam acerca da culpabilidade
próximo do que o rosto de seus moradores. Assim, vive-se ~a il,,~ pessoas com base em seus antepassados. Os demonólogos e
mornidão e na monotonia de um anonimato cem vezes repeti- 11• jll Í~c s suspeitaram de muitas segundas intenções de vingança
do. Outrora, ao contrário - nesse "mundo que (em grande 11111 ll'sls de certas acusações <le feitiçaria. Mas a ideia que faziam
parte) perdemos" - , conhecia-se o vizinho e em muitos cas~s ,h "i111 íl - voltaremos a isso mais adiante-conduziu-os a amen-
o conhecíamos demasiadamente. Ele era um peso. Um hon- t 1t ,11 os terrores populares e, portanto, a reforçar o discurso de

zonte estreito reconduzia perpetuamente as mesmas pessoas 11~1IC'llil expresso por uma civilização na qual o próximo era mais
para perto umas elas outras, delimitando um círculo de paixões 11 • q111•11tcmente inimigo do que amigo. Teorizaram, sob forma
tenazes, de ódios recíprocos, incessantemente alimentados por ,h 11111dclos, sobre práticas de relações odiosas. Na sinistra obra
11111• 1!1i n bíblia de muitos inquisidores, o O martelo das feiticeiras
novos rancores. Desse modo, era uma sorte altamente aprecia-
1I 1•1I,, 1486), lnstitoris, o principal autor, relata o depoimento de
da ter um amigo ao alcance da mão.
"Quem tem bom vizinho tem bom caminho", repetem os 1111111 "honrada" mulher de Innsbruék:
provérbios/! não ~e1i1 insistir de maneira significativa na verda-
de oposta: "Quem tem vizinho desleal muitas vezes tem mau "i\1 ,•i{s ele minha casa, declarou ela, tenho um jardim; ele é
111111 íguo ao jardim de minha vizinha. Um dia, vi que uma
caminho" (século xm, Romnn de Fiernbras). "Diz-se que quem
IIIINNngcm havia sido aberta, não sem danos, entre o jardim
tem mau vizinho tem muitas vezes mau caminho" (século XIII ,
Romnn dtt Rennrt, verso 3527).14 É mais terrível o vizinho a 1h1 vi~inha e o meu. Queixei-me a ela, zangando-me um
quem nada escapa. Seu olho inquisidor explora nossa existência p1111uo, não tanto pela passagem como pelo dano[...]". A vi-
ao longo do dia e do ano. "Vizinho sabe tudo", assegura uma ,l11hn furiosa retirou-se murmurando. Alguns dias depois,
1 1111111111a a declarante, "senti-me doente com grandes dores
sentença do século XV.75 No universo de hoje, o sentimento
dominante entre vizinhos é a indiferença; no de antigamente, ih• hnrriga e pontadas da esquerda para a direita e da di-
83
Q?
reita para a esquerda, como se duas espadas ou duas facas 1h• lllnto que se faz temer por seus ditos vizinhos".80 Nas epide-
estivessem plantadas cm meu peito". Ora, a vizinha perversa 111i11s demoníacas que devastaram a Europa nos séculos X'VI e
colocara na soleira de sua inimiga "uma figura de cera de \\' li, aparecem em primeiro plano relações de vizinhança hos-
um palmo, toda perfurada, os lados atravessados por duas 1111 ontre duas aldeias próximas ou entre clãs rivais no interior
agulhas, justamente no lugar onde da direita para a esquerda dt• uma mesma localidade. Em 1555, em Bilbao aprisionam-se
e vice-versa eu sentia as pontadas [...]. Havia também peque- por fe itiçaria 21 pessoas da mesma família de Ceberio, acusadas
nos saquinhos com grãos diversos, sementes, ossadas".77 p111• um grupo ele aldeões que lhes eram hostis.8 ' Os comporta-
111111110s maléficos atribuídos aos vizinhos suspeitos tornavam-
Citando o PTéceptoire de la loi divine, de Nider, O 111artelo das ~,• ontão estereótipos. Um exemplo entre mil: os gestos diabó-
feiticeiras apresenta outro t ipo de ação diabólica contra vizi- lh'oN ele Claudine Triboulet, que acaba por ser condenada à
nhos. Dois feiticeiros das redondezas de Berna 111rn'lC em 1632 pelos juízes do bailio de Luxeuil. Ela compra
ptll' cinco francos um dossel de certa Lucie Coussin. Quando

[...] sabiam, quando lhes agradava, fazer passar de um cam- 1•~111 toma em seguida sua bolsa para uma compra, ali não
t 111•011tra mais cio que pó. Algum tempo depois, Claudine traz
po vizinho para o seu campo, sem se fazer ver por ninguém,
um terço do estrume, da palha e do cereal ou outra coisa; 11111 pifo para Lucie, que, abrindo-o à hora da refeição, ali des-
t olU'c uma grande aranha. Ela corre apressada à casa do padre,
sabiam provocar as tempestades mais violentas e os ventos
111111 benze o pão. Imediatamente a aranha morre ... e desapare-
mais destruidores com raios; sabiam, sem se fazer ver, sob
t 11, 1,:ra portanto o diabo. No dia de são Lourenço, Lucie come
os olhos dos pais delas, lançar à água crianças que passea-
1111111 pera que C laudine lhe deu: logo "queima-lhe a garganta".
vam à beira da água, causar esteril idade entre os homens
I• prociso exorcizar a infeliz em Besançon. Muito evidentemen-
e os animais; provocar prejuízos de todas as maneiras às
1111 ( :lnudine é uma feit iceira.81
pessoas e aos bens; algumas vezes até atingir com o raio
Inútil multiplicar tais anedotas que repetem indefinida-
quem eles queriam; e causar ainda outras calamidades onde 11111111,e umas às outras da Suíça83 à Inglaterra, da França à Ale-
e quando a justiça de Deus lhes permitia.18 1111111h11. Esclarecedoras são, em compensação, duas quantifica-
\111'~ fornecidas por A. Macfarlane: em 460 incriminações por
Os processos de feitiçaria dos séculos XVI e XVll fazem eco 11111loffcios diante dos Assizes [tribunais] de Essex entre 1560 e
às afirmações de O martelo das feiticeiras. Em sua Démonomanie, lr1H0, npenas cinquenta puseram em causa vítimas que não ha-
Jean Boclin mencibna "o julgamento de uma feitice ira que era li11,1v11111 na mesma aldeia que a pessoa que as havia, dizia-se,
acusada de ter enfeitiçado sua vizinha na cidade de Nantes" e 1 1111111 içado. E só cinco denúncias mencionaram uma distância
que foi queimada."' Em um dossiê ainda inédito, referindo-se a 1h• rnnis ele sete quilômetros entre acusador e acusado. Assim, o
malefícios lançados a animais e pessoas na região de Sancerrc p111lur dos enfeitiçadores não se estendia para além de alguns
em 1572-82, um dos acusados, Jehan Cahouet, é assim enqua- 11111u•os quilômetros.ª• Já o lúcido Reginald Scot notara, em
drado: "Ele é feiticeiro, conduz e encerra os lobos onde quer 1,H,I, que seu raio de ação mágico era o de seus contatos so-
e os faz descer e vir dos bosques onde estão, causa peste e dano 1hdN!' Os processos de feitiçaria aclaram então para nós com
a seus vizinhos para dar seu gado tanto grosso quanto miúdo 1111111 luz violenta - e graças aos períodos de crise - as tensões
como alimento aos ditos lobos, ou faz morrer por sortilégio(...] 1 ~ttspoirns que atravessavam outrora permanentemente uma

84 85
apresentava nada, nem na atitude, nem no comportamento,
civilização do "face a face", que de maneira quase obrigatória que evocasse um ladrão de machado.'7
elegia uma ou várias pessoas por aldeia como perig~sa. Pode-se
fornecer sobre esse assunto uma prova n coutrnno: na r ~~a Entre as pessoas que e ram bem conhecidas na aldeia, havia
França, dos séculos xvu-xvm, os processos envolven~o fe1t1- ,1q11cle ou aquela que assistia e que era procurado em caso de
ceiros foram raríssimos, diversamente do que se poden~ espe- doença ou de ferimento porque ele - ou ela - sabia as fór mu-
rar no caso de uma população rural que blasfemava muito, es- h1N e as práticas que curam. Essa atividade lhe conferia pode r e
tava mergulhada tanto quanto a da Europ~ numa am10sfera de ,1111oridade no horizonte de sua notoriedade. Mas tal pessoa era
magia e encontrava-se, além disso, submet!d_a ao olhar _d_escon- ,uspeita para a Igreja porque empregava uma medicina não
fiado de um clero militante. Mas na Amenca as familrns dos 1111dossada pelas autoridades religiosas e universitárias e, se suas
colonos franceses achavam-se separadas umas das 0~1t_ras por 11•1·citas fracassavam, ela era acusada pelo rumor público: devia
vastas extensões. Ali, o vizinho não pesava. Ao contrario, pro- ,1111 poder a Satã, servia-se dele para matar e não para curar.
curava-se sua presença, a tendência e~a se aproxir~u~r do colo~o l'ortanto, corria o risco da fogueira , na qual pereceu - um
mais próximo para escapar às armadilhas da solida? e dos 1~- 1 ,11111 entre muitos outros - a curandeira escocesa Bessie Dulop
dios.u D enunciar e fazer condenar um outro frances da ~me- 1111 1576.8" E. D elcambre ressaltou bem a suspeita que pesava
rica era enfraquece r a si mesmo, isolar-se um pouc_o _ma1s em 1111~ séculos XVI-XVII sobre os curandeiros e c urandeiras da
meio a um universo hostil. Na Europa, ao contrario, atuou 1 nrcna. A crença dos juízes e do clero a esse respeito, escreve
frequenteme nte, até a Revolução Industrial e a emigra_?ãO ma- 1h'. ncabou "por influenciar o vulgo: qualquer um na Lorena
ciça para as cidades, um fenômeno de superpopulaçao rural 11111• se metesse a cuidar dos doentes por encantações ou p ere-
gerador de conflitos internos. . . . . ~111111ções ou os curasse com uma instantaneidade de aspecto
A suspeita em relação ao v1Z1nho, que parece estai na ori- t1hl'cnatural tornava-se suspeito perante seus vizinhos de pacto
gem de tantas denúncias por feitiçaria, foi urna constante das 111111 o diabo". 89
civilizações tradicionais. E talvez compreendamos mel~or 0 I•:sse olhar de desconfiança pesava ainda mais severamente
que se passou outrora em nossa Europa lendo este apologo 11l11 l' ns parteiras, situadas no ponto de encontro de duas inter-
eh inês tirado do Lie-tseu: 111111,çi'lcs ameaçadoras, urna formulada pela opinião pública em
111 11ível mais humilde, a outra pelos depositários do saber.
Um homem .não encontrava seu machado. Suspeitou que o 11111 que as condições de higiene eram lamentáveis e o estado de
filho de seu ,;izinho o houvesse pego e pôs-se a observá-lo. 1111h• d:is populações muitas vezes deficiente, a mortalidade
Sua atit"ude era tipicamente a de um ladrão de machado. 1111,1111 il era outrora enorme e frequentes os óbitos de crianças
Seu rosto era o de um ladrão de machado. As palavras que 11 li l111ortas. Nem por isso os pais deixavam de fi ca r surpresos e

pronunciava só podiam ser palavras de ladrão_ de machado. 11-1111hosos quando o parto terminava mal. Se esses trágicos
Todas as suas atitudes e comportamentos traiam o homem ,li 1•11l11ccs começassem a se multiplicar em uma aldeia ou num
111111 o, imediatamente a suspeita se d ir igia para a parteira res-
que roubou um machado.
Mas muito inesperadamente, revolvendo a terra, o h~- 111111~,lvcl. Mas, por outro lado, os teólogos asseguravam que
~ li ,1 •j1• rejubilava quando crianças morriam sem batismo, já que
mem reencontrou de repente seu machado. Quando, no di;l
li 11 111111 para o paraíso. Nessa ótica, as parteiras não se consti-
seguinte, olhou novamente o filho de seu vizinho, este não
87
or.
tufam em auxiliares privilegiadas do Maligno? Tanto mais que, 1l1.1pois, elevando-a nos braços, oferece-a ao príncipe dos
em suas imundas misturas, as feiticeiras tinham o costume, demônios Lúcifer e a outros demônios; tudo isso na cozi-
acreditava-se, de inserir pedaços de crianças não batizadas. 11hn, em cima do fogo.?º
Assim, a parteira era acossada d~ dois lados. No decorrer das
epidemias demoníacas, sem dúvida ela foi, na aldeia, a pessoa ( )s documentos inquisitoriais da Lorena provam a conjun-
mais ameaçada, o próximo mais suspeito. Em O martelo dlls \411 111> plano local dos alertas saídos de O 1m1rtelo das feiticeiras.
feiticeiras, um capítulo inteiro explica "Como as parteiras feiti - i\, p111'teiras", escreve E . Delcambre, "eram, mais do que todos
ceiras infligem os maiores males às crianças": ,._ 1111tros, suspeitas de malefícios [provocando abortos acidentais
11111wimento de crianças natimortas]". Uma delas, originária de
Lembremos ainda o que apareceu nas confissões dessa criada H111111•l'Etape, confessou que "Mestre Persin" - era assim que
que passou por julgamento em Brisach: "São as parteiras que 1 h1111111vn Satã - "a persuadira [...] a fazer morrer todas as crian-

causam os maiores danos à fé". Aliás, viu-se isso claramente \ 111 que t ro uxera ao mundo [...] A fim de que não recebessem o

pelas confissões de certo número de outras que em seguida l111lw1110". Graças a ela, ele teria "levado mais de doze delas ao
foram queimadas. Assim, na diocese de Basileia, na cidade ele 1h1l''i niio munidas desse sacramento.91 Abortadoras e feiticeiras
Thann, uma feiticeira queimada confessara ter matado mais 111 potencial, as parteiras foram estritamente vigiadas pela
de quarenta crianças da seguinte maneira: à sua saída do ven- l11i.1j11 tridentina, que pediu aos padres de paróquia que as inves-
llM1IN~c.i111 e confirmassem se sabiam administrar o batismo.
tre, ela lhes enfiava uma agulha no alto da cabeça, no cére-
bro. Uma outra ainda, na diocese de E strasburgo, confessam
ter matado mais crianças do que podia contar.
\, I JOJE E A.iv[ANHÃ; MALEFÍCIOS E ADIVINHAÇÃO
Quanto à razão de tudo isso é de se presumir que as
feiticeiras fazem isso sob a pressão dos maus espíritos e () hom em de outrora, sobretudo no universo rural vivia
por vezes contra sua vontade. O diabo sabe com efeito que 1 1 11•1
1110 por um meio hostil no qual despontava a todo in,stante
por causa da pena da danação e do pecado original essas ~ ,11111•t1ça de malefícios. Um deles merece atenção particular: o
crianças são privadas da entrada no reino dos céus. Além 11111h1 ng ulheta. O feiticeiro ou a feiticeira podia, acreditava-se,
disso, desse modo o juízo final é retardado, após o qfrnl os 111111111' esposos impotentes ou estéreis - confundiam-se fre-
demônios serão enviados aos tormentos eternos, sendo o •11111111cmente as duas enfermidades - dando um nó num cor-
número dos el~itos atingido mais tardiamente, ao termo do 1 lh1 dur:in.te a cerimônia de casamento e ao mesmo tempo
qual o mune.to deve ser consumado. E depois [...] com esses 11111111111ciando fórmulas mágicas, e às vezes também lançando
membros as feiticeiras têm de confeccionar unguentos para 1111111 1noeda por trás do ombro. Urna tradição plurimilenar
seus usos próprios. Mas a fim de levar a detestar um cri- 111 •111dn ao longo das eras por Heródoto, Grégoire de Tours,
me tão abominável, não podemos passar sob silêncio o que 11111 lt11í rneros estatutos sinodais e demonólogos e que circulava
acontece: quando não matam as crianças, oferecem-nas aos 1111 difere ntes níveis culturais, afirmava a existência de casos de
demônios numa oferenda sacrílega. Desde que a criança 1, 11wl lidnde e impotência provocados por sortilégios. O martelo
nasceu, se a mãe não é ela própria feiticeira, a parteira leva ,l,11/11/ticcin,s assegura que estas podiam impedir:
a criança para fora do quarto sob pretexto de aquecê-la;

88 89
[...] a ereção do membro necessií ria à união fecunda [e] o 11111· "desata"; e os ministros serão censurados se abençoarem
fluxo das essências vitais [...] quase obturando os condutos ,1 1111ino matrimonial fora de sua igreja:
seminais a fim de que a semente não desça para os órgãos
geradores e não seja ejaculada ou seja ejaculada com per- Em vista do flagelo com que muitos são afligidos nas igrejas
da [...]. Elas podem enfeitiçar a potência genita l a ponto de f!Clos atadores de agulhetas, os pastores, para a isso prover,
tornar o homem incapaz de copulação e a mulher de con- farão ver vivamente em suas pregações que a causa desse
cepção. A razão de tudo isso é que Deus permite mais coisas infortúnio vem da infidelidade de uns e da enfermidade de
contra esse ato pelo qual o primeiro pecado é difundido do fd dos outros e que tais encantações são detestáveis; como
que contra os o utros atos humanos."' rnmbém a conduta daqueles que recorrem aos ministros. de
Satã para fazer-se desatar, sendo pior o remédio que pro-
E. Le Roy-Ladurie nota justamente que o nó da agulheta, curam do que o mal de que sofrem, o qual não se deve re-
tal como era imaginado então, consistia "em um nó castrador med!ar senão com jejuns, orações e por urna transformação
destinado a lesar a zona genital" e que a crença nessa ligadura ele vida. Acrescentar-se-á também ao formulário da exco-
é ao mesmo tempo antiga e amplamente difundida, já que é munhão que se pronuncia publicamente antes da comu-
encontrada nas duas margens do Mediterrâneo e no sudeste nhão, depois da palavra idólatra, todos os feiticeiros, bruxos
africano. Esse tipo de lesão pode ter sido inspirado, ao menos e magos [sínodo de Montauban, 1594].
entre nós, pela técnica dos veterinários para castrar carneiros, Sobre a questão (...], se é lícito dar atestado àqueles que
touros e potros. Com efeito, atavam os testículos ou o saco se querem casar fora de suas igrejas para evitar os sortilé-
escrotal com uma ligadura de cânhamo, de lã ou de couro: ?ios e_ligamentos de agulhetas? O sínodo é de opinião que
prática conhecida por Olivier de Serres91 Reconstitui-se a par- isso nao lhes deve ser permitido e que serão exortados a não
tir d:ií a possível passagem, na mentalidade antiga, da habilida- dar ouvidos a tais coisas que procedem de incredul idade ou
de dos veterinários ao feitiço la nçado aos humanos. de enfermidade [sínodo de Montpellier, 1598).94
Os séculos XVI-XVll não viram no O cidente uma recru-
descência do temor de malefício? Em 1596-8, o suíço Thowas _Em 1622, Pierre de L ancre confirma, por sua vez, que a
Platter descobre no Languedoc uma verdadeira psicose de li ll.(1dcz causada pela agulheta está tão difundida na França de
agulheta: "(Aqui]",·,escreve ele sem dúvida exagerando, "não ~1111 tempo que os homens de honra, não ousando mais casar-se
se veem dez casasr1êntos em cem serem celebrados publica- de• dia, fazem abençoar sua união à noite. Esperam assim esca-
mente na igreja. [Por temor dos sortilégios] os casais, acom- jlill' no diabo e a seus sequazes.''i
panhados de seus pais, vão às escondidas à aldeia vizinha Sobre a ubiquidade, senão do próprio sortilégio, ao menos
receber a bênção nupcial". Por várias vezes, entre 1590 e 1600, du temo r que inspirava, os documentos, nos séculos xv1 e )..'VII,
os sínodos provinciais do sul da França inquietam-se ao mes- ~,lo numerosos. ). Bodin declara em 1580: "De todas as imundí-
mo tempo com as práticas castradoras e com a atitude dos 1 lt•s ~la_ magia, não há mais frequentes por toda parte, nem mais

pastores, que, cedendo às apreensões dos cônjuges, aceitam p1wn 1c1osas, do que o impedimento que se causa àqueles que se
celebrar os casamentos fora de suas paróquias. Os fiéis devem, 1 11M1111, que se chama atm· n agulbetn; até as crianças trabalham

contra tais sort ilégios, confiar-se só a Deus e não ao feiticeiro nisso 1•.•]".96 Boguet, "grande juiz no condado di1 Borgonha",

nn 9/
retoma as mesmas afirmações em seu Discom:, exécrable des sor- 11 nm poste face a face, o poste porém entre eles dois; fusti-
ciers [...] publicado em 1602: "A prática [desse malefício]", escre- ~nva-os com varas por diversas vezes; após o que, desatava-
ve ele, "é hoje mais comum do que nunca: pois até as crianças os e os deixava juntos toda a noite, dando-lhes um pão de
se metem a atar a agulheta. Coisa que merece um castigo dois vinténs e uma garrafa de bom vinho, e fechava-os a
exemplar".97 Ainda em 1672 um missionário eudista, percorren- 11h11ve. No dia seguinte de manhã, ia abrir-lhes a porta lá
do a Normandia, faz saber a seus superiores que só ouve falar pclns seis horas e encontrava-os sãos, bem dispostos e bons
"de agulhetas atadas".98 Mais reveladora ainda é a lista fornecida 11migos.1º1
por J.-B. Thiers, padre da diocese de Chartres, em seu T-raité des
superstitions qui regardent tous les smnments (1674), das decisões () mesmo autor conta ainda que "em muitos lugares, os
conciliares ou sinodais chegadas ao seu conhecimento e que l 11111 rns esposos colocavam tostões marcados em seus sapatos, a
condenam a atadura da agulheta: para o período de 1529 a 1679, 11111 de impedir que se lhes atasse a agulheta". 106
menciona treze delas contra cinco para os séculos anteriores. V~,rios desses remédios mágicos, em particular aqueles
Assim, ele dá o testemunho de 23 rituais, todos posteriores a •111•• fni'.Cm passar vinho branco ou urina através de um anel ou
1480, acrescentando: "Os outros rituais [os que ele não citou] 1 11 ltichadura da igreja do casamento, são evidentemente des-
não falam de maneira diferente em seus sermões".'19 Efetivamente, 1l11ndos, segundo o princípio mágico de similitude, a favore-
entre 1500 e 1790, nenhum ritual francês omite a condenação 1111 n união sexual. E. Le Roy-Ladurie pensa também que as
do rito da agulheta e as preces destinadas a exorcizá-lo. Diante 111m1dns escondidas nos sapatos do homem representam sim-
de tão grande perigo (detalharam-se um dia a J. Bodin as cin- l111lknmente seus órgãos sexuais postos assim fora do alcance
quenta maneiras de atar o cordão de couro),100].-B. Thiers dá a d11~ l't:iticeiros. A própria variedade das receitas utilizadas diz
conhecer umas vinte receitas, fora os exorcismos e a absorção l111Ntn11te da inquietação das populações.J.-B. Thiers, antes de
de alcachofra-dos-telhados; por exemplo: 111111mci:ar esses remédios, evoca o comportamento de pânico
111111 n ligadura da agulheta de~encadeava entre aqueles que se
,111•oditavam maleficiados: "[E] um mal tão sensível para a
Colocar os recém-casados completamente nus e fazer o ma-
1111dor parte daqueles que são por ele atingidos que não há
rido beijar o dedão do pé esquerdo da esposa, e a esposa o
11111111 que não façam para ficar curados; que seja D eus ou o
dedão do pé esquerdo do marido.'º1 ~
dlulw que dele os liberte, é com que pouco se importam, des-
Perfurar um tonel de vinho branco do qual nada ainda il11 que dele fiquem livres". 101
foi tirado e faúi.: passar o primeiro vinho que dele sai pelo Afirmação muito forte no contexto da época e que dá a
anel que foi dá'do à esposa no dia do casamento. 101 1111,dldn ele um medo. Insistindo neste, nos séculos XVI e XVII,
Urinar no buraco da fechadura da igreja em que se ~,1111os vítimas de um erro de ótica explicável pela raridade rela-
casou.'º' 1lv11 dn documentação antes da invenção da imprensa e por sua
Dizer, durante sete manhãs ao nascer do sol, com as 1 111scunte abundância depois? Talvez? Os contemporâneos tive-
costas voltadas para o lado do sol, certas orações.'º4 111111 contudo a impressão de uma ameaça que ganhara recente-
Fazer o que fazia certo promotor da oficialidade de 11111111c uma dimensão nova. Podemos imediatamente recusar
Châteaudun. Quando dois recém-casados iam lhe dizer que ~1111 lcstcmunho? Um religioso celestino, o padre Crespet, que
estavam maleficiados, conduzia-os ao seu celeiro, atava-os puhlicn em 1590 Deux livres sur la haine de Satan, fornece até
92 93
uma data precisa. Declara que foi a partir dos anos 1550-60 que 1 l•'lnndrin sugere que o recuo da idade no casamento alia.do
as ligaduras de agulheta se multiplicaram. Assim, é levado a 1111111 repressão mais severa da heterossexualidade fora do ca-
estabelecer uma relação entre essa epidemia e o abandono d :1 111111110, e antes dele pelas duas Reformas religiosas - a cat ó-
verdadeira religião: "Nossos pais [afirma ele] jamais experimen- 1 1 ,, 11 protestante - , teriam provocado um redobramento da
taram tantos encantamentos e malefícios no sacramento dt li,_,11 rhação e, consequentemente em segundo grau, certa im-
matrimônio, como se viu desde os trinta ou quarenta anos em 11C\1win no início do matrimônio.110 A essa hipótese interessan-
que as heresias pulularam e o ateísmo foi introduzido".ios 1 1111111 outra, mais ampla, pode ser acrescentada, fazendo-nos

É portanto legítimo se perguntar se as obras eruditas nfo flll'•1H'pnra o complexo de castração e os bloqueios psíquicos -
refletiram uma situação, senão inédita, ao menos mais preo- 11 • nitidamente postos em causa por Montaigne e perceptí-
cupante do que no passado e caracterizada por um número 1, 11m rodos os níveis culturais. No capítulo que consagra à
maior de amenorreias, de abortos - esses últimos considerados htt \11 dn imaginação", i\1ontaigne nota, ele também, que seus
então uma variante ela esterilidade feminina - e sobretudo de 11111,11qporâneos falam constantemente da agulheta e analisa
casos de impotência masculina. Uns e outros, em particular as 11111µrn nde profundidade o mecanismo da inibição:
incapacidades femininas, podem ser relacionados à má nutrição,
que sem dúvida se agravou nos campos a partir elas penúrias do Sou ainda de opinião que essas divertidas ligações [os liga-
século XJV, depois em razão da relativa superpopulação do sécu- t111lntos de agulhetas] de que nosso mundo se vê tão entrava-
lo XV I, das epidemias e elas devastações causadas nos campos do que não se fala de outra coisa são habitualmente impres-
pela passagem frequente cios exércitos. Essas insuficiências ali- ~r1cs da apreensão e do temor. Pois sei por experiência que
mentares não podiam deixar ele provocar nos indivíduos menos 11111 sujeito, por quem posso responder como por mim mes-
favorecidos um estado quase permanente de fadiga e de depres- 1110, cm quem não poderia cair suspeita alguma de fraqueza,
são, propício às amenorreias, aos abortos espontâneos e até :1 1• tnmpouco de encantamento, tendo ouvido o relato de um
impotência. Mas foi sobretudo a frigidez masculina - que a m:í ~cu companheiro, de uma fraqueza extraordinár.ia em que
nutrição por si só não pode explicar - que atingiu os contem- 1°11Íl'n a ponto de não ter a menor necessidade, encontrando-
porâneos, como testemunham conjuntamente os escritos de ~l' cm semelhante ocasião, o horror desse relato veio-lhe de
Rabelais, Brantôme, Montaigne, Bodin e do padre Tli.icrs. 111íhito tão rudemente atingir a imaginação que o acometeu
Quando este lembra a medicação do promotor da oficialidade 1111m sorte semelhante; e daí em diante esteve sujeito a nisso
de Châteaudun (a•(lagelação dos esposos nus), trata-se de uma 1t'l'll ir, admoestando-o e tiranizando-o essa vil lembrança
terapêutica destinada sobretudo a aquecer o sangue cio marido. dt• seu infortúnio.111
Se, no começo da Idade lvloderna, a impotência masculina era
mais frequente que antes - a ponto ele a agulheta, "velho rito IJina hipótese, que talvez não valha para a pessoa mencio-
camponês sair de sua obscuridade rural" 109 para chegar ao ní- 11,11111 por Montaigne, mas que é dificilmente recusável em
vel ela cult~ra (escrita) - , o que se passou? É preciso relacionar 1111111011 out ros casos, vem ao espírito: uma causa importante
esse fato com a difusão ela sífilis a partir do século XVI? Tal ,h ••11•1l11ibições psíquicas não teria sido o discurso antifeminis-
explicação só valeria para um número limitado de casos, já quc 1,1 dm pregadores e dos demonólogos112 - um discurso que
essa doença só acarreta a impotência em suas formas finai s. 11111,.111 entre 1450 e 1650 seu máximo de violência e de audiên-

94 95
eia? Agravando o medo da mulher, lançando a suspeita sobre a 111' um malefício] impedir o efeito do sacramento de matri-
sexualidade, "essa maldita concupiscência", desvalorizando o 111(111io pelo ligamento da agulheta ou por qualquer uutra
casamento, "esse estado por si mesmo tão perigoso",m eles cul- 111 til ic:1 supersticiosa. Como enviar lobos para os rebanhos
pabilizaram as populações e aumentaram sem dúvida entre os 1h• cnrneiros e currais de ovelhas; ratos, camundongos,

mais timoratos o temor do ato sexual. A partir daí, procura- fllll'Hulhos ou carunchos aos celeiros; lagartas, gafanho-
ram-se culpados, que foram descobertos no universo de feitiça- lwl e outros insetos aos campos para estragar os cereais;
ria de que pregadores e demonólogos falavam incansavelmenn.:. toupeiras e ratos silvestres aos jardins para perder as ár-
Assim, a má nutrição, o aumento da masturbação e os bloqueios v11res1 os legumes e as frutas. Como impedir as pessoas de
psíquicos resultantes de uma culpabilização reforçada teriam 111111ur, colocando na mesa sob seu prato uma agulha que
conjugado seus efeitos para reforçar no Ocidente do começo da , 111•vln para amortalhar um morto. Como enviar doenças
Idade Moderna o temor da ligadura da agulheta. 111• lnngor e de longa duração aos homens e aos animais, de
Este não era senão um dos múltiplos malefícios temidos 11111111.:ira que uns ou outros enfraqueçam visivelmente, sem
outrora. J.-B. Thiers, que aliás rejeita tantas superstições, •lllt' se possa socorrê-los pelos remédios ordinários. Como
acredita que deve esclarecer seus leitores sobre o número e a lt11ior morrer os homens, os animais e os frutos da terra
variedade cios sortilégios que os ameaçam. Seu livro, consul- p1 li' meio de certos pós, de certas águas e de certas outras'
tado aqui em uma edição tardia (1777), apresenta um catálogo drngos mágicas [...]. Como fazer secar uma certa erva na
verdadeiramente etnográfico dos medos cotidianos de antig,1- , 111111,iné a fim de fazer esgotar o leite das vacas [...]. Como
mente. O padre do Perche distingue em primeiro lugar três 111111•gulhar uma vara na água, a fim de fazer chover e de cau-
categorias de malefícios: "o sonífico", "o amoroso" e "o inimi- ~111 nlgum prejuízo ao próximo [...]. Como quebrar as cas-

go". Insistiremos em dois deles: 11111 dos ovos quentes, após ter engolido o de dentro, a fim
1h1 que nossos inimigos sejam assim destruídos [...]. Como
[O primeiro] se faz por meio de certas beberagens, ele cer- _,11•vir-se do osso de um morto para fazer morrer alguém,
tas ervas, de certas drogas, de certos encantamentos e clc l1t1l111do certas ações e recitando certas palavras [...]. Como
certas práticas de que os feiticeiros se servem para ador- 1111111· morrer os animais golpeando-os com uma varinha e
mecer os homens e os animais, a fim de em seguid~ poder dl1.1111do: "Eu te toco para te fazer morrer [...]". Como fazer
mais facil mente envenenar, matar, roubar, cometer impu- ll»11 r11s de cera, de barro ou de alguma outra matéria, picá-
rezas ou raptar crianças para fazer sortilégios. li1111 nproximá-las do fogo ou despedaçá-las, a fim de que os
O maleíício inimigo é tudo que causa, tudo que pode 111 lf,l'l nnis vivos e animados sintam os mesmos ultrajes e os

causar, e nido que é empregado para causar algum dano aos llll'N11tos ferimentos em seus corpos e em suas pessoas [...].
bens do espírito, aos do corpo e aos da fortuna, quando isso t :wno prender a uma chaminé, ou fazer grelhar sobre uma
se faz em virtude de um pacto com o demônio. 11111lht1 1 certas partes de um cavalo, ou de algum outro ani-
111111 morto por malefício, c picá-las com alfinetes, agulhas
Segue-se a lista impressionante dos "malefícios inimigos", 1111 O llll'aS pontas, a fim de que o feiticeiro que lançou o ma-

à frente dos quais figura naturalmente o ligamento da agulheta. 111!do seque pouco a pouco e morra enfim miseravelmente
O tom é o de um requisitório:114 1 ,1, ( :0 1110 excitar tempestades, granizos, temporais, raios,
1111v0us, furacões, a fim de vingar alguma injúria recebida

97
96
[...]. Como impedir as pessoas de dormir, colocando ~I~ sua n1 - 11 esterilidade, a impotência, a loucura, a "má noite", a
cama um olho de andorinha. Como provocar a estenlidade 1111d11 clm; colheitas e dos rebanhos. Eis-nos no próprio coração
das mulheres, das éguas, das vacas, das ovelhas, das cabras 1111 1111lvcrso atemporal do medo. Um medo por toda parte
etc. a fim de causar prejuízo a seus inimigos. Como fazer -• 111p1•c presente porque a natureza não obedece a leis, por-
0 q~e se chama de cavilb11r [por esse sortil~gio, im_p~d~-se
11111 1111111 nela é animado, suscetível de volições inesperadas e
as pessoas de urinar]. Pelo mesmo malefício, ~s fe1t1ce1ros 11111 11111do ele inquietantes manipulações por parte daquelas e
encravam também e fazem mancar os cavalos; impedem os 111111111.•N que têm pacto com os seres m isteriosos que dominam
recipientes cheios de vinho, de água ou de outro l_íqui~o, de 1 ~li"\'º sublunar e são portamo capazes de provocar loucura,
poder ser esvaziados, ainda que se lhes faça uma mfimdadc 111111~11N~· tempestades.
de perfurações. Como perturbar os espíritos dos ho~ens, \ 11Nl 111, convém tratar com prudência aqueles que detêm o
de maneira que perdem o uso da ra~ão, ou e_ncher sua m:a- 11h I tlt• ngi r sobre os elementos e de dar aos pobres humanos
ginação de vãos fantasmas, q~e os f:z~m cair em fr;nes1, a 11th rn1 e nfermidades, prosperidade ou miséria. Não tenha-
fim de tirar vantagem de seu 111fort u1110, ou de expo-los ao 111 tluvldns: muitos europeus de outrora consideraram aquele
desprezo dos outros. Como causar a insôni~ aos homens e.: Ili• ,1 lwcjo chamava de Satã uma potência entre outras, ora
às mulheres [queimando um feixe, velas ou mvocando um:1 Ili Ih 11, ora maléfica, segundo a atitude adotada em relação a
estrela]. Como fazer imprecações contra alguém apagando 1 " l,11H.1ro, no Grande catecismo, acusa aqueles que "fazem
todas as luzes da casa, dando as costas aos vizinhos, rol~ncio h,111~,11•11111 o diabo, a fim de que ele lhes dê dinheiro suficien-
no chão e recitando o salmo CVIII (hoje CIX). Como fazer 1111 ljlll' fnvoreça seus amores, preserve seu gado, lhes resti-
morrer os piolhos e os outros insetos que atacam o hom_em, u 1111 huns perdidos". Henri Estienne menciona em 1566
esfregando-se com água de poço ou de fontes sob as axilas, 11 t '1 h1111 mulher [que], após ter oferecido uma vela a são
e recitando certas palavras. h1111 1I, nl(Jrccia uma também ao diabo que estava com ele: a
1 \1 IHlll1I, :1 fim ele que lhe fizesse bem, ao diabo a fim de que
Ao final dessa longa enumeração, J.-B. Thiers acrescenta 11111 l lt,l 1SSC ma l". Um paroquiano de Odenbach (Alemanha
que existe ainda "urna infinidade de outros male~íci,?s que os 1 ~i.11111•) declara em 1575, após uma colheita abundante,
feiticeiros e envenenadores empregam todos os dias - ~' real- h II dhu que é o diabo que lhe concede tantos cereais. N o
mente não se terminaria de recensear todos os sortilégio~ 11111 ~11µ11intc, o padre Le Nobletz descobre na Bretanha
menci~nados no.s processos, nas obras de demonologia'. no~ 11111 l\1\1•1, l!llC fazem oferendas ao Maligno porque imaginam
estatutos sinoq,a'is, nos relatos de milagres, nos manuais tk h I o Invcntor cio trigo-mouro. Assim, depois da colheita,
confissão e nos tratados de teologia moral que chegaram at t· ~111p111H'scs l:inçam vários punhados desse trigo nos fossos
nós. Tal qual, a lista do padre do Perche constitui em todo _c:~so 11111 ,1111 os c:impos onde se colheu "para d,i-los de presente
um testemunho importante sobre uma cultura rural ~ mag•c~ 11 ,1 q111111 limaginam] ter a obrigação".
que força constantemente as portas da cult~r~ erud1ti~- _Aq111 11, 111uwn1ar Satã causava problema, portanto; e também
dominam a desconfiança e a vingança de v1zmho a v1zmho, 1111, 111u1• snntos suficientemente poderosos para curar
Aparece também a convicção de que as calamidades, as_ doell 1 1, tio mesmo modo, provocá-las. N o Ocidente dos
ças, a própria morte não são naturais, a~ m~no_s no sentido cm ti 1 \ li XV II , conheciam-se - e temiam-se - bem umas
que O entendemos hoje. Emergem, enfim, ms1stentes aprecn 1111 il1u111.,:ns designadas pelo nome de um santo," 6 podendo

98 99
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Oivi~, :i_,. :~~-..~~~jot_f:f.~ .
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·- •õ"i{~ mesma enfermidade ser relacionada a vários santos diferen- Moio século mais tarde, H enri Estienne faz eco a Erasmo
tes. As mais temidas, e aparentemente as mais frequentes, era111 l/111/ogie pour Hérodote:
o fogo de santo Antônio (ergotismo gangrenoso); o mal de são João,
também chamado de mal de saint-Lou (epilepsia); o mal de santo 1... 1 Cada um [dos] saptos pode enviar a mesma doença da
Acário dito também mrtl de saint-Nlatlmrin (loucura); o mal de são 1111111 pode curar(...]. E verdade que há santos mais coléricos
Roque 'ou são Sebastião (a peste) ; o mal de saint-Fiacre (hen:iorrói- 1• porigosos do que os outros: entre os quais santo Antônio
das e verruga no ânus); o ·m al de snint-Mnur ou 111al de smnt-Ge- 1 o principal, porque queima tudo pela menor desfeita que
nou (gota). Muito cedo, os relatos de milagres insistiram sobre ~•• fi1çn a ele ou a seus mendigos[...]. Ora, bem se pode dizer
as vinganças que santos ultrajados eram capazes de exercer. 1li1~NC santo e de alguns outros dos mais coléricos e dos mais

Grégoire de Tours conta que um homem, tendo falado com p111•igosos o que um poeta latino disse geralmente de todos
11~ deuses: Prinms in orbe deos fecit tirnor,
111
desdém de são Martinho e de são Marcial, tornou-se surdo e
mudo e morreu louco.''7 Na aurora da Idade Moderna, a maior
parte das pessoas não raciocinava de maneira diferente da época 11 Inquietante poder dos santos malévolos, ei-lo ainda
de Grégoire de Totus. Um cronista do século XV faz sab~r que 1 lllltll/lLrndo de maneira exemplar pela existência no Berry de
o rei da Inglaterra H enrique V, após ter devastado o moste1r~ de 111,1 lollle consagrada a são Mau, para perto da qual se dirigiam
Saint-Fiacre, perto de Meaux, foi at ingido pelo mal de Sarnt- 1111 q11nl rezavam aqueles que desejavam a morte de um inimigo,
-Fiacre descrito aqui como "um espantoso fluxo de ventre, co111 11111 l'lvnl em amor ou de um parente com herança. Felizmente
hemorróidas". Morreu disso após cruéis sofrimentos. "Deitado 111 ltH11{C dali, erguia-se uma capela dedicada a são Bom.m '
em seu leito de dor, ele pagava o tributo ao glorioso confessor 1lN processos de feitiçaria, as pregações, o catecismo esfor-
são Fiacre, como se dizia, e sofria o último martírio."
118 1,1111 se, a partir do século XVI, em introduzir na mentalidade
É possível que os pregadores, em seu zelo, tenham reforça- 1h I lvn dos campos a necessária distinção entre Deus e Satã,
do a crença nos santos vingativos. "Assim pregava um beato em 11111• ON santos e os demônios. Permanecia no entanto o me.cJo
Sinai", est,1 escrito em Gargmitua, "que santo Antônio punha o 111, 11111lt iplos perigos que pesavam sobre os homens e a terra de
fogo nas pernas, santo Eutrope fazia os hidrópicos, são Gildas Ili 1111 li, 1~ portanto continuavam, apesar das autoridades reli-
os loucos, são Genou as gotas.""') Zombando por vária§. vezes lm,1~ 11 lei~as, práticas suspeitas, tais como as tochas do pri-
do temor cios santos malfazejos, os humanistas atestam por isso 1111111 iltnnmgo da Quaresma e as fogueiras de são João. Desde
mesmo quanto ~le era difundido. Erasmo ironiza em um de 111pt1N Imemoriais, no momento em que a vegetação renascia
11111111111-se fogos sagrados - tochas ou archotes - e, de tocha
seus Colóquios: 7 '
Ili 111~111 percorriam-se os campos para afastar os gênios maus e
Pedro pode fechar a porta do céu. Paulo está armado do 111j11 1111• os insetos.m Os ritos de são J oão traziam múltiplos

gládio; Bartolomeu, do sabre; Guilherme, da lança. O fogo 1 11, 1ll'ios e proteções. As ervas colhidas durante a noite de 23
sagrado está à disposição de Antônio. [...] O próprio Fran- t I l •I do junho protegiam durante um ano homens e animais

cisco de Assis, depois que está no céu, pode tornar cegas •• 1lm111ç11s e dos acidentes. A mesma virtude era atribuída aos
ou loucas as pessoas que não o respeitam. Os santos mal 111 ~ ljllC eram levados para casa e acreditava-se também ao

honrados enviam horríveis doenças.


110 1 1111~ 1111 Bretanha, que as chamas desse fogo excepcional ;ea-
lt11 ,1\11111 as almas cios mortos.'14 Nos países protestantes e nas

101
/00
dioceses católicas governadas por bispos rigoristas, interdiçõc~ 11111 1111. /\ssim, era preciso organizar constantemente batidas
draconianas repeliram para a clandestinidade esse magisrno 1h •- pnr:1 caçá-lo. Os documentos a esse respeito são legião.
qualificado de "pagão". 115 Em outras partes, o poder eclesi:íst i 1 11111, uqui simplesmente dois, significativos e separados um
co, na continuidade de uma longa tradição, aceitou abenço:11 1111111111do tempo e pelo espaço. Em 1114, o sínodo de Sa ntü1go
essas condutas e esses ritos anteriores ao cristianismo, limitan C 11111po~tela decide que em todo sábado, com exceção das
do-se a condenar as ~m1ticas que tentavam esquivar-se à vigi 1 1 •~ cln Páscoa e de Pe ntecostes, terá lugar uma caça aos
lância da Ig reja. Daí um magismo cristão que permaneceu :lll' 1 'l,11'1,irdotes, nobres e camponeses que não estejam tomados
u ma época recente como um dos componentes maiores da vida 111 11p1 1i.:ôes urgentes deverão dela participar. O padre que se
religiosa do Ocidente. Em uma obra reeditada em Veneza c111 Ili li \1 1111 ter a desculpa da visita aos doentes pagará cinco cên-
1779 figura uma boa centena de "absolvições, bênçãos, conju 1111 1h• tllulta. O nobre ausente também. O camponês dará um
rações [e] exorcismos" relacionados unicamente à vida materi:il: 11111111 ou um carneiro. 12'1 Em 1696, o abade de Saint-Hubert,
bênçãos dos rebanhos, do vinho, do pão, do óleo, do leite, clm t l 11,1•111burgo, promulga um decreto em que se lê:
ovos, de " toda carne" dos bichos-da-seda, dos celeiros, d:1\
granjas, do leito conjugal, do poço novo, do sal que se dar:í :10~ l11l111•11rndo dos estragos que os lobos fa zem a cada ano nos
a nimais, do ar para q ue permaneça sereno ou traga a chuv:1; ,, l11111hos de nossa terra e nas aves silvestres de nossa caça,
conjurações da " tempestade iminente" e do trovão [...]; exor 111, 11111111110s a nossos majores e lugares-tenentes que orien-
c ismas contra os vermes, os ratos, as serpentes e todos os a 11 i h 111 os habita ntes de sua alçada para ir à caça aos lobos tan-
mais nocivos'1" etc. 1 ,_ 1• quantas vezes o tempo se encontra r próprio durante o
E ntre esses últimos, o lobo era particularme nte temido, 1111111·110 deste ano de 1696.00
Como prova, os muitos provérbios que o mencionam:in "A 1111!
guarda alimenta o lobo". "É uma boa captura a de um jovc111 \ l11d1t no século XIX, caçadas coletivas aos lobos eram orga-
lobo." "Não há lebre má nem lobo pequeno." "Morte de um loho, 111,~ 110 baixo Berry. No fin al da Primeira G uerra Mundial,
saúde da ovelha" etc. O aparecimento do lobo significava mui1:1~ 1, 11o111 umc11to do Indre continuava a ser para eles uma região
vezes a instalação da penúria: "A fome expulsa o lobo dos hm I' ,~~lll(Clll. 131
ques". Orn, como outrora a fome era frequente no mundo rur:il, N11 l•'rnnça, o medo do lobo nunca foi tão forte quanto ao
o lobo era ao mesmo tempo um animal temido, misterioso (prn 11~1 d1111 l{UCrras religiosas. As devastações, o abando no das cul-
que vivia nos 'bosques) e terrivelmente presente. Dizia-s1·1 11 "1111011de os exércitos haviam passado, ,is penúrias da última
"Conhecido cbmo o lobo". Quantos ditados empregam a palav111 11111 do século XVI tiveram por consequência uma verdadeira
lobo!' 1~ Ao se avaliar pelos contos e fábulas que nos t ransmicir:1111 t 111 elc lobos atestada especialmente por P. de L'Estoi le: "Ten-
seu eco, o grito "Lobo! Lobo!" ressoava com frequência. 1•'.n,, , ti 111111111do a guerra entre os homens", escreve ele em junho
com ou sem razão, o sinal evidente de gran<le perigo e, em 111:11~ 1\IIH, 11<.'0meçou a dos lobos entre si. Principalmente em Brie,
de um caso, de pânico. Para o inconsciente coletivo, o lobo l'l ,t li 1111111,l{ne e Bassigny contam-se feitos crué is dos ditos lobos".U1
talvez "o sombrio emissário do mundo ctônico" (Lévi-Strau~~). d 111111li 1111:1, relata por volta da mesma época o cônego Moreau:
No âmbito das representações conscientes, era o animal sangui 1 1111-11 horrível de contar o que fa ziam de ruim", invadindo as
nário inimigo dos homens e dos rebanhos, companheiro da fo11 11 11 ,h• <)uimper, matando animais e gente em plena rua, ata-

1111 102 /03


cando-os na garganta "para impedi-los de gritar e, se tinha111 ( :onvinha então empregar armas excepcionais contra um
tempo, sabiam despojar sem estragar as vestes nem mesmo as 111111111 infernal que, acreditava-se, atacava de preferência as
camisas, que eram encontradas inteiras junto das ossadas dos n111lhores grávidas e as crianças que brincavam a alguma distân-
devorados [...]". "O que", acrescenta o autor, "aumentava cada vc·,. 111 cln casa paterna. Tal era precisamente o comportamento da
11
mais o erro dos simples de dizer que não eram Lobos narnrais, 111'~111 que, nos anos 1760, espalhou o medo em Gévaudan.
mas Lobisomens ou soldados, ou feiticeiros transformados.""' 11111 gravura da época a descreve como um animal que "parece
Alguns anos mais tarde a situação não é menos inquietante no 11111 lobo, com a diferença de que não tem as patas tão compridas"
Languedoc, a julgar pelo decreto de 7 de janeiro de 1606, pro- pmvável que se tomassem muitas vezes lobos por esse animal
nunciado pelo parlamento de Toulouse: 111-1111-ioso. A inquietação que provocou não foi senão o exagero,
Ili 1•1.1 rto momento e em região determinada, do medo tradicio-
Dada a reclamação apresentada pelo procurador-geral cio n11I do lobo - um animal contra o qual as armas da religião não
rei concernente às mortes e devastações feitas pelos lobos r11111 excessivas. Contra ele, invocava-se são Lobo em razão de
e bestas selvagens, tendo matado mais de quinhentos ho- li nome, ou santo Hervé na Bretanha. Mergulhavam-se balas
mens, mulheres e criancinhas há três meses nas senescalias d 1111,il na água benta. Recitava-se o "pai-nosso do lobo", de que
de Tholose e Lauraguois, mesmo na guarda e arredores do 11111drc Thiers nos deu umas das inúmeras variantes:
dito Tholose, a corte ordena a todos os oficiais do rei [... 1
reunir os habitantes dos lugares e dar caça aos lobos e ou- 11:111 nome do pai, do filho, do espírito santo; lobos e lobas,
tras bestas selvagens [...].'34 ,,11 vos conjuro e enfeitiço, eu vos conjuro em nome da san-
1!11sima e sacrossanta como Nossa Senhora concebeu, que
Portanto não é por acaso que, na virada dos séculos XVI e 11110 tomeis nem afasteis nenhum dos animais de meu re-
xvn, os demonólogos franceses dissertaram abundantemente h1111ho, sejam cordeiros, sejam ovelhas, sejam carneiros[....],
sobre a licantropia e os tribunais tanto condenaram feiticeiros 1111111 lhes façais nenhum mal. 131

acusados de canibalismo.115 Homens podiam transformar-se em


lobos devoradores? Ou estes se tornavam objeto de uma pos- 1 B. Thiers rejeitava essa prece porque não tinha o aval
sessão demoníaca? Ou, ainda, feiticeiros tomavam, gfaças ao 1~ l111•cjn e porque utilizava um procedimento mágico de con-
diabo, aparência de lobos, saciando então seus instintos san- j11111\ Ro por "similaridade" (assim como a Virgem concebeu,
guinários? As ·o piniões estavam divididas, mas não a certe1.a 111 11 robanho seja protegido). Mas permanecia a insistente
milenar de que o lobo é um animal satânico. Quanto ao termo 11111111cl11 de populações que tinham necessidade de ser prote-
lobisomern,* de origem germânica, e atestado em toda a Europa, 1111111, () protestantismo recusou aceder a essa interpelação
sign ifica "homem-Lobo", e traduz bem qual era a convicçfü> l •1111dn1•, O catolicismo, em compensação, continuou afinal a
profunda dos camponeses. Ainda no final do século XVII, no p1111dor n ela, mediante certas precauções.
\ C'Nl reita relação entre medo e religião da terra cristiani-
Luxemburgo, a injúria "Lobisomem" era levada muito a sério e
1h1, 111-111 ainda claramente expressa nessa humilde prece diri-
dava lugar a reparação pública.136
1111111111 pleno século XIX a são Donato, um mártir romano cujo
1111111 1111.in invocar contra o trovão e as intempéries:
• Em francês, /011p-gnro11. (N. E.)

104 105
Glorioso santo que, pelo martírio que sofrestes, tendes a fc 111111 que o prudente procurador fiscal da presente corte
licidade de possuir Deus, de cantar seus louvores com seus , h••hlNt ica nos expôs que há muito tempo veem-se notáve is
anjos e arcanjos, de participar da felicidade eterna e espiri 1h1111 IIINI rações segundo as quais Deus, Nosso Senhor, esta-
tua!, nós vos intercedemos e suplicamos que sejais junto do i ht 111d lgnado e ofendido com os inúmeros pecados e ofensas
Salvador Jesus Cristo nosso intérprete, que, por sua grn~·11 11111 ~•• <:Ometem contra Sua Divina Majestade. Pelas quais
todo-poderosa, ele nos preserve das terríveis desgraças do h 1111 IN 11 crida dia sinais indicando que desejaria castigar-
granizo, da tormenta, das tempestades, dos funestos efeitos 1111~ por meio da perda dos frutos da terra, pelas iminentes
do raio e de outros flagelos destruidores; que, por vossa san 11111 1h111 de g ranizo, tempestades e borrascas causando uma
ta e poderosa proteção, Deus nos conceda a graça de sermos t111l1lvl1l penúria e esterilidade na presente diocese, e outr os
protegidos de todas as intempéries contrárias às estações l' ~1,11 IN~imos prejuízos, bastante notórios e manifestos; e que
ti _,111111 Ig reja, mãe muito piedosa, desejando acalmar a ira e
a todas as produções da terra, nossas maiores riquezas t:ío
t ltt1ll1t11aç1io divinas, introduziu diferentes remédios, como
necess,írias ao mesmo tempo à nossa existência, da pcsu•
tt t1 11111c dos sinos, os santos exorcismos e bênçãos, e outras
de nossos rebanhos, igualmente de nossas colheitas, reco111
111 •I\ 111•.~ e preces. Apesar disso, viu-se que as pessoas a quem
pensas que concedeis ao cultivador como prêmio de s11:1•1
1 -1• d 111,in respeito e a quem cabia fazê-lo teriam sido negli-
vigíli,1s e de seu suor; enfim, que nossas casas permaneç:1111
11• lllt'N um realizar as ditas obrigações.
imóve is a todas as destruições aflitivas para nós outros, in Ít"
1'111•n isso é de nosso encargo prover um remédio ade-
1iz.es criaturas; concedei-nos, Senhor, todas essas graças p<H
111111!111, 11 íim de evitar semelhantes e maiores prejuízos e
vosso santo poder e pela intercessão de vosso bem-amado 1•
1th ttJIVllll ientes; e assim, pelo teor da presente, a vós e a
fiel servidor são Donato. Assim seja. Recitar por inte nçfo t 11h1 11111 de vós, a exemplo do procurador fiscal, como pri-
do bem-aventurado mártir sete pai-nossos, manhã e noite:, 111111 11, segunda, terceira canônica e peremptória advertên-
e sete ave-marias. 1lo1, dl¼cmos que, durante todo o tempo que os frutos da
h 11 11 1•~1iver em em perigo de ser destruídos e arruinados
Essa prece pode ser comparada a mil outras práticas outn 1 111 li1~ quedas de granizo e outras tempestades e borrascas,
ra muito difundidas: os toques de sinos durante a torment.1, 11 l 1\1il~ ,•ontínua e pessoal residência em vossas igrejas e pa-
colocação das cruzes de encruzilhadas para que protejâm do 11h11il11N, e que não vos afasteis delas de maneira nenhu-
granizo os campos vizinhos, o uso de talismãs e de "breves" 111,, , 11 111lo ser quando se apresentar alguma necessidade; e
- muitas vezes lll:11 curto fragmento do prólogo <lo Evangdli11 1 llllll'l', qunndo virdes sinais de semelhantes tempestades
de são João etc. Compreende-se, nessas condições, que as po p11 , l11 111 11scns, tende o cuidado de exorcizá-las e benzer pelo
lações rurais tenham visto no sacerdote aquele que, dotado pl·ln 111,d dn santíssima cruz, tocando os sinos e utilizando os
Igreja de poderes excepcionais, podia afastar de uma terra grn 11111 11111 remédios que com tal objetivo nossa santa madre
niz.os e tempestades - manifestações evidentes da cólera divi l111 11Jt1 inl roduziu; e realizareis isso sob pena de dez libras
na. Na diocese de Perpignan, em abril de 1663, a autorid:1d1• 111 1111d111, de excomunhão maior e outras penas, aplicáveis
episcopal, cedendo com toda evidência às pressões públicas, , Hllllllo nosso julgamento, e segundo o dano causado por
acreditou dever lembrar aos padres o imperioso dever de pc1· \ 11 1•11 uugligência [...]. us
1m111ecer em suas paróquias durante a estação dos temporais:

106 107
O que significavam tantas precauções e proteções, scnfo 111 11 domínio ele Deus, esta é "superstição diabólica [...], sacr.i-
que o futuro próximo aparecia, outrora, carregado de ameaça~ 111 1111111·111e e detest{ivel" ("Advertência contra a astrolog ia
e repleto de armadilhas e que convinha precaver-se a todo in, •111111111 ~cmcnciosa")."º
tante contra umas e outras? Daí a necessidade de interrogar l' 1 h ••~t·lorecimentos dos teólogos chocaram-se por nmito
de interpretar certos sinais, tentando, graças a eles, conhecer o 11p11, 1111 prática, e mesmo no nível cultural mais elevado, com
futuro com antecedência. A "adivinhação", em seu sentido maio, 111 l,1 que se fazia do universo, concebido como totalme nte
amplo, era - e é ainda para aqueles que a praticam - u11111 li ,ulo. Para os contemporâneos de Ficino e ainda de A.
reação de medo diante do amanhã. Na civilização de outrora, 11 1 e ilt• Shnkespeare, nada é verdadeiramente matéria e não
amanhã era mais objeto de temor do que de esperança. 1 h 1llf11r1mça de natureza entre causalidade das forças m ate-
A astrologia não é senão um dos setores da adivinhaç:io, i I d tl'tlcin das forças espirituais, explicando estas especial-
Aquele do qual a cultura escrita mais falou. L. Aurigem11111 tttc 11~ movimentos planetários. Cada destino se encontra
lembra que em 1925 haviam-se contado na Alemanha 12 5(,1 11 1111 11111 tecido de influências que, de uma ponta a outra
manuscritos, espalhados do século x ao xvm, relat ivos à astrolo 1111111tlo, lltrnem-se e repelem-se. A lém disso, o homem estií
gia.U9 Essa cifra seria talvez decuplicada se fosse efetuado o me,
o11h1 por 11111a multidão de seres misteriosos e leves, no mais
mo trabalho levando-se em conta a Europa inteira. Ao longo <ht
1111•• invisíveis, que cruzam incessantemente a rota de sua
história cristã, o discurso teológico esforçou-se em disting uir 11
1 •~< •, dois axiomas da ciência de outrora foram expressos
astrologia lícita da ilícita. Santo Agostinho admite que as estrelo~
tt 11111110 nitidez por Paracelso:
podem ser "os sinais anunciado res dos acontecimentos, mas cln~
não os rematam". Pois, "se os homens agem sob a coerção ccll·,
te, que lugar resta ao juízo de Deus, que é o mestr e dos astro, 1 l lt li\ povoou os q uatro elementos com criaturas vivas.
1 1lt111 li~ ninfas, as náiades, as melusinas, as sereias para
dos ho mens?" (Confissões, v, cap. l"). Para Santo T omás, impo11 11
não só salvaguardar a liberdade de Deus, mas também a de c:11 li1 I'"' 11111· ns :íguas; os gnomos, os sil fos, os espíritos das m on-
um de nós. Não há nenhum pecado, escreve ele, em usar a ast ro 1111h1111 e os anões para habitar as profundezas da terra; as
logia "para prever efeitos de ordem corporal: tempestade ou ho111 1l,11111111drns que vivem no fogo. Tudo provém de D e us. To-
tempo, sm'.1de ou doença, abundância ou esterilidade das collwl 1111 m 1·orpos são animados por um espírito astral do qual
tas, e t udo aquilo que depende semelhantemente de caus as l'<II 111111111tl1,.1111 sua forma, sua figura e sua cor. O s astros são ha-
porais e naturaiJ;. T odo mundo dela se serve: os agricultores, 11 l111,11h1~ por espíritos de uma ordem superior à nossa a lma,
navegadores, os' médicos [...] Mas a vontade humana não t·,111 • 11~ c~píriros presidem nossos destinos {...] Tudo o que o

submetida à necessidade astral; senão arruinar-se-ia o livrc-:11 hl , , 111 o ~-oncebe e real iza procede dos astros {...)." 1
trio e ao mesmo tempo o mérito" (Suma teológica, na- 11ae, q111•~
tão 95). Essa distinção é retomada por Calvino, mas com 1111111 1 111lo crn, por certo, a doutrina das autoridades re li-
ênfase muito agostiniana sobre a onipotência divina. E le opn1 111111 o sentimento de Montaigne. i\tfas, no conjunto , a
então a astrologia " natural", fundada "na conformidade ent n· 11 , 1 ll\11, npoiando-se em uma longa tradição, pensou corno
estrelas ou planetas e a disposição dos corpos humanos", "11 , 1.it, l>11í o embaraço dos redatores de prognósticos e
astrologia bastarda", que procura adivinhar o que deve acontt·11 1 11 u111w1 prudentes porque vigiados pela Igreja e pelo
aos homens e "quando e como eles devem morrer". Aval1(;:11ul1, 111 1111111, inversamente, solicitados a corresponder à forte

108 109
demanda do público (conhece-se uma centena de livretes fran- ll1(1ll111S inquietantes. Os "pasquins" dos séculos XVT-XVIT estão
ceses de previsões do século xv1). 14! Muitas vez_es e~es ~e s~í~m 11 pllitns dessas histórias inacreditáveis, em que prodígios ceies-
bem, sinceramente sem dúvida, conciliando ompotencrn d1v111a li ~ 1· tt.1 rrestres são frequentemente associados:
e poder das estrelas. Deus, dizem alguns deles, é o "soberano
Senhor onipotente" e, portanto, o ena · dor e "domma. dor"dos () terrível e espantoso sinal que foi visto sobre a cidade de
astros. Mas por outro lado, "criou os céus e os elementos ~ar.1 P11 ris, com vento, grande clarão e luz, tempestade e raio, e
nossa utilidade". "Encravou as estrelas no céu para nos servu de oulro sinal [21 de janeiro de 1531).
sinais mediante os quais nos é permitido prejulgar alguma Os novos e espantosos sinais advindos no reino de N á-
coisa de futuro no estado dos homens, dos reinos, da religião e poles de três sóis que apareceram por volta das IV horas
governo destes." Ao lado desse "prognóstico" de 1568, pode-se cln manhã [agosto de 1531]. E também uma mulher com a
colocar um texto de Charité Pirkheimer, clarista de Nuremberg, Idade de ITIT.XX e vnr anos [88 anos), que teve filho. Tam-
que escreveu em suas Mémoires: hóm uma jovem louca de sete anos de idade que lança água
1•lnra pelos seios.
Lembro-me em primeiro lugar da previsão feita, há mui- Da serpente ou dragão voador, grande e assustador,
tos anos de um cataclisma que poria em desordem, no ano 11p11recido e visto por todo mundo sobre a cidade de Paris,
do Senhor de 1524, tudo que se encontra na superfície da 1111 quarta-feira XV III de fevereiro de 1579, das duas horas da
Terra. Outrora acreditava-se que essa profecia estava rela- Ili rele até a noite.

cionada a um dilúvio. Depois os fatos demonstraram que as O terrível e pavoroso dragão aparecido na ilha de Mal-
constelações tinham anunciado na realidade desgraças sem i 111 o qual tinha sete cabeças, junto com os urros e gritos que
número [em consequência da Reforma], misérias, angústias, d11va, com a grande confusão do povo e da ilha, e do milagre
discórdias seguidas de sangrentas carnificinas.w que a ele se seguiu, a 15 de dezembro de 1608. 145

A convicção expressa em comum por esses dois documentos, C)s cometas eram evidentemente temidos e criavam um
tão diferentes um do outro, foi durante séculos difund~da em h 11 Ili' coletivo. Desse modo, somos amplamente informados

todas as categorias da sociedade. Daí o terror ~ue desperta~a'.n .i1l11•1· os cometas que inquietaram as populações em 1527,
os fenômenos celestes incomuns, aí compreendidos os arco-1ns. 1\ 17, 1604, 1618. Como prova, estes títulos de jornais e tra-
Perturbações nQ firmamento e, mais geralmente, qualquer ano- i tt!ilN!
malia na criaçã~ não podiam fazer pressagiar senão o infortúnio.
Anunciando a um correspondente a morte do príncipe-eleitor dl: () rcrrível e pavoroso cometa aparecido em XI de outubro
Saxe (em maio de 1525), Lutero esclareceu: "O sinal de sua mor: do ano MCCCCCXXVII em vVestrie, região da Alemanha.
te foi um arco-íris que vimos, Philippe [Melanchthon] e eu, a ldum a espantosa tocha de fogo que quase atravessou toda
noite, no último inverno, acima da Lochau, e também uma 11 l•'ninça e o terrível ruído que fez ao passar sobre Lyon em
criança nascida aqui em vVittenberg sem cabeça, e ainda um:1 \1 de abril de MCCCCCXXV III. Idem a chuva de pedras que
outra com os pés ao contrário".144 As populações temerosas 1•11iu em partes da Itália no mesmo dia e hora da acima [dita]
espreitavam a paisagem celeste e ali descobriam toda espécie de lm:lrn de fogo que foi vista passar sobre Lyon.

.Ili
' '"
Discurso sobre o que ameaça tornar-se o cometa apa- ·1hrnbém os eclipses inquietavam as populações. O do Sol
recido em Lyon em 12 deste mês de novembro de 1577 [... j Ili Il de agosto de 1654 despertou verdadeiro pânico na Europa
pelo sr. François Jundini, grande astrólogo e matemático.'• '• 11111 que escritos astrológicos haviam multiplicado anteriormente
11111lwins previsões. Elas se baseavam na localização do Sol, no
As desgraças pressagiadas pelos cometas eram descritas com ll1111111.lnt0 do eclipse a vir, no signo ígneo de Leão e em sua
antecedência por inúmeras profecias. Eis aqui algumas das que 11ml111iclacle com Saturno e Marte, planetas maléficos:5º Na
circularam na Alemanha protestante em 1604: 1111\ hll'r1, na Suécia, na Polônia e, é claro, na França, raras foram
1, fll'~S0HS lúcidas que mantiveram o sangue-frio e inúmeros
O cometa que brilha no céu desde 16 de setembro de 1604 111111 ll•s que acreditaram na iminência do fim do mundo. Um
nos anuncia que está próximo o tempo em que já não se en- 1111111 1• lmguenote de Castres anotou em seu dhfrio familiar:
contrará uma casa, um único refúgio em que não se ouçam
queixas, lamentações, gritos de aflição, pois terríveis cala-
11:111 12 de agosto, pela manhã, enquanto estávamos na pré-
midades vão cair sobre nós! O cometa pressagia sobretudo
1ll<'n, aconteceu um eclipse de Sol muito pequeno, contra
a perseguição e a proscrição dos padres e dos religiosos. O s
11N prognósticos dos astrólogos que o faziam bem grande,
jesuítas estão particularmente ameaçados pela vara do Se-
nhor. Em pouco tempo a penúria, a fome, a peste, violentos 1•11111 presságios funestos de seus efeitos, de tal modo que
incêndios e horríveis assassinatos lançarão o terror em toda l11 11rnis se esperou um eclipse com maior consternação e pa-
a Alemanha [profecia de Paulus Magnus]. 1• 1 voi· ela maioria das pessoas, que se fechou nas casas com
Essa estrela prodigiosa nos pressagia calamidades bem lfll{OS e perfumes. Para mostrar como nós [os reformados]
mais terríveis que um simples cometa, pois supera em gran- il,wínrnos estar isentos de temores sob a proteção de Deus,
deza todos os planetas conhecidos, e não foi observada pelos 111rn1tei a cavalo durante o eclipse [...].m
sábios desde o começo do mundo. Anuncia grandes mudanças
na religião, depois uma grande catiistrofe sem precedente que 1i•~ccmunho concordante em Lll chorogmphie ou Description
deve atingir os calvinistas, a guerra turca, terríveis conflitos do teólogo e historiador Honoré Bouché:
l '111111J11ce,
entre os príncipes. Sedições, assassinatos, incêndios nos ~mea-
çam e estão à nossa porta [profecia de Albinus Mollerus).1•" flor ocasião de um eclipse que aconteceu pelas nove ou
il1•1t, horas da manhã de 12 do mês de agosto, fizeram-se
Os religiosos hão deixavam de aproveitar a ocasião desses ,tN mniores tolices, não só na ProvençH, mas também por
sinais celestes pai-a conduzir os cristãos à penitência pelo anún- todo n França, na Espanha, Itália e Alemanha, que jamais se
cio de castigos próximos. Mas é evidente que eles próprios 1111virnm contar. Alguns, tendo feito correr o boato de que
compartilhavam os temores do povo, que eram também os dos 11110111 quer que se encontrasse no campo no momento do
chefes de Estado. A aparição do cometa de 1577 assustou tanto 1'1iHpsc não passaria do diH, deram ocasião aos mais crédu-
o eleitor Augusto, da Saxônia, que ele pediu ao chanceler l11Nde manterem-se fechados em seus quartos. Os próprios
Andreae e ao teólogo Selnekker que compusessem preces litúr- 11111dlcos autorizaram essas bobagens, obrigando a manter
gicas especiais e ordenou que fossem recitadas em todas as 1111 portas e as janelas fechadas, e não ter nos quartos outra
paróquias de seu Estado.1•' 1 1lnl'ldncle que não a das velas [...], e com o boato que correu
112
113
***
de que nesse dia todo mundo devia perecer, jamais se viram
tantas conversões, tantas confissões gerais e tantos atos de A crença no poder das estrelas aumentou na cultura diri-
penitência: os confessores tiveram grande trabalho duran- Mmlt~ depois do século XIII.i;4 O retorno progressivo à An-
te vários dias antes, e nessa ficção e medo imaginário, só ll~u1dade e à magia helenística, a tradução por Fecino doses-
a Igreja tirou proveito das loucuras do povo. Não aprovo " hos h:rméticos, a difusão do Picatrix,* a recolocação em
portanto o que se fez em muitas igrejas desta província, em l l1t•11laçao das obras do astrólogo latino Firmicus Maternus -
que se diz que o santo sacramento foi durante todo esse dia 11,~ns poucas '.ndicações escolhidas entre muitas outras - pro-
exposto em evidência: tendo os eclesiásticos aprovado, por \llll'llrnm 1~m mteresse novo pelas potências astrais, um interes-
111
tal ação, a louca crença do povinho. 1 C)l'IC a ~mprensa decuplicou. Entrou também em linha de
1111111'. ,:i cnse da Igrej~ a ~artir do Gran~e Cisma. A contestação
Sobre a inquietação dos lioneses em 1654, consultemos 1111~ cs:r~turas ecl_esiast1cas e os conflitos doutrinais criaram
ainda Le tombeau de l'astrologie (1657) do jesuíta Jacques de Billy. 1111111 du~1da, uma insegurança e um vazio de que se aproveitou
Lembrando as previsões terrificantes que haviam precedido o li 1111vo 11nyulso da as~rologia. Esta, com Nifo, Pomponazzi e
eclipse, ele conta ironicamente que elas haviam lançado C 111 d1_1n'. na_o receou cnar o horóscopo das religiões - inclusive
1111111•1stiamsmo. Invadindo as consciências, assediando O saber
[...] tal pavor nos corações que mesmo alguns dos sábios l,1 k ~. notar talvez por esse novo triunfo que o medo das estre~
sentiram sua estabilidade abalada; todo mundo correu ao I~• 1111'1\ava a ser 1~1ais forte que a esperança cristã - isso espe-
tribunal da confissão para expiar os pecados e aí aconteceu l11l1111lnte nos meios cultos da Itália da Renascença. Da intensa
uma coisa divertida na cidade de Lyon, pois um padre, ven- tlh ll~ifo 9ue_se dedicou a ela dão testemunho os afrescos dos
do que estava sobrecarregado por seus paroquianos, que o i 1h11 1los 1~_a lianos - em Ferrara, Pádua, Roma - e, em geral, a
procuravam em multidão para se confessar, foi obrigado :1
subir ao púlpito e advertir o povo de que não era preciso
l 11lllllf(l'O fia e a poesia que a Renascença consagrou aos plane-
i •- 1)fio testemunho também múltiplos fatos relatados pelas
apressar-se porque o arcebispo havia adiado a solenidade do H111k11s.'11 Na época da Renascença, no país mais "esclarecido"
eclipse até o domingo seguinte.
113 1~ I•11 rnp:1 - a Itália - , a astrologia é soberana. Para todo
111111 n1111climento im~o~tante - guerra, embaixada, viagem,
O pavor provocado pelo eclipse de 1654 tem uma caus:1 ' ,1 1111111to - , os pnnc1pes e seus conselheiros consultam as
particular: perito;. astrólogos haviam calculado que, tendo o 1li li1N.1'~ Pede-se a Marcílio Ficino que indique a data mais
dilúvio ocorrid6 em 1656 a.C., o fim do mundo aconteceri:1 tn 11plPln pnra o começo dos trabalhos do palácio Strozzi. Júli-o
simetricamente 1656 anos após o nascimento do Salvador; o li 1 • 1111 X e Paulo_ m fixam o dia de seu coroamento, de sua
Ili 1,tdu lllll uma cidade conquistada ou de um consistório em
eclipse marcaria então o começo do cataclismo final. Mas t:1I
"prognóstico" não teria podido ser proposto às populações sem
a imensa inquietação que criava a cada vez a aparição de um 1 l .10,1• 111nnu:1l
. de magia, composco
. em árabe no século •x graças ,a ma ten:11s
· ·
fenômeno celeste um pouco incomum e sem a crença muito 1111th li~ 1• <lrlcntais, e trad~zido para o espanhol no século XIII, contribuiu
111h lllt 1111• pnra o novo destino da astrologia. O título latino Picatrix parece
firme de que as estrelas simultaneamente comandam o destino
111111 1h1h11·111:1ção de Hipócrates.
dos homens e anunciam as decisões divinas.
115
1 1 .-t
função da carta do céu. Fora da península, mas talvez por cau- 11urt Também no cheio da Lua, não semeeis jamais coisa
sa do exemplo italiano, as pessoas se comportam e se compor- 11lguma.159
tarão ainda por muito tempo da mesma maneira. Luísa de
Savoia, mãe de Francisco 1, toma como astrólogo Cornelius l(sscs avisos valiam também para os camponeses ingleses, a
Agrippa, célebre mágico, e Catarina de Médicis escuta Nos- 111111111 os autores de tratados de agricultura do final do século
tradamus. E m 1673, Carlos II da Inglaterra interroga um astró- \ \ 1 noonselhavam a colher na Lua minguante e semear em sua
logo para saber quando deve dirigir-se ao Parlamento. 25 anos 111~1• 1•rcscente. 160 Os europeus da Renascença levavam em conta
antes, o "igualitário" William Overton perguntara a um co- 11• lllliCS da Lua para muitas outras operações: cortar os cabelos
nhecedor das estrelas se devia desencadear uma revolução em 1111 IIN unhas, tomar purgação, praticar sangria, partir em via-
abril de 1648. O próprio John Locke acreditará que as ervas
medicinais devem ser colhidas em momentos precisos indica- r• 111, comprar ~u vender, até ~omeçar um ensinamento.161 Na
llf,lhlll.lrra do seculo XV, era ameia uma imprudência casar-se
dos pela posição dos astros.157 Se esse era o comportamento, no 011 ir morar numa nova casa - quando a Lua era minguan-
final do século XVII, do autor de A racionalidflde do cristianismo, 11 J\ Igreja medieval lutara em vão contra essas duas crenças.'"'
adivinha-se a influência da astrologia - e portanto o quanto 1 -~,•~ comportamentos mágicos enraizavam-se na experiência
era grande o medo das estrelas - na época de Shakespeare. 11illt111nr de uma civilização rural. Mas tinham sido teorizados
Segundo K. Thomas, na Inglaterra elas nunca estiveram tão 111 lu 11strologia erudita, mais do que nunca prestigiada na época
em evidência, particularmente em Londres, quanto no tempo 1h• 1,1ttcro e de Shakespeare. Ainda em 1660, um perito inglês
de Elizabeth. Os astrólogos se teriam beneficiado, além do cn- IOUl(ll rava que uma criança nascida no momento da Lua cheia

nal da Mancha, da desvalorização do clero provocada pelo re- f,111111ls teria boa saúde. 16J As pessoas instruídas sabiam que a Lua
púdio do catolicismo. 111111mia a fisiologia feminina e mais geralmente a umidade do
Contudo, a desconfiança em relação à Lua, ligada ao medo 11 11 fHI humano; governa portanto o cérebro, a parte mais úmida

da noite de que se tratará no capítulo seguinte, não foi mais 1h• llosso ser, e é assim responsável pela demência dos tempera-
antiga e mais geral que a ciência dos astrólogos? Em todo caso, 11111111os "lunáticos". 164 A expressão erudita do temor ancestral
inúmeras civilizações de outrora atribuíram às fases da Lu;1 1111 l,1111, ei-la ainda evidente nos conselhos que William Ceei!,
papel decisivo sobre o tempo, assim como sobre o nasciínento 111l11ls1To das Finanças de Elizabeth r, dava a seu filho, reco-
e o crescimento dos humanos, dos animais e das plantas. N.1 1111111dnndo-lhe particular prudência na primeira segunda-feira
,11 11hril (aniversário da morte de Abel), na segunda segunda-
Europa do comec;o. da Idade Moderna, provérbios e almanaques
11 li•n de agosto (destruição de Sodoma e Gomorra) e na última
franceses lembram como entender-se com esse astro capricho-
''Hllllda-feira de dezembro (dia do nascimento de Judas). K.
so e inquietante e como interpretar suas formas e cores:
1 h111lli1s reconhecia na enumeração desses três interditos (ain-
11111•c·spcitados por certos ingleses do século xrx) a versão defor-
No cinco da Lua se verá que tempo todo o mês dará [... 1.
11111il11 e "biblificada" de um conselho formulado por Hipócrates,
A Lua é perigosa no cinco, no quatro, seis, oito e vinte [...I 11111• llpontava como impróprias às sangrias as calendas de abril
a Lua pálida faz a chuva e a tormenta, a prateada, tempo 1 rh• 11gosto, assim corno o último dia de dezembro; esses tabus
claro, e a avermelhada, vento. 1;s 1111 11111 transmitidos à civilização medieval especialmente por
Lua em minguante, não semeeis nada, ou nada crcs- l•li lt11·0 de Sevilha. 16'
116
117
Raciocinar sobre o poder - da Lua ou ao menos da maio- 1111111<:i:1, que se faz pelo azeite e pela fuligem sobre a unha;
ria dos astros-, traçar um horóscopo e dar consultas baseada, 1111~cinomancia, que se faz pelo crivo ou pela peneira; à bi-
no conhecimento do mapa do céu exigiam um nível de instru- ltllontnncia, que se faz por um livro e particularmente pelo
ção que não podiam ter os adivinhos e as adivinhas das aldeias, ,11 h1•rio; à cefalomancia, que se faz pela cabeça de um asno;
as quais no entanto deviam responder às interrogações inquic 1111pnomancia, que se faz pela fumaça; à axinomancia, que
tas da gente dos campos. E parece certo que, embora o preslí- ,1· 1111, pelos machados; à botanomancia, que se faz pelas cr-
gio da astrologia tenha aumentado durante a Renascença nas i ,tH; ~ ictiomancia, que se faz pelos peixes; àquelas que se
cidades e junto às elites, as múltiplas práticas populares de adi l,1111111 ou pelo astrolábio, ou pela dobradura, ou pelo lou-
vinhação continuaram quase inalteradas em quantidade e e111 11 Iro, ou pelo tripé, ou pela água benta, ou pelas serpentes,
qualidade, ao longo de imensa duração que se inicia na noit·c 1111 pclns cabras, ou pela farinha ou cevada, ou pela salga,
dos tempos e desemboca no limiar da era contemporânea. q111• nõo é outra coisa senão a agitação e o estremecimento
Assim, as diretrizes da Igreja, que visavam vários públicos :10 d11~ olhos; ou à catoptromancia, que se faz por espelhos; ou
mesmo tempo e vários níveis culturais, mas se dirigiam espe- ,1 d111 ilomancia, que se faz por anéis.
cialmente aos pastores encarregados das populações rurais,
tratam ainda mais das outras formas de adivinhação que da N11 ~cquência, J.-B. Thiers condena naturalmente toda adi-
própria astrologia. Ainda a esse respeito, o livro de].-B. Thiers l11h1l\'llo pelos sonhos, pelo voo, pelos gritos e comportamen-
constitui um testemunho etnográfico de excepcional impor- 1 d11N nnimais, e pelos presságios, bons ou maus, tirados de
tância. Pois suas enumerações, redigidas, é verdade, numa lin- 11111111,·os e de acontecimentos fortuitos. De todas essas práti-
guagem erudita, deixam perceber a diversidade dos método~ • 1•~1•rcve ele, "não há uma que seja isenta de pecado".166
pelos quais, no estágio mais cotidiano e mais humilde, tentav:1- lt1•N1111rnmos em uma palavra esse catálogo e tudo o que ele
· SC conjurar o medo do que está oculto seja no presente, seja no 11l11 llll'ltdc: outrora o medo estava por toda parte - ao lado de
l 1 ,llnntc ele si.
futuro, prestando a adivinhação esse duplo serviço. O autor
deixa clara sua condenação

[...] da adivinhação em geral [...] a cada espécie de adivinha-


ção em particu lar: à necromancia, que se faz chamando os
manes ou :,s sombras dos mortos que parecem ressuscita-
dos; à geomancia, que se faz pelos sinais da terra; à hidro-
mancia, que se faz pelos sinais da água; à aeromancia, que
se faz pelos sinais do ar; à piromancia, que se faz pelos sinais
do fogo; à lecanomancia, que se faz por uma bacia; à qui-
romancia, ou exame das linhas das mãos; à gastromanci:i,
que se faz por vasos de vidro bojudos; à metoposcopia, 011
inspeção das linhas da fronte; à cristalomancia, que se foz
pelo cristal; à cleromancia, que se faz pela sorte; à onico-

,,o
2. O PASSADO E AS TREVAS , , li 11'.11. ~res~nça do _assassino, apontado assim à justiça. O irmão
N111II 1:11llep1ed, teologo, que publica em 1600 um Tmicté de
l',,11p11ri1io11 des esprits... , ensina categoricamente: "Se um bandido
,1pl'Oxima do corpo que ele tiver matado, o morto começará a
111111111r, suar e dar algum outro sinal": Invoca sobre O assunto
• ,11111111idad~ de Platão, de Lucrécio e de Mardlio Ficino. O
1. OS FANTASMAS llltiltt·o Fél1~ P!atter vê a coisa acontecer em Montpellier em
Outrora, o passado não estava realmente morto e podi:1 I• \ (1, No ~nm_eiro ato de Tingédia do rei Rican:lo III, Shakespeare
irromper a qualquer momento, ameaçador, no interior do pre- (,e, 11 ,·orteJo fúnebre de Henrique VI passar d iante do assassino.
sente. Na mentalidade coletiva, muitas vezes a vida e a morte Al11•11tc deste, o cadáver sangra. Jobé-Duval asseg ura que às
não apareciam separadas por um corte nítido. O s mortos encon- 'llllfllS da Revolução certos tribunais da Bretanha ainda acre-
travam-se, ao menos durante certo tempo, entre esses seres l1t ,1w111 nos "sangramentos" das vítimas. Com razão, H. Platelles
leves meio materiais, meio espirituais com que mesmo a elite da 111111111r:1 esse ordálio a outras indicações que atestam o caráter
época povoava, com Paracelso, os quatro elementos! O médico 1m ll1111te, no universo mental de outrora, da fronteira entre a
alemão Agrícola, autor do célebre De re metal!ica (publicado em 11111 t' 11 morte: as relíquias perpetuavam na terra a existência de
1556), assegurava que várias espécies de espíritos vivem nas 1111111110s privilegiados, os santos; e estes estavam habilitados à
gale rias subterrâneas: uns, inofensivos, assemelham-se a anões 1111 ~••• Cadáver~s'. no direito germânico, podiam agir juridica-
ou a velhos mineiros com avental de couro em torno da cintura; 1111 llll', Um adagio conhecido dizia: "O morto agarra O vivo",
mas outros, que por vezes tomam a forma de cavalos fogosos, 11111~, pela herança que deixava, tinha poder sobre os vivos. Mas
maltratam, expulsam ou matam os trabalhadores. A. Paré con- li IIIIH'lO podia agarrar o vivo de outra maneira. As danças maca-
sagrou um capítulo inteiro de seu livro, Des monstres, a provar 111 •~ pu,iham em cena o invencível esqueleto que à força arrasta
que "os demônios habitam as pedreiras". Ronsard estende-se 1111i1 Ntut ronda fúnebre pessoas de qualquer idade e qualquer
longamente no Hymne des dai11ums sobre os seres ao mesmo 11111llç1lo. Enfim, em todo o Ocidente, mortos eram julgados e
tempo imortais como D eus e "cheios de paixões" como nós, que 11111lt111ndos.
• Em 897, desenterrou-se em Roma O cadáver d o
percorrem o espaço sublunar. Uns são bons e "vêm no ar [... j/ I' 11111 1'º!·moso, que e_ntão foi condenado antes de ser lançado no
Para nos fazer saber a vontade dos D euses". Os demais, ao con- 111111'. Conduta medieval? Não só isso. Quando se descobriu em
trário, trazem à t~rra: "Pestes, febres, langores, tempestades e ll 1-lh1l11, em 1559,_que um rico burguês, J ean de Bruges, morto
trovão. Fazem sons no ar para nos assustar". 2 Anunciam a·s des- 111 ~ 11110s antes, nao era outro senão o anabatista DavidJoris, 0
graças e são os h"óspedes das casas mal-assombradas. L. Febvrc 111 IHM rado mandou exumar o caixão e retirar o corpo, que foi
mostrou com razão que também Rabelais aderia a essa visão 11111 lo ele uma execução póstuma.• Se os mortos eram julgados e
animista do unive rso,3 então partilhada e vivida pelos homens u 1 11111dos, como não acreditar em seu temível poder? Em 22 de
m ais cultos e pelas populações mais arcaicas <la E uropa. •lu li de 1494, perto de Lyon faleceu Philippe de Crevecoeur
Em tal contexto, a concepção da Igreja a respeito de um:1 11111 1111 íra a caus~ ~e Maria de Borgonha após o fim trágico d~
separação radical da alma e do corpo no momento da morte n::io 1 11 los, o T~mer~no, e entregara Arrasa Luís x1. Ora, naque-
podia progredir senão lentamente. Ainda no século xvu, nume- 1~ 1111hc, _várias vmhas foram perdidas na França, pássaros fize-
rosos juristas dissertam sobre os cadáveres que se põem a s:111- 11111 ouvir "estranhos gritos", a terra tremeu em Anjou e em

120 121
Auvergne. Por toda parte onde seu corpo passou para encon1 t 111 • 1 NC!I um espírito se mostrará na casa e, percebendo-o,
em Boulogne-sur-Mer a sepultura que escolhera, "sobrevicn1111 1111•~ se lançarão entre as pernas de seu dono e daí não
horríveis tempestades e cruéis temporais, de modo que c:1s11~, 11111111•1fo sair, pois temem muito os espíritos [...]. Out ra vez
estábulos, apriscos, gado, vacas e bezerros desceram co1Tcntt'l1I 111111111 virá puxar ou levar a coberta de um leito, se pod
abaixo".7 Agora eis aqui dois exempla antigos novamente rcl:\111 11111l11in ou debaixo dele, ou passeará pelo quarto. Viram-
dos em um manuscrito do século XV consagrado às vidas d1 • IH'~soas a cavalo ou a pé, como fogo, que eram bem co-
santos. Um homem tinha o hábito de recitar um de profi1111lh 11111 t idns, e que estavam mortas antes. Por vezes também
sempre que atravessava um cemitério. Ora, um dia ele é arnc11d11 111111h•s que morreram em batalha ou em seu leito vinham
por seus "mais mortais inimigos". Corre para o cemitério 111111- h1111111• seus criados, que os conheciam pela voz. Muitas
próximo e é defendido "vigorosamente" pelos defuntos, cad:1 u1 11 , ,,,~ 1111viram-se espíritos à noite arrastando os pés, tossin-
tendo "na mão um instrumento do ofício em que servira em vid11 1111• N1ts pirando, os quais, sendo interrogados, diziam ser o
[...] do que seus inimigos tiveram grande temor e fugiram todc1~ •1111110 deste ou daquele. 11
apavorados". O outro relato é parente próximo do preceden1 1• •
vem logo depois dele na crônica: um padre celebrava todos 11~ 1)111111110 tais fatos se produzem e uma casa está assombra-
dias uma missa para os mortos; foi denunciado a seu bispo (s1•111 li 1111 1111lrio deve continuar a pagar ao proprietário as anui-
dúvida porque se considerava esse rendimento muito lucrativo), ' 11111hinadas? A essa pergunta, responde gravemente o
O prelado proibiu-o de celebrar o ofício, mas, depois de alg-11111 1 , l'l1111rc Le Loyer, conselheiro no tribunal de Angers:
tempo, ele veio a passar por um cemitério. Os mortos ass:1!111
ram-no. Para ser libertado, precisou prometer restituir ao p:idtt '11 t"dstc, escreve ele, "medo justo e legítimo dos espí-
o direito ele dizer missas para os mortos. 8 Apologia da or:1~·1111
11111~ ~111c assombram uma casa, perturbam o repouso e
pelos defuntos, certamente; mas, ao mesmo tempo, testemu11hn
l11q11l11111m à noite, [se portanto] o medo não tiver sido vão
da crença nos fantasmas. A partir daí pode-se perguntar se 1111
11 lnt·nt:hio tiver tido alguma ocasião de temer, nesse
por simples jogo que Shakespeare evocou o espectro do p:ii d1
, 1~11 o locatário permanecerá quite dos aluguéis pedidos,
Hamlet e que Tirso de Molina animou a estátua do comend:1dn1
111111 de o utra forma, se a causa do temor for considerada
Os espectadores dessas peças consentiam em uma ficç.ão c:OIII
111•111 1• lcgít ima." 11
que não se iludiam? Ou então - o que é mais provável - :1d1•
riam em sua maioria à crença nos fantasmas? Com efeito, 1•111
bem esse o caSQ de Ronsard e de Du Bellay. Segundo o primci 1·0 1 1 , 1111111111 o utrora duas maneiras de acreditar nas aparições
Denise, a feitic'e ira do Vendômois, precipita-se para fora à noi11•1 111111 IIIN, Uma concepção "horizontal" (E. Le Roy-Ladurie),
comanda a lua prateada. Hóspede dos lugares solitários e dm 111 ,111111n, nntiga e popular, defendia implicitamente "a sobre-
cemitérios, ela "desempareda" os corpos dos mortos "em s1111~ 111 ht do duplo" - a expressão é de E. Morin:u o defunto
sepulturas fechadas".'' Du Bellay retoma o mesmo tema. Tamli\'111 111 11111• nlma - continuava a viver certo tempo e a voltar aos
ele, apostrofando uma feiticeira, lança-lhe esta acusação: "Pod1•- 11, ~ d1• sua existência terrestre. A outra concepção, verti.cal
tirar sob a noite escura/ As sombras de sua sepultura/ E viok11 1111~11111dcntal, foi a dos teólogos, oficiais ou oficiosos, que
tara natureza".10 O teólogo Noel Taillepiecl, falando da reap:11'1 li 11 ,1111 1•xplicar os fantasmas (expressão que não é de época)
ção dos mortos, é absolutamente categórico: 111 IIIHII de forças espirituais. Sigamos a esse respeito a argu-

122 123
mentação de Pierre Le Loyer e de Noel Taillepied, que se i\lns eis aqui ainda outro adversário a ser eliminado: o pro-
encontra, aliás, em todos os demonólogos do tempo. Pierre L c 111111 ismo. Pois o ministro de Zurique, L oys Lavater, em uma
Loyer pretende "construir uma ciência dos espectros": para o 111 11 publicada em 1571, negou qualquer aparição das almas dos
que emprega um bom milhar de páginas muito cerradas. Desde 1111 111s. Essa negação decorre da negação do purgatório pelas
o início, ele distingue fantasma de esputro. O primeiro "é a .,,1)1111 dn Reforma. Daí o raciocínio de Lavater: só há dois luga-
imaginação dos furiosos insensatos e melancólicos que se con- • pnrn onde as almas se ret iram após a morte dos corpos - o
vencem do que não é". O segundo, ao contrário, é uma "verda- lill~o e o inferno. As que estão no paraíso não têm necessida-
deira imaginação de uma substância sem corpo, que se apresen- 111• ~cr ajudadas pelos vivos, e as que estão no inferno jamais
ta sensivelmente aos homens contra a ordem da natureza e li ,lo de lá e não podem receber nenhum socorro. Assim, por
causa- lhes pavor".1•1 O caminho de Noel Taillepied está muito (llt ,111 nlmas sairiam, umas de seu repouso, outras de sua pena?' 8
próximo . do seguido pelo jurista angevino. Os "saturninos", p11 ludo católico, n ão se podia senão rejeitar incisivamente essa
escreve ele, ruminam e forjam "muitas quimeras". .i\tluitas pes- t~11111cntação. Ao contrário, sob a pena dos defensores do cata-
soas medrosas "se persuadem de ver e ouvir muitas coisas assus- i 1~1110 1 um discurso teológico que havia muito tempo procura-
tadoras das quais não há nada". Do mesmo modo, "aqueles que li l1th.1j,(rar as velhas crenças na presença dos mortos entre os
têm má vista e ouvido imaginam muitas coisas que não são". ho~••• nclqufre agora todo o seu vigor e sua plena lógica, refor-
Além disso, os demônios, enganadores por definição, podem 111111 •sc com exemplos tirados das Escrituras e com os teste-
"impedir a visão do homem" e "mostrar-lhe por aparência uma 111111h11s de Santo Agostinho e de Santo Ambrósio. 10 Deus pode
coisa pela outra". Enfim, pessoas fazem farsas às outras e "se 1 1111hlr que as almas dos mortos se mostrem aos vivos sob as
mascaram para provocar-lhes medo".i; 11111 ndns de seu corpo de outrora. Pode também autorizar os
Permanece verdade, no entanto, que os espíritos aparecem 11111~, "que vão e vêm do céu à terra", a revestir uma forma
em certas ocasiões. Nossos teóricos batem-se portanto em h111111111n. Eles ganham então "um corpo que formam do ar [...]
várias frentes. Denunciam a credulidade do vulgo. Mas atacam 1h 11io111clo-o, acumulando-o e condensando-o". Quanto aos
do mesmo modo a incredulidade dos "saduceus, ateístas, peri- l 111011ios, podem por sua vez aparecer aos homens seja aden-
patéticos [...] céticos e pirrônicos", que negam a existência dos 1111il11 o ar como os anjos, seja emprestando "os cadáveres e
espectros. Culpam Epicuro e Lucrécio e todos aqueles~ que tll 111~•1111 dos mortos". 21 E ssa última crença explica os versos cita-
dizem que não há. de modo algum substâncias separadas dos i, .. ti,• Ronsard e Du Bellay, já que evocam a ação de feiticeiras
corpos. Pierre Le'Loyer opõe-se assim a Pomponazzi, para llm I mnitérios, e aqueles que Agrippa d'Aubigné consagra, no
quem "a imaginação dos espectros provém [apenas] da sutilez:i 1111 , 11111 espírito, a uma erínia que simboliza as feiticeiras de
da visão, do olfato e do ouvido, pelos quais nos persuadimos de 1 11111~ os lCmpos e a mais odiosa delas, Catarina de Médicis:
muitas vãs imagens".' 6 Combate do mesmo modo Cardan, que
"relata sem razão e experiência [que as] sombras que aparecem À noite e/11 se espojn nos hediondos cemitérios [...]
sobre os sepulcros [nascem] dos corpos enterrados, [os quaisl [8./n] desenter-m sem pavor os pavorosos cmpos,
exalam e impelem para fora uma impressão de forma e de esta- Depois, enchendo os ossos com rt forç11 dos diabos,
nua semelhante a eles. Que inépcia maior se pode cogitar que Osfnz surgir em pé, terrosos, horríveis.21
a de Cardan?".'7

124 125
Mas todas essas aparições só acontecem com a permiss:Ht 1 ,1
de Deus e para o bem dos vivos. Portanto, se a sobrevivênci11 H Preferirias antes não existir a te encontrares nos tor mcn-
dos corpos defuntos é rejeitada como um erro no plano teórico, lm do geena?
é recuperada, no entanto, pelo discurso teológico. Este, valo, i U No inferno, entre os sofrimentos dos sentidos, qual é o mais
zando a alma e desvalorizando o duplo, permite aos mono~ 111111oso?
reaparecer na terra para fazer ouvir uma mensagem de salv:1 Ili A pena da danação, isto é, a privação da visão de Deus, é
ção. Os fantasmas vêm instruir a Igreja militante, pedir oraçik~ 111111N penosa do que os sofrimentos dos sentidos?
que os libertarão do purgatório ou admoestar os vivos parn q111
vivam melhor. C I\ progressos da dúvida metódica, a partir da época de
Revelador, a esse respeito, um manual de exorcista da m c111 1 1111·s, levaram pouco a pouco os homens de Igreja a dcs-
de do século XV (por volrn de 1450) - o Livre d'Egidius, d efo d« ll 111•111 mais dos fantasmas. Publicando em 1746 um 'I'rnité
Tournai - que comporta, entre outras, duas séries ele pergu11 l , 11/1/lfll'itions des esprits, o beneditino Augustin Calmet n ão
tas a serem feitas respectivamente às aparições de almas d11 lt 1 11111 rejeitar muitos relatos atestados por Tertuliano,
purgatório e às aparições dos condenados:13 h1 \w>stinho, Santo Ambrósio etc.

A uma alma do purgatório: , , tdns dos santos [escreve ele] estão repletas de aparições
l. De quem és ou foste o espírito? 111 pt"ISOas falecidas; e se quiséssemos reuni-las, p reen-
2. Faz muito tempo que estás no purgatório? 111 d111110s grandes volumes.N [Acrescenta mais adiante:]
[...] l1111h•dttmos amontoar inúmeras passagens dos antigos
12. Que sufrágios te serão mais úteis? 11111 111111, mesmo dos Pais da Igreja, que acreditaram que as
13. Por que vieste aqui e por que apareces aqui com 111;11 11l111111j npareciam frequentemente aos vivos [...). Esses Pais
frequência do que em outros lugares? 111 il11nv:11n portanto no retorno das almas, em suas rea-
14. Se és um bom espírito esperando a misericórdi:1 d1 l• 11 l~•tics, em seu apego ao corpo; mas nós não adotam os
Deus, por que te revestiste, pelo que se diz, das aparênrtit 111 11p111ião sobre a corpore idade das almas [.. V 1
diversas de bestas e animais selvagens?
15. Por que vens aqui em certos dias ele preferência a rn, 1111, esse beneditino "esclarecido" tem consciência do
tros? 1h qm· muitos escritores c ristãos - até alguns dos m ais
Ih 1111•~ não haviam realme nte rejeitado a antiga concep-
A uma ali~a danada: l 1 111hrcvivência de uma espécie de duplo. Para ele, ao
l. De quem és ou foste o espírito? 1~111,, 11 morte institui uma separação total entre o corpo e
2. Por que foste condenado aos suplícios eternos? 111 , l'~ltl não ronda o local em que o defunto viveu. Mas
3. Por que vens, pelo que se diz, mais frequentemente :1 nh , p1 onunciado esse julgamento categórico, dom Calmet
lugar? 11 ~1111 mesmo ao essencial - porque crê no purgatório - ,
(...) 1111111 • de Le Loyer e de Taillepied. "Embora haja frequen-
5. Proc uras aterrorizar os vivos? lllt ·•, «'~t·rcve ele, "mui.ta ilusão, prevenção e imaginação no
6. Desejas a danação <los viajantes [que somos na terra!? 11111111 das operações e das aparições[...] das almas sepa-

126 /27
radas dos corpos, há cont udo realidade em várias dessas cois11~ IN que sugam no pescoço o sangue de suas vítimas, que

e não se pode razoavelmente colocá-las em dúvida [...]".'º El11, 11·cm de langor. Quando se desenterram os mortos suspeitos
intervêm então na ordem de Deus ou ao menos, se resultam d11 •C'r esses espectros maléficos, eles são encontrados como
operação do demônio, na permissão divina. Portanto, indirctn m, com sangue "ver melho". Então, sua cabeça é cortada e
mente encontram-se de novo creditadas todas as aparições, scju 11locam-se no fosso as duas partes do corpo, cobrindo-as de
das almas do purgatório demandando orações, seja das almn- 1vlvn.
danadas que chamam os vivos à penitência; até época rece111t•, Fstá claro que esses vampiros desempenhavam então o
tais temas foram bastante familiares aos pregadoresY 1wl de bode expiatório, comparável àquele atribuído em ou-
Discurso teológico sobre as aparições, o livro do benedi11 ,_ l'nntos da Europa aos judeus durante a peste negra e às
no, como todos aqueles escritos por seus predecessores sobre 11 ltl,•oiras nos anos 1600. Em suma, não é melhor pôr a culpa
mesmo assunto, é também enfoque etnográfico sobre a 01111 ,1 • 111ortos do que nos vivos?
crença nos fantasmas que a Igreja se esforçou em transform:tr' , l>om Calmet conta ainda, servindo-se de um relato d e
q ue permanecia viva em plena Europa clássica. Pode-se resu 111rncfort, o pânico que se apoderou dos habitantes de Mi-
mi-la assim: durante cer to tempo após seu falecimento, IIN 11111~ 110 final de 1700. Um camponês conhecido por seu caráter
mortos continuam a viver uma vida semelhante à nossa. Volt:1111 ,lo e briguento fora morto misteriosamente. Ao sair de sua
aos lugares onde se desenrolou sua existência, e às vezes p:1111 1111h ura, pôs-se a perturbar a paz da ilha. Dez dias após seu
prejudicar. Dom Cal met nos faz compreender, por meio de 11111 1111hnmento, desenterraram-no publicamente: um açougueiro,
caso-limite, a força de que ainda podia revestir-se essa convii• 11 ~1•111 dificuldade, arrancou-lhe o coração, que foi queimado
ção. Po r ele, conhecemos, de fato, com muitos detalhes a epicl1• 1 pt 11Ín. Mas o fantasma continuava a inquietar a população. O s
mia de medo dos fantasmas, e especialmente dos vampiros, qrn ,111•~ da ilha jejuaram, organizaram procissões. Foi preciso
se propagou no final do século XVII e no começo do século XVIII 1111111r novamente o cadáver, que, colocado numa carroça, ber-
na Hungria, Silésia, Boêmia, Morávia, Polônia e Grécia. N11 \ 11 l' se debatia. Afinal foi queimado. Então cessaram suas
Morávia, lê-se na obra, é "bastante comum" ver os defuntm I' 11 lr_'.Ões e infestações". O temor dos vampiros continuava a
colocarem-se à mesa com pessoas de seu conhecimento. St111 1,111 no século XIX na Romênia - o país de Drácula. Um via-
dizer uma palavra, fazem um sinal de cabeça a um dos conviv:1~,
1111' Inglês observava em 1828: "Quando um homem terminou
que "infa livelmente" morre alguns dias depois. L ivranÍ-se dt·~
1111 tlins de maneira violenta, ergue-se uma cruz no lugar onde
ses espectros desenterrando-os e queimando-os. I a Boêm ht,
1 1wrcceu, a fim de que o morto não se torne um vampiro"/8
por volta da mt'!sma época, livram-se dos fantasmas que dc,n
< )s fotos relatados por dom Calm et não constituem senão o
Iam certas aldeias exumando os defuntos suspeitos e passando
11 ~l'1 111onto de uma realidade amplamente difund ida: a crença
- lhes através do corpo uma estaca que os prega ao solo. N 11
111 1111111 nova vida terrestre dos mortos, ao menos durante cer-
Silésia, lê-se ainda sob a pena de dom Calmet, que se rec11s:111
111111po. No começo do século XVIII, o muito jansenista mon-
dar fé a esses contos macabros, encontram-se os espectro~ ",l
noite e de dia"; percebem-se as coisas que lhes pertenccn1111 1111111• Soanem, visitando sua pequena diocese de Senez, des-
1l11r mm inquietação que ainda se praticam na montanha
mover-se e mudar de lugar, sem que ninguém as toque. O 11111
co remédio contra essas aparições é cortar a cabeça e quci111111 l1l,1~1)llS ele pão e leite sobre as sepulturas, no ano que se segue
o corpo daqueles que voltam. Na Sérvia, os fantasmas são v:1111 1111111c de um parente.i9 Meio século antes, o padre Maunoir

128 129
inserira em seu catecismo em bretão uma pergunta e u1111111 -.•~ l11tos etnográficos e muitos outros que se pode-
posta bastante esclarecedoras: "O que dizeis [...] daqll<:k 11 1111 111111 Implicam a duradoura sobrevivência, em nos-
amontoam pedras em torno da fogueira de são João, d i1t1111I A11 111 lcluntal, de u ma concepção da morte (ou antes
um pai-nosso diante delas, acreditando que a alma dos llHII I• 1 p111prl11 das "sociedades arcaicas", no sentido em
seus parentes defuntos, virão ali se aquecer? [...] Eles pce11111 1 1111!1 lt M.orin. Nessas sociedades, os defuntos são
Indo ao Finistere em 1794, Cambry notará: "Todos os 111111I• 11111 )1 IH 1·0 particular, com quem é preciso contar e
[acredita-se aqui] abrem as pálpebras à meia-noite [...]" No 111
1 p11~11lvcl, ter relações de boa vizinhança. Eles não
trito de Lesneven jamais se varre uma casa à noite; prc1c11d1
1,, 1111111 1uno rtais durante certo tempo. Essa amorta-
que é dela afastar a felicidade, que os mortos por ali p:1ssl'l11111
11 1111dn111<nmento da vida por um período indefinido,
que os movimentos de uma vassoura os fere e os afos111 '
Ili 11 ~~111•inmente eterno. Em outros termos, a morte
Bretanha constitui seguramente um espaço privilegiado p111 ,1
11111 11 11tl11 como algo pontual, mas sim progressivo.37
estudo dos fantasmas na civilização de outrora. "Se niio Sl' p1t
1111 1 11•1111111indo a obra de]. G . Frazer sobre o temor
gou antes o cadáver a seu caixão, reencontramo-lo, no 111111111
, \'11111°y escr eveu:
seguinte, encostado na cerca de sua quadra", escrevia /\ , 1
Braz em La légende de la mort,JJ que esclarecia: "O defumo 11111
ser va sua forma material, seu exterior físico, todos os sc 11°, 111 11111111111(11 n Madagascar, da Nigéria à Colômbia, cada
ços. Conserva também seu traje costumeiro [...]".34 Adm itl11 h 1111•, 1wocn, alimenta, utiliza seus defuntos, mantém
outrora nessa província que a terra pertencia, de dia, aos vh 1 1111111 lo c:om eles; atribui-lhes na vida um papel posi-
e, à noite, aos mortos. Mas então pode-se falar de "fantas11111 111111111100 0 s como parasitas, acolhe-os como hóspedes
perguntavam-se A. L e Braz e Van Gennep? Em todo c:1so 1 11 1111 11111110:i desejáveis, atribui-lhes necessidades, inten-
Bretanha pensava-se que os defuntos constituem uma v1•11I 1" 11lt•rl 'N, '"
deira sociedade, designada por um nome especial, o "A 11111111
plural empregado como singular coletivo. Seus membros ll11h1 11 11111• crn verdade recentemente nesses países não
tam o cemitério, mas voltam, graças à escuridão, para visi1111 11 11 1111 lll lllbérn, ao menos em certa medida, em nossa
lugares onde viveram. É por isso que não se varrem ns <:il ~II • h 11111 período relativamente próximo de nós. Cer-
meia-noite. As almas dos mortos se reúnem três ve~es ao 11111 1 p111c1IN 0 delimitar "em certa medida", pois o discurso
na véspera do Natal, na noite de são João e na noite de ' li1d11 1 ,1tiII c• os mortos, cujas grandes linhas retraçamos,

os Santos, desfilando em longas procissões em direçiio du ~ , 1·ctomo aqui as distinções de E. Morin - em


lugares de 1:e~nião.35 Essa coabitação com os defuntos ac:11w 1,1 111°11 "~ol'icdades arcaicas" em "sociedades metafísicas"
va certa farniliaridade com eles. Entretanto, e ao mesmo Lc111p1, li 1111 11 Ideia de uma separação radical dos vivos e dos
os mortos provocavam medo: não se devia ir à noite a um l '<'I III \ li11! 110 cotidiano vivido e nas mentalidades coletivas,
tér io e atribuía-se um papel considerável ao "Ankou" - (1h 11111 , , it~NIIS duas concepções, teoricamente alérgicas uma
morto do ano em uma localidade, este preenchia na pan'1q11I ,1~1llll'cvivência do "duplo", por um lado, e a separação
durante todo o ano seguinte, o papel do lúgubre ceifeiro q11 1111111 ,, do corpo, por outro-, de fato coabitaram.
ceifa os vivos e os amontoa numa carroça desconjuntad:1 r11111 li• 11·1 c 11111po rtamentos complexos, ou até contraditórios,
0

rodas rangentes.36 11 ,1111 11111 pouco em toda parte uma agonia e um faleci-

130 131
menta, alguns eram incontestavelmente g uiados por um medo 111111•to, t inha provavelmente um significado inverso. Sem
mágico do novo defunto e mesmo do moribundo. Por exemplo, hh1 não se tratava do óbolo a Caronte, e sim de um rito de
o costume, atestado em m últiplos lugares, de jogar a água do~ 1p111 cios bens do defunto. D essa maneira, a herança era
recipientes que se encontravam na casa, ou pelo menos na d11111 uh Ido em boa e devida forma, e o antigo proprietário perdia
ra mortuária. Q ue esse gesto tenha sido identificado como 11:111 li 111otivo para d isputá-la com os vivosY Na Bretanha, uma
cristão pelos homens de I greja é comprovado pela atitude d11 o 1•11ixifo depositado sobre uma "pedra dos mortos", as pes-
Inquisição brasileira, que considerava essa prática indício de q111 1prcssavam-se em reconduzir à granja a parelha que cond u-
os cristãos-novos haviam recaído no judaísmo.i9 Qual e ra a siK 111111\\Íde, para impedir o novo mo rto de subir novamente no
nificação desse costume? Pensava-se que a alma, ali tendo ~1 111• voltar para casa.~6 As pesadas pedras tumulares de nossas
lavado antes de evola r-se, poluíra o líquido com seus pecadm / 111~11 de nossos cemitérios não constituíram um meio - mui-
Ou então que agindo assim impedia-se a alma, ao partir, 11! ',,•~ ineficaz - de impedir os mortos de assombrar o mu n-
afogar-se, o que teria podido acontecer se ela tentasse beber 011 1111~ vivos? E os trajes de luto não eram um gesto de dissuasão
mirar-se na água - razão pela qual se velavam os espelhos? A, 11 hu;1lo aos defuntos? Já que se conservava sua lembrança de
d uas explicações foram sem dúvida aceitas conjuntamente, 1111H1 li 11 ,1 visível, que razão tinham eles para invejar e persegllir
aqui, outra acolá. Em todo caso, importava facilitar o tresp:1q~1 p,111111tes que ficaram na terra?
por medo de ver a alma do agonizante demorar-se ali onde j:í 111111 ~ 1•ondutas d itad as entre nós pelo temor dos mortos
devia perma necer. No Perche, no tempo do padreJ.-B. Thil·1~,
1 111 ~cr utilmente aproxim adas de outros comportamentos
dispunha-se o leito do moribundo paralelamente às vigas do 1r1111
1111 \1110 significado detectáveis em outras civilizações afasta-
pois traves t ransversais poderiam constituir obstáculo à últi11111
1h1 nosso pelo tempo ou pelo espaço. L .-V. Thomas cita a
partida.~º Em Berry, abriam-se amplamente as cortinas em 1rn·1111
pr 11p6sito os seguintes costumes:
do leito do moribundo.41 Em Languedoc, retirava-se uma 1dh11
ou uma ardósia do telhado para permitir a elevação da alm:1, 011
N,1 umiga Grécia, os fantasmas t in ham direito a três dias
ainda, com o mesmo objetivo, derramavam-se sobre o ros10 ilu
111 pt'llSCnça na cidade [...]. No terceiro dia convidavam-se
novo defunto algumas gotas de azeite o u de cera.41 També111 ~,
huloN os espíritos a entrar nas casas: servia-se-lhes então
pôde identificar costumes contraditórios a respeito dos- pas,r111
11111 111ingau preparado em sua intenção; depois, quando se
dos fantasmas, uns visando facilitar-lhes o retorno aos lu~:111
que lhes eram•familiares, os outros, ao contrário, procur:1111111 l11l1t11v11 que seu apetite estava acalmado, declarava-se-lhes
extravi1í-los i:füra longe de sua casa e de seus campos. i\1as 11111111 11111 firmeza: " Espíritos amados, haveis comido e bebido;
outra atitude postulavam a "sobrevivência do duplo". No Pcrd11 •N' 11 11 Ide embora".
quando o cortejo fúnebre dirigia-se à igreja, os particip:11111 Nn África [...], para incitar certos defuntos a não mais
colocavam cruzes nas encruzilhadas a fim de que o morto 1\·1•11 111111I', mutila-se seu cadáver antes do sepultamento, rom-
contrasse o caminho de casa.'1 Nos bosques da Vendeia, col111 ,, 1" 111111-lhe por exemplo os fêmures, arrancando-lhe uma
va-se uma pedra polida no caixão: mais uma vez para perrn i1 i1 1111 1111 1h11, cortando-lhe uma mão: por vergonha, por impossi-
defunto reencontrar seu caminho quando retornasse entre "11 l11lld11dc física, serão forçados a ficar onde estão; se se trata
próximos.44 Mas o costume amplamente difundido na F r:111~·11d1 1, 111111s mortos, não há senão um meio: assegurar-lhes fu-
outrora de depositar uma moeda no ataúde, ou mesmo na 11111 1 1111 1114 dignos deles.

133
O rito relativo ao suicida que acabamos de descrever é eví-
Na Nova Guiné, os viúvos não saíam senão munidm
mcmente ambíg uo. D o ponto de vista etnográfi co, significa
de um sólido cassetete para defender-se contra a sombra d11 lll' se queria impedir o culpado de reencontrar o caminho de
desaparecida (...). No Queensland, rompiam-se os ossos dm 11 t·asaH - razão pela qual o faziam passar pela janela e com
mortos a golpes de porrete, depois colocavam-se seus joelhe,~ 111~to voltado para baixo. Mas, para a Igreja, aquele que puse-
ao nível do queixo; para termina r, seu estômago era ench i 11111 a seus dias desesperara do perdão d ivino. Excluíra-se
do de pedregulhos. Foi sempre o mesmo medo que incitou ,1111 da comunidade cristã: o que era marcado de maneira
certas tribos a colocar pesados blocos de pedra sobre o peito ll•nsiva. D e fato, encontramo-nos aqui diante de um dos
dos cadáveres, a fechar hermeticamente com lajes pesadas a~ 11111crosos casos de cristianização de comportamentos pté-
criptas, a prega r do mesmo modo as urnas e os ataúdes: · t1~1nos ou, em todo caso, não cristãos na origem. Da mesma
l1111cira, pensou-se por muito tempo, e em todas as orlas ma-
No Ocidente, ao menos a partir do século XVI, o temor de ~l'I 11111111s, que os mortos no mar, por n ão terem recebido uma
enterrado vivo, isto é, quando se era apenas vítima de um so110 1111ltura, continuavam a vagar sobre as ondas e perto dos re-
letárgico, ganhou proporções consideráveis. E le era amplamc11 lh•~. Na Bretanha, essa c rença, atestada no século IV de nossa
te difundido no Anjou do século XVH e se estendia pela Europ,t ~. 11inda permanecia viva na metade do século XX, especial-
do século XVI II.48 Mas esse temor era também o medo que M' 11 llll' nas regiões próximas do cabo de Raz e da baía dos
tinha das pessoas do círculo de convivência e durou muito tclll 11110s. Comumente se considerava que os mortos no mar
po. Contaram-me que na Sicília, há vinte anos, uma famíli11 1l\'11111 condenados à vagueação até que a Igreja on1sse por
recitava todas as noites o rosário durante longo período para w 1 - ,\ inda em 1958, celebrou-se em Ouessant o proelln de uma
proteger do eventual retorno de um parente que talvez houvcs,t• \1 111 freira que se afogara tentando salvar uma criança e cujo
sido enterrado antes de estar morto.4'' Precaver-se contra u 111 li p11 niio fora encontrado. O Télégr11111111e de Brest, que relata a
defunto tornava-se ainda mais necessário se este era um suicid11 111111,ni:1, faz compreender que se tratava de um substituto de
Na Grécia antiga, cortava-se-lhe a mão direita. Sua vontade d1• l11t10 e de enterro, onde se utilizavam figuras vicárias para o
morrer era considerada uma manifestação de ódio em relaçiío 11 li p11, o sudário, o ataúde e a sepult ura:
vida e aos vivos.soNo O cidente "moderno", faziam-no sair da c:1,11
onde jazia, seja lançando-o pela janela, seja - por exen1plo c111 1J111n cruz de cera branca, signo do cristão, símbolo do de-
Lillc no século ivu - fazendo-o "passar por baixo da soleira d11 lt111to, é colocada no domicílio do afogado, sobre uma mesa
1 t1lll'l'la com um pano branco. A pequena cruz repousa em
casa por um bi,raco, com a face contra a terra como um animal",''
Gesto de conjuração que lembra que, em muitas civilizaçfü·~, 11111nl sobre uma touca. D ois círios acesos enquadram a cruz.

todo morto é maléfico. O padre Thiers conta ainda que 110 1>h11nc dela, um prato com um ramo de palma mergulhado
Perche a roupa branca usada pelo defunto durante sua doc11~11 , 111 1ll{t1rt benta. Com a chegada da noite, começa o velório.
devia ser lavada à parte para impedir "que causasse a mor11 No dia seguinte, precedido da cruz, vem o clero, como
daqueles que a usariam depois dele".51 Do mesmo modo, a colo 1111111 n encomendação do corpo. O padrinho leva respeito-
11111111te a pequena cruz de cera re pousando sempre sobre
cação na mortalha devia ser feita não sobre a mesa do quarto
1 l1111t•11 que lhe serve de ataúde. Atrás dele, os parentes, os
onde ocorrera o fa lecimento, mas sobre um banco ou no ch:111,
11tlll{OS.
senão "alguma outra pessoa da casa [morreria] no mesmo ano"."
135
O cortejo fúnebre dirige-se lentamente para a igreja.
Depõe-se a pequena cruz sobre o catafalco, e o serviço de dl1l11tos-fa~ta~mas: aqueles que haviam morrido no momento
enterro é celebrado. No final do ofício, o padre deposita a 1111 llíl prox11rndade
. de um rito de passagem que, por essa razao,
-
cruz de cera em um cofre de madeira situado no altar dos liRo se realizara (fetos mortos, casados falecidos no dia das bo-
mortos, no transepto. A cerimônia está terminada.55 d1111 etc.). Um etnólogo polonês, L. Stomma, trabalhando em
d11m11nentos de seu país da segunda metade do século xrx a _
li~ou qum · h , na
Outrora, se se encontrava no mar "uma batelada de mari- ,, . , entos
f casos de mortos transformados etn "demo-•
nheiros defuntos", era preciso dizer um Reqttiescant in pnce 0 11 1111111 , isto e, antasmas, como acreditavam seus próximos:6'
mandar celebrar uma missa para eles: cristianização evidente d:1
crença nos fantasmas dos marinheiros desaparecidos e nos "bar- I 111~.~urins de 1110,·tos tnmsfo,·-mados em "demônios" N1ímern de casos
% doscnsos
cos noturnos" conduzidos por mortos.56 Quanto aos holandeses, 1 11111<1s mortos 38 i,6
percebiam nos dias de tempestade um barco maldito, cujo c:ipi \hortndos 55 li
tão, por uma ofensa feita a Deus, estava condenado a vagar etcr C I l1111ças não batizadas 90 18
namente nos mares do Norte.5' Essa reinterpretação moralizante 4 \lulhcrcs mortas durante o parto
e cristianizada de uma das lendas relativas aos "navios fantasmas"
10 2
\h1lhcrcs mortas após o parto, mas antes das
é muito semelhante a outras do mesmo tipo. Em Flandres, no 11,1_ ,lc purificação
14 2,8
século xv, dizia-se, por uma espécie de camuflagem da crença 1111
N11IV()S mortos pouco antes do casamento 14
metempsicose, que as gaivotas eram as almas dos maus obrigad:1~ 2,8
C ,1-ntlos falecidos no dia do casamento 40 8
por Deus a um movimento perpétuo, à fome e ao frio do inver
~nh hlns
no.58 Mickiewicz, em Os antepassados, põe esta queixa na boca do 43 8,6
1111111:·11n lo:s- - - - - - - - - - - - - - 2 : : __ _ _ ~
::c;:
danado: "Preferiria cem vezes ir para o inferno [...] a vagar assi111 38 7,6
pela terra com os espíritos impuros, a ver os vestígios de minh:1~ 1 \l111(1Hlos 101 20,2
antigas orgias, os monumentos de minha antiga crueldade, 11 1 1ti h•~1:1i:,i::
10:s-:;d-;:c:m:-::o:::r:::::tc-:v:-;-io-,
_1-=-
c,-:1t-a_o_u_n-::ã-o-n-at_u_ra-:l--_::~_ _ __:.'.'.
15 3
vadiar incessantemente, sedento, esfaimado, do poente à auror11 1 1lillitlS
15 3
1 da aurora ao poente [...]".59 Outrora, na maior parte das proví11
cias da França, acreditou-se nas "lavadeiras noturnas", obrig:1d11r1 500 100
1
até o fim do mundo a bater e a torcer a roupa porque havia111
cometido infantiddios ou enterrado parentes de maneira indig1111 l h•~tncam-se particularmente nessa interessantíssima esta-
ou ainda trabalh'àdo muito frequentemente aos domingos. 60 Ih ti li t:ntegoria das crianças mortas antes do batismo (n"' l, 2
Mais geralmente, tinham particular vocação para a vagm:11 li, 111 1 lmal 38,6%, e a dos afogados, 20,2o/co . Um elo tena
· ex1s-
·
ção post mortent todos aqueles que não se haviam beneficiado d1•
111t p111 tnnto, entre crença nos fantasmas e malogro trágico de
um falecimento natural e, portanto, tinham efetuado em co11 111111 de passagem, e até, mais geralmente, entre fantasmas e
<lições anormais a passagem da vida à morte - logo, defunto~ llm do espaço ou do tempo cumprindo função de fronteira
mal integrados a seu novo universo e, por assim dizer, "mal l' l11 11, lhlN~ngem. Assim, mais de 95% dos mortos estudados por
sua pele". A essa acrescentava-se uma outra categoria de c:111 11111111111 e que se tornaram "demônios" foram enterrados nos
Ih~ 1h1 11111 terreno ou de um campo, à beira de uma estrada
/36
137
ou de um lago. E, em mais de 90% dos casos, eles aparecem :10 A Bíblia já expressara essa desconfiança em relação às tre-
meio-dia, à meia-noite, ao amanhecer ou ao crepúsculo. Nl:ts , , comum a tantas civilizações, e definira simbolicamente o
essa relação entre "passagem" (no sentido mais amplo) e fant:1~ d,-1 ino de cada um de nós em termos de luz e de escuridão1 isto
mas foi ocuJta por uma cristü111ização crescente, que desloco11 .11• vicia e de morte. O cego, diz ela, que não vê "a luz do clia",
cada vez mais as perspectivas e insistiu na noção de salvação. P.m~ui um antegosto da morte (Tobias, 3,17; 11,8; 5,lls). Quan-
i111 lurmina o dia, então sobrevêm os animais maléficos (Sal-
111~, 104, 20), a peste tenebrosa (Salmos, 91,6), os homens que
Os fantasmas cristianizados foram muito numerosos. No~ 1h•111111 a luz - adúlteros, _ladrões ou assassinos Uó, 24,13-17).
Bálcãs, convenceram-se de que os excomungados permaneci:1111 - 1111, é preciso implorar Aquele que criou a noite que proteja
na terra enquanto não estivessem reconciliados,'•! e por tod11 homens contra os terrores noturnos (Salmos, 91,5). O in-
parte na Europa católica acreditou-se nas aparições das alm:tN 1111, - o xeol - é evidentemente o domín io das trevas (Sal-
do purgatório que iam pedir aos vivos orações, coletas de <lon:1 111-, 88,13). Em compensação, o dia de Iahweh será o da e terna
tivos, a repan1ção de erros cometidos por elas ou a realização d1• l•11dnde. Então "o povo que caminhava nas trevas verá uma
votos não cumpridos. Morada das almas que ainda não ari11 t11111l1J luz" (Isaías 9,1; 42,7; 49,9; Miqueias 7,8s). O Deus vivo
giram seu destino definitivo, o purgatório tornou-se o grand1• 11111111:iní os seus (Isaías 60,19s).
reservatório de fantasmas. C ) próprio Cristo precisa atravessar a noite de s ua paixão.
O cristianismo encarregou-se então pouco a pouco d11 l11w 1cl:1 a hora, entrega-se às ciladas da escuridão Uoão 1.1,10),
crença nos espectros, dando-lhe uma significação mor:il 1• •11111_1 se entranha Judas (13,30) e se dispers:1111 os discípulos.
integrando-a numa perspectiva da salvação eterna. Mas, cn11·1• li tjUIS afrontar essa "hora e o reino das trevas" (Lucas 22,53).
o discurso teológico sobre as aparições e o cotidiano vivido, li 111omento de sua morte, um manto noturno se estende pre-
uma distância subsistiu, mais ou menos larga segundo os Sl:lo -llll'lllllCnte sobre a terra (Mateus 27,45). Mas desde que é
res geogníficos e os níveis culturais. Van Gennep tinha r;1;,,:lci 111111•lnd:1 a mensagem evangélica e que Cristo ressuscitou uma
de escrever:6i "[•••] A convicção de que o morto pode voltar pa, 11 I" 1,111,n brilha no horizonte da humanidade. Certamente o
casa apesar de todas as precauções que se tenham tomado lnl 1,1 ,111, cliz são Paulo, ainda se encontra "na noite". Mas "avança
muito forte na França (e em outras partes) durante séculm, 1111 dia próximo que a ela porá fim" (Romanos 13,12). Se ele
mais ou menos em todos os meios, e só se atenuou hií uma cc11 11 •1111.1r ."chocar-se contra as montanhas ela noite Uoão 13 ,16),
tena de anos, muho lentamente nos meios rurais, mais deprl:~\il • 1111v1r o apelo de Cristo para tornar-se "filho da luz" Uoão
nas cidades e nós centros operários".64 '''•), Pnrn velar contra "o pr íncipe das trevas" (Efésios 6,12),
• lt'VCStir C risto e suas armas de luz e rejeitar as obras de
,_ ( Romanos 13,12s). Deus nos ajudará a libertar-nos da
2. O MEDO DA TOITE Ih C>s apocalipses judaicos já haviam descrito a ressurreição
Fantasmas, tempestades, lobos e malefícios tinham m11i1 ,1~ 1111 11111 despertar após o sono da noite (Isaías 26,19; Daniel
vezes a noite por cúmplice. Esta, em muitos medos de outrn1111 1, 11111 retorno à luz após o mergulho na escuridão total do
entrava como componente considerável. Era o lugar onde 11 1 N1•~sc rasto, a liturgia católica dos funerais inclui esta pre-
inimigos do homem tramavam sua perda, no físico e no mor:11 1 hu• ns almas dos fiéis defuntos não sejam mergulhadas nas

139
trevas, mas que o arcanjo são .Miguel as introduza na luz sant :11 lll•ll'tC próxima do sol. E le "vomitará vermelho, depois não
Faze brilhar sobre eles a luz sem fim".
65
li1nl mais lá"; e se estenderá definitivamente a noite que é "a
O temor de ver o sol desaparecer para sempre no horizo111 (• N•l\'no daquilo que é". O romance de C. F. Ramuz66 evoca com
perseguiu a humanidade: como provam, entre muitas outras, :111 U•h•1,11 n profunda tristeza que reinava outrora nas aldeias de
crenças religiosas dos mexicanos antes da chegada dos espa h1111w1tanha durante a longa estação fria: ali os suicídios eram
nhóis. Para os habitantes do vale do México, na idade de 0111'0 1111tmtes. Ainda hoje eles são mais numerosos durante os
da civilização de Teotihuacán (300-900 d.C), os deuses havi:1111 \'11 110s anormalmente longos e nevosos.
se reunido - precisamente em Teotihuacán - para criar o sol i\llus o temor de um desaparecimento do sol não é exclusivo
e a lua. Para fazê-lo, dois deles lançaram-se a um braseiro, d:111 llll•xicanos de outrora e dos habitantes dos vales de ontem.
do nascimento assim aos dois astros. i\tlas estes permaneci:1111 Sh11cnon fala como de uma evidência das "crianças que têm
imóveis no céu. Então todos os deuses se sacrificaram p:11•11 1li1 do c repüsculo" e que também se fazem a pergunta: "E se
fazê-los viver de seu sangue. Em seguida os astecas pensar:1111 111 11tlo voltasse amanhã [...]. Não é", acrescenta ele, "a mais
que deviam renovar esse primeiro sacrifício e alimentar o snlt 1h1111111:(Ústia do mundo?""7• Entretanto, os bebês muitas vezes
daí os sacrifícios humanos. Se ele não recebesse a "água prccin li Illm medo da escuridão. Inversamente, cegos que não
sa" do sangue humano, corria o risco de parar de girar. D css1• 11111 c•um a luz do dia são assim mesmo tomados de angüstia
modo, a inquietação estava no auge a cada f1m . de "secu
, 1o ", 1111 1111il11 vem a noite: prova de que o organismo vive no ritmo
seja, a cada 52 anos. O povo esperava com terror para sabei' NI 1111l\1llrso. Com]. Boutonier, é útil distinguir metodologica-
o sol renovaria seu contrato com os homens. A última noite d11 111• medo na escuridão e medo da escuridão, mesmo que se
"século" era passada no temor, com todas as luzes apagadas. /\ t ,~,• inverteras afirmações desse autor. 68 O medo na escuri-
esperança só voltava quando o astro afinal aparecia, tendo 11111 11 1lq11cle que experimentavam os primeiros homens quando
sacerdote acendido o fogo novo sobre o peito de um sacrificaclo 11111• 1/C encontravam expostos aos ataques dos animais fero-
A vida podia recomeçar. 1111 poder adivinhar sua aproximação nas trevas. Assim,
"Se o sol não voltasse", essa angustiante interrogação clu~ 1-,11'11111 afastar por meio de fogueiras esses "perigos objeti-
mexicanos de outrora forneceu o tema e o título a um rom:1111 t 1•~11cs medos que voltavam todas as noites sem dúvida
de C. F. Ramuz (1939). Para os habitantes de uma aldeia ck: v11h 111111'1.ll l'Om a humanidade e ensinaram-na a temer as arma-
que dá as costas ao sol, este se esconde atrás das montan h_:1s d1 hi. iln noite. O medo 11a escuridão é também aquele sentido
25 de outubro à 13 de abril. Mas, naquele inverno, ele est.1 :ll11 lt 111111tc por uma criança que adormeceu sem dificuldade,
da mais ausente ·q ue de costume. Está doente, esfria-se e c111't1 1h pois desperta uma ou várias vezes tomada de terrores
lhe-se, "já não tem poder suficiente para dissipar a névoa" 1111111~. De olhos abertos, parece ainda olhar as imagens
"uma névoa amarelada [...] - estendida de um declive ao 01111 11 1 l,Hllll'ns de seu sonho. Trata-se então de "perigos subjeti-
como uma velha serapilheira, um pouco acima da aldeia". O dh1 1• 1•SNCS constituem talvez a principal explicação elos
tornou-se "algo de cinzento e de vago que se desenrosca lcnht lo. 1111c nos invadem à noite. Mesmo "para bom número de
mente da noite do outro lado das nuvens como por trás de 11111 h11•, 11 Inquietação neles desenvolvida pelas trevas, se existe,
janela embaciada". Essa permanência incon~um da bruma _lc~111, lt I il1•~NC sentimento de que alguma coisa de temível vai
velho Anzévui - que sabe ler os grandes livros - a prole, 11111 111 ~•• 1<ohrc eles, saindo da sombra, ou os espreita, invisível".1•9

140 141
"Eis aqui o momento em que flutuam no ar/Todos esses rumo - 11, •Whtrai à vigilância de outrem e de nós mesmos e é mais
res confusos que a sombra exagera", escreve V. Hugo, a q m:111 11111111111 que o dia aos atos que nos reprimimos de encarar, por
Musset responde em O salgueiro: 111~1 111\nci_a ?u temor: audácias inconfessáveis, empreendi-
! IIION c r1m111osos etc. Enfim, o desaparecimento da luz nos
()_h! Quem não sentiu o coração bater mais rápido Ili l11n no isolamento, nos cerca de silêncio e portanto nos
A hora em que sob o céu o homem estrí só com Deus? 1 •111111cgura". Umas tantas razões convergentes que explicam
Quem não se voltou, crendo ver atrás de si l1111111otnção engendrada no homem pela chegada da noit e e
Alguma forma deslizar[...] t ~l•ll'~os de nossa civilização urbana para fazer recuar o
É certo que entiio o Pavor sobre nossa cabeça 11111110 d:i sombra e prolongar o dia por meio de iluminação
Passa como o vento no cimo dos bosques. ;o lllld nl.
"Um homem que acredita nos fantasmas", escreve M:111
passant, "e que imagina perceber um espectro na noite, dt:V\1
sentir o medo em todo o seu pavoroso horror".7 ' E cont:l 11111 No 11omcço da Idade Moderna, como era vivida a noite?
111 t tu>11• nilo seria demais para responder a essa imensa ques-
caso típico de terror noturno: um guarda florestal matara 11111
caçador furtivo exatamente dois anos antes numa noite de invt:r
1 \11 IIH.mos pode-se acentuar brevemente qne ela conserva
no. N esse aniversário, ele, com um fuzil na mão, e sua fam íli11,
1A11 11111•r1 muitos - e talvez até aumente - suas característi-
estão convencidos de que a vítima virá chamá-los, o que j,i rl'1 11l11111111ntcs.
'1, rn, provérbios asseguram que a noite traz conselho, não é
no ano anterior. Em meio a um silêncio angustiante, eles 011 Vl' III
1 1,111\0 dn sombra de que se acompanha, mas do prazo que
efetivamente um ser que desliza ao longo da casa e arranh:1 11
1p íl1 1 1rn1 cs de uma decisão. Aliás, os provérbios lamentam
porta. Uma cabeça branca aparece contra o vidro do posl Íl{O
t I Ili ltHlo: "A noite é negra corno não sei o quê"1i - e temem
com olhos luminosos como os de uma fera. O guarda atira, 11111~
1111111dilhos: "A noite, o amor, o vinho têm sua peçonha e
não abre a porta senão ao amanhecer: matara seu cão."
1111" ' 1'•'In é a cump , 1·ice dos seres maleficos:
, "As pessoas de
Que os "perigos objetivos" da noite tenham levado 11
li 111111111 o di:l, e os maus, a noite".; "Só andais à noite, como
5
humanidade, por acúmulo ao longo das eras, a povo.-í- la d1
1 1111111 1'1\rlllHll'l'O e os lobisomens.";,, Inversamente, os provér-
"perigos subjetivos" é mais do que provável. E dessa rnam:ir,1
1 111111111 o lo uvor do sol: "O sol não tem igual".n "Onde O sol
j:í o medo na es,curidão pôde tornar-se mais intensamcnll' f
t 1111111• 111lo tem nenhum poder." 78 "Quem tem o sol nunca
mais geralmen~ um medo da escuridão. Mas este último cxi~
11111111, 11 1• "(.)ucm tem o sol não morre jamais."8º
te também por outras razões mais internas e que se prendl'III
1111, o nnscer do dia é saudado pelos marinheiros como a
à nossa condição. A visão do homem é mais aguda do que :1 dt
1 111~ 11 d11 sn.lvação após uma noite de provações. Escreve
muitos animais, como o cão e o gato; desse modo, as tn.:v11-
deixam-no mais desamparado que muitos mamíferos. All1111
disso, a privação de luz atenua os "redutores" da ativid:ult Oepois de prncelosa tempestade
imaginativa. Esta, liberada, confunde mais facilmente do q111 Noturna sombra, e sibilante vento,
durante o dia o real e a ficção e corre o risco de desorientar 141 'l)y,z 11, mrmhã serena claridade,
fora dos caminhos seguros. É ainda verdade que a escurid1111 lüpemnça de porto, e salvamento:
1 , t ")
11111• têm sua sepultura nas encruzilhadas e nas ondas, já re-
Aparta o Sol a negrn escuridade,
Removendo o temor ao pensamento8'. 11111111ntm a seus leitos suspeitos. Pois, por temor de que o
11111 l11i:i sobre suas faltas, exilam-se voluntariamente da luz
Como se o furacão se acalmasse necessariamente com o 1 11111110 p:ira sempre unidos à noite de fronte negra. 85
retorno da clar idade. Em terra também a noite é inquietante,
Em Sonho de uma noite de verão, Píramo exclama: l',11 ,1 ns mulheres velhas que, no serão, trocam as palavras
lllhh1N NOb o título de Les Evangiles des quenouilles,86 os sonhos
Ó noite terrível! 11- 111111 siio produções do psiquismo. Ao contrário, são trazi-
Ó noite de cores tiio negras! 1111 1•,i1erior e impostos àquele que dorme por um ser ma-
Ó noite que estti em toda parte onde niío é dia.' 11 ,, misterioso chamado Cauquemare ou Quauquemaire (no
Ó noite! ó noite.' ai.' ai.' ai.' 8' 1 t /11/ftt'he-Vieille). As diferentes menções da coletânea em-
Mesmo para a elite culta, ela está povoada de esp1n1 0~ 1111 111'11 o singular - ser "cavalgado pela Cauquemare" - ,
temíveis que "desorientam os viajantes rindo de sua pena"."' 11 11 pllll'll l e, nesse último caso, estabelecem uma filiação

o sinistro encontro dos animais mais ameaçadores, da morte l ' • ~~1 111 personagens perniciosos e os lobisomens: "Disse
dos espectros, especialmente aqueles dos danados. "Quando li 11111111 velha: se um homem tem tal destino de ser lobiso-
língua de ferro da meia-noite contou doze", lê-se ainda na mes 11 • 1lll'fci l [acaso] se seu filho não o for e, se tem filhas e
ma peça de Shakespeare, então começa um tempo inum,1110: h11111 lllho, focilmente são Quauquemaires".~7
1 11111 "tlns mais sábias" da assembleia responde à preceden-
Eis a hora em que o leão ruge, l I l1111111do que é preciso precaver-se contra os "funestos
Em que o lobo uiva para a lua, tlli1~ 1111Nim como contra os duendes, Quauquemaires ou
Enquanto ronca o rude lavrndo1; 11111111h, po is eles trabalham sem ser vistos".8R Assim, os
Estafo.do por sua penosa tarefo. 111111 ~ ou causadoras - de pesadelos são agrupados no
Eis a hora em que as tochas crepitam apagando-se, l II ili• 1111111 perigosa categoria onde se encontram desor de-
Enquanto a coruja, com seu pio agudo, 1111111,,, 111> lado deles, duendes, fantasmas e lobisomens. As
Lembra ao m.ise1·ável, em seu leito de dor, 111 11 11111·11 tentar escapar ao domínio cios seres que pertur-
A recordação da mortalha. 1 ,11,01 1rocam entre si conselhos e receitas: "Diz uma das
Eis a hora da noite 11 •- 1..,1, que quem vai deitar-se sem levantar a cadeira
em q1Ie as sepulturas escancaradas tt 1111111 se descalçou está em perigo de nessa noite ser
Deixam esmpar cada uma seu espectro, 1111 p11l11 Q uanquemaire (...]".~9 Perrette Tost-Vestue diz
Parn que vagueie pelos caminhos da igreja. 8' 1111-,1 q11c :ts Cauquemar es mais temem é "uma panela
Em compensação, a aurora marca o momento em q111 ,
1 11 111·11dn do fogo".9° Ao que uma outra responde: " [...]
h 1111 q11c n Canquemare venha à noite ao seu leito, con-
terra vai novamente pertencer aos vivos:
1111 ,11 1111111 cadeira de madeira de carvalho diante de um
À sua aproximação, os espectros vagando aqui e ali voll11111 11 1 ~1• cln vier sentar -se nela, jamais poderá levantar-se

em bando para seus cemitérios; todos os espíritos dam11l11 11111 1111• dia claro [...]".'11 Uma outra assegura que ficou

145
1 ,1 A claridade da lua se apaga e se torna pálida e obscu-
"livre da Quauquemaire" depois que a "fizeram pegar VTII pa 1111" 111. l•:sta, outrora, com seu clarão enganador, cegou todo o
colhidas na noite de são João e destas fazer IV pequenas crui,1•- lt lmnho de ovelhas; de modo que elas se afastaram de seu
9
e colocá-las nos quatro cantos do leito". l . • " •
111111tor e de seu pasto e, seguindo a luz da lua e a voz do leão
Em compensação, uma das narradoras que 1am_a1s sof 11111
abusos" por parte dos "duendes" não sabe ~orno livrar-se 1h1
'I"'' 11:; chamava, perderam-se no meio dos bosques e dos
1 t _,wms.98
Cauquemare. E ouviu dizer que "quem mmto [or?enha] su11
vacas na sexta-feira por entre duas pernas por tras, a Q111111
quemaire logo o atormenta".')) Vem em resposta uma rcn•h11
111µ11 11ndora, a lua tem portanto relações com o inferno; no
llt 11•di t11 também Ronsard quando assegura que Denise, a
infalível: "Não há erro", diz uma das fiandeiras, "quem qlll'I
1 lt 11 dn Vendômois, "comanda a lua prateada".9''
ficar livre da Quauquemaire, adormece com os braços cm c1·111
e quem teme o duende, veste a camisa de trás para f~entc".''
1 l>1 1111rnci ra mais geral, a cultura dirigente, entre os séculos
\\ li, no insistir, com predileção mórbida, na feitiçaria, no
O medo da noite na civilização de outrora esta aco111p11
nhado, como já assinalamos, de uma desconfiança gcr:1! 11111 111-11111 e na danação, incrementou o lado inquietante e
relação à "fria" lua, "soberana das ondas" - essa cxpn:ss(ío ,h Ih II dn noite (e da lua). Era graças à sombra que se desen~
Shakespeare não se pretende elogiosa. Quando ela es~á "p:~1111 lt1 1 1ll'l'Uditava-se, a maior parte dos sabás, sendo solidários
de cólera", "enche o ar de umidade, de modo que prohfcr;111111 111 11 1•~curidão. E o inferno, na época mil vezes pintado e
1 1111, ,1 representado por Dante e seus sucessores como o
resfriados".'' 5 A se acreditar no poeta inglês T. Dekker (1~7
-1632), todo mundo vigia com uma curiosidade angusti:1d11 li 1111rk• o sol se cala", onde a água é negra e onde até a neve
li 1111 hr:incura.ioo Satã - é uma banalidade - é o sobera-
aspectos do astro errante.
Sabe-se que ela pode produzir a loucura. E, qu~ndoy:111 11
1
tl ~11111hrn, onde sua feroz imaginação inventa os piores
"chorar", é que anuncia alguma desgraça. Em conJunç:10 t'HIII h1~ pnrn enlouquecer <:; martirizar os danados. Bosch,
outros planetas, traz a peste. Diz-se que encerra um ho 1111 Ili l~11tlt1•~c no autor de A divina comédia, foi inesgotável
carregando um feixe de sarça nas costas e calçado de s:1p11111 t ~~,• 1uma. Mas também para um humanista como G.

com grandes cravos - personagem que ocupa um lug:11 1h 11111duiro da tradição greco-romana das viagens aos in-
destaque nos contos de mulheres velhas;96 Entretan~o, 111111111 1 dn discurso cristão sobre o império satânico, este não

civilizações encaravam a lua como um s1mbolo amb1g_uo \' 11111 1 ~1111~c> o domínio de uma noite sem remédio. Há aí um
poder ambiva1ente. Ela cresce e decres:e. Morre, depois n·vht t 1111111111 geralmente aceito pela mentalidade da época.
Significa os7 ciclos da vegetação. Insp1rou ou acomp:rnh1111 111 1 voc:11 o mundo infernal, G. Budé fala ora do "sombrio
1
fantasias relativas ao princípio "vida-morte-renasci1rn.:111 o' 111' •h undo "no fundo do abismo que mergulha no mais
Mas, na Europa do começo da Idade Moder?a, os :'.sp1•t lt 11,li 1 ~oh a terra", ora de uma "caverna escura e terrível",
negativos da Lua é que são sublinhados_, na med,_da precis:1111111 111 IHRo para forçados horrível e escura que é o Styx,
te em que ela é a cúmplice dos malefícios da nmte. Revcl:id111 1h homens". Ou ainda descreve "o poço que jamais
esse respeito o célebre poema de H. Sachs consagrado_a l .1111 h 11
11,111 onde será eternamente "prisioneira uma multidão
0
"rouxinol" de Wittemberg. Graças ao canto desse passar111111 , ,h1 pobres, de velhos, de jovens, de crianças [sic], de
anuncia afinal a manhã, 1o1il11~ l' de sábios, de iletrados e de eruditos". E para ele,

147
assim como para todos os seus contemporâneos, Lúcifer é o Assim criava-se um espaço quente a cuja porta a noite se
"príncipe das trevas terríveis", um "malfeitor na escuridão" t' dulinha e onde um rito de sociabilidade amistosa e tranqui-
- expressão retomada de Homero - a "Erínia que habita :h liiadora vencia, por algumas horas, as ameaças da sombra.
trevas. 101 Nos campos, era de uso um pouco em toda parte organi-
Assim, pelo jogo de uma dupla insistência, por um lado 1111 111r tais serões, que se reproduziram até o limiar de nossa
astrologia e por outro no poder de Satã - aspecto que scnl 11poca.ioi As cerimônias de Natal e as fogueiras de são João,
desenvolvido mais adiante - , a civilização europeia, no rn ,,~ "noitadas" dos camponeses bretões, as algazarras que
meço da Idade Moderna, parece ter cedido, com a ajuda d11 1111,rcavam as noites de bodas, os tumultos, as reuniões de
imprensa, a um medo aumentado da sombra. 11orcgrinos v indos d e muito longe e que, chegado o fim da
J11r11nda, esperavam a aurora na - ou nas proximidades da
ig reja que era o objetivo de sua viagem: todas essas ma-
Existia no entanto certa vida noturna, tanto no ca111p11 111 lc.:stações coletivas constituíam uns tantos exorcismos dos
como na cidade. N o inverno, enganava-se o tédio e e ncurt :1v11 11 t•rores da noite. Além disso, a Renascença viu aumentar,
-se o tempo de escuridão, reunindo-se para serões que podi:1111 1111 ~·nmada social mais elevada, o número das festas que se
durar até a meia-noite. E o que na Borgonha se chamava dt il1•~1.1nrolavam após o fim do dia. Montaigne, de passagem
frmignes. Tabouret D es Accords escreve no século XV I: p111 Roma em 1581, assiste a uma justa noturna apresentada
1111111 campo aristocrático.io~ T. Dekker evoca, alguns anos
Em toda a região da Borgonha, mesmo em boas cid:ul1••1 111111s tarde, as danças, " fantasias e mascaradas" organizadas
porque elas são po voadas de muitos pobres vinhateiros q111 1111 l .ondres, para as grandes ocasiões, nas casas dos ricos à
não têm meios de comprar lenha para se defender da ofc1"''
1111ht·, h luz de tochas.1º1
do inverno, muito mais rude nesse clima do que no resto d11
França, a necessidade, mãe das artes, e nsinou essa inve11~·1\11
111• lodo modo, a noite é suspeita, pactua com os debochados,
de faze r em algu ma rua afastada um casebre ou consl 111
l•1l11k~ e os assassinos. Assim, punia-se de maneira mais rigo-
ção composta de várias varas fincadas na terra em círr11l11
,1q1wles que haviam atacado alguém após o fim do dia ou em
e curvadas em cima e no copo; de tal sorte que rep n.'w 11
t hlUIII' nfostado, pois então a vítima podia defender-se menos
tam a copa de um chapéu, o qual é depois recoberto m 111
111 11111is dificilmente obter socorro.106Ainda em nossos dias, o
bastante terra t esterco, tão bem ligados e misturado~ qm
a água não pode penetrá-los. Nesse casebre, entre du:1~ 1'11 1111111•11111 considera a escuridão "circunstância agravante" de
1111111'. O elo entre trevas e criminalidade é aliás permanente
ras do lado que é mais defendido dos ventos, de ixa-se 111111
pequena abertura da largura de um pé e da altura cll' dol 11111111 1'01110 tal. Em uma sondagem do IfOP [lnstitut Français
para servir de entrada, e em toda a volta há assento, 11 1 t11111l1111 Publique] de 1977, a falta de iluminação é citada como
tos de pano mesmo, para ali se sentarem várias pessoa~. 1 t ,h lll~cgurnnça por 43% do público nas cidades francesas de
reúnem-se habitualmente, depois da refeição, as mais 111111 ,11 1()() mil habitantes e por 49% na aglomeração parisiense.
filhas desses vinhateiros com suas rocas e outros trah:1 11111 li 1 11111N, cm Missouri, experimento u, um ano depois de haver
e ali fazem serão até a meia- noitc.'ºi 14.11111111 importante programa de iluminação, diminuição de
1l11~ 11111hos de automóveis e ele 13% dos assaltos.10;

149
O poeta inglês da Renascença T. Dekker, que sabe do qu11 11h1r fora dos circuitos balizados pela luz. O alemão N emeitz,
fala, faz da noite londrina, no tempo de Elizabeth e de Carlos 1, 11uhlicando em 1718 "instruções fiéis para os viajantes de condi-
uma descrição sem complacência. Todos os criminosos, cov:11 '411", escreverá a esse respeito:
des demais para mostrarem-se ao sol, "saem de suas concha~"
Os lojistas, que m ataram o tempo durante o dia, com ar i1111·11 Não aconselho ninguém a ir pela cidade na noite escura. Pois,
tável e moroso em sua lojinha, entram furtivamente num:1 111 ombora a vigilância ou a guarda a cavalo patrulhe por toda a
berna de onde saem cambaleantes - alguns desabam 111111111 llidade para ali impedir as desordens, há muitas coisas que ela
valeta. Os aprendizes, apesar dos compromissos de seu co111 1·11 111io vê(...]. O Sena, que atravessa a cidade, deve arrastar quan-
to, arriscam-se por sua vez a uma escapada em direção ao c:1h11 l idades de corpos mortos, que devolve para a margem em seu
ré. Jovens casados desertam do leito conjugal. Gritalhõcs ~,
,•urso inferior. Portanto é melhor não se deter por muito tem-
juntam em torno do guarda que detém um bêbado. Prosti1 111 11~
po em parte alguma e voltar cedo para casa.'"
aparecem nas ruas, que percorrem até a meia-noite. Se as t rcvn•
são suficientemente espessas, o severo puritano, que ao lua r 111111
No entanto, na época da Regência, a vida noturna era infi-
ousaria aproximar-se de um bordel, atreve-se a ir à casa de 11 11111
lt 11111cnte mais animada que duzentos anos antes. Interpretando
cortesã. Pelas ruas escuras, as parteiras vão presidir ao 11:1~1'1
mento de bastardos, que em seguida farão desaparecer <k~lf Jll l~os regulamentos que determinavam aos donos de cabaré
, h11r o estabelecimento após o toque de recolller soado em
mundo. A noite é mais perigosa quando os a labardeiros em vi
gia estão adormecidos numa encruzilhada, roncando ruido~11 llll l'•Dame, o Châtelet em 1596 decidiu que duraria das sete
mente. Além disso, "sente-se" de longe sua presença, pois <'O li 1IN d:1 noite de 1° de outubro até a Páscoa e das oito horas da
meram cebolas para proteger-se do frio. Assim o .Mal poil1 •• 1111 :ité 1° de outubro.m As portas das cidades eram fechadas,
prosseguir, sem ser perturbado, sua dança noturna na gr:111d1 11lvidnde artesanal cessava, as pessoas de bem não tinham mais
cidade, ao passo que os galantes, na soleira das tabernas, ·w111 1h1 11 fazer fora após o toque de recolher. Seu lugar era em rnsa
bam dos soldados adormecidos da guarda.io8 T. D ekker crntt11 11•do, na cama. Assim pensaram outrora todos aqueles que
em Londres um bom milhar de cabarés.109 Alguns são ma111idm 1m11n pelo rebanho cristão. O padre Maunoir, que evangeli-
por bruxas cafetinas de duplo ou triplo queixo. Elas bebc111 li 1 11 13retanha de 1640 a 1683, ouvindo falar das "noitadas"
cores e aguardente e usam no dedo médio, como as prostil 111 11- t,1,,, associou-as aos sabás de feiticeiros e combateu-as feroz-
que fornecem como caça, um anel com caveira. Em suas c:1'111~, 11111, Do mesmo modo, as écrnignes pareceram suspeitas às
abertas dia e noite: oferecem aos visitantes as famosas anll'hll 1111s de Igreja. E ram ocasiões de rixas - as cartas de remissão
cozidas, símbolo ha literatura elisabetana do infame comfrd11 11111111111 com efeito algazarras à saída dos serões114 - e pretexto
do submundo."º A escuridão permite naturalmente a at ivid1uh ,~ "Indecências". Daí as interdições eclesiásticas. Lê-se em um
dos arrombadores, que atacam de preferência as lojas dos 1111 11 111l11111ento sinodal de Saint-Brieuc, no ano de 1493:
<ledores de tecidos e de ourives, negociantes abastados. 11111,1
maior segurança, acontece-lhes comprar a cumplicidadt• ,h1 hl lllll um sínodo precedente, para cortar esses abusos inep-
vigia ou do guarda-noturno.'" 111~ e escandalosos que se produziam muito frequentemente
Mesmo na Paris do século XVIII, cujas principais artéri:1~Nl1ti IIIIN reuniões de fiaduras, havíamos proibido essas reuniões
então iluminadas por um as 5500 lanternas, não será 60111 1 li 1111 nossa cidade e na diocese inteira, sob as penas editadas

150 151
bnirros, o honesto espião que descobre as práticas noturnas e,
nos estatutos desse sínodo. Sabemos que essa proibição foi 1111como o fanai na popa do navio, servindo de guia e de recon-
violada várias vezes. É por isso que renovamos especialmen- f1lt'to aos marinheiros nas mais negras trevas, percorre a cidade,
te esses estatutos, e proibimos novamente todos os nossos • qual poupa frequentemente muitos incêndios perigosos".119
súditos e de qualquer condição de manter doravante essa~ i 11dos têm portanto interesse em escutar e em praticar seus
reuniões e fiações com danças, loucuras e extravagânci:1s, 4hios conselhos: pois a noite é perigosa para o corpo e para a
de a elas assistir ou a elas comparecer sob pena de excomu t lmn, é a antecâmara da morte e do inferno. O sino do vigia é
nhão [...].115 • o toque a finados:

Evidentemente, as écraig;nes continuaram. Quanto aos "se• Nornens e crianças, meninas e mulheres,
rões de santos", no decorrer dos quais as pessoas se encontrav,1111 Não é tarde demais para emendar vossa vida:
em uma igreja ou em um cemitério, eram muitas vezes cm~sa_d1• Fechai à chave vossas portas, no cnlor permanecei deitados,
"divertimentos", "jogos", "danças", violações e outras vmlcn /~grande perda a de urna virgindade.
cias. A ponto de em Notre-Dame de Paris, para o serão de 15 d1• 1) meia-noite festejar é muito esbanjm;
agosto, 0 capítulo fazer entrar na igreja soldados _encarre?ados As desordens dos criados fazem a ruína dos patrões:
de punir os fomentadores de desordens.116 R. Vault~er reurnu v:i Quando ouvirdes este sino soar
rias cartas de remissão relativas a excessos cometidos por oca Cnde que é vosso último dobre [...]. 120
sião dos serões religiosos, por exemplo estas:
'1\11 é a lúgubre ladainha do "despertador" londrino, por
[1383] A noite da festa de Nossa Senhora em setembro 1.. ,1 fll, d11 qual é preciso reconstituir a angústia milenar diante de
[em] que há grandes serões e reunião de pessoas na grand1• 11111 noite mal dominada. Lembramos anteriormente a profecia
igreja [da Charitésur-Loire] [...] [rapazes] ~ue velavam 1111 11\pocalipse: o novo céu e a nova terra prometida não com-
festa, armados, subjugaram um companheiro que enco11 li 11111~0 mais mar. Do mesmo modo, não conhecerão mais a
7
traram na igreja sobre uma mulher desonestamente.'' 1111•, A Jerusalém eterna será iluminada pela luz sem declínio
[1385] [Um certo Perrin foi] por grande devoção a N os 1 11 Deus (Apocalipse xxr,5; xxr,23; I João I,5).
sa Senhora de Barres, no bailio de Orléans, por tentação do
inimigo, e esse Perrin e alguns outros rapazes se puser:1111 11
dançar na dit.a igreja, com vários homens e mulheres [...!, 1•
para isso f:tz.er, os ditos companheiros apagaram as cancli.:i11~
e jogaram-nas atrás do altar e quebraram as lâmpadas", d1•
pois amordaçaram uma mulher."8

O Inimigo aproveita portanto da noite para induzir ao llllll


o ser humano fragilizado pelo desaparecimento da luz. D :1í 11
necessária presença nas cidades de outrora do guarda-not11rn11
que faz a ronda com sua lanterna, s~u sino e _s~u cão. Ek ,,,
segundo T. Dekker, "a sentinela da cidade, o v1g1a de todos 111
153
3. TIPOLOGIA DOS
COMPORTAMENTOS 1111 ,, novamente a Inglaterra, depois devasta a França de 1370
11 76, para passar mais uma vez para além da Mancha. A Itália
COLETIVOS EM TE.NIPO DE PESTE 1811 1•st:iva mais bem aquinhoada. Um cronista de Orvieto ano-
Ili 11A primeira peste geral ocorreu em 1348 e foi a mais for-
' I>opois acrescentou: "Segunda peste, 1363. Terceira peste,
H 1. (juarta peste, 1383. Quinta peste, 1389". Uma outra mão
1111plctou: "Sexta peste, 1410". "Outras mãos", comenta E.
1. PRESENÇA DA PESTE' •1 111111tier, "teriam podido continuar a lista para o século xv."•
Sobre a tela de fundo constituída pelos medos coti~ianos jd I• ,,ludo o caso de Châlons-sur-Marne. As datas de epidemias
identificados (sem se pretender deles ter leva~1tado um 111ve1;t:I 1 hl111lc parecem obedecer a um r itmo e salienta-se um ataque
rio completo) destacavam-se, a ~ntervalos_ma1s ou menos proxl 1 d1k 11d:1: 1455-7; 1466-7; 1479; 1483; 1494-7; 1503; 1516-7;
mos, episódios de pânico colen:o, especialmente./uand~ u.1~1 \l 1 1, 1 l)aí esta análise de J.-N. Biraben:
1
epidemia se abatia sobre uma cidade ou uma reg1,10. Ma1s Íl l
quentemente, na Europa, tratou-se da peste, sobretudo dur:1111\' '11· ~t• ncompanha a história da peste em uma cidade nessa
os quatro séculos que correm de 1348 a ,1~20. ~~tretanto, 1111 p1 wn 1...], constata-se que ela era responsável, a cada oito, dez
decurso desse longo período, outros co;1ta_g1os_ d1z1maram :·"11 1111 quinze anos, por violentos surtos em que toda a cidade e ra
bém as populações ocidentais: a sudamma mgle~a nas dl~1,_ 11l11Hldn, perdendo até 20, 30 e mesmo 40% de sua popula-
·~ · Alema, ha nos séculos XV e XVI, o nfo nos cxr1 \ 111, (1'ora desses paroxismos, persistia em estado semiendê-
Bntamcas e 113 , 1 •
citos da Guerra dos Trinta Anos, e ainda a varíola, a gnp1• 1111t 111 vagando caprichosamente de uma rua ou de um bairro
pulmonar e a disenteria: todas as três ativas no século XVII 1. ' ( 1 11 11111 ro, sazonalmente, durante um, dois e até cinco ou seis
cólera, em compensação, só apareceu nessa parte do,~undo l 'III 111111~ ~cguidos, depois extinguia-se durante alguns anos. Rea-
1831. U ma leitura atenta dos textos da alta IdadeMedrn pen11I l' 111111111 então sob essa forma "atenuada" que precedia muitas
tiu recentemente concluir que a peste fora virulenta na Eurnp11 1•~ 11 forma "explosiva" antes de segui-la.6
e em torno da bacia mediterrânica entre os séc_ul~s _v1 e \lllli
com uma espécie de periodicidade dos surtos ep1?em1sos c11)11 1ti 11111•11izado, implacavelmente recorrente, a peste, e m
1
3
picos se davam a cada nove a doze anos. J?ep01s ela pa'.·~l•: 11 1 1h ~ou:; reaparecimentos repetidos, não podia deixar de
7
desaparecer nQ século 1x, mas para ressurgir bru~al~ent~ l Ili lltl~ pupul:ições "um estado de nervosismo e de medo". Na
1346 nas 1113.,rgens do mar de Azov. Em 1347, atmgm Co11~ 11 11111 rc 1347 e 1536, J.-N. Biraben identificou 24 surtos

tantinopla e Gênova e logo toda a Europa, de Portugal e d" 111 ,1~, ~til'undários ou anexos de peste em 189 anos, ou seja,
Irlanda a i.Vloscou. As devastações da "morte negra" _estendi 111 11111110s a cada oito anos. Em um segundo período, que
ram-se pelos anos 1348-51, eliminando, assegura Fro1ssan , "
1
111h d 11 l 'i36 a 1670, não se contam senão doze surtos (um
terça parte do mundo". , 11 , 1 11 11os).~Após o que, a doença parece desaparecer,
Durante todo O resto do século XIV e ao menos ate o co1111 ,11q<li' violentamente na Provença em 1720. Desse
li 1 1111111/jtl, mas também mais geralmente no Ocidente,
ço do X VI a peste reapareceu quase a -cada· ano emBum lug:11· 1111
outro , da ' Europa ocidental. Em 13,9, e1-la na e'lg1c,1
. ~· li 1 , 1111dtilnico da peste diminui a partir do século XVl,
Alsácia; em 1360-1, na Inglaterra e na França. Em 13(,(), ti 111h1 1d11tln m:iis as explosões mais violentas: em Londres

155
dico, mas Galeano, Hipócrates e até Esculápio teriam con-
em 1603, 1625 e 1665; em Milão e Veneza em 1576 e 1630; 1111
Espanha em 1596-1602, 1648-52, 1677-85; em Marselha c111 forido um certificado de robusta saúde, tomaram a refeição
1720. Essas datas e essas localizações não constituem, supõc-st•, cln manhã com seus parentes, seus camaradas e seus amigos
senão alguns pontos de referência na diacronia e na geogral'in t·, chegada a noite, sentaram-se no outro mundo à ceia de
das pestes do período barroco, pois as epidemias de 1576-85 1• ~uus ancestrais."
1628-31 estenderam-se na realidade a uma grande parte d11
Europa.9 Por mais violentas que tenham sido essas explos<iCN A avaliação de Boccaccio é exagerada. É mesmo exato,
- em particular a última na França, a de Marselha - estava111 1110 certos historiadores afirmaram, que Florença teria con-
cada vez mais separadas umas das outras por anos em q111• 1111 110 mil habitantes em 1338 e 50 mil apenas em 1351? K.J.
nenhum óbito suspeito era assinalado. O mal se tornava e ntílo 11111h estima que a cidade do Arno reunia 55 mil almas em
mais esporádico e localizado, e depois de 1721 desapareceu do 17 e 40 mil quatro anos mais tarde, ou seja, assim mesmo
Ocidente. Mas anteriormente, durante quase quatrocemoN Phl punção próxima de 30%. E, ao passo que a população
anos, a peste fora, segundo a expressão de B. Bennassar, " u111 11111cçava a crescer na segunda metade do século xrv, a "pes-
grande personagem da história de ontem".10 lJ1111ln" e liminou novamente 11 500 pessoas em 1400 e talvez
Grande, porque sinistro. Julguemos por seus crimes, q111• 111II cm 1417. Quanto a Siena, teria sido povoada por 20 mil
causaram estupefação aos contemporâneos: "Houve, dur:rnto 1111111 um 1347, 15 mil em 1349, 12 500 em 1380. 13 Segundo os
esses dois anos [1348-9]", escreve o carmelita parisiense Jean de• 1111 lndores britânicos, a Inglaterra teria sido amputada de
Venette, "um número de vítimas tal que jamais se ouvira dizei, 0 , ilc seus habitantes entre 1348 e 1377 (tendo 3 757 000 n a
nem se vira nem se lera nos tempos passados".11 E Boccaccin l11111li111 data e 2 223 375 na segunda)." A peste negra e aquelas
precisa na introdução de O decmnerão a respeito de FlorenÇfl: 11 ,,cguiram foram aqui, senão as únicas, ao menos as prin-
1"1" l'éSponsáveis pelo desastre.
A crueldade do céu, e talvez a dos hom ens, foi tão rigoros111 I• IH 11gora alguns trágicos recordes: Albi e Castres perde-
a epidemia grassou de março a julho [1348] com tanta vio Ili ,t 111urnde de sua população entre 1343 e 1357, e em 1350 o
lência, uma multidão de doentes foi tão mal socorrida, 011 111,IKlo teria eliminado - cálculos discutíveis, é verdade -
até, em razão do medo que inspirava às pessoas sadd.1vc i•,1 , iloN habitantes de Magdeburgo, 50 a 66% dos de Hamburgo,
abandonada em tal privação, que se tem alguma segura ru do~ de Bremen.'5 A peste negra devastou sobretudo as
zão de estiin~r em mais de 100 mil o número de homc1111 l••h~, mas nem por isso os campos foram poupados - em
que perdeu a vida no recinto da cidade. Antes do sin ist rn, •N1:lvry, na Borgonha, viu desaparecer 1/3 de sua popula-
não se imaginara talvez que nossa cidade contasse tal qua11 1 N11 S11voia, os lares da paróquia de Saint-Pierre- du-Soucy
tidade deles. Quantos grandes palácios, quantas belas c.1s11N,
1111111 ele l08 em 1347 a 55 em 1349; os de sete paróquias
quantas moradas, outrora repletos de criados, de senhOl'c•-
lnh,,~, ele 303 em 1347 a 142 em 1349.16 Etn certos domínios
e de damas, viram afinal desaparecer até seu mais hu111il
11l1,1tl ln de W inchester, onde se contavam 24 óbitos de carn-
de servidor! Quantas ilustres famílias, quantos impom·11
1 , • 1~m 1346 e 54 em 1347 e em 1348, sobe-se brutalmente
tes domínios, quantas fortunas reputadas ficaram privad11•
Il i tl m 1349".n Quer-se uma estimativa global, na escala
de herdeiros legítimos! Quantos valorosos senhores, hl·lit-
damas e graciosos rapazinhos, aos quais não só o corpo 111( l 1111 1p11 ocidental e central, das devastações provocadas pelo
157
flagelo em 1348-50? Podemos ater-nos à que forneccr·n \ ,. * *
Renouard: "[...] A proporção dos óbitos devidos à peste em , ,,111
ção ao conjunto da população parece ter oscilado entre 2/ I 1 11 final do século XIX, ignoraram-se as causas da peste
1/8 segundo as regiões". 18 Portanto, Froissart tinha sem di',vl,1, • 1 lt\ncia de outrora atribuía à poluição do ar, ela própria
rnão de pensar que 1/3 dos europeus sucumbira ao cont:111l11 111111111 seja por funestas conjunções astrais, seja por emana-
tendo este sido, no entanto, particularmente severo na Ir:-íl i:1, 11 11111 l'idns vindas do solo ou do subsolo. Daí as precauções,
França e na Inglaterra. i.\11~ olhos inúteis, quando se aspergia com vinagre cartas

A Europa, tomada cm bloco, não iria conhecer mais 1111d1 rl11111 quando se acendiam fogueiras purificadoras nas en-
epidemia tão trágica quanto a de 1348-50. Contudo, os r c tol lh,1ilns de uma cidade contaminada, quando se desinfetavam
nos ofensivos do contágio ganharam ainda, na escala urlrnirn hl1111r., roupas velhas e casas por meio de perfumes violen-
regio~al, ou até nacional, ares de catástrofe. Paris teria pcnl11h, ,h 1111xofre, quando se saía para a rua em período de con-
40 mil almas em 1450. 19 Londres, que contava cerca de 460 11111 1 111111 uma máscara em forma de cabeça de pássaro cujo
habitantes em 1665, viu perecerem da peste 68 500 deles 11;1q11t 11,1 preenchido com substâncias odoríferas. Por outro lado,
le ano.1ºMarselha, no começo do século XVIII, reunia um po111 t1 011lt 11s antigas e a iconografia quase não mencionam como
menos de 100 mil almas; a epidemia de 1720 eliminou cerc:1 111 1 11111t·1irsor de uma epidemia a mortalidade maciça dos
50 mil delas (incluído o território das redondezas).11 A mc~11111 111111ual A. Camus insiste em A peste. O papel da pulga era
proporção, mas agindo em massas humanas mais densas, 1°111 1111111111c ignorado. Em compensação, todos os relatos de
Niípoles em 1656. E ssa cidade, desmesuradamente povo:11111 111 ,t clescrevem o perigo do contá io inter-humano. Esse

agrupava então de 400 a 450 mil habitantes. A peste ceifou 2·1U 1~11 1 hoje o sabemos, é evidente no caso da peste pu manar,

talvez mesmo 270 mil.11 Consideremos agora em sua globalidu , l 111nsmite pelas gatinhas de saliva. Mas a pesquisa médi-
de a Itália e a Espanha do século XVII. A alta Itália (de Vc11l't il 1111tl 111terroga-se sobre o "dogma do rato" no que concerne
ao Piemonte e a Gênova inclusive) teria conhecido uma h:li, 1 li hubônica. Sem dúvida, a história dessa doença desde as

demográfica de 22% entre 1600 e 1650, ocasionada princip11I 11, permanece ligada à do rato. Mas, em inúmeras epide-
mente pela peste de 1630, tendo a epidemia destruído 3)% cl 1 tl11 peste bubônica, parece que o fator multiplicador, o
população de Veneza, 51% da de .Milão, 63% da de Cremon:1 1 111 lp1tl ngente de transmissão teria sido, não o parasita murí-
Verona, 77% - ~ombrio recorde - da de .Mântua. No tot:1I, 11 1 llhlN n pulga que ataca o homem, a qual passa de um hospe-

Itália, durante ~ primeira metade do século xvu, perdeu 1-1'\, 111 ,tl(Onizante para um hospedeiro são. A mortalidade não
de seus habitantes (l 730000 almas).n As perdas teriam sidtt l I llnplicado então necessariamente um antecedente epizoó-
comparáveis na Espanha, que era menos povoada. As "t 11•, , Dní as devastações do contágio nos bairros populares
grandes ofensivas da morte" (por peste) - 1596-1602 16•1H 11 11 pnrnsitismo era mais denso. A partir daí, se as purgações
-52, 1677-85 - teriam eliminado 1250000 vidas. Ba:celo1111, tlll(l'ias, se o temor da transmissão do mal pelas dejeções
em 1652, perdeu cerca de 20 mil habitantes em 44 rnil. H S1, ,humtcs, se o abate de animais em que não se encontram
vilha, em 1649-50, enterrou 60 mil mortos em 110 ou 120 111 0 1~ 111 knvalo, boi etc.) de nada adiantavam, em compensação
ha_bitante~.2; A peste foi portanto uma das causas principais d 11 11111 rncnte queimar os tecidos, especialmente os de lã nas
cnse sofrida pelas duas penínsulas no decorrer do século X\'11 ti 1•1111tt11n inadas. É bem verdade que era preciso, se pos~ível,

IS9
fugir ou, na impossibilidade disso, isolar e isolar-se. Tanto 111111 111111urin tornou-se tão extrema que já não se encontravam
que a peste bubônica dava lugar frequentemente a uma compll l\'111•s 1 mesmo com dinheiro [...). Desse modo, os pobres
cação pneumônica secundária. O bom senso popular t i11 h11 1111 111111 pão carcomido [...], tremoços, rábanos e ervas de
portanto razão a esse respeito contra os "eruditos" que se n•1li 11111 1•~pécie. Os rábanos eram vendidos a 16 sous o stllre e
savam a crer no contágio. E foram afinal as medidas cad:1 VI li ~11111 nssim não eram encontrados. Desse modo, viam-
mais eficazes de isolamento que fizeram regredir o flagelo. 11Hpobres, quando estrangeiros traziam rábanos em suas
A essa profilaxia parcialmente correta, correspondin 11111 1111,•111,1ncorrer empurrando-se para comprá-los; pareciam
observação exata dos sintomas da doença, em particular sol> 1it111 111 1111 ~:sfo.imadas partindo para o pasto [...). Seguiram-se
forma bubônica: descrição dos "carbúnculos", localizaçfo tl11 1 11\IIN nt rozes, incuráveis, desconhecidas dos médicos,
bubões, destaque dado, no quadro clínico, à língua intu11H' t 111111•giões e de qualquer homem vivo, que continuaram
cida, à sede ardente, à febre intensa, aos calafrios, à irreg uliu 1 Ili 111111• seis, oito, dez e doze meses. D e maneira que uma
dade do pulso, ao delírio muitas vezes violento, às perturh:t~•l'\1 1ll11ltl11dc de pessoas morreu em 1629.28
do sistema nervoso, às cefaleias, ao olhar fixo. Um m édirn il
Marselha observou em consequência da epidemia de 1720:
I\I \( :1,:NS DE PESADELO
[A] doença começava com dores de cabeça e vômitos 11 ~ •
guia-se uma forte febre[...]. Os sintomas eram, comu1111•1tt1 •~ 111\ornções, por excessivas que sejam, constituem uma
calafrios regulares, um pulso fraco, frouxo, lento, fn.:q111 li ll htl'I n ser incorporada ao dossiê "daqueles que acoplam
te, desigual, concentrado, um peso na cabeça tão corn.l1h 1h 1111l,,qi1,tência e ciclos pestilentos". 29 Mas elas se im:e-
rável que o doente tinha muita dificuldade para suste11111 1 l 11111 11,111 cm uma representação mental das epidemias
parecendo tornado de um atordoamento e de uma l)l' l 1111 1111 lnlmcnte no caso da Itália do século xvu, ocorriam
bação semelhantes aos de uma pessoa embriagada, o 11lh 1 1111• cloi:i outros flagelos tradicionais: a fome e a guerra.
fixo, marcando o pavor e o desespero [...).21 1 ,, 111 1lo uma "prag],_'.'....ç_Q!!lpa_x ável às UJê a.tingiram_o
1111 lllUSlllO..temp..ojden_t.ifica_cfo.S:Qil19 _mna 11_qveul.de.vo-
As pessoas de outrora igualmente observaram que :1 p, 1 11111 ciht:gn do estrangeiro e que se desloca de país em
atacava sobretudo no verão (nem sempre, contudo) ~ :1 111111 li 111•ln pura o interior e de uma extremidade à outra de
prefere com efeito uma temperatura de 15-20º em uma :tl 11111~h 1uh , •it1111c:ando a morte à sua passagem. É ainda descri-
ra com 90 a 95o/o de umidade-, que prejudicava mais es1w1 l•I ' 11111 tl1111cavaleiros do Apocalipse, como um novo "dilú-
mente os pobres, as mulheres e as crianças e que dizim:1v11 f 1111 1111111111 11 inimigo formidável" - é a opinião de D. Defoe
predileção populações vítimas de penúrias recentes. Lc 11~1/h 111 1 111do como um incêndio frequentemente anunciado
lll peste, de César Morin (Paris, 1610), inclui um capítulo i111 h11 111 111 1•11s10 de fogo de um cometa. Na Provença e na
lado "Como a peste acompanha comumente as grandes 1111111 ili 111111•orn, pessoas viram "a centelha da peste" atraves-
E se podem ler sob a pena de um obscuro cônego lornu:1rd1 11 q1 11th1dl' e, saindo dos cadáveres, precipitar-se sobre as
foi testemunha da peste de 1630 em sua pequena cid111h 11 111 111111lo com boa saúde.10 O sentimento de ser con-
Busto-Arsizio, estes esclarecimentos relativos ao ano de IMII l 1 ,, 11111 incêndio era talvez reforçado pela frequente
1111 11 V\ll'ii o e epidemia e pelo hábito de acender nas

160 !61
encruzilhadas fogos purificadores, espécies de coutre-feux.* Soh1t li 1111111 p111·n os homens de Igreja e para os artistas que
tudo, comparava-se a contaminação a um grande incênd io11 \ 1111 f' l'llÇUS iis suas encomendas, a peste era também e
intensidade da epidemia", Boccaccio observa em O dcm111111,1 111 1111111 d rnva ele flechas abatendo-se de súbito sobre os
"aumentou pelo fato de os doentes, por suas relações co1 ldh1 I" 111 vontaae de um Deus encolerizado. Certamente, a
nas, contaminarem os indivíduos ainda sãos. Assim é t'OIII , ,111111,•ior :10 cnstiamsmo. O canto J da Ilíada evoca o
fogo, alimentado pelas matérias secas ou gordurosas que llw ft,l1 111" \p11lo que desce, "com o coração irritado, cios cimos
contíguas".Jt D. Defoe escreve por seu lado: "A peste é í.'111111 11111, 11111<!0 :10 ombro seu arco e sua aljava bem fechada.
um grande incêndio que [...], se irrompe numa cidade ,1111111 1111- 11•~No11m ao ombro do deus encolerizado", que dizima
densa, aumenta sua fúria e a devasta em toda a sua extc11sn11 111111 11111 "mal pernicioso".HMas foi a cultura eclesiás-
A imagem do abrasamento reaparece também sob a pc1111 1h 11111111011 e popularizou essa comparação.J,1 no final do
um médico marselhês que viveu a epidemia de 1720 e f":1 l11 ti 111 , h11 \111es de Voragine mencionara na Legenda ti1w ct1;8
1

"espantosa presteza com que a doença passou repentin:111111111 11,h• iftto Domm1gue percebendo no céuo'"Crig o h_ª_çj-9
de casa em casa e de rua em rua, como por uma espfrll• ,1, 111ll11 1l'ês lanças contra a humanidade cul ada de or-
incêndio [...]. E la atingia essa grande cidade com a rapid1•1 il• hpfilt•i, e uxúria. Clero e fiéis, vendo a peste negra e
um abrasamento".11 11111 11 scguií:ãm ao IÕi1go cios séculos como punições
A comparação entre peste e fogo, ei-la ainda nos rcl:ll ON ti, 1~•l 111llnram naturalmente os ataques cio mal aos golpes
um cônego italiano e de um pastor valdense, relatando a11ilu1, 1 1h IltlOh llS lançadas do alto. Assim, o registro da muni-
terrível peste de 1630, verdadeira "tempestade de afliçik~", t 1 1,h .!1•( )rvieto, na data de 5 de julho ele 1348, constatava
padre de Busto-Arsizio, de quem já citamos o tcstc111111tl11, 111,1 111ort:1 liclade em virtude da peste que nesse momen-
escreve com ênfase, jogando com o nome de sua cidade (11r,1/ 1 1t ,li I u1.111cnte suas flechas por toda parte".30 A iconogra-
chamuscado, queimado): h11111 se dessa comparação e difundiu-a nos séculos XV
111111,1 1111 lt:ília como para além dos Alpes. As flechas da
Ai! cara e desgraçada pátria! Por que não choras, ú 1111 ti 1 ,11m11uccm pela primeira vez sobre um painel do altar
to? [...]. Queimado e consumido, quase reduzido a ti~•c)t1, 1 11111 111 11s descalços (1424) de Gõttingen.4° Cristo as lança
cinzas, tornou-se Busto desolado e desabitado [.~.]. /\HIii 111,1 ,lt111sn sobre os homens. Dezessete personagens são
já não se pode dar-lhe nome mais verídico do que 1311, 1111 1 ulu~ por elas. No entanto, vários outros são protegidos
queimado;. pois que está totalmente incendiado.H Jlll~l111ro t 1111h• IIH\nto ela Virgem - este último tema será retoma-
valdense)hé dá a réplica quando menciona Pignerol, rn11h 11111 v1•1.t•s. Um afresco de B. Gozzoli em San Gimign:ano
peste está] ainda muito inflamada.JS 11111~1 111 Deus pai, a despeito ele Jesus e Maria ajoelhados,
1 111 ., 1lcc:ha envenenada sobre a cidade que fora atingida
Um religioso português do século XVJI, evocando p111 11111111i nnção no ano anterior. Um díptico de Martin
sua vez a peste, descreve-a como um "fogo violento e i11q1 lt11, (po1· volta de 1510-4) conservado em Nu~embert'
tuoso".10 111 1h111t rn essa representação coletiva da peste. A esquer-
d111 de um céu tempestuoso os anjos atiram flechas
• Queimada que se efetua para circunscrever um incêndio. (N. 1•:.J 1!111111111 idade pecadora, mas que se arrepende e implora.

162 163
A direita, Cristo, à prece dos santos antipestilentos, clcté111 ,1 11111puNito ela epidemia de 1348, o carmelita parisiense Jean
punição com a mão. As flechas desviadas de sua trajetória i11I 111• ohscrvava: "[As pessoas] só ficavam doentes dois ou
cial afastam-se da cidade ameaçada e vão perder-se alhures. 1'111 I•• 1· 111orriam rapidamente, o corpo quase são. Aquele
vezes, o aspecto castigo não é diretamente expresso, mas :1p1 I• , -rnv:1 com boa saúde, amanhã estava morto e enter-
nas o resultado do decreto de punição. Em um quadro alc1rn1t, ll111 médico espanhol, descrevendo a peste de Málaga
anônimo, contemporâneo do precedente, personagens são ~11hl li, h1•,,in :1 mesma observação: "M.u itos morriam repen-
tamente atingidos por flechas, todas vindas de cima. S:10 :11 111 lllt, outros em algumas horas, e aqueles que se acredi-
gidos na virilha e nas axilas (localizações freqüentes dos h11 11h 11s caíam mortos quando menos se pensava"." Sobre
hões), mas também em outras partes do corpo. Uma 1111111111 111111 de Londres, em 1665, escreve também D. Defoe em
transpassada cambaleia, um me nino e um adulto já estão c~11•11 , /11,/1111110 da peste: "O furor ela epidemia era tal, as pes-
<lidos, um morto, o outro agonizante. Um homem na for~·n il 1 111111 doentes tão rapidamente e morriam tão depressa,
idade não escapar:í ao dardo que se aproxima deleY • l111possível informar-se a tempo e mandar fechar as
As flechas lançadas por Deus evocam ainda a pcstl' 11 11111 11 exntidão que teria sido necessária":5 Descrevendo
esteia funerária de um cônego em Moosburgo (igrej:i de ~111, h,1 l11l111inante da doença, um médico m arselhês que
Kastulus, 1515), cm uma pintura da catedral de Münstcr, 1111 • • 1111111minação de 1720 observava por sua vez: "Algumas
uma tela de Veronesc conservada no museu de Rouen. U111 1, 111111•1·it1m subitamente, outras em dois ou três dias".46
-voto da igreja de Landau-an-der-Isar as mostra chovc111h1 11 ,·q11t1ntcs menções de pessoas falecendo na rua enquan-
sobre cada casa da cidade. Uma variante desse tema faz p:1~~.11 11111 •~11v11111 na direção de um lazareto.
a flecha ela mão de D eus para a da Morte. Esqueleto cheio ili ,~ 11hserv:1ções, geradoras de uma inquietação muito
esga res e por vezes galopando sobre cadáveres, ela :11-rcnw~ 1 t 111111vel, aderem à realidade. Se a peste é pneumônica
suas armas sobre os vivos de todas as condições ocupado~ 1•111 •• 111, l11kin-se brutalmente, progride no organismo sem
trabalhar ou em divertir-se. Assim, por exemplo, na biblio11•1 1 11111 defesa séria e a "morte sobrevém dois ou três dias
comuna l dos l11tro11nti em Siena (1437), em Saint-Eticnnc d1 ,h1 1•11mcço das perturbações, e m 100% dos casos".47
-Tinéc (1485), no palácio Abatello de Palermo (é um Tri1111/11 d 1111 ,1 lornrn bubônica clássica, manifesta-se de imediato
morte do século xv), em uma gravura de J. Sadeler (gahi 111111 111o1 1t, hrc de 39-40º, com um quadro clínico impressi o-
das Estampas, Bruxelas) e em uma gravura anônima inglc~n ,h pulso rápido, conjuntivas dilatadas, olhar brilhante,
1630 q ue mosn;a os londrinos fugindo de três esqueleto~ 11111 t 1 , l1111·n seca. Os bubões só se desenvolvem em segu ida,
os ameaçam Cf>111 suas flechas. 111 ,h •IH horas. Mas podem não aparecer: trata-se então
O que os artistas queriam também acentuar, além do 11 I• ~11pl lcúmica. Nesse caso, ou o bubão não teve tempo
pecto da punição divina, era a instantaneidade do ~1taq111· 1lt 111o11 'll', ou então os gânglios atingidos estão situados
mal e o fato de que, rico ou pobre, jovem ou velho, ning111 111 11111l1111damente para serem percebidos com facilidade.
podia va ngloriar-se de a ele escapar - dois aspectos das cp11li 1l111111clo essa forma da doença que causou estupefação
mias que impressionaram vivamente todos aqueles que viv1·1,1111 111111111porâneos das "pestilências" de outrora. Pois se
em período de peste. A insistência na rapidez reg istr:Ht' 1111 11l1 hl ele maneira fulminante, com temperatura de 40 -
todos os relatos de "pestilência". 1111111h•~rn-sc especialmente através de perturbações n er-

/64 I 65
vosas e psíquicas, hemorragias espontâneas da pele, das nrn('tl p1 upl'>sito da epidemia de 1599 na Espan ha setentrional,
sas e das vísceras e provoca a morte em 24 ou trinta hor:1N,' 11111111snr recolheu os seguintes testemunhos - Valladolid,
Um cirurgião marselhês anotou em 1720: "Não escapou lll 1 11111ho: "Morreram em pouco tempo algumas pessoas da
nhum doente de todos aqueles nos quais não apareceu nc11h11 111 lmlodc e o maior número é de pobres"; Sepúlveda, 26
ma erupção".49 •li1 ll "Todas as pessoas que morreram nessa cidade e em
A iconografia não deixou de ressaltar ou mesmo de exag-e1111 lt 11 ,1 -iilo muito pobres e não tinham (...] com que sustcn-
1 1 li
o caráter súbito da morte por peste,50 que os holandeses do sét-11
lo XVII chamavam de "a doença apressada". Esse tema apa n•1 t I' 1111 D. Defoe, a peste de Londres em 1665 operou devas-
de início em miniaturas consagradas à procissão organiz,Hl:11•111 , ~tilH'otuclo entre os numerosos desempregados da capital:
Roma pelo papa Gregório I por ocasião da peste de 590. As '/), 1 1111 111111 crise mais furiosa, de meados de agosto a meados
11 riches heures du duc de Berry (Chantilly), as de Pol de Limhoi1q1 111111hl'O, ela levou 30 a 40 mil desses infelizes que, se tives-
(Nova York, Cloisters), e as do mestre de Saint--Jérôme (Bodlch111 1\'I\ Ido, teriam certamente constituído um fardo insuportá-
11111 •HIil pobreza"_;,
1

L ibrary, Oxford) representam pessoas que desabam de rcpc111t


no decorrer da cerimônia. Em um desenho de G. Lochn.:r, 1
l 111 Mnrselha, em 1720, os escabinos falam "do povo miúdo
11,t 11qucle que quase sempre era atingido pela peste". E o
peste em Berna em 1439 (Berna, Biblioteca Nacional), duas IH''
IC1111 ~ precisa: "Essa praga foi funesta para esses pobres ino-
soas que acompanhavam um enterro são aniquiladas de súhh11
1 -• pnrn as mulheres grávidas que eram mais suscetíveis que
Em duas gravuras holandesas, uma anônima, a outra de \IV, d
11111 ,1Npessoas e para o povo".n
Haen, veem-se carregadores de caixão que desmoronam, c:1i111h1
11111 ros testemunhos no entanto vão em sentido contrário.
com eles o ataúde (J\lluseu Van Stolk, Roterdã). Insistem :1i11d,
11111 ,,mos o texto de Boccaccio citado anteriormente:
na morte súbita A grtmde peste, atribuída a J. Lieferinxe ( 1!111
t imore, vValters Art Gallery), A peste atingindo os soldados 1·1J11l11
l)111111tos grandes palácios, quantas belas casas, quantas
nos (1593), gravura de J. Sanredam (Museu da Universidad1· 1h 11111111dus, outrora r epletos de criados, de senhores e de da-
Medicina de Copenhague), a ampla tela de A. Spadaro, 1J.~1i1 111,111, virnm afinal desaparecer até o mais humilde servidor!
decimentos depois dn peste de 1656 (Nápoles, Museu S. Martino), , 1)111111Lns ilustres famílias, quantos imponentes domínios,
obra de N. Mignard, A peste de Epiro (Paris, Instituto~Pas(c111 l 111111 11111s fortunas reputadas ficaram privados de herdeiros
Esta apresenta um cirurgião que acaba de fazer uma incisfo t'lll
h11h1111os!14
um bubão e que desaba deixando cair sua lanceta.
l l1•~rrcvendo, com base nas melhores fontes, a peste que
11~11111 Milão em 1630, Manzoni, em Os noivos, nota que a
Os quadros de Nuremberg e de l\1uniquc anteriormrnl1 ,li 11tln 1 deinício confinada nos bairros pobres, ganhou em
descritos, porque evocavam flechas mortais vindas do 1'1'11 11hh1 o resto da cidade: "A teimosia dos incrédulos cedeu
faziam- nas voar em direção de uma cidade inteira, atac:111d1, 11111 ~ evidência, sobretudo quando se viu a epidemia, até
indiferentemente todo mundo. No entanto, alguns docrnm:11111 tA111 11111ccntrada no povo, expandir-se e atingir pouco a pou-
dão a entender que a peste era seletiva e que dizimava sohn·111 1" 1~1111ngens mais conhecidos".55
do os pobres. 1 111 Marselh a, o contágio espalhou-se igualmente por toda

166 167
a cidade, partindo, é verdade, dos bairros mais populosos. O dr. •111111lculos alucinantes nas ruas somam-se parn criar o insu s-
Roux, mesmo reconhecendo que os pobres foram as principais 1 1111\vcl. Havia em primeiro lugar o martírio dos doentes da
vítimas, assim concluiu: "Ela [a peste] ataca indiferentemente Ili .i1•, "Calor insuportável, sufocamento sentido pelos doentes,
toda espécie de pessoas, homens, mulheres, jovens, velhos, fra- r.1i11• furiosa, dor intolerável nas virilhas e nas axilas": é o qua-
cos, robustos e abastados, sem distinção".56 hu 1•1fnico montado em 1650 por um médico de Málaga.6° Os
Em suma, se não se fugira a tempo, rico ou pobre, jovem 11111 !(iões acreditavam fazer bem tentando abrir ou cauterizar
ou velho, estava-se ao alcance da flecha do horrível arqueiro. 111111ores recalcitrantes. "Alguns eram tão duros", relata D.
Imaginada pelos meios eclesiásticos leitores do Apocalipse ~• l>1 l11c, "que não se podiam abri-los com nenhum instrumento;
sensíveis ao aspecto punitivo das epidemias, a comparação 111,111, c:mterizavam-nos de tal maneira que muitos pacientes
entre o ataque da peste e o das flechas que se abatem de im 1111111rnm enlouquecidos por essa tortura."" Passemos do si 11-
proviso sobre vítimas teve por resultado a promoção de sfo 111.11 110 coletivo. Eis Marselha em 1720, tal como a vê um
Sebastião na piedade popular. Atuou aqui uma das leis qut' 111111111porâneo: os "vapores malignos" saem das casas onde
domina o universo do magismo, a lei de contraste que muil:I~ 1111d11°cem cadáveres e elevam-se das ruas cheias de colchões,
vezes não é senão um caso particular da lei de similaridade: o 1111111s, de panos, trapos e toda espécie de imundícies que
semelhante afasta o semelhante para suscitar o contnírio.'
1h111111. As sepulturas repletas de cadáveres mostram "corpos
Porque são Sebastião morrera crivado de flechas, as pessoar,
11111,11111osos, uns inchados e negros como carvão, outros
convenceram-se de que ele afastava de seus protegidos as dn
1111l111l•nte inchados, azuis, violetas e amarelos, todos fedoren-
peste. Desde o século VII, ele foi invocado contra as epidemia\
1 «'~IOuraclos, deixando o rasto do sangue podre" [...].61Uma
Mas foi depois de 1348 que seu culto ganhou grande impulso.'
11 1•1·11 então, mesmo para os sobreviventes, um trauma psí-
E no universo católico, desde então até o século xvm inclusiw,
Uh II prnfundo, reconstituído para nós pelo texto transtornado
quase não houve igreja rural ou urbana sem uma represenrac;fo
11111 l'Cligioso testemunha da peste de 1630 em Milão. Ele
de são Sebastião crivado de flechas.
Um padre português, descrevendo em detalhe uma igr~•111
do Porto em 1666, não deixa de mencionar a figuração de ~:111
Sebastião: ~ 1 1 n confusão dos mortos, dos moribundos, do mal e dos
H' llos, os uivos, o pavor, a dor, as angústias, os medos, a
A imagem d'o santo mártir tem também uma chave ~li\ 111wldnde, os roubos, os gestos de desespero, as lágrimas,
pensa a umà flecha que lhe traspassa o coração; essa ch:I\ 1 '" 11111.:los, a pobreza, a miséria, a fome, a sede, a solidão, as
lhe foi remetida pelo senado municipal durante a peste q11t 111 h,Ocs, as ameaças, os castigos, os lazaretos, os unguentos,
grassou há setenta anos - Deus nos proteja de seu rc11 11 ~ 11pcr:1ções, os bubões, os carbúnculos, as suspeitas, os
no - à fim de que o santo livre esta cidade de tão grand• 1h htlccimentos [...].63
mal, como o fez desde então até o presente. D esse 111od11,
ninguém ousa retirar-lhe essa chave.;•, l1111tl(lll1S de pesadelo, torrente desordenada de termos cuja
11111l11~•l1o, no entanto, recria a trágica coerência do vivido.
As crônicas de outrora que descrevem pestes consti1111•111
como que um museu do horrível. Sofrimentos individu:11\ 1

l lí9
3. UMA RUPTURA INUMANA 1 111•ijtc propr iamente dita"; "é um mal comum"; trata-se de
h11•~ lorçãs e duplas, difteria, febres persistentes, pontadas,
Quando aparece o perigo do contágio, de início p~ocur:1-Si' hll 111~, gota e outras semelhantes[...] Alguns tiveram bubões,
não vê-lo. As crônicas relativas às pestes ressaltam a frequ enH' •• I ,1!que] saram facilmente".66
negligência das autoridades em tomar as medidas que a iminên l)1111ndo uma ameaça de contágio se delimitava no hori-
eia do perigo impunha, sendo verd ade contudo que, uma VCI 1111 tl1• uma cidade, as coisas, no estágio do poder de decisão,
desencadeado o mecanismo de defesa, os meios de protc:<;1111 11 ,1111-sc geralmente da seguinte m aneira: as autoridades
foram aperfeiçoando-se no decorrer dos séculos. Na Itália, c lll 11,li1v,1111 examinar por m édicos os casos suspeitos. lvluitas
1348, quando a epidemia se espalha a partir dos po~to~ . • ONSCS médicos faziam um diagnóstico tranquilizador,
Gênova, Veneza e P isa-, Floren ça é a única cidade do 1ntcn rn 1 1 lp11mlo-se assim ao desejo do corp o municipal; m as, quan-
11
que tenta proteger-se contra o atacante que se aproxim.~. •· A~ lhlN l'Onclusões eram pessimistas, ou tros médicos ou cinir-
mesmas inércias se repetem em Châlons-sur-Marne em Jllllhll 111,1111 nomeados para u m contrainquérito, que não dei-
de 1467, onde, apesar do conselho do governador de Ch:1111 ,lt dissipar as p rimeiras inquietações. Tal é o roteiro que
pagne, as pessoas se recusam a susp ender es~olas e sermões,' 11111h w rificar em Milão em 1630 e em Marselh a em 1720.67
em Burgos e em Valladolid em 1599, em Milão em 1630, l'lll 1111111~ e tribunais de saúde procuravam então cegar a si m es-
Nápoles em 1656, em Marselha em 1720, sendo que essa c~HI (hlt 11 11ílo perceber a onda ascen dente do perigo, e a massa
me ração não é exaustiva. Por certo, encontram-se em tal :ll 1111 111 •~1111s se comportava como eles, como muito bem obser-
de justificativas razoáveis: pretendia-se não assustar a pop1il11 l ,111w ni a propósito d a epidemia de 1630 n a Lombardía:
ção - daí as múltiplas interdições d e manifestações de luto 1111
começo das epidemias - e sobretudo não interromper as rc:h1 li1111is notícias que chegavam das r egiões infectadas,
ções econômicas com o exterior. Pois a quarentena para 111111 h~-1111 l'i;giões que formam cm to rno de [Milão] uma li-
cidade significava dificuldades de abastecimento, ruína dos 111 11h,1 ~11111icircular, distante em alguns pontos apenas vinte
gócios, desemprego, desordens prováv~is ~as ruas ~te_- Enq1_11111 11tllh11N, cm a lguns o utros só dez, quem não acreditaria em
to a epidemia só causava um número l11111tado de ob1tos, :11 111h1 111111111H11<)ç:io geral, em precauções diligentes, ou ao m enos
se podia esperar que regredisse por si mesma antes de ~d<::v:,~I 111 111 1111111 estéril inquietude! E, no entanto, se as memór ias
toda a cidade. Porém, ma is profundas que essas razões co11 li•• 1~ , p111•n concordam num ponto, é cm atestar q ue n ão foi
sacias o u confessáveis, existiam certamente motivações IIH'IIII 1111 A penúria cio ano precedente, as extorsões da solda-
conscientes: q 'medo legítimo da peste levava a retardar 1wh· , ,11 os pesares de espírito pareceram m ais do que sufi-
maior tempo' possível o momento em que seria encarada tlr 1111111 p11ra explicar essa mortalidade. Nas ruas, nas lojas,
frente. Médicos e autoridades procuravam então engan:11' 11 1 , ,1~1rn, ncolhia-se com um r iso de incredulidade, com
mesmos. Tranquilizando as populações, tranquilizavam-st· p111 111111111 lns, com um desdém mesclado de cólera aquele que
sua vez. Em maio e junho de 1599, no momento em que ;\ IH'~I 1111 11\111 uma palavra sobre o perigo, que falava de peste. A
g rassou u m pouco por toda parte no norte da Espanh:1 11111 Incredulidade, digamos melhor, a mesma cegueira,
quando se trata dos outros não se teme empre~ar o 1r 11111 1111 ~11111 obstinação prevaleciam no Senado, no Consdho
exato - , os médicos de Burgos e ele Valladohd fizeram d l11 1h111111ltks, junto de todos os corpos da magistratura.º"
nósticos lenificantes dos casos observados em sua cidade: "N 1

170
171
As mesmas atitudes coletivas reapareceram em Paris p t11 p1ullom que fugissem "logo, para longe e por longo tem-
() dt1cm11,e1
·ão é feito de alegres relatos de jovens que esca-
1
ocasião do cólera de 1832. Na terceira quinta-feira da quarc,~ '

ma, Lc Moniteur anunciou a triste notícia da epidemia qu11 11111 do inferno florentino em 1348. "Parece-me bem indi-
começava. Mas de início as pessoas se recusaram a acredi1 111 111 p111•11 nós", aconselha Pampineia no começo da Primeim
nesse jornal demasiadamente oficial. H. Heine conta: 11,1,/111 "seguir o exemplo que muitos nos deram e nos dão
111111 1 INto é, deixar estes lugares."11 Os ricos, é claro, eram os
Como era a terceira quinta- feira da quaresma, como fnln 11111111os :1 fugir, criando assim a apreensão coletiva. Era então
um belo sol e um tempo encantador, os parisienses agi1li 1111 1tl11do das filas junto aos órgãos que liberavam os salvo-
vam-se com mais jovialidade nos bulevares, onde se vir11111 1111h110Ne os certificados de saúde, e também a obstrução das
até máscaras que, parodiando a cor doentia e a figura dcN • 11plcws de coches e <le carroças. Acompanhemos o relato
feita, zombavam do temor do cólera e da própria doen~•n 11 1>ufoc:
N a noite cio mesmo dia, os bailes públicos foram mais l'n'
quentados do que nunca: os risos mais presunçosos q 1111~1 1 1( )s mais ricos, os nobres e a gentry do oeste [de Lon-
encobriam a música brilhante; as pessoas se excitavam 111111 111 ••~, cm 1665] apressavam-se em deixar a cidade com suas
to com o chalmt, dança mais que equívoca; devorava-se todu 11111rlins e seus criados [...]. Em [minha] rua [...], não se viam
espécie ele sorvetes e de bebidas frias quando, ele súbito, li , 11110 ca rros e carroças carregados de bagagens, de mulhe-
mais alegre dos arlequins sentiu demasiado frescor nas 1w1 1, ~. dl• crianças, de criados".))
nas, tirou a máscara e revelou para espanto de todo m111uh1
um rosto ele um azul violeta. 69 11 •'Xll111pl.o dado pelos ricos era imediatamente seguido
111d 11 uma parte da população. Como em Marselha em
E m Lille, no mesmo ano, a população recusou-se a acn•dl li "I ..1Logo que se viu mudarem-se certas pessoas de con-
tar na aproximação cio cólera. Considerou-a num prinwl111 111 1111111 infinidade de burgueses e outros habitantes imita-
momento como uma invenção ela polícia.7° 1111~: houve então um grande movimento na cidade, onde
Constata-se então, no tempo e no espaço, uma e~écic 111 1 1 ln mais do que transporte de móveis". A mesma crôni-
unanimidade na recusa de palavras vistas como tabus. Evi1111•11 11• 1 1~11 ninda: "As portas da cidade são insuficientes para
-se pronunciá-las. Ou, se eram ditas no começo de uma cphh 1 1w1H11 r n multidão dos que saem (...]. Tudo deserta, tudo
mia, era e m uma locução negativa e tranquilizadora como "11íl11 1tli11111, tudo foge".7•
é a peste propriamente dita". Nomear o mal teria sido :1t nlf h, 1111•~111:1 cena se renovou em Paris na época da epidemia de
e demolir a última muralha que o mantinha a distância. ( :1111 ti ili• 1832. Evocando a "fuga burguesa" que se produziu
tudo, chegava um momento em que não se podia mais cvh,11 , 1 C)h<;valier anota: "Nos dias 5, 6 e 7 de abril, 618 cavalos
chamar o contágio por seu horrível nome. Então o p1nh, 1,, ~,lo r<;servados e o número dos passaportes aumenta de
tomava de assalto a cidade. 11111111Npo r dia; Louis Blanc estima em setecentos por dia o
A solução sensata era fugir. Sabia-se que a medici1111 11 ltt 1h11, pessoas conduzidas pelas empresas de transporte"_;;
impotente e que "um par ele botas" constituía o mais sq~111 1, 1l11os nfio eram os únicos a sair de uma cidade ameaçada
cios remédios. Desde o século XIV, a Sorbonne aconselh:11·11111 1111 ,111ti11nção. Pobres também fugiam: o que é atestado em

172 173
Santander em 1597, em Lisboa em 1598, em Segóvia no ano ,·cspeito, entre mil outros documentos semelhantes, uma
ti ll~lll'
seguinte (as pessoas refugiam-se nos bosques)/ 6 em Londres no 111 111 escrita de Toulouse, em junho de 1692, pelo magistrado
decorrer das epidemias do século )..'VII etc. Um médico de Mála- M,11111-'lorrilhon, que teme uma epidemia:
ga escrevia por ocasião da peste de 1650: "O contágio tornou-se
tão furioso que [... ] os homens puseram-se a fugir como ani- 1111 aqui grandes doenças e pelo menos dez a doze mortos
mais selvagens nos campos; mas, nas aldeias, os fugitivos eram pm dia em cada paróquia, todos cobertos de púrpura. Te-
recebidos com tiros de mosquete".77 Estampas inglesas da época 111os duas cidades em torno de Toulouse, Muret e Gimond,
representam "multidões fugindo de Londres" por água e po r 1111dc os habitantes com saúde desertaram e se mantêm no
terra. D. Defoe assegura que, em 1665, 200 mil pessoas (e111 1·1111wo: faz-se a guarda a Gimond como em tempo de peste;
menos de 500 mil) deixaram a capital,78 e consagra uma parte de 1111fi m, é uma miséria geral. Os pobres trarão para cá al-
HIIIIHI desgraça se aqui não pusermos ordem prontamente;
seu relato à odisseia de três refugiados - artesãos - que encon-
tram no campo um bando de errantes. Como os três vagabun- 1mha lha-se em tirá-los da cidade e em nela não deixar en-
dos pretendiam atravessar urna floresta em direção de Rurnford 11'111' nenhum mendigo estrangeiro [...].
e de Brentwood, objetam-lhes que "grande número de refugia-
dos de Londres havia ido para aquele lado, vagando na flores1:1
11,111 uma carta posterior (sem dúvida de julho), Marin-
de Henalt, que confina com Rumford, sem meios de subsistên-
l1111 ilhem expressa seu alívio: "Começamos a respirar um ar
1111 lh111• desde a ordem que se deu para o encerramento dos
cia e sem habitações, vivendo ao acaso e sofrendo ao extremo
111,l1111s",H11
por campos e vales, sem recursos".79 Assim, em teoria, tinha-se
l'ni• precaução, também, matam-se em massa os animais:
razão de fugir da peste. Mas essa mudança improvisada e cssl'
11111, 11s, cíles e gatos. Em Riom, em 1631, um edito ordena aba-
afluxo às portas de uma cidade que logo iriam fechar-se ganha
t t u,1los e pombos "para deter a propagação do mal". Uma
vam ares de êxodo: muitos partiam para a aventura sem sahl!t'
~1111 loiitc de J. Ridder (Museu Van Stolk, Roterdã) apresenta
aonde chegariam. Cenas que anunciam aquelas que, por 11111 1 ~1111" que fuzilam a queima-roupa animais domésticos. A
outro motivo, a França conheceu em junho de 1940. 1111h1 que a encima recomenda matar "todos os cães e todos
Agora eis aqui a cidade sitiada pela doença, posta enJ q11:1 IMIIIN 110 recinto comum e, fora deste, a uma hora de marcha
rentena, se necessário cercada pela tropa, confrontada com 11 11111111111'."' Teriam sido abatidos em Londres, em 1665, 40 mil
angústia cotidiana e obrigada a um estilo de existência em rup 1 • 1 11111 número cinco vezes maior de gatos."'
tura com aquele~; ·que se habituara. Os quadros familiares s~n l I ulos as crô nicas da peste insistem também na interrupção
abolidos. A insegurança não nasce apenas da presença da docn l 1 111111tí rcio e do artesanato, no fechamento das lojas, até das
ça, mas também de uma desestruturação dos elementos qu1• 111,1•, ltn suspensão de qualquer divertimento, no vazio das
construíam o meio cotidiano. Tudo é outro. Antes de ma i~ 1,~ • ' dns praças, no silêncio dos campanários. O religioso
nada, a cidade está anormalmente deserta e silenciosa. Muit:11, 11111t110s já citado, que exalta a coragem de seus confrades
casas estão doravante desabitadas. Mas, além disso, apressaram 11111~ 110 decorrer das epidemias anteriores, é um bom teste-
-se em expulsar os mendigos - associais inquietantes, não silo 11111111 do que a peste representava para seus contemporâneos
eles semeadores de peste? E são sujos e espalham odorl'~ 1~ ~ llm•11sas perturbações que provocava nos comportamen-
poluentes. Enfim, são bocas a mais para alimentar. Reveladorn, 1 111!1 llnnos:

174 175
A peste é, sem nenhuma dúvida, entre todas as calamida- qlll' ni'io se voltará a ver. Os homens, perdendo sua coragem
des desta vida, a mais cruel e verdadeiramente a mais atrm .. 1111111 mi e não sabendo mais que conselho seguir, vão corno
É com grande razão que é chamada por antonomásia de o 1tlf(0S desesperados que tropeçam a cada passo em seu medo
lvl.nl. Pois n ão há sobre a terra nenhum m al que seja compa• ,. 11111 suas contradições. As mulheres, com seus choros e
rável e semelhante à peste. Desde que se acende num reino _,111N lnmentações, aumentam a confusão e a aflição, pedin-
ou numa república esse fogo violento e impetuoso, veem-se 1lu 11m remédio contra um mal que não conhece nenhum.
os magistrados atordoados, as populações apavoradas, o go ,\ ~ crianças vertem lágrimas inocentes, pois sentem a des-
vemo político desarticulado. A justiça não é m ais obedeci HI111,:11 sem compreendê-la.81
da; os ofícios param; as famílias perdem sua coerência e :IN
ruas, sua animação. Tudo fica r eduzido a uma extrem a co n- C 111•111dos do resto do mundo, os habitantes afastam-se uns
fusão. Tudo é ruína. Pois tudo é atingido e r evirado pelo ,- 11111 ros no próprio interior da cidade maldita, temendo
peso e pela grandeza de uma calamidade tão horrível. ;\ ~ 1111 ,1111inar-se mutuamente. Evita-se abrir as janelas da casa e
pessoas, sem distinção de estado ou de fortuna, afogam-Sl' 1111 ~ rua. As pessoas esforçam-se em resistir, fechadas em
numa tristeza mortal. Sofrendo, umas da doença, as out ras 11 1om as reservas que se pôde acumular. Se assim mesmo é
do medo, são confrontadas a cada passo ou com a m orte, li 1 1~11 ~nir para comprar o indispensável, impõem-se precau-
ou com o perigo. Aqueles que ontem enterr avam, hoje s~o 1 ~ F1•cgueses e vendedores de artigos de primeira necessida-

enterrados e, por vezes, por cima dos mor tos q ue na véspcr11 11~•• çumprimentam a distância e colocam entre si o espaço
haviam posto na terra. 11111 h1rgo balcão. Em Milão, em 1630, algu ns só se aventu-
Os homens temem até o ar que respiram. Têm medo 111 1111 run armados de uma pistola graças à qual manterão a
dos defuntos, dos vivos e de si mesmos, pois que a mor11• l l,l1111l11 qualquer pessoa suscetível de ser contagiosa.84 Os
muitas vezes envolve-se nas roupas com que se cobre m l' 11111•t l'OS forçados acrescentam-se ao encerramento voluntá-
que à maioria servem de mortalha, em razão da rapidez do 1 11i1111 reforçar o vazio e o silêncio da cidade. Pois muitos são
desfecho f...). l11q111•11dos em sua casa declarada suspeita e doravante vigiada
As ruas, as praças, as igrejas cobertas de cadáveres~apn: 1 11111 f(ll:lrda, ou até trancada com pregos ou cadeado. Assim,
sentam aos olhos um espetáculo pungente, cuja visão to rnn 1l1h11lc sitiada pela peste, a presença dos o utros já não é um
os vivos invejosos da sorte daqueles que já estão mortos. Os 1111l111•to. A agitação fam iliar da rua, os ruídos cotidianos que
locais habitados parecem transformados em desertos e, prn t111,1w lll os trabalhos e os dias, o encontro do vizinho n a so-
si só, essa soTidão inusitada aumenta o medo e o desespero, l! 1 1h1 porta: tudo isso desapareceu. D. D efoe constata com
Recusa-se qualquer piedade aos amigos, já que toda pied:1d1• 11111111 essa "fa !ta de comunicação entre os homens""' que
é perigosa. Estando todos na mesma situação, mal se tel11 111 1,,rl1.n o tempo da peste. Em M arselha, em 1720, um con-
compaixão uns dos outros. 1111111,l nco assim evoca a cidade morta:
Estando sufocadas ou esquecidas, em meio aos horron·N
de tão grande confusão, todas as leis do amor e da naturc1/.il 1 1 1 Silêncio dos sinos [...], calma lúgubre [...], ao passo que
as crianças são subitamente separadas dos pais, as mu I lw 11111rc1rn ouvia-se de muito longe um certo murmúrio ou um
res dos maridos, os irmãos ou os amigos uns dos oul l'CIN 1111110 1' confuso que atingia agradavelmente os sentidos e ale-
- ausência desoladora de pessoas que são deixadas viv:1s 1• 111,IVII 1...1, já não se eleva mais fumaça das chaminés sobre os
telhados das casas do que se não houvesse ninguém; [...] tudo li li ~ que se :1proximam dos pestífe ros aspergem-se com vi-
está geralmente fechado e interditado. _,,, 1wrfomam suas roupas, em caso de necessidade usam
1 11 ,INi perto deles, evitam engolir a saliva ou respirar pela
Em 1832, sempre em Marselha, a epidemia de cóle ra pro ti 1 )N pnelres dão a absolvição de longe e distribuem a comu-
<luzirá os mesmos efeitos. Como p rova, este testemunho: "1\ ~ 1 11 prn meio de uma espátula de prata fixada a uma vara que
janelas, as portas permaneciam fechadas, as casas não d:w:1111 1 11h111pnss:1 r um metro. D esse mo do, as relações hu m:inas
sinal de vida senão para lançar fora os corpos que o cólc111 1111 ,ll111cnte conturbadas: é no momento em que a necessida-
matara; pouco a pouco todos os lugares públicos foram fecho lm11111 ros se foz mais imperiosa - e em que, ele h ábito, e les
dos; nos cafés, nos círculos, uma morna solidão; o silêncio d11 111 ,111 lll,l'flVam dos cuidados - que se abandonam os doentes.
sepultura estava por toda parte"Y· 1 1111111 de peste é o da solidão forçada.
Silêncio opressivo, e também universo de desconfi:111~·11 l 1 ~1• cm um relato contemporâneo da peste ele .Marselha
L eiamos a esse respeito a crônica italiana da peste de l(d (l I 101
recopiada po r Manzoni:
li I tlmmte] é fechado em um sótão ou no aposento mais
[...] Enquanto as pilhas de cadáveres, amontoados semp11 1,, 11111l0 da casa, sem móveis, sem comodidades, coberto de
sob os o lhos, sempre sob os passos dos vivos, faziam d:1 d 1 lh11~ trapos e daquilo que se tem de mais gasto, sem ou tro
dade inteira uma vasta sepultura, h avia algo de mais fu111·~ 11l1\ lo pura seus males que n ão uma bilha de água que seco-
to, de mais h ediondo ainda: e ra a descon fiança r ecíproca, u 11111111, no fug ir, junto de seu leito e da qual é p reciso que ele
monstruosidade das suspeitas [...]. Não se suspeitav,1 apc1111• 111 l111 No~inho apesar de seu langor e de su:1 fraqueza, muitas
do vizinho, do a migo, do hóspede: esses doces nomes, e,~, 1 11 ~ ohrig:ido a ir buscar seu mingau à porta do quarto e
ternos laços d e esposo, de pai, de filho, de irmão eram oh 111 1,1- 1nr-se depois para voltar à cama. Por mais que sequei-
jetos de terror; e, coisa indig n a e horrível de dizer, a 1111• , 1 1 111111111, nfo há ning uém que o escute [...].88

doméstica, o leito nupcial eram temidos como armaclillrn


como locais onde se escondia o vene no.87 1 1111111111cntc, a doença tem ritos que unem o pac iente ao
111 11 111; e a morte, ainda mais, obedece a uma lit urgia em
O próximo, é perigoso sobretudo se a flecha da p este j11 11 •11t•1•dcm toalete fúnebre, velório em torno cio defunto
ating iu: então; ou é encerrado em sua casa, ou então enviado 11 1~ 11111111 ntaúcle e enterro. As lágrimas, as palavras em voz'
pressas para algum lazareto situado fora dos muros da cidad1 ,_ 11·rnrelações, a arrumação da câmara mortuária, as
Que diferença do tratame nto reservado em tempo comum 1111 - • 11 mrtejo fina l, a presença dos parentes e dos amigos:
doentes q ue parentes, médicos e padres cercam de seus c111tl11 11111~ 1•onstit utivos de um rito de passagem que se d eve
dos diligentes! Em período de epidemia, ao contrário, os p111 1111l111 1111 ordem e n a decência. Em período d e p este, como
ximos se afastam, os médicos n ão tocam os contagiosos, 1111 1 11 ,1, 11 fim dos homens se desenrolava, ao contrár io , em
fazem-no o menos possível ou com uma varin ha; os c irurg 1111 1 111 , 111, ustentáveis de horror, de anarquia e de abandono
só operam com luvas; os enfermeiros depositam ao a lcn ncr 111 ,_1111111•s mais profundamente enraizados no inconsciente
braço do doente alimento, medicamentos e pensaduras. ·1c,d11 1 1 1 I• 1n cm primeiro lugar a abolição da morte pi:rsonali-

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zada. No auge das epidemias, era às centenas, até aos milhares (...] Todo o espetáculo estava repleto de terror: a carreta le-
que os pestíferos sucumbiam a cada dia em Náp_oles, L?ndn.:s vava dezesseis ou dezessete cadáveres envoltos em panos ou
ou Marselha. Os hospitais e os acampamentos 1mprov1sados, cobertas, alguns tão mal recobertos que caíam nus entre os
arranjados às pressas, ficavam cheios de agonizantes. Como outros. A eles, pouco lhes importava, e a independência não
cuidar de cada um deles? Além disso, muitos não chegavam até importava a ninguém, estavam todos mortos e iam ser con-
os lazaretos e morriam a caminho. Todos os relatos de epidc fundidos juntos na forma comum da humanidade. Bem se
mia de outrora mencionam os cadáveres na rua, mesmo cm podia chamá-la assim, pois ali não se fazia diferença entre
Londres, onde as autoridades, em 1665, parecem ter dominado ricos e pobres. Não havia outra maneira de enterrar e não se
menos mal do que em outras partes os múltiplos problema~ teriam encontrado caixões em razão do número prodigioso
nascidos da contaminação. U111 diririo do ano da peste, de 1), dos que pareciam em uma calamidade como aquela."º
Defoe, esclarece: "l\llal se podia passar por uma rua sem ali Vt'I'
alguns cadáveres no chão".' 9 A partir daí, já n~o sAe :rata_ mais d1• () seteiro posto em cena por Defoe conta ainda que em sua
pombas fúnebres para os ricos ou de uma cerm_~oma, amda (llll' 11111oqnia "as carroças dos mortos foram encontradas várias
modesta, para os pobres. Nada ck toques de hnados, nada di• 111•~ pnradas às portas do cemitério cheias de cadáveres, sem
círios ao redor de um ataúde, nada de cantos e, muitas vezck, 1111 11tlnr de sineta, sem condutor, sem ninguém".9' As cidades
nada de sepultura individual. No curso habitual das coisas, d1I 111111•sccadas não conseguiam absorver seus mortos. Desse
-se um jeito de camuflar o aspecto horrível da morte graça~ 11 111111h11 durante as grandes contaminações nada mais distinguia
um cernhio e à cerimônia, que são uma espécie de maquiagc111, 111111 cios homens do dos animais. Já Tucídides, descrevendo a
O defunto conserva sua responsabilidade. Ele é a ocasiRo d1 1hh1lllin (que sem dúvida não era uma peste) de 430-427 a.C.,
uma espécie de culto. Em período de peste, ao contr,í1·10, \1~111vnrn: "[Os atenienses] morriam como rebanhos" (u,51).
considerando-se a crença nos eflúvios maléficos, o import:11111 fl11111t1smo modo, abandonados em sua agonia, os contagiados
é livrnr-se dos cadáveres depressa. Depositam-nos apressad11 q11t1lq11er cidade da Europa entre os séculos XIV e XVIII, urna
mente fora das casas, descem-se até pelas janelas com a ajud:1 d1 111ortos, eram acumulados desordenadamente, como cães
cordas. Os "corvos" agarram-nos graças a ganchos fixados 1111 1, ,trnciros, em fossas imediatamente recobertas de cal viva.
ponta de longos cabos e amontoam-nos de qu~lq_u er mfü1~·11li 1,1 t1N vivos é uma tragédia o abandono dos ritos apaziguado-
nas horríveis carroças evocadas por todas as cronicas rebt 1v11 tjlll' 0111 tempo normal acompanham a partida deste mundo.
às contaminaçõd.. Quando esses lúgubres carriolas ap,1rcn·111 11,111do fl morte é assim desmascarada, "indecente", dessacra-
em uma cidade precedidas por tocadores de sinetas, é o si n:d tlt 11,111, 11 usse ponto coletiva, anônima e repulsiva, toda a popu-
que a epidemia transpôs todas as barrei:as. Nã_o é_ preciso p11 1 11 , ltl' l'C o risco do desespero ou da loucura, sendo subita-
curar muito longe de onde Brueghel tirou a ideia da c:irrn~ 1 111, 1wlvada das liturgias seculares que até ali lhe conferiam
cheia de esqueletos que figura em seu Triunfo do 111or11•, il11 11111v11çi'lcs dignidade, segurança e identidade. Daí a alegria
Museu do Prado. Para um homem da cidade, nessa époc.1, 1•1,1
111111 ~t1lhcses quando, no final da epidemia de 1720, viram
normal vivenciar ao menos uma peste e assistir ao estupcfil'1111
1111111111 c cn 1-ros fúnebres nas ruas.91 Era o sinal seguro de que
te vaivém das carroças entre as casas e as fossas comuns. l .1•111
llll•IKIO deixava a cidade e de que se retomavam os hábitos e
mos ainda a esse respeito D. Defoe: 1ll11fl11lns tra nquilizadoras dos tempos comuns.

181
Interrupção das atividades familiares, silêncio da cid:1d1 , 11111h ln, e às vezes ouvir cantores e instrumentos musicais, e
solidão na doença, anonimato na morte, abolição dos ritos c.:olt• 111111~ vllics ler e ouvir alguma leitura agradável" [...].''6 Um
tivos de alegria e de tristeza: todas essas rupturas brutais t'O lll IhII lrn•cno do século XVH afirma com ênfase a respeito da
os usos cotidianos eram acompanhadas de uma impossibilid:uh t '1( )h I ranquilidade! Cara amiga da alma, guardas as celes-
radical de conceber projetos de futuro, pertencendo a "inicintl 111111•~ d:1 saúde".'n Um de seus colegas de Auvergne vê do
va", doravante, inteiramente à peste.91 Ora, em período norn111 I, 11111 ,nodo, no comportamento dos estóicos, um excelente
mesmo os velhos agem em função do futuro, tal como aqut•li 1,1 1ws1.c " pelo fato de que são "sem medo, sem t emor, sem
de La Fontaine, que não só contrói, mas planta. Viver sem pl'II l\1l111 t' com efeito, todos os mais doutos consideram que tão
jeto não é humano. No entanto, a epidemia obrigava a consid1• 1111111• o pavor desse mal é capaz de provocá-lo em um ar sus-
rar cada minuto como um sursis e não ter outro horiz.01111 111 l~NO vem da imaginação e do coração apavorado que está
diante de si que não o de uma morte próxima. Lamentando 11•1 - . . ,,~
f1,11 o 11ue nao resiste mais a esse veneno .
permanecido em Londres, o seteiro de Defoe esforça-se em snli ~1••~111:1 o pinião ainda sob a pena do erudito italiano Mura-
de casa o me nos possível, confessa continuamente seus pc.:c11 l, q111• publica em 1714 um tratado sobre a maneira de se
dos, abandona-se a Deus, fia-se no jejum, na humilhação e.: 1111 1 111 ,11 1•111 período de contágio:
meditação. "O tempo que me restava", escreve ele, "eu o e111p1·1•
gava e m ler e em escrever estas notas sobre o que me acontc.:eln \ 11prccnsão, o terror e a melancolia são eles também uma
a cada dia."'14 Em Marselha, em 1720, quando se torna evidc.:1111• 1111~11•, pois abatem nosso otimismo [disordinando la fanta-
que o perigo está por toda parte na cidade, um contempor.'l ,wo ,1,,i 1• d ispõem a massa dos humores a receber facilmente e
confia a seu diário esta declaração de impotência: "[Dorav:1111 1• ,h 1111u1 certa maneira a atrair de longe o veneno que reina
não há] outro partido a tomar senão implorar misericórd 111 11111 111•1, como a experiência mostrou em uma infinidade de
ao Senhor, preparando-se para a morte".''5 Desestruturando o 1 illillN,w
ambiente cotidiano e barrando os caminhos do futuro, a pc.:SI\'
abalava assim duplamente as bases do psiquismo tanto ind ivl N11 mesmo espírito, o autor de um documento estatístico
dual quanto coletivo. 11111 111porâ neo da epidemia de cólera de 1832 escreveria:

\'11 11111-se as vivas emoções da alma como podendo agravar


4. ESTOICISMO E DESREGRAMENTOS;
11111 111uitos casos o estado dos doentes e até como podendo
DESALENTO E LOUCURA
, 1111Nnr a doença; foi assim que se colocaram no número das
A medicina de outrora considerava que o abatimento mor.ti 11111~ns do cólera os excessos de trabalho, os assomos da ni-
e o medo predispõem a receber o contágio. Múltiplas obr:1•1 1111 os pesares inesperados, todas as afecções morais enfim,
eruditas publiG1das do século XTV ao XVIII convergem sobre css1• , ~olll'ctudo o medo.'ºº
ponto. Paracelso acredita que o ar corrompido não pode por ~1
só provocar a peste. Ele só produz a doença ao combinar-se c111 ( lpl11iões desse gênero explicam que no século XVII, por
nós com o fermento do pavor. A. Paré ensina que em período d1• 1~hh1de uma epidemia de peste, os magistrados de Metz: te-
"febre pestilenta" "é preciso manter-se alegre, em boa e pequc.:1111 1h 1111 rn·dcnado divertimentos públicos a fim de devolver cora-
182 183
gem e ânimo aos habitantes dizimados pelo contágio. Um qua- 11111q1~wtamento de pessoas que, em período de contágio, caem
dro de A. Mignette (Museu de Metz) lembra essas festividades.'"
1 111111 1rcnesi nos excessos e nas libertinagens. "Todos se entre-
11
• 11 11111 , escreve Tucídides, "à perseguição do prazer com uma
Mas até onde se deve levar o bom humor? A. Paré precisa os
conselhos citados mais acima propondo aos habitantes de uma 11111h1t1i11 que anteriormente escondiam."104 Boccaccio lhe faz eco
111 f) tl11cnmeriio:
cidade atingida pela peste que evitassem frequentar as mulhen.:s
e os excessos à mesa: 1P11 n1 outros], entregar-se francamente à bebida como aos
w 11ieres, dar a volta à cidade divertindo-se, e uma canção
Tanto mais que por estas [as mulheres] as forças e virtudes
IION lfüios, conceder toda satisfação possível às suas paixões,
são diminuídas e os espíritos se dissolvem e enfraquecem,
1 li• e gracejar dos mais tristes acontecimentos, tal era se-
principalmente logo após a refeição, porque se debilirn o
~ 11 ndo suas palavras o remédio mais seguro contra um mal
estômago, e por esse meio se produz uma falha de digestfo,
l1lt1 nt roz. Para melhor passar de tal princípio à prática, iam
da qual provém corrupção e outros infinitos acidentes; pelo ill11 e noite de taberna em taberna, bebendo sem constrangi-
que se pode concluir que a dama Vênus é a verdadeira pesl\' 11111nto nem medida. Mas era bem pior nas moradas particu-
se não é usada com discrição. Assim, é preciso precaver-Sl• h11'cs, por pouco que eles ali acreditassem encontrar matéria
de viver em ociosidade e de comer e beber sem discriçiio: 1h• prnzer e de distração. 10i
pois tais coisas engendram também obstruções e humorcN
viciosos, pelos quais aqueles que fazem tais excessos est~o I• 111 Um diário do ano da peste D. Defoe observa por sua vez,
mais sujeitos a contrair a peste.rni fllt1p1 11d1:o de Londres em 1665, que "todas as espécies de cri-
•• ,, 111csmo de excessos e de deboches, eram então praticados
Convém então proscrever toda relação sexual em tempo dt• 1 hh11lc".
100
Asseguram-nos que em Marselha, em 1720, "via-
epidemia? Essa era a doutrina de um cirurgião de Metz, cuj11 1111 rc o povo, um desregramento geral, uma licença desen-
opinião é no entanto combatida, em 1630, pelo médico de C lc,· d1 h1, uma dissolução horrível".107 Tais comportamentos não
mont, Bompart, apoiado na autoridade de um colega germii nl 111 ~pondiam evidentemente em nada àqueles, lúcidos e sere-
co: "Um douto alemão diz que a separação dos homen; e dn~ lll lll'C>nizados pelos médicos. Eram tudo, salvo coragem.
mulheres torna triste e melancólico e que ele viu morrer c111 li• 11111pcnsação, pretendiam-se por vezes provocantes, como
uma cidade todas as mulheres separadas dos homens e não rn t4 111nvoc.:ação pudesse conjurar a doença. Daí cenas que se
"' • ~ - " 10} 11,11 111 cm levar para o palco ou para a tela, a tal ponto pode-
nhece outra causa· para isso senao a separaçao .
Com pouc~s diferenças de detalhes, todos esses pdt il'llil Ili 111ll'UCcr inverossímeis. Em Londres, em 1665, um pobre
ensinam finalmente a mesma coisa: evitaremos melhor a pcs11 111 111 l'o m boa saúde, mas que acaba de acompanhar até a
se não cedermos ao pavor, se nos armarmos de bom humor e d1 11 1 1111111111 a carroça que levava sua mulher e seus filhos, é
forte dose de serenidade estoica. Mas são palavras e consclh11 111,ltlo, abatido, a uma taberna. Ali, é atacado por pessoas
de uma elite intelectual e moral. Uma multidão comumc1111 111 11111111: por que não volta para a fossa de onde vem? E por
não se preocupa com estoicismo, e não era por otimismo qw 111111 Nnltou para dentro para subir mais depressa .ao céu?
alguns se abandonavam à bebida e à luxúria. Todas as crôn i1•11, 1111 11 Nclciro de D . Defoe, que assiste à cena, toma a defesa

de epidemias mencionam com efeito, como uma constanll·, H lllh 11'1,, c,i-lo por sua vez objeto de zombarias: estaria melhor

1R4
185
em casa a dizer suas preces esperando que a carroça dos monoN 1' 111 Londres, em 1665, verificaram-se os mesmos compor-
venha buscá-lo!'º" Em Avignon, em 1722, enfermeiras for:1111 11111111os, como nos informa Thomas Gumble em sua Vida do
demitidas por seu desregramento, e também porque havia111 HII ,1/ J\llonk:
"pulado sela" sobre cadáveres de pestíferos.'°'1
Esses gestos sacrílegos talvez fossem bastante raros. Frt• ''l ..11 A impiedade e a abominação ali reinavam com t:anta
quentes, em compensação, eram as bebedeiras e os desrcgrn 1, 11 ~•n - o que tenho vergonha de dizer - que enquanto em
mentas inspirados pelo desejo frenético de aproveitar os ú li 1 1111111 t·asa gemia-se sob os laços da .M orte, acontecia muitas
mos momentos de vida. Era o carpe diem vivido com 1111111 11 ll'N que na casa vizinha as pessoas abandonavam-se a toda
112
intensidade exacerbada pela iminência quase certa de um ho1 1 ~plklc de excessos".

rível trespasse. Tucídides e Boccaccio descreveram, com 1800


anos de distância, o mesmo fenômeno: l11111tlmcnte, também essa sede sôfrega de viver era provo-
l 1 111110 medo ele um prazo no qual as pessoas se esforçavam
[Em Atenas, no século LV antes de Cristo] Buscaram-se 11~ 1 111111 punsar, aturdindo-se. A exaltação descontrolada dos
proveitos e os prazeres rápidos, já que a vida e as riqucz11~ 11111 ~ cln vida era uma maneira de escapar à insuportável
eram igualmente efêmeras[...]. O prazer e todos os meios p111 11 1 ~1111 dn morte."
1

alcançá-lo, eis aí o que se julgava belo e útil. Ninguém l ' I 11 C 1111 1'11 tentação quando parece que a peste não se deterá
detido nem pelo temor dos deuses, nem pelas leis humanas: jil lfttt 1lp11Ntur matado todo mundo: ceder ao desalento. Existem
não se fazia mais caso da piedade do que da impiedade, cb1h t.11111011 insustentáveis que acabam por abalar os caracteres
que se via todo mundo perecer indistintamente; além di~•111 1 1li 111~·s. O monsenhor de Belsunce, que não quis de modo
não se pensava viver tempo bastante para ter de prestar c:o111 11 11111 d11ix11r Marselha em 1720 - e o fez saber - , que viu
de suas faltas. O que importava bem mais era o veredic10 hl
t 11 1 1111zc pessoas em sua casa, que confessava e consolava
dado e ameaçador: antes de sofrê-lo mais valia tirar cl:1 vld11
111111 ll11111dos " lançados para fora de casa e colocados entre os
algum prazer."º t11~ ~lll>rc colchões", conheceu no entanto a fraqueza e o
111 1, d11rnnte algum tempo, deixou de sair. Escreveu em 4
Em Florença, no século XVI, Boccaccio, após ter evoc111h1
li 111hrn ao arcebispo de Arles:
aqueles que, por ocasião da peste negra, só buscavam pr:m•t
distração, assini.comenta sua atitude:
111, 11111itn dificuldade em mandar retirar cento e cinquen-
Nada mai: fácil, aliás. Cada um perdia toda espera11c;11 1h
111 ,11 hlvc.;rcs serniputrefotos e roídos pelos cães, que estavam
1 1111 11tl11 de minha casa e que nela já punham a infecção, de
viver e deixava ao abandono tanto seus bens como su:1 p111
1111111 111•11 que me via forçado a ir morar em outro lugar. O
pria pessoa [...]; o prestígio e a autoridade das leis hu111111111
esfacelavam-se e desmoronavam inteiramente. Os gu:11'<llnr 1111 ,, 11 espetáculo de tantos cadáveres de que as ruas estão
e ministros da lei estavam todos mortos, doentes, 011 !Ih 111 ln.li l1npediram-me de sair !ui um bom número de dias
desprovidos de auxiliares que toda atividade lhes est:wn 111 11 puclcndo suportar ne m um nem outro. Pedi um corpo'
terdita. Qualquer um tinha portanto licença para agli 111 1 1111111cln p:ira impedir que se ponham mais cadáveres nas
11 ,1111i11ha volta.114
sabor de seu capricho."'

IH6 IS7
No momento em que o bispo de Marselha formulava essa '1111\11 e por uma sombria coragem. "Um são fazia já sua fossa;
confissão, os escabinos da cidade escreviam ao marechal de 1111 to~ nelas se deitavam ainda vivos; e um trabalhador dos
Villars, governador da Provença, para comunicar-lhe sua total 111• li~, co~1 as mãos e os pés, atraía a terra sobre si, morrendo."
impotência. A epidemia estava então em seu paroxismo. Em um 1 \lontn,gne compara esses enterrados vivos voluntários aos
estágio comparável do processo de contaminação, Um dirírio dn tld,ulos romanos "que foram encontrados, após a jornada de
ano da peste, de D. Defoe, dá a conhecer as mesmas reações cm C 1111111•~, co~ a cabeça mergulhada em buracos que haviam
Londres, em 1665. Magistrados e população abandonavam-se 1111 11 oneh1do com as mãos, sufocando-se".119

ao desespero: 1 li 11, fotos comparáveis se produziram em Málaga e em


11111111 CN n:1 metade do século xv11. Tratava-se portanto de uma
Finalmente, o lorde-prefeito deu a ordem de não mais fazer Ili 11tlc• que se repetiu de um país a outro sob o efeito das mes-
[fogueiras nas ruas], baseando-se sobretudo no fato de que :1 1111, 1 11IIMlS.
peste estava tão violenta que desafiava evidentemente todos o\ ''I•~~o contami1~ação", escreve o médico de Nlálaga, "provo-
esforços, e parecia antes aumentar do que diminuir à medi~l:1 111 h111•1·ores sem igual. H ouve uma mulher que se enterrou
que mais se fazia parn combatê-la. Esse desalento dos mag1i, 1 1p111 li niio servir de alimento aos animais, e um homem que,
trados vinha com efeito antes de sua impotência do que ele sua 111111 ~1ip11ltado a filha, construiu seu próprio caixão e ali mor-
120
falta de coragem [...]; não poupavam nem seu esforço nem sua li 1111110 dela [...]." Por sua vez, Um diário do n110 da peste, de
pessoa, mas nada adiantava, a epidemia grassava, as pcsso:1N 111,1111.:, fa_z menção a "esses pobres loucos que queriam [...]
estavam terrificadas ao mais alto grau, de maneira que clt:~ li 1 11 dclfr,o, enterrar-se a si mesmos".111
acabaram por abandonar-se, como d.1sse, ao desespero. '" \l,~~~cmários franceses em Alto Volta, atual Burquina Fasso,
1 1 11 11~1ifo elas fomes de 1972-3, garantiram-me ter sido os
Um dos resultados desse desencorajamento coletivo, rcl:1111 I' , 1,1dorcs de comportamentos similares, atestados também
D. D efoe, foi que dali em diante os londrinos já não procura t 1111,, u cerco de La Rochelle, em 1628.
vam evitar uns aos outros, n ão ficavam mais fechados em c:1~:1, 1li \t'rcvcndo a peste de Milão em 1630, A. Manzoni ob-
iam a toda parte e não importa onde: para que tomar prcc:HI 1 "i\11 '!1esmo tempo que a perversidade, aumentou a de-
i ,, 111 I' b
ções, d 1.ziam
· ., que " vamos to dos passar po r 1·sso"'. 11'· ( )
eJes, Jª Ih ,l , !. em. certo que uma população acometida pela
desespe ro e o abatimento, contudo, levavam alguns para nl~,11 1, 111111 ~•r:1 es~re1tada pela loucura. Essa se traduzia seja por
cio fatalismo. Um se tornava "lunático" ou "melancólico", 0111111 111 l11tl1v1dua1s ab~rrantes - acabamos de lembrar alguns - ,
sucumbia ao desgosto após o desaparecimento dos seus, aqudc• 11111 rnlcras _coletivas que serão evocadas mais adiante, uma
morria de medo, outro ainda se enforcava.111 D. D efoe asscg11 li 111111 cxclm a outra. Tais atitudes se explicam pelo des-
ra: "[...] Não se poderia crer no número de pessoas que, sol, 11 1111,tttll'nto das estruturas fami liares, pela clessocializaçiío da
furor cio mal, na tortura causada pelos tumores, em dclí1111, 1 . p,~ln alteraçii? das relações humanas, p ela ang ústia per-
presas da loucura, agrediam a si mesmas e punhan: fi111 11 1 111,, l' pelo sentimento de impotência. Em seu Um diário do
vida".m Lembremos aqui o caso, assinalado por Montatgnc, eh ' /111/1". D. D efoe menciona dezesseis vezes o caso de doen-
camponeses ameaçados pela peste que cavavam sua pr<'>pl'l11 111 l11d11 :1s jan:l~s para gritar sua angústia, e as palavras
fossa e ali se deitavam para morrer, assentando eles própt to l,,11,11m, dehno voltam frequentemente sob sua pena.
a terra sobre si: gesto marcado ao mesmo tempo pela descspt , 11111v11, estes dois textos:

189
[...] Esses terrores, essas apreensões do povo levaram-no 11ll~mo, da demência e do macabro.118 As "projeções" icono-
a inúmeros atos de fraqueza, de loucura e de perversid:1d1• lh 11~, espécie de exorcismo do flagelo, constituem, com a
para os quais não tinha necessidade de ser encorajado.,:, M1 1• li ngressividade, reações habituais diante de um medo
À medida q ue a desolação crescia nesses tem pos tc1 _,. t rnnsforma em angústia. H. Mollaret e J. Brossollet
ríveis, o estupor do povo aumentava. Em seu terror, 11~ 111111 rttzão de mostrar a esse respeito que a peste fora "uma
pessoas realizavam mil ações tão delirantes quanto as do~ Ih 11hcstimada d e inspiração artística" do século xrv ao xrx,
doentes em suas torturas, e era muito comovente vê-l:1~, 1h 11~ nfrescos de Orcagna, em Santa Croce de Florença, até
rugindo, chorando, torcendo as mãos na rua [...].m l'r,11/i•r11s de Jafjà, de Gros, e O hospital dos pestífe,·os, de Goya.
1111• 11111is ou menos certo que o tem a da dança macabra nas-
Que pesadelo a vida em urna cidade onde a morte vela j1111 1111111 11 grande pandemia de 1348, e é significativo que sua
to de cada porta! Um di,írio do ano da peste, de D. Defoe - no~ 111 ~c-u11cia se tenha situado entre os séculos xv e xvm, isto
so melhor documento sobre uma peste embora se trate ele 11111 1111 ,111tc o tempo em que a peste constituiu um perigo agu-
romance - , estií repleto de cenas a lucinantes e de ancdo111 1111 ,1 li~ populações.
119 O elo entr e peste e encomenda de
perturbadoras: pessoas que urram quando penetra em uma r1111 1~ 111111~11 macabra é especialmente atestado pela de Li.ibeck
a carroça dos mortos; um doente que dança nu na rua; m:11•• 111 h ukirche, 1463), pela de Füssen (capela Santa Ana, 1600)
"levadas ao desespero, ao delírio, à loucura", que mat:1111 M'II 1 111111 l'SS:t cidade sido devastada por epidemias em 1583, 1588
filhos; um pestífero atado ao leito q ue se liberta pondo fogo t'tll 1 1111 e pela de Basileia (1439), reproduzida por Merian.
seus lençóis com uma candeia; um contagiado "louco furio\O 11 111ll Stino e a sobrevivência desse tema, um esclarecimen-
0

q uc canta na rua como se estivesse bêbado e que se lança ~oi 11, " 111lndor: a dança macabra desenh ada por volta de 1530
uma mulher grávida para beijá-la e lhe passar a cont:1111 i11u l l11lll11in, o J ovem, em L ondres (onde ele próprio morreu de
ção.w O que há de surpreendente se nos espíritos assim tr:11111111 t 11•1c anos mais tarde) teve 88 edições diferentes entre
tizados se desenvolvia a propensão à morbidez? Ainda a p111 li, 1HH4.U0 São ainda o espírita e o repertório iconográfico
pósito da peste de Londres em 1665, Samuel Pepys fala tl11 11111\'IIS macabras que reencontramos nas g ravuras de um
" loucura que leva o povo da cidade (porque isso lhe é proil,11[111 1111 do s6culo xvu, Stefano Delia Bella (por volta de 1648),
a acompanhar os corpos cm multidão, para os ver ent~rr:11 "' 111 111111dcrn ser uma evocação da peste de Milão em 1630:
Assim faz igualmente, ao menos uma vez, o comerciante q11, 1111 lt•vn uma criança, arrasta um velho para a sepultura,
supostamente r~dige o re lato de D. Defoe. Levado " irresi,111, 1 11111 jove m em um poço, foge com uma mulher, com a
mente" pela "luriosidadc", dirige-se para perto de um "ahi\ 11111 1 11111·11 baixo, sobre os ombros.'3'
- uma fossa - onde já foram amontoadas quatrocem:1, pt ( 11111 11111 rea lismo mórbido, os artistas se esforçam em
soas. E vai até hí à noite a fim d e ver lançar os corpos, p111~ 11 1 li II l'llníter horrível da peste e o pesadelo acordado vivi-
dia não teria visto senão a terra recentemente remexida.'' 111~1 ontempor âneos. I nsistiram - como dissemos - nos
Essa anedota faz compreender como e por que ;1 p1 1 , ~ fu lminantes e naquilo que o contágio tinha de mais
negra e aquelas que a seguiram em um ritmo apressado 11111111 ,, ,li· mnis inumano e de m ais repugnante.U1 Certos deta-
ficaram a inspiração da arte europeia, orientando-a 111:11>1 11 1111 11111 como um tópos, por exemplo o da criança que se
que anter iormente para a evocação da violência, do sofri1111 111 ti 111 ~cio frio do cadáver materno. Encontramo-lo, entre

190 191
outros, em um desenho de Rafael, em São Roque orando pelo,,· 111lnro não poupa ao espectador nenhum detalhe: as convul-
pestíferos, de Domenichino (Gênova, Palácio Rosso), nas <lua~ ' l' ns súplicas dos agonizantes, as inchações da putrefação,
telas de Poussin consagradas respectivamente a Uma epide111i11 \'l~ucras disputadas pelos ratos, os mortos carregados às cos-
e'lll Atenas (Richmond, Galeria Cook) e à Peste dos filisteus (Lou 1111 cm cadeiras etc. A essa iconografia que não era senão
vre), e em todas as obras que engrandecem os devotamenLOh 111,1~indamente verídica, correspondem não só os relatos da
sucessivos de são Carlos Borromeu, depois de seu sobrinho li 11, rnas também a evocação da peste por Scudéry:
Federigo em Milão. Ele figura ainda no primeiro plano d11
composição de Tiepolo, São Thecle libertando Este da peste (c:llt• ( ).r mortos e os moribundos desordenadamente estendidos
dral dessa cidade) etc. , /( estão horrivelmente em todos os lugares confundidos.
Um número importante de representações figura dn . /qfl,i, um, todo lívido, horroriza a vista,
sugere, pela atitude dos personagens, o fedor dos agoniza1111•• Ili, o outro, todo pálido, é um morto que se move;
e dos cadáveres. Um tapa o nariz e se afasta do moribundo /1.' f/tiando se veem cair todos esses espectros moventes,
com um esgar (A peste em Basileia, de H. Hess, Kupferstil'11 Nilo se discernem mais os mortos e os vivos.
kabinett, Basileia); aquele - um médico - só se aproxima 1h1 81111,r olhares são horrendos, sua boca está entreaberta.
doente com um lenço aplicado sobre o nariz (ilustraç:fo 1h1 Ntlo têm sobre os ossos mais do que uma pele toda verde;
Fascicul Medeâne te Antwerpen, Museu Histórico da Mcdici1111 U nesses pob1·es corpos semidescobertos,
Amsterdã); um outro, na Pestilenza, de G. Zumbo (cera cnl11 limrc tl podridão, veem-se pulular os vermes [...].m
rida do Bargello, Florença), que deposita um cadáver e m 111111
urna, atou um lenço sobre o nariz e lança a cabeça para 11 11 li 111 nndo-se da segunda metade do século XVI e do século
num gesto de horror. Muitos pintores, entre os quais Po11·ml11 li, llllo nos surpreenderemos de que os artistas transalpinos
colocam ao lado da criança de peito crispada sobre o corpo 11, \'h•lll'l\111 na Itália, corno Poussin e Rouhier, e com mais for-
mãe um terceiro personagem que, tapando o nariz, tent:1 lt•I111 1111 os italianos, tenham atribuído em suas obras um impor-
a criança. 1111{111' às epidemias que devastaram então a península. Por
Enfim, os artistas quiseram reconstituir - sem dul'hl, 11111111"As Cenas de peste foram assuntos favoritos do gravador
para livrar-se dele e neutralizá-lo - o horror cri_;1do p111 Ili 1110 G. B. Castiglione (dito "II Grechetto") que as reali-
1
acúmulo dos cadáveres e pela insustentável promiscuid:1d1• 1h 11111 volta de 1650" H e que certamente conhecia A peste dos
vivos e dos mortos. Corpos esparsos nas ruas e que apod n 11111 111 que Poussin pintara por ocasião da g rande contamina-
antes que sejam levados, carroças ou barcas sobrec:11-rt'/{1111, th 1(1,10. Uma observação análoga vale para a Espanha. B.
que rompem7 sob o peso, cadáveres puxados com ganrl111~ 1 11~~~11r fuz justamente notar que as telas de Valdes Leal, Os
atados à cauda de um cavalo, doentes e mortos tão espn·111hl, ,l,11111ros e A morte cercada dos emblemas da vaidade humana,
uns contra os outros nos lazaretos superpovoados qm: 111111 Ili I u111postas por um homem que havia sido a testemunha
pode dar um passo sem caminhar por cima, umas rn111as 1111 11 l111dn da peste de Sevilha a qual, em 1649, dizimara 60 mil
autênticas que voltam infalivelmente, de uma compo~l~11l• IJll 111il habitantes.m Se há tantos crânios, sangue e morte,
outra, nas gravuras que L. Rouhier consagrou em J657 1\ /\ • 1 11111cs lívidas e olhos transtornados na arte do "século de
de Roma (Copcnhague, Universidade de Medicina), :1ssi 111 1111, 1100 é em parte por causa das epidemias que, em ondas
na célebre Pinzza dei Nl.ercatello em Nápoles em 1656, 011!11 h ,1~, perseguiram então a gloriosa mas frágil Espanha?
192
l 93
5. COVARDES OU HERÓIS? 111lonnr sua paróquia ou seu estabelecimento religioso e toma
1111111,~ para facilitar a assistência espiritual aos doentes. Mas ele
Para compreender a psicologia de uma população atornll'II
111111 retira-se às pressas para o convento Santelmo e só sai
tada por uma epidemia, é preciso ainda destaca~· um ele111cn111 h 110 fi nal da contaminação.'" Em Marselha, em 1720, os
essencial: no decorrer de tal provação se produzia forços:1_1111•11
te uma "dissolução do homem rnediano".u6 Não se pod1;1 ~1 1
u11~
Ili de são Vítor rezam pela salvação comum atrás das espes-
111111·0 lhas de sua abadia. Os autores de Nlarselha, cidade morta
senão covarde ou heroico, sem possibilidade de _aca1'.tona1· ~, l 11111•cm, além disso: "Burgueses e notabilidades fugiram, na
entre os dois. O universo do meio-termo e das me1as-t11~tas. q111 lrn h11 cônegos da catedral, das paróquias de são Martinho e
é comumente O nosso - universo que repele para a pcnfonn li 1\, 1°1H1les, fidalgos, comissários de paróquias ou de bairros,
.
excess os de virtudes e de vícios - via-se bruscamente aboli1 11 h1111cs, médicos, advogados, procuradores, notários, aban-
do. Um projetor de alta potência era repen~inamente ':po111111 11 111 ,1111 rebanho, responsabilidades, negócios, paciente ou
para Os llomens . , desmascarando-os sem .piedade: muitos
• . 111111 1111 11, 1u Daí esta acusação de um contemporâneo:
reciam covardes e odiosos e alguns sublunes. As cronH.:a~ 11111 •
inesgotáveis sobre esses dois aspectos da inumana rcali_'. li11h 1'111lu-sc dizer para a vergonha dos padres, cônegos e reli-
Relatando a peste de 1348 na França, Jean de Venerce :111_1·11111 jlh •~nN retirados nos campos vizinhos que, desde que per-
"[...] Em muitas cidades, grandes e pequenas, os padres, ~'. 111111 ih 11111Nos verdadeiros ministros do Senhor[...], três quartos
dos pelo temor, afastavam-se". 137 Grassando a peste em v\ 11 li li 1111~ p1•~tíferos morreram sem confissão, para grande pesar
berg em 1539, Lutero constatava, desolado: 1h llONNO digno prelado". 143

E les fogem uns após os outros e mal se pode ~nconu·,111 111 1h 11111is religiosos dos homens de Igreja - aqueles que
g uém para tratar e consolar os doentes. Em m111lrn op11llí11 • li 1111,1'111111 - assim como os habitantes que tinham ficado
esse medo, que O diabo põe no coração dessas pobres 111 l 11111 (lllllitas vezes por não terem podido partir) eram natu-
soas, é a peste mais temível. Fogem, o medo per~urllll ~li 1111 11t11nrgos em relação aos ausentes voluntários. AJém
cabeça, abandonam a família, o pai, os parentes; a1 cs1 1\ ~1 11 lt 111 uv11 m acreditar ou fazer crer que a morte não poupa-
nenhuma dúvida o castigo por seu desprezo ao Eva11µ(• lh11 Ili ''" f'11gitivos do que os outros. Redigindo em 1527 um
, 1cup1ºdez.
por sua l1ornve • "" 111 -11hrc.: a questão - deve-se ou não fugir da morte em
, ,11 pcste? - , Lutero afirma: "Satã persegue aquele que
Em Sant~;der, em 1596, o alcaide-mor retira-se parn 11111 •li l111(c aquele que fica, de maneira que ninguém lhe
aldeia com toda a sua família. Em Bilbao, em setembro d_\' 1\li 111
No mesmo espírito, uma gravura inglesa do século
assinala-se que os padres das paróquias n~o querem adm111l~11 11111 1111 usqueletos armados de flechas que atacam pessoas
os sacramentos aos contagiosos do hospital, que morn:111 1' lt• 11h1N um uma carroça e que se afastam em vão de uma
socorro espiritual para "grande escândalo e murmúr_i~' da P"I' 11111111minada.m Por seu lado, o cônego de Busto-Arsizio
lação.')'' Nlanzoni, evocando a peste de 1630 em M1lao, ;111•~1 ' 1l11 l11tlo mais o leque das punições:
"destruição ou a fuga de tantos homens encarregados dl: "' l,11
de prover a segurança pública".1'" Em N~poles, _em 1656, 11 1 \141• 11111I o homem que quer escapar à mão de Deus e a
<leal-arcebispo, desde o início da epidenua, pro1be os p:uli t lh1ulllos [...]. Nenhum daqueles que fugiram de Busto em

/()4 195
razão do perigo de peste pôde tirar vantagem disso [...]. UnN ,\llcsmos comportamentos em Londres em 1665, segundo
pereceram de morte trágica, outros foram castigados dur;11111• 1>ufoc:
sua vida por longuíssimas enfermidades, outros foram p1111í
dos em seus bens, tendo seus negócios ido de mal a pior: ad j..,I Era uma época em que a salvação particular ocupava
vertência [...] dada por Deus [...] de não fugir das adversiclacb 111nto o espírito que não se tinha tempo de pensar nas mi-
enviadas pelo céu, pois, finalmente, tudo se paga pela vicb.11 u1rias dos outros [...]. O instinto de conservação da própria
vldnpa1·ecia verdadeiramente o primeiro princípio. Os filhos
E ssas admoestações e a estampa inglesa, onde se ent011 11hnndonavam os pais, mesmo quando os viam debilitar-se
1111 maior aflição, e por vezes se viu, mas menos frequente-
tram as intenções democnhicas e niveladoras das danças mac.1
bras, chegam a convencer? É um fato, em todo caso, qut· 11 111unte, pais fazerem a mesma coisa com seus filhos. m
maioria daqueles que não tinham podido fugir, não pc11sa1ul11
lJm espetáculo idêntico se repete em Marselha em 1720.
senão em sua própria conservação, evitava cuidar de seus p1 o
111111 prova este testemunho sobre crianças abandonadas:
ximos que haviam adoecido.
1,1111 crianças cujos pais desumanos, em quem o pavor do mal
Como um refrão, volta sob a pe na dos cronist:is a co11s1:1111
f11111Vn todos os sentimentos da natureza, punham para fora,
ção de que o contagioso é abandonado por seus parentes, :11111
111111 lhes como única coberta apenas um velho farrapo, tor-
gos e vizinhos. Escrevendo de Avignon em 1348, um côncg-o d1 111lt1• SC por essa dureza bárbara os assassinos daqueles a quem
Bruges relata: "[...] O pai não visita o filho, nem a mãe a f'ill111o li II nntes glorificavam-se de ter dado a vida".'51
nem o irmão, nem o filho o pai, nem o amigo o amigo, 11c111 11111 l I ntn-se de um tópos que se repetiria de crônica em crôni-
vizinho o vizinho, nem um parente por afinidade um parl'lll1 llt 111 mais, acreditamos nós, trata-se do compor tamento de
por afinidade, a menos que queira morrer imediatamente l 'IIIII 111,,~ torturadas pelo medo revivido de uma cidade a outra e
ele [...l".147 Eis ainda o testemunho de Boccaccio: "O dcs;1~111 11111 ~6culo ao seguinte, como todos aqueles que descrevemos
lançara tanto terror no coração dos homens e das mulherc~ q111 1h , orrer do presente estudo.
o irmão abandonava o irmão, o tio o sobrinho, a irmã o irn 11h1 /\ 1·ovardia de uns acrescentava-se a imoralidade cínica de
muitas vezes mesmo até a mulher o marido. Eis aqui o qu, ..., 1111~ <)litros - verdadeiros saqueadores de destroços-, qua-
mais forte e quase inacreditável: os pais e as mães, como " ' 11 11011 da impunidade, já que o aparelho repressivo desmoro-
filhos não fossem ma'ls deles, evitavam ir vê-los e ajud,í-lo~".11 111 ''C:nda um", escreve Boccaccio, "tinha licença de agir ao
Por ocasião de 11ma peste que atinge Brunswick em I rn11 11 de seu capricho."•SJ A maior parte das más ações era
um contemporâneo escreve: "Muita gente de coração sc111 plt 1111 ldn por aqueles que em Milão eram chamados de monatti.
dade expulsa de suas casas seus filhos e seus criados dm·111t 1,,rmo designava os homens que retiravam os cadáveres
joga-os na rua, abandonando-os à sua desgraçada sorte"."'' 1,1~11s, das ruas e dos lazaretos; que os transportavam em
O cônego lombarda que viveu em Busto-Arsizio a cpid1•111l11 111\11~ para as fossas e os enterravam; que conduziam os
de 1630 afirma, por sua vez, que se um irmão, uma irnd, 111111 111•~ nos lazaretos; que queimavam ou purificavam os obje-
mãe ou um pai caísse doente, os demais membros da fo,11111 l11l1•ctndos ou suspeitos. Isentos de qualquer vigilância,
h1giam para longe "como o diabo foge da água benta e crnrn, ,,_ deles exigiam resgates daqueles que não queriam ser
fossem pagãos ou huguenotes".150 httldos ao hospital, recusavam retirar os cadáveres já em
197
putrefação a menos que recebessem alta_ som~ e pilha_v:_1111 11 111w11111, seis médicos em oito falecem em 1348) e também os
casas onde entravam. Como forçados haviam sido requ1s11 11d1, ldt loN: e m Orvieto, 24 morrem no decorrer da peste neg ra
em Marselha, em 1720, para preencher a função de "corvo• nft11 ~u encontram senão sete substitutos para sucedê-los.m
toda espécie de rumores sinistros correu a seu respeito: ro11l 111 11l,u•11vcl, a provação esmaga uns e exalta outros. Jean de Ve-
vam impunemente em todas as casas onde iam apanhar crn'plt lh 1111, o elogio de religiosas parisienses em 1348:
mortos; para não voltar duas vezes a uma mesma mornd:1 , 11111
çavam na carroça fúnebre os agonizantes ao lado dos cad:lv1111 1, 1111 santas irmãs da Santa Casa, não temendo a morte,
etc. Enfim, em toda cidade contaminada, falsos "corvos" c11I 1,1 111111priam sua tarefa até o fi m com a maior doçura e hu-
varn nas casas para saqueá-las e muitos roubos eram comctl1h1 1111lclade; e, em número considerável, muitas das ditas ir-
nas que estavam abandonadas.1H Ainda que a populaçã'.> 11•11h • llltlN, mais de uma vez renovadas em consequência dos va-
exagerado o horror e o número das más ações comet1d11 1, 1111 lrni da morte, repousam, como se crê, piedosamente, na
período de peste, a coisa não deixa nenhuma dúvida. D. l )11111, 1111 de C risto.';'
não acredita que na Londres de 1665 enfermeiras tenh:1111 th 1
xado morrer de fome, ou até sufocado, contagiosos de qlll 11 1 11111 oc:isião da epidemia de 1599, se os padres de Bilbao
cuidavam, nem que guardas de uma casa fechada pelas :rn1 11t1 111 jlOtlCO corajosos, em compensação, em Burgos, em Val-
clades tenham apressado a morte daquele que ali se encon11 ,t 111111 llfl1 Segóvia, os religiosos consumiram-se à cabeceira
doente. Em compensação, ele precisa: "Mas que tcn h:1 h1t\ hl 1h11111t'CS e administraram os sacramentos "com a maior
muitos roubos e ações perversas nesse tempo terrível, 111111 l111tllilt1de",158 com risco da própria vida. Em Milão, em 1575
posso negar, pois a cupidez era tão forte em alguns que 111111111 Ili, Nilo Carlos Borromeu, depois seu sobrinho Federigo
corrido qualquer risco para pilhar".m n ,1111-se a deixar a cidade, a despeito dos conselhos de seu
Face aos saqueadores de mortos ou de casas abandrn1111ln uh I Percorreram as ruas, visitaram os lazaretos, consola-
daqueles - muito mais numerosos - que cedem simpleNJltl Ili '" 11cstíferos e encorajaram aqueles que os assistiam.15"
ao pânico, eis os heróis que dominam seu medo_ e aqut·l1•- 1p1 1 tl lt'~lll:l cidade, em 1630, os capuchinhos foram sublimes.
por seu modo de vida (especialmente nas comu111dadcs l't•ll~I• 11111111mporâneo citado por .M anzoni testemunha:
sas), sua profissão ou suas responsabilidades se expõt:11,! 11,, 1 , ·•
tágio e dele não se esquivam. A peste negra leva todos o~ 11111 1 1 ~,• esses padres não tivessem existido, a cidade teria sido
tinianos de A".ignon, todos os franciscanos de Carcassrn\t' 1 1 1111h111llnda inteira; pois é uma coisa miraculosa que tenham
Marselha (nesta cidade eles eram 150). Em Mag uclrn11 1, 1t 11111lldu, em tão curto espaço de tempo, prestar tão nume-
restam senã6 sete franciscanos em 160; em Montpc ll il•t, 111 11~ ~crviços à população, sobretudo se se considera que
em 140; em Santa Maria Novella de Florença, 72 e111 1~li t nAtt 111l•cberam senão fracos recursos ela cidade e que con-
conventos dessa ordem em Siena, Pisa e Luca, que t'tllll 1111lrnm com sua sabedoria e sua inteligência manter no
menos de cem frades, perdem respectivamente 49, ~•/ t 11 nto t:tntos milhares de desafortuna<los.' 60
Conselhos municipais são igualmente dizimados. l•:111 V, 111
71% dos membros do Conselho são levados; em Mrn11111 li 1•11puchinhos, que foram com os jesuítas os principais
11~

83%, em Béziers 100%, em Hamburgo 76% . Evide1111'1111 t• 1 tln Re forma católica, jamais enfrentaram hostilidade
os médicos são em particular atingidos pela c pidl·1ttl11 1 1~• ,lv11l ~ que sofreram os membros da Companhia de

/ 98 199
Jesus, isso se deve especialmente a seu devotamento du:antc li~ Ili ~c deixar deter pelo "perigo evidente", enfrentaram todas
pestes, por exemplo, na Paris de 1580-1. 1:'-s pop~la?oes lhcH lll'l{Ôncias ao mesmo tempo: abastecimento, desemprego,
estavam gratas por sua abnegação nessas c1rcunstancias tr:í(,(1 111111 pública, limpeza das ruas, retirada dos cadáveres et c. 163
cas (e também durante os incêndios). Na França e em oul l"IIH 11111110 aos padres e aos religiosos que não haviam abandonado

partes, muitas municipalidades no século XVII ~avorece~a111 n li posto, foram ceifados pela peste, ou seja, 49 capuchinhos,
11hscrvantes, 29 recoletas, 22 agostinianos reformados, 21
implantação dos capuchinhos na esperança ~e d1~por assim <k
11t1i1i; e no total mais de 1/5 do clero marselbês. 164
confessores e enfermeiros em tempo de epidemia. Mas css1••
religiosos não tinham o monopólio da cor_agem. E~1 ~656, clll
Nápoles, enquanto o arcebispo se recolhia, 96 rehg10sos _<.'li
milianos em cem morreram da peste; em 1743, em M ess11111i
r, DE QUEM É A CULPA?
dezenove em 25. Por várias vezes Um diário do ano da peste, d, 1!011 mais chocada que estivesse, uma população atingida
D. Defoe, dirige cumprimentos às autoridades da cidade 1h ln jll'StC procurava uma explicação para o ataque de que era
Londres obrigadas a enfrentar a epidemia de 1665. No comcc,'ll 111111, lfocontrar as causas de um mal é recriar um quadro
da contaminação, o lorde-prefeito, os xerifes, os alder11~e11 ~ o~ 11quilizador, reconstituir uma coerência da qual sairá logica-
membros do conselho comum fizeram saber que não de1xaru1111 lllll n indicação dos r emédios. Ora, três explicações eram
a cidade, manteriam a ordem, distribuiriam os soco_rros 1 11111l11das outrora para dar conta das pestes: uma pelos erudi-
cumpririam da melhor maneira seu encargo. O que f1zcn1111 111outra pela multidão anônima, a terceira ao mesmo tempo
sem excessos inúteis: 111 11111ltidão e pela Igreja. A primeira atribuía a epidemia a
li 1 1•orrupção do ar, ela própria provocada por fenômenos
Os magistrados não falharam em sua tarefa, foram _tão \Ili 1,tc•N (nparição de cometas, conjunção de planetas etc.), por
lentes quanto haviam prometido ser. O lorde-prefeito e n, fl,111111cs emanações pútridas, ou então por ambos. A segunda
xerifes estavam continuamente nas ruas, e sobretudo 0111h 1111111 ncusação: semeadores de contágio espalhavam volun-
se encontravam os maiores perigos, e embora jamais tive" l~1111intc a doença; era preciso procurá-los e puni-los. A t er-
sem de ver as multidões amontoar-se em torno del:s, 1111111 11 111 1111sogurava que Deus, irritado com os pecados de uma
recusavam, em caso de urgência, receber as pessoas, esc111111 1111h1~•1fo inteira, decidira vingar-se; portanto, convinha apa-
seus lame11tos e a exposição de suas queixas.161 111I lo fazendo penitência. De origens diferentes, esses t rês
11101111111 explicativos não deixavam de interferir nos espíritos.
Em Mar;elha, a atitude do monsenhor de Belsunce foi 111111 11- podia anunciar sua vingança próxima por meio de sinais
ostentatória. Por outro lado, dissemos que por um momento 1•h 11 IIN: daí os pânicos provocados periodicamente pela passa-
cedeu ao m edo e, segundo sua própria confissão,_ teve u11111 li dn~ cometas e pelas conjunções planetárias consideradas
"fraqueza".162 Permaneceu no entanto, no pleno sentido do WI 111111111cs, por exemplo quando Marte "olhava" Júpiter. Além
mo O pastor de seu rebanho e um exemplo para os marsellwtil 11, IIN teólogos ensinavam que demônios e feiticeiros se tor-
qu: bem precisavam disso. Pois a m~i~ria dos. respons:lwl 111 llll ocasião os "carrascos" do Altíssimo e os ao-entes
o de
havia fugido. A coragem dos outros fm amda maior, em p:11 li 111"1lt;n. Em consequência, nada de surpreendente se seres
cular a de quatro escabinos que permaneceram no lugar e q111 1 lh·os, agindo sem o saber como executores dos desígnios

')/)/)
201
1Nesse mesmo
Je ano
d u de 1348' 1~º mes ~ 0
divinos, espalhassem voluntariamente sementes de morte. Adi ·:1rmelita de agosto [escreve
do oeste an e venette] ' vm- • b p • .
se so re ans, mi d1reção
cionando os três tipos de causas, o cônego de Busto-Arsizín , uma estre 1a n · d .
110 c repúsculo [ ] S i~1to gran e e muito brilhante [...]
começava assim seu relato de maneira muito significativa: ··· · e eia um comet ·
do de exal .- a ou um astro forma-
. açoes e em seguida esvaecido em . .
Memorial do dest ino fatal e do horrível espetáculo de 1111111 110s astrônomos O cuidado d d .d. ~apore_s, deixo
linha sido o pressá rio . e_ ec1. Jr. Mas e poss1vel que
doença pavorosa, contagiosa e pestilencial que sobreveio 110
ano de 1630, principalmente por permissão divina; depoÍN1 Imediatamente em
pnl'tcs.nº
i _da epidemia que se seguiu quase
ans, em toda a França e em out.-as
pela obra e pelo malefício diabólico dos unguentos; enti111,
pela influência das estações, constelações e planetas iniin\

nh11~ido obra das iºnfl ~ _m em e prudente: "Que a peste


gos da natureza humana[...].'º; l)1111nto a Boccaccio ta b, ,
uencrns astrais O I. 1 d d
A opinião comum procurava portanto encontrar o 111.'íxin111 lt111 ldndes e q D . ou esu ta o e nossas
•11hr1• os ho ' ue eus, em sua
. _ ª co era, a ten11a precipita-
JUSt· 'l
de causas possíveis para tão grande desgraça. Mas quanto :HI~ mens como pumçao d e nossos cnmes,.
eruditos, por vocação e deformação profissionais, insistiam 1111N 1111111lfcstara ai fato é que
/\ nutr; ', ' 1~un_:- anos antes, nos países do Oriente"_1,1
explicações "naturais" pelos astros e pelo ar viciado, rejeit:ll1tl11 • exp icaçao "natural" (d e resto nao - contraditó-ria
por isso mesmo obstinadamente a noção de contágio, no en11111 1 ,1 precedente) t·a· . d .
zia envar a peste d . 1 - .
to avançada desde o século XVI por Fracastoro e Bassi111111 •11111111:; de cadáveres na-o enterrad os d ed exa, açoes · d malignas
1.
111111 undczas do sol T, d . , e epos1tos e ixo, até
Landi.
Em 1350, a Faculdade de Medicina de Paris, cons11h111I 1 11111 ,1 pelas autorida~~s e:t:v·u~1 a~p~cto de profilaxia posto
sobre a peste negra, expressou a opinião de "que a causa :1f:1NIU •1h1 por cima e . a un a o na dupla teoria do ar
.. ,~ , por baixo que acabamos de lembrar: fogos e
da e primeira dessa peste foi e ainda é alguma constel:11;1\11 " 11111 ,, 11iascaras protet . 1amento dos doentes e das
celeste [...], conjunção que, com outras conjunções e cclipril' • 1111111111inadas lim o_ras, iso
cansa real da corrupção absolutamente mortal 'uhlvcrcs, mor~e d pez,1_das_ ruas, ~faseamento apressado
6 do ar que 1111 11111didns entre os ª!11ma1s considerados suspeitos etc.
cerca, pressagia a mortalidade e a fome [.. .)"."'
O mesmo sentimento continuava a ser partilhado JJ.O sfr11h, llh ,, t·ons~ituí·1mª:11:~a1~.ªlgumas eram medicamente pro-
XVII pela maioria dos médicos: "A má qualidade do ar", csl' II 11
l I rn1u'ibuían~ a~ l isso uma arma psicológica contra
M,1111 inham' na p 'dalutar contra o desencorajamento cole-
um deles, "poíle ser cansada por influências malignas e p11l 1
1111111 dn ;)este'. c1 a e certo tono e a vontade de combater
sinistras coniunções dos astros".16; Um outro põe igualt1111111
em causa "a posição e o movimento dos astros que s11~('l11111 jllll'l:lnto,
IONÍI i,,·1s ae noçã o d e ar corrompido
. desembocava em
átomos de malignidade, semeiam vapores de arsênico e I n11111 • , m compensaç-o · uma popula-
a morte do ar".16ij Ainda cm 1721, o médico do rei da Pl'II 1
I
,1111 1li•r1r d r - a ' que proveito
lh dlNt11nt:sexp icaçao da malig~ü~ade de astros demasia-
considera que a peste é provocada "por máculas morhíl h 1 para serem acess1ve1s . 1
concebidas e procriadas por exalações pútridas da temi rn1 1111 ,1111plnmcnte difundida de alto a b ~o ªJJr i~mano? A
maligna influência dos astros" (...].16'1 Espíritos críticos prcl1•1 htl 11111111110 dos I a1xo a sociedade, no
contudo deixar aos técnicos a responsabilidade dess,1s expl h •111111111t11 r a a~1;~:;~: :n~1:;~ci,~
didadd,e dods cometas só
CI a e on e se tornava
ções, sem se pronunciar eles próprios.
203
nítida a ameaça da contaminação. D. Defoe assegura que li dl-1,llllC analisada anteriormente). Leprosos foram efetivamen-
aparição de um cometa em Londres, em 1665, semeou o pavrn 111•11sndos, :m 1348-50, ele terem espalhado a peste negra. O
num momento em que já se falava de epidemia. As vendas d1• I" t'IO hornvel de suas lesões passava por punição do céu.
prognósticos alarmistas multiplicaram-se. Já não se falava sc.:111111 lJ1,111 se que eram dissimulados, "melancólicos" e debochados.
de profecias, de visões, de fantasmas e de sinais nas nuvem,• 111l11nva-se também - concepção que pertence ao universo
Na realidade, a crença astrológica na ação dos astros sobre o 111 1•14h•o - que, por uma espécie de transferência, podiam
era recuperada pela religião, e uma evolução operava-se 1111 1 11 se de seu mal satisfazendo seus desejos sexuais com uma
opinião que re tinha sobretudo o papel de anunciadores dn~ _,111 sii, ou então matanclo-a.'73 Em 1321, portanto 27 anos
vinganças divinas reservado aos signos que apareciam no céu 11 h \ dn peste negra, leprosos acusados ele ter envenenado
cidade ia ser destruída. D e quem era a culpa? m l' fontes tinham sido executados na França. A respeito
O movimento primeiro e mais natural era o de ac11~111 l11do11s, demo_nstro~-se pertinentemente que, no império,
outrem. Nomear culpados era reconduzir o inexplicável :, 11111 1111,~sncres ele israelitas, acusados ele ter envenenado nas-
processo compreensível. Era também pôr em ação um remC-.1111 Ili v, hnviam precedido e não seguido a chegada dos flagelan-
impedindo os semeadores ele morte de continuar sua obra ncf11 1 ,, invasão da peste. Queimaram-se judeus em 1348 em
ta. Mas é preciso descer a um nível mais profundo: se a epidt·111h1 111u,1r1, onde a peste só apareceu em 1350. Em Estrasbur-
era uma punição, era preciso procurar bodes expiatório, 41111 ' 111 Colônia'. vários meses decorreram entre o suplício cios
seriam acusados inconscientemente cios pecados ela coletividuilr 11~ 1• o surgimento ela pcste.' 74 Contudo, nessas cidades,
Por muito tempo, as civilizações antigas procuraram ap:w.i1-111111 ti _.. dos pro~ressos da peste através da Europa, e portanto
por meio ele sacrifícios humanos a divindade encolerizacl:1. S1 t • 111,111~·ns de Judeus estiveram ligadas de alguma maneira
que, aterrorizadas pela onipresença da morte, as pop11l11~(11 hli 11tin. No entant? permanece verdade que, no Jugement
atormentadas pelas epidemias não repetiram por v:írias v111 ' 1 dr N11v11rre, Gmllaumc de Machaut situa nitidamente o
1

involuntariamente, na Europa dos séculos XIV-XVIII , essu N1llt Ih 1111111unto elas nascentes pelos israelitas antes e.lo apareci-
grenta liturgia? Essa necessidade ele abrandar a cólcrn .1, 1
' 111 peste. Para ele, a ordem dos fatos foi a seguinte: em
potências supra-humanas conjugava-se com o desrcc;;1lq111 ,1 1111 l11gnr, prodígios no céu, tremores ele terra e sobretudo
uma agressividade que a angústia fazia nascer em todo· 1(111) Ih h1~ tlc toda espécie (heresias e crimes, especialmente a
humano acometido pela epidemia. Não há nenhum reli1111 ti 1 111 elos poços pelos judeus); depois a decisão divina d e
peste que não evoque essas violentas descargas coletiva,. 11, li t•ó le~a do Soberano Juiz manifestando-se então por
Os c ulpados potenciais, sobre os quais pode voll 111 1 ,1, 111 rríve1s tormentas e horríveis tempestades: enfim, a
agressividade coletiva, são em primeiro lugar os estr:1111(1 h1 ,li\ ldn i\ corrupção cio ar pelas tormentas e tempestades
os v iajantes, os marg inais e todos aqueles que não e~1.1<1 li 1111,11'ior.'71
integrados a urna comunidade, seja porque não qucre111 1111 li I" •li• n~grn eclodi~ : n.tão em ~ma atmosfera já carregada
suas crenças - é o caso cios judeus - , seja porque foi p11 11 1 1111111s1110. De 1111c10 susp eitos de querer dizimar os
por evidentes razões, isolá-los para a periferia do IP 11p1, p111 111cio cio veneno, em seguida os judeus foram bem
como os leprosos-, seja simplesmente porque vêm d1· 11111 , 1111111• e por ve:tes muito cedo, como n a Espanha -
lugares e por esse motivo são em alguma mecl id:1 ~11-11111 • ti, tc.•r semeado o contágio por meio desses envenena-
(reencontramos então a desconfiança em relação ao 1111/1,1 1 Nu Cntnlunha, pogroms eclodiram desde 1348 em

205
Barcelona, Cervera, Tarrega, Lerida etc. Assim, em Tarrcµn, 111 flamenga da epidemia que os ac01nece.•;•, Ela foi trazida,
massacraram-se mais de trezentos deles ao grito de "lv1orcc no~ u•dita-se, pelos navios vindos dos Países Baixos. Na Lore na,
traidores!"_,;,, Tratando-se do resto da Europa e especialmc111t• Ili 1627, a peste é qualificada de "húngara" e em 1636, de "sue-
do império, o relato de Jean de Venette, em que a orde m do~ "1 lllll Toulouse, em 1630, fala-se da "peste de Nlilão".1~0 Ora,
fatos se encontra modificada em relação à realidade, forn cl'I' • 110111bardia, nessa data, o que se diz? Eis a resposta do cône-
-nos a prova de que a opinião comum viu cada vez 111.-iis 1111~ 111110 contou a história da epidemia em Busto-Arsizio: descen-
judeus os maiores responsáveis pela "morte negra": 1 ,1111 a Itália para defender em Mântua a causa do duque de
11111·s, os franceses foram de início vitoriosos. Depois as tro-
A ideia de que a morte provinha de uma infecção do 11 1 1 • l11~pcriais detiveram seu avanço. Então os inimigos - pois
das águas fez imputar aos judeus a corrupção dos poços, !1111 1111111· é partidário dos Habsburgo - imaginaram contaminar
águas e do ar. As pessoas insurgiram-se então cruelmcllll pttpulações com pão enfeitiçado. Nosso narrador de início
contra eles, a tal ponto que na Alemanha, e em outras p111 11 ttuis acreditar em semelhante delito, mas teve de render-se
tes onde habitavam judeus, numerosos milhares de jud1•11 \'hl~ncia, pois "muitas vezes foram encontrados desses pães
foram mortos, massacrados e queimados pelos cristãos,! ' 11 il1vorsos locais de nosso território. Posso atestá-lo e foi
lt 11111nha ocular disso".' 8 '
A sequência do texto merece, por outras razões, ser c i1 11d11 \1 lt ude clássica essa de nosso cônego. Em Chipre, durante
11 •111 n.cgra, os cristãos massacraram escravos muçulmanos.
Encontraram-se, diz-se, muitos maus cristãos que t:11111 111111 1 Uu~sia, em período de epidemia, culpavam-se os tártaros.
lançavam veneno nos poços, mas, para dizer a verdack-, 1111 h 1111111 forma mais benigna, no momento da peste de 1665
envenenamentos, supondo-se que tenham realmente e., 1~, 1 1 l ,,mdres, os ingleses foram unânimes em acusar os holan-
do, não podiam produzir tal catástrofe nem ating ir 111111,1 ~ 1111111 os quais a Inglaterra estava então em guerra.182 Uma
pessoas. A causa disso foi outra: talvez a vontade de 1)c111 '"~110 idêntica volta no ano seguinte no momento do grande
talvez humores corrompidos ou a má qualidade do :1 r 011 il 1 111ll0 de 1666.
terra? 11•H·ciro degrau da escalada acusadora: a identificação dos
l111iloNno próprio interior da comunidade atormentada pela
Notar-se-á o espírito crítico desse clérigo erudito. No 1111 li 1111l1111ção. Qualquer um, a partir daí, pode ser considerado
mo sentido, o pap:,i Clemente VI recriminou, em sua bul:, d1 ,, 111h11igo, e a caça aos feiticeiros e às feiticeiras escapa a todo
de julho de 1348, aqueles que .-itribuíam aos judeus a rc~pllll , 111, 1111, Milão passou por essa atroz experiência em 1630. Acre-
bilidade pela peste. Sua argumentação era esta: como é pn 1 111 ••• ver as muralhas, as portas dos edifícios públicos e das
vel, se essa acusação é fundada, que israelitas sejam vít i1 1111~ 11 1111111das de substâncias venenosas. Dizia-se que esse vene-
contágio ou que a epidemia irrompa em localidades 011d1• 111 1 11 omposto de extratos de sapos, serpentes, pus e baba de
residem judeus?';" llh 11111, l~videntemente, tal mistura era uma receita diabólica
Não podendo os judeus constituir os únicos bodes c,~phll 11 11111 por Satã a pessoas que tinham feito um pacto com ele.
rios, foi preciso, como indica Jean de Venette, procurar 111111, 11111 din, um octogenário reza ajoelhado em uma igreja;
culpados, de preferência os estrangeiros. Em 1596-9, n~ • ~1•, 1 , q11~1r sentar-se. .i\!Ias, antes de fazê-lo, limpa o banco com
nhóis do norte da península Ibérica estão convencido~ d11 111 11111, ( :•csto infeliz, que mulheres interpretam imediata-

'l/1'7
mente: e le envenena o banco! A multidão se amontoa, golpc:i11 11111•hrn em 1530 e 1545, em Lyon em 1565 ou em Milão em 1630
o velho, arrasta-o à prisão, onde é submetido à tortura. " Eu vi -••mmportava como os parisienses em setembro de 1792 quan-
esse infeliz", conta Ripamonti, "e não soube o fim de sua dolo 1 u. prussianos chegaram: elim.inavam os inimigos internos.
rosa história; mas creio que só teve a lguns momentos de vida."" 1 lt'111 l530, em Genebra, descobriu-se a conspiração urd ida
Nenhuma dúvida, em compensação, sobre o fim trágico d11 li "••~pa lhadores de peste" e que reunia, pelo que se acreditou,
comissário da Saúde, Piazza, e do barbeiro Mora, acusados prn 11•~ponsável pelo hospital dos contagiosos, sua mulher, o
mulheres de terem untado portas e muros com uma substfot'l11 ru,l(itlo e até o capelão do estabelecimento. Os conjurados,
gord urosa e amarelada. Em agosto de 1630, erigiu-se em Milsl11, h111midos a tortura, confessaram ter se entregado ao diabo,
perto da porta do T icino, uma coluna monumental, que tr:11111 1111 troca, indicou-lhes como preparar a quintessência mor-
esta inscrição redigida e m latim para m aior solenidade: 1 l•11rnm todos condenados à morte. A inda em Genebra,
td111t• n epidemia de 1545, 43 pessoas pelo menos foram jul-
Aqui, onde se estende esta praça, elevava-se outrora a loht 1•• 1 omo "espalhado res de peste", das quais 39 foram execu-
do barbeiro Giangiacomo M o ra, que, tendo conspirnd11 111• 1•:m 1567-8, foram mortos ainda treze "fomentadores" e
com G uglielmo Piazza, comissário da Saúde P ública, e r o111 1 1\ 11 pelo menos 36. Nesse ano, um médico da cidade, Jean-
outros, enquanto uma peste horrível exercia suas dcv:1s111 111111111· Sarrasin pub.licou um tratado sobre a peste no q ual
ções, por meio de ungucntos mortais espalhados po r tod11 111111~1 rnva que, nesse gênero de epidemia, a ação maléfica
os lados, precipitou muitos cidadãos para uma morte c:1·111•1 1 11v1 ncnadores e "fomentadores" era indiscutível. D urante
Foi por isso que o Senado, tendo declarado ambos ini1111w1 11111111 grande pânico provocado em G enebra por uma peste
da pátria, ordenou que, colocados sobre uma carr et:1 cl1•1•11 tlt lrd 5 - os tribunais decidiram a execução de seis "espa-
da, seriam torturados com um ferro em brasa, sua 111:10 ,li 1111 1 ~" de contágio. Em Chambéry em 1572, as patrulhas
reita cortada, seus ossos quebrados; que seriam cstcnd ld11 1111 11111 ordem de atirar nos " fomentadores". N o Faucigny,
na r oda e, após seis horas, mortos e queimados; em scµ111il 11 1, I, dnco mulheres pelo menos foram queimadas e seis
e para que não restasse nenhum traço desses homens n 11111 11, l11111ldas, sempre sob a acusação de ter espalhado a pes-
nosos, que seus bens seriam vendidos em hasta públ irn, ,,1111 \ 1111, outras pessoas foram citadas diante dos tribunais pelo
. cinzas lançadas ao rio; e, a fim de eternizar a memóri:11lt·- 1 11111 111mivo.185 Assim, não ocorreu outrora nenhuma epide-
fato, o Senado quis que esta casa, onde o crime fora p1t•p 1 ' 111 11 crença em uma quinta-coluna e em u m complô no
rado, fosse demolida, sem jamais poder ser reedifirnd11 lt11 tio~ muros. Acabo de escrever "outrora". Mas R. Baehrel
que em seulugar fosse erguida uma coluna que se ch:1 111111 1 11 1 ljlll' cm 1884, no Var, por ocasião de uma epidemia de
lnfâ111ia. Para trás então, para trás, bons cidadãos, dt· 111111 11 11 ~1· fa lava de "semeadores de cólera", de "doença inven-
que este solo maldito não vos macule com sua infi\111 111 111 11 1•1 11 icos para fazer morrer as pessoas pobres", e de
Agosto de 1630.184 1 I• ••~pcciais lançados por personagens misteriosos, intei-
lllt v1•s1idos de preto.'86 A história das mentalidades não
Essa "coluna infame" permaneceu de pé até 1778, lc111l11 ,111 1 111 lll1,1r os mesmos cortes cronológicos que a história polí-
que tal suplício não era excessivo para pessoas que haviam "11111 tl 1 , 1111/\111 ic:1.
pirado" contra a " pátria". R. Baehrel teve razão de ap1 o~1111 Ili tt 11~ semeadores voluntários da peste, não havia os
"epidemia" e "terror". Sitiada pela peste, uma populaçiio t, 111 p1•~t ffcros, subitamente tomados pela vontade de fazer

209
os outros partilharem de seu mal? Lute ro, no tratado mcm·1u li llns mentalidades, permanece a acusação vanas vezes
nado anteriormente, interroga-se sobre a questão após h:1\lt 1 Jltln contra os pest íferos, a náloga àquela outrora lançada
descrito o fato corno autêntico e analisado com muita s111i1(•1 1 lr11 os leprosos.
suas possíveis razões psicológicas: ( 111 ~cmeadores de peste eram _uma corja diabólica. E não é
" "'preender que aqui e a li tenha se acreditado na ação de
M i1s existem ainda maiores criminosos: vários, sentindo 111 l,tmasmagóricos - fadas ou fantasmas - , manipulados
les o ger me da doença, misturam-se, sem nada dizer, :1 ,1•11 1h•111ônio, e que espa lhavam a doença. No Tirol, falava-se
irmãos, como se esperassem descarregar neles o veneno q111 Ili luntasma de longas pernas e de manto verme lho que
os devora. Tomados por essa ideia, percorre m as ru:1s, p1 \'11 11 epidemia em seu rasto. Na Transilvânia e na região
netram nas casas, chegam até a beijar seus filhos 011 ,1 11 1'111111s de Ferro, esse papel era desempenhado por uma
criados na esperança de salvar-se a si mesmos. Quero 1•111 , lujnnte", misteriosa e eterna feiticeira, vel ha e gemente,
que o diabo inspira tais ações, e que é apenas ele que dt•ht _,ido preto e xale branco. Na Turquia, conhecia-se um
se deve acusar; mas disseram-me também que uma e~pt11li 1 1h1 peste que tocava suas vítimas com uma lança. Em
de desespero invejoso leva algumas vezes esses in fcli1,1•, 1 11, d11,in-se que um diabo negro de olhos brilhantes percor-
propagar assim a peste, pois não querem ser os único~ u 11 11111s e entrava nas casas.
atingidos [...]. Se o fato é verdadeiro, ignoro-o. Mas, 11111
mente, se assim é, chego a perguntar-me se nós, :1lc11ull
somos homens ou demônios.1~1• • tjllt' cm uma cidade atacada pela epidemia podia-se tem er
11111 11111 e q ualquer coisa, já que o mal permanecia miste-
Não se duvida de que comportamentos do tipo desses ,h 1111 l'Cdcr diante da medicina e das medidas de profilaxia,
c ritos por Lutero tenham r ealmente existido, ao meno~ 1·111111 jlll I tl,•fosa parecia boa. O tempo de "pestilência" via então
condutas isoladas. Mas que te nham sido frequentes é 111111 11111 .11 cm-se os charlatães e os vendedores de amulet os,
difíci l de admitir. Em compensação, é certo que a crCll\'11 Ili• ,~ ~ 1• 111tros miraculosos. Como em Londres em 1665.'"
contagiosos semeadores voluntários da peste era ampla1111111 11 l,11 ,1 1). Defoe, muitos m édicos e charlatães morreram.
difundida nas cidades acometidas pela e pidemia. D. 1)1 h ili quem se valer? Restava a medicina da religião. De
atesta que era comumente aceita pelos londrinos em IM ~ li 1 11111srnnte a Igreja, referindo-se aos episódios do Ami-
que os médico$ discutia m entre si as razões dessa prop,•11 , 1 tlltl'lllO e especialmente à história de Nínive, apresen-
per versa dos ~nfectados para infectar os outros. Os pest 11t 11 ' 1l11111id:1cles como punições desejadas pelo Altíssimo
tornavam-se semelhantes a loucos furiosos? Era a co1'1'1tp\, li 1tl11, 11:ss:1 doutrina foi por muito tempo aceita tanto
da natureza humana q ue não pode tolerar que outrem st·j,, 1, h 1, 1 111 ,·~cl:i recida da opinião quanto pela massa das pes-
quando se sofre? E m seu desespero, os contagiosos tor11a11111 11111 ,~ t·ivilizações estabeleceram espontaneamente esse
-se indiferentes a tudo, inclusive à seg urança dos 0111 roN t 11, 1,1l11111idade terrestre e cólera d ivina. O judeu-cristia-
autor do Diário acredita simplesmente que os habit:11111•\ il 11h111lnvcmou. Mas é verdade que os homens de Ig reja e
aldeias vizinhas de Londres encontravam aí um pretcxltt p 11 1111 11h•~ nrrnstavam o reforçaram de todas as maneiras.
rechaçar os fugitivos, acusando-os de ser doentes sád irn•1p1, 111111111111·os os testemunhos que exprimiram através das
curando propagar o contágio.1s• O importante para 11m, ,11-1 111'~0 re ligioso sobre a desgraça coletiva segundo o

210 2ll
qual todo mundo é culpado e não apenas alguns bodes expiat6 1111111 1.:0111 paciência [o decreto divino]", escreve Lutero, "sem
rios. Lutero, A. Paré, são Carlos Borromcu, D. Defoe, o mon 1111•1•11x,por nossa vida pelo serviço do próximo." A. Paré dá o
senhor de Belsunce, para citar aqui alguns nomes significa "110 conselho: "Se lhe apraz [a Deus] [...] golpear-nos com
tivos, são unânimes em seu diagnóstico. Uma peste ~ "11111 •~ Vllrgas, ou com algumas outras segundo seu conselho
decreto de Deus, um castigo enviado por ele" (Lutero). E "ulll 111111 ~ preciso suportá-lo pacientemente, sabendo que é tudo
dos flagelos da ira de Deus, [e] nós não podemos senão cair 1111 ti nosso proveito e regeneração".19z Em país muçulmano, o
extremo de males quando a enormidade ele nossos pecadm 1111 ~o religioso sobre as epidemias era fundamentalmente
incitou sua bondade a retirar sua mão favorável de nós e IH lN Ili h 111 insistindo contudo ainda mais nos méritos daquele
enviar tal praga" (A. Paré). Ela é "o julgamento de D eus", li 111rn•1·c do contágio. Maomé declara com efeito que, se a
~punição", escreve D. Dcfoe, que lembra o texto de Jeremi11~ h , lllll flagelo com que Deus atinge quem lhe apraz, "todo
5:9: "Não visitarei a estes, diz o Senhor, e não se vingará mi nhu 11111• 11no foge só será atingido se Deus o previu e então ele
alma de semelhante nação?". 190 11111 '1111Írtir' como aquele que morre na guerra santa". 19J
Na França, o clero retoma o mesmo raciocínio por ocasi1l11 ~• 1111nda consequência é que é preciso emendar-se e fazer
da epidemia de cólera em 1832. L. Chevalier lembra algu11111~ 1111111 l11. Abordamos aqui, pelo ângulo da peste, esse grande
dessas afirmações clericais: 1111•110 dn culpabilização das massas europeias, ao qual vol-
11111~ rnn uma obra posterior. Médicos dos corpos e das
Todos esses infelizes morrem na impenitência. Mas a cóll-1 11 I• l11Hlstin1111 sem trégua sobre o único verdadeiro remédio
do Deus de justiça vai crescendo e logo cada dia contar:í Nl'II li 1 11 ,,ontágio: "E ainda mais que o mal é grande", escreve
milhar de vítimas; o crime da destruição do arcebisp!l!hl l 1111, ''ti preciso recorrer prontamente ao remédio único e
está longe de ser expiado [são Rogue]. 1 11111• j,(r:lndes e pequenos cedo imploremos a misericórdia
Espíritos meditativos fazem observar que, por 1111111 H1 li~ por confissão e lamento de nossos delitos, com segura
exceção funesta, só Paris foi atingida no meio da Fn111~·11 1 111\110 e propósito de emendar-nos e dar glória ao nome
a cidade da Revolução, o berço das tempestades pol ÍI i1•11 1) li~ 1,..1"."" Eis agora a poção prescrita por um pregador
o centro de tantos vícios, o teatro de tantos atentados l/ 11 h 11111 Cllll l613:
Quotidienne].
Despercebido [o cólera], pairava nos ares e, detendo ~' l11111111lr1uncnte jejua e ora; depois, toma um quarto de ar-
sobre o foco ,cle corrupção, lança-se como um abutre soli11 1" 111hmcnto de Nínive, mistura aí dois grandes punhados
a cidade da~desordem, surpreende-a em meio a seus pn111 1 li 1111 snngue de Cristo com toda a esperança e a caridade
res e ali cei'fa de preferência esses homens sem freio q111• •• 1 111111 lls capaz e deita o todo no recipiente de uma cons-
entregam aos excessos das paixões e dos gozos brutai~ 1/ , 1 111 hl purificada. Em seguida, faz ferver no fogo do ani.or
Gazette d~uvergne] .191 1111111111111 n negra espuma das paixões mundanas cheire mal
11 lt 1111Nl~mago - o que julgarás pelos olhos da fé [...). 195
Duas consequências decorrem dessa doutrina const:111111
primeira é que é preciso aceitar com docilidade essa puni~·1\o, 111111 IIN e protestantes falavam portanto a mesma lingua-
não ter medo de morrer da peste. Se se tem responsabilid111h l• ~p11lto da peste e aconselhavam sob formas diversas a
fugir é um pecado e ficar, um ato meritório. "DevcmoN• ll lt 1,1p UI ica de arrependimento, a que uma boa parte das

212 213
populações atingidas pela epidemia esforçava-se em recorrer. 1) 11111 •~ outro, e fazendo não sei quantas preces para implorar
Defoe observa: "Nada era mais estranho de ver que a cor:l!(l'lll 111luu1 que detenha a peste e as chuvas incessantes".2011
com que o povo se dirigia ao ofício público de D eus, no pró pl'l11 li 11110-se revelado insuficiente essa imploração de 2 ele
tempo em que as pessoas temiam sair de casa por qualque r 01111 11 l 11, 111ut11neçou-se no dia 20 e em todas as quartas-feiras
razão".196 E le diz ainda que os londrinos davam prova de um "'l.1•111 111111•~ 11t6 o fim da calamidade, ficando então proibido qual-
extraordinário nos exercícios religiosos" e que os fiéis vinh:111111 • 11111{\rcio, como nos dias ele festa.
11
toda hora às igrejas, quer o ministro ali oficiasse ou não.1• l•'.111 l 111 pnís católico, as autoridades eram obrigadas igualrnen-
.iVIarselha, em 1720, os padres que permaneceram na cidade c1·:1111 111 pcwíodo de contágio, a organizar manifestações públicas
''assediados" pelos fiéis. Não eram mais, testemunha um t ri11I 1111111 o estilo próprio da confissão romana: todas iniciativas
tário, "do que confissões mescladas de gemidos e de lágri11nt Ih 11~ pelas quais uma comunidade tranquilizava a si mesma
amargas".1'" O cólera de 1832 provocou igualmente em Paris, 11111 111h ndo os braços para o Todo-Poderoso e, a esse respeito,
L illc, em Marselha ou em Londres a mesma recrudcscênt lit Mpl111 dns implorações católicas era mais fornida que a dos
(provisória) de piedade: "A epidemia que devasta Marsclhu" 1,111tcs. Daí os votos pronunciados por uma cidade inteira
escrevia La Gazette, "não foz senão tornar mais vivo o zelo 1·1•11 li111 lndn Salute em Veneza e vários calvários bretões, espe-
gioso de seus habitantes. Todas as vezes que o santo vi:ít irn 1 1111111• cm P lougastel-Daoulas, 201 são a consequência ele tais
levado na noite, uma multidão de cidadãos se vê no dcvc.:t' 1h 11, ~11~, nssim como ~s "colunas de peste" que juncam ainda
1
dirigir-se imediatamente à igreja para acompanhá-lo". "' l 1111111h11 do sul, a Austria e a Crmícia, sendo a de Viena
Entretanto, as iniciativas individuais não bastavam. S1•111h, 1,, 11111is célebre. Seus fostes são muitas vezes ornados de
uma cidade inteira considerada culpada, sentia-se a necessid111h 11 ~ 11 l1•vos nrredondaclos simbolizando os bubões. Só a Áus-
ele implorações coletivas e de penitências públicas cuja 111111111 1111111 11111is de duzentas dessas colunas. Ao mesmo registro
midade e o aspecto, se ouso dizer, quantitativo, poderiam t II ll't 1111h 1IN <:omunitárias ligavam-se os gestos solenes de consa-
impressionar o Altíssimo. U ma estampa inglesa do século \\ li 11, 1111 como o de Belsunce consagrando Marselha ao
mostra a multidão reunida, em tempo de epidemia, dia11t1• 11 11111 :lll'nçiio em 1~ de novembro ele 1720, as peregrinações
catedral Saint Paul para escutar um sermão. A legenda ill 111111li'ios dos santos protetores e, enfim, grandiosas pro-
"Senhor, tende piedade de nós. Prantos, jejum e prece~. 11 111 l•~NIIS podiam situar-se em diferentes momentos em
1625, o Parlamento decidiu um jejum solene para 2 de j1ilh11 11 11 1 piclcmia: antes, ele maneira a afastar o flagelo que
Nesse dia, o rei, QS lordes e os juízes ouviram dois sermt>1·11 1111
1 1 IIIIN proximidades; depois, corno ação de graças; ou
Westminster. l ~.m· conde, um bispo e um barão anornv:1 111 11
1111110 cm Marselha em 1720, quando a epidemia já
nomes dos ausentes. Os membros das comunas, por seu huh
11 ,1 11 çlcclinar, último esforço ele prece antes da chegada
ouviram três sermões em Sainte-.i.Vfargaret's. O primeiro d111 1111
111111ili11nl, quando a calamidade estava no auge. 20' Nesse
três horas, cada um dos dois outros duas horas. No mcs11111 tll 1
, 1 ,11m, n procissão era reclamada com insistência pela
fizeram-se dois sermões em cada paróquia de Londres. ( ) 11 1
dente toscano espantava-se com alguma ironia com a ma~•,11 il,
ld~ l11 ~ hie rarquia reticente: o que se pode verificar em
1111 l(dO. O cardeal- arcebispo Feclerigo Borromeu temia
preces assim acumuladas. As pessoas, nessa celebração de.: j11ji111
1, 1111 os r iscos de contágio que podiam nascer de um
observada em todas as paróquias da capital, "mantêm ,,1 li
igreja durante todo o dia, cantando salmos, escutando st·i 11111 1 ,111111111mc nto, os excessos supersticiosos da multidão e,

714
215
enfim, a ocasião que essa liturgia de massa podia fornecer ~ Murnlha e exorcismo, a procissão contra a peste liga-se a
ação dos envenenadores. 103 Mas precisou ceder ao pedido dn 111- 1111tito antigos de circum-ambulação destinados a proteger
municipalidade e ao voto público. Em 11 de junho, o relidrio 1111 mlccividade contra forças e espíritos maléficos. Nos sécu-
de seu tio, são Carlos, saiu às ruas de Milão. 1( \' li e XVIII, em várias cidades e aldeias da baixa Lusácia, da
lf1h11 dn Sérvia, da Transilvânia, da Moldávia, da Romênia, as
-1111~ defendiam-se contra a epidemia fazendo moças nuas
Tais procissões impressionam por vários aspectos. Em pi'! 1•11111111, vezes também rapazes nus) cavarem um sulco em
meiro lugar, como os jejuns decretados em países protestantc~i 1111 cln localidade, ou dançarem percorrendo esse círculo
constituem cerimônias penitenciais: uma população intci11l Mh II que afastava a ofensiva da desgraça.107 O itinerário pro-
confessa suas faltas e implora perdão. O clero canaliza e c<HI li cln procissão é comparável ainda às "cinturas de cera"
trola manifestações expiatórias que, no tempo da peste ncg1•111 rt11 ld11s à Virgem ou aos santos antipestilentos por munici-
tinham dado lugar às histéricas e sangrentas vagueações d11~ hh11lnN cm apuros. Em 1384, os cônsules de Montpellier
flagelantes. Certamente, as procissões dos séculos XVI-XVIII 11•111 n Notre-Dame-des-Tables um círio que faz a volta
comportam brztt11ti [flagelantes], mas que se integram no i1111• 111111 ,Ilhas da cidade. Amiens faz a mesma oferenda em 1418,
rior de um cortejo ordenado e hierarquizado. Contudo, o cllnl llplt HllC cm 1453, Louviers em 1468 e 1472. Chalon-sur-
ter penitencial claramente afirmado oculta um outro, mc1111 111 11111 1494 (em honra de são Vicente), Nantes em 1490,
evidente à primeira vista: o aspecto do exorcismo. Não é p111 11• 11111 1501 (em honra de são Sebastião), Mantes (em 1601)
acaso que o desfile sacro de 1630 na capital lombarda passa 11 p111 h11111 ll de são Roque.'º"
todos os bairros da cidade" e se detém em cada encruzilh111h1 H11111ltlio para toda a cidade, a procissão é uma súplica de
Trata-se de beneficiar todos os recantos da cidade com os d hl li I hh1de. Só são espectadores forçados aqueles que, blo-
vios protetores que emanam do corpo do santo, ele que 55 111111 111• 11111 casa, olham por suas janelas fechadas. Todos os
antes se consumira generosamente na cidade pestífer.1. Nn11 , t'lérigos e leigos, magistrados e simples cidadãos,
distante de Milão, em Busto-Arsizio, houve uma prociN~íl11 lm11~I' confrades de todos os hábitos e de todos os guiões,
desta vez em honra da Virgem, igualmente no ápice do co11l1I 1111'111ima dos habitantes - participam da liturgia, oram,
gio, e o cronista nos diz que "por voltas e desvios" ela co111111 11111, l'il ntam, arrependem-se e gemem. Como é preciso
nou "muito minuciosamente" a localidade, dirigindo-se 111111 1111 lodns as ruas e a multidão é enorme, a procissão dura
bém para fora dos muros, onde se encontravam "as c:iln11111 1 h IH()O, Mas, independentemente dessas razões concre-
dos contagiosos~io-i Assim, o rito só tem sentido se pcrsc~\11 1, 111 11 l,m que uma cerimônia religiosa seja longa. Pensemos
mal na totalidàde do local habitado. Esse papel conju rn1 t'l1 I• 1111• ili• fc espanhóis, que duravam todo um dia, e lembre·-
destaca-se ainda mais com a ajuda de comparações. Em 1\ h11 111 q 1111 eram os dias de jejum inglês em tempo de peste,
selha, em 16 de novembro de 1720, o bispo lança do ali o ,1, 111111111• do sermão ininterrupto. Uma súplica em tal peri-
campanário dos Accoules, na direção dos quatro p onto~ 1111 1 111 p11Nsibilidade de ser escutada pelo Céu se se prolonga
<leais, os exorcismos litúrgicos contra a peste. 1º' Em Scvlllt 1111 tllm\l C para forçar a atenção e a compaixão do Juiz
em 1801, por ocasião de uma epidemia de febre amarcl:1, 11111 1 11lo. 1~, para que ele veja e ouça melhor o lamentável
tra-se à multidão, do alto da Giralda, um fragmento cb ""'ti, 1h1- humanos, é preciso o máximo de círios e luzes, as
deira cruz que já detivera a peste de 1649.106 1h •- 1lngclantes e uma espécie de prece 11011-stop. Em sua
216 217
crô nica da epidemia de 1630, o cônego de Busto-Arsizio, q ,11111 ~11 ll11minou-se e o carcereiro descobriu perto de seu co rpo
do relata a grande procissão cm honra da V irgem , ins1~1t• 11, e t 1\'tlo traçada por um anjo: "eris in pcstis pntronns".m Mais
fato de que se cantaram "continuamente" as litanias de M :11 111 1 , 1IN rulíquias de Roque foram transladadas de Montpellier
de que, do começo ao fim do rito, os sinos das ig rejas ~0.11 11 • \ 11 11c:r.:1; desde então o prestígio do santo cresceu rapida-
de maneira inincerrupt,1.:09 Eis-nos no co ração de um:i rt·h1tl 1 111 , 11 po nto de ultrapassar o de são Sebastião. A iconografia
quancitiitiva de que descobrimos aqui, c m situações-li 111i1t , 1 111111011 o ciclo inteiro de sua vicia - como na igreja d; con-
motivações mais profundas. 111 d,• sito Roque em Lisboa, na Scuola San Rocco de Veneza
Em um perigo cão urgente quanto o da peste, era p1r 11 1, pint uras célebres de Tintoretto) e na ig reja ele são
garantir todas as possibi lidades a favor e portanto abr:rnd li 111111,•o ele Nuremberg - , ora ilustrou certos episódios de
Todo-Po deroso encole rizado recorrendo às preces do~ 111111 li 11d11. A representação mais estereotipada, repetida em
cessores mais qualificados. As pessoas se persuadiam d1· 1111 h111 , ele exemplares - prova da ubiquidade de um medo - ,
Maria jamais participa da cólera divina e de que só inl('l'I I il 111111 o com seu bastão e seu cachorro, apontando com 0
para abrandar a justiç a rigorosa de seu Filho. O Morti/11g11• ti 1 11 li11hiio de sua coxa. A são Sebastião e a são Roque 0
C. Reittcr suplica a ela nestes termos, em 1508: "/\1111• 111 11 1 li inquietude populares acrescentaram no total b~m
abandonados teu refúgio, ó Mãe! Nós nos escondemo~ 11 ,111 1 l11q11unta santos antipestilentos de menor envergadura,

quilos sob tuas asas, fora de alcance da negra pes te e dt• ~• 1, 1111 li<•tdarme nte venerados aqui ou ali. No encanto, são
raios envenenados"." º A V irgem do manto que prot t'H' ti 111 llurro meu . alcançou um renome considerável, que 0
peste fig urou a partir do século XIV e m pinturas it:il i11 111 1111 pouco abaixo dos protetores maiores. Seu devotame nto
francesas, alemãs etc. - um tema que se perpetuou 1111 1111 ,, l 1piclemia de Milão em 1575 e o fato de seu culto te r
século XVII. Mas ele logo se enriqueceu de acrésci111m , I", 111111 ,ijndo pelo papado e pelos jesuítas explicam as invo-
muitas vezes se represe ntou Maria reinando em glóri:1 1•1111 que• lhe dirigiram os catól icos acometidos pela peste.
santos antipestilentos e recebendo por seu inte rmédio .,~ I" 11 1•11tnnto, preces, missas, votos, jejuns e procissões não

ces dos doentes. 111111 1udo. Se a epidemia continuava igualmente virulenta


O s santos antipestilentos mais frequentemente invrn 111 1111N~e instalavam doravante em uma espécie de tor por:
eram são Sebastião e são Roque. As duas fontes hagio1;111ll11 1 1,111111vnm precauções, negligenciavam seu aspecto: era a

que fundiram a vicia e a lenda deste (t 1327?) contam que l!11q11 11,, do nhatimento. De maneira significativa, D. Defoe,
nascido em Montpellier e seguindo depois para a lt:í li:1, 1111 1 h 1 ,,~~inalado "a coragem com que o povo se d irig ia ao
atingido pela e;ste e expulso de Piacenza. Refugio u-se l 'II I 1111 p1llilwo de D eus", acrescenta imediatamente de pois: "Falo
cabana n as redondezas da cidade. O cão de caça de u111 •H•llh 1 111p11~ nncer io res ao momento do desespero".m E então a
da vizinhança co meçou a roubar pão da mão e da mcs:1 dt 1111,1 1ll•clinava bruscamente, tomava impulso novamente,
dono, que ia levar regularmente ao doente. Intrigado, o drn 1 , 111·,llmava_. Aí explodiam os Te Dem11, surg ia a alegria
chamado Gottardo, seguiu um dia o cão e comprccndc11 11111 1 1 ~e m:in1festava, antes mesmo que fosse sensato, o
nobra. Ele então alimentou Roque até sua cura .. E 111 11 111 1 1 il11~ <"nsamentos que todos os cronistas da peste anota-
santo converteu Gottardo, que se tornou eremita. Rnq111 1111 ,tprís outros. Em Marselha, desde novembro de 1720,
volta a Montpellier, não foi reconhecido pelos seus. · 1, 1111, 1 1111 v,wdndcira "mania": "Não ficamos menos surpresos ,
por um espião, foi posto na prisão, onde morreu. E ntfo 111 ,1 1, t,1111po, de ver uma quantidade de casamentos no povo
218 2 19
[...). O furor de casar-se era tão grande que um dos casados t~l_i_c •I. MEDO E SEDIÇÕES (I)
não tivera a doença do tempo desposava muito bem sem d d t·
culdade o outro cujo bubão mal se fechara; assim, viam-si•
213
muitos casamentos empestados".
Quase quatro séculos antes, Jean de Venette escrevera:
1,

Quando a epidemia, a pestilência e a mortalidade tinh11111 1 ! >IIJ ~TIVOS, Lil\llITES E MÉTODOS


cessado, os homens e as mulheres que restavam casavam-NI I1\ 1NVESTIGAÇÃO
sucessivamente. As mulheres sobreviventes tiveram um 1111
mero extraordinário de filhos [...]. Ai!, dessa renovação d11 M111tns vezes menos mortais do que as epidemias, porém
mundo, o mundo não saiu melhorado. Os homens foram d1• lrnquontes, as sedições de toda natureza marcavam com
pois ainda mais cúpidos e avaros, pois desejavam possuir lw111 Ili 1•lolô11cia os tempos fortes de uma inquietude coletiva
11111• ns explosões, permanecia silenciosa, até mesmo sub-
mais do que antes; tornados mais cúpidos, perdiam o rcpo11"11
111 ,1 ' 1<, memos a Aquitânia em suas mais amplas dimen-
nas disputas, nos ardis, nas querelas e nos processos. m
\ 11•~ Marie Bercé ali enumera, entre 1590 e 1715, de 450
Tinha-se esquecido o medo; mas por quanto tempo? nh,111111s revoltas populares, esclarecendo que entende por
111111 li formação de uma tropa armada que reúne em seu
JIIII Ili lpnntes vindos de várias comunidades de hábitat e
111,11116111 como exército por mais de um dia.' O século
fl 1111 (1~ - excluída a Revolução de 1789-99 - foi mais
N11 llntnnto, Daniel Mornet, compondo uma lista -
Ih •~11 i1tcompleta - das rebeliões acontecidas na França
1 l 7H7, chega sem esforço a uma centena/ Quanto a
U1111l\ identifica 275 delas no campo inglês entre 1735
l1111h• liC então falar, na civilização da Europa pré-in-
1 111111 11 condição ele não tomar a expressão ao pé da
1111111 "t•otidianidade da revolta".>
1111h1 que se segue é, como o de G. Rudé, um enfoque
11
1111 ,1 11 mu ltidão na história", mas com um objetivo
111qrn1l11 dos historiadores que têm recentemente tra-
11111 1111sc tema. Não voltaremos fundamentalmente
1111 111111 rovertido da luta das classes nas rebeliões e
111111 Ol'II. Não levantaremos a questão de saber se a
11 pi oporcional à distância social entre os rebeldes e
~ 1 h,~ Nffo descreveremos pura e simplesmente os
l11h 111 ln".• l•:m compensação, a pergunta feita neste

220 221
capítulo e no seguinte é esta: que papel desempenhava o 1rn•1h, 111 Ili~ salvo breves confrontos com o vigia. No entanto as
nas sedições da época pré-industrial? Respondendo ao v1111, tlilndils, quando se recompuseram, reagiram severamente.1
outrora expresso por G . Lefebvre,S retomando com 11m1 1 t \ l'Ontcstações c~nscientes de si m esm as é preciso opor,
esforços e, graças aos estudos recen tes, os trabalhos de C;, 1 • l'I•· 1•rn Lyon no seculo XVIII, três rebel iões amplamente
Bon," tentei aqui, fora de qualquer sistema preconcebid11, 11111 111111cns, a chamada "dos açougueiros" em 1714 a bre ,
estudo comparativo dos temores de antigamente à medida 1111• 111 llht 1" r~beliao ·- ' , 'e
do colégio de medicina" em 1768, e O ata-
conduziam à sedição. I essa ótica, deixei de lado, como r:111,_ i,~l111rre1ras de ~lfândega em 1789. Nesses três casos, uma
pouco repr esentativos da época estudada, os movi11w111 1 1h11 que se reuntu sem o bjetivos precisos, acolhe rumores,
maduramente premeditados, org anizados e conduzidos Sc."j-11111 11111 11 os! ataca pessoa~, pilha e saqueia. Tal era O compor-
do uma estratégia elaborada. E m compensação, cntr:1111 ,1 11111 hnlmual das n~ultidões em cólera e é ele que nos reterá,
pleno direito no inte rior cio espaço que nos propomos csl'hu, 11111•do estava muito mais presente aí do que na ação refl e-
cer as revoltas po pulares tais corno as definiu Yves- M1111 111 111lilrfrios da seda.
Bercé, as "fíirias tumultuá rias" de to das as orde ns, e t:1111h11, 11!~1 ln\·iio entre os doi_s tipos de contestação coletiva pode
as contrassocied ad es agressivas - tal corno a de MünSH't 111 11111 ,11111 no estudo das )Ornadas tnígicas que marcaram na
1535 - , cujas am bições e ações eram t ão utó picas q111· 11 1 " puríoclo 1789-99. Em 1789, o ataque da manufatura
tinham nenhuma possibilidade de conduzir a uma tom:Hht il 1111111, 11 _comada da Bastilha, o Grande Medo (que foi a
poder um pouco duradoura. Portanto nos p renderemos ,nht 11111,11w111 de uma gra nde va riedade de alertas locais), a
tudo às explosões súbitas, às violências excessivas, às 11topl h~ 11111·1.· Versalhes para reconduzir o rei; em 1792, os mas-
sa ng rentas e às rápidas debandadas, tendo podido 11 11111 cl, ~•1W1~1bro - alguns movimentos que foram essencial-
outras, con tudo, inscrever-se como uma sequência p:1 ri II ui l111p11l~1vos, tradicionais em suas motivações e em seu
no filme de ações mais coerentes de oposição: assim , os t 1111 1111,11, desprovidos de programação racio nal, desenvol-
portamcntos aberrantes dos quiliastas da Boêmia no intc11111 ti ' 111111 11 lmente, extinguindo-se com rapidez e que não
campo taborita em 1419. Mas tornamos a dizer que es~:1~ 11 1 1111 o encargo do futuro em um plano d e luta coerent e.

rências oposicionais eram raras outrora. 111111 IINll\'iio, as insurreições de 10 de agosto de 1792 e de
1
D uas séries de exemplos farão compreender mclbrn o II 111111 ,de junho_d_e 1793 foram organizadas e enquadra-
tério ele seleção que mantivem os. Em Lyon, no século ~\ li i II divisões pans1enses decididas a livrar-se sucessiva-
vê-se nascer úma con testação social de tipo moderno. <h 111 1111 t 1•1 l' cios girondinos. Esta análise revela o divórcio
rários da sella não se revoltam nos tempos de penúria 1111 11111 111, l'lll todo o decorrer da Revolução Francesa e a
1
desemprego. Seus movimentos organizados, particul:111111 1 ,1, n111luios e de interferências mo mentâ neas, o povo
em 1744 e 1786, ocorrem em períodos de trabalho assq~111 11!11,11111 e rural, d?s burgueses de todos os níveis que
e de relativa prosperidade, durante os quais sua subsis1ê11rl11 1 I' 111 Ido cios movunentos de multidões. D e um lado
de suas famí lias não estão ameaçadas. Ora contra um 1q 111 1 1 1
1 irracional, o mágico, os pavores mais diversos,~
me nto que os oprime, o ra para que os comerciantes não 11•11h l 1 1th11lt• de ouro, a veneração (logo abandonad a) pela
a liberdade de impor seus preços aos mestres por t:111'111 111111111111:1" promovid a à catego ria d e estátua abençoa-
operários ela seda se organizam, se reúnem, decidem :1 ~I 11il11dd11 pelas ruas como outrora o relicár io de santa
Não cometem nem pilhagem nem incêndio, <e: não h:1 11111 1 tl11 outro lado, projetos políticos, o senso tático, 0

223
espírito de organização. A clivagem entre esses dois universo- rn11va mais evidente, os estudantes exigiram a supressão dos
parece ter passado pela propriedade privada. Tudo se dá co11111 llllllrsos e da seleção, um controle contínuo dos conhecimen-
se a posse de um mínimo de segurança econômica houvcNNt Ulll substituição à "loteria" do exame terminal, o uso das
sido a condição necessária de uma racionalização efetiva du 11111t;ões durante as provas escritas, a possibilidade de traba-
11 até de preparar dissertações - em equipe (o que sup1·i-
conduta política.8
Uma investigação histórica sobre o papel do medo nas sctll lrl11 n apreensão individual). Quiseram impor a seus professo-
'lllC os apoiassem mais, que ficassem mais perto deles, que
ções de outrora encontra forçosamente o debate biológico q111
opõe, a respeito da agressividade humana, aqueles que a cn•11111 1111111nt ivessem entre docentes e discentes a barreira do curso
~l•o ral. Sentindo-se malpreparados para a vida ativa e para
inata àqueles que a consideram adquirida. Existe, como aÍi l'lllll
1 novações que ela exige então da maioria de nossos contem-
K. Lorenz, um instinto que combate no cérebro, ou então, 1111
rR1111os, eles desejaram que se lhes ensinasse a aprender.
contrário, o ideal bíblico do lobo comendo ao lado do cord11l1 11
11111 1 na época, declararam desejar a cogestão das universida-
só é impedido de realizar-se por "maus hábitos" e frustr:iç,w,
111111;11s ao que pensavam poder bloquear os mecanismos de
O historiador não é biólogo e não resolverá por meio 1h
\1l11, ltssas reivindicações eram as da maioria dos estudan-
suas exclusivas forças um problema talvez mal aprescn1 :11111 1
1111•~1110 daqueles que eram pouco politizados: tratava-se de
que, de qualquer maneira, ultrapassa seu campo de invcsl 11411 11 ~posta a uma inquietude que não era sem fundamentos e
ção. Em compensação, ele pode trazer sua contribui~·ilo 1111 •• 1111 pais compartilhavam amplamente.
debate e mostrar, com dossiês à mão, que a maior p:irtc 1h1 M 11,oj 11111 outro medo mais difuso, menos concretamente
sedições na Europa dos séculos x1v-xvm eram reações d1•l111 -~11 (depois, ganhou mais e mais consistência) acrescenta-
sivas motivadas pelo medo de um perigo real, ou parcial 11111111, 1111 precedente. Foram os jovens, no mundo inteiro, que
imaginário, ou então totalmente ilusório (mas, certame111 c, lllh t ,1111 1 cm primeiro lugar, o grito de alarme diante dos peri-
sentido como tal). As revoltas, variáveis em duração e cm :11111111 ilo materialismo inumano do crescimento pelo cresci-
tude, constituíam então respostas tranquilizadoras a sit 1111~/ll 111 Mnis interessados do que os adultos no que seria o
angustiantes. Tal análise constitui evidentemente um 1110th 1 11111 1111 humanidade amanhã e depois de amanhã, mostra-
parcialmente transponível no tempo e no espaço.
Com efeito, o movimento estudantil que abalou a ~h 11111
'\llt 11uss:i ~ivi~iz~ç~o desvia-se d? caminho, que técnica e
,olt• 11ilo sao smommos, que as cidades se tornam inabitá-
em 1968 pode, parece-me, ser explicado pela soma dt• 1h11 11111· 11 p()luição ameaça a Terra de asfixia, que o excesso de
medos: um, conjuntural, o outro, ao mesmo tempo 111e1111,1 /111 11,,1~1lo e de tecnocracia constitui uma opressão invasora.
so e mais profundo. O primeiro se relacionava com o l 111111 1 ,, l11q11ictação pelas perspectivas e pelo futuro próximo,
imediato: com efetivos crescentes nas universidades, o 11111111, 111,w111n-se um medo global e uma interrogação legítima
dos excluídos por ocasião dos exames e dos concursos s(i 1111111 11 1111 11 ro da humanidade. Na França de 1968, as duas

aumentar. Não foi por acaso que a chama se produ;,,iu ~~ \1 111- 1h• ,•onsciência, geradoras de pânico e de recusa, prati-
peras do encerramento do ano universitário. Cada w 1 111 lh , 11 deram ao mesmo tempo.
numerosos eram aqueles que se davam conta de que ji1111 ,, 1 11pcnas por suas causas, mas também por seu desen-

poderiam ter acesso às carreiras com que haviam s1111h111 111• 11 1•11idosa contestação de maio de 1968 esclarece de
Tomados de pânico diante dessa perspectiva que a c:1d11 ill ttl 11111°ontiva9 as sedições de outrora, tal como logo as

225
224
111 li1hricante de móveis da localidade, cuja empresa tivera um
analisaremos. Encontram-se com efeito como denominadon;N
1111111 desenvolvimento, foi acusado pela opinião pública de
comuns a estas e àquelas a violência e a festa - uma e_ oull'II
111111k•1: d~oga nos pés das mesas e cadeiras que fabricava. Os
aproveitando-se de uma relativa vacância de poder-:--, o '.c~n.o
111 IIN ,linutaram-lhe
•, o crédito. , a. clientela
_ , voltoti - Ihe as costas,
clasmo, a desforra dos silenciosos, a proliferação do_ 1111agm:1 no,
1111 mccdores esperaram mais mformações antes de abastecê-
a explosão súbita que surpreende todo mundo, os, ªJ_untamcnlo~
~• 1 li, 120 empregados da fübrica precisaram descer à rua para
de amplitude imprevisível alguns dias antes, ª. '.ap1da desa~_l'l'
111 , tnr contra um rumor que, por suas consequências, amea-
gação de uma massa logo fatigada e desmobilizada e, c~111111,
i 11~ de desempregoY
após esgotamento de uma curta epopeia, um rasto de 1111~0 1111
O \ 1111,llise _s?ciológica conduzida por Edgar Morin e sua
memória coletiva e um medo duradouro nas pessoas bem s1~1111
1111111 11 ()l'Oposito dos acontecimentos de Orleans em 1969 -
, O "terror" de 1968 para retomar em um de seus senudo~ . d'fº nao
d as. , . A • d " 11 11li1xnr 111 i e~ente o historiador dos rumores de outrora.
de outrora um termo que era muitas vezes smontmo e co11111
1 111111orc~ e sedições estavam quase sempre ligados; e quem
ção" popular, constituiu portanto a retomada de ~m comp~>1,'III
111111111' diz me~o: Edgard lVIorin mostrou que um rumor
mento de multidão que vai ao encontro, para alem das t:H 11'1l
operárias e da estratégia dos revoluci_onários metódicos, 1li1

l 111111 passa fma camada emersa de um mito que não é
11111 ,d, nem 1solado, nem acidental"; que é oriundo das pro-
condutas sediciosas dos homens de antigamente. .
Devemos falar então de "Idade Média moderna" e d111 1
li ,,,~ de um subsolo inconsciente; que, uma vez lançado,
10 1111 t li"~c. co1~0 uma força "selvagem" capaz de propagação
que a modernidade secreta novos arcaís~1~s? Não é t111t1•~ 11
h 1,1111 1·. Suscitando ao mesmo tempo atração e repuJs:- J
revelação de que a racionalidade - superficial - d_e nossa dvl ·r· ao, e e
1 11 Y111·1·1ca~ã~ dos ~atos, alimenta-se de tudo, produz
\ização camuflou, mas não destruiu, reflexos colet~vos qul' 11111
t,1~1•~ c~n multiplas direções, faz-se acompanhar de pro-
esperam senão as ocasiões propícias para se manifestar llll\'11
lll.11t1ll'1cos, atravessa as barreiras de idade, de classes so-
mente? O que é provado pelo estudo dos rumores q'.,c rn11tl
nuam a circular um pouco em toda parte em nossas c1d:1cl1·N,h
il, Nl'XO, s~n_do acolhido contudo com particular favor
11 111pos ÍCrnJ!1mos. Passando do estatuto de "diz-se" ao de
século xx. Nesse domínio também, que é vizinho do prcn·d1 li
ti, 11111mor_e uma acusação que denuncia culpados acusa-
te, pode ser útil remontar do present~ ao passad?. .
• 1111 11'~ ocl_,o~os. No final do ciclo, contrariado por diver-
Em 1946, a colônia japonesa das ,lhas Havai_ acre~llotl Ili
111 ' ,~Ot•s, ~liss1pa-se em um bulício de minirrumores e de
memente durante quase um ano que os amencanos l111vh111
1111111~ dur,vados e subterrâneos. Nem por isso está morto.
perdido a guei;;ra na Ásia e que o governo dos Estados Uulih
11 11h 1 11111·11 n son:b~·a, espera uma nova ocasião para subir à
se esforçava pol· todos os meios em camuflar a :erdadc. l l
Ih li , ~,• m.:cessano sob u rna outra máscaraY
de 1959 nutnerosas cidades da França, em particular 01'11•1111
111 1, l l'lÚll série de investigações conduzidas sobre reali-
foram ; palco de rumores insi~t:ntes d!ri_gidos contra pnip11
11111 111porâneas ou 1:elativamente recentes pode, por sua
tários de magazines de vestuano fernmmo. Esses m:1µ111111
111 li IIOSSC) conhecimento das violências coletivas de
teriam servido de antecâmara ao tráfico de mulheres \11·11111
l 1,1t11••w do estudo dos milenarismos dos séculos x1x e
sendo que as pessoas visadas por esses boatos eram no 111111 ti
111 11lu~ pela espera de um "grande dia" e muitas vezes
vezes judeus instalados recentemente. Em D_ol-_dc-_Bn •l111 t
11h uh,~, como outrora, de uma fé messiânica em um
em 1975 a detenção de um aprendiz de cabele1re1ro 1111plil ·
1(111 l11111n11r:1ria uma comunidade feliz, se possível no
em um ~aso de narcótico logo engendrou um delírio r11h li

'f
1,I 726
227
centro de uma "terra sem m al".14 Esses movimentos podc111 "' 1 , lloiro a desagregação social grassa há muito tempo em
simplesmente refor madores ou verdadeiramente revolucio111I 11 11ilêmico.'6 Pensemos ainda a seita criada nos Estados
rios e, portanto, conter cargas desiguais de agressivid11d1 .. por Father Divine após a crise de 1929 e que continua
podem provir de desequilíbrios surgidos do interior em 11111 l 1, f 11,is do líder negro trazem a este "seu dinheiro, seus
sociedade dada ou de uma desorganização social provocad:, pt11 •-• llllllS pensamentos e seu amor". Em troca, nas residên-
fator es externos; podem recrutar adeptos em todos os 11fv11 U " 111l11os" onde mo ram, são alimentados e vestidos gra-
sociais - é o caso dos milenarismos moderados - ou ser <0111 0
1 1111•, ou quase. Nesses paraísos terrestres, Father D ivine
postos apenas de e lementos saídos da camada socia I in fcrirn I•• ,h lc.ir os jornais, de ouvir rádio e de ver televisãoY O
"classe pária" de que falava Max Weber). r em por isso dl·1,1111, 1 t11l1'inl da seita se explica pela busca de uma segurança
de revelar denominadores psicológicos comuns. 11111 1c111po econômica e psicológica, em um momento
Quando D avid Lazzaretti, nos anos 1870, criou seu 1111111 111 l'onsequências da crise de 1929 perturbavam a exis-
rnento messiânico e suas comunidades agrícolas nos campo~ 1'1 ti, 11111i1ns pessoas de condição modesta. Se a comunida-
sul da Toscana, os camponeses dessa região - em geral pl''IIII 111 p111·tl11ra nos Estados Unidos é porque o êxodo dos
nos proprietários - estavam traumatizados por toda espfrh 11 11,11 ,, ns cidades e o dos negros do sul para o norte do
inovações que perturbavam um equilíbrio tradicional. /\ 1111111, 1111111111m a alimentar, nas pessoas mais traumat izadas
de italiana realizada havia pouco significava para eles um:1 1111 tlr~locamentos, a necessidade de refugiar-se no inte-
rede de comunicações, impostos diferentes daqueles do pn~ 1 1111, 111 urns de acolhida protetoras e ao mesmo tempo
do, uma comercialização até ali desconhecida dos prod1111 111 11•lnçiio a uma sociedade que as abandonou. Assim,
agrícolas. As más colheitas ocorridas nesse co ntexto acah11h111 lu ~•• 0 111 comunidades fortemente organizadas, elas se
de criar a desordem e a desorganização das relações srn l 11 1 1 11111 Deus que as "livrará da opressão dos dominado-
Reagindo contra essa situação, L azzaretti formou , sob o 111111, 111 ,11Mrcg:1ção dos segr egadores".
de Sociedade das Famílias Cristãs, comunidades rurais 1111111 111111111innmentos antropológicos mais sugestivos sobre
estruturadas. Mas ele se tornou cada vez mais agressivo r, 1~1 l11111os de outrora nos vêm sem dúvida dos estudos
relação ao E stado italiano e à I greja oficial. Passando prn· "' 1 111111· o culto melanésio do cm:go'~. A implancação polí-
rei inspirado que inauguraria a última era do mund<1, p,111° 1110111kn dos europeus e a ação missionária nos séculos
com 3 mil dos seus ao ataque da cidade mais próxima p111 11 ,1 11111vocnrnm nas populações da Papuásia um choque
instalar o reino de Deus. Foi m orto pela tropa após 11111 1111 h11 1• 11111n espécie de questionamento de sua identida-
combate (1878).'5 11 1111110 o numento das tensões muitas vezes bastante
Ao longo dos séculos XIX e XX, o Brasil viu nascei' 1111111 li 11~ Indígenas e os colonizadores. Daí o nascimento e
mais movimentos messiânicos do que a Itália. Isso ~,· ti, 1 1111 l11tlico do mito do cnrgo: no dia da vingan ça e da
explica Maria Isaura Pereira de Queiroz, ao fato de q111 11111 h111·co n vapor conduzido pelos ancestrais traria aos
movimentos messiânicos, quando eclodem no univcn,o 1111 111,111 e toda espécie de alimentos e de bens terrestres.
constituem mecanismos que visam à reorganização ela~ ~,111 -• preparavam para a vi nda do navio-milagre em
dades camponesas. Quanto mais a estrutura e a org:1111, 11 11, 1 de intensa excitação. Convulsões e tremores
dessas sociedades camponesas são frágeis, mais h,í po~~il1llhl 111111 1111111 compensação aos fracassos e às frustrações
desde os movimentos messiânicos se formarem. Ora, 110, , hl ult• 11rnltrarnda. Já não se tinha medo de violar os
.,.,ô
229
tabus da moral cotidiana mais ou menos impostos <lo extcrirn O que é verdade para as cruzadas populares o é também
A chegada do "barco dQ cargo" ia inaugurar o começo de 11111 111 osdgrupos de flagelantes, ao menos quando en~ 1349
longo período de felicidade, o triunfo de uma outra moni\ ,. 11 1lllllu
1 o na Alemanha d· - e nos Países Baixos, se u movunento
. '
estabelecimerito da igualdade entre súditos do novo reino. ,~ º:~-~.e ~a - ireçao da "busca do millenium militante e san-
thll '~ . 'stao desde então convencidos de que suas violên-
• 11111 ifi~a?oras e a morte dos ímpios desembocarão nos mil
•-1•1lc.:fileóli~1dade prometidos pelo Apocalipse. Essa radicaliza-
2. O SENTINlENTO DE INSEGURANÇA i 'l'U g1ca ._ _ se explica
,, por mo d'f' -
1 1caçoes . . no seio
sociais ' de
,.
Essas análises de fotos recentes ou atuais esclarecem rct 1·rn1 • ''.'1f.l'lll~1zaç_oes. E com efeito o momento da defecção dos no-
t ivamente as violências milenaristas que se sucederam na F.11111 ' dos bmgue_ses. Aos artesãos e aos camponeses ue er-
pa ocidental do século XLI a meados do século XVI, e até 111111 n; 1!lll~ no mov11nento juntam-se, cada vez mais nu!er!os
além. O que se encontra por trás do tabelião Tanchelm (t 11 11l li 1111ut~• foras da lei _e clérigos em ruptura com a Igreja:
que é por um momento o senhor de Anvers, e nas cruzad:l'l ti~ ttlfl c1: m uma configuração crescente de contrassocie-
"pobres" e de "pastorzinhos" que se põem em movimento 11111 ,1~rc.ssd1va ao~ gr~~os de flagelantes. O mesmo fenômeno
v,1rias vezes entre 1096 e 1320, semeando o terror à su:1 p:1•1- 1 fIV 11 ). a mais mtidamente por ocasiao
11lllll •- d a guerra hussita
gem? Sobretudo, parece, um proletariado que precisamc11t1• ,,
vocábulos pobres e pastorzinhos deixam adivinhar. Esses clc~l'Iil 1 plll,f.l''.IÇiio de João Huss é essencialmente religiosa: os abu-
cios têm dupla proveniência. Quando são oriundos das cid:uh 11 IHI<lJ.n ~ revoltam; _recusa as indulgências para pseudocru-
em particular das dos Países Baixos, representam, no mrn1 11•11t• 1h"tllJllr1a padres dignos e pobres, a' abol1·ç:;"º d a 1uerarqma
. .
em que se desenvolvem a urbanização e a indústria têxtil, 11111 1h l 11•11 te 1. seu tempo, a comunhão sob as , d uas espec1es
, . a
1
pletora de mão de obra constantemente ameaçada pelo dl· ,t tu 1li i 11t111N•cc1cla a todos (assim' empree11de t ra duz1-. 1a para' 0
prego e pela fome. Se são rurais, advínhamo-los encurr:1hult ti o entanto, no fim de sua vida, precrando entre os
na miséria pela rarefação das terras exploráveis, obri~:1d11 1111 ~1•N1 ela Boêmia meridional' ele se tor·naº .
-~~~~~tt
tornar-se diaristas e por vezes mendigos. Assim, as est rullll 1•~ 111 111sos sociais • e• contra O Anticristo e seus servi.dores
1
• "' li ric :1 lg reJa hierárquica. Queimado em C .: .
nascentes de uma economia mais aberta do que a da c_r:1 111111
já rejeitam - e expelirão para fora de si mesmas dum nu.: v1l1 l1

11t, t , • (
1 t 11 IH> 1cret1co recusara-se especialmente a subs .
onst.1ncia

séculos - infõlizes que não estão integrados nem à cid:u l1• 111 111111\'1\0 ele \ i\Tyclif) ' torna-se · um I1 ero1
,. nac1ona
. 1. Üerever
ra a
cresce nem ao ~miverso rural, portanto pessoas sem cs\1111111 111~ \11 t
1 p 1cspcrtada por sua morte e pela d e seu amigo .'
disponíveis para todos os sonhos, todas as violênci,1s, 1rnh1 11111 , t' roga propaga-se em uma população há muito
desforras que profetas lhes propõem. Engrossados por ~ol,liul 111111tl11111
11 , po r razões econômicas
1 •• d • · As elesvaionzaçoes
. -
sem emprego, clérigos em situação irregular, nohn·~ ,~' li o t ,1 os preços enfraquece m o modesto oder
dinheiro e criminosos de toda laia, reunidos atrás de 1111 1111 1 ,los humildes. A exr)loração do rnu11do campones p ~
que se dizem por vezes portadores <le uma me11st1p;c·111 ,i/1 li111 1n i 1uplo movimento de corveias senho na1s . . mais .
proclamam a vinda iminente de um tempo de igualdack, 11111 i t(1lt' 110 .1rnssac1o e de um fisco pontifical mais exigen-

eram os judeus inimigos e sanguessugas dos cristãos, q1111 11111 1•~pol1:1clos dos rurais afluem para as cidade
l, p. . s,e1n
pela força reconduzir a Igreja à sua primitiva pobrez:1. 11111
, 1 1ng:1, que at1nge 35 mil habitantes por volta de

231
111 t•~s de si para esperar o retorno do Cristo rei na cida-
1400. Contar-se-iam então ali 40% de indigentes. Revcla11d11
11111. Os anos 1420-1 marcaram a etapa quiliasta da revo-
insuficiente a oferta de contratação em canteiros de obrn ~•0 1111
111l11wita. Uns cinquenta padres, pequenos pregadores
o da catedral, a municipalidade vende aos milhares objeto•, 1111
desafortunados da cidade precisaram empenhar para to111111 11 , 11111st ituem então a elite no poder na nova Jerusalém
1
empréstimo o dinheiro necessário à sua subsistência."' Q 11l III 111h• mnfluem miseráveis da Alemanha, da Áustria, da Es~
ocupará do papel das dívidas nas angústias dos pobres?
11 llht ,, dn Polônia. Em Tabor, a distinção entre clérigos e
Contudo, a guerra hussita (1419-34) não é um simplc•, 1111 1h ~,,pareceu; a Igreja não é mais uma instituição; rejei-
sódio de luta de classes. Dos "Quatro Artigos" de 1420 1111 11 li\ 1111 presença real na eucaristia e abandonou-se a cren-

definem a oposição a Roma e ao rei Sigismundo, um únil'II li 11 11111 ~ntório, nos sacramentos, na prece aos santos e nas
incidências sociais: a exigência de secularização dos hc1111 ,t 11111\'0cs. A propriedade privada foi abolida, assim como
Igreja. Os três outros exigem a liberdade de pregar, a _rn11111 h1111~ 11o s encargos senhoriais. Prediz-se ao mesmo tempo
nhão sob as duas espécies e a punição dos pecados mon,11s pil ,l,1 p11íxima nos mil anos de felicididade. Então "os indi-
autoridades civis. Há então nobres e burgueses hussit,1s 1 ,h l~nriio de ser oprimidos, os nobres serão queimados
"calistinos", assim chamados por causa da reivindica~·,,11 ,1 11111111 no braseiro [...], todas as taxas e impostos serão
cálice para os leigos, são moderados, reformistas que :1<.:1111111 ••• ning uém forçará ninguém a fazer o que quer que seja,
por entender-se com o Concílio de Basileia e com Sigis11111 111I 1h1~ 11uriio iguais e irmãos".2; N a própria Tabor, depois
Mas, ao lado deles, surgem radicais que são no mais d:1s v, 11 11111·1c onde os taboritas pusere m os pés, as dores hu-
pobres, desenraizados e que tendem a cair no milc11:11•l~111 ,h ~11p11rccerão, as mulheres darão à luz sem dor. A ida
Desta vez ainda, insegurança econômica e psicológica, dt< Ili 1111111ii11 de milenaristas originários do norte da França
lado, e esperanças apocalípticas, do outro, encontram-Sl' 111 ) 1111 tios Países Baixos (beghards ou irmãos do Livre Es-
das. É em 1419 que se forma essa ala hussita radical co111p1, t 111111111c nte contribuiu para reforçar o quiliasmo dos
de camponeses indigentes, de criados, de trabalhadores li ~ ,,1 • 111111s r:idicais, entre os quais alguns teriam caído no
22
riados, de fidalgos e burgueses empobrecidos e de prcw11h11 11111, 11olcbrando "festas de amor", praticando o nudismo
itinerantes. Eles se reúnem no campo em vastas pereg ri1111~1, , , ,il111ndo a emancipação sexual.
tentam fazer sua junção com os pobres de Praga. A ca1li111I Ih 11, 11111101 o chefe militar dos taboritas, João Zizka, o
rá finalmente nas mãos dos moderados e rejeitará seus d1 11111, 111 , ,111l ho, não era quiliasta e ligava-se ao cálice. Con-
1
tos mais agita€1os. Mas na Boêmia meridional e o cidl lll 11 111 q1w ns loucuras milenaristas enfraqueciam o campo
heresia se instai~ solidamente nas cinco cidades escolh id11, 1° lt t, 111wscguiu e mandou queimar os adamitas. A partir
Deus. No momento - próximo - em que termin.ir:I 11 11 li
11li111'1111s sob seu comando - e depois de sua morte
do Anticristo, é ali que Jesus descerá novamente à terrn , 1h 111111 dl) padre Prokop, o Grande - puseram os pés no
1420, os radicais começam a erguer sobre o pico ontk NI II
1111 t 11duziram em suas fileiras certa hierarquia. Tabor
vava o castelo de Hradiste a fortaleza revolucionári,1 dt· ' l 111,
1111111 cidade, com um número crescente de artesãos.
que se tornará progressivamente uma cidade. Aqueles q tH' 1, ,,
1111111111 nessa república democrática os camponeses e os
troem febrilmente as primeiras casas e as muralhas s~o N11l11
1111lh1111 realmente participar da vida política e desem-
tudo servos, camponeses, criados. Habitantes de a ldciuH \ 1
1111 p11pt1I religioso: razão pela qual ela estava destinada
nhas queimaram sua própria casa e cortaram assim 1rnl11
233
à morte no contexto da época. Em 1434 os taboritas l'rn 11111 1 "11lu111entos desclassificados da velha sociedade feuda l e
vencidos em Lipany pelos hussitas moderados e pelos c:11(,lit 11 Ili ,li 1v11 e elementos do proletariado não desenvolvidos
coligados; contudo sua resistência se prolongou até 1452. 11, •llH'll:1S embrionários, da sociedade burguesa moderna
O laço entre milenarismo e insegurança econômica 1• l I d1· nascer".u, Na região do Reno, entre 1500 e 1520
portanto também psicológica - é reencontrado, um _sfr11h, Ili ,1111 diversas sublevações conhecidas sob o nome coleti-
após o quiliasmo raborita, nas motivações e na ação da L>[.(ll 1h1 /111111/,1·c/mb (tamanco), que reuniram seguramente cam-
Eleitos, que, sob o impulso de Müntzer, interveio em 152 ~ 111 1 •• 11111s também pobres das cidades, mendigos, mercerní-

revolta dos camponeses alemães. Embora a derrota de Mii111 , , 1 11 ,1111 l:S ... Ora, o Bimdsclmh v isava a uma revolução radica 1
tenha sido também a dos camponeses, já que combatera11, j1111 1 1d11 por sonhos apocalípticos, que um Liv1'0 dos ce111 cnpí-
tos não se deve confundir as reivindicações moderadas <k 11ll ~1 1ho no início do século xv por um revoluciornhio do

co1~1 o programa incenclüfrio do outro.24 Os principais t c111111 lt11111, nos faz conhecer: uma vez vencidos os exércitos
da revolta foram a Alsácia, a Alemanha do oeste e do sul, 11111!. Ili li , INto e eliminados os blasfemadores, a justiça reinaria
Müntzer não exerceu, ao que parece, nenhuma influênci.1. /\ 1t 111 1 111111111, e todos os homens seriam irmãos e iguais. As
disso, os "rústicos", a despeito desse apelido pejorativo, li 1 tl\ •I~ do Bundsclmh permaneciam vivas no momento em
constituíam uma massa misedvel que teria se rebelado po1 IIIU h11ll11 n g uerra dos campon eses em 1524 e estes puseram
impulso desesperado, brutal e irrefletido. Foram guiadcm p1,, 1111111 tHll suas bandeiras. P or outro lado, a Turín gia e o
inúmeros magistrados municipais, que dispunham de «'l'I 1 i. l\íl1tl:1, onde se situou a ação de Mi:intzer, havia muito
experiência administrativa, e por padres partidários das id11 11 ,1111 Il i ravessados por agitações milenaristas explicadas

novas.H Os doze pontos principais ele seu programa n~o 111,111 1tt\ 1111 ldnclc da Boêmia e pela presença de minas de prata
utópicos. Reclamavam para as comunidades o direito de 1·lt Iº • 111 i',wickau e em Mansfeld. Ondas de trabalhadores
e de destituir seus pastores, a redução ou a supressfo d:1~ 111 1 ~i.1111 pnr:i essas minas, onde o excedente de mão ele
mas, taxas e corveias, o restabelecimento dos antigos 11 ~0 ~ 11 11 111i11ico. Além disso, parece que a indústria t êxti]
justiça, a liberdade de caçar, pescar e utilizar os bens co1111111111 1111líl11'l linha estado em crise. Foi frequentando os tece-
N,1 realidade, um estrato social cuja posição econômica 111l'll11 11 lt1lrn11 que Thomas .M üntzer, um padre versado nas
rara durante o período precedente estava agora inquieto rl h,111 111 ,_ 11 que de início seguira Lutero, converteu-se ao
da ascensão dos principados absolutistas no interior do l11tp 11111 11•vlll1tcionário. O fim do mundo corrompido está
rio. Essa ascensão. dos Estados significava, para a m:1iol'i11 ti, 11 dl1lt1 d e, os eleitos devem sublevar-se para abater o

camponeses, tai(as novas, o direito romano em substittti\·1111 1 1 111, IIN inimigos de Deus. "Cada um deve arrancar as
costumes e a crescente ingerência da administração ccnt 1'111 li l 1111til111s dn vinha do Senhor [...l, Ora, os anjos que
negócios locais. 111 l11l1•t· para essa tarefa não são outros senão os de-
l\1as correntes milenaristas, difundidas especialrn1•111t • 11 ldorcs do Senhor [...], pois os maus n ão têm ne-
partir da Boêmia, interferiram nessa revolta; e seus p l'llp11 1111 1111 de vive r, a não ser enquanto os eleitos a isso os
dores foram esses mesmos elementos social e psicologit·:11111 1,., 111 ·• l lmn vez destruídos os inim igos de Deus, os mil
frágeis que já encontramos nas cruzadas de "pastorwtl11 lt 111 l1l11dc e igualdade poderão começar. Os campone-
nos grupos d e flagelantes e nos meios extremistas de ' I 11h 11111111~111, 1·cvoltados que não tinham obtido a caução de
Era o lumpenproletariado _de que falou Engels. Reu11:1i , 11N1 , 1li, 1ti 111 o npoio de Nli.intzer, que foi ao seu e ncontro

235
1hll11,
1 1 foram proscritos e deles se fez tima rog
i, . dºrnnte d a
ue1ra
com seus discípulos mais fanáticos. Foram vencidos juntos l!lll
15 de maio de 1525 em Frankenhausen. Müntzer foi decapilil
ht "º.: desforra de uma cultura oral sobre uma cultura escr i-
111111mlerada opressora.
do dez dias depois. l>csde
A explosão milenarista mais violenta do século XVI - 1 1111 d fevereiro de 1534 o bispo de Mu"nste1· • c omeçarn as
,,1 < ~1 es C_?ntra a ci_dade rebelde e reunira tropas para um
também a roais esclarecedora para nós - é a que triunfou 11 o, Lste . nao fez mais do que reforçar tanto a exa 1taçao - ea
momentaneamente em MünstJr em 1534-5. O papel desemp1
11-1111 ~in cidade quanto o terror que seus novos chefes ali fize-
n hado no decorrer dessa tragédia pelos elementos mais "dcsl11
111 11111•1-~ r. Ter:do Jean !"latthys sido morto no decorrer de
cados" da sociedade da época aparece aqui em plena luz. NcM~11 li 1 ~111 tida, Joao de Le1den, um filho natural que de . , .
li 111 ·c d' d
cidade episcopal, as gui\das tomaram o poder em 1532, cxp11I i 1 ·n tz e a lf:arnte, . depois comerciante sem clienteh !Jl!CIO
saram o bispo e instalaram a Reforma luterana. lvlas, na mcs1111 111111 se o chefe da nova Jerusalém. A legislação sobre o tr~~
época, uma agitação anabatista sustentada por profecias sohic•11 1h11 1•:nnsformou os artesãos em empregados públ ic . .
mille11iu111 desenvolvia-se nos Países Baixos e na Vestfá)i;1. I•'.~ 1 IM 11111Ul bíblica foi instaurada (com exclusivo benefíci:sdo:
propaganda tinha sucesso particularmente entre os miscdv, 1 1111111) e, enquanto a cidad~ repelia as tropas do bispo, João
e os desenraizados de toda espécie. Expulsos um pouco em 1111I I , ldu'.'. se fez proclam~r re1. Vestia-se com trajes suntuosos,
parte, esses anabatistas refluíram para Münster. li ,1 se de uma corte, impondo à massa austeridade rio-oro-
"Assim chegaram", escreve um contemporâneo, "hol:1111h 1111 Mllnrda era composta de imigrados • 1~o d a opos1çao · -b era
ses, frísios e celerados de todas as origens, que jamais se h.lVlilll' 1'1111 1•0111 a morte. . Incansavelmente, diz,·,,,.-se a, popn 1açao-
fixado em parte alguma: alcançaram 1\tlünster e ali se n •1111I li 1:1111po das tnbul~ções chegava a seu termo. Cristo ia
ram." Outros documentos falam de maneira semelhante i.11111 1111, 1Nlnbelecer. . seu remo em Münster. Desse remo, . o povo
"fugitivos, exilados, criminosos e pessoas que, tendo dil:1pi1h11I, 111 p111•1tna, armado do gládio de justiça, para estender o
a fortuna de seus pais, não ganhavam nada por sua p1·111111 11t1 de Deus até os extremos da terra. Mas, na noite de 24
indústria (...]".' 8 11111l111 de 1535, os sitiantes lançaram um ataque surpresa e
N ão se poderia sublinhar melhor o laço entre milcn:11'1~111 hI ili ,1111-se da cidade esgotada. Todos os chefes anabatistas
revolucionário e população marginal, urbana ou r11r:d, l 1 111 11111Nsncrados.
fevereiro de 1534, os anabatistas guiados por dois necrl:,rnh 1 ld11ologia milenarista, em particular em sua versão vio-
Jean Matthys./:!Jan Beukels Qoão de Leiden) apoderar:1111 "' 11 1111 uma resposta radicalmente tranquilizadora à angústia
prefeitura e i-da· direção da cidade onde o delírio profé111 n 1 111111 que se sentiam rejeitadas pela sociedade e viviam no
durante mais de um ano realidade cotidiana. Católicos 1• h11 1 ,h 11~:rder: toda identidade. Assim, procuravam refugiar-

ranos foram expulsos como "ímpios" em meio a uma 1,·11q1 ll1Bll{lll:fr1~: o qu_e lhes era permitido pelos sonhos apoca-
1 ,1 q11c o _c1rterc1ense calabrêsJoaquim de Flora (t 1202)
tade de neve. O resto da população se fez rebatizar. · 1iul11
contrat•s, todas as cautelas de d(vidas foram queimadm . ( 111 11111 11ovo impulso. Homem de paz, esse santo religioso
tituíram-se depósitos de roupas, pertences de cama, rnohlll11t ,~ (purn 1260) o começo de uma era do Espírito, no de-
utensílios e alimento geridos por sete "diáconos". A prnpt lt 1 ,1 1 4111nl a l~m~rnnidade, doravante governada por mon-
1111111•10r-se-rn a pobreza evangélica • Mas, 0rranh an d o uma
de privada do dinheiro foi abolida. Alojamentos for:1111 li 11
~11 iu> mesmo tempo revolucionária e antiascética, essa
sitados para numerosos imigrantes. Todos os livros, 1011
237
l 1~pccialmente
, , . _o caso em . Münster· N:-ao viam
·. contrad1çao. -
profecia tornou-se, no espírito dos quiliastas agressivos, o amí 11
- • 1 oneraste:
. nao
r se devia honra e glóna . aque
. 1e que, magi- .
cio de uma nova idade de ouro que seri,1 exatamente o invcn,11
1111•111 c, ia .transrormar
• a face da Terra e cond uz1r. seu peque-
daquela na qual uma sociedade odiosa os obrigava a viver. N11o
1111110 e1~1to a conquista do universo? Assim não se p .
haveria mais servidão, nem impostos, nem coações, nem pro 111111•ii;óna relação das forças entre os soldad,os do .,,ens_ava
priedade privada, nem tristeza, nem dores. Um universo 1\t 11• litc , . . . nu,.,enm111
1~) ·ontave1s
· b m1111igos. Deus comb·'t1·a
· " ' com se us serv1"do-
miséria e de injustiça, mediante, é verdade, a travessia de u111
período trágico, poderia se metamorfosear em terra d e felicidn I\ 111~p01s,
' 0 ll em
ruscamente, em Frankenhausen em 15 d
M·· ,
unster, em 24 de junho de 1535 era 0 d
e nu10
..

111 o eh
de. Esse mito do retorno a um paraíso terrestre constituía 1111111
i' ' ,. oque :ontra uma realidade que guardara, consistên- es-
tranquilização urna vez que extraía das Escrituras dupla g.11'111\ , 111cza. Entao era a debandada. Mas nem por isso o mito
tia. Pois não apenas era anunci,1do para um futuro próxi111111 \11 IIIOl'tO. 1
mas realmente existira no momento da criação. Era preciso, 1 ( 111 111ilenarismos revolucionários não constituem senão
claro, não permanecer passivo à aproximação dos prazos nprn•11 ' - 1·mutes
1h1 t'llSOS · que permitem perceber com uma lente umade
lípticos. Os eleitos deviam apressar a hora da grande reviravolt11 1 1110 tna relação i_nais geral entre marginais e violências
e facilitar o advento do mi!lenimn rompendo os obstáculos q111 lhll~ 1 e outro~ª: Pms em muitas sedições entravam em cena
se opunham ainda a seu triunfo: e isso acabando com o pOlh 1 11111111hnndo I . dmgentes
. que eram
' freq uentemente artesaos, _ '
dos ricos e da Igreja, queimando os castelos e os convc11111 , ,_ 11111 m sendas na sociedade. As agitações urbanas dos
destruindo as imagens. Encarregados dessa missão vingadrn 111 1lm l.,IV•XVIJI e ,:specialmente as que marcaram em Paris o
dessa obra purifica<lora, indivíduos que, isolados, não pass:1\111111 \li dn Revoluçao Francesa teriam sido menos numerosas
de excluídos, doravante sentiam neles uma força invendv11 m ~11llf(rentas
1 - sem a presenç·1' nas c1·dades de uma 1mpor-
. . e
Convencidos de constituir uma elite de santos, comunid11d1 1111p11 nçao flutuante em busca de pão e de trabalh E . .
', ll'~lo ,, d "'9 - . o. sses
paracléticas, ilhotas de justiça no seio de um mundo con·rn11pl c.1 os ·. que nao tinham nada a perder clese'avam
do, não podiam mais admitir hesitações nem discussões. :0,11, 11th ldn,l\'I no1·,mais- profundo
. de si mesmos um estat t J . I
-, u osoc1a
certeza e sua intransigência tornavam-se cortantes como o 1\111 •111 1 n Jª nao senam criaturas abandonadas. E toda oca-
1
dio, sobretudo se se encontravam ao abrigo das muralh11, 1h 1111 • ,,rn boa para vingar-se dessa frustração.
uma cidade santa - Tabor ou Münster. Àqueles que sê e rg11 h1111
em seu cami11ho, não prometiam senão a morte. Eram o~ j11
1,1h1\'1lo entre revoltas e sentimento de insegurança d .
tos; os outrQS, ·c ulpados; e soara a hora do castigo dos iní11tl1111
de Deus. E~sa tranquilização ideológica ora forçada por 11111 i I i•scla recida por uma nova perspectiva que
h11 ,1 lllll cio. frequente
t~r:
entre as violências colet'1vasg e a
obediência, também ela tranquilizadora, a um chcfr qu .d
ganhava traços de salvador e messias - Tanchelm, Münt1.1•1li" li 11" 11111 1e1e f 'm a suscitada por uma vacancia d O pod er
A •

João de Leiden. Creditado de poderes miraculosos, ele cr:1 "p , ••~Mil n_preensão então atingir pessoas normalmente
e por vezes mesmo um rei, com tudo que esse título 01111 Ili ,111~ 1\ NOC~edade. No vazio deixado pela anulação ela auto-
comportava de sacralização. Seus fiéis, que viviam eles propl h 11 I li li'º!ª r-se t~da espécie de temores que remetem a
no despojamento, aceitavam então vê-lo suntuosamc111c v,•~I • '
"'"' lul1111gos reais ou unaginári ' ·os• Cons1·c1erem-se como
do, cercado de uma corte e de um cerimonial monárq11 í111 1111 1 ~lllllplo, em 1358 ' os distúrb1·os revoluc1onanos
· , '. d e

239
<) elo cronológico, se não constante ao menos frequente,
Paris e a Jaqueira.* No segundo plano psicológico desses movi
mentas, descobre-se a desordem provocada pela derrota d1• 111• vacâ ncia do poder e sedições destaca-se com evidência de
11111 lista mesmo sumária. A morte de Carlos v em 1380 e a
Poitiers (em 13 de setembro de 1356).
\'11~ilo de Carlos VI, que só tinha doze anos, foram rapida-
Com O que [escreve Froissart) os nobres_ r:i?os fo~·am d11 1111• seguidas de distúrbios urbanos dos quais os principais
ramente enfraquecidos, e em grande m1sena e tn?uhl~·110 lrnllrnm em 1382 em Rouen ("o tumulto") e em Paris (re-
mergulhados (...]. Se os reinos da Inglaterra e os. m g~cs1•, llA11 tias "maças").31 O reinado do rei demente - e como tal
e seus aliados regozijaram-se com a captura do rei J oao d1 11111, de governar - foi ainda marcado em Paris pela
França, os reinos de França foram dura1:1ent~ perturb;1d11, 111 wiçiio Cabochienne (1413). A grande revolta dos campo-
e ultrajados; houve bastante razão, p01s foi u1:1a g ra 11d1 ' 1111.('leses se produziu quatro anos apenas após a morte de
e aniquiladora desolação para todas as categorias ? e p1•, 11111.lo 111, que faleceu em 1377, depois de um reinado de mais
soas. E sentiram bem então os sábios homens do reino q111 l111111unta anos. Seu filho, o Príncipe Negro, o precedera de
grande ca Iam idade daí nascer_ia; pois os reis, seus scn h o1,'11 Ili• 1111.: ses na sepultura; então foi seu neto Ricardo quem o
e toda a elite na boa cavalaria de França estavam 11101111 1h 11. Tinha só catorze anos quando "essas pessoas más -
ou capturados e os três filhos do rei que hav!am retorm1d11 lllpnncses - começaram a erguer-se [...] como Lúcifer fez
1
Carlos, Loeis e João, eram muito jovens de idade e de l'UII li 1 1hl11s".13 A revolta da Boêmia coincidiu com a morte do
1
selho· não tinham neles pequenos recursos, nenhu111 d11 \ 1111•1•slan (1419); as guerras religiosas na França, com a
ditos'filhos queria empreender o governo ~o dito rc_i110 111 h1l)WISe permanente do poder que começou com a mor-
Com tudo isso, os cavaleiros e escudeiros que u11lrn111 p11rndn de Henrique II e culminou com o assassinato de
retornado da batalha estavam tão feridos e desgostosoi, 1h1 1h111c• Ili. A inquietação durante o reinado deste foi conti-
conjurações que voltavam de má vontade para as h o 11N 11 1111111 s ustentada por sua ausência ele descendência.
dadeslº. 111111111c, a abjuração de H enrique IV produziu um choque
l1\ult•o salutar: a França teve o sentimento de ter nova-
João, 0 Bom, cativo; os filhos do rei jovens clema i~ p1t1 11111 verdadeiro rei. Quanto à Fronda, produziu-se du-
governar; os melhores cava~eiros _n:ortos ou capturados!" t:lr•, d 1111111 1'cl{ência.
súbito, 0 vazio na existência cot1d1ana de cada t~rn, o dt ~11111 11 11 1111 d(1vida no início da Revolução Francesa que se
mento elas proteções ordinárias. Tornando-se ~ns1osos, rn111111 111 ,11111 ir mais nit idamente os efeitos psicológicos pertur-
1 neses e citadió.os sentem que devem eles propnos co111111 11 il1111111 vazio político. Retomemos brevemente o filme
mãos seu destino e, em primeiro lugar, castigar os maus 1·1111 11111 11l111cntos. Em maio de 1789, os Estados Gerais se
1
Jheiros do soberano e tantos n~bres que, em vez _d e 11101'1 l'I 1 1p111 t•onvocação de Luís XVI. Mas em 19 de junho o r ei

1
Poitiers, fugiram ou traíram. E apenas justo queunar Sl'II ~ ' • 1, • lhlN sessões e, no dia 23, determina que só deliberem
telas e lembrar-se dos rancores por longo tempo :icu11111li11I l1111111111t•, N o dia 27, volta atrás nessa decisão e aceita
. . li
1
contra sua tirama. 11 l11N do ravante Assembleia Nacional. Na realidade,
11,1,~11 de um ardil, já que ele reúne tropas e, em 11 de
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• Sublevação dos camponeses franceses contra os senhores. (N. 1 ) 111111• Nccker. Seis dias depois, chama-o de volta, ensi-

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') ,1l/l
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nado que foi pelos acontecimentos de Paris. As tropas rcwr 1 MIWOS MAIS PRECISOS
nam então às suas casernas, para g rande inquietação chi cla~,r
abastada. Em 4 de agosto, a Assembleia Nacional vota n 1> sentimento de inseg~rança, ao menos nas formas que
supressão (teórica) dos direitos feuda is. Mas o rei recusa-se li 11111110s de dcs~rever, m mtas vezes era mais vivido do que
referendar a decisão dos deputados. Conduzido a Paris em 6 de 1 1111c11te consciente. Em compensação, certos medos mais
outubro pela mult idão exaltada, aceita então os famosos clccn• • ,~os, e que nem sempre eram imaginários, freq uentemente
tos. Além disso, durante esses dez meses ardentes, os fram·1· llllll'lnvnm as revoltas. Insurgindo-se por várias vezes contra
ses, divididos entre imensas esperanças e vivas apreenst,1°\ 1 _p,1nh6is desde o século X'VI até o século xv111 (e muito mais
assistiram à desagregação do exército, à fuga dos no bres m11I~ IU 11d1111~e~1te do qu~ a historiografia oficial por lon go tempo
em evidência, à substituição das paralisadas autoridades lornl h1111 ntl1vmhar), os mdígenas do México e do Peru sabiam-se
por novas municipalidades apressadamente formadas. A ann,1 1\,ldos em sua identidade mais profunda pela cultura dos
dura estata l do Antigo Regime dissolveu-se; ao que se acn•,, u1111111ndo_res e especialmente pelo batismo, pelo catecismo e
centou a ameaça da bancarrota. Daí um sentimento profu11d11 I~- liturgias dos missionários europeus. D aí suas retiradas
de insegurança em um país que se acreditou aberto aos saqu1•11 t 11111s ~ara as zona_s montanhosas, seus ataques súbitos con-
dores, aos complôs, aos exércitos estrangeiros. Era prcdN11 ,_ 1tldc1as de colo111zação e de c ristianização, suas violênc ias,
u rgentemente inventar os meios de uma autodefesa e elimi11111 111 1 nr~·c r das reb_eli~es, contra os religiosos, as igrejas, os
os múltiplos inimigos cuja ação se temia. Tal foi o clima qu1 , .,~ imagens cnstas etc. No Peru e no México do século
permitiu a multiplicação e a difusão dos pavores locais conhr 1 • ~~ns insu_rreições ganharam por vezes uma coloração
ciclos sob o nome de Grande Medo.3; Poderíamos ainda b:1,1•111 1 11,11 l111_n n~mto reveladora do choque entre duas culturas:
a demonstração em exemplos mais recentes. As inúmeras :1111 11111 pr11ne1ro momento, o Deus dos cristãos vencera os deu-
tações que a França conheceu em 1848 se explicam pela t'ílll 1111 ,IIN e os espanhóis, os indígenas. Mas "agora o mundo
junção de uma agressão fiscal (imposto de 45 cêntimos) rn111 1 li 1\ 11 ~cu retomo, Deus e os espanhóis seriam vencidos
vacância da legitimidade (governo de uma assembleia prm 1 11 1 1 1, e todos os espanhóis mortos, suas cidades tragadas ~
sória).i5 111 111 1111cher-se para afogá-los e abolir sua memória"_i,, Eis
O vazio de poder é um fenômeno ambíguo. Deixa liv11 11 oi 1111 México, em pleno século XX, uma situação aparente-
caminho de forças que permaneciam comprimidas en<fu:11110 , Ih 111vcrsa, o nde o catolicismo é, desta vez, vítima da perse-
autoridade era sólida. Abre um período de permissivid:uh 111 Nos campos do centro do país ele foi reforçado no final
Desemboca na esperança, na liberdade, na per missão c n., ll·,1 1 • 1110 XI~ p~r um renascimento da pregação e tornou-se a
Não secreta, 1portanto, apenas o medo. Libera também •1111 1111 ~11hstanc,a da consciência popular em um momento em
contrário. Como negar no entanto a carga de inquietaçiio 11111 11 ,1111 idcricais das ?randes cidades - burocratas, burgne-
encerra? Ele cria uma vertigem; é r uptura com uma co111 i1111I 111llhnrcs - quenam destruir o clero, a Igreja e a fé. É
dade; logo, com a segurança. É portador de amanhãs i1Jlºl'l l11 1 11111 t·mnbate entre duas culturas. Nos anos 1920 u m
que serão talvez melhores ou talvez piores que ontem. E µ1•11 111.!11 que exprime bem o radicalismo antirreligioso ~ntão
dor de uma ansiedade e de um ener vamento que podem l.u li ,h 1 111lo teme afir mar:
mente conduzir às agitações violentas.

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[...] É preciso penetrar nas famílias, quebrar as estátuas e 1111 Voltemos agora à Europa e, recuando no tempo, descobri-
imagens dos santos, pulverizar os rosários, despregar os cr11 11111s facilmente na origem de certas sedições outros medos
cifixos, confiscar as novenas e outras coisas, trancar as pOI 11110 fundados, mas também eles acompanhados de uma proli-
tas contra o padre, suprimir a liberdade de associação p11111 111\'IIO do imaginário. Durante vários séculos, as populações
que ninguém vá às igrejas conviver com os padres, supri1 11lt • puquenas cidades e das regiões descampadas temeram com
a liberdade da imprensa para impedir a publicidade clcri1·11I, ,111 rnzão o vaivém dos guerreiros, ainda que não fossem ofi-
destruir a liberdade religiosa e afinal, nessa orgia de intolL 1l1111.1 11te inimigos. Na França, esse temor parece ter tomado
rância satisfeita, proclamar um artigo único: na Repúhl i1·11, 1p, 1 1rn época das grandes companhias e só declinou progres-
só haverá garantia para aqueles que pensam como nós." 1111m11te a partir do momento em que Luís XIV e Louvais
111111111 casernas e impuseram ao exército disciplina mais estri-
Na lógica de tal programa, o presidente Calles (1924-8) d1•d h oissart, contando os acontecimentos do ano de 1357, relata
de em 1926 o fechamento das igrejas e a expulsão dos pad1 1• 1111 n~ más ações desses soldados-bandidos na Ile-de-France:
Durante cinco meses os mais zelosos dos católicos mexicanos
essencialmente camponeses - tentam, à custa de penitências e d, 1 ,11 l~les] conquistaram e roubaram dia a dia todo o país en-
preces, obter do céu que abrande o coração do novo faraó. M :1s t 1h t I e• o rio Loire e o rio Sena; por isso ninguém ousava ir en-
permanece empedernido. E ntão, ameaçados de perder a al111111 111• Pnris e Vendôme, nem entr e Paris e Orleans, nem entre
despeito dos conselhos de prudência da hierarquia e do V:Hit·11111, l1,111ls e Montargies, nem ninguém da região ousava ali per-
espontaneamente os cristeros sublevam-se, depois se organiz:1111 1 llllllHJcer; antes todas as pessoas dos descampados tinham
durante três anos, impedem a vitória das tropas governamcntnl ••· 1•cf'ugiado em Paris ou em Orleans [...], e não permanecia
Inevitavelmente, os medos legítimos que acabamos dt: 1•111 1111l\'II, cidade nem fortaleza se não fosse muito bem guarda-
car diante de perigos que eram muito reais foram reforçndit tl11, que não estivesse agora toda roubada e perseguida (...).
por temores suscitados pela imaginação coletiva. Nas pop11li1 1 t nvn lgavam pelo país em bandos, aqui vinte, ali t rinta, lá
ções indígenas do Peru central, por volta de 1560, espalho11 1 1111111·cnta e não encontravam quem os desviasse nem com-
o rumor de que os brancos tinham chegado à Améric:1 p11t , l1,111•NSC para lhes causar dano.4 1
m atar os indígenas, dos quais utilizavam a gordura com<>nw1II
camento. Os indígenas fugiam então de todo contato colll 1, " • Hl'llndes companhias grassaram também no século XIV
espanhóis e rectlsavam-se a servi-los.'" Entre os Tarahu11111111 1111111111dia, no vale do Rhône e em Languedoc. Nesta últi-
do México, que se revoltaram várias vezes contra os ocup:11111 1111h10, os bandidos lutavam seja por sua própria cÓnta, seja
especialmente em 1697-8, os feiticeiros afirmavam que o~ ~11111 1l1h1 d1· Jean d'Armagnac ou do conde de Foix, então em
das igrejas atraíam as epidemias, que o batismo contamin11l'1I 11 t 1,1 No decorrer dos anos 1360- 80, a miséria tornou-se
crianças e que os missionários eram mágicos.i9 Quanto 111, h 1 1 110s campos do sudoeste, incessantemente percorddos
a-isteros, no início da atroz repressão antirrelig·iosa, pcmn 11llt l1111m111s ele armas ávidos ele pilhagem. Já não havia segu-
que o dia do Juízo chegara e que não estavam às voltas <.:OIII " p11111 o camponês, e o mercador já não se aventurava pelos
exército do governo, mas com o do próprio Lúcifer": º 1111h1111, Viram-se então pobres pessoas abandonar em sua
11,1 1111s se refugiaram nas cidades fortes, os outros se rea-
l'"' ,1111 nos bosques e também se puseram a pilhar para
viver. Estes eram os Tucbi11s, cujo nome remete à toucbe (isto 1 , 111los fra nceses dos dois campos conduziram-se muitas vezes
fração de floresta), onde esses infelizes buscavam asilo: : S1•11 1111 \lllteadores. Em 1578, nos Estados do Languedoc, hostis
número e sua pilhagem foram sobretudo importantes por voll 11 p101cstantes, é verdade, era desolador ver
de 1380 no alto e no baixo Languedoc e em Auvergne.
Os testemunhos sohre os malefícios causados pela p:1'~11 1,1 ri terra coberta do sangue do pobre camponês, das po-
gem e pelo alojamento dos homens de tropas são inúmero, 1111 111 I'\ mulheres e crianças; as cidades e casas dos campos d e-
longo dos séculos do Antigo Regime. Em 1557, Milão enviou 11 _.., 1ns, arr uinadas e na maior parte queimadas e tudo isso
Filipe II um embaixador, que declarou ao rei: 1111" o edito de pacificação (de 1576) [...]. Tão é pelos tár-
1110s, pelos turcos nem pelos moscovitas, mas por aqueles
Esse Estado [o ducado de Milão] está em sua maior p:11 lt 11111• nnsceram e foram alimentados no dito pnís e que pro-
tão destruído e arruinado que já numerosas terras fo n1111 lt ,~n m a religião que se diz reformada.••
abandonadas[ ...]. Essa ruína provém de tudo que pesa ~0l11 1
o Estado: tanto os impostos extraordinários [...] qu:11111111 \ C:ucrra dos Trinta Anos reavivou em grande parte da
alojamento dos soldados. Estes são uma tal carga parn 11 r111111 o temor da passagem e do alojamento dos homens de
populações que é coisa inacreditável. E isso tanto mais q111 li (,
seu comportamento é sem piedade nem medida, cheio 11. l 111 Is r1veut11ms de Si111p!icissi111us, romance escrito por uma
crueldade e de cupidez. [D aí] a exasperação dos súditos, lllt 1111111hn da Guerra dos Trinta Anos, um soldado declara: "O
mesmo seu extremo ck sespero. [Daí) a calamidade e a d1 11111 ,11 rega quem quer que se deixe levar pela piedade; ao diabo
truição ele certas cidades [...], como Alexandria, Tortrn11 111 ljlll'I' que não mate impiedosamente o camponês, quem quer
Vigevano com seus territórios, e da maior parte da rq 1ln11 111111•11rc nn guerra outra coisa que não seu proveito pessoal".
de P.ídua, em particular a Lomellina, onde[... l ini.'11111•111 11 lll'rt'>i ele Si:mplicissi11111s conta como sua aldeia foi pilhadn por
habitantes, após terem perdido o que os fazia viver, p.1111 11 •1p11 ele soldados e como seus habitantes foram torturados:
ram e se dispersaram por outras regiões.u
1111~11'11111-se então a retirar da porca dns pistolns as peder-
Na segunda metade do sécu lo XIV, as guerras religios:1~ p111 11111,1'1, mns para substituí-las por polegares de campone-
vocaram por v:íçias vezes a ida de soldados estrangeiros à Frall\ 1 1 ~ ,, IOrlllrar os pobres miseráveis, como se se tratasse de
espanhóis, itaijanos e suíços do lado católico, suíços igunl1111•11h 11111 1111111· feitice iras. Ali,ís, os soldados já haviam lançado ao
ingleses e sobretudo alemães do lado protestante. Este~ 11h l 11111111 11m dos camponeses feito prisioneiro, e trabalhavam
mos, que fornm vistos sucessivamente em 1562, 1567-9 e 1\ 1 111 ••~qucntá-lo, embora ele ainda não houvesse confessado
deixaram uma sinistra lembrança. Em 1576, João Casi111i1 11, 1 li 11111, A um outro, haviam ntado em torno da cnbeça uma
filho do Eleitor pa latino, não tendo recebido após :1 p:11 1h 111,111que apertavam com um garrote, e a cada volta o san-
Beaulieu as indenizações prometidas por H enrique Ili, pcrt11llh 11, jurrnva pela boca, pelo nariz e pelas orelhas [... ].:5
que suas tropas pagassem a si mesmas por habitante. El:t~ 10111 ,
ram de assalto aldeias que resistiam, e cometeram excessm 111 1111 li110 de G rimmelshausen é exagerado? Por certo, circu-
ríveis. Além disso, durante esse longo período de lutas c ivP11 1 11 11111111rcs nterrorizanres que agravavam ainda mais uma

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realidade já sinistra. Além disso, a jactância e as ameaças do•1 111• os homens de guerra estavam nas proximidades, o toque a
soldados contribuíram sem dúvida para dar crédito à históri11 l1111e soava em várias paróquias, e os trabalhos dos campos e
das crianças postas no espeto, que reapareceu no momento d11 111crcados eram interrompidos, sentinelas eram postadas nas
revolta do papel timbrado na Bretanha.46 Mas - testemunho~ Ili 1•11zilhadas. As aldeias simples armavam barricadas de barris
entre muitos outros - documentos emanados do parlamc1110 111• carroças. No pior dos casos, os camponeses entrinchei rn-
de Bordéus provam que, em 1649, camponeses de Barsac e d1 111 se na igreja, último refúgio da comunidade rural. As cida-
Macau foram expostos ao fogo.47 Y.-M. Bercé, investigando • dotadas de muralhas fechavam suas portas, organizavam
com minúcia os malefícios dos homens de guerra no suclol.:~11 1111111s sobre os muros, do alto dos quais arcabuzadas eram
francês ao longo do século XVII, é taxativo: viviam à custa d11~ 111,ulns sobre as tropas que se aproximavam. Por vezes até as
populações. Violavam as mulheres. Extorquiam dos habit:1111~·~, lil11ilcs organizavam expedições de dissuasão contra compa-
por meio do terror, a confissão do esconderijo de seu dinhci111, hl11~ que ainda estavam a certa distância. Assim fizeram
amarrando os homens, arrancando-lhes a barba, empurrando 11111 morillon e Périgueux em 1636, Mur-de-Barrez em 1651.1º
-os no fogo da lareira, atando-os a um poste para golpd-1011 i\1. 13ercé observa que essas rebeliões sobrevieram em 1638-
Saqueavam as casas onde não encontravam bastante dinhci1111 111• 1•111 1649-53, isto é, no auge da Guerra dos Trinta Anos e
estripavam as barricas, estropiavam os animais doméstirm, 111111c a Fronda, períodos de grande insegurança que viram
massacravam as aves de criação. Ao deixar um alojamento, lcvu 111111•ccr velhas formas de autodefesa local que engajavam
vam mobílias e roupas, louças e cobertas.~• Ora, os ofici:1is 11ílt1 l 1 1111\ll comunidade.51 Além disso, elas se produziam sobre-
faziam nada para deter as pilhagens, que eram o melhor ch:111111 111 1111 fim do outono, quando os homens de guerra iam ocupar
riz para o recrutamento. 1, 11l11jnmentos de inverno, e na primavera, quando partiam
Mesmas violências no norte da França quando os mcn:r 111I Mll1C1nte para as fronteiras.11
rios de Rosen, recrutados por Mazarino, foram enviados w1111 11 1 1tomar da passagem dos guerreiros ia ao encontro daque-
os espanhóis depois de 1648. Os habitantes das regiões de C:11 i~1 11111111 l(Cral em relação a todas as categorias de errantes, mui-
Bapaume, Saint- Quentin precisaram refugiar-se nos bosq111 •• 11•~ confundidos com delinquentes. Logo falaremos do
armar-se de forcados e foices, constituir "maquis". São Vin •1111 111 rios mendigos. Mas notemos desde já que os europeus
de Paula queixou-se em vão a Mazarino das extorsões de H11111111 1,1111 durante vários séculos boas razões para associar men-
Mesmos excessos também por ocasião da Fronda em torno 1h 1111 1111• soldados a vagabundos. Errantes encontravam uma
Paris: mulheres violadas, camponeses espancados, igreja, _, ,, 111 provisória para sua miséria aceitando as ofertas dos
queadas, vasos 7sagrados roubados, cereais não maduros rn11, 111,ulorcs. Por vezes, também eram alistados à força. Inver-
dos para alimentar os cavalos, vinhas arrancadas, rebanhos 11111 1111•, 1.c>Jdados desmobilizados formavam frequentemente
tados. Triste crônica que se pode reconstituir graças às Rd11th11 lm tlt· foras da lei que pilhavam para subsistir: foi assim na
chnritnbles inspiradas na época pelos devotos da capital.4'' 1111111 l 559;1i no Franche-Comté em 1636-43, tendo os
A reputação dos soldados era tal que, ao anúncio d1• ~li 1111 11111 exército imperial em retirada se fragmentado em
chegada para um acantonamento, as populações punh:1t11 1 1111~ l{l'upos de salteadores.54 Se a guerra recomeçava, o
frequentemente em estado de alerta. Desobedecendo as m d111 ll1~11111 podia adormecer momentaneamente em tal ou tal
reais, elas podiam entrar em rebelião. Y.-M. Bercé est11do11 1 , 111ltt1ndo os salteadores a ser soldados e partindo para as
dessas revoltas na Aquitânia dos anos 1590-1715. Ao st· ~11111 11 ,,_ foi o que sucedeu na Itália em 1593 com a retoma-

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da das hostilidades entre turcos e os Habsburgo. 51 Por outrn~ A alimentaç~o, na Europa de outrora, era desequilibrada
razões ainda, existiam múltiplas comunicações entre exércitm P•11· excesso
: . d e fannaceos.:
· , · t-·1c1ente
111_su · em virnmi nas e proteí-
e grupos de vagabundos: inúmeros rouleurs ou biílnrdeurs lancln n11~,: marcada pela alterna neta sobre a frugalidade e a comilan-
rilhos] deser tavam uma vez recebida a recompensa, ainda q111 ' nao chet?~1do esta última (que era rara) a exorcizar a obses-
para se reengajar periodicamente.;6 Além disso, os exérc1111~ 11 ~la, p~nuna em gran~e ~a~te. da po pulação. No primeiro
arrastavam com eles filhos de militares, velhos soldados, f11 g1 UM•" c,~u.e as obras de m1sencord1a, a Igreja colocava, não sem
tivos, assassinos, padres em ruptura com a Igreja e prostiu11:1~, ,,lo, al_m1entar os que têm fome".61Embora severas nascida-
Enfim, na Rússia do século XVII, na França de Luís XI\', 1·111 \, as cnses de cereais e ram ainda mais duramente sentidas nos
Portugal dos séculos XVIII e XIX, pessoas do campo, fo gi11d11 t11pos, onde, co_m o lembra P. Goubcrt, a maioria dos pequenos
da conscrição, t0rnar:im-se errantes obrigados a roubar p:111 lltponeses precisava comprar seu pão. Em certas províncias da
viver.5" Assim, o Antigo Regime produziu, do século XI V 1111 111\::1, 3/4 dos camponeses eram incapazes de alimentar a
XVIII, um universo marginal de soldados-salteadores, cuja si111~ 11111 111 com sua explo~aç?o ~grícola.•1 Circunstância agravante:
1111s11~0 de carne d1m111um na Europa nos séculos XVI-XVlll
tra reputação continuava viva quando eclodiu o Grande fvh-il11
de 1789 e a maior parte da França se pôs em estado de all'It 1 lt 11l11çao ao que era na Idade Média. Pois, com O crescimento
111
para ataca r fantasmas. 11 1.fl'tÍ~co, as culturas, g!obalmeme, sobrepujaram a criação
lllllll~Js ~,_com elas, a alimentação cerealista.6l A tirania dos
ti, ~•gmftcava que a hierarquia das qualidades do oão do

4. O TEMOR DE MORRER DE FOME 1, lll'nnco ~o mais escuro, recobria a hierarquia soei;! e 'que
11lhdtns ritmavam os cortejos fúncbres,6' uma subalimenta-
Uma outra grande apreensão de outrora, e muito just il 11 1 1
i• 1ili111do os mal nutridos e abri ndo a porta às epidemias.'·'
da, era a de morrer de fome - "n bel/o, peste, et fome libcm 11111 I· 111 110s~a so~iedade ocidental de abundância, temos difi-
Domine"-, uma apreensão que "se incorporava[...] às cst:1~·111 11,.t,, crn 1magmar que há apenas algumas centenas de a nos
ao escoamento dos meses, até mesmo dos dias"5'' . Em tempo 11 1•111 1111 morrer de fome em nossas cidades e em nossos cam-
crise, provocava pânicos e desembocava em loucas acw,:1~111 Nu l'lllanto, são inúmeros os testemunhos a esse respeito.
contrn os pretensos açambarcadores. 1111111•1110s alguns deles, que siio apenas uma amostra no
Dentre os motivos que explicam a sorte da história dl' ,111 1~1 11 no espaço.
(o filho de J ató) no teatro alemão do século xvr, figura •o 11 1
1lllt'l:tclc ~o século XV, o rei René descreve nestes termos
dúvida a situàção alimentar do país e da época. Outrora o vi, li d1t\ VII 3 sinrnção cm Anjou: "Assim, pela esterilidade e
do faraó preservara o Egito da fome; construíra e encher:, 1'1h· ,1, lwns que houve em vários anos passados e ainda há
ros no tempo da abundância e anulara assim os efeitos <lc~:,~t 1, jlll'~t'llte, a maioria daqueles que estão deitados na palha
sos dos anos posteriores de penúria. Fora, portanto, o 111111111 , l1to nus e descobertos, morrem, eles e suas famílias
do "príncipe provedor"."° Comentando a frase do pai-nos,o ' t , il, lomc".M •
pão nosso de cada dia nos dai hoje", Lutero fazia observar il(II ti '111111t·n da abadia Saint-Cybard de Angoulê~e relata que
mente em seu Gm11de cfltecismo que as insígnias de um sol 11•1111 Ih
11 ".•~erno de 1481-!, um pouco por tod:i parte, o
11
piedoso deveriam antes ser ornamentadas com um pão d11 111 1 111rn I ta de fome e nao comia senão raízes de ervas e
com um leão ou com uma coroa em forma de losango. 1 1 , llt'~sc tempo, só se encontravam pobres pelos carni-

251
nhos e salteadores pelos bosques [...]. O pobre povo compr:w:1 o l' fraco, sem que no entanto o padre fosse advertido, senão
farelo6' e o mandava moer com aveia [...], os outros comia111 li 1111nndo, num domingo [...], uma de suas irmãs veio dizer ao
aveia toda pura; ainda assim não se podia encontrá-la".r,x putlre que seu irmão morria de fome, sem dizer outra coisa.
Em Roma no momento da cruel penúria de 1590-1 , um ( > pastor deu um pão para que lhe levasse imediatamente;
' de notícias (nvvisi) escreve: "Todos os d111N
redator de folhas ' 11111s não se sabe se a irmã tinha ela própria necessidade dele,
fica-se sabendo que alguém morreu de fome". O papa Grcg61'111 1111110 parece; ela não o levou a ele e, no segundo toque de
XIV já não sai de seu palácio a fim de não escutar os cla11101•1•, vtlsperas, o pobre morreu de fome. Não foi só esse que tão
de seu povo. Mas, no decorrer de uma missa em São Pedro, n~ 1ll pressa morreu na falta de pão, mas vários outros, e aqui
assistentes se põem a gritar e a pedir pão.69 Eis aqui <1ind11 11 P nns outras aldeias, também morreram um pouco por vez,
situação na Suíça em 1630, ano de colheita desastrosa: na r Cl-(IR11 1111is viu-se este ano uma grande mortalidade. Só em nossa
de Vaud, "os pobres estavam reduzidos a extremos lament:ív11 I-, f11ll'1Íquia morreram este ano mais pessoas do que as que
alguns morreram de fome, outros comeram feno ~ er~:1~ d11 llltll'rem em vários anos [...]. Estávamos realmente cansados
campos. O mesmo acontecia nas montanhas e aldeias v1wll111 1h•1•stnr no mundo. 74
de Genebra, que se serviam de farelo, de repolhos, de fruurn dt,
carvalho como alimentação".70 t•~st:s testemunhos significativos, é preciso acrescentar
Voltemos a Anjou, desta vez no final do século XVII. 11 111 lm 11inda mais terríveis do tempo da Guerra dos Trinta
março de 1683, habitantes do Craonnais foram a Angcrs 1111111 1• dn Fronda. Um padre de Champagne conta que um dia
<ligar pão, "com rostos pálidos e desfeitos, que pr~vol''.l\'11111 h ~011s paroquianos, um velho de 75 anos, entrou em seu
igualmente medo e compaixão".71 O diretor do sem1náru1 ih hll1\11io para assar em seu fogo um pedaço de carne de ca-
Angers, Joseph Grandet, a quem se deve esse testcn1111ll11, 111111 l<) de sarna havia quinze dias, infestado de vermes e
decide então com alguns companheiros ir cm socorro das p1111 1 1111 11 um lamaçal fedorento.7' Em Picardie, contemporâ-
quias mais miseráveis e são esperados por "milhares de pol111 11-~tllfUram que homens comem terra e cascas, e "o que não
ao longo das sebes, com rostos escuros, lívidos, di111i11111th1 rf,1111os dizer se não tivéssemos visto e que causa horror,
como esqueletos, a maioria apoiando-se em bastões e :ll"l'IINIIIII 111111111 os próprios braços e mãos e morrem no desespero". 76
do-se como podia para pedir um pedaço de pão"." E111 1(1111 1111~ 1•ondições, não nos espantemos de encontrar casos de
nova penúria muito grave. Um cônego de Angers pode t 'hl 11 1t1lh11110. Na Lorena, uma mulher foi condenada à morte
ver: "A privação é tão .grande que vários morrem dl' 101111 1 , 11111ido o filho. Em 1637, segundo um magistrado que
mesmo nesta croade de Angers".n 1111111 Investigação em Borgonha, "[...) as carniças dos ani-
Durante essa mesma crise cerealista a situação 111111 11 llttll lON eram procuradas; os caminhos estavam cobertos
melhor no norte do reino. Como prova, o diário deixado 1111 •hlH1 11 maioria estendida de fraqueza e agonizando [...).
padre de Rumegies: 1 , hogou-se à carne humana".n Nos tratados dos casuís-
t 11h11•-sc uma prova indireta de que a antropofagia não
Durante esse tempo só se ouvia falar de ladrões, de Ili' 1 11, 11111 nos séculos XVI e XVII.78 Se esfaimados, para não
mortas de fome[...]. [Um pobre homem] era viúvo; llíll• 11111sumiram a carne de um cadáver humano, conse-
acreditava que fosse tão pobre quanto era; estava c111•11111 1 1111l11l!(ência da maioria dos casuístas. Villalobos declara
do de três filhos. Ele ficou doente, ou antes, ficou cx11•1111, 11111· lil' cst,1 autorizado a tomar remédios cuja composi-
1111n1ido a penuna se aproxima; mas também os pequenos
ção inclui carne humana, é pcnnitid~ comê-la so\~ioform:, ih
nponcses que, nos anos ruins, nem sequer têm grão para a
carne de açougue em caso de "necessidade ex~re~a . .,
11111cirn; os diaristas sem trabalho quando colheitas e vindi-
Voltemos dos casos-limites a situações hab1tua1s em pc1 uul11
-•111 destruíd.is pelo granizo; e todos os biscateiros prontos
. d - U a delas típica foi admiravelmente an:11!~11
de carestia o pao. m ' ' 1- 11til' na mendicância quando o pão se torna muito caro e
. . . em Beauvais em 1693-4, um tece ao, 111111
da por p . G oub ert, eis ' ' . f Ili ti t r 11bnlho.81 As cifras extraídas dos registros paroquiais
f'U as todas as quatro fiandeiras. A :1111 i
mulher e suas nes 1 1, ,
. A
' ' 11111111111 a esse respeito os relatos dos contemporâneos. O
h 108 l * (1296 deniers)** por semana e consome pe1o i_1w1111
11pl11 de Beaugé (em Anjou) é esclarecedor: "No primeiro
gan a ]'bsos l pa-o Com o pão preto a cinco deniers a lih1·11,
setenta 1 ras <e · l) 1 1 _, l'l' de 1694, no momento em que o preço do alqueire de
vida está garantida. Com o pão a doze denie~s (un'. so 'e a s~ 1111 1 11111 triplicou em relação a 1691, morrem 85 pessoas, contra
na mais difícil. Com o pão a 24 deniers, depms a tn_nta, ~4_d_c11lt 1 111 l'imcstre correspondente de 1691, 33 no de 1692, vinte no
. em 1649, 1652 , 1694 e 1710 - , e a rmsena:
_ 0 que acontece ln•Jt II correlação é evidente"Y Em Beauvais, a penúria de
1 11l11va à sepultura" de 10 a 20% da população.8~ Esses cál-
Agravando-se a crise agrícola quase sempre (e com cc1'II ' 11 1l1<icos em sua aridez, testemunham por muitos outros.
'1693) com uma crise manufatureira, o trabalho clw1i,1 111111p11 pré-industria l, os anos de subalimentação aguda,
em · li• 1,
faltar, e portanto o salário. As pessoas se pnvam; P''.l ,s
1t11h111 sequelas desta (receptividade às epidemias, abortos
que se encontrem a 1gu ns tostões guardados para os . 1111111 11111 muito tempo anularam os ganhos demográficos conse-
dias; recorre-se ao penhor; começa~se a ab~orver :: 111:11 li 1111 longo dos períodos de recuperação.
- de farelo
tos repugnantes: pao ' , urtigas .cozidas, sc1111 Ili•1 l111l11~nqueles que viviam comumente no limiar da pobreza
as de o-ado recolhidas nas m:ll 1111\ li ~ 11r11m numerosos - tinham razão, portanto, de ter
desenterra d as, entranll
, o 1 1
sob diversas formas, o "contágio" se esp~lha; dcpo ~ , 11111111110 o preço dos cereais encarecia. Daí rebeliões "fre-
. , . a come as "febres penuc1osas e 11101 llh i 1· hnnais"81 nos anos de carestia, e sobretudo nos meses
aperto, a m1sena, 1' , . ,. , 1
as" A família é inscrita no posto dos pobres em dc1.111111 111 ~~11fr11. Na origem imediata dessas rebeliões, duas espé-
~e Í693. Em março ele 1694, a .filha mai_s nova_ m11rn•1 11 11111t1cc imentos: de um lado, transportes de cereais para
. . elha e o pai De uma família parucul:11·1111111 111 1lil11l11, da cidade ou da província; de outro, a raridade
ma10, a mais v . ., ~ tl
feliz J'á que todos trabalhavam, ficam uma viuva e u11111 li 111,1~ pudnrias e os balcões vazios logo pela manhã porque
'
Por causa,do preço do pao.
- so ,l,t hwn levada às primeiras horas do dia pelas melhores
l 111 110, 11 inquietação se produzia especialmente entre
7
• - d debilidade cios rendimentos :11:(dt 111 1 ll11 11•~, e passava-se de apreensões justificadas a medos
Assim, em razao a _ . "' . ,
da relação precária entre produçao e _dem~grafia, u:.":'. 1 ~, , 11, t' 11 condutas de violência. Espreitavam-se e pilha-
. d te u' m'1da e uma colheita mirrada amc,1,,1111 1 i 1,11111portes de cereais nas estradas ou descarregavam-
d emas1a amen ' . . 1 1
1\ 1l1111•cas de comerciantes à sua passagem perto do cais
mente d e morte parte d a' população: os md1genccs
_ < c 1111 11
.
. 1 1, \1 1,•ombavam-se as portas dos padeiros, saqueavam-
ongens, e, c laro, essas
. "bocas, inúteis" que sao expulsas t n~, 1
' 111hlllccimentos, que por vezes eram até incendiados.
1 , pnlllOSO no fato de que penúrias agudas - aliadas,
* Moeda de valor fixo, de prata ou, nwis tarde, de cobre. (N. ' I,)
1~ p11~sons, a uma subalimentação crônica - tenham
.. Moeda cujo valor variou muito. (N. T.)
255
fomentado loucos terrores e provocado cóleras coletivas. Tr11111 111h•~ arcaicas na camada popular. Nunca, em todo caso, escrc-
va-se de homens e mulheres acossados pela fome/ 6 que pt11 1 t•fcbvre, "os distúrbios frumentícios foram tão numerosos
c uravam imediatamente responsáveis de fisionomia h111111111, 1111l11rnnte a segunda quinzena de julho de· 1789",88 em parti-
para uma situação criada por causas anônimas e dema~1111I 1 1 11m nrredores de Paris: comboios, granjas e abadias ataca-
mente abstratas para eles: os imprevistos do clima, a debilich11l1 11111 pessoas em busca de cereais; assassinatos ele mo leiros e
dos rendimentos, a lentidão dos transportes. Os bodes cxpl11111 111wrcinntes de grãos; pânicos e preparação para o combate
rios e ram os padeiros, os moleiros, assim como os comcrl'll1111• 1111 tio toque a rebate quando, no mercado de tal localidad e,
de cereais e os açambarcadores acusados de rarefazer a rt i111'111 1111111s1lrios parisienses vinham buscar cereais etc. A agitação
mente os g rãos para aumentar sua circulação e, se necc,,,lt t• tt ,11111 cm 1789 pela penúria e que deu origem ao mito do
vendê-los mais longe com maior lucro. Por toda parte, em 11111 tu dt• fome" conduziu em muitos lugares à criação apressada
po de revolta frumentícia, gritava-se: "Os padeiros querc111 111 lllh lu~ locais e abriu caminho para o medo dos salteador es.
matar de fome!"; e por toda parte ameaçava-se "assá-los c111 , 111 ll11 1111e supera a anedota e revela o quanto se temia a falta
fornos"; por toda parte os "monopolizadores" e os cspcc11h11l1 1 t 111 re os revoltosos que conduziram em outubro Luís XVI
res eram tratados como "avarentos", "usurários", " inimiKm 11 l 1111flit1 de Versalhes a Paris contavam-se muitas mulheres
bem público", "lobos ávidos". As populações superCX('h,111 1t1h11111 ido antes de tudo procurar "o padeiro, a padeira e o
faziam as autoridades participarem de suas a ngústias e d1• 1" 111 p11dnria". o decorrer da Revolução Francesa, o proble-
rancores. Intendentes, cortes d e justiça, escabinos o rck-11111 11, 1 •~11111cnto" - um termo sig ni ficativo - apresen tou-se de
confiscar os cereais das carretas, deter os barqueiros, viuhtt , 11111tl11, e rebeliões da fome se produziram durante a pri-
padeiros, revistar os celeiros, procurar os "monopolizaclo11 1 111•1-1 rn do :mo JlJ (1795) em Rouen, em Amiens e em
A situação alimentar e demográfica melhorou no d1•11111 l 11111111in-cn-Laye.19
cio século xvm em certo número de províncias francesa, , i\ l 1
medo de faltar pão tinha atrás de si um passado tão lonµo 1 \h,
disso, no próprio ano· em que Turgot decidia imprudcn1t•1111, 11 1 l'i< :O: UM ESPANTALHO
pela liberdade do comércio dos cereais (setembro de 1'/l lt
colheita foi má. Volta-se imediatamente aos piores tef11111 1t 11111t•dmentos de 1789 não devem levar a uma genera-
antigamente e às condutas violentas, cujo rito as 1111111111 1 "1•~~iv:1. Penúrias e sedições não estão forçosamente
haviam elaboràdo havia muito tempo: depósitos d e trig-o 1 111 111111111110s o caso da Inglaterra nos séculos XVI e xv1 1.
cados pilhad8s ao r edor de Paris, ataques a padarias e111 11111 11111111 de períodos que tiveram colheitas particularmen-
em Versalhes por bandos descontrolados. Para :1p:t1(1II 11111m os anos 1594-8 - não foram ali m arcados por
incêndio - a "Guerra das Farinhas" - o ministro p11,, 11 11 \lllt:i popular. Inversamente, a rebelião de Wyatt
reunir 25 mil soldados.81 Alg uns anos mais tarde, c m rn1íl11 1 1 do norte do país em 1569 coinc idiram com boas
más colheitas de 1785, 1787 e 1788 e do terrível gelo do 1m I•111 sua grande Histoire des croqurmts, Y.-M. Bercé
de 1788-9, os franceses retornaram uma vez mais - c 1•11111 l111111lmcnte o par fome-revolta. "As r ebel iões fru-
de escala - aos comportamentos mais tradicionais do, lo •••1 • \l'l'Cvc ele, "não são senão um modelo, e um dos
de penúria. De maneira que, se houve então ação inov11d111 •1111•111cs, d:is violências coletivas [na França] do sécu-
camada burguesa da sociedade, viram-se mais cio 11111 111 11111' n miséria provocada pelas duas grandes des-

257
graças cujos retornos periódicos estudamos - . passagem cio •nos 1642-8, a Inglaterra, nos séculos XVI e X\I JI, conheceu
homens de guerra e penúria - tenha, em mais de um cn~1 , l1thal muito menos revoltas populares do que a França da mes-
exacerbado a sensibilidade e a agressividade das popul:i~·1\1•, pocn. E a razão dessa diferença, para E. S. L. Davies, é esta:
preparando psicologicamente o terreno para revoltas postei 111 lnl(IUlCrra, durante esse período, "as classes inferiores foram
res, a coisa é certa. Ocorre que as rebeliões antifiscais, de q,11 1 1 l'llmpletamente isentas de impostos, em contraste gritante
preciso falar agora, tinham muitas vezes maior ampli111cl1' 1 11111nc se passava na França, onde o imposto foi a ocasião, se
duração do que as perturbações frumentícias, tendo desc111p1 1 11111sa, de grande parte das revoltas do século xvn".95
nhado um papel essencial na história rural e urbana da f.11r11111 l 111tnndo-se da França, inúmeros exemplos, mesmo ante-
de outrora e, além disso, a taxação ou a ameaça de novas 111~,1 • ,111 s~culo xv11, servem de apoio a tal análise. Carlos v, às
frequentemente serviu de detonador a movimentos scdicio~11 til~ ele sua morte (1380), decidira a abolição dos impostos
Lembremos, por exemplo, que na Itália a revolta de Pcn\11 • r, loN ti fim de a liviar seu povo oprimido. Mas logo precisou
contra Paulo rn em 1540, as de Palermo e de Nápoles c111 lfi 1 111 h•1·cr os impostos imprudentemente suprimidos: segui-
contra os espanhóis começaram por recusas de aumc 11111 11 ' 11~ rebeliões urbanas de 1382.96 A revolta das comu nas de
impostos. Consideremos contudo mais atentamente os 1•11 11 11111 um 1548 foi um protesto contra a extensão da gabela
inglês e fra ncês, que são os mais bem conhecidos. 11\ lltdns do sudoeste do reino - extensão revogada por
97
A sublevação dos trabalhadores ingleses em 1381 ganhou • lh(llt' li em 1549. Ao longo do século >..'VII, graves rebe-
longo de seus desenvolvimentos uma coloração antisscnhrn 111 111 ln11111s e rurais tiveram por o rigem, na França, a sobre-
(v.írios castelos queimados; reivindicação da abolição cl:1 ~, 1t 1 11-, 111 ou a ameaça de novas tributações: a dos miseráveis
dão); tingiu-se ao mesmo tempo de esperanças milenarist:1~, , ., h t Normandia em 1639, por causa de um projeto de ex-
a fa mosa referência à idade de ouro atribuída ao pregadrn J11l11 11 1h1 l{nbehi a essa região, que dela estava isenta;98 as de
Ball: "Quando Adão cavava e Eva fiava, onde estava o 110l11 li I rl1• Caen no mesmo ano, em razão do novo edito das
No entanto, ela foi provocada pelas exigências fiscais do 1111 111,, il1•vcndo um visitante-provador controlar doravante as
lamento: as poll-tnxes de 1377 e 1379, capitações desig11:il1111111 tt, 11111 <.'ada cidade e burgo -visita acompanhada de uma
divididas que, em certas aldeias, podiam exigir de um 11,:111 ,li, 11 il11~ camponeses do Angoumois e da Saintonge em
dor braçal uma soma ig ual ao salário de três dias de 1n1h,tl11 • ilu Ptll'igord cm 1637-41 - "a maior sublevação campo-
superior a qualquer imposto anterior:n Quando H e nriqw \ t• li1 l1h111í rin da França com exceção da guerra da Vendeia",10º
em 1513, quis instaurar novamente a capitação, essa 11·11111 ,
7
l 11, 11111ha e do Rouergue em 1639-42: todas motivadas
acarrecou distúrbios em Yorkshire.~) No século XVI 1, a t·.1·, 111 , 1 111111 1110 das derramas.
sobre a venda das mercadorias decidida no momento 1•111 ,, • 11)11it·n cl:is sublevações antifiscais tanto em Paris como
eclodia a guerra civil, suscitou uma série de rebeliões c 111 lf1 (, 1111111, 1648, o primeiro ano da Fronda, merece uma men-
e o governo aboliu-a sobre os produtos alimentícios.''' <>•1 hl • 11 • hd, A exasperação con tra o imposto, a indignação
riadores britânicos observam que apesar dos distúrbios 1 1 1111111'11 os coletores explicam a atitude dos parlamentos
cialmente políticos e religiosos - que eclodiram sob l li 1111 1111, ~110 que esta encontrou na opinião. Reciprocamente,
vu e Eduardo vr em razão da luta contra o catolicis1110 t' d111 1111 1h111 nsscmbleias soberanas às novas medidas fiscais
cação à venda dos mosteiros, que apesar mesmo da g-111•11 1 1 1111 \11 1 edito da tarifa; renovação do tributo para con-
2>9
servação de cargo) estimulou múlti?las recu~as coletivas <\li A~rebeliões antifiscais - em particular aquelas que eclo-
tributações. "Acreditou-se que com isso estan~ acabado n li 1 fl11t 1H1 França no século XVII - foram frequentemente ges-
rorismo fiscal, o reino dos arrematantes de impostos e du 111• desespero provocados por um excesso de miséria e pelo
intendentes considerados como seus sequazes."'º' E m b<>111 · 1t 1111 cio agravamento de uma situação já insuportável. Em
revolta de que a Bretanha foi palco em 1675 tenh~ t_o mado 1111 111tlurno de queixas dos estados da Normandia datado de
campos aspectos antissenhori~i~, com ataque,_5 a vanos cas~~ln •, lomos:
e O desejo - expresso no Cod1go Campones - de abol11 li
encargos dominiais tais como direito feudal sobre as sc1ll'1t-, N1111hor, trememos de horror diante das misérias do po-
corveias etc., o ponto de partida da sedição em Renn~s e t•llt h11• cn~nponês; vimos alguns deles, nos anos precedentes,
Nantes, todavia, foi ainda a hostilidade a novas taxas: 1rnp1 m111 1111•~iip1tarem-se para a morte por desespero dos encargos
do papel timbrado, estampilha do estanho, tributação solll'I' 11 11111• nno podiam carregar, outros que eram retidos na vida
venda do tabaco. Além disso, correu o rumor de que a Brct:111h11 11111•s pela paciência do que pelo prazer ou pelos meios de
ia ser submetida à gabela. Os camponeses, que deram co_n~i1111I 11111111:rvá-la, atrelados ao jugo da charrua, como os animais
dade à agitação urbana, não deixaram de atacar o~ escr:1tonrn11h 111• 11rreio, laborar a terra, pastar a grama e viver das ra.ízes
impostos das granjas e, se atacaram castelos, _f01 muitas Vl'II 11111• esse elemento parecia ter vergonha de negar-lhes, por
porque desconfiavam que os nobres que os habitavam - dcll'II 11t ~ustentado seu nascimento, vários refugiados nos países
tores de algum cargo régio - eram algum daqueles q 11t• l 1 P•I 11111g_eiros ou províncias para esquivar-se a seus impostos,
, . 'º'·
· a gab ela na provmcrn. 111111\quias abandonadas. Nem por isso, contudo, nossas der-
introduzir ,
Antissenhorial sob certos aspectos, a revolta dos Bo11111 1111111111 diminuíram, mas aumentaram a ponto de ter tirado
Vermelhas da Bretanha não era antinobiliária: desejav:1111 q111 li 1 ,1111isa que restava para cobrir a nudez dos corpos e de ter
as moças nobres escolhessem maridos "de condiç~o comu 111" ~ ll111 mclido as mulheres, em vários lugares, pela confusão de
os enobrecessem.'°1 Mais geralmente, as pesquisas rcc~1111 -.111 própria vergonha, de encontrar-se nas igrejas e entre
provam que sob o Antigo Regime a maior parte das scd1~•1'11 11, 1•1•lstiíos. De maneira que esse pobre corpo, esgotado de
camponesas foi menos hostil aos nobres do que ao g1'.vt'III!• 1111111 Nua substância, a pele colada sobre os ossos e coberta
central, distante, anônimo, opressor, incessantemente 1nv1•11 11p1•1111s de sua vergonha, não espera senão a misericórdia de
tando taxas. Na França, foi nos séculos },,_'VI e XVII que :1 l'l'l' lt
1 \ 11•~11 Majestade.101
violenta do fisco agressivo de um Estado_ cada vez mais h111 11
crático e cehtralizador se manifestou mais frequentemcntt•, 1 lttlplk-n hiperbólica para comover um ministro? Sem dúvi-
não foi raro, então, ver a burguesia nas cidades e os nobn ·H 1111 11111• 111mbém evocação de uma realidade cotidiana da épo-
mundo rural fazer causa comum, ao menos durante cer to 111111 1~1111111 encontraríamos mil outras descrições concordantes
po, com o povo miúdo revoltado.'º~ De resto, nos campo~, 11 l 11111p11 vítima da Guerra dos Trinta Anos. A entrada da
nobres residiam ainda muitas vezes em seus castelos. 1'.I 11111 li\ 1111•ssc conflito teve como resultado duplicar em alguns
conhecidos; faziam figura de protetores naturais. Se em 171N 1 t 1•11 ,·ga fiscal suportada pelos camponeses franceses.
campesinato se voltou contra os nobres, foi ?orque_ 1111111 1 111 111 l111eira vez, as exigências régias ultrapassavam franca-
haviam adquirido o hábito, no decorrer do seculo XVIII , 11 li ,,~ dn Igreja e, ainda mais, as dos senhores." 106 Impostos
morar na cidade, e a população perdera o contato com ck•,, li ltt~ c derramas progrediram ao mesmo tempo; daí as
?t; 1
revoltas urbanas contra esses impostos que atingiam espcdul llltllt ldiio se dirigira à prisão para libertar aqueles que a iini-
mente os artesãos e as revoltas rurais contra os aumentos thl 11th1dc dos homens de finanças ali lançara.
derramas que alcançavam sobretudo os camponeses, tc11d11 I•Ili t:il clima de efervescência e uma vez superado certo
contudo os projetos de extensão ou de agravamento da g:1l 111h1 111111 de excitação, contava menos o imposto temido do que
a unanimidade das cidades e dos campos. A duplicação do hl ~111•ulnr mitologia antifiscal, menos a realidade do recolhi-
impostos significava, para pessoas que viviam presas ao li 111h11 11111 do que a imagem terrível que dele se fazia.
da miséria, uma ameaça de morte - rápida ou lenta - c cxpll
ca a inquietação coletiva ao anúncio de novas medidas fisrnl
O intendente Verthamont descreve a rebelião de Périguc11x 11111
1635 como "uma doença de todos os povos daqui, um dcs(.(ONI••
das sobrecargas, um aborrecimento que poderia degenera i' 1'111
um completo frenesi de pilhagens, subversões e assassin11111
uma loucura, uma melancolia".107 O desespero desdobr:1v11 ,
em cólera diante dos procedimentos de cobrança - "i11~11
lências" que, em razão das urgentes necessidades do l•:~111d1,
transformaram-se, na época da Guerra dos Trint,1 Ano~, 111,
terrorismo fiscal. A cobrança das derramas conduzia a coll~ll•
individuais com apreensão do gado e dos móveis ou a <:011~(11
comuns que se exerciam contra toda uma aldeia. A cnd11111I
das revoltas rurais obrigou à formação de um verdadd111
odioso exército do imposto (os "fuzileiros das derr:111111' •
Contudo, a paixão antifiscal e a psicose da gabela 111
quentemente difundidas de uma região a outra pela gcnl\l ti
grandes estradas - voltavam-se particularmente co11t 111 t
comissionados das granjas e seus oficiais públicos. Ac u;;:1d11• 11
enriquecer depressa à custa do povo e do rei, os cohr11d111,
de impostos e~traordinários ou gabeleiros eram os inl111l111
públicos das çoinunidades, "canibais" que era preciso p1111II
antiego da b~a consciência coletiva. Daí a liturgia d;1 rcl11 li
quando ela era dirigida contra o gabeleiro: o ataque dt
alojamento ou do albergue onde ele acabava de inst:11111 ,
"condução" pelas ruas do personagem escarnecido t:1111 111 111
marido traído, em meio a uma espécie de algazarra, a rn111I
nação à morte do pérfido, de quem muitas vezes se clizi:1q111
arrependia antes de morrer - lenda adequada para cc>11l l1111
os revoltosos em sua legitimidade. Além disso, desde o ,•11111
263
262
llh ,, do ~mnor", nem de meios policiais suficientes para
s. MEDO E SEDIÇÕES (II) 11111 os aJuntamentos e a autoexcitação da multidão. Alguns
h,11110s que outrora criaram comoções nos parecem total-
li uhorrantes. Mas não vimos, em 1953, o apresentador de
11 ,1tlcin de rádio americana provocar um pânico coletivo ao
111 h11• n c hegada de marcianos em discos voadores?º O que
li Ili uqui é o que a opinião, ou uma parte dela, acredita
1. OS RUMORES l\'1 I, l•:m 1768, o colégio dos oratorianos de Lyo n é inva-
A imaginação coletiva trabalhava sobre toda espécie de Ili 1 p1111 multidão e saqueado. Acusam-se os religiosos de
mores. Às vésperas da sublevação conhecida na Inglaterl'II 1h, 11(111 um príncipe maneta. "Todas as noites", conta-se, "são
século XVI sob o nome de Peregrinação de Graças, brn\111 l1~ 1111s redondezas do colégio crianças às quais se corta um
inquietantes e maldosos circularam de aldeia em aldeia: ?s. vl~I 111111•11 experimentá-lo no pretenso príncipe." A rebelião faz
tadores dos mosteiros que o rei mandava fechar eram, d1,.1:1 hl 1hloN.' Expliquemos psicologicamente esse acesso de cóle-
homens corrompidos que se enriqueciam com despojos do l11ll11s não acreditavam impossível, outrora, essa extraor-
conventos.' Estava-se mais convencido ainda de que, com 1111 l'irnrgia. Por outro lado, desde a expulsão dos jesuítas,
. . , 'jllli
ação espoliadora, começava "a ~estruição da sant~_rel1g1:.,o 11111 lnnça se mantivera na opinião em relação a seus suces-
Notícias alarmantes precederam igualmente a rebehao da< ,OI ' t, 11111iderados capazes dos piores malefícios. Enfim, cir-
nualha cm 1547-9: o novo Prayer book, acreditava-se, não 111111 1111 pododicamente, em Lyon como em outras partes,
3
autorizaria o batismo senão aos domingos. Na realidade, 1 h
1 .- d1• raptos de crianças: ora acusavam-se os boêmios e
aconselhava simplesmente que se agrupassem as cerimô11h1 11111111011, ora os oratorianos no caso presente, ora a polícia.
batismais no domingo a fim de que tivessem lugar na prese'.'\ , 11111,hl de Lyon pode então ser comparada àquela que ensan-
lltHI Pnris em maio de 1750 e no decorrer da qual houve
da comunidade dos fiéis. Mas estes acreditaram que os 1-ccl'lll
-nascidos doentes corriam doravante o risco de morrer M' lll 1 il,, homens. Dizia-se que oficiais de polícia em traje civil
batismo e de ser assim destinados ao inferno. Daí a inquiet:l\'111
1 l,o ,1111 os bairros de Paris e raptavam crianças de cinco a
111111~. ' lendo uma delas gritado quando era lançada num
das populações. . .. _ ~ , .
••~se foi o rumor que se espalhou-, o povo se reuniu
I mpossível' ao menos tratando-se da c1v1ltzaçao pre-md11' 1 li I ltlo, O advogado Edmond J.-F. Barbier conta:
triai, separar'cumores e sedições, quaisquer que tenham s1111
as dimensões cronológicas e geográficas destas. Na Frarn;:~ d
hoje, um alarme como o de Orléans em 1969 pode ser don111111 1 1 l lliisc-se que o objetivo desses raptos de crianças era
do a tempo e não desembocar na rebelião. Outr~ra, e1:1 cn.'11 I"' l111vin um príncipe leproso, para cuja cura era preciso
1111 l11111ho ou banhos de sangue humano, e que, não o ha-
pensação, era difícil interromper os rumore~- ~ois mut_to 111
11111111111is puro do que o das crianças, tomavam- nas para
quentemente obtinham crédito em todos os 111ve1s da S_?Ctcd:ult
1111111 lns dos quatro membros e para sacrificá-las, o que
inclusive nas esferas dirigentes. E, mesmo que esse nao foss1•11
\11h,1 ulncla mais o povo. Não se sabe em que são basea-
caso, as autoridades não dispunham nem de meios de infor11 111
ção (jornais, rádio, televisão), graças aos quais se pode ,t~11111I i•- 1 ~"IIS histórias; esse remédio foi proposto no tempo de
1111~1!111ti no, imperador que não quis utilizá-lo. Mas aqui
acalmar uma inquietação coletiva por meio de uma espec1c il
265
não temos nenhum príncipe leproso, e, ainda que hott\, l•ll\ 1lS, a cura através da saúde de outrem), a identid ade
se, jamais cr ianças de seus pais e mães. Pode-se Lei' tllt, 111 dos bodes expiatórios aparece como secundária. Ora-
a alguns oficiais de po lícia q ue, se tenha necessicl:1d1 ,1 n1.-, oficiais de políc ia ou comerciantes de bonecas t inha m
crianças p ara enviar ao Mississippi. Mas apesar clis~o 111, 111111110 por meio de gestos m al interpretados as apreensões
é de p resumir-se que haja alguma o rdem do minisLrn p 11 h 11111s do público. Novos testemunhos sobre estas: em
aqui raptar c r ianças de seus pais e mães. Pode-se te1 1111 • polícia precisou pedir aos padres de Paris que acalmas-
a alguns oficinis de polícia que, se encontrassem c rillll\ , li 111hnnho, mais uma vez convencido d e que suas c rian-
sem pa i nem mãe ou aban donad as, poderiam apreendi• l 1 111, ,1111 cm perigo;• e, em uma d ata tão tardia quanto 1823,
[pode ser] que se lhes tenha prometido uma recomp~11,11 , , h1r no Dictiom,nire de police 111odeme, de Alletz, no ver-
que ten ham abusado dessa orde m [...]. Aliás, não se 1°11111 l111•111c": "É proibido espalhar o alarme entre o povo, por
preendc nada desse projeto: se é verdade que se tem 1w1 1 1h 1,ilsos rumores ou de falsas n otícias que podem inquie-
sidade de crianças dos dois sexos p ara estabelecimcn10~ 11 1111 111,sustá-lo, tais como o temor da penúr ia, o rapto de
América, há uma grande quantidade delas tanto nos 1·111 1 1,' 1i l C.9
tados do fa11bo11rg Saint-Antoine quanto nos outros :1~!111 l 111 11111 ro tremor coletivo tenaz revelado, ao menos n a
11, 1wlos rumores e sedições de o utrora é o do imposto
U m mês mais tarde, o rumor dos raptos de crianças cirt·11I 11 1 \'tdn. Esse mito parece ter atingido seu máximo de
em Toulouse. É ainda o advogado Barbier quem nos inforn111 1 hl111ll• no século XVII e n o começo do século xvm , ép oca
111\1\11 galopante do fisco, fican do a opinião pública dora-
Esse pavor teria alcançado as províncias. Diz-se que c111 l 1111 1" 1 1111dida de que, do Estado, tudo se podia temer. Mas
!ouse homens que vendiam bonecas quase foram 111rn·111 l 1\11 profundamente vinculado à h ostilidade de uma civi-
pancadas, con siderando-se que era um pretexto p:1r:1 111 11 11 11 1,~l•ncialmente oral em relação às escritas de pagamen-
c rianças, e admite-se, agora, que todos aqueles que 1011111 11h lpl kaclas pela burocracia centralizadora e dada ao pape-
mortos ou então maltratados nos tumultos de P aris, l"rn 11111 l 1111•111 1568 q ue se criou o imposto dito de controle dos
-no po r engano ou suspeita [...].1 1111~11Vcl por ocasião de produção na justiça de extratos de
1111• p11roquiais. Renovado em 1654, foi agravado pela cria-
Essas três "comoções" remetem à convicção outrora :1111pl, i 1,li !(OS de escrivão em 1690 e, depois, de controladores
mente difundida de que criminosos roubavam crianças. Qu,11111 11111~ um J706. A inquietação n ascida dessas decisões acu-
vezes não se amedrontaram as crianças desobedientes co11t 1111 1,~ dl•Scmbocou po r várias ocasiões em rumores intran-
do-lhes que bichos-papões chegariam para levá-las! Como 1111 ,111111 1•~ e em "comoções" populares a partir de um ed ito
va, no começo mesmo do século XX, a iconografia m o raliz11 111 11111prccndiclo ou ele um edital m a l lido. "A cada filho que
das g ravuras populares de Epinal. Esse medo, e m dois dos 111 1 ulllt't,.., vierem a ter doravante, terão ele da r uma ce rta
evocados anteriormente, juntava-se, reforçando-a, a ess:1 <11111 ,li 1lt11hciro" - esse imposto m ítico sobre os nascimentos
crença, d e modo a lg um insensata para uma m entalidade 111111•1 11,111 ~ed ições em Vi llefranche- de-Rouergue em 1627, n as
ca, de que, para curar um principezinho doente, é pn·1I 1 ,Ir G uynne em 1635, em Montpellier em 1645, e m
sacrificar uma criança saudável e provocar assim uma tr:u1~h • ~111111c em 1665, cm Pau em 1657, em Aubenas em 1670,
rê ncia de saúde. No que conce rne essas duas atitudes (o r1111I h111111111c cm 1706 e 1709, no Quercy em 1707. No tempo da

266 267
Fronda, o Catéchisme des partisans (1649) denunciou os ho1111:11• Urlt· seu sal e de vendê-lo livremente, com exceção de pagar ao
de negócios "que outrora tinham sido ousados a po_nto de prn l 1111rn taxa igual a um quarto do valor produzido. Mas a revol-
por ao Conselho estabelecer impostos sobre o bansmo s:1!(1'11 1l11s miseráveis de Avranchin eclodiu em julho de 1639, antes
do das crianças".1º Imaginou-se igualmente que casamenlott t 1111nlquer texto oficial de estabelecimento da gabela tivesse
enterros também iam ser taxados; vilipendiaram-se os cobr:1d11 11 publicado. E m suma, gritou-se antes de se sentir dor e sem
res de impostos que "se alimentam dos suspiros e se divcrll•III ~liln se teve razão, já que, diante da extensão da sedição, o
com lágrimas". Também em Villefra~che (1627), Pau _(168l) t 111110 renunciou a seu projeto. Ocorre que, amadurecido
Bayonne (1709) acreditou-se em um unposto sobre a agua 1h1 11111 espera inquieta e alimentado por toda uma mitologia
nascentes dos rios, "sobre cada cântaro de água que as mnllw11 IIIINrnl, um rumor basta para incendiar a pólvora; acreditou-
tirassem da fonte". 11 Umas tantas formas do temor profundo tl1 ljlll' 13esnadiere-Poupinel, tenente no presidiai de Coutan-
ll'll½ia o edito temido. A multidão condenou-o à morte e
ver instituir um imposto sobre a vida.
Estando doravante assegurado que, na França dos séc11l11 r11111hin entrou em insurreição.'; Em 1675, se as desordens de
XVI-XVII, o fisco esteve na origem das revoltas mais numcl'illlll 11111 N é de Nantes provocaram uma sublevação dos campo-
e mais graves, basta abrir as crônicas da época para nelas 1111 11 ' chi baixa Bretanha, foi porque na Cornualha correu a
lizar os rumores que serviram de detonadores para a. c~,lt•11 h h1 de que um lugar-tenente do rei estava encarregado de
popular. A maior parte, nas regiões isentas de g~bela, refor~11 " 1111111,ir a gabela nas dioceses de Vannes, Saint-Pol-de-Léon,
ao imposto sobre o sal, cuja intenção de generalizar em amh11I 1 11h11• e Quimper. Bandos armados atacaram os "gabelei-
1) pnrlamento de Rennes precisou promulgar um edito
da ao governo. Mas era tal a sii~istra reputação dessa ~~x:1 q111
qualquer novidade fiscal era mmtas vezes ~hamada ~de galwl~ 1li ,111clo falsos e sem fundamentos os boatos relativos à
pela opinião inquieta. Em Bordéus, em maio de 163), espa\111111 l,1 11 !Ornando públicas penas contra aqueles que os propa-
-se O rumor de que "se queria estabelecer a gabela do snl li 111,1~ Era tal, então, a ansiedade permanente criada pelo

cidade". Fez-se igualmente correr pela cidade o boato dl.! "q111 1 •llll' outrora bastava lançar um rumor de novo imposto

se queria cobrar dois escudos por tonel, ~i~co sous por c:1cl:1_11111~ 1h ~pcrtar "comoção" popular. Como em Cahors em 1658:
e trinta outras mil falsidades"!1 1 A mult1dao atacou a prckll Ili • 111 ,11•m·te dos impostos indiretos decidido o estabelecimen-
e massacrou "gabeleiros". O exemplo bordclês foi s:guidn Ili 11111 t'Ompoix cabaliste (registro que servia para estabelecer
sudoeste, especialmente em Périgueux e em Agen,- _Em l11111 1 dn~ tributações), "os comerciantes e os hospedeiros ali-
gueux, a desqrdem eclodiu, e_m jun~o'. "com as not1cias.,clw~11 Ili II povo miúdo, dizendo e publicando por toda parte
das de .Borc!éus de que o rei quena impor uma cont11hu l~111 1 1 11 l{nbela, e o povo miúdo era tolo o bastante para acre-
sobre os hospedeiros e outras taxas vulgarmente chamad1w ti 111-•i•,".17
gabela".u Quanto à sedição de Agen, ~ambém de junho tk lfil 1111 l'lllllOr nasce, portanto, sobre um fundo prévio de
"chegou com a suspeita de que se ~rnha estabelecer a !-{1thrl 1 ltl\lk1s acumuladas e resulta de uma preparação mental
na cidade e de que havia muitos habitantes [...] que tom:1v11111 · ti 1111111 convergência de várias ameaças ou de diversos
partido dos gabeleiros".'4 Evidente~nent_e, nem sempre l'N 1 l1l11lt1tl qoe somam seus efeitos. Em 24 de maio de 1524
rumores eram sem fundamento. R1chelieu realmente p t>1l~1 • ,h•vnstada pelo fogo. Outrora tais incêndios eram fre~
em suprimir na baixa Normandia o pr_i~ilégio do 111~1·t lmul/h 1 , • Ili cidades onde muitas casas eram de madeira. Mas as
que dava às regiões que dele se beneficiavam o dtre1to eh: p111 , ~" 1•onvencem de que "gente desconhecida e disfarçada"

269
268
se introduziu na cidade e fez crianças de doze a catorze 111111 r1III' e em 1523 chegaram a ameaçar Paris. A pontO de o
nela atearem fogo. V,irios desses meninos são enforcados. 1\111 1 w ccisar proibir, nesse ano, que se tocassem os sinos no
é mais difícil descobrir os verdadeiros bota-fogos, aquele~ q11 th l'o dos os Santos "a fim de que possamos ouvir algum
tinham comandado a operação, "pois todos os dias eles 111111111 111,il roído mais facilmente".21 A "traição" do duque de
vam de trajes: algumas vezes estavam vestidos de comerc i1rnlt th11t1 (fevereiro de 1523) abalou a opinião. E quando se
outras vezes de aventureiros, depois de camponeses, a l).(1llllil 1111111 1 no mês de julho, que Francisco 1 ia partir para a
vezes não t êm cabelos na cabeça e por vezes os têm, em s111111 11 (Ih• foto, ele não ultrapassou Lyon), os par isienses tiveram
não se pode reconhecê-los".'8 O medo dos bota-fogos rnpltl 1 Ili l111cnto de serem abandonados. Acrescentemos ainda o
mente alcança Paris, para onde é levado de Troyes um pa i 1·1111• 1110 do "perigo luterano", o gelo do inverno de 1523-4, de
filhos, garante-se, contribuíram para o incêndio e que a jllNI 1\ ~ li li que a entressafra da primavera foi difícil, as procissões
executou. Na capital, correm múltiplos boatos: "A misturn )1111 • h111't11m se multiplicado em Paris, ora por causa do tempo,
a queima" foi preparada em Nápoles; "A cidade de l'nd• I"" 1•nusa da guerra. Compreende-se que tal conjunção de
outras cidades do reino [estão) ameaçadas de queimar"; o 11111 li I l111untos inquietantes tenha traumatizado a opinião
tador é o condestável de Bourbon .19 Vinte e dois alern:h-11 ~ h lt w1c1 que a tenha tornado crédula a todos os boatos alar-
presos "sob suspeita" no faubonrg Saint-Denis. "lnter rog-ntl11 lt - 11 que tenha despertado nela o medo dos vagabundos.
revelam-se inocentes. Mas a municipalidade ordena "aos co11111 ~11111·11 mesmo do incêndio de Troyes, o parlamento orde-
1
ciantes, burgueses e habitantes" que fiquem de vigia à 11oi1111 11 11t1dos os desocupados e pessoas "sem eira nem beira" que
que continuou [...] pelo espaço de dois anos". O parl:11111'111• 11,~1111 1 11 cidade. Como não acreditar que havia bota-fogos
ordena ainda que se mantenham lanternas acesas dia nl\1 rh1 1 lt•~?
casas depois das nove horas da noite e que se tenha ágrn, p1, ( l 111111or pode tomar o aspecto de uma alegria insensata e
manentemente em "recipientes" na proximidade das porl 1llt, \ 111111 louca esperança - falamos da crença recorrente n a
fogueiras de são João e a festa de são Pedro e são Paulo 1, 1\ 111 tios impostos. Porém, no mais das vezes, é espera de
proibidas naquele ano. Vagabundos são presos e, aco1-rc111 111h, 11111111 únio. Não é surpreendente, levando-se em conta o
dois a dois, obrigam-nos a limpar as fossas da porta S11l111 1 111 1q111do no fundo do psiquismo coletivo pelo temor de
-Honoré. Em tal clima de suspeita, nada de surpreendcnll' 111 l111postos e pelo dos errantes, que muitos dos boatos pro-
acredita ver "portas e janelas marcadas de cruzes de ~11 111, 1h111•~ de outrora tenham se relacionado com uma ou outra
111
André, negra~,. feitas à noite, por gente desconhecida". • 11p1•ucnsões permanentes, O Grande Medo na França de
O que e·n contramos na origem dessa inquietação col1·11\ 1
111 , 11111 que, em um tempo de dissolução da autoridade, tais
Bem profundamente, sem dúvida o medo dos homens d:1 KIH 1
11 1 , puderam desempenhar um papel histórico fundamen-
ra e dos vagabundos - vimos que a opinião pública os 1111 111 1li•
l,1~, du maneira mais geral, a impor tância e a função dos
uma mesma suspeita. Ora, um concurso de circunstâ ncia~ 111,
111~ 1111 civilização do Antigo Regime foram subestimadas.
mite que esse temor volte à cona. A guerra recomeçou 11:1 111111
desde 1521 e foi marcada por uma série de derrotas. Alé111 cll- ,
111 ,~no, ou melhor, sua reaparição periódica era uma cons-
acaba-se de saber da morte de Bayard. Ações militares dilll 11 1111\ lcl11 dos povos; uma estrut ura, como a própria revolta.
0

desenrolaram-se também na Provença. Do norte do rci 1111, 1 11111111• Medo não fez portanto senão aum entar, em um pla-
ingleses, aliados ao imperador, avançaram perigosamcn1 1· 11111 111,1,1• 1111cional, u ma realidade que conhecera nos séculos
271
anteriores múltiplas ilustrações de dimensões desig uai•, 111 11 1111c dela se teve ultrapassou os limites do real e do possí-
tempo e no espaço. A propagação de boatos alarmantes - •11111 ~Him, um rumor é no mais das vezes a revelação de um
pre circulando através dos canais não institucionaliz:idm 11hi, isto é, de uma traição. Os r elatos de rebeliões antifiscais
marcava o momento em que a inquietude popular atinl,{ill 1 11 1 111plctos de fórmulas tais como "conspiração da g abela",
paroxismo. O alerta do instinto de conservação por meio 11 1 t1111,1~·ílo do partido dos gabeleiros" ou do "partido da eles-
ameaças persistentes contra a segurança ontológica de um iu 11 , 1111e remetem claramente a uma maquinação de dimensão
po, as frustrações e ansiedades coletivas acumuladas cond111h1111 llhtl dn qual se conhecem, todavia, os agentes locais. D o
- e não deixariam de conduzir novamente em casos se111clh w 1111111odo que em 1524 acreditou-se em uma ação combina-
tes - a projeções alucinatórias. 2i O rumor aparece entiio 1•11111 •• ltota-fogos e em 1776, por ocasião da "G uerra das Fari-
a confissão e a explicitação de uma angústia generali1,ad111 , , ' 1•111 um complô dos provocadores de fome.
mesmo tempo, como o primeiro estágio do processo de cl1• I• C1, 111nssacres do dia de são Bartolomeu em 1572 e dos dias
calque que vai - provisoriamente - livrar a multidno d11 , 11111•~ um Paris e em várias cidades da França só se explicam
medo. Ele é identificação de uma ameaça e clarific:11;1111 11 ~111111•111nente pela certeza coletiva de um complô protes-
uma situação que se tornou insuportável. Po is, rejeitando 1111 I l· 111 consequência do atentado frustrado contra Coligny,
incerteza, a população que aceita um rumor faz uma :ll"ll'III~ 1 lhh1 de Médicis fi zera com que se decidisse pela execução
O inimigo público é desmascarado; e isso já é um alívio. 1\11~li • 1111 número de chefes huguenotes. Mas o governo não
em sua versão otimista, o rumor aponta um ou mais c ulp111h ~ l111unção ele m assacrar todos os reformados de Paris.
Corno durante a Fronda: os impostos iam desaparecer, 1• 11,, 1 poder real foi ultrapassado pela rebelião parisiense, que,
Mazarino quem impedira o rei de realizar esse gesto , 111111 1 ,111~ npelos à calma por parte das autoridades, tomou de
E ssa projeção paranoica fazia reaparecer periodicu 1111Ili 1 1~ 1•1111s da capital durante quase cinco dias com seu cor-
outrora, tipos ritualizados de bodes expiatórios - g:1h1•lt li 111 ocidades: vítimas desnudadas, arrastadas e lançadas
provocadores d e fomes, salteadores, heréticos. Gr:1~·:1H 11 t 11, 1111tlhcres grávidas estripadas, cestos cheios ele crianças
denominações (por trás das quais se colocam rostos), 111 1111 111I f d11~ tH> rio etc., gestos que se assemelham àqueles prati-
tividade se posiciona como vítimaN - o que efetiva me nti' 1 1 "" ,i\1•11l0 XVI pelos tupinambás do Brasil contra os p ri-
mais das vezes - e justifica antecipadamente os atos-<k• 111 li lm dt• guerra, à exceção apenas do canibalismo fina l.15
expedita que não deixará de executar. Além disso, i111p111,111 , rn• íuror popular tal que "suas majestades mesmo [...]
ao acusado (oo aos acusados) toda espécie de crimes, vlt li· 111,1111 evitar o medo no Louvre"?16 J eanine E stêbe cons-
negros desígnios, ela se purifica de suas próprias i1111•11~• 1 11~ dt1is editos de pacificação de 1562 e 1570 tiveram
turvas e t ransfere para outrem o que não quer reconh1•111 11lt11do comum o desencadear ela violência popular nas
si própria. 1111111• os católicos eram maioria. Estes acreditavam que
Escapando a qualquer controle crítico, o rumor 1, 111I llh 111dns as insolências seriam permitidas a seus adver-
aumentar os poderes do inimigo desmascarado e :1 ~i, 1111 h· 1"', 111)roveitando-se das concessões do rei, iam esfor-
centro de uma trama de cumplicidades diabólicas. Qu:11111 111, 111 dominar o reino. Um padre de Provins, Haton,
intenso for o medo coletivo, mais se estará inclinado :1.1111 ,1 1 ,1, mnneira significativa: "A dita paz [de 1570] feita
em vastas conjurações apoiadas em ramificações advl'l'~II~ h111111111111te chefe e seus chefiad os muito pareceu ser van-
que a quinta-coluna seja um mito. Mas em qualquer 111111 t 1 ,e liberdade huguenote, o que, na verdade, é [...] ".27

273
Os editos de pacificação eram portanto sentidos pelos c111n ho~que fazem a história real". 10
Graças às penúr ias que pre-
licos como traições, já que se concediam privilégios a pcsso11 111111 o verão de 1789, reapareceu a convicção, já presente
que a massa do povo via como rebeldes e heréticos. O t·1iro1 1776, de que m inistros e autoridades locais haviam con-
mento de Marguerite de Valois com o protestante Henriqm• 1h 1111111111 "pacto de fome" à custa do povo. Contudo, a reunião
Navarra, celebrado em 18 de agosto, pareceu uma confir11111~•n11 h rndos Gerais suscitou imensa esperança. Mas sem tardar
dessas apreensões: o que os huguenotes não poderiam pn:11111 11ntrnram em conflito com o governo. A opinião pública
der doravante? Por outro lado, é certo que, em consequê ncin 11!1 IIIIVtll\Ceu, não sem motivo, de que os privilegiados rejei-
atentado contra Coligny (22 de agosto), os protestantes dcNIJ 111 ns re formas e tentariam dissolver a nova Assembleia
zeram-se em palavras ameaçadoras: iam vingar-se. O di11 } 1 11111111, retomar o controle do Estado e manter os campone-
feriado, foi propício às reuniões de multidão nas igrejas. ( 1 •11ltj11gndos. A partir de 15 de maio, correu o boato de que
pregadores clamaram bem alto que os calvinistas qucl'l11111 tt\'111'1\0 reunia tropas ao redor de Paris. A demissão de
matar Henrique de Guise. Este fingiu sair da cidade, o q111 ~11 pnreceu a confirmação dos temores mais sombrios. E é
inquietou os parisienses, que talvez se acreditassem priv:idrn• ,h 1 \ 111·dnde que, sem a rebelião parisiense de 14 de julho, a
seu defensor. À tarde, circulou um rumor alarmante: M rnll 111hlt1i11 estava perdida. Em todo caso, Paris, às vésperas da
morency, que diziam injustamente ser huguenote e <]Il i.' 11 111111 dn Bastilha, estava repleta de rumores alarmantes: os
parisienses detestavam, avançava com tropas para a caph11I li 11111·~ acreditavam na entrada iminente de soldados estran-
"Desde essa hora [dezesseis horas], correu por Paris u m hrnH11 •• S1• pegaram em armas foi porque, como seus ancestrais
de que o rei enviara o marechal de Montmorency para l"n ~ h, 1'1 J, julgaram-se em estado de legítima defesa: atribuía-se
vir a Paris com um grande número de cavalaria e de info11 1111 l11 1h11 111•1\nI de Broglie a intenção de "ceifar Paris".
de que portanto os parisienses tinham ocasião de prec:ivc1 hl \'h6ri:i popular do 14 de julho não tranquilizou, pois
mas esse boato era falso". 28 1111 11 oomeço da emigração. Essas partidas pareceram uma
Enfim, quando os responsáveis pela municipalidade 1'01,1111 li .i111lu111entar do "complô aristocrático". Tinha-se como
convocados ao Louvre na noite de 23 para 24 e convid:1d11~ , 1111111 os emigrados carregavam ouro, com o que pagariam
ar mar as milícias da cidade, foi - asseguraram-lhes - pmq11 1 11111 los estrangeiros graças ao acordo dos soberanos da
era preciso defender o rei, a prefeitura e Paris contrn utn ('11111 1p,1 A França de repente sentiu-se ameaçada em todas as
plô protestante. A partir daí, quando o toque a rebate se pi'\, , lt 11111 cl rns. No final de julho, Bordéus esperava ver chegar
soar, como a população, cujos nervos estavam à prova l1111 I • 1111 l'~p11nhóis; Briançon, 20 mil piemonteses; Uzerche, o
vários anos e •,qu·e acabava de viver no pesado calor de :lKll~l1• 1 11'/\ rto is com 40 mil homens. No leste, assinalava- se a
dias de ansiedade, não haveria de acreditar na realidade d11 , h,1d1• tropas imperiais. Na Bretanha, temia-se um desem-
conjuração? i\tlassacrar os huguenotes tornava-se n 111 :li 11 11 111 lnf('lês. Mas como os emigrados, ao amadurecerem seus
legítima defesa. 111~ dt· retorno e de vingança, não teriam procurado cum-
A obsessão dos complôs planou igualmente sobre a F l'1lll\, 1~,h ~ 1111 própria França? Então se desenvolveu, após o 14
nos primeiros anos da Revolução Francesa. G. Lefebv re t· 111 li 11ll1111 11 certeza de que os errantes tão temidos - e tão
veu com razão que o Grande Medo foi "uma gigantesca IH li h I • 1m11N IHI época - eram recrutados pelos aristocratas de
falsa"." O conluio dos aristocratas e dos salteadores, no q11 1 1 1 dl• fora. A "cabala infernal" jurara a perda do país
acreditaram todos os franceses, foi em todo caso um d1•~ 1 111111 ~1• nos " traidores internos". Estes, "execráveis instru-

? 7 á. 275
mentos da tirania", iam tentar matar a França de fome e i11c1111 1111~ emissários do conde D'Artois. Considerando as autori-
diar suas aldeias e seus campos. Não se surpreende, e ntilo, q111 - dunrnsiadamente timoratas, a multidão mata uma dúzia de
o paroxismo do medo tenha ocorrido no momento da colhdt11 1111~, entre as quais o procurador-geral síndico e quatro
Pegando em armas para defender-se contra os saltc.1dol't 1111111s do diretório do departamento, assim como o promo-
cidades e burgos confirmavam por isso mesmo a existêncin 1h, 11111,1100 junto ao tribunal criminal.33 Esses fatos e muitos
complô e reforçavam a inquietação coletiva. Por certo, 1111111 m que foram enumerados por P. Caron reconstituem os
toda a França foi palco de rebeliões e de incêndios de castelo~ li I t•s de 2 e 3 de setembro em seu contexto nacional e pro-
111111• niio foram nem premeditados, nem "organizados", mas
Nlas toda a França tremeu.
"Tumultos homicidas" e "crimes de multidão" provol'111h1 lt,11 11111 todos de uma epidemia de medo.
pelo medo marcaram também na França o verão de 1792, qltt 1,~,, llj)idemia, repitamos, não era sem fundamento: os
viveu especialmente os massacres parisienses de 2 e 3 de sc111111 111•1~ mais delirantes que então circularam se explicam
bro. Mas estes não foram senão um episódio- o mais sanf.{11111 li ~1•1111wc por uma longa preparação mental e pela tomada

to - de uma série de assassinatos perpetrados nos quatro c:111111 111~1'1Üncia de uma situação perigosa (ao menos para aque-
do país no clima de inquietude e de suspeita criado pela l:{11l11111 1111 111•11111 favoráveis à Revolução). O exército sofria reveses;
pelos primeiros reveses e pela certeza de que os inim igoN1h, 11 d,• julho, a Assembleia Nacional declara "a pátria em
exterior tinham cúmplices no interior. Em Naves, no Ar&d1 11'\ 11 manifesto de Brunswick, conhecido em Paris em 1"
em 9 de julho, tendo sido aprisionados nove padres refr.1t :11h, 1111~111, 1·ealmente ameaçara a capital de uma "execução
corre o rumor de que eles desapareceram, a multidão se dii ljl' 1111 '1 de uma "subversão total"; a jornada de 10 de agosto
à prefeitura, descobre-os e abate-os a pancadas, salvo u111 q111 lll" l'U llC:t e o rancor dos "patriotas" só podia estar vivo
d ,Upltllcs que se suspeitava serem partidários do rei -
diz ter jurado a causa revolucionária.n Em Marselha, cm lO 1h
julho, espalha-se o rumor de que um comerciante de tl·t•l1h1 11111•nt:írios e aristocratas. Os parisienses, contudo, só
organiza um complô contra os "patriotas". Conduzido :'1 pl'l~íll• t 1111 mnta bastante tarde da proximidade dos exércitos
são encontrados com ele "cartuchos de um modelo panicuh11 1111, li 0111 embora os prussianos houvessem tomado Longwy
No dia seguinte, um tumulto força a entrada da prisão e o 11111 1 1h• llf,(0sto. Foi na noite de l" para 2 de setembro que
li 11 honto, na capital, de que Verdun sitiada se rendera
sacra. iVlas, antes de morrer, ele denunciara dois msstn'l4 ,1
armas, apontando-os como chefes do complô contrarrcvoh11 111 111111 11clinntado em algumas horas em relação à realidade.
nário. Eles são encarcerados. Ora, no dia 22, por volta d1111 _, 1 ",, o inimigo estava às portas! A comuna fez soar o
1 111hn~c e disparar o canhão de alarme, pediu aos pari-
horas da ma~,hã-, "tendo o povo sido posto em ferment:1~·1111, li
véspera, pela 'descoberta feita à beira-mar de uma grande q111111 11111• fo rmassem um exército de 60 mil homens, pres-
111 d1•~n rmamento dos suspeitos. Foi nessa atmosfera de
tidade de botões amarelos em boças [sic] para fraques e I i'111h 1
sobre os quais estil impressa urna grande flor de lis br:1111°11'" •• li 11\'llo que "chefes" - artesãos e federados - , com a
prova da conjuração parece gritante. A multidão penei I o 11 /111 dl' tumultos anônimos mais ou menos importantes,
Ili 111111 prisões e procederam a julgamentos e execuções
prisão e mata os dois mestres de armas. No final do mcs11111 111
de julho, os habitantes de Toulon ouvem dizer que um n111111l , l1'lcs acreditavam em um "complô das prisões": en-
11
" • p11ll'ÍOtas" partiriam em combate no front, os pri-
contrarrevolucionário está a ponto de eclodir: um fortt' ~11
1 1li 1lx11dos sem vigilância sairiam para a cidade e facili-
incendiado, os patriotas decapitados, um outro forte scr:í 1•1111
277
276
cariam a entrad a e a ação dos inimigos. Essa convicção p:111•1 I, ltm inimigos: Paris, desguarnecida pela partida dos homens
a inda mais plausível pelo fato de várias prisões e diversos lrn 111 11,, vni ser abandonada aos traidores internos.
que faziam as vezes de prisão estarem situados no próprio ('Ili 1 l l(llndo o r elato d e um padre, desde os dias 29-30 de agos-
ção de Paris: ilhotas de traição de u ma cidade sitiada 011 q 111 1111 l(t1rns" teriam g ritado aos "esbirros", no decorrer de uma
corria o risco de sê-lo. 1 tl11111icilia r do colégio de Navarra: "Coragem, me us ami-
Entre as vítimas dos massacres, houve mais prisioneiro~ 111 p11•ciso matar sem piedade todos esses pat ifes aristocra-
direito comum do que "políticos". A proporção geral ent n· 1111 1111111~ esses ladrões que querem nos matar".
e outros teria sido, tomando-se a estimativa baixa (737 cll• 11111 l 111 l de setembro, soldados dizem à multidão que o lha a
lado, 353 do o utro), de 67,61% para os primeiros e 32,38'Y., p111 • li' 111 de carros cheios de prisioneiros a caminho de Abbaye:
os segundos, e considerando-se a estimativa alta (1003 e 111'I ,,111 vossos inimigos, os cúmplices daqueles q ue entrega-
de 71,9% para os primeiros e 28,1% para os segundos.•·• l1 11p11 \, 1d11n, aqueles que só esperam vossa partida para decapi-
sível pretender, em consequência, que os de "direito co11111111 11 "'~ filhos e vossas mulheres".
fossem mortos "a lém da conta" o u por "arrebatamento" e "1111 ,, 11. Roland fala d a "repugnância" do "povo" em "abando-
briague;,. de ferocidade". A explicação é outra e está lig-:1d11 111 , 11~ lurcs deixando atrás de si lobos devoradores que, logo
medo visceral dos salteadores. As pessoas sem eira nem lwiht , 111 rdus, lançar-se-iam sobre o que de mais caro ele teria

sem moralidade, que tinham sido condenadas por culpas cll~, t li 111o1clo".11
sas, não deixariam d e vender-se pela melhor oferta . C ntll , 1._,,~ frases são, no mais das vezes, pronunciadas por ho-
ajuda do our o do clero e dos nobres, seriam p reparacl:h p 11 \ l1111 refletem claramente palavras fem ininas repetidas de
tornar-se a massa de manobra e os faz-tudo dos ini mi~o~ il li l.11 : esposas e fil hos se verão sem de fesa; sua vida está em
nação. Era preciso, portanto, suprimi-los com urgênci:1. 11 , N" <:wno não imag inar igualmente um papel dete rmi-
"justiça necessária do povo" despertou mais tarde ho11111 , 1 ,1,,,. mulheres por ocasião das rebeliões em Paris, Lyo11 e
aversão. .Mas no momento mesmo, muito pouco se fa lou d l , ~111\1 1 oco rridas em meados do século XVIII quando dos p re-
e m Paris, onde a preocupação primeira era com o ava111;0 1h1 11 1,11110s de crianças? Quem teme em primeiro lugar esses
tropas estrangeiras. Além disso, parece que a maioria dm p1111 \1 11111<> :'IS mães?
sienses acreditou no "complô das prisões". ~ 11111 Ir daí, compreende-se melhor por que tão frequente-
,,~ 11111lheres desem penhavam um papel motor nas "co-
, •" prnvoc:1d:1s pela carestia e pela escassez de cereais.
1l1 l1 111di11m, por uma espécie de reflexo biológico, a v ida d e
2. AS MULHERES E OS PADRES NAS SEDIÇÕES;
O ICONOCLASMO 1111111~ e a existência física de seu lar. "O elemento mais
i.1111• !tias rebeliões frumentícias]", escreve Y.-M. Bercé, "é
Os trágicos acontecimentos do verão de 1792 convid11111 t ll\11 de mulheres. Até n as emboscadas camponesas, à
insistir no papel das mulheres nas rebeliões e nos "cri1111•- ,1 11,t~ f( l'1lndes estradas, havia mulheres armadas de ped ras
multidão" de o ut rora. Com efeito , lendo nas entreli11h11- 1 1,111, ,1111-se nos tumultos do pão caro sem outro programa
relatos de todas as tendências redigidos pelos contempo111111 • t1A11 11 ungústia do futuro e a justiça dos p rovocadores d e
dos m assacres de setembro, adivinham-se as palavras inquh t • l l111n ntitude r epetida inúmeras vezes por ocasião dos
das esposas e das mães, em casa o u na rua, à aproxim:1~·.111 ,1 1l,111~ que marcaram os começos d a Revolução Francesa.

""'º 279
O aumento dos impostos ameaçava reduzir à men<licid11d1 1 1111 civilização pré-industrial. Assim, na Inglaterra do
punha em risco a própria existência de uma parcela da pop11h1 IP~n do século XVII, elas participaram amplamente das re-
ção de uma cidade ou de uma província; assim, não é de NIII ' ~ 1•1mtra as enclosures e pela manutenção dos bens comu-
preender que as mulheres abrissem caminho às rebeliões 1'1111 N11o estiveram mais ausentes das agitações violentas
fiscais por meio de explosões públicas. Em Cahors, em 16~7, 1•li1 l111111<111s pelas dissensões religiosas. E m Edimburgo, em
queimam publicamente o banco onde se sentam os ele1to•I li 11 11•~istência ao Pmyer book de Carlos I começou com u m a
catedral, bem como os móveis de seu auditório.i, Em Agcn, 1111 1•11 mnnifestação da "canalha das servas" em Saint Giles'
1635, em Caen, em 1639, são elas que desencadeiam a reh11ll111, li h. l•~las interromperam a leitura do deão, lançaram tam-
- aqui investem contra um policial das gabelas, ali cc~·<:11111 t, 1 • 1111 direção do bispo e, tendo este se esquivado, apedre-
alojamento do cobrador das derramas.3" Em Montpell1c1-. 1111 li 111uit:1s e vitrais. Do mesmo modo Crespin e o autor da
1645 as donas de casa que fazem manifestações contra o 11~1• ,, ,•,l'li'~·irrstique des Egüses réformées atestam conjuntame nte
são c'onduzidas por uma virago que declara que é preciso i1· 11111 1 11111llwrcs participaram de todas as fúrias iconoclastas que
a morte ou exterminar os a rrematantes de impostos que lirn111 1 111111111 ns estátuas dos santos no século XVI n a França e nos
pão da boca de seus filhos/' Em Limoges, em 1705, o i11c0111lh lliwms.44 Deve-se dizer que e las "transferiam" então para
das casas dos gabeleiros é provocado por uma "multidão dl' 11111 11111111 1•cligioso uma atividade sediciosa que exerciam m ais
)he res, moças e crianças da escória do povo miúdo, niio w111l1 111t•111cntc contra os açambarcadores e os agentes do fis-
4
seus maridos e pais aparecido de modo algum". º O mcd11 ti 1 ,plk:ição fundamental me parece outra: as mulheres

gabela parece ter sido, portanto, de início, uma º?sessão h•111I Ili 111111 medo antes dos homens, quer se tratasse de pão,
nina. Como prova, ainda esta anedota: num donungo de 1ft li 111~, 1wrlosures, ladrões de crianças ou religião. Eram elas
na pequena ig reja de L annes, nos Pireneus, o padre pre)llll 11 1111111•lro percebiam a ameaça, acolhendo e difundindo os
para ler uma pastoral do bispo. "A maior parte do público q11 •1 111111unicavam a angústia a seu círculo e estimulavam
estava então na santa missa acreditou firmemente que ele q11111 11 1111'~1110 as decisões extrem as. Ou melhor, incitavam-

tornar pública exatamente a gabela e que por esse meio c~\11\,rn 111111111• 11 iniciativa dos gestos irreparáveis - dos gestos
perdidos; o público e sobretudo as mulheres e moças q111 11 111111 lllznva m, uma vez que deviam intimidar, ou mesmo
est avam começaram a gritar contra o dito padre.''" Qu:111111 • li 11 11 11dvcrs,frio.
mítico imposto sobre a vida, são as mulheres, em primeiro 11111 1 111 , 11111cza, existe um militantismo feminino que contri-
e sobretudo, qu_e creem nele. Em Montauban, em 1691 , 11111.I 11111 1 ~11111plo, para transmitir às gerações do século XIX a
um comissionado de finanças mandado afixar um edital 11111111 li 1h1~ 11110s ardentes do final do século XVIII. Pensamos
ciando a venda de novos cargos, "espalhou-se um boato t•11t 11 111, 111111•11s, na viúva Babeuf e na viúva Lebas.45 Em nosso
povo miúdo, e sobretudo entre as mulheres da mais baixn 11 11 I' 11,11I' llUC mulheres são as verdadeiras inspiradoras do
<lição, de que se queria fazê-las pagar seis deniers a cada <'111111 li 1,1il111• •Mcinhof. Contudo, meu propósito aqui não é
que lavasssem, dez sols a cada menino que dessem à l\1!. t' 1111 1 •~ 111"1 t·ontínuas, mas sim gestos espontâneos e precisos,
sois a cada menina".41 Seguiu-se um começo de rebel1:1t1 r11111 l 11t1 ~1• 1•cpctiram como constantes através das épocas, no
participação de duzentas ou trezentas donas de casa . 1h 11u,vimcntos sediciosos não premeditados. Ora, t ra-
.Múltiplas pesquisas ressaltaram, recentemente, a v:11'11•11 • 1 11111 111111portamento que não desapareceu. L. Pliouchtch
dos movimentos sediciosos nos quais as mulheres 111111111 111, 11111 1%7, em Prilouki, na Ucrânia, os milicianos t or-

?Jl 1
O aumento dos impostos ameaçava reduzir à mendicicb11lc 1 Ili 1111 c ivilização pré-industrial. Assim, na Inglaterra do
punha em risco a própria existência de uma parcela da pop11l11 111~11 do século XVII, elas participaram amplamente das re-
ção de uma cidade ou de uma província; assim, não é de •1111 ln1•~ t·ontra as enclosures e pela manutenção dos bens conm-
preender que as mulheres abrissem caminho às rebeliões 111111 " N~o estiveram mais ausentes das agitações violentas
fiscais por meio de explosões públicas. Em Cahors, em 1637, <1111 h11111d11s pelas dissensões religiosas. Em Edimburgo, em
queimam publicamente o banco onde se sentam os eleitor, li 1111•csistência ao Pmyer book de Carlos I começou com uma
catedral bem como os móveis de seu auditório.J1 Em Agcn, 11111 11-11 m11nifestação da "canalha das servas" em Saint Giles'
1635, en~ Caen, em 1639, são elas que desencadeiam a rclK·ll~11 111 h, l~lns interromperam a leitura do deão, lançaram tam-
- aqui investem contra um policial das gabelas, ali ccrc:1111 1, 11 ~ 1111 direção do bispo e, tendo este se esquivado, apedre-
alojamento do cobrador das derramas.is Em Montpellier, 11111 Ili 11111•ti1s e vitrais. Do mesmo modo Crespin e o autor da
1645, as donas de casa que fazem manifestações contra o Il,1111 /1,. 1rl'rMsinstique des Eglises réformées atestam conjuntamente
são conduzidas por uma virago que declara que é preciso ir pai 1 1111111\orcs participaram de todas as fúrias iconoclastas que
a morte ou exterminar os arrematantes de impostos que tirn111 ,, 11111 11111 :is estátuas dos santos no século XVI na França e nos
pão da boca de seus filhos.)') Em Limoges, em 1705, o incé111lh• , th1ixos.HDeve-se dizer que elas "transferiam" então para
das casas dos gabeleiros é provocado por uma "multidão de 11111 11111110 religioso uma atividade sediciosa que exerciam mais
lheres, moças e crianças da escória do povo miúdo, não t1•111h, 111111 rnncnte contra os açambarcadores e os agentes do fis-
seus maridos e pais aparecido de modo algum":º O m edo d1 nplicação fundamental me parece outra: as mulheres
gabela parece ter sido, portanto, de início, uma ohsessiio ll'lttl 11111 110111 medo antes dos homens, quer se tratasse de pão,
nina. Como prova, ainda esta anedota: num domingo de IMll •- 111~, 1111closures, ladrões de crianças ou relig ião. Eram elas
na pequena igreja de Lannes, nos Pireneus, o padre pre!l:11·11 1 111 l11wirn percebiam a ameaça, acolhendo e difundindo os
para ler uma pastoral do bispo. "A maior parte do públirn 11111 Ili 1 ~, rnmunicavam a angústia a seu círculo e estimulavam
1 1

estava então na santa missa acreditou firmemente que ele q11111, 1 11 mesmo as decisões extremas. Ou melhor, incitavam-
tornar pública exatamente a gabela e que por esse meio es1111•11111 li 1i1111nr a iniciativa dos gestos irreparáveis - dos gestos
perdidos; o público e sobretudo as mulheres e moças qt11• 1111 lt 111q11ilizavam, uma vez que deviam intimidar, ou mesmo
estavam começaram a gritar contra o dito padre."41 Q1fa111 0 111 1tlh11 o odversário.
mítico imposto sobre a vida, são as mulheres, em primeiro 11111,11 C 11111 <'0rteza, existe um militantismo feminino que contri-
e sobretudo, qúe. creem nele. Em lVlontauban, em 1691 , 111111!1 11111 11,xumplo, para transmitir às gerações do século XIX a
um comissionãdo de finanças mandado afixar um edital :1111111 11 ht dos anos ardentes do final do século XVIII. Pensamos
c iando a venda de novos cargos, "espalhou-se um boato c1ll l l 1 11111 1• out ras, na viúva Babeuf e na viúva Lebas.45 Em nosso
povo miúdo, e sobretudo entre as mulheres da mais bai x:1 11111 , p1ll'CCC que mulheres são as verdadeiras inspiradoras do
dição, de que se queria fazê-las pagar seis deniers a cada cn111I 1 lh1111lor-Meinhof. Contudo, meu propósito aqui não é
que lavasssem, dez sois a cada menino que dessem à luz e 1•1111 h11 11~•1\cs co ntínuas, mas sim gestos espontâneos e precisos,
sois a cada menina".4' Seguiu-se um começo de rebelifo t '!IIII 1h1~l1111c repetiram como constantes através das épocas, no
participação de duzentas ou trezentas donas de casa. . 111 dt• movimentos sediciosos não premeditados. Ora, tra-
lVIúltiplas pesquisas ressaltaram, recentemente, a v:1nrd111I i, 11111 comportamento que não desapareceu. L. Pliouchtch
dos movimentos sediciosos nos quais as mulheres ton 11111111 111111, um 1967, em Prilouki, na Ucrânia, os milicianos tor-
turaram e mataram um jovem operário, sem armas, preso p111 (llt •cissões ou simplesmente da missa dominical. Locais
engano à saída de um baile. Alguns dias mais tarde, c.:011111 , 1l,114l11dos de agrupamento, a ig reja paroquial e se u átrio -
cortejo fúnebre passasse diante do posto policial, uma 1111111111 111111itério vizinho - constituem frequentemente os epi-
gritou: "Abaixo os ss soviéticos!". Outras mulheres reto111111 1111, ro~ ele onde se propagam os "furores" populares. Além
em coro esse slogan, depois os homens. A multidão se pn:dpi11111 ti igreja é geralmente uma construção sólida, algumas

então para o interior das dependências da milícia, saqueou 11 111111ificada: eventualmente, será um refúgio. D e qualq uer
moeu de pancadas os milicianos46 - ilustração comemprn ,1111 li 11, cstá no próprio coração da vida coletiva. Existe, toda-
da iniciativa feminina nos gestos de cólera coletiva. 11111 local diverso da casa de Deus onde as pessoas se encon-
Os "ritos da violência" nas sublevações de outrora sact 11111• lt1,11ucntemente: o cabaré. Assim, as notícias, verdadeiras
ra bem conhecidos e a pesquisa recente fez justiça às ac11s1I\II' I,,,~, pro pagam-se de albergue em albergue. Igreja paro-
e pseudodescrições dos ricos que representavam o povo 1111 "' " 1•11h11ré são, na sociedade de outrora, os dois polos onde
tado como uma "turba enlouquecida", uma " besta de mil n 1l1 •111 IIN redes de sociabilidade, sobretudo para as camadas
ças", um populacho d esenfreado "sem ordem nem cht:11• '
1
11,h•~. Do ponto de vista enfocado aqui, são mais comple-
qualificativos utilizados no século XVI por Guillaumc 1'111 ,1111 .,, ~ 11111 do outro do que faz crer o discurso clerical da

para caracteriz,u as sedições de Lyon provocadas pcl:1 c1111 li ~,1111pre agressivo contra os cabarés.
dos cereaisY Descrevendo o carnaval sangrento de Ro 1111111-,, 11111 li iclão não age sem chefes e só adquire segurança
1580, E . Le Roy-Ladurie viu ali uma espécie de p~irntl11111 111 h vncla por eles.49 Ora, quem são esses homens fortes
exemplar, de "tragédia-balé cujos atores representar:1111 11 d 11 11111 ~(i tempo a fazem estremecer de medo mostrando-lhe
çHam sua revolta". A propósito desse "drama elisabet:11111'' 1 IIM••~ ~lllC a ameaçam e a tranquilizam pelo engajamento
acentuou a recorrência dos fantasmas de antropofagin 1 1 11, N1111 cidades, em geral, são artesãos, de maneira que,

tema conexo da troca de mulheres.48 Inútil reprodtw.i,· 11q111 , d11 npnrente incoerência das sedições urbanas, é preciso
que já foi bem dito em outras partes. Em compensa,·11111 li lu I ti vivn estrutura das corporações e das confrarias de
mostrar em que e por que a sedição era um remédio 11111 , ,\ l1tN, entre esses artesãos, da Insurreição Cabochienne
medo coletivo, sobre tudo nessas jornadas ciclônicas o~d1• 1111 11 ,1 lttwolução Francesa, não nos surpreendamos de en-
vinha por inteiro a situação de multidão e onde se 01w1 ,11 , t 1111 primeira fila os estalajadeiros e os nçougueiros.50 A
salto à violência com a esperança - e até a certeza - d11 ••il 11 ,,-~odn o vinho e o sangue: tem necessidade daquele

ção pela força•. .Em primeiro lugar, não há passagem ~ 11 1, 11 t ,, tlc beber e daquele que provoca a morte. Mas, tan-
que não sejá acompanhada de rumores que a um so 1, 11,1 t 11111111 como na cidade, existem outros chefes cuja im-
impressionam e exaltam - clamor da multidão, e sol11 , li 1 111111lvcz não tenha sido suficientemente sublinhada: os
toque a rebate e rufar de tambores. Sinal e prova d1• q111 ,li lwoja em contato com o povo. Porque pregam, são
entrou em um tempo diverso daquele das ocupações h11lil111 t1l,tth1 lros guias. Na Europa do Antigo Regime, aqueles
eles convidam à superação das inércias, das m onmo11 11H1 1 1 1 "11IOncia têm a multidão nas mãos fazem-na alterna-

interditos que são o tecido cotidiano da vida. Po r out 111 1 i 111 IIHJI' e esperar, chorar e cantar, obedecer ou r evol-
uma coletividade adquire confiança só pelo fato de 1'1'111111 A11111111clcs que falam em nome de D eus.
Daí a multiplicidade das "comoções" e sedições que 1•,11h, t 1 11111• os padres e os pregadores católicos, de um lado,
por ocasião das feiras, dos mercados, das festas dos p:u 11 111 1, 11,ttlmcs reformados, do outro, desempenharam um
papel de primeiro plano nas guerras religiosas do século \ \ 1
hro, Quantas vezes, no decorrer dos conflitos religiosos do
111 ~VI, os "pregoeiros" católicos n ão taxaram de fraq ueza
parece banalidade. No entanto, a historiografia sa li..:1111111
lh1111nis encarregados de castigar os "luteranos", não com-
sobretudo a ação dos governos e dos grandes, e não vemos 1H1II
r11111 Catarina de Médicis a Jezebel ou H enrique III a Acab
cientemente que Catarina de Médicis, Coligny, Guilhcrn1111 11
Tacitur no, mais seguiram do que comandaram os acrn111111 lll purmitiam a introdução de uma nova religião não
m entas.;, Aqueles que lançaram os cristãos uns cont 1·11 11 •• 1wrniciosa que a de Baal, e não tornaram o protestantis-
outros, em particular nas cidades, foram obscuros ornd111t •ponsável pelas desgraças - tal como a derrota de Saint-
fanatizados, militantes que trabalhavam em plena massa h111111 nt 111 - que a cólera de Deus enviava à França!57
na porque dispunham de um púlpito e, no plano local, º ''KIIIII • pnigadores reformados, evidentemente, não ficavam
zavam com evidentes intenções agressivas cantos públicrni 11 11 ~1111 responsabilidade nas "fúrias iconoclastas" e nas

salmos ou procissões armadas. Um historiador do século p11- • lhl\l'ICS nmorte dos "idólatras" foi capital. Sua referência
do escreveu com razão a propósito dos distúrbios da P rovl\11\ lt ~poito era o D euteronômio (13:7-12):
no século XVI: "Não há sedições [...] nas quais não se w)i111
monges franciscanos, capuchinhos, carmelitas, domi11 11•11111 11111 irmão, filho de teu pai ou filho de tua m ãe, teu fi-
fazer as noções mais atrozes e dar os primeiros golpe•, 111 111, 11111filha, a esposa que repousa em teu seio [...] procura
massacres".51 São muitos os fatos que corroboram essa :11i1111t 1111,IMc secretamente, dizendo: "Vamos servir a outros
ção. Em 1560, em Rouen, padres seguidos de seus p:1roq11I 1 11-• ~ 1...]", não consentirás em sua palavra, n ão o escuta-
nos desfilam nas ruas para a procissão do Corpus Do111h11 lt•tl olho será impiedoso [...]. Sim, deverás matá-lo, tua
Reformados que estão às janelas recusam-se a prestar hon 111• • 11 ~,,1·11 :l primeira contra ele para dar-lhe morte e a m ão
santo sacramento. A multidão católica invade e saquci11 •11 t11il11 o povo continuará a execução.
casas_ll Em Toulouse, em março de 1562, u m cônego prcK'' 1111
ardor a quaresma, atacando alternadamente os protest:11111•N 1 1 lh11111cnte, em Rouen e em G ien em 1562, destruições de
magistrados suspeitos e anunciando os efeitos próxi11111- ,1 t• li11 11111 perpetradas em consequência de pregações onde
cólera divina.54 Em Orange, em fevereiro de 1571, os Sl'll111• 11 1h 111oronômio.;8 Em Lyon, no mesmo ano, um pastor,
incendiários dos monges mendicantes têm como conscq11P111 111 1111 miio, participou do saque da catedral de são J oão.;,,
onze dias de massacre dos huguenotes.55 Em OrleanS: 011111 1 Ih 11~ nilo deixaram de salientar a relação entre pregação
25 de agosto de 1572 chega a notícia do dia de são B:1 rtol11111 l,11111111 que aparece, entre outras, nesta carta destinada
parisiense, a 1hultidão católica é amotinada por "certo pr1•14,11I 11111111 de 1566 por Margarida de Parma a Fi)jpe TI:
do rei cham;do Sorbin, ignorante e turbulento dentre 1od11
doutores da Igreja romana" e invade as casas dos protcstnlll• 111 111t11do rcs] pensam que todas as coisas lhes são permi-
Em Bordéus, em um sermão pronunciado no dia de são M 1111 1lt•~11•ocm imagens, pregam nas igrejas, causam impe-
do mesmo ano (20 de setembro), o jesuíta E. Auger csp111111 11111~ IIOS católicos, fazem o que bem lhes parece para
de que a cidade ainda não tenha seguido o exemplo d:1 t•,11111 1 111 11 ~•o ntestação da justiça [...]; esses novos nunistros,
Acusa o governador de pusilânime, censura-o por "dornill t
ilrn 1•~1 destruidores de imagens e condutores dessas
sua prostituta", anuncia a vinda do anjo exterrnin:1dn1 , 1
ser mão põe fogo na pólvora: a carnificina começa c lll 1
,,,1, ~ 111ostram-se por toda parte. º
6

285
284
Nenhuma dúvida pode subsistir sobre o fato de qu1• 11 R11 há nada de surpreendente no fato de padres terem
demolidores de imagens que grassaram nos Países Ba iXOH 1111 lllpl111hado papel determinante nos movimentos milenaris-
decorrer do verão de 1566, tenham sido efetivamente fon:11 1 , 111 l111scavam nas Escrituras seu projeto de revolução social.
dos. Um dossiê estudado atualmente pela sra. Deyon e prn \ 111111 numerosos em Tabor em 1420, e M üntzer fora mon-
Lottin destaca essa evidente sucessão dos sermões e das vlnl 11 .11,11 niano antes de formar a Liga dos Eleitos. É mais
cias iconoclastas. Pois estas foram precedidas, de Vale111:ic11111 n11nte observar que a "sublevação dos trabalhadores"
a Anvers, por uma pregação maciça, ao ar livre, às por1 1w 11.1 l'- om 1381, a despeito de várias reivindicações igualita-
cidades.61 Essas "prédicas das sebes" começaram no fi1111 I 11 1 11omunizantes, tinha em vista objetivos concretos e
junho e culminaram por volta de 10 de agosto - data do IHII li 1•111~ lJUe não eram forçosamente utópicos - abolição da
das pilhagens-, eletrizando auditórios cada vez mais 1111111111" IR11 1 partilha dos bens de Igreja entre as paróquias etc.
sos, que podiam chegar a 15 mil pessoas. Frequentemcllll , 11111 cios chefes da revolta foi um pregador errante, John
assistentes iam com suas armas, prontos a deixar-se :ll't 11!11 ti 111111 11elquirira o hábito de arengar os camponeses "aos
pelo pregador a alguma ação explosiva. Um "discurso 11, 1111111N depois da missa, quando todas as pessoas saíam do
comoções ocorridas entre o povo tumultuado na cid11tl1 11 li o", Então, "ele vinha ao claustro ou cemitério, e ali
Enghien" relata: "'' ,. f'n½ia o povo juntar-se em torno dele" [...] Assim con-
,1-~11111 em um texto que esclarece um panorama mais
Que, no dia xxvn do dito mês de agosto de XV I" !, XVI, p, 1 11111• o ela sublevação de 1381.
manhã, se fez a primeira pregação no bairro de E11Hhl111 h 11•1•ontes estudos sobre os miseráveis e os vagabundos
no lugar chamado de Heerhouwt [...], por algum mlnl~t, 1111 1•11111 efeito a presença frequente dos padres, especial-
acompanhado de grande número de pessoas de Audl·11111 ,I 1l11~ pndres da paróquia, nas revoltas que atravessaram a
munidas de diversos i-nstrumentos, como também v:írl11 11 • ,111 ~éculo xvn. Na baixa Normandia, quatro padres
Enghien [...). dlll pn1·te ativa na insurreição contra os gabeleiros. U m
Do mesmo modo, do Heerhouwt o povo da dil 11 pi M11l'ci, vigário de Saint-Saturnin, nas redondezas de
gação com seu pregador ou ministro tinha vindo li 11~, 111111 ~, rnlvez tenha sido mesmo o verdadeiro chefe da
rynes e à igreja de Chartrois, onde jantaram, e aqul'li 1I
IA11 1)urante os distúrbios das comunas de Angoumois e
claustro de Chartrois que administravam os bens t· p11111
IIIHI ( 1636), viram-se chegar a Blanzac "cerca de quatro-
sões ali estavam; e ao mesmo tempo saquearam a if,\l'tth1 ,1
li11111uns armados de arcabuzes e de piques distribuídos
dito He1·ryiies e Chartrois, juntos rasgaram os livro~ tl1 ,
, 1111 (JUinze companhias conduzidas por seus padres,
biblioteca.
11111111hnndo em boa ordem ao som de alguns pífaros e
1 111 11' fa lta de tambores".<,) Encontram-se padres igual-
Em outro documento da época, um pregador prov1111 h 111
• Ili I t' os revoltosos do Périgord (163 7-41): "Alguns
de Genebra e preso após o fim dos distúrbios, con fos~11 111
, 11111 n um contemporâneo, "estavam à frente dessa
entrando com um bando em uma igreja do Cateau-C:11111111
~• 1 , Um outro testemunho garante que "um padre se
11
"tomou uma pia de água benta de cobre, que at-rCllll"INIIII
chão. D e lá foi a uma capela rasgar um gonfolão. En1ílo1 1111 1111 µi-nndemente na rebelião e sublevação da comuna de
fizeram o mesmo e houve ali uma confusão". ,1p,11• cnusa da valentia de sua corag"m e também por
10L 2S7
sua força". Padres e v1ganos solidários aos rebeldes devl11111 1•111 ln mente mudada a sua destinação original. E nfim,
"banir o vício [...], exortar o povo cristão a preces e or:wf11•~ r -•• in ampliar à América a investigação sobre os laços
Deus com proibições contra os blasfemadores e esc,md,\111~11 1c volt:is e homens de Igreja. O México revelar-se-ia então
que se voltarem contra a honra e a glória de Deus". 64 111po de estudo privilegiado: Hidalgo e Morelos, que dfri-
Nos Pireneus, são ainda padres que conduzem as n.: vnh 1 l 1111 primeiras sublevações com vistas à independência
antifiscais· do vale de Aran (1643), Sonle (1661), Lavednn (IM •11 11mm encarregados de paróquia e, além disso, conhe-
e 1695).65 Em 1675, vários padres se colocam à frente do~ 111111 1111 1ncnos seis padres "agraristas" que estiveram à frente
poneses bretões em cólera na região de Carhaix e de (;rn11ll1 111 1111 cnmponesas no México entre 1827 e 1894_;, Outrora,
Alguns serão condenados às galeras, entre os quais J ean 1)1111 11 111·11 o h omem que dava segurança a uma paróquia,
de Carhaix, "comprovadamente chefe dos revoltados e 111111I 11111•1 cm caso de dificuldades, indicava o caminho a
feito alguns habitantes dessa cidade assinarem um ccnil h 11I 1l11dn que fosse o da rebelião.
de capitão dos revoltados preenchido com seu nome",•• 1 1 llilll t1 preciso demonstrar que o motim urbano (seguido
1680, o intendente de Poitou escreve a Chamillard: "Não p111I 11h 11111:1 rebelião mais longa) e a efervescência que mar-
ríeis compreend er quanto esses padres fazem m:11 Ili • l1111111 de uma revolta camponesa muitas vezes revestiam-
departamento","1 pois pregam contra as derramas e as rei l11111, ' h il li :1ção de outrora, de um caráter festivo e báquico.72
escondem os móveis de seus paroquianos antes das apn·1111 f 11 111·,1111-se ali a atmosfera e os ritos do carnaval, o tema da
e incitam à resistência. Integrados à comunidade p:u•rn1111 1 11 ~111'1111 que as festas dos loucos medievais conheciam, o
esses padres são naturalmente seus porta-vozes e seus t 111 1 111, ,l11111in:tnte dos jovens cujos agrupamentos, agora o
em período de efervescência. Assim, sua atitude diícn• , 1l11h11 m na sociedade tradicional uma função de polícia
menos antes do século xvm - da atitude dos missio111l1lt1 1 1111111'~. Na alegria ruidosa afirmavam-se a unanimidade
interior. Estes - Eudes, Maunoir, Grignion de Mo nilotl 1, 1111t11iOncia coletiva, a personalidade de uma comuna ou
por certo esbravejam contra os ricos e, por ocasião elas 1•1111,h 111111111 11 solidariedade de um grupo que, por essa reação
bancam os conciliadores. Contudo, mensageiros da h i1·n1111111 h11•~11, nfastava os pesadelos que o p erseguiam. Essa
recomendam a ordem e a submissão. "Suportai tudo ~l'III 11111 11 tlu medo era acompanhada de uma desvalorização
murar": esse é, em um de seus cânticos,''" o co11sd l111 111 111lv11rs:1rio do qual já não se avaliava a força nem as
Grignion de iVIontfort, que escreve alhures: "Veem-Sl' 1111111 lhl uh•~ dc reação posterior. Ocupava-se uma prefeitura,
pobres sofred~res/ Mas poucos pobres pacientes".''" 1•: 11111111 11 1 l{lthcleiros, recusava-se o pagamento do imposto,
maledicênciJ atroz/ De falar mal dos reis".iO Conhece •,11111 1 11 11 • um regimento como se por trás dos homens e das
tir dos trabalhos de R. Mousnier e de seus alunos, o p11111 I 1 h • 11111tn lmente escarnecidas não houvesse um Estado,
nobres nas revoltas do século XVll; mas convinha tn111lw111 l11 111,11111" de reserva e a solidariedade entre os possuido1·es.
tir no dos padres das paróquias. E valeria a pena, 11:1 1•11111 li 11111, 1111 1•xccuções das vítimas nem sempre se faziam -
dade de uma história longa das mentalidades que t r:111~1111111 11 1111 nn:irquia que muito se descreveu . .i.\1uitas vezes
os cortes cronológicos e ideológicos, estudar sístc111:1111,1111 1 1111m npaziguar a culpa,condenava seu antiego reite-

o lugar que tiveram nos acontecimentos revolucirnHII h· 1111111,1~ judiciárias cujo modelo permanecia vivo no
1789-99 os amigos padres e os edifícios do culto, nw~.11111 I , 1t11~1•i011cia coletiva - procissões punitivas, julga-

288 289
mentas populares antes da condenação à morte, execu,01 1111 mesmo momento: "Eles destruíram todas as estátuas;
públicas na praça principal ou, em todo caso, no lugar hahi1 111d 111111 ns telas dos quadros no lugar cios olhos ou do nariz dos
mente previsto para isso. Por essa desforra dos silenciosoH, 1 111• perso nagens representados; até as imagens da Mãe ele
massa dos anôn imos tomava as rédeas de seus negócios, g:111h11\ 1 • l1wnm tratadas dessa maneira".
coragem ao institucionalizar-se. Além disso, múltiplos n.:ht111 1odos os testemunhos concordam: a multidão iconoclasta
provam que as matanças eram raramente cegas e as pilha1-11111 p1uu11ra pilhar, mas destruir. Quebram-se as imagens a
menos frequentes do que se acreditou. Uma população em i'lih p • 1k machado ou de pique: retiram-se os quadros e sapa-
ra se tranquilizava através dessa espécie de disciplin.1 i11w1111 l ~obre eles.'"' Em Ulm, em 1531, com cordas e correntes
mais ou menos conscientemente respeitada. 111111 ~e cavalos aos órgãos da catedral, e são arrancados para
Em t>o-era!, a rebelião não se contentava em matar seu~ htl 1111 ll{rcja e reduzidos a um monte de madeira.;s Leiamos
migos. Quantas vezes, durante a Revolução Francesa, nfo ·w li h 111 11 relato do que se passou em Valenciennes em 1566:
desfilar nas ruas, na ponta dos piques, a cabeça das víti11111•1l 11,
mesmo modo, no dia de são Bartolomeu, Coligny morlU lt 1I~ h11g uenotes da cidade] entraram furiosamente n as
castrado, decapitado, lançado ao Sena, depois içado e pc11d111 1 1. 1, j111,1 tanto elas paróquias como das abadias, asilos, sem
do pelas pernas no patíbulo do Montfaucon; inúmeros p1111! 1 nh11m:1 exceção. E, chegando lá em grandes bandos, ar-
tantes, por ocasião do mesmo massacre, uma vez condc11111h1 li 11h1Ne munidos de bastões, atiraram abaixo os crucifixos
morte, foram desnudados, arrastados pelas ruas, e111p111·1111li lltllll(cns dos santos, com muitas blasfêmias e muitas pa-
no rio. Essas terríveis encenações podem ser compar:1d1tN 1, ~11111 ln fomes, depois destruíram e quebraram as tribunas,
autos de fé ou às fogueiras em que se queimava o b <Hll'l 11 ,1 111,l11N, t:Crcados elas capelas, altares, assentos, fontes batis-
um condenado por contumácia ou à atroz mascar:1d:1 n•li 11 I htl•, vitrais, depois queimaram os ornamentos das ditas
anteriormente, no decorrer da qual a municipalidade p1111t li 111111 de tal modo que o ouro fundido dali fluía em várias
tante de Basileia, em 1559, mandou desenterrar o c:1d1l\111 1 11 111~ 1...1. Ainda rasgaram e depois queimaram as cortinas,
anabatista DavidJoris, morto pacificamente três anos :11111 , 11111111~, g uardanapos e outros panos que servem ao ofício
o nome de Jean de Bruges. Arrebentou-se o caixão, 1i1'011 1 111111 queimaram e rasgaram todos os livros das igrejas,
defunto, que foi erguido contra um poste. Ao lado, cohl1'1II li lflll tll'll orna grande pena e desolação de ver assim esses
-se os livros que ele escrevera e uma efígie do perigoso li1•11 li • '""'consagrados e dedicados a Deus ficar em tal estado,
Depois, foi qú~imado tudo.73 Durante a Revolução Fn1111 · 1l,111111los por esses maldosos libertinos e pessoas sem n e-
fanáticos tiratão igualmente os cadáveres reais de su:1s •111111111 111111111 rnião, e uma grande mágoa para os católicos.'6
ras de Saint-Denis e destruirão em Anet , o corpo ai11d111111,
de Diane de Poitiers. Essas liturgias macabras ajucl:1111 11 1 h ,1111 wl11smo é um ódio cego? Ou antes um rito coletivo
preender o iconoclasmo ele todas as épocas. Em Sai nt ( 11tll , 1~1110? Vitrais, estátuas, pinturas, órgãos mesmo - ou
1529, todos os altares foram destruídos, as imagens q111 1li1 , 11Chlvcres em suas respeitáveis sepulturas - represen-
a golpes de machado ou de martelo: "Encheram-sl' q11111 1' 1111 11mn multidão em cólera, mais do que seres inani-
carroças com os despojos lançados fora da igrej:1", C'il'l 11 1 111111c1·v:wam algo do poder tirânico, ou até diabólico,
contemporâneo, "depois foi aceso um grande fogo 1• 11111 111\1\0 se esforçava em destruir. Se se decapitava Luís
consumido pelas chamas". O governador de N e uen\11111q1 , h,111do pncificamente dormir seus ancestrais em belos
2 91
monumentos cercados de respeito, não se destruíra inteirarn1111 1576: Este ano ver-se-á [o povo] exceder-se totalmente
111111 dos limites de seu dever e movimentar-se e erguer-se
te a realeza. Essa permanecia de algum modo ameaça~orn. 1lit
111 w·nndes querelas contra seus superiores, dos quais vá-
mesma maneira, para os iconoclastas do século XVI, a 1do\:111 h1
1111~ Ncrão punidos por justiça, contudo sua falta[...] grande-
romana e O poder clerical não tinham desaparecido se seus sl111
111111111: diminuirá a autoridade dos oficiais públicos.
bolos permaneciam de pé. Em compensação, a estát~a 1_m'.tlll1
1590: Além disso haverá uma grande discórdia entre o
da, 0 rosto pintado do qual se foram os olh~s, o cadave1 u_1111
1111\'111 Umto em relação aos superiores como aos súditos, e
formado em fantoche ridículo são dessacralizados e desp~>1111l11
1111-'~lllo o filho contra o pai, a mulher contra o marido e o
de seu poder mágico. Maltratando-os de todas as mai~c11·11N, '
1vldor contra o mestre.
multidão provou a si mesma seu próprio poder e redu,,1u o 1111
1602: É preciso temer [este ano] as iras, furores e sedi-
migo à sua mercê: ele se tornou inofensivo e lastimável. /\~Nlt11 8
1 • tios povos/
uma fúria iconoclasta revela a profundidade de um medo c•nl•
tivo e aparece como o último meio para conjurá-lo. ) 111mor do povo anonuno muitas vezes precisava- se,
1111 11ldade como no campo, no temor mais concreto dos
11111~. Com efeito, nas estradas e nas cidades da Europa
3. O MEDO DA SUBVERSÃO hllHII Regime, houve muitos outros vagabundos que não
Frequentemente as rebeliões acabavam depressa e 1111111 1 hp1 rnluros instáveis dos exércitos, estudados anterior-
revoltas eram vencidas. Para os sediciosos desarmados, rlWJ(•1 ,\ ltmcionemos, por certo, a partir do século xv, os
então O momento da recaída no medo. Temia-se ,1 rcp1 < •
1
111•, 111111bém chamados de "sarracenos", "egípcios" ou
que podia efetivamente se revelar terrível - foi assim Clll 14 m", 11uc acolhiam em seus grupos diversos desclassifica-
após a derrota dos camponeses alemães e, em, 1567, ~1u11t11h 1 " 1 ll{tl nos, "a juventude libertina de todas as nações",

duque de Alba se tornou governa1~te dos Pa1~e_s Ba1 x<P1, 1111 111 'i, Mi.\nster em sua Cosmografia.;9 Marginais por seus
ainda, após o fracasso de um movunento annfiscal, podht 1 • t• h11bitos, os boêmios causavam medo. Eram acusa-
temer, não sem razão, um retorno inflexível dos gabd1•li 11 11111hnr crianças. Mas os errantes mais numerosos
um novo endurecimento do aparelho do Estado. ~ 11- "homens supérfluos" de outrora,80 essas vítimas da
Em contrapartida, ficava entre os vencedores c as p11• 1 11 11111111ômica já encontradas a propósito das violências

bem situadas,a obsessão da multidão anônima e incolll l'tllil 11,111~1 foreiros excluídos pela ação metódica dos agiu-
"terrível re~ariho a ser governado", confessava um ad1111 11l-11 • 1h• 1crras; trabalhadores rurais no limite da sobre-
dor normando em 1709/7 e o temor da inversão das hh t ti •' Ili rnzão do crescimento demográfico e das fre-
quias. Testemunhos inesperado_s a esse _r«:_spei:o, o dm 11111,,. i" 1111ri11s; operários urbanos atingidos pelas recessões
de "prognósticos" cujas sombrias prev1soes, 111cans:1v1•l1111 t 11• I' polo desemprego. Todos esses verdadeiros mendi-
1 11111illl, acreditava-se, acrescentavam-se muitos falsos
repetidas, parecem refletir a inquietude pe~manentc d1• 111
aqueles que se agarravam à ordem estabelecida: • liilsos indigentes, deambularam durante séculos da
tll ,, 11 t•nmpo e inversamente, aumentando seu número
1111 ,1,, l'l'ise: o que ocorreu às vésperas da Revolução
1518: Erguer-se-ão grandes disputas e adversid:1dt", I
tre o povo comum e a nobreza.
293
lvfoitos testemunhos atestam o m edo dos mendigos sc111 hl • 1•~s1:~ distúrbios s~o vadios e homens de má natureza que
na Europa a partir do tempo da peste negra por todos aq111ih 1111~~11cm nada ou nao possuem grande coisa por seu traba-
1• ~ir Jo hn_ C::heke declarava aos revoltados de N orfolk, em
ricos e menos ricos, que tinham o suficiente para viver e 111111
.,,, I tif sed1t1on (I 549), que sua ação "provocara uma bal-
sentiam ameaçados pelo "deslocamento" e, portanto, pcl:1 ih
l I pllpula~·• uma algazarra de vagabundos e um levante em
socialização. E as pesquisas recentes sobre a vagabund1111111
111• lndroes". 8;
revelam que os homens sem família aí predominavam , o q11
aumentava ainda mais o medo que despertavam e explic:I 111111
l>• V1lj,p1bundos não passam de delinquentes e de sedicio-
1,1111bérn o que afirma em 1659 um preboste-crernl dos
bém que eles tenham procurado constituir-se em bandos.'' 111
1111" dn Itália: º
1363, o bispo de Paris deplora uma calamidade nova: ,1s 1'1 111 ,1
capital são invadidas por uma multidão inumerável de 11111111h
Ili 11• cs5.:'l gente, vagabundos e egípcios, a vadiagem faz sua
gos. A questão da vagabundagem retorna na grande Onlo111t1II
ti p11 1•11çao _ra~·a entrar nas bebedeiras, sem-vergonhices,
ce Cabochienne de 1413. Sessenta anos mais tarde, uni 11111 ,1
parlamento de Paris decide que os vagabundos scr:lo 111
r."~, hlns~nuas, querelas e sedições [...]. As rodas e os pa-
111l11N cstao frequentemente carregados desses monstros
curados e detidos para ser em seguida expulsos ou c:1s11111111 11 , 111ousando-se a obedecer o preceito divino de traba-
segundo um procedimento expedito. Legislações clcs~l' 111
1 •1 p11rn ganhar a vida com o suor de seu rosto, caem em
que serão repetidas e agravadas doravante em toda a 1,111111 1l111·t llli vergonhosas e daí cometem furtos, sacrilégios e
traduzem o duradouro sentimento de insegurança que op1111, •~~l 1111 tos pavorosos.85
durante séculos os habitantes estáveis das cidades (e dn~ 1 li
pos) diante do espetáculo dos "caymans e caynunules" q11l' 1li, 11 ,l11t1in cios "sem eira nem beira" e que "moram em toda
82
lavam de uma província a outra. p111•11111~0 en~i~1entemente suspeita na época, e a socie-
1
Em setembro de 1523, depois da "traição" do co11d1, 11 111•1111w 1de11t1f1ca marginalidade à criminalidade. Con-
de Bourbon e enquanto Francisco I estava doente c111 t 1111 uma cidade os mendigos não constituem mais do
Paris receou uma "comoção" dos mendigos. li 1% do número dos h abitantes, a inquietação não será
\1,111 se transpõem o limite de 10%, então a população
Durante esses dias [conta N. Versoris] os maus sold111h 1111 1 t 'Ol'l'C o nsco de cair em gestos de pânico.~6 Ora, na
recolhei;am em P aris em grande número, esperandu 1h ilm ~ócu los XV~-XVIII, essa proporção foi frequente-
dia pai,;a ooutro a chegada dos inimigos para que, 1111111 uh 1,1p1111s,1da. Dai um retrato falado extremamente ma-
a eles, pudessem à vontad e pilhar, destruir e devas1111 111 lm I lll(llh~rndo~, pr.?gressi~amente desenhado ao longo
de, de maneira que nesse tempo eram mais temido~11~ tt tlm puln 11nagrnaçao coletiva. E les são os "fortíssimos"
81
soldados da cidade que os inimigos. 111111•111~ ladrões" que espreitam suas vítimas n a sombra
Ili 11111 1c mpo em que o roubo é considerado mais c ri-
Na Inglaterra de Henrique VIII e de Eduardo \' 11 , º~/
111 ljllt' 11 rixa ~in_gança. São instrumentos aponta-
eclodiram numerosas revoltas, as autoridades acrcd l1111 ,11, ,,. 1111fos dos 1111m1gos do rei e do reino" - assim
erradamente - que os rebeldes eram sobret udo 1111111111 1' J,I os cscabinos de Troyes e de Dijon. Muitos médi-
Cranmer escreveu em 1549: "Os principais resprn1•11\\1 I 111 ll!IS de ser vetores da peste. Mas A. Paré vai mais

295
longe ao catalogar entre as treze causas dos monstros a "aNt 111 1 &h pohres são espectros horrendos que perturbam o repouso
dos malvados biltres da hospedagem", mendigos que i11111 11 111• pnrticulares, interrompem, a alegria das famílias e arrui-
porta em porta. Na verdade, os próprios vagabundos são 1111111 ftdlll II tranquilidade pública. E preciso fazer calar o clamor
tros, capazes de todos os crimes. A. Paré afirma com c fd111 111•~1•~ miseráveis que perseguem os pacíficos burgueses até
111 ~uns casas e se juntam em criminosos movimentos.89
[...] Com certeza, tais ladrões, biltres e impostores, p11 11111
ver em ociosidade, jamais querem aprender outra :1r1t• qu 1111111lhimte testemunho nos faz compreender por que, na
não tal mendicância, que na verdade é uma esco la cl1• 11111 r p111'le das obras da época relativas aos mendigos e que
a maldade, pois tais personagens, poder-se-iam cnrn111t , ft11 de modo algum inspiradas pela caridade cristã de um
mais próprios para exercer caftinismos, para semc:1 1· \11 11 1i111t , os vagabundos são representados como formadores
nos pelas aldeias e cidades, para ser bota-fogos, p:11·11 111
11111 t'ontrassociedade com jargão próprio e organização
traições e servir de espiões, para furtar, para viver de r1111li
11 ,ulvn, autoridade monárquica no topo e língua misterio-
e toda outra má prática? Pois além daqueles que se 1;,,, 11 11,
ll ht contrassociedade assim descrita não podia deixar de
a si mesmos e que cauterizaram e estigmatizaram seu~ 1, ,
lrn1111cada como uma ameaça para a ordem estabelecida.
pos, ou que usaram ervas e drogas para tornar suas 1•h111
h•l(islnção inglesa dos séculos xv-xvm é, mais do gue
e corpos mais horrendos, existem os que furtaram cd1111,
1111•1 mitra, reveladora desse medo da subversão pelos vaga-
pequenas, e lhes quebraram os braços e as pernas e 1'1111111,
os ol?os, cortaram a língua, apertaram e afundar:1111 11 11
111~o qual se apoderou das classes dirigentes.90 O estatuto
to, dizendo que o raio assim as ferira para (carrcg11 111h1 11 pl'cvia que eles seriam perseguidos, transferidos aos
no meio da multidão) ter pretexto de mendig,1r, e 11•11 I, 1111,ls do juiz de paz, fustigados até sangrar, depois reenvia-
deniers. 87 ti htJ(III' de seu nascimento ou para a localidade onde mora-
1h1111ntc mais de três meses. O ato de 1547, ainda mais
. Esse texto pode ser comparado à abundante Iitcr:H 111 11 111 1•~1ipll la que qualquer homem que fique três dias sem
f~1 consa~rada à indigência a partir do célebre Liber v11pJ!l111 lh111 será marcado com ferro em brasa, depois entregue
(fim do seculo XV, começo do século xvr) e na qual se c 111•0111, 1 ~1•1•vo por dois anos seja ao denunciante, seja à sua comu-
especialmente, o Vagabondo de Rafael e Frianoro ( 1(i} 1) 1 111 ll{Clll, sendo a fuga punida da primeira vez com a escra-
vagabundo", escreve com justeza B. Geremek, "aí ap:11·1•11 1 11111•p6tua, e da segunda vez com a morte. Os filhos dos
os traços do velhaco, do impostor, do escroque, e o olt)I 11 h11wlos serão tomados como aprendizes, os meninos até 24
didático dessa literatura é mostrar claramente os ins1 ru1111111 11~ 111cninas até vinte anos, sem direito a nenhuma remu-

~ as técnicas_da tra~aça. No segundo plano desse qu:1d1111 111 R11, () estatuto de 1547 é revogado três anos mais tarde;
Jeta-se o perigo socrnl que esse mundo diferente c:ons1í1 ui I' 11111 isso não diminui a caçada aos vagabundos. Os anos de
a ordem estabelecida, para a sociedade organizada."" h1,, 11 •, especialmente, marcam-se por campanhas de buscas
eco ao temor sentido pelos possuidores, mas coloc:andn • 11111111igos, que são açoitados publicamente. Voluntários
lado dos deserdados, o teólogo jansenista Godefroy l '1•1111, 11111111 dessas sinistras batidas. Só em Devon, 74 vagabun-
escreveu, em 1676, com uma pena cuja ironia é sing-11 '1111111, 11 ,•ondenados à morte em 1598. Na Inglaterra, assim
moderna: 1 1111 continente, em suas lutas contra a mendicância as

?OÃ
autoridades conjugam assistência e repressão, confinamc111 11 1 polít ico: nesse estado, o mendigo sem princípios, ou pelo
expulsão, e o século XVH opta cada vez mais pelas casas de li 11 1111 lll)S sem hábitos de honestidade, não resiste muito tempo
balho (e de correção) e pelos asilos gerais. Trata-se entílo 1h • 111111 nção do roubo. Em breve já não há outro freio às suas
socializar à força marginais que por vezes preferem as galei li~ 1 hh 1l1111 de rapina senão o temor das penas devidas aos mal-
h l111rcs, e depois de adquirir bastante habilidade a ponto de
essas lúgubres prisões.
A classe perigosa para as autoridades e para todos os p11 ttllvonccr-se de que escapará às buscas da justiça, torna-se
11 1111.lll0S rapinador jornaleiro e muitas vezes ladrão pro-
suidores de outrora é, então, prioritariamente a dos mc111llt11•
itinerantes, que, acredita-se, transportam com eles todrn, 11 n,~lrn111I. Entre os salteadores, há bem poucos que não se
pecados do mundo, inclusive a heresia, a libertinagem, a IH'hl 1 11h11111 transformado nisso por essa profissão funesta de
e a subversão. i\1esmo isolados, frequentemente pedem a t ~11111 1111 11 mendicância é o primeiro passo e a indigência a pri-
la "com insolência". Reunidos em bandos nos descampad1 1~ 111• li II cnusa.93
pois na sociedade rígida e estruturada do Antigo Rcgi1H1 ,
homem solitário dificilmente pode sobreviver - , :m1c11111 1 11li ,1 1•0111preender o Grande Medo, era preciso lembrar
granjas afastadas, roubam nos celeiros e nas estrebarias, plll111n 11111140 pnssado e esse pesado passivo. Se, na época, todo
as igrejas, ameaçam furtar os camponeses e queimar suas 1'11 1 111 t1t11·cditou nos salteadores, é que se tinha, com ou sem
Nos campos, ainda mais do que nas cidades, o temor do irn 111 11 h1füito de temê-los. Mas em 1789, por causa de uma
dio por muito tempo acompanhou o do vagabundo-s:1ht 111h11 li l,1~11111 precedente cio poder, esse temor ancestral ganhou
e vemo-lo ressurgir por ocasião do Grande Medo. /\~~1111 udlmfrias dimensões. A crise econômica e a penúria
despeito da formação de esmolarias urbanas a partir do •<111111 Ili ,111111cntaclo em todos os países o número dos errantes.
xvr, apesar da criação da jurisdição dos marechais (n:1 li, 11111 1 1111111cro deles procurava trabalho nas cidades, onde
sob Francisco I e Henrique II) e da vigilância de "caç:1 h11111h Ili ,1\ ti n população flutuante e multiplicavam os riscos ele
dos'' às portas das cidades, apesar das draconianas leis í111d1 tl11i,~. l,uís XVI, no começo de julho, tomou esse perigo
no que diz respeito aos pobres, apesar dos confin:11111111 p11111•:<ro para reunir tropas nas proximidades de Paris.
11 11 de julho - acontecimento que, na época, despertou
(intermitentes) de mendigos em toda a Europa do século \\ 11
apesar da "beneficência" que se desenvolveu na época d:1~ l ,11 1 1111tls inquietação do que entusiasmo - , espalhou-se na
o problema dos errantes - frequentemente assimif:ul11~ 11 lto11to de que as municipalidades, para evitar novas
salteadores - permanece no final do Antigo Regime. N011 1•• t•xpulsavam os indesej,íveis que iam agora espalhar-
vê 11111 bando ~hamado "do Forez" estender seu campo d!' 11~ ' 111do o país.°' Desde então, acreditou-se ver salteadores
entre 1750 e 71773, a mais de cem localidades dessa provim,_ l I plll'IC: dizia-se que est avam no bosque próximo; avan-
Assim, est,í comumente difundida na França, às véspl'I11 1111 1111diando as colheitas e as casas; haviam se colocado
11 ilns nristocratas (como outrora a soldo dos inimigos de
Revolução, a opinião de que todo mendigo é um carnl!d11111
crime. Um presidente do órgão dos pobres de Mamcr~ 1•-11 111 1), pnssavam as fronteiras à força; anunciavam e p,·e-
111 11 1'11cgada de exércitos estrangeiros. Encontravam-se
em março de 1789:
1111j1tl{ndos em um mesmo alarme o laço que se estabe-
A mendicância é a aprendizagem do crime: ela c.:0111 t1\1I 1 11llt1ll)nnlmente entre soldados e salteadores, a sinistra
fazer amar a ociosidade que será sempre o maior 11 1111 1111 li\ ,1 1l11lxada pelos mercenários desde o tempo elas gran-

299
298
des companhias até o de Mazarino e a convicção de qut• 11
vagabundos estão disponíveis para todas as traições e p 111•11 •
piores subversões.

"Medos recíprocos", "ciclo infernal de medos": essas cxp11


sões não vêm espontaneamente ao espírito ao fim deste cNI 1111,
sobre as sedições de todas as espécies que o Ocidente conlw1111
após a era feudal e antes da era da grande indústria? Par:1 111111
per esse círculo maldito, era preciso que fossem reunidas 111111
tas condições: uma alimentação mais abundante e mais rcKlll111
o escoamento da superpopulação rural, o emprego nas l:tlu li ,
da mão de obra disponível, impostos mais justos, enq11111h ,
mento administrativo mais sólido, sufrágio unive rsa 1, 11111
organização sindical. Sob muitos aspectos, a Revolução Fl'll 1111 St Kunda Parte
1

foi ainda no plano popular uma manifestação dos medoN111111


gos. E não teria desbloqueado o futuro nem securi,.:111111 11 c:ULTURA DIRIGENTE
limite, a mentalidade coletiva se não tivesse sido progn•,j~h
mente acompanhada por uma revolução econômica e tél'llh 1
F <) MEDO

7
~no ocidental é que ela viveu todos esses medos sem se deixar
6. "A ESPERA POR DEUS" r11lisnr por eles. Pois não se sublinhou suficientemente que
11v1• no mesmo tempo angústia e dinamismo - sendo este
1,1l111cnte designado pelo termo Rennsce11ça. O medo suscitou
1
1• 1111tídotos - estudaremos isso em urna obra posterior.
,\ pesquisa histórica em grande parte varreu a lenda dos
11 1111•1•s do ano mil, fundada em textos pouco numerosos e
1. .MEDOS ESCATOLÓGICOS E O NASCIMENTO
h l'iores aos pavores que pretendiam fazer reviver. "Durante
DO MUNDO MODERNO 1111 século x, um único personagem", escreveu Ed. Pognon,
As explosões periódicas de medo suscitadas pelas peste~ 1111 11l111iu ao mundo regenerado por Cristo um termo de mil
meados do século xvm, as frequentes revoltas ampla11w111 1 " 11 nnda permite afirmar que ele tenha assustado muita
provocadas - ora pelo temor dos s?ldados ou dos _salteado1 t' Ih 111 Em compensação, é "no final do século xv, nos triun-
ora pela ameaça da fome ou do fisco - escandlfam'.. rnllll• 1ln novo humanismo, que aparece a primeira descrição
vimos, uma longa história europeia que se e,stende do hnul 1h, h1•l'ltl11 cios terrores do ano mil"2 sob a pena do beneditino
século Xlll aos começos da era industrial. E preciso, tod ll\'lit 1l111111Í\1S (1462-1516), redator dos anais do convento de
individualizar no interior desse meio milênio uma seq11ê1111 1 h1111, Trithemius era ele próprio um letrato desligado das
de maior angústia - de 1348 a 1660 - no decorrer da q1111I 11 1111~ cln escolástica e que descrevia com condescendência as
desgraças se acumularam particularmente na Europa, :1í eh thl l11Nde um período bárbaro. Mas terá sido por acaso que
pertando um abalo duradouro dos espíritos_: a p~ste negr:1: q111 111111 cio medo do ano mil nasceu no começo dos tempos
marca em 1348 o retorno ofensivo das epidemias morl :1Htl 1 h11111~? Não se atribuíram então aos contemporâneos de
sublevações que se revezam de um país a outro do século XI\' 111 Ili 111111ores que eram mais autêntica e amplamente os dos
xvm· a interminável Guerra dos Cem Anos; o avanço l 1111 1111 1111 dos séculos XIV-XVI?
inqu/etante a partir das derrotas de Kossovo (1389) e Nid ipttll
11
r 11lnmcnte não se esperou esse período atormentado para
(1396) e alarmante no século XVI; o Grande Cisma_ - t"•I 1111 1 ,11•hugada do Anticristo e o fim do mundo. Aquela e este
clalo cios escândalos"-; as cruzadas contra os huss1tas; a d1•1 1 1111 l1w11m considerados certezas pelos cristãos, e Santo
ciência moral do papado antes do reerguimento operado p11 1111ho consagrou todo o livro XX de A cidnde de Deus à
Reforma católica; a secessão protestante com todas as s111111 · 111~1111çi'lo de que esses dois prazos são inelutáveis - pois
quelas - excomunhões recíprocas, massacres e_ g111•11 1 l,11l11N por inúmeros textos sagrados - embora não se
Atingidos por essas coincidências trágicas ou pela 1ncc~•ollll ,h 111odo algum prever seu momento. Em todo o decorrer
sucessão das calamidades, os homens da época proc11 rn1 11111 1h Módin, a Igreja meditou sobre o fim da história huma-
-lhes causas globais e integraram-nas em uma cadeia expli1•111I l 11111111 foi profetizada pelos diferentes textos apocalípti-
Transpondo um novo patamar, desembocamos portanto 1111111 1 111h1 11mo-nos, entre outros testemunhos a esse respeito,
1

no nível da reflexão - sobretudo teológica - que a épm'II 11 11 ,1d1 1 vinte manuscritos espanhóis dos séculos X-XIII que
tuou sobre seus próprios medos. Essa reflexão esteve elu I" 111 11111 o Commentnires de l'apocn~ypse, do monge Beatus
pria na origem de novos m edos mais _vastos e m~is enfc it i~•11111 1111111 1 q11c escreveu no final do século VIH.3 O célebre
do que aqueles identificados até aqui. Mas o milagre d11 1h ti /'" d1• S11int-Sever (século XI), com seus monstros fantás-

303
ticos é também um manuscrito ilustrado de Comme11tnir,·1 eh IJ) Esperavam assim escla recer e apaziguar os espíritos.""
Beatus.4 Quantas magníficas igrejas francesas dos séculos X111 11111 cnc~o " um~ atmosfera de fim do mundo" (J. Lortz).
XIII - em Autun, em Conques, em Paris, em Chartres CH', '"'11~0 1mpress1onante dos pesquisadores que precisávamos
evocaram por sua vez a cena do J uízo Final! Esta ÍOl'lll' t 1 11 111111, mas sublinhando - o que muitas vezes se o m ite -
igualmente o tema de vários poemas latinos compostos :11111 • •~1·s terror:s.' ~ais reais do que os do ano mil, transpuse-
do período de nosso estudo por Commo diano de G az:i (~1·1 li 11 <'llrte artificialmente estabelecido entre Idade Média e
lo m), santo I-Iihirio de Poitiers (IV), são Pedro D amifo (\11 "" ,,11ça. Eles foram con temporâneos do nascimento do
Pedro, o Diácono (xc), são Bernardo (xm) etc.5 n,111 lll()derno.
Contudo, há unanimidade entre os historiadores cm cw1 1 C 11m•rctizemos por meio de uma comparaçiio significativa
derar que se produziu na Euro pa, a partir do século XI\', 1111, "" 1111são e essa dramatização das esperas apocalípticas: em
reforço e umll difusão mais ampla do temor dos d err:1d1•h1, 11111111•11, a "catedral velha" comporta um Juízo Final do
tempos. É nesse clima de pessimismo geral - físico e 111111 ,1 111 \li pintado sobre uma parede lateral e portanto visível
- sobre o futuro da humanidade que é preciso situar o '\11h1 111111 desig ual para os fiéis. No cen tro do afresco encontra-
-se quem puder" lançado em 1508 pelo pregador Gcill'I, 11 i 11~10 .en~ maj:stade, hienítico, sereno e nimbado de gló-
catedral de Estrasburgo: "O melhor a fazer é manter-se l.'111 , , • 1111 direita e a sua esquerda, figuram naturalmente os
canto e enfiar a cabeça num buraco, apegando-se e m scµull 1 1 11~ condenados. Mas - fato bastante raro - embaixo
mandamentos de Deus e em p raticar o bem para ganh:11· 11 11 h111h1r, o artista representou o limbo. No to tal, uma com-
vação eterna".6 Para Geiler, não existia nenhuma espcra ll\ 1111 " pouco traumatizante. Na "catedral nova" (séculos xv-
que a humanidade se aperfeiçoasse; o fim de um m11nd1 1 1111 11111• lica ao lado da precedente, e ncontra-se também um
rompido constituía doravante uma perspectiva próxi11111 1111111. "'.J:1s, desta vez, está pintado sobre a parede d a absi-
outono da Idade Média, escrevia Huizinga, o sentimc nw 1111 h t clt· frente para o público. Além disso suas cenas são
é que "a aniquilação universal se aproxima".7 "Parece", ohN11, 1111 interior de um formato maior do q~e os cinque nta
va E. Mâle, "que as ameaças do Apocalipse nunca preoc1111111 11 1111\ •11andros pouco legíveis situados abaixo e que con-
tanto as almas [...]. Os últimos anos do século XV e os p111111 11 11 tlm 11lhe a vida de J esus. E nfim, o limbo desapareceu.
t, lt1fl rno d ividem ao m eio a totalidade do espaço pin-
0
anos cio xvr indicam um dos momentos da história c111 q111
Apocalipse apo derou-se mais fortemente da imag in:1\ 1111 11 11 111111111to, Cristo está voltado para os condenados e
home ns."" E,. Delaruelle, evocando "o interminávcl ( oi 1111 11111 l(C~lO de rejeição que anuncia o da Sistina.
Cisma", notou que ele marcou "o reingresso cm 1111111
apocalíptica".9 Eis ainda outros j1;1ízos concordantes ci1.11l11 1
H . Z:1r11t em A eJpera de Deus. 10 "E sem dúvida i ncontc~t 1111 l 11 li \'i l.li'. ITURAS DIFERENTES DAS PROFECIAS
a multidão daqueles que acreditam ter ouvido a tro111l11 t 1 li \I.I PTICAS
último dia jamais foi tão gigantesca como entre 1-1-30 1• 1 111111111 ,1111c estabelecer uma distinção metodológica
(Stadelmann). " Homens do mundo clerical", lcmhr:1 p111 11 l11wrpretações diferentes dos textos proféticos rela-
lado A. Danet, "chegam até a organizar debates pí1bli1·11~ 11 uh 111111s ct:ipas da história humana, insistindo uma na
os sinais do fim dos tempos (por exemplo, e m Colo11I, ih 111il :inos de felicidade, a outra no Juízo Final. As
origens do milenarismo são anteriores à era cristã e se enr:1(•111111 L'fll e ao poder da Igreja e foram perseguidos pela h ierar-

nas esperanças messiânicas de IsraelY Isaías (54 e 55), Ezcqull 1 1 Nn Alemanha, nasceu e perdurou a crença de que Fre-
(40-48), Daniel (2 e 7) e mais ainda as profecias pós-n rlh• i& 11 11 ia ressuscitar. Vingador elas injustiças, ele seria o
anunciaram a chegada de um messias que inauguraria u11 1 111 1111 llllor dos últimos dias". Diferenciaram-se assim ao longo
ríodo de prosperidade e paz. A noção de um reino inter11H•dh1 Ili~ duas cor rentes milenaristas distintas. U ma, na qual se
rio, espécie de paraíso terrestre provisório intercalado c111 , 1 1 Ili mmumente mais atenção, optou pela violência. Os fl age-
tempo atual e a eternidade, delimitou-se na literatura jrnh1h 111volucionários do século XIV, os extremistas de Tabor
através do livro dos Jubileus (22,27), das parábolas de l !l-111111, I IJO, os exaltados que seguiram Müntzer em 1525, os ana-
(61-68) e do livro de Esdras (8,28...). Dos meios judeus, a (' H tt 1t~ litnáticos que tornaram o poder em Münster em 1534
ça no reino messiânico foi transmitida aos cristãos 111 h , 1111110 vimos,º milenaristas que queriam a ferro e fogo
Apocalipse de são João (xx). Nesse texto célebre, o ap(m111I, li n chegada do reino de felicidade e igualdade sobre a
anuncia que o anjo de Deus acorrentará Satã por mi 1 11111, S11f{uindo seu rasto, encontram-se no século xv11, na
Então, os justos ressuscitarão com Cristo e serão felizes ~11111 h 11 11 de Cromwell, os "homens da Quinta Monarquia" e
a terra durante esses mil anos. A mesma profecia rc:1p11111 111 (ou tcrmssiers) de Winstanley, também eles convenci-
com algumas variações, na epístola de Barnabé (século 11 , ' 11111· era preciso apressar a chegada da última era do
4-9). São Justino, por volta de 150, santo I rineu, por voh11 ,1 111 ,l11rnnte a qual os santos reinariam com o Cristo retor-
180, adere m totalmente ao milenarismo, que, no final do iu 111 1 • l111iu no e ntanto outra corrente milenarista, mais dire-
lo ll e no começo do século seguinte, tem ainda os fa vrn11• 11 lh lld _no espírito de Joaquim de Flora, e que excluía as
Lactâncio. Em compensação, Santo Agostinho, que de 11th 1 • ilc• f.orça. Para aqueles que a ela se ligavam, logo che-
aceitara as teses milenaristas, denuncia-as em A cidade ,fr / lt 11 111111po em que Cristo seria durante mil anos o rei de
(cap. x.,-x:). Mais ou menos subterrâneas durante algumas l'PIII 11,1 l'cgenerada da qual o mal e o pecado t eriam desapa-
nas de anos, vemo-las aflorar novamente por ocasião elas 111, I \pos essa sequência de santidade e de paz, ocorreria o
tas sociorreligiosas - as de Tanchelm e de Eudes de 1'1'11111 l 111,d, l•:studos recentes14 demonstraram, contrariamente
- que eclodem na Europa do norte e do noroeste no ~,11111 1 111•rcclitou por muito tempo, que na Inglaterra dos
XI e no começo do século XII. Mas são as obras <ÍO c11htl11
1 f1II IMíO _e mesmo entre 1640 e 1660, essa escatologia
Joaquim de Flora (t 1202) que relançam o milenarismo. S1•11111 1 1 1111cff1ca, que se assemelhava à da primitiva I greja,
do ele, o mJnclo, após ter vivido sob o reino do P:li (1\ ttll ~l 11 111dito na opinião geral do que os projetos revoluc.io-
Testamento), depois sob o do Filho (Novo Testamcn1 11)1 , 1111~ " homens da Quinta Nlonarquia". Estes não cons-
1260 entrará no reino do Espírito. Então, os monges !-(OVI 11
111 -11111lo uma minoria de ativistas. As duas correntes
rão o universo e a humanidade se converteni à pobrez:1 1·111111
11•1 ,111 11ilo desapareceram da civilização ocidental com a
lica. Será o sabá, a era de repouso e ele paz. O universo li 1•
\ ln dn monarquia na Inglaterra. D o lado das esperas
tornado um mosteiro povoado de santos que celebrar:io II flh
,1l11dn hoje adventistas e testemunhas de Jeová conti-
do Senhor, e esse reino durará até o Juízo Final.
llM lll1t cl11r a hora em que começarão os mil anos de paz
Essas pregações, piedosas e pacíficas na origem , 1•1111
11- q1111ls Satã será acorrentado.'5 Por sua vez, no século
tuíram entretanto fermentos de contestação. Os fr:11wh11 li
ll,1 11 o Brasil conheceram violências messiânicas.'º
"espirituais" que se valiam de Joaquim de Flora opuscn1111
W7
Mas uma outra leitura dos textos relativos às últimas seq11ê11 1111nci:1m à terra cataclismos terrificantes; a aparição, sobre um
cias da história dos homens conduzia ao temor do Juízo Fi1111I, r, 1,~íris, do Juiz sentado em um trono resplandescente, com a

Numerosas passagens das Escrituras anunciam com efeito c~~il p11d11 na boca, cercado de animais fantásticos, de querubins,
hora temível, encontrando-se a principal em são Mateus (24-25)1 i. 11póstolos e dos 24 s,ibios; a ressurreição da carne; o livro da
hli1 1· ela morte; a separação dos eleitos e dos condenados, os
I mediatamente após a aflição desses dias, o sol escurcccnL 11 h1111iros entrando de manto branco na deslumbranteJerns:além
lua perderá seu brilho, as estrelas cairão do céu e as po1~'11 h~11', os demais precipitados nos tormentos do inferno.
cias celestes serão abaladas. E então aparecerá no céu o si1111I 1) que caracteriza a partir do século XIV a iconografia e a
do Filho do homem, e todas as raças da terra baterfo 1111 1111 um consagradas ao Juízo Final é o destaque dado: a) à
peito; e ver-se-á o Filho do homem vir sobre as nuvcn~ 1h1 1h•d11de e ao caráter apavorante das provas que se abaterão
céu com poder e grande glória [...]. Ele colocará as ovclh11 1111 1 li humanidade - os quinze sinais do fim do mundo que
à sua direita e os bodes à sua esquerda. Então o rei di d 1111 1h11 o Venerável, dizia ter lido em são Jerônimo; b) à severi-
da direita: "Vinde, abençoados de meu Pai, recebei co11111 1h cio Deus justiceiro - ele provocava medo em Lutero e na
herança o reino que vos foi preparado desde a fumb,,-:10 1h1 hII porte dos cristãos conscientes de sua geração; em um
mundo [...)". Então ele dirá aos da esquerda: "Ide para 101111 1 11 lfinnl de Lucas de Leiden, ele delega a Satã o cuidado de
de mim, malditos, no fogo eterno que foi preparado p:11111, 1111h111 ô livro em que são inscritas as ações humanas (Museu
diabo e para os seus anjos" [...]. 111ldcn); c) à atrocidade dos tormentos infernais, ao passo
1111 ~6culo xm os artistas, no mais das vezes, nos detinham
Essas passagens do evangelista inspiraram, mais do q111 h11ilnr do lugar dos suplícios. Ora, com suas dominantes
todas as outras, a iconografia do Juízo Final nos tímpano~ ,h, • " •IN, "nas catedrais das grandes cidades assim como nas
séculos XII-XIII. Ora, elas são corroboradas não só por t1·~111 ht" dns aldeias alpestres mais afastadas, esse tema impres-
paralelos de são Marcos (XII e XIII) e de são Lucas (x 11), 1111 111111,, do Juízo Final difundiu-se por toda parte"'8 no século
também por Isaías (XXJV-XXVll), por Ezequiel (1°, V III , \ t 1111 ~óculo XVI. Pois às obras grandiosas de Albi, de Orvieto
XXXVII: neste capítulo, são anunciadas a reunião dos ossm 'll'I 1 1 SIKnorelli) e da Sistina, às composições de R. van der
e a ressurreição da carne), por Daniel (II, VJI, XII), por íiu1111 li • ~1h111 (um Beaune), de J. van Eyck (Museu de Leningrado) e
sos salmos, especialmente o salmo 50 próximo do capítu lo J~ ti M, 111ling (em Gdansk), ao célebre Apocalipse gravado por
são Mateus, pela Primeira Epístola aos Coríntios (xv,52), pt 1 1, t'tll't'Cspondem doravante, disseminadas por toda parte,
Primeira a Ti7nóteo (rv,13-17) e afinal, é claro, pelo Apcll'11 llp 111111t<;õcs do Juízo Final que por seu número atestam a

cujos elementos complexos e mesmo contraditórios assorlillll ll ~1h1 desse medo. J. Fournée, estudando os vitrais da cate-
promessa do millenium à profecia de um Juízo Final q111• 11 1 i1h ( :uutances consagrados a esse tema (segunda metade do
seria precedido por nenhum tempo prévio de paz m1 lc1·1·11 111, 111 , \'), compara-os a outras obras realizadas na Normandia
o Cristo retornado. Da confluência dessas profecias" l' d1 11 111csmo assunto: três são dos séculos XH-xm, seis do
imagens formou-se uma representação cada vez mais c11 dq111 111 , 1V, seis do século XV, dezesseis do século xvr e uma
da e continuamente mais trágica, à medida que nos aprml111 1111 \O do século xvn.'9
mos do século XIV, do drama derradeiro da história 1111111111 1h1ns grandes visões escatológicas que acabamos de dis-
Seus principais componentes são: os anjos cujas trrn1il 11 1 11 11 do milleniwn e a do Juízo Final - revestem, ao
menos em suas formulações mais categóricas, significações lw111 l 1• lémporal. Tam bém ele criará um paraíso, para maior
diferentes. Uma pode ser qualificada de otimista, já que 1k•h11 11111 de Lisboa e de Portugal. Dirigindo-se a J oão 1v, asse-
perceber no horizonte um longo período de paz no decorre,•til• li lht· que esse império bem-aventurado será constituído
qual Satã será acorrentado no inferno. A outra é de colori1~ 1l11 1111 numento da fé, para a glória da Igreja, para a ho111"a da
11 portuguesa, para o crescimento dos bens da fortu na e
bem mais sombria. Certamente, o Juízo Final situa defin illv1t
mente os eleitos no paraíso; mas quem pode dizer com :1111\'t l 111ulor abundância dos bens da graça".12 Em um outro tex-
dência que estará entre as ovelhas à direita do Soberano J11I h111·11, situando-se com antecedência no tempo abençoado
Este se mostra duro e severo. O último dia da humanid:11h 1 111 11foliza, admira o desígnio divino que escolheu Lisboa
bem o da cólera: dies irae. Segunda distinção essencial: ;1 <'1111 11 111pilal da terra regenerada: "O céu, a terra e o mar con-
111, nesse admirável sítio, para a grandeza universal do
cepção do 111il!eni11111- tendeu a tingir-se, no Ocidente :lNNhll
1h1 e para a harmonia, também universal, dos súdit os".
como entre os adeptos melanésios do cargo, de uma color11~1l1 1 11
11 1 1 () sítio mais proporcionado e mais apto à destinação
materialista, no limite pouco cristã, em particular c nt 1·11 11
ll11 1•~colheu o Supremo Arquiteto: a construção desse alto
quiliastas revolucionários. Durante os mil anos do reino tl11
1 h1 lo império do mundo]".
santos, sofrimento, doença, miséria, desigualdade, expl01·11~1II
do homem pelo homem terão desaparecido da terra. S1•111 1, 1 1 tdnde] espera entre seus dois prom ontórios, que são
r etorno à idade de ouro - eterna aspiração human:1 q111
1111111 dois braços abertos, não os tributos de que o su ave
alguns, em Tabor ou em .M ünster, imaginaram como 11111 f111&11 tlt:sse império terá libertado os povos, mas a voluntá-
autêntico paraíso. Esses elementos concretos não estão :lllljlll l 111l111diência de todas as nações que descobrirão sua soli-
tes do milenarismo moderado do padre Vieira, jesuíta p,111 11 l111 l111l11dc, mesmo com as populações ainda desconhecidas
guês que, no século XVII, promete a seu soberano o impél'iu 1h h1111 11 q ue então terão perdido a injú ria desse nome."
mundo.10 Portugal nesse tempo é com efeito atravess:1dt1 p1,1
cor rentes messiânicas que se baseiam nas mensagens i nspi 11ttl 1 \ h 1111 1111unciou o começo desse tempo de felicidade para
(as trovas) de um sapateiro do século XV1 e que foram dil'11 111h (r1/IJ l' [700.
das pelos monges de Alcobaça. No tempo da ocupaç;iío 1•~111 l111111d11-sc a esses sonhos encantadores, a representação
nhola (1580-1640), recusa-se a acreditar na morte d11 1 li 11 l•'lnnl dirigia os corações e as imaginações para preo-
1
Sebastião, desaparecido11 na batalha de Alcácer Quibir ( 1\ 1 01 ~ 111.im diferentes. Aqui o acento recaía no destino eter-
1

Ele retornar~ para restituir glória e liberdade a se u jHl\'11 1l11111s, na cu lpabilidade pessoal, na necessidade de ter de
revolução anticastelhana de 1640 exalta as esperanças 111tl1li 111 h1 ~cguido ao longo dos dias o exemplo e o ensina-
ristas. Doravante, e incansavelmente ao longo de su:1 c:11'1111 ' 1h ,lt-sus à busca da felicidade terrestre. Em suma, do
Vieira (1608-97) prediz aos sucessivos reis de seu p,1ís u111 1h 1h l'INIII dn hierarquia eclesiástica, a espera do milleniwn
tino fora de série. Cometas, tempestades e inundaçõc~ 11111 , 11 t11)<11Cla de múltiplos desvios possíveis, suspeitos aos
cem-lhe anunciar a passagem ao millenimn, no decorrer do 1111 1111 IIIIIK istério (Vieira teve contas a ajustar com o Santo
o papa e o soberano de Portugal governarão juntos um 111111111 1 • ••ln ncompanhou efetivamente inúmeras heresias, ao
pacificado, os turcos tendo sido vencidos e os judeus crn11l11 1111, 11 última prestação de contas se revelava um meio
dos à verdadeira fé. O ra, esse reino será a um só tempo 1•~plt 111111 11íicaz nas mãos da Igreja para reconduzir os cris-

-.i 1 /
tãos ao bom caminho. Portanto, não foi por acaso que a csc111u No ano em que entra para a ordem dos dominicanos (1475),
logia que anunciava a iminência do Juízo Final foi difund11h1 11·1ligc UI_!l curto opúsculo, De co11te111plu 111m1di, em que se lê
sobretudo por aqueles dentre os homens de Igreja q ue estav11111 li 11sc: "O vós que sois cegos, julgai hoje vosso próprio caso,
mais tomados pela preocupação pastoral. Isso é verdade c~p, 111 vós mesmos se o fim dos tempos não chegou!"2" Nos ser-
cialmente para os g randes Reformado res protestantes. , pron_unc!a_dos em Fl~rença em 1490 e 1491, prediz que os
As divergências entre milenaristas e profetas de um J11 (111 1111•1~tvc1s v1c1os da Igre1a anunciam a proximidade do Juíw
Final próximo provinham especialmente de inter prct:u;rn •I, ununciando dez razões para crer nesse prazo próximo.111
d iferentes das visões de D aniel (2 e 7) relacionadas ao Apoc:1 IipM • ,1p<>s 1492 e ~obrc~udo a partir de 1494, ele passa prog1·essi-
Daniel anunciara as quedas sucessivas de quatro império, l 1111• para o milenarismo que osfmticelli haviam difund ido cm
geralmente identificados e m seguida pelos teólogos como o do hll\'11 desde_o século XIIJ. Sem dúvida, ele profetiza em pri-
assírios, o dos persas, o dos g regos e o dos ro manos. Um q11111 111 lugar a vinda de Carlos vm, ameaçando a cidade do Arno
to reino devia sucedê- los, erguido pelo Deus do céu - n•11111 h1h11 inteira com grandes tribulações, se ela não se converter.
que jamais ser ia destruído e não passaria a nenhum outro pm 11 tor~iando-se o chefe espiritual de Florença, promete -lhe
Seria preciso identificá-lo ao millenium de são João, dur:11111 •· h•lw1clade e prosperidade se doravante ela for fiel a seu rei
qual Satã permaneceria acorrentado? Nesse caso, o Juí:w Fl1111 111 1t:ln será então a nova J erusalém, cumulada de riquezas: '
ficava retardado para alé m desses mil anos de paz. D evi:1-M', 11
contrário, considerar que o nascime nto d e Cristo marrn1 u 1, 1)11 mesmo modo que o mundo foi renovado pelo dilúvio
in ício do 111il/e11im11? - já não correspondendo este exat:rn11•11t1 111111s envia su~s tribulações para renovar sua Igreja par~
a 1 milhar de anos? Se sim, este doravante estava no fi111 ~1111lllcs que esnverem na arca [...J, E e is o que diz nosso sa[-
como provas, as desgraças dos tempos - e o Império Ro11111111, 11111 "Cantai um canto novo ao Senhor". Ó vós a quem D eus
prolongado 110 Sacro Império Romano-Germânico, logo li l 1 -. 11l hcu, ó vós que estais na arca [os florentinos], cantai um
desaparecer. A ruína do mundo aproximava-se portanto :i fl' 1111 11111'. no_vo porque Deus quer renovar sua I g reja!
eles passos. 14 I•steJ~S segura, Florença, de que se teus cidadãos pos-
Po r mais reais que tenham sido essas distinções - :1 p1111t 1 1111111 ns virtudes que descrevi, abençoada senís tu, pois logo
de polê micas oporem na Inglaterra do século À.'VII partid:í1 tu , 1 1111 nnrás essa J erusalém celeste,
adversários de um entreato d e mil anos de felicidade :11111•N rh t\ nu ncio estas boas novas à cidade de Florença: ela será
Juízo Final15 • -, não constituíram, no entanto, barreir:1, li~ 1 Ili 1I, l(lo riosa, ma is rica, mais poderosa do que n u nca. Em
das. Havia passagens ele um esquema escatológico ao mil 111 1 I" h11ciro lugar, gloriosa aos olhos de Deus assim como aos
que bem mostrou D. Weinstein a propósito de Savo narol:1.'• r 111, homens, pois tu, Florença, tu senis a reforma de toda
primeira parte de sua carreira, isto é, antes de 1492, o 1111111, 11 ,llln; cm ti começará a renovação que brilhará em todas
guia de Florença partilha com muitos de seus contempor111111 ill1·t•\'Õcs, pois é aqui que se encontra o coração da Itália,
a convicção de que o fim do mundo está próximo. E111 11111 11 m 1·onselhos reformarão tudo à luz da graça q ue Deus
canzone que data sem dúvida de 1472, ele escreve: 1 , 1111ccderá; ~m segundo lugar, Florença, t uas riquezas
1111 1ncontave1s e Deus multipl icará tudo a teu favor. Em
[...] Talvez mesmo te11hfl chegado esse tempo 11 ,,11•0 lugar, estenderás teu império e goza rás assim do
Que foz tre111er o infamo - o Dia do Juízo. 11 11h11 temporal e do poder espiritual [...].30

3/ 3
Savonarola reencontrava assim a concepção milen:1m11 1111111 colheita. Importava, então, alegre e rapidamente, fazer
tradicional, a uma só vez otimista e orientada, ao menos p111 11 ,11 n massa dos índios no recinto protetor da Igreja. Que
cialmcnte, para os bens terrenos. h11• missão a da Espanha e de Portugal! Quando Jesus retor-
Na prática, nem sempre é fácil decidir, neste ou n:111u1•h 1, lissas duas nações poderiam apresentar-lhe milhões de
caso particular, se nos encontramos cm presença de um 111111 11~ 1•onvertidos que o Soberano Juiz colocaria à sua di reita.
narismo ou da crença em um fim do mundo próximo. Poi~ ~, 1 1''" Casas contudo via os acontecimentos próximos sob
eternid,1de bem-aventurada posterior ao Juizo F inal foi clcM'I li 1 , mnis sombrias. Para ele, tendo os espanhóis se conduzido
em termos de "novos céus" e de "nova terra", essas exprcssl'H 111 lltnlls cristãos no ultramar e, tendo "transplantado a
convêm igualmente bem ao reino dos santos do 1J1il!1·1111111 , 111 110 mesmo tempo que a cruz", era preciso esperar que
Além disso, a expressão " último tempo" pode aplicar-se t:111111 1 11, ~•• vingasse de um povo tão inficl.n M as a Amér ica não
véspera do Juízo quanto ao período anterior à entrada no 1111/ 11111111fo o lugar onde se expandiria a Igreja dos últimos tem-
le11i11111. É provável que essas confusões existissem às vezt·~ 111 \\~1111, para o defensor dos indígenas, a esperança escato-
espírito daqueles que estavam tomados pela espera esc:1wl1110 1 1•11t·ontrava-se associada à convicção de que a Espanha
ca, por exemplo, Cristóvão Colombo. E le teve a convic,,1111 11 • 1,1111lgada.
ter sido eleito por Deus para levar o cristianismo aos p1111 11~ "novos céus" e a "nova terr a", que, segundo são Pedro,
pagãos de além-ma r. E escreveu em uma carta datada ele 1\(Ili 11!,1 tl1•vcm acolher a hum anidade qua ndo e la estiver liber-
"Fui eu que Deus escolheu para seu mensageiro, mos11 ,1111h, d11 111•1·ndo e do infortúnio, navegaram portanto de um
-me de que lado se encontravam o novo céu e a terra 11e 11 ,1 il 11111 npocalíptico ao outro, isto é, do 111i!leni111n à descri-
que o Sen hor falara pela boca de são João em seu Apoc:1lq1~1 lu. dins posteriores ao Juízo Final. Se se crê nas Conversas
de que Isaías fizera menção anteriormente".31 "• l ,111cro, para quem o fim do mundo era iminente, ima-
A descoberta da América e de uma humanidade :llt' 1•111, regenerado pela eternidade com o uma
desconhecida foi igualmente interpretada pelos rcli11l11 1 concepção muito concreta e próxima da
recentemente desembarcados no Novo Mundo como o ,11111' 1
de que o reino dos santos estava próximo (assim o julgar:, \ li 11
no século xvn), ou então de que o fim dos tempos j.í 11:10 111111 1 1 \ 1,irra não será nua, árida e desolada após o Juízo F1 nal,
ria. Pois, entre, os textos relativos a este, figuram du:1, p 11 11 •110 Pedro disse que esperamos uma nova terra onde
gens dos Evangelhos de são Marcos e de são Mateus qu1• 1111 •ltlt I n just iça. Deus, que criará uma nova ter ra e novos
cama conversão dos gentios justamente antes da pad1~i11• 11 11 11,, 1111 colocará cãezinhos c uja pele será de o uro e c ujos
é preciso em primeiro lugar que a Boa Nova seja prol'L1111111I 111 ~11r1lo de pedras preciosas. Não haverá mais animais
todas as nações" (Marcos, x1v,l0); "Essa Boa Nov:1 do 1(1 li 1111\olll'OS, nem bichos venenosos como as serpentes e os
será proclamada no mm1do inteiro em testemunho cli,11111 1111 ,, l(IIC se tornaram m aléficos e nocivos por causa. dos
todos os povos. E então virá o fim" (Mateus, x x rv, 1-1). ,11111~ dn terra. Esses animais não só deixarão de nos ser
Qualquer que tenha sido seu conteúdo exato, :1 cs111•1111 li 11, 1•omo se tornarão amáveis, bonitos e car inhosos, a
tológica que motivava o zelo de muitos missionários dt·•H 1111 t ,h que possamos brincar com eles.H
cados na América não deixa nenhuma dúvida. Soar:t ., h111 ,

315
A partir daí, a espera do Juízo Final podia ser associ:11111 1 Vum, Senhor Jesus, vem!", escreve em 1639 B. Derschow,
um sentimento de libertação. As Conversas à mesa trazem 1•~1, 'Nº de Konigsberg. "Põe um termo neste mundo mau.
outra palavra do Reformador: nr tuns criaturas. Toma-nos em tuas benditas mãos. Leva-
111tlos juntos para a luz e para a felicidade eternas no lugar
Ó meu Deus! não adies tua vinda; espero o dia em q11t· 11 1111 uh:gria." 37
nascerá a primavera, quando o dia e a noite têm igual du N11 mesma época, teólogos ingleses exprimem uma aspira-
ração, e em que haverá uma belíssima aurora. Mas eis q1111I hlclnt ica. O puritano R. Baxter escreve em The saints ever-
são meus pensamentos, e quero pregar a esse respeito. 111111 ll Ir.1·1 (1650):
pouco tempo após a aurora, virá urna nuvem negrn e espl'
sa e três raios se farão ver, e um trovão se fará ouvir, e o 1111 111 cssa, ó meu Salvador, o tempo de teu retorno; envia teus
e a terra cairão na maior confusão. Louvado seja D ei" 11111 111m e faz ressoar as terrificantes e alegres trombetas". Em
nos ensinou que devíamos suspirar por esse dia e espc111 h, 1111111 parte volta a m esma esperança: "Ó dia abençoado[...],
com impaciência! Durante o papado, o mundo inteiro 11111, 1111o~i111a-se esse dia de alegria e de bênção? Sim, chega a
pensava nisso senão com pavor, como testemunha o hhu, 1 111clcs passos, aquele que vem virá, ele não tardará".18
que se cantava na igreja: Dies irne, dies ilia. Espero que 1•
dia não esteja distante, e que o vejamos em nossa vida .11 1111111s anos antes, R. Sibbes afirmara: "Devemos conside-
11110 11111a graça o segundo retorno glorioso de Cristo''.l9
Alguns anos após a morte de Lutero, vemos Bullill),I 1 ,1111, :is duas esperas escatológicas podiam ser fontes de
sucessor de Zwínglio em Zurique, consola r os prole~t.11111 1111\,1, Mas é certo que foram mais frequentemente causas
exilados longe de seu país de origem anunciando-lhes o 11111 1111 1• que a imaginação se voltou sobretudo para as desgra-
próximo do mundo: 111 d1 1vinm preceder tanto o 111ille11iu111 como o Juízo Final
p111prio particularmente temível. Quer se esperasse um
E mesmo dedico e consagro esta o bra [os Ce11J. sermu,·1 1111• 11111, 1:ra raro que não se concedesse um luga r importante
o Apocalipse] a todos vós que estais dispersos por d iw 1-11 Ili h, mo. Para alguns, sua chegada à terra era iminente.
povos e reinos, que sois os únicos consagrados a<Y'Sl'11h111 111111 os, e le já nascera. Essa figura sinistra não pertence ao
Jesus o Filho de Deus, esperando sua vinda em juírn, 111 111111~1•, ninda que, ao constituir-se na imaginação coletiva,
qual finalmente seremos por certo libertados de tod11~ • ltlo prog ressivamente associada à " Babilônia, a grande,
opressõesi'e então será feita indubitavelmente essa re~111111 , l li 1h1111ônios" e à "besta escarlate" evocada pelo Livro das
ção esperada por todos os tempos e repleta de toda l'c lidil 1 111\111'~. 1~m compensação, o Anticristo, seja como persona-
de, tão clara e firmemente prometida e fielmente a1111111'1111I hulh lchm l, seja como personagem coletivo, vem das epís-
tanto pelos profetas como pelos apóstolos.15 1, ,íl11 João e da Segunda Epístola de são Paulo aos tes-
11~1•,. A cristandade jamais falara tanto do Anticristo
Na poesia protestante alemã contemporânea, das desg 111\ , 11 p111•1ir do Grande Cisma. Viveu-se na obsessão do
da Guerra dos Trinta Anos, o fim do mundo e o Juízo Fi1111I 11 111 f111pio, do ser perdido, do adversário, aquele que se
frequentemente evocados como a libertação à qual aspira111 1l111ixo de tudo aquilo que leva o nome de Deus ou
almas piedosas. 36 11111 1'11lto, chegando até a sentar-se em pessoa no san-
,,,,
317
ruário de Deus, promovendo a si mesmo como Deus" - n11~h11
r, 11 morte de Carlos Magno e o começo do século XI tam-
1 11 1i11ha proporcionado à Europa uma pesada colheita de
o descrevia com antecedência são Paulo aos tessaloniccnsc•1, " \
pregação - em particular os sermões de são Vicente F él'1'111 1 111ld11de. Mas "o Ocidente do século X, essa região d e flores-
de .Manfredo de Vercelli - , a difusão da Legenda áure11, q m•, 111 1ilhos, feitiçaria, régulos" - assim o descreve G. Dubyu
capítulo do advento, anuncia quais serão as imposturas cio 1111 1,1 demasiadamente rural, demasiadamente fragmentado,
migo de Deus, o teatro religioso, as múltiplas Vidfl do //utli 1/11 11•h1damente pouco instruído para ser permeável a intensas
41
propagadas pela imprensa nascente, a pintura e a gr:w111 , llll'S de propaganda. Ao contrário, quatrocentos anos mais

graças a Signorelli e a Dürer, popularizaram o temor d1 1 , 1111: urbanizou-se e ao mesmo tempo sua elite letrada
poderoso inimigo de Deus e dos homens. Com a ajud:i do 111111 lh11twsc. Pregadores agora podem sacudir com vigor multi-
judaísmo, tal pregador e tal Vida do mau Anticristo acrccli1 111 11111 1 hndinas e fazê-las passar, no tempo de um sermão, do

poder assegurar que ele provavelmente nasceria - ou q111 1 li,) 1•sperança, do pecado à contrição. As grandes angústias
nascera - de um "debochado judeu abominável" que conh1•11, t11h11{ÍCas não teriam podido marcar profundamente a men-
carnal mente :i própria filha.42 Outros, cada vez mais nu111<:111, l111h• coletiva, em particular nas cidades, sem as grandes
à medida que se ampliavam as polêmicas religiosas, iclcntll h , 11\fll'S populares às quais são Vicente Férrer, especial-
ram o Anticristo com o inimigo que combatiam. Para vV)•• Ili h, dou um novo estilo no começo do século XV. l\llonges
João Huss e Savonarola, foi o papa. Para a cúria rom:rnn, 11 Ih 1111tcs deslocam-se doravante de uma cidade a outra, por
Savonarola, depois Lutero. Para os extremistas que SCf1llhll1 1h•ll.llldo-se por muito tempo em uma delas para ali fazer
Müntzer, o Anticristo tinha dois rostos: o de Lutero l' n 11 1 h• completa de sermões. Esses nômades do apostolado

papa. Para Lutero também ele tinha dois nomes: o p:1p11 1 11111111 ntcs de tudo à penitência, anunciando castigos próxi-
turco. Como, nessas condições, não se temeria, mesmo q111 11-111111!1$ vezes são acompanhados ao longo de seu périplo
esperasse um millenium próximo, a ação do ser demoní:11·111111 11111iHlntes", antigos ouvintes de ontem que querem pro-
multiplicaria na terra mentiras, crimes e sacrilégios? O l111 111 l ~1111 cura espiritual e realizam, em consequência, uma
imediato era portanto muito sombrio diante dos ho111c11'1 ljl• h ili• peregrinação de expiação. Retracemos brevemente o
foram sucessivamente contemporâneos de João H uss e, d1•p111 •1111 de são Vicente Férrer. Partindo de Avignon em n99,
da Reforma. ~ 1111 fll'imeiro lugar na Provença, na Savoia, em Dauphiné,
l 11111111c, talvez na Lombardia. De 1409 a 1415, percorre
li, .\l'ngão e a Catalunha. Em 1416, volta à França, passa
3. OS MtIOS DE DIFUSÃO DOS MEDOS 111il1111sc, atravessa o maciço central, as regiões do Loire,
ESCATOLÓGICOS Ili 11111in e termina seu apostolado na Bretanha, onde mor-
\ ,11111cs em 1419. Em vinte anos no total, calculava E.
Se a obsessão do Anticristo e o medo do fim do m11111h1
11 ll111 Vicente "sulcou um território grande como uma
apreensões de origem clerical - atingiram a partir de 1111 111
Ili li1 ll França e pôde portanto atingir de uma maneira ou
do século XIV camadas da população provavelmente 11111 i111111
11 \ ,l1•ios milhões de ouvintes"." Ainda que essa estima-
amplas do que no ano mil, isso se deve não só às desg1·11\1I
época, mas também, e talvez sobretudo, aos meios de 111111
i• 11111 po uco otimista, pois se tratava sobretudo de uma
11 1111h11na - e as cidades muitas vezes só tinham uma
desses terrores escatológicos. Pois o período que se Pkli 1
319
população modesta - avalia-se por esse itinerário o i111p1111 ho extenso, possuindo duas lojas em Paris, um depósito
que pôde ter sobre a sensibilidade e a imaginação coletiv11111111 111111'6 e comerciando com a Inglaterra, não deixou de fazer
dominicano convencido da iminência do Juízo Final. 0 1'1h II 1 li llll1 suas publicações uma Art de bien vivre et de bien
não foi senão um dos inúmeros pregadores que comovc.: r11111 , t,, ~ {Jual devemos prestar atenção.5° Era uma edição que
multidões da Europa a partir do começo do século XV, 1{1 I• 111111111va ilustrações ao mesmo tempo simples e chocantes
nhamos, entre aqueles que insistiram nos prazos escatol6Kh 1o 111prcsentam os quinze sinais anunciadores do fim do
Manfredo de Ver celli, são João de Capistrano, o irmão Rit1lht1 1 1h g sse tema iconográfico teve então grande sucesso.
que se consagrou ao serviço de Joana d'Arc, e - cuidc11111 ,1 1111111111mo-lo nas margens dos livros de horas ou nos
não omiti-los - vVyclif, João Huss e Savonarola. v\Tycli l', up, 1, (1111 catedral de Angers). Toda a Alemanha conheceu
sar do tédio que exalam para nós suas homilias, pretc.:11d1•11 h 111 os quinze sinais pelas gravuras em madeira de um
pregador popular, e sua ideia de fundar "os sacerdotes polu 1 11h hrc chamado Der Entkrist.51 As prensas difundiram em
é uma iniciativa comparável às missões itinerantes dos rull11l1 IIINIIS exemplares e em diversas línguas não só a Vida do
sos mendicantes. Quanto a João Huss e a Savonarola, s11l11 , /1/11, mas também as Revelações de santa Brígida da Suécia,
da ascendência que conquistaram sobre as populações de 1'1,11 11,/11 rlmw (que nos interessa aqui pelas páginas que con-
e de Florença. ,11, nclvento),51 assim como as previsões alarmistas dos
O teatro religioso contribuiu por sua vez para di f11 ndh l11MIIN, Só o Prognosticon, do eremita alsaciano Jean de
temor ao Anticristo e ao Juízo Final, porque as reprcscnlll\l, 1 11ltt11'!(Cr, não foi impresso menos de dez vezes na Ale-
tinham lugar diante de multidões consideráveis e mobi Ii1111 li h111111 rc 1480 e 1490. Baseando-se em uma nociva conjun-
um número importante de atores. Um Ludus de A111hli11
l.i111 urno e de Júpiter em 1484 e em um eclipse do sol em
escrito no século XII era correntemente representado no~ plll
1 h• previa guerras, ruínas e outras desgraças; uns tantos
de língua germânica trezentos anos mais tarde. Em X1111ti,
111- do fim do mundo. 51 Os múltiplos prognósticos publi-
fez-se uma representação com grande pompa e com ;1 p1111h
, 111 t•onsequência dessa obra associaram, como o fazia
pação de vários milhares de atores: "O que imprcssio111111
nlull'l{Cr, "temor saturniano" - pois considerava-se
mais alto grau os assistentes"Y Os acasos da docume nt:l\'1h111
111 1 11111 planeta nefasto - a profecias escatológicas. Em
a conhecer grandiosas encenações do Juízo Final em,M1111lq
1 11111ro escreveu um prefácio para a tradução alemã do
em 1518 e em Lucerna em 1549.46 Na Alemanha do s~<:11111
1//11111,11 Sondagens entre os livreiros permitem avaliar
continuou-se ..a escrever dramas escatológicos, como ;J 'l),11', 1
111 ,tll II importância da literatura que trata da fase derra-
do Juízo Fh'lfll' redigida em 1558 pelo "mestre cantor" 11 1
Sachs, que aderira à Reforma.47 Além disso - no imp111l11 l I ltl1116ria humana. Há o catálogo de livros publicado ;por
verdade, muito mais do que na França48 - , os m ist~f'i11• 1 1lt ,111dius em Frankfurt em 1625. Sob as rubricas "Juízo
Paixão comportavam muitas vezes como final uma evoc:1~•111, ,1 111~~urreição dos mortos", "despertar dos mortos", "eras
Juízo Final: por exemplo, em Friburgo em 1599.4'' 111111111, " Revelações de são João", "Profecias de Daniel",
A imprensa e a gravura desempenharam evidc nl\•111111 1 1111 ~e 89 títulos de obras editadas desde 1551, das quais

grande papel na sensibilização do público à espera dos 1111lt11 1 ltiOI e 1625.SS


dias. Antoine Vérard, que por volta de 1500 era o g ra11d1• 1 hj Ih 1,1 logo voltarei a isso - acreditava na proximidade
cialista das edições ilustradas em língua francesa e alin~h1 ,, 11 1•111111. Ora, a imprensa deu tal difusão a suas obras que

v.n 321
ele é certamente um dos que mais contribuíram para ~1•11111h 11111, de todas as maneiras - pela pregação, pelo teatro
zar as angústias escatológicas, ao menos nos países que op1111 11 1111, pelos cantos de Igreja também, pela imprensa, pela
pelo protestantismo. Calculou-se que entre 1517 e 152~ 111111 t 1 1• por toda espécie de imagens - , os ocidentais do
vendidas mais de 2 mil edições dos escritos do Refoi 11111il 1h1 ldnde Moderna viram-se cercados pelas ameaças apo-
redigidos nesse intervalo.56 Ora, ele só estava no COlllC\' CI 1h lt 11•• 1L Wõlfflin teve razão de escrever, a propósito das
carreira. O sucesso de sua tradução da Bíblia foi 111111111 1h l>llt'er: "O sentimento do fim do mundo estava então
Durante sua vida, conhecem-se 84 impressões ori!{in11I~ 1 Ih li o de todos". 60 No mesmo espírito, um bom conhece-
feitas a partir delas. Ora, a Bíblia de Wittenbcrg, cuja p1111111 lmnanha do século XVI, J. Lebeau, escreve:
edição data de 1522, comportava uma cópia ligeiraml'lll11 1111 1
ficada do Apocnlipse gravado por Dürer em 1498. J:í :1 1111111, p1 nlocias apocalípticas [...] eram [...] inteiramente fami-
Colônia (1480) e a de Nuremberg (1483) eram ih1~11·11d11 1 ll, 110s contemporâneos. Essa época, que foi marcada por
figurações do Apocalipse que Dürer certamente l c\11' ht1l 1 11111• descobertas e conquistas, jamais teve, por assim di-
olhos. Mas esse visiomhio de 27 anos deu tal vcrd:1d1 11 1 11 ~1111timento de que via despontar a aurora de um tem-
"mundo de metal sonoro onde ressoa o casco dos 1•1111111!1 1111vo, Obsedada pela ideia fixa do declínio, do pecado e
choque das espadas" (E. Mâle) que todas as rcprcsc111 11\111 J J111m, teve, ao contrário, a certeza de que era o ponto de
teriores do Apocalipse realizadas na Alemanha no d1•1•111111 ~,1du dn história. 6 1
século >..'VI foram daí por diante cópias da de Diin.:r," 11111111
por aquelas publicadas, desde 1523, por Burgk111:1ir, S1 h1 Ili h
Holbein. 58 Também na França logo se conhecer:1111 11,, JII t 11111 Ml•:I RO TEMPO FORTE DOS MEDOS
de Dürer, já que desde 1507 algumas delas fora111 1·t•111111h1 ( \ 1()LÓGICOS: O FIM DO SÉCULO XIV
nas margens <las I-Jeures à l'usage de Rome. Mas foi 11 11111li l 1 1)M ltÇO DO XV
pleta das ilustrações da Bíblia de vVittenberg que i111lt 11111
Bíblias francesas publicadas cm Anvers em 1530 e l ' III 1 \11
llhlplrnl indícios permitem datar da segunda metade do
1541 e 1553. E . Mâle descobriu, além disso, 0111,·,w11111 li 1•~Hn ascensão da angústia escatológica. Sua difusão
difusão na França do Apowlipse de Dürer e dc111011s111111111í 1111111 dn diacronia se explica pela coincidência ou pela
111 ••~~no das desgraças que já enumeramos: instalação
iconografia célebre inspirara os artistas que n·11l l1,11 11
decorrer do século XVI os vitrais de Saint-M:1r1i11 d1 \ 1 .,11111 de um papado cada vez mais administrativo e ávi-
em Troyes, de Granville e Chavanges em Aubc, dt' 1•1•111 ••11tlt111 G rande Cisma (encontrando-se todo europeu,
em Aisne e da capela real de Vincennes. Vê-se t :1111'111111 li ,, 1111111ngado por aqueles dois papas a quem não obe-
dral de Limoges, no túmulo de Jean de Langc:tl' {I 1 11 1 ,1p111•ocimento desastroso da peste, Guerra dos Cem
baixo-relevo em que estão representados os q11111, 11 1 t 1 ~11\ tl l urco etc. Galienne Francastel observa: "Em toda
armados com o arco, a espada, a halanç:1 t' 11 111,I ltl ,111 11éculo XIV [...], a ilustração do Apocalipse é um
Impossível não reconhecer aí a influê ncia de Di\t 1•1 1 1 h 11111 om moda. Começando como tantos outros, na
mesmo modo um elo evidente entre o artist:i :ik-111011, , li 11 11111umental francesa [...], estende-se progressiva-
madoJean Duvet, que publicou em 1561 o m:1i~ vl111 t1• 111l11lnturn, ao retábulo e ao afresco. Atinge seu apogeu
calipse feito por um artista francês. 111111 século XIV [...]".62 O surgimento dessa iconografia
em Veneza situa-se em 1394.01 Do mesmo modo, P. Br:Hlll~I• • l,11 hnviam popularizado a ideia de que o Anticristo era o
aponta a novidade do tema do Juízo Final na arte alc11111 ,1 111110 tal.h7 Essa foi também a afirmação de Wyclif que,
começo do século xv.•·1 E parece-me certo, levando-se c111 1111 lt h1 f'nvoráve l a Urbano VI , acusou em seguida opapa de
ta a ação dos pregadores, que o temor do fim do mundo p11 111• ser um Anticristo ta l como seu adversário ele Avi-
leceu amplamente na época sobre a esperança de um 1111//1111 l 1111 e outro, dizia ele, eram "como dois cães sobre um
de felicidade, que foi antes o aparnígio de minorias ativi~t.1 /\ Ig reja hierárquica tornara-se a sinagoga de Satã; a
João XXII , pontífice em Avignon de 1316 a 1334, i11it11I 1 p11pnl era uma invenção diabólica; as excomunhões
de Luís da Baviera e dos franc iscanos "espirituais", 1°11,11~ , ld\ por um papa e pelos bispos não eram senão censuras
por Marsílio de Pádm1 no Defensor pncis e contrn o q1111 Ih 111110.68
ergueu um antipapa de 1323 a 1330, já fora qualific111h1 1- ,11·11sações lançad,1s e repetidas de uma ponta a outra
Anticristo. Esse tipo de acusação volta com uma in,1•,I " lth•111 c - e cada vez mais frequentemente em língua
nova no tempo do G rande Cisma (1378-1417), cacl:1 11111•1 mlo podiam senão manter uma atmosfera de fim do
acusando o outro de ter o Anticristo como che fe. S1•l11, 1 11ilorçndas pelas pregações isentas de toda heresia de
exemplo, Mathias de )anos, cô nego de Praga, de qm·111 1 11l11'1lo de Vercelli ou de um são V icente Férrer. O pri-
Huss será discípulo. Ele desenvolve e dá a conhecer 111111 11111 dominicano que pregou em toda a Itália no começo
cladeira tipologia cio Anticristo, negativo, traço por 1111~11 1111 \ V, estava tão convencido da iminê ncia do Juízo
Redentor e que não podia ser senão um mau pastor i1P.l1111 1111 h•vnva as mulheres a separarem- se definitivamente
e ntre os cristãos, exercendo a autoridade religiosa "'I"' 1lil11~ pnra encontrarem-se se m vínculo no advento do
gozando das riquezas da terra e utilizando impuclt·1111 1111 I• h• teve um adversário na pessoa do franciscano são
- e para o mal - os bens próprios a Jesus Cristo: as F•11 !111, 111111 de Siena, que ta mbém percorria a península
e os sacramentos. E sse odioso hipócrita, essa m ent ir:1 1·111 11 11111 ~l' cm apaziguar os espíritos e que constatava com
da, esse veneno injetado pelo demônio no sangue ela IH1t 11 1~1,1111os invadidos até a náusea por profecias anun-
o papa fraudulento, C lemente Vll, que ousara erg ue r 'H' t 1 • 1 ,11lv1111Lo do Antic risto, os sinais do Juízo próximo e a
Urbano VI, pontífice verdadeiro e apostólico.1•1 .Joiio tl11 ,11 l14rcj11".1º lVIas, nesses t empos conturbados, para um
sua vez fala frequentemente cio Anticristo, e ele <lua, 1111111, 1 111· , angue-frio, quantos exaltados! são V icente
Ora descreve-.o em termos gerais como aquele qm· "1q1I li 111111 dominicano cujo zelo e influência mencionamos,
caminho doi mal", personagem supra terrestre, ill \11'1\ 11 1 l111•1111snvelmente que o Juízo Final teria lugar "cito,
o nipresente, lutando contra o bem e utilizando 11111 h 1pli , 11/,11· hreviter" ("logo, sem tardar, em muito pouco
vidores que são, por sua vez, outros tantos anticri~10•, 11, 1 ti 111·:1 sua fórmula favorita . E m dez sermões, sete
contrário, fornece uma designação precisa. Trat:Ht' 1•111 1111111 tema o Juízo Final.1 1 Iluminado por uma visão
J oão XXII, qualificado de prnecipuus A11techrist11s do 1111111 • 111 J\vig non no início de seu apostolado, ele se con -
porque "o furor, a infâmia e a vergonha do Amin""' 11 ' t II nnjo anunciado no capítulo xrv do Apocalipse,
pem nele".MMas, graças às discórdias da I g reja, :1lg,111~, 1 11111111 do céu, levando o evangelho eterno a rodas as

tos categóricos foram mais longe. E m Praga mcs11111, 111 111 111do cm voz alta: "Temei a Deus e glorificai- o,
do século XIV e no começo cio XV, J akoubck l" 1\11, 1 11111 11 horn de seu juízo". M ilagres o confirma ram

325
nessa missão em particular o de Salamanca. E le 111:11 :w11l111 1 Ili•<;UNDO TEMPO FORTE: A ÉPOCA DA REFORMA
dizer à mult,idão: "Eu mesmo sou aquele anjo visto p111 1 ~l•• ia produzido um apaziguamento relat ivo dessas
João", passa o cortejo fúnebre de u ma mulher que ia sei· 1'111• Ili•~ no decorrer do século XV enquanto se extinguia a
rada. O profeta interpela a morta, ordena-lhe_ que se k v11111 ti 1h1s Cem Anos, afastavam-se as lembranças do exílio de
que diga em voz alta se ele é o anjo do Apocalipse cnc:l r11•~ 1 1111• tio Grande Cisma e acalmava-se a febre conciliar? Se
de anunciar o Juízo Final. A morta se ergue, proclam:1 q111 1111v<1s progressos dos turcos, os pontificados escandalo-
é esse anJ·0 depois volta a ser cadáver.12 D esse modo, o p11 l1111l'êncio VIII (1484-92) e de Alexandre VI (1492-1503) e
, . "()
dor podia declarar com segurança a seus ouvmtes:_ . IHIIII h\ 1\ll difundida em toda parte de que a hierarquia ecle-
própria vinda do Anticristo e ao fim do mundo prox11111, 1 1 h111'11 rdava cada vez mais na corrupção teriam provoca-
prazo muito breve, prego-os ~omo ce~tos e sem temo,: dt 111 1111111 cio século XV, um revigoramento - duradouro -
dignando-se o Senhor a confirmar mmha palavra po1 1111•h• -~tics escatológicas.
milagres".JJ E porque são Paulo, na Epistola a~s Ro111 1 • 111vodem, com efeito, a foilia da Renascença e encon-
(xr,25-32), prediz a conversão de Israel a~tes do f_,m do~ I• 11 11111is eloquente expressão nos sermões de Savonarola.
pos, são Vicente Férrer esforçava-se mmto espec~al11w111, 11, Ido o profeta, discípulos ou imitadores retomam,
atingir os judeus com seus sermões e _em trazc-loN 11111 11111 1111ça inquieta e numa Itália a cada dia mais perver-
comunidade da I greja, mesmo que precisasse aco11sclh111 h 11111/l e os anúncios de sua pregação. No decorrer dos
cristãos que rompessem todo contato com aqueles q1 11• _, 1 1 IJII 1~ 15, o a rtesão Bernardino e os unti (os "ungidos")
tinavam em seus erros.;• 1'1111111 1 o frei franciscano Francesco de .ivlontepulcia no
É necessário insistir no papel que os judeus pa1·t•t I Ili 1 1111,lt idões imensas quando prega na catedral ou em
desempenhado na ascensão dos temores e das _cs111•1,111 C 1111•1•, o fi lho de comerciante Francesco da Meleto
apocalípticas que viveram nessa época _as populaçocii III hl li ,1 111 u11çiio da cidade do lis predizendo-lhe perturba-
t ais. Cada vez mais perseguidos a partir da peste llCHIII ' 111111/l, Seguramente, alg umas dessas profecias conser-
mas de pogroms, invejados pelo povo miúdo, ap11111t11h 11111l~rno milenarista pelo qual Savonarola acabara por
vindita das multidões por pregadores farniticos, c l1•~ 1111 11 11 1 liu-sc seu eco em várias obr as de Botticelli, em
ram a esperar a vinda próxima do Antic_rist~ - 'i_i I Ili"' 1111 11111 uma crucificação pintada em 1502.n Florença
que vingaria Israel oprimido e faria das igreias c rtsl ,,_ 1 111 ,111u111ada em três tempos - aqueles que Savonarola
bulos para 'os animais".75 Mas, por outro lado, ccl'I o 111111, lol ,1 1•~q11crda, a cidade sofre o castigo divino; no cen-
de judeus' espanhóis se converteu sincera_mente ao l' l 1~11" 11 11111 po r Maria Madalen a, arrepende-se aos pés da
mo e alguns se tornaram até membros mfluentcs dn l1 1 1111 111111 1 está banhada n a luz da revelação enquan to
Nada de surpreendente no fato de que tenham lcv111h1 111111110cc no setor onde grassa a cólera do Soberano
eles uma tradição m essiânica profundamente c11 t'lll1111I 111h 1111rismo (em sua versão mais espiritualista e joa-
alma de seu povo, reforçando assim a atmosfe ra aprn 1tll1 1 111 rnupc ma is ainda nas obras de Francesco da
- n a E uropa.16
q ue se a densava entao ,l111ldns po r volta de 1513. Os judeus, assegura e le,
1 1 1111 um 1517. Então começará a última revelação
1111- ilus Escrituras, e o Altíssimo escolherá para

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realizá-la "um homem simples, para melhor p rovar su:, 11111~ 1• l,1111·, um outro Médici (o futuro Clemente VII), reiterou
ficência". A Nova Era começará e ntre 1530 e 1540, oc;o1·1•11111I, 1111ihições aplicando-as especialmente ao caso flore ntino.
nesse intervalo, a conversão dos muçulmanos. E ss:1 M1 ,,1 >. Cnntimori teve razão em mostrar que essas prccirn-
marcará o fim do quinto estado da I g reja. No início do ~, •1 •11 ~e dirigiam àqueles que an tecipavam um calendário
a trombeta tocará o advento do Messias, e a conversão 11111\ 11 ' 1ll{oroso dos prazos apocalípticos. 80 Pois no v Concílio
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sal "pela qual o mundo inteiro viverá sob um único p a,1111 11 111>, muitos padres, a começar por Egídio de Viterbo,
Mas outras previsões contemporâneas das prccede1111•• 111 1·onvencidos de que a plenitude dos tempos era imi-
111111 mesmo começava a realizar -se. Mas se recusavam a
muito mais sombrias. Frei Francesco, que prega o adve11111 11
1513 em Santa Croce, suplica aos florent inos que ponh:1111 I• li 11 1.1111 arriscadas previsões datadas.
mo a suas discórdias, pois a vingança se aproxima:

Haverá sangue por tod a parte. Haverá sang ue na~ 111 l llil~l•imento da Reforma Protestante será mal compreen-
1 111lo o situarmos na atmosfera de fim do mundo q ue
sangue no rio; as pessoas navegarão em ondas de Mlllj 1,
\'11 1111Liío na Europa e especialmente na Aleman ha. Se
lagos de sangue, r ios de sangue [...). Dois milhões d l· dt 111
t11 •· ~uus discípulos houvessem acreditado na sobrevivên-
nios estão soltos no céu[...] porque mais mal foi rn111111 I
• IKruja ro mana, se não tivessem se sentido acossados
ao longo destes últimos dezoito anos do que no d111111 1
l1111110nc ia do desfecho final, sem dúvida teriam sido
dos 5 mil anteriores.n
1111 rnnsigentes em relação ao papado; mas para eles
11111,1 1hívida era possível: os papas da época eram e ncar-
T alvez Florença fosse poupada se se arrependesse; 11111 , 1
• llll'Cssivas do Anticristo. Dando-lhes esse nome co]e-
já não deve esperar novos profetas, a não ser falsas tcs1c1111111t,
11411 Imaginavam utilizar um slogan publicitário, e sim
de Cristo. Três sinais anunciarão a próxima vinda do i\ 111111 I , llh