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Currais da Ilha:

UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO
SOBRE A PESCA TRADICIONAL
EM ITAMARACÁ
Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 1
Ficha Técnica
PROJETO CAMBOAS TUPI: EDUCAÇÃO PATRIMONIAL
SOBRE AS ATIVIDADES DE PESCA TRADICIONAL EM GOIANA E ITAMARACÁ.
Coordenação Geral | Debora Herszenhut
Coordenação Pedagógica | Debora Herszenhut e Mario Wiedemann
Facilitador do curso | Mario Wiedemann
Assistente Pedagógica | Ana Cláudia Bastos
Produtora Executiva | Debora Herszenhut
Produtor de Campo | Guimarães Silva
Assistente Administrativo | Maiara Lira
Organização do Dossiê | Debora Herszenhut e Mario Wiedemann
Revisão de Texto | Pérola Mathias
Projeto Gráfico e Diagramação | Refinaria Design

SECRETARIA DE EDUCAÇÃO DO MUNICÍPIO DE ITAMARACÁ


Prefeito | Mosar de Melo Barbosa Filho
Secretário | Gildo Pessoa de Santana Junior
Coordenadora das Escolas do Campo | Olindina Maria Cruz do Nacimento
Diretora de Ensino | Rejane Barbosa da Silva

GOVERNADOR DE PERNAMBUCO
Paulo Câmara
VICE-GOVERNADOR
Raul Henry
SECRETARIA DE CULTURA
Secretário de Cultura | Marcelino Granja
Secretária Executiva | Silvana Meireles
Chefe de Gabinete |Severino Pessoa

FUNDAÇÃO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO DE PERNAMBUCO – FUNDARPE


Diretora-Presidente | Márcia Souto
Vice-Presidente | Antonieta Trindade
Chefe de Gabinete | Marcela Torres
Gerente Geral de Preservação do Patrimônio Cultural | Márcia Chamixaes
Gerente de Preservação Cultural | Célia Campos
Gerente de Equipamentos Culturais | André Brasileiro
Superintendente de Gestão do Funcultura | Gustavo Duarte de Araújo
Superintendente de Planejamento e Gestão | André Cândido
Gerente de Produção | Diego Santos
Gerente de Administração e Finanças | Jacilene Oliveira

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 2


Currais da Ilha:
UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO
SOBRE A PESCA TRADICIONAL
EM ITAMARACÁ
Este projeto foi realizado com o patrocínio da Secretaria de Cultura do Estado de Pernambuco
através do Fundo Pernambucano de Incentivo à Cultura (Funcultura)

Olinda, 2017

3
Herszenhut, D.F. & Wiedemann, M. et al.
Currais da Ilha: Um dossiê participativo sobre a pesca tradicional em Itamaracá – 2017.
58 f.
Projeto: Camboas Tupy: Educação Patrimonial sobre a pesca tradicional em Goiana
e Itamatacá.
1. Ilha de Itamaracá- Pernambuco – Dossiê. I. Patrimônio Cultural. II. Patrimônio
Imaterial. III. Inventário Cultural. IV. Projeto Camboas Tupy. V. Titulo.

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SUMÁRIO
1. Apresentação............................................................................................................................7
1.1. METODOLOGIA................................................................................................................................................. 8

2. Introdução................................................................................................................................11
2.1. UM BREVE HISTÓRICO DA PRÉ-HISTÓRIA DAS SOCIEDADES COSTEIRAS DO BRASIL................................... 12
2.2. CARACTERIZAÇÃO SOCIOCULTURAL............................................................................................................... 13
2.3. CARACTERIZAÇÃO DA PAISAGEM: VEGETAÇÃO, CLIMA E GEOMORFOLOGIA................................................. 15

3. Apresentação do saber: A pesca de Curral........................................................................19


3.1. OS CURRAIS ..................................................................................................................................................... 20
3.2. OS OBJETOS IMPORTANTES........................................................................................................................... 24
3.3. OS BARCOS E EMBARCAÇÕES DE TRANSPORTE MARÍTIMO........................................................................... 25
3.4. LUGARES DE MEMÓRIA E AÇÃO....................................................................................................................... 27
3.4.1. COLÔNIA DE PESCADORES Z11............................................................................................................ 27
3.4.2. O LUGAR DA CAIÇARA............................................................................................................................ 29

3.5. A FESTA DE SÃO PEDRO: CELEBRAÇÕES DE FÉ E IDENTIDADE...................................................................... 30

4. Desdobramentos e Descobertas (experiências pedagógicas)............................................32


4.1. CONTEXTUALIZANDO EXPERIÊNCIAS E APRENDIZAGENS:
PESCA E PATRIMÔNIO DA ILHA DE ITAMARACÁ .............................................................................................. 32
4.2. PESCA DE CURRAL: UM DISPOSITIVO PROPULSOR
PARA PARTILHA DE EXPERIÊNCIAS E SABERES CULTURAIS........................................................................... 33

4.3. REPÓRTER POR UM DIA................................................................................................................................... 35


4.4. RESGATANDO SABERES................................................................................................................................... 35

5. Avaliação e Recomendações...................................................................................................37
5.1. RECOMENDAÇÕES ........................................................................................................................................... 37
5.1. AVALIAÇÕES .................................................................................................................................................... 38

6. GLOSSÁRIO DA PESCA EM ITAMARACÁ.......................................................................................40


7. Lista de Entrevistados.............................................................................................................41
8. Agradecimentos........................................................................................................................41
9. Bibliografia..............................................................................................................................42

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Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 6
1. Apresentação
“A importância da Educação Patrimonial reside no fato de que as comunidades devem ser as grandes
protagonistas de seus patrimônios e indicar os rumos que as futuras políticas preservacionistas devem
tomar. A preservação de bens culturais deve ser tratada como uma prática social, ou seja, é necessário que os
sujeitos e a comunidade reconheçam e agreguem valor aos bens culturais que o Estado pretende preservar
por meio dos mecanismos e instrumentos de que dispõe.”
(Iphan 2011:10)

Com o objetivo de realizar ações de educação patrimonial para professores e gestores públi-
cos sobre as atividades da pesca tradicional, o projeto “Camboas Tupi: Educação patrimonial
sobre as atividades de pesca tradicional em Goiana e Itamaracá” patrocinado pela Secretaria de
Cultura do Estado de Pernambuco, através do FUNCULTURA, com o apoio da Secretaria de Educa-
ção do município de Itamaracá, entre os meses de Maio e Setembro de 2017, capacitou 34 profes-
sores da rede municipal de Itamaracá atuantes nas escolas do campo.
Vista como uma ação de vinculação social às ações de preservação de bens culturais, a Educação
Patrimonial amplia o acesso ao conhecimento científico ao levá-lo às esferas públicas. E deve
ser compreendida como um processo dialógico de formação de largo alcance, aproximando os
diferentes atores sociais envolvidos nos processos de preservação e identificação de patrimônios
culturais. A Educação construída por meio das ações de preservação patrimonial nos permite
estimular as percepções e o envolvimento da comunidade com sua cultura tradicional, enraizar
as noções de pertencimento e promover, por meio de processos de construção participativa, o
engajamento coletivo nas transformações do território.
Este dossiê participativo sobre a pesca tradicional no município de Itamaracá foi elaborado com
base no curso de formação que teve duração de 60 horas. As atividades incluíam ida a campo, pa-
lestras e exibição de filmes. O objetivo principal foi o de ressaltar a importância da pesca artesa-
nal enquanto patrimônio cultural da Ilha, antigo hábito que revela muitos dados sobre a história
e a pré-história do estado de Pernambuco, apontando igualmente para a construção e elabora-
ção da identidade cultural dos habitantes desta região através do tempo.

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1.1. Metodologia
Este dossiê foi elaborado através da metodologia participativa proposta pelo IPHAN e baseia-se
nas diretrizes política para a elaboração do Inventário Nacional de Referências Culturais (INRC).
Ao longo do curso foram apresentadas ferramentas de pesquisa e identificação de bens culturais,
dados bibliográficos e filmográficos, foram experimentadas técnicas de pesquisa de campo et-
noarqueológicas e ao final do processo, através da metodologia sugerida pelo IPHAN para a ela-
boração de inventários de bens culturais, os alunos do curso de formação, sob a orientação dos
coordenadores, utilizaram-se das fichas de referências culturais como guias para o levantamento
deste bem cultural.
Este dossiê apresenta as etapas de levantamento preliminar, referente à pesquisa bibliográfica do
tema, incluído aí: o trabalho de campo da equipe do projeto; a observação e identificação do bem
patrimonial em suas diversas dimensões; imersão etnográfica, vivência e registro das atividades
de pesca nos currais; e as celebrações que envolvem esta prática.
Ao longo destas 60 horas de encontros e debates, construímos a apresentação do conteúdo que
se segue utilizando-nos de diferentes abordagens.
Debora Herszenhut e Mario Wiedemann
Coordenadores do Projeto Camboas Tupi

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São autores deste dossiê: Valquíria Barbosa de Souza Alves, Severina Batista dos Santos, Rosimary
Josefa Camilo dos Santos, Daniela Alves de Santana, Marta Correia de Lima, Auriete Correia de
Lima, Claudia Rodrigues de dos Santos, Dione de Caldas Pinheiro, Niedja Alves Santos Silva,
Daianna Karla Guedes Alves, Fátima Cristina Costa e Silva, Edja Maria de Santana Mousinho, Eve-
ralda Bezerra da Silva, Jaqueline Maria de Souza, Rosymere Ximenes de Araújo, Grasiela Franci-
ne Borges Silva, Mariluce Maria da Silva Honorato, Divani Maria Ferreira, Girlane Maria Barbosa
Santiago, Micilene da Conceição Nascimento, Sonia Maria Pereira, Marcia Maria Ramos de Sou-
za, Wang Freire Evangelista, Clenice Ferreira da Silva, Eline Rodrigues dos santos, Adriana Mi-
guel da Silva, Eline Rodrigues dos Santos, Adriana Virginia Barros Madureira, Maria Margareth
de Santana, Roseleide Dias de Melo, Josiane Maria da Silva, Rejane Barbosa da Silva, Silvania
Gomes da Silva, Olindina Maria Cruz do Nascimento, Ana Claudia Bastos, Debora Herszenhut e
Mario Wiedemann.
Participaram deste projeto as escolas municipais Luís Cipião, Escola Doralice Alves Amaral, Era-
clides Costa Galvão, Rita Carolina e João Paulo II.

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PEQUENO RELATO SOBRE A VISITA A VILA VELHA
“A visita a Vila Velha, comunidade que fica afastada do centro na Ilha de Itamaracá, nos levou
a descobertas de um patrimônio cultural e tradições do povo daquela localidade. Começamos
nosso passeio observando a paisagem, as casas em volta de um grande campo, onde acontecem
as festividades do local, as poucas pessoas circulando, a escola no centro da comunidade que
encontrava-se bem silenciosa, embora estivesse em momento de aula. A igreja, considerada uma
das primeiras igrejas construída no Brasil, nos foi aberta por Dona Idalice, moradora do local e
que detinha um patrimônio de informações e conhecimento da cultura local. Dona Idalice nos
contou sobre o mistério em torno da chave da igreja, que só pode ficar sob os cuidados de uma
pessoa mais velha da comunidade. A senhora inclusive demonstrou acreditar ser sua missão, ser
a guardiã da chave, não permitindo, sequer, que a fotografasse. Nos contou várias histórias, algu-
mas delas conhecidas e mitificadas na região. Como por exemplo, a história do túnel que existia
dentro da igreja onde tinha uma passagem secreta para outro lugar, utilizado para a fuga de es-
cravos e soldados de guerra. Esta história atraiu muitos turistas e moradores da Ilha para visitarem
o local. Dentro desta Igreja encontra-se, ainda, o túmulo do padre Tenório, um líder revolucionário
que faz parte da nossa história.”
(Trecho do relato de campo de Olindina do Nascimento, Itamaracá 2017)

Dona Idalice e a equipe de pesquisa na Igreja de Nossa Senhora Senhora da Conceição

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2. Introdução
No litoral do município de Itamaracá verifica-se a existência de armadilhas de pesca conhecidas
como Currais. Implantados na linha entre marés, sobre a extensa plataforma continental, estes
artefatos de pesca construídos com madeira aproveitam características específicas da paisagem
local, como a extensa plataforma continental. A existência deste saber vem sendo reproduzido
e adaptado desde o período pré colonial pelos pescadores destas localidades, o que revela sua
importância enquanto patrimônio cultural material e imaterial.
O uso dessa tecnologia de pesca nos remete a ocupações muito antigas destes territórios e à
relação direta dos habitantes destes lugares hoje com a ancestralidade dos povos indígenas que
densamente ocuparam o litoral brasileiro no período pré-contato. Os Currais conectam a história
pré-colonial ao século XXI. O conhecimento indígena está presente na cultura local e inseri-
da na dinâmica social, política, econômica e cultural do município da Ilha de Itamaracá e de
seus habitantes.
Trazemos ainda para este dossiê um conjunto de elementos que estão fora deste quadro cultural. Tra-
ta-se das condições específicas naturais necessárias à sua implantação, mas que tem conexão com
a capacidade e conhecimento do pescador em adaptar-se a tais condições. Essas condições naturais
são fundamentais para sua implantação, das quais entendemos a maré como o elemento cardíaco
deste conjunto de elementos. É ela quem determina os períodos e a organização do trabalho.
A pesca de currais envolve objetos importantes, lugares que compõem seu território, manifesta-
ções, celebrações e um saber transmitido e modificado ao longo de pelo menos 500 anos, vivo
ainda hoje entre os pescadores da Ilha.
A história do que hoje é o município de Itamaracá começa na pré-história, muito antes da chegada
dos colonizadores europeus, muito antes das capitanias hereditárias, da Companhia das Índias
Ocidentais e da construção da Vila de Nossa Senhora da Conceição. Esse amálgama de referên-
cias culturais pode ser observado atualmente, por exemplo, na atividade de pesca, nos fornos de
cal, na Vila Velha e nas festas tradicionais que misturam-se às questões socioculturais mais atuais
da sociedade abrangente. Buscamos aqui trazer à luz os dados etnoarqueológicos e históricos
disponíveis que possibilite o (re)conhecimento de uma outra história sobre a localidade.
Tendo em vista a natureza do objeto de pesquisa e os parâmetros metodológicos definidos pelo
IPHAN através do Decreto federal 3.551/2000 que institui o Inventário Nacional de Referências
Culturais (INRC) e versa sobre o patrimônio imaterial brasileiro, o projeto “Camboas Tupi: Educa-
ção patrimonial sobre as atividades de pesca tradicional em Goiana e Itamaracá” propôs através
de diferentes processos didáticos pensar o objeto de estudo em questão com o objetivo final de
elaborar um dossiê sobre a cultura material e imaterial da pesca artesanal no município de Ita-
maracá. Ao total foram 5 aulas teóricas (de 8 horas) com dinâmicas de sensibilização e sessão de
filmes. As atividades de campo foram duas, com carga horária de 10 horas cada.

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A primeira experiência de campo foi realizada na Vila Velha dos Holandeses e teve como principal
propósito a apresentação de técnicas e ferramentas de pesquisa aos alunos do curso. A segunda
experiência em campo realizou-se nos currais de pesca e nos locais relacionados a esta prática
tradicional na ilha. Estas atividades de campo tiveram como objetivo aplicar os conceitos e deba-
tes de sala de aula, possibilitando que as integrantes do curso fizessem uma imersão no território
de estudo, conhecendo detalhes da história contada pelos próprios protagonistas (foi realizada
na sede da colônia dos pescadores Z11 uma palestra com o pescador Murilo, presidente da asso-
ciação) e num segundo momento do campo foram aplicadas as fichas do inventário participativo
disponibilizados pelos IPHAN em diversos contextos do campo.
Este trabalho buscou abranger o registro da pesca tradicional de Itamaracá enquanto patrimônio.
Neste contexto, identificamos que estão associadas à atividade de pesca nos currais a organiza-
ção local da colônia dos pescadores, a caiçara1 e os objetos tradicionais utilizados nesta prática,
como a rede e as embarcações. Também estão atreladas ao calendário da comunidade pesqueira
de Itamaracá a festa de São Pedro, que ocorre todo 29 de Junho.
Em entrevista com os envolvidos nestas práticas culturais e através da imersão etnográfica em cam-
po, munidas de câmeras fotográficas, gravadores e roteiro de entrevistas, as alunas saíram a campo
para o levantamento de dados e informações, que foram posteriormente apresentados e discutidos
em grupo. Estas informações foram sistematizadas ao longo das páginas que vêm a seguir.
Cabe ressaltar aqui a relevância das ferramentas audiovisuais para a realização deste trabalho. No
retorno do campo, muitas outras informações surgiram enquanto estávamos novamente em sala
de aula, como histórias pessoais e conhecimentos geracionais, reflexões e insights, trazidos pelas
próprias alunas do curso, que foram igualmente utilizados como fonte de informação ao longo do
processo participativo de elaboração deste documento. Muitas destas histórias, descobertas e des-
dobramentos do trabalho foram registradas em áudio, vídeos e fotos. Este material tornou-se de
extrema relevância para a elaboração deste pequeno inventário sobre a pesca tradicional na Ilha
de Itamaracá.

2.1. UM BREVE HISTÓRICO DA PRÉ-HISTÓRIA DAS SOCIEDADES


COSTEIRAS DO BRASIL
A pesca, a coleta e o uso dos recursos de rios e estuários representam parte importante das ati-
vidades desenvolvidas pelas comunidades pré-históricas ou pré-coloniais do Brasil. Estes dados
foram abordados nos estudos arqueológicos de sítios costeiros (FIGUTTI, 1998) e verificados a
partir de vestígios encontrados no contexto, sobretudo no sul e no sudeste do país.
Os sítios pré-coloniais litorâneos do sul e do sudeste, amplamente estudados pela arqueologia,
nos trazem informações relevantes sobre a importância destes territórios ao longo do período de

1 As denominações regionais de artefatos, locais, espécies de peixe e técnicas de pesca aparecerão em itálico ao lon-
go do texto e podem ser consultados seus significados no ítem 6 destes documento: Glossário da pesca artesanal
de Itamaracá.

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ocupação pré-colonial. A magnitude destas ocupações verificadas nos sítios pesquisados e nos
vestígios encontrados, emerge essencialmente da disponibilidade de alimento proporcionada
pelo ambiente (FIGUTTI, 1998).
Essa pré-história ou a vida dessas sociedades estava desvinculada das fronteiras políticas. Essas
sociedades pré-históricas tinham como prática ocupar e se deslocar por todo o litoral nordeste e
pelo interior, estabelecendo suas escolhas de vida tendo a natureza como fonte, alimento e inspi-
ração para o corpo material e de sua existência cosmológica. Transformaram e manejaram seus
“bens patrimoniais” ao longo deste território por mais de 10.000 anos2.
Viajantes Europeus que estiveram no Brasil nos séculos XV, XVI e XVII destacam em seus textos e
gravuras a importância da arte da pesca e da relação com o mar e seus recursos para os antigos
habitantes desta região.
As gravuras produzidas por Hans Staden, não obstante seu caráter mágico, trazem elementos
que indicam a intensa atividade de pesca entre os grupos indígenas com os quais teve contato.
Abbeville (1612) destaca detalhes da riqueza de técnicas e as tecnologias de pesca empreendidas
entre os tupinambá como fonte rica e diversa de alimentos.
“Usam de Anzóis a que chamam de Pinda, para os peixes pequenos e médios e arpões para os peixes-boi e
outros maiores. Há também muitas outras qualidades de pescarias, que fazem de pedra, junto às praias, ou
de paus e varas, na entrada dos rios, como se fossem redes.” (ABBEVILLE 1614:354)

Apesar de serem escassos os dados arqueológicos sobre ocupações pré-históricas mais antigas
neste território em pesquisa, há indícios (ETCHEVERNE, 2000; BARTHEL, 2007; SILVA, 2009) de que
as primeiras ocupações identificadas eram de sociedades de caçadores-coletores-pescadores
habitantes dos estuários e rios, produtores de ferramentas líticas. Sociedades que viveram por
muitos séculos tendo como base os recursos extraídos da mata, do mar e dos rios. Estas socieda-
des de pescadores e coletores, que ao longo de um período ainda incerto (séculos, décadas ou
mesmo milênios) de contato com outros grupos vindos de diferentes caminhos (provavelmente
do interior), incorporaram novas tecnologias às suas dinâmicas culturais.

2.2. Caracterização sociocultural: Do Sambaqui ao Turismo3


Conhecidos como Tupi, estes povos que ocupavam a costa do Brasil no período do primeiro con-
tato. Mais do que um arcabouço tecnológico refinado, traziam a língua própria integrada e um
interesse voraz de expansão e conhecimento. Num processo multinaturalista (VIVEIROS DE CAS-
TRO, 1996), essas sociedades fundiram sua cultura e se estabeleceram nas mesmas áreas de ocu-
pação dos grupos que ali habitavam anteriormente. Estes grupos tupi conheciam a arquitetura de
caiçaras, produziam samburás, canoas e artefatos específicos de pesca para cada tipo de peixe.

2 Esta datação precisa ainda é uma incógnita para arqueologia brasileira.

3 Título do Livro Organizado por Rosane Manhães Prado que versa sobre contextos socioculturais da Ilha Grande,
litoral norte do Estado do Rio de Janeiro.

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Mantinham estreita relação com o mar, com os rios, conheciam seus percursos e regimentos.
No início do século XVI dá-se início a um processo paradigmático da história indígena brasileira, os
povos que ocupavam o litoral deste território que viria a se chamar Brasil, estabelecerem contato com
os colonizadores.4
A Vila de Nossa Senhora da Conceição, atual Vila Velha dos Holandeses5 , é um local conhecido
por sua relevância cultural para a história do estado de Pernambuco e foi o palco dos primeiros
momentos de colonização da Capitania de Itamaracá. Neste contexto, a capitania integrou-se
ao projeto colonial Português de captação de recursos, produzindo uma hecatombe populacional
indígena, expulsão e morte por doença de milhares de nativos. É neste contexto histórico que a ter-
minologia “índio” se consagra em nossa história para referir-se às sociedades que aqui habitavam.
Os vestígios de materiais pré-coloniais e coloniais num mesmo local, as feitorias, casas, fortifi-
cações, capelas e igrejas que passam a ocupar os locais que antes eram ocupados pelos índios,
traduzem esse encontro, essa confluência e insurgência social. Um gesto simbólico, que pode ser
entendido como a síntese do processo de imposição cultural europeia sobre os povos nativos, a
primeira ação contra o território que traria mudanças severas.
A Capitania de Itamaracá funcionou ao longo dos séculos seguintes como fonte de bens primários
para as capitais europeias. A cana-de açúcar passou a ocupar a paisagem, tornou-se força produ-
tiva através de seus engenhos e deixou suas marcas na história. Ainda hoje, resquícios dessa tra-
dição podem ser observados na região. As evidências da ocupação colonial, hoje bens patrimo-
niais, contam parte desta história de colonização. O forte Orange, os fornos de Cal e os engenhos
são edificações que nasceram em territórios antes densamente ocupados.
A atividade de pesca como um todo, a saber: a pesca de currais, de linha, de covo entre outras téc-
nicas, são consideradas atividade de subsistência, movimentando apenas uma pequena econo-
mia local. Considerada artesanal, a pesca torna-se uma atividade invisível às estatísticas formais.
Neste inventário, no entanto, pôde-se evidenciar a relevância desta atividade para a economia
local e, principalmente, sua relevância para cultura tradicional.
Outro elemento que não aparece representado nas estatísticas formais do IBGE, e é de suma im-
portância para uma observação amplificada das questões sociais e econômicas que permeiam o
cotidiano do município, é a existência de 3 instituições carcerárias na Ilha, que segundo servidores
e professores da rede municipal tem impacto direto tanto na economia quanto na cultura do lo-
cal. A existência dos presídios mobiliza um conjunto de mudanças da organização social observada

4 Em toda a costa nordeste do Brasil, coincidente com áreas de ocupação tupi, segundo Neves & Araújo (2015), pode-
-se observar a pesca de currais e demais técnicas que também podem ser atribuídas a uma prática, tecnologia ou
técnica herdada das culturas que ali viveram. (Colonese El all, 2015; Paiva & Nomura, 1975; Maneschy, 1993; Piorski,
2009; Araújo, 2012; Gomes et all, 2012; Fiddellis, 2013; Lucena et all, 2013, Nascimento, 2014; TAMAR, 2013; Mai et all,
2012, 2012; Tavares et all, 2005; entre outros ).

5 A Vila Velha dos Holandeses é considerada um sítio arqueológico registrado no Cadastro Nacional de Sítios Arqueo-
lógicos-CNSA (PE00671) e Existe na Ilha de Itamaracá e no atual município de Itapissuma, que integravam neste
contexto, outros sítios arqueológicos.

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dentro das escolas da rede municipal que atendem aos filhos e filhas de famílias que migraram para
Itamaracá por conta destas instituições.
Caminhando-se pelas ruas do Pilar, pelo Sossego e outros locais, percebe-se que há um número
incontável de casas vazias e fechadas, para venda e/ou aluguel. Esse cenário é resultado de um
crescimento exponencial do turismo nas décadas de 80 e 90, quando abriram-se as frentes de
expansão da região metropolitana do Recife. Localizada a aproximadamente 50km da capital,
Itamaracá acompanha os processos de expansão das cidades do país. As casas, prédios e arrua-
mentos de diferentes períodos são também uma evidência desta ocupação contínua. O turismo
apresenta-se como parte das atividades que integram a economia local e está vinculado a uma
sazonalidade definida também pelo calendário festivo da cidade. Segundo Censo do IBGE6 de
2010, a estimativa populacional para 2017 era de 25.789 habitantes, o município de Itamaracá.
Não obstante as estatísticas, que evidenciam um comportamento padrão do município de Itama-
racá em relação às pequenas cidades localizadas nas regiões metropolitanas do Estado, deve-se
destacar que a evidência dos fatores referidos acima, como a existência do presídio e o turismo,
tem impacto direto na vida social, na cultura, na economia, na ocupação do território e consequen-
temente na paisagem, na memória e na identidade local. É neste sentido que a pesca tradicional
no município deve ser compreendida também, como algo que movimenta a economia, a cultura, a
vida cotidiana, o calendário anual e igualmente compõe o que se define como identidade cultural.

2.3. Caracterização da Paisagem: Vegetação, clima e geomorfologia


A paisagem do Município de Itamaracá está inserida dentro do Bioma da Mata Atlântica do litoral
Brasileiro, extremamente recortado, formando um belíssimo estuário com densa vegetação, ca-
racterizada pela Floresta Perenifólia de Restinga (CPRH, 2005). Portanto, um cenário que abriga
uma paisagem mista de extensas praias, morros de baixa elevação, densas matas, areais e man-
gues. Esta rica paisagem é parte do território tradicional de pesca e coleta dos grupos de pesca-
dores do município e assim o era desde tempos remotos.
Geologicamente, a Ilha de Itamaracá está inserida na Província Borborema, constituída pelos lito-
tipos da Formação Gramame, do Grupo Barreiras e dos Depósitos Flúvio-marinhos ( CPRH, 2005).
Mas o que isso quer dizer? Estes dados versam sobre a formação da praia, dos morros, das pedras,
do tipo de solo, dos mangues e da paisagem como um todo. Refere-se à geomorfologia da Ilha,
inserida em um escala mais ampla (Província Borborema), seguida da apresentação do tipo de
sedimento, tipo de rocha (litotipos) também chamadas de formações. As formações Gramame,
formação Barreiras e os depósitos Flúvio-marinhos podem ser observados em diferentes contex-
tos da Ilha, mas sempre associados com outros aspectos da paisagem, formadas em diferentes
escalas de tempo7. Por exemplo: os mangues e a densa vegetação que o compõem só se forma-
6 Disponível em: <http://cidades.ibge.gov.br/painel/painel.php?lang=&codmun=260760&search=pernambuco|ilha-de-
-itamaraca|infograficos:-dados-gerais-do-municipio> (Último acesso em: ago de 2017)

7 http://www.dnpm-pe.gov.br/Sint_PE/SintesePE_03.htm

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ram com o depósito de toda a areia. Ou seja, quando formaram-se as praias, formou-se a ilha de
Itamaracá, permitindo que esta geografia que conhecemos se desenvolvesse.

Mapa de Localização do município de Itamaracá

Os depósitos Flúvio-marinhos são a formação geológica mais recente e tratam de depósitos de


águas de rios ou do movimento do mar representados pelas praias areais e dunas. A Formação
Gramame, assim definida, está representada por formações de rochas datadas do período do
Cretáceo superior8, há mais de 64 milhões de anos. Estas rochas se conectam com a história que
queremos contar, pois são estes afloramentos calcários da formação Gramame que serviram de
matéria prima para a exploração dos fornos de cal construídos na Ilha no século XIX e visitados
por nossa equipe de pesquisa durante a visita à Vila Velha dos Holandeses.

8 Ver escala geológica em: http://sigep.cprm.gov.br/glossario/fig/EscalaTempoGeologico.htm

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 16


Vestígio de um antigo forno de cal na Vila Velha do Holandeses, mantido hoje como patrimônio cultural
local por um morador da comunidade.

Vista da Igreja matriz de Vila Velha sob elevação típica da formação barreiras, com detalhe
dos Depósitos Flúvio-marinhos, formando pequenas praias na maré baixa.

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 17


A Formação Barreiras, um pouco mais recente9, está representada pelo sedimento, pela terra are-
no argilosa de coloração alaranjada e que toma os topos de morros e elevações, por exemplo o
local onde está implantada a Vila Velha dos Holandeses.
Outro importante aspecto que deve ser destacado e que está inserido na dinâmica da atividade
de pesca da região é uma divisão de tipos de pesca tradicionais que ocorrem na plataforma con-
tinental e no talude. É nesta plataforma continental (com 5 quilômetros de extensão aproximada-
mente) sob a qual estão assentados os currais de pesca. Após esta extensa plataforma inicia-se o
talude, uma formação geomorfológica que representa uma divisão entre as águas rasas e o ocea-
no de mar aberto e águas profundas. Esse fator geomorfológico e a diferença de profundidade
entre esses dois “lugares” influencia na pesca em si e nas espécies de peixes disponíveis.

A temperatura em Itamaracá é amena, com períodos de intensas chuvas no inverno (de maio a
setembro). Neste período a maré altera-se devido ao regime dos ventos e das águas (tempo dos
ventos e de mar virado), influenciando diretamente na atividade de pesca de currais e em outras
atividades de pesca como será apresentado mais adiante. O verão é quente, mas sempre venta
um pouco.

9 http://www.dnpm-pe.gov.br/Sint_PE/Figuras/SGP_Fig09.pdf

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 18


3. Apresentação do saber: A pesca de Curral
“Meu pai tinha currais, eu tive oportunidade de ampliar meus conhecimentos, valorizar mais isso. Infelizmente
eu não valorizei, hoje ele não está mais aqui, né? E quando a gente estava precisando alguém para fazer as
entrevistas, eu tive que ir atrás de outras pessoas, de conhecidos, amigos… Coisa que eu poderia ter feito na
minha própria casa. Eu vivenciei mesmo a pesca. Lembro que algumas vezes eu fui com meus irmãos, meu
pai, e é muito interessante você mergulhar no meio dos peixinhos, é maravilhoso ver como acontece a pesca.
Mas infelizmente eu não filmei, não valorizei tanto. Passou…”
(Rosemary, Professora da escola Rita Carolina, aluna do Curso de educação patrimonial)

Professora Rosemary durante a visita de campo aos currais de pesca

O “modo de fazer” da pesca nos currais em toda sua complexa cadeia operatória é o ponto de par-
tida deste inventário. Este belíssimo super artefato revela um conhecimento ancestral profundo
sobre a natureza. Sua existência espaço-temporal limitada e sazonal é um importante elemento
de análise. Todos os anos, neste local, a maré muda de comportamento, fica mais alta e provoca,
durante o inverno, a destruição dos currais de pesca. Este dado torna evidente o fato de que a
existência atual desta atividade está intimamente ligada ao conhecimento transmitido através
da prática por gerações e gerações. Conhecimento este que, periodicamente, se renova nas águas
do mar e está materializado neste monumental e complexo artefato de pesca, que revela uma
relação íntima e profunda sobre o manejo do mar e dos peixes.

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 19


A parte material desta atividade está intimamente ligada à parte imaterial da mesma, visto que ob-
jetos, lugares e celebrações andam acompanhadas deste saber e estão conectados. Estes objetos
foram pontos de atenção nesta pesquisa e inventariados amostralmente pela equipe do projeto.
A Ilha de Itamaracá é, nesta perspectiva, um lugar persistente, que concentra uma atividade an-
cestral por fatores humanos e não humanos, materiais, cosmológicos e históricos. Schlanger
(1992:92) afirma que locais persistentes podem surgir por três razões distintas: existência de
qualidades únicas para atividades específicas, existência de vestígios ou estruturas que por si
motivam a reocupação, ou por meio de processos de longa duração de ocupação e revisitação.
Não podemos afirmar quem foram os criadores dos currais de pesca, mas podemos afirmar que
viviam em intenso contato com o mar, em relação com os peixes e com a vastidão da mata. Não
sabemos que língua falavam, ou o que sonhavam, mas sabemos o que comiam, como se deslo-
cavam e como pegavam o peixe. Eles usaram o curral de pesca, como também observamos que
acontece nos dias de hoje com os pescadores que lá vivem e até hoje seguem manejando o mar nes-
ta região, do mesmo jeito que outrora fora descrito pelos primeiros cronistas do Brasil pós-contato.
Os Currais de pesca compõem a parte artefatual da atividade de pesca. O saber do pescador, é o
elemento imaterial central para a existência atual da prática deste tipo de pesca. A existência des-
ta atividade em todo litoral norte e nordeste só é possível porque o conhecimento foi transmitido
e pode, então, ser mantido. O saber de como construir a estrutura, como implantá-la, o tipo de
peixe que “pega”, onde colher a matéria prima, enfim, elementos que estão na mente e corpo dos
pescadores. Este objeto (artefato) que compõe a atividade é temporário. Todos os anos os currais
devem ser reconstruídos. Assim extrapolam a dimensão artefatual e deve ser interpretado aqui
como uma idéia de como pescar e de se apropriar deste território de pesca. Os currais de pesca
ganham relevância na interpretação arqueológica observando-se as dimensões envolvidas em
sua confecção e uso, bem como em que contextos esses artefatos eram e são utilizados.

3.1. Os currais
Idealizado mentalmente, os currais de pesca se materializam enquanto artefato, enquanto obje-
to, pelas mãos de seu criador: o pescador. Daí começa sua instalação estrategicamente pensada.
A escolha e definição do lugar onde é implantado um curral é parte deste conhecimento, fruto de
uma herança cultural10 e do conhecimento ancestral.
Reconhecidos pelos pescadores como uma herança indígena, o curral é um artefato de pesca
construído com cerca de 300 mourões e barrotes de madeira, naylon e telas de plástico. Em geral,
estão implantados a cerca de 2,5 a 3 quilômetros da linha de maré da praia. O dono do curral
pode ser ou não ser um pescador.
10 “Herança cultural” é um conceito amplamente debatido pela Antropologia e áreas afins, mas, aqui, trata de um
sentido que está vinculado a etimologia da palavra herança, que deriva do latin Heres. Para ser transmitido um
conhecimento, tendo em vista sua natureza, deve-se apreender todos os passos, aprender a ver o peixe, conhecer a
maré, reconhecer a madeira e manufaturar o artefato, portanto, herdar o conhecimento, na prática, da técnica de
toda a cadeia operatória de um “saber” que foi transmitida por outrem.

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 20


Maquete de um Curral de Pesca feita pelos alunos do 1º ano da Escola Municipal Rita Carolina

Os currais da Ilha de Itamaracá tem formato de 3 corações, com um coração menor dentro de um
outro maior, seguidos de uma espia, que pode ter até 500 metros de comprimento. A espia conduz
o peixe para esses corações, chamados de sala, onde o peixe fica preso.
A estrutura começa a ser construída na praia (na caiçara). Depois de todo material separado,
avança-se na maré baixa com a embarcação até o ponto escolhido da crôa e inicia-se a monta-
gem. Usa-se um ferro para perfurar e fincar as estacas. A jacumã dá sustentação para que o pes-
cador utilize uma marreta para cravar o mourão e estender o malho.

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 21


Croqui do curral

A pesca de currais tem seus estágios e etapas definidas pelo fluxo das marés e das estações do ano,
que nesta região do país têm essencialmente duas estações bem marcadas, o inverno chuvoso e o
verão de seca. Durante o inverno, entre maio e agosto, os currais são desmontados parcialmente
ou integralmente pelo pescador e sua equipe. Passado o inverno (período de chuvas), os currais
são remontados. Depois de construídos e instalados, os currais funcionam como mananciais de
pesca. E durante este período, que ocorre entre os meses de setembro e abril, o curral deve ser
visitado, manejado, retificado (consertado) e despescado diariamente, incorrendo em prejuízos
para o pescador caso não seja feito. O despesque é feito na maré baixa, quando é possível o aces-
so ao interior da armadilha. Munidos de redes e/ou puças, os peixes e crustáceos confinados nas
salas, são retirados. Os principais peixes capturados nos currais desta região são: Xaréu, Xicharro,
Manjuba, Guarajuba, Xarelete, Sardinha, entre outros.
Antigamente utilizava-se madeira da mata nativa e cipós para a construção dos currais. Atual-
mente, não é permitido utilizar este material retirado da mata e do mangue devido a restrições

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 22


ambientais11, o que alterou a estrutura do curral. Hoje, as telas que substituem os cipós e a
madeira do mangue vêm de fábrica, possuem uma durabilidade maior e são mais estreitas, o que
aumenta a produtividade dos currais, possibilitando capturar peixes menores. No entanto, esta
alteração na estrutura/construção do curral é apontado como o principal fator que contribuiu
para a redução da atividade deste tipo de pesca no município.
O custo de construção e manutenção anual varia entre 15.000 e 30.000 reais, fator que inviabiliza
a atividade para muitos pescadores atualmente, e faz com que a propriedade dos currais fique
concentrada na mão de alguns poucos donos. O dono da atividade de manejo dos currais fica
com 80% dos rendimentos e os restantes 20% ficam com os pescadores auxiliares. Estas mudan-
ças na utilização da matéria-prima para a construção foram determinantes para as mudanças na
organização e divisão deste trabalho e na sua abrangência tanto local quanto regional.
A pesca de currais adapta-se aos critérios de uma pesca não-predatória associada a um mer-
cado e demanda local. Sua cadeia operatória, guardadas as referidas modificações, mantem-se
artesanal e exige o conhecimento apropriado do ambiente, da paisagem, da maré, do percurso
dos peixes, de profundidade, correnteza, navegação, etc. Enfim, um saber fazer que conecta-se a
todas as dimensões da vida de um pescador e de sua comunidade.
Este saber vem sendo transmitido por gerações como meio de aquisição do sustento de pesca-
dores e de suas famílias. Conforme o relato que se segue, os saques de invasores é um outro fator
apontado que contribui para a redução desta atividade. A história do Pescador Lourenço, narrada
a seguir por Severina Batista dos Santos, a Néia, moradora de Vila Velha e professora da escola
Luís Cipião, trata de um caso de assalto aos currais que assustou a comunidade:
“Foi uma emboscada. Ele era tipo um administrador de vários currais. Chamaram ele e ele foi
achando que era serviço. Chegando lá fizeram a emboscada, obrigaram ele a assaltar os currais
em que trabalhava, usaram a embarcação dele pra roubar e depois o mataram. Talvez as pessoas
fossem conhecidas e fizeram isso para que ele não contasse. Meus pais me contaram, eu vivenciei,
mas nao tenho muita lembrança… Foi muita tristeza na ilha, ele era uma pessoa muito boa, mo-
rava no bode... Aquela pracinha que tem ali, que tem um parquinho, é Praça Pescador Lourenço
em homenagem a ele. Por conta deste assassinato bruto que chocou Itamaracá. Isso nunca tinha
acontecido na ilha.”
A mudança na matéria prima utilizada para a construção de currais, que segundo dados coleta-
dos aconteceu no início do século XX, é lembrada pelos pescadores atuais quando falam do tem-
po em que o custo de ter um curral era o trabalho de ir na mata e no mangue coletar madeiras e
cipó, tratar e trançar o cipó. Bem diferente de hoje, em que a perda deste território implicou na
obrigatoriedade de se comprar tela plástica e madeira tratada e certificada nas madeireiras.

11 As áreas que são as fontes de matéria-prima construtiva dos currais, quando não estão em propriedades particula-
res, estão em Áreas de Proteção Permanente- APP, a saber as áreas de mangue, encostas, margens de rios, riachos,
topos de morros. Essa extensa legislação pode ser observada em: http://www.mma.gov.br/port/conama/processos/
E72A2846/DispositivosLegaisAPP.pdf

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 23


De tradição oral, este saber não está descrito em manuais e sua transmissão depende das
possibilidades dele ser realizado. A cultura material tende a ser modificada pelo tempo, como
já apontamos anteriormente, mas o saber enquanto estratégia de pesca persiste. Para que hoje
possamos visualizar os currais da praia, foi necessário que este fosse transmitido ao longo de sé-
culos, através de tempos que antecedem o período do contato com o colonizador. Antigamente,
como relatam pescadores, não era preciso desmontar a estrutura na tentativa de se reaproveitar
a matéria-prima, como hoje em dia, ele sempre precisou ser refeito anualmente.

3.2. Os objetos importantes


Os objetos expressam a dimensão material e o conhecimento necessário para a realização da
atividade de pesca de curral. São instrumentos, apetrechos, ferramentas, embarcações e solu-
ções que tornam reais projetos monumentais. Ao longo deste inventário foram e ainda serão
elencados uma grande quantidade destes objetos que compõem a cadeia produtiva da pesca
artesanal. São artefatos construídos com diferentes materiais e constituídos a partir de diferentes
processos de transformação.
As canoas ou jangadas são objetos associados à atividade que, não obstante as mudanças e
características particulares de cada região, estão presentes entre todas as comunidades de pesca
do nordeste do Brasil e devem ser entendidas como parte de nossa herança indígena. É evidente
sua presença nos vestígios encontrados em sítios arqueológicos, estando também muito presen-
tes nos relatos dos primeiros cronistas.

Artefatos de pesca como o samburá são tradicionais, persistindo e existindo há muitos séculos
para colocar o peixe, resultado da pesca.

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 24


3.3. Os barcos e embarcações de transporte marítimo
Conforme foi observado pela equipe de pesquisa, no limite da maré, próximo da colônia e em
outros pontos da ilha, ficam fundeados diferentes tipos de embarcações. Essas embarcações, em
geral variam de acordo com a sua funcionalidade, dependendo do tipo de pesca. A pesca e a
coleta de mariscos no estuário envolvem a utilização de uma embarcação específica, neste caso
a canoa. Existem também as Jangadas, as baleeiras, as catraias, entre outros nomes e usos para
diferentes tipos de embarcação, o que não impede de se utilizar uma embarcação para outro uso.
É evidente, por exemplo, entre diferentes comunidades do litoral do nordeste, o processo de
ressignificação das jangadas. Essa tradicional embarcação de pesca a vela integra o imaginário e
a memória do pescador e da praia que diante das novas demandas locais, como a do turismo, é
apropriada e utilizada para transportar pessoas, bem como para visitar os corais e piscinas natu-
rais localizadas nos recifes.
Antes de apresentar a Jangada, cabe destacar que durante a pesquisa de campo para a elabora-
ção deste inventário, utilizamos uma embarcação tipo baleeira para acessar os currais na maré
cheia com o grupo de professoras. Essas embarcações, que são diferentes das jangadas, tem um
calado12 profundo e uma área no convés para os covos e para a tripulação, que dorme durante os
dias de pescaria no casario da embarcação.
A Jangada, guardadas as particularidades de cada uma, é uma embarcação de 3 a 5 metros de
comprimento com 1,5 a 2 metros de largura, movida à vela e vento. A Jangada não tem calado e é
construída com madeira, isopor, pregos, parafusos e tecido para a vela. É utilizada para transpor-
tar o pescador, fazer o despesque13 dos currais e utilizada na construção dos currais.

12 Parte do casco que fica submersa, abaixo da linha d’água, é necessária para estabilização da embarcação, inexisten-
te na jangada.
13 Quando se faz a retirada do pescado dos currais.

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 25


A Jangada pode ser feita pelo próprio pescador ou por um marceneiro. É construída de
maneira artesanal com madeira de pequiá e Jaqueira e é também utilizada para a pesca em alto
mar. Reconhecida como uma herança tradicional, a Jangada é uma embarcação que passou por
mudanças ao longo do tempo, inclusive incorporando o motor de popa14. Mas as velas continuam
presentes nas jangada de Itamaracá como estratégia de navegação.
Este objeto fundamental na cadeia operatória da pesca de currais ganha dimensões amplifica-
das, constituindo-se como uma referência cultural das comunidades costeiras do nordeste do
Brasil, sendo contada e registrada na história e incorporada aos novos contextos socioculturais.

14 Parte de trás da embarcação.

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 26


3.4. Lugares de memória e Ação
Os lugares são uma importante categoria dentro dos inventários participativos de diferentes bens
e manifestações culturais. Eles são espaços que compõem o território. Lugares que podem ser
construções materiais, mas também trazem consigo dimensões imateriais a partir de uma refe-
rência no local, na paisagem.
Aqui, neste Dossiê , apresentaremos dois locais de extrema importância para esta atividade an-
cestral na Ilha de Itamaracá: a colônia de pesca e as caiçaras. Estes dois lugares representam
duas dimensões importantes do pescador, a primeira representa o espaço público, de atuação e
articulação entre os membros desta comunidade; a segunda representa o espaço individual e dos
pequenos núcleos de trabalho.

3.4.1. Colônia de pescadores Z 11


A colônia de Pescadores Z11 está localizada atrás da Praça do Pilar, local onde também fica o mer-
cado de peixe (ficam dispostas ao longo da rua da colônia uma série de peixarias e bancas para
a limpeza dos peixe). Este é um importante local de mobilização, organização e atuação social.

Mercado de peixe em, localizado na rua da colônia - Itamaracá/PE

A colônia de pescadores passou por processos de mudança que acompanharam as transforma-


ções do Brasil nos últimos 50 anos, como relata Murilo, Presidente da Colônia de Pescadores. A
história da Colônia começa muito antes de sua institucionalização, com o encontro dos pescado-
res à beira mar. Um ponto de chegada e partida, para observar o mar, aprontar-se para a pesca,

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 27


bem como comercializar o peixe. O local escolhido ancestralmente para tal encontro foi a sombra
de uma árvore, apelidada de “pé de dinheiro” ou “leiteira”. Essa frondosa árvore acompanhou a
história deste encontro e constitui um importante local, hoje de memória e de encontros.

Pescadores jogam dominó ao pé da árvore que historicamente serve de encontro para os pescadores de Itamaracá,
local onde hoje está sediada a colônia de pescadores Z11.

Neste local foi construída, em 1950, a primeira sede da colônia de pescadores com o apoio da
prefeitura local. Era uma construção de madeira, coberta de palha de coqueiro, como uma típica
caiçara. Com o desenvolvimento do município e com as mudanças ocorridas por essa moderniza-
ção, foram sendo feitas melhorias significativas no prédio, que deixou de ser de madeira e passou
a ser de alvenaria.
Em 2010 foi construída a sede atual da colônia de pescadores. Segundo Murilo, a colônia foi
passando por melhorias. No ano de 2010, após um navio sonda da Petrobrás passar pelo litoral

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 28


na tentativa de encontrar petróleo e explorar o local, causando a morte e devastação de vários
peixes, a empresa foi obrigada a indenizar os pescadores e a colônia. Como a colônia já tinha mais
de 50 anos de construção em alvenaria e não se encontrava em bom estado de conservação, foi
sugerido pelos pescadores a construção do prédio atual e a reforma foi toda custeada com essa
indenização paga pela Petrobrás. No entorno da atual sede, próximo à árvore, existem ainda as
ruínas e vestígios da construção mais antiga.

3.4.2. O lugar da Caiçara


O termo Caiçara é um vocábulo de origem tupy-guarani e deriva de Caá- içara onde caá significa
esteiro, madeira e içara, cerco, ramo, armadilha. Esta palavra aparece aqui em Itamaracá mas
também em outras partes do Brasil, podendo designar municípios, comunidades e lugares, além
de ser uma categoria política atual, em razão de movimentos sociais de comunidades pescadoras.15

As caiçaras são construções de madeira, cobertas com palha ou telha e/ou materiais de reaprovei-
tamento. Está, em geral, localizada à beira mar e sua função principal é guardar os instrumentos
de trabalho. Lá são guardadas as velas, o motor, as redes, esteiros e outros objetos do cotidiano
do trabalho na pesca. A construção da caiçara como local importante para a pesca acontece há
muito tempo em Itamaracá, fruto da sabedoria e força de vontade dos pescadores que se juntam
também neste momento para construir ou fazer a manutenção destes espaços de trabalho mui-
tas vezes compartilhados, criando um movimento de integração neste local.
Um dos elementos que apresentou-se evidente para o grupo que inventariou as caiçaras foi a mu-
dança nas características estruturais, modificando-se não só a partir do uso e das necessidades,
mas em função do tempo e de acordo com a disponibilidade de matéria-prima.

15 Ver: Catão, H. (2004)

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 29


3.5. A Festa de São Pedro: Celebrações de fé e identidade
“Eu pequena, eu segurei uma bandeira lá do rio Ambar, e roubaram a bandeira. Eu levei um susto tão
grande, eram 4 crianças segurava uma em cada ponta... A gente vinha pela pista, pela avenida e realmente
roubaram, numa passagem, numa escuridão, apareceu alguém perto, de repente, puf… levaram...
Ai no caso essa pessoa que roubava é que ficava com a bandeira pro próximo ano. Era alguém que queria a
bandeira e não queria esperar. Depois que se acalmava se dizia, foi fulano.”
(depoimento de Olindina Maria Cruz do Nacimento)

A buscada de São Pedro, procissão marítima da festa de São Pedro em Itamaracá, 29/06/2017

No dia 29 de Junho é comemorado no município de Itamaracá a festa de São Pedro16, quando a


comunidade católica e, principalmente a comunidade pesqueira, se organiza para celebrar o san-
to padroeiro dos pescadores.17 A origem da “tradição” desta festa está relacionada aos momentos
iniciais da colonização da Ilha de Itamaracá pelos europeus, ainda no século XVI. Guardadas as
mudanças passadas desde sua origem, a festa conserva e renova constantemente seus elementos
ritualísticos, incorporando diferentes elementos culturais, relacionando-se com acontecimentos
e aspectos atuais e tradicionais da comunidade. Como por exemplo, a sambada de côco, que

16 A nossa equipe de pesquisa acompanhou os festejos de São Pedro na Comunidade do Pilar e na comunidade de
Vila Velha dos Holandeses em Junho de 2017

17 A festa de São Pedro é uma das celebrações que envolvem o ciclo Junino (que ocorre longo do mês de junho, anual-
mente), que envolve festejos em comemoração de diversos santos católicos entre eles Santo Antonio e São Jõao.

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 30


ocorre na noite de véspera da procissão; as bebidas indígenas, como o licor de jenipapo; ou a
levada do santo, que é feita de automóvel, e a buscada do santo, feita de barco18.
A festa na Vila Velha dos Holandeses é composta por diversas atividades e rituais, iniciando-se
com uma missa na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, localizada no centro da vila. A missa
é seguida pela procissão de entrega da bandeira19. A bandeira segue para a Igreja e a festa segue
na vila, oferecida pelo tesoureiro que deteve a guarda da bandeira ao longo do ano que passou.20
No dia seguinte, 29 de Junho, os pescadores saem de Itamaracá, da colônia de pescadores, rumo
à Vila Velha para buscar São Pedro, que então retorna à colônia para reiniciar o seu ciclo anual.
Em Itamaracá, desde muitos anos se comemora os bons períodos da pesca nas comunidades
de Vila Velha, Rio Ambar, Pilar, Forte Orange e Jaguaribe, por serem comunidades originalmente
formadas por pescadores. Alguns dos entrevistados, relatam que desde seus avós essas come-
morações já aconteciam, especialmente em homenagem a São Pedro, por ser ele um pescador.

Imagem de São Pedro enfeitado na Igreja de Nossa Senhora da Conceição a espera da buscada
(Vila Velha dos Holandeses, 29/06/2017)

18 A festa de São Pedro é uma importante celebração para a colônia dos pescadores, pois é quando eles se reúnem,
enfeitam a imagem do santo que fica guardado na colônia durante o ano, levam-no enfeitado para a Vila Velha no
dia 28 de Junho e retornam com ele no dia 29 de Junho em seus barcos para a buscada do santo. Assim, retornam
ao Pilar, caminham em procissão com a imagem e a levam de volta para a colônia, onde também há uma festa de
celebração ao santo padroeiro dos pescadores.

19 As bandeiras dos santos são estandartes que ficam aos cuidados de tesoureiros ao longo de um ano. Ao final deste
ciclo, celebra-se o santo da bandeira com uma festa oferecida pelo tesoureiro que a guardou. Ter a guarda da ban-
deira é para os membros desta comunidade católica um sinônimo de sorte e prosperidade.

20 Na vila velha dos holandeses é tradicional celebrar a festa de São Pedro servindo vinho de jenipapo com pato ou
galinha cabidela ao convidados e terminar a noite com uma sambada de côco que atravessa a madrugada. São
também comidas típicas deste ciclo junino o bolo de milho, a canjica, a pamonha e o munguzá.

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 31


4. Desdobramentos e Descobertas
(experiências pedagógicas)
“ No início do curso a gente ficou um pouco apavorada para saber o que íamos repassar para nossos alunos,
como trabalhar este tema, fica aquela preocupação. Mas no decorrer do curso a gente vai vendo as ideias
surgindo. Eu como sou da ilha mesmo, tenho contato com todo esse pessoal, minha família é de pescador,
convivo com eles. Fui resgatando da minha memória como é que se faz, perguntando para o marido,
perguntando aos cunhados, e trazendo as ideias para sala de aula. A gente está pensando em fazer uma
maquete das caiçaras, como era antigamente. “
(Josiane Maria da Silva, professora da escola João Paulo II)

Ao longo do processo do curso de educação patrimonial, algumas professoras experimentaram


atividades com os seus alunos, onde propuseram refletir em sala de aula sobre as questões pa-
trimoniais do saber da pesca, da importância social e econômica desta atividade. As atividades
ocorreram de forma interdisciplinar, lúdica e interativa. Estas iniciativas foram individuais e es-
pontâneas, ocorreram no contexto das atividades cotidianas em sala e serão narradas a seguir
a partir dos relatos das próprias educadoras. Vale salientar que a grande maioria das crianças
envolvidas nesta troca de saberes possuem nos seus ciclos familiares muitos pescadores.

4.1. Contextualizando experiências e aprendizagens:


Pesca, patrimônio da Ilha de Itamaracá
Professora: Fátima Cristina Costa e Silva.
Local: Escola Municipal Rita Carolina, Itamaracá, PE
Faixa etária: 5º ano do turno, com idades variando entre 9 a 15 anos.
Disciplina: “História da Ilha de Itamaracá”
A professora realizou uma diagnose utilizando um diálogo e questionamentos sobre a pesca,
resgatando assim perguntas e respostas sobre o tema abordado. Algumas perguntas como:
você já pescou? Você gosta de pescar? Que instrumentos você conhece e já usou para pescar?
Como é que você sabe qual o melhor lugar para pesca? Será que pescar no mar é igual a pescar
no rio ou em uma lagoa? Será que a pesca é única fonte de sustento das pessoas? Foram deba-
tidos conteúdos sobre vários tipos de pesca como: curral, rede de arrasto, covos, cerco fixo flu-
tuante, linha de mão, entre outros. Despertando a curiosidade das crianças, foram mostrados
tipos de embarcações utilizadas na pesca artesanal e também industrial.
Houve uma apresentação da música “Suíte do pescador”, de Dorival Caymmi, utilizada para abor-
dar pontos significativos. Em continuidade ao tema, foi solicitado aos alunos alguns objetos como:
conchas de marisco, casquinha de siri, ostras, rede de pesca, samburá, vara de bambu, entre ou-

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 32


tros, para coletivamente ser confeccionado com as crianças um mural sobre a pesca de rede. Sendo
assim, peixes foram confeccionados com a arte do origami, resultando em um grande mural.

A produção do grande mural despertou interesse dos alunos pelo conhecimento e para a valoriza-
ção da cultura da pesca como patrimônio imaterial da Ilha de Itamaracá. Foi destacada também
a importância da preservação ambiental. O mural foi exposto em sala de aula para que os alunos,
a comunidade escolar e a família pudessem contemplar os conhecimentos e o tema abordado.
Vale ressaltar que as crianças tiveram oportunidade de conhecer a maquete de curral realizada
pelos alunos do 1º ano-A, havendo uma grande troca de saberes.

4.2. Pesca de Curral: um dispositivo propulsor


para a partilha de experiências e saberes culturais
Professora: Niedja Alves Santos Silva
Local: Escola Municipal Rita Carolina, Itamaracá, PE
Faixa etária: 1º ano
Disciplina: Português
Esta prática pedagógica vivenciada em sala de aula foi decorrente do curso de educação patrimo-
nial oferecido pela Secretaria de Educação da Ilha de Itamaracá com os professores que trabalha-
ram nas escolas do campo. Gostaria de salientar a importância dos conteúdos abordados durante
o curso, que contribuíram significativamente para a qualidade da aprendizagem dos alunos e a
melhoria da prática do professor, bem como a sua aplicabilidade.

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 33


A iniciação se deu diante da necessidade de alfabetização. Aproveitando o trabalho a ser realiza-
do com a letra “P” na área de português, foi utilizada a palavra-chave “pesca”. Na área de natu-
reza e sociedade buscou-se “tipos de transportes e profissões”. E nas artes foram confeccionados
“origamis de peixes”.
Iniciei um relato oral, resgatando o conhecimento prévio dos alunos acerca da pesca de curral e das
profissões mais encontradas em sua comunidade, seguida de uma exposição de imagens retratan-
do os tipos de pesca, em especial “a pesca de curral” e as profissões ligadas a este tipo de pesca.
Os alunos despertaram de imediato a curiosidade pelo conteúdo exposto, tendo em vista que
muitos deles vão junto com os pais ou familiares à maré/mangue pegar ou coletar mariscos e
sururus para a própria subsistência.
Para que houvesse uma maior compreensão, confeccionamos junto com os alunos a maquete
representativa de um curral de pesca, para que os mesmos entendessem, na prática, o que já
haviam visto na teoria.

Após o término da construção coletiva da maquete, esta ficou exposta durante uma semana em
sala de aula para que pudesse ser vista por toda comunidade. Ao mesmo tempo, ocorreu uma
partilha de experiências entre os alunos do 1º e 5º ano, onde ambas as turmas fizeram um relato
oral de sua experiência.

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 34


4.3. Repórter por um dia
Professora: Silvania Gomes da Silva
Local: Escola Municipal Rita Carolina, Itamaracá, PE
Faixa etária: 7 a 9 anos
Disciplina: Português

A atividade que fiz com meus alunos foi ser repórter por um dia. O aluno deveria fazer uma entre-
vista com uma pessoa que fosse pescador. O meu objetivo foi descobrir quem são e quantos eram
os pescadores. Descobrimos que são poucos e que eles pescavam para seu próprio consumo.
Nunca sobrava pescado para que vendessem.
Roteiro de entrevista sugerida aos alunos:
a. Qual o seu nome completo?
b. Quantos anos o senhor tem?
c. Onde você mora?
d. Onde você costuma pescar? Local?
e. Quem ensinou o senhor a pescar?
f. Que tipo de peixes ou crustáceos você pesca?
g. Você usa algum transporte para pescar
h. O que você faz com o que pesca?
i. Há Quanto tempo você pesca?
j. Você pesca porque gosta ou por necessidade?
Descobrimos que a principal pescaria que envolve a comunidade escolar é a mariscagem para
consumo de subsistência. Compreendi que esta é uma atividade fundamental, pois nessa comu-
nidade não há recursos. A maioria das pessoas da comunidade está desempregada, ou tem ren-
dimento financeiro. Não sei se utilizam a pesca pelo simples fato de gostarem ou se pela necessi-
dade. Foi um exercício interessante, mas foram poucos os alunos que fizeram a atividade, porque
a pesca é praticamente inexistente na comunidade.

4.4. Resgatando Saberes


Professora: Severina Batista dos Santos
Local: Escola Municipal Luís Cipião
Faixa etária: 1º ao 3º ano
Disciplina: História da Ilha

A nossa escola está situada na comunidade de Vila Velha onde a maioria dos moradores são pes-
cadores e seus filhos vivenciam este cotidiano, muitos seguindo o ofício dos pais. Na Vila Velha,
há muitos anos, desde os avós, temos a tradição de festejos que envolvem os pescadores, mais
em particular a Procissão Marítima de São Pedro. Trazendo esta temática para sala de aula, bus-

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 35


camos trabalhar com os alunos a importância desta tradição para nossa comunidade, o respeito,
diversidade de crenças e os benefícios trazidos pelo evento.
Ao trabalharmos em sala a história da Ilha, resgatamos as atividades da comunidade e em con-
junto foi decidido fazer a procissão marítima com origami. Levando em conta que grande parte
dos alunos não são da igreja católica, tivemos a oportunidade de trabalhar os conceitos de di-
versidade, cidadania e tolerância religiosa. Os barcos foram feitos com dobradura e durante a
confecção trabalhamos geometria e matemática. O resultado foi muito proveitoso.
A gente tem dificuldade de trabalhar esses assuntos em sala de aula, porque a maioria dos alu-
nos são evangélicos. E insistimos em trabalhá-los exatamente para o respeito aflorar nos alunos
e para que possam valorizar a cultura e a crença. É importante trabalhar com eles que muito dos
seus avós foram coquistas dentro da comunidade, tocavam côco, uma tradição que é mantida até
hoje pela geração de agora, pelos jovens.

“A recepção dos alunos foi ótima, trabalharam belissimamente! Eles confeccionaram os barquinhos,
recortaram os bonequinhos para botar no barco, representando as pessoas. Por incrível que pareça, a gente
encontrou imagens de padre e de São Pedro e botou no barco principal, que é o barco que leva o santinho.
Eles confeccionaram os ramalhetes de flores. Foi uma maravilha, as ideias deles afloraram! Eu joguei a ideia:
Vamos fazer maquete da procissão marítima? Eles já, ó, começaram: Eu sei fazer barquinho! Eu disse: vamos
recortar o pessoal que vai dentro do barco. Procuraram no livro de São Pedro. A gente recortou nos livros a
imagem de padre e tal. Eles confeccionaram as florzinhas de papel crepom. Ficou um show! A menina, que
é evangélica, foi ela quem ornamentou o barco de São Pedro. Ela que fez as flores. Ela disse: Tia, tem flores?
Tem Flores. Ela que ornamentou o andor de São Pedro.”
(Severina Batista dos Santos)

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 36


5. Avaliação e Recomendações
Tendo em vista que os parâmetros metodológicos do inventário da atividade de pesca de currais
em Itamaracá estão embasados pelo INRC, em especial, as diretrizes para a realização do inventá-
rio participativo, apresentamos neste item final uma avaliação e algumas recomendações relati-
vas a este bem patrimonial. Este item, de caráter conclusivo, tem como propósito servir de subsídio
para a elaboração de políticas públicas relacionadas à manutenção e à prática destes saberes.
Todas as fichas que compõem o inventário participativo terminam com um item de avaliação
e recomendações. A saber: avaliação das condições de conservação do objeto de estudo, neste
caso o saber da pesca de currais e sua prática, mas também o item de recomendação de ações
que visem a preservação do bem patrimonial.
De imediato, tem-se que a valorização deste conhecimento, a prática deste tipo de pesca, incenti-
va e movimenta toda uma extensa cadeia sociocultural e econômica. Por isso, é fundamental sua
manutenção enquanto referência cultural.

5.1. Recomendações
“A partir do momento que você tem o conhecimento, você contribui com a valorização disso, sempre… Até
como se fosse um registro… Pode ser até uma habilidade na história de Itamaracá que a gente ponha no
currículo do aluno… para que fique registrado. Do mesmo jeito que eu aprendi, eu não sou daqui, outras
pessoas precisam aprender. Porque às vezes você está na praia e vê essas madeiras ali acha que é uma
pescaria comum e não sabe de onde veio, a origem, porque… Porque existem praias que tem essas madeiras
e outras que não tem. E saber que em determinados lugares ainda tem o cultivo dessa pesca artesanal.
(Silvana, professora da escola Rita Carolina)

RECOMENDAÇÃO 1:
Inclusão de uma disciplina da pesca em Itamaracá para os alunos da rede municipal. Destacar o
assunto em sala de aula. Permitir que nesta disciplina o aluno vivencie esta atividade em todas
suas etapas. Produzir atividades com as crianças, mostrar a eles o que é um curral, como se cons-
trói. Incluir o conteúdo deste Dossiê na disciplina.

RECOMENDAÇÃO 2:
Ponto de informações turísticas que destacam as atividades de pesca, fazendo visitação, roteiros
de conhecimento da atividade. Descentralizar dos pontos turísticos já consagrados.

RECOMENDAÇÃO 3:
O desenvolvimento de uma CARTILHA da Pesca de Currais

Currais da Ilha: UM DOSSIÊ PARTICIPATIVO SOBRE A PESCA TRADICIONAL EM ITAMARACÁ 37


5.2. Avaliação
“Quando deixa de ser uma cultura de subsistência, de necessidade. Quando se tem outras oportunidades,
é inerente do ser humano procurar coisa mais fácil, que não exija tanto esforço. Meu marido passou 10 anos
pescando. Não era curral, era covo de lagosta. ele pedia todos os dias para sair. Não é mais tão lucrativo,
com o desenvolvimento dos grandes barcos pesqueiros, das grandes empresas de pesca. O pescador do
barquinho pequeno, o material fica encarecido. Tem que fugir para uma outra coisa mais rentável, que exija
menos esforço”
(Olindina, secretaria de Educação de Itamaracá)

Ficou evidente para a equipe de pesquisa que a atividade de pesca de currais vem passando
por transformações severas nos últimos 100 anos, reduzindo progressivamente sua intensida-
de, mas mantendo-se, adaptando-se às novas referências culturais e geopolíticas. Alguns dos
fatores que provocaram a redução desta atividade são internos, locais e alguns fatores são
externos, supralocais.
A pesca industrial e suas novas tecnologias foram considerados elementos de impacto no con-
junto de fatores que levaram à redução da atividade. Verificou-se que no uso de redes imensas,
muitos cardumes não conseguem chegar à armadilha, lembrando que o curral captura peixes
migratórios, que estão em deslocamento.
A articulação proposta e/ou idealizada com a Colônia de Pescadores Z11 é vista como positiva
para viabilizar e incentivar a atividade num lugar que permite e estimula o entrosamento da co-
munidade e a troca de experiências, o encontro dos pescadores e um lugar de comercialização
peixes, crustáceos e moluscos. O abandono da atividade de pesca ocasionaria a desarticulação
dos pescadores e, consequentemente, da colônia de pescadores.
Estudos etnohistóricos apontam para uma redução progressiva deste tipo de pesca na costa nor-
destina, conforme aponta Lucena (Et. Al., 2013:101): “No início da década de 1990, a pesca com
currais em Pernambuco era praticada em 10 municípios e respondiam por cerca de 10% da pro-
dução total do estado. Em 2006, apenas três municípios registraram pescarias com currais, cuja
produção representou 1,14% da produção total do estado.
A pesquisa nos permite apontar para uma redução drástica desta atividade nos últimos 20 anos.
A esta queda estão relacionadas também, dentre outras razões, a redução do pescado, as trans-
formações e restrições que a atividade sofreu perante as legislações e restrições ambientais e,
sobretudo, a perda do território do pescador.
O território de vida do pescador, não se limita ao seu espaço privado, à sua unidade domiciliar.
Para o pescador, sua casa é um espaço em geral, pequeno, necessário para pousar e cuidar da
família, mas todo o ambiente que o rodeia - o rio, a mata, a praia, a caiçara - faz parte de seu ter-
ritório. Em cada um desses lugares, o pescador exerce sua atividade diferentemente.
Partindo-se da premissa de que, para sociedades pescadoras, território é conhecimento (WAG-
NER & SILVA, 2013), devemos pensar a antiguidade de determinadas práticas e técnicas ao longo

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da costa brasileira. Wagner e Silva (2013:61) afirmam: “Os territórios de pesca são mais do que es-
paços delimitados. São lugares conhecidos, nomeados, usados e defendidos. Cada grupo possui
uma familiaridade com essas áreas criando territórios que são incorporados à tradição cultural”.
Entendendo desta maneira, constata-se um cenário caótico de mudança cultural profunda para
as comunidades costeiras de todo o Brasil. A perda paulatina do território de pesca, por razões
já descritas, incorre na “desidentificação” ou desconexão haliêutica, ou seja, do distanciamento
dessas comunidades com o mar, seus ciclos naturais, sua técnica e por fim sua prática. Esse é o
cenário que se observa em algumas comunidades da Ilha de Itamaracá.
A relação do conhecimento da pesca se transformará nos próximos anos em razão do abandono
de atividades relacionadas ao mar, sobremaneira as atividades de coleta de mariscos, a pesca
de lagosta, a pesca de currais e outras artes de pesca presentes na Ilha. Quando as comunida-
des costeiras, pescadoras e coletoras não podem mais acessar seu território, são impedidas de
praticar sua pesca, torna-se desnecessário a construção do artefato, como a confecção de re-
des. Torna-se desnecessário conhecer a sazonalidades dos peixes, celebrar os santos padroei-
ros da pesca, conhecer as variações da maré, entre outros elementos que regem a culturas de
comunidades costeiras.

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6. GLOSSÁRIO DA PESCA EM ITAMARACÁ
Bugigar: Bugigar é quando os meninos retornam da pesca e a comunidade está na beira da
praia esperando por aqueles peixinhos, aqueles peixes de menor porte que não tem muito valor,
que são distribuídos para o pessoal que ajuda a carregar as tralhas na maré, como alguns covos
que vem pra remendar as galeias de peixe. Ai no final ganha bugiga.
Jacumã: Uma espécie de escada, apoio para que o pescador fique acima da altura do mourão
para fincá-lo na crôa.
Malho: Nome dado a uma marreta usada para bater no mourão e fincá-lo na crôa.
Samburá: artefato que auxilia no despesque dos currais e na pesca em geral. Confeccionado de
palha, tem a forma de um caldeirão, com tampa e alça para carregar no ombro.
Caiçara: Do Tupi, Caá-Içara, construção de madeira que serve para o pescador guardar seus
equipamentos e apetrechos da pesca. É também utilizada para outras atividades relacionadas.
Plataforma continental: Está relacionada à formação geológica da praia e do fundo do mar
que em geral fica submersa. A plataforma, juntamente com o talude continental e os depósitos
sedimentares, quando existentes, compõe aquilo que é chamado de margem continental.
Talude: O Talude é uma formação geológica, que neste caso, relaciona-se a um acidente geológico
que delimita a plataforma Continental, de águas rasas, e as fossas oceânicas, de águas profundas.
Buscada: Como é referida localmente as procissões marítimas que carregam os santos católicos.
Covo: Tipo de armadilha de pesca utilizada para capturar lagostas e crustáceos. Tem formato
trapezoidal com uma abertura central por onde deve entrar a presa.
Mourões : Como são referidas as madeiras de maior dimensão que sustentam os currais de pesca.
Barrotes: Como são referidas as madeiras que compõem secundariamente os currais, alternan-
do-se com os mourões.
Crôa: Como são referidos os afloramentos rochosos e dos arrecifes de corais que por vezes es-
tão sob a camada de areia que cobre a plataforma continental.
Puça: Artefato que auxilia na retirada do peixe do curral e em outras pescadias. Trata-se de uma
peneira feita por um arco de ferro com cabo e uma rede vazada em formato de cone.
Jangadas: Embarcação típica da pesca no nordeste do Brasil. Desenvolvida para navegar em
águas mais rasas, mas também utilizadas em outros contextos, como os rios e estuários.
Baleeiras: Embarcação desenvolvida para navegar nos estuários, em águas calmas. Comprida,
movida a motor por pequeno calado.
Catraias: Embarcação desenvolvida para navegar nos rios e estuários. Lembra uma canoa.

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7. Lista de Entrevistados
> Dona Idalice Batista dos Santos, moradora da Vila Velha dos Holandeses
> Armando e Luis, pescadores
> Maria do Socorro Santos
> Carlos, pescador
> Thiago, pescador
> Murilo José de Souza, Presidente da colônia de pescadores Z11
> Marcone José de Souza, Vice Presidente da Colônia de pescadores Z11

8. Agradecimentos
Agradecemos a todos que contribuíram para a realização deste trabalho, em especial a equipe da
Secretaria de Educação de Itamaracá, mormente ao Júnior, Olindina, Rejane e Márcia. Ao Murilo e
ao Marcone, presidente e vice presidente da Colônia de Pescadores Z11, que abriram as portas da
colônia para nossa equipe e compartilharam com muita generosidade do seu universo e saberes.
À comunidade de Vila Velha dos Holandeses que nos recebeu durante os festejos de São Pedro,
especialmente à Neia e sua família e Valquíria, que nos permitiram adentrar nesta comunidade
repleta de história e resguardada com tanto cuidado pelos seus moradores. Ao pesquisador Luiz
Santos, que apresentou o universo institucional relativo ao patrimônio aos alunos do curso com
muito respeito e propriedade. Aos pescadores Almir, Ednaldo e Carlos, que mesmo debaixo de
chuva não exitaram em levar nossa equipe para conhecer os currais de pesca. Agradecemos ainda
a todos os entrevistados que, com muita generosidade, compartilharam esta tradição oralmente.
Por fim, a todas as professoras das escolas do campo que mergulharam de cabeça nesta aventura
e traçaram um caminho sem volta em suas descobertas no universo da antropologia e da arqueo-
logia, relacionando com maestria esses conhecimentos adquiridos em suas práticas pedagógicas
cotidianas. MUITO OBRIGADA!

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9. Bibliografia
ABBEVILLE, C. História da Missão dos Padres Capuchinhos na Ilha do Maranhão e suas cir-
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