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1° SEMESTRE (EJA 1º BIMESTRE)

AULA 01 E AULA 02:


Apresentação (primeira aula)

Primeiramente, é importante me apresentar e depois perguntar para cada um da turma o seu


nome e por que procurar se matricular na educação para jovens e adultos (EJA).

Introdução à sociologia

O que é Sociologia? Para que ela serve? Responder estas questões é o primeiro passo para
uma introdução à sociologia no ensino médio e o desenvolvimento preliminar do olhar sociológico.
Em primeiro lugar, podemos desmembrar o termo sociologia, encontrando socio (que em latim
significa sociedade) e logos (que em grego significa estudo). Portanto, em linhas gerais,
sociologia pode ser entendido como a ciência responsável pelos estudos da sociedade. No
entanto, nossos estudantes poderiam, conscientemente capciosos (ou não) nos perguntar: para que
diabos serve a sociologia professor? Nesse sentido, é preciso que fique claro o fato de a sociologia
não servir a nada nem a ninguém, por isso, embora tenha sido incorporada na grade curricular do
ensino médio (ou secundário na época) desde o começo do século XX, acabou expulsa do currículo
nacional de ensino, por conta do medo que as duas ditaduras brasileiras (a civil de Getúlio
Vargas e a militar de 1969) terem da sua capacidade de estimular o pensamento crítico e o
pensar por si mesmos nos estudantes.
Isto posto, precisamos deixar mais claros o que significa estudar a sociedade para a
sociologia. Comecemos, então, a partir do primeiro aspecto metodológico da sociologia segundo o
ponto de vista dos franceses, ou seja, analisar primeiro justamente o oposto do que queremos
explicar para, depois, através do contraste e da comparação, esclarecer precisamente aquilo
que queremos elucidar. Sendo assim, podemos começar com frases típicas do senso comum, tais
como: “É assim mesmo”, “sempre foi assim”, “nunca mudou”, “é assim que a coisa funciona/é
assim que a banda toca”, etc. Esse tipo de frase aparece a todo momento em nosso dia a dia,
inclusive, geralmente a escutamos depois de uma manchete de jornal ou de uma discussão política
qualquer. Contudo, o que este tipo de frase tem a nos dizer? Ela nos dá a ideia de que as coisas
que acontecem em nossa realidade são naturais. Vejamos isto por meio de um exemplo: notícia
de jornal afirma que 1% da população mundial tem renda igual ao resto da soma dos demais 99%.
Esta notícia diz respeito a concentração de renda nas mãos de poucos e nos incita a pensar
cientificamente no problema da desigualdade social, no entanto, o senso comum generalizado

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em toda a sociedade nos diz: “é assim mesmo que é”, “sempre foi assim”, “isto nunca vai
mudar”, “o mundo tá perdido”, etc. Este tipo de discurso naturaliza o problema da desigualdade
social em nossa realidade. A sociologia, em contraponto, precisa desnaturalizar estes problemas
sociais, ela precisa “estranhá-los” e não pode se conformar com eles. Em vez disso, a sociologia
se pergunta e nos faz perguntar: o que é desigualdade? Como ela se manifestou na história? Essa
desigualdade de renda que a notícia trabalhou existe desde quando? Existe alguma forma racional e
organizada de evitar ou solucionar este problema? Em uma palavra, a sociologia busca
explicações racionais sobre a origem e as causas dos problemas sociais. Nesse sentido, a
sociologia nos permite pensar sobre os problemas da nossa realidade, mas também sobre os nossos
próprios preconceitos, pois nos permite entender criticamente as ideias e discursos que fomos
ensinados a ter como certos.
Além disso, a sociologia é uma ciência dedica em estudar as produções coletivas dos
seres humanos, sem perder de vista que são justamente os indivíduos que criam e dão vida a
sociedade. Nesse sentido, a sociedade compreende o ser humano enquanto um ser
essencialmente social, ou seja, capaz de relacionar-se entre si, estabelecendo laços de amizade,
fraternais, amorosos, vingativos, revolucionários, entre outros. Além disso, a sociologia também
precisa estudar as instituições mais abrangentes já criadas pelos indivíduos, tais como: os
Estados Nações, os sistemas econômicos, as guerras, as revoluções sociais, etc. Portanto, a
sociologia é uma ciência difícil, pois precisa tratar de problemas e fenômenos invisíveis, mas que
são muito importantes e influenciam o rumo de nossas vidas. O laboratório das ciências sociais é
o próprio ser humano que está em constante mudança. Faz-se necessário ressaltar que, embora a
sociologia nasça com o objetivo específico de compreender os fenômenos da vida social,
indiretamente ela acaba sempre transformando aquilo que ela estuda, a partir das suas
conclusões e pesquisas.

Apresentação do curso e avaliação (segunda aula)

Este curso se dividirá em quatro blocos, divididos em dois bimestres. No primeiro


bloco, procuraremos entender o que é sociologia. Nesse sentido, estudaremos o ser humano
enquanto um animal que necessita da sociedade para sobrevier, ou seja, um ser que pensa, age
e sente de acordo com a sociedade em que nasceu. O processo de determinação do ser humano
pela sua sociedade se denomina socialização. No entanto, não podemos perder de vista o fato de
que, embora sejamos determinados por nossa sociedade, ainda assim, somos capazes de
transformá-la. No segundo bloco, em primeiro lugar, estudaremos as teorias sociológicas de dois

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autores clássicos da sociologia, o francês Émile Durkheim (1858 – 1917) e o alemão Max Weber
(1864 – 1920). Em segundo lugar, discutiremos os processos de formação de identidade. No
terceiro bloco, estudaremos as questões que envolvem a ideia de cultura. Dessa forma,
tomaremos contato com as formas preconceituosas com que as diferenças culturais foram tratadas
no século XIX, isto é, o evolucionismo, o determinismo geográfico e o determinismo biológico.
No último bloco, o foco das nossas aulas se concentrará no problema da desigualdade social. Em
primeiro lugar, estudaremos a desigualdade entre as classes sociais, entendendo o que são classes
sociais, como se desenvolve a desigualdade de classes e a teoria de superação desta desigualdade,
desenvolvida pelo sociólogo clássico Karl Marx (1818 – 1883). Em segundo lugar, analisaremos
a desigualdade racial, nos preocupando em entender as origens históricas do racismo no Brasil e
desenvolver formas de combater o racismo em nosso dia a dia. Em último lugar, estudaremos a
desigualdade de gênero, a partir da análise de como a desigualdade entre homens e mulheres
fundamentou-se na história, visando procurar formas de combater as violências e descompassos que
a mulher sofre cotidianamente.

AULA 03 E AULA 04:


Ser humano como ser social (primeira aula)

É fácil constatar que todos nós viemos em sociedade, inclusive pode parecer até muito óbvio
e desnecessário discutir isso, no entanto, será que nós já paramos para pensar profundamente
sobre a importância da sociedade em nossas vidas? Talvez um exercício possa nos ajudar a
perceber o quanto o ser humano é um ser, por excelência, social. Ora, se nós nos perguntarmos o
que é essencial para a existência humana, as primeiras ideias que nos viriam a mente provavelmente
seriam: água, alimento, abrigo, roupas, etc. Todas as nossas alternativas girariam em torno de
artigos de necessidade básica, enquanto, poucos ou nenhum de nós pensaria na sociedade
como um elemento crucial a existência humana. Contudo, será que nós vamos até os rios e
riachos como os demais animais e bebemos água diretamente da fonte sempre que temos
cede? Será que caçamos a nossa presa e a devoramos com nossas próprias garras e dentes,
comendo a carne crua? Será que nos abrigamos em tocas e lugares escuros sem se preocupar
muito com conforto e segurança? Será que utilizamos unicamente da nossa própria pele e
pelos para nos esquentar ou confeccionamos roupas para nos vestir? Nesse sentido, pode ter
ficado claro que a sociedade é essencial para todo ser humano, pois é nela que ele aprende
como viver como um ser humano.
Alguns poderiam dizer que os animais também se organizam em sociedade, os chamados

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bandos, coletivos, colônias, entre outros. Porém não é bem por aí, na realidade, e isso precisa ficar
muito claro, os animais se unem através do instinto e todas as suas ações são biologicamente
determinadas e realizadas de forma direta. Os animais sentem dor, carinho, medo, frio, fome, tal
como todos os seres humanos, no entanto, a forma que eles atuam sobre a natureza e uns com os
outros está determinada em sua carga genérica. Dito de outra forma, o joão-de-barro constrói
sua casa, a abelha constrói sua colmeia e o castor sua represa não porque eles imaginam em sua
cabeça a necessidade de viver em um local seguro, ou porque querem que suas casas sejas
apreciadas pelos demais animais. Tudo que os animais realizam, por mais que nós, seres
humanos, possamos achar bonito, simétrico entre outros adjetivos, sempre é determinado
biologicamente. Com o ser humano acontece um processo muito diferente. Nada que o ser
humano constrói na natureza e nada que ele retira dela para sobreviver acontece por causa de
instinto ou de uma determinação natural. Tudo que nós realizamos é fruto do nosso trabalho
que é sempre social. Para distinguir o trabalho humano do trabalho realizado pelos demais animais,
basta lembrarmos que a nossa interação com a natureza depende daquilo que aprendemos com
nossas experiências de vida e estudo, e sempre que nos relacionarmos com a natureza, seja para
transformá-la ou para dela tirar nosso sustento, nossa ação será mediada por instrumentos e pela
nossa cultura produzida socialmente. Por exemplo, nós não tomamos aguá direto do rio como os
demais animais, mas criamos poços artesanais, sistemas de encanamento e armazenamento d'água,
etc. Nós não nos alimentamos da carne cru, mas a cozemos através do fogo, nós nos abrigamos em
casas arquitetonicamente projetadas e planejadas para gerar conforto e segurança e quando nos
vestimos não é apenas para proteger nosso corpo do frio, mas também para nos sentirmos bonitos e
na moda.
Além disso, o ser humano é o único que consegue imaginar em sua mente algo que
deseja produzir, antes de colocar a mão na massa e concretizar o seu pensamento. Por
exemplo, um marceneiro quando precisa construir um móvel, imagina em sua cabeça a forma,
pensa nas ferramentas que precisa usar e nos materiais que retirará da natureza para fazer seu
móvel. Em seguida, “coloca a mão na massa” e torna real o móvel que imaginou em sua
mente, por meio do seu trabalho. O marceneiro adquiriu seus conhecimentos de trabalho com
móveis através da sociedade, ou seja, dos ensinamentos que aprendeu e das técnicas que
desenvolveu durante os anos de exercício da sua vocação.
Portanto, tudo que realizamos em nosso dia a dia, depende de conhecimentos,
experiências e descobertas que aprendemos em sociedade, seja por meio dos ensinamentos
tradicionais herdados dos nossos pais e da religião, seja do conhecimento científico ensinado na
escola. Se o corpo humana precisa de água e de alimento para sobreviver, por mais que isso

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possa parecer absurdo, nós precisamos aprender a beber e a comer, inclusive, precianos
aprender a ser seres humanos. Os animais, em contrapartida, agem puramente por instinto, o ser
humana precisa da sociedade para exercer suas atividades mais essenciais de sobrevivência. Se
impressionados com essa questão, alguém lembrasse do caso das meninas e dos meninos lobos
que viveram na floresta, temos de lembrar que em tais histórias, geralmente algum animal
encontrou a criança e a criou. Portanto, o ser humano aprendendo a agir de acordo com o
comportamento dos animais, fez da matilha de lobos sua sociedade, e herdou do instinto destes
animais suas formas de aprendizado para sobreviver.
Outro exemplo bastante interessante aparece no filme enigma de Kaspar Hauser, no qual o
personagem principal, um menino que por causas desconhecidas (suspeitas de que era herdeiro de
grande fortuna) foi trancafiado desde criança numa cadeia, acaba sendo cuidado por alguém que
mau via e conversava. Com a impossibilidade de continuar alimentando o menino, Kaspar
Hauser é deixado no centro de uma pequena cidade alemã, sem saber mais nada além de
escrever o próprio nome lhe dado pelo seu cuidador. A história é muito interessante, pois
mostra como as nossas verdades mais simples são aprendidas por nós porque vivemos em
sociedade e nada, nem o mais simples ato humano acontece por determinações da natureza.

Exercício em sala de aula (primeira aula)

Passar os seguintes trechos do filme Cast Away [Náufrago] de Robert Zemeckis:

• 40 min – 42 min 20 s: quebrando o coco (2 min).


• 43 min 40 s– 45 min: improvisado um sapato (2 min).
• 51 min 13 s – 51 min 50 s: caçando alimento (1 min).
• 57 min – 59 – 19 s: se abrigando da chuva na caverna (2 min).
• 1 hora 1 min 36 s – 1 hora 12 min: fazendo instrumentos e fazendo fogo (11 min).
• 1 hora 14 min – 1 hora 15 min: Conversando com Wilson (1 min).
• 1 hora 20 min 20 s – 1hora 21 min: Calendário e pinturas na caverna (1 min).
• 1 hora 41 min – 1 hora 45 min: Adeus Wilson! :(. [4 min].
• 2 horas 8 min 25 s – 2horas 12 min: Reflexão final (4 min).
Total de minutos de filme passado: 28 min.

Responder as seguintes perguntas em sala de aula:

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1. Quais foram as primeiras coisas que a personagem Chuck Noland fez ao chegar na ilha?
2. Chuck Noland se utiliza de vários instrumentos para sobreviver, dê exemplos de alguns
deles.
3. Chucl Noland criou a personagem Wilson, pintou a caverna onde dormia e criou um
calendário. Por que ele fez isso?
4. Por que Chuck Noland ficou triste ao perder o Wilson?
5. O que deu forças para Chuck Noland continuar lutando para sobrevier?

AULA 05 E AULA 06:


Surgimento da sociologia (primeira aula)

A sociologia é considerada filha das luzes, das revoluções industriais e das revoluções
burguesas. Nesse sentido, a sociologia surge da transição entre dois mundos muito diferentes
(o mundo feudal e o mundo moderno), procurando entender este novo mundo moderno que está
em vias de consolidação.

A transição entre dois mundos

Feudalismo (V – XV) Capitalismo Moderno (XVI – XIX)


 Vigorava a visão de mundo  Predominava a visão de mundo
escolástica, ou seja, a fé cristã estava iluminista, ou seja, parte-se do
rigorosamente fundida com a razão, por pressuposto de que todos os homens são
isso qualquer tipo de pensamento que fosse naturalmente iguais e dotados de razão.
contrário a ética católica e aos Todo o conhecimento produzido a partir
ensinamentos da igreja eram perseguidos e desse período, independente do campo que
posteriormente severamente punidos atuasse (religião, ciência, filosofia, entre
(geralmente com a morte) pela inquisição. outros) precisa estar pautado na
A produção de conhecimento na época racionalidade. A partirde 1600,
era restrita aos conventos e monastérios, começaram a circular os primeiros
onde eram formados os padres (ver o filme jornais com intuito de informar a
O Nome da Rosa [1986]). população dos problemas de sua
realidade. Inicialmente, a educação
 A sociedade da época era continuava sendo um privilégio, no

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estamental, isto é, as posições sociais eram entanto, não mais do clero, mas daqueles
determinadas pelo nascimento e assim se que possuíssem os recursos financeiros
mantinham sólidas e estáveis por toda a necessários para custeá-la.
vida. Raramente alguém ascendia ou
decaia de classes por meio de casamentos  A sociedade desse período era de
entre classes ou conspirações e traições. classes, isto é, as pessoas são divididas de
Ver imagem abaixo: acordo com sua detenção ou não de bens de
capital1. Esta sociedade é marcada pela
divisão social do trabalho. Agora, a
desigualdade social não é mais natural e
imutável, mas é mascarada, pois todos têm
a ilusão de poderem livremente
ascenderem de classe, sempre que se
esforçarem atingindo condições mais
elevadas monetariamente. Todas as classes
estão sempre em conflito, em luta por
 As relações sociais eram estabelecidas alguma coisa. Ver imagem abaixo:
em função dos princípios da honra, do
prestígio e das tradições.

 As relações sociais eram elaboradas


pela frieza do cálculo racional e pela
mesquinhes do dinheiro.

Três grandes transformações


1º) Iluminismo

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Bens de capital são todo tipo de instrumento capaz de produzir riqueza.

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No decorrer desta época, muitos pensadores criticaram a hegemonia da religião na
vida social, a divisão desigualdade vigente na sociedade e a concentração de todo o poder nas
mãos de um só rei, enquanto o resto da sociedade sustentava seu luxo e seus privilégios. Estes
pensadores desenvolveram um movimento social e ideológico chamado iluminismo. O iluminismo
inspirou a revolução francesa (1789), movimento social violento que derrubou o antigo regime
e instaurou a república e o sistema capitalista, no entanto, embora tenham beneficiado a classe
social burguesa, muitos pensadores iluministas foram nobres que acreditavam numa transição
pacífica do Antigo Regime para as Repúblicas Burguesas, sem a necessidade de revoluções. Este
pensamento desenvolveu o que a histórica conveniou a denominar como despotismo
esclarecido.
Em síntese, o movimento iluminista defendia a ideia de que todos nasceram iguais
perante deus e perante os homens, portanto, criticavam a ideia da desigualdade natural
imposta pelo feudalismo e pelo antigo regime. Além disso, também defendiam que os seres
humanos eram dotados de razão e de liberdade, isto é, podiam pensar por si mesmos (Sapere
Aude! Este era o lema do iluminismo para Kant, ouse pensar por si mesmo), pensar diferente da
forma de pensar da igreja, amparados na lógica e na ciência. E também poderiam escolher
sua própria religião, catolicismo protestantismo e deísmo (acredita em Deus, mas critica a igreja)
ou, inclusive, escolher não ter religião alguma, tornando-se ateu. E a liberdade aqui assumia um
caráter político muito importante, pois os iluministas defendiam que a população deveria ter o
direito de participar da política e escolher seus governantes. Uma importante conquista do
iluminismo foi a Enciclopédia, composta por mais de 35 volumes e contando com a colaboração de
130 pensadores. A enciclopédia era um livro que continha o conhecimento científico sobre tudo
que já se havia descoberto até então, sua criação era uma forma de universalizar o conhecimento
a todos, estimulando o estudo e rompendo com a concentração do saber que estava restrito
aos nobres e ao clero.

2º) Revolução industrial (XVIII)

Durante o Antigo Regime (XVI – XVIII), a economia europeia era majoritariamente


comercial e rural, ou seja, as formas de enriquecimento estavam restritas a compra e revenda de
produtos agrícolas coloniais explorados na América e na África, bem como especiarias cultivadas
nas Índias. Nesse sentido, os países que inicialmente se desenvolveram bastante foram Portugal e
Espanha. Contudo, com o fortalecimento da classe social burguesa, o comércio passou a se tornar
secundário na economia e o foco passou a se concentra na produção industrial e venda de produtos

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manufaturados. Assim, boa parte da riqueza colonial explorada por Portugal e Espanha acabaram
nas mãos da Inglaterra, pais atrasado na colonização, mas desenvolvido industrialmente. Os
ingleses se livraram muito cedo de seu rei (em 1688, para ser mais exato, através da revolução
gloriosa) e instauram o primeiro governo burguês, o que lhes garantiu o pioneirismo no
desenvolvimento industrial de sua economia, já que a renda extraída da terra era a forma de
riqueza própria da nobreza.
Foi na Inglaterra, em meados do século XVIII, que várias descobertas científicas surgiram,
tais como: a máquina de fiar, o tear mecânico, a máquina a vapor, entre outros. Tudo isso
mudou para sempre a realidade social, pois impulsionou o crescimento das cidades, a abertura de
portos e linhas férreas para escoamento da produção cada vez mais realizada massivamente e
em escala industrial, tornando cada vez menor a noção de tempo e espaço que as pessoas tinham.
Nesse período também se desenvolve a noção de Progresso, ideologia que entende a realidade
capitalista como sendo o melhor dos mundos, e nada nem ninguém deve parar o
desenvolvimento deste sistema. A ideologia do progresso acreditava que se o mundo todo se
tornasse capitalista, não haveria mais guerras e todos viveriam em paz vivendo em função do
comércio e da indústria. Tais ideias influenciam a queda de várias monarquias, mas, no século
XX, geraram a primeira guerra mundial, a partir de então a ideologia do progresso foi
questionada e representa sinônimo de um avanço destrutivo do capitalismo.
Não podemos esquecer que problemas como jornadas de trabalho abusivas, baixa
remuneração e condições de trabalho insalubres foram demasiadamente acentuados após a
consolidação revolução industrial.

3º) Revolução francesa (1789)

No final do século XVIII, a França vivenciava uma terrível crise proveniente de


estiagens, inundações, gastos supérfluos da nobreza com luxo e os gastos com a derrota na
Guerra dos Sete anos (1753 – 1763) 2 e com a participação indireta na Guerra de
Independência dos EUA (1776 – 1781). No entanto, quem pagava por tudo isso era o a maioria da
população, o terceiro Estado. O antigo regime também impunha bloqueios ao avanço da recém-
formada classe burguesa, impedindo que ela comercializasse livremente e taxando suas
mercadorias.
Todos estes agravantes explodem em revolta no ano de 1789, concentrando os três estados

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Guerra que envolvia de um lado França, Espanha, Império Russo e Império Sueco contra Inglaterra, Portugal e Reino
da Prússica, de outro. Os interesses gerais da guerra era o monopólio das colonias europeias na América e na África.

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na Assembleia dos Estados-gerais, porém, como de costume, o primeiro estado ficava no centro,
o segundo estado à direita e o terceiro à esquerda. Todos tinham direito a apenas um voto e, com
também era habitual na época, primeiro e segundo estado uniam seus votos para aprovar leis que
mentassem seus privilégios e garantissem a satisfação de seus interesses. Faz-se necessário
ressaltar que a noção de posicionamento político de direita ou de esquerda, se inspiram nessa
divisão que acontecia na França do século XVIII. Contudo, este forma de fazer política já não
era mais sustentável, e o terceiro estado ocupa a Assembleia e proclama que os votos serão feitos
individualmente a partir da ocupação. O rei da época, Luís XVI tenta reprimir a manifestação, mas
é tarde demais, pois o terceiro estado está muito bem organizado e articulado pela burguesia,
que percebeu a necessidade de se aliar com os camponeses e artesão para derrubar o poder do
clero e da nobreza. A partir disso, o terceiro estado marcha em direção a Bastilha, antiga
prisão destinada àqueles que criticavam o poder dos nobres e do clero, inspirados na seguinte
bandeira:

I. Defesa da Liberdade (Liberté) de pensar por si mesmo (Sapere Aude! Ouse pensar! Este é
o lema do iluminismo para Immanuel Kant), de escolher a própria religião ou escolher
não ter religião alguma e liberdade de ter propriedade privada e comercializar seus
produtos como bem entender.

II. Defesa da Igualdade (Egalité), ou melhor, de que todos são iguais perante a lei e ninguém
nasce destinado a ocupar um papel determinado na sociedade, portanto, fim dos privilégios
dos nobres e do clero.

III. Defesa da Fraternidade (Fraternité), isto é, de que todos os cidadãos têm direitos e
deveres iguais perante seu governo.

Ao ocupar e destruir a bastilha, os revolucionários derrubaram de uma vez por todas o


antigo regime e as heranças feudais.

Reviravolta conservadora

Instituída a Assembleia Nacional (1789 – 1792), uma das primeiras conquistas da revolução
francesa foi a abolição dos privilégios feudais, instauração da Declaração dos direitos do Homem
e do Cidadão, que garantia a liberdade de expressão, a igualdade de todos perante a lei e a defesa

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da propriedade privada. Além disso, os bens do clero foram vendidos e o rei perdeu seu poder
absoluto, tornando-se submisso ao poder legislativo, comandado por todos aqueles que tinham
determinada renda, pois a participação política era censitária, ou seja, só quem tinha dinheiro
poderia fazer parte da política. Nesse primeiro momento da revolução, podemos perceber que a
França havia trocado a submissão do terceiro estado à nobreza e ao clero pela submissão dos
trabalhadores à burguesia. Entretanto, pouco a pouco, a revolução começa a tomar rumos cada vez
mais radicais.
Os revolucionários eram divididos em dois grandes grupos:

I. Girondinos, denominados assim por causa da região da Girondia, ao sul da França, onde
moravam os representantes da alta burguesia, ou seja, ricos comerciantes, poderosos
proprietários de terras, industriais, entre outros.

II. Jacobinos, chamados assim porque este era o nome dado aos frades dominicanos (monges
que levavam a simplicidade e a vida de caridade como meio de vida), que representavam as
classes trabalhadoras, os camponeses e artesãos.

Temendo que a revolução francesa apenas trocasse uma classe opressora (nobreza e clero)
por outra (burguesia), os jacobinos tornaram a revolução mais radical, reivindicando a Lei do
Preço Máximo, que impunha limites aos preços dos alimentos para que todos pudessem comprá-
los; a venda a baixo custo dos bens da Igreja e dos nobres; o fim da escravidão nas colônias
francesas e a criação de um ensino público e gratuito. Esse período foi marcado por muita
violência e várias pessoas foram guilhotinadas. Alguns historiadores denominam esse momento
histórico como período do terror (1793 – 1794), porém outros o denominam como um dos poucos
períodos de verdadeira democracia que a França desenvolveu.
Temendo perder sua condição de classe dominante e seus privilégios, a burguesia, isto é, os
girondinos aliaram-se com o exército e deram um golpe nos jacobinos. Isto colocou um ponto
final brusco na revolução francesa, fez com que as conquistas jacobinas, tais como: a Lei do preço
Máximo, a abolição da escravidão nas colônias e o ensino público gratuito, fossem todas abolidas. E
a França voltou a ser governada por uma elite, só que agora era a burguesia e não os nobres
que monopolizavam o poder, governando por meio do voto censitário e da exploração colonial.

O trabalho do sociólogo (segunda aula)

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O sociólogo precisa trabalhar com os problemas que mais assolam a sua realidade,
problemas estes que se desenvolveram a partir das contradições da nossa época histórica. Nesse
sentido, podemos nos perguntar: quais são os problemas sociais mais preocupantes em nosso
país? Os estudantes poderiam responder: a criminalidade, a violência, o desemprego, a fome,
desigualdade social, entre outros, no entanto, dificilmente alguém poderia pensar no
linchamento. A nossa sociedade é uma das que mais lincha no mundo e isso é reflexo de um
Estado brasileiro ausente, mas isso não significa que nosso Estado não puna o suficiente e,
inclusive, é muito autoritário com certos setores da sociedade que se manifestam e criticam suas leis
(ou falta delas). Para termos uma ideia, geralmente quando os estudantes, os professores e os
movimentos sociais (indígenas, sem teto, sem-terra, entre outros) se manifestam, o Estado
mostra toda a sua força de repressão3, no entanto, quando o assunto é saneamento básico,
escola, lazer, segurança, a história é outras, pois muitas regiões periféricas do Brasil não
contam com estes serviços básicos. Tudo isso cria uma situação de marginalidade, na qual a
população se vê ao deus-dará, isto é, encontram-se numa situação na qual acreditam que o Estado
não consegue garantir a segurança e fazer justiça com quem transgride a lei, por isso tomam para
si os papéis de juízes e executores das leis, atitude autoritária e extremamente nociva ao
convívio social sustentável.

O que é o linchamento?

É uma atitude mobilizada por pela punição altruísta de um crime, ou seja, tem intenções
sociais de impedir que o crime novamente aconteça na sociedade. A pessoa que lincha, acredita
que o faz pelo bem da sociedade, inclusive, deixa de lado o fato dela mesmo cometer um crime,
seja de agressão seguido de morte a tentativa de homicídio doloso. Faz-se necessário ressaltar que
não existe nada em nosso direito penal que puna a prática do linchamento, existe apenas o delito de
agressão e homicídio, mas como punir uma multidão inteira disposta a agredir e a matar? Como já
mencionamos, a prática do linchamento concentra em si a função dos três poderes políticos:
Legislativo (cria as leis), Executivo (coloca as leis em prática) e judiciário (julga se as leis estão
sendo cumpridas). Os linchadores decidem qual punição é supostamente adequada de acordo com
o delito que a pessoa cometeu. O roubo, por exemplo, é punido com agressão, humilhação e

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Para dar exemplo de um caso recente, podemos citar a forma repressiva com que o Estado recebeu os manifestantes de
2013 que exigiam um transporte de qualidade e a ampliação da democracia para todas as classes sociais do Brasil. Antes
de 2013, há também o caso do pinheirinho que em 2011 foi invadido por policiais armados, cães de guarda e
helicópteros para expulsar violentamente mais de 3.000 famílias que ali moravam há mais de 5 anos, para devolver a
região antigamente abandonado para o seu dono milionário construir um shopping center. Vale ressaltar que devido a
irregularidades na posse do local, o “dono” da terra abandonada nem tinham mais perceptivas de recuperar o local.

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exposição – podendo ou não acarretar morte. Já o homicídio e o estupro são punidos com agressão
brutal até a morte, podem também queimar vivo o SUSPEITO de cometer o crime. É preciso que
fique claro que a definição da lei, a execução e julgamento do crime por um mesmo grupo ou
multidão é extremamente autoritário e gera um quadro de violência generalizada e irracional.
Os antigos guerreiros nórdicos costumavam entrar num estado de fúria intenso durante as batalhas
que garantia-lhes uma força extrema e resistir a ferimentos que derrubariam um guerreiro comum,
os guerreiros que atingiam este estado eram chamados de bersekers. Quando as pessoas se
envolvem no linchamento a consciência atinge um estado parecido com os berseker nórdicos e
qualquer julgamento do que é certo ou errado ou de quem é inocente ou culpado fica
gravemente deturpado. Nesse sentido, um boato, uma voz gritando culpado, ou qualquer
outra acusação sem fundamento pode mobilizar uma multidão furiosa a assassinar um
inocente. Vale ressaltar ainda que, durante o linchamento, o suspeito perde o seu direito
constitucional à dúvida, pois, com base no art. 5º, inciso LVII, da Constituição brasileira da
República, “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal
condenatória”. Os linchadores condenam os suspeitos sem nenhuma prova, em vez disso,
geralmente se baseiam em boatos e opiniões preconceituosas. A prática do linchamento
também é favorecida, por conta do costume da nossa sociedade encarar o Direito como
vingança, ou seja, a população entende somente o aspecto do criminoso pagar pelo dano que
causou a um cidadão ou à sociedade como um todo. Este aspecto do Direito e denominado direito
repressivo. No entanto, a população esquece do aspecto mais importante do direito, isto é: permitir
aos transgressores o retorno à sociedade depois de ter pago sua pena. Este aspecto do Direito e
denominado direito restitutivo.

Linchados e linchadores

Quem são as pessoas que são linchadas? Geralmente são pessoas de baixa renda, sejam
elas negras ou brancas, mas geralmente acontece mais com os negros do que com os brancos.
Peguemos um exemplo da literatura, o coronel Amâncio mandou seu jagunço, o negro Fagundes
matar seu rival político o intendente Aristóteles. Nessa situação, alguns jagunços da cidade de
Ilhéus juntaram-se para linchar fagundes, mas ninguém se atreveu a bater à porta do coronel para
“fazer justiça com as próprias mãos”. A título de curiosidade, as mulheres raramente são
linchadas, mas temos noticiado o caso da mulher injustamente acusada de bruxaria na cidade do
Guarujá, em São Paulo, e espancada até a morte. Agora, quando a questão é linchar, não há uma
distinção tão clara entre ricos e pobres, homens ou mulheres, inclusive crianças participam

13
dos linchamentos. A grande diferença é que as classes médias lincham com mais crueldade do
que as camadas vulneráveis, a classe média sente prazer com o sofrimento da vítima.
Quando nossos valores estão bem fundamentos, quando percebemos que ninguém tem o
direito de tirar a vida dos outros sem mais nem menos, que embora nossa realidade esteja
extremamente violenta, a única forma de superarmos estes problemas é não caindo no mesmo erro
deles, não abrindo mão do pensamento crítico e do respeito pelo ser humano.

Dinâmica

Em grupo, dupla ou individualmente, pensem em um problema social da sociedade


brasileira, explique cientificamente o que ele é, quais as suas causas, quem são os sujeitos que estão
envolvidos nestes problemas (tanto que os causa, quanto quem sofre com eles) e, por último,
procure pensar em soluções para este problema.

AULA 07 E AULA 08:


Dinâmica (primeira aula)

Em grupo, dupla ou individualmente, pensem em um problema social da sociedade


brasileira, explique cientificamente o que ele é, quais as suas causas, quem são os sujeitos que estão
envolvidos nestes problemas (tanto que os causa, quanto quem sofre com eles) e, por último,
procure pensar em soluções para este problema.

Socialização (segunda aula)

Indivíduo e sociedade são um dos paradigmas mais importantes das ciências sociais, pois
emboras sejamos sujeitos dotados de liberdade, autonomia e pensamento próprio, ainda assim,
somos mobilizados e formados a agir, pensar e sentir de acordo com a sociedade na qual vivemos. A
socialização, segundo o sociólogo Peter Berger, é uma forma de entender como a sociedade pode
influencia significativamente os indivíduos. Trocando em miúdos, podemos entender a
socialização como um processo que imprime nos indivíduos formas de pensamento e
comportamento que dizem respeito ao grupo social no qual ele faz parte. Estudaremos, nesta
aula, a manifestação da socialização por meio de três principais mecanismo sociais: a
aprendizagem, a imitação e a identificação.

14
Aprendizagem

O médico suíço Paracelso definiu o processo de aprendizagem como sendo nossa vida toda,
ou melhor, em suas próprias palavras: “a aprendizagem é nossa vida toda, desde a juventude até
a velhice, de fato quase até a morte; ninguém passa dez horas sem nada aprender”
(PARACELSO apud MÉSZÁROS, 2008. p. 21). Sucintamente, podemos entender aprendizagem
como a transição do não domínio do saber científico para o domínio dele, a passagem de um
momento em que nossa concepção de mundo ainda é caótica e confusa, para um momento em que
nossa concepção de mundo se tornar objetiva e enxerga as relações sociais que se desenvolvem em
nossa realidade. Nesse ponto, o professor é essencial4, mas no sentido da socialização “os
professores” serão todas as interações sociais que estabelecermos com os mecanismos de
socialização, isto é, a família, os amigos, a escola, o Estado, o mundo do trabalho, a arte, a mídia,
entre outros.

Imitação

Por mais paradoxal que pareça, imitar significa diferenciar-se. Para entender essa
máxima, precisamos retomar os ensinamentos do sociólogo Gabriel Tarde, para quem a imitação é
essencial à sociedade. Tudo que existe ou existiu na sociedade, segundo Tarde, origina-se de
iniciativas individuais inovadoras que, por sua vez, podem ser imitadas pelos indivíduos até que
adquiram uma importância social, ou deixarem de ser imitadas e caírem em esquecimento. Quando
nós imitamos algo que achamos inovador, nós possibilitamos que ele exista e estamos nos
diferenciando daquilo que existia anteriormente. Portanto, a imitação é um processo básico da
socialização e é necessário para que exista a diferença. Em exemplo claro disso são as gírias,
quando um rapper com omano Brown inventa uma forma de falar e se comportar e ele é “imitado
por mais de 50 mil manos” a gíria dele se torna um dialético, uma linguagem social disseminada em
toda à sociedade.

Identificação

Um dos processos no qual a socialização atua de forma bastante significativa é a

4
“A doutrina materialista de que os homens são produto das circunstâncias e da educação, de que homens modificados
são, portanto, produto de outras circunstâncias e de uma educação modificada, esquece que as circunstâncias são
modificadas precisamente pelos homens e que o próprio educador tem de ser educado” (MARX; ENGELS, 2007, p.
537).

15
identificação. Nossa identidade é uma construção social, ou seja, as definições que criamos
sobre nós mesmos dependem exclusivamente das experiências que desenvolvemos dentro de
nosso meio social. Dito de outra maneira, é como se tivéssemos uma espécie de Eu-pessoal, ou
seja, todas aquelas ideias a respeito de quem nós somos, em que acreditamos, nossos sonhos,
nossos defeitos e virtudes, etc. E também temos uma espécie de Eu-social, isto é, um conjunto
de características que parecemos ter quando nos relacionamos social com outras pessoas.
Nesta circunstância, a identidade que desenvolvemos não é unicamente nem o Eu-pessoal,
nem o Eu-social, mas, em vez disso, a síntese das duas. O conflito entre estes dois aspectos
identitários mobiliza nosso processo de construção identitário a se comportar, basicamente no
sentido da adaptação ou no sentido da contestação. No primeiro, tentamos aproximar ao
máximo possível o nosso Eu-pessoal do Eu-social, por exemplo, a sociedade ocidental
capitalista assume um padrão de beleza fixo, no entanto, todas as pessoas são diferentes umas
das outras, cada um desenvolve um Eu-pessoal próprio, mesmo assim, tentam ao máximo
possível se aproximar desse padrão de beleza, muitas vezes inalcançável que é bem-visto
socialmente. No segundo aspecto da formação da identidade, podemos assumir a postura da
contestação, ou seja, quando nosso Eu-pessoal resite a se aproximar com o Eu-social, ou seja,
quando enxergamos alguns problemas nos padrões socialmente aceitos de comportamento e
de pensamento e, em vez de nos adaptar a eles, procuramos transformá-los, para que eles se
adaptem aos nossos interesses.

Socialização primária e secundária

Existem dois tipos de socialização, a primária e a secundária. As primeiras dizem


respeito às interações sociais que acontecem por meio de alto grau de afetividade, desenvolvidas
principalmente na infância e por meio das relações sociais realizadas dentro da família. Sua
influência nos indivíduos produz relações homogêneas e permanentes, por isso a infância é um
momento fundamental na vida dos sujeitos e deve ser tratada com muito cuidado. As segundas,
fazem referências à interações sociais diversificadas e com alto grau de racionalidade,
desenvolvidas principalmente a partir da infância perdurando até o fim de nossas vidas, por meio de
relações sociais muito diversificadas. Além disso, podem ser realizadas no mundo do trabalho, no
contato com a arte, em manifestações sociais, em confraternizações com amigos, entre outros.

Dinâmica

16
Atividade em sala de aula: assistir trechos do filme The adjustment bureau [Os agentes do
destino] de George Nolfi para compreender melhor o significado de socialização e controle social.

AULA 09 E AULA 10:


Émile Durkheim (1858 – 1917)
Belle Époque (1870 – 1914)

Belle Époque é um termo em francês utilizado para caracterizar o período que segue das
últimas décadas do século XIX até a eclosão da Primeira Guerra mundial e significa “época bela”.
Esse momento histórico representou uma verdadeira “era de ouro” para a Europa, tendo em
vista o fato de inúmeras invenções científicas terem sido engendradas 5, cuja existência foi
responsável por verdadeiras revoluções na vida social. Em outras palavras, o modo como os
homens passaram a encarar a sua relação com a natureza foi transformada de uma vez por todas. É
possível destacar algumas destas criações, tais como: a invenção da lâmpada elétrica pelo
estadunidense Thomas Edison (1847 – 1931), em 1879; a criação do telefone pelo escocês
Alexander Graham Bell (1847 – 1922), entre 1875 – 76; o aquecimento d’água por meio da
eletricidade, entre outras. A partir dessas descobertas a Europa passou a ser vista como sendo o
centro do mundo, ou melhor, um lugar próspero economicamente, avançado no âmbito
tecnológico, mas, acima de tudo, uma realidade em que supostamente vigorava a paz
perpétua6 e a harmonia social. Naquilo que diz respeito ao tema proposto nessa aula, a descrição
do período da Belle Époque é fundamental para entendermos como a ideologia ou o argumentum
ad populum7 do progresso, responsável pela inspiração de toda a produção de pensamento europeu
durante o século XIX, atingiu também a reflexão sociológica de Émile Durkheim. Apesar disso,
vale ressaltar que o principal objetivo de Durkheim era institucionalizar as observações sobre
o meio social que já haviam sido realizadas na França, há um bom tempo diga-se de
5
Ou seja, produzidos, criados, etc.
6
Essa “paz” típica da Belle Époque precisa ser entendida em seu sentido restrito e ideológico, ou seja, somente no
âmbito do continente europeu. Na realidade, a paz vigorou sim na Europa durante este período que se segue de 1870 a
1914, pois inexistiu qualquer tipo de conflito aberto entre as potências europeias (exceto pela guerra franco-prussiana
(1870 – 71). No entanto, reafirmamos o sentido limitado dessa “ideologia de paz”, haja vista que existiram muitos
conflitos indiretos entre as potências em função do neocolonialismo. Entendemos por neocolonialismo um conjunto de
conflitos militares e políticos desenvolvidos durante o século XX, no qual as potências europeias disputam entre si para
colonizar regiões da África e da Ásia, a fim de explorarem os recursos naturais, encontrar mercado consumidor para a
superprodução acumulada na Europa e, por fim, se aproveitar da força de trabalho barata e superexplorada nestes
países.
7
Tal como foi discutido na aula passada, argumentum ad populum significa uma opinião globalmente aceita numa
determinada época ao ponto de ser tomada como verdade sem qualquer tipo de análise científica aprofundada sobre
validade dela.

17
passagem, porém ainda não tinham adquirido caráter científico. Nesse sentido, podemos
compreender a importância de Durkheim como o pensador que decidiu transformar o pensamento
filosófico acerca da sociedade em uma ciência propriamente dita.

Biografia

Émile Durkheim nasceu em Épinal, na França, adquirindo notoriedade ao institucionalizar a


sociologia. Francês de inspiração judaica, o sociólogo desistiu da vocação de rabino e dedicou
sua vida inteira à ciência. Com respeito a sua entrada na universidade, podemos observar que foi
uma experiência muito difícil, conquista apenas depois de quatro tentativas até finalmente ingressar
na Escola Normal Superior de Paris. Durkheim era um estudioso extremamente esforçado, no
entanto, seus biógrafos suspeitam que as suas dificuldades de ingresso na vida universitária
aconteceram por causa do antissemitismo 8 francês, ou seja, o preconceito contra a população
judaica.
O sociólogo francês viveu sobre um período de grande desenvolvimento econômico e
respirou da atmosfera europeia soberba da belle époque, ideologicamente convicta tanto no
progresso quanto no positivismo. Aliás, dentro da própria França as pessoas viviam em tempos
difíceis, governadas pela complexa Terceira República, fundada a partir da Comuna e Paris (18
de março até 28 de maio de 1871)9. Contudo, ainda no mesmo ano as burguesias se unem
novamente, derrubando as comunas francesas e instaurando o governo da Terceira República
(1871 – 1940). É sobre esse período tempestuoso, marcado pela derrota na Guerra Franco-Prussiana
(1870 – 71)10 e o avanço assustador do antissemitismo francês (ilustrado pelo caso Dryfus)11, que

8
Em seu sentido bíblico, semitas são as pessoas que descenderam de Sem, o filho mais velho de Noé, cuja descendência
foi responsável pelo surgimento das populações hebraicas, assírias e fenícias. Portanto, antissemita é a pessoa que odeia
todas as civilizações citadas anteriormente, mas os judeus foram os que mais sofreram com esse tipo de ódio, tendo em
vista que são uma população disseminada em toda a Europa e principalmente depois da abominação histórica do
nazismo.
9
Esse evento histórico representa o primeiro governo socialista de embasamento operário da história. Seu surgimento
remonta da insatisfação popular em função da rendição francesa ante os prussianos, assinada por Napoleão III (Luís
Bonaparte, sobrinho de Napoleão Bonaparte). Vale ressaltar que não houve comuna somente em Paris, mas também em
muitas cidades francesas, tais como: Lion, Toulouse e Marselha.
10
Conflito armado entre a França comandada pelo ditador Napoleão III, ou melhor, Luís Bonaparte, e o Império
Prussiano (hoje é o país da Alemanha). O conflito originou-se do intuito principal de unificar o território e a política
prussiana, a fim de construir o Estado da Alemanha, bem como, vingar-se da ocupação francesa da Prússia durante as
incursões militares de Napoleão Bonaparte.
11
O Caso Dreyfus foi um escândalo político francês, ocorrido durante o final do século XIX. Consistia na condenação
por alta traição de Alfred Dreyfus em 1894, um capitão do exército francês de origem judaica. Entretanto, Dreyfus era
inocente e a sua condenação baseava-se em documentos falsos. A farsa foi acobertada pelo nacionalismo, xenofobia e,
acima de tudo, antissemitismo que envenenam a Europa naquela época.

18
Durkheim vai vivenciar boa parte da sua vida.
Embora Durkheim tenha assumido para si próprio o papel de criar a sociologia como uma
ciência e ensiná-la na universidade, não podemos deixar de pontuar a sua humildade em viajar para
a Alemanha e ter aulas com o sociólogo George Simmel que, antes dele, já havia elaborado uma
sociologia própria e se proposto a lecioná-la. Ironicamente, embora Durkheim tenha entrado em
contato com o pensamento sociológico alemão, jamais teve a oportunidade de conhecer a obra de
Max Weber, um dos grandes sociólogos alemães. Depois de adquirir experiência na Alemanha
voltou à França, onde conseguiu lecionar na universidade e fundou sua própria revista de estudos
sociais e antropológicos – em parceria com seu sobrinho, o grande antropólogo francês Marcel
Mauss.
Infelizmente o final da sua vida foi muito doloroso, haja vista que com a explosão do
Conflito Mundial em 1914, Durkheim abandona todas as suas ilusões positivistas quanto a noção de
pregresso. Acima de tudo, a grande guerra causou-lhe um estrago muito além da
desmistificação ideológica, pois assassinou seus amigos íntimos e inclusive seu próprio filho.
Além disso, esta tragédia humana o condenou a tristeza profunda, causando-lhe a morte três anos
depois.

A questão das duas consciências

Até agora, nós estudamos de diferentes formas o caráter social do ser humano, como ele
aprende a se tornar um ser humano através da sociedade e, inclusive, como a sociedade é tão
essencial para o ser humano quanto a alimentação e a hidratação do seu corpo. No entanto, até
agora ainda não estudamos uma teoria elaborada por um cientista social a respeito do que
seria a sociedade e de como nós, sujeitos sociais, nos relacionamos com nossa realidade. Bom,
chegou o momento de iniciarmos nossa reflexão sobre as teorias sociais clássicas, começando pela
teoria desenvolvida pelo autoproclamado pai da sociologia como ciência, o pensador francês Émile
Durkheim (1858 – 1917). Segundo o sociólogo francês, nossas ações e pensamentos são
resultados de fatos sociais, no entanto, para entender a influência que a sociedade realiza sobre nós
precisamos entender que Durkheim separa a consciência do ser humano em duas: uma
particular, ou seja, formada por desejos, paixões e sentimentos individuais. Portanto, segundo
Durkheim, seu estudo tornava-se obrigação da psicologia e da psicanálise, mas jamais da
sociologia. A outra consciência é coletiva, consiste nas ideias e nos sentimentos próprios do grupo
do qual os sujeitos fazem parte, e adquire uma existência própria (ou nas próprias palavras de
Durkheim, sui generis [única em sua origem]) e um fenômeno independente da vontade

19
individual.
A questão dos fatos sociais

Feito estas ressalvas, ainda precisamos discutir os fatos que, de acordo com Durkheim, não
são de interesse da sociologia, por exemplo: o ato de se alimentar, dormir, gastar energia, enfim,
todos esses eventos que a física, a química e a biologia se dedicam a explicar. Contudo, também
existem aqueles fenômenos que transcendem o campo de influência das ciências naturais e,
inclusive, vão além das vontades individuais, por exemplo: religião, família, política, guerra, etc, e
são justamente estes eventos que interessam à sociologia. Portanto, chegamos na primeira
definição de fatos sociais no ponto de vista de Durkheim, isto é, eles tendem ser exteriores
(manifestando-se independentemente da vontade dos indivíduos). Além disso, há uma segunda
definição dos fatos sociais que não podemos deixar de lado, ou seja, eles geram coerção social, ou,
em outras palavras, obrigam12 os indivíduos a ceder as suas determinações.
Portanto, os fatos socais são modos de ser, agir e pensar humanos que acabam se
exteriorizando da simples existência individual, ao mesmo tempo que adquirem uma
expressão coercitiva para com os seus transgressores. Pensemos no exemplo do futebol no
Brasil: não é o indivíduo que ama o futebol isoladamente, em vez disso, o amante do futebol
sempre faz parte de algo exterior a ele próprio, pois faz parte de um grupo de torcedores
denominado torcida. A paixão pelo futebol é também coercitiva, tendo em vista que se você fizer
parte de uma torcida e não discutir sobre futebol ou não estiver atualizado, provavelmente será
excluído do grupo13.

Sociedade

Durkheim afirma que a sociologia é uma síntese sui generis (única em sua origem) das
consciências coletivas delimitadas em um certo espaço e num certo tempo histórico. Contudo,
não são as consciências coletivas criações dos próprios indivíduos? Para resolver o impasse entre
indivíduo e sociedade, o sociólogo francês faz uso da metáfora da célula: as células de um
organismo vivo são formadas por conjuntos de sais minerais (hidrogênio, azoto, e carbono),

12
Essa obrigatoriedade dos fatos sociais podem ser expressão a partir de um olhar torto – de desaprovação – até o uso
da violência física utilizada por instituições oficiais (lê-se Estado, corporações privadas, entre outros).
13
Essa exclusão pode ser drástica, por exemplo, pode ser que não deixem de chamá-lo para as reuniões da torcida, ou
para assistir os jogos do time favorito junto. No entanto, pode ser algo mais simples, por exemplo, não explicarem a
discussão para você, criando uma situação constrangedora onde não se sabe do que se está falando, mas, mesmo assim,
as pessoas do grupo continuam a conversar sobre aquilo.

20
responsáveis por uma série de fenômenos, tais como, a respiração celular, a meiose, a mitose, etc.
Nesse sentido, Durkheim ressalta que não falamos “o conjunto de azoto respirou”, ou o
“conjunto de carbono realizou mitose” em vez disso, utilizamos o termo sintético “célula”
(síntese das moléculas de azoto, carbono e hidrogênio) respirou. Este mesmo raciocínio é
utilizado para entender a sociedade que, embora seja formada por indivíduos, adquire uma
existência própria, a existência enquanto sociedade (síntese de indivíduos).

Objetividade

Durkheim abre o primeiro capítulo da sua obra 14 com a tese: “os fatos sociais são coisas”.
Isso gerou muita polêmica em na sua época e uma grande dor de cabeça para o sociólogo francês.
No entanto, Durkheim apenas gostaria de deixa claro o fato das ciências sociais trabalharem com
fenômenos tão reais e importantes quanto os objetos de estudo da biologia (a célula), ou da química
(átomo), ou da física (forças da natureza), pois, embora não possamos vê-los, é perfeitamente
possível sentir os seus efeitos. Dessa forma, Durkheim estava refletindo sobre a objetividade das
ciências sociais. Para ele, toda pesquisa que pretenda ser objetiva precisa afastar-se de todo o tipo
de preconceitos e axiomas15 (isso é um tema muito complexo e divide opiniões, pois é muito difícil
– na realidade, impossível – de se fazer ciência sem deixarmo-nos influenciar por nossas convicções
pessoais, porque, afinal de contas, nós não somos uma máquina, do mesmo jeito, não podemos
deixar todo o nosso rigor científico de lado e agirmos puramente de forma emocional). Além do
mais, através da objetividade o pesquisador seria capaz de chegar a essência (origem) dos fatos
sociais compreendendo o que eles “são” ou foram, anteriormente na história, mas nunca, na visão
de Durkheim, como eles “devem ser”.

Sociologia

Por fim, pode ser entendida como o estudo dos fatos sociais, visando não só a compreensão
da sua essência e das relações que estabelece com outros fatos sociais, mas também busca
classificá-los em normais e patológicos.

Cárter dos fatos sociais

14
DURKHEIM, E. As regras do método sociológico. São Paulo: Martins Fontes, 2007. 101p.
15
Um posicionamento político, paixões pessoas, visão de mundo, entre outras vertentes ideologias.

21
Durkheim também afirma que os fatos sociais podem ser classificados em duas categorias:
os normais e os patológicos. Os primeiros (leia-se os fatos sociais normais) são todos aqueles
fenômenos que são facilmente visíveis na sociedade, geralmente se manifestam de forma
generalizada. Além do mais, têm a função de manter a ordem e a coesão da sociedade, no
entanto, tais como a educação, a política, a religião, entre outros fatos sociais. Já os segundos (leia-
se os fatos sociais patológicos) são todos aqueles fenômenos que são extremamente perigosos para
a vida social. Além disso, muitas vezes são fatos sociais normais que acabaram saindo do controle,
por exemplo, o crime, ou também podem ser fatos sociais normais de uma sociedade antiga que
ainda hoje se manifestam em nossa sociedade de uma forma totalmente descontextualizada 16.
Vale ressaltar que o caráter de patologia ou normalidade depende da análise do
cientista, que precisa ser a mais racional, metódica e objetiva possível, pois os fatos jamais falam
por si só.

Solidariedade social

Até agora nós discutimos em que consistiam os fatos sociais (ou consciências coletivas),
isto é, todas aquelas realidades coercitivas e exteriores aos indivíduos que adquirem uma existência
própria e sui generes [única em sua origem]. Nós também estudamos em Durkheim a ideia de a
sociedade atuar análoga ao corpo de um ser vivo. Em outras palavras, os fatos sociais funcionam
como os órgãos humanos, ou seja, todo fato social, em suas condições de normalidade, tem uma
forma própria de agir e atua para garantir a harmonia e a coesão da sociedade. Todavia, existem
alguns fatos sociais, cujo funcionamento não está de acordo com aquilo que se espera dele, como
também há os que exercem sua função específica, porém, exageradamente. A primeira destas
condições, Durkheim denomina como fatos sociais normais, enquanto, a segunda delas
Durkheim chama de fato sociais patológicos.
Depois de fazermos essas observações iniciais, precisamos nos questionar: como os fatos
sociais articulam-se? Como conseguem gerar coesão? Existe alguma coisa que os une? Como se
constitui esse todo de fatos sociais, enfim, como a sociedade se organiza? Durkheim tem uma
resposta, para ele, o fenômeno que une todos os fatos sociais é a solidariedade social17, uma
espécie de força social independente da vontade humana. Essa conclusão gerou muita polêmica na
16
Por exemplo: punir algum criminoso atualmente com o suplício ou os linchamentos (muito comuns no Brasil, o que é
um grande problema).
17
É preciso termos claro em nossa mente que a solidariedade que Durkheim está falando é uma força social, não tem
nada a ver com aquela ideia religiosa de ajuda voluntária, esmola ou caridade.

22
época de Durkheim, no entanto, ele apenas procurava defender o fato de a ciência social ter leis e
princípios tão verdadeiros quanto à física e a biologia ou de qualquer outro conhecimento
científico. Afinal de contas, ninguém se espanta com os fenômenos da gravidade ou do
eletromagnetismo, mesmo estes também serem forças que a vontade humana não pode impedir de
acontecerem – pelo menos não sem algum risco a vida.

O que é a solidariedade social?

Até agora sabemos que a solidariedade social é uma espécie de força “invisível”, ou
melhor, social. Sua forma de manifestação é através do laço. Por meio de elo, não somente os fatos
sociais interligam-se formando as sociedades, como também os próprios indivíduos conectam-se
constituindo novos fatos sociais. Por exemplo, um grupo de indivíduos unidos em torno do mesmo
interesse sobre o futebol forma uma torcida; um coletivo agrupado em torno de uma mesma fé
constrói uma religião; várias pessoas que se juntam para escutar uma mesma música tornam-se
metaleiros, funkeiros, entre outros. Na realidade, para Durkheim, um indivíduo isolado da
sociedade não existe. Por mais completamente sozinhos que estivermos, ainda assim, estamos sob a
influência do meio social. Suponhamos que é de noite e estamos sozinhos em nossos quartos
prontos para dormir, aparentemente esta parece uma situação onde os indivíduos podem estar
isolados do contato social, no entanto, é perfeitamente possível que nesta situação alguns façam
orações para suas divindades; outros pensem em suas respectivas namorada (o); outros ainda ficam
preocupados com o serviço ou com a escola. Enfim, não é possível cortar nossos vínculos com as
questões coletivas e se isolar completamente.

Dois tipos de solidariedade social

Na sociologia durkheimiana existem dois tipos de solidariedade social. A primeira delas é


específica das sociedades que o sociólogo francês define como primitivas e se chama solidariedade
mecânica. A segunda é exclusiva das sociedades modernas e pode ser denominada como
solidariedade orgânica. Segundo Durkheim, após o fenômeno da divisão do trabalho social18 as

18
Divisão do Trabalho Social é diferente de Divisão Social do Trabalho. As duas se referem a um mesmo fenômeno, ou
seja, a especialização e divisão das funções de trabalho na indústria e no campo, a fim de potencializarem e
aperfeiçoarem a produção. Contudo, a primeira colocação – divisão do trabalho social – apresenta uma visão positiva
sobre esse processo, acreditando que a divisão possibilitaria a troca de informações e conhecimento entre as diversas
novas profissões que surgiam. A segunda já não pensa assim, entende a divisão e a especialização como nocivas ao ser
humano, pois tornaram seu serviço extremamente especializado, repetitivo e simples. Nessa situação, a alienação e as
patologias físicas e psíquicas atingiam os trabalhadores de forma mais intensa e com mais frequência.

23
sociedades deixaram de apresentar uma solidariedade mecânica e passaram a ter uma solidariedade
orgânica.

Solidariedade mecânica

Tal como mencionamos, segundo Durkheim, nas sociedades ditas “primitivas” vigora a
solidariedade mecânica, ou seja, todas as consciências dos indivíduos fundem-se constituindo uma
única visão de mundo, uma consciência comum. Nesse sentido, não há muito espaço para as
vontades individuais. Além disso, a consciência comum torna-se a autoridade máxima dessas
sociedades e é a representante por excelência da coesão social, portanto, qualquer que difira
radicalmente dela não é tolerado.
Em resumo, a solidariedade recebe a nomeação de mecânica, porque ela faz com que os
laços sociais sejam estabelecidos por meio da semelhança de pensamento e ação. Durkheim
compara esse tipo de sociedade com uma ameba, ou seja, um organismo vivo unicelular, no qual
todas as suas reações químicas formam um único todo simples. A pólis grega, por exemplo,
representa um tipo de sociedade com solidariedade mecânica.

Solidariedade orgânica

Na ótica de Durkheim, a solidariedade orgânica prevalece nas sociedades ditas “complexas”,


ou seja, nas quais o processo de divisão do trabalho social se manifestou. Dentro dessa realidade, a
consciência comum é muito fraca, na mesma medida que, as consciências individuais e coletivas
são mais fortes. Desse modo, a coesão social acontece por meio da cooperação entre as diversas
consciências, respeitando o seguinte princípio: quanto mais liberdade à sociedade proporcionar,
mais dinâmica e desenvolvida ela será.
Em resumo, estas sociedades são chamadas de orgânicas, porque nelas, os laços sociais não
são formulados através da semelhança, mas, ao contrário, por meio da diferença. Durkheim ilustra
esse tipo de sociedade associando-a ao organismo vivo complexo, tal como o corpo humano, no
qual cada órgão tem uma função exclusiva, porém, todos trabalham juntos para manter o copo
saudável.

A divisão do trabalho social

O primeiro registro histórico escrito sobre a divisão do trabalho social pode ser encontrado

24
no século XVII, a partir dos escritos de Adam Smith (1723 – 1790) 19. Os fenômenos da Revolução
Industrial (por volta de 1750 em diante) e da Revolução Francesa (1789) generalizaram a
divisão do trabalho por toda a Europa. Esse fenômeno consistiu em um processo contínuo de
diversificação e especialização do trabalho em todos os âmbitos de vida social, na família, na
religião, na política, nas relações conjugais, entre outros. No entanto, segundo Durkheim essa
tendência não assume um caráter perigoso ou alienador, pois embora os homens e a mulheres
estejam cada vez mais especializados em determinadas funções de serviço na sociedade, ainda
sim, todos podem compartilhar seus conhecimentos específicos uns com os outros, por meio da
cooperação e inspirados na ideia do progresso da humanidade. Para o sociólogo francês, a
solidariedade orgânica propicia esse tipo de cooperação humana.
Contudo, até mesmo Durkheim percebe que a divisão do trabalho pode atingir uma
aceleração e uma especialização exacerbada, tornando-se insuportáveis aos indivíduos,
impossibilitando a cooperação e condenando-os a ao isolamento. Nesse sentido, Durkheim
afirmará que a divisão do trabalho tornou-se patológica, pois os indivíduos perderam a consciência
da totalidade da produção e também não sentem mais a ligação proporcionada pela solidariedade
orgânica, enxergado-se, cada vez mais, como uma mera peça do sistema produtivo. Portanto, o
sociólogo francês pensa na divisão do trabalho social na qualidade de um fato social normal
que, no entanto, como todo fenômeno social, pode se tornar patológico.

A preocupação com a patologia dos fatos sociais

A sociologia durkheimiana nunca se preocupou com a transformação da sociedade, pois


enxergava-a como um organismo vivo que mudava naturalmente, sem a necessidade da
intervenção da ciência. Contudo, os fatos sociais patológicos sempre chamaram a atenção de
Durkheim, tendo em vista o fato de ele temer que estes se propagassem ao ponto de destruir a
sociedade. Além disso, um aumento muito acentuado no índice de suicídios, na França, o assustou.
A partir de então, ele dedicou estudar o fenômeno do suicídio com o intuito de saber por que
as pessoas o cometiam, haja vista que temia a generalização dessa prática e com ela o fim da
própria sociedade francesa.

O que é o suicídio?

19
Importante economista inglês, responsável pela teoria da mão invisível do mercado que, supostamente,
autorregularia todo o mercado, promovendo, a longo prazo, a igualização dos indivíduos. Além disso, foi o pai do
liberalismo econômico.

25
Antes de mais nada, precisamos entender a definição do sociólogo francês a respeito
suicídio, ou seja, todo ato deliberado (direto ou indireto), o qual vise liquidar com a própria vida.
Em seguida, será necessário nos questionar: afinal de contas, o suicídio é um fenômeno social ou
individual? Na verdade, existem suicídios causados pelo indivíduo, também pela casualidade e
outros pela sociedade, no entanto, Durkheim apenas estudará os casos de suicídio que tenham
uma causa eminentemente social. No final da sua pesquisa, o sociólogo francês encontrou quatro
tipos de suicídio: o egoísta, o altruísta, o anômico e o fatalista.

Suicídio egoísta

Esse tipo de suicido surge quando a solidariedade social (os laços que unem os indivíduos
às consciências coletivas) está enfraquecida. Por causa disso, os indivíduos, mais do que nunca,
fecharem-se em si mesmos. A sua consciência coletiva deixa, pouco a pouco, deixa de existir e
não enxerga a existência de ideias superiores a si mesmo que poderiam ser usadas como fins para
suas ações e nas quais é possível se apoiar para viver. Portanto, se vivencia um individualismo
extremado no qual a vida parece não valer mais a pena de ser vivida, logo, qualquer pretexto, por
mínimo que seja, se torna uma justificativa para se livrar dela. Segundo Durkheim, esse tipo de
suicídio é mais comum nas sociedades ditas complexas (leia-se nossa realidade contemporânea),
nas quais prevalece a solidariedade orgânica e a divisão do trabalho conseguiu individualizar de
forma demasiada os seres humanos.

Suicídio altruísta

Esse tipo de suicídio é o extremo oposto do suicídio egoísta, ou seja, acontece não devido
a um individualismo exagerado, em vez disso, surge quando o próprio indivíduo deixa de existir.
Ele manifesta-se quando um indivíduo se dedica tanto a uma consciência coletiva a ponto de
esquecer-se de si mesmo. Assim, quando essa consciência coletiva desaparecer ou for destruída, o
indivíduo não enxerga mais sentido na sua vida sem ela. Desse modo, Durkheim afirma que o
suicídio altruísta é típico das sociedades ditas primitivas, ou seja, nas quais a solidariedade
mecânica vigora. Entretanto, há muitos indícios desse tipo de suicídio na sociedade ocidental
moderna, por exemplo, quando um capitão decide afundar-se com seu navio, após um
naufrágio; ou quando um bancário se suicida depois da quebra da bolsa de wall street.
Outro exemplo interessante de suicídio altruísta se encontra nos rituais fúnebres das
sociedades nórdicas vikings do século VIII. Tal como em qualquer outra sociedade, os vikings se

26
entristeciam com a morte de seus entes queridos, no entanto, demostravam isso com muita festa,
bebidas, e narrando os principais feitos do morto, tanto os cômicos quanto os heroicos. Depois das
festividades, o morto era vestido com uma roupa ritual e colocado em seu melhor barco, com
suas melhores armas e riquezas, para quando acordar em Valhala, pudesse lutar com elas ao
lado dos heróis e deuses nórdicos e era lançado no mar. Depois o barco era incendiado para
cremar o falecido. Contudo, o aspecto deste ritual que representa o suicídio altruísta se
acontecia com as mulheres do falecido, pois era costume na sociedade nórdica que a mulher
ou as mulheres do falecido se voluntariassem a serem mortas junto ao corpo de seu amado. Já
as escravas do nórdico morto não tinha escolha, eram, então, obrigadas a morrem junto com ele.
Todavia, o exemplo mais típico de suicido altruísta é o mito japonês dos 47 ronins. A
história conta que um grupo de 47 samurais foram forçados a se tornarem rōnin (samurais sem um
senhor), de acordo com o código de honra samurai (bushido), depois que seu mestre Asano foi
obrigado a cometer seppuku – suicídio ritual executado por causa de desonra extrema – por ter
agredido um alto funcionário judicial, o senhor Kira Yoshinaka. Faz-se necessário deixar claro
que Asano caiu em uma armadilha de Kira, e por conta disto caiu em desonra e foi obrigodo a
cometer o seppuku. Os rōnin elaboraram um plano para vingar o seu mestre que consistia em
matar Kira e toda sua família e levar a cabeça do príncipe traidor até o túmulo de seu mestre
simbolizando que a justiça havia sido feita. Os 47 rōnin esperaram cerca de um ano e meio para não
despertarem qualquer suspeita de seu plano. Após o assassinato de Kira, se entregaram à justiça
e foram condenados a cometer seppuku.

Suicídio anômico

Este tipo de suicido também é típico da sociedade moderna, no entanto, diferente do suicídio
egoísta, este não surge frente a fraqueza de solidariedade social, em vez disso, manifesta-se por
meio da total ausência de restrições e regras sociais às paixões humanas. Na visão de
Durkheim, quando a sociedade moderna atingir um nível de degeneração sem precedentes, não será
possível saciar mais os instintos e os interesses individuais, passará a não existir mais nada seguro,
certo, delimitado e regrado para solidificar uma existência feliz. Logo, a essa inconstância e
insegurança impossibilitarão os homens de satisfazerem as suas paixões e, assim, seria
impossível viver.
Esse tipo de suicídio não só é exclusivo da modernidade e é bem recorrente nas classes mais
ricas que desfrutaram de todos os prazeres e ilusões do mercado. Na Alemanha e em muitos países
escandinavos os jovens desfrutam muito rapidamente de todos os prazeres da vida. Em seguida,

27
perdem a perspectiva de se viver a longo prazo, vivendo apenas da satisfação de seus desejos
efêmeros, mas quando tais desejos são saciados e desaparecem – para voltarem novamente no
dia seguinte – a vontade de viver some com eles.

Suicídio fatalista

O suicídio fatalista é o oposto do suicídio anômico, ou seja, acontece em sociedades cujas


regras são excessivamente rígidas, exercendo pesada e incisiva coerção sobre os seus
membros, ao ponto de anular a sua individualidade. Nessas circunstâncias, os indivíduos abrem
mão de suas próprias vidas, haja vista que não possuem autonomia e liberdade de pensar por si
mesmos. As ditaduras civis e militares representam as formas mais típicas desse tipo suicídio.
O caso mais emblemático de suicídio fatalista é a morte do intelectual alemão comunista
Walter Benjamin. Quando Hitler assume o poder, seus amigos se refugiam no estrangeiro. Expulso
da Alemanha se fixa em Paris, cidade de Baudelaire e Proust, autores que traduz e comenta
habitualmente. Contudo, a França é ocupada. Seus amigos filósofos Adorno e Horkheimer
conseguem-lhe um visto norte-americano. Tarde demais. Só lhe resta a fronteira espanhola para
fugir. Vítima da opressão, escolheu se matar, quando, após deixar a Paris ocupada, foi detido
pelos guardas de fronteira espanhóis, que recusaram a sua entrada. Preferindo a morte à
Gestapo, tomou pílulas de morfina até ter overdose no hotel em que o grupo de judeus que
acompanhava aguardava a deportação. No dia seguinte, porém, as autoridades espanholas
permitiram a passagem do grupo.

AULA 11 E AULA 12:


Maximiliam Carl Eml Weber: Max Weber (1864 – 1920)
Introdução

Tanto a sociologia alemã quanto a francesa surgiram de um mesmo processo histórico, ou


seja, da Belle Époque, mesmo assim, são reflexões sobre a realidade completamente diferentes. Para
termos uma ideia, a Alemanha foi pioneira na produção de conhecimento sociológico e, somente
alguns anos depois, a sociologia foi institucionalizada por Émile Durkheim 20, na França. Além
disso, a sociologia alemã afasta-se da crença no progresso e não procura fazer nenhum tipo de
aproximação da reflexão social com as ciências naturais – elementos característicos da

20
Lembremos que Durkheim foi ter aulas com Georg Simmel, antes de fundar a sociologia na França.

28
sociologia francesa durkheimiana. Seu foco está concentrado no indivíduo (fenômeno
desconsiderado pela sociologia de Durkheim que o entendia como uma preocupação da psicologia)
e na questão da luta/conflito social.
Weber, ao contrário da sociologia francesa, estudava as ações dos indivíduos de “carne e
osso”, ou seja, dos agentes sociais responsáveis pela construção da sociedade. Durkheim, por um
lado, preocupava-se com as consciências coletivas, entendendo-as como existências reais, enquanto
os indivíduos eram compreendidos como abstrações, isto é, construções sociais que deveriam ser
estudados pela psicologia e não da sociologia. Weber, por outro lado, pensava justamente o
contrário, enxergando o individuo como uma existência concreta – leia-se de carne e osso –,
enquanto a sociedade é vista na qualidade de abstração, ou seja, é fruto da relação entre as ações
individuais.

Biografia do autor

Max Weber viveu em uma família muito abastada intelectualmente, seu pai era um
famoso advogado que o introduziu, desde muito cedo aos estudos dos filósofos clássicos e aos
demais estudos humanísticos (artes, filosofia, literatura, entre outros). Sua mãe era uma fervorosa
protestante e não poupou esforços para acostumá-lo com a severidade na educação. Além disso,
seu círculo de amigos próximos era muito intelectual, dentre os muitos pensadores com os quais
mantinha contato, podemos dar destaque a Gerog Simmel e Gerogy Lukács (1885 – 1971) 21. Weber
sempre sonhou em ser um grande político, no entanto, sua vida sempre foi um impasse entre o
mundo da política e o mundo da ciência 22. Durante o início da sua história, Weber não conseguiu
se destacar muito em nenhum dos seus campos – na realidade, sua mulher Marianne Weber (1870 –
1954) destacou-se muito mais do que ele, tornando-se conhecida como importante pensadora e
ativista feminista. O sociólogo alemão tornou-se conhecido na ciência apenas no final de sua vida,
após publicação de sua obra póstuma: “Economia e sociedade” (1916 – 1919) e na política,
conquistou importância somente depois de participar da elaboração da Constituição da República de
Weimar (1991 – 1933)23. Sua formação intelectual é extremamente rica, chegou a cursar
Direito, Economia, História, Filosofia e Teologia. Por fim, é preciso ressaltar o fato de Weber ser
um pensador muito excêntrico, cuja produção científica oscilava entre momentos de intensa

21
Importantíssimo filósofo húngaro que contribui bastante no estudo da obra de Karl Marx.
22
Isso fica mais claro depois de ler suas duas grandes palestras: a ciência como vocação e a política como vocação,
compiladas no seu livro: Ciência e política: duas vocações.
23
Governo democrático alemão, o qual caiu com a ascensão do nazismo.

29
originalidade24, e crises de extrema depressão e neurose – quando precisa se retirar para o campo, a
fim de relaxar e se recuperar.

Teoria da ação social

Chegamos a um ponto da discussão em que precisamos entender um dos principais


conceitos da sociologia weberiana: a noção de ação social. Contudo, antes de mais nada,
precisamos ter em mente que toda ação humana somente poderá ser considerada uma ação social,
caso haja entre os indivíduos envolvidos algum tipo de compartilhamento de sentido, uma
reciprocidade de ideias. Por exemplo, quando apertamos a mão de uma pessoa, logo quando a
vemos, isso representa – pelo menos na sociedade ocidental – um cumprimento educado. Em
seguida, quando a pessoa retribui esta ação, por meio de um sorriso, ou através de um comentário
como: “Eaí, blz?”, isso significa que ela compreendeu o sentido do cumprimento e o respondeu,
portanto nossa ação foi social. Agora, se entregarmos uma folha em branco para uma pessoa ou
para uma sala de aula cheia, sem dizer uma sequer palavra, isso não poderia ser considerado
uma ação social, pois não foi possível promover nenhum tipo de compartilhamento de sentido
entre os agentes sociais envolvidos nesta ação. Contudo, se tivéssemos escritos alguma coisa na
folha, ou se em vez de uma folha em branco, entregássemos uma imagem, ou um papel colorido
com sentido universal de troca – leia-se dinheiro –, tal ação seria social, tendo em vista que
provavelmente proporcionaria alguma troca de sentido entre os indivíduos.

Relação social

Até agora nós trabalhamos com uma ideia muito simples e de alcance individual que são as
ações sociais, no entanto, quando tais ações começam a envolver muitos indivíduos – os quais
compartilham entre si os sentidos de suas respectivas ações – presenciamos um novo
fenômeno: a relação social. Por exemplo, um aperto de mãos em uma festa na escola pode,
posteriormente, se tornar uma amizade, ou seja, um fenômeno mais abrangente que não se restringe
a uma ação social isolada entre dois indivíduos, mas, ao contrário, é um evento que ocorre em toda
sociedade, envolvendo muitos agentes sociais. Uma simples troca de olhares (ação social) entre
duas pessoas em uma festa pode se tornar, futuramente, um namoro (relação social). À
medida que as ações sociais vão generalizando-se, chegam a articularem-se em forma de rede

24
Na realidade, ele não acreditava em “ideias geniais”, em vez disso, pensava que as grandes ideias surgiam a partir de
um processo intenso e dedicado de estudo e revisão das nossas teorias.

30
e atingem um ponto no qual produzem relações sociais muito complexas, abrangentes e autônomas,
tais como: o Estado, a religião, a família, a guerra, a iniciativa privada, entre outros.

Tipo ideal

Weber parte do pressuposto de que a realidade é muito complexa e diversa, assim,


tentar compreender o sentido de cada relação individual seria uma tarefa impossível.
Portanto, desenvolveu uma metodologia própria que denominou de análise por tipos ideais.
Por meio do seu método, a sociedade podia ser entendida a partir de construções teóricas
vindas do próprio sociólogo. A análise tipológica de Weber não é um espelho cristalizado da
realidade, nem jamais poderia ser, haja vista que esta muda constantemente e não pode ser
totalmente apreendida pela razão. Vale ressaltar, contudo, que o tipo ideal é apenas um instrumento
metodológico, portanto, ele não é a finalidade da pesquisa social em Weber, ao contrário, é o seu
meio; ele não representa as hipóteses da pesquisa, mas pode ajudar a encontrá-las. O tipo
ideal não corresponde à realidade social, ele é uma construção teórica do investigador,
sintetizada da regularidade da manifestação dos fenômenos sociais. No fim das contas, a
pesquisa social weberiana consiste em descobrir se há aproximações ou distanciamentos entre
o objeto de estudo e os tipos ideias construídos durante a sua investigação. Através deste
procedimento, será possível compreender aquilo que está por trás das intenções dos agentes
sociais estudados.

Quatro tipos ideais de ação social

Existem diversos tipos de ação social, todavia, devido a fins didático-científicos, Weber
decidiu separá-los em quatro tipos puros ou ideais, ou seja, modelos que representam uma ideia
geral sobre determinando assunto.

A) Ação racional tradicional: são todas aquelas ações guiadas pelo costume e por hábitos
enraizados no tempo. Por exemplo, quando se passa na frente de uma igreja católica ou de
um cemitério e, se fazer o sinal da cruz; desejar bom dia as pessoas; pagar o dízimo; entre
outros.

B) Ação racional afetiva: são todas aquelas ações orientadas pelos sentimentos humanos.
Por exemplo: abraçar um amigo (a); beijar a namorada (o); entrar em uma briga para

31
proteger alguém querido; se vingar de alguma pessoa que lhe faça mal, entre outros.

C) Ação racional relacionada a valores: são todas aquelas ações articuladas pela convicção
ética das pessoas. Por exemplo, pagar todas as suas contas em dias, devido ao intuito de ser
alguém honesto; sempre fazer o máximo possível para ajudar os seus amigos – como o
poderoso chefão –, para assim demonstrar lealdade; ser vegetariano (a), para não consumir
produtos que causem dor aos animais; etc.

D) Ação racional relacionada a fins: são todas aquelas ações organizadas unicamente no
cálculo frio, objetivo e racional, baseado em metas que precisam ser atingidas. Por
exemplo, estudar para passar no vestibular, trabalhar para ter uma vida confortável ou
enriquecer, bajular as pessoas para conseguir cargos de emprego ou alguns privilégios; entre
outros.

Na sociedade, esses quatro tipos puros de ação social aparecem sempre misturadas e,
nunca se manifestando de forma isolada e chapada, tal qual Weber as definiu. Relembramos
que as definições puras ou ideias weberianas são uma forma didática e, acima de tudo, um método
próprio do sociólogo alemão fazer ciência.

O fenômeno da dominação

Relembrando nossas últimas aulas, é possível perceber que a essência da sociologia alemã é
a reflexão sobre o sentido das ações sociais produzidas por indivíduos de carne e osso e a
potencialidade destes em se tornarem relações sociais. Agora, no entanto, é interessante
destacarmos a relação social que mais intrigava a Weber: a dominação. O sociólogo alemão sempre
se questionava: por que diabos os seres humanos submetem-se uns aos outros? Quais são as
principais características da dominação do ser humano pelo ser humano? E qual seria a forma de
dominação típica da modernidade? Movido por essas indagações, Weber foi capaz de descobrir
os fundamentos da dominação: legitimidade, ordem e vigência. Além disso, também conseguiu
definir três tipos ideias de dominação: tradicional, carismática e legal.

Legitimidade

Antes de refletir sobre a questão da legitimidade propriamente dita, precisamos relembrar

32
algumas noções trabalhadas nas últimas aulas. Por exemplo, as ações sociais foram entendidas
como toda a atitude humana, nas quais os agentes sociais envolvidos compartilham algum
sentido, independente do seu conteúdo, podendo ser um insulto – como mostrar o dedo do meio
para um motorista no trânsito –, um sinal de amizade – como um aperto de mão ou um abraço – ou
um ato afeto – como um beijo ou a entrega de um presente. Vimos também que as relações sociais
nada mais são do que uma generalização das ações sociais, tal como um cumprimento, tornando-
se amizade; uma provocação transformada em rivalidade; ou um choque de bicicletas que pode
se tornar um namoro (curiosamente este é o exemplo favorito Weber), entre outros.
Contudo, não são todas as ações sociais que se desenvolvem em relações sociais, pois para
que isso aconteça elas precisam, antes de mais nada, generalizarem-se, ou seja, é preciso ter
respaldo25 social, ser aceita pela sociedade. Em outras palavras, uma ação social precisa ter
legitimidade na sociedade para transformar-se em uma relação social. Aliás, toda relação social
precisa legitimar-se a si mesma, caso pretenda continuar existindo. Portanto, legitimidade social
pode ser entendida como a tendência da ação social ou relação social tornar-se moda entre os
indivíduos.

Ordem

Quando uma relação social torna-se legítima dentro de uma sociedade podemos dizer que
ela, pouco a pouco, transforma-se em uma ordem, isto é, começa a adquirir uma estrutura
específica, punindo todos os indivíduos audaciosos o suficiente para transgredir seus
mandamentos. Por exemplo, a religião católica é uma relação social que se tornou ordem
desde a Idade Média e as suas determinações obrigam, por exemplo, à ida semanal a igreja –
de preferências aos domingos –, o respeito aos sacramentos católicos – batismo, confirmação,
eucaristia, penitência, unção dos enfermos, ordem, matrimônio –, o cumprimento dos famosos dez
mandamentos, entre outros. Agora, se tais obrigações não forem respeitadas, os indivíduos
estarão sujeitos tanto à repreensão física e ou moral e provavelmente serão excluídos dos
rituais ou eventos organizados pela ordem. Levando em consideração nosso exemplo, ficarão
excluídos das cerimônias católicas.

Vigência

25
Suporte, auxílio, embasamento ou aceitação social.

33
Além da questão da legitimidade e do caráter da ordem, as relações sociais são influenciadas
por um terceiro fenômeno: a vigência social. Na realidade, a vigência é essencial para todas as
relações sociais, pois sem a sua manifestação estas últimas não podem existir por muito tempo. Em
outras palavras, independentemente das relações sociais serem amplamente conhecidas
(legitimidade), tal como apresentarem um ordenamento próprio (ordem), caso não sejam
praticadas pela maioria da sociedade (vigência) não adquirirão uma existência efetiva. Em
resumo, vigência é a circunstância histórica atingida por uma relação social, quando esta
recebe respaldo prático da maioria dos agentes sociais. Assim, quanto mais vigente a relação
social, mais probabilidade ela tem de perdurar na histórica, do mesmo modo, quanto menos vigente
a relação social, mais probabilidade ele tem de desaparecer. A questão vigência abarca todo e
qualquer fenômeno social, seja ele um Estado, uma religião, uma seita, um costume, entre outros.
Portanto, assim que os agentes sociais deixarem de sentir necessidade de compartilhar o sentido de
uma relação social26, esta deixará necessariamente de existir, ou se transformará em uma nova
relação social, a qual, pouco a pouco, se tornará vigente.

Poder, luta e dominação

Caminhando para a reflexão sobre a noção de dominação em Weber, precisamos, antes de


mais nada, entender a sua concepção de poder e de luta. Nesse sentido, poder significa a
imposição de uma vontade particular dentro de uma relação social a tal ponto que pode gerar
leis próprias. Já a noção de luta consiste no posicionamento crítico e convicto contra as ordens
impostas por agentes sociais, tenham elas um alto grau de vigência ou não. E por fim, mas não
menos importante, o fenômeno da dominação que significa encontrar obediência a
determinadas ordens, no âmbito das relações sociais.

Três tipos de dominação


Dominação tradicional

É toda dominação fundamentada na crença tradicional e costumeira da santidade de um


indivíduo. A obediência, a legitimidade e a vigência nesse tipo de dominação acontecem por
meio da fidelidade e a honra dos súditos para com seu soberano. “Pelo rei! Pelo imperador!
26
Por exemplo, a medicina chegou a encarar a lepra como uma doença contagiosa pelo contato, por isso, os
médicos e enfermeiros utilizavam-se de luvas e máscaras para tratar as pessoas. No entanto, com o avanço dos
métodos da medicina e com a reflexão sobre o preconceito científico, essa prática do uso de máscaras e luvas no
tratamento da lepra foi abandonado. Isso pode ser observado no filme Diários de Motocicleta.

34
Pelo reino!”. Eram gritos de guerra muito comuns no passado e representavam a profunda confiança
que os súditos depositavam em seus reis ou imperadores, ao ponto de sentirem-se honrados em
morrer para sua defesa. O tipo mais puro dessa dominação é o Patriarcado, isto é, o governo no
qual todo o poder se concentra no homem mais velho da família. Por exemplo, os senhores feudais27
ocidentais, os jarls nórdicos, os imperadores orientais, entre outros.
Todo o aparato político e administrativo concentra-se na vontade do soberano que
estão totalmente de acordo com os seus desejos e perspectivas mais pessoais. Em outras
palavras, o exercício do poder torna-se arbitrário. Evidentemente, os soberanos patriarcais
sempre tinham conselheiros, grupos militares para sua defesa, tesoureiros, entre outros
indivíduos ou instituições responsáveis pela fragmentação do seu poder, no entanto, em última
instância a decisão final era sempre sua.

Dominação carismática

É toda dominação erigida na admiração das qualidades excepcionais de um líder. A


obediência, a legitimidade e a vigência nessa dominação manifestam-se por meio da devoção
que o carisma do líder causa sob seus “apóstolos”. O líder carismático pode ser desde um profeta
supostamente dotado de qualidades divinas, ou um guerreiro virtuoso e corajoso, ou ainda, um
político muito persuasivo e inteligente.
Semelhante àquilo que acontece na dominação tradicional, o quadro de administração
e as leis da sociedade são todos provenientes da vontade pessoal de um líder, no entanto, o
poder não se fundamenta na tradição, em vez disso, depende exclusivamente das decisões
arbitrárias do líder carismático. Nesse sentido, o governo torna-se muito frágil, pois, só existirá,
enquanto o líder garantir a sua aceitação social. Contudo, assim que a fonte do seu carisma
desaparecer, também esvanecerá o seu domínio sobre os indivíduos e, desta forma, os apóstolos
que outrora o representavam, isto é, se submetiam a dominação carismática, fatalmente se
transformam em seus próprios carrascos.
Sem dúvida, a dominação carismática é a forma de domínio mais contraditória das
três, tendo em vista o fato de atuar; por um lado, para o desenvolvimento dos movimentos
revolucionários da história da humanidade, enquanto; por outro lado, também é o
fundamento de todo movimento totalitário, tais como as ditaduras militares e movimentos
nazifascistas. Em suma, na perspectiva de Weber, todo movimento social de transformação da
27
Vale ressaltar que no feudalismo vigorava uma estrutura social estamental, o que criava a necessidade não apenas de
ser fiel ao rei, mas também ao seu estamento.

35
realidade precisa de líderes carismáticos28, no entanto, quando um governo se pauta apenas na
inspiração emanada do líder, ele se torna uma forma de dominação essencialmente autoritária 29,
onde o líder governa apenas de acordo com seus desejos e os indivíduos o obedecem por devoção.

Dominação legal

É toda dominação fundamentada num estatuto, isto é, um conjunto racional,


impessoal, supostamente imparcial e laico de leis. A obediência, a legitimidade e a vigência,
diferente de tudo daquilo que analisamos nas outras duas formas de dominação, procura
excluir toda e qualquer influência possível dos sentimentos humanos nas decisões político-
administrativas da sociedade. A fim de levar essa proposta adiante, construiu-se uma complexa e
extensiva hierarquia formada por “membros superiores” e “membros inferiores”. Os primeiros têm
o “direito legítimo” de comandar os segundos, enquanto estes últimos, por sua vez, têm funções
específicas e extremamente especializadas. Além disso, os funcionários sempre precisam
reportar as suas ações aos escalões hierárquicos do topo.
No final das contas, quando procuramos o nível mais alto da hierarquia, por incrível
que pareça, não chegamos num ser humano, mas sim num conjunto abstrato, complexo e
impessoal de leis, as quais imprimem a obediência a partir da disciplina e da docilização dos
indivíduos.
A forma mais típica dessa dominação é a burocracia, no entanto, esta não se restringe
somente a vida política ou empresarial, mas também abarca todos os aspectos da nossa vida
social. Ironicamente, a burocracia foi criada para tornar os procedimentos econômicos e
governamentais mais rápidos, precisos e eficientes. Contudo, percebemos que o feitiço virou contra
o feiticeiro e a burocracia acabou atuando de forma inversa, ou seja, lenta, imprecisa e
ineficazmente.

A ética protestante e o espírito do capitalismo

Max Weber também produziu grandes reflexões sobre o sistema capitalista. Sua teoria
consistia na convicção de que uma conduta especificamente individual, a ética protestante,
desencadeou uma série de elementos que contribuíram para a ascensão do capitalismo

28
Por exemplo: Sócrates em Atenas, Jesus Cristo em Jerusalém, Giordano Bruno na Itália, Che Guevara em Cuba, entre
outros.
29
Por exemplo: O nazismo alemão, o fascismo italiano, o governo de Stalin, a ditadura de Getúlio Vargas, entre outros.

36
moderno. Para explicar sua tese, o sociólogo alemão compara o comportamento típico do individuo
protestante com o católico, a fim de mostrar como a conduta católica remontava uma sociedade
que ficou no passado (leia-se na Idade Média), já o protestante, desenvolve um
comportamento, ou melhor, uma ascese 30 tanto oposta ao passado, quanto sintonizada com os
novos ares respirados na virada do século XVI para o XVII, ou seja, com a sociedade
capitalista emergente.

Principais diferenças:

CATÓLICOS PROTESTANTES
 Preferiam as ocupações humanas,  Preferiam as ocupações economicamente
por exemplo: estudos clássicos, mais rentáveis, tais como: a engenharia,
filosofia, direito, teologia, entre direito, economia, medicina, entre outras.
outros.
 Os católicos perseguiam  Os protestantes não acreditavam na
rigorosamente as pessoas que salvação pelo arrependimento e acreditam
taxavam de hereges, no entanto, que os católicos não são rígidos o
acreditavam na possibilidade das suficiente31.
pessoas se arrependerem.
 O trabalho era entendido como  O trabalho é entendido como dádiva
um castigo divino, uma espécie de divina33 que precisa ser levado a cabo de
tripalium32, o trabalho era visto acordo com a “graça de deus”, ou seja, seus
como o sacrifício necessário para se frutos não podem ser gastos com luxo,
merecer o paraíso cristão. diversão, bebidas alcoólica, entre outros
prazeres mundanos. Em vez disso, só
podem ser aplicados num investimento
econômico ou no aperfeiçoamento da sua
vocação, ações consideradas honrosas ao
olhar de Deus.

30
Podes ser entendida como uma conduta social ou individual extremamente rígida e convicta.
31
Para termos uma ideia, os protestantes competiam entre si para ver quem queimava mais bruxas na fogueira…
32
Instrumento de tortura muito utilizado na Idade Média. Consistia em uma roda de madeira, engenhosamente
construída para esticar, através de cordas, os quatro membros do torturado até que ele “confessasse” - falasse o que o
torturador quisesse ouvir – ou morresse, em consequência do desmembramento.
33
Um presente dado de bom gosto sem duplas intenções, no entanto, toda dádiva cria a obrigação social de ser
retribuída – no caso de dadivas com divindades a retribuição é ainda mais socialmente obrigatória.

37
 A prática do juro (cobrança pelo  Defesa da avareza. Os protestantes
tempo) e do lucro (tirar vantagem, acreditavam que quando você economiza
roubar) era pecado para a igreja seu dinheiro e o gasta somente com a
católica, pois só o deus cristão “graça de deus”, isto é, investe no seu
tinha poder sobre o tempo e não próprio negócio, você está garantindo seu
aceitava que um ser humano lugar no céu.
roubasse outro.

As doutrinas protestantes

A consolidação do pensamento protestante aconteceu em diversos países da Europa, por


exemplo, o anglicanismo desenvolveu-se na Inglaterra; o calvinismo na Suíça; o luteranismo na
Alemanha; e assim por diante. Em meio a essas inúmeras correntes religiosas, nos
concentrarmos em apenas dois expoentes: Martinho Lutero (1483 – 1546) e João Calvino
(1509 – 1564).

Lutero e a defesa da ascese protestante intramundana34


Foi um dos primeiros monges católicos a se revoltar contra a igreja, a ponto de fixar na porta
do castelo de Wittenberg, na Alemanha, as suas famosas 95 teses, dentre as quais podemos destacar
aqui, algumas das suas reivindicações:

A) A crítica das indulgências: estratégias utilizadas pelos católicos para vender a salvação
na vida após a morte, seja por meio da contribuição monetária para a construção de
alguma basílica ou na compra de objetos supostamente sagrados.

B) Defesa do lucro e ao juro: os católicos acreditavam que tais princípios mercantilizavam


o tempo, uma noção abstrata que somente Deus poderia manipular, portanto quem o
praticasse era considerado pecador ou bruxo. Esse pensamento não era aceito pelos
protestantes.

C) A crítica da autoridade do clero como a única mediadora entre os homens e a


34
Significa que vem do mundo interior, do mundo individual. Ascese intramundada significa uma conduta que
favoreça o surgimento de um pensar e agir individual o que, diga-se de passagem, era inédito para a época . Pois, até
então (século XVI ) os indivíduos majoritariamente se enxergavam sempre como um grupo, um coletivo e não
como seres individuais dotados de direito e deveres, tal como atualmente nos enxergamos.

38
divindade35.

D) A crítica da ascese extramundana: crença na existência exterior da divindade que


somente poderia ser acessada após a morte e por meio do arrependimento sincero. Os
protestantes acreditavam que o deus cristão está dentro de cada um e não fora.

Os questionamentos levantados por Lutero culminaram grandes mudanças, dentre elas vale
destaque a criação da ascese protestante intramundana, isto é, a ideia de que Deus e a salvação –
por meio do trabalho – habitam no interior do ser humano. Nesse sentido, Lutero colaborou,
mesmo não possuindo qualquer pretensão disso, com a ascensão do capitalismo, pois, a partir da
sua teoria da ascese intramundana, surgiu a noção de indivíduo, eminentemente essencial para
a fundamentação sociedade capitalista.

Calvino e a teoria da predestinação

Embora Lutero sem dúvida tenha sido um dos pensadores protestantes mais importantes da
história, na realidade, foi a teoria calvinista a responsável por edificar os pilares básicos da ética
protestante. A teoria da predestinação de Santo Agostinho (354 – 430) afirmava que a
consciência onipotente do Deus cristão permitia que ele soubesse exatamente quem será salvo
e quem será condenado na vida após a morte. João Calvino recuperou a teoria da
predestinação e inspirou, em seus discípulos, um comportamento ascético (conduta
extremamente rígida) em relação ao trabalho. Em outras palavras, como ninguém sabe se foi
ou não contemplado pela dádiva divina da salvação, todos se esforçavam ao máximo para que
os frutos de seu trabalho estejam de acordo com a vontade de Deus. E como os protestantes
garantiam que seu trabalho se atua para a glória de Deus? Por incrível que pareça, os protestantes
acreditavam que o direcionamento do seu trabalho para a acumulação racional de capital e
para o investimento deste em seu próprio negócio era a principal maneira de trabalhar para a
graça de Deus. No final das contas, segundo Weber, tanto Lutero, quanto Calvino produziram,
por meio das suas respectivas doutrinas religiosas, uma espécie de espírito do capitalismo, ou
seja, um comportamento social extremamente sintonizado com a nova realidade que se
hegemonizava pouco a pouco na época, a realidade histórica do sistema capitalista.

35
Lutero traduziu a bíblia do latim – língua na qual era rezada a missa na Idade Média, e detalhe, realizada de costas
para os fiéis – para o alemão, assim todos os alemães poderiam ler a bíblia e tirar suas próprias conclusões a respeito
dela. Pois, para o protestantismo a verdade, a salvação e a divindade estão sempre dentro dos homens, nunca fora.

39
O espírito do capitalismo

A defesa da ascese intramundana de Lutero e a ascese avarenta e empreendedora


estimulada por Calvino ajudaram a criar uma conduta social que favorecesse o surgimento do
capitalismo, criando um sujeito que se adaptasse a suas exigências. Em outras palavras, a
ética protestante gerou o espírito do capitalismo.

O perigo da racionalização do mundo

Além das suas significativas contribuições para a sociologia, economia e história, Weber
ainda conseguiu perceber um problema extremamente perigoso que se manifestava de forma velada
em sua época, mas, atualmente, muito nos assombra. O sociólogo alemão percebeu que as pessoas
estavam cada vez mais indiferentes quanto a existência umas das outas. Noutras palavras, as
ações e relações sociais baseadas na afetividade e nas convicções éticas estavam, pouco a
pouco, desaparecendo e, ao mesmo tempo, expandiam-se as relações sociais constituídas pela
frieza e impessoalidade do cálculo racional (o que ele chama de ações sociais relacionadas a
fins). As tradições cediam mais e mais espaço para a ciência. Assim, não é atoa que Nietzsche, em
Assim falava Zaratustra, nos deixou o alerta: “Deus está morto e nós o matamos”. E é nesta
esteira que Weber também chega a uma preocupante descoberta, afirmando que os homens
haviam se revestido com um “manto de aço36”, criado por eles mesmos. Dentro de tal
revestimento, a tendência era o homem tornar-se cada vez mais máquina e menos homem.

AULA 13 E 14: PRIMEIRA AVALIAÇÃO BIMESTRAL


PROVA

1. O que é sociologia? Para que ela serve? Dê um exemplo de um problema social que
a sociologia estuda.
2. Por que a sociedade é essencial ao ser humano?

36
“O puritano queria ser um profissional – nós devemos sê-lo. Pois a ascese, ao se transferir das celas dos monastérios
para a vida profissional, passou a dominar a moralidade intramundana e assim contribuiu [com sua parte] para edificar
esse poderoso cosmos da ordem econômica moderna ligado aos pressupostos técnicos e econômicos da produção pela
máquina, que hoje determina com precisão avassaladora o estilo de vida de todos os indivíduos que nascem dentro
dessa engrenagem – não só dos economicamente ativos – e talvez continue a determinar até que cesse de queimar a
última porção de combustível fóssil. Na opinião de Baxter, o cuidado com os bens exteriores devia passar sobre os
ombros de seu santo apenas “qual leve manto de que se pudesse despir a qualquer momento”. Quis o destino, porém,
que o manto virasse uma rija crosta de aço {na célebre tradução de Parsons: iron cage = jaula de ferro}” (WEBER,
2004. p. 165).

40
3. Descreva resumidamente o contexto de surgimento da sociologia.
4. O que são fatos sociais para Émile Durkheim? Dê um exemplo de fato social.
5. O que é uma ação social para Max Weber? Dê um exemplo de ação social.

AULA 15 E 16: ATIVIDADE DE RECUPERAÇÃO


PROVA
1. Explique o que é sociologia e qual é o seu papel.
2. Explique quais foram as duas teorias sociológicas que estudamos em sala de aula.
Depois quais foram seus autores e em que elas consistem.

Quem precisa fazer: 5, 6, 25, 33, 34, 43, 47 e 48.

Atividade I
1. Pensem em um problema social da sua cidade e o descreva.
2. Pense em soluções para este problema.

Quem precisa fazer: 7, 20 e 50.


Quem precisa fazer tudo: 1, 2, 4, 8, 9, 11 – 189, 21 – 24, 26, 28, 31, 32, 37, 42, 44 – 46 e 49.

AULA 17 E 18:
Construção social da identidade

O processo de construção da nossa identidade tem tanto uma dimensão social quanto
uma individual. Por exemplo, cada um de nós desenvolve maneiras de pensar, agir e sentir
aceitas em nossa sociedade, esta dimensão da formação de nossa identidade é social. Contudo,
cada um de nós também desenvolve comportamentos e pensamentos a partir de experiências
pessoais dentro de nossas famílias e em contato com nossos amigos, esta dimensão da
formação de nossa identidade é individual. Além disso, compreendemos logo de cara que a
construção da identidade não é um processo estático e determinado, puramente individual e
pacífica. Aliás, muito pelo contrário, cada experiência que vivenciamos e conhecimentos que
aprendemos contribuem para transformar a ideia que temos de nós mesmos; a ideia que
construímos a nosso respeito também pode ser diferente da ideia que os outros têm de nós

41
mesmos, por isso, a construção da nossa identidade acontece a través do conflito entre o nosso
eu e o que aparentamos para os demais. Contudo, estudaremos todas as características da
identidade com cama nas próximas aulas, por hora nos basta focar em três de seus aspectos
fundamentais: seu caráter de eterno constituir-se, seu caráter dinâmico e conflituoso e sua
importância social.

Processo continuado

Quando pensamos em nossa identidade, de antemão, vem em nossa mente “eu sou isso”,
“eu sou aquilo”, “eu jamais seria assim”, etc. Todas estas formas de se expressar dão a
entender que a construção de nossa identidade é algo estático e determinado, isto é, “somos
assim e pronto e acabou”. No entanto, não é bem por aí, pois podemos até achar que “somos
assim” hoje, porém, caso pararmos para pensar em nosso passado, talvez chegássemos a
conclusão de que eramos diferentes do que somos hoje e, no futuro, muito provavelmente,
seremos pessoas diferentes do que somos atualmente. Portanto, quando estamos pensando em
identidade, o correto não é usar o termo “eu sou assim”, mas, em vez disso, substituí-lo pelo
“eu estou assim”, o que significa que nem sempre nos enxergamos como nos vemos agora e talvez
nem sempre teremos a mesma opinião sobre nos mesmos.

Dinâmica do conflito

Concluímos que a identidade é um processo contínuo desenvolvido dentro de nossa


sociedade, ou melhor, acontece a partir da socialização. Isto posto, chegou a hora de discutimos
acerca do fato de a identidade ser um fenômeno não só dinâmico, mas também conflituoso. A
dinâmica do processo identitário se evidencia em todas as experiências que vivenciamos e que
transformam a forma pela qual conhecemos o mundo e a nós mesmos, ainda que não percebamos
tais transformações. Em resumo, temos que ter em mente que a identidade se forma a partir de
uma síntese da ideia que atualmente temos de nós e a ideia que atualmente aparentamos ter
aos outros. Dito de outra maneira, é como se tivéssemos uma espécie de Eu-pessoal, ou seja,
todas aquelas ideias a respeito de quem nós somos, em que acreditamos, nossos sonhos, nossos
defeitos e virtudes, etc. E também temos uma espécie de Eu-social, isto é, um conjunto de
características que parecemos ter quando nos relacionamos social com outras pessoas. Nesta
circunstância, a identidade que desenvolvemos não é unicamente nem o Eu-pessoal, nem o Eu-

42
social, mas, em vez disso, a síntese das duas. O conflito entre estes dois aspectos identitários
mobiliza nosso processo de construção identitário a se comportar, basicamente no sentido da
adaptação ou no sentido da contestação. No primeiro, tentamos aproximar ao máximo
possível o nosso Eu-pessoal do Eu-social, por exemplo, a sociedade ocidental capitalista
assume um padrão de beleza fixo, no entanto, todas as pessoas são diferentes umas das outras,
cada um desenvolve um Eu-pessoal próprio, mesmo assim, tentam ao máximo possível se
aproximar desse padrão de beleza, muitas vezes inalcançável que é bem-visto socialmente. No
segundo aspecto da formação da identidade, podemos assumir a postura da contestação, ou
seja, quando nosso Eu-pessoal resite a se aproximar com o Eu-social, ou seja, quando
enxergamos alguns problemas nos padrões socialmente aceitos de comportamento e de
pensamento e, em vez de nos adaptar a eles, procuramos transformá-los, para que eles se
adaptem aos nossos interesses.

A importância das experiências sociais

Para finalizar esta aula, precismos ter em mente que o processo de construção da identidade
jamais deve ser entendido como uma questão puramente individual, ao contrário é sempre um
processo social. Nossa identidade é um processo de contínuo construir, mas, para além disso,
nossa identidade se constrói a partir das experiências desenvolvidas durante nosso passado
histórico e em nosso meio social contemporâneo.

A questão da alteridade

Quando ouvimos a palavra identidade, logo de cara pensamos naquilo que diz respeito
a nós mesmos, nossos gostos, nossas formas de enxergar o mundo, nossa forma de vestir e as
escolhas que nós fazemos. Em suma, penamos nas questões que giram em torno do nosso Eu e
das pessoas que são idênticas a nós. No entanto, a identidade não se constrói somente por meio do
Eu, mas, acima de tudo, pela relação do eu com os outros, ou seja, não há como pensar em nossa
própria identidade sem imaginar imediatamente alguém que seja diferente de nós, mesmo que esta
diferença exista apenas em nossa mente. Por exemplo, a constituição da identidade dos heróis
geralmente se constrói em paralelo com a identidade dos vilões, seja nas histórias em
quadrinhos, desenhos animados, romances, filmes entre outros. Se os heróis são bondosos,
destemidos e virtuosos, os vilões geralmente são malvados, causam medo ou horror e são vis. Se os
heróis são de famílias ricas e bem-educadas, os vilões geralmente cresceram em bairros pobres e

43
não tiveram educação de qualidade, e as comparações se seguem. O que importa nestes exemplos
é que a identidade do herói é construída a partir da do vilão e vice-versa, um não existe sem o
outro. Por isso, precisamos ter claro em mente que, embora a identidade pareça ser algo
puramente individual, próprio de cada um, só conseguimos construir a nossa identidade
vivendo em sociedade e partindo do pressuposto de que é possível existir alguém que pense e
haja diferente de nós. Por isso, para construir nossa identidade não basta apenas tentar responder a
pergunta “quem somos nós?”, mas também tentar responder outro perguntar: “quem nós NÃO
somos? Nesse sentido, um aspecto muito importante da identidade é a tolerância, isto é, precisamos
ser capazes de pensar que existem formas de pensar e de agir diferentes das nossas e elas merecem
tanto respeito quando nós, isto porque, para que nós existamos da forma como nos definimos, é
necessário que exista a possibilidade de outras pessoas pensarem e agirem de forma diferente
da nossa. Em uma palavra, respeito é necessário para que sejamos respeitados.
Atenção: preconceito, racismo, homofobia, xenofobia e qualquer outra forma de
discriminação não devem ser toleradas, ao contrário precisam ser combatidas, pois este tipo
de comportamento já é intolerante e impede que as pessoas manifestem livremente suas
próprias identidades. Em resumo, não podemos tolerar o intolerante, a intolerância, o preconceito
e o racismo devem ser combatidos a todo custo.

O perigo do estereótipo

Outro aspecto importante da identidade é a criação de símbolos. Todo grupo social se


utiliza de imagens, ideias, objetos entre outras formas de manifestação para definir sua identidade
perante a sociedade. Por exemplo, os cantores de rap e hip-hop, bem como seus fãs, geralmente
utilizam-se de roupas largas, correntes de metal, andam gingando e falam gírias. Cada empresa
dentro do capitalismo tem um símbolo esperdício que remete ao produto que ela vende. Os sujeitos
considerados homens de negócio, costumam andar sempre de terno e roupa social, independente se
estiver calor ou não, andam com maletas na mão e evitam ao máximo cometer erros de português
ou se utilizar de gírias para se comunicar. Estes exemplos são o suficiente para nos mostra que a
identidade se fundamenta a partir do fenômeno denominado marcação simbólica, no entanto, a
identidade não pode se resumir nisso, pois, se assim o fizer, terminará em um estereótipo. A
marcação simbólica é importante durante o momento inicial de construção social da
identidade, quando nos perguntamos: “quem somos nós?”, “quais são nossos defeitos e
qualidade?” “o que nos define?”, entre outras perguntas, bem como nos questionamos: “quem nós
jamais seríamos?”, “quais características jamais nos definiriam?”, etc. Contudo, se finalizarmos

44
nosso pensamento neste ponto, sempre construiremos um estereótipo da nossa identidade e da
identidade dos outros, esquecendo que a identidade se modifica com o tempo, portanto, nossa
definição de quem somos e quem são os outros se transforma periodicamente. Por exemplo, um
raper ou um homem de negócios hoje são diferentes do que foram no passado e podem se
modificarem ainda mais no futuro.

A questão da autodefinição

Por fim, mas não menos importante, é necessário nos perguntar: o que define uma pessoa
como participante deste ou daquele grupo? O que a etnia de uma pessoa? Em outras palavras, o que
define uma pessoa como branca, negra ou indígena? É a sociedade? A opinião pública? A ciência?
Na realidade, nenhuma delas. A identidade só pode ser definida pelo sujeito, evidentemente cada
pessoa vai se pautar em conhecimentos e experiências que viveu e aprendeu para definir sua
identidade, contudo, ninguém tem o direito de dizer a que grupo social ou étnico os outros
pertencem. Por exemplo, se encontrarmos uma pessoa de calça jeans e camiseta de time de futebol
que diz ser indígena, nós não temos o direito de dizer que a pessoa está errada e que indígena
precisa de pintura no corpo e cocar de penas. Todas as culturas se modificam e todo mundo tem o
direito de ter acesso a ao que a sociedade produz, a única pessoa que tem o direito de definir a nossa
identidade é nós mesmos. Voltando ao nosso exemplo, o indígena de calça jeans e camisa de time de
futebol, por mais que fisicamente esteja usando roupas que simbolizam o ocidente, ele pode ter um
conhecimento vasto da sua cultura e ser um grande interlocutor dos direitos de sua aldeia e o Estado
brasileiro. Ele pode estar indo trabalhar e estudar (onde se exige este tipo de vestimenta) e depois
trazer o conhecimento científico para sua cultura. Enfim, isso precisa ficar muito claro, porque o
preconceito e o racismo são problemas muito preocupantes em nossa realidade. A cultura indígena
e africana são tão importantes para a formação do que é ser brasileiro do que a cultura
europeia. No entanto, durante muito tempo o racismo fez com que os descentes dos africanos e dos
indígenas brasileiros fossem discriminados. Um exemplo disso é a questão do branqueamento,
isto é, uma forma racista de se encarar a diversidade social que considerava branco os descendentes
de africanos com a pele “mais clara”. Machado de Assis, um dos maiores escritores da literatura
brasileira, por causa desse pensamento racista e branqueado não foi considerado negro em sua
época.

Dinâmica (segunda aula)

45
Primeiro, cada um responderá a seguinte pergunta: quem é você? Em seguida, citem três
de seus pontos positivos e três seus pontos negativos. E, em último lugar, podemos perguntar: de
que forma acontece o processo de construção da nossa identidade?

2° SEMESTRE (EJA 2º BIMESTRE)

AULA 19 E 20:
Ser humano como ser cultural (primeira aula)

Não existe animal na face da Terra que sobreviva sozinho. Desde os animais selvagens
até o ser humano, todo ser vivo, de alguma forma, sobrevive por meio de relações com os outros
seres da sua espécie37 e, inclusive, até com animais de outras espécies. Em síntese, a organização
coletiva é recorrente em toda natureza, no entanto, como já discutimos em outras aulas, o ser
humano relaciona-se culturalmente com os membros da sua espécie, diferente dos demais
animais que estabelecem relações de dependência ou parasitagem de forma determinada
genética e instintivamente. O ser humano, como qualquer outro animal tem necessidades básicas,
tais como: alimento, água, abrigo, roupas, entre outras, no entanto, diferente dos animais que saciam
suas necessidades diretamente a partir daquilo que a natureza lhes oferece – ou seja, caçam suas
presas com suas garras e dentes, saciam sua cede diretamente no rio, usam da sua própria pelagem
para se proteger do frio, moram em tocas ou moradias improvisadas pela própria natureza, etc – o
ser humano transforma a natureza por meio do seu trabalho e de acordo com suas
necessidades. O resultado do trabalho humano sobre a natureza é denominado como cultura.
Portanto, a única questão que é verdadeiramente natural no ser humano é sua capacidade de
transformar a natureza, de produzir cultura ou, em outras palavras, de se diferenciar uns dos
outros.

Desnaturalização

Todas as culturas são frutos da história, surgiram do trabalho do próprio ser humano.
No entanto, quando nascemos em uma determinada cultura, somo educados a compreender suas
formas de pensar, agir e sentir como naturais. Por isso, a sociologia busca nos mostrar que a nossa
cultura não é a única cultura possível, mas apenas uma em meio ao mar da diversidade social.
37
Os lobos formam alcateias, as formigas, colônias, as ovelhas, rebanho, e assim sucessivamente.

46
Atenção, reconhecer os nossos modos de pensar e de se comportar como uma construção
histórica e social não diminui sua importância, ao contrário, nos exercita a tolerância e a
coexistência sustentável com outras culturas que pensam e se comportam diferentes das
nossas. A fim de exercitar a desnaturalização de nossas mentes, destacaremos alguns exemplos de
formas de pensar, agir e sentir diferentes daquelas que fomos educados a aceitar como sendo nossas.

I. A família trobriandesa

A nossa noção de família brasileira é bastante complexa, não existe apenas a noção
tradicional de pai, mãe e filhos. Haja vista que o fenômeno da mãe solteira é cada vez mais
recorrente em nossa realidade e, aliás, atualmente, com o avanço da tolerância e da diversidade
social, os casais homoafetivos também tem o direito legal de constituírem famílias, por meio da
adoção. Chegamos então na definição genérica de que a noção família culturalmente
desenvolvida no Brasil consiste em uma ou duas pessoas que se responsabilizam pelos
cuidados e educação de uma ou mais crianças e que estão ligadas diretamente a estas crianças
por laços biológicos ou legais. Além disso, embora tenha recebido bastante críticas, a noção de
família brasileira é patrilinear, ou seja, o foco da família está concentrado no homem (no pai e no
filho), inclusive, quando a mulher casa ela vai morar com o marido, ou na casa dos pais do marido.
No entanto, esta definição que parece se aplicar a toda e qualquer família no mundo, porque nós a
consideramos “natural”, cai por terra quando conhecemos a noção de família que os habitantes das
ilhas da Oceania, mais especificamente os da ilha de Trobriand, desenvolveram. Os
trobriandeses têm uma noção de família matrilinear, ou seja, o foco da família está concentrado
na mulher (na mãe e na filha), inclusive, quando acontece o casamento, o homem é que se muda de
sua casa para morar na casa da mulher ou com os sogros. Outro aspecto interessante do
trobriandeses é que a educação do filho é realizada pelo tio materno e não pelo pai.

II. O potlatch

Um dos aspectos de nossa vida social atual é a dependência exacerbada que


desenvolvemos em ralação ao dinheiro. Para fazer qualquer coisa, desde as mais simples como se
alimentar e se locomover, até as mais complexas como estudar e trabalhar, tudo necessita do
dinheiro. Esta dependência pode se transformar em um grande problema, a partir do
momento que o dinheiro e a sua produção se tornam mais importantes do que a humanidade e
a sua reprodução sustentável. Além disso, todos nós sabemos o quão difícil é conseguir dinheiro e

47
não se endividar até o pescoço. Por isso, nos indignamos com a falta de investimentos em educação,
saúde e direitos básicos, bem como não nos conformamos com a exploração que as indústrias
privadas levam a cabo ao nos pagar uma miséria de salário e os esquemas de corrupção que sugam
o dinheiro que deveria ser aplicado em políticas públicas. Isto posto, parece ser natural condenar
uma pessoa que gasta seu dinheiro incoerentemente. Contudo, se estudarmos as populações da
Melanésia na Oceania, perceberemos que eles tem uma prática social bem distinta da nossa.
Anualmente, ou em períodos considerados sagrados, a população se reúne para realizar o
Potlatch, uma celebração gigantesca na qual as pessoas oferecem tudo que conseguiram
acumular aos deuses, queimando seus pertences e alimentos ou os enviando ao mar. É uma
festa que tem o foco na generosidade e na dádiva, ou seja, estão retribuindo aos deuses por uma
coa colheita, ano ou sorte.

III. Ritos funerários nórdicos

Quando alguém querido, seja de nossa família ou não, falece, culturalmente realizamos o
rito do luto, isto é, vestimos roupas de cor preta que simboliza a dor e a morte, ficamos muitos
tristes, velamos o corpo da pessoa e depois a enterramos. Evidentemente, como o Brasil é um berço
de inúmeras culturas, existem variações deste ritual, como a cremação o velamento em casa, entre
outras. Mas, no geral, ficamos muito tristes, demonstramos isso socialmente e enterramos os
mortos. Agora, se voltássemos ao século VIII, e estudássemos os ritos fúnebres dos nórdicos, em
especial o dos vikings, perceberíamos algumas diferenças interessantes. Primeiramente, é evidente
que os nórdicos se entristeciam com a morte de seus entes queridos, mas eles demostravam isso
com muita festa, bebidas, e narrando os principais feitos do morto, tanto os cômicos quanto os
heroicos. Depois das festividades, o morto era vestido com uma roupa ritual e colocado em seu
melhor barco, com suas melhores armas e riquezas, para quando acordar em Valhala, pudesse
lutar com elas ao lado dos heróis e deuses nórdicos e era lançado no mar. Depois o barco era
incendiado para cremar o falecido. Outro aspecto que pode nos chocar é que a sociedade
esperava que a mulher ou as mulheres do falecido se voluntariassem a serem mortas junto ao
corpo de seu amado. Já as escravas do nórdico morto não tinha escolha, eram, então, obrigadas
a morrem junto com ele.

48
Evolucionismo cultural (segunda aula)

O evolucionismo pode ser entendido como uma corrente de pensamente que procura
classificar a diversidade humana em estágios evolutivos cristalizados, ou melhor, inertes, imutáveis,
retilíneos (não há regressão para os evolucionistas, apenas evolução38) e inquestionáveis. Sempre
passando do estágio mais simples, ou seja, a Selvageria (na visão dos antropólogos do século
XIX, são todos os povos originários da América e da África), passam por um estágio
intermediário de Barbárie (no caso, os povos antigos da história do ocidente e do oriente, hebreus,
fenícios, gregos, egípcios, babilônios, entre outros) até chegarem no grau máximo, a Civilização,
ou melhor, a Europa. Além disso, para entendermos de forma mais clara o evolucionismo, é preciso
conhecermos três das suas principais características:

I. Evolução Biológica X Evolução Social

Teoria da Evolução Biológica Evolucionismo Social


 Foi desenvolvida pelo biólogo  Surgiu após da tese de Herbert
Charles Darwin (1809 – 1882), através da Spencer (1820 – 1903) sobre a suposta
sua obra: “A orgiem das espécies” (1859). existência de um darwinismo social.
 Acreditava que a evolução que
 Consistia na ideia de que as espécies Darwin havia explicado na Origem das
tendiam transmitir suas características de espécies poderia ser estendida ao
pai para filho. entendimento social das populações
humanas.
 A partir disso, pressupôs a existência
 Toda espécie gera seus descendentes
de etnias mais evoluídas e melhores umas
em um meio ambiente específico.
em comparação as outras.
 Todas as espécies que sobreviverem  Afirma que a evolução consiste em um
as intempéries típicas do meio em que se processo de desenvolvimento econômico,
encontram, ao mesmo tempo que político e científico que permite a
perpetuam a sua descendência, podem transição de um estágio menos evoluído
então, ser consideradas espécies que (pior) para um nível mais elevado

38
Portanto, os europeus poderiam fazer as piores barbaridades do mundo, por exemplo, o genocídio e o etnocídio
indígena na América e na África e, ainda assim, não involuiriam, não desceriam nunca de seu patamar máximo de
evolução.

49
(melhor). Isso se repete até que todas as
evoluíram. sociedades atinjam o patamar mais alto de
evolução, a civilização europeia.
 Portanto, os organismos vivos que
evoluem num dado ambiente NÃO são, em
nenhum sentido, melhores do que as  Portanto, acredita que exista uma
outras espécies que não evoluíram nesse hierarquia rígida e inquestionável de
local. Apenas são as formas de vida que, etnias superiores e inferiores na sociedade
por acaso, desenvolveram características humana.
mais adaptadas à sobrevivência nesse
meio.

II. O método comparativo (primeira aula)

Esse método representava a base da pesquisa antropológica evolucionista, tendo em vista


que se trabalhava em função da análise por semelhança, ou seja, tomava-se como referência para o
nível mais alto de evolução a Europa do século XIX, em seguida, observava-se as demais
populações, procurando alguma característica semelhante com a civilização europeia. Quanto mais
parecidos “os outros” eram com os europeus, mas elevados estavam na escala evolutiva. Além
disso, os mais diferentes povos costumavam ser comparados entre si, somente pelo fato de
apresentar algum ritual parecido, e assim, acabavam sendo homogenizados em algum estágio de
selvageria ou barbárie. Um antropólogo que posicionou criticamente ao método comparativo foi o
alemão Franz Boas, cuja crítica se embasa no fata deste método comparar o incomparável39, ou
seja, independentemente da existência da semelhança entre rituais ou costumes entre populações
distintas, isso não significa, em nenhum sentido, a necessária origem em comum desses povos, ou o
seu pertencimento um mesmo suposto estágio evolutivo. Na verdade, cada cultura interpreta da sua
forma e através da sua visão de mundo os mais diferentes fenômenos da vida social.

39
A crítica de Boas fica muito mais clara quando discutimos os exemplos das máscaras. De fato, muitas culturas
utilizam máscaras em seus rituais costumeiros, no entanto, um antropólogo evolucionista que observasse esse costume,
logo consultaria sua tabela evolutiva, procuraria qual o patamar da evolução apresenta a característica do uso de
máscaras e, logo entenderia que esses grupos estavam nesse mesmo estágio cristalizado de evolução. Em contraponto,
Boas levanta um questionamento importante: Qual é o sentido do uso de máscaras para o nativo? Alguns podem usá-la
para representar seus mortos em uma espécie de rito funerário, outros podem representar os espíritos em espécie de
celebração religiosa e, outros ainda, como os europeus, podem usá-las como representação artística no teatro. Depois
que Boas começou a critica o método comparativo no final do século XIX, esse método acabou perdendo a força e hoje
não existe mais da mesma forma como antes.

50
III. A antropologia de gabinete

A fim de compreender a diversidade humana, a antropologia atual utiliza-se do método


do trabalho de campo no qual viajam até os grupos que desejam entender e compartilham sua
vivência e os seus rituais, em seguida, escrevem suas impressões científicas para tentar entender “o
outro”, chegando, na maioria das vezes, em conclusões sobre si mesmos. No entanto, não era isso
que os antropólogos evolucionistas faziam (exceto Morgan, que antes da morte de sua filha,
realizava viagens até os povos iroqueses), a maioria deles trabalhava em seus próprios gabinetes
universitários organizando e interpretante os relatos e informações coletadas por
comerciantes e missionários (atores sociais que não se preocupavam com a cultura nativa, somente
com aquilo que consideravam verdade para eles mesmo) sobre a vida dos nativos de outras
populações. Agora, se lembramos que a própria ciência estava permeada por um preconceito
arraigado, como podemos ver no darwinismo social, imaginem o quanto superficiais e vazias eram
as informações que vinham de pessoas que tinham viajado para esses grupos com um único intuito:
vender suas ideias, seja em forma de comércio mesmo, ou em forma de catequização. No
entanto, não podemos negligenciar o fato dos evolucionistas terem dedicado muito tempo de suas
vidas para organizar e catalogar tais informações que puderam ser hoje analisadas com menos
arbitrariedade, porém, caso não houvessem sido coletadas por eles no século XIX, talvez jamais
poderiam terem sido utilizadas como material para as teorias contemporâneas se fundamentarem.

Etnocentrismo

Toda a atitude de julgar ou entender os valores, princípios e visão de mundo da cultura


alheia por meio dos próprios valores, princípios e visão de mundo da cultura observadora pode
ser denominado como um comportamento ou análise etnocêntrica. O sujeito etnocêntrico
geralmente assume imediatamente que os costumes do “outro” estão equivocados, são macabros e
heréticos, até chega ao ponto de pensá-lo como não sendo humano. Quando os colonizadores
europeus (para ser mais específico, os espanhóis depois os portugueses) chegaram na América
(principalmente na América do Sul) e tiveram seu primeiro contato com os nativos, o primeiro
pensamento que surgiu em suas mentes foi o estranhamento, o horror (aos rituais antropofágicos
dos povos tupinambas ou ao sacrifício humano dos astecas e maias) e, se perguntavam: serão “eles”
seres humanos como nós, ou demônios40? Os indígenas, por sua vez, ao olharem aqueles homens
40
Existe um trecho do filme Pocahontas – o encontro de dois mundos (1995) no qual é cantado a música Bárbaros, em
que, por sua vez, é possível observar claramente o etnocentrismo do colonizador para com o nativo e vice-versa .
O livro de literatura de Daniel Dofoe, Robinson Crusoé, é muito ilustrativo para mostrar a visão etnocêntrica do

51
montados em cavalos, enxergavam uma coisa só e se questionavam que seres são esses com seis
patas e duas cabeças? Portanto, o etnocentrismo é uma atitude geralmente comum entre duas
populações que nunca se viram e desconhecem completamente os costumes uns dos outros,
mesmo assim, é um forma muito perigosa e enganosa de se entender a diversidade humana,
por isso, os antropólogos (como a maioria das ciências no momento de estudar algo completamente
novo) buscam se afastar de atitudes etnocêntricas.

Relativismo cultural

O antropólogo alemão Franz Boas desenvolveu a ideia de relativismo cultural que consistia
em nos despir completamente dos nossos valores e crenças no momento que conhecemos uma
população totalmente distinta da nossa41. Após o afastamento da nossa própria cultura, deve-se
compreender a cultura do outro naquilo que ela é, descrevendo-a segundo os seus próprios
interlocutores. Isso foi realizado pelo famoso anarquista e antropólogo Pierre Clastres (1934 –
1977), quando estudou os indígenas da América e constatou que eles não tinham Estado. Entretanto,
foi perspicaz o suficiente para entender que ao afirmar o fato dos nativos “não terem Estado”, seu
pensamento estava atuando de forma etnocêntrica, como se todas as civilizações precisassem
desenvolver o Estado, tal como, fizeram os europeus. Partindo dessa epifania, ele escreveu seu
livro a A sociedade contra o Estado, onde descreve a vivência nativa que optou por uma
formulação diferente da europeia, sem a necessidade das instituições ocidentais.

Culturas

Antes de mais nada, precisamos começar a discussão refutando a tese evolucionista que
afirma existir somente uma cultura: a cultura europeia. Na realidade, existem inúmeras
culturas, cada uma delas possui suas especificidades e não é possível nem justo classificá-las entre
mais ou menos desenvolvidas, elas possuem ritmo e evolução próprias, o que impossibilita traçar
qualquer tentativa de padronizar um tipo de evolução específica pela qual todas as culturas

europeu frente o indígena antropofágico (“canibal”).


41
Embora possa parecer difícil e muitas vezes complicado fazer esse exercício de afastarmos dos nossos valores e
crenças na hora de entender o outro, é preciso entender que isso é um método de pesquisa científica para o estudo de
culturas distintas. Não podemos utilizar o relativismo para pensar no nazismo ou no fascismo, pois estes
comportamentos não são visões de mundo de culturas distintas da nossa, são problemas sociais frutos de períodos
históricos e de ideologias criadas pela própria sociedade ocidental, portanto, precisam serem criticados clara e
rigorosamente. O nazismo não aceita a possibilidade da diferença humana, por isso, não é possível utilizamos do
relativismo cultural (o qual procura privilegiar e entender a diversidade entre os homens e mulheres) para estudar esse
tipo de pensamento desumano e preconceituoso.

52
supostamente deveriam passar. Nesse sentido, a cultura pode ser entendia como uma relação
contraditória entre totalidade e particularidade, pois, por um lado, representa todos os aspectos
sociais da vida humana, tais como: a economia, a religião, a política os costumes, entre outras
características próprias e variantes de civilização para civilização. Por outro lado, fundamenta-se
por meio do modo específico de cada sujeito agir, pensar e sentir 42. Além disso, a cultura diz a nós
mesmos quem somos e nos abre um leque de possibilidades, por exemplo, somos brasileiros, nossa
diversidade social é muito rica, cada região do nosso país tem costumes diferentes e nossa realidade
enfrenta o grande problema da desigualdade social. Contudo, ao mesmo tempo, quando digo que
sou brasileiro, estou afirmando que não sou argentino, nem peruano nem norte americano.
Numa palavra, ao mesmo tempo que a cultura produz sentimento de pertencimento e
integração, ela também gera sentimento de estranhamento e exclusão. Por fim, nossa discussão
sobre a cultura termina depois de compreendermos duas de suas principais características:

 A cultura é sempre dinâmica, ou seja, está sempre em transformação, ao ponto de uma


tradição hoje ser completamente distinta da sua origem passada.

 A cultura é inalienável, segundo Franz Boas, não existe dominação cultural ou aculturação,
apenas existe intercambio cultural, no entanto, o intercambio pode ser mais ou menos
desigual isso varia muito de acordo com o grau de resistência cultural43.

AULA 20 E 21:
Diversidade humana (segunda aula)

Na última aula descobrimos que o ser humano é um ser cultural, ou seja, que as formas
como ele pensa, sente e age são tanto determinadas por seu contexto histórico-cultural quanto
por ele podem ser transformadas. Além disso, criticamos a forma preconceituosa pela qual a
diversidade for tratada no século XIX pelos cientistas evolucionistas, cuja análise classificavam as
42
Se assistirmos a animação Como treinar o seu dragão (2010) é possível entender como uma característica específica
de um membro do grupo cultural (no caso do filme os vikings) mesmo atuando de forma quase que totalmente contrária
a cultura pode, com o tempo, levar a cabo a transfonação completa da cultura como um todo.
43
Ao analisarmos os exemplos do importante antropólogo marxista Marshall David Sahlins (1930), podemos perceber
que o contado entre os Havaianos e os colonizadores foram desiguais pendendo mais para o lado do invasor, pois, o
costume havaiano do potlatch (grandes festas rituais, nas quais se queimava tudo que era mais valioso, em beneficio aos
deuses e em pedido de prosperidade divina) acentuou a compro dos manufaturados ocidentais, que seriam utilizados nas
suas celebrações rituais. Entretanto, no caso dos chineses aconteceu o inverso, o colonizador teve dificuldade no
intercambio, pois, o povo chinês considerava-se superior a todos os outros povos, então quando os ingleses tentavam o
contado e a dominação, os chineses exigiam tributos e entendiam a Inglaterra como se fosse uma população que deveria
servir ao imperador chinês.

53
diversas populações que habitaram e que ainda habitam o globo terrestre como mais ou menos
evoluídas, isto é, classificavam preconceituosamente as culturas como superiores e inferiores. Nesta
aula, nos debruçaremos sobre dois aspectos preconceituosos do pensamento daquela época, a saber:
o determinismo geográfico e o determinismo biológico. Munidos deste conhecimento,
compreenderemos os fundamentos históricos da descriminação e do racismo e seremos capazes de
lutar para superá-los.

Determinismo geográfico

O cientista que fundou o determinismo geográfico, foi o alemão Friedrich Ratzel (1844-
1904). Ratzel não utilizou o termo determinismo geográfico, porém acreditava que o
comportamento humano era determinado de forma absoluta pelo meio físico em que nasceu,
por causa disso ficou conhecido como o “pai do determinismo geográfico”. A doutrina que
classificava de um lado as pessoas que vivem em climas quentes como propensas a serem
preguiçosas, lentas e vagabundas e, de outro lado, àquelas que viviam em climas frios como
determinadas, rápidas e ávidas ao trabalho é um exemplo claro de determinismo geográfico.
No entanto, para além disso, precisamos ter em mente que este tipo de pensamento justificou três
processos históricos autoritários, violentos e exploradores. O primeiro deles tinha como objetivo
justificar a colonização do Novo Mundo (leia-se América) durante o século XVI, pois o indígena
americano que vivia em climas tropicais era visto como vagabundo, preguiçoso e desregrado pelo
europeu que, por sua vez, vivia em climas frios, o que, supostamente, garantia ele o patamar do
conhecimento, do trabalho, mas acima de tudo, o direito de levar a ciência e a política a quem, do
ponto de vista europeu, não conhecia. Em poucas palavras, para os deterministas geográficos, todas
as populações que viviam em climas quentes eram inferiores, enquanto as que viviam em climas
frios (populações que convenientemente correspondiam ao local de nascimento destes cientistas)
eram consideradas não só superiores, mas, como se isso não bastasse por si só, também
acreditavam estar dotadas da missão de levar o desenvolvimento às populações ditas
inferiores ou primitivas. O segundo processo é muito parecido com o primeiro, porém aconteceu
durante o século XIX e no continente africano, ficando conhecido como neocolonealismo. O
terceiro processo, aconteceu durante a segunda guerra mundial e ficou conhecido como nazismo.
Os nazistas acreditavam que o ambiente físico no qual nasceram produziu uma raça humano
superior e, impregnados por esse preconceito, julgaram que ninguém que fosse diferente deles
deveria viver. No Brasil, o autor que mais influenciou esta corrente foi Euclides da cunha,
principalmente na primeira parte do seu livro Sertões, denominado “A terra”. Felizmente,

54
através de muita crítica e autocrítica a ciência conseguiu se livrar de tais formas
preconceituosas de se enxergar a diversidade humana.
O ambiente físico determina alguns dos nossos comportamentos e pensamentos, no
entanto, está determinação é relativa e não absoluta tal como pensavam os deterministas
geográficos. Por exemplo, o clima quente do nosso país condiciona ele a certo tipo de alimentação
e vestimentas, no entanto, nada impede que usemos roupas quentes em pleno verão, tais como
ternos, blazers e paletós por acharmos eles elegantes para ir ao trabalho. Nada nos impede de
cultivar alimentos que não crescem em nosso clima, fazendo adaptações para simular o clima frio
no qual eles se originaram. Em síntese, todas as populações são determinadas pelo ambiente
físico, mas também são perfeitamente capazes de transformar estas determinações e, até
mesmo, vencê-las.

Determinismo biológico (primeira aula)

Os principais representantes das teorias deterministas biológicas são o francês Arthur


Gobineau (1816 – 1882) e o sanitarista italiano Cesare Lombroso (1835 – 1909). Para tais
cientistas, as características físicas de cada pessoa, resultado de herança genética, determinam
suas formas de pensar, sentir e agir. Estes autores definiram o conceito de raça como um grupo
dotado de características físicas, psicológicas e culturais que poderiam ser classificadas em
superiores ou inferiores. Tais teorias são chamadas de eugênicas, pois partem dos pressuposto que
existe uma espécie de “raça superior” a todas as demais e, como se isso não bastasse por si só,
ainda se definem, convenientemente, que a sociedade na qual vivem e a raça da qual fazem parte
estão na condição máxima de superioridade. A noção de raça e de pureza racial atualmente é
entendida como uma ideia racista e condenável, mas durante a segundo guerra mundial, os alemães
nazistas usaram destas teorias para defender que os alemães eram a raça superiora e todo o mundo
devia ser exterminado até que sobrasse apenas o que eles chamavam de raça ariana. Miscigenação.
Segundo Gobineau, existiam somente três raças, isto é: branca, negra e amarela, qualquer
variação na tonalidade da pele que se diferenciasse destas três era considerada como uma espécie de
degeneração fruto da miscigenação. Para ela, a raça branca era superior e as outras duas e
deveria, portanto, ajudá-las a se desenvolver. Esta suposta “ajuda” se manifestou por meio da
exploração e destruição de boa parte dos continentes americano e africano pelos europeus.
Essa teoria produziu aqui no Brasil o fenômeno do branqueamento, isto é, a política racista
assumida pelo Estado que desejava, através da miscigenação, tornar o nosso país majoritariamente
constituído por brancos. As medidas que o Estado tomou na época para realizar este projeto

55
racistas foi estimular a imigração de europeus e impedindo que a população negra brasileira
pudesse ingressar no mercado de trabalho e frequentar ambientes públicos. Os principais
autores brasileiros que defendiam o branqueamento foram Nina Rodrigues e Oliveira Vianna. Os
teóricos do branqueamento enxergavam a população negra como resultado do atraso do país
quando, na realidade, era o seu pensamento racista que mantinha o nosso atraso.
Segundo Lombroso, a análise da estrutura física do corpo e a organização e forma dos
órgãos internos, principalmente do cérebro, poderiam determinar se uma pessoa se tornaria
um criminoso ou um grande intelectual, bem como poderia dizer se a pessoa pertenceria a
uma suposta “raça inferior” ou “superior”. Tais estudos eram eminentemente racistas, pois
consideravam que a estrutura física e os caracteres fenótipos da população, tais como a cor da pele,
o tipo do cabelo, entre outros, eram interpretados como características de pessoas sujeitas ao crime
e a inferioridade. Contudo, grande surpresa tiveram os adeptos racistas desta teoria quando
aplicaram os testes que Lombroso criou no próprio Lombroso quando este faleceu e chegaram
a conclusão de que ele possuía as características de uma suposta “raça inferior”. Até hoje o
pensamento racista de Lombroso persiste no senso comum, quando as pessoas dizem “aquela
pessoa tem uma cara de bandido”. Por isso a luta contra o racismo precisa ser levada a sério e
todo dia. Para finalizar, por hora, deve ficar claro que não existem raças, nem superiores nem
inferiores, existe apenas a raça humana, ou melhor, a espécie humana o homo sapiens, e dentro da
nossa espécie existe muita diversidade que devemos respeitar. Além disso, o homo sapiens surgiu
na África!

Desafios de nossa época (segunda aula)

Preconceito, descriminação e segregação são três conceitos distintos. O preconceito


geralmente produz a discriminação e a segregação, podendo se manifestar de diversas formas,
por exemplo como preconceito de classe (rico > pobre), de gênero (homem > mulher), étnico
(branco > negro), etc. Os três conceitos supracitadas intensificam a desigualdade social. Nenhuma
sociedade sustentável se baseia no preconceito, na descriminação e na segregação, em vez disso,
partem do pressuposto da existência de direitos e deveres de todos os cidadãos e do respeito a
diversidade social. Por isso, é necessário investigar as origines destes processos nocivos e, na
medida do possível procurar superá-los.
Preconceito

Todo julgamento ou atitude negativa ou pejorativa direciona a uma pessoa ou a um

56
grupo de pessoas que pensa ou age culturalmente de forma distinta daquele que está julgando
é preconceito. A base do preconceito é o estereótipo – ou seja, uma interpretação geral e
superficial das características ou comportamentos de um grupo ou pessoa – e o julgamento prévio
– isto é, juízo que não surge da pesquisa e muito menos de uma análise profunda. Poucas sabem,
mas todo tipo de preconceito é considerado crime pela constituição brasileira, no entanto, o
fenômeno do preconceito está muito enraizado em nossa cultura, pois sempre que nos deparamos
com uma atitude preconceituosa, o preconceituoso afirma estar só brincando, que fez uma simples
piada. Este é um grande problema e temos de trabalhar em nós mesmos o preconceito, caso
almejemos deixar uma sociedade mais sustentável para nossos descendentes.

Descriminação

Discriminação consiste na negação da igualdade de tratamento entre pessoas ou entre


grupos sociais. A discriminação sempre se manifesta, dentro de uma relação social, quando uma
das partes é privilegiada, enquanto a outra é prejudicada. O preconceito geralmente causa
discriminação. Em poucas palavras, é o que a população denomina como “usar dois pesos e duas
medidas”. Um exemplo claro de discriminação é o fato de as mulheres receberem menos do
que os homens, mesmo quando ambos realizam a mesma função. Esta discriminação está
pautada no preconceito de que os homens são mais capazes, mais fortes ou mais eficientes do
que as mulheres. Outro exemplo, é o fato de um policial dar geral em um grupo de amigos, em que
a maioria deles sejam negros, enquanto não dá geral em um grupo de amigos, no qual a maioria
deles são brancos. O preconceito que embasa a ação do policial é de que os negros são mais
propensos ao crime do que os brancos.

Segregação

A segregação pode ser entendida como o levantamento de uma barreira (física ou


social) que explicita a vantagem de um grupo e desvantagem de outro. Geralmente é uma
prática consciente e realizada pelo Estado e por instituições privadas. O exemplo mais claro de
segregação é a segregação racial, denominada apartheid que aconteceu tanto nos Estados
Unidos, quando na África do Sul. Em governos nos quais houve apartheid, existiam leis
específicas que separavam as populações negras das populações brancas. Por exemplo,
existiam banheiros nos quais somente negros poderiam usar e outros que eram destinados aos
brancos. Ao pegar transporte público os negros precisavam sentar nos acenos finais, enquanto os

57
brancos ficavam com os da frente. Existiam também bairros e universidades para negros e bairros
chiques e universidades de renome que aceitavam somente pessoas brancas. Contudo, não
precisamos ir tão longe para entender a segregação social, no Brasil e em outros países capitalistas,
os trabalhadores e pessoas em situação precária de vida, são forçadas a morar nas periferias e nos
conjuntos habitacionais, enquanto os capitalistas e outras pessoas que tem uma condição financeira
favorável moram no centro ou perto da praia, ou em dominiosos fechados e de luxo. A segregação
se mostra também no acesso aos direitos básicos do cidadão, tais como saúde, educação e
transporte. Todos estes direitos dificilmente são acessíveis aos trabalhadores e moradores das
periferias. Este tipo de segregacionismo não se manifesta através de muros de concreto e leis
racistas, mas se mostra na própria estrutura da sociedade que separa quem produz a riqueza
de um lado e quem sofre com a desigualdade de um lado, e quem enriquece do trabalho e da
miséria alheia de outro.

Racismo

Todo e qualquer tipo de preconceito, discriminação ou segregação que for realizado


contra uma pessoa ou um grupo social por causa da sua origem cultural é denominado como
racismo. O racismo é um crime no Brasil. O racismo é uma ideologia, ou seja, é um conjunto de
ideias que pertence às classes dominantes em nossa época que, por sua vez, procuram se tornar
universais, ou seja, se reproduzirem como se pertencessem a todas as classes sociais, como se todos
devessem pensar, sentir e agir da mesma forma que os grupos que estão no poder e que são
preconceituosos, racistas e opressores. Nesse sentido, quando reproduzimos a ideologia das classes
dominantes, acreditando ser a nossa ideologia, desenvolvemos uma falsa consciência da realidade
sócio-histórica, perdendo de vista que os interesses dominantes podem ser questionados e até
derrubados em prol dos interesses das classes sociais oprimidas. Temos de nos orgulhar de nossas
origens culturais e lutar sempre contra o preconceito. O racismo é um grande problema em
nosso país, e precisa ser combatido diariamente.

Atividade (segunda aula)

1 – Descreva alguns elementos do seu cotidiano.


2 – Você acha que o seu ambiente influencia em seu comportamento? Explique sua resposta.
3 – Você pode influenciar sua realidade? Explique sua resposta.

58
AULA 22 E 23:
Culturas (primeira aula)

Em nossas últimas aulas nós compreendemos as formas preconceituosas que a ciências se


pautou para entender a diversidade cultural durante o século XIX. Nesta época, de modo resumido,
podemos dizer que os cientistas não compreendiam a existência de inúmeras culturas, em vez disso,
acreditavam que existia apenas uma cultura, a europeia/estadunidense. Acreditava-se que existia
apenas uma forma de pensar, sentir e agir correta, apenas um movimento possível: o progresso
capitalista. Contudo, felizmente, esta forma preconceituoso e etnocêntrica de se pensar foi vencida
por conta da luta por reconhecimento levada a cabo por inúmeras culturas. Isso se somou aos
cientistas que se arriscaram ao criticar o preconceito e o racismo contido nas teorias evolucionistas
e deterministas. Durante o século XIX, se acreditava não só na superioridade da cultura
europeia e anglo-saxã, mas também que estas populações eram representantes de “raças
puras”. Na realidade, atualmente nem utilizamos mais o termo raça, por conta do racismo que este
termo está impregnado. Atualmente, percebemos que existem muitas culturas na Terra e, para além
disso, todas as culturas, durante a história, trocaram informações, experiências conhecimentos e
linhagens familiares entre si. Por isso, não há como pensarmos em “raças puras”, pois todas as
culturas se miscigenaram tanto genética como culturalmente em algum momento da história.
Não existe isolamento cultural na história da humanidade. Segundo as reflexões do antropólogo
Claude Lévi-Strauss (1908 – 2009), cometemos o erro de achar que nossa cultura é melhor do que
a dos outros, porque a forma como pensamos se assemelha a de uma pessoa dentro do trem A
que olha pela janela e enxerga outra pessoa que está dentro do trem B. Vale ressaltar que
ambos os trens estão na mesma velocidade e movem-se para o mesmo sentido. Do ponto de
vista da pessoa que olha de dentro do trem A, qualquer passageiro do trem B aparenta estar
estagnado, enquanto ela própria (observador do trem A) sabe que está se movendo. Se mudarmos o
ponto de vista do observador do trem A, para o passageiro do trem B, o mesmo processo
acontece, só que em sentido contrário, ou seja, agora o observador do trem B tem a impressão de
que os passageiros do trem A estão estagnados, enquanto, ele mesmo, acredita que está se movendo.
O mesmo acontece com a cultura, acreditamos que só nossa cultura progride, enquanto as
outras estão paradas no tempo, quando, na realidade, todas as culturas se movem de forma
equivalente, mesmo que, geralmente, tomem rumos diferentes e divergentes.
Outro aspecto importantíssimo de esclarecer é o fato de que toda cultura é derivada, ou
melhor, miscigenada e formada por intercâmbios de experiências, conhecimentos e até de linhagens
familiares. Por exemplo, façamos a nós mesmos as seguintes perguntas: Qual é o esporte favorito

59
dos brasileiros? A resposta provavelmente seria o futebol, mas o futebol é um esporte inglês que se
popularizou entre nós. Outra pergunta: Qual é a nossa língua? Português, mas o nosso português
não é o mesmo falado em Portugal, nem é igual àquele que é falado em outras colônias portuguesas,
mas é uma linguagem propriamente brasileira que mescla a forma de falar de todas as culturas que
aqui habitam: indígena, africana e europeia (portuguesa). Qual é sua comida favorita? Pizza,
surgiu da Itália; macarrão, foi uma invenção dos chineses; arroz e feijão; o arroz é de origem
oriental e o feijão é indígena. Enfim, tudo que conhecemos é fruto de intercâmbio cultural,
portanto não é só a cultura que é importante para a sobrevivência do ser humano, mas todas
as culturas de todos os povos. Evidentemente, existem culturas que tentam dominar e destruir
outras, mas é também importante conhecê-las para poder vencê-las.

Noções de cultura

Etimologicamente, cultura é um verbo em latim que significa cuidar do campo, cultivar


plantas, entre outras atividades agrícolas. Atualmente o termo é interpretado de forma mais
ampla, para tudo áquilo que o ser humano cultiva, através do seu próprio trabalho, e deixa
como herança para as novas gerações. No entanto, existem várias definições de cultura, algumas
apropriadas, outras nem tanto. O senso comum, por exemplo, costuma definir de forma equívoca
cultura como qualidade de quem tem muito conhecimento: “ele estudou na universidade, por isso
tem cultura” ou “aquela pessoa só fala besteira, ela não tem cultura”. Quando pensamos em arte,
também nos vem à mente a cultura, por exemplo, quando imaginamos o teatro, o cinema e os shows
musicais, pensamentos em tais manifestações como eventos culturais. Além disso, também se fala
de cultura quando lembramos de algo que supostamente é característico de uma nação, por
exemplo, a paixão pelo futebol é um elemento central da cultura brasileira.
A ciência também esbarrou nas barreiras do equívoco quando tentou explicar as diferenças
entre populações humanas através das características físicas do meio ambiente e biológicas dos
seres humanos. Tais teorias pseudocientíficas ficaram conhecidas como determinismo geográfico e
biológico, bem como foram estudadas por nós na aula passada. Através da crítica a ciências
constatou que as diferenças entre os seres humanos não podem ser simplesmente explicadas com
base nos aspectos do meio ambiente em que vivem ou nos aspectos biológicos de seus corpos. Em
vez disso, as diferenças humanas se manifestam no campo das relações sociais que estabelecem
entre si. Nesse sentido, são as experiências, conhecimentos e escolhas que os ser humanos
tomam em suas respectivas comunidades que os diferenciam, tanto os seres humanos uns dos
outros, quanto as comunidades umas das outras.

60
A primeira definição que a ciência desenvolveu a esse respeito foi criada por Edward Tylor
(1832 – 1917), que pensava a cultura como: complexo que inclui conhecimentos, crenças, arte
moral, leis, costumes ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem enquanto
membro de uma sociedade. Contudo, Tylor também caiu no limbo do preconceito científico ao
imaginar que existiria apenas uma cultura: a cultura europeia, e entendeu que todo a
diversidade humana resumia-se a selvageria e barbárie que um dia evoluiria até chegar a
condição da cultura europeia.
A compreensão verdadeiramente científica da cultura apenas se desenvolveu no final do
século XIX, a partir das críticas do antropólogo Franz Boas (1858 – 1942) a Tylor, chegando a
conclusão de que não era possível classificar as diversas populações humanas em superiores e
inferiores. Fazer isso, terminava por comparar o incomparável, pois cada cultura tem uma
história e costumes próprios. Para exemplificar sua tese, o autor utiliza-se do costume do uso de
máscaras que acontece tanto na América, quanto na África quanto na Europa. Os andígenas
americanos utilizam máscaras para representar os deuses, já os africanos utilizam-se delas para
representar seus espíritos ancestrais e os europeus as utilizam no teatro para representar
personagens fictícios. Cada cultura atribuiu um significado a suas práticas e elas não devem
ser classificadas em nenhum tipo de escala evolutiva, pois cada uma tem sua evolução própria.
Outra importante contribuição foi a de Bronislaw Malinowski (1884 – 1942) que fundou o
trabalho de campo, ou melhor, a prática científica da observação participante, a prática de
observação da cultura estudada, na qual o antropólogo vive e compartilha das experiências da
cultura que está estudando.
O antropólogo estadunidense Clifford Geertz (1926 – 2006) pensava na cultura como um
sistema de símbolos que cabia ao cientista interpretar seus significados, em vez de ficar procurando
desenvolver leis comportamentais, tais como faziam os outros antropólogos. Por exemplo, quando
analisamos a prática social do sorriso, percebemos que existem várias formas de se sorrir,
existe um sorriso que indica alegria, existe o sorriso malicioso de desejo, existe a gargalhada,
entre outros. O que pode gerar um sorriso cômico em uma cultura pode representar uma ofensa
gravíssima em outro, por isso é muito importante interpretar as ações sociais.
O antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, entendia a cultura como um sistema simbólico
fundamentado por uma estrutura, um aspecto presente em toda a cultura, mas cuja consistência
viria de cultura para cultura. O antropólogo então deveria estudar estas estruturas para
compreender com cada cultura atribui significado a seus símbolos. Um exemplo claro de
estrutura era a proibição do encesto, todas as culturas na face da terra proíbem o incesto, mas
cada uma delas concebe a restrição de uma forma. Alguns pensam que haverá uma punição

61
divina, outros acreditam que o castigo aparecerá nos filhos. No entanto, existem culturas que
aceitam o casamento entre parentes de primeiro grau e condenam os casamentos entre membros de
diferentes linhagens para perpetuar uma linhagem sanguínea entendida como real ou sagrada.

Cultura versus instinto (segunda aula)

Já estudamos em aulas passadas que aquilo que distingue o ser humano da existência bestial
é o fato dele produzir cultura, isto é, sua capacidade de transformar a natureza. No entanto, nesta
aula estamos analisando um aspecto importantíssimo da cultura, isto é, a produção de símbolos e
transmissão deles de uma geração à outra. Contudo, os animais também não são organizados por
símbolos? Na realidade, os animais são regidos por sinais, ou seja, formas biológica e
geneticamente determinadas pela natureza, das quais os animas lançam mão para se comunicar uns
com os outros, por exemplo, o sonar dos morcegos ou o uivo dos lobos. Assim, se retiramos um
animal silvestre do seu habitat e colocarmos em outro ele agirá da mesma forma que a sua
natureza o determinou. Contudo, nós, seres humanos, respondemos a símbolos socialmente
programados, portanto, se acabarmos afastados da nossa cultura de origem quando crianças,
desenvolveremos a cultura do grupo que nos criou.
O ser humano se distingue dos animais porque tem consciência das determinações da
natureza e a todo momento procura superá-las, ou seja, o ser humano é capaz de se entender o
que significa ser um ser humano, refletindo sobre sua existência e sobre sua contribuição ao
mundo que vive. Em síntese, nós sempre nos perguntamos quais são as nossas limitações e como
podemos superá-las? Os lobos não se questionam por que são lobos, eles nem se quer chegam nessa
reflexão, eles são lobos tais como a natureza os fez e respondem as suas determinações naturais. Os
lobos, bem como qualquer outro animal, exceto os seres humanos, agem de acordo com suas
determinações biológicas e fogem de tais regras somente por influência externa do ambiente.
Outro aspecto importantíssimo do ser humano é a teleologia, isto é, o ser humano é o único
animal que é capaz de projetar em sua mente a ação que deseja realizar antes mesmo de fazê-
la. Mesmo que isso acontece de maneira rápida. “Porém, o que desde o início distingue o pior
arquitetos da melhor abelha é o fato de que o primeiro tem a colmeia em sua mente antes de
construí-la com a cera” (MARX, 2013, p. 255 – 56). Nesse sentido, o ser humano sempre interage
com a natureza de forma a transformá-la de acordo com suas necessidades, ele cria uma segunda
natureza, uma natureza humana, uma cultura.
O instinto existe no ser humano, mas não exerce influência decisiva como acontece
entre os animais, por exemplo, um animal tem sua dieta limitada por instintos naturais, ou

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seja, àquilo que ele come é determinado pela natureza. Provavelmente, se você alimentá-lo com
alguma outra coisa diferente do que ele está acostumado vai comer, no entanto, seu organismo está
estruturado para caçar determinadas presas e se alimentar de carne crua. Todo instinto que o ser
humano tenha em sua carga genética, ou toda determinação natural, tal como fome, frio, cede,
cansaço, entre outros, são realizadas culturalmente pelos seres humanos. Por exemplo, cada
cultura tem sua culinária própria, nos vestimos roupas que podem ser derivadas do mundo animal
ou vegetal, bebemos aguá encanada e não diretamente no rio, e assim por diante. Para finalizar
nossa reflexão, desmistificaremos dois grandes instintos que o senso comum acredita influenciarem
bastante o ser humano, são eles o instinto de sobrevivência e o instinto materno. Se lembrarmos
dos camicases japoneses na Segunda Guerra Mundial, provavelmente perceberemos que não
existe nenhum mecanismo instintivo poderoso o suficiente para em pedir que o ser humano tira a
própria vida. Se voltarmos no tempo, os samurais japoneses também tinham uma prática parecida
com a dos camicases, chamada de seppuku, consistia na forma ritual de um samurai tirar a própria
vida quando cometia um crime que manchasse a honra do seu clã. O instinto materno é tão
questionável quando o de sobrevivência, por exemplo, entre muitos indígenas americanos
existe a prática do infanticídio, que consiste no assassinato da criança que nasce com algum
defeito físico, ou que ultrapassa o limite imposto pelo controle de natalidade. Aliás, o infanticídio
também acontece nas metrópoles ocidentais quando os casais têm filhos indesejados e os
violentam com falta de carinho, tortura psicológica e física, tal como pode ser constatado na
música Eu não pedi pra nascer, do grupo facção central.

Características do conceito de cultura

Podemos refletir sobre cinco características fundamentais da cultura.


Em primeiro lugar, uma das principais características da cultura é o seu caráter
simbólico, ou seja, suia capacidade de gerar signos que possuem significados culturais. Por
exemplo, na cultura ocidental a cor vermelha, dentre outros significados, comumente está associada
à atenção e à proibição, tanto que quando a enxergamos em uma placa de trânsito logo percebemos
que naquele local há algum tipo de restrição. Além disso, quando vemos a cor vermelha em um
semáforo, sabemos que precisamo parar. Em nossa cultura, existem uma infinidade de símbolos
que contém significados diferentes e que são interpretados diariamente por nós. Seu madruga
explicando o que o signo da caveira representa, estava explicando a importância dos símbolos
para uma cultura.
Em segundo lugar, outro aspecto importantíssimo da cultura é seu caráter social, não

63
existe cultura individual, por isso também não é possível afirmar que “alguém não tem
cultura”. Todas as nossas formas de agir, pensar e sentir são compartilhadas com um grupo ou
comunidade da qual fazemos parte. A cultura sempre será referente a um grupo, por exemplo, a
cultura dos indígenas tupi-guarani, a cultura rock, a cultura funk, a cultura sertaneja, a cultura
brasileira, entre outras.
Em terceiro lugar, a cultura é sempre dinâmica, mas, ao mesmo tempo, aparenta ser
estática. De fato, jamais existiu uma cultura estagnada no tempo, pois a todo momento,
mesmo que de forma imperceptível as culturas são transformadas pelo ser humano. No
entanto, como já discutimo, um membro de uma cultura pode achar que outra cultura ficou
congelada no tempo, ou um membro da própria cultura pode achar que sua sociedade não se
modificará mais, pois acredita que ela aparenta estar segura do jeito que está no momento. Existem
dua formas de as culturas se transformarem: no âmbito interno e no âmbito externo. No
primeiro sentido, a mudança acontece por meio de um indivíduo ou grupo restrito que vai de
encontro com alguns padrões estabelecidos pela cultura, assim, é demasiado difícil de acontecer e
leva muito mais tempo para conseguir modificar a cultura como um todo. Em exemplo claro
foi a luta tratamento igualitário entre homens e mulheres, que até hoje não terminou, e vem
transformando nossa sociedade aos poucos. No segundo sentido, a mudança se manifesta através de
intercâmbio cultura com outras culturas, logo, as transformações acontecem de forma mais
generalizada e com muito mais rapidez do que as transformações internas. Um exemplo, pode
ser o contato com a cultura dos fast foods e dos filmes de Hollywood que vem dos Estados Unidos e
tenta se hegemonizar em todo e qualquer lugar do mundo.
Em quarto lugar, toda cultura é seletiva, ou seja, dentre a infinidade de possibilidades de se
comportar, pensar e agir frente ao mundo, o grupo social ao qual pertencemos escolheu certas
práticas que considerou socialmente aceitáveis. A seleção de aspectos culturais varia de
população para população e modifica-se com a história. A população brasileira, selecionou o
casamento monogâmico (seja ela heterossexual, ou homossexual) como padrão aceitável de
comportamento, já no Irã, os casamentos poligâmicos são aceitos socialmente e as uniões afetivas
homossexuais são discriminadas.
Em último lugar, a cultura é ao mesmo tempo determinante e determina, pois, por um
lado, representa uma série de aspectos sociais que condicionam a vida humana, tais como: a
economia, a religião, a política os costumes, entre outros. Contudo, por outro lado, não podemos
esquecer que tais aspectos determinantes fundamenta-se na atividade dos sujeitos sociais44 e,
44
Se assistirmos a animação Como treinar o seu dragão (2010) é possível entender como uma característica específica
de um membro do grupo cultural (no caso do filme os vikings) mesmo atuando de forma quase que totalmente contrária
a cultura pode, com o tempo, levar a cabo a transfonação completa da cultura como um todo.

64
portanto, podem ser transformadas por eles. Além disso, a cultura diz a nós mesmos quem somos e
nos abre um leque de possibilidades, por exemplo, somos brasileiros, nossa diversidade social é
muito rica, cada região do nosso país tem costumes diferentes e nossa realidade enfrenta o grande
problema da desigualdade social. Contudo, ao mesmo tempo, quando digo que sou brasileiro, estou
afirmando que não sou argentino, nem peruano nem norte americano. Numa palavra, ao mesmo
tempo que a cultura produz sentimento de pertencimento e integração, ela também gera
sentimento de estranhamento e exclusão.

AULA 25 E 26:
Karl Heinrich Marx (1818 – 1883) (primeira aula)
Um “filósofo maldito”

Antes de discutirmos as principais ideias e correntes de pensamento que influenciaram Karl


Marx em suas teorias, precisamos ilustrar como e por que ele entrou para o rol dos filósofos
malditos (leia-se clássico) 45. Primeiramente, é necessário destacar o fato de o filósofo alemão ter
um espírito extremamente crítico à sua época. Também foi um grande opositor do romantismo
alemão do século XIX, não suportava os discursos políticos daquilo que chamava de “estupidez
burguesa46” e era um autor que tinha uma maneira, ácida e irônica de escrever. Sua escrita
provocativa garantiu-lhe poucos amigos, porém, bons e verdadeiros diga-se de passagem, tais como
Friedrich Engels (1820 – 1895).
Além disso, vale ressaltar que Marx era um dos redatores do Rheinische Zeitung [Gazera
Renana]47 um jornal liberal muito crítico ao Estado Prussiano. Fundado em 1842, o jornal onde o
filósofo alemão trabalho sofreu com a censura, por conta da sua tendência crítica ao Estado e
ao fanatismo religioso impregnado na política alemã, até acabar sendo um ano depois da sua
inauguração. Por causa de sua escrita crítica, Marx foi expulso da Alemanha e teve de fugir
para a França, porém lá também o expulsaram e ele só conseguiu escrever em paz na
Inglaterra. Contudo, vale ressaltar que Marx passou muitas necessidades enquanto viveu na cidade

45
Esta é uma forma de infame de se referir aos pensadores que foram demasiadamente incompreendidos em seu tempo,
inclusive de certa forma até odiados pela maioria dos seus contemporâneos, principalmente por causa das suas ideias
críticas e contundentes aos fundamentos da sociedade de suas respectivas épocas. Infelizmente não só o presente, mas
também o futuro foi injusto com esses filósofos. Mas nós não cairemos nesse erro e iremos estudá-los a fundo.
46
Marx referencia-se a ao pensamento liberal do século XIX, ou seja, Stuart Mill, Alex de Tocqueville entre outros.
47
Jornal financiado pela burguesia liberal, cujo principal objetivo era criticar o caráter autoritário do governo prussiano,
bem como a penosa burocracia que assolava o povo alemão. Na Gazeta Renana Marx escreveu sobre a liberdade de
imprensa, sobre a crítica da história do direito e fez glosas críticas a um prussiano.

65
de Londres e precisou de ajuda de seu grande amigo Friedrich Engels para sobreviver e sustentar
sua família.

A obra

Marx também costumava elaborar seus livros sempre criticando algum pensador
especificou ou alguma corrente filosófica. Por exemplo, uma das suas obras publicadas nas
revistas para as quais trabalhou ficou conhecido como Crítica da filosofia do direito de Hegel
(1843), a fim de superar a filosofia vigente em sua época, o hegelianismo 48. Outro exemplo é a sua
célebre Contribuição para a crítica da economia política (1859), produzida para criticar a
economia política idealizada por Adam Smith (1723 – 1790), David Ricardo (1772 – 1823), entre
outros economistas clássicos.

Desigualdade X diferenças

Após conhecermos um pouco da vida e da obra de Karl Marx, antes de começarmos a


refletir sobre sua noção de classe social, precisamos deixar claro a distinção entre desigualdade e
diferença, e igualdade e indiferença. Em primeiro lugar, a sociedade moderna foi fundamentada
na tese de que todos os seres humanos são iguais, porém isso não significa que todos os sujeitos
sociais pensam, ajam e sintam da mesma maneira, ou seja, NÃO QUER DIZER QUE os seres
humanos sejam indistintos entre si. Em vez disso, quando afirmamos que todos nós somos
iguais, queremos dizer que todos nós temos, ou melhor, deveríamos ter, as mesmas condições
de acesso àquilo que foi produzido na sociedade e temos as mesmas condições para realizar
nossos sonhos. Portanto, o direito à igualdade é um pressuposto básico para que as pessoas possam
diferir, possam pensar, a gir e sentir da maneira que desejarem. Portanto, desigualdade e
diferença não só são questões diferentes, mas também são opostas. Por exemplo, em uma
sociedade desigual, as pessoas não são tratadas com igualdade, ou seja, alguns tem acesso ao que a
sociedade produz, outros não; alguns conseguem realizar seus sonhos, outros não.
Em resumo, desigualdade significa uma condição em que as pessoas não são tratadas
como iguais, ou não tem igualdade de acesso ao que a sociedade produz. O contrário de
desigualdade é igualdade. Diferença, significa que os sujeitos sociais pensam, sentem e agem de
forma diferente de acordo com sua formação. O contrário de diferença é indiferença, isto é,
quando as pessoas seguem modelos definidos de beleza ou comportamento, quando se quer ser
48
Corrente de pensamento proveniente do filósofo alemão Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770 – 1831).

66
exatamente como o outro.
A noção de classes sociais

De acordo com os estudos de Karl Marx, as sociedades europeias foram constituídas através
da contradição entre classes sociais. Classe social, na ótica de Marx, significa um conjunto de
sujeitos sociais que realizam, para com os meios de produção, ou uma relação de monopólio
ou de privação. Meio de produção é todo o instrumento ou técnica intelectual utilizado pelo
modo de produção específico de uma sociedade para gerar riqueza. E, por fim, modo de
produção é a forma pela qual uma sociedade se organiza para gerar riqueza. Por exemplo,
suponhamos que estamos analisando um sujeito que trabalha nas lavouras de trigo do seu senhor,
durante a alta Idade Média. O sujeito que trabalha do campo está privado da terra que, por sua vez,
é de monopólio do seu senhorio, portanto, este trabalhador pertence a classe social camponesa
(desprovida de terra), enquanto o senhor pertence a classe social nobre (monopolizador da
terra). O camponês utiliza-se de arados, foices entre outros meios de produção geralmente
emprestados ou alugados do senhor, e trabalha sob o modo de produção feudal, no qual a
produção da riqueza não permanecia nas mãos de quem a produzia (nas mãos dos camponeses),
mas, em vez disso, concentrava-se nas mãos de quem detinha a terra (nas mãos dos senhores de
terras).
Isto posto, precisamos deixar claro que a originalidade de Marx está não apenas na criação
do conceito de classe social, mas na descoberta de que elas se manifestam através da
contradição, ou seja, só existe a classe nobre enriquecida e ociosa, porque existe uma classe de
camponeses que sustentam os privilégios nobiliários com o suor de seus rostos. Constatando a
contradição, Marx afirma ainda que as classes estão em conflito, as classes dominadas lutando
para pôr fim a sua exploração e as classes dominantes agarrando-se com unhas e dentes em
um sistema social que garante seus privilégios e sua hegemonia no poder.

A luta de classes

Antes de estudarmos as ideias propriamente ditas de Marx e Engels, precisamos ter em


mente que eles elaboraram uma obra muito importante, na qual a maioria das suas
ideias produzidas até 1848 está resumida. Essa obra é o Manifesto do partido comunista. Baseando-
nos na leitura desse livro podemos começar a refletir sobre uma das suas primeiras ideias: “A
história de todas as sociedades até hoje existentes 49 é a história das lutas de classe” (MARX;
49
Marx e Engels estavam se referindo as sociedades que surgiram na Europa e nos países do Oriente que conheciam.

67
ENGELS, 2010, p. 40). Está frase de abertura do livro mais famoso de Marx e Engels nos
demonstra uma concepção a respeito do mundo que não só é dialética, mas também materialista,
pois ambos os autores procuravam os agentes sociais específicos que se manifestassem de forma
contraditória na história ocidental e, posteriormente, transformaram sua luta cotidiana em um
conflito direto e aberto. Em outras palavras, os autores do Manifesto elaboraram a teoria da
revolução social e da luta de classes.
Em resumo, a dialética desenvolvida por Marx e Engels é material, porque leva em
consideração a potência transformadora do trabalho (ou melhor da práxis) dos agentes sociais na
realidade história em que eles se manifestam. Além disso a dialética de Marx e Engels também é
histórica, pois busca analisar os conflitos que se desenvolveram entre os sujeitos sociais, em
diversos momentos da história, por exemplo, o conflito entre nobres e burgues durante a revolução
francesa, ou o conflito entre proletários e burgueses no capitalismo, entre outros). Portanto,
podemos entender a corrente filosófica que inspira esses autores como materialismo histórico
e dialético (ou só materialismo50 histórico).
Por fim, vale ressaltar que o foco desses filósofos na atividade material humana (muitas
vezes essencialmente econômica, por exemplo, um serviço manual, um trabalho dentro de uma
indústria ou oficina artesã, etc) NÃO NEGLICENCIA A QUALIDADE SUBJETIVA DOS
HOMENS. Em outras palavras, a perspectiva da luta de classes enxerga um processo de
mudança social que atua sobre todos os campos da vida humana 51, ainda que, sejam focalizados
as relações de produção, no momento no qual os autores elaboram suas reflexões filosóficas.

Exemplos de luta de classes:


Na Antiguidade (XXXV a. C – V d. C)

 Luta de classes na Grécia Antiga (século XI a.C – II d.C):


A luta de classes na antiga Grécia, em especial, na cidade-estado de Atenas, se expressava
por meio do conflito entre as classes proprietárias de terras (monopolizadores do prestígio e da
riqueza social) e os sujeitos por elas escravizados (os verdadeiros produtores da riqueza social).

Além disso, todas as suas informações sobre a formação históricas das populações do continente americana vinham do
antropólogo Lewis Henry Morgan (1818 – 1881), portanto, ainda eram demasiados recentes para serem associadas a
teoria da luta de classes.
50
Esse materialismo não tem nada a ver com aquilo que as correntes espíritas e exotéricas entendem por materialismo,
ou seja, não significa, em nenhum sentido, a defesa pelo prazer pelos bens materiais. O materialismo de Marx e Engels
faz uma discussão filosófica e crítica ao pensamente metafísico.
51
Tanto na vivência objetiva quanto na subjetiva; no âmbito econômico quanto no político e, assim por diante.

68
Faz-se necessário lembrar que nesta época todas as pessoas que fossem derrotadas em batalhas entre
populações ou entre cidades-estado eram escravizados. Essa tipo de contradição foi responsável
pela criação das escolas, cujo nome origina-se do grego scholé, isto é, “lugar de ócio”, nas quais
os filhos das proprietárias de terra – privilegiados pelo fato de terem muito tempo livre, uma vez
que o trabalho pesado e doméstico ficava a cargo das pessoas que foram escravizadas por eles –
foram ensinados a aperfeiçoar suas capacidades intelectivas e físicas. Assim, então, surgem os
primeiros Liceus e as primeiras Olimpíadas. Dentro desta lógica também surge espaço para o
surgimento da filosofia grega, haja vista que a sua prática requisitava muito tempo livre e esforço
intelectual, Se os sujeitos escravizados não fizessem todo o trabalho duro, talvez a filosofia não
surgiria da forma como a conhecemos, isto é, como fruto do ócio e da reflexão contemplativa.
Além do mais, as cidades-estados da Grécia Antiga, as civilizações egípcias e os impérios
babilônicas provavelmente ruiriam.

 Luta de classes na civilização romana ocidental (I – V):


A luta de classes na Roma antiga se expressava por meio do conflito entre patrícios (uma
espécie de aristocrata com exagerados ares de soberba), monopolizadores da terra e detentores do
poder político, e a plebe, a camada da população responsável pelo trabalho rural e braçal do
Império. Do embate entre essas classes surgiram medidas exploradoras e opressoras, mas
também conquistas significativas e humanas, no entanto, nossa aula se focará em somente duas
dessas consequências da luta de classes que, inclusive, refletem-se em nossa história até hoje. O
primeiro deles foi a conquista do tribuno da plebe52 e, o segundo, foi a estratégia de controle
político da população mais eficiente até então criada, a política do pão e circo [panem at
circenses53]. A contradição entre patrícios e plebeus explodiu em diversas formas de resistências, no
entanto, as mais conhecidas foram as “revoltas plebeias”, por meio das quais foram conquistados
diversa reformas políticas na civilização romana. Contudo, a forma de manifestação que mais
ameaçou a hegemonia do império Romano foi a revolta dos sujeitos escravizados, simbolizada
pela figura de Spartacus, um homem escravizado que fugiu e inspirou os demais a também
conquistar sua própria liberdade.

52
Era um magistrado, ou seja, um membro do governo, atuante no senado que visava manter a garantia dos interesses e
direitos da plebe, frente a arbitrariedade e mesquinharia dos políticos patrícios. Em outras palavras, representou uma
possibilidade história da camada mais desfavorecida participar da política e ter suas demandas atendidas , caso
isso não acontecesse eles mostravam suas forças deixando de produzir alimento e matando os patrícios de fome
53
Estratégia de manipulação poplítica da população, a qual aproveitava-se da geral falta de informações e do elitizado
processo educacional (responsável por alfabetizar somente os patrícios) para manter os plebeus sempre fiéis ao
governos, através da garantia de alimentação e divertimento e, tendo em vista, que o circo era o único divertimento da
época, tal esquema foi denominado de pão e circo.

69
No Feudalismo (V – XV)

O início da Idade Média, cujo sistema de produção era o feudalismo, pode ser demarcado
pela queda do império romano do ocidente em 476, arruinando consigo a contradição entre patrícios
e plebeus, ao mesmo tempo que inaugurava uma nova e tensa contradição social, a saber: o
antagonismo entre o do senhor feudal e seus servos. Desse embate surgem inúmeros fenômenos,
dentre os quais merece destaque a hegemonia da religião cristã católica e, consequentemente, a
primazia das suas principais instituições, por exemplo: a igreja católica, a Inquisição, as cruzadas
(XI – XIII), entre outras.
Durante toda a Idade Média foi ignorado o sentido abstrato da troca entre mercadorias,
emblematizado na concepção do dinheiro enquanto mercadoria que serve como meio
universal de troca, e o sistema produtivo estava restrito a manufatura e às famosas oficinas de
ofício, onde os aspirantes ao artesanato aprendiam sua arte por meio dos ensinamentos dos grandes
mestres artesãos. O quadro histórico começa a mudar, por conta das incursões militares
católicas (cruzadas) e ao processo de Renascimento Comercial (XIV – XV) impulsionado pelas
rotas comerciais fundadas a partir das expedições católicas em sua “guerra santa”. Tais
fenômenos possibilitaram o fortalecimento e a organização dos pequenos vendedores nômades que
se concentravam ao redor dos feudos. Essa região onde os comerciantes ficavam foi chamada de
“burgo” (daqui surge o termo usado por Marx e Engels para se referir aos grandes comerciantes
responsáveis pelo caráter explorador da realidade do século XIX, os tão conhecidos hoje como
burgueses). Esse sistema que já se mostrava obsoleto recebeu seu golpe de misericórdia, por meio
das revoluções burguesas e revoluções industriais que, respectivamente, destruíram as antigas
classes em luta (senhor feudal e servos) e o antigo sistema de produção (agrário e manufatureiro).

No Capitalismo (desde o século XVI até os dias de hoje)

Sem dúvida, o conflito de classes no qual Marx e Engels se debruçaram por mais tempo foi
aquele que se originou após a ruína do feudalismo. A luta que se formava neste momento era entre
dois agentes sociais importantíssimos: a burguesia e ao proletariado. No entanto, não podemos
nos esquecer que tais seres sociais tão contraditórios não surgiram do nada, muito pelo contrário,
são frutos do movimento dialético da história que se manifesta por meio dos processos de
revolucionamento do sistema material de produção. O proletariado, classe oposta a burguesia,
originou-se de inúmeras formas, variando de acordo com a especificidade história de cada região,

70
no entanto, o processo que ilustra mais claramente o surgimento deles é o terrível processo dos
cercamentos54 que foram levadas a cabo na Inglaterra. Por conta deste processo, milhares de
pequenos produtores foram expulsos de suas terras que, posteriormente, foram alugadas para
a burguesia rural criar ovelhas55. Nessas condições, os pequenos produtores não tiveram outra
escolha senão migar para as cidades recém-construídas, sobrevivendo unicamente através da venda
da única coisa que não tinha sido expropriadas deles, a saber: sua força de trabalho. Muitas vezes
isso não era o suficiente para sustentar sua família, por isso, tentava colocar toda a sua “prole” para
trabalhar junto com eles nas fábricas, com esperança de aumentar a renda mensal, a fim de não
passar fome. Foi assim que o termo proletariado surgiu.
Assim, surgiu um novo sistema de produção simbolizado pela máquina e pela
contradição entre burguesia e proletariado, surgia então o Capitalismo. Contudo, antes de
finalizarmos nossa discussão acerca da luta de classe na idade moderna, é preciso levantarmos duas
importantes observações:

I. O caráter essencial da burguesia


“A burguesia não pode existir sem revolucionar incessantemente os instrumentos de
produção, por conseguinte, as relações de produção e, com isso, todas as relações sociais”
(MARX; ENGELS, 2010, p. 43). A partir desta citação do Manifesto do partido comunista,
podemos destacar o fato da burguesia iniciar seu movimento de ascensão política e econômica
como uma classe revolucionária que lutava contra os privilégios e a arbitrariedade da nobreza
feudal e do clero. Vale ressalta que, para tornar a sua crítica uma verdadeira revolução social,
precisou aliar-se aos camponeses e aos artesãos. Contudo, após a derrubada de uma vez por todas
da hegemonia do feudalismo, a burguesia trai o campesinato, impedindo que a revolução fosse
levada até as últimas consequências – isto é, impediram que os seus privilégios fossem também
questionados e depois abolidos. Aliando-se novamente a nobreza (mais especificamente ao
exército) a burguesia reprime o movimento jacobino. Aqueles que contam a história a partir do
ponto de vista das classes que saem vitoriosas dos processos históricos, denominam o momento em
que os jacobinos queriam levar a revolução francesa para cima dos privilégios da burguesia como
Período do Terror (1792 – 1794), entretanto, nós preferimos entender este momento como um dos
poucos, mas verdadeiro, períodos democráticos da história francesa.

54
Esse foi o nome dado ao processo de expulsão sistemática dos pequenos produtores de suas próprias terras que, em
seguida, eram cercadas com arame farpado para tornarem-se grandes latifúndios usados pelos burgueses como área de
produção de lã na embrionária indústria têxtil inglesa.
55
No livro “A utopia” de Thomas Morus (1478 – 1535), o autor afirma que na Inglaterra, “as ovelhas devoram os
homens”.

71
II. O fundamento da história
A essência do movimento dialético da história é sempre gerar novas contradições sociais,
que, por sua vez, criam a necessidade de mudança social. Por exemplo, a burguesia representou o
elemento contraditório dentro do feudalismo, levando a cabo um processo de mudança social
que destruiu a hegemonia feudal e preparou o campo para o surgimento do capitalismo. Em
seguida ela trai a classe com que estabeleceu parceria, adquiri hegemonia na política e na economia
e começa a profetizar a incontestabilidade, a naturalidade e eternidade do seu domínio, ou seja,
passa agora a se dedicar em construir a sua ideologia (uma consciências da realidade que se
propaga em todos os âmbitos da sociedade, favorecendo a burguesia). Marx já nos alerta sobre isso
quando afirma que a burguesia começou como uma classe revolucionária e depois se tornou uma
classe conservadora, deixando o papel histórico da revolução para a classe proletária. Segundo ele,
nossa realidade histórica é tão mutável quanto qualquer outra, por isso, é passível das leis da
dialética, como qualquer sociedade humana. “Dissolvem-se todas as relações sociais antigas e
cristalizadas, com seu cortejo de concepções e de ideias secularmente veneradas; as relações
que as substituem tornam-se antiquadas antes mesmo de se consolidarem. Tudo que era sólido
e estável se desmanha no ar…” (MARX; ENGELS, 2010. p. 43). Além disso, o próprio poder
hegemônico cria os meios e os agentes sociais para a sua destruição, no caso da burguesia, os
responsáveis pela sua destruição é o proletariado. “A burguesia produz, sobretudo, seus próprios
coveiros. Seu declínio e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis” (MARX;
ENGELS, 2010, p. 51).

A questão da classe média

Até agora nossa reflexão se debruçou sobre as classes essencialmente antagônicas, isto é, os
exploradores e explorados, os oprimidos e os opressores. No entanto, não podemos esquecer de
mencionar a classe que se estabelece no meio destes dois polos, qual seja: a classe média. Marx
denomina a classe média como ideólogos enérgicos, isto é, são aquela parcela da sociedade que não
detém os meios de produção, portanto, são tão explorados quanto o proletariado, porém recebem
salários maiores do que a média dos trabalhadores ou ocupam funções dentro das empresas
que são consideradas menos pesadas. Por conta disso, se dedicam ativamente na criação de
ilusões, propagandas, dogmas, entre outros métodos de apologia dos privilégios das classes
dominantes, acreditando que eles mesmo fazem parte dela 56 quando, na realidade, jamais farão,
56
A análise realizada por Marx e Engels durante a segunda metade do século XIX consegue, ainda hoje, compreender a

72
haja vista que, caso fiquem desempregados, estarão na miséria, diferente dos verdadeiros
membros das classes dominantes que não precisam trabalhar, ao contrário, vivem da
exploração do trabalho dos outros.

A questão da revolução

A teoria da revolução em Marx consiste em pensar na história como uma espécie de


movimento perpétuo de ascensão e queda de formas de sociedade, nas quais os próprios poderes
hegemônicos e aparentemente absolutos são os responsáveis pela por gerar os meios necessários
para a sua ruína. A revolução assume sua expressão clássica (leia-se semelhante a revolução
francesa), ou seja, um levante explosivo, massivo e violento da classe oprimida contra a classe
dominante. Desse choque entre agentes e desejos tão contraditórios surge uma realidade
completamente distinta, na qual os interesses da classe anteriormente dominada, finalmente podem
ser vivenciados. Durante a revolução, os agentes sociais vivenciam um momento único, inventivo e
extremamente rico de possibilidades, denominamos essa época transitória de história aberta, ou
momento de abertura da história. Nesse intervalo curto de tempo, os destinos da revolução não
estão trassados, a criatividade, a originalidade e a liberdade do espírito humano são levadas
as últimas consequências. Tudo se opina, tudo se cria e a única ordem do dia e destruir o velho e
criar da forma mais livre o quanto possível, isto é: o novo. Durante a derrubada do feudalismo, essa
época de história aberta foi denominada de Renascimento (século XVI).
Ilustrando:

nossa realidade, principalmente quando a classe média brasileira resolve “bater suas panelas” em benefício da
manutenção do poder e dos privilégios de uma pequena parcela da população brasieleira, da qual inclusive ela mesmo
não faz parte, nem jamais fará.

73
O comunismo

O comunismo pode ser entendido como uma realidade histórica ou um sistema político e
econômico que surge por meio da revolução do proletariado, levada a cabo a fim de extinguir o
domínio de uma classe social sobre a outra (mais especificamente o a opressão que a burguesia
exercia sobre ele, a qual depois de extinta, acreditava-se que também se acabaria com todo o
domínio de classes). Esse processo se fundamenta em três intuitos: em primeiro lugar; é preciso
demolir a propriedade privada, em segundo lugar; destruir o mercado capitalista e; em último
lugar; acabar de uma vez por todas com a divisão social do trabalho. A abolição destes três
pilares do capitalismo não acontece de uma hora para outra, mas precisa ser realizado em um
momento de transição denominado como socialismo. Durante o socialismo a estrutura da
sociedade capitalista é superada, ou seja, mostrou já ter cumprido seu papel histórico e foi
substituída por outra ralidade histórica. Passada esta etapa transitória de socialismo, o estado e
as classes sociais e até mesmo as religiões como nós a conhecíamos (COMO FORMAS DE
DOMINAÇÃO E EXPLORAÇÃO) deixam de existir, não tem mais necessidade de existir da
forma tal como existiam antes. A nova sociedade que surge, o comunismo, significa, nas palavras de
seus próprios teóricos, uma realidade na qual: “(…) o livre desenvolvimento de cada um é a
condição para o livre desenvolvimento de todos” (MARX; ENGELS, 2010, p. 59). É válido
ressaltar que, o comunismo não representa, em nenhum aspecto, o fim da história, pois a dialética
há de promover novas contradições e manter a realidade social-histórica em movimento. O
comunismo representa, na visão de Marx e Engels, o fim do mundo como nós o conhecemos,

74
desigual, autoritário e injusto. Outra ressalta sobre o comunismo que veremos nessa aula é a
crítica aos falsos marxistas que afirmam ser o comunismo um caminho futuro natural da sociedade,
inevitavelmente acontecerá, sem que os agentes sócias nada precisem fazer. Isso é um grande erro
interpretativo. Talvez o único caráter inevitável seja a exploração do sistema capitalista, nada pode
evitá-la, pois faz parte estrutural desse tipo de sociedade. Mas o que Marx e Engels queriam
deixar claro no manifesto, era a crescente conscientização da população sobre os males do
capitalismo, por isso, o apelo final dos nossos filósofos comunistas é a união dessa indignação
em um movimento proletário mundial: “PROLETÁRIOS DE TODOS OS PAÍSES, UNI-
VOS!” (MARX; ENGELS, 2010, p. 69).

AULA 27 E 28:
Desigualdade étnica
Introdução (primeira aula)

A desigualdade racial é um problema bastante discutido atualmente, no entanto, no Brasil,


este problema tem raízes profundas em nossa história. Não podemos esquecer que nosso país foi
escravista por cerca de mais de três séculos. Além disso, mesmo depois da abolição da
escravatura em 13 de maio de 1888, ainda assim a população negra não teve as mesmas
oportunidades que a população branca. Veremos isso com mais calma a seguir.

Desigualdade na Colônia (1500 – 1822)

O Brasil é um país assombrado por três séculos de escravidão, o que significa que a
liberdade da população negra foi censurada durante todo este período e, como se isso não bastasse
por si só, ainda foram forçados a trabalhar intensamente, muitas vezes até a morte, diga-se de
passagem, bem como sofriam diariamente com o preconceito e discriminação racial vindo dos
senhores de engenhos, dos capatazes e dos capitães do mato das fazendas. Em meio a uma
realidade tão violenta, opressiva e carente de instituições democráticas que favorecem a
construção da cidadania, a população negra se organizou e lutou contra esta condição
miserável de vida a partir da construção dos Quilombos, isto é, em fortes altamente protegidos
que serviam como abrigo para os africanos escravizados que fugiam de seus senhores e buscavam
uma nova vida, ou melhor, uma vida livre e fora da exploração e brutalidade da vida nas senzalas
das fazendas. O quilombo não era só um forte e um abrigo temporário para os africanos
escravizados pela empresa colonial, mas, para além disso, representava um sonho, uma

75
perspectiva de liberdade dentro de uma realidade extremamente opressiva, desigual, racista e
violenta. Um dos exemplos mais claros de luta contra a escravidão foi o Quilombo de Palmares,
localizado na Serra da Barriga, atualmente Alagoas. Foi também em Palmares que vivia um dos
maiores ícones histórico da luta pelos direitos da população negra, a saber: Zumbi de Palmares
(aproximadamente 1655 – 1695). Não se conhece com exatidão a data exata de seu nascimento, no
entanto, sabemos que Zumbi foi capturado na região de Palmares pela expedição de Brás da Rocha
Cardoso e dado de presente ao padre Antônio Melo. Batizado com o nome Francisco, cresceu
aprendendo latim e português. Aos 15 anos fugiu para Palmares e adotou o nome Zumbi,
palavra que vem do termo zumbe, do idioma africano quimbundo, e significa fantasma,
espectro, alma de pessoa falecida. Não demorou muito para tomar a chefia do quilombo das mãos
de Ganga Zumba. Em 1678, provocou uma guerra civil no quilombo. Assumiu o lugar do líder e
chefiou uma luta por liberdade e resistência a opressão da escravidão organizada pelos
portugueses, que durou 14 anos. A Coroa já tinha dado a ordem de acabar com o quilombo. Para
destruí-lo, o poder colonial organizou 16 expedições oficiais. A cidade resistiu durante 22 dias.
Mas, em 1694 Zumbi, depois de lutar bravamente, foi derrota, precisou fugir e se esconder. Foi
capturado e morto em 20 de novembro de 1695, depois de ter sido traído por companheiros.
Seu corpo foi mutilado e a cabeça enviada para o Recife, onde ficou exposta em praça pública.
Atualmente, o dia 20 de novembro é celebrado como Dia da Consciência Negra em
homenagem a morte de Zumbi.

Desigualdade no Império (1822 – 1889)

Com edificação do império, as lutas políticas em favor do reconhecimento dos direitos da


população negra se expressaram através da discussão política e da reflexão teórica, insperadas pelo
intuito de abolição da escravidão. Nesse sentido, podemos retomar dois grandes ícones desta luta:
José Carlos do Patrocínio (1854 – 1905) e André Rebouças (1838 – 1898). O primeiro deles era
filho de uma escrava alforriada e do cônego João Monteiro. Aos 14 anos deixou a fazenda da
família para tentar a vida no Rio de Janeiro, onde chegou a ingressar na Escola de Medicina. Ao fim
de alguns anos, porém, abandonou o curso e formou-se em farmácia, em 1874. Em 1877, ingressou
na redação de “A Gazeta de Notícias”, onde escreveu diversos artigos de propaganda abolicionista.
Em 1881, com dinheiro emprestado pelo sogro, adquiriu a “Gazeta da Tarde”, à frente da
qual deu início à campanha abolicionista. Patrocínio foi um dos fundadores da Sociedade
Brasileira Contra a Escravidão e da Confederação Abolicionista. Entretanto, não se limitou a lutar
apenas por escrito pelo abolicionismo, pois também realizou conferências públicas, ajudou a fuga

76
de muitos escravos, organizou núcleos abolicionistas, militando ativamente até o triunfo da causa,
em 13 de maio de 1888.
Já o segundo, André Rebouças, André Pinto Rebouças nasceu em plena Sabinada, a
insurreição baiana contra o governo regencial. Seu pai era Antônio Pereira Rebouças, um mulato
autodidata que obteve o direito de advogar, representou a Bahia na Câmara dos Deputados em
diversas legislaturas e foi conselheiro do Império. Sua mãe, Carolina Pinto Rebouças, era filha do
comerciante André Pinto da Silveira. Em fevereiro de 1846, a família mudou-se para o Rio de
Janeiro. André foi alfabetizado por seu pai e frequentaram alguns colégios até ingressarem na
Escola Militar. Em 1857 foi promovido ao cargo de segundo tenente do Corpo de Engenheiros
e complementaram seus estudos na Escola de Aplicação da Praia Vermelha. André bacharelou-se
em Ciências Físicas e Matemáticas em 1859 e obteve o grau de engenheiro militar no ano seguinte.
André serviu na guerra do Paraguai. Na década de 1880, André Rebouças se engajou na
campanha abolicionista e ajudou a criar a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, ao lado
de Joaquim Nabuco, José do Patrocínio e outros. Participou também da Confederação
Abolicionista e redigiu os estatutos da Associação Central Emancipadora. Suicidou-se no dia 9 de
maio de 1898, e seu corpo foi resgatado na base de um penhasco, próximo ao hotel em que vivia.
A principal contribuição que Rebouças deixou à luta pela abolição da escravatura foi a sua
ideia de democracia rural, isto é, não bastava libertar o negro da escravidão, era necessário que ele
tivesse condições de se sustentar na sociedade brasileira. A única forma de isso acontecer era se
os negros recém-libertos pudessem cultivar as terras improdutivas no Brasil, a fim de
fortalecer o mercado interno e ampliar a oferta de trabalho à população negra que
recentemente experimentava a cidadania brasileira. A reivindicação de reforma agrária de
Rebouças se apoiava no exemplo prático que aconteceu nos Estados Unidos. No entanto, não
foi isso que aconteceu, pois depois e 1888, o negro recebeu teve direito à liberdade, mas o racismo
impediu que ele fosse integrado na sociedade, conseguisse trabalhar nas cidades recém-inauguradas
e no campo dominado pelos latifundiários. Como se isso já não bastasse, a população negra não só
se viu impedida de trabalhar, mas o Estado brasileiro desenvolveu uma estratégia extremamente
racista, denominada programa de branqueamento, isto é, ama política racista que almejava,
através da miscigenação, tornar o país majoritariamente constituído pela população branca. As
medidas que o Estado tomou na época para realizar este projeto racistas foi estimular a imigração
de europeus e impedindo que a população negra brasileira pudesse ingressar no mercado de
trabalho e frequentar ambientes públicos. Consequentemente, a população negra foi
segregada nas regiões periféricas das cidades e foi subempregada em serviços braçais, mal-
remunerados (quando não trabalhavam por alimento) muito parecido com o que acontecia

77
durante a escravidão. No campo a história também permaneceu a mesma, embora recebessem
salários, os negros ainda trabalhavam sobre o mesmo regime de serviços braçais e torturante de
antes.

Racismo

Todo e qualquer tipo de preconceito, discriminação ou segregação que for realizado


contra uma pessoa ou um grupo social por causa das suas origens. Nesse sentido, o racista
acredita fazer parte de um grupo superior e despreza as pessoas que, segundo seu pensamento
preconceituoso, fazem parte de um grupo inferior. O racismo existiu em vários momentos da
história, na Grécia Antiga (XI – II a.C.), por exemplo, os cidadãos consideravam todos os que
falavam grego como civilizados, enquanto quem não falasse grego era tachado como bárbaro.
Na idade média o racismo misturou-se com a religião, pois quem era cristão católico era
considerado superior aos não cristãos, consideradas como pagãos – quando eram religiosos,
porém não eram cristãos – ou hereges – quando não tinham religião alguma. O racismo baseado
na cor da pele é um fenômeno moderno e surge, principalmente durante os períodos das
grandes navegações e das colonizações europeias. Tal forma de racismo se baseou nas teorias
eugênicas que já discutimos em aulas passadas, dentre as quais se destaca o determinismo
biológico. No entanto, a forma mais absurda e destrutiva de racismo que já aconteceu na história da
humanidade foi o nazifascismo, que surgiu com o nazismo alemão (1933 – 45) e com o fascismo
italiano (1922 – 43). Nestes regimes ditatoriais, a perseguição, tortura e assassinato de
populações por causa do racismo e por conta da busca por uma raça pura que, aliás, jamais
existiu e jamais existirá, atingiu níveis elevadíssimos, o maior que a humanidade já
experimentou. Estima-se que cerca de 6 milhões de judeus tenham sido assassinados durante pelo
nazismo alemão, contudo, os nazistas também perseguiam e assassinaram negros, ciganos,
testemunhas de Jeová, homossexuais, entre outras populações étnicas

Racismo no Brasil (segunda aula)

Na virada do século XIX para o XX, o racismo contra a população africana tomou
proporções preocupantes e abertas, tomando a forma de regime de aparthied, ou seja, as
populações negras foram segregadas das brancas, impedidas de estudar nas mesmas escolas,
andar nos mesmos acentos de ônibus, circular nos mesmos lugares e casar entre si. Os
exemplos mais claros deste regime racista são os Estados Unidos (1870 – 1960) e a África do

78
Sul (1948 – 1994). No entanto, no Brasil o racismo se manifesta de uma forma muito diferente e
bem mais complexa. O racismo brasileiro é mais preocupante do que os regimes de aparthied,
pois como somos uma nação formada por três grandes culturas (indígena, africana e
europeia), nossa população acredita que não há racismo em nosso país. Dessa foram, o
racismo brasileiro NÃO acontece de forma aberta, ao contrário, é oculto e os racistas não
admitem que são racistas. Geralmente, em momentos de competição ou de pressão social os
racistas se manifestam, por exemplo, durante uma partida de futebol em que alguém da torcida do
Grêmio xinga um de seus jogadores de macaco ou de crioulo. Este tipo de racismo brasileiro
fundou-se a partir da noção de democracia racial construída pelo sociólogo Gilberto Freire
(1900 – 1987), para quem o Brasil era formado pela miscigenação pacífica entre as três
culturas supracitadas. É inegável que o nosso país tenha se constituído a partir da miscigenação de
culturas, no entanto, é um equívoco dizer que esta miscigenação tenha acontecido de forma
pacífica e democrática. O conflito e a desigualdade marcam a relação entre as três culturas que
formam o Brasil, e por isso precisamos desmistificar o mito da democracia racial.

O mito da democracia racial

O sociólogo que desmentiu a existência de democracia racial em nosso país foi Florestan
Fernandes (1920 – 1995), através de seu livro A integração do negro na sociedade de classes
(1964), no qual afirma que a ideia de democracia racial é um mito e legitima a posição desfavorável
que a população negra ocupa atualmente na sociedade brasileira. O argumento do cientista
está ancorado na história, pois, segundo ele, após a abolição da escravatura os negros foram
impedidos sistematicamente de competir em pé de igualdade com os brancos aos empregos
públicos e privados, também lhes foi negado o acesso à educação de qualidade, cultura e lazer.
A tese de Florestan é corroborada pelas estatísticas, pois nas últimas pesquisas do censo
realizado pelo IBGE em 2010, mostram que a população negra e parda representa mais do
que a metade do povo brasileiro, porém, este grupo étnico constitui cerca de 74,2% da
população pobre em nosso país57. Por fim, gostaria de deixar claro que o fato de a democracia
racial ser um mito NÃO significa que ela não deva ser construída de fato, na realidade, é por isso
que o movimento negro luta, ou seja, pela igualdade e respeito no tratamento entre a população
negra e os demais grupos étnicos que vivem no Brasil. OBS.: o racismo é um crime no Brasil. O
racismo é uma ideologia, ou seja, é um conjunto de ideias que pertence às classes dominantes em

57
A referência da pesquisa está no livro didático de sociologia (Sociologia em movimento. São Paulo: Moderna, 2013),
na página 117.

79
nossa época que, por sua vez, procuram se tornar universais, ou seja, se reproduzirem como se
pertencessem a todas as classes sociais, como se todos devessem pensar, sentir e agir da mesma
forma que os grupos que estão no poder e que são preconceituosos, racistas e opressores. Nesse
sentido, quando reproduzimos a ideologia das classes dominantes, acreditando ser a nossa
ideologia, desenvolvemos uma falsa consciência da realidade sócio-histórica, perdendo de vista
que os interesses dominantes podem ser questionados e até derrubados em prol dos interesses das
classes sociais oprimidas. Temos de nos orgulhar de nossas origens.

O conceito de etnia

Etnia é uma palavra derivada do grego ethos que significa cultura ou costumes de uma
população. Usar a palavra etnia significa pensar na diversidade social e deixar claro que os aspectos
biológicos não conseguem nos ajudar a entender as inúmeras formas de organização social dos seres
humanos. A noção de etnia nos mostra que uma população é constituída por suas práticas
culturais E NÃO POR SUAS determinações biológicas e, além disso, a noção de etnia nos
permite compreender a cultura de uma pessoa constitui-se através da autodeterminação, isto
é, só podemos dizer que uma pessoa faz parte desta ou daquela cultura quando a própria pessoa
afirma pertencer a determinada cultura. Por exemplo, não podemos julgar através do nosso olhar um
indígena que estuda na cidade, ou que não veste suas roupas tradicionais afirmando que ele não é
indígena, na realidade, só o indígena pode se definir como indígena ou não.
Libertando-se do racismo que estava contido no conceito de raça, a ciência conseguiu
estudar uma infinidade de etnias, chegando a conclusão de que, quanto mais etnias existam em um
país, mais rico em diversidade cultural ele se torna. Além disso, os estudos no campo da etnia
mostraram o problema do preconceito étnico e como certas etnias foram afastadas do acesso à
educação, e a outros direitos básicos ao humano. Isso mobilizou muitos movimentos sociais a
reivindicarem o tratamento igual entre as etnias e o ressarcimento do preconceito que sofreram
através de medidas afirmativas que possam remediar esta violência historicamente sofrida. Nesse
âmbito surge o movimento negro que estudaremos nesta e nas próximas aulas.

Combate ao racismo

Uma das formas mais eficazes de se combater o racismo é o movimento organizado das
populações negras, denominado Movimento Negro Unificado (MNU), que surgiu na década de 70,
a população negra se uniu para reivindicar não apenas a integração do negro na sociedade, mas,

80
para além disso, a igualdade étnica, ou seja, o respeito e o tratamento com igualdade entre negros e
brancos. Principalmente no trabalho, espaço no qual o negro era menos remunerado que o
branco que exercia a mesma função que ele. Nesse sentido, o movimento negro inspirou-se no
socialismo para criticar a forma racista com que o capitalismo foi desenvolvido no Brasil,
principalmente através da escravidão e depois pelas estratégias de branqueamento da nação.
Além disso, o movimento negro será um grande crítico do afropessimismo, isto é, o pensamento
racista que enxerga a África e os africanos como vindos de uma terra pobre, proliferada de doenças
fome, guerras. Em oposição a esta visão preconceituosa, o movimento negro retoma a
importância da cultura africana não só para a formação do Brasil, mas para a história de
toda a humanidade, afinal de contas, nossa própria espécie surgiu na África.
Por fim, podemos destacar que o MNU nasceu quando representantes de várias
entidades se reuniram em resposta à discriminação racial sofrida por quatro garotos do time
infantil de voleibol do Clube de Regatas Tietê, e à prisão tortura e morte de Robison Silveira
da Luz, acusado de roubar frutas numa feira. A luta do MNU foi aos poucos ganhando força e se
refletiu na atitude do Estado em relação aos debates sobre a discriminação racial, culminando com a
criação, em 1984, do primeiro órgão público voltado para o apoio dos movimentos sociais afro-
brasileiros: o Conselho de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra no governo
Franco Montoro, então governador de São Paulo. Foi ainda durante o mandato de Montoro que um
representante da população afrodescendente compôs a Comissão Arinos, que criminalizou a
discriminação racial na Constituição Brasileira de 1988. A tipificação do racismo como crime foi
estabelecida pela Lei Caó, de autoria do deputado Carlos Alberto de Oliveira, promulgada em
1989.
Outra conquista importantíssima conquista do movimento negro foram as ações afirmativas
para a população negra. Ação afirmativa são um conjunto de ações públicas ou privadas com
intuito de diminuir e compensar as desigualdades sociais sofridas por um grupo étnico. Dentre
as ações afirmativas reivindicadas pelo movimento negro, a cota étnico-racial para ingresso no
ensino superior é a conquista mais recente, data de de 2012. O sistema de cotas garante a reserva
de 50% das vagas das universidades federais para a concorrência dos estudantes autodeclarados
negros ou pardos que tenham cursado a integridade do ensino médio em escolas públicas ou com
100% de bolsa em escolas particulares.

AULA 29 E AULA 30:

Desigualdade de gênero

81
Introdução (primeira aula)

Infelizmente, a desigualdade em nossa sociedade atinge também as mulheres, pois, mesmo


no século XXI, as mulheres ainda não são tratadas igualmente aos homens. Geralmente,
ganham menos que os homens, mesmo quando realizam o mesmo serviço que eles no mercado de
trabalho; realizam, senão 100%, a maioria do serviço doméstico que inclui a preparação das
refeições, o cuidado com as crianças, a administração da dinâmica do lar, entre outros. Com se esta
situação gritante de desigualdade não bastasse por si só, as mulheres são ainda interpretadas
como frágeis, fracas e como se fossem apenas objetos destinados a satisfazer os homens. No
entanto, está condição de desigualdade NÃO é natural, em vez disso, FOI CONSTRUÍDA
HISTORICAMENTE e, portanto, pode ser superada através de muita luta e reflexão. Nesse
sentido, não podemos esquecer de pontuar que a hierarquia na qual as mulheres são colocadas
abaixo dos homens é defendida por uma prática social que nos é ensinada desde pequeno, isto é: o
machismo. Contudo, antes de qualquer coisa, veremos como a mulher foi representada na história,
para compreendermos as raízes do machismo.

Representações da mulher

Na Grécia Antiga (XI A.C. – II A.C.), onde tomando Atenas “a cidade mais sábia” como
exemplo, é possível enxergarmos logo de cara que a mulher não era livre. Somente era livre na
democracia ateniense os homens, com mais de 21 anos e nativos proprietários de terra em Atenas.
Segundo o famoso sofista Xenofonte, a mulher tinha a função natural de cuidar dos filhos e realizar
trabalhos manuais, tais como, trabalhar no tear de lã. Nesse período, surge aquilo que os estudiosos
e estudiosas chama de a “primeira feminista da história”, seu nome era Antígona 58 e ela morreu
contrariando as leis da polis e pensando por si mesma.
Em Roma, na era imperial (I – V), a mulher não estava excluída da atividade política, no
entanto, sua ação era muito limitada, caso comparada com a liberdade dos homens. Um fenômeno
bem ilustrativo era a exclusividade do trasporte publico aos homens, enquanto as mulheres eram
obrigadas a andarem por todo o império a pé. Uma questão muito importante antes de continuarmos
a exposição histórica é destacar o papel das mulheres nas civilizações ditas barbaras pelos romanos
(Gauleses, germânicos) e supostamente selvagens na visão dos ocidentais (os iroqueses norte-
americanos), na qual não havia significativa diferenciação de poder entre os sexos, pois as mulheres
58
Seu irmão cometeu suicídio e segundo a lei da polis não tinha direito de ser enterrado. Sua irmão desafiou tudo e
todos para conseguir que o irmão fosse enterrado. Ela conseguiu, mas para que isso acontecesse tiveram que enterrá-la
viva junto com ele.

82
participavam ativamente das discussões política, conseguiam ocupar qualquer posição dentro da
sociedade, bem como iam para guerra defender seu povo.
Na Idade Média (V – XV) o fenômeno do patriarcalismo atingiu o seu ápice, portanto, foi
um dos momentos históricos nos quais a mulher sofreu mais preconceito, tendo em vista a forte
pressão da religião para consolidar a hierarquia entre os sexos (Homem > Mulher), enxergando a
mulher sempre como donzela indefesa e lhe negava o direito a estudar. Contudo, esse período
histórico foi muito contraditório, pois, ao mesmo tempo que as mulheres sofriam muito com o
machismo inseparável do catolicismo, elas podiam como nunca antes agir de forma livre e
soberanas em duas circunstâncias: por um lado, quando se tornavam viúvas, podendo administrar
a herança do marido como bem entendessem (sempre que não se casassem de novo, porque aí o
poder voltava ao homem) e, por outro lado, ao atuarem como parteiras, uma espécie de
conhecimento que só as mulheres possuíam, ou seja, o modo como trazer os filhos com segurança
para vida. Essa profissão que a mulher possuía proporcionava-lhe muito prestígio social e
autonomia sobre o seu a sua ação. Ainda assim, a Idade Média foi um período terrível para a
mulher, por causa, do fenômeno da “caça as bruxas”, um genocídio sistemático de mulheres que
eram queimadas na fogueira em praça pública (um verdadeiro espetáculo macabro). A justificativa
religiosa e ideológica era que tais mulheres eram desentendes degeneradas de Eva que mantinham
relações diretas com o anjo caído Lúcifer (o capiroto). Todavia, na realidade, as mulheres
condenadas por bruxaria eram todas aquelas que ousavam pensar por si mesmas e pensar
diferente, desafiando o domínio patriarcal dos homens, ou outras ideias preceituosas e
opressivas aceitas pela sociedade. Outra observação importante é não termos ilusões quanto ao
protestantismo, pois, durante o avanças do pensamento protestante, luteranos e calvinistas
costumavam competir com os católicos para descobrirem quem queimava mais “bruxas”.
Durante o Renascimento (XVI) as mulheres vivenciaram outro período extremamente
paradoxal, haja vista que o feudalismo havia sido arruinado e as ideias de possibilidade de reflexão
filosófica e artística sobre os seres humanos voltavam a ter importância, porém a mulher
continuava sendo apartada do desfrute das conquistas produzidas pelo meio social. Medicina,
A filosofia, e a arte estavam caminhando novamente sem as grades impostas pelo catolicismo
feudal. Em resumo, o homem tornou-se o centro do pensamento (antropocentrismo), e muitas
conquistas foram consumadas, no entanto, somente para o sexo masculino, pois, ao mesmo
tempo que o pensamento filosófico e o científico (ainda embrionário) estavam ganhando força,
as profissões e qualquer tipo de instrução intelectual permaneceu sob monopólio dos homens
(ricos), enquanto mulheres continuaram sendo vedadas ao estudo, ficando restritas o trabalho
no âmbito doméstico, cuidando dos filhos e suportando as traições dos maridos.

83
Durante a modernidade (XV – XVIII), as mulheres não tinham o direito da política e
mesmo que esta época tenha sido conhecida como o século das luzes, o século do progresso e do
avanço de diretos, das ciências e das artes. Nesta época, as mulheres ainda não eram tratadas com o
mesmo respeito e igualdade com que eram tratados os homens, o exemplo mais claro disso está na
Declaração de Independência dos EUA que proclama: “Todos os homens nasceram foram criados
iguais” e, quando foi questionada por Abigail Adans (mulher de John Quincy Adans, um dos
idealizadores do movimento de independência) questiona a restrição do termo homens apenas aos
seres humanos de sexo masculino, seu marido disse que os homens não abririam mão de seus
privilégios. Outro exemplo, pode ser encontrado durante a queda da Bastilha em 1789, quando os
revolucionários franceses gritaram: Liberté, Égalité, et Fraternité! [Liberdade, Igualdade e
Fraternidade!], no entanto, precisamos perguntar a eles: para quem? De fato, somente tornaram-
se livres, iguais e fraternos, os homens (sexo masculino), brancos e ricos, em poucas palavras: a alta
burguesia. Nesta época, precisamos destacar a coragem de Olympe de Gouges 59 (1748 – 1793),
importante artista e revolucionária francesa que afirmava nascerem as mulheres tão livres e
iguais quanto os homens, no entanto, seus direitos foram arbitrariamente restringidos. Em com
sequência das suas críticas, foi condenada pela sociedade patriarcal e machista do século XVIII, sob
a acusação de desejar tornar-se “um homem de Estado”, e sua punição foi a morte na guilhotina em
1793.
Contemporaneamente (XVIII até hoje), a ideologia machista do século XIX afirmava
que existiam maridos para sustentar as mulheres e devido ao fato delas serem, na sua maioria
desqualificadas profissionalmente, deveriam então ganhar menos. Contudo, bem como
discutimos nessa aula, as instruções e a profissionalização foram negadas historicamente as
mulheres. Portanto, como elas poderiam competir igualmente com os homens que aprenderam
tradicionalmente a profissão, ou tiveram acesso ao ensino universitário? Muita luta do movimento
feminista foi necessária para o ingresso das mulheres no mercado de trabalho e no ensino superior.
Em 8 de março de 1857, as funcionárias da indústria têxtil de Nova Iorque saíram
para as ruas protestando por melhores condições de trabalho e jornada de trabalho de 12
horas, no entanto, acabaram reprimidas. Cinquenta e um anos depois, em 1908, no mesmo dia
8 de março, novamente as trabalhadoras de Nova Iorque revoltaram-se dentro da fábrica
exigindo melhores condições de vida, salário e o direito ao voto. Contudo, dessa vez a repressão
do capitalista foi mais fria e cruel, pois, mandou seus capatazes trancarem as operárias na fábrica e
incendiá-la com elas lá dentro. Essa opressão inescrupulosa intensificou mais ainda a crítica
feminista e tornou o que hoje conhecemos como o dia Internacional da Mulher.
59
Referência universal para todos os feminismos, inclusive para o movimento sufragista do século XIX.

84
Sexo, gênero e sexualidade (segunda aula)

O sexo define-se a partir dos órgãos genitais masculinos e femininos e da presença de


determinados hormônios (testosteronas nos organismos humanos masculinos e progesterona nos
organismos humanos femininos), portanto, é uma questão puramente biológica. Já o gênero é
uma definição social, e fundamenta-se a partir sentimentos, comportamentos e pensamentos sobre o
que é ser homem e o que é ser mulher. Nesse sentido, a questão de gênero representa um
processo de autoidentificação do sujeito com as representações sociais que a sua cultura faz do
homem e da mulher. Por fim, a sexualidade define-se pelo direcionamento do desejo sexual e
afetivo a determinada identidade de gênero. Por exemplo, sujeitos que sentem atração e afeto por
pessoas do sexo oposto são considerados heterossexuais, pessoas que sentem atração e afeto
por pessoas do mesmo sexo são denominadas homossexuais e pessoas que tem atração e afeto
por ambos os sexos são chamadas de bissexuais.

Transsexuais e travestis

Uma pessoa transsexual é aquela cuja identidade de gênero é contrária ao seu sexo de
nascença. O travesti é aquela pessoa que interpreta (ou se traveste com) a identidade de
gênero contrária ao seu sexo de nascença, porém não procura mudar sua identidade de
gênero, inclusive, muitos homens que se travestem, afirmam serem heterossexuais.

Fundamentos da desigualdade

Em nossa sociedade capitalista do século XXI, a forma com concebemos o gênero


produz desigualdade social, pois a mulher encontram-se desprivilegiadas quando comparadas
aos homens, por exemplo, ocupam poucas posições de grande influência global e ocupam pouco o
campo da política. Além disso, nossa sociedade geralmente concebe a mulher como se a única
responsabilidade dela fosse cuidar das casas e dos filhos, enquanto os homens, na maioria das
vezes, são responsáveis por prover o sustento da família, por realizar grandes feitos na ciência
ou na política, por viver grandes aventuras, etc. Bom, faz-se necessário ressaltar que a
responibilidade de cuidar da casa e dos filhos é extremamente digna, porém a questão é que a
mulher fica limitada a vida doméstica, enquanto o homem tem um leque muito maior de
possibilidades de se desenvolver socialmente e isso gera uma condição nociva e perigosa de

85
desigualdade.
Isto posto, veremos quais as estruturas de nossa sociedade que sustentam a desigualdade de
gênero.

Patriarcado

O patriarcado, vem da junção das palavras gregas patēr [pai] e arkhō [governo], isto é, o
governo do pai, ou melhor, a forma de governo que concentra o poder decisório homem mais
experiente da família, que, por sua vez, exerce o poder de modo arbitrário. É o patriarca que
decide o que plantar, quem vai casar com quem, se a família precisa se mudar, se vai há necessidade
de guerrear com um clã rival, entre outros. Neste tipo de governo, as mulheres são submissas e
interpretadas com inferiores aos homens. O mesmo vale para os jovens, em comparação com
os anciãos. Nesta estrutura de governo, a desigualdade entre homens e mulheres está naturalizada.
Os paters famílias, os senhores feudais, os reis, os jarls nórdicos, entre outros, são apenas alguns
exemplos de patriarcas.

Androcentrismo

Androcentrismo é uma das principais consequências da herança patriarcal e significa, grosso


modo, colocar a visão de mundo privilegiada do homem ocidental como forma universal de análise
da sociedade. Isso pode muito bem ser observado no processo de invisibilizarão social das
mulheres e supervalorização desnecessária dos homens. Nós temos muita dificuldade em nos
lembrar de grandes pensadoras, escritoras, atletas e personagens históricas femininas, mas,
provavelmente, podemos citar um filósofo importante, um atleta famoso e um personagem histórico
masculino com bastante facilidade. Isso acontece, porque nossa sociedade é androcêntrica, ou seja,
mantém o homem com sendo o seu centro de gravitação, ao mesmo tempo que perpetua a
desigualdade entre os gêneros.

Machismo

O machismo é uma prática social generaliza em nossa sociedade. Ele concentra em si as


características principais do patriarcado e do androcentrismo, exercendo praticamente a
desigualdade de gênero através da defesa da ideia de que homens são superiores as mulheres, são
mais fortes, mais inteligentes, mais corajosos, etc. Além disso, o machismo procura defender a

86
oposição subalterna que as mulheres ocupam na sociedade, reafirmando a discriminação de
que a mulher deve ganhar menos que o homem, que seu objetivo é cuidar da casa, dos filhos e,
acima de tudo, servir todos os seus desejos. Por fim, não podemos negligenciar o fato de que o
machismo prepara o campo para a violência contra a mulher e para a violência doméstica,
pois acostuma os homens a subjugarem as mulheres e oprimi-las com sua força, quando elas se
recusam a obedecê-los.

Feminismo e resistência

Não vou tratar da questão do feminismo agora, pois iremos discuti-lo com mais calma no
terceiro ano. Basta, por hora, refletirmos que as mulheres se organizaram para lutar contra a
desigualdade de gênero, ancorada na compreensão de que o gênero é construído socialmente,
portanto, se a nossa sociedade vem concebendo as relações entre os gêneros de forma desigual,
patriarcal, androcêntrica e machista, é necessário lutar contra estes preconceitos e desconstruir o
machismo da prática corriqueira de nossos cidadãos. Se o gênero é uma construção ele pode ser
transformado! Uma das grandes conquistas do movimento feminista foi o direito ao voto e as
políticas contra o machismo e a violência contra a mulher. No Brasil, a lei que trata da defesa e
amparo da mulher contra a violência doméstica é a Lei nº 11.340, de 7 de agosto de 2006, que leva
o nome de lei Maria da Penha.

AULA 31 E AULA 32 (06/06/2017):

Atividade de avaliação final em grupo (primeira e segunda aulas)

1. Expliquem com as palavras de vocês o que significa identidade? Depois cada um do grupo
faz um responde a pergunta: quem é você?

2. Expliquem com suas palavras o que é cultura e me deem um exemplo.

3. Expliquem com as palavras de vocês o que significa classe social e luta de classes. Em
seguida, me deem um exemplo de luta de classes que aconteceu na história.

4. Expliquem o que significa racismo. O racismo do Brasil é diferente do racismo de outros


lugares, expliquem como funciona este tipo de racismo e pensem em formas de superá-lo.

87
5. O que é desigualdade de gênero? O que vocês podem fazer para lutar contra ela?

88