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A Antropologia como Ciência Social no Brasil

O fato de a antropologia ter se consolidado no


A ANTROPOLOGIA Brasil como uma das ciências sociais é pleno de
COMO CIÊNCIA SOCIAL conseqüências, se comparamos o caso brasileiro
com o desenvolvimento da disciplina em outros
NO BRASIL 1 contextos, especialmente nos centros
reconhecidos de produção intelectual. Mas,
mesmo como uma das ciências sociais, a
antropologia no Brasil manteve a dimensão de
alteridade que é característica fundante da
disciplina. Este artigo tem sua motivação nesse
fato. Nele são discutidas algumas conseqüências
mais gerais que dele decorrem, assim como uma
específica: a configuração que a antropologia
Mariza G. S. Peirano adquire no Brasil a partir dos anos 60.

O fato

É no período que compreende as décadas de 60 e 70 que a antropologia


no Brasil começa a se ver como uma genuína ciência social – isto é, como
um ramo da sociologia dominante dos anos 40 e 50. Penso não ser exagero
usar como metáfora o fato de a antropologia ter se desenvolvido como uma
“costela” da sociologia então hegemônica. No entanto, para se constituir
como antropologia nesse contexto, foi necessário manter e desenvolver um
estilo sui generis de ciência social, no qual uma dimensão de alteridade
assumisse a dupla função de produzir uma antropologia no Brasil e do Brasil.
Inicio portanto com a pergunta: o que há de fundamental nos anos
60 que marca essa orientação? Se optamos por um olhar institucional, é nos
anos 60 que se implantam os primeiros programas de pós-graduação em
antropologia nas universidades federais.2 É esse o momento em que se inicia
a reprodução social dos antropólogos de maneira sistemática, formando o
que hoje, retrospectivamente, se reconhece como gerações e descendências.3

1 Agradeço a Miguel Vale de Almeida e João Leal o convite para participar do colóquio “Antropologias Brasileiras

na Viragem do Milênio” e a Joaquim Pais de Brito os comentários.


2 Esse é o período em que se fundam os programas no Museu Nacional/UFRJ e na Universidade de Brasília. Logo

em seguida, cria-se o programa de Campinas, que se soma, em São Paulo, ao mais antigo doutorado em antropologia
no país, o da USP.
3 Na concepção de Antonio Candido, trata-se do início de uma tradição de saber, diferente de manifestações anteriores,

que constituem momentos em que não há continuidade de obras e autores, e quando os últimos não estão cientes de
integrarem um processo de formação. Naturalmente, o tempo das manifestações não impede surgirem obras de valor;
na verdade, os autores desse período são freqüentemente considerados fundadores pelos que os sucedem, quando
estão estabelecidas linhas contínuas de estilos, temas, formas ou preocupações (Candido 1959).

Etnográfica, Vol. IV (2), 2000, pp. 219-232 219


Mariza G. S. Peirano

Mas uma segunda perspectiva antecede a fundação dos programas e focaliza


o contexto disciplinar da época, isto é, a relação entre a antropologia e a
ciência social hegemônica então: a sociologia. Nesse contexto histórico,
condições sociais favoreceram, por exemplo, o aparecimento do conceito de
“fricção interétnica” – noção que marcou, conceitual e institucionalmente, a
inclusão de pontos de vista e orientações teóricas considerados, na época,
propriamente sociológicos a uma temática reconhecida como antropológica.
O bem-sucedido conceito de fricção interétnica toma a questão
indígena como motivação para se pensar a sociedade nacional “através da
presença certamente ‘incômoda’ dos grupos tribais” (Cardoso de Oliveira
1978: 11). O índio era um indicador sociológico para os que estudavam a
sociedade nacional, seu processo expansionista e sua luta para o desenvol-
vimento – tanto quanto o negro havia servido ao mesmo propósito para
Florestan Fernandes.4 O adjetivo incômodo é revelador de um ideal de
sociedade nacional integrada, se não para o antropólogo, para a sociedade
civil dominante. Mas hoje, ao se rever o sucesso institucional das disciplinas,
é elucidativo lembrar que para Egon Schaden – que ocupou a cadeira de
antropologia na USP por quase duas décadas, de 1949 a 1967 – “nunca
chegou a esboçar-se, felizmente, na Universidade de São Paulo, algo que
pudesse denominar-se uma ‘escola antropológica paulista’” (Schaden 1984:
254; ênfase minha). Aqui é o advérbio o índice revelador da ironia do
antropólogo e podemos glosar a afirmação como “Felizmente a antropologia
da USP não seguiu [o sucesso d]a sociologia da USP”.
Em termos da antropologia que se tornou legítima no Brasil, há,
portanto, pelo menos dois tipos de manifestação a considerar: até os anos 60,
pelo rótulo de antropologia entendia-se de forma dominante (se não exclusiva)
o estudo hoje considerado canônico ou clássico de sociedades tribais ou primi-
tivas, como era comum nos grandes centros europeus e norte-americanos.5
Esse é o quadro de referência de Egon Schaden, por exemplo. Essa antropo-
logia (social) se situava no contexto mais inclusivo da arqueologia, antropo-
logia física, paleontologia e, de forma especial, encontrava-se nos museus.6

4 Aqui é interessante notar que a antropologia moderna no Brasil descende mais dos estudos de Florestan sobre a
integração do negro que das análises sobre os Tupinambá (cf. Peirano 1981).
5 Gerholm e Hannerz (1982) denominam “antropologia internacional” aquela que se desenvolve nos centros europeus

e norte-americanos. Os autores usam como metáfora a idéia de um continente, onde se faz a antropologia interna-
cional, ao redor do qual existem vários arquipélagos, maiores e menores.
6 Estou ciente da complexidade que resulta de várias vertentes nessa época. Por exemplo, para Schaden, nos “primeiros

tempos” dominaram os etnólogos: do início do século, Schaden cita Herman von Ihering e Curt Nimuendaju (e,
institucionalmente, a importância do Instituto Histórico e Geográfico e do Museu Paulista); depois, Herbert Baldus e a
fundação da Universidade de São Paulo e da Escola de Sociologia e Política. Em 1935, instala-se, na Faculdade de Filo-
sofia, Ciências e Letras da USP, a cadeira de Etnografia Brasileira e Língua Tupi-Guarani, ocupada por Plinio Ayrosa
(que era engenheiro, nota Schaden) e depois por Emilio Willems. Mais tarde, a antropologia ganha o status de “cadeira”
(em 1948), cabendo sua regência ao próprio Schaden (Schaden 1984). Enquanto isso, no Rio de Janeiro, foi pelo consórcio
da antropologia com a história e a geografia (esta última havia alcançado uma posição hegemônica no cenário intelectual

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A Antropologia como Ciência Social no Brasil

Depois da fundação dos programas de pós-graduação nas décadas de 60/70,


à (nova) antropologia cabia enfrentar o mesmo desafio colocado na época aos
sociólogos: “analisar, compreender e, assim, transformar a sociedade brasileira”
(Costa Pinto e Carneiro 1955: 24). Tratava-se de um empreendimento social e
explicitamente “interessado”, no sentido weberiano.
Aqui é necessário assinalar, com ênfase, que a passagem de um
contexto a outro não é descontínua e tampouco excludente. Não se trata de
uma revolução científica, nos termos clássicos kuhnianos. A versão da qual
somos descendentes inclui a anterior e a circunscreve. Retorno ao tema
quando falar da configuração contemporânea. Trata-se, portanto, não de
ruptura mas de englobamento. O momento de transição, no entanto, quando
as áreas estavam pouco definidas, foi dominado por certa ambivalência: de
um lado, os estudos de Florestan Fernandes sobre os Tupinambá (Fernandes
1963, 1970) foram considerados “etnossociologia” por seu professor Herbert
Baldus (e não antropologia, como os vemos hoje); de outro, o próprio
Schaden aceitou orientar uma tese sobre o negro, no momento em que
Florestan Fernandes se desinteressava do tema. 7

Um parêntese: sociogênese

Data da década de 30 o projeto de fazer as ciências sociais no Brasil – na


época, referenciadas pelo termo inclusivo de “sociologia” – combinarem um
projeto educativo e um projeto político de longo prazo. A elite econômica
paulista descobre que falta ao país uma elite política: “Vencidos pelas armas,
sabíamos perfeitamente que só pela ciência e pela perseverança voltaríamos
a exercer a hegemonia” (Mesquita Filho 1969: 199 apud Schwartzman 1979:
195). Assim, a futura Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universi-
dade de São Paulo direciona-se para a “principal missão de criar um ideal,
uma consciência coletiva ou, para não faltar à linguagem da época, [...] criar
no espírito da juventude e instilar na alma da coletividade a mística
nacional” (Mesquita Filho, 1969: 164-6 apud Schwartzman 1979: 196). Se é
correto pensar que a Universidade de São Paulo foi uma experiência bem-
-sucedida mas localizada – a Universidade do Distrito Federal (UDF), por
do Estado Novo) que a primeira encontrou seu lugar na Faculdade Nacional de Filosofia (cf. Castro Faria 1984). Já na
Bahia, Thales de Azevedo observou que a instalação do ensino de antropologia nas Faculdades de Filosofia no país fez
com que novos docentes substituíssem aqueles recrutados predominantemente entre os médicos, quando não entre
engenheiros, odontólogos, farmacêuticos e geógrafos. Esses médicos formaram uma geração que trouxe da medicina os
instrumentos teóricos e conceituais para enveredar nas antropologias física e cultural, não sendo de estranhar, portanto,
que se ressentissem, como o próprio Thales de Azevedo, da falta de uma formação mais adequada (Azevedo 1984).
7 João Batista Borges Pereira formulou um projeto a ser orientado por Florestan Fernandes. O desinteresse de Florestan

produziu o evento que criou uma sublinhagem: João Batista encontrou em Egon Schaden um orientador para a mesma
pesquisa. Ver Peirano (1992, capítulo 2) para o papel de Florestan Fernandes no desenvolvimento das ciências sociais
no Brasil e, em particular, da sociologia.

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Mariza G. S. Peirano

exemplo, foi abortada logo após sua fundação para renascer mais tarde –,
nela estão os traços sociogenéticos que marcariam as ciências sociais nas
décadas subseqüentes.8
Nesse sentido, no Brasil atualizava-se a tradição do iluminismo, na
qual se gestou a sociologia no século XVIII. Na França, a inovação do Institut
National residiu na proposta de uma moralidade secular (oposta à religiosa),
e a sociologia prometia tornar a ciência disponível para o melhoramento da
vida social, especialmente na área das políticas nacionais. O fato é que,
quando Napoleão dissolveu a Seção das Ciências Políticas em 1803, a
expectativa de as ciências sociais direcionarem de forma científica o curso do
processo de construção nacional foi duramente abalada. Também nos Estados
Unidos, o projeto iluminista de uma ciência do homem teve seu termo
quando a American Social Science Association se desmembrou em diversas
disciplinas, dando lugar a uma orientação prática e tecnocrática para os
problemas sociais (Becker 1971).
O paradoxo, portanto, de uma ciência social crítica que se desenvolve
contra os interesses daqueles que a criaram é um problema sempre
lembrado, para o qual, todavia, não há consenso. Assim, Lévi-Strauss
recorda-se de seu período de professor universitário em São Paulo nos anos
30 pelo comportamento dos alunos: estes não se interessavam pelas
conquistas passadas, mas apenas as últimas teorias mereciam atenção. Já a
geração que a missão francesa formou considerou-se composta de
“trapezistas sem rede de proteção”, já que eles precisavam decidir o que
fazer com o conhecimento maciço a que estavam sendo expostos pela
primeira vez no projeto de modernização que consistiu em convidar
professores europeus para ensinar no Brasil (Lévi-Strauss 1977; Fernandes
1977: 225).

Conseqüências gerais

Essas observações podem ser resumidas em quatro pontos gerais.


Em primeiro lugar, em diversos momentos, um mesmo nome – antro-
pologia, por exemplo – não designa necessariamente o mesmo fenômeno.9
Por exemplo, a antropologia que se fez na década de 40 e a que se faz hoje:
no Brasil, a antropologia dos grupos indígenas foi englobada no projeto mais
amplo atual.
Em segundo lugar, não é possível falar do desenvolvimento de uma
disciplina sem seu contexto. No século XX, parte significativa desse contexto
8 Ver Schwartzman (1979) e Peirano (1981) para o papel da fundação das Faculdades de Filosofia no contexto das
novas universidades.
9 Para uma discussão sobre a questão dos rótulos e conteúdos disciplinares na antropologia, ver Cabral (1998).

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A Antropologia como Ciência Social no Brasil

é representada pelas disciplinas vizinhas, quer sejam estas inspiradoras, quer


tenham sido rivais. Assim, investigar o desenvolvimento da antropologia no
Brasil depois dos anos 50 exige que se examine, pelo menos, a sociologia e
a ciência política. Para uma avaliação do período anterior aos anos 50, é
preciso levar em consideração a literatura.
Em terceiro lugar, determinado saber não é desenvolvido apenas pelos
especialistas da área – isto é, não-antropólogos podem fazer antropologia.
As linhas disciplinares no Brasil são freqüentemente transpostas e os cien-
tistas sociais sentem-se aptos, embora nem sempre à vontade, para avaliar
os trabalhos dos colegas de outras disciplinas.
Finalmente, uma disciplina acadêmica revela sua possível configu-
ração no diálogo com as idéias e os valores dominantes de uma sociedade.
No caso brasileiro, as ciências sociais são reconhecidas como saber legítimo
quando o país passa a se considerar parte do mundo moderno, idéia domi-
nante a partir da década de 30. Nesse contexto, às ciências sociais coube
propor modelos alternativos para o projeto de construção nacional.10

Mais uma variante

Todas essas dimensões se somam ao fato de sermos um país de língua portu-


guesa. No Brasil, uma comunidade de interlocutores autodefinidos como
cientistas sociais desenvolveu-se ao longo das últimas décadas a ponto de,
com freqüência, os encontros mais gerais dos cientistas sociais tornarem-se
fórum de mais prestígio que os das subdisciplinas. No entanto, aderindo, por
um lado, ao preceito universalista da ciência e, por outro, ao comprome-
timento social em termos locais, a disciplina que hoje se desenvolve no país
i) partilha os ideais que definem a antropologia desde o século passado,
relativos à unidade da humanidade; ii) reconhece a especificidade de
qualquer de suas formas sociais; e iii) não menos, seus praticantes vêem-se
– pela própria formação e socialização acadêmicas – como cidadãos com-
prometidos em termos sociais. Curiosamente, há um indício de afinidade
lingüística nos dois casos notados: a ênfase universalista é freqüentemente
traduzida para o inglês ou francês, enquanto a dedicação a causas políticas
fica mais restrita ao português.11
10 As ciências sociais, portanto, dialogam com projetos de nation-building. No Brasil, nas primeiras décadas após a
institucionalização das ciências sociais no país, à sociologia coube diagnosticar e apresentar modelos contestatórios
ou revolucionários a curto ou médio prazo aos então vigentes; à antropologia pós-60, explicar diferenças, quer sociais
ou culturais. Ver Peirano (1981) para a relação entre antropologia e processos de nation-building, a partir da proposta
de Norbert Elias (1972), que os vê como processos de integração social e territorial de longa duração. Encontrei ainda
em Leal (1995, 1999, no prelo) discussões estimulantes sobre a constituição da antropologia e a construção do fato
nacional em Portugal. Leal dialoga com a proposta de Stocking Jr. (1982).
11 À primeira vista, Ramos (1998) parece uma exceção que confirma a regra. O livro foi publicado nos Estados Unidos

antes de o ser no Brasil. No entanto, os diálogos desenvolvidos parecem efetivamente ter a comunidade norte-

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Mariza G. S. Peirano

Antropologia no/do Brasil

Externamente é com a sociologia, portanto, que a antropologia como disci-


plina vem dialogando desde a institucionalização das ciências sociais na
década de 30. Já internamente às suas fronteiras, esse diálogo é rebatido
como uma eventual distinção entre a etnologia indígena feita no Brasil e as
investigações antropológicas sobre o Brasil.12 Na última década, a presença
de um mínimo de especialistas nas diversas temáticas – indígena, campo-
nesa, urbana, afro-brasileira e outras – vem sendo considerada exigência para
a definição de um departamento de excelência em antropologia no Brasil.
Para além da pesquisa indígena propriamente dita, uma antropologia feita
no/do Brasil é uma aspiração comum. Em qualquer caso, os padrões inicial-
mente definidos pela sociologia de Florestan Fernandes continuam vigentes
na agenda das ciências sociais no país: a excelência acadêmica como
parâmetro – aí incluída a ambição teórica – e, sob perspectivas diversas de
comprometimento, a temática nacional. 13

A questão da alteridade no Brasil: quatro tipos ideais

Trata-se de um fato reconhecido a tendência dominante de os antropólogos


brasileiros realizarem pesquisa no próprio país. As exceções aumentam a
cada dia (cf. Velho 1995), mas estudantes de pós-graduação (diferente do caso
norte-americano, por exemplo) geralmente se perguntam com quem e onde
farão sua pesquisa de campo, mas dentro de limites ideológicos (quando não
estritamente territoriais) brasileiros. Isto é, antropólogos brasileiros não
andam à procura do exótico; ao contrário, parece haver uma trilha no mundo
e ela é definida pelos caminhos percorridos pela tradição luso-brasileira. 14

-americana como interlocutora privilegiada. Os trabalhos de Eduardo Viveiros de Castro são mais indicativos de uma
especialização lingüística (cf. Viveiros de Castro 1992; Viveiros de Castro e Andrade 1988). Por outro lado, seminários
como este ampliam o universo de conversação, prometendo criar “antropologias de língua portuguesa” – para usar
a idéia de Miguel Vale de Almeida –, tão mais ricas quando desenvolvidas em contextos sociais diversos.
12 Essa perspectiva esteve presente na mesa-redonda realizada na 21a Reunião da Associação Brasileira de

Antropologia, 5-9 de Abril de 1998, em Vitória, “Sobre os grandes divisores: etnologia das sociedades indígenas e
antropologia das sociedades complexas”, em que etnologia e antropologia se associavam, respectivamente, às sociedades
indígenas e às sociedades complexas. É possível que essa perspectiva reflita o contexto específico do Programa de
Antropologia Social do Museu Nacional/UFRJ.
13 Depois dos anos 50, a sociologia da USP passa a representar o padrão de excelência, embora não necessariamente

o modelo institucional. Como padrão, ele se tornou hegemônico e repercutiu nas demais ciências humanas (como a
antropologia e a ciência política), incluindo a filosofia, a história e até mesmo o folclore. Ver Fernandes (1961) para a
relação entre a sociologia e a antropologia. O folclore desapareceu de cena nesse contexto, vencido no seu propósito
de se tornar um saber “científico” (cf. Vilhena 1997). Para uma avaliação do conceito de nação para os antropólogos,
ver Peirano (1992, capítulo 3).
14 É cada vez mais freqüente que alunos do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade

de Brasília (UnB) procurem extrapolar fronteiras geográficas mas, mesmo nesses casos, a comparação com o Brasil é
dominante.

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A Antropologia como Ciência Social no Brasil

Volto a este ponto.


Mas se, então, a antropologia se define por alguma noção de alteri-
dade (sem a qual a disciplina não se reconhece a si própria) e, mais, se no
Brasil abordagens antropológicas e sociológicas são percebidas como
distintas, fica a questão: onde se aninha a diferença no Brasil?
O fato de a antropologia em geral não ultrapassar fronteiras geográ-
ficas no Brasil, mas, ao mesmo tempo, diferenciar-se das demais ciências
sociais pela dimensão intrínseca do estudo da alteridade, produz um caso
experimental para se testar a associação entre antropologia e exotismo –
agora que este se torna incorreto e inaceitável como valor no mundo (pós-)
moderno. Como uma noção radical de alteridade não é fundamental, pode-
mos imaginar que o exotismo, vigente em outras latitudes até recentemente,
é apenas a referência distante. Ao se aculturar no país, o exotismo assumiu
sua faceta de diferença; foi atenuado, quem sabe se amenizou, e passou a
incluir vários tipos de “diferença próxima”.
É preciso esclarecer: se todo exotismo é um tipo de diferença, nem
toda diferença é exótica; a ênfase na diferença tem como dimensão intrínseca
a comparação, enquanto a ênfase no exotismo dispensa contrastes; a dife-
rença produz uma teoria política, o exotismo produz militância, ativismo ou
filantropia à parte da etnografia. No Brasil, o estudo de populações indígenas
como alteridades isoladas propiciou que o contato interétnico se tornasse um
objeto de investigação em si. Logo questões urbanas puderam ser vistas
como legítimas em termos etnográficos e, em seguida – para completar o
caminho de volta –, o estudo da própria prática e produção dos cientistas
sociais tornou-se relevante.15 O fato de esse percurso não ser esperado, de
esse não ser o caminho antecipado, prova-o a discussão, na década de 70,
sobre a validade da pesquisa junto ao grupo do pesquisador, os critérios de
familiaridade necessários para a pesquisa etnográfica e, nos termos da época,
a necessidade de tornar exótico o que era familiar (DaMatta 1973a, 1981; Velho
1978).16
Se essas reflexões reforçam a idéia de que categorias de alteridade são
contextuais mesmo para os antropólogos, é possível identificar quatro tipos
ideais para a comunidade de especialistas brasileiros, representados por
graus diferenciados de alteridade. A noção de diferença então desliza de uma
perspectiva mais radical de alteridade para uma mais próxima.
Uso aqui tipo ideal na concepção weberiana, em que os tipos não são
realidades históricas puras nem “realidades autênticas”, e mantenho a idéia
de que a alteridade, quer concebida como distância geográfica, cultural ou
social, é princípio fundante da disciplina. No Brasil, dentro dos limites
15Ver também Peirano (1999) para a comparação entre a noção de alteridade como exotismo e como diferença.
16Este debate foi contemporâneo à discussão dos antropólogos indianos sobre o estudo “of one’s own society” (cf.
Peirano 1999).

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Mariza G. S. Peirano

demarcados pela exigência de rigor teórico combinado à força moral que


define a ciência social como comprometida e transformadora, a influência
durkheimiana parece ter se combinado de forma sui generis à tradição
germânica da cultura, a primeira englobando hierarquicamente a segunda.17
Passo a examinar os quatro casos mas, naturalmente, as categorias não
são excludentes e é comum antropólogos transitarem em várias delas ao
longo de suas carreiras.18

i) a alteridade radical
Duas situações definem a alteridade (mais) radical no Brasil. A primeira
pode ser ilustrada pelo estudo de populações indígenas, constituindo-se este
o exotismo viável ou possível em termos locais. Nesse caso, as pesquisas são
na maior parte das vezes realizadas em território brasileiro.19 Embora para
os especialistas seja fortuito que os grupos indígenas estejam situados no
Brasil, o fato é que existem implicações políticas e ideológicas significativas
nessa localização. De um lado, trata-se de área onde os debates com a comu-
nidade internacional são mais freqüentes, já que as pesquisas correspondem
às preocupações mais canônicas da antropologia. (Nesse caso, fica a per-
gunta: nossa diferença transforma-se em exotismo alhures?) De outro, antropó-
logos que se dedicam a situar grupos indígenas no corpus etnológico sul-ame-
ricano, isto é, para além das fronteiras nacionais, vêem-se compelidos, por
exemplo, a participar da política governamental na questão da demarcação
das terras indígenas.
Não é necessário listar a produção pertinente, já que os trabalhos dos
especialistas são bastante conhecidos (cf. Melatti 1984, Peirano 1999 e
Viveiros de Castro 1999). Para indicar as conotações ideológicas e políticas,
basta contrastar dois exemplos paradigmáticos: Lévi-Strauss e Florestan
Fernandes. Embora teoricamente próximos, no Brasil Lévi-Strauss encontrou
o caminho para a noção (universal) de estrutura dual nos Bororo; já
Florestan, que ao reconstruir a organização social dos Tupinambá também
os inseria no mapa mundial, provava sua competência além-fronteiras, mas
também encontrava o ponto zero da história do Brasil.
Antropólogos brasileiros então não saem do Brasil? Sim. Há uma
tendência nova que leva o observador para fora dos limites geográficos do
país. Mas aqui a trilha mencionada antes adquire mais sentido. Nos
17 Para Durkheim, a sociologia não deveria conhecer formas extintas de civilização com o objetivo único de conhe-

cê-las e reconstituí-las, assim como não deveria procurar a religião mais simples pelo simples prazer de contar suas
extravagâncias e singularidades. Para Durkheim, a sociologia tem por objetivo explicar uma realidade atual e próxima,
“capaz de afetar nossas idéias e nossos atos” (cf. Durkheim 1996: v-vi).
18 Ver Peirano (1999) para bibliografia mais detalhada sobre os tipos ideais aqui definidos.
19 Melatti (1999) é uma exceção à tendência de classificar os índios do Brasil, e trabalha atualmente com áreas

etnográficas da América do Sul.

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A Antropologia como Ciência Social no Brasil

caminhos dos antropólogos brasileiros, algum vínculo ao Brasil é essencial.


Uma maneira é comparar-se o Brasil a outro país (à Índia, à França, aos
Estados Unidos) – e, nesse caso, os Estados Unidos tornaram-se nosso Outro
privilegiado, quase civilizatório. Tal procedimento nos é familiar desde o
clássico estudo sobre preconceito racial de Oracy Nogueira e chega hoje às
análises comparativas de Roberto DaMatta e vários outros (cf. Nogueira
1986).
Outra tendência crescente é o interesse na antropologia feita em
Portugal, fortalecido por congressos e conferências luso-brasileiras (e este
colóquio é mais um passo nessa direção), de novo atestando o significado
dos vínculos históricos e lingüísticos e dos caminhos luso-brasileiros.
O resultado é visível em pesquisas realizadas em Moçambique e Guiné-
-Bissau – no caso africano –, ou em Goa (Índia), por exemplo.20 Outra
tendência emergente é a de seguir os brasileiros nas ondas migratórias
recentes para o exterior, quer para outros países da América Latina, quer para
os Estados Unidos ou Europa.21

ii) contato com a alteridade


Consolidado no Brasil, o estudo do contato interétnico constitui talvez a
contribuição mais original da antropologia feita no país. Há hoje uma
literatura considerável, herdeira direta das preocupações indigenistas que,
por muito tempo, os etnólogos focalizaram em trabalhos à parte de suas
contribuições principais. A transformação dessa preocupação em tópico
legitimamente acadêmico ocorreu nas décadas de 50 e 60: Darcy Ribeiro
centrou o tema na direção do indigenismo que, mais tarde, recebeu o
polimento teórico de Roberto Cardoso de Oliveira com a noção de “fricção
interétnica”. Hoje estes trabalhos têm continuidade nos estudos realizados
por João Pacheco de Oliveira (1999) sobre territorialização, Antonio Carlos
de Souza Lima (1995) sobre o indigenismo como conjunto de ideais relativos
à inserção de povos indígenas em estados nacionais e Stephen Baines (1991)
para a relação entre grupos indígenas e a Fundação Nacional do Índio
(FUNAI). Seguindo uma trajetória diversa – porque iniciou sua carreira no
terreno da etnologia clássica –, Ramos (1998) dedica-se a explicar porque,
tratando-se de uma população relativamente pequena, os índios representam
a nacionalidade de maneira tão relevante.
A preocupação com o contato, tendo incluído as fronteiras de
expansão, tornou legítimos, na antropologia, os temas relacionados ao
colonialismo interno, que por sua vez abriu espaço para o importante tema
20 Almeida (1999) faz um caminho inverso, investigando o movimento cultural em Ilhéus, Bahia, e traz para a discussão

questões que arejam as já familiares aos antropólogos brasileiros.


21 Cf. Peirano (1999) para referências bibliográficas.

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Mariza G. S. Peirano

do campesinato no Brasil. (Aqui os nomes imediatos são os de Moacir


Palmeira, Giralda Seyferth, Klaas Woortmann, Ellen Woortmann, Lygia
Sigaud, Margarida Moura. Esses autores foram de encontro aos sociólogos
que já se dedicavam ao estudo do mundo rural).

iii) a alteridade em casa


Se hoje os antropólogos europeus e norte-americanos se dão conta de que
devem trazer a antropologia “para casa”, muito antes, no Brasil, a alteridade
já era descoberta por perto. Os trabalhos são inúmeros e, curiosamente, é
freqüente que o caminho se faça pela via da teoria.22 Por exemplo, pela via
do estruturalismo, Roberto DaMatta faz a ponte entre temas da etnologia
indígena e o ethos nacional. Tendo iniciado a experiência por meio da análise
de rituais nacionais (carnaval, paradas e procissões), DaMatta desvenda
expressões como “você sabe com quem está falando?”, o mito das três raças
no Brasil, músicas de carnaval, textos de literatura.23 Gilberto Velho, na
interlocução com a escola sociológica de Chicago, produziu a primeira
pesquisa etnográfica em território urbano e moderno no contexto da
antropologia pós-anos 60, depois ampliada e desenvolvida em várias outras,
sobre classes médias, drogas, velhice, gênero, família, política, música. Seus
alunos continuam a ampliar o leque temático, no qual se inclui hoje a inves-
tigação sobre grupos sociológicos relevantes da intelectualidade brasileira
(fazendo fronteira com o próximo tipo ideal).
Por composições múltiplas com a sociologia, desde os anos 50 outros
tópicos se legitimaram: a integração social de populações oprimidas,
imigração, religião, messianismo, cultos afro-brasileiros, relações raciais,
festas populares, movimentos sociais, gênero, direitos de minorias – todos
na categoria de “alteridade próxima”. Na medida em que o aspecto da
diferença é enfatizado, os estudos são vistos como mais antropológicos do que
sociológicos.

iv) o nós radical


Como que confirmando que a ciência social no Brasil tem um débito
profundo com Durkheim, dos anos 80 em diante antropólogos desenvol-
veram vários estudos que focalizam as próprias ciências sociais como forma
de manifestação da modernidade. Os tópicos são variados e incluem desde

22 Ver Peirano (1998) para a relação entre a antropologia at home e os chamados cultural studies.
23 Roberto DaMatta é o antropólogo que mais transitou nos quatro tipos ideais aqui considerados. Vejo Ensaios de
Antropologia Estrutural (DaMatta 1973b) como o ponto de transição. Neste livro estão, lado a lado, uma análise
estruturalista canônica de um mito Apinajé, uma história de Edgar Allan Poe e o exame das inversões estruturais na
communitas que é o carnaval carioca.

228
A Antropologia como Ciência Social no Brasil

estudos sobre cientistas sociais brasileiros à revisitação de autores clássicos


da teoria social. Um dado interessante é que os interlocutores dessa linha
de trabalho são, na maioria, franceses (destaque para Bourdieu, mas também
Foucault), com alguma influência de americanos (como Stocking Jr.). Os
nomes incluem Luiz de Castro Faria, Sergio Miceli, Mariza Corrêa, Luiz
Fernando Dias Duarte, Marcio Goldman, Federico Neiburg, entre muitos
outros. (No meu próprio trabalho, procurei desenvolver um diálogo teórico
triangular com Louis Dumont e Norbert Elias, cf. Peirano 1981, 1992).
Essa linha de estudos focaliza temas abrangentes relacionados com as
tradições intelectuais ocidentais mas, os resultados sendo publicados
principalmente em português, eles não atingem as audiências que poderiam
dar um retorno intelectual produtivo. Uma questão fundamental se coloca
então: para quem esses estudos são desenvolvidos? Como a interlocução
principal tem sido interna (isto é, a disputa se dá na ausência dos autores
inspiradores ou criticados), há um forte indício de que esses trabalhos
preenchem uma função performativa de ligar os antropólogos brasileiros ao
mundo maior, enquanto se mantém o diálogo restrito à comunidade de
cientistas sociais locais. (Por outro lado, é preciso considerar que esta não é
uma opção que se faz livremente.)

Conclusão: o contexto da alteridade no Brasil

Cientistas sociais brasileiros não fazem parte integrante do circuito habitual


dos centros reconhecidos de produção intelectual. Tal fato não impede que nos
vejamos como parte dele e, portanto, interlocutores legítimos dos autores mais
respeitáveis e reconhecidos da tradição ocidental. Mas, nesse contexto, há um
traço peculiar da nossa inserção: falamos e escrevemos em português (embora
leiamos em inglês e francês). O isolamento relativo da língua portuguesa tem
uma afinidade com o papel político do cientista social no Brasil, chamado a
participar de valores e responsabilidades de construção nacional. Este fato
talvez explique (i) porque nossa alteridade é encontrada dentro dos limites
(ideológicos e morais, traduzidos como territoriais) do país – o Brasil é imã
ideológico e força moral –, (ii) mas, paradoxalmente, quando procuramos essa
alteridade, muitas vezes acabamos por encontrar uma suposta (e talvez, de
forma inconsciente, desejável) “singularidade brasileira”. A questão da
identidade é fundamental e estamos, quase sempre, mais ou menos con-
fortavelmente, em casa. É preciso reconhecer, no entanto, o aspecto sociológico
positivo: ao longo de várias décadas, o processo complexo de lealdades
intelectuais e políticas, o labirinto de caminhos dentro de um universo
possível, assim como o quadro variado de interlocutores (presentes e
ausentes), todos esses elementos contribuíram para a consolidação de uma

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Mariza G. S. Peirano

comunidade acadêmica. Com esta nota encerro, procurando resumir alguns


pontos.
Em termos de exotismo: é a diferença – social, cultural, religiosa, de
gênero, etc. –, mais que o exotismo, que chama a atenção dos antropólogos
brasileiros quando estes procuram a alteridade, sancionando o elevado grau
da influência francesa. Esta característica talvez explique porque, em crise
em lugares onde o exotismo marcou a antropologia, no Brasil a disciplina
se sinta revigorada e em pleno desenvolvimento.
Em termos políticos: embora a dimensão política esteja presente em
qualquer contexto onde uma ciência social se desenvolva, no Brasil ela é
direcionada para um ideário, às vezes mais próximo, às vezes mais remoto,
de construção nacional, no qual diferenças devem ser respeitadas e uma
singularidade nacional esclarecida. Mesmo no momento atual, em que se
questiona a associação entre estado e nação, no Brasil o aspecto de “cons-
trução” (da nação) vem se mantendo relativamente estável.
Em termos de teoria: parte do ocidente, mas não falando uma língua
internacional, a dimensão teórica assume um papel fundamental como o
caminho nobre para a modernidade. No Brasil, a dimensão política da teoria
é um aspecto familiar e, com freqüência, objetos de estudo decorrem de
escolhas que são, na verdade, simultaneamente teóricas e políticas. Pode
dizer-se que, a partir de Florestan Fernandes, elegemos a teoria como índice
de competência.
Mas nem sempre os esforços são bem-sucedidos. Aqui é preciso notar
que a questão teórica pode ser mal interpretada: por exemplo, no puro
mimetismo – em que meramente se copia o que se faz fora, em um arremedo
de participação em um mundo homogêneo que não existe. Ou, ainda, na
combinação “teoria importada + dados nossos”, quando a primeira esclarece
os segundos de forma mágica. Um projeto mais ambicioso, mas mais
conseqüente, surge quando propomos questionar dados e teorias anteriores
por meio de investigações novas. Neste caso, a proposta é expandir,
redirecionar e ampliar questões anteriores, criando novos dados, novas
realidades e propondo novos problemas.
Este é o projeto de uma ciência social que se define como eterna
construção e superação de si mesma. Ele depende tanto do domínio seguro
das teorias clássicas e contemporâneas quanto da etnografia acurada e
impecável. Se é correto pensar que uma “cultura mundial dos tempos”
precisa de constantes empréstimos, em direções opostas e complementares,
então a promessa aqui implícita é a de um diálogo teórico e empírico que
ultrapasse barreiras – trata-se de desenvolver “universalismos plurais” que
situem, inclusive, os universalismos metropolitanos e que, ao mesmo tempo,
reflitam a contingência de quem vive o mundo moderno no Brasil. Para usar
a formulação feliz de Miguel Vale de Almeida, estaríamos nos movimen-

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A Antropologia como Ciência Social no Brasil

tando no contexto de “pluralidades multicentradas”.

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Mariza G. S. Peirano ANTHROPOLOGY AS SOCIAL SCIENCE IN


BRAZIL

When comparing the development of anthropology in


Brazil to that of the centres of intellectual produc-
tion, the fact that the discipline has consolidated
itself as one of the social sciences is full of conse-
quences. Even as one of the social sciences, however,
anthropology in Brazil has maintained the dimension
of otherness characteristic of the discipline. The
present article discusses the configuration that
Universidade de Brasília anthropology has acquired in Brazil since the 1960s
mpeirano@uol.com.br vis-à-vis its neighbors, sociology and political
science.

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